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<p>49 Compreensão de texto: de 10% traziam alguma observação a respelto das decisões teóricas toma- algumas Tem-se a nítida impressão de que o ensino de LP se dá na suposição de que subjacente é tão óbvia, Indiscutível e consabida que se torna prescindi- In: Creio que esta é uma das razões da mesmice e da natureza DIONISIO, Angela Paiva; BEZERRA, Maria Auxiliadora que tomou conta desses manuais. o livro didático de múltiplos olhares. São Paulo: 2002. Noção de língua subjacente aos LDP Luiz Antônio Marcuschi notável silêncio dos autores em relação à noção de língua por eles adota- Quase não bases que serviram de orientação para a confecção dos manuals. Podemos identificar essa "concepção subjacente" mediante uma Salvo engano ou alguma mudança radical nos modelos de ensino existentes das atividades propostas ou De uma geral, a lin- hoje, parece legítimo supor que mesmo numa época marcada pela comunicação é tomada como um instrumento de comunicação não problemático e capaz de eletrônica e pela entrada de novas o material didático continuará funcionar com transparência e homogeneidade. A dar crédito aos LDP, a sendo uma peça importante no ensino. Pouco importa se na forma atual do clara, uniforme, desvinculada dos usuários, descolada da realidade, semantica- livro ou se no formato de um compact disc ou então se um site na Internet. Assim, mente autônoma e a-histórica. Uma espécie de ser autônomo e mais do que contestar a existência do livro trata-se de ver como anda Uma prova disso será trazida abaixo ao analisarmos os exercícios de compreen- ele hoje em dia e como poderia ser se o quiséssemos ainda melhor. são, mas não é só nestes que se nota essa visão. o por exemplo, A fim de não permanecer em generalidades, me ater, neste apenas quase sempre proposto numa definição ou explicação por sinonímia (ou anto- aos LDP, concentrando-me no caso específico dos exercícios de compreensão. esquécendo-se outros aspectos de funcionamento, tais como o meta- Outros textos deste mesmo livro estarão preocupados com os demais aspectos. o figurado e, em especial a significação situada. A realidade fonológica da É sabido que o manual de Lingua Portuguesa (LP) usado hoje, seja no suplantada com naturalidade já nas e do ensino ensino fundamental ou no médio, de um modo geral não satisfaz. Muitas As estruturas e funções sintáticas são identificadas linearmente e com segurança, são as razões desse estado de Entre as principais estão sua desatualização sobretudo na perspectiva de uma metalinguagem, pouco se tratando o caso tão em relação às necessidades de nossa época e a falta de incorporação dos complexo da variação, seja dialetal ou social. A produção textual, quando exer- nhecimentos teóricos acerca da língua hoje disponíveis. As análises que bus- citada, não é explicitada sequer para o professor, quanto menos para o cam comprovar este aspecto são muitas e minuciosas, mas ainda não rende- ram os frutos esperados. Os livros didáticos continuam enfadonhos pela Uma segunda neste caso serta: autores acreditam que de nada vale dar teorias a profes- monotonia e mesmice, sendo todos muito parecidos. mal-formados, já que não como delas tirar Embora esta No contexto destas análises, as duas questões seguintes parecem ser cruciais: é provável talvez Isto a tal ponto que, possivelmente, o problema hoje no 1. qual a noção de subjacente aos livros de ensino esteja muito mais na fraqueza dos recursos humanos que na miséria dos materiais Para não cometer flagrantes, devo citar pelo menos três obras que trazem observações 2. quais as habilidades desenvolvidas nos LDP? teóticas claras nos LDP. São elas as de Magda Recker (1982) que no seu Livro para o Uma resposta completa a essas indagações é impossível aqui, mas uma Professor chega a ser exaustiva com sugestões e explanações teóricas, permanecendo uma das tação geral para seu tratamento é viável. As posições aqui defendidas são uma mais explicitas quanto posição adotada. A coleção ALP, de Cócco & Hailer (1994) também traz, no uma ampla explanação da posição explicitada mesmo na capa da coletânea alternativa para discussão. Desde logo é avançar uma constatação ge- com a na versão original deste trabalho, constatei que dos 60 manuais analisados, Não cabe uma observação detida, mas sim uma nota sobre este aspecto, pois chega a ser preocupante situação de desalento em que o professor de LP fica quando um autor introduz inovações nas sugestões de exercícios sem que ao mesmo tempo dè as instruções Este trabalho é uma versão modificada de "O livro de portuguesa em questão: correspondentes. Nos casos do Livro do Professor, a única coisa de diferente em relação ao Livro caso da compreensão de texto", publicado no Caderno do de do do é que aquele traz a dos exercícios algumas explicações alternativas, mas Universidade Federal de 1997, p. 38-71. pouca ou nenhuma explanação teórica.</p><p>50 Mercuschi de 51 Um manual de Língua Portuguesa trata, de Portugue- de certos principios de classificação, os de busca, sa e não da Língua Portuguesa, já que como todas as demais, a LP é de dados e a capacidade de seleção entre alternativas são cada vez variada, multifacetada, heterogênea, não monolítica nem uniforme. o fato mais importantes. Basta ter presente a entrada da Internet como de todas as línguas serem heterogêneas e apresentarem variações do sistema de busca. o trabalho com esse tipo de questão tornou-se hoje talvez, o aspecto mais complexo no ensino de lingua. Ainda não existem pois já não é mais uma ou esquisitice o domínio do computa- sugestões claras a respeito desse Sabe-se apenas que se deve dor. Qualquer trabalhador está hoje em contato com ele. nar uma forma de uso da língua, mas é controversa a argumentação a respet- Até há pouco, pensava-se que as básicas no uso da limi- to da seleção dessa variedade. Por mesmo é conveniente alertar pelo tavam-se a falar-ouvir, ler-escrever, mas hoje se sabe que isso não é suficiente. menos para a existência da variedade dialetal ou Precisamos aprender a ver e representar, bem como interpolar algo entre a fala Ao lado da heterogeneidade, as linguas apresentam outro aspecto e a escrita, fazendo com que esse contínuo fique ainda mais Refiro-me tante, ou seja, não transparentes, não se no aos textos internetianos, que têm características especiais. o telefone, ao pos- código já que são semanticamente porque os senti- sibilitar diálogos não-face-a-face, não trouxe tantas novidades como a Internet dos por elas transmitidos e nelas gerados não estão nelas e o correio eletrônico vêm causando nas estruturas Existem outras condições de produção que contribuem para a consti- tuição do sentido, além da significação das palavras que as frases e o problema da compreensão no contexto dos LDP textos que produzimos. Todos os autores de LDP julgam relevante o trabalho com a compreensão Também sabemos que as são fenômenos históricos que vieram se textual, o que é atestado pelo fato de sempre farta dose de exer- constituindo ao longo do tempo pela ação de muitas gerações. Trata-se de neste Portanto, o problema não é a ausência deste tipo de uma produção coletiva, social, não obstante determinada por uma condição trabalho e sim a natureza do mesmo. Entre esses problemas podemos identi- genética característica da Pode-se, pois, dizer que a condi- ficar as seguintes: ção de possibilidade da língua é um natural, uma inscrição biológica a) A compreensão é considerada, na maioria dos casos, como uma simples potencial da espécie humana, mas o seu desenvolvimento e suas proprieda- e natural atividade de de um conteúdo objetivamente inscri- des de uso são fatos e profundamente inseridos na experiência coti- to no texto ou uma atividade de Compreender texto resume-se, no diana. Os discursos não são naturais e sim eventos sociais, coleti- geral, a uma atividade de extração de conteúdos. vamente produzidos e situados historicamente. b) As questões típicas de compreensão misturadas com uma série de Habilidades a serem treinadas outras que nada têm a ver com assunto. Esta simples mistura já atesta a falta de noção do tipo de atividade. Certamente, a escola ensina menos do que imagina, o que é um c) E comum os exercícios de compreensão nada terem a ver com o texto motivo para com cuidado sobre o que vale a em ao qual se sendo apenas genéricas que podem ser aula. Trata-se, portanto, de um falso dilema a discussão de se é mais respondidas com qualquer dado. tante saber gramática ou saber o que que quis dizer com o que d) Os exercícios de compreensão raramente levam a reflexões so- disse. o dilema: ou é um falso Não se longe bre o texto e não permitem expansão ou construção de sentido, o que sem gramática e não se usa a a não ser para produzir É sugere a noção de que compreender é apenas identificar Esque- desastroso para alguêm se não souber distinguir entre o uso de encontro ce-se a a análise de intenções, a e outros aspectos de" e encontro pois correrá o risco de dizer o contrário do que deseja, vantes nos processos de mas é desastroso se ele não entender minimamente os Estes dados já evidenciam que não clareza quanto tipo de exercício contratos que assina ou as instruções de uso dos aparelhos que compra. que deve ser feito no caso da excelente oportu- Na sociedade tomou-se particularmente importante saber nidade de treinar o o pensamento habilidades como procurar e identificar fatos, valores, de modo que o de</p><p>53 opinião. Pode-se dizer que os exercícios de compreensão nos LDP, a evidência mais clara da perspectiva impositiva da escola. os textos Título da Seção de Compreensão dão a impressão de serem e os sentidos Relendo o texto A fim de não cometer é bom lembrar que existem manuais Refletindo sobre o texto com uma alta consciência do trabalho de compreensão e exploração do tex- Vamos trabalhar o texto to. Entre eles pode-se citar as coleções Construindo a escrita, de Carmen Car- Explorando o texto valho et al (1998) e Linguagem e Pensamento, de Cócco / Hailer Compreensão de texto (1994) que se destacam dentro do quadro geral de de igual modo algu- Vamos interpretar o texto mas poucas coleções mais antigas já fora de mercado tinham essa Relacionando o texto com a vida prática cia, tais como Preti (1986) e Soares (1982). Trabalhando com idéias De um modo geral, no entanto, os livros didáticos mais antigos, ainda Vamos conhecer melhor o texto numerosos e muitos deles já fora de mercado, distinguem-se de maneira Interpretação e participação acentuada em relação aos atuais em vários aspectos: têm menos textos, Interpretação de texto mais exercícios de gramática e tratam de maneira em geral equivocada Estrutura e fatos compreensão textual. Os livros mais recentes, especialmente dos anos 90, a Exploração têm uma visão diferente em relação ao tratamento do texto. Há exercícios Estudo do texto de compreensão, mas deixam muito por conta do aluno e não dão aten- o sentido do texto ção especial ao professor. Trazem maior variedade textual, menos gramá- Interpretando o texto tica formalmente trabalhada e mais discussão Contudo, ainda Entendendo e usando as palavras evitam questões tais como as que se referem à variação e à Interpretação Pode-se dizer que os livros melhoraram o aspecto visual, mas são menos densos e mais problema é que essa grande variedade de denominações é seguida de uma variedade tipológica ainda maior de perguntas. A maioria dos autores Seções dos LDP dedicadas trabalha os textos da lição e poucos são os que saem totalmente do ao trabalho da compreensão textual Alguns são mais rigorosos e se atêm exclusivamente ao texto que antecede os exercícios. Estes autores, quando trazem outros exercícios, distinguem-nos Nem todos os livros são claros quanto à seção em que exercitam a com- com clareza e dão ao aluno e ao professor as condições de saber como operar. Alguns dedicam uma seção de maneira explícita ao tema e não misturam outras questões. Outros são mais vagos e envolvem vários tipos de Tipologia das perguntas de compreensão nos LDP questões, o que é mais comum. Nesses casos, as denominações da seção são As perguntas encontradas nas seções dedicadas à compreensão textual vagas e tratam o texto sob vários ângulos, envolvendo são Uma análise detida de duas dezenas de manuais de todas tica, fonologia, literatura e Há livros que não trazem um título para as séries do ensino fundamental e médio permitiu a montagem de uma tipo- suas seções de exercícios e espalham as questões de acordo com o assunto para a classificação dessas perguntas. Certamente, essa tipologia não é que tratam. E quando tratam problemas de compreensão, ficam restritos a a única nem a mais correta, mas serve para indicar alguns aspectos interes- indagações Observando as seções que trazem exercícios de com- santes da prática escolar quanto ao da compreensão. preensão pelos nomes que são dados, identifica-se uma certa variação, A tipologia aqui sugerida baseia-se numa série de posturas teóricas, sobretudo nucleada em torno da expressão texto. Vejam-se aqui, no quadro a serguir, os relativas à teoria da leitura e compreensão dentro de uma de Texto nomes encontrados, incluindo as seções que não se dedicam exclusivamente não estruturalista, que contempla o texto como um processo em que predomi- à compreensão mas problemas a ela nam atividades cognitivas e discursivas, e para quem tanto o texto como os sentidos nele ou dele produzidos são fenômenos colaborativos e dinâmicos e</p><p>54 de 55 não produtos fixos previamente colocados pelo autor. Com isto, os tipos de perguntas encontrados nos exercícios de compreensão dos LDP foram assim 5. as P que em conta o Qual a moral história? identificados: texto como um todo e aspectos Que outro título você daria? extra-textuais, envolvendo pro- Levando-se em conta o sentido Tipologia das Perguntas de Compreensão em LDP cessos inferenciais complexos. global do texto, pode concluir que... Tipos de Explicitação Exemplos perguntas 6. Subjetivas Estas Pem geral têm a ver com Qual a sua opinião sobre. texto de maneira apenas su- que você acha 1. A do São não frequentes ede Ligue: perficial, sendo que a R fica por Do seu ponto de vista, a atitude cavalo branco mínima, auto-res- Lillan Não falar conta do aluno e não há como do menino diante da velha senhora de Napoleão pondidas pela formula- sobre o que testá-la em sua validade. foi correta? Assemelham-se às Mamae, desculpe, ções do tipo: "Qual a cor do menti para cavalo de 7. Vale-tudo São as P que sobre De que passagem do texto questões que qual- você mais gostou? quer resposta não havendo Se você fazer 2. Cópias as P que sugerern Copie a fala do possibilidade de se cirurgia para modificar o des mecânicas de transcrição de Retire do texto a frase que... A ligação com o texto é ape- mento de seu corpo, que órgão você frases ou Verbos fre- Copie a frase corrigindo-a nas um pretexto sem base operaria? sua resposta. aqui são: de acordo com o texto. guma para a resposta. Você concorda com o autor? transcreva, com- Transcreva trecho que fala sobre.. plete, identifique etc. Complete de acordo com o texto. 8. Impossíveis Estas P exigem conhecimen- um exemplo de pleonasmo tos externos ao texto e só po- (Não havia pleonasmo no texto e dem ser respondidas com base não fora explicado na lição) 3. Objetivas São as P que sobre Quem comprou a meia azul? em conhecimentos enciclopé- fica onde? conteúdos objetivamente ins- o que faz todos os dias? São antipodas (O texto não falava de critos no texto que, quem, De que tipo de música Bruno às de cópia e quando, como, onde...) numa mais gosta? atividade de Assinale com um x A resposta acha-se centrada ex- a resposta certa. 9. Meta- São as P que sobre Quantos parágrafos tem o texto? clusivamente no texto. questões formais, geralmente da Qual o título do texto? estrutura do texto ou do léxico, Quantos versos tem o poema? bem como de partes os parágrafos do texto. 4. Inferenciais Estas P são as mais complexas; exigem conhecimentos textu- Há uma contradição quanto e outros, sejam pessoais, no uso da came de balela no Japão. Há perguntas que podem ser classificadas como híbridas ou tal Como Isso aparece no texto? como esta: "Copie a frase que na sua opinião está certa*, envolvendo questões de bern como regras inferenciais dois tipos. Essas questões, para fins de quantificação na tabela que aparece e análise para busca de A expressão Introduzida por Silva (1996).</p><p>Antônio Marcuschi 56 Compreensão de texto: algumes reflexões 57 abaixo, foram definidas pelo peso maior que continham das duas par- Tabela 1: Perguntas de Compreensão nos LDP tes. Assim, a questão acima foi tomada como uma indagação subjetiva, já que a cópia era apenas uma das duas alternativas oferecidas como possibilidade Tipos % Grupos interpretativa do texto. Por outro lado, a indagação que aparece com fre- 1. Cavalo Branco 1. na coleção ALP: "Copie as frases que descrevem a figura ao lado/abaixo/ 2. Cópias 16. 3. Objetivas 53. acima" foi tomada como indagação objetiva e não propriamente de 4. Inferenciais 6. porque a rigor tratava-se de uma interpretação da figura através de um trecho S. Globals 4. 10% que a descrevia ou algo assim. 6. Subjetivas 7.5 Quanto às perguntas subjetivas, é ter presente que os alunos se 7. Vale-tudo 3, comprometidos com o paradigma da escola e às vezes dizem o que imaginam 8. Impossíveis 0.5 que val agradar à professora. Num livro (consumível) consultado, que conti- 9. 9. nha as respostas resolvidas (R) pelo aluno, encontrei o Uma análise, mesmo que sumária, destes dados revela que há um predo- P: gostou da história do que vivia sujo? mínio impressionante (70%) de questões fundadas exclusivamente no texto, R: porque a professora disse que devemos tomar banho todos sendo que quase um quinto das perguntas são pura cópia e mais da metade só precisam de uma olhada em dados objetivamente inscritos no texto para Por outro lado, encontramos respostas deste tipo: resposta. Mais preocupante, no entanto, é o fato de somente um décimo das P: - gostou do texto que acabou de let? questões situarem-se na classe de perguntas que exigem reflexão mais acurada, R: Mais ou é mais para ou seja, algum tipo de inferência ou crítico, e elas equivalem ao mesmo percentual de indagações que podem receber qualquer tipo de res- Trata-se de uma resposta que não assume posição alguma, seja por medo posta, já que nas questões subjetivas e vale-tudo, aceita-se qualquer resposta. de desgostar a professora ou por não ter opinião pessoal. Seja qual for a razão, Por fim, questões de natureza estrutural também aparecem com relativa fre- em ambos os casos temos uma situação que não contribui para a formação (996) neste quadro, embora não sejam questões de do raciocínio crítico. Uma discussão dos resultados vistos na Tabela sugere dois tipos de análise: A situação dos LDP quanto a) por um lado, de uma total falta de critério para a organização aos tipos de perguntas de compreensão dos exercícios de ou nestes exercícios entraria tudo o que a ver com indagações que não caberiam na gramática, no ou A tipologia acima foi montada tendo em vista uma análise de 25 livros do em outros aspectos formais no estudo da ensino fundamental e médio, passando por todas as séries. Mas aqui vão b) por outro lado, uma segunda alternativa parece indicar de clareza interessar apenas os aspectos referentes ao o total de quanto ao que se deve entender por compreensão de texto, o que redundaria perguntas analisadas em todos os exercícios computados de 2.360 ques- nessa mistura de questões dentro de um mesmo conjunto inadequadamente. sendo que algumas delas abrangiam duas ou três sub-perguntas, que Não é possível decidir aqui por uma ou outra dessas Tudo foram computadas como uma só nestes casos. A estatística contou com al- ca que se trata de um misto de ambas: faltam critérios operacionais e faltam guns manuais em que predominavam as cópias e objetivas, bem como ou- noções tros manuals em que houve acentuada presença de perguntas inferenciais e globais. Isto deu uma média equilibrada e é de supor que os percentuais abai- Observações finais e sugestões de trabalho sejam bastarite próximos da realidade, uma vez analisados mais manuais. até fácil perceber que os exercícios de compreensão dos livros A Tabela mostra o resultado, em evidenciando um quadro falham em vários aspectos e não atingem seus objetivos. Principalmente, bastante preocupante. devido a uma noção de como simples decodificação.</p><p>Luiz Antônio Marcuschi Compreensão de texto: algumas reflexões 58 59 Isso só será superado quando a compreensão for tida como um processo cria- base em nossas Assim, não é indiferente a presença de um ou dor, ativo e construtivo que vai além da informação estritamente Ou seja: outro título no texto. Se olharmos com cuidado os textos noticiosos da im- compreender um texto envolve mais do que o simples conhecimento da prensa diária, vamos ver que os mesmos fatos manchetes diferentes de e a reprodução de informações. um jornal para o outro e, vezes, elas se contradizem. Analisar títulos, suge- Não descartamos a técnica da pergunta-resposta como plausível e ade- rir justificar títulos diversos para textos é uma forma de trabalhar os quada no treinamento da compreensão Ela é sempre conteúdos globalmente. Trabalhar os títulos de textos uma boa forma de não é a única forma de tratar a questão e, sobretudo, não é ideal se for redu- perceber como se um universo contextual e ideológico para os tex- zida a um questionamento essencialista, objetivo e repetidor, tal como tos mesmo antes de Pior ainda se for a alternativa praticada. De pouco interesse para a compreensão são as questões do tipo onde, quando, o que qual, se estas iv. Produção de resumos indagações só buscam identificar fatos e dados objetivos do texto. Uma das atividades mais praticadas no dia-a-dia é a produção do gênero tex- Algumas sugestões já feitas em Marcuschi (1996) podem ser aqui repeti- tual chamado resumo, mesmo que isso não seja feito na forma de um resumo em das, já que continuam atuais e merecedoras de atenção. São elas: todas as suas Por exemplo: quando contamos a um(a) amigo(a) a notícia lida no estamos resumindo. Quando contamos a história ou o i. Identificação das proposições centrais do texto conteúdo do livro que acabamos de ler, estamos resumindo. o resumo é uma Uma primeira tentativa de aproximação do texto poderia ser a técnica de seleção de elementos textuais a partir de um certo interesse. possível fazer identificação das centrais do texto e as intenções do autor, na resumos muito diferentes do mesmo texto. impressionante observar que, apesar de medida em que muitos aspectos podem não estar envolvidos diretamente a produção de resumos ser uma das atividades mais comuns na escola e na vida nas informações objetivas do texto. diária, a escola quase nunca treina as técnicas de resumo. É não esquecer que para resumir um texto temos antes que compreender o texto. E os resumos Perguntas e afirmações inferenciais variam consideravelmente de pessoa para pessoa. Isso porque cada um pode Uma alternativa excepcional de trabalhar a compreensão textual é montar julgar de maneira diversa o que é essencial. Trabalhar a compreensão pela técni- um conjunto de perguntas que exigem a reunião de várias informações para ca do resumo é uma forma muito produtiva de perceber o funcionamento glo- serem respondidas, ou afirmações que, para serem exígiriam vá- bal dos textos sob o ponto de vista tanto do conteúdo con das estruturas. rios passos. Não seriam perguntas objetivas, mas perguntas cujas respostas não se acham diretamente inscritas no texto. As inferências Reprodução do conteúdo do texto outro textual se em informações textuais explicitas e bem como em informações Muitas vezes temos que comunicar a por escrito, algo que ouvimos postas pelo leitor. Na atividade inferencial, costumamos acrescentar ou elimi- oralmente, ou então o contrário. Este era o caso do resumo, por exemplo. Neste nar; generalizar ou reordenar; substituir ou extrapolar informações. Isto por- caso estamos fazendo retextualizações de uma modalidade de uso da língua para que avaliamos, generalizamos, comparamos, associamos, reconstruímos, par- outra, ou seja, estamos mudando o texto falado em escrito ou o contrário. Mas ticularizamos informações e assim por Pois é produzir informações também ocorre que temos de transmitir na forma de uma carta o que lemos novas a partir de informações prévias, sejam elas textuais ou não. A colsa numa notícia de jornal. Ou então passar para um bilhete o que ouvimos numa que deve ser controlada na inferenciação é a falsidade ou a incompatibilidade reunião. Ou contar em prosa o que lemos num poema. A reprodução do conteú- do resultado com os elementos explícitos do texto. do de um texto mudando da fala para a escrita ou da escrita para a fala ou mu- dando um textual em outro dentro da mesma modalidade é uma técnica Tratamento a partir do título produtiva para tratar integradamente a produção e compreensão de texto. A o título é sempre a primeira entrada cognitiva no texto. A partir dele interação entre os gêneros textuais é importante porque os gêneros são formas</p><p>Reprodução do texto na forma de diagrama bom rever nossas Todos nós A transformação ou representação de um texto no formato de um diagra- santes com filmés vistos há muitos anos e então nos fascinaram mas que ma não é simples e, em geral, causa problemas, mas é importante treinar este não nos fascinam ou então o contrário. Nós mudamos e conosco tipo de visão do texto porque ele permite estabelecer raciocínios e relações mudam nossas opiniões. Ainda bem que Isso ocorre, pois seria até tedioso esquemáticas e formais muito importantes. Também é um bom caminho manter a vida toda a mesma opinião sobre todas as para se aprender a ler diagramas, que hoje são formas textuais muito na imprensa diária, mas pouco presentes como gênero textual ou recurso Diante do exposto, parece razoável admitir que, se adotarmos uma estra- expositivo em livros Este tipo de trabalho pode ser feito com mui- adequada no tratamento da compreensão de texto em sala de aula, to proveito utilizando-se textos de outras disciplinas, tais como matemática, estaremos contribuindo para a formação de um cidadão mais crítico e capaz geografia, E assim também se facilita o trabalho dos alunos com os diante dos textos que recebe para seu uso na vida diária. É bom conven- textos destas áreas, pois é um engano dos autores de manuais escolares pen- cer-se de que usamos a língua não propriamente para exercitar as cordas sar que só textos narrativos, poéticos ou descritivos sejam interessantes no vocais e sim dar a entender o que pensamos ou então para entender o que os estudo da outros pensam. Enfim, no uso diário da língua, a compreensão é um aspecto tão central que em torno dela se dão grandes e acalorados debates. Vale a vii. Reprodução do texto oralmente pena exercitá-la com cuidado desde Um texto escrito pode ser reproduzido oralmente, tal como vimos Trata-se de uma forma de retextualização que exige um conjunto de adapta- ções e Mas nada há de novo nisso já que esta é uma atividade bastante comum no dia a dia: costumamos contar oralmente o que Isso pode ser treinado de maneira sistemática em sala de aula. o exercício de com- preensão que vai por trás dessa atividade se dá na medida em que para dizer oralmente o que devo primeiro compreender o texto Na reprodução oral do conteúdo, dou minha versão e não necessariamente a Havendo várias versões orais, pode-se discutir qual a mais adequada, qual não é correta e assim por diante. A escola deve ocupar-se tanto da compreensão na escrita como na oralidade. Não há dúvida de que hoje ela se ocupa mais com a escrita, no que está certa, mas não pode, ignorar que o(a) aluno(a) fala. Trabalhos de revisão da compreensão Por fim, lembramos que uma atividade raramente praticada com a com- preensão textual, ou seja; as sucessivas correções (geralmente A leitura de um texto com a correspondente compreensão registrada por escri- to poderia ser objeto de revisão tempos depois, mediante uma nova leitura e verificação do que teria mudado na compreensão e por muito provável que numa segunda ou terceira leitura de um texto em tempos diversos teremos outra visão e outra Tratar este aspecto em sala de aula é estar fazendo algo proveitoso, pois esta situação é comum no dia a dia, já que costu- mamos rever nossas posições ao longo da vida. Vamos mudando de posições, opiniões, e isto influencia nossa forma de compreender os textos. Por isso</p>

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