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<p>INTRODUÇÃO ÀS SAGRADAS</p><p>ESCRITURAS</p><p>AULA 4</p><p>Prof. Raimundo Nonato Vieira</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Neste espaço de construção do saber sobre as Sagradas Escrituras,</p><p>vamos entrar em uma consideração descritiva importante, pois questionaremos</p><p>o volume que se manuseia como Bíblia Sagrada atualmente. Ou seja, como se</p><p>chegou à conclusão de que seriam esses os livros canônicos? Um outro conjunto</p><p>de livros ficou de fora da lista atual? Quem decidiu?</p><p>Antes de partirmos para a divisão das considerações anunciadas, convém</p><p>responder o que significa o termo cânon: “A palavra cânone deriva directamente</p><p>do vocábulo grego kanon. Traduzido literalmente, significa ‘vara’, ‘cana’ ou ‘cana</p><p>para medir’. No entanto, actualmente, a acepção mais comum deste termo deriva</p><p>de uma compreensão metafórica que transmite o sentido de ‘regra’ ou ‘norma’.</p><p>(Coimbra, 2019).</p><p>O autor, no mesmo artigo citado, descreve o uso desse termo na filosofia,</p><p>por exemplo, sempre focando no caráter de referencial ou padrão a definir, a</p><p>partir de algum ponto, um axioma.</p><p>TEMA 1 – A FORMAÇÃO DO CÂNON</p><p>Em momentos anteriores já tratamos da estrutura física do cânon. Agora,</p><p>vamos considerar os textos existentes como inspirados por Deus e autoritativos,</p><p>portanto, dignos de pertencer à lista canônica. Vamos tratar dos dois cânones</p><p>testamentais separadamente, pois o processo de cada um é peculiar.</p><p>1.1 O Cânon do Antigo Testamento</p><p>É lindo ver como o cânon do Antigo Testamento ganhou essa forma e</p><p>conteúdo, sendo escrito em um espaço temporal tão grande e por pessoas tão</p><p>distintas, de tradições proféticas diferentes. O processo orgânico da formação</p><p>do cânon pode ser assim descrito: “Deus inspirou os livros, o povo original de</p><p>Deus reconheceu-os e coligiu-os, e os crentes de uma época posterior</p><p>distribuíram-nos por categorias, como livros canônicos, de acordo com a unidade</p><p>global que neles entreviam” (Geisler; Nix, 2016, p. 73, 74).</p><p>Os autores supracitados enfatizam os três passos básicos para a</p><p>canonização, sendo os já mencionados: inspiração de Deus, reconhecimento por</p><p>parte do povo de Deus e coleção e preservação do povo de Deus. Havia um</p><p>senso de participar de algo especial que estava em curso. Isso aponta também</p><p>3</p><p>para a importância da comunidade de fé no processo de revelação. A</p><p>comunidade do povo de Deus é parte, pois a revelação se dá com ela, por ela e</p><p>para ela. Por esse motivo, os santos de Deus no mundo, reunidos, são partes</p><p>recipientes e condutores da revelação – o cânon é desenvolvido com a</p><p>comunidade, pela comunidade e para a comunidade.</p><p>O cânon do Antigo Testamento, antes da era cristã, era identificado,</p><p>basicamente, por duas partes: Torah (lei) e neviim (profetas). É muito comum</p><p>encontramos nos textos do Novo Testamento a expressão Moisés e os Profetas</p><p>(Lc 16.16, 29, 31), como se referindo ao cânon do AT. Porém, alguns</p><p>argumentam que existiam indícios de que se pensava em uma possível estrutura</p><p>tríplice, antes desta era. Siraque e Filo teriam mencionado algo nessa direção</p><p>(Geisler; Nix, 2016, p. 76).</p><p>Por volta do século V d.C., segundo os mesmos autores, o Talmude</p><p>relaciona 11 livros, (que já faziam parte dos neviim (profetas), numa terceira</p><p>divisão chamada de Escritos (Kethubhim). A divisão do Antigo Testamento,</p><p>chamado pelos judeus de Tanak, ficou como no quadro a seguir.</p><p>Quadro 1 – Divisão do Antigo Testamento</p><p>TORAH (LEI) NEVIIM (PROFETAS) KETUBIIM (ESCRITOS)</p><p> Gênesis</p><p> Êxodo</p><p> Levíticos</p><p> Números</p><p> Deuteronômio</p><p>Profetas Anteriores (4</p><p>livros):</p><p> Josué</p><p> Juízes</p><p> Samuel</p><p> Reis</p><p>Profetas Posteriores (4</p><p>livros):</p><p> Isaías</p><p> Jeremias</p><p> Ezequiel</p><p> Os 12 Profetas</p><p>(menores): Oseias, Naum,</p><p>Joel, Habacuque, Amós,</p><p>Sofonias, Abdias, Ageu,</p><p>Jonas, Miquéias, Zacarias,</p><p>Malaquias</p><p> Livros da Verdade</p><p>(Poéticos) – 3 livros</p><p> Salmos</p><p> Provérbios</p><p> Jó</p><p> Os 5 Rolos (5 livros ou</p><p>rolos)</p><p> Cantares</p><p> Rute</p><p> Lamentações</p><p> Eclesiastes</p><p> Ester</p><p> Profético (1 livro)</p><p> Daniel</p><p> O Resto dos Escritos (2</p><p>livros)</p><p> Esdras-Neemias</p><p> Crônicas</p><p>O cânon cristão tem duas versões, uma da maioria dos protestantes, outra</p><p>dos católicos e alguns protestantes. Os protestantes seguem o Tanak, mudando</p><p>apenas a classificação da ordem dos livros e as suas divisões – ao invés das</p><p>três do Tanak, há quatro: Pentateuco, Históricos, Profetas e Sabedoria ou</p><p>Poéticos.</p><p>4</p><p>1.2 O Cânon do Novo Testamento</p><p>No tema anterior enfatizamos o cânon da Bíblia Hebraica, e por uma</p><p>questão de espaço não abordamos com profundidade os processos de definição</p><p>do cânon cristão do AT. Temos a expectativa que os próximos temas ajudem a</p><p>formar uma compreensão mais geral sobre aquele tópico.</p><p>O cânon do NT teve um processo de formação diferente do AT,</p><p>especialmente pelo caráter universal das comunidades de fé em formação. Um</p><p>resumo geral sobre este processo é muito útil:</p><p>As escrituras da igreja cristã do final do primeiro século eram o Antigo</p><p>Testamento. Por essa época ainda estavam sendo produzidos os</p><p>evangelhos e as epístolas gerais. As epístolas paulinas, mais antigas</p><p>que os quatro evangelhos, estavam sendo lidas e colecionadas pelas</p><p>comunidades que tinham sido alcançadas pela mensagem, e a partir</p><p>de então, tidas como úteis para a direção dos crentes, mas não eram</p><p>colocadas no mesmo nível canônico do Antigo Testamento, na leitura</p><p>durante o culto. Entretanto, com a prática do culto público, os escritos</p><p>cristãos foram reconhecidos como Escrituras. A jovem igreja cristã</p><p>começava a perceber nos novos escritos inspiração divina,</p><p>considerando que se Deus havia falado no passado através do Antigo</p><p>Testamento, poderia continuar falando agora através dos novos</p><p>escritos, os quais circulavam em torno do evento do Evangelho de</p><p>Jesus Cristo. A crescente autoridade dos livros da literatura cristã</p><p>recebe agora grande influxo através do prestígio que lhe dão as</p><p>citações dos autores da igreja (pais apostólicos), a começar de</p><p>clemente romano, ainda do final do primeiro século (96 a.c.), quando o</p><p>mesmo faz citações de Mateus e Lucas, bem como do apóstolo Paulo,</p><p>recomendando a sua leitura. (Bittencourt, 2006, p. 24)</p><p>Uma pergunta importante a ser respondida, levanta o autor supracitado,</p><p>é porque se passaram mais ou menos 30 anos até os primeiros relatos e</p><p>ensinamentos daquele novo movimento ganharem uma forma escrita?</p><p>Precisamos aqui entender a forma de transmissão do conteúdo em torno de</p><p>Jesus Cristo e seus ensinamentos, pois era oralmente que era transmitido aquele</p><p>conjunto de informações, tão importante para a posteridade da fé cristã. Mais</p><p>uma vez, o papel da comunidade de fé na formação do cânon se mostra muito</p><p>importante, pois aquelas palavras, que se tornaram padrão de fé, foram testadas</p><p>e vividas no seio dos grupos de igrejas, e ganham autoridade para servir de regra</p><p>de fé.</p><p>Não se pode esquecer que conferir autoridade ao texto bíblico, forjado no</p><p>seio comunitário, não é em função do reconhecimento daqueles professos, mas</p><p>sim porque Deus inspirou aquilo que fora produzido no seio da Igreja.</p><p>5</p><p>TEMA 2 – OS TEXTOS APÓCRIFOS</p><p>No tema anterior, vimos diferenças no processo de formação do Antigo</p><p>Testamento em relação ao Novo Testamento, conforme aponta Coimbra (2019):</p><p>Porque é que existem duas listas diferentes, uma chamada longa</p><p>(aceito na generalidade pela Igreja Católica) e outra chamada curta</p><p>(utilizada consensualmente por uma maioria protestante) para o</p><p>cânone do Antigo Testamento? Quem é que definiu estas duas listas e</p><p>em que contextos, histórico, social e religioso, foram elas definidas?</p><p>Será possível conhecer os critérios que levaram a estas escolhas?</p><p>Neste ponto do nosso estudo, buscaremos responder essas questões e</p><p>ajudar o estudante a compreender tais discrepâncias, descrevendo o assunto na</p><p>divisão de Antigo e Novo Testamento.</p><p>2.1 Antigo Testamento</p><p>Por questão de espaço e objetividade,</p><p>não será feita uma descrição</p><p>exaustiva deste processo, com todas as suas divisões. Valendo-se da divisão de</p><p>Geisler e Nix (2016, p. 85), é importante apenas mencionar que nesse processo</p><p>existiram os: “Homologoumena – os livros aceitos por todos; pseudepígrafo – os</p><p>livros rejeitados por todos; antilegomena – os livros questionados por alguns e</p><p>os apócrifos – os livros aceitos por alguns”.</p><p>Essa relação compreende tanto a trajetória da formação do cânon do</p><p>Antigo Testamento, como do Novo Testamento; no caso do Antigo Testamento,</p><p>é onde se vê uma distinção entre o cânon católico e o cânon protestante. Nas</p><p>palavras do pesquisador católico Fernandes (2015), esta é a distinção:</p><p>A Bíblia Protestante segue o mesmo cânon da Bíblia Hebraica e, por</p><p>isso, não possui sete livros: Tobias, Judite, 1-2 Macabeus, Sabedoria,</p><p>Eclesiástico e Baruc. Esses livros e alguns suplementos próprios da</p><p>versão grega, presentes nos livros de Ester e Daniel, foram</p><p>reconhecidos como canônicos pela Igreja Católica e, a partir de 1566,</p><p>passaram a ser denominados deuterocanônicos.</p><p>O termo utilizado pela tradição da Igreja, iniciada com os Pais Apostólicos,</p><p>é mesmo apócrifo, a ideia de não inspirados, pois não possuíam uma harmonia</p><p>com toda a mensagem dos demais livros das Escrituras, e não estavam no ritmo</p><p>do fluxo da história da salvação. No Concílio de Trento, em 1566, a Igreja</p><p>Católica considerou os livros apócrifos como canônicos, pois as doutrinas</p><p>praticadas no catolicismo popular encontravam mais amparo nesses livros,</p><p>6</p><p>considerando aqui também outros aspectos doutrinários que se desenvolveram</p><p>ao longo da história do pensamento teológico católico romano.</p><p>2.2 O Novo Testamento</p><p>Quando se pensa nos apócrifos do Novo Testamento, estmaos pensando</p><p>em uma lista de livros que foram lidos na Igreja Primitiva dos dois primeiros</p><p>séculos, mas que não foram considerados inspirados. A pergunta a ser</p><p>respondida é quanto aos critérios utilizados para considerar um livro canônico e</p><p>outros não. Fernandes (2015) aponta os critérios externos e os critérios internos:</p><p>Quanto aos critérios externos, em primeiro lugar, evoca-se a</p><p>“autoridade dos autores”, muito mais pautada na tradição do que em</p><p>evidências históricas. Em segundo lugar, “o tempo privilegiado das</p><p>origens”, isto é, o período apostólico. Em terceiro lugar, a “ortodoxia da</p><p>doutrina contida nos escritos”, derivada quer do ensinamento de jesus</p><p>cristo, quer da autoridade transmitida aos apóstolos. Em quarto lugar,</p><p>“a utilização litúrgica”, pela qual os escritos eram proclamados</p><p>publicamente numa reunião oficial da igreja. Quanto aos critérios</p><p>internos, evoca-se o reconhecimento da experiência e ação do espírito</p><p>santo na vivência da comunidade que acolhe e elabora, dando forma</p><p>ao conteúdo oral ou escrito que recebe.</p><p>Esses e outros critérios eram responsáveis pelo fato de alguns livros, que</p><p>eram lidos, e que gozavam de certo prestígio nas comunidades de fé locais, não</p><p>terem entrado no cânon bíblico. Esses livros são importantes para a</p><p>compreensão do desenvolvimento de certos pensamentos e práticas na Igrejas</p><p>dos dois primeiros séculos; porém, por não estarem integrados à consciência da</p><p>revelação de Deus na história, ficaram de fora da lista que temos hoje.</p><p>TEMA 3 – O CÂNON E OS PRIMEIROS CONCÍLIOS</p><p>Os primeiros Concílios da Igreja Cristã foram de grande importância para</p><p>a definição daquilo que temos hoje como o cânon bíblico. Neste ponto de nosso</p><p>estudo, vamos descrever como se deram, historicamente, as negociações para</p><p>tal definição.</p><p>3.1 Os primeiros cânones</p><p>Como aquilo que a igreja lia, com a consciência de que repousava sobre</p><p>a autoridade apostólica, veio a se tornar uma estrutura tão poderosa para a</p><p>posteridade cristã? Nas palavras de Dreher (2013, p. 7):</p><p>7</p><p>Durante os cem primeiros anos de vida da comunidade cristã, sua</p><p>Bíblia foi o Antigo Testamento. Ela usava uma versão grega,</p><p>denominada de Septuaginta e abreviada com a sigla LXX. Dessa</p><p>versão grega faziam parte ainda alguns livros que não foram incluídos</p><p>no cânon hebraico, adotado pelo Sínodo de Jâmnia, por volta de 110</p><p>d. D.1 […] Nos cem primeiros anos do cristianismo, já existiam cartas</p><p>paulinas e outros escritos que, mais tarde, formarão o Novo</p><p>Testamento, mas outros livros ainda estavam por ser escritos.</p><p>Sabemos que as Cartas de Paulo, por exemplo, eram lidas nos cultos</p><p>das comunidades. Mas as Cartas de Paulo, os evangelhos e outros</p><p>escritos não faziam parte da Bíblia.</p><p>O autor supracitado considera que alguns textos do Novo Testamento</p><p>foram escritos após o fim do primeiro século, o que não é a consideração desses</p><p>estudos. Contudo, as palavras do mesmo autor são importantes para perceber</p><p>que existe uma evolução, tanto no que diz respeito ao cânon hebraico, a base</p><p>para o Antigo Testamento protestante, como à definição do Novo Testamento.</p><p>Cains (1995, p. 95) corrobora com este pensamento:</p><p>os vários concílios que se pronunciaram sobre o problema do cânon</p><p>do Novo Testamento apenas os tornavam públicos, porque, como</p><p>ainda se verá, tinham já sido aceitos amplamente pela consciência da</p><p>Igreja. O desenvolvimento do cânon foi um processo demorado,</p><p>basicamente encerrado em 175, exceto para o caso de uns poucos</p><p>livros cuja autoria era ainda discutida.</p><p>Os primeiros cânones, sem dúvida, foram os hebraicos, como o</p><p>Samaritano e o Beta, oriundo dos judeus etíopes. Porém, os primeiros cânones</p><p>cristãos podem ser considerados como sendo o de Marcião; posteriormente</p><p>Irineu de Lyon propõe uma outra lista fechada. Orígenes também proporá uma</p><p>lista, excluindo alguns livros, como Tiago, e acrescentando Pastor de Hermas.</p><p>Várias listas foram surgindo e tendo alguma aceitação, ora nas igrejas ocidentais</p><p>e ora exclusivamente nas igrejas orientais.</p><p>3.2 A definição do Cânon</p><p>Depois de localizar o desenvolvimento do cânon e a afirmação de algumas</p><p>listas que foram levando o magistério da Igreja Cristã a uma definição nos</p><p>Concílios, nesta parte do estudo vamos apenas apontar o cânon que definiu a</p><p>presente lista dos livros bíblicos.</p><p>Como já mencionamos, o cânon do Novo Testamento tem seus livros</p><p>atuais aceitos desde o final do primeiro século, com pequenas dúvidas sobre</p><p>livros como Hebreus, Thiago e outros poucos, e o acréscimo de livros como</p><p>1 Esses livros são aqueles recusados pelos Pais da Igreja, e mencionados no tema anterior.</p><p>8</p><p>Pastor de Hermas. Porém, conforme o fragmento muraturiano, essa lista era</p><p>usual, e os livros que faltam nela, atualmente entende-se como parte da lista</p><p>original. Perdas e erros de cópias se encontram ausentes no documento</p><p>encontrado e publicado em 1940 por Ludovico Antonio Muratori, provavelmente</p><p>datado de 170 (Geisler; Nix, 2016, p. 108).</p><p>Porém, a lista de Orígenes, e depois a lista de Atanásio, publicada em</p><p>uma carta chamada “A Carta de Páscoa de Atanásio”, que é baseada no estudo</p><p>de Orígenes, são consideradas as listas que mais tarde foram amplamente</p><p>divulgadas e apoiadas pela tradição da Igreja, fechando a lista canônica do Novo</p><p>Testamento, conforme nos esclarecem Miller e Huber (2006, p. 94).</p><p>Os Concílios de Hipo e de Cartago, conduzidos por Agostinho,</p><p>confirmaram o cânon do Novo Testamento, com 27 livros, como o temos hoje,</p><p>mas aceitaram a lista da Septuaginta para o Antigo Testamento, conforme vista</p><p>antes, ratificada no Concilio de Trento, em 1566. Durante a Reforma Protestante</p><p>do século XVI, a maioria dos grupos protestantes aceitou a lista de Atanásio para</p><p>o Novo Testamento, mas permaneceram com uma antiga tradição da Igreja, que</p><p>aceitava o cânon hebraico como o Antigo Testamento.</p><p>TEMA 4 – AS TRADUÇÕES</p><p>As histórias das traduções da Bíblia são ricas em seu legado de coragem</p><p>e abnegação, para que esse livro chegasse nas variadas culturas, etnias e</p><p>povos. A Septuaginta, do hebraico para o grego; a Vulgata, do hebraico e do</p><p>grego para o latim; a tradução de</p><p>Lutero, do grego, hebraico e latim para o</p><p>alemão; a King James, do hebraico e do grego para o inglês; do latim, hebraico</p><p>e do grego para o português, representam o esforço de fazer a Bíblia chegar até</p><p>nós.</p><p>4.1 A Septuaginta</p><p>O termo septuaginta foi cunhado com base em uma narrativa que não</p><p>recebe crédito de muitos historiadores. Essa narrativa surge de uma carta</p><p>conhecida como “Carta de Aristeias”, da qual vem uma construção histórica do</p><p>surgimento da Septuaginta por pedido do Rei Ptolomeu II. Foi um trabalho</p><p>realizado por 72 tradutores, mais tarde atribuído a 70. O livro A Bíblia e sua</p><p>9</p><p>História, da Sociedade Bíblica do Brasil (Miller; Huber, 2006), descreve muito</p><p>bem a construção dessa narrativa.</p><p>Um bom resumo a cerca desta tradução é apresentado por Fernandes</p><p>(2015). Para ele, a septuaginta surge como demanda dos primeiros cristãos de</p><p>compreenderem as Escrituras em uma língua mais acessível para aqueles dias:</p><p>A partir do século III a.C., os judeus da diáspora que passaram a viver</p><p>em Alexandria, no Egito, preocupados com a transmissão da fé e dos</p><p>costumes judaicos aos filhos que nasciam em terras dominadas pelo</p><p>helenismo e incentivados pelo rei Ptolomeu II, começaram um trabalho</p><p>de tradução, da Torá para o grego, de um texto hebraico consonantal</p><p>denominado pelos estudiosos de Protomassorético. Uma antiga lenda</p><p>conta que setenta anciãos judeus de Alexandria foram escolhidos e</p><p>designados para realizar essa tradução. Disso resultará a</p><p>denominação Septuaginta para a versão grega da Bíblia Hebraica.</p><p>Após a tradução da Torá, o trabalho continuou e no final do século I</p><p>a.C. todos os livros estavam traduzidos.</p><p>Essa tradução fora de grande importância, pois serviu para os cristãos</p><p>daquele início da cristandade compreenderem teologicamente as declarações</p><p>proféticas e o desenrolar da revelação. Também serviu como base para as</p><p>próximas traduções; ainda que não fosse a única fonte, servia de orientação</p><p>mestra.</p><p>4.2 Outras traduções</p><p>Foram selecionadas apenas duas traduções para serem descritas: a</p><p>Vulgata Latina e a King James. A tradução de Jerônimo ou Vulgata Latina</p><p>impulsionou outras traduções e serviu como a principal tradução e versão para</p><p>a Igreja cristã, sendo ainda hoje muito valorizada pelos cristãos católicos.</p><p>Contextualizando a necessidade de uma Bíblia na língua latina, no início</p><p>dos anos 400, Miller e Huber (2006, p. 108) apontam que depois de a</p><p>Septuaginta ter sido o principal texto das Escrituras dos primeiros cristãos,</p><p>Na época de Jerônimo, no quarto século, entretanto, o latim estava</p><p>sendo falado por todo o vasto Império Roman, e uma boa Bíblia em</p><p>latim era urgentemente necessário. Apesar de existirem algumas</p><p>traduções da Bíblia em latim, elas não eram boas e ficou a cargo do</p><p>explosivo Jerônimo produzir uma boa Bíblia em latim, conhecida como</p><p>Vulgata, por estar na língua vulgar (comum) do povo. A tradução de</p><p>Jerônimo provou o seu sucesso ao permanecer como a Bíblia oficial</p><p>da Igreja Católica por mais de 1500 anos.</p><p>Essa tradução ainda é consultada atualmente, o que demonstra quão</p><p>magnifico foi o trabalho de Jerônimo.</p><p>10</p><p>A tradução da Bíblia para o inglês que causou maior impacto, com maior</p><p>durabilidade até o presente, foi a tradução de William Tyndale. Sua tradução foi</p><p>perseguida, queimada e inclusive o levou a fogueira, porém o seu impacto foi</p><p>enorme em toda a Inglaterra. Depois que a Igreja da Inglaterra de separou da</p><p>Igreja romana, o Rei Tiago I convoca uma junta de tradutores para realizarem a</p><p>tradução King James; em torno de 80% de seu conteúdo preservou o texto de</p><p>William Tyndalle.</p><p>TEMA 5 – A BÍBLIA PARA O PORTUGUÊS</p><p>As traduções da Bíblia para a língua portuguesa apresentam uma história</p><p>curiosa, pois as primeiras páginas a serem traduzidas para essa língua latina</p><p>não fora da pena de um especialista, mas de um Rei, e ainda precede traduções</p><p>importantes, como a tradução para o inglês de João Wycliffe.</p><p>5.1 Antecedentes</p><p>A língua portuguesa fez parte do intercâmbio cultural já desde a Idade</p><p>Média, pois, tendo sua raiz no latim, foi se desenvolvendo até se tornar a</p><p>principal identidade cultural de parte dos povos ibéricos – os portugueses.</p><p>Segundo Geisler e Nix (2016, p. 248), Dom Diniz foi um bem-aventurado,</p><p>“por ter sido a primeira pessoa a traduzir para a língua portuguesa o texto bíblico,</p><p>tornando assim possível a futura grande navegação dos leitores de língua</p><p>portuguesa pelo imenso mar da Palavra de Deus”.</p><p>Segundo as informações desses autores, apesar de Dom Diniz ter</p><p>traduzido apenas os 20 primeiros capítulos do livro de Gênesis, isso teria</p><p>impulsionado os leitores da língua portuguesa por este texto. Dom João I,</p><p>sucessor de Dom Diniz, deu um passo a mais: além de produzir traduções do</p><p>próprio punho, elegeu um grupo de sacerdotes católicos que trabalharam, a partir</p><p>da Vulgata Latina, em alguns livros e partes de outros autores na sua tradução.</p><p>5.2 João Ferreira de Almeida</p><p>João Ferreira de Almeida foi um protestante convertido do catolicismo.</p><p>Ainda muito jovem, vivendo na Ásia, conheceu a mensagem evangélica, viveu</p><p>como um pregador dessa mensagem e, aos 17 anos, segundo Geisler e Nix</p><p>11</p><p>(2016), iniciou uma tradução do Novo Testamento, que foi perdida; somente em</p><p>1676 concluiu a tradução do Novo Testamento.</p><p>Vejamos um excelente resumo de como se deu e o que significou a</p><p>tradução de João Ferreira de Almeida:</p><p>Em português, houve, desde antes do concílio de Trento, várias</p><p>iniciativas de tradução da Bíblia, mas nunca chegaram a uma edição</p><p>completa em Portugal. João Ferreira de almeida foi o primeiro a traduzir</p><p>a bíblia para a língua portuguesa, e o fez a partir das línguas originais,</p><p>começando pelo Novo Testamento e usando o textus receptus.</p><p>Almeida não conseguiu traduzir todo o Antigo Testamento. Em 1691,</p><p>ano de sua morte, tinha conseguido chegar até Ez 48.12. A tradução</p><p>foi completada por Jacobus Van Den Akker em 1694. Em tom</p><p>comparativo, pode-se dizer: o que a tradução de Lutero foi para o</p><p>alemão, a tradução de João Ferreira representou para o português.</p><p>(Fernandes, 2015)</p><p>Sem dúvida, essa tradução é um grande legado e um tesouro para os</p><p>povos de língua portuguesa.</p><p>NA PRÁTICA</p><p>Na leitura do fiel, em grande parte, a Bíblia é vista como um livro que teve</p><p>a sua forma final definida ou em decorrência de um acontecimento místico ou</p><p>como resultado de arranjos políticos. Se alguém questionar como foi o caminho</p><p>de fechamento e transmissão do cânon até os nossos dias, o leitor poderá indicar</p><p>com segurança essas considerações, como uma introdução a responder a essas</p><p>e outras perguntas a respeito da história do cânon bíblico.</p><p>FINALIZANDO</p><p>A história do cânon bíblico foi vista a partir da sua definição da formação,</p><p>tanto da avaliação da lista considerada canônica como daquela considerada</p><p>apócrifa. O mesmo vale para a relação de canonicidade e os primeiros Concílios</p><p>da Igreja. Estudamos também como o cânon bíblico foi se popularizando através</p><p>das traduções e finalmente como ele chegou na língua portuguesa.</p><p>12</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BITTENCOURT, M. Introdução bíblica. Nazareno Paulista, Recife, 2006.</p><p>Disponível em: <http://www.nazarenopaulista.com.br/estudos/introducao_biblic</p><p>a.pdf>. Acesso em: 23 maio 2019.</p><p>CAIRNS, E. E. O cristianismo através dos séculos: uma história da Igreja</p><p>Cristã. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1995.</p><p>COIMBRA, H. O cânone bíblico: introdução à História da sua formação.</p><p>Disponível em: <https://digitalis-</p><p>dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/33016/1/Cadmo22_artigo13.pdf?ln=pt-pt>. Acesso</p><p>em: 23 maio 2019.</p><p>DREHER, M. N. Bíblia: suas leituras e interpretações na história do cristianismo.</p><p>2. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2013.</p><p>FERNANDES, L. A. Bíblia como Palavra de Deus. Theologia Latinoamericana,</p><p>2015. Disponível em: < http://theologicalatinoamericana.com/?p=169>. Acesso</p><p>em: 23 maio 2019.</p><p>GEISLER, N.; NIX, W. Introdução bíblica: como a Bíblia chegou</p><p>até nós. 1. ed.,</p><p>8. impressão. Tradução de Oswaldo Ramos. São Paulo: Vida, 2016.</p><p>MILLER, S. M.; HUBER, R. V. A Bíblia e sua história: o surgimento e o impacto</p><p>da Bíblia. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2006.</p>