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CENTRO UNIVERSITÁRIO FAVENI LITERATURA PORTUGUESA I GUARULHOS – SP 1. CONSTRUÇÃO DA LITERATURA PORTUGUESA Quando abordamos obras literárias, frequentemente negligenciamos os mecanismos empregados pelos escritores para construir as realidades presentes em seus textos. Cada texto contém elementos que, embora possam não ser evidentes para o leitor comum, requerem atenção ao teórico. Ao adquirir um livro, seja ele um romance, poesia ou qualquer outra forma de expressão literária, somos convidados a adentrar em um universo cultural em constante formação, muitas vezes alheio ao nosso entendimento. Portanto, a responsabilidade de analisar a produção literária em sua relação com a teoria ou a linguagem recai sobre o estudioso ou pesquisador. Quando nos referimos à Teoria Literária, estamos falando de estruturas teóricas que nos auxiliam a compreender a obra literária em seus diversos gêneros e contextos de criação. 1.1 Literatura e história A literatura produzida em Portugal, na Europa, é comumente referida como “Literatura Portuguesa”. No entanto, por diversas razões, essa literatura mantém conexões estreitas com a “Literatura Brasileira”. Não é por acaso que, durante os anos de ensino fundamental e médio, ambas as literaturas são frequentemente estudadas de maneira conjunta, resultando em um estudo simultâneo da literatura portuguesa e brasileira, como se fossem intrinsecamente ligadas, quase formando uma única entidade literária. Abordar essas literaturas de forma independente oferece aos estudantes e leitores uma perspectiva diferenciada na observação e na apreciação de ambos. Seguindo uma abordagem comumente adotada por especialistas, quando nos referimos à História em um sentido mais técnico, estamos tratando da "pesquisa, coleta de informações e narrativa" de eventos humanos. Nesse contexto, ela não pode ser equiparada à mera habilidade da escrita artística, mas sim à contagem científica da história, seja ela a história de um povo, uma nação ou de um período histórico (ABBAGNANO, 2007). Em outras palavras, pode ser definida como, “a totalidade dos modos de ser e das criações humanas no mundo, ou a totalidade da ‘vida espiritual’ ou das culturas” (ABL, 2000). Dessa forma, a história, nas palavras do autor, pode ser compreendida como “a totalidade do que é independente do homem, ou que não pode ser considerado produção ou criação sua, mas permanece aparentado com a natureza pelo seu caráter de totalidade, de mundo” (ABBAGNANO, 2007, p. 503). São essas as bases a serem observadas quando nos voltamos para os movimentos literários. A História, nesse sentido, não pode ser compreendida apenas como o acúmulo das histórias e narrativas mitológicas (ou não) de um povo. Ela sempre será mais que isso, ou seja, ela será o modo pelo qual determinado povo ou determinada comunidade leitora compreende sua história e compreende a história dos outros. Por isso, faz-se tão importante considerar a história de um período ou de determinada manifestação literária. A literatura de Portugal começou a surgir como uma expressão coletiva, também conhecida como 'literatura de um povo', por volta do século XII, coincidindo com a fundação do Estado Português, que ocorreu como resultado da expulsão árabe da Península Ibérica. Os primeiros registros dessa literatura emergente surgiram naquilo que hoje é conhecido como o Galego-Português, uma forma de português antigo que se desenvolveu a partir da integração cultural e linguística entre os povos de Portugal e da Galícia. Nas palavras de Moisés (2006), ao discorrer sobre as características históricas e geográficas dos lusitanos, essa população como que empurrada geograficamente contra o mar, toda sua a história, sua literatura e sua cultura, testemunham um sentimento de busca por um caminho que só esse povo, com sua literatura, pode representar. Esse caminho vai além de suas fronteiras e acabou encontrando não apenas outras terras, mas também o seu próprio lugar histórico e literário. Tal condicionamento geográfico, enriquecido por exclusivas e marcantes influências étnicas e culturais (árabes, germânicas, francesas, inglesas, etc.), havia de gerar, como gerou, uma literatura com características próprias e permanentes […] Diante da angústia geográfica, o escritor português opta pela fuga ou pelo apelo à terra, matriz de todas as inquietudes e confidente de todas as dores, centro de inspiração e nutridora de sonhos e esperanças. A fuga dá-se para o mar, o desconhecido, fonte de riquezas algumas vezes, de males incríveis e de emoção quase sempre; ou, transcedendo a estreiteza do solo físico, para o plano mítico, à procura de visualizar numa dimensão universal e perene a inquietação particular e egocêntrica (MOISÉS, 2006, p. 13). Dessa forma, a Literatura Portuguesa, como nós a conhecemos, é resultante das grandes transformações ocorridas na história daquele povo e daquela nação. Essas modificações acabaram por organizar a essa literatura em períodos de produção e de manifestação literárias, que são conhecidos como: Era Medieval, Era Clásica, Era Romântica e Era Moderna. Essas organizações são, ao mesmo tempo, históricas e didáticas; históricas porque respeitam uma cronologia estabelecida historicamente e didáticas porque têm como princípio, estabelecer um modo de compreensão que seja acessível. Toda literatura, seja regional ou nacional, tem uma história que pode ser contada por seus participantes ou por aqueles que são apreciadores dessa cultura. Como afirma Brait (2010), a literatura é sempre o lugar de trocas e diálogos, a partir dos quais, se podem criar realidades e entender mundos e construções culturais e históricas. É nesse sentido, que pode-se afirmar que toda a literatura acaba se tornando o reflexo de um povo, retratando a história, costumes e crenças desse povo e, esse princípio, se aplica de forma direta à Literatura Portuguesa. Muitas vezes se diz que a “literariedade" reside, sobretudo, na organização da linguagem que torna a literatura distinguível da linguagem usada para outros fins. Literatura é linguagem que "coloca em primeiro plano" a própria linguagem: torna-a estranha, atira-a em você - "Veja! Sou a linguagem!" - Assim você não pode se esquecer de que está lidando com a linguagem configurada de modos estranhos. Em particular, a poesia organiza o plano sonoro da linguagem para torná-Io algo com que temos de ajustar contas (CULLER, 1999, p. 35). Sabe-se que a definição do que constitui a Literatura ainda é objeto de indefinição, entre os teóricos existem diversas e variadas perspectivas sobre o assunto. Em sua introdução aos estudos literários e no âmbito das várias perspectivas de compreensão do significado da literatura, Eagleton (2006) admite que muitas são as tentativas para definir a expressão literária. Em suas palavras “é possível, por exemplo, defini-la como a escrita ‘imaginativa’, no sentido de ficção - escrita esta que não é literalmente verídica”. Ainda segundo o autor, “se refletirmos, ainda que brevemente, sobre aquilo que comumente se considera literatura, veremos que tal definição não procede” (EAGLETON, 2006, p. 2) e a razão é que, segundo o estudioso e crítico literário, esses modos de compreensão tendem a refletir sobre literatura como um fazer histórico. Portanto, embora seja necessário ter, pelo menos, um conhecimento introdutório de História para se estudar Literatura, não se pode afirmar que a literatura seja um tipo de história. Tanto a Literatura quanto a História, enquanto disciplinas, têm objetos de pesquisa distintos, conferindo a esses campos de investigação significados diversos. É possível, portanto, dizer que “a literatura não era uma pseudo-religião, ou psicologia, ou sociologia, mas uma organização particular da linguagem” (EAGLETON, 2006, p. 4). Se tomarmos essa definiçãocomo correta, poderíamos dizer que a Literatura Portuguesa, com suas ligações históricas e geográficas, pode ser considerada como um modo particular de organização da linguagem para a construção de compreensões de sua própria realidade e da realidade de seu povo. 1.2 Uma cronologia histórica Não há como negar que a literatura é uma das práticas mais antigas da sociedade, e que cada sociedade organiza sua existência no mundo de maneira singular. A forma como essas experiências (ou histórias) são narradas constitui a base do que podemos chamar de literatura nacional ou regional. Essa literatura possui características distintas, bem definidas e representadas por períodos históricos que auxiliam na compreensão dessas manifestações literárias. Isso inclui, naturalmente, a Literatura Portuguesa e suas características literárias e contextos espaço-temporais (FLACH; GONÇALVES, 2018). De acordo com Moisés (2006), ao organizar a Literatura Portuguesa em ordem cronológica (temporal), utilizamos 'pontos de referência' na tentativa de identificar indícios de inovações que possam servir como base para uma compreensão mais ampla daquela realidade histórico-literária. Essa delimitação artificial desempenha, portanto, um papel didático, promovendo clareza e organização. No entanto, tais elementos não devem nos conduzir à desordem no estudo e na compreensão dos eventos históricos e literários. Assim, podemos observar a 'Época Medieval', a 'Época Clássica' e a 'Época Moderna', considerando suas características distintas, bem como suas obras e autores. Ao mencionarmos épocas, estamos nos apropriando de um conceito muito comum para os especialistas que estudam a construção temporal e suas características em determinados círculos temporais. Como indicado por Abbagnano (2007, p. 503), “a noção da História como ciclo, está ligada à de ciclo do mundo, bastante difundida na Antiguidade grega. Para os estoicos [como exemplo] a repetição do ciclo cósmico incluía a repetição da História humana no seu conjunto”. Assim, quando analisamos a história como período, estamos juntando fatos para compor um retrato de um período, de um círculo temporal. ➢ Época Medieval O período conhecido como Época Medieval da Literatura Portuguesa inicia-se no século XII com a publicação de um texto que é considerado um marco para o início da literatura de Língua Portuguesa. O referido texto, trata-se da “Canção Ribeirinha” (também chamada historicamente de Canção de Guarvaia), escrita por Paio Soares de Taiverós. Esse período histórico e literário também pode ser dividido em dois outros momentos: O Trovadorismo (1189 – 1434) que marca as variadas manifestações na literatura, tanto na poesia, quanto na prosa e no teatro; e o Humanismo (1434 – 1527) que se caracteriza como um período de transição de uma cultura dita medieval para uma cultura considerada clássica. É nesse último período que nasce o que seria chamada na história da literatura de “Poesia palaciana”. Acompanhe, a seguir, na Figura 1, uma mostra resumida desse período histórico-literário. Figura 1 – Autores e obras da Época medieval Fonte: shre.ink/UHDk. ➢ Época Clássica Também conhecida como Era Clássica, esse período abrange o tempo que vai do século XVI até meados do século XVIII. Como ocorreu em épocas anteriores, essa era foi marcada por produções literárias, tanto na poesia quanto na prosa, bem como no teatro. A fase Clássica da Literatura Portuguesa está dividida, didaticamente, em três períodos: O Classicismo (1527 – 1580) que tem como marco inicial a chegada de Sá de Miranda às terras lusitanas. O Barroco, também chamado de Seiscentismo (1580 – 1756), é fortemente marcado por questões religiosos e pela escrita eclesial do Pe. Antônio Vieira. O Arcadismo (ou Setecentismo) estende-se de 1756 até 1825, e teve como marco inicial a inauguração da chamada Arcádia em Portugal. As Arcádias eram espaços que serviam para reunião de artistas e intelectuais que se empenhavam em construir uma nova forma de arte em Portugal, começando pela capital Lisboa. A Figura 2 elenca as principais informações desse período, veja: Figura 2 – Autores e obras da Época clássica Fonte: shre.ink/UHx4. ➢ Época Moderna A Era Moderna compreende um período relativamente longo que engloba em sua composição variadas manifestações literárias. Iniciou por volta de 1825 e continua até a contemporaneidade (a época atual). É importante notar que, diferentemente do que ocorreu em outros períodos, este não pode ser considerado um ponto final na história, já que a literatura moderna continua a se desenvolver até os dias atuais, embora alguns críticos possam apontar outro período para o momento histórico que vivemos. A Época Moderna abarca o Romantismo (1825 – 1865), período de grandes transformações nacionais e grandes mudanças filosóficas. O Realismo (1865 – 1890) com sua “Questão coimbrã”, uma disputa entre intelectuais estudantes de universidades em Portugal. O Naturalismo (1875 – 1890), caracteriza-se pela negação do romântico e a busca de uma visão mais realista da existência, com destaque especial para as características dos instintos naturais do homem. O Parnasianismo (1870 – 1890) foi um movimento que se manifestou principalmente na poesia e tinha como preocupação uma estética refinada e o cuidado meticuloso na construção da obra literária. O Simbolismo (1890 – 1915), que teve em Eugênio de Castro e sua obra um marco para sua produção e existência, tinha como base ideológica a crítica ao materialismo e ao racionalismo. Veja, na Figura 3, os principais aspectos da Era Moderna: Figura 3 – Autores e obras da Época moderna Fonte: shre.ink/UHZl. Nas palavras de Moisés (2006), assim como a maioria das literaturas nacionais, a Literatura Portuguesa também possui um marco espaço-temporal e literário para a sua inclusão no cenário literário mundial. Esse marco ocorreu quando o trovador Paio Soares de Taveirós compôs uma cantiga que, não por acaso, ficou conhecida como 'Cantiga de garvaia'. A 'garvaia' era uma expressão que designava um luxuoso vestido que as senhoras usavam na corte, portanto, uma vestimenta de luxo. Essa primeira obra literária revelava uma complexidade musical e poética que apontava para diversos vícios da sociedade portuguesa. Por fim, como afirmado por Bordenave (1997), toda a comunicação tem um ou mais objetivos, e com a literatura não é diferente. Sempre que se observa uma manifestação literária, torna-se crucial reconhecer que nela existe uma intencionalidade que pode ou não respeitar características histórica e/ou temporais. Essas características devem ser observadas pelo estudioso da literatura quanto pelo leitor. Afinal, “a teoria literária tem em suas bases um impulso democrático” (EAGLETON, 2006, p. 9), uma relação com todos. Como veremos posteriormente, mesmo naquelas produções literárias com maior ou menor participação popular, a Literatura, em si mesma, é sempre um espaço de encontros, de diversas visões de mundo e de diálogo entre diferentes perspectivas. No caso da Literatura Portuguesa, essa dinâmica não é diferente, já que sua origem reside precisamente na tentativa de se dissociar de outras culturas para construir uma cultura e literatura próprias, refletindo as características, crenças e estética do povo português. 2. UMA LITERATURA PORTUGUESA MEDIEVAL Como tivemos a oportunidade de observar, não é possível estudar a Literatura de um período histórico específico ou as manifestações literárias de uma determinada comunidade literária sem antes investigar a História, que fornece o suporte para os contextos que moldaram aquele momento temporal. A História é, portanto, uma ferramenta extremamente importante para a compreensão dos períodos literários em qualquer Literatura, seja ela Portuguesa, Francesa, Alemã ou de qualquer outraorigem. Com base nesse princípio, vamos explorar a literatura medieval portuguesa, examinando seus autores, contextos e elementos ideológicos que influenciaram a Literatura produzida nesse período. 2.1 A idade média É comum a ideia de que a Idade Média (aproximadamente dos Séculos V ao XV) seja considerada o período mais obscuro da história da humanidade. No entanto, entender o que é a Idade Média e como ela pode ser interpretada é fundamental para compreender que tipo de literatura foi produzida nesse período, especialmente na área política e geográfica que estamos estudando, ou seja, o país Portugal e seu povo. Segundo Eagleton (2006), a queda do Império Romano no Ocidente deu início ao período da história humana conhecido como Idade Média, que se estende até meados da época do Renascimento. No entanto, é importante lembrar, que o termo “Idade Média” foi cunhado e amplamente utilizado em um período posterior ao século XV; portanto, não foram os homem dos séculos V a XV que inventaram esse termo, mas sim aqueles que viveram em um período posterior. Inicialmente, o termo “Idade Média”, tinha conotações pejorativas, sugerindo que as pessoas desse período não haviam alcançado a maturidade intelectual de seus predecessores. Com o tempo, no entanto, o termo passou a ser usado para identificar um período específico da história humana. Ainda segundo o referido teórico, um dos elementos característicos da Idade Média é a divisão de poderes políticos, sociais e econômicos em grupos estritamente localizados. Esses grupos formavam uma espécie de hierarquia sobre a qual a sociedade estava organizada. As relações sociopolíticas eram restritas e raramente sofriam alternância de poderes, exceto entre os membros desses mesmos grupos. A divisão desses grupos ocorria da seguinte forma: • Nobreza: composta pelos nobres, os donos das terras. A riqueza dessa classe os colocava no papel de guerreiros e, portanto, defensores da cristandade. • Clero: formado pelo corpo da Igreja Católica. Eles desempenhavam funções religiosas e consideravam-se os interlocutores de Deus na terra. Eram donos de muitas propriedades e riquezas. • Camponeses: compunham a maioria da população e sobreviviam do seu próprio trabalho. Tinham obrigações a cumprir e pagavam muitos impostos para a nobreza e o clero. Logo, a nobreza detinha o poder político; o clero exercia o poder religioso e os camponeses eram aqueles que trabalhavam na terra para que os outros dois grupos pudessem manter seu status como detentores de poder, seja ele temporal ou, no caso do Clero, atemporal. Nesse contexto, algumas características da Idade Média devem ser ressaltadas. São elas: • Inicia com a queda do Império Romano no Ocidente; • Ruralização da sociedade; • Feudalismo; • Economia de subsistência, baseada na agricultura; • Poder descentralizado: concentrado nas mãos dos senhores de cada feudo; • Sociedade estamental: servos, nobres e clero; • Exploração do trabalho servil; • Relação de suserania e vassalagem; • Consolidação do poder da Igreja Católica; • Declínio devido ao retorno das relações comerciais e da vida urbana; • Marcada por guerras, como as Cruzadas e a Guerra dos Cem Anos. Certamente, é importante ressaltar que, embora haja variações nas interpretações dessas características dependendo do autor ou estudioso, esses traços geralmente são considerados como os principais que definem o período medieval, também conhecido como Idade Média. Essas características se refletem em diversas manifestações sociais e históricas, incluindo a literatura. Isso ocorre porque a literatura, como qualquer forma de expressão social e artística, é profundamente influenciada pelo contexto histórico e social em que surge, e contribui para a forma como percebemos uma determinada era da história. Veja, por exemplo, na figura abaixo a coroação de um rei medieval (Figura 1). Figura 1 - Momento da coroação de um rei medieval, Rudolf von Ems Fonte: shre.ink/U6gK. O período da Idade Média está cronologicamente dividido em duas parte: A Alta Idade Média e a Baixa Idade Média. Como nos ensina o filósofo Abbagnano, “em sentido próprio, a filosofia cristã da Idade Média. Nos primeiros séculos da Idade Média, era chamado de scholasticus [palavra do latim] o professor de artes liberais e, depois, o docente de filosofia ou teologia que lecionava primeiramente na escola do convento ou da catedral, depois na Universidade” (ABBAGNANO, 2007, p. 344). Temos, portanto, um período com vasta abrangência temporal e muitas e variadas manifestações, seja de ordem artística, filosófica ou cultural. 2.2 Literatura Portuguesa no período medieval A Literatura Portuguesa no período da Idade Média pode ser organizada em dois momentos distintos: o primeiro momento chamado de Trovadorismo e o segundo momento chamado de Humanismo. No Trovadorismo, temos como manifestação literária principal as 'cantigas', e o Humanismo é marcado por produções teatrais que podem ser consideradas clássicas na literatura do povo português. Humanismo O Humanismo foi um movimento de transição entre a Idade Média e a Idade Moderna, representando também uma passagem do Trovadorismo para o Renascimento. Essa última parte é crucial, uma vez que o Humanismo se situa dentro da Idade Média, porém, distingue-se dela devido a aspirações e discursos que buscavam promover mudanças. Como sugere o próprio nome, esse período histórico e literário é caracterizado por ideais filosóficos, morais e estéticos que colocam o ser humano no centro de todas as coisas. Na chamada “Baixa Idade Média” (FLACH; GONÇALVES, 2018) na Europa Ocidental, ocorreram profundas mudanças sociais e econômicas que contribuíram para o surgimento de novas formas de pensamento, e consequentemente, para o desenvolvimento de novos discursos a respeito da realidade. Como é típico de mudanças significativas na história, essas transformações no pensamento não ocorreram de forma súbita, mas consolidaram-se ao longo dos séculos anteriores até concretizarem-se em uma nova mentalidade e uma nova visão do homem e o seu valor na sociedade. Portanto, essas novas formas de pensamento influenciaram não apenas a economia e a organização do poder, mas também a produção artística. De acordo com Culler (1999), apesar de sua importância para a história da humanidade, no contexto de sua relevância literária, o Humanismo é frequentemente menos estudado em comparação com o movimento histórico subsequente que iremos explorar, o Trovadorismo. Não se pode determirar, em sentido simples, o motivo do estudo de um movimento literário em detrimento de outro; mas podemos observar essa diferenciação entre a atenção que se dá a um momimento e ao outro. Trovadorismo O Trovadorismo é um gênero literário ou movimento literário que floresceu entre os séculos XII e XIV, durante a Idade Média, particularmente no período feudal. Como o próprio nome indica, os poetas dessa época eram chamados de trovadores, ou seja, artistas que criavam e entoavam seus poemas, frequentemente acompanhados de instrumentos de corda (como mostra a Figura 2, abaixo). É desse contexto musical que surge o termo "trovadorismo". Enquanto os trovadores eram os praticantes da música, o trovadorismo abrangeu o movimento cultural e histórico mais amplo. Figura 2 - Trovadores medievais Fonte: shre.ink/U1kf. Nas palavras de Moisés (1990), é possível identificar o início de uma primeira fase na Literatura Portuguesa, que remonta a 1198, quando o trovador Paio Soares de Taveirós compôs uma "cantiga" que misturava elementos de amor e escárnio, dedicada à senhora Maria Pais Ribeiro, conhecida como "A Ribeirinha". De acordo com o estudioso, ao longo de duzentos anos de atividade literária, foram desenvolvidas práticas poéticas, narrativas de cavalaria e obras de caráter linguístico. Para uma compreensãomais precisa deste período, vale a pena examinar algumas das características que definem o contexto trovadoresco: • Vínculo entre poesia e música; • Tratavam de amizade, amor e veneração ao ser amado; • Presença do estilo de vida da aristocracia feudal nas trovas produzidas; • Críticas diretas e indiretas. No Trovadorismo, houve uma conexão significativa entre a poesia e a música, conhecida como "cancioneiro" (MOISÉS, 1990). Essa expressão englobava toda a produção literária presente nas cantigas populares desse período histórico. Quando afirmamos que nos cânticos trovadorescos havia espaço tanto para gêneros líricos quanto satíricos, estamos indicando que ambos coexistiam no cancioneiro trovadoresco. Enquanto as "cantigas de amigo" e as "cantigas de amor" refletiam um olhar contemplativo e amoroso em relação ao objeto de afeto do trovador, as "cantigas de escárnio" ou "maldizer" apresentavam um humor ácido que carregava críticas à sociedade da época. Importante notar que essas críticas eram frequentemente expressas por meio de canções executadas em locais públicos. Quando falamos em cantigas, estamos nos referindo a um gênero textual/discursivo que ficou comum e popularmente conhecido durante o período comumente chamado de Idade Média. As cantigas de amor eram uma forma proeminente de poesia lírica na Idade Média, especialmente na Península Ibérica. Elas se destacam por suas características distintivas: 1. Tema do Amor Cortês: As cantigas de amor frequentemente retratavam o amor idealizado e cortês, com o amante expressando devoção à dama amada. 2. Expressão de Sentimento: Elas exploraram os sentimentos do amante, como a saudade, a devoção e a veneração pela dama, muitas vezes de maneira subjetiva e intensa. 3. Uso de Metáforas e Simbolismo: Utilizamos metáforas e simbolismo para descrever a beleza da dama e a natureza do amor, muitas vezes associando a dama a elementos naturais e divinos. 4. Formas Fixas e Estrutura Métrica: Assim como em outras obras do trovadorismo, as cantigas de amor eram escritas em formas fixas com estruturas e especificações específicas. 5. Foco na Dama: A dama era o centro da atenção, muitas vezes vista como distante e inatingível, o que reforçava a idealização do amor. 6. Musicalidade: Muitas dessas cantigas foram projetadas para serem cantadas e acompanhadas por música, o que enfatizava a conexão entre a poesia e a música. As cantigas de amor desempenharam um papel importante na cultura literária medieval, refletindo as convenções e valores da época, como o amor cortês e a devoção à figura da dama amada. Veja abaixo um exemplo de uma 'cantiga de amigo' composta por D. Dinis (1279-1325), o sexto rei de Portugal, que introduziu várias mudanças no uso da língua em seu país. Ele é conhecido na história como o Rei Trovador devido às inúmeras canções que compôs e que eram entoadas como cantigas no vasto cancioneiro da língua portuguesa. Cantiga de amigo Se sabedes novas do meu amigo, aquel que mentiu do que pôs comigo! Ai Deus, e u é? Se sabedes novas do meu amado, aquel que mentiu do que mi á jurado! Ai Deus, e u é? (in MOISÉS, 1990) É importante notarmos o modo como a canção é construída e como o 'eu lírico' não aparece como um amante, mas sim como um amigo a quem se deve respeito e admiração. Devemos destacar também a linguagem usada na composição do poema, que é em português arcaico e, portanto, difere do português que falamos atualmente. A seguir, apresentaremos um exemplo de uma cantiga de amor composta por Afonso Fernandes Cantiga de amor Senhora minha, desde que vos vi, lutei para ocultar esta paixão que me tomou o coração; mas não o posso mais e decidi que saibam todos o meu grande amor, a tristeza que tenho, a imensa dor que sofro desde o dia em que vos vi. Quando souberem que por vós sofri tamanha pena, pesa-me, senhora, que por vossa crueza padeci, eu que sempre vos quis mais que ninguém, e nunca me quisestes fazer bem, nem ao menos saber o que eu sofri. E quando eu vir, senhora, que o pesar que me causais me vai levar a morte, direi, chorando minha triste sorte: “Senhor, por que me vão assim matar?” E, vendo-me tão triste e sem prazer, todos, senhora, irão compreender que só de vós me vem este pesar. Já que assim é, eu venho vós rogar que queiras pelo menos consentir que passe a minha vida a vos servir, e que possa dizer em meu cantar que está mulher, que em seu poder me tem, sois vós, senhora minha, vós, meu bem; graça maior não ousarei rogar. (in MOISÉS, 1990) Nas cantigas existem algumas características que precisamos observar para compreendermos as dinâmicas que movimentam não apenas o período histórico, mas também os enunciados produzidos naquele momento histórico. As cantigas de escárnio e maldizer eram uma forma de poesia medieval na Península Ibérica que se destacava por suas características satíricas e críticas. Elas eram caracterizadas por: 1. Sarcasmo e Ironia: Utilizavam sarcasmo e ironia para criticar pessoas, costumes ou comportamentos, muitas vezes de maneira disfarçada, com duplo sentido. 2. Expressão Indireta: Evitavam ataques diretos, usando metáforas e alusões para comunicar suas críticas. 3. Humor Mordaz: Apresenta um tom humorístico, por vezes mordaz, zombando de alvos específicos. 4. Desrespeito às Normas Sociais: Desafiavam as normas sociais e frequentemente brincavam com tabus, como temas sexuais ou religiosos. 5. Contraste com as Cantigas de Amor: Distinguiam-se das cantigas de amor, que idealizavam o amor cortês, ao se concentrarem em ridicularizar e criticar, muitas vezes de forma anônima. As cantigas de escárnio e maldizer eram uma expressão literária que oferecia uma válvula de escape para a sátira e a crítica social na época medieval, através de uma linguagem muitas vezes cifrada e astuta. As cantigas de escárnio geralmente apresentavam uma crítica indireta e irônica. Portanto, podemos dizer que esse gênero literário se caracteriza pelo uso de figuras de linguagem para construir os sentidos pretendidos pelos autores das 'cantigas' de escárnio e 'maldizer'. Essas críticas misturam poesia com elementos sociais passíveis de crítica. Abaixo, você encontrará um exemplo de uma cantiga de escárnio de João Garcia de Guilhade. Cantiga de escárnio Ai dona fea! Foste-vos queixar Que vos nunca louv'en meu trobar Mais ora quero fazer un cantar En que vos loarei toda via; E vedes como vos quero loar: Dona fea, velha e sandia! Ai dona fea! Se Deus mi pardon! E pois havedes tan gran coraçon Que vos eu loe en esta razon, Vos quero já loar toda via; E vedes qual será a loaçon: Dona fea, velha e sandia! Dona fea, nunca vos eu loei En meu trobar, pero muito trobei; Mais ora já en bom cantar farei En que vos loarei toda via; E direi-vos como vos loarei: Dona fea, e velha sandia! (in MOISÉS, 1990) O trovadorismo foi um movimento literário e cultural da Idade Média que surgiu na Europa e na Península Ibérica. Caracterizou-se pela produção de poesia lírica, com temáticas amorosas, musicais e corteses, frequentemente escrita em formas fixas, como as "cantigas de amigo" e as "cantigas de amor". Foi marcado pela influência da poesia provençal e pela idealização do amor e da figura do trovador. O trovadorismo foi um movimento literário que floresceu principalmente entre os séculos XII e XIV na Europa, com destaque para a Península Ibérica. O movimento e a produção trovadora, marcou e marca a nossa literatura com suas tendências e modelos. 3. UMA LITERATURA PORTUGUESA NO SÉCULO XV Uma das características mais marcantes do século XV é a expansão marítima. No entanto, antes de examinarmos a expansão propriamente dita, é fundamental considerar os antecedentes históricos que caracterizaram esse período na historiografia portuguesa. No final da IdadeMédia, a Europa vivenciou um período de grandes desafios em várias frentes que desestabilizaram toda a região. No entanto, as maiores dificuldades se manifestaram sobretudo no âmbito econômico. Toda a Europa enfrentava graves necessidades financeiras, o que levou à busca de alternativas para enfrentar esses desafios e problemas. Vamos, portanto, examinar os eventos que cercaram os tumultuados séculos posteriores ao século XV. 3.1 Final da Idade Média e o século XV Comumente associamos o século XV à expansão marítima, quando ocorreram grandes descobertas continentais. Também é visto como o século que marca o estabelecimento do Estado português como uma nação desenvolvida, devido às tecnologias desenvolvidas por esse povo na construção de uma nação. No entanto, é importante considerar alguns pressupostos que devem ser observados: Com o passar das décadas, toda a instabilidade vivida na Europa do século XIV passou a ser respondida por um novo período de crescimento e expansão. As cidades voltaram a crescer, o comércio se rearticulava e os campos voltavam a produzir satisfatoriamente. Apesar da reação, velhos e novos problemas indicavam que a ordem feudal não oferecia condições para que esse crescimento tivesse um fôlego maior. Mesmo superando a crise, havia outros obstáculos a serem enfrentados (SOUSA, 2010, documento on- line). Além do que foi apresentado pelo referido autor, podemos destacar também as tensões entre aqueles que moravam no campo e os residentes nas cidades. Os problemas de abastecimento também eram comuns naquele período da história, assim como as questões envolvendo a propriedade privada e a autoridade, tanto sob a perspectiva da Igreja quanto dos Reinos sob perspectiva humana. No entanto, existem outras características que precisam ser ressaltadas nesse panorama histórico, conforme apontado por Rodrigues e Kamita (2018): • 1415 – Período inicial das conquistas marítimas portuguesas; • 1417 – Divisão da Igreja Católica Oriental e Ocidental; • 1417 - John Huss é condenado a morte na fogueira por suas ideias; • 1438 - Fundação do que ficou conhecido como Império Inca; • Entre 1440 e 1450: Gutenberg inventa a imprensa e revoluciona a impressão; • 1450 - Construção da cidade inca de Machu Picchu, marco para a história; • 1450 – Protestos populares contra o governo do Rei Henrique VI da Inglaterra; • 1453 - Queda de Constantinopla, fim da Idade Média e início da Idade Moderna; • 1453 - Fim da Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra; • 1455 a 1485 - Guerra das Duas Rosas na Inglaterra; • 1478 - Fundação da Inquisição Espanhola; • 1488 - Bartolomeu Dias passa pelo Cabo da Boa Esperança; • 1490 a 1560 – Esplendor do Renascimento; • 1492 – Cristóvão Colombo descobre a América; • 1492 - Expulsão do exército árabe da Península Ibérica; • 1492 – Expulsão dos judeus da Espanha; • 1493 - Papa Alexandre VI decreta a Bula Inter Coetera; • 1494 - Tratado de Tordesilhas e divisão de terras entre Portugal e Espanha; • 1497 - Giovanni Caboto e a primeira expedição marítima inglesa; • 1498 - Vasco da Gama chega à Calicute (Índias); • 1500 - Chegada das caravelas portuguesas ao Brasil. Como pode-se observar, o fim da Idade Média refere-se ao período de transição que marcou o encerramento dessa era histórica e o início da Renascença. Esse processo de transição ocorreu aproximadamente entre o final do século XV e o início do século XVI na Europa. Contudo, é preciso ressaltar que o fim da Idade Média não ocorreu de forma abrupta, mas sim como uma série de transformações políticas, sociais, culturais e religiosas que moldaram o início da Idade Moderna na Europa. Esse período de transição foi fundamental para a evolução da sociedade e do pensamento europeu. Em resumo, pode-se afirmar que diante desses desafios, a economia europeia começou a explorar outras possibilidades em busca de novos mercados, com o objetivo de aumentar o abastecimento de alimentos, reduzir os preços das mercadorias e encontrar fontes de metais preciosos, como ouro, prata e pedras preciosas. Foi assim que a era das Grandes Navegações ganhou ímpeto, permitindo a exploração de mares e terras previamente desconhecidos. Aproveitando todo o conhecimento disponível na época, os europeus superaram as antigas barreiras, especialmente as marítimas, que limitavam sua visão de mundo. 3.2 Prosa literária portuguesa A Literatura Portuguesa, que teve seu início predominantemente na poesia, passou por grandes mudanças devido às Grandes Navegações. Essa literatura começou a adotar novos aspectos estético-formais, e a partir dos séculos XIV e XV, surgiram os primeiros indícios da prosa literária. Conforme indicado pelo teórico Terry Eagleton (2006, p. 7), “até mesmo o texto mais ‘prosaico’ do século XV pode parecer ‘poético’ hoje devido ao seu arcaísmo. Se deparássemos com um fragmento escrito isolado de alguma civilização há muito desaparecida, não poderíamos dizer se se tratava ou não de ‘poesia’ apenas pelo exame que faríamos dele”. Nesse sentido, é correto afirmar que a literatura em prosa do século XV é caracterizada, embora seja em prosa, por um estilo poético que reflete a herança de séculos anteriores, nos quais a produção literária da sociedade estava intimamente ligada à poesia. Neste período, surgem as chamadas "Novelas de Cavalaria", que retratavam a mitologia nacional na figura de um herói idealizado que se torna um símbolo da nação. Além disso, há outras características marcantes desse período histórico e da produção literária da época: • Temas religiosos que poderiam ser profanos, mitológicos ou históricos; • Os personagens frequentemente eram nobres e donzelas, ambos sendo retratados como o herói e a mocinha; • Contexto histórico medieval presente nas narrativas; • As histórias eram registradas em documentos, muitas vezes na forma de versos, proporcionando um retrato da população daquele período; • Temas místicos e sobrenaturais eram recorrentes nas narrativas; • Os ideais pessoais dos cavaleiros eram valorizados e explorados nas histórias. As "Novelas de Cavalaria" são uma forma literária distinta que surgiu no final da Idade Média e início do Renascimento. Diferentemente das cantigas, essas novelas são narrativas épicas escritas em prosa, não em verso. São narrativas típicas do período medieval divididas em capítulos, com a principal característica de relatar aventuras fantásticas envolvendo destemidos guerreiros e honrados cavaleiros que superam desafios. Segundo Moisés (2006, p. 14), o século XV foi "indiscutivelmente a grande época da cavalaria portuguesa, pelo menos devido à nacionalização do gênero e à publicação de várias novelas contendo o nome do autor e elementos da realidade física e histórica de Portugal." Ainda segundo Moisés (2006), a novela de cavalaria é um gênero literário que se destacou na Idade Média, especialmente durante os séculos XI ao XV, e que teve focos narrativos centrados em feitos heroicos de cavaleiros andantes que acabaram por se tornar modelos de masculinidade e destreza. Essas novelas caracterizem-se por alguns elementos básicos. São eles: 1. Protagonistas cavalheirescos: Os heróis das novelas de cavalaria eram cavaleiros nobres, como o Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda, que se destacavam por sua coragem, honra e devoção a um código de conduta. 2. Aventuras e conflitos épicos: As histórias frequentemente envolvem desafios épicos, como combates com criaturas míticas, resgates de donzelas em perigo e busca por objetos mágicos. 3. Amor cortês: Além das fachadas de combate, muitas novelas de cavalaria exploravam temas de amor cortês, com o cavalheiro dedicando sua devoção a uma dama, muitas vezes inatingível. 4. Código de honra e ética: Os cavaleiros eram governados por um código de honra que enfatizava valores como a lealdade, a coragem, a generosidadee a justiça. 5. Influência religiosa e mitológica: Algumas novelas incorporaram elementos religiosos, como a busca pelo Santo Graal, enquanto outras exploraram mitos e lendas. Essas narrativas tiveram um impacto profundo na literatura medieval europeia, influenciando autores e moldando a visão de cavalaria e heroísmo por gerações. Essas narrativas também acabaram por construir uma espécie de modelo ideal não apenas de homens, mas também de modelos de narrativas. Durante a Idade Média, especialmente no final desse período, várias nações adotaram as novelas de cavalaria como um gênero predominante para narrar as histórias de seu povo em relação a outras nações e ao mundo. Exemplos de países que produziram extensamente novelas de cavalaria incluem França, Inglaterra, Espanha, Itália e Portugal. Uma das novelas de cavalaria mais famosas é "Dom Quixote de La Mancha", escrita por Miguel de Cervantes, que, embora seja uma produção mais moderna, satiriza as novelas escritas no século XV. Muitas novelas de cavalaria notáveis retrataram a busca pelo Santo Graal na Idade Média e as lendas do Rei Arthur, que representam importantes ciclos literários. Os principais ciclos das novelas de cavalaria podem ser resumidos da seguinte maneira: • Ciclo Bretão ou Arthuriano: narra os feitos do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda; • Ciclo Carolíngio ou Francês: refere-se ao Rei Carlos Magno e aos Doze Pares de Cavaleiros da França; • Ciclo Clássico: narra as façanhas de heróis da Antiguidade grega e romana. As novelas foram, posteriormente, divididas em quatro ciclos, cada um deles com suas características e personagens principais. Dentre esses ciclos o mais popular foi o Ciclo Carolíngio, que foi inspirado na literatura francesa de história de cavaleiros. Esse ciclo teve como seu personagem principal Carlos Magno, que figurava como o herói das histórias contadas e como principal personagem de uma série de eventos de aventuras, mistérios e incertezas heroicas. Algumas das novelas que tinham Magno como protagonista eram: • Canção de Rolando: narra a derrota de Rolando, sobrinho do rei Carlos Magno, para os muçulmanos, na passagem dos Pirineus. • Canção de Turpin: narra a proteção de Carlos Magno ao Santuário de São Tiago de Compostela a fim de impedir a invasão moura; • Maynete: narra o refúgio de Carlos Magno em Toledo, território mouro, disfarçado de Maynete. Envolve-se com Galiana, filha do rei. Os rivais tentam matá-lo, mas ele vence a batalha. Em resumo, pode-se afirmar que as novelas de cavalaria foram um gênero literário popular na Idade Média, especialmente durante os séculos XII ao XVI, que se originaram na Europa e tiveram um grande impacto na literatura e cultura da época. Essas narrativas do gênero novela (como pode ser visto na Figura 1) eram confeccionadas como um produto literário cuja circulação era muito popular entre a população letrada daquele período histórico. Figura 1 - Uma Novela de Cavalaria Fonte: shre.ink/UQNC. Quando falamos sobre manifestação literária, não nos referimos a uma única forma ou tipo de texto, mas sim a diversas manifestações literárias que ocorrem simultaneamente em um período histórico ou em uma região geográfica específica. O século XV não é uma exceção a essa diversidade. Além das Novelas de Cavalaria que foram uma característica do Trovadorismo, houve outra manifestação literária conhecida como "Crônicas". As crônicas se destacam por narrar eventos históricos de forma mais concisa (FLACH; GONÇALVES, 2018). A manifestação literária conhecida como "Cronicões" ou "Crônicas" caracterizava-se pela narrativa de eventos históricos importantes organizados cronologicamente, intercalados com elementos fictícios. Essas obras tinham uma natureza não religiosa e tendiam a explorar temas de heroísmo e elementos sobrenaturais. Algumas das produções mais significativas nesse estilo, associadas ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, incluem as "Crônicas Breves e Memórias Avulsas", a "Crônica Breve do Arquivo Nacional", a "Crônica da Conquista do Algarve" e a "Crônica da Fundação do Mosteiro de São Vicente de Lisboa". Segundo Moisés (1990), as crônicas do início do Classicismo eram caracterizadas por seis principais características. • O cronista concentra sua atenção na figura do Rei. • O cronista faz comparecer o povo ao palco do acontecimento. • O cronista descreve as cenas como se ele as estivesse vendo. • O cronista demonstra uma compreensão das características humanas do seu personagem. • O cronista conta sua história com vigor e estilo marcante. • O cronista molda os fatos para se ater à verdade histórica. Segundo Bordenave (1997), as cronições inauguram um novo período na comunicação eficaz, ao contar relatos sobre pessoas ou fatos que aconteceram em seu tempo. Elas inauguram o gênero da crônica, que é tão popular nos dias de hoje. A diferença é que nas cronições temos narrativas longas, enquanto as crônicas atuais são conhecidas pela brevidade. Essas crônicas tinham o poder de transformar as dores que poderiam ser de uma única pessoa, no sofrimento de toda uma nação. Da mesma forma, a alegria que pertencia a um indivíduo se tornava um sentimento compartilhado por todas as pessoas daquela cultura, no caso, a cultura portuguesa. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BORDENAVE, Juan D. O que é comunicação. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1997. EAGLETON, Terry. Teoria da literatura. São Paulo: Martins fontes, 2006. FLACH, A. B.; GONÇALVES, F. S. Tópicos avançados em teoria literária. Porto Alegre: SAGAH, 2018. MOISÉS, Massaud. A Literatura portuguesa através dos textos. São Paulo: Curtix, 1990. MOISÉS, Massaud. A Literatura portuguesa. São Paulo: Curtix, 2006. RODRIGUES, Antônio Edmilson M.; KAMITA, João Masao. História Moderna – os momentos fundadores da cultura ocidental. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2018. ATU 4. UMA LITERATURA PORTUGUESA NO QUINHENTISMO A expansão marítima não pode ser vista somente como um movimento histórico, político e cultural; ela também desempenhou um papel fundamental na evolução da Literatura Portuguesa no início dos anos 1500 em Portugal, marcando o início de um novo movimento literário. A expansão marítima surgiu da necessidade de Portugal encontrar novas oportunidades de crescimento e avanço marítimo, em meio a vários desafios sociais e financeiros que a região enfrentava. Assim o que comumente chamamos de “expansão marítima portuguesa” teve um impacto significativo e duradouro na literatura e nos gêneros literários produzidos naquela época da história mundial. Afirma-se que o Quinhentismo se caracterizou principalmente por ser um período de produção literária informativa e formativa, em seus vários aspectos constitutivos (MOISÉS, 2006). 4.1 Características do Quinhentismo No que diz respeito à nomenclatura, o termo "quinhentismo" faz referência ao ano em que o movimento teve início, que é 1500, coincidindo com o período da expansão marítima de Portugal, incluindo a descoberta do Brasil. Nesse período, encontramos temáticas específicas, como narrativas das explorações, narrativas sobre as grandes navegações e suas implicações, narrativas sobre os recursos naturais das terras recém-descobertas, narrativas sobre os costumes dos povos encontrados e também sobre o trabalho realizado pelos padres que desempenharam o papel de catequese das populações indígenas. No entanto, esse período histórico possui outras características peculiares: • Textos que abordam a expansão do território; • Obras que discutem questões religiosas e de comportamento; • Produção literária com linguagem simples; • Textos com excessos de adjetivos para descrição; • Textos informativos/descritivos – como diários de viagens; • Textos formativos – Obras educativas, de cunho social e religioso. Um gênero literário que ganhou destaquenesse período foram as cartas. A comunicação ocorria por meio de cartas que contribuíram para simplificar a linguagem. Portanto, durante esse período, houve uma prática de linguagem comum, acessível à maioria da população leitora. Esse tipo de produção literária facilitava a leitura e compreensão por parte dos leitores comuns, aqueles que não tinham acesso à grande literatura considerada culta. Como é frequentemente afirmado, esses documentos precisavam ser descritivos, fornecendo uma quantidade consistente e precisa de informações, uma vez que o sucesso das explorações dependia delas (RODRIGUES; KAMITA, 2018) Um acontecimento literário que marcou o início do Classicismo e a entrada de Portugal em uma nova fase de sua história literária foi a introdução do "humanismo" em solo lusitano. O movimento humanista, tal como é reconhecido tanto na literatura como na história, teve seu início em Portugal por volta de 1418, quando Dom Duarte designou Fernão Lopes como Guardador da Torre do Tombo, uma posição pública que se assemelhava a um historiador oficial do reino. O período humanista em Portugal se estendeu até 1527, quando surgiram os sonetos decassilábicos, conhecidos como "medida nova", uma inovação na poesia com seus dez versos, daí a origem do nome "decassilábicos". Com as mudanças sociais no final do século XIV, devido às Grandes Navegações e ao fortalecimento da burguesia, o humanismo começou em Portugal como uma literatura de transição. Portanto, o humanismo português pode ser considerado um divisor de águas entre o Portugal conservadora e o Portugal moderno, que viria a se tornar uma potência global e líder nas atividades comerciais e exploração marítima. Foi nesse período que Portugal emergiu como uma potência mundial e a Língua Portuguesa passou a ser falada em diversas partes do mundo. Conforme Moisés (2006), diante da nomeação de Fernão Lopes como cronista, começou tecnicamente o Humanismo em terras portuguesas. Neste período, “a língua portuguesa começou a criar sua própria identidade”, ganhando espaço como uma língua nacional e diferenciando-se do galego, que também era utilizada entre os portugueses. Esse desenvolvimento linguístico teve um impacto direto no avanço da produção literária em comparação com o período anterior, que compreendia os séculos XII a XIV. Como veremos, as manifestações literárias do Humanismo português se dividem em três principais vertentes: a crônica histórica de Fernão Lopes, a poesia palaciana e o teatro popular de Gil Vicente. Essas manifestações coexistiram em uma mistura de produções literárias, como é frequentemente o caso na Literatura, e posteriormente foram organizadas de maneira didática para facilitar o estudo (EAGLETON, 2006). 4.2 Textos informativos – Fernão Lopes e Garcia de Resende Fernão Lopes é amplamente reconhecido como um dos principais historiadores e cronistas em Portugal, muitas vezes considerado um dos fundadores da historiografia portuguesa. Embora as informações sobre sua biografia sejam escassas, estima-se que tenha nascido por volta de 1380, em Lisboa, Portugal. Ele veio de uma família modesta e, ao longo de sua vida, alcançou um cargo público proeminente, tornando-se "guarda-mor da Torre do Tombo". Suas crônicas históricas desempenharam um papel significativo na construção da história de Portugal e na identidade do país. O cronista é conhecido como o "fundador" da história portuguesa devido às suas significativas crônicas realistas que documentaram os acontecimentos em Portugal durante o seu tempo. Embora não haja registros históricos precisos, acredita- se que Fernão Lopes tenha falecido por volta de 1460. A descoberta de uma lápide recente revelou o nome do cronista de D. João I, o Rei de Portugal. Sobre essa descoberta, comenta-se que "nunca se havia considerado nem se sabia o local de sepultamento de Fernão Lopes". É altamente provável que o corpo do escritor resida na entrada da Igreja Matriz de Alandroal, uma cidade no distrito de Évora. Para os historiadores, esta revelação "constitui uma contribuição fundamental para o estudo de um homem sobre o qual pouco se sabia". Abaixo, encontra-se uma cronologia dos principais eventos na vida do historiador e cronista português (MOISÉS, 2006). Em resumo, podemos dizer que a trajetória de Fernão Lopes, o notável cronista da história portuguesa, está marcada por uma série de acontecimentos significativos que delinearam a sua carreira e legado. Em 1418, Fernão Lopes foi nomeado guarda- mor da Torre do Tombo, uma posição que o incumbiu da importante responsabilidade de preservação dos registros reais, atuando essencialmente como o responsável por um arquivo central localizado em uma das torres do castelo de Lisboa. No ano seguinte, em 1419, ele assumiu a função de escrivão dos livros de D. Duarte e, posteriormente, de D. João I. É nesse período que se acredita que Fernão Lopes tenha iniciado a redação da crônica dos sete primeiros reis de Portugal, um trabalho que marcaria sua carreira renomada. A partir de 1422, Fernão Lopes passou a desempenhar o papel de escrivão de pureza do infante D. Fernando, expandindo suas responsabilidades dentro da corte. Em 1434, alcançou o status de cronista-mor do Reino, uma posição que o oficializou como o redator oficial das narrativas históricas relacionadas aos reis de Portugal, consolidando seu renome como um dos mais importantes de sua época. Entretanto, devido à sua idade avançada, em 1454, Fernão Lopes deixou de exercer a função de guarda-mor da Torre do Tombo. As informações históricas sobre Fernão Lopes tornam-se escassas após 1459, com poucos registros que lançam luz sobre os últimos anos de sua vida. Um marco relevante para o estudo de sua obra foi a descoberta, em 1942 e 1945, de manuscritos que continham a "Crônica de Portugal de 1419", uma obra atribuída a Fernão Lopes, abordando os primeiros sete reis de Portugal. Isso reforçou a importância do legado desse renomado cronista na preservação da história portuguesa. Apesar das incertezas que cercam a vida de Fernão Lopes, um fato é certo: os documentos e crônicas que lhe são atribuídos revelam a maestria de um escritor que soube narrar, como poucos, a história de seus reis e de seu povo. As obras atribuídas a ele demonstram a genialidade desse grande autor quinhentista, embora algumas delas ainda sejam motivo de disputa entre especialistas. Entre as obras que são creditadas a Lopes, destacam-se: • Crônica de El-Rei D. Pedro I • Crônica de El-Rei D. Fernando • Crônica de El-Rei D. João I • Reis Gloriosos de Portugal • Crônicas de Portugal (inacabada) Outro autor que se destaca nesse período histórico é Garcia de Resende, conhecido como o principal representante português das "poesias palacianas". Essas poesias constituíam um gênero literário produzido por nobres que residem em palácios, sendo direcionados a um público nobre que compartilhava o mesmo ambiente palaciano. Elas eram consideradas uma forma de literatura destinada ao entretenimento. Esse gênero literário na tradição portuguesa se distingue das cantigas de cavalaria, que eram comuns durante o Trovadorismo. As poesias palacianas eram notáveis por sua sofisticação linguística, uma vez que foram elaboradas para serem declamadas nos palácios, sem a necessidade de acompanhamento por instrumentos musicais. Esse desenvolvimento prático foi comprovado em uma clara separação entre a música e a poesia dentro desse contexto literário. Conforme observado por Moisés (1990), entre as obras de Garcia de Resende, destaca-se o "Cancioneiro Geral," uma compilação de poesias palacianas organizada pelo autor por volta de 1516. No entanto, essa não é a única contribuição relevante de Resende. Além de sua produção literária, ele também se destacou em outras disciplinas artísticas, como música, desenho e arquitetura. Suas habilidadese ensinamentos multifacetados o tornam uma figura de testemunho do período histórico em que viveu. Garcia de Resende desempenhou um papel significativo na prestação de serviços aos reinados de Dom Manuel, além de ocupar o cargo de Escrivão da Fazenda durante o governo de Dom João Terceiro. Seu legado artístico e contribuições para administração real o consolidam como uma figura de relevância histórica no contexto de sua época. 4.3 Literatura de formação e o teatro de Gil Vicente Quando mencionamos Gil Vicente, o autor é considerado o patrono do teatro português e se destacou por escrever "autos" e "farsas" como "O Auto da Visitação" de 1502, "O Velho da Horta" de 1512, "A Farsa de Inês Pereira" de 1523, e sua obra mais importante, "O Auto da Moralidade", também conhecida como "Auto da Barca do Inferno", de 1516. Esta última é uma das obras mais significativas da literatura portuguesa. Ao empregar uma linguagem mais próxima do cotidiano, aquela utilizada pelo povo comum, os "autos" são essencialmente peças teatrais breves que surgiram durante a Idade Média. Elas frequentemente abordam temas religiosos ou morais em suas tramas, com o propósito de transmitir valores e promover a formação de um caráter cristão entre seu público. Por outro lado, as "farsas" são peças ainda mais concisas e diretas em termos de linguagem, geralmente compreendendo apenas um ato. Elas tendem a ser caricatas, buscando provocar risos e humor, muitas vezes por meio de situações econômicas ou personagens exagerados. A chamada "literatura de formação", termo historicamente utilizado, está principalmente associada à literatura religiosa, uma vez que sua missão é transmitir princípios morais e pedagógicos com o intuito de orientar na direção a uma moral civilizada e à adoção de bons costumes. Esse enfoque na educação moral é uma característica marcante do Quinhentismo, período em que a catequização dos povos indígenas foi um dos principais objetivos. Como exposto por Moisés (2006), durante o período da Idade Média a Literatura Portuguesa viu surgir um tipo de teatro que era popular em quase todos os sentidos: nos temas a serem tratados, na linguagem usada e nos atores que encenavam essas peças. Esse era um teatro que tinha como característica fundamental a sua dinâmica simples, abordando mistérios e milagres alusivos às cenas bíblicas, com o principal intuito levar o povo à crença por meio dessa dramaturgia. Foi somente com Gil Vicente que essa tradição teatral passou a entrar definitivamente no gosto popular, tornando-se algo bem apreciado pela maioria das pessoas em Portugal. Similar a Fernão Lopes, a biografia de Gil Vicente é cercada de mistérios e incertezas. Veja um trecho de “O Auto da Barca do Inferno": O primeiro interlocutor é um Fidalgo que chega com um Paje, que lhe leva um rabo mui comprido e üa cadeira de espaldas. E começa o Arrais do Inferno ante que o Fidalgo venha. DIABO: À barca, à barca, houlá! que temos gentil maré! - Ora venha o carro a ré! COMPANHEIRO: Feito, feito! Bem está! Vai tu muitieramá, e atesa aquele palanco e despeja aquele banco, pera a gente que virá. À barca, à barca, hu-u! Asinha, que se quer ir! Oh, que tempo de partir, louvores a Berzebu! - Ora, sus! que fazes tu? Despeja todo esse leito! COMPANHEIRO: Em boa hora! Feito, feito! DIABO Abaixa aramá esse cu! Faze aquela poja lesta e alija aquela driça. COMPANHEIRO: Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça! DIABO Oh, que caravela esta! Põe bandeiras, que é festa. Verga alta! Âncora a pique! - Ó poderoso dom Anrique, cá vindes vós?... Que cousa é esta?... (in MOISÉS, 2006) Ao apresentar sua peça ao público, o autor a utiliza como uma defesa dos motivos que o levaram a escrever a obra teatral, que poderia ser vista como uma homenagem à moralidade que, segundo o autor, estava em falta em sua época. Observemos nas palavras do próprio autor como ele defendeu sua expressão literária: Auto de moralidade composto por Gil Vicente por contemplação da sereníssima e muito católica rainha Lianor, nossa senhora, e representado por seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei Manuel, primeiro de Portugal deste nome. Começa a declaração e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto, se fegura que, no ponto que acabamos de espirar, chegamos supitamente a um rio, o qual per força havemos de passar em um de dous batéis que naquele porto estão, scilicet, um deles passa pera o paraíso e o outro pera o inferno: os quais batéis tem cada um seu arrais na proa: o do paraíso um anjo, e o do inferno um arrais infernal e um companheiro (VICENTE, GIL (s/d, s/p). 5. A LITERATURA DO CLASSICISMO E A OBRA DE CAMÕES A literatura clássica de Luís de Camões é uma parte fundamental da literatura portuguesa e da literatura mundial. Camões é mais conhecido por sua obra épica "Os Lusíadas", uma narrativa em verso que conta a história da epopeia dos navegadores portugueses no século XV, liderada por Vasco da Gama, na busca de um caminho marítimo para as Índias. Além de "Os Lusíadas", Camões também escreveu uma coleção de sonetos, considerada uma das mais belas expressões do Classicismo, destacando-se pela sua maestria lírica e influência de poetas clássicos, como Petrarca. Os sonetos de Camões abordam temas como o amor, a fugacidade da vida e a passagem do tempo, em conformidade com a tradição lírica clássica. 5.1 O Classicismo na Literatura Portuguesa O Classicismo deixou um legado duradouro nas artes e na cultura ocidental. Influenciou movimentos posteriores, como o Neoclassicismo, assim como impactou na arquitetura, na literatura e na música até os dias atuais. Além disso, sua valorização da razão e da ordem contribuiu para o desenvolvimento do pensamento científico e filosófico. No período do Classicismo, em geral, a relação entre segurança e certeza foi profundamente questionada, em grande parte devido às Grandes Navegações e à crescente hipótese da centralidade do homem em relação a todas as coisas. Como Moisés (2006) destaca, o movimento histórico e literário conhecido como Humanismo abalou as últimas décadas da Idade Média. Esse movimento se caracterizou pela redescoberta dos monumentos culturais do mundo greco-latino, especialmente as obras escritas, provocando uma transformação em todos os campos do conhecimento humano. Essas mudanças, entre outras, levaram a uma mudança de paradigma. A visão medieval, que estava centrada na existência de Deus, passou a ter o homem como o centro, resultando em transformações profundas em todos os aspectos da sociedade e da cultura. Ainda segundo o autor Moisés (2006, p. 49), “as circunstâncias históricas e uma peculiar situação geográfica conferiram ao povo lusitano um papel de relevo na evolução do Renascimento”. A relevância de Portugal na introdução do Renascimento deve-se a vários intelectuais portugueses e à expansão marítima, que disseminaram as novas ideias que viriam a influenciar Portugal e, consequentemente, toda a Europa. Soma-se a isso as descobertas científicas, as inovações culturais e tecnológicas, bem como a Reforma Luterana, que mudaram os rumos desse período histórico. O humanismo, como movimento intelectual, que surgiu a partir do século XV na Europa, começou a questionar diversas verdades que estavam solidificadas naquela cultura, uma vez que o cientificismo despontava como uma alternativa para o teocentrismo que marcou todo o período antecessor ao século XV. Logo, o movimento proporcionou uma nova forma de contemplar a existência humana, seja nas ciências ou mesmo nas artes. Um dos símbolos desse antropocentrismo é a obra de Leonardo da Vinci que ganhou o nome de o “Homem Vitruviano”, uma gravura de 1590, veja a Figura 1 (EAGLETON, 2006). Figura 1 - Homem Vitruviano Fonte: shre.ink/U8tm. Durante o Renascimento, muitos estudiosos propuseram novas abordagens parainvestigar a realidade, tanto no mundo físico quanto no espiritual, bem como na vida biológica. Eles formularam perguntas que não se baseavam mais nas 'verdades de Deus', mas sim na centralidade da razão humana, ou seja, na construção racional do ser humano. Nesse contexto, os artistas também buscaram novas maneiras de expressar suas singularidades artísticas. Características de movimentos filosóficos, científicos e literários podem ser encontradas em várias partes do mundo. Sob essa perspectiva, podemos afirmar que, assim como muitos outros movimentos literários e filosóficos, o Humanismo e o Classicismo exerceram uma influência significativa em diversas áreas do conhecimento humano. É importante analisar de forma sucinta como esses dois movimentos filosóficos e culturais transformaram nossa percepção das realidades (RODRIGUES; KAMITA, 2018). Na arquitetura, o Classicismo trouxe a retomada dos elementos da arquitetura greco-romana, como a utilização de colunas, frontões e proporções simétricas. Grandes palácios, igrejas e monumentos foram construídos seguindo esses princípios, como o Palácio de Versalhes, na França. Na escultura, os artistas classicistas buscavam representar o corpo humano de forma idealizada, com proporções perfeitas e poses estáticas. As esculturas retratavam principalmente deuses, heróis e figuras mitológicas, remetendo ao legado da Antiguidade Clássica. Já a pintura foi marcada por obras que retratavam temas mitológicos, históricos e religiosos. Os pintores classicistas procuravam transmitir emoções controladas, utilizando cores suaves e uma iluminação clara. Alguns dos principais artistas dessa época incluem Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio e Michelangelo. Na música, o Classicismo foi marcado pela busca de clareza, equilíbrio e simplicidade. Compositores como Johann Sebastian Bach e Wolfgang Amadeus Mozart foram influentes nesse período, criando obras com estruturas bem definidas e melodias elegantes. Na literatura, o Classicismo manifestou-se na poesia, no teatro e na prosa. Os poetas classicistas buscavam seguir as regras da poesia greco-latina, como o uso de métrica regular e a imitação de modelos clássicos. Autores como Luís de Camões, William Shakespeare e João de Barros deixaram contribuições significativas nesse período. Apesar de ser uma abordagem geral, parece claro que o Classicismo foi baseado em ideais filosóficos do humanismo. Esse pensamento é fundamental para que se possa compreender não apenas a relevância do Classicismo, mas também as influências filosóficas que deram origem a esse movimento e que sustentaram suas bases. Em certa medida, o Classicismo representou uma revolução em diversos aspectos e em várias áreas do conhecimento da época. 5.2 Classicismo em Portugal Como indicado por Moisés (1990) o Classicismo português tem como marco inicial o ano de 1527 quando o escritor e poeta Sá de Miranda (1481-1558), regressa de viagem à Itália e divulga em Portugal as novas ideias filosóficas e estéticas que já circulavam largamente em outros lugares da Europa. Esse mesmo Classicismo chega ao fim no ano de 1580, quando falece o também escritor e poeta Luís Vaz de Camões (1524-1580), cujas obras marcariam definitivamente a Literatura Portuguesa desse período. Existem poucos registros sobre a biografia de Camões. Ele teria nascido em 1524, mas não se sabe ao certo se em Lisboa, Coimbra ou Santarém. Originário de uma família abastada, parece ter frequentado diversas escolas durante sua infância e juventude. De acordo com Moisés (1990), foi nesse período que o poeta teve contato com escritores antigos e modernos, considerando a sua realidade contextual, incluindo influências de autores como Homero, Virgílio, Ovídio, entre outros. O poeta que era conhecido como um escritor erudito, mas por algum motivo que não se sabe explicar, deixou a vida palaciana. Em 1549, seguiu para Ceuta para servir como soldado. Alguns autores deduzem que essa decisão foi impulsionada por uma decepção amorosa que o poeta tivera, um amor que não foi correspondido. Mas, Camões perdeu um dos olhos em combate e voltou a Portugal em 1552, ano em que fere um servidor real. Em 1556, dá baixa nas forças armadas e assume o cargo de “provedor dos bens de defuntos e ausentes”, em Macau. O poeta teve uma vida conturbada por conta de acusações e dívidas. De acordo com Moisés (1990), Camões faleceu em 10 de junho de 1580, em condições financeiras precárias e praticamente abandonado. Sua extensa obra é composta por poemas líricos, poemas épicos, redondilhas no estilo das produções medievais, bem como poesias clássicas, teatro popular e teatro clássico. No entanto, sua obra mais destacada é "Os Lusíadas", um poema épico que narra as conquistas portuguesas. Outro poema de destaque é “Amor é Fogo que Arde Sem se Ver”, acompanhe a seguir: Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer; É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É cuidar que se ganha em se perder; É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor? (CAMÕES, s/d) Consagrado pelo gosto popular, o poema “Transforma-se o amador na cousa amada” acabou se tornando um verdadeiro ode ao contentamento do amor e ao contentamento em estar ao lado da pessoa amada. Não se sabe ao certo quando esses poemas foram escritos, mas sabe-se com relativa certeza que são de autoria de Camões. Vejamos um trecho desse poema: Transforma-se o amador na cousa amada, por virtude do muito imaginar; não tenho logo mais que desejar, pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, pois consigo tal alma está liada. Mas esta linda e pura semidéia, que, como o acidente em seu sujeito, assim co’a alma minha se conforma, está no pensamento como idéia; (e) o vivo e puro amor de que sou feito, como matéria simples busca a forma (CAMÕES, s/d). Camões conseguiu produzir notáveis poemas da Língua Portuguesa. Apesar de sua vasta produção poética, ficou mundialmente conhecido pelo seu épico, “Os Lusíadas” que, segundo Moisés (1990) começou a ser escrito ainda no ano de 1556, na cidade de Macau. "Os Lusíadas" é um poema épico composto por 1.102 estrofes, cada uma com oito versos, totalizando 8.816 versos. Luís de Camões utilizou exclusivamente versos decassílabos, com dez sílabas métricas, de acordo com a contagem antiga. Esse tipo de verso era conhecido como "medida nova" e foi introduzido em Portugal por Sá de Miranda. Em termos de versificação, a estrutura adotada é a seguinte: o primeiro verso rima com o terceiro e o quinto; o segundo verso rima com o quarto e o sexto; e o sétimo e oitavo versos rimam entre si, seguindo o esquema ABABABCC. Essas estrofes são chamadas de oitava-rima. Além disso, Camões demonstrou sua genialidade inserindo rimas internas em seu poema para produzir efeitos sonoros variados em seus versos. A seguir, apresentamos alguns exemplos tirados de "Os Lusíadas”, no Canto II: Põe-se a Deusa com outras em direito Da proa capitaina, e ali fechando O caminho da barra, estão de jeito Que em vão assopra o vento, a vela inchando: Põem no madeiro duro o brando peito Pera detrás a forte nau forçando; Outras em derredor levando-a estavam E da barra inimiga a desviavam. Quais pera a cova as próvidas formigas, Levando o peso grande acomodado As forças exercitam, de inimigas Do inimigo Inverno congelado; Ali são seus trabalhos e fadigas, Ali mostram vigor nunca esperado: Tais andavam as Ninfas estorvando À gentePortuguesa o fim nefando. Torna pera detrás a nau, forçada, Apesar dos que leva, que, gritando, Mareiam velas; ferve a gente irada, O leme a um bordo e a outro atravessando; O mestre astuto em vão da popa brada, Vendo como diante ameaçando Os estava um marítimo penedo, Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo. […] «Ó caso grande, estranho e não cuidado! Ó milagre claríssimo e evidente, Ó descoberto engano inopinado, Ó pérfida, inimiga e falsa gente! Quem poderá do mal aparelhado Livrar-se sem perigo, sàbiamente, Se lá de cima a Guarda Soberana Não acudir à fraca força humana? «Bem nos mostra a Divina Providência Destes portos a pouca segurança, Bem claro temos visto na aparência Que era enganada a nossa confiança; Mas pois saber humano nem prudência Enganos tão fingidos não alcança, Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado De quem sem ti não pode ser guardado! «E, se te move tanto a piedade Desta mísera gente peregrina, Que, só por tua altíssima bondade, Da gente a salvas pérfida e malina, Nalgum porto seguro de verdade Conduzir-nos já agora determina, Ou nos amostra a terra que buscamos, Pois só por teu serviço navegamos.» (CAMÕES, 2008, s/p) Como nos ensina Eagleton (2006, p. 27), “se o que não existe nos parece mais atraente do que o que existe, se a poesia ou a imaginação tem posição privilegiada em relação à prosa ou ao ‘fato concreto’, parece razoável supor que isso revele alguma coisa significativa sobre os tipos de sociedade em que os românticos viveram”. Apesar de Luís de Camões não ser considerado um poeta romântico, uma vez que sua produção pertence ao Classicismo, o motivo pelo qual seus poemas, em particular, e sua obra épica são tão bem-sucedidos deve nos indicar algo importante sobre a sociedade em que o poeta português vivia e aquelas sociedades nas quais seus poemas têm sido lidos e apreciados ao longo dos séculos. 6. ASPECTOS ESTÉTICOS DO BARROCO O Barroco foi um movimento literário e cultural que surgiu na Europa durante os séculos XVI e XVII, tendo impacto significativo em diversas formas de expressão artística, abrangendo a literatura, a arquitetura, a pintura e a música. Quando se trata de expressão artística, não devemos pensar exclusivamente em uma dessas formas, mas sim em uma variedade enraizadas em um contexto cultural mais amplo que nos permite compreender o movimento Barroco. Esse movimento cultural teve origem na Itália e se espalhou por outros países europeus, como Espanha, Portugal, França e Holanda. Além disso, é importante considerar que, como manifestação da cultura, o Barroco é também fruto de uma série de eventos históricos, filosóficos e religiosos que afetaram toda a Europa, com manifestações também no Brasil. 6.1 Características estéticas do Barroco O termo “Barroco” foi originalmente usado para descrever “pérolas de formato irregular”, e posteriormente foi associado ao estilo artístico e cultural Barroco. Essa imagem é usada metaforicamente para descrever o estilo complexo, ornamentado e exuberante característico do período. Essas são suas características estéticas; entendendo estética como uma percepção do belo. O termo vem do grego “aisthetiké”, que significa “aquele que nota, que percebe”, logo, é a dinâmica de se voltar para um objeto estético e notar nele suas características de belo, “harmonia das formas e/ou das cores; beleza” (AURÉLIO, 2000). Como explica Abbagnano (2007), quando usamos os termos arte e belo precisa-se pensar nesses termos como elementos constitutivos da própria arte: Dissemos "arte e belo" porque as investigações em torno desses dois objetos coincidem ou, pelo menos, estão estreitamente mescladas na filosofia moderna e contemporânea. Isso não ocorria, porém, na filosofia antiga, em que as noções de arte e de belo eram consideradas diferentes e reciprocamente independentes. A doutrina da arte era chamada pelos antigos com o nome de seu próprio objeto, poética, ou seja, arte produtiva, produtiva de imagens […] enquanto o belo (não incluído no número dos objetos produzíveis) não se incluía na poética e era considerado à parte […]. Assim, para Platão, o belo é a manifestação evidente das ideias (isto é, dos valores), sendo, por isso, a via de acesso mais fácil e óbvia a tais valores […], ao passo que a arte é a imitação das coisas sensíveis ou dos acontecimentos que se desenrolam no mundo sensível, constituindo, antes, a recusa de ultrapassar a aparência sensível em direção à realidade e aos valores (ABBAGNANO, 2007, p. 368). Segundo Moisés (2006), a origem da palavra "barroco" é incerta, e durante muito tempo, ela foi usada para denotar uma literatura considerada de valor estético inferior e de baixo nível. Somente após alguns anos é que a palavra passou a designar o movimento cultural que se estendeu do século XVII ao princípio do século XVIII, um período conturbado da história da humanidade. Na literatura barroca, é possível observar uma série de características distintivas. Uma delas é a presença de contrastes e dualidades, como a oposição entre o divino e o terreno, a vida e a morte, a luz e a escuridão. Esses contrastes eram frequentemente explorados por meio de figuras de linguagem complexas, jogos de palavras e paradoxos. Na literatura do período barroco, destacam-se vários autores que se tornaram verdadeiros ícones desse período: • Gregório de Matos (1636- 1695). • Bento Teixeira Pinto (1561-1618). • Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711). • Padre Antônio Vieira (1608-1697). • Frei Manuel de Santa Maria Itaparica (1704-1768). Outra característica marcante do Barroco é a religiosidade presente em grande parte das obras. Os escritores barrocos frequentemente abordavam temas religiosos, explorando a relação entre o homem e Deus, a salvação e a condenação, o pecado e a redenção. Essa abordagem religiosa era influenciada pela Contrarreforma ou Reforma Católica, movimento da Igreja Católica que buscava reafirmar seus dogmas e combater o avanço do Protestantismo. Um dos símbolos que marcou a dinâmica da Reforma e Contrarreforma foi o Concílio de Trento (Figura 1). Em palavras de Etzel (1974): O barroco, na sua expressão religiosa, tem o característico geral de uma aspiração ao infinito. É suntuoso, porque assim exalta a glória de Deus; é redundante, porque reforça a expressão dessa glória; é cheio de formas esvoaçantes, que exprimem a espiritualização da fé. Dentro dessa aspiração, manifestou-se com riqueza espantosa onde houve recursos, sobretudo o ouro que amparava suas pretensões; e foi modesto, pobrezinho, humilde onde, mesmo à míngua de recursos, deixou sua marca nesta ou naquela composição que exprimiu tudo o que a veneração modesta do fiel pôde oferecer a seu Deus. São todas expressões do barroco, com cambiantes ligadas à situação social das comunidades. Se o suntuoso representa o barroco na sua plenitude áurea, o modesto exprime o mesmo barroco que, por sua vez, é a sua linguagem de fé. O Brasil, sendo colônia riquíssima pela cultura e comércio do açúcar e pela mineração, teria que produzir um barroco rico na sua representação máxima, a talha polimorfa recamada do mais fino ouro brasileiro. [...] Em contraposição, temos que reconhecer que nem sempre o barroco no Brasil foi assim representado, pois houve regiões onde as condições sócio-econômicas determinaram outro tipo de construções. Nelas, teve expressão modesta, sem ouro; a talha, ambiciosa em sua pobreza, manifesta-se em alguma coluna salomônica, em raras volutas simétricas, em linhas curvas, numa que [sic] outra folha de acanto, em raros e grosseiros anjos. O intuito na fé foi o mesmo, os recursos é que foram mínimos [...] (ETZEL, 1974, p. 28-29). Entre aqueles já citados e outros principais escritores barrocos, estão Luis de Góngora e Francisco de Quevedo, na Espanha, e Gregório de Matos, no Brasil. Suas obras refletemas características do movimento, explorando a complexidade da condição humana, as contradições da existência e a efemeridade da vida, bem como a relação conflitante – entendido naquele tempo – como o dilema entre fé e razão (Figura 1). Figura 1 - Concílio de Trento (1545-1563) Fonte: shre.ink/U4DP O estilo barroco na literatura também era caracterizado por uma linguagem elaborada, repleta de metáforas, hipérboles e jogos de palavras. Os escritores barrocos valorizavam a expressão da emoção e do sentimento, muitas vezes usando uma linguagem grandiosa e extravagante para transmitir suas ideias. Conforme afirmado por Moisés (2006), o movimento barroco teve um impacto duradouro na literatura e na cultura em geral. Mesmo após seu declínio, suas influências podem ser vistas em obras posteriores, e o estilo barroco continua sendo estudado e apreciado até hoje como um dos períodos mais ricos e complexos da história literária. Em resumo, podemos identificar os seguintes elementos que caracterizam a estética do movimento Barroco como um todo: • Contrastes, dualidades e excessos; • Temas religiosos e profanos; • Estilo exuberante e decorativo; • Figuras de linguagem: antítese, paradoxo, hipérbole, metáfora, prosopopeia. Em um argumento filosófico, podemos afirmar que "o poder disciplinar é, com efeito, um poder que, ao invés de apropriar-se e retirar, tem como sua função principal 'adestrar'. Ou seja, adestrar para, sem dúvida, retirar e apropriar-se ainda mais e melhor. Ele não aprisiona as forças para reduzi-las; busca ligá-las para multiplicá-las e utilizá-las como um todo" (FOUCAULT, 1984, p. 153). Esse pensamento é relevante para refletirmos sobre diversos aspectos, incluindo o poder exercido pela Igreja na Idade Média e sua dinâmica de poder na sociedade barroca. Em outras palavras, é útil para compreender sua tentativa de manter o poder durante o período Barroco. 6.2 O Barroco em Portugal Quando abordamos o Barroco em Portugal, é fundamental compreender que ele apresenta diferenças em relação às manifestações barrocas de outros lugares da Europa. Autores como Moisés (1990), Rodrigues (2018) e Kamita (2018) argumentaram que, ao contrário do que ocorreu em grande parte da Europa, onde predominava uma forte influência de sistemas políticos absolutistas, o Barroco português não teve seu início em 1600. Nesse período, Portugal encontrava-se em uma profunda crise política, econômica e de identidade social. Essa crise foi, em grande parte, desencadeada pela perda do trono para Felipe II da Espanha, somada à perda do Brasil para os holandeses. A nobreza abandonou as cidades, mudando-se para o campo e levando consigo "pequenas cortes" na tentativa de preservar a identidade sociocultural portuguesa. A Literatura Barroca portuguesa foi impressa principalmente em duas antologias: “Fénix Renascida” e “Postilhão de Apolo”, que reuniu autores como D. Francisco Manuel de Melo, Jerónimo Baía, Soror Violante do Céu, António da Fonseca Soares Frei António das Chagas, D. Tomás de Noronha, Diogo Camacho e António Barbosa Bacelar, Eusébio de Matos, Bernardo Vieira Ravasco, Francisco Rodrigues Lobo e D. Francisco Xavier de Meneses, entre outros. Notemos algumas características, em síntese, da Literatura Barroca em Portugal. • Exagero e minúcia nos detalhes; • Temática religiosa e profana; • Dualidade e complexidade; • Uso de figuras de linguagem; • Contrastes e conflitos; • Teocentrismo versus antropocentrismo; • Cultismo e conceptismo. Além desses poetas, destaca-se na literatura portuguesa, igualmente, o padre Antônio Vieira (1608-1697), que participa tanto da história da Literatura Portuguesa quanto da Literatura Brasileira, e a escritora Soror Mariana Vaz Alcoforado (1640- 1732), com sua “Cartas Portuguesas”, considerada um clássico da literatura portuguesa. Acompanhe, a seguir, trechos da literatura de Alcoforado: Ai de mim, a tua última carta pô-lo num estado singular: tanto me batia no peito que parecia querer separar-se de mim e voar ao teu encontro. Fiquei tão prostrada por estes desatinados embates que estive mais de três horas com os sentidos perdidos. Não me empenhava em voltar a uma vida, que por tua causa devo perder, pois me é vedado dispor dela para tu a lograres. Enfim, bem contra minha vontade lá tornarei a ver a luz do dia. Alegrava-me sentir que me finava de amor e, para mais, consolava-me não ficar sujeita a ver o coração despedaçado pela dor da tua ausência (ALCOFORADO, p. 18, 1962). E em outro trecho a autora de “Cartas portuguesas” diz: Não sei já o que sou, nem o que faço, nem o que quero. Espedaça-me impulsos desencontrados. Alguém poderá imaginar um estado tão lastimoso? Amo-te doidamente e quero-te também que nem me atrevo a desejar que em ti se renovem arrebatamentos iguais aos meus. [...] Se mal posso com as minhas penas, como aguentaria a dor de ver as tuas, que sinto mil vezes mais? (ALCOFORADO, 1962, p. 29). Segundo Moisés (2006, p. 90), “realmente digno de nota, por sua altitude e invulgaridade, o fato de conterem as cartas a sincera, franca e escaldante confissão duma mulher que se desnuda interiormente para o amante cínico, ingrato e ausente, com fúria de fêmea abandonada, sem qualquer rebuço ou pudor”. Ainda segundo o autor, ao longo das cartas o leitor faz um mergulho cada vez mais fundo em dilemas paradoxais, aos moldes da psicologia feminina e seguindo as características barrocas. Outro personagem que se destaca no Barroco português, bem como no brasileiro, é o padre Antônio Vieira que foi um proeminente escritor, orador e missionário jesuíta do século XVII. Nascido em Portugal em 1608, ele é considerado uma das figuras mais importantes da literatura e do pensamento barroco no Brasil e em Portugal. Vieira dedicou grande parte de sua vida ao trabalho missionário no Brasil colonial. Ele chegou ao país em 1614, aos 6 anos de idade, e passou a maior parte de sua vida adulta aqui. Seu trabalho missionário incluiu a defesa dos direitos dos povos indígenas e dos escravizados africanos, bem como a crítica aos abusos cometidos pelos colonizadores europeus. Além de seu trabalho missionário, Padre Antônio Vieira também se destacou como orador e escritor. Ele era conhecido por seus sermões poderosos e eloquentes, que abordavam uma ampla gama de tópicos, desde questões religiosas e teológicas até temas sociais e políticos. Seus sermões foram escritos em uma linguagem sofisticada, com recursos estilísticos barrocos, como metáforas, antíteses e paradoxos. Vieira também foi autor de obras literárias e políticas de grande importância. Seu trabalho mais famoso é "Sermões", uma coleção de sermões divididos em diferentes volumes, onde ele aborda temas como a justiça, a moralidade, a fé e a relação entre Portugal e suas colônias. Essa obra é considerada uma das mais importantes da literatura barroca em Língua Portuguesa. Entre suas obras estão: • Sermão do Bonsucesso das Armas de Portugal contra os de Holanda (Bahia, 1640); • Sermão da Sexagésima (Lisboa, 1655); • Sermão de Santo António aos Peixes (Maranhão, 1653); • Sermão da Primeira Dominga da Quaresma (Maranhão, 1653); • Sermão do Mandato (Lisboa, 1643); • Sermão do Rosário (Bahia, 1633). • Esperanças de Portugal (1659); • História do Futuro (1718); • Clavis Prophetarum (obra inédita e só traduzida e publicada em 2000). Padre Antônio Vieira era conhecido por sua coragem e ousadia em suas ideias. Enfrentou inúmeras dificuldades e perseguições ao longo de sua vida devido às suas opiniões francas e à sua defesa dos direitos dos oprimidos. Suas ideias progressistas e sua luta pela justiça social o tornaram uma figura influente em seu tempo e uma referência para gerações posteriores. Vamos examinar um trecho da obra de Vieira, especificamente do "Sermão a Santo Antônio”: Antes, porém, que vos vades,assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus facti sunt, sicut pisces invicem se devorantes: (Os homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros). Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens (VIEIRA in MOISÉS, 1990) Padre Antônio Vieira faleceu em 1697, em Salvador, Bahia, deixando um legado significativo na literatura, na política e na luta pelos direitos humanos. Sua “escrita eloquente”, sua defesa dos oprimidos e sua contribuição para o desenvolvimento do barroco literário o tornaram uma figura importante e admirada até os dias atuais (TRASK, 2004). Sua obra continua a mover pesquisas e estudos por todos os cantos, em especial por sua forma erudita e rebuscada no uso das palavras. 7. RETÓRICA DISCURSIVA E FIGURAS DE LINGUAGEM Ao pensarmos em Literatura em suas várias manifestações é preciso pensar também nos recursos que, durante muitos séculos foram usados por autores variados em momentos diversos de sua produção literária; dentre esses mecanismos estão as figuras de linguagem, elementos essenciais à construção discursiva literária. A importância desses recursos e da comunicação na literatura é fundamental, uma vez ela é, essencialmente, uma forma de comunicação artística que transcende o tempo e o espaço e que se utiliza de vários recursos linguísticos à sua materialização. 7.1 Língua, linguagem e discurso A linguagem – como sistema linguístico – é a capacidade de comunicação inata e o discurso é a expressão concreta da linguagem em situações de comunicação específicas. Compreender essa relação é fundamental para uma análise aprofundada da comunicação humana (JAKOBSON, 2008). A relação entre língua, linguagem e discurso é fundamental para a compreensão da comunicação humana e da forma como nos expressamos. Embora esses termos sejam frequentemente usados de forma intercambiável, eles têm significados diferentes e desempenham papéis diferentes no processo comunicativo, de acordo com teóricos (VENÂNCIO, 2002; KIRCHOF, 2013). Portanto, pode-se afirmar que ela desempenha um papel crucial em várias dimensões do ser humano: • Expressão de ideias e emoções: A literatura oferece aos autores uma plataforma para expressar suas ideias, emoções, perspectivas e experiências de maneira criativa e significativa. Através da escrita literária, os autores podem transmitir mensagens profundas e complexas que podem ressoar com os leitores, permitindo-lhes explorar temas, dilemas e aspectos da condição humana de maneira única. • Comunicação intercultural: Uma literatura que transcende barreiras culturais e linguísticas, permitindo que histórias e experiências de diferentes partes do mundo sejam compartilhadas e compreendidas por uma audiência global. Isso promove a compreensão e a empatia entre culturas, contribuindo para uma maior conscientização e facilidades das diferenças. • Preservação da história e da cultura: A literatura desempenha um papel fundamental na preservação da história e da cultura de uma sociedade. Ela documenta eventos, tradições, crenças e valores que podem ser transmitidos de geração em geração. Isso é essencial para a construção da identidade cultural e para a compreensão das raízes de uma comunidade. Assim, rememorar alguns conceitos básicos para compreensão do todo da língua literária é fundamental para que não ocorra erros, seja de ordem de compreensão ou de elementos contextuais: • Língua: A língua se refere a um sistema de regras e convenções que permite que um grupo de pessoas se comunique. É um sistema abstrato e estruturado que envolve regras gramaticais, vocabulário e sintaxe específicas. Cada língua possui suas próprias características específicas, como o português, o inglês, o espanhol, entre outras. A língua é um componente essencial da comunicação e fornece as ferramentas para a expressão de pensamentos e ideias. • Linguagem: A linguagem é uma capacidade inata dos seres humanos de se comunicarem por meio de sinais, gestos, sons, símbolos e outros meios. Ela é uma habilidade que todos os indivíduos possuem para expressar seus pensamentos e emoções, independentemente da língua que falam. A linguagem é uma característica universal da espécie humana e é compartilhada por todas as culturas. • Discurso: O discurso refere-se à manifestação concreta da linguagem em situações específicas de comunicação. É a utilização da língua e da linguagem para transmitir informações, opiniões, histórias e mensagens em contextos sociais e culturais particulares. O discurso não é apenas sobre as palavras usadas, mas também sobre o contexto, a entonação, a intenção do falante e o público-alvo. Ele pode ser oral, escrito, visual ou multimodal. A relação entre esses três elementos é interdependente. A língua fornece as estruturas e os recursos linguísticos que a linguagem utiliza para se manifestar, enquanto o discurso é a aplicação prática da língua e da linguagem em contextos específicos. O discurso, segundo Brait (2010), é moldado pela língua em que é expresso, pela cultura em que ocorre, e a linguagem é a capacidade inata que torna possível a comunicação por meio da língua. 7.2 Figuras de retórica e suas implicações à literatura As figuras de linguagem ou, como eram chamadas em momentos pretéritos da história da linguagem, figuras de retórica, são recursos ou estratégias utilizadas na linguagem para criar efeitos especiais, enfatizar ideias, transmitir mensagens de forma mais expressiva e tornar a comunicação mais elaborada e impactante (BRAIT, 2010). Elas desviam do uso comum e literal das palavras, introduzindo elementos figurativos ou simbólicos no discurso. As figuras de linguagem são frequentemente empregadas na poesia, na retórica e na prosa para adicionar camadas de significado, persuasão ou beleza à comunicação. Por isso, esse recurso é parte essencial da expressão artística e retórica, sendo amplamente utilizadas na literatura, na poesia, no discurso político, na publicidade e em muitos outros contextos comunicativos (CEREJA; MAGALHÃES, 2016). Nas palavras de Bechara (2009), é necessário ressaltar que a diferença entre figuras de retórica e figuras de linguagem pode ser sutil, mas esses termos geralmente se referem a conceitos bastante diferentes na análise da linguagem e da expressão literária. As figuras de linguagem são um termo mais extenso que abrange uma variedade de recursos usados na linguagem para fins expressivos, enquanto as figuras de retórica são um subconjunto dessas figuras de linguagem com foco na persuasão e retórica (CEIA, 2009). A seguir, esses recursos da linguagem serão detalhados. • Figuras de Linguagem: Este termo é mais amplo e engloba uma variedade de recursos utilizados na linguagem para criar efeitos, expressar significados figurativos e tornar a comunicação mais expressiva. As figuras de linguagem incluem metáforas, metonímias, ironias, hipérboles, entre outras.São recursos que desviam do uso comum e literal das palavras para transmitir ideias de maneira mais vívida e impactante. • Figuras de Retórica: As figuras de retórica são um subconjunto das figuras de linguagem que se concentram especificamente na persuasão, na retórica e na persuasão. Elas são usadas para influenciar ou convencer um público-alvo em discursos políticos, discursos públicos e escrita persuasiva. As figuras de retórica incluem recursos como a antítese (contraposição de ideias opostas), o pleonasmo (repetição desnecessária de palavras para enfatizar), a elipse (omissão de palavras para criar efeito), entre outras. De acordo com Cegalla (2008), não é possível determinar quantas são as figuras de linguagem, em face dos muitos e variados usos e contextos nos quais o discurso é construído e utilizado. As principais são: 1. Metáfora: A metáfora estabelece uma comparação implícita entre dois elementos diferentes, atribuindo características de um ao outro para destacar semelhanças ou características específicas. Por exemplo, “Seu coração é uma pedra fria.” 2. Metonímia: Nessa figura, um termo é substituído por outro com o qual possui uma relação ou de contiguidade. Por exemplo, “As cortinas aplaudiram uma performance”. 3. Ironia: A ironia consiste em expressar o oposto do que se pretende dizer, muitas vezes com a intenção de provocar reflexão ou crítica. Por exemplo, "Que belo dia chuvoso!" 4. Hipérbole: Uma hipérbole envolve o uso de exagero para enfatizar uma ideia ou característica. Por exemplo, “Estou morrendo de fome!” 5. Prosopopeia (ou personificação): Nessa figura, elementos não humanos são atribuídos com características humanas, como emoções ou ações. Por exemplo, “O sol brilha no céu.” 6. Anáfora: A anáfora é uma reprodução deliberada de uma palavra ou expressão no início de frases ou versos sucessivos para criar ênfase ou ritmo. Por exemplo, "Eu tenho um sonho. Eu tenho um desejo. Eu tenho uma visão." 7. Símbolo: Um símbolo é um objeto, palavra ou conceito que representa algo além de seu significado literal. Por exemplo, a pomba branca é frequentemente usada como símbolo de paz. 8. Onomatopeia: Uma onomatopeia consiste em usar palavras que imitam sons reais. Por exemplo, "O sino tocava 'ding-dong'." As figuras de linguagem desempenham um papel fundamental na literatura, enriquecendo a linguagem e a expressão literária de várias maneiras (CEGALLA, 2008). Elas são empregadas pelos escritores para criar textos mais expressivos, cativantes e ricos em significados. Aqui estão algumas maneiras de como as figuras de linguagem são usadas na literatura: • Expressão criativa: permitem que os escritores se acostumem ao uso comum e literal da linguagem, permitindo-lhes criar imagens e metáforas que transcendem o simples significado das palavras. Isso torna a prosa e a poesia mais artísticas e cativantes. • Enriquecimento estilístico: uso de figuras de linguagem, como metáforas, metonímias, hipérboles e personificações, enriquecendo o estilo literário. Elas acrescentam profundidade e complexidade à escrita, tornando-a mais interessante e atraente para os leitores. • Transmissão de emoções e significados sutis: permitem que os escritores expressem emoções e nuances de significado de forma mais eficaz. Por exemplo, uma metáfora pode transmitir tristeza, esperança ou amor de maneira mais intensa do que uma descrição literal. • Criação de imagens vívidas: são frequentemente usadas para criar imagens mentais vívidas na mente dos leitores. Isso ajuda a pintar quadros sensoriais e a tornar a narrativa mais envolvente. Por exemplo, "O céu estava tingido de laranja e rosa" cria uma imagem visual e emocional. • Reforço de temas ou expressões simbólicas: um símbolo, por exemplo, pode ser usado como uma metáfora recorrente que representa um conceito ou ideia ao longo de uma história. • Variedade e ritmo: figuras de linguagem, como anáforas (repetição de palavras ou frases no início de versos ou frases), são usadas para criar ritmo e enfatizar ideias importantes. Eles adicionam variedade e musicalidade à escrita. • Desconstrução e crítica: além de aprimorar a expressão, as figuras de linguagem também são usadas para desconstruir estereótipos, questionar a realidade e criticar a sociedade. A ironia, por exemplo, pode ser usada para criticar algo de forma sutil. Em suma, conforme Kirchof (2013), as figuras de linguagem desempenham um papel essencial na literatura – em qualquer que seja sua manifestação, período ou pertença entico-geográfica –, enriquecendo a expressão e a comunicação, permitindo que os escritores transmitam emoções, criem imagens vivas, reforcem temas e estilos, e envolvam os leitores de maneira mais profunda. Elas são ferramentas poderosas para a criação de obras literárias ricas e significativas. Não se pode estudar literatura, portanto, sem que se preste atenção às figuras e aos modos como elas se apresentam em contextos variados (CULLER, 2009). 8. PARA PENSAR E ENSINAR LITERATURA Quando falamos em texto literário, não nos damos conta dos mecanismos usados pelos autores para construção de suas realidades discursivas-textuais. Todo texto leva consigo alguns elementos dos quais o teórico precisa lembrar – ainda que essa relação não seja tão clara para o leitor comum (FLACH; GONÇALVES, 2018). Quando adquire um livro, seja de romance, de poesia, ou qualquer outra produção literária, na maioria das vezes o leitor não se atente às qualidades técnicas e literárias daquela obra, mas isso não é em si mesmo um mal, na medida em que a maioria dos leitores ao adquirir uma obra não está preocupado com a relação que essa produção literária tem com o seu contexto teórico. Compreender uma manifestação literária específica é compreender o modo como uma determinada cultura entendeu o seu processo de formação e leitura. 8.1 Linguagem literária Conforme afirmado por Brait (2010), existem inúmeras relações entre língua, linguagem e literatura, e essas relações podem ser examinadas por meio de diversos enfoques, como os verbais, visuais ou verbo-visuais. A soma dessas diferentes abordagens pode ser considerada como múltiplas perspectivas para a observação do fenômeno literário. Sempre tendo em mente que o texto literário, em suas várias interpretações, pode ser visto como uma forma de conhecimento, uma fonte de prazer ou uma maneira de contemplar e desfrutar das diversas implicações de um texto literário. Em última análise, os textos literários também refletem, à sua maneira, como observamos e nos relacionamos com a vida. A era eletrônica é também uma era de "oralidade secundária", a oralidade dos telefones, do rádio e da televisão, cuja existência depende da escrita e da impressão. A mudança da oralidade para a cultura escrita e, depois, para o processamento eletrônico envolve estruturas sociais, econômicas, políticas, religiosas entre outras. Estas, contudo, apenas indiretamente dizem respeito a este livro, que trata preferencialmente das diferenças de "mentalidade" entre culturas orais e escritas (ONG, 1998, p. 11). É fundamental considerar a linguagem se desejamos compreender a produção literária e a interpretação de textos literários, seja no âmbito prático ou teórico. Isso envolve a análise da leitura de textos literários e a investigação sobre a produção, disseminação e recepção de textos que trazem consigo uma perspectiva literária das múltiplas realidades existentes. Na tentativa de representar essas realidades, os seres humanos fazem uso de várias habilidades à sua disposição, incluindo o uso da língua e da linguagem em um sentido mais amplo (KIRCHOF, 2017). Para Trask (2004), a linguagem é faculdade cognitiva exclusiva da espécie humana, que permite a cada indivíduo representar e expressar simbolicamente sua experiência de vida, suas relações com a realidade,assim como adquirir, processar, produzir e transmitir conhecimento. Como mostra Bordenave (1997), homens são seres particulares, pois possuem a capacidade singular de significar, isto é, de produzir sentido por meio de símbolos, sinais, signos, ícones etc. Logo, os sentidos são produzidos por meio da linguagem. Nenhum gesto humano é neutro, ingênuo ou vazio de sentido. Pelo contrário, ele está sempre carregado de significados, em suas diversas manifestações, e cabe justamente à nossa capacidade linguística interpretar os significados presentes em cada manifestação de outros membros da nossa espécie. Portanto, todos os sistemas de signos usados pelos seres humanos para expressar seus sentimentos, experiências e dar forma aos seus pensamentos podem ser denominados linguagens. 8.2 Funções da linguagem Literária Roman Osipovich Jakobson, um estudioso russo, é conhecido por ter desenvolvido um modelo de comunicação que se tornou o mais influente e respeitado para estudar a teoria da comunicação. Nascido em Moscou em 1896, ele estudou no Instituto Lazarev de Línguas Orientais da Universidade de Moscou de 1914 a 1918, período em que iniciou suas pesquisas sobre o funcionamento da linguagem. Jakobson faleceu nos Estados Unidos em 1982 e é hoje amplamente reconhecido como um dos maiores linguistas do século XX. Sua influência na linguística abrange desde a teorização da linguagem na criança até estudos que se concentram na sistematização da linguagem e em suas diversas manifestações. Os trabalhos de Jakobson, que foram documentados em suas publicações, podem ser encontrados em revistas e periódicos e tratam do processo de comunicação. No geral, pode-se afirmar que há uma linha condutora que orientou os trabalhos do teórico russo, centrada no processo de comunicação. Roman Jakobson é creditado por ter desenvolvido uma teoria que se relaciona com diversos campos, incluindo fonologia, patologia da linguagem, antropologia, teoria da informação, estilística e folclore. Nesse sentido, pode-se dizer que Jakobson elaborou uma teoria que emerge da interseção de várias outras teorias. Entre as inúmeras influências que moldaram seus estudos está o "Formalismo russo," um movimento que buscava encontrar a razão de ser da produção literária na sua forma, ou seja, sustentava que a essência da obra literária estava na sua formalização, e não necessariamente no conteúdo (EAGLETON, 2006). A maior parte do conhecimento difundido sobre a teoria de Jakobson foi resultado de sua famosa sistematização da teoria da linguagem. Isso significa pensar em uma forma de representar o processo de comunicação de maneira menos argumentativa e mais visual. Pelo menos, é assim que a maioria dos estudiosos e leitores percebe a teoria do estudioso russo. Para o próprio Jakobson (1970, p. 14) “a linguagem é um dos sistemas de signos, e a linguística, enquanto ciência dos signos verbais é apenas parte da semiótica, a ciência geral dos signos”. Logo, o estudioso admite que a linguagem é o tipo mais óbvio de comunicação. Argumenta também, que a linguística investiga a fabricação de mensagens verbais e de seus códigos subjacentes e que as características estruturais da linguagem são interpretadas, em sentido pleno, a partir das funções que elas cumprem. Em geral, o uso de signos intersubjetivos, que são os que possibilitam a comunicação. Por uso entende-se: 1. possibilidade de escolha (instituição, mutação, correção) dos signos; 2. possibilidade de combinação de tais signos de maneiras limitadas e repetíveis. Este segundo aspecto diz respeito às estruturas sintáticas da Linguagem, enquanto o primeiro se refere ao dicionário da Linguagem. A moderna ciência da Linguagem tem cada vez mais insistido (como veremos) na importância das estruturas linguísticas, ou seja, das possibilidades de combinações delimitadas pela Linguagem. A Linguagem. distingue-se da língua, que é um conjunto particular organizado de signos intersubjetivos (ABBAGNANO, 2007, p. 615-616). Como se pode observar, Jakobson se destaca por sua ampla área de atuação como estudioso da comunicação e da linguagem. Sua relação com outras disciplinas permitiu que o teórico se destacasse pela adaptação e reinterpretarão das teorias de vários outros estudiosos da linguagem e da comunicação. Conforme a linguística se aproximava de outras disciplinas e cientistas, a teoria de Jakobson se solidificava. Essa troca de informações e conhecimentos de outras teorias fica evidente nas palavras do próprio teórico quando ele afirma: É preciso reconhecer que, sob certos aspectos, os problemas da troca de informação encontraram, por parte dos engenheiros, uma formulação mais exata e menos ambígua, um controle mais eficaz das técnicas utilizadas, bem como prometedoras possibilidades de quantificação. Por outro lado, a imensa experiência acumulada pelos linguistas no tocante à linguagem e à sua estrutura permite-lhes expor as fraquezas dos engenheiros quando estes lidam com material Linguístico (JAKOBSON, 2008, p. 18). De acordo com o teórico russo Jakobson (2008), todo esquema de comunicação pode ser representado por seis elementos diversos e complementares, a saber: (1) remetente; (2) mensagem; (3) contexto; (4) código; (5) contato ou canal e (6) destinatário. Com o passar do tempo e com estudos complementares esses nomes podem sofrer adaptação, mas o esquema da comunicação, idealizado pelo teórico e estudioso da linguagem, pode ser representado por esses seis elementos, cada um dos quais exercendo sua função do processo comunicativo. O que Jakobson propõe é uma análise da comunicação e seus processos para, em primeira análise, conhecer suas estruturas. Nessa representação esquemática é possível observar os principais elementos para que haja de fato um processo comunicativo. Temos, portanto, cada um dos elementos colocados de forma sistemática com um intuito de servir como ilustração para um processo de interação entre dois ou mais locutores que se colocam em uma dinâmica comunicativa. Assim, seguindo as observações de Jakobson (2008), pode-se afirmar que o emissor é o responsável pela transmissão da mensagem; o receptor é aquele que recebe a mensagem; a mensagem é aquilo que é dito ou transmitido; o contexto são os elementos físicos ou situacionais para a compreensão da mensagem; o canal é o instrumento usado para transmissão da mensagem e o código é o conjunto de sinais escolhidos pelo emissor na transmissão de sua mensagem. A partir dessas observações preliminares, Jakobson desenvolveu sua teoria das “Funções da linguagem”, que já havia sido chamada por outros teóricos de “Teoria da informação”. O teórico argumenta que para cada um dos elementos da comunicação, existe uma função da linguagem orientada a esse elemento específico. Como resultado, o estudioso explica que a intenção da mensagem é o elemento condutor para interpretação da mesma mensagem, dando a ela uma interpretação que seja condizente com a intencionalidade do emissor. Cada função da linguagem se apoia em um critério linguístico que atribui a essa função sentido e estabilidade. Conforme Santee e Temer (2011), o intuito primordial para o teórico russo era perceber os elementos da linguagem que compõem o que o teórico chamou de linguagem poética. Portanto, deve-se perceber que o principal objetivo era explicar a dinâmica que rege aquilo que mais tarde será chamada de linguagem literária. Para Leite (2002, p. 5) “histórias são narradas desde sempre. Forma vaga de que disponho para marcar, sem datar, o início no sentido de uma narração de fatos, presenciados ou vividos por alguém que tinha a autoridade para narrar, alguém que vinha de outros tempos ou de outras terras, tendo, por isso, experiência a comunicar e conselhos a dar a seus ouvintes atentos. Assim, desde sempre, entre os fatos narrados e o público, se interpôs um narrador”.Portanto, com base no supracitado, podemos listar as seguintes funções da linguagem: 1. Função emotiva (ou expressiva), cuja principal característica é uma expressão direta de quem fala com o intuito de despertar uma emoção; 2. Função conativa, que tem como principal característica a construção de frases no vocativo ou no modo imperativo; 3. Função fática, cuja comunicação está centrada no canal e é utilizada comumente para atrair a atenção do interlocutor e procura confirmar essa atenção constantemente; 4. Função metalinguística, que se caracteriza pela verificação do código usado pelos interlocutores; 5. Função referencial (ou denotativa) é aquela que se volta para o contexto em que a mensagem é produzida; 6. Função poética, era o principal objeto de estudo de Jakobson, estuda as características da linguagem poética, ou como costuma-se dizer, a linguagem literária. A Figura 1 ilustra como as funções da linguagem se organizam em paralelo com os elementos do esquema de comunicação. Figura 1 – Comunicação e linguagem Fonte: Adaptado de Jakobson, 2008, p. 129. Conforme observado pelos autores Santee e Temer (2011) em seus estudos sobre a teoria desenvolvida pelo teórico da linguagem, a função poética é predominante na estrutura concebida por Jakobson. Nessa função, a mensagem está voltada para si mesma, ou seja, na função poética, o foco do trabalho linguístico é a própria mensagem em sua forma e conteúdo, abrangendo características físicas, sonoras e visuais. Isso estabelece uma relação formal e de conteúdo entre o mundo textual e o mundo da realidade. Para Brite (2010, p. 12), linguagem e literatura são elementos conjuntos, cujo resultado é uma “parceria inseparável” que nos permite construir uma longa vivência entre a linguagem oral, empregada nos mais variados contextos de vivências e na linguagem escrita, cujo produto mais refinado é a obra literária. É essa riqueza de possibilidades, de representação e de expressão, e por que não dizer de usos, que nos permite falar de linguagem musical ou da música, linguagem cinematográfica ou do cinema, linguagem teatral ou do teatro, linguagem corporal ou do corpo, linguagem da dança, da pintura, da escultura, da arquitetura, da fotografia, incluindo as linguagens secretas, que exigem o domínio de códigos reservados a poucos iniciados e é sob essa mesma lógica que podemos falar de uma linguagem literária ou uma linguagem própria da obra literária. Não se pode abordar a literatura em suas diversas manifestações sem, ao menos brevemente, considerar a linguagem. Portanto, antes de mergulharmos nos estudos dos textos literários, é fundamental compreender as relações proporcionadas pelos estudos da linguagem. Isso nos permite construir uma compreensão que desenvolve e reformula uma teoria sobre a leitura de textos literários e suas formas de manifestação. Nesse contexto, a teoria da literatura pode servir como uma ferramenta que nos auxilia na avaliação das narrativas ficcionais (SILVA, 2014). Para Cândido (1999) não é possível estudar e ensinar Literatura, seja ela de que natureza for, sem a “redução estrutural”, conceito que o autor sintetizou mais tarde como “o processo por cujo intermédio a realidade do mundo e do ser se torna, na narrativa ficcional, componente de uma estrutura literária, permitindo que esta seja estudada em si mesma, como algo autônomo” (CANDIDO, 1999, p. 9). Nessas palavras o estudioso defende a literatura como um fenômeno autônomo que em si mesmo merece ser estudado com todas as suas possibilidades e elementaridades, ou seja, a literatura pode e precisa ser estudada para proporcionar ao estudante um conhecimento cultural e comunicacional das realidades nas quais ele está inserido e que resultará em uma formação pessoal e coletiva (BORDENAVE, 1997). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fonte, 2007. BORDENAVE, Juan D. O que é comunicação. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1997. BRAIT, B. Literatura e outras linguagens. São Paulo: Contexto, 2010. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fonte, 2007. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fonte, 2007. BRAIT, B. Literatura e outras linguagens. São Paulo: Contexto, 2010. Academia Brasileira de Letras (ABL). Dicionário Escolar de Língua Portuguesa. São Paulo: Editora Nacional, 2000. 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