Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

CENTRO UNIVERSITÁRIO FAVENI 
 
 
 
 
 
 
LITERATURA PORTUGUESA I 
 
 
 
 
GUARULHOS – SP 
 
 
 
1. CONSTRUÇÃO DA LITERATURA PORTUGUESA 
 
 
Quando abordamos obras literárias, frequentemente negligenciamos os 
mecanismos empregados pelos escritores para construir as realidades presentes em 
seus textos. Cada texto contém elementos que, embora possam não ser evidentes 
para o leitor comum, requerem atenção ao teórico. Ao adquirir um livro, seja ele um 
romance, poesia ou qualquer outra forma de expressão literária, somos convidados a 
adentrar em um universo cultural em constante formação, muitas vezes alheio ao 
nosso entendimento. 
Portanto, a responsabilidade de analisar a produção literária em sua relação 
com a teoria ou a linguagem recai sobre o estudioso ou pesquisador. Quando nos 
referimos à Teoria Literária, estamos falando de estruturas teóricas que nos auxiliam 
a compreender a obra literária em seus diversos gêneros e contextos de criação. 
 
1.1 Literatura e história 
 
A literatura produzida em Portugal, na Europa, é comumente referida como 
“Literatura Portuguesa”. No entanto, por diversas razões, essa literatura mantém 
conexões estreitas com a “Literatura Brasileira”. Não é por acaso que, durante os anos 
de ensino fundamental e médio, ambas as literaturas são frequentemente estudadas 
de maneira conjunta, resultando em um estudo simultâneo da literatura portuguesa e 
brasileira, como se fossem intrinsecamente ligadas, quase formando uma única 
entidade literária. Abordar essas literaturas de forma independente oferece aos 
estudantes e leitores uma perspectiva diferenciada na observação e na apreciação de 
ambos. 
Seguindo uma abordagem comumente adotada por especialistas, quando nos 
referimos à História em um sentido mais técnico, estamos tratando da "pesquisa, 
coleta de informações e narrativa" de eventos humanos. Nesse contexto, ela não pode 
ser equiparada à mera habilidade da escrita artística, mas sim à contagem científica 
da história, seja ela a história de um povo, uma nação ou de um período histórico 
(ABBAGNANO, 2007). 
Em outras palavras, pode ser definida como, “a totalidade dos modos de ser e 
das criações humanas no mundo, ou a totalidade da ‘vida espiritual’ ou das culturas” 
(ABL, 2000). Dessa forma, a história, nas palavras do autor, pode ser compreendida 
como “a totalidade do que é independente do homem, ou que não pode ser 
considerado produção ou criação sua, mas permanece aparentado com a natureza 
pelo seu caráter de totalidade, de mundo” (ABBAGNANO, 2007, p. 503). São essas 
as bases a serem observadas quando nos voltamos para os movimentos literários. 
A História, nesse sentido, não pode ser compreendida apenas como o acúmulo 
das histórias e narrativas mitológicas (ou não) de um povo. Ela sempre será mais que 
isso, ou seja, ela será o modo pelo qual determinado povo ou determinada 
comunidade leitora compreende sua história e compreende a história dos outros. Por 
isso, faz-se tão importante considerar a história de um período ou de determinada 
manifestação literária. 
A literatura de Portugal começou a surgir como uma expressão coletiva, 
também conhecida como 'literatura de um povo', por volta do século XII, coincidindo 
com a fundação do Estado Português, que ocorreu como resultado da expulsão árabe 
da Península Ibérica. Os primeiros registros dessa literatura emergente surgiram 
naquilo que hoje é conhecido como o Galego-Português, uma forma de português 
antigo que se desenvolveu a partir da integração cultural e linguística entre os povos 
de Portugal e da Galícia. 
Nas palavras de Moisés (2006), ao discorrer sobre as características históricas 
e geográficas dos lusitanos, essa população como que empurrada geograficamente 
contra o mar, toda sua a história, sua literatura e sua cultura, testemunham um 
sentimento de busca por um caminho que só esse povo, com sua literatura, pode 
representar. Esse caminho vai além de suas fronteiras e acabou encontrando não 
apenas outras terras, mas também o seu próprio lugar histórico e literário. 
 
Tal condicionamento geográfico, enriquecido por exclusivas e marcantes 
influências étnicas e culturais (árabes, germânicas, francesas, inglesas, etc.), 
havia de gerar, como gerou, uma literatura com características próprias e 
permanentes […] Diante da angústia geográfica, o escritor português opta 
pela fuga ou pelo apelo à terra, matriz de todas as inquietudes e confidente 
de todas as dores, centro de inspiração e nutridora de sonhos e esperanças. 
A fuga dá-se para o mar, o desconhecido, fonte de riquezas algumas vezes, 
de males incríveis e de emoção quase sempre; ou, transcedendo a estreiteza 
do solo físico, para o plano mítico, à procura de visualizar numa dimensão 
universal e perene a inquietação particular e egocêntrica (MOISÉS, 2006, p. 
13). 
Dessa forma, a Literatura Portuguesa, como nós a conhecemos, é resultante 
das grandes transformações ocorridas na história daquele povo e daquela nação. 
Essas modificações acabaram por organizar a essa literatura em períodos de 
produção e de manifestação literárias, que são conhecidos como: Era Medieval, Era 
Clásica, Era Romântica e Era Moderna. Essas organizações são, ao mesmo tempo, 
históricas e didáticas; históricas porque respeitam uma cronologia estabelecida 
historicamente e didáticas porque têm como princípio, estabelecer um modo de 
compreensão que seja acessível. 
Toda literatura, seja regional ou nacional, tem uma história que pode ser 
contada por seus participantes ou por aqueles que são apreciadores dessa cultura. 
Como afirma Brait (2010), a literatura é sempre o lugar de trocas e diálogos, a partir 
dos quais, se podem criar realidades e entender mundos e construções culturais e 
históricas. É nesse sentido, que pode-se afirmar que toda a literatura acaba se 
tornando o reflexo de um povo, retratando a história, costumes e crenças desse povo 
e, esse princípio, se aplica de forma direta à Literatura Portuguesa. 
 
Muitas vezes se diz que a “literariedade" reside, sobretudo, na organização 
da linguagem que torna a literatura distinguível da linguagem usada para 
outros fins. Literatura é linguagem que "coloca em primeiro plano" a própria 
linguagem: torna-a estranha, atira-a em você - "Veja! Sou a linguagem!" - 
Assim você não pode se esquecer de que está lidando com a linguagem 
configurada de modos estranhos. Em particular, a poesia organiza o plano 
sonoro da linguagem para torná-Io algo com que temos de ajustar contas 
(CULLER, 1999, p. 35). 
 
Sabe-se que a definição do que constitui a Literatura ainda é objeto de 
indefinição, entre os teóricos existem diversas e variadas perspectivas sobre o 
assunto. Em sua introdução aos estudos literários e no âmbito das várias perspectivas 
de compreensão do significado da literatura, Eagleton (2006) admite que muitas são 
as tentativas para definir a expressão literária. Em suas palavras “é possível, por 
exemplo, defini-la como a escrita ‘imaginativa’, no sentido de ficção - escrita esta que 
não é literalmente verídica”. 
Ainda segundo o autor, “se refletirmos, ainda que brevemente, sobre aquilo que 
comumente se considera literatura, veremos que tal definição não procede” 
(EAGLETON, 2006, p. 2) e a razão é que, segundo o estudioso e crítico literário, esses 
modos de compreensão tendem a refletir sobre literatura como um fazer histórico. 
Portanto, embora seja necessário ter, pelo menos, um conhecimento 
introdutório de História para se estudar Literatura, não se pode afirmar que a literatura 
seja um tipo de história. Tanto a Literatura quanto a História, enquanto disciplinas, têm 
objetos de pesquisa distintos, conferindo a esses campos de investigação significados 
diversos. 
É possível, portanto, dizer que “a literatura não era uma pseudo-religião, ou 
psicologia, ou sociologia, mas uma organização particular da linguagem” 
(EAGLETON, 2006, p. 4). Se tomarmos essa definiçãocomo correta, poderíamos 
dizer que a Literatura Portuguesa, com suas ligações históricas e geográficas, pode 
ser considerada como um modo particular de organização da linguagem para a 
construção de compreensões de sua própria realidade e da realidade de seu povo. 
 
1.2 Uma cronologia histórica 
 
Não há como negar que a literatura é uma das práticas mais antigas da 
sociedade, e que cada sociedade organiza sua existência no mundo de maneira 
singular. A forma como essas experiências (ou histórias) são narradas constitui a base 
do que podemos chamar de literatura nacional ou regional. Essa literatura possui 
características distintas, bem definidas e representadas por períodos históricos que 
auxiliam na compreensão dessas manifestações literárias. Isso inclui, naturalmente, a 
Literatura Portuguesa e suas características literárias e contextos espaço-temporais 
(FLACH; GONÇALVES, 2018). 
De acordo com Moisés (2006), ao organizar a Literatura Portuguesa em ordem 
cronológica (temporal), utilizamos 'pontos de referência' na tentativa de identificar 
indícios de inovações que possam servir como base para uma compreensão mais 
ampla daquela realidade histórico-literária. Essa delimitação artificial desempenha, 
portanto, um papel didático, promovendo clareza e organização. No entanto, tais 
elementos não devem nos conduzir à desordem no estudo e na compreensão dos 
eventos históricos e literários. Assim, podemos observar a 'Época Medieval', a 'Época 
Clássica' e a 'Época Moderna', considerando suas características distintas, bem como 
suas obras e autores. 
Ao mencionarmos épocas, estamos nos apropriando de um conceito muito 
comum para os especialistas que estudam a construção temporal e suas 
características em determinados círculos temporais. Como indicado por Abbagnano 
(2007, p. 503), “a noção da História como ciclo, está ligada à de ciclo do mundo, 
bastante difundida na Antiguidade grega. Para os estoicos [como exemplo] a repetição 
do ciclo cósmico incluía a repetição da História humana no seu conjunto”. Assim, 
quando analisamos a história como período, estamos juntando fatos para compor um 
retrato de um período, de um círculo temporal. 
 
➢ Época Medieval 
 
O período conhecido como Época Medieval da Literatura Portuguesa inicia-se 
no século XII com a publicação de um texto que é considerado um marco para o início 
da literatura de Língua Portuguesa. O referido texto, trata-se da “Canção Ribeirinha” 
(também chamada historicamente de Canção de Guarvaia), escrita por Paio Soares 
de Taiverós. Esse período histórico e literário também pode ser dividido em dois outros 
momentos: O Trovadorismo (1189 – 1434) que marca as variadas manifestações na 
literatura, tanto na poesia, quanto na prosa e no teatro; e o Humanismo (1434 – 1527) 
que se caracteriza como um período de transição de uma cultura dita medieval para 
uma cultura considerada clássica. É nesse último período que nasce o que seria 
chamada na história da literatura de “Poesia palaciana”. Acompanhe, a seguir, na 
Figura 1, uma mostra resumida desse período histórico-literário. 
Figura 1 – Autores e obras da Época medieval 
 
 
Fonte: shre.ink/UHDk. 
➢ Época Clássica 
 
Também conhecida como Era Clássica, esse período abrange o tempo que vai 
do século XVI até meados do século XVIII. Como ocorreu em épocas anteriores, essa 
era foi marcada por produções literárias, tanto na poesia quanto na prosa, bem como 
no teatro. A fase Clássica da Literatura Portuguesa está dividida, didaticamente, em 
três períodos: O Classicismo (1527 – 1580) que tem como marco inicial a chegada de 
Sá de Miranda às terras lusitanas. O Barroco, também chamado de Seiscentismo 
(1580 – 1756), é fortemente marcado por questões religiosos e pela escrita eclesial 
do Pe. Antônio Vieira. O Arcadismo (ou Setecentismo) estende-se de 1756 até 1825, 
e teve como marco inicial a inauguração da chamada Arcádia em Portugal. As 
Arcádias eram espaços que serviam para reunião de artistas e intelectuais que se 
empenhavam em construir uma nova forma de arte em Portugal, começando pela 
capital Lisboa. A Figura 2 elenca as principais informações desse período, veja: 
Figura 2 – Autores e obras da Época clássica 
 
Fonte: shre.ink/UHx4. 
➢ Época Moderna 
 
A Era Moderna compreende um período relativamente longo que engloba em 
sua composição variadas manifestações literárias. Iniciou por volta de 1825 e continua 
até a contemporaneidade (a época atual). É importante notar que, diferentemente do 
que ocorreu em outros períodos, este não pode ser considerado um ponto final na 
história, já que a literatura moderna continua a se desenvolver até os dias atuais, 
embora alguns críticos possam apontar outro período para o momento histórico que 
vivemos. 
A Época Moderna abarca o Romantismo (1825 – 1865), período de grandes 
transformações nacionais e grandes mudanças filosóficas. O Realismo (1865 – 1890) 
com sua “Questão coimbrã”, uma disputa entre intelectuais estudantes de 
universidades em Portugal. O Naturalismo (1875 – 1890), caracteriza-se pela negação 
do romântico e a busca de uma visão mais realista da existência, com destaque 
especial para as características dos instintos naturais do homem. O Parnasianismo 
(1870 – 1890) foi um movimento que se manifestou principalmente na poesia e tinha 
como preocupação uma estética refinada e o cuidado meticuloso na construção da 
obra literária. O Simbolismo (1890 – 1915), que teve em Eugênio de Castro e sua obra 
um marco para sua produção e existência, tinha como base ideológica a crítica ao 
materialismo e ao racionalismo. Veja, na Figura 3, os principais aspectos da Era 
Moderna: 
Figura 3 – Autores e obras da Época moderna 
 
Fonte: shre.ink/UHZl. 
 
 
Nas palavras de Moisés (2006), assim como a maioria das literaturas nacionais, 
a Literatura Portuguesa também possui um marco espaço-temporal e literário para a 
sua inclusão no cenário literário mundial. Esse marco ocorreu quando o trovador Paio 
Soares de Taveirós compôs uma cantiga que, não por acaso, ficou conhecida como 
'Cantiga de garvaia'. A 'garvaia' era uma expressão que designava um luxuoso vestido 
que as senhoras usavam na corte, portanto, uma vestimenta de luxo. Essa primeira 
obra literária revelava uma complexidade musical e poética que apontava para 
diversos vícios da sociedade portuguesa. 
Por fim, como afirmado por Bordenave (1997), toda a comunicação tem um ou 
mais objetivos, e com a literatura não é diferente. Sempre que se observa uma 
manifestação literária, torna-se crucial reconhecer que nela existe uma 
intencionalidade que pode ou não respeitar características histórica e/ou temporais. 
Essas características devem ser observadas pelo estudioso da literatura quanto pelo 
leitor. Afinal, “a teoria literária tem em suas bases um impulso democrático” 
(EAGLETON, 2006, p. 9), uma relação com todos. 
Como veremos posteriormente, mesmo naquelas produções literárias com 
maior ou menor participação popular, a Literatura, em si mesma, é sempre um espaço 
de encontros, de diversas visões de mundo e de diálogo entre diferentes perspectivas. 
No caso da Literatura Portuguesa, essa dinâmica não é diferente, já que sua origem 
reside precisamente na tentativa de se dissociar de outras culturas para construir uma 
cultura e literatura próprias, refletindo as características, crenças e estética do povo 
português. 
2. UMA LITERATURA PORTUGUESA MEDIEVAL 
 
 
Como tivemos a oportunidade de observar, não é possível estudar a Literatura 
de um período histórico específico ou as manifestações literárias de uma determinada 
comunidade literária sem antes investigar a História, que fornece o suporte para os 
contextos que moldaram aquele momento temporal. A História é, portanto, uma 
ferramenta extremamente importante para a compreensão dos períodos literários em 
qualquer Literatura, seja ela Portuguesa, Francesa, Alemã ou de qualquer outraorigem. Com base nesse princípio, vamos explorar a literatura medieval portuguesa, 
examinando seus autores, contextos e elementos ideológicos que influenciaram a 
Literatura produzida nesse período. 
 
2.1 A idade média 
 
É comum a ideia de que a Idade Média (aproximadamente dos Séculos V ao 
XV) seja considerada o período mais obscuro da história da humanidade. No entanto, 
entender o que é a Idade Média e como ela pode ser interpretada é fundamental para 
compreender que tipo de literatura foi produzida nesse período, especialmente na 
área política e geográfica que estamos estudando, ou seja, o país Portugal e seu povo. 
Segundo Eagleton (2006), a queda do Império Romano no Ocidente deu início 
ao período da história humana conhecido como Idade Média, que se estende até 
meados da época do Renascimento. No entanto, é importante lembrar, que o termo 
“Idade Média” foi cunhado e amplamente utilizado em um período posterior ao século 
XV; portanto, não foram os homem dos séculos V a XV que inventaram esse termo, 
mas sim aqueles que viveram em um período posterior. Inicialmente, o termo “Idade 
Média”, tinha conotações pejorativas, sugerindo que as pessoas desse período não 
haviam alcançado a maturidade intelectual de seus predecessores. Com o tempo, no 
entanto, o termo passou a ser usado para identificar um período específico da história 
humana. 
Ainda segundo o referido teórico, um dos elementos característicos da Idade 
Média é a divisão de poderes políticos, sociais e econômicos em grupos estritamente 
localizados. Esses grupos formavam uma espécie de hierarquia sobre a qual a 
sociedade estava organizada. As relações sociopolíticas eram restritas e raramente 
sofriam alternância de poderes, exceto entre os membros desses mesmos grupos. A 
divisão desses grupos ocorria da seguinte forma: 
• Nobreza: composta pelos nobres, os donos das terras. A riqueza dessa classe 
os colocava no papel de guerreiros e, portanto, defensores da cristandade. 
• Clero: formado pelo corpo da Igreja Católica. Eles desempenhavam funções 
religiosas e consideravam-se os interlocutores de Deus na terra. Eram donos 
de muitas propriedades e riquezas. 
• Camponeses: compunham a maioria da população e sobreviviam do seu 
próprio trabalho. Tinham obrigações a cumprir e pagavam muitos impostos para 
a nobreza e o clero. 
Logo, a nobreza detinha o poder político; o clero exercia o poder religioso e os 
camponeses eram aqueles que trabalhavam na terra para que os outros dois grupos 
pudessem manter seu status como detentores de poder, seja ele temporal ou, no caso 
do Clero, atemporal. Nesse contexto, algumas características da Idade Média devem 
ser ressaltadas. São elas: 
• Inicia com a queda do Império Romano no Ocidente; 
• Ruralização da sociedade; 
• Feudalismo; 
• Economia de subsistência, baseada na agricultura; 
• Poder descentralizado: concentrado nas mãos dos senhores de cada feudo; 
• Sociedade estamental: servos, nobres e clero; 
• Exploração do trabalho servil; 
• Relação de suserania e vassalagem; 
• Consolidação do poder da Igreja Católica; 
• Declínio devido ao retorno das relações comerciais e da vida urbana; 
• Marcada por guerras, como as Cruzadas e a Guerra dos Cem Anos. 
 
Certamente, é importante ressaltar que, embora haja variações nas 
interpretações dessas características dependendo do autor ou estudioso, esses traços 
geralmente são considerados como os principais que definem o período medieval, 
também conhecido como Idade Média. Essas características se refletem em diversas 
manifestações sociais e históricas, incluindo a literatura. Isso ocorre porque a 
literatura, como qualquer forma de expressão social e artística, é profundamente 
influenciada pelo contexto histórico e social em que surge, e contribui para a forma 
como percebemos uma determinada era da história. Veja, por exemplo, na figura 
abaixo a coroação de um rei medieval (Figura 1). 
Figura 1 - Momento da coroação de um rei medieval, Rudolf von Ems 
 
Fonte: shre.ink/U6gK. 
 
O período da Idade Média está cronologicamente dividido em duas parte: A Alta 
Idade Média e a Baixa Idade Média. Como nos ensina o filósofo Abbagnano, “em 
sentido próprio, a filosofia cristã da Idade Média. Nos primeiros séculos da Idade 
Média, era chamado de scholasticus [palavra do latim] o professor de artes liberais e, 
depois, o docente de filosofia ou teologia que lecionava primeiramente na escola do 
convento ou da catedral, depois na Universidade” (ABBAGNANO, 2007, p. 344). 
Temos, portanto, um período com vasta abrangência temporal e muitas e variadas 
manifestações, seja de ordem artística, filosófica ou cultural. 
 
2.2 Literatura Portuguesa no período medieval 
 
A Literatura Portuguesa no período da Idade Média pode ser organizada em 
dois momentos distintos: o primeiro momento chamado de Trovadorismo e o segundo 
momento chamado de Humanismo. No Trovadorismo, temos como manifestação 
literária principal as 'cantigas', e o Humanismo é marcado por produções teatrais que 
podem ser consideradas clássicas na literatura do povo português. 
Humanismo 
 
O Humanismo foi um movimento de transição entre a Idade Média e a Idade 
Moderna, representando também uma passagem do Trovadorismo para o 
Renascimento. Essa última parte é crucial, uma vez que o Humanismo se situa dentro 
da Idade Média, porém, distingue-se dela devido a aspirações e discursos que 
buscavam promover mudanças. Como sugere o próprio nome, esse período histórico 
e literário é caracterizado por ideais filosóficos, morais e estéticos que colocam o ser 
humano no centro de todas as coisas. 
Na chamada “Baixa Idade Média” (FLACH; GONÇALVES, 2018) na Europa 
Ocidental, ocorreram profundas mudanças sociais e econômicas que contribuíram 
para o surgimento de novas formas de pensamento, e consequentemente, para o 
desenvolvimento de novos discursos a respeito da realidade. Como é típico de 
mudanças significativas na história, essas transformações no pensamento não 
ocorreram de forma súbita, mas consolidaram-se ao longo dos séculos anteriores até 
concretizarem-se em uma nova mentalidade e uma nova visão do homem e o seu 
valor na sociedade. Portanto, essas novas formas de pensamento influenciaram não 
apenas a economia e a organização do poder, mas também a produção artística. 
De acordo com Culler (1999), apesar de sua importância para a história da 
humanidade, no contexto de sua relevância literária, o Humanismo é frequentemente 
menos estudado em comparação com o movimento histórico subsequente que iremos 
explorar, o Trovadorismo. Não se pode determirar, em sentido simples, o motivo do 
estudo de um movimento literário em detrimento de outro; mas podemos observar 
essa diferenciação entre a atenção que se dá a um momimento e ao outro. 
Trovadorismo 
 
O Trovadorismo é um gênero literário ou movimento literário que floresceu entre 
os séculos XII e XIV, durante a Idade Média, particularmente no período feudal. Como 
o próprio nome indica, os poetas dessa época eram chamados de trovadores, ou seja, 
artistas que criavam e entoavam seus poemas, frequentemente acompanhados de 
instrumentos de corda (como mostra a Figura 2, abaixo). É desse contexto musical 
que surge o termo "trovadorismo". Enquanto os trovadores eram os praticantes da 
música, o trovadorismo abrangeu o movimento cultural e histórico mais amplo. 
Figura 2 - Trovadores medievais 
 
Fonte: shre.ink/U1kf. 
 
Nas palavras de Moisés (1990), é possível identificar o início de uma primeira 
fase na Literatura Portuguesa, que remonta a 1198, quando o trovador Paio Soares 
de Taveirós compôs uma "cantiga" que misturava elementos de amor e escárnio, 
dedicada à senhora Maria Pais Ribeiro, conhecida como "A Ribeirinha". De acordo 
com o estudioso, ao longo de duzentos anos de atividade literária, foram 
desenvolvidas práticas poéticas, narrativas de cavalaria e obras de caráter linguístico. 
Para uma compreensãomais precisa deste período, vale a pena examinar algumas 
das características que definem o contexto trovadoresco: 
• Vínculo entre poesia e música; 
• Tratavam de amizade, amor e veneração ao ser amado; 
• Presença do estilo de vida da aristocracia feudal nas trovas produzidas; 
• Críticas diretas e indiretas. 
 
No Trovadorismo, houve uma conexão significativa entre a poesia e a música, 
conhecida como "cancioneiro" (MOISÉS, 1990). Essa expressão englobava toda a 
produção literária presente nas cantigas populares desse período histórico. Quando 
afirmamos que nos cânticos trovadorescos havia espaço tanto para gêneros líricos 
quanto satíricos, estamos indicando que ambos coexistiam no cancioneiro 
trovadoresco. Enquanto as "cantigas de amigo" e as "cantigas de amor" refletiam um 
olhar contemplativo e amoroso em relação ao objeto de afeto do trovador, as "cantigas 
de escárnio" ou "maldizer" apresentavam um humor ácido que carregava críticas à 
sociedade da época. Importante notar que essas críticas eram frequentemente 
expressas por meio de canções executadas em locais públicos. 
Quando falamos em cantigas, estamos nos referindo a um gênero 
textual/discursivo que ficou comum e popularmente conhecido durante o período 
comumente chamado de Idade Média. As cantigas de amor eram uma forma 
proeminente de poesia lírica na Idade Média, especialmente na Península Ibérica. 
Elas se destacam por suas características distintivas: 
1. Tema do Amor Cortês: As cantigas de amor frequentemente retratavam o 
amor idealizado e cortês, com o amante expressando devoção à dama amada. 
2. Expressão de Sentimento: Elas exploraram os sentimentos do amante, como 
a saudade, a devoção e a veneração pela dama, muitas vezes de maneira 
subjetiva e intensa. 
3. Uso de Metáforas e Simbolismo: Utilizamos metáforas e simbolismo para 
descrever a beleza da dama e a natureza do amor, muitas vezes associando a 
dama a elementos naturais e divinos. 
4. Formas Fixas e Estrutura Métrica: Assim como em outras obras do 
trovadorismo, as cantigas de amor eram escritas em formas fixas com 
estruturas e especificações específicas. 
5. Foco na Dama: A dama era o centro da atenção, muitas vezes vista como 
distante e inatingível, o que reforçava a idealização do amor. 
 
6. Musicalidade: Muitas dessas cantigas foram projetadas para serem cantadas 
e acompanhadas por música, o que enfatizava a conexão entre a poesia e a 
música. 
As cantigas de amor desempenharam um papel importante na cultura literária 
medieval, refletindo as convenções e valores da época, como o amor cortês e a 
devoção à figura da dama amada. 
Veja abaixo um exemplo de uma 'cantiga de amigo' composta por D. Dinis 
(1279-1325), o sexto rei de Portugal, que introduziu várias mudanças no uso da língua 
em seu país. Ele é conhecido na história como o Rei Trovador devido às inúmeras 
canções que compôs e que eram entoadas como cantigas no vasto cancioneiro da 
língua portuguesa. 
Cantiga de amigo 
Se sabedes novas do meu amigo, 
aquel que mentiu do que pôs comigo! 
Ai Deus, e u é? 
Se sabedes novas do meu amado, 
aquel que mentiu do que mi á jurado! 
Ai Deus, e u é? (in MOISÉS, 1990) 
É importante notarmos o modo como a canção é construída e como o 'eu lírico' 
não aparece como um amante, mas sim como um amigo a quem se deve respeito e 
admiração. Devemos destacar também a linguagem usada na composição do poema, 
que é em português arcaico e, portanto, difere do português que falamos atualmente. 
A seguir, apresentaremos um exemplo de uma cantiga de amor composta por Afonso 
Fernandes 
Cantiga de amor 
Senhora minha, desde que vos vi, 
lutei para ocultar esta paixão 
que me tomou o coração; 
mas não o posso mais e decidi 
que saibam todos o meu grande amor, 
a tristeza que tenho, a imensa dor 
que sofro desde o dia em que vos vi. 
Quando souberem que por vós sofri 
tamanha pena, pesa-me, senhora, 
que por vossa crueza padeci, 
eu que sempre vos quis mais que ninguém, 
e nunca me quisestes fazer bem, 
nem ao menos saber o que eu sofri. 
E quando eu vir, senhora, que o pesar 
que me causais me vai levar a morte, 
direi, chorando minha triste sorte: 
“Senhor, por que me vão assim matar?” 
E, vendo-me tão triste e sem prazer, 
todos, senhora, irão compreender 
que só de vós me vem este pesar. 
Já que assim é, eu venho vós rogar 
que queiras pelo menos consentir 
que passe a minha vida a vos servir, 
e que possa dizer em meu cantar 
que está mulher, que em seu poder me tem, 
sois vós, senhora minha, vós, meu bem; 
graça maior não ousarei rogar. (in MOISÉS, 1990) 
 
Nas cantigas existem algumas características que precisamos observar para 
compreendermos as dinâmicas que movimentam não apenas o período histórico, mas 
também os enunciados produzidos naquele momento histórico. As cantigas de 
escárnio e maldizer eram uma forma de poesia medieval na Península Ibérica que se 
destacava por suas características satíricas e críticas. Elas eram caracterizadas por: 
1. Sarcasmo e Ironia: Utilizavam sarcasmo e ironia para criticar pessoas, 
costumes ou comportamentos, muitas vezes de maneira disfarçada, com duplo 
sentido. 
2. Expressão Indireta: Evitavam ataques diretos, usando metáforas e alusões 
para comunicar suas críticas. 
 
3. Humor Mordaz: Apresenta um tom humorístico, por vezes mordaz, zombando 
de alvos específicos. 
4. Desrespeito às Normas Sociais: Desafiavam as normas sociais e 
frequentemente brincavam com tabus, como temas sexuais ou religiosos. 
5. Contraste com as Cantigas de Amor: Distinguiam-se das cantigas de amor, 
que idealizavam o amor cortês, ao se concentrarem em ridicularizar e criticar, 
muitas vezes de forma anônima. 
As cantigas de escárnio e maldizer eram uma expressão literária que oferecia 
uma válvula de escape para a sátira e a crítica social na época medieval, através de 
uma linguagem muitas vezes cifrada e astuta. 
As cantigas de escárnio geralmente apresentavam uma crítica indireta e 
irônica. Portanto, podemos dizer que esse gênero literário se caracteriza pelo uso de 
figuras de linguagem para construir os sentidos pretendidos pelos autores das 
'cantigas' de escárnio e 'maldizer'. Essas críticas misturam poesia com elementos 
sociais passíveis de crítica. Abaixo, você encontrará um exemplo de uma cantiga de 
escárnio de João Garcia de Guilhade. 
Cantiga de escárnio 
Ai dona fea! Foste-vos queixar 
Que vos nunca louv'en meu trobar 
Mais ora quero fazer un cantar 
En que vos loarei toda via; 
E vedes como vos quero loar: 
Dona fea, velha e sandia! 
Ai dona fea! Se Deus mi pardon! 
E pois havedes tan gran coraçon 
Que vos eu loe en esta razon, 
Vos quero já loar toda via; 
E vedes qual será a loaçon: 
Dona fea, velha e sandia! 
Dona fea, nunca vos eu loei 
En meu trobar, pero muito trobei; 
Mais ora já en bom cantar farei 
En que vos loarei toda via; 
E direi-vos como vos loarei: 
Dona fea, e velha sandia! (in MOISÉS, 1990) 
 
O trovadorismo foi um movimento literário e cultural da Idade Média que surgiu 
na Europa e na Península Ibérica. Caracterizou-se pela produção de poesia lírica, com 
temáticas amorosas, musicais e corteses, frequentemente escrita em formas fixas, 
como as "cantigas de amigo" e as "cantigas de amor". Foi marcado pela influência da 
poesia provençal e pela idealização do amor e da figura do trovador. O trovadorismo 
foi um movimento literário que floresceu principalmente entre os séculos XII e XIV na 
Europa, com destaque para a Península Ibérica. O movimento e a produção trovadora, 
marcou e marca a nossa literatura com suas tendências e modelos.
 
 
 
3. UMA LITERATURA PORTUGUESA NO SÉCULO XV 
 
 
Uma das características mais marcantes do século XV é a expansão marítima. 
No entanto, antes de examinarmos a expansão propriamente dita, é fundamental 
considerar os antecedentes históricos que caracterizaram esse período na 
historiografia portuguesa. No final da IdadeMédia, a Europa vivenciou um período de 
grandes desafios em várias frentes que desestabilizaram toda a região. No entanto, 
as maiores dificuldades se manifestaram sobretudo no âmbito econômico. Toda a 
Europa enfrentava graves necessidades financeiras, o que levou à busca de 
alternativas para enfrentar esses desafios e problemas. Vamos, portanto, examinar os 
eventos que cercaram os tumultuados séculos posteriores ao século XV. 
 
3.1 Final da Idade Média e o século XV 
 
Comumente associamos o século XV à expansão marítima, quando ocorreram 
grandes descobertas continentais. Também é visto como o século que marca o 
estabelecimento do Estado português como uma nação desenvolvida, devido às 
tecnologias desenvolvidas por esse povo na construção de uma nação. No entanto, é 
importante considerar alguns pressupostos que devem ser observados: 
 
Com o passar das décadas, toda a instabilidade vivida na Europa do século 
XIV passou a ser respondida por um novo período de crescimento e 
expansão. As cidades voltaram a crescer, o comércio se rearticulava e os 
campos voltavam a produzir satisfatoriamente. Apesar da reação, velhos e 
novos problemas indicavam que a ordem feudal não oferecia condições para 
que esse crescimento tivesse um fôlego maior. Mesmo superando a crise, 
havia outros obstáculos a serem enfrentados (SOUSA, 2010, documento on- 
line). 
 
Além do que foi apresentado pelo referido autor, podemos destacar também as 
tensões entre aqueles que moravam no campo e os residentes nas cidades. Os 
problemas de abastecimento também eram comuns naquele período da história, 
assim como as questões envolvendo a propriedade privada e a autoridade, tanto sob 
a perspectiva da Igreja quanto dos Reinos sob perspectiva humana. No entanto, 
existem outras características que precisam ser ressaltadas nesse panorama 
histórico, conforme apontado por Rodrigues e Kamita (2018): 
• 1415 – Período inicial das conquistas marítimas portuguesas; 
• 1417 – Divisão da Igreja Católica Oriental e Ocidental; 
• 1417 - John Huss é condenado a morte na fogueira por suas ideias; 
• 1438 - Fundação do que ficou conhecido como Império Inca; 
• Entre 1440 e 1450: Gutenberg inventa a imprensa e revoluciona a impressão; 
• 1450 - Construção da cidade inca de Machu Picchu, marco para a história; 
• 1450 – Protestos populares contra o governo do Rei Henrique VI da Inglaterra; 
• 1453 - Queda de Constantinopla, fim da Idade Média e início da Idade Moderna; 
• 1453 - Fim da Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra; 
• 1455 a 1485 - Guerra das Duas Rosas na Inglaterra; 
• 1478 - Fundação da Inquisição Espanhola; 
• 1488 - Bartolomeu Dias passa pelo Cabo da Boa Esperança; 
• 1490 a 1560 – Esplendor do Renascimento; 
• 1492 – Cristóvão Colombo descobre a América; 
• 1492 - Expulsão do exército árabe da Península Ibérica; 
• 1492 – Expulsão dos judeus da Espanha; 
• 1493 - Papa Alexandre VI decreta a Bula Inter Coetera; 
• 1494 - Tratado de Tordesilhas e divisão de terras entre Portugal e Espanha; 
• 1497 - Giovanni Caboto e a primeira expedição marítima inglesa; 
• 1498 - Vasco da Gama chega à Calicute (Índias); 
• 1500 - Chegada das caravelas portuguesas ao Brasil. 
 
Como pode-se observar, o fim da Idade Média refere-se ao período de 
transição que marcou o encerramento dessa era histórica e o início da Renascença. 
Esse processo de transição ocorreu aproximadamente entre o final do século XV e o 
início do século XVI na Europa. Contudo, é preciso ressaltar que o fim da Idade Média 
não ocorreu de forma abrupta, mas sim como uma série de transformações políticas, 
sociais, culturais e religiosas que moldaram o início da Idade Moderna na Europa. 
Esse período de transição foi fundamental para a evolução da sociedade e do 
pensamento europeu. 
Em resumo, pode-se afirmar que diante desses desafios, a economia europeia 
começou a explorar outras possibilidades em busca de novos mercados, com o 
objetivo de aumentar o abastecimento de alimentos, reduzir os preços das 
mercadorias e encontrar fontes de metais preciosos, como ouro, prata e pedras 
preciosas. Foi assim que a era das Grandes Navegações ganhou ímpeto, permitindo 
a exploração de mares e terras previamente desconhecidos. Aproveitando todo o 
conhecimento disponível na época, os europeus superaram as antigas barreiras, 
especialmente as marítimas, que limitavam sua visão de mundo. 
 
3.2 Prosa literária portuguesa 
 
A Literatura Portuguesa, que teve seu início predominantemente na poesia, 
passou por grandes mudanças devido às Grandes Navegações. Essa literatura 
começou a adotar novos aspectos estético-formais, e a partir dos séculos XIV e XV, 
surgiram os primeiros indícios da prosa literária. 
Conforme indicado pelo teórico Terry Eagleton (2006, p. 7), “até mesmo o texto 
mais ‘prosaico’ do século XV pode parecer ‘poético’ hoje devido ao seu arcaísmo. Se 
deparássemos com um fragmento escrito isolado de alguma civilização há muito 
desaparecida, não poderíamos dizer se se tratava ou não de ‘poesia’ apenas pelo 
exame que faríamos dele”. 
Nesse sentido, é correto afirmar que a literatura em prosa do século XV é 
caracterizada, embora seja em prosa, por um estilo poético que reflete a herança de 
séculos anteriores, nos quais a produção literária da sociedade estava intimamente 
ligada à poesia. Neste período, surgem as chamadas "Novelas de Cavalaria", que 
retratavam a mitologia nacional na figura de um herói idealizado que se torna um 
símbolo da nação. Além disso, há outras características marcantes desse período 
histórico e da produção literária da época: 
• Temas religiosos que poderiam ser profanos, mitológicos ou históricos; 
• Os personagens frequentemente eram nobres e donzelas, ambos sendo 
retratados como o herói e a mocinha; 
• Contexto histórico medieval presente nas narrativas; 
• As histórias eram registradas em documentos, muitas vezes na forma de 
versos, proporcionando um retrato da população daquele período; 
• Temas místicos e sobrenaturais eram recorrentes nas narrativas; 
• Os ideais pessoais dos cavaleiros eram valorizados e explorados nas histórias. 
As "Novelas de Cavalaria" são uma forma literária distinta que surgiu no final 
da Idade Média e início do Renascimento. Diferentemente das cantigas, essas 
novelas são narrativas épicas escritas em prosa, não em verso. São narrativas típicas 
do período medieval divididas em capítulos, com a principal característica de relatar 
aventuras fantásticas envolvendo destemidos guerreiros e honrados cavaleiros que 
superam desafios. Segundo Moisés (2006, p. 14), o século XV foi "indiscutivelmente 
a grande época da cavalaria portuguesa, pelo menos devido à nacionalização do 
gênero e à publicação de várias novelas contendo o nome do autor e elementos da 
realidade física e histórica de Portugal." 
Ainda segundo Moisés (2006), a novela de cavalaria é um gênero literário que 
se destacou na Idade Média, especialmente durante os séculos XI ao XV, e que teve 
focos narrativos centrados em feitos heroicos de cavaleiros andantes que acabaram 
por se tornar modelos de masculinidade e destreza. Essas novelas caracterizem-se 
por alguns elementos básicos. São eles: 
1. Protagonistas cavalheirescos: Os heróis das novelas de cavalaria eram 
cavaleiros nobres, como o Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda, que 
se destacavam por sua coragem, honra e devoção a um código de conduta. 
2. Aventuras e conflitos épicos: As histórias frequentemente envolvem desafios 
épicos, como combates com criaturas míticas, resgates de donzelas em perigo 
e busca por objetos mágicos. 
3. Amor cortês: Além das fachadas de combate, muitas novelas de cavalaria 
exploravam temas de amor cortês, com o cavalheiro dedicando sua devoção a 
uma dama, muitas vezes inatingível. 
4. Código de honra e ética: Os cavaleiros eram governados por um código de 
honra que enfatizava valores como a lealdade, a coragem, a generosidadee a 
justiça. 
5. Influência religiosa e mitológica: Algumas novelas incorporaram elementos 
religiosos, como a busca pelo Santo Graal, enquanto outras exploraram mitos 
e lendas. 
Essas narrativas tiveram um impacto profundo na literatura medieval europeia, 
influenciando autores e moldando a visão de cavalaria e heroísmo por gerações. 
Essas narrativas também acabaram por construir uma espécie de modelo ideal não 
apenas de homens, mas também de modelos de narrativas. 
Durante a Idade Média, especialmente no final desse período, várias nações 
adotaram as novelas de cavalaria como um gênero predominante para narrar as 
histórias de seu povo em relação a outras nações e ao mundo. Exemplos de países 
que produziram extensamente novelas de cavalaria incluem França, Inglaterra, 
Espanha, Itália e Portugal. Uma das novelas de cavalaria mais famosas é "Dom 
Quixote de La Mancha", escrita por Miguel de Cervantes, que, embora seja uma 
produção mais moderna, satiriza as novelas escritas no século XV. Muitas novelas de 
cavalaria notáveis retrataram a busca pelo Santo Graal na Idade Média e as lendas 
do Rei Arthur, que representam importantes ciclos literários. Os principais ciclos das 
novelas de cavalaria podem ser resumidos da seguinte maneira: 
• Ciclo Bretão ou Arthuriano: narra os feitos do Rei Arthur e os Cavaleiros da 
Távola Redonda; 
• Ciclo Carolíngio ou Francês: refere-se ao Rei Carlos Magno e aos Doze Pares 
de Cavaleiros da França; 
• Ciclo Clássico: narra as façanhas de heróis da Antiguidade grega e romana. 
 
As novelas foram, posteriormente, divididas em quatro ciclos, cada um deles 
com suas características e personagens principais. Dentre esses ciclos o mais popular 
foi o Ciclo Carolíngio, que foi inspirado na literatura francesa de história de cavaleiros. 
Esse ciclo teve como seu personagem principal Carlos Magno, que figurava como o 
herói das histórias contadas e como principal personagem de uma série de eventos 
de aventuras, mistérios e incertezas heroicas. Algumas das novelas que tinham 
Magno como protagonista eram: 
• Canção de Rolando: narra a derrota de Rolando, sobrinho do rei Carlos Magno, 
para os muçulmanos, na passagem dos Pirineus. 
• Canção de Turpin: narra a proteção de Carlos Magno ao Santuário de São 
Tiago de Compostela a fim de impedir a invasão moura; 
• Maynete: narra o refúgio de Carlos Magno em Toledo, território mouro, 
disfarçado de Maynete. Envolve-se com Galiana, filha do rei. Os rivais tentam 
matá-lo, mas ele vence a batalha. 
Em resumo, pode-se afirmar que as novelas de cavalaria foram um gênero 
literário popular na Idade Média, especialmente durante os séculos XII ao XVI, que se 
originaram na Europa e tiveram um grande impacto na literatura e cultura da época. 
Essas narrativas do gênero novela (como pode ser visto na Figura 1) eram 
confeccionadas como um produto literário cuja circulação era muito popular entre a 
população letrada daquele período histórico. 
Figura 1 - Uma Novela de Cavalaria 
 
Fonte: shre.ink/UQNC. 
 
Quando falamos sobre manifestação literária, não nos referimos a uma única 
forma ou tipo de texto, mas sim a diversas manifestações literárias que ocorrem 
simultaneamente em um período histórico ou em uma região geográfica específica. O 
século XV não é uma exceção a essa diversidade. Além das Novelas de Cavalaria 
que foram uma característica do Trovadorismo, houve outra manifestação literária 
conhecida como "Crônicas". As crônicas se destacam por narrar eventos históricos de 
forma mais concisa (FLACH; GONÇALVES, 2018). 
A manifestação literária conhecida como "Cronicões" ou "Crônicas" 
caracterizava-se pela narrativa de eventos históricos importantes organizados 
cronologicamente, intercalados com elementos fictícios. Essas obras tinham uma 
natureza não religiosa e tendiam a explorar temas de heroísmo e elementos 
sobrenaturais. Algumas das produções mais significativas nesse estilo, associadas ao 
Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, incluem as "Crônicas Breves e Memórias 
Avulsas", a "Crônica Breve do Arquivo Nacional", a "Crônica da Conquista do Algarve" 
e a "Crônica da Fundação do Mosteiro de São Vicente de Lisboa". Segundo Moisés 
(1990), as crônicas do início do Classicismo eram caracterizadas por seis principais 
características. 
• O cronista concentra sua atenção na figura do Rei. 
• O cronista faz comparecer o povo ao palco do acontecimento. 
• O cronista descreve as cenas como se ele as estivesse vendo. 
• O cronista demonstra uma compreensão das características humanas do seu 
personagem. 
• O cronista conta sua história com vigor e estilo marcante. 
• O cronista molda os fatos para se ater à verdade histórica. 
 
Segundo Bordenave (1997), as cronições inauguram um novo período na 
comunicação eficaz, ao contar relatos sobre pessoas ou fatos que aconteceram em 
seu tempo. Elas inauguram o gênero da crônica, que é tão popular nos dias de hoje. 
A diferença é que nas cronições temos narrativas longas, enquanto as crônicas atuais 
são conhecidas pela brevidade. Essas crônicas tinham o poder de transformar as 
dores que poderiam ser de uma única pessoa, no sofrimento de toda uma nação. Da 
mesma forma, a alegria que pertencia a um indivíduo se tornava um sentimento 
compartilhado por todas as pessoas daquela cultura, no caso, a cultura portuguesa. 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
 
 
BORDENAVE, Juan D. O que é comunicação. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1997. 
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura. São Paulo: Martins fontes, 2006. 
FLACH, A. B.; GONÇALVES, F. S. Tópicos avançados em teoria literária. Porto 
Alegre: SAGAH, 2018. 
MOISÉS, Massaud. A Literatura portuguesa através dos textos. São Paulo: Curtix, 
1990. 
MOISÉS, Massaud. A Literatura portuguesa. São Paulo: Curtix, 2006. 
 
RODRIGUES, Antônio Edmilson M.; KAMITA, João Masao. História Moderna – os 
momentos fundadores da cultura ocidental. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2018. 
ATU 
4. UMA LITERATURA PORTUGUESA NO QUINHENTISMO 
 
 
A expansão marítima não pode ser vista somente como um movimento 
histórico, político e cultural; ela também desempenhou um papel fundamental na 
evolução da Literatura Portuguesa no início dos anos 1500 em Portugal, marcando o 
início de um novo movimento literário. A expansão marítima surgiu da necessidade de 
Portugal encontrar novas oportunidades de crescimento e avanço marítimo, em meio 
a vários desafios sociais e financeiros que a região enfrentava. Assim o que 
comumente chamamos de “expansão marítima portuguesa” teve um impacto 
significativo e duradouro na literatura e nos gêneros literários produzidos naquela 
época da história mundial. Afirma-se que o Quinhentismo se caracterizou 
principalmente por ser um período de produção literária informativa e formativa, em 
seus vários aspectos constitutivos (MOISÉS, 2006). 
 
4.1 Características do Quinhentismo 
 
No que diz respeito à nomenclatura, o termo "quinhentismo" faz referência ao 
ano em que o movimento teve início, que é 1500, coincidindo com o período da 
expansão marítima de Portugal, incluindo a descoberta do Brasil. Nesse período, 
encontramos temáticas específicas, como narrativas das explorações, narrativas 
sobre as grandes navegações e suas implicações, narrativas sobre os recursos 
naturais das terras recém-descobertas, narrativas sobre os costumes dos povos 
encontrados e também sobre o trabalho realizado pelos padres que desempenharam 
o papel de catequese das populações indígenas. No entanto, esse período histórico 
possui outras características peculiares: 
• Textos que abordam a expansão do território; 
• Obras que discutem questões religiosas e de comportamento; 
• Produção literária com linguagem simples; 
• Textos com excessos de adjetivos para descrição; 
• Textos informativos/descritivos – como diários de viagens; 
• Textos formativos – Obras educativas, de cunho social e religioso. 
Um gênero literário que ganhou destaquenesse período foram as cartas. A 
comunicação ocorria por meio de cartas que contribuíram para simplificar a 
linguagem. Portanto, durante esse período, houve uma prática de linguagem comum, 
acessível à maioria da população leitora. Esse tipo de produção literária facilitava a 
leitura e compreensão por parte dos leitores comuns, aqueles que não tinham acesso 
à grande literatura considerada culta. Como é frequentemente afirmado, esses 
documentos precisavam ser descritivos, fornecendo uma quantidade consistente e 
precisa de informações, uma vez que o sucesso das explorações dependia delas 
(RODRIGUES; KAMITA, 2018) 
Um acontecimento literário que marcou o início do Classicismo e a entrada de 
Portugal em uma nova fase de sua história literária foi a introdução do "humanismo" 
em solo lusitano. O movimento humanista, tal como é reconhecido tanto na literatura 
como na história, teve seu início em Portugal por volta de 1418, quando Dom Duarte 
designou Fernão Lopes como Guardador da Torre do Tombo, uma posição pública 
que se assemelhava a um historiador oficial do reino. O período humanista em 
Portugal se estendeu até 1527, quando surgiram os sonetos decassilábicos, 
conhecidos como "medida nova", uma inovação na poesia com seus dez versos, daí 
a origem do nome "decassilábicos". 
Com as mudanças sociais no final do século XIV, devido às Grandes 
Navegações e ao fortalecimento da burguesia, o humanismo começou em Portugal 
como uma literatura de transição. Portanto, o humanismo português pode ser 
considerado um divisor de águas entre o Portugal conservadora e o Portugal moderno, 
que viria a se tornar uma potência global e líder nas atividades comerciais e 
exploração marítima. Foi nesse período que Portugal emergiu como uma potência 
mundial e a Língua Portuguesa passou a ser falada em diversas partes do mundo. 
Conforme Moisés (2006), diante da nomeação de Fernão Lopes como cronista, 
começou tecnicamente o Humanismo em terras portuguesas. Neste período, “a língua 
portuguesa começou a criar sua própria identidade”, ganhando espaço como uma 
língua nacional e diferenciando-se do galego, que também era utilizada entre os 
portugueses. Esse desenvolvimento linguístico teve um impacto direto no avanço da 
produção literária em comparação com o período anterior, que compreendia os 
séculos XII a XIV. 
Como veremos, as manifestações literárias do Humanismo português se 
dividem em três principais vertentes: a crônica histórica de Fernão Lopes, a poesia 
palaciana e o teatro popular de Gil Vicente. Essas manifestações coexistiram em uma 
mistura de produções literárias, como é frequentemente o caso na Literatura, e 
posteriormente foram organizadas de maneira didática para facilitar o estudo 
(EAGLETON, 2006). 
 
4.2 Textos informativos – Fernão Lopes e Garcia de Resende 
 
Fernão Lopes é amplamente reconhecido como um dos principais historiadores 
e cronistas em Portugal, muitas vezes considerado um dos fundadores da 
historiografia portuguesa. Embora as informações sobre sua biografia sejam 
escassas, estima-se que tenha nascido por volta de 1380, em Lisboa, Portugal. Ele 
veio de uma família modesta e, ao longo de sua vida, alcançou um cargo público 
proeminente, tornando-se "guarda-mor da Torre do Tombo". Suas crônicas históricas 
desempenharam um papel significativo na construção da história de Portugal e na 
identidade do país. 
O cronista é conhecido como o "fundador" da história portuguesa devido às 
suas significativas crônicas realistas que documentaram os acontecimentos em 
Portugal durante o seu tempo. Embora não haja registros históricos precisos, acredita- 
se que Fernão Lopes tenha falecido por volta de 1460. A descoberta de uma lápide 
recente revelou o nome do cronista de D. João I, o Rei de Portugal. Sobre essa 
descoberta, comenta-se que "nunca se havia considerado nem se sabia o local de 
sepultamento de Fernão Lopes". É altamente provável que o corpo do escritor resida 
na entrada da Igreja Matriz de Alandroal, uma cidade no distrito de Évora. Para os 
historiadores, esta revelação "constitui uma contribuição fundamental para o estudo 
de um homem sobre o qual pouco se sabia". Abaixo, encontra-se uma cronologia dos 
principais eventos na vida do historiador e cronista português (MOISÉS, 2006). 
Em resumo, podemos dizer que a trajetória de Fernão Lopes, o notável cronista 
da história portuguesa, está marcada por uma série de acontecimentos significativos 
que delinearam a sua carreira e legado. Em 1418, Fernão Lopes foi nomeado guarda- 
mor da Torre do Tombo, uma posição que o incumbiu da importante responsabilidade 
de preservação dos registros reais, atuando essencialmente como o responsável por 
um arquivo central localizado em uma das torres do castelo de Lisboa. 
No ano seguinte, em 1419, ele assumiu a função de escrivão dos livros de D. 
Duarte e, posteriormente, de D. João I. É nesse período que se acredita que Fernão 
Lopes tenha iniciado a redação da crônica dos sete primeiros reis de Portugal, um 
trabalho que marcaria sua carreira renomada. A partir de 1422, Fernão Lopes passou 
a desempenhar o papel de escrivão de pureza do infante D. Fernando, expandindo 
suas responsabilidades dentro da corte. 
Em 1434, alcançou o status de cronista-mor do Reino, uma posição que o 
oficializou como o redator oficial das narrativas históricas relacionadas aos reis de 
Portugal, consolidando seu renome como um dos mais importantes de sua época. 
Entretanto, devido à sua idade avançada, em 1454, Fernão Lopes deixou de 
exercer a função de guarda-mor da Torre do Tombo. As informações históricas sobre 
Fernão Lopes tornam-se escassas após 1459, com poucos registros que lançam luz 
sobre os últimos anos de sua vida. 
Um marco relevante para o estudo de sua obra foi a descoberta, em 1942 e 
1945, de manuscritos que continham a "Crônica de Portugal de 1419", uma obra 
atribuída a Fernão Lopes, abordando os primeiros sete reis de Portugal. Isso reforçou 
a importância do legado desse renomado cronista na preservação da história 
portuguesa. 
Apesar das incertezas que cercam a vida de Fernão Lopes, um fato é certo: os 
documentos e crônicas que lhe são atribuídos revelam a maestria de um escritor que 
soube narrar, como poucos, a história de seus reis e de seu povo. As obras atribuídas 
a ele demonstram a genialidade desse grande autor quinhentista, embora algumas 
delas ainda sejam motivo de disputa entre especialistas. Entre as obras que são 
creditadas a Lopes, destacam-se: 
• Crônica de El-Rei D. Pedro I 
• Crônica de El-Rei D. Fernando 
• Crônica de El-Rei D. João I 
• Reis Gloriosos de Portugal 
• Crônicas de Portugal (inacabada) 
 
Outro autor que se destaca nesse período histórico é Garcia de Resende, 
conhecido como o principal representante português das "poesias palacianas". Essas 
poesias constituíam um gênero literário produzido por nobres que residem em 
palácios, sendo direcionados a um público nobre que compartilhava o mesmo 
ambiente palaciano. Elas eram consideradas uma forma de literatura destinada ao 
entretenimento. 
Esse gênero literário na tradição portuguesa se distingue das cantigas de 
cavalaria, que eram comuns durante o Trovadorismo. As poesias palacianas eram 
notáveis por sua sofisticação linguística, uma vez que foram elaboradas para serem 
declamadas nos palácios, sem a necessidade de acompanhamento por instrumentos 
musicais. Esse desenvolvimento prático foi comprovado em uma clara separação 
entre a música e a poesia dentro desse contexto literário. 
Conforme observado por Moisés (1990), entre as obras de Garcia de Resende, 
destaca-se o "Cancioneiro Geral," uma compilação de poesias palacianas organizada 
pelo autor por volta de 1516. No entanto, essa não é a única contribuição relevante 
de Resende. Além de sua produção literária, ele também se destacou em outras 
disciplinas artísticas, como música, desenho e arquitetura. Suas habilidadese 
ensinamentos multifacetados o tornam uma figura de testemunho do período histórico 
em que viveu. 
Garcia de Resende desempenhou um papel significativo na prestação de 
serviços aos reinados de Dom Manuel, além de ocupar o cargo de Escrivão da 
Fazenda durante o governo de Dom João Terceiro. Seu legado artístico e 
contribuições para administração real o consolidam como uma figura de relevância 
histórica no contexto de sua época. 
 
4.3 Literatura de formação e o teatro de Gil Vicente 
 
Quando mencionamos Gil Vicente, o autor é considerado o patrono do teatro 
português e se destacou por escrever "autos" e "farsas" como "O Auto da Visitação" 
de 1502, "O Velho da Horta" de 1512, "A Farsa de Inês Pereira" de 1523, e sua obra 
mais importante, "O Auto da Moralidade", também conhecida como "Auto da Barca do 
Inferno", de 1516. Esta última é uma das obras mais significativas da literatura 
portuguesa. 
Ao empregar uma linguagem mais próxima do cotidiano, aquela utilizada pelo 
povo comum, os "autos" são essencialmente peças teatrais breves que surgiram 
durante a Idade Média. Elas frequentemente abordam temas religiosos ou morais em 
suas tramas, com o propósito de transmitir valores e promover a formação de um 
caráter cristão entre seu público. 
Por outro lado, as "farsas" são peças ainda mais concisas e diretas em termos 
de linguagem, geralmente compreendendo apenas um ato. Elas tendem a ser 
caricatas, buscando provocar risos e humor, muitas vezes por meio de situações 
econômicas ou personagens exagerados. 
A chamada "literatura de formação", termo historicamente utilizado, está 
principalmente associada à literatura religiosa, uma vez que sua missão é transmitir 
princípios morais e pedagógicos com o intuito de orientar na direção a uma moral 
civilizada e à adoção de bons costumes. Esse enfoque na educação moral é uma 
característica marcante do Quinhentismo, período em que a catequização dos povos 
indígenas foi um dos principais objetivos. 
Como exposto por Moisés (2006), durante o período da Idade Média a 
Literatura Portuguesa viu surgir um tipo de teatro que era popular em quase todos os 
sentidos: nos temas a serem tratados, na linguagem usada e nos atores que 
encenavam essas peças. Esse era um teatro que tinha como característica 
fundamental a sua dinâmica simples, abordando mistérios e milagres alusivos às 
cenas bíblicas, com o principal intuito levar o povo à crença por meio dessa 
dramaturgia. 
Foi somente com Gil Vicente que essa tradição teatral passou a entrar 
definitivamente no gosto popular, tornando-se algo bem apreciado pela maioria das 
pessoas em Portugal. Similar a Fernão Lopes, a biografia de Gil Vicente é cercada de 
mistérios e incertezas. Veja um trecho de “O Auto da Barca do Inferno": 
O primeiro interlocutor é um Fidalgo que chega com um Paje, que lhe leva um 
rabo mui comprido e üa cadeira de espaldas. E começa o Arrais do Inferno ante 
que o Fidalgo venha. 
DIABO: À barca, à barca, houlá! que temos gentil maré! 
- Ora venha o carro a ré! 
COMPANHEIRO: Feito, feito! Bem está! 
Vai tu muitieramá, e atesa aquele palanco e despeja aquele banco, pera a gente 
que virá. 
À barca, à barca, hu-u! 
Asinha, que se quer ir! 
Oh, que tempo de partir, louvores a Berzebu! 
- Ora, sus! que fazes tu? Despeja todo esse leito! 
COMPANHEIRO: Em boa hora! Feito, feito! 
DIABO Abaixa aramá esse cu! 
Faze aquela poja lesta e alija aquela driça. 
COMPANHEIRO: Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça! 
DIABO Oh, que caravela esta! 
Põe bandeiras, que é festa. Verga alta! 
Âncora a pique! 
- Ó poderoso dom Anrique, 
cá vindes vós?... 
Que cousa é esta?... (in MOISÉS, 2006) 
 
Ao apresentar sua peça ao público, o autor a utiliza como uma defesa dos 
motivos que o levaram a escrever a obra teatral, que poderia ser vista como uma 
homenagem à moralidade que, segundo o autor, estava em falta em sua época. 
Observemos nas palavras do próprio autor como ele defendeu sua expressão literária: 
 
Auto de moralidade composto por Gil Vicente por contemplação da 
sereníssima e muito católica rainha Lianor, nossa senhora, e representado 
por seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei Manuel, primeiro de 
Portugal deste nome. Começa a declaração e argumento da obra. 
Primeiramente, no presente auto, se fegura que, no ponto que acabamos de 
espirar, chegamos supitamente a um rio, o qual per força havemos de passar 
em um de dous batéis que naquele porto estão, scilicet, um deles passa pera 
o paraíso e o outro pera o inferno: os quais batéis tem cada um seu arrais na 
proa: o do paraíso um anjo, e o do inferno um arrais infernal e um 
companheiro (VICENTE, GIL (s/d, s/p). 
5. A LITERATURA DO CLASSICISMO E A OBRA DE CAMÕES 
 
 
A literatura clássica de Luís de Camões é uma parte fundamental da literatura 
portuguesa e da literatura mundial. Camões é mais conhecido por sua obra épica "Os 
Lusíadas", uma narrativa em verso que conta a história da epopeia dos navegadores 
portugueses no século XV, liderada por Vasco da Gama, na busca de um caminho 
marítimo para as Índias. Além de "Os Lusíadas", Camões também escreveu uma 
coleção de sonetos, considerada uma das mais belas expressões do Classicismo, 
destacando-se pela sua maestria lírica e influência de poetas clássicos, como 
Petrarca. Os sonetos de Camões abordam temas como o amor, a fugacidade da vida 
e a passagem do tempo, em conformidade com a tradição lírica clássica. 
 
5.1 O Classicismo na Literatura Portuguesa 
 
O Classicismo deixou um legado duradouro nas artes e na cultura ocidental. 
Influenciou movimentos posteriores, como o Neoclassicismo, assim como impactou 
na arquitetura, na literatura e na música até os dias atuais. Além disso, sua valorização 
da razão e da ordem contribuiu para o desenvolvimento do pensamento científico e 
filosófico. 
No período do Classicismo, em geral, a relação entre segurança e certeza foi 
profundamente questionada, em grande parte devido às Grandes Navegações e à 
crescente hipótese da centralidade do homem em relação a todas as coisas. Como 
Moisés (2006) destaca, o movimento histórico e literário conhecido como Humanismo 
abalou as últimas décadas da Idade Média. Esse movimento se caracterizou pela 
redescoberta dos monumentos culturais do mundo greco-latino, especialmente as 
obras escritas, provocando uma transformação em todos os campos do conhecimento 
humano. Essas mudanças, entre outras, levaram a uma mudança de paradigma. A 
visão medieval, que estava centrada na existência de Deus, passou a ter o homem 
como o centro, resultando em transformações profundas em todos os aspectos da 
sociedade e da cultura. 
Ainda segundo o autor Moisés (2006, p. 49), “as circunstâncias históricas e uma 
peculiar situação geográfica conferiram ao povo lusitano um papel de relevo na 
evolução do Renascimento”. A relevância de Portugal na introdução do Renascimento 
deve-se a vários intelectuais portugueses e à expansão marítima, que disseminaram 
as novas ideias que viriam a influenciar Portugal e, consequentemente, toda a Europa. 
Soma-se a isso as descobertas científicas, as inovações culturais e tecnológicas, bem 
como a Reforma Luterana, que mudaram os rumos desse período histórico. 
O humanismo, como movimento intelectual, que surgiu a partir do século XV 
na Europa, começou a questionar diversas verdades que estavam solidificadas 
naquela cultura, uma vez que o cientificismo despontava como uma alternativa para o 
teocentrismo que marcou todo o período antecessor ao século XV. Logo, o movimento 
proporcionou uma nova forma de contemplar a existência humana, seja nas ciências 
ou mesmo nas artes. Um dos símbolos desse antropocentrismo é a obra de Leonardo 
da Vinci que ganhou o nome de o “Homem Vitruviano”, uma gravura de 1590, veja a 
Figura 1 (EAGLETON, 2006). 
Figura 1 - Homem Vitruviano 
 
Fonte: shre.ink/U8tm. 
 
Durante o Renascimento, muitos estudiosos propuseram novas abordagens 
parainvestigar a realidade, tanto no mundo físico quanto no espiritual, bem como na 
vida biológica. Eles formularam perguntas que não se baseavam mais nas 'verdades 
de Deus', mas sim na centralidade da razão humana, ou seja, na construção racional 
do ser humano. Nesse contexto, os artistas também buscaram novas maneiras de 
expressar suas singularidades artísticas. 
Características de movimentos filosóficos, científicos e literários podem ser 
encontradas em várias partes do mundo. Sob essa perspectiva, podemos afirmar que, 
assim como muitos outros movimentos literários e filosóficos, o Humanismo e o 
Classicismo exerceram uma influência significativa em diversas áreas do 
conhecimento humano. É importante analisar de forma sucinta como esses dois 
movimentos filosóficos e culturais transformaram nossa percepção das realidades 
(RODRIGUES; KAMITA, 2018). 
Na arquitetura, o Classicismo trouxe a retomada dos elementos da arquitetura 
greco-romana, como a utilização de colunas, frontões e proporções simétricas. 
Grandes palácios, igrejas e monumentos foram construídos seguindo esses 
princípios, como o Palácio de Versalhes, na França. 
Na escultura, os artistas classicistas buscavam representar o corpo humano de 
forma idealizada, com proporções perfeitas e poses estáticas. As esculturas 
retratavam principalmente deuses, heróis e figuras mitológicas, remetendo ao legado 
da Antiguidade Clássica. 
Já a pintura foi marcada por obras que retratavam temas mitológicos, históricos 
e religiosos. Os pintores classicistas procuravam transmitir emoções controladas, 
utilizando cores suaves e uma iluminação clara. Alguns dos principais artistas dessa 
época incluem Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio e Michelangelo. 
Na música, o Classicismo foi marcado pela busca de clareza, equilíbrio e 
simplicidade. Compositores como Johann Sebastian Bach e Wolfgang Amadeus 
Mozart foram influentes nesse período, criando obras com estruturas bem definidas e 
melodias elegantes. 
Na literatura, o Classicismo manifestou-se na poesia, no teatro e na prosa. Os 
poetas classicistas buscavam seguir as regras da poesia greco-latina, como o uso de 
métrica regular e a imitação de modelos clássicos. Autores como Luís de Camões, 
William Shakespeare e João de Barros deixaram contribuições significativas nesse 
período. 
Apesar de ser uma abordagem geral, parece claro que o Classicismo foi 
baseado em ideais filosóficos do humanismo. Esse pensamento é fundamental para 
que se possa compreender não apenas a relevância do Classicismo, mas também as 
influências filosóficas que deram origem a esse movimento e que sustentaram suas 
bases. Em certa medida, o Classicismo representou uma revolução em diversos 
aspectos e em várias áreas do conhecimento da época. 
 
5.2 Classicismo em Portugal 
 
Como indicado por Moisés (1990) o Classicismo português tem como marco 
inicial o ano de 1527 quando o escritor e poeta Sá de Miranda (1481-1558), regressa 
de viagem à Itália e divulga em Portugal as novas ideias filosóficas e estéticas que já 
circulavam largamente em outros lugares da Europa. Esse mesmo Classicismo chega 
ao fim no ano de 1580, quando falece o também escritor e poeta Luís Vaz de Camões 
(1524-1580), cujas obras marcariam definitivamente a Literatura Portuguesa desse 
período. 
Existem poucos registros sobre a biografia de Camões. Ele teria nascido em 
1524, mas não se sabe ao certo se em Lisboa, Coimbra ou Santarém. Originário de 
uma família abastada, parece ter frequentado diversas escolas durante sua infância e 
juventude. De acordo com Moisés (1990), foi nesse período que o poeta teve contato 
com escritores antigos e modernos, considerando a sua realidade contextual, 
incluindo influências de autores como Homero, Virgílio, Ovídio, entre outros. 
O poeta que era conhecido como um escritor erudito, mas por algum motivo 
que não se sabe explicar, deixou a vida palaciana. Em 1549, seguiu para Ceuta para 
servir como soldado. Alguns autores deduzem que essa decisão foi impulsionada por 
uma decepção amorosa que o poeta tivera, um amor que não foi correspondido. Mas, 
Camões perdeu um dos olhos em combate e voltou a Portugal em 1552, ano em que 
fere um servidor real. Em 1556, dá baixa nas forças armadas e assume o cargo de 
“provedor dos bens de defuntos e ausentes”, em Macau. O poeta teve uma vida 
conturbada por conta de acusações e dívidas. 
De acordo com Moisés (1990), Camões faleceu em 10 de junho de 1580, em 
condições financeiras precárias e praticamente abandonado. Sua extensa obra é 
composta por poemas líricos, poemas épicos, redondilhas no estilo das produções 
medievais, bem como poesias clássicas, teatro popular e teatro clássico. No entanto, 
sua obra mais destacada é "Os Lusíadas", um poema épico que narra as conquistas 
portuguesas. Outro poema de destaque é “Amor é Fogo que Arde Sem se Ver”, 
acompanhe a seguir: 
Amor é fogo que arde sem se ver; 
É ferida que dói e não se sente; 
É um contentamento descontente; 
É dor que desatina sem doer; 
 
É um não querer mais que bem querer; 
É solitário andar por entre a gente; 
É nunca contentar-se de contente; 
É cuidar que se ganha em se perder; 
 
É querer estar preso por vontade; 
É servir a quem vence, o vencedor; 
É ter com quem nos mata lealdade. 
 
Mas como causar pode seu favor 
Nos corações humanos amizade, 
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? (CAMÕES, s/d) 
 
Consagrado pelo gosto popular, o poema “Transforma-se o amador na cousa 
amada” acabou se tornando um verdadeiro ode ao contentamento do amor e ao 
contentamento em estar ao lado da pessoa amada. Não se sabe ao certo quando 
esses poemas foram escritos, mas sabe-se com relativa certeza que são de autoria 
de Camões. Vejamos um trecho desse poema: 
 
Transforma-se o amador na cousa amada, 
por virtude do muito imaginar; 
não tenho logo mais que desejar, 
pois em mim tenho a parte desejada. 
 
Se nela está minha alma transformada, 
que mais deseja o corpo de alcançar? 
Em si somente pode descansar, 
pois consigo tal alma está liada. 
 
Mas esta linda e pura semidéia, 
que, como o acidente em seu sujeito, 
assim co’a alma minha se conforma, 
 
está no pensamento como idéia; 
(e) o vivo e puro amor de que sou feito, 
como matéria simples busca a forma (CAMÕES, s/d). 
Camões conseguiu produzir notáveis poemas da Língua Portuguesa. Apesar 
de sua vasta produção poética, ficou mundialmente conhecido pelo seu épico, “Os 
Lusíadas” que, segundo Moisés (1990) começou a ser escrito ainda no ano de 1556, 
na cidade de Macau. 
"Os Lusíadas" é um poema épico composto por 1.102 estrofes, cada uma com 
oito versos, totalizando 8.816 versos. Luís de Camões utilizou exclusivamente versos 
decassílabos, com dez sílabas métricas, de acordo com a contagem antiga. Esse tipo 
de verso era conhecido como "medida nova" e foi introduzido em Portugal por Sá de 
Miranda. 
Em termos de versificação, a estrutura adotada é a seguinte: o primeiro verso 
rima com o terceiro e o quinto; o segundo verso rima com o quarto e o sexto; e o 
sétimo e oitavo versos rimam entre si, seguindo o esquema ABABABCC. Essas 
estrofes são chamadas de oitava-rima. 
Além disso, Camões demonstrou sua genialidade inserindo rimas internas em 
seu poema para produzir efeitos sonoros variados em seus versos. A seguir, 
apresentamos alguns exemplos tirados de "Os Lusíadas”, no Canto II: 
Põe-se a Deusa com outras em direito 
Da proa capitaina, e ali fechando 
O caminho da barra, estão de jeito 
Que em vão assopra o vento, a vela inchando: 
Põem no madeiro duro o brando peito 
Pera detrás a forte nau forçando; 
Outras em derredor levando-a estavam 
E da barra inimiga a desviavam. 
Quais pera a cova as próvidas formigas, 
Levando o peso grande acomodado 
As forças exercitam, de inimigas 
Do inimigo Inverno congelado; 
Ali são seus trabalhos e fadigas, 
Ali mostram vigor nunca esperado: 
Tais andavam as Ninfas estorvando 
À gentePortuguesa o fim nefando. 
Torna pera detrás a nau, forçada, 
Apesar dos que leva, que, gritando, 
Mareiam velas; ferve a gente irada, 
O leme a um bordo e a outro atravessando; 
O mestre astuto em vão da popa brada, 
Vendo como diante ameaçando 
Os estava um marítimo penedo, 
Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo. 
[…] 
«Ó caso grande, estranho e não cuidado! 
Ó milagre claríssimo e evidente, 
Ó descoberto engano inopinado, 
Ó pérfida, inimiga e falsa gente! 
Quem poderá do mal aparelhado 
Livrar-se sem perigo, sàbiamente, 
Se lá de cima a Guarda Soberana 
Não acudir à fraca força humana? 
«Bem nos mostra a Divina Providência 
Destes portos a pouca segurança, 
Bem claro temos visto na aparência 
Que era enganada a nossa confiança; 
Mas pois saber humano nem prudência 
Enganos tão fingidos não alcança, 
Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado 
De quem sem ti não pode ser guardado! 
 
«E, se te move tanto a piedade 
Desta mísera gente peregrina, 
Que, só por tua altíssima bondade, 
Da gente a salvas pérfida e malina, 
Nalgum porto seguro de verdade 
Conduzir-nos já agora determina, 
Ou nos amostra a terra que buscamos, 
Pois só por teu serviço navegamos.» (CAMÕES, 2008, s/p) 
 
Como nos ensina Eagleton (2006, p. 27), “se o que não existe nos parece mais 
atraente do que o que existe, se a poesia ou a imaginação tem posição privilegiada 
em relação à prosa ou ao ‘fato concreto’, parece razoável supor que isso revele 
alguma coisa significativa sobre os tipos de sociedade em que os românticos viveram”. 
Apesar de Luís de Camões não ser considerado um poeta romântico, uma vez que 
sua produção pertence ao Classicismo, o motivo pelo qual seus poemas, em 
particular, e sua obra épica são tão bem-sucedidos deve nos indicar algo importante 
sobre a sociedade em que o poeta português vivia e aquelas sociedades nas quais 
seus poemas têm sido lidos e apreciados ao longo dos séculos. 
6. ASPECTOS ESTÉTICOS DO BARROCO 
 
 
O Barroco foi um movimento literário e cultural que surgiu na Europa durante 
os séculos XVI e XVII, tendo impacto significativo em diversas formas de expressão 
artística, abrangendo a literatura, a arquitetura, a pintura e a música. Quando se trata 
de expressão artística, não devemos pensar exclusivamente em uma dessas formas, 
mas sim em uma variedade enraizadas em um contexto cultural mais amplo que nos 
permite compreender o movimento Barroco. 
Esse movimento cultural teve origem na Itália e se espalhou por outros países 
europeus, como Espanha, Portugal, França e Holanda. Além disso, é importante 
considerar que, como manifestação da cultura, o Barroco é também fruto de uma série 
de eventos históricos, filosóficos e religiosos que afetaram toda a Europa, com 
manifestações também no Brasil. 
 
6.1 Características estéticas do Barroco 
 
O termo “Barroco” foi originalmente usado para descrever “pérolas de formato 
irregular”, e posteriormente foi associado ao estilo artístico e cultural Barroco. Essa 
imagem é usada metaforicamente para descrever o estilo complexo, ornamentado e 
exuberante característico do período. Essas são suas características estéticas; 
entendendo estética como uma percepção do belo. O termo vem do grego “aisthetiké”, 
que significa “aquele que nota, que percebe”, logo, é a dinâmica de se voltar para um 
objeto estético e notar nele suas características de belo, “harmonia das formas e/ou 
das cores; beleza” (AURÉLIO, 2000). Como explica Abbagnano (2007), quando 
usamos os termos arte e belo precisa-se pensar nesses termos como elementos 
constitutivos da própria arte: 
 
Dissemos "arte e belo" porque as investigações em torno desses dois objetos 
coincidem ou, pelo menos, estão estreitamente mescladas na filosofia 
moderna e contemporânea. Isso não ocorria, porém, na filosofia antiga, em 
que as noções de arte e de belo eram consideradas diferentes e 
reciprocamente independentes. A doutrina da arte era chamada pelos antigos 
com o nome de seu próprio objeto, poética, ou seja, arte produtiva, produtiva 
de imagens […] enquanto o belo (não incluído no número dos objetos 
produzíveis) não se incluía na poética e era considerado à parte […]. Assim, 
para Platão, o belo é a manifestação evidente das ideias (isto é, dos valores), 
sendo, por isso, a via de acesso mais fácil e óbvia a tais valores […], ao passo 
que a arte é a imitação das coisas sensíveis ou dos acontecimentos que se 
desenrolam no mundo sensível, constituindo, antes, a recusa de ultrapassar 
a aparência sensível em direção à realidade e aos valores (ABBAGNANO, 
2007, p. 368). 
 
Segundo Moisés (2006), a origem da palavra "barroco" é incerta, e durante 
muito tempo, ela foi usada para denotar uma literatura considerada de valor estético 
inferior e de baixo nível. Somente após alguns anos é que a palavra passou a designar 
o movimento cultural que se estendeu do século XVII ao princípio do século XVIII, um 
período conturbado da história da humanidade. 
Na literatura barroca, é possível observar uma série de características 
distintivas. Uma delas é a presença de contrastes e dualidades, como a oposição entre 
o divino e o terreno, a vida e a morte, a luz e a escuridão. Esses contrastes eram 
frequentemente explorados por meio de figuras de linguagem complexas, jogos de 
palavras e paradoxos. Na literatura do período barroco, destacam-se vários autores 
que se tornaram verdadeiros ícones desse período: 
• Gregório de Matos (1636- 1695). 
 
• Bento Teixeira Pinto (1561-1618). 
 
• Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711). 
 
• Padre Antônio Vieira (1608-1697). 
 
• Frei Manuel de Santa Maria Itaparica (1704-1768). 
 
Outra característica marcante do Barroco é a religiosidade presente em grande 
parte das obras. Os escritores barrocos frequentemente abordavam temas religiosos, 
explorando a relação entre o homem e Deus, a salvação e a condenação, o pecado e 
a redenção. Essa abordagem religiosa era influenciada pela Contrarreforma ou 
Reforma Católica, movimento da Igreja Católica que buscava reafirmar seus dogmas 
e combater o avanço do Protestantismo. Um dos símbolos que marcou a dinâmica da 
Reforma e Contrarreforma foi o Concílio de Trento (Figura 1). Em palavras de Etzel 
(1974): 
 
O barroco, na sua expressão religiosa, tem o característico geral de uma 
aspiração ao infinito. É suntuoso, porque assim exalta a glória de Deus; é 
redundante, porque reforça a expressão dessa glória; é cheio de formas 
esvoaçantes, que exprimem a espiritualização da fé. Dentro dessa aspiração, 
manifestou-se com riqueza espantosa onde houve recursos, sobretudo o ouro 
que amparava suas pretensões; e foi modesto, pobrezinho, humilde onde, 
mesmo à míngua de recursos, deixou sua marca nesta ou naquela 
composição que exprimiu tudo o que a veneração modesta do fiel pôde 
oferecer a seu Deus. São todas expressões do barroco, com cambiantes 
ligadas à situação social das comunidades. Se o suntuoso representa o 
barroco na sua plenitude áurea, o modesto exprime o mesmo barroco que, 
por sua vez, é a sua linguagem de fé. O Brasil, sendo colônia riquíssima pela 
cultura e comércio do açúcar e pela mineração, teria que produzir um barroco 
rico na sua representação máxima, a talha polimorfa recamada do mais fino 
ouro brasileiro. [...] Em contraposição, temos que reconhecer que nem 
sempre o barroco no Brasil foi assim representado, pois houve regiões onde 
as condições sócio-econômicas determinaram outro tipo de construções. 
Nelas, teve expressão modesta, sem ouro; a talha, ambiciosa em sua 
pobreza, manifesta-se em alguma coluna salomônica, em raras volutas 
simétricas, em linhas curvas, numa que [sic] outra folha de acanto, em raros 
e grosseiros anjos. O intuito na fé foi o mesmo, os recursos é que foram 
mínimos [...] (ETZEL, 1974, p. 28-29). 
 
Entre aqueles já citados e outros principais escritores barrocos, estão Luis de 
Góngora e Francisco de Quevedo, na Espanha, e Gregório de Matos, no Brasil. Suas 
obras refletemas características do movimento, explorando a complexidade da 
condição humana, as contradições da existência e a efemeridade da vida, bem como 
a relação conflitante – entendido naquele tempo – como o dilema entre fé e razão 
(Figura 1). 
Figura 1 - Concílio de Trento (1545-1563) 
 
 
Fonte: shre.ink/U4DP 
 
O estilo barroco na literatura também era caracterizado por uma linguagem 
elaborada, repleta de metáforas, hipérboles e jogos de palavras. Os escritores 
barrocos valorizavam a expressão da emoção e do sentimento, muitas vezes usando 
uma linguagem grandiosa e extravagante para transmitir suas ideias. 
Conforme afirmado por Moisés (2006), o movimento barroco teve um impacto 
duradouro na literatura e na cultura em geral. Mesmo após seu declínio, suas 
influências podem ser vistas em obras posteriores, e o estilo barroco continua sendo 
estudado e apreciado até hoje como um dos períodos mais ricos e complexos da 
história literária. Em resumo, podemos identificar os seguintes elementos que 
caracterizam a estética do movimento Barroco como um todo: 
• Contrastes, dualidades e excessos; 
• Temas religiosos e profanos; 
• Estilo exuberante e decorativo; 
• Figuras de linguagem: antítese, paradoxo, hipérbole, metáfora, prosopopeia. 
 
Em um argumento filosófico, podemos afirmar que "o poder disciplinar é, com 
efeito, um poder que, ao invés de apropriar-se e retirar, tem como sua função principal 
'adestrar'. Ou seja, adestrar para, sem dúvida, retirar e apropriar-se ainda mais e 
melhor. Ele não aprisiona as forças para reduzi-las; busca ligá-las para multiplicá-las 
e utilizá-las como um todo" (FOUCAULT, 1984, p. 153). Esse pensamento é relevante 
para refletirmos sobre diversos aspectos, incluindo o poder exercido pela Igreja na 
Idade Média e sua dinâmica de poder na sociedade barroca. Em outras palavras, é 
útil para compreender sua tentativa de manter o poder durante o período Barroco. 
 
6.2 O Barroco em Portugal 
 
Quando abordamos o Barroco em Portugal, é fundamental compreender que 
ele apresenta diferenças em relação às manifestações barrocas de outros lugares da 
Europa. Autores como Moisés (1990), Rodrigues (2018) e Kamita (2018) 
argumentaram que, ao contrário do que ocorreu em grande parte da Europa, onde 
predominava uma forte influência de sistemas políticos absolutistas, o Barroco 
português não teve seu início em 1600. Nesse período, Portugal encontrava-se em 
uma profunda crise política, econômica e de identidade social. Essa crise foi, em 
grande parte, desencadeada pela perda do trono para Felipe II da Espanha, somada 
à perda do Brasil para os holandeses. A nobreza abandonou as cidades, mudando-se 
para o campo e levando consigo "pequenas cortes" na tentativa de preservar a 
identidade sociocultural portuguesa. 
A Literatura Barroca portuguesa foi impressa principalmente em duas 
antologias: “Fénix Renascida” e “Postilhão de Apolo”, que reuniu autores como D. 
Francisco Manuel de Melo, Jerónimo Baía, Soror Violante do Céu, António da Fonseca 
Soares Frei António das Chagas, D. Tomás de Noronha, Diogo Camacho e António 
Barbosa Bacelar, Eusébio de Matos, Bernardo Vieira Ravasco, Francisco Rodrigues 
Lobo e D. Francisco Xavier de Meneses, entre outros. Notemos algumas 
características, em síntese, da Literatura Barroca em Portugal. 
• Exagero e minúcia nos detalhes; 
• Temática religiosa e profana; 
• Dualidade e complexidade; 
• Uso de figuras de linguagem; 
• Contrastes e conflitos; 
• Teocentrismo versus antropocentrismo; 
• Cultismo e conceptismo. 
 
Além desses poetas, destaca-se na literatura portuguesa, igualmente, o padre 
Antônio Vieira (1608-1697), que participa tanto da história da Literatura Portuguesa 
quanto da Literatura Brasileira, e a escritora Soror Mariana Vaz Alcoforado (1640- 
1732), com sua “Cartas Portuguesas”, considerada um clássico da literatura 
portuguesa. Acompanhe, a seguir, trechos da literatura de Alcoforado: 
 
Ai de mim, a tua última carta pô-lo num estado singular: tanto me batia no 
peito que parecia querer separar-se de mim e voar ao teu encontro. Fiquei 
tão prostrada por estes desatinados embates que estive mais de três horas 
com os sentidos perdidos. Não me empenhava em voltar a uma vida, que por 
tua causa devo perder, pois me é vedado dispor dela para tu a lograres. 
Enfim, bem contra minha vontade lá tornarei a ver a luz do dia. Alegrava-me 
sentir que me finava de amor e, para mais, consolava-me não ficar sujeita a 
ver o coração despedaçado pela dor da tua ausência (ALCOFORADO, p. 18, 
1962). 
 
E em outro trecho a autora de “Cartas portuguesas” diz: 
 
Não sei já o que sou, nem o que faço, nem o que quero. Espedaça-me 
impulsos desencontrados. Alguém poderá imaginar um estado tão lastimoso? 
Amo-te doidamente e quero-te também que nem me atrevo a desejar que em 
ti se renovem arrebatamentos iguais aos meus. [...] Se mal posso com as 
minhas penas, como aguentaria a dor de ver as tuas, que sinto mil vezes 
mais? (ALCOFORADO, 1962, p. 29). 
 
Segundo Moisés (2006, p. 90), “realmente digno de nota, por sua altitude e 
invulgaridade, o fato de conterem as cartas a sincera, franca e escaldante confissão 
duma mulher que se desnuda interiormente para o amante cínico, ingrato e ausente, 
com fúria de fêmea abandonada, sem qualquer rebuço ou pudor”. Ainda segundo o 
autor, ao longo das cartas o leitor faz um mergulho cada vez mais fundo em dilemas 
paradoxais, aos moldes da psicologia feminina e seguindo as características barrocas. 
Outro personagem que se destaca no Barroco português, bem como no 
brasileiro, é o padre Antônio Vieira que foi um proeminente escritor, orador e 
missionário jesuíta do século XVII. Nascido em Portugal em 1608, ele é considerado 
uma das figuras mais importantes da literatura e do pensamento barroco no Brasil e 
em Portugal. Vieira dedicou grande parte de sua vida ao trabalho missionário no Brasil 
colonial. Ele chegou ao país em 1614, aos 6 anos de idade, e passou a maior parte 
de sua vida adulta aqui. Seu trabalho missionário incluiu a defesa dos direitos dos 
povos indígenas e dos escravizados africanos, bem como a crítica aos abusos 
cometidos pelos colonizadores europeus. 
Além de seu trabalho missionário, Padre Antônio Vieira também se destacou 
como orador e escritor. Ele era conhecido por seus sermões poderosos e eloquentes, 
que abordavam uma ampla gama de tópicos, desde questões religiosas e teológicas 
até temas sociais e políticos. Seus sermões foram escritos em uma linguagem 
sofisticada, com recursos estilísticos barrocos, como metáforas, antíteses e 
paradoxos. Vieira também foi autor de obras literárias e políticas de grande 
importância. Seu trabalho mais famoso é "Sermões", uma coleção de sermões 
divididos em diferentes volumes, onde ele aborda temas como a justiça, a moralidade, 
a fé e a relação entre Portugal e suas colônias. Essa obra é considerada uma das 
mais importantes da literatura barroca em Língua Portuguesa. Entre suas obras estão: 
• Sermão do Bonsucesso das Armas de Portugal contra os de Holanda (Bahia, 
1640); 
• Sermão da Sexagésima (Lisboa, 1655); 
• Sermão de Santo António aos Peixes (Maranhão, 1653); 
• Sermão da Primeira Dominga da Quaresma (Maranhão, 1653); 
• Sermão do Mandato (Lisboa, 1643); 
• Sermão do Rosário (Bahia, 1633). 
• Esperanças de Portugal (1659); 
• História do Futuro (1718); 
• Clavis Prophetarum (obra inédita e só traduzida e publicada em 2000). 
 
Padre Antônio Vieira era conhecido por sua coragem e ousadia em suas ideias. 
Enfrentou inúmeras dificuldades e perseguições ao longo de sua vida devido às suas 
opiniões francas e à sua defesa dos direitos dos oprimidos. Suas ideias progressistas 
e sua luta pela justiça social o tornaram uma figura influente em seu tempo e uma 
referência para gerações posteriores. Vamos examinar um trecho da obra de Vieira, 
especificamente do "Sermão a Santo Antônio”: 
 
Antes, porém, que vos vades,assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi 
também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não 
seja de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que 
vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o 
faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes 
comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos 
comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como 
os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para 
um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, 
praeversisque cupiditatibus facti sunt, sicut pisces invicem se devorantes: (Os 
homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que 
se comem uns aos outros). Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da 
mesma natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento, todos 
cidadãos da mesma pátria e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! 
Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste 
escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que 
vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens (VIEIRA in 
MOISÉS, 1990) 
 
Padre Antônio Vieira faleceu em 1697, em Salvador, Bahia, deixando um 
legado significativo na literatura, na política e na luta pelos direitos humanos. Sua 
“escrita eloquente”, sua defesa dos oprimidos e sua contribuição para o 
desenvolvimento do barroco literário o tornaram uma figura importante e admirada até 
os dias atuais (TRASK, 2004). Sua obra continua a mover pesquisas e estudos por 
todos os cantos, em especial por sua forma erudita e rebuscada no uso das palavras. 
7. RETÓRICA DISCURSIVA E FIGURAS DE LINGUAGEM 
 
 
Ao pensarmos em Literatura em suas várias manifestações é preciso pensar 
também nos recursos que, durante muitos séculos foram usados por autores variados 
em momentos diversos de sua produção literária; dentre esses mecanismos estão as 
figuras de linguagem, elementos essenciais à construção discursiva literária. A 
importância desses recursos e da comunicação na literatura é fundamental, uma vez 
ela é, essencialmente, uma forma de comunicação artística que transcende o tempo 
e o espaço e que se utiliza de vários recursos linguísticos à sua materialização. 
 
7.1 Língua, linguagem e discurso 
 
A linguagem – como sistema linguístico – é a capacidade de comunicação inata 
e o discurso é a expressão concreta da linguagem em situações de comunicação 
específicas. Compreender essa relação é fundamental para uma análise aprofundada 
da comunicação humana (JAKOBSON, 2008). A relação entre língua, linguagem e 
discurso é fundamental para a compreensão da comunicação humana e da forma 
como nos expressamos. Embora esses termos sejam frequentemente usados de 
forma intercambiável, eles têm significados diferentes e desempenham papéis 
diferentes no processo comunicativo, de acordo com teóricos (VENÂNCIO, 2002; 
KIRCHOF, 2013). Portanto, pode-se afirmar que ela desempenha um papel crucial em 
várias dimensões do ser humano: 
• Expressão de ideias e emoções: A literatura oferece aos autores uma 
plataforma para expressar suas ideias, emoções, perspectivas e experiências 
de maneira criativa e significativa. Através da escrita literária, os autores podem 
transmitir mensagens profundas e complexas que podem ressoar com os 
leitores, permitindo-lhes explorar temas, dilemas e aspectos da condição 
humana de maneira única. 
• Comunicação intercultural: Uma literatura que transcende barreiras culturais e 
linguísticas, permitindo que histórias e experiências de diferentes partes do 
mundo sejam compartilhadas e compreendidas por uma audiência global. Isso 
promove a compreensão e a empatia entre culturas, contribuindo para uma 
maior conscientização e facilidades das diferenças. 
 
• Preservação da história e da cultura: A literatura desempenha um papel 
fundamental na preservação da história e da cultura de uma sociedade. Ela 
documenta eventos, tradições, crenças e valores que podem ser transmitidos 
de geração em geração. Isso é essencial para a construção da identidade 
cultural e para a compreensão das raízes de uma comunidade. 
Assim, rememorar alguns conceitos básicos para compreensão do todo da 
língua literária é fundamental para que não ocorra erros, seja de ordem de 
compreensão ou de elementos contextuais: 
• Língua: A língua se refere a um sistema de regras e convenções que permite 
que um grupo de pessoas se comunique. É um sistema abstrato e estruturado 
que envolve regras gramaticais, vocabulário e sintaxe específicas. Cada língua 
possui suas próprias características específicas, como o português, o inglês, o 
espanhol, entre outras. A língua é um componente essencial da comunicação 
e fornece as ferramentas para a expressão de pensamentos e ideias. 
• Linguagem: A linguagem é uma capacidade inata dos seres humanos de se 
comunicarem por meio de sinais, gestos, sons, símbolos e outros meios. Ela é 
uma habilidade que todos os indivíduos possuem para expressar seus 
pensamentos e emoções, independentemente da língua que falam. A 
linguagem é uma característica universal da espécie humana e é compartilhada 
por todas as culturas. 
• Discurso: O discurso refere-se à manifestação concreta da linguagem em 
situações específicas de comunicação. É a utilização da língua e da linguagem 
para transmitir informações, opiniões, histórias e mensagens em contextos 
sociais e culturais particulares. O discurso não é apenas sobre as palavras 
usadas, mas também sobre o contexto, a entonação, a intenção do falante e o 
público-alvo. Ele pode ser oral, escrito, visual ou multimodal. 
A relação entre esses três elementos é interdependente. A língua fornece as 
estruturas e os recursos linguísticos que a linguagem utiliza para se manifestar, 
enquanto o discurso é a aplicação prática da língua e da linguagem em contextos 
específicos. O discurso, segundo Brait (2010), é moldado pela língua em que é 
expresso, pela cultura em que ocorre, e a linguagem é a capacidade inata que torna 
possível a comunicação por meio da língua. 
 
7.2 Figuras de retórica e suas implicações à literatura 
 
As figuras de linguagem ou, como eram chamadas em momentos pretéritos da 
história da linguagem, figuras de retórica, são recursos ou estratégias utilizadas na 
linguagem para criar efeitos especiais, enfatizar ideias, transmitir mensagens de forma 
mais expressiva e tornar a comunicação mais elaborada e impactante (BRAIT, 2010). 
Elas desviam do uso comum e literal das palavras, introduzindo elementos figurativos 
ou simbólicos no discurso. 
As figuras de linguagem são frequentemente empregadas na poesia, na 
retórica e na prosa para adicionar camadas de significado, persuasão ou beleza à 
comunicação. Por isso, esse recurso é parte essencial da expressão artística e 
retórica, sendo amplamente utilizadas na literatura, na poesia, no discurso político, na 
publicidade e em muitos outros contextos comunicativos (CEREJA; MAGALHÃES, 
2016). 
Nas palavras de Bechara (2009), é necessário ressaltar que a diferença entre 
figuras de retórica e figuras de linguagem pode ser sutil, mas esses termos geralmente 
se referem a conceitos bastante diferentes na análise da linguagem e da expressão 
literária. As figuras de linguagem são um termo mais extenso que abrange uma 
variedade de recursos usados na linguagem para fins expressivos, enquanto as 
figuras de retórica são um subconjunto dessas figuras de linguagem com foco na 
persuasão e retórica (CEIA, 2009). A seguir, esses recursos da linguagem serão 
detalhados. 
• Figuras de Linguagem: Este termo é mais amplo e engloba uma variedade de 
recursos utilizados na linguagem para criar efeitos, expressar significados 
figurativos e tornar a comunicação mais expressiva. As figuras de linguagem 
incluem metáforas, metonímias, ironias, hipérboles, entre outras.São recursos 
que desviam do uso comum e literal das palavras para transmitir ideias de 
maneira mais vívida e impactante. 
• Figuras de Retórica: As figuras de retórica são um subconjunto das figuras de 
linguagem que se concentram especificamente na persuasão, na retórica e na 
persuasão. Elas são usadas para influenciar ou convencer um público-alvo em 
discursos políticos, discursos públicos e escrita persuasiva. As figuras de 
retórica incluem recursos como a antítese (contraposição de ideias opostas), o 
pleonasmo (repetição desnecessária de palavras para enfatizar), a elipse 
(omissão de palavras para criar efeito), entre outras. 
De acordo com Cegalla (2008), não é possível determinar quantas são as 
figuras de linguagem, em face dos muitos e variados usos e contextos nos quais o 
discurso é construído e utilizado. As principais são: 
1. Metáfora: A metáfora estabelece uma comparação implícita entre dois 
elementos diferentes, atribuindo características de um ao outro para destacar 
semelhanças ou características específicas. Por exemplo, “Seu coração é uma 
pedra fria.” 
2. Metonímia: Nessa figura, um termo é substituído por outro com o qual possui 
uma relação ou de contiguidade. Por exemplo, “As cortinas aplaudiram uma 
performance”. 
3. Ironia: A ironia consiste em expressar o oposto do que se pretende dizer, 
muitas vezes com a intenção de provocar reflexão ou crítica. Por exemplo, "Que 
belo dia chuvoso!" 
4. Hipérbole: Uma hipérbole envolve o uso de exagero para enfatizar uma ideia 
ou característica. Por exemplo, “Estou morrendo de fome!” 
5. Prosopopeia (ou personificação): Nessa figura, elementos não humanos são 
atribuídos com características humanas, como emoções ou ações. Por 
exemplo, “O sol brilha no céu.” 
6. Anáfora: A anáfora é uma reprodução deliberada de uma palavra ou expressão 
no início de frases ou versos sucessivos para criar ênfase ou ritmo. Por 
exemplo, "Eu tenho um sonho. Eu tenho um desejo. Eu tenho uma visão." 
7. Símbolo: Um símbolo é um objeto, palavra ou conceito que representa algo 
além de seu significado literal. Por exemplo, a pomba branca é frequentemente 
usada como símbolo de paz. 
8. Onomatopeia: Uma onomatopeia consiste em usar palavras que imitam sons 
reais. Por exemplo, "O sino tocava 'ding-dong'." 
As figuras de linguagem desempenham um papel fundamental na literatura, 
enriquecendo a linguagem e a expressão literária de várias maneiras (CEGALLA, 
2008). Elas são empregadas pelos escritores para criar textos mais expressivos, 
cativantes e ricos em significados. Aqui estão algumas maneiras de como as figuras 
de linguagem são usadas na literatura: 
• Expressão criativa: permitem que os escritores se acostumem ao uso comum 
e literal da linguagem, permitindo-lhes criar imagens e metáforas que 
transcendem o simples significado das palavras. Isso torna a prosa e a poesia 
mais artísticas e cativantes. 
• Enriquecimento estilístico: uso de figuras de linguagem, como metáforas, 
metonímias, hipérboles e personificações, enriquecendo o estilo literário. Elas 
acrescentam profundidade e complexidade à escrita, tornando-a mais 
interessante e atraente para os leitores. 
• Transmissão de emoções e significados sutis: permitem que os escritores 
expressem emoções e nuances de significado de forma mais eficaz. Por 
exemplo, uma metáfora pode transmitir tristeza, esperança ou amor de maneira 
mais intensa do que uma descrição literal. 
• Criação de imagens vívidas: são frequentemente usadas para criar imagens 
mentais vívidas na mente dos leitores. Isso ajuda a pintar quadros sensoriais e 
a tornar a narrativa mais envolvente. Por exemplo, "O céu estava tingido de 
laranja e rosa" cria uma imagem visual e emocional. 
• Reforço de temas ou expressões simbólicas: um símbolo, por exemplo, pode 
ser usado como uma metáfora recorrente que representa um conceito ou ideia 
ao longo de uma história. 
• Variedade e ritmo: figuras de linguagem, como anáforas (repetição de palavras 
ou frases no início de versos ou frases), são usadas para criar ritmo e enfatizar 
ideias importantes. Eles adicionam variedade e musicalidade à escrita. 
• Desconstrução e crítica: além de aprimorar a expressão, as figuras de 
linguagem também são usadas para desconstruir estereótipos, questionar a 
realidade e criticar a sociedade. A ironia, por exemplo, pode ser usada para 
criticar algo de forma sutil. 
Em suma, conforme Kirchof (2013), as figuras de linguagem desempenham um 
papel essencial na literatura – em qualquer que seja sua manifestação, período ou 
pertença entico-geográfica –, enriquecendo a expressão e a comunicação, permitindo 
que os escritores transmitam emoções, criem imagens vivas, reforcem temas e estilos, 
e envolvam os leitores de maneira mais profunda. Elas são ferramentas poderosas 
para a criação de obras literárias ricas e significativas. Não se pode estudar literatura, 
portanto, sem que se preste atenção às figuras e aos modos como elas se apresentam 
em contextos variados (CULLER, 2009). 
 
8. PARA PENSAR E ENSINAR LITERATURA 
 
 
Quando falamos em texto literário, não nos damos conta dos mecanismos 
usados pelos autores para construção de suas realidades discursivas-textuais. Todo 
texto leva consigo alguns elementos dos quais o teórico precisa lembrar – ainda que 
essa relação não seja tão clara para o leitor comum (FLACH; GONÇALVES, 2018). 
Quando adquire um livro, seja de romance, de poesia, ou qualquer outra produção 
literária, na maioria das vezes o leitor não se atente às qualidades técnicas e literárias 
daquela obra, mas isso não é em si mesmo um mal, na medida em que a maioria dos 
leitores ao adquirir uma obra não está preocupado com a relação que essa produção 
literária tem com o seu contexto teórico. Compreender uma manifestação literária 
específica é compreender o modo como uma determinada cultura entendeu o seu 
processo de formação e leitura. 
 
8.1 Linguagem literária 
 
Conforme afirmado por Brait (2010), existem inúmeras relações entre língua, 
linguagem e literatura, e essas relações podem ser examinadas por meio de diversos 
enfoques, como os verbais, visuais ou verbo-visuais. A soma dessas diferentes 
abordagens pode ser considerada como múltiplas perspectivas para a observação do 
fenômeno literário. Sempre tendo em mente que o texto literário, em suas várias 
interpretações, pode ser visto como uma forma de conhecimento, uma fonte de prazer 
ou uma maneira de contemplar e desfrutar das diversas implicações de um texto 
literário. Em última análise, os textos literários também refletem, à sua maneira, como 
observamos e nos relacionamos com a vida. 
 
A era eletrônica é também uma era de "oralidade secundária", a oralidade 
dos telefones, do rádio e da televisão, cuja existência depende da escrita e 
da impressão. A mudança da oralidade para a cultura escrita e, depois, para 
o processamento eletrônico envolve estruturas sociais, econômicas, políticas, 
religiosas entre outras. Estas, contudo, apenas indiretamente dizem respeito 
a este livro, que trata preferencialmente das diferenças de "mentalidade" 
entre culturas orais e escritas (ONG, 1998, p. 11). 
 
É fundamental considerar a linguagem se desejamos compreender a produção 
literária e a interpretação de textos literários, seja no âmbito prático ou teórico. Isso 
envolve a análise da leitura de textos literários e a investigação sobre a produção, 
disseminação e recepção de textos que trazem consigo uma perspectiva literária das 
múltiplas realidades existentes. Na tentativa de representar essas realidades, os seres 
humanos fazem uso de várias habilidades à sua disposição, incluindo o uso da língua 
e da linguagem em um sentido mais amplo (KIRCHOF, 2017). 
Para Trask (2004), a linguagem é faculdade cognitiva exclusiva da espécie 
humana, que permite a cada indivíduo representar e expressar simbolicamente sua 
experiência de vida, suas relações com a realidade,assim como adquirir, processar, 
produzir e transmitir conhecimento. Como mostra Bordenave (1997), homens são 
seres particulares, pois possuem a capacidade singular de significar, isto é, 
de produzir sentido por meio de símbolos, sinais, signos, ícones etc. Logo, os sentidos 
são produzidos por meio da linguagem. 
Nenhum gesto humano é neutro, ingênuo ou vazio de sentido. Pelo contrário, 
ele está sempre carregado de significados, em suas diversas manifestações, e cabe 
justamente à nossa capacidade linguística interpretar os significados presentes em 
cada manifestação de outros membros da nossa espécie. Portanto, todos os sistemas 
de signos usados pelos seres humanos para expressar seus sentimentos, 
experiências e dar forma aos seus pensamentos podem ser denominados linguagens. 
 
8.2 Funções da linguagem Literária 
 
Roman Osipovich Jakobson, um estudioso russo, é conhecido por ter 
desenvolvido um modelo de comunicação que se tornou o mais influente e respeitado 
para estudar a teoria da comunicação. Nascido em Moscou em 1896, ele estudou no 
Instituto Lazarev de Línguas Orientais da Universidade de Moscou de 1914 a 1918, 
período em que iniciou suas pesquisas sobre o funcionamento da linguagem. 
Jakobson faleceu nos Estados Unidos em 1982 e é hoje amplamente reconhecido 
como um dos maiores linguistas do século XX. 
Sua influência na linguística abrange desde a teorização da linguagem na 
criança até estudos que se concentram na sistematização da linguagem e em suas 
diversas manifestações. Os trabalhos de Jakobson, que foram documentados em 
suas publicações, podem ser encontrados em revistas e periódicos e tratam do 
processo de comunicação. 
No geral, pode-se afirmar que há uma linha condutora que orientou os trabalhos 
do teórico russo, centrada no processo de comunicação. Roman Jakobson é creditado 
por ter desenvolvido uma teoria que se relaciona com diversos campos, incluindo 
fonologia, patologia da linguagem, antropologia, teoria da informação, estilística e 
folclore. Nesse sentido, pode-se dizer que Jakobson elaborou uma teoria que emerge 
da interseção de várias outras teorias. Entre as inúmeras influências que moldaram 
seus estudos está o "Formalismo russo," um movimento que buscava encontrar a 
razão de ser da produção literária na sua forma, ou seja, sustentava que a essência 
da obra literária estava na sua formalização, e não necessariamente no conteúdo 
(EAGLETON, 2006). 
A maior parte do conhecimento difundido sobre a teoria de Jakobson foi 
resultado de sua famosa sistematização da teoria da linguagem. Isso significa pensar 
em uma forma de representar o processo de comunicação de maneira menos 
argumentativa e mais visual. Pelo menos, é assim que a maioria dos estudiosos e 
leitores percebe a teoria do estudioso russo. Para o próprio Jakobson (1970, p. 14) “a 
linguagem é um dos sistemas de signos, e a linguística, enquanto ciência dos signos 
verbais é apenas parte da semiótica, a ciência geral dos signos”. 
Logo, o estudioso admite que a linguagem é o tipo mais óbvio de comunicação. 
Argumenta também, que a linguística investiga a fabricação de mensagens verbais e 
de seus códigos subjacentes e que as características estruturais da linguagem são 
interpretadas, em sentido pleno, a partir das funções que elas cumprem. 
 
Em geral, o uso de signos intersubjetivos, que são os que possibilitam a 
comunicação. Por uso entende-se: 1. possibilidade de escolha (instituição, 
mutação, correção) dos signos; 2. possibilidade de combinação de tais signos 
de maneiras limitadas e repetíveis. Este segundo aspecto diz respeito às 
estruturas sintáticas da Linguagem, enquanto o primeiro se refere ao 
dicionário da Linguagem. A moderna ciência da Linguagem tem cada vez 
mais insistido (como veremos) na importância das estruturas linguísticas, ou 
seja, das possibilidades de combinações delimitadas pela Linguagem. A 
Linguagem. distingue-se da língua, que é um conjunto particular organizado 
de signos intersubjetivos (ABBAGNANO, 2007, p. 615-616). 
 
Como se pode observar, Jakobson se destaca por sua ampla área de atuação 
como estudioso da comunicação e da linguagem. Sua relação com outras disciplinas 
permitiu que o teórico se destacasse pela adaptação e reinterpretarão das teorias de 
vários outros estudiosos da linguagem e da comunicação. Conforme a linguística se 
aproximava de outras disciplinas e cientistas, a teoria de Jakobson se solidificava. 
Essa troca de informações e conhecimentos de outras teorias fica evidente nas 
palavras do próprio teórico quando ele afirma: 
 
É preciso reconhecer que, sob certos aspectos, os problemas da troca de 
informação encontraram, por parte dos engenheiros, uma formulação mais 
exata e menos ambígua, um controle mais eficaz das técnicas utilizadas, bem 
como prometedoras possibilidades de quantificação. Por outro lado, a imensa 
experiência acumulada pelos linguistas no tocante à linguagem e à sua 
estrutura permite-lhes expor as fraquezas dos engenheiros quando estes 
lidam com material Linguístico (JAKOBSON, 2008, p. 18). 
 
De acordo com o teórico russo Jakobson (2008), todo esquema de 
comunicação pode ser representado por seis elementos diversos e complementares, 
a saber: (1) remetente; (2) mensagem; (3) contexto; (4) código; (5) contato ou canal e 
(6) destinatário. Com o passar do tempo e com estudos complementares esses nomes 
podem sofrer adaptação, mas o esquema da comunicação, idealizado pelo teórico e 
estudioso da linguagem, pode ser representado por esses seis elementos, cada um 
dos quais exercendo sua função do processo comunicativo. O que Jakobson propõe 
é uma análise da comunicação e seus processos para, em primeira análise, conhecer 
suas estruturas. 
Nessa representação esquemática é possível observar os principais elementos 
para que haja de fato um processo comunicativo. Temos, portanto, cada um dos 
elementos colocados de forma sistemática com um intuito de servir como ilustração 
para um processo de interação entre dois ou mais locutores que se colocam em uma 
dinâmica comunicativa. 
Assim, seguindo as observações de Jakobson (2008), pode-se afirmar que o 
emissor é o responsável pela transmissão da mensagem; o receptor é aquele que 
recebe a mensagem; a mensagem é aquilo que é dito ou transmitido; o contexto são 
os elementos físicos ou situacionais para a compreensão da mensagem; o canal é o 
instrumento usado para transmissão da mensagem e o código é o conjunto de sinais 
escolhidos pelo emissor na transmissão de sua mensagem. 
A partir dessas observações preliminares, Jakobson desenvolveu sua teoria 
das “Funções da linguagem”, que já havia sido chamada por outros teóricos de “Teoria 
da informação”. O teórico argumenta que para cada um dos elementos da 
comunicação, existe uma função da linguagem orientada a esse elemento específico. 
Como resultado, o estudioso explica que a intenção da mensagem é o elemento 
condutor para interpretação da mesma mensagem, dando a ela uma interpretação 
que seja condizente com a intencionalidade do emissor. Cada função da linguagem 
se apoia em um critério linguístico que atribui a essa função sentido e estabilidade. 
Conforme Santee e Temer (2011), o intuito primordial para o teórico russo era 
perceber os elementos da linguagem que compõem o que o teórico chamou de 
linguagem poética. Portanto, deve-se perceber que o principal objetivo era explicar a 
dinâmica que rege aquilo que mais tarde será chamada de linguagem literária. 
Para Leite (2002, p. 5) “histórias são narradas desde sempre. Forma vaga de 
que disponho para marcar, sem datar, o início no sentido de uma narração de fatos, 
presenciados ou vividos por alguém que tinha a autoridade para narrar, alguém que 
vinha de outros tempos ou de outras terras, tendo, por isso, experiência a comunicar 
e conselhos a dar a seus ouvintes atentos. Assim, desde sempre, entre os fatos 
narrados e o público, se interpôs um narrador”.Portanto, com base no supracitado, podemos listar as seguintes funções da 
linguagem: 
1. Função emotiva (ou expressiva), cuja principal característica é uma expressão 
direta de quem fala com o intuito de despertar uma emoção; 
2. Função conativa, que tem como principal característica a construção de frases 
no vocativo ou no modo imperativo; 
3. Função fática, cuja comunicação está centrada no canal e é utilizada 
comumente para atrair a atenção do interlocutor e procura confirmar essa 
atenção constantemente; 
4. Função metalinguística, que se caracteriza pela verificação do código usado 
pelos interlocutores; 
5. Função referencial (ou denotativa) é aquela que se volta para o contexto em 
que a mensagem é produzida; 
6. Função poética, era o principal objeto de estudo de Jakobson, estuda as 
características da linguagem poética, ou como costuma-se dizer, a linguagem 
literária. 
A Figura 1 ilustra como as funções da linguagem se organizam em paralelo 
com os elementos do esquema de comunicação. 
Figura 1 – Comunicação e linguagem 
 
 
Fonte: Adaptado de Jakobson, 2008, p. 129. 
 
Conforme observado pelos autores Santee e Temer (2011) em seus estudos 
sobre a teoria desenvolvida pelo teórico da linguagem, a função poética é 
predominante na estrutura concebida por Jakobson. Nessa função, a mensagem está 
voltada para si mesma, ou seja, na função poética, o foco do trabalho linguístico é a 
própria mensagem em sua forma e conteúdo, abrangendo características físicas, 
sonoras e visuais. Isso estabelece uma relação formal e de conteúdo entre o mundo 
textual e o mundo da realidade. 
Para Brite (2010, p. 12), linguagem e literatura são elementos conjuntos, cujo 
resultado é uma “parceria inseparável” que nos permite construir uma longa vivência 
entre a linguagem oral, empregada nos mais variados contextos de vivências e na 
linguagem escrita, cujo produto mais refinado é a obra literária. É essa riqueza de 
possibilidades, de representação e de expressão, e por que não dizer de usos, que 
nos permite falar de linguagem musical ou da música, linguagem cinematográfica ou 
do cinema, linguagem teatral ou do teatro, linguagem corporal ou do corpo, linguagem 
da dança, da pintura, da escultura, da arquitetura, da fotografia, incluindo 
as linguagens secretas, que exigem o domínio de códigos reservados a poucos 
iniciados e é sob essa mesma lógica que podemos falar de uma linguagem literária 
ou uma linguagem própria da obra literária. 
Não se pode abordar a literatura em suas diversas manifestações sem, ao 
menos brevemente, considerar a linguagem. Portanto, antes de mergulharmos nos 
estudos dos textos literários, é fundamental compreender as relações proporcionadas 
pelos estudos da linguagem. Isso nos permite construir uma compreensão que 
desenvolve e reformula uma teoria sobre a leitura de textos literários e suas formas 
de manifestação. Nesse contexto, a teoria da literatura pode servir como uma 
ferramenta que nos auxilia na avaliação das narrativas ficcionais (SILVA, 2014). 
Para Cândido (1999) não é possível estudar e ensinar Literatura, seja ela de 
que natureza for, sem a “redução estrutural”, conceito que o autor sintetizou mais tarde 
como “o processo por cujo intermédio a realidade do mundo e do ser se torna, na 
narrativa ficcional, componente de uma estrutura literária, permitindo que esta seja 
estudada em si mesma, como algo autônomo” (CANDIDO, 1999, p. 9). Nessas 
palavras o estudioso defende a literatura como um fenômeno autônomo que em si 
mesmo merece ser estudado com todas as suas possibilidades e elementaridades, 
ou seja, a literatura pode e precisa ser estudada para proporcionar ao estudante um 
conhecimento cultural e comunicacional das realidades nas quais ele está inserido e 
que resultará em uma formação pessoal e coletiva (BORDENAVE, 1997). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
 
 
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fonte, 2007. 
BORDENAVE, Juan D. O que é comunicação. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1997. 
BRAIT, B. Literatura e outras linguagens. São Paulo: Contexto, 2010. 
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fonte, 2007. 
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fonte, 2007. BRAIT, B. 
Literatura e outras linguagens. São Paulo: Contexto, 2010. 
 
Academia Brasileira de Letras (ABL). Dicionário Escolar de Língua Portuguesa. 
São Paulo: Editora Nacional, 2000. 
ALCOFORADO, Mariana. Cartas Portuguesas. Rio de Janeiro: Livraria AGIR 
Editora, 1962. 
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova 
Fronteira, 2009. 
BORDENAVE, Juan D. O que é comunicação. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1997. 
BRAIT, B. Literatura e outras linguagens. São Paulo: Contexto, 2010. 
BORDENAVE, Juan D. O que é comunicação. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1997. EAGLETON, 
Terry. Teoria da literatura. São Paulo: Martins fontes, 2006. 
 
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura. São Paulo: Martins fontes, 2006. 
BRAIT, B. Literatura e outras linguagens. São Paulo: Contexto, 2010. 
CAMÕES, L. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008. 
CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas. Disponível em: 
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000162.pdf. Acesso em 20 de 
mai., 2023. 
CANDIDO, Antônio. Iniciação à literatura brasileira. São Paulo: Humanitas, 1999. 
CEGALLA, Domingos P. Novíssima gramática da língua portuguesa. Rio de 
Janeiro: Editora Nacional, 2008. 
CEIA, Carlos. E-Dicionário de termos literários (2009, On-line). Disponível em: 
encurtador.com.br/fqswx. Acesso em: 08/03/23. 
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000162.pdf
CEREJA, William Roberto; MAGALHÃES, Thereza Cochar. Gramática, texto, 
reflexão e uso. São Paulo: Atual, 2016. 
CULLER, J. Teoria Literária. São Paulo: Becca, 1999. 
CULLER, Jonathan. Teoria literária. São Paulo: Beca, 1999. 
 
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura. São Paulo: Martins fontes, 2006. 
ETZEL, Eduardo. O barroco no Brasil. São Paulo: Melhoramentos, 1974. 
 
FLACH, A. B.; GONÇALVES, F. S. Tópicos avançados em teoria literária. Porto 
Alegre: SAGAH, 2018. 
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: o nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1984. 
JAKOBSON, R. Linguística e comunicação. 23.ed. São Paulo: Cultrix, 2008. 
KIRCHOF, E. R. et al. Fundamentos do texto literário. Curitiba: InterSaberes, 2017. 
LEITE, Lígia C. M. O foco narrativo. São Paulo: Ática, 2002. 
KIRCHOF, E. R. et al. Estruturas do texto literário. Curitiba: InterSaberes, 2013. 
MOISÉS, Massaud. A Literatura portuguesa através dos textos. São Paulo: Curtix, 1990. 
MOISÉS, Massaud. A Literatura portuguesa. São Paulo: Curtix, 2006. 
 
ONG, Walter. Oralidade e cultura escrita. Campinas: Papirus, 1998. 
 
RODRIGUES, Antônio Edmilson M.; KAMITA, João Masao. História Moderna – os 
momentos fundadores da cultura ocidental. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2018. 
SANTEE, Nellie R.; TEMER, Ana Carolina Rocha P. A Linguística de Roman 
Jakobson: Contribuições para o Estudo da Comunicação. UNOPAR Cient., Ciênc. 
Human. Educ., Londrina, v. 12, n. 1, p. 73-82, jun. 2011. 
SILVA, P. P. (org.). Teoria da literatura II. São Paulo: Pearson, 2014. 
TRASK, R. L. Dicionário de linguagem e linguística. São Paulo: Contexto, 2004. 
TRASK, R. L. Dicionário de linguagem e linguística. São Paulo: Contexto, 2004. 
VENÂNCIO, Fernando. Maquinações e Bons Sentimentos. Porto: Campo das 
Letras, 2002.

Mais conteúdos dessa disciplina