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ASSSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM AO PACIENTE QUEIMADO 2 Sumário NOSSA HISTÓRIA ......................................................................................... 4 1. INTRODUÇÃO ...................................................................................... 5 2. ETIOLOGIA DAS QUEIMADURAS .................................................... 6 3. CLASSIFICAÇÃO DAS QUEIMADURAS .............................................. 9 4. QUEIMADURAS ANATÔMICAS ESPECÍFICAS ................................. 13 5. FISIOPATOLOGIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DA QUEIMADURA 15 6. FASE DE EMERGÊNCIA / REANIMAÇÃO DO CUIDADO DA QUEIMADURA ....................................................................................................... 22 7. ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM DE URGÊNCIA ........................... 24 8. MÉTODO DE TRATAMENTO LOCAL DAS QUEIMADURAS ............. 27 9. CONFECÇÃO DO CURATIVO ............................................................ 29 10. PRIMEIRO ATENDIMENTO DO PACIENTE QUEIMADO ................... 35 11. REPOSIÇÃO HIDROELETROLÍTICA ................................................. 39 12. NUTRIÇÃO PARA QUEIMADOS ........................................................ 40 13. ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM AO PACIENTE QUEIMADO (CASOS) 44 14. ATENDIMENTO NO CENTRO DE QUEIMADOS ................................ 46 15. ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM AO PACIENTE PORTADOR DE ENXERTO DE PELE .............................................................................................. 55 16. INFECÇÃO NO GRANDE QUEIMADO ............................................... 57 17. ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM NA PREVENÇÃO E CONTROLE DA ÚLCERA DE ESTRESSE NO PACIENTE QUEIMADO .................................... 63 3 18. POSICIONAMENTO NO LEITO E PREVENÇÃO DE DEFORMIDADES 65 19. ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM NAS COMPLICAÇÕES DAS QUEIMADURAS ..................................................................................................... 67 19.1 Paciente queimado que necessita de tratamento em UTI ................. 71 19.2 Assistência qualificada do enfermeiro da UTI.................................... 71 20. DIAGNÓSTICOS DE ENFERMAGEM À PACIENTES QUEIMADOS .. 76 21. REFERÊNCIAS: .................................................................................. 81 4 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 5 1. INTRODUÇÃO No Brasil, os casos de queimaduras indicam um considerado agravo de saúde pública. Estudos demonstram que na maior parte das situações notificadas no país, ocorre no interior da residência da vítima. As crianças e os idosos representam os grupos de alto risco para queimaduras, em razão da menor capacidade de reação que estes apresentam. As queimaduras podem ser definidas como lesões dos tecidos orgânicos provocadas por trauma de origem térmica, química ou elétrica. O fator influenciador da gravidade do ferimento é a profundidade da queimadura, isto é, a quantidade de estruturas da pele e abaixo dela que foram atingidos. As queimaduras representam um ambiente ideal para evolução de uma infecção, como consequência do acometimento da pele. A infecção encontra-se associada a vários fatores de risco, especialmente aqueles referentes ao agente infeccioso em si, como a sua capacidade de virulência replicação, e resistência às barreiras de defesa naturais ou terapias antimicrobianas. Além disso, fatores como idade, estado nutricional, extensão e profundidade da queimadura são capazes de interferir nesse processo. O paciente grande queimado encontra-se mais propenso a adquirir infecções, isso devido à perda de cobertura cutânea e imunossupressão. É importante destacar também que internações longas em conjunto com a realização de procedimentos invasivos como a cateterização vascular e vesical, deixam esses pacientes mais expostos a infecções nosocomiais. Os avanços da saúde no tratamento de queimaduras têm melhorado a qualidade de vida das vítimas de queimaduras, no entanto as complicações infecciosas continuam sendo um obstáculo a ser superado. A infecção é uma das mais frequentes e graves complicações no paciente queimado. 6 2. ETIOLOGIA DAS QUEIMADURAS Queimaduras Térmicas Ocasionadas por exposição ou contato com chamas, líquidos, semilíquidos e semi-sólidos quentes. Como exemplo, pode-se destacar: explosão em acidentes de automóveis, roupas em chamas, lesões por substâncias escaldantes e combustão de depósitos de líquidos inflamáveis. Frio (Congelamento): são raríssimas em nosso país, sendo verificadas algumas de origem profissional. Calor (Líquidos aquecidos): o calor é o grande responsável pela elevação do índice das queimaduras. Nos líquidos aquecidos encontramos a maior parte dos acidentes, principalmente em crianças, provocado por sopas quentes, chás, água fervente, café, radiador de carro, etc. Estes tipos de queimaduras são causados pela condução de calor através de líquidos, sólidos, gases quentes e do calor de chamas. Podem ser extremamente dolorosas e nos casos de queimaduras de segundo grau profundas ou de terceiro grau, em que a profundidade da lesão tenha destruído terminais nervosos da pele a dor aguda é substituída por insensibilidade. A dor e a ansiedade podem evoluir para síncope. Nas queimaduras térmicas, extensas e/ou profundas, é frequente sobrevir o estado de choque, causado pela dor e/ou perda de líquidos, após algumas horas. Em consequência disto, devem ser tomadas as medidas necessárias para a prevenção. Em queimaduras de primeiro grau, deve-se limitar à lavagem com água corrente, na temperatura ambiente, por um máximo de um minuto, tempo necessário para o resfriamento local, interrupção da atuação do agente causador da lesão, alívio da dor e para evitar o aprofundamento da queimadura. Caso a vítima tenha sede, deve ser-lhe dada toda a água que desejar beber de forma lenta. Em todos os casos de queimaduras, mesmo as de primeiro grau, são convenientes ficar atento para a necessidade de manter o local lesado limpo e protegido contra infecções. 7 Em queimaduras de segundo grau além do procedimento imediato de lavagem do local lesado, este deve ser protegido com compressa de gaze ou pano limpo, umedecido, ou papel alumínio. É preciso ficar bem claro que não se pode usar qualquer espécie de medicamento tópico (pomadas) nestes casos. Para prevenção do estado de choque a vítima deve ser protegida por cobertor colocado em local confortável, com as pernas elevadas cerca de 30 cm, em relação à cabeça. Acessórios e vestimentas devem ser retiradas quando não aderidas ao corpo do acidentado para evitar constriçãocom o desenvolvimento de edema. A identificação do estado ou iminência de choque poderá ser feita pela observação de ansiedade; inquietação, confusão, sonolência, pulso rápido, sudorese, oligúria e baixa pressão arterial. Realizar normalmente o exame primário, priorizando a manutenção de vias aéreas, respiração e circulação. O acidentado deverá ser encaminhado imediatamente para atendimento especializado. O atendimento de primeiros socorros para queimaduras de terceiro grau também consiste na lavagem do local lesado e na proteção da lesão. Se for possível, proteger a área com papel alumínio, para reduzir a perda de calor. Todas as providências tomadas para prevenção do estado de choque, administração de líquidos e cuidados gerais com vítima são as mesmas aplicadas nos casos de queimaduras de segundo grau. As queimaduras de terceiro grau possuem a mesma gravidade que queimaduras de segundo grau profundas. Vítimas de queimadura térmica na face, cujo acidente ocorreu em ambiente fechado, devem permanecer em observação para verificação de sinais de lesão no trato respiratório. Sinais e sintomas geralmente surgem algumas horas após a ocorrência da queimadura, podendo representar oclusão dos brônquios e edema pulmonar, assim como presença de expectoração fuliginosa com fragmentos de tecido. Queimaduras por Agentes Químicos As queimaduras químicas são provocadas pelo contato dos tecidos corporais com ácidos potentes, álcalis ou compostos orgânicos. Estas podem ter maior ou menor gravidade, dependendo do tipo de agente causador (ácido ou base), da 8 concentração deste agente e da duração do contato. O primeiro cuidado deve ser uma limpeza da área afetada com água corrente, por um período mínimo de 30 minutos. Substâncias químicas podem queimar rapidamente, o profissional que atenda uma vítima deve entender que as tentativas de neutralização química da substância podem gerar reações com produção de calor e piora da lesão e que pode se contaminar ao fazer este atendimento. Queimaduras Elétricas A pele é o fator mais importante na resistência à passagem da eletricidade, mas a umidade reduz muito esta resistência, podendo aumentar, em muito, a gravidade do choque. A corrente alternada é mais perigosa que a corrente contínua de mesma intensidade. O contato com a corrente alternada pode causar contrações tetânicas da musculatura esquelética, que impedem que o acidentado se libere da fonte de eletricidade, e prolongam a duração da exposição à corrente. O fluxo de corrente transtorácico, mão a mão, tem maior risco de ser fatal que a passagem de corrente mão para pé ou pé a pé. A complicação mais importante das queimaduras elétricas é a parada cardíaca. Geralmente a ferida é pequena, no entanto a corrente elétrica destrói caracteristicamente uma quantidade considerável de tecido abaixo do que parece ser uma ferida cutânea sem gravidade. A parada cardiorrespiratória por fibrilação ventricular ou assistolia é a principal causa de óbito após a lesão elétrica. A fibrilação ventricular pode ocorrer como resultado direto do choque elétrico, principalmente a corrente alternada. A parada cardiorrespiratória causada por exposição à corrente contínua frequentemente é em assistolia. A parada respiratória pode ser causada na passagem da corrente elétrica pelo cérebro causando inibição da função do centro respiratório, contração tetânica do diafragma e da musculatura torácica e paralisia prolongada dos músculos respiratórios. 9 3. CLASSIFICAÇÃO DAS QUEIMADURAS Profundidade ou Grau das Queimaduras Queimaduras de primeiro grau: são caracterizadas pelo eritema (vermelhidão), que clareia quando sofre pressão. Existe dor e edema, mas usualmente há bolhas. Queimaduras de segundo grau: são caracteristicamente avermelhadas e dolorosas, com bolhas, edema abaixo da pele e restos de peles queimadas soltas. São mais profundas, provocam necrose e visível dilatação do leito vascular. Em queimaduras de segundo grau superficiais não há destruição da camada basal da epiderme, enquanto nas queimaduras secundárias profundas há. Não há capacidade de regeneração da pele. A dor e ardência local são de intensidade variável. Queimaduras de terceiro grau: são aquelas em que toda a profundidade da pele está comprometida, podendo atingir a exposição dos tecidos, vasos e ossos. Como há destruição das terminações nervosas, o acidentado só acusa dor inicial da lesão aguda. São queimaduras de extrema gravidade. Profundidade e grau das queimaduras Extensão da lesão Quanto maior a extensão da queimadura, maior é o risco que corre o acidentado. Por exemplo, uma queimadura de primeiro grau, que possua uma vasta extensão, é considerada de alta gravidade. 10 O grande queimado é caracterizado por hipovolemia com hemoconcentração, e pelo intenso desequilíbrio hidroeletrolítico decorrente da grande perda de líquidos causada por ação direta da temperatura ambiental sobre estruturas adjacentes à pele; modificação da permeabilidade vascular; sequestro de líquidos, eletrólitos e proteínas na área queimada. O quadro se agrava com a destruição das hemácias e infecção, que se instala imediatamente ao trauma e, mais lentamente, nos períodos subjacentes. Estas alterações fisiopatológicas são diretamente proporcionais à extensão da lesão e ao peso do acidentado. Estimativa da Extensão das Queimaduras Para melhor entendermos a avaliação da extensão das queimaduras, é importante conhecermos a chamada "regra dos nove", um método muito útil para o cálculo aproximado da área de superfície corporal queimada. O grau de mortalidade das queimaduras está relacionado com a profundidade e extensão da lesão e com a idade do acidentado. Queimaduras que atinjam 50% da superfície do corpo são geralmente fatais, especialmente em crianças e em pessoas idosas. A Figura 1 é normalmente adotada para o cálculo e avaliação da extensão das queimaduras. Queimaduras nas seguintes áreas são consideradas lesões graves: • Mãos e pés: podem produzir incapacidade permanente após o processo de cicatrização devido às retrações. • Face: associa-se com queimaduras de vias aéreas, inalação de fumaça, intoxicação por monóxido de carbono e desfiguração. • Olhos: podem causar cegueira. • Períneo: tem alta incidência de infecção, sendo difícil tratamento. • Queimaduras circunferenciais: qualquer queimadura circunferencial profunda pode causar complicações graves. • No pescoço pode causar obstrução de vias aéreas, do tórax restrição à ventilação pulmonar e nas extremidades, obstrução à circulação. 11 Cálculo e avaliação da extensão das queimaduras Imagem: 1 Além do grau de profundidade as queimaduras podem ainda ser classificadas como graves, moderadas e leves. Graves: todo tipo de queimadura, de qualquer grau e extensão, se houver complicação por lesão do trato respiratório; queimadura de terceiro grau na face, mão e pé e queimadura de segundo grau que tenha atingido mais de 30% da superfície corporal. Moderadas: queimadura de primeiro grau que tenha atingido mais de 50% da superfície corporal; queimadura de segundo grau que tenha atingido mais de 20% da superfície corporal e queimadura de terceiro grau que tenha atingido até 10% da superfície corporal, sem atingir face, mãos e pés. Leves: queimadura de primeiro grau com menos de 20% da superfície corporal atingida; queimadura de segundo grau com menos de 15% da superfície 12 corporal atingida e queimadura de terceiro grau com menos de 2% da superfície corporal atingida. Mecanismos de Lesão: a inalação de fumaça é a principal causa de óbito precoce (primeiras horas) após a queimadura. Lesão térmica das vias aéreas: a inalação de gases superaquecidos pode causar obstrução altade vias aéreas por edema da hipofaringe. Raramente ocorre lesão dos pulmões, pois a traqueia absorve o calor. Intoxicação por Monóxido de Carbono (CO): o CO é um gás inodoro e incolor presente na fumaça do escapamento de automóveis, sendo o produto da combustão de diversos materiais. É a complicação causada pela inalação de fumaça e a causa mais comum de morte precoce em vítimas de incêndio. O Monóxido de Carbono se liga à hemoglobina, formando a carboxi-hemoglobina e impedindo o transporte de oxigênio. A lesão dos tecidos é provocada por falta de oxigênio. O óbito ocorre por lesão cardíaca produzida pela falta de oxigênio. A cianose não aparece e a coloração vermelho-cereja da pele e mucosas descrita como um sinal clássico é raro. Intoxicação por Monóxido de Carbono (CO) 13 4. QUEIMADURAS ANATÔMICAS ESPECÍFICAS A) Queimaduras Faciais São consideradas lesões sérias, que demandam tratamento hospitalar, em razão do elevado risco de acometimento do trato respiratório. Devido ao rico suprimento de sangue e ao tecido areolar frouxo, as queimaduras faciais geralmente encontram-se associadas com a formação de edema, para redução deste, tronco superior e a cabeça do paciente devem ser elevados a um ângulo de 30 graus, caso o paciente não apresente um quadro de choque. Em crianças, a elevação da cabeça pode diminuir o potencial de convulsões durante a ressucitação. B) Queimaduras dos Olhos Um exame cauteloso dos olhos deve ser realizado rapidamente, devido a veloz evolução do edema de pálpebra tornar o exame extremamente difícil depois disso. Queimaduras químicas nos olhos devem ser enxaguadas com grandes quantidades de soro fisiológico conforme o indicado. É indicada a instilação de um colírio leve durante o período máximo do edema da pálpebra. A fluoresceína deve ser utilizada para identificação da lesão de córnea, caso essa seja diagnosticada, pomadas ou colírios antibióticos podem ser, mas devem ser empregados apenas após consultar o centro de queimados. Soluções oftálmicas contendo esteroides podem ser perigosas e devem ser evitadas. A tarsorrafia (Operação de sutura das pálpebras) nunca é indicada na fase aguda. C) Queimaduras dos Ouvidos As queimaduras dos ouvidos requerem com antecedência um exame do canal externo e do tímpano, antes que o edema se manifeste. É necessário investigar se a otite externa ou a otite média estão presentes, principalmente em crianças. É preciso evitar traumas adicionais ou pressão no ouvido, assim como não utilizar curativos de pressão e não permitir o uso de travesseiros sob a cabeça do paciente. 14 D) Queimaduras das Mãos Queimaduras que apresentam pequena extensão podem ocasionar apenas incapacidade temporária, no entanto, lesões térmicas com maiores extensões são capazes de ocasionar a perda permanente da função. Durante a avaliação física o ponto mais importante é a determinação da situação vascular e se há necessidade de realização de uma escarotomia. A monitoração dos pulsos digitais e palmares com o medidor de fluxo ultra- sônico é o meio mais preciso de avaliar a perfusão dos tecidos na mão. É necessário que a extremidade queimada seja elevada acima do nível do coração para redução da formação de edema, assim como se realize a movimentação dos membros envolvidos por cinco minutos a cada hora. Curativos apenas serão capazes de prejudicar a capacidade de monitorização a circulação e devem ser evitados. E) Queimaduras dos Pés Assim como com as queimaduras das extremidades superiores, é necessário realizar a avaliação da circulação dos pés em intervalos regulares. O edema deve ser reduzido através da elevação de extremidade, os curativos devem ser evitados da mesma forma como com as queimaduras das mãos. F) Queimaduras da Genitália e Períneo Queimaduras no pênis demandam a inserção imediata de um cateter Foley para manutenção da abertura da uretra. O cateter deve ser fixado externamente para redução do trauma mecânico da parede da uretra ou da bexiga. Uma escarotomia dorsal também pode ser indicada em queimaduras circunferências. O edema escrotal, geralmente não necessita de tratamento específico. Queimaduras do períneo podem ser difíceis de controlar, contudo, não é necessária uma colostomia de desvio. 15 5. FISIOPATOLOGIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DA QUEIMADURA A demanda metabólica do queimado é 6 vezes maior que o normal, fazendo com que o índice calórico torne-se insuficiente para alcançar a alta necessidade do organismo. A atuação do calor sobre a pele produz uma série de alterações locais que resultam da dor, perda de líquidos, destruição dos tecidos e, consequentemente, a infecção, com repercussões gerais. A dor é uma das primeiras queixas do queimado, ocasionada pela ação do calor sobre a pele, excitando os filetes nervosos sensitivos. As queimaduras superficiais são mais dolorosas que as de 3º grau, em razão do grande número de filetes nervosos não terem sido destruídos. O inverso ocorre na queimadura profunda, quando a maior parte das células sensitivas são destruídas e as remanescentes são protegidas pelos tecidos desvitalizados, só reaparecendo posteriormente, após a perda desta crosta. A dor deve ser o primeiro sintoma a ser tratado, pois é um fator desencadeante de uma série de alterações neuroendócrinas que podem levar ao choque neurogênico. Outra questão é o suporte emocional, já que a queimadura gera alterações na autoimagem, além de sentimentos como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático. Todas essas fases requerem uma assistência multidisciplinar, em especial do enfermeiro que acompanha o paciente desde a sua chegada ao hospital até a sua alta ou dando continuidade do atendimento em domicílio. O mesmo deve atentar para uma assistência de qualidade, para tanto, seguir as etapas do processo de enfermagem é de fundamental importância. A equipe de enfermagem, principalmente o enfermeiro, deve possuir um pensamento crítico que promova a decisão clínica e ajude a identificar as necessidades do paciente e quais as melhores medidas a serem tomadas para atendê-las. 16 Perda local de líquidos O calor provoca no local queimado uma vasodilatação da rede capilar da derme, aumentando a permeabilidade capilar dos vasos, possibilitando um extravasamento do plasma para o espaço intersticial. A formação de vesícula se deve possivelmente à ativação de enzimas proteolíticas na pele. O líquido coletado na superfície descola a epiderme da derme formando as vesículas. O rompimento destas flictenas leva a uma perda real deste conteúdo, ocorrendo o contrário no caso de ser mantida a integridade vesicular. Após 48 horas, a reabsorção do líquido se faz paulatinamente pela drenagem dos linfáticos e O grau e a duração da dor que um paciente suporta na trajetória de seu tratamento dependem de fatores como extensão e localização da queimadura, estado emocional, nível de ansiedade e de tolerância à dor, experiências anteriores, cultura e faixa etária. O enfermeiro não deve subestimar a dor do paciente em função da reação apresentada, mas sim procurar avaliar e intervir nessa situação. Ferramentas de avaliação da dor são essenciais para o diagnóstico e dor e verificar eficácia do seu tratamento. Em pacientes grandes queimados, os instrumentos de avaliação mais comuns são dor relato verbal da intensidade da dor medida, tais como o “0 a 10” escala numérica. No entanto, outras alternativas como desenhos de face e escalas de cores também podem ser usadas Tratar e cuidar da dor do paciente queimado ainda é um desafio para os enfermeiros, cujo primeiro passo é considerar a visão do próprio paciente quanto às características da dor, assim como avaliação dos resultados da terapêutica administrada. Assim, o manejo adequadoda dor, por meio de avaliação adequada, e estabelecimento de um plano de intervenção são fundamentais para o bem-estar do paciente queimado. LEMBRE-SE 17 pelos capilares venosos, atingindo a sua totalidade, em média, no final de uma semana. Este líquido é importante para o organismo por ser semelhante ao plasma sanguíneo, rico em eletrólito e proteínas. Sua perda contribui para o desequilíbrio hidroeletrolítico e hemodinâmico, interferindo em todo o organismo, necessitando uma intervenção que vise compensar essas perdas. Destruição dos tecidos A destruição dos tecidos no local queimado está diretamente relacionada com a intensidade e o tempo de ação do agente calórico. De uma maneira geral, existe uma proporcionalidade entre a profundidade das queimaduras e a quantidade de calor que atuou no local. As lesões apresentam-se com características diversas, segundo a maior ou menor intensidade da fonte calórica e o tempo de atuação de cada agente. Estas características se apresentam da seguinte forma: Consequência da ação de pouco calor Produz poças alterações, atingindo somente a camada externa da pele. O calor produz uma vasodilatação dos capilares superficiais da derme, levando a congestão intravascular local que se manifesta por eritema e dor. O epitélio permanece, mas não significa que suas células não estejam danificadas. As queimaduras de 1.º grau estão caracterizadas nesta descrição; cicatrizam espontaneamente em poucos dias. Consequência do calor de intensidade média A ação do calor na pele produz vasodilatação e consequente permeabilização capilar aos líquidos. A histamina decorrente da destruição celular nas queimaduras ativa outros elementos que vão favorecer a permeabilidade vascular para a saída de eletrólitos e proteínas que, por sua vez, aumentam a evasão dos líquidos até produzir a hipovolemia. Uma das consequências da hipovolemia é o retardo da 18 microcirculação local que, sofrendo outras interferências, leva à formação de microtrombos. A volta à normalidade só é possível por meio da recuperação da integridade capilar. A dor é intensa no princípio, atenuando com a formação das vesículas e voltando a se intensificar com a rotura do epitélio. As queimaduras do 2.º grau apresentam estas características e geralmente epitelizam espontaneamente em torno de 2 semanas. A infecção pode transformar uma queimadura de 2.º grau em 3.º grau, exigindo enxertia de pele para sua cicatrização. Consequência da ação do calor intenso em curto período O calor intenso e rápido atinge profundamente o local em que atua, produzindo destruição fulminante do tecido, levando à mumificação celular. Não há tempo para a formação de vesículas, pelo fato de o sangue coagular nos vasos. A região, mesmo à distância da área queimada, depende da irrigação destes vasos, produzindo a escara seca. A dor é intensa até a destruição parcial ou total das células nervosas, desaparecendo com a formação da escara e reaparecendo após a eliminação desta, que deixam descobertos alguns neurônios remanescentes. Geralmente, esta escara não tem tendência para infecção, devido ao dessecamento celular que dificulta a vida dos microrganismos. Estas características são compatíveis com as queimaduras de 3.º grau, que não regeneram espontaneamente, necessitando de enxertia de pele e longa internação. Consequência da ação de média quantidade de calor durante um longo período de tempo. Nesta intensidade calórica, a destruição dos tecidos processa-se em 2 fases. Primeiro, há todo o processo de formação de vesículas, semelhante à descrição da queimadura de 2.º grau. Na segunda fase, ocorre a coagulação do sangue nos 19 vasos, surgindo todas as alterações já mencionadas com a ação do calor intenso num curto período. O edema transforma a necrose em escara úmida favorável à infecção. A dor está presente com intensidade, no início do processo, atenuando com a destruição dos tecidos nervosos. Estas características identificam uma queimadura de 3.º grau. O calor produz outras consequências sobre o revestimento cutâneo, como desequilíbrio iônico com a saída de potássio e entrada de sódio nas células, que por si só desencadeia uma série de alterações gerais. A destruição das hemácias, levando a hemoglobinemia e hemoglobinúria, presentes nas queimaduras elétricas significativas, altera a taxa de hematócrito e consequentemente o estado geral do paciente. Todas estas alterações, mesmo tratadas adequadamente, podem propiciar a infecção local com intensidade variável. Sistema Respiratório O envenenamento por fumaça deriva da inalação dos produtos de combustão. A resposta pulmonar inclui uma reação inflamatória localizada, uma redução na ação ciliar dos brônquios e uma redução no surfactante alveolar. O edema de mucosa, ocorre nas vias aéreas de menor calibre, levando a uma sibilância audível à ausculta. Após várias horas, pode ocorrer o encharcamento do epitélio brônquico e desenvolvimento da traqueobronquite hemorrágica. O paciente pode apresentar discreta hipertensão arterial, resultando em uma redução nos níveis de tensão de oxigênio arterial. Insuficiência Respiratória A insuficiência respiratória pode ser definida como a incapacidade dos pulmões de arterializar o sangue circulante nos alvéolos. A taxa de arterialização do sangue é considerada normal quando o PO² arterial encontra-se entre 75 e 100 mmHg. A insuficiência respiratória pode ocorrer também quando há aumento da resistência das vias aéreas por obstrução, causando dispneia, mesmo quando o 20 PO2 e o PCO2 são normais. A fisiopatologia da insuficiência respiratória pode ser dividida em duas fases, a aguda e a tardia. • Insuficiência respiratória aguda Todo paciente crítico ou politraumatizado tem tendência a desenvolver insuficiência respiratória aguda e desequilíbrio ácido-básico. A insuficiência respiratória aguda, desencadeada insidiosamente com poucos sinais, é capaz de provocar distúrbios nos órgãos vitais, exigindo percepção aguçada da equipe que permanece ao lado do paciente. Há dois tipos principais de alterações respiratórias agudas no queimado: lesões por gases tóxicos e superaquecidos e insuficiência respiratória pós- traumática. A inalação de substâncias aquecidas como ar quente, principalmente o vapor d’água, é capaz de produzir sérios danos à integridade do revestimento da árvore respiratória, podendo chegar até os alvéolos no caso do vapor d’água. Em geral, as queimaduras térmicas do aparelho respiratório limitam-se às vias aéreas superiores, podendo provocar o aparecimento de edema capaz de obstruir parcial ou totalmente as vias aéreas. A inalação de gases nocivos como a fumaça resultante da combustão de produtos tóxicos pode produzir alterações relacionadas coma fisiologia respiratória, dentre elas: interrupção dos movimentos ciliares, prejudicando a remoção de resíduos nocivos do aparelho respiratório; diminuição dos surfactantes, predispondo ao colapso alveolar; lesão capilar-alveolar levando ao edema. • Insuficiência respiratória tardia O sistema respiratório do queimado é sede de inúmeras agressões que acompanham todo o processo da queimadura, desde a fase inicial até a recuperação total. Na fase tardia ocorrem várias complicações comuns no queimado, entre elas, pneumonia e broncopneumonia, embolia pulmonar e outros. 21 Choque O estado de choque é uma condição clínica frequente e uma das primeiras a ocorrer no queimado. O conhecimento da fisiopatologia do estado de choque é indispensável a toda equipe, para que as medidas sejam tomadas em tempo hábil. É difícil definir o estado de choque, devido às variáveis que interferem nas manifestações clínicas do organismo. Foi constatado que o resultado final é sempre uma perfusão tecidualinadequada com hipóxia celular em grandes áreas do organismo, podendo evoluir para a irreversibilidade na ausência de tratamento adequado em tempo hábil, com o que concordam vários autores. O choque pode ser classificado em hipovolêmico, cardiogênico, neurogênico e séptico. É difícil o aparecimento do choque isoladamente sem que ocorram outras alterações no organismo. Choque hipovolêmico: ocorre pelo déficit de volume líquido circulante, provocado pela perda de plasma e do sangue intravascular. Choque cardiogênico: resulta da insuficiência cardíaca, ou seja, funcionamento deficiente da bomba cardíaca, causando diminuição do débito cardíaco. Vários fatores funcionam como desencadeantes, entre eles, a embolia pulmonar e a hipovolemia tardia. Caracteriza-se pelo aumento da pressão no leito venoso e da resistência periférica. Choque neurogênico: tem como fatores desencadeantes à dor e o estresse causado pela queimadura. É caracterizado pelo aumento de volume do compartimento vascular, sem alterar o volume sanguíneo real, levando a baixa perfusão tecidual. 22 6. FASE DE EMERGÊNCIA / REANIMAÇÃO DO CUIDADO DA QUEIMADURA Cuidado do Local Qualquer pessoa que encontre uma vítima de queimadura pela primeira vez pode se sentir indefesa. A aparência da pessoa queimada pode ser, aterrorizante. Pode ser difícil não dar atenção à aparência da pessoa em lugar de se concentrar nas feridas por queimadura consiste em evitar a lesão para o agente de resgate. Procedimento De Emergência Na Cena Do Fogo Extinguir as chamas Quando as vestes pegam fogo, as chamas são extintas como as vítimas deitando no chão e rolando (“cair e rolar”); pode ser usada qualquer coisa disponível que abafe as chamas como um cobertor, tapete ou capa. Ficar em pé força a vítima a respirar as chamas e a fumaça e correr aumenta as chamas. Se a fonte da queimadura for elétrica, a fonte de eletricidade deve ser desconectada. Resfriar a queimadura Depois que as chamas são extintas, a área queimada e as roupas aderidas são embebidas em água fria, por breve período de tempo, a fim de resfriar a ferida e estancar o processo da queima. Quando uma queimadura for sustentada, a aplicação da água fria é a melhor medida de primeiros socorros. Embeber intermitentemente a área queimada em água fria ou aplicar toalhas frias propicia o alívio evidente e imediato da dor e limita o edema e a lesão tecidual locais. Entretanto, nunca aplique gelo diretamente nas queimaduras, nunca envolva as vítimas de em queimaduras em gelo e nunca use curativos ou compressas frias por mais de alguns minutos; esses procedimentos podem agravar a lesão tecidual e levar a hipotermia nos pacientes com grandes queimaduras. 23 Remover objetos restritivos Quando possível, remova imediatamente as roupas. As roupas que aderiram podem permanecer na posição, quando resfriadas. As outras roupas e todas as joias devem ser removidas para possibilitar a avaliação e para evitar a constrição secundária ao edema em desenvolvimento rápido. Cobrir a ferida A queimadura deve ser coberta o mais rápido possível para minimizar a contaminação bacteriana e diminuir a dor ao evitar que o ar entre em contato a superfície lesada. Os curativos esterilizados são melhores, mas qualquer tecido limpo e seco pode ser utilizado como um curativo de emergência. Não devem ser usados pomadas e cremes. Além do curativo, nenhum medicamento ou material deve ser aplicado à ferida por queimaduras. Irrigar as queimaduras causadas por substâncias químicas As queimaduras por substâncias químicas decorrem do contato com material corrosivo são imediatamente irrigadas. Muitos laboratórios de substâncias químicas possuem um chuveiro de alta pressão para essas emergências. Quando essa lesão acontece em casa, afaste o agente químico, remova as roupas de imediato e lave todas as áreas do corpo que tenham entrado em contato a substância química. O enxágue pode ocorrer no chuveiro ou em qualquer outra fonte de água corrente contínua. Quando uma substância química penetra nos olhos ou fica próxima a eles, os olhos devem ser imediatamente lavados com água limpa e fria. Os resultados para paciente com queimaduras por substâncias químicas melhoram com a lavagem rápida da lesão no local. 24 7. ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM DE URGÊNCIA Deve atuar no atendimento de urgência equipe especializada ou devidamente treinada. O paciente queimado apresenta características próprias, como estresse, e ansiedadeque vão intensificar o sintoma da dor, influenciando diretamente em todos os demais sintomas presentes no quadro clínico do queimado. A qualidade da assistência de enfermagem é decisiva na recuperação precoce do paciente e na prevenção de sequelas físico-psicossocias. O paciente deve ser recebido em sala própria para atendimento de queimados até 24 horas após o acidente (considerado não infectado); colocado em mesa revestida de campo estéril, removidos toda vestimenta, jóias e demais objetos de adorno, para melhor observação da área queimada. A equipe deve estar devidamente paramentada, isto é, usando avental, gorro, máscara e luvas estéreis. A assistência, para fins didáticos está dividida em local e sistêmica. Tratamento geral ou sistêmico imediato: visa prevenir os sintomas de anóxia, dor, choque e infecção que devem ser tratados o mais precocemente possível. Tratamento da anóxia A anóxia pode ser resultante da insuficiência respiratória ou da anóxia tecidual. Deve ser corrigida imediatamente, através de administração de O2 úmido por cateter nasal, principalmente nos casos evidentes de acidentes ocorridos em ambientes fechados com inalação de fumaça. O paciente pode apresentar, além de rouquidão, queimadura total ou parcial dos pelos das narinas e edema. Quando associada às queimaduras da face e pescoço que apresentam edema acentuado, o paciente corre o risco de edema de orofaringe, o que deve ser evitado, mediante observação constante e, se necessário, intubação ou traqueostomia. O material necessário para estes procedimentos deves estar em condições de uso na sala de urgência. Os pacientes com este quadro deverão ser observados constantemente durante 48 horas após o acidente. 25 Tratamento do Choque O tratamento do choque se caracteriza pelo restabelecimento e manutenção do volume líquido circulante. O desencadeamento do choque se dá só pela perda de líquidos, mas por vários outros fatores já descritos anteriormente. O choque é um dos sintomas principais da fase aguda das queimaduras e se não prevenido ou tratado precocemente causa vários problemas, chegando a ser irreversível e levando o paciente à morte prematura. O tratamento consiste na reposição dos líquidos perdidos, a qual deverá ser iniciada imediatamente após a coleta de amostra de sangue para exames e da sedação do paciente na sala de urgência. A via escolhida deve ser a periférica, até a avaliação geral da necessidade quantitativa de hidratação. Para o cálculo dos líquidos que serão infundidos deverão ser consideradas a extensão e profundidade da área queimada, o peso do paciente e fatores de risco, como idade, patologias preexistentes que influenciarão no estado geral do paciente, entre elas, as cardiopulmonares, as nefropáticas, vasculares e outras. Em geral, adultos com queimaduras acima de 20% de Superfície Corporal Queimada e crianças com queimaduras acima de 10% de (SCQ) deverão ser hidratadas por via endovenosa, além da oral. Em todos os casos de grandes queimados e em alguns de médio queimados, a hidratação deverá ser fita através de uma veia calibrosa (flebotomia ou intracath). Controle de reposição de líquidos O cálculo da quantidade e volume dos líquidos a ser reposta não deve ser inflexível e sim adaptado às necessidades específicasde cada paciente, evitando a super ou sub- hidratação. O indicador mais preciso da quantidade adequada é o volume urinário. Porém, há outros fatores que devem ser observados, como: - Condições gerais do acidentado; - Exame do sistema cardiovascular ou respiratório; 26 - Idade (geriátricos e crianças toleram menos infusões rápidas, devido às características do sistema cardiorrespiratório); - Outras patologias preexistentes. Controle laboratorial O hematócrito permite acompanhar a regressão ou progressão da hemoconcentração na fase aguda. Outros fatores podem surgir, interferindo nas características e no volume sanguíneo, como hemólise das hemácias, úlcera de Curling e outros, alterando o resultado do hematócrito a ponto de não servir mais como parâmetro para a hidratação adequada. Controle da diurese Deverá ser cateterizada a bexiga com sonda vesical de demora. O volume urinário horário no adulto deve manter-se entre 30 a 60 ml/h, principalmente nas primeiras 48 horas e, na criança, 1 ml/kg de peso. A redução da diurese indica hidratação insuficiente e consequentemente problema renal. O volume aumentado indica administração hídrica excessiva ou lesão renal. Estas alterações deverão ser corrigidas mediante mudança na conduta terapêutica. Prevenção De Infecção A prevenção da infecção deve ser iniciada o mais precocemente possível, já no atendimento de urgência, usando sala asséptica, pessoal treinado e adequadamente paramentado. Em alguns casos, onde as condições higiênicas da queimadura são precárias, utiliza-se antibiótico profilático. Rotineiramente, é feita a prevenção do tétano em queimados. Esta infecção é grave e quase sempre fatal. Os pacientes não imunizados ou que receberam vacina completa há mais de 10 anos, ou aqueles que não receberam as 3 doses da vacina, devem receber imunização ativa e passiva. Alguns serviços preferem fazer a imunização completa nos 27 pacientes com mais de 5 anos de vacinação, com 3 doses, fundamentados no princípio do risco da conservação inadequada da vacina. Imunização ativa: Compreende a administração de um antígeno para estimular a formação de anticorpos contra o tétano. Em geral, são necessárias 2 a 3 semanas para se formarem os anticorpos. Imunização passiva: Compreende a administração de anticorpos formados previamente, tem vida curta de atuação, em torno de 3 semanas Tratamento imediato, no local da área queimada O tratamento local tem por objetivo aliviar e tratar os sinais e sintomas que surgem na queimadura, como a dor, perda de líquidos, destruição dos tecidos e infecção. A realização de curativo local visa isolamento e proteção da lesão do meio ambiente por tempo suficientemente capaz de recuperá-la. O manejo consciente da área queimada é de extrema importância, visando à profilaxia de infecções e a epitelização rápida da área. 8. MÉTODO DE TRATAMENTO LOCAL DAS QUEIMADURAS Os métodos empregados no tratamento local das queimaduras são dois, o de exposição e o de oclusão, já preconizados e usados por seus pesquisadores no início deste século. Geralmente, na assistência ao médico e grande queimado são usados simultaneamente, o que intitularemos de misto. Método de oclusão: O curativo fechado, ou método de oclusão, compreensão e pouso (OCR), é indicado nas queimaduras dos pés, mãos, membros, queimaduras de 3.º grau, circular de tórax e em tratamento ambulatorial. Material para confecção do curativo 28 - Pacote de curativo (pinça anatômica, pinça dente de rato, tesoura); - Cuba rim; - Gazes cirúrgicas; - Gazes de morim ou rayon; - Gazes de rolo ou para queimados, medindo 10x150 cm; - Atadura de crepe; - Algodão hidrófilo, na ausência deste usar algodão ortopédico; - Fita adesiva ou esparadrapo. Soluções e material acessório - Soro fisiológico; - Sabão líquido neutro; - Benzina; - Éter; - Hamp revestido de saco plástico para lixo. Procedimento Limpar a área com soro fisiológico, com auxílio das pinças, tesouras e gazes; retirar os tecidos desvitalizados, detritos e corpos estranhos, como resíduos de vestes; tratamento aplicado nos primeiros socorros. Existem serviços (Clínica de Queimados e Cirurgia Reparadora – C.Q.C.R – H.M.C.C) onde é feita a ressecção de vesículas existentes, mesmo as que não estão rotas. Conduta a que não se alinham. Há duas correntes que deferem condutas diferentes a respeito do tratamento das queimaduras com vesículas. Aqueles que defendem o não debridamento das vesículas justificam que o líquido contido nestas é semelhante ao plasma do sangue e a drenagem favorece a espoliação do paciente. Parte deste líquido é reabsorvida 29 posteriormente para o espaço intravascular, razão pela qual as vesículas deverão permanecer até a troca do curativo, quando serão ressecadas. O debridamento expõe precocemente a área queimada à ação de microrganismos. Os que usam o método de debridamento das vesículas afirmam que o líquido acumulado no interstício dérmico descola a epiderme do derma formando as vesículas. Quanto maior a coleção de líquidos dentro das vesículas maiores a área de descolamento tornando mais vulnerável o rompimento espontâneo com perda real de líquidos. A percentagem de líquidos reabsorvida das vesículas até a troca do curativo não é tão significativa. Também no cálculo da reposição hídrica não é considerada esta reabsorção. Portanto, a drenagem não altera a volemia do paciente. O rompimento espontâneo das vesículas mais vulneráveis sob o curativo funciona como meio de cultura para os germes, que invadem as vesículas não rotas, transformando-as em bolsa de secreção purulenta. 9. CONFECÇÃO DO CURATIVO 1ª camada – cobrir a área queimada e uns 10 cm de pele íntegra adjacente com gazes de rayon ou morim, embebidas em soro fisiológico ou vaselina. O morim ou rayon deve ser cortado em cada volta circular ao redor do membro ou tórax, prevenindo o garroteamento pela formação de edema, facilitando a retirada na troca do curativo; 2ª camada – cobrir as gazes de malha fina com gaze para queimado ou gaze de rolo. Esta deve ser colocada em ziguezague ou vaivém, atendendo a mesma finalidade de prevenção de garroteamento; 3ª camada – cobrir a gaze de rolo com um algodão hidrófilo em forma circular e uniformemente por toda região; 4ª camada – enfaixar compressivamente com ataduras de gazes elásticas (tipo crepom). Fixar o curativo com fita adesiva ou tiras de esparadrapo, de tal forma 30 que garanta a integridade do curativo por 3 a 4 dias, apesar da movimentação do paciente. Cuidados especiais devem ser tomados ao se fazer o curativo nas mãos e pés. Os dedos da mão deverão ser envolvidos separadamente com rayon ou morim e, na 2.ª camada, com gaze cirúrgica. Posteriormente, deverão ser enfaixados em posição funcional, isto é, com os dedos levemente fletidos, como se estivessem segurando uma bola de vôlei. Os dedos dos pés também deverão ser envolvidos separadamente, até a 2.ª camada, e colocados posteriormente em posição de 90 graus em relação à perna. Esta medida visa prevenir a queda plantar, tão comum em pacientes de longa internação com movimentos limitados. As queimaduras de 3.º grau com circular de membros e tórax geralmente necessitam da escarotomia, que consiste em incisões longitudinais, feitas com bisturi, para aliviar a compressão que o tecido lesado pode exercer neste local, trazendo dificuldade circulatória nos membros e respiratória do tórax. Estes locais, após a oclusão com curativos, devem ser observados visando sustar hemorragias, que são frequentes. OBS.: A observação da aparência externa do curativo é importante. Quando o revestimento externo (atadura de crepe) do curativo está úmido ou sujo, é sinal que deixou de ser oclusivo. Está sujeito a infecção e deveser trocado mesmo que a data prevista esteja distante. Finalidade das gazes utilizadas no curativo ✓ Gaze de malha fina (rayon ou morim) visa a não aderência na área queimada, facilitando a troca de curativos e favorecendo a drenagem de secreções. O rayon é mais indicado porque os fios não absorvem secreções; portanto, não aumentam o diâmetro, favorecendo a drenagem de secreções de forma mais abundante. 31 O curativo deverá ser reforçado com fita adesiva ou tiras de esparadrapo, permitindo a sua integridade apesar dos movimentos, até a troca, que poderá ocorrer 3 a 5 dias após. LEMBRE-SE ✓ Gaze de rolo ou para queimados – favorece a absorção da secreção que drena através da 1.ª camada e permite a proteção da área queimada de maneira uniforme, o que não seria possível com gazes cirúrgicas, que dificultam a confecção do curativo pelo deslizamento das unidades. ✓ Algodão hidrófilo – permite a absorção da secreção que drena através da 2.ª camada do curativo e promove a compressão uniforme da área queimada, reduzindo a dor e oferecendo maior conforto ao paciente, protegendo-o de traumas secundários na movimentação. OBS.: O algodão ortopédico não é o mais indicado porque tem menos capacidade de absorção. Sua elasticidade é inexistente, o que pode prejudicar a circulação na área envolvida, principalmente na formação do edema. ✓ Atadura de crepom – tem por objetivo a compressão uniforme e suave, além de fixação do curativo. O enfaixamento deve obedecer ao princípio fisiológico da circulação sanguínea, permitindo compressão uniforme decrescente da extremidade para a raiz dos membros. A absorção da perfusão periférica e edemas acentuados permite a avaliação do enfaixamento. MÉTODO DE EXPOSIÇÃO Consiste na exposição completa da área queimada ao meio ambiente. Este método é usado para o tratamento de queimaduras de face, pescoço, períneo e 32 tórax de pacientes internados e adultos conscientes. Deve ser evitado nestas regiões, se houver exposição de ossos, vasos sanguíneos, nervos e tendões. Procedimento Em pacientes com queimadura circular de tórax aos quais for indicada a hospitalização, optar pela exposição, mantendo um coxim sob a parte do tórax que ficará apoiada no leito. O coxim compreende as mesmas camadas do curativo oclusivo, sendo substituída à atadura de crepe pelo campo estéril. Este é confeccionado com técnica asséptica, de forma inversa à que se faria no paciente, isto é, de dentro para fora, seguindo a sequência descrita: abre-se o campo estéril em tamanho proporcional ao da região a ser protegida, usando-se uma mesa ou a própria cama do paciente, acolchoando-se todo o campo com algodão hidrófilo; recobre-se todo o algodão com gaze de rolo aberta, coloca-se em cima o morim ou rayon umedecido com soro fisiológico. Põe-se o paciente no leito sobre o coxim, no decúbito indicado, de maneira que não flexione o corpo, evitando enrolar as camadas e permitindo uniformidade em toda a extensão. Toda extensão da área queimada exposta deve repousar sobre campos estéreis que deverão revestir o leito. A sustentação de lençóis e cobertores é feita com arco de proteção de metal estéril ou, na impossibilidade, devidamente lavado com água e sabão e desinfetado. A primeira peça que fica em contato com o arco deve ser campo estéril. Sobre este repousarão o lençol, cobertores e colcha. O ambiente deve ser aquecido em lugares de clima frio. Em geral, após as 48 horas, surge uma crosta fina e lisa semelhante ao esmalte sobre a área queimada, resultante do dessecamento do plasma. Esta crosta é chamada de curativo biológico. Tem a finalidade de proteger o local queimado contra microrganismos, diminui a perda de líquidos, impedindo a evaporação, atenuando a dor e isolando as terminações nervosas do contato com o ar. Comparação entre os dois métodos de curativos Os empregos dos dois métodos (oclusivo e explosivo) dão bons resultados, desde que tenham indicação precisa para a aplicação. 33 Exposição – Vantagem ✓ Observação das lesões: permite a observação constante das lesões, possibilitando surpreender no início qualquer foco infeccioso. ✓ Aplicação do método: ideal para face e períneo, locais onde se abrem vários artifícios com drenagem de secreções naturais exigindo higiene frequente. ✓ Proliferação dos germes: o dessecamento do plasma sobre as lesões constitui um meio desfavorável à proliferação de germes. ✓ Curativos: não há troca de curativos dolorosa. Os curativos são simples, restringindo a limpeza diária das secreções sem causar grande desconforto ao paciente. ✓ Mobilização: permite movimentação espontânea, possibilitando a observação de deformidades de posição e sua correção precoce. No entanto, esta mobilização deve ser a estritamente necessária para evitar solução de continuidade e conservar a integridade da crosta protetora, podendo haver focos infecciosos em pontos onde essa se rompe. Exposição- Desvantagens ✓ Aplicação do método: limitado, contraindicado em queimaduras profundas, extensas ou circulares e não indicada para aplicação em ambulatório. ✓ Tolerância: nas primeiras 48 horas, enquanto as crostas não se formarem, a dor e a sensação de desconforto são mais intensas, exigindo a administração de sedativos. ✓ Contaminação: favorece a contaminação mesmo em isolamento parcial, com observação de técnica asséptica e limpeza rigorosa do ambiente, exigências não comumente encontradas na maioria dos hospitais da comunidade brasileira. 34 ✓ Proteção contra as variações térmicas: A exposição protege menos o paciente contra as variações térmicas do meio ambiente. A temperatura deve ser mantida constantemente no verão e inverno. O paciente descoberto não deve sentir frio ou calor. ✓ Perda de líquidos: Nas primeiras 48 horas, a perda de líquidos é maior devido à evaporação, intervendo-se esta situação na fase tardia. Duas condições básicas interferem na evaporação da água através da pele: uma relacionada com o paciente e outra relacionada com o meio ambiente (umidade do ar, temperatura ambiente e aeração local). Curativo oclusivo – Vantagens ✓ Aplicação do método: Em geral, tem menos contraindicações. Mantém a lesão em repouso durante a fase de agressão, facilitando a recuperação. É indicado especialmente para queimaduras circulares e profundas, tratamento ambulatorial, crianças, pessoas agitadas ou deficientes mentais. ✓ Tolerância: O alívio da dor é mais rápido, a oclusão isola os ferimentos dos estímulos externos; posteriormente, a situação é inversa. ✓ Contaminação: Evita a contaminação pela oclusão. Ideal para ambientes de hospitais superlotados e com déficit de pessoal especializado. ✓ Proteção contra as variações térmicas: Nos climas frios, a oclusão é mais tolerada, protegendo melhor o paciente. No verão a situação é inversa. ✓ Perda de líquidos: A perda inicial de líquidos é menor na oclusão, por evitar a evaporação. O contrário ocorre posteriormente, em virtude da absorção dos líquidos nas bandagens dos curativos, intensificando as perdas reais. 35 Desvantagens da Oclusão ✓ Custo: é mais dispendioso, exigindo muito material e mão-de-obra especializada para troca de curativos. ✓ Observação das lesões: a presença ou ausência de infecção só pode ser avaliada através de hipertermia, dor, odor fétido, aspecto externo do curativo (dados indiretos). ✓ Proliferação de germes: a oclusão da área possibilita condições favoráveis à proliferação de germes pelo calor, umidade e ausência de claridade. ✓ Curativos: a necessidade da troca do curativo periódica torna a aplicação do método mais traumatizante para o paciente e equipe de enfermagem. Nos intervalos da troca há queixas de desconforto geral, odor fétido, prurido, calor etc. Naconfecção do curativo, se a compressão não for uniforme, o paciente se queixa de dor e formigamento e apresenta alteração da perfusão periférica e edema local. ✓ Mobilização: a oclusão dificulta a mobilização das articulações do membro afetado, impossibilita a verificação de deformidades de posicionamento e sua correção precoce. No entanto, o paciente fica mais livre para se movimentar, sendo também mais fácil o seu transporte. 10. PRIMEIRO ATENDIMENTO DO PACIENTE QUEIMADO Protocolo XABCDE Queimadura é considerada um Trauma devendo-se, portanto, tratá-lo como tal, realizando o protocolo XABCDE do trauma: 36 X- Exsanguinação Contenção de hemorragia externa grave, a abordagem deve ser executada antes do manejo das vias aéreas, devido à maior causa de óbitos em trauma ser a hemorragia grave. A – Vias Aéreas Suspeitar de lesão de via aérea sempre que a história ou o exame físico justificarem. Lembre-se que os sinais de comprometimento podem ser tardios e não devemos aguardar que se instale uma insuficiência respiratória franca, já que isso pode inviabilizar o acesso a uma via aérea definitiva por intubação e exigir uma abordagem cirúrgica. É necessário avaliar a presença de corpos estranhos, verificando e retirando qualquer tipo de obstrução. B – Boa Respiração Além dos danos causados pelas lesões térmicas da via aéreas, da inalação de produtos tóxicos que produzem traqueobronquites químicas, edema e pneumonia, outro importante fator de agravamento respiratório é a intoxicação por monóxido de carbono. Sempre considere a possibilidade de intoxicação por monóxido de carbono em queimado com história de lesão em ambiente fechado. O diagnóstico da intoxicação é clínico e é feito principalmente pela história. Quando os níveis séricos de CO são inferiores a 20%, não costuma haver sinais clínicos. Com níveis mais elevados, pode haver: cefaleia e náusea (20 a 30%), confusão (30 40%), coma (40 a 60%) e morte (>60%). O tratamento consiste em oferecer O2 em altas concentrações por máscara ou ventilação assistida, sempre em sistema sem recirculação. C – Circulação Qualquer vítima com mais de 20% de SCQ necessita de reposição volêmica. Como todo trauma deve-se estabelecer 2 acessos calibrosos (abocath 16) e infundir Ringer lactato usando a fórmula de Parkland de 2-4 ml/kg /%SCQ desse total metade deve ser infundido nas primeiras 8 horas da queimadura e o restante nas outras 16 horas. Sendo administrado em pacientes idosos, pessoas com 37 insuficiência renal e ICC 2 ml, em crianças e adultos 4 ml. Lembrar que deve-se monitorar diurese para que permaneça entre 0,5-1 ml/kg/h. Em pacientes com queimadura elétrica sempre monitorizar atividade cardíaca. Se o paciente tem várias áreas queimadas, variando em profundidade, as de primeiro grau não entram na contagem para reposição. D – Dano Neurológico Na avaliação neurológica deve ser utilizada a Escala de Coma de Glasgow para verificar o nível de consciência do paciente, tendo como parâmetros a abertura ocular, resposta verbal, e resposta motora. O seu escore máximo é de 15, que indica que o paciente não possui nenhum dano neurológico. O valor inferior a 8 aponta uma lesão grave, sendo indicada a realização de intubação da vítima, 9 a 12 lesão moderada, e 13 a 15 lesão mínima. E – Exposição Este passo é muito importante, uma vez que permite identificar o tipo de queimadura e a profundidade da lesão Volume sanguíneo circulante: Em um paciente queimado, até mesmo a medida da pressão arterial pode ser difícil. A monitoração do débito urinário é uma das formas mais fidedignas de se avaliar a qualidade do volume circulante. Torna-se então obrigatória à sondagem vesical nos queimados com mais de 20% de superfície corpórea queimada. A diurese recomendada é de 1 ml/Kg por hora para crianças com menos de 30 Kg, ou 30 a 50 ml por hora para os adultos. A estimativa do volume a ser infundido pode ser feita através da formula: 38 Este volume deve ser infundido com solução de Ringer lactato. Nas primeiras 8 horas após a queimadura, o paciente deve receber 50% do volume calculado, nas outras 16 horas deve receber os outros 50%. É bom lembrar que esta formula serve somente para estimar o volume necessário, o objetivo final é garantir volume circulante e a perfusão tecidual, avaliada através do débito urinário. Outros cuidados: Pesar o paciente: muitas vezes a única oportunidade de se avaliar o peso do queimado é na admissão, já que nos casos mais graves os cuidados intensivos não permitem a pesagem. Sondagem nasogástrica: está indicada em queimados com mais de 20% de superfície queimada. Ela vai diminuir a distensão gástrica e evitar náuseas, vômitos e distensão abdominal. Sedação da dor: deve ser administrada por via endovenosa. Como pode haver hipóxia ou hipovolemia, a administração de sedativos deve ser feita em doses pequenas e frequentes. Antibióticos: não há indicação para uso profilático de antibióticos. Eles devem ser utilizados somente para tratar as infecções que podem surgir durante o tratamento. Cuidados com a ferida: Não devemos romper as bolhas na fase aguda da queimadura. Para dar mais conforto ao paciente, podemos lavar a área queimada e cobri-la com compressas úmidas em soro morno. Queimaduras circunferências: pacientes com queimaduras de terceiro grau que acometem toda a superfície de um membro podem desenvolver um quadro isquêmico progressivo relacionado à instalação de edema tecidual. Nestes casos, está indicada uma escarotomia, procedimento que deve ser realizado na sala de emergência e que garante a viabilidade funcional do membro. Critérios para transferência de pacientes para unidades de tratamento de queimaduras 39 ✓ Queimaduras de 2° grau em áreas maiores do que 20% da SCQ em adultos. ✓ Queimaduras de 2° grau maiores do que 10% da SCQ em crianças ou maiores de 50 anos. ✓ Queimaduras de 3° grau em qualquer extensão. ✓ Lesões na face, nos olhos, no períneo, nas mãos, nos pés e em grandes articulações. ✓ Queimadura elétrica. ✓ Queimadura química. ✓ Lesão inalatória ou lesão circunferencial de tórax ou de membros. ✓ Doenças associadas, tentativa de autoextermínio (suicídio), politrauma, maus-tratos ou situações sociais adversas. ✓ A transferência do paciente deve ser solicitada à unidade de tratamento de queimaduras (UTQ) de referência, após a estabilização hemodinâmica e as medidas iniciais, com leito de UTI reservado para queimados. ✓ Pacientes graves somente deverão ser transferidos acompanhados de médico em ambulância com UTI móvel e com a possibilidade de assistência ventilatória. ✓ O transporte aéreo para pacientes com trauma, pneumotórax ou alterações pulmonares deve ser realizado com extremo cuidado, pelo risco de expansão de gases e piora clínica. ✓ As UTQs de referência sempre têm profissionais habilitados para dar orientações sobre o tratamento completo das vítimas de queimaduras. ✓ A transferência do paciente deve ser solicitada à UTQ de referência após a estabilização hemodinâmica e as medidas iniciais. ✓ Envie sempre relatório com todas as informações colhidas, as anotações de condutas e os exames realizados. 11. REPOSIÇÃO HIDROELETROLÍTICA Fórmula de Parkland ✓ 2 a 4ml/kg/% SCQ para crianças e adultos. 40 ✓ Idosos, portadores de insuficiência renal e de insuficiência cardíaca congestiva (ICC) devem ter seu tratamento iniciado com 2 a 3ml/kg/%SCQ e necessitam de observação mais criteriosa quanto ao resultado da diurese. ✓ Use preferencialmente soluções cristaloides (ringer com lactato). ✓ Faça a infusão de 50% do volume calculado nas primeiras 8 horas e 50% nas 16 horas seguintes. ✓ Considere as horas a partir da hora da queimadura. ✓ Mantenha a diurese entre 0,5a 1ml/kg/h. ✓ No trauma elétrico, mantenha a diurese em torno de 1,5ml/kg/hora ou até o clareamento da urina. ✓ Observe a glicemia nas crianças, nos diabéticos e sempre que necessário. ✓ Na fase de hidratação (nas 24h iniciais), evite o uso de coloide, diurético e drogas vasoativas. Grande queimado adulto: iniciar 2.000 ml de Ringer com Lactato para correr em 30 minutos; Grande queimado criança: iniciar 30 ml/kg para correr em 30 minutos. Independentemente do esquema inicial escolhido, deve-se observar diurese a partir da primeira hora, e controlar a hidratação para que se obtenha 0,5 a 1ml/kg/hora ou (30-50ml) em adultos e 1ml/kg/h em crianças. 12. NUTRIÇÃO PARA QUEIMADOS O queimado, mais do que qualquer outro paciente, necessita de dieta hiperproteica e hipercalórica, rica em sais minerais e vitaminas, fatores indispensáveis na reposição das perdas calóricas, reconstituição dos tecidos lesados e na manutenção do equilíbrio imunológico. O enfermeiro e sua equipe administram a alimentação e hidratação do queimado, muitas vezes totalmente dependente e imobilizado devido a queimaduras extensas e profundas. 41 É muito importante a orientação que o enfermeiro dá a sua equipe quanto aos fatores que facilitam a aceitação da dieta, tais como: ausência de dor no momento da alimentação; ausência de odor desagradável no ambiente; posicionamento adequado do leito e do paciente; disponibilidade da pessoa que alimenta; aspecto e temperatura do alimento etc. Cabe ao enfermeiro o controle e aceitação da dieta em cada período, por ser comum a anorexia no queimado. Quando esta ocorrer, levar o fato para discussão em grupo multiprofissional, podendo parte do problema ser transferido para a família, desde que esta aceite e tenha condições de aquisição, disponibilidade de tempo para preparar, transportar e administrar o alimento adequado. Outra conduta que a equipe poderá adotar é a complementação da dieta via oral, por sonda gástrica ou, mais apropriadamente, por sonda enteral, desde que o aparelho digestivo do paciente não ofereça nenhuma contraindicação, como úlcera de Curling, diarréias, vômitos e outros. O queimado que recebe nutrição enteral deverá ser monitorizado pela enfermagem. O processo começa com a introdução de uma sonda tipo Dobbhoff por via transnasal para o estômago, onde permanece até ser transportada para o duodeno, sob ação do peristaltismo gastrintestinal. Em pacientes conscientes e que cooperam, como é o caso de quase todos os queimados, a inserção do cateter é um procedimento simples, dispensando o uso de mandril. Em torno de 8 a 24 horas deve-se fazer uma radiografia abdominal para observar o posicionamento do cateter (duodeno), podendo ser feita à fixação definitiva. Caso a sonda permaneça no estômago, não atingindo o intestino delgado, a dieta deverá ser preparada e administrada como gástrica e não como enteral. A vantagem da alimentação por sonda enteral sobre a sonda nasogástrica, entre outras, é que não existe o risco de regurgitação do conteúdo gástrico, com possível aspiração pulmonar. A ficha de monitorização dos cuidados de enfermagem com o paciente em uso de nutrição enteral deverão registrar os seguintes dados: ✓ Identificação do paciente 42 ✓ Registro das características do paciente, tipo e número da sonda, data da introdução, peso normal, altura, punho etc; ✓ Administração da dieta: devem ser anotados característicos volumes prescritos e administrado, visando identificar alterações na aceitação e problemas de infusão da dieta. Cuidados devem ser mantidos para evitar obstrução da sonda e aplicar a infusão no tempo correto. Quando forem administrados outros nutrientes deverão ser registrados volumes e soluções infundidos; ✓ Reações do paciente: sede, fome, anorexia e complicações gastrintestinais são reações que indicam não só o nível de tolerância da dieta, como são parâmetros para alterações da mesma; ✓ Eliminações: volume urinário, número e aspecto das fezes eliminadas, este é um índice relevante na observação da tolerância à dieta. Através destas eliminações, é possível avaliar o balanço nitrogenado indispensável para adequar a oferta calórica; ✓ Complicações com a sonda – são registrados posicionamento inadequado, obstrução e saídas acidentais; ✓ Atividade física: é registrado o número de sessões de fisioterapia e exercício físico; ✓ Medidas antropométricas: são registradas a altura, o peso, circunferência do braço e punho, prega do tríceps e prega subescapular duas vezes por semana. Estes dados são indispensáveis e deverão ser acrescidos de exames laboratoriais (albumina sérica, transferrina sérica e linfócitos), que permitem determinara inicialmente o grau de desnutrição e necessidade proteica. São constantemente reavaliados, através do acompanhamento e evolução do estado nutricional do paciente. Na administração da dieta enteral alguns cuidados devem ser observados, como sejam: ✓ Orientar o paciente sobre o tratamento; ✓ Manter o paciente em decúbito elevado (Fowler entre 30 a 45.º); 43 ✓ Anotar a quantidade exata administrada (em ml) nos horários padronizados; ✓ Aspirar à sonda com seringa de 50 ml antes de ligar a dieta. Se a saída do conteúdo for superior a 150 ml, fazer pausa alimentar de 2 horas e anotar; ✓ Injetar soro glicosado a 5% pela sonda, quando a dieta não estiver ligada (durante a pausa), ou de acordo com a prescrição médica; ✓ Controlar o gotejamento, para evitar administração em ml/hs superior a quantidade prescrita; ✓ Anotar quantidade de alimentação aceita por via oral; ✓ Anotar sempre que ocorrer vômito (volume e aspecto). Neste caso, deve-se interromper a dieta e manter a sonda aberta; ✓ Anotar sempre que houver regurgitação; ✓ Anotar o número e aspecto das evacuações; ✓ Anotar o número de vezes de obstrução das sondas, caso isto ocorra; ✓ Anotar a saída da sonda (quando acidental ou provocada); ✓ Pesar o paciente pela manhã em jejum. Anotar (maca-balança); ✓ Anotar a diurese de 24 horas. O balanço deverá ser fechado às 6:00 horas. Observar requisição de exames de laboratório; ✓ Fazer e registrar glicosúria a cada 4 horas; ✓ Não esquecer a dieta, para não deteriorar; Em grandes queimados, após reavaliação do estado nutricional, poderá ser instituída paralelamente a nutrição parenteral, que exige da enfermagem cuidados redobrados. O controle é feito através da ficha de monitorização de cuidados de enfermagem, onde deverão constar vários detalhes a respeito do paciente. 44 13. ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM AO PACIENTE QUEIMADO (CASOS) ✓ O paciente queimado apresenta troca gasosa prejudicada, podendo estar relacionada com dano alveolar e obstrução das vias aéreas. Cuidados: • Manter via aérea permeável; • Avaliar padrão respiratório e presença de respiração ruidosa; • Administrar oxigênio umidificado; • Observar presença de escarro carbonáceo, rouquidão, dispnéia, tosse, pelo nasal chamuscado (ocorrem com as lesões por inalação); • Observar edema de vias aéreas superiores. ✓ O paciente apresenta déficit de volume circulante, diminuição do débito cardíaco e alteração da perfusão periférica. Cuidados: • Manter reposição volêmica adequada; • Peso diário e balanço hídrico; • Reposição de volume conforme prescrição médica: a reposição endovenosa nas primeiras 24 horas deve ser rigorosa; • Evitar líquidos via oral nas primeiras 24 horas. ✓ A resposta sistêmica às queimaduras envolve: diminuição do retorno venoso, troca gasosa prejudicada e diminuição de perfusão tecidual em vários órgãos. Cuidados: 45 • Monitorizar sinais vitais, ritmo cardíaco, nível de consciência, padrão respiratório e perfusão periférica; • Verificar pulso periférico. ✓ As queimaduras circunferências apresentamedema que dificulta a circulação local Cuidados: • Avaliar queimaduras circunferências (membros e tórax); • Verificar pulso distal do membro. ✓ O paciente pode apresentar choque hipovolêmico Cuidados: • Estar atento aos sinais de insuficiência renal • Passagem de sonda vesical de demora, com controle rigoroso de diurese (mínimo de 30 ml/h). • Observar presença de oligúria e anúria ✓ O paciente queimado apresenta quadro de hipotermia devido à perda imensurável de líquido pela pele. Cuidados: • Manter paciente aquecido, área corpórea protegida, para evitar perda de líquido e de calor. Sugere-se utilização de plástico estéril sobre a área queimada para facilitar retenção de líquido e calor; • Evita-se utilização de compressas úmidas para evitar hipotermia. 46 14. ATENDIMENTO NO CENTRO DE QUEIMADOS No Centro de Queimados, após a estabilização do paciente e dos cuidados iniciais, o seguimento do paciente compreende os seguintes aspectos: Escarectomia De acordo com o período evolutivo da queimadura, a ressecção do tecido desvitalizado poderá ser feita em três períodos: escarectomia imediata, precoce e tardia. Escarectomia imediata: de uso limitado, indicada nas queimaduras de 3.º grau pouco extensas, que não sejam de etiologia química ou elétrica. É realizada no ato de admissão do paciente, resolvendo imediatamente o problema de tecido desvitalizado e todos subsequentes. Para utilização deste método é necessário que a instituição ofereça alguns recursos, como banco de sangue, com disponibilidade de diversos grupos sanguíneos e fatores RH; banco de pele, para curativos biológicos; equipe cirúrgica disponível, bem como salas cirúrgicas equipadas. É importante que o paciente esteja em boas condições físicas. Escarectomia precoce: geralmente executada entre os 10.º e 14.º dia pós- queimadura, período em que os tecidos desvitalizados começam a ser diferenciado dos viáveis por se delimitarem e soltarem. A vantagem sobre o método anterior é justamente o conhecimento evidente do tecido necrosado, poupando o viável. A sua indicação está restrita às condições de cada paciente, devendo ser observados a profundidade e extensão da queimadura, bem como o estado geral do paciente e disponibilidade de recursos na clínica, como banco de pele e outros. Escarectomia tardia: é indicada para os grandes queimados e casos de necrose acentuada. Pode ser feita com anestesia geral ou não durante as trocas de curativos, independente da modalidade dos mesmos. A escarectomia é feita através da ressecção parcial do tecido necrosado na medida em que se vão soltando. O sangramento é inexpressivo e a dor pode ser suportável. A desvantagem do método está em favorecer a proliferação dos microrganismos, devido ao longo período de exposição da lesão, aumentando a desvitalização do tecido e possibilitando infecção 47 invasiva, como sepse e outras. O método exige hospitalização prolongada, maior número de troca de curativos, retardo da enxertia de pele e demora do tratamento, favorecendo o aparecimento de sequelas funcionais e estéticas. Os cuidados de enfermagem imediatos no pós-curativo com anestesia geral dizem respeito aos controles dos sinais vitais e PVC, se for o caso; aspiração de secreções orofaríngea, se necessário; proteção e/ou restrição no leito para evitar quedas; infusão das soluções cristaloides e coloides; posicionamento adequado no leito, evitando sequelas; observação constante da área ressecada, controlando hemorragias que são frequentes devido às lesões de vasos no ato cirúrgico. Em geral, um enfaixamento compressivo da área sangrante resolve o problema, não sendo necessário desfazer o curativo oclusivo para sutura. O paciente deve ser hidratado e alimentado por via oral logo que desapareçam os sintomas de desconforto da anestesia geral. O alívio das queixas dolorosas deve ser feito com a administração de analgésicos. Não deve ser esquecidos o apoio psicológico e a recreação do paciente. Fasciotomia: procedimento realizado na emergência por cirurgião experiente, indicado quando se suspeita de síndrome de compartimento no antebraço ou perna, geralmente em lesões decorrentes da passagem de corrente de alta voltagem. Broncoscopia : indicada quando se suspeita de lesão por inalação, geralmente resultado de acidentes em que a vítima ficou em local fechado, podendo ter sido exposta à fumaça ou em pacientes com queimaduras de face. Desbridamento cirúrgico: indicado praticamente em todos os casos de queimaduras de terceiro grau. É considerado o método ideal por resolver em um só ato cirúrgico a eliminação da necrose. A desvantagem do método está em transformar uma área mista, isto é, onde há queimadura de 2.º e 3.º graus, em queimadura profunda, pela ressecção também de ilhotas do derma capazes de epitelizar espontaneamente. A ressecção do tecido necrosado é feita com tesoura e bisturi. O curativo é traumatizante, agressivo, produzindo hemorragias que poderão ser sustadas com 48 compressas embebidas com soro fisiológico frio, suturas de vasos de maior calibre e compressões locais. Normalmente é necessário fazer transfusão de sangue na sala cirúrgica ou, posteriormente, no pós-operatório imediato, já na enfermaria. A troca do próximo curativo obedece às necessidades de cada paciente. Em geral acontece em torno de 2 a 3 dias após, podendo repetir-se ou não a anestesia geral. Enxertia: o sucesso de uma enxertia de pele depende muito da qualidade da assistência de enfermagem no pré, trans e pós-operatório. Esta assistência será tanto mais eficiente na medida em que os membros da equipe estiverem mais bem preparados para prestar assistência qualificada e específica a cada paciente nas diversas fases do tratamento. O enfermeiro, como líder da equipe, deve manter treinamento constante, formal e informal, qualificando estes profissionais em sua área de ação. A enxertia de pele consiste no transplante de um fragmento de pele, isto é, separação deste tecido de revestimento do seu local de origem, para colocação e reintegração em outra parte do organismo. Pode ser chamado de transplante livre de pele. A indicação para enxertia de pele obedece a 3 fatores fundamentais: profundidade, extensão e localização da queimadura. A profundidade é o fator mais decisivo na indicação para enxertia. Como já foi mencionado em capítulos anteriores, toda queimadura de 3.º grau necessita de enxertia de pele para a cicatrização. Porém, queimaduras profundas, mas pouco extensas, cicatrizam espontaneamente através de crescimento celular das bordas da lesão para o centro. Apresentam, como fator indesejável, sequelas de retração que podem interferir no quadro estético e criar problemas funcionais, dependendo da localização, como proximidade de articulações, pálpebras, dorso das mãos, etc. A enxertia de pele também está indicada nas queimaduras de 2.º grau profundas, quando localizadas em regiões onde a pele é fina, móvel e elástica, como nas áreas acima citadas. A cicatrização espontânea, nessas áreas, pode apresentar retração com alteração funcional e estética. A enxertia de pele se torna obrigatória em toda queimadura de 3.º grau extensa, devido à destruição total do epitélio germinativo, tornando impossível a cicatrização. 49 Classificação dos Enxertos Podemos classificar os enxertos de pele em vários grupos, de acordo com características como: ✓ Quanto à origem Autógenos ou auto-enxerto: assim chamados quando o enxerto é transplantado para o mesmo indivíduo. É o mais usado e o único definitivo, por não apresentar problemas de rejeição. Uma das dificuldades da aplicação do auto enxerto nos grandes queimados é a escassez de área doadora; mesmo assim, alguns recursos são tentados, como o reaproveitamento da área doadora em torno de 12 a16 dias após a retirada da pele (em enxertos finos ou intermediários). Outra forma é o uso do enxerto em malha, que permite cobrir uma área três vezes maior do que a área doadora. O avanço tecnológico vem favorecendo os cientistas que continuam pesquisas nesta área. Os meios de comunicação têm divulgado progressos, com a pesquisa sobre a reprodução de pele no laboratório para uso em quinze dias. Após diversos processos de tratamento laboratorial, a célula do tecido epitelial está pronta, em 15 dias, para uso em lâminas de 3x8 cm. A grande vantagem do processo é a reprodução ilimitada destas lâminas, resolvendo o problema das grandes áreas queimadas em receber enxerto. Homogêneos ou homoenxertos: é o enxerto realizado entre seres vivos da mesma espécie (homem para homem). O método apresenta várias vantagens; entre elas, protege a área cruenta e impede a perda de líquidos, eletrólitos e proteínas. Com isto, a sobrevida do grande queimado pode ser aumentada. Previne e combate à infecção de superfície, melhora o quadro febril e da dor. A principal vantagem está em estimular a cicatrização das queimaduras superficiais, permitindo uma rápida cicatrização e a formação de um tecido de granulação ideal que favorece a integração do futuro auto-enxerto nas queimaduras de 3.º grau, garantindo o sucesso da enxertia definitiva. As fontes para obtenção dos homoenxertos são os cadáveres (difícil obtenção por questões jurídicas e familiares), os segmentos de tecidos retirados em cirurgias convencionais, como dermolipectomias abdominais, plásticas de 50 mama e doações de familiares. O uso da membrana amniótica é tema de trabalhos de pesquisa de alguns colegas. Depois de descoberta de que as células de Langerhans presentes na pele são responsáveis pelo desencadeamento do processo de rejeição, está tornando definitivo o enxerto homogêneo. Após tratamento laboratorial, estas células são destruídas, tornando possível o transplante de pele mesmo entre pessoas totalmente incompatíveis. O aperfeiçoamento deste trabalho promete para o futuro um melhor prognóstico para os grandes queimados. Heterogêneos ou Heteroenxertos: quando o enxerto é transplantado para um outro ser vivo de espécie diferente. Este tipo de enxerto pode também ser chamado de curativo biológico. As principais fontes para obtenção dos heteroenxertos são o cão e o porco. Trabalhos mostram que antigamente o uso da pele do cão mostrou menos vantagem que o uso da pele do porco. A pele de porco pode ser encontrada em três formas: fresca, liofilizada e congelada. Quando a opção for pele fresca é necessária à observação da mesma durante 24 a 48 horas para garantia da ausência de contaminação. A pele liofilizada é desprovida de algumas das propriedades encontradas na pele fresca. Para usá-la, deve-se imergi-la em soro fisiológico durante 15 a 30 minutos. É usada como curativo biológico. No entanto, não estimula a neoformação vascular na área receptora e é eliminada espontaneamente em torno de quatro a cinco dias após aplicação. A pele de porco congelada é um lançamento mais recente. Antes do uso, é necessário o descongelamento com auxílio de soro fisiológico durante 1 a 2 minutos. Como já mencionado anteriormente, estes tipos de enxerto funcionam apenas como curativo, apresentando algumas vantagens sobre os curativos comuns, quais sejam: ✓ Melhora metabólica do grande queimado pela diminuição da perda de líquidos através da evaporação, e de proteínas pela drenagem; ✓ Diminuição da dor, permitindo a movimentação; 51 ✓ Favorece o acompanhamento constante da evolução local por não ser necessária à oclusão com bandagens; ✓ Proteção da área lesada contra contaminação e outros. Paralelo a este tipo de tratamento local, chamado de pré-enxertia, existem os substitutos sintéticos da pele humana, que têm finalidade semelhante à dos enxertos homogêneos e heterogêneos. Muito se tem pesquisado a respeito. ✓ Quanto à espessura Enxertos finos: são aqueles que contém aproximadamente partes iguais de epiderme e derme. Apresentam como vantagem a epitelização precoce da área doadora e retorno das características normais da pele, como a coloração, elasticidade e outras. Possibilitam também a reutilização da área doadora num período mais curto de tempo, sendo, portanto, indicados nos grandes queimados. No entanto, a área receptora apresenta problemas referentes à estética e à funcionalidade, devido à menor elasticidade, que está relacionada com a espessura da lâmina enxertada. Enxertos intermediários: assim chamados quando possuem epiderme e um terço de espessura de derme. A reintegração na área receptora se dá com facilidade e permite boa resistência à área enxertada, após a reintegração. O aspecto estético e funcional final é bom. Quanto à área doadora, a nova pele apresenta características quase idênticas à anterior. É um dos enxertos mais usados no tratamento dos queimados. Enxertos espessos: possuem a epiderme de dois terços da espessura da derme. A reintegração é dificultada quando há presença de infecção na receptora. A cicatrização da doadora também se torna mais demorada predispondo à infecção. Com a ocorrência de infecção, esta área poderá ser transformada em lesão de 3.º grau, necessitando também de enxerto para sua epitelização. Existe ainda o enxerto total de pele, onde é retirada a pele com todos os seus elementos (epiderme e derme), deixando a doadora somente com o tecido subcutâneo (método não utilizado no tratamento do queimado). 52 ✓ Quanto à forma Enxertos puntiformes: de uso raro, devido aos resultados estéticos e funcionais indesejáveis, tanto na área receptora como na doadora. Consiste na retirada de pequenas áreas puntiformes de pele total e na colocação destas na receptora. Demanda tempo e paciência do especialista. Foram os primeiros enxertos a serem utilizados no revestimento de área cruenta. Enxertos em estampilhas ou selos: consiste em pequenos retalhos de pele em forma de selos, com espessura média e fina, que são colocados sobre a área receptora. Como desvantagem aponta-se a estética, devido à retração interinsular. É indicado nas receptoras com presença de secreções. Os enxertos em pequenas lâminas facilitam a drenagem e favorecem a reintegração. A outra indicação é em casos de deficiência de área doadora em grandes queimados. A utilização destes selos, constituindo ilhas de pele, permite o crescimento centrífugo da pele sobre a área cruenta, cobrindo maior área em menor tempo. No entanto, o aspecto estético deixa a desejar. Enxertos em lâmina: são tiras de pele medindo, em média, vinte centímetros. São colocadas uma justaposta à outra cobrindo áreas extensas, resultando num melhor aspecto estético e funcional, garantindo a cura em menor tempo. É indicado para revestimento de face, pescoço etc. Exige maior habilidade técnica do especialista para a retirada das lâminas. Enxerto em malha, reticulares ou Mesh Graft: são usados para revestir grandes queimados com déficit de área doadora. Estas lâminas de pele apresentam soluções de continuidade semelhantes à rede. Após a invenção do aparelho de Tanner e Vaderpret, foram utilizados para transformar lâminas de pele em rede, aumentando assim três vezes seu tamanho normal, permitindo o revestimento de maior área queimada. As outras vantagens são: melhor adaptação à área receptora; favorecer a drenagem de secreções através de suas malhas, ajudando na integração do enxerto; diminuir o tempo e o número de cirurgias a que o queimado estaria exposto. Como desvantagem cita-se o aspecto estético em locais visíveis e funcionais nas articulações. 53 ✓ Quanto ao destino: Os enxertos quanto ao destino podem ser classificados em definitivos ou provisórios. Os enxertos autógenos geralmente são definitivos: os homogêneose heterogêneos são provisórios e chamados de curativos biológicos por melhorarem as condições da área receptora e favorecem a reintegração do enxerto definitivo. Instrumentos utilizados na retirada de pele para enxerto Faca de Blair-Brown: o primeiro aparelho criado por Blair com a finalidade de retirar a pele para enxerto. Para a obtenção do enxerto na espessura desejada, bastava inclinar mais ou menos o ângulo da faca em relação à área doadora. Posteriormente, este instrumento sofreu várias modificações visando seu aperfeiçoamento. Hoje é possível a graduação da espessura do enxerto a ser obtido graduando os parafusos reguladores. É um instrumento de fácil manejo que permite bons resultados nas mãos do especialista. Dermátomo manual ou Dermátomo de tambor ou Dermátomo de Padgett Dermátomo cilíndrico criado por Padgett em 1939. Outros cientistas aperfeiçoaram o invento dando maior precisão na graduação do mesmo. É mais versátil que a faca de Blair. Em mãos hábeis é capaz de retirar até pele das regiões intercostais e regiões curvas. Dermátomo elétrico: Existem vários tipos de dermátomo elétrico a partir do modelo de Brown, que levou o nome do inventor. Este instrumental permite bons resultados mesmo nas mãos de especialistas pouco experientes. Possibilitam a obtenção de lâminas da extensão da espessura do enxerto desejado e diminuem o tempo operatório nos queimados. Hoje há modelos que permitem a retirada de enxertos até da mucosa, como o dermátomo elétrico de Castroviejo. Além dos instrumentos de retirada de pele para enxerto, existe o aparelho de Tanner- Vanderput, criado pelos autores que lhe deram o nome em 1963. É utilizado no preparo da pele para enxertia. A função deste instrumental é expandir a pele, transformando-a em uma malha que aumenta três vezes mais o seu tamanho. 54 Conservação da pele para enxerto (banco de pele) A pele homogênea, autógena ou heterogênea pode ser retirada e estocada, para uso posterior, dentro de um período de tempo determinado pelas condições da conservação. O prolongamento da vitalidade de uma célula ou tecido pode ser obtido de dois modos: I- Garantindo-lhes um meio nutriente e proporcionando um modo de diluir e neutralizar os produtos tóxicos de seu catabolismo; II- reduzindo o seu metabolismo. A maneira de alcançar estes objetivos é através do acondicionamento no frio. Para tanto, faz-se necessário uma geladeira doméstica graduada na temperatura de 4.ºC. O frio reduz o metabolismo celular, diminuindo o consumo de oxigênio e nutrientes e, consequentemente, os resíduos tóxicos catabólicos. Em geladeiras comuns, a 4o.C, a pele abrange até 21 dias. Porém, sua vitalidade é maior até 7 dias após a retirada da doadora. O acondicionamento da pele para conservação em geladeira obedece à técnica adotada em cada serviço. O procedimento consiste em esticar a pele mantendo a face epidérmica sobre o morim, levemente vaselinada, cobrindo a face dérmica com gaze embebida em soro fisiológico, associado a uma solução de penicilina cristalina, dobrando ou envolvendo em seguida a pele delicadamente sobre si mesma e guardando-a em recipientes estéreis, que deverão ser rotulados com os dados do doador e a data da retirada da pele. A estocagem com antibiótico visa à prevenção de infecção. A imersão de toda a pele na solução de soro fisiológico não é aconselhável, devido à maceração. Outros processos de conservação de pele poderão ser utilizados, como o de refrigeração em meio nutriente, que tem por objetivo aumentar o tempo de conservação da mesma. A solução salino-balanceada contém percentagem de nutrientes semelhante ao do plasma, encarecendo o processo de conservação. 55 O congelamento é uma outra tentativa de conservação de pele por tempo indefinido. A desvantagem é a utilização de uma substância de ação protetora contra a formação de cristais que lesam as células por ação mecânica e desequilíbrio iônico. A liofilização da pele é um outro método também complexo para a estocagem da pele. A pele sob este tratamento mantém as características físicas, mas não as biológicas, servindo apenas como um curativo, sem vitalidade. Existem pesquisas em andamento do assunto, que poderão superar os tradicionais métodos de conservação da pele. 15. ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM AO PACIENTE PORTADOR DE ENXERTO DE PELE A assistência de enfermagem ao paciente portador de enxerto de pele deve ser abrangente e específica a cada paciente. Nos tipos de enxertos homogêneos ou autógenos, a conduta adotada pelo médico na enxertia varia em cada caso de profissional para profissional, podendo ser oclusivos com ou sem suturas, expostos, colocados na sala de cirurgia, ou no leito, após posicionamento adequado do paciente. Não se deve esquecer o preparo do leito para receber o paciente, observando a colocação de campos estéreis, arcos de proteção para lençóis e cobertores e coxins para posicionamento e/ou curativos de decúbito, se indicado. No pós-enxertia imediato, há diversas variáveis que interferem no planejamento da assistência, como o tipo de anestesia adotado (geral, raqui, local), personalidade e idade do paciente, assim como patologias preexistentes (epilepsia, delirium-tremens, deficiência mental etc). Em geral, nos serviços de tratamento do queimado, a sala de operação fica na própria clínica e os pacientes vão direto da sala de operação para o quarto ou enfermaria de origem, não passando pela sala de recuperação pós-anestésica, necessitando vigilância constante até a total recuperação do nível de consciência. 56 A observação, entre outros cuidados, deve estar voltada para a área doadora (sangramento), podendo estar exposta ou ocluída, e para a receptora, evitando atrito no leito ou com o próprio corpo, caso em que pode deslocar e contaminar o enxerto. Os demais cuidados no pós-operatório imediato são semelhantes aos de qualquer cirurgia. Não havendo contraindicação, o paciente deve ser alimentado com dieta leve, logo após recupere a consciência, considerando a necessidade de superalimentação devido aos inúmeros procedimentos a que será submetido. Os pacientes com enxerto de face devem evitar a mastigação para não deslocar o enxerto. A alimentação, de preferência, deve ser semilíquida e pastosa, administrada por canudinhos e colher. A limpeza bucal e peribucal devem ser feitas após cada refeição para prevenção de infecção. A assistência no pós-operatório mediato visa o atendimento das necessidades básicas. O queimado é um paciente totalmente dependente da enfermagem. O planejamento da assistência deve estar voltado para o posicionamento no leito, que exige técnicas apropriadas, principalmente nos casos de enxerto da face anterior do pescoço, axilas e períneo. A mudança de decúbito exige muita criatividade, principalmente para os portadores de enxertos extensos. Nos enxertos expostos, os cuidados locais já se iniciam no pós-imediato, como a secagem do plasma, que drena para a pele íntegra, a perfuração com agulhas ou tesouras das vesículas de plasma e sangue sob as lâminas de enxerto e a pressão delicada do enxerto contra a receptora, nos locais em que o contato está falho, permitindo uma justaposição total do enxerto no leito receptor. Posteriormente, se houver formação de secreção purulenta, esta deve ser drenada sempre que necessário com o auxílio de pinças, gazes, tesouras e feito limpeza com soro fisiológico. Nos curativos oclusivos, em geral, a troca dá-se no 4o dia pós-enxerto. Alguns sinais e sintomas observados podem antecipar a troca, entre eles: hipertermia, odor fétido, umidade, manchas externas, edemas, garroteamento etc. A troca do curativo exige pessoal de enfermagem especializado. Só assim será evitada uma série de agressões na incisão, como o deslocamento do enxerto. Na troca do curativosimples, a última camada (rayon ou morim) normalmente está aderida. Não deverá ser removida. No caso de aderência parcial, a secreção poderá ser removida usando-se gazes cirúrgicas 57 secas (em forma de mata-borrão) e embebidas em soro fisiológico para limpeza mais profunda. A conduta é direcionada a cada caso. A troca de curativos tipo “curativo de Brown”, indicado para posicionar o enxerto suturado usado em local móvel, favorece a completa justaposição à receptora e exige ainda mais habilidade do profissional de enfermagem. As trocas subsequentes dos curativos de enxerto poderão ser em dias alternados, ou de acordo com as condições de cada caso. Os curativos de áreas doadoras expostas consistem na secagem de secreção sero-sanguinolenta que drena através das malhas do rayon ou morim; estas gazes deverão ser mantidas até a epitelização da área, o que, em geral, acontece em torno de 10o.dia. O vaselinamento das gazes duas vezes ao dia facilita o deslocamento sem trauma da área. Em áreas doadoras oclusivas, a troca do curativo pode se dar na mesma época da receptora. Porém, a última camada do curativo nunca deve ser removida antes da epitelização total, quando também deverá ser untada com vaselina estéril. 16. INFECÇÃO NO GRANDE QUEIMADO A infecção é um grande e difícil problema que a equipe de saúde enfrenta em relação ao paciente grande queimado. Com o avanço e progresso da tecnologia a mortalidade vem diminuindo dia a dia, graças ao aperfeiçoamento dos métodos de tratamento, técnicas assépticas e melhor preparo das equipes que tratam desses pacientes. Apesar de todo avanço tecnológico ainda é grande o número de complicações infecciosas, como broncopneumonia, infecção urinária, infecção por cicatrização venosa, supurações de queimaduras e septicemias. Todos os pacientes que sofrem queimaduras, com comprometimento de mais de 20% da superfície corporal, colonizam um ou mais microrganismos. Quando o número de microrganismos na lesão apresenta-se igual ou superior a 10 5 por 58 grama de tecido, o que é superior à capacidade de defesa anti-infecciosa local, a colonização se transforma em infecção. Apesar de todos os esforços empregados na assepsia, antissepsia e antibioticoterapia, 35% dos pacientes adquirem infecção na primeira semana, 20% na segunda semana e 7% dos pacientes na terceira e quarta semana, sendo que as infecções das lesões dependem da extensão e profundidade das queimaduras. Alterações locais: a injúria térmica de que o paciente queimado é acometido elimina as barreiras que impedem a invasão de microrganismos nos tecidos epiteliais, reduzindo a circulação devido à necrose da derme e epiderme, causando destruição e trombose da vascularização, favorecendo a multiplicação dos agentes que colonizam a lesão. Alterações da resposta antiinfecciosa: o estresse causado pela queimadura, além das alterações metabólicas, leva o grande queimado a sofrer depressão de seus mecanismos de defesas antiinfecciosas. Esta depressão se deve fundamentalmente à queda das concentrações séricas das imunoglobulinas, principalmente das Ig G. Considera-se esta queda de concentração um indício de mau prognóstico. ETIOLOGIA Os patógenos infectantes e colonizadores das queimaduras são, na maioria, os que habitam a pele, trato respiratório alto e intestino do paciente. Os Streptococcus respondem por um número não desprezível de infecções, sendo mais comuns às provocadas pelo tipo D (Streptococcus faecalis, Streptococcus facium e Streptococcus durans, o que não coincide com os nossos achados. A maioria das infecções é de origem endógena. Trabalhos mostram que as infecções por fungos vêm aumentando, destacando-se as causadas por Cândida Albicans. É provável que as infecções fungicidas venham crescendo como conseqüência da aplicação de antimicrobianos inativos para fungos, da cateterização prolongada para monitorização da pressão venosa central e nutrição parenteral ou, ainda, do diabetes complicado com acidose. 59 Profilaxia: a profilaxia das infecções nas queimaduras deve iniciar-se a partir do primeiro atendimento com uso de técnica asséptica e cuidados locais, que compreendem: debridamento; excisão de tecidos desvitalizados; curativos e enxertia. A correção dos distúrbios respiratórios e circulatórios, que deve ser cuidado prioritário no atendimento ao queimado, juntamente com a imunização e suporte nutricional, são fundamentais na prevenção da infecção. É importante conhecer a epidemiologia das infecções no grande queimado para evitar que medidas inadequadas sejam tomadas, aumentando o problema e onerando o serviço. Esforços devem ser empregados no sentido de reduzir a contaminação microbiana que, pode se efetuar através de: 1- Conhecimento de reservatórios infecciosos e sua transmissão; 2- Critério no controle e na aplicação tópica de antimicrobianos; 3- Higiene e antissepsia das mãos; 4- Rigorosa técnica asséptica no atendimento ao paciente; 5- Seleção e controle da contaminação de antissépticos; 6- Limpeza e desinfecção de artigos críticos, semicríticos e não críticos; 7- Limpeza e desinfecção do ambiente. Reservatório antiinfeccioso: considerando que a queimadura é colonizada e infectada normalmente por bactérias que habitam a pele, o trato respiratório superior, intestino ou a partir da flora exógena e do meio ambiente, é importante conhecer o reservatório destes agentes infecciosos, como também sua transmissão. Entre estes reservatórios destacam-se: Agente infeccioso Staphylococcus aureus: é normalmente encontrado na nasofaringe, intestino, pele, queimadura, tanque de hidroterapia e artigos hospitalares; 60 Pseudomas e Enterobacteriaceae: têm sido encontrados no intestino, queimadura, alimentos vegetais crus, água potável, tanques de hidroterapia, antissépticos, soluções aquosas e nebulizadores. Cândida Albicans e outros fungos: têm sido isolados no intestino e nas queimaduras. Limpeza E Desinfecção Do Ambiente As normas e rotinas de limpeza e desinfecção devem ser feitas norteadas pelo risco de transmissão de infecção que cada superfícies que oferecem maior risco de transmissão de infecção destacam-se o mobiliário e equipamentos que entram em contato com o paciente. Os pisos, peitoris de janelas, portas e maçanetas acumulam resíduos contaminados da atividade humana. Estas partículas são dispersas pela movimentação de corrente de ar e agitação do ambiente. Mesmo quando voltam a sedimentar, poucas bactérias sobrevivem. Mas perdem a virulência e pouco risco oferecem. A limpeza e desinfecção deve ser feita com água, sabão e solução desinfetante de fenóis sintéticos a 3%, ou hipoclorito de sódio a 1%. A periodicidade deve ser regida pelo risco de transmissão de infecção que cada área oferece. Diagnóstico, tratamento e conduta frente a casos de infecção. O diagnóstico das infecções em pacientes queimados deve basear-se nos achados bacteriológicos (culturas e hemoculturas) e nas manifestações clínicas. A capacidade de invasão na corrente circulatória varia de acordo com o agente infectante, extensão da queimadura e resistência do indivíduo à infecção. As manifestações clínicas variam de acordo com o paciente e o tipo de infecção. Nas infecções não invasivas o paciente apresenta picos febris e leucocitose com desvio para a esquerda o que variam de intensidade de acordo com cada caso, podendo ocorrer ainda leucopenia, hipotermia e quadro de toxemia (com 61 hemocultura negativa), nos casos graves, quando o agente causal é Pseudomas aeroginosa. Hemocultura A Hemocultura é indicada em diversas situações clínicas, tais como: ✓ Estado febril súbito, acompanhado ou não de calafrios, mesmo na ausência de sinais de infecção; ✓ Estado febril, associado à lesão cutânea inflamada ousupurada; ✓ Suspeita de endocardite, mesmo que o paciente não apresente sinais e sintomas agudos; ✓ Infecções urinárias graves, pneumonia, abscessos peritoneais, viscerais e pélvicos, septicemias e bacteremias. De preferência, a hemocultura deve ser colhida antes do início da antibioticoterapia. No entanto, o fato do paciente estar em uso de antibiótico não anula a sua indicação. É contra- indicada sua coleta durante o pico febril, porque este resulta da ação sobre o centro termo-regulador do pirogênio endógeno liberado por estimulação da lise microbiana que ocorreu anteriormente, sendo muito pequeno o número de microrganismos vivos na circulação. Por esta razão recomenda-se a coleta de três hemoculturas (45 ml de sangue semeado a 9 frascos) colhidos com uma a duas horas de intervalo, pela impossibilidade de se determinar o momento adequado para coleta. Cultura de secreção da queimadura: Após a primeira, terceira e quinta semana da queimadura, a população microbiana da ferida tende a variar, quando em uso de antimicrobianos. Por isso as culturas de amostras da lesão devem ser feitas semanalmente para identificar microrganismos presentes e evitar superinfecções. É necessário que sejam observados alguns critérios na coleta da amostra, o que vai determinar a eficácia dos resultados. 62 Técnica: remover a secreção superficial com gaze estéril e rolar sobre a superfície da lesão um swab umedecido em soro fisiológico estéril, durante quatro ou cinco vezes, e colocá-lo em um tubo com 10 ml de soro fisiológico, caldo glicosado ou tioglucolato. Identificar a amostra com os seguintes dados: nome, registro hospitalar, quarto, leito, número de dias após a queimadura, local de onde foi colhida a amostra, se está em uso de antimicrobiano local e data do início da aplicação. Tratamento: a antibioticoterapia deve ser precedida de antibiograma, observando-se bem a flora bacteriana local e o grau de toxidade do antibiótico. Quando da vigência de septicemia sem conhecimento do agente causal, deve basear-se na frequência das bactérias infectantes no grande queimado, no caso, Pseudomas aeruginosas e Staphilococcus aureus. Septicemia: a septicemia tem se mostrado uma das mais temíveis complicações para o grande queimado. Representa, se não a principal, uma das destacáveis causas de morte entre esses pacientes, quando não diagnosticada precocemente e tratada adequadamente. Patogenia da septicemia: os parasitas penetram no corpo do queimado através da pele, principalmente. Uma vez estabelecidos no hospedeiro, os microrganismos podem multiplicar-se, ocasionando uma infecção local ou primária. Em seguida, vem a disseminação sistêmica. Os microrganismos existentes no sangue circulante, através da invasão direta de vasos (fato relativamente raro) ou pelo método comum de serem transportados pela linfa, alcançam o canal torácico e penetram no sistema nervoso. Na corrente sanguínea, propagam-se por outros órgãos e tecidos, podendo produzir lesões distantes ou secundárias, levando ao que se chama de septicemia, acompanhada de um intenso quadro toxêmico. Nas infecções produzidas pelo tétano, as lesões distantes são produzidas por toxinas elaboradas na lesão primária, sem disseminação sistêmica dos parasitas. 63 17. ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM NA PREVENÇÃO E CONTROLE DA ÚLCERA DE ESTRESSE NO PACIENTE QUEIMADO Úlcera de Curling ou de Estresse foi o nome dado às úlceras encontradas em relação a grandes traumas, como as queimaduras. São aquelas surgidas durante um período de grande ansiedade. Recebeu o nome de Úlcera de Curling por ter sido ele quem apresentou o primeiro relato científico associando o estresse com a úlcera gastroduodenal (erosiva ou ulcerativa). O aparecimento da Úlcera de Curling em paciente queimado tem se mostrado relacionado com a extensão da queimadura, surgindo em pacientes com área corporal queimada a partir de 20%. Na maioria dos casos, as manifestações têm surgido a partir do 3.º dia pós- queimadura. Estudos retrospectivos realizados em 54 pacientes queimados avaliados por gastroduodenoscopia precoce e seriada por fibras ópticas, relataram achados de lesões gástricas agudas em 83% dos pacientes, 5 horas após a queimadura. Etiologia Entre as complicações do aparelho digestivo, as hemorragias e perfurações de lesões ulcerativas têm sido as mais temidas por todos que tratam de pacientes queimados. Apesar de muito estudada e discutida, a etiologia da Úlcera de Curling ainda permanece desconhecida. Entretanto, alguns fatores têm sido estudados e considerados de importância. Entre eles: 1. Alterações da substância da mucosa gástrica: a mucosa gástrica é protegida pelo muco que impede a ação direta do ácido clorídrico da ação das enzimas e toxinas bacterianas. É renovado constantemente pelo controle neurovegetativo e aumenta sob estimulação mecânica. 2. Alterações da vascularização da mucosa do tubo digestivo: após a queimadura, dois mecanismos conduziriam a alterações da vascularização da mucosa do tubo digestivo: 64 a) A estimulação ortossimpática, por ação nervosa direta e humoral, conduz a vasoconstrição e ao aumento da atividade dos shunts arteriovenosos na mucosa de todo tubo digestivo, variando de acordo com a intensidade e gravidade da queimadura. Como conseqüência da diminuição do fluxo arterial para a mucosa, há uma diminuição da capacidade de vitalização celular e produção de sucos digestivos e mucos, agravados pelo desequilíbrio energético; b) O segundo mecanismo ocorre porque, paralelamente, o sistema nervoso, através do córtex cerebral, atua sobre o hipotálamo que, agindo sobre os núcleos vagais, desencadeia uma resposta parassimpatomimética. O hipotálamo provoca estimulação hipofisária, determinando aumento do ACTH, hormônio antidiurético e, indiretamente, de corticosteróides. Surgem, como consequência áreas de congestão da mucosa gastrintestinal que se alteram com áreas de isquemia, consequente a ação ortossimpática. 3. Aumento da difusão retrógrada de íons no estômago pela presença de ácido clorídrico: o excesso de íons da mucosa gastroduodenal provoca liberação de substâncias vaso-ativas, com histamina e serotina, além da heparina, que causam edema e aumento da permeabilidade capilar que, através de estímulos, libera pepsina das glândulas gástricas. Estes fatores são responsáveis pelo aparecimento de lesões gástricas ulceradas. Manifestações clínicas As manifestações clínicas têm se expressado normalmente pela hemorragia, leve ou maciça, com hematemese e melena. Não raramente, observam-se pequenas perdas sanguíneas que, se não observadas e tratadas, podem vir a comprometer o estado geral do paciente, quando permanecerem por muito tempo. Tratamento e condutas frente a casos de úlcera de Curling O tratamento das ulcerações, agudas ou não, do tubo digestivo deve basear-se na profilaxia e controle da hemorragia gastrintestinal alta e grave, além da 65 correção de outros desvios normais em pacientes queimados, com alterações eletrolíticas e da correção hidrogeniona. A profilaxia visando neutralizar a ação do suco gástrico deve ser feita através da administração de antiácidos. Na presença de hemorragia, o tratamento inclui lavagem gástrica com solução salina gelada, transfusões sanguíneas e medidas gerais de suporte, que têm surtido bons resultados em alguns casos menos graves. A indicação de cirurgia em casos de hemorragias maciças ou incontroláveis, que não respondem à transfusão sanguínea, é discutível, devido à extrema gravidade do paciente e à dificuldade de se estabelecer à sede precisa do sangramento. O elevado índice de mortalidade tem feito com que determinados serviços mantenham tratamento clínico conservador, na maioria dos casos. Os cuidados de enfermagema pacientes com Úlcera de Estresse são os mesmos dispensados a pacientes com extensas queimaduras. 18. POSICIONAMENTO NO LEITO E PREVENÇÃO DE DEFORMIDADES O tratamento de pacientes queimados não tem tido o mesmo progresso tecnológico que outras especialidades. Poucas são as pessoas que se dedicam à pesquisa sobre o assunto, principalmente no que se refere à prevenção de deformidades. Na maioria dos casos, as equipes procuram investir todos os recursos visando salvar apenas a vida do paciente, não se preocupando o suficiente com a prevenção de deformidades e sequelas que são variadas e abundantes. São elas que irão determinar a qualidade de vida destes pacientes. Em muitos casos, o tratamento das deformidades se torna mais doloroso e traumatizante do que a própria cura da área queimada. Apesar de contarmos com elevado número de serviços especializados em cirurgia plástica, a população não se beneficia destes por serem onerosos, passando a utilizar apenas os serviços de tratamento de urgência ao queimado que estão ao seu alcance. 66 As queimaduras de 2.º grau profundo e de 3.º grau, geralmente são acompanhadas de sequelas que vão desde uma simples hipocromia ou hipercromia de pele, até sérias contraturas que interferem diretamente no aspecto estético e funcional. As áreas preferidas das contraturas são aquelas que apresentam tecido fino e móvel, como face anterior das mãos, pescoço, região facial etc. A formação de cicatrizes hipertróficas e contraturas é caracterizada pelo importante aumento da vascularização, fibroblastos, miofibroblastos, deposição de colágeno, material intersticial e edema. O número aumentado de miofibroblastos, com suas propriedades contráteis, associado ao mau posicionamento, pode exercer suficiente força para causar grave distorção das estruturas faciais e contraturas articulares. É importante lembrar que duas faces da área queimada, como axila e braço, braço e tórax e espaços interdigitais não podem permanecer justapostas, para evitar aderência cicatricial, devendo-se portanto, manter o paciente em posicionamento de abdução, o que deve ser observado também nos pacientes com queimaduras de períneo e membros inferiores. A prevenção das deformidades está relacionada com a prática precoce e persistente do posicionamento adequado em cada segmento corporal, sendo imprescindível à colaboração de toda a equipe e principalmente do paciente. Nas queimaduras de 3.º grau do pescoço, com parte anterior e posterior do tórax, a posição indicada é a de hiperextensão do pescoço, mediante uso de coxim sob os ombros e ausência do travesseiro. É uma posição muito desconfortável, questionada por quase todos os pacientes, que insistem em retirar o coxim transformando-o em travesseiro. O travesseiro também é contraindicado nos pacientes com queimadura do pavilhão auditivo visando prevenção de condrite. As contraturas axilares devem ser combatidas, embora seja difícil preveni-las. Para tanto, a posição adequada é a de abdução dos braços a 90o, e do ombro a 10o, para evitar deslocamento anterior. As queimaduras do quadril e joelho poderão ser amenizadas com a abdução de mais de 20o da linha mediana. A dor leva o paciente a manter os membros em posição de conforto, que é a posição de contração. É indicado o uso de talas gessadas na região das articulações, mantendo-se os 67 membros em extensão. Em alguns casos, a tala é usada só no período noturno, proporcionando ao paciente condições de movimentação e exercício de seus membros durante o dia. A movimentação das articulações deve ser mantida com o curativo oclusivo e durante a troca dos mesmos. Salienta-se, neste aspecto, a vantagem da balneoterapia, pelos benefícios físicos e mecânicos exercidos pela água sobre os tecidos. A prevenção de deformidades dos tornozelos e pés em posição anatômica com o uso de apoio plantar, evitando-se o encurtamento do tendão de Aquiles e toda a problemática para a correção posterior. Nos portadores de queimaduras no tórax posterior que se mantém em decúbito ventral, o posicionamento adequado dos pés pode ser facilitado com o encurtamento do colchão nos pés, deixando espaço para melhor acomodação do ângulo plantar. A mudança do decúbito na prevenção de escaras é imprescindível e às vezes complexa, quando se trata de um grande queimado, pelas poucas opções de áreas não lesadas. Outros recursos na prevenção destas complicações são os leitos de Clinitron, colchões d’água, de ar, de alpiste e outros. A utilização de outros materiais, como malhas usadas na fabricação de máscaras e curativos compressivos, é de grande valia na prevenção de cicatrizes hipertróficas. Este material é fabricado pela indústria nacional e apresenta uma desvantagem em relação ao material importado, em virtude de exercer pressão apenas em sentido lateral. O material importado exerce pressão em todas as direções da área onde é utilizado. 19. ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM NAS COMPLICAÇÕES DAS QUEIMADURAS A sistematização na abordagem do paciente queimado deve ser elaborada dando ênfase a todas as etapas do atendimento, a começar pela recepção do paciente no serviço de emergência, estruturando os recursos necessários para a sua realização, tanto de recursos técnicos como humanos e materiais. Esforços 68 voltados para esse fim podem facilitar a definição da etiologia e aumentar a eficácia do tratamento (SILVA et al., 2011). Ao avaliar a vítima de queimaduras procura-se identificar a causa que determinou a lesão, descrever a condição geral, a extensão da área de superfície envolvida e a profundidade da queimadura. É importante certificar-se quanto ao local da ocorrência, se em área aberta ou fechada no momento do acidente, pois auxiliam a definir se existe comprometimento endotraqueal ou pulmonar real ou potencial, tal detalhamento objetiva identificar rapidamente a gravidade do caso, para planejar cuidados que possibilitem prevenir complicações e obter sucesso no tratamento (FREITAS; MENDES, 2006). O paciente vítima de queimadura deverá receber tratamento imediato e o sucesso desse atendimento dependerá da abordagem da equipe. A princípio deve- se avaliar as vias aéreas; instalar acessos venosos periféricos seguros para iniciar reposição volêmica, enquanto é avaliada a superfície corporal queimada. Insuficiência Renal Aguda (IRA) A insuficiência renal aguda tem sido uma complicação frequente nos pacientes grandes queimados. Associada às infecções e outras complicações, tem representado um número de destaque nas causas de morte desses pacientes. Qualquer distúrbio orgânico que cause redução do fluxo sanguíneo renal, como hipovolemia, choque, fatores nefrotóxicos e infecção, leva a complicações como necrose tubular aguda, glomerulofrenite e necrose cortical, responsáveis pela insuficiência renal aguda. Manifestações clínicas: as manifestações clínicas nesses pacientes variam de acordo com as alterações que ocorrem no metabolismo proteico mineral e com as variações da osmolaridade e concentração hidrogeniônica. Algumas manifestações de maior destaque e que devem ser observadas com maior atenção: Neuropsíquicas: (em doentes não dialisados), letargia, confusão mental, agitação, ansiedade, espasmo muscular e convulsão, que são normalmente associadas à intoxicação hídrica. 69 Digestivas: anorexia, náuseas, vômitos, diarreia, prostação e hemorragia, decorrentes de ulceração de tubo digestivo, especialmente estômago e intestino. Desconforto respiratório: é um sinal precoce de possível edema pulmonar e septicemia, anunciando sobrecarga de líquido, principalmente em pacientes idosos e crianças. Cardiovasculares: ICC (Insuficiência Cardíaca Congestiva), devido à sobrecarga hidroeletrolítica e mesmo à hipertensão, presentes após a hipervolemia e as arritmias secundáriasaos distúrbios hidroeletrolíticos. Oligúria: esta manifestação indica necrose tubular aguda (volume urinário inferior a 20 ml/h e 400/600 ml nas 24 horas. Esta fase é acompanhada de elevação sérica de elementos normalmente excretados pelos rins (uréia, creatinina, ácido úrico, ácidos orgânicos, potássio e magnésio). Em alguns pacientes pode haver uma diminuição da função renal (necrose tubular), com retenção nitrogenada crescente, embora o paciente esteja excretando 2 a 3 litros de urina diariamente. Anúria: observada em grandes queimados que receberam hidratação inadequada na fase aguda. Indica necrose cortical, vasculite e glomerulonefrite. Densidade urinária baixa: de 1.010 em relação a 1.030, o que normalmente indica hemoconcentração progressiva. Nesta fase, deve ser instalado tratamento adequado para impedir o catabolismo excessivo, garantindo a sobrevivência do paciente. Esta preocupação deve ser aumentada quando se tratar de paciente idoso (acima de 60 anos), crianças menores de 10 anos, e quando apresentarem outras patologias. Condutas e assistência de enfermagem frente a caso de Insuficiência Renal Aguda (IRA) Da ação pronta e eficiente da equipe depende a profilaxia, controle e tratamento da IRA. O balanço hidroeletrolítico deve ser criteriosamente observado, juntamente com a perda ponderal. A quantidade e velocidade de líquidos infundidos devem ser compatíveis com a pressão venosa central e volume urinário, sendo a diurese a medida mais importante quando avaliada isoladamente. 70 O fluxo urinário deve ser mantido entre 30 e 60 ml por hora, devendo ser motorizado (medido e anotado de hora em hora) É importante que o enfermeiro saiba a quantidade de líquido que cada paciente se permite, através de avaliação contínua, combinados com o estado clínico do paciente e com a prescrição médica. A perda ponderal dos pacientes que evoluem sem complicações é estimada entre 200 e 500 g por dia, podendo atingir até 1000 g em casos graves. Constitui um sinal alerta a manutenção do peso acompanhado de hipertensão, edema, veias túrgidas no pescoço, ausculta com estertores úmidos, dispneia e taquicardia. Consequentemente, levarão ao edema pulmonar, se medidas coerentes não forem tomadas em tempo hábil. As perdas de sódio devem ser observadas e repostas na evidência de grandes perdas gastrintestinais (vômitos, diarreia e aspirações). A monitorização dos batimentos cardíacos deve receber atenção. Pulso acima de 110 bpm sugere esforço cardíaco em compensar a queda do volume sanguíneo. A dieta deve ser cuidadosamente observada, limitando-se as proteínas, no intuito de diminuir a degradação proteica e impedir o acúmulo de produtos tóxicos finais. Devem ser reduzidos os alimentos que contenham potássio e fósforo, como a banana, frutas cítricas, suco e café. As necessidades calóricas devem ser satisfeitas através de alimentos ricos em carboidratos, uma vez que estes têm o poder de poupar proteínas. Na impossibilidade do paciente receber dieta por via digestiva, é indicada a alimentação parenteral, com bons resultados, visando evitar a queda do estado nutricional. A hiperpotassemia é o problema mais grave e urgente da IRA. O catabolismo proteico produz liberação do potássio da célula para os líquidos orgânicos, resultando em graves intoxicações por potássio. As fontes de potássio são: destruição tecidual, ingestão dietética, sangue no trato intestinal, transfusões de sangue e outras fontes (penicilina potássica) e o desvio extracelular, em resposta à acidose metabólica. Existem várias maneiras de corrigir a hiperpotassemia, sendo a diálise peritonial e a hemodiálise as mais eficientes. Entretanto, tratando-se de pacientes 71 queimados sua indicação fica limitada, em virtude da presença de queimadura na região abdominal e da magnitude do catabolismo tecidual que ocorre em paciente com queimaduras extensas. 19.1 Paciente queimado que necessita de tratamento em UTI Os pacientes vítimas de queimadura apresentam variadas lesões e sequelas decorrente do evento; portanto, necessitam de uma assistência de enfermagem intensiva e qualificada, tornando um desafio para o enfermeiro que cuida, pois este precisa traçar planos de cuidados que atendam às inúmeras ameaças físicas que podem sobrevir, além dos aspectos social e psicológico (FREITAS; MENDES, 2006). Pacientes considerados grande queimados são aqueles que apresentam lesão com espessura parcial com mais de 25% de SCQ, lesão de espessura total com mais de 10% ou superior de SCQ, queimaduras afetando mãos, face, olhos, orelhas, pés e períneo, lesão por inalação, lesão elétrica ou queimaduras associadas com problemas concomitantes, como lesão de tecido mole, fraturas, outros traumatismos ou problemas de saúde preexistentes, esses pacientes devem ser tratados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) (KNOBEL, 2006). 19.2 Assistência qualificada do enfermeiro da UTI Ao iniciar a identificação de uma condição de saúde de um paciente, o enfermeiro deve iniciar um processo de julgamento, momento em que fatos e observações são coletados e analisados para determinar associações semelhantes que, por sua vez, são comparadas a conhecimentos prévios e experiências (DALRI; CARVALHO, 2002). A avaliação semiológica no tratamento de um cliente queimado no momento da admissão é de fundamental importância, pois cada classificação apresenta um 72 quadro clínico diferente, com diferentes tratamentos e esse reconhecimento implica modificações no prognóstico e além da etiologia do agravo, a quantidade tissular perdida, o período evolutivo, o estado metabólico, suas condições fisiológicas, o potencial de infecção e o enfoque psicológico vão interagir, causando impacto sobre o estado clínico, portanto devem ser analisados primariamente (SILVA et al., 2011). Para que seja realizada uma assistência de qualidade é necessária à utilização do processo de enfermagem, onde implica o desempenho da prática pelos profissionais de enfermagem de forma sistemática por meio de uma atividade deliberada, lógica e racional. Considera-se que o processo de enfermagem compreende cinco passos interrelacionados: coleta de dados, diagnóstico de enfermagem, planejamento, implementação e avaliação. E para que se evidencie a coerência entre o planejamento da assistência e sua execução, os registros devem ser elaborados de forma clara e objetiva, destacando-se a necessidade de documentação das atividades realizadas pelos membros da equipe (MENEGHETTI et al., 2005). O enfermeiro deve prescrever cuidados completos e bem redigidos, a fim de evitar que quem leia fique com dúvidas a respeito das atividades a executar, devem causar impacto na assistência prescrita e despertar o interesse da equipe de enfermagem por ler, realizar e refletir sobre o que é prescrito pelo enfermeiro, onde este é o responsável pela avaliação diária do estado e da evolução do cliente a fim de que se alcancem os resultados. A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) é o modelo metodológico ideal para o enfermeiro aplicar seus conhecimentos técnicocientíficos na prática assistencial, favorecendo o cuidado e a organização das condições necessárias para que ele seja realizado (MASSON; MORAES, 2010). Em se tratando do cuidado ao paciente queimado e diante do cuidado altamente especializado e complexo que o enfermeiro desenvolve em uma UTI, a sistematização e a organização do seu trabalho e, por conseguinte, do trabalho da equipe de enfermagem, mostram-se imprescindíveis para uma assistência de qualidade, com eficiência e eficácia. Devido a esses fatores, o enfermeiro deve conhecer a importância de suas atitudes frente ao paciente queimado, não ignorando nenhum fato apresentado por 73 ele, abordando-o como ser único, levando-o a uma adaptaçãomenos agressiva e fornecendo suporte adequado durante todo o tratamento, atuando junto a ele favorecendo sua reabilitação para uma vida social digna a que todo ser humano tem direito (TRUPPEL et al., 2009). Broncopneumonia A broncopneumonia tem sido uma das mais frequentes complicações do paciente grande queimado. Juntamente com a insuficiência renal e a septicemia, forma a tríade das complicações. Várias são as causas que levam o paciente grande queimado à infecção broncopulmonar. Entre elas, a aspiração de conteúdo gástrico e orofaríngeano, que normalmente ocorre durante o período de alteração de consciência que pode surgir em alguns casos, após queimadura, a diminuição da expansão pulmonar provocada por queimaduras torácicas e a incapacidade de mobilização no leito, que facilita a retenção de secreções. As infecções da área queimada, juntamente com procedimentos invasivos como traqueostomia, intubação endotraqueal, aspirações e aparelhos respiratórios, têm sido responsabilizadas também pelo aparecimento das broncopneumonias nestes pacientes. Condutas e assistência de enfermagem frente a caso de broncopneumonia O sucesso do tratamento da broncopneumonia depende fundamentalmente da antibioticoterapia consciente e segura após isolamento do organismo infectante, com avaliação da sensibilidade aos antimicrobianos, fisioterapia respiratória e tratamento da insuficiência respiratória, quando em vigência. ❖ Antibioticoterapia: A grande variedade de microrganismos e cepas resistentes aos antimicrobianos existentes no ambiente hospitalar, variando de hospital para hospital, torna necessário o uso de criterioso de antimicrobianos, com base no isolamento dos agentes infectantes e suas resistências. Normalmente, no país, a antimicrobioterapia tem sido iniciada sem observação deste importante critério devido às dificuldades na realização dos exames bacteriológicos, demorando muito a chegar até as mãos do clínico os resultados. 74 O tratamento, então, devem basear-se nos dados bacteriológicos, avaliação das cepas resistentes e nas manifestações clínicas, epidemiológicas e radiológicas. Apesar de não ser a melhor forma, não exclui a necessidade de exame para conhecer o agente etiológico. Deve ser utilizada na fase inicial e quando se tratar de casos graves. ❖ Fisioterapia Respiratória: Algumas complicações, como obstrução das vias aéreas superiores e colapso alveolar, podem ser evitadas através de medidas intensivas, como mudança de decúbito postural, vibração e percussão manual sobre a caixa torácica (tapotagem), exercícios respiratórios, ventilação com pressão positiva, aspiração endotraqueal (com rigorosa técnica asséptica) e observação dos pacientes que precisam receber suplementação de oxigênio, o que deve ser feito através de máscaras com aplicação de oxigênio úmido na concentração de 4 a 8 litros/minuto, o suficiente para obtenção da concentração de 30 a 40% de oxigênio. A enfermagem deve estar atenta às causas inerentes à queimadura que conduzem o paciente à insuficiência respiratória, quais sejam: ✓ Inalação de gases tóxicos e fuligem; ✓ Queimaduras da face e pescoço que podem levar a uma obstrução das vias aéreas superiores, por edema; ✓ Queimaduras extensas de tórax e abdomes alto, diminuindo a expansão pulmonar. Deve ser observado o desconforto respiratório, que tem sido sinal de alerta quando apresentado horas após a queimadura. Neste grupo estão incluídos aqueles pacientes que inalaram gases tóxicos e fuligem, ou tiveram ação direta do calor sobre as vias aéreas superiores e tórax. Pela rapidez e gravidade com que se desenvolvem as manifestações, a atuação da equipe deve ser pronta e eficiente através de: 1. Observação rigorosa do aparecimento de desconforto respiratório; 2. Controle de frequência respiratória; 3. Encorajamento do paciente para inspirar profundamente e tossir; 75 4. Observar a expansibilidade torácica e qualquer sinal de diminuição para avaliação da necessidade de escarotomia, quando se tratar de queimadura circunferencial de tórax; 5. Observar presença de obstrução de vias aéreas superiores ou necessidade de ventilação artificial por medida de intubação; 6. Observar a presença de broncoespasmo para que medidas adequadas sejam tomadas; 7. Avaliação dos índices gasométricos, endoscópicos e radiológicos, o que varia de acordo com cada caso. A ventilação artificial deve ser instalada após a avaliação criteriosa de sua indicação. A utilização adequada desta medida visa reduzir o trabalho respiratório, diminuindo o consumo de oxigênio e a demanda de maior débito cardíaco O enfermeiro deve colaborar na escolha do respirador, que sempre deve atender aos critérios seguintes: ✓ Possuir sistema de alarme auditivo e visual para aumento ou diminuição bruscas de pressão intrapulmonar; nos aparelhos elétricos, alarme para interrupção de corrente elétrica; ✓ Fornecer opções para variação da fração de oxigênio inspirado (FIO2); ✓ Oferecer opções para variação de pressão (suspiro); ✓ Fácil de limpar e esterilizar; ✓ Silencioso durante o uso. ✓ Observar presença de ansiedade e se está sendo oferecida ao paciente situação de conforto respiratório e segurança após a instalação do ventilador. ✓ Verificar o funcionamento e regulagem dos respiradores antes de serem conectadas às vias respiratórias do paciente. ✓ Observar sinais vitais, circulação capilar, coloração das extremidades. 76 Após 15 a 20 minutos da instalação do respirador, colher gasometria. A FIO2 deve ser reduzida progressivamente, visando obter uma PAO2 (pressão parcial de oxigênio no sangue arterial) entre 70 a 90 mmHg. Para maiores dados a respeito de aparelho, o leitor deve procurar a referência. Observar os pacientes que estão com respirador por mais de 72 horas; iniciar, se indicado, o desmame, intercalando-se períodos de respiração espontânea, com períodos de ventilação mecânica a cada hora, e aumentar progressivamente de acordo coma capacidade respiratória do paciente, associado à manutenção dos níveis gasométricos aceitáveis. Neste período deve- se observar: ✓ Nível de consciência; ✓ Grau de desconforto; ✓ Pressão arterial; ✓ Freqüência cardíaca; ✓ Freqüência respiratória; ✓ Gasometria arterial. Ao aparecimento de agitação, desconforto, sudorese, hipertensão, arritmia cardíaca e alterações do nível de consciência, deve-se religar imediatamente o respirador. 20. DIAGNÓSTICOS DE ENFERMAGEM À PACIENTES QUEIMADOS CASTILHOS et al. (2010) destaca que o enfermeiro que acompanha o paciente desde a sua chegada ao hospital até a sua alta ou dando continuidade do atendimento em domicílio. O mesmo deve atentar para uma assistência de qualidade, para tanto, seguir as etapas do processo de enfermagem é de fundamental importância. 77 A prática da enfermagem profissional requer a habilidade de observação, comunicação, reflexão, aplicação do conhecimento das ciências físicas e do comportamento, além de fazer apreciações e tomar decisões. "[...] quando aplica o método científico ou o método de resolução de problemas para planejar a assistência de enfermagem, isso se chama processo de enfermagem" (ATKINSON; MURRAY, 2008). A equipe de enfermagem, principalmente o enfermeiro, deve possuir um pensamento crítico que promova a decisão clínica e ajude a identificar as necessidades do paciente e quais as melhores medidas a serem tomadas para atendê-las. Aplica, assim, uma das etapas do processo de enfermagem, que se divide em, conforme Brunner & Suddarth, "histórico, diagnósticos de enfermagem, planejamento, implementação e evolução". Ainda, segundo os autores, histórico é a coleta de dados que serve para definir o estado de saúde do paciente e identificar problemas de saúde reais ou potenciais, e sao obtidos por meio dahistória de saúde e do exame físico (CASTILHOS et al. 2010). Os autores supracitados ainda destacam que: Em relação ao paciente considerado grande queimado, coletam-se dados sobre sua história, faz-se o exame físico e ainda recolhe-se informações sobre como ocorreu a queimadura, depois os dados são analisados. A segunda etapa do processo é o diagnóstico de enfermagem que será detalhado mais a frente. Na sequência, é realizado o planejamento em que "os objetivos da assistência são determinados, prioridades sao estabelecidas, resultados da assistência sao projetados e um plano de assistência é escrito". Verificam-se quais os procedimentos que melhor se adequem ao estado do paciente queimado. A implementação tem como objetivo a execução do plano de cuidados por meio das intervençoes de enfermagem, que devem ser contínuas e interagir com outros componentes. A etapa final corresponde à evolução, que, segundo Brunner & Suddarth, é a "determinação das respostas do paciente às prescrições de enfermagem e a extensão em que os resultados foram alcançados." O paciente está respondendo positivamente a assistência prestada? Para que todo esse processo tenha uma sequência do início ao fim, com probabilidade de eficiência elevada, identificar os diagnósticos de enfermagem é importante, pois possibilita mais facilmente planejar e implementar as intervenções de enfermagem. Para Potter, os diagnósticos de enfermagem têm como propósito, "interpretar os dados de avaliação e então identificar os problemas de saúde que envolvam o paciente, a família e outros indivíduos de relevância" (CASTILHOS et al. 2010). 78 Referente aos diagnósticos de enfermagem, segundo a NANDA, pode-se destacar: • Troca gasosa prejudicada; • Padrão respiratório ineficaz; • Perfusão tecidual periférica prejudicada; • Volume de líquidos deficiente; • Risco de infecção; • Integridade cutânea prejudicada; • Hipotermia; • Nutrição desequilibrada: menor que as necessidades corporais; • Eliminação urinária prejudicada; • Mobilidade física prejudicada; • Dor; • Enfrentamento individual ineficaz; • Ansiedade; • Intolerância à atividade; • Distúrbio da imagem corporal; • Déficit de conhecimento sobre o cuidado domiciliar e necessidades de acompanhamento pós-alta. De acordo com os diagnósticos de enfermagem supracitados, pode-se destacar algumas prescrições de enfermagem, sendo elas: • Fornecer oxigênio umedecido, monitorar rigorosamente o paciente em ventilação mecânica; • Observar queimaduras do tórax; • Manter as extremidades aquecidas; • Monitorar o débito urinário pelo menos a cada hora e pesar o paciente diariamente; • Usar a assepsia em todos os aspectos do cuidado com o paciente, inspecionar a ferida para sinais de infecção, drenagem purulenta ou 79 coloração, monitorar a contagem de leucócitos, resultado de cultura e sensibilidade; • Limpar as feridas diariamente, realizar o curativo da ferida de acordo com a prescrição, evitar a pressão, infecção e mobilização dos enxertos de pele; • Avaliar com frequência a temperatura corporal central, fornecer ambiente aquecido por meio de cobertores térmicos; • Oferecer dieta hiperproteica, incluindo os alimentos de preferência do paciente, monitorar a contagem de calorias e o peso diário; • Posicionar a sonda e a bolsa de drenagem de modo que propiciem um fluxo desimpedido de urina; • Posicionar o paciente cuidadosamente, a fim de evitar posições flexionadas na áreas queimadas, implementar exercícios de amplitude de movimentos várias vezes ao dia; • Oferecer analgésico aproximadamente 20 minutos antes do processo doloroso, fornecer tranquilidade e apoio emocional; • Usar a abordagem multidisciplinar para promover a mobilidade e a independência; • Explicar todos os procedimentos ao paciente e a sua família, em termos claros e simples, individualizar as respostas para o nível de enfrentamento do paciente e sua família; • Incorporar os exercícios de fisioterapia ao cuidado do paciente, para impedir a atrofia muscular e manter a mobilidade necessária para as atividades diárias; • Encaminhar o paciente para terapia de grupo; • Avaliar a prontidao do paciente e da família em aprender. Resumindo: A queimadura é um quadro resultante da ação direta ou indireta do calor sobre o organismo humano, comprometendo a integridade funcional da pele, responsável pela homeostase hidroeletrolítica, controle da temperatura interna, flexibilidade e lubrificação da superfície corporal. A ferida da queimadura a princípio 80 é estéril, porém o tecido necrótico rapidamente se torna colonizado por bactérias endógenas e exógenas, produtoras de proteases, que levam à liquefação e separação da escara, dando lugar ao tecido de granulação responsável pela cicatrização da ferida, que se caracteriza por alta capacidade de retração e fibrose nas queimaduras de terceiro grau. Todo tipo de queimadura é uma lesão que requer atendimento médico especializado imediatamente após a prestação de primeiros socorros, seja qual for a extensão e profundidade. Afastar o acidentado da origem da queimadura é o passo inicial e tem prioridade sobre todos os outros tratamentos. Observar sua segurança pessoal, com máximo cuidado, durante o atendimento a queimados. A principal causa de mortalidade se deve principalmente à infecção que pode evoluir com septicemia, assim como à repercussão sistêmica, com possíveis complicações renais, adrenais, cardiovasculares, pulmonares, musculoesqueléticas, hematológicas e gastrointestinais. Além disso, as queimaduras resultam em considerável morbidade pelo desenvolvimento de sequelas, estando entre as mais graves a incapacidade funcional, especialmente quando atinge as mãos, as deformidades inestéticas, sobretudo da face, e também aquelas de ordem psicossocial. As queimaduras, dependendo da localização, podem ainda causar complicações neurológicas, oftalmológicas e geniturinárias. Decorre daí o fato de a correta abordagem inicial do queimado ser essencial para o prognóstico a curto e longo prazo. 81 21. REFERÊNCIAS: ATKINSON Ld, MURRAY Me. Fundamentos de enfermagem: introdução ao processo de enfermagem. 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