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Primeira infância (0 – 2 anos) Marcos de desenvolvimento (neuropsicomotor) de crianças de 0 até 2 anos de idade e sua importância no diagnóstico de possíveis distúrbios relacionados. → AVALIAÇÃO - O período pré-natal e o primeiro ano de vida fornecem uma plataforma para crescimento e desenvolvimento notáveis, definindo a trajetória de vida de uma criança. A plasticidade neural, a capacidade de o cérebro ser moldado pelas experiências, tanto positivas como negativas, está em seu pico. - O volume cerebral total duplica no primeiro ano de vida e aumenta mais 15% durante o segundo ano. O volume total do cérebro no lactente com 1 mês de vida é aproximadamente 36% do volume de adulto, mas com 1 ano de idade é de cerca de 72% (83% aos 2 anos) - A aquisição de habilidades aparentemente “simples”, como a deglutição, reflete uma série de processos complicados e altamente coordenados envolvendo vários níveis de controle neural distribuídos entre vários sistemas fisiológicos cuja natureza e relações amadurecem durante todo o primeiro ano de vida. Uma aprendizagem substancial das ferramentas básicas da linguagem (fonologia, segmentação de palavras) ocorre durante a infância. - O processamento da fala em pessoas mais velhas requer redes neuronais precisas e definidas; o cérebro infantil apresenta uma organização estrutural e funcional semelhante à dos adultos, sugerindo que o processamento neurológico estrutural da fala possa orientar os bebês a descobrir as propriedades de sua língua nativa. - A mielinização do córtex começa entre o sétimo e oitavo mês da gestação e continua até a adolescência e juventude. Ocorre da região posterior para a anterior, viabilizando a maturação progressiva das vias sensoriais, motoras e finalmente das vias associativas. - Dada a importância do ferro, do colesterol e de outros nutrientes para o processo da mielinização, são importantes reservas adequadas desses durante toda a infância - A ingestão alimentar inadequada, interações insuficientes com os cuidadores ou com o ambiente em geral podem alterar os processos dependentes da experiência que são fundamentais para o desenvolvimento da estrutura e função do cérebro durante a infância. Embora alguns desses processos possam ser retardados, à medida que os períodos de plasticidade vão se concluindo nas fases de rápido desenvolvimento infantil, podem ocorrer déficits mais permanentes - Todos os parâmetros de crescimento devem ser traçados, utilizando as tabelas da Organização Mundial da Saúde, que mostram como as crianças desde o nascimento até 72 meses de vida “devem” crescer em circunstâncias ideais → IDADE DE 0 – 2 MESES - No lactente nascido a termo, no momento de nascimento a mielinização está presente no tronco cerebral dorsal, pedúnculos cerebelares e perna posterior da cápsula interna. A substância branca cerebelar adquire mielina por volta do primeiro mês de vida e está bem mielinizada aos 3 meses de idade. A substância branca subcortical do córtex parietal, frontal posterior, temporal e calcarina está parcialmente mielinizada aos 3 meses de idade. - Nesse período, o bebê experimenta um tremendo crescimento. Alterações fisiológicas possibilitam o estabelecimento de rotinas de alimentação eficazes e de um ciclo de sono-vigília previsível. As interações sociais que ocorrem à medida que os pais e os bebês realizam essas tarefas definem as bases para o desenvolvimento cognitivo e emocional. Desenvolvimento físico - O peso de um recém-nascido inicialmente pode diminuir 10% abaixo do peso ao nascer durante a primeira semana, como resultado da eliminação do excesso de fluido extravascular e da ingestão nutricional limitada. - A nutrição melhora à proporção que o colostro é substituído por um maior teor de gordura do leite materno, na medida em que as crianças aprendem sobre como se acoplar à mama e a sugar de maneira mais eficiente, e as mães tornam-se mais à vontade com as técnicas de amamentação. - Os lactentes recuperam ou excedem o peso ao nascer por volta da segunda semana de vida e devem crescer cerca de 30 g/dia durante o primeiro mês. Esse é o período mais rápido de crescimento pós-natal. Os braços ficam pendentes ao lado do corpo. Os movimentos dos membros consistem basicamente em contrações descontroladas, com abertura e fechamento das mãos aparentemente sem propósito. - O sorriso ocorre involuntariamente. O olhar, os giros da cabeça e a sucção são mais bem controlados e podem, portanto, ser utilizados para demonstrar a percepção e a cognição infantis. A preferência da criança em se voltar para a voz da mãe é uma evidência da memória de reconhecimento. Seis estados comportamentais foram descritos - Inicialmente, o sono e a vigília estão uniformemente distribuídos ao longo de 1 dia de 24 h. A maturação neurológica explica a consolidação do sono em blocos de 5 ou 6 h, com breves períodos de vigília para a alimentação. O aprendizado também ocorre; bebês cujos pais são consistentemente mais interativos e estimuladores durante o dia aprendem a concentrar seu sono durante a noite. Desenvolvimento cognitivo - Os bebês podem diferenciar entre padrões, cores e consoantes. Podem reconhecer expressões faciais (sorrisos) como semelhantes, mesmo quando esses aparecem em rostos diferentes. Podem também combinar propriedades abstratas dos estímulos, como contorno, intensidade ou padrão temporal, por meio de modalidades sensoriais. - Lactentes aos 2 meses de idade podem discriminar padrões rítmicos na língua nativa versus língua não nativa. Os bebês parecem buscar ativamente por estímulos, como se estivessem satisfazendo uma necessidade inata de dar sentido ao mundo. - Esses fenômenos apontam para a integração de estímulos sensoriais no sistema nervoso central. Os cuidados pelos pais e cuidadores fornecem estímulos visuais, táteis, olfativos e auditivos; todos auxiliam o desenvolvimento da cognição. Lactentes se habituam ao que é conhecido, respondendo menos a estímulos repetidos e aumentando a sua atenção a novos estímulos. Desenvolvimento emocional - O lactente depende do ambiente para satisfazer suas necessidades. A disponibilidade consistente de um adulto de confiança para atender às urgências do bebê cria as condições para uma fixação segura. - Os bebês com menos de 1 ano de idade que são constantemente colocados no colo e acalmados em resposta a um choro de socorro demonstram comportamento menos agressivo aos 2 anos. - O choro normalmente atinge seu pico por volta da 6 semanas de vida, quando os bebês saudáveis podem chorar até 3 horas/dia, em seguida, diminui para 1 hora ou menos aos 3 meses de vida. Os bebês choram em resposta ao choro de outro bebê, o que foi interpretado como um sinal precoce de desenvolvimento de empatia. - O choro/inquietação está presente em 20% das crianças com menos de 2 meses de idade e, embora na maior parte seja uma atividade comportamental transitória e normal, é frequentemente associada a preocupação e angústia dos pais. - Choro excessivo (mais de 3 horas/dia, mais de 3 dias/semana com duração superior a 1 semana) e choro/inquietação mais frequente persistindo mais que 3 a 5 meses pode estar associada a abuso de crianças, problemas de comportamento com criança mais velha (ansiedade, agressividade, hiperatividade), diminuição da duração da amamentação e depressão pós-parto (incerto se é a causa ou o efeito). - A maioria dos bebês com choro/inquietação não apresenta refluxo gastresofágico, intolerância à lactose ou alergia à proteína de leite de vaca. Alguns pesquisadores acreditam que o choro excessivo possa ser uma manifestação precoce de episódios de enxaquecas. - A conduta do choro/inquietação deve incluir orientar os cuidadores sobre pistas pré-choro e respostas ao sinal para a alimentação de maneira descontraída e calma. Se a hiperestimulação sensorial é um fator, a criação de um ambiente calmopode ajudar, assim como o uso de cueiros. - Na ausência de estimulação sensorial, o contato pele a pele entre a mãe e o bebê e o ato de colocar a criança no colo podem ser benéficos. Em todas as situações, a garantia de que esse fenômeno é normal e transitório, com apenas 5% dos lactentes persistindo além dos 3 meses de idade, ajuda a família a se adaptar. - O significado emocional de qualquer experiência depende tanto do temperamento individual do bebê quanto das respostas dos pais; horários de alimentação diferentes produzem reações diferentes. A fome aumenta a tensão; quando a sensação de urgência atinge seu pico, a criança chora, a mãe oferece o peito ou a mamadeira e a tensão se dissipa. - Lactentes alimentados “de forma imediata” consistentemente experimentam esta ligação entre sua angústia, a chegada dos pais e o alívio da fome. A maioria dos bebês alimentados com uma programação fixa rapidamente adapta seu ciclo de fome à programação. - Aqueles que não podem por serem de temperamento propenso a ritmos biológicos irregulares passam por períodos de fome não aliviados, bem como mamadas indesejadas quando já estão satisfeitos. - Do mesmo modo, bebês que são alimentados de acordo com a conveniência dos pais, sem a atenção para as pistas de fome que o bebê dá, nem a alimentação em um horário fixo, podem não enfrentar de maneira consistente a alimentação como a redução prazerosa da tensão. - Bebês com desregulação precoce muitas vezes demonstram um aumento da irritabilidade e instabilidade fisiológica (cospem, apresentam episódios de diarreia, ganho de peso), bem como problemas comportamentais no futuro. → IDADE DE 2 – 6 MESES - Por volta dos 2 meses de idade, o surgimento de sorrisos voluntários (sociais) e o aumento do contato visual marcam uma mudança na relação pais-filhos, aumentando a sensação de ser amado reciprocamente pelos pais. - Durante os próximos meses, a amplitude do controle motor/social e o envolvimento cognitivo da criança aumentam significativamente. Regulação mútua assume a forma de intercâmbios sociais complexos, resultando em forte apego e prazer mútuos. Rotinas são estabelecidas. Os pais ficam menos cansados. Desenvolvimento físico - Entre 3 e 4 meses de idade, a taxa de crescimento diminui para cerca de 20 g/dia. Por volta dos 4 meses de idade, o peso ao nascer dobra. Os reflexos iniciais que limitavam os movimentos voluntários retrocedem. O desaparecimento do reflexo tônico assimétrico do pescoço libera os lactentes para começar a examinar objetos na linha média e manipulá- los com as duas mãos - A redução do reflexo da garra inicial possibilita que o bebê segure e solte objetos voluntariamente. Um novo objeto pode provocar uma busca proposital, embora ineficiente. - A qualidade dos movimentos espontâneos também muda, de movimentos contorcidos maiores para movimentos circulares menores, que têm sido descritos como “irrequietos.” Movimentos irrequietos anormais ou ausentes podem constituir um fator de risco para anormalidades neurológicas tardias. - O aumento do controle de flexão do tronco possibilita o rolamento intencional. Como podem manter a cabeça firme enquanto sentadas, o lactentes podem olhar através dos objetos em vez de apenas olhar para esses, abrindo uma nova gama visual. - Podem começar a se alimentar com uma colher. Ao mesmo tempo, a maturação do sistema visual possibilita uma percepção maior da profundidade. Nesse período, os bebês alcançam uma regulação estável e regular dos ciclos de sono-vigília. - As necessidades totais de sono são aproximadamente de 14 a 16 h/24 h, com cerca de 9 a 10 horas concentradas à noite e 2 cochilos/dia. Aproximadamente 70% dos lactentes dormem por um período de 6 a 8 horas aos 6 meses de idade. - Entre 4 e 6 meses, o eletroencefalograma durante o sono demonstra um padrão maduro, com demarcação do sono de movimento rápido dos olhos (REM) e dos quatro estágios do sono de movimento não rápido dos olhos. O ciclo do sono permanece mais curto que o de adultos (50-60 min versus aproximadamente 90 min). Como resultado, as crianças despertam para o sono leve ou despertam frequentemente durante a noite, o que leva a problemas comportamentais do sono Desenvolvimento cognitivo - O efeito geral desse desenvolvimento é uma mudança qualitativa. Aos 4 meses de idade, os lactentes são descritos como em um período de “incubação” social, cada vez mais interessados em um mundo mais amplo. - Durante a alimentação, os bebês não se concentram exclusivamente na mãe, mas se distraem. Nos braços da mãe, o lactente pode, literalmente, virar-se, preferindo estar virado para fora. - Os bebês dessa idade também exploram seus próprios corpos, olhando fixamente para suas mãos, vocalizando, soprando bolhas, tocando suas orelhas, bochechas e genitais. Essas explorações representam uma fase inicial da compreensão da causa e efeito já que os lactentes aprendem que os movimentos musculares voluntários resultam sensações táteis e visuais previsíveis além de desempenharem um papel no surgimento de um senso de “eu”, separado da mãe. - Esse é o primeiro estágio do desenvolvimento da personalidade. Bebês podem começar a associar certas sensações por meio da repetição frequente. A sensação proprioceptiva de segurar a mão e mexer os dedos sempre acompanha a visão dos dedos em movimento. - Tais sensações estão constantemente ligadas e são reprodutíveis de acordo com a vontade. Em contraste, as sensações que estão relacionadas com o “outro” ocorrem com menos regularidade e em combinações variadas. - O som, cheiro e a sensação da mãe às vezes aparecem prontamente em resposta ao choro, mas às vezes não. A satisfação das necessidade pela mãe ou por outro adulto amoroso continua a processo de vínculo mãe-bebê. Desenvolvimento emocional e comunicação - Os bebês interagem com crescente sofisticação e alcance. As emoções primárias de raiva, alegria, interesse, medo, nojo e surpresa aparecem em contextos apropriados na forma de expressões faciais distintas. - Quando frente a frente, o lactente e um adulto de confiança podem combinar expressões afetivas (sorriso ou surpresa) cerca de 30% do tempo. Jogos de iniciação (cantar, jogos de mão) aumentam o desenvolvimento social. - O comportamento frente a frente revela a capacidade do bebê de compartilhar estados emocionais, o primeiro passo no desenvolvimento da comunicação. - Os bebês de pais deprimidos apresentam um padrão diferente, despendendo menos tempo em movimentos coordenados com os pais e fazendo menos esforços para se relacionar. Em vez de raiva e tristeza, demonstram perda de energia quando os pais continuam não disponíveis. → IDADE DE 6 – 12 MESES - Com a conquista da posição sentada, as crianças de 6 a 12 meses de idade adquirem maior mobilidade e novas habilidades para explorar o mundo a seu redor, e demonstram avanços na compreensão e comunicação cognitiva, com novas tensões ao redor de temas como apego e separação. - Os bebês desenvolvem vontades e intenções, características que a maioria dos pais considera bem-vindas, mas ainda representam um desafio para gerenciar. Desenvolvimento físico - O crescimento desacelera ainda mais. Por volta do primeiro aniversário, o peso do nascimento triplicou, o comprimento cresceu em 50% e o perímetro cefálico aumentou 10 cm. - A capacidade de se sentar sem apoio (6-7 meses) e de girar ao sentar- se (cerca de 9-10 meses) proporciona um aumento de oportunidades para manipular vários objetos ao mesmo tempo e de experimentar com novas combinações de objetos. Essas descobertas são auxiliadas pelo surgimento dos movimentos de garra entre o polegar e o dedo (8-9 meses) e de pinça pura aos 12 meses. - A liberação voluntária surge aos 9 meses. Muitos bebês começam a engatinhar e puxar para ficar em pé por volta dos 8 meses. Algumas ficam em pé com 1 ano de idade → As conquistas motorasse relacionam com o aumento da mielinização e com o crescimento cerebelar. - Essas habilidades motoras expandem a amplitude exploratória e criam novos perigos físicos, bem como oportunidades de aprendizado. A erupção dentária ocorre, geralmente começando pelos incisivos centrais inferiores. O desenvolvimento dos dentes reflete a maturação esquelética e idade óssea, apesar de haver uma ampla variação individual Desenvolvimento cognitivo - O bebê de 6 meses de idade descobriu suas mãos e logo aprenderá a manipular objetos. No início, tudo é levado à boca. Com o tempo, novos objetos são apanhados, examinados, passados de mão em mão, batidos, derrubados para, em seguida, serem levados à boca. - Cada ação representa uma ideia não verbal sobre a utilidade dos objetos (nos termos de Piaget, um esquema. A complexidade da brincadeira de um bebê, quantos esquemas diferentes são exercidos, é um indicador útil do desenvolvimento cognitivo nessa idade. - O prazer, a persistência e a energia com a qual os lactentes enfrentam esses desafios sugerem a existência de um impulso intrínseco ou uma motivação para o domínio de habilidades. - O comportamento para o domínio de habilidades motoras ocorre quando os bebês se sentem seguros; aqueles com relacionamentos menos seguros demonstram limitações na experimentação e menor competência. Um marco importante é a conquista aos 9 meses da permanência do objeto (constância), o entendimento de que os objetos continuam a existir, mesmo quando não são vistos. - Dos 4 aos 7 meses de vida, os bebês olham para baixo à procura de uma bola que caiu, mas rapidamente desistem se não a encontrarem. Com a constância do objeto, os lactentes persistem na busca. Eles vão encontrar objetos escondidos sob um pano ou atrás do examinador. Brincar de esconder traz prazer ilimitado na medida em que o bebê magicamente traz de volta o outro jogador. Eventos parecem ocorrer como resultado das próprias atividades da criança. Desenvolvimento emocional - O advento da permanência do objeto corresponde a mudanças qualitativas no desenvolvimento social e da comunicação. Bebês olham para trás e para a frente entre um estranho que se aproxima e um dos pais, e pode agarrar-se ou chorar ansiosamente, demonstrando ansiedade em relação ao estranho. Separações muitas vezes tornam-se mais difíceis. - Os bebês que dormem durante a noite por meses começam a despertar regularmente e chorar, como se lembrassem de que os pais estão no quarto ao lado. Uma nova demanda por autonomia também emerge. Ganho de peso nessa idade muitas vezes reflete uma luta entre a independência emergente de um lactente e do controle dos pais para a situação alimentar. - O uso de duas colheres para a alimentação (uma para a criança e outra para o pai/a mãe), alimentos que podem ser ingeridos com as mãos e uma cadeira alta com mesa de bandeja podem evitar possíveis problemas. Birras fazem sua primeira aparição à medida que os impulsos por autonomia e domínio entram em conflito com o controle dos pais e as habilidades ainda limitadas dos bebês. Comunicação - Lactentes com 7 meses de idade são adeptos da comunicação não verbal, expressando uma variedade de emoções e de resposta com tons vocais e expressões faciais. - Aos 9 meses de idade, os bebês se tornam conscientes de que as emoções podem ser compartilhadas entre as pessoas; eles entregam seus brinquedos a seus pais como maneira de compartilhar seus sentimentos felizes. Entre 8 e 10 meses de idade, o balbuciar assume uma nova complexidade, com sons multissilábicos (“ba-da-ma”); bebês podem discriminar entre idiomas. Bebês em casas bilíngues aprendem as características e as regras que governam dois idiomas diferentes. - A interação social (adultos atentos revezando a vocalização com a criança) influencia profundamente a aquisição e a produção de novos sons. A primeira palavra verdadeira (i.e., um som utilizado de modo consistente para se referir a um objeto ou uma pessoa específica) aparece junto com a descoberta pela criança da permanência do objeto. - Livros de imagens oferecem, então, um contexto ideal para a aquisição da linguagem verbal. Com o uso de um livro conhecido como foco compartilhado de atenção, pai/mãe e filho se envolvem em ciclos repetidos de apontar e dar nomes, com elaboração e reforços pelo pai/mãe. O acréscimo da linguagem de sinais pode apoiar o desenvolvimento infantil, reforçando simultaneamente a comunicação mãe-bebê. → IDADE DE 12 – 18 MESES Desenvolvimento físico - A criança pequena que começou a andar continua a experimentar um considerável crescimento do cérebro e mielinização no 2° ano, resultando em um aumento na circunferência da cabeça de 2 cm ao longo do ano. - As crianças pequenas têm pernas relativamente curtas e tronco curto, com uma lordose lombar exagerada e abdome abaulado. O crescimento em comprimento continua a uma velocidade contínua - A maioria das crianças começa a andar independentemente por volta dos 12-15 meses de idade. Começar a caminhar precocemente não está associado a um desenvolvimento avançado em outros domínios. - Bebês inicialmente caminham balançando-se com uma marcha de base ampla com os joelhos dobrados e os braços flexionados na altura do cotovelo; todo o tronco roda com cada passada; os dedos dos pés podem apontar para dentro ou para fora, e os pés alcançam o chão achatados. A aparência é de genuvaro (pernas arqueadas). - Um refinamento subsequente leva a maior firmeza e mais eficiência de energia. Após vários meses de prática, o centro de gravidade desvia-se para trás e o tronco se estabiliza, enquanto os joelhos estendem-se e os braços balançam- se ao lado do corpo para manter o equilíbrio. Os pés são mantidos em melhor alinhamento e a criança é capaz de parar, girar e se inclinar sem tropeçar Desenvolvimento cognitivo - A exploração do ambiente aumenta em paralelo com a melhora na destreza (apanhar, agarrar, liberar) e na mobilidade. O aprendizado segue os preceitos do estágio sensório-motor de Piaget. - As crianças pequenas manipulam os objetos de maneiras novas para criar efeitos interessantes, como empilhar blocos ou colocar coisas dentro da unidade de DVD de um computador. - Os objetos que são usados como brinquedo também apresentam maior probabilidade de serem usados para os seus propósitos apropriados (pentes para o cabelo, copos para beber). A imitação dos pais e de irmãos mais velhos ou de outras crianças é um modo importante de aprendizado. O jogo de faz de conta (simbólico) centraliza-se no próprio corpo da criança Desenvolvimento emocional - Próximo ao marco de desenvolvimento da marcha inicial, os bebês podem estar mais irritados. Uma vez iniciado o andar, o seu humor predominante muda de maneira acentuada. Os lactentes que começam a andar são descritos como “intoxicados” ou “excitados” com sua nova capacidade e com o poder de controlar a distância entre eles próprios e seus pais. - As crianças pequenas e exploradoras orbitam em torno dos seus pais, movimentando-se para longe deles e, em seguida, retornando para um toque tranquilizador antes de se mover novamente. - Uma criança com um vínculo seguro usará sua mãe (ou seu pai) como uma base segura da qual começará a explorar independentemente. Orgulhoso de suas conquistas, o bebê ilustra o estágio de autonomia e separação de Erickson - A criança que está começando a andar e que é excessivamente controlada e desencorajada de uma exploração ativa sentirá dúvidas, vergonha, raiva e insegurança. Desenvolvimento linguístico - A linguagem receptiva precede a linguagem expressiva. No período em que pronunciam suas primeiras palavras, por volta dos 12 meses de idade, as crianças já respondem apropriadamente a várias declarações simples como “não”, “tchau” e “me dá”. - Por volta dos 15 meses, a criança comumente aponta para as principais partes do seu corpo e usa 4 a 6 palavrasespontânea e corretamente. As crianças que estão começando a andar também apreciam um palavreado polissilábico, mas não ficam perturbadas quando ninguém as entende. A comunicação da maioria dos desejos e ideias continua a ser não verbal. → IDADE DE 18 – 24 MESES Desenvolvimento motor - O desenvolvimento motor durante esse período é refletido em melhorias no equilíbrio e na agilidade e na emergência da corrida e da subida de escadas. A altura e o peso aumentam em uma velocidade estável durante esse ano, com um ganho de 12 cm (5 pol.) e de 2 kg (5 lb). - Por volta dos 24 meses, as crianças estão aproximadamente na metade de sua altura final de adulto. O crescimento cefálico é ligeiramente lento. Oitenta e cinco por cento da circunferência cefálica do adulto é atingido por volta de 2 anos de idade, com apenas um ganho adicional de 5 cm ao longo dos próximos anos Desenvolvimento cognitivo - Com aproximadamente 18 meses de idade, várias alterações cognitivas coalescem, marcando a conclusão do período sensório-motor. Essas podem ser observadas durante uma brincadeira iniciada pela própria criança. A permanência do objeto está firmemente estabelecida; as crianças pequenas antecipam aonde um objeto chegará, mesmo quando o objeto não estava visível ao ser movido. - A causa e o efeito são mais bem compreendidos, e as crianças pequenas demonstram flexibilidade na solução de problemas (p. ex., usando uma varinha para atingir um brinquedo que está fora do alcance, ou descobrindo como dar corda em um brinquedo mecânico). - A transformação simbólica em jogo não está mais ligada ao próprio corpo da criança pequena, de modo que uma boneca pode ser “alimentada” utilizando um prato vazio. Como a reorganização que ocorre aos 9 meses, as alterações cognitivas aos 18 meses se correlacionam com alterações importantes nos domínios emocional e linguístico Desenvolvimento emocional - A relativa independência dos seis meses anteriores frequentemente dá lugar a um maior apego por volta dos 18 meses. Esse estágio, frequentemente descrito como “restabelecimento de laços”, pode ser uma reação à crescente percepção da possibilidade de uma separação. - Muitos pais relatam que não podem ir a lugar algum sem que a criança pequena se segure neles. A ansiedade de separação se manifestará no momento de dormir. Muitas crianças usam um cobertor ou um brinquedo de pelúcia como um objeto de transição, que funciona como a presença simbólica da mãe/pai ausentes. - O objeto de transição permanece importante até que a transição para o pensamento simbólico tenha sido concluída e a presença simbólica da mãe/pai tenha sido completamente internalizada. Apesar do apego à mãe/ao pai, o uso do “não” pela criança é um modo de declarar sua independência. - As diferenças individuais em temperamento, tanto da criança quanto dos pais, exercem um papel essencial na determinação do equilíbrio do conflito versus cooperação no relacionamento pais-criança. Emerge uma linguagem eficaz, os conflitos se tornam menos frequentes. - A percepção de autoconsciência e os padrões internalizados de comportamento aparecem primeiramente nessa idade. As crianças que estão começando a andar ao olhar, pela primeira vez, em um espelho tentarão tocar sua própria face, em vez da imagem no espelho se notarem algo estranho com seu nariz. - Elas começam a reconhecer quando os brinquedos estão quebrados e podem entregá-los aos pais para que os consertem. A linguagem torna- se um meio de controle dos impulsos, do raciocínio precoce e da conexão entre ideias. - Quando tentadas a tocar algum objeto proibido, podem dizer a si mesmos “não, não”. Este é o início da formação de uma consciência. O fato de frequentemente irem em frente e tocarem o objeto de qualquer maneira demonstra a relativa fragilidade das inibições internalizadas nesse estágio. Desenvolvimento linguístico - Talvez o desenvolvimento mais dramático nesse período seja o linguístico. Rotular os objetos coincide com o advento do pensamento simbólico. Após a percepção de que as palavras podem dar significado a coisas, o vocabulário de uma criança salta de 10 a 15 palavras aos 18 meses para entre 50 e 100 aos 2 anos. Após adquirir um vocabulário de aproximadamente 50 palavras, as crianças pequenas começam a combiná-las para construir pequenas sentenças, o começo da gramática. - Nesse estágio, as crianças pequenas compreendem ordens em duas etapas, como “Me dê a bola e depois pegue os seus sapatos.” A linguagem também proporciona à criança pequena um sentido de controle de seu ambiente como em “boa noite” ou “tchau”. A urgência da linguagem verbal marca o final do período sensório-motor. À medida que a criança pequena aprende a usar símbolos para expressar ideias e resolver problemas, a necessidade da cognição com base na sensação direta e manipulação motora desvanece → ATRASO NO DEVENVOLVIMENTO - Os fatores de risco para problemas de desenvolvimento podem ser classificados em → Genéticos + Biológicos + Ambientais + Fatores familiares - No entanto, a maior parte dos traços de desenvolvimento da criança é de origem multifatorial e representa a interação entre a herança genética e os fatores ambientais Anamnese - O baixo peso ao nascer e a prematuridade são eventos que aumentam o risco da criança para alterações globais em seu desenvolvimento (tais como: distúrbios de linguagem, de motricidade, de aprendizagem e atraso neuropsicomotor), podendo, contudo, evoluir durante os primeiros 2 anos de vida para padrões de normalidade na maioria dos casos. - No entanto, as maiores taxas de deficiência ocorrem nas menores faixas de peso e idade gestacional, tendo correlação com a incidência de complicações no período neonatal - Além disso, o fator prematuridade teve mais chances (60%) de evidenciar problemas no desenvolvimento. A manifestação de dificuldades no desenvolvimento é muito variável e pode ser de ordem mental, física, auditiva, visual ou relacional. - O déficit mental caracteriza-se por um estado de redução notável do funcionamento intelectual significativamente inferior à média, que se inicia durante o período de desenvolvimento da criança e está associado a limitações em pelo menos 2 aspectos do funcionamento adaptativo: - Comunicação, Cuidados pessoais, Atividades de vida diária, Habilidades sociais, Utilização dos recursos comunitários, Autonomia, Aptidões escolares, Lazer , Trabalho. - A hipóxia perinatal e as infecções congênitas são as condições mais prevalentes que levam as crianças a apresentar déficit mental - Os distúrbios com predomínio motor (por exemplo, a paralisia cerebral) costumam ser diagnosticados mais facilmente do que os de linguagem ou os cognitivos. No entanto, estes últimos têm maior correlação com o progresso do desenvolvimento do que as alterações na evolução do comportamento motor. - Embora as deficiências graves possam ser reconhecidas ainda na infância, distúrbios de linguagem, hiperatividade e transtornos emocionais não são facilmente diagnosticados antes dos três ou quatro anos de idade. - Da mesma forma, distúrbios de aprendizagem raramente são identificados antes do ingresso da criança na escola. Os distúrbios do desenvolvimento de predomínio relacional caracterizam-se por distúrbios na interação social e na comunicação. Fatores de risco - Pré-natais - Consaguineidade - Histórico familiar de atraso do DNPM - Anóxia - Meningite + trauma + convulsões - Pais de baixo nível socioeconômico - Drogas e alcoolismo Exame físicio - Vínculo mãe-filho, comportamento da criança, perímetro cefálico Gráficos de crescimento (ganho de peso, altura, perímetro cefálico e velocidade de crescimento) de crianças de 0 até 2 anos de idade → INTRODUÇÃO - Muitos problemas biofisiológicos e psicossociais podem afetar negativamente o crescimento, e o crescimento anormal pode ser o primeiro sinalde um problema subjacente. A ferramenta mais poderosa de avaliação do crescimento é o gráfico de crescimento usado em combinação com medições precisas de peso, altura, perímetro cefálico e cálculo do índice de massa corporal (IMC) → PROCEDIMENTOS PARA MEDIÇÃO PRECISA - A avaliação do crescimento requer uma medição acurada. O peso, em quilogramas ou em libras, deve ser determinado usando uma escala precisa. Para lactentes e bebês de 1 a 3 anos de idade, são obtidos peso, comprimento e perímetro cefálico. - Essas medidas devem ser realizadas com o lactente despido e, idealmente, devem ser repetidas no mesmo equipamento. O perímetro cefálico é determinado usando uma fita métrica flexível da arcada supraciliar ao occipital no ponto que leva à maior medida possível. - O comprimento é medido com mais precisão por dois examinadores (um para posicionar a criança), com a criança em posição de decúbito dorsal em uma prancha de medição. Para crianças mais velhas, a medida é a estatura ou altura, aferida sem sapatos, utilizando um estadiômetro. - As medições obtidas de maneiras alternativas, como a marcação em papel de exame do pé até a cabeça de uma criança em decúbito dorsal ou usando um gráfico de crescimento de parede simples com um livro ou uma régua na cabeça, podem levar a imprecisão, inutilizando a medição. É essencial comparar as medições com tendências de crescimento anteriores, repetir as que são incompatíveis e dispor os resultados em gráfico longitudinalmente. → DERIVAÇÃO E INTERPRETAÇÃO DE GRÁFICOS DO CRESCIMENTO - O conjunto 1 inclui os percentis de 5 a 95; o conjunto 2, os percentis de 3 a 97 - Os dados são apresentados em cinco gráficos padrão específicos por gênero: (1) peso por idade; (2) altura (comprimento e estatura) por idade; (3) perímetro cefálico por idade; (4) peso por altura (comprimento e estatura) para lactentes; e (5) IMC por idade para crianças acima de 2 anos - Cada gráfico é composto de curvas de percentis, representando distribuição transversal de peso, comprimento, estatura, perímetro cefálico, peso para comprimento ou IMC em cada idade. A curva de percentil indica a porcentagem de crianças em determinada idade no eixo x cujo valor medido é inferior ao valor correspondente no eixo y. - No gráfico de peso para meninos de 0 a 36 meses de idade, a linha de idade de 9 meses faz uma intersecção com a curva do percentil 25 em 8,6 kg, indicando que 25% dos meninos com 9 meses de idade na amostra do National Center for Health Statistics pesam menos que 8,6 kg (75% pesam mais). Do mesmo modo, um menino de 9 meses de idade que pesa mais de 11,2 kg é mais pesado que 95% de seus pares. - A mediana ou percentil 50 também é denominado valor padrão, no sentido de que a altura padrão para uma menina de 7 meses de idade é de 67 cm. Os gráficos peso-altura são construídos de maneira análoga, com comprimento ou estatura no lugar de idade no eixo x; o peso mediano ou padrão para uma menina que mede 110 cm é 18,6 kg. - Para lactentes, os gráficos dos CDC revisados representam o crescimento observado, mas não necessariamente o ideal, porque estes ainda incorporam dados de muitos bebês alimentados com mamadeira - Comparado com os padrões atuais, seria de se esperar que um lactente exclusivamente amamentado pela mãe tivesse um traçado mais alto para peso nos primeiros 6 meses, mas relativamente menor na segunda metade do primeiro ano. - Para adolescentes, deve-se ter cautela ao aplicar os gráficos transversais. O crescimento durante a adolescência está ligado temporalmente ao início da puberdade, que varia amplamente. - Os gráficos especializados foram desenvolvidos para crianças norteamericanas com várias condições, como muito baixo peso ao nascimento e prematuridade; síndromes de Down, Turner e Klinefelter; paralisia cerebral e acondroplasia. Além disso, os gráficos de crescimento para crianças de nacionalidades ou grupos étnicos distintos podem ser encontrados na internet. - O IMC por idade complementa os gráficos de crescimento padrão para crianças com idade superior a 2 anos. O IMC pode ser calculado como peso em quilogramas/(altura em metros) 2 ou peso em libras/(altura em polegadas) 2 × 703, com frações de libras e polegadas expressas como decimais. - Muitos consideram que os gráficos da velocidade de crescimento, que avaliam a taxa de crescimento por ano, fornecem um indicador mais sensível e específico do crescimento anormal. Esses gráficos são usados principalmente por endocrinologistas pediátricos. Escore Z - Assim como o percentil, o escore Z é outra forma de comparar as medidas antropométricas. O escore Z é um valor que afere a distância em desvio- padrão que a medida de um paciente se encontra da média da população de mesma idade e sexo para peso, estatura e perímetro cefálico, por exemplo. - Um escore Z positivo indica que a criança está acima da média da população; já um escore Z negativo corresponde a um valor abaixo da média. O valor de escore Z 0 (zero) representa a média Percentil - Os valores de peso, e estatura e perímetro cefálico, por exemplo, são ordenados de forma crescente como se fossem 100 valores. Cada percentil representa a posição que aquele valor ocupa na distribuição ordenada dos valores considerados. - Peso no percentil 30 significa que 30% das crianças daquele mesmo sexo e idade têm o peso abaixo, enquanto 70% têm o peso acima. O percentil 50 é o ponto central (mediana) na série de valores crescentes. → ANÁLISE DOS PADRÕES DE CRESCIMENTO - Os lactentes podem perder até 10% do seu peso ao nascimento na primeira semana de vida e recuperá-lo até o fim da segunda semana. Em seguida, eles vão ganhar peso de maneira constante a uma taxa de 20 a 30 g/dia nos primeiros 3 meses. - Há fórmulas disponíveis para a estimativa de estatura média e peso e altura para crianças de várias idades, mas dada sua complexidade e fácil disponibilidade de gráficos de crescimento, a utilização desses últimos é preferível. - Apesar de os gráficos do National Center for Health Statistics representarem dados de coorte transversal e não longitudinais, e que as crianças tendem a crescer em estirões, a maioria das crianças tende a seguir ao longo de um percentil, chamado de acompanhamento da curva. - Uma exceção normal comumente ocorre entre 6 e 18 meses de idade Para lactentes nascidos a termo, o tamanho no nascimento reflete a influência do ambiente uterino; no entanto, o tamanho aos 2 anos de idade correlacionase com altura média parental, refletindo a influência de genes. - Entre 6 e 18 meses de idade, os lactentes podem mudar para os percentis superiores ou inferiores em direção a seu potencial genético. Em seguida, a maioria das crianças acompanha um percentual de crescimento, com variação dentro de duas grandes bandas de percentis (uma criança pequena pode ficar entre os percentis 5 e 25, uma grande entre o 75 e 95). - Para recém-nascidos prematuros, o diagnóstico exagerado de deficiência do crescimento pode ser evitado pelo uso de gráficos de crescimento desenvolvidos especificamente para essa população. Um método mais grosseiro, subtraindo as semanas de prematuridade da idade pós- natal ao dispor os parâmetros de crescimento em gráfico, não captura a variabilidade da velocidade de crescimento que os lactentes de muito baixo peso ao nascimento demonstram. - Embora lactentes de muito baixo peso ao nascimento possam continuar apresentando um crescimento compensatório até a idade escolar inicial, a maioria alcança peso compensatório durante o segundo ano e altura compensatória aos 2,5 anos, salvo complicações médicas - Para crianças com pais particularmente altos ou baixos, há um risco de exagero no diagnóstico de distúrbios do crescimento se a altura dos pais não for considerada, ou, inversamente, risco de falta de diagnóstico de distúrbios do crescimento se a altura dos pais for aceitade modo acrítico como explicação. - A análise dos padrões de crescimento e a detecção de padrões de crescimento anormais fornecem informações fundamentais para a detecção de condições patológicas. O cálculo de crescimento diário e mensal, como ganho de peso em g/dia, possibilita uma comparação mais precisa da taxa de crescimento com a norma. - Perda de peso, ou incapacidade de ganhar peso de maneira normal, é frequentemente o primeiro sinal de patologia. O diagnóstico de déficit de crescimento, geralmente um diagnóstico de crianças menores de 3 anos de idade, será considerado se o peso de uma criança estiver abaixo do percentil 5, se cai mais de 2 linhas principais de percentis ou se o peso para a altura for menor que o percentil 5. - O peso por estatura abaixo do percentil 5 continua sendo o único melhor indicador de desnutrição aguda do gráfico de crescimento. Um IMC menor que o percentil 5 também indica que uma criança está abaixo do peso. Períodos breves de perda ou ganho de peso precário geralmente são rapidamente corrigidos e afetam de maneira permanente a estatura. - As crianças que eram cronicamente desnutridas podem ser baixas (atrofiadas), bem como magras, de modo que suas curvas de peso por altura podem parecer relativamente normais. A desnutrição crônica, grave na infância pode deprimir o perímetro cefálico, que pode ser um preditor sinistro de deficiência cognitiva posterior. - O baixo peso para a idade ou a perda de altura ou peso podem ser chamados de emaciação. Quando os parâmetros de crescimento caem abaixo do percentil 5, os valores podem ser expressos como percentagens do valor mediano, ou padrão. Uma menina de 12 meses de idade que pesa 7,1 kg encontra-se em 75% do peso médio (9,5 kg) para a sua idade. - Outra maneira de avaliar o peso é determinar o peso corporal ideal para a altura e comparar o peso atual com o peso corporal ideal para o comprimento ou altura. - Um menino de 15 meses de idade que tem 79 cm está no percentil 50. O peso ideal é de 12 kg. Se ele pesa 8 kg (< percentil 5), ele tem 67% do peso corporal ideal, uma indicação de emaciação grave. A Tabela 15-2 fornece interpretação de porcentagem de peso corporal ideal desde obesidade até emaciação grave - Extremos de altura ou peso também podem ser expressos quanto à idade para a qual representariam o padrão ou mediana. Por exemplo, uma menina de 30 meses que tem 79 cm (< 5%) está no percentil 50 para uma criança de 16 meses de idade. - Assim, a idade para a altura é de 16 meses. A idade para o peso também pode ser expressa dessa maneira. A deficiência linear do crescimento (nanismo) é mais provavelmente resultado de causas congênitas, constitucionais, familiares ou endócrinas do que causada por deficiência nutricional - Nos distúrbios endócrinos, o comprimento ou a altura diminui primeiro ou simultaneamente ao peso; o peso para a altura é normal ou elevado. Na insuficiência nutricional, o peso diminui antes do comprimento, e o peso para a altura é baixo (a menos que haja nanismo crônico). - Na baixa estatura patológica congênita, um lactente nasce pequeno e o crescimento gradualmente se estabiliza durante a infância. As causas incluem anomalias cromossômicas (síndrome de Turner, trissomia do 21;), infecção perinatal, prematuridade extrema e teratogênicos (fenitoína, álcool) - No atraso de crescimento constitucional, o peso e a altura diminuem perto do fim da lactância, paralelos à regra até a metade da infância, e aceleram até o término da adolescência. O tamanho do adulto é normal. Na baixa estatura familiar, tanto o lactente como os pais são pequenos; o crescimento ocorre paralelo às curvas normais e imediatamente abaixo delas. - Embora amplamente aceito como a melhor medida clínica de sub e sobrepeso, o IMC pode não fornecer um índice preciso de adiposidade, porque não diferencia tecido magro, de tecido ósseo e de gordura. A medição da espessura da prega cutânea do tríceps, subescapular e suprailíaco pode ser usada para estimar a adiposidade; é necessário experiência considerável para a exatidão. IDADE PESO Primeira semana de desenvolvimento Perda fisiológica de 10% 1° trimestre 900g/mês – 25- 30g/dia 2° trimestre 600g/mês – 20- 25g/dia 3° trimestre 500g/mês – 15- 20g/dia 4° trimestre 400g/mês – 10- 15g/dia 4 – 5 meses 2x peso 12 meses 3x peso >2 anos 2 kg/ano + IMC IDADE ESTATURA Ao narcer > 50 cm 1° ano 25 cm (1-5 cm/mês) 2° ano 12 cm (0,5 – 2 cm/mês) 3° ano 9 cm (0,5 – 1 cm/mês) IDADE PERIMÉTRO CEFÁLICO Ao nascer > 32 cm 1° mês 2 cm Até 6° mês 1 cm (42-43cm) Até 12° mês 0,5 (45-47cm) Papel hormonal no crescimento e desenvolvimento de crianças de 0 até 2 anos de idade - O crescimento em seres humanos é um processo contínuo que inicia antes do nascimento. Entretanto, a taxa de crescimento em crianças não é estável. Os dois primeiros anos de vida e a adolescência são marcados por picos de crescimento e desenvolvimento rápidos. O crescimento normal é um processo complexo que depende de inúmeros fator: 1) Hormônio do crescimento e outros hormônios. Sem quantidades adequadas de hormônio do crescimento, as crianças simplesmente deixam de crescer. Os hormônios da tireoide, a insulina e os hormônios sexuais na puberdade também desempenham papéis diretos e permissivos. Uma deficiência em qualquer desses hormônios leva ao crescimento e ao desenvolvimento anormais. 2) Uma dieta adequada que inclua proteínas, energia (ingestão calórica) suficiente, vitaminas e minerais. Muitos aminoácidos podem ser produzidos no corpo a partir de outros precursores, porém os aminoácidos essenciais devem vir de fontes alimentares. Entre os minerais, o cálcio, em particular, é necessário para a formação adequada dos ossos 3) Ausência de estresse crônico. O cortisol proveniente do córtex da glândula suprarrenal é liberado nos períodos de estresse e tem significativos efeitos catabólicos que inibem o crescimento. As crianças que estão sujeitas a ambientes estressantes podem apresentar uma condição conhecida como falha no crescimento, que é marcada pelo crescimento anormalmente lento. 4) Genética. O tamanho adulto potencial de cada pessoa é determinado geneticamente na concepção. → FATOR DE CRESCIMENTO SEMELHANTE À INSULINA 1 - O principal fator de crescimento, tanto no período pré-natal como no período pós-natal, é a IGF-I (fator de crescimento semelhante a insulina 1), que age na epífise de crescimento. No período pós-natal, a IGF-I, sob a regulação direta do GH, é produzida no fígado e liberada na circulação e também produzida diretamente na epífise óssea. O GH, que é produzido na hipófise, também tem ação direta na placa de crescimento. - Enquanto a IGF-I estimula expansão e a hipertrofia, o GH estimula a diferenciação celular. Os hormônios tireoidianos estimulam a produção e a secreção de GH e estimulam a síntese de IGF-I GH-dependente. - Os glicocorticoides apresentam um efeito agudo de estimular o crescimento, mas uma exposição crônica a níveis elevados de glicocorticoides causa uma diminuição da síntese e da sensibilidade ao GH e, consequentemente, diminui a síntese de IGF-I e a proliferação celular, comprometendo o crescimento → HORMÔNIOS TIREOIDIANOS Além disso, os hormônios tireoidianos têm um efeito direto na placa de crescimento, estimulando a diferenciação terminal dos condrócitos e a atividade dos osteoclastos → HORMÔNIOS SEXUAIS - Os esteroides sexuais (androgênios e estrogênios) apresentam receptores específicos na placa de crescimento, além de estimularem a síntese de GH. O fechamento das epífises de crescimento é um efeito direto dos estrogênios → HORMÔNIO DO CRESCIMENTO - O hormônio do crescimento é liberado por toda a vida, embora o seu maior papel seja na infância. O pico de secreção do GH ocorre durante a adolescência. - O estímulo para a liberação do hormônio do crescimento é complexo e não estácompletamente esclarecido, mas inclui nutrientes circulantes, estresse e outros hormônios que interagem com o seu ritmo diário de secreção de estímulos para a secreção de GH são integrados no hipotálamo, o qual secreta dois neuropeptídeos no sistema porta hipotalâmico-hipófisário: hormônio liberador do hormôn do crescimento (GHRH, do inglês, growth hormone-releasing hormone) e hormônio inibidor do hormônio do crescimento, mais conhecido como somatostatina (SS). - Os pulsos do GHRH proveniente do hipotálamo estimulam a liberação de GH. Em adultos, o maior pulso de liberação do GH ocorre nas duas primeiras horas do sono. Especula-se que o GHRH tenha propriedades indutoras do sono, porém o papel do GH nos ciclos do sono não está claro. O GH é secretado por células da adeno-hipófise. - Ele é um hormônio peptídico típico na maioria dos aspectos, exceto que aproximadamente metade do GH no sangue está ligado à proteína ligadora do hormônio do crescimento plasmática. A ligação com as proteínas protege o GH plasmático de ser filtrado para a urina e estende a sua meia-vida por mais 12 minutos. - Os pesquisadores têm sugerido que a concentração das proteínas ligadoras é determinada geneticamente e exerce um papel na determinação da estatura do adulto. Os tecidos-alvo para o GH incluem tanto células endócrinas como não endócrinas. - O GH atua como um hormônio trófico para estimular a secreção de fatores de crescimento semelhantes à insulina (IGFs) (primeiramente chamados de somatomedinas) pelo fígado e por outros tecidos. Os IGFs têm um efeito de retroalimentação negativa na secreção do hormônio do crescimento, atuando na adeno-hipófise e no hipotálamo. - Os IGFs atuam em conjunto com o hormônio do crescimento para estimular o crescimento dos ossos e dos tecidos moles. Metabolicamente, o hormônio do crescimento e os IGFs são anabólicos para as proteínas e promovem a síntese proteica, uma parte essencial do crescimento dos tecidos. - O hormônio do crescimento também atua com os IGFs para estimular o crescimento ósseo. Os IGFs são responsáveis pelo crescimento das cartilagens. O GH aumenta as concentrações plasmáticas de ácidos graxos e de glicose por promover a degradação dos lipídeos e a produção de glicose hepática. - Os distúrbios que refletem as ações do hormônio do crescimento são mais evidentes em crianças. Deficiências graves do hormônio do crescimento na infância levam ao nanismo, que pode resultar de um problema na síntese do hormônio do crescimento ou com receptores defeituosos de GH. - Felizmente, a deficiência grave de hormônio do crescimento é relativamente rara. No extremo oposto, a hipersecreção do hormônio de crescimento em crianças leva ao gigantismo. - Uma vez que o crescimento ósseo cessa no final da adolescência, o hormônio do crescimento não pode aumentar mais a estatura. Contudo, o GH e os IGFs podem continuar atuando na cartilagem e nos tecidos moles. Os adultos com secreção excessiva de hormônio do crescimento desenvolvem uma condição chamada de acromegalia, caracterizada pelo alongamento da mandíbula, expressões faciais grosseiras e crescimento das mãos e dos pés - O crescimento dos tecidos moles exige quantidades adequadas de hormônio do crescimento, dos hormônios da tireoide e de insulina. O hormônio do crescimento e os IGFs são necessários para a síntese proteica e a divisão celular nos tecidos. Sob a influência desses hormônios, as células podem sofrer hipertrofia (tamanho celular aumentado) e hiperplasia (número celular aumentado). - Os hormônios da tireoide têm um papel permissivo no crescimento e contribuem diretamente para o desenvolvimento do sistema nervoso. No tecido-alvo, os hormônios da tireoide interagem sinergicamente com o hormônio do crescimento para a síntese proteica e o desenvolvimento do sistema nervoso. - Crianças com hipotireoidismo não tratado (cretinismo) não crescem até uma estatura normal, mesmo que secretem uma quantidade normal de hormônio do crescimento. - A insulina sustenta o crescimento dos tecidos, estimulando a síntese proteica e fornecendo energia na forma de glicose. Como a insulina é permissiva para o hormônio do crescimento, as crianças que têm deficiência de insulina não terão crescimento normal, mesmo que tenham concentrações normais de hormônio do crescimento e dos hormônios da tireoide Crescimento ósseo - O crescimento ósseo, assim como o desenvolvimento dos tecidos moles, requer os hormônios apropriados e quantidades adequadas de proteínas e de cálcio. O osso contém uma matriz extracelular calcificada formada quando os cristais de fosfato de cálcio precipitam e se fixam a uma rede de suporte constituída de colágeno. A forma mais comum de fosfato de cálcio é a hidroxiapatita, Ca10(PO4)6(OH)2. - Embora a grande quantidade de matriz inorgânica no osso faça algumas pessoas pensarem nele como algo não vivo, o osso é um tecido dinâmico, sendo constantemente formado e degradado, ou reabsorvido. Espaços na matriz cálcio-colágeno são ocupados por células vivas que são bem supridas de oxigênio e nutrientes pelos vasos sanguíneos que correm ao longo de canais adjacentes - Os ossos geralmente possuem duas camadas: uma camada externa de osso compacto denso e uma camada interna de osso trabecular esponjoso. Em alguns ossos, a cavidade central é preenchida com medula óssea. O osso compacto fornece força e é mais espesso onde é necessário à sustentação (como os ossos longos das pernas) ou no local onde se prendem os músculos. O osso esponjoso é menos resistente e tem espaços abertos preenchidos por células entre as trabéculas da rede calcificada. - Os ossos crescem quando a matriz é depositada mais rápido do que é absorvida. Células especializadas formadoras de osso, denominadas osteoblastos, produzem enzimas e osteoide, uma mistura de colágeno e outras proteínas na qual a hidroxiapatita se liga. - Pesquisas recentes encontraram outras duas proteínas, osteocalcina e osteonectina, que parecem auxiliar na deposição da matriz calcificada. O diâmetro do osso aumenta quando a matriz se deposita na superfície externa do osso. O crescimento linear dos ossos longos ocorre em regiões especializadas, chamadas de placas epifisárias, localizadas em cada extremidade da haste óssea (diáfise) - A parte da placa óssea mais próxima à extremidade (epífise) do osso contém colunas de condrócitos, células produtoras de colágeno da cartilagem, que se dividem continuamente. À medida que a camada de colágeno se espessa, a cartilagem mais velha calcifica, e os condrócitos mais velhos degeneram, deixando espaços que os osteoblastos invadem. - Os osteoblastos, então, depositam matriz óssea sobre a base de cartilagem. Conforme o osso novo é adicionado às extremidades, a diáfise alonga. O crescimento do osso longo continua enquanto a placa epifisária estiver ativa. Quando os osteoblastos completam o seu trabalho, eles convertem-se em uma forma menos ativa, denominada osteócitos. - O crescimento do osso longo está sob influência do hormônio do crescimento e dos fatores de crescimento semelhantes à insulina. Na ausência desses hormônios, o crescimento ósseo normal não ocorre. O crescimento dos ossos longos também é influenciado pelos hormônios esteroides sexuais. - O estirão de crescimento dos meninos adolescentes é atribuído geralmente ao aumento da produção de androgênios, porém, hoje, acredita-se que os estrogênios exerçam um papel significante no crescimento ósseo puberal em ambos os sexos. Em todos os adolescentes, os hormônios sexuais finalmente inativam a placa epifisária, de modo que os ossos longos não crescem mais. - Como as placas epifisárias de vários ossos se fecham em uma sequência regular e ordenada, os raios X que mostram as placas que estão abertas e as que estão fechadas podem ser utilizados para calcular a “idade óssea” de uma criança. O crescimento linear ósseo cessa no adulto, mas o osso é um tecidodinâmico que sofre contínuo remodelamento ao longo da vida. - A massa óssea corporal é outro exemplo de balanço de massa. Em crianças, a deposição óssea excede a reabsorção, e a massa óssea aumenta. Em jovens adultos de até cerca de 30 anos, a deposição e a reabsorção estão balanceadas. - A partir dos 30 anos, a reabsorção começa a exceder a deposição, com consequente perda óssea pelo esqueleto. Discutiremos perda óssea e osteoporose em mais detalhes no final deste capítulo. Um fator neuroendócrino que exerce um papel importante na massa óssea é o estresse mecânico sobre o osso. - Exercícios de alto impacto, como corrida, ajudam na construção do osso, mas exercícios livres de peso, como a natação, não o fazem. Aparentemente, os osteócitos atuam como mecanossensores e são capazes de transduzir o estímulo mecânico em sinais intracelulares que atuam na deposição óssea. Por outro lado, evidências recentes sugerem que os cílios primários dos osteócitos (p. 69) podem ser as estruturas sensoriais que respondem ao estresse. Principais exames para avaliar alterações no padrão de crescimento e desenvolvimento de 0 a 2 anos → INTRODUÇÃO Alta estatura - A alta estatura na infância frequentemente é de origem familiar ou relacionada a uma exposição precoce a níveis elevados, não fisiológicos para aquela idade, de esteroides sexuais. O avanço constitucional do crescimento e puberdade (ACCP) é uma condição em que o crescimento está levemente acelerado acompanhado de avanço na idade óssea proporcional. - Esse avanço na idade óssea antecipa o início da puberdade, mas não traz repercussões na estatura adulta, como pode ser visualizado na Figura 3. Frequentemente existe história familiar presente, daí a importância de se perguntar aos pais a idade em que eles iniciaram a puberdade. - É importante lembrar que as crianças expostas precocemente a níveis elevados, não fisiológicos, de esteroides sexuais apresentam alta estatura no período de crescimento, mas, como há aceleração na maturação da idade óssea, ocorre comprometimento da estatura adulta, levando a uma baixa estatura. Baixa estatura - Grande maioria das causas de baixa estatura durante o crescimento é de origem familiar. A fisiopatologia da baixa estatura pode envolver diversos mecanismos isolados ou a associação entre eles. A divisão de causas de baixa estatura entre baixa estatura idiopática, com suas variantes da normalidade, e causas patológicas parece bastante didática → INVESTIGAÇÃO DIAGNÓSTICA - Dez por cento dos quadros de baixa estatura são de causa endócrina. A maioria é familiar e um grande número é decorrente de doenças não endócrinas. Consequentemente, a avaliação deve ser feita de forma criteriosa com uma anamnese bem objetiva e um exame físico completo História - Dados sobre gestação e parto informam o que aconteceu no período intrauterino. Como é necessário ser saudável para crescer adequadamente, a busca de sintomas ou de um passado que aponte a presença de processos crônicos é fundamental. A estatura dos pais deve ser aferida e não somente inquirida, uma vez que o relato desta pode ser incorreto. Exame físico - Achados auxológicos podem fazer o diagnóstico. É importante que seja avaliado se a baixa estatura efetivamente existe, se há desaceleração ou parada do crescimento. - Para isso, é essencial que a criança seja monitorada pelo pediatra em um gráfico de crescimento ponderoestatural com o objetivo de avaliar se o seu canal de crescimento encontra-se fora do padrão familiar - O acompanhamento com avaliação da velocidade de crescimento é o parâmetro mais importante no diagnóstico de uma baixa estatura. Esse acompanhamento deve ser realizado com visitas espaçadas em, no mínimo, 6 meses, sendo que o período ideal é entre 9 e 12 meses. Deve-se lembrar que, em uma fase pré-início de puberdade, ocorre desaceleração fisiológica da velocidade de crescimento, a qual deve ser identificada no intuito de se evitar exames desnecessários e tranquilizar a família Exames laboratoriais - Anemia, alergia, infecções de repetição, estado nutricional, ritmo intestinal, desproporção corporal, raquitismo, história social e estigmas genéticos propiciam elucidação diagnóstica. A idade óssea é outro parâmetro essencial no acompanhamento e no prognóstico da estatura adulta. Nas crianças com RCCP, o atraso da maturação óssea pode significar potencial de recuperação estatural no final da puberdade. - Recomenda-se investigação laboratorial mínima para toda criança com baixa estatura, que deve incluir: - hemograma completo com VHS; - análise do sedimento urinário; - exame de fezes; - radiografia de punhos para avaliação da idade óssea. - Como a infecção do trato urinário pode ocorrer sem sintomatologia específica nos lactentes jovens, recomenda-se, também, a realização de urocultura, quando a criança tiver idade inferior a 24 meses. - Algumas causas de nanismo visceral são bastante evidentes na anamnese e exame físico, especialmente quando a criança apresenta outros sinais ou sintomas relevantes, como diarreia, icterícia, desproporção entre tronco/membros ou cabeça/membros, cianose, megalias, comprometimento neurológico ou alterações cardíacas e pulmonares graves. - Porém, é importante lembrar que existem causas viscerais de baixa estatura que muitas vezes passam despercebidas, como é o caso das nefropatias tubulares e intestinais e dos síndromes de má absorção, cuja única manifestação clínica pode ser a baixa estatura. - Quando a velocidade de crescimento estiver abaixo da esperada ou a baixa estatura for muito acentuada, recomenda-se acompanhamento mais frequente da criança, visando a melhor avaliação do parâmetro. A solicitação de exames laboratoriais nesses casos será direcionada pelos dados de anamnese e exame físico, especialmente quando a criança apresentar alguma queixa recente de baixa estatura de causa visceral. - Sabe-se que, nos dias atuais, entre as crianças que apresentam atraso importante na velocidade de crescimento, é muito menor o número daquelas com algum tipo de deficiência hormonal; portanto, antes de encaminhar a criança com baixa estatura para avaliação endocrinológica, cabe ao pediatra avaliar se a baixa estatura é de etiologia familiar, se está relacionada a crescimento intra-uterino retardado (alterações placentárias, infecções congênitas, síndromes dismórficas, alterações cromossômicas); se a criança já foi desnutrida ou pode ter alguma causa de nanismo visceral, como síndromes de má absorção, distúrbios renais ou metabólicos. - Em muitos desses casos, se desfizerão as suspeitas hormonais e, ainda, se pode ter apoio de estudo endócrino. Além disso, existe uma causa que, embora comum, muitas vezes é esquecida — a privação psicossocial. Desde a década de 1950 reconhece-se que crianças hospitalizadas ou que vivem em meio hostil apresentam deficiência no crescimento que, possivelmente, está relacionada à baixa produção de GH em função de uma diminuição nos estímulos hipotalâmicos. - Além desses exames citados, toda criança com baixa estatura importante (mais de 3 desvios-padrão em relação à média) que não tenha etiologia definida deve ser submetida à seguinte avaliação laboratorial: - Dosagem de cálcio, fósforo e fosfatase alcalina — para afastar raquitismo de etiologia carencial ou familiar. - Cariótipo — deverá ser realizado em toda criança com facies sindrômico, baixa estatura de início pré-natal, malformações e alterações genitais e naquelas que evoluem com baixa velocidade de crescimento. Esse exame é fundamental em meninas com baixa estatura e atraso na velocidade do crescimento, mesmo que não apresentem nenhum outro estigma da síndrome de Turner. - Dosagem de Na, K, uréia, creatinina e gasometria — para investigar se a criança não apresenta alguma nefropatia. Muitas vezes, a única manifestação da síndrome de Fanconi e das nefropatiastubulares é interessante em crianças jovens. - Estudo de proteínas totais, colesterol e pesquisa de gordura nas fezes — porque elevações no colesterol e pesquisa positiva de gordura nas fezes são um indicativo, respectivamente, de desnutrição proteica e má absorção, por destruição primária ou secundária. Se possível, recomendam-se também dosagens de cálcio por absorciometria para investigar doença celíaca. A doença celíaca, em muitos casos, pode cursar com déficit de crescimento isolado e seu diagnóstico definitivo é feito pela biópsia. - Glicemia de jejum: 10% das crianças com hipopituitarismo idiopático apresentam hipoglicemia de jejum assintomática, e 10%, convulsões por hipoglicemia, a qual também é frequente nas crianças com síndrome de Silver-Russel. - Radiografia de crânio: 80% dos indivíduos com hipopituitarismo idiopático apresentam diminuição no volume da sela túrcica e, no hipopituitarismo adquirido, muitas vezes, é fácil identificar a presença de calcificações quando este se deve a um craniofaringioma. - Dosagens de hormônios tireoidianos: o hipotireoidismo adquirido após a tireoidite de Hashimoto ou por descompensação de uma glândula tireoide hipoplásica ou ectópica, geralmente, não se acompanha por retardo mental ou por atrasos muito evidentes da idade óssea; além disso, em muitos casos de doença hipófisária observa-se, também, acometimento da tireoide. - A partir dessa avaliação clínica e laboratorial, o pediatra estará capacitado a identificar a maioria das causas de baixa estatura. Não há dúvida de que o GH exerce um papel fundamental na promoção do crescimento normal; todavia não se pode esquecer que, se a criança apresentar problemas nutricionais, metabólicos, psicossociais ou outras deficiências hormonais, a suplementação de GH será de pouca utilidade. - Portanto, antes de pesquisar deficiência de hormônio de crescimento, o pediatra deve afastar a presença de qualquer dos fatores que possam estar comprometendo o crescimento. - Sabe-se que a secreção de GH ocorre em picos, com maiores elevações durante o período de sono e que, na maioria das vezes, os valores basais do GH são normais, mesmo quando a criança apresenta hipopituitarismo. - Portanto, se existe um exame que o pediatra não deve solicitar na investigação da criança com baixa estatura, seguramente, é a dosagem do nível basal de GH. Quando houver suspeita de hipopituitarismo, a criança deverá ser referida ao especialista, pois o diagnóstico de deficiência de GH só pode ser confirmado após a realização de duas dosagens hormonais com testes de estimulação da hipófise (exercício, clonidina, arginina ou insulina). - Normalmente, são realizados, pelo menos, dois testes para avaliar a produção do GH, pois 10 a 20% das crianças normais não apresentam resposta normal quando se faz apenas um teste. - Infelizmente, muitos profissionais, enquanto investigam a causa da baixa estatura, prescrevem suplementos vitamínicos ou orexígenos como "placebo". Essa conduta não beneficia a criança e pode até prejudicá-la, visto que esses fármacos não são substâncias inertes. - Alertamos os pediatras para o risco associado ao uso de anti- histamínicos, que podem causar hipoglicemia ou diminuir ainda mais a glicemia de crianças com síndrome de Silver-Russel ou deficiência de GH. A prescrição desnecessária de medicamentos é, no mínimo, pouco ética e jamais deveria substituir a relação médico-paciente e o papel de orientador e educador que cabe ao pediatra. → TESTES DE AVALIAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOMOTOR Teste de Denver II - No Brasil a escala mais usada é o Teste de Triagem de Desenvolvimento Denver II, sendo também largamente utilizado em vários outros países. Tem como vantagens avaliação rápida de 20 a 30 minutos para aplicação, pode ser usado em crianças de 0 a 6 anos, possui adaptação cultural para o Brasil, treinamento e possibilidade de avaliação. - Possibilita a identificação e avaliação de domínios de atividade, função e participação Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) relacionados ao desenvolvimento neuropsicomotor (DNPM). Como desvantagem precisa ser complementado por outros instrumentos devido a não ser discriminativo até o sexto mês de vida - Esse instrumento de avaliação permite saber no momento da aplicação do teste, em que fase do crescimento a criança está. A performance é analisada através de 125 itens, separados em 4 ramos: - Pessoal –Social - Motora Fina –Adaptativa - Linguagem - Motora –Grosseira - De acordo com os resultados obtidos a resposta para esse teste pode ser: “passou”, “falhou”, “não observado” e “recusa”; referindo-se respectivamente a quando a criança faz o item com êxito, quando não conseguiu o item com êxito, quando não teve oportunidade de fazer o item ou quando a criança não quis fazer o item. - Depois a criança é classificada com desenvolvimento “típico”, quando não há atraso ou apenas um item de risco, e desenvolvimento “questionável” quando há a partir de dois itens de risco ou mais itens de atraso. Sendo “atraso” referência a criança não executar ou recusar a fazer tarefas já realizada por mais de 90% dos que tem a mesma idade; e, “risco” é em relação a criança não executar ou recusar realizar tarefas já feitas por 75 a 90% das crianças de sua idade Medida de Função Motora Grossa (GMFM) - Utilizada para examinar a motricidade grossa em crianças com disfunções do sistema neurológico e motor - Formada com a finalidade de avaliar a função motora grossa de crianças com Paralisia Cerebral; inicialmente com 88 itens sendo diminuído para 66 itens após um período de adaptação e conhecimento, sendo divididos em cinco dimensões Para avaliar o desenvolvimento da criança diante de cada item existem notas, geradas de 0 a 3, onde: 0- A iniciativa da criança; 1- A criança iniciando o que lhe foi proposto, porém com apenas 10% do movimento executado; 2- O movimento proposto é executado parcialmente e, 3- O movimento é realizado completamente. - Nesta avaliação são utilizadas órteses onde o terapeuta indicará ao paciente o seu uso. Traduzida para o português em uma versão onde se enfatiza a cultura brasileira, assim como as alterações de medidas do sistema britânico (pés, polegadas), para o sistema internacional (metros, centímetros); ainda assim, não foi possível fazer uma tradução co mpleta por não haver correspondência com algumas expressões da língua inglesa, em relação a semântica, idioma, cultura e do conceito de instrumentos foram analisados e as adaptações foram realizadas no questionário de qualidade de vida Escala Motora Infantil de Alberta (AIMS) - Uma escala utilizada na pesquisa científica e clínica em prática observacional a performance motora grossa (ampla) de bebês de 0 a 18 meses, é válida e confiável para avaliar o desenvolvimento de bebês canadenses, embora não haja uma versão traduzida para o Brasil, já existem escores e percentis indicados para a população Brasileira - O principal objetivo da escala é avaliar o desenvolvimento em sequência do controle muscular, em 4 posturas: - Prono, Supino, Sentado e de Pé. - A intervenção do examinador é mínima, estimulando a criança a movimentação espontânea e mudanças de posturas através de brinquedos. - Durante a avaliação são observados 58 itens, com critério de avaliação que varia de 0 a 58 pontos, que se divide em (9 itens em: Supino; 21, em prono; 12 sentado; 16 em pé) a cada item realizado pela criança o observador pontua com 01(um) escore e cada item não observado 0 (zero) escore - O uso da ficha de avaliação é fácil mesmo sendo em inglês, apresenta bastante imagens ilustrativas que facilitam a leitura do examinador, o teste é realizado a partir de um dinâmica, na qual a criança tem livre movimentação, não sendo utilizado avaliações de reflexos, nem manipulaçõesconsiderando o movimento antigravitacional e a descarga de pés Escala de Desenvolvimento do Comportamento da Criança (EDCC) - A EDCC é uma escala criada para crianças da população brasileira que tem por objetivo avaliar o desenvolvimento do comportamento de crianças de 1 a 12 meses em ambos os sexos. - Essa escala permite observar os comportamentos específicos da faixa etária, o ritmo e avalia de forma qualitativa o desenvolvimento de forma padronizada e segura - Esta escala possui fácil aplicação e avaliação, realizado através de uma ficha de anamnese por profissionais de diferentes especialidades, com o objetivo de buscar estratégias de intervenção precoce sempre que os desenvolvimentos relacionados a motricidade fina e ampla, linguagem e na área pessoal-social demostrarem um ritmo abaixo do esperado para sua idade - A escala analisa sessenta e quatro comportamentos que podem ser notados no primeiro ano de vida. Fazem parte de sua classificação; o comportamento motor axial e apendicular, espontâneo e estimulado, e o comportamento atividade; não comunicativo e comunicativo - Na escala EDCC é permitido analisar os comportamentos quanto ao tipo de ocorrência ou seja ela permite saber se o ritmo do desenvolvimento está dentro do e sperado, sendo em aparecimento, que indica o estado de aquisição, normalizado apresentan do frequência de 67% a 87% de crianças da mesma idade ou não normalizado, que apresenta o desenvolvimento normal ou de risco e estabilizado ou não estabilizado que apresenta frequência de 90% de crianças com a mesma idade apresentando atraso no desenvolvimento - O processo de avaliação o profissional utiliza as seguintes considerações com relação ao ritmo de desenvolvimento do comportamento: a. excelente, quando o resultado for “+” onde aparecem (A), normalizam (N) e estabilizam (E); b. bom, quando o resultado for “+” onde aparecem (N), estabilizam (E) e “-em comportamentos que aparecem (A); c. regular, quando o resultado do comportamento que normalizam for (N) tanto “+” quant o “-”, “+” em comportamentos que estabilizam(E), e “-” em comportamentos (A); d. de risco, quando o resultado do comportamento for “+” apenas em comportamentos que estabilizam(E), e “-” em comportamentos (A) e normalizam (N); e. com atraso, quando o resultado do comportamento for “- ” em comportamentos (A), normalizam(N) e estabilizam (E)