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ESTRUTURAS PSICANALÍTICAS 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Juliana Santos 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Durante nosso estudo, veremos as estruturas clínicas da psicanálise, são 
elas: neuroses, psicoses e perversão. Verificaremos que Freud pouco usou o 
termo estrutura, ele surge vez ou outra para abordar o diagnóstico diferencial. 
Pois foi Lacan que de fato inseriu o estruturalismo na psicanálise a partir da 
ciência linguística e, assim, conceitualizou os modelos estruturais da clínica 
psicanalítica. 
Assim, quando apresentamos uma estrutura clínica, estamos falando de 
uma conjunção de elementos que se encontram implicados em suas posições 
no interior do conjunto em suas relações mutuas. As leis válidas para o conjunto, 
sublinha Coelho (1976), são validas também para cada um de seus elementos 
isoladamente. (p. 21) 
 No período pré-psicanalítico que durou cerca de oito anos, e que 
antecedeu a publicação da Interpretação do sonho datada em 1900, é possível 
encontrar nos escritos de Freud uma pesquisa sobre as diferentes formas de 
constituição do psiquismo. Pois, desde o início, ele pôde se dar conta de que ao 
lado da histeria, enquadrada como uma neurose de defesa, poderia ocorrer um 
outro tipo de neurose: 
Foi-me preciso começar meu trabalho por uma inovação nosográfica. 
Ao lado da histeria, encontrei razões para situar a neurose das 
obsessões (Zwangsneurose) como uma afecção autônoma e 
independente, embora a maioria dos autores classifique as obsessões 
entre as síndromes que constituem a degenerescência mental ou as 
confunda com a neurastenia.”. (Freud, citado por Roudinesco, 1998, p. 
535) 
E, assim, com os desdobramentos da teoria do autoerotismo e narcisismo 
até a elaboração da segunda tópica, entre os anos de 1914 a 1924, Freud 
concebe uma diferenciação estrutural entre neurose e psicose. Onde a neurose 
é resultado de um conflito entre o eu e o isso, cujo efeito produz uma renúncia 
das exigências pulsional, produzindo o recalque. Contudo, Freud ressalta que o 
sujeito, nessa formação, preserva a realidade. Já na psicose, há uma 
perturbação entre o eu e o mundo externo e, por conta disso, o psicótico rompe 
com a realidade e produz uma realidade nova através de sua produção delirante 
e alucinatória. 
A perversão, como uma terceira estrutura, é caracterizada nos Três 
ensaios sobre a teoria da sexualidade, sendo ela uma manifestação bruta e não 
 
 
3 
recalcada da sexualidade infantil, pois trata-se de uma perversão polimorfa 
vivida na infância. Assim, Freud reúne as estruturas, na qual: a neurose é 
produzida pelo recalque, a psicose como reconstrução de uma realidade 
alucinatória e a perversão como efeito de uma renegação da castração, cujo 
gozo retorna na vida sexual. 
Para entendermos, então, a impotência do diagnóstico estrutural na 
clínica psicanalítica, iremos, primeiramente, considerar as dimensões que a 
separa da clínica médica, pois, ainda que os diagnósticos tenham herdado as 
mesmas nomenclaturas da clínica psiquiátrica, elas servem à psicanálise de 
maneira diferente e se sustentam por via de um outro discurso. Assim, para 
compreender o modo como a psicanálise atua sobre uma condição 
psicopatológica, é valido acompanhar, brevemente, a história da evolução da 
clínica medica, visto que ela foi a matriz da clínica terapêutica psicanalítica 
inventada por Freud. 
E para ampliar nosso entendimento a respeito do diagnóstico estrutural, 
pretendemos abordar as psicopatologias Operacional-pragmática, que estão 
inseridas nos DSM e no CID para que, dessa forma, possamos estabelecer um 
limiar entre a clínica psicanalítica e a psiquiatria. 
TEMA 1 – O MODELO DA ESTRUTURA CLÍNICA CLÁSSICA 
Na medicina clássica, é possível observar que o seu funcionamento se dá 
pela articulação entre classificação e ordenamento, que visam contribui para a 
construção de um domínio de linguagem, pondo em cena a semântica do termo, 
que determina o significado clínico de signos, traços, sintomas e síndromes. 
No projeto clínico moderno, busca-se estabelecer uma semiologia, isto 
é, uma classificação e organização de signos, índices, sintomas e traços que 
devem ser apresentados como diferenças significativas ao olhar clínico. Tipo: na 
febre, as alterações na coloração, na textura ou na forma de uma região do corpo 
são signos que se articulam de forma simultânea e sucessiva. Sendo, então, o 
total dessas articulações que devem ser captados pelo olhar clínico como uma 
unidade dotada de valor e significação. Nesse sentido o olhar clínico se 
estabelece apenas sobre a nomenclatura da doença, se reduzindo a essência 
de uma palavra (Dunke, 2011, p. 403). 
A sanção da ordem médica ocorreu no sec. XVIII, com o nascimento da 
clínica moderna, onde os sintomas vão se aproximar da matéria de linguagem 
 
 
4 
antes de ser recortada em unidades significantes, isso significa que os sintomas, 
no sentido lato, que incluem e se misturam com o mal-estar e o sofrimento que 
eram expressos, como vimos anteriormente, de forma narrativa, nesse momento 
da história passam a ser tratados como sintoma, no sentido estrito. Trata-se da 
operação da clínica do olhar. “É este movimento que torna o sintoma, como 
queixa genérica, ao sintoma no sentido clínico” (Dunker, 2011, p. 405). 
No entanto, se verifica que os pensamentos da clínica médica mantiveram 
estável a relação entre signos e seus referentes, pois só eram considerados 
signos os que, de fato, se apresentavam imediatamente legíveis na relação entre 
o olhar do clínico e o corpo do doente. Desse modo, o que se refere à fala ou 
lembrança do paciente, do relato de seus familiares e amigos ou da simples 
impressão do observador, segundo Dunker, possuíam um valor secundário e 
suspeito. 
Nesse sentido, o clínico ouve o paciente, mas, não o escuta. Ou seja, 
ouve na medida em que as informações, que lhe são transmitidas, possam ser 
cortejadas pela referência anatomopatológica. Assim, a clínica exclui o paciente 
como sujeito, pelo qual, o único sujeito, desta clínica, é o médico, cujo signo em 
certificar a doença como tal, é legitimo. 
E se na clínica clássica a semiologia é uma prática de leitura, o 
diagnóstico diz respeito a um ato, onde, nele se presume uma organização 
estável da semiologia, a saber, a nosografia. Dessa forma, o diagnóstico implica 
a capacidade de discernimento acerca do valor e da significação que um 
conjunto de signos possui quando estes aparecem de forma simultânea ou 
sucessiva na particularidade de um caso (Dunker, 2011, p. 407). 
Dunker nos remete à problemática do diagnóstico da clínica clássica, pois 
é possível existir inúmeras variações: síndrome, quadro, transtorno, disfunção, 
sintoma. Portanto, sua prática se torna ainda mais complexa por não possuírem 
um valor de diagnóstico fixo quando tomados de formas isoladas, ou quando são 
integrados numa situação de comorbidade em seu processo transformativo. 
O processo do diagnóstico inclui, também, a anamnese que implica um 
“desesquecimento” do passado da doença, pelo qual passa a relacionar-se 
sincronicamente com sua capacidade de estabelecer um prognóstico. A 
qualidade do prognóstico está, justamente, na possibilidade de estabelecer o 
curso esperado para a enfermidade naquele paciente específico. Assim, a 
diagnostica inclui não só a avaliação da perturbação, como também os recursos 
 
 
5 
e circunstâncias que o paciente dispõe para atravessar o seu processo mórbido. 
Portanto, na estrutura da clínica moderna, se supõe, também, uma causalidade, 
isto é, uma etiologia da doença, que segundo Dunker, está seria a ambição 
máxima do trabalho diagnóstico, que, além de descrever e classificar a 
enfermidade, visa indicar a causa precisamente. (p. 411) 
E por último, a estrutura da clínica clássica apresenta em sua perspectiva 
a operação terapêutica, que inclui todas as estratégias que visam interferir e 
transformara rede causal que constitui a etiologia, confirmam a diagnóstica e 
verifica o valor semiológico dos signos e sintomas. Desse modo, a ação 
terapêutica, na medida do possível, deve indicar a causa e, portanto, é nesse 
sentido que Freud veio estabelece a psicanálise como terapêutica das causas. 
Dito isso, Dunker compara as três tradições arqueológicas que compõem 
a psicanálise com a da clínica em relação às estruturas e dispositivo de 
tratamento: 
1. As técnicas de tratamentos têm seus métodos definidos pela 
aspiração moderna científica: nesse caso, a noção de terapia 
subordina-se aos procedimentos de estrutura do tratamento (semiologia, 
diagnóstico e etiologia). No entanto, vê-se que a estrutura da clínica 
absorve em seu interior a metafísica do retorno, pela qual os signos 
retornam aos mesmos lugares, nos mesmos tempos, caracterizando a 
diagnostica das doenças. Dessa forma, o restabelecimento passa a 
contornar ângulos fisiológicos (organismo), clínico (funcionalidade da 
vida), ou da medicina social (equilíbrio antropológico); 
2. Observa-se a tradição da terapia como aspiração de recomposição 
social e integração narrativa. Nesse caso, a relação com a estrutura 
clínica é de sobreposição incidental, indica Dunker, pela qual a tradição 
terapêutica onde noção de “sanação” diz respeito à diminuição ou retirada 
de sofrimento é entendida como noção moral e política, sendo, portanto, 
indiferente para a estrutura clínica. Assim, surgem os espaços residuais, 
que desenvolverão práticas higienistas, cuidados com o corpo, e no 
campo da saúde mental, a psicoterapia francesa, a terapia moral entre 
outras técnicas de alívio de sofrimento, formado pelo campo não 
recoberto pela estrutura. (p. 417) 
3. A tradição da cura: de modo mais simplista, esta designaria a extinção 
do processo patológico. Aqui, há várias vertentes para serem pensadas 
 
 
6 
contextualizando com o momento histórico de cada época. Mas, a partir 
da segunda metade do século XIX, Dunker sublinha que essa noção tende 
a representar aquilo que era essencial à clínica na antiguidade e torna-se 
contingente na clínica moderna: a atitude ética do médico diante do 
doente. Gradualmente essa atitude vai se transferindo para os auxiliares 
do médico. O médico observa e trata, o enfermeiro cuida, o padre cura (p. 
419). 
Desta feita, a ação terapêutica inclui três aspectos heterogêneos: a 
intervenção metódica no quadro da estrutura da clínica, a atitude de cuidado, 
atenção e acompanhamento e a utilização de técnicas secundárias, adjuvantes 
ou auxiliares. 
TEMA 2 – A SUBVERSÃO DA CLÍNICA PSICANALÍTICA 
A novidade trazida por Freud à clínica refere-se a mudanças estruturais, 
ao invés de caminhar da semiologia para o diagnóstico e daí sustentar uma 
hipótese etiológica. Freud faz um caminho contrário e parte do “ponto fraco” do 
sistema – a terapêutica, cuja estrutura é dada pelo ponto de vista tópico, 
dinâmico e econômico. Para isso, ele dá a palavra às histéricas abrindo um novo 
campo discursivo completamente inédito. 
Verifica-se, então, que o sistema estava adequado para que não se 
passasse da semiologia à terapêutica sem passar pela diagnostica. E não se 
chegasse à diagnóstica sem semiologia; e para que não se fosse da diagnóstica 
à etiologia sem passar pela semiologia ou pela terapêutica. Por fim, era possível 
conceber as circulações fechadas entre diagnostica e semiologia, ou a pequena 
circulação envolvendo semiologia, diagnóstico e terapêutica. 
 
Terapêutica Diagnostica 
 
 Etiologia Semiologia 
 
A proposta de Freud se dá após a descoberta dos sintomas histéricos, 
descreve Dunker, visto que as histéricas podiam simular os sintomas através da 
sugestão hipnótica. E assim, conforme especificou Bercherie, “podemos falar em 
clínica psicanalítica sob a condição de não esquecer que, nesta expressão 
 
 
7 
composta, o adjetivo é mais importante do que o substantivo, e os dois termos 
são inseparáveis” (Bercherie, citado por Dunker, p. 440). 
Portanto, podemos verificar que a clínica psicanalítica submeteu a 
estrutura clínica aos seus próprios pressupostos, pelo qual Dunker declara que, 
“a psicanálise subverte, na acepção forte do termo, o estatuto dos parâmetros 
da clínica da qual se originou.” (p. 440). Pois, então, se o sentido de subversão 
é inverter e deslocar o sentido de um processo, podemos pensar que a 
psicanálise promoveu uma ruptura constitutiva quando passa da clínica do olhar 
para uma clínica da escuta. 
2.1 Semiologia 
 Freud abandona o sistema baseado na semântica orgânica, onde se 
prescrevia a estabilidade dos signos em relação a seu referente, e passa a se 
interessar pelo seu carácter singular e instável da ligação entre o significante e 
o significado e pelo aspecto multifacetado e temporal da produção da 
significação. Isso significa que numa conversão histérica, com paralisia de um 
membro, isso se realiza sobre a representação que o sujeito faz desse membro, 
e não pela sua estrutura anatômica, ou seja, é o órgão sociossimbólico e não o 
órgão anatômico que é convertido. 
 Dessa forma, a clínica psicanalítica rompe com o estilo epistêmico em 
relação aos relatos clínicos, pelo qual passa a realizar uma genealogia do sujeito 
e uma arqueologia do sentido. Visto que, as regras de composição do sonho, 
dos chistes, dos atos falhos e dos sintomas possuem uma semiologia própria, 
da qual se assenta a noção de inconsciente. 
2.2 Etiologia 
 No plano da etiologia, Dunke afirma que a psicanálise introduz uma 
subversão correlativa da noção de causalidade, sendo este o tema que a domina 
desde sua origem. 
 Ao contrário da tradição que reinava no período da publicação do Estudos 
sobre histeria, onde era enfatizada a diagnóstica e a semiologia, Freud sempre 
esteve concentrado na possível articulação entre etiologia e terapêutica, pelo 
qual é possível verificar nos primeiros textos pré-psicanalíticos e principalmente 
nas correspondências com Fliess, essa intenção. 
 
 
8 
 Em Lacan a noção da etiologia passará por dois momentos de revisões: 
no primeiro momento, a noção de causalidade é revertida pelo conceito de 
estrutura. “A estrutura não é nem um mecanismo, nem uma rede de condições, 
e também não se reduz à determinação dialética reflexiva, mas de certa forma, 
pode ser construída de modo a agregar dentro de si todos estes modelos de 
causalidade.” O segundo momento “reintroduz a noção de causalidade do sujeito 
(alienação e separação como categorias existenciais) e objeto a causa de desejo 
(como causa negativa) e depois disseminada na teoria do real sob as diferentes 
expressões da causalidade negativa.” (p. 450 -51). 
2.3 Diagnóstica 
 Nesse ponto, encontramos, talvez, a maior subversão, onde Freud, no 
lugar de uma exaustiva classificação e de uma descrição objetivante, introduz 
uma homogeneidade entre tratamento e diagnóstico. E se na psiquiatria a 
posição de sujeito era tomada pelo discurso médico, representado pela figura do 
médico, situação na qual o objeto era o paciente representado pelo seu corpo, 
Freud inverte essa relação: aqui, o paciente é quem toma a posição de sujeito e 
que será posto por condição do método clínico. Assim, o analista exercerá a 
posição de objeto, ainda que no lugar de agente do discurso. Seguindo essa 
estratégia, Dunker acrescenta: 
O diagnóstico é a leitura dessas articulações entre traços, significantes 
e sintomas em sua reatualização da realidade sexual do inconsciente, 
ou seja, é o diagnóstico feito não apenas através da transferência, mas 
da transferência. Isso implica uma reformulação radical da 
psicopatologia. Ela não exprime quadros fixos para um observador 
anônimo, mas formas mais ou menos regulares de transferência. 
(Dunker, 2011, p. 457) 
 Portanto, se o trabalho do diagnóstico depende da semiologia, como 
apresentamos acima, na psicanálise a semiologia não implicanuma semântica 
de regime de signos fixos, de modo que a universalidade está apenas na forma 
vazia das leis de articulação do inconsciente e da pulsão. Assim, o trabalho de 
diagnóstico deve ser feito através de isolamento de significantes particulares que 
aparece na articulação de cada paciente. 
 A linguagem entra na diagnostica psicanalítica não apenas como 
estrutura, sublinha Dunker, mas como mediação fundamental na dialética com o 
Outro. A linguagem tem a dimensão da alteridade, o campo simbólico, no qual o 
 
 
9 
sujeito está submetido, “que o constrange ali onde ele não é mais senhor em sua 
própria morada”. (p.458) 
 É importante termos a distinção entre o diagnóstico para a clínica médica 
da clínica psicanalítica, pois na primeira o paciente é objetivado ao seu 
diagnóstico em forma de uma alienação, enquanto na psicanálise o analisante 
não perde sua posição de sujeito para o seu diagnóstico. 
 Os desdobramentos do diagnóstico em psicanálise têm a prerrogativa de 
se completar apenas ao final do tratamento, de modo que a cada sessão deve-
se buscar a posição do sujeito nas transferências, isso, porque em psicanálise a 
investigação diagnóstica diz respeito à exploração e construção da fantasia, pelo 
qual, em última análise o que se busca é um diagnóstico etiológico (p. 459). 
 Quantos às categorias semiológicas e diagnósticas, Freud importou e 
manteve as noções descritivas da psiquiatria: histeria, neurose obsessiva, fobia, 
paranoia (demência precoce), esquizofrenia, melancolia, sadismo, fetichismo e 
masoquismo. O mesmo aconteceu com outros níveis semiológicos. No entanto, 
Dunker demarca, neste ponto, três procedimentos decisivos para a clínica 
psicanalítica que subverteram a clínica clássica: 
1. A separação entre psiconeuroses de defesa (fobia, neurose obsessiva, 
histeria e paranoia) e psiconeuroses atuais (neurastenia, hipocondria e 
neurose de angústia) tem como crivo de organização a incidência 
diferencial da sexualidade. A separação entre neuroses de transferência 
(histeria de angústia, histeria de conversão e neurose obsessiva) e 
neuroses narcísicas (melancolia, paranoia e parafrenia) tem como 
princípio de ordem a relação diferencial da circulação da libido entre o 
eu e os objetos. A separação entre psicoses, neuroses e perversões tem 
como parâmetro a relação com a perda da realidade. Desse modo, 
verifica-se que são os conceitos psicanalíticos que comandam as 
redescrições e não apenas as descrições clínicas puras dos quadros 
psiquiátricos. 
2. A introdução de nova categoria clínica, como as neuroses atuais (de 
angústia, neurastenia, hipocondria), a parafrenia (espécie de híbrido entre 
paranoia e esquizofrenia), e as neuroses não estruturais (neurose de 
caráter, neurose de destino, neurose traumática). Assim, Dunker assinala 
que “não há dependência ou soberania da origem psiquiátrica das 
 
 
10 
descrições”, pelo qual elas se apresentam como verdadeiras 
contribuições da psicanálise à clínica em geral. 
3. As redescrições das categorias da clínica clássica, que Dunker considera 
ser a de maior importância, na psicanálise não foi reduzida a uma 
linguagem regional de uso próprio apenas pelos psicanalistas, ainda que 
sua circunscrição seja para o tratamento que lhe será próprio. No entanto, 
foi preciso essa redescrição para as categorias da diagnóstica 
psicanalítica, cujo objetivo foi sujeitá-las à dependência de sua 
semiologia, de sua terapêutica e de sua concepção etiológica. Mas, o que 
Dunker nos chama a atenção é que, nem sempre esse trabalho de 
redescrição foi orientado pelas exigências da metapsicologia, visto que é 
possível observar na história da psicanálise inúmeras afecções que 
migraram para o seu interior sem um trabalho de redescrição subversiva. 
De modo que encontrarmos vários tipos de categorias como a depressão, 
a dependência química, o déficit de atenção, os transtornos psicomotores, 
os problemas de aprendizagem e outros inúmeros gêneros que foram 
empregados em seu valor de face descritiva, sem qualquer consideração 
pelo seu funcionamento na clínica psicanalítica. Por outro lado, sublinha 
Dunker, há também algumas categorias introduzidas pela própria 
psicanálise, tais como os estados-limite e casos borderline. (p. 461) 
Em Lacan, os fundamentos naturalistas serão completamente afastados 
do campo da psicopatologia, contudo, deixaremos para nos aprofundar nos 
diagnósticos a partir de Lacan quando tocarmos no tema das estruturas clínicas. 
2.4 Terapêutica 
 Sobre a questão da terapêutica, Dunker nos remete ao texto do próprio 
Lacan: Variantes do Tratamento Padrão, de 1955. E sublinha que a terapêutica 
psicanalítica se caracteriza por acolher o discurso reconhecendo “o poder 
discricionário do ouvinte para elevá-lo a uma segunda potência” (p. 472). Desse 
modo, quem escuta tem de fato o poder discricionário, isto é, determina o sentido 
da mensagem e não que a profere, mas, ao invés de se colocar como intérprete 
do discurso do paciente, cabe a ele devolver ao analisante suas próprias 
palavras para que ele possa se apropriar delas e reconhecer nelas o seu desejo. 
 
 
11 
Sendo assim, as exigências terapêuticas, afirma Dunker, são exigências 
de discurso: interrupção, contenção, coerência, racionalidade interna, 
referencialidade externa, aceitação pelo outro. Pelos quais os critérios 
terapêuticos são critérios de linguagem: fala constitutiva, discurso constituído. E 
sobre a questão da técnica terapêutica, encontramos algo que foge à questão 
da técnica, ou seja, o desejo do analista que diz respeito a “considerar a ação 
que lhe cabe na produção da verdade”, sendo este, ponto de intersecção entre 
o plano da terapia e o plano da cura em psicanálise, conclui o autor (p. 473). 
Dunker ainda nos apresenta um quadro, proposto por ele, onde nos ajuda 
a situar as operações de covariância internas à terapêutica psicanalítica: 
Quadro 1 – Operações de covariância internas 
 Momento do tratamento Operação lógica Operação clínica 
Primeiro tempo 
Entrevistas preliminares 
Ou não penso 
ou não sou 
Retificação das relações 
com o Real 
Implicação subjetiva Desalienação Entrada em análise 
Neurose de transferência 
Corte 
(operação verdade) 
Interpretação 
Segundo tempo Mutação da transferência Não penso e não sou 
Análise das resistências 
Travessia da angústia 
Travessia das 
identificações 
Terceiro tempo 
Construção da fantasia 
Penso onde não sou 
Sou onde não penso 
Castração 
Separação entre sujeito 
suposto saber e objeto a 
Luto (não penso) Queda do objeto a 
Destituição Subjetiva Separação (não sou) 
Passagem de analisante 
a analista 
TEMA 3 – AS PSICOPATOLOGIAS E A PSICANÁLISE 
Psicopatologia é o termo usado para designar as manifestações das 
doenças mentais. A palavra vem do grego: psique = “alma” e pathos = “doenças”, 
ou seja, doenças da alma ou doenças do espirito. Os elementos que constituem 
sua disciplina – semiológicos e diagnósticos, são partilhados entre a psicologia, 
psiquiatria e psicanálise, cujas definições foram erigidas da medicina. A 
psicopatologia, como prática, pretende estabelecer a distinção diagnóstica e 
explicá-la. 
Assim, para alinhar o entendimento dos diversos profissionais sobre 
questões, critérios e conceitos relacionadas à saúde, tais como: diagnóstico, 
funcionalidade e incapacidade, a Organização Mundial de Saúde recomenda 
algumas classificações internacionais, onde é utiliza uma linguagem comum 
padronizada, permitindo, dessa forma, uma comunicação segura. 
 
 
12 
Dunker e Kyrillos Neto (2011), no artigo: A psicopatologia no limiar entre 
psicanálise e a psiquiatria: estudo comparativo sobre o DSM, declaram: 
Pelo número de disciplinas, disparidade de métodos e diversidade de 
posições, vê-se que a psicopatologia exige e implica a tomada de 
posição, visando organizar de modo coerente e homogêneo práticas 
terapêuticas e diagnósticas,bem como discursos semiológicos e 
etiológicos (Dunker, 2010). Isso implica a articulação entre 
experiências regulares de aspecto universal pelas quais pathos 
aparece como determinação excessiva ou deficitária e experiências 
contingentes ou singulares pelas quais pathos aparece como 
indeterminação produtiva ou improdutiva (Honneth, 2007). Não se trata 
de oposição simples entre quantidades e qualidades, entre 
singularidade e universalidade, mas da lógica de constituição da 
experiência, ou seja, do real e do regime de verdade em curso na 
psicopatologia. (Dunker; Kyrillos Neto, 2011) 
Portanto, as psicopatologias se desenvolveram conceitualmente num 
terreno de trocas conceituais entre psiquiatria e psicanálise, contudo, a oposição 
na contemporaneidade entre elas parece atualizar um dilema antigo entre corpo-
alma, impondo uma distância cada vez maior na medida em que a clínica do 
caso a caso, tão cara à psicanálise, não consegue encontrar lugar nas 
classificações consideradas universais e generalizáveis. Portanto, resta-nos 
saber o que sobrou de diálogo entre esses dois campos. 
 Sendo assim, precisamos, primeiramente, conhecer os instrumentos que 
geraram essa correspondência psicanalítico-psiquiátrico, onde se destacam três: 
• CID: critérios para diagnóstico de doença: fornece código que gera motivo 
para vincular a pessoa a um serviço de saúde ou garantir direitos jurídicos. 
• DSM: critérios diagnósticos para transtornos mentais. 
• CIF: caracteriza a funcionalidade e limitação, mas não define diagnóstico 
e não dá nome de doença. Apresenta apenas as manifestações das 
doenças / patologias. A CIF contribui por fazer uma descrição das 
condições atuais da pessoa em relação ao que ela tem de positivo e 
negativo, ou seja, o que ela consegue ou não fazer em determinado 
contexto. Não se propõe a investigar e nem descrever determinantes, ou 
seja, não se detém ao que levou a pessoa a estar assim atualmente. 
Apenas descreve as potencialidades e limitações para a vida diária em 
determinado contexto. Tem aplicação universal e é bastante útil para 
fundamentar laudos sobre saúde mental. 
O principal deles é o que tomaremos para análise: o Diagnostic and 
Statistic Manual of Mental Disorders (DSM), editado pela Associação Americana 
 
 
13 
de Psiquiatria (APA). Em sua primeira versão, o DSM-1 (1952), reconhece o 
papel proeminente da psicanálise. Nele se revelou, pela primeira vez, a tentativa 
de concilia a classificação, que era provida pela Organização Mundial da Saúde 
- a Classificação Internacional de Doença (CID-6), as ideias psicanalíticas e 
psicopatológicas subjacentes, na qual elas poderiam conter particularidades não 
tão facilmente aceitas no resto do mundo. Mas, a partir do DSM-III (1980-1987), 
foi observada a retirada gradativa das categorias e signos clínicos advindos da 
psicanálise para serem substituídos por entidades “propriamente psiquiátricas”. 
Assim, nos DSM de nossos dias, que tipo de expressão poderíamos encontrar 
no campo da psicopatologia que seria capaz de contemplar as referências 
clínicas, semiológicas e diagnósticas tanto de solo psicanalítico quanto 
psiquiátrico? 
3.1 A evolução dos DSM 
 O DSM é um manual diagnóstico e estatístico que possui relação com a 
classificação de transtornos mentais e de comportamento da Classificação 
Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS). Pelas 
palavras de Dunker e Kyrillos Neto: “o DSM é um imenso empreendimento 
coletivo, do qual participam diferentes grupos de trabalho, comportando milhares 
de pesquisadores divididos em seções que expressam orientações teóricas e 
clínicas distintas”. 
 No DSM-I, encontramos uma lista de diagnósticos categorizados, isto é, 
um glossário com descrição clínica de cada categoria diagnóstica. E através dele 
surge uma série de revisões sobre questões relacionadas às doenças mentais. 
 Em 1968, foi publicado o DSM-II, desenvolvido paralelamente com a CID-
8, que trouxe apenas pequenas alterações nas terminologias. As alterações 
importantes vieram na publicação do DSM-III em 1980, quando a APA introduz 
modificações metodológicas e estruturais. 
É, portanto, a partir do DSM-III, que o enfoque passa a ser mais descritivo, 
com critérios explícitos de diagnóstico organizados em um sistema multiaxial. 
Seu objetivo era facilitar a coleta de dados estatísticos. Em 1987 o DSM-III passa 
por uma revisão e sua publicação é feita como DSM-III – R. Nessa nova revisão, 
a homossexualidade foi retirada de uma condição patológica e posta nos termos 
de Homossexualidade Egodistônica. Mas o ponto que definitivamente 
estremeceu a relação entre psicanálise e psiquiatria fico sob a supressão do 
 
 
14 
conceito de neurose, visto que se trata da classe fundamental da psicopatologia 
psicanalítica. 
 Dunker e Kyrillos Neto mencionam que, a partir do DSM-III, a psiquiatria, 
pela primeira vez, define-se em oposição à psicoterapia e “os psicoterapeutas 
são acusados de criar demandas e serviços para aqueles que realmente não 
estavam doentes, mas apenas descontentes (discontents)” (Mayes; Horwitz, 
citado por Dunker; Kyrillos). Por outro lado, os psicanalistas se posicionaram 
contra os psiquiatras partidários de uma visão fiscalista do transtorno mental. 
 Em 1994, foi publicado o DSM-IV, esse período representa uma grande 
mudança no manual que resultaram na inclusão de novos diagnósticos descritos 
com maior critério e precisão, sendo que, em 2013, ele passa por uma revisão e 
é lançado como DSM-IV – TR, um manual diagnóstico e estatístico que está 
relacionado ao CID-10. Antonio Quinet (2009) nos reporta que a partir dessa 
publicação os tipos clínicos da neurose (histeria, neurose obsessiva e fobia) 
foram retiradas do catálogo, e no campo da psicose apenas permaneceu a 
esquizofrenia, sendo removida a paranoia e melancolia. 
Ao se substituir as doenças própria da psiquiatria clássicas por 
transtornos, opta-se mais pela descrição e pela comunicação desses 
fenômenos entre colegas que por uma clínica em que cada caso seja 
efetivamente um caso e onde os fenômenos sejam considerados 
sintomas, ou seja, formações entre as diversas instancias do aparelho 
psíquico. (Quinet 2009, p. 11) 
 Para Pessoti (1999), a CID, o DSM, tem por finalidade padronizar os 
critérios diagnósticos, o registro estatístico e o entendimento entre os clínicos, 
criando uma linguagem comum para a psiquiatria. 
 Kyrrillos, em seu artigo: DSM e psicanálise: uma discussão diagnóstica, 
enfatiza que entre a psicanálise e psiquiatria não se trata de uma disputa 
ideológica, “a psicanálise conservou a função diagnóstica da psiquiatria sem 
deixar de se referir à psiquiatria clássica, mantendo a relevância e a 
singularidade da fala de cada sujeito tanto no nível do enunciado quanto no da 
enunciação”. E conclui o autor, “o que colocamos em questão é que atualmente 
a psiquiatria encontra-se tomada pelo furor sanandi da farmacopeia, 
abandonando o seu saber clássico e clínico”. 
 Atualmente, temos vigente o DSM-V, publicado também em 2013, 
resultado de doze anos de estudos de diferentes grupos de trabalho. Seu 
objetivo foi trazer uma nova classificação, com a inclusão, reformulação e 
exclusão de outros diagnósticos. O DSM progressivamente foi ficando cada vez 
 
 
15 
menos preocupado com a etiologia e voltado para o uso de drogas dotadas de 
eficácia para fazer correções biológicas capazes de suportar sua prática. Assim, 
a psiquiatria afasta-se progressivamente da psicanálise e dos seus preceitos 
conceituais e clínicos. 
TEMA 4 – PASICANÁLISE E PSICOPATOLOGIA 
 Para abordar as psicopatologias pelo olhar da psicanálise, é preciso 
efetuar um diagnóstico que, como vimos, diz respeito a um reconhecimento de 
um conjunto de signos, contudo, ela não se explica pela etiologia orgânica, mas 
pela linguagem, pois, na psicanálise, as psicopatologias estão diretamente 
ligadas ao recalcamentodo desejo. 
 O desejo está desde sempre, para a psicanálise, na origem edipiana e, 
ainda que as modalidades dos sintomas se transformem de acordo com o seu 
tempo, o diagnóstico será fruto de um processo de construção do caso clínico 
que deve, necessariamente, se referir à estrutura que o condiciona. Freud, ao 
desenvolver a metapsicologia, pôde conceber um modelo para as 
psicopatologias clínicas da psicanálise a partir das formações inconsciente, a 
saber: neuroses, psicoses e perversão. 
 Antonio Quinet (2009), em seu livro Psicose e laço social, declara: “Freud 
mostrou que as leis do inconsciente estão presentes em todos os sujeitos: 
neuróticos, perversos e psicóticos”. Assim, ele encontra semelhança da 
formação dos sonhos com a formação dos sintomas neuróticos, a analogia do 
sonho com a alucinação e seu parentesco com a psicose”. (Quinet, 2009, p. 13). 
 No texto Considerações acerca do DSM-IV, os autores Roberto Calazans, 
Pedro Sobrino Laureano e Fuad Kyrillos Neto (2019), a respeito da etiologia, 
dizem: “a respeito da hipótese etiológica, Freud não se contenta apenas em 
deslocar para o psiquismo a causa dos distúrbios. Ele confere valor etiológico ao 
fracasso mesmo de representação da causa”. (p. 71). Isso significa que a 
etiologia do sofrimento será buscada, na psicanálise, à falha de inscrição 
psíquica do evento traumático. 
 Foi assim que Freud fez no Estudo sobre histeria: ele transpôs a 
dificuldade etiológica, encontrada pela medicina, para o psiquismo do doente, 
pelo qual declara: “as histéricas sofrem de reminiscência” (Freud; Breuer, 1895, 
p. 217). 
 
 
16 
 O sintoma é efeito de um trabalho psíquico bastante elaborado que surge 
diante do mal-estar que acomete o sujeito e, como sublinha Silvia G. Myssior e 
Zilda Machado (2019) no texto: O que será das atividades da criança, ele “tem a 
função essencial de sustentar a estrutura do aparelho psíquico” (p. 115). 
 O texto O único não cabe no Manual, escrito pelas autoras: Cláudia 
Ferreira Melo Rodrigues, Cláudia Aparecida de Oliveira Leite e Rogéria Araújo 
Guimarães Gontijo (2019), afirma que narrativa sempre única do mal-estar 
escapa ao imperativo da codificação universal que o manual (DSM) propõe, pois 
a singularidade emerge na estampa de cada vivência de sofrimento. E foi assim 
que Freud concebeu a psicanálise, destacando a maneira única em que cada 
um é afetado para dizer do seu sintoma. “A estranha psicanálise demarca que o 
initium subjetivo é operado pelo traço unário, essa marca que recebemos do 
Outro e que traz para cada um a inscrição da diferença absoluta.” (p. 129). 
 Portanto, se a proposta do DSM é a de silenciar o sujeito, uma vez que 
oferta universalmente a descrição do sintoma, levando a palavra do que confere 
o “cada um” a desaparecimento, a psicanálise sustenta a palavra como direção 
de cura. 
É imprescindível entender que ainda que a psicanálise tenha mantido as 
categorias psicopatológicas da psiquiatria clássica, Freud construiu uma 
semiologia própria da psicanálise e incluiu algumas inovações que na época 
acabaram influenciando as classificações da própria psiquiatria. 
TEMA 5 – A QUESTÃO DO DIAGNÓSTICO EM PSICANÁLISE 
 A importância do diagnóstico diferencial em psicanálise não está para 
submeter o sujeito a uma categoria, nem mesmo a noção de estrutura clínica 
deve ambicionar a totalização da subjetividade e de suas formas de sofrimento, 
como nos adverte Dunker (2011), pois, assim, seria o mesmo de confundir 
semiologia e diagnostica, mas, na verdade, se trata de considerar a posição do 
sujeito no Édipo, ou seja, o modo como o sujeito entra na linguagem e a sua 
relação com a realidade. Desse modo, o psicanalista não trabalha com o 
diagnóstico, mas efetua uma leitura sobre o modo como sujeito é incidindo pela 
linguagem. 
 Nesse sentido, verificamos que o diagnóstico na clínica psicanalítica está 
relacionado à estrutura do sujeito e não aos fenômenos, portanto, o analista, ao 
nomear a estrutura do paciente, incide sobre a condução do tratamento, 
 
 
17 
mantendo em seu horizonte aquilo que se impõe como verdade singular do 
sujeito. 
 Contudo, Freud buscou referências dos grandes nomes da psiquiatria 
clássica, como Kraepelin, fazendo da psicopatologia um tributo a ela. Reuniu as 
neuroses no fim do século XIX, com uma formulação etiológicas, muito diferente 
daquelas preconizado pela clínica psiquiátrica, pois, Freud possibilitou uma nova 
maneira de compreender os fenômenos e situou os sintomas numa relação de 
compromisso entre as diversas instancias do aparelho psíquico. 
 Os termos Verdrängung, Verwerfung e Verleugnung (repressão, rejeição 
e negação), que a princípio não representavam o marco divisório, aos poucos 
vão ganhando na obra freudiana a importância de um mecanismo que efetua 
uma forma de defesa especifica do sujeito e que determinará a sua constituição 
estrutural. 
Para a psicanálise, o diagnóstico estrutural é, portanto, o resultado de uma 
investigação feita no um a um, no registro simbólico, pois é desde aí, onde todas 
as questões fundamentais do sujeito estarão articuladas (sobre sexo, morte e 
procriação) e por onde podemos encontrar os três modos de negação do Édipo, 
que correspondem às três estruturas clínicas: 
1. Recalque = neurose, a castração do Outro é negada na consciência e 
mantida no inconsciente. 
2. Desmentido = perversão, a castração do Outro é encoberta pelo objeto 
fetiche. 
3. Negação = psicose, o Outro não é castrado. 
NA PRÁTICA 
Vemos então que o valor da clínica psicanalítica não se constituiu pelo 
olhar sobre a doença e tampouco pelo efeito de cura sobre uma doença, mas 
em estabelecer, ou dito de outro modo, restituir a verdade do sintoma do sujeito 
e essa pode ser considerada uma das maiores subversão da clínica dada pela 
psicanálise. 
Freud, ao situar o sujeito em sua constituição estrutural, não submeteu à 
clínica ao diagnóstico, mas submeteu o diagnóstico a uma causalidade psíquica 
singular ao sujeito, portanto, o sujeito passa a se implicar no seu discurso. Assim, 
reconhecer as estruturas psíquicas através do discurso do sujeito é poder atuar 
 
 
18 
na clínica como o agente de causa psicanalítica, ou seja, atuar na posição de 
analista. 
Recorte de um caso: esse caso ocorreu no CAPS Nise da Silveira RJ, com 
um senhor que nomeamos de “Lopes”. Trata-se de um usuário antigo do CAPS, 
com um alto grau de socialização com os outros usuários e amigável com os 
técnicos. Lopes vivia sozinho em sua casa, pois seus pais já eram falecidos e 
casualmente mantinha contato com seus familiares. 
De acordo com os eixos classificatórios do DSM-IV-TR, Lopes era tratado 
pelo seguinte diagnóstico: esquizofrênico paranoide, transtorno de 
personalidade Borderline, heteroagressividade, autoagressão, transtorno sexual 
sem outra especificação. 
Por manter uma relação amistosa no CAPS, um grupo de técnicos e 
usuários realizaram uma vaquinha para reformar a casa de Lopes, pois a casa 
estava bastante depredada, com porta quebrada, paredes rabiscadas, sendo 
que Lopes dormia no chão em um colchão sujo. 
A reforma foi realizada: doaram uma cama com colchão as paredes foram 
pintadas a porta consertada. A casa foi entregue limpa e arrumada para Lopes, 
que ao receber não esboçou nenhuma reação, ficou paralisado e sem falar nada. 
Lopes não compareceu no CAPS durante duas semanas após a 
interversão, por conta disso, dois técnicos foram visitá-lo. Lopes estava 
agressivo e não quis recebê-los. A porta de sua casa estava quebrada e as 
paredes rabiscadas. 
Na semana seguinte, Lopes retornou ao CAPS e disse que sua casa havia 
sido destruída pelos técnicos e que teve muito trabalho para consertá-la. Ao ouvir 
o relato, o analista pediu para que ele falasse sobre o que teve que consertar e 
Lopes não teve dúvida, “tive que colocar tudo como estava, pois ninguém iria 
saber que aquela era a casaera a minha casa do jeito que a deixaram”. 
Lopes nos ensina sobre o belo, a escuta do um a uma, será que a 
intervenção feita pelo CAPS era o que Lopes desejava ou desejaram por ele? O 
que é o bom e belo para o sujeito? 
O trabalho do psicanalista é com a escuta, cujas referência são dadas 
pelo sujeito que fala. As produções delirantes estão para o sujeito como sintoma 
na neurose, portanto, a casa do caso clinico refere-se à sua identidade, qualquer 
intervenção nela pode destruir o modo como o sujeito se relaciona no laço social, 
podendo levá-lo ao surto. 
 
 
19 
FINALIZANDO 
O modelo da estrutura clínica foi o modelo herdado pela psicanálise, no 
entanto, Freud não submeteu a psicanálise ao seu sistema, pelo contrario, ele 
subverteu a clínica classica é inovou o funcionamento que a ordenava. A 
subversão da clínica passa do olhar para a escuta. 
A semiologia psicanalítica se interessa pelo carácter singular e instável da 
ligação entre o significante e o significado e pelo aspecto multifacetado e 
temporal da produção da significação. 
A etiologia – correlativa da noção de causalidade, sendo, este, o tema que 
a domina desde sua origem. 
A diagnostica – está foi a maior subversão, onde Freud, no lugar de uma 
exaustiva classificação e de uma descrição objetivante, introduz uma 
homogeneidade entre tratamento e diagnóstico, no qual o paciente é quem toma 
a posição de sujeito e que será posto por condição do método clínico. 
A terapêutica – a terapêutica psicanalítica se caracteriza por acolher o 
discurso reconhecendo “o poder discricionário do ouvinte para elevá-lo a uma 
segunda potência”. 
O DSM é um manual diagnóstico e estatístico que possui relação com a 
classificação de transtornos mentais e de comportamento da Classificação 
Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS). Cada 
vez menos preocupada com a etiologia e dispondo de drogas dotadas de eficácia 
para fazer correções biológicas capazes de suportar sua prática, a psiquiatria 
afasta-se progressivamente da psicanálise e dos seus preceitos conceituais e 
clínicos. 
As psicopatologias em psicanálise – estão diretamente ligadas ao 
recalcamento do desejo, desejo de origem edípica, que resultam no modo de 
linguagem: neuroses, psicoses e perversão. 
 As psicopatologias em psicanálise são, portanto, tributárias da psiquiatria 
clássica, contudo ela é justamente o que podemos considerar como uma 
descontinuidade dessa prática, visto o modo como Freud utilizou o termo, pois 
ele introduz o patologico na vida cotidiana em seu eximio texto: As psicopatologia 
da vida cotidiana, no qual ele inclui os acontecimentos ordinarios da vida 
humana, como o esquecimento, os atos falhos, as supertiçoes, etc. a uma 
especie de patologia para além da doença. 
 
 
20 
 Na clínica psicanalítica, é a escuta do complexo de Édipo na história do 
sujeito que vai determinar a sua posição subjetiva, no qual cada estrutura clínica 
será o resultado de múltiplas vivências complexas e paradoxais de cada criança 
com o seu par parental (mãe e pai), onde pela presença e ausência, se 
configurará diferentes versões que engendra as versões das neuroses, das 
perversões ou das psicoses. 
 
 
 
21 
REFERÊNCIAS 
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arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento. São Paulo: 
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DUNKER, C. I.; KYRILLOS NETO, F. A psicopatologia no limiar entre psicanálise 
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Vol. I. Rio de Janeiro: Imago, 1996. 
FREUD, S. (1913). Totem e tabu. In: Obras completas. Vol. XIII. Rio de Janeiro: 
Imago, 1996. 
MELO, C. F.; LEITE, C. A. de O.; GONTIJO, R. A. G. O único não cabe no 
manual. In: psicanálise e psicopatologia: Olhares contemporâneo. São Paulo: 
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NETO, F. K. et al. DSM e psicanálise: uma discussão diagnóstica. Rev. 
SPAGESP, Ribeirão Preto, v. 12, n. 2, p. 44-55, dez. 2011. 
PESSOTI, I. Os nomes da loucura. São Paulo: Editora 34, 1999. 
QUINET, A. Psicose e laço social. Rio de Janeiro: Zahar, 2019.

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