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ESTRUTURAS PSICANALÍTICAS AULA 1 Prof.ª Juliana Santos 2 CONVERSA INICIAL Durante nosso estudo, veremos as estruturas clínicas da psicanálise, são elas: neuroses, psicoses e perversão. Verificaremos que Freud pouco usou o termo estrutura, ele surge vez ou outra para abordar o diagnóstico diferencial. Pois foi Lacan que de fato inseriu o estruturalismo na psicanálise a partir da ciência linguística e, assim, conceitualizou os modelos estruturais da clínica psicanalítica. Assim, quando apresentamos uma estrutura clínica, estamos falando de uma conjunção de elementos que se encontram implicados em suas posições no interior do conjunto em suas relações mutuas. As leis válidas para o conjunto, sublinha Coelho (1976), são validas também para cada um de seus elementos isoladamente. (p. 21) No período pré-psicanalítico que durou cerca de oito anos, e que antecedeu a publicação da Interpretação do sonho datada em 1900, é possível encontrar nos escritos de Freud uma pesquisa sobre as diferentes formas de constituição do psiquismo. Pois, desde o início, ele pôde se dar conta de que ao lado da histeria, enquadrada como uma neurose de defesa, poderia ocorrer um outro tipo de neurose: Foi-me preciso começar meu trabalho por uma inovação nosográfica. Ao lado da histeria, encontrei razões para situar a neurose das obsessões (Zwangsneurose) como uma afecção autônoma e independente, embora a maioria dos autores classifique as obsessões entre as síndromes que constituem a degenerescência mental ou as confunda com a neurastenia.”. (Freud, citado por Roudinesco, 1998, p. 535) E, assim, com os desdobramentos da teoria do autoerotismo e narcisismo até a elaboração da segunda tópica, entre os anos de 1914 a 1924, Freud concebe uma diferenciação estrutural entre neurose e psicose. Onde a neurose é resultado de um conflito entre o eu e o isso, cujo efeito produz uma renúncia das exigências pulsional, produzindo o recalque. Contudo, Freud ressalta que o sujeito, nessa formação, preserva a realidade. Já na psicose, há uma perturbação entre o eu e o mundo externo e, por conta disso, o psicótico rompe com a realidade e produz uma realidade nova através de sua produção delirante e alucinatória. A perversão, como uma terceira estrutura, é caracterizada nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, sendo ela uma manifestação bruta e não 3 recalcada da sexualidade infantil, pois trata-se de uma perversão polimorfa vivida na infância. Assim, Freud reúne as estruturas, na qual: a neurose é produzida pelo recalque, a psicose como reconstrução de uma realidade alucinatória e a perversão como efeito de uma renegação da castração, cujo gozo retorna na vida sexual. Para entendermos, então, a impotência do diagnóstico estrutural na clínica psicanalítica, iremos, primeiramente, considerar as dimensões que a separa da clínica médica, pois, ainda que os diagnósticos tenham herdado as mesmas nomenclaturas da clínica psiquiátrica, elas servem à psicanálise de maneira diferente e se sustentam por via de um outro discurso. Assim, para compreender o modo como a psicanálise atua sobre uma condição psicopatológica, é valido acompanhar, brevemente, a história da evolução da clínica medica, visto que ela foi a matriz da clínica terapêutica psicanalítica inventada por Freud. E para ampliar nosso entendimento a respeito do diagnóstico estrutural, pretendemos abordar as psicopatologias Operacional-pragmática, que estão inseridas nos DSM e no CID para que, dessa forma, possamos estabelecer um limiar entre a clínica psicanalítica e a psiquiatria. TEMA 1 – O MODELO DA ESTRUTURA CLÍNICA CLÁSSICA Na medicina clássica, é possível observar que o seu funcionamento se dá pela articulação entre classificação e ordenamento, que visam contribui para a construção de um domínio de linguagem, pondo em cena a semântica do termo, que determina o significado clínico de signos, traços, sintomas e síndromes. No projeto clínico moderno, busca-se estabelecer uma semiologia, isto é, uma classificação e organização de signos, índices, sintomas e traços que devem ser apresentados como diferenças significativas ao olhar clínico. Tipo: na febre, as alterações na coloração, na textura ou na forma de uma região do corpo são signos que se articulam de forma simultânea e sucessiva. Sendo, então, o total dessas articulações que devem ser captados pelo olhar clínico como uma unidade dotada de valor e significação. Nesse sentido o olhar clínico se estabelece apenas sobre a nomenclatura da doença, se reduzindo a essência de uma palavra (Dunke, 2011, p. 403). A sanção da ordem médica ocorreu no sec. XVIII, com o nascimento da clínica moderna, onde os sintomas vão se aproximar da matéria de linguagem 4 antes de ser recortada em unidades significantes, isso significa que os sintomas, no sentido lato, que incluem e se misturam com o mal-estar e o sofrimento que eram expressos, como vimos anteriormente, de forma narrativa, nesse momento da história passam a ser tratados como sintoma, no sentido estrito. Trata-se da operação da clínica do olhar. “É este movimento que torna o sintoma, como queixa genérica, ao sintoma no sentido clínico” (Dunker, 2011, p. 405). No entanto, se verifica que os pensamentos da clínica médica mantiveram estável a relação entre signos e seus referentes, pois só eram considerados signos os que, de fato, se apresentavam imediatamente legíveis na relação entre o olhar do clínico e o corpo do doente. Desse modo, o que se refere à fala ou lembrança do paciente, do relato de seus familiares e amigos ou da simples impressão do observador, segundo Dunker, possuíam um valor secundário e suspeito. Nesse sentido, o clínico ouve o paciente, mas, não o escuta. Ou seja, ouve na medida em que as informações, que lhe são transmitidas, possam ser cortejadas pela referência anatomopatológica. Assim, a clínica exclui o paciente como sujeito, pelo qual, o único sujeito, desta clínica, é o médico, cujo signo em certificar a doença como tal, é legitimo. E se na clínica clássica a semiologia é uma prática de leitura, o diagnóstico diz respeito a um ato, onde, nele se presume uma organização estável da semiologia, a saber, a nosografia. Dessa forma, o diagnóstico implica a capacidade de discernimento acerca do valor e da significação que um conjunto de signos possui quando estes aparecem de forma simultânea ou sucessiva na particularidade de um caso (Dunker, 2011, p. 407). Dunker nos remete à problemática do diagnóstico da clínica clássica, pois é possível existir inúmeras variações: síndrome, quadro, transtorno, disfunção, sintoma. Portanto, sua prática se torna ainda mais complexa por não possuírem um valor de diagnóstico fixo quando tomados de formas isoladas, ou quando são integrados numa situação de comorbidade em seu processo transformativo. O processo do diagnóstico inclui, também, a anamnese que implica um “desesquecimento” do passado da doença, pelo qual passa a relacionar-se sincronicamente com sua capacidade de estabelecer um prognóstico. A qualidade do prognóstico está, justamente, na possibilidade de estabelecer o curso esperado para a enfermidade naquele paciente específico. Assim, a diagnostica inclui não só a avaliação da perturbação, como também os recursos 5 e circunstâncias que o paciente dispõe para atravessar o seu processo mórbido. Portanto, na estrutura da clínica moderna, se supõe, também, uma causalidade, isto é, uma etiologia da doença, que segundo Dunker, está seria a ambição máxima do trabalho diagnóstico, que, além de descrever e classificar a enfermidade, visa indicar a causa precisamente. (p. 411) E por último, a estrutura da clínica clássica apresenta em sua perspectiva a operação terapêutica, que inclui todas as estratégias que visam interferir e transformara rede causal que constitui a etiologia, confirmam a diagnóstica e verifica o valor semiológico dos signos e sintomas. Desse modo, a ação terapêutica, na medida do possível, deve indicar a causa e, portanto, é nesse sentido que Freud veio estabelece a psicanálise como terapêutica das causas. Dito isso, Dunker compara as três tradições arqueológicas que compõem a psicanálise com a da clínica em relação às estruturas e dispositivo de tratamento: 1. As técnicas de tratamentos têm seus métodos definidos pela aspiração moderna científica: nesse caso, a noção de terapia subordina-se aos procedimentos de estrutura do tratamento (semiologia, diagnóstico e etiologia). No entanto, vê-se que a estrutura da clínica absorve em seu interior a metafísica do retorno, pela qual os signos retornam aos mesmos lugares, nos mesmos tempos, caracterizando a diagnostica das doenças. Dessa forma, o restabelecimento passa a contornar ângulos fisiológicos (organismo), clínico (funcionalidade da vida), ou da medicina social (equilíbrio antropológico); 2. Observa-se a tradição da terapia como aspiração de recomposição social e integração narrativa. Nesse caso, a relação com a estrutura clínica é de sobreposição incidental, indica Dunker, pela qual a tradição terapêutica onde noção de “sanação” diz respeito à diminuição ou retirada de sofrimento é entendida como noção moral e política, sendo, portanto, indiferente para a estrutura clínica. Assim, surgem os espaços residuais, que desenvolverão práticas higienistas, cuidados com o corpo, e no campo da saúde mental, a psicoterapia francesa, a terapia moral entre outras técnicas de alívio de sofrimento, formado pelo campo não recoberto pela estrutura. (p. 417) 3. A tradição da cura: de modo mais simplista, esta designaria a extinção do processo patológico. Aqui, há várias vertentes para serem pensadas 6 contextualizando com o momento histórico de cada época. Mas, a partir da segunda metade do século XIX, Dunker sublinha que essa noção tende a representar aquilo que era essencial à clínica na antiguidade e torna-se contingente na clínica moderna: a atitude ética do médico diante do doente. Gradualmente essa atitude vai se transferindo para os auxiliares do médico. O médico observa e trata, o enfermeiro cuida, o padre cura (p. 419). Desta feita, a ação terapêutica inclui três aspectos heterogêneos: a intervenção metódica no quadro da estrutura da clínica, a atitude de cuidado, atenção e acompanhamento e a utilização de técnicas secundárias, adjuvantes ou auxiliares. TEMA 2 – A SUBVERSÃO DA CLÍNICA PSICANALÍTICA A novidade trazida por Freud à clínica refere-se a mudanças estruturais, ao invés de caminhar da semiologia para o diagnóstico e daí sustentar uma hipótese etiológica. Freud faz um caminho contrário e parte do “ponto fraco” do sistema – a terapêutica, cuja estrutura é dada pelo ponto de vista tópico, dinâmico e econômico. Para isso, ele dá a palavra às histéricas abrindo um novo campo discursivo completamente inédito. Verifica-se, então, que o sistema estava adequado para que não se passasse da semiologia à terapêutica sem passar pela diagnostica. E não se chegasse à diagnóstica sem semiologia; e para que não se fosse da diagnóstica à etiologia sem passar pela semiologia ou pela terapêutica. Por fim, era possível conceber as circulações fechadas entre diagnostica e semiologia, ou a pequena circulação envolvendo semiologia, diagnóstico e terapêutica. Terapêutica Diagnostica Etiologia Semiologia A proposta de Freud se dá após a descoberta dos sintomas histéricos, descreve Dunker, visto que as histéricas podiam simular os sintomas através da sugestão hipnótica. E assim, conforme especificou Bercherie, “podemos falar em clínica psicanalítica sob a condição de não esquecer que, nesta expressão 7 composta, o adjetivo é mais importante do que o substantivo, e os dois termos são inseparáveis” (Bercherie, citado por Dunker, p. 440). Portanto, podemos verificar que a clínica psicanalítica submeteu a estrutura clínica aos seus próprios pressupostos, pelo qual Dunker declara que, “a psicanálise subverte, na acepção forte do termo, o estatuto dos parâmetros da clínica da qual se originou.” (p. 440). Pois, então, se o sentido de subversão é inverter e deslocar o sentido de um processo, podemos pensar que a psicanálise promoveu uma ruptura constitutiva quando passa da clínica do olhar para uma clínica da escuta. 2.1 Semiologia Freud abandona o sistema baseado na semântica orgânica, onde se prescrevia a estabilidade dos signos em relação a seu referente, e passa a se interessar pelo seu carácter singular e instável da ligação entre o significante e o significado e pelo aspecto multifacetado e temporal da produção da significação. Isso significa que numa conversão histérica, com paralisia de um membro, isso se realiza sobre a representação que o sujeito faz desse membro, e não pela sua estrutura anatômica, ou seja, é o órgão sociossimbólico e não o órgão anatômico que é convertido. Dessa forma, a clínica psicanalítica rompe com o estilo epistêmico em relação aos relatos clínicos, pelo qual passa a realizar uma genealogia do sujeito e uma arqueologia do sentido. Visto que, as regras de composição do sonho, dos chistes, dos atos falhos e dos sintomas possuem uma semiologia própria, da qual se assenta a noção de inconsciente. 2.2 Etiologia No plano da etiologia, Dunke afirma que a psicanálise introduz uma subversão correlativa da noção de causalidade, sendo este o tema que a domina desde sua origem. Ao contrário da tradição que reinava no período da publicação do Estudos sobre histeria, onde era enfatizada a diagnóstica e a semiologia, Freud sempre esteve concentrado na possível articulação entre etiologia e terapêutica, pelo qual é possível verificar nos primeiros textos pré-psicanalíticos e principalmente nas correspondências com Fliess, essa intenção. 8 Em Lacan a noção da etiologia passará por dois momentos de revisões: no primeiro momento, a noção de causalidade é revertida pelo conceito de estrutura. “A estrutura não é nem um mecanismo, nem uma rede de condições, e também não se reduz à determinação dialética reflexiva, mas de certa forma, pode ser construída de modo a agregar dentro de si todos estes modelos de causalidade.” O segundo momento “reintroduz a noção de causalidade do sujeito (alienação e separação como categorias existenciais) e objeto a causa de desejo (como causa negativa) e depois disseminada na teoria do real sob as diferentes expressões da causalidade negativa.” (p. 450 -51). 2.3 Diagnóstica Nesse ponto, encontramos, talvez, a maior subversão, onde Freud, no lugar de uma exaustiva classificação e de uma descrição objetivante, introduz uma homogeneidade entre tratamento e diagnóstico. E se na psiquiatria a posição de sujeito era tomada pelo discurso médico, representado pela figura do médico, situação na qual o objeto era o paciente representado pelo seu corpo, Freud inverte essa relação: aqui, o paciente é quem toma a posição de sujeito e que será posto por condição do método clínico. Assim, o analista exercerá a posição de objeto, ainda que no lugar de agente do discurso. Seguindo essa estratégia, Dunker acrescenta: O diagnóstico é a leitura dessas articulações entre traços, significantes e sintomas em sua reatualização da realidade sexual do inconsciente, ou seja, é o diagnóstico feito não apenas através da transferência, mas da transferência. Isso implica uma reformulação radical da psicopatologia. Ela não exprime quadros fixos para um observador anônimo, mas formas mais ou menos regulares de transferência. (Dunker, 2011, p. 457) Portanto, se o trabalho do diagnóstico depende da semiologia, como apresentamos acima, na psicanálise a semiologia não implicanuma semântica de regime de signos fixos, de modo que a universalidade está apenas na forma vazia das leis de articulação do inconsciente e da pulsão. Assim, o trabalho de diagnóstico deve ser feito através de isolamento de significantes particulares que aparece na articulação de cada paciente. A linguagem entra na diagnostica psicanalítica não apenas como estrutura, sublinha Dunker, mas como mediação fundamental na dialética com o Outro. A linguagem tem a dimensão da alteridade, o campo simbólico, no qual o 9 sujeito está submetido, “que o constrange ali onde ele não é mais senhor em sua própria morada”. (p.458) É importante termos a distinção entre o diagnóstico para a clínica médica da clínica psicanalítica, pois na primeira o paciente é objetivado ao seu diagnóstico em forma de uma alienação, enquanto na psicanálise o analisante não perde sua posição de sujeito para o seu diagnóstico. Os desdobramentos do diagnóstico em psicanálise têm a prerrogativa de se completar apenas ao final do tratamento, de modo que a cada sessão deve- se buscar a posição do sujeito nas transferências, isso, porque em psicanálise a investigação diagnóstica diz respeito à exploração e construção da fantasia, pelo qual, em última análise o que se busca é um diagnóstico etiológico (p. 459). Quantos às categorias semiológicas e diagnósticas, Freud importou e manteve as noções descritivas da psiquiatria: histeria, neurose obsessiva, fobia, paranoia (demência precoce), esquizofrenia, melancolia, sadismo, fetichismo e masoquismo. O mesmo aconteceu com outros níveis semiológicos. No entanto, Dunker demarca, neste ponto, três procedimentos decisivos para a clínica psicanalítica que subverteram a clínica clássica: 1. A separação entre psiconeuroses de defesa (fobia, neurose obsessiva, histeria e paranoia) e psiconeuroses atuais (neurastenia, hipocondria e neurose de angústia) tem como crivo de organização a incidência diferencial da sexualidade. A separação entre neuroses de transferência (histeria de angústia, histeria de conversão e neurose obsessiva) e neuroses narcísicas (melancolia, paranoia e parafrenia) tem como princípio de ordem a relação diferencial da circulação da libido entre o eu e os objetos. A separação entre psicoses, neuroses e perversões tem como parâmetro a relação com a perda da realidade. Desse modo, verifica-se que são os conceitos psicanalíticos que comandam as redescrições e não apenas as descrições clínicas puras dos quadros psiquiátricos. 2. A introdução de nova categoria clínica, como as neuroses atuais (de angústia, neurastenia, hipocondria), a parafrenia (espécie de híbrido entre paranoia e esquizofrenia), e as neuroses não estruturais (neurose de caráter, neurose de destino, neurose traumática). Assim, Dunker assinala que “não há dependência ou soberania da origem psiquiátrica das 10 descrições”, pelo qual elas se apresentam como verdadeiras contribuições da psicanálise à clínica em geral. 3. As redescrições das categorias da clínica clássica, que Dunker considera ser a de maior importância, na psicanálise não foi reduzida a uma linguagem regional de uso próprio apenas pelos psicanalistas, ainda que sua circunscrição seja para o tratamento que lhe será próprio. No entanto, foi preciso essa redescrição para as categorias da diagnóstica psicanalítica, cujo objetivo foi sujeitá-las à dependência de sua semiologia, de sua terapêutica e de sua concepção etiológica. Mas, o que Dunker nos chama a atenção é que, nem sempre esse trabalho de redescrição foi orientado pelas exigências da metapsicologia, visto que é possível observar na história da psicanálise inúmeras afecções que migraram para o seu interior sem um trabalho de redescrição subversiva. De modo que encontrarmos vários tipos de categorias como a depressão, a dependência química, o déficit de atenção, os transtornos psicomotores, os problemas de aprendizagem e outros inúmeros gêneros que foram empregados em seu valor de face descritiva, sem qualquer consideração pelo seu funcionamento na clínica psicanalítica. Por outro lado, sublinha Dunker, há também algumas categorias introduzidas pela própria psicanálise, tais como os estados-limite e casos borderline. (p. 461) Em Lacan, os fundamentos naturalistas serão completamente afastados do campo da psicopatologia, contudo, deixaremos para nos aprofundar nos diagnósticos a partir de Lacan quando tocarmos no tema das estruturas clínicas. 2.4 Terapêutica Sobre a questão da terapêutica, Dunker nos remete ao texto do próprio Lacan: Variantes do Tratamento Padrão, de 1955. E sublinha que a terapêutica psicanalítica se caracteriza por acolher o discurso reconhecendo “o poder discricionário do ouvinte para elevá-lo a uma segunda potência” (p. 472). Desse modo, quem escuta tem de fato o poder discricionário, isto é, determina o sentido da mensagem e não que a profere, mas, ao invés de se colocar como intérprete do discurso do paciente, cabe a ele devolver ao analisante suas próprias palavras para que ele possa se apropriar delas e reconhecer nelas o seu desejo. 11 Sendo assim, as exigências terapêuticas, afirma Dunker, são exigências de discurso: interrupção, contenção, coerência, racionalidade interna, referencialidade externa, aceitação pelo outro. Pelos quais os critérios terapêuticos são critérios de linguagem: fala constitutiva, discurso constituído. E sobre a questão da técnica terapêutica, encontramos algo que foge à questão da técnica, ou seja, o desejo do analista que diz respeito a “considerar a ação que lhe cabe na produção da verdade”, sendo este, ponto de intersecção entre o plano da terapia e o plano da cura em psicanálise, conclui o autor (p. 473). Dunker ainda nos apresenta um quadro, proposto por ele, onde nos ajuda a situar as operações de covariância internas à terapêutica psicanalítica: Quadro 1 – Operações de covariância internas Momento do tratamento Operação lógica Operação clínica Primeiro tempo Entrevistas preliminares Ou não penso ou não sou Retificação das relações com o Real Implicação subjetiva Desalienação Entrada em análise Neurose de transferência Corte (operação verdade) Interpretação Segundo tempo Mutação da transferência Não penso e não sou Análise das resistências Travessia da angústia Travessia das identificações Terceiro tempo Construção da fantasia Penso onde não sou Sou onde não penso Castração Separação entre sujeito suposto saber e objeto a Luto (não penso) Queda do objeto a Destituição Subjetiva Separação (não sou) Passagem de analisante a analista TEMA 3 – AS PSICOPATOLOGIAS E A PSICANÁLISE Psicopatologia é o termo usado para designar as manifestações das doenças mentais. A palavra vem do grego: psique = “alma” e pathos = “doenças”, ou seja, doenças da alma ou doenças do espirito. Os elementos que constituem sua disciplina – semiológicos e diagnósticos, são partilhados entre a psicologia, psiquiatria e psicanálise, cujas definições foram erigidas da medicina. A psicopatologia, como prática, pretende estabelecer a distinção diagnóstica e explicá-la. Assim, para alinhar o entendimento dos diversos profissionais sobre questões, critérios e conceitos relacionadas à saúde, tais como: diagnóstico, funcionalidade e incapacidade, a Organização Mundial de Saúde recomenda algumas classificações internacionais, onde é utiliza uma linguagem comum padronizada, permitindo, dessa forma, uma comunicação segura. 12 Dunker e Kyrillos Neto (2011), no artigo: A psicopatologia no limiar entre psicanálise e a psiquiatria: estudo comparativo sobre o DSM, declaram: Pelo número de disciplinas, disparidade de métodos e diversidade de posições, vê-se que a psicopatologia exige e implica a tomada de posição, visando organizar de modo coerente e homogêneo práticas terapêuticas e diagnósticas,bem como discursos semiológicos e etiológicos (Dunker, 2010). Isso implica a articulação entre experiências regulares de aspecto universal pelas quais pathos aparece como determinação excessiva ou deficitária e experiências contingentes ou singulares pelas quais pathos aparece como indeterminação produtiva ou improdutiva (Honneth, 2007). Não se trata de oposição simples entre quantidades e qualidades, entre singularidade e universalidade, mas da lógica de constituição da experiência, ou seja, do real e do regime de verdade em curso na psicopatologia. (Dunker; Kyrillos Neto, 2011) Portanto, as psicopatologias se desenvolveram conceitualmente num terreno de trocas conceituais entre psiquiatria e psicanálise, contudo, a oposição na contemporaneidade entre elas parece atualizar um dilema antigo entre corpo- alma, impondo uma distância cada vez maior na medida em que a clínica do caso a caso, tão cara à psicanálise, não consegue encontrar lugar nas classificações consideradas universais e generalizáveis. Portanto, resta-nos saber o que sobrou de diálogo entre esses dois campos. Sendo assim, precisamos, primeiramente, conhecer os instrumentos que geraram essa correspondência psicanalítico-psiquiátrico, onde se destacam três: • CID: critérios para diagnóstico de doença: fornece código que gera motivo para vincular a pessoa a um serviço de saúde ou garantir direitos jurídicos. • DSM: critérios diagnósticos para transtornos mentais. • CIF: caracteriza a funcionalidade e limitação, mas não define diagnóstico e não dá nome de doença. Apresenta apenas as manifestações das doenças / patologias. A CIF contribui por fazer uma descrição das condições atuais da pessoa em relação ao que ela tem de positivo e negativo, ou seja, o que ela consegue ou não fazer em determinado contexto. Não se propõe a investigar e nem descrever determinantes, ou seja, não se detém ao que levou a pessoa a estar assim atualmente. Apenas descreve as potencialidades e limitações para a vida diária em determinado contexto. Tem aplicação universal e é bastante útil para fundamentar laudos sobre saúde mental. O principal deles é o que tomaremos para análise: o Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorders (DSM), editado pela Associação Americana 13 de Psiquiatria (APA). Em sua primeira versão, o DSM-1 (1952), reconhece o papel proeminente da psicanálise. Nele se revelou, pela primeira vez, a tentativa de concilia a classificação, que era provida pela Organização Mundial da Saúde - a Classificação Internacional de Doença (CID-6), as ideias psicanalíticas e psicopatológicas subjacentes, na qual elas poderiam conter particularidades não tão facilmente aceitas no resto do mundo. Mas, a partir do DSM-III (1980-1987), foi observada a retirada gradativa das categorias e signos clínicos advindos da psicanálise para serem substituídos por entidades “propriamente psiquiátricas”. Assim, nos DSM de nossos dias, que tipo de expressão poderíamos encontrar no campo da psicopatologia que seria capaz de contemplar as referências clínicas, semiológicas e diagnósticas tanto de solo psicanalítico quanto psiquiátrico? 3.1 A evolução dos DSM O DSM é um manual diagnóstico e estatístico que possui relação com a classificação de transtornos mentais e de comportamento da Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS). Pelas palavras de Dunker e Kyrillos Neto: “o DSM é um imenso empreendimento coletivo, do qual participam diferentes grupos de trabalho, comportando milhares de pesquisadores divididos em seções que expressam orientações teóricas e clínicas distintas”. No DSM-I, encontramos uma lista de diagnósticos categorizados, isto é, um glossário com descrição clínica de cada categoria diagnóstica. E através dele surge uma série de revisões sobre questões relacionadas às doenças mentais. Em 1968, foi publicado o DSM-II, desenvolvido paralelamente com a CID- 8, que trouxe apenas pequenas alterações nas terminologias. As alterações importantes vieram na publicação do DSM-III em 1980, quando a APA introduz modificações metodológicas e estruturais. É, portanto, a partir do DSM-III, que o enfoque passa a ser mais descritivo, com critérios explícitos de diagnóstico organizados em um sistema multiaxial. Seu objetivo era facilitar a coleta de dados estatísticos. Em 1987 o DSM-III passa por uma revisão e sua publicação é feita como DSM-III – R. Nessa nova revisão, a homossexualidade foi retirada de uma condição patológica e posta nos termos de Homossexualidade Egodistônica. Mas o ponto que definitivamente estremeceu a relação entre psicanálise e psiquiatria fico sob a supressão do 14 conceito de neurose, visto que se trata da classe fundamental da psicopatologia psicanalítica. Dunker e Kyrillos Neto mencionam que, a partir do DSM-III, a psiquiatria, pela primeira vez, define-se em oposição à psicoterapia e “os psicoterapeutas são acusados de criar demandas e serviços para aqueles que realmente não estavam doentes, mas apenas descontentes (discontents)” (Mayes; Horwitz, citado por Dunker; Kyrillos). Por outro lado, os psicanalistas se posicionaram contra os psiquiatras partidários de uma visão fiscalista do transtorno mental. Em 1994, foi publicado o DSM-IV, esse período representa uma grande mudança no manual que resultaram na inclusão de novos diagnósticos descritos com maior critério e precisão, sendo que, em 2013, ele passa por uma revisão e é lançado como DSM-IV – TR, um manual diagnóstico e estatístico que está relacionado ao CID-10. Antonio Quinet (2009) nos reporta que a partir dessa publicação os tipos clínicos da neurose (histeria, neurose obsessiva e fobia) foram retiradas do catálogo, e no campo da psicose apenas permaneceu a esquizofrenia, sendo removida a paranoia e melancolia. Ao se substituir as doenças própria da psiquiatria clássicas por transtornos, opta-se mais pela descrição e pela comunicação desses fenômenos entre colegas que por uma clínica em que cada caso seja efetivamente um caso e onde os fenômenos sejam considerados sintomas, ou seja, formações entre as diversas instancias do aparelho psíquico. (Quinet 2009, p. 11) Para Pessoti (1999), a CID, o DSM, tem por finalidade padronizar os critérios diagnósticos, o registro estatístico e o entendimento entre os clínicos, criando uma linguagem comum para a psiquiatria. Kyrrillos, em seu artigo: DSM e psicanálise: uma discussão diagnóstica, enfatiza que entre a psicanálise e psiquiatria não se trata de uma disputa ideológica, “a psicanálise conservou a função diagnóstica da psiquiatria sem deixar de se referir à psiquiatria clássica, mantendo a relevância e a singularidade da fala de cada sujeito tanto no nível do enunciado quanto no da enunciação”. E conclui o autor, “o que colocamos em questão é que atualmente a psiquiatria encontra-se tomada pelo furor sanandi da farmacopeia, abandonando o seu saber clássico e clínico”. Atualmente, temos vigente o DSM-V, publicado também em 2013, resultado de doze anos de estudos de diferentes grupos de trabalho. Seu objetivo foi trazer uma nova classificação, com a inclusão, reformulação e exclusão de outros diagnósticos. O DSM progressivamente foi ficando cada vez 15 menos preocupado com a etiologia e voltado para o uso de drogas dotadas de eficácia para fazer correções biológicas capazes de suportar sua prática. Assim, a psiquiatria afasta-se progressivamente da psicanálise e dos seus preceitos conceituais e clínicos. TEMA 4 – PASICANÁLISE E PSICOPATOLOGIA Para abordar as psicopatologias pelo olhar da psicanálise, é preciso efetuar um diagnóstico que, como vimos, diz respeito a um reconhecimento de um conjunto de signos, contudo, ela não se explica pela etiologia orgânica, mas pela linguagem, pois, na psicanálise, as psicopatologias estão diretamente ligadas ao recalcamentodo desejo. O desejo está desde sempre, para a psicanálise, na origem edipiana e, ainda que as modalidades dos sintomas se transformem de acordo com o seu tempo, o diagnóstico será fruto de um processo de construção do caso clínico que deve, necessariamente, se referir à estrutura que o condiciona. Freud, ao desenvolver a metapsicologia, pôde conceber um modelo para as psicopatologias clínicas da psicanálise a partir das formações inconsciente, a saber: neuroses, psicoses e perversão. Antonio Quinet (2009), em seu livro Psicose e laço social, declara: “Freud mostrou que as leis do inconsciente estão presentes em todos os sujeitos: neuróticos, perversos e psicóticos”. Assim, ele encontra semelhança da formação dos sonhos com a formação dos sintomas neuróticos, a analogia do sonho com a alucinação e seu parentesco com a psicose”. (Quinet, 2009, p. 13). No texto Considerações acerca do DSM-IV, os autores Roberto Calazans, Pedro Sobrino Laureano e Fuad Kyrillos Neto (2019), a respeito da etiologia, dizem: “a respeito da hipótese etiológica, Freud não se contenta apenas em deslocar para o psiquismo a causa dos distúrbios. Ele confere valor etiológico ao fracasso mesmo de representação da causa”. (p. 71). Isso significa que a etiologia do sofrimento será buscada, na psicanálise, à falha de inscrição psíquica do evento traumático. Foi assim que Freud fez no Estudo sobre histeria: ele transpôs a dificuldade etiológica, encontrada pela medicina, para o psiquismo do doente, pelo qual declara: “as histéricas sofrem de reminiscência” (Freud; Breuer, 1895, p. 217). 16 O sintoma é efeito de um trabalho psíquico bastante elaborado que surge diante do mal-estar que acomete o sujeito e, como sublinha Silvia G. Myssior e Zilda Machado (2019) no texto: O que será das atividades da criança, ele “tem a função essencial de sustentar a estrutura do aparelho psíquico” (p. 115). O texto O único não cabe no Manual, escrito pelas autoras: Cláudia Ferreira Melo Rodrigues, Cláudia Aparecida de Oliveira Leite e Rogéria Araújo Guimarães Gontijo (2019), afirma que narrativa sempre única do mal-estar escapa ao imperativo da codificação universal que o manual (DSM) propõe, pois a singularidade emerge na estampa de cada vivência de sofrimento. E foi assim que Freud concebeu a psicanálise, destacando a maneira única em que cada um é afetado para dizer do seu sintoma. “A estranha psicanálise demarca que o initium subjetivo é operado pelo traço unário, essa marca que recebemos do Outro e que traz para cada um a inscrição da diferença absoluta.” (p. 129). Portanto, se a proposta do DSM é a de silenciar o sujeito, uma vez que oferta universalmente a descrição do sintoma, levando a palavra do que confere o “cada um” a desaparecimento, a psicanálise sustenta a palavra como direção de cura. É imprescindível entender que ainda que a psicanálise tenha mantido as categorias psicopatológicas da psiquiatria clássica, Freud construiu uma semiologia própria da psicanálise e incluiu algumas inovações que na época acabaram influenciando as classificações da própria psiquiatria. TEMA 5 – A QUESTÃO DO DIAGNÓSTICO EM PSICANÁLISE A importância do diagnóstico diferencial em psicanálise não está para submeter o sujeito a uma categoria, nem mesmo a noção de estrutura clínica deve ambicionar a totalização da subjetividade e de suas formas de sofrimento, como nos adverte Dunker (2011), pois, assim, seria o mesmo de confundir semiologia e diagnostica, mas, na verdade, se trata de considerar a posição do sujeito no Édipo, ou seja, o modo como o sujeito entra na linguagem e a sua relação com a realidade. Desse modo, o psicanalista não trabalha com o diagnóstico, mas efetua uma leitura sobre o modo como sujeito é incidindo pela linguagem. Nesse sentido, verificamos que o diagnóstico na clínica psicanalítica está relacionado à estrutura do sujeito e não aos fenômenos, portanto, o analista, ao nomear a estrutura do paciente, incide sobre a condução do tratamento, 17 mantendo em seu horizonte aquilo que se impõe como verdade singular do sujeito. Contudo, Freud buscou referências dos grandes nomes da psiquiatria clássica, como Kraepelin, fazendo da psicopatologia um tributo a ela. Reuniu as neuroses no fim do século XIX, com uma formulação etiológicas, muito diferente daquelas preconizado pela clínica psiquiátrica, pois, Freud possibilitou uma nova maneira de compreender os fenômenos e situou os sintomas numa relação de compromisso entre as diversas instancias do aparelho psíquico. Os termos Verdrängung, Verwerfung e Verleugnung (repressão, rejeição e negação), que a princípio não representavam o marco divisório, aos poucos vão ganhando na obra freudiana a importância de um mecanismo que efetua uma forma de defesa especifica do sujeito e que determinará a sua constituição estrutural. Para a psicanálise, o diagnóstico estrutural é, portanto, o resultado de uma investigação feita no um a um, no registro simbólico, pois é desde aí, onde todas as questões fundamentais do sujeito estarão articuladas (sobre sexo, morte e procriação) e por onde podemos encontrar os três modos de negação do Édipo, que correspondem às três estruturas clínicas: 1. Recalque = neurose, a castração do Outro é negada na consciência e mantida no inconsciente. 2. Desmentido = perversão, a castração do Outro é encoberta pelo objeto fetiche. 3. Negação = psicose, o Outro não é castrado. NA PRÁTICA Vemos então que o valor da clínica psicanalítica não se constituiu pelo olhar sobre a doença e tampouco pelo efeito de cura sobre uma doença, mas em estabelecer, ou dito de outro modo, restituir a verdade do sintoma do sujeito e essa pode ser considerada uma das maiores subversão da clínica dada pela psicanálise. Freud, ao situar o sujeito em sua constituição estrutural, não submeteu à clínica ao diagnóstico, mas submeteu o diagnóstico a uma causalidade psíquica singular ao sujeito, portanto, o sujeito passa a se implicar no seu discurso. Assim, reconhecer as estruturas psíquicas através do discurso do sujeito é poder atuar 18 na clínica como o agente de causa psicanalítica, ou seja, atuar na posição de analista. Recorte de um caso: esse caso ocorreu no CAPS Nise da Silveira RJ, com um senhor que nomeamos de “Lopes”. Trata-se de um usuário antigo do CAPS, com um alto grau de socialização com os outros usuários e amigável com os técnicos. Lopes vivia sozinho em sua casa, pois seus pais já eram falecidos e casualmente mantinha contato com seus familiares. De acordo com os eixos classificatórios do DSM-IV-TR, Lopes era tratado pelo seguinte diagnóstico: esquizofrênico paranoide, transtorno de personalidade Borderline, heteroagressividade, autoagressão, transtorno sexual sem outra especificação. Por manter uma relação amistosa no CAPS, um grupo de técnicos e usuários realizaram uma vaquinha para reformar a casa de Lopes, pois a casa estava bastante depredada, com porta quebrada, paredes rabiscadas, sendo que Lopes dormia no chão em um colchão sujo. A reforma foi realizada: doaram uma cama com colchão as paredes foram pintadas a porta consertada. A casa foi entregue limpa e arrumada para Lopes, que ao receber não esboçou nenhuma reação, ficou paralisado e sem falar nada. Lopes não compareceu no CAPS durante duas semanas após a interversão, por conta disso, dois técnicos foram visitá-lo. Lopes estava agressivo e não quis recebê-los. A porta de sua casa estava quebrada e as paredes rabiscadas. Na semana seguinte, Lopes retornou ao CAPS e disse que sua casa havia sido destruída pelos técnicos e que teve muito trabalho para consertá-la. Ao ouvir o relato, o analista pediu para que ele falasse sobre o que teve que consertar e Lopes não teve dúvida, “tive que colocar tudo como estava, pois ninguém iria saber que aquela era a casaera a minha casa do jeito que a deixaram”. Lopes nos ensina sobre o belo, a escuta do um a uma, será que a intervenção feita pelo CAPS era o que Lopes desejava ou desejaram por ele? O que é o bom e belo para o sujeito? O trabalho do psicanalista é com a escuta, cujas referência são dadas pelo sujeito que fala. As produções delirantes estão para o sujeito como sintoma na neurose, portanto, a casa do caso clinico refere-se à sua identidade, qualquer intervenção nela pode destruir o modo como o sujeito se relaciona no laço social, podendo levá-lo ao surto. 19 FINALIZANDO O modelo da estrutura clínica foi o modelo herdado pela psicanálise, no entanto, Freud não submeteu a psicanálise ao seu sistema, pelo contrario, ele subverteu a clínica classica é inovou o funcionamento que a ordenava. A subversão da clínica passa do olhar para a escuta. A semiologia psicanalítica se interessa pelo carácter singular e instável da ligação entre o significante e o significado e pelo aspecto multifacetado e temporal da produção da significação. A etiologia – correlativa da noção de causalidade, sendo, este, o tema que a domina desde sua origem. A diagnostica – está foi a maior subversão, onde Freud, no lugar de uma exaustiva classificação e de uma descrição objetivante, introduz uma homogeneidade entre tratamento e diagnóstico, no qual o paciente é quem toma a posição de sujeito e que será posto por condição do método clínico. A terapêutica – a terapêutica psicanalítica se caracteriza por acolher o discurso reconhecendo “o poder discricionário do ouvinte para elevá-lo a uma segunda potência”. O DSM é um manual diagnóstico e estatístico que possui relação com a classificação de transtornos mentais e de comportamento da Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS). Cada vez menos preocupada com a etiologia e dispondo de drogas dotadas de eficácia para fazer correções biológicas capazes de suportar sua prática, a psiquiatria afasta-se progressivamente da psicanálise e dos seus preceitos conceituais e clínicos. As psicopatologias em psicanálise – estão diretamente ligadas ao recalcamento do desejo, desejo de origem edípica, que resultam no modo de linguagem: neuroses, psicoses e perversão. As psicopatologias em psicanálise são, portanto, tributárias da psiquiatria clássica, contudo ela é justamente o que podemos considerar como uma descontinuidade dessa prática, visto o modo como Freud utilizou o termo, pois ele introduz o patologico na vida cotidiana em seu eximio texto: As psicopatologia da vida cotidiana, no qual ele inclui os acontecimentos ordinarios da vida humana, como o esquecimento, os atos falhos, as supertiçoes, etc. a uma especie de patologia para além da doença. 20 Na clínica psicanalítica, é a escuta do complexo de Édipo na história do sujeito que vai determinar a sua posição subjetiva, no qual cada estrutura clínica será o resultado de múltiplas vivências complexas e paradoxais de cada criança com o seu par parental (mãe e pai), onde pela presença e ausência, se configurará diferentes versões que engendra as versões das neuroses, das perversões ou das psicoses. 21 REFERÊNCIAS COELHO, E. P. 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