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TALITA SILVA BEZERRA FRANCISCO STENIO NOGUEIRA JÚNIOR JOÃO JOSÉ SARAIVA DA FONSECA Talita Silva Bezerra Francisco Stenio Nogueira Júnior João José Saraiva da Fonseca SOCIOLOGIA 1ª EDIÇÃO EGUS 2013 INTA - Instituto Superior de Teologia Aplicada PRODIPE - Pró-Diretoria de Inovação Pedagógica Diretor-Presidente Oscar Rodrigues Júnior Pró-Diretor de Inovação Pedagógica João José Saraiva da Fonseca Coordenadora Pedagógica e de Avaliação Sonia Maria Henrique Pereira da Fonseca Assessor de Gestão Administrativo Éder Jacques Porfírio Farias Equipe de Transposição Didática e Modelagem Pedagógica Anaisa Alves de Moura Evaneide Dourado Martins Licilange Gomes Alves Sonia Maria Henrique Pereira da Fonseca Multimídia Impressa e Audiovisual Cícero Romário Lima Rodrigues Francisco Sidney Souza de Almeida Juliardy Rodrigues de Sousa Lee Aguiar Frota Araújo Luis Carlos de Souza Lima Manutenção e Suporte do Ambiente Virtual de Aprendizagem Rhomélio Anderson Sousa Albuquerque Produção e Desenvolvimento de Softwares para Aprendizagem em Ead Anderson Barbosa Rodrigues André Alves Bezerra Luís Neylor da Silva Oliveira CIP - Catalogação na Publicação Ficha Catalográfica Elaborada Pela Biblioteca Central Prof. Dr. Manfredo Araújo de Oliveira do Instituto Superior De Teologia Aplicada- Faculdades INTA B574f Bezerra, Talita Silva. Fundamentos básicos de sociologia./ Talita Silva Bezerra, Francisco Stenio Nogueira Júnior, João José da Fonseca. – Sobral, CE, 2013. 101f. Inclui Bibliografia ISBN 978-85-61760-68-7 1. Sociologia. 2. Correntes Sociológicas. 3. Sociologia - Globalização. 4. PRODIPE. I. Título. CDD 301 Palavras do Professor-Autor.............................................................................12 Ambientação...................................................................................... ....................13 Trocando ideias com os autores...................................................................14 Problematizando................................................................................ ..................16 Aprendendo a pensar........................................................................................19 1Surgimento da sociologia e seus objetivos A ciência como forma específica do conhecimento.................................23 Organização Social: Fundamentos históricose epistemológicos...........26 A RevoluçãoIndustrial........................................................................... ..........27 A RevoluçãoFrancesa............................................................................ ...........28 Sociedade e Cultura..........................................................................................29 O conceitode sociedade............................................................................................. ..........................29 Recursos básicos deuma sociedade............................................................................................. 29 O conceito de sociedade considerando diversos níveis..................................................30 Tipos de categoriade sociedade............................................................................................. ........30 O conceitode cultura................................................................................................... .....................31 Características básicasda cultura..............................................................................................32 Elementos da cultura................................................................................................... .....................33 Variabilidade cultural.................................................................................................. ......................34 Etnocentrismo, relativismo cultural echoque cultural...................................................35 Socialização ........................................................................................................36 As metasde socialização.......................................................................................... ............................37 Padrões de socialização.......................................................................................... ..............................37 Principais tiposde socialização.......................................................................................... ..............37 Socialização primária ou socializaçãona infância...........................................................37 A socialização secundária ou socialização na idade adulta .......................................38 Dessocialização e Ressocialização.................................................................................... ..............38 Socialização antecipatória......................................................................................... .....................39 Socialização reversa.................................................................................................. .........................39 Agentes e componentesde socialização...................................................................................39 Múltiplas econtraditórias influências de socialização...................................................40 2 Correntes Sociológicas A contribuição deAuguste Comte ...................................................41 Contribuição deÉmile Durkheim........................................................47 O objeto de estudos de sociologia...................................................................................5 2 Método de estudo: a coisificação do fato social..................................................53 Contribuição deMax Weber..................................................................56 Como o cientista deve tratar o objeto de estudo sociológico......................59 O tipo ideal: um instrumento de pesquisa do sabersociológico...............60 A Ética protestante e o espírito do capitalismo...................................................62 Contribuição deKarl Max.....................................................................63 Alguns conceitos básicos: exploração, expropriação, ideologia, alienação...................................................................................... ......................66 A contribuição deLouis Althusser......................................................71 Contribuiçãode PierreBourdieu e Jean Claude Passeron.............72 3 Sociologia: Conceitos e disciplinas agregadas Conceitos................................................................................... ...............78 Estrutura social........................................................................................7 8 Status e Papéis.......................................................................................... .............................78 o i r á Relaçõessociais................................... ............................................................. ............................79 Grupo social.................................................... ............................................................. ..................79 Instituiçõessociais................................ ............................................................. ..........................80 Organizaçõesformais........................... ............................................................. ................81 Leissociais............................................ ............................................................. ...............................81 m u S 4 Abordagem temática da sociologia e globalização Globalização........................................ ............................................................. ......................85 A universalização do dinheiro como meio de troca......................................87 Leitura obrigatória ..................................................................94 Saiba mais..................................................... ............................96 Revisando ............................................................. ....................100 Autoavaliação ............................................................. .............105 Bibliografia......................................... ......................................107 Referências da Web...................................................... .............108 Veja a seguir os ícones que servirão de guia de estudonoprojetográficodomaterialdidátic o: Ambientação à disciplina Aqui o estudante irá observar que todo o texto do material didático tem um ícone que servirá de orientação para seu estudo, onde poderá ter uma visão panorâmica sobre o conteúdo a ser estudado. Trocando ideias com os autores A intenção é que seja feita a leitura de obras indicadas pelo professor-autor numa perspectiva de dialogar com os autores de relevo nacional e/ou mundial. Problematizando É apresentada uma situação problema onde será feito um texto expondo uma solução para o problema abordado, articulando a teoria e a prática profissional. Aprendendo a pensar O estudante deverá analisar o tema da disciplina em estudo a partir das ideias organizadas pelo professor-autor do materialdidático. Leitura obrigatória Este ícone apresenta uma obra indicada pelo professor-autor que será indispensável para a formação profissional do estudante. Saiba mais Neste ícone será encontrado sugestões de aprofundamento da disciplina em outro espaço. Pesquisas divulgadas, em formato de entrevistas, com o próprio autor da investigação. INTA EAD Sociologia 9 Veja a seguir os ícones que servirão de guia de estudonoprojetográficodomaterialdidátic o: Revisando É uma síntese dos temas abordados com a intenção de possibilitar uma oportunidade para rever os pontos fundamentais da disciplina e avaliar a aprendizagem. Autoavaliação Momento de parar e fazer uma análise sobre o que o estudante aprendeu durante a disciplina. Bibliografia Indicação de livros e sites que foram usados para a constituição do material didático da disciplina. Sociologia INTA EAD 10 O estudantevirtual O que ser é estudante virtual? É ser uma pessoa que está inserida na sociedade contemporânea, no espaço real, utilizando os recursos das novas tecnologias em seu cotidiano. O fato de permanecer conectado em diversas redes, nas quais estão milhões de pessoas conectadas, principalmente através dos recursos das tecnologias digitais, transpõe a ideia que habitamos num mesmo espaço físico, isto é, confunde o real e o virtual. Este fenômeno é denominado realidade aumentada. Um curso a distância exige que o estudante vá além de saber navegar. As conexões do curso, ou de uma disciplina, estão vinculadas por um roteiro de estudo multilinear que se caracteriza pela narração, sobretudo em formato digital, a qual procura usar múltiplas linhas para registrar a produção do texto a partir das escolhas do autor. O hipertexto, ou seja, o texto em formato digital, é adequado ao ambiente hipermídia, que se configura como um leque de prováveis textos interligados, sem uma hierarquia de leitura pré-estabelecida. O estudante virtual, diante da tela do computador, assume a função de leitor decodificador da linguagem não verbal, que está nas figuras, desenhos, fotos de pessoas, objetos, animais e outros. Esses elementos presentes no material didático são chamados de ícones, ou seja, tudo que está além dos códigos da linguagem verbal. Por isso, a habilidade de leitura do estudante de ensino a distância deve ser a aquisição daquele “olhar com olhos de ver”, ou seja, compreender o texto e o contexto da informação do material didático na intenção de entender as informações textuais e construir novos conhecimentos. É desse modo que se caracteriza a aprendizagem colaborativa e a sociointeracionista na educação a distância. Para saber mais... Preparamos este Método de Estudo para que o estudante possa desenvolver a sua autonomia de estudar no ambiente virtual e no material impresso seguindo as orientações das vinhetas abaixo: • Ambientação • Trocando ideias com os autores • Problematizando • Leitura Obrigatória • Saiba Mais • Revisando • Autoavaliação • Bibliografia • Referências da Web INTA EAD Sociologia 11 Palavra do Professor-Autor Caro estudante, A vida do homem em sociedade tem sido questionada desde a Antiguidade.As primeiras tentativas de explicar a ação humana foram interpretadas pelasnaturezas teológica ou mitológica. A sociologia surge no século XIX, no contexto da consolidação da sociedade capitalista e enquanto resultado de um contexto histórico que abrange um vasto conjunto de acontecimentos de natureza política, econômica, filosófica, científica, religiosa e artística, ocorridos ao longo dos séculos. Ela, a sociologia, é o resultado do esforço de um diversificado grupo de pensadores que procuraram compreender as novas realidades da vida social do ocidente, em curso na época. No entanto, a sociologia não considera o indivíduo objeto de observação. Enquanto ciência do social, ela se interessa pelo sujeito na medida em que este interage com os demais, constituindo-se, dessa forma, em um fato social. Os Autores. Autores Talita Silva Bezerra Mestra em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará-UFC, bolsista CNPq. Tem experiência na área de Sociologia e Antropologia, com ênfase em Sociologia da Juventude, Sociologia Rural, Cidade e Práticas Culturais, atuando principalmente nos seguintes temas: mobilidade e processos de subjetivação, sociologia rural, grupos de idade e formas de sociabilidade. Atualmente é membro do Grupo de Pesquisa sobre Culturas Juvenis (GEPECJU - UVA/CE) vinculado ao Diretório dos Grupos de Pesquisas do CNPq, professora da Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA e da Faculdade Luciano Feijão - FLF. Francisco Stenio Nogueira Júnior Possui graduação em Ciências Sociais (Licenciatura) pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (2011). Participou do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID). Tem experiência nas áreas de Antropologia e Sociologia. João José Saraiva da Fonseca É Pós-Doutor em Educação pela Universidade de Aveiro em Portugal, Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2008), Mestre em Ciências da Educação pela Universidade Católica Portuguesa - Lisboa (1999) (validado no Brasil pela Universidade Federal do Ceará), Especialista em Educação Multicultural pela Universidade Católica Portuguesa - Lisboa (1994). Graduou-se em Ensino de Matemática e Ciências pela Escola Superior de Educação de Lisboa (validado no Brasil pela Universidade Estadual do Ceará). É pesquisador na área da produção de conteúdo para educação a distância. Atualmente desempenha a função de Pró-Diretor de Inovação Pedagógica das Faculdades INTA - Sobral CE. Sociologia INTA EAD 12 Ambientação A Sociologia é uma ciência que estuda a sociedade, sua organização social e os processos que ligam os indivíduos aos grupos. A sociedade atual exige que o indivíduo tenha acesso às questões sociais para exercer, com consciência e responsabilidade, a cidadania. O homem, ao nascer, adquire a natureza social através da interação com outros seres humanos e desenvolve sua personalidade e cultura, pois a família é que inicia o processo de socialização e permite que seus membros adquiram personalidade. Esse processo, posteriormente, irá ajudá-lo a conviver em grupo. Prezado estudante, com a intenção de aprofundar seus conhecimentos sobre a sociologia, convidamos você à leitura da obra Sociologia: Consensos e Conflitos, da autora Rita de Cássia da Silva Oliveira (org). Destinado aos acadêmicos das licenciaturas, o primeiro livro recomendado discute conceitos da sociologia e temas relevantes da realidade social, entre os quais destacamos: a formação do ser social, cultura e sociedade, a ideologia na concepção marxista, movimentos sociais, Estado, política e o desenvolvimento do capitalismo no Brasil e seusefeitos sociais. OLIVEIRA, Rita de Cássia da S. Sociologia: Consensos e Conflitos, Ponta Grossa: UEPG, 2001. Propomos também a leitura da obra de Carlos Benedito Martins, intitulada O que é sociologia. Neste livro o autor afirma que o surgimento da sociologia ocorreu no contexto da decadência do sistema feudal e da consolidação da sociedade capitalista. A história sociológica tem como principais marcos inspiradores as transformações econômicas, políticas e culturais motivadas pela Revolução Francesa e Revolução Industrial que alteraram a organização da vida social da época. MARTINS, Carlos Benedito. O que é Sociologia. 57ª Ed. São Paulo: Brasilense, 2006. INTA EAD Sociologia 13 Trocando ideias com osautores Caro estudante, considerando as obras abaixo, propomos uma reflexão sobre a ciência enquanto forma de conhecimento diferenciado e sobre o surgimento da sociologia como uma ciência humana que rompe com as abordagens analíticas do senso comum e emprega métodos específicos para entender a vida em sociedade. Você conhecerá os aspectos fundamentais da constituição da sociologia a partir da obra Sociologia: introdução à ciência da sociedade, da autora Maria Cristina Castilho Costa. A obra leva o leitor a acompanhar o surgimento da ciência que tem por objeto de estudo a sociedade, bem como tomar conhecimento da multifacetada constituição teórica e metodológica da disciplina. Ao “passear” pela história e pelas bases teóricas mais fundamentais da sociologia, a obra propicia ao leitor um entendimento acerca do que é esta ciência e a que ela se propõe. É um caminho para a compreensão das abordagens e tendências conceituais e metodológicas da sociologia. COSTA, Maria C. C. Sociologia: introdução à ciência da sociedade. 2ª ed. São Paulo: Moderna, 1997. Nesta obra, Roque de Barros, professor emérito da UnB e antropólogo, vai nos conduzir, por meio de uma linguagem fluente e clara, a um passeio pelos diversos significados acerca do termo cultura, sua origem e suas interpretações. Esta leitura será um ótimo recurso didático a partir do 6º capítulo, no qual veremos o tópico de Sociedade e cultura. LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 24ª ed. [S.l.]: Jorge Zahar Ed., 2009. Sociologia INTA EAD 14 Recomendamos ainda a leitura da obra As regras dométodo sociológico, a qual aborda conceitos básicos estudados na sociologia como os métodos sociológicos e suas regras para o estudo dos fatos sociais. “Os fatos sociais devem ser tratados como coisas”. Defendendo essa assertiva polêmica, Émile Durkheim orienta, de forma decisiva, uma disciplina que estava se formando. Para este sociólogo francês, existe uma ruptura entre a psicologia e a sociologia como existe entre a biologia e as ciências físico-químicas. O ser coletivo possui uma singularidade e a consciência coletiva é diferente da consciência individual. DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. 2ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Leia também a obra O Manifesto do Partido Comunista que analisa as relações entre trabalho e capital, a forma como a sociedade se estruturou nesta fase e critica o modo de produção capitalista buscando organizar a classe dos trabalhadores e descrevendo os vários tipos de pensamento comunista. Seus argumentos desmancham a ideologia capitalista, demonstrando a ilusão à qual esta induz nações inteiras apenas para assegurar eperpetuar adiferençade classes eamádistribuição das riquezas. ENGELS, Friendrich; MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista. 10ª ed. São Paulo: Global, 2006. Após a leitura destas obras, propomos que você escolha dois livros e faça uma resenha comparando as ideias dos autores. INTA EAD Sociologia 15 Problematizando A obra “O Peixinho arteiro”, de Oranice Franco, conta a história de um peixinho que, não obedecendo à mãe e à professora, é pescado. Ele se salva porque o pescador tropeça e deixa os peixes caírem do cesto para a água. “- Eu ia convidar você para fugir! – o Lambari riu apesar de sentir muitas dores na sua boquinha. Nunca mais! Chega a lição que aprendemos. Se prestássemos atenção às aulas de Dona Piranha, saberíamos que nadar perto de cachoeira é perigoso por causa da correnteza, das pedras... - E saberíamos também – completou o Peixinho – o que é anzol e não teríamos sido fisgados. Agora, vou para casa. Se você prometer ser bom peixinho, continuarei sendo seu amigo. Do contrário, não. - Pode ficar descansado. Nunca mais serei arteiro. Agora, vou também pedir perdão aos meus pais e amanhã cedo, se você concordar, iremos falar com Dona Piranha, contando tudo o que aconteceu. - Boa ideia – fez o Peixinho todo animado. Então, até amanhã na escola. - Até amanhã – disse o Lambari, nadando para sua casa. E o peixinho arteiro nunca mais foi arteiro. Ao contrário, passou a ouvir e a seguir os conselhos de seus pais e, juntamente com o Lambari, foi exemplar no colégio.” ARANHA, M. A.; MARTINS, Maria. Filosofando, introdução à filosofia. 2ª Ed. São Paulo: Moderna, 1993. A historinha apresentada encontra-se associada ao estudo das correntes sociológicas, com particular proximidade à de Émile Durkheim. Até que ponto a aceitação das regras sociais pode ser considerada condição fundamental para uma perfeita integração dentro da sociedade? Que consequências terá o desrespeito a essas regras? Poderá ser possível a existência de um indivíduo livre fora das organizações sociais? Haverá condições para alterar as regras sociais? Faça um paralelo entre a obra “O Peixinho arteiro” e a integração do indivíduo dentro da sociedade, após concluir, faça seus comentários. Sociologia INTA EAD 16 1 SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA E SEUSOBJETIVOS Conhecimentos Compreender o contexto histórico que ocasionou o surgimento da Sociologia; Conhecer os objetivos da Sociologia. Habilidades Posicionar-se criticamente em relação ao conhecimento científico amparado na Sociologia com o intuito de compreender a vida social; Analisar os processos sociais e reconhecer a sociologia enquanto espaço de múltiplos olhares. Atitude Desenvolver o conhecimento científico, no âmbito sociológico, para análise dos processos sociais. Aprendendo a pensar... Sociologia O estudo da sociologia tem como objeto o comportamento humano em sociedade. Esta, por sua vez, trata-se de um corpo orgânico cuja base reúne indivíduos que vivem sob determinado sistema econômico de produção, distribuição e consumo. Sociólogos pesquisam o comportamento do ser humano e as estruturas da sociedade como classes sociais, grupos étnicos, etc. Todos sabem que vivemos em uma sociedade. Mas o que isso significa? O que é viver em sociedade? Numa primeira instância, podemos dizer que viver em sociedade é ter a consciência de que o indivíduo precisa da sociedade e a sociedade precisa do indivíduo. Os seres humanos não conseguem viver isoladamente, por isso necessitam do convívio em sociedade. Viver em sociedade significa residir numa região sob as mesmas regras, leis e cultura. A cultura é composta de símbolos, valores e costumes; é, portanto, uma herança social que passa de geração a geração. A sociologia, enfim, estuda as ações sociais, as interações sociais e, muitas vezes, as mudanças sociais, sendo estas últimas consideradas um dos pontos altos da sociologia. Por que vivemos numa sociedade repleta de desigualdades? O que a globalização tem a ver com a sociedade? Como os indivíduos se relacionam entre si? Quais os elementos básicos da vida social? Quais são os tipos de sociedade e suas culturas? O que é etnocentrismo? Em que a sociologia contribui para o indivíduo? Questionamentos como estes serão respondidos no decorrer da disciplina e, aliados à outros, auxiliarão à você, estudante, no processo de aquisição de conhecimentos acerca do estudo da sociologia. INTA EAD Sociologia 19 Surgimento da sociologia e seusobjetivos Etimologicamente, a sociologia tem a sua origem na palavra latina socius, que significa sócio, ou social, e na palavra grega logos, que significa estudo. A sociologia pode ser entendidacomo uma área de conhecimento que se preocupa em aplicar o ponto de vista científico à observação e à explicação dos fatos sociais. O estudo sociológico analisa e problematiza as atividades cotidianas. A simples tarefa de ir ao supermercado pode transformar-se numa experiência de interesse do ponto de vista sociológico. Mas como um sociólogo poderá fazer análise de uma ida ao supermercado? Apresentamos abaixo alguns pormenores que podem ser problematizados: • A enorme variedade de produtos dos mais diversos locais e de diferentes países, o que evidencia o processo de globalização em curso; • Os cereais à venda incluem soja transgênica; isso levanta a discussão sobre os organismos geneticamente modificados; • No ramo dos cosméticos são apresentados frequentes lançamentos de novos produtos, o que leva à discussão sobre novos hábitos de consumo diferenciados; • A promoção no preço da carne bovina relembra as disputas internacionais sobre embargos econômicos; • A apresentação de produtos livres de agrotóxicos levanta a discussão sobre a alimentação saudável, implicando em diferentes estilos de vida; • O funcionário que trabalha no supermercado tem nível superior completo, mas trabalha ali por não ter outra possibilidade de emprego e isso induz ao pensamento sobre as relações de trabalho hoje em dia. A sociologia permite-nos entender que muitas das ações aparentemente individuais, na verdade, refletem questões mais amplas. Ela pode ser considerada um projeto intelectual marcado por conflito de ideias, discussões, tensão e contradições, podendo servir como arma que atenda aos interesses dominantes e como expressão teórica dos movimentos revolucionários. A sociologia é, como qualquer ciência, predominantemente indutiva, isto é, parte da observação sistemática de situações particulares para chegar à formulação de generalizações teóricas a propósito da vida social. A observação sistemática dos fatos é, em último caso, a confirmação ou negação da qualidade científica de Sociologia INTA EAD 20 qualquer tentativa de explicação da realidade. A sociologia transforma-se, dessa maneira, num meio para a compreensão da realidade social e torna inteligíveis os fenômenos sociais, apreendidos a partir de diferentes pontos de vista. A partir do texto apresentado, são levantados vários questionamentos tais como: - Qual o contexto de surgimento da sociologia? Qual a relação entre o surgimento da sociologia e os conflitos de ideias, discussões, tensão vivenciados em períodos marcados por conflito e debates acirrados? Quais as causas das transformações sociais que motivaram o aparecimento da sociologia? Qual a utilidade da sociologia nesse contexto histórico? A sociologia estuda os fenômenos de natureza social. Contudo, nem todo acontecimento que ocorre no interior de uma sociedade envolve uma natureza social. Por exemplo, os fatos relacionados ao indivíduo, isolado, acontecem dentro de uma sociedade, entretanto, não são fatos de interesse da sociologia, pois esta não considera o indivíduo como objeto de estudo. O indivíduo somente faz parte de um estudo sociológico quando sua ação individual interfere em qualquer grupo social. A sociologia surge da exigência de uma nova forma de conhecimento e de pensar a natureza e a sociedade, que se fez sentir a partir do século XV, quando ocorreram na Europa transformações sociais significativas, como o fim do Feudalismo e o início do Capitalismo. Até o século XV o povo europeu tinha uma concepção reduzida de mundo e seu conhecimento territorial restringia-se ao espaço local. Com as grandes navegações ocorridas a partir do século XV, o povo europeu percebeu um mundo mais amplo com novas nações e novas culturas. Isso exigiu a reformulação do modo de ver e pensar a natureza e a sociedade. Outros desenvolvimentos políticos, econômicos e sociais aconteceram nos séculos seguintes, tais como: • A Revolução Francesa e a Revolução Industrial ocasionaram o desmoronar das estruturas sociais. Isso foi evidente de tal maneira que essas alterações passaram a ser motivo de preocupação coletiva, sobretudo no que diz respeito às mudanças na sociedade e às possíveis soluções para as desigualdades que se apresentavam nesta; • Os avanços científicos e tecnológicos; INTA EAD Sociologia 21 • O desenvolvimento de uma nova economia industrial na sequência da mudança ocorrida na sociedade, com reflexos sentidos quando: diminuiu-se a terra cultivada; abandonou-se a forma de produção artesanal e passou-se à produção em grandes fábricas; as pessoas deixaram de laborar em suas casas para trabalhar sob as ordens de um supervisor; criou-se uma dissociação, de um lado os trabalhadores, de outro, os consumidores; • O crescimento das cidades ocasionado pela chegada dos camponeses que abandonaram o campo e se mudaram para a cidade em busca de trabalho, com consequências evidentes, por exemplo, no aglomerado da população, na pobreza, no desemprego e na criminalidade. As ciências existentes na época mostraram-se insuficientes para explicar os novos fenômenos sociais. Surge então a necessidade de uma ciência que tente explicar essa nova realidade. A sociologia aparece no século XIX perante a necessidade de compreender os novos problemas sociais que surgiram na sequência do conjunto de causas sociais de caráter complexo. Surge com o objetivo de estudar sistematicamente o comportamento social dos grupos e as interações humanas, assim como os fatos sociais que provocam e suainter-relação. Esta ciência procura explicar como as atitudes e os comportamentos das pessoas são influenciados, em geral, pela sociedade e, especificamente, pelos diferentes grupos humanos. Ela também tenta explicar qual a dinâmica social que mantém as sociedades estáveis ou provoca a mudança social. Segundo Lemos Filho (2004), o trabalho da sociologia tem como suas três grandes preocupações: a separação do social dos demais elementos inerentes à vida humana; a constatação dos efeitos do social e o modo de como estes são produzidos; a restituição do social ao conjunto da vida humana de maneira a possibilitar o entendimento das suas relações com esta. Sociologia INTA EAD 22 A ciência comoforma específica de conhecimento Em nossa sociedade, ainda nos primeiros anos do processo educativo, é comum termos acesso à informação de que a principal diferença entre o ser humano e os outros animais é a racionalidade, da qual é dotado o primeiro. Foi através da capacidade de pensar o mundo, de atribuir significado à realidade, que o homem formulou o conhecimento em suas diversas formas. Com a sua capacidade de raciocínio, o homem busca entender a si mesmo, a sociedade e a natureza, desde o começo da humanidade. Porém, este entendimento do mundo nem sempre foi científico. As primeiras tentativas de compreender os fenômenos naturais e sociais foram baseadas na fantasia, imaginação e especulação. Deuses e heróis eram acionados para explicar e justificar toda ordem de fenômenos – sejam naturais ou sociais. Como exemplo maior dessa tentativa de explicar o mundo, temos a mitologia grega com seus deuses. Todavia, foram os gregos os pioneiros que deram formas àquilo que passou a ser chamado de ciência. Foi na Grécia que surgiram os primeiros homens com a curiosidade de descobrir os segredos do universo. Nas obras de filósofos como Platão e Aristóteles podemos encontrar as primeiras sistematizações de ideias sobre a vida do homem em sociedade. Contudo, é importante ressaltar que na Idade Média (entre os séculos V e XV) a Igreja Católica passou a exercer uma influência grandiosa sobre a sociedade, pois não era dada ao homem a permissão de apresentar qualquer explicação sobre o mundo, a não ser na perspectiva religiosa. Todos os questionamentos deveriam ser respondidos através da imagem de um “Deus” todo poderoso que tudo criava, modificava e explicava. Apenas as instituições religiosas – como os mosteiros – podiam dispor do acesso às obras sobre o conhecimento da filosofia, astronomia, geometria e literatura. Entre estas existia umalista proibida chamada Index Librorum Prohibitorum – Índice dos Livros Proibidos. Segundo a Igreja Católica, estas obras contradiziam seus dogmas, bem como as literaturas e conhecimentos científicos que pudessem ser considerados heresia, má postura política, moralidade desviada, sexualidade explícita, entre outros. INTA EAD Sociologia 23 Dessa forma, o conhecimento ficou por muito tempo “retido” nos porões dos mosteiros e muitos corpos arderam em fogueiras por se contrapor às explicações religiosas, ou infringirem as normas morais impostas. Após a Idade Média, surgiu o Renascimento, período em que os fenômenos sociais passaram a ser analisados de forma mais realista. Havia uma sistematização de valores burgueses que almejavam a constituição de uma sociedade laica e racionalista. No entanto, vivia-se uma fase de desejo por mudanças econômicas, políticas, culturais e de grande desenvolvimento científico. Foi no fervilhar desse despontar de ideias que surgiu uma ciência nova no século XIX: a Sociologia. Antes de qualquer coisa, precisamos entender que ciência não é somente a atividade praticada por “homens vestidos de branco” dentro de uma sala chamada laboratório, manipulando fórmulas esfumaçantes ou fazendo experiências com ratinhos. Contudo, aqui fazemos recorrência à ciência experimental com origem advinda do Renascimento e que vem se formando até os dias atuais. Apesar dos riscos das tentativas de definição, devemos entender que, neste caso, ciência consiste em um método de abordagem do mundo empírico, mundo que pode ser visualizado a partir da experiência humana. O conhecimento científico somente pode ser compreendido se entendermos o que é senso comum. Este último consiste no conhecimento adquirido no cotidiano sobre as coisas e causas; é toda forma de conhecimento não caracterizado pela investigação. Trata-se de um saber que não se utiliza de métodos e é formulado por sentimentos, opiniões, traduzindo os valores de quem o produz. Logo, o senso comum é um saber não sistematizado que guia o homem em suas atividades diárias. A partir do que foi citado acima, podemos dizer que do cotidiano é que surge o conhecimento científico, portanto, o senso comum não deve ser rejeitado em detrimento da ciência. Propomos aqui que você vá além do conhecimento comum sobre as questões referentes ao homem e à sociedade e tenha acesso a um saber elaborado, investigativo e controlado por métodos e técnicas de pesquisa. Para tanto, vamos esclarecer conceituações básicas sobre esse tipo especial de conhecimento que é o científico. Sociologia INTA EAD 24 Uma das principais características do conhecimento científico é a utilização sistemática de métodos para analisar os fatos. O uso da palavra método vai ser frequente e desde já veremos o que isso significa: método é o caminho seguido para alcançar um objetivo. Oatodo cientistaobservar e realizar a coletadedados com basenas suas hipóteses e teorias é denominado método indutivo. Movimentos de indução envolvem o movimento do particular para o geral. Na abordagem dedutiva, o pesquisador tenta procurar afirmações e reivindicações específicas de um princípio teórico geral. Método indutivo, ou indução, é o raciocínio que, após considerar um número suficiente de casos particulares, conclui uma verdade geral. É importante que a enumeração de dados (que correspondem às experiências feitas) seja suficiente para permitir a passagem do particular para o geral. A indução pressupõe a probabilidade, ou seja, já que tantos se comportam de tal forma, é muito provável que todos se comportem assim. O resultado dessa situação é que há maior possibilidade de erro nos raciocínios indutivos, uma vez que basta encontrarmos uma exceção para invalidar a regra geral. Por outro lado, é essa procura do provável que torna possível a descoberta e a proposta de novos modos de compreender o mundo. Essa é uma das justificativas para que a indução seja o tipo de raciocínio mais usado em ciências experimentais. Existem dois tipos principais de pesquisa em sociologia: o estudo transversal, que visa descobrir as opiniões que os participantes da pesquisa têm sobre algum fenômeno em determinado momento; e o estudo longitudinal que é realizado no mesmo tipo de pessoas durante um longo período de tempo, às vezes de 20 a 30 anos. Fornece-nos uma imagem das mudanças ao longo do tempo. Geralmente são usados alguns passos para realizar uma pesquisa sociológica. Tais passos não são, no entanto, apenas da sociologia. Também devemos ressaltar que esses passos não são fixos. Alguns podem não ser seguidos em determinados projetos de pesquisa e outros podem não ser seguidos, necessariamente, em ordem sequencial. Para cada ramificação do conhecimento, são aplicados métodos diferenciados, pois cada ciência possui um objeto de estudo. O objeto da ciência é constituído pela realidade que ela se propõe a estudar (exemplos: a biologia estuda o conjunto de seres vivos e a sociologia estuda o homem enquanto ser social). Logo, podemos entender que se o objeto da sociologia é o homem em sua vida social, o caminho que trilharemos para avaliar este fator será diferente do caminho dos cientistas que se interessam pelos fenômenos naturais, mas isso veremos detalhadamente mais adiante. INTA EAD Sociologia 25 O que é necessário saber neste momento é que estamos adentrando numa forma de conhecimento científico, cujo objeto é o homem em sociedade. E para entender esse conhecimento, é necessário compreendermos em que contexto ele surgiu. Organização Social: Fundamentos históricos e epistemológicos A sociologia é uma ciência relativamente nova, nasceu na Europa, no século XIX, com a chegada da modernidade. Surgiu após a constituição das ciências naturais e de diversas outras ciências sociais. Não devemos desconsiderar que a curiosidade em entender a sociedade data de centenas de anos antes de Cristo com as expressões da filosofia sofista que, por exemplo, tinha nos escritos de Platão e Aristóteles algumas ideias sobre a concepção do homem vivendo em sociedade. Contudo, o estudo científico da sociedade foi instituído no meio acadêmico através da sociologia que se constituiu reclamando para si objeto e método específico a fim de diferenciar seus estudos dos que competem às ciências da natureza. Como forma de conhecimento e saber, a sociologia acaba por refletir as preocupações dos homens de seu tempo. Mas, considerando que seu surgimento ocorreu nos últimos momentos da desagregação da sociedade feudal e consolidação da sociedade capitalista, quais eramessas preocupações? Revisitando a história, podemos lembrar que o século XIX foi palco de grandes transformações que vinham acontecendo gradualmente desde séculos anteriores. Para pensar a formação de uma ciência social encarregada de analisar a sociedade, dois processos revolucionários são frequentemente associados à necessidade de fundar a sociologia: a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. Sociologia INTA EAD 26 A RevoluçãoIndustrial Duranteo século XIXhouveapassagem da atividade artesanal, passando pela atividade manufatureira até chegar ao mecanismo industrial. A partir de 1750, a máquina a vapor e demais máquinas fabris esfumaçavam o céu da Inglaterra e, consequentemente, os sistemas de produção passavam por um processo de mecanização. O sistema de transportes avançou, facilitando a travessia de pessoas e mercadorias. A exploração do trabalho infantil na Revolução Industrial Tantoa mecanização daproduçãocomoapossibilidadedetransportar mercadoria num tempo mais curto e com menores custos trouxeram modificações não apenas no campo econômico, mas também sociocultural. Desse modo, a sociedade assistia ao triunfo do capitalismo industrial. As cidades europeias, aos poucos, transformavam-se em centros urbanos e comerciais que abrigavam grande parcela da população. O empresário passou a concentrar terras, máquinas e ferramentas e transformou seres humanos em meros trabalhadores necessitados de bens materiais e saberes tradicionais. Foram estabelecidasrelações desiguais de trabalho: homens, mulheres e crianças saiam do campo em busca de oportunidades na cidade e eram explorados em jornadas de trabalho que, pensadas atualmente, poderíamos classificar como “desumanas”. Entretanto, trabalhava-se entre doze e dezesseis horas e com a descoberta da iluminação a gás, a jornada de trabalho chegou a ser ampliada para dezoito horas, com salários baixos que variavam de acordo com sexo e idade, sendo as mulheres e as crianças a parcela de trabalhadores mais explorada. Aos poucos, as formas de interação humana foram alteradas, propiciando o aparecimento de duas classes distintas – a burguesia e o proletariado. Toda essa modificação no modo de vida dos homens fez com que emergissem fenômenos sociais inéditos, tais como: crescimento demográfico desordenado por conta do deslocamento em massa da população do campo para as cidades; falta de estrutura em termos de moradia, saúde e saneamento básico; aumento da prostituição e criminalidade; aumento do alcoolismo e suicídio. INTA EAD Sociologia 27 As cidades passavam a ser “epicentros de desordenamento” cada vez mais inchados e uma ordem de costumes era completamente modificada; como exemplo, citamos a família, tanto no que concerne ao status dos membros em relação ao sexo – lembremos que neste período predominava um modelo de família patriarcal – quanto às relações pessoais entre os membros familiares. O esforço para entender tal realidade impulsionou os questionamentos que mais tarde iriam consolidar-se na sociologia. A RevoluçãoFrancesa O mesmo século que assistiu a Revolução Industrial lançada na Inglaterra e com alcance mundial, assistiu também a uma série de fatos políticos que agitaram a França. O regime absolutista estava estabilizado, tendo como particularidade principal a forma concentrada de poder nas mãos do rei que era o soberano, o representante maior do homem. Revolução Francesa A população do país sofria com os abusos de poder exercidos pela autoridade monárquica (o rei). As críticas ao regime absolutista e à desigualdade promovida por este foram intensificadas no fim da década de 80 do século XVIII. Após uma série de atos contra o autoritarismo monárquico, a população composta por membros do terceiro estado (formado pelo campesinato e pela burguesia comercial – classe menos favorecida naquele período histórico) avança em direção à prisão política da época – Bastilha – destruindo-a. Isso ocorreu em julho de 1789, data que marca historicamente a Revolução Francesa. Com o lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, os revolucionários tinham como objetivo promover transformações culturais, econômicas e políticas através da mudança na estrutura do Estado. Pretendiam derrubar o regime monárquico e instaurar a democracia; assim o fizeram. Em agosto de 1789, através da Assembleia Constituinte,oterceiroestadocancelouosabsurdosdireitos feudaisefoiproclamada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Durante a Revolução Francesa, principalmente, intensificou-se um movimento, chamado Iluminismo, iniciado no século XVI. Consistia numa nova forma de pensar Sociologia INTA EAD 28 e entender filosoficamente o mundo. As formas de conceber a natureza e a cultura (através do uso sistemático da razão) passaram do sobrenatural ao racional, ou seja, o pensamento começava a libertar-se do controle teológico e o Teocentrismo deu lugar ao Antropocentrismo. Através dessa atitude de dessacralização da natureza, o homem passou a trabalhar a racionalidade como objeto científico de pesquisa acreditando que pelo uso da razão a humanidade chegaria a um alto patamar de progresso. Essas revoluções, somadas a outras de menor visibilidade, marcam a transição da Idade Média para a Idade Contemporânea. A partir delas, os pilares que sustentam a modernidade foram construídos e assim o conjunto de transformações emergentes precisava ser explicado e entendido pela razão humana. O mundo parecia estar em crise e algo precisava ser feito. Assim surge a ideia de uma ciência para pensar os fenômenos sociais. Sociedade e Cultura O conceito de sociedade O termo significa associação, união, gregário, ou, simplesmente, vida em grupo. O conceito de sociedade refere-se a um agrupamento autônomo de pessoas que habitam um território comum, têm uma cultura comum (conjunto compartilhado de valores, crenças, costumes e assim por diante) e estão ligadas umas às outras através das interações sociais rotineiras, status e funções interdependentes. Recursos básicos de uma sociedade Uma sociedade, em geral, é um agrupamento, relativamente grande, de pessoas em termos de tamanho. Ela pode ser considerada o maior e o mais complexo grupo social estudado pelos sociólogos. É também definida como um espaço limitado ou território. As populações que compõem uma sociedade são, portanto, localizáveis em uma área geográfica. Outro recurso básico de uma sociedade corresponde às pessoas. Estas apresentam um sentimento de identidade e pertencimento. Essa identidade emana do padrão das interações sociais que existem entre as pessoas e os diversos grupos que compõem a sociedade. INTA EAD Sociologia 29 Os membros de uma sociedade são considerados portadores de origem e experiência históricas comuns. Podem também falar uma língua-mãe ou ter uma língua dominante que serve, possivelmente, como uma herança nacional. No entanto, a coisa mais importante sobre a sociedade é que seus membros compartilham, simultaneamente, uma cultura comum e distinta. Isso é que diferencia os grupos populacionais. A sociedade é autônoma e independente no sentido de que ela tem todas as instituições sociais e arranjos organizacionais necessários para sustentar o sistema. No entanto, uma sociedade não é uma ilha no sentido de que sociedades são interdependentes, as pessoas interagem social, economica e politicamente. É importante você notar que as características de uma sociedade não são exaustivas e não podem ser aplicadas a todas as sociedades. Por exemplo, o nível de desenvolvimento econômico e tecnológico de uma sociedade e seu tipo de economia ou sistema de subsistência podem criar algumas variações entre as sociedades no tocante às características básicas referidas. O conceito de Sociedade considerando diversos níveis De modo geral, e considerando um nível abstrato, todos os povos da terra podem ser tidos como sociedade. Eles partilham uma origem comum, habitam um mundo comum, têm uma unidade biopsicológica comum, exibem interesses, desejos e medos comuns e estão caminhando para um destino comum. Em outro nível, cada continente pode ser visto como uma sociedade. Assim, podemos falar da sociedade europeia, da sociedade africana, da sociedade asiática, da sociedade norte-americana e latina. Cada um desses continentes compartilha seu próprio território, experiências históricas, cultura e assim por diante. Cada estado-nação, ou país, é considerado uma sociedade, podendo haver grupos etnolinguisticamente distintos de pessoas que tenham um território e o consideram como seu. Você sabe como as sociedades são classificadas? Vejamos. Tipos e categorias de sociedades Os sociólogos classificam as sociedades em várias categorias dependendo de certos critérios. Um critério é o nível de desenvolvimento econômico e tecnológico alcançado pelos países. Assim, os países são classificados em: Primeiro Mundo, Segundo Mundo e Terceiro Mundo. Sociologia INTA EAD 30 Países do Primeiro Mundo são aqueles industrialmente avançados e economicamente ricos como os EUA, Japão, Grã-Bretanha, França, Itália, Alemanha, Canadá e assim por diante. Os países do Segundo Mundo são também industrialmente avançados, mas não tanto como a primeira categoria. São países detentores de economias emergentes. Atualmente são denominados de países em desenvolvimento como China, Rússia, Brasil, Argentina, México e Índia. As sociedades do Terceiro Mundo correspondem aos países que possuem economia subdesenvolvida, ou em desenvolvimento. Alguns autores como Küng & Schmidt (2001) e Castells (1999)acrescentam uma quarta categoria, ou seja, Quarto Mundo. Estes países são considerados os mais pobres. Quanto ao tipo de sociedade, podemos citar a mais antiga que é a caça, a sociedade pastoral e hortícola e sociedades agrícolas. A sociedade da caça depende da caçada para sua sobrevivência, já as sociedades pastorais são aquelas cuja subsistência baseia-se em pastoreio de animais, tais como gado bovino, camelos, ovinos e caprinos. Sociedades hortícolas são aquelas cuja economia baseia-se no cultivo de plantas com o uso de ferramentas simples, como a escavação com paus, enxadas e machados. A sociedade agrícola é dominante na maior parte do mundo; baseia-se na agricultura de grande escala que depende de arados usando o trabalho animal. A Revolução Industrial que começou na Grã-Bretanha durante o século XVIII deu origem ao aparecimento de um quarto tipo de sociedade chamada Sociedade Industrial. É aquela em que os bens eram produzidos por máquinas movidas a combustível em vez de animais e energia humana. Por fim, há outro tipo de sociedade denominada pós-industrial. Esta é baseada na informação, serviços e alta tecnologia, em vez de matérias-primas e fabricação. Conceito de cultura É importante notar que as pessoas comuns fazem, muitas vezes, mau uso do conceito de cultura. Veremos alguns equívocos sobre a cultura: • Muitas pessoas no mundo ocidental usam o termo cultura quando referem-se às pessoas que são mais “cultas” do que outras. Isso basicamente emana da ideia associada à raiz da palavra cultura: Kultura, em alemão refere-se à “cultura”. Assim, quando se diz que alguém é “culto” significa dizer que é civilizado. Para INTA EAD Sociologia 31 sociólogos e antropólogos, a cultura inclui muito mais do que requinte, bom gosto, sofisticação, educação e valorização das artes plásticas. • Muitas pessoas passaram a pensar a cultura em termos de costumes, música, dança, roupas, joias e penteados. • Muitas pessoas pensam na cultura associada às coisas materiais do passado. De acordo com este ponto de vista, o cultural não pode incluir coisas (materiais ou não) que sejam modernas, comuns do dia a dia. Aqui, o comum é considerado não cultural ou “menos cultural”. O conceito de cultura é um dos mais utilizados na sociologia. Refere-se a todos os modos de vida dos membros de uma sociedade. Ele inclui o vestir, seus costumes, vida familiar, arte e padrões de trabalho, cerimônias religiosas, atividades de lazer e assim por diante. Este conceito também inclui os bens materiais que produzem: arcos e flechas, arados, fábricas e máquinas, computadores, livros, edifícios, aviões, etc. O conceito de cultura foi definido centenas de vezes por sociólogos e antropólogos, enfatizando diferentes dimensões. No entanto, na maioria das vezes os estudiosos focaram a dimensão simbólica da cultura. Ela está sempre se desenvolvendo, pois é influenciada pela maneira de pensar o desenvolvimento do ser humano no decorrer dos anos. Características básicas da cultura As características da cultura são denominadas em várias culturas. Vamos enumerar cada uma delas: Cultura orgânica e supraorgânica: é orgânica quando consideramos o fato de que não existe uma cultura sem uma sociedade humana. É supraorgânica porque vai muito além de qualquer vida individual (os indivíduos vêm e vão); a cultura permanece e persiste. Cultura aberta e encoberta: é geralmente dividida em material e não-material. A cultura material consiste de quaisquer objetos tangíveis feitos pelos humanos tais como ferramentas, automóveis, edifícios, etc. A não-material corresponde a todos os aspectos não físicos como a linguagem, crenças, ideias, conhecimentos, atitudes, valores, etc. Cultura explícita e implícita: é explícita quando considera as ações que podem ser explicadas e descritas facilmente por aqueles que as executam. É implícita quando consideramos as coisas que fazemos sem sermos capazes de explicá-las, porém acreditamos que elas sejam assim. Sociologia INTA EAD 32 Cultura ideal e manifesta (real): cultura ideal envolve a maneira como as pessoas devem comportar-se ou o que elas devem fazer. A cultura manifesta envolve o que as pessoas realmente fazem. Cultura estável: é estável quando consideramos o que as pessoas têm de valor e estão entregando para a próxima geração a fim de manter suas normas e valores. No entanto, quando uma cultura entra em contato com outras, ela pode mudar, não somente através de contato direto ou indireto, mas também através da inovação e adaptação às novas circunstâncias. Cultura compartilhada e aprendida: é propriedade de um grupo social de pessoas (compartilhado). Os indivíduos obtêm conhecimento cultural do grupo através da socialização. No entanto, devemos notar que as coisas compartilhadas entre as pessoas podem não ser culturais, uma vez que existem muitos atributos biológicos que as pessoas compartilham entre si. Elementos da cultura A cultura inclui dentro de si elementos que compõem a essência de uma sociedade ou um grupo social. Os mais importantes incluem: símbolos, valores, normas e linguagem. • Símbolos: são os componentes centrais da cultura; referem-se a qualquer coisa para as quais as pessoas atribuem significado e usam para comunicar-se com os outros. Mais especificamente, os símbolos são palavras, objetos, gestos, sonsou imagens que representam algo maior do que eles. • Linguagem: definida como um sistema de símbolos verbais e, em muitos casos, escritosquepodemser organizados juntospara transmitir significados complexos; é a capacidade distintiva dos seres humanos e um elemento-chave da cultura. Cultura engloba linguagem e através da linguagem a cultura é comunicada e transmitida. Sem linguagem seria impossível desenvolver, elaborar e transmitir cultura para as gerações futuras. • Valores: Os valores são elementos essenciais da cultura não-material. Eles podem ser definidos como diretrizes abstratas para nossas vidas, decisões, objetivos, escolhas e ações. Eles compartilham as ideias de um grupo ou de uma sociedade sobre o que é certo ou errado, correto ou incorreto, desejável ou indesejável, aceitável ou inaceitável, ético ou antiético, etc. Os valores são, em geral, roteiros para nossas vidas. Os valores são compartilhados e aprendidos em grupo. Eles podem ser positivos ou negativos. Os valores são dinâmicos, ou seja, eles mudam ao longo do tempo. Eles também são estáticos, o que significa que tendem a persistir sem qualquer modificação INTA EAD Sociologia 33 significativa. São também diversificados, o que significa que variam de lugar para lugar e de cultura para cultura. Alguns valores são universais porque há unidade biopsicológica entre as pessoas em todos os lugares e em todos os tempos. • Normas: são elementos essenciais da cultura. Elas são princípios implícitos para a vida social, relacionamento e interação. As normas são regras detalhadas e específicas para situações determinadas. Elas nos dizem como fazer algo, o que fazer, o que não fazer, quando fazer, por que fazer, etc. Normas são derivadasde valores. Isso significa que, para cada norma específica, existe um valor geral que determina seu conteúdo. As normas fortes são consideradas as leis formais de uma sociedade ou grupo. Leis formais são escritas e codificam as normas sociais. As pessoas não podem agir de acordo com os valores definidos e as normas do grupo. As normas sociais podem ser divididas em: costumes e comportamentos. Costumes são regras importantes, que em geral ocorrem automaticamente sem qualquer base de suporte nacional e inspiram-se nos costumes passados de geração em geração. Eles não são impostos por lei, mas por controle social informal e sua violação não é gravemente sancionada. Já o comportamento é regido por convenções, isto é, regras estabelecidas e geralmente aceitas pela sociedade. Alguns comportamentos excepcionais são considerados excêntricos. Variabilidade Cultural Como você já viu, variabilidade cultural refere-se à diversidade de culturas nas sociedades e lugares. Como existem diferentessociedades, existem diferentes culturas. A diversidade de cultura humana é notável. Valores e normas de comportamento variam muito de cultura para cultura, muitas vezes contrastando de forma radical. Por exemplo, os judeus não comem carne de porco, enquanto os hindus sim, mas evitam carne de gado. Se considerarmos sociedades como a Etiópia e a Índia, notamos que há entre elas grandes diversidades culturais. Por outro lado, dentro de ambas as sociedades, há também uma notável variabilidade cultural. Nós usamos o conceito de subcultura para chamar a variabilidade da cultura dentro de determinada sociedade. Subcultura é uma cultura distinta partilhada por um grupo dentro de uma sociedade. Sociologia INTA EAD 34 Etnocentrismo, relativismo cultural e choque cultural Nós, muitas vezes, tendemos a julgar outras culturas comparando-as com a nossa. Não é logicamente apropriado subestimar, ou julgar, outras culturas na base de um padrão de cultura. O Etnocentrismo, em geral, é a atitude de tomar a sua própria cultura e modos de vida como os melhores. É a tendência para aplicar os próprios valores culturais a fim de julgar o comportamento e as crenças de pessoas de outras culturas. As pessoas consideram um comportamento diferente como estranho ou selvagem. No Relativismo Cultural cada sociedade tem sua própria cultura, que é mais ou menos única. Cada cultura possui seu padrão único de comportamento que pode parecer estranho para as pessoas de outras origens culturais. Nós não podemos compreender suas práticas e crenças separadamente da cultura mais ampla da qual faz parte. A cultura tem que ser estudada em termos de seus próprios significados e valores. O relativismo cultural descreve uma situação onde existe uma atitude de respeito às diferenças culturais em vez de condenar a cultura de outras pessoas como não civilizada ou atrasada. O respeito pelas diferenças culturais envolve: • Valorizar a diversidade cultural; • Aceitar e respeitar outras culturas; • Tentar entender cada cultura e seus elementos em termos do seu próprio contexto e lógica; • Aceitar que cada costume tem uma dignidade e significado inerente às formas de vida de um grupo que trabalha num determinado meio ambiente para satisfazer as necessidades biológicas dos seus membros e as relações grupais; • Saber que a cultura própria de uma pessoa é apenas uma entre muitas; • Reconhecer o que é imoral, ético e aceitável numa cultura. Relativismo cultural pode ser considerado o oposto do etnocentrismo. Contudo, há algum problema com o argumento de que o comportamento de determinada cultura nãodeve serjulgado pelospadrõesdooutro. Issoocorreporque considerando uma situação extrema, é possível afirmar, por exemplo, que não existe um limite superior no que se refere à moralidade em termos da internacional ouuniversal. O choque cultural (Culture Shock) é o psicológico e social desajuste no nível micro ou macro que é experimentado pela primeira vez quando as pessoas encontram novos elementos culturais, como coisas novas, ideias, conceitos, crenças e práticas aparentemente estranhas. INTA EAD Sociologia 35 Nenhuma pessoa está protegida de um choque cultural. No entanto, indivíduos variam em sua capacidade de adaptar-se e superar a influência do choque cultural. Pessoas altamente etnocêntricas estão mais suscetíveis ao choque cultural. Por outro lado, os relativistas culturais podem achar que é fácil adaptar-se a novas situações e superar o choque cultural. Socialização A socialização é um processo através do qual as pessoas aprendem e são treinadas nas normas básicas, valores, crenças, habilidades, atitudes, modos de fazer e agir de acordo com um grupo social ou sociedade específica. O indivíduo passa por várias fases de socialização, desde o nascimento até a morte. Assim, precisamos de socialização enquanto crianças, adolescentes, adultos e idosos. Do ponto de vista das pessoas individuais, especialmente um bebê recém nascido, a socialização é um processo pelo qual um ser biológico ou organismo é transformado em um bem-estar social. Em termos de grupo, sociedade ou qualquer organização profissional, a socialização é um processo pelo qual as organizações, grupos sociais, a estrutura da sociedade e o bem-estar são mantidos e sustentados. É o processo em que a cultura, as habilidades, as normas, as tradições, os costumes, etc., são transmitidos de geração em geração – ou de uma sociedade para outra. Socialização pode ser formal ou informal: torna-se formal quando é conduzida por grupos e instituições sociais formalmente organizados, como escolas, centros religiosos, universidades, meios de comunicação, locais de trabalho, etc. É informal quando é realizada através de interações interpessoais ou interações informais em pequenos grupos sociais. A socialização mais importante para nós é a que temos através de agentes informais como a família, pais, vizinhança e influências do grupo de pares. Ela tem uma influência muito poderosa, negativa ou positiva, em nossas vidas. O processo de socialização, seja ele formal ou informal, é de vital importância para os indivíduos e sociedade. Sem algum tipo de socialização, a sociedade deixaria de existir. A socialização, portanto, pode ser rotulada como a maneira pela qual a cultura é transmitida e os indivíduos são instalados de acordo com os modos de vida da sociedade. Sociologia INTA EAD 36 As metas de socialização Em termos de pessoas individuais, o objetivo da socialização é equipar o indivíduo com os valores básicos, as normas, as competências, etc., de modo que elas se comportem e atuem corretamente no grupo social ao qual pertencem. Socialização tem também os seguintes objetivos específicos: • incutir aspirações; • ensinar papéis sociais; • ensinar habilidades; • ensinar conformidade com as normas e construir as identidades pessoais. Apesar da importância da inculcação de valores e normas no processo de integração social, precisamos observar também que os valores sociais não são igualmente absorvidos por todos os membros de uma sociedade ou grupo. A integradora função de socialização também não é igualmente benéfica para todas as pessoas. Padrões de socialização Existem dois padrões amplamente classificados de socialização. São eles: a socialização repressiva e socialização participativa. Socialização repressiva é orientada para ganhar a obediência, enquanto a socialização participativa é orientada para ganhar a participação da criança. Principais tipos de socialização Existem diferentes tipos de socialização: tradicionais (primária ou socialização na infância, secundária ou socialização na idade adulta, dessocializaçãoeressocialização); socialização antecipatória e socializaçãoreversa. Socialização primária ou socialização na infância É também chamada de socialização básica ou precoce. Os termos “primário”, “base” ou “cedo” significam a importância do período da infância para a socialização. Muito da personalidade dos indivíduos é forjada neste período da vida. Socialização nesta fase da vida é um marco, sem ela, estaríamos longe de nos tornarmos seres sociais. Por isso, as crianças devem ser devidamente socializadas desde o nascimento até cinco anos de idade, haja vista este período ser básico e crucial. INTA EAD Sociologia 37 Uma criança que não seja apropriadamente socializada nesta fase provavelmente será deficiente no âmbito do desenvolvimento social, moral, intelectual e de personalidade. A socialização secundária ou socialização na idade adulta A socialização secundária, ou socialização na idade adulta, é necessária quando o indivíduo assume novos papéis, reorientando-se de acordo com sua mudança, status e papéis sociais, como quando inicia a vida matrimonial. O processo de socialização nesta fase pode, às vezes, ser intenso. Por exemplo, os licenciados que entram no mundo do trabalho para começar seu primeiro posto de trabalho têm novos papéis a serem executados. A socialização de adultos pode também ocorrer entre imigrantes. Quando eles vão para outros países, precisamaprender a língua, valores, normas e uma série de outros costumes. Ressocialização e Dessocialização Na vida dos indivíduos que passam por diferentes estágios e experiências não existe a necessidade de ressocialização e dessocialização. Ressocialização significa a adoção, por parte dos adultos, de estilos de vida radicalmente diferentes e que são mais ou menos diferentes com as normas e os valores anteriores. São alterações rápidas e básicas na vida adulta. A mudança pode exigir o abandono de um estilo de vida por outro, completamente diferente e incompatível com o primeiro. A dessocialização acontece frequentemente quando nas sociedades modernas, e na vida adulta, exige-se dos indivíduos transições nítidas e mudanças. Ela normalmente precede a ressocialização. Refere-se a indivíduos que mudaram seus estilos de vida, crenças, valores e atitudes e passaram a ocupar novos estilos, parcial ou totalmente, a fim de tornar-se parte do novo grupo social. Dessocialização e Ressocialização ocorrem frequentemente no que é chamado de instituições totais, o que inclui, por exemplo: hospitais psiquiátricos, prisões e unidades militares. Em cada caso, as pessoas que se juntam à nova definição têm primeiro de ser dessocializadas antes de serem ressocializadas. Ressocialização também pode significar socialização dos indivíduos novamente em seus valores e normas anteriores, depois de reunir seus antigos modos de vida, gastando relativamente longo período de tempo em instituições. Isso ocorre porque eles podem ter esquecido a maior parte dos valores básicos e habilidades do ex grupo ou sociedade. Sociologia INTA EAD 38 Esse tipo de ressocialização também pode ser considerado como a reintegração, ajudar os ex-membros da comunidade a renovar seus antigos modos de vida, habilidades, conhecimentos, etc. Socialização antecipatória Socialização antecipatória refere-se ao processo de ajuste e adaptação em que os indivíduos tentam aprender e internalizar os papéis, valores, atitudes e habilidades de um social ou profissão para a qual são prováveis recrutas no futuro. Eles fazem isso antecipando a socialização próxima na vida real. Socialização reversa Está associada ao fato da socialização ser um processo de mão dupla. Ela envolve as influências e pressões das socializações que direta, ou indiretamente, induzem a mudar atitudes e comportamentos dos próprios socializadores. Na socialização reversa, as crianças, por exemplo, podem socializar seus pais em alguns papéis, habilidades e atitudes que faltam a estes. Agentes e componentes de socialização Agentes de socialização são os diferentes grupos de pessoas e arranjos institucionais responsáveis pelo treinamento de novos membros da sociedade. Alguns deles poderão ser formais, enquanto outros são informais. Eles ajudam os membros a entrar nas atividades gerais da sua sociedade. Algumas das agências de socialização são: a família, relacionamentos com seus pares, escolas, bairros (da comunidade), a massa da mídia, etc. A instituição família é geralmente considerada o mais importante agente de socialização. No processo de socialização, os contatos mais importantes ocorrem entre uma criança, seus pais e irmãos. Os contatos também poderiam ser entre a criança e os pais substitutos quando os pais reais não estão disponíveis. Além dos pais, há outros agentes de socialização (em sociedades modernas), como creches-centros, creches e infância, escolas e universidades. Parece que esses vários agentes de socialização assumiram parcialmente a função dos pais, particularmente nas sociedades modernas onde as mulheres estão cada vez mais deixando a sua tradicional responsabilidade domiciliar para exercer uma atividade fora de casa. INTA EAD Sociologia 39 Além de pais e escolas, grupos de pares são muito importantes no processo de socialização. Às vezes, a influência do grupo de pares pode ser negativa ou positiva, e ser tão poderosa como a dos pais. Os grupos de pares (grupo de amigos) podem transmitir valores sociais vigentes ou desenvolver novas e distintas culturas próprias, com valores peculiares. Os meios de comunicação de massa como televisão, rádio, cinema, vídeos, fitas, livros, revistas e jornais são também importantes agentes de socialização. Múltiplas e contraditórias influências de socialização Até agora, o quadro de socialização apresentado pode parecer inclinado para uma visão funcionalista e estrutural da sociedade e de socialização. Assim, seria útil adicionar algumas ideias que podem ajudar a equilibrar a imagem. Numa conceituação crítica de socialização, influências contraditórias e ambíguas de socialização precisam ser destacadas. Se tomarmos o exemplo do consumo de álcool e tabaco veremos que há processos subjacentes e contraditórios de socialização por trás desse fenômeno. Influências conflitantes surgem quando, por um lado, as famílias, escolas e instituições médicas advertem os jovens para não consumirem estes produtos e, por outro lado, as empresas que produzem esses produtos estão travando uma guerra para vendê los aos jovens através da atração da propaganda. Este exemplo nos mostra que, muitas vezes, mensagens conflitantes competem a partir das várias fontes de socialização. As empresas internacionais promovem a cultura do consumismo com o auxílio dos meios de comunicação global. Estes tendem a desempenhar papéis dominantes na influência das atitudes e estilos de vida dos jovens. Sociologia INTA EAD 40 2 CORRENTES SOCIOLÓGICAS Conhecimento Compreender os pressupostos das correntes sociológicas. Habilidades Analisar a sociedade atual a partir das ideias propostas pelas correntes sociológicas. Atitudes Desenvolver a percepção das diferentes posturas teóricas face à mesma realidade social. A contribuição de Auguste Comte A sociologia oportuniza diferentes estudos e caminhos para a explicação da realidade social, não se constituindo enquanto ciência de apenas uma orientação teórica e metodológica dominante. Atendendo ao que foi afirmado, observamos na sociologia três linhas principais: a positivista-funcionalista, de Auguste Comte e Durkheim; a sociologia compreensiva iniciada por Max Weber e a linha de explicação sociológica dialética iniciada por Karl Marx. Auguste Comte Comte idealizou uma sociologia de inspiração positivista, a qual considera que a sociedade destina-se inevitavelmente ao progresso, todavia, este deve vir junto com a ordem nas instituições sociais: família, escola, empresa, religião e estado. A ordem é indispensável para manter o equilíbrio social. Nesse sentido a sociologia deve abster-se de qualquer discussão crítica sobre a realidade existente. Para compreendermos a extensão do raciocínio positivista, é importante lembrar que, de acordo com Comte, nessa época a Europa passava por uma crise econômica e social, resultante de uma nova forma de pensar a natureza e a sociedade. Tal forma desenvolveu-se a partir do século XV em resultado do conflito histórico entre a antiga ordem feudal e a nova ordem capitalista. Para Comte, a desordem e a anarquia dominavam devido aos princípios metafísicos e teológicos do passado não poderem mais ajustar-se à sociedade em transformação acelerada. Para superar esse estado, Comte propõe a construção de uma nova ordem social por intermédio da reforma intelectual do homem cujo fundamento é o uso da razão. Nesse ponto surge a sociologia ou “física social”, que se propõe reformar a prática das instituições sociais através da análise de seus processos e estruturas. A sociologia representa, para Comte, o apogeu da evolução do conhecimento, recorrendo aos mesmos métodos de outras ciências, pois todas elas procuram conhecer os fenômenos constantes e repetitivos da natureza. A sociologia, como as ciências naturais, deve procurar a reconciliação entre os aspectos estáticos e os dinâmicos do mundo natural, o que, em termos da sociedade humana, significa entre a ordem e o progresso. A ciência deveria ser um instrumento para a análise da sociedade no sentido de torná-la melhor;o mesmo é dizer que o conhecimento deve existir para fazer INTA EAD Sociologia 43 previsões do que acontecerá e também para dar a solução dos possíveis problemas que possam existir. O positivismo de Comte procura encontrar uma forma de estudar a sociedade de modo que essa pesquisa ofereça credibilidade na busca de respostas consideradas essenciais para a mudança social em diversos âmbitos, tais como: a organização da sociedade, o comportamento dos indivíduos e das instituições; a necessidade de regras e de normas; o planejamento de uma sociedade equilibrada e a resolução de conflitos. Para isso, defende uma unidade metodológica regida por leis invariáveis, cujos fundamentos para a investigação partem da análise da sociedade baseada nas ciências naturais. Como um organismo, a sociedade deve ser estudada em duas dimensões: a que Comte designa por estática social (análise de suas condições de existência; de sua ordem) e a da dinâmica social (análise de seu movimento; de seu progresso). Para o autor, ordem e progresso relacionam-se estreitamente. A sociedade evolui com base em dois movimentos, buscando a ordem e o progresso: • o primeiro movimento propõe a evolução das sociedades de modo linear, das sociedades mais simples para as mais complexas, das menos avançadas à mais evoluídas; • o segundo movimento procura adequar os indivíduos às condições estabelecidas para garantir o melhor funcionamento da sociedade, o bem-comum e os anseios da maioria da população; • Segundo Costa (1997), os conflitos, as contradições e as revoltas devem ser contidos, se tais movimentos colocarem em risco a ordem estabelecida ou inibirem o progresso. A concepção de uma evolução linear das sociedades influenciou a perspectiva etnocêntrica dos antropólogos dos séculos XIX e XX que consideravam atrasadas e inferiores as sociedades diferentes das sociedades europeias. Essa proposta eurocêntrica foi reforçada pela ideia de Comte. Este considera que, na sua evolução, as concepções intelectuais da humanidade envolvem três estágios que se excluem mutuamente: • o estágio teológico: é o ponto de partida necessário à inteligência humana na qual o pensamento sobre o mundo é dominado pelas considerações do sobrenatural; • o estágio metafísico: predomina o pensamento filosófico sobre a essência dos fenômenos e o desenvolvimento da matemática e da lógica, servindo de transição para o estágio positivo; • o estágio positivo: de acordo com Comte (1996), apresenta-se fixo e definitivo e nele o conhecimento passa a ter utilidade prática porque se baseia na ciência, ou seja, na observação cuidadosa dos fatos empíricos. Sociologia INTA EAD 44 O progresso do conhecimento do homem aconteceu de acordo com o positivismo comteano. Veja no quadro abaixo a explicação das leis dos três estados: Estado Teológico Estado Metafísico Estado Positivo Explica os diversos As causas primeiras são O homem tenta compreender fenômenos por substituídas por causas as relações entre as coisas e meio de causas mais gerais - as entidades os acontecimentos por meio primeiras, em geral metafísicas -, buscando da observação científica e do personificadas nos nessas entidades abstratas raciocínio, formulando leis. deuses. Subdivide-se (ideias) explicações sobre a Portanto, não procura mais em: natureza das coisas e a causa conhecer a natureza íntima das a) fetichismo: o dos acontecimentos. coisas e as causas absolutas. homem confere vida, ação e poder sobrenaturais a seres inanimados e a animais. b) politeísmo: quando se desenvolve a crença em mais de um Deus. c) Monoteísmo: quando se desenvolve a crença em um Deus único. Fonte: Lakatos (1990, p. 43) Era um posicionamento de caráter evolucionista, o qual acreditava que a sociedade passaria por uma sucessão de estágios menos evoluídos aos mais evoluídos, chegando à “perfeição” através do industrialismo e da ciência. Estes seriam os propulsores de uma ordem encaminhada ao progresso social. Tais ideias exerceram influência por todos os lugares do mundo, inclusive na formação da república brasileira que adotou em sua bandeira nacional a máxima positivista Ordem e Progresso. O positivismo não admite outra realidade a não ser os fatos passíveis de observação. Constitui tarefa do cientista social descobrir as relações entre os fatos, por intermédio de instrumentos específicos, na busca da objetividade científica. Não são consideradas de interesse as causas dos fenômenos, nem o conhecimento das suas consequências porque isso não é considerado tarefa da ciência. INTA EAD Sociologia 45 Como forma de aproximar as ciências sociais do modelo mecanicista, as pesquisas de orientação positivista assumem uma postura de neutralidade diante do objeto da pesquisa e de seus resultados. Além disso, tais pesquisas buscam a quantificação e repudiam a pesquisa qualitativa. Os dados empíricos são coletados e trabalhados com objetividade e neutralidade. A partir de um referencial teórico, o pesquisador levanta hipóteses e procura a sua comprovação. Os dados são processados quantitativamente. Comte defende que o pesquisador não pode estar simultaneamente na janela e vendo-se passar na rua. No teatro, não se pode ser, ao mesmo tempo, ator no palco e espectador sentado na poltrona. Para evitar a influência do subjetivo, o cientista deve manter-se neutro com relação ao seu objeto de pesquisa. A palavra objeto é simbólica, pois mostra que as pessoas seriam encaradas como peças de um jogo e não como indivíduos capazes de ter livre-arbítrio. Do mesmo modo, o pesquisador não deve manter qualquer tipo de relacionamento ou proximidade com os indivíduos que estão sendo observados. A sociologia de Comte não saiu do plano das ideias. Não houve uma viabilização desta por parte do autor, porém, os primeiros sociólogos inspiraram-se em sua filosofia positivista. A sociologia existia como um embrião que ainda não gozava de reputação científica e foi através de Émile Durkheim que ela, finalmente, foi institucionalizada no meio acadêmico. Mas afinal, quem é Émile Durkheim e o que ele propôs como teoria e prática sociológica? Sociologia INTA EAD 46 Contribuição de ÉmileDurkheim Émile Durkheim é o mais importante precursor do funcionalismo. Ele concebe a sociedade semelhante a um organismo vivo, cujos órgãos funcionam de maneira interdependente para manter sua sobrevivência e equilíbrio. Cada parte existe em função do todo. Quando umórgãoficadoente,todoocorposofreas consequências. Durkheim compara a sociedade ao modelo de funcionamento de um organismo vivo como, por exemplo, o corpo humano. Assim você deve, primeiramente, Émile Durkheim compreender o funcionamento deste organismo humano. Cada um de nós é constituído por uma unidade com diferentes partes que, juntas, funcionam de forma harmoniosa no que diz respeito à nossa saúde. Basta um órgão deixar de funcionar, ou funcionar parcialmente, para termos esta saúde afetada. Se você perder o rim ou ele não funcionar corretamente, logo sofrerá com os sintomas que podem ir desde a administração de uma medicação até o caso de hemodiálise ou morte. Desse modo funciona o corpo humano, cada parte desempenha funções específicas: rins, coração, fígado, pulmões e assim por diante. No entanto, cada órgão do corpo humano trabalha de forma independente e complementar para o bom funcionamento do todo. Usando um pensamento simplório, afirmar-se-ia que o todo é a soma das partes, mas se você montar um quebra-cabeça ou tiver peças diferentes para montar uma bicicleta, o resultado final apresentará características não contidas nas peças do quebra-cabeça que se transformou em uma bela paisagem ou nas peças do que se tornou uma bicicleta. Daí, concluímos que o “todo” tem qualidades que as partes não têm. Representação da Sociedade A ideia de totalidade pressupõe que as partes não como um todo estejam somente amontoadas umas ao lado das outras, mas que haja diferença, integração, interdependência e complementaridade entre elas. INTA EAD Sociologia 47 Assim decorre o funcionamento da sociedadepara Durkheim: • O todo prevalece sobre as partes; o mesmo é dizer que o coletivo prevalece sobre o indivíduo; • As partes (os fatos sociais) existem em função do todo (a sociedade); o mesmo é dizer que os indivíduos agem de acordo com o coletivo; • A ligação entre as partes e o todo é assegurada pela função social, o que pode ser associado ao fato de cada instituição cumprir um papel para o bom desempenho da sociedade. A sociedade busca manter seu equilíbrio e coesão por meio das instituições e das interações sociais. Para Durkheim, a sociedade é um conjunto de normas coletivas, pensamento e sentimento que não existem apenas na consciência dos indivíduos, mas que são construídos exteriormente, isto é, fora das consciências individuais. Os homens em sociedade defrontam-se com regras de conduta, regras essas conhecidas por leis, códigos, decretos, constituições. No funcionalismo destaca-se a concepção de fato social, entendido enquanto conjunto de regras e normas coletivas permanentes, ou não, que orientam a vida dos indivíduos em sociedade, exercendo alguma forma de coerção externa ao indivíduo. Os fatos sociais estão associados às maneiras padronizadas como o indivíduo age na sociedade, por exemplo: o modo de agir, de vestir-se, a língua, o sistema monetário, a religião, as leis. Durkheim propõe também uma reflexão sobre os fatos sociais que cumprem uma função integradora [fatos sociais normais]; defende que tais fatos sociais fragilizam os grupos sociais em virtude de os desagregarem [fatos sociais patológicos]. Quando numa sociedade prevalecem os fatos sociais normais, esta encontra-se em estado de integração, ordem e harmonia. Mas se os fatos sociais patológicos estão em destaque, a sociedade encontra-se em crise, apelidada pelo autor de anomia (estado social na ausência de normas). Para o funcionalismo, a tarefa da sociologia é estudar os fatos sociais construídos pelo conjunto da sociedade (exteriores); estes são coercitivos (normativos) e gerais (coletivos) e por isso são independentes da escolha pessoal, subjetiva ou consciente dos indivíduos isoladamente. O conhecimento individual representa a capacidade de compreensão e de interiorização da realidade ou da cultura socialmente construída. Isso somente é possível porque o que o sujeito sente, pensa e faz depende do conjunto devalores, crenças, dados ou leis exteriores a ele que lhe servem de parâmetro e com osquais foi educado no grupo social em que nasceu. Sociologia INTA EAD 48 Para conhecer mais sobre conceitos de fatos sociais, propomos a leitura de um trecho adaptado do livro As regras do método sociológico de Émile Durkheim (1987): Chegamos assim a compreender, de maneira precisa, o domínio da sociologia, o qual engloba um grupo determinado de fenômenos. O fato social é identificável pelo poder de pressão externa que tem ou é apto a fazer sobre os sujeitos. A presença deste poder é identificável, por sua vez, seja pela existência de alguma penalidade pré-definida, seja pela oposição que o fato opõe a qualquer iniciativa individual que procure violentá-lo. Todavia, podemos defini-lo também pela difusão que apresenta no interior do grupo, desde que, de acordo com as observações anteriores, tenha-se o cuidado de acrescentar como característica segunda e essencial que ele existe independentemente das formas individuais que toma ao difundir-se. Em alguns casos, este último critério consegue ser de mais fácil aplicação do que o anterior. Em consequência, a coerção é fácil de identificar quando ela se traduz no exterior por qualquer reação direta da sociedade, como é o caso do direito, da moral, das crenças, dos usos e mesmo das modas. Mas, quando não é senão indireta, como a que exerce uma organização econômica, não se deixa observar com tanta facilidade. De fato, quando se deseja saber como uma sociedade está dividida politicamente, como se compõem estas divisões, não é com o auxílio de uma investigação material e por meio de observações geográficas que poderemos alcançá-lo, pois estas divisões são morais, ainda quando apresentam algum ponto de apoio na natureza física. Através do direito público faz-se possível estudar tal organização, pois é ele que a determina, bem como determina nossas relações familiares e cívicas. No entanto, isso não torna a organização menos obrigatória do que outros fatos da vida social. A aglomeração das pessoas nos centros urbanos, ao invés do campo, deve-se a uma corrente de opinião que as leva a esta concentração. Essa corrente de opinião manifesta-se como uma pressão coletiva, que é apresentada, às vezes de maneira imperiosa, obrigando os indivíduos a agir de tal maneira, determinando um sentido para a realização de migrações interiores e as trocas e condicionando até mesmo a intensidade na qual essas trocas e migrações devem ocorrer. A estrutura política de uma sociedade é formada a partir da maneira como os diferentes segmentos que dela participam habituaram-se a conviver uns com os outros. Se as relações sociais apresentam-se tradicionalmente estreitas, os segmentos tendem a distinguir-se. Nem mesmo é dado a nós o direito de escolher a forma de nossas casas. O tipo de habitação imposta ao indivíduo é resultante da maneira pela qual as pessoas a nossa volta, bem como as gerações anteriores, habituaram-se a construir suas casas. INTA EAD Sociologia 49 O conteúdo apresentado por Durkheim compreenderá o todo definido, ao afirmar-se que fato social é toda maneira de agir, seja fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou então, que é geral na extensão de uma sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente das manifestações individuais que se possa ter. Durkheim afirma que há uma especialização das funções entre os indivíduos nomeada por ele de “divisão do trabalho social”. Essa divisão não diz respeito somente às atividades econômicas, mas é o fato fundante da coesão social, da união, da solidariedade. É importante que você entenda o conceito de solidariedade de Durkheim. Solidariedade mecânica e solidariedade orgânica Nas sociedades tradicionais,ouseja,pré-capitalistas,nãohaviaumgrandenúmero de especializações quando comparadas à sociedade capitalista. Um profissional era capaz de realizar seu processo de produção de forma completa, realizando todas as etapas. Dessa forma, o que unia as pessoas não era o fato de uma depender do trabalho da outra, mas o fato de haver semelhança em termos de tradição, crenças e sentimentos. Há uma regulação moral das condutas que decorrem da tradição, ou seja, da consciência coletiva. A esse tipo de união Durkheim nomeia solidariedade mecânica. Nas sociedades capitalistas assistimos a um grande número de especializações; há uma maior divisão do trabalho. Os indivíduos tornam-se interdependentes na medida em que há uma valorização da contribuição de cada indivíduo no processo de cooperação social. Um precisa da especialização do outro e isso garante a união social, a coesão. Daí emana a moralidade. É importante ressaltar que você não nasce sabendo da existência desses papéis e, muito menos, quais as atividades que são destinadas a cada um deles. É através do processo de aprendizagem que o ser humano passa a entender como deve comportar-se e agir. Os sociólogos dão o nome de socialização ao processo de aprendizagem dos papéis sociais do indivíduo. É através desse processo que se internalizam os modos de agir,pensar e sentir, modos estes que os levam a conviver em sociedade. Os indivíduos não param para pensar nessas internalizações e elas passam despercebidamente, sendo confundidas com a vontade própria de cada um. Sociologia INTA EAD 50 Na perspectiva funcionalista, a sociedade somente consegue manter-se parcialmente coesa porque indivíduos compartilham valores e regras. Vamos recorrer ao exemplo explanado por Haguette (2003): o que seria passear nas ruas se os motoristas e pedestres não compartilhassem o mesmo código de trânsito? Certamente não haveria trânsito, não é mesmo? O funcionalismoentende que existem formas diferenciadas de viver, porém, a socialização e internalização provocadas pelo processo de aprendizagem tornam possível a convivência do homem. Há um conjunto de representações que são compartilhadas pelos membros de uma sociedade. Vamos entender melhor? Consciência individual e consciência coletiva Cada indivíduo tem uma forma específica de pensar, sentir e entender o mundo. Cada ser humano é dotado de uma personalidade que lhe é própria, onde se manifesta o que Durkheim nomeia de consciência individual. De acordo com o autor, existe outra forma de consciência constituída por ideias comuns, partilhadas pelos membros de uma sociedade. São ideias que estão presentes em todas (ou quase todas) as consciências individuais de uma sociedade, portanto, são consciências coletivas. A consciência coletiva manifesta-se objetivamente, ou seja, de forma exterior ao indivíduo. Ela pode ser expressa pelo conjunto de normas que obedecemos no nosso dia a dia, as quais não foram criadas por nós, mas já existiam na sociedade antes de nascermos. Cada sociedade ensina aos seus indivíduos o que é considerado certo e errado. Através do aprendizado, socializa seus homens ensinando o que é ou não permitido e atribui sanções negativas ou positivas a fim de controlar o comportamento. As sanções positivas são as formas de reconhecer que o indivíduo está se comportando de acordo com as perspectivas sociais e podem ser representadas através de uma boa reputação, respeito, recompensas em dinheiro, dentre outros. As sanções negativas são o reconhecimento de que o indivíduo não atendeu às expectativas sociais e podem ser expressas por fofoca, má fama, exclusão do grupo, condenação, violência moral ou física, dentre outros. A pena dada ao criminoso não objetiva somente castigá-lo, mas constitui a tentativa de restabelecer a norma social. A impunidade enfraquece a percepção de valores e a noção de dever para com os outros. INTA EAD Sociologia 51 Para o funcionalismo, os indivíduos não têm a potencialidade de modificar a sociedade, uma vez que o todo é muito mais forte do que a parte. São as instituições como a Igreja, a família, a escola, as leis, que moldam o indivíduo e este aparece como um agente passivo que em nada pode intervir. Uma das críticas à concepção funcionalista da sociedade é que ela não consegue dar conta das transformações sociais e não reconhece o indivíduo como agente transformador, sujeito da história. Essa é a forma como Durkheim e a corrente funcionalista concebem a realidade social, mas é importante sabermos o que Durkheim toma como objeto de estudos da sociologia. O objeto de estudos da sociologia Partindo do pressuposto que é a sociedade que explica o indivíduo, de acordo com Durkheim (2003), o que a sociologia deve ocupar-se em estudar são os fatos sociais. O que este sociólogo denomina de fato social possui em si características fundamentais que descreverão o objeto de estudo sociológico. É importante explicitarmos as três peculiaridades dos fatos sociais e entendermos através de exemplos cada uma delas. Coerção: consiste na força que os fenômenos exercem sobre os indivíduos que, independente de suas escolhas, acabam por conformar-se com as regras que estão postas na sociedade. Caso o indivíduo não cumpra tais imposições, logo será punido. As punições podem ser legais, no sentido de serem sustentadas por uma legislação, ou “espontâneas”, que são aquelas reprimidas moralmente pelo grupo ao qual o indivíduo pertence. Ex.: Se um dia você estranhar porque as pessoas andam com roupas e decidir andar sem elas, certamente você será punido, pois aqui no Brasil, andar sem roupas constitui um crime de atentado ao pudor. Exterioridade: significa que os fatos sociais existem e atuam sobre o indivíduo independente de sua vontade ou de sua aceitação consciente. Antes de nascermos, já existe um conjunto de regras sociais às quais teremos que nos adequar. Não sentimos, de maneira brusca, o caráter coercitivo e exterior desta adequação porque as normas e regras sociais são inculcadas no indivíduo através do processo educativo. Ex.: Quando você nasceu já existia “pronto” um sistema monetário ao qual, posteriormente, você teve que aderir, pois caso precise comprar um caderno em um estabelecimento comercial, terá que pagar por ele em “real” que é a moeda vigente no Brasil. Se você sair sem dinheiro ou com cédulas da moeda econômica usada na Argentina, o peso argentino, você ficará sem o caderno. Sociologia INTA EAD 52 Generalidade: esta característica pressupõe que para ser social, o fato não pode ser observado individualmente. Ele deve repetir-se em todos os indivíduos de uma sociedade ou grupo social, ou na maior parte deles. Os exemplos citados acima podem demonstrar bem isso: é comum a todos os membros da sociedade brasileira (e de outras sociedades também) a proibição de sair sem roupas pelas ruas; todos os membros da sociedade brasileira devem utilizar o real para fazer transações comerciais (com exceção das comunidades que praticam a lógica da economia solidária e adotam uma moeda própria para transações em uma pequena comunidade ou um bairro, como é o caso do Conjunto Palmeiras em Fortaleza- CE, que tem um banco próprio e adota uma moeda própria). Levando em consideração as características acima descritas, Durkheim formulou um modelo para explicar a ocorrência dos fatos sociais. Seguindo a tendência de que a sociologia deveria adotar os mesmos procedimentos de pesquisa das ciências naturais, o autor declara que “a primeira regra e mais fundamental é a de considerar os fatos sociais como coisas” (DURKHEIM, 2003, p. 94). Mas, como vamos “coisificar” fatos sociais? Essa será uma discussão para o próximo tópico. Método de estudo: a coisificação do fato social Na concepção de Durkheim, os principais fenômenos sociais como a religião, o direito, a moral, a economia ou a educação são sistemas de valores e se o investigador estiver impregnado com os valores que esses fenômenos expressam, não terá a isenção necessária para entendê-los. É necessário suspeitar das primeiras impressões e disso surge a necessidade de abordar os fatos sociais como coisas, ou seja, como objetos. Para Durkheim (2003), coisa é todo objeto do conhecimento que a inteligência não alcança de maneira natural; corresponde ao que o espírito não pode chegar a compreender, a não ser sob o viés da condição da fuga de si, mesmo através da observação e da experimentação. INTA EAD Sociologia 53 O cientista social teria que colocar-se num estado de espírito semelhante ao dos físicos, químicos, fisiologistas, olhando o objeto de estudo como algo que não pertence ainda ao seu conhecimento e exercendo a prática cartesiana da dúvida metódica. O fato e a análise É importante ter em mente que a regra de tratar fatos sociais como coisa é uma postura metodológica intelectual e não significa dizer que são coisas materiais. Significa a pretensão de uma objetividade científica e a separação radical entre senso comum e conhecimento científico. O sociólogo deve ser imparcial e neutro, deve mostrar como as coisas são e não como deveriam ser e deve afastar das pesquisas qualquer sentimento, qualquer subjetividade. Quando Durkheim afirma que os fatos sociais devem guardar a característica de serem comuns a todos os membros de um grupo, quer demonstrar que, ao nascer, o indivíduo já encontra uma sociedade constituída. Os costumes, o direito, as crenças religiosas, o sistema financeiro do qual ele faz parte foram criados pelas gerações passadas, sendo transmitidos às novas gerações através de educação. O fato social guarda a característica de ser uma representação coletiva. Na concepção do autor, existem duas dimensões em cada um de nós: uma individual, que está referenciada por estados mentais relacionados somente à nossa pessoa; e, ao mesmo tempo, uma social ou coletiva, que é referenciada por coisas adquiridas socialmente como as crenças, os valores, etc. Nas palavras de Durkheim (1999, p. 50), a consciência coletivaé o “conjunto de crenças e sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade que forma um sistema determinado com vida própria”. Portanto, essa dimensão Sociologia INTA EAD 54 coletiva significa o quanto há dos outros em nós, seja da família, dos amigos, dos ensinamentos que tivemos na escola ou até mesmo das tradições que as gerações passadas deixaram de herança. Quando nascemos, somos instruídos a agir de determinada maneira pelo conjunto de regras elaboradas em um meio moral compartilhado. Nós naturalizamos estas regras que acabamos por nem percebê-las em nosso cotidiano, porém, se não agirmos de acordo com as expectativas, sofreremos algum tipo de penalidade, seja ela física ou moral. Como já foi mencionado, se um indivíduo experimentar andar sem roupas pela rua é certo que será preso; se o menino arrotar à mesa durante a refeição, logo será chamado de mal educado por aqueles que o observam; se o homem tiver mais de uma namorada será acusado por traição e chamado de “sem vergonha”. Apesar de parecerem proibições óbvias, basta olharmos outras culturas para entender que não são tão óbvias assim, antes são apenas construções de determinada cultura. Em tribos indígenas é comum andar sem roupa; para certas culturas árabes arrotar após a refeição é sinônimo de gentileza, pois significa que a comida está de bom gosto; no Islã o homem pode ter mais de uma mulher oficialmente. O certo é que cada indivíduo é ensinado a viver de acordo com as regras estabelecidas em sua sociedade. Esse processo de ensino-aprendizagem é nomeado por cada “modelo” de educação. Não se trata aqui de uma educação escolar, mas de educação da vida cotidiana. Para Durkheim, educação é o meio pelo qual aprendemos a ser membros da sociedade, portanto, educação é sociabilidade. Então, é objetivo da educação formar esse ser social que constitui cada um de nós. Nas ideias do autor, há a concepção de que é a sociedade que nos molda. Apesar de deixar explícito que cada sociedade educa suas crianças de forma diferente de outra, ou seja, que a educação coloca a criança em contato com determinada sociedade e não com a sociedade in genere, é interessante refletir se as concepções de Durkheim conseguem explicar o caráter de mudança que vem se apresentando desde o início da modernidade. INTA EAD Sociologia 55 Contribuição de MaxWeber Weber, influenciado pelo idealismo alemão (uma corrente filosófica), leva em consideração a importância da pesquisa histórica para a compreensão das sociedades. Esta perspectiva opõe-se ao positivismo na medida em que a corrente filosófica e científica deste toma a história como um processo universal onde a sociedade evolui em estágios que somente podem ser percebidos pelo método comparativo. Tal posicionamento invalida a importância dos processos históricos particulares, homogeneizando as diferentes formações sociais. Essa foi a corrente seguida por Durkheim. Max Weber Opondo-se a tal, Weber defende que não é possível entender o mundo social considerando somente os fatores externos aos seres humanos; é necessário entender também as ações individuais e levar em consideração o sentido que os indivíduos atribuem às ações e aos seus valores. O caráter particular e específico de cada formação sócio-histórica deve ser levado em consideração. Para Max Weber, a sociologia deve concentrar-se na análise da conduta social, procurando compreender o sentido das interações significativas de indivíduos que formam uma teia de relações sociais. Assim, segundo Weber, a conduta social somente vai existir quando o indivíduo tentar estabelecer algumtipo de comunicação, a partir de suas ações, com os demais. De acordo com este, a conduta social pode ser representada em quatro categorias. Conduta Tradicional Conduta Emocional Conduta Valorizadora Conduta Racional-Objetiva Reação habitual ou Consiste em agir comportamento dos Agindo de acordo segundo um plano Relativa às antigas outros, expressando- com o que os outros concebido em tradições se em termos indivíduos esperam relação à conduta de lealdade ou de nós. que se espera dos antagonismo. demais. Fonte: Lakatos (1990, p. 51) A ação social ocorre quando o sentido pensado pelo indivíduo considera a conduta dos outros no momento em que uma ação é praticada. Desse modo, o Sociologia INTA EAD 56 sentido é que dá à ação social seu caráter específico. Pelo que foi afirmado, o ponto de partida da sociologia de Weber não se encontra nas entidades coletivas, grupos ou instituições. Seu objeto de investigação é a ação social, a conduta humana dotada de sentido. Assim, o homem na teoria weberiana passou a ter enquanto indivíduo, significado e especificidade. É ele que dá sentido à sua ação social, estabelecendo a conexão entre o motivo da ação, a ação propriamente dita e seus efeitos. Para Weber, as normas sociais somente tornam-se concretas quando são manifestadas em cada indivíduo sob a forma de motivação. Desse modo, cada indivíduo age levado por um motivo que é dado pela tradição. Weber argumenta que a sociedade pode ser compreendida a partir do conjunto das ações individuais, estas compreendidas como todo tipo de ação que o indivíduo pratica, orientando-se pela ação de outros. Desse modo, a ciência explica o fenômeno social a partir da investigação do comportamento subjetivo, que vincula o indivíduo a seus atos. Haguete (2003) coloca ao leitor o exemplo da abolição da escravatura para que seja compreensível o fato de uma realidade social não poder ser explicada levando em consideração fatores isolados. O autor parte das seguintes perguntas: “Como explicar a abolição dos escravos no século XIX?”. “Houve somente uma causa ou várias condições estavam presentes para torná-la possível?” Como resposta, o autor afirma que alguns livros de História justificam a abolição pelo bom coração da Princesa Isabel que tomou a atitude de libertar os escravos, outros justificam que a escravidão acabou porque não comportava mais o caro uso da mão de obra escrava, outros destacam a luta dos abolicionistas e assim existem muitas versões para justificar este fato histórico. Pensemos: será necessário escolher uma causa? Se Weber fosse explicar a abolição da escravatura, diria que foi uma confluência de fatores que tornaram a prática escravocrata inviável. Nenhuma das explicações deve ser desconsiderada, mas considerá-las isoladamente é um erro. Além de entender que múltiplos fatores forjaram a abolição da escravatura, Weber diria ainda ser necessário entender cada um deles e explicá-los. Portanto, é preciso entender a proposta de Max Weber para o qual o pesquisador deve fazer umesforço visandocompreender e interpretaropassadoe as repercussões INTA EAD Sociologia 57 deste nas características peculiares das sociedades contemporâneas. Essa proposta foi denominada “método compreensivo”. Enquanto ciência das atividades sociais, a sociologia deve compreender e explicar a ação dos indivíduos, assim como os valores pelos quais estes se pautam. A sociologia de Weber não considera os fenômenos sociais como a pura expressão de causas exteriores que se impõem aos indivíduos. A ação social é produto das atitudes dos indivíduos de carne e osso que dão um sentido à sua ação. Quando falamos em ação social, estamos tratando do que Weber toma como objeto, por excelência, da sociologia. Ao cientista cabe investigar qual o seu sentido ou significado. Mas o que é essa ação social? Nessa questão, é importante ressaltar que o autor diferencia ação de ação social. A primeira é toda conduta humana que traz em si um significado subjetivo atribuído pelo agente que a executa; é o significado subjetivo que orienta a ação. Quando um agente orienta sua ação levando em conta a ação de outro(s) agente(s) que podem ser tanto individualizados e conhecidos, como um conjunto de indivíduos desconhecidos, a ação passa a ser social, ou seja, o indivíduo está agindo levando emconsideração Ação social outro indivíduo. Tomando o exemplo dado pelo próprio autor,podemos entender melhor: uma pessoaestá na rua e começa a chover, ela tira da bolsa um guarda-chuva e abre sobre sua cabeça para não se molhar. Essa atitude consiste numa ação, pois a pessoa age individualmente, motivada pelo desejo de não ser molhada. Mas, se uma pessoa está na rua, começa a chover, ela abre o guarda-chuva e convida a pessoa que está ao seu lado a compartilhar este objeto para não se molhar, temos o exemplo de uma ação social, pois é evidente que ela está agindo levando em consideração outro indivíduo. Na diferenciação que Weber faz entre ação social e relação social, temos que a última somente acontece na medida em que uma conduta coletiva é reciprocamente orientada e dotada de conteúdos cujos sentidos podem ser socialmente partilhados pelos diversos agentes sociais. O que caracteriza a relação social é que o sentido das ações sociais a ela associados pode ser compreendido (ainda que parcialmente) pelos diversos agentes de uma sociedade. Sociologia INTA EAD 58 Vamos a um exemplo: Um sujeito pede informação a outro estabelecendo uma ação social. Ele tem um motivo e age em relação a outro indivíduo, mas tal motivo não é compartilhado no sentido de que a ação somente é considerada social se acontecer mutuamente. Numa sala de aula, por exemplo, o objetivo da ação dos vários sujeitos é compartilhado, isto é, há a busca coletiva por determinadas informações, existindo, portanto, uma relação social. Resumindo, para Weber, “somente a ação com sentido pode ser compreendida pela sociologia, a qual constrói tipos ou modelos explicativos” (QUINTANEIRO, 2002, p. 115). Maria questiona o sentido de estar no mundo. Uma ironia para entender o sentido weberiano. Como o cientista deve tratar o objeto de estudo sociológico Ao discorrer sobre o dever prático de defender os próprios valores, diferente de Durkheim, o qual postulava que a primeira e mais fundamental regra seria tratar os fatos sociais como coisas, Weber acreditava que investigando um tema, o cientista é influenciado pela sua concepção de mundo. A fim de empreender a análise científica, o sociólogo deve estar devidamente treinado para estabelecer uma distinção entre “reconhecer e julgar”. Ao cientista cabe reconhecer até onde vão seus próprios valores e tentar identificar a verdade dos fatos sem defender tais valores. Isso significa que o sociólogo deve dizer como as coisas são através da observação empreendida e não como as coisas deveriam INTA EAD Sociologia 59 ser. É necessário diferenciar os juízos de valor do saber empírico que nasce de necessidades e considerações práticas historicamente colocadas. Na concepção de Weber, a política é uma vocação que deve ser diferenciada da vocação científica. “A ciência é um procedimento altamente racional que procura explicar as consequências de determinados atos, enquanto a posição política prática vincula-se a convicções e deveres” (QUINTANEIRO, 2002, p.109). Mas, será possível ter objetividade com a presença dos nossos valores na prática científica? De acordo com Weber, isso é possível sim. Basta que o pesquisador tenha consciência de que está incorporando seus valores na pesquisa e, através de procedimentos rigorosos de análise, tenha controle destes valores que devem ser tomados como “esquemas de explicação condicional”. Devemos entender que a realidade social é infinita e os problemas sociológicos não estão dados, não existem sozinhos, senão pela abordagem do cientista social. É o cientista que deve atribuir aos aspectos do real e da história que examina uma lógica através da qual procura estabelecer uma relação causal entre determinados fenômenos. Assim, para atingir uma explicação dos fenômenos sociais, Weber construiu um instrumento de análise que chamou de tipo ideal. Mas o que é isso? O tipo ideal: um instrumento de pesquisa do saber sociológico Do ponto de vista de Weber, o pesquisador precisa organizar a realidade de forma lógica no plano do pensamento. Não se trata de traduzir uma estrutura do mundo. Trata-se de desenvolver instrumento por meio do qual o pesquisador não vai utilizar-se de fatos do mundo físico, palpável, mas de fatos teóricos para compará-los com os reais (físicos) e assim formular suas hipóteses, as quais, após isso, poderão ser comprovadas ou refutadas. Sociologia INTA EAD 60 Os tipos ideais “Obtêm-se um tipo ideal mediante a acentuação unilateral de um ou vários pontos de vista e mediante o encadeamento de grande quantidade de fenômenos isolados dados, difusos e discretos, que se podem dar em maior ou menor número ou mesmo faltar por completo, e que se ordenam segundo pontos de vista unilateralmente acentuados a fim de se formar um quadro homogêneo de pensamento.” (WEBER, 1991, p. 106) “Tais construções (...) permitem-nos ver se, em traços particulares ou em seu carátertotal, os fenômenos se aproximam de uma de nossas construções, determinar o grau de aproximação do fenômeno histórico e o tipo construído teoricamente. Sob este aspecto, a construção é simplesmente um recurso técnico que facilita disposição e terminologia mais lúcidas” (WEBER apud QUINTANEIRO, 2002, p. 113) “O tipo ideal de Max Weber corresponde ao que Florestan Fernandes define como ‘conceitos sociológicos construídos interpretativamente como instrumentos de ordenação da realidade’. O conceito de tipo ideal é previamente construído e testado, depois aplicado a diferentes situações em que o cientista presume que dado fenômeno possa ter ocorrido. Na medida em que o fenômeno se aproxima ou se afasta de sua manifestação típica, o sociólogo pode identificar e selecionar aspectos que tenham interesse à explicação, como por exemplo, os fenômenos típicos ‘capitalismo’ e ‘feudalismo’”. (COSTA, 1997, p. 65) Se o tipo ideal é uma construção mental elaborada pelo sujeito, certamente será a seleção de um aspecto da realidade que se pretende estudar. Ao selecionar tal aspecto – consideremos que é impossível estudar o mundo social em sua totalidade – o pesquisador levará em conta seus interesses e problemas que ele quer aprofundar. Cada pesquisadortem um motivo, seja ele qual for,para realizar determinada pesquisa. Quando o pesquisador elabora tipos ideais, não está reproduzindo a realidade como ela é. No mundo material não há uma ligação racionalizada dos fatos, somente o intelecto humano é capaz de fazer tais relações. Podemos entender “tipos” como conceitos, portanto, “conceitos ideais” - quer dizer que são conceitos idealizados e não a tradução objetiva de fenômenos. É apenas a maneira encontrada para aproximar pesquisador e realidade. Weber argumenta ser impossível ao cientista agir com total imparcialidade sobre os fatos, pois sua ação é influenciada pelo seu tempo. O estudo e a pesquisa devem tentar limitar o espaço para as crenças e ideias pessoais do pesquisador perante o fato estudado. Na busca de uma melhor adequação para as análises dos fatos sociais, Weber constrói um modelo para suas análises baseado no que chama de tipoideal. INTA EAD Sociologia 61 Weber apresenta três tipos ideais de legitimidade como base para a dominação: • Legal/racional: baseia-se na legalidade das instituições e segue regras segundo uma lei, autoridade exercida por essas instituições; • Tradicional: baseia-se na crença da bondade das tradições que vigoram desde tempos longínquos, onde quem ordena é o senhor e quem obedece são os súditos; predomina a dominação patriarcal cujos costumes estão enraizados; • Carismática: que se baseia na santidade, heroísmo, devoção de um senhor, busca de líder para solucionar seus problemas. Os tipos ideais são construções do pesquisador usadas para analisar o mundo, não significando que encontraremos na realidade esses tipos ideais. A utilidade da constituição dos tipos ideais está no fato de que qualquer situação do mundo real pode ser compreendida quando comparada a um tipo ideal. A ética protestante e o espírito do capitalismo Uma das obras mais reconhecidas de Weber é A ética protestante e o espírito do capitalismo, na qual o autor investiga as origens do capitalismo modernoempreendendo uma análise da relação entre determinada religião (o protestantismo) e o moderno sistema econômico capitalista industrial. Consiste na aplicação de seus conceitos e de sua metodologia. Por ética protestante, Weber entende um estilo de vida, um modo de ver e encarar a existência pautado na disciplina ascética, na poupança, no compromisso com o trabalho. O estilo de vida dos protestantes ascéticos contribui para a formação de uma mentalidade que propicia a consolidação do capitalismo. Porém, Weber não coloca o protestantismo como causa única do capitalismo. Ele reconhece que na formação do capitalismo existem influências econômicas, políticas, culturais, técnicas e jurídicas. Existe um conjunto de fatores interdependentes que dão forma a um fenômeno social: o capitalismo. Weber não se refere a qualquer capitalismo ou “qualquer” protestantismo. Ele relaciona uma forma determinada de protestantismo, que é o ascético, ou seja, o protestantismo praticado por uma vida regrada e levando em consideração a moral desta religião, mostra que seus adeptos têm uma prática metódica fundamental para a consolidação do capitalismo. A relação entre a ética protestante e o espírito do capitalismo consiste numa atração entre duas visões de mundo que se reforçam mutuamente. É uma ligação Sociologia INTA EAD 62 que ocorre a partir de “afinidades eletivas”. Mas o que são afinidades eletivas? Neste caso, significa a existência de elementos convergentes e análogos entre uma ética religiosa e um comportamento econômico. Mas somente os protestantes estão inseridos no modo de vida capitalista industrial? Nãoprecisa ser umgrande teóricopara entenderque a resposta àpergunta é não. Weber explica que o capitalismo se propagou no Ocidente em decorrência de inúmeros fatores. O primeiro deles foi a contribuição de Martinho Lutero e sua concepção de vocação, que postulava a valorização religiosa do trabalho como uma tarefa ordenada por Deus. A contribuição de KarlMarx De acordo com Tomazi (2000), uma das contribuições principais de Marx para a análise da vida social foi o estudo que realizou sobre a indissociável relação entre o indivíduo e a sociedade, incluindo aqui o estudo das condições materiais em que essas relações ocorrem. Para Marx, o fulcro das transformações da sociedade era a existência, em cada momento histórico, de conflitos entre a classe dominante e a classe dominada, definidas a partir das relações que Karl Marx estabelecem com a propriedade dos meios de produção. Para compreender a obra de Marx, é necessário entender um pouco sobre o que estava acontecendo em meados do século XIX. Desde o começo da Revolução Industrial na Inglaterra, em meados do século XVIII, os trabalhadores viviam em péssimas condições, o que envolvia não somente as condições de trabalho nas fábricas, mas também todos os outros pormenores da vida social. As dificuldades da vida dos trabalhadores sensibilizaram diversos pensadores da época e apesar da sua origem burguesa e aristocrática, eles tomaram a iniciativa de elaborar projetos de reformas sociais baseados em ideais de justiçasocial. Apesar de nunca ter se autonomeado sociólogo, o conjunto de sua obra oferece subsídios para explicar a vida social a partir do modo como os homens produzem sua existência por meio do trabalho problematizando o papel destes como agentes transformadores da sociedade. INTA EAD Sociologia 63 Crítico ferrenho das ideias positivistas, Marx demonstra que a fundamentação de uma teoria científica visando a construção de uma ordem social para alcançar o progresso não conseguiria dar conta dos conflitos que emergiam na sociedade industrial. Para ele, o caminho não era identificar os problemas sociais e solucioná-los com a finalidade de estabelecer o bom funcionamento da sociedade, mas contribuir para que fossem realizadas mudanças radicais. Marx percebia que era a luta de classes e não a harmonia social que constituía a realidade concreta da sociedade capitalista. Portanto, a corrente marxista desperta a vocação crítica da sociologia, unindo explicação e alteração da realidade, ligando-a aos movimentos de transformação da ordem vigente. De acordo com Martins (2006, p.6), a teoria social elaborada por Marx ofereceu subsídios para posteriores pesquisas no âmbito da sociologia. Forneceu contribuição para “a análise da ideologia, para a compreensão das relações entre classes sociais, para o entendimento da natureza e das relações com o Estado, para a questão da alienação”. Portanto, Marx influenciou decisivamente a formação da sociologia que, em alguns casos, incorporou parte de suas ideias para pensar a sociedade moderna. Como teórico e militante, Marx foi muito sensível às formas de exploração estabelecidas na sociedade capitalista e para entender esta sociedade fez uso da história, rebuscando os fatos desde o início da civilização até os dias atuais. Chegou à conclusão que a história da humanidade é a história de classes, portanto, uma história de contradições. Essas contradições não eram percebidas pelo intelectual como um estado de anomia, de doença social, mas como a maneira pela qual a realidade se expressava e o homem enxergava no tempo presente o que não é almejado por ele para que possa alterar e construir um futuro diferente. Para Marx, o homem é agente da transformação. Ohomemédiferentedosoutrosanimaispelanecessidadequetemdetransformar a natureza, produzindo o que Marx chama de vida material. Esta transformação da natureza e produção dos bens materiais necessários à existência humana designa se como trabalho e é o fator fundante do ser social. É a partir dele que surgem os demais momentos da realidade social. Então, na concepção marxista, o modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e espiritual. Marx compara a relação das necessidades políticas, econômicas e ideológicas do homem à estruturação e articulação dos andares de um edifício. O edifício social pensado por Marx tem três andares, sendo que o primeiro, como é de se esperar, constitui o alicerce sobre o qual os outros andares se sobrepõem. Este primeiro andar é denominado “infraestrutura” e consiste na estrutura econômica da sociedade; o segundo depende do primeiro para se sustentar e é composto pelas formas políticas Sociologia INTA EAD 64 e jurídicas desta sociedade. Já o terceiro andar depende dos dois primeiros e é constituído pela forma de consciência social denominada ideologia. Nesta metáfora formulada por Marx percebemos que a base econômica é que sustenta as relações sociais. Para este intelectual e revolucionário alemão, as formas políticas e ideológicas de convivência social são estabelecidas e transformam-se a partir do modo como os homens atendem às suasnecessidades Edifício Social materiais. Se o sociólogo pretende compreender os homens de sua época a partir das ideias de Marx, ele deve conhecer as suas relações de produção, questionando a atividade econômica praticada por estes, procurando saber quais os membros da sociedade que trabalham e os que não trabalham, como trabalham, para quem trabalham, como ocorre a divisão das atividades de trabalho, entre outros aspectos. Somente com o entendimento destes aspectos é que o pesquisador vai entender como os homens atendem às suas necessidades políticas e o que eles pensam e dizem. ParaMarx,asmudanças sociaisnãopartemde mudançasnas ideiasepensamentos do indivíduo. Não se deve almejar mudanças sociais começando pela cabeça do homem, tentando mudar seus valores, suas crenças, nem a sua organização política. Se uma mudança na sociedade é almejada, a primeira coisa a ser modificada é o seu sistema de produção, as formas de apropriação e as relações de trabalho. Desta forma, as classes sociais mudariam sua atuação e aconteceriam mudanças nas maneiras de sentir, pensar e agir, bem como nos arranjos políticos (seriam como consequência). Em termos de conceitos, a economia caracterizada pela soma das forças produtivas com as relações de produção é denominada infraestrutura.Já os andares de cima do edifício, as formas jurídicas e políticas e as formas sociais de consciência, são todos denominados superestrutura. INTA EAD Sociologia 65 A figura abaixo possibilita uma melhor compreensão: Esquema de entendimento teórico da organização social pensada por Karl Marx. Alguns conceitos básicos: exploração, expropriação, ideologia, alienação O processo de trabalho envolve duas dimensões principais: de um lado, a relação do homem com a natureza, e de outro, a relação dos homens com outros homens. Analisando a sociedade moderna capitalista, Marx constata que nesta, a relação entre os homens é de exploração. Ao dominar os meios de produção, os capitalistas subtraíram dos trabalhadores não apenas os meios de produção da vida material, mas também o saber tradicional do qual dependiam para manter-se na condição de artesãos autônomos e, consequentemente, subtraíram também sua posição social. A isso Marx deu o nome de expropriação. O processo de expropriação tira do trabalhador a consciência das relações sociais e este acaba por naturalizar a ideia de que deve ser um assalariado com condições mínimas para viver. O trabalho que antes era para a manutenção e reprodução da sua própria vida passa a pertencer ao burguês. Sociologia INTA EAD 66 Ao processo que coloca o trabalho como algo exterior ao trabalhador, Marx nomeia de alienação. Aqui, a palavra alienação não tem o mesmo sentido que costumamos usar no dia a dia. Geralmente, se uma pessoa é “bitolada” em algo, é comum que seja classificada como alienada. Apesar de ser o mesmo termo usado por Marx, o autor entende alienação de outra forma. Vamos entender melhor a partir do texto de Leôncio Basbaum: O conceito de alienação A alienação é uma forma de relação entre os homens e, ao mesmo tempo, entre os homens e determinados objetos ou coisas que lhe são exteriores. Essa forma de relação não é natural. Ela surge em determinado momento, no processo do desenvolvimento histórico das sociedades humanas. Apesar desse desenvolvimento ser criação e exteriorização dele próprio, o homem é profundamente afetado pelo processo: ele aliena-se. O termo alienação, originalmente – e ainda hoje – era um termo da psiquiatria que designava uma forma de perturbação mental. Como a esquizofrenia – uma perda de consciência ou de identidade pessoal. Do ponto de vista econômico-social, é a perda da consciência de si, em virtude de uma situação concreta. O homem perde sua consciência pessoal, sua identidade e personalidade, isto é, sua vontade é esmagada pela consciência de outro, ou pela consciência social. Quando o homem deixa de ser seu próprio objeto para tornar-se objeto de outro, diz que ele está alienado. Deixa de ser algo para si mesmo. Sua vontade é assim a vontade do outro: ele é coisificado. Deixa de ser homem, criatura consciente e capaz de tomar decisões. Com o aparecimento da máquina, o trabalho tornou-se duplamente alienante: à maquina e ao dono da máquina. No período em que vigorava ainda o regime de trocas, o homem, para suprir suas necessidades elementares, deveria produzir não apenas aquilo de que necessitava, mas as necessidades do outro. Era, ao mesmo tempo, sujeito e objeto. Poderíamos dizer que se tratava de uma alienaçãoparcial. A introdução da máquina no sistema de produção subverteu totalmente esta situação. A máquina tem esta particularidade: substitui com eficiência o esforço físico humano, mas não dispensa o homem: este é sempre necessário para movimentá-la. O homem torna-se parte dela como um parafuso ou uma engrenagem. Não é o homem que produz, é a máquina. O homem limita-se a fazê-la funcionar. O aperfeiçoamento das máquinas, à medida que reduz o esforço físico do homem,reduz sua participação e, em consequência, reduz sua intervenção consciente no trabalho. INTA EAD Sociologia 67 A máquina moderna dispensa a inteligência e a consciência humana, anulando o homem. Este se torna uma peça de engrenagem cada vez mais insignificante. Nesse sistema mecanizado de produção, o homem não produz mais o que quer. Limita-se a fazer a máquina funcionar. Ignora o destino do seu produto, que não lhe pertence e, quase sempre, nem sabe mesmo para que serve. Recebe apenas um salário em troca de sua força de trabalho o qual lhe permite recuperar seu organismo para que amanhã possa novamente vendê-lo aos donos das máquinas. Ele se coisifica nesse processo: é uma máquina ou um apêndice dela; uma estranha máquina cujo óleo combustível é constituído de proteínas. Não é mais um homem com capacidade de pensar, agir, tomar decisões. É apenas uma peça de engrenagem que, quando gasta pelo uso, pode ser substituída. (Fragmento retirado do livro Alienação e Humanismo, de Leôncio Basbaum, São Paulo: Símbolo, 1977.) Como foi observado, o empresário compra do trabalhador a sua força de trabalho. Este pagamento nunca corresponde ao que os trabalhadores realmente produziram, pois o que foi produzido tem um valor muito superior ao que recebem. Esse excedente de valor, no que diz respeito à produção, apropriado pelo dono não é devolvido ao trabalhador; é o que Marx chama de mais-valia, que caracteriza o capital, o sistema capitalista. O empresário enriquece não à custa do seu próprio trabalho, mas à custa do trabalho de seus empregados e as mercadorias vendidas a um mercado consumidor consistem na materialização do trabalho que não foi pago ao empregado. Sociologia INTA EAD 68 Vamos entender melhor o que é mais-valia a partir do quadro baixo: INTA EAD Sociologia 69 O trabalho alienado faz com que os homens naturalizem a exploração e sejam passíveis às ideias da classe dominante, ou seja, à sua ideologia. Para Marx, as ideias da sociedade são as ideias da classe dominante econômica e politicamente. De acordo com Sell (2009, p. 53), “a ideologia é definida como um conjunto de representações da realidade que servem para legitimar e consolidar o poder das classes dominantes”. Portanto, o conjunto de regras, leis e normas sociais que obrigam os homens a ter determinados comportamentos faz parte da ideologia da classe dominante e a classe dominada age como se estivesse se comportando segundo sua própria vontade. No decorrer do nosso estudo, falamos, por diversas vezes, sobre empresário versus trabalhador, burguesia versus proletariado, patrão versus empregado. Mas como poderá ser compreendida essa divisão antagônica? Nos termos de Marx, essas duplas que se contradizem estão imersas numa relação entre classes sociais. Mas o que são classes sociais? Na sociedade capitalista temos a existência de duas classes sociais: a classe dominante e a classe dominada. Uma pessoa pertence à classe dominante quando detém a propriedade dos meios de produção e compra a força de trabalho de outras pessoas, usufruindo do lucro gerado pela mais-valia. Já a classe dominada comporta a classe dos trabalhadores assalariados. Estes, não possuem nada além da sua capacidade de trabalhar, ou seja, sua força de trabalho que é vendida ao empresário. Há uma relação de exploração entre os empresários e os trabalhadores. Os últimos não recebem o valor justo pelo tempo trabalhado e pelo produto de seu trabalho. Recebem um salário baixo utilizado para terem acesso a uma alimentação deficiente, a péssimas condições de moradia, péssimas condições de saúde. Quando os trabalhadores percebem essa condição em que os burgueses gozam de privilégios inacessíveis a eles e se sentem insatisfeitos com suas vidas precárias, organizam-se coletivamente e exigem dos empresários ou do Estado condições dignas de vida. Porém, esta não foi uma exigência vista com bons olhos pelos empresários que teriam seus lucros diminuídos. E tem início o que Marx chama de luta de classes. Essa luta de classes foi identificada por Marx que nomeou a classe dominada de classe revolucionária. Esta, em prol dos seus direitos, lutaria pela construção de uma sociedade sem exploradores e explorados. Portanto, de acordo com Marx, a superação dos problemas sociais decorrentes da moderna organização capitalistanão ocorre, como postulou Durkheim, através da ciência, mas sim da luta política. Sociologia INTA EAD 70 A contribuição de LouisAlthusser Louis Althusser foi um dos pensadores mais importantes do século XX, cujos pensamentos foram influenciados por Karl Max. Para ele, há uma relação recíproca entre a superestrutura (conjunto das representações sociais como políticas, religiões, etc.) e a infraestrutura social (corresponde ao material, cujo centro está no processo do trabalho). Essa última, por ser a base econômica da sociedade, é autônoma e determina a Louis Althusser superestrutura. O autor apresenta o Estado, em geral, como parte da superestrutura, composta pelo governo, a administração, forças militares, polícia, o sistema penal, bem como o sistema judiciário. Esses subconjuntos de fatores legais e administrativos formam o conjunto estatal de mecanismos repressivos, ou seja, aqueles aparatos que podem e devem usar da força moral, psicológica ou física para reprimir resistências ou oposições, quando for necessário. Os aparelhos ideológicosdoEstado seriamaqueles aparelhos (jurídicos,políticos, religiosos, sindicais, culturais e escolares) que sob a forma de instituições distintas e especializadas complementam o sistema estatal de dominação, por meio da ideologia. Têm a função ativa da reprodução das relações de produção, que devem ser criadas em sua ‘naturalidade’. Assim, a reprodução das relações sociais deveria dar-se no contexto da produção material, mas também na (re) produção ideológica. Althusser, como teórico crítico-reprodutivista, condena uma escola reprodutora porque ela oferece às distintas classes sociais formas de conhecimento e capacidades que não somente validam a cultura dominante, mas direcionam os estudantes para caminhos diferentes na força de trabalho. INTA EAD Sociologia 71 Contribuição de PierreBourdieu e Jean-Claude Passeron Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron partem do pressuposto de que a escola, na sociedade capitalista, produz e reproduz a sociedade. A sociedade de classes mantém seus privilégios no sistema escolar. A suposta igualdade de ensino para todos os estudantes não se sustenta. Não somente o sistema de ensino particular é desigual conforme aPierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron escola e a clientela que o frequenta, mas também o ensino público é diferenciado e desigual, segundo a localidade, o corpo docente e a clientela. O Ensino Superior transmite privilégios, gera status e incute respeito. Entretanto, a maioria das vagas acaba sendo destinada aos estudantes oriundos de escolas particulares em razão destas ofertarem um ensino mais seletivo. Os autores elaboraram a noção de violência simbólica, desenvolvida pelas instituições e por seus agentes. O sistema de ensino gera a violência simbólica; esta faz com que os indivíduos vejam como naturais as representações ou as ideias sociais dominantes que disseminam valores culturais igualmente dominantes em toda a sociedade. Manifesta-se por intermédio da mídia, da pregação religiosa, da propaganda, da moda e da educação. Sociologia INTA EAD 72 Mas afinal, o que é violência simbólica? Vejamos. Para a compreensão do significado de violência simbólica, Bourdieu distingue dois tipos de violência: a física e a simbólica. A primeira é exercida pela força física (bater em uma criança, ataques de policiais). A segunda significa repassar para as pessoas e grupos sociais valores que devem ser assimilados, caso contrário, serão punidos. Os estudos de Bourdieu, além da ideia de habitus e de campos, têm no conceito de violência simbólica uma importante referência para compreender também a sociedade capitalista e suas formas de reprodução. Vamos entender os conceitos de habitus e campos: • Habitus - denomina um conjunto de capacidades que permitem aos indivíduos agirem dentro de uma estrutura social. • Campos – determina espaços espaciais onde as ações se dão dentro de uma normatização. A partir da compreensão marxista de que a sociedade é dividida em classe dos dominantes e classe dos dominados, Bourdieu concebe a sociedade capitalista marcada por profundas desigualdades. No entanto, a violência simbólica é repassada ideologicamente quando são incutidas nas pessoas normas ou valores que devem seguir por serem considerados “os melhores”, quando na verdade não o são. A dimensão simbólica tem a ver com as maneiras de pensar formas de dominação social. Considerando essa situação, Bourdieu trabalha com a noção de violência simbólica, que implica formas de dominação legitimadas pela maioria da sociedade. Para Bourdieu e Jean-Claude Passeron, através da educação o indivíduo é capaz de reconhecer quando está sendo vítima de violência simbólica e tornar-se um ator social que vá contra a sua legitimação. INTA EAD Sociologia 73 3 SOCIOLOGIA: CONCEITOS E DISCIPLINAS AGREGADAS Conhecimento Apreender conceitos teóricos da sociologia em outros campos das ciências sociais e suas relações dentro das instituições. Atitude Relacionar a sociologia no campo das ciências sociais a outras disciplinas da área do conhecimento. Habilidade Incluir análise das instituições e suas relações sociais articulando teoria e prática em sala de aula. Sociologia: Disciplinas agregadas A sociologia trabalha inserida no âmbito das ciências sociais, tendo agregadas outras disciplinas desta área do conhecimento. Embora não exista unanimidade entre os autores sobre essa temática, segue-se a proposta de Lakatos (1990, p. 21- 23). Vejamos no quadro abaixo outras disciplinas desta área do conhecimento: Estuda as semelhanças e diferenças culturais, origem e história das culturas do homem, sua evolução e desenvolvimento, estrutura e funcionamento, em qualquer lugar e tempo. Como exemplo de Antropologia Cultural Direito Economia Política Psicologia Social Sociologia objetos de estudo dessa ciência apontamos: (i) ritos de passagem (comportamentos de indivíduos mediante o nascimento de um filho, formalidades que cercam o rito do casamento entre outros) (...) Estuda as normas de Direito que possuem observância obrigatória a todos e que regulam o comportamento social, estabelecendo direitos e obrigações entre as partes. Estuda as atividades humanas no campo da organização de recursos, isto é, produção, circulação, distribuição e consumo de bens e serviços. Estuda a distribuição do poder nas sociedades humanas. Sistematiza o conhecimento dos fenômenos políticos, isto é, do Estado, e investiga o conjunto de processos e métodos empregados para que determinado grupo alcance, conserve e exerça o poder. Estuda o comportamento e a motivação do indivíduo, que são determinados pela sociedade e seus valores. O indivíduo recebe estímulo do grupo e as influências que os contatos sociais exercem sobre a sua personalidade constituem o campo de interesse da Psicologia Social. Estudo científico das relações sociais, das formas de associação, destacando-se os caracteres gerais comuns a todas as classes de fenômenos sociais, fenômenos que se produzem nas relações de grupos entre seres humanos. Estuda o homem e o meio em suas interações recíprocas. Fonte: Lakatos (1990, p. 21-23) INTA EAD Sociologia 77 Conceitos A sociologia recorre a alguns conceitos considerados fundamentais para seu entendimento. Apresentamos nesta unidade alguns conceitos considerados mais relevantes para o estudo da disciplina. Estrutura Social A estrutura social é a forma como uma organização integra os indivíduos dentro de uma ordem e define, por exemplo, o papel de cada um dos seus membros. A estrutura social funciona também como uma orientação teórica de acordo com um sistema de crenças e interesses que medeia as relações sociais. Os membros de uma sociedade tendem geralmente a compartilhar a crença na importância dos valores definidos consensualmente. A estrutura social inclui grandes grupos, como as sociedades, comunidades, e pequenos grupos, como as famílias e os amigos. Mas o conceito de estrutura social inclui também os modelos de interação sociale relações sociais. Inclui fenômenos que são tangíveis, ou visíveis, como se relaciona e com quem; ideias ou crenças Estrutura social e objetivos ou interesses; podem ser observadas as relações sociais, as ideias que os indivíduos sustentam em comum e qualquer coisa que apreciem ou estimem. A estrutura não é estática, ela está em mudança constante (LAKATOS; MARCONI, 1999). Vamos compreender os elementos básicos da estrutura social que são status e papéis, relações sociais, grupos, instituições e organizações. Status e papéis Status e papéis são elementos opostos e complementares; um não pode existir sem o outro. Um papel é a coleção de direitos culturalmente definidos, obrigações e expectativas que acompanham um status num sistema social. O conceito de papel explica os direitos e deveres esperados por uma pessoa que ocupa uma posição de destaque na sociedade. Sociologia INTA EAD 78 A posição ocupada pelo indivíduo no grupo social denomina-se status social. O status pode ser atribuído ou adquirido. E o que seria então status atribuído ou adquirido? Status atribuído trata-se daquele que não é escolhido voluntariamente pelo indivíduo e não depende de suas ações e qualidades. Já o status adquirido é obtido de acordo com as qualidades pessoais do indivíduo. Esse status confere ao indivíduo uma posição de destaque entre os membros do grupo de pertencimento, pois seu status é fruto do reconhecimento de sua capacidade. O status adquirido está associado à capacidade profissional, intelectual e de liderança do indivíduo na sociedade. Nas sociedades mais antigas, o status era, quase sempre, atribuído. Na sociedade contemporânea predomina o status adquirido pelo destaque intelectual, liderança e habilidades pessoais. Relações sociais O indivíduo não consegue viver isoladamente, pois desde seu nascimento convive com seus familiares, escola e trabalho, por isso, no decorrer de sua vida, ele vai desenvolvendo aptidões para relacionar-se com outros indivíduos. O status e os papéis dão as bases para as relações sociais; as relações tomam muitas formas diferentes. Algumas relações sociais são multifacetadas: duas pessoas que vivem no mesmo bairro trabalham para a mesma companhia e têm os mesmos amigos. Outras são simples propósitos: um paciente portador de uma doença grave encontra-se periodicamente com seu médico para realizar as sessões do tratamento. As relações sociais geram mudanças e movimentos dentro de uma sociedade e dentro de cada sociedade existem diferenças culturais. Cada interação social é uma situação em que o comportamento de um participante influi no do outro; os indivíduos definem e negociam suas relações, algumas envolvem a relação direta cara a cara, outras são indiretas. Grupo social Grupo social é a reunião de duas ou mais pessoas, ligadas por interesses e objetivos comuns. INTA EAD Sociologia 79 Ao longo da vida, o indivíduo participa de vários grupos sociais entre os quais, destacamos: • Grupo Educativo – escola; • Grupo Religioso – Igreja; • Grupo Familial – família; • Grupo Profissional – empresa; • Grupo Político – partidos políticos; • Grupo Sindical – sindicatos. Grupo social Em cada fase da vida, um desses grupos estará presente na vida do indivíduo. Para melhor compreendê-los, podemos dividi-los em três grupos: • Grupo Primário: predomina os contatos pessoais, isto é, com a família e os vizinhos. Os contatos são estabelecidos mais diretamente sem formalidade. • Grupo Secundário: são grupos mais complexos, como a Igreja e o Estado. Os contatos aqui são mediados pela formalidade, respeitando-se a liturgia do cargo e da ocasião. • Grupo Intermediário: são aqueles que se complementam tanto no primário quanto no secundário, como por exemplo, a escola. As principais características de um grupo social • Pluralidade de indivíduos: quando há mais de um indivíduo em um grupo, coletivismo; • Organização: ordem interna no grupo; • Objetividade: quando o indivíduo entra no grupo que já existe e quando ele sai continua existindo; grupo estável; • Objetivo comum: atingir os mesmos objetivos, com pensamentos e ideias; • Objetivo grupal: pensamentos e ideias compartilhados pelos indivíduos do grupo; • Continuidade: durabilidade, não pode desaparecer com facilidade; • Interação social: comunicação entre os grupos. Instituições sociais As instituições sociais são o elemento estrutural mais importante dos elementos reunidos. São conjuntos estáveis e perduráveis de normas e valores, status, papéis, grupos e organizações com uma estrutura para a conduta social numa área particular da vida. Sociologia INTA EAD 80 Todas as sociedades de grande escala têm cinco instituições sociais principais: • Familiar: responsável pelo crescimento e cuidado para com as crianças; • Educacional: assegura que as normas e valores culturais passem de uma geração para outra e que as pessoas jovens tenham conhecimento e habilidade para realizar papéis dentro da sociedade; • Religiosa: reforça os valores, dá significado e propósito à vida; • Política: mantém a ordem social e protege os membros da sociedade das invasões, controla os delitos e desordens internas, resolve conflitos de interesse; • Econômica: organiza a produção e distribuição de bens e serviços. A ciência, as artes, o cuidado com a saúde, o sistema legal, o exercício e o tempo livre são elementos que também foram institucionalizados nas sociedades modernas. A constituição familiar é o primeiro grupo com o qual nos relacionamos, a religião é encontrada em todo o mundo desempenhando sua função social, a educação permite-nos transmitir normas, valores e símbolos e repassá-los aos nossos sucessores, a política mantém a ordem, procura resolver problemas baseados nos seus interesses e, por fim, a economia faz com que indivíduos, dentro da sociedade, fabriquem produtos para o consumo gerando um fluxo monetário. Organizações formais Organização formal é um grupo planejado e criado para seguir suas metas e manter-se unido por regras explícitas e regulamentos. Diferenciam-se os grupos pelo equilíbrio, escala, estrutura e ênfase em fazer as coisas ou nas orientações de suas metas. Leis sociais De acordo com Lemos Filho (2004), as leis sociais são os regulamentos que regem a conduta do indivíduo dentro da sociedade. Vejamos: • Lei: é uma norma jurídica de observância geral por parte da população de um Estado; num regime de direito, é ditada, promulgada e sancionada pela autoridade pública e tem como fim regular a conduta externa dos homens. • Costume: são normas de conduta criadas por uma comunidade que, surgindo pela necessidade de uniformidade do comportamento, vão sendo aceitas de forma obrigatória e terminam sendo consideradas juridicamente obrigatórias. INTA EAD Sociologia 81 • Jurisprudência: consiste em resoluções que interpretam e uniformizam leis. Tais resoluções são elaboradas pelos Ministros da Suprema Corte de Justiça Plena ou pelos Magistrados dos Tribunais Colegiados da nação que têm a faculdade de interpretação das normas jurídicas de um Estado. Havendo vários casos concretos, sem objeções, acaba por converter-se em obrigatória. • Doutrina: é o conjunto de estudos e opiniões sobre temas de direito, realizados pelos pesquisadores do direito, munidos de propósitos teóricos e metodológicos sistematizados com a finalidade de interpretar suas normas e assinalar as regras de aplicação. • Princípios gerais do direito: são axiomas ditados pela razão e pela sabedoria que servem de inspiração e fundamento ao direito positivo, como por exemplo, as seguintes frases doutrinárias: “Ninguém deve ser condenado somente por suspeitas”; “É preferível absolver um culpado a condenar um inocente”; “A boa fé presume-se, a má fé prova-se”. • Equidade: é considerada por alguns autores também como fonte formal do Direito. Sociologia INTA EAD 82