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Prévia do material em texto

TALITA SILVA BEZERRA
FRANCISCO STENIO NOGUEIRA
JÚNIOR
JOÃO JOSÉ SARAIVA DA
FONSECA
Talita Silva Bezerra
Francisco Stenio Nogueira
Júnior João José Saraiva da
Fonseca
SOCIOLOGIA
1ª EDIÇÃO
EGUS 2013
INTA - Instituto Superior de Teologia Aplicada
PRODIPE - Pró-Diretoria de Inovação
Pedagógica
Diretor-Presidente
Oscar Rodrigues Júnior
Pró-Diretor de Inovação
Pedagógica João José Saraiva
da Fonseca
Coordenadora Pedagógica e de
Avaliação Sonia Maria Henrique Pereira
da Fonseca
Assessor de Gestão Administrativo
Éder Jacques Porfírio Farias
Equipe de Transposição Didática e
Modelagem Pedagógica
Anaisa Alves de Moura
Evaneide Dourado Martins
Licilange Gomes Alves
Sonia Maria Henrique Pereira da Fonseca
Multimídia Impressa e Audiovisual
Cícero Romário Lima Rodrigues
Francisco Sidney Souza de
Almeida Juliardy Rodrigues de
Sousa
Lee Aguiar Frota Araújo
Luis Carlos de Souza Lima
Manutenção e Suporte do Ambiente
Virtual de Aprendizagem
Rhomélio Anderson Sousa Albuquerque
Produção e Desenvolvimento de
Softwares para Aprendizagem em Ead
Anderson Barbosa Rodrigues
André Alves Bezerra
Luís Neylor da Silva Oliveira
CIP - Catalogação na Publicação
Ficha Catalográfica Elaborada Pela Biblioteca Central
Prof. Dr. Manfredo Araújo de Oliveira do Instituto Superior De Teologia
Aplicada- Faculdades INTA
B574f Bezerra, Talita Silva.
Fundamentos básicos de sociologia./ Talita Silva
Bezerra, Francisco Stenio Nogueira Júnior, João José da
Fonseca. – Sobral, CE, 2013.
101f.
Inclui Bibliografia
ISBN 978-85-61760-68-7
1. Sociologia. 2. Correntes Sociológicas. 3. Sociologia -
Globalização. 4. PRODIPE. I. Título.
CDD 301
Palavras do
Professor-Autor.............................................................................12
Ambientação......................................................................................
....................13 Trocando ideias com os
autores...................................................................14
Problematizando................................................................................
..................16 Aprendendo a
pensar........................................................................................19
1Surgimento da sociologia e seus objetivos
A
ciência como forma específica do
conhecimento.................................23 Organização Social:
Fundamentos históricose epistemológicos...........26 A
RevoluçãoIndustrial...........................................................................
..........27 A
RevoluçãoFrancesa............................................................................
...........28 Sociedade e
Cultura..........................................................................................29
O conceitode
sociedade.............................................................................................
..........................29 Recursos básicos deuma
sociedade.............................................................................................
29 O conceito de sociedade considerando diversos
níveis..................................................30 Tipos de categoriade
sociedade.............................................................................................
........30 O conceitode
cultura...................................................................................................
.....................31 Características básicasda
cultura..............................................................................................32
Elementos da
cultura...................................................................................................
.....................33 Variabilidade
cultural..................................................................................................
......................34 Etnocentrismo, relativismo cultural echoque
cultural...................................................35
Socialização
........................................................................................................36
As metasde
socialização..........................................................................................
............................37 Padrões de
socialização..........................................................................................
..............................37 Principais tiposde
socialização..........................................................................................
..............37 Socialização primária ou socializaçãona
infância...........................................................37 A socialização
secundária ou socialização na idade adulta
.......................................38 Dessocialização e
Ressocialização....................................................................................
..............38 Socialização
antecipatória.........................................................................................
.....................39 Socialização
reversa..................................................................................................
.........................39 Agentes e componentesde
socialização...................................................................................39
Múltiplas econtraditórias influências de
socialização...................................................40
2
Correntes Sociológicas
A contribuição deAuguste Comte
...................................................41 Contribuição deÉmile
Durkheim........................................................47 O objeto de
estudos de
sociologia...................................................................................5
2 Método de estudo: a coisificação do fato
social..................................................53 Contribuição deMax
Weber..................................................................56 Como o
cientista deve tratar o objeto de estudo
sociológico......................59 O tipo ideal: um instrumento de
pesquisa do sabersociológico...............60 A Ética protestante e
o espírito do capitalismo...................................................62
Contribuição deKarl
Max.....................................................................63 Alguns
conceitos básicos: exploração, expropriação,
ideologia,
alienação......................................................................................
......................66 A contribuição deLouis
Althusser......................................................71
Contribuiçãode PierreBourdieu e Jean Claude
Passeron.............72
3 Sociologia: Conceitos e disciplinas
agregadas
Conceitos...................................................................................
...............78 Estrutura
social........................................................................................7
8 Status e
Papéis..........................................................................................
.............................78
o i
r
á
Relaçõessociais...................................
.............................................................
............................79 Grupo
social....................................................
.............................................................
..................79
Instituiçõessociais................................
.............................................................
..........................80
Organizaçõesformais...........................
.............................................................
................81
Leissociais............................................
.............................................................
...............................81
m
u
S
4 Abordagem temática
da sociologia e
globalização
Globalização........................................
.............................................................
......................85 A universalização do
dinheiro como meio de
troca......................................87
Leitura obrigatória
..................................................................94 Saiba
mais.....................................................
............................96 Revisando
.............................................................
....................100 Autoavaliação
.............................................................
.............105
Bibliografia.........................................
......................................107
Referências da
Web......................................................
.............108
Veja a seguir os ícones que servirão de
guia de
estudonoprojetográficodomaterialdidátic
o:
Ambientação à disciplina
Aqui o estudante irá observar que todo o texto do material didático tem um
ícone que servirá de orientação para seu estudo, onde poderá ter uma visão
panorâmica sobre o conteúdo a ser estudado.
Trocando ideias com os autores
A intenção é que seja feita a leitura de obras indicadas pelo professor-autor
numa perspectiva de dialogar com os autores de relevo nacional e/ou
mundial.
Problematizando
É apresentada uma situação problema onde será feito um texto expondo
uma solução para o problema abordado, articulando a teoria e a prática
profissional.
Aprendendo a pensar
O estudante deverá analisar o tema da disciplina em estudo a partir das
ideias organizadas pelo professor-autor do materialdidático.
Leitura obrigatória
Este ícone apresenta uma obra indicada pelo professor-autor que será
indispensável para a formação profissional do estudante.
Saiba mais
Neste ícone será encontrado sugestões de aprofundamento da disciplina
em outro espaço. Pesquisas divulgadas, em formato de entrevistas, com o
próprio autor da investigação.
INTA EAD Sociologia 9
Veja a seguir os ícones que servirão de
guia de
estudonoprojetográficodomaterialdidátic
o:
Revisando
É uma síntese dos temas abordados com a intenção de possibilitar uma
oportunidade para rever os pontos fundamentais da disciplina e avaliar a
aprendizagem.
Autoavaliação
Momento de parar e fazer uma análise sobre o que o estudante aprendeu
durante a disciplina.
Bibliografia
Indicação de livros e sites que foram usados para a constituição do material
didático da disciplina.
Sociologia INTA EAD 10
O estudantevirtual
O que ser é estudante virtual? É ser uma pessoa que está inserida na
sociedade contemporânea, no espaço real, utilizando os recursos das novas
tecnologias em seu cotidiano. O fato de permanecer conectado em diversas
redes, nas quais estão milhões de pessoas conectadas, principalmente através
dos recursos das tecnologias digitais, transpõe a ideia que habitamos num
mesmo espaço físico, isto é, confunde o real e o virtual. Este fenômeno é
denominado realidade aumentada.
Um curso a distância exige que o estudante vá além de saber navegar. As
conexões do curso, ou de uma disciplina, estão vinculadas por um roteiro de
estudo multilinear que se caracteriza pela narração, sobretudo em formato digital,
a qual procura usar múltiplas linhas para registrar a produção do texto a partir das
escolhas do autor. O hipertexto, ou seja, o texto em formato digital, é adequado
ao ambiente hipermídia, que se configura como um leque de prováveis textos
interligados, sem uma hierarquia de leitura pré-estabelecida.
O estudante virtual, diante da tela do computador, assume a função de leitor
decodificador da linguagem não verbal, que está nas figuras, desenhos, fotos de
pessoas, objetos, animais e outros. Esses elementos presentes no material
didático são chamados de ícones, ou seja, tudo que está além dos códigos da
linguagem verbal. Por isso, a habilidade de leitura do estudante de ensino a
distância deve ser a aquisição daquele “olhar com olhos de ver”, ou seja,
compreender o texto e o contexto da informação do material didático na intenção
de entender as informações textuais e construir novos conhecimentos. É desse
modo que se caracteriza a aprendizagem colaborativa e a sociointeracionista na
educação a distância.
Para saber mais...
Preparamos este Método de Estudo para que o estudante possa desenvolver a
sua autonomia de estudar no ambiente virtual e no material impresso seguindo as
orientações das vinhetas abaixo:
• Ambientação
• Trocando ideias com os autores
• Problematizando
• Leitura Obrigatória
• Saiba Mais
• Revisando
• Autoavaliação
• Bibliografia
• Referências da Web
INTA EAD Sociologia 11
Palavra do Professor-Autor
Caro estudante,
A vida do homem em sociedade tem sido questionada desde a Antiguidade.As
primeiras tentativas de explicar a ação humana foram interpretadas
pelasnaturezas teológica ou mitológica.
A sociologia surge no século XIX, no contexto da consolidação da sociedade
capitalista e enquanto resultado de um contexto histórico que abrange um vasto
conjunto de acontecimentos de natureza política, econômica, filosófica, científica,
religiosa e artística, ocorridos ao longo dos séculos. Ela, a sociologia, é o
resultado do esforço de um diversificado grupo de pensadores que procuraram
compreender as novas realidades da vida social do ocidente, em curso na época.
No entanto, a sociologia não considera o indivíduo objeto de observação.
Enquanto ciência do social, ela se interessa pelo sujeito na medida em que este
interage com os demais, constituindo-se, dessa forma, em um fato social.
Os Autores.
Autores
Talita Silva Bezerra
Mestra em Sociologia pela Universidade
Federal do Ceará-UFC, bolsista CNPq.
Tem experiência na área de Sociologia e
Antropologia, com ênfase em Sociologia
da Juventude, Sociologia Rural, Cidade e
Práticas Culturais, atuando principalmente
nos seguintes temas: mobilidade e processos de
subjetivação, sociologia rural, grupos de idade e formas
de sociabilidade. Atualmente é membro do Grupo de
Pesquisa sobre Culturas Juvenis (GEPECJU - UVA/CE)
vinculado ao Diretório dos Grupos de Pesquisas do CNPq,
professora da Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA e
da Faculdade Luciano Feijão - FLF.
Francisco Stenio Nogueira
Júnior
Possui graduação em Ciências Sociais
(Licenciatura) pela Universidade Estadual
Vale do Acaraú (2011). Participou do
Programa Institucional de Bolsa de Iniciação
à Docência (PIBID). Tem experiência nas
áreas de Antropologia e Sociologia.
João José Saraiva da
Fonseca
É Pós-Doutor em Educação pela
Universidade de Aveiro em Portugal, Doutor
em Educação pela Universidade Federal do
Rio Grande do Norte (2008), Mestre em
Ciências da Educação pela Universidade
Católica Portuguesa - Lisboa (1999)
(validado no Brasil pela Universidade
Federal do Ceará), Especialista em Educação Multicultural
pela Universidade Católica Portuguesa - Lisboa (1994).
Graduou-se em Ensino de Matemática e Ciências pela
Escola Superior de Educação de Lisboa (validado no
Brasil pela Universidade Estadual do Ceará). É
pesquisador na área da produção de conteúdo para
educação a distância. Atualmente desempenha a função
de Pró-Diretor de Inovação Pedagógica das Faculdades
INTA - Sobral CE.
Sociologia INTA EAD 12
Ambientação
A Sociologia é uma ciência que estuda a sociedade, sua organização social e
os processos que ligam os indivíduos aos grupos. A sociedade atual exige que o
indivíduo tenha acesso às questões sociais para exercer, com consciência e
responsabilidade, a cidadania.
O homem, ao nascer, adquire a natureza social através da interação com
outros seres humanos e desenvolve sua personalidade e cultura, pois a família é
que inicia o processo de socialização e
permite que seus membros adquiram
personalidade. Esse processo,
posteriormente, irá ajudá-lo a
conviver em grupo.
Prezado estudante, com a intenção de
aprofundar seus
conhecimentos sobre a sociologia, convidamos você à leitura
da obra Sociologia: Consensos e Conflitos, da autora Rita
de Cássia da Silva Oliveira (org).
Destinado aos acadêmicos das licenciaturas, o primeiro livro
recomendado discute conceitos da sociologia e temas relevantes
da realidade social, entre os quais destacamos: a formação do ser
social, cultura e sociedade, a ideologia na concepção marxista,
movimentos sociais, Estado, política e o desenvolvimento do
capitalismo no Brasil e seusefeitos sociais.
OLIVEIRA, Rita de Cássia da S. Sociologia: Consensos e
Conflitos, Ponta Grossa:
UEPG, 2001.
Propomos também a leitura da obra de Carlos Benedito
Martins, intitulada O que é sociologia. Neste livro o autor afirma
que o surgimento da sociologia ocorreu no contexto da
decadência do sistema feudal e da
consolidação da sociedade
capitalista. A história sociológica tem como
principais marcos inspiradores as
transformações econômicas,
políticas e
culturais motivadas pela Revolução Francesa
e Revolução Industrial que alteraram a organização da vida
social da época.
MARTINS, Carlos Benedito. O que é Sociologia. 57ª Ed.
São Paulo: Brasilense, 2006.
INTA EAD Sociologia 13
Trocando ideias
com osautores
Caro estudante, considerando as obras abaixo, propomos uma reflexão sobre a
ciência enquanto forma de conhecimento diferenciado e sobre o surgimento da
sociologia como uma ciência humana que rompe com as abordagens analíticas
do senso comum e emprega métodos específicos para entender a
vida em sociedade.
Você conhecerá os aspectos fundamentais da constituição
da sociologia a partir da obra Sociologia: introdução à ciência
da sociedade, da autora Maria Cristina Castilho Costa. A obra
leva o leitor a acompanhar o surgimento da ciência que tem por
objeto de estudo a sociedade, bem como tomar conhecimento da
multifacetada constituição teórica e metodológica da disciplina.
Ao “passear” pela história e pelas bases teóricas mais
fundamentais da sociologia, a obra propicia ao leitor um entendimento acerca do
que é esta ciência e a que ela se propõe. É um caminho para a compreensão das
abordagens e tendências conceituais e metodológicas da sociologia.
COSTA, Maria C. C. Sociologia: introdução à ciência da sociedade. 2ª ed.
São Paulo: Moderna,
1997.
Nesta obra, Roque de Barros, professor emérito da UnB e
antropólogo, vai nos conduzir, por meio de uma linguagem
fluente e clara, a um passeio pelos diversos significados acerca
do termo cultura, sua origem e suas interpretações. Esta leitura
será um ótimo recurso didático a partir do 6º capítulo, no qual
veremos o tópico de Sociedade e cultura.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 24ª ed.
[S.l.]: Jorge Zahar
Ed., 2009.
Sociologia INTA EAD 14
Recomendamos ainda a leitura da obra As regras dométodo
sociológico, a qual aborda conceitos básicos estudados na
sociologia como os métodos sociológicos e suas regras para o
estudo dos fatos sociais.
“Os fatos sociais devem ser tratados como coisas”. Defendendo
essa assertiva polêmica, Émile Durkheim orienta, de forma
decisiva, uma disciplina que estava se formando. Para este sociólogo francês,
existe uma ruptura entre a psicologia e a sociologia como existe entre a biologia e
as ciências físico-químicas. O ser coletivo possui uma singularidade e a
consciência coletiva é diferente da consciência individual.
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. 2ª Ed. São Paulo:
Martins
Fontes,
2003.
Leia também a obra O Manifesto do Partido Comunista
que analisa as relações entre trabalho e capital, a forma como a
sociedade se estruturou nesta fase e critica o modo de produção
capitalista buscando organizar a classe dos trabalhadores e
descrevendo os vários tipos de pensamento comunista.
Seus argumentos desmancham a ideologia capitalista,
demonstrando a ilusão à qual esta induz nações inteiras apenas
para assegurar eperpetuar adiferençade classes eamádistribuição das riquezas.
ENGELS, Friendrich; MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista. 10ª ed.
São Paulo: Global,
2006.
Após a leitura destas obras, propomos que você escolha
dois livros e faça uma resenha comparando as ideias dos
autores.
INTA EAD Sociologia 15
Problematizando
A obra “O Peixinho arteiro”, de Oranice Franco, conta a história de um peixinho
que, não obedecendo à mãe e à professora, é pescado. Ele se salva porque o
pescador tropeça e deixa os peixes caírem do cesto para a água.
“- Eu ia convidar você para fugir! – o Lambari riu apesar de sentir muitas dores na
sua boquinha. Nunca mais! Chega a lição que aprendemos. Se prestássemos
atenção às aulas de Dona Piranha, saberíamos que nadar perto de cachoeira é
perigoso por causa da correnteza, das pedras...
- E saberíamos também – completou o Peixinho – o que é anzol e não teríamos
sido fisgados. Agora, vou para casa. Se você prometer ser bom peixinho,
continuarei sendo seu amigo. Do contrário, não.
- Pode ficar descansado. Nunca mais serei arteiro. Agora, vou também pedir
perdão aos meus pais e amanhã cedo, se você concordar, iremos falar com Dona
Piranha, contando tudo o que aconteceu.
- Boa ideia – fez o Peixinho todo animado. Então, até amanhã na
escola. - Até amanhã – disse o Lambari, nadando para sua casa.
E o peixinho arteiro nunca mais foi arteiro. Ao contrário, passou a ouvir e a
seguir os conselhos de seus pais e, juntamente com o Lambari, foi exemplar no
colégio.”
ARANHA, M. A.; MARTINS, Maria. Filosofando, introdução à filosofia. 2ª Ed.
São Paulo: Moderna,
1993.
A historinha apresentada encontra-se associada ao estudo das correntes
sociológicas, com particular proximidade à de Émile Durkheim. Até que ponto a
aceitação das regras sociais pode ser considerada condição fundamental para
uma perfeita integração dentro da sociedade? Que consequências terá o
desrespeito a essas regras? Poderá ser possível a existência de um indivíduo
livre fora das organizações sociais? Haverá condições para alterar as regras
sociais?
Faça um paralelo entre a obra “O Peixinho arteiro” e a
integração do indivíduo dentro da sociedade, após
concluir, faça seus comentários.
Sociologia INTA EAD 16
1
SURGIMENTO DA
SOCIOLOGIA E
SEUSOBJETIVOS
Conhecimentos
Compreender o contexto histórico que ocasionou o surgimento da Sociologia;
Conhecer os objetivos da Sociologia.
Habilidades
Posicionar-se criticamente em relação ao conhecimento científico amparado
na Sociologia com o intuito de compreender a vida social;
Analisar os processos sociais e reconhecer a sociologia enquanto espaço
de múltiplos olhares.
Atitude
Desenvolver o conhecimento científico, no âmbito sociológico, para análise
dos processos sociais.
Aprendendo a pensar...
Sociologia
O estudo da sociologia tem como objeto o comportamento humano em
sociedade. Esta, por sua vez, trata-se de um corpo orgânico cuja base reúne
indivíduos que vivem sob determinado sistema econômico de produção,
distribuição e consumo. Sociólogos pesquisam o comportamento do ser humano
e as estruturas da sociedade como classes sociais, grupos étnicos, etc.
Todos sabem que vivemos em uma sociedade. Mas o que isso significa? O
que é viver em sociedade? Numa primeira instância, podemos dizer que viver em
sociedade é ter a consciência de que o indivíduo precisa da sociedade e a
sociedade precisa do indivíduo. Os seres humanos não conseguem viver
isoladamente, por isso necessitam do convívio em sociedade.
Viver em sociedade significa residir numa região sob as mesmas regras, leis e
cultura. A cultura é composta de símbolos, valores e costumes; é, portanto, uma
herança social que passa de geração a geração.
A sociologia, enfim, estuda as ações sociais, as interações sociais e, muitas
vezes, as mudanças sociais, sendo estas últimas consideradas um dos pontos
altos da sociologia.
Por que vivemos numa sociedade repleta de desigualdades? O que a
globalização tem a ver com a sociedade? Como os indivíduos se relacionam entre
si? Quais os elementos básicos da vida social? Quais são os tipos de sociedade e
suas culturas? O que é etnocentrismo? Em que a sociologia contribui para o
indivíduo? Questionamentos como estes serão respondidos no decorrer da
disciplina e, aliados à outros, auxiliarão à você, estudante, no processo de
aquisição de conhecimentos acerca do estudo da sociologia.
INTA EAD Sociologia 19
Surgimento da sociologia
e seusobjetivos
Etimologicamente, a sociologia tem a sua origem na palavra latina socius, que
significa sócio, ou social, e na palavra grega logos, que significa estudo. A
sociologia pode ser entendidacomo uma área de conhecimento que se preocupa
em aplicar o ponto de vista científico à observação e à explicação dos fatos
sociais.
O estudo sociológico analisa e problematiza as atividades cotidianas. A
simples tarefa de ir ao supermercado pode transformar-se numa experiência de
interesse do ponto de vista sociológico. Mas como um sociólogo poderá fazer
análise de uma ida ao supermercado?
Apresentamos abaixo alguns pormenores que podem ser problematizados: •
A enorme variedade de produtos dos mais diversos locais e de diferentes países,
o que evidencia o processo de globalização em curso;
• Os cereais à venda incluem soja transgênica; isso levanta a discussão sobre
os organismos geneticamente modificados;
• No ramo dos cosméticos são apresentados frequentes lançamentos de novos
produtos, o que leva à discussão sobre novos hábitos de consumo diferenciados;
• A promoção no preço da carne bovina relembra as disputas internacionais
sobre embargos econômicos;
• A apresentação de produtos livres de agrotóxicos levanta a discussão sobre a
alimentação saudável, implicando em diferentes estilos de vida; • O funcionário
que trabalha no supermercado tem nível superior completo, mas trabalha ali por
não ter outra possibilidade de emprego e isso induz ao pensamento sobre as
relações de trabalho hoje em dia.
A sociologia permite-nos entender que muitas das ações aparentemente
individuais, na verdade, refletem questões mais amplas. Ela pode ser considerada
um projeto intelectual marcado por conflito de ideias, discussões, tensão e
contradições, podendo servir como arma que atenda aos interesses dominantes e
como expressão teórica dos movimentos revolucionários.
A sociologia é, como qualquer ciência, predominantemente indutiva, isto é,
parte da observação sistemática de situações particulares para chegar à
formulação de generalizações teóricas a propósito da vida social. A observação
sistemática dos fatos é, em último caso, a confirmação ou negação da qualidade
científica de
Sociologia INTA EAD 20
qualquer tentativa de explicação da realidade. A sociologia transforma-se, dessa
maneira, num meio para a compreensão da realidade social e torna inteligíveis os
fenômenos sociais, apreendidos a partir de diferentes pontos de vista.
A partir do texto apresentado, são levantados
vários questionamentos tais como:
- Qual o contexto de surgimento da sociologia? Qual a relação
entre o surgimento da sociologia e os conflitos de ideias,
discussões, tensão vivenciados em períodos marcados por
conflito e debates acirrados? Quais as causas das
transformações sociais que motivaram o aparecimento da
sociologia? Qual a utilidade da sociologia nesse contexto
histórico?
A sociologia estuda os fenômenos de natureza social. Contudo, nem todo
acontecimento que ocorre no interior de uma sociedade envolve uma natureza
social. Por exemplo, os fatos relacionados ao indivíduo, isolado, acontecem dentro
de uma sociedade, entretanto, não são fatos de interesse da sociologia, pois esta
não considera o indivíduo como objeto de estudo. O indivíduo somente faz parte
de um estudo sociológico quando sua ação individual interfere em qualquer grupo
social.
A sociologia surge da exigência de uma nova forma de conhecimento e de
pensar a natureza e a sociedade, que se fez sentir a partir do século XV, quando
ocorreram na Europa transformações sociais significativas, como o fim do
Feudalismo e o início do Capitalismo. Até o século XV o povo europeu tinha uma
concepção reduzida de mundo e seu conhecimento territorial restringia-se ao
espaço local. Com as grandes navegações ocorridas a partir do século XV, o povo
europeu percebeu um mundo mais amplo com novas nações e novas culturas.
Isso exigiu a reformulação do modo de ver e pensar a natureza e a sociedade.
Outros desenvolvimentos políticos, econômicos e sociais aconteceram nos
séculos seguintes, tais como:
• A Revolução Francesa e a Revolução Industrial ocasionaram o desmoronar
das estruturas sociais. Isso foi evidente de tal maneira que essas alterações
passaram a ser motivo de preocupação coletiva, sobretudo no que diz respeito
às mudanças na sociedade e às possíveis soluções para as desigualdades que
se apresentavam nesta;
• Os avanços científicos e tecnológicos;
INTA EAD Sociologia 21
• O desenvolvimento de uma nova economia industrial na sequência da mudança
ocorrida na sociedade, com reflexos sentidos quando: diminuiu-se a terra
cultivada; abandonou-se a forma de produção artesanal e passou-se à
produção em grandes fábricas; as pessoas deixaram de laborar em suas
casas para trabalhar sob as ordens de um supervisor; criou-se uma
dissociação, de um lado os trabalhadores, de outro, os consumidores;
• O crescimento das cidades ocasionado pela chegada dos camponeses que
abandonaram o campo e se mudaram para a cidade em busca de trabalho,
com consequências evidentes, por exemplo, no aglomerado da população, na
pobreza, no desemprego e na criminalidade.
As ciências existentes na época mostraram-se insuficientes para explicar os
novos fenômenos sociais. Surge então a necessidade de uma ciência que tente
explicar essa nova realidade.
A sociologia aparece no século XIX perante a necessidade de compreender
os novos problemas sociais que surgiram na sequência do conjunto de causas
sociais de caráter complexo. Surge com o objetivo de estudar sistematicamente o
comportamento social dos grupos e as interações humanas, assim como os fatos
sociais que provocam e suainter-relação.
Esta ciência procura explicar como as atitudes e os comportamentos das
pessoas são influenciados, em geral, pela sociedade e, especificamente, pelos
diferentes grupos humanos. Ela também tenta explicar qual a dinâmica social que
mantém as sociedades estáveis ou provoca a mudança social.
Segundo Lemos Filho (2004), o trabalho da sociologia tem como suas três
grandes preocupações: a separação do social dos demais elementos inerentes à
vida humana; a constatação dos efeitos do social e o modo de como estes são
produzidos; a restituição do social ao conjunto da vida humana de maneira a
possibilitar o entendimento das suas relações com esta.
Sociologia INTA EAD 22
A ciência comoforma
específica de conhecimento
Em nossa sociedade, ainda nos primeiros anos do processo educativo, é
comum termos acesso à informação de que a principal diferença entre o ser
humano e os outros animais é a racionalidade, da qual é dotado o primeiro. Foi
através da capacidade de pensar o mundo, de atribuir significado à realidade, que
o homem formulou o conhecimento em suas diversas formas.
Com a sua capacidade de raciocínio, o homem busca entender a si mesmo, a
sociedade e a natureza, desde o começo da humanidade. Porém, este
entendimento do mundo nem sempre foi científico.
As primeiras tentativas de compreender os fenômenos naturais e sociais foram
baseadas na fantasia, imaginação e especulação. Deuses e heróis eram
acionados para explicar e justificar toda ordem de fenômenos – sejam naturais ou
sociais. Como exemplo maior dessa tentativa de explicar o mundo, temos a
mitologia grega com seus deuses.
Todavia, foram os gregos os pioneiros que deram formas àquilo que passou a
ser chamado de ciência. Foi na Grécia que surgiram os primeiros homens com a
curiosidade de descobrir os segredos do universo. Nas obras de filósofos como
Platão e Aristóteles podemos encontrar as primeiras sistematizações de ideias
sobre a vida do homem em sociedade.
Contudo, é importante ressaltar que na Idade Média (entre os séculos V e XV)
a Igreja Católica passou a exercer uma influência grandiosa sobre a sociedade,
pois não era dada ao homem a permissão de apresentar qualquer explicação
sobre o mundo, a não ser na perspectiva religiosa.
Todos os questionamentos deveriam ser respondidos através da imagem de
um “Deus” todo poderoso que tudo criava, modificava e explicava. Apenas as
instituições religiosas – como os mosteiros – podiam dispor do acesso às obras
sobre o conhecimento da filosofia, astronomia, geometria e literatura. Entre estas
existia umalista proibida chamada Index Librorum Prohibitorum – Índice dos Livros
Proibidos.
Segundo a Igreja Católica, estas obras contradiziam seus dogmas, bem como
as literaturas e conhecimentos científicos que pudessem ser considerados
heresia, má postura política, moralidade desviada, sexualidade explícita, entre
outros.
INTA EAD Sociologia 23
Dessa forma, o conhecimento ficou por muito tempo “retido” nos porões dos
mosteiros e muitos corpos arderam em fogueiras por se contrapor às explicações
religiosas, ou infringirem as normas morais impostas.
Após a Idade Média, surgiu o Renascimento, período em que os fenômenos
sociais passaram a ser analisados de forma mais realista. Havia uma
sistematização de valores burgueses que almejavam a constituição de uma
sociedade laica e racionalista.
No entanto, vivia-se uma fase de desejo por mudanças econômicas, políticas,
culturais e de grande desenvolvimento científico. Foi no fervilhar desse despontar
de ideias que surgiu uma ciência nova no século XIX: a Sociologia.
Antes de qualquer coisa, precisamos entender que ciência
não é somente a atividade praticada por “homens vestidos
de branco” dentro de uma sala chamada laboratório,
manipulando fórmulas esfumaçantes ou fazendo
experiências com ratinhos.
Contudo, aqui fazemos recorrência à ciência experimental com origem advinda
do Renascimento e que vem se formando até os dias atuais. Apesar dos riscos
das tentativas de definição, devemos entender que, neste caso, ciência consiste
em um método de abordagem do mundo empírico, mundo que pode ser
visualizado a partir da experiência humana.
O conhecimento científico somente pode ser compreendido se entendermos
o que é senso comum. Este último consiste no conhecimento adquirido no
cotidiano sobre as coisas e causas; é toda forma de conhecimento não
caracterizado pela investigação. Trata-se de um saber que não se utiliza de
métodos e é formulado
por sentimentos, opiniões, traduzindo os valores de quem o produz. Logo, o
senso comum é um saber não sistematizado que guia o homem em suas
atividades diárias.
A partir do que foi citado acima, podemos dizer que do cotidiano é que surge o
conhecimento científico, portanto, o senso comum não deve ser rejeitado em
detrimento da ciência.
Propomos aqui que você vá além do conhecimento comum sobre as questões
referentes ao homem e à sociedade e tenha acesso a um saber elaborado,
investigativo e controlado por métodos e técnicas de pesquisa. Para tanto, vamos
esclarecer conceituações básicas sobre esse tipo especial de conhecimento que é
o científico.
Sociologia INTA EAD 24
Uma das principais características do conhecimento científico é a utilização
sistemática de métodos para analisar os fatos. O uso da palavra método vai ser
frequente e desde já veremos o que isso significa: método é o caminho seguido
para alcançar um objetivo.
Oatodo cientistaobservar e realizar a coletadedados com basenas suas
hipóteses e teorias é denominado método indutivo. Movimentos de indução
envolvem o movimento do particular para o geral. Na abordagem dedutiva, o
pesquisador tenta procurar afirmações e reivindicações específicas de um
princípio teórico geral.
Método indutivo, ou indução, é o raciocínio que, após considerar um número
suficiente de casos particulares, conclui uma verdade geral. É importante que a
enumeração de dados (que correspondem às experiências feitas) seja suficiente
para permitir a passagem do particular para o geral. A indução pressupõe a
probabilidade, ou seja, já que tantos se comportam de tal forma, é muito provável
que todos se comportem assim.
O resultado dessa situação é que há maior possibilidade de erro nos
raciocínios indutivos, uma vez que basta encontrarmos uma exceção para
invalidar a regra geral. Por outro lado, é essa procura do provável que torna
possível a descoberta e a proposta de novos modos de compreender o mundo.
Essa é uma das justificativas para que a indução seja o tipo de raciocínio mais
usado em ciências experimentais.
Existem dois tipos principais de pesquisa em sociologia: o estudo transversal,
que visa descobrir as opiniões que os participantes da pesquisa têm sobre algum
fenômeno em determinado momento; e o estudo longitudinal que é realizado no
mesmo tipo de pessoas durante um longo período de tempo, às vezes de 20 a 30
anos. Fornece-nos uma imagem das mudanças ao longo do tempo.
Geralmente são usados alguns passos para realizar uma pesquisa sociológica.
Tais passos não são, no entanto, apenas da sociologia. Também devemos
ressaltar que esses passos não são fixos. Alguns podem não ser seguidos em
determinados projetos de pesquisa e outros podem não ser seguidos,
necessariamente, em ordem sequencial.
Para cada ramificação do conhecimento, são aplicados métodos diferenciados,
pois cada ciência possui um objeto de estudo. O objeto da ciência é constituído
pela realidade que ela se propõe a estudar (exemplos: a biologia estuda o
conjunto de seres vivos e a sociologia estuda o homem enquanto ser social).
Logo, podemos entender que se o objeto da sociologia é o homem em sua vida
social, o caminho que trilharemos para avaliar este fator será diferente do
caminho dos cientistas que se interessam pelos fenômenos naturais, mas isso
veremos detalhadamente mais adiante.
INTA EAD Sociologia 25
O que é necessário saber neste momento é que estamos adentrando numa
forma de conhecimento científico, cujo objeto é o homem em sociedade. E para
entender esse conhecimento, é necessário compreendermos em que contexto ele
surgiu.
Organização Social:
Fundamentos históricos
e epistemológicos
A sociologia é uma ciência relativamente nova, nasceu na Europa, no século
XIX, com a chegada da modernidade. Surgiu após a constituição das ciências
naturais e de diversas outras ciências sociais.
Não devemos desconsiderar que a curiosidade em entender a sociedade data
de centenas de anos antes de Cristo com as expressões da filosofia sofista que,
por exemplo, tinha nos escritos de Platão e Aristóteles algumas ideias sobre a
concepção do homem vivendo em sociedade.
Contudo, o estudo científico da sociedade foi instituído no meio acadêmico
através da sociologia que se constituiu reclamando para si objeto e método
específico a fim de diferenciar seus estudos dos que competem às ciências da
natureza.
Como forma de conhecimento e saber, a sociologia
acaba por refletir as preocupações dos homens de seu
tempo. Mas, considerando que seu surgimento ocorreu
nos últimos momentos da desagregação da sociedade
feudal e consolidação da sociedade capitalista, quais
eramessas preocupações?
Revisitando a história, podemos lembrar que o século XIX foi palco de grandes
transformações que vinham acontecendo gradualmente desde séculos anteriores.
Para pensar a formação de uma ciência social encarregada de analisar a
sociedade, dois processos revolucionários são frequentemente associados à
necessidade de fundar a sociologia: a Revolução Industrial e a Revolução
Francesa.
Sociologia INTA EAD 26
A RevoluçãoIndustrial
Duranteo século
XIXhouveapassagem da
atividade artesanal,
passando pela atividade
manufatureira até chegar
ao mecanismo industrial.
A partir de 1750, a
máquina a vapor e
demais máquinas fabris esfumaçavam o
céu da Inglaterra e, consequentemente,
os sistemas de produção passavam por
um processo de mecanização. O sistema
de transportes
avançou, facilitando a travessia de
pessoas e mercadorias.
A exploração do trabalho infantil na
Revolução Industrial
Tantoa mecanização daproduçãocomoapossibilidadedetransportar mercadoria
num tempo mais curto e com menores custos trouxeram modificações não apenas
no campo econômico, mas também sociocultural. Desse modo, a sociedade
assistia ao triunfo do capitalismo industrial.
As cidades europeias, aos poucos, transformavam-se em centros urbanos e
comerciais que abrigavam grande parcela da população. O empresário passou a
concentrar terras, máquinas e ferramentas e transformou seres humanos em
meros trabalhadores necessitados de bens materiais e saberes tradicionais.
Foram estabelecidasrelações desiguais de trabalho: homens, mulheres e
crianças saiam do campo em busca de oportunidades na cidade e eram
explorados em jornadas de trabalho que, pensadas atualmente, poderíamos
classificar como “desumanas”.
Entretanto, trabalhava-se entre doze e dezesseis horas e com a descoberta da
iluminação a gás, a jornada de trabalho chegou a ser ampliada para dezoito horas,
com salários baixos que variavam de acordo com sexo e idade, sendo as
mulheres e as crianças a parcela de trabalhadores mais explorada. Aos poucos,
as formas de interação humana foram alteradas, propiciando o aparecimento de
duas classes distintas – a burguesia e o proletariado.
Toda essa modificação no modo de vida dos homens fez com que emergissem
fenômenos sociais inéditos, tais como: crescimento demográfico desordenado por
conta do deslocamento em massa da população do campo para as cidades; falta
de estrutura em termos de moradia, saúde e saneamento básico; aumento da
prostituição e criminalidade; aumento do alcoolismo e suicídio.
INTA EAD Sociologia 27
As cidades passavam a ser “epicentros de desordenamento” cada vez mais
inchados e uma ordem de costumes era completamente modificada; como
exemplo, citamos a família, tanto no que concerne ao status dos membros em
relação ao sexo – lembremos que neste período predominava um modelo de
família patriarcal – quanto às relações pessoais entre os membros familiares.
O esforço para entender tal realidade impulsionou os questionamentos que
mais tarde iriam consolidar-se na sociologia.
A RevoluçãoFrancesa
O mesmo século que
assistiu a
Revolução Industrial
lançada na Inglaterra
e com alcance mundial,
assistiu também a
uma série de fatos
políticos que agitaram
a França. O regime
absolutista estava
estabilizado, tendo como particularidade
principal a forma concentrada de poder
nas mãos do rei que era o soberano, o
representante maior do homem.
Revolução Francesa
A população do país sofria com os
abusos de poder exercidos pela autoridade monárquica (o rei). As críticas ao
regime absolutista e à desigualdade promovida por este foram intensificadas no
fim da década de 80 do século XVIII.
Após uma série de atos contra o autoritarismo monárquico, a população
composta por membros do terceiro estado (formado pelo campesinato e pela
burguesia comercial – classe menos favorecida naquele período histórico) avança
em direção à prisão política da época – Bastilha – destruindo-a. Isso ocorreu em
julho de 1789, data que marca historicamente a Revolução Francesa.
Com o lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, os revolucionários tinham
como objetivo promover transformações culturais, econômicas e políticas através
da mudança na estrutura do Estado. Pretendiam derrubar o regime monárquico e
instaurar a democracia; assim o fizeram. Em agosto de 1789, através da
Assembleia Constituinte,oterceiroestadocancelouosabsurdosdireitos
feudaisefoiproclamada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.
Durante a Revolução Francesa, principalmente, intensificou-se um movimento,
chamado Iluminismo, iniciado no século XVI. Consistia numa nova forma de
pensar
Sociologia INTA EAD 28
e entender filosoficamente o mundo. As formas de conceber a natureza e a cultura
(através do uso sistemático da razão) passaram do sobrenatural ao racional, ou
seja, o pensamento começava a libertar-se do controle teológico e o
Teocentrismo deu lugar ao Antropocentrismo.
Através dessa atitude de dessacralização da natureza, o homem passou a
trabalhar a racionalidade como objeto científico de pesquisa acreditando que pelo
uso da razão a humanidade chegaria a um alto patamar de progresso.
Essas revoluções, somadas a outras de menor visibilidade, marcam a
transição da Idade Média para a Idade Contemporânea. A partir delas, os
pilares que sustentam a modernidade foram construídos e assim o conjunto de
transformações emergentes precisava ser explicado e entendido pela razão
humana. O mundo parecia estar em crise e algo precisava ser feito. Assim surge
a ideia de uma ciência para pensar os fenômenos sociais.
Sociedade e Cultura
O conceito de sociedade
O termo significa associação, união, gregário, ou, simplesmente, vida em
grupo. O conceito de sociedade refere-se a um agrupamento autônomo de
pessoas que habitam um território comum, têm uma cultura comum (conjunto
compartilhado de valores, crenças, costumes e assim por diante) e estão ligadas
umas às outras através das interações sociais rotineiras, status e funções
interdependentes.
Recursos básicos de uma sociedade
Uma sociedade, em geral, é um agrupamento, relativamente grande, de
pessoas em termos de tamanho. Ela pode ser considerada o maior e o mais
complexo grupo social estudado pelos sociólogos.
É também definida como um espaço limitado ou território. As populações que
compõem uma sociedade são, portanto, localizáveis em uma área geográfica.
Outro recurso básico de uma sociedade corresponde às pessoas. Estas
apresentam um sentimento de identidade e pertencimento. Essa identidade emana
do padrão das interações sociais que existem entre as pessoas e os diversos
grupos que compõem a sociedade.
INTA EAD Sociologia 29
Os membros de uma sociedade são considerados portadores de origem e
experiência históricas comuns. Podem também falar uma língua-mãe ou ter uma
língua dominante que serve, possivelmente, como uma herança nacional.
No entanto, a coisa mais importante sobre a sociedade é que seus membros
compartilham, simultaneamente, uma cultura comum e distinta. Isso é que
diferencia os grupos populacionais.
A sociedade é autônoma e independente no sentido de que ela tem todas as
instituições sociais e arranjos organizacionais necessários para sustentar o
sistema. No entanto, uma sociedade não é uma ilha no sentido de que
sociedades são interdependentes, as pessoas interagem social, economica e
politicamente.
É importante você notar que as características de uma sociedade não são
exaustivas e não podem ser aplicadas a todas as sociedades. Por exemplo, o nível
de desenvolvimento econômico e tecnológico de uma sociedade e seu tipo de
economia ou sistema de subsistência podem criar algumas variações entre as
sociedades no tocante às características básicas referidas.
O conceito de Sociedade considerando diversos níveis De
modo geral, e considerando um nível abstrato, todos os povos da terra podem ser
tidos como sociedade. Eles partilham uma origem comum, habitam um mundo
comum, têm uma unidade biopsicológica comum, exibem interesses, desejos e
medos comuns e estão caminhando para um destino comum.
Em outro nível, cada continente pode ser visto como uma sociedade. Assim,
podemos falar da sociedade europeia, da sociedade africana, da sociedade
asiática, da sociedade norte-americana e latina. Cada um desses continentes
compartilha seu próprio território, experiências históricas, cultura e assim por
diante.
Cada estado-nação, ou país, é considerado uma sociedade, podendo haver
grupos etnolinguisticamente distintos de pessoas que tenham um território e o
consideram como seu.
Você sabe como as sociedades são classificadas? Vejamos.
Tipos e categorias de sociedades
Os sociólogos classificam as sociedades em várias categorias dependendo de
certos critérios. Um critério é o nível de desenvolvimento econômico e tecnológico
alcançado pelos países. Assim, os países são classificados em: Primeiro Mundo,
Segundo Mundo e Terceiro Mundo.
Sociologia INTA EAD 30
Países do Primeiro Mundo são aqueles industrialmente avançados e
economicamente ricos como os EUA, Japão, Grã-Bretanha, França, Itália,
Alemanha, Canadá e assim por diante.
Os países do Segundo Mundo são também industrialmente avançados, mas
não tanto como a primeira categoria. São países detentores de economias
emergentes. Atualmente são denominados de países em desenvolvimento como
China, Rússia, Brasil, Argentina, México e Índia.
As sociedades do Terceiro Mundo correspondem aos países que possuem
economia subdesenvolvida, ou em desenvolvimento. Alguns autores como Küng &
Schmidt (2001) e Castells (1999)acrescentam uma quarta categoria, ou seja,
Quarto Mundo. Estes países são considerados os mais pobres.
Quanto ao tipo de sociedade, podemos citar a mais antiga que é a caça, a
sociedade pastoral e hortícola e sociedades agrícolas.
A sociedade da caça depende da caçada para sua sobrevivência, já as
sociedades pastorais são aquelas cuja subsistência baseia-se em pastoreio de
animais, tais como gado bovino, camelos, ovinos e caprinos. Sociedades
hortícolas são aquelas cuja economia baseia-se no cultivo de plantas com o uso
de ferramentas simples, como a escavação com paus, enxadas e machados.
A sociedade agrícola é dominante na maior parte do mundo; baseia-se na
agricultura de grande escala que depende de arados usando o trabalho animal.
A Revolução Industrial que começou na Grã-Bretanha durante o século XVIII
deu origem ao aparecimento de um quarto tipo de sociedade chamada Sociedade
Industrial. É aquela em que os bens eram produzidos por máquinas movidas a
combustível em vez de animais e energia humana.
Por fim, há outro tipo de sociedade denominada pós-industrial. Esta é baseada
na informação, serviços e alta tecnologia, em vez de matérias-primas e fabricação.
Conceito de cultura
É importante notar que as pessoas comuns fazem, muitas vezes, mau uso do
conceito de cultura. Veremos alguns equívocos sobre a cultura: • Muitas
pessoas no mundo ocidental usam o termo cultura quando referem-se
às pessoas que são mais “cultas” do que outras. Isso basicamente emana da
ideia associada à raiz da palavra cultura: Kultura, em alemão refere-se à
“cultura”. Assim, quando se diz que alguém é “culto” significa dizer que é
civilizado. Para
INTA EAD Sociologia 31
sociólogos e antropólogos, a cultura inclui muito mais do que requinte, bom
gosto, sofisticação, educação e valorização das artes plásticas.
• Muitas pessoas passaram a pensar a cultura em termos de costumes, música,
dança, roupas, joias e penteados.
• Muitas pessoas pensam na cultura associada às coisas materiais do passado.
De acordo com este ponto de vista, o cultural não pode incluir coisas
(materiais ou não) que sejam modernas, comuns do dia a dia. Aqui, o comum
é considerado não cultural ou “menos cultural”.
O conceito de cultura é um dos mais utilizados na sociologia. Refere-se a
todos os modos de vida dos membros de uma sociedade. Ele inclui o vestir, seus
costumes, vida familiar, arte e padrões de trabalho, cerimônias religiosas,
atividades de lazer e assim por diante. Este conceito também inclui os bens
materiais que produzem: arcos e flechas, arados, fábricas e máquinas,
computadores, livros, edifícios, aviões, etc.
O conceito de cultura foi definido centenas de vezes por sociólogos e
antropólogos, enfatizando diferentes dimensões. No entanto, na maioria das
vezes os estudiosos focaram a dimensão simbólica da cultura. Ela está sempre se
desenvolvendo, pois é influenciada pela maneira de pensar o desenvolvimento do
ser humano no decorrer dos anos.
Características básicas da cultura
As características da cultura são denominadas em várias culturas. Vamos
enumerar cada uma delas:
Cultura orgânica e supraorgânica: é orgânica quando consideramos o fato de
que não existe uma cultura sem uma sociedade humana. É supraorgânica porque
vai muito além de qualquer vida individual (os indivíduos vêm e vão); a cultura
permanece e persiste.
Cultura aberta e encoberta: é geralmente dividida em material e não-material. A
cultura material consiste de quaisquer objetos tangíveis feitos pelos humanos tais
como ferramentas, automóveis, edifícios, etc. A não-material corresponde a todos
os aspectos não físicos como a linguagem, crenças, ideias, conhecimentos,
atitudes, valores, etc.
Cultura explícita e implícita: é explícita quando considera as ações que podem
ser explicadas e descritas facilmente por aqueles que as executam. É implícita
quando consideramos as coisas que fazemos sem sermos capazes de
explicá-las, porém acreditamos que elas sejam assim.
Sociologia INTA EAD 32
Cultura ideal e manifesta (real): cultura ideal envolve a maneira como as
pessoas devem comportar-se ou o que elas devem fazer. A cultura manifesta
envolve o que as pessoas realmente fazem.
Cultura estável: é estável quando consideramos o que as pessoas têm de valor e
estão entregando para a próxima geração a fim de manter suas normas e valores.
No entanto, quando uma cultura entra em contato com outras, ela pode mudar,
não somente através de contato direto ou indireto, mas também através da
inovação e adaptação às novas circunstâncias.
Cultura compartilhada e aprendida: é propriedade de um grupo social de
pessoas (compartilhado). Os indivíduos obtêm conhecimento cultural do grupo
através da socialização. No entanto, devemos notar que as coisas compartilhadas
entre as pessoas podem não ser culturais, uma vez que existem muitos atributos
biológicos que as pessoas compartilham entre si.
Elementos da cultura
A cultura inclui dentro de si elementos que compõem a essência de uma
sociedade ou um grupo social. Os mais importantes incluem: símbolos, valores,
normas e linguagem.
• Símbolos: são os componentes centrais da cultura; referem-se a qualquer coisa
para as quais as pessoas atribuem significado e usam para comunicar-se com
os outros. Mais especificamente, os símbolos são palavras, objetos, gestos,
sonsou imagens que representam algo maior do que eles.
• Linguagem: definida como um sistema de símbolos verbais e, em muitos casos,
escritosquepodemser organizados juntospara transmitir significados
complexos; é a capacidade distintiva dos seres humanos e um
elemento-chave da cultura. Cultura engloba linguagem e através da linguagem
a cultura é comunicada e transmitida. Sem linguagem seria impossível
desenvolver, elaborar e transmitir cultura para as gerações futuras.
• Valores: Os valores são elementos essenciais da cultura não-material. Eles
podem ser definidos como diretrizes abstratas para nossas vidas, decisões,
objetivos, escolhas e ações. Eles compartilham as ideias de um grupo ou de
uma sociedade sobre o que é certo ou errado, correto ou incorreto, desejável
ou indesejável, aceitável ou inaceitável, ético ou antiético, etc. Os valores são,
em geral, roteiros para nossas vidas. Os valores são compartilhados e
aprendidos em grupo. Eles podem ser positivos ou negativos.
Os valores são dinâmicos, ou seja, eles mudam ao longo do tempo. Eles
também são estáticos, o que significa que tendem a persistir sem qualquer
modificação
INTA EAD Sociologia 33
significativa. São também diversificados, o que significa que variam de lugar para
lugar e de cultura para cultura. Alguns valores são universais porque há unidade
biopsicológica entre as pessoas em todos os lugares e em todos os tempos.
• Normas: são elementos essenciais da cultura. Elas são princípios implícitos para
a vida social, relacionamento e interação. As normas são regras detalhadas e
específicas para situações determinadas. Elas nos dizem como fazer algo, o
que fazer, o que não fazer, quando fazer, por que fazer, etc. Normas são
derivadasde valores. Isso significa que, para cada norma específica, existe um
valor geral que determina seu conteúdo.
As normas fortes são consideradas as leis formais de uma sociedade ou
grupo. Leis formais são escritas e codificam as normas sociais.
As pessoas não podem agir de acordo com os valores definidos e as normas
do grupo. As normas sociais podem ser divididas em: costumes e
comportamentos. Costumes são regras importantes, que em geral ocorrem
automaticamente sem qualquer base de suporte nacional e inspiram-se nos
costumes passados de geração em geração. Eles não são impostos por lei, mas
por controle social informal e sua violação não é gravemente sancionada.
Já o comportamento é regido por convenções, isto é, regras estabelecidas e
geralmente aceitas pela sociedade. Alguns comportamentos excepcionais são
considerados excêntricos.
Variabilidade Cultural
Como você já viu, variabilidade cultural refere-se à diversidade de culturas nas
sociedades e lugares. Como existem diferentessociedades, existem diferentes
culturas. A diversidade de cultura humana é notável. Valores e normas de
comportamento variam muito de cultura para cultura, muitas vezes contrastando
de forma radical. Por exemplo, os judeus não comem carne de porco, enquanto os
hindus sim, mas evitam carne de gado. Se considerarmos sociedades como a
Etiópia e a Índia, notamos que há entre elas grandes diversidades culturais. Por
outro lado, dentro de ambas as sociedades, há também uma notável variabilidade
cultural.
Nós usamos o conceito de subcultura para chamar a variabilidade da cultura
dentro de determinada sociedade. Subcultura é uma cultura distinta partilhada por
um grupo dentro de uma sociedade.
Sociologia INTA EAD 34
Etnocentrismo, relativismo cultural e choque cultural Nós,
muitas vezes, tendemos a julgar outras culturas comparando-as com a nossa.
Não é logicamente apropriado subestimar, ou julgar, outras culturas na base de
um padrão de cultura. O Etnocentrismo, em geral, é a atitude de tomar a sua
própria cultura e modos de vida como os melhores. É a tendência para aplicar os
próprios valores culturais a fim de julgar o comportamento e as crenças de
pessoas de outras culturas. As pessoas consideram um comportamento diferente
como estranho ou selvagem.
No Relativismo Cultural cada sociedade tem sua própria cultura, que é mais
ou menos única. Cada cultura possui seu padrão único de comportamento que
pode parecer estranho para as pessoas de outras origens culturais. Nós não
podemos compreender suas práticas e crenças separadamente da cultura mais
ampla da qual faz parte. A cultura tem que ser estudada em termos de seus
próprios significados e valores.
O relativismo cultural descreve uma situação onde existe uma atitude de
respeito às diferenças culturais em vez de condenar a cultura de outras pessoas
como não civilizada ou atrasada.
O respeito pelas diferenças culturais envolve:
• Valorizar a diversidade cultural;
• Aceitar e respeitar outras culturas;
• Tentar entender cada cultura e seus elementos em termos do seu próprio
contexto e lógica;
• Aceitar que cada costume tem uma dignidade e significado inerente às formas
de vida de um grupo que trabalha num determinado meio ambiente para
satisfazer as necessidades biológicas dos seus membros e as relações
grupais;
• Saber que a cultura própria de uma pessoa é apenas uma entre muitas; •
Reconhecer o que é imoral, ético e aceitável numa cultura.
Relativismo cultural pode ser considerado o oposto do etnocentrismo.
Contudo, há algum problema com o argumento de que o comportamento de
determinada cultura nãodeve serjulgado pelospadrõesdooutro. Issoocorreporque
considerando uma situação extrema, é possível afirmar, por exemplo, que não
existe um limite superior no que se refere à moralidade em termos da
internacional ouuniversal.
O choque cultural (Culture Shock) é o psicológico e social desajuste no nível
micro ou macro que é experimentado pela primeira vez quando as pessoas
encontram novos elementos culturais, como coisas novas, ideias, conceitos,
crenças e práticas aparentemente estranhas.
INTA EAD Sociologia 35
Nenhuma pessoa está protegida de um choque cultural. No entanto, indivíduos
variam em sua capacidade de adaptar-se e superar a influência do choque
cultural. Pessoas altamente etnocêntricas estão mais suscetíveis ao choque
cultural. Por outro lado, os relativistas culturais podem achar que é fácil
adaptar-se a novas situações e superar o choque cultural.
Socialização
A socialização é um processo através do qual as pessoas aprendem e são
treinadas nas normas básicas, valores, crenças, habilidades, atitudes, modos de
fazer e agir de acordo com um grupo social ou sociedade específica. O indivíduo
passa por várias fases de socialização, desde o nascimento até a morte. Assim,
precisamos de socialização enquanto crianças, adolescentes, adultos e idosos.
Do ponto de vista das pessoas individuais, especialmente um bebê recém
nascido, a socialização é um processo pelo qual um ser biológico ou organismo é
transformado em um bem-estar social.
Em termos de grupo, sociedade ou qualquer organização profissional, a
socialização é um processo pelo qual as organizações, grupos sociais, a estrutura
da sociedade e o bem-estar são mantidos e sustentados. É o processo em que a
cultura, as habilidades, as normas, as tradições, os costumes, etc., são
transmitidos de geração em geração – ou de uma sociedade para outra.
Socialização pode ser formal ou informal: torna-se formal quando é conduzida
por grupos e instituições sociais formalmente organizados, como escolas, centros
religiosos, universidades, meios de comunicação, locais de trabalho, etc. É
informal quando é realizada através de interações interpessoais ou interações
informais em pequenos grupos sociais.
A socialização mais importante para nós é a que temos através de agentes
informais como a família, pais, vizinhança e influências do grupo de pares. Ela tem
uma influência muito poderosa, negativa ou positiva, em nossas vidas.
O processo de socialização, seja ele formal ou informal, é de vital importância
para os indivíduos e sociedade. Sem algum tipo de socialização, a sociedade
deixaria de existir. A socialização, portanto, pode ser rotulada como a maneira
pela qual a cultura é transmitida e os indivíduos são instalados de acordo com os
modos de vida da sociedade.
Sociologia INTA EAD 36
As metas de socialização
Em termos de pessoas individuais, o objetivo da socialização é equipar o
indivíduo com os valores básicos, as normas, as competências, etc., de modo que
elas se comportem e atuem corretamente no grupo social ao qual pertencem.
Socialização tem também os seguintes objetivos
específicos: • incutir aspirações;
• ensinar papéis sociais;
• ensinar habilidades;
• ensinar conformidade com as normas e construir as identidades pessoais.
Apesar da importância da inculcação de valores e normas no processo de
integração social, precisamos observar também que os valores sociais não são
igualmente absorvidos por todos os membros de uma sociedade ou grupo. A
integradora função de socialização também não é igualmente benéfica para todas
as pessoas.
Padrões de socialização
Existem dois padrões amplamente classificados de socialização. São eles: a
socialização repressiva e socialização participativa. Socialização repressiva é
orientada para ganhar a obediência, enquanto a socialização participativa é
orientada para ganhar a participação da criança.
Principais tipos de socialização
Existem diferentes tipos de socialização: tradicionais (primária ou socialização
na infância, secundária ou socialização na idade adulta,
dessocializaçãoeressocialização); socialização antecipatória e
socializaçãoreversa.
Socialização primária ou socialização na infância É também
chamada de socialização básica ou precoce. Os termos “primário”, “base” ou
“cedo” significam a importância do período da infância para a socialização. Muito
da personalidade dos indivíduos é forjada neste período da vida. Socialização
nesta fase da vida é um marco, sem ela, estaríamos longe de nos tornarmos seres
sociais. Por isso, as crianças devem ser devidamente socializadas desde o
nascimento até cinco anos de idade, haja vista este período ser básico e crucial.
INTA EAD Sociologia 37
Uma criança que não seja apropriadamente socializada nesta fase
provavelmente será deficiente no âmbito do desenvolvimento social, moral,
intelectual e de personalidade.
A socialização secundária ou socialização na idade adulta A
socialização secundária, ou socialização na idade adulta, é necessária quando o
indivíduo assume novos papéis, reorientando-se de acordo com sua mudança,
status e papéis sociais, como quando inicia a vida matrimonial. O processo de
socialização nesta fase pode, às vezes, ser intenso. Por exemplo, os licenciados
que entram no mundo do trabalho para começar seu primeiro posto de trabalho
têm novos papéis a serem executados.
A socialização de adultos pode também ocorrer entre imigrantes. Quando eles
vão para outros países, precisamaprender a língua, valores, normas e uma série
de outros costumes.
Ressocialização e Dessocialização
Na vida dos indivíduos que passam por diferentes estágios e experiências não
existe a necessidade de ressocialização e dessocialização. Ressocialização
significa a adoção, por parte dos adultos, de estilos de vida radicalmente
diferentes e que são mais ou menos diferentes com as normas e os valores
anteriores. São alterações rápidas e básicas na vida adulta. A mudança pode
exigir o abandono de um estilo de vida por outro, completamente diferente e
incompatível com o primeiro.
A dessocialização acontece frequentemente quando nas sociedades
modernas, e na vida adulta, exige-se dos indivíduos transições nítidas e
mudanças. Ela normalmente precede a ressocialização. Refere-se a indivíduos
que mudaram seus estilos de vida, crenças, valores e atitudes e passaram a
ocupar novos estilos, parcial ou totalmente, a fim de tornar-se parte do novo grupo
social.
Dessocialização e Ressocialização ocorrem frequentemente no que é
chamado de instituições totais, o que inclui, por exemplo: hospitais psiquiátricos,
prisões e unidades militares. Em cada caso, as pessoas que se juntam à nova
definição têm primeiro de ser dessocializadas antes de serem ressocializadas.
Ressocialização também pode significar socialização dos indivíduos
novamente em seus valores e normas anteriores, depois de reunir seus antigos
modos de vida, gastando relativamente longo período de tempo em instituições.
Isso ocorre porque eles podem ter esquecido a maior parte dos valores básicos e
habilidades do ex
grupo ou sociedade.
Sociologia INTA EAD 38
Esse tipo de ressocialização também pode ser considerado como a
reintegração, ajudar os ex-membros da comunidade a renovar seus antigos
modos de vida, habilidades, conhecimentos, etc.
Socialização antecipatória
Socialização antecipatória refere-se ao processo de ajuste e adaptação em
que os indivíduos tentam aprender e internalizar os papéis, valores, atitudes e
habilidades de um social ou profissão para a qual são prováveis recrutas no
futuro. Eles fazem isso antecipando a socialização próxima na vida real.
Socialização reversa
Está associada ao fato da socialização ser um processo de mão dupla. Ela
envolve as influências e pressões das socializações que direta, ou indiretamente,
induzem a mudar atitudes e comportamentos dos próprios socializadores.
Na socialização reversa, as crianças, por exemplo, podem socializar seus pais
em alguns papéis, habilidades e atitudes que faltam a estes.
Agentes e componentes de socialização
Agentes de socialização são os diferentes grupos de pessoas e arranjos
institucionais responsáveis pelo treinamento de novos membros da sociedade.
Alguns deles poderão ser formais, enquanto outros são informais. Eles ajudam os
membros a entrar nas atividades gerais da sua sociedade. Algumas das agências
de socialização são: a família, relacionamentos com seus pares, escolas, bairros
(da comunidade), a massa da mídia, etc.
A instituição família é geralmente considerada o mais importante agente de
socialização. No processo de socialização, os contatos mais importantes ocorrem
entre uma criança, seus pais e irmãos. Os contatos também poderiam ser entre a
criança e os pais substitutos quando os pais reais não estão disponíveis.
Além dos pais, há outros agentes de socialização (em sociedades modernas),
como creches-centros, creches e infância, escolas e universidades. Parece que
esses vários agentes de socialização assumiram parcialmente a função dos pais,
particularmente nas sociedades modernas onde as mulheres estão cada vez mais
deixando a sua tradicional responsabilidade domiciliar para exercer uma atividade
fora de casa.
INTA EAD Sociologia 39
Além de pais e escolas, grupos de pares são muito importantes no processo
de socialização. Às vezes, a influência do grupo de pares pode ser negativa ou
positiva, e ser tão poderosa como a dos pais. Os grupos de pares (grupo de
amigos) podem transmitir valores sociais vigentes ou desenvolver novas e
distintas culturas próprias, com valores peculiares.
Os meios de comunicação de massa como televisão, rádio, cinema, vídeos,
fitas, livros, revistas e jornais são também importantes agentes de socialização.
Múltiplas e contraditórias influências de socialização Até agora,
o quadro de socialização apresentado pode parecer inclinado para uma visão
funcionalista e estrutural da sociedade e de socialização. Assim, seria útil
adicionar algumas ideias que podem ajudar a equilibrar a imagem. Numa
conceituação crítica de socialização, influências contraditórias e ambíguas de
socialização precisam ser destacadas.
Se tomarmos o exemplo do consumo de álcool e tabaco veremos que há
processos subjacentes e contraditórios de socialização por trás desse fenômeno.
Influências conflitantes surgem quando, por um lado, as famílias, escolas e
instituições médicas advertem os jovens para não consumirem estes produtos e,
por outro lado, as empresas que produzem esses produtos estão travando uma
guerra para vendê
los aos jovens através da atração da propaganda.
Este exemplo nos mostra que, muitas vezes, mensagens conflitantes
competem a partir das várias fontes de socialização. As empresas internacionais
promovem a cultura do consumismo com o auxílio dos meios de comunicação
global. Estes tendem a desempenhar papéis dominantes na influência das
atitudes e estilos de vida dos jovens.
Sociologia INTA EAD
40
2
CORRENTES SOCIOLÓGICAS
Conhecimento
Compreender os pressupostos
das correntes sociológicas.
Habilidades
Analisar a sociedade atual a partir das ideias
propostas pelas correntes sociológicas.
Atitudes
Desenvolver a percepção das diferentes posturas
teóricas face à mesma realidade social.
A contribuição
de Auguste Comte
A sociologia oportuniza diferentes
estudos e caminhos para
a explicação da realidade social, não se
constituindo enquanto ciência de apenas
uma orientação teórica e metodológica
dominante. Atendendo ao que foi afirmado,
observamos na sociologia três linhas principais: a positivista-funcionalista, de
Auguste Comte e Durkheim; a sociologia compreensiva iniciada por Max Weber
e a linha de explicação sociológica dialética iniciada por Karl Marx. Auguste
Comte
Comte idealizou uma sociologia de inspiração positivista, a qual considera que
a sociedade destina-se inevitavelmente ao progresso, todavia, este deve vir junto
com a ordem nas instituições sociais: família, escola, empresa, religião e estado. A
ordem é indispensável para manter o equilíbrio social. Nesse sentido a sociologia
deve abster-se de qualquer discussão crítica sobre a realidade existente.
Para compreendermos a extensão do raciocínio positivista, é importante
lembrar que, de acordo com Comte, nessa época a Europa passava por uma
crise econômica e social, resultante de uma nova forma de pensar a natureza e a
sociedade. Tal forma desenvolveu-se a partir do século XV em resultado do
conflito histórico entre a antiga ordem feudal e a nova ordem capitalista.
Para Comte, a desordem e a anarquia dominavam devido aos princípios
metafísicos e teológicos do passado não poderem mais ajustar-se à sociedade em
transformação acelerada. Para superar esse estado, Comte propõe a construção
de uma nova ordem social por intermédio da reforma intelectual do homem cujo
fundamento é o uso da razão.
Nesse ponto surge a sociologia ou “física social”, que se propõe reformar a
prática das instituições sociais através da análise de seus processos e estruturas.
A sociologia representa, para Comte, o apogeu da evolução do conhecimento,
recorrendo aos mesmos métodos de outras ciências, pois todas elas procuram
conhecer os fenômenos constantes e repetitivos da natureza. A sociologia, como
as ciências naturais, deve procurar a reconciliação entre os aspectos estáticos e
os dinâmicos do mundo natural, o que, em termos da sociedade humana, significa
entre a ordem e o progresso.
A ciência deveria ser um instrumento para a análise da sociedade no sentido
de torná-la melhor;o mesmo é dizer que o conhecimento deve existir para fazer
INTA EAD Sociologia 43
previsões do que acontecerá e também para dar a solução dos possíveis
problemas que possam existir.
O positivismo de Comte procura encontrar uma forma de estudar a sociedade
de modo que essa pesquisa ofereça credibilidade na busca de respostas
consideradas essenciais para a mudança social em diversos âmbitos, tais como:
a organização da sociedade, o comportamento dos indivíduos e das instituições; a
necessidade de regras e de normas; o planejamento de uma sociedade
equilibrada e a resolução de conflitos. Para isso, defende uma unidade
metodológica regida por leis invariáveis, cujos fundamentos para a investigação
partem da análise da sociedade baseada nas ciências naturais. Como um
organismo, a sociedade deve ser estudada em duas dimensões: a que Comte
designa por estática social (análise de suas condições de existência; de sua
ordem) e a da dinâmica social (análise de seu movimento; de seu progresso).
Para o autor, ordem e progresso relacionam-se estreitamente. A sociedade
evolui com base em dois movimentos, buscando a ordem e o progresso: • o
primeiro movimento propõe a evolução das sociedades de modo linear, das
sociedades mais simples para as mais complexas, das menos avançadas à
mais evoluídas;
• o segundo movimento procura adequar os indivíduos às condições estabelecidas
para garantir o melhor funcionamento da sociedade, o bem-comum e os
anseios da maioria da população;
• Segundo Costa (1997), os conflitos, as contradições e as revoltas devem ser
contidos, se tais movimentos colocarem em risco a ordem estabelecida ou
inibirem o progresso.
A concepção de uma evolução linear das sociedades influenciou a perspectiva
etnocêntrica dos antropólogos dos séculos XIX e XX que consideravam
atrasadas e inferiores as sociedades diferentes das sociedades europeias. Essa
proposta eurocêntrica foi reforçada pela ideia de Comte. Este considera que,
na sua evolução, as concepções intelectuais da humanidade envolvem três
estágios que se excluem mutuamente:
• o estágio teológico: é o ponto de partida necessário à inteligência humana na
qual o pensamento sobre o mundo é dominado pelas considerações do
sobrenatural;
• o estágio metafísico: predomina o pensamento filosófico sobre a essência dos
fenômenos e o desenvolvimento da matemática e da lógica, servindo de
transição para o estágio positivo;
• o estágio positivo: de acordo com Comte (1996), apresenta-se fixo e definitivo
e nele o conhecimento passa a ter utilidade prática porque se baseia na
ciência, ou seja, na observação cuidadosa dos fatos empíricos.
Sociologia INTA EAD 44
O progresso do conhecimento do homem aconteceu de acordo com o
positivismo comteano. Veja no quadro abaixo a explicação das leis dos três
estados:
Estado Teológico Estado Metafísico Estado Positivo
Explica os diversos As causas primeiras são O homem tenta compreender
fenômenos por substituídas por causas as relações entre as coisas e meio de causas
mais gerais - as entidades os acontecimentos por meio primeiras, em geral
metafísicas -, buscando da observação científica e do personificadas nos nessas
entidades abstratas raciocínio, formulando leis. deuses. Subdivide-se (ideias)
explicações sobre a Portanto, não procura mais em: natureza das coisas e a causa
conhecer a natureza íntima das a) fetichismo: o dos acontecimentos. coisas e as
causas absolutas. homem confere
vida, ação e poder
sobrenaturais a
seres inanimados e a
animais.
b) politeísmo:
quando se desenvolve
a crença em mais de
um Deus.
c) Monoteísmo:
quando se desenvolve
a crença em um Deus
único.
Fonte: Lakatos (1990, p. 43)
Era um posicionamento de caráter evolucionista, o qual acreditava que a
sociedade passaria por uma sucessão de estágios menos evoluídos aos mais
evoluídos, chegando à “perfeição” através do industrialismo e da ciência. Estes
seriam os propulsores de uma ordem encaminhada ao progresso social. Tais
ideias exerceram influência por todos os lugares do mundo, inclusive na formação
da república brasileira que adotou em sua bandeira nacional a máxima positivista
Ordem e Progresso.
O positivismo não admite outra realidade a não ser os fatos passíveis de
observação. Constitui tarefa do cientista social descobrir as relações entre os
fatos, por intermédio de instrumentos específicos, na busca da objetividade
científica. Não são consideradas de interesse as causas dos fenômenos, nem o
conhecimento das suas consequências porque isso não é considerado tarefa da
ciência.
INTA EAD Sociologia 45
Como forma de aproximar as ciências sociais do modelo mecanicista, as
pesquisas de orientação positivista assumem uma postura de neutralidade diante
do objeto da pesquisa e de seus resultados.
Além disso, tais pesquisas buscam a quantificação e repudiam a pesquisa
qualitativa. Os dados empíricos são coletados e trabalhados com objetividade e
neutralidade. A partir de um referencial teórico, o pesquisador levanta hipóteses e
procura a sua comprovação. Os dados são processados quantitativamente.
Comte defende que o pesquisador não pode estar simultaneamente na janela
e vendo-se passar na rua. No teatro, não se pode ser, ao mesmo tempo, ator no
palco e espectador sentado na poltrona. Para evitar a influência do subjetivo, o
cientista deve manter-se neutro com relação ao seu objeto de pesquisa.
A palavra objeto é simbólica, pois mostra que as pessoas seriam encaradas
como peças de um jogo e não como indivíduos capazes de ter livre-arbítrio. Do
mesmo modo, o pesquisador não deve manter qualquer tipo de relacionamento ou
proximidade com os indivíduos que estão sendo observados.
A sociologia de Comte não saiu do plano das ideias. Não houve uma
viabilização desta por parte do autor, porém, os primeiros sociólogos
inspiraram-se em sua filosofia positivista. A sociologia existia como um embrião
que ainda não gozava de reputação científica e foi através de Émile Durkheim que
ela, finalmente, foi institucionalizada no meio acadêmico.
Mas afinal, quem é Émile Durkheim e o que ele propôs
como teoria e prática sociológica?
Sociologia INTA EAD
46
Contribuição
de ÉmileDurkheim
Émile Durkheim é o mais importante precursor do
funcionalismo. Ele concebe a sociedade semelhante a
um organismo vivo, cujos órgãos funcionam de maneira
interdependente para manter sua sobrevivência e
equilíbrio. Cada parte existe em função do todo. Quando
umórgãoficadoente,todoocorposofreas consequências.
Durkheim compara a sociedade ao modelo de
funcionamento de um organismo vivo como, por exemplo,
o corpo humano. Assim você deve, primeiramente,
Émile Durkheim
compreender o funcionamento deste
organismo humano.
Cada um de nós é constituído por uma unidade com diferentes partes que,
juntas, funcionam de forma harmoniosa no que diz respeito à nossa saúde. Basta
um órgão deixar de funcionar, ou funcionar parcialmente, para termos esta saúde
afetada. Se você perder o rim ou ele não funcionar corretamente, logo sofrerá
com os sintomas que podem ir desde a administração de uma medicação até o
caso de hemodiálise ou morte. Desse modo funciona o corpo humano, cada parte
desempenha funções específicas: rins, coração, fígado, pulmões e assim por
diante.
No entanto, cada órgão do corpo humano trabalha
de forma independente e complementar para o bom
funcionamento do todo. Usando um pensamento
simplório, afirmar-se-ia que o todo é a soma das partes,
mas se você montar um quebra-cabeça ou tiver peças
diferentes para montar uma bicicleta, o resultado final
apresentará características não contidas nas peças
do quebra-cabeça que se transformou em uma bela
paisagem ou nas peças do que se tornou uma bicicleta.
Daí, concluímos que o “todo” tem qualidades que as
partes não têm.
Representação da Sociedade
A ideia de totalidade pressupõe que
as partes não
como um todo estejam somente amontoadas umas ao lado das outras, mas
que haja diferença, integração, interdependência e complementaridade entre
elas.
INTA EAD Sociologia 47
Assim decorre o funcionamento da sociedadepara Durkheim: • O todo
prevalece sobre as partes; o mesmo é dizer que o coletivo prevalece sobre o
indivíduo;
• As partes (os fatos sociais) existem em função do todo (a sociedade); o mesmo
é dizer que os indivíduos agem de acordo com o coletivo;
• A ligação entre as partes e o todo é assegurada pela função social, o que pode
ser associado ao fato de cada instituição cumprir um papel para o bom
desempenho da sociedade.
A sociedade busca manter seu equilíbrio e coesão por meio das instituições e
das interações sociais.
Para Durkheim, a sociedade é um conjunto de normas coletivas, pensamento
e sentimento que não existem apenas na consciência dos indivíduos, mas que são
construídos exteriormente, isto é, fora das consciências individuais. Os homens
em sociedade defrontam-se com regras de conduta, regras essas conhecidas por
leis, códigos, decretos, constituições.
No funcionalismo destaca-se a concepção de fato social, entendido enquanto
conjunto de regras e normas coletivas permanentes, ou não, que orientam a vida
dos indivíduos em sociedade, exercendo alguma forma de coerção externa ao
indivíduo. Os fatos sociais estão associados às maneiras padronizadas como o
indivíduo age na sociedade, por exemplo: o modo de agir, de vestir-se, a língua, o
sistema monetário, a religião, as leis.
Durkheim propõe também uma reflexão sobre os fatos sociais que cumprem
uma função integradora [fatos sociais normais]; defende que tais fatos sociais
fragilizam os grupos sociais em virtude de os desagregarem [fatos sociais
patológicos]. Quando numa sociedade prevalecem os fatos sociais normais, esta
encontra-se em estado de integração, ordem e harmonia. Mas se os fatos sociais
patológicos estão em destaque, a sociedade encontra-se em crise, apelidada pelo
autor de anomia (estado social na ausência de normas).
Para o funcionalismo, a tarefa da sociologia é estudar os fatos sociais
construídos pelo conjunto da sociedade (exteriores); estes são coercitivos
(normativos) e gerais (coletivos) e por isso são independentes da escolha
pessoal, subjetiva ou consciente dos indivíduos isoladamente.
O conhecimento individual representa a capacidade de compreensão e de
interiorização da realidade ou da cultura socialmente construída. Isso somente é
possível porque o que o sujeito sente, pensa e faz depende do conjunto devalores,
crenças, dados ou leis exteriores a ele que lhe servem de parâmetro e com
osquais foi educado no grupo social em que nasceu.
Sociologia INTA EAD 48
Para conhecer mais sobre conceitos de fatos sociais, propomos a leitura de
um trecho adaptado do livro As regras do método sociológico de Émile Durkheim
(1987):
Chegamos assim a compreender, de maneira precisa, o domínio da sociologia,
o qual engloba um grupo determinado de fenômenos. O fato social é identificável
pelo poder de pressão externa que tem ou é apto a fazer sobre os sujeitos. A
presença deste poder é identificável, por sua vez, seja pela existência de alguma
penalidade pré-definida, seja pela oposição que o fato opõe a qualquer iniciativa
individual que procure violentá-lo.
Todavia, podemos defini-lo também pela difusão que apresenta no interior do
grupo, desde que, de acordo com as observações anteriores, tenha-se o cuidado
de acrescentar como característica segunda e essencial que ele existe
independentemente das formas individuais que toma ao difundir-se.
Em alguns casos, este último critério consegue ser de mais fácil aplicação do
que o anterior. Em consequência, a coerção é fácil de identificar quando ela se
traduz no exterior por qualquer reação direta da sociedade, como é o caso do
direito, da moral, das crenças, dos usos e mesmo das modas. Mas, quando não é
senão indireta, como a que exerce uma organização econômica, não se deixa
observar com tanta facilidade.
De fato, quando se deseja saber como uma sociedade está dividida
politicamente, como se compõem estas divisões, não é com o auxílio de uma
investigação material e por meio de observações geográficas que poderemos
alcançá-lo, pois estas divisões são morais, ainda quando apresentam algum
ponto de apoio na natureza física.
Através do direito público faz-se possível estudar tal organização, pois é ele
que a determina, bem como determina nossas relações familiares e cívicas. No
entanto, isso não torna a organização menos obrigatória do que outros fatos da
vida social. A aglomeração das pessoas nos centros urbanos, ao invés do campo,
deve-se a uma corrente de opinião que as leva a esta concentração. Essa
corrente de opinião manifesta-se como uma pressão coletiva, que é apresentada,
às vezes de maneira imperiosa, obrigando os indivíduos a agir de tal maneira,
determinando um sentido para a realização de migrações interiores e as trocas e
condicionando até mesmo a intensidade na qual essas trocas e migrações devem
ocorrer.
A estrutura política de uma sociedade é formada a partir da maneira como os
diferentes segmentos que dela participam habituaram-se a conviver uns com os
outros. Se as relações sociais apresentam-se tradicionalmente estreitas, os
segmentos tendem a distinguir-se. Nem mesmo é dado a nós o direito de escolher
a forma de nossas casas. O tipo de habitação imposta ao indivíduo é resultante
da maneira pela qual as pessoas a nossa volta, bem como as gerações
anteriores, habituaram-se a construir suas casas.
INTA EAD Sociologia 49
O conteúdo apresentado por Durkheim compreenderá o todo definido, ao
afirmar-se que fato social é toda maneira de agir, seja fixa ou não, suscetível de
exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou então, que é geral na extensão
de uma sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente das
manifestações individuais que se possa ter.
Durkheim afirma que há uma especialização das funções entre os indivíduos
nomeada por ele de “divisão do trabalho social”. Essa divisão não diz respeito
somente às atividades econômicas, mas é o fato fundante da coesão social, da
união, da solidariedade. É importante que você entenda o conceito de
solidariedade de Durkheim.
Solidariedade mecânica e solidariedade orgânica Nas
sociedades tradicionais,ouseja,pré-capitalistas,nãohaviaumgrandenúmero de
especializações quando comparadas à sociedade capitalista. Um profissional era
capaz de realizar seu processo de produção de forma completa, realizando todas
as etapas. Dessa forma, o que unia as pessoas não era o fato de uma depender
do trabalho da outra, mas o fato de haver semelhança em termos de tradição,
crenças e sentimentos. Há uma regulação moral das condutas que decorrem da
tradição, ou seja, da consciência coletiva. A esse tipo de união Durkheim nomeia
solidariedade mecânica.
Nas sociedades capitalistas assistimos a um grande número de
especializações; há uma maior divisão do trabalho. Os indivíduos tornam-se
interdependentes na medida em que há uma valorização da contribuição de cada
indivíduo no processo de cooperação social. Um precisa da especialização do
outro e isso garante a união social, a coesão. Daí emana a moralidade.
É importante ressaltar que você não nasce sabendo da existência desses
papéis e, muito menos, quais as atividades que são destinadas a cada um deles.
É através do processo de aprendizagem que o ser humano passa a entender
como deve comportar-se e agir.
Os sociólogos dão o nome de socialização ao processo de aprendizagem dos
papéis sociais do indivíduo. É através desse processo que se internalizam os
modos de agir,pensar e sentir, modos estes que os levam a conviver em
sociedade. Os indivíduos não param para pensar nessas internalizações e elas
passam despercebidamente, sendo confundidas com a vontade própria de cada
um.
Sociologia INTA EAD 50
Na perspectiva funcionalista, a sociedade somente consegue manter-se
parcialmente coesa porque indivíduos compartilham valores e regras. Vamos
recorrer ao exemplo explanado por Haguette (2003): o que seria passear nas ruas
se os motoristas e pedestres não compartilhassem o mesmo código de trânsito?
Certamente não haveria trânsito, não é mesmo?
O funcionalismoentende que existem formas diferenciadas de viver, porém, a
socialização e internalização provocadas pelo processo de aprendizagem tornam
possível a convivência do homem. Há um conjunto de representações que são
compartilhadas pelos membros de uma sociedade. Vamos entender melhor?
Consciência individual e consciência coletiva
Cada indivíduo tem uma forma específica de pensar, sentir e entender o
mundo. Cada ser humano é dotado de uma personalidade que lhe é própria, onde
se manifesta o que Durkheim nomeia de consciência individual. De acordo com o
autor, existe outra forma de consciência constituída por ideias comuns, partilhadas
pelos membros de uma sociedade. São ideias que estão presentes em todas (ou
quase todas) as consciências individuais de uma sociedade, portanto, são
consciências coletivas.
A consciência coletiva manifesta-se objetivamente, ou seja, de forma exterior
ao indivíduo. Ela pode ser expressa pelo conjunto de normas que obedecemos no
nosso dia a dia, as quais não foram criadas por nós, mas já existiam na sociedade
antes de nascermos.
Cada sociedade ensina aos seus indivíduos o que é considerado certo e
errado. Através do aprendizado, socializa seus homens ensinando o que é ou não
permitido e atribui sanções negativas ou positivas a fim de controlar o
comportamento.
As sanções positivas são as formas de reconhecer que o indivíduo está se
comportando de acordo com as perspectivas sociais e podem ser representadas
através de uma boa reputação, respeito, recompensas em dinheiro, dentre outros.
As sanções negativas são o reconhecimento de que o indivíduo não atendeu
às expectativas sociais e podem ser expressas por fofoca, má fama, exclusão do
grupo, condenação, violência moral ou física, dentre outros. A pena dada ao
criminoso não objetiva somente castigá-lo, mas constitui a tentativa de
restabelecer a norma social. A impunidade enfraquece a percepção de valores e a
noção de dever para com os outros.
INTA EAD Sociologia 51
Para o funcionalismo, os indivíduos não têm a potencialidade de modificar a
sociedade, uma vez que o todo é muito mais forte do que a parte. São as
instituições como a Igreja, a família, a escola, as leis, que moldam o indivíduo e
este aparece como um agente passivo que em nada pode intervir.
Uma das críticas à concepção funcionalista da sociedade é que ela não
consegue dar conta das transformações sociais e não reconhece o indivíduo
como agente transformador, sujeito da história. Essa é a forma como Durkheim e
a corrente funcionalista concebem a realidade social, mas é importante sabermos
o que Durkheim toma como objeto de estudos da sociologia.
O objeto de estudos da sociologia
Partindo do pressuposto que é a sociedade que explica o indivíduo, de acordo
com Durkheim (2003), o que a sociologia deve ocupar-se em estudar são os fatos
sociais.
O que este sociólogo denomina de fato social possui em si características
fundamentais que descreverão o objeto de estudo sociológico. É importante
explicitarmos as três peculiaridades dos fatos sociais e entendermos através de
exemplos cada uma delas.
Coerção: consiste na força que os fenômenos exercem sobre os indivíduos que,
independente de suas escolhas, acabam por conformar-se com as regras que
estão postas na sociedade. Caso o indivíduo não cumpra tais imposições, logo
será punido. As punições podem ser legais, no sentido de serem sustentadas por
uma legislação, ou “espontâneas”, que são aquelas reprimidas moralmente pelo
grupo ao qual o indivíduo pertence. Ex.: Se um dia você estranhar porque as
pessoas andam com roupas e decidir andar sem elas, certamente você será
punido, pois aqui no Brasil, andar sem roupas constitui um crime de atentado ao
pudor.
Exterioridade: significa que os fatos sociais existem e atuam sobre o indivíduo
independente de sua vontade ou de sua aceitação consciente. Antes de
nascermos, já existe um conjunto de regras sociais às quais teremos que nos
adequar. Não sentimos, de maneira brusca, o caráter coercitivo e exterior desta
adequação porque as normas e regras sociais são inculcadas no indivíduo através
do processo educativo. Ex.: Quando você nasceu já existia “pronto” um sistema
monetário ao qual, posteriormente, você teve que aderir, pois caso precise
comprar um caderno em um estabelecimento comercial, terá que pagar por ele em
“real” que é a moeda vigente no Brasil. Se você sair sem dinheiro ou com cédulas
da moeda econômica usada na Argentina, o peso argentino, você ficará sem o
caderno.
Sociologia INTA EAD 52
Generalidade: esta característica pressupõe que para ser social, o fato não pode
ser observado individualmente. Ele deve repetir-se em todos os indivíduos de uma
sociedade ou grupo social, ou na maior parte deles. Os exemplos citados acima
podem demonstrar bem isso: é comum a todos os membros da sociedade
brasileira (e de outras sociedades também) a proibição de sair sem roupas pelas
ruas; todos os membros da sociedade brasileira devem utilizar o real para fazer
transações comerciais (com exceção das comunidades que praticam a lógica da
economia solidária e adotam uma moeda própria para transações em uma
pequena comunidade ou um bairro, como é o caso do Conjunto Palmeiras em
Fortaleza- CE, que tem um banco próprio e adota uma moeda própria).
Levando em consideração as características acima descritas, Durkheim
formulou um modelo para explicar a ocorrência dos fatos sociais. Seguindo a
tendência de que a sociologia deveria adotar os mesmos procedimentos de
pesquisa das ciências naturais, o autor declara que “a primeira regra e mais
fundamental é a de considerar os fatos sociais como coisas” (DURKHEIM, 2003,
p. 94).
Mas, como vamos “coisificar” fatos sociais? Essa será
uma discussão para o próximo tópico.
Método de estudo:
a coisificação do fato social
Na concepção de Durkheim, os principais fenômenos sociais como a religião,
o direito, a moral, a economia ou a educação são sistemas de valores e se o
investigador estiver impregnado com os valores que esses fenômenos expressam,
não terá a isenção necessária para entendê-los. É necessário suspeitar das
primeiras impressões e disso surge a necessidade de abordar os fatos sociais
como coisas, ou seja, como objetos.
Para Durkheim (2003), coisa é todo objeto do conhecimento que a inteligência
não alcança de maneira natural; corresponde ao que o espírito não pode chegar a
compreender, a não ser sob o viés da condição da fuga de si, mesmo através da
observação e da experimentação.
INTA EAD Sociologia 53
O cientista social teria que colocar-se num estado de espírito semelhante ao
dos físicos, químicos, fisiologistas, olhando o objeto de estudo como algo que não
pertence ainda ao seu conhecimento e exercendo a prática cartesiana da dúvida
metódica.
O fato e a
análise
É importante ter em mente que a regra de tratar fatos sociais como coisa é
uma postura metodológica intelectual e não significa dizer que são coisas
materiais. Significa a pretensão de uma objetividade científica e a separação
radical entre senso comum e conhecimento científico. O sociólogo deve ser
imparcial e neutro, deve mostrar como as coisas são e não como deveriam ser e
deve afastar das pesquisas qualquer sentimento, qualquer subjetividade.
Quando Durkheim afirma que os fatos sociais devem guardar a característica
de serem comuns a todos os membros de um grupo, quer demonstrar que, ao
nascer, o indivíduo já encontra uma sociedade constituída. Os costumes, o direito,
as crenças religiosas, o sistema financeiro do qual ele faz parte foram criados
pelas gerações passadas, sendo transmitidos às novas gerações através de
educação.
O fato social guarda a característica de ser uma representação coletiva. Na
concepção do autor, existem duas dimensões em cada um de nós: uma individual,
que está referenciada por estados mentais relacionados somente à nossa pessoa;
e, ao mesmo tempo, uma social ou coletiva, que é referenciada por coisas
adquiridas socialmente como as crenças, os valores, etc.
Nas palavras de Durkheim (1999, p. 50), a consciência coletivaé o “conjunto
de crenças e sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma
sociedade que forma um sistema determinado com vida própria”. Portanto, essa
dimensão
Sociologia INTA EAD 54
coletiva significa o quanto há dos outros em nós, seja da família, dos amigos, dos
ensinamentos que tivemos na escola ou até mesmo das tradições que as
gerações passadas deixaram de herança.
Quando nascemos, somos instruídos a agir de determinada maneira pelo
conjunto de regras elaboradas em um meio moral compartilhado. Nós
naturalizamos estas regras que acabamos por nem percebê-las em nosso
cotidiano, porém, se não agirmos de acordo com as expectativas, sofreremos
algum tipo de penalidade, seja ela física ou moral.
Como já foi mencionado, se um indivíduo experimentar andar sem roupas pela
rua é certo que será preso; se o menino arrotar à mesa durante a refeição, logo
será chamado de mal educado por aqueles que o observam; se o homem tiver
mais de uma namorada será acusado por traição e chamado de “sem vergonha”.
Apesar de parecerem proibições óbvias, basta olharmos outras culturas para
entender que não são tão óbvias assim, antes são apenas construções de
determinada cultura. Em tribos indígenas é comum andar sem roupa; para certas
culturas árabes arrotar após a refeição é sinônimo de gentileza, pois significa que
a comida está de bom gosto; no Islã o homem pode ter mais de uma mulher
oficialmente.
O certo é que cada indivíduo é ensinado a viver de acordo com as regras
estabelecidas em sua sociedade. Esse processo de ensino-aprendizagem é
nomeado por cada “modelo” de educação. Não se trata aqui de uma educação
escolar, mas de educação da vida cotidiana. Para Durkheim, educação é o meio
pelo qual aprendemos a ser membros da sociedade, portanto, educação é
sociabilidade.
Então, é objetivo da educação formar esse ser social que constitui cada um de
nós. Nas ideias do autor, há a concepção de que é a sociedade que nos molda.
Apesar de deixar explícito que cada sociedade educa suas crianças de forma
diferente de outra, ou seja, que a educação coloca a criança em contato com
determinada sociedade e não com a sociedade in genere, é interessante refletir
se as concepções de Durkheim conseguem explicar o caráter de mudança que
vem se apresentando desde o início da modernidade.
INTA EAD Sociologia 55
Contribuição
de MaxWeber
Weber, influenciado pelo idealismo
alemão (uma corrente filosófica), leva
em consideração a importância da
pesquisa histórica para a compreensão
das sociedades. Esta perspectiva
opõe-se ao positivismo na medida em
que a corrente filosófica e científica
deste toma a história como um processo
universal onde a sociedade evolui em
estágios que somente podem ser
percebidos pelo método comparativo.
Tal posicionamento invalida a
importância dos processos históricos
particulares, homogeneizando as
diferentes formações sociais. Essa foi a
corrente seguida por Durkheim.
Max Weber
Opondo-se a tal, Weber defende que não é possível entender o mundo social
considerando somente os fatores externos aos seres humanos; é necessário
entender também as ações individuais e levar em consideração o sentido que os
indivíduos atribuem às ações e aos seus valores. O caráter particular e específico
de cada formação sócio-histórica deve ser levado em consideração.
Para Max Weber, a sociologia deve concentrar-se na análise da conduta
social, procurando compreender o sentido das interações significativas de
indivíduos que formam uma teia de relações sociais. Assim, segundo Weber, a
conduta social somente vai existir quando o indivíduo tentar estabelecer
algumtipo de comunicação, a partir de suas ações, com os demais. De acordo
com este, a conduta social pode ser representada em quatro categorias.
Conduta
Tradicional
Conduta
Emocional
Conduta
Valorizadora
Conduta
Racional-Objetiva
Reação habitual ou Consiste em agir
comportamento dos Agindo de acordo segundo um plano
Relativa às antigas outros, expressando- com o que os outros concebido em
tradições se em termos indivíduos esperam relação à conduta de lealdade ou de
nós. que se espera dos
antagonismo. demais.
Fonte: Lakatos (1990, p. 51)
A ação social ocorre quando o sentido pensado pelo indivíduo considera a
conduta dos outros no momento em que uma ação é praticada. Desse modo,
o
Sociologia INTA EAD 56
sentido é que dá à ação social seu caráter específico. Pelo que foi afirmado, o
ponto de partida da sociologia de Weber não se encontra nas entidades coletivas,
grupos ou instituições. Seu objeto de investigação é a ação social, a conduta
humana dotada de sentido.
Assim, o homem na teoria weberiana passou a ter enquanto indivíduo,
significado e especificidade. É ele que dá sentido à sua ação social,
estabelecendo a conexão entre o motivo da ação, a ação propriamente dita e
seus efeitos.
Para Weber, as normas sociais somente tornam-se concretas quando são
manifestadas em cada indivíduo sob a forma de motivação. Desse modo, cada
indivíduo age levado por um motivo que é dado pela tradição.
Weber argumenta que a sociedade pode ser compreendida a partir do conjunto
das ações individuais, estas compreendidas como todo tipo de ação que o
indivíduo pratica, orientando-se pela ação de outros. Desse modo, a ciência
explica o fenômeno social a partir da investigação do comportamento subjetivo,
que vincula o indivíduo a seus atos.
Haguete (2003) coloca ao leitor o exemplo da abolição da escravatura para
que seja compreensível o fato de uma realidade social não poder ser explicada
levando em consideração fatores isolados.
O autor parte das seguintes perguntas: “Como explicar a
abolição dos escravos no século XIX?”. “Houve somente
uma causa ou várias condições estavam presentes para
torná-la possível?”
Como resposta, o autor afirma que alguns livros de História justificam a
abolição pelo bom coração da Princesa Isabel que tomou a atitude de libertar os
escravos, outros justificam que a escravidão acabou porque não comportava mais
o caro uso da mão de obra escrava, outros destacam a luta dos abolicionistas e
assim existem muitas versões para justificar este fato histórico. Pensemos: será
necessário escolher uma causa?
Se Weber fosse explicar a abolição da escravatura, diria que foi uma
confluência de fatores que tornaram a prática escravocrata inviável. Nenhuma das
explicações deve ser desconsiderada, mas considerá-las isoladamente é um erro.
Além de entender que múltiplos fatores forjaram a abolição da escravatura, Weber
diria ainda ser necessário entender cada um deles e explicá-los.
Portanto, é preciso entender a proposta de Max Weber para o qual o
pesquisador deve fazer umesforço visandocompreender e interpretaropassadoe
as repercussões
INTA EAD Sociologia 57
deste nas características peculiares das sociedades contemporâneas. Essa
proposta foi denominada “método compreensivo”. Enquanto ciência das
atividades sociais, a sociologia deve compreender e explicar a ação dos
indivíduos, assim como os valores pelos quais estes se pautam.
A sociologia de Weber não considera os fenômenos sociais como a pura
expressão de causas exteriores que se impõem aos indivíduos. A ação social é
produto das atitudes dos indivíduos de carne e osso que dão um sentido à sua
ação.
Quando falamos em ação social, estamos tratando do que Weber toma como
objeto, por excelência, da sociologia. Ao cientista cabe investigar qual o seu
sentido ou significado.
Mas o que é essa ação social?
Nessa questão, é importante ressaltar que o autor
diferencia ação de ação social. A primeira é toda conduta
humana que traz em si um significado subjetivo atribuído
pelo agente que a executa; é o significado subjetivo que
orienta a ação. Quando um agente orienta sua ação levando
em conta a ação de outro(s) agente(s) que podem ser
tanto individualizados e conhecidos, como um conjunto
de indivíduos desconhecidos, a ação passa a ser social,
ou seja, o indivíduo está agindo levando emconsideração
Ação social
outro indivíduo.
Tomando o exemplo dado pelo
próprio autor,podemos
entender melhor: uma pessoaestá na rua e começa a chover, ela tira da bolsa um
guarda-chuva e abre sobre sua cabeça para não se molhar. Essa atitude consiste
numa ação, pois a pessoa age individualmente, motivada pelo desejo de não ser
molhada. Mas, se uma pessoa está na rua, começa a chover, ela abre o
guarda-chuva e convida a pessoa que está ao seu lado a compartilhar este objeto
para não se molhar, temos o exemplo de uma ação social, pois é evidente que ela
está agindo levando em consideração outro indivíduo.
Na diferenciação que Weber faz entre ação social e relação social, temos que
a última somente acontece na medida em que uma conduta coletiva é
reciprocamente orientada e dotada de conteúdos cujos sentidos podem ser
socialmente partilhados pelos diversos agentes sociais. O que caracteriza a
relação social é que o sentido das ações sociais a ela associados pode ser
compreendido (ainda que parcialmente) pelos diversos agentes de uma
sociedade.
Sociologia INTA EAD 58
Vamos a um exemplo: Um sujeito pede informação a outro estabelecendo
uma ação social. Ele tem um motivo e age em relação a outro indivíduo, mas tal
motivo não é compartilhado no sentido de que a ação somente é considerada
social se acontecer mutuamente. Numa sala de aula, por exemplo, o objetivo da
ação dos vários sujeitos é compartilhado, isto é, há a busca coletiva por
determinadas informações, existindo, portanto, uma relação social.
Resumindo, para Weber, “somente a ação com sentido pode ser
compreendida pela sociologia, a qual constrói tipos ou modelos explicativos”
(QUINTANEIRO, 2002, p. 115).
Maria questiona o sentido de estar no mundo. Uma ironia para entender o sentido weberiano.
Como o cientista deve tratar
o objeto de estudo sociológico
Ao discorrer sobre o dever prático de defender os próprios valores, diferente de
Durkheim, o qual postulava que a primeira e mais fundamental regra seria tratar os
fatos sociais como coisas, Weber acreditava que investigando um tema, o cientista
é influenciado pela sua concepção de mundo.
A fim de empreender a análise científica, o sociólogo deve estar devidamente
treinado para estabelecer uma distinção entre “reconhecer e julgar”. Ao cientista
cabe reconhecer até onde vão seus próprios valores e tentar identificar a verdade
dos fatos sem defender tais valores. Isso significa que o sociólogo deve dizer
como as coisas são através da observação empreendida e não como as coisas
deveriam
INTA EAD Sociologia 59
ser. É necessário diferenciar os juízos de valor do saber empírico que nasce
de necessidades e considerações práticas historicamente colocadas.
Na concepção de Weber, a política é uma vocação que deve ser diferenciada
da vocação científica. “A ciência é um procedimento altamente racional que
procura explicar as consequências de determinados atos, enquanto a posição
política prática vincula-se a convicções e deveres” (QUINTANEIRO, 2002, p.109).
Mas, será possível ter objetividade com a presença dos
nossos valores na prática científica?
De acordo com Weber, isso é possível sim. Basta que o pesquisador tenha
consciência de que está incorporando seus valores na pesquisa e, através de
procedimentos rigorosos de análise, tenha controle destes valores que devem ser
tomados como “esquemas de explicação condicional”.
Devemos entender que a realidade social é infinita e os problemas
sociológicos não estão dados, não existem sozinhos, senão pela abordagem do
cientista social. É o cientista que deve atribuir aos aspectos do real e da história
que examina uma lógica através da qual procura estabelecer uma relação causal
entre determinados fenômenos.
Assim, para atingir uma explicação dos fenômenos
sociais, Weber construiu um instrumento de análise que
chamou de tipo ideal. Mas o que é isso?
O tipo ideal: um instrumento
de pesquisa do saber sociológico
Do ponto de vista de Weber, o pesquisador precisa organizar a realidade de
forma lógica no plano do pensamento. Não se trata de traduzir uma estrutura do
mundo. Trata-se de desenvolver instrumento por meio do qual o pesquisador não
vai utilizar-se de fatos do mundo físico, palpável, mas de fatos teóricos para
compará-los com os reais (físicos) e assim formular suas hipóteses, as quais, após
isso, poderão ser comprovadas ou refutadas.
Sociologia INTA EAD
60
Os tipos ideais
“Obtêm-se um tipo ideal mediante a acentuação unilateral de um ou vários
pontos de vista e mediante o encadeamento de grande quantidade de fenômenos
isolados dados, difusos e discretos, que se podem dar em maior ou menor
número ou mesmo faltar por completo, e que se ordenam segundo pontos de vista
unilateralmente acentuados a fim de se formar um quadro homogêneo de
pensamento.” (WEBER, 1991, p. 106)
“Tais construções (...) permitem-nos ver se, em traços particulares ou em seu
carátertotal, os fenômenos se aproximam de uma de nossas construções,
determinar o grau de aproximação do fenômeno histórico e o tipo construído
teoricamente. Sob este aspecto, a construção é simplesmente um recurso técnico
que facilita disposição e terminologia mais lúcidas” (WEBER apud
QUINTANEIRO, 2002, p. 113)
“O tipo ideal de Max Weber corresponde ao que Florestan Fernandes define
como ‘conceitos sociológicos construídos interpretativamente como instrumentos
de ordenação da realidade’. O conceito de tipo ideal é previamente construído e
testado, depois aplicado a diferentes situações em que o cientista presume que
dado fenômeno possa ter ocorrido. Na medida em que o fenômeno se aproxima
ou se afasta de sua manifestação típica, o sociólogo pode identificar e selecionar
aspectos que tenham interesse à explicação, como por exemplo, os fenômenos
típicos ‘capitalismo’ e ‘feudalismo’”. (COSTA, 1997, p. 65)
Se o tipo ideal é uma construção mental elaborada pelo sujeito, certamente será a
seleção de um aspecto da realidade que se pretende estudar. Ao selecionar tal
aspecto – consideremos que é impossível estudar o mundo social em sua
totalidade – o pesquisador levará em conta seus interesses e problemas que ele
quer aprofundar. Cada pesquisadortem um motivo, seja ele qual for,para realizar
determinada pesquisa.
Quando o pesquisador elabora tipos ideais, não está reproduzindo a
realidade como ela é. No mundo material não há uma ligação racionalizada dos
fatos, somente o intelecto humano é capaz de fazer tais relações. Podemos
entender “tipos” como conceitos, portanto, “conceitos ideais” - quer dizer que são
conceitos idealizados e não a tradução objetiva de fenômenos. É apenas a
maneira encontrada para aproximar pesquisador e realidade.
Weber argumenta ser impossível ao cientista agir com total imparcialidade
sobre os fatos, pois sua ação é influenciada pelo seu tempo. O estudo e a
pesquisa devem tentar limitar o espaço para as crenças e ideias pessoais do
pesquisador perante o fato estudado. Na busca de uma melhor adequação para
as análises dos fatos sociais, Weber constrói um modelo para suas análises
baseado no que chama de tipoideal.
INTA EAD Sociologia 61
Weber apresenta três tipos ideais de legitimidade como base para a
dominação: • Legal/racional: baseia-se na legalidade das instituições e segue
regras segundo uma lei, autoridade exercida por essas instituições;
• Tradicional: baseia-se na crença da bondade das tradições que vigoram desde
tempos longínquos, onde quem ordena é o senhor e quem obedece são os
súditos; predomina a dominação patriarcal cujos costumes estão enraizados;
• Carismática: que se baseia na santidade, heroísmo, devoção de um senhor,
busca de líder para solucionar seus problemas.
Os tipos ideais são construções do pesquisador usadas para analisar o
mundo, não significando que encontraremos na realidade esses tipos ideais. A
utilidade da constituição dos tipos ideais está no fato de que qualquer situação do
mundo real pode ser compreendida quando comparada a um tipo ideal.
A ética protestante
e o espírito do capitalismo
Uma das obras mais reconhecidas de Weber é A ética protestante e o
espírito do capitalismo, na qual o autor investiga as origens do capitalismo
modernoempreendendo uma análise da relação entre determinada religião (o
protestantismo) e o moderno sistema econômico capitalista industrial. Consiste na
aplicação de seus conceitos e de sua metodologia.
Por ética protestante, Weber entende um estilo de vida, um modo de ver e
encarar a existência pautado na disciplina ascética, na poupança, no compromisso
com o trabalho. O estilo de vida dos protestantes ascéticos contribui para a
formação de uma mentalidade que propicia a consolidação do capitalismo.
Porém, Weber não coloca o protestantismo como causa única do capitalismo.
Ele reconhece que na formação do capitalismo existem influências econômicas,
políticas, culturais, técnicas e jurídicas. Existe um conjunto de fatores
interdependentes que dão forma a um fenômeno social: o capitalismo.
Weber não se refere a qualquer capitalismo ou “qualquer” protestantismo. Ele
relaciona uma forma determinada de protestantismo, que é o ascético, ou seja, o
protestantismo praticado por uma vida regrada e levando em consideração a moral
desta religião, mostra que seus adeptos têm uma prática metódica fundamental
para a consolidação do capitalismo.
A relação entre a ética protestante e o espírito do capitalismo consiste numa
atração entre duas visões de mundo que se reforçam mutuamente. É uma ligação
Sociologia INTA EAD
62
que ocorre a partir de “afinidades eletivas”. Mas o que são afinidades eletivas?
Neste caso, significa a existência de elementos convergentes e análogos entre
uma ética religiosa e um comportamento econômico.
Mas somente os protestantes estão inseridos no modo de vida capitalista
industrial? Nãoprecisa ser umgrande teóricopara entenderque a resposta
àpergunta é não. Weber explica que o capitalismo se propagou no Ocidente em
decorrência de inúmeros fatores. O primeiro deles foi a contribuição de Martinho
Lutero e sua concepção de vocação, que postulava a valorização religiosa do
trabalho como uma tarefa ordenada por Deus.
A contribuição
de KarlMarx
De acordo com Tomazi (2000), uma das contribuições
principais de Marx para a análise da vida social foi o estudo
que realizou sobre a indissociável relação entre o indivíduo e
a sociedade, incluindo aqui o estudo das condições materiais
em que essas relações ocorrem. Para Marx, o fulcro das
transformações da sociedade era a existência, em cada
momento histórico, de conflitos entre a classe dominante e a
classe dominada, definidas a partir das relações que
Karl Marx
estabelecem com a propriedade
dos meios de produção.
Para compreender a obra de Marx, é necessário entender um pouco sobre o
que estava acontecendo em meados do século XIX. Desde o começo da
Revolução Industrial na Inglaterra, em meados do século XVIII, os trabalhadores
viviam em péssimas condições, o que envolvia não somente as condições de
trabalho nas fábricas, mas também todos os outros pormenores da vida social.
As dificuldades da vida dos trabalhadores sensibilizaram diversos pensadores
da época e apesar da sua origem burguesa e aristocrática, eles tomaram a
iniciativa de elaborar projetos de reformas sociais baseados em ideais de
justiçasocial.
Apesar de nunca ter se autonomeado sociólogo, o conjunto de sua obra
oferece subsídios para explicar a vida social a partir do modo como os homens
produzem sua existência por meio do trabalho problematizando o papel destes
como agentes transformadores da sociedade.
INTA EAD Sociologia 63
Crítico ferrenho das ideias positivistas, Marx demonstra que a fundamentação
de uma teoria científica visando a construção de uma ordem social para alcançar
o progresso não conseguiria dar conta dos conflitos que emergiam na sociedade
industrial. Para ele, o caminho não era identificar os problemas sociais e
solucioná-los com a finalidade de estabelecer o bom funcionamento da
sociedade, mas contribuir para que fossem realizadas mudanças radicais.
Marx percebia que era a luta de classes e não a harmonia social que constituía
a realidade concreta da sociedade capitalista. Portanto, a corrente marxista
desperta a vocação crítica da sociologia, unindo explicação e alteração da
realidade, ligando-a aos movimentos de transformação da ordem vigente.
De acordo com Martins (2006, p.6), a teoria social elaborada por Marx
ofereceu subsídios para posteriores pesquisas no âmbito da sociologia. Forneceu
contribuição para “a análise da ideologia, para a compreensão das relações entre
classes sociais,
para o entendimento da natureza e das relações com o Estado, para a questão
da alienação”. Portanto, Marx influenciou decisivamente a formação da sociologia
que, em alguns casos, incorporou parte de suas ideias para pensar a sociedade
moderna.
Como teórico e militante, Marx foi muito sensível às formas de exploração
estabelecidas na sociedade capitalista e para entender esta sociedade fez uso da
história, rebuscando os fatos desde o início da civilização até os dias atuais.
Chegou à conclusão que a história da humanidade é a história de classes,
portanto, uma história de contradições. Essas contradições não eram percebidas
pelo intelectual como um estado de anomia, de doença social, mas como a
maneira pela qual a realidade se expressava e o homem enxergava no tempo
presente o que não é almejado por ele para que possa alterar e construir um
futuro diferente. Para Marx, o homem é agente da transformação.
Ohomemédiferentedosoutrosanimaispelanecessidadequetemdetransformar a
natureza, produzindo o que Marx chama de vida material. Esta transformação da
natureza e produção dos bens materiais necessários à existência humana designa
se como trabalho e é o fator fundante do ser social. É a partir dele que surgem os
demais momentos da realidade social. Então, na concepção marxista, o modo de
produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e
espiritual.
Marx compara a relação das necessidades políticas, econômicas e ideológicas
do homem à estruturação e articulação dos andares de um edifício. O edifício
social pensado por Marx tem três andares, sendo que o primeiro, como é de se
esperar, constitui o alicerce sobre o qual os outros andares se sobrepõem. Este
primeiro andar é denominado “infraestrutura” e consiste na estrutura econômica
da sociedade; o segundo depende do primeiro para se sustentar e é composto
pelas formas políticas
Sociologia INTA EAD 64
e jurídicas desta sociedade. Já o terceiro andar depende dos dois primeiros e
é constituído pela forma de consciência social denominada ideologia.
Nesta metáfora formulada por Marx
percebemos que a base econômica é
que sustenta as relações sociais. Para
este intelectual e revolucionário alemão,
as formas políticas e ideológicas de
convivência social são estabelecidas e
transformam-se a partir do modo como
os homens atendem às suasnecessidades
Edifício Social
materiais.
Se o sociólogo pretende compreender os homens de sua época a partir das
ideias de Marx, ele deve conhecer as suas relações de produção, questionando a
atividade econômica praticada por estes, procurando saber quais os membros da
sociedade que trabalham e os que não trabalham, como trabalham, para quem
trabalham, como ocorre a divisão das atividades de trabalho, entre outros
aspectos. Somente com o entendimento destes aspectos é que o pesquisador vai
entender como os homens atendem às suas necessidades políticas e o que eles
pensam e dizem.
ParaMarx,asmudanças sociaisnãopartemde mudançasnas
ideiasepensamentos do indivíduo. Não se deve almejar mudanças sociais
começando pela cabeça do homem, tentando mudar seus valores, suas crenças,
nem a sua organização política. Se uma mudança na sociedade é almejada, a
primeira coisa a ser modificada é o seu sistema de produção, as formas de
apropriação e as relações de trabalho. Desta forma, as classes sociais mudariam
sua atuação e aconteceriam mudanças nas maneiras de sentir, pensar e agir,
bem como nos arranjos políticos (seriam como consequência).
Em termos de conceitos, a economia caracterizada pela soma das forças
produtivas com as relações de produção é denominada infraestrutura.Já os
andares de cima do edifício, as formas jurídicas e políticas e as formas sociais de
consciência, são todos denominados superestrutura.
INTA EAD Sociologia 65
A figura abaixo possibilita uma melhor compreensão:
Esquema de entendimento teórico da organização social pensada por Karl Marx.
Alguns conceitos básicos:
exploração, expropriação, ideologia,
alienação
O processo de trabalho envolve duas dimensões principais: de um lado, a
relação do homem com a natureza, e de outro, a relação dos homens com outros
homens. Analisando a sociedade moderna capitalista, Marx constata que nesta, a
relação entre os homens é de exploração. Ao dominar os meios de produção, os
capitalistas subtraíram dos trabalhadores não apenas os meios de produção da
vida material, mas também o saber tradicional do qual dependiam para manter-se
na condição de artesãos autônomos e, consequentemente, subtraíram também
sua posição social. A isso Marx deu o nome de expropriação.
O processo de expropriação tira do trabalhador a consciência das relações
sociais e este acaba por naturalizar a ideia de que deve ser um assalariado com
condições mínimas para viver. O trabalho que antes era para a manutenção e
reprodução da sua própria vida passa a pertencer ao burguês.
Sociologia INTA EAD 66
Ao processo que coloca o trabalho como algo exterior ao trabalhador, Marx
nomeia de alienação. Aqui, a palavra alienação não tem o mesmo sentido que
costumamos usar no dia a dia. Geralmente, se uma pessoa é “bitolada” em algo, é
comum que seja classificada como alienada. Apesar de ser o mesmo termo usado
por Marx, o autor entende alienação de outra forma. Vamos entender melhor a
partir do texto de Leôncio Basbaum:
O conceito de alienação
A alienação é uma forma de relação entre os homens e, ao mesmo tempo,
entre os homens e determinados objetos ou coisas que lhe são exteriores. Essa
forma de relação não é natural. Ela surge em determinado momento, no processo
do desenvolvimento histórico das sociedades humanas. Apesar desse
desenvolvimento ser criação e exteriorização dele próprio, o homem é
profundamente afetado pelo processo: ele aliena-se.
O termo alienação, originalmente – e ainda hoje – era um termo da psiquiatria
que designava uma forma de perturbação mental. Como a esquizofrenia – uma
perda de consciência ou de identidade pessoal. Do ponto de vista
econômico-social, é a perda da consciência de si, em virtude de uma situação
concreta. O homem perde sua consciência pessoal, sua identidade e
personalidade, isto é, sua vontade é esmagada pela consciência de outro, ou pela
consciência social.
Quando o homem deixa de ser seu próprio objeto para tornar-se objeto de
outro, diz que ele está alienado. Deixa de ser algo para si mesmo. Sua vontade é
assim a vontade do outro: ele é coisificado. Deixa de ser homem, criatura
consciente e capaz de tomar decisões.
Com o aparecimento da máquina, o trabalho tornou-se duplamente alienante:
à maquina e ao dono da máquina. No período em que vigorava ainda o regime de
trocas, o homem, para suprir suas necessidades elementares, deveria produzir
não apenas aquilo de que necessitava, mas as necessidades do outro. Era, ao
mesmo tempo, sujeito e objeto. Poderíamos dizer que se tratava de uma
alienaçãoparcial.
A introdução da máquina no sistema de produção subverteu totalmente esta
situação. A máquina tem esta particularidade: substitui com eficiência o esforço
físico humano, mas não dispensa o homem: este é sempre necessário para
movimentá-la.
O homem torna-se parte dela como um parafuso ou uma engrenagem. Não é
o homem que produz, é a máquina. O homem limita-se a fazê-la funcionar. O
aperfeiçoamento das máquinas, à medida que reduz o esforço físico do
homem,reduz sua participação e, em consequência, reduz sua intervenção
consciente no trabalho.
INTA EAD Sociologia 67
A máquina moderna dispensa a inteligência e a consciência humana, anulando
o homem. Este se torna uma peça de engrenagem cada vez mais insignificante.
Nesse sistema mecanizado de produção, o homem não produz mais o que
quer. Limita-se a fazer a máquina funcionar. Ignora o destino do seu produto, que
não lhe pertence e, quase sempre, nem sabe mesmo para que serve. Recebe
apenas um salário em troca de sua força de trabalho o qual lhe permite recuperar
seu organismo para que amanhã possa novamente vendê-lo aos donos das
máquinas. Ele se coisifica nesse processo: é uma máquina ou um apêndice dela;
uma estranha máquina cujo óleo combustível é constituído de proteínas. Não é
mais um homem com capacidade de pensar, agir, tomar decisões. É apenas uma
peça de engrenagem que, quando gasta pelo uso, pode ser substituída.
(Fragmento retirado do livro Alienação e Humanismo, de Leôncio Basbaum,
São Paulo: Símbolo,
1977.)
Como foi observado, o empresário compra do trabalhador a sua força de trabalho.
Este pagamento nunca corresponde ao que os trabalhadores realmente
produziram, pois o que foi produzido tem um valor muito superior ao que recebem.
Esse excedente de valor, no que diz respeito à produção, apropriado pelo dono
não é devolvido ao trabalhador; é o que Marx chama de mais-valia, que
caracteriza o capital, o sistema capitalista. O empresário enriquece não à custa
do seu próprio trabalho, mas à custa do trabalho de seus empregados e as
mercadorias vendidas a um mercado consumidor consistem na materialização do
trabalho que não foi pago ao empregado.
Sociologia INTA EAD 68
Vamos entender melhor o que é mais-valia a partir do quadro baixo:
INTA EAD Sociologia 69
O trabalho alienado faz com que os homens naturalizem a exploração e sejam
passíveis às ideias da classe dominante, ou seja, à sua ideologia. Para Marx, as
ideias da sociedade são as ideias da classe dominante econômica e politicamente.
De acordo com Sell (2009, p. 53), “a ideologia é definida como um conjunto de
representações da realidade que servem para legitimar e consolidar o poder das
classes dominantes”. Portanto, o conjunto de regras, leis e normas sociais que
obrigam os homens a ter determinados comportamentos faz parte da ideologia da
classe dominante e a classe dominada age como se estivesse se comportando
segundo sua própria vontade.
No decorrer do nosso estudo, falamos, por diversas vezes, sobre empresário
versus trabalhador, burguesia versus proletariado, patrão versus empregado. Mas
como poderá ser compreendida essa divisão antagônica? Nos termos de Marx,
essas duplas que se contradizem estão imersas numa relação entre classes
sociais.
Mas o que são classes sociais?
Na sociedade capitalista temos a existência de duas classes sociais: a classe
dominante e a classe dominada. Uma pessoa pertence à classe dominante
quando detém a propriedade dos meios de produção e compra a força de trabalho
de outras pessoas, usufruindo do lucro gerado pela mais-valia. Já a classe
dominada comporta a classe dos trabalhadores assalariados. Estes, não possuem
nada além da sua capacidade de trabalhar, ou seja, sua força de trabalho que é
vendida ao empresário.
Há uma relação de exploração entre os empresários e os trabalhadores. Os
últimos não recebem o valor justo pelo tempo trabalhado e pelo produto de seu
trabalho. Recebem um salário baixo utilizado para terem acesso a uma
alimentação deficiente, a péssimas condições de moradia, péssimas condições de
saúde.
Quando os trabalhadores percebem essa condição em que os burgueses
gozam de privilégios inacessíveis a eles e se sentem insatisfeitos com suas vidas
precárias, organizam-se coletivamente e exigem dos empresários ou do Estado
condições dignas de vida. Porém, esta não foi uma exigência vista com bons
olhos pelos empresários que teriam seus lucros diminuídos. E tem início o que
Marx chama de luta de classes.
Essa luta de classes foi identificada por Marx que nomeou a classe dominada
de classe revolucionária. Esta, em prol dos seus direitos, lutaria pela construção
de uma sociedade sem exploradores e explorados. Portanto, de acordo com
Marx, a superação dos problemas sociais decorrentes da moderna organização
capitalistanão ocorre, como postulou Durkheim, através da ciência, mas sim da
luta política.
Sociologia INTA EAD 70
A contribuição
de LouisAlthusser
Louis Althusser foi um dos pensadores mais importantes
do século XX, cujos pensamentos foram influenciados por Karl
Max. Para ele, há uma relação recíproca entre a superestrutura
(conjunto das representações sociais como políticas, religiões,
etc.) e a infraestrutura social (corresponde ao material, cujo
centro está no processo do trabalho). Essa última, por ser a
base econômica da sociedade, é autônoma e determina a
Louis Althusser
superestrutura.
O autor apresenta o Estado, em geral, como parte da superestrutura,
composta pelo governo, a administração, forças militares, polícia, o sistema
penal, bem como o sistema judiciário. Esses subconjuntos de fatores legais e
administrativos formam o conjunto estatal de mecanismos repressivos, ou seja,
aqueles aparatos que podem e devem usar da força moral, psicológica ou física
para reprimir resistências ou oposições, quando for necessário.
Os aparelhos ideológicosdoEstado seriamaqueles aparelhos (jurídicos,políticos,
religiosos, sindicais, culturais e escolares) que sob a forma de instituições distintas
e especializadas complementam o sistema estatal de dominação, por meio da
ideologia. Têm a função ativa da reprodução das relações de produção, que
devem ser criadas em sua ‘naturalidade’. Assim, a reprodução das relações
sociais deveria dar-se no contexto da produção material, mas também na (re)
produção ideológica.
Althusser, como teórico crítico-reprodutivista, condena uma escola reprodutora
porque ela oferece às distintas classes sociais formas de conhecimento e
capacidades que não somente validam a cultura dominante, mas direcionam os
estudantes para caminhos diferentes na força de trabalho.
INTA EAD Sociologia 71
Contribuição
de PierreBourdieu
e Jean-Claude Passeron
Pierre Bourdieu
e Jean-Claude
Passeron partem
do pressuposto de
que a escola, na
sociedade
capitalista,
produz e reproduz a
sociedade. A
sociedade de classes mantém seus
privilégios no sistema escolar. A
suposta igualdade de ensino para
todos os estudantes não se sustenta.
Não somente o sistema de ensino
particular é desigual conforme aPierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron escola e a
clientela que o frequenta, mas também o ensino público é diferenciado e desigual,
segundo a localidade, o corpo docente e a clientela.
O Ensino Superior transmite privilégios, gera status e incute respeito.
Entretanto, a maioria das vagas acaba sendo destinada aos estudantes oriundos
de escolas particulares em razão destas ofertarem um ensino mais seletivo. Os
autores elaboraram a noção de violência simbólica, desenvolvida pelas
instituições e por seus agentes.
O sistema de ensino gera a violência simbólica; esta faz com que os indivíduos
vejam como naturais as representações ou as ideias sociais dominantes que
disseminam valores culturais igualmente dominantes em toda a sociedade.
Manifesta-se por intermédio da mídia, da pregação religiosa, da propaganda, da
moda e da educação.
Sociologia INTA EAD 72
Mas afinal, o que é violência simbólica? Vejamos.
Para a compreensão do significado de violência simbólica, Bourdieu distingue
dois tipos de violência: a física e a simbólica. A primeira é exercida pela força
física (bater em uma criança, ataques de policiais). A segunda significa repassar
para as pessoas e grupos sociais valores que devem ser assimilados, caso
contrário, serão punidos.
Os estudos de Bourdieu, além da ideia de habitus e de campos, têm no
conceito de violência simbólica uma importante referência para compreender
também a sociedade capitalista e suas formas de reprodução.
Vamos entender os conceitos de habitus e campos:
• Habitus - denomina um conjunto de capacidades que permitem aos indivíduos
agirem dentro de uma estrutura social.
• Campos – determina espaços espaciais onde as ações se dão dentro de uma
normatização.
A partir da compreensão marxista de que a sociedade é dividida em classe dos
dominantes e classe dos dominados, Bourdieu concebe a sociedade capitalista
marcada por profundas desigualdades.
No entanto, a violência simbólica é repassada ideologicamente quando são
incutidas nas pessoas normas ou valores que devem seguir por serem
considerados “os melhores”, quando na verdade não o são. A dimensão simbólica
tem a ver com as maneiras de pensar formas de dominação social. Considerando
essa situação, Bourdieu trabalha com a noção de violência simbólica, que implica
formas de dominação legitimadas pela maioria da sociedade.
Para Bourdieu e Jean-Claude Passeron, através da educação o indivíduo é
capaz de reconhecer quando está sendo vítima de violência simbólica e tornar-se
um ator social que vá contra a sua legitimação.
INTA EAD Sociologia 73
3
SOCIOLOGIA:
CONCEITOS E DISCIPLINAS
AGREGADAS
Conhecimento
Apreender conceitos teóricos da sociologia
em outros campos das ciências sociais e suas relações dentro das instituições.
Atitude
Relacionar a sociologia no campo das ciências sociais
a outras disciplinas da área do conhecimento.
Habilidade
Incluir análise das instituições e suas relações sociais
articulando teoria e prática em sala de aula.
Sociologia:
Disciplinas agregadas
A sociologia trabalha inserida no âmbito das ciências sociais, tendo agregadas
outras disciplinas desta área do conhecimento. Embora não exista unanimidade
entre os autores sobre essa temática, segue-se a proposta de Lakatos (1990, p.
21- 23).
Vejamos no quadro abaixo outras disciplinas desta área do conhecimento:
Estuda as semelhanças e diferenças culturais, origem e história das
culturas do homem, sua evolução e desenvolvimento, estrutura e
funcionamento, em qualquer lugar e tempo. Como exemplo de
Antropologia Cultural
Direito
Economia
Política
Psicologia Social
Sociologia
objetos de estudo dessa ciência
apontamos: (i) ritos de passagem
(comportamentos de indivíduos mediante
o nascimento de um filho, formalidades
que cercam o rito do casamento entre
outros) (...)
Estuda as normas de Direito que possuem
observância obrigatória a todos e que
regulam o comportamento social,
estabelecendo direitos e obrigações entre
as partes.
Estuda as atividades humanas no campo
da organização de recursos, isto é,
produção, circulação, distribuição e
consumo de bens e serviços.
Estuda a distribuição do poder nas
sociedades humanas. Sistematiza o
conhecimento dos fenômenos políticos,
isto é, do Estado, e investiga o conjunto
de processos e métodos empregados para
que determinado grupo alcance, conserve
e exerça o poder.
Estuda o comportamento e a motivação do
indivíduo, que são determinados pela
sociedade e seus valores. O indivíduo
recebe estímulo do grupo e as influências
que os contatos sociais exercem sobre a
sua personalidade constituem o campo de
interesse da Psicologia Social.
Estudo científico das relações sociais, das
formas de associação, destacando-se os
caracteres gerais comuns a todas as
classes de fenômenos sociais, fenômenos
que se produzem nas relações de grupos
entre seres humanos. Estuda o homem e
o meio em suas interações recíprocas.
Fonte: Lakatos (1990, p. 21-23)
INTA EAD Sociologia 77
Conceitos
A sociologia recorre a alguns conceitos considerados fundamentais para seu
entendimento. Apresentamos nesta unidade alguns conceitos considerados mais
relevantes para o estudo da disciplina.
Estrutura Social
A estrutura social é a forma como uma organização integra os indivíduos
dentro de uma ordem e define, por exemplo, o papel de cada um dos seus
membros. A estrutura social funciona também como uma orientação teórica de
acordo com um sistema de crenças e interesses que medeia as relações sociais.
Os membros de uma sociedade tendem geralmente a compartilhar a crença na
importância dos valores definidos consensualmente.
A estrutura social inclui grandes grupos,
como as sociedades, comunidades, e pequenos
grupos, como as famílias e os amigos. Mas o
conceito de estrutura social inclui também os
modelos de interação sociale relações sociais.
Inclui fenômenos que são tangíveis, ou visíveis,
como se relaciona e com quem; ideias ou crenças
Estrutura social
e objetivos ou interesses; podem ser
observadas as relações sociais, as
ideias que os indivíduos
sustentam em comum e qualquer coisa que apreciem ou estimem. A estrutura
não é estática, ela está em mudança constante (LAKATOS; MARCONI, 1999).
Vamos compreender os elementos básicos da estrutura
social que são status e papéis, relações sociais, grupos,
instituições e organizações.
Status e papéis
Status e papéis são elementos opostos e complementares; um não pode
existir sem o outro. Um papel é a coleção de direitos culturalmente definidos,
obrigações e expectativas que acompanham um status num sistema social. O
conceito de papel explica os direitos e deveres esperados por uma pessoa que
ocupa uma posição de destaque na sociedade.
Sociologia INTA EAD 78
A posição ocupada pelo indivíduo no grupo social denomina-se status social.
O status pode ser atribuído ou adquirido.
E o que seria então status atribuído ou adquirido?
Status atribuído trata-se daquele que não é escolhido voluntariamente pelo
indivíduo e não depende de suas ações e qualidades. Já o status adquirido é
obtido de acordo com as qualidades pessoais do indivíduo. Esse status confere
ao indivíduo uma posição de destaque entre os membros do grupo de
pertencimento, pois seu status é fruto do reconhecimento de sua capacidade.
O status adquirido está associado à capacidade profissional, intelectual e de
liderança do indivíduo na sociedade. Nas sociedades mais antigas, o status era,
quase sempre, atribuído. Na sociedade contemporânea predomina o status
adquirido pelo destaque intelectual, liderança e habilidades pessoais.
Relações sociais
O indivíduo não consegue viver isoladamente, pois desde seu nascimento
convive com seus familiares, escola e trabalho, por isso, no decorrer de sua vida,
ele vai desenvolvendo aptidões para relacionar-se com outros indivíduos.
O status e os papéis dão as bases para as relações sociais; as relações tomam
muitas formas diferentes. Algumas relações sociais são multifacetadas: duas
pessoas que vivem no mesmo bairro trabalham para a mesma companhia e têm
os mesmos amigos. Outras são simples propósitos: um paciente portador de uma
doença grave encontra-se periodicamente com seu médico para realizar as
sessões do tratamento.
As relações sociais geram mudanças e movimentos dentro de uma sociedade
e dentro de cada sociedade existem diferenças culturais.
Cada interação social é uma situação em que o comportamento de um
participante influi no do outro; os indivíduos definem e negociam suas relações,
algumas envolvem a relação direta cara a cara, outras são indiretas.
Grupo social
Grupo social é a reunião de duas ou mais pessoas, ligadas por interesses e
objetivos comuns.
INTA EAD Sociologia 79
Ao longo da vida, o indivíduo participa de vários grupos sociais entre
os quais, destacamos:
• Grupo Educativo – escola;
• Grupo Religioso – Igreja;
• Grupo Familial – família;
• Grupo Profissional – empresa;
• Grupo Político – partidos políticos;
• Grupo Sindical – sindicatos.
Grupo social
Em cada fase da vida, um desses grupos estará presente na vida do
indivíduo. Para melhor compreendê-los, podemos dividi-los em três grupos:
• Grupo Primário: predomina os contatos pessoais, isto é, com a família e os
vizinhos. Os contatos são estabelecidos mais diretamente sem formalidade. •
Grupo Secundário: são grupos mais complexos, como a Igreja e o Estado. Os
contatos aqui são mediados pela formalidade, respeitando-se a liturgia do cargo e
da ocasião.
• Grupo Intermediário: são aqueles que se complementam tanto no primário
quanto no secundário, como por exemplo, a escola.
As principais características de um grupo social
• Pluralidade de indivíduos: quando há mais de um indivíduo em um grupo,
coletivismo;
• Organização: ordem interna no grupo;
• Objetividade: quando o indivíduo entra no grupo que já existe e quando ele
sai continua existindo; grupo estável;
• Objetivo comum: atingir os mesmos objetivos, com pensamentos e ideias; •
Objetivo grupal: pensamentos e ideias compartilhados pelos indivíduos do
grupo;
• Continuidade: durabilidade, não pode desaparecer com facilidade; •
Interação social: comunicação entre os grupos.
Instituições sociais
As instituições sociais são o elemento estrutural mais importante dos
elementos reunidos. São conjuntos estáveis e perduráveis de normas e valores,
status, papéis, grupos e organizações com uma estrutura para a conduta social
numa área particular da vida.
Sociologia INTA EAD 80
Todas as sociedades de grande escala têm cinco instituições sociais
principais: • Familiar: responsável pelo crescimento e cuidado para com as
crianças; • Educacional: assegura que as normas e valores culturais passem de
uma
geração para outra e que as pessoas jovens tenham conhecimento e
habilidade para realizar papéis dentro da sociedade;
• Religiosa: reforça os valores, dá significado e propósito à vida; • Política:
mantém a ordem social e protege os membros da sociedade das invasões,
controla os delitos e desordens internas, resolve conflitos de interesse; •
Econômica: organiza a produção e distribuição de bens e serviços.
A ciência, as artes, o cuidado com a saúde, o sistema legal, o exercício e o
tempo livre são elementos que também foram institucionalizados nas sociedades
modernas.
A constituição familiar é o primeiro grupo com o qual nos relacionamos, a
religião é encontrada em todo o mundo desempenhando sua função social, a
educação permite-nos transmitir normas, valores e símbolos e repassá-los aos
nossos sucessores, a política mantém a ordem, procura resolver problemas
baseados nos seus interesses e, por fim, a economia faz com que indivíduos,
dentro da sociedade, fabriquem produtos para o consumo gerando um fluxo
monetário.
Organizações formais
Organização formal é um grupo planejado e criado para seguir suas metas e
manter-se unido por regras explícitas e regulamentos. Diferenciam-se os grupos
pelo equilíbrio, escala, estrutura e ênfase em fazer as coisas ou nas orientações
de suas metas.
Leis sociais
De acordo com Lemos Filho (2004), as leis sociais são os regulamentos que
regem a conduta do indivíduo dentro da sociedade.
Vejamos:
• Lei: é uma norma jurídica de observância geral por parte da população de um
Estado; num regime de direito, é ditada, promulgada e sancionada pela
autoridade pública e tem como fim regular a conduta externa dos homens.
• Costume: são normas de conduta criadas por uma comunidade que, surgindo
pela necessidade de uniformidade do comportamento, vão sendo aceitas de
forma obrigatória e terminam sendo consideradas juridicamente obrigatórias.
INTA EAD Sociologia 81
• Jurisprudência: consiste em resoluções que interpretam e uniformizam leis.
Tais resoluções são elaboradas pelos Ministros da Suprema Corte de Justiça
Plena ou pelos Magistrados dos Tribunais Colegiados da nação que têm a
faculdade de interpretação das normas jurídicas de um Estado. Havendo vários
casos concretos, sem objeções, acaba por converter-se em obrigatória.
• Doutrina: é o conjunto de estudos e opiniões sobre temas de direito, realizados
pelos pesquisadores do direito, munidos de propósitos teóricos e
metodológicos sistematizados com a finalidade de interpretar suas normas e
assinalar as regras de aplicação.
• Princípios gerais do direito: são axiomas ditados pela razão e pela sabedoria
que servem de inspiração e fundamento ao direito positivo, como por exemplo,
as seguintes frases doutrinárias: “Ninguém deve ser condenado somente por
suspeitas”; “É preferível absolver um culpado a condenar um inocente”; “A boa
fé presume-se, a má fé prova-se”.
• Equidade: é considerada por alguns autores também como fonte formal do
Direito.
Sociologia INTA EAD 82

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