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SAÚDE ÚNICA 
AULA 6 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Adriane Brun 
Profª Ana Santos 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Nesta etapa, falaremos sobre política pública, atores sociais, demandas e 
ciclos para a sua organização. Nessa perspectiva, ampliaremos o nosso olhar 
para as políticas sociais, com base no Estado de Bem-Estar Social, surgido na 
Europa do século XX e marcado pelo movimento do proletariado com a 
burguesia em prol de melhores condições de trabalho e da garantia de alguns 
direitos sociais conquistados na Constituição cidadã. 
Considerando a importância da participação social na consolidação da 
cidadania, a etapa inclui um tema sobre os conselhos de direito como elemento 
fundamental de controle social com as políticas sociais e a relevância da 
trasnversalidade das politicas sociais como processo de cidadania, entendendo 
as demandas sociais, os sujeitos de direito e ampliando a interface com os temas 
contemporâneos transversais, tais como, saúde, educação alimentar e 
nutricional. 
E, por fim, a etapa abordará o trabalho em equipe multidisciplinar e 
interdisciplinar na articulação dos saberes específicos para que as demandas 
dos sujeitos sejam atendidas na sua integralidade física, emocional e social, 
garantindo acesso a informações, serviços e atendimentos que promovam o 
bem-estar, a saúde e a cidadania. 
TEMA 1 – POLÍTICA PÚBLICA 
Neste tópico, vamos falar um pouco sobre o que é uma política pública, 
entendendo que existem várias definições, mas todas abordam a relação do 
Estado, governo e ações para atender ou não à demanda da sociedade. Assim, 
faz-se necessário conhecer o significado do termo “política”. De origem grega, 
essa palavra estava intrinsecamente relacionada à polis, ou seja, a cidade e toda 
a sua dinâmica humana de relações sociais, pública e cidadã. 
Ainda nessa perspectiva do significado dessa palavra, se usarmos como 
base a língua inglesa, temos “polítcs”, ato de governar, ciência política e 
atividades ligadas à política, tais como a eleição e o voto, seguido de “polity”, 
que se refere à forma de governo, e “policy”, indicando um plano de ação do 
governo. A atividade política está relacionada à atividade do Estado. 
O termo “público” aqui empregado com a Política Pública não se restringe 
exclusivamente ao Estado. No latim, a palavra “república” vem de res (coisa) e 
 
 
3 
publica (de todos), ou seja, aquilo que é de todos, além do Estado, o que inclui 
a sociedade e sua representatividade. Trazendo para a contribuição de Hanna 
Arendt, citada por Pereira (2008, p. 88), 
A política trata da convivência entre diferentes. [...] Os homens e as 
mulheres se organizam politicamente para atingir objetivos comuns, e 
assim fugir do caos que se instalaria se cada um se entrincheirasse na 
defesa de seus interesses e objetivos particulares”. 
Nesse contexto, a política é um imperativo da convivência e das 
diferenças, seja de ideologias, crenças, cor ou sexo, seja de opiniões em que os 
sujeitos sociais estão situados de forma desigual na estrutura social (Pereira, 
2008), de forma que os conflitos e as divergências ocorrem e devem ser 
debatidos de forma democrática para atender às demandas da sociedade, mas 
sob a possível eminencia do caos. A intervenção do Estado pode ocorrer de duas 
formas para manter a regulação social. 
• Coerção: inibe, coíbe e restringe e ameaça a participação social, esse 
modelo ocorre em sociedades ditatoriais e não coaduna com a sociedade 
democrática; 
• Política: “consiste em uma possibilidade de resolver conflitos sem a 
recíproca destruição dos conflitantes e com ganhos expressivos em 
termos de convivência” (Nogueira, 2011, p. 13-14). 
Assim, ao falamos de políticas públicas, estamos nos referindo a um 
conjunto de ações e decisões organizadas pelos governos (municipal, estadual 
e federal) para solucionar e dar respostas aos problemas de interesse público, 
ampliando os direitos e a cidadania, o que envolve planejamento, alocação de 
recursos e envolvimento dos atores sociais. Segundo Bucci (2002, p. 241), o 
conceito de política pública é o de “programas de ação governamental visando 
coordenar os meios à disposição do Estado e as atividades privadas, para a 
realização de objetivos socialmente relevantes e politicamente determinados”. 
Nesse momento em que estamos contextualizando os conceitos de 
política pública e suas formas de efetivação, não podemos deixar de explicitar 
os atores sociais. Podemos dizer que eles são sujeitos de ação fundamental para 
que os direitos sociais e a cidadania sejam consolidados em uma sociedade 
democrática, podendo nominá-los como atores formais e informais, individuais e 
coletivos e público e privado (Dias, 2012). 
 
 
4 
• Atores formais: são representados pelo presidente da república, pelos 
deputados, senadores, governadores e prefeitos. Também são 
considerados atores formais as equipes de governo e o poder judiciário; 
• Atores informais: não são regidos pela Constituição Federal, mas 
representam forte impacto na mobilização e implementação da política 
pública, como os movimentos sociais, as empresas, os sindicatos e os 
meios de comunicação; 
• Atores individuais: são pessoas que agem de forma individual para 
influenciar a implementação das políticas públicas, aqui representados 
pelos políticos, magistrados, jornalistas, artistas, influenciadores digitais, 
entre outros; 
• Atores coletivos: representados pelos grupos que exercem influências 
para a implementação das políticas públicas, como as organizações da 
sociedade civil e os movimentos sociais; 
• Atores públicos: “os atores públicos, portanto, compõem o sistema 
político, exercendo funções públicas; nessa classificação, devem ser 
incluídos todos os atores que ocupam postos no governo” (Dias, 2012, p. 
43); 
• Atores privados: exercem poder de pressão com o governo para a 
implementação da política pública. Fazem parte desses atores os centros 
de pesquisa, as organizações do terceiro setor, a mídia, entre outros. 
Nesse sentido, é primordial compreender que os atores públicos 
representam os interesses dos atores coletivos, os quais devem organizar, 
planejar e implantar as etapas das políticas públicas de forma responsável, 
cabendo à sociedade civil a avaliação e o monitoramento das políticas sociais 
que abordaremos mais à frente no tema sobre participação social e conselhos 
de direitos. 
Até esse momento, estamos vendo a importância da política pública para 
a vida em sociedade, considerando os princípios democráticos e a participação 
dos diversos atores sociais. Agora, você pode estar se perguntando: como se 
estabelecem as prioridades, as metas e os objetivos a serem alcançados nas 
políticas públicas? Pois bem, somente conhecendo os problemas sociais, a 
realidade dos territórios, as reais necessidades das pessoas e ouvindo todos os 
setores envolvidos é que começam a ser delineadas as ações. 
 
 
5 
Podemos afirmar que a formulação de políticas públicas constitui-se 
num estágio em que os governos democráticos transformam seus 
propósitos e plataformas eleitorais em ações e programas que 
produzem resultados ou mudanças concretas no mundo real. Politicas 
públicas, primeiramente, são desenhadas e formuladas, em seguida, 
desdobram-se em planos, programas, projetos, base de dados ou 
sistema de informação e pesquisas, e “quando postas em ação, são 
implementadas, ficando daí ́ submetidas a sistemas de 
acompanhamento e avaliação” (Dias, 2012, p. 63) 
Outro aspecto importante que compreende a organização das ações para 
a implementação da política pública são as demandas da sociedade, que nem 
sempre o governo estabelece como prioridade e, assim, podemos classificá-las 
em: demandas novas, as quais surgem em detrimento de um novo problema 
ou uma nova situação e com novos atores políticos que atuam como ponto de 
pressão com o sistema público, por exemplo, a questão ambiental(aumento dos 
índices de desmatamento); demandas recorrentes, em que a ação do governo 
não foi eficaz e eficiente ou foi mal resolvido ou inacabado, por exemplo, a falta 
de saneamento básico na maioria das grandes metrópoles, o acesso a 
equipamentos de saúde, vagas nas escolas, transporte público, racismo, entre 
outras; e, por fim, as demandas reprimidas, que representam um conjunto de 
problemas que existem há muito tempo mas não chegam a incomodar e, 
consequentemente, não ocorre uma pressão por parte da sociedade, como a 
falta de pavimentação em bairros sem um número expressivo de moradores. 
Agora que apresentamos os principais elementos para que se 
compreenda o que são políticas públicas, seus atores e suas demandas, vamos 
apresentar os ciclos para a sua elaboração, que compõe o planejamento das 
ações. Temos vários autores abordando esse tema, mas o percursor foi Charles 
Jones, em 1970, adotando cinco fases: identificação de um problema, 
formulação de soluções, tomada de decisões, implementação e avaliação (Dias, 
2012). 
Temos outros autores que propõem outras etapas para os ciclos. Para 
saber mais, recomendamos a leitura do capítulo 4, seção 4.2: Ciclos ou 
Processos de políticas públicas do livro Políticas públicas: princípios, propósitos 
e processos, de Reinaldo Dias e Fernanda Costa Matos. 
A compreensão sobre política pública elaborada neste primeiro tópico é 
fundamental para que possamos tratar do próximo, Política Social. 
 
 
 
6 
TEMA 2 – POLÍTICAS SOCIAIS 
Vamos agora falar sobre as políticas sociais, sendo essa um gênero de 
política pública. Mas por que é um gênero? Porque temos a tributária, a fiscal, a 
econômica e a social. Nada melhor para começar o nosso tópico do que a leitura 
conceito de Höfling (2001, p. 65), que situa historicamente as lutas dos 
trabalhadores durante o processo de industrialização para a garantia de direitos 
sociais. 
políticas sociais se referem a ações que determinam o padrão de 
proteção social implementado pelo Estado, voltadas, em princípio, para 
a redistribuição dos benefícios sociais visando a diminuição das 
desigualdades estruturais produzidas pelo desenvolvimento 
socioeconômico. As políticas sociais têm suas raízes nos movimentos 
populares do século XIX, voltadas aos conflitos surgidos entre capital 
e trabalho, no desenvolvimento das primeiras revoluções industriais. 
Os primeiros movimentos em prol de um sistema de proteção social que 
atendesse ao contingente de trabalhadores ocorreu na Alemanha, sendo 
conhecido como modelo Bismarkiano, entre os anos de 1883 e 1889, um modelo 
de seguridade social que atendia a uma camada de trabalhadores que 
contribuíam para as caixas de aposentadorias, caixas de seguro saúde e que 
assegurava seguro acidente de trabalho, seguro saúde e aposentadoria. Na 
Inglaterra, em 1942, temos o Plano Beveridge, de caráter unificado e universal, 
que atendia ao contingente de pessoas além dos trabalhadores, sendo um 
sistema de proteção social pautado no direito para a garantia das necessidades 
básicas. Esses modelos fazem parte do Estado de Bem-Estar Social ou Welfare 
State, ocorrido após a Segunda Guerra Mundial, tendo como principal marco o 
Estado com uma atuação voltada à ampliação dos serviços assistenciais como 
educação, saúde e seguridade social como um direito social. 
O Brasil adota no seu percurso histórico uma mescla dos modelos 
supracitados, ora seletivos, próprios dos modelos liberais, ora de práticas 
autoritárias, para dispersar os conflitos sociais e, por vezes, adotando medidas 
universais, não contributivas e distributivas próprias do regime social democrata. 
A organização da sociedade civil, dos trabalhadores dos grupos das 
categorias profissionais como os da saúde e educação, os partidos políticos, os 
estudantes, movimentos sociais e sindicatos foram fundamentais para a 
mobilização social em prol dos direitos sociais consolidados em outubro de 1988, 
com a promulgação da Constituição Federal do Brasil, conhecida como 
 
 
7 
Constituição Cidadã, a qual contou com ementas populares na sua organização 
e ampla discussão sobre os direitos sociais. 
E quando nos remetemos à Constituição de 1988, qual a primeira palavra 
que poderia caracterizá-la? Seu marco foram os direitos sociais fundamentais 
para a vida e para a dignidade da pessoa humana, no art. 6º, que trata dos 
direitos sociais. 
Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o 
trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência 
social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos 
desamparados, na forma desta Constituição. 
Parágrafo único. Todo brasileiro em situação de vulnerabilidade social 
terá direito a uma renda básica familiar, garantida pelo poder público 
em programa permanente de transferência de renda, cujas normas e 
requisitos de acesso serão determinados em lei, observada a 
legislação fiscal e orçamentária. (Brasil, 1988) 
Assim, podemos afirmar que as políticas sociais são fruto das demandas 
da sociedade para reivindicar equidade, justiça social e garantia de direitos 
sociais em prol de uma sociedade mais justa e igualitária. Desse modo, os 
direitos sociais promulgados, conquistados e garantidos pela Constituição são 
materializados por leis e operacionalizados pelas políticas públicas e sociais, por 
meio de programas, projetos, serviços e equipamentos representados por um 
contingente de atores sociais ativos nos territórios. 
Entre os direitos sociais com maior evidência, temos os que compõem o 
sistema de proteção social, denominado seguridade social para a saúde1 
universal e assistência social2 como não contributiva, sendo direito do cidadão e 
dever do Estado, passando do patamar da caridade e ajuda para um de direito 
de todos de que dela necessitem, e a previdência social de cunho contributivo 
para a classe trabalhadora. 
Outro marco importante de que trata a Constituição é o direito de 
participação da sociedade no controle social da gestão das políticas sociais por 
meio de sua representatividade garantida nos conselhos de direitos, a qual será 
abordada no próximo tópico. 
Com base nessa contextualização, deve ficar evidente que a política 
social não é do Estado, mas, sim, da sociedade, cabendo ao Estado garantir sua 
materialização para alcançar os objetivos e propostas das demandas da 
população em prol de uma nova sociabilidade. 
 
1 Para saber mais, ler a Lei 8080/90 – Lei Orgânica da Saúde. 
2 Para saber mais, ler a Lei 8742/93 – Lei Orgânica da Assistência Social. 
 
 
8 
a política pública de corte social é um tipo de política pública que se dá 
por meio de um conjunto de princípios, diretrizes, objetivos e normas, 
emanadas do poder público e que orientam a sua atuação em uma 
determinada área. Estabelece-se pelas lutas, pressões e conflitos de 
interesses entre camadas e classes sociais, porém as respostas 
demandadas pelo Estado para essas questões podem vir atender 
interesses de um segmento em detrimento do outro. (Corrêa, 2005) 
Nessa perspectiva, o autor nos chama a atenção para as agendas de 
governo que nem sempre estão alinhadas com as demandas da sociedade para 
atender à garantia dos direitos sociais, pois somente quando uma questão ou 
evento se torna um problema evidente é que a ação pública altera sua agenda. 
Segundo Souza (2006, p. 32), existem três mecanismos para chamar atenção 
do governo “a) divulgação de indicadores que desnudam a dimensão do 
problema; b) eventos tais como desastres ou repetição continuada do mesmo 
problema; c) feedback ou informações que mostram as falhas da política atual 
ou seus resultados medíocres”. 
Novamente, reafirmamos a importância da participação da sociedade 
como agente do processo que garanta a cidadania por meio de mecanismos de 
controle social. 
2.1 Políticas Setoriais e Intersetoriais 
Alguma vez você já ouviu dizer que as políticas sociais são setoriais?O 
que define que uma política seja setorial e a sua relação e desenvolvimento 
dentro de um setor específico de maneira especializada, como a habitação, a 
educação, a saúde, entre outras? Ao mesmo tempo, precisamos compreender a 
importância da intersetorialidade das políticas públicas para romper com o 
caráter de verticalização, que compromete a eficiência e efetividade na sua 
execução. 
Existem vários conceitos na literatura que abordam o tema, mas vamos 
citar os mais relevantes. 
Segundo Inojosa (2001, p. 105), a intersetorialidade é “a articulação de 
saberes e experiências com vistas ao planejamento, para a realização e a 
avaliação de políticas, programas e projetos, com o objetivo de alcançar 
resultados sinérgicos em situações complexas”. 
Para Monnerat (2009, p. 204), “síntese de conhecimentos diversos [...] 
para atuar sobre problemas concretos” e “como uma articulação de ações de 
vários setores para alcançar melhores resultados”. 
 
 
9 
Para Pereira (2012, p. 1), a intersetorialidade é “uma nova lógica de 
gestão, que transcende um único ‘setor’ da política social e estratégia política de 
articulação entre ‘setores’ sociais diversos e especializados”. 
A intersetorialidade compreende o trabalho em rede, articulação e 
envolvimento com ações públicas e privadas, respeitando cada setor e seus 
processos, mas propondo um conjunto de ações que superem a fragmentação 
das políticas sociais e deem respostas para as múltiplas expressões da questão 
social, como a pobreza, o desemprego, a violação de direitos da criança e do 
adolescente, da pessoa idosa, da mulher, da pessoa com deficiência, da 
população em situação de rua, entre outros. 
2.2 Políticas Sociais Afirmativas 
As políticas sociais de ações afirmativas são políticas voltadas para 
grupos específicos que sofrem algum tipo de discriminação, seja de raça, etnia, 
religiosa ou de gênero, tendo como objetivo diminuir a desigualdade social, 
política e econômica dessas populações em busca de uma maior equidade. 
Segundo Feres ( 2006), existem três argumentos que justificam as 
políticas de ação afirmativa no Brasil, a reparação, a diversidade e a justiça 
social. O debate sobre a origem das ações afirmativas ocorre nos anos 1960 nos 
Estados Unidos, marcados por reinvindicações democráticas oriundas 
principalmente do movimento negro em prol da igualdade e direitos civis e da 
eliminação das leis de segregação. 
É nesse contexto que se desenvolve a ideia de uma ação afirmativa, 
exigindo que o Estado, para além de garantir leis 
antissegregacionistas, viesse também a assumir uma postura ativa 
para a melhoria das condições da população negra. (Moehlecke, 2002, 
p.117) 
Assim, as ações afirmativas abrangem a dimensão socioeconômica de 
educação e renda, tais como vagas para programas habitacionais, cotas no 
ensino superior, em concursos públicos e também a dimensão política, 
principalmente na representatividade dos grupos nas esperas de poder, assim, 
podemos dar como exemplo de ações afirmativas a ampliação de vagas para o 
legislativo. 
Em uma sociedade que pactua com a democracia, a cidadania e a justiça 
social em prol do desenvolvimento humano, 
 
 
10 
As ações afirmativas desempenham importante papel no combate 
à desigualdade social e às segregações. Elas permitem que pessoas 
de origens distintas alcancem espaços de influência no âmbito 
educacional, político, econômico, socioprofissional e cultural. Não se 
trata de concessão de benefícios ou privilégios, mas da efetivação de 
direitos assegurados pela Constituição. (Rezende) 
No Brasil, podemos citar algumas das ações afirmativas reconhecidas 
socialmente, lembrando que as ações afirmativas não são ações restritas à 
gestão pública. 
• O Estatuto da Igualdade racial; 
• Lei n. 12.711/2012, a lei de cotas no ensino superior para pretos, pardos 
e indígenas; 
• Lei n. 8.213/1991, Lei das cotas para pessoas com deficiência (trabalho); 
• Ampliação da participação feminina na política – 30% do fundo partidário 
destinado às candidaturas femininas. 
TEMA 3 – PARTICIPAÇÃO SOCIAL 
A Constituição Federal de 1988 incluiu a democracia participativa como 
reconhecimento da participação social na construção dos direitos sociais e, 
consequentemente, na elaboração e efetivação das políticas públicas. 
Segundo Silva et al. (2005), as descrições a seguir expressam a 
relevância que passa a tomar a participação social pós-Constituição de 1988 
relacionada aos direitos sociais, à proteção social e à democratização das 
instituições que lhes correspondem: 
a) a participação social promove transparência na deliberação e 
visibilidade das ações, democratizando o sistema decisório; 
b) a participação social permite maior expressão e visibilidade das 
demandas sociais, provocando um avanço na promoção da igualdade 
e da eqüidade nas políticas públicas; e 
c) a sociedade, por meio de inúmeros movimentos e formas de 
associativismo, permeia as ações estatais na defesa e alargamento de 
direitos, demanda ações e é capaz de executá-las no interesse público. 
(Silva et al., 2005, p. 375) 
A participação social assume o protagonismo com a esfera pública, tanto 
nos processos de decisão, elaboração, execução, formulação e avaliação das 
políticas sociais quanto na forma de consenso ou de debates e conflitos, 
garantindo voz e articulação de uma agenda política para atender às demandas 
sociais em seus diversos territórios. 
https://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/desigualdade-social.htm
 
 
11 
3.1 Cidadania 
O tema desta etapa será a participação social. Vamos iniciar falando um 
pouco sobre cidadania, considerando-a um processo sócio-histórico de lutas, 
reinvindicações e conquistas que se reconfiguram e estão em constante 
mudança em uma sociedade cada vez mais desigual. Do latim, civitas, cidade e 
a participação da comunidade. “A cidadania é um status concedido àqueles que 
são membros integrais de uma comunidade” (Marshall, 2002, p. 24). 
Existem vários conceitos de cidadania, mas vamos trazer a reflexão de 
Marshall (sociólogo britânico), com base em três elementos: civil, político e 
social. Os direitos civis estão ligados às liberdades individuais, como descrito no 
art. 5º da Constituição Federal de 1988: “todos são iguais perante a lei, sem 
distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros 
residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à 
segurança e à propriedade”. 
O direito político refere-se ao direito de participar no exercício do poder 
político, como eleito ou eleitor e sociais relacionados aos direitos sociais e às 
políticas públicas e sociais para sua efetivação. Nesse contexto, a cidadania 
pode ser compreendida como uma ação que compreende direitos e deveres, 
participação e ação coletiva de diversos atores sociais. 
Alguns autores ressaltam o processo de cidadania no Brasil marcado não 
por revoluções e lutas, mas por concessões do Estado com ações 
assistencialistas que concediam de forma pontual os direitos sociais, 
diferentemente de outros países (Carvalho, 2002). 
No Brasil pós-constituição de 1988, a cidadania é elemento central dos 
direitos sociais, sendo subsidiada pela Declaração de Direitos Humanos da ONU 
de 1948, pelo reconhecimento e pela defesa da dignidade da pessoa humana, 
bem como pela efetivação dos direitos fundamentais e sociais, atendendo à 
democracia participativa dos cidadãos, ou seja, percebendo-os como sujeitos 
ativos na sociedade. 
Assim, nesta breve contextualização sobre cidadania, reconhecer o papel 
do cidadão não somente como um sujeito individual, mas também como um 
sujeito coletivo, perpassa a construção de uma identidade social construída 
historicamente sobre a égide do Estado nas suas diversas formas de 
representação, tanto na relação de poder quanto na ajuda democrática de direito. 
 
 
12 
3.2 Controle Social 
A Constituição Federalde 1988 estabelece um importante marco na 
sociedade democrática de direito garantindo a participação popular na gestão e 
controle social das políticas públicas e instituindo instrumentos jurídicos para 
efetivá-las, tais como: plebiscito, iniciativa popular de lei, audiência pública, 
orçamento participativo, fóruns, conferências e conselhos. 
Assim, o controle social é o controle das ações do Estado por meio da 
sociedade civil, o qual pode participar das etapas da elaboração de uma política 
pública, na sua elaboração, implementação, execução e fiscalização por meio 
dos conselhos de direitos. 
Segundo Raichelis (2006, p. 11), 
Os conselhos, nos moldes definidos pela Constituição Federal de 
1988, são espaços públicos com força legal para atuar nas políticas 
públicas, na definição de suas prioridades, de seus conteúdos e 
recursos orçamentários, de segmentos sociais a serem atendidos e na 
avaliação dos resultados. A composição plural e heterogênea, com 
representação da sociedade civil e do governo em diferentes formatos, 
caracteriza os conselhos como instâncias de negociação de conflitos 
entre diferentes grupos e interesses, portanto, como campo de 
disputas políticas, de conceitos e processos, de significados e 
resultados políticos. (2006, p. 11) 
A participação popular enquanto processo da gestão das políticas 
públicas deve ter caráter democrático e descentralizado, sendo um dos meios 
de participação os Conselhos de direitos das políticas sociais, o quais se 
caracterizam como órgãos colegiados, permanentes, representados por diversos 
seguimento da sociedade, e cada política social orienta a forma de organização 
dos Conselhos, que têm o encargo de formular, supervisionar e avaliar as 
políticas públicas nas esferas: federal, estadual e municipal. Lembrando que 
cada política pública estabelece a forma de organização dos conselhos. 
A fim de exemplificar o perfil da composição, representação e natureza 
dos conselhos, vamos apresentar o Conselho Nacional da Saúde (CNS), a Lei 
n. 8.142/1990, que dispõe sobre a participação da comunidade na gestão do 
Sistema Único de Saúde (SUS) e sobre as transferências intergovernamentais 
de recursos financeiros na área da saúde e dá outras providências. 
Assim, o CNS é uma instância colegiada, paritária, deliberativa e 
permanente do SUS nas três esferas do governo, federal, estadual e municipal. 
A composição de seus membros é paritária, representada em 50% de entidades 
e movimentos representativos dos usuários; 25% de entidades representativas 
 
 
13 
de trabalhadores da área de saúde e 25% de representação do governo e 
prestadores de serviços privados conveniados ou sem fins lucrativos. O conselho 
deve se reunir no mínimo uma vez ao mês, e as reuniões plenárias devem ser 
abertas ao público em horários compatíveis para a participação da sociedade. 
Para a efetividade dos conselhos, faz-se necessária a sistematização das 
discussões das pautas, no planejamento para elaboração de projetos que 
possam ser implantados atendendo ao plano anual, pactuando metas e 
objetivos. 
O exercício da cidadania faz-se por meio da ocupação dos espaços da 
participação popular definidos constitucionalmente, como os conselhos e as 
conferências, entre outros citados no início desta etapa, sendo esses espaços 
democráticos e envolvendo os atores sociais na perspectiva de garantir, 
monitorar, avaliar e ampliar as políticas sociais. 
A descentralização de poderes ampliou a participação das organizações 
locais e aumentou a possibilidade de controle social. 
TEMA 4 – TRANSVERSALIDADE DAS POLÍTICAS SOCIAIS 
O conceito de transversalidade é utilizado em variadas áreas de 
conhecimento e tem significados distintos, dependendo da abordagem utilizada. 
No cenário das políticas sociais, pode-se definir esse termo como o conjunto de 
concepções e práticas que atravessam as diferentes ações e instâncias, 
aumentando o grau de abertura da comunicação intra e intergrupos, ampliando 
as grupalidades e refletindo em mudanças nas práticas de saúde. Não somente, 
a transversalidade engloba a ideia de incluir temáticas que exigem articulação 
de saberes, apresentando-se como uma ideia de uso muito comum nas Ciências 
Humanas e Naturais (Marcondes; Farah, 2021). 
No que se refere às políticas públicas, a transversalidade originou-se na 
Europa, mais especificamente na década de 1990. Nesse período, as ações 
voltadas para a gestão pública buscavam incorporar um novo enfoque na 
solução de problemas, de modo a responder demandas urgentes sociais e 
políticas que envolviam questões de gênero, ambientais e de imigração, por 
exemplo (Mazzini et al., 2015). 
No Brasil, o uso do termo “transversalidade” surgiu na área da educação 
e era utilizado para explicar a possibilidade de se instituir, na prática educativa, 
uma analogia entre aprender conhecimentos sistematizados e as questões da 
 
 
14 
realidade. Com abordagem interdisciplinar, esse conceito auxiliou nas 
discussões dos movimentos de renovação pedagógica que apontavam a 
necessidade de se trabalhar temas transversais em um contexto que perpassa 
diversas disciplinas – sendo fortalecido pela implementação da Lei de Diretrizes 
e Bases da Educação e pela definição dos Parâmetros Curriculares Nacionais, 
a partir de 1996 (Galian, 2014). 
Quando aplicado a políticas para grupos populacionais específicos, por 
exemplo, o conceito compreende as ações que, tendo por objetivo lidar 
com determinada situação enfrentada por um ou mais destes grupos, 
articulam diversos órgãos setoriais, níveis da Federação ou mesmo 
setores da sociedade em sua formulação e/ou execução (IPEA, 2009, 
p. 665) 
Ainda, a transversalidade atua como um conceito e como um instrumento 
organizacional que possibilita que as instituições abordem algumas questões 
para as quais a organização clássica é inadequada, envolvendo a estrutura de 
governança e as estratégias de gestão, por meio de um objetivo comum. Por 
muitos anos, o conceito da transversalidade era compreendido somente como 
uma tradução literal de gender mainstreaming, ou seja, como transversalidade 
de gênero. Esta é definida como um processo de estruturação de políticas em 
que há a incorporação de perspectivas feministas no enquadramento de política 
pública, tanto na construção de problemas públicos quanto na definição do curso 
da ação pública. Deve-se ressaltar que esse conceito é composto por três 
dimensões: enquadramento das políticas por perspectivas feministas; condições 
institucionais para a transversalidade; e aderência às agendas políticas 
feministas (Marcondes; Farah, 2021). 
Nesse ponto, ressalta-se que a transversalidade no Brasil não se refere 
apenas às políticas de gênero, conforme relatado no parágrafo anterior, mas 
também se aplica às políticas de igualdade racial e aos temas que perpassam 
os direitos humanos. Como exemplo, pode-se citar que a transversalidade se 
conecta diretamente com a gestão do Programa Nacional de Alimentação 
Escolar (PNAE), que envolve a articulação dos setores escolares, da agricultura 
familiar, da nutrição e da saúde – inclusive, a Lei n. 13.666, de 16 de maio de 
2018, inseriu o tema transversal da educação alimentar e nutricional no currículo 
escolar. 
O conceito de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) consiste na 
realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de 
qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras 
 
 
15 
necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de 
saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambientais, cultural, 
econômica e socialmente sustentáveis. Ainda, as políticas públicas voltadas para 
a alimentação são planejadas com prioridade para as famílias e pessoas em 
situação de insegurança alimentar e nutricional e contemplando também 
quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais, povos indígenas e 
assentadosda Reforma Agrária. 
O diálogo transversal entre a alimentação e a saúde interconecta-se à 
medida que a definição desta envolve, como condicionante, 
determinantes sociais. Assim, o conceito de direito à saúde transcende 
o seu setor ao se articular com a “[...] alimentação e nutrição, 
habitação, acesso à água limpa potável, condições sanitárias 
adequadas, condições de trabalho seguras e saudáveis e um meio 
ambiente saudável” com o intuito de reduzir iniquidades. (Varella; 
Martins, 2022, p. 5) 
Embora o discurso da transversalidade – seja ela voltada para o gênero, 
raça/etnia ou segurança alimentar – seja abordado em alguns Ministérios e 
Secretarias do país, na prática, ele ainda carece de maior estruturação e apoio. 
Assim, é necessário instituir programas educativos preventivos que 
garantam a aplicação das políticas de promoção da igualdade de oportunidades, 
além de estratégias e eliminação de conflitos ou punição de práticas 
discriminatórias comprovadas (Yannoulas; Soares, 2009). 
TEMA 5 – TRABALHO EM EQUIPE MULTIDISCIPLINAR E INTERDISCIPLINAR 
Para compreender este tema, é de suma importância diferenciar os 
conceitos de multidisciplinaridade e interdisciplinaridade. No que se refere ao 
primeiro, podemos exemplificar o termo pensando em uma equipe que tem como 
objetivo realizar o cuidado de uma determinada enfermidade – nesse caso, o 
cuidado pode ser efetuado por profissionais de diferentes áreas de atuação e 
não será preciso necessariamente que essas áreas se comuniquem entre si. As 
equipes multidisciplinares atuam de modo cooperativo e se configuram em uma 
relação recíproca das múltiplas intervenções técnicas e na interação dos agentes 
de diferentes áreas profissionais. 
Assim, cada profissional irá utilizar o seu conhecimento e a sua 
capacitação para realizar a assistência necessária (Costa, 2007). 
O trabalho multiprofissional consiste no estudo de um objeto por 
diferentes disciplinas, sem que haja convergência entre os conceitos e 
métodos. Este entendimento é corroborado por autor que afirma que o 
 
 
16 
objeto, no modelo multiprofissional, é resultante de uma soma de 
“olhares” e métodos provenientes de diferentes disciplinas ou práticas, 
quer normativas ou discursivas, colocadas pelos profissionais. 
(Gelbcke; Matos; Sallum, 2012, p. 5) 
Em relação à interdisciplinaridade, nesse caso, a equipe irá se comunicar 
obrigatoriamente para que, em conjunto, busque o melhor tratamento para a 
patologia em questão. Essa equipe irá comparar e incorporar os diferentes 
conhecimentos para estabelecer um consenso. Assim, pode-se afirmar que a 
principal diferença entre esses dois termos é a forma como os profissionais irão 
interagir e buscar soluções (Feriottti, 2009). 
No entanto, a interdisciplinaridade nas equipes de referência do SUAS 
é, muitas vezes, campo desconhecido ou não praticado pelos 
profissionais que atuam no sistema. Isso porque, muitas vezes, estão 
atuando mais na lógica multidisciplinar (Jafelice; Marcolan, 2018).Na 
prática interdisciplinar há uma integração das disciplinas ao nível de 
conceitos e métodos. No modelo interdisciplinar, certas subdisciplinas 
constituem novas disciplinas ou subdisciplinas, com métodos e 
conteúdos teóricos próprios. Há, portanto, uma interseção dos 
conhecimentos disciplinares. (Gelbcke; Matos; Sallum, 2012, p. 10) 
Há necessidade de unidade de ação, não apenas de entidades que 
representem os profissionais de saúde engajados nessa luta, mas também de 
aliança com a sociedade brasileira para que, muito além da correção em nosso 
sistema de saúde, possamos avançar com um controle social de qualidade do 
sistema, que garanta eficiência, eficácia e efetividade dos serviços para a 
população e o pleno direito à saúde. 
NA PRÁTICA 
Para aprimorar os conhecimentos teóricos adquiridos nesta etapa, 
sugerimos que você busque os conselhos de direito da sua localidade – também 
denominados conselhos de políticas públicas ou conselhos gestores de políticas 
setoriais – para verificar quais são as pautas e discussões atuais levantadas por 
esse órgão e de que forma ele atende às demandas da comunidade. Ainda, 
encorajamos a verificar a possibilidade de participar das futuras reuniões. Sendo 
assim, converse com os representantes do conselho para conhecer um pouco 
mais sobre a dinâmica do processo de participação social de modo a vivenciar a 
troca de conhecimentos na prática. 
 
 
17 
FINALIZANDO 
Após a leitura deste material e dos tópicos abordados, percebe-se a 
grandiosidade da área de políticas sociais e cidadania. Em relação aos temas 
aqui abordados, destaca-se a importância de compreender os principais 
conceitos de políticas públicas e de contextualizar corretamente cada um deles. 
O entendimento dos modelos elucidados pode permitir maior reflexão sobre o 
problema para o qual as políticas públicas são planejadas, as demandas atuais 
da sociedade, a trajetória seguida e o papel dos indivíduos, grupos e instituições 
que estão envolvidos na decisão. 
Além disso, conclui-se que, cada vez mais, tem se tornado necessária a 
formação de atores governamentais e não governamentais com vontade de 
contribuir para a análise dessas políticas. Por fim, esperamos que este material 
possa contribuir para a sua trajetória acadêmica e profissional. 
 
 
 
18 
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	Nesta etapa, falaremos sobre política pública, atores sociais, demandas e ciclos para a sua organização. Nessa perspectiva, ampliaremos o nosso olhar para as políticas sociais, com base no Estado de Bem-Estar Social, surgido na Europa do século XX e m...
	Considerando a importância da participação social na consolidação da cidadania, a etapa inclui um tema sobre os conselhos de direito como elemento fundamental de controle social com as políticas sociais e a relevância da trasnversalidade das politicas...
	Na prática
	FINALIZANDO
	REFERÊNCIAS

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