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HISTORIA DE MOÇAMBIQUE
VOL.
MOÇAMBIQUE NO AUGE DO COLONIALISMO, 1930- 1961
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE
História de Moçambique Volume 3
Moçambique no Auge do
Colonialismo, 1930-1961
Universidade Eduardo MondIane
Departamento de História - Faculdade de Letras
Maputo
473
Copyrigth
Coordenação deste volume:
ScLcção de fotografias:
Mapas:
Capa:
Revisão do Texto:
Arranjo Gráfico:
Montagem, Fotolito e Impressão:
Editor:
N* de Registo:
Departamento de História - Faculdade de Letras,
Universidade Eduardo MondIane
David Hedges
Amélia Souto , António Sopa, Paula Voss e Arlindo Chiluw
Gerhard Liesegang
Quadro de Malangatana "Trabalho forçado"
Fernanda Durão, Arlindo Chilundo e Gilberto Matusse
João Paulo Borges Coelho
Imprensa da UEM
Departamento de História - Faculdade de Letras,
Universidade Eduardo Mondlane
098 1IFBM/92
Maputo - 1993
SUMÁRIO
Lista de Quadros viii
Lista de Mapas viii
Lista de Fotografias ix
Abreviaturas utilizadas xi
Nota de Apresentação xii
Capítulo 1:
A História de Moçambique, 1885-1930 1
Por Aurélio Rocha, David Hedges, Eduardo Medeiros e Gerhard Liesegang
Com revisões e novas matérias por David Hedges e Arlindo Chilundo
1 A conquista e a nova organização político-administrativa 1
2 A emergência da economia colonial 3
2.1 Produção agrícola 3
2.2 A reestruturação capitalista da economia camponesa 5
2.3 Portos, caminhos de ferro e trabalho migratório 6
2.4 Indústrias de transformação 6
2.5 Balanço geral da economia 7
2.6 Relações económicas entre Moçambique, Portugal e outros países 7
3 As mudanças demográficas entre 1885 e 1930 8
3.1 População total 8
3.2 Distribuição da população e função das cidades 8
4 A estrutura social, o racismo e o proto-nacionalismo 9
4.1 Discriminação racial na estrutura colonial 10
4.2 A luta dos trabalhadores brancos e o reforço das barreiras raciais 12
4.3 A pequena burguesia moçambicana, assimilação e educação 13
4.4 Últimos focos da resistência militar e o início do proto-nacionalismo 17
As igrejas 'separatistas' 18
O movimento associativo e literário 21
5 Os conflitos do período 1915-1930 23
5.1 A I Guerra Mundial e a crise económica e social da década de 20 23
5.2 0 conflito sobre as bases da política colonial em Moçambique 26
5.3 0 golpe militar de 1926 em Portugal e a sua repercussão
em Moçambique 28
NOTAS
Capítulo 2:
O Reforço do Colonialismo, 1930-1937 35
Por David Hedges e Aurélio Rocha
Com revisões e novas matérias por David Hedges e Arlindo Chilundo
1 Introdução 35
2 A crise económica e a produção em Moçambique 36
2.1 Origens e alcance da crise económica mundial 36
2.2 Produção em Moçambique na nova situação económica 36
2.3 0 trabalho migratório, trânsito e a situação financeira 39
3 0 reforço da dominação portuguesa 41
3.1 A ascensão do regime Salazarista em Portugal 41
3.2 0 proteccionismo e o novo regime político-administrativo 41
3.3 Novas relações de dominação económica 42
3.4 Educação e religião 46
4 A intensificação da exploração nas zonas rurais 49
5 Os conflitos sociais e a resistência anti-colonial, 1930-1937 53
5.1 0 conflito sobre as terras no Mossuril - Nampula 53
5.2 As greves de 1932-1933 na Beira e Lourenço Marques 55
A manifestação dos assalariados negros da Beira, 1932 56
A greve da 'Quinhenta' no porto de Lourenço Marques de 1933 59
5.3 0 movimento associativo e político 61
A divisão do movimento associativo 66
A repressão do jornalismo político 71
Ambiguidade da posição da elite 73
Agudização da tensão política e repressão fascista, 1935-1937 75
NOTAS
Capítulo 3:
A Reestruturação da Sociedade Mocambicana,1938-1944 83
Por David Hedges e Aurélio Rocha
1 Introdução: Características gerais do período 1938-1944 83
1.1 A procura renovada de matérias-primas 83
1.2 Capital português e reorganização da administração colonial 85
1.3 0 poder reforçado do Governador-Geral 86
2 As culturas forçadas 88
2.1 Generalização do cultivo do algodão 88
2.2 Generalização da cultura obrigatória 91
2.3 0 cultivo forçado de arroz 93
3 A intensificação da exploração do trabalho 93
3.1 A crise de mão-de-obra rural 93
3.2 Actuação do governo colonial face à crise de mão-de-obra 95
3.3 A reorganização dos impostos 97
3.4 Reforço dos auxiliares administrativos: régulos e sipaios 98
3.5 Reforço do controle sobre trabalho em Lourenço Marques e Beira 99
3.6 0 novo sistema de sindicatos fascistas 100
4 A estrutura de produção e as suas consequências 101
4.1 Produção e rendimento nas zonas rurais 101
4.2 Diferenciação regional 102
4.3 Controle permanente da administração sobre a produção agricola 104
4.4 Crescente exploração do campesinato 104
4.5 Diferenciação social no seio do campesinato 106
4.6 Indústria, transportes e trabalho migratório 108
5 A resistência ao colonialismo 111
5.1 A resistência generalizada às culturas forçadas 111
5.2 A revolta Muta-hanu no Mossuril - Nampula, 1939 112
5.3 0 movimento associativo 114
6 0 Estado colonial, a Igreja Católica e o ensino rudimentar 117
NOTAS
Capítulo 4:
Moçambique durante o Apogeu do Colonialismo
Português, 1945-1961: a Economia e a Estrutura Social 129
Por David Hedges e Aurélio Rocha
1 Caracteristicas gerais do período 129
2 A intensificação da produção rural 130
2.1 A cultura forçada de algodão 130
Concentrações algodoeiras, blocos e picadas 132
Diferenças de produtividade 137
2.2 0 reforço do controle sobre a mão-de-obra rural 138
2.3 Produção global das mercadorias agrícolas de exportação 145
2.4 A estrutura da exploração rural colonial e as suas consequências 147
Violência e produção 148
O comércio rural 151
A degradação dos solos, subnutrição e fomes 153
3 Mão-de-obra migrat6ria 157
4 Os planos do fomento e industrialização 161
4.1 Acumulação portuguesa e a economia moçambicana 161
4.2 Os planos de fomento 161
4.3 Crescimento da população colona 164
4.4 Fomento industrial 168
4.5 A consolidação do capital português 171
5 0 desenvolvimento da estrutura social 172
5.1 A força de trabalho assalariado e a sua estratificação racial 172
5.2 A educação, as missões e seu papel na estrutura social colonial 176
Ensino primário rudimentar e 'comum' 179
Ensino secundário 181
5.3 As formas de enquadramento colonial 182
O privilegiamento dos régulos e sipaios 183
As associações profissionais para negros 187
Os agricultores prósperos e as cooperativas 188
NOTAS
Capítulo 5:
A Contestação da Situação Colonial, 1945-1961 197
Por David Hedges e Arlindo Chilundo
1 Introdução 197
2 0 reforço do colonialismo na Africa após a II Guerra Mundial 198
O âmbito regional na África Austral 200
3 As associações e o movimento juvenil, 1945-1955 202
4 A luta dos camponeses e trabalhadores 209
4.10 contexto da luta 209
4.2 A resistência contra as culturas forçadas 210
4.3 Resistência contra o trabalho forçado 213
A greve na açucareira de Xinavane, 1954 214
4.4 Greves no caminho de ferro e porto de Lourenço Marques 215
4.5 0 motim da pedreira de Goba 217
4.6 Considerações finais sobre a luta dos camponeses e trabalhadores 219
5 A contestação cultural 221
5.1 Canção, música e dança populares 222
5.2 A literatura como arma da luta 225
5.3 Artes plásticas 230
5.4 A contestação cultural resumida 231
6 A Sociedade Algodoeira Africana Voluntária de Moçambique 232
7 A luta anti-colonial, 1955-1961 238
7.1 A criação de organizações políticas internas e externas 238
7.2 0 massacre de Mueda e a repressão de 1960-1961 241
7.3 0 âmbito político em Lourenço Marques e a revitalização do NESAM 243
7.4 A evolução das organizações moçambicanas nos territ6rios vizinhos 245
7.5 As organizações unitárias contra o colonialismo português 246
8. Resumo e conclusão 248
NOTAS 250
PRINCIPAIS FONTES CONSULTADAS 259
INDICE
Lista de Quadros
1 Principais exportações de Moçambique, 1928-1935 38
2 A crise económica, 1928-1937: Valor e Volume das exportações 39
3 Expansão das missõescatólicas, 1930-1937 47
4 Aumento do número de escolas rudimentares, 1930-1937 48
5 O volume das principais exportações de Moçambique, 1939-1944 102
6 O valor das principais exportações de Moçambique, 1939-1944 103
7 Aumento de missões católicas, 1938-1944 120
8 Número de escolas rudimentares, 1938-1944 120
9 Ensino rudimentar católico, 1940-1944 121
10 Produção de Algodão, 1945-1960 136
11 O volume das principais exportações de Moçambique, 1945-1960 146
12 O valor das principais exportações de Moçambique, 1945-1960 146
13 Percentagem das principais exportações de Moçambique, 1945-1960 147
14 Evolução da população total e da população colona de Moçambique 165
15 Crescimento da indústria de transformação, 1947-1961 169
16 Expansão do investimento fixo na indústria transformadora, 1956-1961 170
17 Proporção do valor de produção industrial, por sector, 1942-1960 171
18 Estimativa provisória do número de assalariados nos principais
sectores e actividades, 1950-1960 173
19 Aumento de missões religiosas, 1945-1961 178
20 Aproveitamento nas escolas rudimentares das missões católicas
e outras (missões protestantes e escolas oficiais), 1945-1960 180
21 Matrículas nas escolas primárias 'comuns', 1945 e 1960 181
22 Matrículas nos Liceus, 1945 e 1960 182
Lista de Mapas
1 Produção de algodão, 1941: diferenciação regional 134
2 Produção de algodão, 1960: diferenciação regional 135
3 A expansão da rede ferroviária 160
4 Greves, contestações e protestos, 1930-1960 196
Lista de Fotografias
1. Construção da Ponte do Zambeze, 1933 44
2. Ponte do Zambeze, 1935 45
3. Trabalhadores no depósito do crómio no Porto da Beira 57
4. Retrato de Estácio Dias 62
5. Retrato de Karel Pott 62
6. Sede do Centro Associativo dos Negros (Instituto Negrófilo), 1939 63
7. Kamba Simango 69
8. Tomada de posse do Governador-Geral J. T. Bettencourt 87
9. Parada militar em Lourenço Marques, 1942 87
10. Colheita de algodão 88
11. Mercado de algodão, Nampula 89
12. Processamento de algodão, Sofala 90
13. Paisagem da cultura de chá, Zambézia 94
14. Trabalhadores do chá, Zambézia 94
15. Carregamento da cana de açucar, Inkomati 96
16. Régulos com os seus bastiões de comando, Quelimane, 1939 98
17. Construção do Caminho de Ferro de Tete, 1944 109
18. Escola de Artes e Oficios, Moamba 122
19. Aula de sapataria, Escola de Artes e Oficios, Moamba 122
20. Caminho de Ferro do norte: abertura de uma trincheira 141
21. No parque de maquinaria, linha férrea de Tete,1949 162
22. Carros no caminho das Rodésias, Lourenço Marques, 1955 163
23. Colonos a chegar, Limpopo, 1954 166
24. Vista do colonato, Limpopo, 1960 166
25. Retrato de D. Soares de Resende, Bispo da Beira 177
26. A escola rudimentar da Missão católica de Murrupula, Nampula, 1960 179
27. Banja em Maniamba, Niassa, fim da década de 1950 184
28. Chefe Mataka, Niassa, fim da década de 1950 185
29. Os engraxadores de Lourenço Marques, 1946 187
30. Encontro dos Governadores-Gerais da Federação e de Moçambique, 1954 201
31. Eduardo Mondiane em 1949 204
32. M.M. Sicobele, fundador da Igreja Luz Episcopal 207
33. Figuras da contestação cultural, década de 1950 223
34. Retrato de Daniel Marivate 227
35. Retrato de João Dias, 1949 228
36. Manifestação em Lourenço Marques contra Resoluções da ONU, 1957 239
37. Notícias do julgamento da liderança da Convenção do Povo de
Moçambique, 1962 242
38. Nacionalistas da África Austral na altura da formação de CONCP 247
Abreviaturas Utilizadas
AA Associação Africana de Lourenço Marques (o Grémio Africano)
AHM Arquivo Histórico de Moçambique
ANC African National Congress of South Afica
BA O Brado Africano
BO Boletim Oficial de Moçambique, I série
BSEM Boletim da Sociedade de Estudos de Moçambique
CAN Centro Associativo dos Negros (o antigo Instituto Negrófilo)
CAM Companhia dos Algodões de Moçambique
CEA Centro de Estudos Africanos, Universidade Eduardo Mondlan
CPC/SS Corpo da Polícia Civil, Serviços de Segurança
Cx. Caixa
DH Departamento de História, Universidade Eduardo Mondiane
FA Fundo do Algodão [Arquivo Histórico de Moçambique)
FAC Fundo da Administração Civil [Arquivo Histórico de Moçambique]
FGG Fundo do Governo Geral [Arquivo Histórico de Moçambique)
FNI Fundo dos Negócios Indígenas [Arquivo Histórico de Moçambique]
FTO Fundo de Testemunhas Orais [Arquivo Histórico de Moçambique
HM II DH, História de Moçambique, vol.II, Maputo:Cadernos Tempo, 1983
INLD Instituto Nacional do Livro e do Disco
ISANI Inspecção Superior de Administração e Negócios Indígenas
JEAC Junta de Exportação de Algodao
MAC Movimento Anti-Colonialista
MANU Mozambique African National Union
MJDM Movimento da Juventude Democrática de Moçambique
MPLA Movimento Popular para a Libertação de Angola
MUD Movimento da Unidade Democrática
NESAM Núcleo de Estudantes Secundários de Moçambique
PAIGC Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde
PIDE Policia Internacional de Defesa do Estado
SAGAL Sociedade Agrícola Algodoeira
S.d. Sem data
SE Secção Especial [Arquivo Histórico de Moçambique)
S.n. Sem número
SR [A.I.Ferraz de Freitas],'Seitas religiosas gentílicas', 4 vols.,
Lourenço Marques,n.p., 1956-1957
TANU Tanganyika African National Union
UEM Universidade Eduardo Mondlane, Maputo
UDENAMO União Democrática Nacional de Moçambique
UNAMI União Nacional de Moçambique Independente
Nota de Apresentação
Este terceiro volume da História de Moçambique segue as linhas gerais
da periodização estabelecida para a colecção, em 1981, sob a direcção do
então chefe do Departamento de História, Carlos Serra. Coube, porém,
ao Departamento de História, como um todo, a responsabilidade da
elaboração deste volume.
Todos os capítulos foram previamente publicados na revista do
Departamento, Cadernos de História 2,4,5,6,7 (1985-1988), ao que se
seguiu um processo de revisão e reelaboração.
A grande parte deste volume cobre o período de 1930-1961, sendo
objecto principal Moçambique no apogeu do colonialismo. Neste volume
procura-se mostrar como é que Portugal, guiado pela estratégia do
'nacionalismo económico', tentou, mais do que vinha acontecendo até
então, tirar de Moçambique mais vantagens em seu próprio benefício.
Procura-se também avaliar a experiência moçambicana deste intensivo,
violento e muitas vezes sufocante processo.
Tentamos fazer um balanço sistemático do material novo e informa
ções relativa e largamente conhecidas. Porém, fica-nos a consciência de
que este livro é uma mera tentativa de uma síntese geral deste período.
Longe de ser um manual adequado de ensino e muito menos uma história
oficial, esperamos não obstante que o livro seja de fácil leitura. Com
diferentes graus de sucesso procuramos incluir a máxima informação
possível sobre os temas sócio-políticos, tais como religião, educação e
associações políticas. Aspectos sócio-económicos também mereceram um
tratamento especial. Mesmo assim, muitos temas e formas mais frutíferas
de interpretação foram, sem dúvidas, insuficientemente desenvolvidos.
Muito fica ainda por fazer e esperamos que este trabalho provisório
contribua substancialmente para a delimitação de novos temas de
investigação sobre a história de Moçambique.
No princípio, os autores decidiram que os capítulos seriam, de
preferência, divididos conforme uma periodização, incorporando desta
null
null
forma as divisões temáticas e diferenças regionais. Este procedimento nos
pareceu o meio apropriado para a sintetização de materiais que se
encontram ainda mais dispersos e não trabalhados do que aqueles que
formaram a base do volume anterior.
Os autores também decidiram que tal estrutura requeria um capítulo
introdutório resumindo o período de 1885 a 1930 e que inclui novas
informações que, à data da elaboração do II volume, não estavam
disponíveis.
A conclusão deste livro foi possível graças ao apoio sempre
concedido, muitas vezes em difíceis circunstâncias, do Dr. Fernando
Ganhão, Reitor da Universidade EduardoMondIane, e os seus sucesso
res, Dr. Rui Baltazar e Dr. Narciso Matos. Os autores gostariam de
expressar a sua profunda gratidão ao Arquivo Histórico de Moçambique
cuja directora, Dra Inês Nogueira da Costa, e restantes trabalhadores
generosamente os apoiaram na localização de fontes e na fase final da
edição. O Índice beneficiou do generoso apoio profissional de António
Sopa e de Fernanda Mendes. A publicação do livro deve muito ao
entusiasmo e às capacidades técnicas de João Paulo Borges Coelho.
Os autores agradecem particularmente a Colin Darch, pela sua
indispensável ajuda na localização da grande parte das fontes utilizadas
no Capítulo 5. Pelos valiosos comentários e informações fornecidas no
decurso do trabalho, agradecem também a Carlos Serra (caps. 1 e 2),
Luís Covane e Gerhard Liesegang, do Departamento de História, e a
Yussuf Adam, Teresa Cruz e Silva e Alexandrino José, do Centro de
Estudos Africanos da UEM (cap. 5), Eduardo Medeiros, do Instituto
Superior Pedagógico (caps. 3 e 4) e a Paulo Soares, do Ministério da
Cultura (caps. 2 e 3).
E, não em último lugar, o Departamento de História expressa a sua
profunda gratidão à Agência Sueca para Investigação e Cooperação
Internacional (SAREC), e à Agência Norueguesa para o Desenvolvimento
(NORAD), pela ajuda e encorajamento na área de investigação e pelo
prestimoso apoio material, sem os quais não seria possível a publicação
deste livro.
Capítulo 1:
A História de Moçambique, 1885-1930
1. A conquista e a nova organização político-administrativa
Após a Conferência de Berlim, foram definidas novas formas de
relacionamento entre as potências europeias e os territórios colonizados,
o que, em Moçambique, se traduziu na delimitação de fronteiras e na
ocupação militar, administrativa e económica.
A implantação colonial no período imperialista efectivou-se, inicial
mente, aLravés da conquista militar do território moçambicano. Apesar
da superioridade em armas dos colonialistas, este processo durou mais de
duas décadas (1886-1918), devido a fortes resistências nas diversas partes
do território [1].
Para diminuir os custos directos da ocupação militar e administrativa,
Portugal optou por ceder as actuais províncias do Niassa e de Cabo
Delgado à Companhia do Niassa, uma companhia majestática, que, para
além da sua função económica, tinha poderes militares e administrativos.
Da mesma forma, as províncias de Manica e de Sofala passaram a ser
administradas pela Companhia de Moçambique. As províncias de Tete e
da Zambézia foram submetidas a uma administração conjunta do estado
português e de companhias que arrendaram os antigos prazos. A
província de Nampula e o território ao sul do Rio Save (Maputo, Gaza
Capítulo 1
e Inhambane) ficaram sob administração directa do estado português.
Como a acumulação de capital, em Portugal estava baseada em grande
medida no comércio, e a economia estava pouco industrializada, não
havia grandes excedentes de capitais para investimento produtivo no
exterior. Assim se explica a penetração do capital não-português em
todas as zonas de Moçambique, incluindo nas Companhias Majestáticas.
A implantação do sistema administrativo colonial processou-se em
diferentes fases nas diversas partes do país. Por exemplo, nas áreas de
resistência mais prolongada, ou de acesso difícil, a primeira etapa
efectivou-se através da ocupação militar quase permanente (capitanias
mores na província de Nampula e partes de Zambézia, comando militar
em Gaza). Noutros lugares, como, por exemplo, na província de Maputo
em 1896, o governo colonial passou directamente à divisão do território
em circunscrições civis que, de um modo geral, deram origem aos
actuais distritos. Nestas divisões foram instalados os administradores e
chefes de posto portugueses, bem como régulos africanos, escolhidos
pelo regime colonial, em substituição dos antigos chefes. A partir de
1907, este sistema substituiu gradualmente a administração militar em
Gaza, Zambézia e Nampula.
O objectivo principal do colonialismo no período imperialista era
aproveitar a força de trabalho africana de uma maneira mais directa e
permanente que no período anterior. As formas em que este aproveita
mento se podia realizar variavam desde a aplicação do trabalho nas
plantações até à comercialização dos produtos do campesinato e à venda
aos moçambicanos de vinhos, têxteis e outros produtos portugueses (ver
ponto 2).
Vários métodos concretizaram esse objectivo. O imposto de palhota
servia para forçar a população a ganhar dinheiro através da venda dos
seus produtos ao comércio rural ou da venda da sua força de trabalho.
Metade do mussoco (o imposto pagável na Zambézia) era cobrado em
trabalho a partir de 1890. A cobrança do imposto era uma das tarefas
principais do administrador e dos seus subordinados. O dinheiro cobrado
contribuiu largamente para as despesas da nova rede administrativa
colonial (vencimentos, edifícios, estradas, etc.).
A diferença dos níveis de desenvolvimento entre as -potências
europeias reflectiu-se nas suas colónias, sobretudo na concorrência pela
utilização da força de trabalho. Não obstante as más condições de
Moçambique, 1885-1930
trabalho nas plantações, minas e obras públicas na África do Sul, nas
Rodésias, Niassalândia, Tanganhica e Zanzibar, verificou-se um grande
fluxo de migrantes moçambicanos para esses territórios. Para tal
contribuiu o facto de os salários serem relativamente superiores nesses
territórios, como corolário do nível relativamente superior de capitaliza
ção, gestão, aplicação de tecnologia e produtividade. Por outro lado, as
mercadorias (em especial, os têxteis) vendidas nesses territórios eram de
melhor qualidade e mais baratas.
Colocado numa situação desvantajosa em relação aos outros poderes
coloniais na região, no que diz respeito ao recrutamento de trabalhadores,
o estado colonial em Moçambique recorreu, mais do que os estados
coloniais vizinhos, ao sistema de trabalho forçado, cuja supervisão era
outra das tarefas principais do administrador. Desta maneira, o colonialis
mo português pretendeu compensar o baixo nível de investimento.
Foi através deste novo sistema político-administrativo, cuja actuação
se fez sentir a nível do uso da força de trabalho, que se estabeleceu a
economia colonial no período 1885-1930.
2. A emergência da economia colonial
2.1 Produção agrícola
A maior parte da população moçambicana pertencia ao sector agrícola.
No novo sistema, que emergiu entre 1885 e 1930, podemos distinguir
vários tipos de produção provenientes dos seguintes sectores:
a) As plantações de cana-de-açúcar, de coqueiros, de sisal e de chá,
com as respectivas fábricas de transformação anexas, constituíam a
agro-indústria. A produção de açúcar começou na última década do
século XIX, com as principais plantações situadas no vale do Zambeze,
localizando-se outras unidades importantes nos vales dos rios Buzi e
Incomati. As plantações de sisal começaram a ser feitas em 1904/6 na
Zambézia, mas as da zona litoral de Nampula tornaram-se as mais
importantes por volta de 1930, havendo outras em Cabo Delgado e
Manica. A produção das plantações era quase totalmente exportada.
b) As machambas familiares dos camponeses produziam para
exportação quantidades sensqvelménte iguais às das plantações. Para além
disso, alimentavam não só a população rural, mas também os milhares
Capítulo 1
de trabalhadores na agro-indústria, que comprava os produtos aos
camponeses na sua rede de lojas montada para o efeito. A Sena Sugar
Estates, por exemplo, criou a Companhia de Comércio de Moçambique
principalmente para este fim.
Os principais produtos comercializados, quer para exportação, quer
para comércio interno, eram o milho, o amendoim, o gergelim e a
borracha, e provinham em grande parte da província de Nampula, e em
menor escala, das províncias da Zambézia, de Cabo Delgado e de
Inhambane.
Nas províncias de Gaza, Maputo eInhambane, o campesinato ficou
sem muitos trabalhadores devido ao recrutamento para as minas
sul-africanas. O imposto de palhota nestas zonas (pagável em divisas)
provinha geralmente dos salários dos mineiros; reduziu-se, assim, a
possibilidade e o estimulo da família camponesa para produzir para a
comercialização. Por estas razões, o campesinato nestas províncias
produzia poucos excedentes agrícolas. No entanto, na década de 20,
alguns migrantes regressavam da África do Sul já com charruas, o que
tornou possível a uma minoria de camponeses uma maior produtividade
e até alguma acumulação de bens e o aumento das áreas cultivadas, como
no vale do Limpopo.
c) As pequenas e médias machambas de colonos individuais empre
gavam trabalhadores africanos. Algumas estavam instaladas em zonas de
colonização antiga, perto de Quelimane e da Ilha de Moçambique, e
produziam pequenas quantidades de copra e cajú. Outras dedicavam-se
à cultura do milho no Chimoio a partir de 1907, e, no sul, à cultura do
algodão a partir de 1920. Ainda neste período, os agricultures colonos
começaram a pro4u±ir citn'nos para o mercado sul-africano e a criar gado
para o mercado interno (principalmente para Lourenço Marques).
As exportações por ýector, em termos de valor, eram as seguintes,
em 1930 [2]:
Das plantações 40%
Do campesinato 28%
Dos agricultores 10%
Doutros sectores 22% vários: óleos, bagaços, sal, artesenato,
minerais, etc.)
Moçambique, 1885-1930
Embora as exportações do campesinato, em quantidade, se igualassem às
da agro-indústria, os produtos desta última valiam mais no mercado
internacional, até porque iam já semi-transformados.
2.2 A reestruturação capitalista da economia camponesa
Embora seja útil distinguir, para efeitos de estudo, as formas de produção
agrícola das formas de produção indústrial que emergiram neste período,
é, no entanto, importante compreender que elas estavam perfeitamente
interligadas na economia colonial. Note-se que em todos os tipos de
produção o trabalho era efectuado pela população moçambicana, com ou
sem a supervisão dos colonos. Para além disso, é importante realçar o
papel da produção camponesa no fornecimento de alimentação aos
trabalhadores das plantações, indústrias e machambas privadas. Lembra
mos que estes trabalhadores eram migrantes sazonas, cujas famílias,
além de manterem a casa, produziam para a sua subsistência e do próprio
migrante depois do seu regresso.
Podemos dizer que a família camponesa veio a constituir a base de
repodução social do trabalhador migrante e, assim, a base fundamental
de todas as formas de produção que dela dependiam. Com este sistema,
nem plantações, nem indústrias, nem machambas privadas tinham que
pagar um salário que alimentasse a família do trabalhador, o que era
sempre justificativo da atribuição de salários muito baixos. Por essa razão
os empreendimentos na nova economia colonial preferiam o trabalho
migratório, procurando o estado colonial evitar, na medida do possível,
o crescimento de uma força de trabalho permanente e estável, o que teria
exigido salários mais elevados e melhores' condições sociais. Os
migrantes, devido ao carácter temporário do trabalho, tinham pouco
poder para reclamar junto do empregador, que os podia despedir em
qualquer altura sem remuneração nenhuma.
Devido ao rendimento muito baixo que se podia esperar dos contratos
ou do trabalho forçado em Moçambique, que em geral somente bastava
para pagamento do imposto e aquisição de alguma roupa de trabalho, o
enquadramento social do homem e da mulher, através do casamento,
dependia muitas vezes de contratos sucessivos do homem nas minas e
plantações dos territórios vizinhos, onde ganhava o dinheiro necessário
para o casamento e os impostos.
O sistema de trabalho migratório (dentro e fora do país) atingiu quase
Capítulo 1
todas as actividades produtivas, levando à proletarização parcial do
campesinato e, assim, tornando a situação das massas cada vez mais
uniforme. Se, por um lado, o recrutamento dos homens em brigadas nas
zonas de origem, com a segregação nos acampamentos e o repatriamento
no fim do contrato, fortaleceu a discriminação étnica, e facilitou o
controlo rigoroso dos trabalhadores, por outro, contribuiu para o início
de uma experiência comum de exploração [3]. Um outro aspecto
fundamental da nova economia colonial era o comércio rural, essencial
para o escoamento de produtos. Foi, de facto, a produção familiar dos
camponeses que alimentou o crescimento e os lucros da rede de lojas
rurais, exclusivamente nas mãos de comerciantes asiáticos e europeus [4].
Desta maneira, o sistema de produção familiar camponesa, herdado
do período antes de 1885, foi transformado na base principal para a
acumulação do capital na nova economia colonial [5].
2.3 Portos, caminhos de ferro e trabalho migratório
Enquanto a maior parte da população continuava a viver da agricultura,
com o surgimento da nova economia colonial, havia um número reduzido
que exercia a sua actividade na construção dos portos e caminhos de
ferro de Lourenço Marques e Beira, e como estivadores e carregadores
no seu funcionamento [ponto 3.2]. Para o fornecimento de grande parte
desta mão-de-obra, desenvolveu-se o sistema de trabalho forçado.
. Como vimos, outros trabalhadores foram para as minas e plantações
dos territórios vizinhos. Estas actividades beneficiaram principalmente os
empreendimentos das colónias britânicas vizinhas. No entanto, a
burguesia portuguesa tinha o seu benefício através da canalização das
divisas provenientes do trabalho nesses territórios para a rede comercial
de Moçambique. Para além de vários impostos de recrutamento, pagáveis
em divisas ao estado colonial, o Sul importava grandes quantidades de
vinho, principal exportação portuguesa da altura, que era vendido nas
lojas rurais.
2.4 Indústrias de transformação
A extracção de óleos, a destilação de alcool, as moagens, a produção de
cigarros, de gelos e de refigerantes foram as primeiras indústrias de
transformação, principalmente viradas para o consumo de Lourenço
Marques, e construídas antes de 1914. Nos anos seguintes,
Moçambique, 1885-1930
estabeleceram-se fábricas de sabões, de cerveja e de cimento. O
significado destas indústrias foi muito reduzido até 1930, quer em termos
de produção, quer em termos do número de trabalhadores, maioritaria
mente não-qualificados.
2.5 Balanço geral da economia
Os portos e caminhos de ferro e a exportação de trabalhadores consti
tuíram sectores prioritários de desenvolvimento depois de 1885. Por isso,
até cerca de 1910, sensivelmente, contribuíram com a maior parte do
rendimento exterior da colónia. No entanto, o desenvolvimento progres
sivo da produção agrícola até 1930, veio a transformar esta actividade na
maior fonte de receitas de Moçambique.
2.6 Relações económicas entre Moçambique, Portugal e outros países
Moçambique não foi, neste período, para Portugal, uma fonte importante
de matérias-primas, dado que este país, pouco industrializado no início
do século vinte, não precisava delas em grande quantidade. Os produtos
de Moçambique iam principalmente para outros países, como a França,
a África do Sul, a Grã-Bretanha e a Alemanha. Por exemplo, calcula-se
que, na década 1910/1920, uma média de apenas 5 a 6 por cento das
exportações iam para Portugal, enquanto 20 a 22 por cento iam para
África do Sul.
Já em relação às importações de Moçambique, o Império Britânico
(nomeadamente Grã-Bretanha e India) era o maior fornecedor de têxteis,
sendo Portugal o principal fornecedor de vinho.
Em relação aos investimentos, havendo poucos excedentes de capitais
em Portugal, os equipamentos essenciais para plantações, portos e
caminhos de ferro etc., tinham que ser feitos ou por companhias
estrangeiras, ou através de empréstimos estrangeiros [6].
O baixo nível de trocas comerciais entre Portugal e Moçambique e
a falta de um sistema de controle efectivo das trocascom outros países,
resultou na utilização da moeda do principal parceiro de Moçambique,
nomeadamente, a libra esterlina, nas trocas internacionais e até internas
da colónia. Essa prática alargou-se consideravelmente com a queda do
valor do escudo na década de 20.
Pode-se concluir deste quadro económico que, entre 1885 e 1930, a
economia de Moçambique foi reestruturada para servir os interesses das
Capítulo 1
burguesias europeias. Mas, enquanto noutras colónias essa nova
economia resultou em ligações económicas muito estreitas com as
respectivas metrópoles, no caso de Moçambique, tais relações com a
metrópole foram relativamente fracas. No período seguinte, 1930-1961,
veremos que o objectivo central da política colonial portuguesa será
precisamente reforçar e proteger os interesses da sua burguesia.
3. As mudanças demográficas entre 1885 e 1930.
3.1 População total.
As estimativas indicam um total de 3 milhões de habitantes em 1900 e de
4.200.000 em 1930. Este crescimento relativamente baixo explica-se pela
ocupação militar e pela imposição do imposto de palhota que, conjunta
mente, causaram fugas maciças para as colónias vizinhas. Acrescente-se
a emigração de milhares de moçambicanos para trabalhar na África do
Sul, Rodésia do Sul e -São Tomé e, ainda, epidemias, fomes e o
recrutamento militar para as campanhas no norte do país que, durante a
I Guerra Mundial, causaram milhares de mortes [7].
3.2 Distribuição da população e função das cidades.
A densidade da população era muito variável, sendo as províncias de
Nampula e Zambézia e algumas zonas do litoral doutras províncias as
mais populosas, com uma densidade que oscilava entre 10 e 30 habitantes
por quilómetro quadrado.
No fim dos anos 20, a esmagadora maioria da população moçam
bicana vivia nas zonas rurais. Em 1930, apenas cerca de 100 mil pessoas
viviam em centros urbanos. Este número dividia-se entre Lourenço
Marques, com 42.779 habitantes, Beira, com 23.694, Inhambane, com
10.563, Quelimane, com 9.288 e Ilha de Moçambique, com 6.898
habitantes.
De um modo geral, foi a nova dinâmica colonial do período
imperialista que fez crescer as cidades, como portos e terminais de
caminhos de ferro, e centros de administração, comércio e indústria.
Desde o início do novo período que as cidades se caracterizavam pela
coexistência de duas áreas distintas: o centro de administração, comércio,
etc., e os subúrbios, que se formaram à medida que as cidades foram
Moçambique, 1885-1930
crescendo. Na primeira, vivia a população branca e um reduzido número
de negros, indianos, chineses e mulatos, que formavam o conjunto dos
funcionários, dos comerciantes e primeiros industriais, dos profissionais
independentes e dos artesãos e operários. Nos subúrbios, viviam os
trabalhadores braçais da construção civil e aterros, das obras públicas,
do porto e dos caminhos de ferro. Esta população constituía o efectivo
dos trabalhadores de carácter permanente nas cidades.
A medida que o sistema de trabalho forçado se ,ia consolidando,
trabalhadores migrantes, recrutados nas zonas rurais, e recebendo salários
extremamente baixos, eram alojados nos compounds dos vários serviços
(portos, caminhos de ferro e óbras públicas, por exemplo).
4. A estrutura social, o racismo e o proto-nacionalismo
A colonização de Moçambique no período imperialista foi dinamizada
pela burguesia europeia, nomeadamente, de Portugal, Inglaterra, França
e outros países industrializados, que deve ser considerada, evidentemente,
a classe dominante [8]. O interesse ou motivação desta classe era uma
exploração, mais directa do que anteriormente, dos recursos moçambica
nos. Foi o campesinato africano que forneceu a força de trabalho
migratório e os produtos no novo processo de acumulação do capital nas
plantações, transportes, minas e comércio rural. Esse mesmo campesinato
continuou a alimentar a família do trabalhador e ele próprio após o seu
regresso. Foi ainda esse campesinato que forneceu, através dos impostos,
uma grande parte do rendimento do governo, e comprou grandes
quantidades de produtos das indústrias portuguesas.
Podemos considerar a burguesia, que vivia na Europa, e o campesi
nato moçambicano, as principais camadas na nova estrutura colonial. A
continuação da resistência activa contra a ocupação colonial, as fugas
maciças, e a resistência contra o trabalho forçado expressam, no seu
conjunto, a continuação do conflito entre essas duas camadas.
No entanto, na evolução da nova economia colonial, emergiram
outras camadas, secundárias, mas muito importantes na vida política e
económica do país e nos conflitos que se desenvolveram nas cidades.
Emergiu muito cedo, por exemplo, uma burguesia comercial local,
baseada principalmente em Lourenço Marques, interessada no cresci-
Capítulo 1
mento da importação e exportação de produtos de e para o campesinato
e no trânsito de mercadorias de e para os países vizinhos. Os seus
interesses estavam, portanto, bastante ligados aos da burguesia na Europa
e na África do Sul.
Mais tarde, desenvolveu-se uma burguesia agrícola local, que
integrava os colonos interessados na expulsão dos camponeses das
melhores terras e a sua transformação em trabalhadores forçados sazonais
nas novas plantações e machambas. Os interesses deste grupo entraram
em conflito com os da grande burguesia e do estado colonial, especial
mente no sul do país, onde a burguesia mineira inglesa insistiu sempre
em reservar a maior parte do trabalho africano para as suas minas
sul-africanas [9].
Com o crescimento das cidades e a chegada de colonos à procura de
trabalho, emergiram duas camadas sociais: uma de trabalhadores
permanentes, qualificados e semi-qualificados, e outra da pequena
burguesia. Devido ao privilégio constitucional e legal proporcionado aos
brancos pelo regime colonial, essas camadas logo se dividiram em negros
e mestiços, por um lado, e brancos, por outro. Os brancos e não-brancos
das duas camadas supracitadas estavam igualmente interessados na defesa
dos seus lugares contra a ameaça de desemprego, em tempo de crise
económica e, sempre que possível, no alargamento das suas regalias, em
tempo de expansão. Porém, o referido privilégio constitucional assegura
va que os benefícios recaissem sempre para os brancos, frequentemente
em detrimento dos outros.
Para melhor perspectivar os conflitos dessas camadas intermediárias,
e a sua relação com as barreiras raciais que cada vez mais dividiam a
sociedade colonial, é necessário recuar um pouco na análise dos
interesses da burguesia e da política do estado colonial.
4.1 Discriminação racial na estrutura colonial
A discriminação racial era parte inerente da estrutura colonial no período
imperialista. Isto estava contido na definição, expressa na legislação,
regulamentos e instituições da colónia, da população negra como fonte
principal da riqueza na nova economia.
No fim do século XIX, os mais activos representantes do novo
colonialismo português em Moçambique, como Caldas Xavier, Antonio
Enes e Mouzinho de Albuquerque, justificaram as mais duras formas de
Moçambique, 1885-1930
extracção do trabalho da população, dizendo que o negro não era e não
devia ser igual ao cidadão português. Propuseram resolver o problema
da falta de mão-de-obra para empreendimentos capitalistas com o
trabalho obrigatório do negro.
Esta filosofia vinha concretizada na primeia legislação sobre a
divisão das terras da época imperialista, que, em 1890, mandava
reestruturar os antigos prazos da Zambézia e estabelecia que os novos
arrendatários dos prazos seriam unicamente Europeus, sendo os
'indígenas' os fornecedores do trabalho obrigatório.
Em 189 ý, foram promulgados os primeiros regulamentos do passe em
Lourenço Marques, numa tentativa de evitar a escolha livre de emprego
pelo trabalhador, impedir a sua fuga e, assim, criar uma força de
trabalho estável, com baixos salários. Estas medidas distinguiam
claramenteo cidadão do 'indígena', e obrigavam cada trabalhador
'indígena' na vila a trazer um certificado ou um disco metálico, a chapa,
com o número do seu passe. Se bem que, devido à falta de estruturas
policiais adequadas, tivessem pouco impacto no início, estes foram os
primeiros de uma série de regulamentos sucessivos para controlar, com
cada vez mais rigor, o trabalhador negro. Teoricamente os assimilados
estavam isentos do passe, mas, na prática, foram muitas vezes presos
pela polícia colonial e ameaçados com trabalho correcional [10].
Em paralelo, na administração rural, a diferenciação por raça era
também evidente no estabelecimento das circunscrições do distrito de
Lourenço Marques em 1895, com regulamentos (incluindo os relativos
ao trabalho) apenas aplicáveis aos 'indígenas', prática sistematicamente
seguida após a Reforma Administrativa de Moçambique de 1907. Desde
o início do século, tais regulamentos foram progressivamente utilizados
para assegurar o fornecimento regular de trabalho forçado dos distritos
rurais para as cidades.
Pode-se ver que as condições de luta dos trabalhadores pela defesa
dos seus interesses eram bastante diferentes segundo a raça, uma vez que
a situação política e legal do trabalhador branco era mais vantajosa. Para
além do mais, as organizações sindicais dos trabalhadores brancos foram
sendo gradualmente autorizadas pelo governo colonial depois de 1902,
legitimação que não foi extensiva aos trabalhadores negros. Em 1926, o
regime colonial consolidou a legislação discriminatória referente às
posições política, civil e criminal da maioria dos moçambicanos,
Capítulo 1
confirmando o que administrativamente veio a ser chamado o 'indigena
to', para referir a situação 'especial' do povo perante a constituição
portuguesa.
4.2 A luta dos trabalhadores brancos e o reforço das barreiras raciais
Incluídos como plenos cidadãos na constituição política de Portugal, os
trabalhadores brancos não deixaram de lutar em defesa dos seus lugares,
salários, e melhores regalias. Esta luta significava que os salários e
condições dos outros trabalhadores iam piorando, porque a burguesia,
aliciando os colonos com concessões vantajosas, procurava sistematica
mente recuperar os custos ao nível dos outros escalões, diminuindo
salários, utilizando mais trabalho forçado, etc. Desta maneira, os
trabalhadores brancos conseguiram obter sempre os melhores postos de
trabalho.
No entanto, a luta agudizou-se na crise económica que assolou o país
durante e depois da I Guerra Mundial. Com a justificação de que havia
cidadãos desempregados, os trabalhadores brancos, apoiados nas suas
organizações, reclamaram, com certo sucesso, a adopção dessas barreiras
raciais no acesso aos postos de trabalho que exigiam menos habilitações
e, consequentemente, o afastamento dos outros trabalhadores. Assim, na
década de 20, por exemplo, o lugar de guarda-retretes já era considerado
um emprego para brancos em alguns sectores de trabalho.
As desvantagens políticas e legais dos trabalhadores negros não
impediram que lutassem por melhoria de condições; só que as greves e
protestos por eles organizados, encontraram uma repressão policial
sistemática e a utilização de trabalhadores forçados como fura-greves. A
luta dos poucos assimilados, através dos jornais, também encontrou
pouco sucesso contra o avanço dos trabalhadores brancos.
Devemos dar ênfase ao facto de que não se trata aqui de um racismo
proveniente da ideologia pessoal dos trabalhadores brancos: o racismo
institucionalizou-se na sociedade colonial porque a-maioria da população
foi definida como objecto principal da exploração pela burguesia, e
porque a nova estrutura colonial só permitiu a um sector dos trabalhado
res, os brancos, que lutasse pela defesa dos seus interesses, através da
criação da sua própria imprensa e organizações sindicais [11].
Moçambique, 1885-1930
4.3 A pequena burguesia moçambicana, assimilação e educação
Podemos considerar que, no início do período imperialista, a pequena
burguesia moçambicana consistia em famílias e indivíduos de várias
origens e posições sociais. Havia, por exemplo, um reduzido número de
comerciantes africanos que abasteceriam a cidade de Lourenço Marques
com mercadorias, como alimentos, carne, peixe e lenha, de produção
camponesa. Por outro lado, havia um pequeno grupo de famílias
mestiças, relativamente ricas, descendentes dos grandes caçadores e
comerciantes brancos que tinham explorado os recursos do sertão de
Lourenço Marques desde cerca de 1820. Estas famílias, ultrapassadas
pelo fim do comércio de marfim, entraram noutros campos económicos
mais apropriados às exigências da nova economia regional, nomeada
mente, o recrutamento de trabalhadores, comércio a retalho, e compra e
venda de imóveis [12]. Em terceiro lugar, havia um pequeno número de
mulatos e negros que ocupavam posições importantes no serviço militar
e funcionalismo público [13].
A proeminência social dessa pequena burguesia deve-se ao facto de
que, no período pre-imperialista, as condições sócio-económicas e a
atitude do poder colonizador em relação às famílias mestiças e à
assimilação dos negros, eram diferentes do que viriam a ser no período
entre 1885 e 1930. De facto, antes de 1885, isto é, antes da imigração
de grande número de colonos brancos para Moçambique, as famílias
mestiças e os assimilados negros tiveram um papel importante na
expansão do comércio, administração e cultura portugueses em Moçambi
que.
Por esta razão, antes de í885, a teoria de 'assimilação', segundo a
qual os africanos deveriam s- governados pela mesma lei e condições
que se aplicavam a cidadãos portugueses, teve alguma expressão real
para uma reduzida minoria em Moçambique.
Depois de 1885, este quadro sofreu consideráveis alterações. Uma
breve análise da estrutura do comércio mostra como a emergente
estratificação nacional e racial resultou na exclusão da pequena burguesia
moçambicana. A expansão dos principais portos e cidades e a conquista
das zonas rurais resultaram numa onda de migração de colonos brancos
à procura de oportunidades nos vários ramos de comércio. A pequena
burguesia branca de origem portuguesa tentou sempre utilizar os seus
privilégios políticos na luta para assegurar as melhores posições.
Capítulo 1
Deve-se notar, contudo, que a discriminação em beneficio de portu
gueses contra os já estabelecidos comerciantes asiáticos, frequentemente
reclamada por pequenos comerciantes brancos, foi difícil. Interessadas na
rápida expansão do comércio rural de vinho (de Portugal) e têxteis (da
India e Portugal), as burguesias inglesa e portuguesa defenderam os
indo-britânicos, cujo acesso ao oapital comercial, rede de contactos no
litoral e competência de negócios lhes davam grandes vantagens na
promoção das vendas nas zonas rurais. Por outro lado, o comércio de
trânsito para países vizinhos já era dominado por firmas estrangeiras,
maioritariamente inglesas.
Na concorrência pelo aproveitamento das restantes oportunidades, a
nascente pequena burguesia moçambicana foi colocada na defensiva pela
agressividade política dos aspirantes portugueses e pelas acções das
instituições coloniais. Por exemplo, através de um sistema de licenças
oficiais, a Câmara Municipal de Lourenço Marques impôs controles
discriminatórios que, cada vez mais, impediram aos comerciantes
africanos o acesso ao mercado central, em beneficio, dos brancos, que
passaram a controlar, em grande parte, o abastecimento da cidade. A
divisão discriminatória das melhores terras nos arredores foi' também
utilizada para assegurar a acumulação dos estrangeiros. Desta forma, no
comércio, a pequena burguesia moçambicana foi efectivamente bloquea
da, restando-lhe, em geral, a possibilidade de ocupar posições subalternas
no emprego, em firmas não-portuguesas.
Além disso, no crescente aparelho estatal, os postos de emprego
foram cada vez mais reservados, na prática, aos brancos,e mesmo
aqueles mulatos e assimilados que já ocupavam lugares de importância,
para além de sofrerem exclusão na vida social, corriam o risco de serem
discriminados através da reforma antecipada, sendo os seus lugares
ocupados por brancos [14].
A nível constitucional também, a pequena burguesia moçambicana
encontrou reveses. Como referimos, o estado colonial, levado por
imperativos de desenvolvimento económico capitalista e, em particular,
pela necessidade de criar uma força de trabalho muito barata e bastante
controlada, elaborou uma série de leis, regulamentos e instituições
discriminatórias que visavam a definição e identificação da população
colonizada como 'indígenas'.
No que diz respeito aos assimilados e mulatos, esta legislação foi
Moçambique, 1885-1930
completada em 1917 por uma medida estabelecendo que, teoricamente,
estes também teriam de ser portadores de um documento comprovando
o seu direito a cidadania portuguesa e que não eram 'indígenas'. Embora
revogada em 1921, foi incorporada na consolidação geral da legislação
em 1926, e representava para os mulatos e assimilados a prova final de
que o estado colonial pretendeu legalizar e reforçar a discriminação, na
base de raça, entre eles e os brancos. É de notar que este conjunto de
legislação contrariou as ideias de assimilação apregoada do século
passado e que 'assimilação', como termo oficial, tornou-se uma
justificação deológica do colonialismo, através da qual se pretendia
esconder as barreiras raciais (racismo institucionalizado).
A evolução da pequena burguesia moçambicana foi também
influenciada pela forma de educação disponível e, particularmente, pela
expansão das igrejas protestantes. Com efeito, não obstante a discrimina
ção cada vez mais institucionalizada na estrutura social e a determinação
do regime colonial de limitar as aspirações sócio-políticas do povo
moçambicano, o sistema de ensino não se orientou por um plano rigoroso
ou padrão uniforme no período 1885-1930.
Por um lado, desde o início do período imperialista, colonialistas
como Antenio Enes e Mouzinho de Albuquerque, advogaram abertamente
um sistema racista de ensino em que a educação para os negros fosse
restringida h formação de trabalhadores manuais, necessários ao
desenvolvimento capitalista da colónia. Esta forma reduzida de educação
era já sinónimo de 'civilização'. Por isso, Mouzinho escrevia em 1898:
"O que melhor temos a fazer para educar e civilizar o indígena é desen
volver praticamente as suas aptidões do trabalho manual e aproveitá-lo para
a exploração da província" [15].
De igual modo, o Governador-Geral de 1906 a 1910, Freire de Andrade,
preocupando-se com o problema das dívidas da colónia e com a
necessidade de um desenvolvimento rápido da economia, apesar das
escassas fontes de capitais, concluiu que a única educação a dar ao negro
seria aquela que fizesse dele um trabalhador.
No que diz respeito ao ensino das massas, predominavam para a
maior parte deste período as missões cristãs não-portuguesas (protes
tantes), que se estabeleceram após 1880, a partir de sedes nos territórios
vizinhos. Desde 1881, os missionários metodistas da Junta Americana
Capítulo 1
para Missões no Estrangeiro [16] tentaram fundar várias missões na
Província de Inhambane, e abriram uma em Mount Selinda (na então
Rodésia do Sul), que tinha uma dependência em Gogoi na Província de
Manica. A partir de 1890, a Igreja Metodista Episcopal Americana
substituiu as missões da Junta em Inhambane. Em 1882, missionários
protestantes anglicanos (da Inglaterra) começaram a trabalhar na
Província do Niassa, onde mais tarde abriram a missão de Messumba,
estabelecendo outras missões no sul, a partir de 1890. A Missão Suiça
(presbiteriana), que, em 1887, fundara a sua primeira estação em Rikatla
(cerca de 20 quilómetros de Maputo) e, em 1891, estabelecera um
missionário na corte real de Gaza, tinha 5 missões nas províncias de
Maputo e Gaza por volta de 1930.
Até cerca de 1882, a Igreja Católica só mantinha paróquias que se
destinavam aos europeus, goeses e assimilados. Depois começou também
a fundar missões em meios africanos. Em 1911, havia aproximadamente
15 missões católicas, localizadas nos centros principais de Moçambique.
No mesmo ano, fundou-se em Portugal o Instituto Nacional de Missões,
com o objectivo de travar a expansão das missões protestantes. Na
década de 20, o estado português passou a ajudar activamente a Igreja
Católica. Estabeleceram-se, assim, entre 1911 e 1930, 27 novas missões
nas províncias de Maputo, Zambézia, Tete e Nampula. No fim da década
de 20, o número de crianças nas escolas católicas tinha finalmente
ultrapassado o número de inscritos nas escolas protestantes [17].
As divergências que se semearam através da expansão das igrejas
missionárias não se restringiram somente à religião. Atingiram uma das
bases fundamentais da cultura moçambicana, a língua. Enquanto em geral
as missões católicas utilizavam apenas a língua portuguesa, que foi
considerada pelos colonizadores um veículo da legitima dominação
cultural, as missões protestantes ensinavam, muitas vezes, na língua da
zona em que operavam.
Para uma rápida expansão do ensino destas missões em línguas
africanas teria contribuído a publicação dos livros em Ronga por Roberto
Mashaba, entre 1885 e 1893 [18], e a tradução da Bíblia do inglês para
o xitsua, iniciada pelos metodistas americanos Wilcox e -Richards,
auxiliados por Tizora Navess e David Maperre, e concluída por M.M.
Sicobele, entre 1901 e 1908 [19]. É também sabido que, na mesma
altura, as missões suiça e metodista fizeram o mesmo para o Ronga [20].
Moçambique, 1885-I930
As actividades das missões protestantes, aliadas às suas fortes
ligações com as colónias inglesas vizinhas, deram lugar a protestos por
parte de colonialistas portugueses, que as acusaram de influenciar o povo
moçambicano no sentido de uma 'desnacionalização', em relação ao
colonialismo e cultura portugueses. Com efeito, alguns dos moçambica
nos protestantes, que optaram, em geral, por postos de emprego nas
firmas privadas não-portuguesas [21], constituíram um novo e distinto
elemento da pequena burguesia nascente na cidade de Lourenço Marques,
no período entre 1885 e 1930.
4.4 Ultimos focos de resistência militar e o início do proto-naciona
lismo
Após a resistência e a subsequente derrocada do apotentado estado de
Gaza, que constituía a maior ameaça ao plano de ocupação colonial, no
sul de Moçambique, alguns membros de proeminentes famílias de Gaza
refugiaram-se no Transval. A prisão, seguida da deportação do grande
imperador Ngungunhana para os Açores, teria também suscitado a
vontade de voltar a pegar em armas para enfrentar de novo o usurpador.
Muitos eram, porém, os óbices à tamanha proeza, erguendo-se, em
primeiro lugar, a supremacia militar incontestável do inimigo e, em
segundo, a progressiva tomada de consciência dos derrotados de que a
oposição à ordem imposta por Portugal nunca mais podia, no futuro,
basear-se exclusivamente nas instituições tradicionais, seculares e
religiosas.
A derrota da rebelião de Barué de 1917 [22], que marcou o fim das
sublevações armadas segundo moldes sócio-políticos tradicionais em
Moçambique e África Austral, e a ocupação do planalto dos Makonde em
1919-1920, confirmaram mais uma vez essa convicção. [23].
No entanto, a evolução da nova estrutura sócio-económica após 1885
levou a adopção de novas formas de contestação ao colonialismo. Essa
contestação não se baseava numa ideia desenvolvida de nacionalidade
moçambicana nem da reclamação de independência; não foi unificada
nem coerente, e as formas em que evoluiu foram claramente influencia
das pelo colonialismo. Por outro lado, as ideias e acções revelavam, às
vezes, uma certa independência de pensamento em relação ao colonialis
mo, e contribuíram fundamentalmente para a sobrevivência da cultura
moçambicana. Por estas razões, podemos consideraressa contestação
Capítulo 1
como uma contribuição para o proto-nacionalismo, isto é, para os
antecedentes do nacionalismo moçambicano moderno.
A investigação histórica deste assunto até agora feita não nos permite
um tratamento aprofundado. Contudo, podemos constatar que uma das
influências que mais contribuiu para o desenvolvimento de novas formas
de contestação foi a expansão das missões, particularmente as missões
protestantes, e a educação que ofereceram. Para além do problema de
'desnacionalização', a que já referimos, do ponto de vista do regime
colonial, a au.;ência de controle do corpo docente, dos currículos e dos
manuais nas missões protestantes fez com que a formação e exigências
dos seus -beneficiários fossem incompatíveis com a dinâmica capitalista
colonial, assente sobre a exploração de massas pacificadas. Estes
indivíduos formados não aceitaram as normas de tratamento dos
trabalhadores braçais. Segundo o Administrador de Homoíne, na dé&ada
de 20:
"Na província de Moçambique, . superabundam em todos os distritos os
nativos 'letrados' - os assimilados, os quais não podendo ser todos atendidos
nas suas reclamações pelo direito de serem considerados aptos e nomeados
para qualquer lugar público, já pretendem associar-se em agremiações de
classe, e fundar jornais para atacar os poderes constituídos, não tardando
muito que reclamassem o direito de fazer propaganda política nacionalista,
atacando e injuriando a raça europeia, a semelhança do que tem sucedido,
e está crescendo nas colónias inglesas nossas vizinhas [241.
Estas atitudes de contestação foram evidentes entre o pessoal moçam
bicano das igrejas protestantes, cujos catequistas eram considerados, por
oficiais coloniais, "os mais insubordinados, os mais avessos ao trabalho,
os menos aproveitáveis de todos os 'indígenas"' [25].
As igrejas 'separatistas'
De facto, a rejeição da subordinação manifestou-se com mais clareza nas
principais igrejas protestantes, que se separaram das missões religiosas
europeias, o que testemunha a consciência de religiosos moçambicanos
da necessidade de basear o seu desenvolvimento ideológico na cultura
tradicional.
A primeira foi a African Gaza Church, fundada em 1907 por
Benjamin Mavadhla e outros moçambicanos residentes no Transval, que
Moçambique, 1885-1930
se separaram da Igreja Wesleyana. A identificação dos seus membros
com o antigo Império de Gaza manifestou-se numa justificação citada por
Mavadhla para a fundação da Igreja, nomeadamente, a referência bíblica
à palavra 'Gaza'. Não foi por acaso que, a esta Igreja, estava associado
o nome de Simião Godide Nqumayo, o herdeiro da linhagem real de
Gaza, que vivia em Pissane, Transval, "rodeado de muitos filhos dos
emigrados a seguir a captura de Ngungunhane em 1895" [26]. Segundo
a sua própria documentação, a Igreja teve sucursais noutras partes da
África do Sul e foi transplantada para a colónia de Moçambique em
1913 [27].
A informação citada, acrescentada aos conhecimentos relevantes da
história da África do Sul, mostra que as circunstâncias que conduziram
à formação da Igreja foram:
i) a conquista portuguesa de Moçambique e a penetração no sul do
país do capitalismo mineiro e agrícola da África do Sul, que resultou
na emigração para aquele território vizinho não só de trabalhadores
moçambicanos como também de representantes da casa real derro
tada.
ii) a necessidade do povo de -uma expressão ideológica da sua
identidade cultural e da sua resistência contra a ocupação colonial,
visto que a oposição militar frontal era impossível.
iii) a incapacidade de algumas missões em Moçambique e na África
do Sul de acomodar as tradições sócio-culturais locais dos seus
membros, de ultrapassar o racismo dentro das suas próprias institui
ções, ou de separar-se suficientemente da dominação política
colonial.
Foi em circunstâncias ,emelhantes que Sicobele, a quem já nos
referimos, se desligou da Missão Metodista Americana em Morrumbene,
Inhambane, e juntou-se a Victor de Sousa, então funcionário da adminis
tração em Inhambane, para fundar, em Janeiro de 1918, a Igreja
Episcopal Luso-Africana de Moçambique. Sicobele, segundo suas
palavras, fê-lo por "não querer servir mais os estrangeiros..." [28], isto
é, colonos portugueses e doutras nacionalidades.
De facto, os desígnios divergentes dos dois fundadores não tardaram
a desenvolver-se nos anos seguintes. Sousa participou na fundação da
Capítulo 1
Igreja "para combater, como diz, a 'desnacionalização' dos indígenas que
emigravam, e bem assim a influência das -missões evangélicas' estrangei
ras que contribuíam para essa 'desnacionalização"' [29]. Esta posição é
bem patente no relatório da sua II conferência anual que se realizou em
Novembro de 1924, no qual, inter alia, se afirmava:
"Os nativos súbditos de Portugal, vendo que os estrangeiros enviam seus
mi§sionários propagandistas em grande número a esta colónia, resolveram
fundar uma associação religiosa cristã Episcopal Egreja LusoAfricana [sici
de Moçambique, genuinamente portuguesa, para defender a soberania e a
Pátria" [301.
Sousa fundara a Igreja com o intuito de combater a 'desnacionaliza
ção' em relação a Portugal. Sicobele, no entanto, recusando a língua
portuguesa, e escrevendo em xitsua e inglês, elaborou a história dos Tsua
sublinhando a sua antiguidade e a igualdade com a dos outros povos [31].
Analisando pormenorizadamente o texto de história de Sicobele,
suscitam-se-nos duas ideias fundamentais. A primeira é que o autor
recusa a inferioridade imposta e apregoada pelos colonizadores e
reivindica a igualdade. Trata-se de um caso raro no proto-nacionalismo
moçambicano, pois, enquanto muitos escritores e poetas exprimiram a
sua revolta na língua do colonizador, desprezando as línguas nacionais
[32], Sicobele fê-lo na sua língua materna e, no desejo de que a sua obra
pudesse transpor as fronteiras, escreveu-a também em inglês.
A segunda, a mais importante, que constitui o objectivo final da sua
contestação cultural e que confirma a sua posição patriótica, é dada pelo
slogan A África é dos Africanos, que encontrou o seu eco em Lourenço
Marques, em 1919, um pouco depois da fundação da nova igreja. Este
reforça ainda a sua decisão de não querer servir mais os estrangeiros. Por
esta razão, um investigador colonial concluiu, mais tãÈde, que o texto "é
um 'maná' para a propaganda nacionalista" [33]. A discórdia e a
disparidade de desígnios entre Sousa e Sicobele teria sido a causa
principal da cisão em 1925, após a qual Sousa fundou a Igreja Nacional
Etiópica Moçambicana [34].
O movimento associativo e literário
Neste período, na história do movimento associativo e literário de
Lourenço Marques manifestou-se uma contestação do colonialismo em
Moçambique, 1885-1930
várias questões [35]. Em geral, a sua posição foi reformista, no sentido
de que advoga melhoramentos dentro do sistema colonial. Desde o início
da sua actividade, protestou, por exemplo, contra a insuficiência da
educação proporcionada aos não-brancos pelo estado colonial. A elite
moçambicana, cada vez mais discriminada na colocação de empregados
no aparelho colonial e nas empresas, quis melhorar a qualidade e nível
de ensino para concorrer melhor com os imigrantes europeus e asiáticos.
Mais tarde, reclamou contra a intensificação das barreiras raciais no
sistema educacional em si, particularmente, contra o estabelecimento de
um colégio europeu pela Igreja Católica [36].. Reivindicou a cessação
total da imigração de estrangeiros, quer europeus, quer asiáticos, que
ocupavam postos de emprego em detrimento dos moçambicanos. Em
relação à vida económica do país, reclamou contra os abusos do trabalho
forçado, e reivindicou uma maior valorização económica dos camponeses
como produtores 137].
Ao nível político, o Grémio Africano e o seu jornal, O Brado
Africano, deram ênfase aos direitos civis que a Constituição portuguesa
republicana garantiu, teoricamente,sem discriminação de raça, a todos
os indivíduos que tivessem adoptado os usos e costumes da gente
'civilizada'. O lema do Grémio Africano era "Somos portugueses". A sua
explicação para o facto evidente de que o estado colonial em Moçambi
que negava, cada vez mais, os referidos direitos aos não-brancos residia
na influência retrógada do racismo sul-africano entre os colonos
portugueses, devido à ausência de um controle efectivo a partir de Lisboa
[38]. Mostrou-se, assim, o carácter do pensamento desta fracção da
pequena burguesia na altura: não sendo desenvolvida a análise da relação
entre capitalismo, colonialismo e racismo na África do Sul e em
Moçambique, não se percebeu que, após a conquista, o estabelecimento
de uma rígida hierarquia racial contribuiu, fundamentalmente, para
manter o sistema de exploração económica nestes territórios, de que a
burguesia na Europa foi o beneficiário principal.
Com efeito, perante a debilidade económica de Portugal, em compa
ração com a Grã-Bretanha, como colonizador na África Austral, e
enganados sobre as verdadeiras bases do racismo, os principais colabora
dores de O Brado Africano advogaram um reforço da influência sócio
económica de Portugal, como o único meio de enfrentar o racismo sul
africano.
Capitulo 1
Esta linha de argumentação manifestou-se e, com uma certa
justificação na época, nas questões da independência e da possível
redivisão do território moçambicano. Deve-se notar que, em 1910, a
Grã-Bretanha concedeu independência à África do Sul sob uma constitui
ção essencialmente racista. Quando, na década seguinte, alguns brancos
reclamaram independência para Moçambique, O Brado Africano,
receando, sem dúvida, a consolidação do racismo branco nos moldes sul
africanos, argumentou com força contra tal reclamação. De igual modo,
os colaboradores de O Brado Africano receavam uma nova divisão das
colónias portuguesas em benefício da África do Sul, frequentemente
proposta no período da I Guerra Mundial, e que ressurgiu, nas décadas
seguintes [39].
Desta forma, embora criticando aspectos do colonialismo, as vezes
com acuidade, a liderança do Grémio e os principais colaboradores de O
Brado Africano defenderam a integridade do colonialismo português.
Colaboraram com algumas das suas iniciativas, como, por exemplo, a
nomeação, em 1928, sob a sua própria proposta, de um dos membros
fundadores do Grémio como propagandista agrícola, pago pelo estado
colonial, cuja tarefa era a de promover a integração do campesinato nos
planos coloniais de produção agrícola [40].
Para além disso, se bem que O Brado Africano fosse publicado com
algumas páginas em Ronga, a direcção frequentemente criticou as
circunstâncias que levaram a essa necessidade, nomeadamente, o uso das
línguas moçambicanas nas missões protestantes. Por razões semelhantes,
chegou mesmo a advogar a expulsão de missionários católicos
não-portugueses. Neste respeito, o seu pensamento era pouco diferente
do dos principais ideólogos coloniais [41].
Por outro lado, é provável que os exageros do Grémio na defesa da
cultura do colonizador, aliados à posição relativamente privilegiada dos
membros das velhas famílias mulatas, que compunham a maior parte da
direcção e dos colaboradores (que escreveram em português) do jornal,
levaram à aparência de acomodação excessiva a uma hierarquia social
colonial desvantajosa aos negros.
As divergências sócio-culturais implícitas nesta situação teriam
conduzido à cisão temporária do movimento associativo em Lourenço
Marques, nos inícios da década de 20, com a tentativa de formação de
um 'Congresso Nacional Africano', por elementos ligados às igrejas
Moçambique, 1885-1930
protestantes e outros decepcionados com o Grémio Africano. Parece que
a tentativa foi frustrada logo no início -por causas ainda
desconhecidas [42].
5. Os conflitos do período 1915-1930
Passamos a rever, com certo detalhe, os conflitos no período 1915-1930,
importantes porque mostram algumas consequências do colonialismo
português em Moçambique, nomeadamente, a sua participação obrigatd'
ria na I Guerra Mundial, os efeitos dessa Guerra para a sociedade
moçambicana e, finalmente, o conflito político sobre o futuro carácter da
exploração colonial.
5.1 A I Guerra Mundial e a crise económica e social da década de 20
Em Maio de 1915, Portugal aliou-se à Grã-Bretanha, França e Rússia na
Grande Guerra contra a Alemanha. Esta guerra exigiu a utilização de
recursos materiais e humanos não só dos países beligerantes, como
também das respectivas colónias. A Portugal foi atribuído o papel
fundamental de ajudar a Grã-Bretanha na defesa das colónias britânicas
de África [43].
Estima-se, provisoriamente, em 100 mil o número de moçambicanos
recrutados obrigatoriamente, não só no centro do país (Barué), como
também, e sobretudo, nas províncias do norte e em Inhambane. Estes
recrutados destinavam-se a engrossar o exército português, que operava
no norte de Moçambique contra as forças alemãs vindas do então
Tanganhica. Como o exército português não tinha transporte motorizado,
a vasta massa do contingente moçambicano servia para carregar material
e munições. Devido às pessimas condições de alimentação e saúde, a taxa
de mortalidade era muito alta, calculando-se que a maioria dos recrutados
terá morrido em serviço ou durante o regresso à casa, o que representou
uma perda sócio-económica considerável nas zonas rurais [44].
Logo ap6s o início da guerra, começaram a agudizar-se os defeitos
do frágil sistema económico português em Moçambique, com maior
incidência no sector financeiro. Isto traduziu-se na desvalorização
contínua da moeda (Escudo), à razão de 100 por cento entre 1914 e
1919, 200 por cento em 1920 e 600 por cento entre 1921 e 1924 [45].
Capítulo 1
Na prática, isto resultou em aumentos sucessivos do custo de vida, e na
queda dos salários reais dos trabalhadores, quer rurais quer urbanos.
Aumentou também sucessivamente o mussoco, e o imposto de palhota
que, nalgumas áreas, passou a ser exigido em libras, tanto ao trabalhador
migrante como aos outros trabalhadores locais. Diminuiu cada vez mais
a qualidade dos tecidos importados, artigo fundamental no comércio
rural.
Estes factores conduziram, por um lado, à migração para fora do
país, onde a atracção da libra esterlina e tecidos de melhor qualidade era
cada vez mais evidente e, por outro, à deserção do trabalho pouco
remunerado. Assim, agudizaram-se todos os problemas relacionados com
o recrutamento de mão-de-obra tanto pelo estado colonial, como por
empresas capitalistas. Perante esta situação, a administração colonial
intensificou rusgas para o aprisionamento de pessoas, que depois eram
enviadas para o trabalho forçado nas companhias e obras públicas.
. Por exemplo, nas províncias de Cabo Delgado e Niassa, o campesi
nato que já tinha sido sujeito à pilhagem em produtos, dinheiro e
mão-de-obra pela Companhia do Niassa, agora tinha que enfrentar uma
nova onda de exploração levada a cabo pelos empregados dessa
Companhia. Estes, recebendo cada vez piores salários em termos reais,
recorriam à agricultura, recrutando trabalhadores à força, levando a que
muitos camponeses organizassem e promovessem fugas maciças.
Calcula-se em dezenas de milhar o número de camponeses que fugiram
para o Tanganhica e a Niassalândia neste período [46].
Nas cidades de Lourenço Marques e Beira, os trabalhadores brancos,
que usufruíam de privilégios coloniais, desenvolviam as suas acções
separadamente dos trabalhadores negros, que em geral não gozavam dos
mesmos direitos e, por conseguinte, moviam uma luta paralela, embora
ilegal. Desta forma, registou-se uma série de greves em que os trabalha
dores se manifestaram activamente contra os efeitos económicos da crise.
Das greves levadas a cabo em Lourenço Marques, destacaram-se as dos
ferroviários (brancos) em 1917 e 1920, as dos estivadores (negros: 4
greves entre 1919 e 1921) e as do pessoalda empresa dos tranportes
urbanos (brancos) em 1916, 1920 e 1923 [47].
O estado colonial utilizou a estratégia de reprimir e dividir os
trabalhadores, quer negros, quer brancos, deportando os activistas
brancos em 1920, e neutralizando rapidamente as greves dos negros.
Moçambique, 1885-1930
Mas, às vezes, aliciou o reduzido número de assimilados assalariados,
garantindo-lhes algumas das regalias dos brancos.
Não obstante, a diferenciação de estatuto e tratamento dos brancos
manifestou-se bem evidente entre 1918 e 1920, ao ser concedido o paga
mento em divisas da maior parte do salário à maioria dos funcionários e
trabalhadores brancos [48].
Nos anos seguintes, a crise manteve-se e veio a tomar proporções
graves. O ano de 1925 iniciou-se num autêntico clima de agitação. Foi-se
desenvolvendo com certa intensidade uma campanha a favor dos trabalha
dores negros em Lourenço Marques, através de O Brado Africano. Este
apelava aos negros para se unirem e lutarem por um objectivo comum.
Entretanto, os atropelos à lei eram prática corrente. Em Fevereiro de
1925, mais de uma centena de trabalhadores negros recusou continuar a
prestar serviço à empresa Delagoa Bay Agency de Lourenço Marques,
alegando maus tratos e exigindo que os deixassem regressar às terras de
origem. Pelo facto foram imediatemente presos pela polícia colonial por
ordem da Secretaria dos Negócios Indígenas.
Em Junho, 300 trabalhadores negros dos Caminhos de Ferro de
Lourenço Marques reuniram-se junto à Casa dos Trabalhadores,
manifestando-se contra o não pagamento de um aumento salarial
estabelecido pelo governo no ano anterior. Entretanto, em todos os
sectores de actividade continuavam a verificar-se as mais flagrantes
injustiças, desde violações às revisões salariais até ao despedimento
injustificado de trabalhadores.
Foi certamente animada pelo clima de descontentamento e agitação
que pairava sobre a cidade de Lourenço Marques que se deu em 13 de
Agosto de 1925 a greve dos trabalhadores da Delagoa Bay Development
Corporation Limited, empresa concessionária de diversos serviços
urbanos (água, energia eléctrica e transportes públicos). Os grevistas
lutavam pela actualização de vencimentos.
Em Setembro de 1925, começou a greve dos estivadores negros do
porto da capital, reivindicando aumentos salariais e melhores condições
sociais, seguindo-se a greve dos trabalhadores ferroviários e portuários
brancos, em defesa dos seus interesses e privilégios, o que veio a trans
formar-se em greve geral. Iniciada em 11 de Novembro, a greve só viria
a terminar em Março de 1926, tendo obrigado o governo a declarar o
estado de sftio na cidade. Finalmente, o governo colonial neutralizou a
Capítulo 1
greve; foram presos e deportados para vários pontos de Moçambique os
principais dirigentes grevistas.
Em Agosto de 1925 estalou uma greve geral na Beira. Tratou-se da
paralisação geral e concertada de trabalhadores, funcionários e pequenos
empresários brancos, em protesto contra uma série de medidas decretadas
pela administração da Companhia Majestática. Assim, em 7 de Agosto,
entraram em greve os comerciantes, protestando contra o controle de
divisas por parte da Companhia, seguindo-se-lhes, por idêntico motivo,
os pequenos agricultores colonos. Os funcionários da Companhia
entraram em greve em 2 de Setembro, exigindo uma compensação
salarial que cobrisse a depreciação da moeda e a alta do custo de vida,
entre outras reivindicações. A situação só voltaria à normalidade a 10 de
Setembro, tendo os grevistas conseguido uma vitória quase total, embora
temporária [49].
5.2 0 conflito sobre as bases da política colonial em Moçambique
Na década de 20, para além dos conflitos entre a burguesia, por um lado,
e o campesinato e os trabalhadores, por outro, desenvolveu-se também
um conflito político cada vez mais aberto entre a burguesia metropolitana
e uma parte da burguesia radicada em Moçambique, nomeadamente os
machambeiros colonos. A diferença não residia, obviamente, na questão
da exploração de mão-de-obra moçambicana, mas sim na maneira
específica de o fazer.
Os machambeiros colonos viam com bons -olhos a política económica
da África do Sul e da Rodésia do Sul para com a capitalização da
agricultura colona. Tendo conhecimento dos apoios financeiros e em
infraestruturas (divisão sistemática das terras, comunicações, investiga
ção, ajuda de especialistas, etc.) oferecidos pelo estado naqueles países
vizinhos, exigiam do estado colonial português benefícios semelhantes.
Pensavam, assim, enriquecer através de uma maior utilização da
mão-de-obra moçambicana em plantações, propriedades agrícolas, criação
le gado e outros empreendimentos, especialmente no sul do país.
Este projecto contrariava o já estabelecido interesse da burguesia
portuguesa e inglesa em fazer uma acumulação, mais rápida e mais fácil,
através da exportação de mão-de-obra, evitando, assim, grandes investi
mentos fora das zonas mais acessíveis do litoral do país.
No entanto. P voz dos machambeiros colonos era também a voz de
Moçambique, 1885-1930
alguns nacionalistas portugueses, que depois da onerosa participação de
Portugal ao lado da Grã-Bretanha na I Guerra Mundial, queriam apro
veitar-se dessa aliança para procurar capitais ingleses que melhor
financiassem uma colonização verdadeiramente portuguesa em Moçambi
que, em lugar do sistema tão generalizado de trabalho migrat6rio em
beneficio de outros. Queriam ainda enfrentar as pretensões sul-africanas
de ingerência activa no sul do país, justificada pela alegada incapacidade
dos portugueses de promover o desenvolvimento de Moçambique [50].
Com efeito, a experiência da década de 20 na cultura de algodão, a
matéria-prima mais procurada pela indústria portuguesa, mostrava as
desvantagens e os altos custos dos ambiciosos empreendimentos agrícolas
projectados pelos machambeiros colonos. Encorajados pelas altas
cotações mundiais e pelas experiências iniciais nas províncias de Maputo
e Inhambane na campanha de 1920-1921, alguns colonos e pequenos
empresários adquiriram concessões de terras para a cultura de algodão.
Por volta de 192415, cerca de 200 colonos cultivavam algodão em cerca
de 13.000 hectares nessas zonas. Tres fábricas de descaroçamento foram
construídas no mesmo período, na expectativa de bons resultados. Porém,
uma combinação de cheias, de uma praga de insectos e da seca de 1925/6
fizeram ruir as esperanças dos colonos, que recorreram ao governo para
assistência do estado.
O governo colonial convidou um especialista em algodão
norte-americano, para estudar o potencial da Colónia neste ramo de
produção. Concluiu, no seu relatório, que era impossível justificar a
continuação da cultura de algodão em regime de plantações colonas,
porque:
i) em comparação com os outros produtores, como os E.U.A. e o
Egipto, por exemplo, não existiam nem o apoio estatal na comerciali
zação, nem o conhecimento científico dos solos e da selecção das
plantas, essenciais à cultura intensiva de algodão;
ii) a pluviosidade no sul do país era pouco segura. Esses factores
explicaram a reduzida produtividade e rentabilidade dessa cultura em
regime de plantações.
Por outro lado, como reconheceu o relatório, a produção de algodão
por camponeses africanos nos seus próprios terrenos sob a supervisão
global europeia já tinha sido bem sucedida no ano 1925/6 no norte do
Capítulo 1
país, particularmente na província de Nampula. Exigindo poucos
investimentos de capitais ou pagamento de salários, a produção campo
nesa de algodão seria mais realista; a reduzida produtividade por hectare
seria contrabalançada pelo grande número de produtores.
Esta experiência levou a burguesia portuguesa a decidir pela segunda
modalidade. Isto é, em vez de apoiar os machambeiros colonos com
grandes investimentos e empréstimos, adoptou a política de fomentar a
cultura do algodão através de uma exploração mais directa do camponês,
deixando à comunidaderural os riscos de tal produção (mau tempo, falta
de apoio técnico, ausência de conhecimentos, etc.).
5.3 0 golpe militar de 1926 em Portugal e a sua repercussão em
Moçambique
Em 26 de Maio de 1926, deu-se um golpe de estado militar em Portugal,
apoiado de imediato por vastos sectores da burguesia portuguesa. Esta,
agindo sobre os chefes militares agora no poder, pretendia que lhe fosse
aberto todo um campo de manobra para as suas ambições de acumulação
mais rápida. Em Moçambique, um dos resultados do golpe foi o reforço
das posições dos representantes da burguesia portuguesa, quer no estado
colonial, quer nas grandes companhias, mesmo contra os trabalhadores
e machambeiros brancos.
Assim, em meados de 1926, a Companhia de Moçambique começou
a retirar algumas das concessões feitas aos trabalhadores brancos no ano
anterior. Esta actuação provocou mais uma greve que, iniciada em 20 de
Setembro, paralisou os mais importantes sectores de actividades na Beira,
transformando-se em autêntica greve geral. Com ela se solidarizaram
muitos dos trabalhadores negros do porto da Beira. Desta vez, a resposta
da Companhia e do governo foi mais firme. Proclamou-se o estado de
sítio em todo o território de Manica e Sofala por ordem do Governador
Geral da colónia, e as principais circunscrições foram entregues a
autoridade militar. Entretanto, a Companhia começou a demitir trabalha
dores. Face à acção determinada do governo e da Companhia de
Moçambique, a greve fracassou em meados de Outubro.
Ap6s as greves e protestos, o estado e a burguesia portuguega
estavam mais conscientes da força que começava a representar a classe
trabalhadora. O estado colonial, utilizando todos os recursos disponíveis
do seu aparelho repressivo, conseguiu quebrar a onda de conflitos
Moçambique. 1885-1930
abertos. Com a repressão da greve geral da Beira em 1926, tornou-se
claro para os trabalhadores em geral o que seria o futuro polftico sob as
rédeas da ditadura militar implantada em Portugal. Por outro lado,
reforçou-se a política de protecção aos trabalhadores brancos a nível de
postos de trabalho e salários, contra uma possível infiltração dos negros
e assimilados. Além disso, o estado português comprometeu-se, através
da sua própria política económica, a desenvolver a estabilidade cambial
e orçamental, favorável às reclamações dos empresários e, também, dos
trabalhadores brancos.
A partir de Outubro de 1926, foram promulgadas leis que revelaram
a intenção do novo regime de estreitar as relações entre as colónias e a
Metrópole, corrigindo a fraqueza das relações económicas existentes até
então. Para o efeito, propôs-se a imposição de um controle mais directo
e rigoroso sobre os recursos das colónias. Isto seria feito através de
várias medidas, entre as quais podemos destacar a unificação territorial,
que significou a abolição do sistema de Companhias Majestáticas e de
arrendamento dos prazos. De facto, o contrato da Companhia do Niassa
não foi renovado quando atingiu o seu termo em 1929, passando este
território, bem como as zonas dos prazos, para a administração directa
do estado colonial no ano seguinte.
Procurando meios para assegurar a pequena indústria têxtil portu
guesa com um fornecimento regular da matéria-prima a preços baixos,
e em conformidade com o princípio de estabelecer controlo directo a
nível da produção, o novo governo português actuou com rapidez em
relação à cultura do algodão. Baseando-se na experiência da cultura de
algodão em Moçambique até 1925, promulgou a lei de Novembro de
1926, que estabeleceu as normas do futuro sistema de produção
camponesa de algodão. Segundo esta lei, que viria a vigorar até 1961, o
governo faria concessões de grandes zonas a companhias que se
comprometeriam a erguer uma fábrica de descaroçamento e um armazém
em cada zona, bem como a fornecer sementes à população camponesa.
Esta devia encarregar-se de todas as fases da cultura, sendo, depois da
colheita, obrigada a vender a produção às mesmas companhias a um
preço determinado pelo governo. Assim, verificava-se um lucro duplo:
o da companhia concessionária, através da comercialização e transforma
ção parcial (descaroçamento) do produto camponês, em Moçambique, e
o da indústria têxtil, em Portugal.
Capítulo 1
Embora o sistema então proposto só viesse a atingir o seu apogeu
mais de doze anos mais tarde, significou um golpe decisivo nos projectos
de fixação de grande número de machambeiros colonos. Além disso, o
novo sistema indicava já que o desenvolvimento agrícola de Moçambi
que, no futuro, seria rigorosamente controlado a partir de Lisboa, e
baseado numa exploração directa do campesinato.
Outras acções do novo governo militar contribuíram para reforçar as
posições da burguesia portuguesa e inglesa em Moçambique. Por
exemplo, pouco depois do golpe, Portugal concedeu um grande
empréstimo financeiro a Moçambique para cobrir dívidas externas. De
facto, isto fãcilitou crescentes importações de vinho português, que
aumentaram de 3.082.315 litros em 1926 para 6.758.601 litros em 1930.
Como corolário, abandonou-se o projecto de encontrar capitais
ingleses para o desenvolvimento do sul de Moçambique e assinou-se, em
1928, uma nova convenção com a África do Sul. Nela ficou acordado o
repatriamento cumpulsivo dos migrantes, depois de um contrato de 18
meses, e um sistema de pagamento diferido, pelo qual cerca de metade
do salário do trabalhador era pago pelas minas ao governo de Moçam
bique em divisas, sendo o trabalhador reembolsado em escudos, no seu
regresso.
Este acordo deu grandes vantagens à burguesia portuguesa. Por um
lado, fez diminuir a tendência dos mineiros ficarem permanentemente na
África do Sul, tendo então que regressar para receber o seu salário
completo. Por outro, duplicou o rendimento da Colónia, em divisas, do
trabalho mineiro. Isto significou um aumento do poder de compra da
Colónia, quer dos regressados nas lojas rurais, quer do governo no
mercado mundial [51].
Em conformidade com a estratégia do Estado Novo para encontrar
meios para uma exploração mais eficiente da força de trabalho moçambi
cana, a política laboral colonial foi outro objecto da atenção do governo
português, que procedeu a uma consolidação da legislação laboral.
Além disso, o aparente contraste nas condições de recrutamento e
trabalho entre Moçambique (e Angola) e os outros territórios da região
levou a forf-s críticas internacionais à incapacidade do governo português
de melhorar as condições de trabalho nas suas colónias. Por exemplo, o
relatório feito pelo. sociólogo americano, E.A. Ross, apresentado à
Comissão Temporária da Liga das Nações em 1925, levou ao público
Moçambique, 1885-1930
europeu exemplos concretos das péssimas condições de trabalho nas
colónias portuguesas. O governo português procurou melhorar a sua
imagem junto das outras potências colonizadoras, apresentando-se
simultaneamente como um país capaz de impor, a partir da metr6pole,
um nível de eficiência na sua administração colonial igual ao dos seus
aliados, nomeadamente, em matéria de política 'indígena' e laboral.
Por estas razões, em 1928, foi promulgado o novo Código de
Trabalho dos Indígenas nas Colónias Poruguesas, completado para
Moçambique por um conjunto de regulamentos em 1930. Esta legislação
proibiu, teoricamente, o uso de trabalho forçado nas plantações e
machambas privadas, cujos proprietários teriam que observar novas
regras sobre as condições de trabalho (acampamentos e comida adequa
dos, protecção da saúde, etc.). No entanto, a mesma legislação, baseada
nos princípios da discriminação racial entre 'indígena' e "não-indígena',
justificou o trabalho forçado para o primeiro, pelo menos para serviços
públicos e de interesse nacional e, no caso de fuga ao imposto, para as
plantações e machambas privadas. Para além disso, como veremos nos
próximos capítulos, os proprietários podiam aproveitar-se facilmente das
omissões nos regulamentospara diluir aspectos aparentemente positivos
da legislação. Na prática, as condições de recrutamento e trabalho
continuaram a depender principalmente das relações, frequentemente
corruptas, entre os administradores distritais e as várias empresas
privadas.
NOTAS:
1. Ver HM II, pp. 114-118, 127-128, 141, 150-151, 177-184, 221-235.
2. Fstaifstica de comércio e de navegação, 1930, Lourenço Marques: Imprensa
Nacional, 1931.
3. Ver caps. 4-5 para a tendência uniformizadora da cultura forçada de algodão.
4. Calcula-se, provisoriamente, que cerca de 40 a 50% do valor final do
produto camponês ficava com este.
5. Para a parcial reestruturação da formação social 'tradicional, e a forma da
proletarização subsequente, em beneficio da economia colonial, ver, inter alia,
HM II, pp. 169-171; M. Wuyts, 'Peasants and rural economy in Mozambique',
Maputo: UEM/CEA, 1978 [Discussion paperi; UEM/CEA, O mineiro
Capítulo 1
moçambicano, Maputo: mimeo, 1979 [reedição]: 20-22, 100-135.
6. HM II, pp. 67-68, 77-82.
7. Informação fornecida por Dr. G. Liesegang.
8. HM II, caps. II e III.
9. HM II, pp. 246-247; ver, também, ponto 5.2 em diante.
10. HM II, pp. 224-225.
11. HM II, pp. 273-275.
12. J. Penvenne, '"We are ali Portuguese": Challenging the political economy of
assimilation: Lourenço Marques, 1870-1933', in Leroy Vail, [coord.], 7he
creation of:ribalism in southern Africa, Londres: James Currey, 1989, p. 261;
J. Penvenne, 'A history of African labor in Lourenço Marques, 1877-1950', Tese
de Ph. D., Universidade de Boston, 1982, caps. 1-3.
13. BA, 13.10.1928: este jornal refere, inter alia, a um '...chefe de Serviços de
Saúde por muitos anos um preto o falecido coronel médico Dr. Pedro Sérgio
Viana de Andrade; um encarregado das observações metereológicas outro preto
de Moçambique, Domingos José Ferreira, ... hoje é coronel de cavalaria
reformada ... ; um moçambicano não-branco João Fornasini que foi Governador
dos distritos de Sofala e de Lourenço Marques; agentes do Ministério Público
preto e mestiço, bachareis em direito; contador geral, sub-chefe e Inspector da
Fazenda, um moçambicano não-branco Alberto Pereira; muitos outros moçam
bicanos em lugares de destaque na administração civil, militar e da justiça...'.
14. Para este processo, ver, inter alia, J. Penvenne, 'The unmaking of an African
petite bourgeoisie: Lourenço Marques, Mozambique', Universidade de Boston,
African Studies Center, [Working Papers no. 571, pp. 3-5; Penvenne, 'Challen
ging...', pp. 16-20; BA, 14.1.1928, 21.1.1928; G. Pirio, 'Commerce, industry
and empire: the making of modem colonialism in Angola and Mozambique,
1890-1914', Tese de Ph.D., Universidade de California, Los Angeles, 1982, p.
174f.
15. Moçambique, 1896-1898, Lisboa: Manoel Gomes, 1899, p. 101.
16. American Board for Foreign Missions.
17. E. Moreira, Portuguese East Africa, London: World Dominion Press, 1936, pp.
17-19, 22-27, 40-48; a lista das missões não é exaustiva: ver idem., para outras
missões protestantes.
18. Robert Mashaba nasceu, em KaTembe, cerca de 1855. Tendo emigrado para
Durban e, depois, para a Cidade do Cabo, figurou entre os muitos moçambicanos
que trabalharam nas minas de diamantes de Kimberley. Graças às suas
economias, conseguiu, em 1882, ingressar na reconhecida escola protestante de
Lovedale (a leste da então colónia britânica do Cabo). Regressou para Moçambi
que em Fevereiro de 1885, onde aprendeu a língua portuguesa numa missão
católica em Lourenço Marques. Pelo seu próprio trabalho (por exemplo, através
de salários vencidos no caminho de ferro de Lourenço Marques-Ressano Garcia,
então em construção), fundou escolas em Komatipoort, KaTembe e Lourenço
Moçambique, 1885-1930
Marques (em 1889). A partir de 1893, foi apoiado pela Sociedade Missionária
Metodista Wesleyana. Foi, em 1894-1895, denunciado como colaborador dos
chefes da resistência ronga contra o Governo de Lourenço Marques [a chamada
revolta de Nwamantibyane], e deportado para a Ilha de Fogo (Cabo Verde). Solto
em 1902, foi, porém, proibido de regressar a sua terra natal, e passou o resto
dos anos da sua vida activa como pastor wesleyano no Transval. Morreu em
1939; ver Jan Van Butselaar, Africains, missionaires et colonialistes. Les origines
de l 'Église presbyterienne du Mozambique (Mission Suisse) 1880-1896, Leiden:
E.J. BrilI, 1984, pp. 167-175; BA, 8.9.1934, J.J. Mansidão, 'Homenagem:
Jubileu ao Roberto Mashaba'; Moreira, op. cit., pp. 23-24.
19. A. G. Helgesson, 'The Tshwa response to Christianity: a study of the religious
and cultural impact of protestant Christianity on the Tshwa of southern
Mozambique', Tese de M.A., Universidade de Witwatersrand, 1971, p. 64.
M.M. Sicobele fez a tradução enquanto professor na Escola Metodista Americana
de Maxixe. Nascido em 1877, em Mocumbi, na então circunscrição de
Morrumbene, Sicobele era um celebre da Missão Metodista Americana na então
colónia de Moçambique. Sob os auspícios desta missão, Sicobele aprendeu
primeiramente o idioma local, denominado xitsua e, depois, o inglês. Em 1894
seguiu para a área de Durban, tendo ingressado no colégio de Amanzimtoti,
onde, após 6 anos, concluiu o seu curso.
20. Moreira, op. cit.,p. 24.
21. Penvenne, 'Unmaking...', p. 812.
22. Ver HM II, pp. 177-184.
23. Ver HM II, pp. 118.
24. J. Nunes, 'Apontamento para o estudo da questão de mão-de-obra do Distrito de
Inhambane', Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, Ser. 46, 1928, p.
139. Ver no próximo capítulo as medidas coloniais para rectificar essa situação.
25. Ver Actas do Conselho do Governo, 28.10.1914, p. 871.
26. SR II, p. 110.
27. SR II, pp. 87, 106, 110, 116.
28. SR II, p. 2.
29. SR 1, p. 79.
30. Ibid., p. 83.
31. Sicobele inspirou-se na Bíblia, na história da progenitura humana contida no livro
de Genesis, segundo a qual Eva, esposa de Adão, teria concebido de uma só vez
seis filhos entre os quais dois brancos, dois negros e dois vermelhos, que mais
tarde se procriaram; SR II, p. 5.
32. Ver HM II, p. 282.
33. SR I, p. 86; 1I, p. 3-25.
34. Esta foi a primeira de uma sucessão de cisões e fusões.
35. Ver HM II, pp. 279-299
36. Ver, por exemplo, O Africano, 25.12.1908 [Número único]; BA, 23.7.1927
Capítulo 1
28.7.1928; 13.10.1928.
37. AHM, FGG, Cx. 108, Albasini ao Alto Comissário, 16.12.1921; BA, 22.5.1927;
24.3.1928; 24.11.1928.
38. O Africano, 25.12.1908; 7.4.1909; 14.1.1914; BA, 17.5.1924.
39. BA, 1.2.1919; 5.4.1919; 12.4.1919; 24.5.1919.
40. BA, 24.12.1948.
41. Ver, por exemplo, BA, 25.12.1908; 8.3.1919; 5.1.1927; 24.3.1928.
42. R. B. Manuel Honwana, Memórias. Histórias ouvidas e vividas .e da terra,
Maputo, mimeografado, 1985, p.63.
43. Ver HM 1i, pp. 125-127; a Grande Guerra veio a ser conhecida como a 1 Guerra
Mundial a partir de 1918. Os Estados Unidos entraram na Guerra contra
Alemanha em Abril de 1917; a Rússia deixou de participar nos finais do mesmo
ano.
44. Informação fornecida por Dr. G. Liesegang.
45. HM II, pp. 268-269. A causa imediata da crise monetária residia nas tentativas
do governo português de basear o" valor da moeda colonial moçambicana no
escudo português em vez do ouro, e nas manipulações descontroladas do Banco
Nacional Ultramarino. Este foi o banco privado que, através de uma concessão
monopolística do estado português, controlava os pagamentos exteriores de
Moçambique e, ap6s 1921, a emissão de notas; ver A. Smith, 'Antonio Salazar
and the reversal of Portuguese colonial policy', Journal ofAfrican History, vol.
15, 4 (1974), pp. 660-661; L. Vail e L. White, Capitalism and colonialism in
Mozambique: a study of Quelimane district, London: Heinemann, 1980, pp.
202-205.
46. Para o sul, ver HM II, pp. 242-244; J. Penvenne, 'Labor struggles at the port
of Lourenço Marques, 1900-1933', Review, vol. 8, 2 (1984), pp. 264-270.
47. HM II, pp. 273-275. Há notícias de outras greves ainda por investigar, inter alia,
a dos pescadoresde Inhaca (1920), e a do pessoal da Imprensa Africana (1920);
ver, por exemplo, J. Capela, O movimento operário em Lourenço Marques,
1898-1927, Porto: Afrontamento, 1984, pp. 157-162.
48. BO 26, 29.6.1918, Portaria Provincial 844, p. 157; BO 49, 6.12.1919, Portaria
Provincial 1364, p. 605; BO 20, 15.5.1920, Portaria Provincial 1507, p. 129.
49. Para as greves de 1925-1926, ver', inter alia, A. Rocha, 'Lourenço Marques:
classe e raça na formação da classe trabalhadora do sector ferroportuário,
1900-1926', Tese de Licenciatura, Universidade Eduardo Mondlane, 1982;
Capela, op. cit.
50. HM II, pp. 247-248.
51. HM II, pp. 248.
Capítulo 2:
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
1. Introdução
Como referimos no capítulo anterior, até cerca de 1930, as relações
económicas entre Portugal e Moçambique eram reduzidas, sendo os
investimentos portugueses muito pouco significativos. Ap6s o golpe de
Estado militar de 1926, o novo regime estabelecido em Portugal tinha
como um dos principais objectivos da sua política alterar esta posição.
Este capítulo trata do período em que Portugal estabelece, em Moçam
bique, algumas das bases do seu 'nacionalismo económico', isto é, a sua
tentativa de pôr verdadeiramente ao seu serviço a economia moçambica
na. Entre outras acções figuraram a centralização administrativa e
política, a redução dos direitos das companhias não portuguesas, o
estabelecimento de uma zona monetária portuguesa e a promoção da
cultura de algodão.
Assim, os anos de 1930 até 1937 foram fundamentalmente um período
de transição, que apontava já para a plena implementação do 'nacionalis
mo económico' português nos períodos seguintes.
Foi, contudo, a crise económica mundial de 1929-1934 que influenciou
o carácter da nova política portuguesa e também as circunstâncias sócio
económicas em que essa política veio a ser implementada em Moçam
bique. A combinação da crise e do novo rigor no sistema colonial
português teve efeitos graves nalgumas zonas rurais, e agudizou os
conflitos sociais que se manifestaram na época.
Capítulo 2
2. A crise económica e a produção em Moçambique
2.1 Origens e alcance da crise económica mundial
Entre 1929 e 1934 uma grave crise atingiu o sistema capitalista mundial.
É importante rever as dimensões dessa crise, que afectou a produção (e,
evidentemente, os produtores) em Moçambique, e a política colonial do
novo governo português.
Na origem da crise estava o aumento da produção em quase todos os
países desenvolvidos depois da 1 Guerra Mundial, especialmente entre
1922 e 1928. A produção ultrapassou o consumo e, como resultado, os
preços das mercadorias, incluindo os das matérias-primas, começaram a
baixar. O sistema financeiro, virado até então para o incremento da
produção, começou a ressentir-se, reduzindo créditos, o que conduziu a
uma reacção em cadeia no sistema económico. Fecharam-se fábricas e
diminuiu a produção, o que originou o desemprego de milhões de
trabalhadores em todos os países industrializados. Os piores anos da crise
foram 1932 e 1933. Depois, a situação foi melhorando lentamente.
As colónias de todos os países capitalistas foram severamente atingidas
pela redução da procura de matérias-primas, cujos preços baixaram, em
geral, para metade relativamente a 1928. No caso de Moçambique, os
preços de amendoim, milho, copra, açúcar e sisal diminuíram bastante.
Apenas o cajú e o algodão mantiveram ou mesmo aumentaram de preço.
2.2 Produção em Moçambique na nova situação económica
Para enfrentar a crise, os proprietários das plantações tiveram que tomar
uma série de medidas:
- reduziram os seus custos através do abandono de actividades
dispendiosas, de despedimento de pessoal (incluindo europeus), e do
encerramento de algumas fábricas menos rentáveis. Por exemplo, a
Companhia Boror abandonou algumas plantações de sisal. e machambas
experimentais, e fechou a sua salina e algumas lojas rurais. Entre 1931
e 1935, a Sena Sugar Estates encerrou as suas velhas plantações e
fábricas em Caia e Mopeia, e reduziu um pouco a produção nas
fábricas de Marromeu e Luabo;
- produtos como o coco passaram a ser comprados aos camponeses a
preços mais baixos;
- as empresas recorreram ainda a reduções salariais;
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
- algumas plantações introduziram novos métodos para aumentar a
produtividade, como, por exemplo, a utilização de animais de tracção
em vez de trabalho braçal e de estrume como fertilizante.
Deste conjunto de medidas é importante destacar que, não obstante a
diminuição do número de trabalhadores nas plantações e dos preços de
compra aos camponeses, a agro-indústria como um todo manteve o
volume de exportação igual ao do período anterior à crise. Se bem que
os rendimentos globais diminuissem, as medidas tomadas asseguraram o
restabelecimento de um nível razoável de lucros apôs a recuperação dos
preços praticados no mercado mundial no fim da década de 30 [1].
Com efeito, na Zambézia, as condições económicas e administrativas
da década de 30 levaram à expansão das plantações de chá. Em primeiro
lugar, o fim do sistema dos prazos e a instalação de circunscrições
administrativas em toda a província, a codificação laboral promulgada no
Regulamento do Trabalho dos Indígenas de 1930 e a diminuição do
número de trabalhadores empregados nas outras plantações, deram novas
perspectivas de ajuda estatal no fornecimento de uma força de trabalho
barata e rigorosamente controlada. Em segundo lugar, em 1933, o
Acordo Internacional de Chá, que limitou a expansão de produção entre
os principais produtores mundiais (Índia, Ceilão e Índia Oriental
Holandesa) estabilizou o preço mundial, assegurando, assim, aos
pequenos produtores (como Moçambique) a rentabilidade dos capitais
investidos.
Essa rentabilidade foi já evidente nas plantações de chá de Lugella,
Milange. Aqui, na expectativa de estimular o mercado interno de chá e
de açúcar, a partir de 1929, a empresa Sena Sugar Estates financiou a
expansão da Companhia de Lugella. Técnicas para aumentar a produtivi
dade da mão-de-obra, semelhantes às adoptadas nas restantes plantações,
reduzindo os custos de produção de cada quilograma de chá, produziram
avultados lucros, apesar da crise económica mundial.
Novas plantações e respectivas fábricas de tratamento foram construí
das, principalmente pela Companhia da Zambézia e M.S. Junqueiro no
distrito de Gurué, onde as montanhas de Namuli reuniam as condições
climáticas e geológicas favoráveis à cultura do chá. Estas iniciativas
representaram o primeiro passo na expansão de uma agro-indústria
baseada em capitais portugueses, acumulados na colónia, nomeadamente,
Capítulo 2
nos antigos prazos e no comércio da província. Desta forma, a produção
de chá da Zambézia aumentou de 117 toneladas em 1934 para 450 em
1937 [2].
A diminuição dos preços de milho e amendoim, aliada às iniciativas da
administração colonial e de alguns comerciantes, levou ao aumento das
culturas que mantinham altas cotações, como o cajú e o algodão. Nas
zonas do litoral, especialamente em Nampula e Cabo Delgado, milháres
de camponeses, incentivados, muitas vezes, pelos proprietários das terras,
optaram pela cultura do cajueiro, cujo fruto passou a ser muito procurado
na India, de onde era reexportado depois de descasque. A exportação do
cajú aumentou de 6.530 toneladas em 1930, para 25.744 em 1938 [3].
Quanto ao algodão, o preço passou a ser garantido a um nível relativa
mente alto pelo governo português [ver adiante], o que, considerando a
diminuição dos preços dos outros produtos e as más condições de
trabalho e reduzidas salários nas plantações, significou que a sua
produção viria a ser mais atraente para o camponês do que no período
anterior. Foram feitas mais concessões às companhias e a produção
começou, lentamente, a aumentar no interior da Zambézia, Nampula e
Cabo Delgado. Desta forma, a exportação moçambicana de algodão
cresceude 1.085 toneladas, em 1932, para cerca de 8.225, em 1937 [4].
Quadro 1: Principais exportações de Moçambique, 1928-1935
[Unidade: Milhares de toneladas] [5]
Ano Açúcar Amendoim Milho Copra Sisal Algodao Cajú Chá*
1928 70 35 34 19 5 0,18 4,0 54
1929 86 23 29 20 6 0,25 4,9 55
1930 70 25 35 22 10 0,19 6,5 53
1931 69 26 12 22 12 0,15 10 106
1932 64 33 13 24 13 1,1 9 51
1933 83 13 8 30 15 1,5 11 86
1934 72 25 11 33 18 1,9 13 122
1935 74 30 9 34 20 1,8 26 148
1936 63 37 20 34 19 4,&.. 28 316
1937 73 26 2 35 21 8,4 40 396
[* = toneladas]
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
As medidas acima mencionadas permitiram que o volume global das
exportações de Moçambique se mantivesse, chegando mesmo a registar
se subidas ligeiras, durante a crise mundial, como mostra o Quadro 1.
No entanto, o valor das exportações de 1929 desceu para metade em
1933. Em 1936, e depois de uma certa recuperação, o rendimento foi
apenas de 75% relativamente a 1929, apesar de ser um ano recorde de
exportações em termos do volume [6]. O Quadro 2 ilustra claramente a
tendência acima referida.
Quadro 2: A crise económica, 1928-1938
Valor e volume das exportações
2.3 0 trabalho migratório, trânsito e a situação financeira
No sul, a corrente de trabalhadores migrantes foi afectada por alterações
no sistema económico sul africano. Embora a produção do ouro não
tivesse sido atingida pela crise, a procura de mão-de-obra nas fábricas,
machambas de colonos e serviços desse país diminuiu e os trabalhadores
despedidos começaram a substituir moçambicanos (e outros) nas minas.
Capitulo 2
Assim, o número de mineiros moçambicanos na África do Sul desceu de
96.657 em 1929 para 58.483 em 1932 [7].
O decréscimo da actividade económica na África do Sul, Rodésias do
Sul e do Norte e Niassalândia reduziu o tráfego nos caminhos de ferro
e portos de Lourenço Marques e Beira. Aliado à diminuição nas receitas
em divisas através do pagamento diferido e dos impostos sobre migran
tes, esta redução significou uma quebra considerável no rendimento do
Estado, que reagiu diminuindo algumas despesas, suprimindo postos e
distritos administrativos em algumas províncias (Inhambane, por
exemplo), reduzindo salários dos trabalhadores, despedindo outros,
etc. [8]. A comunidade colona não ficou completamente isenta destas
medidas: o número de brancos desempregados também aumentou entre
1930 e 1932 [9]. Ao mesmo tempo, o governo pretendeu limitar a perda
de divisas, renegociando, em 1934, a Convenção de 1928 com a Africa
do Sul, para garantir o emprego de um mínimo de 65.000 trabalhadores
moçambicanos nas minas [10].
Em Junho do mesmo ano foi assinado um novo acordo entre Moçam
bique e Rodésia do Sul, fixando uma média de recrutamento de 15.000
trabalhadores na província de Tete. As outras cláusulas mostram a
preocupação do regime colonial em aproveitar os trabalhadores migrantes
como fonte de divisas. Esperava-se que o sistema de pagamento diferido
e o de cobrança de impostos, elaborados nos acordos de 1913 e 1925
respectivamente, viessem finalmente a concretizar-se, fixando o
pagamento das taxas de passaportes e dos recrutadores em libras
esterlinas.
Com efeito, nos anos a seguir, as circunstâncias não favoreceram a
observância do acordo. Foi celebrado numa altura em que foi cada vez
mais questionado o controle centralizado sobre o recrutamento e
distribuição do trabalho migratório pela 'Rhodesian Native Labour
Bureau': os empresários desejavam um sistema menos dispendioso e mais
flexível, mas capaz de suportar a expansão das actividades que se
verificou com as melhores condições económicas a partir de 1935. Por
consequência, procedeu-se à instalação, em 1936, de um sistema em que
recrutadores individuais, subsidiados pelo gQverno rodesiano, operavam
uma frota de camiões entre Niassalândia, Tete e Rodésia do Sul,
oferecendo livre passagem e alimentação aos trabalhadores recrutados.
Este sistema, vulgarmente conhecido por Uleres (significa 'de graça' em
null
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
nianja), confirmou a tendência para o número de migrantes moçam
bicanos clandestinos aumentar significativamente [11].
3. O reforço da dominação portuguesa
3.1 A ascensão do regime Salazarista em Portugal
O Estado Novo, saido do golpe de estado de Maio de 1926, em Portugal,
ganhou vulto a partir de 1930 e solidificou-se a partir de 1932, com a
chamada de Salazar, Ministro das Finanças entre 1928 e 1932, para a
Presidência do Conselho. O governo de Salazar surgiu com uma
componente agrária muito forte, tendo-se instalado como um governo de
compromisso e arbitragem, de aliança entre uma burguesia fraca, mas em
ascensão, e os grandes proprietários fundiários bem estabelecidos. Teve
a função de criar condições para a consolidação da burguesia portuguesa
e acelerar a acumulação de capital, principalmente através da repressão
dos trabalhadores e da intensificação da exploração colonial [12].
3.2 0 proteccionismo e o novo regime político-administrativo
A reacção inicial dos países industrializados à crise mundial e, em
particular, ao desemprego generalizado, foi aumentar o grau de protecção
das suas indústrias contra a concorrência estrangeira, proibindo importa
ções de artigos manufacturados ou onerando-os com direitos alfandegá
rios pesados e favorecendo, cada vez mais, as importações de
matérias-primas das suas próprias colónias.
Em Portugal, a crise mundial de 1929-1934 reforçou a estratégia,
esboçada desde 1926, de valorização dos recursos de Moçambique no
interesse da burguesia portuguesa, através da exploração directa e mais
intensa da população moçambicana, reduzindo ao indispensável o uso de
capitais nacionais e estrangeiros. Como declarou o Ministro das
Colónias, na abertura da Conferência Imperial em Lisboa em 1932, a
política do governo era evitar grandes obras de fomento e a fixação
dispendiosa de colonos e aproveitar, mais e melhor, o camponês, no
trabalho constante da terra.
É importante realçar que a estratégia colonial do Estado Novo não foi
adoptada, facilmente, de um dia para outro. Alguns elementos dessa
estratégia, como por exemplo a produção de algodão pelo campesinato
null
null
Capítulo 2
moçambicano, resultaram da análise das experiências anteriores [13]. A
plena implementação da nova estratégia durou pelo menos uma década,
como veremos nos próximos capítulos. A década de 30 representou, de
facto, um momento de transição, em que algumas das bases do 'naciona
lismo económico' português se estabeleceram seguramente em Moçam
bique.
A expressão real do 'nacionalismo económico' português manifestou-se
no Acto Colonial e na Carta Orgânica do Império Colonial Português de
1930, que desenvolveram rigorosamente os princípios já delineados em
1926. Essa legislação marcou o fim da autonomia formal da província de
Moçambique, que passou a designar-se 'colónia'. Concretamente, o
$nacionalismo económico' centralizou os poderes legislativos e financei
ros nas mãos do Ministro das Colónias, e visava colocar Portugal a par
das restantes potências colonizadoras, nomeadamente, em termos de
capacidade de dominar a exploração dos territórios ultramarinos.
Pela Reforma Administrativa Ultramarina de 1933,. a administração
local ficou sujeita ao mandato efectivo de Lisboa, assegurando-se assim
os interesses da burguesia portuguesa. As normas e práticas administrati
vas a adoptar estavam rigorosamente detalhadas no regulamento. É de
destacar o estabelecimento, pela primeira vez, de um regime de
Inspecções administrativas, cuja tarefa principal era verificar o grau de
cumprimento dos regulamentos vigentes. Nas décadas seguintes, as
informações recolhidas pelas inspecções administrativas proporcionaram
ao Ministro das Colónias o controle da actividade dos administradores e
a tomada de novas medidas necessárias à administração local.
3.3 Novas relações de dominação económica
No período anterior, vimosque, ao contrário do que acontecia com as
outras potências colonizadoras, as relações económicas entre Portugal e
is suas colónias eram muito fracas. O proteccionismo e a mais rigorosa
exploração das colónias requeriam a modificação dessa situação em prol
la economia metropolitana. Nessa perspectiva, foram promulgadas
,redidas que tinham como objectivo estruturar o comércio externo das
colónias em benefício de Portugal, e que marcaram, assim, um passo
importante para a criação de uma 'zona do escudo'. Para esse efeito, uma
lei de 1932 impôs:
- um sistema de licenças de importação e exportação em relação às
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
trocas com outros países e as suas colónias;
- a proibição do uso de moedas doutros países nas operações internas
da colónia [14];
- a centralização de todas as divisas nos cofres do Estado.
Foi ainda estabelecido um Fundo Cambial, sob o controle do Governa
dor-Geral, para a entrada e distribuição de divisas segundo prioridades
rigorosamente estabelecidas. Com efeito, a partir de 1932, as companhias
exportadoras de Moçambique ficaram autorizadas a reter apenas 20 por
cento das divisas provenientes das suas exportações. Os restantes 80 por
cento entraram no Fundo Cambial que, compensando as companhias
exportadoras em escudos da colónia, autorizou a utilização das divisas no
sentido de aumentar as importações oriundas da metrópole.
Paralelamente, o Estado português promoveu uma campanha de
propaganda, o chamado movimento 'comprar português', cujo ponto mais
alto em Moçambique foi a realização do Congresso Comercial e de uma
feira de mercadorias portuguesas em Lourenço Marques, em Agosto de
1932.
No mesmo ano, o Estado português começou a estimular, nas suas
colónias, a produção de algodão, a matéria-prima mais procurada pela
indústria portuguesa. Passou a incentivar, financeiramente, as concessio
nárias algodoeiras (que exportavam das colónias), contrabalançando a
baixa no preço mundial, que se verificou a partir de 1927, para que as
companhias incrementassem a comercialização do algodão produzido pelo
campesinato. Entre Julho de 1932 e Dezembro de 1937, o Ministério das
Colónias português pagou, por cada quilo de algodão fibra de ¡a
qualidade, exportado para Lisboa, um prémio equivalente a diferença
entre 8 escudos metropolitanos e os preços praticados no mercado de
Nova Orleães (EUA). Na prática isto significava que às concessionárias
era garantido, durante este período, o preço de 8 escudos (para o algodão
de 1 a qualidade) em Lisboa, contra o preço de cerca de 5 escudos no
mercado mundial.
O total dos prémios pagos durante a vigência do esquema, até 1937,
somava pelo menos 25 mil contos; isto só era possível por ser uma
lespesa em escudos e não em divisas [15].
Este conjunto de medidas teve efeitos imediatos. Portugal viria a ser,
pela primeira vez, o principal fornecedor de Moçambique, com cerca de
44 Capitulo 2
Or U3
1. Construção da ponte sobre o'Zambeze, 1933-35. Com uma extensão de 3,6
quilómetros, era uma das mais cumpridas no mundo.
25 por cento do total das importações, em 1933, e cerca de 30 por cento
em 1937. Em 1933, Portugal passa a fornecer quase todas as enxadas e
um terço dos tecidos, uma proporção que aumentou para 45 por cento em
1935. No que diz respeito às exportações de Moçambique, entre 1932 e
1937, Portugal aumentou consideravelmente as suas compras, tornando-se
o principal comprador, com cerca de 31 por cento do total [16].
De notar que estes aumentos indicam, apenas, o estabelecimento do
controle efectivo do comércio de Moçambique a partir de Lisboa, e que
a origem .ou destino duma parte considerável das mercadorias eram ainda
os países altamente industrializados.
Para se aproveitar plenamente do novo sistema comercial, a indústria
portuguesa exigia a protecção activa. Note-se que as dificuldades na
montagem e desenvolvimento duma indústria têxtil em Moçambique
datam de anos recuados, devido à oposição sistemática- das associações
das indústrias têxteis portuguesas. O mesmo viria a passar-se em relação
O Reforço d-.- , ,n7 , ,i, , ,rtupuês, 19.70-19:7
2. A ponte ao Zambeze, acabada, jacilitou o desenvolvimento da linha férrea de
Tete e, a partir de 1949, a exploraçdo das minas carboníferas de Moatize.
aos óleos vegetais. Já em 1933, protestava a Associação das Indústrias
Têxteis de Porto, manifestando o seu desagrado pela notícia da autoriza
ção a diversas firmas para estabelecerem fábricas têxteis em Moçambi
que, medida que, segundo o Lourenço Marques Guardian de 5 de
Setembro de 1933, a ser adoptada "representaria a ruína da indústria
têxtil da metrópole".
Uma lei de 1936 estabeleceu novas bases para o fomento da indústria
no império português. Com o objectivo de limitar a concorrência
internacional e assegurar fundamentalmente a industrialização de
-Portugal, estes regulamentos sujeitaram a abertura de novas indústrias,
em Moçambique, à autorização do Míiüstro das Colónias, tendo sempre
em vista os interesses dos industriais portugueses. Desta forma, foi
-severamente limitado o desenvolvimento duma indústria transformadora
em Moçambique, mesmo de iniciativa de capital não-português. Foi a
isto que se chamou o 'condicionamento industrial' [17]..
Capítulo 2
Contudo, deve-se notar que a implementação do nacionalismo econó
mico' português em Moçambique não significou a exclusão total de
capitais e iniciativas doutras origens. Este facto evidenciou-se de uma
forma espectacular na autorização e construção, entre 1932 e 1935, da
grande ponte ferroviária sobre o rio Zambeze entre Sena e Mutarara.
Esta grande obra de infraestrutura foi concebida pela Companhia de
Mozambique com o objectivo da melhor rentabilização das minas de
carvão de Moatize, do caminho de ferro Beira-Niassalândia e do porto
da Beira. A sua construção foi facultada por garantias financeiras do
governo colonial britânico da Niassalândia [18].
3'4 Educação e religião
A partir de 1930, o Governo colonial procedeu a modificações no sistema
educacional de Moçambique. Concretamente passou a controlar mais
directamente o ensino destinado à população negra. O objectivo do
Governo colonial era criar um sistema capaz de habilitar o 'indígena'
para o seu papel específico de trabalhador barato na economia colonial
moçambicana. Por outro lado, o ensino para os brancos, que ocupavam
os melhores postos de trabalho, tinha que oferecer uma formação mais
completa, que os 'indígenas' não precisavam. Por esta razão, os
funcionários da educação, perante o aumento da população branca em
Moçambique, propunham "uma separação mais acentuada entre o ensino
das crianças indígenas e o das civilizadas".
Estes motivos estiveram na base da criação do novo sistema de ensino
rudimentar, iniciado depois de 1930. Este tipo de ensino tinha por fim,
segundo os documentos oficiais, "civilizar e nacionalizar os indígenas da
Colónia difundindo entre eles a língua e os costumes portugueses",
tornando-os "mais úteis à sociedade e a si próprios" [19]. Esse ensino
devia conter as seguintes disciplinas:
a) Língua portuguesa
b) Aritmética e sistema métrico
c) Geografia e história de Portugal
d) Desenho e trabalhos manuais
e) Educação física e higiene
g) Educação moral e canto coral
O Reforço do Cdldnialismo Português, 1930-1937
Para os professores de geografia e história, instruía-se que:
"tanto a escolha de trechos históricos como as explicações que forem feitas pelo
professor, deverão ter em vista criar nos alunos o amor de Portugal e o legítimo
orgulho de ter nascido em terra portuguesa" [201.
Além disso, a legislação de 1929-1930 impediu categoricamente o
ensino de moçambicanos nas línguas nacionais, com a excepção do
ensino da religião. Esta medida tinha como objectivo garantir a expressão
da língua portuguesa. Com estas disposições, o Estado colonial desejava
ultrapassar o que julgou terem sido as 'deficiências' do ensino no períodoanterior, e especificamente, tornar mais portuguesa a população de
Moçambique. A nova forma de educação era obrigatória para todas as
crianças negras que vivessem num raio de 3 quilómetros à volta de uma
escola rudimentar, não podendo frequentar qualquer escola não-oficial
nessa zona.
Paralelamente, aumentou o número de missões e escolas católicas.
Deve-se realçar que, neste período, a 'nacionalização', (isto é, a
portuguesificação), de Moçambique veio a ser cada vez mais ligada à
expansão da religião católica. Pouco depois da inauguração do Estado
Novo em Portugal em 1926, no Estatuto das Missões Católicas Portugue
sas, o governo' português manifestou a sua intenção de garantir às
missões católicas portuguesas protecção e ajuda do Estado, sob a forma
particular de subsídios para a formação de missionários em Portugal e de
concessão livre de terrenos em Moçambique. A nova Constituição
portuguesa de 1933 reforçou essa política em relação às missões
católicas, 'entanto que instituições de educação e instrumentos de
civilização'.
Com esse apoio, a Igreja Católica em Moçambique expandiu-se
consideravelmente, como mostram as estatísticas oficiais, no Quadro 3.
Quadro 3: Expansão das missões católicas, 1930-1937
1930 1935 1937
Missões 30 42 50
Filiais 108 157 188
Missionários 34 53 66
Auxiliares 234 342 408
Capítulo 2
Da mesma forma, as suas escolas primárias rudimentares expan
diram-se no mesmo período, tal como as escolas rudimentares do Estado,
enquanto o número de escolas das missões protestantes diminuiu, como
mostra o quadro seguinte.
Quadro 4: Aumento do número de escolas rudimentares,
1930-1937
Ensino 1930 1935 1937
Oficial 64 149 177
Católico 126 214 231
Protestante 84 55 45
Tudo indica que o ensino nas escolas rudimentares, com um professor
semi-habilitado em cada uma delas, tinha um nível muito baixo, e que,
especialmente no norte, as escolas primárias católicas não ultrapassariam
a fase inicial de construção. Segundo algumas inspecções confidenciais
da administração, a ajuda do Estado consistia, muitas vezes, apenas no
fornecimento, pelo administrador local, de jovens trabalhadores. Estes,
juntamente com os 'alunos' da escola, cultivavam algodão e outros
produtos que, depois da colheita, eram vendidos pela missão, cuja receita
era posteriormente utilizada na compra de bens e equipamento.
Se bem que ainda faltem investigações aprofundadas sobre o tema, é
evidente que a expansão da Igreja Católica, apoiada pelo Estado colonial,
implicou a diminuição da influência de, e até uma discriminação
agressiva contra outras religiões. Esta foi sem dúvida a intenção dos
autores do Estatuto das Missões Católicas. Portuguesas. Este facto
manifesta-se, por exemplo, na diminuição do número de escolas
rudimentares protestantes nas zonas rurais, a que já referimos.
Além disso, a proibição do ensino de moçambicanos nas línguas
nacionais, com a excepção do ensino da religião, teve o efeito de
discriminar as Igrejas protestantes, que habitualmente utilizavam as
línguas bantu nos primeiros anos de escolarização, como o meio mais
rápido de atingir a alfabetização básica, e cujos missionários eram, no
geral, mais capazes de comunicar nas línguas nacionais e inglês do que
em português. Perante a resistência de pastores protestantes contra a
discriminação religiosa, nos meados da década, alguns foram deportados.
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
A política religiosa do Estado Novo em Moçambique, neste período,
resultou, também, na imposição de algumas restricções sobre a religião
mahometana. Os seus aderentes, não-portugueses (Indo-britânicos), que
ocupavam lugares importantes no comércio do litoral do norte, foram
vistos pela administração colonial como agentes do Islão, no sentido de
aliciarem moçambicanos para os seus templos e sua fé, que de certo
modo contrariava a expansão do catolicismo e da autoridade portuguesa.
Em Fevereiro de 1937, as autoridades coloniais em Cabo Delgado
detectaram, em circulação, cartazes etíopes alusivos à defesa da indepen
dência da Etiópia nas I e II guerras contra a ocupação italiana [21].
Estes cartazes foram considerados subversivos por representarem a
superioridade de tropas negras contra o colonizador. Tendo concluído
que os cartazes tinham entrado através dos circuitos de comércio
dominados por mahometanos, em Março, o governo colonial reagiu
contra os promotores do Islão acabando por encerrar mesquitas em Porto
Amélia [Pemba], Ibo, Mocímboa da Praia e Memba. Foi autorizada a sua
reabertura em Setembro do ano seguinte, para uso exclusivo da col6nia
asiática, proibindo-se, assim, a propaganda religiosa junto do povo
moçambicano [22].
4. A intensificação da exploração nas zonas rurais
Na década de 30. a vida económica e social nas zonas rurais de
Moçambique, foi profundamente atingida pela crise económica, e pelo
reforço da administração portuguesa. Analisando este período de uma
forma geral, podemos concluir que a penetração administrativa na esfera
de produção aumentou consideravelmente, devido, especialmente, à
maior agressividade na cobrança dos impostos e a expansão da cultura de
algodão. Desta maneira, incorporou-se cada vez mais a produção
camponesa na estrutura sócio-económica colonial.
Como veremos, a experiência do povo moçambicano, neste processo,
variava consoante as condições económicas, administrativas e até
climáticas prevalecentes nas diferentes zonas do país.
Para milhares dos produtores camponeses, a queda de preços dos seus
produtos significou a redução do rendimento em dinheiro. Diminuiu, por
outro lado, a possibilidade de encontrar empregos nas plantações, numa
Capítulo 2
altura em que os administradores eram cada vez mais eficientes e
exigentes na cobrança dos impostos. Para grande número de campone
ses, a única solução foi a de vender a maior parte da sua colheita de
amendoim, ao preço mínimo, para obter dinheiro suficiente.
Por outro lado, a introdução e expansão das culturas de cajú e algodão
foi, para outros, uma forma de equilibrar a situação, nomeadamente, nas
zonas do litoral do norte e noutras áreas de comunicação relativamente
fácil.
Outras variantes resultaram da forma como a cultura de algodão foi
introduzida pelos administradores. Alguns mandaram os camponeses
cultivar individualmente, tal como era definido pela lei de 1926. Outros,
aliados aos agentes das companhias concessionárias, mandaram construir
machambas colectivas nas zonas próximas às administrações, onde
obrigaram os camponeses a trabalhar sob o controle dos cipaios,
recebendo, como remuneração, apenas a isenção do imposto. Este
sistema de produção foi aceite inicialmente pelos camponeses, que se
encontravam sem meios para pagar o imposto, passando os administra
dores. a usufruir das receitas provenientes da venda do algodão às
companhias [23].
Informações referentes a várias regiões do país revelam os detalhes do
impacto deste período na vida rural. Por exemplo, no sul de Moçam
bique, para além de não haver emprego alternativo para os migrantes
desempregados, o campesinato tinha que enfrentar maus anos agrícolas,
e há notícias de fomes, por exemplo, aquela que assolou particularmente
Guijá e Chibuto em 1932 [24].
No norte do país, vários factores contribuíram para agravar os efeitos
da crise. A expansão da administração portuguesa, em substituição da
Companhia do Niassa, trouxe consigo a cobrança de impostos mais
elevados e a nomeação de novos administradores desinteressados dos
problemas e culturas locais. Além disso, a imposição de um novo regime
de direitos alfandegários, como parte essencial da estratégia do 'naciona
lismo económico' português afectou duramente os produtores nas zonas
fronteiriças das províncias de Niassa, Cabo Delgado e Zambézia. Estes,
habituados a vender os seus excedentes no Tanganhica e na Niassalândia,
regressando com tecidos ingleses e indianos comprados a 30% do preço
tabeladoem Moçambique, procuraram defender os seus interesses [25].
Os impostos a pagar eram elevados e, para a sua cobrança, os guardas
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
fiscais, na fronteira, começaram a empregar auxiliares armados no
controle dos postos e nas vias clandestinas principais de passagem. Este
facto provocou grande ressentimento entre os produtores, muitos dos
quais resolveram mudar de residência e cultivar para lá das fronteiras
[26]. Além disso, a crise económica obrigou as companhias sisaleiras de
Cabo Delgado e Nampula a aumentarem o seu recrutamento de mão-de
obra barata, através das administrações [27].
O descontentamento gerado por esta situação e ainda pelas injustiças
relativas à cultura de algodão em regime de machambas colectivas,
praticado por alguns administradores, resultou numa nova onda de emig
rações permanentes para as colónias vizinhas [28]. Cálculos feitos por um
inspector oficial mostram que, apenas em Cabo Delgado, mais de 40.000
pessoas fugiram para o Tanganhica entre 1930 e 1934. Nalgumas zonas
fronteiriças, a percentagem de habitantes 'válidos', isto é, capazes de
trabalhar e pagar o imposto, foi consideravelmente reduzida [29].
Para aqueles que ficaram, a crise económica trouxe situações extremas,
especialmente para quem, vivendo no interior, ainda dependia da venda
de amendoim para conseguir os indispensáveis escudos do imposto. Com
o fecho de algumas lojas rurais, devido à crise, e a ausência de transpor
tes baratos [3,0], muitos camponeses tiveram de voltar à antiga prática de
fazer as suas vendas no litoral. Aqui, porque o amendoim rendia apenas
50 centavos por quilo (nos anos 1930-1934), o vendedor era obrigado a
fazer várias viagens, a pé, até conseguir transportar 140 quilos necessá
rios à obtenção da quantia do imposto. No caso de Montepuez, o próprio
administrador reconheceu, em 1934, embora sem propor alternativas, que
tal situação era simplesmente desumana [31].
Um outro método, mais controlado, de efectuar a cobrança, do
imposto, era a coligação entre alguns administradores e proprietários das
lojas que se mantinham abertas nas plantações. Os administradore .
organizavam viagens colectivas de transporte e venda do amendoim, sol
a supervisão de cipaios, cuja tarefa era impedir roubos ou fugas no
caminho e no acto da venda. Por exemplo, segundo a documentação
colonial, em Julho de 1935, o administrador de Erati trouxe consigo para
as lojas de Memba "13.000 homens, acompanhados pelos régulos, cabos
de terras e cipaios. As vendas só eram permitidas em 4 estabelecimentos.
Assim tinha sido concertado entre os dois administradores" [32].
Capítulo 2
As administrações, em muitos distritos, pressionadas pelo governo a
fazer a colecta regular dos impostos sobre um campesinato agora
desprovido de um bom mercado para os seus excedentes de milho e
amendoim, viriam a insistir, cada vez mais, no trabalho nas plantações,
machambas privadas e no caminho de ferro, que gradualmente se
estendia do Lumbo para Cuamba. Desta forma, por exemplo, a adminis
traçâo de Meconta era
"uma administraçío convertida em Agência fornecedora de serviçais...
Verdadeiramente, na Administração, não se cuidava doutra coisa: todas as
preocupações consistiam em aceitar requisições de negros, mandá-los caçar às
aldeias, p6-1os em formatura, tomar-lhes as identidades, fazê-los marchar
debaixo de escolta e esperá-los na volta, para a colheita do dinheiro do
imposto" [331.
Nas próprias plantações e machambas, as condições de trabalho não
melhoraram. Com a conivência dos governos provinciais, os proprietários
constataram que foi possível ignorar as pequenas melhorias propostas na
legislação de 1928 e de 1930 [34]. As inspecções do próprio regime
revelam este facto.
Assim, por exemplo, trabalhadores de Montepuez, colocados nas
plantações de Mocímboa, a uma distância, portanto, de quase 400
quilómetros, tinham de fazer um percurso de ida e volta a pé, a troco dos
50 escudos, o correspondente a 2 meses de trabalho. Maus tratos,
trabalho sem protecção, mortes em acidentes de trabalho devido, em
especial, ao uso de vagonetes sem travões, ausência de acomodação para
os migrantes, comida habitualmente muito abaixo do nível da dieta rural
comum, a prática alargada de não marcar, ou mesmo, de não fornecer os
tiquetes de trabalho diário e, finalmente, a falta de pagamento de salários
no fim do contrato, eram normais para os contratados [35].
Devido às péssimas condições de trabalho nas plantações de sisal de
Nampula, uma das quais, em Geba, veio a ser bem conhecida a norte do
Zambeze, verificaram-se deserções constantes e mesmo greves. Deser
ções entre o local de 'contratação' (sede do distrito de origem) e as
plantações eram frequentes. Por exemplo, de 120 trabalhadores mandados
de Nacala para Geba em meados de Julho de 1935, só 26 chegaram; em
Março de 1936, dos 400 contratados em Memba para Geba, dias depois
da sua chegada só 50 ficavam [36].
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
O Estado colonial era um dos grandes responsáveis pela intensificação
da exploração nas zonas rurais, aliando-se aos empregadores privados,
a quem apoiava no fornecimento de trabalhadores migrantes. Era
frequente os administradores locais receberem ordens superiores do
governo da província, estimulado pelos proprietários, no sentido de
enviarem um certo número de trabalhadores para uma ou outra plantação
privada [.37]. Para dificultar a deserção e regresso à casa, o governo
recrutava as levas de trabalhadores nos distritos cada vez mais distantes
das plantações, para as quais eram forçadas a deslocar-se a pé, percorren
do longas distâncias.
O pagamento atrasado de salários era outra prática do Estado. Umas
vezes, era a própria administração que não localizava os trabalhadores,
depois do seu regresso à casa; outras vezes, eram os trabalhadores que
não queriam andar maiores distâncias, a pé, sem terem a certeza de que
o salário lhes seria pago. Disso resultava, muitas vezes, que os trabalha
dores deixavam de receber os seus salários, os quais ficavam nos serviços
e administrações locais [38].
5. Os conflitos sociais e a resistência anti-colonial, 1930-1937
Como vimos, na década de 30, a vida sócio-económica moçambicana foi
atingida devido aos efeitos da crise económica mundial e do reforço do
colonialismo português. Os conflitos sociais e a resistêfúcia, provocados
pelo conjunto dessas mudanças, foram de vária ordem e diferente
carácter.
5.10 conflito sobre as terras no Mossuril - Nampula
Enquanto os efeitos do colonialismo reforçado se generalizavam nas
zonas rurais, após a crise mundial, no litoral da província de Nampula,
surgiram sinais evidentes de conflito social que se tornou numa resistên
cia contra a política algodoeira do Estado colonial. No entanto, inicial
mente, era reflexo não só da contradição entre a população rural e o
capital, mas, também, do conflito entre os próprios colonialistas sobre a
maneira mais rentável de exploração.'
Em antigos locais de colonização mercantil. portuguesa, especialmente
no distrito de Mossuril, as terras haviam sido, desde séculos, divididas
Capitulo 2
entre colonos residentes e comerciantes da Ilha de Moçambique. Durante
o período de conquista, nos finais do século XIX e inícios do século XX,
as propriedades foram ocupando regiões vizinhas, desde a Lunga, a
Matibane e Mogincual, em benefício particular de oficiais participantes
na ocupação militar, transformados em proprietários de grandes lotes de
terra [39].
O regime de trabalho instituído no século passado em tais propriedades
era o muta-hanu, isto é, a utilização de um tributo tradicional, pago aos
senhores das terras. Alargado aos escravos libertos nas 'Terras da
Coroa', consistia no pagamento, aos proprietários, de uma renda em
trabalho não remunerado nas plantações de coqueiros ou cajueiros.
Com a proibição da destilação e fabrico de bebidasalcoólicas na
colónia em 1902, medida de protecção à exportação do vinho português,
o cajú, até então utilizado essencialmente para fabricação de bebidas,
passou a ser desprezado e muitos cajueiros foram substituídos por
coqueiros, para a venda de copra.
No entanto, as condições mais vantajosas da produção de copra na
Zambézia reduziram a importância destas plantações e, durante os anos
20, assistiu-se a um desinteresse progressivo dos proprietários pelos
terrenos. Os camponeses passaram a fazer um aproveitamento mais
integral da terra, utilizando as plantações de cajú, não só para bebidas e
alimentação, como também para a venda da castanha aos comerciantes
indianos que a exportavam directamente para a Índia.
A súbita valorização, em 1.000 por cento, do caju, no mercado inter
nacional, em 1933, provocou uma situação particular em todas as regiões
produtoras. No Mossuril, as propriedades até então praticamente
abandonadas ganharam nova importância, enquanto que inúmeros
residentes procuraram, muitas vezes por processos fraudulentos, obter
direitos e concessões de terrenos para aquisição rápida de lucros.
O antigo regime do 'muta-hanu' foi reaproveitado e intensificado, e as
populações que viviam em todos os terrenos de antigas propriedades ou
recém-ocupados foram obrigadas à limpeza e apanha de cajú, de modo
gratuito, como forma de pagamento de renda aos proprietários das terras.
As plantações de cajú alargaram-se, limitando-se ao mínimo os terrenos
disponíveis para os camponeses fazerem as suas machambas.
Em 1936, já praticamente todos os terrenos da administração de
Mossuril eram propriedade, legal ou ilegal, de particulares, europeus,
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
asiáticos e assimilados, que coagiam cerca de 15 mil residentes, através
do arrolamento dos habitantes e do apoio de um grande número de
capatazes. Com estes meios, a população foi obrigada a dar dois dias de
trabalho, por semana, para além dos cinco dias na época da apanha. Esta
exploração proporcionava, aos proprietários, um lucro três vezes superior
ao que o Estado colonial cobrava, anualmente, do imposto de palhota em
toda a região.
No entanto, o avanço da cultura de cajú começou a entrar em choque
com as actuações e interesses do próprio Estado colonial que, na década
de 30, queria cobrar, com eficiência um imposto de palhota elevado,
pagável em dinheiro e que era, na prática, uma taxa sobre as vendas do
cajú dos camponeses. Estes estavam conscientes do alto grau de
exploração a que eram sujeitos, com os dois impostos coloniais, para
além da diminuição dos terrenos familiares. Sabiam, também, que a força
de que dispunham os administradores locais era muito inferior ao
policiamento dos capatazes dos proprietários. Por estas razões, os
camponeses resistiam cada vez mais ao pagamento do imposto de
palhota.
A situação agudizou-se quando o administrador de Mossuril tentou
obrigar ao trabalho compulsivo os que não pagaram o imposto. A esta
medida resistiu de imediato a população. Reagiram ainda os proprie
tários, que não estavam interessados em ver a sua reserva de mão-de
obra recrutada para outros trabalhos. Isto resultou em dificuldades para
o administrador, que, sem a ajuda dos proprietários, não podia impor o
trabalho compulsivo. Esta situação viria a agravar-se em 1938 e 1939,
como veremos no capítulo seguinte.
5.2 As greves de 1932-1933 na Beira e Lourenço Marques
As condições da década de 30 trouxeram, para a generalidade dos
trabalhadores em Moçambique, a redução dos salários, a cobrança de
impostos mais elevados, em suma o agravamento do custo de vida e das
condições sociais. Aliado a isto, em grandes zonas do país, verificou-se
uma intensificação no recrutamento forçado de trabalhadores, reduzindo
as possibilidades de emprego para os trabalhadores voluntários.
Aos trabalhadores moçambicanos, sujeitos às desvantagens do trabalho
migratório e trabalho forçado, foi coarctada, pelo regime colonial,
qualquer tentativa de criação das suas próprias organizações de classe.
Capítulo 2
Mas o facto de não haver organizações sindicais para os trabalhadores
negros não significou que não se desenvolvesse uma luta da classe
trabalhadora.
Embora as informações sejam, por vezes, precárias, e não existam
estatísticas precisas, a evidência sugere que milhares de trabalhadores se
recusaram a fornecer a sua força de trabalho. Outros realizaram paragens
de trabalho, reduções no ritmo de irabalho e manifestações como formas
mais comuns de reinvindicarem as condições a que se julgavam com
direito.
Exemplos disso foram as paralizações dos trabalhadores assalariados
da Beira e de Lourenço Marques que veremos a seguir.
A manifestação dos trabalhadores assalariados negros da Beira, 1932.
Segundo os jornais da época, os efeitos da crise económica mundial em
Manica e Sofala eram profundos. De facto, após 1928, a baixa de
cotação para os principais produtos agrícolas dessas províncias provocou
a falência de muitas machambas privadas coloniais e despedimentos nas
grandes plantações. Desta maneira, a procura de mão-de-obra, nos
empreendimentos agrícolas capitalistas, diminuiu consideravelmente, o
que foi apenas parcialmente equilibrado pelo aumento de produção de
citrinos e algodão [40].
Paralelamente, como consequência do declínio das exportações e
importações de Rodésia do Sul, o tráfego ferro-portuário de Manica e
Sofala diminuiu drasticamente, registando-se em Fevereiro-Março de
1932 o ponto mais baixo de sempre [411. Segundo um jornal da época,
as autoridades portuárias reduziram o número dos seus trabalhadores, de
milhares para algumas centenas, e os caminhos de ferro e as agências de
importação-exportação fizeram reduções semelhantes [42].
A crise de emprego foi agravada devido à redução drástica no número
de empregados domésticos. No entanto, os agricultores de arroz nas
zonas verdes, frequentemente os familiares dos trabalhadores ou
desempregados na cidade, enfrentavam baixos preços para os seu produto
devido à concorrência internacional [43].
Como aumentava o excedente de mão-de-obra, os salários baixaram,
segundo os próprios trabalhadores, de uma média de 125-150 escudos
para 75-100 escudos. Não se trata de coihcidência que, neste ambiente,
os empregadores procurassem aumentar o ritmo do trabalho. Por
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
3. Depósito do crómio, Beira: desde 1930, os trabalhadores do porto foram
conhecidos na região pelos recordes batidos no encarregamento dos navios.
exemplo, no meio da crise os estivadores do porto foram incentivados
pelos capatazes a bater o recorde regional (incluindo o da Africa do Sul)
para o carregamento de milho, intensificando assim a exploração absoluta
do trabalho [44].
A população de Manica e Sofala enfreãtava uma situação ainda mais
grave. O declínio da actividade económica resultou numa baixa equiva
lente dos rendimentos da Companhia de Moçambique, que até então
tirava grandes benefícios de impostos sobre o comércio das duas
províncias. Numa tentativa de compensar a baixa, a Companhia virou
para uma fonte aparentemente mais segura de rendimento, o imposto de
palhota: mesmo no meio da crise, elevou-se a taxa de 150 para 205
escudos [45].
É nestas circunstâncias que, na Beira, serviçais assalariados, dos
diferentes sectores de actividades, reivindicaram a diminuição do
Capítulo 2
imposto, exigido pela Companhia. Reclamaram por três vezes, pela via
da petição (requerimento), à Companhia e ao Governador do território.
Não tendo obtido resposta, resolveram paralisar o trabalho e manifestar
se colectivamente.
Assim, cerca das 8 horas da manhã da 31 feira, dia 22 de Março de
1932, um desfile de numerosos trabalhadores atravessou várias ruas da
cidade em direcção à Intendência, que representava as autoridades
portuguesas junto da Companhia de Moçambique. O Intendente, obrigado
ao diálogo com 3 representantes dostrabalhadores, que por várias horas
permaneceram em frente da Intendência, alegando não ter atribuições
para resolver o assunto, prometeu remetê-lo para Lourenço Marques.
Para o efeito os trabalhadores deveriam retomar o trabalho e enviarem
'papel selado' e ele próprio faria uma exposição para o governo em
Lourenço Marques.
As consequências dessa manifestação, sem dúvida, bem organizada,
foram imediatas. Segundo um jornal publicado na Beira, o Governador
"mandou vir a Companhia indígena, com metralhadoras e tudo, para es
tarrecer os indígenas, que tiveram o atrevimento de dizer que não podiam
pagar o imposto" [46]. Alguns meses depois, soube-se que foram presos
mais de uma centena de homens dados como cabeças do motim 147].
O clima de tensão, provocado pela crise económica e pelas acções da
Companhia, continuou a sentir-se nos meses seguintes na cidade e fora
dela. No distrito da Beira, segundo o administrador, a dificuldade na
cobrança do imposto era
"devido unicamente à grande crise de trabalho e pelo facto dos indígenas desta
circunscrição [distrito) terem Estado completamente fora da mão, indisciplina
dos, e falta de contacto com o respectivo chefe de circunscrição" [48].
t
Com efeito, devido às tensões resultantes da crise, o contacto pessoal
de funcionários conhecidos pela população foi considerado pela Compan
hia essencial nas campanhas de cobrança seguintes [49].
De facto, não obstante a repressão da manifestação dos trabalhadores
e as várias tentativas de cobrar o imposto, perante a resistência continua
do povo, em Agosto, a Companhia viu-se obrigada a aceder à reclamação
principal dos trabalhadores, reduzindo o imposto em 30 por cento, para
cerca de 140 escudos [50].
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
A greve da 'Quinhenta' no porto de Lourenço Marques de 1933
Como vimos no capítulo anterior, a grande greve ferroviária de Lourenço
Marques de 1926 foi neutralizada pelas autoridades coloniais. A
repressão dos trabalhadores em geral foi intensificada, atingindo especial
mente os trabalhadores negros do porto, voluntários, que veriam por
diversas vezes reduzidos os seus salários e algumas das suas regalias.
Além disso, o Estado que, em 1929, passou a controlar as cargas e
descargas até então nas mãos de particulares, começou a substituir, cada
vez mais, trabalhadores voluntários e ocasionais por trabalhadores
forçados ('chibalo'), em turnos que cobriam as 24 horas do dia,
reduzindo ainda mais os custos do trabalho e ameaçando assim os
voluntários que restavam.
A imprensa de Lourenço Marques não deixou de referir constante
mente à difcil situação dos trabalhadores, às suas precárias condições de
vida e trabalho e aos baixos salários, alertando aqueles que detinham o
poder e os patrões para as prováveis consequências que disso adviriam.
Em Agosto de 1933, o salário dos estivadores eventuais foi reduzido
de 12$50 escudos para 12$00 por dia. Os trabalhadores que, devido à
diminuição do trafego e utilização crescente de 'chibalo', trabalhavam,
apenas, dois ou três dias por semana, sentiram os efeitos da redução. Os
$50 (quinhenta) eram o preço de cerca de 150 gramas de carne ou de
arroz e, provavelmente, o preço mínimo de uma refeição para um
estivador.
Concentrados no local próximo do actual mercado central, no dia 28
de Agosto, decidiram, em bloco, não retomar o trabalho até que os $50
fossem reconsiderados pelas autoridades do porto. A polícia, que tinha
sido toda mobilizada, chegou ao local de concentração as 15.30 horas.
Depois de algumas discussões e promessa de restituição da "quinhenta',
os estivadores regressaram ao trabalho.
Nas suas edições de 28/29 de Agosto, tanto o Lourenço Marques
Guardian, como o Noticias, numa tentativa de minimizar a importância
da greve, atribuíram-na à agitação promovida por uns poucos que, devido
aos efeitos do vinho, tinham sido dispensados.
A 4 de Setembro, e dado que as promessas não haviam sido cumpri
das, os trabalhadores dispuseram-se a paralisar, novamente, o trabalho.
As autoridades reagiram, mandando a polícia cercar os estivadores, num
recinto vedado à arame farpado na ponte-cais, impedindo-os de sair
Capítulo 2
durante a hora do almoço. Os estivadores não tiveram outra alternativa
senão regressarem ao trabalho, pois, caso não o fizessem, sabiam que
seriam substituídos por chibalos', ou, pior ainda, seriam eles próprios
presos por vadiagem e transformados em chibalos', com salários de 6
escudos por dia, em lugar dos 12 do salário então reduzido.
.Quer O Brado Africano quer O Emancipador, jornais que de um modo
geral, embora não sistemático, ainda pugnavam pelos interesses das
camadas trabalhadoras, tomaram absolutamente partido pelos grevistas.
No dia 9 de Setembro, O Brado Africano dizia que
"tinham e tem razão para se revoltar contra esse corte, que outra coisa não
representa senão o fazerem economias à custa do preto".
Assim se justificou que, como resposta à redução salarial, os trabalha
dores protestassem abandonando o trabalho "numa atitude que os
dignifica" [51].
O Brado Africano que, em geral, não era favorável ao recurso à
greve, mas reconhecendo ser a única forma de que os trabalhadores
dispunham para reivindicarem os seus legítimos direitos, atacou
fortemente as autoridades do porto pela decisão de reduzir salários e por
não garantirem os quatro dias de trabalho por semana a todos os
trabalhadores, "o que não é nenhum impossível". Atacando ainda a
Direcção dosNegócios Indígenas pela ignorância demonstrada perante os
acontecimentos, lamentou que a 'questão indígena' não merecesse o real
tratamento, porque não seria assim que o problema seria resolvido. Num
claro aviso às autoridades e ao poder colonial, alvitrava O Brado
Africano de 9 de Setembro, o seguinte:
"Bom seria irem pensando muito bem no que sucederá amanhã, quando o preto
estiver mais unido, instruído e óonhecendo os seus direitos e os seus deveres.
Nessa altura o fechar as portas será o pior serviço que se poderá fazer aos que,
cheios de razões e com a barriga vazia, se encontrem frente a frente com os
patrões da ponte-cais,.agaloados, bem comidos e cheios de dinheiro'.
Nos restantes meses de 1933, a situação em Lourenço Marques não
melhorou, a avaliar ptla denúncia de situações de maus tratos, baixos
salários e não cumprimento dos salários mínimos a praticar, conforme
tabela elaborada pela Direcção dos Negócios Indígenas. Efectivamente,
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
e sob pretexto de não haver serviço, algumas firmas industriais iam
explorando os trabalhadores ainda mais, pagando-lhes diariamente 5 ou
8 escudos. E, novamente, na sua edição de 28 de Outubro e sob título de
"Exploração da mulher pelo homem", O Brado Africano denunciava as
casas que "dão trabalho, nas estâncias, a mulheres, o que é justissimo,
mas que as exploram miseravelmente, pagando-lhes 30 escudos por
semana", exigindo das autoridades que se mandasse "indagar do que se
passa procedendo com justiça". Ainda, em Novembro, clamava O Brado
Africano que a situação dos trabalhadores não melhorara "ali nas fábricas
industriais a favor do preto".
A tensão provocada pela repressão violenta e sistemática sobre os
trabalhadores continuou a sentir-se durante os meses seguintes. Na noite
da passagem do ano, houve distúrbios na cidade quando centenas de
africanos agitaram as áreasresidenciais da burguesia local, em que foram
atacadas pessoas e propriedades. O ataque não resultou, porém, em
vítimas, ou danos significativos.
No entanto, a greve e os acontecimentos posteriores levaram o Estado
colonial e a burguesia local a acautelarem-se. Algumas das medidas
preparadas para reprimir os trabalhadores em Portugal foram aplicadas
em Moçambique. Em 29 de Janeiro de 1934, pouco depois dos distúrbios
do fim do ano, a lei metropolitana de censura de 1933 foi aplicada pelo
Governador-Geral de Moçambique. Foi criada a Comissão de Censura,composta por três oficiais militares, e que passou a rever todos os jornais
antes da sua publicação [52]. Foram banidas progressivamente as
associações de classe ainda activas, tais como a União dos Trabalhadores
de Moçambique (Lourenço Marques) e a Associação Geral do Trabalho
da Beira, animadas por trabalhadores brancos. O jornal O Emancipador
foi suspenso em 1937 e, no mesmo ano, um alto funcionário da
administração colonial foi colocado na direcção do Brado Africano [53].
5.3 0 movimento associativo e político A crise económica mundial e a nova dinâmica da política colonial,
cujos efeitos, na economia e na luta de classes dai emergentes, já vimos,
não podiam deixar de ter as suas consequências, na já restrita vida
política do país. Deve-se realçar que, à grande maioria do povo
moçambicano, foi negado o exercício de direitos políticos pela imposi
ção, inter alia, do Estatuto Político e Civil dos Indígenas de 1926.
Capítulo 2
Apenas à pequena minoria de educados, regra geral mulatos e assimila
dos, foi permitido o privilégio de uma actividade polémica. Já antes da
Lei de Imprensa de 1926, que impôs restricções mais severas, a
actividade política concreta,« no sentido da organização de um partido ou
movimento laboral, ou acesso aos círculos e postos mais altos do regime,
estava de facto proscrita.
Neste subcapítulo, pretendemos mostrar que, apesar de um surto inicial
de crítica contra certos aspectos do colonialismo no período 1930-1932,
uma censura mais estrita, imposta em 1934, entre outras manobras
exercidas pelo regime colonial, sufocou gradualmente a expressão escrita
de protesto. O regime aproveitou as divergências sociais entre mestiços
4. Estácio Dias (177-1 937), Director, O Brado Africano, década de 1930.
5. Karel Pott (1904-1953), dinanizador das associações, década de 1930.
e negros assimilados para dividir o movimento associativo herdado do
passado em fracções raciais. Perante estas novas circunstâncias, as
ambiguidades e divergências de posicionamento político, na reduzida
camada de intelectuais moçambicanos, se manifestáram com mais clareza.
Quase no fim deste período, novas medidas, anti-comunistas e anti-
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
subversivas reduziram ainda mais a possibilidade da livre expressão de
opiniao e debate no seio da elite moçambicana da época, deixando o
terreno ainda mais aberto para a emergência de colaboradores e fiéis ao
regime, e arrumando, temporariamente, o desenvolvimento político do
país para as sombras criadas pela repressão fascista.
O Grémio Africano de Lourenço Marques, legalizado em 1920, era a
mais importante organização da oposição moderada. Dirigida pelos
irmãos Albasini desde a sua criação, o Grémio integrava o grupo dos
mulatos e negros assimilados. Além dos Albasini, estiveram ligados ao
Grémio Africano nomes como Estácio Dias, Karel Pott, Francisco
Bemfica, entre outros. Sob a máscara da valorização cultural e promoção
6. Sede ao Centro Associativo dos Negros (ex-lnstituto Negrófilo),.inauguraao
pelo Presidente português em 1939.
intelectual da comunidade negra, o Grémio pugnou essencialmente pela
defesa dos mulatos e assimilados, contra a discriminação racial que cada
vez mais os atingia. O Grémio estava, contudo, dependente de subsídios
do governo devido à fraca capacidade económica dos seus associados. A
expressão mais evidente da sua actividade era o jornal O Brado Africano.
Capítulo 2
A crise económica, o desemprego, a intensificação das barreiras raciais
e do nacionalismo português agravaram a situação social do Grémio e
dos seus sócios. A pequena minoria de mestiços e assimilados que, no
período anterior, conseguiu postos no funcionalismo público ou um alto
grau de instrução formal, se viu relegada para o segundo plano com
ainda mais vigor do que antes. Este facto coincidia com o regresso ao
país em 1930, após a conclusão da licenciatura em direito, de Karel Pott,
que se tornou uma das grandes figuras, senão a mais importante, do
movimento reivindicativo e crítico à administração colonial. Foi nomeado
director de O Brado Africano em Agosto de 1931 e eleito presidente do
Grémio Africano em Março de 1932. Nas páginas de O Brado Africano
publicou vários artigos atacando as formas de governação do poder
colonial, entre os quais se tornou celebre o intitulado "Psitagama ha dyini
ba nkubana?", expressão ronga que traduzida em português significa
"Qual será o fim disto, seus saloios?" [54]. Neste artigo, Pot criticava
a discriminação racial existente no então Instituto da Namaacha, onde
havia "uma oposição aberta e declarada à admissão de crianças de cor"
[54] e à forma como o governo colonial dirigia a sua política 'indígena'.
Este artigo fazia parte de uma campanha contra a discriminação racial,
que se fazia sentir, especialmente, na educação, na administração da
assistência pública aos desempregados, na recusa da admissão de negros
ao funcionalismo público (só eram admitidos como intérpretes), e nos
salários, grosseiramente inferiores, dos enfermeiros negros. A campanha
culminou numa manifestação pública no edifício do Grémio Africano em
Abril de 1932 [56]. Como dizia Estácio Dias:
"Na verdade, como se pode admitir que quem estabeleceu como fundamento de
distinção a condição única de mérito, da justiça e do direito em todo o território
português, venha impor nas Colónias a distinção de cor?.. .A justiça não existe
quando se trata de pretos.. .nem justiça e, muito menos, humanidade..." [57].
A dinâmica transmitida ao movimento associativo pelas circunstâncias
da crise não se restringiu somente à capital la colónia. Pelo contrário,
neste período, concretizaram-se tentativas, as vezes prolongadas, de
formar associações semelhantes noutras cidades do país, nomeadamente
em Quelimane, na Ilha, na Beira, em Inhambane e Gaza [58].
O Grémio Africano de Quelimane, criado em 1925, só em 1931 veria
os seus estatutos aprovados. Entre os objectivos destaca-se:
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
"...o aperfeicoamento moral e intelectual dos africanos, promovendo a sua
educação cívica e despertando neles o sentimento humanitário e de nacionali
dade" (portuguesa, N.R.) [59].
Na Ilha de Moçambique, um grupo de pessoas tentou formar, em
1924/5, o Grémio Africano de Moçambique e, em 1926, a Liga
Moçambicana; todavia, ambos morreram sem terem visto nunca a luz do
dia. No entanto, foi dessas tentativas que surgiu, em 1930, o Grémio
Luso-Africano da Ilha.
Na Beira, foi criado, em 1932, o Grémio Africano de Manica e Sofala.
Os seus objectivos não se diferenciavam dos das outras associações e foi
sujeito às mesmas pressões da parte das autoridades. Segundo os seus
estatutos, para além das actividades recreativas e culturais, propunha-se
ainda a protecção moral e material dos africanos, em geral, e dos
associados, em particular. O facto de que os seus membros seriam
assimilados transparece na definição dos sócios ordinários como
"africanos ... cidadãos portugueses", e na cláusula seguinte:
"...são considerados africanos todos os nativos portugueses e seus descendentes
legítimos que sabendo ler e escrever português regularmente, adoptem os usos
e costumes europeus e exerçam profissão, comércio ou indústria de que se
possem manter" [60].
No mesmo ano, o Grémio Africano de Manica e Sofala começou a
publicar um semanário, A Voz Africana, que partilhava a iniciativa e
entusiasmo literários do período 1930-1932.
De facto, os participantes nas iniciativas dessa época julgaram-se uma
nova geração que se não deixou intimidar pela actuação do então regime
colonial, e que, segundo o próprio Karel Pott, "... revelou mentalidades
dum grande valor moral e intelectual e marcou uma etapa de esplendor
na história da nossa política ... ". Lutava sem tréguas pelo estabeleci
mento de " ... uma imprensa nossa, retintamente africana..." [61].
O conteúdo dessa fase de jornalismo político pode-se avaliaratravés de
O Brado Africano que, apesar de denunciar publica e veementemente os
"desvairos, desmandos, desvios de poder, esbanjamento", era um jornal
dominado pela pequena burguesia reformista, cujo objectivo era somente
'humanizar' o colonialismo. Esta ideia transparece mais num extracto do
editorial de 27.2.1932, cujo titulo era "Basta", onde se escreve:
Capítulo 2
"Desejamos de vós, enfim, uma mais humana política..."
No mesmo editorial ainda se pode ler:
"Não pretendemos as comodidades de que vós rodeais, à custa do nosso suor,
se bem que a elas houvéssemos mais direitos que vós; não pretendemos a vossa
refinada (?) [sic] educação,&ão alardeada na nossa presença, pois não desejamos
viver obsecados pela ideia de roubar ao nosso semelhante aquilo de que ele
carece e que não nos pertence. Não, mil vezes! Antes a nossa selvageria que
tanto vos enche a boca ... e as bolsas".
1
Apesar da aparente rejeição dos valores do colonizador, ao mesmo
tempo, pronuncia-se o desejo de igualdade de todos perante a lei, quando
se lê, no mesmo editorial: "Queremos ser tratados como aos vossos
tratais". Estava assim selada a ambiguidade. Por um lado critica-se e
recusa-se a cultura do colonizador e, por outro, reivindica-se a igualdade
dentro do próprio sistema do colonizador.
A divisão do movimento associativo
No entanto, o regime colonial, fiel à sua estratégia de desigualdade
racial, não podia abster-se perante essas reclamações modestas. Pelo
contrário, desenvolveu-a cada vez mais, procurando explorar as
diferenças sociais, que existiam na elite dos colonizados, na base de raça,
de religião, ou de filosofia de acção.
Em 1931-1932, o Grémio Africano de Lourenço Marques foi
seriamente atingido devido a divergências surgidas entre os seus sócios.
Foram várias as causas apontadas, por vários sectores, para explicar a
crise. Além de pormenores, porventura curiosos, ressalta à evidência o
posicionamento radical de um grupo de assimilados negros, que exigia
do Grémio acções mais enérgicas na defesa dos seus membros, contra as
barreiras raciais de que cada vez mais eram vítimas [62].
,De qualquer modo, a história das relações entre os dois grupos é a
história da competição pela representatividade da comunidade negra, não
ocultando, muitas vezes um certo ambiente dominado pela intriga, pela
desconfiança e, até mesmo, pela discriminação racial originada pelas
circunstâncias da dominação colonial. Até então, devido ao seu acesso
mais fácil à educação e melhores postos de emprego, em geral, os
mulatos dirigiam a oposição moderada e literária em Lourenço Marques.
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
Essas divergências foram aproveitadas e logo fomentadas pelas autori
dades coloniais, por intermédio da Secretaria dos Negócios Indígenas e
por alguns colonos influentes. O objectivo era claramente dividir mulatos
e assimilados, diluir toda e qualquer perspectiva reivindicativa do Grémio
e de O Brado Africano, e influenciar os negros assimilados isoladamente.
Separar os negros *assimilados' dos mulatos dava às autoridades coloniais
a possibilidade de aliciar os primeiros com regalias e privilégios,
quebrando assim o seu potencial radicalismo, anteriormente estimulado
pela subordinação aos mulatos. Ainda por cima, essa estratégia possibili
tou a integração de importantes figuras protestantes do sul de Moçambi
que, cuja religião foi até então considerada altamente subversiva ao
regime sócio-político colonial [63].
Os negros 'assimilados' sairam do Grémio e formaram o Instituto
Negrófilo, cujos estatutos foram imediatemente aprovados em Março de
1932 [64]. De notar que a aprovação dos estatutos do Grémio Africano
tinha levado doze anos a efectivar-se (de 1908 a 1920). Entre os mais
destacados dirigentes e membros do Instituto, durante os primeiros anos
da sua existência, figuram Brown Dulela (o primeiro presidente da
Direcção), João Manuel e Enoque Libombo.
Segundo O Brado Africano, Dulela era "uma grande figura financeira
e comercial" de Lourenço Marques. Nessa altura, Dulela ia para Europa
onde tencionava "adquirir maquinismos em alguns países da Europa e
representação de algumas grandes firmas para vir montar nesta cidade
várias indústrias por conta própria e dar emprego a alguns dos seus
patrícios" [65].
Os objectivos do Instituto definiam-se pela promoção do desenvol
vimento material, intelectual e moral dos seus associados e, em geral, de
todos os negros 'portugueses'. Tendo feito alguns esforços para manter
uma ligação constante com a população negra, especialmente a da zona
sul, a preocupação essencial era o apoio às familias dos sócios. Apoio
moral que se manifestou na tradicional presença da Direcção em todas as
cerimónias fúnebres. Apoio económico e social, que tanto podia surgir
sob a forma de frequentes, embora magros, empréstimos, como na
colocação de desempregados. A assistência social era feita através de
uma Caixa de Auxilio aos pobres. Atenção especial mereceu também a
educação, como sector de promoção social e económica, havendo notícias
de, em 1932, o Instituto ter organizado cursos nocturnos de português e
Capítulo 2
inglês. Por outro lado, por solicitação dos sócios das zonas rdrais, o
Instituto intercedeu junto das autoridades para a criação de escolas em
algumas áreas onde elas não existiam.
Mas, na maior parte das vezes, o Instituto reagiu apenas às queixas e
aos pedidos. Contudo, nem sempre do mesmo modo. Se uns sócios
pediam providências contra colonos que tentavam arrebetar-lhes as terras,
a Direcção comunicava logo o caso às autoridades administrativas, como
o fazia se a queixa era contra um administrador novo que exagerava nos
processos de repressão à população. Nestes casos, a cautela era grande
e a Direcção sabia, perfeitamente, até onde iam os seus limites. Quando
régulos ou indunas se consideravam usurpados, devido à nomeação de
outros indivíduos afastados da linha de parentesco que lhes dava o direito
de sucessão, a Direcção podia recusar a causa, atribuindo ao Administra
dor toda a competência, ou então mandava que o assunto seguisse para
a frente, mas sempre dentro dos preconceitos estabelecidos pelo poder
colonial.
Seja como fôr, o Instituto chegou mesmo a tocar certos pontos mais
sensíveis, embora de modo pontual. Por exemplo, o imposto da palhota
foi objecto de petições e entrevistas com os governantes e a situação dos
enfermeiros 'indígenas' foi também sua preocupação, como era, alias do
Grémio Africano.
Apenas um ano depois da sua formação, surgiram diferenças de
perspectiva entre os membros do Instituto Negrófilo, alguns dos quais
censuravam os dirigentes pela sua preferência em promover assimilação
aos hábitos e vestuário dos brancos. Não muito contundente na sua
posição, o 'movimento' parece ter morrido à nascença. Para a Direcção
do Instituto, o lema era principalmente promover a elevação social dos
negros dentro do sistema colonial existente.
De facto, o Instituto fazia parte importante da estrutura racial criada
pelo colonialismo. Como as outras associações, vivia essencialmente de
subsídios particulares e oficiais. Entre os 'mecenas', destaca-se o grande
empresário local, Paulino Santos Gil, mas contribuíram ainda firmas
como as de João Ferreira dos Santos, F. Dicca e a WENELA, entre
outras. O governo, eventualmente, fornecia dinheiro, como por exemplo,
para a construção da sede, que seria inaugurada pelo então Presidente
Carmona de Portugal, em 1939. Existia ainda um pequeno fundo da
Direcção dos Serviços de Negócios Indígenas, proveniente da diferença
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
obtida na operação cambial de recepção dos salários dos mineiros,
regressados da Africa do Sul, que era destinado ao Instituto Negrófilo.
Na Beira, também, as autoridades, neste caso, policiais, aproveitaram
diferenças sociais, no sentido de apoiar a criação de uma associação só
para negros, o Grémio Negrófilo de Manicae Sofala, independente do
já existente Grémio Africano.
Entre os moçambicanos contemplados com uma bolsa educacional da
Missão Episcopal Americana, em Mount Silinda, na então Rodésia do
Sul, encontrava-se Kamba Simango, que trabalhou na escola da missão.
Daqui foi enviado para os Estados Unidos da América, onde concluiu um
curso de professor em 1923. Depois de uma passagem por Portugal, onde
fez o exame de professor na Universidade de Coimbra, e pela Costa do
Ouro (hoje Gana) e por Angola, regressou a Moçambique onde obteve
um certificado de professor da Companhia de Moçambique em 1927.
Trabalhou nos anos seguintes nas escolas de Gogoyo (Mossurize) e
7. Kamba Simango (c.1897-1967), inspirador do Grémio (depois, Núcleo)
Negrófilo de Manica e Sofala, constituidona Beira em 1935.
Capítulo 2
Mechameje (Buzi). Expulso da missão, foi à Beira, onde montou vários
negócios que iam desde uma pensão até à construção civil. Ali influen
ciou Chovane Simango, carpinteiro e pregador, que tinha estudado em
Gogoyo em 1929, no sentido de este fundar uma associação com "escola
e religião" onde fosse rezada missa "separada dos brancos" [66].
No entanto, Chovane viu-se também encorajado pelo Comissário da
Polícia, no sentido de formar uma associação, receoso que a acção de
Chovane lhe escapasse ao controlo. Arranjado um financiador, o pedido
foi feito, e o alvará concedido, em Março de 1935, pela Companhia de
Moçambique. O Grémio, cujos sócios só podiam ser negros, tinha os
mesmos objectivos e actividades gerais que o Instituto Negr6filo de
.ourenço Marques: "defesa dos interesses dos associados, a sua
iromoção social e intelectual, actividades recreativas e intelectuais", etc.
Também,lneste caso, a Companhia reservava para si o habitual direito de
encerramento e anulação do alvará, caso o Grémio "se desviasse dos seus
fins" [67].
A estratégia política de assimilação e aliciamento de opositores
potenciais e de focos de descontentamento não se restringiu, apenas, aos
negros e mulatos. Consagrada a divisão entre estes, faltava às autoridades
montar o cenário para o terceiro grupo: o dos 'naturais', os filhos dos
colonos nascidos em Moçambique. Não foi difícil aproveitar um certo
descontentamento entre estes que, com a implantação da política colonial
do Estado Novo, se viam crescentemente relegados para o lugar de
.portugueses de segunda', fosse no prestígio social, fosse no acesso a
lugares mais importantes no funcionalismo, fosse ainda na ostensiva
recusa de iguais direitos no que respeitava a certas regalias sociais.
A Associação dos Naturais da Colónia de Moçambique foi fundada em
Janeiro de 1935. Nasce, aparentemente, como uma casa 'regional', e
afirmava nos seus estatutos "pugnar pelos interesses dos naturais da
colória. Na realidade, numa altura em que a burguesia portuguesa
pretendia consolidar os seus interesses em Moçambique, subordinando
mesmo os interesses dos colonos já estabelecidos localmente, e quando
o governo reorganizava o funcionalismo colonial para reforçar a sua
dependência em relação à Lisboa, a criação da Associação dos Naturais
tinha por objectivo principal o aliciamento de uma potencial oposição
moçambicana branca.
Resumindo o que era o papel e a função social destas instituições, no
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
sistema colonial capitalista, podemos dizer que serviram o interesse
fundamental dos grandes empregadores de mão-de-obra barata moçambi
cana que, como vimos, eram os seus principais contribuintes financeiros.
A maioria dos sócios eram mulatos e negros assimilados, como funcioná
rios, enfermeiros, intelectuais e camponeses com algumas posses,
constando ainda um ou outro régulo e alguns trabalhadores do porto,
estes no Instituto Negrófilo de Lourenço Marques. Assim, o Estado
colonial integrou, de forma subalterna, a camada mais capaz de dirigir
e organizar os trabalhadores na sua luta contra a exploração. Receando
o surgimento de uma força anti-colonial e nacionalista, as autoridades
coloniais portuguesas confiaram nesta camada, exercendo um controle
sobre ela, enquanto utilizavam métodos de repressão directa e violenta
contra a generalidade dos trabalhadores rurais e urbanos.
A dependência destas associações em relação ao governo colonial
implicava o cumprimento de obrigações oficiais tais como constantes
homenagens às autoridades portuguesas, que iam desde a apresentação de
boas-vindas, ao descerramento de fotografias, a apoios a manifestações
públicas de 'desagravo', etc. Esta colaboração, não isenta de humilhação,
proporcionava situações caricatas. Por exemplo, num peditório público,
o Instituto Negrófilo distribuiu bandeirinhas com a seguinte inscrição:
"Contribuir para a melhoria das condições sociais dos nativos e engrandecer o
Império Português" [68].
A repressão do jornalismo político
Além dessa forma de controle político e social que o regime esboçava
contra a elite moçambicana, as suas reclamações jornalísticas foram cada
vez mais sujeitas à censura. Esta foi, em parte, informalmente imposta
dentro do movimento associatívo. Assim, nos fins de 1932, Karel Pott,
acusado por moderados de ser "revolucionário, perigoso e inútil", foi
substituído como Director de O Brado Africano, devido à publicação de
uma alegada difamação a um colono naquele jornal.
Não obstante a censura oficial, imposta em 1934, e a divisão no
movimento associativo, até 1936 O Brado Africano continuou a exprimir
a aversão dos colaboradores mais conscientes aos desvairos do regime.
Tendo alguns se apercebido da estratégia colonial, cuja tónica principal
era dividere et imperare, concluíram que a única arma mais eficaz de luta
contra os desmandos do colonialismo era a unidade e solidariedade dos
Capítulo 2
africanos. Recordemos, por exemplo, o artigo do famoso mestre
moçambicano de sonetos, Rui de Noronha, intitulado 'Solidariedade' e
publicado em O Brado Africano em 1936. Neste artigo, Rui de Noronha,
advertia que:
"Enquanto todos nós africanos civilizados não conseguimos ser um único bloco,
trabalhando em conjunto para alcançar um fim que nos satisfaça a todos,
podemos ter a certeza, mas certeza absoluta, de que serão baldados todos os
esforços ... " [69].
Desenvolvendo a argumentação de Karel Pott, que se opôs à criação
do Instituto Negrófilo [70], Noronha estava convencido que só através da
unidade e solidariedade se alcançaria "em dez vezes menos tempo ... a
Causa Africana ... " [71].
Num outro plano, no soneto 'Pós da História', Noronha introduziu na
poesia um elemento ideológico, proveniente talvez da literatura oral, que
veio a ser importante para o nacionalismo moderno moçambicano [72]:
Caiu serenamente o bravo Queto
Os lábios a sorrir, direito o busto
Manhune que o seguiu mostrou ser preto
Morrendo como Queto a rir sem custo
Faz-se silêncio lugubre, completo
no kraal do vátua celere e vestuto
E o Gungunhana, em pé, sereno o aspecto
Fitava os dois, o olhar augusto
Então Impincazamo, a mãe do vátua
Triunfando da altivez humana e fátua
Aos pés do vencedor caiu chorando
Oh dor da mãe sublime que se humilha
Que o crime se não esquece a luz que brilha
Oh mães nas vossas lágrimas gritando
Este texto evoca a derrota do Imperador de Gaza, Ngungunhane. Ao
fazê-lo, Rui de Noronha subverte a imagem de Ngungunhane, produzida
de forma estereotipada pelo aparelho ideológico do Estado colonial, em
torno dessa derrota: Ngungunhane, sentado no chão, por ordem de
Mouzinho de Albuquerque. Contudo, Ngungunhane é poeticamente
apresentado "em pé, sereno, ... o olhar augusto". Era a imagem inversa
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
dos compêndios de história de Portugal. Representava uma opção
deliberada de enquadrar o antigo rei como símbolo orgulhoso da
resistência moçambicana à dominação colonial [731.
Ambiguidade da posição da elite
No entanto, face às circunstâncias internacionais e à política do regime
colonial, a ambiguidadeda posição política da elie meçambi~aa
manifestou-se ainda com mais clareza.
De facta, o Grémio Africano e o seu jornal lutavam tradicionalmente
contra vários aspectos da economia colonial, como o "chibalo' e o
trabalho migratório que, devido à pilhagem de mão-de-obra à família
camponesa e à propagação de doenças graves resultantes do trabalho nas
minas (por exemplo, pneumonia, silicose e tuberculose), tiveram
consequências nefastas na sociedade rural [74]. Mas, simultaneamente,
O Brado Africano, sem dúvida enganado em relação aos possíveis
benefícios ao povo moçambicano, argumentava a favor de várias
^iniciativas coloniais, que só podiam resultar na extensão da dominação
colonial, como o projecto da irrigação do Limpopo que, na sua imple
mentação definitiva, mais tarde, resultaria na expulsão de milhares de
camponeses em prol da colonização europeia.
A ressuscitada simbologia política de Ngungunhane, proposta por Rui
de Noronha, não significa a adopção, pela elite, de uma visão uniforme
sobre o relacionamento pol*ítico entre os régulos e o regime colonial. Por
exemplo, alguns membros da elite preferiam recomendar o papel positivo
de régulos colaboradores como agentes da civilização portuguesa. E O
Brado Africano argumentava a favor do pagamento aos régulos de uma
percentagem do imposto de palhota, em compensação pela sua colabora
ção na cobrança [75].
Sobretudo, dava considerável apoio à campanha para a introdução de
algodão como cultura de rendimento. O principal propagandista de
algodão, no sul, foi um delegado do Grémio Africano de Lourenço
Marques, pago pelo governo colonial. O relatório de uma viagem
progandística a Inhambane em 1935, publicado -em O Brado Africano,
descreve com aprovação e satisfação a imposição da cultura algodoeira,
como modelo da intensificação da agricultura 'indígena', chegando
mesmo a louvar as- palestras "sobre a história dos portugueses como
colonizadores e sobre o Império colonial", que sempre acompanhavam
Capítulo 2
a propaganda agrícola [76].
O Brado Africano descreveu como "justos e brilhantes" as afirmações
do Ministro português das Colónias feitas em 1935, segundo as quais o
negro devia ser o objecto central de toda a política colonial, no sentido
de torná-lo um melhor produtor e consumidor. O Brado encarava bem
a política, enunciada pelo ministro, de limitar a fixação branca,
colocando os colonos apenas em postos de direcção e como técnicos.
Devemos lembrar que, na altura, esta política apareceu como um avanço
considerável sobre aquilo que foi praticado antes de 1926, que resultou
na fixação descontrolada de machambeiros e trabalhadores brancos, em
detrimento dos produtores e trabalhadores moçambicanos [77].
Além disso, a leitura dos artigos dos jornais ligados às associações leva
à conclusão de que, não obstante uma maior ênfase na unidade, a análise
do carácter real da dominação colonial pouco avançou, e que, por esta
razão, soluções concretas não se esboçaram. Por exemplo, a 'Causa
Africana', veiculada por Noronha e outros, permanecia como uma ideia
geral. A referida *unidade' significou só aquela entre os mulatos e
assimilados, já quebrada pelas divisões no movimento associativo. Não
foram delineados objectivos precisos de luta, senão o cumprimento dos
expressos nos estatutos das associações, um objectivo limitado, assim, ao
melhoramento da situação da elite na estrutura colonial [78].
Da mesma forma, nesta fase o "africanismo', 'pan-africanismo' e
&patriotismo' não chegaram a ser definidos em termos de uma nacionali
dade senão a portuguesa. Esta dificuldade em analisar as bases profundas
do colonialismo ia ainda mais longe. Como noutros territórios da África
Austral, existia a tendência, por parte da elite africana, de enculpar a
burguesia europeia local, e a população branca em geral pelas injustiças
do colonialismo, e de confiar na 'justiça' e 'boa fé' do governo da
metrópole para corrigir estes 'erros'. Isto é, esperava-se que a burguesia
metropolitana desenvolvesse uma política que responderia às reclamações
da pequena burguesia africana e reformista, em detrimento do poder da
população branca radicada em Moçambique. Sem nenhuma análise
profunda do colonialismo, colocando, as vezes, os interesses da
metrópole no primeiro plano, a elite ficou naturalmente míope no que
concerne ao carácter real das 'injustiças' e, assim, aos meios políticos
para a sua eliminação.
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
Agudização da tensão política e repressão fascista, 1935-1937
No entanto, a invasão da Etiópia pela Itália mussolínica em Outubro de
1935, que se prolongou por sete meses devido à resistência abnegada do
povo abissínio, apareceu como um elemento catalizador da consciência
política anti-colonial em Moçambique. Quase todos os colaboradores do
Brado Africano, ainda que em determinadas circunstâncias tenham tido
análises políticas heterogêneas, ao eclodir o conflito, foram todos
unânimes na condenação e repúdio à agressão italiana.
A opinião pública, revelada na imprensa em Moçambique, deplorava
a agressão italiana e solidarizava-se com o povo abissínio, que resistia a
moderna máquina de guerra italiana. Pôs-se em causa o cinismo da
apregoada missão civilizadora da Itália na Etiópia que "provoca a guerra
que traz a morte, desolação e a miséria em muitos lares ... " [79]. Outros
se interrogavam "se a pretensão mussolínica é unicamente para civilizar
o povo abissínio, para tornar um povo culto, porque deixou de civilizar
i Líbia e Somália?" [80]. Um artigo não assinado, publicado na revista
Luzitana e reproduzido em O Brado Africano, mostra muito claramente
o desapontamento do imperador Negus que, ao abandonar o seu país, não
só abandonou o trono como também todas as ilusões "sobre a consciência
cúpida do europeu-ávido como um bárbaro e falso como um civilizado
decadente ... " [81].
Este conflito foi aproveitado pelos escritores conscientes para contor
narem ainda mais a censura da imprensa imposta em 1934. Sob a
máscara da condenação das barbaridades da Itália mussolínica, os críticos
do sistema colonial interrogavam-se sobre a obra civilizadora do
colonialismo europeu que, até então, nada tinha feito. Faz-se publica
mente, tomando como exemplo a Itália, o balanço da actividade dos
colonizadores em Africa, em geral, e em Moçambique, em particular.
Por outro lado, a conquista italiana da Etiópia não só mostrou o apetite
das grandes potências europeias por colónias, como também reforçou as
ideias, nunca postas de lado, desde a I Guerra Mundial, de uma redivisão
de Angola e Moçambique em benefício dessas potências (particularmente
Alemanha e Itália). Receando essa possibilidade, apesar do vigor e
acuidade das opiniões reveladas relativamente ao colonialismo aquando
da conquista italiana da Etiópia, um mês após a ocupação de Adis Abeba
(em Maio de 1936), o Grémio Africano e o Instituto Negrófilo de
Lourenço Marques mandaram um telegrama ao Ministro português das
Capítulo 2
Colónias, em que defenderam publicamente a integridade do Império
Colonial Português [82].
Apesar dessas ambiguidades, cresceu na segunda metade da década de
1930 a consciência da necessidade de ultrapassar os limites que circunda
vam o movimento associativo. Por exemplo, em Agosto de 1936, alguns
activistas, insÁtisfeitos com o Instituto Negrófilo, formaram a União dos
Negros Lusitanos. Os seus estatutos não eram realmente diferentes das
outras associações, mas as suas reuniões deram ocasião para debates
abertos, considerados indesejáveis pelas autoridades.
Vários artigos em O Brado Africano questionaram incisivamente a
desunião a que o movimento associativo foi destinado no sistema
colonial. Um editorial, em Junho de 1937, chegou a propor a formação
de uma comissão de representantes das várias associações, com o
objectivo de formar uma confederação. Além disso:
"Conseguida essa obra procurar-se-ia interessar pela divulgaçãode ideias,
necessárias à concepção elevada do objectivo político do povo nativo, todos os
filhos da terra conscientes e civilizados, pelos problemas mais importantes para
a vida de todo o povo africano e essencialmente para a preparação do seu
futuro" [83].
Esta proposta visava, assim, o passo fundamental para a unificação da
oposição e o objectivo concreto da promoção da consciência política.
De facto, o momento para este avanço na organização política
moçambicana não podia ter sido menos propício, devido à determinação
portuguesa de reforçar o seu poder nas colónias através dos meios
repressivos já em vigor em Portugal.
Desta forma, em Setembro de 1936, as intenções reais do governo
português ficaram mais patentes aquando da promulgação de uma lei que
ia longe na repressão política fascista em Moçambique. Esta lei exigiu
um juramento de todos os funcionários do Estado, serviços autónomos,
bem como os corpos e corporações administrativos, de estarem integra
dos na ordem social estabelecida na constituição fascista portuguesa, " ...
com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas" [84].
Encarregou os directores e chefes de serviços, sob pena de reforma
imediata, de cuidar que os seus respectivos funcionários não professas
sem "doutrinas subversivas". Além disso, as empresas privadas, se
pretendessem ajuda do Estado, tinham que impor as mesmas regras.
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
A implementação desta lei em 1937, com a sua definição muito
genérica de comunismo e subversão, e a utilização subsequente de
informadores contra 'subversivos', representava um golpe considerável
nos membros das associações e nos escritores. Na sua maioria, estes
lutavam para proteger postos de emprego nas instituições do Estado ou
serviços autónomos e, a partir desta altura, tinham que camuflar ainda
mais as -suas opiniões políticas, e mesmo o seu orgulho e personalidade
africanos [85].
Em Julho de 1937, porque não se conformava com os preceitos repres
sivos da política colonial, o governo mandou encerrar a União dos
Negros Lusitanos após só 11 meses de existência [86]. A proposta
comissão de representantes nunca chegou a reunir.
No que diz respeito à Imprensa em si, com a saída de Pott, a morte de
José Albasini (1935) e de Estácio Dias (1937), e a colocação na direcção
de O Brado Africano, em 1937, de pessoal seguramente identificado com
os interesses do regime colonial, o controle governamental sobre a
imprensa associativa em Lourenço Marques foi assegurado. No mesmo
ano, apareceram editoriais no jornal que davam apoio aberto e incondi
cional aos objectivos político-económicos do regime salazarista [87].
NOTAS:
1. L. Vali e L. White, Capitalism and colonialisn in Mozambique: a study of
Quelimane district, London: Heinemann, 1980, pp. 254, 265.
2. Ibid.. pp. 265-268.
3. AHM, ISANI, Cx. 76, Armando Eduardo Pinto Correia, Relatório da Inspecção
ordinária às circunscrições do distrito de Moçambique, 1936-1937, vol. II, p.
263; ibid., Cx. 94, Armando Eduardo Pinto Correia, Relatório e documentos
referentes à Inspecção ordinária da província do Niassa, 1938-1940, vol. II, pp.
150-158; FEstatftica de Comércio e de Navegação, 1930-1937.
4. BO 27, 1938, Decreto 28.697, 25.5.1938, preAmbulo. Para uma comparação das
eventuais vantagens da produção familiar de algodão em relação ao trabalho nas
plantações, ver, p. ex., AHM, FGG, Cx. 2450, No. 86, J. Figueiredo, Governo
da Província do Niassa, Relatório, 1938, 1 parte, pp. 212-213.
5. Estatística de Comércio e Navegação (1928-1935); Anuário da Companhia de
Moçambique, 1928-1935.
Capítulo 2
6. Idem.
7. UEM/CEA, O mineiro moçambicano, Maputo: mimeo, 1979 [reedição], p. 26;
ver também, J.Granger, 'A convenção', BSEM, no. 10, Agosto 1933, p. 20.
8. Ver, por exemplo, AHM, ISANI, Cx. 30, A. A. Furtado Montanha, Relatório
e documentos referente à Inspecção ordinária às circunscrições do Distrito de
Inhambane, 1930, p. 34f.
9. Ver Actas do Conselho do Governo
10. L. A. Covane, 'As relações económicas entre Moçambique e a África do Sul,
1875-1964: edição crítica dos Acordos e Regulamentos principais', Trabalho de
Diploma, Licenciatura em História com especialidade em Documentação,
UEM/AHM, 1985, pp. 86-88, 92-94.
11. J. das Neves, 'O trabalho migratório de Moçambicanos para a Rodésia do Sul,
1913-1958/60', Trabalho de Diploma do grau de Licenciatura, Instituto Superior
Pedagógico, Maputo, 1990, pp. 23, 27-31, Anexos, p.4; 1. Phimister, An
economic and social history ofZinbabwe, 1890-1948: capital accumulation and
class struggle, Londres: Longman, 1988, p. 183, passim; BO 39, 26.9.1934, p.
615: Acordo sobre recrutamento de trabalhadores indígenas no distrito de Tete,
Colónia de Moçambique, para serem empregados na Colónia de Rodésia do Sul;
sobre esta matéria ver, particularmente, A. Rita Ferreira, 'Trabalho migratório
de'Moçambique para a Rodésia do Sul,' História (Lisboa), 8, Junho, 1985, pp.
42-49; sobre os 'Uleres' ver P. Scott, 'Migrant labor in Southern Rhodesia',
Geographical Review, 44 (1954), pp. 29-48.
12. Inês Nogueira da Costa, Contribuição para o estudo do colonial-fascismo em
Moçambique, Maputo: AHM/UEM, 1986 [Série Estudos 1], p. 15
13. Ver Capítulo I, pontos 5.2, 5.3.
14. Com a excepção de Manica e Sofala, onde se utilizou a libra especial da
Companhia de Moçambique até 1942, e da cobrança do imposto de palhota no
sul, pagável em libras esterlinas da África do Sul.
15. BO 26, 25.6.1932, Decreto no. 21.226, 22.4.1932; M. G. Beatriz, 'A classifica
ção e os preços do algodão-caroço em Moçambique de 1930 a 1962', Gazeta do
Agricultor, vol. 14, no. 163, 1962, pp. 356-357.
16. J. Cardoso, 'O comércio de Moçambique: a sua evolução durante os últimos dez
anos', BSEM, 9 (1940), pp. 82-222; para uma síntese mais global desta
tendência, ver Nogueira da Costa, op.cit., passim.
17. Ibid., p. 16
18. L. Val, 'Railway development and colonial underdevelopment: the Nyasaland
case', in R. Palmer e N. Parsons, [coord.], The roots of rural poverty in
southern and central Africa, Londres: Heinemann, 1977, pp. 365-395; idem.,
'The making of an imperial slum: Nyasaland and its railways, 1895-1935',
Journal ofAfrican History, vol. 16, 1(1975), pp. 89-112.
19. Anuário do Ensino, 1930, Lourenço Marques, 1931, pp. 10-11.
20. Idem.
O Reforç do Colonialismo Português, 1930-1937
21. Deve-se recordar que, na famosa batalha de Adua, em 1896, o exército etíope
repulsou a primeira invasão italiana. A resistência e independência vieram a ser,.
desde então, um símbolo da resistência de povos africanos noutros territórios
colonizados. [Acrescentada à história do cristianismo na Etiópia, desde
antiguidade, Etiópia, e as palavras 'etíope' e 'etiópico' vieram a significar
'independência' ou até, mesmo, *subversão', em relação ao colonialismo, em
grandes zonas de Africa. Em particular, as igrejas que se formaram após uma
separação de missões europeias na África Austral, a partir da década de 1890,
como a de Sicobele e Sousa em Moçambique (capítulo 1), eram geralmente
conhecidas como 'Igrejas etiópicas']. No entanto, em 1935, melhor prepandos,
os italianos voltaram a invadir, e apesar de uma prolongada resistência etíope,
conseguiram ocupar a capital, Adis Abeba, em Maio de 1936, impondo depois
o domínio colonial sobre o país. Foi, provavelemente, para encorajar o povo
etíope nessa última resistência que os cartazes, no texto referidos, foram feitos.
22. AHM, Administração Civil, Seçcão E, Missões religiosas, Cx. 197, Pinto
Correia ao Governador da Província do Niassa, 4.2.1937; Circular Confidencial
12/6, 13.3.1937; Encarregado do Governo da Província do Niassa ao Director
dos Serviços de Administração Civil, 20. 8. 1937.
23. AHM, FGG 57, J.B. Casqueiro, Relatório anual do Governo da província do
Niassa, 1935-1936, pp. 23-24; AHM, ISANI, Cx. 76, Pinto Correia, 1936-1937,
vol. II, pp. 16-18, 278;ibid., Cx. 94, Armando Eduardo Pinto Correia,
Relatório e documentos referentes à Inspecção ordinária da província do Niassa,
1938-1940, vol. I, pp. 98-99; AHM, FTO, entrevista com Alfredo Kanchale;
Carlos do Amaral Osório, 'Impressões de uma viagem ao norte da Colónia',
BSEM, 28 (1935), p. 268.
24. BA, 20.2.1932.
25. AHM, ISANI, Cx. 94, Pinto Correia, 1938-1940, vol. 1, p. 131; para uma
reclamação de moçambicanos residentes na Rodésia do Norte (Zâmbia) contra
aspectos desta situação, ver AHM, FGG, Cx. 2450, No. 86, J. Figueiredo,
Relatório, 1938, 1 parte, pp. 40-42.
26. AHM, ISANI, Cx. 94, Pinto Correia, 1938-1940, vol. 1, pp. 130-131.
27. Ibid., p. 86; Cx 76, Pinto Correia, 1936-1938, passim.
28. Ibid., Cx 94, Pinto Correia, 1938-1940, vol. 1, p. 133.
29. Ibid., pp. 129-130; segundo essa estimativa, a população de Cabo Delgado
diminuiu de 387.319 em 1930 para 339.058 em 1934.
30. Ver, por exemplo, Ibid., Cx 76, Pinto Correia, 1936-1938, vol. 1, p.263, vol.
2, p. 267; em Nacala, por exemplo, o número de lojas continuou a diminuir
durante a década: das 18 em funcionamento em 1934, só 6 se registaram em
1937, e estas abriram apenas para a comercialização de cajú.
31. Administrador de Montepuez a Director Distrital de Fazenda, Nota 284,
31.5.1934, citado em ibid., Cx 94, Pinto Correia, 1938-1940, vol. 1, p.137.
32. Ibid., Cx 76, Pinto Correia, 1936-1938, vol.1, p. 298.
Capítulo 2
33. Ibid., vol. 2, pp. 52, 56.
34. Ibid., vol. 1, p. 320; Cx 94, vol. 1, p. 87.
35. Ver, inter alia, ibid., Cx 76, vol. 1, pp. 320-321, vol. 2, p. 275.
36. Ibid.
37. Ver ibid., pp. 320-321, passim; ibid, Documentos anexos, Parecer, lnspecçao
Superior da Administração Colonial (Lisboa), 14.10.1938.
38. AHM, ISANI, Cx. 97, C.H. Jones da Silveira, Relatório e documentos referentes
à Inspecção ordinária feita na província do Niassa - 2a parte, 1944: Relatório,
p. 45; (F. Monteiro Grilo) Relatório do Chefe dos Serviços de Agricultura,
1940-1944, Lourenço Marques: Imprensa Nacional, 1946, 1 parte, pp. 159-160.
39. A matéria que se segue baseia-se em AHM, ISANI, Cx. 76, Pinto Correia,
vol.1, p. 117f; Cx. 95, Jones da Silveira, p. 37 e documentos xxxi-xxxii; AHM,
FGG, Cx. 2450, No. 86, J. Figueiredo, Relatório, 1938, 1 parte, pp. 27-39;
Paulo Soares, 'O caju e o regime das propriedades no Mossuril entre 1930 e
1950', Arquivo, 4 (1988), pp. 91-104. Os autores agradecem a Paulo Soares o
acesso a um resumo da versão original deste artigo, e a sua ajuda na elaboração
deste sub-capitulo.
40. AHM, FCM, Relatórios do Director de Agricultura, 1927-1933.
41. Beira News, 30.3.1932.
42. O 19 de Junho (Beira), 25.3.1932.
43. AHM, FCM, Secretaria-Geral, Circunscrição da Beira, Relatório da cobrança do
imposto de palhota, 1932.
44. Ibid; Beira News, 23.3.1932.
45. O 19 de Junho, 25.3.1932.
46. Ibid.
47. O Emancipador, 6.6.1932.
48. AHM, FCM, Secretaria-Geral, Cx. 140, Relatório anual da circunscrição da
Beira, 1932.
49. Ibid., Cx. 160, Correspondência expedida da Secretaria-Geral para diversas
entidades, 5/483, S-G ao Chefe da circunscrição de Mossurize, 4.5.1932.
50. BCM, 17, 1.9.1932, Ordem no. 6478, 25.8.1932.
51. O Emancipador, 11.9.1933.
52. BO 21, 27.5.1933, BO 31, 5.8.1933, Decreto-lei 22.469 (11.4.1933) com
alterações em Decreto-lei 22.756 (5.8.1933); A. Sopa, 'Catálogo dos periódicos
moçambicanos precedido de uma pequena notícia histórica: 1854-1984', Trabalho
de Diploma, Licenciatura em História com especialidade em Documentação,
Universidade Eduardo Mondíane, 1985, p. x e n.30.
53. Ibid., pp. 56-57, 92.
54. Tradução conforme R.B.M. Honwana, Memórias: Histórias ouvidas e vividas dos
homens e da terra, Maputo, 1985, p. 67.
55. BA, 27.2.1932.
56. BA, 19.3.1932, 25.3.1932, 16.4.1932.
O Reforço do Colonialismo Português, 1930-1937
57. BA, 20.2.1932.
58. Ver Karel Pott, 'Um aniversário', A Voz Africana [Beira], 31.12.1936.
59. BO 48, 28.11.1931, p. 501.
60. BCM 22, 16.11.1932, Estatutos do Grémio Africano de Manica e Sofala,
27.10.1932. Deve-se notar que, após 1937, quando a estrutura de organizações
corporativas do estado fascista português se tornou extensiva às colónias, as
associações até então chamadas 'Grémios' tinham que modificar a sua denomina
ção, de modo a distinguirem-se nitidamente das novas organizações. [BO 21,
26.5. i937, Decreto 27.663, 23.4.1937]. Assim, por exemplo, o Grémio Africano
de Manica e Sofala veio a ser chamado 'O Centro Africano da Beira'; o Grémio
Luso-Africano de Moçambique passou a ser a 'Liga Luso-Africana de Moçam
bique', e o Grémio Africano de Lourenço Marques a 'Associação Africana'.
61. 'Um aniversário', A Voz Africana, 31.12.1936, (a testemunha pessoal de Karel
Pott)
62. Os parágrafos seguintes baseiam-se em: J. Moreira, 'O dividido movimento
associativo moçambicano', Maputo: UEM/DH, s.d. (mimeo); AfiM, Cód.
116260-116263, Livro das Actas da Assembleia Geral do Instituto Negrófilo;
Honwana (1985), pp. 64-65.
63. Ver cap. 1, pontos 4.3, 4.4.
64. BO 11, 12.3.1932, Portaria 1617, 12.3.1932: Estatutos do Instituto Negrófilo.
65. BA, 21.5.1932; O Brado Africano acrescenta ainda que Dulela gozava "... de
uma grande influência na África do Sul, onde conta com a amizade íntima com
o grande caudilho negro Khadalie"; Secretário-Geral do Sindicato Geral dos
Trabalhadores de Indústria e Comércio. Este sindicato (a 'Industrial and
Commercial Workers Union of Africa', ou ICU), representava a primeira fase
de sindicalização negra sul africana. Na década de 1920, mobilizou cerca de
100.000 trabalhadores negros, nas zonas urbanas e rurais, através de uma
propaganda política militante; veio a ser destruído devido à repressão
governamental, contradições internas sobre os seus objectivos e ao desemprego
durante a crise mundial, 1929-1933; ver UEM/DH, Manual de História, lOa
classe, Maputo: Ministério de Educação e Cultura, 1980, p.55; R. Davies, D.
O'Meara e Sipho DIamini, The strugglefor South Africa, Londres: Zed Books,
1984, vol.1, p. 16.
66. J.K. Rennie, 'Colonialism and the origin of nationalism among the Ndau of
Southern Rhodesia, 1890-1935', Tese de Doutoramento, Universidade de
Northwestern (EUA), 1973, pp. 379-419; SR II, 63-67; Moreira (s.d.): 39-40;
para Kamba Simango, ver M. de Andrade, 'Proto-nacionalismo em Moçambique.
Um estudo de caso: Kamba Simango [c.1890-19671', Arquivo, 6 (1989), pp.
127-147.
67. AHM, FCM, Secretaria Geral, Cx. 866, Núcleo Negrófilo de Manica e Sofala,
Acta da Reunião preparatória para a fundação na Beira do Grémio Negrófilo de
Manica e Sofala, 19.11.1934; BCM 8, 16.4.1935, p. 168, Alvará pela qual são
Capítulo 2
aprovados os estatutos da associação de recreio e instrução denominada 'Grémio
Negr6filo de Manica e Sofala', 7.3.1935; SR 1I, 68-69; Moreira (s.d.): 39-40.
68. AHM, c6d.116260-116263, Livro das Actas do Instituto Negrófido.
69. BA, 18.4.1936.
70. Honwana, op. cit., p. 64.
71. Idem. Como escreveu o são-tomense Jorge Netto, um colaborador regular do
jornal, referindo à divisão do movimento associativo, "(a) desunião em
Moçambique é a queda desastrosa da formação das elites..."; ver BA, 12.5.1934.
72. BA, 3.11.1934.
73. Ver F. Mendonça, 'Rui de Noronha. António Rui de Noronha, Lourenço
Marques 28.10.1909-25.12.1943', Domingo [Maputo], 4.1.1987.
74. Ver, por exemplo, BA, 2.4.1932, 30.5.1936.
75. Ver BO 4, 24.1.1934, Portaria 2179, que concedeu o pagamento de 2% dos
proventos do imposto da palhota aos régulos; José Cantine, 'A acção do
malogrado régulo Machatine', BA, 24.12.1936.
76. BA, 20.4.1935; ver, também, cap. 1, ponto 4..
77. BA, 3.8.1935.
78. Ver, por exemplo, 'Frente Unica' por Francisco Veloso da Rocha, BA,
13.3.1937; para uma análise sociológica do discurso protonacionalista antes da
I Guerra Mundial, ver M. de Andrade, 'As ordens do discurso do "Clamor
Africano": continuidade e ruptura na ideologia do nacionalismo unitário', Estudos
Moçambicanos, 7(1990), pp. 10-17.
79. Ver BA, 7.3.1936.
80. BA, 21.3 1936.
81. BA, 16.5.1936.
82. BA, 13.6.1936; para os receios de uma redivisão das colónias portuguesas, ver
também BA, 20.4.1935, 8.8.1936, 5.9.1936.
83. BA, 19.6.1937; ver também BA, 18.4.1936.
84. BO 41, 14.10.1936, Decreto-lei 27.003 de 14.9.1936, extensivo ao 'ultramar'
pela Portaria Ministerial 8530, de 29.9.1936.
85. Para o ambiente criado por esta lei, ver, por exemplo, O Emancipador,
14.6.1937; Honwana (1985): 72.
86. BO 32, 12.8.1936, Portaria 2833; BO 30, 28.7.1937
87. Ver, por exemplo, 'O Estado Novo é a nossa Pátria renascida', BA, 15.5. 1937;
'Urge integrar a mocidade das colónias nas ideias nacionalistas do Estado Novo',
BA, 5.6.1937.
Capítulo 3:
A Reestruturação da Sociedade Moçambicana,
1938-1944
1 Introdução: Características gerais do período 1938-1944
1.1 A procura renovada de matéria-primas
Em 1938, o estado português começou a desenvolver métodos novos e
mais eficazes para o aumento da produção de algodão nas colónias. Se
bem que a produção em Moçambique tivesse aumentado, entre 1931 e
1937, isso representava apenas cerca de 20 por cento das necessidades da
indústria têxtil portuguesa (capítulo anterior).
Com a crescente procura mundial, o preço do algodão no mercado
internacional aumentou. Foi nesta altura que a indústria têxtil portuguesa
recebeu um grande estímulo para o seu desenvolvimento através do
acesso ao mercado têxtil em Espanha, cujas fábricas diminuíram a
produção durante a prolongada guerra civil que atingiu esse país europeu
(1936-1939).
Pressionado pelos proprietários da indústria têxtil, o governo de
Salazar alterou o antigo sistema de prémios financeiros e criou instru
mentos administrativos capazes de fomentar, directa e mais eficazmente,
a cultura e comercialização do algodão. O objectivo era garantir a
auto-suficiência em algodão, a preços baixos, dentro do chamado
'Império Português'.
Capítulo 3
O governo português, através de legislação para o efeito, passou a
poder controlar, a partir de Lisboa, todos os aspectos da produção e
comercialização do algodão nas colónias. Criou-se, em 1938, a Junta de
Exportação de Algodão Colonial (JEAC), com sede em Lisboa. Através
desta organismo, o governo pretendeu estabelecer um maior controle
sobre as companhias concessionárias em Moçambique. O sistema de
produção camponesa mantinha-se, e as companhias obrigaram-se a
desenvolver, mais activamente, a cultura do algodão em concessões
alargadas. Toda a exportação tinha de ser aprovada pela JEAC, sob pena
de perda das suas concessões [1].
Para além da crescente procura do algodão, a II Guerra Mundial, que
durou de Setembro de 1939 até Setembro de 1945, e que envolveu todos
os países industrializados, provocou graves perturbações no comércio
mundial de matérias-primas, tendo naturalmente afectado a economia de
Moçambique, país fornecedor desses recursos. Desenvolveu-se uma
guerra marítima de grande envergadura, em que cada beligerante
procurou estabelecer o controlo exclusivo sobre as rotas do comércio,
assegurando dessa forma, o fornecimento de matérias-primas para
garantir o aumento da sua produção industrial bélica. Por outro lado,
cada um dos blocos em conflito pretendia impedir, ao seu oponente, o
acesso às fontes dessas matérias-primas, como forma de enfraquecer a
respectiva indústna.
As enormes perdas de recursos provocadas pela guerra (por exemplo,
navios carregados afundados) e a produção industrial elevada tiveram
como resultado a elevação dos preços das matérias-primas. A Grã
Bretanha, em especial, pagava altos preços pelas suas importações de
produtos alimentares.
A deslocação do comércio marítimo e dos mercados mundiais
reforçou a estratégia da burgúesia portuguesa em se abastecer, na medida
do possível, de matérias-primas das suas próprias colónias, incluindo o
algodão. Além disso, Portugal, aproveitando a crescente procura
internacional de matérias-primas, foi grande fornecedor de produtos das
suas colónias aos blocos beligerantes.
Portugal utilizou a sua neutralidade de modo bastante lucrativo e em
benefício da sua própria acumulação. Os dirigentes colonialistas
portugueses apresentaram a guerra como um 'flagelo necessário', a
suportar por todas as partes da 'Nação'. Era a 'economia de guerra', de
A Reestruturaçao da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
1939 a 1945, que se podia resumir no seguinte:
i) um processo de acumulação maciço de capital, centralizado, pelos
mecanismos do estado corporativo, na grande burguesia industrial e
bancária portuguesa com as suas ramificações coloniais;
ii) um processo de acumulação assente na sobre exploração dos
trabalhadores e no saque colonial. A não participação na Guerra e a
posição ambígua face aos blocos em conflito, irá permitir o reforço
da posição de Portugal a nível do comércio externo, com base no
aproveitamento das matérias-primas de Moçambique e das outras
colónias.
1.2 Capital português e, reorganização da administração colonial
As circunstâncias da guerra facilitaram também a crescente substituição
do capital não português em Moçambique por capital português que, após
dez anos da política económica de Salazar, já tinha atingido um certo
nível de acumulação. No fim da década de 30, a burguesia portuguesa
procurou colocação segura, garantida pelo estado, para os seus capitais
e investimentos.
O exemplo mais evidente deste processo foi a transformação da
Société Colonial Luso-Luxembourgeoise, antiga concessionária de
algodão no norte de Moçambique. Depois da ocupação do Luxemburgo
pela Alemanha, o ministro português das colónias julgou conveniente
encorajar capitalistas portugueses a pagar 50 milhões de escudos aos
antigos proprietários pela sua parte na companhia [2]. Em 1942, esta
sociedade foi absorvida pela Companhia dos Algodões de Moçambique
que, recém-constituída com capitais portugueses e detendo o monopólio
da produção algodoeira de Nampula e de vastas regiões de Cabo
Delgado, Niassa e Zambézia, se tornou, de longe, na maior companhia
de algodão em Moçambique.
Em 1943, o governo português legislou sobre a actividade de capitais
estrangeiras em Portugal e nas suas colónias. Foi então promulgada a Lei
de Nacionalização de Capitais, a qual explicitava que a exploração de
serviços publicos, actividades em regime exclusivo ou quaisquer outras
de interesse fundamental para a defesa do estado ou para a economia, só
seria permitida a empresas portuguesas. A lei especificava que empresas
Capítulo 3
portuguesas eram todas aquelas em que pelo menos 60 por cento do
capital fosse pertença de portugueses.
A legislação do 'nacionalismo económico', não impediu, contudo,
totalmente, a penetração de capitais não-portugueses, mas facilitou a
aquisição e o controle de empresas e actividades na estrutura industrial,
a empresários e grupos capitalistas portugueses, inclusivamente colonos.
Como foi referido, a política de integração administrativa do espaço
colonial tinha já sido adoptada antes de 1930. Quando terminou a
concessão majestática da Companhia de Moçambique em 1942, o estado
colonial português tomou a seu cargo a administração das províncias de
Manica e Sofala, passando a maioria dos funcionários da companhia
cessante para o novo quadro administrativo. Também, nesta zona, o
período favoreceu a expansão de capitais portugueses. Segundo o
testemunho de um Inspector do Estado português, a Companhia Colonial
do Búzi, com capitais portugueses, foi considerada como uma companhia
verdadeiramente portuguesa, tendo expandido as suas actividades no
sector agro-industrial. Por outro lado, a Companhia de Moçambique,
transformada então numa companhia privada, fechou as suas minas em
Macequece e Inchope, e propôs-se a vender quase todas as suas
fazendas[3].
1.3 0 poder reforçado do Governador-Geral
Em 1940, chegou a Moçambique um novo Governador-Geral: José
Tristão de Bettencourt. Homem da máxima confiançanos círculos
dirigentes portugueses, Bettencourt teve o papel de dinamizar o aparelho
de Estado colonial no sentido de coordenar, de uma maneira mais
rigorosa do que anteriormente, a produção nas zonas rurais de Moçambi
que, para que a burguesia portuguesa aproveitasse plenamente as
circunstâncias da Guerra. Como veremos neste capítulo, começou
também com ele a introdução das instituições fascistas no país, e a
implementação do acordo entre o Vaticano e o governo português para
a promoção da Igreja Católica nas colónias.
Na concretização dessas linhas gerais da política colonial, Bettencourt
soube tirar proveito da situação de guerra. De facto, com os grandes
países industriais em guerra, foi consideravelmente reduzida a possibili
dade de críticas internacionais ao colonialismo português, nomeadamente
em matéria de política laboral. O próprio Bettencourt confirmava em
A Reestruturaçâo da Sodedade Moçambicana, 1938-1944
8. Tomada de posse do Governador-Geral colonial, J. T. Bettencourt, 20.3.1940.
9. Saudação fascista do Ministro das Colónias, frente à Mocidade Portuguesa,
Lourenço Marques, 1942, na presença de Bettencourt e o Cardeal Gouveia.
Capítulo 3
1944, ap6s uma intensificação da produção rural através de métodos
violentos:
"No momento actual, em que as grandes nações estão preocupadas com os
problemas de guerra, é natural que passe sem comentário, qualquer
arbitrariedade por nós praticada em relação ao sistema do trabalho imposto
por acordos internacionais" [4].
Foi, por isso, possível a intensificação da exploração, acompanhada, em
geral, por todo o género de arbitrariedades, ao mesmo tempo que o
bloqueio informativo imposto impediu que a resistência da população
encontrasse ou recebesse qualquer apoio internacional.
2. As culturas forçadas
2.1 Generalização do cultivo do algodão
Os decretos e regulamentos de 1938 tinham já definido muito claramente
as condições segundo as quais as companhias concessionárias podiam
actuar se pretendessem manter as suas licenças. Estas novas disposições
não faziam referência aos meios pelos quais o algodão se devia tornar a
10. Apesar de ser una cultura obrigatória, em alguns lugares favorecidos,
particularmente na década de 1950, o algodão tornou-se mais rentável.
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A Reestruturação da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
11. Mercado de Nametil, Nam
pula. Os baixos preços e viga
rices praticados nos mercados de
algodão provocaram a constante
resistência dos produtores.
principal cultura na área da concessão, e como os camponeses deviam ser
obrigados a cultivar, prioritariamente, essa planta. De facto, a partir de
1938, o cultivo do algodão, nas concessões reorganizadas, iniciou uma
longa luta entre os produtores camponeses por um lado, e as companhias
e administradores por outro, que decorreu numa primeira fase até 1942,
e durante a qual foram elaborados, passo a passo, os mecanismos de um
sistema de cultura forçada.
De início, em 1939, a JEAC tentou promover o aumento da cultura
do algodão através da propaganda e da persuasão. Em reuniões nos
regulados escolhidos para a promoção da cultura, os administradores,
chefes de posto, agentes da Junta e missionários propagandearam que o
cultivo do algodão seria um grande benefício para o povo, e este
aproveitaria do dinheiro da produção e de roupas baratas, de algodão,
que seriam produzidas e vendidas localmente. Além disso, partindo do
princípio de que esta era uma cultura que aumentaria o bem estar
material do campesinato, ela devia ser efectuada nos melhores solos e
ocupar a maior parte do tempo de trabalho do camponês. No primeiro
ano, os camponeses que não tinham experiência do algodão aceitaram os
argumentos que lhes foram expostos, e começaram a experimentar a nova
cultura quando as sementes foram distribuídas.
Mas, algumas das desvantagens para os produtores da cultura
Capítulo 3
12. Descaroçamento de algodão, Buzi, Sofala; apesar das más condições,
trdbalho nas fábricas contribuiu para a formação do assalariado rural.
algodoeira cedo se tornaram visíveis logo após o início do cultivo. A não
ser quando cultivado em solos particularmente apropriados, tais como
alguns existentes em Cabo Delgado, Nampula, norte da Zambézia, norte
de Manica e Sofala (Chemba), o rendimento por hectare era baixo.
Mesmo o preço então oferecido pelos compradores era mais baixo do que
aquele praticado em 1937. Enquanto o rendimento proveniente do
algodão obtido pelo cultivador, em zonas geograficamente favorecidas,
atingia os 140 escudos, noutras zonas era apenas de 5 a 8 escudos. Em
1939, o rendimento médio para todo o país era de cerca de 85 escudos
por cultivador. Isto era uma fraca recompensa para uma cultura como o
algodão, que requera uma constante atenção - normalmente cerca de 150
dias de trabalho em cada época.
Além disso, os produtores só podiam vender o algodão a uma
companhia concessionária. Impedidos de levar a sua produção a outros
locais, estavam sujeitos às práticas fraudulentas dos oficiais da Compan
hia. Essas práticas iam desde a pesagem viciada à classificação de
A Reestruturaçdo da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
qualidade inferior do produto, justificando, assim, a aplicação de preços
mais baixos.
2.2. Generalização da cultura obrigatória
Em reacção à crescente resistência à cultura do algodão em vastas áreas,
as Companhias e o Estado colonial começaram a desenvolver os seus
métodos para forçar o cultivo, quaisquer que fossem as condições dos
solos.
Os meios de intimidação utilizados incluíam os sipaios, agentes da
administração colonial, cuja função era geralmente acompanhar os
recrutadores de mão-de-obra forçada. Do ponto de vista do administra
dor, este era o melhor modo de assegurar que os camponeses tivessem
o suficiente para pagar o imposto. Além disso, os decretos de 1937 e
1938 reforçaram os poderes dos administradores, providenciando que
pudessem impor sanções contra aqueles que infringiam os regulamentos
locais sobre a promoção do algodão.
Entretanto, em 1939140, não tendo o Estado colonial deixado outra
alternativa às companhias concessionárias que não fosse assegurarem a
produção do algodão ou desistirem das suas concessões, elas pressio
naram os seus representantes locais a terem uma acção mais directa do
que até então. Por exemplo, em 1940, o director local da concessão da
Mutarara, da Companhia da Zambézia, foi instruído a:
i) ter uma cópia do censo populacional e assegurar que qualquer
homem, mulher ou criança (rapaz ou rapariga) estivesse provido de
sementes;
ii) que cada pessoa devia ter meio hectare de terra preparada até
Novembro e outro meio hectare até Dezembro;
iii) que o algodão devia ser plantado antes de qualquer cultura
alimentar;
iv) que todo aquele que não cumprisse devia ser enviado à adminis
tração para ser punido, o que, conforme foi dito ao director, não
seria necessário se a vigilância fosse feita como devia ser [5].
Em 1940, ap6s a chegada do Governador-Geral Bettencourt, o
próprio Estado colonial começou a adoptar uma polftiça muito mais
eficaz em relação à promoção da cultura do algodão. Segundo Betten-
Capítulo 3
court, a maior parte dos governos provinciais contentava-se até então em
deixar 'completemente livre para ociosidade o indígena que tivesse
satisfeito a sua obrigação de contribuinte' (do imposto). De facto, em
1940-41, nem todos os governadores provinciais e administradores
estavam de acordo com a extensão das obrigações dos camponeses
através da repressão sistemática na produção familiar.
Para assegurar que as necessidades da burguesia portuguesa fossem
assumidas e que consequentes acções fossem levadas a cabo nas provín
cias, Bettencourt decidiu nomear novos administradores, apoiantes da
política económica do Estado português, para que promovessem a inten
sificação do uso da força no desenvolvimento da produção algodoeira.
Em 1941, com o fim de melhor controlar as várias fasesdo cultivo,
os Governadores das províncias passaram a emitir ordens de serviço que
permitiam às companhias concessionárias empregar capatazes na
promoção do cultivo do algodão, nas respectivas áreas. Eles deveriam
ficar formalmente sob o controlo dos sipaios dos administradores. A
partir de então, pancada, torturas, abuso sexual e prisões arbitrrias,
feitas por sipaios e capatazes, tornaram-se métodos comuns para
promover a produção de algodão nas machambas familiares.
Estes meios de repressão sobre o campesinato no processD de
produção não eram, de forma nenhuma, novos, pois já tinham sido
usados por agentes das companhias e por alguns administradores na
década anterior. Alargaram-se, neste período, a quase todo o país, como
parte integrante de uma acção sistemática, levada a cabo pelas autcri
dades coloniais, para garantir a maior participação possível na cultura de
algodão. Desta forma, o número de produtores cresceu rapidamente: em
1943-1944, ý.tingiu os 791.000, ou seja cerca de 30% da populaçio
moçambicana em idade activa. A produtividade era extremamente baixa:
uma média de 85 quilos de algodão caroço por produtor por ano, e um
rendimento de menos de 1 escudo por quilo, no período 1941-1944 [6].
Do ponto de vista da burguesia portuguesa, a expansão do uso de tais
métodos violentos de compulsão obtiveram o efeito desejado. Em 1941,
a produção do algodão excedeu a de 1939, o primeiro ano da propaganda
generalizada. Então, em 1942, os jornais de Lisboa orgulhavam-se ao
anunciar que a produção do algodão colonial passara a cobrir mais de 90
por cento das necessidades portuguesas, comparada com os 40 por cento
dos dois anos anteriores, sendo a maior parte produção moçambicana.
A Reestruturação da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
2.3 0 cultivo forçado de arroz
Para além do reforço da política já estabelecida para a cultura de
algodão, as circunstâncias da II Guerra Mundial exigiram uma nova
política para a cultura de arroz. Na década 1929-1939, a produção e
comercialização de arroz em Moçambique diminuiu, tornando-se mais
barato importar arroz a granel do sudeste asiático (via Singapura). Esta
importação atingiu cerca de 11.000 toneladas em 1939 [7].
No entanto, a redução significativa da navegação comercial e o
desenrolar dos acontecimentos políticos no sudeste asiático, nomeada
mente a expansão do Japão e a queda de Singapura em seu favor,
provocaram a interrupção no fornecimento do arroz.
Em resposta a esta última situação, e para promover a autosuficiência
em arroz, o governo colonial decidiu introduzir a produção obrigat6ria
do arroz. Círculos orizicolas foram constituídos e os europeus responsá
veis pela compra, descasque e comercialização, passaram a ser super
visionados pela Divisão do Fomento Orizícola, criada em 1942, e que
tinha poderes semelhantes aos da Junta de Exportação de Algodão
Colonial. De facto, a cultura forçada de arroz baseava-se, desde o seu
começo, no modelo da cultura do algodão. Ela baseava-se também na
pressão exercida pelos administradores, cipaios e capatazes. Os conces
sionários deviam distribuir as sementes, fertilizantes e sacos, tendo cada
homem que cultivar um hectare e cada mulher meio-hectare. O arroz
devia ser vendido pelo camponês apenas ao concessionario, a um preço
baixo, fixado pelo governo. O concessionário processava e revendia o
produto, enriquecendo-se, dessa forma, em todo o processo de comercia
lização.
3. A intensificação da exploração do trabalho
3.1 A crise de mão-de-obra rural
O rápido avanço do cultivo de algodão e de arroz (1939-1942) provocou
uma crise no fornecimento de mão-de-obra para outros sectores da
economia colonial de Moçambique, patticularmente a norte do Zambeze.
Com vista a apreciar a extensão desta crise e o significado das medidas
tomadas para a resolver, é necessário examinar a interligação de todas as
culturas do ponto de vista do processo de trabalho [8].
Como vimos nos capítulos anteriores, açúcar, chá, copra e sisal eram
extensas culturas de plantação que normalmente precisavam de um
Capítulo 3
13. Paisagem da cultura da Chá, Gurué, Zambézia.
14. Para a colheita e processamento, as plantações de chá requeriam grande
número de trabalhadores sazonais.
A Reestruturação da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
grande número de trabalhadores com contratos curtos, de quatro a oito
meses, durante a época de colheita e de transformação. Tendo a II
Guerra Mundial despertado a procura de todas estas matérias-primas, os
proprietários das plantações começaram, simultaneamente, a dinamizar
a produção, necessitando, por isso, de urgentes e maiores fornecimentos
de mão-de-obra.
Essa procura foi acentuada pela política de culturas obrigatórias: a
produção forçada do algodão e do arroz levou a que muitos homens, nas
zonas em que a venda de tais produtos era suficiente para pagar o
imposto, deixassem de ter interesse em serem trabalhadores sazonais nas
plantações. Na verdade, em áreas de solos apropriados e havendo boas
condições climatéricas, o cultivo de algodão podia ser mais lucrativo do
que o trabalho na plantação.
3.2 Actuação do governo colonial face à crise de mão-de-obra
Em reposta às crescentes queixas dos proprietários das plantações, que
desejavam apropriar-se dos lucros rápidos que se podiam obter com os
preços práticados durante a guerra, o Governador-Geral visitou as
províncias do Norte para apreciar a extensão da crise. Na Zambézia,
província mais afectada, o governo reuniu pela primeira vez os dados
populacionais de cada administração. A não ser algumas excepções, cada
uma mostrava ter um grande número de homens que podia integrar-se no
trabalho sazonal, mas que, por falta de 'incentivo', não o faziam. Para
toda a província, o total de homens disponíveis era adicionado de mais
40 mil homens, número suficiente para resolver a crise de mão-de-obra
nas plantações.
Com tais informações, Bettencourt optou por uma solução administra
tiva para obstar a falta de 'incentivo' para o trabalho nas plantações.
Com base, unicamente, nos seus poderes de Governador-Geral, emitiu a
circular 818/D7 de 7 de Outubro de 1942, que foi enviada aos Governa
dores provinciais. Esta circular informava que não era suficiente a
população rural pagar o imposto e a 'contribuição braçal' nas obras
públicas (teoricamente apenas 5 dias por ano para aqueles que pagassem
o imposto). Determinou que, a partir de então, cada homem devia
provar ao administrador ou chefe de posto que ganhava dinheiro através
de um emprego ou através da venda de produtos agrícolas. As autori
dades deviam registar esta informação, em folhas de registo especiais e
Capítulo 3
15. Carregamento da cana de açucar, lncomat, 1944.
na caderneta de identificação, que cada homem devia 'possuir [9].
Na prática, os homens que não eram agricultores de vulto, e que não
podiam provar o seu trabalho por conta de outrem, eram considerados
'vadios', e podiam ser capturados pelo administrador ou chefe de posto.
Concentrados nas sedes e postos, eram recrutados pelas plantações e
outras entidades. Na ideologia colonial, este acto de recrutamento
representava a chamada 'livre escolha' de emprego estipulada na lei.
Legislação complementar a Circular 818/D7 introduziu novos regula
mentos de identificação da população negra, estipulando novos deveres
para o administrador e os patrões no sentido destes fornecer informações
completas sobre todos os trabalhadores. Estas informações, acrescentadas
às que cada régulo tinha de fornecer, obrigatoriamente, à administração
local sobre cada homem de mais de 16 anos de idade no seu regulado,
constituíram a base de um sistema de controlo muito rigoroso sobre o
trabalho e as deslocações da população em geral [10].
Uma outra cláusula da Circular deu poderes aos governadores para
decidirem sobre a área considerada suficiente para cultivo a atribuir aos
camponeses que tivessem preferido permanecer nas suas terras, produ
zindo culturasde rendimento. Deste modo, nas melhores áreas para
algodão e arroz, os camponeses podiam evitar o trabalho obrigatório, se
A Reestruturaçao da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
fossem registados como seus produtores. Por outro lado, devido ao seu
baixo rendimento na maior parte das concessões, foram cada vez mais as
mulheres os únicos produtores a serem registados. Nas áreas considera
das improdutivas para o algodão e arroz, não havia, praticamente,
escolha para o camponês, a não ser oferecer a sua força de trabalho, pois
que estas eram, geralmente, as zonas menos férteis, ou menos beneficia
das com estradas, que lhes possibilitassem comercializar outras culturas.
Com o 'incentivo' estabelecido a nível de regulamento, começou a
sua implementação. Apesar da carência de cadernetas, já no fim de 1942,
os administradores distritais conseguiram impor o novo sistema de
controlo, de maneira a acabar de vez com a falta de mão-de-obra. Como
apontou com orgulho o próprio Bettencourt, tinham-se acabado as
queixas dos proprietarios incomodados [11]. No entanto, devemos notar
que o controlo rigoroso, assim reforçado sobre o trabalho de cada
moçambicano, através de cadernetas e registos, ainda não era o mais
completo possível. Como veremos nos próximos capítulos, no período do
p6s-guerra, verificou-se uma extensão e intensificação deste sistema.
3.3 A reorganização dos impostos
Simultaneamente com a Circular 818/D7 e o novo regulamento de
identificação, o governo colonial de Bettencourt procedeu, em 1942, a
reorganização do sistema de impostos aplicáveis à população negra.
Como base deste sistema, estabeleceu-se que o imposto de palhota,
já em declínio na década anterior, devia ser substituído definitivamente
pelo imposto de capitação. Isto significou que, com a ajuda das novas
regras de identificação, todos os negros, incluindo as mulheres, tinham
de ser colectados segundo critérios uniformes em toda a colónia. As
mulheres pagavam, em geral, o chamado 'imposto reduzido'. Este novo
imposto também se aplicava aos homens inválidos [12].
Como resultado desta reorganização, o rendimento do imposto
aumentou rapidamente. Na Zambézia, por exemplo, em 1943, a cobrança
teve um aumento de 2 mil contos sobre o ano anterior [13]. Nota-se que,
através deste mecanismo, o governo colonial não só incrementou o seu
rendimento geral, como também incentivou a família camponesa a
trabalhar nas culturas obrigatórias e nas plantações.
Capítulo 3
3.4 Reforço dos auxiliares administrativos: régulos e sipaios
Uma outra política, dinamizada por Bettencourt, na reorganização da for
ça de trabalho rural, dizia respeito aos poderes dos régulos. Uma cláusula
da circular 818/D7 deu aos régulos, quando fossem encarregados nesse
sentido pelos administradores e chefes de posto, o papel de reunir aqueles
que não tivessem cumprido integralmente as suas obrigações, a fim de
serem distribuídos pelas empresas que precisavam de mão-de-obra.
Contudo, segundo Bettencourt, a divisão dos chefados tradicionais
tinha sido demasiado grande, nos decénios que se seguiram a conquista
colonial, e o poder da maioria dos chefes ficara reduzido a tal ponto, que
eles eram mais símbolos de decadência do que de autoridade. Tinham
muito poucos súbditos, embora guardando alguns privilégios. S&" os
régulos deviam exercer um papel mais activo na nova perspectiva de
exploração colonial, então, tinham de ser escolhidos mais cuidadosamente
dentro da linhagem tradicional reinante (dominante) do regulado, e
reduzido o seu número. Desta maneira, o Governador-Geral queria
16. Régulos com os seus bastões de comando juntam-se para prestar homenagem
ao Presidente português Carmona, Quelimane, 1939.
A Reestruturaçâo da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
reforçar a posição dos régulos e da ideologia local, de forma a desempen
harem, o melhor possível, as suas novas obrigações, trabalhando a par
com a administração portuguesa na organização da produção e na
identificação administrativa da população [14].
Os primeiros passos foram dados em 1942, tentando-se associar esta
reabilitação às campanhas de propaganda de algodão, e à cobrança
revigorada dos impostos. Na Zambézia, por exemplo, cada chefe que
apoiasse a campanha obteria uma casa, construída as vezes de alvenaria
e com depósito de água, à custa da administração e das companhias
concessionárias. Segundo o Governador, esta acção era da maior
importância, pois servia de exemplo para os outros chefes, mostrando os
benefícios concretos de colaboração com o Estado colonial. No final de
1943, 49 destas casas tinham sido construídas na Zambézia, por um custo
superior a 100 mil escudos [15].
Em 1944, o regime colonial completou uma reorganização profunda
de toda a política referente aos 'auxiliares' da administração civil,
nomeadamente os sipaios, intérpretes e régulos. O regulamento promul
gado detalhava exaustivamente os deveres dos régulos, chefes de grupos
de povoações e chefes de povoações, preconizando o seu papel funda
mental como "executores" da "intervenção superior portuguesa" [16].
Desta reorganização, nos anos seguintes, tiravam alguns régulos
proventos consideráveis, como: percentagem do imposto de capitação,
prestações de serviços dos camponeses nas suas próprias machambas de
algodão e outras culturas, multas aos infractores das leis coloniais e
tradicionais, pagamento de tributos em dinheiro, aquando de cerimónias
e ritos, ete.
3.5 Reforço do controle sobre trabalho em Lourenço Marques e Beira
As medidas implementadas nas zonas rurais, que resultaram num afluxo
de pessoas para as cidades, fugindo ao trabalho e culturas forçadas,
foram complementadas por outras que intensificaram o controle sobre os
trabalhadores, em Lourenço Marques e Beira.
Com o objectivo de reprimir a força de trabalho permanente e
migrante, de limitar a presença de negros 'desnecessários' nas cidades,
e de evitar concorrência de salários entre os patrões, em 1944, o governo
colonial promulgou um novo Regulamento dos Serviçais Indígenas. Esta
medida codificou e tornou mais rigorosa a fiscalização de contratos,
Capítulo 3
permanência e comportamento dos trabalhadores das duas cidades.
O mecanismo principal dessa repressão, como anteriormente, era o
Comissariado da Polícia, que mantinha um registo de todos os trabalha
dores negros na cidade, e que concedia, e controlava cada ano, o livrete
de serviço que cada trabalhador tinha que levar consigo [17], além da sua
caderneta de identificação. Um aspecto essencial do sistema era a
constante fiscalização da documentação pessoal dos negros, nas ruas ou
nas rusgas nocturnas. Ap6s a sua chegada a cidade, o trabalhador negro
tinha que se apresentar a administração, que averbava na sua caderneta
a autorização de permanência de 10 dias. Neste período, tinha que
encontrar serviço, inscrever-se no registo, e, assim, obter o seu livrete,
sem o qual estava sujeito a ser preso como vadio e a ser entregue a uma
brigada de trabalho forçado nas obras públicas.
O novo rigor do sistema assentava na regulamentação dos deveres dos
trabalhadores em relação aos patrões, e na extensão das penalidades já
estabelecidas para infracções administrativas (falta de inscrição no
registo, por exemplo). A partir dessa altura, foram especificamente
autorizadas penalidades, severas, sobre os trabalhadores para os mais
ligeiros actos de desleixo, desrespeito e indisciplina. Para além de
espancamentos, as infracções eram punidas com a pena de 15 a 120 dias
de trabalho correcional, nas obras públicas. Infracções mais severas
eram, por exemplo, insubordinação perante agentes da polícia. Isto
resultava no trabalhador ser julgado "elemento indesejável ou perigoso
para a ordem e segurança pública", e levavam a penalidade de desterro,
até ao máximo de seis anos, para o seu distrito de origem, ou mesmo,
para uma outra província. Em contraste, o patrão que não pagasse o
salário, ou que maltratasse o trabalhador,pagava, apenas, uma multa de
50 a 300 escudos.
3.6 0 novo sistema de sindicatos fascistas
Na mesma altura, o governo colonial preparou-se para a repressão mais
completa dos trabalhadores permanentes no comércio, indústria e outros
serviços. Iniciou-se, neste período, a criação de sindicatos corporativos
que tinham o objectivo de organizar, de forma controlada, todas as
actividades sindicais dos trabalhadores brancos, separando-os claramente
dos trabalhadores negros.
Estava legislado que os novos sindicatos subordinavam as suas activi-
100
A Reestruturação da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
dades aos interesses da 'Nação' portuguesa. Os seus dirigentes eram
nomeados pelo Ministro das Colónias em Lisboa, e segundo o estipulado
na lei:
"o sindicato reconhece que constitui um factor de cooperação activa como
todos os factores da economia nacional e por conseguinte, repudia a luta de
classes, propondo-se a obter satisfação num espírito de harmonia e paz
social" [18].
Em 1943, seria criado o primeiro sindicato corporativo em Moçam
bique [19]. A 22 de Junho, a Associação dos Empregados do Comércio
e da Indústria transformou-se no Sindicato Nacional dos Empregados do
Comércio e Indústria (SNECI) [20]. Em 1944, um novo sindicato
corporativo foi criado: o Sindicato Nacional dos Motoristas e Ferroviá
rios de Moçambique [21]. Outros serão criados nos períodos seguintes.
Assim, os sindicatos corporativos eram estruturas de integração dos
trabalhadores, no aparelho de Estado colonial. Actuavam no sentido do
enquadramento dos trabalhadores brancos no sistema, e tinham,
simultaneamente, um papel da acção social de assistência, uma espécie
de mutualismo sócio-profissional. Estreitamente controlados, não
representavam grande perigo para a administração colonial. Um conjunto
de medidas legais impediam, eficazmente, a criação duma burocracia
político-sindical, que defendesse os seus próprios interesses. Por outro
lado, tinham, internamente, uma acção de controle, através dos seus
registos sindicais, onde estava o cadastro de cada trabalhador, inclusiva
mente o seu comportamento.
Como a legislação sobre os sindicatos exêluiu, especificamente, os
trabalhadores negros, a sua sindicalização foi efectivamente interdita. Por
esta razão, as regulamentações relativas a salários e outras vantagens
destinadas aos trabalhadores sindicalizados, não abrangiam os,trabalha
dores negros [22]. Isto representava, para os empregadores, a possibili
dade de, sempre que lhes interessasse, empregarem trabalhadores negros
qualificados, mas com salários inferiores.
4. A estrutura de produção e as suas consequências
4.1 Produção e rendimento nas zonas rurais
A subida de produção agrícola, resultante das medidas mencionadas foi,
do ponto de vista do colonialismo, um êxito notável. A intlu-nti letívi
101
102 Cap(tulo 3
Quadro 5: 0 volume das .íncipais exportações de Moçambique,
1939-1944
Contos
1939 1942 1944
L Algodao
-Caju
Acucar
IZI] Sisal
LCopra
Amendoim
dade do Estado em promover o cultivo do algodão em 1939-1942 teve como
resultado que o algodão constituísse cerca de 42 por cento do valor total das
culturas exportadas em 1942. Depois disso, e em seguida à famosa Circular
818/D7, em benefício das culturas de plantação, estas aumentaram a sua
produção e, assim, o algodão decresceu um pouco, na sua importância
relativa, mas continuou a ser, de longe, a exportação de maior volume.
Da análise dos Quadros 5 e 6, se verifica que, enquanto a tonelagem
absoluta dos produtos exportados aumentou, os preços desses produtos,
excluindo o do algodão, aumentaram muito mais [23]. Por estas razões, o
valor total das exportações agrícolas triplicou entre 1940 e 1944 [24].
4.2 Diferenciação regional
É de realçar a existência de importantes diferenças regionais. Por exemplo,
em relação ao algodão, nos anos 1941-1944, oitenta por cento da produção
vinha das províncias de Nampula, Cabo Delgado e Zambézia, onde se encon-
200
150
100
50
o
200
150
10e
50
o
A Reestrrturação da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
Quadro 6: O valor das principais exportações de Moçambique,
1939-1944
Mil toneladas
1939 1942 1944
E Algodao
[ Caju
Acucar
Sisal
Copra
Amendoim
travam 78 por cento dos produtores. Cerca de 48 por cento do total
provinha de Nampula, cujos produtores receberam uma média de 105
escudos, isto é, menos de 1 escudo por dia de trabalho.
Na província de Nampula, cerca de 40 por cento do algodão foi
produzido nas circunscrições de Mogovolas e Eráti. Estas zonas,
tradicionalmente locais de concentrações de população afastadas das
propriedades do litoral, tinham sido declaradas 'reservas indígenas', na
década de 20, em parte para impedir a alienação de terras aos colonos e,
assim, evitar os problemas sociais encontrados em Mossuril a que
referimos no capítulo anterior. Beneficiavam também de comunicações
razoáveis com o litoral. Aqui, já havia a tradição de cultivar algodão
desde a década de 20. O rendimento dos produtores era ligeiramente mais
alto que a média em todo o país: 165 escudos por ano, ou um pouco
mais de 1 escudo por dia de trabalho.
Em algumas partes de Manica e Sofala, como Cheringoma, por
exemplo, alguns camponeses conseguiram um rendimento de 600, 700 ou
mesmo 800 escudos por ano. Contudo, a maioria dos camponeses de
Manica e Sofala não receberam mais de 200 escudos, e tiveram de pagar
um imposto de 180 escudos.
4.3 Controle permanente da administração obre a produção agrícola
Segundo a documentação oficial, a produção relativamente alta de
algumas destas zonas foi sempre o resultado de uma efiiente fiscalização
administrativa, da colaboração activa de alguns régulos e da pressão
constante das companhias. O papel fundamental das autoridades gentflicas
foi bem reconhecido pelo Inspector do regime colonial, que visitou
Manica e Sofala em 1944, e que chegou a propor uma maior recompensa
para os régulos para que estes ficassem menos "dependente das pressões
da sua gente".
No mesmo ano, um outro Inspector colonial criticou os excessos de
um régulo de Mogovolas, que exigia dos seus súbditos trabalho gratuito,
nas suas machambas colectivas de algodão. Relatou os "actos terroristas"
de agentes da Companhia dos Algodões de Moçambique no Eráti,
dizendo que era aparentemente estratégia dos agentes actuar numa zona
até a própria administração tomar conhecimento dos protestos. Nessa
altura começavam a aterrorizar outra zona. Normalmente, o agente, de
machila, mandava os seus capatazes fazer as intimidações e agressões
exemplares, que frequentemente resultavam em ferimentos graves e
mortos. O agente podia ficar, assim, ilibado de qualquer acção ilegal.
4.4 Crescente exploração do campesinato
A crescente taxa de exploração, que exigia a manutenção e até a
intensificação da pressão administrativa, pode-se avaliar através do custo
de vida. Nas zonas rurais, a medida habitual disto era 9 preço de tecidos
de algodão, o produto transformado mais procurado. Informações da
Zambézia e de outras zonas do Norte mostram que, no período da
Guerra, o preço dos panos subiu 300 por cento em relação ao valor que
tinham antes da Guerra, descendo substancialmente na sua qualidade e
duração. De facto, a indústria portuguesa, agora sem concorrência dos
Indianos e Ingleses, vendia produtos de qualidade inferior nas suas
colónias. Um inspector colonial chegou mesmo a aconselhar a população,
através dos régulos, a poupar o seu pouco dinheiro na esperança da
chegada de melhores tecidos, depois da guerra.
Capítulo 3104
A Reestruturaçao da Sodedade Moçambicana, 1938-1944
Da mesma forma, a maioria dos contratados continuou a receber o
salário mínimo estabelecido em 1930. Se uma minoria de trabalhadores
das fábricas recebia 2$50 escudos por dia, sem alimentação, esta
remuneração representava uma diminuição considerável, se se considerar
a inflacção dos preços, especialmente dos tecidos.O custo da alimentação também aumentou, rapidamente, durante a
Guerra. O custo fixado para alimentação, nas plantações do norte, em
1930, foi de 50 centavos. Em 1944, 1 escudo já não era suficiente: a
alimentação fornecida aos soldados custava 2$70 por dia, o que explicava
o facto de não faltarem homens a oferecerem-se para o recrutamento
militar, onde o trabalho, em tempo de paz, não se comparava, em
dispendio de energia, com o do trabalhador rural, que passava 9 horas
de enxada na mão.
No Sul do Save, onde o nível de salários e impostos era mais alto,
agravou-se também a inflação de custos. O próprio Governador propôs
um aumento de 25 por cento dos salários, para evitar manifestações de
descontentamento [25].
A elevação de preços, incluindo o dos géneros alimentícios, colocou
o camponês de todo o país numa situação muito diffcil. Com efeito, um
hectare de amendoim rendia, normalmente, 700 escudos e com menos
trabalho que um hectare de algodão, que dava, na melhor das hipóteses,
apenas 200 escudos. No entanto, ainda em 1944, o Governo-Geral
diminuiu, ainda mais, o preço de compra do algodão. Pode dizer-se que
a força policial e o clima de tensão foram, cada vez mais, necessários nas
zonas rurais para induzir o camponês a produzir algodão, quando estava
mais interessado em produzir outras culturas, como reconheceu o já
referido Governador:
"o indígena, como todo o agricultor gosta mais de se dedicar às culturas que
melhor remuneração lhe puder proporcionar" [26].
O empobrecimento da maioria da população atingiu, neste período,
proporções ainda mais graves. A retirada de grandes quantidades de
mão-de-obra, devido às culturas forçadas e à elaboração de um rigoroso
sistema de trabalho por contrato, reduziu a capacidade da família
camponesa de assegurar, cada ano, o desbaste de terra suficiente para a
rotação, e mão-de-obra para as culturas não obrigatórias. Na Zambézia,
tradicionalmente produtora de excedentes alimentares, os prejuízos
105
Capítulo 3
decorrentes da política colonial foram evidenciados por um Inspector que
visitou aquela região em 1944:
"as necessidades enormes de mão-de-obra das actividades agrícolas
exploradas por grandes capitais - companhias - influenciaram decisivamente
o entrave ao desenvolvimento da agricultura indígena que, quanto aos
géneros alimentares, não satisfaz sequer as necessidades internas" [271.
Por esta razão, as culturas alimentares, tais como o milho, mapira ou
amendoim, que exigem um trabalho sistemático e pesado, deram lugar,
ao norte do Zambeze, a uma cultura que requeria muito menos atenção.
Foi o caso da mandioca que, sendo menos nutritiva, era, até então, usada
como uma cultura de reserva, a fim de assegurar as necessidades básicas
em época de chuvas irregulares.
Além disso, a obrigação de cultivar algodão nos melhores solos
disponíveis, a ignorância por parte dos administradores coloniais sobre
até que ponto o.algodão esgotava os solos e, ainda, a não observância de
um mínimo de requisitos em relação ao pousio, começou a baixar a
capacidade do campesinato de produzir alimentos suficientes para a sua
própria subsistência.
Mais ainda, pressionado a pagar impostos elevados, o camponês tinha
que vender, cada vez mais, a sua produção de alimentos básicos,
diminuindo assim as suas reservas. Conforme o Inspector, em 1944, em
Manica e Sofala,
"pode-se afoitamente afirmar que a população indígena, em regra, passa
fome" [28].
4.5 Diferenciação social no seio do campesinato
Enquanto a situação da maioria da população se deteriorou de uma
maneira alarmante, um número reduzido de camponeses conseguiu
melhorar o seu nível de vida. Alias, a prõpija circular de Bettencourt de
1942 visava deliberadamente essa possibilidade. Esta legislação isentou
do trabalho contratado os camponeses que obtivessem proventos capazes
de assegurar o sustento familiar, e todos os encargos tributários.
Além de alguns régulos, que eram ricos, devido ao aproveitamento
que fizeram das tributações linhageiras e do aparelho administrativo
colonial, há testemunhos doutros camponeses, que conseguiram manter
106
A Reestrutura 'çúv da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
ou melhorar a sua situação, durante este período. Por exemplo, informa
ções de Manica referentes ao ano de 1944, dão conta de vários agricul
tores negros estabelecidos há muito tempo, que cultivavam milho perto
da fronteira com a Rodésia do Sul, e, que, frequentemente vendiam o seu
produto às lojas daquela colónia. Nos postos distritais de Tambara e do
Dondo havia pequenos núcleos de agricultores, praticando culturas
extensivas de batata, arroz, milho, hortícolas e feijão.
Em Chemba, nesse mesmo ano, um agricultor, com a ajuda das suas
12 mulheres e 24 filhos, produziu 250 sacos de algodão e 1.070 sacos de
mapira. Com a venda de 500 sacos de mapira, a 50 escudos cada um,
realizou 25.000 escudos, para além do valor do algodão. Em Matire,
distrito de Buzi, 3 agricultores de arroz conseguiram, apesar das cheias
que assolaram a zona, vendas no valor de 6.600, 7.200 e 13.200
escudos. Quase todos os agricultores destas zonas pediram, às autori
dades, ajuda na aquisição de equipamento, como charruas de disco e
tractores para obviar as perdas em bois abatidos pela tripanosomiase, e
camiões para assegurar o transporte conveniente. Desejavam aumentar os
seus rendimentos, através de produção mais intensiva e da sua participa
ção na rede de transportes e comércio rural, que rendiam maiores lucros,
mas eram normalmente monopolizados pelas empresas coloniais
(incluindo comerciantes asiáticos).
Estas e outras reclamações mostram a discriminação a que mesmo
estes agricultores, privilegiados, estavam sujeitos, quanto ao forneci
mento de meios de produção e à comercialização dos seus produtos. Uma
comissão de agricultores negros de Manica dirigiu-se às autoridades
distritais, em 1944, solicitando um aumento do preço de compra de
milho. Na sua exposição, mostraram que o machambeiro branco recebia
quase 3 vezes mais, por saco, que o agricultor negro.
O sistema montado servia, de -facto, os interesses dos machambeiros
brancos. O Grémio de Produtores de Cereais do Distrito da Beira,
estabelecido na sequência da mesma legislação corporativa de 1937 que
autorizou os sindicatos para brancos (ver ponto 3.5), representava estes
interesses. O Grémio assegurava o ensacamento e o transporte aos
machambeiros negros e, assim, o aproveitamento da comercialização da
produção camponesa.. No entanto, os negros foram excluídos de receber
os apoios canalizados, através do Grémio e doutros organismos aos
machambeiros brancos.
Capítulo 3
No sul, apesar do aumento do número de agricultores negros com
charruas e bois, a subida dos preços atraiu novos machambeiros brancos
aos melhores solos, originando, por conseguinte, a expulsão dos negros.
Nesta região, também, os interesses dos criadores de gado negros
entraram, cada vez mais, em choque com os dos criadores brancos e as
necessidades da capital colonial. Na altura do cancelamento das
importações de carne da Africa do Sul no início da II Guerra Mundial,
em vez de aumentarem a quantidade de cabeças proveniente de criadores
negros para abate no matadouro municipal ao preço de compra estabele
cido para os criadores brancos, promoveram várias campanhas para
venda compulsiva de gado. A venda fazia-se em feiras especiais, nas
quais eram oferecidos preços geralmente baixos aos criadores negros.
Isto originou uma forte resistência destes criadores porque, além do
preço baixo, surgiram dúvidas sobre o destino do gado vendido.
Suspeitava-se que era, em parte, acrescido às manadas dos brancos, o
que foi confirmado pelo Chefe dos Serviços Agrícolas, em 1944 [29].
Como resultado destas aquisições, no mesmo ano, a Cooperativa de
Criadores de Gado, que representava os criadores brancos, fornecia já
um número considerável de cabeças de gado para abate. Esta organiza
ção, numa tentativade aumentar os seus lucros, começou a pressionar as
autoridades para reduzirem a compra, para abate, aos criadores negros.
4.6 Indústria, transportes e trabalho migratório para o estrangeiro
O principal investimento na indústria, neste período, incidiu, grande
parte, na transformação e armazenagem do algodão. O sistema de
culturas forçadas e um mercado garantido em Portugal foram incentivo
suficiente para estimular a construção de mais fábricas de descaroçamento
e armazens nas várias concessões. Note-se que a instalação dessas
fábricas era essencial, na medida em que o descaroçamento diminuía o
peso da matéria-prima para cerca de 30 por cento, baixando, assim, os
custos de transporte para o local de transformação em têxtil, neste caso,
as fábricas em Portugal. No geral, verificou-se um aumento da produção
agro-industrial para exportação.
A II Guerra Mundial originou mudanças na comercialização e
industrializaçãQ de sementes de óleo e seus derivados, devido, principal
mente à crescente procura de óleos alimentares e bagaços em Portugal,
ao declínio dessa procura, noutros mercados tradicionais (como França)
108
A Reest~rturação da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
17. Transporte da brita na construção do caminno dejerro de Tete, 1944.
e à escassez de navegação. Estes factores resultaram no incentivo para
a exportação de um produto transformado, de alto valor, em vez da
matéria-prima de grande volume e baixo valor, isto é, óleo e bagaços em
lugar de sementes. Assim, verificou-se uma intensa actividade na
montagem de novas fábricas, ao mesmo tempo que se procedia a
remodelações e ampliações das já existentes.
Foi neste período que, para facilitar o desenvolvimento da indústria
extractiva de carvão e o escoamento deste produto, se iniciou a cons
trução da inha férrea de Tete, entre Dona Ana (Mutarara) e Moatize
(254 quilómetros), para ligar a região carbonífera de Moatize ao porto
da Beira, através do caminho de ferro trans-zambeziano. A linha,
iniciada em 1938, só veio a atingir Moatize em 1949, depois de um
período de interrupção, devido à Guerra, que provocou a falta de
maquinaria e equipamento.
Se bem que este período não tivesse trazido transformações profundas
109
Capítulo 3
às indústrias viradas para o mercado interno, proporcionou, no entanto,
a sua consolidação, especialmente, as de cimentos, cerveja, águas
minerais, sabão, cigarros e moagem de milho. Originou, ainda, o
surgimento de outras, tais como uma pequena indústria têxtil, com uma
produção de pequena escala de vestuário, sendo a matéria-prima
importada de Portugal, e pequenas outras indústrias de artigos de
borrachá, mobiliário e verniz. Todo este crescimento foi estimulado pela
insegurança das viagens marítimas decorrente do conflito mundial.
Efectivamente, a produção para o mercado interno representava, no
fim deste período, cerca de 20 por cento do total da produção industrial,
em comparação com menos de 10 por cento, para o quinquénio anterior.
Aproveitando a situação da Guerra, e ao abrigo da legislação a que
nos referimos anteriormente (ponto 1.2 deste capítulo), alguns grupos
portugueses passaram a exercer um maior controle sobre sectores
industriais importantes. Por exemplo, em 1944, o grupo Champalimaud
comprou ao Banco Nacional Ultramarino a fábrica de cimentos da
Matola, tornada a Companhia de Cimentos de Moçambique em 1945. É,
porém, no período seguinte, que se verificará maior crescimento da
indústria, particularmente da indústria transformadora, virada para o
mercado interno.
No período da Guerra aumentou, consideravelmente, o número de
moçambicanos que trabalhavam temporária ou permanentemente nos
territórios vizinhos. Segundo as estatísticas oficiais, o número de
trabalhadores moçambicanos, na África do Sul, passou de 105.286, no
começo de 1940, para 137.676, no fim de 1944. Na Rodésia do Sul, no
mesmo período, de 68.304 passou para 93.977. Neste país, a partir de
1940, o número de trabalhadores moçambicanos ultrapassou o número
proveniente dos fornecedores tradicionais, nomeadamente, Niassalândia
e Rodésia do Norte.
Este aumento explica-se pela conjunção de dois factores. A crescente
actividade produtiva destes países, que aumentaram, rapidamente, o
fornecimento de matérias-primas a Grã-Bretanha e construíram novas
indústrias locais, capazes de substituir importações daquele país,
provocou uma grande procura de mão-de-obra. Moçambique, país já
constituído como reserva de mão-de-obra, estava em condições de
responder, prontamente, a essa procura, porque as más condições de
vida, causadas, particularmente, pelas culturas forçadas e pela elevada
110
A Reestruturação da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
taxa de exploração absoluta, estimularam a saída de muitos trabalhadores,
atraídos pelos melhores salários oferecidos, nesse tempo de expansão
económica.
Verificam-se, porém, ligeiras alterações no destino que levavam os
migrantes moçambicanos. Por exemplo, deu-se uma redução do número
de migrantes para as minas do Rand, onde os salários estavam fixados
em 3 libras (300 escudos), enquanto aumentava o número dos que iam
para as plantações de açúcar do Natal, onde se pagava 4 libras [30].
5. A resistência ao colonialismo
A crescente exploração colonial provocou, novamente, uma forte e
contínua resistência do povo moçambicano, particularmente, contra as
culturas forçadas, que afectaram simultaneamente vastas áreas do país de
norte a sul.
5.1 A resistência generalizada às culturas forçadas
Os camponeses, submetidos a uma intensa exploração, reagiram das mais
variadas formas: são númerosos os exemplos dessa resistência, que se
verificou em tão diversas regiões de Moçambique.
Em 193911940, os administradores de áreas próximas das fronteiras
com a África do Sul e Suazilândia assinalaram que algumas familias
preferiam incendiar as suas próprias palhotas e atravessar a fronteira a
cultivar o algodão. Igualmente, em Cabo Delgado, recomeçou a
emigração de famílias para o Tanganhica, logo ap6s a introdução da
cultura forçada do algodão. O mesmo aconteceu em áreas mais distante
da fronteira, como Manjacaze, em Gaza.
O subcultivo deliberado, isto é, espalhar quantidades insuficientes de
semente, ou ferver as sementes antes de as semear, eram também formas
muito utilizadas. Esta reacção à cultura algodoeira era feita, normal
mente, nas zonas mais pobres, na esperança de que a contínua má
produtividade conduziria a considerar a área completemente improdutiva
para o algodão.
Uma outra forma de resistência, mais aberta, contra os baixos preços,
era também frequente, desencorajando sistematicamente o cultivo em
áreas consideradas impróprias. Por exemplo, quando, em 1938, a
Capitulo 3
Companhia da Zambézia quis impor nos mercados a tabela de selecção
e classificação, conforme as orientações da JEAC, os camponeses
reagiram. Segundo um relatório de um Inspector colonial:
"assumiram atitudes de verdadeira revolta, queimando ou espalhando nas
estradas e lançando ao rio ou enterrando no mato, o algodão trazido para o
mercado" [31].
No fim da campanha agrícola de 1940, em Mulevala, ao norte da
Zambézia, alguns camponeses preferiram queimar as suas colheitas a
receber as somas baixíssimas, que os seus vizinhos tinham recebido, o
correspondente a uma média de 11 escudos por cultivador.
A criação de comunidades em fuga permanente para áreas mais
distantes, localizadas fora do controlo político da administração colonial,
foi outra das formas utilizadas. Estabelecidas normalmente em zonas
montanhosas ou de pântano, de difícil acesso, viviam em regra da caça
e recolecção. Testemunhos indicam que cou,Lnidades deste tipo se
estabeleceram nos distritos de Monapo, Mogincual, Nampula e no vale
do rio Cuarezi, ao longo da fronteira com a Rodésia do Sul. Um
entrevistado contou, assim, a experiência por si vivida nas montanhas
perto de Meloco, Montepuez:
"Nós conseguimos defender-nós atravésde uma vigilância muito grande.
Como estavamos no cimo da montanha, quando os portugueses chegavam,
deixávamos que eles subissem até metade antes de lhes atirarmos com
grandes pedras, matando alguns. Algumas pessoas escondiam-se nas caves
(cavernas, N.R.). Quando os portugueses chegavam, punham à entrada mato
e madeiras e chegaram-lhe fogo, pensando que todos os que estavam lá
dentro (na caverna) iam morrer sufocados pelo fumo. Mas como o fumo não
encheu a caverna, ninguém morreu. Aí continuamos a viver lá" [32].
5.2 A revolta Muta-hanu no Mossuril - Nampula, 1939 [33]
Enquanto essas formas de resistência se generalizavam, a imposição da
cultura de algodão fez deflagrar o conflito social no Mossuril. Este
conflito, entre os produtores locais (proprietários e camponeses), foi
resultado de uma história de alienação de terras e da imposição de uma
renda em trabalho gratuito (capítulo 2).
Com as pesadas exigências de trabalho nas machambas familiares, a
política da cultura forçada de algodão era, evidentemente, hostil aos
112
A Reestruturaçdo da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
produtores e comerciantes de cajú, tendo em conta os lucros mais
elevados que podiam obter da exportação do cajú para a India.
Com o objectivo de alterar as relações de trabalho existentes entre
proprietários e camponeses residentes nas suas terras, o governo colonial
publicou, em 1938, uma lei que visava eliminar a renda em trabalho. Isto
significou que os patrões teriam de pagar um salário por dia de trabalho,
e que.os camponeses, vivendo em terras privadas, pagariam uma renda
em dinheiro.
A resistência dos patrões e camponeses a submeterem-se a estas
disposições levou o governo a publicar nova legislação, em Agosto de
1939, dando poderes aos governos províncias para intervirem, directa
mente, no estabelecimento das novas relações de trabalho. No mesmo
mês, o Governador convocou os proprietários das terras de Mossuril a
Nampula, mas não conseguiu obter resultados favoráveis. Entretanto, o
administrador do Mossuril, pressionado para cobrar o imposto de palhota
a todos os contribuintes, tenta fazê-lo através dos régulos e cipaios
regulares, mas sem qualquer resultado.
A 31 de Agosto, o administrador chamou a companhia de polícias de
Monapo, força treinada, especialmente, para reprimir os estivadores do
Lumbo, dando-lhe ordens no sentido de se deslocar às povoações e
conseguir o pagamento do imposto, mesmo à custa do saque e de
destruição. Porém, a população amotinou-se e, formando uma grande
multidão armada de facas, paus e alfaias agrícolas, marchou para a
secretaria da circunscrição, atacando o acampamento da companhia com
particular violência.
Feita a comunicação da revolta ao Governador da Província, este
decidiu mandar, no dia seguinte, contra os insurrectos, a 51 Companhia
Indígena de Infantaria, estacionada em Nampula, tendo ele próprio
acompanhado a acção. Foram presas 187 pessoas, mas centenas de outras
conseguiram fugir ao assalto militar. Dias depois, chegou novo grupo de
50 polícias de Monapo, que obrigou a população ao pagamento do
imposto de palhota.
Esmagada a revolta, a situação acalmou, aparentemente. O sucesso
da intervenção militar deu uma nova força e mais autoridade à adminis
tração local que, em Outubro de 1939, conseguiu obter um acordo com
os proprietarios. Estes passaram, teoricamente, a cobrar as famílias que
viviam nas suas terras uma renda mensal de 2$50 e a pagar um salário
Capítulo 3
conforme os dias de trabalho. No entanto, nos meses e anos seguintes,
o administrador do Mossuril constatou que a situação não estava
normalizada, enquanto habitantes e proprietários procediam com
relutância à celebração e reg.sto dos contratos de renda e salário.
De facto, a administração ainda não tinha poder de fiscalização
suficiente para garantir o cumprimento integral do acordo, que era
sistematicamente ignorado tanto pelos proprietários, como pelos
habitantes. Apenas o declínio do comércio de cajú em 1942, que resultou
da II Guerra Mundial, tornou a situação mais calma e, assim, permitiu
o estabelecimento da cultura de algodão no Mossuril.
5.3 0 movimento associativo
A II Guerra Mundial foi, para toda a Africa, de uma importância
decisiva. Os africanos das colónias não-portuguesas foram largamente
utilizados, dentro e fora da África, integrados nos exércitos coloniais.
O chamado 'esforço da guerra' tinha levado, ainda, à intensificação da
produção e da exploração do trabalho, nos vários países colonizados.
Disto resultou a morte de milhares de africanos nos teatros de guerra
(estima-se que só a Africa oriental tera perdido cerca de 50 mil homens).
O colapso repentino do poder imperialista britânico e francês, no
oriente, culminando com a invasão japonesa de Malásia, Singapura e
Birmânia, contribuiu para a queda do mito da invulnerabilidade, em
geral, dos sistemas coloniais europeus. A entrada em contacto com outros
povos e outras ideias, e a participação, lado a lado, de soldados
africanos, numa posição subordinada aos Europeus, aceleraram a difusão
de uma ideologia anti-colonial e nacionalista, que marcou as semelhanças
entre o fascismo, contra o qual lutavam a Grã-Bretanha e a Franca, e o
colonialismo por eles, de facto, praticado.
De referir, ainda, a importância que nesse campo desempenhou a
propaganda anti-colonial, que ganhava vulto quer nas assembleias
internacionais quer em países como a União Soviética, os E.U.A. e,
mesmo, a Grã-Bretanha. Como resultado, nos preparativos já em curso
para a formação das Nações Unidas, confirmaram o direito dos povos a
dispor do seu próprio destino. Além disso, futuros dirigentes prestigiados
(Nkrumah de Ghana, por exemplo), tinham-se familiarizado, nos E.U.A.,
com a corrente panafricanista, que então ganhava grande popularidade.
Neste quadro, três vias para o nacionalismo começaram a desenhar-se
114
A Reesruturação da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
na vida política africana: as associações culturais de estudantes, intelec
tuais e religiosos, as organizações sindicais, e os partidos políticos. Ora
fundindo, ora movimentando-se em paralelo, estiveram na base da forma
ção dos futuros movimentos nacionais de libertação, que levariam a
independência, nas décadas seguintes, a maior parte dos países africanos.
Nas então colónias portuguesas, o impacto das transformações
também se fez sentir, salvaguardadas algumas diferenças. Se nas outras
partes de África, incluindo a África do Sul e a Rodésia do Sul, os
partidos e os sindicatos se apresentaram como os núcleos nacionalistas
mais activos, em Moçambique e nas outras colónias portuguesas esse
papel ficou circunscrito as associações. De facto, o atraso do desenvolvi
mento económico, a acção controladora e repressiva do colonial-fascis
mo, e a política deliberada de 'assimilação' não permitiram que as
associações se transformassem em verdadeiros partidos. Os *assimilados',
os intelectuais, em suma, a liderança nacional debutante viu, assim,
coarctada a possibilidade de ter uma expressão política tão activa como
a das outras colónias de África.
Como vimos no capítulo anterior, o Estado colonial estabeleceu
relações de aliciamento e repressão com a população africana urbana,
através das suas associações. A vida e acção destas associações continua
vam a processar-se segundo duas perspectivas. De um lado estavam as
autoridades coloniais, que mantinham o controle e a vigilância sobre a
camada que se agrupava nas associações e na qual confiavam como
agentes da sua polftica, mas que, ao mesmo tempo, receavam como
potencial oposição anti-colonial nacionalista. Do outro lado estava a
comunidade colonizada que encarava as associações, na pessoa das suas
direcções, como intermediários, advogados das suas causas. No entanto,
as associações não mantinham uma ligação estreita com o povo, não
obstante as suas direcções estarem conscientes de representar essa mesma
base social. Entre essa noçãode representatividade associativa e a de
partido, ficava sempre o limite, que o aparelho colonial impedia fosse
excedido.
Porque tentavam harmonizar os interesses diversos dos colonizadores
e dos colonizados, as associações irão sempre relacionar-se com o
governo colonial, ora em aberta sintonia, ora em cautelosa desconfiança.
Nas suas manifestaç es, responderão com rasgados protestos de
'patriotismo' português, alternando com tímidas reivindicações.
115
Capítulo 3
As suas acções de compromisso com a autoridade colonial devem ser
vistas, simultaneamente, como desejo e esforço consciente de defesa,
mais ou menos activa e agressiva, ainda que receosa, dos interesses de
vastos sectores da população local. Foi o caso da educação, do desporto,
da cultura e da acção social. A capa da assistência social e das activi
dades recreativas e culturais não podia esconder o desejo consciente de
legítima representatividade das comunidades locais. Neste contexto,
continuavam a ser as associações sediadas em Lourenço Marques, as
mais activas na defesa dos interesses das populações: a Associação
Africana (AA), o Centro Associativo dos Negros (CAN - novo nome que
assumiu o Instituto Negrófilo) e a Associação dos Naturais. De menor
incidência a acção do Centro Africano da Beira e da Associação Africana
da Zambézia.
Dentre as acções mais notáveis levadas a cabo pelas associações,
neste período, destacaram-se a exigência pelo direito à educação e ao
trabalho e a abolição de impostos. Por exemplo, numa acção conjunta
promovida pelo CAN e pela AA, foi exigida a abolição do imposto de
capitação sobre a mulher africana [34].
A educação, como sector de promoção social e económica, continua
va a merecer a atenção das associações, nomeadamente da AA e do
CAN. A AA continuou ligada à escola para raparigas 'João Albasini'
(criada em 1920), mesmo depois da sua integração nos serviços coloniais
de instrução. Ali ensinou a professora primária Cacilda Dias, filha de
Estácio Dias e irmã do escritor João Dias, figura importante no período
seguinte. Por solicitação dos sócios residentes nas zonas rurais, o CAN
intercedeu, por diversas vezes, junto das autoridades coloniais, para o
estabelecimento de escolas nas zonas onde elas não existiam. Durante a
guerra, e quando grassava já uma crise de empregos, derivada dos efeitos
do conflito mundial, ambas as Associações apelaram à Igreja para que se
cingisse aos naturais da terra para o provimento de lugares de.auxiliares
das missões [35]. Acerca da educação dada pelas escolas missionárias,
exigiam não apenas a possibilidade de as frequentar, como também
queriam trabalho, o que lhes vinha sendo negado sistematicamente tanto
nos serviços públicos como nos estabelecimentos privados.
"Porque toda esta civilização e instrução que nos dão para nos sujeitar depois
às inclemências da sorte negra? (...) Não queremos só escolas, queremos
também trabalho, porque depois de acabados os estudos temos que enfrentar
116
A Reestruturação da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
a vida.... Pediamos (a Sua Exa. Rev. o Prelado de Moçambique) ... que não
mandasse vir mais pessoal para os serviços auxiliares, porque há criaturas
competentes entre a nossa gente que podem desempenhar esses lugares com
tanta proficiência e dedicação como qualquer europeu, porque anos atrás o
desempenharam" [36].
Está bem patente, assim, a ambiguidade da posição das Associações, no
facto de reclamarem emprego na Igreja Católica, nqma altura em que,
mais do que nunca, esta instituição religiosa se tornava parte integrante
da estrutura de dominação colonial (ponto 6).
Em geral, a imprensa ligada às associações, amordaçada já com a
implantação do fascismo, tinha substituído a irreverência por uma ironia
cuidadosa, pela referência ambígua, ao mesmo tempo crítica e servil. O
Brado Africano, tendo perdido muito do seu carácter de jornal de
intervenção política, começou a utilizar uma sistemática divulgação
poética que, no período seguinte, viria a ser uma forma importante de
expressão anticolonial. A produção literária, poética em geral, apareceu
ainda dispersa por outros jornais. Uma importante página literária
conheceu a luz do dia durante este período. Criado em 1941, em
Lourenço Marques, por um grupo de intelectuais brancos anti-fascistas,
o Itinerário tinha por objectivo enriquecer as letras moçambicanas,
conforme dizia, "pela conjugação de valores novos que possam vir a
afirmar-se" [37].
Num outro plano, o desportivo, a AA esteve ligada ao Grupo
Desportivo Vasco da Gama, um dos diversos clubes que disputavam o
campeonato de futebol da Associação de Futebol Africana, um espécie
de segunda divisão para 'indígenas'. Segundo José Craveirinha, era na
Associação e nas suas acções que os africanos procuravam "pugnarjuntos
em busca da glória atlética, em termos de maioridade" [38].
6. O Estado colonial, a Igreja Católica e o ensino rudimentar
Para além da repressão sobre a resistência e a actividade política, já
referenciadas, houve outras formas, como a religião e o ensino, em que
o propósito da burguesia portuguesa de intensificar a submissão da
população moçambicana transparece mais claramente. Desde 1930 que
o governo colonial vinha implementando, para além de medidas de
exploração económica, toda uma filosofia de ocupação baseada no
Capítulo 3
"orgulho nacional, na fé, no dever, no humanitarismo...". Para os
objectivo§ da exploração colonial no plano ideológico, a presença da
Igreja Católica surgia como ingrediente fundamental.
No entanto, as circunstâncias diversas dos anos 1939 e 1940
favoreceram uma aliança muito mais efectiva, institucional, entre a Igreja
Católica e o Estado português.
Em 7 de Maio de 1940 foram assinados, entre o Estado português e
o Vaticano, a Concordata e o Acordo Missionário, consagrando, desta
forma, o papel da Igreja e da sua doutrina como a grande força
inspiradcra e justificadora do regime colonial-fascista português. O
Acordo Missionário seria depois regulamentado pelo Estatuto Missioná
rio, em 1941.
A isto chamou Salazar, em 1940, a 'nacionalização' do apostolado
missionário português. Também Franco Nogueira, cronista-mor do
salazarismo, afirmava ser o Acordo Missionário "da mais alta importân
cia", pois que retirava do Vaticano "qualquer jurisdição sobre os
missionários do Ultramar Português". Missionários esses que o respectivo
Estatuto submetia às autoridades portugueses a quem exigia, no mínimo,
concordância com a situação política prevalecente.
A Igreja Católica portuguesa foi, assim, instituída como instrumento
ideológico fundamental da defesa da ordem interna em Portugal e da
preservação do domínio colonial. Estreitamente ligada aos objectivos
sócio-políticos do Estado português, foi investida de grande autoridade,
iniciando, a partir de 1940/41, uma agressiva campanha de expansão,
concorrendo, em condições altamente favoráveis, com as Igrejas
protestantes. O regime transferiu a responsabilidade do ensino rudimentar
oficial para a Igreja Católica, estabelecendo ainda um rigoroso controle
sobre toda a actividade da Igreja.
O pessoal missionário era objecto de controle político pelo Estado,
mesmo o da alta hierarquia da Igreja, cuja nomeação só poderia ser feita
pelo Vaticano, desde que tivesse a confirmação do governo português.
Foi, também, estabelecido o controle político da formação de professores
nas missões. Só com o acordo do governo português podiam os
missionários estrangeiros não-portugueses trabalhar em Moçambique,
ficando, contudo sujeitos aos mesmos regulamentos e leis disciplinares
que os portugueses. O Estatuto Missionário estabelecia que todo o
pessoal docente 'indígena' devia receber a sua preparação em escolas
118
A Reestruturação da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
criadas para o efeito, devendo o pessoal dessas escolas ser, obrigatoria
mente, de nacionalidade portuguesa.
Para além disso, e apesar do ensino primário africanoestar confiado,
principalmente, às missões católicas, os conteúdos de ensino deviam ser,
exclusivamente, apreciados e autorizados pelo Estado português. Na
verdade, a Concordata confirmava o que tinha sido estipulado em 1930,
(capítulo 2, ponto 2.4): os materiais de ensino tinham de ser aprovados
e o ensino da história, em particular, tinha de contemplar objectivos
ideológicos e políticos bem concretos. Neste campo, as autoridades da
Igreja deviam assegurar que,
"... no ensino das disciplinas especiais, como no da história, se tenha em
conta o legítimo sentimento patriótico português" [391.
No entanto, a acção missionária da Igreja Católica era, para além de
um meio de expandir o cristianismo, um poderoso instrumento ideológico
destinado a pressionar as populações a aceitar trabalho nas actividades
coloniais, e a pagar impostos. Isto vinha claramente expresso no Estatuto
Missionário que definia o principal objectivo da educação como
"... a perfeita nacionalização e moralização dos indígenas e a aquisição de
habitos e aptidões de trabalho, de harmonia com os sexos, condições e
conveniências de economias regionais, compreendendo na moralização, o
abandono da ociosidade e a preparação de futuros trabalhadores rurais e
artífices que produzam o suficiente para as suas necessidades e encargos
sociais' [401.
A expansão da Igreja caracterizou-se por uma ligação estreita com os
elementos mais repressivos do sistema colonial, como o trabalho forçado
e as culturas obrigatórias. A isto não faltaram a expropriação de terras
aos camponeses e a utilização de mão-de-obra, sujeita a salários
miseráveis, ou mesmo forçada, dos próprios alunos das missões. Os
alunos eram normalmente usados como força de trabalho na produção
agrícola, especialmente do arroz e do algodão. Estes produtos eram
depois vendidos, revertendo a receita a favor da missão. Era o chamado
xipadre (chibalo na machamba das missões), trabalho forçado extraido
pelas missões aos alunos como forma de pagamento da educação
recebida.
Capítulo 3
De referir que, entretanto, e no âmbito da estreita colaboração entre
a administração colonial e a Igreja, aquela fornecia trabalhadores às
missões (principalmente os presos) enquanto estas permitiam o recruta
mento, quer pela administração, quer por particulares, dos alunos mais
velhos, antes de regressarem às suas casas.
Com estes apoios, o número de missões católicas continuou a
aumentar consideravelmente, como mostra as estatísticas oficiais:
Quadro 7: Aumento de missões católicas, 1938-1944
1938 1944
Missões 52 64
Filiais 211 598
Missionários 71 114
Auxiliares 443
Irmaõs/Irmãs 265
Assalariados 1950
Como resultado da expansão da Igreja e da gradual junção dos dois
tipos de ensino primário rudimentar (oficial e missionário) sob a
responsibilidade da própria Igreja Católica, aumentou rapidamente o
número de escolas para o ensino rudimentar das missões católicas:
Quadro 8: Número de escolas rudimentares, 1938-1944
Ensino 1938 1944
Oficial 188 96
Católico 245 502
Protestante 49 36
A educação ministrada nestas escolas continuou a ser de qualidade
muito baixa. Com a duração de 3 anos de escolariedade, este ensino
consistia, principalmente, em lições de língua portuguesa e de catequese
(o ensino do catecismo). Este último era, em geral, ensinado em língua
africana local, enquanto as outras matérias eram, obrigatoriamente,
ensinadas em português. Regra geral, os monitores, deficientemente
120
A Reestruturaçdo da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
preparados, consideravam mais fácil dedicarem-se ao ensino do catecismo
do que a outras matérias numa língua em que tinham grandes dificul
dades, pelo facto de ser, para eles, uma segunda língua. Isso viria a
reflectir-se nos resultados das escolas das missões católicas, nomeada
mente no número extremamente baixo de alunos que passaram o exame,
após os 3 anos de ensino:
Quadro 9: Ensino rudimentar católico, 1940-1944
1940 1944
Total de matrículas 52.238 94.494
Aproveitamentos no ano final 224 804
Assim, a crer nas estatísticas oficiais, menos de um por cento dos alunos,
que iniciavam o ensino rudimentar nas missões católicas, chegavam ao
fim com aproveitamento e, por isso, com o direito de avançar para o
ensino primário comum.
O ensino rudimentar, pelo que vimos, não tinha em vista facilitar o
acesso da população negra a uma educação semelhante a dos brancos e
de um escasso número de 'assimilados'. Só um muito reduzido número
de negros conseguia ascender ao II' grau do sistema escolar. No ensino
elementar oficial que, a partir de 1930, era destinado principalmente para
brancos, os negros constituíram apenas 77 matrículas de um total de
4.019, em 1944, enquanto no ensino elementar católico, destinado
principalmente para negros e onde o nível de ensino era baixo, 2.646 das
matrículas foram das crianças negras (de um total de 4.107).
De facto, o sistema primário oficial expándiu-se, após 1930,
principalmente para facilitar o acesso dos brancos ao ensino secundário
que, por seu turno, dava acesso ao ensino superior e aos postos
importantes no aparelho estatal e comercial. O sistema discriminava
manifestamente os negros, vedando-lhes o acesso a estes níveis de ensino
(em 1944 só um negro se matrículou no ensino secundário), o que
automaticamente os impedia de ocupar determinados postos de trabalho.
Isto estava em concordância com os objectivos do sistema educacional
colonial, em que o ensino rudimentar se devia processar, servindo, na
prática, de barreira à educação efectiva da população negra. A partir de
122 CapftulO
18. Escolas de Artes e Ofctos, como esta de Moamba, constituiram parte
integrante do sistema de educação para negros.
1940, a assimilação, teoricamente promovida pela Igreja, tornou-se, mais
do que dantes, uma ideologia com a qual os dirigentes políticos e
religiosos promoveram a consolidação do sistema colonial. Era a forma
de justificar, perante si próprios e seus subordinados políticos e
administrativos, a verdadeira face repressiva e discriminat6ria do
colonialismo português: o trabalho forçado e o carácter racista da política
19. Aula de sapataria na Escola de Artes e Ofícios de Moamba
122
.4 Rr,'sn utu, ;'-ao .... S,,Uedaac Moçambicana, 1938-1944
e das instituiçoeb coloniais. Desta forma, o projecto cultural da 'assimila
çãu' enquadrava-se mais do que nunca, nos desígnios políticos e
ideológicos do colonialismo português.
No mesmo ano em que foram assinados com a Igreja a Concordata
e o Acordo Missionário, realizou-se, em Lisboa, a Primeira Exposição
Colonial do chamado 'mundo português'. O entusiasmo que então se
pretendia pelas colónias destinava-se, nada mais nada menos, a incremen
tar a colonização portuguesa. A retórica dominante aí demonstrada, foi
a 'necessidade' de expansão da religião católica, da língua portuguesa e
do conhecimento da "grandeza e das qualidades especiais" da colonização
portuguesa. Todo este discurso, destinado a explicar a política colonial
do Estado português em Africa, era feito numa altura em que o governo
colonial, em Moçambique, levava a cabo a campanha política e adminis
trativa que culminou com a implantação das culturas forçadas e do
controle estatal rigoroso sobre toda a força de trabalho.
A maior preocupação do Estado colonial português era, como vimos,
assegurar a submissão política e económica da população negra,
impedindo-lhe, de facto, o acesso à toda a educação que fosse além da
rudimentar. A repressão efectiva de quaisquer aspirações dos negros
estava na base da política a seguir pelo Estado, tendo a população negra,
por seu turno, de trabalhar para o desenvolvimento da economia colonial.
A intensificada agressividade ideológica, através da Igreja Católica
oficializada, foi acompanhada por um crescente ritmo de discriminação,
controle e, até, repressão das Igrejas protestantes. A discriminação contra
estas missões foi efectuada, particularmente,através dos regulamentos
que controlavam a formação de professores moçambicanos, o que
impediu a expansão do trabalho educacional dos protestantes. Além
disso, nalgumas zonas, como no vale do Limpopo, onde a Igreja Católica
tomava conta de escolas oficiais há muito tempo estabelecidas, famílias
protestantes eram forçadas, cada vez mais, a matricular os seus filhos em
escolas católicas rudimentares. No II grau do ensino, isto é, o 'ensino
elementar comum', o sistema educacional era da alçada das missões
católicas, havendo uma única escola protestante [em 1944], na missão de
Messumba em Niassa.
Mas, segundo informações presentemente"disponíveis, a repressão
activa incidiu com mais rigor nas Igrejas separadas 'etiópicas'. Por
exemplo, em 1941, foram "mandadas encerrar por ilegais a sede e filiais
123
Capítulo 3124
da Igreja Luz Episcopal", a principal Igreja etiópica, que trabalhava
particularmente na província de Inhambane. Em 1942, o governo colonial
decidiu o encerramento imediato de todas as igrejas não oficializadas, isto
é, todas as igrejas protestantes que não eram apoiadas por uma organiza
ção missionária estrangeira. Como justificação, referiu-se na documenta
ção oficial,
"à nociva actividade de tais instituições e seus representantes, que só
poderiam concorrer para a desnacionalização espiritual e material dos
moçambicanos" [411.
No entanto, a actividade destas igrejas não parou. De início, a Igreja Luz
Episcopal procurou ultrapassar as restricções, apresentando os seus
estatutos ao Governo-Geral para oficialização. O Governo-Geral nunca
se pronunciou, deixando a Igreja e os seus aderentes numa situação de
ilegalidade e sujeita a um controle apertado.
NOTAS:
1. BO 27, 6.7.1938, Decreto 28697, 25.5.1938; para a Comissão Reguladora de
Algodão em Rama, que passou a controlar os preços e importações, ver BO 26,
30.6.1938; para o resumo provisório da questão algodoeira que constituiu a base
de trabalho deste sub-capitulo, ver D.Hedges, 'As culturas obrigatórias e as
transformações na economia rural sob o colonial capitalismo, 1930-1960' UEM,
Departamento de História, 1983, (mimeo); para uma periodização sistemática e
relação da legislação relevante, ver o trabalho fundamental de M. J. de Lemos,
'Fontes para o estudo do algodão em Moçambique: Documentos de arquivo,
1938-1974', Trabalho de Diploma, Licenciatura em História com especialidade
em Documentação, UEM/AHM, 1985.
2. Ver, por exemplo, J.do Amparo Baptista [coord], Moçambique, província
portuguesa de ontem e hoje, Vila Nova de Famalicão, 1962, p.401.
3. AHM, ISANI, Cx.39, A.S.Moutinho, Relatório da Inspecção ordinária às
circunscrições de Buzi, Chemba, Cheringoma, Chimoio, Gorongoza, Manica,
Marromeu, Mossurize, Sena, e Sofala, 1943-1944, pp.91-92.
4. AHM, ISANI, Cx.77, H.E.de Sousa, Relatório da inspecção ordinária ao Distrito
de Nampula, da Província do Niassa, 1946-1948, p.86, citando Circular
Confidencial no.1041/D7, do Governo-Geral, de 9 de Novembro de 1944.
A Reestruturação da Sociedade Moçambicana, 1938-1944 125
5. Ver Vail e White, op.cit., p.315.
6. Para Zambézia, ver Vail e White, op.cit., pp.316-317; L. Val e L. White,
'Tawani machambero!: forced cotton and rice growing on the Zambezi', Journal
ofAfrican History, vol.XIX (1978), pp.239-263. Para Nampula e Cabo Delgado,
ver, por exemplo, AHM, ISANI, Cx.96, C.H.Jones da Silveira, Relatórir, e
documentos referentes à inspecção ordinária feita na província do Niassa,
1943-1945, vol.2, Doc.7; Cx.97, idem., II parte, pp.47-49. Para a situação
global, ver Bravo, A cultura algodoeira, p.8 1; AHM, FA, JEAC, Relatório da
Inspecção de J. Contreiras, 1945, esp. pp.15-16,19,23,31-32; (para diferenças
regionais, ver 4.2 em diante); C.Fortuna, "A mudança de côr do algodão
moçambicano: estado, capital e trabalho no período entre guerras", Revista
Internacional de Estudos Africanos, 10/11 (1989), pp. 121-122. Segundo a obra
Trente annéés de cufture cotonnière ao Congo Belge 1918-1948, Bruxelas:
Compagnie Cotonnière Congolaise, s.d., p.43, o sistema de cultura forçada do
Congo Belga era mais de duas vezes mais produtiva (cifras de 1946).
7. Este sub-capítulo baseia-se principalmente em: Vail e White, 'Tawani Macham
bero', pp.257-259; idem., Capitalisin and Colonialism, pp.279,318-319; ver,
também, inter alia, O. Roesch, "Migrant labour and forced rice production in
southern Mozambique: the colonial peasantry of the lower Limpopo valley",
Journal of Southern African Studies, 17 (1991), pp. 237-270; AHM, FGG, P.do
Rego, Relatório do Governador interino da Província do Sul do Save, relativo ao
ano de 1942, pp,400-402
8. Para a crise de mão-de-obra, ver Vail e White, Capitalisn and colonialism,
pp.279-280, passim.
9. Ibid., pp.280-281; ..T.Bettencourt, Relatório do Governador-Geral de
Moçambique, 1940-1942, 2 vols., Lisboa: 1945, vol.2, pp.79-86
10. BO 50, 19.12.1942, pp.836-839, Portaria 4950, 19.12.1942
11. Bettencourt, op.cit., vol.2, p.86.
12. BO 25, 27.6.1942, pp.179-181, Portaria 4768, 27.6.1942
13. AHM, ISANI, Cx.62, J.F.Rodrigues, Relatório e documentos referentes à
inspecção Gurué, Ile, Lugela, Massingire, Milange, Nhamarroi, e Zambeze,
1944, Relatório, p.109.
14. Bettencourt, op.cit., vol.1, pp.45-47.
15. Val e White, Capitalism and Colonialisn, p.307
16. BO 31, 29.7.1944, p.367, Portaria 5639, 29.7.1944, Artigo 118: "Os chefes
gentilicas procurarão desempenhar-se das funções que lhes incumbem, respei
tando tanto quanto possível os usos, costumes ou tradições indígenas que não
contrariem as disposições legais em vigor; a autoridade administrativa cumpre
dirigí-los activamente por forma que a acção benéfica que desenvolverem apareça
às populações em verdade como o resultado da intervenção superior portuguesa,
em que aos regedores e chefes de povoação coube a função de executores".
17. De facto, o Regulamento de 1944 estabeleceu vários livretes pessoais: a 'Cédula
Capítulo 3
de Serviço', para os recrutados e contratados temporários não-residentes
(substituindo a antiga chapa metálica, que os trabalhadores braçuLs tinham que
levar no braço direito); o 'Livrete de Serviço', para a maioria de serviçais
residentes, incluindo oomésticos; e a 'Cédula Pessoal', para serventuários do
Estado, proprietários e os que tenham "um nível de vida superior ao dos outros
indígenas e que tenham boa conduta moral e civil". Este último grupo, que era
isento de inscrição no registo do Comissariado da Polícia, tinha que levar um
terceiro documento justificativo dessa isenção; ver BO 24, 12.6.1944, pp.280,
283, Portaria 5.565, 12.6.1944, Regulamento dos Serviçais Indígenas, artigos 1
e 27.
18. BO 35, 28.8.1943, p.306, Portaria 10.420, de 22.6.1043, artigo 10; M.Cahen,
'Corporatisme et colonialisme: approche du cas mozambicain, 1933-1979, 1. Une
genèse difficile, un mouvement squelettique', Cahiers d'Études africaines, 92,
XXIII-4, 1983, p.392; ver, também, cap.4, ponto 5.1.
19. Com a promulgação do Estatuto do Trabalho Nacional, em 1933, o regime
salazarista iniciou a sua ofensiva final pela fascização dos sindicatos em Portugal,
proibindo as associações de classe e outrãs organizações congéneres, ainda
existentes; Decreto-Lei 23.048 de 23.9.1933. Contudo, esta legislação só foi
extensiva às colónias em 1937, pela publicação do Decreto-Lei 27.552 de 5 de
Março de 1937, que, por sua vez, marcou a extensão às colónias da legislação
corporativa por excelência; Cahen, op.cit., pp.385-386.
20. A antiga Associação tinha sido, com efeito, a maior organização de trabalhadores
brancos de Moçambique desde 1902. Coexistindo com outras organizações mais
combativas, como por exemplo o Sindicato Geral das Classes Trabalhadoras, a
Associação do Pessoal do Porto e Caminhos de Ferro de Lourenço Marques, a
Associação das Artes Gráficas, a União dos Trabalhadores Africanos e outras,
tinha-se sempre mantido à margem delas, não tendo nunca sido interdita.
Efectivamente, nestaorganização, não se filiara nenhum dos sindicalistas que
vieram a distinguir-se na acção operária desenvolvida em Moçambique entre
1910 e 1926; Cahen, op.cit., p.392; J.Capela, O movimento operário em
Lourenço Marques, 1898-1927, Porto: Afrontamento, s.d., pp.106-107.
21. Ver Portarias 10.422 e 10.713, BO nos.35, de 1943 e 41, de 1944, respectiva
mente.
22. Ver Decreto-Lei no.27.552 de 5.3.1937, BO 14, 10.4.1937, p.161, artigo 2;
Portaria 5.553 de 3.6.1944, BO 23 de 1944.
23. Por exemplo, entre 1939 e 1944 a tonelagem de produtos comprados aos
camponeses aumentou de 116.000 para 167.000 toneladas por ano, mas o seu
valor triplicou, de 69.100 contos para 175.662 contos.
24. Nomeadamente, de 165.305 contos em 1940 para 512.215 em 1944. O algodão
constituiu 38 por cento deste último montante.
25. AHM, FGG, Paulo do Rego, op.cit., 1944, p.395.
26. Ibid., p.362.
126
A Reestruturaçao da Sociedade Moçambicana, 1938-1944
27. AHM, ISANI, Cx.62, J.F.Rodrigues, 1944, op.cit., p.127.
28. AHM, ISANI, Cx.39, A.S.Moutinho, 1943-1944, op.cit.p.112.
29. (F.M.Grilo), Relatório do Chefe da Repartição Central dos Serviços Agrícolas,
Lourenço Marques: Imprensa Nacional, 1946, partes II/III, p.288.
30. Sobre esta matéria, ver, por exemplo, M. Legassick e F. de Clerq, 'Capitalism
and migrant labour in southern Africa: the origins and nature of the system',
Universidade de Londres, Institute of Commonwealth Studies, mimeo, 1978; J.
das Neves, 'O trabalho migratório de Moçambicanos para a Rodésia do Sul,
1913-1958/60', Trabalho de Diploma para o grau de Licenciatura, Instituto
Superior Pedagógico, Maputo, 1990, esp. pp.28,58.
31. Ver AHM, FA, JEAC, Relatório da inspecção de J.Contreiras, 1945, p.100.
32. Brigada de História do Curso de Letras, Actividades de Julho 1979, Universidade
Eduardo Mondlane, [A.Isaacman, A.Pililão, E.Macamo, M.J.Homem,
M.Stephen e Y.Adam] 'A resistência popular à cultura forçada de algodão em
Moçambique, 1930-1961', Maputo: mimeo, 1979.
33. Ver nota 36 do capítulo 2.
34. BA, 30.11.1940.
35. BA, 14.12.1940
36. BA, 23.11.1940
37. Citado em M.Ferreira, Literaturas africanas de expressão portuguesa, Lisboa:
Instituto de Cultura Portuguesa, 1977, vol.2, p.68.
38. J.Moreira, 'O dividido movimento associativo moçambicano', Maputo: UEM,
s.d., [mimeo].
39. Concordata e Acordo Missionário de 4 de Maio de 1940, Lisboa: Secretariado
da Propaganda Nacional, 1943, pp.25-26.
40. Idem: p.120.
41. AHM, FNI, Cx 696, Repartição Central dos Negócios Indígenas, Informação 59,
de 5.11.1942, e despacho do Governo-Geral, 10.11.1942.
127
Capítulo 4:
Moçambique durante o Apogeu do
Colonialismo Português 1945-1961:
a Economia e a Estrutura Social
1. Características gerais do período
Este período marcou o apogeu do colonialismo português em Moçam
bique no sentido de ser aquele em que a exploração colonial mais se
desenvolveu em benefício do capital metropolitano
A produção agrfcola de exportação aumentou consideravelmente
através da utilização intensiva dos meios já estabelecidos de coerção e
exploração da força de trabalho, nomeadamente, em sistemas de cultivo
e trabalho forçados.
Novos investimentos em infra-estruturas garantiram maior eficiência
da economia colonial, e o fomento de investimento controlado permitiu
um avanço gradual na indústria de transformação.
Paralelamente, aumentou a população colona, que ocupava um
crescente número de postos de trabalho que exigiam especialização, e
cuja situação económica e social privilegiada veio a ser reforçada por
barreiras raciais cada vez mais marcadas, principalmente, sob a capa da
sindicalização dos trabalhadores brancos.
Por outro lado, a maioria da população continuou a ser sujeita a um
sistema de educação que, de facto, funcionava como uma barreira
considerável a qualquer avanço significativo na sua formação geral, e ao
Capítulo 4
seu acesso aos postos de emprego que requeriam qualificação técnico
profissional.
O sistema de repressão, erguido pelo colonialismo, baseava-se cada
vez mais na recuperação e promoção dos régulos que, na sua maioria,
passaram a ser os auxiliares directos da autoridade administrativa,
utilizando a estrutura tradicional, ideológica e sócio-cultural, para
garantir a tranquilidade, na medida do possível, da população rural.
No entanto, foi neste período que, em resposta a esta experiência, e
por influência da luta anti-colonial regional e mundial, se procedeu uma
clarificação progressiva dos objectivos do movimento anti-colonial
moçambicano, estabelecendo-se, assim, um movimento verdadeiramente
nacionalista (capítulo 5).
2. A intensificação da produção rural
2.1. A cultura forçada de algodão
Neste período, o algodão continuou a ser considerado, pelo Estado
colonial, de longe o maior foco de desenvolvimento, reflectindo a
importância da indústria têxtil para a industrialização de Portugal. No
entanto, embora bem sucedido, no sentido de fornecer grandes quanti
dades de algodão à metrópole, o sistema sofreu algumas mudanças
superficiais.
Como vimos no capítulo anterior, o sistema implicava algumas
fraquezas graves:
provocou a forte resistência do campesinato, em especial as fugas
que, difíceis de controlar, resultaram na diminuição do recurso
principal da colónia, a sua força de trabalho;
- o declínio da produção de culturas alimentares e o enfraquecimento
da capacidade do campesinato em se reproduzir;
- a reduzida rentabilidade por hectare e por cultivador em áreas
geográficas muito extensas, implicando um esforço bastante dispen
dioso na propaganda e na fiscalização da maioria dos produtores, que
estavam pouco motivados para a cultura do algodão, para além das
grandes despesas relacionadas com o transporte (camiões, construção
de estradas e pontes, etc.).
130
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
Em 1944 e 1945, nos finais da II Guerra Mundial, surgiu uma nova
questão, nomeadamente o receio das reacções internacionais contra a
violência do sistema [1]). No mesmo período, começou a verificar-se
uma outra grave deficiência: o enfraquecimento do principal meio de
produção rural nas áreas do algodão, o solo [2].
Apesar dessas deficiências, e das críticas feitas ao sistema algodoeiro
por funcionários da própria Junta de Exportação de Algodão Colonial
[JEAC], em 1946, o Governo português renovou o sistema de concessões
algodoeiras por mais 10 anos.
No entanto, o regime colonial iniciou uma política de mudanças no
funcionamento do sistema algodoeiro, que visavam uma maior e eficiente
rentabilidade da cultura. Previa-se que estas mudanças não afectassem as
bases do sistema [3].
As principais iniciativas datam de 1947. Naquele ano, iniciou-se o
Reconhecimento Ecológico-Agrícola, cuja função era a localização dos
solos, mais apropriados para o algodão, e o eventual reajustamento das
zonas das concessões.
Face ao declínio da produção das culturas alimentares, nos seus
relatórios internos, o regime colonial reconheceu que a base da subsistên
cia camponesa foi de facto reduzida pela cultura de algodão. Mas, em
vez de erradicar a causa do mal, que era o sistema de cultura obrigatória
de algodão em si, a partir de 1946/7, o Estado colonial alargou gradual
mente este sistema às culturas alimentares também. Desta maneira, nas
zonas de algodão, todas as actividades produtoras do campesinato, não
meramente a do algodão, vieram a ser dirigidas pela administração e
pelos agentes das companhias concessionárias.
Esta situação tinha uma contradição inerente: o interesse imediato das
concessionárias estava na produção de algodão; a promoção das culturas
alimentares constituía uma interferência no cumprimento desse objectivo,
em termos de tempo e trabalho, quer dos seus agentes, quer dos
produtores. Era difícil para o administrador, mesmo que tivesse a
vontade e capacidade, de promover a produção adequada ao sustento
familiar, contra as concessionárias, que eram a principalforça económica
nas zonas algodoeiras.
Os agentes, capatazes e regentes agrícolas, empregados pelas
concessionárias, eram, muitas vezes, quem orientavam as obras de
construção e reparação das picada, Po(ntt',.-tr A Junta de Exportação
Capítulo 4
de Algodão Colonial (JEAC) e o Centro de Investigação Científica
Algodoeira (CICA), devido às suas reduzidas verbas, apoiaram as
campanhas nos distritos de uma maneira muito selectiva, de modo que as
concessionárias eram, normalmente, as únicas capazes de apoiar o
administrador na implementação da política colonial rural.
Numa tentativa de aumentar o nível geral de fiscalização, um sistema
de controle, baseado no anteriormente em vigor em algumas zonas de
Manica e de Sofala, foi gradualmente alargado às restantes concessões do
país. Os produtores de algodão foram divididos em duas categorias: o
primeiro era os 'agricultores de algodão', homens válidos entre 18 e 55
que tinham que cultivar um hectare de algodão e igual área de culturas
alimentares; o segundo era os simples "cultivadores', os restantes
produtores, principalmente, mulheres, que tinham a obrigação de cultivar
0.5 hectare de algodão e igual área de culturas alimentares. A todos foi
distribuído*, em cada ano, um cartão, de côr diferente, segundo a
categoria, no qual seria registado o cumprimento de todas as fases da
produção, desde a distribuição da semente até à venda do produto. Com
o objectivo de obstar os principais abusos nos mercados e transportes, o
Governo-Geral fez circular instruções detalhadas sobre a comercialização.
Concentrações algodoeiras, blocos e picadas
No início da década de 50, começou a construção de 'concentrações
algodoeiras', que consistia na colocação de grupos de produtores, em
localidades seleccionadas pela administração e companhias. Cada uma
teria espaço suficiente .para a rotação de culturas, e a sua própria picada
de acesso. O objectivo do esquema foi:
- intensificar a produção, através da supervisão mais estrita de cada
produtor;
- assegurar a produção de alimentos suficientes;
- localizar facilmente os maus produtores que deviam ser indicados
para contratação nas plantações;
- reduzir o número e a extensão das viagens pelos administradores e
agentes concessionárias;
- diminuir os custos do transporte.
A implementação dessa política enfrentou entraves de vária ordem.
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
Em particular, os derrubes e a construção de picadas e novas palhotas
que implicavam muitas horas de trabalho não pago do camponês, que
acaba por oferecer uma resistência contínua.
As primeiras concentrações da Companhia dos Algodões de Moçambi
que (CAM) em Ocua, Cabo Delgado, que foram estabelecidas em 1951,
mostraram os problemas. Em primeiro lugar, os camponeses que se
tinham oferecido, voluntariamente, para a construção de uma só
concentração, viram-se compelidos, à força, péla administração local,
para a construção de outras três. Em segundo lugar, o rendimento por
hectare no primeiro ano, que tinha sido normalmente alto, devido aos
solos virgens, foi apenas de 308 quilos por hectare, ligeiramente inferior
à média para a cultura de algodão fera das concentrações.
De facto, no fim da década de 50, ainda não se tinha resolvido o
problema dos custos das obras necessárias (derrubes e construção). Um
cálculo feito em Nampula em 1959 mostrou que, enquanto as despesas
para uma família, nos primeiros sete anos de uma concentração,
incluindo o custo do trabalho nas construções, atingiam os 16 contos, o
rendimento seria, na melhor das hipoteses, só de 8 contos. Face à
relutância das concessionárias em financiar o empreendimento, a
implementação dessa política não podia avançar a não ser que o próprio
camponês suportasse os custos, facto que, de uma forma geral, intensifi
cou a resistência à política colonial rural, salvo casos excepcionais, como
aqueles em que a administração ou concessionária construiu represas e
poços.
Por outro lado, porque não implicavam, necessariamente, a cultura de
produtos alimentares, mas davam possibilidades de melhorar o acesso às
machambas e, assim, a fiscalização e transporte dos produtos, as
concessionárias e administrações insistiram muito mais nos 'blocos',
machambas alinhadas, rectangularmente, frente às picadas, que não
exigiam a mudança de residência dos cultivadores.
Para financiar a construção das picadas, blocos, concentrações,
pontes, postos sanitários, etc., em 1952, o regime colonial estabeleceu
o 'Fundo de Algodão'. Este fundo tinha como principal receita os
descontos feitos aos produtores no acto da compra na razão de 0,30 e
0,20 escudos por quilo do algodão caroço da 1a e 2a qualidades
* respectivamente.
Estabeleceu-se assim mais um imposto sobre os produtores rurais, que
133
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Mapa 2: Produção de Algodão, 1960
Capítulo 4
vieram a contribuir directamente para uma grande parte dos capitais para
a infra-estrutura rural colonial. Isto significa que os poucos melhoramen
tos que foram feitos nas zonas rurais, como, por exemplo, represas,
poços, postos de saúde e escolas rudimentares, foram pagos pelo povo,
no só directamente, através do seu trabalho na construção, ccmo
também, indirectamente, através da compra de materiais com a verba do
'Fundo de Algodão'. Além disso, como comprovaram os relatórios
provinciais coloniais, a maior parte das verbas, sob este fundo, consistia
nos custos de administração e nos vencimentos dos funcionários coloniais
envolvidos.
As mudanças na cultura de algodão atingiram o objectivo principal
colonial. Aumentou a produção global e, assim, a exportação em
beneficio da indústria portuguesa. Aumentou um pouco a produtividade,
o que significou que se conseguiu esta produção com, ligeiramente,
menos produtores. O preço pago ao camponês também aumentou
ligeiramente. No Quadro 10, mostramos os resultados globais da cultura
de algodão, calculados na base das médias anuais dos quadriénios
indicados.
Quadro 10: Produção de Algodao, 1945-1960 [4]
Media por ano
Período A.Caroço Produtor- kg/ha kg/ esc/ esc/
(tons.) res:n0 prod kg prod
1945-1948 64.300 621.750 255 103 1$66 171
1949-1952 81.838 508.000 318 161 2$31 371
1953-1956 95.007 517.000 341 184 2$63 484
1957-1960 118.590 523.000 392 227 2$74 621
O algodão de Moçambique só podia ser vendido na metrópole, o que
continuou a render lucros fabulosos para a indústria portuguesa, e
diminuiu o rendimento dos produtores em Moçambique. Um estudo
colonial mostrou que, no período 1946-1956, a venda do algodão a preço
mundial, em vez do preço português, poderia ter beneficiado Moçambi
que com mais 2.774.000 contos do que realmente recebeu. Só no ano de
1955 a indústria portuguesa economizou cerca de 387.000 contos através
136
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
das suas compras a Moçambique.
No entanto, o reajustamento dos solos e a implementação das
concentrações, elementos bastante interligados na política de reformas
coloniais, na década de 50, não conseguiram aumentar a produtividade
aos níveis desejados pela administração. De facto, mesmo pelos padrões
modestos da política colonial, a cultura do algodão continuou a ser muito
deficiente, não só porque se baseava na produtividade exígua por produ
tor, mas também requeria altos custos na fiscalização e comercialização.
Nem a média de 400 quilos de caroço por hectare, modesta emcomparação com outros países produtores, mas considerada aceitável pela
JEAC nos anos 40, nem a de 450 quilos indicada pela orientação do
Governador-Geral em 1951, foram atingidas, regularmente, pelo sistema
de cultura forçada. Só nos anos de 1953, 1959 e 1960, a média
ultrapassou 400 quilos por hectare (455, 432 e 471, respectivamente) [5].
Na província de Nampula, o maior produtor de algodão na Colónia,
a média de produção por hectare e de rendimento por produtor, no
período 1957-1960 (incluindo 2 dos 3 melhores anos da década para a
cultura), foi de 353 quilos e 510 escudos por ano. De facto, na década
de 50, a maioria dos produtores de algodão não auferiam, ainda, mais
que 400 escudos por ano. Calcula-se que os relativamente pequenos
aumentos de produtividade e de preço em nada compensaram a subida
dos impostos e do custo de vida [6], situação que se vai agravando, cada
vez mais, até ao final do período.
Diferenças de produtividade
Nalgumas áreas restritas, contudo, existiram condições que levaram a um
melhoramento da produção de algodão. Estas eram áreas onde:
- outras actividades económicas tinham imposto uma competição feroz
para a exploração de mão-de-obra rural;
- a rede dos transportes era mais desenvolvida;
- a fertilidade dos solos era maior;
- algumas famílias camponesas tinham já conseguido comprar meios
de prddução mais evoluídos como, por exemplo, a charrua.
Condições como estas, provocando, muitas vezes, maior esforço da
administração, das concessionárias e dos serviços técnicos da JEAC,
137
Capítulo 4
porque davam a possibilidade de uma maior rentabilidade em relação ao
investimento, existiam particularmente em zonas de Zambézia (Mocuba,
Mugeba, Derre, Mocubela, Maganja da Costa, Morrumbala) e Gaza
(Alto Changane, Gaza sede, Chibuto, Mabalane, Bilene, Massingir,
Guijá). Nestas zonas, a cultura de algodão, ainda que obrigatória,
registou maior produtividade e, assim, maior rendimento por produtor.
Nota-se que nalguns blocos e concentrações do norte, onde foram
experimentadas novas variedades de semente, como, por exemplo, as
mais resistentes ao ataque de lagarta, o r¿i.dimento também aumentou.
Analisemos as diferenças de produtividade: considerando a média
desejável de 450 quilos por hectare, a análise da estatística colonial
mostra que, no período 1954/1959, apenas cerca de 25 por cento dos
produtores conseguiram rendimentos acima desse nível, produzindo cerca
de 34 por cento do total do algodão caroço; os restantes 75 por cento,
abaixo do nível recomendável, em 1951, produziram 65 por cento do
total [7].
Essa diferenciação, que se desenvolveu gradualmente ao longo deste
período, diminuiu a posição dominante da província de Nampula, como
produtor principal de algodão. No período 1957-1960, produziu cerca de
26 por cento do total do país (aproximadamente 48 por cento em 1941
1944), enquanto a produção da Zambézia aumentou, proporcionalmente,
para cerca de 23 por cento (menos de 14 por cento, em 1941-1944).
Além disso, as províncias de Inhambane e Gaza passaram a produzir
cerca de 25 por cento do total em 1957-1960 contra apenas cerca de 5
por cento em 1941-1944 [8].
2.2. O reforço do controle sobre a mão-de-obra rural
O regime colonial aproveitou-se do clima bélico imposto pela II Guerra
Mundial para intensificar a exploração do povo moçambicano, através de
uma generalização de trabalho forçado, nas zonas rurais [9].
Através de uma nova circular de 1947,, o Governo-Geral colonial
reafirmou a obrigação, estabelecida em 1942, segundo a qual todos os
homens válidos, que não eram agricultores de algodão, deviam trabalhar
por conta. de outrém durante seis meses em cada ano. Mas, pretendendo
esconder melhor o trabalho forçado dos seus crfticos internos e externos,
o regime 'proibiu' as administrações locais de exercerem qualquer papel
no recrotamento de trabalhadores para as plantações. Esta orientação
138
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
provocou muitas reclamações da parte dos proprietários e agricultores
privados, que queriam proteger o seu fornecimento de mão-de-obra
barata, com baixos custos de recrutamento.
Estas preocupações foram tomadas em conta aquando da implementa
ção da medida nas províncias. É exemplo disso a reorganização nas
províncias de Nampula, Cabo Delgado e Niassa. Embora se tivesse tirado
do administrador uma parte notória do seu papel no recrutamento,
reforçou-se, ainda, o sistema de trabalho forçado. Os administradores e
chefes de posto foram orientados no sentido de deixarem de capturar e
concentrar os chamados 'vadios e ociosos' nas sedes e postos, donde, até
então, eram levados pelos recrutadores. A partir de 1947, licenciados
pelo Governos provinciais e reconhecidos pelos administradores, os
recrutadores tinham, teoricamente, que ir aos regulados onde desejavam
recrutar. Depois, e segundo a nova orientação provincial:
"De regresso das terras, os agentes de recrutamento apresentarão os
contingentes de trabalhadores engajados, para efeitos de celebração ou
aprovação dos indispensáveis contractos, pelos agentes do curador ou os seus
delegados. Se vier a ser verificado que o número de trabalhadores recrutados
é inferior às necessidades de cada patrão, a autoridade administrativa
ordenará rusgas nas povoações indígenas, onde comparecerá pessoalmente ou
se fará representar por um funcionário administrativo, como seu legítimo
delegado. Todos os indígenas válidos disponíveis que forem encontrados sem
ocupação serão detidos e levados compulsivamente ao trabalho .... se não
pretenderem e pedirem, nessa altura, para ir procurar patrão de sua livre
vontade e à sua escolha. Todos os indígenas que, mesmo assim, deixaram de
efectivamente se contratarem voluntariamente serão capturados novamente,
e mandados trabalhar seis meses, apenas com alimentação, para uma divisão
administrativa o mais longe possível dos seus domicílios permanentes, como
acto repressivo de reincidência" [101.
Assim, enquanto o sistema ficasse dependente da actuação rigorosa
das autoridades coloniais para o seu funcionamento, aumentava um pouco
,» papel dos recrutadores privados e daqueles régulos que, recebendo
:ompensações das companhias e regalias da administração, se tornavam
mais activos no recrutamento de trabalfadores.
De facto, na ausência de capitais para o desenvolvimento rural, a
tendência era aumentar o grau de rigor no sistema laboral, para assegurar
a materialização dos planos económicos coloniais, sem criar novas verbas
Capítulo 4
para salários e postos permanentes de trabalho. Isto dizia respeito não só
às obras públicas como também à construção de outros empreendimentos.
Assim, em 1948, o Governo colonial reafirmou que o administrador
podia empregar o excedente dos habitantes, definidos como *vadios' e
'ociosos', na reparação e conservação de estradas e abertura de camin
hos, por tempo não superior a seis meses, recebtendo estes trabalhadores,
apenas, alimentação.
Particularmente nas três províncias do norte, os planos económicos
coloniais requeriam a mobilização maciça de mão-de-obra extremamente
barata para novas tarefas, nomeadamente, as obras associadas à cultura
de algodão, à fixação de colonos, à construção urbana e à expansão das
plantações de sisal. Para facilitar esses planos, sem o dispêndio de
capitais, o Governo-Geral decidiu alargar, ainda mais, o âmbito do
trabalho forçado gratuito, tendo em vista:
- a abertura de concentrações algodoeiras e vales de irrigação e
drenagem de pântanos;
" a construção de aldeamentos, aeródromos, gafarias, maternidades e
postos de consulta e tratamento;
- o fabrico de tijolo, cal e todos os materiais necessários à administra
ção.
Para obviar a falta de verbas para a alimentação dos trabalhadores empre
gados nestas obras, podia o trabalho de alguns 'ociosos' e 'vadios' ser
aproveitado em machambas destinadas a produzir culturas alimen
tares[1 1].
Na prática, do ponto de vistacolonial, o sistema de recrutamento
forçado ainda tinha as suas fraquezas. Uma delas era a dificuldade de
impedir as deserções dos trabalhadores, pouco compensados pelos
salários, face à elevação dos custos de vida e dos impostos. As deserções
contribuíram, significativamente, para a grave crise de mão-de-obra no
norte, nos inícios da década de 50. Este problema afectou, particular
mente, as plantações de sisal, produto que, tendo sido incentivado pela
subida de preços no período de 1948 a 1952, é atingido por uma queda
brusca em 1953. Precisaram, assim, de aumentar a sua produção para
manter os seus lucros, reduzindo ao mínimo todos os custos de mão-de
obra.
140
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
20. O regime de trabalho compulsivo, pago ou gratuito, contribuiu decisivamente
para a construção de infraestruturas, corno o Caminho de Ferro do Norte.
Cpítulo 4
A agravar a crise, na altura, registou-se no mercado mundial o
aumento da procura e da subida de preços de outros produtos agrícolas,
nomeadamente, acúcar, chá, copra e cajú. Os elevados preços oferecidos
pelos comerciantes asiáticos para a castanha de cajú estimularam a
expansão do plantio do cajueiro pelo campesinato do norte, que pretendia
ganhar o seu sustento em condições mais agradáveis e rentáveis do que
nas plantações. Uma parte do campesinato, conseguiu desta maneira, uma
substituição parcial do rendimento previamente atingido através das
vendas de amendoim. Com a elevada procura de mão-de-obra, os
proprietários das plantações olharam com ansiedade a crescente distribui
ção dos cartões pelos agricultores e cultivadores de algodão e do arroz.
O sistema de cartões, que instituía um melhor e mais eficiente controle,
em prol destas culturas, significou, na prática, uma redução cada vez
maior das disponibilidades de mão-de-obra para recrutamento.
Por estas razões, nos inícios da década 50, começou a revisão e
sistematização de toda a matéria da chamada 'política indígena', com
incidência especial no recrutamento rural. Em 1953, o Governo Geral
emitiu uma nova circular sobre mão-de-obra rural, que visava, essencial
mente, intensificar o controle administrativo, para efeitos de trabalho, de
todos os homens válidos no país. O recrutamento devia ser realizado na
base de um recenseamento detalhado de cada homen válido em cada
regulado, cujos elementos deveriam ser. registados numa ficha especial
para o efeito, e regularmente actualizados, através das informações
obrigatoriamente fornecidas pelas entidades patronais.
Assim, por exemplo, nas províncias do norte, foram postas a circular
novas orientações, catalogando exaustivamente as tarefas e obrigações de
todos os participantes (companhias, recrutadores, administradores,
régulos e trabalhadores). Esta medida consolidou o sistema estabelecido
pelas circulares de 1942 e 1947. O próprio régulo tinha a obrigação de
colaborar, intensivamente, com as autoridades administrativas na
elaboração do ficheiro, de perseguir os 'ociosos', 'vadios' e 'prófugos',
denunciando-os, imediatamente, às autoridades administrativas, e de
acompanhar os cipaios às terras, de maneira a evitar-se perturbações no
meio rural.
Apenas a um número muito reduzido de trabalhadores migrantes foi
concedida a escolha de patrão (considerada como o direito de todos, no
RTI de 1930). Alguns desses trabalhadores migrantes, 'privilegiados' em
142
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
comparação com a maioria, que suportava a rigorosa disciplina laboral
colonial, beneficiaram de contratos sucessivos, prémios ou abonos sobre
.os salários.
No entanto, para efeitos de contratação da maioria dos trabalhadores,
os distritos permaneciam, normalmente, como reservas privadas de
mão-de-obra de uma só entidade patronal.
Este facto e o reforço dos poderes administrativos significavam que,
apesar das constantes reafirmações da necessidade de obrigar os
recrutadores a ir pessoalmente aos regulados para angariar trabalhadores,
como orientado nas circulares de 1947 e 1953, os administradores
continuaram a recrutar trabalhadores entre a população rural. Isso
efectuava-se por vários métodos:
i) através da "contribuição braçal', trabalho forçado de uma semana,
anualmente, nas estradas ou outra obra pública, após o qual os
trabalhadores tinham que optar por um patrão;
ii) utilizando as informações recolhidas dos registos e ficheiros, o
administrador mandava os sipaios concentrar os que, não possuindo
cartões de agricultor, não tinham cumprido a sua obrigação de seis
meses de trabalho;
iii) as entidades patronais, utilizando os seus próprios registos, infor
mavam os administradores distritais dos nomes dos trabalhadores que
deviam apresentar-se para contratação, após os seis meses de
descanso.
Além disso, procurando evitar tais compulsões arbitrárias, os trabalha
dores, muitas vezes, ofereciam-se *voluntariamente', aos recrutadores
privados. Trabalhando em estreita ligação com os administradores e
chefes de posto, os recrutadores tinham reduzidas despesas de funciona
mento. Por seu turno, os empregadores pagavam ao recrutador ou mesmo
directamente ao administrador, por cada recrutado, mais que ao próprio
contratado, durante os seis meses de trabalho [12].
Largamente auxiliados pela administração na obtenção da sua força
de trabalho, as entidades empregadoras não tinham que se preocupar com
os salários e condições de trabalho. Um relatório colonial fazia um
balanço sobre este aspecto em 1959:
143
Capitulo 4
"De uma maneira geral, as entidades patronais oferecem a maior resistência
à fixação de salários justos; desinteressam-se por completo por atrair e captar
a mão-de-obra de que precisam; não curam da eficiência nem dos processos
de recrutamento, limitando-se a pagar as importâncias que os recrutadores
lhes exigem, muitas vezes escandalosamente elevadas; não constrõem
acampamentos e habitações para os trabalhadores, senão quando compelidas;
evitam prestar assistência médica adequada e distribuem as peças de vestuário
regulamentar de pior qualidade que lhes é consentida. Todas as medidas
tendentes a modificar tal Estado de coisas são combatidas proclamando a
incapacidade financeira, a ruína dos empreendimentos e das empresas, o
descalabro da economia da Província (colónia, N.R.)... A atitude descrita é
muitas vezes apoiada e reforçada pelos próprios serviços do Estado... As
autoridades administrativas.. .tomam quasi sempre a defesa das entidades
patronais, receosas de que exigências incomportáveis provoquem o atrofia
mento económico, senão a ruína das regiões que lhes estão confiados" [131.
Forçado ao contrato, o trabalhador migrante r&éebia o seu salário,
através do pagamento diferido, que era um outro- meio de exploração, no
sistema de trabalho imposto após. 1930. A prática normal, até ao fim da
década de 50, era pagar uma pequena percentagem (habitualmente só
uma sexta parte) do salário no local do trabalho. Às vezes, esse
pagamento consistia em roupa em vez de dinheiro. Os restantes 80 por
cento eram pagos no regresso aos distritos de origem, descontando o
administrador o imposto do contratado.
A título de exemplo, o trabalhador nas plantações de Xínavane em
Maputo recebia no local de trabalho 20 escudos por mês e, após 6 meses
de contrato, recebia do administrador, no seu distrito, 300 escudos (600
escudos menos 300 do imposto). No norte a situação era pior: o
trabalhador nas plantações de sisal de Nampula e Cabo Delgado, onde o
salário normal era 66 escudos por mês, recebia, no local de trabalho, 66
escudos, ou o seu equivalente, durante os seis meses, e 200 escudos no
seu regresso (330 escudos menos 130 de imposto). Com este dinheiro,
tinha que contribuir para o seu sustento, nos seis meses de 'descanso' em
casa, para a compra dos meios de produção da agricultura familiar, e
outras mercadorias, como tecidos e cobertores.
O reforço de controle administrativo e policial, sobre a mão-de-obra
rurale o sistema migratório, permitiram ao regime colonial justificar o
pagamento de salários que eram muito abaixo do custo de subsistência
dos trabalhadores e das suas famflias. Este facto é claramente evidenciado
nos inquéritos sobre salários e custo de vida para trabalhadores não
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
especializados, feitos no fim da década de 50. Por exemplo, os salários
pagos na altura em Manica e Sofala e Niassa, eram de 120 e 66 escudos
respectivamente. Porém, os Governadores calcularam que seria neces
sário um mínimo absoluto de 250 e 235 escudos, para pagar todos os
encargos (imposto, alojamento, vestuário) de um casal com dois filhos,
tirando os custos de alimentação, pagos pela empresa e produto do
trabalho familiar na terra.
No entanto, mesmo tendo em conta a subida do custo de vida e a
situação política criada pelo massacre de Mueda em 1960 [14], o
Governo Geral optou, apenas, por ligeiros aumentos salariais (para 140
e 90 escudos no caso de Manica e Sofala e Niassa). Decidiu, assim,
responder às reclamações da agricultura capitalista e das concessionárias
de algodão, que seriam afectadas pela concorrência, se houvesse uma
subida significativa dos salários pagos nas plantações e machambas.
Juntamente com o próprio Estado colonial, não encaravam, facilmente,
os investimentos de capitais e de tecnologia necessários para tornar o
sistema de produção rural menos dependente da força administrativa e
com maior produtividade por trabalhador [15].
A renovada intensificação da pressão administrativa colonial, que se
verificou entre 1945 e 1961, produziu bons resultados nas plantações e
machambas de Moçambique. Compensando o esforço inicial na compila
ção dos registos de trabalho, que facilitavam a localização de cada
camponês/trabalhador, diminuiu rapidamente o número de deserções e,
assim, os custos de recrutamento. Conseguiu-se, deste modo, uma divisão
administrativa de trabalho mais eficiente, no sentido de proporcionar a
todas as actividades produtoras coloniais, o fornecimento de quantidades
adequadas de mão-de-obra barata.
Desta maneira, as plantações mantiveram o seu ritmo de trabalho; no
caso das plantações de sisal, o aumento do nível de assiduidade (de 40
para 80 por cento), no período entre 1953 e 1956, compensou o declínio
do preço com uma alta de produção, que, no fim da década de 50, era,
anualmente, quase o dobro da década anterior.
2.3 Produção global das mercadorias agrícolas de exportação
Do ponto de vista do regime colonial, as medidas tomadas para a
promoção das principais culturas de exportação, e para a actualização da
divisão do trabalho, foram bem sucedidas.
14
14(
12(
10(
80
60
40
20
O
600
500
400
300
200
100
o
1945-48 19-19-52 1953-56 1957-60
i ilgodao F.i A<.a,. E Copra
1 sa 1 Clia
Quadros 12: Principais exportações, 1945-1960: Valor
ConL.ob
1945-48
L Algodao
ll Caju
1949-52 1953-56 1957-60
Acucar -- Copra
Sisal Cha
600
500
400
300
200
100
o
5
)
Capítulo 4
Quadro 11: Principais exportações, 1945-1960: Volume
Milhares de toneladas
140
120
100
80
60
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
Quadros 11 e 12, elaboradas na base de médias anuais em cada quad
riénio do período em estudo (com o objectivo de obviar as flutuações
inuais devido aos maus anos agrícolas, falta de navegação, e oscilação
de preços), mostram o aumento das exportações.
A tonelagem geral destas 6 mercadorias aumentou de uma média
anual de 183.500, em 1945-1948, para 307.370 em 1957-1960, um
aumento de 67,5 por cento. Contudo, o valor destas mercadorias
aumentou, no mesmo período, de 545.000 contos para 1.570.069 contos,
isto é, quase três vezes mais.
O valor das exportações de açucar, cajú e chá aumentou significativa
mente em relação ao de copra e sisal, neste período, como mostra o
Quadro 13.
Quadro 13: Percentagem das principais exportações de Moçambique,
1945-1960 [16]
1945-1948 1957-1960
Algodão 35 35
Acúcar 15 20
Cajú 8 14
Copra 21 12
Sisal 14 9,5
Chá 3 9,5
2.4 A estrutura da exploração rural colonial e as suas consequências
Não obstante os grandes avanços nos rendimentos globais das
concessionárias e plantações, a situação de grande número de produtores
piorou, neste período, devido a vários factores inerentes à estrutura de
exploração colonial.
Um dos principais factores foi a diferença de interesses e de poderes
entre as concessionárias algodoeiras e orizicolas, por um lado, e os
produtores, por outro. Referindo-se ao período 1945/1947, um crítico do
regime fascista, que estudou o sistema algodoeiro em Moçambique,
Capítulo 4
caracterizou as posições relativas das companhias e dos produtores:
"Não deve haver muitos negócios mais seguros em todo o Império. Os
indígenas correm todos os. riscos (e não são pequenos) da exploração
agrícola: intempéries, invasão de parasitas, insuficiência dos terrenos, etc.
Como o concessionário não é agricultor e apenas compra o algodão que lhe
for apresentado pelos agricultores, a preço fixo, corre... todos os lucros.
Quer dizer a parte arriscada fica para o indígena, a grande fatia dos lucros
e da segurança fica para o concessionário" [171.
Um ,'elatório confidencial de 1947 considerou que, mesmo se fosse
atingida a meta de 400 quilos de caroço por hectare, a cultura não podia
ser compensadora, porque implicava um rendimento de cerca de 600
escudos, que não dava para comer, vestir, e pagar o imposto. O mesmo
relatório continuou:
"É modalidade de escravidão o que se está fazendo em matéria de produção
de algodão pelo 'indígena'. Ela empobrece-o e definha-o, porque lhe não
permite fazer culturas alimentares e mais rendosas' [18].
A situação não melhorou nos anos seguintes. Um estudo feito em
1950, por exemplo, mostra que o preço de milho, amendoim e feijão,
produtos que o camponês antigamente comercializava, e que passou a ter,
muitas vezes, de comprar, tinha sofrido um aumento duas vezes maior
que o do algodão na década de 40, e conclui que a cultura de algodão era
a que
"menos benefícios traz para o indígena, numa inversão da situação que
normalmente se observa em todas as regiões do globo" [19].
Como já vimos, a.maioria dos produtores não conseguiram, mesmo no
fim da década de 50, um rendimento superior aos 400 escudos.
Violência e produção
Para assegurar a expansão de produção nas zonas rurais, contra a vontade
e a resistência do povo, quer nas machambas dos camponeses quer nas
plantações (capítulo 5, ponto 4), o regime colonial continuou a basear a
sua estratégia, em grande parte, na força policial e violência corporal.
Passamos a citar somente alguns depoimentos, colhidos em várias regiões
148
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
do país, que se referem a esta situação.
Num extracto que refere ao início da década de 50, Martha Chissano,
então mãe de 24 anos, descreve a cultura forçada do arroz no regulado
de Makupulani, no distrito de Mandhlakazi, Gaza:
"Em Mandhlakazi, cada pessoa era obrigada a cultivar algodão ou arroz;
ninguém era obrigado a cultivar os 2 produtos ao mesmo tempo. Contudo,
havia discriminação contra, as mulheres porque além disso, as mulheres
deviam prestar trabalho gratuito aos régulos quando eles o exigiam. As
mulheres sem maridos [ausentes como trabalhadores migrantes], ou solteiras
eram, especificamente, indicadas para este fim. Como todos tinham cartão de
identificação, o régulo, através dos seus sub-chefes e sipaios, estava sempre
em condições de saber qual a família que não tinha pago o imposto.
"Eu cultivava ar.oz para Makupulani, nosso régulo. Imediatamente antes
da colheita de arroz, os capatazes eram mandados a cada machamba para
fazer uma estimativa do número de sacos que cada cultivador ia colher e, na
base desta estimativa, os capatazes entregavam os sacos ... Se, no fim, não
fossem capazes de encher os sacos, (...) eles podiam acusá-las de ter
escondidouma parte da produção para o seu próprio consumo. Não era
permitido consumir nenhum arroz por nós produzido; deviamos fornecer cada
grão às autoridades, e depois iamos às lojas comprar o arroz para o nosso
próprio consumo.
"O cultivo do arroz causou grandes sofrimentos nas terras de Makupulani.
Numa ocasião, algumas mulheres, eu própria incluída, foram presas e
conduzidas a um dos sub-chefes do régulo para averiguações, porque não
tinhamos cultivado as nossas machambas, no prazo. A razão.porque muitas
de nós não conseguiram, toda a gente sabia: nenhuma de nós tinha charrua,
e tinhamos que lavrar as terras duras e pesadas do leito do rio apenas com as
enxadas. Algumas das mulheres não conseguiram porque estavam doentes,
mas todas estas razões válidas foram rejeitadas, imediatamente, pelo chefe,
que nos ordenou deitar de barriga para sermos chicoteados nas costas" [20].
Canções de trabalho, colhidas na Zambézia e referentes aos meados
da década de 50, revelam as práticas, particularmente violentes, dos
capatazes de algodão da concessionária do baixo Zambeze, Sena Sugar
Estates Limited. Para além dos castigos corporais, considerados normais
nas culturas forçadas, as mulheres de Luabo, que trabalhavam nas
machambas de algodão, tinham que enfrentar um 'incentivo' ainda mais
desumano: o do capataz, Varajim, que, habitualmente, agarrava os bebés
Capítulo 4
das suas costas, e punha-os num caixote, para obrigá-las a trabalhar
melhor [21].
No extracto seguinte, referente aos finais da década de 50, Albino
Maheche, então enfermeiro no hospital de Nampula, descreve aconteci
mentos frequentes:
"Na altura, era hábito vermos nos hospital de Nampula, homens e mulheres
com nádegas escavadas, com feridas, ou seja, úlceras, porque esse
administrador [refere-se ao administrador de Murrupula, N.R.] usava um
chicote, preparado com restos de pneus velhos e um cabo especial, que servia
para torturar as pessoas que fugiam ao cultivo do algodão e do arroz. Batia
tanto nas nádegas que ficavam lesadas com feridas, ou úlceras, quando
estivessem num estado mais avançado.
"Na cidade de Nampula era hábito ver pessoas acorrentadas, vestidas apenas
de camisola interior, tanga ou meconta. Em plena cidade, os presos andavam
quase nus. Conseguíamos vê-los assim quando regressavam aos calabouços
vindos do trabalho forçado.
"Aquilo era espectáculo nas ruas de Nampula, na época, para as pessoas que
não se tinham habituado a ver coisa igual. As pessoas admiravam-se porque
passavam acorrentadas em filas de 20/30 pessoas, na ida e regresso da
machamba para os calabouços. Alguns destes indivíduos faziam parte
daqueles que eram apanhados a fugir ao cultivo do algodão e arroz" [22].
No depoimento seguinte, Joaquim Maquival descreve a violência por
detrás do trabalho para plantação da Sociedade de Chá Oriental de
Milanje, na mesma altura:
"Comecei aos 12 anos a trabalhar para a companhia; pagavam-me 15 escudos
por mês. Trabalhava desde as 6 da manhã até ao meio dia, parávamos duas
horas e continuávamos das 2 até as 6 da tarde. Toda a família trabalhava
para a companhia: meus irmãos, meu pai .... meu pai ganhava 150 escudos
por mês. Tinha que pagar 195 escudos de imposto anual. Nós não queriamos
trabalhar para a companhia, mas se recusassemos, o governo mandava a
polícia às aldeias e prendiam aqueles que recusavam, e se fugissem o
governo punha a circular fotografias e dava início à caçada ao homem.
Quando os apanhavam batiam-nos, metiam-nos na prisão e quando saiam
tinham que ir trabalhar sem receber férias; o argumento era que eles fugiam
porque não precisavam de dinheiro. ... Assim, nos nossos campos só
ficavam as nossas mães, que pouco podiam fazer. Só tinhamos para comer
o pouco que elas conseguiam produzir" [23].
150
A Econona e a Estrutura Social, 1945-1961
O comércio rural
A par da implementação das culturas e trabalho forçados, aumentou a
rede comercial rural. À primeira vista, este desenvolvimento beneficiava
o campesinato, devido a uma comercialização mais alargada. Mas, numa
breve análise, concluímos que representava a crescente penetração e
dominação da economia familiar pela economia capitalista portuguesa, o
que agravou o empobrecimento de grande número de camponeses.
A implementação da política colonial, nas extensas áreas geográficas,
exigia a construção de estradas para a fiscalização, comercialização e
transporte das culturas até às fábricas e portos. O número de mercados
e lojas no interior aumentou notavelmente, sobretudo, ao norte do
Zambeze, onde se estima que o número de lojas, fora das principais
cidades, aumentou de 1.000 para 2.000 entre 1942 e 1960. Esta expansão
teve a sua origem no aumento dos rendimentos obtidos pelo povo, e na
crescente necessidade dos produtores das culturas forçadas em compra
rem parte da sua subsistência, e dos seus meios de produção.
É de notar que, embora pequeno o rendimento individual proveniente
das culturas forçadas e outras culturas e dos salários obtidos nas
plantações, a soma de tudo isto, canalizada para os comerciantes, era
considerável. Por exemplo, na reserva de Eráti, em Nampula, onde o
rendimento monetário vinha, principalmente, do algodão, o rendimento
médio de cada produtor foi só 443 escudos por ano entre 1949 e 1959,
antes da colecta dos impostos. Contudo, é principalmente na base destes
dinheiros e, talvez, dos 100 a 150 escudos que cada família obtinha da
venda de outros produtos e salários de migrantes, que o número de lojas
cresceu de 16 a 51, no mesmo período. Calcula-se que, nos meados da
década, cada loja movimentava cerca de 500 contos por ano. Na década
de 50, em Amaramba, Niassa, onde o rendimento das vendas de algodão
era de 507 escudos por produtor, por ano, o número de lojas aumentou
de 25 para 66 [24].
Os principais produtos vendidos aos camponeses eram produtos
alimentares, sal, tecidos e vestuário, enxadas, tabaco, fósforos, sabão,
vinho e bicicletas. O aumento do comércio rural serviu, assim, como
uma forma de vender, relativamente caro, os produtos, quer da indústria
portuguesa, quer local. Note-se que a bicicleta, cuja utilização aumentou
consideravelmente neste período, longe de servir para transporte pessoal,
constituía, além dos carros de bois na posse de alguns régulos e outros
Capítulo 4
camponeses, relativamente ricos, o único meio moderno capaz de
substituir a força humana no transporte das mercadorias familiares para
as lojas.
O comércio rural foi o veículo através do qual a indústria e o
comércio portugueses expandiram o seu mercado. De facto, o custo de
vida rural foi gravemente, afectado pela exclusividade das relações
comerciais entre Moçambique e Portugal. Assim, Moçambique só podia
comprar os seus tecidos, o artigo de importação mais procurado, ou em
Portugal, ou por seu intermédio. Com a proibição de importação de
tecidos mais baratos e de alta qualidade, de Itália, Japão, Índia e
Alemanha, os preços dos panos portugueses subiram tanto, que constituí
ram uma outra imposição sobre os produtores. Por exemplo, calcula-se
que, nos meados da década de 50, Moçambique pagou duas vezes o
preço mundial pelas importações de cobertores (cerca de 10.000 contos
por ano).
Além destes custos, que o povo tinha de pagar, havia os que
resul.tavam da política de fixação de colonos seguida após 1945. A
instalação de comerciantes brancos, nas zonas rurais, em detrimento
doutros comerciantes, principalmente asiáticos, foi vista como um meio
importante na expansão da influência portuguesa. Protegidos pelo Estado
colonial, porque não podiam concorrer com os outros comerciantes,
devido às suas aspirações (acumulação rápida e participação no estilo de
vida da elite branca), estes comerciantes praticavam preços demasiado
altos. Por estas razões, os produtores moçambicanos de algodão, não só
recebiam apenas metade daquilo que o mesmo trabalho dava nas colónias
vizinhas, como também tinham que pagar, pelo menos,o dobro pelos
tecidos que compravam, o que constituía um motivo constante para a
resistência e emigração.
O reduzido rendimento e poder de compra do povo, nas zonas rurais,
deve ser compreendido em relação à estrutura global de trabalho. O
sistema de culturas forçadas dependia, em geral, de um campesinato
capaz de se sustentar e reproduzir pelos seus próprios recursos, sem
contar com os proventos do seu trabalho nas concessionárias, que
serviam para pagar os impostos e pouco mais.
Isto significa que, enquanto uma grande parte do fundo do tempo e
da capacidade de trabalho fosse absorvida nas empresas e administração
coloniais, elas não contribuíam para os custos sociais da família
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
camponesa. Por outras palavras, da mesma forma em que a sociedade
rural tinha que absorver os custos sociais de migração (a reprodução
familiar, a reforma, os ferimentos e, possivelmente, mortes devido aos
acidentes industriais) ao campesinato cabia, também, o papel de suportar
todas as desvantagens das culturas forçadas.
A degradação dos solos, subnutrição e fomes
A agravar esta situação, a intensificação da cultura forçada de algodão
provocou a degradação dos solos, o que diminuiu a colheita de todas as
culturas no sistema de rotação. Este processo é bem ilustrado pelas
condições preyalescentes, no fim da década de 40, em Mogovolas,
Nampula, que até então era um dos distritos de maior produção de
algodão e produtos alimentares na província de Nampula. Nestes anos,
houve uma acentuada quebra na produção de alimentos e, também, de
algodão, devido à exaustão dos solos, depois de mais de uma década de
culturas obrigatórias.
Numa tentativa de recuperar os antigos níveis de produção de
algodão, os capatazes europeus e 'indígenas' da concessionária, apoiados
pelo administrador, instituíram um reino de terror contra a população em
geral, em que figuravam extorsões, espancamentos e. outras violências.
Os próprios régulos, as vezes publicamente humilhados pelos capatazes,
temiam reclamar junto do administrador. Nesta situação, os camponeses
foram obrigados a cultivar áreas excessivas de algodão, em detrimento
das suas culturas de mapira, amendoim, feijão e mandioca, não havendo
possibilidade de criar a tradicional reserva de alimentos.
Por estas razões, o mau ano agrícola de 1950-1951 provocou a fome
e uma epidemia de disenteria que, segundo o conhecimento local,
resultou na morte de mais de 3.000 pessoas, e que gerou, contra a
administração, uma atitude generalizada de hostilidade e resistência
passiva, que alguns régulos partilhavam.
Um inquérito sobre as causas foi elaborado por agrónomos não
pertencentes à JEAC nem à administração civil, e por isso, de algum
modo, mais aptos a fazer uma apreciação independente, embora, na
altura, confidencial. O relatório do inquérito fazia uma crítica à
inflexibilidade da política e aos métodos da produção colonial. Segundo
o relatório, isto provocou que uma zona densamente povoada e, até
então, capaz de se abastecer a si própria e de produzir excedentes em
153
amendoim e milho (quer para venda, quer para reserva alimentar),
passasse a estar à beira do desastre. Referindo-se ao período antes da
fome, o relatório conclui que a população de Mogovolas estava mais
pobre do que antes de se iniciarem as campanhas de produção:
"Em resumo, o 'indígena' não está melhor agora do que há trinta anos o de
via estar. Nem ele, nem ninguém vê qualquer resultado do seu esforço"[25].
Concordando com o relatório, o Governador da província escrevia
que Mogovolas dava todas as indicações de ser uma terra 'insofismavel
mente exausta'. A situação deste distrito era ainda mais grave: devido aos
constantes derrubes nas terras virgens durante a vigência da política de
algodão, havia espaço para apenas mais 2 anos de cultivo, caso a
administração insistisse nA plena implementação da cultura forçada.
Os problemas que as culturas forçadas trouxeram não se restringiram
apenas a Mogovolas, mas eram comuns a muitas outras partes de
Moçambique, como afirma o mesmo relatório:
"O ora verificado em Mogovolas está à beira de se dar em todas as
circunscrições mais populosas da Província (Colónia, N.R.). O que se
desenha em Netia, Memba, Namapa, Ile ... é uma autêntica corrida para a
miséria futura da terra" [26].
Se bem que para o caso de Mogovolas, o Governo-Geral desse
orientações para uma redução da cultura de algodão, noutras zonas, a
política de algodão continuou com mais intensidade. O reajustamento de
solos e a instalação de concentrações, embora promovessem o aumento
gradual de produção, em nada contribuíram para alterar a perigosa
situação das zonas densamente povoadas, que permaneciam constante
mente sujeitas a crises alimentares, caso as condições climáticas fossem
desfavoráveis. Um relatório do governo provincial de 1957 confirmou
este facto:
"Em Mogovolas, Meconta, Nacala, Eráti, Memba e outras divisões onde a
densidade populacional oscila entre 20 e 40 habitantes por quilómetro quad
rado, o solo degradava-se muito para além de qualquer possibilidade de recu
peração económica. Repetidas culturas nos mesmos lugares em anos e anos
sucessivos, sem a incorporação de adubos e sem os pousios regeneradores,
a terra empobrecia mais e mais, até que, abandonada por imprestível. . ."[27].
Capítulo 4154
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
Se apenas as culturas alimentares falhassem, os camponeses tinham
que recorrer, então, ao produto da venda do algodão e arroz, ap6s lhes
terem sido descontados os diversos impostos, para a compra de alimen
tos. Pior ainda era se, além disso, a colheita do algodão também
fracassava, deixando-os sem qualquer possibilidade de aquisição de
alimentos aos cantineiros rurais. Tais situações surgiram de novo em
1959 no distrito de Murrupula e em partes de Iuluti, Mogovolas e Morna,
provocando centenas de mortos. É evidente que estas situações eram
frequentzs.
As culturas forçadas, a exaustão dos solos, a erosão, e a retirada da
força de trabalho masculina para as plantações e outras obras, atingiram
profundamente a capacidade do campesinato, em grandes zonas do país,
de proporcionar a sua própria subsistência. Provocaram uma consequên
cia menos dramática, mas mais crónica que as calamidades: a diminuição
da variedade de alimentos básicos disponíveis nas zonas rurais e o
surgimento da subnutrição. Isto deveu-se à negligência relativa a que
foram votadas as culturas de amendoim e feijão e à obrigação de vender,
muitas vezes, uma parte considerável destes produtos, para satisfazer os
encargos monetários, tendo em conta o reduzido rendimento da cultura
de algodão.
Para isto, contribuiu, também, a crescente substituição, na dieta
familiar, de cereais como sorgo, mapira e milho por mandioca, devido
à economia de tempo na sua produção. Pela mesma razão, mandioca era,
de longe, o produto mais barato que as plantações podiam comprar para
a alimentação dos seus trabalhadores, cujas refeições eram, raras vezes,
acompanhadas com proteínas e vitaminas. Note-se que o milho, a mapira
e o sorgo fornecem mais minerais e proteínas do que mandioca, mas
requerem muito mais trabalho.
õ processo de privilegiar a cultura da mandioca em detrimento dos
cereais e de outros produtos mais nutritivos remonta à década de 20. As
culturas forçadas, e as campanhas de cultura alimentar obrigatória, cada
vez mais implementadas a partir de 1947, e que foram quase exclusiva
mente de mandioca, intensificaram essa tendência.
Embora as verdadeiras dimensões destas mudanças fiquem, ainda, por
aprofundar, algumas das suas consequências já se destacam. Por
exemplo, com a excepção de períodos de autêntica calamidade, como a
seca e fomes de 1899-1902, antes de 1930, o campesinato da Zambézia
155
era capaz de se auto-abastecer em milho e mapira, e exportava amendoim
e gergelim. No final dos anos 40, porém, passou já a depender, em
grandeparte, da cultura de mandioca. Contudo, nessa província, os
distritos fronteiriços de Milange e Morrumbala, onde a política colonial
era mais virada para impedir fugas para Niassalândia, não foram sujeitos
ao regime normal de algodão nem de recrutamento. Por conseguinte, a
produção camponesa de milho floresceu neste período, fornecendo
excedentes para venda noutras zonas [28].
Da mesma forma, o campesinato de Nampula que, nas décadas de 20
e 30, tinha sido capaz não só de se alimentar mas, também, de exportar
quantidades significativas de milho e outros alimentos para outras
províncias e, mesmo, para o estrangeiro, passou a depender, na década
de 50, não só da cultuta generalizada de mandioca como o alimento
principal, mas também, em alguns anos, de importações de alimentos
doutras províncias vizinhas.
Segundo um relatório colonial referente a Nampula, neste período, as
anemias provenientes de subnutrição afectavam largamente a população.
Inforfitado sobre a extensão do problema por especialistas chamados de
Nairobi, Quénia, nos meados da década de 50, o regime colonial não
procedeu à análise das causas básicas, nem a uma reestruturação da
produção de alimentos em moldes mais modernos. Movido, principal
mente, pela necessidade de extrair mais rendimento por hora dos
recrutados nas plantações, o governo optou por aliviar o problema num
curto prazo, e de modo bastante económico, através da utilização de
produtos químicos na comida fornecida naquelas unidades de produção.
No entanto, este paliativo não podia, de maneira nenhuma, responder
à gravidade do problema, em particular no que diz respeito a subsistência
familiar camponesa. Apesar da falta de estudos coloniais sobre a questão,
informações referentes à província de Nampula, do fim da década de 50,
indicam que a deficiência alimentar qualitativa contribuiu, significativa
mente, para a baixa taxa de natalidade e a elevada taxa de mortalidade
infantil, nas zonas rurais. Além disto, as constantes migrações definitivas
de famílias, fugindo das culturas forçadas e do trabalho nas sisaleiras,
concorreram também para que a taxa de crescimento populacional
estacionasse [29].
Capítulo 4156
A Economia e a Estrujura Social, 1945-1961
3. Mão-de-obra migratória
Por seu turno, a degradação das condições de vida em grandes partes das
zonas rurais de Moçambique, contribuiu para a intensificação da
migração, que levou dezenas de milhares de moçambicanos ao trabalho
temporário, ou residência permanente, nos territórios vizinhos, neste
período.
Do ponto de vista do trabalhador, a preferência para trabalho
industrial ou agrícola, no estrangeiro, foi baseada no desequilíbrio das
condições de trabalho e no reduzido poder de compra de salários
moçambicanos. Enquanto as zonas rurais de Moçambique fossem sujeitas
a trabalho e culturas forçados, havia maior liberdade de escolha de
trabalho fora do país. Mesmo que os salários nem sempre fossem
elevados, o poder de compra, no que se refere à aquisição de artigos de
vestuário e materiais de construção, a preços acessíveis, era maior [30].
Por outro lado, o sistema de pagamento diferido vigente em relação
a migração para África do Sul, e outros subsídios, contribuíram
significativamente para o balanço positivo de divisas da economia
colonial moçambicana, o que levou a que o governo colonial encorajasse
a migração temporária. Pretendeu, contudo, sempre regulamentar as
correntes migratórias para melhor cobrar impostos e assegurar o
repatriamento, investindo consideráveis fundos na repressão da emigração
clandestina, pelo menos no sul do país, através da polícia secreta
africana, montada para o efeito.
No plano regional, a situação sócio-económica a partir de 1945
favoreceu uma expansão de migração. Após as mudanças associadas com
a II Guerra Mundial, surgiu, nos principais centros de desenvolvimento
capitalista da África Austral, nomeadamente, África do Sul e Rodésia do
Sul, uma grave crise de mão-de-obra. A crescente proletarização interna,
o empobrecimento das reservas, e a subida vertiginosa do custo de vida,
agudizaram a luta de classes nas indústrias chaves destes territórios.
Associada com avanços importantes na organização sindical e polftica dos
trabalhadores, essa luta culminou em reivindicações, entre os mineiros
negros no Witwatersrand, de significativos aumentos salariais e na grande
greve de 1946, ferozmente reprimida pelo Governo sul-africano.
Simultaneamente, na Rodésia do Sul, verificou-se um verdadeiro surto
de organização sindical entre os trabalhadores dos caminhos de ferro, das
157
Capítulo 4
minas, das municipalidades e doutros sectores.
Como parte da estratégia para reprimir essa luta e para assegurar o
fornecimento de mão-de-obra barata, a burguesia e o Estado nesses
territórios recorreram aos países vizinhos que constituíam a sua reserva
de força de trabalho, principalmente Moçambique [31].
A WENELA, a organização de recrutamento da Câmara de Minas,
impulsionou novamente as suas operações em Moçambique, estimulando
os seus empregados locais, através de concursos, nos quais as estações
mais eficientes no recrutamento de migrantes recebiam prémios.
Em 1946, a Rodésia do Sul criou a 'Rhodesian Native Labour Supply
Commission' (RNLSC), para organizar sistematicamente as correntes
migratórias. No Acordo Suplementar de 1947, os Governos coloniais de
Moçambique e Rodésia do Sul autorizaram a RNLSC a estabelecer uma
rede de estações de recrutamento na província de Tete. Em recompensa,
tinha que organizar o registo de migrantes clandestinos e a cobrança de
impostos sobre os trabalhadores moçambicanos na Rodésia do Sul [32].
Após estas inciativas, o número de migrantes nas minas da África do
Sul aumentou de cerca de 78.000, em 1945, para cerca de 96.000, em
1960, e o total dos moçambicanos na África do Sul para mais de
200.000. Segundo os dados oficiais, o número de migrantes legais
moçambicanos na Rodésia do Sul aumentou de cerca de 103.000, em
1946, para cerca de 117.000, em 1956, ano em que atingiu o seu
máximo.
No entanto, na segunda metade da década de cinquenta, o desenvolvi
mento da economia rodesiana e o aumento de desemprego urbano
provocaram uma mudança de política do governo que, a partir de 1958,
permitia a criação de uma força de trabalho urbano permanente. Em
1959, as autoridades rodesianas denunciaram o acordo de 1947. Como
consequência, o número de Moçambicanos legalmente empregados na
Rodésia do Sul diminuiu para cerca de 30.000 em 1960.
Contudo, os machambeiros rodesianos precisavam, ainda, de trabalho
barato e, nas zonas rurais, ainda se autorizava o emprego dos migrantes
estrangeiros, particularmente, a utilização sazonal de milhares de
homens, mulheres e crianças da província de Tete, nas machambas de
tabaco e chá [33]. Mostra-se, assim, as vantagens para o capital
rodesiano do sistema de trabalho migratório que, permitindo a distinção
entre trabalho urbano mais produtivo e trabalho rural braçal, era capaz
158
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
de expulsar facilmente os trabalhadores que o capital não precisava.
No norte de Moçambique, as péssimas condições de trabalho e
subsistência eram a base da continuação da migração para Tanganhica,
entre 1945 e 1961. Neste país, os trabalhadores moçambicanos, de Cabo
Delgado e Nampula, constituíram uma parte importante da força de
trabalho nas sisaleiras. Estas, devido ao maior aperfeicoamento das
técnicas de gestão, e de selecção e produção da fibre, conseguiram
maiores rendimentos que as suas contrapartidas moçambicanas, mesmo
nos anos de crise. Por esta razão, ofereceram melhores salários e
condições de trabalho. Calcula-se que, no fim da década de 50, cerca de
20.000 moçambicanos trabalhavam nas sisaleiras e outros lugares de
emprego em Tanganhica.
Como nos outros territórios vizinhos de Moçambique, no Tanganhica
constavam, também, outros milhares de camponeses que tinham
atravessadoa fronteira para se fixarem, definitivamente, e aproveitarem
dos melhores preços oferecidos para os seus produtos, especialmente,
neste caso, mandioca e cajú [34].
*De facto, considerando que o número total de moçambicanos nos
territórios vizinhos atingiu, provavelmente, o dobro dos oficialmente
registados ou conhecidos, justifica-se a conclusão do relatório do OIT de
1958, de que
"Moçambique é o território africano onde a migração para o estrangeiro
atinge as suas maiores proporções" [351.
Em comparação com as grandes correntes migratórias para os países
vizinhos, o recrutamento para trabalhar nas plantações de São Tomé e
Príncipe era relativamente menor neste período. Após um surto inicial,
o número anual de migrantes diminuiu ligeiramente: de uma média de
2.460 para 1.987, entre 1948-1951 e 1957-1958. O número total de
moçambicanos existentes nessas ilhas, no fim dos anos 1951 e 1958 era
de 8.499 a 7.515, respectivamente. No entanto, a migração para São
Tomé não era a simples resposta às condições económicas em Moçambi
que. Na política laboral colonial, a migração 'obrigatória' constituiu um
método importante de punição e repressão da força de trabalho moçambi
cana. Nos contingentes de migrantes constava, sempre, um número
considerável de moçambicanos, condenados a desterro, por serem
considerados *refractários', 'indesejáveis' ou, simplesmente, 'ociosos'.
159
160
1
é.
a.
(PENMA)
1'~
A EXPANSÃO
DA REDE
FERROVIÁRIA
INHAMBANE
Mapa 3: A expansdo da refekferrovidria, 1930-1961.
1
Caíulo 4
SINAIS
CAMINHOS DE FERRO
u construidos até 1930
.. .. 1940
.. 1950
"'" " - 1960
depois de 1960
1912 ano de inauguração
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
4. Os planos do fomento e industrialização
4.1 Acumulação portuguesa e a economia moçambicana
De notar que, até a II Guerra Mundial, estavam asseguradas, em
Portugal, as condições internas para a repressão da luta de classes,
garantindo, assim, uma forte acumulação de capital. A guerra veio, por
seu turno, reforçar o processo de acumulação de capital da burguesia
portuguesa, constituindo o factor que mais a impulsionaria. A não
participação na guerra (posição ambígua de Portugal face aos blocos em
conflito), e o fluxo constante de divisas provenientes do comércio externo
das colónias, proporcionaram a Portugal um reforço do seu próprio
comércio externo, uma maior acumulação de reservas e a duplicação das
receitas públicas. Após a guerra, a revolução industrial portuguesa
avançou com mais rapidez e, embora Portugal continuasse a ser um país
essencialmente agrário e analfabeto, a situação tendia para a concentração
e crescimento do poder do capital industrial e bancário.
Este processo significou que o capital português se encontrasse um
pouco mais capaz de fazer o que, nos períodos anteriores, não tinha tido
condições de fazer, nomeadamente, investir nas colónias na promoção
dos seus lucros. Mesmo assim, os investimentos governamentais foram
concedidos na forma de empréstimos reembolsáveis a curto prazo, e em
grande parte para financiar a construção de infraestruturas, como
caminhos de ferro e obras nos portos. Estes facultaram avultados lucros,
em divisas, através do trânsito de mercadorias para os países vizinhos,
e o fornecimento de energia para as cidades principais. Os investimentos
privados continuaram a concentrar-se, sobretudo, na comercialização e
transformação de produtos agrícolas de exportação.
4.2 Os planos de fomento
No período pós Guerra, o Estado colonial promoveu a consolidação das
infraestruturas de Manica e Sofala, cujo desenvolvimento permitiria a
melhor exploração da zona.
Em 1946, foi autorizada a constituição da Sociedade Hidro-eléctrica
do Revuè (SHER), que construiu a barragem de Chicamba Real, que
melhorou o fornecimento de energia à cidade de Beira e possibilitou
também a venda de energia à vizinha colónia da Rodésia do Sul.
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Capítulo 4162
21. Parque de maquinaria no prolongamento do caminho de ferro de Tete:
Moalize, 1949
Em 1947, o governo português facilitou um empréstimo de 100 mil
contos para a fase final da construção do caminho de ferro de Tete, que
atingiu Moatize em 1949. Esta linha foi construída com vista a expio
ração econ6mica das minas de carvão dessa zona (capítulo 3). A
Companhia Carbonífera de Moçambique com sede em Moatize foi então
criada, em 1947, uma companhia privada em que o Estado portugu&ç
detinha 10 por cento do capital.
Em 1949, o governo colonial tomou conta (por resgate) do porto da
Beira, e comprou o caminho de ferro que ligava o porto da Beira à
Rodésia do Sul, sob controle de uma companhia concessionária britânica,
aquando do termo da concessão majestática da Companhia de Moçambi
que, em 1942.
A partir da década de 50, o governo deu um novo impulso à
exploração dos recursos de Moçambique. Iniciaran.-se os 'Planos de
Fomento' e a fixação sistemática de colonos. O primeiro plano (1953-
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
22. Parque de carros ingleses em Lourenço Marques desnnau., à Rodésia do Sul
através do novo caminho de ferro do Limpopo, 1956.
1958) previa investimentos da ordem de 1.848.500 contos, dos quais
vieram a ser realmente aplicados 1.661.284, assim distribuídos:
Caminhos de ferro, portos e transportes aéreos 63%
Aproveitamento de recursos e povoamento 34%
Diversos 3%
O plano não previa a atribuição de quaisquer kerbas nem para a
investigação científica, nem para a saúde pública e ensino.
A obra principal durante a vigência deste plano foi a construção dos
quasi 300 quilómetros da linha férrea de Lourenço Marques a Malvérnia,
na fronteira com a então Rodésia do Sul. O objectivo era aproveitar,
plenamente, o crescente tráfego da nova Federação Central Africana, a
confederação das colónias de Rodésia do Sul, Rodésia do Norte (Zâmbia)
e Niassalândia (Malawi), um bloco que, segundo os planos britânicos,
facultaria um crescimento económico e acumulação rápida, particular
mente na Rodésia do Sul.
163
Capítulo 4
Esta linha foi construída contra os planos regionais das autoridades
sul-africanas, que pretendiam dominar todo o tráfego ferroviário ao sul
do equador ap6s a II guerra mundial, e que tinham proposto a construção
de uma linha entre Ressano Garcia e Rodésia do Sul via Beit Bridge
(ponte principal rodoviária, sobre o Limpopo, entre África do Sul e
Rodésia do Sul, que só em 1974 veio a suportar uma linha férrea). Com
a ajuda diplomática britânica, Portugal obteve um empréstimo de 17
milhões de dolares do Banco de Importações e Exportações, sediado nos
E.U.A., que pagava cerca de 80 por cento das despesas de construção,
e que constituiu cerca de 36 por cento do total das despesas do I Plano
do Fomento.
Esta obra, concluída em 1956, não servia somente os interesses
capitalistas da Rodésia do Sul, como também beneficiou consideravel
mente o orçameuto colonial de Moçambique. Nos três anos ap6s a sua
conclusão, as receitas (em grande parte em divisas) dos Caminhos de
Ferro e Portos de Moçambique aumentaram 25 por cento, relativamente
aos três anos anteriores (de uma média de cerca de 750.000 contos para
mais de 1.050.000 contos), e o acréscimo no rendimento foi, teorica
mente, suficiente para reembolsar o empréstimo em apenas 3 anos.
Para além desse beneficio para as finanças do governo colonial, o
novo caminho de ferro facultou as obras de construção de um outro
projecto fundamental do I Plano de Fomento, o início da fixação
sistemática de colonos no Vale do Limpopo e o escoamento das suas
produções.
4.3 Crescimento da população colona
O crescimento da população colona em Moçambique, neste período,
esteve intimamente ligado ao problema da proletarização progressiva do
campesinato português, devido à capitalização gradual do campo, sob o
impulso da industrialização. Enquanto vastas correntes migratórias
fossem para Europa industrializada e para as Américas,o governo
português pretendeu utilizar uma pequena parte dos desempregados e
despojados das suas terras para a formação de uma camada de auxiliares
leais, não só para o desenvolvimento económico das colónias, como
também para a manutenção da autoridade colonial.
Por estas razões, entre 1945/50 e 1960, adquiriu grande significado
o povoamento de colonos, oficialmente organizado pelo Estado portu-
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
guês. Entre 1951 e 1960, fixaram-se, em Moçambique, mais de 13 mil
colonos, cujas passagens e custos de instalação foram assegurados pelo
governo português, através das verbas orçamentadas nos Planos de
Fomento. Em todo o período colonial, a década de 50 registou a maior
taxa de crescimento anual de colonos.
Quadro 14: Evolução da população total e da população
colona de Moçambique [36]
População 1930 1940 1950 1960
Total 3.885.447 5.085.627 5.738.911 6.603.653
Colona 17.842 27.438 48.213 97.245
O 1 Plano de Fomento contemplava o -aproveitamento de recursos e
povoamento da colónia', com especial relevância para a preparação de
terrenos (abertura, irrigação e enxugue) e assistência técnica e financeira,
com vista ao transporte e instalação de alguns colonos, nas zonas rurais.
Os colonatos eram regiões de ordenamento e fixação desses colonos
europeus, que foram organizados numa tentativa de recriar, em Moçam
bique, a pequena propriedade rústica portuguesa. Tinham, por outro
lado, o objectivo de estabelecer zonas que deviam constituir barreira ao
avanço de qualquer movimento nacionalista que, na altura, emergia por
toda a África, e dava em Moçambique os primeiros passos.
Se bem que o número de colonos fosse, numericamente, reduzido, a
sua instalação implicou uma nova onda de expulsões de camponeses
moçambicanos. Criados em áreas agrícolas de grande fertilidade, nos
principais vales fluviais, como os do Limpopo e Revuê, e nas terras altas
de Lichinga e Montepuez, os colonatos eram, também, zonas estratégicas
de desenvolvimento futuro agro-industrial. A sua instalação retirou, de
repente, aos camponeses, alguns dos quais agricultores 'evoluídos', as
vantagens de cultivo em tais áreas favorecidas, e impôs uma nova
barreira contra o desenvolvimento económico e social do campesinato
nessas zonas, mostrando mais do que qualquer argumento teórico, a
hipocrisia da política portuguesa de assimilação.
O primeiro colonato foi criado no vale do Limpopo, em 1954, tendo
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166 Capítulo 4
23. O Colonato do Limpopo ocupava grande espaço na ideologia colonial de
assimilação: Os primeiros colonos a chegar, 1954.
ali sido instaladas as primeiras dez famílias, oriundas de Portugal. Em
1957, já viviam no Limpopo 204 famílias portuguesas, e nos inícios da
década de 60, já estavam distribuídas pelas 14 aldeias do colonato, cerca
de 1.400 das 3.000 famílias que se pretendia instalar.
Criaram-se outros colonatos no vale do Revuè, e em Sussundenga, na
24. Vista do Colonato do Limpopo, Guijá, 1960.
166
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
província de Manica. No início dos anos sessenta, foi criado o colonato
de Nova Madeira, próximo de Lichinga, no Niassa.
Os colonos instalados estavam, teoricamente, proibidos de utilizar
mão-de-obra estranha às suas famílias, e tinham que entregar ao Estado,
para custear os encargos da sua instalação, 1/6 do valor anual da
produção. Só depois do reembolso feito, podiam obter o título definitivo
de propriedade. Em alguns colonatos, procedeu-se à colocação de
famílias africanas, em parcelamentos menores, (normalmente com 2
hectares, contra os 4 para os portugueses), junto das áreas dos colonos
europeus, no intuito de tentar criar uma camada de pequenos proprie
tários de pele negra, e, na linguagem colonial paternalista, de ensinar à
população hábitos portugueses de trabalho rural.
O segundo Plano do Fomento (1959-1964) surgiu na continuidade do
anterior. Continuava, na sua concepção de base, a ser, tal como o
primeiro, um plano'de investimentos públicos e de alguns (poucos)
projectos do sector privado. Tinha os investimentos programados,
basicamente, para os seguintes sectores:
- povoamento, com o prosseguimento da obra do colonato do
Limpopo, e novos programas para a fixação de colonos para as
culturas de tabaco e do chá;
- comunicações e transportes;
- aproveitamento de recursos, concretamente, no fomento agrário,
florestal, pecuário, hidro-agrícola e hidro-eléctrico;
- conhecimento científico do território, com estudos a realizar no que
se refere a cartografia geral e estudos geológicos (mineiros e
pedológicos).
Era, essencialmente, um plano que visava o fomento da produção e
do povoamento e continuava a não contemplar a indústria, pelo menos
directamente, no que respeitava à direcção dos investimentos. Foi, ainda,
destinada uma pequena verba para a instrução e saúde e melhoramentos
locais (abastecimento de água). Juntamente com os estudos científicos do
território, esta verba não ultrapassava os 19 por cento dos investimentos
programados, ou seja, apenas cerca de 520 mil contos.
É impressionante verificar que todo o esforço de investimento em
infraestruturas, em equipamento, e mesmo o reduzido investimento em
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Capítulo 4
obras sociais (educação, saúde,etc.), estava francamente em ligação com
a instalação de colonos portugueses. Na totalidade, podemos afirmar que
mais de 75 por cento dos investimentos tinham essa finalidade. Caminhos
de ferro, estradas, melhoramentos hidro-eléctricos, apetrechamento de
portos, eram obras que confluíam para a criação de condições de
formação de 'centros de colonização' e de melhoramento dos já
existentes.
4.4 Fomento industrial
Em geral, a industrialização de Moçambique, neste período, foi ainda
severamente limitada pelas restricções impostas por Portugal, em
benefício das suas próprias indústrias.
No entanto, desde finais da II guerra mundial, tinha-se criado um
clima favorável para a intensificação da produção, incluindo a transfor
mação de culturas agrícolas, em especial, o algodão, o açúcar, o chá, a
maqeirá, as oleaginosas e o tabaco, isto é, matérias-primas ou mercado
rias não produzidas em Portugal.
Este período será, portanto, ainda dominado pela agro-indústria de
exportação. A produção no sector continuará a assentar na utilização de
mão-de-obra pouco especializada, embora se assistia a uma crescente
mecanização e a melhoramentos técnicos, em algumas das indústrias
como a do açúcar.
Por outro lado, começou a ser feito o aproveitamento industrial da
semente do algodão, a partir de 1946, pela Companhia Luso-Belga (mais
tarde, a Companhia Industrial Portuguesa) no Monapo, e verificarem-se
avanços na transformação dê outras oleaginosas, como a copra. Dos
produtos derivados transformados começaram a destacar-se: o óleo
refinado, o bagaço, o sabão, os ácidos gordos e a fibrilha. Note-se que
estas mudanças resultaram num avanço considerável dos lucros derivados
do trabalho rural barato. No caso dos óleos alimentares, a crescente
procura local foi devida ao aumento da população urbana (dos colonos
e do proletariado negro) e a baixa de produção de amendoim.
No que diz respeito ao cajú, uma única fábrica de descasque foi
construída, neste período (começando a sua produção em 1951), de modo
que mais de 90 por cento da produção desta cultura teria, ainda, que ser
exportada para Índia, para a sua transformação.
Para além do incremento que sentiram, na década de 50, outras
168
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A Economia e a Esírutura Social, 1945-1961
indústrias, já estabelecidas, como o cimento, essencial na expansão das
infra-estruturas e de construção urbana, iniciaram-se as indústrias de
vestuário (1951), de fiação e tecelagem de juta (1951), , moagem de
trigo (1952). No entanto, havia, apenas, uma fábrica de tecelagem de
algodão instalada (1952), localizadaem Chimoio, que, em 1953,
absorveu só 338 das 125.000 toneladas de akodão caroço produzido pelo
campesinato moçambicano, aumentando o seu consumo, lentamente, para
1788 toneladas, em 1960. Sublinhe-se que a maior parte das indústrias
se localizava em Lourenço Marques.
Após uma alteração no regime industrial, em 1954, ficaram isentas de
restricções diversas indústrias, nomeadamente, as indústrias de vestuário,
de coiro e peles, de mobiliário, alimentares, de reparação de máquinas,
veículos e material eléctrico, de soldadura, e outras indústrias manuais
ou com potência inferior a 2 cavalos-vapor. Esta medida resultou num
surto de indústrias de carácter ligeiro, em Lourenço Marques, Beira e,
em menor escala, em Quelimane e Nampula, que produziam, principal
mente, para as cidades e a população colonial, ou ofereciam serviços
essenciais como, por exemplo, no sector de transportes.
Quadro 15: Crescimento dh indústria de transformação, 1947-1901 [37]
1947 1954 1956 1958 1961
No. de empresas *150 *157 690 913 1025
Capital fixo ** 796 1146 2134 2954 4610
* principais empresas indicadas
** milhares de contos
O Quadro 15 mostra que, enquanto, no início da década de 50, as
empresas eram pequenas, ou médias, o mesmo não se verifica no fim da
década, em que a expansão industrial se manifesta através de maior
crescimento do capital fixo em relação ao número de empresas.
O crescimento do sector industrial, após 1955, pode ser avaliado com
maior profundidade pela evolução dos índices de produção e investimento
de capitais. Tomando como base, para o^ ano de'1955, o índice 100,
temos a seguinte evolução em termos do volume geral da produção
169
Capítudo 4
industrial (abrangendo a pesca, as indústrias extractivas, pas indústrias
transformadoras, a construção e obras públicas, e a electridcdade) [38]:
1955
1957
1959
1961
100
127,9
159,4
223,5
Quadro 16: Expansão do investimedto fixo na indústria
transformadora, 1956-1961 [39]
Capital (contos)
Ano 1956 1961
Total 2.134.027 4.610.029
1. Têxteis
Descaroçamento,tratamento e pre- 445.872 824.471
paração de fibras têxteis
Fiação, tecelagem, e acabamento 140.653 205.192
Calçado, vestuário e têxteis em obra 370 8.931
2. Indústrias alimentares
Refinação de açucar 376.344 808.120
Moagem, descasque de cereais 198.648 363.222
Diversas 118.398 158.122
Refinação de óleos e gorduras 134.015 158.112
3. Madeiras 197.143 347.919
4. Cinento 192.014 379.433
5. Reimação de petróleo 218.403
6. Bebidas 46.977 201.698
7. Reparação de veículos, etc. 28.641 147.209
8. Indústrias metálicas 49.265 114.059
9. Electricidáde, gás e água 330.306 581.877
A evolução do investimento nas principais indústrias moçambicanas
na segunda metade da década de 50 revela-se no Quadro 16, que mostra
uma certa concentração dos investimentos, nas principais indústrias
directamente ligadas a exportação de produtos primários, como o algodão
170
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
e outras fibras, açúcar, e madeiras. Mas, de facto, em relação ao total
dos investimentos, na indústria transformadora, a percentagem investida,
nestas indústrias, diminuiu de cerca de 48 por cento em 1956 para cerca
de 43 por cento em 1961.
Esta mudança no carácter dos investimentos veio reflectir-se na
proporção relativa do valor da produção de cada sector industrial.
Quadro 17: Proporção do valor de produção industrial, por sector,
1942-1960
1942 1955 1960
Produção industrial para o mercado externo 72% 60% 54%
(Agro-indústrias)
Produção para o mercado interno (alimen- 28% 40% 46%
tares, bebidas,metálicas, etc.)
A base deste crescimento foi garantida pela política do 'nacionalismo
económico' que fomentou, em Portugal, a acumulação do capital
industrial e financeiro e favoreceu também o investimento selectivo nas
colónias.
A expansão industrial e comercial, e a fixação de colonos, que
trabalhavam, principalmente nas novas indústrias transformnadoras, no
comércio e transportes, provocaram um crescimento de construção
habitacional, industrial, e de serviços, particularmente, em Lourenço
Marques e na Beira. A construção do caminho de ferro de Lourenço
Marques para Chicualacuala, e o avanço da economia da Rodésia do Sul,
na década de 50, deram grande impulso a este processo.
4.5 A consolidação do capital português
Por volta do fim da década de 50, mercê da política de condicionamento
e protecção imprimida pelo governo português, diversos grupos
industriais e comerciais, portugueses e locais, tinham criado, ou
alcançado o controle de, um grande número de empresas em Moçambi
que. Evidenciaram-se o Grupo Entreposto (uma subsidiária da Compan
hia de Moçambique, abrangendo mais de 20 grandes empresas), a
Companhia Uniao Fabril (CUF), que era, praticamente, dona da
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Capítulo 4
Sociedade Agrícola do Incomati, Champalimaud, João Ferreira dos
Santos, Monteiro e Giro etc., todas com grandes interesses na agricul
tura, indústri4 e comércio. Para além das condições rentáveis concedidas
pelo estado colonial a todas as empresas capitalistas, estes grupos eram
capazes!de rentabilizar a sua posição dominante, se não monopolizadora,
no comércio global de uma ou mais regiões geográficas (como João
Ferreira dos Santos no norte), ou na comercialização de produtos chaves
em todo o país (como Champalimaud nos cimentos).
Ao nível do capital financeiro, os grandes bancos, tinham aproveitado
da repressão colonial fascista para investir e tirar lucros de produção. Por
exemplo, o Banco Português do Atlântico estava ligado à Sociedade
Hidro-eléctrica do Revuè, e tinha grande interesses nos sectores de
algodão, têxteis, açúcar e vidro. O Banco Nacional Ultramarino detinha
1/3 do capital da Companhia Colonial do Buzi e estava associado com a
CUF na SOCAJU, proprietária da única fábrica para o descasque de cajú
construída no período.
Nota-se que o estado colonial tinha, também, aumentado a sua posição
como detentora de enormes capitais, principalmente, nos caminhos de
ferro e portos.
O sucesso da política colonial da promoção dos capitais portugueses,
quer metropolitanos, quer locais, na agricultura, pode avaliar-se pelo
facto de, em 1960, das 2.700 empresas agrícolas existentes, cerca de
2.500 serem portuguesas.
5. O desenvolvimento da estrutura social
5.1 A força de trabalho assalariado e a sua estratificação racial
Como resultado do desenvolvimento da economia colonial e, particular
mente, da agro-indústria e das outras indústrias transformado:as, a força
de trabalho aýsalariado, quer voluntário, quer forçado, cresceu considera
velmente (Quadro 18).
A divisão racial continuava a ser uma característica fundamental na
evolução sócio-económica da força de trabalho assalariado. De facto,
devido à política portuguesa de imigração colona, da expansão dos
sindicatos corporativos fascistas, e da elaboração do corpo legislativo
essencialmente racista, as barreiras raciais intensificaram-se significativa-
172
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A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
mente em beneficio da crescente população colona.
Os Sindicatos Nacionais começaram a ser instalados em Moçambique
como meio de incorporar os trabalhadores brancos e alguns indivíduos
assimilados, no aparelho de governação colonial, com certos privilégios
estatutários, como, por exemplo, uma tabela salarial fixa (capítulo 3).
Após a II Guerra Mundial, foram criados novos sindicatos. Em 1946, foi
autorizado o Sindicato Nacional dos Empregados Bancários, profissão
que até então era integrada no Sindicato Nacional dos Empregados do
Comércio e Indústria (SNECI). Em 1948, foram criados outros dois
sindicatos: o dos Motoristas de Moçambique que, abrangendo inicial
mente apenas motoristas e mecânicos, foi progressivamente alargado a
outras profissões mecânicas, na agricultura, na marinha mercante e nas
indústrias metalo-mecânicas e eléctricas; e o dos Operários da Construção
Civil e Ofícios Correlativos.~Quadro 18: Estimativa provisória do número de assalariados nos
principais sectores e actividades, 1950-1960 [40]
Serviços Agrícolas* Não-agríc. Migrantes
públicos particulares particulares **
1950 71.850 110.000 163.420 200.000
1960 115.000 130.000 290.000 290.000
*Incluindo os contratados sazonais nas plantações do país.
**Legalnente nos países vizinhos
Devido aos reajustamentos da economia de toda a Africa Austral, ao
influxo de novos colonos portugueses e, por vezes, à prática dos
proprietários de empregar trabalhadores não-brancos com salários
menores, surgiu, no após guerra, o problema do desemprego de um
número considerável de brancos. Desprovidos pela legislação de qualquer
possibilidade de luta directa, anti-capitalista, ou de conciliação de
posições multi-raciais, os sindicatos montaram uma campanha para
impedir o acesso dos não-brancos aos postos de emprego abrangidos pela
legislação sindical, sob o pretexto de defender os seus membros contra
trabalhadores não qualificados. Note-se que até então, embora excluídos
dos sindicatos, os negros e outros trabalhadores não-brancos não eram,
173
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Rodrigues
None set by Rodrigues
Captulo 4
especificamente, impedidos de trabalhar naqueles postos.
Em Julho de 1947, teve lugar a primeira reunião dos sindicatos
coloniais em Moçambique, em que foi discutida a questão do desemprego
dos brancos e as possíveis soluções. Depois, o Conselho Geral do
SNECI, que era de longe o maior e mais influente dos sindicatos, dirigiu
ao Governo-Geral uma exposição sobre a 'intromissão de indígenas nas
profissões tuteladas por este Sindicato'. Disto resultou, em Julho de
1948, um despacho sucinto (de duas linhas) do Governador-Geral,
Gabriel Teixeira, pelo qual foi pura e simplesmente vedado aos 'indíge
nas' o exercício das profissões abrangidas por aquele Sindicato. Este
despacho foi considerado extensivo a todas as profissões organizadas em
sindicatos. Assim, por exemplo, após 1950, os motoristas negros que
tinham uma carta de condução só podiam, legalmente, exercer a sua
actividade como 'motoristas auxiliares'. A isenção dos assimilados dessas
exclusões dependia das informações recolhidas em inquéritos feitos para
cada caso [41].
Além disso, para melhor controlar as admissões ao emprego e concre
tizar, assim, as barreiras raciais, os sindicatos argumentaram a favor do
sistema da 'Carteira Profissional', o que foi concedido pelo Governo
Geral, e que entrou em vigor em Janeiro de 1949. Passou a ser interdito
a qualquer trabalhador empregar-se sem ter, previamente, obtido a
carteira profissional emitido pelo respectivo sindicato. Paralelamente, e
na mesma altura, foram estruturadas em cada sindicato agéncias de
colocação de trabalhadores da respectiva profissão [42].
Estas medidas constituíam ferramentas poderosas na 'protecção' dos
trabalhadores brancos. Os sindicatos passaram a identificar os postos de
trabalho que deviam cair sob o seu controle, nas actividades existentes
e nas outras que se estabeleciam, colocando neles, apenas, os possuidores
da carteira profissional respectiva, muitas vezes, colonos recém-chegados
de Portugal.
Com estes meios de controle, a situação dos trabalhadores brancos
começou a melhorar significativamente. A legislação e os despachos a
partir de 1948 facultaram emprego a numerosos brancos, suprimindo a
concorrência de outros trabalhadores, particularmente nas cidades. Como
dizia laconicamente o relatório do Conselho Geral do SNECI em 1954,
acerca do 'trabalho de indígenas', "nos grandes centros o assunto está
sendo lenta mas seguramente resolvido" [43]. A colaboração entre
174
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
trabalho [branco] e capital, sob egide do Estado fascista, aprofundou-se
ainda mais com a promulgação do Diploma Legislativo 1:595 de 1956 e
as suas 18 Portarias complementares, que levaram uma nova sistematiza
ção dessa matéria, adaptando a legislação laboral metropolitana à
estrutura racial colonial [44].
Apesar de uma certa relutância de alguns proprietários, cujos
interesses não eram sempre bem servidos pelo emprego de mão-de-obra
branca com salários mais elevados do que os dos restantes trabalhadores,
o número de trabalhadores inscritos nos sindicatos aumentou de 12.719
em 1949 para 32.582 em 1961. Esta expansão reflecte não só o aumento
da população colona no período como também a agressividade dos sindi
catos em ampliar as suas actividades nos vários pontos do país [45].
Note-se que a prática desta forma de privilegiar os trabalhadores
brancos teve consequências profundas na economia e estrutura social. Os
privilégios e regalias dos trabalhadores brancos, que iam do vencimento
tabelado à garantia do lugar em caso de doença ou serviço militar e,
muitas vezes, à licença graciosa regular em Portugal (com passagens
pagas), suportavam um nível de vida consideravelmente superior àquele
vivido por trabalhadores de igual nível na Europa. Por exemplo, segundo
uma análise colonial, os trabalhadores brancos na indústria têxtil de
Chimoio ganhavam o quíntuplo dos de Portugal, para além de regalias
como habitação, licenças graciosas e passagens.
Desta forma, agrava-se a situação já verificada relativa às décadas de
20 e 30, nomeadamente, a necessidade da recuperação dos custos
económicos das regalias concedidas aos brancos, em detrimento do fundo
dos salários dos restantes trabalhadores não-brancos. Para o efeito,
manteve-se, e até, se intensificou, a preferência para o trabalho forçado
mal pago nos postos de trabalho braçal, cujo número aumentou, devido
a expansão das plantações, construções e infraestruturas.
Isto pode ser avaliado pelas diferenças de salários. Na indústria, a
maioria dos trabalhadores negros, em regime de contrato, recebia entre
4 e 5 escudos, por dia, e os poucos trabalhadores negros especializados
recebiam 20, 30 ou, excepcionalmente, 50 escudos. Havia, no entanto,
grande diversidade de indústria para indústria e por zonas geográficas.
Na indústria têxtil, por exemplo, a média de salários era de 7 escudos,
e na de cimento era de 13$50 por dia. Tendo em conta que o imposto era
elevado (passou a ser 330 escudos, no sul, em 1957), pode-se concluir
175
Capítulo 4
que os salários da maioria eram extremamente baixos.
Por outro lado, o trabalhador branco, mesmo na indústria de
cimentos, auferia salários iguais ou superiores a 200 escudos por dia, ou
seja, quatro vezes o mais alto salário pago ao negro, por vezes, com a
mesma tarefa e responsabilidade semelhante.
Segundo, uma estimativa americana, no início da década de 60, o
salário médio anual de um negro na indústria, em geral, era de 4.104
esc., isto é, dez vezes menos do que o salário médio de um branco, que
andava a volta de 47.540 esc. Isto significava que a elite branca,
constituindo apenas 10 por cento da força de trabalho na indústria
transformadora, recebia 50 por cento dos salários. Em indústrias
específicas, a diferença era maior, como, por exemplo, na de forneci
mento de energia eléctrica, onde os 10 por cento dos trabalhadores que
eram brancos, recebiam 64 por cento dos salários, ou na indústria
mineira, onde os 2 por cento dos trabalhadores, brancos, recebiam 19
por cento dos salários [46].
5.2 A educação, as missões e seu papel na estrutura social colonial
Neste período, a educação separada para negros e brancos e assimilados,
tormou-se mais claramente definida. Para enquadrar, principalmente, os
filhos da crescente população branca, expandíu-se o regime de educação
semelhante ao de Portugal, que era, predominantemente, oficial ou
supervisionado pelo estado. Esta expansão foi acompanhada por um
conjunto de legislação para garantir a organização interna dos estabeleci
mentos de ensino, manter o nível do ensino através do controle das
provas, exames de admissão aos liceus (2 em Lourenço Marques e 1 na
Beira em 1960), e assegurar auxilio económico aos alunos, incluindo
bolsase passagens aéreas. Por outras palavras, o nível de investimento
económico e administrativo, neste ensino, foi relativamente alto.
Para a maior parte da população africana existiam, apenas, as escolas
das missões católicas portuguesas e algumas, poucas, escolas do estado
e das missões protestantes.
A identificação do estado português com a Igreja Católica, aliada à
sua pobreza económica, impediu esta de tomar o papel progressivo em
Moçambique, nem mesmo ao nível da educação, que manifestou
nalgumas colónias vizinhas, como Rodésia do Sul, por exemplo. Os
agentes da Igreja, revelando-se mais portugueses que missionários,
176
A Ecomomia e a Estruura Social, 1945-1961
assumiram a sua missão de cristianizar as populações locais assimilando
as 1 cultura portuguesa, acima de tudo.
Durante este período, apenas um reduzido sector da Igreja protestou
contra os inúmeros excessos das acções do governo e dos interesses
económicos coloniais. O Bispo da Beira, D. Soares de Resende,
denunciou, vigorosamente, o trabalho forçado, as condições de trabalho
nas plantações, as culturas forçadas, as fugas para os territórios vizinhos,
etc. F¿-lo através do jornal Didrio de Moçambique, criado pela diocese
da Beira em 1950, e de várias cartas pastorais e livros, embora sem pôr
em causa publicamente os fundamentos da presença colonial portuguesa.
Receando a sua influência, e impulsionado pelos interesses dos capitalis
tas e da população colona, o governo colonial viu-se obrigado a retirar
ao Bispo da Beira a responsabilidade que tinha na direcção da única
escola secundária naquela cidade. Pelas mesmas razões, o Dirio de
Moçambique sofreu várias suspensões até 1961.
De facto, a posição "moderada', defendida pelo Bispo da Beira, que
visava a expansão do catolicismo, em moldes mais cristãos, e que incluiu
25. D. Soares de Rese
nde, Bispo dã Beira,
1943-1967, ganhou o
oprõbrio dos defensores
do racismo com as suas
críticas ao sistema
colonial.
Capítulo 4
propostas de melhoria do ensino secundário e de formação de padres
africanos, provocou críticas violentas dos defensores da supremacia
branca portuguesa, dentro e fora da Igreja [47].
Tirando a posição do Bispo da Beira, a actuação da Igreja católica
surgiu como resultado duma colaboração activa entre ela e o Governo
colonial. Como consequência, a Igreja Católica expandiu-se maciçamente
entre 1945 e 1961 em comparação com as missões protestantes.
Quadro 19: Aumento de missões religiosas, 1945-1961
1945 1961
Missões católicas 70 184
Filiais 379
Missionários 127 445
Irmãos/Irmãs 306 954
Assalariados 1.811 5.259
Missões protestantes 14 15
Filiais 35 53
Missionários 41 85
Auxiliares 321 474
Verifica-se que uma grande percentagem do pessoal que figurava na
expansão das missões católicas era de nacionalidade e formação portugue
sas, incluindo um número considerável dos assalariados, que trabalhavam
nas construções, manutenção e funcionamento económico da Igreja.
A expansão das missões protestantes foi limitada por razões financei
ras (o Estado praticamente não apoiou as suas escolas) e por vários
regulamentos, como, por exemplo, os que estipulavam que professores
moçambicanos, encarregados das escolas rudimentares, deviam frequentar
a Escola Normal de Habilitaçõo, em Manhiça, Maputo, que só matricu
lava católicos. A aplicação discriminatória de outros regulamentos, como
os relacionados com as construções, também atingiu estas missões [48].
Além disso, as Igrejas protestantes foram sujeitas a um crescente
controle pela administração colonial, que as encarava como agentes de
uma cultura estranha à portuguesa que se pretendia implantar e, por isso,
possíveis focos de pensamento anti-colonial e nacionalista.
178
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
26. A escola rudimentar da Missão católica de Murrupula, Nampula, 1960.
A repressão das Igrejas etiópicas, promovida a partir de 1941 tinha
sido apenas parcialmente efectiva. De facto, as mudanças sócio
económicas e a opressão cultural e racial, que favoreceram o seu
nascimento nas décadas anteriores, intensifiicaram-se, significativamente,
neste período. Por isso, apesar de serem, teoricamente, ilegais, ressurgi
ram e cresceram, após 1945, o que provocou uma atenção especial das
autoridades. Concluindo que uma eliminação total destas igrejas não era
praticável, a curto prazo, o regime tolerou as suas actividades, enquanto
fizesse investigações aprofundadas sobre a sua extensão, e sujeitou os
seus dirigentes a uma fiscalização apertada, particularmente nas suas
viagens ao campo [49].
Ensino primário rudimentar e 'comum'
Como vimos nos capítulos 2 e 3, o Governo colonial elaborou toda uma
legislação sobre o ensino dos indígenas, tratando de todos os aspectos
deste ensino e de forma muito pormenorizada. Foi uma legislação
necessária, na óptica do regime colonial, pois que permitia apenas um
179
Capítulo
tipo de ensino e cerceava as possibilidades a todos aqueles que não
aceitassem a submissão ideológica da Igreja Católica. Este era o
compromisso real entre o governo colonial e a Igreja.
Foi esta instituição que ministrava o ensino rudimentar (designado
'ensino de adaptação' após 1956), uma espécie de ensino "pré-primário',
através do qual todas as crianças negras tinham que passar. A posição
privilegiada da Igreja Católica significou que o número das suas escolas
rudimentares aumentasse, de 579 com 99.477 matriculados, em 1945,
para 2.925 com 379.000, em 1960.
Os resultados obtidos deste ensino continuaram a ser extremamente
baixos. A fraqueza do 'ensino rudimentar' ou 'de adaptação', devido ao
conjunto de factores referidos no capítulo 3, foi comprovada pelo baixo
número de alunos que terminavam, com aproveitamento, o período de
escolariedade dos 3 anos previstos nas missões católicás, representando
menos de 1 e 3 por cento dos matriculados, em 1945 e 1960, respectiva
mente (Quadro 20).
Quadro 20: Aproveitamento nas escolas rudimentares das missões
católicas e outras (missões protestantes e escolas oficiais) [50]
Alunos matriculados Alunos aprovados
Missões Outras Missões Outras
católicas católicas
1945 99.477 9.639 853 246
1950 232.923 6.484 1.844 325
1960 379.060 6.435 10.448 1.741
Conforme as estatísticas oficiais podemos concluir que, durante todo
o período, entre 1945 e 1960, em média, apenas um em cada 40 alunos
(1 em 30, em 1960) matriculados no ensino rudimentar passava no último
ano. Por esta razão, críticos da política educacional -da Igreja Católica
comentavam, no fim da década de 50 que, "afinal de contas, a Igreja
servia apenas para ensinar o catecismo e pouco mais" [51].
Para além da fraca qualidade do ensino ministrado, o que tornou o
ensino rudimentar uma barreira mais efectiva na educação do povo, foi
o seguinte regulamento administrativo: só os que completavam este nível
180
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
até aos 14 anos tinham possibilidades de prosseguir no nível seguinte, o
terceiro ano do ensino 'elementar', que era o ensino primário 'comum'.
,Neste grau de ensino, o número de escolas oficiais e particulares,
viradas, principalmente, para a população branca e assimilada, aumentou,
paralelamente, com as necessidades da população colona e da economia.
Segundo as estatísticas coloniais, o número das escolas católicas, viradas
principalmente para negros, também aumentou.
Quadro 21: Matrículas nas escolas primárias 'comuns', 1945 e 1960
Ensino/Ano 1945 1960
Oficial e particular 5.251 18.577
Missões católicas e protestantes 3.803 12.285
Apesar da designação 'comum', as estatísticas coloniais mostram,
também, 'o grau de exclusividade racial e as vantagens e desvantagens
relativas à frequência nos dois tipos de ensino (Quadro 21). No primeiro,
onde o ensino era controlado pelo Estado, o grau de aproveitamento geral
foi cerca de 60 por cento, em 1960. Alunos negros constituíram apenas
13 por cento do total das matrículas.Esta percentagem foi muito menor
do que em 1930: antes dessa data, quando as crianças négras se podiam
matricular nas escolas primárias 'comuns', sem passarem através das
escolas rudimentares, constituíram mais de 50 por cento dos alunos
matriculados. No segundo tipo de ensino, desprovido do apoio e controle
do Estado, e onde os alunos negros constituíram 76 por cento dos
matriculados, em 1960, o grau de aproveitamento foi menos de 29 por
cento.
Ensino secundário
As estatísticas coloniais mostram que as barreiras contra a educação dos
não-brancos eram ainda mais efectivas no ensino secundário (Quadro 22).
Verificou-se uma situação idêntica nos cursos regulares das escolas
comerciãis e industriais, que se expandiram em paralelo com as
necessidades da economia íolonial, neste período. Apenas nos cursos
nocturnos de aperfeiçoamento geral destas instituições, destinados a
assalariados, os não-brancos constituíram uma maioria dos matriculados,
em 1960.
Capítulo 4182
Quadro 22: Matrículas nos Liceus, 1945 e 1960
1945 1960
Total 704 2.550
Brancos 554 [78,6%] 2.077 [81,4%]
Não-brancos 150 [21,3%] 473 [18,5%]
Negros 1 [0.14%] 69 [2,7%]
Destas informações, destacam-se três conclusões principais:
- por volta de 1960, apenas 0,2 por cento.da população negra atingiu,
anualmente, um grau rudimentar de alfabetismo. Calculava-se que a
percentagem global de analfabetismo era cerca de 95 por cento;
- um número muito reduzido de crianças negras era autorizado a
receber uma educação primária igual a dos brancos, e a proporção de
crianças negras, em relação às crianças brancas, nas escolas
primárias e secundárias 'comuns', foi muito menor em 1960 do que
em 1930;
- as barreiras à educação do negro eram mais efectivas, na medida em
que avançavam nos vários níveis de ensino. Foi poC esta razão que
um número considerável de negros fugiu para os países vizinhos,
para ter acesso à educação secundária, como, por exemplo, Eduardo
MondIane, que conseguiu matricular-se numa escola da Missão Suiça,
no Transval.
5.3 As formas de enquadramento colonial
Destas informações podemos confirmar que a política de 'assimilação',
mesmo no sentido restrito, de levar a população, através da educação, a
participar numa cultura europeia e a gozar os direitos de cidadania do
'império' português, não deixou de ser uma mera justificação teórica para
a presença colonial, cuja estrutura de dominação racial, na prática,
impediu tal acesso. A discriminação racial, no sistema de educação, no
regime jurídico e de propriedade, na legislação e nas práticas laborais,
no código comercial e, fundamentalmente, no acesso aos direitos
políticos, mostra a hipocrisia da ideologia colonial de assimilação.
Em 1955, numa população total estimada em 5.650.000 habitantes,
havia 4.555 assimilados, uma minoria irisória de cerca de 0,08 por cento
A Economia e a Estrutura Social. 1945-1961
da população.
De facto, o estatuto dos 'indígenas portugueses', promulgado em
1954, dificultou ainda mais a situação desta pequena camada social,
introduzindo novos requisitos legais para comprovar, com efeitos
retroactivos, o seu estatuto. Esta medida fez com que muitos dos
considerados assimilados, sem que para tal fosse necessário possuir
quaisquer documentos, chegando alguns a ser inscritos nos recensea
mentos eleitorais e a usarem do direito do voto, passassem à condição de
'indígena' que nunca antes haviam tido.
Embora a medida não implicasse, necessariamente, a perda do
emprego do indivíduo, significou, muitas vezes, que as crianças de uma
pessoa até então considerada 'assimilada', tinham agora de submeter-se
à educação discriminatória indicada para a maioria dos negros [52].
No entanto, o regime colonial estava cada vez mais interessado em
outras formas de assimilação, as que asseguravam o enquadramento,
através de instituições económicas ou sociais coloniais, de alguns
trabalhadores negros em postos de confiança ou de carácter permanente.
Outras figuras, ou tradicionais, ou de um. certo prestígio sócio
económico, ou auxiliares do regime na repressão da maioria (capatazes
e sipaios), foram também alvo dessa política de assimilação.
O privilegiamento dos régulos e sipaios
Em continuação da política enunciada no período anterior (capítulo 3),
várias medidas foram tomadas pelo regime tolonial para consolidar o
oder dos seus principais auxiliares nas áreas rurais, os régulos.
Por exemplo, estabeleceu-se, em 1950, uma escola para os filhos dos
régulos, com o objectivo de oferecer-lhes uma formação privilegiada em
relação aos restantes alunos, e ensinar a maneira mais correcta de
relacionamento com a autoridade colonial, por um lado, e enfrentar a
população, por outro. A organização e fardamento de sipaios foi,
também, objecto de atenção e despesas especiais, neste período.
O pouco esforço que o regime dispendeu no fomento económico, nas
zonas rurais, foi aplicado de maneira a reforçar, onde era possível, a
posição privilegiada dos régulos. Em -algumas áreas, foram eles que
beneficiaram da distribuição de gado para pecuária e tracção, que
constituíam um acréscimo considerável no seu poder económico e social,
servindo, simultaneamente, para melhorar as suas relações com os
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Capitulo 4184
27. Banja em Maniamba, década de 1950, parte integrante da administração, as
banjas serviam para as autoridades coloniais enaltecerem o papel dos régulos.
administradores, e incrementar a distância existente entre eles e o povo.
A distribuição de árvores de fruto (cajú) e outras plantas foi feita,
normalmente, através dos régulos, reforçando, também, o seu poder
económico.
Esta estratégia foi particularmente importante em áreas onde os
régulos tinham sido demasiado desprestigiados. Por exemplo, após o
desastre ecológico de 1950-1951 em Mogovolas, Nampula [ponto 2.4],
o prójecto administrativo para a recuperação económica do distrito foi
acompanhado por uma prolongada campanha de aliciamento dos régulos,
através da introdução de gado bovino e outras regalias económicas.
De uma forma geral, o regime colonial promoveu, neste período, boas
relações políticas com os grandes régulos do país, particularmente com
os que já tinham mostrado a sua capacidade de acomodar-se ao domínio
colonial, tornando-os agentes da disciplina política, social e, em especial,
laboral, do colonialismo.
Por outro lado, nalgumas dinastias locais, foram escolhidos como
chefes indivíduos capazes de ser bons intermediários com as autoridades
coloniais. Foi o caso de Abdul Camal, chefe da dinastia Megama do
A Economia e a Estrutura Social, 1945-1961
28. Chefe Mataka, numa banja, Niassa, década de 1950; nem sempre os régulos
eram fieis ao regime: na década a seguir, Mataka aliou-se à FRELIMO.
Chiúre, Cabo Delgado, a partir da década de 1940. Os seus predeces
sores tinham-lhe deixado um regulado bastante povoado, tendo aproveita
do de boas relações comerciais com os primeiros invasores portugueses
na região e, particularmente, com Porto Amélia, estabelecendo um novo
centro de poder, no litoral, em detrimento dos antigos grandes chefes
Ekoni, da zona ocidental. Abdul Carnal conseguiu prestigiar-se, na
década de 30, através do fornecimento de trabalhadores para obras
particulares e para o porto, e de mulheres para a vila de Porto Amélia
(Pemba). Tornou-se imã islâmico e conhecia a língua portuguesa.
Ap6s a sua instalação em 1940, chegou a ser um dos mais conhecidos
chefes Ekoni do sul de Cabo Delgado, reforçando os laços coloniais da
dinastia. Aquando do estabelecimento das culturas forçadas e da
reestruturação dos poderes dos régulos pelo regime colonial (capítulo 3),
Abdul Carnal foi apresentado, nas banjas organizadas pelo administrador
do Chiúre, como um chefe modelo e aliado dos brancos.
Entre 1945 e 1960, o poder colonial não perdia ocasião para elogiar
o Megama, que chegou a ser (à semelhança de outros régulos) um
conhecido pessoal do Governador-Geral, Gabriel