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Rua e bairro Apresentação Você vai acompanhar, nesta Unidade de Aprendizagem, a definição e a problematização de dois elementos urbanos fundamentais para a construção da sociabilidade, da socialização e da própria cidade. Serão abordados temas como: as dinâmicas da rua e do bairro; a condição de classe social que se desenvolve neles; e a rua enquanto palco de ações e práticas sociais, políticas e econômicas, ou seja, o esteio da vida cultural de uma sociedade. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar o que são e qual é a dinâmica do par rua-bairro.• Relembrar que o processo de socialização e as relações sociais se materializam nesse par espacial. • Reconhecer que a rua é um espaço de contradições e tensões, seja com relação ao mundo do trabalho ou com as disputas políticas em movimentos sociais. • Desafio A paisagem urbana revela profundas contradições sociais. Em suas ruas e bairros, há todo tipo de desigualdades, tanto culturais quanto socioeconômicas, o que fica explicitado em sua arquitetura e urbanismo: na largura das ruas, nos materiais construtivos, na dimensão de suas construções, na presença de mais ou menos infraestruturas, etc. A partir dessa informação e do seu repertório de estudo, construa um painel fotográfico com 10 fotografias que ilustrem as diferenças socioeconômicas de ruas da sua cidade. Faça um relatório a respeito do resultado obtido, acompanhado das fotografias. O seu texto deve tratar das desigualdades que uma cidade apresenta a partir da observação de suas ruas e bairros. Infográfico De uma forma bastante didática, o Infográfico, a seguir, apresenta a ideia da cidade composta por bairros, que, por sua vez, são compostos por ruas. E, no caso de bairro e rua, seguem as definições capitais. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/2ca3552a-da2d-42bd-9b08-b0ac9c4f5a94/1f04ee9c-a597-4308-966c-5e37fae3f2e0.jpg Conteúdo do livro Neste capítulo, você vai se deparar com um par de espaços (o bairro e a rua); ambos são localidades extremamente complexas e dinâmicas, cuja compreensão é fundamental para o entendimento de uma determinada sociedade. Nessas porções espaciais, residem e transitam os indivíduos que constituem a coletividade social, e, portanto, desenvolvem processos e práticas sociais que dão vida a uma cidade. Aprofunde seus conhecimentos lendo o capítulo Rua e bairro, do livro Estudo da Sociedade, base teórica para esta Unidade de Aprendizagem. Boa leitura. ESTUDO DA SOCIEDADE Marli de Fátima Silva Rua e bairro Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Identificar o que são e a dinâmica do par rua-bairro. � Relembrar que o processo de socialização e as relações sociais se materializam nesse par espacial. � Reconhecer que a rua é um espaço de contradições e tensões, seja com relação ao mundo do trabalho ou com as disputas políticas em movimentos sociais. Introdução Percorra uma rua e observe-a. Você verá que nela há uma grande diver- sidade de objetos fixos (edificações, calçamentos e móveis), elementos naturais (árvores e outras formas de vegetação) e o ser humano (que age como apropriador do espaço). Neste capítulo, vamos percorrer o espaço estruturante da rua e a totalidade territorializante do bairro onde ela se encontra, o qual abriga uma diversidade de ações e práticas sociais, além de uma variedade de realidades sociais, materiais e culturais. Rua e bairro: esteios da vida social Rua e bairro são dois pares fundamentais na constituição de uma cidade, que não apenas abriga um extenso contingente humano e seu complexo tecido social, mas também corresponde a uma das maiores intervenções humanas sobre o meio natural. Nos bairros e em suas diversas ruas, está disposto todo o universo social, mental, político e econômico de uma sociedade, ou seja, toda a sua cultura organizativa. Uma rua é um caminho ou uma via pública posicionado entre edificações — casas térreas, sobrados e edifícios, por exemplo — que permite a circulação de transeuntes em seu curso. Nessas vias, circulam pessoas, acompanhadas ou não, e veículos dos mais variados tipos, conforme o nível de desenvolvimento socioeconômico da sociedade em que se está inserido. Em uma rua, distinguem-se duas unidades fundamentais: a rua em si, que constitui a via de circulação de veículos, desde uma carroça até um caminhão, passando por motocicletas, bicicletas e automóveis, entre outros possíveis meios de locomoção; e a calçada — também chamada de passeio —, na qual caminham os indivíduos. Em um passado remoto, as vias de circulação que cumpriam o mesmo papel das ruas contemporâneas eram de terra batida; no entanto, a partir do renascimento urbano, que promoveu a intensificação do fluxo de transeuntes, as ruas passaram a ser pavimentadas de sólidos rochosos de dimensões e formações geológicas variadas. No mundo contemporâneo, ainda que haja ruas não pavimentadas, em geral elas são asfaltadas. Rua e cultura Mundo afora, há ruas pacatas, ruas agitadas e ruas delirantes, como ocorre também com as vias — ruas ou avenidas (praças, inclusive) — de cidades globais, nas quais a diversidade cultural ganha contornos de universalidade. Entre tantas ruas de fama mundial, na Inglaterra chama a atenção a Abbey Road — local declarado de “importância histórica e cultural” pelo governo britânico. Essa rua, porém, não move uma plêiade de quesitos capazes de lhe conferir a fama que possui; o que efetivamente lhe dá esse caráter é o fato de um trecho dela ter servido de cenografia ao famoso e homônimo álbum do fabuloso quarteto, The Beatles. No entanto, na mesma Londres — capital britânica — há a Portobello Road, que constitui o portal de entrada do agitadíssimo bairro de Notting Hill e seu eixo comercial e turístico de maior importância. Embora seja uma rua comercial durante toda a semana (com comércio de frutas e legumes, por exemplo), é aos sábados de manhã que ocorre a Portobello Market, uma tradicionalíssima feira que atrai tanto moradores das mais variadas zonas lon- drinas, quanto turistas, que buscam objetos antigos e/ou de arte, livros, discos, roupas e acessórios, entre tantos outros. Embora o local tenha sido celebrado por um filme — a comédia romântica nomeada Um lugar chamado Notting Hill — que angariou excelente bilheteria, não foi a produção cinematográfica que conferiu visibilidade ao bairro e a suas ruas agitadas, mas, sim, o tecido social peculiar da localidade. Rua e bairro2 Segundo o famoso e influente site Architecture and Design, dos Estados Unidos, entre as dez ruas mais famosas do planeta estão a charmosa Champs Élysées, uma das mais importantes avenidas da capital francesa, Paris. De longa tradição histórica (começou a ser construída em meados do século XVII), abriga ícones culturais e turísticos, como o Arco do Triunfo, além de restaurantes, cinemas e teatros. A Via Dolorosa, na tensa cidade sagrada de Jerusalém, é um lugar de peregrinação para cristãos de todo o mundo, pois, segundo crenças e tradi- ções cristãs, foi por essa via que Jesus carregou a cruz. Já a Las Vegas Strip, na cidade homônima, nos Estados Unidos, uma das ruas mais fotografadas e conhecidas do planeta, reúne grande número de cassinos e, em razão do turismo lastreado na prática dos jogos de azar, conta com alguns dos hotéis mais famosos do planeta, além de abrigar, também, a Torre Stratosphere, o edifício mais alto da cidade, com 350 metros de altura. A famosíssima Wall Street abriga o edifício da Bolsa de Valores de Nova Iorque e constitui o mais importante distrito financeiro estadunidense e mundial. A rua tornou-se extensivo palco de produções literárias, cênicas e cinematográficas, além de importante polo turístico mundial. Enquanto o capital fervilhanessa via e anima sua existência, La Rambla, em Barcelona, destaca-se em razão da arte e da cultura, uma vez que, além de bares e restau- rantes, nela estão dispostos um edifício projetado por Gaudi (o Palau Guel), o Museu de Cera de Barcelona e o Mercado de la Boqueria; a rua é repleta, ainda, de diversos artistas de rua. No Brasil, em uma música dos primórdios do rock, o cantor Eduardo Araújo bradava “entrei na rua Augusta a 120 por hora [...]”, enquanto a Velha Guarda da música brasileira cantava em seus versos as belezas do Rio de Janeiro, como o fez, também, a Bossa Nova de João Gilberto e Tom Jobim; já as músicas caipiras saudavam cidades interioranas em seus singelos versos e melodias. O cruzamento Ipiranga-avenida São João, por sua vez, tornou-se famoso nas letras de Sampa, de Caetano Veloso. Além disso, Manuel Bandeira imortalizou famosas ruas de sua Recife da infância, salvando seus nomes — o poeta diz, a certa altura: “Rua da União... / Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância / Rua do Sol (Tenho medo que hoje se chame de Dr. Fulano de Tal)”. Ruas e bairros são também temas recorrentíssimos da literatura: Alcântara Machado dedicou um volume de contos aos bairros “Braz, Bexiga e Barra Funda”, obra do Romantismo brasileiro, e o romance A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, transcorre na ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro. 3Rua e bairro A música e a literatura contemporâneas, entre outras manifestações ar- tísticas, são visceralmente urbanas — chame a atenção para a sua vertente periférica e combativa, caso de Capão Pecado, de Ferréz, e Cidade de Deus, de Paulo Lins. Desse modo, percebe-se que o Brasil possui uma imensidão de ruas, entre as quais há aquelas de fama nacional e que, eventualmente, se projetam em âmbito internacional, como a fervilhante avenida Paulista, na Pauliceia Desvairada, conforme expressão do escritor modernista Mário de Andrade. Acesse o link a seguir para ler a reportagem sobre “a rua mais bonita do mundo”. https://goo.gl/FTMwP Todavia, apesar da enorme fama conquistada por essas e outras ruas no Brasil e pelo mundo afora, refletindo sobre um poema de Fernando Pessoa, é possível perceber que a rua mais importante para cada indivíduo é, certamente, a rua na qual cada um habita, afinal, é nela que estão situadas as tensões e as contradições individuais em seu cotidiano pessoalíssimo e intransferível. E é nessas ruas que se movem as paixões, os erros e os acertos coletivos em seus cotidianos. A voz das ruas: a política e a rua/a política na rua É nas ruas que ocorrem paradas de grupos reivindicativos; é por ruas e ave- nidas que seguem procissões, desfiles, passeatas e cortejos — inclusive dos mortos de uma sociedade. Há uma expressão no mundo da política, a qual se refere à “voz das ruas”, para falar dos anseios populares diante da ação institucional de políticos. Rua e bairro4 Giddens (2013, p. 356), sociólogo britânico, afirma que: A vida política não acontece apenas dentro do esquema ortodoxo dos par- tidos políticos, da votação e da representação em organismos legislativos e governamentais. O que geralmente ocorre é que alguns grupos percebem que esse esquema impossibilita a concretização de seus objetivos ou ideais, ou mesmo os bloqueia efetivamente. [...] Às vezes, a mudança política e social só pode ser realizada recorrendo-se a formas não ortodoxas de ação política. Dessa maneira, rua é, também, o espaço de luta de classes, de negação de ordens estabelecidas e de reivindicações por novos ordenamentos no seio da sociedade, por parte das chamadas minorias, como no caso do movimento feminista (note-se que, no Brasil, a maioria da população é do sexo feminino, mas, em uma sociedade de DNA “hiperpatriarcal”, a mulher é considerada parte de minorias sociológicas). A rua e o trabalho Em temática recorrente em sua produção antropológica, DaMatta (2001) apresenta a seguinte questão central na formação da identidade brasileira: “Qual é a relação entre a casa, a rua e o trabalho?”. Ele diz tratar-se de uma relação que se complementa em um ciclo cotidiano, mas que, sobretudo, constitui espaços capazes de expressar os modos de se explicar e de se falar do mundo, destacando que não são apenas espaços físicos, mas também porções espaciais de onde é possível julgar, classificar, medir, avaliar e decidir sobre ações, pessoas, moralidades. A partir de tais considerações, o antropólogo destaca uma série de oposições entre os espaços, chamando a atenção para a clara divisão entre os dois que dividem a vida social brasileira (no caso de sua abordagem, sendo possível, porém, estender tais raciocínios para tantas outras partes do planeta). São apontados como mundos de contrastes e diferenças: � Casa: espaço da moral (espaço das pessoas) ■ É um mundo à parte: tudo que está na nossa casa é bom, é belo e é, sobretudo, decente. ■ Espaço da calma e da tranquilidade. ■ O movimento é cíclico. 5Rua e bairro ■ Membros de um grupo fechado com fronteiras e limites bem definidos. ■ Possuem uma personalidade coletiva bem definida: são uma pessoa moral. ■ O grupo que ocupa uma casa tem um alto sentido de defesa de seus bens móveis e imóveis. ■ Não se trata de um mundo físico, mas de um mundo moral: somos únicos e insubstituíveis. ■ Sentidos de “honra”, “respeito”, “vergonha”, os quais se estendem para os agregados. � Rua: espaço de liberdade (espaço dos indivíduos) ■ É um mundo negativo. ■ Espaço do movimento, da agitação. ■ O tempo é o do relógio. O tempo voa, corre, passa. ■ Mundo exterior que se mede pela “luta”, pela competição e pelo anonimato cruel de individualidades e individualismos. ■ Lugar de luta, de batalha, espaço cuja crueldade se dá no fato de contrariar frontalmente todas as nossas vontades: a rua é a “dura realidade da vida” que eleva. ■ Na rua, há o anonimato, não há amor, nem consideração, nem res- peito, nem amizade. ■ Local onde ninguém nos respeita como “gente”, como “pessoa”. O bairro: das relações sociais à socialização Por uma questão logístico-administrativa, à medida que as cidades do mundo contemporâneo cresciam, iam sendo subdivididas em bairros, afinal o espaço urbano serviu extensamente aos processos de ordenamento socioespaciais do capitalismo. Em todas as cidades do mundo, há uma diversidade de bairros com di- ferenças flagrantes ou sutis, seja de constituição econômica ou étnica, entre outras. Nos países periféricos (ditos subdesenvolvidos), há abismos sociais que marcam a existência dos bairros, com o surgimento, inclusive, de uma extensa área com construções alternativas que permeiam o tecido urbano. Rua e bairro6 Nesses países, o bairro é certamente um dos termômetros das diferencia- ções socioeconômicas, pois grandes extensões territoriais ficam à mercê da especulação imobiliária, que constitui um fenômeno mundial, explodindo, entretanto, com mais intensidade em países como o Brasil, que, devido a sua constituição histórico-cultural, desenvolveu forte senso de rentismo, em detrimento do trabalho produtivo. Um bairro constitui uma fração territorial de uma cidade, organizada em quarteirões, que, por sua vez, são dotados de infraestruturas, como ruas, avenidas e praças, ao longo das quais estão dispostas edificações que abrigam seres humanos e, naturalmente, suas atividades, incluindo o mercado, ainda que existam bairros exclusivamente residenciais, conforme as regras formais de determinada cidade. Em países de intensa estratificação social, caso do Brasil, os bairros são tão diversos quanto o volume de classes sociais, produzidas por uma perversa distribuição de renda, na qual uma minoria detém a maior parte da riqueza, e uma gigantesca maioria sobrevive com uma fatia ínfima da riqueza produzida. Portanto, a condição arquitetônica e urbanística de cada bairro está associada à condição econômica de seus habitantes, havendo desde bairros suntuosos a bairros de classe média, passando por localidades baseadasem moradias de cunho social de qualidade discutível, dada a precariedade da habitação e do próprio planejamento público. Os bairros podem, ainda, ser classificados conforme o uso que se cristalizou diante de suas dinâmicas históricas e/ou da formalidade imposta pelo poder público em razão de seus instrumentos oficiais, como planos diretores e leis de zoneamento urbano. Desse modo, há bairros exclusivamente residenciais com um pequeno comércio em localidades estratégicas, com vistas a facilitar a vida dos moradores; e os comerciais, nos quais prevalece um grande número de lojas de diversificados artigos, as quais garantem intensa movimentação de pessoas e capital (quanto maior a cidade, mais esse fenômeno urbano é visível); há, ainda, bairros industriais, que ficam mais afastados dos centros das cidades e apresentam variadas unidades fabris. Naturalmente, devido às vicissitudes da dinâmica histórica e social dos bairros, há também aqueles que são mistos — note-se que, nesses casos, há uma tendência a setorizações espaciais. 7Rua e bairro A desigualdade na distribuição de riqueza e de status (uma forma de prestígio social, econômico ou de poder político) define uma sociedade estratificada. O status social de uma pessoa pode, portanto, ter base em fatores distintos, que se estendem desde o gênero e a configuração física até a riqueza possuída. O cruzamento entre diversifi- cados fatores define a posição social das pessoas. Normalmente, se consideram três tipos principais de estratificação social: econômica, apoiada na renda ou na posse de bens materiais, o que produz pessoas ricas, pobres e em situação intermediária; política, baseada na situação de mando na sociedade (grupos que têm e grupos que não têm poder de comando) e profissional, baseada nos diferentes graus de importância atribuídos a cada profissional pelo grupo social — a sociedade brasileira, por exemplo (embora não seja a única), valoriza mais o trabalho intelectual do que os trabalhos manuais. Em suma, estratificação social é a divisão da sociedade em estratos ou camadas sociais. Note-se, enfim, que a situação de classe e a tentativa de conquista de status passam pela rua e pelo bairro, seja naquelas em que os indivíduos residem, seja naquelas pelas quais circulam. Rua/bairro: das relações sociais primárias às secundárias Sociedade é o conjunto organizado por pessoas que ocupam um determinado território e estão unidas de maneira estável por meio dos traços culturais comuns, a começar pela língua, o que torna possível a comunicação e, por- tanto, a interação social entre seus membros. Além disso, corresponde a um contingente numeroso de indivíduos que interagem dia a dia com outras pessoas da mesma coletividade, formando, assim, uma rede de relacionamentos com regras aceitas com certa consensualidade ou, ainda, tacitamente, conforme as tensões sociais e políticas que conduzem tais regras. Além disso, tal agrupamento humano desenvolve atividades produtivas e culturais, as quais são responsáveis por sua manutenção simbólica e também material, o que, por sua vez, redunda na formação de classes sociais, tornando ainda mais complexa a existência de uma determinada sociedade. Diante disso, podemos afirmar que a ideia de sociedade é um conceito car- regado de subjetividade e singularidades, justamente por se tratar de extensos contingentes humanos que, na maior parte das vezes, possuem relações de pertença à coletividade por meio de cargas simbólicas ou sistemas de coerção, e não pela convivência individual no dia a dia. Rua e bairro8 No bairro e na rua, as relações sociais são mais estreitas, apesar de, na cidade contemporânea, ao contrário da cidade de algumas décadas atrás — destacadamente as de portes menores —, o sentido de comunidade lastreado pela rua ou pelo bairro ter se diluído. Todavia, é na relação rua-bairro-cidade que os processos de socialização se cristalizam com mais evidências, e as extensas e dinâmicas relações sociais se materializam. Para a sociologia, socialização corresponde ao processo por meio do qual uma pessoa se torna membro funcional de uma sociedade ou, mais especifi- camente, de sua comunidade, ao assimilar sua cultura. Portanto, é contínuo e se realiza por intermédio da comunicação, fato que ocorre, em princípio, por meio da “imitação”, iniciando-se no núcleo familiar e estendendo-se aos agentes próximos, como a escola, e, por meio de mecanismos bastante subjetivos, também aos grupos de referência, como bandas musicais, atores, atletas e, até mesmo, super-heróis prediletos. Nesse contexto, essa ciência social identifica a existência de grupos sociais: a) primários, que são pequenos e possuem relações íntimas, mantendo-se, por isso, por muito tempo, como a família, mas podendo estender-se ao grupo de lazer e, eventualmente, à vizinhança; b) secundários, que são grandes e mantêm relações formais e institucionais, tendo existência longa ou curta; e, ainda, c) intermediários, como o grupo da escola, no qual se pode alternar característica dos outros dois tipos de grupo. Enfim, a despeito de todas as transformações das relações sociais no interior de uma sociedade em tempos de globalização e de redes sociais, na relação rua-bairro-cidade ocorre a largada de todo o universo relacional de uma determinada sociedade, portanto rua e bairro constituem a esteira das relações sociais globais em uma determinada sociedade humana. O papel das praças na sociedade As ruas cortam e integram bairros. São vias de circulação de pessoas, de mercadorias e de ideias. Umas são pequenas, outras de grande extensão; algumas granjeiam fama local, regional, nacional e até mundial. Todavia, os bairros possuem praças, que, margeadas por ruas — eventualmente uma rua termina em uma praça —, constituem um objeto urbano muito expressivo e, por vezes, organizativo do tecido urbano. Para o antropólogo Nelson Saldanha, em contraposição ao jardim, a praça movimenta uma carga metafórica capaz de expressar a oposição público/ privado — espaços da individualidade e da coletividade. Como nos diz Sal- 9Rua e bairro danha (1993) esse intelectual, “[...] para a cultura urbanística, o jardim pode concentrar toda uma carga de significados referenciais da esfera privada, enquanto a praça, da esfera pública [...]”. Saldanha (1993) nos ensina ainda que a praça, caracterizada em todas as civilizações como espaço “público”, não tira seu significado do mero fato de resultar da convergência de vias “públicas”, pois pode ser anterior às ruas, ao menos logicamente (ou estruturalmente). A rua, por sua vez, possui a mesma essência da praça, posto que todo o traçado urbano que na praça se concentra é algo público. A consagração histórica do fenômeno urbano significa, no fundo, a consagração ou consolidação da vida pública. O jardim também terá relação com o fenômeno urbano, mas em outro plano. Por ser fechado, o jardim é lírico, enquanto a praça, sendo aberta, é épica. O jardim é côncavo, a praça, convexa. O jardim encerra a biografia, a praça, a história; um é introvertido, a outra, extrovertida. Dois momentos, duas dimensões do humano e de sua projeção nas (ou sobre as) coisas. No jardim, o espaço se desenha em razão das plantas, enquanto na praça o espaço é o principal: de acordo com o espaço, colocam-se árvores e monumentos. Nota-se, desse modo, que a praça realiza um balanço entre o fluxo da rua e o andamento cotidiano da casa, constituindo, ao mesmo tempo, área de lazer e de interações sociais, além de espaço de circulação de ideias e de capital. Acesse o link a seguir e conheça o artigo A escala bairro e o conceito de lugar urbano: o caso de apipucos e poço da panela no Recife, de Sandra Augusta Leão Barros. https://goo.gl/Nbxep1 DAMATTA, R. O que faz o Brasil Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 2001. GIDDENS, A. Sociologia. 6. ed. Porto Alegre: Penso, 2013. Rua e bairro10 SALDANHA, N. O jardim e a praça. São Paulo: Edusp, 1993. Leituras recomendadasARAÚJO, E. Rua Augusta. [19--?]. Disponível em: <https://www.letras.mus.br/eduardo- araujo/1305039/>. Acesso em: 02 ago. 2018. ARCHITECTURE AND DESIGN. [2018]. Disponível em: <https://www.architecturendesign. net/>. Acesso em: 02 ago. 2018. BANDEIRA, M. Evocação a Recife. [19--?]. Disponível em: <http://www.jornaldepoesia. jor.br/manuelbandeira03.html>. Acesso em: 02 ago. 2018. BARROS, A. A. L. A escala bairro e o conceito de lugar urbano: o caso de apipucos e poço da panela no Recife. Pós-: Revista do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo FAU-USP, São Paulo, n. 15, p. 56-74, 2004. Disponível em: <http://www. revistas.usp.br/posfau/article/view/43372/46994>. Acesso em: 02 ago. 2018. CAMPOS FILHO, C. M. Reinvente seu bairro: caminhos para você participar do planeja- mento de sua cidade. São Paulo: Editora 34, 2003. DIAS, R. Introdução à sociologia. São Paulo: Pearson, 2004. FERRARA, L. D. Olhar periférico. São Paulo: Edusp, 1999. FÉRREZ. Capão pecado. [S.l.]: Planeta, 2013. LINS, P. Cidade de Deus. [S.l.]: Planeta, 2012. LOPES, T. 'Rua mais bonita do mundo' vira ponto turístico em Porto Alegre. 2012. Disponível em: <http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2012/01/rua-mais-bonita-do- mundo-vira-ponto-turistico-em-porto-alegre.html>. Acesso em: 02 ago. 2018. MACEDO, J. M. A Moreninha. [S.l.]: Todolivro, 2012. MACHADO, A. A. Bras, bexiga e barra funda. [S.l.]: Companhia Editora Nacional, 2005. MARICATO, E. et al. Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: Boitempo, 2013. VELOSO, C. Sampa. [1992]. Disponível em: <https://www.letras.mus.br/caetano-ve- loso/41670/>. Acesso em: 02 ago. 2018. 11Rua e bairro Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. Conteúdo: Dica do professor Farei com você a leitura do poema A uma passante, de Charles Baudelaire, que apresenta os primeiros sintomas da modernidade. O poeta soube transformar em poesia todo o aspecto sensorial desta nova rua, cheia de pessoas e carros; ele apresentou suas cores, seus ruídos, e, pela primeira vez, identificou o sentimento do eu lírico perdido na multidão (fenômeno novo na história da humanidade, decorrente das transformações provocadas pela Revolução Industrial), uma sensação de solidão acompanhada. Baudelaire nos apresenta a figura do flaneur, pessoa que circula em meio à multidão e nos mais diversos lugares da cidade sem se envolver com eles. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/8b813052893ad68577ed1802c9268221 Exercícios 1) Observe atentamente as imagens a seguir: Marque a alternativa que apresenta corretamente as diferenças entre as duas imagens. A) As situações apresentadas nas duas fotos demonstram realidades distintas, uma de bairro de classe econômica alta e a outra, baixa; sendo que os moradores do bairro de baixa renda são produtos do excesso de comodismo, situação que não tem nenhuma relação com as contradições da vida nacional. B) A estratificação social é uma realidade em todas as sociedades do mundo e pode ser perfeitamente notada por meio das diferenças entre os dois espaços urbanos acima, cujas diferenças se justificam pelo fato de a população de baixa renda não se dedicar ao trabalho. C) As principais causas da pobreza verificada em uma das fotos são a insuficiência psicológica e o excesso de miscigenação verificados entre as populações pobres. D) Há uma flagrante diferença entre as duas paisagens urbanas das fotos, produto de uma dinâmica histórica excludente, com séculos de escravidão, e a manutenção de uma má distribuição de renda. E) O perfil biológico da população de uma determinada cidade é causa fundamental para se justificar as diferenças de organização dos espaços urbanos, como os retratados acima. 2) Leia atentamente o trecho a seguir, retirado de uma entrevista do antropólogo Roberto DaMatta, para a Revista Trip, em 08/09/2010, sobre o trânsito brasileiro e o seu livro Fé em Deus e pé na tábua, no qual ele diz: " (...) nosso comportamento terrível no trânsito é resultado da incapacidade de sermos uma sociedade igualitária; (...) Nosso trânsito reproduz valores de uma sociedade que se quer republicana e moderna, mas ainda está atrelada a um passado aristocrático, em que alguns podiam mais do que muitos, como ocorre até hoje. (...) No Brasil, você se sente superior ao pedestre porque tem um carro. (...) No Brasil, obedecer à lei é visto como uma babaquice, um sintoma de inferioridade. Isso é herança de uma sociedade aristocrática e patrimonialista, em que não houve investimento sério no transporte coletivo e ainda impera o “você sabe com quem está falando?”. A respeito desse trecho, marque a alternatica correta. A) Roberto DaMatta critica a postura do brasileiro no trânsito por sua falta de respeito e educação. O autor chama atenção para a importância da rua ser, de fato, um espaço da coletividade, no qual todos sejam iguais e, portanto, tenham os mesmos direitos. B) A entrevista elogia o trânsito brasileiro, no qual todas as pessoas, tanto as de menor como as de maior poder aquisitivo, só se locomovem com transporte coletivo. C) Da Matta, em sua fala, elogia a gentileza e atenção do brasileiro no trânsito e sua preocupação com o meio ambiente ao preferir o transporte coletivo. D) O antropólogo chama atenção para a gentileza do brasileiro no trânsito, o que pode ser visto como eco da sociedade aristocrática brasileira. E) A entrevista chama atenção para o fato de que, no Brasil, as leis de trânsito são totalmente respeitadas. O antropólogo deixa claro que, no Brasil, respeitar leis é sinal de superioridade. 3) Para Nelson Saldanha, qual a relação entre jardim e praça? A) Para Saldanha, o jardim é um espaço de extroversão no qual as pessoas se protegem do olhar do outro. B) Para Saldanha, a praça é um espaço de introversão no qual as pessoas revelam suas intimidades. C) Para Saldanha, o jardim pode ser a metáfora de público, e a praça, do privado. D) Para Saldanha, o jardim pode ser visto como metáfora do privado, enquanto a praça pode ser apresentada como metáfora do público. E) Para Saldanha, é no jardim que circulam as ideias e o capital. 4) Os bairros podem ser classificados de que forma? A) Não é necessária uma classificação, pois toda cidade tem um número pequeno de bairros. B) Os bairros podem ser classificados apenas de acordo com sua constituição econômica ou étnica. C) Os bairros podem classificados pela suntuosidade das edificações ou pelas moradias populares, mas, em ambos os casos, o material utilizado nas construções é o mesmo, assim como a infraestrutura oferecida nos bairros é a mesma. D) Os bairros podem ser classificados conforme o uso (residencial, comercial, industrial ou misto) que se cristalizou diante de suas dinâmicas históricas e/ou da formalidade imposta pelo poder público em função de seus instrumentos oficiais. E) De acordo com o Plano Diretor, estabelecido pela maioria dos municípios brasileiros, os bairros podem apenas ser residenciais. Observe a paisagem, a seguir, e identifique a alternativa que a descreve com assertividade.5) A) A imagem capta uma paisagem tipicamente metropolitana, com visível concentração de casas de lazer noturno. B) A fotografia é um flagrante de um bairro residencial, evidenciado pelo número significativo de residências familiares. C) Trata-se de uma paisagem suburbana, o que é evidenciado pelo comércio intenso, que é típico dos bairros mais distantes do centro. D) Trata-se de uma paisagem industrial, o que fica patente nas diversas chaminés de fábricas. E) Corresponde à paisagem de um bairro comercial, provavelmente de uma grande cidade, o que fica evidente na intensa circulação de pessoas carregando sacolas com suas compras.Na prática Um grande problema das ruas das grandes capitais mundiais, destacadamente das grandes cidades dos países periféricos, é o crescimento, cada vez maior, do número de pessoas que estão fazendo das ruas abrigo. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/ed305271-8a51-4a90-9986-40ae65f71496/6edafd65-5713-4263-8833-c194eec6f308.jpg Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: O comportamento do brasileiro no trânsito No vídeo a seguir, o antropólogo Roberto DaMatta fala sobre o brasileiro no trânsito. De uma forma muito elucidativa, DaMatta apresenta um retrato da nossa sociedade a partir do comportamento de nossos motoristas. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. A Ilha O vídeo a seguir é da animação A Ilha (2008), que ganhou vários prêmios, entre eles o de Melhor Curta, no Brazilian Film Festival of Vancouver, 2009. Esse curta-metragem apresenta uma crítica ao rodoviarismo e à falta de educação no trânsito, dialogando com a entrevista de DaMatta, sugerida anteriormente. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. 10 Edifícios que Contam a História do Bairro de Higienópolis No link a seguir, você poderá seguir a história do bairro de Higienópolis, em São Paulo, ao acompanhar as características arquitetônicas de 10 de seus edifícios. https://www.youtube.com/embed/nGDKQzfw4lc http://portacurtas.org.br/filme/?name=a_ilha8942 Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Projeto "Os invisíveis" Veja, no link a seguir, um pouco mais sobre esse projeto. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://passeiosbaratosemsp.com.br/10-edificios-que-contam-historia-bairro-de-higienopolis/ https://catracalivre.com.br/entretenimento/projeto-fotografico-retrata-invisiveis-do-do-centro-velho-de-sao-paulo/