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Rua e bairro
Apresentação
Você vai acompanhar, nesta Unidade de Aprendizagem, a definição e a problematização de dois 
elementos urbanos fundamentais para a construção da sociabilidade, da socialização e da própria 
cidade.
Serão abordados temas como: as dinâmicas da rua e do bairro; a condição de classe social que se 
desenvolve neles; e a rua enquanto palco de ações e práticas sociais, políticas e econômicas, ou 
seja, o esteio da vida cultural de uma sociedade.
Bons estudos.
Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Identificar o que são e qual é a dinâmica do par rua-bairro.•
Relembrar que o processo de socialização e as relações sociais se materializam nesse par 
espacial.
•
Reconhecer que a rua é um espaço de contradições e tensões, seja com relação ao mundo do 
trabalho ou com as disputas políticas em movimentos sociais.
•
Desafio
A paisagem urbana revela profundas contradições sociais. Em suas ruas e bairros, há todo tipo de 
desigualdades, tanto culturais quanto socioeconômicas, o que fica explicitado em sua arquitetura e 
urbanismo: na largura das ruas, nos materiais construtivos, na dimensão de suas construções, na 
presença de mais ou menos infraestruturas, etc.
A partir dessa informação e do seu repertório de estudo, construa um painel fotográfico com 10 
fotografias que ilustrem as diferenças socioeconômicas de ruas da sua cidade.
Faça um relatório a respeito do resultado obtido, acompanhado das fotografias. O seu texto deve 
tratar das desigualdades que uma cidade apresenta a partir da observação de suas ruas e bairros.
Infográfico
De uma forma bastante didática, o Infográfico, a seguir, apresenta a ideia da cidade composta por 
bairros, que, por sua vez, são compostos por ruas. E, no caso de bairro e rua, seguem as definições 
capitais. 
Aponte a câmera para o 
código e acesse o link do 
conteúdo ou clique no 
código para acessar.
https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/2ca3552a-da2d-42bd-9b08-b0ac9c4f5a94/1f04ee9c-a597-4308-966c-5e37fae3f2e0.jpg
Conteúdo do livro
Neste capítulo, você vai se deparar com um par de espaços (o bairro e a rua); ambos são localidades 
extremamente complexas e dinâmicas, cuja compreensão é fundamental para o entendimento de 
uma determinada sociedade. Nessas porções espaciais, residem e transitam os indivíduos que 
constituem a coletividade social, e, portanto, desenvolvem processos e práticas sociais que dão 
vida a uma cidade. 
Aprofunde seus conhecimentos lendo o capítulo Rua e bairro, do livro Estudo da Sociedade, base 
teórica para esta Unidade de Aprendizagem.
Boa leitura.
ESTUDO DA 
SOCIEDADE
Marli de 
Fátima Silva
 
Rua e bairro 
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
 � Identificar o que são e a dinâmica do par rua-bairro.
 � Relembrar que o processo de socialização e as relações sociais se 
materializam nesse par espacial.
 � Reconhecer que a rua é um espaço de contradições e tensões, seja 
com relação ao mundo do trabalho ou com as disputas políticas em 
movimentos sociais.
Introdução
Percorra uma rua e observe-a. Você verá que nela há uma grande diver-
sidade de objetos fixos (edificações, calçamentos e móveis), elementos 
naturais (árvores e outras formas de vegetação) e o ser humano (que age 
como apropriador do espaço).
Neste capítulo, vamos percorrer o espaço estruturante da rua e a 
totalidade territorializante do bairro onde ela se encontra, o qual abriga 
uma diversidade de ações e práticas sociais, além de uma variedade de 
realidades sociais, materiais e culturais.
Rua e bairro: esteios da vida social 
Rua e bairro são dois pares fundamentais na constituição de uma cidade, que 
não apenas abriga um extenso contingente humano e seu complexo tecido 
social, mas também corresponde a uma das maiores intervenções humanas 
sobre o meio natural. Nos bairros e em suas diversas ruas, está disposto todo 
o universo social, mental, político e econômico de uma sociedade, ou seja, 
toda a sua cultura organizativa.
Uma rua é um caminho ou uma via pública posicionado entre edificações 
— casas térreas, sobrados e edifícios, por exemplo — que permite a circulação 
de transeuntes em seu curso. Nessas vias, circulam pessoas, acompanhadas ou 
não, e veículos dos mais variados tipos, conforme o nível de desenvolvimento 
socioeconômico da sociedade em que se está inserido.
Em uma rua, distinguem-se duas unidades fundamentais: a rua em si, que 
constitui a via de circulação de veículos, desde uma carroça até um caminhão, 
passando por motocicletas, bicicletas e automóveis, entre outros possíveis 
meios de locomoção; e a calçada — também chamada de passeio —, na qual 
caminham os indivíduos.
Em um passado remoto, as vias de circulação que cumpriam o mesmo 
papel das ruas contemporâneas eram de terra batida; no entanto, a partir do 
renascimento urbano, que promoveu a intensificação do fluxo de transeuntes, 
as ruas passaram a ser pavimentadas de sólidos rochosos de dimensões e 
formações geológicas variadas. No mundo contemporâneo, ainda que haja 
ruas não pavimentadas, em geral elas são asfaltadas.
Rua e cultura
Mundo afora, há ruas pacatas, ruas agitadas e ruas delirantes, como ocorre 
também com as vias — ruas ou avenidas (praças, inclusive) — de cidades 
globais, nas quais a diversidade cultural ganha contornos de universalidade.
Entre tantas ruas de fama mundial, na Inglaterra chama a atenção a Abbey 
Road — local declarado de “importância histórica e cultural” pelo governo 
britânico. Essa rua, porém, não move uma plêiade de quesitos capazes de lhe 
conferir a fama que possui; o que efetivamente lhe dá esse caráter é o fato de 
um trecho dela ter servido de cenografia ao famoso e homônimo álbum do 
fabuloso quarteto, The Beatles.
No entanto, na mesma Londres — capital britânica — há a Portobello 
Road, que constitui o portal de entrada do agitadíssimo bairro de Notting 
Hill e seu eixo comercial e turístico de maior importância. Embora seja uma 
rua comercial durante toda a semana (com comércio de frutas e legumes, 
por exemplo), é aos sábados de manhã que ocorre a Portobello Market, uma 
tradicionalíssima feira que atrai tanto moradores das mais variadas zonas lon-
drinas, quanto turistas, que buscam objetos antigos e/ou de arte, livros, discos, 
roupas e acessórios, entre tantos outros. Embora o local tenha sido celebrado 
por um filme — a comédia romântica nomeada Um lugar chamado Notting 
Hill — que angariou excelente bilheteria, não foi a produção cinematográfica 
que conferiu visibilidade ao bairro e a suas ruas agitadas, mas, sim, o tecido 
social peculiar da localidade.
Rua e bairro2
Segundo o famoso e influente site Architecture and Design, dos Estados 
Unidos, entre as dez ruas mais famosas do planeta estão a charmosa Champs 
Élysées, uma das mais importantes avenidas da capital francesa, Paris. De 
longa tradição histórica (começou a ser construída em meados do século 
XVII), abriga ícones culturais e turísticos, como o Arco do Triunfo, além de 
restaurantes, cinemas e teatros.
A Via Dolorosa, na tensa cidade sagrada de Jerusalém, é um lugar de 
peregrinação para cristãos de todo o mundo, pois, segundo crenças e tradi-
ções cristãs, foi por essa via que Jesus carregou a cruz. Já a Las Vegas Strip, 
na cidade homônima, nos Estados Unidos, uma das ruas mais fotografadas 
e conhecidas do planeta, reúne grande número de cassinos e, em razão do 
turismo lastreado na prática dos jogos de azar, conta com alguns dos hotéis 
mais famosos do planeta, além de abrigar, também, a Torre Stratosphere, o 
edifício mais alto da cidade, com 350 metros de altura.
A famosíssima Wall Street abriga o edifício da Bolsa de Valores de Nova 
Iorque e constitui o mais importante distrito financeiro estadunidense e 
mundial. A rua tornou-se extensivo palco de produções literárias, cênicas 
e cinematográficas, além de importante polo turístico mundial. Enquanto o 
capital fervilhanessa via e anima sua existência, La Rambla, em Barcelona, 
destaca-se em razão da arte e da cultura, uma vez que, além de bares e restau-
rantes, nela estão dispostos um edifício projetado por Gaudi (o Palau Guel), 
o Museu de Cera de Barcelona e o Mercado de la Boqueria; a rua é repleta, 
ainda, de diversos artistas de rua.
No Brasil, em uma música dos primórdios do rock, o cantor Eduardo Araújo 
bradava “entrei na rua Augusta a 120 por hora [...]”, enquanto a Velha Guarda 
da música brasileira cantava em seus versos as belezas do Rio de Janeiro, como 
o fez, também, a Bossa Nova de João Gilberto e Tom Jobim; já as músicas 
caipiras saudavam cidades interioranas em seus singelos versos e melodias. 
O cruzamento Ipiranga-avenida São João, por sua vez, tornou-se famoso nas 
letras de Sampa, de Caetano Veloso. Além disso, Manuel Bandeira imortalizou 
famosas ruas de sua Recife da infância, salvando seus nomes — o poeta diz, 
a certa altura: “Rua da União... / Como eram lindos os nomes das ruas da 
minha infância / Rua do Sol (Tenho medo que hoje se chame de Dr. Fulano 
de Tal)”. Ruas e bairros são também temas recorrentíssimos da literatura: 
Alcântara Machado dedicou um volume de contos aos bairros “Braz, Bexiga 
e Barra Funda”, obra do Romantismo brasileiro, e o romance A Moreninha, de 
Joaquim Manuel de Macedo, transcorre na ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro.
3Rua e bairro
A música e a literatura contemporâneas, entre outras manifestações ar-
tísticas, são visceralmente urbanas — chame a atenção para a sua vertente 
periférica e combativa, caso de Capão Pecado, de Ferréz, e Cidade de Deus, 
de Paulo Lins. Desse modo, percebe-se que o Brasil possui uma imensidão 
de ruas, entre as quais há aquelas de fama nacional e que, eventualmente, se 
projetam em âmbito internacional, como a fervilhante avenida Paulista, na 
Pauliceia Desvairada, conforme expressão do escritor modernista Mário de 
Andrade.
Acesse o link a seguir para ler a reportagem sobre “a rua 
mais bonita do mundo”.
https://goo.gl/FTMwP
Todavia, apesar da enorme fama conquistada por essas e outras ruas no 
Brasil e pelo mundo afora, refletindo sobre um poema de Fernando Pessoa, é 
possível perceber que a rua mais importante para cada indivíduo é, certamente, 
a rua na qual cada um habita, afinal, é nela que estão situadas as tensões e 
as contradições individuais em seu cotidiano pessoalíssimo e intransferível. 
E é nessas ruas que se movem as paixões, os erros e os acertos coletivos em 
seus cotidianos.
A voz das ruas: a política e 
a rua/a política na rua
É nas ruas que ocorrem paradas de grupos reivindicativos; é por ruas e ave-
nidas que seguem procissões, desfiles, passeatas e cortejos — inclusive dos 
mortos de uma sociedade. Há uma expressão no mundo da política, a qual 
se refere à “voz das ruas”, para falar dos anseios populares diante da ação 
institucional de políticos.
Rua e bairro4
Giddens (2013, p. 356), sociólogo britânico, afirma que:
A vida política não acontece apenas dentro do esquema ortodoxo dos par-
tidos políticos, da votação e da representação em organismos legislativos e 
governamentais. O que geralmente ocorre é que alguns grupos percebem que 
esse esquema impossibilita a concretização de seus objetivos ou ideais, ou 
mesmo os bloqueia efetivamente. [...] Às vezes, a mudança política e social 
só pode ser realizada recorrendo-se a formas não ortodoxas de ação política.
Dessa maneira, rua é, também, o espaço de luta de classes, de negação de 
ordens estabelecidas e de reivindicações por novos ordenamentos no seio da 
sociedade, por parte das chamadas minorias, como no caso do movimento 
feminista (note-se que, no Brasil, a maioria da população é do sexo feminino, 
mas, em uma sociedade de DNA “hiperpatriarcal”, a mulher é considerada 
parte de minorias sociológicas).
A rua e o trabalho
Em temática recorrente em sua produção antropológica, DaMatta (2001) 
apresenta a seguinte questão central na formação da identidade brasileira: 
“Qual é a relação entre a casa, a rua e o trabalho?”. Ele diz tratar-se de uma 
relação que se complementa em um ciclo cotidiano, mas que, sobretudo, 
constitui espaços capazes de expressar os modos de se explicar e de se falar do 
mundo, destacando que não são apenas espaços físicos, mas também porções 
espaciais de onde é possível julgar, classificar, medir, avaliar e decidir sobre 
ações, pessoas, moralidades.
A partir de tais considerações, o antropólogo destaca uma série de oposições 
entre os espaços, chamando a atenção para a clara divisão entre os dois que 
dividem a vida social brasileira (no caso de sua abordagem, sendo possível, 
porém, estender tais raciocínios para tantas outras partes do planeta). São 
apontados como mundos de contrastes e diferenças: 
 � Casa: espaço da moral (espaço das pessoas)
 ■ É um mundo à parte: tudo que está na nossa casa é bom, é belo e é, 
sobretudo, decente.
 ■ Espaço da calma e da tranquilidade.
 ■ O movimento é cíclico.
5Rua e bairro
 ■ Membros de um grupo fechado com fronteiras e limites bem 
definidos.
 ■ Possuem uma personalidade coletiva bem definida: são uma pessoa 
moral.
 ■ O grupo que ocupa uma casa tem um alto sentido de defesa de seus 
bens móveis e imóveis.
 ■ Não se trata de um mundo físico, mas de um mundo moral: somos 
únicos e insubstituíveis.
 ■ Sentidos de “honra”, “respeito”, “vergonha”, os quais se estendem 
para os agregados.
 � Rua: espaço de liberdade (espaço dos indivíduos)
 ■ É um mundo negativo.
 ■ Espaço do movimento, da agitação.
 ■ O tempo é o do relógio. O tempo voa, corre, passa.
 ■ Mundo exterior que se mede pela “luta”, pela competição e pelo 
anonimato cruel de individualidades e individualismos.
 ■ Lugar de luta, de batalha, espaço cuja crueldade se dá no fato de 
contrariar frontalmente todas as nossas vontades: a rua é a “dura 
realidade da vida” que eleva.
 ■ Na rua, há o anonimato, não há amor, nem consideração, nem res-
peito, nem amizade.
 ■ Local onde ninguém nos respeita como “gente”, como “pessoa”.
O bairro: das relações sociais à socialização 
Por uma questão logístico-administrativa, à medida que as cidades do mundo 
contemporâneo cresciam, iam sendo subdivididas em bairros, afinal o espaço 
urbano serviu extensamente aos processos de ordenamento socioespaciais do 
capitalismo.
Em todas as cidades do mundo, há uma diversidade de bairros com di-
ferenças flagrantes ou sutis, seja de constituição econômica ou étnica, entre 
outras. Nos países periféricos (ditos subdesenvolvidos), há abismos sociais 
que marcam a existência dos bairros, com o surgimento, inclusive, de uma 
extensa área com construções alternativas que permeiam o tecido urbano.
Rua e bairro6
Nesses países, o bairro é certamente um dos termômetros das diferencia-
ções socioeconômicas, pois grandes extensões territoriais ficam à mercê da 
especulação imobiliária, que constitui um fenômeno mundial, explodindo, 
entretanto, com mais intensidade em países como o Brasil, que, devido a 
sua constituição histórico-cultural, desenvolveu forte senso de rentismo, em 
detrimento do trabalho produtivo.
Um bairro constitui uma fração territorial de uma cidade, organizada 
em quarteirões, que, por sua vez, são dotados de infraestruturas, como ruas, 
avenidas e praças, ao longo das quais estão dispostas edificações que abrigam 
seres humanos e, naturalmente, suas atividades, incluindo o mercado, ainda 
que existam bairros exclusivamente residenciais, conforme as regras formais 
de determinada cidade.
Em países de intensa estratificação social, caso do Brasil, os bairros são 
tão diversos quanto o volume de classes sociais, produzidas por uma perversa 
distribuição de renda, na qual uma minoria detém a maior parte da riqueza, e 
uma gigantesca maioria sobrevive com uma fatia ínfima da riqueza produzida. 
Portanto, a condição arquitetônica e urbanística de cada bairro está associada 
à condição econômica de seus habitantes, havendo desde bairros suntuosos a 
bairros de classe média, passando por localidades baseadasem moradias de 
cunho social de qualidade discutível, dada a precariedade da habitação e do 
próprio planejamento público.
Os bairros podem, ainda, ser classificados conforme o uso que se cristalizou 
diante de suas dinâmicas históricas e/ou da formalidade imposta pelo poder 
público em razão de seus instrumentos oficiais, como planos diretores e leis 
de zoneamento urbano. Desse modo, há bairros exclusivamente residenciais 
com um pequeno comércio em localidades estratégicas, com vistas a facilitar 
a vida dos moradores; e os comerciais, nos quais prevalece um grande número 
de lojas de diversificados artigos, as quais garantem intensa movimentação 
de pessoas e capital (quanto maior a cidade, mais esse fenômeno urbano é 
visível); há, ainda, bairros industriais, que ficam mais afastados dos centros 
das cidades e apresentam variadas unidades fabris. Naturalmente, devido às 
vicissitudes da dinâmica histórica e social dos bairros, há também aqueles 
que são mistos — note-se que, nesses casos, há uma tendência a setorizações 
espaciais.
7Rua e bairro
A desigualdade na distribuição de riqueza e de status (uma forma de prestígio social, 
econômico ou de poder político) define uma sociedade estratificada. O status social 
de uma pessoa pode, portanto, ter base em fatores distintos, que se estendem desde 
o gênero e a configuração física até a riqueza possuída. O cruzamento entre diversifi-
cados fatores define a posição social das pessoas. Normalmente, se consideram três 
tipos principais de estratificação social: econômica, apoiada na renda ou na posse 
de bens materiais, o que produz pessoas ricas, pobres e em situação intermediária; 
política, baseada na situação de mando na sociedade (grupos que têm e grupos 
que não têm poder de comando) e profissional, baseada nos diferentes graus de 
importância atribuídos a cada profissional pelo grupo social — a sociedade brasileira, 
por exemplo (embora não seja a única), valoriza mais o trabalho intelectual do que 
os trabalhos manuais. 
Em suma, estratificação social é a divisão da sociedade em estratos ou camadas 
sociais. Note-se, enfim, que a situação de classe e a tentativa de conquista de status 
passam pela rua e pelo bairro, seja naquelas em que os indivíduos residem, seja 
naquelas pelas quais circulam.
Rua/bairro: das relações sociais primárias 
às secundárias
Sociedade é o conjunto organizado por pessoas que ocupam um determinado 
território e estão unidas de maneira estável por meio dos traços culturais 
comuns, a começar pela língua, o que torna possível a comunicação e, por-
tanto, a interação social entre seus membros. Além disso, corresponde a um 
contingente numeroso de indivíduos que interagem dia a dia com outras pessoas 
da mesma coletividade, formando, assim, uma rede de relacionamentos com 
regras aceitas com certa consensualidade ou, ainda, tacitamente, conforme 
as tensões sociais e políticas que conduzem tais regras.
Além disso, tal agrupamento humano desenvolve atividades produtivas e 
culturais, as quais são responsáveis por sua manutenção simbólica e também 
material, o que, por sua vez, redunda na formação de classes sociais, tornando 
ainda mais complexa a existência de uma determinada sociedade.
Diante disso, podemos afirmar que a ideia de sociedade é um conceito car-
regado de subjetividade e singularidades, justamente por se tratar de extensos 
contingentes humanos que, na maior parte das vezes, possuem relações de 
pertença à coletividade por meio de cargas simbólicas ou sistemas de coerção, 
e não pela convivência individual no dia a dia.
Rua e bairro8
No bairro e na rua, as relações sociais são mais estreitas, apesar de, na 
cidade contemporânea, ao contrário da cidade de algumas décadas atrás — 
destacadamente as de portes menores —, o sentido de comunidade lastreado 
pela rua ou pelo bairro ter se diluído. Todavia, é na relação rua-bairro-cidade 
que os processos de socialização se cristalizam com mais evidências, e as 
extensas e dinâmicas relações sociais se materializam.
Para a sociologia, socialização corresponde ao processo por meio do qual 
uma pessoa se torna membro funcional de uma sociedade ou, mais especifi-
camente, de sua comunidade, ao assimilar sua cultura. Portanto, é contínuo 
e se realiza por intermédio da comunicação, fato que ocorre, em princípio, 
por meio da “imitação”, iniciando-se no núcleo familiar e estendendo-se 
aos agentes próximos, como a escola, e, por meio de mecanismos bastante 
subjetivos, também aos grupos de referência, como bandas musicais, atores, 
atletas e, até mesmo, super-heróis prediletos.
Nesse contexto, essa ciência social identifica a existência de grupos sociais: 
a) primários, que são pequenos e possuem relações íntimas, mantendo-se, por 
isso, por muito tempo, como a família, mas podendo estender-se ao grupo 
de lazer e, eventualmente, à vizinhança; b) secundários, que são grandes e 
mantêm relações formais e institucionais, tendo existência longa ou curta; e, 
ainda, c) intermediários, como o grupo da escola, no qual se pode alternar 
característica dos outros dois tipos de grupo.
Enfim, a despeito de todas as transformações das relações sociais no 
interior de uma sociedade em tempos de globalização e de redes sociais, na 
relação rua-bairro-cidade ocorre a largada de todo o universo relacional de 
uma determinada sociedade, portanto rua e bairro constituem a esteira das 
relações sociais globais em uma determinada sociedade humana.
O papel das praças na sociedade
As ruas cortam e integram bairros. São vias de circulação de pessoas, de 
mercadorias e de ideias. Umas são pequenas, outras de grande extensão; 
algumas granjeiam fama local, regional, nacional e até mundial. Todavia, os 
bairros possuem praças, que, margeadas por ruas — eventualmente uma rua 
termina em uma praça —, constituem um objeto urbano muito expressivo e, 
por vezes, organizativo do tecido urbano.
Para o antropólogo Nelson Saldanha, em contraposição ao jardim, a praça 
movimenta uma carga metafórica capaz de expressar a oposição público/
privado — espaços da individualidade e da coletividade. Como nos diz Sal-
9Rua e bairro
danha (1993) esse intelectual, “[...] para a cultura urbanística, o jardim pode 
concentrar toda uma carga de significados referenciais da esfera privada, 
enquanto a praça, da esfera pública [...]”.
Saldanha (1993) nos ensina ainda que a praça, caracterizada em todas as 
civilizações como espaço “público”, não tira seu significado do mero fato de 
resultar da convergência de vias “públicas”, pois pode ser anterior às ruas, ao 
menos logicamente (ou estruturalmente). A rua, por sua vez, possui a mesma 
essência da praça, posto que todo o traçado urbano que na praça se concentra 
é algo público. A consagração histórica do fenômeno urbano significa, no 
fundo, a consagração ou consolidação da vida pública. 
O jardim também terá relação com o fenômeno urbano, mas em outro 
plano. Por ser fechado, o jardim é lírico, enquanto a praça, sendo aberta, é 
épica. O jardim é côncavo, a praça, convexa. O jardim encerra a biografia, 
a praça, a história; um é introvertido, a outra, extrovertida. Dois momentos, 
duas dimensões do humano e de sua projeção nas (ou sobre as) coisas. No 
jardim, o espaço se desenha em razão das plantas, enquanto na praça o espaço 
é o principal: de acordo com o espaço, colocam-se árvores e monumentos.
Nota-se, desse modo, que a praça realiza um balanço entre o fluxo da rua e 
o andamento cotidiano da casa, constituindo, ao mesmo tempo, área de lazer 
e de interações sociais, além de espaço de circulação de ideias e de capital.
Acesse o link a seguir e conheça o artigo A escala bairro 
e o conceito de lugar urbano: o caso de apipucos e poço da 
panela no Recife, de Sandra Augusta Leão Barros.
https://goo.gl/Nbxep1
DAMATTA, R. O que faz o Brasil Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
GIDDENS, A. Sociologia. 6. ed. Porto Alegre: Penso, 2013.
Rua e bairro10
SALDANHA, N. O jardim e a praça. São Paulo: Edusp, 1993.
Leituras recomendadasARAÚJO, E. Rua Augusta. [19--?]. Disponível em: <https://www.letras.mus.br/eduardo- 
araujo/1305039/>. Acesso em: 02 ago. 2018.
ARCHITECTURE AND DESIGN. [2018]. Disponível em: <https://www.architecturendesign.
net/>. Acesso em: 02 ago. 2018.
BANDEIRA, M. Evocação a Recife. [19--?]. Disponível em: <http://www.jornaldepoesia.
jor.br/manuelbandeira03.html>. Acesso em: 02 ago. 2018.
BARROS, A. A. L. A escala bairro e o conceito de lugar urbano: o caso de apipucos e 
poço da panela no Recife. Pós-: Revista do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura 
e Urbanismo FAU-USP, São Paulo, n. 15, p. 56-74, 2004. Disponível em: <http://www.
revistas.usp.br/posfau/article/view/43372/46994>. Acesso em: 02 ago. 2018.
CAMPOS FILHO, C. M. Reinvente seu bairro: caminhos para você participar do planeja-
mento de sua cidade. São Paulo: Editora 34, 2003.
DIAS, R. Introdução à sociologia. São Paulo: Pearson, 2004.
FERRARA, L. D. Olhar periférico. São Paulo: Edusp, 1999.
FÉRREZ. Capão pecado. [S.l.]: Planeta, 2013.
LINS, P. Cidade de Deus. [S.l.]: Planeta, 2012.
LOPES, T. 'Rua mais bonita do mundo' vira ponto turístico em Porto Alegre. 2012. Disponível 
em: <http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2012/01/rua-mais-bonita-do- 
mundo-vira-ponto-turistico-em-porto-alegre.html>. Acesso em: 02 ago. 2018.
MACEDO, J. M. A Moreninha. [S.l.]: Todolivro, 2012.
MACHADO, A. A. Bras, bexiga e barra funda. [S.l.]: Companhia Editora Nacional, 2005.
MARICATO, E. et al. Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as 
ruas do Brasil. São Paulo: Boitempo, 2013.
VELOSO, C. Sampa. [1992]. Disponível em: <https://www.letras.mus.br/caetano-ve-
loso/41670/>. Acesso em: 02 ago. 2018.
11Rua e bairro
Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para 
esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual 
da Instituição, você encontra a obra na íntegra.
Conteúdo:
Dica do professor
Farei com você a leitura do poema A uma passante, de Charles Baudelaire, que apresenta os 
primeiros sintomas da modernidade.
O poeta soube transformar em poesia todo o aspecto sensorial desta nova rua, cheia de pessoas e 
carros; ele apresentou suas cores, seus ruídos, e, pela primeira vez, identificou o sentimento do eu 
lírico perdido na multidão (fenômeno novo na história da humanidade, decorrente das 
transformações provocadas pela Revolução Industrial), uma sensação de solidão acompanhada. 
Baudelaire nos apresenta a figura do flaneur, pessoa que circula em meio à multidão e nos mais 
diversos lugares da cidade sem se envolver com eles.
Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar.
https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/8b813052893ad68577ed1802c9268221
Exercícios
1) Observe atentamente as imagens a seguir:
Marque a alternativa que apresenta corretamente as diferenças entre as duas imagens.
A) As situações apresentadas nas duas fotos demonstram realidades distintas, uma de bairro de 
classe econômica alta e a outra, baixa; sendo que os moradores do bairro de baixa renda são 
produtos do excesso de comodismo, situação que não tem nenhuma relação com as 
contradições da vida nacional.
B) A estratificação social é uma realidade em todas as sociedades do mundo e pode ser 
perfeitamente notada por meio das diferenças entre os dois espaços urbanos acima, cujas 
diferenças se justificam pelo fato de a população de baixa renda não se dedicar ao trabalho.
C) As principais causas da pobreza verificada em uma das fotos são a insuficiência psicológica e 
o excesso de miscigenação verificados entre as populações pobres.
D) Há uma flagrante diferença entre as duas paisagens urbanas das fotos, produto de uma 
dinâmica histórica excludente, com séculos de escravidão, e a manutenção de uma má 
distribuição de renda.
E) O perfil biológico da população de uma determinada cidade é causa fundamental para se 
justificar as diferenças de organização dos espaços urbanos, como os retratados acima.
2) Leia atentamente o trecho a seguir, retirado de uma entrevista do antropólogo Roberto 
DaMatta, para a Revista Trip, em 08/09/2010, sobre o trânsito brasileiro e o seu livro Fé em 
Deus e pé na tábua, no qual ele diz:
" (...) nosso comportamento terrível no trânsito é resultado da incapacidade de sermos uma 
sociedade igualitária; (...) Nosso trânsito reproduz valores de uma sociedade que se quer 
republicana e moderna, mas ainda está atrelada a um passado aristocrático, em que alguns 
podiam mais do que muitos, como ocorre até hoje. (...) No Brasil, você se sente superior ao 
pedestre porque tem um carro. (...) No Brasil, obedecer à lei é visto como uma babaquice, um 
sintoma de inferioridade. Isso é herança de uma sociedade aristocrática e patrimonialista, em 
que não houve investimento sério no transporte coletivo e ainda impera o “você sabe com 
quem está falando?”.
A respeito desse trecho, marque a alternatica correta.
A) Roberto DaMatta critica a postura do brasileiro no trânsito por sua falta de respeito e 
educação. O autor chama atenção para a importância da rua ser, de fato, um espaço da 
coletividade, no qual todos sejam iguais e, portanto, tenham os mesmos direitos.
B) A entrevista elogia o trânsito brasileiro, no qual todas as pessoas, tanto as de menor como as 
de maior poder aquisitivo, só se locomovem com transporte coletivo.
C) Da Matta, em sua fala, elogia a gentileza e atenção do brasileiro no trânsito e sua 
preocupação com o meio ambiente ao preferir o transporte coletivo.
D) O antropólogo chama atenção para a gentileza do brasileiro no trânsito, o que pode ser visto 
como eco da sociedade aristocrática brasileira.
E) A entrevista chama atenção para o fato de que, no Brasil, as leis de trânsito são totalmente 
respeitadas. O antropólogo deixa claro que, no Brasil, respeitar leis é sinal de superioridade.
3) Para Nelson Saldanha, qual a relação entre jardim e praça?
A) Para Saldanha, o jardim é um espaço de extroversão no qual as pessoas se protegem do olhar 
do outro.
B) Para Saldanha, a praça é um espaço de introversão no qual as pessoas revelam suas 
intimidades.
C) Para Saldanha, o jardim pode ser a metáfora de público, e a praça, do privado.
D) Para Saldanha, o jardim pode ser visto como metáfora do privado, enquanto a praça pode ser 
apresentada como metáfora do público.
E) Para Saldanha, é no jardim que circulam as ideias e o capital.
4) Os bairros podem ser classificados de que forma?
A) Não é necessária uma classificação, pois toda cidade tem um número pequeno de bairros.
B) Os bairros podem ser classificados apenas de acordo com sua constituição econômica ou 
étnica. 
C) Os bairros podem classificados pela suntuosidade das edificações ou pelas moradias 
populares, mas, em ambos os casos, o material utilizado nas construções é o mesmo, assim 
como a infraestrutura oferecida nos bairros é a mesma.
D) Os bairros podem ser classificados conforme o uso (residencial, comercial, industrial ou misto) 
que se cristalizou diante de suas dinâmicas históricas e/ou da formalidade imposta pelo poder 
público em função de seus instrumentos oficiais.
E) De acordo com o Plano Diretor, estabelecido pela maioria dos municípios brasileiros, os 
bairros podem apenas ser residenciais.
Observe a paisagem, a seguir, e identifique a alternativa que a descreve com assertividade.5) 
A) A imagem capta uma paisagem tipicamente metropolitana, com visível concentração de casas 
de lazer noturno.
B) A fotografia é um flagrante de um bairro residencial, evidenciado pelo número significativo de 
residências familiares.
C) Trata-se de uma paisagem suburbana, o que é evidenciado pelo comércio intenso, que é 
típico dos bairros mais distantes do centro.
D) Trata-se de uma paisagem industrial, o que fica patente nas diversas chaminés de fábricas.
E) Corresponde à paisagem de um bairro comercial, provavelmente de uma grande cidade, o que 
fica evidente na intensa circulação de pessoas carregando sacolas com suas compras.Na prática
Um grande problema das ruas das grandes capitais mundiais, destacadamente das grandes cidades 
dos países periféricos, é o crescimento, cada vez maior, do número de pessoas que estão 
fazendo das ruas abrigo.
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Saiba +
Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor:
O comportamento do brasileiro no trânsito
No vídeo a seguir, o antropólogo Roberto DaMatta fala sobre o brasileiro no trânsito. De uma 
forma muito elucidativa, DaMatta apresenta um retrato da nossa sociedade a partir do 
comportamento de nossos motoristas.
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A Ilha
O vídeo a seguir é da animação A Ilha (2008), que ganhou vários prêmios, entre eles o de Melhor 
Curta, no Brazilian Film Festival of Vancouver, 2009. Esse curta-metragem apresenta uma crítica ao 
rodoviarismo e à falta de educação no trânsito, dialogando com a entrevista de DaMatta, sugerida 
anteriormente.
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10 Edifícios que Contam a História do Bairro de Higienópolis
No link a seguir, você poderá seguir a história do bairro de Higienópolis, em São Paulo, ao 
acompanhar as características arquitetônicas de 10 de seus edifícios.
https://www.youtube.com/embed/nGDKQzfw4lc
http://portacurtas.org.br/filme/?name=a_ilha8942 
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Projeto "Os invisíveis"
Veja, no link a seguir, um pouco mais sobre esse projeto.
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https://passeiosbaratosemsp.com.br/10-edificios-que-contam-historia-bairro-de-higienopolis/
https://catracalivre.com.br/entretenimento/projeto-fotografico-retrata-invisiveis-do-do-centro-velho-de-sao-paulo/

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