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Conteudista: Prof.ª Dra. Célia Regina da Silva Rocha
Revisão Textual: Esp. Laís Otero Fugaitti 
Objetivo da Unidade:
Compreender o percurso das pessoas com deficiência ao longo da História.
📄 Material Teórico
📄 Material Complementar
📄 Referências
A Questão da Diferença/Deficiência: Aspectos
Históricos
Introdução
A partir de agora, você terá a oportunidade de conhecer toda a trajetória histórica e social que as
pessoas com deficiência enfrentaram ao longo da História, passando por extermínio e
segregação, até hoje em dia terem a vivência e experiência com o paradigma da inclusão.
O termo “transtornos do neurodesenvolvimento” é uma denominação mais adequada para os
distúrbios do desenvolvimento. Os transtornos do neurodesenvolvimento são de origem
genética, incluem as mutações gênicas, alterações congênitas, pais com desordens afetivas,
esquizofrenia, desordens antissociais, hiperatividade, déficit de atenção e isolamento; as
biológicas, como prematuridade, desnutrição, baixo peso e lesões cerebrais; e as ambientais e
socioculturais, adquiridas nos primeiros anos de vida (HAASE, 2009; MATOS, 2015; ROSELLI et
al, 2010).
Os transtornos do neurodesenvolvimento são um conjunto de condições com início precoce e
que se caracterizam por prejuízos e déficits no desenvolvimento cerebral do indivíduo,
interferindo na aquisição e retenção de habilidades, comprometendo o funcionamento pessoal,
social, acadêmico ou profissional (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION [APA], 2014). Esses
déficits podem ser desde limitações mais brandas e específicas na aprendizagem até prejuízos
amplos em áreas como habilidades sociais e inteligência. Os transtornos do
neurodesenvolvimento são compostos por: Transtorno do Desenvolvimento Intelectual (DI –
ou deficiência intelectual), transtorno da comunicação (dividido em várias subcategorias),
Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade
(TDAH), transtorno específico da aprendizagem e transtornos motores (com várias
subcategorias), entre outros (APA, 2014; MARANHÃO; PIRES, 2017; THAPAR; COOPER; RUTTER,
2017).
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📄 Material Teórico
A avaliação e o tratamento de crianças com esses transtornos exigem diversos especialistas nas
áreas da saúde e da educação, sendo, portanto, um tratamento de longo prazo e multidisciplinar,
envolvendo profissionais de diferentes áreas de atuação. Nesta disciplina, nosso enfoque será
para DI, transtornos motores e TEA.
Nesse sentido, não dá para iniciarmos nossa conversa sem que falemos dos aspectos históricos
e sociais que englobam as questões das diferenças, ou seja, aquele indivíduo que tem uma
condição que o torna diferente das demais pessoas do seu grupo social, seja pela aparência física
que torna visível a sua “diferença”, como no caso da deficiência física e motora ou nos
indivíduos com a síndrome de Down, ou mesmo os comportamentos ritualísticos do indivíduo
com TEA. Tudo o que envolve a diferença/deficiência, geralmente, provoca um incômodo;
iniciaremos nossa discussão sobre esse incômodo que ao longo da História acompanhou e
ainda acompanha as pessoas com deficiência.
Quando nasce uma criança com algum tipo de deficiência, começa para ela e para sua família
uma longa história de dificuldades. Ter a deficiência não é o fator preponderante que torna
difícil a sua existência, permeada invariavelmente por situações em que estão presentes o
preconceito e o estigma. Como lidar com as atitudes sociais que adotam formas de classificação
para distinguir e separar as pessoas, categorizando-as entre duas posições opostas: capazes e
incapazes, rápidos e lentos, ou competentes e incompetentes? Como romper as barreiras
atitudinais das pessoas e do grupo social ao qual ela pertence, e que tornam inviável o seu
desenvolvimento e o seu crescimento pessoal, social e profissional?
Infelizmente, essas são perguntas difíceis e complexas demais, porém elas fazem parte do
cotidiano da maioria das pessoas com deficiência, de seus familiares e dos profissionais que
atuam junto a elas. Quando a sociedade se baseia nessas categorizações, culmina por classificar,
excluir e restringir, não oportunizando a demonstração de habilidades e competências por parte
da pessoa que possui algum tipo de deficiência.
Nesta Unidade, vocês terão a oportunidade de conhecer toda a trajetória histórica e social que as
pessoas com deficiência enfrentaram ao longo da História, do extermínio à segregação, até hoje
em dia, com o paradigma da inclusão.
A Questão de Diferença/Deficiência: Aspectos Históricos
Verificamos que, no percurso da História, os caminhos percorridos pelas pessoas com
deficiência têm sido tortuosos, com muitos obstáculos e limitações, tornando assim difícil a sua
convivência e, principalmente, a sua aceitação social.
Durante muito tempo, essas pessoas viveram segregadas, e ainda vivem excluídas do grupo
social. Com base nos registros históricos, podemos comprovar isso. Assim, essas pessoas
continuam sendo tratadas com discriminação e preconceito.
Não existem registros sobre como viviam os indivíduos com deficiência no período pré-
histórico, há pelo menos 10 mil anos. No entanto, considerando as condições físicas e climáticas
da época, evidenciamos a não existência de abrigo satisfatório para dias e noites, o que fazia com
que as pessoas ficassem expostas ao frio e ao calor intensos.
Figura 1 – Período pré-histórico – Homem necessitava
fazer longos percursos para obter alimento e abrigo
Fonte: Reprodução 
 
#ParaTodosVerem: a imagem retrata a Era Pré-Histórica. Há um casal de
hominídeos andando em um ambiente sem vegetação rasteira; ambos estão nus
e a mulher está grávida. Ao fundo há um vulcão expelindo fumaça. O casal
caminha com o homem à frente, carregando algo semelhante a um galho de
árvore; a mulher está alguns passos logo atrás. A imagem é em tons de marrom
em dégradé, chegando ao bege. Fim da descrição.
Também não havia comida em abundância, portanto, era preciso ir à caça para garantir o
alimento diário. Como não se plantava, era preciso guardá-lo para o longo inverno. A caça servia
para a obtenção de alimentos e para o aquecimento dos seres, a partir do material oriundo da
pele dos animais.
Figura 2 – Período Pré-histórico; descoberta das
ferramentas para a caça
Fonte: Reprodução
 
#ParaTodosVerem: na imagem há três hominídeos sentados sobre o mato,
aparentemente seco. Eles seguram objetos que se assemelham a ossos; a
imagem nos permite dizer que batem em algo sobre o chão. Ao fundo temos três
árvores com copas pequenas, vegetação verde sobre uma montanha e o céu azul
com nuvens brancas. Fim da descrição.
Além disso, a colheita de frutos, folhas e raízes garantia o sustento das pessoas. Assim, as
condições, anteriormente muito adversas, com o passar do tempo se tornaram mais amenas.
Com isso, os grupos começaram a se organizar para ir à caça e garantir o sustento de todos.
Ainda durante a Pré-História, a inteligência humana começou a se manifestar, e os indivíduos
passaram a perceber melhor o ambiente em que viviam, começando, a partir de então, a adorar o
Sol, a Lua e os animais.
Figura 3 – Período Pré-histórico: descoberta do fogo
Fonte: Getty Images
 
#ParaTodosVerem: imagem de dois hominídeos em volta de uma fogueira. Um
deles está sentados sobre as pernas e outro de cócoras, são dois adultos e estão
dentro de uma caverna. Do lado esquerdo, um deles está segurando uma lança
de pedra, do lado direito, uma mulher está com as mãos ao redor da fogueira se
aquecendo. Atrás deles está a abertura do lugar, que mostra uma floresta. Fim da
descrição.
Com a preocupação em manter a segurança e a saúde dos integrantes do grupo para a
sobrevivência, surgiram as tribos. Assim, os estudiosos consideram que a sobrevivência de
pessoas com deficiência era impossível, em virtude de o ambiente ser extremamente
desfavorável, uma vez que, para o atendimento das necessidades básicas, essas pessoas
dependiam daquilo que a natureza lhesproporcionava – ou seja, a caça e a pesca, por exemplo –
e das cavernas para se abrigarem. Ainda, era comum a prática do nomadismo, em virtude da
natureza cíclica e da necessidade de deslocamentos constantes.
Dessa forma, essas pessoas representavam um fardo para o grupo, que tinha que fazer longas
caminhadas para a obtenção de alimentos e da caça. Somente os mais fortes sobreviviam,
portanto, era comum que certas tribos se desfizessem das crianças que nasciam com
deficiência.
Figura 4 – Deficiência vista como um “fardo”, um
“empecilho” para a família/sociedade
 
#ParaTodosVerem: imagem de uma caixa texto no formato oval; dentro está a
palavra “deficiente”. Da caixa saem duas setas: a primeira, na parte superior
direita, aponta para a expressão “peso morto”; logo abaixo está a segunda seta,
que aponta para a palavra “empecilho”, seguida de uma seta menor, apontada
para as palavras “relegado” e “abandonado”. Fim da descrição.
Na Bíblia encontramos alguns relatos referentes a como a deficiência era tratada. O Evangelho
de Lucas (BÍBLIA, 1969, Lc 11, 14) mostra como o mudo e o demônio eram confundidos: “[…] E
estava ele expulsando um demônio, o qual era mudo. E aconteceu que saindo o demônio, o mudo
falou […]”.
- BÍBLIA, 1969, Evangelho Jo 9, 1-41
“Naquele tempo, Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença. Os
discípulos perguntaram-Lhe: “Mestre, quem é que pecou para ele nascer cego? Ele
ou os seus pais?”. Jesus respondeu-lhes: “Isso não tem nada que ver com os
pecados dele ou dos pais; mas aconteceu assim para se manifestarem nele as obras
de Deus”. […] Dito isto, cuspiu em terra, fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu
os olhos do cego. Depois disse-lhe: “Vai lavar-te à piscina de Siloé”. Ele foi,
lavou-se e voltou a enxergar.”
Figura 5 – Imagem da passagem bíblica, na qual o cego
Bartimeu questiona os que, tendo olhos, não vêem
Fonte: Wikimedia commons
 
#ParaTodosVerem: imagem de uma pintura que retrata passagem bíblica onde
vê-se o cego Bartimeu ajoelhado aos pés de Jesus que anda perto um templo, ao
redor de Jesus estão seus discípulos e uma criança o acompanhando. Fim da
descrição. 
No Egito Antigo, evidências arqueológicas indicam que a pessoa com deficiência se integrava às
diferentes e hierarquizadas classes sociais (de faraó a escravos).
Figura 6 – Egito Antigo: escravo com deficiência
Fonte: VALENÇA, 2021
 
#ParaTodosVerem: imagem das inscrições feitas nas tumbas egípcias. No
primeiro plano está o desenho de um homem; ele tem uma perna mais curta e
mais fina que a outra, segura-se em um cajado longo, apoiado em seu ombro
esquerdo, e com a mão esquerda segura um cálice grande. Do lado direito há a
figura da uma mulher que carrega em sua mão direita algo que se assemelha a
bananas. Ao fundo vemos vários caracteres demóticos e os hieróglifos. Fim da
descrição.
Na arte egípcia, com seus afrescos, os papiros, os túmulos e as múmias estão repletos dessas
revelações.
Figura 7 – Grécia Antiga: músico anão
Fonte: Reprodução
 
#ParaTodosVerem: imagem de uma escultura que retrata um músico com
nanismo. É a escultura de um homem com os olhos fechados, sentado, com as
pernas abertas, e entre elas há um objeto longo que se assemelha a uma harpa;
ele segura o objeto com as duas mãos. Fim da descrição.
Na Antiguidade, as pessoas com deficiência eram sacrificadas ou abandonadas à própria sorte:
“Nós matamos os cães danados, os touros ferozes e indomáveis, degolamos as
ovelhas doentes com medo de que infectem o rebanho, asfixiamos os recém-
Na sociedade grega, as necessidades básicas eram garantidas pelos escravos. Cabia aos homens
livres dedicar-se exclusivamente ao ócio.
O paradigma espartano dedicava-se à arte da guerra e preocupava-se com as fronteiras de seus
territórios, expostas às invasões bárbaras (Império Persa). Além disso, havia a preocupação com
tudo o que se referia à perfeição e à manutenção do corpo forte e belo: a ginástica, a dança, a
estética. Assim, as crianças que nasciam com deficiência eram eliminadas; só os fortes
sobreviviam para servir ao exército.
- SÊNECA, Sobre a Ira, I, XV apud MISÈS, 1977, p. 14
nascidos mal constituídos; mesmo as crianças, se forem débeis ou anormais, nós
as afogamos; não sei se trata de ódio, mas da razão que nos convida a separar das
partes são aquelas que podem corrompê-las.”
Figura 8 – Grécia Antiga: Vestimenta e armas do soldado
espartano]
Fonte: Wikimedia commons
 
#ParaTodosVerem: imagem de um guerreiro grego; ele usa um capacete de
metal que cobre a cabeça e grande parte do rosto, deixando apenas a boca e os
olhos visíveis, na parte superior do capacete tem um penacho vermelho,
cobrindo as partes anterior e posterior da cabeça. Veste túnica branca e
vermelha até a altura dos joelhos. Segura com a mão esquerda um escudo
branco com letra V invertida em vermelho. Na mão direita segura uma lança
apoiada sobre o chão. Veste sandálias e grevas (tipo de proteção) em metal na
região posterior das penas (esquerda e direita), do tornozelo até os joelhos. Fim
da descrição.
Nesse sentido, a mulher espartana era valorizada, mas para tanto precisava ser bela e forte, com
condição específica para gerar homens fortes, futuros guerreiros. Havia, portanto, a prática da
eugenia radical, em que a criança com deficiência não se encaixava no leito de Procusto.
No paradigma ateniense, havia a preferência pela agitada vida da polis, pela retórica, boa
argumentação, filosofia, contemplação. Para tanto, esses homens precisavam ter inteligência
para poder dar conta das exigências da época.
A obra de Platão deixa clara essa exigência, com o interstício (fenda) entre o corpo e a mente. O
pensamento da sociedade ateniense partia do princípio de que cabe aos homens livres (a mente)
ser a parte digna, superior, ou seja, aquela que era encarregada de mandar e governar. Ao
escravo (o corpo) – degradado, conspirador, empecilho da mente – cabia a missão de executar
as tarefas degradantes e degradadoras.
Assim, na literatura universal, encontramos várias passagens que remetem à condição das
pessoas com deficiência.
Ilíada: personagem Hefesto, o ferreiro divino, tem uma das pernas atrofiadas; ao
nascer é rejeitado pela mãe, Hera. Zeus, em sua ira, o atira para fora do Olimpo;
Figura 9 – Platão (427 – 347 a. C) – filósofo grego nascido
em Atenas]
Fonte: Wikimedia commons
 
#ParaTodosVerem: escultura do busto de Platão, imagem da cabeça e parte do
peito. Ela é toda branca, mostrando um homem com barba longa abaixo do
pescoço e cabelos curtos e encaracolados. O fundo é em tom marrom-claro,
com detalhe na horizontal em marrom-escuro. Fim da descrição.
Em A República (livro IV, 460 c. apud GUGEL, 2007, p. 63) vemos a seguinte descrição:
Na Terra, entre os humanos, Hefesto compensou sua deficiência física e mostrou
suas altas habilidades em metalurgia e artes manuais. Casou-se com Afrodite e
Atena.
Na Grécia Antiga, onde se primava pela perfeição dos corpos, as pessoas com deficiência,
quando não eram sacrificadas, ficavam escondidas.
- PLATÃO, A República, apud MISÈS, 1977, p. 13
“Pegarão então os filhos dos homens superiores, e levá-los-ão para o aprisco, para
junto de amas que moram à parte num bairro da cidade; os dos homens inferiores,
e qualquer dos outros que seja disforme, escondê-los-ão num lugar interdito e
oculto, como convém.”
“Quanto aos filhos de sujeitos sem valor e aos que foram mal constituídos de
nascença, as autoridades os esconderão, como convém, num lugar secreto que não
deve ser divulgado.”
Figura 10 – Aristóteles – filósofo Ateniense (367 ou 366 a.
C.)
Fonte: SOUZA, 2011
 
#ParaTodosVerem: escultura do busto de Aristóteles mostrando a cabeça e
parte dos ombros; o rosto está com a testa franzida, ele tem barba curta e
cabelos curtos e encaracolados. A escultura parece ter sido feita em bronze. Fim
da descrição.
“Quanto a rejeitar ou criar os recém-nascidos, terá de haver uma lei segundo a
qual nenhuma criança disforme será criada; com vistas a evitar o excesso de
crianças,se os costumes das cidades impedem o abandono de recém-nascidos
deve haver um dispositivo legal limitando a procriação; se alguém tiver um filho
contrariamente a tal dispositivo, deverá ser provocado o aborto antes que
O paradigma ateniense vai ser assumido, cristalizado e levado ao paroxismo pelo judaísmo
cristão, visto que no âmbito da Teologia o deficiente deixa de ser morto e, ao nascer, passa a ser
estigmatizado (moralismo cristão); no âmbito católico, a deficiência passa a ser sinônimo de
pecado.
Na Roma Antiga, as leis não eram favoráveis às pessoas que nasciam com deficiência. Aos pais
era permitido matar as crianças com deformidades físicas utilizando-se da prática do
afogamento. No entanto, os genitores abandonavam seus filhos em cestos no rio Tibre ou em
outros lugares sagrados. Os sobreviventes tornavam-se pedintes e esmolavam pelas ruas ou
passavam a fazer parte de circos.
- ARISTÓTELES, A Política, livro VII, capítulo XIV, 1335 b apud GUGEL, 2007, p. 63
comecem as sensações e a vida (a legalidade ou a ilegalidade do aborto será
definida pelo critério de haver ou não sensação de vida).”
Figura 11 – Imagem da reconstituição da luta dos
gladiadores
Fonte: Wikimedia Commons 
 
#ParaTodosVerem: escultura em mármore de guerreiros gregos. São dois
guerreiros com corpos atléticos e músculos bem-definidos. Um deles está em
pé e segura na mão esquerda o escudo e na direita, a lança; o outro guerreiro está
caído, com parte do tronco erguido, e segura com a mão direita o escudo apoiado
no chão, dando a impressão de que quer se levantar. Ambos têm barba curta e
usam capacete. Fim da descrição.
Com as conquistas romanas, legiões de soldados (césares) retornavam com amputações das
batalhas, dando início a um precário sistema de atendimento hospitalar.
Ainda durante o Império Romano, surgiu o cristianismo. A nova doutrina voltava-se para a
caridade e para o amor entre as pessoas. Assim, as classes menos favorecidas sentiram-se
acolhidas com essa nova visão. A eliminação dos filhos nascidos com deficiência e a perseguição
dos cristãos, porém, alteraram as concepções romanas a partir do século IV.
Mudança na Percepção da Sociedade Perante a Pessoa
com Deficiência
A Idade Média se estendeu por um longo período da História e foi marcada por precárias
condições de vida e de saúde das pessoas. A população ignorante atribuía o nascimento de
pessoas com deficiência ao castigo de Deus; supersticiosos viam nelas poderes especiais de
feiticeiros ou bruxos, e mantinham, assim, sentimentos e atitudes ambíguos em relação às
pessoas com deficiência, que ora eram sacrificadas como um mal a ser evitado, ora eram
privilegiadas por serem detentoras de poderes sobrenaturais, ou ainda perseguidos e evitados,
como se possuídos pelos demônios, ou tratados como insanos e indefesos, necessitando,
portanto, de proteção. Geralmente, os sobreviventes eram separados de suas famílias e quase
sempre ridicularizados; as pessoas com nanismo e os corcundas eram foco de diversão dos mais
abastados.
O rei Luís IX, cujo reinado durou de 1214 a 1270, fundou o primeiro hospital para pessoas cegas, o
Quinze-Vingts. Quinze-Vingts significa 15 × 20 = 300, número de cavaleiros cruzados que tiveram
seus olhos vazados na Sétima Cruzada.
Na Idade Moderna, vamos ter a passagem de um período de extrema ignorância para o nascer de
novas ideias.
O Renascimento das artes, da música e das ciências foi o período mais festejado do século XVI,
pois se revelaram grandes transformações, marcadas pelo Humanismo. Nesse período,
surgiram os primeiros hospitais de caridade que abrigavam indigentes e pessoas com
deficiências.
A época do Renascimento surge com uma perspectiva mais humanista. Sendo, portanto,
reconhecida como uma condição humana, a deficiência passa a ser explicada por um prisma de
causalidades naturais, com uma visão médica, e concepções mais racionais, permanecendo,
todavia, marcada pelo preconceito e pela discriminação.
Veja o nome de alguns poetas, físicos, matemáticos e astrônomos com deficiência:
John Milton (1608-1674), um dos maiores poetas ingleses, era cego e, com o apoio
de escriba e ledor, escreveu várias obras, entre elas Paraíso Perdido;
Galileu Galilei (1564-1642), físico, matemático e astrônomo, em consequência de
seu reumatismo, ficou cego nos últimos anos de sua vida, mas seguiu ativo em suas
pesquisas científicas;
Situação semelhante foi vivida pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-
1630), que tinha deficiência visual e desenvolveu estudos sobre o movimento dos
planetas;
Luís de Camões (1524-1580), o poeta de Os Lusíadas, perdeu a visão de um dos olhos
em batalha no Marrocos;
Figura 12 – Monumento em homenagem a Pedro Ponce de
Leon, ensinando um aluno
Fonte: Wikimedia commons
 
#ParaTodosVerem: escultura de Pedro Ponce de León e do pequeno Pablo Bonet.
A escultura retrata Pedro Ponce de León sentado; ele veste hábito religioso, tem
cabelos curtos e calvície. Junto a ele, em pé, está o pequeno Pablo Bonet, vestido
com blusa comprida de gola alta. Ao fundo vemos parte dos galhos de uma
árvore. Fim da descrição.
Girolamo Cardano (1501-1576), médico e matemático, inventou um código para
ensinar pessoas surdas a lerem e escreverem, influenciando o monge beneditino
Pedro Ponce de León (1520-1584) a desenvolver um método de educação para
pessoas com deficiência auditiva por meio de sinais – métodos que contrariavam o
pensamento da sociedade da época, que acreditava que as pessoas surdas não
pudessem ser educadas.
Na Espanha, Juan Pablo Bonet (1579-1633) escreveu sobre as causas das
deficiências auditivas e dos problemas da comunicação, condenando os métodos
Na Europa marcada pela massa de pobres, mendigos e pessoas com deficiência – alguns
verdadeiros, muitos falsos – reuniam-se em confrarias (organizações), em locais e horas
determinados, para mendigar, com divisão de lucros e cobranças de taxas entre os participantes
do grupo.
brutais e de gritos para ensinar alunos surdos;
No livro Reducción de las letras y arte para enseñar a hablar los mudos, Pablo Bonet
demonstra pela primeira vez o alfabeto na língua de sinais;
Na Inglaterra, John Bulwer (1600-1650) defendeu um método para ensinar aos
surdos a leitura labial, além de ter escrito sobre a língua de sinais;
Stephen Farfler (1633-1689) era paraplégico e em 1655, na Alemanha, construiu
uma cadeira de rodas para se locomover. Ela era feita em madeira, com duas rodas
atrás e uma na frente, sendo acionada por duas manivelas giratórias.
Figura 13 – Quadro de Pieter Bruegel: Os aleijados
Fonte: jhna.org
 
#ParaTodosVerem: pintura que retrata a Idade Média. Existem seis indivíduos,
sendo que ao fundo da tela vemos dois deles em pé; outros dois estão sentados,
sendo que um está de costas, vestindo gorro e roupas na cor bege, o outro está
sentado com as pernas levantadas, vestindo calças até a altura dos joelhos na
cor azul jeans, camisa laranja, colete cinza e gorro alto vermelho. Outros três
utilizam muletas. No primeiro plano, um indivíduo veste calça vinho até a altura
dos joelhos, blusa conca e colete com detalhes em branco e cinza-escuro. Logo
atrás dele há uma pessoa abaixada, usando gorro bege, colete branco com
detalhes em bege, calça e camisa cinzas. Ao seu lado vemos a terceira pessoa,
que usa muletas, camisa cinza-claro e colete branco com detalhes em marrom.
Fim da descrição.
Paul Lacroix dedicou-se a escrever sobre esses grupos de pessoas, ou seja, escreveu sobre os
menos privilegiados. A partir do século XVIII, com o médico, têm início as tentativas
educacionais. Assim, surgem os avanços científicos e a busca de atendimento mais adequado
para essas pessoas.
No século XIX (1819), Charles Barbier (1767-1841) atendeu a um pedido de Napoleão e
desenvolveu um código para ser usado em mensagens transmitidas à noite durante as batalhas.
O sistema foi rejeitado pelos militares, que o consideraram muito complicado. No Instituto
Nacional dos Jovens Cegos de Paris, Louis Braille(1809-1852) apresentou algumas sugestões
para seu aperfeiçoamento. Barbier se recusou a fazer alterações em seu sistema, então Braille
modificou totalmente o sistema de escrita noturna, criando o sistema de escrita padrão – o
Braille – usado por pessoas cegas até hoje.
Figura 14 – Alfabeto Braille
Fonte: Adaptada de Freepik
 
#ParaTodosVerem: imagem retratando o alfabeto e os numerais em Braille.
Formada por seis linhas, na primeira estão os digitais que correspondem às
letras de A até F; na segunda linha estão os digitais que correspondem às letras
de G a L; na terceira linha estão os digitais que correspondem às letras de M a R;
na quarta linha, os que correspondem às letras de S a X; na quinta, os que
correspondem às letras Y e Z e aos números de 1 a 4; na sexta linha estão os
numerais de 5 a 10. Fim da descrição.
O século XIX, com reflexos das ideias humanistas da Revolução Francesa, ficou marcado na
história das pessoas com deficiência, não só das que precisavam de hospitais e abrigos, mas
também de quem precisava de atenção especializada. Assim, teve início a constituição de
organizações para estudar os problemas de cada tipo de deficiência, difundindo-se os orfanatos,
os asilos e os lares para crianças com deficiência física. Grupos de pessoas organizaram-se em
torno da reabilitação dos feridos para o trabalho, principalmente nos Estados Unidos e na
Alemanha.
Napoleão Bonaparte, por exemplo, determinava expressamente a seus generais que
reabilitassem os soldados feridos e mutilados para continuarem a servir, nascendo, assim, a
ideia de que os ex-soldados poderiam ser reabilitados.
Figura 15 – Quadro de Napoleão Bonaparte
Fonte: Wikimedia commons
 
#ParaTodosVerem: pintura de Napoleão Bonaparte. Ele é branco, tem cabelos
escuros com calvície nas laterais da fronte; está vestindo calça justa branca,
uniforme de manga longa escuro e peito branco. No lado esquerdo do peito há
uma medalha com fita vermelha; ao lado, uma medalha grande na cor prata.
Logo abaixo há quatro botões dourados. A mão direita está inserida por dentro
do uniforme, acima da cintura. Sua mão esquerda está encostada numa cadeira,
estando visível apenas sua parte lateral, com detalhes em dourado e assento e
encosto em tecido de veludo vermelho. Há vários papéis sobre a mesa. Vê-se o
pé torneado e dourado da mesa, que ilustra a cabeça e o corpo de um gato. Sobre
a mesa há uma toalha em veludo azul com franjas curtas douradas. O abajur está
aceso. Ao fundo está uma parede com uma coluna em relevo floral dourado; a
parede está pintada de azul, do lado direito há um relógio alto com detalhes em
dourado, marcando 16h20. Fim da descrição.
Essa possibilidade de reabilitação foi compreendida em 1884 pelo chanceler alemão Otto von
Bismark, que constituiu a lei de obrigação à reabilitação e readaptação ao trabalho.
No Brasil, por insistência do imperador Dom Pedro II (1825-1891), seguiu-se o movimento
europeu, criando-se o Imperial Instituto dos Meninos Cegos (atualmente Instituto Benjamin
Constant – IBC) por meio do Decreto Imperial nº 1.428, de 12 de setembro de 1854.
Figura 16 – Quadro de D. Pedro II – Imperador do Brasil
Fonte: Wikimedia commons
 
#ParaTodosVerem: pintura do rosto e de parte do tronco de Dom Pedro II; ele é
um homem branco, com cabelo e barba brancos, até abaixo do pescoço. Usa
uniforme militar escuro com medalhas e ombreira douradas. Ao fundo há uma
parede em tom verde. Fim da descrição.
Três anos depois, em 26 de setembro de 1857, o imperador, apoiando as iniciativas do professor
francês Ernest Huet, fundou o Imperial Instituto de Surdos-Mudos (atualmente Instituto
Nacional de Educação de Surdos – INES). Pedro II era um visionário e trouxe muitos avanços
para o Brasil; se as suas propostas e projetos tivessem seguimento, não teríamos apenas o IBC e
o INES, poderíamos ter outras tantas instituições para o atendimento das pessoas com
deficiência, desenvolvendo pesquisas e tendo uma ampla contribuição tanto para essas pessoas
como para a sociedade de maneira geral.
No século XX ocorreram avanços importantes para as pessoas com deficiência, como ajudas
técnicas ou elementos tecnológicos assistivos. Instrumentos que já vinham sendo utilizados,
como cadeiras de rodas, bengalas e sistemas de ensino para surdos e cegos, entre outros, foram
se aperfeiçoando. O período foi marcado por duas Grandes Guerras Mundiais,
consequentemente, aumentou o número de pessoas com deficiências, bem como a busca por
atendimentos e recursos diferenciados para atender às necessidades desse grupo.
Nos anos de 1902 até 1912, cresceu, na Europa, a formação e a organização de instituições
voltadas para preparar a pessoa com deficiência. Levantaram-se fundos para a manutenção
dessas instituições, sendo que havia uma preocupação crescente com as condições dos locais
em que as pessoas com deficiência se abrigavam.
Em 1914, o Império Alemão declarou uma guerra que se estendeu até 1918. Durante a Primeira
Guerra Mundial, as mulheres puseram-se a trabalhar para sustentar a família, enquanto os
maridos estavam na guerra; as crianças com e sem deficiência ficavam em abrigos.
Com o final da Primeira Grande Guerra, restaram os conflitos políticos e os países,
principalmente aqueles que participaram do conflito, estavam em crise financeira – sendo,
portanto, necessário que os governos se preocupassem com o desenvolvimento de
procedimentos de reabilitação dos ex-combatentes, melhorando a reabilitação dos jovens
veteranos.
O 32º presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, em 1933, com o programa
político New Deal, atrelado à assistência social, ajudou a minimizar os efeitos da Depressão.
Roosevelt, que era paraplégico, embora não gostasse de ser fotografado em sua cadeira de rodas,
contribuiu para uma nova visão da sociedade americana (e mundial) de que a pessoa com
deficiência, com boas condições de reabilitação, poderia ter independência pessoal. Ele foi um
exemplo seguido por muitos americanos com deficiência que buscavam vida independente e
trabalho remunerado.
Assim, a sociedade, tanto americana como internacional, já começava a perceber que as pessoas
com deficiência precisavam participar ativamente do cotidiano, integrando-se à sociedade. No
entanto, permanece, durante esse período, toda uma herança das crenças e dos mitos, dos
preconceitos, da desvalorização e da tendência segregacionista.
Em 1945 foi deflagrada a Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945, liderada por Hitler, que
assolou e chocou o mundo pelas atrocidades provocadas. Sabe-se que o Holocausto eliminou
judeus, ciganos e pessoas com deficiência. Estima-se que 275 mil adultos e crianças com
deficiência morreram nesse período; outras 400 mil pessoas suspeitas de terem hereditariedade
de cegueira, surdez e deficiência mental foram esterilizadas em nome da política da raça ariana
pura.
O triste desfecho da guerra, quando os Estados Unidos lançaram bombas nucleares sobre
Hiroshima e Nagasaki, foi devastador e matou 222 mil pessoas, deixando sequelas nos
sobreviventes civis.
Figura 17 – Fusão nuclear – bombardeio em Hiroshima
Fonte: al.sp.gov
#ParaTodosVerem: foto da bomba atômica; nela percebe-se o efeito cogumelo,
formado quando a bomba foi detonada. Próximo ao solo há uma fumaça densa,
cinza-escura. Fim da descrição.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo precisou se reorganizar. A Europa estava
devastada, as cidades exigiam reconstrução, as crianças órfãs precisavam de abrigo, comida,
roupas, educação e saúde. Os adultos sobreviventes ficaram com sequelas e precisavam de
tratamento médico e de reabilitação.
Com a Carta das Nações Unidas, criou-se a Organização das Nações Unidas (ONU) em Londres,
no ano de 1945, visando encaminhar, com todos os países-membros, as soluções dos
problemas que assolavam o mundo. Os temas centrais foram divididos entre as agências:
O percurso histórico da pessoa com deficiência, nos diferentes países, tem seguido um padrão
de evolução muito parecido, ouseja, do extermínio à segregação e exclusão. Há uma modificação
do olhar a respeito dessas pessoas, que passam a ser vistas como possuidoras de certas
capacidades, ainda que limitadas, principalmente no que se refere à aprendizagem. Predomina
um olhar de tutela e a prática correspondente no que diz respeito aos excepcionais (como as
pessoas com deficiência eram chamadas na época), no sentido de “protegê-los” em asilos e
abrigos, em que muitos dos internos permanecem ali até a morte.
A partir da década de 1960, outro momento histórico é marcado pelo reconhecimento do valor
humano desses indivíduos e, como tal, o reconhecimento de seus direitos. Na maioria dos
países, esse movimento vem se acirrando desde então.
Organização das Nações Unidas para Pessoas com Deficiência (Enable);
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco);
Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF); e
Organização Mundial da Saúde (OMS).
Fortaleceu-se, aos poucos, a convicção de que as pessoas com deficiência podiam trabalhar e
queriam exercer voz ativa na sociedade. Os Estados passaram gradativamente a reconhecer sua
responsabilidade no cuidado com esse segmento populacional no que se referia às suas
necessidades de educação e de saúde.
Concomitantemente, foi-se delineando, no mundo acadêmico, o que se denominou, mais tarde,
de ideologia da normalização. Em 1973, a Associação Americana Nacional para Cidadãos
Retardados referiu-se à normalização como
O princípio de normalização deu suporte filosófico ao movimento de desinstitucionalização e ao
movimento pela integração social da pessoa com deficiência, responsável tanto pela retirada
desses indivíduos das instituições tradicionais quanto pela implantação de programas
comunitários de serviços para atender às suas necessidades.
Assumindo politicamente que a pessoa com deficiência era cidadã, como outra qualquer, que
tinha o direito a uma vida “normalizada”, e que para isso precisava ser preparada, esse
paradigma caracterizou-se pela oferta de serviços. Entidades filantrópicas financiadas pelo
Poder Público passaram a oferecer à pessoa com deficiência um amplo leque de modalidades de
serviços, geralmente, em ambiente segregado, mantendo-os disponíveis até que ela fosse
considerada “pronta” para sua integração na comunidade. Esse paradigma representou um
- BRADDOCK, 1977, p. 224, tradução nossa
“[…] processo de ajuda ao deficiente, no sentido de garantir a ele as condições de
existência o mais próximas do normal (estatístico) possível, tornando-lhe
disponível os padrões e as condições da vida cotidiana o mais próximo das normas
“processo de ajuda ao deficiente, no sentido de garantir a normas e os padrões da
sociedade.”
grande avanço se comparado ao da institucionalização total. Entretanto, ainda se mostrou
limitado ao focalizar a necessidade de mudança quase que exclusivamente na pessoa com
deficiência.
Sabemos que é ilusória a expectativa de que a pessoa com deficiência se assemelhe à não
deficiente, já que a diversidade é uma das principais características da humanidade; ser diferente
não implica, necessariamente, que esse indivíduo tenha menos valia enquanto ser humano e ser
social. Por outro lado, não se podem negar as limitações impostas por uma deficiência, e isso
pode ser fator determinante para a discriminação dessa pessoa, já que, ao negá-las, a sociedade
se desobriga de promover os ajustes e adaptações que permitiriam a sua efetiva participação na
vida social.
A experiência tem mostrado alguns equívocos, como supor que, por meio de uma vivência
segregada e na convivência quase que exclusiva com outras pessoas com deficiência, alguém
pudesse realmente se “habilitar” para uma integração social. Ou que todas as pessoas com
deficiência pudessem ser modificadas em busca da normalização, a ponto de não mais
apresentarem as limitações impostas por sua deficiência. Assim, cabe à sociedade oferecer
acesso aos serviços que os indivíduos com deficiência necessitarem, nas diferentes áreas: física,
psicológica, educacional, social e profissional, independentemente do tipo de deficiência e do
grau de comprometimento que eles possam apresentar.
Durante séculos, as pessoas com deficiência estiveram em estado permanente de segregação e
exclusão, determinando limites para seu desenvolvimento e impossibilitando a construção de
uma identidade positiva, de uma consciência crítica e do pleno exercício da cidadania, ficando
historicamente alijadas dos processos e da participação dos processos sociais e políticos da
sociedade.
Ainda hoje, muitas pessoas com deficiência são excluídas da sociedade, deixando, assim, de
contribuir para a construção dela, perdendo a oportunidade de se desenvolverem, de adquirirem
consciência crítica e, principalmente, da convivência e da humanização da sociedade como um
todo, além da perda da autonomia e da independência enquanto cidadãos atuantes.
Percalços e Avanços no Atendimento da Pessoa com
Deficiência no Brasil
No Brasil, a atenção à pessoa com deficiência se caracterizou inicialmente pela
institucionalização e segregação total dessa parcela da população. As mudanças sociais
constituem-se, portanto, em processos lentos, especialmente em países como o nosso, pela
falta de definição de rumos que se desejam imprimir ao panorama sociopolítico econômico do
país, bem como na exigência do respeito a seus diretos enquanto cidadãos coparticipantes do
processo democrático vigente no país.
Embora a atenção à pessoa com deficiência, em nosso país, tenha se caracterizado por um
discurso descritivo dos paradigmas de serviços, em mudança para o paradigma de suportes, na
prática, constata-se que a ação social se encontra ainda no paradigma da institucionalização,
associado ao paradigma de serviços.
A elaboração de diversos documentos nacionais e internacionais tem assegurado direitos iguais
ao cidadão que tenha um tipo de deficiência. O início do século XXI vem sendo marcado pelas
relações da sociedade com o segmento populacional constituído pelas pessoas com deficiência,
no sentido de promover, efetivamente, o ajuste da oferta aos serviços de educação, sociais, de
saúde, do trabalho e emprego, da cultura, do lazer, do esporte e de urbanismo, com o objetivo de
garantir acesso, permanência e utilização dos espaços e da vida social e cotidiana na
comunidade na qual o indivíduo está inserido.
Diversos autores vêm apontando, há algum tempo, para a necessidade de se buscar
compreender, para além do conceito, o contexto no qual a situação do deficiente emerge, uma
vez que defendem a compreensão de que toda deficiência é social (AMARAL, 1995). Nesse
contexto, Aquino (1998) afirma que expressa-se o reconhecimento de que as diferenças
existentes são constituídas por uma multiplicidade de modos de pensar, agir e sentir, portanto,
é de primordial importância que haja o respeito, a valorização e o convívio das diferentes
identidades.
O paradigma da inclusão social defende que cabe à sociedade se adaptar para poder incluir, em
seus sistemas gerais, num movimento dialético de construção de novos espaços sociais, do qual
façam parte novos atores e novas práticas sociais, muito embora as práticas sociais ainda sejam
organizadas a partir do padrão de normalidades construído em torno do indivíduo que apresenta
algumas características selecionadas pelo grupo social como sendo o modelo ideal.
Figura 18 – Paradigma da Inclusão: construção de uma
sociedade igualitária
Fonte: Getty Images
 
#ParaTodosVerem: ilustração sobre a inclusão de pessoas de diferentes faixas
etárias. No primeiro plano, aparece do lado esquerdo uma menina vestindo calça
comprida amarela com detalhes rosas e blusa verde. Logo atrás está um
adolescente negro vestindo calça verde e camiseta azul; ao seu lado, uma
adolescente loira com óculos escuros e cabelos longos. Ao lado desta última, há
um adolescente gordo com camiseta azul-celeste e calça laranja e, ao lado dele,
um adolescente de cabelosloiros usa camiseta verde e tem um aparelho auditivo.
Na frente deste último, está uma criança gorda vestindo camiseta verde e calção
azul; ao seu lado há um menino de cabelos curtos, camiseta vermelha e calça
bege, que se apoia em um andador. No meio está um adolescente cadeirante, ele
veste camiseta amarela e calça marrom. Todos estão sorrindo e acenando. Fim
da descrição.
O processo de inclusão social é resultado da interação de fatores individuais e do meio, já que as
reações sociais dependem tanto das características primárias das deficiências quanto dos
aspectos estruturais e conjunturais da sociedade (OMOTE, 1994).
Resta a cada um de nós, profissionais, a realização de uma reflexão crítica, com o intuito de
identificar como se caracterizam nosso discurso e nossa prática, tendo como foco da análise o
processo histórico da relação das sociedades com as pessoas com deficiência.
Cabe a nós, ainda, enquanto profissionais da Saúde e da Educação, que atuamos junto às pessoas
com deficiência e seus familiares, promover orientações e esclarecimentos sobre as capacidades
e habilidades, minimizar os sentimentos de desesperança e de desamparo que ter um filho com
deficiência pode trazer e, principalmente, romper com as barreiras atitudinais, aquelas que
fomentam a discriminação e o preconceito.
Em Síntese
Embora a deficiência possa nos acometer em qualquer fase das nossas
vidas, ao entrarmos em contato com o percurso da pessoa com
deficiência ao longo da História, podemos perceber que esse grupo
sofreu e ainda sofre com o estigma, o preconceito e a discriminação.
No entanto, mudanças significativas ocorreram, após anos de luta por
parte das próprias pessoas com deficiência, suas famílias,
profissionais e entidades, promovendo mudanças significativas. Hoje
atuamos buscando a inclusão da pessoa com deficiência em todos os
segmentos da sociedade. Dessa forma, torna-se de primordial
importância que possamos rever nossa postura e a forma de como
lidamos com a questão da diferença/deficiência, no sentido de perceber
a pessoa com deficiência como ser humano, alguém que possui sonhos,
necessidades e, sobretudo, desejos, como qualquer um de nós.
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:
  Filmes  
O Oitavo Dia 
O filme retrata o cotidiano de dois personagens muito distintos e, ao mesmo tempo,
semelhantes. O primeiro, Georges (Pascal Duquenne), com síndrome de Down, e o segundo,
Harry (Daniel Auteuil), uma pessoa comum, vivendo o cotidiano através de rotinas diárias do
amanhecer ao dormir.
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📄 Material Complementar
Meu Nome é Rádio
Anderson, Carolina do Sul, 1976, na escola secundária T. L. Hanna. Harold Jones (Ed Harris) é o
treinador local de futebol americano, que fica tão envolvido em preparar o time que raramente
passa algum tempo com sua filha, Mary Helen (Sarah Drew), ou sua esposa, Linda (Debra
Winger). Jones conhece um jovem “lento”, James Robert Kennedy (Cuba Gooding Jr.), mas nem
o treinador nem ninguém sabia o nome do rapaz, pois ele não falava e só perambulava em volta
do campo de treinamento. Jones se preocupa com o jovem quando alguns dos jogadores da
equipe fazem uma “brincadeira” de péssimo gosto, que deixou James apavorado. Tentando
compensar o que tinham feito com o jovem, Jones o coloca sob sua proteção, além de lhe dar
uma ocupação. Como ainda não sabia seu nome e pelo fato de ele gostar de rádios, passou-se
chamá-lo de Rádio. Mas ninguém sabia que, pelo menos em parte, a preocupação de Jones é
porque tentava não repetir uma omissão que cometera quando era um garoto.
(Trailer/O) O Oitavo Dia (1996, Jaco Van Dormael)(Trailer/O) O Oitavo Dia (1996, Jaco Van Dormael)
https://www.youtube.com/watch?v=Wl9Q8dmZU2Y
Uma Lição de Amor
Sam Dawson (Sean Penn) é um homem com deficiência mental que cria sua filha Lucy (Dakota
Fanning) com uma grande ajuda de seus amigos. Porém, assim que faz 7 anos, Lucy começa a
ultrapassar intelectualmente seu pai, e essa situação chama a atenção de uma assistente social
que quer Lucy internada em um orfanato. A partir de então, Sam enfrenta um caso virtualmente
impossível de ser vencido por ele, contando para isso com a ajuda da advogada Rita Harrison
(Michelle Pfei�er), que aceita o caso como um desafio com seus colegas de profissão
Trailer Meu nome é Radio (Legendado Pt-Br)Trailer Meu nome é Radio (Legendado Pt-Br)
https://www.youtube.com/watch?v=oDjYQ2ll1f4
Sempre Amigos
Maxwell Kane (Elden Henson) é um garoto de 14 anos que tem dificuldades de aprendizado e
vive com seus avós desde que testemunhou o assassinato de sua mãe, morta pelo marido.
Quando Kevin Dillon (Kieran Culkin), um garoto que sofre de uma doença que o impede de se
locomover, se muda para a vizinhança, eles logo se tornam grandes amigos. Juntos vivem
grandes aventuras, enfrentando o preconceito das pessoas à sua volta.
Trailer - Uma Lição de Amor - 2002Trailer - Uma Lição de Amor - 2002
https://www.youtube.com/watch?v=QBVU_U6R54A
Trailer Sempre Amigos 1998Trailer Sempre Amigos 1998
https://www.youtube.com/watch?v=6l0HdJkGixc
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mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
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