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Meta da aula Tendo finalidade introdutória, esta aula propõe-se a discutir a interseção da Psicologia com a Educação de uma forma crítica. Pretende-se apresentar ao aluno, a partir de uma análise crítica, algumas contribuições da Psicologia que dão sustentação ao campo da Educação. Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: 1. conceituar a Psicologia; 2. relacionar a Psicologia como um dos fundamentos da Educação; 3. identificar algumas das principais teorias que compõem o campo da Psicologia, conforme descritas na literatura específica de um modo geral. 1AULAPsicologia e Educação? Análise crítica da inserção da Psicologia no campo educacional Rita Maria Manso de Barros ob jet ivo s Psicologia e Educação | Psicologia e Educação? Análise crítica da inserção da Psicologia no campo educacional 8 CEDERJ INTRODUÇÃO PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO: UM NOVO CAMPO DO CONHECIMENTO O termo “psicologia” vem da junção das palavras gregas psyché, alma, e logos, palavra, razão ou discurso. Desta forma, no rigor semiológico, a Psicologia seria o “discurso sobre a alma”. Na Grécia Clássica, quase todo filósofo interessava-se pelos produtos da alma, a razão entre eles. Compreender as paixões humanas vem sendo objeto de interesse e estudos da humanidade desde que o homem alçou à consciência de sua existência. Já o termo educação provém do latim educatione que significa a ação de criar (animais), cultivar (plantas); ele diz respeito também aos termos criação (de ovelhas, porcos etc.), culturas (como a da cana-de-açúcar etc). No sentido figurado, deu origem aos termos educação ou instrução. Originalmente vem do verbo educo que tem duas vertentes: 1) educ-are: com os sentidos de: a) criar, amamentar; b) educar, instruir, ensinar; c) produzir; 2) educ-ere: com os sentidos de: a) levar para fora, fazer sair, tirar de; b) criar, educar; c) dar à luz, produzir; d) em sentido figurado, elevar, exaltar; e) esgotar, esvaziar, absorver; f) passar o tempo (FARIA, 1967). Diante dessas possibilidades de sentidos, não haveria vários modelos de educador? No correr dos séculos, no contexto dos campos de saberes que se apresen- taram em decorrência da fundação da ciência moderna, a Psicologia, herdeira legítima do campo de pesquisa inaugurado pelo pensamento cartesiano (que veremos mais à frente) com o estudo da consciência pela dúvida e pela indagação do homem sobre quem é, surgiu para situar a dimensão subjetiva no âmago das ocorrências da vida. Não obstante, teve como pretensão edificar-se como saber científico, segundo os preceitos da época: observar, mensurar, comprovar e repetir, aderindo desse modo ao método das ciências exatas que se fundamentava no processo de quantificação e matematização dos fenômenos naturais. Sem dúvida, as ciências humanas ou ciências do sujeito (FARIAS; DUPRET, 1998) adotaram como paradigma os parâmetros de validação das ciências naturais, como bem o demonstra a criação por Wilhelm Wundt (WOLMAN, 1970; SCHULTZ, 1994), no final do século XIX, do primeiro laboratório de Psicologia na cidade de Leipzig. A fundação desse espaço de análise e mensuração dos fenômenos psíquicos é tomada equivocadamente como o marco de cientificidade da Psicologia. W i l h e l m W u n d t Nasceu na Alemanha em 16 de agosto de 1832 e morreu em 31 de agosto de 1920. Foi médico, filósofo e psicólogo. Foi professor de Filosofia da Universidade de Leipzig por quarenta e cinco anos. Ali fundou o primeiro Laboratório de Psicologia Experi- mental em 1879, o que rendeu-lhe o título de pai da Psicologia moderna. Fonte: http://upload. wikimedia.org/wikipedia/ commons/1/13/ Wundt.jpg CEDERJ 9 Não obstante, o acontecimento que funda um campo de saber equivale a um corte epistemológico (BACHELARD, 1977), ou seja, uma ruptura que indica transformação fundamental, desvinculando um saber de seu passado ideológico, marcando o momento em que se produz um novo objeto de estudo. Esse novo objeto confere o caráter de cientificidade a um dado campo de saber. Eis o tempo, sem retorno, de um acontecimento que marca o início da cientificidade de um saber. Em certo sentido, no que concerne à Psicologia, ainda não se pode afirmar que houve a passagem de um modo de pensar que viesse no lugar das concepções de classes e categorizações, baseadas em fundamentos do método positivista. Isso quer dizer que “a elaboração de conceitos na Psicologia acha-se dominada pelo problema da regularidade, no sentido de freqüência” (GARCIA-ROZA, 1972, p. 10). Sendo assim, um dos enganos freqüentemente cometidos nessas análises é o de supor que a Psicologia teria surgido como ciência a partir do momento em que um conjunto de saberes puramente empírico recebeu uma quantificação matemática. Desse modo, compreende-se que a Psicologia não tenha, no campo dos saberes, um lugar definido, circulando desde o interior da cientificidade até o campo de práticas ideológicas. Sem dúvida, o momento de corte epistemológico ainda não aconteceu no âmbito do saber psicológico. No entanto, o esforço dos pioneiros do laboratório de Leipzig teve desdobramentos importantes, no século XX, no emprego tecnicista do saber psicológico que produziu uma espécie de coisificação do homem como objeto analisável, decifrável e previsível. Eis as amarras que marcam a presença da Psicologia no campo da Educação, principalmente, pelo uso de instrumentos psicométricos considerados procedimentos válidos para a decisão sobre o destino de um aprendente numa dada circunstância. Assim, tem-se a presença marcante da Psicologia nas práticas educativas, mas, sobremodo, retratando a visão de coisificação, além de, também, individualizar o processo educativo como uma ocorrência localizada apenas no aluno, que poderia encontrar-se afetado pela estrutura das relações familiares quando os problemas escolares se evidenciavam. No campo da prática educativa, esse tipo de compreensão incidiu no processo de disciplinamento do aluno para depois cair numa espécie de subjetivismo. Então, temos como conseqüência da presença da A palavra epistemologia é derivada da palavra grega epistheme, que é o conhecimento fundamentado. Pode ser contrastada com o termo, também grego, doxa, que é a mera opinião, sem compromisso com a verdade. A epistemologia é o estudo do processo de criação do conhecimento científico, considerado como verdadeiro. O termo psicometria – do grego psyché, alma, e metron, medida, medição – indica uma área da Psicologia que se dedica ao estudo das medidas psicológicas, utilizando-se, para isso, da Estatística. O psicólogo psicometrista manuseia os testes psicológicos de acordo com alguns critérios básicos que são validade, fidedignidade e padronização. Atualmente, no Brasil, os testes psicológicos passam por periódicas avaliações feitas pelo Conselho Federal de Psicologia. A U LA M Ó D U LO 1 1 Psicologia e Educação | Psicologia e Educação? Análise crítica da inserção da Psicologia no campo educacional 10 CEDERJ Psicologia na Educação duas amarras: a instauração de procedimentos disciplinares e o subjetivismo, como resultados da leitura sobre a conduta e suas causas. No tocante ao processo disciplinar, o alvo era a normatização e, para consegui-la, a Psicologia Escolar encarregava-se de apontar os alunos necessitados de ajustes para promover a esperada adequação necessária. Para realizar esse empreendimento, era utilizada a mensuração de fenômenos de cunho psicológico e em seguida era prescrita toda uma série de tratamentos clínicos especializados com o objetivo de corrigir os possíveis desvios nos aprendentes estigmatizados como portadores de distúrbios de comportamento e de aprendizagem. Assim, alimentava-seilusoriamente a possibilidade de decifrar o mundo psíquico daquele que está em posição de aprender para que, em seguida, tivesse lugar o processo de correção psicológica. No tocante ao subjetivismo, historicamente surgido após a prática disciplinar e de correção, temos a apresentação de um movimento crítico, mas só aparentemente, ao conservadorismo na Educação, visto que o papel da Psicologia continuou sendo o mesmo: decifrar o aluno. Tal idéia sustentava-se na necessidade de entender subjetivamente o aprendente para ensiná-lo em melhores condições. Assim, temos a prática pautada no pressuposto que se configurou numa máxima absoluta e suficiente que ditava as coordenadas de como o ensino deveria se processar, conforme veremos adiante. Atendem ao Objetivo 1 1. O que significa a palavra “Psicologia”? ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ 2. Qual era o objetivo da Psicologia Escolar? ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ATIVIDADES CEDERJ 11 RESPOSTAS COMENTADAS 1. Etimologicamente, a palavra Psicologia significa “discurso sobre a alma”. Corresponde a uma disciplina do campo das ciências humanas composta por um conjunto de teorias que buscam explicar, entender, predizer, modificar, relacionar as manifestações do psiquismo humano. 2. A Psicologia Escolar buscava adaptar o aprendente aos métodos utilizados no processo de aprendizagem, utilizando-se, para isso, a mensuração de fenômenos de cunho psicológico para prescrever os procedimentos necessários. Geralmente, eram tratamentos clínicos que tinham por objetivo corrigir os possíveis distúrbios de comportamento e de aprendizagem, visando à correção psicológica. AS DIMENSÕES HISTÓRICAS DO DIÁLOGO ENTRE A PSICOLOGIA E A EDUCAÇÃO Ao longo do século XX, as relações entre o saber psicológico e o campo das práticas educativas tornaram-se cada vez mais estreitas. Mas nem todos os psicólogos que pensam a prática educativa têm as mesmas opiniões. Aliás, existem discrepâncias profundas em relação à possibilidade de utilização e aplicação do conhecimento psicológico para explicar a dinâmica do ato educativo. Essas discrepâncias têm gerado diversas vertentes nas concepções que se referem ao diálogo entre a Psicologia e a Educação, assumindo posições teóricas extremas. Por um lado, existem defensores de que a relação entre ambos os campos de práticas sociais teorizadas consiste na utilização dos resultados oriundos das diversas áreas da Psicologia que explicam aspectos da constituição psíquica e da constituição do sujeito, relevantes para o processo educativo e para o ensino. Nesse caso, a interseção desses campos de saber não pode ser compreendida como um âmbito específico de conhecimento, mas sim como a Educação sendo o campo prático de aplicação da Psicologia. Por outro lado, existem aqueles que advogam que o diálogo entre esses campos não pode se restringir à situação de aplicação do saber psicológico aos fenômenos educativos. Nesse sentido, a finalidade da Psicologia, voltada para o processo de transmissão de saber e de construção do conhecimento, consiste na criação de um conhecimento A U LA M Ó D U LO 1 1 Psicologia e Educação | Psicologia e Educação? Análise crítica da inserção da Psicologia no campo educacional 12 CEDERJ específico, utilizando, para tanto, os princípios e as explicações fornecidas pela Psicologia como instrumentos de indagação e de análise. Assim, esse diálogo adquire o estatuto de uma problemática epistemológica, sendo um campo de saber crítico, estruturado numa área que compreende a dinâmica dos processos psíquicos e a internalização de limites referidos às restrições decorrentes do ato educativo. As oscilações que ocorrem no campo da Psicologia em função de suas heranças filosóficas, refletem-se, sistematicamente, no campo da Educação, principalmente se considerarmos as duas correntes estruturadas em torno da definição circunscrita no objetivo da Psicologia: a) explicações teóricas de fenômenos empíricos que se valem do modelo das ciências naturais como padrão, detendo-se no estudo dos processos sensoriais e atividade reflexa; b) discussões de natureza filosófica que se preocupavam com o estudo do psiquismo, pensado como equivalente à consciência. Obviamente, cada linha de raciocínio traçada na Psicologia repercutiu de forma diferenciada na Educação, mas na perspectiva de que o campo das práticas educativas se constitui como o espaço privilegiado de aplicação do saber psicológico. Sendo assim, a Psicologia é definida como disciplina responsável pelas explicações de questões originadas no cotidiano da sala de aula. O resultado de tal empreendimento fez com que a Psicologia fosse considerada como o discurso competente, que apenas validaria posições ideológicas na Educação, vinculadas a um “poderoso instrumento de julgamento e de discriminação” (VASCONCELOS; VALSINER, 1995, p. 11). Assim, a partir dessa forma de entendimento formou-se uma corrente de opinião que resultava num tipo de funcionamento quando questões da prática educativa se evidenciavam. Quer dizer: quanto maior fosse a dificuldade encontrada na prática pedagógica, tanto menor seria a busca, nesse mesmo campo de prática, para decifrar os significados das circunstâncias encontradas, uma vez que havia a expectativa de que a Psicologia fornecesse as soluções para os significados das situações difíceis. Nesse sentido, a pedagogia permitiu que a Psicologia invadisse a sala de aula, destituindo o professor da posição de saber e colocando-o no lugar de incapaz de buscar soluções próprias. CEDERJ 13 Sendo assim, a Psicologia, ao invés de contribuir significativamente no andamento das questões no campo da prática educativa, tornou-se um grande empecilho à evolução do conhecimento e à reflexão mais clara de seu objeto de estudo. Em certo sentido, houve uma submissão da prática educativa aos princípios psicológicos, mas sem uma reflexão crítica, o que acabou implicando o surgimento de práticas educacionais tecni- cistas com conseqüências graves para a prática pedagógica, ocasionando a desvinculação dessas práticas das necessidades educacionais. ATIVIDADES Atendem ao Objetivo 2 3. Quais limitações a Psicologia impôs à prática educativa? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ 4. Que reflexos da Filosofia sobre a Psicologia influenciam o campo da Educação? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ RESPOSTAS COMENTADAS 3. Os saberes psicológicos não digeridos, apenas reproduzidos sem análise crítica e tomados como verdades absolutas, acabaram por impedir que pais e mestres aceitassem e valorizassem o conhecimento oriundo de suas próprias experiências, cimentados às teorias. A teoria é fundamental por nos poupartrabalho de partir do zero. Contudo, deverá estar sempre aberta a modificações caso a prática demonstre o contrário ou traga novos achados. 4. Entre esses reflexos, destacam-se as explicações teóricas de fenômenos empíricos que se valem do modelo das ciências naturais como padrão, detendo-se no estudo dos processos sensoriais e atividade reflexa, e as discussões de natureza filosófica que se preocupam com o estudo do psiquismo, pensado como equivalente à consciência. A U LA M Ó D U LO 1 1 Psicologia e Educação | Psicologia e Educação? Análise crítica da inserção da Psicologia no campo educacional 14 CEDERJ OS PERÍODOS DO DIÁLOGO ENTRE A PSICOLOGIA E A EDUCAÇÃO A contribuição da Psicologia filosófica A história do relacionamento entre esses dois campos de saber confunde-se, nas suas origens, com a história do surgimento do saber psicológico a partir da criação do laboratório de Psicologia Experimental e com a evolução do pensamento sobre a prática educativa. Até o final do século XIX, não havia fronteiras nítidas, sendo que as relações entre a Psicologia e a Educação eram mediadas por premissas estabelecidas no campo da Filosofia. Assim, temos as influências do saber psicológico, de cunho filosófico, nas explicações das ocorrências no âmbito da prática educativa, como bem ilustra a teoria das faculdades mentais em suas três grandes áreas: intuição, volição e emoção. Essa teoria parte da premissa de que o conhecimento consiste na investigação da verdade por meio da compreensão dos nexos existentes entre os acontecimentos temporais. Remonta assim à teoria platônica que postulava a correspondência entre pensamento e realidade a partir do entendimento acerca da existência de um mundo divino onde se encontravam as idéias perfeitas. No modo de entendimento aristotélico, observa-se uma mudança: o conhecimento se origina nas evidências oferecidas pelos sentidos, no processo de aprendizagem que decorre das leis de associação, interferindo o papel da memória, bem como a influência da experiência sobre o ato de conhecer: a sensação, a memória e a imaginação são identificadas como funções cognitivas que representam a possibilidade de ação do homem. O modo de explicação aristotélico perdura até o século XVII, quando pensadores, como Bacon, Descartes e Locke (veja os verbetes), realizaram novos estudos sobre o conhecimento em duas vertentes: o empirismo e o racionalismo. Nas explicações de cunho empirista, postulava-se que as sensações são a fonte de conhecimento. Daí a importância dos sentidos e do papel da experiência como fonte de conhecimento. Nas explicações de cunho racionalista, desacreditavam-se os sentidos como fontes fidedignas em que apoiar o conhecimento, já que eles podem apenas fornecer uma visão confusa e provisória da verdade. Apostava-se na razão, da qual se originaria todo o conhecimento pro- veniente de princípios irrecusáveis (LALANDE, 1992). em p i r i s m o Doutrina que reconhece a experiência como única fonte válida de conhecimento, em oposição à crença racionalista, que se baseia, em grande medida, na razão. Para o empirismo, nenhuma certeza é possível, ne- nhuma verdade é absoluta, já que não existem idéias inatas e o pensamento só existe como fruto da experiência sensível. Defende o conhecimento da razão, da verdade e das idéias racionais por meio da experiência. A partir da criação da ciência moderna por Francis Bacon, o maior representante do empirismo na modernidade foi John Locke. Francis Bacon nasceu em Londres, em 22 de janeiro de 1561, e faleceu na mesma cidade em 9 de abril de 1626. Foi eminente político, filósofo e ensaísta. Como filósofo, destacou-se com uma obra em que exalta a ciência como benéfica para o homem. Em suas investigações, ocupou-se especialmente com a metodologia científica e com o empirismo. É reconhecido por muitos como o fundador da ciência moderna. Também inglês, John Locke nasceu na Inglaterra em 29 de agosto de 1632 e lá faleceu em 28 de outubro de 1704. Estudou medicina, ciências naturais e Filosofia em Oxford, debruçando-se principalmente sobre as obras de Bacon e Descartes. É considerado o representante principal do empirismo na Inglaterra. Propôs que a experiência é a fonte do conhecimento, que depois se desenvolve por esforço da razão. Figura 1.1: Francis Bacon. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/ Ficheiro:Frans_Hals_-_Portret_van_ Ren%C3%A9_Descartes.jpg CEDERJ 15 ra c i o n a l i s m o Doutrina que afirma que tudo que existe tem uma causa inteligível, mesmo que não possa ser demonstrada de fato, como a origem do Universo. Privilegia a razão em detrimento da experiência do mundo sensível como via de acesso ao conhecimento. É baseada nos princípios da busca da certeza e da demonstração, sustentados por um conhecimento a priori, ou seja, conhecimentos que não vêm da experiência e são elaborados somente pela razão. Seu representante maior na modernidade foi René Descartes. Nascido em 31 de março de 1596, em La Haye en Touraine, na França, e falecido em 11 de fevereiro de 1650, em Estocolmo, na Suécia, Descartes foi um grande filósofo, cientista e matemático. Reconhecido por muitos como “o fundador da Filosofia moderna” e “pai da matemática moderna”, é considerado um dos pensadores mais importantes e influentes da História do Pensamento Ocidental. No entender de Locke (WOLMAN, 1970), o psiquismo seria o equivalente a um mapa plano, uma espécie de folha em branco, que recebe as impressões provenientes do meio que chegam aos sentidos e que geram, com a ajuda da atividade reflexiva, todo o conhecimento. Esse princípio serviu de base para a explicação da dinâmica psíquica a partir da teoria das faculdades mentais formulada nos seguintes postulados: • A realidade pode ser reduzida a algumas estruturas primordiais que podem ser identificadas pela observação e são estas estruturas constituintes do conhecimento verdadeiro da realidade. Podem ser descritas como uma linguagem simbólica. Considerando essa visão, a tarefa do aprendente, cujo psiquismo possui a capacidade de manipular sím- bolos e de realizar operações com esses símbolos de maneira adequada, consiste em apreender essas representações simbólicas que descrevem as estruturas da realidade. • Os alunos são bem diferentes entre si na capacidade de utilizar esses símbolos, o que deve ser tomado como parâmetro para explicar os diferentes ritmos, tempos e rendimentos no processo de aprendizagem. • O projeto político-pedagógico é formado por um conjunto de representações simbólicas da realidade, organizado de maneira lógica e ordenado no sentido de facilitar a sua captação pelos aprendentes. • A teoria das faculdades mentais oferece justificativas para a utilização do método da disciplina formal, ou seja, a prática pedagógica deve exercitar tais faculdades nos aprendentes. Por esse motivo, a esco- la deve selecionar e dar prioridade aos conteúdos que contribuam para o desenvolvimento da atenção, da concentração, do raciocínio, da memória ou de quaisquer outras faculdades que se deseje sua dinâmica. A U LA M Ó D U LO 1 1 Psicologia e Educação | Psicologia e Educação? Análise crítica da inserção da Psicologia no campo educacional 16 CEDERJ Desse modo, a influência da Psicologia filosófica constata-se principalmente no pensamento de herbart, sem dúvida “o autor mais influente na teoria educativa do século XIX, para quem, a Educação é a aplicação prática da Filosofia” (SALVADOR, 1999, p. 20). Isso se for considerado que a Filosofia moral tem a responsabilidade de estabelecer os objetivos da Educação e do ensino, cabendo à Psicologia proporcionar os meios necessários para atingir esses objetivos. Nesse contexto, temos uma Psicologia constituída como método de análisereflexiva que contribuiu para a explicação da aprendizagem a partir das leis da associação propostas por Locke e das teorias das faculdades mentais. Essa explicação partia do pressuposto de que o psiquismo tem a capacidade de conservar as imagens recebidas, organizá-las com objetivo de serem utilizadas posteriormente no processo de aprendizagem, visto que as idéias e imagens formam uma massa de representações que exercem uma influência considerável nas experiências subseqüentes quanto maior for o nível de conscientização produzido. Um de seus maiores críticos foi o educador estadunidense, John deWey, para quem o aluno tinha iniciativa, originalidade e ação cooperativa, quando permitido. Dewey considerava a criança “(...) um ser vivo de funções ativas e especiais que se desenvolvem pela redireção e combinação em que entram quando se põem em contacto ativo com o seu ambiente” (DEWEY, 1959, p. 77). A defesa desta posição serviu de base para a criação do conceito de Escola Ativa (que será explicada em capítulos posteriores), contrapondo-se à idéia herbartiana de um aluno passivo no processo de aprendizagem. Para Ghiraldelli (2000), Herbart e Dewey foram responsáveis por duas das maiores revoluções no âmbito da teoria educacional: em Herbart, a emergência da mente, em Dewey, a emergência da democracia. A terceira delas, de acordo com o autor, seria a de Paulo Freire, pela emergência do oprimido. Jo h a n n F. he r b a rt Nasceu em Oldenburgo, na Alemanha, em maio de 1776, vindo a falecer em agosto de 1841. Trouxe grandes contribuições para a pedagogia, emprestando rigor e uma certa cientificidade ao seu método. Foi o precursor de uma Psicologia experimental aplicada à pedagogia, além de o primeiro a elaborar uma pedagogia que pretendia ser uma ciência da Educação. John deWey Nasceu em 20 de outubro de 1859, em Vermont, nos Estados Unidos, e faleceu em 1o de junho de 1952. Filósofo, psicólogo, crítico social, ativista político e reformador educacional, Dewey ficou conhecido como um dos fundadores da escola filosófica do pragmatismo. Para ele, a chave do desenvolvimento intelectual era a escolarização. CEDERJ 17 ATIVIDADES Atendem ao Objetivo 3 5. Para Locke, o que é o psiquismo? _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ __________________________________________________________________ ________________________________________________________________ 6. Considerando os trechos de textos a seguir, responda: a) No que consiste o início do processo de ensino-aprendizagem para cada um dos autores mencionados?; b) qual a importância da escolarização para Dewey?; c) Qual a principal crítica de John Dewey à teoria herbartiana? _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ __________________________________________________________________ ________________________________________________________________ Para Dewey, a chave do desenvolvimento intelectual, e conseqüentemente do progresso social, era a escolarização, sobretudo numa época em que as influências educacionais de outras instituições (o lar, a igreja, etc.) decresciam tão drasticamente. Dewey destacou a natureza moral e social da escola e acreditava que esta poderia servir como uma “comunidade em miniatura, uma sociedade embrionária”, particularmente uma sociedade que dinamizava ativamente o crescimento da democracia que havia sido minimizado pela sociedade urbano-industrial. (...) Assim, não só a escolarização universal era crucial na rápida transformação social, como também a “nova Educação” era vital, uma Educação que era guiada pela perspectiva de que a escola é a vida e não uma preparação para a vida. Desta forma, a melhor preparação para a democracia consistia em proporcionar oportunidades aos[às] estudantes (e também aos[às] professores[as]), por forma a engajarem-se ativamente na vida democrática (TEITELBAUM; APPLE, 2001, p. 198). O processo de ensino-aprendizagem, para Herbart, começa com a preparação, que consiste na atividade que o professor desenvolve recordando ao aluno o assunto anteriormente ensinado ou algo que o A U LA M Ó D U LO 1 1 Psicologia e Educação | Psicologia e Educação? Análise crítica da inserção da Psicologia no campo educacional 18 CEDERJ aluno já sabe. Dewey, por sua vez, não vê necessidade de tal procedimento, pois acredita que o processo de ensino-aprendizagem tem início quando, pela atividade dos estudantes, eles se defrontam com dificuldades e problemas, tendo então o interesse aguçado (GHIRALDELLI, 2000). A crítica de Dewey a Herbart recai sobre a omissão do aspecto ativo da aprendizagem da criança. Dewey discordava da forma exagerada de conceber a influência da matéria apresentada do exterior sobre a formação do espírito, já que considerava a criança “(...) um ser vivo de funções ativas e especiais que se desenvolvem pela redireção e combinação em que entram quando se põem em contacto ativo com o seu ambiente (DEWEY, 1959, p. 7, apud CARVALHO, 2002, p. 53). RESPOSTAS COMENTADAS 5. Para Locke, o psiquismo seria o equivalente a uma folha em branco, livre para receber as impressões provenientes do meio. Estas chegam aos sentidos e geram, com a ajuda da atividade reflexiva, todo o conhecimento. Esse princípio serviu de base para a explicação da dinâmica psíquica a partir da teoria das faculdades mentais e seus postulados: 6. Ao considerar os textos, as respostas serão: a) Para Herbart, o início de um o processo de ensino-aprendizagem consiste em relembrar ao aluno um assunto ou tema que ele já saiba, enquanto para Dewey tal procedimento é desnecessário pois os alunos colocarão questões e isso permitirá ao professor rever os pontos problemáticos do ensino. b) A escolarização era, para Dewey, a chave do desenvolvimento intelectual e conseqüentemente do progresso social, uma vez que a escola, em sua natureza moral e social, poderia servir como modelo da comunidade, proporcionando acesso à democracia. c) A principal crítica de John Dewey à teoria herbartiana, mesmo considerando a grande contribuição de Herbart para a compreensão dos processos psicológicos em ação em um educando e sua influência no processo de aprendizagem, recai contra a pretensão de controle absoluto dos processos mentais do aluno. Ele argumenta que Herbart não valoriza a ação do próprio aluno no processo, sua capacidade reflexiva, que acaba conduzindo a uma auto-educação. O SURGIMENTO DA CIENTIFICIDADE NA PSICOLOGIA Nas duas últimas décadas do século XIX, pela influência do advento da ciência moderna em que o mundo deixa de ser referido pelas qualidades para ser expresso em termos de quantificação, a Psicologia CEDERJ 19 centra-se na grande preocupação de se estabelecer como disciplina científica separada do âmbito das especulações filosóficas. Para tanto, seria preciso produzir um “sujeito distinto de toda forma de individualidadeempírica” (MILNER, 1996, p. 28). Assim, há uma mudança de foco na Psicologia e o surgimento de uma tendência que pretendia fundar esse campo de saber em termos de cientificidade. Para isso, recorreu-se ao método experimental das ciências naturais, acreditando ser esse o caminho de desligamento da Filosofia. Sua intenção com esse empenho era transformar-se numa disciplina científica autônoma. A partir desse movimento, surgem os trabalhos que pretendiam demonstrar a cientificidade da Psicologia a partir de investigações para mensurar as diferenças individuais desenvolvidas por James mcKeen cattell, que influenciou o uso de testes no estudo dos processos mentais (SCHULTZ; SCHULTZ, 1994, p. 184). Paralelamente, William James, considerado por muitos como o primeiro grande psicólogo estaduni- dense, ocupa-se de questões psicológicas, desenvolvendo estudos para estabelecer as bases da Psicologia funcional, idéia que foi trabalhada no campo das práticas educativas por claparède, pioneiro no entendimento e na criação de uma Psicologia da criança. Ainda nesse contexto, stanley hall, fundador do American Journal of Psychology, centrou seus estudos no campo da Psicologia educacional, defendendo a idéia de que a ontogênese é a recapitulação da Filogênese. Por isso, o desenvolvimento infantil deve ser considerado em termos das necessidades da criança como um ponto de partida para a Educação. on t o g ê n e s e e F i l o g ê n e s e A ontogênese descreve a origem e o desenvolvimento de um indivíduo, indo da fecundação até a assunção de sua forma definitiva na idade adulta. Já a filogênese trata da origem e do desenvolvimento de uma espécie. Durante muito tempo acreditou-se que a ontogênese repetia a filogênese, isto é, cada indivíduo repete na história de seu desenvolvimento particular toda a história do desenvolvimento de sua espécie, postulado do biólogo alemão Haeckel. Esta teoria perdeu sua força a partir das teorias da evolução de Charles Darwin e da genética de Gregor Mendel. James mcKeen cattell Nasceu em Easton, na Pensilvânia, nos Estados Unidos, em 25 de maio de 1860, e faleceu em Lancaster, no mesmo estado, em 20 de janeiro de 1944. Sob a influência de Galton, estudou as diferenças individuais e cunhou o termo “testes mentais”. Foi um dos mais ferrenhos defensores da Psicologia como ciência, tendo fundado e dirigido por mais de meio século uma das mais importantes revistas científicas da área, a Science. Fonte: http://www.ubishops.ca/ccc/div/soc/psy/verpaelst/ WEB%20PAGE%20FOLDER/Pictures/JamesMcKeenCattell.jpg A U LA M Ó D U LO 1 1 Psicologia e Educação | Psicologia e Educação? Análise crítica da inserção da Psicologia no campo educacional 20 CEDERJ Em certo sentido, nesse período, a teoria da prática educativa encontrava-se praticamente fundamentada na tese de que o desenvol- vimento deve ser o ponto de partida. Com isso, a Psicologia afastou-se do pensamento filosófico, num movimento em defesa de cientificidade que foi bem reforçado nas primeiras décadas do século XX, pela implantação da escolarização generalizada e obrigatória. Com a separação da Filosofia, todos os olhares dirigem-se à Psicologia, campo de saber onde são depositadas as maiores expectativas para a elaboração de uma teoria sobre a prática educativa de fundamento científico que permite melhorar o ensino e intervir nos problemas que surgem no processo de construção do conhecimento e de transmissão do saber. Eis o surgimento da área de estudos, denominada de Psicologia da Educação, que requisitará especialistas na área. édouard claparède Médico e psicólogo suíço interessado no desenvolvimento infantil, nasceu em Genebra em 24 de março de 1873, e morreu na mesma cidade, em 29 de setembro de 1940. Defendia uma abordagem funcionalista da Psicologia e teve em Jean Piaget um dos seus mais conhecidos discípulos. Propunha que a Educação gravitasse em torno do aluno e não do professor, que o ensino se baseasse acima de tudo no conhecimento das crianças. granville stanley hall Psicólogo e professor, nasceu em Massachussets, nos Estados Unidos, em 1o de fevereiro de 1844 e faleceu em 24 de abril de 1924, no mesmo estado. Estudou na Alemanha com Wundt. Fundou, em 1887, o American Journal of Psychology, a primeira revista psicológica publicada nos Estados Unidos. Em 1910, convidou Sigmund Freud e Carl Jung para as famosas palestras na comemoração de fundação da Clark University. Fonte: http://www.muskingum.edu/~psych/psycweb/ history/hall.htm William James Filósofo e psicólogo norte-americano, nasceu em Nova Iorque, em 11 de janeiro de 1842, e faleceu em Nova Hampshire, em 26 de agosto de 1910. Fundamentou os aspectos pragmáticos do behaviorismo e foi precursor da Psicologia funcional. De interesses múltiplos, James chegou a fazer uma expedição ao Brasil em 1865, em viagem pelo rio Amazonas, em assistência a um zoólogo. Fonte: http://www.des.emory.edu/mfp/follow.html Figura 1.2: Stanley Hall entre Freud e Jung em 1910. CEDERJ 21 A partir daí, configurou-se na Psicologia científica uma área de interesse e questionamento acerca da prática educativa, apoiada em pesquisas sobre aprendizagem, avaliação do comportamento, instrumentos de mensuração psicológica e problemáticas no campo da Educação. Acreditava-se estar diante de um campo profícuo para a Educação, surgindo, como já apontamos, a necessidade de um especialista que fizesse a mediação entre a ciência proposta pela Psicologia e a arte do ensinar, o que fez com que a sala de aula fosse considerada como o espaço de estudo dos problemas escolares com a ajuda do método experimental. Não obstante, o empreendimento da Psicologia da Educação tinha como suporte o referencial da Psicologia sobre o funcionamento psíquico para utilizar e aplicar na Educação os conhecimentos relevantes, oriundos das pesquisas desenvolvidas sobre as diferenças individuais, a análise dos processos de aprendizagem e o desenvolvimento, no solo de uma cientificidade recém-nascida na Psicologia. Nesse modo de pensar, encontramos os trabalhos de alFred binet, pedagogo e psicólogo francês, acerca da mensuração de traços psicológicos sem a necessidade da utilização de correlações com os fenômenos psíquicos, conforme se fazia no laboratório de Leipzig, nos estudos de tempo de reação. De seus estudos, resultou uma escala de inteligência que foi utilizada por quase um século. Este foi o ponto de partida para os estudos sobre a Educação especial, no sentido de que o instrumento recém-criado permitia distinguir, com o menor erro possível, os atrasos escolares atribuídos a um déficit intelectual que seria provocado por fatores ambientais ou por uma escolarização prévia deficiente. Esse instrumento de avaliação das capacidades cognitivas concebe o desenvolvimento intelectual como o resultado da aquisição progressiva de mecanismos intelectuais básicos. Certamente, a criança com atraso não adquire os mecanismos adequados à sua idade cronológica. Sendo assim, na comparação da idade mental com a idade cronológica, a escala quantifica os anos de avanço ou de atraso no desenvolvimento intelectual. Eis o passo para o aparecimento do conceito de quo- ciente intelectual como o resultado da razão entre idade mental e idade cronológica, proporcionando uma medida única de inteligência. A partir daí, seguiram-se os trabalhos dedicados à construção de instrumentos de medida objetiva dos traços de personalidade e de rendimento escolar. alFred binet Psicólogo francês, autodidata, foi o primeiro a desenvolver um teste psicológico de capacidade mental, que deu origem aos perfis de idade mental. Nasceu em 8 de julho de 1857, em Nice, e faleceu em 28 de outubro de 1911. Fonte: http//:www. http://allpsych.com/ biographies/binet.html A U LAM Ó D U LO 1 1 Psicologia e Educação | Psicologia e Educação? Análise crítica da inserção da Psicologia no campo educacional 22 CEDERJ A partir dessas investigações em laboratórios, surge o conceito de aprendizagem, baseado na seqüência de leis de associação. Esta é a primeira tentativa realizada por thorndiKe, pioneiro no estudo da aprendizagem, em aproximar a Psicologia da Educação da lei do efeito, segundo a qual as condutas posteriores satisfazem o impulso, positivo ou negativo, de evitar um perigo. Ao contrário, as condutas que impedem a satisfação de uma necessidade ou que intimidam o organismo não são aprendidas. São essas considerações teóricas que fundamentam a Psicologia condutista ou comportamentalista de Watson a sKinner. edWard lee thorndiKe Nasceu em 31 de agosto de 1874 e faleceu em 9 de agosto de 1949. Forneceu as bases para o behaviorismo de Skinner, sendo um dos pesquisadores mais importantes no campo da Psicologia animal, estabeleceu os modos como os organismos estabelecem associações entre as diversas situações e as respostas possíveis. Fonte: http: //ww.muskingum.edu/ ~psych/psycweb/history/ thorndike.htm burrhus Frederic sKinner Psicólogo norte-americano, nasceu na Pensilvânia, em 20 de março de 1904, e faleceu em Cambridge, em 18 de agosto de 1990. Conduziu trabalhos pioneiros em Psicologia experimental e foi o criador da escola de Psicologia conhecida como behaviorismo (de behavior, comportamento) ou comportamentalismo, que propõe que o comportamento seja explicado por reações observáveis e não pelo que se opera no interior do organismo, considerado uma espécie de “caixa-preta”, não passível de mensuração e observação, estando, portanto, fora do campo de uma ciência positiva. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:B.F._ Skinner_at_Harvard_circa_1950.jpg Mas a importância da Psicologia da criança como um núcleo da Psicologia da Educação deve-se à aceitação pelos educadores do postulado que considera ser indispensável conhecer melhor o aluno em termos de suas características individuais e de seu processo de desenvolvimento para melhor educá-lo. Em outras palavras, o sucesso do processo de aprendizagem estaria na dependência de um conhecimento prévio. Eis o espírito com que Claparède, já abordado anteriormente, defende tal postulado numa concepção funcional na Psicologia, tentando compreender os fenômenos psíquicos do ponto de vista de sua função vital e do lugar que ocupam no conjunto da conduta em um dado momento. Assim, tem-se a justificativa para “propostas pedagógicas do movimento reformador em Educação, conhecido como Escola Nova” (SALVADOR, 1999, p. 26). CEDERJ 23 Essa proposta inovadora centrava-se na idéia de que a base do processo educativo não deveria ser a recompensa ou o castigo, mas o interesse profundo do aprendente pela matéria ou pelo conteúdo da aprendizagem, ou seja, a criança deveria sentir que o trabalho na escola é desejável e assim a Educação teria como propósito desenvolver as funções intelectuais e morais, abandonando os objetivos voltados para a memorização, sem qualquer relação direta com o mundo em que vive a criança. Isso quer dizer que a escola torna-se ativa, assumindo a obrigação de mobilizar as atividades do aprendente e a tarefa principal do ensinante consiste em estimular os interesses da criança e assim desvendar as suas inquietações intelectuais, afetivas e morais. Mas para realizar tal empreitada, a Educação deveria ser personalizada, focalizando as dificuldades e interesses dos aprendentes. ATIVIDADES Atendem aos Objetivos 2 e 3 7. Entre os autores abordados, qual deles apóia o conceito de aprendizagem, baseado na seqüência de leis de associação? _________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ ________________________________________________________________ 8. Que fatores fazem surgir a necessidade de um profissional que se interesse pelo campo da Educação? _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ _________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ ________________________________________________________________ RESPOSTAS COMENTADAS 7. Thorndike, a partir de investigações em laboratório, aproxima o conceito de aprendizagem, baseado na seqüência de leis de associação. A U LA M Ó D U LO 1 1 Psicologia e Educação | Psicologia e Educação? Análise crítica da inserção da Psicologia no campo educacional 24 CEDERJ Esta é a primeira tentativa realizada para aproximar a Psicologia da Educação da lei do efeito, segundo a qual as condutas posteriores satisfazem o impulso, positivo ou negativo, de evitar um perigo. 8. A partir da instalação da Psicologia científica, isto é, do desenvolvimento de pesquisas sobre aprendizagem, avaliação do comportamento, instrumentos de mensuração psicológica e problemáticas no campo da Educação. Daí surgiu a necessidade de um especialista que fizesse a mediação entre a ciência da Psicologia e a arte do ensinar, o que fez com que a sala de aula fosse considerada como o espaço de estudo dos problemas escolares com a ajuda do método experimental. A PSICOLOGIA COMO TEORIA NUCLEAR DA PRÁTICA EDUCATIVA No âmbito da prática educativa, as contribuições da Psicologia permitiram que a pedagogia tivesse um status científico, visto que as pesquisas, nesse campo, adotaram a metodologia própria da Psicologia experimental. A área de maior ênfase dos psicólogos da Educação foi certamente a construção e aperfeiçoamento de instrumentos de mensuração psicológica. Na série das revisões da escala de inteligência de Binet, chegou-se com spearman à hipótese de um fator geral, Fator “g”, interpretado como a evidência de inteligência geral. Não obstante, na área de análise dos processos de aprendizagem e nos estudos do desenvolvimento infantil, o progresso é considerável. charles edWard spearman Psicólogo inglês, nasceu em 10 de setembro de 1863 e faleceu em 7 de setembro de 1945. Estudou a natureza das habilidades humanas e criou, baseado em medidas estatísticas, um fator de medição da inteligência, o fator “g”, dando origem à psicometria. Fonte: http://www. york.ac.uk/depts/ maths/histstat/people/ spearman.gif Fator “g” Correspondente à medida de inteligência geral, habilidade fluida de uma variável latente, que determina a variabilidade do quociente intelectual ou QI. A teoria sustenta que crianças com altos níveis de “g” assimilam com mais facilidade conteúdos em sala de aula, sendo mais propensas ao sucesso pessoal e profissional. Dentro de certa sofisticação de estudos, surgiu a polêmica entre aqueles teóricos que estudavam a aprendizagem em laboratório e que propunham a transposição para a sala de aula dos resultados encontrados na situação experimental e aqueles que a estudavam em situações de sala de aula. Estes defendiam a idéia de que somente os resultados obtidos diretamente a partir do estudo dos processos de aprendizagem em situações reais de sala de aula poderiam ser generalizados. CEDERJ 25 No que concerne à Psicologia do desenvolvimento infantil, o terceiro núcleo básico queconfigurou a Psicologia da Educação também passou por um notável crescimento. Assim, conformaram-se três linhas de trabalhos em Psicologia que conheceram significativas transformações: a) o conceito de medida psicológica foi sendo substituído pelo con- ceito de avaliação para se referir ao processo educativo e ao rendimento escolar. Isso representou o surgimento de um importante capítulo na Psicologia da Educação; b) houve também uma aproximação entre a Psicologia da Educação e a Psicologia Social, visto que a primeira, orientada para o estudo das diferenças individuais, do desenvolvimento infantil e dos processos de aprendizagem, pode enriquecer-se claramente com os estudos da segunda sobre o funcionamento dos grupos e suas interferências no comportamento individual. Eis o que se observa nos trabalhos de Kurt leWin sobre o clima social e suas repercussões na aprendizagem. O grande destaque de suas contribuições recaiu sobre o trabalho dos grupos com os exercícios de dinâmica de grupo para a promoção da aprendizagem, sobretudo seus estudos sobre liderança. Assim, temos o ponto de partida de uma linha de pesquisa referente aos estilos de ensino do professor e da interação educativa e; c) os novos desenvolvimentos conceituais, no campo da Psicologia sobre o comportamento, são bem recebidos no campo da prática pedagógica. Como se sabe, o behaviorismo (veja verbete sobre Skinner) exerceu um grande domínio na Psicologia da Educação especialmente pelas contribuições dos teóricos, como Hull e Tolman. Por outro lado, Paul Guillaume englobou os trabalhos de Lewin para elaborar um conjunto de materiais pedagógicos e de propostas didáticas, e a Psicanálise trouxe novas temáticas para o campo da Educação, destacando a importância da constituição do sujeito pelo complexo de Édipo (conceito que veremos nas aulas subseqüentes, sobretudo as de números 6 e 10) e dos processos inconscientes na gênese das relações objetais. Além disso, há todo um questionamento da relação professor-aluno. Na metade do século XX, o panorama da Psicologia da Educação era, além de extremamente complexo, bastante confuso: por um lado, em função de protagonizar a tarefa de elaborar uma teoria educativa e de Kurt leWin Psicólogo alemão, nasceu em 9 de setembro de 1890 e faleceu nos Estados Unidos em 12 de fevereiro de 1947. Doutorou-se em Psicologia em 1914 pela Universidade de Berlim, tendo sido grande estudioso da Psicologia dos grupos, dedicando seus estudos à área da motivação humana. Fonte: http: //3.bp.blogspot.com/ _T15eRP98f9s/ R7H7FzgwU-I/ AAAAAAAAD2U/ MLPFJG0etEI/s1600/ Kurt_Lewin.jpg A U LA M Ó D U LO 1 1 Psicologia e Educação | Psicologia e Educação? Análise crítica da inserção da Psicologia no campo educacional 26 CEDERJ ATIVIDADES fundamentar uma prática de ensino que responda aos critérios científicos, viu-se obrigada a ampliar os seus conteúdos e o seu foco de atenção para além das três áreas mencionadas (o behaviorismo, a Psicologia Social e a Psicanálise). Por outro lado, seus limites perfilaram-se como uma conseqüência dessa ampliação dos conteúdos e das temáticas estudadas. Com isso, torna-se cada vez mais difícil precisar em que consiste a sua especificidade em relação às outras áreas da Psicologia e das ciências da Educação. Nesse movimento, a Psicologia da Educação configurou-se como um espaço de trabalho e de atuação científica que alimentava as contribuições provenientes de todas as áreas da Psicologia com a finalidade de contribuir tanto para a criação de uma teoria educativa de base científica como para a qualificação do ensino. Quer dizer, tratava-se da intenção de aplicação do conhecimento psicológico para melhor compreensão, explicação, planejamento e desenvolvimento dos proces- sos educativos. Não obstante, temos assim uma empreitada que não resiste a um tratamento epistemológico crítico. Atendem aos Objetivos 2 e 3 9. Qual foi a área de maior interesse dos psicólogos da Educação? ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ _______________________________________________________________ 10. Qual a contribuição da Psicologia social para a Educação? ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ _______________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ _______________________________________________________________ CEDERJ 27 RESPOSTAS COMENTADAS 9. A área de maior ênfase dos psicólogos da Educação foi certamente a construção e o aperfeiçoamento de instrumentos de mensuração psicológica, sobretudo após a descoberta do fator de inteligência geral por Spearman. Isto desencadeou uma espécie de febre na criação de instrumentos de medida de inteligência, como também de métodos que pudessem desenvolvê-la. 10. A Psicologia social enriqueceu o campo da Psicologia da Educação ao estabelecer as influências dos grupos sobre o comportamento individual, tanto no que diz respeito à construção das diferenças individuais a partir da intervenção do grupo familiar, por exemplo, como da importância da relação professor-aluno no processo de aprendizagem. Aqui o grande nome é o de Kurt Lewin e seus trabalhos sobre o clima social e suas repercussões na aprendizagem. A teoria sobre a dinâmica dos grupos, utilizada em sala de aula, promove maior interação entre seus membros e permite que deles se destaque cada um com suas características, possibilitando a identificação de lideranças. MULTIDISCIPLINARIDADE E INTERDISCIPLINARIDADE NA APROXIMAÇÃO ENTRE A PSICOLOGIA E A EDUCAÇÃO A partir da década de 1950, uma série de ocorrências modificou substancialmente o panorama da relação entre Psicologia e Educação que foram determinantes do futuro do diálogo entre o saber psicológico e a prática educativa: a) a conscientização crescente das dificuldades de integração dos resultados das pesquisas que fomentam a Psicologia da Educação. Eis o reflexo do surgimento das teorias explicativas da aprendizagem já elaboradas em termo do questionamento da validade para explicar o processo educativo; b) o surgimento de uma série de disciplinas que têm como finalidade estudar os fenômenos educativos da mesma forma que se propunha à Psicologia da Educação, como a Educação Comparada, a Sociologia da Educação, a Tecnologia Educativa e o Planejamento Educativo. O aparecimento dessas disciplinas significou o grande questionamento ao papel de protagonista, exercido pela Psicologia, na medida em que são evidenciadas as insuficiências e as limitações da análise psicológica para se chegar a uma compreensão dos processos educativos; A U LA M Ó D U LO 1 1 Psicologia e Educação | Psicologia e Educação? Análise crítica da inserção da Psicologia no campo educacional 28 CEDERJ c) os acontecimentos políticos, econômicos e sociais que alteraram as coordenadas da Educação escolar, como a exacerbada prosperidade econômica, a guerra fria entre os Estados Unidos e os países do bloco capitalista contra a União Soviética e os países do bloco socialista, o impacto da doutrina igualitária em Educação, a crença de que a Educação é um instrumento eficaz de mudançae de progresso social e, enfim, a ativação de políticas orientadas para a escolarização de toda a população infantil. No auge do movimento cognitivista, a aprendizagem começa a ser examinada como o produto de uma série de mudanças nos estados de conhecimento do sujeito que aprende. Isso se deveu ao estudo das estruturas de conhecimento mediante o uso de linguagens inspiradas na teoria da inteligência artificial, no chamado processamento humano de informações que explica a aprendizagem como um processo de aquisição, de reestruturação e de mudança das estruturas cognitivas. ATIVIDADES Atendem aos Objetivos 2 e 3 Pode-se afirmar que a operação dos programas de computador – essencialmente conjuntos de instruções para trabalhar com símbolos – é semelhante à da mente humana. Tanto o computador como a mente recebem e digerem grande quantidade de informações (estímulos) do meio ambiente. Eles processam essa informação, manipulando-a, armazenando-a, recuperando-a e realizando, a partir dela, várias operações. Logo, a programação dos computadores é o padrão da concepção cognitiva da capacidade humana de processar informações, raciocinar e resolver problemas. É o programa, e não o próprio computador (o software, e não o hardware), que serve de explicação às operações mentais. Os psicólogos cognitivos não têm interesse em eventuais correlatos fisiológicos dos processos mentais, mas na seqüência de manipulação de símbolos que subjaz ao pensamento. Seu objetivo é descobrir a “biblioteca de programas que o ser humano tem armazenado na memória – programas que permitem que a pessoa compreenda e produza sentenças, decore certas experiências e regras e resolva novos problemas” (HOWARD, 1983, p. 11, apud SCHULTZ; SCHULTZ, 1994, p. 409). A partir do texto anterior e do que foi colocado em nossa aula, responda: 11. Qual o modelo utilizado pela Psicologia Cognitiva na formulação de suas teorias? ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ CEDERJ 29 _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ 12. Que crítica poderia ser feita a este modelo? _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ _______________________________________________________________ RESPOSTAS COMENTADAS 11. O modelo foi o computacional. Parte-se do princípio de que o pro- cesso de aquisição do conhecimento se processe da mesma forma que a introdução de informações nos computadores, em seus softwares. A concepção da mente humana, baseada no processamento da informação, é o fundamento da Psicologia Cognitiva. 12. A crítica mais radical que os estudos dos psicólogos da cognição sofrem diz respeito ao desprezo às questões afetivas e criadoras da inteligência humana. Máquinas não sofrem a intervenção de lembranças, de afetos e dificilmente permitem o brotar de uma solução jamais pensada anteriormente. Embora possa haver semelhanças entre o processamento de informações nos computadores e o que ocorre no homem – e certamente elas existem tendo em vista que o computador é uma criação do próprio homem –, essas semelhanças não são suficientes para transferir da máquina para o ser humano sua forma de adquirir conhecimento. Há vários fatores que interferem tanto na promoção (desejo, incentivo, vaidade etc.) como no impedimento (traumas maiores ou menores, sobretudo) da aquisição de conhecimentos. A U LA M Ó D U LO 1 1 Psicologia e Educação | Psicologia e Educação? Análise crítica da inserção da Psicologia no campo educacional 30 CEDERJ CONCLUINDO POR AGORA Para concluir, no sentido de esclarecer algumas questões obscuras no encontro da Psicologia com a Educação, faz-se necessário postular que: a) a idéia de Psicologia definida como ciência do indivíduo marcou presença no campo da prática educativa, mas esta visão reducionista pouco serviço prestou à Educação, uma vez que, nesse campo, são válidas as práticas socialmente constituídas. Enfim, o caráter institucional permite alguns tipos de relações que não são possíveis na compreensão de uma Psicologia assentada no individual apenas; b) por outro lado, a Psicologia não pode responder a todas as demandas formuladas no campo da Educação, ou seja, a compreensão da forma de atuação do sujeito, amparada em suas características psicológicas, não é fonte para previsão e determinação de seu comportamento futuro e; c) o conceito de impossibilidade estrutural entre o acoplamento desses campos reforça a especificidade da escola em seu aspecto de formação do homem, visto que o diálogo possível entre professor e aluno, estabelecido na relação pedagógica e ancorado na atividade de ensinar e no processo de aprender, é o caminho para que o aprendente encontre-se na vida escolar. A impossibilidade de garantia de um ensino bem-sucedido, redundando numa eficaz aprendizagem do aluno, consiste no caráter impossível da própria tarefa de educar, como bem ressalta Freud (ver Aula 9) ao afirmar que: Quase parece como se a análise fosse a terceira daquelas profissões "impossíveis" quanto às quais de antemão se pode estar seguro de chegar a resultados insatisfatórios. As outras duas, conhecidas há muito mais tempo, são a Educação e o governo (FREUD, 1976, p. 282). Mas isso não quer dizer que o ensinar seja em si mesmo impossível. Pelo contrário, há um impossível na tarefa de ensinar, ou seja, o processo de aprendizagem humano não pode ser previsto no que se refere ao sucesso e ao destino que o aprendente dará ao saber que será produzido. O processo de aprender, possuidor de um lado avesso ao controle e à direção, indica que há algo que escapa àquele que aprende. Trata-se de um processo cujos efeitos se tornam acessíveis a posteriori. Assim, é preciso que a experiência vivida pelo aluno seja integrada em seu sistema CEDERJ 31 e ganhe significação. Com isto, afirmamos ser impossível decifrar aquele que está na posição de aprender, bem como explicar a dinâmica de seu funcionamento psíquico para que uma dada aprendizagem tenha êxito. Isso tem efeitos diretos na escolarização: em primeiro lugar, deve ser questionada a hegemonia da Psicologia na Educação. Também devem ser questionadas questões sobre metodologia de ensino, sobre o papel do professor, sobre o papel do ensino e, enfim, o caráter da aprendizagem. Em suma, não há garantias de sucesso na atividade de ensinar e no processo de aprender. Mas é preciso reconhecer que o aluno precisa ser ajudado pelo professor no trajeto que realiza na escola. Por isso, as atividades de ensinar são planejadas, visando atender às dificuldades inerentes a esse processo. Finalizando, diremos que o encontro de diferentes subjetividades propicia uma interação dialógica que supera a assimetria que originou o encontro. Esta superação implica a razão e a existência do encontro. No caso do ensino, trata-se de o aprendente tomar posse de um saber que o diferencia de seu ensinante. Eis o momento em que aquele que pretende ensinar se torna desnecessário, marcando o término de uma relação que continua em outros horizontes, mas que possibilitou a ambos retirarem daí benefícios inegáveis. A U LAM Ó D U LO 1 1 Psicologia e Educação | Psicologia e Educação? Análise crítica da inserção da Psicologia no campo educacional 32 CEDERJ ATIVIDADES FINAIS Atendem aos Objetivos 1, 2 e 3 1. A seu modo de ver, o que ocorre quando há uma nova descoberta científica que abala o conhecimento anterior? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 2. Quais conseqüências podemos extrair da criação da ciência moderna sobre a Psicologia? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3. Quais as contribuições principais da Psicologia para a Educação? ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ RESPOSTAS COMENTADAS 1. Ocorre um corte epistemológico. Isso indica que houve uma ruptura em relação ao que se conhecia antes. Esta transformação fundamental desvincula um saber de seu passado e marca a produção de um novo objeto de estudo que não pode ser ignorado pelo campo científico. 2. Destaco uma positiva e outra negativa. Tomando as ciências da natureza como modelo, verificou-se a introdução, no campo das ciências humanas ou ciências do sujeito, do rigor na construção dos conceitos. Isto foi decisivo para a edificação de teorias. Por outro lado, esta mesma modificação foi negativa, na medida em que se tentou eliminar a dimensão subjetiva no âmago das ocorrências da vida, segundo os preceitos da época: observar, mensurar, comprovar e repetir, aderindo desse modo ao método das ciências exatas que se fundamentava no processo de quantificação e matematização dos fenômenos naturais. 3. Sua resposta poderá destacar, desde a criação de instrumentos de medida até a formulação de teorias sobre o processo de aprendizagem, as questões relativas à influência dos grupos sobre os sujeitos, até explicações sobre o lugar da aquisição do conhecimento para a subjetividade, como o entendimento acerca do desenvolvimento afetivo, cognitivo, moral. São inúmeras as contribuições da Psicologia para o campo da Educação. CEDERJ 33 INFORMAÇÕES SOBRE AS PRÓXIMAS AULAS Na próxima aula, desenvolveremos uma discussão sobre a concepção inatista do homem, subjacente às abordagens do desenvolvimento humano. Nas aulas posteriores, abordaremos as concepções ambientalista e sócio-histórica. Nas aulas subseqüentes, buscaremos dar um panorama das diversas etapas do desenvolvimento humano, da primeira infância à adolescência. LEITURA RECOMENDADA SCHULTZ, Duane P.; SCHULTZ, Sydney E. História da Psicologia moderna. 8. ed. rev. e ampl. São Paulo: Thomson, 2005. R E S U M O A partir das definições de Psicologia e de Educação, por meio da ênfase às dimen- sões históricas do diálogo entre as duas áreas, destaca-se a influência de variadas contribuições teóricas da Psicologia na prática educativa. Cada uma dessas influências parte de uma visão do homem, que reflete a direção empreendida na compreensão do sujeito e nos processos referentes à aprendizagem. Do ponto de vista das disciplinas às quais um educador pode recorrer em busca de auxílio em sua tarefa, a Psicologia tem lugar de destaque para o exercício da prática educativa. Desde os antigos gregos, passando pelo sonho cientificista e chegando às práticas do século XX ao novo século XXI, o que vemos é um panorama extremamente complexo e, até mesmo, bastante confuso. Contudo, as contribuições do campo da Psicologia trouxeram inúmeras conquistas para a compreensão dos fenômenos psicológicos. Além disso, a multidisciplina- ridade e a interdisciplinaridade entre a Psicologia e a Educação redundaram, sobretudo, no benéfico par que compõe o esquema mínimo do processo educativo: o sujeito e o outro. A U LA M Ó D U LO 1 1 Meta da aula Apresentar a importância das diversas concepções de homem, segundo modelos que foram influenciados pelas descobertas em vários campos do saber, assim como sua repercussão nos estudos psicológicos. Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: 1. conceituar inatismo e identificar suas inter-relações com teorias filosóficas; 2. identificar as inter-relações do inatismo com a psicologia e com as descobertas científicas em outras áreas do saber, permitindo identificar como a concepção de homem alterou-se ao longo de sua história; 3. analisar a importância de contextualizar o conhecimento sobre o homem. 2AULAAs concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo Marise Bezerra Jurberg ob jet ivo s Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo 36 CEDERJ Espero que você continue animado com as aulas desta disciplina. Se você prestar atenção à palavra “animado”, vai constatar que ela provém de anima, que significa “alma“, em latim. Daí que expressões como “Eu te amo com toda a minha alma”, ou “A atriz interpretou o papel com toda a sua alma” significam que estamos expressando que algo é superior, melhor que o habitual. Como esse conceito de alma encontra-se agora em sua mente? Pegue uma folha de seu caderno e tente descrevê-lo agora. Guarde-o para mais tarde, quando terminar a leitura, para fazer comparações sobre isso. O conceito de alma é muito importante nas diversas concepções do ser humano ao longo da nossa história. Figura 2.1: Como o conceito de alma encontra-se agora em sua mente? Fonte: http://www.sxc.hu/photo/993150 Após a leitura da primeira aula, você deve ter percebido que os conceitos de fenômenos que, posteriormente, seriam objeto de estudo da Psicologia – que só se firma como ciência no século XIX – começaram como preocupações de pensadores, e de filósofos. A herança filosófica da Psicologia remonta ao estudo do psiquismo como equivalente à consciência, mas esse conceito é posterior a esse período. Antes se discutiam as relações entre a alma, ou espírito, e o INTRODUÇÃO A si f A kb ar CEDERJ 37 corpo. Hoje não temos dúvidas de que somos constituídos de corpo e mente. Somos indivíduos (e, portanto, indivisíveis) únicos. Além disso, estamos inseri- dos nas dimensões espaço e tempo. Tais dimensões nos incitam a realizar uma incursão na História, na cultura e nos diversos grupos sociais, para entender como a humanidade tem apresentado ideias e valores que nortearam diferen- tes concepções sobre o homem. Ora elas priorizavam dispositivos inatos, ora destacavam fatores do ambiente: inatismo e ambientalismo. Desde a Antiguidade, diversos filósofos preocuparam-se com a natureza do conhecimento. Através da visão de diversos estudiosos sobre como conhece- mos o mundo, poderemos inferir as diferentes concepções acerca do homem, através de recortes da história da humanidade. Gadotti (2008), ao tratar da história das ideias pedagógicas, inclui o pensamento oriental, mas aqui nos deteremos nos pensamentos referentes ao Ocidente, já que foram os que mais influenciaram nossa cultura. O INATISMO NOS FILÓSOFOS DA ANTIGUIDADE O inatismo (em latim in natu, ou “nascer com”), em termos gerais, constitui um sistema filosófico que defende que as ideias são inatas, existindo em estado latente, de forma que conhecer é acioná-las ou recordá-las. Teve origem com Platão (429-347 a.C.), para quem as ideias estão na própria alma do homem, uma vez que não podem ser encontradas na natureza. Sócrates (469-399 a.C.), como educador, tinha a preocupação de despertar e estimular o impulso para o autoconhecimento,assim como a busca pessoal e a busca pela verdade. Discutindo essas ideias, Platão e seu discípulo Aristóteles estudaram a forma pela qual apreendemos as experiências por que passamos. Porém, assumiram posições divergentes da de Sócrates quanto à natureza da realidade e quanto ao método de observação a ser utilizado. Para Platão, possuímos ideias inatas, e a realidade só pode ser compreendida pelas ideias abstratas eternas de objetos, que já existem em nossas mentes. O método do platonismo é a dialética, que opera para encontrar as ideias de justiça, bondade etc. É ela que nos leva às ideias. A teoria das ideias é o ponto culminante da filosofia platônica. Ideias essas que formam uma hierarquia em cujo cimo estão as três mais importantes: a ideia do próprio Deus, a ideia do Bem e a ideia superior. di a l é t i c a Segundo o Dicio- nário Houaiss, é a modalidade de classificação em que cada uma das divi- sões e subdivisões contém apenas dois termos; na dialética platônica, repartição de um conceito em dois outros, geral- mente contrários e complementares. A U LA 2 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo 38 CEDERJ Já para Aristóteles, a realidade situa-se no mundo concreto dos objetos que nossos sentidos percebem. Em sua concepção educacional, aponta três fatores como essenciais que determinam o desenvolvimento espiritual do ser humano: disposição inata, hábito e ensino. Ambos dife- Ambos dife- rem também em relação ao método de observação da realidade: para o platonismo, só podemos obter o conhecimento pelo uso da mente e da reflexão sobre o mundo das ideias; na visão aristotélica, o conhecimento só pode ser obtido por meio da experiência e da observação. Defendem, portanto, posições inatistas e ambientalistas, que seriam, mais tarde, classificadas como racionalistas e empiristas, respectivamente. Figura 2.2: À esquerda, Platão, filósofo grego, discípulo de Sócrates. À direita, seu discípulo Aristóteles. Detalhe da Escola de Atenas, por Rafael Sanzio (1510). Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sanzio_01_Plato_ Aristotle.jpg Se pensarmos na visão platônica relacionada à Psicologia, ensina ele que o ser humano é formado de alma e corpo e que a alma é formada por três elementos: CEDERJ 39 • a parte racional, com sede no cérebro; ela é livre, espiritual e imortal; • a irascível, residindo no peito; • a apetitiva, localizada nas entranhas. Na sociedade, a organização do Estado deve assemelhar-se à alma humana, dividida em três classes: • a parte racional seria formada pelos filósofos e pelos que com- poriam os encargos públicos; • a irascível, formada pela classe dos guerreiros, para a defesa social; • a apetitiva, por operários e lavradores, responsáveis pela sub- sistência. Mais tarde ele reconheceu a impraticabilidade de sua teoria política entre indivíduos que são seres humanos, e não divinos. Em relação à visão aristotélica, verificamos que sua posição não é idealista, mas realista, uma vez que seu objeto de estudos é o mundo animado, ou seja, aquilo que tem vida, que se diferencia essencialmente do mundo inorgânico. O princípio da atividade, portanto, é a alma. Tais estudos podem ser classificados, como o fazem muitos autores, como característicos de uma fase denominada Psicologia Filosófica. Esta perdurou até o século XVII, a partir do qual a visão aristotélica de ciência continuaria a fomentar discussões que se centralizam ainda em duas possíveis vertentes: o conhecimento teria como fonte as sen- sações – e, portanto, o papel da experiência é mais importante – ou estas não conseguem nos fornecer uma visão fidedigna da realidade, a não ser que usemos a razão. O INATISMO NAS ÉPOCAS MEDIEVAL E MODERNA Podemos considerar a Idade Média como um período de grande desenvolvimento cultural nas universidades e o período eminente do catolicismo. A U LA 2 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo 40 CEDERJ Figura 2.3: Monge medieval preparando manuscritos. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Escribano.jpg Além do ensino nas primeiras universidades criadas, o ensino filosófico era seguido em escolas ligadas à teologia (escolástica) e per- durou até o final do século XVII. A filosofia escolástica, fortemente influenciada por Aristóteles, tinha, como uma de suas preocupações principais, a questão da realidade das ideias gerais ou universais. Três escolas ocuparam-se dessa questão: • a escola realista, que defendia que as ideias existiam realmente antes das coisas; • a escola nominalista, para a qual as ideias nada mais eram do que nomes e que só existiam depois que as coisas eram percebidas; • a escola conceptualista, que admitia as ideias gerais, mas no nível individual. escolástica Constitui uma linha dentro da filosofia medieval, de características notadamente cris- tãs, que surgiu da necessidade de responder às exigências da fé que era ensinada pela Igreja, instituição que dividia o poder com os reinados e que se atribuía a função de guardiã dos valores espirituais e morais de toda a Cristandade. A Escolástica deve seu nome às artes ensinadas nas escolas medievais e perdurou do começo do século IX até ao fim do século XVI, ou seja, até ao fim da Idade Média. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/ File:Laurentius_de_Voltolina_001.jpg CEDERJ 41 As doutrinas platônicas foram retomadas, no século IV, por santo agostinho, associadas à doutrina cristã; inspirado em Platão, destaca-se pela profundidade de suas ideias, associando o caráter especulativo dos gregos com a praticidade latina. Suas principais preocupações eram ligadas a problemas práticos e morais, tais como a liberdade, o mal, a predestinação. Destacou-se como padre e, no século XIII, são tomás de aquino torna-se uma das figuras mais destacadas no campo da Escolás- tica, inspirado na filosofia de Aristóteles. santo agostinho (354-430), filho de mãe devota e cristã, depois canonizada (Santa Mônica), foi o mais célebre dos padres latinos. Nas- ceu na África, que na época era romana, e, após uma vida licen- ciosa, converteu-se ao cristianismo aos 33 anos de idade, quando se batizou. Foi um teólogo- filósofo. No campo da Filosofia, seguiu as ideias de Platão, tentando adaptá-las à teologia cristã. Para isso, fundamen- ta-se na demons- tração racional da existência de Deus, assim como na imu- tabilidade das leis que regem o conhe- cimento humano. Como Platão, defen- de a imortalidade da alma, cuja origem é divina, e pretendeu a conciliação entre fé e inteligência. são tomás de aquino (1225-1274), denominado o “Doutor Angélico”, é con- siderado o maior teólogo da igreja no Ocidente. Dentre suas obras, destacam-se a Suma teológica e a Suma contra os gentios, que são expressões da ortodoxia cató- lica. Representa a Escolástica em toda a sua pureza. Construiu um sistema teológi- co-filosófico, tentando uma distinção e, ao mesmo tempo, uma conciliação entre fé e razão. Para ele, é próprio da Filosofia o conhecimento das coisas à luz da razão; a Teologia serve-se da razão, porém, esta opera à luz da revelação e dos dogmas do cristianismo. Para a filosofia tomista, a espécie inteligível não é o objeto mate- rial entendido, ou seja, a representação da coisa, mas o meio pelo qual a mente entende as coisas do mundo exterior. Isto corresponde aos dados do conhecimento, permitindo-nos conhecer coisas, e não ideias. As coisas não podem entrar no nosso cérebro, pois são conhecidas através de imagens. nicolau copérnico (1473-1543) foi astrôno- mo e matemático. Foi também cônego da Igreja Católica, governador e administrador, jurista, astrólogo e médico. Sua teoria do heliocentris- mo, contrariando a então vigente teoria geocên- trica, é tida como uma das mais importantes hipóteses científicasde todos os tempos, tendo constituído o ponto de partida da astronomia moderna, embora desacreditado e mal divulga- do na época. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro: Copernicus.jpg É na Idade Média, quando a educação formal restringia-se a nobres e sacerdotes e era realizada sob a égide da Igreja Católica, que um cientista polaco é responsável por uma mudança radical. A revolu- ção promovida por nicolau copérnico, que desfere o primeiro golpe na concepção de homem e da realidade quando ousa retirar o planeta Terra do centro do Universo, ou seja, negando o geocentrismo e defendendo a teoria heliocêntrica (de héliou, que significa “sol”, em grego), e colocando o Sol como centro de nosso sistema planetário. A U LA 2 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo 42 CEDERJ O italiano Galileu Galilei (1564-1642), ao defender e divulgar a teoria heliocêntrica, proposta anteriormente por Copérnico, é acusado de herege e a perseguição a que foi submetido pela Inquisição tornou-se quase tão célebre quanto suas descobertas como astrônomo. Figura 2.4: Galileu ante o Tribunal da Inquisição. Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/88/Galileo_facing_ the_Roman_Inquisition.jpg Na Idade Moderna, que vai do século XV (1453) até o século XVII (1789), ocorreram grandes invenções e descobrimentos maríti- mos; foi um período de absolutismo real, com uma descristianização do mundo moderno, pela implantação da Reforma protestante. Do ponto de vista cultural, a Idade Moderna não pode ser separada da Ao discorrer sobre a “revolução copernicana” que representou a resposta do filósofo Emanuel Kant (1724-1804) aos problemas do inatismo e do empirismo, Chauí (1999) tece algumas considerações sobre a revolução de Copérnico. Descreve que, na Antiguidade e na Idade Média, ainda se considerava que o mundo possuía limites, que era formado por um con- junto de sete esferas concêntricas, tendo a “Terra”, imóvel, em seu centro. Nessas esferas, os planetas estariam presos (neles incluíam o Sol e a Lua como planetas). Esse sistema astronômico era denominado geocêntrico, pois em grego Gaia, ou Geia, significa “Terra”. A teoria heliocêntrica, além de colocar o Sol no centro do sistema, incluiu outras descobertas, como os movimentos da Terra e do Sol, que já havia sido classificado como estrela e não como planeta por outros astrônomos. CEDERJ 43 Idade Contemporânea, pois esta constitui uma continuação da primeira. O período denominado Renascença (renascimento das Letras e das Artes), iniciado na Itália no século XIV e caracterizado pelo estudo e pela admiração dos cânones artísticos da Antiguidade clássica, marca a transição para a Idade Moderna. As profundas transformações na visão do homem, associadas às grandes descobertas (a bússola, a imprensa, o uso militar da pólvora, a descoberta da América) são acompanhadas pelo desenvolvimento de duas correntes filosóficas – empirismo e racionalismo. Figura 2.5: A bússola, instrumento para indicar os pontos cardinais. Fonte: http://www.sxc.hu/photo/236787 De um modo geral: • O empirismo defende que todas as nossas ideias são prove- nientes de nossas percepções sensoriais (visão, audição, tato, paladar, olfato) e que podem ser assimiladas através do processo de aprendizagem. • No racionalismo, os princípios lógicos seriam inatos à mente do homem, motivo pelo qual a razão deve ser a fonte básica do conhecimento. Somente a razão humana, operando com princípios lógicos, pode atingir o conhecimento verdadeiro, universalmente aceito. Je tm ir D ec an i A U LA 2 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo 44 CEDERJ A partir do século XVII, ainda na Idade Moderna, novas discus- sões voltam a fundamentar-se no valor de se adotar o racionalismo ou o empirismo, na tentativa de explicar o conhecimento. Seus maiores defen- sores foram, respectivamente, na França, René Descartes (1596-1650), considerado o pai da filosofia moderna, e John Locke (1632-1704), na Inglaterra, rejeitando as ideias inatas. Na visão cartesiana, anterior à de Locke, a razão é privilegiada: “Penso, logo existo” (“Cogito, ergo sum”) e a racionalidade é defendida como a via de acesso ao conhecimento. O racionalismo defendido por seu maior precursor (Descartes, em Discurso do método) preconizava que a experiência sensorial constitui uma fonte permanente de erros e confusões sobre a complexa realidade do mundo. Só através dos prin- cípios da lógica, próprios da razão humana, pode-se atingir a verdade, ou o conhecimento universal. O cartesianismo utiliza-se da “dúvida metódica”, proposta como uma via para se chegar à certeza; ela não é uma dúvida sistemática, com a finalidade apenas de manter o próprio ato de duvidar, como o é para os céticos. As ideias em geral são incertas e instáveis, sujeitas à imperfeição dos sentidos. Algumas, porém, apresentam-se ao espírito com nitidez e estabilidade. Tal fenômeno ocorre em todas as pessoas, da mesma maneira, e independe das experiências dos sentidos. As ideias gerais, universais, residem na mente de todas as pessoas e são inatas. Figura 2.6: René Descartes. Fonte: http: / /pt.wikipedia.org/wiki / F i chei ro :Frans_Hals_ -_Portret_van_ Ren%C3%A9_Descartes.jpg CEDERJ 45 Resumindo o cartesianismo, pode-se dizer que ele admite, como ideias absolutamente certas – das quais a inteligência não pode abstrair –, as ideias de pensamento e de extensão. O cartesianismo adota a dúvida sistemática como método, o mecanismo como princípio e o espiritualismo e o deísmo como princípios metafísicos. Na Inglaterra, John Locke rejeitava as ideias inatas, colocando a fonte de todo o nosso conhecimento na experiência e na sensação, com o auxílio da reflexão; para ele, o psiquismo seria uma página em branco, na qual seriam inscritas as impressões que nos chegassem pelos sentidos. No século seguinte, novas discussões e controvérsias ocupam os filósofos, até alcançarem certo consenso acerca das faculdades inerentes ao psiquismo humano: a inteligência, a vontade e as emoções. Em seus primórdios, portanto, as explicações psicológicas que advieram da filo- sofia tiveram, como ponto de partida, o estudo das faculdades mentais, ou a pesquisa da verdade, o que seria realizado através da compreensão dos nexos existentes entre os acontecimentos. Foram muitas as discus- sões sobre a possibilidade de que o pensamento corresponderia ou não à realidade percebida, preocupação que remonta às discussões de Platão. de í s m o Atitude dos que rejeitam toda espécie de revelação divina e, portanto, a auto- ridade de qualquer igreja. Porém, acre- ditam na existência de um Deus, des- provido de atribu- tos intelectuais ou morais, o qual pode ou não ter criado o Universo. Atende ao Objetivo 1 1. É importante para você saber conceituar inatismo e identificar suas inter-relações com a Filosofia. Relacione a frase “O racionalismo deu origem a teorias sobre as funções da mente” com o conceito de inatismo, segundo os filósofos que discutiram tais ideias, até a Idade Moderna. ATIVIDADE A U LA 2 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo 46 CEDERJ O INATISMO NA IDADE CONTEMPORÂNEA Paralelamente, no final do século XIX as ciências físicas e naturais começam a se desenvolver, centrando-se na quantificação e na experimen- tação. Nesse período, destacam-se dois cientistas que revolucionaram as concepções vigentes sobre o homem, trezentos anos após Galileu ter tira- do a Terra do centro do sistema solar. Agora, é o ser humano que perderá seu lugar no centro da criação. Em uma época em que se acreditava que uma pessoa morria porque chegara sua hora, por desígnios divinos, foi difícil aceitar que seres inferiores, invisíveisa olho nu, pudessem atacar nosso corpo e destruí-lo. O primeiro golpe na vaidade do ser humano veio com Louis Pasteur (1822-1895), químico francês e professor da Sorbonne. Ele descobriu que a fermentação, observada na fabricação de diversas bebidas (vinho, cerveja, vinagre), era causada pela ação de micro-organismos. Essa ação podia ser evitada através de um processo simples de esterilização, mais tarde denominado pasteurização (técnica que consistia em aquecê-las a 75 graus centígrados, a fim de matar esses micróbios). Seus estudos sobre micro-organismos levaram-no a reconhecer o papel que desempenham em RESPOSTA COMENTADA Para filósofos, desde a Antiguidade, era discutida a natureza inata ou não das ideias humanas, dando origem a duas tendências que se mantiveram durante a Idade Média e a Idade Moderna, per- sistindo ainda na modernidade: a empirista e a racionalista. Estas ainda perduram nas divisões das teorias psicológicas, que ainda são agrupadas em duas grandes categorias: teorias que defendem as associações entre eventos percebidos pelos sentidos e teorias racionalistas, preocupadas com os processos racionais ou cognitivos. Os filósofos mais importantes como defensores do inatismo foram Platão, com sua teoria das ideias abstratas e eternas de objetos, que já existem em nossas mentes, e Descartes, respectivamente na Antiguidade e na Idade Moderna. De acordo com o cartesianismo, somente através dos princípios da lógica, próprios da razão humana, pode-se atingir a verdade, ou seja, o conhecimento universal. O ina- tismo, nessas duas épocas, referia-se ao que é inato em termos de funções da mente, com a finalidade de promover o conhecimento. CEDERJ 47 diversas doenças e epidemias, as quais começou a evitar através da vacina- ção. Certa época, uma doença alastrava-se e estava dizimando um rebanho de ovelhas do interior da França. Ele avisou às autoridades que se tratava de uma epidemia, a qual estava sendo transmitida através dos animais mortos deixados à beira dos rios. Para que ela fosse contida, propôs vaci- nar a metade dos rebanhos de cada fazenda por onde passariam os cursos de água contaminados, e só depois que os animais vacinados e marcados sobreviveram pôde comprovar a efetiva ação dos micro-organismos na transmissão de doenças. Assim como os animais, as pessoas também não morriam por causas indeterminadas, mas porque eram atacadas por seres microscópicos. Como acreditar que o ser humano – criado à semelhança divina – pudesse sucumbir a criaturas tão inferiores? Figura 2.7: Saber da existência de micro-organismos mudou a forma do homem olhar o mundo e a si mesmo. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:E_coli_at_10000x,_original.jpg Combatendo micróbios Pasteur expôs a “teoria germinal das enfermidades infecciosas”, segundo a qual toda enfermidade infecciosa tem sua causa (etiolo- gia) num micróbio com capacidade de propagar-se entre as pessoas. Deve-se buscar o micróbio responsável por cada enfermidade para se determinar um modo de combatê-lo. Pasteur passou a investigar os microscópicos agentes patogênicos, terminando por descobrir vacinas, em especial a antirrábica. Fundou, em 1888, o Instituto Pasteur, um dos mais famosos centros de pesquisa atuais. Figura 2.8: Louis Pasteur em seu laboratório. Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f6/Tableau_Louis_ Pasteur.jpg A U LA 2 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo 48 CEDERJ O segundo golpe veio do naturalista inglês Charles Darwin (1809- 1882), que publicou sua teoria sobre a origem e a evolução das espécies em 1859: On the Origin of Species by means of Natural Selection. Essa obra provocou numerosas controvérsias, uma vez que se opunha ao criacionismo, conforme a religião católica pregava havia séculos. Para o darwinismo, as espécies atuais são o resultado de uma longa e gradual adaptação evolutiva de espécies mais antigas, através de mecanismos de seleção natural, que faz sobreviver o mais apto na luta pela vida. A seleção natural completa-se com a seleção sexual, pela qual as fêmeas são atraídas pelos machos portadores de determinadas características que garantam a sua sobrevivência e a de seus filhotes (DARWIN, 2000). Atualmente, outros fatores estão sendo incluídos, como determinantes de novas espécies, tais como a teoria das variações somáticas e genéticas e de determinantes geográficos, fisiológicos e o isolamento de populações. Figura 2.9: Durante sua vida, Charles Darwin tornou- se famoso como um influente cientista, estudando tópicos controversos. Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/ 8/8b/Hw-darwin.jpg CEDERJ 49 O INATISMO E A PSICOLOGIA Até o final do século XIX, portanto, a Psicologia era mediada pelo conhecimento filosófico, uma vez que seu objeto de estudos abrangia tanto visões mais gerais do mundo como também se interessava pelos grandes sistemas filosóficos. Somente em suas últimas décadas observa-se uma tendência a distanciar a Psicologia da Filosofia, ao ser privilegiada a possibilidade de transformá-la em uma ciência autônoma. O mesmo aconteceu com a Educação, que passou a buscar, na Psicologia, fontes de informação para a formulação de teorias educativas científicas. Daí o nascimento da Psicologia da Educação, na primeira década do século XX. O criacionismo consiste na mais difundida explicação sobre a criação e desenvolvimento do Universo, incluindo galáxias, planetas e a própria vida. Um sistema de crenças segundo o qual tudo teria sido criado por uma entidade inteligente, superior, normalmente identificada como Deus. Com o avanço das ciências naturais e sua desvinculação da religião, novas explicações foram deduzidas sobre a origem do Universo, do homem, do nosso planeta e da vida. Tais mudanças geraram e até hoje geram contro- vérsias e conflitos entre certos grupos religiosos. Os cristãos, assim como os fundamentalistas, configuram-se como os principais mantenedores dessa polêmica, através do embate entre criacionistas versus evolucionistas. Nos Estados Unidos da América do Norte, por exemplo, país considerado desenvolvido segundo critérios econômicos e tecnológicos, em mais de vinte estados ainda é proibido o ensino da teoria da evolução de Darwin. Figura 2.10: A criação de Adão: patriarca da humanidade no cris- tianismo, no judaísmo e no islamismo. Pintura de Michelangelo, na Capela Sistina. Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f2/Creation_ of_Adam.jpg A U LA 2 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo 50 CEDERJ O caminho da busca por cientificidade veio através de um médico francês, claude Bernard, que defendia a necessidade de se criarem méto- dos mais precisos e que propiciassem maior controle no tratamento de doentes e enfermos, iniciando a fisiologia e a medicina experimentais. Não aceitava mais que se continuasse a tratar os pacientes com ensaios e erros, com acertos ocasionais. No lugar de fazer experiências com pacientes, era necessário um método que permitisse verificar hipóteses e criou, assim, as regras da experimentação, comparando tratamentos e controlando a influência de variáveis do organismo e do meio. O método experimental, por ele criado, tornou-se o modelo de cientificidade e passou a ser adotado pelas diversas áreas de conheci- mento, inclusive determinando a fase experimentalista também na Psi- cologia, fase que perduraria até o final do século passado, como modelo hegemônico deste campo de saber. claude Bernard (1813-1878) foi pro- fessor de Medicina Experimental no College de France, chamando a atenção de seus colegas para a nova disciplina comparativa, tendo publicado, em 1865, um livro sobre o assunto, o qual lhe conferiu, quatro anos após, a eleição para a Academia Francesa. Não confunda experimentalismocom empirismo, este último já definido na Aula 1. Para os empiristas, o conhecimento tem sua origem FORA do indivíduo e é interiorizado através dos SENTIDOS. Os pressupostos do método experimental para a verificação de hipóteses implicam, em sua versão clássica, trabalhar com dois grupos, cujas respostas serão comparadas: a um deles é aplicado um determinado tratamento (grupo experimental), e ao outro (grupo de controle) não se introduz nenhu- ma variável, tomando-se o cuidado de manter as mesmas condições do primeiro. Tal controle permitiria que ambos os grupos fossem homogê- neos. As respostas dos sujeitos de ambos os grupos seriam comparadas, e as diferenças encontradas seriam atribuídas ao tratamento utilizado. Atualmente este método vem sendo aperfeiçoado, inclusive em face do desenvolvimento da estatística, e passou a incluir diversos tipos de planejamento experimental e a possibilidade de pesquisar vários grupos simultaneamente para os testes de hipóteses. No lugar de se tentar anali- sar a ação de determinada droga, por exemplo, com uma única dosagem, pode-se testar várias doses ao mesmo tempo, utilizando grupos de pessoas em diferentes faixas etárias, como se faz nos planejamentos fatoriais. ! Atende ao Objetivo 2 2. Através desta atividade, buscamos atingir mais um dos objetivos de nossa aula: identificar as inter-relações do inatismo com a Psicologia e com as descobertas científicas em outras áreas do saber. Neste sentido, responda à seguinte questão: ATIVIDADE CEDERJ 51 A teoria evolucionista ainda sofre críticas e desconfiança, embora também tenha sido ampliada, apresentando novas evidências e algumas correções. Ainda dentro da Biologia, diversas contribuições da etologia e da genética vêm revolucionando as aplicações do mapeamento do genoma humano, gerando concepções sobre o homem que jamais poderiam ser imaginadas. Tais concepções estão em um processo constante de vir-a-ser. INATISMO NA PSICOLOGIA E NA EDUCAÇÃO A busca pela cientificidade atingirá também a Psicologia, que seguirá o mesmo caminho das Ciências Naturais. É nesse período que Wilhelm Wundt (1832-1929) cria o primeiro Laboratório de Psicologia Experimen- tal em 1879, na Universidade de Leipzig. Tornou-se o líder do movimento conhecido como estruturalismo, para o qual o objeto de estudos deve ser a consciência, servindo-se, para esse fim, da introspecção e analisando Como descobertas científicas na Astronomia e na Biologia modificaram as concepções do homem? RESPOSTA COMENTADA Ao tirar a Terra do centro do Universo e o homem do centro da criação divina, Galileu e Darwin, respectivamente no período medieval e na Idade Moderna, provocaram uma revolução nas ideias sobre a concep- ção do homem. As mudanças radicais não costumam ser aceitas sem perseguições de grupos que sentem seus ideais ou crenças abalados. A revolução galileana foi precursora de outras grandes teorias da Física, que vêm mudando substancialmente esta área de saber. As concepções baseadas no inatismo deixam de ser uma verdade universal, o que mudou a concepção de homem como um ser criado completo e não sujeito às variáveis do meio ambiente. A U LA 2 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo 52 CEDERJ os processos mentais em seus elementos. Além dessas características, os estruturalistas tentam localizar, no sistema nervoso, as estruturas relacio- nadas aos elementos que compõem tais processos (DAVIDOFF, 1983). Em Lepzig, os resultados das pesquisas de seu fundador, sobre emoção e sentimentos, foram publicadas no livro Elementos de Psicologia Fisio- lógica. Lá também trabalharam Weber e Fechner, realizando pesquisas psicofísicas sobre estímulos limiares: absolutos (a menor intensidade de um estímulo capaz de torná-lo perceptível por um determinado órgão sensorial) e relativos (dependendo do estado do organismo no momen- to). Ambos elaboraram as célebres leis de Fechner e Weber, acerca das sensações. Também neste laboratório J. M. Catell (1860-1944) inicia suas pesquisas sobre tempo de reação, aplicando a experimentação, o que o levou à formulação de leis sobre as diferenças individuais. Tentou aplicar os conhecimentos da Psicologia a diversas áreas do conhecimento, inclu- sive a Educação, para a qual construiu diversos testes mentais. Os primeiros anos do século que acabou de findar foram marcados pelo avanço na criação de testes e instrumentos de medida, tanto nos EUA como na Europa. Na França, Alfred Binet publica, em 1903, o livro Étude experimental de l’intelligence, em que apresenta a possibilidade de medir a inteligência, criando um teste que, depois de traduzido para o inglês, passou a denominar-se Stanford-Binet. Foram criados testes que mediam um fator geral de inteligência e outros que identificavam o nível de fatores específicos, que tinham relação com a capacidade intelectual. Outros testes foram sendo criados, com o intuito de medir as capacidades mentais e as aptidões, a fim de determinar as possibilidades dos educandos em relação à aprendizagem. A onda psicométrica tentou utilizar ferramentas que facilitassem o trabalho do educador. ALÉM DA DICOTOMIA INATISMO-AMBIENTALISMO Na aula anterior, assim como na Introdução desta, você aprendeu que, em suas origens, estas duas áreas do saber – Psicologia e Filosofia – confundiam-se. Viu também como as relações entre Psicologia e Educação eram igualmente norteadas por premissas criadas no campo daFilosofia. Agora, vamos tentar mostrar como conhecimentos advindos de outras áreas repercutiram nos avanços da Psicologia e nas teorias e nas práticas educativas, ora defendendo o inatismo, ora privilegiando o ambientalismo. CEDERJ 53 A dicotomia inato-ambiental separa a multidiversidade – que caracteriza o ser humano – em apenas duas possibilidades. Ela pode ser denominada de outras formas, tais como: hereditário x aprendido, essencialismo x construtivismo social, sociedade x natureza ou ainda “nature” x “nurture”. É necessário que você atente para o fato de que, embora essas duas posições pareçam dar conta do objeto da Psicologia, não podemos nos contentar em tentar compreender os fenômenos psíquicos que ocorrem dentro do indivíduo apenas com essas duas vertentes. Conforme ressalta Paulilo (1996), precisamos admitir que processos externos e internos têm significação anterior à existência do ser humano, ou seja, há variáveis que são oriundas da história da sociedade na qual o indivíduo nasce e vive. Tentando aplicar as teorias psicológicas, a Psicologia da Educação buscou fundamentação nas três áreas que estavam em franco desen- volvimento no início do século passado: os estudos sobre diferenças individuais e a preocupação psicométrica (uso de testes de inteligência, atenção, aptidões), as pesquisas sobre processos e tipos de aprendizagem e, finalmente, os estudos sobre o desenvolvimento infantil. No que concerne ao estudo das diferenças individuais: • O interesse pelas diferenças individuais entre os indivíduos começou na área das Ciências Físicas, especificamente na Astro- nomia, quando foi constatada uma diferença nos cálculos de velocidades e distâncias de corpos celestes, ao serem compara- dos os resultados de diferentes astrônomos. Uma aproximação do tempo real deveria ser estimada, a partir de uma equação pessoal dos erros. Daí resultaram estudos psicofísicos no Labo- ratório de Leipzig, incluindo testes de tempo de reação. • Na Psicologia, estes estudos influenciaram uma visão psico- métrica da inteligência, buscando entender a forma pela qual a inteligência se estrutura; neste modelo, coexiste uma pressu- posição de que a inteligência é composta de habilidades e que estas podem ser medidas por provas de capacidade mental. • Além desse, outros paradigmas foram marcantes para o estudo da inteligência: o desenvolvimento da psicologia cognitiva – que concerneaos processos mentais responsáveis pelo funcionamen- to do pensamento – e a ciência biológica, ao tratar das bases neurais de inteligência, atualmente denominada neurociência. A U LA 2 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo 54 CEDERJ Quanto à aprendizagem, comecemos por uma definição abrangente: • Constitui o modo como os seres vivos adquirem novos conhe- cimentos, desenvolvem suas competências e modificam seus comportamentos, valores e atitudes, em função de suas expe- riências. Nesta definição, foram contemplados tanto fatores inatos quanto fatores do ambiente sociocultural, na medida em que dependerá de pressupostos políticos, econômicos, históricos e ideológicos vigentes em determinado espaço e determinado tempo, todos relacionados à visão do mundo e aos conheci- mentos de que dispomos no momento. • Como um PROCESSO, a aprendizagem pode ser estudada segundo um conjunto de DIMENSÕES, e não apenas as duas dimensões opostas, propostas pela dicotomização entre inatismo e ambientalismo. As teorias associacionistas serão mais deta- lhadas na Aula 3, por estarem relacionadas ao ambientalismo. • Dentre as teorias da aprendizagem, as que se fundamentam nos processos cognitivos são as que mais se aproximariam da visão inatista, uma vez que os cognitivistas acreditam que a inteligência compreende uma gama de representações mentais das informações (proposições, imagens, etc.) e uma série de processos que podem operar sobre essas representações. O construtivismo piagetiano, a ser apresentado de forma sucinta, a seguir, possui princípios igualmente ligados ao inatismo. Quanto ao desenvolvimento infantil, várias teorias o estudaram, mas na presente aula você irá se familiarizar com aquelas cujos prin- cípios denotem uma visão inatista. Dentre as teorias da aprendizagem, que serão abordadas em outras aulas, o construtivismo de Jean Piaget (1896-1980) apresenta, em sua estrutura, mecanismos próprios, deter- minados principalmente pela maturação biológica. Utilizando o método estruturalista, o autor centraliza seus estudos mais no sujeito do que no objeto, este último visto como perturbador da estrutura cognitiva. Piaget tomou as descobertas de Konrad Lorenz – juntamente com os resultados de sua própria pesquisa – como base para sua inovadora psicobiologia. O conhecimento, dentro do construtivismo piagetiano, é “cons- truído” de acordo com os estágios do desenvolvimento do ser humano. Tais estágios são fixos e universais, como o são os processos de matura- ção, e são independentes da aprendizagem. As constantes trocas com o CEDERJ 55 meio, a partir das ações do ser humano, propiciam adaptação progressiva, objetivando uma equilibração constante. A aprendizagem beneficia-se desses progressos, mas não o influencia. Certos tipos de aprendizagem só serão possíveis quando o organismo alcançar determinados níveis de desenvolvimento das estruturas cognitivas. Desde que iniciou sua car- reira, Piaget tinha interesse em fenômenos de adaptação ontogenética que tinham repercussão na filogênese. Segundo alguns autores, como Figueiredo (1991) e Palangana (1994), a visão piagetiana é vista como interacionista, em face da neces- sidade de a criança interagir com o meio para que ocorra a gênese do pensamento. O interacionismo determinou o fim da dicotomia inatismo x ambientalismo, inclusive porque esses dois termos possuem conotações diferentes em outras áreas do saber. As mil faces da Psicologia Você deve estar se perguntando por que, ao observarmos a história da Psicologia, nos deparamos com um conjunto de discursos composto por inúmeras escolas, com diferentes orientações, o que lhe dá a aparência de um corpo em pedaços, sem unidade, como observa Patto (1994). Realmente, o objeto atual da Psicologia, com suas inúmeras especialida- des, desde a Psicologia Biológica à Psicologia Social, abarca um grande número de possibilidades para os que se dedicam a essa área de estudos. ! O INATO NA PERSPECTIVA ETOLÓGICA Uma nova perspectiva de base inatista apareceu nos últimos cin- quenta anos, com o desenvolvimento de estudos etológicos. A etologia, definida como a biologia do comportamento, surgiu na Europa, com o objetivo de estudar os mecanismos do comportamento através de uma perspectiva evolucionária. Ocupou-se inicialmente das atividades instintivas nas diversas espécies, em ambiente natural. Destacam-se, nessa fase, os trabalhos pioneiros de Konrad Lorenz e Niko Tinbergen (1951), sobre instintos em aves, introduzindo a noção de imprinting (ou “estampagem”) para atos instintivos – e, portanto, inatos – que necessitam de certo estágio do desenvolvimento do animal, assim como a presença de certo estímulo para que sejam gravados. etologia Disciplina dedicada, em seus primórdios, ao estudo do com- portamento animal, mas que passou a estudar a espécie humana. O termo provém do grego -ethos (conduta, costumes, compor- tamento) e logos (estudo, tratado). Ela se utiliza de estudos em ambiente natural e também em labo- ratórios, possuindo caráter interdiscipli- nar e combinando conhecimentos de neuroanatomia, ecologia e teoria da evolução. A U LA 2 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo 56 CEDERJ Os comportamentos animais desenvolvem-se como resultado da interação de influências genéticas e ambientais. Certas condutas possuem determinantes mais inatos do que comportamentais. Em outras, ocorre o oposto. Os comportamentos denominados em geral como instintivos são geneticamente programados e geralmente sofrem muito pouca influência da experiência ou da aprendizagem. Eles fazem parte do repertório de condutas e de habilidades essenciais para a vida e a sobrevivência da espécie, em geral, e do indivíduo, em particular. O ato de chupar o dedo – e, após o nascimento, o mamilo da mãe – nos bebês humanos ocorre mesmo dentro do ventre materno e constitui um dos comportamentos instintivos com que já nascemos. Na figura a seguir, você verá o próprio Lorenz sendo seguido por filhotes de ganso que, ao nascerem, estão programados para seguir o primeiro objeto que apresente movimento. Na ausência da mãe, eles depararam-se com Lorenz movimentando-se próximo ao ninho, e, assim, sofreram o processo de estampagem, passando a segui-lo como o fariam em relação à mãe, que normalmente é o primeiro ser vivo com que os filhotes convivem. Figura 2.11: Lorenz e os filhotes de ganso. Fonte: http//pt.www.cerebromente.org.br/n14/ experimento/lorenz/index.lorenz.html CEDERJ 57 Dentre as descobertas desses pioneiros, há ainda as que se rela- cionam aos “estímulos sinais”, ou estímulos deflagradores de compor- tamentos inatos, como o grito de alerta à aproximação de predadores. No caso das aves, por exemplo, a visão de um simples contorno que caracterize um ganso ou uma águia provocará reações diversas, não importando os demais detalhes da figura percebida. Em seu livro Fundamentos da etologia (1981), Lorenz aborda diversos temas, tais como: metodologia etológica, aspectos ligados ao comportamento e à cognição como modificadora de comportamentos. Defende a ideia de que muitos dos mais importantes padrões de compor- tamento dos animais – aqueles tradicionalmente chamados instintivos – eram inatos, fixos, e não podiam ser modificados ou eliminados pelo meio. O critério para determinar se certo padrão de comportamento é inato é verificar se ele ocorre em todos os indivíduos normais da espécie. Leva-se em consideração idade e sexo, sem que tenha havido aprendi- zado anterior e que esse comportamento se apresente sem necessidade de tentativas e erros. Lorenz e Tinbergen testaram diversos modelos de gansos e águias e che- garam à conclusão de que a relação entre pescoço e cauda é que servia de parâmetro para a percepçãoda águia predadora, fazendo com que os animais buscassem refúgios. A mesma figura apresentada, ora amarrada na parte dianteira, ora na parte traseira, deflagrava ou não sinais de aler- ta. A seguir, o modelo de cartolina preta utilizado pelos dois cientistas. Quando se observa um bando de macacos, o grito de alerta para águias e felinos é diferente: no primeiro caso, o bando procura proteção no centro da copa de árvores, local de difícil acesso aos voos rasantes da ave predado- ra; quando se trata de felinos, o bando se refugia nos galhos menores, mais difíceis de serem escalados, em face do peso desses últimos predadores. A U LA 2 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo 58 CEDERJ Comportamentos instintivos acontecem espontaneamente, como que provocados por causas internas ao próprio animal. São comporta- mentos de busca, que prescindem de um estímulo externo. É como se houvesse um reservatório (modelo hidráulico) que vai se enchendo, à proporção que aumenta uma necessidade primária, até que o animal tem de diminuir a pressão, através de um comportamento fixo, mesmo que o objeto que satisfaria a necessidade em questão não esteja presente. É o caso de pombos, por exemplo, que, quando afastados da fêmea, podem tentar copular com um pombo empalhado, um pedaço de pano ou mesmo um objeto da gaiola. Para Lorenz, o comportamento do homem é semelhante aos dos outros animais e está sujeito às mesmas leis causais da natureza. Agressão e autocontrole O ponto crucial da visão de Lorenz a respeito da natureza humana, exposto no livro Sobre a agressão, é que o ser humano, assim como acontece com outros animais, tem o impulso inato do comportamento agressivo em relação à sua própria espécie. Esse impulso deveria estar limitado, provocando poucos danos ao outro, como acontece em geral, entre outros animais, nas disputas por fêmeas ou por território. Entre os humanos, no entanto, a agressão pode levar à morte do oponente, consequência que contraria a necessidade de sobrevivência da espécie. Nos seres humanos foram observadas duas grandes diferenças: a primeira é o poder em termos destrutivos, com o crescente arsenal disponível para matar. Se antes as armas demandavam contato com o inimigo ou com o opositor, como eram os casos em que eram usados machados, espadas e armas brancas em geral, passando pela lança e pelo arco e flecha, o agressor podia ver o sofrimento causado ao outro, o que deveria inibir o comportamento agressivo. Com a nova utilização da pólvora e a invenção do revólver e, depois, de armas que impediam a visão das reações das vítimas da agressão, o alvo ficou cada vez mais longínquo. Até que a humanidade chegou à “assepsia” de apertar um botão e lançar mísseis de longo alcance que sequer são associados à grandeza da destruição que provocam e tampouco à população dizimada. Dessa forma, o equilí- brio natural entre o potencial de agressão e a inibição a ela passou a ser dificilmente percebido. A tecnologia destruiu a possibilidade de que a espécie humana iniba o comportamento agressivo ao perceber a vítima apresentando gestos ou posturas de submissão, como fazem os cães e outros mamíferos, que se deitam de barriga para cima, mostrando-se, dessa forma, vulneráveis e sem capacidade de reagir. Para Lorenz, o conhecimento pautado na filogênese, nas capaci- dades e habilidades inatas, não leva a pensarmos que não sejamos livres. Ao contrário, nosso crescente conhecimento de nós mesmos aumenta o nosso poder de autocontrole. Se compreendermos melhor as causas de nossa agressão, mais aptos seremos para tomar medidas para controlá-la. CEDERJ 59 Em 1973, Lorenz, Tinbergen e Von Frisch receberam o Prêmio Nobel por suas descobertas, tendo este último se destacado por suas pesquisas sobre a comunicação entre abelhas, quando percebeu que, de alguma forma, elas passavam informação às demais sobre o local da fonte de alimento, ao chegarem à colmeia: a famosa “dança do oito”, como ficou conhecida. Para assistir ao vídeo (em inglês) sobre imprinting, com Konrad Lorenz em ambiente natural, acesse http://www.youtube.com/ watch?v=2UIU9XH-mUI. Neste aqui (em italiano), aparece a reação de alarme à figura do gavião e imprinting em patos e gansos: http://www.you- tube.com/watch?v=v8c4iXaYNwo O vídeo K. Lorenz, el padre de la etologia (em espanhol) trata da agressão em animais (mais defensiva ou ritualizada) e no homem: http://www.youtube.com/watch?v=T-0Pub1ma4U Por fim, assista a este vídeo (em espanhol): http://www.you- tube.com/watch?v=f-nBJRhDVWI. Nele é mostrado como Von Frisch decifrou o código usado pelas abelhas na passagem da informação pela colmeia. Karl Von Frisch e a descoberta da dança das abelhas Zoólogo austríaco nascido em Viena, Karl Von Frisch se destacou estu- dando o comportamento das abelhas. Fez importantes descobertas sobre seus sentidos, como a utilização desses pelos demais membros de sua sociedade, para troca de informações. Conseguiu decodificar a linguagem das abelhas, verificando que elas usam a radiação solar como método de orientação mesmo quando o Sol não está visível; observou que as abelhas comunicam ao resto da colmeia a localização de uma fonte de alimento através de dois tipos de movimentos rítmicos: a dança circular, para indicar que a comida se encontra num raio de menos de 75m, e a agitação violenta do abdome, que assinala distâncias maiores. A direção do eixo central da dança indica a direção do Sol, enquanto o número de voltas indica a distância até o alimento. Estudos posteriores detectaram sinais combinados e mais complexos na troca dessas informações. Fonte: http://www.i-l-g.at/preistraegerbild35.htm A U LA 2 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo 60 CEDERJ As pesquisas de Harry Harlow (1959) sobre as relações maternais de macacos com a mãe de pano e a mãe de arame evidenciaram que a preferência não era definida pela mãe que fornecia alimento, mas a que facilitava o apego pelo contato macio, pelo aconchego. Nessa fase inicial, denominada etologia tradicional, as pesquisas realizadas focalizaram os mecanismos causais imediatos e a ontogênese do comportamento. Somente dez anos depois Bowlby (1969) vai deno- minar o vínculo entre mãe e filho de “apego”, chamando a atenção para o fato de que formar vínculos tem, como uma de suas principais consequências, a criação de novas interações sociais entre ambos, garan- tindo um desenvolvimento saudável. A abordagem etológica influenciou diversos psicólogos, inclusive Piaget, que utilizou, para criar sua inova- dora psicobiologia, as descobertas de Konrad Lorenz, juntamente com os resultados de suas próprias pesquisas, através de observações do desenvolvimento em crianças. Para assistir os experimentos de Harry Harlow sobre a mãe substituta, assista aos seguintes vídeos (em inglês): http://www. youtube.com/watch?v=fLrBrk9DXVk e http://www.youtube. com/watch?v=hsA5Sec6dAI Após 1975, os estudos passam à fase denominada etologia com- portamental, focalizando mais as questões sobre evolução e os estudos sobre etologia humana. Diversas áreas foram contempladas, mas se nos detivermos na questão da formação do vínculo afetivo entre macho e fêmea, verificaremos que os etologistas apontam, no Homo sapiens, diver- sas mudanças nos mecanismos de reprodução. Tais mudanças teriam sido resultado do andar bípede e da posição ereta do corpo, o que reduzia as chances de a fêmea conseguir sustentar um feto – cujo cérebro estava se desenvolvendo gradativamente, ao longo da evolução – dentro de uma cavidade pélvica estreitada pelo bipedismo. Quanto ao apego dos pais em relação aos filhotes, a neotenia faci- litou-lhes o desenvolvimento, principalmente porque ela vem associada às características dos rostos dos bebês, que funcionam como estímulos e sinais para a proteçãoe a ternura, como assinalam Bussab e Otta (1992). neotenia Processo que retarda a maturação da espé- cie humana, em com- paração com outros primatas, permitindo uma infância muito longa, além do cres- cimento do cérebro, especialmente o neo- córtex. CEDERJ 61 Afirmam que foi a contínua interação entre o apego e o investimento parental que deu origem ao amor entre pais e filhos e que, como evoluímos em um contexto de vínculos afetivos individualizados, também permitiu o desenvolvimento da própria sociedade (BUSSAB; OTTA, 2000). Figura 2.12: O vínculo entre pais e filhos ajuda o desenvol- vimento da sociedade. Fonte: http://www.sxc.hu/photo/992546 Segundo diversos autores, a biologia do comportamento ultra- passa concepções dicotômicas como as de inato x aprendido ou natu- reza x cultura. Para Ana Maria Carvalho (1989), na espécie humana o ambiente é fortemente marcado pela cultura, que pode ser desvinculada da evolução biológica; para a autora, “a cultura produziu o cérebro que a produz” (op. cit., p. 89). Muitos dos estudos e pesquisas na área da Etologia atualmente seguem a denominação de Psicologia Evolucionista (ou Evolucionária, ou Psicologia Biológica). V iv ek C h u g h Não confunda o termo Psicologia Evolucionista com Psicologia Evolutiva, ou Psicologia do Desenvolvimento. Esta última está mais ligada à ontogênese, ou seja, ao desenvolvimento do indivíduo. E isso é diferente da filogênese, ligada à primeira, que se refere ao desenvolvimento das espécies. ! A U LA 2 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo 62 CEDERJ Podemos ainda nos perguntar: Qual seria a utilidade de um pensamento biológico, como o da Etologia, para a Psicologia? Quem responde é Bertelli (2008, p. 2): O objeto da Psicologia, de um modo geral, é o ser humano. E nós, seres humanos, somos seres biológicos e sociais, ao mesmo tempo. A integração das perspectivas biológicas e sociais é necessária para compreender o fenômeno humano. Nenhuma das visões (biológica e social), sozinha, é capaz de explicar o ser humano. A teoria da Evolução, utilizada pela Etologia como pressuposto teórico, pode ampliar a compreensão das causas do comportamento humano. Atende ao Objetivo 3 3. Ao verificar o comportamento agitado de um aluno, a professora chama seus pais para uma entrevista. A mãe explica que seu filho é assim porque seu marido também o era, quando criança, afirmando que “tal pai, tal filho”. Já pensara em levá-lo a um psiquiatra para que receitasse um calmante. A professora argumenta que o menino acalma-se após o recreio e princi- palmente nos dias em que tem aulas de artes, participando e interagindo com os grupos de trabalho. Sugere um diagnóstico psicológico e, talvez, uma atividade esportiva, uma vez que o menino lhe contou que passa horas sentado em frente ao computador. Como você classificaria as tendências da mãe e da professora, em termos inatistas e ambientalistas? RESPOSTA COMENTADA No comportamento da professora, nota-se uma orientação mais ambientalista, além do reconhecimento de que natureza e ambiente interagem contínua e reciprocamente, o que nos permite inferir uma tendência interacionista nos processos que envolvem a criança. ATIVIDADE CEDERJ 63 CONCLUSÃO A verdade em ciência pode ser definida como a hipótese de trabalho melhor adequada para abrir caminho para uma próxima que seja melhor. (LORENZ) E agora? Você deve estar se perguntando o que tudo isto tem a ver com a Pedagogia? Qual a importância e as inter-relações entre posições inatistas, para a Psicologia da Educação? Durante séculos os estudiosos tentaram chegar a um consenso a respeito da origem dos princípios racionais, da capacidade para a intuição e de raciocínio do homem. Será que as pessoas já nascem com potencialidades, dons e aptidões que serão desenvolvidos de acordo com o amadurecimento biológico ou tudo isso é desenvolvido através da experiência com o mundo externo? Essa discussão, que se iniciou a partir de dois dos maiores filósofos da História, Platão e Aristóteles, ocupou filósofos no período medieval e chegou à modernidade com diferentes nomes, apresentando o ser humano como um agente estático, sem a possibilidade de sofrer mudanças. Desta forma, quando o homem nasce, tudo está definido, toda a atividade de conhecimento é exclusiva do sujeito e o meio dela não participa. Já a predominância do meio ambiente, como única fonte na produção do conhecimento, característica do empirismo, destaca a importância da educação e da instrução na formação do homem. No interacionismo, não cabe a divisão em somente duas categorias isoladas e não é aceita a dicotomia inato x aprendido. Quanto às atitudes da mãe, há uma tendência ao inatismo; para ela, o com- portamento do filho seria devido, exclusivamente, a fatores internos, o que limita as possibilidades e a multidiversidade de alternativas de que ela poderia dispor. A necessidade de contextualização, ou seja, de aceitar a influência de diferentes variáveis, tanto internas quanto externas, constitui uma premissa básica para o conhecimento psico- lógico e suas aplicações à educação, favorecendo uma concepção abrangente e mais compreensiva do ser humano. A U LA 2 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo 64 CEDERJ O estudo do empirismo e do inatismo é importante devido ao fato de que, atualmente, muitas questões polêmicas giram em torno destas duas teorias, tais como o desenvolvimento da homossexualidade, a formação de líderes, o desenvolvimento de superdotados, as técnicas de inseminação artificial, dentre outras. Outra premissa do inatismo – o ser humano concebido como biologicamente determinado – nos remete à concepção de uma sociedade “naturalmente” organizada, hierarquizada, onde cada ser humano tem seu lugar segundo suas capacidades herdadas. Isto desencorajará as ini- ciativas de mudanças pessoais, impossibilitando inclusive a mobilidade social, assim como dos movimentos que vierem a propor transformações sociais em larga escala. Na educação, a concepção inatista tem levado a que pais e educa- dores esperem que as crianças amadureçam “naturalmente”, atingindo os níveis de desenvolvimento esperado para cada faixa etária. Por outro lado, faz com que não esperem muito daqueles que não apresentam um bom prog- nóstico, em função de uma herança genética ou cultural mais desfavorecida. Cria-se uma expectativa de que se deve deixar que o aluno desabroche por ele mesmo, pois acabará demonstrando suas aptidões e potencialidades. O papel do professor é o de facilitar que a essência se manifeste e que, quanto menos ele interferir, mais facilmente surgirão a espontaneidade e a criatividade do aluno. Assim, o sucesso ou o fracasso escolar constituirá responsabilidade única do aluno, como assinala Patto (1991). A teoria inatista baseia-se em uma concepção de ser humano que se inspira no racionalismo e no idealismo. O primeiro fundamenta-se na crença de que o único meio para se chegar ao conhecimento é pelo uso da razão. Todos chegarão a ele, uma vez que a razão é inata, imutável e igual em todos os seres humanos. Para o idealismo, o real é o mundo das ideias e dos significados. Dar realidade às ideias, oferecer respostas ideais (de ideias) às questões reais constitui a forma de compreender a realidade (NUNES, 1986). Os fatores maturacionais e hereditários são priorizados nessa perspectiva. O ser humano nasce com potencialidades, dons e aptidões que serão desenvolvidos, à proporção que amadurece, em termos biológicos (fisiológico e neurológico). Dotado de dons divinos, o homem não teria necessidade ou possibilidade de mudança. Ele não agiria sobre o meio ambiente, nem receberia influências significativas do contexto sociocultural. CEDERJ 65 Para entendero desenvolvimento, o inatismo parte do pressuposto de que o homem, em seu processo de aprendizagem, apenas aperfeiçoa o que lhe foi dado de forma inata. A aplicação dessa concepção na educa- ção gera imobilismo e resignação, uma vez que as diferenças individuais não podem ser superadas, isentando a escola, a família, o educador – e a própria sociedade – de qualquer responsabilidade. ATIVIDADE FINAL Leia os dois textos a seguir, de autoria de dois professores da USP/SP: o primeiro, de Ana Maria Carvalho, sobre contribuições da etologia para o conceito de Homem, disponível na revista Biotemas, 2 (2): 81-92, 1989; o segundo, de autoria do etólogo Cesar Ades, sobre a vida e a obra de Tinbergen. A Etologia tem contribuído para a recuperação da noção de homem como um ser bio-psico-social, abandonando a concepção insular do ser humano que dominou as ciências humanas (inclusive algumas áreas da Psicologia) na primeira metade do século XX, que destaca o homem da natureza e coloca-o em oposição a esta. A concepção etológica do ser humano é a de um ser biologicamente cultural e social (CARVALHO, 1989). É interessante notar o quanto Tinbergen, que valorizava a análise e acreditava que a explicação última para os fatos do comportamento seria fisiológica, adotava uma perspectiva sistêmica, não reducionista: “Tudo no comportamento de um animal está relacionado a quase todo o resto.” Ele propunha que a organização dos mecanismos que controlam a ação se compõe de uma “hierarquia“ de níveis de integração. À liberação de tendências comportamentais gerais segue a de tendências mais específicas, estas levando a tendências mais específicas ainda e assim por diante, até serem produzidas as unidades mais moleculares do comportamento (ADES, 2011). Agora responda: Em relação ao inatismo, em que diferem as opiniões de Carvalho (1990) e as de Tinbergen? A U LA 2 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o inatismo 66 CEDERJ RESPOSTA COMENTADA A Etologia animal e humana revolucionou muitos conceitos, demonstrando que o determinismo do inato não é automático, mas depende de certas condições do ambiente, de certos “estímulos sinais”, ou estímulos deflagradores, e que estes devem ocorrer em determinados “períodos críticos” da ontogênese. Contribuiu, com a teoria do apego, para a compreensão da formação de vínculos afetivos, principalmente entre mãe e filho. A base biológica do homem, como afirma Carvalho (1989) deve ser analisada dentro do contexto sociocultural. Mesmo possuindo uma abordagem baseada na fisiologia, o etólogo Tinbergen, conforma assinala Ades (s/d), não aceita o reducionismo inato, afirmando que o desenvolvimento das ações huma- nas é composto de diversos níveis de integração, níveis estes que, dependendo da ação em questão, obedecem a uma hierarquia: em certos comportamentos podem predominar fatores inatos; em outros, o ambiente é que predomina, mas sempre haverá participação de ambos os fatores. R E S U M O A dicotomia corpo x alma, preocupação de pensadores na Antiguidade e na Idade Média, passou a denominar-se empirismo e racionalismo, gerando várias teorias controversas ainda dentro do campo da Filosofia. Com o avanço da Psicologia, a alma passou a ser comparada ao psiquismo, sem mais conotações de fundo religioso. A capacidade de raciocinar, imaginar, criar imagens mentais e organizá-las logica- mente passa a se referir à atividade psíquica. A contribuição da Biologia, através da Etologia, provou que nem todo comportamento herdado, ou pré-programado, pode vir a fazer parte do repertório do indivíduo, relativizando o conceito de inato. Outros desenvolvimentos nos campos da Psicologia, da Biologia e da Neurociência evidenciam, cada vez mais, a necessidade de interação, e não de separação entre inato e aprendido. Somente abordagens interacionistas podem das conta da complexidade de estímulos – internos e externos – que influenciam nosso comportamento. CEDERJ 67 INFORMAÇÃO SOBRE A PRÓXIMA AULA Dentro da visão ambientalista, as ideias aristotélicas serão mais aprofundadas, assim como a posição de Locke. Este rejeitava as ideias inatas e colocava a fonte de todo o nosso conhecimento na experiência e na sensação, com o auxílio da reflexão. Veremos mais sobre isso lá! Mesmo o inatismo piagetiano, um inatismo mais relacionado aos estágios de desenvolvimento desde a infância e até a adolescência, coloca em evidência que as estimulações do ambiente são essenciais, para a passagem de um para outro nível de desenvolvimento. Na psicopedagogia, reconhecer a predominância do inato deixa de lado a responsabilidade dos pais, da escola e da própria sociedade no desenvolvimento infantil – e, por consequência, no desenvolvimento humano – anulando qualquer influência que venha do ambiente psicológico e sociocultural. A U LA 2 ob jet ivo s 3 Meta da aula Apresentar a importância das diversas concepções de homem, segundo modelos que foram influenciados pela perspectiva ambientalista, assim como sua repercussão nos estudos psicopedagógicos. Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: 1. conceituar ambientalismo, identificando suas interrelações com teorias filosóficas, analisando as influências dessas teorias nas concepções do conhecimento e do desenvolvimento humanos; 2. analisar como a abordagem ambientalista do conhecimento e desenvolvimento humanos pode influenciar o campo educacional; 3. conceituar ambientalismo, comparando-o com o inatismo. Pré-requisito Tenha em mente o que foi visto na Aula 2, sobre inatismo. O que você verá nesta aula aqui é constantemente relacionado com o conteúdo daquela aula. As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o ambientalismo Marise Bezerra Jurberg A U L A 7 0 C E D E R J C E D E R J 7 1 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o ambientalismo Se alguém lhe disser, atualmente, que é um ambientalista, você provavelmente pensará que essa pessoa possui princípios e valores ligados à preservação dos recursos naturais, ou então que pertence a algum movimento social voltado a um desenvolvimento sustentável, que não altere o equilíbrio do meio ambien- te. Essas ideias existem desde o período pré-moderno, incrementaram-se com os progressos científicos durante o Iluminismo e chegaram a um certo radicalismo no século XIX e principalmente no século XX, com as preocupa- ções da Ecologia. Os movimentos ecológicos transformaram, para sempre, a relação entre sociedade e natureza. Ecologia: o prefixo “eco” vem do grego oikos, que significa casa, meio ambiente, habitat. As principais correntes ecológicas incluem diversas posições: a tradicional, ou conservadora, que defende que o meio ambiente não deve ser tocado e apenas preservado, e não admite a expansão da indústria e do consumo; contrariamente, o grupo capitalis- ta acredita que o avanço tecnológico descobrirá formas não poluentes de produzir, sem a necessidade de mudanças estruturais na sociedade; outro grupo defende mudanças sociais e a criação de uma nova ordem social comunitária, descentralizada e independente; a posição socialista é contra as formas capitalistas de produção e incentiva uma produção menos poluente; finalmente, o ecofeminismo, que denuncia e se opõe às formas paternalistas e machistas de dominação do espaço, que são as principais causas do desequilíbrio ecológico. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro: Protect_earth.png INTRODUÇÃO 7 0 C E D E R J C E D E R J 7 1 A denominação ambientalista, dentro da Psicologia, embora atu- almente inclua a Ecologia Humana e Social, possui outra conotação: este termo refere-se a qualquer teoria que dê mais importância à influência do ambiente do que às habilidades inatas, às competências e a estados atuais de animais,aí incluídos os seres humanos, em termos de evolução. O estudo do inatismo e do ambientalismo é importante devido ao fato de que muitas questões polêmicas perduram, em nossos dias, em torno destas duas abordagens. Isso resulta em diferentes consequências para o campo da educação, assim como em outros campos de conhecimento. Ina- tismo versus ambientalismo tiveram, posteriormente, outras denominações, como racionalismo versus empirismo, natureza versus cultura. Tem sido um grande desafio, ao longo da história da humanidade, o problema de como alcançamos o conhecimento e de como o corpo e a alma tomam parte nesse processo. Segundo Farias (s/d), as imposições derivadas das necessidades práticas da existência foram sempre a força propulsora na busca do saber. Para isto, os homens criaram lugares, como a Academia de Platão, o Liceu de Aristóteles, as escolas e univer- sidades medievais, onde se reuniam com a finalidade de descobrir como o ser humano teria acesso ao saber. Muitos filósofos e, posteriormente, diversos psicólogos tentaram explicar como se dá esse processo, muitas vezes assumindo posições contraditórias. A grande questão que tem ocupado a mente de inúmeros pensado- res, ao longo de vários séculos, tem sido: os seres humanos desenvolvem suas habilidades ou já nascem com elas? Figura 3.1: Desenvolvemos nossas habilidades ou já nascemos com elas? A U LA 3 7 2 C E D E R J C E D E R J 7 3 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o ambientalismo O AMBIENTALISMO DE ARISTÓTELES: AS SENSAÇÕES VÃO FORMANDO A MENTE Aristóteles contrapõe-se ao inatismo de Platão, para o qual conhe- cer é recordar a verdade que já trazemos em nós, verdade esta que é inerente ao aparato racional e intuitivo de que somos dotados, desde o nascimento. Seu objeto de estudos é o mundo animado, ou seja, aquilo que tem vida, que se diferencia essencialmente do mundo inorgânico. O princípio da atividade, portanto, é a alma. Figura 3.2: Aristóteles (384-322 a./C.), discípulo da Acade- mia de Platão durante vinte anos; fundou o Liceu. Fonte: www.vidalusofonas.pt/aristoteles.htm Aristóteles defende uma posição contrária, tornando-se um exemplo de tendência ambientalista. Ele aceita a distinção platônica entre sensação e pensamento, mas diverge ao rejeitar o inatismo de seu mestre, colocando a mente como uma tabula rasa, sem ideias inatas. Na visão aristotélica, nada está em nossa mente que não tenha antes passado pelos sentidos. Aristóteles percorreu novos caminhos, inclusive por sua escola – denominada escola p e r i pat é t i c a – para fundamentar suas críticas, revisões e novas proposições ao platonismo. Para ele, só existe este mundo em que vivemos; o que está além de nossa experiência sensível pe r i pat é t i c a Do grego peripa- tetikós, que gosta de passear. Em seu Liceu, Aristóteles costumava andar com seus discípulos pelos jardins, obser- vando a natureza e discutindo as sensa- ções que ela lhes des- pertava, motivo pelo qual sua escola era assim denominada. 7 2 C E D E R J C E D E R J 7 3 não é nada, não existe para nós. Posição bem diferente daquela de seu mestre: para o platonismo, apenas o conhecimento que se denomina a p r i o r í s t i c o , inato – como as intuições lógicas e matemáticas – é que pode existir dentro de nós, sem qualquer experiência prévia. A fim de passar da sensação ao pensamento, Aristóteles dá grande destaque ao associacionismo, em seu ensaio sobre Memória, escrito em 400 a.C. Acreditava que as associações eram feitas porque os objetos eram similares, opostos, ou estavam próximos no espaço ou no tempo. Neste sentido, ele pode ser considerado um precursor das teorias associacionistas da aprendizagem. Mostra-se, portanto, favorável a medidas educacionais condicionantes, conforme ressalta Gadotti (2008, p. 38). Na área de fenômenos psicológicos, irá nortear o entendimento do processo de aprendizagem, que estaria sujeito às leis da associação, com a participação de funções cognitivas como a sensação, a memória e a imaginação. Para Aristóteles, a alma é o princípio de todos os fenômenos vitais, no ser humano. As características da alma humana são a racionalidade, o pensamento e a inteligência, pois ela é o espírito que anima o corpo animal. Embora tenha funções superiores, a alma também desempenha as funções de alma sensitiva e alma vegetativa. Mesmo assim, ela continua sendo única, mas com várias funções, evidenciadas pelos atos diversos que podemos desempenhar. Aristóteles desenvolveu igualmente uma outra área do saber, a Lógica, que considerava um instrumento útil para nossa entrada no mundo do conhecimento e nas ciências. Sua lógica é dividida em três partes, que estudam a ideia, o juízo e o raciocínio. Sua lógica formal, segundo Kant, é uma obra completa, à qual nada foi acrescentado, ao longo dos séculos. Seus estudos nessa área baseiam-se no s i l o g i s m o . O AMBIENTALISMO DE JOHN LOCKE: A EXPERIÊNCIA PRECEDE A RAZÃO No século XVII, a discussão entre inato e aprendido voltou a preocupar os filósofos, agora com outra denominação – racionalismo e empirismo, graças principalmente à divulgação das obras de Descartes (1596-1650), considerado o pai da filosofia moderna e defensor do ina- tismo, ao qual se opôs o empirista inglês John Locke (1632-1704). ap r i o r í s t i c o Adjetivo derivado de apriorismo: do latim a priori +ismo; em filosofia, consiste na aceita- ção, na ordem do conhecimento, de fatores independen- tes da experiência (FERREIRA, 1999, p. 172). O s i l o g i s m o consis- te em um raciocínio formalmente estru- turado que a partir de duas premissas, colocadas previa- mente, chega-se a uma conclusão necessária. O silo- gismo é dedutivo e, portanto, parte do universal para o particular, enquan- to a indução parte do particular para o universal. No silogismo, se as pre- missas forem verda- deiras, a conclusão também o será. Um exemplo clássico de silogismo é: Todos os homens são mor- tais. José é homem; logo, José é mortal. A U LA 3 7 4 C E D E R J C E D E R J 7 5 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o ambientalismo John Locke também defende a importância da experiência na construção do conhecimento. Sua obra o destaca entre os filósofos empi- ristas que abriram espaço para a ciência, junto com a filosofia. Para ele, as ideias não são inatas, sendo a experiência a única fonte das ideias e do conhecimento. A mente humana, no início, é um papel em branco (ou uma tabula rasa) que vai sendo preenchido aos poucos, através das experiências que nos chegam através das sensações. Para ele, a noção de experiência não se refere apenas à sensação proveniente dos órgãos dos sentidos, pois isso só implicaria um conjunto caótico de ideias na mente, mas não um conhecimento da realidade. Para que cheguemos ao conhecimento, é necessário que a mente realize certas operações. Através da experiência interior, ou seja, da reflexão, a mente é capaz de perceber suas próprias operações. As operações da mente – o pensamento, o racio- cínio, a dúvida – são, também, uma fonte de ideias, embora estas não se originem das coisas exteriores e sim dessas atividades interiores. O conhecimento é, portanto, o resultado das operações que a mente realiza com as ideias, tanto as oriundas da sensação, quanto aque- las advindas da reflexão. Locke realiza um minucioso exame de todos os tipos de ideias e operações da mente, fazendo uma distinção entre ideias simples e ideias complexas. Nas ideias simples, que constituem o material primitivo do conhecimento, o espírito é passivo; nas ideias complexas, ele é ativo. A experiência, portanto, envolve fenômenos externos (realizados através da sensação, que gera representações dos objetos externos) e fenômenos internos (obtidosatravés da reflexão). As ideias simples resultam da experiência de qualidades sensoriais básicas e da realização de reflexões simples. As ideias complexas abrangem várias outras, que podem ser combinações de ideias simples e ideias comple- xas. As ideias complexas, por sua vez, podem ser decompostas em ideias simples, mas não o inverso. ! É em sua obra Ensaio acerca do entendimento humano (1690) que Locke formula sua teoria acerca da aquisição do conhecimento, propondo que a experiência é a fonte do conhecimento, mas que este se desenvolve, depois, por esforço da razão. A finalidade da filosofia, 7 4 C E D E R J C E D E R J 7 5 segundo sua visão, é essencialmente moral e cabe aos filósofos prover uma norma racional para a vida do ser humano. Ressalta a necessidade de integrar o racional dentro de uma visão empirista. Ele tenta elaborar uma g n o s i o l o g i a para encontrar um critério de verdade. Figura 3.3: John Locke: 1632-1704. Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/ File:John_Locke.jpg A INFLUÊNCIA DO EMPIRISMO DE LOCKE NA EDUCAÇÃO E NA CONCEPÇÃO DO SER HUMANO Quanto às suas ideias pedagógicas, Locke as compilou na obra intitulada Pensamentos sobre a educação, publicada em 1693, em que mostra como o pensamento empirista pode ser aplicado a todos os aspectos da educação infantil. Nela ele afirma nossa passividade, pois ao nascermos somos ignorantes e recebemos tudo da experiência. Ao mesmo tempo, somos igualmente ativos, uma vez que nosso intelecto constrói a experiência, ao elaborar as ideias simples. Defende que o treinamento educacional deva iniciar-se cedo, pois as crianças menores são mais maleáveis; um dos maiores erros dos pais, para ele, era não tornar a mente dos filhos obediente à disciplina e suscetí- vel à razão, justamente nesse período do desenvolvimento infantil. Como a aprendizagem exige prática, as atividades devem ser repetidas. Nos séculos XV a XVII, época em que o sistema disciplinar era cada vez mais rigoroso, como aponta Ariès (1981), chegando a casti- gos corporais humilhantes, aplicados a adultos e crianças, houve um gn o s i o l o g i a Teoria do conheci- mento. Volta-se para reflexão em torno da origem, natureza e limites do ato do conhecimento. A U LA 3 7 6 C E D E R J C E D E R J 7 7 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o ambientalismo incremento na concepção autoritária, absolutista de sociedade. Locke destaca-se ao condenar o uso do castigo físico no processo educacional. Acreditava que o castigo imposto porque uma criança não fizera seus deveres, por exemplo, acabaria levando-a a ter aversão aos estudos. Recompensas, como presentes, doces ou quaisquer privilégios, por sua vez, deveriam ser evitadas, uma vez que a criança deve interessar-se pelo processo educativo, despertando o amor ao mérito e ao que é correto. Ele marca o início de novas atitudes em relação à criança – um ser que demanda cuidados especiais para sua formação, vindo a influenciar o conceito de educação no século XX. Figura 3.4: A palmatória é um exemplo clássico de castigo corporal escolar. Os pro- fessores puniam os alunos batendo com isto em suas mãos. Em sua obra já se evidenciava uma defesa de uma teoria da apren- dizagem baseada nas leis de associação, conforme formulara na obra Ensaio acerca do entendimento humano. Como exemplo, cita o fato de que, se dermos mel a uma pessoa até que ela sinta enjoo, da próxima vez que ela sentir o cheiro de mel, ou escutar a palavra mel, ela sentirá novamente náuseas. Não se conhecia, no entanto, como se formavam tais associações, o que só começou a ser estudado cerca de dois sécu- los mais tarde, através das duas teorias que marcaram a contribuição pavloviana – as leis que regulam a aprendizagem por condicionamento e as leis sobre a atividade nervosa superior – e, posteriormente, com a difusão do behaviorismo (ou comportamentismo). O livro I deste ensaio compreende a crítica ao inatismo, que para Locke constitui uma doutrina fomentadora de preconceito e que leva ao individualismo dogmático. No livro IV desta mesma obra, ele trata do conhecimento, destacando a experiência como a única fonte possível das ideias; o intelecto apenas combina as ideias percebidas pelos sentidos, 7 6 C E D E R J C E D E R J 7 7 ou seja, só depois a alma trabalha o material percebido. As ideias são o material do conhecimento e este nasce da percepção; o conhecimento propicia conexões, semelhanças e diferenças entre as ideias. Quanto à percepção da realidade, ela pode realizar-se de duas maneiras: por intuição, que não necessita de prova, porquanto vem da evidência imediata; por demonstração, que justamente deriva da capaci- dade de o espírito perceber diferenças e semelhanças entre ideias, o que se desenvolve por associação das intuições. Para John Locke, a certeza de que Deus existe é mais absoluta que as impressões dos sentidos, ponto em que ele concorda com o cartesianismo. Para ele, todos os homens nascem iguais, todos são iguais por natureza e por direitos. Todos usam a razão, que é um bem comum, e são todos responsáveis pela construção da sociedade, devendo parti- lhar os resultados da organização social, cabendo ao Estado garantir o bem-estar geral. Afirma que o Governo não pode ser patriarcal nem tirânico, nem deve estar baseado na fé ou na religião. Caso o Governo falhe, o povo tem direito a promover uma revolução, pois o direito do governante vem do povo. Locke é considerado o fundador do libera- lismo constitucional, além de ser reconhecido, enquanto atuou, como o filósofo moderno que possuía as opiniões filosóficas e políticas mais bem definidas. Ele influenciou os pensamentos de David Hume e Berke- ley, no século seguinte, enquanto Leibniz escreveu uma resposta a seus Ensaios, propondo uma volta ao inatismo. Tais fatos demonstram como as divergências fomentam estudos. Além de sua teoria das ideias, portanto, ele dedicou-se à política, defendendo a legitimidade da propriedade e o dever do Governo de proteger esse direito, que é básico para a liberdade humana, sem deixar de lado os tópicos tradicionais da filosofia: o Eu, o Mundo, Deus e as bases do conhecimento. Para Locke, não há poder inato, nem os reis possuem direitos políticos divinos. Uma boa ação deve seguir as nor- mas morais, que são de três tipos: a divina, a política e a da opinião pública. Sua influência foi grande, tanto em sua época, quanto mais tarde, no século XVIII, quando iluministas franceses nele foram buscar as principais ideias que culminaram com a Revolução Francesa, assim como pensadores que colaboraram para a declaração da Independência americana, em 1776. A U LA 3 7 8 C E D E R J C E D E R J 7 9 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o ambientalismo Figura 3.5: Quadros que remetem à Revolução Francesa e à Independência americana, respectivamente. Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Eug%C3%A8ne_Delacroix_-_La_libert%C3%A9_guidant_le_peuple.jpg ; http://en.wikipedia.org/wiki/File:Washington_Crossing_the_Delaware.png Atende ao Objetivo 1 1. Leia o texto abaixo, sobre inatismo, e tente estabelecer comparações com as visões filosóficas de Aristóteles e de Locke. A perspectiva inatista baseia-se em uma concepção de ser humano que se originou na filosofia e, séculos após, passou a ser designada uma pers- pectiva racionalista ou idealista. Nessa abordagem, o único meio para se chegar ao conhecimento é por intermédio da razão, que é inata, e portanto imutável, sendo uma característica de todos os homens. Uma vez que seus dons são de procedência divina, o ser humano, na teoria inatista, já nasce pronto, não tem possibilidade de mudança, não recebe influências signifi- cativas do social e nem age sobre este. Como a concepção de ser humano é divina e biologicamentedeterminada, infere-se que a sociedade seja hierarquizada e que cada um ocupe seu lugar segundo suas capacidades, dificultando a mobilidade social. O individual é mais valorizado que o social, criando maior competição e maior discriminação, de acordo com as diferenças entre os indivíduos, sejam elas determinadas por classe social, etnia ou gênero. ATIVIDADE 7 8 C E D E R J C E D E R J 7 9 O AMBIENTALISMO DE HUME: UM SER HUMANO MAIS SENSÍVEL QUE RACIONAL A contribuição de David Hume (1711-1776) foi no sentido de reelaborar e ampliar a posição de Locke, que deixara em aberto a ques- tão de como captamos as propriedades de um objeto. Embora Locke e Berkeley tenham abordado a questão da associação de ideias, eles não examinaram atentamente o fenômeno de como as experiências sensoriais simples se aliam para criar formas complexas de conhecimento, ou seja, como se dá o processo de associação. Este processo foi retomado mais tarde, por diversos psicólogos da aprendizagem. RESPOSTA COMENTADA A visão ambientalista inicia-se com a visão aristotélica, segundo a qual nossa mente nasce vazia de conteúdos, sendo preenchida pelas experiências que nos chegam pelos sentidos. A fim de passar da sensação para o pensamento, Aristóteles dá grande destaque ao associacionismo, que posteriormente será desenvolvido por Locke. Na perspectiva empirista, denominação que passou a substituir o termo ambientalista, Locke faz críticas ao inatismo, que para ele constitui uma doutrina fomentadora de preconceitos e que leva ao individualismo. Para Locke, todos nascemos iguais, por nossa natu- reza e temos, portanto, direitos iguais. Todos usamos a razão, que é um bem comum, e somos corresponsáveis pela construção da nossa sociedade. E cabe ao Estado garantir o bem-estar de todos. A U LA 3 8 0 C E D E R J C E D E R J 8 1 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o ambientalismo Figura 3.6: David Hume, nascido em Edimburgo, Escócia (1711-1776). O pensamento de Hume possui ainda grande relevância na filosofia atual, principalmente pelas suas contribuições acerca do problema da causalidade. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:David_ Hume.jpg Hume começa questionando o fato de que, quando observamos que um evento provoca um outro evento, ou quando os dois eventos estão próximos no tempo, isto faz com que pensemos que existe uma conexão entre os dois. Ele diz que, se é óbvio que nos apercebemos de dois eventos, não temos que, necessariamente, apreender uma conexão entre os dois. É nossa percepção que nos dá esta conexão que interpre- nos dá esta conexão que interpre- tamos como causalidade. É esta conjunção constante, assim como a expectativa que temos sobre ela, que constituem tudo o que podemos saber da causalidade. A causalidade é, portanto, inferida, o que minimiza a força que o termo tivera nas ideias de outros filósofos. Na perspectiva de Hume, temos uma crença na causalidade semelhante a um instinto, originado do desenvolvimento de hábitos, em nossa mente. Esta crença não pode ser eliminada, nem pode ser provada como verdadeira. A base de sua investigação sobre a teoria do conhecimento é a divisão dos objetos da consciência em duas classes: impressões e ideias. As impressões correspondem aos dados fornecidos pelos sentidos, tanto 8 0 C E D E R J C E D E R J 8 1 os oriundos de dados externos (como o calor de uma fogueira), quanto de estados internos (como a dor provocada pelo contato com o fogo). As ideias correspondem às representações, na memória, dessas impressões. A ideia que nos vem da lembrança da queimadura é mais fraca do que a impressão que tivemos na hora em que realmente nos queimamos. As impressões são, portanto, o que de mais forte existe na nossa mente (são os prazeres e as dores) e as ideias são reproduções ou cópias das impressões. As ideias podem sofrer associações através de três fatores: pela seme- lhança, pela contiguidade (no espaço ou no tempo) e pela causalidade. A mais forte relação entre as ideias é a de causa e efeito, categoria de relação que nos leva além de nossos sentidos e nos informa da existência de objetos que não vemos nem sentimos. Como exemplo, o resultado de uma colheita, embora esteja além da nossa experiência presente, pode ser previsto pela relação de causa e efeito, pois se as condições climá- ticas fazem as plantas crescerem, elas são as causas e a boa produção constituirá o efeito. Quanto à questão da indução e da dedução, Hume inicia sua discussão a partir da crença de que o que nos aconteceu no passado constitui uma orientação confiável para prevermos o futuro. Para ele, há duas justificativas para isso, mas ambas seriam inadequadas: • Caso façamos isso por necessidades lógicas de que o futuro tem que ser semelhante ao passado, podemos pensar que a ordem da natureza, por exemplo, pode mudar e o equilíbrio ambiental pode ser rompido, tornando o mundo caótico; • Caso o façamos usando uma justificativa mais simples (“o mundo sempre foi assim e vai continuar desse jeito”), estamos sendo redundantes, tautológicos, ou seja, explicando a causa pelo efeito e este por aquela. Neste último caso, estamos usando um raciocínio circular que provém de hábitos desenvolvidos em nossa mente. Os hábitos são difíceis de ser eliminados e constituem a base de nossas crenças, as quais não podemos confirmar nem negar usando qualquer tipo de raciocínio, seja indutivo ou dedutivo. A U LA 3 8 2 C E D E R J C E D E R J 8 3 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o ambientalismo Nesse ponto, é importante que você assista a um vídeo sobre David Hume, intitulado Ser ou não ser, que explora inclusive hábitos e crenças em relação à natureza e ao ambiente escolar. O vídeo tem a duração de 7:45 min. e está disponível em: http://paginasdefilosofia.blogspot.com/2009/10/sensacoes- impressoes-e-ideias-em-david.html As relações de causalidade ou de associação lógica são possíveis entre as ideias, mas não são necessárias entre as impressões. O estudo das relações predomina na obra de Hume. Ele discorda de Aristó- teles, para quem as coisas possuem uma essência. Para Hume, cada coisa é composta de outras coisas e as ideias simples juntam-se para formar uma ideia complexa. Ele começa interrogando-se sobre o que é o “eu”, o “espírito”, questionando como esse “eu” pode ser consi- derado substância (algo estável, imutável), quando o que se percebe desse “eu” são apenas impressões e ideias, em constante variação. Com esta nova visão, conseguiu mudar a atenção de filósofos, que passaram do estudo das essências (essencialismo) e das substâncias para o estudo das relações. Ao defender um empirismo extremo, Hume transforma as representações do mundo, que perdem sua aparente estabilidade e objetividade; o papel do cientista não mais seria propor hipóteses que tentassem verificar a ordem dos fenômenos, nem sua universalidade. Nossas representações acerca do mundo e acerca do ser humano não são mais do que os produtos de experiências subjetivas e de hábitos bem estabelecidos. Segundo Figueiredo (2002, p. 110), David Hume e George Berkeley (1685-1753) desvendaram aquilo que podemos chamar de a fábrica psicológica do mundo: associações arbitrárias mas regulares entre ideias sensoriais, ou impressões, geram o mundo supostamente objetivo e autônomo, ou melhor, nossa experiência e conhecimento do mundo. 8 2 C E D E R J C E D E R J 8 3 Hume chega à conclusão de que todos os fatos são exteriores entre si. Não há nada de interior e intrínseco que os relacione necessariamente uns aos outros, daí defender que a relação de causalidade é apenas uma crença baseada no hábito. O filósofo mostra que os homens associam ideias e acreditam nessa associação por força do hábito ou costume. O costume, no entanto,não é a repetição de experiências semelhantes por parte de um único indivíduo, mas de muitos, ou seja, há um aspecto coletivo no costu- me. Mesmo quando se tem um prazer individual e esse prazer foge ao que é costume, que é diferente dos que são aprovados social e culturalmente, passa-se a ter dúvidas sobre este comportamento singular. Na realidade, a ideia de causalidade, para ele, não existe de fato, senão o peso do meu hábito e da minha expectativa, como acontece quando espero a ebulição da água que coloquei no fogo. A expectativa não possui base racional. Qualquer coisa pode produzir qualquer coisa, diz Hume. Se a causalidade é explicada por uma ilusão psicológica, ela não possui qualquer valor de verdade. Seu empirismo, portanto, representa um ceti- cismo. Para Figueiredo (1991, p. 119), a dialética do empirismo, ao por em questão as ideias inatas, resultava no ceticismo que diluía a certeza acerca do mundo e a certeza acerca do sujeito, restando apenas as sensações e os nomes inventados para designar conjuntos de sensações. A concepção de ser humano se modifica; ele passa a ser visto como pro- duto do meio em que vive, de suas experiências e dos condicionamentos que recebe. O homem passa a ser cada vez mais concebido como um ser extremamente plástico, que desenvolve suas características em função das condições presentes no meio em que se encontra (DAVIS, 1990). Fonte: http://www.sxc.hu/photo/68669 ! A U LA 3 8 4 C E D E R J C E D E R J 8 5 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o ambientalismo O termo ceticismo refere-se a uma corrente filosófica que defende a ideia da impossibilidade do conhecimento de qualquer verdade. Foi criado na Antiguidade, por um filósofo grego chamado Pirro de Élis, que rejeitava qualquer tipo de dogma (afirmação considerada verdadeira sem comprova- ção). A dúvida é o principal mecanismo do ceticismo e todo conhecimento é relativo, pois depende da realidade da pessoa que o possui e das condições do objeto que está sendo analisado. Como as visões do mundo, as crenças, valores, costumes e ideologias mudam em cada período da história, os céticos acreditam ser impossível estabelecer o que é real e irreal, correto e incorreto, o que os faz defenderem uma postura de neutralidade em todas as questões, de indiferença, abstendo-se de julgamentos de valor. Uma das instituições que mais questiona o ceticismo é a religião. Há duas formas de ceticismo: o filosófico e o cientifico, que seguem basicamente a mesma linha: o primeiro, avaliando os pensamentos; o segundo, tentando encontrar explicações para as pesquisas científicas. Fonte: http://pt.wikipedia. org/wiki/Ficheiro:Question_ mark.png Face à impossibilidade de enumerar todas as causas dos fenôme- nos, o pensamento indutivo – que parte do singular para tentar atingir o geral – fica inviabilizado como um caminho possível para alcançar a verdade. Tal constatação faz da ciência algo que não pode ser executa- do. A vinculação entre causa e efeito, tida como lógica e necessária, é decorrente de crenças e não pode ser considerada uma inferência lógica válida. Se A sempre for seguido de B, tendemos a considerar que A é a causa de B, o que representa uma ilusão de causa e efeito. Ele usa o termo crença em um sentido estrito, como algo ligado a um fato ou a qualquer coisa existente, e reivindica ter sido o primeiro pensador a investigar a natureza da crença. Usa este termo em sentido estrito, de crença em termos de qualquer coisa existente. Ele afirma que os eventos são relacionados causalmente e que, no futuro, serão relacio- nados da mesma forma como o eram no passado, porque acreditava que essas são crenças naturais, que não serão extintas, porque representam propensões da natureza humana. 8 4 C E D E R J C E D E R J 8 5 O conhecimento científico, para ele, é um conhecimento irracional, uma vez que se baseia em crenças, as quais não possuem estrutura lógica através da dedução. Seu ceticismo não consiste na negação da crença, mas da evidência, concluindo que o ser humano caracteriza-se mais como um ser de percepção sensível do que como um ser racional. Finalmente, podemos dizer que Hume sistematizou a abordagem associacionista. A investigação de Hume coloca em questão o status do conhecimento, mas não a objetividade do mundo (FIGUEIREDO, 2002). Opondo-se às filosofias cartesianas e às que consideravam o espírito humano através de um ponto de vista teológico-metafísico, o empirismo radical de Hume abriu caminho à utilização do método experimental para o estudo dos fenômenos mentais, embora ele criticasse o princípio da causalidade, que é a base das hipóteses a serem testadas pela experimentação. Atende aos Objetivos 1 e 2 2. Esta atividade consiste em analisar alguns dos temas apresentados no vídeo Ser ou não ser, sob a ótica de Hume. Você se lembra do garoto que conhecia o mundo pela internet, sem nunca ter tido contato com os locais e os fatos vistos na tela do computador? E dos passeios pelos campos, feitos pelas crianças? Quanto aos relatos de alunos em sala de aula, que relações teriam com a visão de mundo de David Hume? RESPOSTA COMENTADA As impressões são mais fortes, mais nítidas que as ideias, que se originam das primeiras. A ideia que uma das crianças tem de outros países ou de lugares que só conheceu pela internet mostra como ela própria sabe que, se os visse pessoalmente, suas ideias sobre eles poderiam mudar. A busca por explorar o meio ambiente, observar o que ainda é desconhecido, à procura de novas impressões e forma- ção de novas ideias é uma preocupação dos adultos que orientam as crianças. Na sala de aula, as ideias que circulam sobre determinados alunos demonstram aquilo que Hume chama de consenso e que, ATIVIDADE A U LA 3 8 6 C E D E R J C E D E R J 8 7 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o ambientalismo O EMPIRISMO FIRMA-SE AINDA MAIS NA INGLATERRA – STUART MILL Ainda dentro da tradição empirista, temos a contribuição do filósofo e economista inglês John Stuart Mill (1806-1873), para o qual a experiência constitui a base dos processos mentais. A partir dela, são formadas as representações, que, por sua vez, formam as associações e, por fim, surgem as ideias. Dentro de sua visão, toda ciência deve voltar-se para a experiência, uma vez que toda ideia e todo conhecimento encontram-se circunscritos aos limites daquilo que é vivenciado. Os estudos baseados na experiência devem ser efetuados tanto para a lógica e as ciências matemáticas, quanto para as ciências humanas. No campo da lógica, Mill contribuiu para a radicalização do papel da indução, pois todo conhecimento seria formado a partir do acúmulo de impressões, que são da ordem particular, do individual. Para ele, também o pensamento dedutivo, mesmo em sua forma clássica, o silo- gismo, possui um fundamento indutivo. A premissa geral, no silogismo, expressa uma característica que, apesar de coletiva, é inferida a partir de indivíduos, ou seja, do particular para o geral. Somente através da indução chegar-se-ia ao conhecimento. A indução deve ser o método utilizado também nas ciências huma- nas, embora estas lidem com fenômenos mais complexos, que implicam um número maior de variáveis a serem investigadas. Mill opõe-se ao positivismo de A. Comte, que será visto a seguir, na medida em que defende que a Psicologia é uma ciência independente e que ela deve oferecer os fundamentos para os estudos do ser humano e da moralidade. Para ele, a Psicologia forneceria as bases para as demais ciências morais. como ideias compartilhadas, acabam tornando-se estereótipos que servem à discriminação social. O professor pode tentar aumentar a autoestima dos alunos, mostrando crença na capacidade que eles têm de superar seus problemas de desempenho. 8 6C E D E R J C E D E R J 8 7 Figura 3.7: John Stuart Mill (1806-1873) foi um filósofo e economista inglês, e um dos pensadores liberais mais influentes do século XIX. Foi um defensor do utilitarismo, a teoria ética proposta inicialmente por seu padrinho, Jeremy Bentham. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:JohnStuart Mill.jpg ENTRE O EMPIRISMO E O RACIONALISMO: O POSITIVISMO INICIAL Como reação ao idealismo, ou seja, unificação da experiência mediante a razão, surge outro movimento: o positivismo, que se carac- teriza por limitar-se à experiência imediata, pura, sensível, como já fizera o empirismo. O positivismo aparece como uma proposta a ser colocada no lugar do idealismo da primeira metade do século XIX, como uma reação ao apriorismo, ao exigir maior respeito para os dados da realidade objetiva. Embora o positivismo não tenha a riqueza filosófica de outras abordagens, o seu maior valor está na análise objetiva da experiência, o que fez com que se difundisse por toda a Europa, face à sua aplicação na prática e na tecnologia. Em um período em que a produção de bens materiais se intensifi- cava, procurava-se uma base filosófica mais positiva, mais materialista, que fundamentasse as ideologias vigentes, a busca de resultados práticos para a produção de bens influenciaram o desenvolvimento das ciências naturais. A filosofia acabou sendo reduzida à metodologia e à sistema- tização das ciências. A U LA 3 8 8 C E D E R J C E D E R J 8 9 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o ambientalismo O positivismo surgiu na França, com Auguste Comte (1798- 1857), ganhando força na segunda metade do século XIX e no começo do XX, quando suas ideias chegaram ao Brasil. Defende a ideia de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro e que só se pode afirmar que uma teoria é correta se ela for comprovada através da metodologia científica. Para os positivistas, o progresso da humanidade depende tão somente dos avanços científicos. No início do século XIX, as descobertas científicas e os avanços técnicos faziam crer que o homem podia dominar a natureza e este era um campo fértil para o nascimento de uma corrente filosófica que pudesse se contrapor às abstrações da teologia e da metafísica. O positivismo, enquanto ideologia e movimento filosófico, foi fundado por Auguste Comte (1798-1857), que trabalhou com Saint-Simon, de quem seguiu a orientação para o estudo das ciências sociais: os fenômenos sociais, assim como os físicos, podem ser reduzidos a leis; todo conhecimento científico e filosófico deve ter como finalidade o aperfeiçoamento moral e político da humanidade. O positivismo é produto direto de sua época, tendo sido influencia- do pela Revolução Industrial, já plenamente realizada, e pelo nascimento e desenvolvimento crescente das ciências experimentais, que ocupavam o espaço anteriormente ocupado pela especulação racionalista. Figura 3.8: Auguste Comte (1798-1957). Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/ Ficheiro:Auguste_Comte.jpg 8 8 C E D E R J C E D E R J 8 9 Comte escreveu diversos livros, como Curso de Filosofia Posi- tiva, sua principal obra, composta de seis volumes, publicados entre 1830 e 1842. No livro Política Positiva, ou Tratado de Sociologia, (1851-1854), cria uma nova religião: a religião da humanidade, que deveria substituir a Igreja. Na segunda fase de sua vida, esforça-se por transformar a ciência em religião, assim como na primeira fase procurou transformar a ciência em filosofia. O positivismo sofreu influência de diversos movimentos do século XVIII, dos quais destacaremos dois: o empirismo radical de David Hume, que priorizava a experiência no processo do conhecimento; o iluminismo, com sua crença no progresso da humanidade por meio da razão. Comte nunca se declarou a favor de um empirismo radical e colocava o positivismo entre o empirismo (a experiência direta do fato) e o racionalismo, que ele denominava de misticismo. Para ele, o saber científico depende tanto de dados empíricos como de elaboração racional, pois a realidade não nos é dada diretamente pela sensação; os dados precisam ser complementados pela ação do intelecto. É o espírito que elabora os dados originados nos órgãos dos sentidos e os organi- za, criando uma imagem de mundo que é formada tanto de elementos empíricos quanto racionais. Segundo Gadotti (2001), o positivismo tem como base teórica três pontos capitais: • todo conhecimento do mundo material decorre dos dados “positivos”, oriundos da experiência, e é somente a eles que o investigador deve se ater; • existe um âmbito puramente formal no qual se relacionam as ideias, que é o da lógica pura e da matemática; • todos os conhecimentos tidos como “transcendentes”, oriundos da metafísica, da teologia ou da especulação acrítica, estão além de qualquer verificação prática e, portanto, devem ser descartados. Para Comte, uma verdadeira ciência deve analisar todos os fenô- menos, incluindo os humanos, como fatos. Tanto nas ciências naturais quanto nas humanas, deve-se afastar todo preconceito e todo pressuposto ideológico, uma vez que ciência e cientistas devem ser neutros. i l u m i n i s m o Em termos histó- ricos, refere-se à era dos iluministas, que pertenciam a uma corrente filo- sófica que dava valor absoluto à Razão e desprezava qualquer forma de crença religiosa; em filosofia, refere-se à concepção pela qual a inteligência do ser humano necessita da assistência divi- na para alcançar o conhecimento. A U LA 3 9 0 C E D E R J C E D E R J 9 1 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o ambientalismo O POSITIVISMO E A HUMANIDADE: DA FÉ EM DEUS À FÉ NA CIÊNCIA A filosofia de Comte está descrita em sua obra Curso de Filosofia Positiva (1830-1842), na qual apresenta a lei dos três estados ou etapas do desenvolvimento intelectual da humanidade: • o primeiro é o estágio teológico, no qual o ser humano explica os fenômenos da natureza através de entes sobrenaturais ou divindades, até chegar a um Deus único, base das religiões monoteistas; • o segundo estágio é o metafísico, no qual o mundo sensível não é explicado por fatores ou seres exteriores a ele, mas por conceitos imanentes e abstratos (formas, ideias, potências, princípios); • finalmente, o terceiro estágio – o positivo – é alcançado quando o ser humano limita-se a descrever os fenômenos e a estabelecer “as relações constantes de semelhança e sucessão entre eles”; consiste no estágio atual, em que se buscam as leis científicas. Desta lei dos três estágios, Comte deduz o sistema educacional, o qual deve considerar as fases históricas por que passou a humanidade, pois elas reproduzir-se-iam em cada ser humano: • Na primeira fase, a aprendizagem não teria um caráter formal; o fetichismo inicial e natural desta fase deve, gradativamente, transformar-se em uma concepção abstrata do mundo. • Na segunda fase, que inclui a adolescência e a juventude, o ser humano entraria em preocupações teológicas e no estudo sistemá- tico das ciências, portanto, através de uma educação formal. • Finalmente, ao chegar à idade madura, o homem atingiria o estado positivo, sem um Deus abstrato e abraçando a religião do grande ser, que é a humanidade. A solidariedade humana seria formada através da educação. Segundo o pensamento social de Comte, as leis naturais regeriam a sociedade e a política deveria ser uma ciência exata. Para Gadotti (2001), o positivismo representou a doutrina que tentara consolidar a ordem pública, mas a lei dos três estágios não foi compatível com a evolução dos educandos, que não seguiam as previsões de Comte: nem as crianças imaginavam forças divinas para explicar o mundo, nem os jovens se dedicavam a abstrações metafísicas. Aindapara este autor: 9 0 C E D E R J C E D E R J 9 1 O positivismo, cuja doutrina visava à substituição da manipulação mítica e mágica do real pela visão científica, acabou estabelecendo uma nova fé, a fé na ciência, que subordinou a imaginação científica à pura observação empírica. Seu lema sempre foi ordem e progresso. Acreditou que, para progredir, é preciso ordem e que a pior ordem é sempre melhor que qualquer desordem. Portanto, o positivismo tornou-se uma ideologia da ordem da resignação e, contraditoria- mente, da estagnação social (GADOTTI, 2001, p. 110). CONCLUSÃO Tanto o ambientalismo quanto o inatismo radicais caminham na direção de concepções autoritárias de exercício de poder. Em suas formas radicais, enquanto o inatismo biológico esteve associado ao elitismo, ao racismo, à política da direita, ao colonialismo e à hierarquização da sociedade, o ambientalismo também influenciou diversas áreas. Segundo Marilena Chauí (1999), a dicotomia inatismo-ambientalismo teve, como consequência, uma tendência ao ceticismo, à dúvida quanto à possibili- dade de um conhecimento racional, verdadeiro. Em função das premissas teóricas do positivismo, resultaram concepções morais hedonistas e utilitárias, além do surgimento de novos sistemas políticos e econômicos, como a democracia moderna. Como a realidade física é a única que existe, a única cognoscível, os valores espiri- tuais, a metafísica e a filosofia são todos relegados a um segundo plano. Severas críticas têm sido feitas à ciência mecanicista, um ideal do positivismo, críticas estas que provêm de dentro do próprio âmbito das ciências positivas, originando uma tendência atual em direção ao que se tem denominado pós-positivismo. Segundo este, não há relações causais inequívocas entre os fenômenos; todas as entidades envolvidas estão em estado de moldagem recíproca, sendo impossível detectar causas e efeitos. Na Psicologia, observa-se o aumento de novos“saberes” e novos “fazeres” (BONFIM, 1992). Nenhuma pesquisa é independente dos valores do observador. Afirmar a neutralidade da ciência é não aceitar que, em uma investigação, pelo menos cinco aspectos são influenciados pelos valores do pesquisador: a escolha dos problemas a serem estudados; a escolha do paradigma que orientará o estudo; a teoria escolhida para orientar a pesquisa; os valores inerentes ao contexto; finalmente, a investigação ou será ressonante ou dissonante desses valores. A U LA 3 9 2 C E D E R J C E D E R J 9 3 Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o ambientalismo O positivismo pós-moderno tem cada vez mais adeptos, inclusive através de pesquisas que comprovam a influência de múltiplas variáveis sobre as investigações, dando lugar a outras interpretações do mundo, em geral, e do ser humano, em particular. Cada vez mais se percebe a necessidade de contextualização de estudos e pesquisas (JURBERG, 2000); o objetivo não é explicar, mas compreender a forma pela qual se alcança o conhecimento. Como profissionais ligados à área pedagógica, seria atender à necessidade de “multirreferencialidade” nas ciências, como defende Barbosa (1998). ATIVIDADE FINAL Atende aos Objetivos 2 e 3 Agora que você teve contato com as duas perspectivas – inatismo e ambientalismo – vamos tentar aplicá-las na educação e no desenvolvimento humano. Para isso, assinale, ao lado de cada afirmação, as letras I ou A, caso se trate de uma proposição inatista ou ambientalista. a. ( ) A aprendizagem depende do desenvolvimento das aptidões e potencialidades do indivíduo, tendo o professor o papel de facilitar que os dons de seus alunos manifestem-se, que floresçam naturalmente. b. ( ) Aprendizagem e desenvolvimento são termos praticamente sinônimos, pois ocorrem simultaneamente; o desenvolvimento nada mais seria do que o resultado final das respostas aprendidas e das consequentes mudanças de comportamento. c. ( ) Quanto menor a interferência do professor, maior será a criatividade do discípulo. No campo educacional, tal concepção do ser humano influenciou diferentes tipos de pedagogia, desde o imobilismo ao espontaneísmo. d. ( ) Lançando mão de incentivos que gerem motivação, o professor estimula o ritmo e a eficácia da aprendizagem, o que pode resultar em um diretivismo excessivo, de sua parte. Nessa abordagem, seus postulados podem servir para legitimar e justificar práticas pedagógicas como o assistencialismo, o conservadorismo e o tecnicismo. 9 2 C E D E R J C E D E R J 9 3 e. ( ) Na área da educação, as técnicas de ensino são mais valorizadas e tenta-se propiciar o maior número de estímulos e informações, colocando escola e professor como responsáveis pelo bom desempenho e desenvolvimento do aluno. f. ( ) Certas pedagogias atribuem o sucesso ou o fracasso escolar unicamente ao aluno, uma vez que as diferenças entre eles não poderão ser superadas, isentando escola e professor de qualquer responsabilidade. g. ( ) Não há preocupação em prover situações em que o aluno possa desenvolver sua criatividade espontaneamente, mas uma valorização da quantidade de informação retida e de associações efetuadas. RESPOSTA COMENTADA As afirmações que pressupõem atributos inatos aos seres humanos, deixando que a educação transcorra de forma espontânea, denotam uma visão inatista (é o caso das questões contidas nos itens a, c, f). As afirmações que atribuem todo o desenvolvimento do ser humano às experiências vivenciadas, ou seja, a fatores do ambiente, responsabilizam e supervalorizam o papel dos pais, dos educadores e da própria sociedade; tal visão ambientalista está presente nos itens b, d, e f. R E S U M O Esta aula poderia ser resumida em uma frase: da fé em Deus à fé na experiência, depois à fé na razão e, finalmente, à fé na ciência. No que se refere ao ambientalismo, depois denominado empirismo, vimos que ele inicia-se trezentos anos antes da era cristã, com a visão aristotélica, que enfatizava o papel das sensações para que o homem chegasse ao conhecimento. A passagem das sensações (originadas no corpo) para o pensamento dar-se-ia através de associações: relacionamos os objetos que estão próximos, seja no tempo ou no espaço. Com o passar dos séculos, a dicotomia alma x corpo passa a caracterizar a separação entre o empírico e o racional. Dentro da visão empirista, destacam-se as contri- buições de John Locke, no século XVII, o qual enfatizava o papel da experiência na construção do conhecimento humano. As vivências seriam a única fonte das A U LA 3 9 4 C E D E R J C E D E R J A T Psicologia e Educação | As concepções de homem relacionadas ao desenvolvimento humano: o ambientalismo ideias e, portanto, do conhecimento acerca do mundo. As ideias não têm origem exclusiva na experiência exterior, através dos próprios objetos, mas podem originar- se de operações da mente, pelo uso da reflexão. No século seguinte, o ambientalismo de D. Hume tenta preencher a lacuna deixada por Locke, em relação ao processo pelo qual as experiências simples aliam-se para criar formas complexas de conhecer. Para resolver a questão, ele divide os objetos da consciência em duas classes: as impressões, causadas pelos objetos, e as ideias, que são os correspondentes, na memória, das impressões. Para ele, as relações de causalidade não existem no nível das ideias; critica o princípio de causa e efeito, considerando-o uma crença, com a qual nos habituamos, pela associação. O conhe- cimento científico, portanto, baseado na causalidade, é impossível. Finalmente, os séculos XIX e XX são marcados, respectivamente: – pelo empirismo inglês de Stuart Mill, para quem também a experiência é a base dos processos mentais, que criam as representações que, por sua vez, formam as associações, das quais emergem as ideias. A ciência deve basear-se na experiênciae o método a ser utilizado deve ser o indutivo, uma vez que o conhecimento do indivíduo forma-se a partir do acúmulo de suas impressões; pelo positivismo de A. Comte, aplicando-o à sociedade, que deveria seguir as leis naturais, e à política, que deveria ser também uma ciência exata; – pelo positivismo moderno e pós-moderno; o primeiro, priorizando o pressu- posto da causalidade e a crença na neutralidade do pesquisador; o segundo, reconhecendo a complexidade dos fenômenos e defendendo a necessidade de contextualizar os estudos acerca do desenvolvimento humano. ob jet ivo s Meta da aula Dando continuidade à discussão das diversas concepções de homem, subjacentes às abordagens do desenvolvimento humano, esta aula pretende caracterizar a abordagem sócio- histórica do desenvolvimento e da aprendizagem, estabelecen- do comparações com os dois outros paradigmas estudados nas aulas anteriores (inatismo e ambientalismo). Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: 1. reconhecer a existência de concepções diversas de homem, subjacentes às abordagens do desenvolvi- mento humano; 2. caracterizar a abordagem sócio-histórica do desen- volvimento e da aprendizagem; 3. comparar essa concepção com as abordagens am- bientalista e inatista. Discussão das diversas concepções de homem subjacentes às abordagens do desenvolvimento humano – a abordagem sócio-histórica Eloiza da Silva Gomes de Oliveira 4AULA Psicologia e Educação | Discussão das diversas concepções de homem subjacentes às abordagens do desenvolvimento humano – a abordagem sócio-histórica 96 C E D E R J C E D E R J 97 PRIMEIRAS IDEIAS Quando tentamos descrever, explicar, compreender um determinado fato, objeto ou fenômeno, podemos fazê-lo de várias formas, utilizando lingua- gens variadas, mas sempre haverá uma espécie de filtro, constituído pela subjetividade da nossa percepção. Passando do plano menor para o mais amplo da formulação das teorias cien- tíficas, sabemos que essa subjetividade precisa ser controlada, e as variáveis que possam interferir na objetividade e na fidedignidade da ciência precisam ser corretamente controladas. O conhecido filósofo Gaston Bachelard propõe uma divisão histórica bastante definida entre os períodos de “espírito pré-científico”, “espírito científico” e “novo espírito científico”. Ele sugere que a tarefa da história das ciências é revelar como as novas teorias científicas negam as anteriores, trazendo progresso ao conhecimento humano. Vai mais além e fala de uma “psicanálise do conhecimento”, que vá pro- fundamente ao centro das ciências, construindo o verdadeiro destino do pensamento humano. Ela tem como objetivo ultrapassar os obstáculos epistemológicos que impedem a ciência de progredir, como o senso comum e os pressupostos das filosofias tradicionais, por exemplo. INTRODUÇÃO Fonte: http://www.geocities. com/Athens/Acropolis/9568/ filosofia.html Gaston Bachelard (1884-1962) Filósofo francês, Bachelard teve origem modesta, traba- lhando desde cedo. Licenciou-se em Matemática e pre- tendia ser engenheiro. Alistou-se no exército na I Guerra Mundial e, depois do conflito, começou a trabalhar como professor de Física e Química. Ao tomar contato com a Teoria da Relatividade, elaborada por Einstein, entrou em crise com a Física e decidiu estudar Filosofia. Fez o doutorado com a tese Ensaio sobre o conhecimento aproximado e Estudo sobre a evolução de um problema da física, a propagação térmica nos sólidos (a tese é pre- miada). Tornou-se professor universitário, com passagem pelas Universidades de Dijon e Sorbonne (Paris), lecionan- do História e Filosofia das Ciências. Suas obras mais conhecidas são: O novo espírito científico (1934), Psicanálise do fogo (1938), A água e os sonhos (1942), O ar e os sonhos (1943), A terra e os devaneios da vontade (1948), A poética do espaço (1957) e A poética dos devaneios (1960). 96 C E D E R J C E D E R J 97 A U LA 4Os avanços da ciência ocorrem, portanto, por meio de rupturas históricas ou “cortes” feitos pela e p i s t e m o l o g i a no conhecimento cien- tífico, com a negação de uma ciência anterior por uma posterior. Essas rupturas promovem o surgimento de novos “solos epistemo- lógicos”, como dizia Foucault (configuração geral do saber comum aos vários saberes particulares em uma determinada época histórica, situada entre os códigos fundamentais da cultura e as interpretações filosóficas), ou de novos paradigmas, nas palavras de Thomas Kuhn (estruturas mentais que servem para classificar o real antes do estudo ou da investigação mais profunda, englobando elementos metodológicos e científicos, metafísicos, psicológicos, adotadas por uma comunidade científica). Trata-se de uma descontinuidade no desenvolvimento histórico dos saberes ou de uma falta de adequação entre o conhecimento comum e o científico. Dissemos tudo isso para afirmar que nas diversas abordagens teóricas do desenvolvimento humano há concepções diversas de homem e de mundo, constituindo arcabouços teóricos e ideológicos diferentes. Para compreender melhor esses modelos, precisamos conhecer esse substrato, o conjunto de ideias que se encontra na base de cada teoria. O QUE QUEREMOS DIZER COM A EXPRESSÃO “CONCEPÇÃO DE HOMEM”? Antônio Gramsci (1978), importante filósofo italiano, afirmou que a primeira e principal pergunta da filosofia é: “O que é o homem?” Desdobrou esta questão em várias outras: o que o homem pode se tornar, o que pode fazer de si mesmo, se pode ser “criador de si próprio”... Para Aranha (1996, p. 112-113), a questão é do âmbito da Antropo- logia e apresenta diferentes concepções de homem, das quais destacamos: • Concepção metafísica – afirma a existência de uma essência humana, de um modelo transcendente a ser atingido por meio do amadureci- mento. Segundo a autora, nessa concepção a educação é vista como um processo de aperfeiçoamento em que o indivíduo é levado a realizar A e p i s t e m o l o g i a , também chamada teoria do conheci- mento, interessa-se pela investigação da natureza, das fontes, da justificação, da fundamentação e da validade do conheci- mento. Ela pode ser concebida como refle- xão filosófica sobre o conhecimento científi- co (portanto ramo da Filosofia), como tarefa do próprio cientista, analisando e refletin- do sobre o seu modo de conhecer, ou como disciplina autônoma, investigação metacien- tífica, uma ciência da ciência com seu pró- prio objeto e método, como na epistemolo- gia genética de Piaget, centrada no conheci- mento científico e que estuda as condições necessárias para que a criança (bebê) chegue à fase adulta com os conhecimentos possí- veis para ela. Como exemplo, podemos citar o trabalho de Einstein, que trans- cendeu o papel de cientista e chegou a ser um filósofo do conhecimento, ana- lisando e refletindo sobre a sua própria atividade científica, explicitando as regras de funcionamento e o seu modo próprio de conhecer. Figura 4.1: Immanuel Kant. Fonte: http://www.marxists.org/ glossary/people/k/pics/kant.jpg Psicologia e Educação | Discussão das diversas concepções de homem subjacentes às abordagens do desenvolvimento humano – a abordagem sócio-histórica 98 C E D E R J C E D E R J 99 suas potencialidades. De acordo com Kant, o fim da educação é desenvolver, em cada indivíduo, toda a perfeição de que ele seja capaz. • Concepção naturalística – busca adequar a metodologia das ciências humanas ao método das ciências da natureza, basea- do na experimentação, no controle e na generalização. Nessa concepção, proliferam abordagens teóricas que privilegiam o comportamento observável (Psicologia Experimental) e a programação e modificação do mesmo (Behaviorismo). • Concepção histórico-social – caracterizada por três aspectos: a preocupação com o processo (nada é estático), com a contra- dição(não há linearidade no processo) e com o caráter social da construção humana (o ser do homem se faz presente nas relações entre os homens ao longo da história). Essa concepção de homem é clara, por exemplo, no naturalismo de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), na dialética de Hegel (1770-1831) e no materialismo histórico de Karl Marx (1818-1883). Figura 4.2: Skinner. Fonte: http://lovecaffeine. zip.net/images/skinner.jpg Figura 4.3: Jean-Jacques Rousseau. Fonte: http://www.estacao- liberdade.com.br/autores/ rousseau.jpg Figura 4.4: Georg Wi- lhelm Friedrich Hegel. Fonte: http://www.rvc.cc.il. us/faclink/pruckman/phil/ hegel.jpg Figura 4.5: Karl Marx. Fonte: http://esoriano.files. wordpress.com/2007/07/ marx.jpg Você sabia... Representante do Idealismo alemão, Georg Wilhelm Friedrich Hegel deu a Marx as bases teóricas para a construção do arcabouço da sua dialética materialista. É de Hegel a frase famosa: “As tragédias verdadeiras no mundo não são conflitos entre o certo e o errado. São conflitos entre dois direitos.” A origem do famoso Manifesto do Partido Comunista, escrito por Marx e por seu amigo e também filósofo Engels, é curiosa. Eles foram forçados a abandonar a Alemanha e viveram na França e depois na Bélgica. Suas obras atraíram os intelectuais e depois os operários. Um grupo de operários dirigiu-se a Marx e Engels, convidando-os a unir-se a eles. Ambos declararam que não o fariam senão quando seu programa fosse comum. Os operários con- sentiram, organizaram a Liga dos Comunistas e encarregaram Marx e Engels do Manifesto Comunista, que explicitou os princípios e as ações da revolução socialista através da tomada do poder pelos proletários. Jean-Jacques Rousseau, importante filósofo do Naturalismo, acreditava que todo homem nasce bom e que a Educação poderia corromper a natureza da criança. Uma de suas fra- ses conhecidas é: “O único hábito que se deve permitir a uma criança é o de não adquirir nenhum.” O cantor e compositor Renato Russo adotou esse sobrenome artístico em ho- menagem a Rousseau. Japiassu (1975) apresenta três fases históricas distintas da concep- ção de homem: a concepção clássica (ciência grega), a concepção cristã (Idade Média) e a concepção moderna. 98 C E D E R J C E D E R J 99 A U LA 4 Como ilustração, apresentamos um quadro que demonstra cla- ramente como são diferentes as concepções de homem em diferentes teóricos. Fonte: http://www.saberweb.com.br/grecia/arquitetura_da_grecia_antiga/ images/arquitetura-da-grecia-antig.jpg Fonte: http://arrastao.weblog.com.pt/arquivo/ spanish_inquisition_court.jpg http: / / s toa.usp.br /gi l / f i les / -1 /71/CMS_ YE+2Lowering_4.jpg Teórico Concepção de homem Freud Afirma que o desenvolvimento humano é explicado por fatores psicossexuais. Os componentes do aparelho psíquico (id, ego e superego) têm dinâmicas próprias que são geradoras de conflito. O id existe desde o nascimento, é zona inconsciente e primitiva; o ego forma-se no primeiro ano de vida, sendo regido pelo princípio da realidade; e o superego forma-se entre os três e os cinco anos de vida, resulta do processo de socialização. Watson Propõe que a psicologia, para se tornar ciência, deve adotar o objeto e os métodos da psicologia animal. Valoriza o comportamento observável e o método experimental e rejeita a possibilidade de transmissão hereditária de aptidões e de qualidades da personalidade. Destaca a importância do meio ambiente como determinante do desenvolvimento humano, pois considera que o comportamento é o conjunto de respostas observáveis de forma objetiva aos estímulos externos. Piaget Segundo ele, o comportamento é definido na interação entre as estruturas biológicas e o ambiente, e a inteligência se constrói progressivamente ao longo do tempo, por estágios universais cuja sequência é definida. Bruner Na sua concepção, o desenvolvimento humano está antes mais diretamente ligado com a cultura e os processos cognitivos estão centrados na criação de significados. Os modos de representação adquiri- dos pela criança no decurso do desenvolvimento intelectual são três, progressivamente: icônico, enati- vo e simbólico. O mecanismo mais importante do desenvolvimento é a auto-organização. Psicologia e Educação | Discussão das diversas concepções de homem subjacentes às abordagens do desenvolvimento humano – a abordagem sócio-histórica 100 C E D E R J C E D E R J 101 Vygotsky Afirma que a consciência humana vem da relação do homem com a realidade de uma história social que é vinculada ao trabalho e a linguagem. O homem é construído historicamente e sua subjeti- vidade surge das circunstâncias em que vive no seu contexto social. Não há um indivíduo pronto e acabado, mas uma subjetividade em permanente processo de construção. O desenvolvimento humano se dá, portanto, no âmbito da cultura e fundamentalmente por meio do trabalho social. Skinner Em sua obra, o homem é visto como um ser cujas características herdadas podem conflitar com o que é desejável pelo meio. O comportamento humano evolui por meio das interações entre três níveis de variação e seleção (filogênese, ontogênese e cultura), das inter-relações entre contingências de sobrevivência e de reforço que o modelam, de acordo com os objetivos externos, nos processo de condicionamento operante e respondente. Paulo Freire Vê o homem como um sujeito de relações, capaz de objetivar o mundo e objetivar a si mesmo por meio do ato de conhecer, criando uma “consciência de mundo”, sentidos, significações e símbolos, e condições plenas para a intervenção sobre a realidade para modificá-la. Ele não se reduz aos limites do tempo e do espaço, mas é construtor da sua história e da sua cultura. Figura 4.6: Sigmund Freud. Fonte: http://personagens- deoutraspoesias.files.word- press.com/2008/10/meiobit- freud.jpg Figura 4.7: John Broadus Watson. Fonte: http://psychclassics. yorku.ca/Watson/Watson. jpg Figura 4.8: Jean Piaget. Fonte: http://commons.ac- tivemath.org/ActiveMath2/ content/piaget/pics/jean_pia- get.jpg Figura 4.9: Jerome Bruner. F o n t e : h t t p : / / w w w. t c . columbia.edu/i/media/me- dallist_bruner.jpg Figura 4.10: Lev. S. Vygotsky. Fonte: http://benjamimana. files.wordpress.com/2008/06/ vygotsky.jpg Figura 4.11: Burrhus Fre- deric Skinner. Fonte: http://lovecaffeine. zip.net/images/skinner.jpg Figura 4.12: Paulo Freire. Fonte: http://accosta.files. wordpress.com/2009/02/pau- lo_freire1.jpg 100 C E D E R J C E D E R J 101 A U LA 4 1. Vimos nesta aula as concepções de homem características de alguns enfoques teóricos importantes da Psicologia. Vamos agora recordá-las por meio de uma atividade de associação. A seguir, você encontrará os nomes dos teóricos, numerados de 1 a 7. 1. PIAGET, J. O julgamento moral na criança. São Paulo: Summus, 1994. 2. BRUER, J. S. O processo da educação. São Paulo: Editora Nacional, 1968 3. SKINNER, B. F. Ciência e comportamento humano. Brasília: Ed. UnB/ FUNBEC, 1970. 4. WATSON, J. B.; WATSON, R. R. Psychological care of infant and child. New York: Norton, 1928. 5. FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1989. 6. FREUD, S. Sobre la dinámica de la transferencia. In FREUD, S. Obras completas. v. I. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1994. 7. VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1987. Agora vamos apresentar citações de quatro desses teóricos, que expressam essas concepções de homem. Coloque nos parênteses os números correspondentes aos nomes dos teóricos, identificando cada citação. ( ) Há uma pluralidade das relações do homem com o mundo, na medida em que ele responde à ampla variedade de seus desafios. Em que não se esgota num tipo padronizado de respostas. A sua pluralidade não é só em face dos diferentes desafios que partem do seu contexto mais em face do mesmo desafio. No jogo constante de suas respostas, altera-se no próprio ato de responder. Organiza-se.Escolhe a melhor resposta. Testa-se. Age.(p. 39-40). ( ) O hábito de buscar dentro do organismo uma explicação do com- portamento tende a obscurecer as variáveis que estão ao alcance de uma análise científica. Estas variáveis estão fora do organismo, em seu ambiente imediato e em sua história ambiental. Possuem um status físico para o qual as técnicas usuais da ciência são adequadas. (...) A objeção aos estados interiores não é a de que eles não existem, mas a de que não são relevantes para uma análise funcional (p. 41). ( ) Se passarmos, em seguida, à consciência da regra (...) podemos expressá-la sob a forma de três estágios (...) da codificação das regras. No primeiro estágio, a regra ainda não é coercitiva, seja porque é puramente motora, seja (...) porque é suportada, como que incons- cientemente, a título de exemplo interessante e não da realidade obrigatória. Durante o segundo estágio (...) a regra é considerada ATIVIDADE Psicologia e Educação | Discussão das diversas concepções de homem subjacentes às abordagens do desenvolvimento humano – a abordagem sócio-histórica 102 C E D E R J C E D E R J 103 A ABORDAGEM SÓCIO-HISTÓRICA DO DESENVOLVIMENTO HUMANO Como vimos anteriormente, toda abordagem do desenvolvi- mento humano traz em si uma visão de homem e de mundo, uma perspectiva ideológica. A abordagem sócio-histórica é moderna (século XX), e está si- tuada, em sua origem, na União Soviética. Foi desenvolvida inicialmente por Vygotsky, Luria, Leontiev e colaboradores. O russo Lev Semionovitch Vygotsky (1896-1934) foi um psicólogo descoberto nos meios acadêmicos ocidentais depois da sua morte, causada por tuberculose. Pensador importante, foi pioneiro no desenvolvimento da noção de que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e de que os processos psíquicos, antes de internalizados, desenvolvem-se na relação com os adultos e demais membros do universo social da criança. Alexander Romanovich Luria (1902-1977) foi um famoso neuropsicólogo russo que conheceu Vygotsky e que foi influenciado profundamente por ele. Luria e Vygotski desenvolveram um novo tipo de Psicologia, relacionando os processos psicológicos com aspectos culturais, históricos, dando ênfase ao papel da linguagem. Interessou-se também pelo estudo da influência da cultura nos processos mentais, chamada por ele de mediação cultural. Fonte: http://ha- gar.up.ac.za/catts/ learner/2000/sche- epers_md/images/ vygotsky.jpg Fonte: http://www. phillwebb.net/To- pics/Human/Luria/ Luria.jpg como sagrada e intangível, de origem adulta e de essência eterna; toda a modificação proposta é considerada pela criança como uma transgressão. Durante o terceiro estágio, enfim, a regra é considerada como uma lei imposta pelo consentimento mútuo, cujo respeito é obrigatório, se deseja ser leal, permitindo-se, todavia, transformá-la à vontade, desde que haja o consenso geral (p. 34). ( ) (...) todo ser humano, por efeito conjugado de suas disposições inatas e dos influxos que recebe em sua infância, adquire uma es- pecificidade determinada para o exercício de sua vida amorosa, ou seja, para as condições de amor que estabelecerá e as pulsões que satisfará, assim como para as metas que irá fixar-se. RESPOSTA 5-3-1-6. 102 C E D E R J C E D E R J 103 A U LA 4 Essa abordagem tem base marxista e funda-se na perspectiva dialética. Considera que o comportamento humano não se dá mediante simples reações instintivas, mas sim fundamentado em motivações que possuem o sentido social que constitui formas de atividade pertinentes ao momento histórico e às formas específicas de cultura existentes. A visão do ser humano nessa perspectiva é histórica e social. Isso quer dizer que os sujeitos constituem-se, ao longo da vida, a partir da atuação em um mundo material e cultural que contém a humanidade desenvolvida por seus antepassados, de onde se tira a matéria-prima para a constituição individual. O desenvolvimento humano, para usar uma expressão do próprio Marx, está assentado em “forças essenciais humanas” que resultam da atividade social, objetivadora dos homens. Não existe, portanto, essência humana independente da atividade histórica. A humanidade é produzida histórica e coletivamente pelo conjun- to dos homens e precisa ser novamente produzida em cada indivíduo. Esse processo é construído pela cultura, pelas atividades que se con- solidaram ao longo do tempo como formas de atender às necessidades que reconhecemos como humanas, pela linguagem que utilizamos para pensar, planejar e para nos expressarmos, pelas formas de relações sociais que constituímos como possíveis e adequadas para a reprodução da vida. Para Vygotsky (1989, 1991), o homem não tem uma relação direta com o mundo exterior, ela é sempre mediada por sistemas simbólicos (cultura) ou pelo outro por meio de relações interpsíquicas, que são internalizadas intrapsiquicamente, sempre num movimento dialético, ou seja, tal relação não é estática, pois, ao interagir com sua realidade, o homem modifica o seu entorno e assim, modifica-se a si mesmo, sendo o produto desta relação maior do que a soma entre as partes. Alexei Nikolaevich Leontiev (1903-1979) foi um psicólogo russo que desenvolveu impor- tantes estudos junto com Vygotsky e Luria. Voltou-se para a compreensão da estrutura da atividade humana, a alienação (dissociação entre o significado e o sentido da ação) e a compreensão do desenvolvimento e da aprendizagem pela ótica sócio-histórica. Fonte: http://www. marxists.org/portu- gues/leontiev/leon- tiev.jpg Psicologia e Educação | Discussão das diversas concepções de homem subjacentes às abordagens do desenvolvimento humano – a abordagem sócio-histórica 104 C E D E R J C E D E R J 105 São os seguintes os princípios da teoria de Vygotsky, que ilustram perfeitamente a abordagem sócio-histórica: a) a psicologia é uma ciência do homem histórico e não do ho- mem abstrato e universal; b) a origem e o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores é social; c) há três classes de mediadores: signos e instrumentos; atividades individuais e rela- ções interpessoais; d) o desenvolvimento de habilidades e funções específicas, bem como a origem da sociedade, são resultantes do surgimento do trabalho - este entendido como ação/movimento de transformação - e que é pelo trabalho que o homem, ao mes- mo tempo em que transforma a natureza para satisfazer as suas necessidades, se transforma também; e) existe uma unidade entre corpo e alma, ou seja, o homem é um ser total (LUCCI, 2006). Para Vygotsky, expoente desta abordagem, o desenvolvimento humano é um processo dialético complexo, multifacetado, marcado por um esquema de periodicidade, por desproporções de funções, metamor- foses, conversões qualitativas, combinações complexas, processos de evolução e involução, interação de fatores externos e internos, e busca constante de adaptação ao meio (1991a, p. 33). Concluímos este tópico com a grande polêmica existente sobre se podemos ou não incluir Piaget nessa vertente teórica. Sem querer aprofundar essa questão, trazemos o posiciona- mento de Marta Kohl de Oliveira (1993), profunda estudiosa da obra de Vygotsky, Embora haja uma diferença muito marcante no ponto de partida que definiu o empreendimento intelectual de Piaget e Vygotsky – o primeiro tentando desvendar as estruturas e mecanismos universais do funcionamento psicológico do homem e o último tomando o ser humano como essencialmente histórico e portanto sujeito às especificidades do seu contexto cultural – há diversos aspectos a respeito dos quais o pensamento desses dois autores é bastante semelhante. (...) Tanto Piaget como Vygotsky são inte- racionistas, postulando a importância da relação entre indivíduo e ambiente na construção dos processos psicológicos; nas duas abordagens, portanto, o indivíduo é ativoem seu próprio pro- cesso de desenvolvimento: nem está sujeito apenas a mecanismos de maturação, nem submetido passivamente a imposições do ambiente (p. 103-104). 104 C E D E R J C E D E R J 105 A U LA 4Piaget escreveu cerca de setenta livros e trezentos artigos sobre Psicologia, Pedagogia e Filosofia. Aos 22 anos ele já era doutor em Biologia. Casou-se com uma das assistentes, Valentine Châtenay e muitos dos seus estudos foram feitos observando os próprios filhos. Vygotsky e Piaget, grandes pesquisadores do desenvolvimento humano e da aprendizagem, não se conheceram pessoalmente. Vygotsky prefaciou a tradução russa de A linguagem e o pensamento da criança, de Piaget, de 1923. 2. Apresentamos a seguir sete princípios da teoria de Vygotsky. Em cada um deles foi suprimida uma palavra ou expressão. Escolha, entre as palavras apresentadas ao final, as que completam corretamente as lacunas. a) O homem é um ser ________________ ou, mais abrangentemente, um ser histórico-cultural; o homem é moldado pela cultura que ele próprio cria. b) O indivíduo é determinado nas __________________, ou seja, é por meio da relação com o outro e por ela própria que o indivíduo é determinado; é na linguagem e por ela própria que o indivíduo é determinado e é de- terminante de outros indivíduos. c) A atividade mental é exclusivamente humana e é resultante da aprendi- zagem social, __________________________ e das relações sociais. d) O desenvolvimento mental é, em sua essência, ____________________ ___________________. e) A atividade cerebral é sempre mediada ___________________________. f) ____________________ é o principal mediador na formação e no desen- volvimento das funções psicológicas superiores. g) O processo de interiorização das funções psicológicas superiores __________________, e as estruturas de percepção, a atenção voluntária, a memória, as emoções, o pensamento, a linguagem, a resolução de pro- blemas e o comportamento assumem diferentes formas, de acordo com o contexto histórico da cultura. • um processo desvinculado do tempo; • da interiorização da cultura; • histórico-social; • um processo sociogenético; ATIVIDADE Psicologia e Educação | Discussão das diversas concepções de homem subjacentes às abordagens do desenvolvimento humano – a abordagem sócio-histórica 106 C E D E R J C E D E R J 107 • por instrumentos e signos; • é histórico; • a linguagem; • da internalização dos impulsos agressivos; • por investimentos libidinais; • a leitura e a escrita; • interações sociais; • processo de condicionamento. RESPOSTAS a) O homem é um ser histórico-social ou, mais abrangentemente, um ser histórico- cultural; o homem é moldado pela cultura que ele próprio cria. b) O indivíduo é determinado nas interações sociais, ou seja, é por meio da relação com o outro e por ela própria que o indivíduo é determinado; é na linguagem e por ela própria que o indivíduo é determinado e é determinante de outros indi- víduos. c) A atividade mental é exclusivamente humana e é resultante da aprendizagem social, da interiorização da cultura e das relações sociais. d) O desenvolvimento mental é, em sua essência, um processo sociogenético. e) A atividade cerebral é sempre mediada por instrumentos e signos. f) A linguagem é o principal mediador na formação e no desenvolvimento das funções psicológicas superiores. g) O processo de interiorização das funções psicológicas superiores é histórico, e as estruturas de percepção, a atenção voluntária, a memória, as emoções, o pen- samento, a linguagem, a resolução de problemas e o comportamento assumem diferentes formas, de acordo com o contexto histórico da cultura. COMPARAÇÃO COM AS ABORDAGENS INATISTA E AM- BIENTALISTA DO DESENVOLVIMENTO HUMANO Ficou claro até agora que existem diferentes concepções episte- mológicas de desenvolvimento e aprendizagem, e que elas conduzem a práticas pedagógicas bastante diferentes. A forma como se concebe o indivíduo e o processo de construção do conhecimento faz parte da prática docente, tenhamos ou não consciência disso. Vimos nas aulas anteriores duas dessas abordagens: a inatista e a ambientalista. Vamos agora comparar alguns de seus aspectos com a abordagem que focalizamos na aula de hoje: a sócio-histórica. 106 C E D E R J C E D E R J 107 A U LA 4Preferimos construir um quadro comparativo, pois nos parece simplificar a visualização do que pretendemos. Abordagem inatista Abordagem ambientalista Abordagem sócio- histórica Fundamentada na filosofia racionalis- ta, idealista e aprio- rista (Descartes, Espinoza, Kant). Fundamentada na epistemologia empi- rista e positivista (Francis Bacon, Locke, Augusto Comte). Fundamentada nos princí- pios do materialismo dialéti- co (Marx, Hegel, Vygotsky). Pensa que as carac- terísticas e capa- cidades básicas do ser humano (perso- nalidade, valores, comportamento) eram inatas, já estariam prontas no momento do nascimento, de- pendendo do ama- durecimento para se manifestarem. Atribui exclusivamente ao ambiente a cons- tituição das carac- terísticas humanas, destacando a experi- ência como fonte de conhecimento e de formação de hábitos de comportamento. Vê o homem como um ser construído pelas forças his- tóricas e sociais no processo de evolução da sociedade e da cultura em que está inserido. Compreende o processo de desen- volvimento huma- no regido por leis próprias, como um processo endógeno independente do conhecimento, da experiência e da cultura. Compreende o proces- so de desenvolvimento humano determinado pela ação do meio, modelado e condicio- nado por ele. Compreende o processo de desenvolvimento humano como a transformação mú- tua, dialeticamente estabe- lecida, entre o homem e a realidade. Apresenta expec- tativa limitada do papel da educação, já que considera o desempenho indi- vidual dependente das capacidades humanas inatas. Acredita na quase onipotência das insti- tuições educativas, já que o indivíduo tem seu comportamento moldado, manipulado, controlado e determi- nado pelas pressões do ambiente em que vive. As instituições educativas são agentes de constru- ção da emancipação e da autonomia. Cabe-lhes problematizar a realidade, desenvolver a reflexividade e a crítica, mediar a relação do homem com a cultura. É da Educação a função de socializar saberes e de produzir conhecimento dentro de princípios éticos de solidariedade, liberdade, participação. O sucesso na apren- dizagem escolar dependerá de qua- lidades, aptidões, ou pré-requisitos básicos: inteligência, esforço, atenção, in- teresse, maturidade para aprender. O sucesso na apren- dizagem escolar dependerá da eficá- cia dos processos de reforço utilizados, da eficácia dos processos de medir, comparar, testar, experimentar e controlar o comporta- mento. O sucesso na aprendiza- gem escolar dependerá do estabelecimento da relação entre teoria e prática, da construção de uma práxis transformadora. Psicologia e Educação | Discussão das diversas concepções de homem subjacentes às abordagens do desenvolvimento humano – a abordagem sócio-histórica 108 C E D E R J C E D E R J 109 IMPACTO DA ABORDAGEM SÓCIO-HISTÓRICA DO DESEN- VOLVIMENTO HUMANO NOS PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM Iniciamos esta última parte da nossa aula com uma citação de Piaget, ao falar das mudanças necessárias no ensino das ciências para tornar a aprendizagem agradável e significativa. A primeira dessas condições é naturalmente o recurso aos métodos ativos, conferindo-se especial relevo à pesquisa espontânea da criança ou do adolescente e exigindo-se que toda verdade a ser adquirida seja reinventada pelo aluno, ou pelo menos reconstruí- da e não simplesmente transmitida. Ora, dois frequentes mal- entendidos reduzem bastante o valor das experiências realizadas até agora neste sentido. O primeiro é o receio (e, para alguns,a esperança) de que se anule o papel do mestre, em tais experiências, e que, visando ao pleno êxito das mesmas, seja necessário deixar os alunos totalmente livres para trabalhar ou brincar segundo melhor lhes aprouver. Mas é evidente que o educador continua indispensável, a título de animador, para criar as situações e armar os dispositivos iniciais capazes de suscitar problemas úteis à criança, e para organizar, em seguida, contra- exemplos que levem à reflexão e obriguem ao controle das soluções demasiado apressadas: o que se deseja é que o professor deixe de ser apenas um conferencista e que estimule a pesquisa e o esforço, ao invés de se contentar com a transmissão de soluções já prontas (Piaget, 1984, p. 15). Esse texto facilita a possível inserção deste autor no bloco das abordagens sócio-históricas, o que é contestado por alguns autores. Mesmo sem o forte viés político e histórico encontrado na obra de Vygotsky, Piaget realça aspectos como a atividade, a participação e a reflexividade crítica do aprendiz, assim como a importância do papel do professor nesse processo. Assim podemos resumir algumas influências da abordagem sócio- histórica no processo de construção formal do conhecimento, realizado pela escola: a. As críticas aos modelos tradicionais e à excessiva ênfase na raciona- lidade técnica no processo de educação, destacando a necessidade da Figura 4.13: Jean Piaget. Fonte: http://www.pucsp.br/pos/cesima/schenberg/cientistas/ piaget2.jpg 108 C E D E R J C E D E R J 109 A U LA 4construção da p r á x i s . Foi permitida, assim, a emergência de críticas como a de Giroux (1988, p. 23): As instituições de treinamento de professor e as escolas públicas têm, historicamente, se omitido em seu papel de educar os docentes como intelectuais. Em parte, isto se deve à absorção da crescente racionalidade tecnocrática que separa teoria e prática e contribui para o desenvolvimento de formas de pedagogia que ignoram a criatividade e o discernimento do professor. b. O destaque à importância do respeito e da convivência dos diversos saberes e culturas. c. A visão da educação como possibilidade emancipadora. d. A proposta da formação do professor como intelectual crítico e re- flexivo. e. A contribuição da Educação para a construção de uma sociedade democrática. f. A concepção da Educação como social e historicamente construída pelo homem. g. A ênfase nos “outros sociais” mais experientes, na linguagem e nos instrumentos, nos processos de mediação e interação. h. O destaque ao fato de que os aspectos históricos e culturais vão de- terminar os processos de desenvolvimento. i. O estabelecimento, como meta da Educação, da construção da essência humana histórica, política e socialmente determinada. j. A realização da crítica da própria instituição escolar e dos seus pro- cessos de formação humana. k. A compreensão do desenvolvimento humano, segundo a concepção social/relacional, admitindo o homem como multideterminado e com- batendo a ideia da sua concepção como ser natural ou abstrato. l. A superação dos reducionismos das concepções empiristas e idealistas. Fonte: http://ww1.rtp.pt/noticias/images/articles/338080/aulas.jpg Os gregos chamavam de p r á x i s a ação de realizar alguma coisa, e nesse sentido se con- trapõe à teoria. Na Sociologia, pode ser concebida como o conjunto das ati- vidades materiais e intelectuais exercidas pelo homem e que contribuem para a transformação da realidade social. É con- ceito fundamental no pensamento marxista. Trata-se do conjunto de atividades que criam condições para a ação prática, para a produção material do homem e para a sua ação sobre a natureza. A partir de Hegel e Marx, práxis torna-se um movimento que possibilita a compre- ensão da realidade que é efetivamente contra- ditória, sintetizando no conceito o ser e suas determinações históricas essenciais em um processo de totali- zação. No marxismo, significa união dialética da teoria e da prática. Psicologia e Educação | Discussão das diversas concepções de homem subjacentes às abordagens do desenvolvimento humano – a abordagem sócio-histórica 110 C E D E R J C E D E R J 111 Fonte: http://www.affinityarts.com.br/imagens/fotos/PA090002.JPG Fonte: http://www.imagem.ufrj.br/thumbnails/4/1181.jpg Sem a perspectiva de ter esgotado as contribuições dessa aborda- gem aos processos educacionais, concluímos com as palavras de Saviani, delineando contornos do seu entendimento sobre a tarefa de educar: O trabalho educativo é o ato de produzir, direta e intencionalmen- te, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens. Assim, o objeto da educação diz respeito, de um lado, à identificação dos elementos culturais que precisam ser assimilados pelos indivíduos da espécie humana para que eles se tornem humanos e, de outro lado e concomitantemente, à descoberta das formas mais adequa- das para atingir esse objetivo (SAVIANI, 1995, p. 17). ATIVIDADE FINAL Esta atividade tem como objetivo principal caracterizar a abordagem sócio- histórica do desenvolvimento e da aprendizagem, por meio da leitura textual de seus principais representantes. 110 C E D E R J C E D E R J 111 A U LA 4A seguir, apresentaremos alguns textos de autoria de Leontiev, Luria e Vygotsky. Leia com atenção e destaque, de cada um, pelo menos um aspecto que evidencie as características dessa abordagem do desenvolvimento humano. 1º Texto O ser humano vive como se fosse num círculo cada vez mais amplo de atividade para si. No começo, é um pequeno círculo de pessoas e objetos que diretamente o circundam: ele desenvolve interação com eles, uma percepção sensorial deles, uma aprendizagem do que pode ser conhecido sobre eles, um aprendizado de seu significado. Porém, mais para frente, diante de si começa a se abrir uma atividade que se encontra muito além dos limites de sua atividade prática e de seu contato direto: os limites ampliados daquilo que ele pode conhecer e que é apresentado para ele pelo mundo. O “campo” real que agora determina suas ações não é aquele que está simplesmente presente, mas aquele que existe para ele, existe objetivamente ou, às vezes, apenas como uma ilusão. (...) Naturalmente, a formação da personalidade representa, em si, um processo contínuo que consiste de uma série de estágios que mudam sequencialmente, cujas características qualitativas dependem das condições e das circunstâncias concretas. Por esta razão, ao observar seu curso sequencial, notamos, apenas, deslocamentos separados. Mas, se fôssemos olhá-lo a certa distância, então a transição que marca o nascimento genuíno da personalidade apareceria como um acontecimento que muda o curso de todo o desenvolvimento psíquico subsequente. Existem muitos fenômenos que marcam essa passagem. Primeiramente, é uma reconstrução da esfera de relações com outras pessoas e com a sociedade. Se, nos estágios iniciais, a sociedade é descoberta através de contatos crescentes com aqueles que estão ao redor da pessoa e, por essa razão, predominantemente em suas formas personificadas, então, neste momento, esta situação se reverte: as pessoas ao redor começam, cada vez mais, a agir através de relações sociais objetivas. A transição a respeito da qual estamos falando também provoca mudanças que determinam o ponto principal no desenvolvimento da personalidade, no seu destino (LEONTIEV, 1978). Psicologia e Educação | Discussão das diversas concepções de homem subjacentes às abordagens do desenvolvimento humano – a abordagem sócio-histórica 112 C E D E R J C E D E R J 113 2º Texto Para explicar as formas mais complexas da vida consciente do homem é imprescindível sair dos limites do organismo, buscar as origens desta vida consciente e do comportamento “categorial”, não nas profundezas do cérebroou da alma, mas sim nas condições externas da vida e, em primeiro lugar, da vida social, nas formas histórico- sociais da existência do homem (LURIA, 1986, p.21). Percebemos agora a falácia das velhas noções segundo as quais as estruturas fundamentais da percepção, representação, raciocínio, dedução, imaginação e consciência da própria identidade seriam formas fixas da vida espiritual que permanecem inalteradas em diferentes condições sociais. As características básicas da atividade mental humana podem ser entendidas como produto da história social – elas estão sujeitas a mudanças quando as formas de prática social se alteram; são portanto sociais em sua essência (LURIA, 1990, p. 218). 3º Texto Não é simplesmente um conjunto de ligações associativas que se assimila com ajuda da memória, não é um hábito mental automático, senão um autêntico e complexo ato do pensamento. Como tal, não pode dominar-se com ajuda da simples aprendizagem, senão que exige infalivelmente que o pensamento da criança se eleve em seu desenvolvimento interno a um grau mais alto para que o conceito possa surgir na consciência. A investigação nos ensina que em qualquer grau de desenvolvimento o conceito é, desde o ponto de vista psicológico, um ato de generalização. ... A palavra é a princípio uma generalização do tipo mais elementar, e unicamente à medida que se desenvolve a criança passa da generalização elementar para formas cada vez mais elevadas de generalização, culminando com o processo de formação de autênticos e verdadeiros conceitos. O processo de desenvolvimento dos conceitos ou dos significados das palavras exige o desenvolvimento de uma série de funções (a atenção voluntária, a memória lógica, a abstração, a comparação e a 112 C E D E R J C E D E R J 113 A U LA 4diferenciação), de modo que processos psíquicos tão complexos não podem ser aprendidos e assimilados de modo simples (VYGOTSKY , 1989, p. 184-5). 4º Texto Se desejarmos estudar a psicologia do homem cultural adulto, devemos ter em mente que ela se desenvolveu como resultado de uma evolução complexa que combinou pelo menos três trajetórias: a da evolução biológica desde os animais até o ser humano, a da evolução histórico- cultural, que resultou na transformação gradual do homem primitivo no homem cultural moderno, e a do desenvolvimento individual de uma personalidade específica (ontogênese), com o que um pequeno recém-nascido atravessa inúmeros estágios, tornando-se um escolar e a seguir um homem adulto cultural (VYGOTSKY; LURIA, 1996, p. 57). COMENTÁRIOS Espera-se que o aluno destaque de cada texto, por exemplo, os seguintes aspectos: Texto 1 • O ser humano vive como se fosse num círculo cada vez mais amplo de atividade. • Começa a se abrir uma atividade que se encontra muito além dos limites de sua atividade prática e de seu contato direto: os limites ampliados daquilo que ele pode conhecer e que é apresentado para ele pelo mundo. Psicologia e Educação | Discussão das diversas concepções de homem subjacentes às abordagens do desenvolvimento humano – a abordagem sócio-histórica 114 C E D E R J C E D E R J 115 • A formação da personalidade representa, em si, um processo contí- nuo que consiste de uma série de estágios que mudam sequencial- mente, cujas características qualitativas dependem das condições e das circunstâncias concretas. • Por esta razão, ao observar seu curso sequencial, notamos, apenas, deslocamentos separados. Mas, se fôssemos olhá-lo a certa distância, então a transição que marca o nascimento genuíno da personalidade apareceria como um acontecimento que muda o curso de todo o desenvolvimento psíquico subsequente. • Nos estágios iniciais, a sociedade é descoberta por meio de contatos crescentes com aqueles que estão ao redor da pessoa e, por essa razão, predominantemente em suas formas personificadas. Texto 2 • Para explicar as formas mais complexas da vida consciente do homem, é imprescindível sair dos limites do organismo, buscar as origens desta vida consciente e do comportamento “categorial”, não nas profundezas do cérebro ou da alma, mas sim nas condições externas da vida e, em primeiro lugar, da vida social, nas formas histórico-sociais da existência do homem. • Percebemos agora a falácia das velhas noções, segundo as quais as estruturas fundamentais da percepção, representação, raciocínio, dedução, imaginação e consciência da própria identidade seriam formas fixas da vida espiritual que permanecem inalteradas em diferentes condições sociais. • As características básicas da atividade mental humana podem ser entendidas como produto da história social – elas estão sujeitas a mudanças quando as formas de prática social se alteram; são, portanto, sociais em sua essência. Texto 3 • A investigação ensina que em qualquer grau de desenvolvimento o conceito é, desde o ponto de vista psicológico, um ato de gene- ralização. • A palavra é a princípio uma generalização do tipo mais elementar, e unicamente à medida que se desenvolve a criança passa da generalização elementar para formas cada vez mais elevadas de generalização, culminando com o processo de formação de autên- ticos e verdadeiros conceitos. • O processo de desenvolvimento dos conceitos ou dos significados das palavras exige o desenvolvimento de uma série de funções (a atenção voluntária, a memória lógica, a abstração, a comparação e a diferenciação), de modo que processos psíquicos tão complexos não podem ser aprendidos e assimilados de modo simples. 114 C E D E R J C E D E R J 115 A U LA 4 Toda abordagem do desenvolvimento humano traz em si uma visão de homem e de mundo, uma perspectiva ideológica. No caso da abordagem sócio-histórica, o desenvolvimento humano está fundamentado em “forças essenciais humanas” que resultam da atividade social objetivadora dos homens, pois a essência humana não é independente da atividade histórica. A aprendizagem é ativa e mediada pelas instituições da sociedade, principalmente a escola. Cabe à Educação a construção da essência humana histórica, política e socialmente determinada. R E S U M O Texto 4 • Se desejarmos estudar a psicologia do homem cultural adulto, devemos ter em mente que ela se desenvolveu como resultado de uma evolução complexa que combinou pelo menos três trajetórias: a da evolução biológica desde os animais até o ser humano, a da evolução histórico-cultural, que resultou na transformação gradual do homem primitivo no homem cultural moderno, e a do desenvol- vimento individual de uma personalidade específica (ontogênese). • Um pequeno recém-nascido atravessa inúmeros estágios, tornando-se um escolar e, a seguir um homem adulto cultural. Os comentários dos trechos escolhidos são de caráter pessoal de cada aluno. ob jet ivo s Meta da aula Apresentar como se dá a construção do psiquismo a partir dos primeiros momentos, destacando a importância da linguagem como fonte da subjetividade, por meio de algumas teorias. Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: 1.conceituar o que é infância; 2. reconhecer a inauguração da subjetividade; 3. identificar os aspectos principais da subjetividade na primeira infância, a partir da entrada da linguagem e o consequente processo de pensamento; 4. enumerar algumas das principais teorias sobre o início do psiquismo. A primeira infância Rita Maria Manso de Barros 5AULA Psicologia e Educação | A primeira infância 118 C E D E R J C E D E R J 119 O QUE É A INFÂNCIA? Há um livro fantástico do historiador francês Philippe Ariès (1981), intitulado História social da criança e da família no Ocidente, em que ele desenvolve a tese de que a infância, como a conhecemos hoje, não existia até um mo- mento avançado da Idade Média. Ali ele explica como a velha sociedade via mal a criança, fazendo sua passagem pela famíliade forma breve, por meio de um curto período de “paparicação”, para logo encaminhá-la ao ensino de um ofício com outra família. A forma com que a nossa sociedade atual trata a criança e a estuda de uma forma única jamais havia sido feita. Ariès dá margem a que entendamos o quanto a noção de infância varia conforme a época e o lugar. A curiosidade apaixonada pela infância só surge a partir do século XVI, culminando no século XIX com o nascimento das Ciências Humanas e, consequentemente, da Psicologia. Hoje, devido ao grande interesse pela infância, a ciência nos possibilita conhecer o sexo e as feições de um bebê muito antes de ele nascer, sobretudo a partir das ultrassonografias de alta resolução! O termo que melhor define um bebê, para nós do campo da psicologia, é o termo latino infans, isto é, o “sem fala”, ou aquele que não tem o domínio da fala. Também tem relação com o termo puer – que dá origem às palavras pueril, puericultura –, já que só se considerava concluído o período em que a criança era incapaz de falar aos sete anos. O termo infância deriva do latim, com a significação de incapacidade de falar ou mudez, correspondente também à meninice. A rigor, a infância cor- responderia então ao período entre a ausência da fala até a sua aquisição e relativo domínio, iniciando-se nos primeiros momentos da vida, a partir dos quais o bebê humano passa gradativamente a se organizar pela linguagem. Mas, corriqueiramente, entende-se que a infância é um longo período que pode ser considerado encerrado a partir da entrada na puberdade, quando os pais usam muito a frase: “Você já não é mais uma criança!” As transformações da puberdade são encabeçadas pelo despertar hormonal. Este desencadeia os caracteres sexuais secundários (serão abordados na Aula 8, relativa à adolescência) cujo objetivo é preparar o início da capacidade reprodutiva para ambos os sexos na entrada da adolescência. INTRODUÇÃO c a r a c t e r e s s e x u a i s s e c u n d á r i o s Mudanças corpo- rais que demar- cam o início da puberdade. Nos meninos, ocorrem aumento dos tes- tículos, alterações na voz, cresci- mento dos pelos. Nas meninas, há o crescimento dos seios, a primeira menstruação ou menarca, o surgi- mento dos pelos pubianos. Figura 5.1: Ultrassonografia em 4D. Feto masculino com 28 semanas, pesando 1.380 kg e medindo 37 cm, em 23 de outubro de 2008. Fonte: Arquivo pessoal da autora 118 C E D E R J C E D E R J 119 A U LA 5Com finalidade didática apenas, já que nenhuma criança obedece a padrões fixos, estabelecemos nesta aula e nas próximas a divisão em primeira infân- cia (0 - 3 anos), segunda infância (3 - 6 anos), idade escolar (6 - 12 anos) e adolescência (12 - 18 anos). Há, na verdade, vários outros períodos, como a pós-adolescência, a idade adulta, a maturidade e a velhice, mas delas não nos ocuparemos aqui. Esta aula será dedicada à primeira infância. Sem pretender uma amarração cronológica radical, mas apenas, como já realçamos, com finalidade didática, podemos estabelecer que a primei- ra infância corresponde aos primeiros três anos de vida do ser humano. Eles são fundadores e fundamentais para o desenvolvimento das estruturas físicas e psíquicas, além das habilidades sociais. As marcas das experiências dessa época influenciarão, por toda a vida, o sujeito e a sua forma de estabe- lecer laços amorosos e sociais com aqueles que o rodeiam. Nesse momento, a cria humana vive um estado de total desamparo, experimentando a depen- dência absoluta do outro. Entende-se por qual motivo essa seja a fase que demanda maiores cuidados, já que a vulnerabilidade da criança é patente: cuidados físicos e a necessidade de um ambiente especial e acolhedor são essenciais para que o pequeno ser seja estimulado a “nascer”, do ponto de vista psicológico. Dos adultos responsáveis pelos cuidados de uma criança depende o desenvolvimento de suas potencialidades. A IMPORTÂNCIA DA LINGUAGEM OU DO SOCIAL Digamos que quando nasce um bebê temos uma mera massa de carne. Sabemos que esta não corresponde a uma visão alentadora para qualquer mulher que tenha sonhado com a maternidade desde que experimentou, em sua infância remota, o desejo de brincar de mãe com seus bonecos, repetindo, assim, os cuidados que lhe foram dispensados pela própria mãe. Será preciso o contato com outro ser humano, ser falante e, portanto, transmissor de linguagem, para que o bebê ingresse no mundo humano. A criança nasce em um mar de linguagem e terá de se haver com ele para dele retirar a possibilida- de de se comunicar com o outro. Caso contrário, não será humana. Vejamos por qual motivo fundamental. Da história mítica de Rômulo e Remo, fundadores de Roma, que foram criados por uma loba, ao venerável Tarzan, rei da selva, criado por macacos, frutos do imaginário humano, há inúmeros relatos cientí- Psicologia e Educação | A primeira infância 120 C E D E R J C E D E R J 121 ficos de pesquisadores que encontraram e se ocuparam de crianças em estado selvagem, sem contato humano. Um dos relatos mais completos diz respeito a duas meninas, Amala e Kamala, que foram encontradas em 1920, na Índia, vagando pelas florestas em companhia de lobos. Elas comiam carne crua, tinham hábitos noturnos, repeliam o conta- to dos seres humanos e preferiam a companhia de cachorros e lobos. Não sabiam andar sobre os pés, mas se moviam rapidamente de quatro; não falavam, seus rostos eram inexpressivos (MATURANA; VARELA, 1995, p. 159). Essa situação dramática afastou-as do parto de sua humanidade, provocada pela introdução da linguagem. Malson (1988), um dos mais importantes e respeitados pesquisadores desse tema, admite que o homem não nasce homem, mas é construído (p. 91), e que a maior parte dessas crianças selvagens comprova o quanto suas dificuldades provêm não de uma deficiência biológica, mas de uma insuficiência cultural (p. 92). Sem contato humano, não puderam nascer simbolicamente, concluindo que “a verdade que tudo isto proclama em definitivo é que o homem como homem, antes da educação, não passa de uma possibilidade, isto é, ainda menos do que uma esperança” (p. 101). Se o assunto lhe apaixonou, pesquise mais em alguns sites, digitando o termo “crianças selvagens”. O mais completo deles é o Google (http://www.google.com.br). Sugiro também o desenho anima- do “Mogli, o Menino Lobo”, de Walt Disney, inspirado no Livro da Jângal, do escritor inglês criado na Índia Rudyard Kipling (1865- 1936). O desenho conta a história de uma criança que, ainda bebê, perde-se de sua família e é ado- tada e criada por lobos. Fonte:http://www.animatoons.com.br/ movies/the_jungle_book/ Recomendo ainda o belíssimo filme de François Truffaut L’enfant sauvage, de 1970, e uma produção com tema similar, o impressionan- te O enigma de Kaspar Hauser, de Werner Herzog. 120 C E D E R J C E D E R J 121 A U LA 5FATORES ORGÂNICOS/GENÉTICOS – O QUE É HERDADO? Claro que a educação de que fala Malson (1988) corresponde aos momentos fundadores, oriundos da convivência com outro ser humano. É por esse motivo que se afirma que o humano precisa “nascer”, pois os homens não são homens fora do ambiente humano, isto é, o mundo da linguagem. Por isso, afirmamos que o nascimento de um bebê humano não implica o nascimento do Ser humano: contudo, será necessário um corpo em que o humano possa habitar. A isso chamamos equipamento genético. Precisamos de um corpo humano para poder existir como humanos. Não há humano habitando corpos de animais, simplesmente por não haver neles possibilidade de aquisição de linguagem. A maior parte das características físicas, quer de homens quer de animais, é transmitida por h e r e d i ta r i e d a d e de geração em geração. A Biologia nos diz que o corpo é uma consequência da junção dos 23 cromossomos maternos e dos 23 paternos que, ao se associarem, per-mitirão a singuralidade de seu corpo, determinando seu sexo biológico. Cada par de cromossomos possui um subgrupo diferente de genes. Um membro de cada par de cromossomos vem da mãe – 23 cromossomos – sendo que um sempre será o X – e outro virá do pai – 23 cromossomos –, o X sempre para as filhas e o Y para os filhos. A constituição genética de um indivíduo forma o seu genótipo – características individuais –, sendo a manifestação desse genótipo aquilo que vai caracterizar o seu fenótipo, que descreve os aspectos morfológicos, fisiológicos e as bases comportamentais da espécie à qual pertence o indivíduo. O fenótipo corresponde à interação do genótipo mais o meio ambiente. Quando tudo corre bem durante a gravidez, isto é, quando não há nenhum acidente genético que possa implicar má-formação no nível orgânico, temos um corpo pronto para adquirir e desenvolver as ca- racterísticas de sua espécie, tanto para os seres humanos como para os animais. As crianças que citamos anteriormente como selvagens possu- íam o equipamento genético, mas não possuíam algo fundamental para tornarem-se humanas: o convívio com os de sua espécie. Um exemplo de acidente genético é a síndrome de Down, decorrente da existência de um cromossoma 21 a mais, total ou parcial, perfazendo 47 cromossomas em vez dos 46, que além de trazer inúmeras complicações ao funcionamento orgânico provoca dificuldades cognitivas significativas. he r e d i ta r i e d a d e Conjunto de eventos biológicos responsáveis pela transmissão de uma herança a através descen- dentes, por meio de seus genes. A informação genética é transmi- tida por meio dos genes, porções de informação conti- das no ácido dexo- xirribonucleico (ADN) dos indiví- duos sob a forma de sequências de nucleótidos. Psicologia e Educação | A primeira infância 122 C E D E R J C E D E R J 123 A síndrome de Down é um evento genético natural e universal, estando presente em todas as raças e classes sociais. Não é uma doença e, portanto, as pessoas com síndrome de Down não são doentes. Não é correto dizer que uma pessoa sofre de, é vítima de, padece ou é acometida por síndrome de Down. O correto seria dizer que a pessoa tem ou nasceu com síndrome de Down. A Síndrome de Down também não é contagiosa. O fato de uma mulher ter um filho com a síndrome não significa que todos os filhos que vier a ter nascerão com ela também. De modo geral, quanto maior a idade da mulher e do homem, maior a probabilidade do acidente genético. Atende ao Objetivo 1 1. Leia o trecho seguinte e responda às questões que se seguem. Desde a contribuição seminal de Philippe Ariès, no seu História social da criança e da família no Ocidente (1960), tem havido um consenso crescente de que a história da infância é essencial para compreender- mos a infância hoje. Por história da infância subtendem-se as lentas transformações dos costumes e práticas socioculturais que acarretaram mudanças na maneira de representar a infância. Em outras palavras, do ponto de vista comumente aceito hoje, encaramos a infância como uma construção social e, como tal, a infância só pode ser compreendida a partir das mudanças mais globais das sociedades, onde as diferenças de idade estão marcadas por significações e valores distintos que variam segundo a época histórica (CASTRO, 1998, p. 23). a. A partir do que você leu até aqui, como inserir a importância histórica da noção de infância sob o ponto de vista de cada época e lugar? b. Seria legítimo supor que, dependendo da época e lugar, as crianças são tratadas de formas diferentes? c. E quanto às crianças selvagens? Há intervenção da época e do lugar? ATIVIDADE 122 C E D E R J C E D E R J 123 A U LA 5 O NASCIMENTO DO HUMANO: A CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE A partir da recepção do corpo de seu bebê, uma mãe passará a depositar naquele corpinho o somatório de suas expectativas, tecidas ao longo da vida, acerca de como e quem será seu filho. Como ele é, ela passa a saber com o nascimento ou desde os primeiros exames de ultras- sonografia: primeiro, o sexo, menino ou menina; depois se é normal, isto é, se não apresenta nenhuma anomalia genética, nenhuma má-formação congênita. Mas quem será ele? De que ele vai gostar? Qual será o seu jeito de ser, suas características de personalidade? Buscando entender a construção da subjetividade, tomaremos o engenhoso conceito de es t á d i o d o es p e l h o , do psicanalista francês Ja c q u e s la c a n . RESPOSTAS COMENTADAS a. A importância histórica da noção de infância, de acordo com os estudos de Ariès, sofreu e sofre influência de cada época e lugar, mas compreender o passado nos auxilia a compreender o presente. b. Sim. Pois de acordo com a ideia preconcebida do que se espera de uma criança, que é fortemente influenciada pelas representações imaginárias, tender-se-á a ter uma concepção da infância que vai influenciar a forma de tratá-la. c. No caso das crianças selvagens, encontradas em estado de natu- reza, o lugar parece ter mais importância do que a época, uma vez que qualquer criança do passado ou do presente que passe pelas mesmas dificuldades que aquelas passaram poderão apresentar as mesmas sequelas. Ja c q u e s-Ma r i e ÉM i l e la c a n Nasceu em Paris em 13 de abril de 1901 e morreu em setembro de 1981, na mesma cidade francesa. Médico psiquiatra, apaixonou-se pela psicanálise e tornou-se um dos psicanalistas mais brilhantes do século XX. Amado por uns, odiado por outros, deixou inúmeros escritos, criou uma quantidade de conceitos importantes. Sua obra O seminário corresponde aos seminários que ministrou na Sorbonne, durante 26 anos. Fonte: http://i38.photobucket.com/albums/e150/engimeam/JacquesLacan.jpg es t á d i o d o es p e l h o Designa um momento psíquico e ontológico da evolução humana, situado entre os seis e os dezoito meses de vida, durante o qual a criança antecipa o domínio sobre seu corpo através da identificação com a imagem de seu semelhante e da percepção de sua própria imagem no espelho (ROUDINESCO; PLON, 1997, p. 194). Psicologia e Educação | A primeira infância 124 C E D E R J C E D E R J 125 Apoiando-se nas experiências de he n ry Wa l l o n (1879-1962), para quem o organismo é a condição primeira de haver pensamento e, consequentemente, linguagem, Lacan vai destacar o momento estru- tural do ser humano, entre os seis e os dezoito meses de vida, quando ele reconhece, na imagem refletida no espelho, seu corpo como sendo próprio. Considerando que o infans não possui uma imagem psíquica internalizada de seu corpo, as experiências vividas o são sempre de forma parcial: uma coisa que entra por um orifício (um dedo ou o seio na boca), uma coisa que sai por outro orifício (as fezes do ânus) etc. O corpo é um conglomerado de fontes de sensações, um corpo disforme, fragmentado, incluindo aqui a própria mãe. A criança não se percebe separada de sua mãe. A experiência original de Wallon está no campo da psicologia comparada. Ele comparou animais de espécies diferentes e observou suas reações, diante da própria imagem refletida em um espelho. A identificação com essa imagem vai lhe proporcionar uma ilusão de completude, antagônica à vivência de despedaçamento, referendada pelo seu momento pulsional autoerótico (esses termos serão mais bem entendidos quando abordarmos a contribuição de Sigmund Freud). Ao comparar espécies semelhantes, como bebês chimpanzés e humanos, e suas reações diante das imagens refletidas em espelho, Wallon destacou três momentos sucessivos: 1. Tanto o bebê chimpanzé como o bebê humano ignoram suas imagens refletidas no espelho e não apresentam reação alguma, aparentando indiferença. 2. Ambos – bebê humano e bebê chimpanzé – demonstram curio- sidade com a imagem no espelho, tratando-a como se fosse de outro, um semelhante. 3. Apenas o bebê humano demonstra terreconhecido a imagem que vê no espelho como sendo a de seu próprio corpo e mani- festa esse reconhecimento reagindo com júbilo. A prova do espelho em Wallon – lembramos que Lacan denomi- nará Estádio do Espelho – possibilita o entendimento sobre o nascimento do “eu” e o ponto decisivo para a gênese da subjetividade. Assim o bebê humano, agora sob a intervenção da linguagem, por volta do 18o mês de vida, reage com júbilo, alegria intensa, por identificar-se com a imagem completa refletida no espelho: “Então, este sou eu!” he n r i Wa l l o n Filósofo, psicólogo, médico e político fran- cês, além de marxista convicto, nasceu em 1879, onde faleceu em 1962. Antes de chegar à psicologia, passou pela filosofia, apro- ximando-se cada vez mais da educação. A gênese da inteligên- cia, para Wallon, é genética e organica- mente social, supondo que a intervenção e a atualização da cultura ocorrem apoiadas na estrutura orgânica. Nesse sentido, a teoria do desenvolvimento cognitivo de Wallon é centrada na psicogêne- se da pessoa completa. Fonte:http://revistaes- cola.abril.com.br/img/ historia/022-henri-01.jpg 124 C E D E R J C E D E R J 125 A U LA 5Claro que esse reconhecimento está fadado ao engano. Nós somos mais do que uma imagem, à qual falta profundidade. Para isso, tanto Wallon como Lacan introduzirão a dimensão simbólica ao imaginário. Wallon, durante a realização da prova do espelho, já havia se indagado sobre o que marcaria a diferença do pequeno chimpanzé para o hu- mano. Observa diferenças fundamentais entre a mãe primata e a mãe humana, ambas presentes ao lado de suas crias durante o experimento. O que mais se destaca entre as duas espécies é o uso da linguagem como incentivo ao reconhecimento da imagem, dando-se aqui o desvio funda- mental entre elas. A linguagem impulsiona o infans do início ao lugar de ser falante e, concomitantemente, pensante. O esquema L, estabelecido por Lacan, explica o Estádio do Espelho: Figura 5.1: Esquema L, de Lacan. Esse esquema possibilita entender por que o primeiro objeto de amor é o próprio Ego – que decorre da ligação à mãe, quando não está separada dela –, e a identificação é a primeira forma de estabelecer laço emocional com o objeto. Trata da relação primeira, da criança com sua mãe (A), a primeira transmissora de linguagem, que determinará a forma de funcionamento do inconsciente. No eixo A a, temos essa implicação direta da provocação que a mãe (A) faz ao seu bebê (a), seduzindo-o para a vida. No eixo a a’, vê-se a consequência dessa relação inicial, fazendo com que a criança (a) relacione-se e confunda-se com a sua imagem (a’), identificando-se a ela no eixo imaginário, proporcionando ou propiciando o surgimento do Ego narcísico, identificando-se a uma imagem visual completa, ao contrário das sensações corporais fragmentadas do infans. No eixo A S, temos a entrada da linguagem (A), construindo a sub- jetividade, isto é, o Eu ou o sujeito pelo desejo inconsciente (S). No eixo S a’, temos a relação do sujeito (S) com a sua imagem (a’), quando Eu Ego Outro Semellhante Eixo im aginário Eixo simbólico Psicologia e Educação | A primeira infância 126 C E D E R J C E D E R J 127 percebe que o espelho não reflete tudo, já que o desejo não tem imagem especularizável (lembrem o provérbio: “Quem vê cara não vê coração”), e a criança passa a entender que está inexoravelmente separada do outro, deixando de se confundir com a sua imagem. Lacan representa, no final da operação do Estádio do Espelho, tanto o A como o S como barra- dos, já que são ambos incompletos. Tanto o Outro desconhece todas as respostas como o Sujeito faz do furo condição de sua possibilidade, é porque não tem tudo que ele deseja e trabalha nessa busca. OS ESTÁDIOS DE WALLON Será a partir de uma perspectiva interacionista-construtivista que Wallon irá circunscrever em sua teoria psicogenética cinco estádios fundamentais do desenvolvimento humano: I. Estádio impulsivo-emocional (0 ao 18o mês). II. Estádio sensório-motor e projetivo (18o mês a três anos). III. Estádio do personalismo (3 a 6/7 anos). IV. Estádio categorial (7 a 11 anos). V. Estádio da adolescência (12 a 18 anos). Nesta aula, dedicada à primeira infância, destacaremos os dois primeiros, já que dizem respeito aos três primeiros anos de vida. Os outros estádios serão desenvolvidos nas aulas seguintes, pertinentes a cada um deles (WALLON, 2007). O primeiro estádio, o impulsivo-emocional, busca identificar as reações comuns em crianças dessa faixa etária, correspondente ao primeiro ano de vida. Caracteriza-se por um estado de completa fu- são, quando não há diferenciação entre o corpo da criança e o meio. Os primeiros seis meses são carentes de controle motor, enquanto os meses seguintes já conhecem o controle sobre seus movimentos, que se constituem como uma forma rudimentar de comunicação com o meio. Predomina a ação. O período impulsivo-emocional vai até por volta dos 18 meses. O campo funcional priorizado é a afetividade. A emoção é o instrumento de comunicação da criança, bem como o meio de relação com o mundo nas suas expressões primordiais: choro e grito. É esboçada a matriz de construção do Eu ainda no estado de imperícia e desamparo. Daí ser 126 C E D E R J C E D E R J 127 A U LA 5necessária a presença do Outro (que atende pelo contágio da emoção), para fazer a mediação das relações da criança com o ambiente. A afetivi- dade é impulsiva em razão do estado de dispersão em que se encontra a criança e do caráter emocional, expresso por gestos, mímicas e posturas, para enfim centrar-se no olhar. Como no plano dianteiro das relações da cria humana encontra-se a construção do sujeito; o trabalho cognitivo encontra-se latente e totalmente indiferenciado da atividade afetiva. No final do primeiro ano, são esboçadas relações que revelam já uma diferenciação no plano cognitivo em função da preparação das condições sensório-motoras, como o olhar, o pegar e o andar. Estes são fundamentais na exploração do ambiente em decorrência do novo horizonte que o olhar e o deslocamento motor conferem à crian- ça. A emoção, na sua função de apelo e no seu caráter organizador, é responsável, no âmbito das relações, tanto pela aproximação da crian- ça ao semelhante da espécie, entendendo-se nisso o processo de fusão importante na construção do Eu, quanto na diferenciação que tem por finalidade a construção da identidade. A emoção apresenta um caráter paradoxal nos tipos de arranjos que sustentam as relações da cria humana com o representante da espé- cie: 1) na motricidade puramente emocional, pensada nas condições de sobrevivência em termos da capacidade de reação imediata aos perigos externos como movimentos apropriados, e 2) na sensibilidade emo- cional, pensada como a condição que possibilita conceituar o mundo externo por meio de representações para ser transformado, segundo as necessidades pessoais. O segundo estádio, o sensório-motor e projetivo, caracteriza-se pelo controle mais apurado da combinação entre percepções e movi- mentos. Surgem as primeiras representações. Estas são consequências da junção entre os elementos subjetivos e os dados externos, captados por intermédio da percepção, imperando o sincretismo. Tanto a linguagem como o pensamento infantil, ambos em formação, apoiam-se nesse sin- cretismo. O aspecto projetivo refere-se ao caráter intermediário entre a ação e a representação, em que o gesto desempenha um importante papel, regulando o aparecimento e o desenvolvimento dos esquemas mentais. O período sensório-motor e projetivo ocorre entre os 18 meses até por volta dos três anos. O campo funcional priorizado é a inteligência. O interesse da criança volta-se para a exploração do mundo físico, pelo Psicologia e Educação | A primeira infância 128 C E D E R J C E D E R J 129 uso dos esquemassensório-motores. Há maior autonomia na manipulação dos objetos e na exploração do espaço, em decorrência da aquisição da marcha. Surge a capacidade representativa que marca o início da função simbólica e da linguagem. O pensamento da criança exterioriza-se pelo uso de gesto, daí o termo projetivo, ou seja, o ato psíquico projeta-se no ato motor. A elaboração do real e o conhecimento do ambiente físico são as atividades que consomem grande parte da energia psíquica da criança. Aparece a inteligência prática voltada para a construção da realidade, em termos de modalidades de ações aplicadas às situações, que insere a criança no universo cultural com o início do processo de nomeação das coisas. Wallon pretendia explicar a gênese da pessoa ; Piaget, a gênese da inteligência. Já Freud buscará explicar os mistérios mais profundos da afetividade humana. Atende aos Objetivos 2, 3 e 4 2. a. Como você entende a afirmação de Wallon (2007) de que a história de um ser é dominada pelo seu genótipo e constituída pelo seu fenótipo? b. “Na teoria psicogenética de Wallon, o eixo principal no processo de desenvolvimento é a integração em dois sentidos: integração organismo- meio; integração cognitiva-afetiva-motora” (MAHONEY; ALVARENGA, 2005, p. 16). Explique cada um dos dois sentidos, apontados pelas autoras. ATIVIDADE 128 C E D E R J C E D E R J 129 A U LA 5 c. Em que a teoria do Estádio do Espelho, de Jacques Lacan, contribui e leva adiante as consequências teóricas das experiências de Wallon? RESPOSTAS COMENTADAS a. É uma referência a fatores de origem biológica e social. De um lado, há sua herança genética, que oferece o potencial de desen- volvimento de cada um, determinando-o. Por outro lado, os fatores sociais, incluindo aqui a história da família, do lugar e da época, constituindo o ser. O pleno desenvolvimento do genótipo depende das boas condições do fenótipo. Um tanto de talento e outro tanto de sorte. b. Segundo as autoras, na teoria de Wallon, a integração organismo- meio releva a importância da interação da criança com o ambiente social para haver desenvolvimento, conforme já destacado na resposta anterior. O meio é fundamental, pois é ele o responsável pelo atendi- mento das necessidades da criança, não bastando aqui apenas o seu equipamento genético. A integração cognitiva-afetiva-motora, fatores correspondentes a conjuntos ou domínios funcionais, é essencial para a promoção do desenvolvimento. O domínio cognitivo possibilita a aquisição do conhecimento por meio de ideias e imagens; o domínio afetivo diz respeito ao terreno das emoções e paixões; o domínio motor fornece o controle do corpo no espaço e no tempo, permitindo o deslocamento, garantindo o equilíbrio e a expressão das emoções. O que integra todos eles é o quarto conjunto funcional, que é a pessoa, que permite uma gama de possibilidades. c. As interessantes pesquisas de Wallon despertaram em Lacan a possibilidade de inferir dali o nascimento da subjetividade. Entendendo que um bebê (a) é sempre antecedido pelo Outro (A barrado), que é quem, como transmissor da linguagem, aponta-lhe a imagem (a’) como sendo sua. Resta pouco para a criança descobrir que a imagem Psicologia e Educação | A primeira infância 130 C E D E R J C E D E R J 131 PIAGET E OS ESTÁGIOS COGNITIVOS A teoria de Piaget será aprofundada na Aula 11. Por agora, de maneira breve, teremos apenas uma pequena introdução no que diz res- peito à importância de sua contribuição do ponto de vista do nascimento da capacidade cognitiva na criança. Será a partir de uma perspectiva construtivista, isto é, sem pré- formação exógena (empirismo) ou endógena (inatismo) por contínuas ultrapassagens das elaborações sucessivas que favoreçam a espontaneidade da criança, que Piaget irá circunscrever períodos fundamentais do desenvolvi- mento humano (PIAGET, 1974, p. 13). Ele estabeleceu uma série de estágios sucessivos, como degraus, para o desenvolvimento da inteligência: I. Período sensório-motor (zero ao 24o mês). II. Período pré-operacional (24o mês a sete anos). III. Período das operações concretas (sete a 11/12 anos). IV. Período das operações formais (12 anos em diante). Baseando-se, sobretudo, em observações feitas durante o crescimento de seus filhos, o psicólogo e biólogo suíço Jean piaget publicou vários estudos sobre psicologia infantil e elaborou uma importante teoria sobre a inteligên- cia e os processos de aquisição de conhecimento, que ficou conhecida como Psicologia Genética. Seu grande interesse centrou-se no “sujeito epistêmico”, isto é, no sujeito que adquire conhecimentos consistentes, intervindo aí os processos de pensamento que se estendem até a vida adulta. Descreve a inteligência prática, apoiada na ação, como baseada nos conceitos construídos paulatinamente acerca do espaço, do tempo e da causa. Será por assimilação e acomodação que as experiências com o mundo serão elaboradas e sustentadas em forma de esquemas. Je a n p i a g e t (Neuchâtel, 9 de agos- to de 1896 – Genebra, 16 de setembro de 1980) estudou inicial- mente Biologia, na Suíça, e posteriormente dedicou-se às áreas de Psicologia, Epistemo- logia e Educação. Foi professor de Psicologia na Universidade de Genebra, de 1929 a 1954, e ficou conheci- do principalmente por organizar o desenvol- vimento cognitivo em uma série de estágios. Suas contribuições despertaram enorme interesse nos estudos sobre a inteligência e os processos de ensino- aprendizagem. Fonte: http://www.archi- vesjeanpiaget.ch/ não reflete o seu interior, sua alma, seu desejo. É desse movimento que surge o sujeito (S barrado) do desejo inconsciente. Assim, a teoria do Estádio do Espelho apoia-se nas descobertas wallonianas, mas delas extrai consequências mais sutis, explicando o surgimento do sujeito, isto é, a saída do estado de natureza para o estado de cultura. 130 C E D E R J C E D E R J 131 A U LA 5Segundo Piaget, é no início da vida que a criança começa a cons- truir esquemas de ação para assimilar o meio e acomodá-lo em forma de conhecimento. A partir de reflexos neurológicos primários, apoiados na ação, são construídas as noções de espaço e tempo. Este será chamado de período sensório-motor, que vai de zero a dois anos. O período sensório-motor marca o início da inteligência prática, quando ocorrem as relações afetivas rudimentares e as primeiras fixações ao mundo exterior. Do ponto de vista de Piaget, esse momento corres- ponde ao período anterior à aquisição da linguagem e do pensamento propriamente dito. O período pré-operacional (24o mês a 7 anos) é marcado pelo desenvolvimento da linguagem, que possibilita a construção de esquemas simbólicos, além dos esquemas sensoriais-motores. Há pensamento. É um período de transição e seu equilíbrio é instável. Aqui observamos o intenso egocentrismo que conduz a criança a pensar o mundo sempre a partir de si. É importante destacar que, para Piaget, os fatores orgânicos, neurológicos e fisiológicos constituem a base sem a qual não haverá desenvolvimento psicológico. Conforme explicamos, este se dará por etapas que se caracterizam pelo surgimento de estruturas originais e pelo equilíbrio delas, que servirão de alavanca para as estruturas seguintes, originando o termo construtivista para a sua teoria. Nenhuma elimina a anterior, mas nela se apoia. Atende aos Objetivos 3 e 4 3. a. De acordo com Piaget, que nome se dá ao comportamento de uma criança que atribui aos outros seus próprios pensamentos? Em que estágio se encontra? ATIVIDADE Psicologia e Educação | A primeira infância 132 C E D E R J C E D E R J 133 b. A Epistemologia Genética, de Jean Piaget, distingue três elementos ou conjuntos: o sujeito, o objeto e o conjunto de estruturas. Explique cada um deles. RESPOSTAS COMENTADAS a. Egocêntrico, quando a criança concebe o mundo a partir de si própria, incluindo-sesempre em toda situação. Na há concepção de pensamento que não a inclua, pois é a partir de si própria que entende o meio que a circunda. Corresponde ao final do período sensório-motor e início do período pré-operacional. b. O conjunto da teorização, de Jean Piaget, ficou conhecido como Epistemologia Genética. Ele distingue três elementos ou conjuntos: o sujeito, o objeto e o conjunto de estruturas. Para Penna (1978, p:299- 302), o sujeito destacado pelo grande psicólogo é o sujeito epistêmico, entidade teórica que responde pelo conjunto de aquisições cognitivas comuns a todos os sujeitos numa mesma faixa etária e que difere do sujeito individual. O objeto não é construído pelo sujeito, mas resultado tanto da condição de permanência quanto da de conservação, respon- dendo pela entrada no estágio do pensamento concreto. Dele deriva o conhecimento, expressão do esforço construtivo sobre os objetos, mas não de objetos, estes sempre inalcançáveis. O conjunto de estruturas são as pertencentes a cada um dos períodos. As estruturas são constru- ídas através de processamentos, interações, daí o nome construtivista atribuída à sua teoria. 132 C E D E R J C E D E R J 133 A U LA 5FREUD E AS ZONAS ERÓGENAS Será a partir de uma perspectiva evolucionista, profundamente influenciado pela leitura de A origem das espécies, do grande biólogo Charles Darwin, que Freud desenvolverá seus estudos sobre a sexua- lidade. Partindo das três indagações fundamentais: “de onde eu vim, para onde eu vou, quem sou eu?”, ele buscará entender por que o sexo, a vida e a morte constituem-se como os três grandes enigmas humanos. A intenção freudiana foi trazer luz aos desejos, às estruturas de pensa- mento e aos processos de desenvolvimento da infância. Embora tenhamos oportunidade de apresentar a teoria psicanalítica, na Aula 9, faz-se imprescindível, no momento, antecipar as contribuições de Freud para a compreensão da afetividade, cuja fonte é sexual. Desta- cando a sexualidade como infantil, o sexo é o grande tema desenvolvido por Freud em Três ensaios para uma teoria da sexualidade ([1905]1976). Inventariando a produção bibliográfica mais importante de sua época, o grande psicanalista vai proporcionando à sexualidade o lugar merecido, derrubando preconceitos e criando novos rumos para o seu estudo, que vêm ratificar as construções obtidas através de sua pesquisa sobre o so- nho, a saber: o vínculo indissociável entre o inconsciente e a sexualidade. Desse modo, em contraposição ao discurso psicobiológico da sexualidade, vigente naquele momento, o infantil em Freud não apenas é visto como uma etapa do desenvolvimento psicossexual de cada indivíduo, mas, fun- damentalmente, o infantil é a própria estruturação do sexual no sujeito, constituindo a sexualidade enquanto tal. É no segundo ensaio que ele caracterizará a sexualidade infantil como autoerótica, isto é, no sentido de que a criança encontra satisfação em seu próprio corpo. Sigmund Freud (Pr ^ íbor, 6 de maio de 1856 – Londres, 23 de setembro de 1939), médico neurologista judeu-austríaco, fundador da psicanálise. Interessou-se inicialmente pela his- teria e, tendo como método a hipnose, estudou pessoas que apresentavam esse quadro. Mais tarde, com interesse pelo inconsciente e as pulsões, entre outros, foi influenciado por Charcot e Leibniz, abandonando a hipnose em favor da associação livre. Esses elementos tornaram-se bases da psicanálise. Freud, além de ter sido um grande cientista e escritor (Prêmio Goethe, 1930), possui o título, assim como Darwin e Copérnico, de ter realizado uma revolução no âmbito humano: a ideia de que somos movidos pelo inconsciente. Na foto, tirada pela princesa Marie Bonaparte em 1937, Freud está em seu escritório, em Viena, acariciando uma de suas cadelas chow-chow, presenteadas pela princesa. Fonte: http://www.loc.gov/exhibits/freud/freud03.html Psicologia e Educação | A primeira infância 134 C E D E R J C E D E R J 135 Deixado por conta de seu funcionamento biológico, o corpo funcio- naria bem, mas com a entrada da palavra, desvio inaugural, algo se processa e retira o homem da pura organização biológica, introduzindo-o na frag- mentação pulsional. As pulsões são sempre parciais, visto que se originam de partes isoladas do corpo e encontram satisfação nessas mesmas regiões, não estando unificadas e dirigidas para um único objeto, mas sim relacionadas às zonas erógenas, que correspondem aos “lugares do corpo que proporcionam o prazer sexual” (FREUD, 1910 [1909], p. 55). Nesse momento, o corpo ainda é vivido como fragmentado, um corpo sem unidade, anterior à cons- tituição do eu. A princípio, todas as regiões do corpo têm potencial para ser erogeneizadas, inclusive os órgãos internos; contudo, serão as zonas oral, anal e fálica as priorizadas de início. Isto porque a boca, o ânus e os genitais são os órgãos de destaque no início da vida, como veremos a seguir. Mais tarde, vem o período de latência, que antecede e prepara para a entrada na genitalidade. É importante destacar que nenhuma fase elimina a outra, mas apenas ganha o primeiro plano. Por causa dessa variedade de fontes de prazer, Freud chamou a sexualidade infantil de perversa polimorfa, mas, de fato, todos estes órgãos desempenharão papel importante na atividade sexual normal do adulto. Zona oral – O órgão priorizado, fonte de grande satisfação, é a boca, primeiro órgão de troca com o mundo. Será sempre fonte de prazer: da ingestão de uma boa comida à rejeição de todo e qualquer alimento, nos casos de anorexia, por exemplo. Zona anal – A boca cai para segundo plano e agora o ânus é o ator principal. A criança, nessa fase, passa pelo período de educação dos esfíncteres. Toda uma gama de trocas é solicitada entre o bebê e o educador. Há muitas crianças que apresentam sérias dificuldades no ato de defecar, dando origem a doenças de teor psicossomático. Zona fálica – Corresponde à descoberta do manuseio dos genitais como fonte de prazer. Agora, a criança domina seus movimentos e o controle motor faz com que a masturbação seja uma prática procura- da. A criança faz consigo o que antes a pessoa que exercia os cuidados maternos fazia ao limpar seus órgãos genitais e que lhe proporcionava sensações intensas de prazer. Os outros períodos são conhecidos como o de latência e o genital, que veremos em aulas seguintes. Claro que não podemos nos restringir apenas a uma interpretação que priorize o anatômico para justificar as zonas erógenas. Trata-se, na verdade, de 134 C E D E R J C E D E R J 135 A U LA 5pontos de trocas com o meio, regiões que exigem da mãe a maior quantidade de atenção de acordo com a época do crescimento da criança e os cuidados necessários. Até mesmo uma região que em si nada demonstra de excitabilida- de, pode ser erogeneizada, como o estômago ou a pele, originando patologias que demonstram o predomínio do desejo sobre a necessidade. Lembramos a história de uma jovem de 11 anos que acompanhamos em tratamento numa instituição. Desenvolvera uma psoríase complicada por algumas infecções. Sua mãe conta sobre as dificuldades que teve e vinha tendo para criá-la sozinha. Seu marido abandonou-a logo após o nascimento da filha. Passou a lavar roupa para fora, tendo menos tempo para cuidar da criança. À medida que a menina ia crescendo, foi ficando mais difícil mantê- la quieta e sob suas vistas. Temendo que nas tentativas de sair do berço ela caísse e se machucasse, e também para que pudesse dar prosseguimento aos seus afazeres, resolveu recobrir toda a borda do berço com esponjas de aço. Assim, a meninazinha foi contida em seu espaço exploratório e seus con- tornos tornaram-se lesões, limites dolorosos: sempre que sentia a aspereza da esponja, sentava-se de volta no berço. Pode-se entender qual foi uma das causas precipitadora das erupções em sua pele. Donald Winnicott (1975),psicanalista inglês, propunha que uma mãe fosse não mais que suficientemente boa. Ela não tem como ser perfeita, mas pode dar o melhor de si, adaptando-se às necessidades de seu bebê de forma quase completa, com a condição de que, à medida que ele cresce e vai adquirindo auto- nomia, ela vá se adaptando menos, permitindo à criança tomar outros objetos e brincar. Se, como vimos, a pele pode ser erotizada de forma negativa, causando desprazer, podemos entender por que o prazer não é redutível à satisfa- ção de uma necessidade fisiológica, mas a excede. O corpo é como um livro escrito pela vida. É só lembrar-se das pinturas de Portinari: os retirantes têm as feições da dor em seus rostos, das léguas caminhadas em seus pés aumentados, da doença em suas barrigas d´água, do trabalho braçal em suas mãos calejadas, seus olhos esbugalhados pelo medo, pela miséria e pela fome. Pintura do célebre pintor brasileiro, Cândido Portinari, (1903/1962), da série Retirantes, de 1944. Fonte: http://www.portinari.org.br/IMGS/jpgobras/OAa_2733. JPG Psicologia e Educação | A primeira infância 136 C E D E R J C E D E R J 137 Atende aos Objetivos 3 e 4 4. a. As zonas erógenas dependem da quantidade de energia sexual investi- da. Caso um bebê seja recebido com indiferença pela mãe, o que poderá ocorrer em seu desenvolvimento? b. O que caracteriza e quando há um sujeito para a psicanálise? RESPOSTAS COMENTADAS a. Nesse caso, todas as fases poderão ficar comprometidas. Havendo uma espécie de fixação numa delas, poderá dar origem a psicopato- logias, como no exemplo da menina que desenvolveu psoríase a partir de um acontecimento traumático de sua infância. Como, de acordo com a Psicanálise, a criança depende do Outro (A) para sua entrada no mundo, se este se mostrar indiferente, não haverá estímulo para seu desenvolvimento psíquico. Diremos que a indiferença da mãe, que não pode ser suficientemente boa, não estimulou o potencial da criança. b. O sujeito estabelece-se a partir da existência do desejo inconsciente, o que os estudos de Jacques Lacan com o Estádio do Espelho deixaram claro. Ele está além do tempo cronológico, não tendo idade determinada. Se há desejo, há alguém sujeitado a ele. Mesmo que o tratamento de crianças muito novas requeira técnicas diferenciadas, a psicanálise ensina que cada sujeito deve ser entendido a partir de seu desejo e não de sua idade cronológica, sendo sua abordagem tão respeitosa com a criança, quanto o é com um adulto em seu sofrimento, jamais o banalizando. ATIVIDADE 136 C E D E R J C E D E R J 137 A U LA 5CONCLUSÃO Pelo que foi apresentado, podemos entender a importância desses primeiros anos de vida para o futuro da criança. Os conceitos que foram aqui apresentados a partir das contribuições de Wallon, de Lacan, de Piaget e de Freud são ferramentas importantes; mais do que antagônicas, são complementares e, a nosso ver, seus conhecimentos são imprescin- díveis para aqueles que lidam com crianças. O ponto comum que foi se destacando em todas estas linhas é o fato crucial da importância do outro para o desenvolvimento das po- tencialidades de uma criança. Seu estado de dependência absoluta faz com que os pais sejam os responsáveis pelos seus cuidados e sejam os seus primeiros educadores. ATIVIDADE FINAL Atende aos Objetivos 2, 3 e 4 Se você tem ou teve a oportunidade de observar um bebê em sua relação com sua mãe, pai, irmãos e família, acompanhando seu crescimento durante os três primeiros anos de vida, tente aplicar os conteúdos aprendidos aqui da seguinte forma. a. Na experiência do espelho, entre o sexto e o décimo oitavo mês de vida. b. A relação da mãe com ele e os sinais de incentivo que os que o cercam dão. c. Como ele começa usando as palavras? d. Os primeiros sinais de inteligência e seu progresso e manutenção de descobertas. e. As descobertas que faz de seu corpo. f. Seu apego a objetos ou brinquedos em especial. Psicologia e Educação | A primeira infância 138 C E D E R J C E D E R J 139 RESPOSTA COMENTADA Não há aqui uma resposta única; contudo, observe que são todas expe- riências pelas quais um bebê deve passar e ser estimulado para tal. Na experiência do espelho, partindo do sexto mês da indiferença ao olhar sua imagem até o décimo oitavo mês de vida, quando deixará clara sua alegria intensa, acompanhada da fala: “Nenê”!, podemos observar vários tipos de mães. A forma como uma mulher recebe seu filho tem relação com a quantidade de desejo investido por ela na sua gravidez. Disso depende o desenvolvimento da plenitude dos potenciais de uma criança. Se a gravidez foi indesejada e a visualização do bebê não a apaixonou, ela terá pouco a dar e não o estimulará. As palavras virão gradativamente diante de uma mãe suficientemente boa. A princípio, repetirá aquelas que mais ouve: mamãe, papai. Aos poucos, sobretudo por causa das “cobranças” que os pais e familiares fazem – “Neném quer água? Neném quer mamar? O que o neném quer?” –, a criança passará a ter de preencher seu desconforto com palavras para comunicar seu desejo ao outro, para assim ser atendido. A linguagem dá-nos os primeiros sinais do processo de pensamento e, consequentemente, de inteligência. Não há pensamento sem linguagem. Assim, os processos cognitivos desenvolvem-se. É um salto tão fantástico, até o momento que a criancinha consegue formular sua primeira pergunta! Ver sua mãe grávida, que lhe conta que ali está seu irmãozinho e perguntar: “Como é que ele entrou aí?” Cada criança, quando tudo vai bem, torna-se um pequeno pesquisador de si e do mundo que o cerca. As descobertas que faz de seu corpo também estimulam sua inteligência e afetividade. Ele levará algum tempo até associar os sinais prévios que o corpo dá com a vontade de defecar, por exemplo. Ter o controle do corpo, entender seus sinais e transformá-los em palavras – “Mãe, quero fazer cocô!’ – é outro salto fenomenal no progresso da capacidade cognitiva. Mesmo a descoberta dos genitais, que ainda tanto apavoram pais e edu- cadores, torna-se crucial para que o pequeno ser conheça a si próprio. 138 C E D E R J C E D E R J 139 A U LA 5Às vezes, um bebezinho apega-se a um paninho, a chupetas ou a um ursinho de pano. Seu apego a objetos ou brinquedos são mediadores no caminho de afastamento da mãe, para neste espaço poder surgir a subjetividade. Depois, à medida que há o desenvolvimento motor e o controle de seus movimentos, a criança faz dos brinquedos uma outra fonte de prazer e alegria. Brincar é essencial para qualquer crian- ça do mundo. Brincando, a criança elabora seu cotidiano e antecipa outras ações. Brincar demanda o uso da inteligência, da afetividade, da linguagem e da capacidade de formar laço social. A noção de infância varia de acordo com a época e o lugar, mas parece haver consenso em considerar que a infância é a época em que a linguagem está se instituindo. Os estudos de Lacan possibilitaram a compreensão dos momentos iniciais da construção da subjetividade. Para isso, o conceito de Estádio do Espelho foi crucial, pois ele refaz a trajetória do infans até chegar a ser sujeito da linguagem. Para Wallon, a cria humana antes de se comunicar pela linguagem utiliza formas primordiais da expressão emocional: o grito e o choro, índices de interação com o outro, que se potencializam pelo contágio emocional. Eis por qual motivo será fundamental a presença de um outro no exercício da função materna, que possa traduzir as expressões emocionais da criança. Piaget aponta que antes do desenvolvimento da linguagem surgem os princípios da lógica, gerados pelas ações sensoriais e motoras na interação do bebê com o meio. Mais uma vez, o outro aqui é fundamental, embora os esquemas apresentem-se, para o psicólogo suíço, de forma independente do social. Freud foi o grande descobridor do inconsciente e da importância da sexualidadeinfantil para o desenvolvimento pleno da pessoa. Chamou a atenção para a delicadeza das explorações que a criança faz em seu corpo e de o quanto a forma como os adultos e educadores reagem a isso pode causar traumas, que servirão de obstáculo para o desenvolvimento e a capacidade cognitiva de uma criança. Desejo, afetividade, inteligência e sexualidade foram os quatro eixos que destacamos como sendo demarcados no início da vida, essenciais para o entendimento da primeira infância. R E S U M O Psicologia e Educação | A primeira infância 140 C E D E R J C E D E R J AT INFORMAÇÃO SOBRE A PRÓXIMA AULA Na próxima aula, veremos o período que, para fins didáticos, chamamos de segunda infância, e que começa por volta do terceiro ano de vida, quando já temos um sujeito. SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros ANDRADE, LBP. Educação infantil: discurso, legislação e práticas institucionais [online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010. 193 p. ISBN 978-85-7983-085-3. Available from SciELO Books <http://books.scielo.org>. All the contents of this work, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution-Non Commercial-ShareAlike 3.0 Unported. Todo o conteúdo deste trabalho, exceto quando houver ressalva, é publicado sob a licença Creative Commons Atribuição - Uso Não Comercial - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não adaptada. Todo el contenido de esta obra, excepto donde se indique lo contrario, está bajo licencia de la licencia Creative Commons Reconocimento-NoComercial-CompartirIgual 3.0 Unported. Tecendo os fios da infância Lucimary Bernabé Pedrosa de Andrade 3a. Prova 2 tecendo oS fioS da infância As crianças, todas as crianças, transportam o peso da sociedade que os adultos lhes legam, mas fazem-no com a leveza da renovação e o sentido de que tudo é de novo possível. Sarmento, 2004 Infâncias e crianças A infância tem-se constituído em um campo emergente de es- tudos para várias áreas do saber, porém focados em divergentes abordagens, enfoques e métodos, os quais determinaram distintas imagens sociais sobre as crianças. Segundo Sarmento (2007, p.26), as concepções construídas his- toricamente sobre a infância, baseadas numa perspectiva adulto- cêntrica, tanto esclarecem como ocultam a realidade social e cultural das crianças sendo, portanto, necessária a ruptura com o modelo epistemológico sobre a infância até então instituído. EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 47 23/12/2010 11:03:30 48 LUCIMARY BERNABÉ PEDROSA DE ANDRADE 3a. Prova O autor afirma ser recente o interesse histórico pela infância, sendo predominante no quadro teórico sua concepção como cons- trução social, ideia esta preconizada pelo historiador francês Phi- lippe Ariès (1986), que apresenta importantes contribuições para o estudo das imagens e concepções da infância ao longo da história, embora seja criticado por alguns autores em razão de sua visão his- tórica linear e por seus limites metodológicos. Philippe Ariès realizou seus estudos da iconografia da era medieval à modernidade observando representações da infância na Europa ocidental, especialmente na França, estudos esses que si- nalizam a infância como produto da vida moderna, resultante das modificações na estrutura social. A tese da ausência do sentimento de infância na Antiguidade é relatada pelo autor considerando os altos índices de mortalidade das crianças e a forma de viver indistinta dos adultos manifestada nos trajes, nos brinquedos, na linguagem e em outras situações do cotidiano revelando uma criança que não possuía nenhuma singu- laridade e não se separava do mundo adulto, sendo, pois, conside- rada um adulto em miniatura. Corazza (2002, p.81) considera que a história da infância revela um silêncio histórico, ou seja, uma ausência de problematização sobre essa categoria, não porque as crianças não existissem, mas porque, do período da Antiguidade à Idade Moderna, “não existia este objeto discursivo a que hoje chamamos infância, nem esta fi- gura social e cultural chamada ‘criança’”. Apesar de algumas críticas1 serem tecidas à análise iconográfica realizada por Ariès, a sua obra é um marco para entendermos que a infância é uma categoria da modernidade e que não pode ser com- preendida fora da história da família e das relações de produção. Na Idade Média, as crianças pequenas não tinham função social antes de trabalharem, sendo alta a taxa de mortalidade infantil. 1. Corazza, ao abordar o percurso histórico da infância, apresenta o discurso de vários teóricos, inclusive dos que tecem críticas à perspectiva linear retratada por Ariès. Sobre esse assunto, ver Corazza (2002). EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 48 23/12/2010 11:03:30 EDUCAçãO INfANTIL 49 3a. Prova Aquelas que eram pobres, assim que cresciam eram inseridas no mundo do trabalho, sem qualquer diferenciação entre adultos e crianças. As crianças nobres tinham seus educadores e eram vistas como miniaturas dos adultos e deveriam ser educadas para o futuro de transição para a vida adulta. No século XVI, os adultos, em especial as mulheres, começam a destinar certa atenção às crianças reconhecidas como fonte de dis- tração ou relaxamento, o que Ariès (1986, p.159) chamará de “crianças bibelot”, expressando um sentimento de “paparicação” pela infância. A vida em família, até o século XVII, era vivida em público, ou seja, não havia privacidade de seus membros, até mesmo no tocante à educação das crianças. Tudo ocorria no movimento de uma vida coletiva e as famílias conjugais se diluíam nesse meio. O grupo fa- miliar era eminentemente societário. As funções educativas nesses grupos ficavam a cargo do grupo como um todo e se estendiam desde o processo de socialização das crianças até o ensino formal. De modo geral, a transmissão de conhecimentos e a aprendi- zagem de valores e costumes eram garantidas pela participação da criança no trabalho, nos jogos e em outros momentos do cotidiano da vida dos adultos. Com as influências do pensamento dos mora- listas e da Igreja, nesse período, as crianças consideradas como cria- turas de Deus, dotadas de pureza, inocência e bondade, precisariam ser vigiadas e corrigidas. Mas, já a partir do século XVIII, lentas transformações come- çaram a ser operadas no interior das famílias, ocasionando o surgi- mento do “sentimento de família”, fortemente marcado pela necessidade e desejo de privacidade. Começaram a ocorrer mu- danças até mesmo quanto ao espaço físico no qual a família vivia: Esta organização da casa passou a corresponder a uma nova forma de defesa contra o mundo e como uma necessidade de iso- lamento face ao espaço público: a família começou a se manter à distância da sociedade. Emergiram as noções de intimidade, dis- crição e isolamento, ao se separar a vida mundana, a vida mate- EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 49 23/12/2010 11:03:30 50 LUCIMARY BERNABÉ PEDROSA DE ANDRADE 3a. Prova rial e a vida privada, cada uma circunscrita a espaços distintos. (Moreira & Vasconcelos, 2003, p.169) Instaura-se o modelo da família burguesa, o qual irá trocar a sociabilidade ampla pelo desejo de intimidade, reduzindo as vivên- cias de formas comunitárias tradicionais. A intimidade e a vida privada da família moderna propõem novas relações familiares, acompanhadas por mudanças de valores, especialmente em relação à educação das crianças. A criança as- sume um lugar central na família, pois se antes era cuidada de forma difusa e dispersa pela comunidade em geral, passará a ser responsabilidade dos pais. Ou seja, com o capitalismo e a proprie- dade privada, a criança passa a ser responsabilidade dos pais e também dona e herdeira das riquezas, misérias e valores sociais. O modelo de família burguesa vem instituir modificações no contexto familiar, como a divisão e diferenciação de papéis sexuais: o homem passa a ser visto como provedor, devendo, portanto, fazer parte do mundo público, e amulher, responsável pela casa e edu- cação dos filhos, fazendo parte do mundo privado. Segundo Moreira & Vasconcelos (2003, p.169), particularmente no século XVIII, com o desenvolvimento do capitalismo consolida- - se a separação entre as esferas pública e privada, cabendo ao Estado a administração da esfera pública e das relações de produção, en- quanto a família se responsabilizaria pela esfera privada, pelo espaço doméstico e pela reprodução das condições de sobrevivência. Nesse período, a criança foi nascendo socialmente, considerada como um ser dependente, frágil, ignorante e vazio, que precisava ser treinado para ser um bom cidadão, cabendo à família a respon- sabilidade pela sua socialização. A burguesia faz surgir um novo sentido de família, apresen- tando o modelo nuclear como hegemônico e trazendo também um novo “sentimento de infância”, colocando a criança numa condição diferente do adulto: EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 50 23/12/2010 11:03:30 EDUCAçãO INfANTIL 51 3a. Prova Sentimento de infância não significa o mesmo que afeição pelas crianças; corresponde, na verdade, à consciência da particula- ridade infantil, ou seja, aquilo que a distingue do adulto e faz com que ela seja considerada como um adulto em potencial, do- tada de capacidade de desenvolvimento. (Kramer, 2003, p.17) Para Gagnebin (1997, p.83), é nesse período que, no Ocidente, se confirma a ideia da noção da infância e o reconhecimento da ne- cessidade de a criança ser tratada diferente do adulto, paralela- mente ao “triunfo do individualismo e de seus ideais de felicidade e emancipação”. Nesse novo contexto, a família passa a ter como função básica garantir a sobrevivência física, social e psicológica da prole, favo- recendo a manutenção das relações sociais e produtivas do modelo hegemônico capitalista. A responsabilização da educação das crian - ças à mulher veio acompanhada pelo ideal do amor materno, con- cebido como natural e instintivo, levando-a a exercer com abne- gação e dedicação o papel de mãe. Um novo sentimento destinado à infância, contrário à papari- cação, pautado pelos ideários dos moralistas, fará da infância objeto de estudo, instrução e escolarização. Assim, as mudanças no interior das famílias e a necessidade de educação das crianças são fatores determinantes para o desen- volvimento do sentimento de infância. A escola2 confirma-se enquanto instituição responsável pela separação das crianças e jo- vens do mundo adulto, por meio de práticas autoritárias e discipli- nares em defesa da formação do “futuro cidadão”. Moreira & Vasconcelos assim descrevem a relação entre a escola e a infância: 2. Importante considerar que o projeto de escolarização do século XVIII desti- nava-se às crianças e jovens da aristocracia e burguesia, visto que, por muito tempo, as crianças camponesas permaneceram misturadas ao mundo adulto. EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 51 23/12/2010 11:03:30 52 LUCIMARY BERNABÉ PEDROSA DE ANDRADE 3a. Prova [...] a escola tornou-se uma instituição fundamental na sociedade, quando a infância passou a ser vista como fase dotada de dife- rença, a ser institucionalizada, separada do restante da sociedade e submetida a um regime disciplinar cada vez mais rigoroso. (Moreira & Vasconcelos, 2003, p.171) A história da criança brasileira também acontece no quadro das mudanças societárias, sendo que as múltiplas vivências da infância ocorreram em razão do pertencimento social, racial e de gênero (Gouvêa, 2003, p.13). Desde a presença dos jesuítas no país, temos a configuração de distintas infâncias direcionadas por diferentes projetos educativos. O projeto salvífico da infância é revelado pelos jesuítas ao conce- berem a infância como um momento de “iluminação e revelação”. Para as crianças nativas, esse projeto significou submetê-las ao vio- lento processo de aculturação (Priori, 1998, p.15). Não muito dife- rente foi a história da criança negra escrava, iniciada no trabalho antes mesmo de completar sete anos de idade, enquanto a criança branca, da elite, estava destinada aos estudos. Dessa forma, a classe social, raça, etnia foram determinantes para múltiplas formas de vivência do universo infantil, não exis- tindo, “portanto a infância enquanto categoria universal, e nem a infância no singular, mas diferentes vivências do ser criança em uma mesma cultura” (Gouvêa, 2003, p.16). Segundo Sarmento (2005, p.371, grifo do autor), é preciso que se faça uma distinção semântica entre infância e criança, categorias que muitas vezes são apresentadas com o mesmo significado no senso comum: Por isso a Sociologia da Infância costuma fazer, contra a orien- tação aglutinante do senso comum, uma distinção semântica e conceptual entre infância, para significar a categoria social do tipo geracional, e criança, referente ao sujeito concreto que in- tegra essa categoria geracional e que, na sua existência, para além EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 52 23/12/2010 11:03:31 EDUCAçãO INfANTIL 53 3a. Prova da pertença de um grupo etário próprio, é sempre um actor so- cial que pertence a uma classe social, a um gênero, etc. Os conceitos de infância podem apresentar diferentes signifi- cados, conforme os referenciais que utilizarmos. A palavra infância evoca um período que se inicia com o nascimento e termina com a puberdade. O Estatuto da Criança e do Adolescente designa criança toda pessoa até 12 anos de idade incompletos. Pode-se, assim, observar que no quadro legal brasileiro prioriza-se uma definição da criança pelo critério etário e pelo aspecto biológico. Pinto & Sarmento (1997, p.15), ao discutirem a respeito do li- mite etário para a definição do ser criança, destacam a inexistência de um consenso, visto que recentes investigações e estudos têm en- fatizado a condição da criança como sujeito de direitos desde a vida intrauterina. Segundo os autores, as dificuldades quanto ao consenso de li- mites etários da infância se intensificam quando a discussão se re- fere ao limite etário para deixar de ser criança. A esse respeito, a Convenção dos Direitos da Criança, 1989, considera criança todo ser humano até 18 anos, estabelecendo o fim da infância no período de conquista dos direitos cívicos, como o direito ao voto. Os limites da infância encontram respaldos, além do campo legal, nas tradições culturais. Para algumas etnias e culturas, a pu- berdade é considerada o fim da infância e início da vida adulta. Os níveis ou ciclos de escolaridade também são possíveis fronteiras para demarcação da infância. No Brasil, a educação das crianças até 6 anos de idade é denomi- nada educação infantil, ao passo que o ensino fundamental, atual- mente de nove anos, abrange a faixa etária dos 6 aos 14 anos, idade esta que poderia ser considerada como limite para o indivíduo deixar a sua condição infantil. Considerando que muitas crianças concluem o ensino fundamental com idade superior aos 14 anos, podemos inferir o quanto é arbitrário o critério de escolaridade para definição do limite etário da infância. EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 53 23/12/2010 11:03:31 54 LUCIMARY BERNABÉ PEDROSA DE ANDRADE 3a. Prova Concluindo a discussão sobre o estabelecimento dos limites para definição da infância, Pinto & Sarmento (1997, p.17) asse- veram: [...] o estabelecimento desses limites não é uma questão de mera contabilidade jurídica, nem é socialmente indiferente. Pelo con- trário é uma questão de disputa política e social, não sendo in- diferente ao contexto em que se coloca nem ao espaço ou tempo da sua colocação. Assim “ser criança” varia entre sociedades, culturas e comunidades, pode variar no interior da fratria de uma mesma família e varia de acordo com a estratificação so- cial. Do mesmo modo, varia com a duração histórica e com a definição institucional da infância dominante em cada época. Podemos compreender que o estabelecimento dos limites da in- fância é um processo polêmico, contraditório e constitutivo da pró- pria infância enquanto categoria social(Fullgraf, 2001, p.28). Javeau (2005), ao discutir o conceito polissêmico da infância chama a atenção para o campo semântico dos termos infância, criança e crianças. Segundo o autor, o termo criança remete a uma concepção psicológica, à preocupação com o sujeito criança em si, considerando as suas características individuais. O autor destaca: “construiu-se um objeto abstrato, a ‘criança’, destinado a passar por níveis diversos e sucessivos de aquisição de competências, cada um deles constituindo uma etapa na fabricação da personalidade dos indivíduos” (Javeau, 2005, p.382). Em relação à infância, o autor apresenta a perspectiva demo- gráfica, referindo-se à geração e à faixa etária; por sua vez, o termo crianças relaciona-se ao campo antropológico ou socioantropoló- gico, podendo ser consideradas como “uma população ou conjunto de população com plenos direitos científicos, com seus traços cul- turais, seus ritos, suas linguagens, suas imagens e ações” (Javeau, 2005, p.385). Sarmento & Pinto (1997, p.11, grifo dos autores), ao discutirem as concepções de infância e criança, esclarecem que: EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 54 23/12/2010 11:03:31 EDUCAçãO INfANTIL 55 3a. Prova Com efeito, crianças existiram desde sempre, desde o primeiro ser humano, e a infância como construção social – a propósito da qual se construiu um conjunto de representações sociais e de crenças e para qual se estruturaram dispositivos de socialização e controle que a instituíram como categoria social própria – existe desde os séculos XVII e XVIII [...]. Para Kuhlmann Júnior (2001, p.31), a infância é uma condição do ser criança, devendo ser compreendida no contexto das relações sociais: [...] considerar a infância como uma condição da criança. O con- junto de experiências vividas por elas em diferentes lugares his- tóricos, geográficos e sociais é muito mais do que uma repre - sentação dos adultos sobre esta fase da vida. É preciso conhecer as representações da infância e considerar as crianças concretas, localizá-las nas relações sociais, etc., reconhecê-las como produ- toras da história. O termo infância apresenta um caráter genérico, cujo signifi- cado resulta das transformações sociais, o que demonstra que a vivência da infância modifica-se conforme os paradigmas do con- texto histórico e outras variantes sociais como raça, etnia e condição social. Kramer (2003a, p.19) destaca que a ideia de infância aparece com a sociedade capitalista urbana industrial, à medida que mudam a inserção e o papel social da criança na sociedade. Kuhlmann Júnior (2001, p.16), referindo-se ao caráter histórico e social do termo infância, afirma: “toda sociedade tem seus sis- temas de classes e idade e a cada uma delas é associado um sistema de status e de papel”. Para ele, é preciso reconhecer as crianças en- quanto sujeitos históricos, ou seja, “é importante perceber que as crianças concretas, na sua materialidade, no seu nascer, no seu vi- ver e no seu morrer, expressam a inevitabilidade da história e nela se fazem presentes, nos seus mais diferentes momentos” (Kuhl- mann Júnior, 2001, p.32). EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 55 23/12/2010 11:03:31 56 LUCIMARY BERNABÉ PEDROSA DE ANDRADE 3a. Prova O autor também considera que a história da infância apresenta um caráter não linear e deve ser contextualizada, aliada à história da assistência, da família e da educação. Infâncias: na encruzilhada da modernidade e pós-modernidade Infância e a condição da criança de “vir a ser” Como vimos, o estudo de Ariès pode ser considerado uma das grandes obras para a compreensão das imagens e concepção da in- fância ao longo da história, reconhecendo a infância como uma construção da modernidade. Ou seja, é com o projeto de moderni- dade que a infância sai do anonimato, tornando-se objeto de estudo de várias áreas do saber. A modernidade trouxe consigo o desejo de compreender, ex- plicar e controlar toda a sociedade, marcada pelos fatores da racio- nalização do homem e da organização do capital. Enquanto período histórico, tem sua origem no século XVII, no bojo de profundas transformações sociais e culturais. Atingiu seu ápice no século XVIII, com o advento do iluminismo3 e com o apogeu da sociedade industrial. A modernidade configura-se como período histórico que su- cede o período medieval, consagrada pelos ideários iluministas de desenvolvimento da ciência objetiva. O divino, a fé e os fenômenos sobrenaturais deixam de compor a base do conhecimento, sendo substituídos pela razão, pela busca da ordem, do progresso e da moralidade. Conforme Harvey (2008, p.23): 3. O iluminismo refere-se a um movimento intelectual surgido na segunda me- tade do século XVIII, reconhecido como Século das Luzes, que enfatizava a razão e a ciência como instrumentos para de explicar o universo. EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 56 23/12/2010 11:03:31 EDUCAçãO INfANTIL 57 3a. Prova O desenvolvimento de formas racionais de organização social e de modos racionais de pensamento prometia a libertação das ir- racionalidades do mito, da religião, da superstição, liberação do uso arbitrário do poder, bem como do lado sombrio da nossa própria natureza humana. Somente por meio de tal projeto po- deriam as qualidades universais, eternas e imutáveis de toda a humanidade serem reveladas. O desenvolvimento das ciências e do método científico forta- leceram os ideários do projeto de modernidade na busca de conhe- cimentos sobre a realidade e o indivíduo pautado pelo uso incon - dicional da razão. Aliados à razão estavam os preceitos de liberdade e igualdade, propagados pela Revolução Francesa. Ainda de acordo com Harvey (2008, p.23): O projeto de modernidade veio à tona durante o século XVIII. Ele implicou em um esforço intelectual extraordinário por parte dos pensadores do iluminismo para desenvolver uma ciência ob- jetiva, uma moralidade, uma lei universal e uma arte autônoma. A ideia era usar o acúmulo de conhecimento gerado por muitos indivíduos que trabalhavam de maneira livre em busca da eman- cipação do ser humano e do enriquecimento da vida humana. Para Santos (1997, p.78), é no século XVIII que se dá o cumpri- mento histórico do conceito de modernidade, período concomi- tante ao surgimento do capitalismo4 como modo de produção dominante na Europa. Segundo o projeto iluminista, caberia à escola configurar-se como espaço para a transmissão do conhecimento científico e para a formação do cidadão. Em relação às crianças, o projeto escolar 4. Santos (1997), analisa o desenvolvimento do capitalismo em três períodos: ca- pitalismo liberal (século XIX), capitalismo organizado (final do século XIX) e o capitalismo desorganizado (a partir da década de 1960). Para aprofundar o estudo desses períodos do capitalismo, consultar também Harvey (2008). EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 57 23/12/2010 11:03:31 58 LUCIMARY BERNABÉ PEDROSA DE ANDRADE 3a. Prova deveria prepará-las para a vida adulta e para o mundo produtivo. As influências desses pensamentos determinaram a configuração de teorias pedagógicas como a de John Locke, na qual a criança é reconhecida como uma tábula rasa, como um “vir a ser”, devendo ser preenchida de conhecimentos necessários a sua formação en- quanto força produtiva. Essa construção social da criança remete à categoria a que Dahlberg, Moss e Pence se referem, a criança como reprodutora do conhecimento, identidade e cultura, reconhecendo a infância como base para o desenvolvimento futuro: Na construção da criança como reprodutor de conhecimento, identidade e cultura, a criança pequena é entendida como ini- ciando a vida sem nada e a partir de nada – como um vaso vazio ou tábula rasa. Pode-se dizer que esta é a criança de Locke. O desafio é fazer que ela fique “pronta para aprender” e “pronta para a escola” na idade do ensino obrigatório. Por isso, durante a primeira infância a criança pequena precisa ser equipada com os conhecimentos, com as habilidades e com os valores culturaisdominantes que já estão determinados, socialmente sancionados e prontos para serem administrados – um processo de repro- dução ou transmissão – tem também de ser treinada para se adaptar às demandas estabelecidas pelo ensino obrigatório. (Dahlberg, Moss & Pence, 2003, p.65) O interesse pela infância propagado pela modernidade inau- gura, num certo sentido, a preocupação com a criança e sua for- mação, porém o objetivo não era a criança em si, mas o adulto de amanhã. Reconhecida como fase da não razão, da imaturidade, as expectativas sobre a infância propagavam um discurso legitimando a infância como uma fase do desenvolvimento humano no qual a criança, ser frágil e dependente do adulto, deveria ser educada e disciplinada para o desenvolvimento pleno de suas faculdades, in- clusive da razão. As vivências da infância nos séculos pré-modernos ocorriam na coletividade, sendo que a socialização e a educação das crianças EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 58 23/12/2010 11:03:31 EDUCAçãO INfANTIL 59 3a. Prova aconteciam por meio de uma ampla rede de sociabilidade na qual, gradualmente, os pequenos seres adquiriam os conhecimentos re- ferentes aos usos, técnicas e costumes de sua comunidade. Ariès chama a atenção para o fato de que a ausência da cons- ciência da infância não significava que as crianças fossem maltra- tadas ou desprezadas. Segundo o autor, até o século XVIII pode-se observar um estado de paparicação excessiva às crianças, como se fossem bichinhos de estimação dos adultos. Na Idade Média, as crianças não apresentavam estatuto social e autonomia existencial, eram consideradas como meros seres bio- lógicos. “Paradoxalmente, embora a história revele a existência das crianças, seres biológicos, desde a Antiguidade, nem sempre houve infância, categoria social de estatuto próprio” (Sarmento, 2004, p.11). As crianças pertenciam ao universo feminino até que pudessem ser integradas ao mundo adulto, ou seja, quando apresentassem con- dições para o trabalho, para a participação na guerra ou para a repro- dução. Segundo Barbosa (2006, p.75), era predominante, nesse pe ríodo histórico, uma visão da criança que a considerava rude, fraca de juízo e marcada pelo pecado original, e que, portanto, deveria ser controlada e vigiada pelos adultos. O surgimento da infância na modernidade apresenta como ca- ráter paradoxal o reconhecimento da criança e a perda da sua liber- dade, pois se antes o anonimato permitia uma ampla vivência na coletividade, agora inicia-se o processo de “privatização” de suas vivências, seja na família, seja na escola. Paralelamente à segre- gação das crianças do mundo adulto, são desenvolvidos novos sen- timentos em relação às crianças associados à pureza, ingenuidade e fragilidade. Barbosa (2006, p.76-7) destaca que, junto ao novo sen- timento de infância, são inauguradas novas práticas e teorias para governá-la. O reconhecimento da infância enquanto etapa do desenvolvi- mento humano, nos séculos XIX e XX, faz surgir a infância cientí- fica, com a propagação de conhecimentos construídos por várias EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 59 23/12/2010 11:03:31 60 LUCIMARY BERNABÉ PEDROSA DE ANDRADE 3a. Prova áreas do saber, o que determinará um conjunto de teorias e prá- ticas a serem desenvolvidas para cuidar dessa categoria. São divul- gadas normas de higiene e cuidados com as crianças, investe-se em campanhas de amamentação, criam-se instituições de atendimen - to, como as creches e jardins da infância, enfim, cria-se o que Bar- bosa (2006, p.77) denomina de infância atendida. A autora alerta que esses saberes e instituições destinavam-se à criança burguesa e que outras infâncias coexistiam ao mesmo tempo, ou seja, a criança abandonada nos orfanatos, nas rodas de expostos, a criança explorada nas fábricas ou, ainda, privada de condições dignas de existência. O conjunto desses saberes5 influenciou as representações sociais sobre as crianças incorporadas ao imaginário coletivo. De acordo com Sarmento (2004, p.12), esses saberes prescrevem padrões de “normalidade”, ou seja, conhecimentos referentes ao desenvolvi- mento das crianças, conforme alguns padrões que orientarão as fa- mílias e as instituições nos cuidados e educação das crianças. Conforme o autor, esses saberes pautam-se por duas ideias confli- tuais da infância: Referimo-nos às concepções antagônicas rosseaunianas e mon- taigneanas sobre a criança, ao construtivismo e ao comporta- mento, às pedagogias centradas no prazer de aprender e às pedagogias centradas no dever do esforço, às pulsões liberta- doras e aos estímulos controladores, em suma às ideias da criança-anjo, natural, inocente e bela e a criança demônio, re- belde, caprichosa e disparata. (Sarmento, 2004, p.13) Dentre os saberes científicos produzidos sobre a infância, podem-se destacar as influências da Psicologia do Desenvolvi- 5. Segundo Barbosa (2006, p.73), os saberes científicos sobre a infância foram produzidos inicialmente pela Biologia, Psicologia e Medicina e somente no sé- culo XX tornou-se objeto de estudo da História e da Sociologia. EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 60 23/12/2010 11:03:31 EDUCAçãO INfANTIL 61 3a. Prova mento, ao estabelecer estágios universais do desenvolvimento in- fantil, sobretudo nas práticas pedagógicas. Dahlberg, Moss & Pence (2003, p.53) explicitam as influências da Psicologia do Desenvolvimento na construção do conhecimento sobre a infância: [...] a Psicologia do Desenvolvimento pode ser vista como um discurso que, além de contribuir para a construção de nossas imagens das crianças e para o nosso entendimento das suas ne- cessidades, contribuiu para a construção e para a constituição de toda a paisagem da infância. Outros fatores aliados aos saberes científicos sobre a infância contribuíram para a institucionalização da infância na moderni- dade, dentre eles a institucionalização da escola pública, o senti- mento de cuidado e proteção das famílias e a promoção da administração simbólica da infância, configurando uma infância global (Sarmento, 2004, p.12). Dentre esses fatores, Sarmento (2004, p.13) considera como primeiro e decisivo a criação de instâncias públicas de socialização das crianças com a institucionalização da escola pública, a qual irá configurar o “ofício de aluno” como componente essencial do “ofício de criança”. Assim, será na escola que as crianças se apro- priarão dos saberes, normas e valores instituídos como dominantes na sociedade. Para Sarmento (2004, p.13), a modernidade desenvolveu um conjunto de procedimentos configuradores da administração sim- bólica da infância, os quais estabelecem normas, atitudes e pres- crição, nem sempre escritos ou formalizados, que condicionam e direcionam a vida das crianças em sociedade. EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 61 23/12/2010 11:03:31 62 LUCIMARY BERNABÉ PEDROSA DE ANDRADE 3a. Prova Infância e condição da criança como sujeito de direitos Segundo Dahlberg, Moss & Pence (2003, p.78), novas constru- ções6 sobre a infância têm sido elaboradas, conjugadas ao desenvolvi- mento de vários fatores sociais, econômicos e científicos, em especial aos relacionados às perspectivas construcionistas e pós-modernistas na Filosofia, Sociologia e Psicologia. Os autores destacam que, para a perspectiva pós-moderna, não existe a “criança” e a “infância”, visto que “há muitas crianças e muitas infâncias, cada uma construída por nossos ‘entendimentos da infância e do que as crianças são e devem ser’” (Dahlberg, Moss & Pence, 2003, p.63). Para compreendermos a relação da infância na pós-moderni- dade, vamos discutir a princípio o seu conceito. Santos (1997, p.76-7) assim discorre sobre o paradigma da pós- -modernidade: O paradigma cultural da modernidade constitui-se antes de o modo de produção capitalista se ter tornado dominante e extin- guir-se-á antes de este último deixar de ser dominante. A sua extinção é complexa porque é em parte um processo de supe- ração e em parte um processo de obsolescência. É superaçãona medida em que a modernidade cumpriu algumas das suas promessas e, de resto, cumpriu-as em excesso. É obsolescência na medida em que a modernidade está irremediavelmente inca- pacitada de cumprir outras das suas promessas. Tanto o excesso no cumprimento de algumas das promessas como o déficit no cumprimento de outras são responsáveis pela situação presente, que se apresenta superficialmente como de vazio ou de crise, mas que é, a nível mais profundo, uma situação de transição. Como todas as transições são simultaneamente semicegas e semi-invisíveis, não é possível nomear adequadamente a pre- sente situação. Por esta razão lhe tem sido dado o nome ina- 6. Os autores analisam as mudanças nas construções da infância na Europa, Es- tados Unidos e países escandinavos, destacando a relação entre o Estado e as famílias nas mudanças das políticas de atendimento à infância. EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 62 23/12/2010 11:03:31 EDUCAçãO INfANTIL 63 3a. Prova dequado de pós-modernidade. Mas, à falta de melhor, é um nome autêntico na sua inadequação. O autor argumenta a relação contraditória e dialética entre a modernidade e a pós-modernidade: “A relação entre o moderno é, pois, uma relação contraditória. Não é de ruptura total como querem alguns, nem de linear continuidade como querem outros. É uma situação de transição em que há momentos de ruptura e mo- mentos de continuidade” (Santos, 1997, p.103). Dahlberg, Moss & Pence (2003, p.41) também destacam que, apesar das diferentes perspectivas e valores propagados pela mo- dernidade e pós-modernidade, não se pode inferir uma completa oposição e ruptura entre ambas. O projeto de pós-modernidade, surgido a partir da década de 1960, vem questionar o conhecimento absoluto propagado pelo projeto iluminista, “reconhecendo a incerteza, a complexidade, a diversidade, a não linearidade, a subjetividade, as perspectivas múltiplas e as especificidades temporais e espaciais” (Dahlberg, Moss & Pence, 2003, p.37). Nessa perspectiva não há conhecimento nem verdades abso- lutas. O conhecimento e o mundo são socialmente construídos, sendo, portanto, provisórios e ilimitados, o que remete à ideia do filósofo Heráclito, a de que pela segunda vez que você pula na água, você não pula na mesma água. Recorreremos a Libâneo (1997, p.144-5) para sintetizar algumas das características da condição pós-moderna. O autor elabora as suas considerações destacando os aspectos filosóficos, econômicos, polí- ticos e culturais que configuram o pós-modernismo. Em relação ao aspecto filosófico, o ponto central do pós-moder- nismo é a rejeição às teorias totalizantes e a afirmação de categorias universais no âmbito da ideologia, das ciências e da religião. Quanto ao aspecto econômico, são ressaltadas as mudanças no sistema produtivo e no mundo do trabalho consequentes das trans- formações técnico-científicas, o que se refletirá em novas exigên- cias para uma mão de obra cada vez mais qualificada. EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 63 23/12/2010 11:03:31 64 LUCIMARY BERNABÉ PEDROSA DE ANDRADE 3a. Prova A redução da crença moderna no Estado-nação e na prática po- lítica convencional são as principais evidências da pós-moderni- dade no campo político, ao passo que no campo cultural podem-se destacar as mudanças nas formas de produção, circulação e con- sumo da cultura: “há uma proliferação de significados, gerando uma sociedade em que imperam as simulações, num mundo de imagens e fantasias eletrônicas” (Libâneo, 1997, p.145). Para Sarmento (2004, p.14-5), a condição elencada como pós- -modernidade é referida como segunda modernidade, caracteri- zada por um quadro complexo de rupturas: A segunda modernidade caracteriza-se por um conjunto asso- ciado e complexo de rupturas sociais, nomeadamente a substi- tuição de uma economia predominantemente industrial por uma economia de serviços, a criação de dispositivos de mercado à es- cala universal, a deslocalização de empresas, a ruptura do sis- tema de equilíbrio de terror entre dois blocos, com a crise dos países socialistas do Leste Europeu e o fim dos regimes comu- nistas, a afirmação dos EUA como única potência hegemônica, a conclusão do processo de descolonização dos países africanos, a emergência de uma situação ambiental crítica, as rupturas no mercado de trabalho pela subida das taxas de desemprego, a crise de subsistência do Estado-Providência, a crescente pre- sença e reclamação na cena internacional de movimentos sociais e protagonistas divergentes das instâncias hegemônicas, a afir- mação radical de culturas não ocidentais, nomeadamente de ins- piração religiosa, etc. Na visão do autor, um dos traços mais marcantes da infância na segunda modernidade é a mudança e pluralização de suas identi- dades, em virtude do processo de globalização. Embora tenhamos diferenças e desigualdades marcantes na vivência da infância em todo o mundo, os impactos da globalização nessa categoria gera- cional contribuíram para a disseminação da ideia da existência de uma só infância mundial. Os efeitos da globalização da infância são EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 64 23/12/2010 11:03:31 EDUCAçãO INfANTIL 65 3a. Prova resultantes de processos econômicos, políticos, culturais e sociais, conforme esclarece Sarmento (2001, p.15): No entanto, a globalização da infância é hoje a resultante de pro- cessos políticos (por exemplo, por efeito da regulação intro- duzida por instâncias como a Unicef, a OIT, etc.), processos econômicos (por exemplo, a criação de um mercado global de produtos para a infância), processos culturais (por exemplo, a influência dos mitos infantis criados a partir das séries inter- nacionais de televisão) e processos sociais (por exemplo, a insti- tucionalização dos quotidianos da criança ou a difusão mundial da escola de massas). Para Giddens (1991, p.64), a globalização é entendida como a “intensificação das relações sociais mundiais que unem localidades distantes de tal modo que os acontecimentos locais são condicio- nados por eventos que acontecem a muitas milhas de distância e vice-versa”. Santos (1997, p.90) a considera como o “conjunto de relações sociais e culturais transacionais”. Libâneo (2005, p.70), ao abordar o tema, conceitua a globalização como “uma gama de fa- tores econômicos, sociais, políticos e culturais que expressam o es- pírito e a etapa do desenvolvimento do capitalismo em que o mundo se encontra atualmente”. Sarmento (2001, p.16-8), ao analisar os impactos da globali- zação na infância, trabalhou com as ideias de “globalização hege- mônica e globalização contra-hegemônica”.7 Como efeitos da globalização hegemônica, podemos constatar o estado de vulne- rabilidade, miséria e exploração a que é submetida grande parcela das crianças do mundo, em especial dos países periféricos. Como exemplos: a crescente inserção da mão de obra infantil no mercado de trabalho; o aumento dos indicadores da pobreza infantil e o for- talecimento de um mercado global da infância influenciando na 7. Para aprofundar a discussão dos conceitos de globalização hegemônica e contra-hegemônica, consultar Santos (1997). EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 65 23/12/2010 11:03:31 66 LUCIMARY BERNABÉ PEDROSA DE ANDRADE 3a. Prova formação dos padrões de comportamento, nos estilos de vida e nas culturas da infância. Em contrapartida, a globalização contra-he- gemônica propaga um maior interesse pela criança, favorecendo a difusão mundial dos direitos da infância e a expansão de movi- mentos sociais em defesa da cidadania da infância, o que será ana- lisado no próximo capítulo. Retomando a ideia de que as concepções sobre a infância são forjadas no percurso da história, nos deparamos com o questiona- mento de alguns teóricos acerca do desaparecimento da infância na pós-modernidade.8 Porém, os estudos recentes da Sociologia da Infância demonstram que a infância é um projeto inacabado da modernidade e que seu curso tem revelado grandes paradoxos na contemporaneidade. A este respeito Sarmento(2004, p.19) es- clarece: Não obstante – contrariamente aos propagadores da “morte da infância” (Postman, 1999) – consideramos que a segunda mo- dernidade radicalizou as condições em que vive a infância moderna, mas não a dissolveu na cultura e no mundo dos adultos, nem tão pouco lhe retirou a identidade plural nem a au- tonomia de acção que nos permite falar de crianças como actores sociais. A infância está em processo de mudança, mas mantém- -se como categoria social, com características próprias. Segundo Dahlberg, Moss & Pence (2003, p.37), a Sociologia da Infância tem contribuído para a quebra de paradigmas sobre a in- fância, reconhecendo-a “como um importante estágio do curso de vida, nem mais nem menos importante do que outros estágios”. Esse entendimento da infância rompe com o paradigma da criança frágil, inocente, dependente e incapaz, dando lugar à con- cepção da criança rica, forte, poderosa e competente, coconstrutora de conhecimento, identidade e cultura. A criança é reconhecida como um sujeito ativo, competente, com potencialidades a serem 8. A este respeito consultar Corazza (2002, p.118-28). EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 66 23/12/2010 11:03:31 EDUCAçãO INfANTIL 67 3a. Prova desenvolvidas desde o nascimento; sujeito que aprende e constrói conhecimentos no processo de interação social. Essa construção da infância implica o reconhecimento de que: • a infância é construção social elaborada para e pelas crianças em um conjunto ativamente negociado de relações sociais. Embora a infância seja um fato biológico, a maneira como ela é enten- dida é determinada socialmente; • a infância como construção social é sempre contextualizada em relação ao tempo, ao local e à cultura, variando segundo a classe, o gênero e outras condições socioeconômicas. Por isso, não há uma infância natural nem universal, nem uma criança natural ou universal, mas muitas infâncias e crianças; • as crianças são atores sociais, participando da construção e de- terminando suas próprias vidas, mas também a vida daqueles que as cercam e das sociedades em que vivem, contribuindo para a aprendizagem como agentes que constroem sobre o co- nhecimento experimental. Em resumo, elas têm atividade e função; os relacionamentos sociais e as culturas das crianças são dignos de estudo por direito; • as crianças têm voz própria e devem ser ouvidas de modo a serem consideradas com seriedade, envolvendo-as no diálogo e na tomada de decisões democráticas, e para se entender a in- fância: as crianças contribuem para os recursos e para a pro- dução sociais, não sendo simplesmente um custo e uma carga; • os relacionamentos entre os adultos e as crianças envolvem o exercício de poder (assim como a expressão do amor). É neces- sário considerar a maneira como o poder do adulto é mantido e usado, assim como a elasticidade e a resistência das crianças a esse poder. (Dahlberg, Moss & Pence, 2003, p.71) Dessa forma, na construção de uma nova conceitualização sobre a infância está a ideia da criança cidadã, ou seja, a criança forte, competente, inteligente, com direito a voz e a ser ouvida; enfim, um sujeito de direitos: EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 67 23/12/2010 11:03:31 68 LUCIMARY BERNABÉ PEDROSA DE ANDRADE 3a. Prova Desse entendimento de criança como coconstrutora, cidadã, agente, membro de um grupo, advém uma outra série de ima- gens. A criança como forte, competente, inteligente, um peda- gogo poderoso, capaz de produzir teorias interessantes e desa - fiadoras, compreensões, perguntas – e desde o nascimento, não em uma idade avançada quando já ficaram prontos. Uma criança com uma voz para ser ouvida, mas compreendendo que ouvir é um processo interpretativo e que as crianças podem se fazer ouvir de muitas formas (conhecimentos expressos em As cem linguagens da infância, de Magaluzzi). Em resumo, essa construção da criança produz uma criança “rica”. (Moss, 2001, p.242) Representações da infância: entre a natureza e a cultura Os estudos de Gagnebin (1997, p.84), focando a relação intrín- seca entre infância e pensamento filosófico, apresentam o paradoxo entre a razão e a natureza que influenciará os sentimentos e concep- ções sobre a infância no pensamento medieval e início da Idade Moderna e que ainda se manifestam nas representações que fa- zemos sobre a infância. No pensamento medieval, as ideias e concepções sobre a in- fância originadas em Platão e seguidas por santo Agostinho irão conceber a infância como um estado primitivo e animalesco do ser humano. A criança é considerada dotada de tendências selvagens, com disponibilidade para o mal em virtude da ausência da razão. Essa ideia pode ser compreendida no resgate etimológico da pa- lavra infância, que significa o infante, aquele que não fala e que é privado da razão. Assim, a infância caracteriza-se não pelo critério etário, mas pela ausência da linguagem humana, devendo a criança ser domes- ticada e moldada segundo as normas e regras educacionais. Segundo Charlot (1986, p.113), o discurso de Platão apresenta uma visão de infância como um período em que a alma é dominada EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 68 23/12/2010 11:03:31 EDUCAçãO INfANTIL 69 3a. Prova pela natureza corporal, remetendo à ideia da criança selvagem, in- domável, que precisa ser educada e domesticada. Em Platão, por exemplo, a infância é um momento do vir-a-ser individual da alma e as contradições do comportamento infantil explicam-se pelas características da alma. A alma da criança é prisioneira do sensível e dominada por sua natureza corporal: por isso a criança é selvagem e ardente como um potro, desorde- nada e agitada como um louco. O discurso pedagógico tradicional encontra no discurso de Platão um respaldo para as práticas disciplinadoras e normativas. A infância é imaginada, antes de tudo, como a idade da corrupção, cabendo à educação a tarefa de desenraizar o estado selvagem na- tural da infância: “educação tem, portanto, essencialmente, por papel, lutar contra essa corrupção da criança, pode fazê-lo, uma vez que a criança por natureza, obedece ao adulto e uma vez que, na criança a humanidade já se anuncia” (Charlot, 1986, p.115). Como marco do pensamento moderno sobre a infância, leva-se em consideração o livro de Jean-Jacques Rousseau, Emílio, datado de 1762. De acordo com Charlot (1986, p.116), Rousseau, contra- pondo-se à visão da criança como adulto em miniatura, preconiza a ideia da existência de um mundo próprio e autônomo das crianças, reconhecendo a infância como tempo da pureza e da inocência, mo- mento em que a natureza humana ainda não foi corrompida pela sociedade. Seus pressupostos irão influenciar decisivamente a pe- dagogia nova,9 considerando que a educação deverá atender ao ritmo e interesse de cada um, promovendo o desenvolvimento das faculdades naturais das crianças. Charlot (1986, p.115) afirma que Rousseau irá revolucionar a pedagogia, inaugurando a pedagogia nova e promovendo uma 9. Segundo Charlot, a pedagogia nova propagava um discurso a favor da proteção e do respeito à natureza da criança, considerada como um “vir a ser”, com- preendendo a infância como um período de maturação. EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 69 23/12/2010 11:03:31 70 LUCIMARY BERNABÉ PEDROSA DE ANDRADE 3a. Prova reinterpretação da natureza infantil e das relações entre adultos e crianças, o que favorecerá o surgimento da Psicologia da Criança. Para Rousseau (apud Gagnebin, 1997, p.94), a ausência da lin- guagem racional, ao contrário de reiterar a natureza animal da criança, expressa uma autêntica linguagem dos sentimentos não corrompida pela linguagem mundana. Essa infância idealizada é depositária de esperanças para um mundo melhor, expressando uma visão salvífica da criança. Pode-se perceber nas concepções de Rousseau uma naturali- zação da infância, desconsiderando o seu significado social e a sua relação com o contexto histórico na qual ela se insere. Assim sendo, é preciso desnaturalizar a infância pararompermos com alguns pa- radigmas construídos historicamente. Sarmento também reafirma a necessidade de desconstrução das imagens historicamente formuladas sobre a infância, visto que muitas ainda sustentam a atuação dos adultos com as crianças: As diversas imagens sociais da infância frequentemente se so- brepõem e confundem no mesmo plano de interpretação prática dos mundos das crianças e na prescrição de comportamentos e de normas de actuação. Não são compartimentos simbólicos es- tanques mas dispositivos de interpretação que se revelam, final- mente no plano da justificação da acção dos adultos com as crianças. A busca de um conhecimento que se desagarre das imagens constituídas e historicamente sedimentadas não pode deixar de ser operada senão a partir de um trabalho de descons- trução dos seus fundamentos, essa perscrutação de sombra que um conhecimento empenhado no resgate da infância é chamado a fazer. (Sarmento, 2007, p.33) No intuito de compreendermos as imagens da infância das pro- fissionais que atuam nas creches de Franca buscamos a fundamen- tação metodológica na teoria das representações sociais. A opção pelo aporte teórico das representações sociais justifica-se pela ne- cessidade de compreendermos as ideias, imagens, crenças e valores EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 70 23/12/2010 11:03:31 EDUCAçãO INfANTIL 71 3a. Prova sobre o conceito de criança das profissionais que atuam com essa categoria no universo das creches de Franca. Segundo Minayo (2004, p.158), “as representações sociais nas ciências sociais são definidas como categorias de pensamento que expressam a realidade, explicam-na, justificando-a ou questio- nando-a”. A compreensão das representações sociais dos sujeitos da pes- quisa contribui para o entendimento do lugar que as crianças as- sumem nos espaços institucionais das creches. Para o levantamento das representações sociais das narrativas dos discursos sobre a infância apresentadas pelas profissionais, re- corremos aos dados qualitativos e quantitativos coletados por meio de questionários e entrevistas semiestruturadas. No primeiro ins- trumento metodológico, solicitamos que as entrevistadas escre- vessem palavras para representar o conceito de criança. As palavras afeto, ternura e amor apresentaram a maior fre- quên cia na ordem das evocações das palavras escritas para o con- ceito de criança, ou seja, foram elencadas por 21 das educadoras entrevistadas, totalizando 39,6% das respostas. O agrupamento das evocações ocorreu pela busca dos signifi- cados das mesmas. Assim, no dicionário Novo Aurélio, encon- tramos o significado para o primeiro grupo de evocações. Para a palavra afeto encontramos: afeição, amizade, amor, objeto de afeição. A palavra ternura recebe os atributos de qualidade de terno, meigo, afetuoso, brando, suave, que inspira dó. E a palavra amor é compreendida como sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem, a dedicar-se ao outro, inclinação sexual forte por outra pessoa, afeição, amizade e simpatia (Ferreira, 1999). Pode-se perceber que as educadoras entrevistadas reportam-se a uma visão da criança “frágil”, reconhecida como um indivíduo a ser protegido, objeto de afeição e amor. Aliados a esse quadro, foram apresentadas as palavras encantadora, inocente, ingênua e pu- reza por 19 das entrevistadas, totalizando 35,8% das respostas. Segundo o mesmo dicionário, a palavra encantadora pode ser compreendida como: encantar, lançar encantamento ou magia EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 71 23/12/2010 11:03:31 72 LUCIMARY BERNABÉ PEDROSA DE ANDRADE 3a. Prova sobre, cativar, seduzir, deliciar, deleitar, tomar-se de encantos, ma- ravilhar-se, transformar-se supostamente em outro ser por artes mágicas. A palavra inocente refere-se a inofensivo, inócuo, isento de culpa ou malícia, cândido, puro, pessoa inocente, criança de tenra idade. Significados semelhantes são encontrados para a palavra in- gênua, ou seja, sem malícia, franco, inocente, puro, singelo ou filho de escrava nascido após a lei da emancipação. E para a palavra pu- reza encontramos os seguintes significados: estado ou qualidade de puro, limpo, inocente e cândido (Ferreira, 1999). Sarmento (2007, p.30-2), ao apresentar as imagens da criança pré-sociológica,10 destaca a concepção de criança inocente. Segundo o autor, essa representação da infância tem como paradigma filosó- fico Emílio, a obra clássica de Rousseau, e apresenta como tese do- minante que “a natureza é genuinamente boa e só a sociedade a perverte, o que se contrapõe à concepção oposta da necessidade da razão e da norma social para controlar as forças monstruosas da na- tureza indomada” (Sarmento, 2007, p.31). Tanto o primeiro quadro de evocações quanto o segundo repre- sentam uma visão romântica da criança, herança do pensamento de Rousseau, fundamentada no mito da bondade da infância. A crença na bondade infantil traz implícita a ideia da criança como um “vir a ser”, ou seja, uma criança futuro do mundo, o que Moss (2002, p.239) afirma ser a “criança vista como um potencial não realizado, recurso futuro, adulto em espera”. Essa visão romântica está também atrelada à concepção de na- tureza infantil, descrita por Charlot (1986, p.114), na qual se apoiam os sistemas pedagógicos. Fleury (1995, p.136) destaca que a concepção de natureza infantil colabora para o desenvolvimento 10. Segundo Sarmento (2007, p.30-2), as imagens das crianças pré-sociológicas são propostas pelos teóricos James, Jenks e Prout e revelam a concepção de criança como sujeito infantil abstrato e singular. As imagens propostas como imagens da criança pré-sociológica são as seguintes: “a criança má, a criança inocente, a criança imanente, a criança naturalmente desenvolvida e a criança incons- ciente”. EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 72 23/12/2010 11:03:31 EDUCAçãO INfANTIL 73 3a. Prova de duas atitudes contraditórias dos adultos diante das crianças, ou seja, a paparicação e a moralização. As contradições imputadas à natureza infantil são, portanto, múltiplas e a imagem que se faz da criança hoje em dia leva a duas atitudes contraditórias que caracterizam o comportamento dos adultos: uma é a da “paparicação” achando a criança in- gênua, graciosa, pura, inocente; a outra considera a criança como um ser imperfeito, um ser que na verdade é um vir-a-ser, alguém incompleto que precisa de moralização e da educação dada pelo adulto. A visão romântica e a imagem da criança inocente, frágil e de- pendente do adulto são reiteradas nas falas das entrevistadas:11 Um ser muito especial! Ser único, insubstituível, que merece cuidado, atenção, tudo de melhor que a gente puder fazer pra ela. [...] são seres inofensivos, são seres assim que precisam de muitos cuidados, de muita educação, então a gente tem que asse- gurar sim. (Dália) Ah, eu acho que é assim... são pessoas muito especiais, alegres, precisam de muita atenção, cuidados. (Rosa) A criança é muito pura e ingênua. (Angélica) Para Dahlberg, Moss & Pence, a imagem da criança inocente representa uma visão utópica, dando à infância o estatuto de “anos dourados” e refletindo nos adultos o desejo de proteção da criança do mundo que a cerca, o que poderá levar a um desrespeito dos di- reitos da criança: 11. Como já evidenciamos no percurso metodológico, foram entrevistadas cinco educadoras que atuam com a faixa etária de 0 a 3 anos de idade nas creches de Franca. EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 73 23/12/2010 11:03:31 74 LUCIMARY BERNABÉ PEDROSA DE ANDRADE 3a. Prova Esta imagem da criança gera nos adultos um desejo de protegê-la do mundo corrupto que as cerca – violento, opressivo, comercia- lizado e explorador – construindo um tipo de ambiente em que a criança pequena receba proteção, coesão e segurança. De acordo com nossa experiência, no entanto, nós nos tornamos cada vez mais cientes de que, se escondermos as crianças de um mundo do qual elas fazem parte, não apenas nos iludimos, mas não le- vamos as crianças a sério nemas respeitamos. (Dahlberg, Moss & Pence, 2003, p.66) Como afirmam Moreira & Vasconcelos (2003), muitas das re- presentações sobre a infância convergem para uma concepção ho- mogênea, independente do contexto social, uma infância idealizada, perfeita e encantada que remete à teoria rousseauniana do “Bom Selvagem”. Para as autoras, essas representações expressam um modelo “idílico de infância”, uma visão utópica, compreendida como uma fase mágica e bela, “vivida por uma criança meiga, ino- cente, preservada da mágoa e do trabalho, ocupando seu tempo apenas no devaneio do brincar, tratada com carinho e proteção por uma família” (Moreira & Vasconcelos, 2003, p.167). As representações sobre a infância que evocam o modelo idílico não expressam a realidade de todas as crianças, em especial das ca- madas populares inseridas precocemente no trabalho, excluídas da escola, vivendo em situação de miséria, abandono e exploração, enfim, para as quais o “paraíso da infância” é uma grande utopia. Confrontamo-nos assim com diferentes formas de vivência da in- fância quando consideramos as diferentes demarcações de suas condições socioeconômicas e culturais. A visão adultocêntrica também é uma constante nas representa- ções das educadoras entrevistadas, revelando, sobretudo, uma con- cepção de educação meramente transmissiva e a visão de uma criança reconhecida como sujeito passivo e depositária de conheci- mentos: EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 74 23/12/2010 11:03:31 EDUCAçãO INfANTIL 75 3a. Prova [...] desde lá no berçário ela percebe o que você quer passar para ela. A gente pensa que ela não vai entender, como exemplo, quando eu falo neném, ela entende. Então por isso é bom a gente saber o conhecimento que pode estar passando pra ela e planejar também o que a gente pode estar ensinando pra ela. (Angélica) Conforme a concepção de criança apresentada por Angélica, temos a presença do que Sarmento (2007, p.31) considerou como visão da criança imanente, ou seja, visão na qual se apresenta um po- tencial de desenvolvimento da criança relacionado à possibilidade de aquisição da razão e da experiência. Constata-se que a criança está representada enquanto ser de- pendente do adulto, isto é, por sua condição de fragilidade ou de incapacidade. A discussão da concepção de criança como incapaz, um vir a ser, é discutida por Sarmento (2007, p.33) quando o autor apre- senta os traços de negatividade sobre a infância na modernidade. A visão sobre a criança parte de sua incompletude, do que lhe falta para se tornar um adulto. Na modernidade, a infância consagra-se como a idade da não razão, do não trabalho e da não infância, esta última defendida pelos teóricos que partilham da ideia do desapa- recimento da infância. A negatividade na concepção da infância é apresentada na fala das entrevistadas ao apontarem as limitações das crianças e o papel do adulto na estimulação das mesmas: [...] porque toda a criança tem as suas limitações, mas ela também tem sua capacidade de superar, então a gente dá valor a tudo que ela pode contribuir, estimulando sempre. [...] porque às vezes tem alguma criança que tem alguma limitação, mas a gente estimulando, trabalhando com ela, ela é capaz de desen- volver bem como outra qualquer. (Dália) [...] a gente está ali com ela, vendo o que ela precisa, vendo como é. [...] como elas ainda não têm..., como elas são novas ainda se você falar um dia pra elas não vão lembrar, então são EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 75 23/12/2010 11:03:31 76 LUCIMARY BERNABÉ PEDROSA DE ANDRADE 3a. Prova coisas que você fala diariamente pra elas poder gravar, pra elas po- derem gravar sobre aquele assunto. [...] mas ela não consegue so- zinha, então se você estimular então ela começa a desenvolver sozinha, mas precisa de uma estimulação no começo. (Angélica) [...] eu descobri que posso ajudar crianças a superarem certas di- ficuldades que atrapalham na aprendizagem. (Rosa) Contrapondo a representação majoritária da visão romântica de criança, os dados dos questionários apresentaram, em menor fre- quência, evocações que revelam a visão da criança como sujeito so- cial, histórico, competente e produtor de cultura. As palavras social e histórica foram citadas por três das entrevistadas, representando 5,6% das evocações, ao passo que competente e produtor de cultura foram citadas apenas por uma educadora, representando o percen- tual de 1,8% no quadro das evocações. A visão de criança como sujeito ativo que constrói conheci- mentos é revelada na representação do conceito de criança de Íris e Gardênia: A criança..., criativa, esperta, muito curiosa, o tempo todo em busca de conhecimentos. [...] o tempo todo querendo novidade, então você vê que são crianças que buscam o novo, que têm von- tade de aprender. (Gardênia) [...] sem eles a gente não teria a creche, eu não estaria aqui. Eles são os autores principais dentro desta história. [...] a rotina que se faz é pra eles, as atividades que se pensa em se fazer está em torno deles, então eles são os autores principais. (Íris) Como podemos constatar, as representações das imagens de criança da maioria das profissionais das creches de Franca é con- trária ao discurso legal e pedagógico, que propaga uma visão de criança como sujeito social de direitos e produtor de cultura, como é revelado pela Política Nacional de Educação Infantil: EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 76 23/12/2010 11:03:31 EDUCAçãO INfANTIL 77 3a. Prova [...] contudo, as formas de ver as crianças vêm, aos poucos, se modificando, e atualmente emerge uma nova concepção de criança como criadora, capaz de estabelecer múltiplas relações, sujeito de direitos, um ser sócio-histórico, produtor de cultura e nela inserido. (Brasil, 2006, p.8) Percorrendo a construção histórica do conceito de criança apre- sentado pelos discursos teóricos, bem como as representações so- ciais das educadoras entrevistadas, constatamos que ambas revelam uma compreensão complexa e contraditória do que seja a criança e o seu papel na sociedade. À predominância da visão focada na na- tureza infantil em nossa pesquisa alia-se a ideia da criança abstrata, independente de sua condição social e cultural, uma criança frágil e dependente do adulto, a ser conduzida e normatizada pelo processo educacional. Permite-nos perceber a importância da desconstrução das representações sociais sobre as crianças para que elas verdadei- ramente possam assumir a condição de sujeitos de direitos nos es- paços das creches. EDUCAÇÃO_INFANTIL.indd 77 23/12/2010 11:03:31 CRIANÇA E INFÂNCIA: CONTEXTO HISTÓRICO SOCIAL Andréa Lemes Lustig UNEMAT/Cáceres-MT lustig@top.com.br Rinalda Bezerra Carlos UNEMAT/Cáceres-MT rinaldabc@terra.com.br Rosane Penha Mendes Secretaria Municipal de Educação de Cáceres-MT rosane.pmendes@gmail.com Maria Izete de Oliveira UNEMAT/Cáceres-MT mariaizete@gmail.com Grupo de Pesquisa: Contextos Educativos da Infância Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo Constituído desde 2003, o Grupo de Pesquisa “Contextos Educativos da Infância” compõe o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação da Infância – NEPE, vinculado ao Programa de Mestrado em Educação, da Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT e está inserido na Linha de Pesquisa: Ensino, Avaliação e Formação de professor. Contando com o apoio de instituições como Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (2005-2007) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso – FAPEMAT (2008-2010), ao longo desses onze anos, nossas preocupações relacionam-se com a prática dos professores que atuam com a infância - preferencialmente nas instituições públicas -, com a organização do trabalho pedagógico nas escolas, com o processo de aprendizagem vinculado ao conhecimento de mundo, dentre outros temas que abarcam a educação formal da criança. Este grupo de pesquisa objetiva refletir sobre temáticasacerca da educação na infância, em suas diversas abordagens, cujo foco centra-se na questão da qualidade do ensino oferecido na Educação Infantil e nas séries inicias do Ensino Fundamental. Para o presente trabalho, direcionamos os estudos para compreender os conceitos de criança e infância, o que nos possibilitou organizar o texto em três eixos: o primeiro explicita a trajetória do nosso grupo de pesquisa, permeada pelos estudos de distintas temáticas, cujo foco ora se volta para um aprofundamento sobre o tratamento dado em nível nacional às crianças nos primeiros anos de escolarização, ora preocupa-se com as representações dos professores da Educação Infantil acerca das suas práticas pedagógicas, ora atenta para um entendimento dessas mesmas práticas a partir das histórias de vida de professoras da Educação Infantil, culminando com a preocupação de aprofundar nos estudos sobre criança e infância; o segundo discorre sobre a evolução do conceito de infância e mailto:lustig@top.com.br mailto:rosane.pmendes@gmail.com mailto:mariaizete@gmail.com 2 criança, a partir de uma abordagem histórico-social; e o terceiro eixo destaca as características próprias da criança localizadas nos discursos oficiais elaborados pelo Ministério da Educação – MEC. Importa ressaltar que para compreender a concepção de infância e criança, nos ancoramos nos ensinamentos de Rousseau (1999), Ariès (1981), Kohan (2003), Heywood (2004), Kramer (1999 e 2006), Stearns (2006), Kuhlmann (2010), Sarmento (2007) e Postman (2011) que trazem valiosas contribuições sobre o desvendamento da história da infância. Além de trazer contribuições acerca da diferença entre as concepções de infância e criança, a primeira compreendida, em síntese, como uma etapa da vida da pessoa e, a segunda, como sujeito histórico, social e cultural, observamos que os documentos oficiais vão ao encontro dessas proposições, ao conceber que a criança possui características e especificidades inerentes a esta fase de desenvolvimento. Assim as reflexões hora apresentadas, nos convidam a pensar numa educação de qualidade, que faça sentido para a criança, para que ela conceba a escola como lugar de realizações. Palavras-chave: Concepção. Criança. Infância. 1.1. Histórico do grupo de pesquisa O grupo de pesquisa “Contextos educativos da infância” foi constituído no ano de 2003 com o nome Estudos em Educação Infantil, porém, no ano de 2010 passou a se chamar Contextos educativos da Infância por entender que esta denominação possibilitaria uma maior ampliação nos estudos acerca da infância e criança. Localizado na cidade de Cáceres, a oeste de Mato Grosso e fronteira com a Bolívia, este grupo de pesquisa atende também cidades da região. Nosso grupo compõe o Núcleo de Estudo e Pesquisa em Educação da Infância – NEPE, vinculado ao Programa de Mestrado em Educação da Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT e está inserido na Linha de Pesquisa: Ensino, Avaliação e Formação de professor. Nossos estudos buscam refletir sobre temáticas acerca da educação na infância, em suas diversas abordagens, tendo como preocupação central a questão da qualidade do ensino oferecido na Educação Infantil e nos anos inicias do Ensino Fundamental. Dentre nossas preocupações estão: a prática dos professores que atuam com a infância nas diferentes instituições, a organização do trabalho pedagógico nas escolas, o processo de aprendizagem vinculado ao conhecimento de mundo, dentre outros temas que abarcam a educação formal da criança. Nos dois primeiros anos do grupo dedicamo-nos intensamente aos estudos e reflexões sobre a temática e em 2005 iniciamos o trabalho com a pesquisa intitulada: Educação infantil: representação e ação de professores que atuam nas escolas públicas de Cáceres e região. Este projeto foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq e estendeu-se até 2007. Em julho de 2008 iniciamos o segundo projeto: A prática 3 pedagógica dos professores de educação infantil: reflexão e mediação, sendo este financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso – FAPEMAT, encerrando-se em julho de 2010. O terceiro projeto: Um Estudo com professoras da pré-escola: compreendendo suas práticas pedagógicas por meio de histórias de vida, iniciou-se em agosto de 2011 encerrando-se em agosto de 2012. Atualmente o grupo está iniciando o quarto projeto intitulado: Primeiro ano do ensino fundamental: o olhar da criança de seis anos de idade, que se iniciou em março de 2013 com previsão de conclusão para agosto de 2014. Considerando que o nosso foco centra-se nos estudos sobre a educação e a infância, sentimos a necessidade de um maior aprofundamento teórico sobre a concepção de infância e criança, para tanto recorremos à literatura da área para que pudéssemos melhor compreender a construção histórica destas concepções. Ao discutir sobre a concepção de infância e criança utilizaremos as teorias de Rousseau (1999), Ariès (1981), Kohan (2003), Heywood (2004), Kramer (1999 e 2006), Stearns (2006), Kuhlmann (2010), Sarmento (2007) e Postman (2011) que trazem valiosas contribuições sobre o desvendamento da história da infância. No item onde abordaremos as características das crianças pequenas além de utilizar esses mesmos teóricos, daremos um destaque maior para as características encontradas nos documentos oficiais do Ministério da Educação – MEC. 1.2. Concepção de infância e criança Consideramos necessário enfatizar que ao se tratar da evolução histórica dos conceitos de infância e criança alguns autores utilizam estas expressões como sinônimos, entretanto, gostaríamos de ressaltar que temos ciência da diferença entre as concepções de infância e criança, sendo a primeira compreendida, em síntese, como uma etapa da vida da pessoa e, a segunda, como sujeito histórico, social e cultural. As palavras de Heywood (2004) esclarecem o que queremos dizer ao estabelecer diferença entre os termos em discussão, o autor define infância como uma “abstração que se refere à determinada etapa da vida, diferentemente do grupo de pessoas sugerido pela palavra crianças” (p.22). Iniciaremos nossa discussão enfatizando as concepções de infância, relatando de forma sucinta a Antiguidade Clássica no que se refere à concepção Platônica até chegar à atualidade. Posteriormente, abordaremos a evolução nas concepções de criança a fim de destacar as características que prevalecem hoje na literatura ao se tratar da criança. De acordo com Kohan (2003) na primeira concepção platônica, para a sociedade da época, a infância não tinha características próprias, centrava-se numa visão futurista, onde se 4 via apenas possibilidades, ou seja, a criança era vista como um ser em potencial, entretanto, essa potencialidade não permite que ela seja em ato o que é. Em defesa de um devir, a criança não é nada no presente. Sua educação é vista como projeção política, por isso é preciso moldar e imprimir-lhe tudo o que é necessário a um bom cidadão. Para Kohan (2003), o segundo conceito platônico consiste em conceber a criança como um ser inferior sendo, então, a infância uma fase da vida inferior à vida adulta. [...] entre todas as criaturas selvagens, a criança é a mais intratável; pelo próprio fato dessa fonte de razão que nela existe ainda ser indisciplinada, a criança é uma criatura traiçoeira, astuciosa e sumamente insolente, diante do que tem que ser atada, por assim dizer, por múltiplas rédeas [...] (PLATÃO, 2010, p. 302. Grifos nossos). Nesse relato de Platão tem-se a dimensão de como a criança era vista como ser inferior, fato esse demonstrado através dos adjetivos selvagem, intratável, indisciplinada, traiçoeira, astuciosa e insolente, que lhes são atribuídos. Nesse contexto, a natureza infantil deve ser trabalhada para que se volte para a potencialidadee para a harmonia. Kohan (2003) defende que o terceiro conceito platônico concebe a infância como o outro desprezado As crianças são a figura do não desejado, de quem não aceita a própria verdade, da desqualificação do rival, de quem não compartilha uma forma de entender a filosofia, a política, a educação e, por isso, dever-se-á vencê-la. As crianças são [...] para Platão, uma figura do desprezo, do excluído [...] (p. 24). No pensamento platônico sobre educação, o último conceito concebe a infância como material da política. Essa educação na infância está sempre direcionada a uma nova pólis que os filósofos querem constituir, por isso, as crianças, do sexo masculino, filhos de homens superiores, deveriam ser preparadas, moldadas para serem reis que governassem a pólis no futuro. Portanto, neste período da filosofia clássica a infância é concebida como possibilidade e inferioridade. Enquanto “possibilidade” significa ser objeto de intencionalidade política numa visão futura, já que a criança não é vista em si como ela é, mas como possibilidade daquilo que será, “inferioridade” significa a criança ser o outro desprezado. Frente aos relatos anteriores se observa que a pedagogia da época é definida pela visão de potencialidade do devir da criança, ela deve ser preparada para exercer função política e para politizar os povos. Platão vê a educação como meio para alcançar a pólis 1desejada. 1 Platão não estava satisfeito com a forma de governo da pólis (Cidade Estado) e via na educação a melhor ferramenta para alcançar a pólis sonhada, uma pólis mais justa, mais bela e melhor. 5 Entretanto, para que isso se efetivasse, a criança deveria ser moldada para este fim desde a sua infância, por isso a visão da infância enquanto possibilidade. Ao tratarmos da infância na Idade Média, vimos que ela tem sido compreendida pela vertente histórica constituída a partir de estudos de Ariès (original de 1962) que busca documentar o surgimento de um sentimento de infância. Serviremo-nos do aporte teórico de Ariès (1981), historiador francês, por ser considerado pioneiro nesta área, embora seus escritos tenham sido constantemente analisados e criticados por outros pesquisadores no que se refere ao surgimento da concepção de infância. Ariès (1981) afirma que o sentimento de infância não existia na Idade Média, a ela não se dispensava um tratamento específico correspondente à consciência infantil e as suas particularidades que a diferenciasse dos adultos. Tão logo a criança não necessitasse mais da mãe ou da ama ela já era inserida na sociedade dos adultos e assim participava de jogos, de afazeres domésticos ou trabalhava como aprendizes. Suas roupas eram incômodas e similares à do adulto. Essas vestimentas impossibilitavam a criança à liberdade de movimento, tirando- lhe o prazer em correr, sujar-se, subir em árvores, podando-lhe de tudo aquilo que faz parte do mundo infantil descaracterizando-a daquilo que realmente é. Ainda em relação à ausência de um tratamento específico Postman (2011) enfatiza que nesse período não havia uma literatura infantil, nem mesmo livros de pediatria, a linguagem também era a mesma tanto para adulto quanto para a criança. Segundo o referido autor, “[...] no mundo medieval não havia nenhuma concepção de desenvolvimento infantil, nenhuma concepção de pré-requisitos de aprendizagem sequencial, nenhuma concepção de escolarização como preparação para o mundo adulto” (p. 29). A infância na Idade Média terminava aos sete anos, quando a criança já dominava as palavras. Até então ela era considerada como alguém incapaz de falar, significado este oriundo da palavra latina infans. Vale ressaltar que essa incapacidade de falar não se limitava apenas à primeira infância, estendia-se a um período maior, até aos sete anos e após esta idade uma vida adulta começava imediatamente. Outro cenário que denuncia a forma como os medievais ignoravam as crianças diz respeito ao alto índice de mortalidade infantil e a aceitabilidade passível em relação a esse fato. A morte da criança nesse período, decorrente da falta de cuidados básicos e de higiene era considerada um acontecimento comum. A premissa da época era de ter muitos filhos para que talvez sobrevivessem dois ou três. Nesse cenário, “a infância era apenas uma fase sem importância, que não fazia sentido fixar na lembrança”, no caso “da criança morta, não se 6 considerava, que essa coisinha desaparecida tão cedo fosse digna de lembrança” (ARIÈS, 1981, p. 21). Por conseguinte, a arte medieval, uma das únicas formas de expressão do real naquela época, não retratava a criança como de fato ela era. As obras retratam crianças com características do homem adulto, porém, em tamanho reduzido. E por isso as pinturas coerentemente retratavam as crianças como adultos em miniatura, pois logo que as crianças deixavam de usar cueiros, vestiam-se exatamente como outros homens e mulheres de sua classe social (POSTMAN, 2011, p.32). Como na Idade Média a criança estava ausente na arte, compreende-se que neste período ela não tinha lugar e esta indiferença tornava-a invisível. Para Postman (2011) “De todas as características que diferenciam a Idade Média da Moderna, nenhuma é tão contundente quanto a falta de interesse pelas crianças” (p. 33). O autor defende que as ausências dos conceitos de educação e de vergonha atrelado à ausência de alfabetização são razões pelas quais o conceito de infância não tenha existido no mundo medieval. Conforme Ariès (1981) o sentimento de infância pode ser percebido em dois momentos distintos. Um que surge no seio familiar entre os séculos XVI e XVII denominado de paparicação, onde a criança é vista como um mero objeto de diversão, reduzindo-a a fonte de distração aos olhos dos adultos. O outro sentimento nasce em oposição ao primeiro no final do século XVII no contexto eclesiástico chamado de moralização. A igreja, contrária a conceber a criança como brinquedo encantador, preocupou-se em discipliná-la dentro dos princípios morais associados aos cuidados de saúde e higiene. Esse novo sentimento transcendeu às famílias que já imbuídas dos sentimentos anteriores, associou um novo elemento, a preocupação com a saúde física e higiênica de suas crianças. Contrapondo à visão de Ariès e Postman, Stearns (2006) afirma que “Todas as sociedades ao longo da história, e a maior parte das famílias, lidaram amplamente com a infância e a criança” (p.11) no sentido de que toda criança pequena requer alguns cuidados necessários que advém de um adulto mais próximo. O autor relata que é preciso que alguém providencie seu alimento, cuide de sua saúde física e emocional, proteja-a do frio e do calor, constituindo-se assim em características peculiares à infância em todas as sociedades, independente de tempos e espaços, podendo ser considerado também como uma preparação para a vida adulta. Entretanto, Stearns (2006) esclarece que “a infância pode apresentar variações impressionantes, de uma sociedade ou de um tempo a outro” (p.12), como, por exemplo, o tempo de duração da infância, o trabalho infantil, as punições e formas de disciplinar as 7 crianças, a idade que adentra ao ambiente escolar são algumas das variações inerentes que atravessam as fronteiras do mundo infantil. Heywood (2004), crítico norte americano, tece algumas críticas ao estudo de Ariès. Ele considera ser muito simplista afirmar que em uma determinada época e espaço não se tinha um sentimento de infância. Expressão essa que segundo Heywood se configura ambígua por transmitir-nos “tanto a ideia de uma consciência da infância quanto de um sentimento em relação a ela” (p.33). Para Heywood (2004), a concepção de infância existe em diferentes contextos, sendo caracterizada por um processo dialético de idas e vindas, avançose retrocessos, não é uma construção linear, mas sinuosa. Corroborando com Stearns, Heywood enfatiza que fatores políticos, econômicos e sociais que já aconteceram e continuam a acontecer na sociedade acarretam transformações no modo de conceber a infância, levando ao entendimento de diferentes tipos de infância. Considerando que dentro de uma sociedade as crianças vivem em diferentes contextos, é mais eficaz que busquemos diferentes concepções sobre a infância em tempos e lugares distintos. Kuhlmann (2010) compartilha da concepção de infância abordado por Heywood, contrapondo-se também à teoria de Ariès, ele afirma que “O Sentimento de infância não seria inexistente em tempos antigos ou na Idade Média [...]” (p.22). É perceptível que o autor sinaliza a relevância do estudo sobre a história da infância de forma não linear, porém, evolutiva. É preciso considerar a infância como uma condição da criança. O conjunto das experiências vividas por elas em diferentes lugares históricos, geográficos e sociais é muito mais do que uma representação dos adultos sobre essa fase da vida. É preciso conhecer as representações de infância e considerar as crianças concretas, localizá-las como produtoras da história (p.30). Nesse sentido, Kramer argumenta que A inserção concreta das crianças e seus papéis variam com as formas de organização da sociedade. Assim, a ideia de infância não existiu sempre da mesma maneira. Ao contrário, a noção de infância surgiu com a sociedade capitalista, urbano-industrial, na medida em que mudavam a inserção e o papel social da criança na comunidade (KRAMER, 2006, p.14). Para Kramer (2006) “a infância é entendida como período da história de cada um, que se estende na nossa sociedade, do nascimento até aproximadamente dez anos de idade” (p.13). Em outra obra (KRAMER,1999) a autora tem defendido uma concepção que reconhece o que é específico da infância, que é o poder de imaginação, fantasia e criação. Contudo entende “[...] as crianças como cidadãs, pessoas que produzem cultura e são nela produzidas, que 8 possuem um olhar crítico que vira pelo avesso a ordem das coisas subvertendo essa ordem” (p. 272). Postman (2011) defende que o surgimento da imprensa, no século XVI, ao culminar com a alfabetização socializada possibilitou a criação de uma nova definição para a idade adulta que, consequentemente, provocou uma ruptura entre o mundo adulto e infantil. Esta nova definição, baseada na competência de leitura, provoca o surgimento de uma nova concepção de infância baseada na incompetência de leitura. A tipografia criou um novo mundo do qual as crianças foram expulsas ao ser habitado pelos adultos, portanto, essa ruptura exigiu que um novo mundo fosse criado para as crianças: “Este outro mundo veio a ser conhecido como infância” (p.34). Várias atitudes sinalizam a mudança de paradigmas entre a Idade Média e a Moderna. Segundo Ariès (1981) o século XVII configura-se como um período de grande importância para a evolução dos temas relacionados à infância. Segundo o mesmo autor a partir do Século XVII a criança começa a ser retratada sozinha e sua expressão é menos desfigurada que na Idade Média. Conforme Áries (1981) iniciam-se também neste período os primeiros estudos sobre a psicologia infantil. Estes estudos buscavam compreender melhor a mente da criança para melhor adaptar os métodos utilizados na educação. Uma grande revolução acontece no final do século XVIII, o modo de vestir as crianças se diferencia das vestimentas dos adultos. Nesse sentido Ariès (1981) salienta que “[...] foi preciso esperar o fim do século XVIII para que o traje das crianças se tornasse mais leve, mais folgado, e a deixasse mais à vontade” (p. 33). Esse novo modo de vestir dava às crianças, principalmente aos meninos, maior liberdade de movimento, permitindo-lhe que o correr, o pular e as estripulias fizessem parte do seu mundo e assim seguissem seu ritmo. Com essas mudanças, aos poucos a sociedade foi deixando de ver a crianças como um adulto em miniatura. A própria história se encarregou de trilhar novos caminhos e quebrar paradigmas. Os fatos e a vida cotidiana foram se delineando e mostrando a possibilidade de novos olhares que foram se humanizando e indicando ao adulto que as crianças têm características que lhes são peculiares. Dessa forma os diversos fatores sociais e históricos contribuíram para a constituição de uma nova conotação para a infância. No Século XVIII a infância encontra seu ápice. Ariès (1981) enfatiza que os artistas expressam através da arte os sentimentos do adulto em relação à criança, que até então estavam ocultos. A essas expressões atribui-se o nome de cenas de infância literárias revelando, assim, as descobertas da primeira infância, o corpo e a oralidade da criança. Dessa forma, a criança conquista um lugar privilegiado na arte. 9 Postman (2011) destaca que No século dezoito a ideia de que o Estado tinha o direito de agir como protetor das crianças era igualmente inusitada e radical. Não obstante, pouco a pouco a autoridade absoluta dos pais se modificou, adotando padrões mais humanitários, de modo que todas as classes sociais se viram forçadas assumir em parceria com o governo a responsabilidade pela educação das crianças (p.70). O fato de o governo ter assumido uma responsabilidade com a criança fez com essa conquista tivesse conexão com as demais esferas sociais, como a família, a escola e a sociedade, incluindo de forma significativa alguns intelectuais que voltaram seus olhares ao mundo infantil. Isto possibilitou um olhar diferente em relação aos séculos anteriores. Conforme Postman (2011) “[...] o clima intelectual do século XVIII – o Iluminismo [...] ajudou a nutrir e divulgar a ideia de infância” (p.71). Nesta direção Sarmento (2007) afirma que Os séculos XVII e XVIII, que assistem a essas mudanças profundas na sociedade, constituem o período histórico em que a moderna ideia da infância se cristaliza definitivamente, assumindo um carácter distintivo e constituindo-se como referenciadora de um grupo humano que não se caracteriza pela imperfeição, incompletude ou miniaturização do adulto, mas por uma fase própria do desenvolvimento humano (p.28). Dentre os estudiosos da infância do século XVIII encontramos em Rousseau uma grande contribuição. Rousseau através da obra Emílio, ou, Da Educação ressalta que a criança deve ser vista em seu próprio mundo e não como uma mera projeção do adulto. Ao afirmar essa visão, Rousseau (1999) conquista o mérito da construção de um conceito moderno de infância, embora ainda não como compreendido hoje, mas como o início do despir-se de velhos conceitos e a possibilidade de um novo olhar sobre a criança. Rousseau não compreende a criança como um adulto em miniatura, concebe a criança em si mesma, considerando suas manifestações próprias e a capacidade imaginativa e criativa. Para ele cada idade, cada estado da vida tem sua perfeição conveniente, o tipo de maturidade que lhe é própria. Rousseau refere-se à infância como um tempo agradável em que a criança tem atitudes espontâneas, é feliz e inocente. Para ele a infância é uma fase com características próprias às quais devem ser cultivadas de forma a contribuir para o desenvolvimento da inteligência da criança. O autor, de uma maneira intuitiva, antecipou teorias sobre o desenvolvimento cognitivo e moral da criança, quebrou paradigmas e desencadeou novas concepções sobre a criança e a infância, reconhecendo que a criança tem seu próprio mundo e que é preciso compreendê-la a partir dela mesma. 10 Frente ao exposto percebemos que não é mais possível concebermos um conceito estático para infância. Se temos culturas, religiões, estratos sociais, capital cultural diferentes em cada família, se as crianças estão em contextos diferentes e as variáveisde classe social, econômica, política e religiosa que envolve cada criança é diferente, então como é que podemos falar e aceitar a ideia de que existe uma única infância? Diante dos fatores de diversidades, que envolvem as crianças, compactuamos com a ideia de alguns autores, entre eles Sarmento (2007) que comenta: “[...] no interior do mesmo espaço cultural, a variação das concepções da infância é fundada em variáveis como a classe social, o grupo de pertença étnica ou nacional, a religião predominante, o nível de instrução da população [...]” (p. 29). Por isso acreditamos que ao nos referirmos à infância seja mais coerente falarmos em infâncias, no sentido de pluralidade, demonstrando assim a nossa visão de que a infância está relacionada ao contexto ao qual a criança está inserida, pois como vivemos em contextos diferentes, não nos é possível restringirmos a infância a um universo singular. Mesmo cientes de que existiram e existem diferentes infâncias em nossa sociedade, não podemos deixar de mencionar que ao falar de criança temos que reconhecer que esta etapa da vida é marcada por características que lhe são peculiares, que independente de como é o contexto da infância de uma criança ela tem necessidades e características próprias, e é isso que abordaremos no próximo subitem. Vale acrescentar que em considerando a evolução histórica do conceito de infância até então retratados, nos reportaremos ao contexto brasileiro, sobretudo ao cenário das políticas públicas frente ao trato com criança pequena. 1.3. Características próprias das crianças Constatamos em nossos estudos que a forma de compreender a criança e a infância tem passado por grandes evoluções, que são perceptíveis na literatura da área produzida nas últimas décadas, bem como nos diversos documentos oficiais elaborados pelo Ministério da Educação e Cultura – MEC. Vale ressaltar que nos documentos oficiais podem-se perceber concepções já sinalizadas por Rousseau em sintonia com as concepções de teóricos mais atuais como Postman, Kramer, Sarmento, Kuhlmann, Stearns, dentre outros. Essas novas concepções propiciaram um olhar mais humano para a criança garantindo assim a valorização e o respeito por seus direitos e necessidades. 11 O Parecer 022/1998, que trata das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil – DCNEI, ao referir-se à concepção de criança descortina um novo olhar e nos mostra as especificidades do ser criança ao afirmar que elas “são seres humanos portadores de todas as melhores potencialidades da espécie”: *inteligentes, curiosas, animadas, brincalhonas em busca de relacionamentos gratificantes, pois descobertos entendimento, afeto, amor, brincadeira, bom humor e segurança trazem bem estar e felicidade; *Tagarelas, desvendando todos os sentidos e significados das múltiplas linguagens de comunicação, por onde a vida se explica; *inquietas, pois tudo deve ser descoberto e compreendido, num mundo que é sempre novo a cada manhã; *encantadas, fascinadas, solidárias e cooperativas desde que o contexto ao seu redor, e principalmente, nós adultos/educadores, saibamos responder, provocar e apoiar o encantamento, a fascinação, que levam ao conhecimento, à generosidade e à participação (BRASIL, 1998). Nesta mesma vertente, o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil – RCNEI destaca que A criança, como todo ser humano, é um sujeito social e histórico e faz parte de uma organização familiar que está inserida em uma sociedade, com uma determinada cultura, em um determinado momento histórico. [...] As crianças possuem uma natureza singular, que as caracteriza como seres que sentem e pensam o mundo de um jeito muito próprio. Nas interações que estabelecem desde cedo com as pessoas que lhe são próximas e com o meio que as circunda, as crianças revelam seu esforço para compreender o mundo em que vivem as relações contraditórias que presenciam e, por meio das brincadeiras, explicitam as condições de vida a que estão submetidas e seus anseios e desejos (BRASIL, 1998, p. 21). Podemos observar que as formas de ver as crianças vêm se complementando a cada reflexão e a cada novo discurso oficial, nos quais verificamos que a visão se amplia em busca de melhor compreendê-las para melhor expressar ou, até mesmo, traduzir de forma mais peculiar possível o que de fato a criança é. Nessas metamorfoses conceituais o Parecer 020/2009, que trata da revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, ao referir-se à concepção de criança, enfatiza que ela [...] é sujeito histórico e de direitos que se desenvolve nas interações, relações e práticas cotidianas a ela disponibilizadas e por ela estabelecidas com adulto e crianças de diferentes idades nos grupos e contextos culturais nos quais se insere. Nessas condições ela faz amizades, brinca com água ou terra, faz-de-conta, deseja, aprende, conversa, experimenta, questiona, constrói sentidos sobre o mundo e suas identidades pessoal e coletiva, produzindo cultura (BRASIL, 2009, p.7). Desde o Parecer 022/98 o discurso oficial demonstra uma atenção especial para com a forma de concebermos a criança, a sua infância e as suas características. Esta atenção especial 12 às características da criança também é perceptível na Resolução nº 5 de 2009, que fixa as atuais DCNEI que considera a criança. Como Sujeito histórico e de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentimentos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura (BRASIL, 2010, p. 14). As Orientações Gerais para o Ensino Fundamental de Nove Anos reconhece “as crianças como seres íntegros que aprendem a ser e a conviver consigo mesmas, com os demais e com o meio ambiente de maneira articulada e gradual” (BRASIL, 2004, p. 16). Essa concepção encontra-se articulada com o conceito de criança apresentado pelas DCNEI bem como com as características que o Parecer 22/1998 atribui às crianças. Observamos que os documentos oficiais estão em sintonia com o aporte teórico atual sobre essa nova concepção de criança e essa construção histórica tem possibilitado a saída da criança do anonimato. Tem inserido-a cada vez mais em um contexto social mais amplo, que reconhece nela um ser ativo, histórico, social que constrói e reconstrói cultura, que tem opinião, que manifesta seus interesses, curiosidades e desejos, demonstra autonomia em suas escolhas e quer ser ouvida e consultada sobre as situações que lhes são peculiares. 1.4. Para concluir As pesquisas até então realizadas tem contribuído com construção mais humanizada do conceito de infância e criança. Isto pode ser constatado nos artigos publicados, nos capítulos de livros, nas dissertações produzidas e na participação na formação continuada das escolas da rede pública de Cáceres. Além disso, acreditamos que o grupo de pesquisa: “Contextos educativos da infância”, têm proporcionado contribuições significativas junto aos professores da Educação Infantil e dos primeiros anos do Ensino Fundamental em nosso contexto. Haja vista que buscamos construir, à luz dos teóricos da área, uma visão sobre a criança e a infância, com o sonho de se ter uma educação de qualidade em que a escola possa propiciar à criança o acesso ao conhecimento respeitando sua infância, suas características e especificidades que lhe são inerentes, ou seja, a escola precisa fazer sentido para a criança, para que ela conceba esse espaço como lugar de plenas realizações. REFERÊNCIAS 13 ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2 ed. Tradução: Dora Flaksman. Rio de Janeiro: Afiliada, 1981. BRASIL. Ministério da Educação. Câmara de Educação Básicado Conselho Nacional de Educação. Parecer CEB 022/98. Brasília: MEC, 1998. _______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998. _______. Ministério da Educação. Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. 1999. _______. Ministério da Educação. Ensino Fundamental de nove anos: orientações para a inclusão da criança de seis de anos de idade. Brasília: FNDE, 2006. _______. Ministério da Educação. Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação. Parecer CEB 020/2009. Brasília: MEC, 2009. _______. Ministério da Educação. Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação. Resolução CEB 5/2009. Brasília: MEC, 2009 _______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil. 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Bauru-SP: Edipro, 2010. _______. A república. São Paulo: Martin Claret, 2003. POSTMAN, Neil. O desaparecimento da Infância. Rio de Janeiro: Graphia, 2011. 14 SARMENTO, Manuel Jacinto. VASCONCELLOS, Vera Maria Ramos. (Org.) Infância (in)visível. Araraquara: Junqueira&Marin, 2007. SEBER, Maria da Glória. Piaget: o diálogo com a criança e o desenvolvimento do raciocínio. São Paulo: Scipione, 1997. STEARNS. Peter N. A infância. Tradução: Mirna Pinsky. São Paulo: Contexto, 2006. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou, Da educação. Tradução: Roberto Leal Ferreira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. Francisco Ramos de FariasVolume 1 Adolescência e Juventude Apoio: Material Didático Referências Bibliográfi cas e catalogação na fonte, de acordo com as normas da ABNT e AACR2. Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfi co da Língua Portuguesa. Copyright © 2010, Fundação Cecierj / Consórcio Cederj Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida, transmitida e gravada, por qualquer meio eletrônico, mecânico, por fotocópia e outros, sem a prévia autorização, por escrito, da Fundação. ELABORAÇÃO DE CONTEÚDO Francisco Ramos de Farias COORDENAÇÃO DE DESENVOLVIMENTO INSTRUCIONAL Cristine Costa Barreto SUPERVISÃO DE DESENVOLVIMENTO INSTRUCIONAL Miguel Siano da Cunha DESENVOLVIMENTO INSTRUCIONAL E REVISÃO Heitor Soares de Farias Lúcia Beatriz da Silva Alves AVALIAÇÃO DO MATERIAL DIDÁTICO Thaïs de Siervi Fundação Cecierj / Consórcio Cederj Rua Visconde de Niterói, 1364 – Mangueira – Rio de Janeiro, RJ – CEP 20943-001 Tel.: (21) 2334-1569 Fax: (21) 2568-0725 Presidente Masako Oya Masuda Vice-presidente Mirian Crapez Coordenação do Curso de Pedagogia para as Séries Iniciais do Ensino Fundamental UNIRIO - Adilson Florentino UERJ - Rosana de Oliveira Departamento de Produção 2011.1 EDITOR Fábio Rapello Alencar COORDENAÇÃO DE REVISÃO Cristina Freixinho REVISÃO TIPOGRÁFICA Carolina Godoi Cristina Freixinho Elaine Bayma Renata Lauria Thelenayce Ribeiro COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO Ronaldo d'Aguiar Silva DIRETOR DE ARTE Alexandre d'Oliveira PROGRAMAÇÃO VISUAL Andreia Villar Bianca Lima Carlos Cordeiro Janaina Santana Márcia Valéria de Almeida ILUSTRAÇÃO Jefferson Caçador CAPA Jefferson Caçador PRODUÇÃO GRÁFICA Verônica Paranhos F224 Farias, Francisco Ramos de. Adolescência e Juventude. v. 1 / Francisco Ramos de Farias. - Rio de Janeiro : Fundação CECIERJ, 2011. 11 308p.; 19 x 26,5 cm. ISBN: 978-85-7648-712-8 1. Adolescência. 2. Juventude. 3. Sexualidade. I. Título CDD: 305.235 Universidades Consorciadas Governo do Estado do Rio de Janeiro Secretário de Estado de Ciência e Tecnologia Governador Alexandre Cardoso Sérgio Cabral Filho Governo do Estado do Rio de Janeiro Secretário de Estado de Ciência e Tecnologia Governador Alexandre Cardoso Sérgio Cabral Filho UENF - UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE FLUMINENSE DARCY RIBEIRO Reitor: Almy Junior Cordeiro de Carvalho UERJ - UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO Reitor: Ricardo Vieiralves UNIRIO - UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO Reitora: Malvina Tania Tuttman UFRRJ - UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO Reitor: Ricardo Motta Miranda UFRJ - UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO Reitor: Aloísio Teixeira UFF - UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE Reitor: Roberto de Souza Salles Aula 1 – Elementos para uma defi nição de adolescência _________________ 7 Francisco Ramos de Farias Aula 2 – Desabrochando a juventude: o adeus à infância ________________37 Francisco Ramos de Farias Aula 3 – Adolescência: momento de passagem, crises e resoluções ________65 Francisco Ramos de Farias Aula 4 – O mundo do adolescente: ondulações e vibrações ______________97 Francisco Ramos de Farias Aula 5 – O sonho da juventude eterna ___________________________ 129 Francisco Ramos de Farias Aula 6 – Adotando diferentes estilos de conduta para enfrentar a vida ___ 157 Francisco Ramos de Farias Aula 7 – Novas modalidades de relações na vida amorosa ____________ 183 Francisco Ramos de Farias Aula 8 – As trilhas do tornar-se mulher e os caminhos do vir a ser homem __ 211 Francisco Ramos de Farias Aula 9 – O adolescente e as questões da sexualidade ________________ 239 Francisco Ramos de Farias Aula 10 – Escolhendo uma profi ssão _____________________________ 271 Francisco Ramos de Farias Referências ______________________________________________ 301 Adolescência e Juventude SUMÁRIO Volume 1 ob jet ivo s Metas da aula Evidenciar que os conceitos de infância e adolescência foram construídos historicamente e apresentar as conquistas da infância que são fundamentais à adolescência. Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: identifi car as características socioculturais e 1. psicológicas relativas ao surgimento da infância que têm importância na defi nição da adolescência; estabelecer os marcos de início e término da 2. primeira infância; reconhecer as conquistas que são fundamentais 3. na infância para o ingresso na adolescência. Elementos para uma defi nição de adolescência Francisco Ramos de Farias 1AULA C E D E R J8 Adolescência e Juventude | Elementos para uma defi nição de adolescência Você sabia que o conceito de infância é bastante recente? É verdade. A ideia de infância como uma etapa diferenciada da vida adulta é algo muito novo. Mais recente ainda é o conceito de adolescência. Como veremos na aula de hoje, a criança e o adolescente eram vistos como seres em processo de ama- durecimento, e não com traços distintivos próprios, diferentes dos adultos. Os termos "criança" e "adolescente" são frutos do processo civilizatório e foram desenvolvidos e construídos historicamente. Assim, nos dias de hoje, quando nossa curiosidade sobre o desenvolvimento psicológico nos faz procurar leituras de Psicologia,nos deparamos com modelos e explicações que podem traçar três (a infância, a vida adulta e a velhice) ou até quatro etapas (a infância, a adolescência, a vida adulta e a velhice). Nomear as fases da vida parece ser algo bastante natural, mas o difícil é estabelecer com precisão as marcações que separam cada uma dessas fases. Certamente a explanação do desenvolvimento psíquico em fases distintas tem sua importância, pois nos ajuda a entender a trajetória iniciada no nascimento e que fi naliza com a morte, considerando o curso dinâmico do processo da vida. Em função dessa circunstância, temos na vida um ciclo que se repete em cada indivíduo. Porém não podemos analisar as fases evolutivas meramente como uma condição natural, pois os fatores socioculturais e psicológicos desempe- nham um papel de suma importância. Por esse motivo, o desenvolvimento não pode ser explicado em termos de uma sequência genética de acontecimentos lineares, seguindo um critério cronológico, uma vez que determinantes de ordem psíquica e social entram como operadores na defi nição e na especifi ci- dade de cada etapa da vida. A PRODUÇÃO DE UM CONCEITO DE INFÂNCIA O conceito de infância, como uma fase diferenciada do percurso da vida, somente pôde vir a lume após o Renascimento. Até então, se compreendia a criança como um “pequeno homem” que, com o tempo, amadureceria (Figura 1.1). Não havia nessa época qualquer compreen- são de que a criança se relaciona com o mundo de uma maneira muito diferente em comparação ao adulto. Apenas acreditava-se que na criança tudo ocorria de forma diminuta. Era somente uma questão de tempo: bastava esperar que as manifestações da vida infantil exibissem as qualidades da vida adulta. INTRODUÇÃO C E D E R J 9 A U LA 1 Figura 1.1: Antes de existir o conceito de infância, a criança era considerada como um adulto em miniatura. Estamos, assim, assinalando que a compreensão da infância é resultado da convergência de saberes de domínios diversos, que passam a refl etir sobre a criança: o saber médico, que se preocupa com a saúde; o saber jurídico, que legisla sobre os direitos e deveres dos pais e dos fi lhos; as questões de ordem econômica, que, em função das transfor- mações relativas às formas de produção, colocam novas exigências ao homem, como saber manusear máquinas. Assim, entra em cena mais um domínio, a educação, pois os operadores de máquinas deveriam ter um mínimo de conhecimento e, para isso, deveriam saber ler, além de somente aprender um ofício. Essas seriam as consequências da Revolução Industrial na substituição do trabalho manual pela ação de máquinas. A ideia de que a infância constitui uma etapa diferenciada qualitativamente da vida adulta é algo muito recente. E mais recente ainda é a produção do conceito de adolescência. ! C E D E R J10 Adolescência e Juventude | Elementos para uma defi nição de adolescência PHILIPPE ARIÈS assinala que a produção do conceito de infância, como etapa diferenciada da vida, somente ocorreu por volta do século XVII, quando foi estabelecida uma idade para o desmame, momento em que os meninos eram retirados de suas famílias para aprenderem um ofício com um adulto, e as meninas fi cavam encarregadas dos afazeres domésticos. A Europa vivia um tempo de ignorância e barbárie, uma espécie de vazio produzido pelas autoridades eclesiásticas, com sua doutrina de ocultação e proibição dos conhecimentos científi cos. Devemos ter em mente que esse poder da Igreja perdurou por muito tempo e sua fi nalidade era dominar o “povo”. Havia uma corrente de pensamento relativa aos costumes e tradições, que relembrava a época das trevas da Idade Média, tempo em que as autoridades eclesiásticas tinham uma forte aliada: a nobreza feudal. Suas atuações se davam em ações conjuntas, pois esses setores sociais andavam de mãos dadas, governaram o ocidente medieval, encobrindo-o com um véu de sombras: uma “escuridão” que consistia em manter o homem amedrontado e aprisionado à terra, apenas trabalhando de forma servil para os seus senhores, mantendo-se subservientes aos representantes do poder eclesiástico. A forma degradante de existência imposta por esses dois domínios sofre um grande declínio com o advento da Era Moderna em razão das novas descobertas e, em especial, pela fundação da ciência moderna. Até a produção dessa reviravolta, seria problemática fazer qualquer referência à infância. Nesse sentido, poderíamos indagar: houve educação para a criança na Idade Média que não consistisse na transmissão de valores morais? Havia reconhecimento da criança, como um ser singu- lar? E, ainda, a adolescência fi gurava nas preocupações dos estudiosos? Qualquer refl exão leva-nos a responder negativamente a essas questões, principalmente se seguirmos as trilhas traçadas por Philippe Ariés, que afi rmou ter buscado a criança, nessa época, nas produções artísticas, mas que não encontrou qualquer referência a esse respeito. Disso, conclui-se que a infância e a criança parecem não ter existido como entidades diferenciadas do adulto. A criança seria compreendida somente como um adulto em miniatura. Fonte: http://www.septen- trion.com/couv/1088.jpg PHILIPPE ARIÈS (1914-1984) Foi um sociólogo fran- cês, que escreveu His- tória Social da Criança e da Família, impor- tante estudo acerca dos aspectos históricos e dos costumes sobre a concepção da infância em diferentes épocas. Visando explicar como o conceito de infância foi produzido em um dado momento histórico, explana as transformações dos costumes no século XVII, destacando o contexto da família. C E D E R J 11 A U LA 1Conforme podemos depreender das observações desse pesquisador, a noção de criança, primeiramente, surgiu nas cidades, estando atrelada às exigências do modo de viver da burguesia. Certamente, no contexto rural, o aparecimento da criança é um fenômeno bem mais recente. Devemos assinalar que o aparecimento tardio não deve ser compreendido como um desconhecimento, visto que o meio rural conhecia a criança, mas esta era desprezada e completamente marginalizada. Isso se deve ao fato de que o principal olhar que os pais do meio rural dirigiam aos fi lhos consistia em vê-los apenas como força de trabalho e instrumentos de produção de condições para a manutenção da sobrevivência. As mudanças na estrutura da família e as transformações sociais, aliadas ao progresso decorrente da fundação da ciência moderna, são passos decisivos, tanto para uma concepção de família não mais atrelada apenas ao domínio do sagrado, pois a ciência já faz suas intervenções, quanto no que concerne ao ser criança que, também, passa a ser geren- ciado pelo domínio do saber científi co. Nesse cenário de transformações radicais de costumes, uma mudança considerável se impôs a partir da conjunção de vetores sociais: a escola foi instituída como o local de aprendizagem e como meio de educação e disso resultou a separação da criança da convivência com seus familiares. A nova dimensão da produção precisava de homens letrados para entender os manuais de funcionamento das máquinas. Por essa razão, era incentivada a educação das crianças para que, no futuro, desenvolvessem habilidades específi cas para a atuação no con- texto da produção industrial. A preparação para o exercício, cada vez mais específi co, no setor industrial, foi, aos poucos, exigindo um tempo maior de estudo da crian- ça, aumentando signifi cativamente o período de permanência na escola. E, muito mais tarde, a introdução dos cursos superiores ao alcance de um número maior de pessoas, aliada à demanda por uma formação ainda mais especializada para quem deseja uma razoável colocação no mercado de trabalho, teve grande repercussão no intervalo de tempo estabelecido para a adolescência, produzindo o fenômeno que surgiu no século XX com a denominação de adolescência tardia.Pelo fato de as escolas serem, originalmente, grandes internatos, a criança foi vítima de um processo de enclausuramento. Cabe salientar que a preparação técnica pela educação era destinada apenas a alguns C E D E R J12 Adolescência e Juventude | Elementos para uma defi nição de adolescência setores da sociedade. O habitante do meio rural e as mulheres raramen- te frequentavam a escola. Sendo assim, a produção da infância é um fenômeno que guarda diferenças em relação ao sexo, à condição social e ao meio geográfi co. A indistinção entre meninos e meninas Até o século XII, a infância era desconhecida, sem ser sequer representada pela arte da Idade Média. A infância era percebida como um período que deveria ser ultrapassado e logo esquecido. Até o século XVII, meninos e meninas eram consi- derados indistintos, dormiam juntos, tinham os cabelos grandes e usavam a mesma roupa. Não havia qualquer traço distintivo no tratamento das crianças. Em certo sentido, as crianças eram con- sideradas com a mesma ambiguidade com que, atualmente, os fetos são considerados. Tudo o que se refere ao campo dos costumes e das práticas educativas indica que a infância consistia em uma fase da vida sem qualquer particularização na vida real e no imaginário dos adultos. Isso pode explicar, de certa forma, a ausência de imagens que retratam essa fase da vida nesse momento histórico. Juntamente com a escolarização, observamos no século XIX a polarização das preocupações em torno da família e da profi ssão, caracterizando como um momento de crise a fase em que os jovens eram convocados a assumir a vida adulta. Nesse cenário, entra em ação o saber médico, lançando luzes sobre as condições próprias da criança, que não devia mais ser considerada um “pequeno homem”, uma vez que apresentava um funciona- mento fi siológico próprio, bem diferenciado do adulto e do jovem. E mesmo até o século XVIII, infância e adoles- cência eram confundidas, sendo os termos puer e adolescens empregados sem qualquer critério distintivo, tanto para a criança quanto para o adolescente. Além dessa indistinção, podemos mencionar que o traje das crianças e adolescentes era o mesmo do adulto. Eu sou Maria, e você, João ou Maria? Somente no século XVIII, é produzido um traje especial para a criança, mas não para o adolescente. Até então, o traje usado tanto pelas crianças como pelos adolescentes era semelhante ao dos adultos, C E D E R J 13 A U LA 1 CONTEMPORANEIDADE Denomina-se contemporaneidade a era caracterizada por uma dimensão inscrita numa zona de indeterminação entre um tempo passado, referente à era moderna, e um horizonte de possibilidade que é a época vindoura. variando apenas quanto ao tamanho. Cabe ressaltar que essa mudança foi aplicada primeiramente aos meninos para, posteriormente, estender-se às meninas que, ainda por muito tempo, permaneceram confundidas com os adultos. Assim, o sentimento de infância incidiu primeiramente sobre o menino de origem burguesa que habitava a cidade, e, por isso mesmo, a particularização do que seja a infância restringiu-se somente ao menino. No século XIX, com o ingresso do jovem na vida profi ssional, por volta dos 14 anos, atuando como aprendiz, trabalhador agrícola, auxiliar, antes mesmo de concluir a escolaridade básica, uma grande preocupação começou a inquietar o pensamento dos estudiosos: tais jovens não eram mais crianças e tampouco eram reconhecidos como adultos, embora pertencessem ao mundo dos adultos somente em função do trabalho. Na CONTEMPORANEIDADE, esse cenário apresenta-se bastante modifi - cado, visto que jovens com mais idade ainda continuam a sua formação escolar que, em razão de sua complexidade e das exigências de merca- do, exige mais tempo, de modo a marcar uma dependência maior da família. Por isso, o adolescente é mantido num estado de expectativa, quer dizer, o contexto social sinaliza que é necessário um tempo de espera no auge da ânsia pela realização profi ssional e também na caminhada de reconhecimento pela sociedade. Disso decorre que, provavelmente, em consequência às transformações socioculturais, o fenômeno da adoles- cência alastrou-se, deixando de ser um breve e passageiro período de tempo. E essas mudanças produziram efeitos na vida do adolescente que devem ser considerados tanto no âmbito social quanto na organização da estrutura familiar. Atende ao Objetivo 1 1. Nesta atividade, há questões que permitirão você identifi car, a partir de características socioculturais e psicológicas, o surgimento do conceito de infância. ATIVIDADE C E D E R J14 Adolescência e Juventude | Elementos para uma defi nição de adolescência a. Como ocorreu a distinção, em termos de fases de desenvolvimento, que produziu o conceito de infância? b. Por que não havia aspectos distintivos para indicar o sexo da criança? RESPOSTAS COMENTADAS a. As transformações culturais indicaram singularidades no âmbito do desenvolvimento psicológico que permitiram traçar fronteiras, primei- ramente, entre o universo do adulto e o da criança, depois entre a criança e o adolescente. Além disso, a preparação para o exercício de um ofício produziu condições para abordar o aprendiz mais como um adulto em miniatura, visto que sugere a possibilidade de o aprendiz produzir condições de sobrevivência. Ainda, temos a intervenção do campo da Educação apontando que a criança deve ser escolarizada, bem como se divulga a exigência de cuidados com a saúde e higiene no campo da Medicina. b. Como na criança a sexualidade era considerada ausente, não se fazia necessário produzir distinções que indicassem a sexualidade da criança. Por isso, meninos e meninas eram tratados de forma seme- lhante até os sete anos de idade, época em que acontecia o desmame e a criança era separada dos pais. O menino, geralmente, saía de casa para conviver com um profi ssional para aprender um ofício e as meninas encarregavam-se das atividades domésticas. Somente a partir dessa idade, havia a diferenciação em termos do corte de cabelo e das roupas. A INFÂNCIA OU ONDE TUDO COMEÇA Imaginemos que um ser é colocado em um ambiente que funcio- na segundo certas normas, com tradições e costumes, mas que esse ser apresenta um pronunciado estado de desamparo, necessitando, para a C E D E R J 15 A U LA 1sua sobrevivência, dos cuidados e atenção de um agente já constituído no seio dessas normas. Assim é a criança, no momento em que vem ao mundo, iniciando a trajetória que conhecemos como desenvolvimento psicológico. Em princípio, o novo ambiente é repleto de hostilidades para a criança, uma vez que o nascimento é o corte que implica perda de certas condições e separação do corpo materno. Obviamente, sabemos que a vida ora apresentada ao mundo tem uma história com capítulos escri- tos muito antes do nascimento, ou seja, a consciência de uma gravidez indica que o ser em gestação já tem uma existência no psiquismo dos pais, especialmente da mãe. Ao estado de consciência do pai e da mãe corresponde a total ausência de consciência da criança, quando experimenta seu primeiro impulso de autonomia no momento do corte do cordão umbilical, pois é exigido dela que ponha em funcionamento seus órgãos vitais. Dora- vante, terá de acionar seus pulmões para garantir o oxigênio; exercer o controle dos poros para se proteger das variações externas de frio e calor; chorar para expressar suas inquietações ou dores e exercitar sua capacidade muscular para movimentar-se. Tudo isso tem que entrar em ação no momento em que a criança apresenta condições refl exas como o sugar e o agarrar, entre outras, que funcionam de forma dispersa para o atendimento das necessidades vitais. O nascimento deve ser considerado como a grande perda em relação ao atendimento das necessidades vitais sem muito esforço, pois qualquer sinalização de falta no feto é prontamente compensada