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www.mundologist ica.com.br Artigo publicado na edição 94 M A I / J U N 2 0 2 3 Acesse nosso site: www.mundologistica.com.br 42 “UMA FÁBRICA DE DECISÕES”: O POTENCIAL DO USO DE DADOS NO PLANEJAMENTO DE DEMANDA A previsão de demanda não é uma prática necessariamente re- cente. Surgida na teoria econômica, com foco em gestão de estoques, estima-se que previsão de demanda tenha se tornado mais elaborada a partir dos anos 1950, com a propos- ta de modelos matemáticos de pes- quisadores como Richard Bellman, Harold Kuhn e Kenneth Arrow. Foi a partir do fim dos anos 1980 que essa área começou a ganhar es- paço cativo nas organizações. Essa tendência se solidificou nas décadas seguintes, graças à conexão cada vez mais intrínseca nas cadeias glo- bais de suprimentos. É seguro dizer que nunca se olhou para a previsão de demanda com tanto afinco como se olha hoje, em 2023. Alguns fatores, acentu- ados pela já referida globalização, deram vazão para que esse processo se tornasse tão elementar, como a eclosão de grupos de consumido- res cada vez mais heterogêneos, a demanda por personalizar o aten- dimento a esses grupos e os fatores imprevisíveis para os quais, de algu- ma forma, é preciso se prevenir. E não é difícil presumir essa com- plexidade. Basta relembrar a tensão gerada pela pandemia de Covid-19 ou pensar que a internet possibilita que qualquer produto seja compra- do em qualquer canto do mundo. Em entrevista exclusiva para a edição 94 da MundoLogísitca, o Dr. Donald Neumann falou da importância de priorizar as competências em relação aos softwares, o status das empresas que mudaram o mindset em prol da análise de dados e o potencial de tecnologias como a Inteligência Artificial para a gestão de demanda Por Christian Presa (christian@mundologistica.com.br) 43 mundo logística Tudo isso ganhou um novo con- torno com o uso de dados. Mas, se- gundo o Principal Data Scientist na QuantumBlack, Dr. Donald Neu- mann, isso não quer dizer, nem de longe, que a previsão de demanda se tornou um processo mais fácil. Pelo contrário: ficou mais difícil. “Parece um raciocínio contraintui- tivo, mas é como se o monte de feno crescesse e você tivesse que encon- trar a agulha no meio dele”, disse. Os benefícios, no entanto, jus- tificam encarar essa jornada: com exclusividade para a edição 94 da MundoLogística, Neumann cha- mou o uso de dados na previsão de demanda de “fábrica de decisões”. Além disso, o consultor destacou a importância de priorizar as compe- tências em relação aos softwares, o status das empresas que mudaram o mindset em prol da análise de dados e muito mais. Nunca se olhou para a previsão de demanda com tanto afinco como se olha hoje, em 2023. Com formações em instituições nacionais e do exterior, Donald Neumann soma mais de 20 anos de carreira como gestor, professor e consultor www.mundologistica.com.br 44 “Uma fábrica de decisões”: o potencial do uso de dados no planejamento de demanda O mundo foi impactado por questões recentes – pandemia de Covid-19, a guerra no leste eu- ropeu, alta do preço do barril de petróleo, etc. – que geraram ins- tabilidade e crise na cadeia global de suprimentos. Como são fatores imprevisíveis, o demand planning pode, de fato, auxiliar em momen- tos como esses? Esse é um ótimo ponto. Obvia- mente, eventos extremos como foi a pandemia de Covid-19 e a Guerra da Ucrânia são completamente im- previsíveis do ponto de vista mate- mático ou com o uso de dados. E a frequência que esses eventos têm acontecido nos parece maior por- que o mundo está completamente interligado. Então, hoje, uma guerra na Ucrânia afeta a nossa cadeia de uma forma muito mais profunda do que antigamente, pois, obviamente, as cadeias são globais. Agora, por outro lado, a gente poderia pensar que isso elimina a nossa capacida- de de fazer uma previsão, quando o que a gente vê é o contrário. Em- bora não seja possível prever um determinado evento como esse, a previsão de demanda, se usada da maneira correta, pode ajudar na avaliação de cenários em que eles podem acontecer. Quais são os ce- nários possíveis que podem se des- dobrar de um determinado evento? Uma previsão de demanda bem fei- ta considera isso. Esse é o aspecto estatístico da previsão, no qual eu não quero acertar exatamente qual vai ser o preço do diesel, mas pos- so prever faixas de variação que me permitem gerenciar a cadeia de su- primentos com foco em aumentar a resiliência dela. Então, [é sobre] tra- balhar com essa incerteza de uma maneira mais correta e mais ade- quada do que, efetivamente, querer acertar o evento e querer operar a sua cadeia no máximo [de eficiên- cia] ou com pouca flexibilidade. O planejamento de deman- da nada mais seria do que “olhar para o retrovisor” e “aprender com experiências” como essas que citamos. Existe uma forma ideal – ou mais correta – de apurar esse olhar e esse aprendizado, ao longo do tempo? No momento em que estamos, com o mundo extremamente co- nectado, é difícil prever exatamen- te os principais fatores que afetam a sua cadeia – seja a demanda ou sejam determinados preços. Ago- ra, uma mudança de mindset que a gente tem visto que ajuda muito as empresas é, ao invés de prever exatamente qual vai ser a minha demanda, eu conseguir olhar para o retrovisor e entender quais são os cenários prováveis. Isso envolve me- lhorar não apenas o seu processo e a sua tecnologia de previsão. Afinal, você não está mais querendo prever a quantidade de commodity que será vendida no estado de São Pau- lo. Você quer prever uma distribui- ção estatística. Então, isso tem um impacto direto em como você faz a previsão. Além disso, é necessário habilitar processos para não mais trabalhar com número definido, e sim com uma distribuição estatísti- ca. Isso tem um impacto grande na organização, porque quando se fala, por exemplo, nas definições de es- toques de segurança, a sua decisão passa a ser não mais com base em uma demanda específica, mas em uma distribuição que pode variar ao longo do tempo. A distribuição do erro de previsão mudou depois de um evento extremo como foi a Covid-19, porque o nosso com- portamento mudou. Esse é o salto de sucesso que a gente tem visto: você olhar para trás, analisar os seus dados, para entender qual é a distribuição mais provável no futu- ro. E não só para a eficiência da sua cadeia. Ou seja, eu não quero a ca- deia mais eficiente do mundo, mas sim uma cadeia eficiente de acordo com um nível de resiliência. Geral- mente, essas coisas têm um trade off importante, pois você aumenta a eficiência e diminui a resiliência. Mas, no mundo como o de hoje, com tantas mudanças, não se pode diminuir a resiliência ao máximo porque uma pequena variação no seu plano pode ter um impacto muito grande na sua cadeia. Eu diria que olhar para trás é útil se a gente olhar do jeito certo. Se a gente quiser buscar outras coisas ocorri- das no passado para prever quan- do vai ser a próxima, é impossível. Mas fazer isso para entender quais foram as variações é importante, sempre balanceando esse trade off entre eficiência e resiliência. No caso da pandemia de Co- vid-19, especificamente, o período de crise sanitária e de lockdowns durou cerca de dois anos. Nesse período, houve um tempo para que as cadeias se adaptassem e en- tendessem como esse novo mundo funcionaria? Acho que ainda estamos apren- dendo. Existem cadeias que foram tão profundamente afetadas que ainda têm sofrido um processo de recuperação. Seja pelo lado da de- manda, porque o perfil do consu- midor mudou, seja do lado da ofer- ta, porque houve uma migração de LEIA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA! 45 mundo logística matéria-prima de uma cadeia para outra. Acredito que ainda vá levar uns dois anos para estabilizar nes- se meio. Mas “sai” covid e “entra” a guerra. Então, acho que é muito difícil dizer que teremos um perío- do de estabilidade. A genteprecisa aprender a lidar com essa incerteza, pois essa é a direção em que tere- mos mais sucesso. Você citou as questões técnicas e de software, que são muito im- portantes, mas a previsão de de- manda também exige uma visão apurada de mercado. Nesse sen- tido, como deve ser a conexão das áreas de logística e suprimentos com outros setores da economia? Essa pergunta tem diversas di- mensões. A primeira, e provavel- mente uma das mais importantes, é sobre você ter acesso a volume e variedade de dados. E isso, muitas vezes, depende de você e do seu próprio dado. Inclusive, muitas empresas que passam por trans- formações de sistemas têm dificul- dade com os próprios dados. Mas também pode haver uma relação com outras entidades que possuem dados que podem te ajudar, desde a compra de dados de outros setores que podem ser importantes para você até o levantamento de dados públicos. Enquanto antes a gente olhava para os dados de venda, hoje isso não basta porque os dados de venda não são suficientes para me- dir a incerteza à qual você pode expor a sua cadeia. Tem uma se- gunda dimensão importante que é a dimensão técnica e envolve a apli- cação de data science e Inteligência Artificial. No caso da ciência de da- dos, utilizamos essas técnicas para, a partir desses dados, entender qual é a distribuição possível para o futuro. Obviamente, esses dados precisam estar embalados em um software para que não fiquem inu- tilizados. Há uma conexão muito grande entre o modelo matemáti- co e a utilização de um software na organização. Outra dimensão, que talvez toque ainda mais o pessoal da logística, é, entre aspas, ensinar a organização a trabalhar com a in- certeza. Para quem vem das áreas de Supply Chain e logística, o foco é abastecer o centro de distribuição, então quero saber exatamente qual será o consumo de amanhã para calcular o número de caminhões que serão usados e, com esse nú- mero de caminhões, eu possa dis- tribuir uma quantidade exata, com uma medição de estoque específica. Mas esse cenário é tão ideal que se torna platônico. Hoje, com as varia- ções que a gente vê, não tem como saber exatamente quanto eu vou vender. Então, a transformação im- portante de mindset que deve ocor- rer na logística e na gestão da cadeia de suprimentos é aprender a traba- lhar com a distribuição estatística. Possivelmente, em alguns momen- tos, a sua decisão não vai ser ótima, do ponto de vista de custos ou de eficiência. Mas ela vai te garantir a resiliência para problemas que pos- sam acontecer – e que a gente sabe que acontecem. Isso é difícil, pois o ser humano não está acostumado a trabalhar com uma distribuição de probabilidade. Entra aqui uma segunda área de aplicação da Inteli- gência Artificial, com sistemas que substituem o cálculo anterior [de- terminístico] por algoritmos [esta- tísticos] que auxiliam a logística e se descolam [indo além] da previ- são de demanda. É se perguntar o seguinte: mesmo sem saber quanto eu vou vender, quanto eu deveria entregar e distribuir? Então, o que a gente tem visto é uma conexão de você melhorar o lado de previsão de demanda com essa parte mais estatística, mas, em conjunto com isso, melhorar também os sistemas de apoio à logística para você tomar uma decisão considerando essa in- certeza. Essa mudança é relativa- mente grande não só no sistema, mas também na cabeça das pessoas. Sabemos da dificuldade extra de planejar demanda em alguns segmentos – como produtos pere- cíveis, por exemplo –, mas existe algum setor em que o planeja- mento de demanda pode ser uma referência para outras cadeias? Ou são apenas dificuldades diferentes para segmentos diferentes? É muito difícil você citar uma cadeia referência, porque cada ca- deia tem seu problema. No caso do produto perecível, o risco de perda muito alto e você precisa prever muito bem o curto prazo. Então, toda a estrutura da sua ca- deia é baseada nessa característica do produto. Obviamente, dada essa infraestrutura, a previsão no cur- to prazo é muito difícil. Por outro lado, quando você pensa em uma cadeia aeronáutica, por exemplo, você entra em um problema de pre- visão relacionado ao longo prazo. É difícil falar de uma cadeia que é referência. O que podemos falar são de soluções e mindsets que têm funcionado em diferentes cadeias e permitido que elas operem em um patamar diferente de eficiência, que é justamente tirar o foco de acer- tar e focar em medir a incerteza e trabalhar com ela. Isso envolve a aplicação de mudanças na cabeça das pessoas, mas também de usar Inteligência e dados não só na pre- www.mundologistica.com.br 46 visão, mas também na execução da cadeia. Essa combinação é muito promissora na manutenção de um certo nível de resiliência e de uma eficiência adequada para a cadeia. Você faz questão de enfatizar a posição de protagonismo que os dados têm no mercado contem- porâneo – o que dá protagonismo, evidentemente, ao cientista de da- dos. Por que esse cenário é tão re- levante, em termos de se executar o planejamento de demanda? No final das contas, o dado é a nossa matéria-prima. Outro dia, em uma conversa, eu fiz analogia dizen- do o seguinte: quando você começa a desenvolver uma competência de ciência de dados na sua organiza- ção, é como se você estabelecesse uma nova fábrica nela. Você tem a fábrica tradicional que compra ma- téria-prima, transforma e entrega via logística de suprimentos, mas você passa a ter uma segunda fábri- ca, que é a fábrica de decisões. Você tem máquinas (os algoritmos) para transformar a matéria-prima (os dados) em melhores decisões. Gos- to dessa analogia porque ela põe a devida importância nesse processo. Todo mundo entende que a máqui- na para se você tirar o operador, mas muitas pessoas não raciocinam dessa forma quando você propõe isso sobre a ciência de dados. Elas acham que se têm os dados e o algo- ritmo, não é preciso ter o operador. Isso não é verdade. Se você tem uma fábrica de inteligência, a máquina (o algoritmo de previsão) precisa ser operada por um operador, que é o cientista de dados. Não é possível desconectar essas duas coisas. É por isso que o profissional de logística e Supply Chain que tem a capacidade de operar essa máquina e trabalhar com a incerteza do dado para deri- var o que pode acontecer no futuro obviamente está um passo à frente. Não é o que a gente, que vem de logística, via no passado. A gente estava acostumado a ter uma pre- visão e trabalhar a partir disso, mas o mundo de hoje não admite essa simplificação porque a incerteza é muito grande. Por ser uma atividade tão fun- damental para o pleno funciona- mento da cadeia de suprimentos – seja ela global ou regional –, você acredita que os profissionais do setor estão devidamente conscien- tes do que é preciso ser feito e da importância disso? Eu acho que eles estão cientes, sim. A gente conversa com múl- tiplos profissionais de diferentes níveis em organizações de ponta, então a gente vê uma preocupação muito grande com essa questão de como usar melhor os dados para a gestão de uma cadeia. Com esse hype do ChatGPT, se tornou mais tangível para as pessoas o que é pos- sível fazer. Agora, o que acho que não está tão claro e que a direção ainda está um pouco inadequada é como desenvolver isso. A gente vê um foco grande em ferramentas e, muitas vezes, não é aí que está o di- ferencial. Existem especialistas para montar e criar esses algoritmos. O profissional que opera na logística e na cadeia de suprimentos tem um foco um pouco diferente, que é ter a capacidade de entender o resulta- do. Ele não precisa necessariamente fazer, mas sim interpretar uma dis- tribuição de frequência, na prática. “Uma fábrica de decisões”: o potencial do uso de dados no planejamento de demanda 47 mundo logística Isso retoma, muitas vezes, para os conceitos fundamentais de estatísti- ca e matemática que a gente tende a guardar na gaveta.Em geral, quan- do converso com essas pessoas, eu falo que elas não precisam fazer uma rede neural, mas é importante que elas consigam entender a abstração de uma distribuição de frequência e o que isso significa na sua operação. Então, eu diria que a ciência está lá, mas o caminho percorrido muitas vezes é mais complexo, mais difícil e, por vezes, desnecessário. A gente precisa é da pessoa de negócios para interpretar os resultados e tomar as decisões. Com o aumento da geração de dados e do acesso facilitado que se tem a eles, dá para dizer que ficou mais fácil fazer demand planning? É uma pergunta complicada de se responder, mas eu diria que fi- cou mais difícil. Há 20 ou 30 anos, quando os mercados não eram tão conectados, você tinha os dados de venda da sua empresa para fazer uma série temporal e uma previsão de demanda. Só que, embora hou- vesse poucos dados, eram dados significativos porque a sua empresa estava desconectada de um mundo. Então, aquele histórico do que ha- via no passado era muito mais re- levante para prever o que vai acon- tecer amanhã. Hoje, há muito mais dados e você precisa disso, porque se você olhar apenas a sua venda e desconectar sua previsão da empre- sa da complexidade do mundo em que está inserida, você perde muita qualidade na previsão. A sua em- presa está conectada e a sua venda depende da venda do competidor, do preço, de tomada de decisão po- lítica e outras questões. Minha visão é que a quantidade de dados tornou muito mais difícil fazer previsão de demanda porque você preci- sa reconhecer os padrões em um conjunto de dados muito maior. E isso não é um trabalho trivial, pois é preciso de gente especializada para ser feito. Parece um raciocí- nio contraintuitivo, mas é como se o feno crescesse e você tivesse que encontrar a agulha no meio dele. Nesse contexto, o ChatGPT e outras IAs conversacionais têm feito barulho com a possibilida- de de transformar operações – e isso vai além da cadeia de supri- mentos, inclusive. De que forma o planejamento de demanda pode se beneficiar de tecnologias como essas? Essa é uma pergunta interessan- te e aqui, nesse contexto, ela talvez seja um pouco especulativa, pois esses modelos de linguagem são muito recentes. Na QuantumBlack, a gente tem estudado muito e de- senvolvido algumas provas de con- ceito em diferentes áreas e eu, parti- cularmente, tenho me aprofundado muito nesse tema. Hoje, acho difícil que a gente possa prever todos os casos de uso que esses algoritmos vão nos oferecer. Falando espe- cialmente da gestão de demanda e da previsão de vendas, um caso de aplicação que acho interessante é o de auxiliar a explicação do modelo e da previsão. É muito comum você desenvolver um modelo de previ- são complexo e, quando o resultado desse modelo chega nas camadas mais elevadas da organização, há um questionamento e uma discor- dância em relação a essa previsão. É muito difícil, hoje, extrair do seu algoritmo de previsão a explicação do porquê de forma simples. Mui- tas vezes, a gente consegue levantar as correlações, mas é um trabalho para especialistas porque se tra- ta de um modelo matemático. No caso da previsão [de demanda], eu vejo potencial desse tipo de tec- nologia facilitar a interação com o modelo. Existem vários aspectos técnicos para a gente chegar nesse estágio, mas são coisas que a gente tem discutido sobre como utilizar essas tecnologias em conjunto com a previsão. Além disso, há uma apli- cação enorme, em logística como um todo, para se ter uma interação muito mais simples de quem está na execução com os planos de dis- tribuição e execução para entender tudo isso em uma interface muito mais conversacional e natural. Se você extrapolar um pouco e for para a gestão de demanda, é possí- vel turbinar seus modelos de perso- É por isso que o profissional de logística e Supply Chain que tem a capacidade de operar essa máquina e trabalhar com a incerteza do dado para derivar o que pode acontecer no futuro obviamente está um passo à frente. www.mundologistica.com.br 48 nalização, trazendo para eles uma camada de criatividade em que eu passo a impactar o consumidor de uma forma muito mais natural. Isso, por sua vez, pode melhorar a sua demanda em casos em que, por exemplo, você não está atingindo a meta da semana. As aplicações des- se tipo de tecnologia são enormes e nós temos investido bastante em entender e detalhar esses casos para desenvolvê-los. Além de softwares voltados para a gestão de dados e IA con- versacionais, quais outras tec- nologias são fundamentais para o demand planning? O software, especificamente, tal- vez seja o menor dos problemas. Eu expandiria a sua pergunta para quais são as competências que a gente precisa ter. Se você vai usar software A ou B para desenvolver o seu modelo, é menos relevante. O que é relevante é ter pessoas e co- nhecimento para desenvolver esse tipo de modelo, mas, uma vez de- senvolvido, você precisa ter compe- tência para manter. Então, quando a gente fala disso, é preciso ter uma competência analítica importan- te com plataformas disponíveis na nuvem para que você consiga colo- car isso em produção. O diferencial está no seu dado e no seu conheci- mento para usar o seu dado. A gen- te trabalha com múltiplos clientes em múltiplas plataformas e nós conseguimos gerar bastante valor independentemente do software, porque não é aí que a gente ganha o jogo. O jogo é ganho ao usar o dado correto, criando o modelo adequa- damente e mexendo na cabeça das pessoas para que elas aprendam a como utilizar esses dados e essa saída. No caso do pessoal de Logís- tica e Supply Chain, a gente ajuda implantando modelos para auxiliar as pessoas da operação a usar uma previsão de forma mais adequada. Então, eu vejo que essa pergunta [sobre software] ter se tornado me- nos relevante. Nos anos 80, a gente perguntava qual o computador que a pessoa tinha porque, naquela épo- ca, a capacidade de processamento era muito importante e hoje nin- guém pergunta isso. O importan- te não é o hardware em si, e sim o que você faz com ele. Na parte de Analytics, eu vejo dessa forma. É muito menos relevante o software que você usa e muito mais relevante o que você faz com os seus dados, qual o modelo que você desenvolve, qual é o problema que você está re- solvendo e como ele se integra com o negócio. Na sua visão, o que ainda falta para que o planejamento de de- manda vá para o próximo nível e alcance o que se chama de “estado da arte” para uma determinada operação? Essa é uma boa pergunta porque estou muito envolvido com esse tema. O que vejo é que aqueles que estão um passo à frente estão lá por uma questão de mindset. Criar efe- tivamente uma competência de pre- visão que conecta com uma compe- tência de Supply Chain e logística para lidar com essa previsão de for- ma adequada é algo que você não faz de hoje para amanhã. Os que estão um passo à frente têm feito in- vestimentos sistemáticos e têm uma crença de que é preciso utilizar essas tecnologias porque a complexidade é muito grande. Guerras e pande- mias acontecem, há diferentes de- cisões políticas e, se não houver o uso dessas tecnologias, a empresa vai sofrer. É, também, um mindset de testar rapidamente e descartar o que não funcionar. Então, as or- ganizações que têm feito [demand planning] de uma forma um pouco mais estruturada dentro do que às vezes chamamos de transformação digital são aquelas que vejo que têm tido mais sucesso com esse tipo de coisa. Não é fácil fazer isso. Quando a gente usa o ChatGPT, a gente tem a sensação de que é muito simples, mas foram décadas de pessoas in- vestindo nisso. A consistência é o mais importante. Em geral, quando esses hypes explodem, continuam evoluindo aqueles que têm uma visão mais clara, que acreditam no valor disso e que entendem que capturar esse valor exige um inves- timento em pessoas. Não é a visãomais fácil, mas é a que funciona. “Uma fábrica de decisões”: o potencial do uso de dados no planejamento de demanda É muito menos relevante o software que você usa e muito mais relevante o que você faz com os seus dados, qual o modelo que você desenvolve, qual é o problema que você está resolvendo e como ele se integra com o negócio.