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1 lá uma Classe Dirigente nos Estados Unidos?
Reexame da «Elite do Poder»
O poder é um assunto difícil de ser estudado. Seus efeitos podem ser ob1rrvado1
melhor do que suas causas; mesmo os que têm poder muitas vezes não sab<-m qual•
os fatores que influenciaram suas decisões. As conseqüências do poder são m11l1 rr
l'ratárias ao controle - e à predição - do que as de qualquer outra forma dr
nunport.amento. O livro de C. Wrigh Mills, A Elite do Poder (The Pmo,•r J,.'U/,:), r
uma das poucas obras da sociologia contemporânea que estuda o «mundo d• c·au
Halidade», em vez de se limitar a uma simples discussão metodológica, porqur J>ro
cura localizar as fontes do poder numa constelação de elites identificável. Jt al~m
disso, um livro político, cuja textura plástica e cuja retórica levam 1,r.111011
diferentes a reencontrar . nele suas próprias emoções; para os jovens n<!omuxhll'II
ingleses, como para os velhos marxistas ortodoxos da Polônia, tornou-se uma 1pret•
scntação propedêutica para a compreensão da política dos Estados Unido11, O qur
não deixa de ser curioso, porque Mills não é um marxista, e é mesmo antimarxi1t1
nas suas conclusões e no seu método. Contudo, como tem uma visão dara, 11rm
subterfúgios, e desmascara as ilusões ingênuas e populistas sobre o poder, foi u·rltn
prontamente pelos radicais.
A Atmosfera e a Intenção
)
A atmosfera do livro - e de quase toda a obra de Mills sugere·uma r.xplint~lu
para tal receptividade. Ao escrever sobre as relações trabalhistas (The N,•w Mrn oi'
Power), os empregados em escritórios, e agora sobre a «elite do poder,., Mil11 11r
guiu o modelo de Balzac, preparando o que Balzac chamava de étude de moru1·1
··- um estudo de costumes, a «comédia» da moralidade. Encontraremos, nrlr,
aliás, algo do método de Balzac, que procurava conciliar os descobrimento• d1
ciência com a poesia, provocando efeitos visuais com a concentração de pormrnor~•
factuais. É o que faz Mills, que toma muitas estatísticas e as reveste com mctáfor111
iradas.
Temos aqui, contudo, mais do que uma simples analogia estilística. Balzac vlvru
numa época muito parecida com a nossa: um período de rebelião, . em que antiao•
costumes eram questionados; uma época de mudanças de classe, em que a mohill•
dade vertical passava a ser possível pela primeira vez. Certos heróis de Balzac.
(Louis Lambert, Rastignac e, mais do que todos, Vautrixi - um descendente cola•
\
l>,11111•1 Ili-li
teral de Macheath, da lkggar's Opcrn de John c;ay) conwçam corno indivfduos cm
movimento, buscando um lugar na sociedade, e terminam odiando a sociedade
burguesa que descobrem. Sua posição é de quem a vê de fora; seu mundo (o sub
mundo de Vautrin é a contra-sociedade, simétrica ao mundo superior, como acon
tece com o submundo de Bertold Brecht, em Three-Penny Opera) está construído
sobre a premissa de que a moralidade pública, seus, modismos e ideais são uma
fraude. É curioso notar que Mills cita com aprovação as palavras de Balzac: «Por
trás de toda fortuna há um crime», que considera um julgamento válido igualmen
te para o mundo de hoje - porque Mills, também, vê a sociedade de fora.
No entanto, não obstante o impulso emocional que está na sua origem, o livro de
Mill~ é moldado por influências intelectuais mais diretas: Veblen , cuja retórica e
ironia ele copia; Weber, no que respeita ao quadro da estrutura social (não de
classes, mas de ordens verticais, ou Standen); e, de modo mais crucial, Pareto (não
pela sua definição de elite, que é muito diferente da de Mills, mas pelo método).
As dívidas a Veblen e a Weber são conscientes; a dívida a Pareto, provavelmente
não. No entanto, pode-se sentir o mesmo desprezo pelas idéias, e a rejeição de
qualquer sentido operativo que a ideologia possa ter no exercício do poder. Inter
pretando o poder como uma «combinação de ordens» subjacente, Mills avança em
termos metodológicos, paralelamente ao caminho percorrido por Pareto, que via
os grupos sociais como «combinações de resíduos». Isto leva, a meu· ver, a uma
abordagem estática, aistórica, a despeito do dinamismo retórico.(*)
Na verdade, The Power Elite não é uma análise empírica do poder nos Estados
Unidos, embora muitos leitores tenham interpretado suas ilustrações, erroneamen
te, como tal; é apenas um esquema para essa análise. Um estudo do seu argumento
nos mostrará , creio, como é um esquema confuso e insatisfatório.
O Argumento
Pode-se examinar o livro de Mills à luz de um esquema alternativo ("*); mas, antes
de mais nada, é necessário fazer uma análise do texto: identificar os principais ter
mos usados, ver em que medida são usados consistentemente, relacionar a evídên
cia com as proposições formuladas, para testar a coerência do argumento. Trata
se, portanto, de um exercício de hermenêutica.
O argumento, que est.á desenvolvido no capítulo inicial do livro (os outros capítu
los são sobretudo ilustrações de valor desigual, e não o desdobramento ou a de
monstração da. tese), oscila em torno do problema principal - saber como o poder
(*) Meus mestres, neste particular, são Dewey e Marx. O primeiro, pela insistência em começar não por
uma estrutura (o hábito), mas por problemas: com perguntas sobre por que algo está sendo questiona
do, por q111· as coisas estão mudando, e q111· fizeram as pessoas envolvidas. O segundo, pelo inter
relacionamento do poder e da ideologia; pela ênfase na história. nas crises -- interpreladas como mo·
mentas de transformação - na política como atividade que tem raízes em interesses concretos, e que se
desenvolve sob a forma de estratégias que podem ser determinadas.
(**) Veja-se um desses esquemas alternativos no ensaio de Talcott Parsons «The Distribucion of Power in
American Society», World Politics, outubro de 1957, Vol. X. n? l. Parsons argumenta que para Mills o
poder é um concei~o secundário, distributivo, num j~go de ~orna zer~, que focaliza quem dispõe do po
der. Parsons organiza sua análise em torno do ob1envo funcional ou mtegrativo do poder, voltado para
a ordenação da sociedade. Ül!tro ponto de vista, avançado por Robert S. Lynd no simpósio editado por
Arthur Kornhauser Problems of Power in America Democracy (Wayne State Press , 1958) é o de que o
P.oder é uma força positiva que assegura certos valores em beneficio da sociedade.
e, 1'1111 cl" hlPHlt1al1
t- r11r1, leio . dr l'on1111 11 1lrlK111 o lrilm prqtll'Nn, 11111 li 11r11;1111Nl 1111 lxw r lll'l"rNd
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,11hli11haclaN pelo aut:or).
MUl11 <1firma que, dentro da sociedade norte-am<"rin111a , o pod<·r nacional r11tA •110·
111 1,ríncipalmcnte «nos domínios econômico, polftico e militar». E continua: • A
111111lf'ira de compreender o poder da elite norte-americana não consiste nem t•xdµ
•ív111ncnte no reconhecimento da escala histórica dos acontecimentos nem na acrl
1
111..-110 de testemunho pessoal das pessoas que aparen~mente tomam as ded■õl'I, '
t•or trás dessas pessoas, e dos acontecimentos históricos, ligando-os, estão as in1tl· 1
111ições principais da sociedade moderna. Tais hierarquias governamentais, . e mlll,
111rcs, constituem meios de poder; nessa qualidade, têm hoje uma importância 1r.m
iJ,Cual na história da humanidade - e, nos seus pontos culminantes, são hok OI
postos de comando da sociedade moderna que nos oferecem a chave ~ociológica PI·
1a compreendermos o papel dos círculos superiores dos Estados Umdos». (pá!(. l'I)
l'arece, portanto, que o poder, para ser poder, significa controle sobrc ••
i11stituições do poder.
«Quando dizemos «poderosos» queremos dizer, naturalmente, aqueles que slo CI•
pazes de executar sua vontade, mesmo quando outros resistem.
Assim, ninguém pode ser genuinamentepoderoso a não ser que tenha acesso ao co•
mando das instituições mais importantes, pois é antes de mais nada mediante e11c,1
meios institucionais que os verdadeiros poderosos têm poder» . (pág. 9)
Só umas poucas pessoas participam do poder:
«Por elite do poder queremos referir-nos àqueles círculos políticos, econômico• l'
militares que participam de decisões com conseqüências pelo menos nacionais, for•
mando um conjunto intrincado de cliques que se superpõem. Na medida em qu,
os acontecimentos nacionais são o fruto de decisões, é a elite do poder qu~ OI
decide. (pág 18). . · . . )
Embora essa elite tome as decisões de importância, não «faz a h1stóna» do seu tem
po. Uma «elite do poder» não é - afirma Mills (pág. 20) - uma teori~ da_ hiató•
ria; a história é uma rede complexa de decisões intencionais e não intenc1ona1s.
«A idéia da elite do poder nada implica sobre o processo decisório como tal; é uma
tentativa de delimitar as áreas sociais em que se passa aquele processo, qualqunr
que seja o seu caráter. É uma concepção sobre quem está envolvido no proceuo•,
(pág. 21)
Contudo, algumas decisões históricas são tomadas:
«No nosso tempo vem ó momento crucial em que círculos limitados decidem, ou
deixam de decidir. Num caso como no outro, eles constituem uma elite do po•
der ... » (pág. 22)
Então a elite do poder faz a história? Algumas vezes, ela determina os papéis, rm
outras é determinada (págs. 22-25): a posição de Mills é evidentemente contradltó
ria. De fato, se a elite do poder não faz a história, por que se interessar tanto por
ela? Em caso contrário, parece que estamos diante de uma interpretação simpll1t1
da história. Por fim, o problema é resolvido: ·• ..
«Não foi a necessidade histórica, mas um homem chamado Truman que, com al•
gumas outras pessoas, decidiu lançar uma bomba sobre Hiroshima. Não foi a n1•
(
44 Daniel Bell
cessidade histórica, mas uma discussão, dentro de um círculo limitado, que rejeitou
a proposta do almirante Radford. de enviar tropas à Indochina antes da queda de
Dienbienphu.» (pag. 24)
Se extrairmos o resíduo de todas essas oscilações, chegaremos ao seguinte: um pe
queno número de pessoas (um grupo menor do que nunca), ocupando posições de
importância no governo, na vida econômica, e nas corporações militares, possuem
um conjunto de responsabilidades e de poderes de decisão com conseqüências
maiores do que nunca na história dos Estados Unidos. Ora, isto não é muito.
Mas o que encontrou eco, no livro de Mills, foi menos o argumento do que a retó
rica; neste sentido, há uma série de termos operativos de importância crucial:
instituições (substituído livremente por domínios, círculos superiores, cliques supe
riores), poder, postos de comando e decisões de importância. É o emprego político
desses termos que dá persuasão ao livro. Qual o significado dessas p rincipais quali
ficações do termo elite?
Os Termos
a) Elite. Este termo é empregado com uma variedade de significados. Algumas vezes
denota «participação em grupos · com características de clique», ou «a moralidade
de certos tipos de personalidade», ou ainda «a presença de valores seledonados»,
tais como riqueza, posição política, etc. Uma só vez, numa longa nota na página
366 (entre outras notas), Mills tenta explicitamente remediar a confusão criada
pelo uso variado da sua terminologia, dizendo que define as elites primordialmente
na base da sua «posição institucional». Mas, que quer dizer isso?
b) Instituições, domínios, etc. Por trâs das pessoas e dos acontecimentos, ligando
os, afirma Mills, estão as principais instituições da sociedade: militares, políticas e
econômicas. No entanto, the military, the eco:r,omic e the political, como o autor
emprega esses . termos, não são instituições, porém setores, ou o que Weber
chamava de ordens (hierarquias verticais da sociedade) , cada uma com seus strata.
Afirmar que um determinado setor (ou ordem) é mais importante do que um outro
que em certas sociedades, por exemplo, as ordens religiosas são mais
.importantes do que as políticas - é trabalhar dentro de limites excessivamente
latos. Seguramente precisamos e queremos saber mais do que isso.
Expressões como «os militares», ou «a direção política» são excessivamente vagas,
sendo difícil caracterizar a que correspondem. As instituições derivam sempre de
códigos de conduta particulares, definidos, que modelam o comportamento de
grupos específicos de pessoas que, implícita ou explicitamente, sentem lealdade pa-
. ra com aquele código, e estão sujeitas a determinados controles (ansiedade, culpa,
vergonha, expulsão do grupo, etc.), no caso de violarem suas normas. Se a conside
ração importante do poder é onde as pessoas recolhem seu poder, precisaremos en
tão de formas mais particularizadas para identificar essses agrupamentos. «Ordens
institucionalizadas», «domínios» , «círculos» , etc., não serão suficientes.
c) Poder. Falta ao livro, curiosamente, uma definição da palavra «poder». Só em
dois lugares, de fato , temos limites prescritos para o seu uso: «Por poderosos enten
demos, naturalmente, aqueles que são capazes de executar sua vontade, mesmo
que outros lhe resistam» (pág. 9). «Toda política é uma luta pelo poder: e a moda
lidade final do poder é a violência» (pág. 171).
p
O Fim da Ideologia 45
É bem verdade que a violência, como disse Weber, é a sanção última' do poder, e
que em situações extremadas o controle dos meios de violência pode ser decisivo
para tomar ou manter o poder. No entanto, o poder não é a força inexorável, im
placável, granítica que Mills, e outros, afirmam ser. Foi Merriam que disse, certa .
vez: «O estupro não evidencia um poder irresistível, nem no sentido sexual nem no
político». Por outro lado, será legitimo dizer que toda política é uma luta pelo po
der? Não haverá ideais que são objetivos políticos? E se os ideais podem ser trans
formados em realidade por meio do poder (embora nem sempre), isto não significa
que eles temperam a violência da política?
Na terminologia de Mills, o poder é domínio. Não é necessário, porém, uma expo
sição elaborada para mostrar que esse entendimento do poder evita mais problemas
do que resolve - especialmente se nos afastamos do caso limite do poder como
violência, pois o que nos interessa (e a Mills) é o poder institucional#ado. De fato,
dentro da sociedade - especialmente nos regimes constitucionais - , e dentro de ·
associações, onde a violência não é regra, vivemos no reino das normas, dos valo
res, das tradições, da legitimidade, do consenso, da liderança e da identificação -
todas as formas e mecanismos de comando e autoridade, sua aceitação ou rejeição,
que modelam as atividades do mundo quotidiano, sem violência. Mas Mills despre
za esses aspectos do poder.
d) Os postos de comando. Considerando-se a imagem que Mills tem do poder (e da
política) como violência, é bastante . significativo que a metáfora empregada para
descrever as pessoas que exercitam o poder seja uma metáfora militar, o que -pode
mos interpretar corpo uma "pista" para o esquema implícito do autor. Contudo,
tratando-se de pouco mais do que uma simples metáfora, quase nada nos informa
sobre quem tem o poder. Segundo o autor, os homens que dispõem do poder são <>S
que administram as organizações ou domínios que têm poder. Mas, como podemos
saber que eles têm poder, ou que poder eles têm? Na verdade, Mills postula sim
plesmente que: 1) a organização ou instituição tem poder; e 2) determinadas posi
ções ocupadas em tais organizações ou instituições dão poder a quem as ocupa.
Corno sabemos disso? De fato , só podemos saber se o poder existe pelo que as
pessoas fazem com o poder de que dispõem.
Que poderes têm as pessoas, que decisões toma~, como as tomam, que fatores pre
cisam levar em conta para tomá-las - todos esses pontos entram na questão desa
ber se uma posição pode ser transformada em poder. Mills declara: «A idéia da eli
te do poder nada implica sobreo processo decisório como tal - é apenas uma ten
tativa de delimitar as áreas sociais dentro das quais se realiza aquele processo,
qualquer que seja seu caráter. É uma concepção sobre quem está envolvido pelo
processo" (pág. 21). Ficamos, assim, sem saber quem depende das posições. Mas
estas, conforme demonstrei, só são significativas se se pode definir o caráter das de
cisões tomadas com · tal poder: um problema que Mills não aborda.
Mills afirma, também, que quer evitar o problema da autopercepção dos detento
res do poder, ou o papel dessa autopercepção em suas decisões: «O modo de com
preender o poder da elite não é reconhecer a escala histórica dos acontecimentos,
ou a percepção pessoal relatada pelos que parecem tomar as decisões». (pâg. 15)
Mas, se a elite do poder não faz a história (pág. 20), conforme implicado por Mills,
qual é então o significado da posição dos membros dessa elite? Ou eles podem to
mar decisões efetivas ou não. É verdade que há quem cante e acredite que fez o sol
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46 Daniel Bell
nascer, como O galo da estória; mas se tal poder não passa de uma ilusão, este é
também um aspecto da significação do poder.
e) As decisões de importância. A elite do pode~ ~orna. as ~e~isões de importâ~ci~
(«big decisions»). Na verdade, temos aí uma defm1ção 1mphc1ta do p~der _da el~te.
s6 ela pode afetar essas «big decisions». Os que falam de um novo equ1líbno so~1al,
0
pluralismo, ou O aumento da importância dos trabalhadores estão falando, amda
que de forma adequada, sobre os «níveis intermediários» do poder, mas não perce-
bem as verdadeiras «decisões de importância».
Curiosamente, porém, Mills deixa de especificar essa_s decisões, a não ser em _uns
poucos casos. Essas exceções (nunca analisadas no que se refere a como as decisões
foram tomadas efetivamente ou quem as tomou) são cinco em número: os passos
que levaram à intervenção norte-americana na Segunda Grande Guerra; a decisão
de lançar a bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki; a declaração de guerra na
Coréia;. as indecisões sobre Quemoi e Matsu, em 1955; a hesitação com respeito à
intervenção na Indochina, quando Dienbienphu estava a ponto de cair.
t marc.ante (e coerente com a concepção que Mills tem da política) o fato de que
essas «big decisions» est~o relacionadas com a violência. Trata-se, é verdade, de de
cisões definitivas: o empenho ou a recusa de fazer a guerra. Neste sent.ido, Mills
tem razão - são decisões de importância. Mas é também marcante, na f?rma ,:iua
se superficial com que ele examina essas decisões, a incapacidade de ver que elas
não são tomadas pela elite do poder; são decisões que, dentro do nosso sistema, ca
bem constitucionalmente ao indivíduo que precisa assumir a responsabilidade por
tais escolhas - o presidente da República. Em vez de isto representar uma usurpa
ção do poder do povo, por assim dizer, este é um dos poucos casos previstos na
Constituição em que tal responsabilidade é definida clara e especificamente. Como
é natural, o Presidente fará consultas a outras pessoas. E nos exemplos citados por
Mills, o Presidente fez essas consultas, Richard Rovere preparou uma análise mi
nuciosa (publicada em Progressive, de junho de 1956) das decisões mencionadas
por Mills, rejeitando a idéia de que uma «elice do poder» (da maneira como ele à
entende) esteve realmente envolvida. Além do Presidente, poucas pessoas participa
ram de tais decisões: no caso d~ bomba atômica, Stimson, Churchill, e alguns físi
cos; na questão da Coréia, um pequeno grupo, com opiniões divididas - como
Acheson e Bradley; quanto a Quemoi e Matsu, a decisão foi especificamente de
Eisenhower; no caso de Dienbienphu houve a participação de um grupo mais am
plo (militares e o Gabinete) - no entanto, a «elite do poder», definida estritamen
te, era favorável à intervenção, mas Eisenhower . decidiu sozinho contra o envio de
tropas, principalmente (segundo Rovere) pelo peso da opinião pública.
Pode ser que decisões críticas como essas deveriam ser confiadas a umas poucas
pessoas. Mas, a não ser que tivéssemos um sistema de iniciativa e ·referendum popu
lar, como proposto em 1938-39 pela emenda Ludlow, ou que se re~rganizass~ a es
trutura política do país para acentuar a responsabilidade dos partidos pelas deci
sões governamentais, é difícil entender o que Mills está criticando. Dizer que os
lfderes de um pafs têm a responsabilidade constitucional de tomar decisões cruciais
é fazer uma assertiva trivial. Afirmar que há uma elite do poder que toma tais de
cisões é dar a essa afirmativa um peso, e uma carga emocional, impressionantes - mas
com reduzida significação objetiva.
p
O Fim da Ideologia 47
~4 Questão dos Interesses
Até aqui aceitamos as expressões «postos de comando» e «elite do poder», na acep
ção que Mills lhes atribui. Agora, porém, surge uma dificuldade: a questão de sa
ber não só quem participa da elite do poder, mas a coesão que tem essa elite. Em
bora Mills declare que não acredita numa «teoria conspiratória», a forma pouco
precisa como fala a respeito da centralização do poder na elite se aproxima bastan
te de uma teoria desse gênero. Estamos diante de algo como The Iron Heel, o qua
dro da oligarquia norte-americana pintado por Jack London, que tanto influenciou
o pensamento e a imaginação dos socialistas, antes da Primeira Guerra Mundial .
Contudo, só podemos avaliar o significado de qualquer centralização do poder na
base do que as pessoas fazem com o poder que têm. Que é que as une? Que é que
as divide? Isto nos leva a uma definição dos interesses envolvidos. Dizer, como afir
ma Mills, que todos os meios de poder tendem a se transformar em objetivos para
a elite que os comanda. Por esta razão definimos a elite do poder em termos dopo
der - como as pessoas que ocupam postos de comando» (pág. 23) é propor um
círculo vicioso.
Que significa dizer que o poder é um fim em si mesmo para a elite do poder? Se
~a elite tem suficiente coesão, e tem que enfrentar outro grupo de poder, então
sim, a manutenção do poder pode ser um fim. Mas, terá a elite suficiente coesão?
~ão poderemos sabê-lo sem antes retornar ã questão dos interesses. E a natureza
desses interesses implica uma seleção de valores por um grupo - ou parte de um
grupo - contra outros, o que leva à definição de privilégios particulares, e assim
por diante.
Certamente não pode haver uma elite do poder, ou uma classe dirigente, sem comunida
ú de interesses.
É o que está implicado nas palavras de Mills: o interesse da elite é a manutenção
do sistema capitalista como sistema; esse é um pont9 que não chega a ser realmen
:e discutido ou analisado em termos da significação do capitalismo, o impacto dos
controles políticos sobre a sociedade e as transformações do capitalisiho nos últimos
\inte e cinco anos.
~ias, mesmo que esse interesse seja tão amplo quanto impli6ado por Mills, não se
pode escapar à responsabilidade de identificar as condições necessárias para a ma.
nutenção do sistema, os temas e interesses envolvidos. Além disso, . precisamos verifi
car se há ou houve uma continuidade de interesses, a fim de determinar o grau de
coesão da elite, o crescimento e declínio de grupos particulares.
Um dos principais argumentos sobre a importância dos post~s de comando é a cen
tralizáção crescente do poder, que implicaria algo acerca da natureza dos interes
ses. Nó entanto, o livro quase que não examina as forças que levain à centraliza
ção: elas são presumidas, e estão presentes o tempo todo, mas nunca de forma
explícita. Mas só um exame prolongado dessas tendências poderia, a meu juízo,
descobrir os pontos de localização do poder, e seus deslocamentos. Por exemplo: a
função da tecnologia e dos custos crescentes de capital como fatores deter~inantes
do tamanho das empresas; as forças que atuam na federalização do poder - como
as exigências de regulamentação e planejamento em escala nacional devidoao.
incremento· das comunicações, a complexidade da vida, ó serviço militar, os servi
ços sociais e a administração da economia pelo governo; o papel das relações inter
nacionais. Curiosamente, a União Soviética não é sequer mencionada no livro,
48 Daniel Bell
embora nosso comportamento seja influenciado em larga escala pela conduta sovié- ·
tica.
Como o livro focaliza quem possui poder, Mills faz um esforço considerável para
identificar as origens sociais das pessoas preeminentes. Mas, numa explicação já no
. fim do livro (págs. 280-87), diz que a concepção da elite do poder não se baseia em
origens sociais comuns (tema subjacente à noção schumpeteriana do crescimento e
· declínio das classes), ou em relações de amizade, mas (embora tal presunção não
seja explicitada) na «posição institucional» das pessoas. Essa proposição não toca o
aspecto mais importante: os mecanismos de coordenação que atuam entre. às que
dispõem de poder. Pode-se dizer, obliquamente - como afirma Mills - , que essas
pessoas «se encontram», mas isto nos diz muito pouco. Se existem situações institu
cionais em que cada posição se junta a outras, quais são elas? Poder-se-ia dizer
com Mills) que a nova exigências governamentais demandam um aumento do re
crutamento nos grupos externos para ocupar posições de importância.(*) Neste ca
so, porém quais são esses grupos - e o que representam?
A certa altura, Mills afirm~ que os democratas fizeram seu recrutamento em de
terminadas ·-firmas (Dillon, Read), e os republicanos em outras (Kuhn, Loeb).
Mas esse ponto não chega a ser esclarecido, e é difícil saber o que o autor quer di
zer. Pode-se alegar, igualmente, que ao recrutar seus conselheiros científicos, os de
mocratas preferiram Chicago e Los Alamos, e os republicanos, Livermore; · mas, se
isto significa algo (e penso que sim), é necessário examinar as conseqüências desse
recrutamento diverso nas ações das pessoas envolvidas. Mills tem o hábito de desen•
volver sua exposição até o ponto onde a análise deve começar - e pára aí.
O fato mais extraordinário sobre a política exterior norte-americana - a área de
poder mais crítica - , tem sido a falta de coordenação entre os militares e os diplo·
matas, e o fracasso de uns e outros em pensar politicamente. Pode-se exemplificar
com a descoordenação havida nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, e com
as decisões impolíticas dos generais norte-americanos, que tiveram conseqüências
incalculáveis para o equilíbrio do po1er na Europa do pós-guerra. Ao contrário da
União Soviética, os Estados Unidos subordinavam todas as questões políticas a obje
tivos militares imediatos. Temerosos de que a União Soviética viesse a dominar a
Europa depois da guerra, os ingleses estavam ansiosos, nos últimos meses do confli
to, para que os exércitos aliados cruzassem o mais rapidamente possível a planície
da Alemanha Setentrional, até Berlim - de modo a chegar à capital do Reich an
tes dos soviéticos, ou pelo menos participar de sua captura. No entanto, para o co
mando norte-americano Berlim era um objetivo secundário.
Foi o general Marshall, chefe do Estado-Maior Geral, que declarou: «As vantagens
políticas e psicológicas que poderiam 1esultar da possível captura de Berlim antes
dos russos não devem prevalecer sobre o imperativo militar representado, em nossa
opinião, pela destruição e o desmembramento das forças armadas da Alemanha".
(*) Um ponto teórico fundamental para os marxistas, que Mills, surpreendentemente nunca abor•
~ª• é ª. questão da fonte últ~ma do poder. Serão autônomos «diretores políticos» do paí:? Serão os mi
luares md~pendente~?. Se assim é, por que razão? Qual a relação entre o poder econômico, de um la·
~o, ? polfuco e o m1hta~ d~ outro? Mills afirma: «Na medida em que hoje é um Estado ampliado, e mi•
htanzado, .~ue dá uma md1cação estrutural da elite do poder, essa indicação se torna evidente nos altos
escalões militares. Os ~hefes militares adquiriram uma relevância política decisiva, e a estrutura militar
ê ª~º:ª• em grau conSiderável, wna estrutura política» (pág. 275). Neste caso, que dizer da outra pro
posiçao fu?damei:ital do autor, de que nos Estados Unidos o sistema capitalista não mudou essencial
mente? (Vide, adiante, a seção sobre "A Continuidade do Poder").
O Fim da Ideologia 49
Ray S. Cline comenta, em Washington Command Post: The Operations Division
,·olume que integra a história oficial da participação do exército norte-americano
na guerra}, a falta de uma «coordenação sistemática da política externa com o pla
nejamento militar», e a hesitação dos diplomatas norte-americanos, mesmo no ou
rono de 1944, «a respeito da política externa do seu país no referente à rendição e
j ocupação da Alemanha». E o Pentágono, que é considerado geralmente como o
frio «cérebro» da política externa norte-americana, rejeitou, na negociação relativa
à ocupação de Berlim, uma sugestão inglesa no sentido de que houvesse um corre•
dor territorial ligando a Alemanha Ocidental a Berlim, alegando que a União So·
riética era um aliado, e que portando tal corredor parecia desnecessá_rio.
_..\ Imagem Européia
Como explicar esta imagem do poder e da política nacional em termos das inten
;5e5 de grupos semiconscientes de pessoas ocupando lugares fixos na sociedade? O
:aro peculiar é que, embora Mills retire todas as suas ilustrações da vida norte
.i.!Ilericana, recolhe os conceitos principais de que se utiliza de experiência européia -
::s:o e."l{plica, a meu ver, o atrativo exótico (e o astigmatismo) da noção de "elite dopo
~··.( :::)
?:;,r exemplo: depois de definir a política e o pod~ em termos da sanção úl
::i:ma - a violência - , Mills propõe uma questão provocante: por que razão aque·
:,CS que dispõem dos meios de violência (os militares) não consquistaram o poder
rom maior freqüência no Ocidente?
Por que motivo a ditadura militar não constitui uma forma mais «normal» de go
~o?
A resposta está no papel atribuído ao status. «Prestígio com honra, e tudo o que is
:o implica, tem sido a retribuição dos · militares pela sua renúncia ao poder ... »
;,rág. 174)
Ora, na medida em que essa observação é verdadeira, ela se aplica primariamente
i Europa, onde os militares criaram um código de honra, que procuram respeitar.
fü muitos livros, escritos por europeus, que estudam esse código, e alguns autores
~opeus o satirizam (como nas peças de Schnitzler, por exemplo) .
.Mas, podemos ·aplicar tais conceitos aos Estados Unidos? Excetuados os oficiais da
Marinha, quando os militares norte-americanos foram control'ã°'dos pelo seu -~entido
~ honra? Na verdade, os militares nunca chegaram a ter poder (ou status) na so
àedade norte-americana por várias razões, muito diferentes: a noção original do
~cito como milícia popular; a imagem populista do oficial - visto muitas vezes
:amo um «herói»; o recrutamento «democrático» de West Point; a relutância em
Keitar o recrutamento obrigatório; a avaliação desvantajosa da profissão militar,
.:omparada com as atividades «rendosas»; a forte tradição civilista, etc.
• Trata-se de um problema difícil, que tem distorcido uma boa parte do pensamento sociológico nor
~ ·.i.!:lericano. Na década de 1930, os intelectuais dos Estados Unidos esperavam sempre que o desen•
:✓:~-.imento social do seu pais acompanhasse inevitavelmente o da Europa - especialmente no que se
~~e ~o surgimento do fascismo. Em larga medida essa expectativa resultava de uma espécie de marxismo
:i:::e.:::a.ruco, para o qual toda a atividade política refletia as crises econômicas, e que postulava uma série de eta
~ .:omuns de evolução social, que todos os países deveriam percorrer.
bct 1948, Harold Laski e~crevia: •A história dos Estados Unidos deveria, a despeito de tudo, seguir o
~o geral da democra''Cia capitalista européia» (Harold Laski, The American Democracy, Nova
-2'.k, l?-48,. pâg. 17). E ~m observador brilhante como Joseph Schumpeter misturava, com mão pesada,
• . ~êncta _norte-am~n~anacom conceitos europeus, em Capitalísm, Socialism and Democracy, para
~ a predições pcss1m1stas.
50 Daniel Bell
Estã claro que Mills sabe disso. Mas, se a «honra» e a · «violência» não são muito
.significativas no passado norte-americano, por que conceitualizar o problema mili
tar nesses termos, como categorias gerais, quando na vida do país ele não se apre
senta assim? A não ser que Mills· admita, como muitos intelectuais da década de
1930, que os Estados Unidos seguirão a experiência européia.
O autor caiu numa pequena cilada, ao falar em prestígio, afirmando: «Todos os
que alcançam êxito nos Estados Unidos - qualquer que\seja seu círculo de origem
ou esfera de ação - provavelmente se deixam envolver no mundo das celebrida
des». E, mais adiante: «Com o desenvolvimento da economia sob forma empresa
rial, a ascensão do estabelecimento militar e a centralização do Estado ampliado,
surgiu a elite nacional que, ocupando os postos de comando, assumiu os refletores
da publicidade, submetendo-se a uma promoção intensa. Os membros da elite do
poder são celebrados por causa das posições que ocupam e das decisões que
tomam». (pá~: 71)
Ora, por celebridades Mills quer dizer os nomes que não precisam ser identificados
perante o público. Contudo, as relações entre celebridade, prestígio, status e poder
serão tão diretas quanto o autor acredita? Seguramente encontraremos, na vida
norte-americana, celebridades e glamour, componentes necessários, ou concomi
tantes, não de uma elite, porém de uma sociedade de consumo de ·massa.
Uma sociedade engajada no comércio requer esse sistema de atrativos e apelos.
Mas, por que presumir que as posições de poder envolvam as pessoas nesse sistema
de atrativos? Por outro lado, não creio que o público, mesmo sofisticado, identifi
casse prontamente os nomes dos presidentes das dez maiores empresas da lista das
500 maiores de Fortune; dos principais membros das corporações militares; e dos
membros do Gabinete.
A confusão se origina, aqui também, na maneira irrefletida como Mills emprega
conceitos europeus de prestígio, mais tradicionais. Nas hierarquias próximas do sis
tema feudal, o prestígio se identifica com a honra e a deferência: os que têm poder
podem pretender a honra e a deferência. É o que acontecia na Europa. Mas, é
também o que acontece nos Estados Unidos? Quando Harold Lasswell procurou pe
la primeira vez usar a deferência como um símbolo de importância, ele já não pa
recia genuíno. Mills substitui o glamour e a celebridade pela deferência, com o
mesmo fim. Entretanto, o poder implicará hoje a imediata glorificação e celebra
ção do nome? É duvidoso que na sociedade do consumo de massa as noções de ce
lebridade, glamour, prestígio e poder tenham as conotações sugeridas por Mills, ou
que . estejam,interligadas.
A História e as Idéias
Se nos interessarmos pelas mudanças na fonte e no estilo do poder ou na sincro
nização e centralização do poder - teremos que examinar essas questões sob o
ponto de vista histórico. No entanto, a não ser em um ou dois casos, Mills ignora a
dimensão histórica do problema. Numa passagem ele menciona a divisão da histó
ria norte-americana em períodos segundo critérios que substituem o poder político
pelo poder econômico - o que é vago demais para ter algum sentido. Em outra
passagem (a única vez em que examina concretamente as transformações sociais em
termos históricos), cita uma estatística interessante:
«Em meados do século dezenove - entre 1865 e 1881 - , só 19 por cento das pes
saos no estrato superior do governo tinham começado sua carreira política ao nível
O Fim da Ideologia 51
nacional(*); mas entre 1905 e 1953 cerca de uma terça parte dos membros da elite
política tinham iniciado sua carreira -naquele nível; no governo do Presidente Eise
nhower esse índice subiu para cerca de 40 por cento - um recorde em toda a his
tória política dos Estados Unidos». (pág. 229).
~lesmo nos seús próprios termos, é difícil avaliar o sentido exato desse argumento
- além do fato de que há mais problemas centralizados em Washington do que
nos Estados da federação, razão pela qual um número maior de pessoas são recru
tadas diretamente para trabalhar na capital (decerto há uma explicação bem sim
ples para boa parte desses fatos). Durante a Segunda Grande Guerra, dev.ido à deman
da de especialistas, e à necessidade de fortalecer a unidade nacional, unn
maior número de pessoas vindas da província foram recrutadas para postos no Ga;;:>
binete e no Poder Executivo, de modo geral. Em 1952, como os republicanos ti~
nham estado fora do governo durante vinte anos (havendo portanto um menor nú~
mero de republicanos com carreira feita no Serviço Público), podem ter trazido pa- .n
ra Washington uma proporção maior de «forasteiros». ::=
e;::,
É interessante notar, na utilização dessas estatísticas, a distorção metodológica exis-::; ._
tente. Ao usar esses dados, e variáveis como nível nacional, presume-se que um tipo 11
diferente de recrutamento revela diferenças no caráter das pessoas que ocupam po- ·Js
sições de poder, e que portanto o caráter da sua política deveria também ser dife- ~~
rente. Os comentári~s de Mills parecem implicar i_sto, mas nu'?ca ch~g~m a d:s~n- !ii
Yolv:r este P_?nto alen_i da observação de que, hoJe, o forasteiro pol~t1co (pol1t1cal :5
oucs1der) esta em posição ascendente. Mas, como .contrametodolog1a, parece-me . .,
que não se deveria começar este exame pelo recrutamento ou as origens sociais, 1-rn
mas sim pelo caráter da política. Alguma coisa mudou na política? Em caso afir-
l;)
:nativo, o que, e por quê? Deve-se essa mudança a diferenças no recrutamento (di- :OJ
:crenças de classe e étnicas) ou a alguma outra razão? Se formulássemos perguntas ~
teríamos- que começar co~o um exame de idéias e temas, e não das origens sociais. -~
-"
lias o autor se desinteressa completamente pelas idéias e temas, pelo menos neste ~ ---. .e)
ponto. As questões que o interessam são: de que maneira mudaram as posições es- "?
:ratégicas, e que posições aumentaram de importância? As mudanças de poder são
riscas em grande parte como uma sucessão de posições diferentes. À medida que
diferentes posições estruturais ou inconstitucionais (militares, econômicas e políti-
::as) se combinam, diferentes graus de poder vão se tornando possíveis. A circula-
ção da elite (como _Pareto chamava a mudança de composição dos grupos, com
«resíduos» diferentes) se transforma numa sucessão de posições institucionais.
lias, como aplicar esses conceitos às pessoas? São as pessoas determinadas pela
posição que ocupam (em seu caráter, seus valores e idéias)? Em caso afirmativo, de
que maneira? ,1\1ais ainda: interpretar a história política como uma transferência da
posição de poder das «instituições» (em vez de grupos de interesses concretos, ou
clas.5es) é interpretar a política de forma extraordinariamente abstrata; é ignorar as
mudanças que ocorrem nas idéias e nos interesses. Essa é uma das razões por que
){ilJs pode minimizar, como o faz, todo o período de vinte anos da história do
«Sew Deal» e do «Fair Deal». Para ele, esses vinte anos foram notáveis apenas
porque · incrementaram as tendências centralizadoras das principais «instituições»
!OC:iais, especialmente as políticas.
* Isto é , em outras cidades da nação, fora da capital federal (N. do Trad.)
52 Daniel Bell
Esse desinteresse, e rejeição das idéias e ideologias, encontra paralelo na explicação
dada por Pareto às transformações sociais na Itália: o socialismo italiano seria uma
simples alteração nas «derivações» (isto é, as máscaras ou ideologias), sem que hou-
vesse mudado a combinação básica de resíduos. (N~ 1704)30
Com efeito, as mudanças de temperamento, do nacionalismo para o liberalismo, e
para o socialismo, refletiam alterações na distribuição dos resíduos da classe II.
Portanto, as transformações ocorridas na classe política significavam simplesmente
a circulação de tipos sócio-psicológicos.Todas as ideologias e postulações filosóficas
não pàssavam de máscaras «para simples objetivos de conveniência partidária no
debate» . Não eram nem verdadeiras nem falsas, mas «simplesmente desprovidas de
sentido.» (N~ 1708)
Da mesma forma, para Mills as mudanças de poder são' mudanças na combinação
de posições constitucionais que, p~esumivelmente, constituem a única realidade sig
nificativa .
«Com a exceção da Guerra Civil (onde essas mudanças não se efetivaram), as mu·
ganças no sistema _de poder dos Estados Unidos não _implicara.m desafio~ importan
tes a legitimações fundamentais... As alterações na estrutura de poder norte
americana foram provocadas geralmente por deslocamentos institucionais na po
sição relativa das ordens política. econômica e militar». (pág. 269)
Desta forma, as extraordinárias mudanças na vida norte-americana no conceito
de propriedade, controle empresarial, responsabilidade de governo; a mudança de
têmpera moral provocada pelo «New Deal» - todas essas .transformações são «re
duzidas» a deslocamentos institucionais. Não terá havido então desafios a legitima
ções fundamentais na vida política dos Estados Unidos? Até que ponto tem sido
contínuo o sistema de poder norte-americano?
A Continuidade do Poder
Na sua análise política, Mills é influenciado por Pareto; na sua imagem do poder
econômico, ele é um marxista «vulgar»:
«A história social recente do capitalismo norte-americano não mostra qualquer hia- ·
to na continuidade da classe capitalista superior ... Nos últimos cinqüenta anos, na
ordem política como na econômica, houve uma notável continuidade de interesses,
representada pelos tipos de dirigentes da economia que protegem e promovem esses
interesses ... ». (pág. 147)
A despeito da linguagem vaga, a única coisa que se pode dizer é que uma resposta
a essa proposição se baseará não em argumentos lógicos ou metodológicos, mas
empíricos. No segundo capítulo deste livro, sobre o desaparecimento do capitalismo
familiar nos Estados Unidos, procurei mostrar qual seria essa resposta. Nos últimos.
setenta e cinco anos as relações estabelecidas entre a família e o sistema de
propriedade (que para Malthus representam as «leis fundamentais» da sociedade)
se alteraram completamente. · O que levou também ao desmantelamento do «capi
talismo familiar», que constituía o cimento social da classe burguesa.
Referindo-se ao controle econômico, Mills. pinta um quadro ainda mais extraordi
nário:
«As empresas mais importantes não são um conjunto de gigantes, esplendidamente
isolados; el;\S se têm mantido unidas por meio de uma associação explícita, dentro
dos respectivos setores de atividade e das regiões respectivas, bem como mediante
O Fim da Ideologia 53
organizações de tipo da NAM (Associação Nacional da Indústria), que unificam os
gerentes e os outros membros da elite empresarial. Desta forma, poderes econômi
cos estreitos se traduzem em poder de classe, abrangendo toda uma indústria; po
deres que são usados, em primeiro lugar, na economia - por exemplo, frente às
organizações sindicais; em segundo lugar, politicamente, no desempenho de um pa
pel importante na esfera da política. E os pontos de vista do «big business» são di
fundidos entre os pequenos homens de negócios.» (pág. 122)
Eis aí uma afirmativa de tirar o fôlego, mais ampla do que qualquer outra que en
contraremos na teoria dos Spi_tzenverbande («associações de pico»), de Robert
Brady, no seu Busines as a System of Power. É óbvio que há uma certa coord_ena·
ção das grandes empresas; mas a unidade e a perfeição desse esforço, como Mills o
vê, são fantasiosas. Aliás, o autor não nos oferece provas que consubstancierri sua C)
afirmativa. Os fatos, na verdade, apontam para outra direção : as associações co- ~
merciais têm declinado nos Estados Unidos - durante a guerra elas tiveram ~~
importância como meio de assegurar a representação da indústria nos conselhos go- e
vernamentais. A NAM tem perdido força, tendo recebido uma participação cada í.l't
vez menor dos seus membros. E a indústria se divide a respeito de uma ampla ga- e..::
ma de temas, incluindo relações trabalhistas (por exemplo, as grandes companhias
siderúrgicas e automobilísticas têm sido atacadas pela General Electric, e por
outras firmas, por aceitarem a concessão de benefícios suplement.ares de desempre-
go - os s.u.b.). ~.1
~;t:,
Mills se refere à participação propriamente política das empresas. Cabe perguntar :XJ
contra quem se reúnem os membros da elite do poder, e em torno de que proble- 5
mas políticos. Só -me ocorre um assunto que poderia unir as grandes empresas r-;.:
norte-americanas: a política- trjbutâria. Em quase todos os outros elas têm posições iV:.
divergentes: no relacionamento com os sindicatos, por exemplo. Há choques impor
tantes entre elas nas áreas dos seus interesses específicos, em que as ferrovias, as
empresas de transporte aéreo e rodovi~rio disp:utam vantagens entre si. Ou entre os
interesses ligados ao carvão, ao petróleo e ao gás natural. Excetuando-se um vago
sentido ideológiéo, há relativamente poucos temas políticos que provocam uma rea
ção una da elite empresarial.
O problema de quem se une a quem a propósito de que é de natureza empírica, e
falta na obra de Mills. Se a coordenação que ele alega existir existe de fato , cabe
examinar como ela se passa. Sabemos, por exemplo, que as carreiras dentro das
grandes empresas se tornaram mais longas, em conseqüência da burocratização. O
efeito é uma permanência mais breve nas posições de maior autoridade. Num
período de dez anos, a A. T. & T. teve três dirigentes principais - e cada um deles
tinha passado de trinta a quarenta anos na companhia. Se os membros dessa «eli
te» passam tanto tempo numa mesma empresa, como fazem para se conhecer mu
tuamente?
Preocupado com a manipulação pela elite, Mills se mostra indiferente aos pro
blemas do poder na vida diuturna do país. Isto fica evidente no modo como des
preza sumariamente as «questões intermediárias» (é de presumir, sem muita im
portância real): tudo o que não considera uma «big decision». Contudo, não serão
questões menos dramáticas justamente as que constituem a matéria-prima da política
- os conflitos que dividem os homens e os envolvem no movimento da realidade? Pro
blemas trabalhistas, raciais, a política tributária, etc - são eles que tocam as pessoas,
na sua vida, e que as fazem perceber o sentido do poder.
54 Daniel Bell
O emprego do termo elite coloca outra questão, a respeito da utilidade dos seus li
mites para a discussão do poder. Por que usar a palavra elite, em vez de grupo
decisório (decision-makers, ou mesmo de dirigentes (rulers)? Para falar de decisões,
teríamos que discutir o processo de formulação política, com suas pressões, etc. Pa
ra falar de dirigentes, deveríamos examinar a natureza da direção política. No en
tanto, se falamos em elite, só precisaremos discutir a posição institucional dos seus
membros - o que pressupõe (como Mills pressupõe) que a natureza fundamental
do sistema não muda, e nosso problema se limita a preparar um mapa da circula
ção na sua superfície. Ora, a premissa de que o sistema não muda fundamental
mente (isto é, não se alteram suas legitimações básicas, a continuidade da classe ca
pitalista) não deixa de ser estranha, porque se de fato o poder se tomou a tal pon
to centralizado e sincronizado, não terá havido uma mudança fundamental no sis
tema?
No entanto, mesmo se acharmos preferível falar em termos de elites, têm havido
mudanças substanciais no sistema de poder na sociedade norte-americana: o des
mantelamento do capitalismo familiar (associado a uma série de alterações de po
der na sociedade ocidental tomada em conjunto) e - de forma mais importante e
mais óbvia - a função decisiva da arena .política.
Da Economia à Política
Na década que precedeu a Primeira Guerra Mundial, d ·poder crescente dos trusts,
a influência direta dos banqueiros na economia e a expansãoideológica do socialis
mo tenderam a focalizar as atenções no sistema de classes como o elemento oculto
mas .decisivo na modelagem da sociedade e da mudança social. Alguns historiado
res «realistas», como J. Allen Smith e sobretudo Charles A. Beard, começaram a
tarefa de reinterpretar, em termos econômicos, as primeiras disputas coloniais e
constitucionais. Esquematicamente, a interpretação de Beard era a seguinte:
Os primeiros conflitos registrados na história dos Estados Unidos foram lutas de
classe diretas entre o grÚpo mercantil, representado pelos federalistas, e os agr? ·
rios, representado pelos democratas. A sociedade norte-americana se dividia nitida
mente entre esses dois grupos, com interesses antagonísticos (a propósito de tarifas,
custo de dinheiro, etc). A maneira clara como os __ founding fatbers discutiam esses
conflitos de classe está documentada de forma notável nos textos federalistas - os
Federalists papers. Como no conflito anteriqr, na Inglaterra, entre os proprietários
rurais e a classe industrial, a propósito das corn laws protecionistas, uma vitória de·
cisiva de um dos lados teria decidido o .caráter básico da sociedade. Essa primeira
plutocracia norte-americana, os mercadores do Leste, demonstrou contudo ser um
grupo social instável, incapaz de manter a iniciativa política: os federalistas perde·
ram. Contudo, os democratas não tinham condições de consolidar sua vitória, devi
do às imposições do capitalismo que se desenvolvia; a «revolução jeffersoniana» foi
algo que Jefferson prometeu, mas não pôde executar tão facilmente.
Outros historiadores modificaram, mais tarde, essa descrição de um chiaroscuro
cru, introduzindo muitos meios-tons entre os traços negros e o branco. Como Dixon
Ryan Fox, por exemplo, que ao estudar a política em um dos Estados federados,
nas primeira quatro décadas do século dezenove, escreveu (em Yankees and
Yorkers):
«Devido às rivalidades entre ingleses e holandeses, presbiterianos e anglicanos, co
merciantes e agricultores e outras ainda, o espírito partidário surgiu cedo em Nova
O Fim da Ideologia 55
York e persistiu em manifestações cambiantes. Mas as linhas partidárias não sepa
ravam nitidamente os ricos dos pobres. Os aristocratas tinham tal segurança de sua
posição social, e eram tão variadas suas origens, que não se comportavam defen
dendo um interesse único; as famílias se conduziam umas com relação a outras co
mo Capuletos e Montagues. Como observou Hemry Adams, 'Todos esses Jays,
Schuylers, Livingstones, Clintons e Burrs estariam unidos - ou já teriam abando
nado o país - se vivessem na Nova Inglaterra; sendo cidadãos de Nova York, bri
gam entre si. Quando os «Tories» afastaram os «Whigs», logo se dividiram em fac
ções - não apenas duas, mas várias, todas dispostas à negociação e aos entendi
m entos» . É aí que vamos encontrar as · raízes do sistema partidário peculiar dos Es
tados Unidos. A reação contra todas as tentativas de estabelecer o domínio exclusi
vo de um só grupo deixava o sistema social indefinido desde a sua criação: não era
predominantemente mercantil , escravocrata, agrário , industrial ou proletário.
Depois de perder o controle político direto, as famílias ricas procuravam agir indi
retamente , por meio dos políticos profissionais. Mas, numa socied~de que se trans
formava rapidamente, e cujas dimensões projetavam uma variedade de interesses
conflitantes, os políticos só podiam ter êxito se fossem «corretores», e o sistema de
'partidos devia funcionar como instrumento de mediação.
Não se quer com isso negar a existência de classes, ou a natureza do sistema de
classes existente. Mas não se pode usar a estrutura de classe para uma análise
política direta, a não ser que a sociedade seja altamente estratificada. Um sistema
de classes define o modo de alcançar riqueza e privilégios numa sociedade. Esse
modo pode ser a terra, a propriedade corporativa, a habilitação técnica ou admi
nistrativa, a atuação mercenária (os condottieri) ou a distribuição política direta (o
partido, a burocracia, o exército); e o sistema de classes deve ser legitimado, em
formas legais, para que fique assegurada sua continuidade. É muito freqüente que
a riqueza e os privilégios impliquem em poder e prestígio, mas não há aí uma cor
relação direta. Mais importante ainda: qualquer que seja o modo, a análise de
classes não nos diz diretamente quem exerce o poder, nem nos informa muito sobre
a competição existente pelo poder dentro dos limites daquele modo.
' A não ser que o modo, e suas legitimações, sejam contestados diretamente, rara
mente encontraremos uma classe agindo como classe, de forma unitária. Logo que
se estabelece um determinado modo, a competiçao pelos privilégios, dentro do sis
tema, é elevada, desenvolvendo-se uma variedade de interesses distintos. A comple
xidade crescente da sociedade multiplica naturalmente esses interesses, regionais ou
funcionais; e numa sociedade aberta a arena política é o local onde os vários inte
resses disputam entre si pelas vantagens almejadas - a não ser que haja um confli
to para destruir o sistema. Por isso o conceito de «classes» é, em geral, insuficiente
para acompanhar o jogo ágil dos diversos grupos políticos.
Na sociedade européia, especialmente depois da Revolução Francesa, os temas
políticos tendiam a se distribuir por linhas de .classe; mesmo nessa época, qualquer
análise minuciosa se arrisca a falsificar os acontecimentos simplesmente pela sua in
terpretação à luz de uma divisão grosseira em classes. O que faz com que um
clássico de análise política marxista, como é O Dezoito Brumário de Luís
Bonaparte, seja lido hoje com interesse é o fato de que Marx pinta com habilidade
o papel de diversos grupos de interesses, manipulados imperiosamente por Luís Bo
naparte, por trás da fachada dos simples interesses de classe. Nos Estados Unidos
- país tão heterogêneo desde a sua fundação , e modificado por tantas influências
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56 Daniel Bell
étnicas, nacionais e religiosas diferentes - , é difícil interpretar a ordem política
(que se tornou, afinal d€ contas, uma estrada autônoma para a conquista de privi
lêgios, trilhada pelos líderes de grupos minoritários) como um reflexo da ordem .
econômica.
Mas mesmo onde havia uma certa correspondência grosseira entre o político e o
econômico, a gama dos interesses em jogo era enorme. Em 1892, Friedrich Engels
escrevia a seu amigo Sorge: «Ainda não há lugar, nos Estados Unidos, para um
terceiro partido .. A divergência de interesses, mesmo dentro da mesma classe, é tão
grande naquele imenso país que grupos e interesses totalmente diversos se fazem
representar nos dois grandes partidos, dependendo do lugar; e quase que todas as
seções da classe proprietária estão neles representadas em larga medida, embora
hoje a grande indústria forme o núcleo dos republicanos, e os latifundiários sulistas
constituíam o núcleo dos democratas. É a aparente incorrência dessa reunião de inte
resses que fornece um solo fértil para a corrupção, e o saqueio do governo - atividade
que já florecem magnificamente". 31
Mais tarde, num certo ponto da história dos Estados Unidos, a classe comercial e
industrial dominante - a plutocracia, e não os · proprietários de terras - esteve
perto de imprimir uma marca nítida na política do país. Lá pelo fim do século de
zenove, a classe industrial ascendente únha alcançado uma vitória econômica esmagadora,
que a levou a tentar dissolvei:, a estrutura de interesses grupais mediante o
desenvolvimento de uma ideologia política que pudesse servir tarnbêm o sentimento
nacionalista emergente. A doutrina-imperialista do «destino manifesto», de Beve
ridge, e o «americanismo» de Franklin Giddings, representaram um esforço . n.esse
sentido, estranho a esse povo heterogêneo, ou pelo menos prematuro. O segundo
esforço, de maior êxito,consistiu na identificação do capitalismo com a democra
cia. A princípio a classe comercial teve medo de que a democracia usada corno um
instrumento político, com o qual a «multidão suína» de Burke (swinish multitude)
preparasse o caminho para o despotismo radical. Mas a ideologia do capitalismo
industrial vitorioso definiu a democracia quase que completamente em termos
econômicos convenientes - como a liberdade contratual.
Embora a classe comercial e industrial dominante não fosse capaz de exercer con
trole político sobre a sociedade, podia estabelecer uma hegemonia ideológica. En
quanto no período de 1880 a 1912 a classe média (pequenos fazendeiros e homens
de negócios, e muitos profissionais) apoiara os surtos esporádicos contra os trusts e
os monopólios, esses movimentos e essas opiniões foram dissolvidos pelas duas
dêcadas subseqüentes, que trouxeram a guerra, a prosperidade e a propaganda.
Essa unidade fez com que a «bolha» de prosperidade estourasse, porque os ideólo
gos da iniciativa privada não compreendiam as realidades da economia «social»
que havia surgido; não tinham compreendido o grau em que a economia de mer
cado impõe um tipo particular de dependência.
Numa economia pura de mercado - como disse Marx - cada um pensa por si, e
ninguém planeja para todos. Atualmente, não são mais indivíduos que atuam no
mercado, mas coletividades particulares, cada uma das quais procura evitar os ris
cos que ele implica (por meio de administração de preços, subsídios agrícolas, nor
mas salariais, etc.). Como é inevitável, as medidas tomadas por cada grupo, para
sua proteção, provocam no governo a preocupação de impedir que o conjunto da
economia seja prejudicado pela busca anárquica de segurança.
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1
O Fim da Ideologia 57
De Tocqueville escreveu certa vez que os historiadores de épocas aristocráticas se
inclinam a interpretar todos os acontecimentos através da vontade e do caráter de
heróis, enquanto os historiadores de períodos democráticos lidam com causas ge
rais. O brilho aristocrático de Franklin Delano Roosevelt tem contribuído para con
fundir os que procuram colocar o período do «New Deal» numa perspectiva históri
ca; até hoje nos falta uma caracterização política adequada daqueles anos. Há,
naturalmente, muitas analogias históricas inspiradas pelo tom e pela verve do pró
prio Roosevelt: por exemplo, Roosevelt visto como um Solon temporizador, que
com suas reformas políticas procurou evitar a revolução das massas sem bens; ou
como um Tiberius Gracchus, patrício que abandonou sua classe para ser tribuno
do povo. Roosevelt foi comparado a Luís Napoleão - um político ambicioso que
manipulou primeiro uma classe, depois outra, para manter seu domínio pessoal.
Não há dúvida de que essas analogias projetam pouca luz sobre o modo como a
ação governamental provoca novas combinações de interesses, e sobre funciona
mento dessas coalizações cambiantes.
O aspecto público do «New Deal» de Roosevelt consistiu numa série de amplas re
formas sociais; com bastante ingenuidade, alguns escritores - e o próprio Roose
velt - já qualificaram o «New Deal» de uma afirmação dos direitos humanos sobre
os direitos de propriedade. Mas a verdade é que esses termos têm reduzida signifi
cação, filosófica ou pragmática. De fato, os preços de sustentação pagos aos agri
cultores constituem um direito humano ou um direito de propriedade? O que o
«New Deal» fez foi legitimar a idéia dos direitos grupais, e a postulação do apoio
governamental pelos grupos - enquanto grupos.
Com efeito, os sindicatos passaram a ter direito à barganha coletiva do trabalho,
aplicando decisões de grupo a seus membros individuais; os trabalhadores aposen
tados receberam pensões; os agricultores, suõsídios; os veteranos, benefícios; os gru
pos minoritários, proteção legal, etc. Nenhuma dessas medidas era, isoladamente,
revolucionária; mas em conjunto elas constituíam uma extraordinária transforma
ção social.
Da mesma forma, o governo sempre tivera um certo papel a desempenhar na dire
ção da economia; mas a nova função que lhe era atribuída, de caráter permanen
te, a que o obrigava de um lado a necessidade de manter o pleno emprego, e de
outro o desenvolvimento do estabelecimento militar, criou em Washington um con
junto de poderes que nunca tínhamos visto na história dos Estados Unidos.
Retrospectivamente, o que parece mais espantoso é que, embora o compromisso
com a economia administrada fosse previsível, tenhamos tido tanta dificuldade em
organizar nossas idéias a respeito. Uma economia administrada exige não só um or
çamento governamental visto como uma organização com receitas e despesas, mas
também um «orçamento econômico», que defina as principais ordens de grandeza
da interação econômica entre as várias partes da sociedade - o montante total dos
bens e serviços produzidos durante um ano, e a renda total paga por esses bens e
serviços. Com esses dados podemos identificar os eventuais hiatos nos dispêndios
com consumo e investimento e, se necessário, tomar as medidas corretivas por meio
da política fiscal. Contudo, só em 1936 o Departamento do Comércio publicou seu
primeiro relatório sobre a renda nacional, e só em 1942 esse outro lado da contabi
lidade econômica da nação - o produto nacional bruto - foi estimado pela pri
meira vez pelo governo. A indicação do pulso da saúde econômica do pais, me·
58 Daniel Bell
diante a combinação dos dois índices, só foi usada pela primeira vez na proposta
orçamentária enviada ao Congresso por Roosevelt em 1945.
Com a emergência da ciência da economia política, surgiu um novo tipo de proces
so decisório. Na sociedade de mercado, os desejos dos eleitores são manifestados
por meio de «votos em dólar», como parte da interação da oferta e da demanda de
bens e serviços. A soina total das decisões individuais e independentes de comprar e
vender, em termos de dólares e centavos, combinava-se (como pensava Bentham)
numa decisão coletiva - o consenso geral. Assim, quando as decisões sobre a dis
tribuição dos recursos da coletividade se manifestavam através do mercado, era o
dinheiro, e não a ideologia, que determinava o que deveria ser produzido. Neste
sentido, a economia passava a ser a chave do poder social - e a política, apenas
um pálido reflexo da economia.
Mas a política - através da intervenção governamental no mercado - tem-se tor
nado cada vez mais o meio de manifestar decisões sociais e econômicas. Dentro des
sa perspectiva, o indivíduo é forçado a agir através de grupos, para traduzir em
realidade sua vontade.
Como na economia administrada é a política, e não o dinheiro, que determina de
modo geral a produção, a intervenção governamental não só promove a identifica
ção de grupos de pressão como força. cada um deles a adotar uma ideologia que
possa justificar suas pretensões, e que possa ser equacionada com alguma modali
dade do conceito de «interesse nacional».
Os Tipos de Decisões
Por tudo isso, se quisermos estudar o poder será mais útil examiná-lo em termos de
tipos de decisões, e não sob o aspecto de elites
Curiosamente, parece-me que Mills termina por concordar com este argumento,
uma vez que seu livro é no fundo uma polêmica contra aqueles que dizem que nos
Estados Unidos as decisões são tornadas democraticamente. Escreve o autor:
«Um número cada vez maior dos assuntos fundamentais da nação · não chegam a
ser decididos peÍo Congresso ... e muito menos pelo eleitorado». (pág 255) «Como
hoje a indicação estrutural do poder da elite reside na ordem política, essa indica
ção consiste no declínio da atividade política como um debate público genuíno so
bre decisões alternativas ... Os Estados Unidos são hoje em grande parte uma de
mocracia política formal». (pág. 224)
Até certo ponto a afirmativa é verdadeira, mas não tem a medida de importância
que Mills lhe atribui. Há muitos casos em que até mesmo o público interessado se
sente «encurralado», por assim dizer, pela impossibilidadede influenciar os aconte·
cimentos. Em grande parte isto resulta do aspecto de «segurança» que têm os pro
blemas, que faz com que muitos assuntos sejam debatidos apenas no labirinto
burocrático. A decisão sobre a bomba de hidrogênio, por exemplo: foi tomada por
um grupo de cientistas, com alguns militares, especialmente do Comando Aéreo
Estratégico. A não ser que queiramos presumir que todos os que já participaram de
alguma decisão importante sejam membros da elite do poder (o que é um círculo
vicioso), precisamos localizar a fonte de tais decisões, que é um dos problemas cen
trais da sociologia do poder.
Outro motivo, igualmente importante, que impossibilita a influência dos indivíduos
sobre os acontecimentos é o que hoje chamamos, de forma inapta, o «processo
1
'
O Fim da Ideologia 59
decisório técnico» ("technical decision making"): o fato de que, quando é tomada
alguma decisão de política geral, quando uma mudança tecnológica vem à su
perfície, ou quando alguma outra mudança há muito latente se manifesta, somos
obrigados a aceitar uma série de conseqüência quase inevitáveis; se formos «fun
cionalmente racionais». Assim, há deslocamentos de poder concomitantes («técni
cos») de tais «decisões» - e uma sociologia do poder pre~a identificar os tipos de
conseqüências que resultam de diferentes tipos de decisão.
Três breves exemplos poderão ilustrar este ponto:
1. O orçamento Federal como Giroscópio Econômico
De 1931 a 1935, no auge da depressão, os dispêndios previstos no orçamento fe
deral, de todos os tipos, foram em média -de 5,2 bilhões de dólares por ano. Nos
quatro anos seguintes, de 1936 a 1940, esses dispêndios chegaram a 8 bilhões de
dólares. Durante esse período a receita correspondia a cerca de 60 % (sessenta por
cento) da despesa. Quatro anos mais tarde, o governo federal estava gastando, cada
ano, o total espantoso de mais de 95 bilhões de dólares, e acumulava uma dívida
nacional mais de cinco vezes superior à da década precedente ( dados em dólares de
valor constante).
É importante comparar esses números com o -produto nacional bruto, o somatório
total dos bens e serviços produzidos na nação em um ano. Durante a década da de
pressão, a despeito dos gastos governamentais elevados, o orçamento federal repre
sentava entre 5 e 10 por cento do PNB. Nos anos de guerra, essa proporção chegou
a 40% (quarenta por cento). Mas, embora este último índice seja «anormalmente»
elevado, nos quinze anos desde o início da guerra o governo passou a participar de
quase uma quarta parte do PNB. Com a exceção de um só ano, 1948 (o único ano
de «paz» na história do pós-guerra), quando o orçamento federal caiu para 33 bi
lhões de dólares (contra um PNB de 257 bilhões), os gastos com a campanha da
Coréia e as somas requeridas para manter a . guerra fria mantiveram o orçamento
do governo federal num nível muito elevado. Entre 1950 a 1955, esses nível foi da
ordem de 70 bilhões de dólares, contra um PNB de 325 bilhões de dólares. Em
1960, de cerca de 80 bilhões, contra um PNB de mais de 400 bilhões. Na década
de 1950, só os juros relativos â dívida pública norte-americana - por volta de 7, 2
bilhões de dólares - superaram o total dos dispêndios governamentais em cada um
dos anos do período da depressão.(*)
Esse enorme crescimento dos dispêndios governamentais não foi deliberado por
qualquer pessoa, ou grupo de pessoas, mas resultou inevitavelmente da guerra e
das suas conseqüências. E a função permanente do Governo Federal como «giroscó
pio» econômico do país se deve a sua importância.
2. A Economia Dupla, entre 1950 e 1955
Quando começou a guerra da Coréia, em I 950, o governo se viu a braços com a
opção imediata entre converter a indústria existente para a produção de bens de
(*) No ano fiscal de 1978, o orçamento federal norte-americano foi de 462,2 bilhões de dólare~ · em 1979 de
5~0,2 bilhõe~ d~ dólares,- Vale observar que o p.n.b. norte-americano ultrapassou dois trilhões de dólares
1
(ou
seJa, 2.000 btlhoes de dolares) em 1978. O que significa que, grosso modo, o nível do orçamento federal conti
nua a corresponder a um quarto da produção total de bens e serviços no país (N. do Trad. ).
60 Daniel Bell
guerra ou encorajar a instalação de novas fábricas. A decisão dependia da avalia
ção feita do tipo de guerra que se esperava. A decisão tornada, com base na avalia
ção político-militar, foi partir para urna «economia dupla». A principal conseqüên
cia econômica foi a expansão de capital de muitas empresas, que passaram a poder
contabilizar o custo das novas facilidades , contra os impostos devidos, em cinco
anos, em lugar dos 25 anos normais. Dessa forma as empresas deduziam vinte por
cento dos seus lucros, anualmente, corno custo de capital, obtendo assim uma con
siderável vantagem tributária. Ess"e esquema de amortização em cinco anos pro
vocou uma taxa de investimento extraordinariamente elevada, promovendo a pros
peridade que caracterizou os meados da década de 1950; foi também responsável
pela expansão excessiva da capacidade industrial, que contribuiu para a recessão
,dos anos 1958-59.
3. Te enologia Militar
O rápido desenvolvimento de novas armas afeta decisivamente o peso relativo do'
poder, e da influência, nas corporações militares, dentro de cada corporação e em
cada arma. A importância atribuída aos mísseis, por exemplo, reduziu a utilidade
das belonaves de grande deslocamento, que constituíam outrora o núcleo da mari
nha de guerra - como reduziu a utilidade das próprias forças de terra. Na nova
tecnologia bélica, o submarino portador de mísseis se tornou um elemento vital do
poder de ataque; a grande extensão do alcance dos mísseis tornou o avião tripula
do um vetor obsoleto. Essas alterações na composição das forças armadas , deman
dando novos tipos de técnicos e de tecnologistas, implicam uma mudança no perfil
do poder militar. O setor de pesquisa e desenvolvimento se tornou mais importante
do que os setores operativos, dando mais poder aos cientistas e engenheiros.
Todas essas conseqüências se originaram nas big decisions a que Mills se refere .
Mas os pontos fundamentais de política m encionados por Mills são, primordialmen
te, decisões sobre o envolvimento (ou o não envolvimento) em guerra - ou seja, de
modo mais geral, a política externa. Mas, como discutir essa questão - que Mills
evade completamente - sem discutir a guerra fria, e a medida em que nossa posi
ção é modelada pela conduta da União Soviética? Desde 1946 (ou , mais especifica
mente, desde o discurso de Byrnes em Stuttgart, que inverteu nossa posição a res
peito da Alemanha) a política externa norte-americana não tem decorrido de qual
quer divisão interna, ou de problemas de classes nos Estados Unidos, mas sim da
estimativa que fazemos das intenções soviéticas.
Essa estimativa não foi feita., em primeiro lugar, pela "elite do poder", mas por especia
listas acadêmicos - em especial por George Kennan e o grupo de planejamento po líti
co do Departamento de Estado. Foi o julgamento de que tanto o stalinismo como fenô
meno ideológico como a União Soviética, enquanto poder geopolítico eram agressiva
mente, militarmente e ideologicamente expansionistas, e que seria necessário ter uma
política de contenção {o containment), inclusive com um rápido rearmamento que permi
tisse implementá-la. Essa decisão esteve subjacente à política de Truman com relação à
Grécia e à Turquia, ao Plano Marshall e à deliberação de assistir a reconstrução da eco
nomia européia. Todas essas posições de política externa não refletiam uma conste
lação de poder dentro dos Estados Unidos, mas sim uma estimativa do interesse nacio
nal, e da necessidade da sobrevivência do país.
'
O Fim da Ideologia · 61
Depois dessa primeira decisão, outras se seguiram: a criação de uma força aérea de
ataque de longo alcance (o Comando Aéreo Estratégico, SAC); o estabelecimento
de uma Comunidade de Defesa da Europa Ocidental (a que se seguiu aOT AN:
Organização do Pacto do Atlântico Norte). Não quer dizer que cada passo estraté
gico tomado decorria inevitavelmente da decisão inicial (por exemplo : depois que a
França rejeitou a Comunidade de Defesa da Europa Ocidental cresceu a importân
cia da Alemanha como apoio militar); mas sem dúvida os imperativos gerais eram
claros.
Uma vez estabelecidas essas linhas gerais, os vários grupos de interesses eram afeta
dos, e utilizavam o Congresso - às vezes desastrosamente - para legislar de modo
a que certos grupos de pressão obtivessem maiores porções da assistência internacio
nal (por exemplo, o Bland Act, promovido pelos sindicatos e pela indústria de
transporte marítimo, que obrigava ao transporte sob bandeira nacional de 50 por
cento de todo o equipamento fornecido sob o Plano Marshall), ou para limitar a
flexibilidade de ação do Departamento de Estado (por exemplo, o Battle Act, que
proibia o comércio com o bloco soviético e que prejudicou o Ceilão, quando este
era um aliado dos Estados Unidos, ameaçando-se com a interrupção da assistência
norte-americana caso continuasse a vender borracha para a China).
Ignorar os problemas d este tipo d e processo decisório «imperativo>~ é, a meu ver,
ignorar o que há de básico na política, e também desconhecer a nova natureza do
poder na sociedade contemporânea. A teoria da «elite do poder» implica uma uni
dade de propósito e uma comunidade de interesses na elite que nem é provada
nem demonstrada , mas apenas postulada.
CODA
Uma parte do trabalho de Mills é motivada pelo seu intenso ódio à burocratização
crescente da vida (esta é sua teoria da história), e aos cúmplices desse processo; é
isto que dá a The Power Elite Pathos atrativo_. Muitas pessoas, quando se sentem
desamparadas e ignorantes, reagem com ódio. Mas as fontes desse desamparo pre
cisam ser elucidadas, para que não nos emprenhemos, como faz Mills, numa espé
cie de «protesto romântico» contra a vida moderna. As tonalidades sorelianas do
poder visto como violência, e a imagem populista do poder como uma conspiração
encontram um eco perturbador em A Elite do Poder.
A complexidade e a especialização são inevitáveis corri a multiplicação do conheci
mento, a organização da produção e a coordenação de amplos setores da sociedade
política . Mas isto não leva inevitavelmente à «burocratização» da vida, em especial
numa sociedade onde crescem as rendas e o nível de educação; e os gostos se multi
plicam.
Mais importante ainda , notamos que o uso ambíguo de termos como «burocratiza
ção» e «elites do poder» reforça muitas vezes o sentimento de desamparo a que nos
referimos, ignorando os recursos de uma sociedade livre: a variedade dos conflitos
de interesses, o i!lcremento da responsabilidade pública, o peso das liberdades tra
dicionais (como testemunha a Corte Suprema, uma instituição que Mills não exa
mina no seu livro), a função dos grupos comunitários e voluntários etc.
C_omo o emprego indiscriminado da expressão «democracia burguesa» pelos comu
mstas, n~ déc~da de 1930, ou o abuso da expressão «sociedade gerencial»
(managenal soc1ety) por Burnham, na década de 1940, ou do termo «totalitarismo»
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62 · Daniel Bell
na década de 1950, C. Wright Mills obscurece diferenças específicas e críticas entre
as sociedades. Essa carência de forma nos dá, em A Elite do Poder (com sua ênfase
nas big decisions) , um livro que examina o poder, mas raramente discute a política.
O que é, na verdade, bastante curioso.
* * *
NOTAS
30 . V.I. Pareto, The Mind and Society (New York, 1935) .
31. Engels a Sorge, 6 de janeiro de 1892, in Letters do Americans: 1848~1895, de
Karl Marx e F. Engels (Nova York, 1953, pág. 239).
CAMPUS UNl\/[JC1!U~HHJ Ct 6RAGANCb4
CAPÍTULO 4
CAMPUS UNtVERSfTARIO OE BRAGANCA
Perspectivas do Capitalismo Norte-Americano:
Keynes, Schumpeter e Galbraith
Um notável fenômeno cultural, que não passará despercebido especialmente a quem se
lembra da década de 1930, é o fato de que o capitalismo norte-americano ganhou uma
nova definição teórica (e o respeito mal-humorado) daqueles críticos
- especialmente keynesianos - que antes demonstravam hostilidade. A expressão
«capitalismo norte-americano» reflete uma distinção necessária , pois a economia
neoclássica, que definiu as regras do capitalism-o em geral, nunca teve falta de
porta-vozes intelectuais competentes. A defesa do mercado livre, feita em nossos
dias de modo agudo por Frank Knight (a noção de que uma sociedade competitiva
é um modelo indispensável para a distribuição eficiente de recursos e . a soberania
do consumidor) - tem muita força , tendo sido aceita até mesmo por teóricos so
cialistas como Oskar Lange e A . P . Lerner que , invertendo o argumento, afirmam
que só uma sociedade socialista, removendo a rigidez estrutural inerente às econo
mias baseadas em grandes empresas, poderia assegurar o retorno ao mercado livre.
No entanto, quem estava preparado para justificar a realidade capitalista norte
americana, cujo traço mais marcante era (aparentemente) um gigantismo empresa
rial paralisante? Em 1940, a maioria dos economistas jovens estavam convencidos
de que a economia dos Estados Unidos ingressava numa fase de «estagnação
secular» (secular no sentido de permanente, ou de longo prazo) . O profeta desse
novo credo foi Alvin Hansen, de Harvard, mas não há dúvida de que sua fonte
patrística foi John Maynard Keynes . Embora há décadas um coro de economistas
marxistas viessem cantando um réquiem pelo envelhecido sistema capitalista, Key
nes, em estilo menos apocalíptico, identificou as causas dessa degeneração. Segun
do ele, o sistema não estava funcionando porque as poupanças (quer dizer, de uma
maneira geral, os lucros) não se transformavam regularmente em investimentos (em
especial em bens de capital), de modo que a demanda total por bens e serviços era
menor do que a capacidade produtiva da economia; e o resultado era o d esempre
go.
Convém lembrar que a economia clássica não admitia a ocorrência de crises no sis
tema capitalista, repetindo a Lei de Say, segundo a qual a cada aumento de pro-
66 Daniel Bell
dução corresponderia exatamente um aumento igual do consumo - isto é, o di
nhe='.ro dispendido com a produção de bens seria usado para o seu consumo, de
modo que não poderia haver <<superprodução», ou «subconsumo». O desemprego
representava, portanto, um fenômeno temporário, até que produção e consu
mo se equilibrassem. Os desequilíbrios podiam ser reduzidos com a queda dos
preços, induzindo os consumidores a comprar; e o desemprego seria reduzido com
a baixa dos salários, induzindo os empregados a contratar mão-de-obra. Tudo se resol
via com o funcionamento do mercado livre - e com o tempo.
Quase todas as modalidades não ortodoxas de economia - de Sismondi a Marx e a
Hobson - se baseiam na refutação da Lei de Say. Até então, contudo, jamais se
formulara essa refutação com tanta eI~gância. Marx, por exemplo, nunca elaborou
uma teoria completa das crises suas análises mostram o · entrelaçamen
to de várias teorias. Desenvolvendo a ,tese do subconsumo de Malthus e de outros
autores, mostrou que havia uma distribuição desigual da :i;-enda, entre o trabalho e
o capital (a «mais valia»). Contudo, embora essa desigualdade levasse ao subconsu
mo, só o explicava de forma parcial, e grosseira, pois qualquer economia em ex
pansão (mesmo socialista) precisará de alguma «mais valia» para usar como capital
de investimento.
Marx encontrou uma segunda explicação JlO desenvolvimento desproporcional de
diferentes setores da produção (especialmente na fase de expansão da economia ca
pitalista), gerando volumes de demanda diferentes - especialmente nos setores de
bens de capital e de bens de consumo. Mas isso não explicaria um declínio secular
ou de longo prazo no sistema. Avançando além dessas idéias - que já eram entãoconvencionais -, propôs duas outras explicações. Devido à natureza impessoal do
mercado, disse, o capitalismo é obrigado a expandir a produção sem qualquer refe
rência ao consumo, de modo que há períodos de superprodução , em que o capital
precisa ser diminuído, para assegurar o retorno ao equilíbrio. Por fim, Marx pro
pôs a lei da taxa de lucro cadente, que considerava a «lei do movimento» de econo
mia capitalista. Devido à competição, •ou o desejo de reduzir o custo da mão-de
obra, os capitalistas introduzem novas técnicas e equipamentos no proces,so de pro
dução , investindo mais capital por trabalhador. O lucro por unidade produzida
cai, à medida que uma quantidade menor de trabalho se incorpora ao produto
(admitindo que a única fonte do lucro é a mais valia) , de modo que o capitalista é
forçado a expandir seu mercado, de modo a manter o volume de lucros . Para
Marx , essa pressão induzindo à expansão é , no longo prazo, o problema crítico do
sistema capitalista. Contudo, é importante notar que não encontraremos nos
escritos de Marx a predição do desmantelamento da produção capitalista, mas ape
nas a afirmativa muito geral de que à medida que a taxa de acumulação do capi
tal (a chave do sistema) diminui, as crises se podem tornar mais severas. Como eco
nomista , Marx era menos dogmático do que muitos dos seus discípulos, que
procuraram formular como leis imperiosas o que ele descreveu sob a forma de ten
dências.
Keynes tinha já apresentado um prenúncio da moderna «teoria da estagnação» no
seu famoso livro As Conseqüências Econômicas da Paz, de 1919. O argumento , que
era então inovador, hoje soa familiar. O mito social que mantém a sociedade unida
- diz Keynes, usando uma metáfora - é o «não-consumo do bolo». Antigamen
te, os trabalhadores eram coagidos pelo costume, pela convenção e pela autoridade
O Fim da Ideologia 67
a aceitar uma fração modesta da produção crescente do século dezenove, enquanto
os capitalistas, livres para consumir, consideravam «o dever da poupança como no
ve décimos da virtude, e o crescimento do bolo como objeto da religião verdadei
ra» . Assim, uma parte importante da produção era poupada, e destina ao investi
mento. Essa situação estava ajustada à realidade do século dezenove: uma popula
ção crescente, necessitada de alimento, roupa, abrigo e emprego; novas fontes de
alimentos e matérias-primas, que precisavam ser exploradas; e o rápido desenvolvi
mento da tecnologia, permitindo a instalação de novas indústrias. Em tais circuns
tâncias, os empreendedores podiam continuar fazendo bolos para não comê-los.
Mas, ainda segundo Keynes, isto se deu num período excepcional da história da
economia. Em 1920 o crescimento demográfico já tinha diminuído, as oportunida
des para novos investimentos escasseavam, e o espírito de empreendimento fraque
java . Talvez mais importante do que tudo isso, a poupança perdera sua função so
cial. A retenção habitual de uma parte considerável da produção deixara de ter
um efeito estimulante; levava agora , na verdade; a crises econômicas e à estagna
ção. Keynes não se preocupava com o aumento da pr_gdutividade do investimento;
este ponto foi abordado pelos seus discípulos. Seu prognóstico era o de que a eco
nomia se aproximava do estado de saturação, e o problema (que só o governo po
dia resolver) era manter com seus gastos a demanda efetiva.
Os escritos de Keynes, nos quinze anos que se seguiram, foram um esforço minucio
so para documentar essa análise. O mal a combater era a «virtude» burguesa da
«economia», e a tarefa intelectual da sua geração consistia em exorcizar aquele
fantasma. A grande obra de Keynes, a Teoria Geral do Emprego, do Juro e do
Dinheiro não foi apenas um tratado econômico, mas também um ataque
sociológico selvagem contra o «puritanismo ... que tem desprezado as artes da pro
dução, além das do prazer.»
Seu objetivo era a «eutanásia do rentier», que se beneficiava com um consumo livre
e sem embaraços, numa comunidade "quase estacionária" que não tinha o que fazer
com a poupança, porque não queria nem precisava desenvolver-se. Mas, como essa
revolução psicológica contra a poupança era díficil de executar, só uma força tinha
condições para garantir a movimentação do capital retido inutilmente, canalizando-o
de modo a reviver a atividade econômica - o Estado.
Com um só e ousado golpe, Keynes reintroduzia o estudo da economia j1olítica, que
para ele significava a formulação dos objetivos da coletividade, a serem definidos
conscientemente por meio de um consenso organizado (o interesse social); por
comparação, a «economia pura» estudava as «leis naturais» da distribuição, deter
minada, no mercado, pelo somatório das decisões individuais. O problema político
de como chegar a um consenso, e aplicar tais decisões, que levanta para nós muitos
aspectos difíceis relacionados com a burocratização e o poder, não perturbava
Keynes. Situando-se no centro do pensame11to político inglês, com seu sentido de
homogeneidade e uma imagem da «vontade comum encarnada na atividade política
do Estado», ele acreditava que . essas dificuldades podiam ser resolvidas de forma
simples e racional. Seu programa, «moderadamente conservador em suas implicações»
corno disse), não tocava o problema da propriedade dos meios de produção: segundo
1:,
il
'
68 Daniel Bell
ele, bastaria uma «socialização algo compreensiva do investimento» para manter o
nível de emprego(~')
(
A teo.ria da «superpoupança», que Keynes tinha proposto para combater a depres
são, foi aceita com entusiasmo pelos economistas norte-americanos mais moços,
tornando-se a concepção básica das investigações do Comitê Econômico Nacional
Temporário, e de muitas monografias do fim da década de 1930. A Teoria Geral
de Keynes era uma obra analítica; a Escola Norte-Americana quis acrescentar-lhe
uma dimensão histórica , como evidência adicional do perigo que representava a
«estagnação secular». A liderança desse esforço foi assumida por Alvin Hansen, que
resumiu esses dados e observações no seu livro mais importante, Fiscal Policies and
Business Cycles, de 1941.
Sua teoria, fundamentada largamente nas investigações estatísticas do economista
alemão Spiethoff, e do russo Kondratieff, afirmava que o século dezenove foi sin
gular no sentido de que uma série de fatores haviam coincidido para provocar uma
explosão industrial. Tínhamos chegado, dizia Hansen, ao fim de uma série de «on•
das de longo prazo», cuja força não se havia perdido. Entre 1840 e 1870, os Esta·
dos Unidos tinham sido impulsionados pela expansão das ferrovias; a primeira
parte do século vinte (1890 e 1930) tinha sido a era da eletrificação e do automó·
vel. Agora, porém, não era mais possível esperar que surgissem naturalmente «no
vas indústrias, igualmente ricas em oportunidade de investimento . . . » Outros fatores
tendiam também a criar a estagnação, entre eles a diminuição do ritmo de
crescimento populacional, o desaparecimento das últimas áreas inexploradas do
território e o crescimento da competição imperfeita e do monopólio que, protegen·
do os preços inibiam a introdução de novos equipamentos, que um processo com
petitivo teria estimulado.
Dentro do mecanismo operacional do próprio sistema capitalista, certas forças in•
ternas trabalhavam no sentido da «calcificação» da sociedade. Keynes não se preo·
cupara com a organização industrial, assunto que interessou a Hansen. Este afir•
mava que o aumento do tamanho das empresas era depressivo, porque as grandes
empresas tendem a acumular vastas reservas de depreciação, destinadas a repor seu
equipamento - reservas que não eram dispendidas imediatamente, e reduziam a
necessidade de crédito dessas empresas. Alêm disso, o desenvolvimento de máquinas
«com grande intensidade de capital» para substituir outras «com grande intensida
de de mão-de·obra» - o que representavam uma tendência de longo prazo para
reduzir a relação entre o capital e seu rendimento - , contribuíapara a acumula·
ção de capital ocioso. As conclusões de Hansen proporcionavam uma rationale pa-
(*) Na década de 1930 os socialistas eram mais dogmá ticos d o que Keynes. De vido à natureza da doutri
na econômica socialista, que se inclinàva por soluções radicais, os partidos socialistas nunca acreditaram
que seria possível ajustar o sistema capitalista, de modo a estabilizar seu funcionamento. Por isso . quan
do os socialistas foram obrigados a assumir o poder, na Alemanha e na Inglaterra , sua políticaeconômi
ca foi absolutamente ortodoxa. O Primeiro Ministro trabalhista Ramsay Macdonald naufragou nas
águas revoltas da crise econômica d e 1931, porque tinha sido convencido pelo Banco da Ingla terra que
era mais importante equilibrar o orçamento e deter a fuga de capitais do que ampliar a assistência go
vernamental aos desempregados. Na Alemanha, a política econômica socia lista respeitou inflexivelmente
o padrão ouro. Franklin Roosevelt, porém, em l 933 fez com que os Estados Unidos abandonassem o pa·
d rão ouro, e embargou a fuga de capitais, enquanto na Alemanha Hjalamar Schacht mostrava a Hitler
o modo como uma ampla intervenção governamenta l na economia, mediante obras públicas, e o déficit
orçamentário, podia eliminar o desemprego (Para um exam e deste problema, vide Adolf Sturmthal, The Tra
gedy of European Labor, Nova York, 1943.
O Fim da Ideologia 69
ra a política do «New Deal» de Roosevelt: intervencionismo estatal para pôr a fun
cionar o capital não utilizado, tentativas para quebrar os «monopólios», e uma pre
ferência pela economia de consumo elevado e mais baixo crescimento.
Essa, então, era a imagem do capitalismo em 1940: o capitalista era um velho mi
serável, sentado sobre um monte de ouro estéril, cujo peso prejudicava o funciona
mento da economia. Como parecia impossível para o sistema injetar na economia o
dinheiro necessário para assegurar o nível de vida e criar todo o emprego de que
era tecnicamente capaz, o governo teria que obrigar a essa utilização de recursos
ou então recolher dinheiro por meio de impostos para gastá-lo em projetos úteis.
II
O contra-ataque conservador se deu a propósito da "politização" da economia, co~
o livro de Frederick Hayek The Road to Serfdom. Hayek argumentava que a eco~
nomia do Jaissez-faire tendia para o equilíbrio, e que as crises eram provocadas pri"'"O
mordialmente pela interferência arbitrária do Estado no sistema econômico. ~
Querendo facilitar o pagamento das suas dívidas, e «fabricar dinheiro», os goverx:iosC:
e os bancos têm uma inclinação inflacionista que leva a uma expansão excess1vaz
do crédito, desviando a taxa ·de juros d~ sua função verdadeira de distribuir a pou-<
pança, encaminhando-a em parte para o consumo, em parte para o investimento.ÇB
Do ponto de vista de Hayek, o Estado não era o «comitê executivo» de uma classe§Q
dirigente, mas uma força burocrática independente (noção derivada de SchmoUer e i!
)fane Weber) que, pela sua natureza de Leviatã, colocava-se como um poder coer- ::O -citivo, contrário à liberdade. Por isso, qualquer política que fortalecesse o Estado O
se opunha ao liberalismo . O
O livro de Hayek foi recebido pela comunidade de negócios com alarido; os ho- l'TI
mens de negócios, contudo, apreciavam mais o título do que os remédios que pres- S'5!
crevia. Afinal, eles não estavam preparados para a completa eliminação das tarifas, ;;
dos preços administrativos e dos outros artifícios destinados a' reduzir a competição. e;)
De outro lado, os liberais, embora sensíveis em termos abstratos aos perigos do «es- ~
tatismo», não encontravam em Hayek mais do que velhos chavões, recusando-se a -e)
contestar as medidas de política social do governo em nome dos perigos da concen- >
tração do poder no Estado. Devido à utilização ideológica que se deu à sua obra,
tomou-se logo evidente que Hayek não era um adversário convincente do pensa
mento keynesiano. Com efeito, ninguém queria o "liberalismo econômico", a não ser
como um posicionamento ideológico.
Se havia um economista conservador com condições de enfrentar Keynes, e mes
mo talvez Marx, era Joseph Schumpeter. Seu livro Capitalism, Socialism and
Democracy, publicado em 1942, só foi notado por um pequeno círculo, tendo al
cançado repercussão mais ampla apenas em 1946, quando teve uma nova edição,
sob o peso cumulativo de quatro anos de ap. ~dação crítica. Na época da sua mor
re, em 1950, um considerável fluxo de exegese havia tomado corpo, e várias obras
anteriores de Schumpeter, inclusive ensaios coligidos, tinham sido editados sob for
ma de livro.
O contorno geral das principais proposições teóricas de Schumpeter já havia si
do formulado num livro de grande importância, The Theory of Economic De
q:Jopment, escrito em 1912, quando o autor tinha apenas 27 anos. Trinta anos
depois, essas idéias estavam maduras para merecer aceitação geral. Por um lado, o
mundo dos negócios estava vivendo, nos Estados Unidos, um tremendo surto de
~ utoconfiança, devido ao esforço prodigioso de produção feito durante a guerra.
70 Daniel Bell í
Escritores como Peter Drucker; e os editores de Fortune, davam-lhe uma nova justi-
ficativa - baseada, em primeiro lugar, no sentido de responsabilidade social e, de
pois, na descoberta de que, ao contrário do capitalismo europeu, o capitalismo
norte-americano tinha ainda muita força e dinamismo. Por outro lado, os intelec
tuais, assustados com as implicações do «estatismo» (que antes haviam aceito acríti
camente), e impressionados com a não ocorrência da recessão do pós-guerra, que
todos os economistas keynesianos tinham previsto com tanta segurança, achavam-se
cada vez mais desorientados e silenciosos.
Schumpeter era importante como guia intelectual porque argumentava sobre · a
mesma base que os keynesianos (e os marxistas) norte-americanos tinham imposto
como condições para o debate: não se referia ao problema d.a maximização da pro
dução, nas concJ.ições de perfeito equilíbrio e competição postulada pela economia
clãssica, mas a uma instituição social concreta - o capitalismo - funcionando nu
ma época histórica. Seu objetivo era compreender a organização social capitalista
pelo exame sociológico e histórico das condições em que tinha surgido, crescido e
começava a declinar. Por isso desprezava Keynes (como outros também o faziam)
que, a despeito das implicações radicais da sua obra, operava fundamentalmente
dentro de uma economia estática abstraída da história concreta. Keynes tratava de
«fenômenos cujo âmbito está limitado pela sua premissa de que as técnicas de pro
dução não se modificam». Para Schumpeter, o fato decisivo era justamente o de
que no sistema capitalista as técnicas de produção se transformam rapidamente.
A defesa schumpeteriana do capitalismo partia do fato de que a sociedade capita
lista se caracterizava por uma intensa expansão produtiva, que era contudo des
contínua. O redescobrimento da produtividade (e o conseqüente emprego ideológi
co desse conceito, para distinguir o capitalismo norte-americano do europeu, estáti
co) se deve em grande parte à ênfase fundamental dada à produtividade no livro
de Schumpeter. «A realização capitalista não consiste tipicam,ente em produzir
mais pares de meias de seda para as rainhas, mas em torná-las acessíveis às moças
que trabalham nas fábricas, em troca de um esforço de trabalho que diminui
progressivamente». Usando cálculos simples, Schumpeter mostrou que nos Estados
Unidos a renda vinha aumentando a uma taxa composta de mais de dois por cento
ao ano. Mas o · aumento da produtividade só era possível mediante a atividade dos
empresários - esses engenheiros das transformações sociais. Reduzindo os custos de
produção, abrindo novos mercados, criando produtos - em suma, por meio da
inovação - o empreendedor pode conseguir para si uma posição monopolística
temporária, que é a fonte dos seus lucros. O sistema capitalista só pode, continuar
se mantiver a recompensa do esforço deempreendimento; esse «privilégio de curto
prazo>) é o preço que as massas têm que pagar pela elevação dos níveis de vida, a
longo prazo assegurada pelo capitalismo.
O iconoclasmo de Schumpeter se estendia à defesa das empresas de grandes dimen
sões. A « bigness» era uma virtude, porque só as grandes empresas podiam gastar as
somas enormes requeridas pelas atividades de pesquisa (às vezes dispendidas inutil
mente) necessárias para o desenvolvimento tecnológico. Neste sentido, ela consti
tuía o preço social desse desenvolvimento.
Mas, e a Grande Depressão? Schumpeter não admitia que o período 1929-32 repre
sentasse uma interrupção decisiva no crescimento da produção capitalista. Ao con
trário do que pensavam quase todos os economistas, clássicos ou keynesianos, ele
aceitava tranqüilamente as depressões, considerando-as inevitáveis, e até mesmo te-
►
O Fim da Ideologia 71
rapêuticas, no processo de crescimento da economia. A estrutura da indústria é re
formada periodicamente por revoluções tecnológicas. «O processo capitalista eleva
progressivamente o padrão de vida das massas, não por coincidência, mas em virtu
de de mecanismos próprios. Isto ocorre por meio de uma série de vicissitudes, cuja
severidade é proporcional à velocidade do progresso realizado».
Qualquer processo de mudança produz perturbações; as depressões são um processo
normal de reajuste e deslocamento, uma «poda» do que é antiquado, marginal e
ineficiente. Para Schumpeter, a depressão de l 929 constituía um caso especial (de
vido à «velocidade do progresso» na década anterior, e porque representava o
esgotamento de uma «onda de longo prazo» do crescimento econômico), compará
vel apenas, em severidade relativa, à depressão de 1873-79. A recuperação tinha si
do mais lenta nos Estados Unidos do que na França, por exemplo, porque a nova
atmosfera social e a política fiscal , a partir de 1930, tinham limitado o investimen
to privado. De acordo com Schump.eter, o esforço para redistribuir a renda e au
mentar o consumo, por meio da política econômica, só tinha feito inibir o progres
so.
Contrariamente ao pessimismo de Hansen e de Keynes com respeito às possibilida
des de manter a economia em expansão, Schumpeter projetava a visão de novas
fronteiras: «As possibilidades tecnológicas são um oceano desconhecido». Poderiam
assumir a forma de grandes inovações numa «era da química», abrindo um novo
campo de inv~stimento que substituísse a eletricidade; ou então se apresentar como
uma multiplicidade de novos produtos, nenhum dos quais tivesse o impacto do au
tomóvel, por exemplo, mas que, coletivamente, estimulassem o crescimento da eco
nomia.
O futuro, porém, pertencia ao empreendedor. Com sua «teoria do empreendedor»
Schumpeter confronta Marx, Keynes e, de fato, toda a economia clássica. De acor
do com Marx, o crescimento econômico se devia ã acumulação de capital, que
procurava sempre novos canais de aplicação ; Keynes percebeu que a inclinação pa
ra poupar se havia tornado excessiva, afirmando que a demanda efetiva diminuiria
se não houvesse intervenção estatal para promovê-la. Mas Schumpeter negava a ba
se teórica da noção da «superpoupança» crônica, e sua resposta a Marx e a Keynes
se baseava na história. Para ele , a expansão industrial não se devia a um impulso
do capital , que a «empurrasse», mas sim ao empreendedor, que a «puxava». En
quanto a indústria é financiada tipicamente pelo sistema bancário, e pela expansão
do crédito, o empreendedor emprega «dinheiro de outras pessoas». Para obter re
cursos, de fontes antigas e pouco produtivas, ele se dispõe a pagar juros. Sua re
compensa é o lucro do empreendimento. Portanto, o progresso econômico não é
:estringido pelo excesso ou a insuficiência da poupança, ou mesmo pela incapaci
dade em que se encontrem os empreendedores de mobilizar poupanças, mas sim
plesmente pela falta de oportunidades que atraiam novos empreendimentos - em
husca de lucro. A função do governo, portanto, não é dirigir o investimento, como
;,ensava Keynes, mas sim encorajar os empresários .
.::. no entanto, afirmava Schumpeter paradoxalmente, a visão de Marx é correta : o
capitalismo está condenado; mas não pelos motivos indicados por Marx. O capita
rismo se decompõe porque sua mentalidade cria uma atmosfera social hostil ao seu
próprio funcionamento, e porque a burocratização da atividade dos negócios atro-t: seu impulso diretor - a função de empreendimento.
72 Daniel Bell
Paradoxalmente, é o êxito do capitalismo que vai destruí-lo. A cnaçao de uma «so
ciedade aberta» provoca demandas cada vez maiores, e expectativas que nem mes
mo o capitalismo pode atender. Afinal. mesmo nas circunstâncias ideais existentes
nos Estados Unidos, não é possível aumentar a produtividade mais do que 2 ou 3
por cento ao ano. Se a defesa do capitalismo se fundamenta nas suas realizações no
. longo prazo, a curto prazo são os lucros e as ineficiências que predominam, e que
municiam continuamente os críticos do sistema.
Na verdade, o próprio capitalismo promove a crítica que o ameaça. Diz Schumpe
ter: «O processo capitalista racionaliza o comportamento e as idéias, e assim espan
ta da nossa mente, com as crenças metafísicas, as idéias místicas e românticas de
todos os tipos .. . » A postura crítica criada por tal racionalismo não tem limites,
voltando-se contra todas as instituições, os costumes e tradições, contra toda a au
toridade, culminando logicamente na· criação do «intelectual». Este último é um
crítico e um utopista, que precisa de um herói. Ora, o capitalista avalia, em vez de
jogar - de uma forma muito pouco heróica. «O mercado de títulos», ironiza
Schumpeter, · "não substitui muito bem o Santo Graal". Deste modo o intelectual,
um produto do racionalismo capitalista, volta-se contra o sistema e infecta o resto
da sociedade com seu desapontamento .. De seu lado, o Estado, acompanhando a
têmpera anticapitalista da sociedade, promove leis que restringem o espírito empreen
dedor.
O sistema capitalista é ameaçado "de fora" e "de dentro". O empreendedor, responsá
vel pelas inovações, é substituído pelo «executivo», e a inovação sé transforma nu
ma rotina, à medida que a tecnologia se torna o trabalho regular de um grupo de
especialistas. O progresso econômico se despersonaliza; sem élan, decai «inevitavel
mente». Em suma, é a burocratização do capitalismo que o perde.
A atração que o pensamento de Schumpeter exercia sobre a antiga «esquerda» in
telectual é evidente. Ele era uma avis rara: um economista com um sentido trágico .
da vida. Além disso, sua doutrina tratava com generosidade os críticos do sistema
capitalista: o capitalismo era bom, mas se havia tornado impessoal e burocrático -
exatamente as acusações feitas ao sistema. Contudo, a visão de Schumpeter não nos
ajuda muito na tarefa simples e prosaica de compreender os problemas específicos
que defrontamos. No seu livro (que é brilhante), ele fala sobre o "capitalismo" , em
vez de falar - como Keynes - em «economias». Mas não se refere a sociedades
capitalistas concretas. Não foi fácil, assim, _ _notar que na sua análise Schumpeter se
lecionou a economia da indústria norte-americana e a sociologia da sociedade euro-
'péia, baseando na primeira sua justificativa do capitalismo, e na segunda seu prognós
tico apocalíptico.
Curiosamente, Schumpeter identificava o capitalismo com o «capitalismo fami
liar», interpretando seu dinamismo como o esforço de uma nova classe para con
quistar o poder e um lugar na sociedade. Da mesma forma, identificou o capitalis
mo norte-americano com os «homens novos» do século dezenove, recusando-se a
aceitar, em primeiro lugar, que a empresa moderna pudesse criar seus próprios in
centivos para o crescimento; e depois, que o governo, por uma série de razões (por
exemplo: a defesa nacional, suas responsabilidades sociais etc .) teria que preconi
zar necessariamente a expansão econômica.
Schumpeter era europeu demais para acreditarque o governo se pudesse tornar um
órgão auxiliar, ou mediador. Para ele, o Estado seria sempre uma força autônoma
O Fim da Ideologia 73
assumindo a direção da sociedade movido pelo impulso burocrático. Dentro dessa
perspectiva, sua previsão sobre o declínio do «capitalismo» é- consistente com as de
finições que utiliza. Schumpeter interpretou também a democracia e a hostilidade
dos intelectuais e dos trabalhadores contra o sistema capitalista à luz da tradição
européia. Nesse ponto, enquanto aprovava o racionalismo capitalista, exprimia
uma reação aristocrática contra a sociedade de massa. Com suas raízes filosóficas
no jeffersonianismo, e desenvolvendo-se sob a forma de uma sociedade multi
grupal, a democracia norte-americana pode ter efeitos sobre o capitalismo muito
diversos dos da democracia européia. É o que Schumpeter não viu - ou melhor,
não quis ver.
III
\
Para chegarmos a um quadro realista do que está acontecendo com a sociedade ca-
pitalista, precisaremos resolver as contradições inerentes entre a visão de Keynes e a
de Schumpeter. Os dois concordam em que o capitalismo tradicional está cedendo;
mas suas teorias sobre os motivos dessa transformação são tão divergentes que le
vam a receitas contraditórias, quando se trata de formular uma terapêutica salva
dora. Uma das virtudes do American Capitalism, de J. K. Galbraith, é o fato de
que ele formula problemas comuns a Schumpeter e a Keynes de forma mais prosai
ca, e em termos mais fáceis de manejar. (*)
Galbraith tomou como ponto de partida a atitude notavelmente medrosa de todos
os estratos da sociedade norte-americana a respeito do futuro do capitalismo
- num momento em que o instrumental produtivo se expande numa taxa que não
é inferior às mais elevadas já alcançadas em toda a história dos Estados Unidos. A
comunidade de negócios parece mesmerizada pela afirmativa de Marx de que o ca
pitalismo tem uma instabilidade intrínseca. Os gerentes industriais - como os eco
nomistas liberais - aguardaram um colapso econômico no dia da vitória sobre o
Japão, que pôs fim à Segunda Grande Guerra, e todos os anos que se seguiram.
Daí a política de estoques e dividendos limitados, visando acumular reservas finan
ceiras importantes. Tudo isso, lembra Galbraith, «numa época de produção e ren
das em níveis nunca antes alcançados». Os agricultores, e o Congresso, demonstra
ram a mesma preocupação. Durante os cinco anos que sucederam a guerra, embo
ra fossem «anos de euforia econômica, como poucos antes haviam sonhado», o
Congresso manipulava o sistema de preços mínimos e de subsídios aos agricultores.
Entrementes, os liberais se queixavam da concentração de poder econômico, que a
Segunda Guerra Mundial tinha pretensamente aumentado, e os conservadores invo
cavam visões terríveis do "Estado onipotente" reduzindo as liberdades e instalando
uma burocracia opressora. No entanto, comenta Galbraith, se todas essas profecias
fossem verdadeiras, depois de vinte anos de governo democrático há muito os con
servadores teriam sido afastados do poder, e os liberais transformados em simples
fantoches de uma sociedade de negócios.
= Como o modelo econômico keynesiano é essencialmente estático, e o mocwlo econômico schumpeteriano
e fundamentalmente histórico, uma conciliação exata dos dois é extremamente difkil. Schumpeter conside
ra,-a a "superpoupança" keynesiana como um "caso especial", demro do seu sistema.
Rece~tement~, _?-lg~ns econ<;>mistas ingleses, _especial~e!1te J. R. Hicks e R<?y Harrod, p~o~uraram pr_ojetar
~ sistema dmam1co a paru~ das preocupaçoes es~ncia1s de Keynes. U~a smtese dos dois ~tstemas tena que
~ ificar o tratamento keynesiano ela renda, produçao e emprego com a enfase schumpetenana no empreen
;:__.71enco, na inovação e no equilíbrio. Não se conseguiu ainda produzir uma síntese completa.
J
74 Daniel Bell
A verdade é que nenhuma dessas visões se aproxima da realidade atual. Por que,
então, essas idéias fixas, revestidas de ilusão e de insegurança? A resposta, segundo
Galbraith , está em que os dois campos «foram capturados por idéias que os levam
a ver o mundo com alarme e preocupações», idéias que decorrem do sistema de
economia clássica e da sua teoria do poder. Os economistas clássicos fundaram seu
sistema no medo da concentração do poder. A sociedade liberal tendia portanto à
difusão do poder. No campo da economia, concebia-se urna sociedade baseada no
mercado, onde os preços flutuavam em resposta à oferta e à demanda, os pro uto
res tinham a liberdade de operar livremente, etc. Assumia-se o corolário, b seado
em premissas econômicas deterministas, de que o mercado livre faz com qu os in
divíduos se comportem livremente.
Se se fragmentasse o poder econômico, o poder político também se manteria atomi
zado.
Naturalmente, a verdade é que o traço dominante da sociedade, nos setores de
produção mais importantes, é o oligopólio - isto é, o predomínio de uns poucos
produtores. Os preços são «administrados», em lugar de serem formados no merca·
do; as firmas menores seguem os preços impostos por essa liderança; o ingresso no
mercado é muito difícil, etc. Diante dessa concentração de poder econômico, os li
berais a consideram um perigo, e procuram destruí-la.
A principal afirmativa de Galbraith, acompanhando Schumpeter, é que o oligopó
lio (que se reconhece existir) tem poucas das conseqüências temidas pelos liberais: é
um aspecto natural, quase inevitável, da economia de alto investimento; não resul
ta de conspirações, mas do funcionamento normal do mercado. À medida que a
indústria se expande, as empresas também crescem, beneficiando-se da eficiência
técnica implicada na produção em grande escala, e da «economia da experiência».
Os novos competidores precisam mobilizar capital, enfrentar os problemas trazidos
pela falta de pessoal habilitado, etc. Em todos os setores industriais chega-se em
poucos anos a uma situação oligopolística; uma vez atingido o equilíbrio , o grau de
concentração permance estável, corno demonstrou M.A. Adelman num estudo so
bre o assunto (Review of Economic Statistics, novembro de 1951): «Se tem havido .
alguma tendência forte e contínna para aumentar o grau da concentração na in
dústria de manufaturas . . . isto não é o que mostram estas estatísticas».
Se examinarmos o que se passa à luz da teoria pura da formação de preços, o re
sultado poderá ser uma certa distorção e ineficiência na distribuição dos recursos.
Vamos encontrar uma compensação, porém, no progresso tecnológico promovido
pelas grandes empresas: «admiravelmente equipadas para financiar o desenvolvi
mento técnico. Sua organização oferece fortes incentivos para esse desenvolvimento,
e para a utilização dos seus frutos . ... O poder que a empresa tem de influenciar
em certa medida os preços garante que os ganhos auferidos não serão transferidos
ao público por imitadores, (que não tiveram que pagar o custo da nova tecnolo
gia), antes desse custo ser recuperado. Desta forma o poder sobre o mercado prote
ge os incentivos ao desenvolvimento tecnológico». Na agricultura, os fazendeiros
praticamente não fazem investimento direto em pesquisa: a tarefa é confiada às es
tações experimentais dos Estados, e ao Departamento da Agricultura do governo
federal.
Eis af uma defesa vigorosa e sofisticada da «bigness», baseada no critério da eficá
cia. Contudo - e este é o ponto em que Galbraith procura explicar por que os ho
mens de negócios e os liberais estão aprisionados por velhos fantasmas - os
J
O Fim da Ideologia 75
homens de negócios não podem admitir seu poder. "Isto se deve em parte à tradição; é
também o problema de chamar a atenção do público e da seção antitruste do Departa
mento da Justiça. Por isso, a fim de justificar sua indisposição de acatar a regulamen
tação federal, precisam negar que exercem qualquer tipo de poder econômico: preci
sam manter a ideologia da competição".
O outro fantasma é o dos liberais: o espectro do poder empresarialdesenfreado,
apossando-se «dos pontos elevados da economia». Com efeito, é em resposta ao
pensamento liberal que Galbraith desenvolve sua teoria do «poder compensatório»
("countervailing power"), expressão que com sua simplicidade imaginativa cristaliza urro
sentimento de muitos observadores a respeito da sociedade. ~
Esse sentimento tinha sido sintetizado, de um modo geral, na imagem dos « blocos-o
funcionais» - a indústria, a organização trabalhista, os agricultores - que se con-5:i
frontam e equilibram. O ponto de vista de Galbraith é mais sutil na sua caracteri
zação. «Para explicar o que acontece de forma dogmática, ... o poder econômico~
privado é controlado pelo poder compensatório (countervailing·power) dos que es-<
tão sujeitos a ele. Um gera o outro. A tendência de longo prazo para a concentra- l1
ção do setor industrial em relativamente poucas firmas provocou o surgimento não~
só de vendedores vigorosos, como os economistas esperavam, mas também, de fortes~
compradores - o que eles não previram». A auto-regulação do mercado, nos Esta-~
dos Unidos, deriva hoje não da competição dos produtores (um campo onde predomi- Õ
na o oligopólio), mas do contrapoder dos compradores e dos vendedores, surgido au- -,
tonomamente. m
Esta teoria tem aplicação mais evidente no setor das relações trabalhistas, onde CD
apareceram sindicatos vigorosos, opondo-se ao crescimento do poder das empresas =o
na determinação dos salários. Mas ela se aplica também a outros campos. Por~
exemplo: os compradores de grandes cadeias, como Sears Roebuck, puderam evitar t:io
o controle oligopolístico dos preços da borracha mediante compras maciças; ame a· t~
çando ingressar no setor do processamento de alimentos, o grupo A & P conseguiu
manter baixos os preços dos alimentos que ~dquiria. «Nos Estados Unidos não há
cooperativas de consumo de importância», escreve Galbraith, «porque as lojas em
cadeia se anteciparam à manifestação do poder compensatório, ficando com as
vantagens respectivas»: São os fabricantes de automóveis que controlam os produto-
res de aço. Em alguns casos, os poderes que se deveriam opor mutuamente entra
ram em conflito, disso resultando uma queda de eficiência econômica.
Essas valências econômicas se desenvolveram na década de 1920, quando compra
dores se uniam contra vendedores. Como certos grupos - por exemplo, os agricul
to~e , e os trabalhadores de modo geral - não foram capazes de gerar esse
equi 'brio, o Estado se viu obrigado a intervir no caso dos agricultores; este esforço
foi i iciado por Hoover, cuja Junta Agrícola Federal (Federal Farm Board) patroci•
no a instituição de um sistema nacional de cooperativas. Em termos gerais, contu
do, foi o "New Deal" que promoveu o countervailing power dos grupos de menor·
influência. A partir desta teoria - a substituição da competição pelo «poder com•
pensatório" como instrumento regulador do poder econômico privado -, Gal
braith procura estabelecer um critério para a ação do Estado, não mediante a re
gulamentação, ou mesmo o desmantelamento dos trusts, mas por meio do desenvol
vimento do countervailing power, onde necessário.
Em todos esses pontos, Galbraith desenvolveu com habilidade uma teoria realista
da economia política, mais ajustada a um mundo de gigantes econômicos do que a
76 Daniel Bdl
velha economia da competição. No entanto, Galbraith é bastante keynesiano para
perceber que isso não basta. · «Não temos nenhum mecanismo que atue de modo
autônomo, dentro da economia, para assegurar seu bom funcionamento; a expe
riência demonstra, melancolicamente, o que a teoria nos indica: que a norma da ·
economia norte-americana, em tempos de paz, não é necessariamente a estabilida
de num nível elevado de produção e de emprego». Há necessidade , portanto, de al
guma forma de decisão governamental centralizada, na área da política fiscal,$e
influencie a demanda total de bens por meio da tributação ou do orçamento públi .o.
"Se a fórmula keynesiana funciona, desaparece o último dos motivos de alarme is
importante com respeito ao capitalismo noste-americano".
Mas o livro de Galbraith falha num aspecto sociológico crucial, pois não chega a
responder à pergunta que formula : por que razão tanto a comunidade de negócios
como a esquerda estão presas à descrição de uma realidade que não existe mais?
Por que razão o mito é mais importante do que a realidade?
Responder, como faz Galbraith, fornecendo um retrato mais acurado da realidade
é o mesmo que afirmar a um neurótico que seus temores são infundados; é possível '
que eles não tenham fundamento, mas a resposta não convencerá o neurótico até
que se descubram as origens do seu medo.
Sociologicamente, é possível que o fato mais importante sobre a comunidade de ne
gócios nos Estados Unidos, atualmente, seja a insegurança da classe gerencial. A
empresa pode ter sua continuidade assegurada; seus administradores, não. Esta é
uma das conseqüências do desaparecimento rápido e marcante do «capitalismo fa
miliar», e da sua transformação em «capitalismo empresarial», ou «corporativo». À
nova classe de gerentes, recrutados na classe média, falta o sentido de auto
justificação que proporcionava o sistema antigo, com suas bases de classe. Os ge
rentes não participam da propriedade das empresas, e não podem transmitir aos fi
lhos o poder que adquirem. Daí a necessidade crescente de realização, como sinal
de sucesso profissional, e a importância que atribuem à ideologia como um meio
de se jusúficarem. É a ideologia que serve como cimento social, unindo os homens de
negócios.
Como os novos gerentes são inseguros, e têm uma atitude defensiva a respeito do
seu status, sentem fortemente a necessidade de guardar as antigas justificativas do
capitalismo - baseadas na propriedade privada - , que são, num certo sentido, as
únicas justificativas que conhecem. Só recentemente, com a ênfase na produtivida
de e no rendimento, estão surgindo outras justificativas. Paralelamente ao movi
mento da «propriedade» para o «controle», na organização dos negócios, tem havi
do uma transferência de simbolismo, do «patrimônio» para o «empreendimento».
Ao mesmo tempo, a mudança do eixo do poder, do campo econômico para o
político, dâ força à necessidade de manter um sistema de justificativas - o modelo
competitivo do capitalismo - , · acentuando a importância do sistema de poder des
centralizado e minimizando a função interventora do Estado. Pois se o governo en
fatiza a significação que tem para a sociedade, por razões de segurança ou sociais ,
as postulações da empresa em termos de prioridades sociais (isenção de impostos,
subsídios, etc.) passam a ocupar uma posição secundária.
Essas razões se aplicam fundamentalmente aos gerentes. Entre as firmas de tama
nho médio - uma proporção maior das quais são predominantemente negócios de
família - hã outros fatores. O próprio caráter amorfo da sociedade, o surgimen•
to de novos e ameaçadores grupos de interesses, a emergência de movimentos so-
O Fim da Ideologia 7'1
ciais e de ideologias aumentam a ansiedade das pessoas que outrora dispunham de
algum poder, dentro do seu pequeno universo, e que agora se sentem expostas ãs
correntes mais fortes da sociedade.
A falta de forma da sociedade propõe um problema, igualmente, para os liberais.
Na última década, ou, mais precisamente, desde o início da economia de guerra,
os liberais não tinham partilhado do poder, pelo menos no mesmo grau dos primei
ros dias do «New Deal». A sociedade política parecia agora uma escultura móvel
um móbile de Calder, mantendo um equilíbrio difícil e irregular, à medida que
seus componentes oscilavam movidos pelos ventos da mobilização geral para a guer
ra. Com muita freqüênciá as decisões cruciais (por exemplo, a distribuição de con
tratos governamentais e de quotas de suprimento de matérias-primas) são decisões
técnicas, motivadas pelo simples desejo de comandar os recursos disponíveis com a
maior agilidade possível.Mas o sentido das decisões técnicas não é reconhecido por
todos, e é mais fácil imaginar que haja alguma razão oculta, ou poder determinan
te, por trás de cada uma dessas decisões.
Daí as compulsões sociais entre grupos diferentes, para negar a nova realidade do
«countervailing power».
Mas o sistema de pesos e contrapesos da sociedade moderna, tanto no seu aspecto
econômico como no político, está sendo também prejudicado pelas guerras e a in
flação. O poder compensatório funciona dentro de um quadro de relativa escassez
da demanda - isto é, quando o comprador goza de uma certa influência. Em con
dições inflacionárias, quando prevalece no mercado o vendedor, o comprador fica
desprotegido, e o preço imposto pelo vendedor é transmitido ao mercado. É a guer
ra, principalmente, que provoca a ameaça da inflação. E a combinação das duas
- inflação e guerra - levanta o maior dos perigos ao capitalismo hodierno,
definido e justificado como um sistema de decisão econômica descentralizado,
porque tende a centralizar o poder no Es~ado, a fim de compensar o desapareci
mento do poder compensatório na sociedade. A decisão pelo Estado, por via admi
nistrativa, ou pelas grandes empresas, se torna então o principal método para a
' distribuição de recursos e a tomada de decisões de produção e consumo na econo
mia, em lugar do «racionamento» realizado no mercado.
Curiosamente, Galbraith evita quase completamente os problemas causados pela
economia de guerra permanente. O «socialismo insidioso» ( « creeping socialism »),
de que os republicanos se queixam tão amargamente, resulta não de um plano
ideológico deliberado, mas da resposta mal consciente da sociedade ao desafio
~
r sentado pela guerra. A mais importante transformação ocorrida na economia
dos Estados Unidos, na última década, foi o crescimento do orçamento federal. De
ca a dólar gasto em 1953 pelo governo norte-americano, 88 centavos se destinavam
~ defesa nacional e ao custeio de guerras passadas; a previdência e assistência so
cial, saúde pública, educação, . habitação e bem-estar participam, em conjunto,
com apenas 4 por cento do orçamento federal. Um governo republicano não tem
condições de alterar de modo apreciável o volume total dos dispêndios governamen
tais; pode apenas, por meio da política tributária, influenciar a distribuição do
ônus dos impostos. Assim, a decisão econômica mais importante - o montante · do
orçamento - numa economia de guerra fria, está fora do alcance da influência da
· comunidade de negócios, ou de qualquer outro grupo de interesse, isoladamente.
O grau de liberdade existente numa economia capitalista - e o desenvolvimento
do countervailing power - depende do grau de mobilização necessário para en-
78 Daniel Bell
frentar a demanda da guerra . Embora algumas empresas e grupos mais poderosos
possam obter vantagens especiais, as principais características da organização do
sistema impõem uma técnica lógica que não deve ser ignorada.
Uma economia totalmente voltada para a guerra implica a coordenação minuciosa
de diversos bens e serviços que só podem ser obtidos por matérias-primas básicas,
por exemplo, como uma programação pormenorizada destinada a controlar literal
mente o funcionamento diário da empresa. Numa economia industrial modern , a
sociedade toda funciona na base da «contagem de parafusos». As exigências t'cni
cas do planejamento direto são tão minuciosas que no caso do níquel, por exe plo
(um dos «parafusos» mais importantes, durante a guerra da Coréia), a PA
(National Price Administration, órgão encarregado de fixar preços em todo o aís)
. era forçada a autorizar o fornecimento da quantidade precisa de níquel usada em
cada lingote produzido.
Pode ser que a economia de guerra «total» seja um mito. Sabemos, por exemplo,
como era pouco eficiente e até caótica a economia de guerra alemã, na Segunda
Guerra Mundial; e sabemos como o nosso próprio planejamento industrial de guer
ra gerou tremendo desperdício. Mas uma economia de · defesa nacional demandà
um grau considerável de planejamento e direção - ainda que disfarçados. E a «e
conomia em prontidão», que se torn~u um traço básico da nossa sociedade, tira a
relevância do problema que agitou os liberais durante tantos anos: saber se a mara
vilhosa produtividade da economia norte-americana podia ser dirigida plenamente
para atividades de paz. Com efeito, no futuro previsível, teremos sempre orçamen
tos amplos e dispêndios importantes com a «defesa nacional».
Mas, pondo à parte a questão da defesa nacional, a experiência desde o fim da
. guerra demonstra o aumento da resistência da economia aos choques. A experiên
cia dos primeiros anos do pós-guerra é instrutiva. De um máximo de 135 bilhões de
dólares, em 1944, os gastos governamentais desceram em 1946 a apenas 25 bilhões.
Contudo, a despeito dessa contração da demanda, a produção total do país caiu
só em 15 por cento. A demanda reprimida dos consumidores, a necessidade de re
fazer estoques e a expansão industrial neutralizaram a redução dos gastos públicos.
No princípio de 1947, quando a venda de bens de consumo chegou a se entorpecer
- tecidos, sapatos, roupa - , os economistas voltaram a se manifestar com. pessi
mismo, mas o Plano Marshall, para a reconstrução européia, e um surto de
contrução residencial, logo criaram compensações.
Os motivos dessa «resistência» de nossa economia são bastante claros. Os subsídios
agrícolas e uma certa redistribuição de renda (por meio da p revidência social, pa
gamentos aos veteranos de guerra etc.) assegura um nível mínimo de demanda.
Têm havido, por outro lado, mudanças significativas no funcionamento das
empresas: durante 1946-48, as empresas reinvestiram 62 por cento dos seus lucros
(descontados os impostos), índice que se compara com os 31 por cento em 1929, ou
41 por cento três anos antes da guerra . Ao contrário do que diziam as profecias si
nistras dos demógrafos, a taxa de nascimento começou a aumentar, restabelecendo
assim um dos principais fatores do crescimento regular da economia na segunda
parte do século dezenove (Alvin Hansen baseou sua teoria da estagnação secular
principalmente na queda da taxa de crescimento demográfico).
São esses os fatores estruturais de efeito positivo. Do outro lado da balança, novos
elementos de instabilidade estão sendo introduzidos na economia, quase sempre por
forças políticas compensatórias. Setores industriais antiquados usam pressões políti-
p
O Fim da Ideologia 79
cas para manter suas fábricas sem equipamento adequado. Os níveis salariais ten
dem a ser «pegajosos» (isto é, não respondem imediatamente à influência da de
manda pe]o trabalho), de forma que os preços não podem ser reajustados, ou redu
zidos, com facilidade - e os empregadores podem tender em certas circunstâncias
a cortar a produção. A pressão pela aquisição de bens e serviços cria uma tendên•
cia inflacionária de longo prazo, que marginaliza segmentos significativos da socie
dade, compostos por trabalhadores assalariados ou rentiers.
Mas o governo, inevitavelmente, é que mantém o equilíbrio. Estamos chegando a
um ponto em que cerca de 20 por cento do produto nacional bruto, ou da renda
nacional, é absorvido e gasto pelo governo. Mediante pagamentos fiscais muito sim
ples (impostos e subsídios) o governo dispõe de mecanismos diretos para injetar di
nheiro na economia, e para extrair do fluxo econômico os recursos excessivos (em
bora politicamente isto seja mais difícil). Esse nível elevado do orçamento federal é
determinado - e continuará a ser determinado no futuro previsível - pela nature
za das tensões internacionais e pelo endividamento passado do governo. É difícil
conceber que qua]quer governo possa reduzir o orçamento abaixo dos vinte por
cento implicado pela mobilização permanente da economia.
Os notáveis avanços que Keynes e Schumpeter nos proporcionaram, na compreen
são da economia, e a síntese parcial feita por Galbraith dão um quadro maisabrangente da sociedade contemporânea. Contudo , embora essas realizações inte·
lectuais sejam extraordinárias, elas estão vinculadas, também (resultando, como re
sultam, do rigor da lógica econômica) , à estrutura analítica específica das variáveis
econômicas (isto é, os postulados do investimento e do consumo); como componen
tes da teoria econômica (embora a excedam na sua percepção prática), são força
das a desprezar o lado político da economia. No entanto, esses aspectos poBticos
são atualmente os mais importantes.
Com efeito, o problema principal é um problema de economia política. Do ponto
de vista técnico, dispomos de propostas econômicas para a organização da produ
ção, o controle da inflação, a manutenção do· pleno emprego, etc. Mas as propos
tas políticas não são tão fáceis, numa sociedade composta de grupos de interesses,
como é a nossa.
No longo prazo, não é possível evitar os problemas trazidos pela distribuição dos
ônus e a natureza dos controles empregados. As exigências «estatizantes» de uma
economia parcialmente dedicada à guerra, com seus imperativos técnicos, se cho
cam com a atitude antiestatizante dos administradores de empresas. O primeiro go
verno republicano dos Estados Unidos, em vinte anos, não é capaz de alterar dras
ticamente o rumo dos gastos governamentais, embora represente essa mentalidade
antiestatizante. A situação internacional impõe os mesmos imperativos a de
mocràtas--e-a--1'ê'publicanos, e a situação de «guerra parciah leva o governo a exer
cer um papel de controle e domínio sobre a economia. A verdadeira \}Uestão
política interna passa a ser, então, decidir que grupos arcarão com o peso das obri
gações adicionais impostas pelas circunstâncias.
A reabilitação intelectual do capitalismo norte-americano está sendo completada ao
mesmo tempo em que a realidade muda rapidamente. As ideologias mais recentes
se tornam antiquadas, e exigem novas revisões muito antes de serem compreendidas
e aceitas em larga escala.