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1 lá uma Classe Dirigente nos Estados Unidos? 
Reexame da «Elite do Poder» 
O poder é um assunto difícil de ser estudado. Seus efeitos podem ser ob1rrvado1 
melhor do que suas causas; mesmo os que têm poder muitas vezes não sab<-m qual• 
os fatores que influenciaram suas decisões. As conseqüências do poder são m11l1 rr 
l'ratárias ao controle - e à predição - do que as de qualquer outra forma dr 
nunport.amento. O livro de C. Wrigh Mills, A Elite do Poder (The Pmo,•r J,.'U/,:), r 
uma das poucas obras da sociologia contemporânea que estuda o «mundo d• c·au 
Halidade», em vez de se limitar a uma simples discussão metodológica, porqur J>ro 
cura localizar as fontes do poder numa constelação de elites identificável. Jt al~m 
disso, um livro político, cuja textura plástica e cuja retórica levam 1,r.111011 
diferentes a reencontrar . nele suas próprias emoções; para os jovens n<!omuxhll'II 
ingleses, como para os velhos marxistas ortodoxos da Polônia, tornou-se uma 1pret• 
scntação propedêutica para a compreensão da política dos Estados Unido11, O qur 
não deixa de ser curioso, porque Mills não é um marxista, e é mesmo antimarxi1t1 
nas suas conclusões e no seu método. Contudo, como tem uma visão dara, 11rm 
subterfúgios, e desmascara as ilusões ingênuas e populistas sobre o poder, foi u·rltn 
prontamente pelos radicais. 
A Atmosfera e a Intenção 
) 
A atmosfera do livro - e de quase toda a obra de Mills sugere·uma r.xplint~lu 
para tal receptividade. Ao escrever sobre as relações trabalhistas (The N,•w Mrn oi' 
Power), os empregados em escritórios, e agora sobre a «elite do poder,., Mil11 11r ­
guiu o modelo de Balzac, preparando o que Balzac chamava de étude de moru1·1 
··- um estudo de costumes, a «comédia» da moralidade. Encontraremos, nrlr, 
aliás, algo do método de Balzac, que procurava conciliar os descobrimento• d1 
ciência com a poesia, provocando efeitos visuais com a concentração de pormrnor~• 
factuais. É o que faz Mills, que toma muitas estatísticas e as reveste com mctáfor111 
iradas. 
Temos aqui, contudo, mais do que uma simples analogia estilística. Balzac vlvru 
numa época muito parecida com a nossa: um período de rebelião, . em que antiao• 
costumes eram questionados; uma época de mudanças de classe, em que a mohill• 
dade vertical passava a ser possível pela primeira vez. Certos heróis de Balzac. 
(Louis Lambert, Rastignac e, mais do que todos, Vautrixi - um descendente cola• 
\ 
l>,11111•1 Ili-li 
teral de Macheath, da lkggar's Opcrn de John c;ay) conwçam corno indivfduos cm 
movimento, buscando um lugar na sociedade, e terminam odiando a sociedade 
burguesa que descobrem. Sua posição é de quem a vê de fora; seu mundo (o sub­
mundo de Vautrin é a contra-sociedade, simétrica ao mundo superior, como acon­
tece com o submundo de Bertold Brecht, em Three-Penny Opera) está construído 
sobre a premissa de que a moralidade pública, seus, modismos e ideais são uma 
fraude. É curioso notar que Mills cita com aprovação as palavras de Balzac: «Por 
trás de toda fortuna há um crime», que considera um julgamento válido igualmen­
te para o mundo de hoje - porque Mills, também, vê a sociedade de fora. 
No entanto, não obstante o impulso emocional que está na sua origem, o livro de 
Mill~ é moldado por influências intelectuais mais diretas: Veblen , cuja retórica e 
ironia ele copia; Weber, no que respeita ao quadro da estrutura social (não de 
classes, mas de ordens verticais, ou Standen); e, de modo mais crucial, Pareto (não 
pela sua definição de elite, que é muito diferente da de Mills, mas pelo método). 
As dívidas a Veblen e a Weber são conscientes; a dívida a Pareto, provavelmente 
não. No entanto, pode-se sentir o mesmo desprezo pelas idéias, e a rejeição de 
qualquer sentido operativo que a ideologia possa ter no exercício do poder. Inter­
pretando o poder como uma «combinação de ordens» subjacente, Mills avança em 
termos metodológicos, paralelamente ao caminho percorrido por Pareto, que via 
os grupos sociais como «combinações de resíduos». Isto leva, a meu· ver, a uma 
abordagem estática, aistórica, a despeito do dinamismo retórico.(*) 
Na verdade, The Power Elite não é uma análise empírica do poder nos Estados 
Unidos, embora muitos leitores tenham interpretado suas ilustrações, erroneamen­
te, como tal; é apenas um esquema para essa análise. Um estudo do seu argumento 
nos mostrará , creio, como é um esquema confuso e insatisfatório. 
O Argumento 
Pode-se examinar o livro de Mills à luz de um esquema alternativo ("*); mas, antes 
de mais nada, é necessário fazer uma análise do texto: identificar os principais ter­
mos usados, ver em que medida são usados consistentemente, relacionar a evídên­
cia com as proposições formuladas, para testar a coerência do argumento. Trata­
se, portanto, de um exercício de hermenêutica. 
O argumento, que est.á desenvolvido no capítulo inicial do livro (os outros capítu­
los são sobretudo ilustrações de valor desigual, e não o desdobramento ou a de­
monstração da. tese), oscila em torno do problema principal - saber como o poder 
(*) Meus mestres, neste particular, são Dewey e Marx. O primeiro, pela insistência em começar não por 
uma estrutura (o hábito), mas por problemas: com perguntas sobre por que algo está sendo questiona­
do, por q111· as coisas estão mudando, e q111· fizeram as pessoas envolvidas. O segundo, pelo inter­
relacionamento do poder e da ideologia; pela ênfase na história. nas crises -- interpreladas como mo· 
mentas de transformação - na política como atividade que tem raízes em interesses concretos, e que se 
desenvolve sob a forma de estratégias que podem ser determinadas. 
(**) Veja-se um desses esquemas alternativos no ensaio de Talcott Parsons «The Distribucion of Power in 
American Society», World Politics, outubro de 1957, Vol. X. n? l. Parsons argumenta que para Mills o 
poder é um concei~o secundário, distributivo, num j~go de ~orna zer~, que focaliza quem dispõe do po­
der. Parsons organiza sua análise em torno do ob1envo funcional ou mtegrativo do poder, voltado para 
a ordenação da sociedade. Ül!tro ponto de vista, avançado por Robert S. Lynd no simpósio editado por 
Arthur Kornhauser Problems of Power in America Democracy (Wayne State Press , 1958) é o de que o 
P.oder é uma força positiva que assegura certos valores em beneficio da sociedade. 
e, 1'1111 cl" hlPHlt1al1 
t- r11r1, leio . dr l'on1111 11 1lrlK111 o lrilm prqtll'Nn, 11111 li 11r11;1111Nl 1111 lxw r lll'l"rNd 
1111 l1u.r1 11lwu;1111N dln~l'lrN l1111w11N, qur diMl'lllc11111 11 r111111•lt,llo 11111• 11Ro i111ll•11r11•A 
vrl 11 (111cluN aN dt11t,·l'lr11 11110 d11 rdkno dr 1 %li cln C l11l111il l l11lv1'.111l1,y l'rr1111, dr ,Nov11 
\'oik; 011 1rrd1os tml itálko, a 111\0 ser quando rxprr1111111111•111r 111d1n1do, uno lnnm1 
,11hli11haclaN pelo aut:or). 
MUl11 <1firma que, dentro da sociedade norte-am<"rin111a , o pod<·r nacional r11tA •110· 
111 1,ríncipalmcnte «nos domínios econômico, polftico e militar». E continua: • A 
111111lf'ira de compreender o poder da elite norte-americana não consiste nem t•xdµ­
•ív111ncnte no reconhecimento da escala histórica dos acontecimentos nem na acrl 
1 
111..-110 de testemunho pessoal das pessoas que aparen~mente tomam as ded■õl'I, ' 
t•or trás dessas pessoas, e dos acontecimentos históricos, ligando-os, estão as in1tl· 1 
111ições principais da sociedade moderna. Tais hierarquias governamentais, . e mlll, 
111rcs, constituem meios de poder; nessa qualidade, têm hoje uma importância 1r.m 
iJ,Cual na história da humanidade - e, nos seus pontos culminantes, são hok OI 
postos de comando da sociedade moderna que nos oferecem a chave ~ociológica PI· 
1a compreendermos o papel dos círculos superiores dos Estados Umdos». (pá!(. l'I) 
l'arece, portanto, que o poder, para ser poder, significa controle sobrc •• 
i11stituições do poder. 
«Quando dizemos «poderosos» queremos dizer, naturalmente, aqueles que slo CI• 
pazes de executar sua vontade, mesmo quando outros resistem. 
Assim, ninguém pode ser genuinamentepoderoso a não ser que tenha acesso ao co• 
mando das instituições mais importantes, pois é antes de mais nada mediante e11c,1 
meios institucionais que os verdadeiros poderosos têm poder» . (pág. 9) 
Só umas poucas pessoas participam do poder: 
«Por elite do poder queremos referir-nos àqueles círculos políticos, econômico• l' 
militares que participam de decisões com conseqüências pelo menos nacionais, for• 
mando um conjunto intrincado de cliques que se superpõem. Na medida em qu, 
os acontecimentos nacionais são o fruto de decisões, é a elite do poder qu~ OI 
decide. (pág 18). . · . . ) 
Embora essa elite tome as decisões de importância, não «faz a h1stóna» do seu tem­
po. Uma «elite do poder» não é - afirma Mills (pág. 20) - uma teori~ da_ hiató• 
ria; a história é uma rede complexa de decisões intencionais e não intenc1ona1s. 
«A idéia da elite do poder nada implica sobre o processo decisório como tal; é uma 
tentativa de delimitar as áreas sociais em que se passa aquele processo, qualqunr 
que seja o seu caráter. É uma concepção sobre quem está envolvido no proceuo•, 
(pág. 21) 
Contudo, algumas decisões históricas são tomadas: 
«No nosso tempo vem ó momento crucial em que círculos limitados decidem, ou 
deixam de decidir. Num caso como no outro, eles constituem uma elite do po• 
der ... » (pág. 22) 
Então a elite do poder faz a história? Algumas vezes, ela determina os papéis, rm 
outras é determinada (págs. 22-25): a posição de Mills é evidentemente contradltó 
ria. De fato, se a elite do poder não faz a história, por que se interessar tanto por 
ela? Em caso contrário, parece que estamos diante de uma interpretação simpll1t1 
da história. Por fim, o problema é resolvido: ·• .. 
«Não foi a necessidade histórica, mas um homem chamado Truman que, com al• 
gumas outras pessoas, decidiu lançar uma bomba sobre Hiroshima. Não foi a n1• 
( 
44 Daniel Bell 
cessidade histórica, mas uma discussão, dentro de um círculo limitado, que rejeitou 
a proposta do almirante Radford. de enviar tropas à Indochina antes da queda de 
Dienbienphu.» (pag. 24) 
Se extrairmos o resíduo de todas essas oscilações, chegaremos ao seguinte: um pe­
queno número de pessoas (um grupo menor do que nunca), ocupando posições de 
importância no governo, na vida econômica, e nas corporações militares, possuem 
um conjunto de responsabilidades e de poderes de decisão com conseqüências 
maiores do que nunca na história dos Estados Unidos. Ora, isto não é muito. 
Mas o que encontrou eco, no livro de Mills, foi menos o argumento do que a retó­
rica; neste sentido, há uma série de termos operativos de importância crucial: 
instituições (substituído livremente por domínios, círculos superiores, cliques supe­
riores), poder, postos de comando e decisões de importância. É o emprego político 
desses termos que dá persuasão ao livro. Qual o significado dessas p rincipais quali ­
ficações do termo elite? 
Os Termos 
a) Elite. Este termo é empregado com uma variedade de significados. Algumas vezes 
denota «participação em grupos · com características de clique», ou «a moralidade 
de certos tipos de personalidade», ou ainda «a presença de valores seledonados», 
tais como riqueza, posição política, etc. Uma só vez, numa longa nota na página 
366 (entre outras notas), Mills tenta explicitamente remediar a confusão criada 
pelo uso variado da sua terminologia, dizendo que define as elites primordialmente 
na base da sua «posição institucional». Mas, que quer dizer isso? 
b) Instituições, domínios, etc. Por trâs das pessoas e dos acontecimentos, ligando­
os, afirma Mills, estão as principais instituições da sociedade: militares, políticas e 
econômicas. No entanto, the military, the eco:r,omic e the political, como o autor 
emprega esses . termos, não são instituições, porém setores, ou o que Weber 
chamava de ordens (hierarquias verticais da sociedade) , cada uma com seus strata. 
Afirmar que um determinado setor (ou ordem) é mais importante do que um outro 
que em certas sociedades, por exemplo, as ordens religiosas são mais 
.importantes do que as políticas - é trabalhar dentro de limites excessivamente 
latos. Seguramente precisamos e queremos saber mais do que isso. 
Expressões como «os militares», ou «a direção política» são excessivamente vagas, 
sendo difícil caracterizar a que correspondem. As instituições derivam sempre de 
códigos de conduta particulares, definidos, que modelam o comportamento de 
grupos específicos de pessoas que, implícita ou explicitamente, sentem lealdade pa-
. ra com aquele código, e estão sujeitas a determinados controles (ansiedade, culpa, 
vergonha, expulsão do grupo, etc.), no caso de violarem suas normas. Se a conside­
ração importante do poder é onde as pessoas recolhem seu poder, precisaremos en­
tão de formas mais particularizadas para identificar essses agrupamentos. «Ordens 
institucionalizadas», «domínios» , «círculos» , etc., não serão suficientes. 
c) Poder. Falta ao livro, curiosamente, uma definição da palavra «poder». Só em 
dois lugares, de fato , temos limites prescritos para o seu uso: «Por poderosos enten­
demos, naturalmente, aqueles que são capazes de executar sua vontade, mesmo 
que outros lhe resistam» (pág. 9). «Toda política é uma luta pelo poder: e a moda­
lidade final do poder é a violência» (pág. 171). 
p 
O Fim da Ideologia 45 
É bem verdade que a violência, como disse Weber, é a sanção última' do poder, e 
que em situações extremadas o controle dos meios de violência pode ser decisivo 
para tomar ou manter o poder. No entanto, o poder não é a força inexorável, im­
placável, granítica que Mills, e outros, afirmam ser. Foi Merriam que disse, certa . 
vez: «O estupro não evidencia um poder irresistível, nem no sentido sexual nem no 
político». Por outro lado, será legitimo dizer que toda política é uma luta pelo po­
der? Não haverá ideais que são objetivos políticos? E se os ideais podem ser trans­
formados em realidade por meio do poder (embora nem sempre), isto não significa 
que eles temperam a violência da política? 
Na terminologia de Mills, o poder é domínio. Não é necessário, porém, uma expo­
sição elaborada para mostrar que esse entendimento do poder evita mais problemas 
do que resolve - especialmente se nos afastamos do caso limite do poder como 
violência, pois o que nos interessa (e a Mills) é o poder institucional#ado. De fato, 
dentro da sociedade - especialmente nos regimes constitucionais - , e dentro de · 
associações, onde a violência não é regra, vivemos no reino das normas, dos valo­
res, das tradições, da legitimidade, do consenso, da liderança e da identificação -
todas as formas e mecanismos de comando e autoridade, sua aceitação ou rejeição, 
que modelam as atividades do mundo quotidiano, sem violência. Mas Mills despre­
za esses aspectos do poder. 
d) Os postos de comando. Considerando-se a imagem que Mills tem do poder (e da 
política) como violência, é bastante . significativo que a metáfora empregada para 
descrever as pessoas que exercitam o poder seja uma metáfora militar, o que -pode­
mos interpretar corpo uma "pista" para o esquema implícito do autor. Contudo, 
tratando-se de pouco mais do que uma simples metáfora, quase nada nos informa 
sobre quem tem o poder. Segundo o autor, os homens que dispõem do poder são <>S 
que administram as organizações ou domínios que têm poder. Mas, como podemos 
saber que eles têm poder, ou que poder eles têm? Na verdade, Mills postula sim­
plesmente que: 1) a organização ou instituição tem poder; e 2) determinadas posi­
ções ocupadas em tais organizações ou instituições dão poder a quem as ocupa. 
Corno sabemos disso? De fato , só podemos saber se o poder existe pelo que as 
pessoas fazem com o poder de que dispõem. 
Que poderes têm as pessoas, que decisões toma~, como as tomam, que fatores pre­
cisam levar em conta para tomá-las - todos esses pontos entram na questão desa­
ber se uma posição pode ser transformada em poder. Mills declara: «A idéia da eli­
te do poder nada implica sobreo processo decisório como tal - é apenas uma ten­
tativa de delimitar as áreas sociais dentro das quais se realiza aquele processo, 
qualquer que seja seu caráter. É uma concepção sobre quem está envolvido pelo 
processo" (pág. 21). Ficamos, assim, sem saber quem depende das posições. Mas 
estas, conforme demonstrei, só são significativas se se pode definir o caráter das de­
cisões tomadas com · tal poder: um problema que Mills não aborda. 
Mills afirma, também, que quer evitar o problema da autopercepção dos detento­
res do poder, ou o papel dessa autopercepção em suas decisões: «O modo de com­
preender o poder da elite não é reconhecer a escala histórica dos acontecimentos, 
ou a percepção pessoal relatada pelos que parecem tomar as decisões». (pâg. 15) 
Mas, se a elite do poder não faz a história (pág. 20), conforme implicado por Mills, 
qual é então o significado da posição dos membros dessa elite? Ou eles podem to­
mar decisões efetivas ou não. É verdade que há quem cante e acredite que fez o sol 
·ili 
)! 
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'i 
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1 
J 
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1 
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J 
46 Daniel Bell 
nascer, como O galo da estória; mas se tal poder não passa de uma ilusão, este é 
também um aspecto da significação do poder. 
e) As decisões de importância. A elite do pode~ ~orna. as ~e~isões de importâ~ci~ 
(«big decisions»). Na verdade, temos aí uma defm1ção 1mphc1ta do p~der _da el~te. 
s6 ela pode afetar essas «big decisions». Os que falam de um novo equ1líbno so~1al, 
0 
pluralismo, ou O aumento da importância dos trabalhadores estão falando, amda 
que de forma adequada, sobre os «níveis intermediários» do poder, mas não perce-
bem as verdadeiras «decisões de importância». 
Curiosamente, porém, Mills deixa de especificar essa_s decisões, a não ser em _uns 
poucos casos. Essas exceções (nunca analisadas no que se refere a como as decisões 
foram tomadas efetivamente ou quem as tomou) são cinco em número: os passos 
que levaram à intervenção norte-americana na Segunda Grande Guerra; a decisão 
de lançar a bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki; a declaração de guerra na 
Coréia;. as indecisões sobre Quemoi e Matsu, em 1955; a hesitação com respeito à 
intervenção na Indochina, quando Dienbienphu estava a ponto de cair. 
t marc.ante (e coerente com a concepção que Mills tem da política) o fato de que 
essas «big decisions» est~o relacionadas com a violência. Trata-se, é verdade, de de­
cisões definitivas: o empenho ou a recusa de fazer a guerra. Neste sent.ido, Mills 
tem razão - são decisões de importância. Mas é também marcante, na f?rma ,:iua­
se superficial com que ele examina essas decisões, a incapacidade de ver que elas 
não são tomadas pela elite do poder; são decisões que, dentro do nosso sistema, ca­
bem constitucionalmente ao indivíduo que precisa assumir a responsabilidade por 
tais escolhas - o presidente da República. Em vez de isto representar uma usurpa­
ção do poder do povo, por assim dizer, este é um dos poucos casos previstos na 
Constituição em que tal responsabilidade é definida clara e especificamente. Como 
é natural, o Presidente fará consultas a outras pessoas. E nos exemplos citados por 
Mills, o Presidente fez essas consultas, Richard Rovere preparou uma análise mi­
nuciosa (publicada em Progressive, de junho de 1956) das decisões mencionadas 
por Mills, rejeitando a idéia de que uma «elice do poder» (da maneira como ele à 
entende) esteve realmente envolvida. Além do Presidente, poucas pessoas participa­
ram de tais decisões: no caso d~ bomba atômica, Stimson, Churchill, e alguns físi­
cos; na questão da Coréia, um pequeno grupo, com opiniões divididas - como 
Acheson e Bradley; quanto a Quemoi e Matsu, a decisão foi especificamente de 
Eisenhower; no caso de Dienbienphu houve a participação de um grupo mais am­
plo (militares e o Gabinete) - no entanto, a «elite do poder», definida estritamen­
te, era favorável à intervenção, mas Eisenhower . decidiu sozinho contra o envio de 
tropas, principalmente (segundo Rovere) pelo peso da opinião pública. 
Pode ser que decisões críticas como essas deveriam ser confiadas a umas poucas 
pessoas. Mas, a não ser que tivéssemos um sistema de iniciativa e ·referendum popu­
lar, como proposto em 1938-39 pela emenda Ludlow, ou que se re~rganizass~ a es­
trutura política do país para acentuar a responsabilidade dos partidos pelas deci­
sões governamentais, é difícil entender o que Mills está criticando. Dizer que os 
lfderes de um pafs têm a responsabilidade constitucional de tomar decisões cruciais 
é fazer uma assertiva trivial. Afirmar que há uma elite do poder que toma tais de­
cisões é dar a essa afirmativa um peso, e uma carga emocional, impressionantes - mas 
com reduzida significação objetiva. 
p 
O Fim da Ideologia 47 
~4 Questão dos Interesses 
Até aqui aceitamos as expressões «postos de comando» e «elite do poder», na acep­
ção que Mills lhes atribui. Agora, porém, surge uma dificuldade: a questão de sa­
ber não só quem participa da elite do poder, mas a coesão que tem essa elite. Em­
bora Mills declare que não acredita numa «teoria conspiratória», a forma pouco 
precisa como fala a respeito da centralização do poder na elite se aproxima bastan­
te de uma teoria desse gênero. Estamos diante de algo como The Iron Heel, o qua­
dro da oligarquia norte-americana pintado por Jack London, que tanto influenciou 
o pensamento e a imaginação dos socialistas, antes da Primeira Guerra Mundial . 
Contudo, só podemos avaliar o significado de qualquer centralização do poder na 
base do que as pessoas fazem com o poder que têm. Que é que as une? Que é que 
as divide? Isto nos leva a uma definição dos interesses envolvidos. Dizer, como afir­
ma Mills, que todos os meios de poder tendem a se transformar em objetivos para 
a elite que os comanda. Por esta razão definimos a elite do poder em termos dopo­
der - como as pessoas que ocupam postos de comando» (pág. 23) é propor um 
círculo vicioso. 
Que significa dizer que o poder é um fim em si mesmo para a elite do poder? Se 
~a elite tem suficiente coesão, e tem que enfrentar outro grupo de poder, então 
sim, a manutenção do poder pode ser um fim. Mas, terá a elite suficiente coesão? 
~ão poderemos sabê-lo sem antes retornar ã questão dos interesses. E a natureza 
desses interesses implica uma seleção de valores por um grupo - ou parte de um 
grupo - contra outros, o que leva à definição de privilégios particulares, e assim 
por diante. 
Certamente não pode haver uma elite do poder, ou uma classe dirigente, sem comunida­
ú de interesses. 
É o que está implicado nas palavras de Mills: o interesse da elite é a manutenção 
do sistema capitalista como sistema; esse é um pont9 que não chega a ser realmen­
:e discutido ou analisado em termos da significação do capitalismo, o impacto dos 
controles políticos sobre a sociedade e as transformações do capitalisiho nos últimos 
\inte e cinco anos. 
~ias, mesmo que esse interesse seja tão amplo quanto impli6ado por Mills, não se 
pode escapar à responsabilidade de identificar as condições necessárias para a ma.­
nutenção do sistema, os temas e interesses envolvidos. Além disso, . precisamos verifi­
car se há ou houve uma continuidade de interesses, a fim de determinar o grau de 
coesão da elite, o crescimento e declínio de grupos particulares. 
Um dos principais argumentos sobre a importância dos post~s de comando é a cen­
tralizáção crescente do poder, que implicaria algo acerca da natureza dos interes­
ses. Nó entanto, o livro quase que não examina as forças que levain à centraliza­
ção: elas são presumidas, e estão presentes o tempo todo, mas nunca de forma 
explícita. Mas só um exame prolongado dessas tendências poderia, a meu juízo, 
descobrir os pontos de localização do poder, e seus deslocamentos. Por exemplo: a 
função da tecnologia e dos custos crescentes de capital como fatores deter~inantes 
do tamanho das empresas; as forças que atuam na federalização do poder - como 
as exigências de regulamentação e planejamento em escala nacional devidoao. 
incremento· das comunicações, a complexidade da vida, ó serviço militar, os servi­
ços sociais e a administração da economia pelo governo; o papel das relações inter­
nacionais. Curiosamente, a União Soviética não é sequer mencionada no livro, 
48 Daniel Bell 
embora nosso comportamento seja influenciado em larga escala pela conduta sovié- · 
tica. 
Como o livro focaliza quem possui poder, Mills faz um esforço considerável para 
identificar as origens sociais das pessoas preeminentes. Mas, numa explicação já no 
. fim do livro (págs. 280-87), diz que a concepção da elite do poder não se baseia em 
origens sociais comuns (tema subjacente à noção schumpeteriana do crescimento e 
· declínio das classes), ou em relações de amizade, mas (embora tal presunção não 
seja explicitada) na «posição institucional» das pessoas. Essa proposição não toca o 
aspecto mais importante: os mecanismos de coordenação que atuam entre. às que 
dispõem de poder. Pode-se dizer, obliquamente - como afirma Mills - , que essas 
pessoas «se encontram», mas isto nos diz muito pouco. Se existem situações institu­
cionais em que cada posição se junta a outras, quais são elas? Poder-se-ia dizer 
com Mills) que a nova exigências governamentais demandam um aumento do re­
crutamento nos grupos externos para ocupar posições de importância.(*) Neste ca­
so, porém quais são esses grupos - e o que representam? 
A certa altura, Mills afirm~ que os democratas fizeram seu recrutamento em de­
terminadas ·-firmas (Dillon, Read), e os republicanos em outras (Kuhn, Loeb). 
Mas esse ponto não chega a ser esclarecido, e é difícil saber o que o autor quer di­
zer. Pode-se alegar, igualmente, que ao recrutar seus conselheiros científicos, os de­
mocratas preferiram Chicago e Los Alamos, e os republicanos, Livermore; · mas, se 
isto significa algo (e penso que sim), é necessário examinar as conseqüências desse 
recrutamento diverso nas ações das pessoas envolvidas. Mills tem o hábito de desen• 
volver sua exposição até o ponto onde a análise deve começar - e pára aí. 
O fato mais extraordinário sobre a política exterior norte-americana - a área de 
poder mais crítica - , tem sido a falta de coordenação entre os militares e os diplo· 
matas, e o fracasso de uns e outros em pensar politicamente. Pode-se exemplificar 
com a descoordenação havida nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, e com 
as decisões impolíticas dos generais norte-americanos, que tiveram conseqüências 
incalculáveis para o equilíbrio do po1er na Europa do pós-guerra. Ao contrário da 
União Soviética, os Estados Unidos subordinavam todas as questões políticas a obje­
tivos militares imediatos. Temerosos de que a União Soviética viesse a dominar a 
Europa depois da guerra, os ingleses estavam ansiosos, nos últimos meses do confli­
to, para que os exércitos aliados cruzassem o mais rapidamente possível a planície 
da Alemanha Setentrional, até Berlim - de modo a chegar à capital do Reich an­
tes dos soviéticos, ou pelo menos participar de sua captura. No entanto, para o co­
mando norte-americano Berlim era um objetivo secundário. 
Foi o general Marshall, chefe do Estado-Maior Geral, que declarou: «As vantagens 
políticas e psicológicas que poderiam 1esultar da possível captura de Berlim antes 
dos russos não devem prevalecer sobre o imperativo militar representado, em nossa 
opinião, pela destruição e o desmembramento das forças armadas da Alemanha". 
(*) Um ponto teórico fundamental para os marxistas, que Mills, surpreendentemente nunca abor• 
~ª• é ª. questão da fonte últ~ma do poder. Serão autônomos «diretores políticos» do paí:? Serão os mi­
luares md~pendente~?. Se assim é, por que razão? Qual a relação entre o poder econômico, de um la· 
~o, ? polfuco e o m1hta~ d~ outro? Mills afirma: «Na medida em que hoje é um Estado ampliado, e mi• 
htanzado, .~ue dá uma md1cação estrutural da elite do poder, essa indicação se torna evidente nos altos 
escalões militares. Os ~hefes militares adquiriram uma relevância política decisiva, e a estrutura militar 
ê ª~º:ª• em grau conSiderável, wna estrutura política» (pág. 275). Neste caso, que dizer da outra pro­
posiçao fu?damei:ital do autor, de que nos Estados Unidos o sistema capitalista não mudou essencial­
mente? (Vide, adiante, a seção sobre "A Continuidade do Poder"). 
O Fim da Ideologia 49 
Ray S. Cline comenta, em Washington Command Post: The Operations Division 
,·olume que integra a história oficial da participação do exército norte-americano 
na guerra}, a falta de uma «coordenação sistemática da política externa com o pla­
nejamento militar», e a hesitação dos diplomatas norte-americanos, mesmo no ou­
rono de 1944, «a respeito da política externa do seu país no referente à rendição e 
j ocupação da Alemanha». E o Pentágono, que é considerado geralmente como o 
frio «cérebro» da política externa norte-americana, rejeitou, na negociação relativa 
à ocupação de Berlim, uma sugestão inglesa no sentido de que houvesse um corre• 
dor territorial ligando a Alemanha Ocidental a Berlim, alegando que a União So· 
riética era um aliado, e que portando tal corredor parecia desnecessá_rio. 
_..\ Imagem Européia 
Como explicar esta imagem do poder e da política nacional em termos das inten­
;5e5 de grupos semiconscientes de pessoas ocupando lugares fixos na sociedade? O 
:aro peculiar é que, embora Mills retire todas as suas ilustrações da vida norte­
.i.!Ilericana, recolhe os conceitos principais de que se utiliza de experiência européia -
::s:o e."l{plica, a meu ver, o atrativo exótico (e o astigmatismo) da noção de "elite dopo­
~··.( :::) 
?:;,r exemplo: depois de definir a política e o pod~ em termos da sanção úl­
::i:ma - a violência - , Mills propõe uma questão provocante: por que razão aque· 
:,CS que dispõem dos meios de violência (os militares) não consquistaram o poder 
rom maior freqüência no Ocidente? 
Por que motivo a ditadura militar não constitui uma forma mais «normal» de go­
~o? 
A resposta está no papel atribuído ao status. «Prestígio com honra, e tudo o que is­
:o implica, tem sido a retribuição dos · militares pela sua renúncia ao poder ... » 
;,rág. 174) 
Ora, na medida em que essa observação é verdadeira, ela se aplica primariamente 
i Europa, onde os militares criaram um código de honra, que procuram respeitar. 
fü muitos livros, escritos por europeus, que estudam esse código, e alguns autores 
~opeus o satirizam (como nas peças de Schnitzler, por exemplo) . 
.Mas, podemos ·aplicar tais conceitos aos Estados Unidos? Excetuados os oficiais da 
Marinha, quando os militares norte-americanos foram control'ã°'dos pelo seu -~entido 
~ honra? Na verdade, os militares nunca chegaram a ter poder (ou status) na so­
àedade norte-americana por várias razões, muito diferentes: a noção original do 
~cito como milícia popular; a imagem populista do oficial - visto muitas vezes 
:amo um «herói»; o recrutamento «democrático» de West Point; a relutância em 
Keitar o recrutamento obrigatório; a avaliação desvantajosa da profissão militar, 
.:omparada com as atividades «rendosas»; a forte tradição civilista, etc. 
• Trata-se de um problema difícil, que tem distorcido uma boa parte do pensamento sociológico nor­
~ ·.i.!:lericano. Na década de 1930, os intelectuais dos Estados Unidos esperavam sempre que o desen• 
:✓:~-.imento social do seu pais acompanhasse inevitavelmente o da Europa - especialmente no que se­
~~e ~o surgimento do fascismo. Em larga medida essa expectativa resultava de uma espécie de marxismo 
:i:::e.:::a.ruco, para o qual toda a atividade política refletia as crises econômicas, e que postulava uma série de eta­
~ .:omuns de evolução social, que todos os países deveriam percorrer. 
bct 1948, Harold Laski e~crevia: •A história dos Estados Unidos deveria, a despeito de tudo, seguir o 
~o geral da democra''Cia capitalista européia» (Harold Laski, The American Democracy, Nova 
-2'.k, l?-48,. pâg. 17). E ~m observador brilhante como Joseph Schumpeter misturava, com mão pesada, 
• . ~êncta _norte-am~n~anacom conceitos europeus, em Capitalísm, Socialism and Democracy, para 
~ a predições pcss1m1stas. 
50 Daniel Bell 
Estã claro que Mills sabe disso. Mas, se a «honra» e a · «violência» não são muito 
.significativas no passado norte-americano, por que conceitualizar o problema mili­
tar nesses termos, como categorias gerais, quando na vida do país ele não se apre­
senta assim? A não ser que Mills· admita, como muitos intelectuais da década de 
1930, que os Estados Unidos seguirão a experiência européia. 
O autor caiu numa pequena cilada, ao falar em prestígio, afirmando: «Todos os 
que alcançam êxito nos Estados Unidos - qualquer que\seja seu círculo de origem 
ou esfera de ação - provavelmente se deixam envolver no mundo das celebrida­
des». E, mais adiante: «Com o desenvolvimento da economia sob forma empresa­
rial, a ascensão do estabelecimento militar e a centralização do Estado ampliado, 
surgiu a elite nacional que, ocupando os postos de comando, assumiu os refletores 
da publicidade, submetendo-se a uma promoção intensa. Os membros da elite do 
poder são celebrados por causa das posições que ocupam e das decisões que 
tomam». (pá~: 71) 
Ora, por celebridades Mills quer dizer os nomes que não precisam ser identificados 
perante o público. Contudo, as relações entre celebridade, prestígio, status e poder 
serão tão diretas quanto o autor acredita? Seguramente encontraremos, na vida 
norte-americana, celebridades e glamour, componentes necessários, ou concomi­
tantes, não de uma elite, porém de uma sociedade de consumo de ·massa. 
Uma sociedade engajada no comércio requer esse sistema de atrativos e apelos. 
Mas, por que presumir que as posições de poder envolvam as pessoas nesse sistema 
de atrativos? Por outro lado, não creio que o público, mesmo sofisticado, identifi­
casse prontamente os nomes dos presidentes das dez maiores empresas da lista das 
500 maiores de Fortune; dos principais membros das corporações militares; e dos 
membros do Gabinete. 
A confusão se origina, aqui também, na maneira irrefletida como Mills emprega 
conceitos europeus de prestígio, mais tradicionais. Nas hierarquias próximas do sis­
tema feudal, o prestígio se identifica com a honra e a deferência: os que têm poder 
podem pretender a honra e a deferência. É o que acontecia na Europa. Mas, é 
também o que acontece nos Estados Unidos? Quando Harold Lasswell procurou pe­
la primeira vez usar a deferência como um símbolo de importância, ele já não pa­
recia genuíno. Mills substitui o glamour e a celebridade pela deferência, com o 
mesmo fim. Entretanto, o poder implicará hoje a imediata glorificação e celebra­
ção do nome? É duvidoso que na sociedade do consumo de massa as noções de ce­
lebridade, glamour, prestígio e poder tenham as conotações sugeridas por Mills, ou 
que . estejam,interligadas. 
A História e as Idéias 
Se nos interessarmos pelas mudanças na fonte e no estilo do poder ou na sincro­
nização e centralização do poder - teremos que examinar essas questões sob o 
ponto de vista histórico. No entanto, a não ser em um ou dois casos, Mills ignora a 
dimensão histórica do problema. Numa passagem ele menciona a divisão da histó­
ria norte-americana em períodos segundo critérios que substituem o poder político 
pelo poder econômico - o que é vago demais para ter algum sentido. Em outra 
passagem (a única vez em que examina concretamente as transformações sociais em 
termos históricos), cita uma estatística interessante: 
«Em meados do século dezenove - entre 1865 e 1881 - , só 19 por cento das pes­
saos no estrato superior do governo tinham começado sua carreira política ao nível 
O Fim da Ideologia 51 
nacional(*); mas entre 1905 e 1953 cerca de uma terça parte dos membros da elite 
política tinham iniciado sua carreira -naquele nível; no governo do Presidente Eise­
nhower esse índice subiu para cerca de 40 por cento - um recorde em toda a his­
tória política dos Estados Unidos». (pág. 229). 
~lesmo nos seús próprios termos, é difícil avaliar o sentido exato desse argumento 
- além do fato de que há mais problemas centralizados em Washington do que 
nos Estados da federação, razão pela qual um número maior de pessoas são recru­
tadas diretamente para trabalhar na capital (decerto há uma explicação bem sim­
ples para boa parte desses fatos). Durante a Segunda Grande Guerra, dev.ido à deman­
da de especialistas, e à necessidade de fortalecer a unidade nacional, unn 
maior número de pessoas vindas da província foram recrutadas para postos no Ga;;:> 
binete e no Poder Executivo, de modo geral. Em 1952, como os republicanos ti~ 
nham estado fora do governo durante vinte anos (havendo portanto um menor nú~ 
mero de republicanos com carreira feita no Serviço Público), podem ter trazido pa- .n 
ra Washington uma proporção maior de «forasteiros». ::= 
e;::, 
É interessante notar, na utilização dessas estatísticas, a distorção metodológica exis-::; ._ 
tente. Ao usar esses dados, e variáveis como nível nacional, presume-se que um tipo 11 
diferente de recrutamento revela diferenças no caráter das pessoas que ocupam po- ·Js 
sições de poder, e que portanto o caráter da sua política deveria também ser dife- ~~ 
rente. Os comentári~s de Mills parecem implicar i_sto, mas nu'?ca ch~g~m a d:s~n- !ii 
Yolv:r este P_?nto alen_i da observação de que, hoJe, o forasteiro pol~t1co (pol1t1cal :5 
oucs1der) esta em posição ascendente. Mas, como .contrametodolog1a, parece-me . ., 
que não se deveria começar este exame pelo recrutamento ou as origens sociais, 1-rn 
mas sim pelo caráter da política. Alguma coisa mudou na política? Em caso afir-
l;) 
:nativo, o que, e por quê? Deve-se essa mudança a diferenças no recrutamento (di- :OJ 
:crenças de classe e étnicas) ou a alguma outra razão? Se formulássemos perguntas ~ 
teríamos- que começar co~o um exame de idéias e temas, e não das origens sociais. -~ 
-" 
lias o autor se desinteressa completamente pelas idéias e temas, pelo menos neste ~ ---. .e) 
ponto. As questões que o interessam são: de que maneira mudaram as posições es- "? 
:ratégicas, e que posições aumentaram de importância? As mudanças de poder são 
riscas em grande parte como uma sucessão de posições diferentes. À medida que 
diferentes posições estruturais ou inconstitucionais (militares, econômicas e políti-
::as) se combinam, diferentes graus de poder vão se tornando possíveis. A circula-
ção da elite (como _Pareto chamava a mudança de composição dos grupos, com 
«resíduos» diferentes) se transforma numa sucessão de posições institucionais. 
lias, como aplicar esses conceitos às pessoas? São as pessoas determinadas pela 
posição que ocupam (em seu caráter, seus valores e idéias)? Em caso afirmativo, de 
que maneira? ,1\1ais ainda: interpretar a história política como uma transferência da 
posição de poder das «instituições» (em vez de grupos de interesses concretos, ou 
clas.5es) é interpretar a política de forma extraordinariamente abstrata; é ignorar as 
mudanças que ocorrem nas idéias e nos interesses. Essa é uma das razões por que 
){ilJs pode minimizar, como o faz, todo o período de vinte anos da história do 
«Sew Deal» e do «Fair Deal». Para ele, esses vinte anos foram notáveis apenas 
porque · incrementaram as tendências centralizadoras das principais «instituições» 
!OC:iais, especialmente as políticas. 
* Isto é , em outras cidades da nação, fora da capital federal (N. do Trad.) 
52 Daniel Bell 
Esse desinteresse, e rejeição das idéias e ideologias, encontra paralelo na explicação 
dada por Pareto às transformações sociais na Itália: o socialismo italiano seria uma 
simples alteração nas «derivações» (isto é, as máscaras ou ideologias), sem que hou-
vesse mudado a combinação básica de resíduos. (N~ 1704)30 
Com efeito, as mudanças de temperamento, do nacionalismo para o liberalismo, e 
para o socialismo, refletiam alterações na distribuição dos resíduos da classe II. 
Portanto, as transformações ocorridas na classe política significavam simplesmente 
a circulação de tipos sócio-psicológicos.Todas as ideologias e postulações filosóficas 
não pàssavam de máscaras «para simples objetivos de conveniência partidária no 
debate» . Não eram nem verdadeiras nem falsas, mas «simplesmente desprovidas de 
sentido.» (N~ 1708) 
Da mesma forma, para Mills as mudanças de poder são' mudanças na combinação 
de posições constitucionais que, p~esumivelmente, constituem a única realidade sig­
nificativa . 
«Com a exceção da Guerra Civil (onde essas mudanças não se efetivaram), as mu· 
ganças no sistema _de poder dos Estados Unidos não _implicara.m desafio~ importan­
tes a legitimações fundamentais... As alterações na estrutura de poder norte­
americana foram provocadas geralmente por deslocamentos institucionais na po­
sição relativa das ordens política. econômica e militar». (pág. 269) 
Desta forma, as extraordinárias mudanças na vida norte-americana no conceito 
de propriedade, controle empresarial, responsabilidade de governo; a mudança de 
têmpera moral provocada pelo «New Deal» - todas essas .transformações são «re­
duzidas» a deslocamentos institucionais. Não terá havido então desafios a legitima­
ções fundamentais na vida política dos Estados Unidos? Até que ponto tem sido 
contínuo o sistema de poder norte-americano? 
A Continuidade do Poder 
Na sua análise política, Mills é influenciado por Pareto; na sua imagem do poder 
econômico, ele é um marxista «vulgar»: 
«A história social recente do capitalismo norte-americano não mostra qualquer hia- · 
to na continuidade da classe capitalista superior ... Nos últimos cinqüenta anos, na 
ordem política como na econômica, houve uma notável continuidade de interesses, 
representada pelos tipos de dirigentes da economia que protegem e promovem esses 
interesses ... ». (pág. 147) 
A despeito da linguagem vaga, a única coisa que se pode dizer é que uma resposta 
a essa proposição se baseará não em argumentos lógicos ou metodológicos, mas 
empíricos. No segundo capítulo deste livro, sobre o desaparecimento do capitalismo 
familiar nos Estados Unidos, procurei mostrar qual seria essa resposta. Nos últimos. 
setenta e cinco anos as relações estabelecidas entre a família e o sistema de 
propriedade (que para Malthus representam as «leis fundamentais» da sociedade) 
se alteraram completamente. · O que levou também ao desmantelamento do «capi­
talismo familiar», que constituía o cimento social da classe burguesa. 
Referindo-se ao controle econômico, Mills. pinta um quadro ainda mais extraordi­
nário: 
«As empresas mais importantes não são um conjunto de gigantes, esplendidamente 
isolados; el;\S se têm mantido unidas por meio de uma associação explícita, dentro 
dos respectivos setores de atividade e das regiões respectivas, bem como mediante 
O Fim da Ideologia 53 
organizações de tipo da NAM (Associação Nacional da Indústria), que unificam os 
gerentes e os outros membros da elite empresarial. Desta forma, poderes econômi­
cos estreitos se traduzem em poder de classe, abrangendo toda uma indústria; po­
deres que são usados, em primeiro lugar, na economia - por exemplo, frente às 
organizações sindicais; em segundo lugar, politicamente, no desempenho de um pa­
pel importante na esfera da política. E os pontos de vista do «big business» são di­
fundidos entre os pequenos homens de negócios.» (pág. 122) 
Eis aí uma afirmativa de tirar o fôlego, mais ampla do que qualquer outra que en­
contraremos na teoria dos Spi_tzenverbande («associações de pico»), de Robert 
Brady, no seu Busines as a System of Power. É óbvio que há uma certa coord_ena· 
ção das grandes empresas; mas a unidade e a perfeição desse esforço, como Mills o 
vê, são fantasiosas. Aliás, o autor não nos oferece provas que consubstancierri sua C) 
afirmativa. Os fatos, na verdade, apontam para outra direção : as associações co- ~ 
merciais têm declinado nos Estados Unidos - durante a guerra elas tiveram ~~ 
importância como meio de assegurar a representação da indústria nos conselhos go- e 
vernamentais. A NAM tem perdido força, tendo recebido uma participação cada í.l't 
vez menor dos seus membros. E a indústria se divide a respeito de uma ampla ga- e..:: 
ma de temas, incluindo relações trabalhistas (por exemplo, as grandes companhias 
siderúrgicas e automobilísticas têm sido atacadas pela General Electric, e por 
outras firmas, por aceitarem a concessão de benefícios suplement.ares de desempre-
go - os s.u.b.). ~.1 
~;t:,­
Mills se refere à participação propriamente política das empresas. Cabe perguntar :XJ 
contra quem se reúnem os membros da elite do poder, e em torno de que proble- 5 
mas políticos. Só -me ocorre um assunto que poderia unir as grandes empresas r-;.: 
norte-americanas: a política- trjbutâria. Em quase todos os outros elas têm posições iV:. 
divergentes: no relacionamento com os sindicatos, por exemplo. Há choques impor­
tantes entre elas nas áreas dos seus interesses específicos, em que as ferrovias, as 
empresas de transporte aéreo e rodovi~rio disp:utam vantagens entre si. Ou entre os 
interesses ligados ao carvão, ao petróleo e ao gás natural. Excetuando-se um vago 
sentido ideológiéo, há relativamente poucos temas políticos que provocam uma rea­
ção una da elite empresarial. 
O problema de quem se une a quem a propósito de que é de natureza empírica, e 
falta na obra de Mills. Se a coordenação que ele alega existir existe de fato , cabe 
examinar como ela se passa. Sabemos, por exemplo, que as carreiras dentro das 
grandes empresas se tornaram mais longas, em conseqüência da burocratização. O 
efeito é uma permanência mais breve nas posições de maior autoridade. Num 
período de dez anos, a A. T. & T. teve três dirigentes principais - e cada um deles 
tinha passado de trinta a quarenta anos na companhia. Se os membros dessa «eli­
te» passam tanto tempo numa mesma empresa, como fazem para se conhecer mu­
tuamente? 
Preocupado com a manipulação pela elite, Mills se mostra indiferente aos pro­
blemas do poder na vida diuturna do país. Isto fica evidente no modo como des­
preza sumariamente as «questões intermediárias» (é de presumir, sem muita im­
portância real): tudo o que não considera uma «big decision». Contudo, não serão 
questões menos dramáticas justamente as que constituem a matéria-prima da política 
- os conflitos que dividem os homens e os envolvem no movimento da realidade? Pro­
blemas trabalhistas, raciais, a política tributária, etc - são eles que tocam as pessoas, 
na sua vida, e que as fazem perceber o sentido do poder. 
54 Daniel Bell 
O emprego do termo elite coloca outra questão, a respeito da utilidade dos seus li­
mites para a discussão do poder. Por que usar a palavra elite, em vez de grupo 
decisório (decision-makers, ou mesmo de dirigentes (rulers)? Para falar de decisões, 
teríamos que discutir o processo de formulação política, com suas pressões, etc. Pa­
ra falar de dirigentes, deveríamos examinar a natureza da direção política. No en­
tanto, se falamos em elite, só precisaremos discutir a posição institucional dos seus 
membros - o que pressupõe (como Mills pressupõe) que a natureza fundamental 
do sistema não muda, e nosso problema se limita a preparar um mapa da circula­
ção na sua superfície. Ora, a premissa de que o sistema não muda fundamental­
mente (isto é, não se alteram suas legitimações básicas, a continuidade da classe ca­
pitalista) não deixa de ser estranha, porque se de fato o poder se tomou a tal pon­
to centralizado e sincronizado, não terá havido uma mudança fundamental no sis­
tema? 
No entanto, mesmo se acharmos preferível falar em termos de elites, têm havido 
mudanças substanciais no sistema de poder na sociedade norte-americana: o des­
mantelamento do capitalismo familiar (associado a uma série de alterações de po­
der na sociedade ocidental tomada em conjunto) e - de forma mais importante e 
mais óbvia - a função decisiva da arena .política. 
Da Economia à Política 
Na década que precedeu a Primeira Guerra Mundial, d ·poder crescente dos trusts, 
a influência direta dos banqueiros na economia e a expansãoideológica do socialis­
mo tenderam a focalizar as atenções no sistema de classes como o elemento oculto 
mas .decisivo na modelagem da sociedade e da mudança social. Alguns historiado­
res «realistas», como J. Allen Smith e sobretudo Charles A. Beard, começaram a 
tarefa de reinterpretar, em termos econômicos, as primeiras disputas coloniais e 
constitucionais. Esquematicamente, a interpretação de Beard era a seguinte: 
Os primeiros conflitos registrados na história dos Estados Unidos foram lutas de 
classe diretas entre o grÚpo mercantil, representado pelos federalistas, e os agr? · 
rios, representado pelos democratas. A sociedade norte-americana se dividia nitida­
mente entre esses dois grupos, com interesses antagonísticos (a propósito de tarifas, 
custo de dinheiro, etc). A maneira clara como os __ founding fatbers discutiam esses 
conflitos de classe está documentada de forma notável nos textos federalistas - os 
Federalists papers. Como no conflito anteriqr, na Inglaterra, entre os proprietários 
rurais e a classe industrial, a propósito das corn laws protecionistas, uma vitória de· 
cisiva de um dos lados teria decidido o .caráter básico da sociedade. Essa primeira 
plutocracia norte-americana, os mercadores do Leste, demonstrou contudo ser um 
grupo social instável, incapaz de manter a iniciativa política: os federalistas perde· 
ram. Contudo, os democratas não tinham condições de consolidar sua vitória, devi­
do às imposições do capitalismo que se desenvolvia; a «revolução jeffersoniana» foi 
algo que Jefferson prometeu, mas não pôde executar tão facilmente. 
Outros historiadores modificaram, mais tarde, essa descrição de um chiaroscuro 
cru, introduzindo muitos meios-tons entre os traços negros e o branco. Como Dixon 
Ryan Fox, por exemplo, que ao estudar a política em um dos Estados federados, 
nas primeira quatro décadas do século dezenove, escreveu (em Yankees and 
Yorkers): 
«Devido às rivalidades entre ingleses e holandeses, presbiterianos e anglicanos, co­
merciantes e agricultores e outras ainda, o espírito partidário surgiu cedo em Nova 
O Fim da Ideologia 55 
York e persistiu em manifestações cambiantes. Mas as linhas partidárias não sepa­
ravam nitidamente os ricos dos pobres. Os aristocratas tinham tal segurança de sua 
posição social, e eram tão variadas suas origens, que não se comportavam defen­
dendo um interesse único; as famílias se conduziam umas com relação a outras co­
mo Capuletos e Montagues. Como observou Hemry Adams, 'Todos esses Jays, 
Schuylers, Livingstones, Clintons e Burrs estariam unidos - ou já teriam abando­
nado o país - se vivessem na Nova Inglaterra; sendo cidadãos de Nova York, bri­
gam entre si. Quando os «Tories» afastaram os «Whigs», logo se dividiram em fac­
ções - não apenas duas, mas várias, todas dispostas à negociação e aos entendi­
m entos» . É aí que vamos encontrar as · raízes do sistema partidário peculiar dos Es­
tados Unidos. A reação contra todas as tentativas de estabelecer o domínio exclusi­
vo de um só grupo deixava o sistema social indefinido desde a sua criação: não era 
predominantemente mercantil , escravocrata, agrário , industrial ou proletário. 
Depois de perder o controle político direto, as famílias ricas procuravam agir indi­
retamente , por meio dos políticos profissionais. Mas, numa socied~de que se trans­
formava rapidamente, e cujas dimensões projetavam uma variedade de interesses 
conflitantes, os políticos só podiam ter êxito se fossem «corretores», e o sistema de 
'partidos devia funcionar como instrumento de mediação. 
Não se quer com isso negar a existência de classes, ou a natureza do sistema de 
classes existente. Mas não se pode usar a estrutura de classe para uma análise 
política direta, a não ser que a sociedade seja altamente estratificada. Um sistema 
de classes define o modo de alcançar riqueza e privilégios numa sociedade. Esse 
modo pode ser a terra, a propriedade corporativa, a habilitação técnica ou admi­
nistrativa, a atuação mercenária (os condottieri) ou a distribuição política direta (o 
partido, a burocracia, o exército); e o sistema de classes deve ser legitimado, em 
formas legais, para que fique assegurada sua continuidade. É muito freqüente que 
a riqueza e os privilégios impliquem em poder e prestígio, mas não há aí uma cor­
relação direta. Mais importante ainda: qualquer que seja o modo, a análise de 
classes não nos diz diretamente quem exerce o poder, nem nos informa muito sobre 
a competição existente pelo poder dentro dos limites daquele modo. 
' A não ser que o modo, e suas legitimações, sejam contestados diretamente, rara­
mente encontraremos uma classe agindo como classe, de forma unitária. Logo que 
se estabelece um determinado modo, a competiçao pelos privilégios, dentro do sis­
tema, é elevada, desenvolvendo-se uma variedade de interesses distintos. A comple­
xidade crescente da sociedade multiplica naturalmente esses interesses, regionais ou 
funcionais; e numa sociedade aberta a arena política é o local onde os vários inte­
resses disputam entre si pelas vantagens almejadas - a não ser que haja um confli­
to para destruir o sistema. Por isso o conceito de «classes» é, em geral, insuficiente 
para acompanhar o jogo ágil dos diversos grupos políticos. 
Na sociedade européia, especialmente depois da Revolução Francesa, os temas 
políticos tendiam a se distribuir por linhas de .classe; mesmo nessa época, qualquer 
análise minuciosa se arrisca a falsificar os acontecimentos simplesmente pela sua in­
terpretação à luz de uma divisão grosseira em classes. O que faz com que um 
clássico de análise política marxista, como é O Dezoito Brumário de Luís 
Bonaparte, seja lido hoje com interesse é o fato de que Marx pinta com habilidade 
o papel de diversos grupos de interesses, manipulados imperiosamente por Luís Bo­
naparte, por trás da fachada dos simples interesses de classe. Nos Estados Unidos 
- país tão heterogêneo desde a sua fundação , e modificado por tantas influências 
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56 Daniel Bell 
étnicas, nacionais e religiosas diferentes - , é difícil interpretar a ordem política 
(que se tornou, afinal d€ contas, uma estrada autônoma para a conquista de privi­
lêgios, trilhada pelos líderes de grupos minoritários) como um reflexo da ordem . 
econômica. 
Mas mesmo onde havia uma certa correspondência grosseira entre o político e o 
econômico, a gama dos interesses em jogo era enorme. Em 1892, Friedrich Engels 
escrevia a seu amigo Sorge: «Ainda não há lugar, nos Estados Unidos, para um 
terceiro partido .. A divergência de interesses, mesmo dentro da mesma classe, é tão 
grande naquele imenso país que grupos e interesses totalmente diversos se fazem 
representar nos dois grandes partidos, dependendo do lugar; e quase que todas as 
seções da classe proprietária estão neles representadas em larga medida, embora 
hoje a grande indústria forme o núcleo dos republicanos, e os latifundiários sulistas 
constituíam o núcleo dos democratas. É a aparente incorrência dessa reunião de inte­
resses que fornece um solo fértil para a corrupção, e o saqueio do governo - atividade 
que já florecem magnificamente". 31 
Mais tarde, num certo ponto da história dos Estados Unidos, a classe comercial e 
industrial dominante - a plutocracia, e não os · proprietários de terras - esteve 
perto de imprimir uma marca nítida na política do país. Lá pelo fim do século de­
zenove, a classe industrial ascendente únha alcançado uma vitória econômica esmagadora, 
que a levou a tentar dissolvei:, a estrutura de interesses grupais mediante o 
desenvolvimento de uma ideologia política que pudesse servir tarnbêm o sentimento 
nacionalista emergente. A doutrina-imperialista do «destino manifesto», de Beve­
ridge, e o «americanismo» de Franklin Giddings, representaram um esforço . n.esse 
sentido, estranho a esse povo heterogêneo, ou pelo menos prematuro. O segundo 
esforço, de maior êxito,consistiu na identificação do capitalismo com a democra­
cia. A princípio a classe comercial teve medo de que a democracia usada corno um 
instrumento político, com o qual a «multidão suína» de Burke (swinish multitude) 
preparasse o caminho para o despotismo radical. Mas a ideologia do capitalismo 
industrial vitorioso definiu a democracia quase que completamente em termos 
econômicos convenientes - como a liberdade contratual. 
Embora a classe comercial e industrial dominante não fosse capaz de exercer con­
trole político sobre a sociedade, podia estabelecer uma hegemonia ideológica. En­
quanto no período de 1880 a 1912 a classe média (pequenos fazendeiros e homens 
de negócios, e muitos profissionais) apoiara os surtos esporádicos contra os trusts e 
os monopólios, esses movimentos e essas opiniões foram dissolvidos pelas duas 
dêcadas subseqüentes, que trouxeram a guerra, a prosperidade e a propaganda. 
Essa unidade fez com que a «bolha» de prosperidade estourasse, porque os ideólo­
gos da iniciativa privada não compreendiam as realidades da economia «social» 
que havia surgido; não tinham compreendido o grau em que a economia de mer­
cado impõe um tipo particular de dependência. 
Numa economia pura de mercado - como disse Marx - cada um pensa por si, e 
ninguém planeja para todos. Atualmente, não são mais indivíduos que atuam no 
mercado, mas coletividades particulares, cada uma das quais procura evitar os ris­
cos que ele implica (por meio de administração de preços, subsídios agrícolas, nor­
mas salariais, etc.). Como é inevitável, as medidas tomadas por cada grupo, para 
sua proteção, provocam no governo a preocupação de impedir que o conjunto da 
economia seja prejudicado pela busca anárquica de segurança. 
• 
t 
1 
O Fim da Ideologia 57 
De Tocqueville escreveu certa vez que os historiadores de épocas aristocráticas se 
inclinam a interpretar todos os acontecimentos através da vontade e do caráter de 
heróis, enquanto os historiadores de períodos democráticos lidam com causas ge­
rais. O brilho aristocrático de Franklin Delano Roosevelt tem contribuído para con­
fundir os que procuram colocar o período do «New Deal» numa perspectiva históri­
ca; até hoje nos falta uma caracterização política adequada daqueles anos. Há, 
naturalmente, muitas analogias históricas inspiradas pelo tom e pela verve do pró­
prio Roosevelt: por exemplo, Roosevelt visto como um Solon temporizador, que 
com suas reformas políticas procurou evitar a revolução das massas sem bens; ou 
como um Tiberius Gracchus, patrício que abandonou sua classe para ser tribuno 
do povo. Roosevelt foi comparado a Luís Napoleão - um político ambicioso que 
manipulou primeiro uma classe, depois outra, para manter seu domínio pessoal. 
Não há dúvida de que essas analogias projetam pouca luz sobre o modo como a 
ação governamental provoca novas combinações de interesses, e sobre funciona­
mento dessas coalizações cambiantes. 
O aspecto público do «New Deal» de Roosevelt consistiu numa série de amplas re­
formas sociais; com bastante ingenuidade, alguns escritores - e o próprio Roose­
velt - já qualificaram o «New Deal» de uma afirmação dos direitos humanos sobre 
os direitos de propriedade. Mas a verdade é que esses termos têm reduzida signifi­
cação, filosófica ou pragmática. De fato, os preços de sustentação pagos aos agri­
cultores constituem um direito humano ou um direito de propriedade? O que o 
«New Deal» fez foi legitimar a idéia dos direitos grupais, e a postulação do apoio 
governamental pelos grupos - enquanto grupos. 
Com efeito, os sindicatos passaram a ter direito à barganha coletiva do trabalho, 
aplicando decisões de grupo a seus membros individuais; os trabalhadores aposen­
tados receberam pensões; os agricultores, suõsídios; os veteranos, benefícios; os gru­
pos minoritários, proteção legal, etc. Nenhuma dessas medidas era, isoladamente, 
revolucionária; mas em conjunto elas constituíam uma extraordinária transforma­
ção social. 
Da mesma forma, o governo sempre tivera um certo papel a desempenhar na dire­
ção da economia; mas a nova função que lhe era atribuída, de caráter permanen­
te, a que o obrigava de um lado a necessidade de manter o pleno emprego, e de 
outro o desenvolvimento do estabelecimento militar, criou em Washington um con­
junto de poderes que nunca tínhamos visto na história dos Estados Unidos. 
Retrospectivamente, o que parece mais espantoso é que, embora o compromisso 
com a economia administrada fosse previsível, tenhamos tido tanta dificuldade em 
organizar nossas idéias a respeito. Uma economia administrada exige não só um or­
çamento governamental visto como uma organização com receitas e despesas, mas 
também um «orçamento econômico», que defina as principais ordens de grandeza 
da interação econômica entre as várias partes da sociedade - o montante total dos 
bens e serviços produzidos durante um ano, e a renda total paga por esses bens e 
serviços. Com esses dados podemos identificar os eventuais hiatos nos dispêndios 
com consumo e investimento e, se necessário, tomar as medidas corretivas por meio 
da política fiscal. Contudo, só em 1936 o Departamento do Comércio publicou seu 
primeiro relatório sobre a renda nacional, e só em 1942 esse outro lado da contabi­
lidade econômica da nação - o produto nacional bruto - foi estimado pela pri­
meira vez pelo governo. A indicação do pulso da saúde econômica do pais, me· 
58 Daniel Bell 
diante a combinação dos dois índices, só foi usada pela primeira vez na proposta 
orçamentária enviada ao Congresso por Roosevelt em 1945. 
Com a emergência da ciência da economia política, surgiu um novo tipo de proces­
so decisório. Na sociedade de mercado, os desejos dos eleitores são manifestados 
por meio de «votos em dólar», como parte da interação da oferta e da demanda de 
bens e serviços. A soina total das decisões individuais e independentes de comprar e 
vender, em termos de dólares e centavos, combinava-se (como pensava Bentham) 
numa decisão coletiva - o consenso geral. Assim, quando as decisões sobre a dis­
tribuição dos recursos da coletividade se manifestavam através do mercado, era o 
dinheiro, e não a ideologia, que determinava o que deveria ser produzido. Neste 
sentido, a economia passava a ser a chave do poder social - e a política, apenas 
um pálido reflexo da economia. 
Mas a política - através da intervenção governamental no mercado - tem-se tor­
nado cada vez mais o meio de manifestar decisões sociais e econômicas. Dentro des­
sa perspectiva, o indivíduo é forçado a agir através de grupos, para traduzir em 
realidade sua vontade. 
Como na economia administrada é a política, e não o dinheiro, que determina de 
modo geral a produção, a intervenção governamental não só promove a identifica­
ção de grupos de pressão como força. cada um deles a adotar uma ideologia que 
possa justificar suas pretensões, e que possa ser equacionada com alguma modali­
dade do conceito de «interesse nacional». 
Os Tipos de Decisões 
Por tudo isso, se quisermos estudar o poder será mais útil examiná-lo em termos de 
tipos de decisões, e não sob o aspecto de elites 
Curiosamente, parece-me que Mills termina por concordar com este argumento, 
uma vez que seu livro é no fundo uma polêmica contra aqueles que dizem que nos 
Estados Unidos as decisões são tornadas democraticamente. Escreve o autor: 
«Um número cada vez maior dos assuntos fundamentais da nação · não chegam a 
ser decididos peÍo Congresso ... e muito menos pelo eleitorado». (pág 255) «Como 
hoje a indicação estrutural do poder da elite reside na ordem política, essa indica­
ção consiste no declínio da atividade política como um debate público genuíno so­
bre decisões alternativas ... Os Estados Unidos são hoje em grande parte uma de­
mocracia política formal». (pág. 224) 
Até certo ponto a afirmativa é verdadeira, mas não tem a medida de importância 
que Mills lhe atribui. Há muitos casos em que até mesmo o público interessado se 
sente «encurralado», por assim dizer, pela impossibilidadede influenciar os aconte· 
cimentos. Em grande parte isto resulta do aspecto de «segurança» que têm os pro­
blemas, que faz com que muitos assuntos sejam debatidos apenas no labirinto 
burocrático. A decisão sobre a bomba de hidrogênio, por exemplo: foi tomada por 
um grupo de cientistas, com alguns militares, especialmente do Comando Aéreo 
Estratégico. A não ser que queiramos presumir que todos os que já participaram de 
alguma decisão importante sejam membros da elite do poder (o que é um círculo 
vicioso), precisamos localizar a fonte de tais decisões, que é um dos problemas cen­
trais da sociologia do poder. 
Outro motivo, igualmente importante, que impossibilita a influência dos indivíduos 
sobre os acontecimentos é o que hoje chamamos, de forma inapta, o «processo 
1 
' 
O Fim da Ideologia 59 
decisório técnico» ("technical decision making"): o fato de que, quando é tomada 
alguma decisão de política geral, quando uma mudança tecnológica vem à su­
perfície, ou quando alguma outra mudança há muito latente se manifesta, somos 
obrigados a aceitar uma série de conseqüência quase inevitáveis; se formos «fun­
cionalmente racionais». Assim, há deslocamentos de poder concomitantes («técni­
cos») de tais «decisões» - e uma sociologia do poder pre~a identificar os tipos de 
conseqüências que resultam de diferentes tipos de decisão. 
Três breves exemplos poderão ilustrar este ponto: 
1. O orçamento Federal como Giroscópio Econômico 
De 1931 a 1935, no auge da depressão, os dispêndios previstos no orçamento fe­
deral, de todos os tipos, foram em média -de 5,2 bilhões de dólares por ano. Nos 
quatro anos seguintes, de 1936 a 1940, esses dispêndios chegaram a 8 bilhões de 
dólares. Durante esse período a receita correspondia a cerca de 60 % (sessenta por 
cento) da despesa. Quatro anos mais tarde, o governo federal estava gastando, cada 
ano, o total espantoso de mais de 95 bilhões de dólares, e acumulava uma dívida 
nacional mais de cinco vezes superior à da década precedente ( dados em dólares de 
valor constante). 
É importante comparar esses números com o -produto nacional bruto, o somatório 
total dos bens e serviços produzidos na nação em um ano. Durante a década da de­
pressão, a despeito dos gastos governamentais elevados, o orçamento federal repre­
sentava entre 5 e 10 por cento do PNB. Nos anos de guerra, essa proporção chegou 
a 40% (quarenta por cento). Mas, embora este último índice seja «anormalmente» 
elevado, nos quinze anos desde o início da guerra o governo passou a participar de 
quase uma quarta parte do PNB. Com a exceção de um só ano, 1948 (o único ano 
de «paz» na história do pós-guerra), quando o orçamento federal caiu para 33 bi­
lhões de dólares (contra um PNB de 257 bilhões), os gastos com a campanha da 
Coréia e as somas requeridas para manter a . guerra fria mantiveram o orçamento 
do governo federal num nível muito elevado. Entre 1950 a 1955, esses nível foi da 
ordem de 70 bilhões de dólares, contra um PNB de 325 bilhões de dólares. Em 
1960, de cerca de 80 bilhões, contra um PNB de mais de 400 bilhões. Na década 
de 1950, só os juros relativos â dívida pública norte-americana - por volta de 7, 2 
bilhões de dólares - superaram o total dos dispêndios governamentais em cada um 
dos anos do período da depressão.(*) 
Esse enorme crescimento dos dispêndios governamentais não foi deliberado por 
qualquer pessoa, ou grupo de pessoas, mas resultou inevitavelmente da guerra e 
das suas conseqüências. E a função permanente do Governo Federal como «giroscó­
pio» econômico do país se deve a sua importância. 
2. A Economia Dupla, entre 1950 e 1955 
Quando começou a guerra da Coréia, em I 950, o governo se viu a braços com a 
opção imediata entre converter a indústria existente para a produção de bens de 
(*) No ano fiscal de 1978, o orçamento federal norte-americano foi de 462,2 bilhões de dólare~ · em 1979 de 
5~0,2 bilhõe~ d~ dólares,- Vale observar que o p.n.b. norte-americano ultrapassou dois trilhões de dólares 
1
(ou 
seJa, 2.000 btlhoes de dolares) em 1978. O que significa que, grosso modo, o nível do orçamento federal conti­
nua a corresponder a um quarto da produção total de bens e serviços no país (N. do Trad. ). 
60 Daniel Bell 
guerra ou encorajar a instalação de novas fábricas. A decisão dependia da avalia­
ção feita do tipo de guerra que se esperava. A decisão tornada, com base na avalia­
ção político-militar, foi partir para urna «economia dupla». A principal conseqüên­
cia econômica foi a expansão de capital de muitas empresas, que passaram a poder 
contabilizar o custo das novas facilidades , contra os impostos devidos, em cinco 
anos, em lugar dos 25 anos normais. Dessa forma as empresas deduziam vinte por 
cento dos seus lucros, anualmente, corno custo de capital, obtendo assim uma con­
siderável vantagem tributária. Ess"e esquema de amortização em cinco anos pro­
vocou uma taxa de investimento extraordinariamente elevada, promovendo a pros­
peridade que caracterizou os meados da década de 1950; foi também responsável 
pela expansão excessiva da capacidade industrial, que contribuiu para a recessão 
,dos anos 1958-59. 
3. Te enologia Militar 
O rápido desenvolvimento de novas armas afeta decisivamente o peso relativo do' 
poder, e da influência, nas corporações militares, dentro de cada corporação e em 
cada arma. A importância atribuída aos mísseis, por exemplo, reduziu a utilidade 
das belonaves de grande deslocamento, que constituíam outrora o núcleo da mari­
nha de guerra - como reduziu a utilidade das próprias forças de terra. Na nova 
tecnologia bélica, o submarino portador de mísseis se tornou um elemento vital do 
poder de ataque; a grande extensão do alcance dos mísseis tornou o avião tripula­
do um vetor obsoleto. Essas alterações na composição das forças armadas , deman­
dando novos tipos de técnicos e de tecnologistas, implicam uma mudança no perfil 
do poder militar. O setor de pesquisa e desenvolvimento se tornou mais importante 
do que os setores operativos, dando mais poder aos cientistas e engenheiros. 
Todas essas conseqüências se originaram nas big decisions a que Mills se refere . 
Mas os pontos fundamentais de política m encionados por Mills são, primordialmen­
te, decisões sobre o envolvimento (ou o não envolvimento) em guerra - ou seja, de 
modo mais geral, a política externa. Mas, como discutir essa questão - que Mills 
evade completamente - sem discutir a guerra fria, e a medida em que nossa posi­
ção é modelada pela conduta da União Soviética? Desde 1946 (ou , mais especifica­
mente, desde o discurso de Byrnes em Stuttgart, que inverteu nossa posição a res­
peito da Alemanha) a política externa norte-americana não tem decorrido de qual­
quer divisão interna, ou de problemas de classes nos Estados Unidos, mas sim da 
estimativa que fazemos das intenções soviéticas. 
Essa estimativa não foi feita., em primeiro lugar, pela "elite do poder", mas por especia­
listas acadêmicos - em especial por George Kennan e o grupo de planejamento po líti­
co do Departamento de Estado. Foi o julgamento de que tanto o stalinismo como fenô­
meno ideológico como a União Soviética, enquanto poder geopolítico eram agressiva­
mente, militarmente e ideologicamente expansionistas, e que seria necessário ter uma 
política de contenção {o containment), inclusive com um rápido rearmamento que permi­
tisse implementá-la. Essa decisão esteve subjacente à política de Truman com relação à 
Grécia e à Turquia, ao Plano Marshall e à deliberação de assistir a reconstrução da eco­
nomia européia. Todas essas posições de política externa não refletiam uma conste­
lação de poder dentro dos Estados Unidos, mas sim uma estimativa do interesse nacio­
nal, e da necessidade da sobrevivência do país. 
' 
O Fim da Ideologia · 61 
Depois dessa primeira decisão, outras se seguiram: a criação de uma força aérea de 
ataque de longo alcance (o Comando Aéreo Estratégico, SAC); o estabelecimento 
de uma Comunidade de Defesa da Europa Ocidental (a que se seguiu aOT AN: 
Organização do Pacto do Atlântico Norte). Não quer dizer que cada passo estraté­
gico tomado decorria inevitavelmente da decisão inicial (por exemplo : depois que a 
França rejeitou a Comunidade de Defesa da Europa Ocidental cresceu a importân­
cia da Alemanha como apoio militar); mas sem dúvida os imperativos gerais eram 
claros. 
Uma vez estabelecidas essas linhas gerais, os vários grupos de interesses eram afeta­
dos, e utilizavam o Congresso - às vezes desastrosamente - para legislar de modo 
a que certos grupos de pressão obtivessem maiores porções da assistência internacio­
nal (por exemplo, o Bland Act, promovido pelos sindicatos e pela indústria de 
transporte marítimo, que obrigava ao transporte sob bandeira nacional de 50 por 
cento de todo o equipamento fornecido sob o Plano Marshall), ou para limitar a 
flexibilidade de ação do Departamento de Estado (por exemplo, o Battle Act, que 
proibia o comércio com o bloco soviético e que prejudicou o Ceilão, quando este 
era um aliado dos Estados Unidos, ameaçando-se com a interrupção da assistência 
norte-americana caso continuasse a vender borracha para a China). 
Ignorar os problemas d este tipo d e processo decisório «imperativo>~ é, a meu ver, 
ignorar o que há de básico na política, e também desconhecer a nova natureza do 
poder na sociedade contemporânea. A teoria da «elite do poder» implica uma uni­
dade de propósito e uma comunidade de interesses na elite que nem é provada 
nem demonstrada , mas apenas postulada. 
CODA 
Uma parte do trabalho de Mills é motivada pelo seu intenso ódio à burocratização 
crescente da vida (esta é sua teoria da história), e aos cúmplices desse processo; é 
isto que dá a The Power Elite Pathos atrativo_. Muitas pessoas, quando se sentem 
desamparadas e ignorantes, reagem com ódio. Mas as fontes desse desamparo pre­
cisam ser elucidadas, para que não nos emprenhemos, como faz Mills, numa espé­
cie de «protesto romântico» contra a vida moderna. As tonalidades sorelianas do 
poder visto como violência, e a imagem populista do poder como uma conspiração 
encontram um eco perturbador em A Elite do Poder. 
A complexidade e a especialização são inevitáveis corri a multiplicação do conheci ­
mento, a organização da produção e a coordenação de amplos setores da sociedade 
política . Mas isto não leva inevitavelmente à «burocratização» da vida, em especial 
numa sociedade onde crescem as rendas e o nível de educação; e os gostos se multi­
plicam. 
Mais importante ainda , notamos que o uso ambíguo de termos como «burocratiza­
ção» e «elites do poder» reforça muitas vezes o sentimento de desamparo a que nos 
referimos, ignorando os recursos de uma sociedade livre: a variedade dos conflitos 
de interesses, o i!lcremento da responsabilidade pública, o peso das liberdades tra­
dicionais (como testemunha a Corte Suprema, uma instituição que Mills não exa­
mina no seu livro), a função dos grupos comunitários e voluntários etc. 
C_omo o emprego indiscriminado da expressão «democracia burguesa» pelos comu­
mstas, n~ déc~da de 1930, ou o abuso da expressão «sociedade gerencial» 
(managenal soc1ety) por Burnham, na década de 1940, ou do termo «totalitarismo» 
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62 · Daniel Bell 
na década de 1950, C. Wright Mills obscurece diferenças específicas e críticas entre 
as sociedades. Essa carência de forma nos dá, em A Elite do Poder (com sua ênfase 
nas big decisions) , um livro que examina o poder, mas raramente discute a política. 
O que é, na verdade, bastante curioso. 
* * * 
NOTAS 
30 . V.I. Pareto, The Mind and Society (New York, 1935) . 
31. Engels a Sorge, 6 de janeiro de 1892, in Letters do Americans: 1848~1895, de 
Karl Marx e F. Engels (Nova York, 1953, pág. 239). 
CAMPUS UNl\/[JC1!U~HHJ Ct 6RAGANCb4 
CAPÍTULO 4 
CAMPUS UNtVERSfTARIO OE BRAGANCA 
Perspectivas do Capitalismo Norte-Americano: 
Keynes, Schumpeter e Galbraith 
Um notável fenômeno cultural, que não passará despercebido especialmente a quem se 
lembra da década de 1930, é o fato de que o capitalismo norte-americano ganhou uma 
nova definição teórica (e o respeito mal-humorado) daqueles críticos 
- especialmente keynesianos - que antes demonstravam hostilidade. A expressão 
«capitalismo norte-americano» reflete uma distinção necessária , pois a economia 
neoclássica, que definiu as regras do capitalism-o em geral, nunca teve falta de 
porta-vozes intelectuais competentes. A defesa do mercado livre, feita em nossos 
dias de modo agudo por Frank Knight (a noção de que uma sociedade competitiva 
é um modelo indispensável para a distribuição eficiente de recursos e . a soberania 
do consumidor) - tem muita força , tendo sido aceita até mesmo por teóricos so­
cialistas como Oskar Lange e A . P . Lerner que , invertendo o argumento, afirmam 
que só uma sociedade socialista, removendo a rigidez estrutural inerente às econo­
mias baseadas em grandes empresas, poderia assegurar o retorno ao mercado livre. 
No entanto, quem estava preparado para justificar a realidade capitalista norte­
americana, cujo traço mais marcante era (aparentemente) um gigantismo empresa­
rial paralisante? Em 1940, a maioria dos economistas jovens estavam convencidos 
de que a economia dos Estados Unidos ingressava numa fase de «estagnação 
secular» (secular no sentido de permanente, ou de longo prazo) . O profeta desse 
novo credo foi Alvin Hansen, de Harvard, mas não há dúvida de que sua fonte 
patrística foi John Maynard Keynes . Embora há décadas um coro de economistas 
marxistas viessem cantando um réquiem pelo envelhecido sistema capitalista, Key­
nes, em estilo menos apocalíptico, identificou as causas dessa degeneração. Segun­
do ele, o sistema não estava funcionando porque as poupanças (quer dizer, de uma 
maneira geral, os lucros) não se transformavam regularmente em investimentos (em 
especial em bens de capital), de modo que a demanda total por bens e serviços era 
menor do que a capacidade produtiva da economia; e o resultado era o d esempre­
go. 
Convém lembrar que a economia clássica não admitia a ocorrência de crises no sis­
tema capitalista, repetindo a Lei de Say, segundo a qual a cada aumento de pro-
66 Daniel Bell 
dução corresponderia exatamente um aumento igual do consumo - isto é, o di­
nhe='.ro dispendido com a produção de bens seria usado para o seu consumo, de 
modo que não poderia haver <<superprodução», ou «subconsumo». O desemprego 
representava, portanto, um fenômeno temporário, até que produção e consu­
mo se equilibrassem. Os desequilíbrios podiam ser reduzidos com a queda dos 
preços, induzindo os consumidores a comprar; e o desemprego seria reduzido com 
a baixa dos salários, induzindo os empregados a contratar mão-de-obra. Tudo se resol­
via com o funcionamento do mercado livre - e com o tempo. 
Quase todas as modalidades não ortodoxas de economia - de Sismondi a Marx e a 
Hobson - se baseiam na refutação da Lei de Say. Até então, contudo, jamais se 
formulara essa refutação com tanta eI~gância. Marx, por exemplo, nunca elaborou 
uma teoria completa das crises suas análises mostram o · entrelaçamen­
to de várias teorias. Desenvolvendo a ,tese do subconsumo de Malthus e de outros 
autores, mostrou que havia uma distribuição desigual da :i;-enda, entre o trabalho e 
o capital (a «mais valia»). Contudo, embora essa desigualdade levasse ao subconsu­
mo, só o explicava de forma parcial, e grosseira, pois qualquer economia em ex­
pansão (mesmo socialista) precisará de alguma «mais valia» para usar como capital 
de investimento. 
Marx encontrou uma segunda explicação JlO desenvolvimento desproporcional de 
diferentes setores da produção (especialmente na fase de expansão da economia ca­
pitalista), gerando volumes de demanda diferentes - especialmente nos setores de 
bens de capital e de bens de consumo. Mas isso não explicaria um declínio secular 
ou de longo prazo no sistema. Avançando além dessas idéias - que já eram entãoconvencionais -, propôs duas outras explicações. Devido à natureza impessoal do 
mercado, disse, o capitalismo é obrigado a expandir a produção sem qualquer refe­
rência ao consumo, de modo que há períodos de superprodução , em que o capital 
precisa ser diminuído, para assegurar o retorno ao equilíbrio. Por fim, Marx pro­
pôs a lei da taxa de lucro cadente, que considerava a «lei do movimento» de econo­
mia capitalista. Devido à competição, •ou o desejo de reduzir o custo da mão-de­
obra, os capitalistas introduzem novas técnicas e equipamentos no proces,so de pro­
dução , investindo mais capital por trabalhador. O lucro por unidade produzida 
cai, à medida que uma quantidade menor de trabalho se incorpora ao produto 
(admitindo que a única fonte do lucro é a mais valia) , de modo que o capitalista é 
forçado a expandir seu mercado, de modo a manter o volume de lucros . Para 
Marx , essa pressão induzindo à expansão é , no longo prazo, o problema crítico do 
sistema capitalista. Contudo, é importante notar que não encontraremos nos 
escritos de Marx a predição do desmantelamento da produção capitalista, mas ape­
nas a afirmativa muito geral de que à medida que a taxa de acumulação do capi­
tal (a chave do sistema) diminui, as crises se podem tornar mais severas. Como eco­
nomista , Marx era menos dogmático do que muitos dos seus discípulos, que 
procuraram formular como leis imperiosas o que ele descreveu sob a forma de ten­
dências. 
Keynes tinha já apresentado um prenúncio da moderna «teoria da estagnação» no 
seu famoso livro As Conseqüências Econômicas da Paz, de 1919. O argumento , que 
era então inovador, hoje soa familiar. O mito social que mantém a sociedade unida 
- diz Keynes, usando uma metáfora - é o «não-consumo do bolo». Antigamen­
te, os trabalhadores eram coagidos pelo costume, pela convenção e pela autoridade 
O Fim da Ideologia 67 
a aceitar uma fração modesta da produção crescente do século dezenove, enquanto 
os capitalistas, livres para consumir, consideravam «o dever da poupança como no­
ve décimos da virtude, e o crescimento do bolo como objeto da religião verdadei­
ra» . Assim, uma parte importante da produção era poupada, e destina ao investi­
mento. Essa situação estava ajustada à realidade do século dezenove: uma popula­
ção crescente, necessitada de alimento, roupa, abrigo e emprego; novas fontes de 
alimentos e matérias-primas, que precisavam ser exploradas; e o rápido desenvolvi­
mento da tecnologia, permitindo a instalação de novas indústrias. Em tais circuns­
tâncias, os empreendedores podiam continuar fazendo bolos para não comê-los. 
Mas, ainda segundo Keynes, isto se deu num período excepcional da história da 
economia. Em 1920 o crescimento demográfico já tinha diminuído, as oportunida­
des para novos investimentos escasseavam, e o espírito de empreendimento fraque­
java . Talvez mais importante do que tudo isso, a poupança perdera sua função so­
cial. A retenção habitual de uma parte considerável da produção deixara de ter 
um efeito estimulante; levava agora , na verdade; a crises econômicas e à estagna­
ção. Keynes não se preocupava com o aumento da pr_gdutividade do investimento; 
este ponto foi abordado pelos seus discípulos. Seu prognóstico era o de que a eco­
nomia se aproximava do estado de saturação, e o problema (que só o governo po­
dia resolver) era manter com seus gastos a demanda efetiva. 
Os escritos de Keynes, nos quinze anos que se seguiram, foram um esforço minucio­
so para documentar essa análise. O mal a combater era a «virtude» burguesa da 
«economia», e a tarefa intelectual da sua geração consistia em exorcizar aquele 
fantasma. A grande obra de Keynes, a Teoria Geral do Emprego, do Juro e do 
Dinheiro não foi apenas um tratado econômico, mas também um ataque 
sociológico selvagem contra o «puritanismo ... que tem desprezado as artes da pro­
dução, além das do prazer.» 
Seu objetivo era a «eutanásia do rentier», que se beneficiava com um consumo livre 
e sem embaraços, numa comunidade "quase estacionária" que não tinha o que fazer 
com a poupança, porque não queria nem precisava desenvolver-se. Mas, como essa 
revolução psicológica contra a poupança era díficil de executar, só uma força tinha 
condições para garantir a movimentação do capital retido inutilmente, canalizando-o 
de modo a reviver a atividade econômica - o Estado. 
Com um só e ousado golpe, Keynes reintroduzia o estudo da economia j1olítica, que 
para ele significava a formulação dos objetivos da coletividade, a serem definidos 
conscientemente por meio de um consenso organizado (o interesse social); por 
comparação, a «economia pura» estudava as «leis naturais» da distribuição, deter­
minada, no mercado, pelo somatório das decisões individuais. O problema político 
de como chegar a um consenso, e aplicar tais decisões, que levanta para nós muitos 
aspectos difíceis relacionados com a burocratização e o poder, não perturbava 
Keynes. Situando-se no centro do pensame11to político inglês, com seu sentido de 
homogeneidade e uma imagem da «vontade comum encarnada na atividade política 
do Estado», ele acreditava que . essas dificuldades podiam ser resolvidas de forma 
simples e racional. Seu programa, «moderadamente conservador em suas implicações» 
corno disse), não tocava o problema da propriedade dos meios de produção: segundo 
1:, 
il 
' 
68 Daniel Bell 
ele, bastaria uma «socialização algo compreensiva do investimento» para manter o 
nível de emprego(~') 
( 
A teo.ria da «superpoupança», que Keynes tinha proposto para combater a depres­
são, foi aceita com entusiasmo pelos economistas norte-americanos mais moços, 
tornando-se a concepção básica das investigações do Comitê Econômico Nacional 
Temporário, e de muitas monografias do fim da década de 1930. A Teoria Geral 
de Keynes era uma obra analítica; a Escola Norte-Americana quis acrescentar-lhe 
uma dimensão histórica , como evidência adicional do perigo que representava a 
«estagnação secular». A liderança desse esforço foi assumida por Alvin Hansen, que 
resumiu esses dados e observações no seu livro mais importante, Fiscal Policies and 
Business Cycles, de 1941. 
Sua teoria, fundamentada largamente nas investigações estatísticas do economista 
alemão Spiethoff, e do russo Kondratieff, afirmava que o século dezenove foi sin­
gular no sentido de que uma série de fatores haviam coincidido para provocar uma 
explosão industrial. Tínhamos chegado, dizia Hansen, ao fim de uma série de «on• 
das de longo prazo», cuja força não se havia perdido. Entre 1840 e 1870, os Esta· 
dos Unidos tinham sido impulsionados pela expansão das ferrovias; a primeira 
parte do século vinte (1890 e 1930) tinha sido a era da eletrificação e do automó· 
vel. Agora, porém, não era mais possível esperar que surgissem naturalmente «no­
vas indústrias, igualmente ricas em oportunidade de investimento . . . » Outros fatores 
tendiam também a criar a estagnação, entre eles a diminuição do ritmo de 
crescimento populacional, o desaparecimento das últimas áreas inexploradas do 
território e o crescimento da competição imperfeita e do monopólio que, protegen· 
do os preços inibiam a introdução de novos equipamentos, que um processo com­
petitivo teria estimulado. 
Dentro do mecanismo operacional do próprio sistema capitalista, certas forças in• 
ternas trabalhavam no sentido da «calcificação» da sociedade. Keynes não se preo· 
cupara com a organização industrial, assunto que interessou a Hansen. Este afir• 
mava que o aumento do tamanho das empresas era depressivo, porque as grandes 
empresas tendem a acumular vastas reservas de depreciação, destinadas a repor seu 
equipamento - reservas que não eram dispendidas imediatamente, e reduziam a 
necessidade de crédito dessas empresas. Alêm disso, o desenvolvimento de máquinas 
«com grande intensidade de capital» para substituir outras «com grande intensida­
de de mão-de·obra» - o que representavam uma tendência de longo prazo para 
reduzir a relação entre o capital e seu rendimento - , contribuíapara a acumula· 
ção de capital ocioso. As conclusões de Hansen proporcionavam uma rationale pa-
(*) Na década de 1930 os socialistas eram mais dogmá ticos d o que Keynes. De vido à natureza da doutri ­
na econômica socialista, que se inclinàva por soluções radicais, os partidos socialistas nunca acreditaram 
que seria possível ajustar o sistema capitalista, de modo a estabilizar seu funcionamento. Por isso . quan­
do os socialistas foram obrigados a assumir o poder, na Alemanha e na Inglaterra , sua políticaeconômi­
ca foi absolutamente ortodoxa. O Primeiro Ministro trabalhista Ramsay Macdonald naufragou nas 
águas revoltas da crise econômica d e 1931, porque tinha sido convencido pelo Banco da Ingla terra que 
era mais importante equilibrar o orçamento e deter a fuga de capitais do que ampliar a assistência go­
vernamental aos desempregados. Na Alemanha, a política econômica socia lista respeitou inflexivelmente 
o padrão ouro. Franklin Roosevelt, porém, em l 933 fez com que os Estados Unidos abandonassem o pa· 
d rão ouro, e embargou a fuga de capitais, enquanto na Alemanha Hjalamar Schacht mostrava a Hitler 
o modo como uma ampla intervenção governamenta l na economia, mediante obras públicas, e o déficit 
orçamentário, podia eliminar o desemprego (Para um exam e deste problema, vide Adolf Sturmthal, The Tra­
gedy of European Labor, Nova York, 1943. 
O Fim da Ideologia 69 
ra a política do «New Deal» de Roosevelt: intervencionismo estatal para pôr a fun­
cionar o capital não utilizado, tentativas para quebrar os «monopólios», e uma pre­
ferência pela economia de consumo elevado e mais baixo crescimento. 
Essa, então, era a imagem do capitalismo em 1940: o capitalista era um velho mi­
serável, sentado sobre um monte de ouro estéril, cujo peso prejudicava o funciona­
mento da economia. Como parecia impossível para o sistema injetar na economia o 
dinheiro necessário para assegurar o nível de vida e criar todo o emprego de que 
era tecnicamente capaz, o governo teria que obrigar a essa utilização de recursos 
ou então recolher dinheiro por meio de impostos para gastá-lo em projetos úteis. 
II 
O contra-ataque conservador se deu a propósito da "politização" da economia, co~ 
o livro de Frederick Hayek The Road to Serfdom. Hayek argumentava que a eco~ 
nomia do Jaissez-faire tendia para o equilíbrio, e que as crises eram provocadas pri"'"O 
mordialmente pela interferência arbitrária do Estado no sistema econômico. ~ 
Querendo facilitar o pagamento das suas dívidas, e «fabricar dinheiro», os goverx:iosC: 
e os bancos têm uma inclinação inflacionista que leva a uma expansão excess1vaz 
do crédito, desviando a taxa ·de juros d~ sua função verdadeira de distribuir a pou-< 
pança, encaminhando-a em parte para o consumo, em parte para o investimento.ÇB 
Do ponto de vista de Hayek, o Estado não era o «comitê executivo» de uma classe§Q 
dirigente, mas uma força burocrática independente (noção derivada de SchmoUer e i! 
)fane Weber) que, pela sua natureza de Leviatã, colocava-se como um poder coer- ::O -citivo, contrário à liberdade. Por isso, qualquer política que fortalecesse o Estado O 
se opunha ao liberalismo . O 
O livro de Hayek foi recebido pela comunidade de negócios com alarido; os ho- l'TI 
mens de negócios, contudo, apreciavam mais o título do que os remédios que pres- S'5! 
crevia. Afinal, eles não estavam preparados para a completa eliminação das tarifas, ;; 
dos preços administrativos e dos outros artifícios destinados a' reduzir a competição. e;) 
De outro lado, os liberais, embora sensíveis em termos abstratos aos perigos do «es- ~ 
tatismo», não encontravam em Hayek mais do que velhos chavões, recusando-se a -e) 
contestar as medidas de política social do governo em nome dos perigos da concen- > 
tração do poder no Estado. Devido à utilização ideológica que se deu à sua obra, 
tomou-se logo evidente que Hayek não era um adversário convincente do pensa­
mento keynesiano. Com efeito, ninguém queria o "liberalismo econômico", a não ser 
como um posicionamento ideológico. 
Se havia um economista conservador com condições de enfrentar Keynes, e mes­
mo talvez Marx, era Joseph Schumpeter. Seu livro Capitalism, Socialism and 
Democracy, publicado em 1942, só foi notado por um pequeno círculo, tendo al­
cançado repercussão mais ampla apenas em 1946, quando teve uma nova edição, 
sob o peso cumulativo de quatro anos de ap. ~dação crítica. Na época da sua mor­
re, em 1950, um considerável fluxo de exegese havia tomado corpo, e várias obras 
anteriores de Schumpeter, inclusive ensaios coligidos, tinham sido editados sob for­
ma de livro. 
O contorno geral das principais proposições teóricas de Schumpeter já havia si­
do formulado num livro de grande importância, The Theory of Economic De­
q:Jopment, escrito em 1912, quando o autor tinha apenas 27 anos. Trinta anos 
depois, essas idéias estavam maduras para merecer aceitação geral. Por um lado, o 
mundo dos negócios estava vivendo, nos Estados Unidos, um tremendo surto de 
~ utoconfiança, devido ao esforço prodigioso de produção feito durante a guerra. 
70 Daniel Bell í 
Escritores como Peter Drucker; e os editores de Fortune, davam-lhe uma nova justi-
ficativa - baseada, em primeiro lugar, no sentido de responsabilidade social e, de­
pois, na descoberta de que, ao contrário do capitalismo europeu, o capitalismo 
norte-americano tinha ainda muita força e dinamismo. Por outro lado, os intelec­
tuais, assustados com as implicações do «estatismo» (que antes haviam aceito acríti­
camente), e impressionados com a não ocorrência da recessão do pós-guerra, que 
todos os economistas keynesianos tinham previsto com tanta segurança, achavam-se 
cada vez mais desorientados e silenciosos. 
Schumpeter era importante como guia intelectual porque argumentava sobre · a 
mesma base que os keynesianos (e os marxistas) norte-americanos tinham imposto 
como condições para o debate: não se referia ao problema d.a maximização da pro­
dução, nas concJ.ições de perfeito equilíbrio e competição postulada pela economia 
clãssica, mas a uma instituição social concreta - o capitalismo - funcionando nu­
ma época histórica. Seu objetivo era compreender a organização social capitalista 
pelo exame sociológico e histórico das condições em que tinha surgido, crescido e 
começava a declinar. Por isso desprezava Keynes (como outros também o faziam) 
que, a despeito das implicações radicais da sua obra, operava fundamentalmente 
dentro de uma economia estática abstraída da história concreta. Keynes tratava de 
«fenômenos cujo âmbito está limitado pela sua premissa de que as técnicas de pro­
dução não se modificam». Para Schumpeter, o fato decisivo era justamente o de 
que no sistema capitalista as técnicas de produção se transformam rapidamente. 
A defesa schumpeteriana do capitalismo partia do fato de que a sociedade capita­
lista se caracterizava por uma intensa expansão produtiva, que era contudo des­
contínua. O redescobrimento da produtividade (e o conseqüente emprego ideológi­
co desse conceito, para distinguir o capitalismo norte-americano do europeu, estáti­
co) se deve em grande parte à ênfase fundamental dada à produtividade no livro 
de Schumpeter. «A realização capitalista não consiste tipicam,ente em produzir 
mais pares de meias de seda para as rainhas, mas em torná-las acessíveis às moças 
que trabalham nas fábricas, em troca de um esforço de trabalho que diminui 
progressivamente». Usando cálculos simples, Schumpeter mostrou que nos Estados 
Unidos a renda vinha aumentando a uma taxa composta de mais de dois por cento 
ao ano. Mas o · aumento da produtividade só era possível mediante a atividade dos 
empresários - esses engenheiros das transformações sociais. Reduzindo os custos de 
produção, abrindo novos mercados, criando produtos - em suma, por meio da 
inovação - o empreendedor pode conseguir para si uma posição monopolística 
temporária, que é a fonte dos seus lucros. O sistema capitalista só pode, continuar 
se mantiver a recompensa do esforço deempreendimento; esse «privilégio de curto 
prazo>) é o preço que as massas têm que pagar pela elevação dos níveis de vida, a 
longo prazo assegurada pelo capitalismo. 
O iconoclasmo de Schumpeter se estendia à defesa das empresas de grandes dimen­
sões. A « bigness» era uma virtude, porque só as grandes empresas podiam gastar as 
somas enormes requeridas pelas atividades de pesquisa (às vezes dispendidas inutil­
mente) necessárias para o desenvolvimento tecnológico. Neste sentido, ela consti­
tuía o preço social desse desenvolvimento. 
Mas, e a Grande Depressão? Schumpeter não admitia que o período 1929-32 repre­
sentasse uma interrupção decisiva no crescimento da produção capitalista. Ao con­
trário do que pensavam quase todos os economistas, clássicos ou keynesianos, ele 
aceitava tranqüilamente as depressões, considerando-as inevitáveis, e até mesmo te-
► 
O Fim da Ideologia 71 
rapêuticas, no processo de crescimento da economia. A estrutura da indústria é re­
formada periodicamente por revoluções tecnológicas. «O processo capitalista eleva 
progressivamente o padrão de vida das massas, não por coincidência, mas em virtu­
de de mecanismos próprios. Isto ocorre por meio de uma série de vicissitudes, cuja 
severidade é proporcional à velocidade do progresso realizado». 
Qualquer processo de mudança produz perturbações; as depressões são um processo 
normal de reajuste e deslocamento, uma «poda» do que é antiquado, marginal e 
ineficiente. Para Schumpeter, a depressão de l 929 constituía um caso especial (de­
vido à «velocidade do progresso» na década anterior, e porque representava o 
esgotamento de uma «onda de longo prazo» do crescimento econômico), compará­
vel apenas, em severidade relativa, à depressão de 1873-79. A recuperação tinha si­
do mais lenta nos Estados Unidos do que na França, por exemplo, porque a nova 
atmosfera social e a política fiscal , a partir de 1930, tinham limitado o investimen­
to privado. De acordo com Schump.eter, o esforço para redistribuir a renda e au­
mentar o consumo, por meio da política econômica, só tinha feito inibir o progres­
so. 
Contrariamente ao pessimismo de Hansen e de Keynes com respeito às possibilida­
des de manter a economia em expansão, Schumpeter projetava a visão de novas 
fronteiras: «As possibilidades tecnológicas são um oceano desconhecido». Poderiam 
assumir a forma de grandes inovações numa «era da química», abrindo um novo 
campo de inv~stimento que substituísse a eletricidade; ou então se apresentar como 
uma multiplicidade de novos produtos, nenhum dos quais tivesse o impacto do au­
tomóvel, por exemplo, mas que, coletivamente, estimulassem o crescimento da eco­
nomia. 
O futuro, porém, pertencia ao empreendedor. Com sua «teoria do empreendedor» 
Schumpeter confronta Marx, Keynes e, de fato, toda a economia clássica. De acor­
do com Marx, o crescimento econômico se devia ã acumulação de capital, que 
procurava sempre novos canais de aplicação ; Keynes percebeu que a inclinação pa­
ra poupar se havia tornado excessiva, afirmando que a demanda efetiva diminuiria 
se não houvesse intervenção estatal para promovê-la. Mas Schumpeter negava a ba­
se teórica da noção da «superpoupança» crônica, e sua resposta a Marx e a Keynes 
se baseava na história. Para ele , a expansão industrial não se devia a um impulso 
do capital , que a «empurrasse», mas sim ao empreendedor, que a «puxava». En­
quanto a indústria é financiada tipicamente pelo sistema bancário, e pela expansão 
do crédito, o empreendedor emprega «dinheiro de outras pessoas». Para obter re­
cursos, de fontes antigas e pouco produtivas, ele se dispõe a pagar juros. Sua re­
compensa é o lucro do empreendimento. Portanto, o progresso econômico não é 
:estringido pelo excesso ou a insuficiência da poupança, ou mesmo pela incapaci­
dade em que se encontrem os empreendedores de mobilizar poupanças, mas sim­
plesmente pela falta de oportunidades que atraiam novos empreendimentos - em 
husca de lucro. A função do governo, portanto, não é dirigir o investimento, como 
;,ensava Keynes, mas sim encorajar os empresários . 
.::. no entanto, afirmava Schumpeter paradoxalmente, a visão de Marx é correta : o 
capitalismo está condenado; mas não pelos motivos indicados por Marx. O capita­
rismo se decompõe porque sua mentalidade cria uma atmosfera social hostil ao seu 
próprio funcionamento, e porque a burocratização da atividade dos negócios atro-t: seu impulso diretor - a função de empreendimento. 
72 Daniel Bell 
Paradoxalmente, é o êxito do capitalismo que vai destruí-lo. A cnaçao de uma «so­
ciedade aberta» provoca demandas cada vez maiores, e expectativas que nem mes­
mo o capitalismo pode atender. Afinal. mesmo nas circunstâncias ideais existentes 
nos Estados Unidos, não é possível aumentar a produtividade mais do que 2 ou 3 
por cento ao ano. Se a defesa do capitalismo se fundamenta nas suas realizações no 
. longo prazo, a curto prazo são os lucros e as ineficiências que predominam, e que 
municiam continuamente os críticos do sistema. 
Na verdade, o próprio capitalismo promove a crítica que o ameaça. Diz Schumpe­
ter: «O processo capitalista racionaliza o comportamento e as idéias, e assim espan­
ta da nossa mente, com as crenças metafísicas, as idéias místicas e românticas de 
todos os tipos .. . » A postura crítica criada por tal racionalismo não tem limites, 
voltando-se contra todas as instituições, os costumes e tradições, contra toda a au­
toridade, culminando logicamente na· criação do «intelectual». Este último é um 
crítico e um utopista, que precisa de um herói. Ora, o capitalista avalia, em vez de 
jogar - de uma forma muito pouco heróica. «O mercado de títulos», ironiza 
Schumpeter, · "não substitui muito bem o Santo Graal". Deste modo o intelectual, 
um produto do racionalismo capitalista, volta-se contra o sistema e infecta o resto 
da sociedade com seu desapontamento .. De seu lado, o Estado, acompanhando a 
têmpera anticapitalista da sociedade, promove leis que restringem o espírito empreen­
dedor. 
O sistema capitalista é ameaçado "de fora" e "de dentro". O empreendedor, responsá­
vel pelas inovações, é substituído pelo «executivo», e a inovação sé transforma nu­
ma rotina, à medida que a tecnologia se torna o trabalho regular de um grupo de 
especialistas. O progresso econômico se despersonaliza; sem élan, decai «inevitavel­
mente». Em suma, é a burocratização do capitalismo que o perde. 
A atração que o pensamento de Schumpeter exercia sobre a antiga «esquerda» in­
telectual é evidente. Ele era uma avis rara: um economista com um sentido trágico . 
da vida. Além disso, sua doutrina tratava com generosidade os críticos do sistema 
capitalista: o capitalismo era bom, mas se havia tornado impessoal e burocrático -
exatamente as acusações feitas ao sistema. Contudo, a visão de Schumpeter não nos 
ajuda muito na tarefa simples e prosaica de compreender os problemas específicos 
que defrontamos. No seu livro (que é brilhante), ele fala sobre o "capitalismo" , em 
vez de falar - como Keynes - em «economias». Mas não se refere a sociedades 
capitalistas concretas. Não foi fácil, assim, _ _notar que na sua análise Schumpeter se­
lecionou a economia da indústria norte-americana e a sociologia da sociedade euro-
'péia, baseando na primeira sua justificativa do capitalismo, e na segunda seu prognós­
tico apocalíptico. 
Curiosamente, Schumpeter identificava o capitalismo com o «capitalismo fami­
liar», interpretando seu dinamismo como o esforço de uma nova classe para con­
quistar o poder e um lugar na sociedade. Da mesma forma, identificou o capitalis­
mo norte-americano com os «homens novos» do século dezenove, recusando-se a 
aceitar, em primeiro lugar, que a empresa moderna pudesse criar seus próprios in­
centivos para o crescimento; e depois, que o governo, por uma série de razões (por 
exemplo: a defesa nacional, suas responsabilidades sociais etc .) teria que preconi­
zar necessariamente a expansão econômica. 
Schumpeter era europeu demais para acreditarque o governo se pudesse tornar um 
órgão auxiliar, ou mediador. Para ele, o Estado seria sempre uma força autônoma 
O Fim da Ideologia 73 
assumindo a direção da sociedade movido pelo impulso burocrático. Dentro dessa 
perspectiva, sua previsão sobre o declínio do «capitalismo» é- consistente com as de­
finições que utiliza. Schumpeter interpretou também a democracia e a hostilidade 
dos intelectuais e dos trabalhadores contra o sistema capitalista à luz da tradição 
européia. Nesse ponto, enquanto aprovava o racionalismo capitalista, exprimia 
uma reação aristocrática contra a sociedade de massa. Com suas raízes filosóficas 
no jeffersonianismo, e desenvolvendo-se sob a forma de uma sociedade multi­
grupal, a democracia norte-americana pode ter efeitos sobre o capitalismo muito 
diversos dos da democracia européia. É o que Schumpeter não viu - ou melhor, 
não quis ver. 
III 
\ 
Para chegarmos a um quadro realista do que está acontecendo com a sociedade ca-
pitalista, precisaremos resolver as contradições inerentes entre a visão de Keynes e a 
de Schumpeter. Os dois concordam em que o capitalismo tradicional está cedendo; 
mas suas teorias sobre os motivos dessa transformação são tão divergentes que le­
vam a receitas contraditórias, quando se trata de formular uma terapêutica salva­
dora. Uma das virtudes do American Capitalism, de J. K. Galbraith, é o fato de 
que ele formula problemas comuns a Schumpeter e a Keynes de forma mais prosai­
ca, e em termos mais fáceis de manejar. (*) 
Galbraith tomou como ponto de partida a atitude notavelmente medrosa de todos 
os estratos da sociedade norte-americana a respeito do futuro do capitalismo 
- num momento em que o instrumental produtivo se expande numa taxa que não 
é inferior às mais elevadas já alcançadas em toda a história dos Estados Unidos. A 
comunidade de negócios parece mesmerizada pela afirmativa de Marx de que o ca­
pitalismo tem uma instabilidade intrínseca. Os gerentes industriais - como os eco­
nomistas liberais - aguardaram um colapso econômico no dia da vitória sobre o 
Japão, que pôs fim à Segunda Grande Guerra, e todos os anos que se seguiram. 
Daí a política de estoques e dividendos limitados, visando acumular reservas finan­
ceiras importantes. Tudo isso, lembra Galbraith, «numa época de produção e ren­
das em níveis nunca antes alcançados». Os agricultores, e o Congresso, demonstra­
ram a mesma preocupação. Durante os cinco anos que sucederam a guerra, embo­
ra fossem «anos de euforia econômica, como poucos antes haviam sonhado», o 
Congresso manipulava o sistema de preços mínimos e de subsídios aos agricultores. 
Entrementes, os liberais se queixavam da concentração de poder econômico, que a 
Segunda Guerra Mundial tinha pretensamente aumentado, e os conservadores invo­
cavam visões terríveis do "Estado onipotente" reduzindo as liberdades e instalando 
uma burocracia opressora. No entanto, comenta Galbraith, se todas essas profecias 
fossem verdadeiras, depois de vinte anos de governo democrático há muito os con­
servadores teriam sido afastados do poder, e os liberais transformados em simples 
fantoches de uma sociedade de negócios. 
= Como o modelo econômico keynesiano é essencialmente estático, e o mocwlo econômico schumpeteriano 
e fundamentalmente histórico, uma conciliação exata dos dois é extremamente difkil. Schumpeter conside­
ra,-a a "superpoupança" keynesiana como um "caso especial", demro do seu sistema. 
Rece~tement~, _?-lg~ns econ<;>mistas ingleses, _especial~e!1te J. R. Hicks e R<?y Harrod, p~o~uraram pr_ojetar 
~ sistema dmam1co a paru~ das preocupaçoes es~ncia1s de Keynes. U~a smtese dos dois ~tstemas tena que 
~ ificar o tratamento keynesiano ela renda, produçao e emprego com a enfase schumpetenana no empreen­
;:__.71enco, na inovação e no equilíbrio. Não se conseguiu ainda produzir uma síntese completa. 
J 
74 Daniel Bell 
A verdade é que nenhuma dessas visões se aproxima da realidade atual. Por que, 
então, essas idéias fixas, revestidas de ilusão e de insegurança? A resposta, segundo 
Galbraith , está em que os dois campos «foram capturados por idéias que os levam 
a ver o mundo com alarme e preocupações», idéias que decorrem do sistema de 
economia clássica e da sua teoria do poder. Os economistas clássicos fundaram seu 
sistema no medo da concentração do poder. A sociedade liberal tendia portanto à 
difusão do poder. No campo da economia, concebia-se urna sociedade baseada no 
mercado, onde os preços flutuavam em resposta à oferta e à demanda, os pro uto­
res tinham a liberdade de operar livremente, etc. Assumia-se o corolário, b seado 
em premissas econômicas deterministas, de que o mercado livre faz com qu os in­
divíduos se comportem livremente. 
Se se fragmentasse o poder econômico, o poder político também se manteria atomi­
zado. 
Naturalmente, a verdade é que o traço dominante da sociedade, nos setores de 
produção mais importantes, é o oligopólio - isto é, o predomínio de uns poucos 
produtores. Os preços são «administrados», em lugar de serem formados no merca· 
do; as firmas menores seguem os preços impostos por essa liderança; o ingresso no 
mercado é muito difícil, etc. Diante dessa concentração de poder econômico, os li­
berais a consideram um perigo, e procuram destruí-la. 
A principal afirmativa de Galbraith, acompanhando Schumpeter, é que o oligopó­
lio (que se reconhece existir) tem poucas das conseqüências temidas pelos liberais: é 
um aspecto natural, quase inevitável, da economia de alto investimento; não resul­
ta de conspirações, mas do funcionamento normal do mercado. À medida que a 
indústria se expande, as empresas também crescem, beneficiando-se da eficiência 
técnica implicada na produção em grande escala, e da «economia da experiência». 
Os novos competidores precisam mobilizar capital, enfrentar os problemas trazidos 
pela falta de pessoal habilitado, etc. Em todos os setores industriais chega-se em 
poucos anos a uma situação oligopolística; uma vez atingido o equilíbrio , o grau de 
concentração permance estável, corno demonstrou M.A. Adelman num estudo so­
bre o assunto (Review of Economic Statistics, novembro de 1951): «Se tem havido . 
alguma tendência forte e contínna para aumentar o grau da concentração na in­
dústria de manufaturas . . . isto não é o que mostram estas estatísticas». 
Se examinarmos o que se passa à luz da teoria pura da formação de preços, o re­
sultado poderá ser uma certa distorção e ineficiência na distribuição dos recursos. 
Vamos encontrar uma compensação, porém, no progresso tecnológico promovido 
pelas grandes empresas: «admiravelmente equipadas para financiar o desenvolvi­
mento técnico. Sua organização oferece fortes incentivos para esse desenvolvimento, 
e para a utilização dos seus frutos . ... O poder que a empresa tem de influenciar 
em certa medida os preços garante que os ganhos auferidos não serão transferidos 
ao público por imitadores, (que não tiveram que pagar o custo da nova tecnolo­
gia), antes desse custo ser recuperado. Desta forma o poder sobre o mercado prote­
ge os incentivos ao desenvolvimento tecnológico». Na agricultura, os fazendeiros 
praticamente não fazem investimento direto em pesquisa: a tarefa é confiada às es­
tações experimentais dos Estados, e ao Departamento da Agricultura do governo 
federal. 
Eis af uma defesa vigorosa e sofisticada da «bigness», baseada no critério da eficá­
cia. Contudo - e este é o ponto em que Galbraith procura explicar por que os ho­
mens de negócios e os liberais estão aprisionados por velhos fantasmas - os 
J 
O Fim da Ideologia 75 
homens de negócios não podem admitir seu poder. "Isto se deve em parte à tradição; é 
também o problema de chamar a atenção do público e da seção antitruste do Departa­
mento da Justiça. Por isso, a fim de justificar sua indisposição de acatar a regulamen­
tação federal, precisam negar que exercem qualquer tipo de poder econômico: preci­
sam manter a ideologia da competição". 
O outro fantasma é o dos liberais: o espectro do poder empresarialdesenfreado, 
apossando-se «dos pontos elevados da economia». Com efeito, é em resposta ao 
pensamento liberal que Galbraith desenvolve sua teoria do «poder compensatório» 
("countervailing power"), expressão que com sua simplicidade imaginativa cristaliza urro 
sentimento de muitos observadores a respeito da sociedade. ~ 
Esse sentimento tinha sido sintetizado, de um modo geral, na imagem dos « blocos-o 
funcionais» - a indústria, a organização trabalhista, os agricultores - que se con-5:i 
frontam e equilibram. O ponto de vista de Galbraith é mais sutil na sua caracteri­
zação. «Para explicar o que acontece de forma dogmática, ... o poder econômico~ 
privado é controlado pelo poder compensatório (countervailing·power) dos que es-< 
tão sujeitos a ele. Um gera o outro. A tendência de longo prazo para a concentra- l1 
ção do setor industrial em relativamente poucas firmas provocou o surgimento não~ 
só de vendedores vigorosos, como os economistas esperavam, mas também, de fortes~ 
compradores - o que eles não previram». A auto-regulação do mercado, nos Esta-~ 
dos Unidos, deriva hoje não da competição dos produtores (um campo onde predomi- Õ 
na o oligopólio), mas do contrapoder dos compradores e dos vendedores, surgido au- -, 
tonomamente. m 
Esta teoria tem aplicação mais evidente no setor das relações trabalhistas, onde CD 
apareceram sindicatos vigorosos, opondo-se ao crescimento do poder das empresas =o 
na determinação dos salários. Mas ela se aplica também a outros campos. Por~ 
exemplo: os compradores de grandes cadeias, como Sears Roebuck, puderam evitar t:io 
o controle oligopolístico dos preços da borracha mediante compras maciças; ame a· t~ 
çando ingressar no setor do processamento de alimentos, o grupo A & P conseguiu 
manter baixos os preços dos alimentos que ~dquiria. «Nos Estados Unidos não há 
cooperativas de consumo de importância», escreve Galbraith, «porque as lojas em 
cadeia se anteciparam à manifestação do poder compensatório, ficando com as 
vantagens respectivas»: São os fabricantes de automóveis que controlam os produto-
res de aço. Em alguns casos, os poderes que se deveriam opor mutuamente entra­
ram em conflito, disso resultando uma queda de eficiência econômica. 
Essas valências econômicas se desenvolveram na década de 1920, quando compra­
dores se uniam contra vendedores. Como certos grupos - por exemplo, os agricul­
to~e , e os trabalhadores de modo geral - não foram capazes de gerar esse 
equi 'brio, o Estado se viu obrigado a intervir no caso dos agricultores; este esforço 
foi i iciado por Hoover, cuja Junta Agrícola Federal (Federal Farm Board) patroci• 
no a instituição de um sistema nacional de cooperativas. Em termos gerais, contu­
do, foi o "New Deal" que promoveu o countervailing power dos grupos de menor· 
influência. A partir desta teoria - a substituição da competição pelo «poder com• 
pensatório" como instrumento regulador do poder econômico privado -, Gal­
braith procura estabelecer um critério para a ação do Estado, não mediante a re­
gulamentação, ou mesmo o desmantelamento dos trusts, mas por meio do desenvol­
vimento do countervailing power, onde necessário. 
Em todos esses pontos, Galbraith desenvolveu com habilidade uma teoria realista 
da economia política, mais ajustada a um mundo de gigantes econômicos do que a 
76 Daniel Bdl 
velha economia da competição. No entanto, Galbraith é bastante keynesiano para 
perceber que isso não basta. · «Não temos nenhum mecanismo que atue de modo 
autônomo, dentro da economia, para assegurar seu bom funcionamento; a expe­
riência demonstra, melancolicamente, o que a teoria nos indica: que a norma da · 
economia norte-americana, em tempos de paz, não é necessariamente a estabilida­
de num nível elevado de produção e de emprego». Há necessidade , portanto, de al ­
guma forma de decisão governamental centralizada, na área da política fiscal,$e 
influencie a demanda total de bens por meio da tributação ou do orçamento públi .o. 
"Se a fórmula keynesiana funciona, desaparece o último dos motivos de alarme is 
importante com respeito ao capitalismo noste-americano". 
Mas o livro de Galbraith falha num aspecto sociológico crucial, pois não chega a 
responder à pergunta que formula : por que razão tanto a comunidade de negócios 
como a esquerda estão presas à descrição de uma realidade que não existe mais? 
Por que razão o mito é mais importante do que a realidade? 
Responder, como faz Galbraith, fornecendo um retrato mais acurado da realidade 
é o mesmo que afirmar a um neurótico que seus temores são infundados; é possível ' 
que eles não tenham fundamento, mas a resposta não convencerá o neurótico até 
que se descubram as origens do seu medo. 
Sociologicamente, é possível que o fato mais importante sobre a comunidade de ne­
gócios nos Estados Unidos, atualmente, seja a insegurança da classe gerencial. A 
empresa pode ter sua continuidade assegurada; seus administradores, não. Esta é 
uma das conseqüências do desaparecimento rápido e marcante do «capitalismo fa­
miliar», e da sua transformação em «capitalismo empresarial», ou «corporativo». À 
nova classe de gerentes, recrutados na classe média, falta o sentido de auto­
justificação que proporcionava o sistema antigo, com suas bases de classe. Os ge­
rentes não participam da propriedade das empresas, e não podem transmitir aos fi­
lhos o poder que adquirem. Daí a necessidade crescente de realização, como sinal 
de sucesso profissional, e a importância que atribuem à ideologia como um meio 
de se jusúficarem. É a ideologia que serve como cimento social, unindo os homens de 
negócios. 
Como os novos gerentes são inseguros, e têm uma atitude defensiva a respeito do 
seu status, sentem fortemente a necessidade de guardar as antigas justificativas do 
capitalismo - baseadas na propriedade privada - , que são, num certo sentido, as 
únicas justificativas que conhecem. Só recentemente, com a ênfase na produtivida­
de e no rendimento, estão surgindo outras justificativas. Paralelamente ao movi­
mento da «propriedade» para o «controle», na organização dos negócios, tem havi­
do uma transferência de simbolismo, do «patrimônio» para o «empreendimento». 
Ao mesmo tempo, a mudança do eixo do poder, do campo econômico para o 
político, dâ força à necessidade de manter um sistema de justificativas - o modelo 
competitivo do capitalismo - , · acentuando a importância do sistema de poder des­
centralizado e minimizando a função interventora do Estado. Pois se o governo en­
fatiza a significação que tem para a sociedade, por razões de segurança ou sociais , 
as postulações da empresa em termos de prioridades sociais (isenção de impostos, 
subsídios, etc.) passam a ocupar uma posição secundária. 
Essas razões se aplicam fundamentalmente aos gerentes. Entre as firmas de tama­
nho médio - uma proporção maior das quais são predominantemente negócios de 
família - hã outros fatores. O próprio caráter amorfo da sociedade, o surgimen• 
to de novos e ameaçadores grupos de interesses, a emergência de movimentos so-
O Fim da Ideologia 7'1 
ciais e de ideologias aumentam a ansiedade das pessoas que outrora dispunham de 
algum poder, dentro do seu pequeno universo, e que agora se sentem expostas ãs 
correntes mais fortes da sociedade. 
A falta de forma da sociedade propõe um problema, igualmente, para os liberais. 
Na última década, ou, mais precisamente, desde o início da economia de guerra, 
os liberais não tinham partilhado do poder, pelo menos no mesmo grau dos primei­
ros dias do «New Deal». A sociedade política parecia agora uma escultura móvel 
um móbile de Calder, mantendo um equilíbrio difícil e irregular, à medida que 
seus componentes oscilavam movidos pelos ventos da mobilização geral para a guer­
ra. Com muita freqüênciá as decisões cruciais (por exemplo, a distribuição de con­
tratos governamentais e de quotas de suprimento de matérias-primas) são decisões 
técnicas, motivadas pelo simples desejo de comandar os recursos disponíveis com a 
maior agilidade possível.Mas o sentido das decisões técnicas não é reconhecido por 
todos, e é mais fácil imaginar que haja alguma razão oculta, ou poder determinan­
te, por trás de cada uma dessas decisões. 
Daí as compulsões sociais entre grupos diferentes, para negar a nova realidade do 
«countervailing power». 
Mas o sistema de pesos e contrapesos da sociedade moderna, tanto no seu aspecto 
econômico como no político, está sendo também prejudicado pelas guerras e a in­
flação. O poder compensatório funciona dentro de um quadro de relativa escassez 
da demanda - isto é, quando o comprador goza de uma certa influência. Em con­
dições inflacionárias, quando prevalece no mercado o vendedor, o comprador fica 
desprotegido, e o preço imposto pelo vendedor é transmitido ao mercado. É a guer­
ra, principalmente, que provoca a ameaça da inflação. E a combinação das duas 
- inflação e guerra - levanta o maior dos perigos ao capitalismo hodierno, 
definido e justificado como um sistema de decisão econômica descentralizado, 
porque tende a centralizar o poder no Es~ado, a fim de compensar o desapareci­
mento do poder compensatório na sociedade. A decisão pelo Estado, por via admi­
nistrativa, ou pelas grandes empresas, se torna então o principal método para a 
' distribuição de recursos e a tomada de decisões de produção e consumo na econo­
mia, em lugar do «racionamento» realizado no mercado. 
Curiosamente, Galbraith evita quase completamente os problemas causados pela 
economia de guerra permanente. O «socialismo insidioso» ( « creeping socialism »), 
de que os republicanos se queixam tão amargamente, resulta não de um plano 
ideológico deliberado, mas da resposta mal consciente da sociedade ao desafio 
~
r sentado pela guerra. A mais importante transformação ocorrida na economia 
dos Estados Unidos, na última década, foi o crescimento do orçamento federal. De 
ca a dólar gasto em 1953 pelo governo norte-americano, 88 centavos se destinavam 
~ defesa nacional e ao custeio de guerras passadas; a previdência e assistência so­
cial, saúde pública, educação, . habitação e bem-estar participam, em conjunto, 
com apenas 4 por cento do orçamento federal. Um governo republicano não tem 
condições de alterar de modo apreciável o volume total dos dispêndios governamen­
tais; pode apenas, por meio da política tributária, influenciar a distribuição do 
ônus dos impostos. Assim, a decisão econômica mais importante - o montante · do 
orçamento - numa economia de guerra fria, está fora do alcance da influência da 
· comunidade de negócios, ou de qualquer outro grupo de interesse, isoladamente. 
O grau de liberdade existente numa economia capitalista - e o desenvolvimento 
do countervailing power - depende do grau de mobilização necessário para en-
78 Daniel Bell 
frentar a demanda da guerra . Embora algumas empresas e grupos mais poderosos 
possam obter vantagens especiais, as principais características da organização do 
sistema impõem uma técnica lógica que não deve ser ignorada. 
Uma economia totalmente voltada para a guerra implica a coordenação minuciosa 
de diversos bens e serviços que só podem ser obtidos por matérias-primas básicas, 
por exemplo, como uma programação pormenorizada destinada a controlar literal­
mente o funcionamento diário da empresa. Numa economia industrial modern , a 
sociedade toda funciona na base da «contagem de parafusos». As exigências t'cni­
cas do planejamento direto são tão minuciosas que no caso do níquel, por exe plo 
(um dos «parafusos» mais importantes, durante a guerra da Coréia), a PA 
(National Price Administration, órgão encarregado de fixar preços em todo o aís) 
. era forçada a autorizar o fornecimento da quantidade precisa de níquel usada em 
cada lingote produzido. 
Pode ser que a economia de guerra «total» seja um mito. Sabemos, por exemplo, 
como era pouco eficiente e até caótica a economia de guerra alemã, na Segunda 
Guerra Mundial; e sabemos como o nosso próprio planejamento industrial de guer­
ra gerou tremendo desperdício. Mas uma economia de · defesa nacional demandà 
um grau considerável de planejamento e direção - ainda que disfarçados. E a «e­
conomia em prontidão», que se torn~u um traço básico da nossa sociedade, tira a 
relevância do problema que agitou os liberais durante tantos anos: saber se a mara­
vilhosa produtividade da economia norte-americana podia ser dirigida plenamente 
para atividades de paz. Com efeito, no futuro previsível, teremos sempre orçamen­
tos amplos e dispêndios importantes com a «defesa nacional». 
Mas, pondo à parte a questão da defesa nacional, a experiência desde o fim da 
. guerra demonstra o aumento da resistência da economia aos choques. A experiên­
cia dos primeiros anos do pós-guerra é instrutiva. De um máximo de 135 bilhões de 
dólares, em 1944, os gastos governamentais desceram em 1946 a apenas 25 bilhões. 
Contudo, a despeito dessa contração da demanda, a produção total do país caiu 
só em 15 por cento. A demanda reprimida dos consumidores, a necessidade de re­
fazer estoques e a expansão industrial neutralizaram a redução dos gastos públicos. 
No princípio de 1947, quando a venda de bens de consumo chegou a se entorpecer 
- tecidos, sapatos, roupa - , os economistas voltaram a se manifestar com. pessi­
mismo, mas o Plano Marshall, para a reconstrução européia, e um surto de 
contrução residencial, logo criaram compensações. 
Os motivos dessa «resistência» de nossa economia são bastante claros. Os subsídios 
agrícolas e uma certa redistribuição de renda (por meio da p revidência social, pa­
gamentos aos veteranos de guerra etc.) assegura um nível mínimo de demanda. 
Têm havido, por outro lado, mudanças significativas no funcionamento das 
empresas: durante 1946-48, as empresas reinvestiram 62 por cento dos seus lucros 
(descontados os impostos), índice que se compara com os 31 por cento em 1929, ou 
41 por cento três anos antes da guerra . Ao contrário do que diziam as profecias si­
nistras dos demógrafos, a taxa de nascimento começou a aumentar, restabelecendo 
assim um dos principais fatores do crescimento regular da economia na segunda 
parte do século dezenove (Alvin Hansen baseou sua teoria da estagnação secular 
principalmente na queda da taxa de crescimento demográfico). 
São esses os fatores estruturais de efeito positivo. Do outro lado da balança, novos 
elementos de instabilidade estão sendo introduzidos na economia, quase sempre por 
forças políticas compensatórias. Setores industriais antiquados usam pressões políti-
p 
O Fim da Ideologia 79 
cas para manter suas fábricas sem equipamento adequado. Os níveis salariais ten­
dem a ser «pegajosos» (isto é, não respondem imediatamente à influência da de­
manda pe]o trabalho), de forma que os preços não podem ser reajustados, ou redu­
zidos, com facilidade - e os empregadores podem tender em certas circunstâncias 
a cortar a produção. A pressão pela aquisição de bens e serviços cria uma tendên• 
cia inflacionária de longo prazo, que marginaliza segmentos significativos da socie­
dade, compostos por trabalhadores assalariados ou rentiers. 
Mas o governo, inevitavelmente, é que mantém o equilíbrio. Estamos chegando a 
um ponto em que cerca de 20 por cento do produto nacional bruto, ou da renda 
nacional, é absorvido e gasto pelo governo. Mediante pagamentos fiscais muito sim­
ples (impostos e subsídios) o governo dispõe de mecanismos diretos para injetar di­
nheiro na economia, e para extrair do fluxo econômico os recursos excessivos (em­
bora politicamente isto seja mais difícil). Esse nível elevado do orçamento federal é 
determinado - e continuará a ser determinado no futuro previsível - pela nature­
za das tensões internacionais e pelo endividamento passado do governo. É difícil 
conceber que qua]quer governo possa reduzir o orçamento abaixo dos vinte por 
cento implicado pela mobilização permanente da economia. 
Os notáveis avanços que Keynes e Schumpeter nos proporcionaram, na compreen­
são da economia, e a síntese parcial feita por Galbraith dão um quadro maisabrangente da sociedade contemporânea. Contudo , embora essas realizações inte· 
lectuais sejam extraordinárias, elas estão vinculadas, também (resultando, como re­
sultam, do rigor da lógica econômica) , à estrutura analítica específica das variáveis 
econômicas (isto é, os postulados do investimento e do consumo); como componen­
tes da teoria econômica (embora a excedam na sua percepção prática), são força­
das a desprezar o lado político da economia. No entanto, esses aspectos poBticos 
são atualmente os mais importantes. 
Com efeito, o problema principal é um problema de economia política. Do ponto 
de vista técnico, dispomos de propostas econômicas para a organização da produ­
ção, o controle da inflação, a manutenção do· pleno emprego, etc. Mas as propos­
tas políticas não são tão fáceis, numa sociedade composta de grupos de interesses, 
como é a nossa. 
No longo prazo, não é possível evitar os problemas trazidos pela distribuição dos 
ônus e a natureza dos controles empregados. As exigências «estatizantes» de uma 
economia parcialmente dedicada à guerra, com seus imperativos técnicos, se cho­
cam com a atitude antiestatizante dos administradores de empresas. O primeiro go­
verno republicano dos Estados Unidos, em vinte anos, não é capaz de alterar dras­
ticamente o rumo dos gastos governamentais, embora represente essa mentalidade 
antiestatizante. A situação internacional impõe os mesmos imperativos a de­
mocràtas--e-a--1'ê'publicanos, e a situação de «guerra parciah leva o governo a exer­
cer um papel de controle e domínio sobre a economia. A verdadeira \}Uestão 
política interna passa a ser, então, decidir que grupos arcarão com o peso das obri­
gações adicionais impostas pelas circunstâncias. 
A reabilitação intelectual do capitalismo norte-americano está sendo completada ao 
mesmo tempo em que a realidade muda rapidamente. As ideologias mais recentes 
se tornam antiquadas, e exigem novas revisões muito antes de serem compreendidas 
e aceitas em larga escala.

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