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A OBRA ClARA
Lacan, a ciência, a filosofia
J ean-Claude Milner
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Transmissão
da Psicanálise
A OBRA CLARA
Lacan, a ciência, a filosofia
"Lacan é, como ele próprio diz, um autor cris
talino. Basta lê-lo com atenção." É partindo
desse inusitado pressuposto que Jean-Claude
Milner se propõe estudar as relações entre o
pensamento de Lacan, a ciência e a filosofia.
Seu pivô teórico é a teoria lacaniana, que sou
be preservar e elaborar os pontos de choque e
de atração entre esses diferentes discursos. O
resultado é um livro magistral, cuja impor
tância vem sendo cada vez mais sublinhada
desde seu lançamento na França.
Freud jamais negou seu aval ao "ideal da ciên
cia", e almejava inscrever a psicanálise no qua
dro já existente das outras disciplinas cientí
ficas. Lacan, em contrapartida, ao contestar a
ciência "ideal" como modelo para a psicaná
lise, pretendeu detectar na própria psicanálise
os fundamentos epistemológicos de seus prin
cípios e métodos. A formulação viu-se assim
invertida, a psicanálise tomando-se capaz de
questionar a ciência. Em 1965, Lacan já in
quiria: "O que será uma ciência que inclua a
psicanálise?"
Contudo, considerando a ciência essencial para
a existência da psicanálise, Lacan vai requerer
precisamente uma teoria à qual o Eu se mostra
refratário: a da ciência moderna com sua litera
lidade - a ciência e a letra são indiferen.tes
às boas formas, ao passo que o Eu e o imagi
nário são gestaltistas . . .
Milner estabelece três diferentes períodos na
obra de Lacan, a qual considera ter perinane
cido inacabada: o primeiro classicismo, o se
gundo classicismo e a desconstrução.
Representado sobretudo pelos Escritos, o pri
meiro classicismo consiste no desenvolvimento
progressivo e quase sistemático do programa
articulado no Discurso de Roma, de 1953, e T@íbhoteta jf reullíana
se instaura através da ênfase na linguagem e
na estrutura: o que se produz nesse período,
com as doutrinas do significante e da homo
fonia, é uma antilingüística.
O segundo classicismo, cujos principais repre
sentantes são o Seminário 20 (Mais, ainda) e
os textos L'étourdit e Radiophonie, começa
em 1970 e abrange o desenvolvimento dos ma
temas: o que se produz aí, com a teoria dos
discursos, é uma antipolítica e uma antifi
losofia.
A desconstrução é o período da emergência
do nó borromeano: o que se produz então, pe
lo desvio da letra, é uma antimatemática, e o
interesse de Lacan pelos nós se dá na exata
medida em que resistem a uma matematização
integral, à diferença dos outros objetos topo
lógicos (banda de Moebius, cross-cap).
Como diz o autor, seu projeto é "constatar cla
ramente que existe pensamento em Lacan. Pen
samento, isto é, algo cuja existência impõe-se
a quem não o pensou".
JEAN-CLAUDE MILNER, nascido em 1941, é
professor de lingüística na Universidade de Pa
ris vn. Foi discípulo de Althusser e Barthes,
tendo aderido à Escola Freudiana de Paris em
1964, sob a liderança de Jacques Lacan, e inte
grado o conselho de redação do periódico
Cahiers pour l'Analyse. Seus trabalhos tratam
sobretudo de efetuar uma leitura da lingüística
a partir da teoria lacaniana. É autor de vários
livros, entre os quais L'amour de la Zangue
(1978), Ordres et raisons de la Zangue (1982),
Les noms indistincts (1983 ), De L' é cole
(1984), Archéologie d'un échec (1993).
Jean-Claude Milner
A OBRA CLARA
Lacan, a ciência, a filosofia
Tradução:
PROCÓPIO ABREU
Revisão técnica:
MARCO ANTONIO COUTINHO
psicanalista
. Jorge Zahar Editor
Rio de Janeiro
T@íbhoteta jf reullíana
Título original:
L 'reuvre claire
( Lacan, la science, la philosophie)
Tradução autorizada da primeira edição francesa
publicada em 1995 por Éditions du Seui1,
de Paris, França, na coleção "L'ordre philosophique"
Copyright © 1995, Éditions du Seuil
Copyright © 1996 da edição brasileira:
Jorge Zahar Editor Ltda.
rua México 31 sobreloja
20031-144 Rio de Janeiro, RJ
te!.: (021) 240-0226 I fax: (021) 262-5123
Todos os direitos reservados.
A reprodução não-autorizada desta publicação, no todo
ou em parte, constitui violação do copyright. (Lei 5.988)
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Milner, Jean-Claude
M598o A obra clara: Lacan, a c1encia, a filosofia I
iean-Claude Milner; tradução, Procópio Abreu;
revisão técnica, Marco Antonio Coutinho. -Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996
-(Transmissão da psicanálise)
Tradução de: L'ceuvre claire: (Lacan, la science,
la philosophie)
ISBN 85-7110-347-X
I. Lacan, Jacques, 1901-1981. 2. Psicanálise. I.
Título. 11. Série.
W! 01411
CDD- 150.195
CDU - 159.964.2
Sumário
Introdução 7
CAPÍTULO I. Considerações sobre uma obra 11
CAPÍTULO 11. O doutrinai de ciência 28
1. A equação dos sujeitos e a ciência 28
2. A teoria do moderno 31
3. A estilística historicista 36
4. A episteme antiga 38
5. Que o historicismo não é necessário 44
6. Literalidade e contingência 50
CAPÍTULO III. O primeiro classicismo lacaniano 63
1. A linguagem do corte 63
2. O paradigma da estrutura 74
3. O sério da estrutura 82
4. Rumo a uma leitura transcendental 87
CAPÍTULO IV. O segundo classicismo lacaniano 95
1. As instabilidades do primeiro classicismo 95
2. O materna 99
2.1. A função e a forma do materna 100
2.2. A letra 104
3. A matemática 107
4. A visibilidade do literal 114
5. A antifilosofia 118
CAPÍTULO V. A desconstrução 129
Introdução
Não me proponho esclarecer o pensamento de Lacan. Não tenho nem
autoridade nem qualificação para isso. Ademais, o projeto de tal elu
cidação não parece especialmente urgente. Lacan é, como ele mesmo
diz, um autor cristalino. Basta lê-lo com atenção. Acho, é claro, que
tais leituras devem ser guiadas, mas para isso existem instituições
sérias e obras excelentes. Na verdade, a bibliografia lacaniana distin
gue-se pela quantidade e pela qualidade de seus títulos. Considerando
as necessidades presentes, os comentários de que hoje dispomos são
desde já perfeitos. Mas com uma ressalva: os melhores não são nem
os mais acessíveis, nem os mais bem conhecidos.
É verdade que um Lacan segundo a ordem das razões não existe.
Dois séculos foram necessários para que o pensamento de Descartes
fosse exposto de acordo com os princípios que ele próprio formulara.
Kant requer a cada período releituras atentas; por mais rígida a forma
escolástica que lhe havia legado Wolf, ela não o preservou de desvios.
Podemos portanto supor que um dia, em breve talvez, será preciso
retornar a Lacan, como o próprio Lacan teve de retornar a Freud. O
erro de leitura é aqui previsível e provavelmente necessário; ele faz
parte da gravidade dos destinos. Deve-se ainda dar-lhe tempo para
que se desdobre. Na França, em todo caso, o tempo não foi suficiente
(não direi o mesmo das Américas, mas não escrevo com elas em
mente).
Não é portanto oportuno fazer acerca de Lacan uma apresentação
que o apreenda em sua lógica interna- seja esta, de fato, consistente
ou não - e o exponha de maneira tão completa que eventuais
contra-sensos sejam corrigidos. Meu intuito é bem distinto: não se
trata de esclarecer o pensamento de Lacan, nem de retificar o que
7
8 A obra clara
dele disseram, mas de deixarclaro que existe pensamento em Lacan.
Pensamento, isto é, algo cuja existência se impõe a quem não o pen
sou.
Os servidores da exatidão e da clareza supõem essa existência
como dada. Eles têm razão. Supõem também que o melhor método
para eles é o de esclarecer Lacan por Lacan; mais uma vez, eles têm
razão. Sejam quais forem as obras, as mais irrepreensíveis elucidações
obedecem a esse princípio. Mas quando não se supõe a existência
dada, é preciso proceder de outro modo.
O único suporte que assegura a veracidade da existência de um
pensamento são as proposições. Dizer que existe pensamento em Lacan
corresponde portanto a dizer que nele existem proposições. Mas nada
existe, se não tiver propriedades. E nada tem propriedades, se estas
não forem, ao menos parcialmente, independentes do meio. É preciso
portanto estabelecer que existem em Lacan proposições suficiente
mente robustas para serem extraídas de seu próprio campo, para su
portarem mudanças de posição e modificações do espaço discursivo.
Mas tampouco é necessário ser exaustivo; basta que algumas proprie
dades desse tipo sejam reconhecidas para algumas proposições. Assim
caracterizado, o programa se define em exterioridade e em incomple
tude.
Tenciono reconstituir apenas certas articulações; além disso, pre
tendo não reinseri-las num dispositivo global, que pretenderia tornar
visível a construção geral da obra (veremos em que sentido o termo
"obra" pode ser aqui entendido). Serei, por exemplo, levado a dar
certa importância à questão da ciência. Sabemos que Lacan a abordou
com alguma insistência; entretanto, não é verdade que a partir dela
possamos deduzir, em detalhe, o conjunto dos conceitos fundamentais
da psicanálise. Ademais, Lacan, nessa questão, não cessa de não se
autorizar por si mesmo. Como se a questão da ciência fosse decisiva
- a ponto de ser preciso a ela voltar de forma repetitiva- e como
se, no entanto, ela fosse suficientemente estranha ao essencial para
que um garante exterior - Koyré, especialmente - bastasse. Com
parativamente, o paradigma da lingüística estrutural ganhou a impor
tância que conhecemos, e, no entanto, em nenhum momento conse
guimos nos persuadir de que Lacan tenha praticado os trabalhos pró
prios a essa disciplina: como se sua pura e simples existência bastasse,
esmalte exterior vedando e protegendo os espaços a serem conquis
tados.
Introdução 9
Ora, eu sustento que existe um bom uso da exterioridade. O
próprio Lacan colocou-a em prática; é legítimo pô-la em prática em
relação a ele.
A doutrina lacaniana da ciência é derivada de Koyré, mas ela
submete Koyré a fins que lhe são alheios. Por conseguinte, ela ma
nifesta propriedades da doutrina de Koyré, por vezes mantidas em
estado latente nos textos de referência. Da mesma forma, Lacan revela
propriedades da doutrina estrutural, na medida exata em que se mantém
em relação a ela numa paradoxal posição de inclusão externa. Se, em
contrapartida, partimos da doutrina da ciência e da estrutura, empe
nhando-nos em desdobrar em si mesmas as teses discriminantes, a
exterioridade destas permite violentar o ambiente natural das propo
sições lacanianas; evidenciamos assim propriedades objetivas e quase
materiais.
Para esbarrar nas paredes, não é necessário, dizia Lacan, conhecer
a planta da casa. Ou melhor: para encontrar as paredes ali onde estão,
é melhor não conhecer a planta, ou se porventura a conhecemos, é
melhor não levá-la em conta. Existem duas maneiras de se reconhecer
a imagem de um objeto. Podemos partir do interior deste objeto e,
por uma lei ou uma composição de leis, gerar-lhe os contornos. Assim
faz o geômetra ao traçar um círculo; assim faz o lingüista ao construir
uma gramática. Podemos também partir dos lados e do exterior; levar
em conta a presença dos corpos vizinhos; estabelecer como esses
corpos, por sua disposição lateral, determinam a forma de um espaço
onde se aloja o objeto. Assim fazem os rios e as cidades, materialmente
organizados pelos obstáculos que os encerram e os ignoram. Escolhe
mos aqui a segunda via: descrever alguns relevos exteriores que o
discurso lacaniano confrontou, contornou e erodiu, não sem deles
receber uma forma e não sem lhes conferir uma. Podemos chamar
isso de materialismo discursivo.
Afinal, é assim que se legitimam as técnicas de leitura tão ca
racterísticas de Freud ou de Lacan. Deslocar as ênfases, para que
melhor se ouça o real da matriz rítmica. Romper as ligações visíveis,
para que fiquem mais visíveis as ligações reais. Dissipar as signifi
cações, articuladas e completas, para que o sentido emerja, sempre
lacunar.
Uma vez mais, a exaustividade não é necessária. Admitindo-se
a exterioridade do ponto de vista, o materialismo discursivo estará
satisfeito, e seu programa executado, por pouco que algumas proprie
dades de algumas proposições tenham sido encontradas. Não nos sur-
10 A obra clara
preenderemos portanto com que, sobre pontos claramente primordiais
quanto à lógica doutrinai interna, poucas coisas sejam ditas. Nem o
desejo, nem o objeto a, nem o falo, nem, de maneira geral, nada que
legitime a existência de proposições clínicas serão abordados. Mas,
se alguma coisa faltar, não será uma falha, principalmente se o que
faltar for indispensável.
A grandeza de todos os materialismos autênticos reside no fato
de não serem eles totalizantes. Que o De natura rerum e O capital
estejam inacabados, isso se deve ao acaso e, justamente por essa razão,
isso decorreu de uma necessidade sistemática. Sua incomplctude au
toriza que os tratemos de maneira parcial. Às obras não-totalizantes
convêm leituras não totalizantes. Se é permitido comparar grandes
coisas, o Lacan que proponho se revelará confirmado caso se revele
tão incompleto quanto Lucrécio ou Marx.
Conseqüência última: nenhum engajamento pessoal deverá ser
percebido. Nem temor, nem esperança. Nem admiração, nem desdém,
nem indiferença. Nem memória, nem esquecimento. Não me pareceu
apropriado ter que dizer o que pessoalmente penso de Lacan ou, graças
a Lacan, da conjuntura que o inclui e que ele esclarece. Era preciso
adotar o ponto de vista do curso d'água que faz advir paisagem à
existência. Isso não significa que necessariamente eu não pense nada
sobre nada daquilo que falo - já me expus em outras circunstâncias
-, mas um pensamento pessoal não teria sido aqui nem um pouco
pertinente.
Isso supondo que um pensamento pessoal tenha qualquer perti
nência. Estou, com efeito, cada vez mais convencido de que o pen
samento é algo sério demais para ser entregue às pessoas, a não ser
a título excepcional. Lacan é provavelmente uma dessas exceções; há
outras; por definição, elas valem unicamente por sua raridade. Em
todo caso, elas dispensam aqueles que falam sobre isso de reivindicar
a mínima exceção para si mesmos. Se pensamento deve haver no
curso corrente do mundo, tenho por máxima ética aceitável fazer de
maneira com que haja o mais possível. O que faz também com que
sua existência se imponha ao maior número possível de seres pensantes.
Esta é, para falar a verdade, a única justificativa que podemos propor
para que um texto qualquer exista, em vez de não existir. Com uma
condição entretanto: que, salvo exceção, o pensamento seja somente
o dos objetos.
CAPÍTULO I
Considerações sobre uma obra
O que de hábito chamamos "a obra de Lacan" apresenta-se sob duas
formas. Temos, por um lado, os textos escritos por Lacan para serem
publicados; por outro, dispomos dos seminários, transcritos e editados
por outros que não Lacan - alguns deles sob o controle direto de
Lacan. Os textos anteriores a outubro de 1966 foram reunidos num
volume intitulado os Escritos; os mais importantes textos posteriores
- mas não todos - foram publicados na revista Scilicet. Considero
que todos os textos escritos para publicação têm um status semelhante,
seja qual for sua data ou lugar; tomarei a liberdade de chamá-los em
seu conjunto: os Scripta.Em tomo dos seminários surgiram diversas
controvérsias; por motivos de fundo, que rápido surgirão, irei ater-me
à edição em vias de publicação pela Seuil; ela tem por título Le
Séminaire, cada volume constituindo um livro, identificado por um
algarismo romano e um título, desse conjunto unitário. 1
É impossível não se interrogar sobre a relação entre essas duas
massas de textos. O que êorresponde na verdade a se interrogar sobre
o que chamamos "a obra de Lacan". Não apenas sobre o que a compõe
materialmente, mas mais radicalmente sobre o que autoriza que falemos
de obr� a respeito de Lacan. Agi como se essa questão fosse simples.
Ora, ela merece um exame atento.
A noção de obra é moderna. Ao menos se a considerarmos num
sentido est··ito, como esse princípio de unicidade que permite introduzir
no múltiplo da cultura2 um desconto e diferenciações. Essa unicidade
está centrada em tomo de um sistema de nomeações - o nome do
autor e o título da obra -, subsumindo produções materiais, em
particular do texto, sob o regime do Um. A questão de saber se há
um ou vários textos é de resto inteiramente secundária, já que é a
nomeação que os constitui em Um: em outras palavras, a obra não é
11
12 A obra clara
necessariamente um livro, nem mesmo necessariamente um livro. A
obra não é uma matéria. é uma forma e é uma forma que organiza a
cultura.
Um marxista conseqüente sustentaria que ela é, na ordem do
pensamento, o equivalente do que é a forma mercadoria na ordem
das coisas. Do mesmo modo que a riqueza das sociedades nas quais
reina o modo de produção capitalista se anuncia como um imenso
acúmulo de mercadorias Gá se terá aí reconhecido a primeira frase
do primeiro livro do Capital), a cultura. para os modernos, anuncia-se
como um imenso acúmulo de obras; cada uma delas vale por um,
mediante a garantia que confere a essa unicidade a associação de um
autor (geralmente nomeado, mas o anonimato é uma variante admis
sível) e de um título (geralmente dado pelo autor, mas nem sempre);
na ordem dos escritos, essa associação é estabilizada pela publicação,
a qual manifesta a homologia da obra e da mercadoria: do mesmo
modo que não existe mercadoria senão proposta para troca, só existe
obra, num sentido estrito, publicada.
Nem sempre foi assim. Nos tempos modernos, porém, o dispo
sitivo que acaba de ser descrito prevalece e inclusive se amplia, mutatis
mutandis, a todos os domínios da cultura; as diversas artes estão
doravante submetidas à forma de obra, cada uma determinando o que
para ela funciona como equivalente da publicação (representação tea
tral, exposição, programa de televisão, censura etc.). É possível fur
tar-se a esse dispositivo, mas há um preço a ser pago: renunciar a se
inscrever na cultura. Podemos então falar de loucura - assim se deve
entender a definição de Foucault: a loucura como ausência de obra.
O que consiste em definir ao mesmo tempo a loucura como limite .
externo da cultura. Isso não significa, evidentemente, que a cultura
não tenha força para reabsorver as produções da loucura; basta-lhe,
pára isso, reinscrevê-las na forma de obra, mas, no mesmo instante,
o nome loucura terá deixado de ser pertinente. Os exemplos, sabemos,
são numerosos e o rótulo da arte bruta não foi inventado para outros
fins.
Entretanto, não é só a loucura que está em causa, com seu cortejo de
sofrimentos e dramas. Ao contrário do que poderíamos imaginar, pá
ginas e mais páginas dos escritos modernos multiplicam-se serena
mente fora da forma da obra. Globalmente, os escritos derivam da
ciência e de seu paredro, a técnica. É nesse sentido, com efeito, que
devemos entender a crença recorrente segundo a qual nem a ciência
Introdução 13
nem a técnica pertencem à cultura. Longe de querer denunciar com
isso um preconceito de ignorantes ou de humanistas (o que nem sempre
foi a mesma coisa). é preciso discernir aí uma relação estrutural: a
exclusão mútua de dois sistemas que se definem por essa mesma ex
c1usão. Uma conseqüência: o que atua na ciência não se inscreve na ·
forma de obra; esta forma, é verdade, ocorre vez por outra, mas no
tempo ulterior, quando cessou a eficácia de ciência. Einstein consti
tui-se em obra somente no instante em que a ciência considera que,
tendo-o absorvido. ela se sente no direito de esquecê-lo. Somente
então, a cultura, como fora-da-ciência, vem substituir a amnésia sis
temática da ciência em progresso, como fora-da-cultura. 3
Basta portanto que um moderno se veja convocado a um só
tempo pela ciência e pela cultura para que a questão da obra se lhe
apresente e exija uma decisão. Entre ambas, a escolha foi por vezes
cruciaL Este foi o desafio proposto aos alunos de Saussure. Sabemos
que eles tomaram o partido da obra. sustentando que a mera compilação
dos trabalhos científicos não bastaria para salvar um nome próprio ao
qual se apegavam. Daí nasceu este .. todo orgânico" chamado Cours
de linguistique générale, sem que se saiba se este título fora concebido
como singular ou plural ... O sucesso dos editores deve-se justamente
ao fato de que o singular se impôs a todos (dizemos o Curso); a partir
daí, existe de fato uma obra de Saussure, constituída pela associaçãó
de um nome de autor e de um texto, entendido como unitário; a partir
daí, Saussure ingressa nas fileiras da cultura. 4
Freud, por sua vez, teve que fazer a escolha por si mesmo. Po
demos inclusive lhe atribuir uma estratégia; tudo se passa como se
tivesse preferido o desvio pela forma de obra para estabelecer o que
a publicação propriamente científica não lhe permitia. A esse respeito,
o sonho da monografia botânica (L'interprétation des rêves, Paris,
PUF, 1967, cap. v, p.l53s.) merece ser lembrado. "Escrevi a monografia
de uma certa planta. O livro está diante de mim, viro precisamente
uma página etc." As associações giram em tomo de um fracasso: "fiz
de fato, outrora, algo como a monografia de uma planta; era um
trabalho sobre a coca, que chamou a atenção de K. Koller para as
propriedades anestésicas da cocaína. Eu mesmo havia indicado esse
uso, mas não havia aprofundado a questão ... " (ibid.). Advém daí a
• A palavra cours, não precedida de artigo definido, tanto pode ser singular como
pluraL (N.T.)
14 A obra clara
glória e o sucesso de Koller, como demonstra o volume comemorativo
que Freud acabava de receber naquela mesma manhã. Freud pensa
então com melancolia em seu próprio livro (a própria Traumdeutung)
que ele tarda em concluir: " se pudesse [ . . . ] vê-lo acabado diante de
mim" (p. l 55). Evoca enfim sua paixão juvenil pelos livros: " eu queria
colecioná-los, ter muitos . . . " (p. l 55) .
Interpretação: a monografia e o livro estão em conjunção-disjun
ção; o sonho soletra a renúncia à monografia, isto é, à ciência normal,
na qual existem jubileus e laboratórios, e a preferência dada ao livro,
ou seja, à forma de obra e à cultura; a Traumdeutung, como livro, irá
testemunhá-lo. De fato, monografia e livro derivam do mesmo para
digma - é por isso que a primeira pode " representar" o segundo -,
mas, ao derivar do mesmo paradigma, opõem-se mutuamente, como
fariam dois fonemas. Esta oposição repete a da ciência à cultura, a
respeito da obra. Freud decerto partira à conquista da ciência biomédica
(jlectere Superos); com este objetivo, empunhou a arma da monografia;
mas rejeitaram-no, ou, pelo menos, negligenciaram-no. Ele teve que
substituir sua estratégia inicial pela do livro, mas o livro aqui é apenas
o testemunho empírico da forma de obra, inscrita no campo fúnebre
da cultura (Acheronta movebo ).
Conhecemos a seqüência: a cultura foi suficientemente forte para
se impor à ciência e à técnica médicas. A forma de obra vencera a
monografia.
Não sem pagar um alto preço: foi " bando selvagem" ao qual
Freud teve que se acomodar, ele que sonhava com o laboratório, com
a honesta colaboração científica, com alunos fiéis e jubileus. Sabemos
também que Freud se esforçou de todas as maneirasem conformar a
psicanálise à ciência normal ; a conquista do universo moderno exigia
esse tributo. Para essa estratégia, a Internacional foi o meio escolhido.
Que ela fosse uma figura adequada da ciência normal, podemos
decerto duvidar; sob muitos aspectos, a ciência normal distingue-se
justamente por ser robusta o bastante para não precisar criar tais
instituições; a nitidez dos paradigmas, em conjunto com a rede herdada
das universidades medievais e, por que não dizer, da Igreja, eis o que
basta para tudo determinar. Mais que na ciência, a bem da verdade,
é nos jogos do estádio - os cinco anéis olímpicos - e em suas
imperiosas federações que faz pensar a IPA dos sete anéis.5 Entretanto,
podemos garantir o seguinte: por mais exorbitante que fosse aos olhos
dos bons costumes da ciência normal, a Internacional - segundo
Freud, pelo menos - devia tomar o lugar de tais costumes. Seu
Introdução 15
protocolo pode ser assim resumido: tanto na psicanálise quanto na
ciência, não haverá obra, à exceção de Freud; haverá apenas mono
grafias.
Lacan, também, teve que escolher. Ao final da Segunda Guerra,
a Internacional triunfara; a psicanálise se inscrevera no universo or
ganizacional da ciência normal e, como toda ciência digna desse nome
no universo moderno, ela segregara sua própria técnica. Seria preciso,
a partir disso, resignar-se unicamente à monografia? Sabemos que,
mais experiente e mais genuinamente modesto que muitos outros,
Lacan hesitou. Em favor do silêncio, por vezes: " entreguei-me, após
Fontenelle" , escreveu ele em 1 946, " a essa fantasia de ter a mão
cheia de verdades para mais bem fechá-la sobre elas" (Propos sur la
causalité psychique, É., p. l 5 1 ). Em favor também da revista erudita;
esta foi durante muito tempo seu modelo - La Psychanalyse asse
melha-se, com as devidas ressalvas, ao majestoso e breve empreen
dimento das Recherches Philosophiques, a que Lacan esteve associado
durante a década de 30. Ora, esse modelo epõe-se diametralmente ao
da obra: qualquer revista digna desse nome deriva da forma mono
grafia.
Ora, os Escritos são publicados no horizonte da obra. Lacan
havia portanto escolhido. Ao mesmo tempo, afirmava que ao menos
haveria uma obra a mais na psicanálise. O gesto era tanto mais sur
preendente na medida em que ia contra um movimento próprio de
Lacan.
Lacan desenvolveu o tema da poubellication*, o qual encerra
uma doutrina da obra: sustentar que a publicação deriva da lixeira é
sustentar que o publicado deriva do dejeto; como só existe obra pu
blicada, pode-se concluir que toda obra, como tal, deriva do dejeto.
Reconhecemos aí uma teoria da civilização; ela é oriunda de Bataille:
pertencer à civilização, por oposição ao bárbaro que a recusa ou ao
louco que dela se isenta, é saber tratar o lixo e o excremento. A
cultura, como elemento da civilização, a obra como elemento da cul
tura, a publicação como dimensão da obra, o papel como suporte
eleito pelo publicado e pelas fezes deixam-se decifrar sob essa luz.
Que o dejeto seja a mesma coisa que o clarão próprio para capturar
o desejo é certamente decisivo (teoremas do objeto pequeno a), mas
aqui não importa.
• Amálgama de poubelle (" lixeira") e publication ("publicação"). (N.R.T.)
16 A obra clara
Ora, assim sendo, Lacan consentiu em publicar; vale dizer que
consentiu na obra; vale dizer que consentiu na lixeira. Era preciso
que seus motivos fossem graves.
Só as exclusões de 1963 foram motivo suficientemente grave.
Uma vez mais, a ciência normal havia fechado suas portas, ainda que
sob os traços de imitadores inconfessos; uma vez mais, era preciso
recorrer à cultura para romper os lacres; uma vez mais, Orfeu teve
de cantar para atravessar o Aqueronte. A resposta vem com os Escritos
de 1 966, isto é, o livro, no que ele tem de mais clássico.
Como Freud antes dele, Lacan precisava da cultura para se fazer
ouvir. Mais nitidamente que Freud, sabia que isso correspondia a
escolher a via do fúnebre e do dejeto. Não apenas a pedra tumular
que cada livro apresenta, com sua capa trazendo, como um epitáfio,
o nome de um indivíduo, seus títulos (o do texto assume o lugar de
todos os outros), uma data, um lugar; não apenas o cadáver de papel
(caro data vermibu), mas o que não tem nome em língua nenhuma:
o livro enquanto critério de esquecimento (poublier*, diz também La
can). Mais abertamente ainda que no caso de Freud, a escolha fora
imposta pela decisão explícita de uma Autoridade. 6
Contra a Internacional, Lacan teve sucesso. Podemos afirmar que
existe, na psicanálise, pelo menos uma obra exterior à de Freud: a de
Lacan. Eis o que marca a verdadeira vitória de Lacan e a verdadeira
derrota da Internacional. Nada tenho a pronunciar sobre a questão
empírica de saber se haverá outras obras. Nada tenho a pronunciar
sobre a questão teórica de saber se uma obra pode deixar de sê-lo.
Resta somente estabelecer o que, em Lacan, constitui obra.
Será o conjunto das publicações, Scripta e Seminário, tomado em sua
dupla integralidade? Será o conjunto único dos Scripta, até mesmo o
volume único dos Escritos? Será, ao contrário, apenas a série dos
seminários? Por baixo de certas controvérsias subalternas que se ma
nifestaram, podemos assim reconstituir uma questão real.
Durante muito tempo acreditei que O Seminário de Lacan fosse
uma obra, que fosse, a bem da verdade, a única verdadeira obra de
Lacan. Eu aprovava portanto o título geral que seu editor havia lhe
dado - substantivo singular e artigo definido; aprovava que as divisões
fossem apresentadas como " livros" numerados e intitulados; que as
• Amálgama de poubelle ("lixeira") e oublier ("esquecer"). (N.R.T.)
Introdução 17
subdivisões desses livros não fossem apresentadas como " sessões"
· ou " aulas" , mas como capítulos, eles próprios numerados e dotados
de um título; que esses capítulos fossem, por sua vez, subdivididos
em partes, elas também numeradas; aprovava o projeto de publicarem
o texto dessa obra segundo as regras mais testadas da filologia eras
miana (exaustividade, precisão, exatidão), pois a filologia é indisso
ciável da emergência da obra: ela confere o status de obra ao que ela
trata, pelo menos no tempo em que o trata (assim, Erasmo deve inserir
os Evangelhos na forma de obra, a partir do momento em que os
submete às regras da filologia; eis o que faz dele um radical ímpio
aos olhos de Lutero); em contrapartida, a forma de obra requer a
filologia para assegurar seu domínio sobre qualquer texto (a obra de
um contemporâneo - Breton, Proust, Attali - estará consumada
como obra no dia em que tivermos suscitado e resolvido a seu respeito
os problemas filológicos clássicos - datações, estabelecimento do
texto, classificação das variantes, levantamento das imitações e em
préstimos etc. Esta é a função usual da Bibliotheque de La Pléiade).
Restava o sentimento de uma inadequação. Que obra, no sentido
estrito e moderno, permanece assim diretamente ligada a um ensino
falado e a um calendário anual explicitamente fixado? Qual a relação
entre O Seminário e os Scripta? Se estes últimos, apesar de sua mul
tiplicidade sem ordem visível, derivavam da obra, podia ser pela mesma
razão? Se dela em nada derivavam, em que consistiam?
Os precedentes mais convincentes provinham da Antigüidade.
Analisados em conjunto, Platão e Aristóteles também haviam produ
zido ditos e escritos que derivavam de dois princípios diferentes. Do
cumentos arcaicos, decerto, mas a filologia, tal como se constituiu no
Renascimento, e a cultura, tal como se constituiu no século XIX, re
pousam ambas em um anacronismo de princípio: certo ou errado, é
preciso agir como se a Antigüidade fosse também passível da forma
de obra. A aproximação estava portanto autorizada.
Mas pensar em Platão e Aristóteles era de imediato pensar na
combinação de duas distinções: a distinção entre ensino escrito e
ensino oral, por um lado; a distinção entre escritos exotéricos e escritos
esotéricos,de outro. Admitindo-se para tal que a relação entre as duas
distinções se estabelece da seguinte maneira: o exotérico é escrito, o
esotérico é oral (eventualmente transcrito).
Sabemos que a questão do esotérico interessava a Lacan, que
evoca freqüentemente a famosa lição sobre o Bem, núcleo do que
uma certa tradição afirma constituir o ensino secreto e não escrito de
18 A obra clara
Platão. Da mesma forma, ele demonstrava o mais vivo interesse pela
questão do Aristóteles perdido,7 cuja tese pode ser assim resumida: a
maior parte do que Aristóteles escreveu está perdida; esses textos
adotavam, no mais das vezes, a forma do diálogo e eram considerados
um milagre da língua grega; eles desenvolviam um ensino exotérico;
o que lemos sob o nome de Aristóteles não foi escrito por ele e
constitui a transcrição, por alunos, unicamente do ensino oral e eso
térico. Daí uma oposição simples entre Platão e Aristóteles: do pri
meiro, conhecemos toda a obra exotérica escrita e nada da obra eso
térica (supondo que tenha existido); do segundo, só conhecemos a
obra esotérica, salvo alguns fragmentos exotéricos retransmitidos pela
tradição manuscrita.
A oposição, conhecida de todos, sob certos aspectos anuncia o
que distingue Freud e Lacan: uma vez que, do primeiro, temos apenas
escritos, dele nos restaria apenas o exotérico (as Transactions da So
ciedade de Viena, publicadas tardiamente, não revelam à primeira
vista nada de muito novo); uma vez que, do segundo, dispomos não
só de escritos, mas também de um ensino oral, dele teríamos dois
ensinos: o exotérico dos Escritos, o esotérico do Seminário, cujo peso
material não cessa de crescer ao longo dos. anos.
A distinção entre exotérico e esotérico, a bem da verdade, é cristalina.
De um ponto de vista descritivo, concorda-se em geral quanto ao
seguinte: o ensino exotérico de Aristóteles dirige-se àqueles que estão
fora da filosofia (exo) e que (ainda?) não escolheram o modo de vida
teórico; o ensino esotérico dirige-se àqueles que estão dentro da filo
sofia (eso) ; eles escolheram este modo de vida próprio e já realizaram
o percurso supostamente necessário. Quanto ao conceito, não poderia
portanto haver nada de mais completo, ou de mais preciso, ou de mais
claro, nos escritos exotéricos do que nas transcrições esotéricas; ao
contrário, pode haver o mais completo, o mais preciso, o mais claro,
nas transcrições esotéricas. Se há algo a mais nos escritos exotéricos
em relação às transcrições esotéricas, isso não poderia derivar do
conceito, mas de outra coisa, cujo nome conhecemos: a protréptica.
Isto é, esse procedimento discursivo que tem por função arrancar o
sujeito da doxa a fim de voltá-lo para a theoria. Aquilo mesmo que
Aristóteles, no dizer dos Antigos, realizara e levara ao mais alto ponto
de perfeição (cf. W. Jaeger, Aristotle, Oxford, Clarendon Press, 1967,
cap. IV). Aquilo também que, no dizer de certos modernos, constitui
o único móbil dos diálogos de Platão.
Introdução 19
Admitindo-se tudo isso, eu sustentava que O Seminário de Lacan
estava para os Scripta, assim como o texto conservado de Aristóteles
em relação ao Aristóteles perdido (ou o eventual ensino perdido de
Platão, em relação ao Platão preservado): ele era esotérico ao passo
que os Scripta eram exotéricos. A partir daí, concluía que O Seminário
era indispensável à interpretação dos Scripta e, por conseguinte, à
plena realização da obra. Como a publicação do Seminário estava
inacabada, isso queria dizer que a obra também estava; sua interpre
tação desse modo nada podia pretender de definitivo; nada dos Scripta
podia esclarecer O Seminário; só O Seminário podia, de direito, es
clarecer O Seminário e só podíamos utilizar os Scripta para conjecturar
a parte ainda não publicada do Seminário.
Nessa questão, eu concordava com o conjunto dos intérpretes.
Alguns íam mais longe; não temiam dizer que, como escritos, os
Scripta derivavam de uma instância inferior, em relação ao ensino
forjado - a famosa Palavra, que desde Sócrates ou Jesus Cristo forja
os discípulos encerrando um incomparável tesouro. Daí comentários
indefinidos sobre as marcas do falar, supostamente constitutivas do
Seminário. De onde se passa com desenvoltura à Presença e à figura
de um Mestre, de quem se deve fazer a Apologia, comemorar o Pro
cesso, se não a Paixão, e relatar os gestos ou ditos memoráveis.
Hoje, após ter lido atentamente e várias vezes o que foi publicado
do Seminário, afirmo que estava enganado. Os seminários de Lacan
são exotéricos e não esotéricos; os Scripta é que são esotéricos - no
sentido em que o corpus aristotélico o é. Os primeiros são tecidos de
protréptica - alusões, floreios literários ou eruditos, diatribes, des
construção da doxa; os segundos tendem a disso se livrar. Os primeiros
buscam capturar o ouvinte (projetado, pela transcrição, em situação
material de leitor, mas pouco importa) no ponto de imaginário onde
a conjuntura do momento o colocou; tendo-o capturado, buscam de
salojá-lo desse lugar natural através de um movimento violento, que
em Lacan, ao contrário de Platão, toma de preferência a forma da
diatribe, até mesmo da invectiva: diálogos monológicos e impolidos.8
Os segundos podem, por certo, comportar a protréptica, mas o que
eles têm de decisivo é indiferente a isto: o leitor (que tem bem mais
a fazer do que se projetar em ouvinte fictício) deve decifrar, even
tualmente nas entrelinhas, uma tese de saber.
É verdade que os seminários dirigem-se aos analistas e aos ana
lisandos. Poderíamos portanto supor-lhes essa forma de clausura in
terna que caracterizava o esotérico das escolas gregas. A questão,
20 A obra clara
entretanto, é que Lacan considera que seus ouvintes não conseguiram
ocupar a posição deles na análise. Que o analista enfim se coloque
como analista e o analisando como analisando, que cada um entre de
fato em análise, esta é a finalidade geral de cada seminário particular.
Ela supõe um movimento bem exatamente análogo ao que, na pro
tréptica, faz passar do exterior do bios theoretikos (exo) ao interior
(eso). Nos Scripta, considera-se consumado o movimento.
Há portanto, em Lacan como em Aristóteles, o esotérico e o
exotérico; há também o escrito e o falado. Mas, de Lacan a Aristóteles,
a relação se cruzou e propriamente se inverteu: o esotérico é escrito,
o exotérico é falado e transcrito. Por conseguinte, deve-se concluir:
do ponto de vista do pensamento, naga há e jamais nada haverá a
mais nos seminários do que nos Scripta. Mas sempre pode haver algo
a mais nos Scripta do que nos seminários. Nada nos seminários pode
modificar a interpretação dos Scripta, tudo nos Scripta é relevante
para a interpretação dos seminários.
Daí uma conseqüência inevitável no que concerne à obra de
Lacan. Se tal obra existe, ela está por inteiro nos Scripta. Ora, por
definição, todos os Scripta foram publicados. Em outras palavras, a
obra existe desde já por inteiro no momento em que escrevo, a despeito
da publicação dos seminários não ter sido completada.
O singular gramatical e o artigo definido do título O Seminário
não devem ser lidos como as marcas da obra. Designam apenas a
unicidade de uma instituição que se manteve, em locais diversos, ao
longo dos anos. Se todavia pensarmos nos textos transcritos, o plural
seria mais apropriado; assim sendo, falarei de preferência dos semi
nários. Por outro lado, o plural gramatical do nome Scripta leva em
conta somente a dispersão material dos textos; ele não deve prejulgar
a existência ou a inexistência da obra, que depende apenas de critérios
de pensamento.
Quem não gostaria de poder ler o conjunto dos diálogos de Aris
tóteles? Da mesmá forma, a publicação dos seminários é de importância
documental incomparável. Não é entretanto garantido que ela possa
facilitar o acesso aos Scripta por vias protrépticas; pois a protréptica
é circunstancial; uma vez passadas as circunstâncias, ela pode se tornar
opacidade. Foi o queaconteceu com os diálogos de Platão, que se
tornaram obscuros no que têm de exotérico. Logo, é possível que os
seminários obscureçam os Scripta (afinal, do mesmo modo que a
Teodicéia é menos clara que a Monadologia, ou os Prolegômenos
menos claros que a Crítica da razão pura, ou a Correspondência de
Introdução 21
Flaubert menos clara que Um coração singelo, ou os Pastiches menos
claros que Em busca do tempo perdido). Ninguém contestará que
justamente aí possa residir uma fonte de interesse apaixonado, mas
convém não nos enganarmos quanto à natureza das coisas.
É verdade que a própria divisão entre exotérico e esotérico requer
ajustes. Ela supõe uma repartição clara entre os textos. Mas esta re
partição deixa-se reconstituir com menos nitidez do que afirmei. Para
ser exato, é preciso considerar que a linha divisória percorre os Scripta
e os próprios seminários. Em cada um dos dois conjuntos, pode-se
reconhecer a co-presença de proposições que derivam da protréptica
e de proposições que derivam da doutrina. As primeiras, diversamente
de Platão e de Aristóteles, não assumem a forma técnica do diálogo;9
isso se explica com facilidade: a técnica do diálogo perdeu-se sim
plesmente porque, entre os modernos, toda técnica literária é obsoleta.
Norden (Die antike Kunstprosa, Leipzig, 1 898, I, p.48) formulara em
teorema que nenhum escrito antigo é um atechnon; a recíproca é
verdadeira: todo escrito moderno, ao menos na medida em que é
moderno, é um atechnon. É isso que faz com que ele seja sempre
único em seu gênero, onde encontramos a marca do Um insubstituível,
característica da forma de obra.
Ora, Lacan é um moderno. Utiliza portanto livremente poderes
do atechnon e do insubstituível. Semelhante nesse aspecto a André
Breton, cujo Nadja constitui o horizonte, pouco percebido, mas todavia
determinante, de todo escrito lacaniano. Logo, quer se trate dos se
minários ou dos escritos, reina aí o atechnon. Não há resíduo das
technai escolásticas, legado pela tradição universitária (partes, capí
tulos, parágrafos considerados distintos das frases) que Lacan não
tenda a deixar de lado - nem um pouco por ignorância, ou desprezo,
mas porque elas não seriam pertinentes. A protréptica assume em
conseqüência, no espaço do parágrafo escrito, a forma atécnica da
conversa erudita, retomada de Macróbio, por intermédio de La Mothe
Le Vayer (citado por exemplo em Kant avec Sade, É., p.787). E como
essa conversa não pode mais assumir a forma do diálogo, resta-lhe a
forma que não é a do diálogo: o excursus.10
No espaço da frase, a protréptica negativa não mais dispõe dos
recursos da provocação e da diatribe para desalojar, através de seu
movimento violento, a doxa adormecida de seu lugar de repouso.
Surgem então os procedimentos ditos ordinariamente " gongóricos" .
Um mínimo de informação basta para perceber que eles nada têm a
ver com Góngora. Do estrito ponto de vista da história dos estilos,
22 A obra clara
trata-se muito mais da escrita artística, mantida viva desde os Goncourt,
na estufa confinada do mundo hospitalar, graças aos cuidados de mé
dicos cultos e amantes do belo (Clérambault, Du Boulbon). Salvo que
Lacan a utilizou com outros fins; o lexema raro, o semantema inusitado,
a sintaxe afetada devem impedir o leitor de se entregar a seu pendor
lingüístico, fazê-lo desconfiar das sucessões lineares e das disposições
simétricas, compeli-lo ao saber que advirá.
Aos incessantes excursus, às frases complexas que preparam as
vias do saber, vinculam-se as proposições que derivam da transmis
sibilidade do saber. Estas são bem diferentes. 1 1 Sua diferença salta
aos olhos quando Lacan recorre às escritas matemáticas. Mas desde
antes do materna propriamente dito, a proposição transmissível dei
xa-se reconhecer - assinalada por sua sintaxe (a mais simples possível)
e por sua recorrência, É cômodo designá-la pelo nome de logion, um
termo extraído da filologia dos Evangelhos, mas para fins inteiramente
leigos.
Da existência dos logia, concluiremos que Lacan, leitor de Leo
Strauss, 1 2 não praticava sistematicamente a arte de escrever e não
exigia as técnicas de leitura que Leo Strauss afirmava ter restituído.
Essa arte e essas técnicas supõem, com efeito, ( 1 ) que as proposições
verdadeiramente importantes só raramente aparecem de forma com
pleta em uma obra (eventualmente nunca); (2) que via de regra as
proposições muitas vezes repetidas só o são com alguma variação,
eventualmente ínfima, mas sempre reveladora; (3) que as proposições
repetidas de forma estritamente idênticas (quando existem) são desig
nadas por isso mesmo como inessenciais ou fragmentárias; (4) que o
caráter principal das proposições repetidas (com ou sem variação) é,
na maioria das vezes, sua superficialidade, sua grosseira inadequação
quanto aos dados mais evidentes, até mesmo sua incoerência (são
estes os traços que devem suscitar a atenção e justificar uma leitura
de " segundo tempo" ); (5) que uma obra assim composta é majorita
riamente tecida de proposições inessenciais, anódinas e ilógicas (aí
reside o enigma a ser desvendado); (6) que em geral toda proposição
de uma obra tal, para ser relacionada ao que é importante, coerente
e não trivial, deve ser lida como um fragmento a ser completado; o
método consiste em conectá-la a outras proposições da obra, aparen"
temente pouco compatíveis, até mesmo contraditórias, com a proposta
estudada, mas igualmente parciais.I3
Nada disso é verdadeiro para os logia: eles são a um só tempo
recorrentes, verídicos, essenciais e suscetíveis de serem interpretados
Introdução 23
integralmente por si mesmos. Eles não são nem anódinos, nem incon
sistentes, nem incompletos. Tampouco são enigmáticos. Se assim pa
recem a um leitor menos atento, é que sua afirmação está sempre em
antecipação do pensamento (asserção de certeza antecipada). Não es
tenogramas de pensamentos estabelecidos, mas antes hologramas de
pensamentos vindouros, eles são lidos no futuro do presente composto.
Eles são para si mesmos a fonte de sua própria luz; a transparência
lhes advém mediante uma incansável recorrência ao idêntico e um
manejo repetido e quase material - o próprio Lacan engaja-se nesse
trabalho, daí a recorrência ..,.-, não mediante o estabelecimento de uma
conexão. Os logia derivam do bem dizer.
Além disso, é verdade que Lacan praticou o " semi dizer'' (c f.
infra, p. l 37); o que implica que certas proposições de saber só se
deixam ler como ressecção do verdadeiro e como fragmentação; o
que implica também que algumas outras - às vezes são as mesmas
- misturam teses de saber e procedimentos protrépticos (digressões,
escrita artística). Nem umas nem outras são portanto logia, e não
há, na ordem do saber, senão logia em Lacan. Mas o semidizer é
ele próprio subordinado ao bem dizer, sendo apenas uma via de acesso.
Ora, o bem dizer (seja por lapso, chiste ou achados de língua), joga-se
num único lance. Só há logion se houver lance vencedor, mas no
jogo do logion, só se ganha ou só se perde ao se jogar uma única
vez. 14
É verdade que a arte de bem dizer é difícil ; talvez ela só possa
subsistir a título de um mandamento ético (Télévision, p.65); talvez
apenas o semi dizer seja prudente. Para que a mesa não seja abandonada,
é preciso às vezes dividir a aposta, fingir encontrar Leo Strauss que
crê somente no semidizer e reserva o logion para Deus. Daí partidas
mais modestas, em que se ganha apenas ao se multiplicarem as ten
tativas.
Assim se entrelaçarão as frases de status diverso: contornos pro
trépticos e proposições de saber. Mas seu enlace, sendo em si mesmo
atécnico, só pode se consumar de maneira instável ; por isso só pode
ser lido na forma atenuada da justaposição (digressão, desvio, esca
pada). Para aquele que tem apego ao saber, o protréptico revela-se
portanto um tecido conjuntivo, que parasita o fio da transmissibilidade.
Para aquele que se apega às conversas eruditas, repletas de idéiasgeniais, de indicações luminosas, de erudição douta, de audácias es
tilísticas, a proposição matematizada revela-se opaca e esquelética.
24 A obra clara
Cabe ao leitor dar prova de tato, mesmo conselho de Lacan para o
analista, e não confundir a natureza das proposições.
Compreendemos então a verdadeira relação entre os Scripta e
os seminários: os dois conjuntos contêm proposições de saber e pro
posições protrépticas, mas, do ponto de vista do saber, nada há nos
seminários que não esteja nos Scripta; 15 do ponto de vista da protréptica
e da conversa erudita, pode haver coisas distintas nos Scripta e nos
seminários; se há algo nos segundos que não se encontra nos primeiros,
é sempre derivado da conversa erudita, não do saber; mas o inverso
não é verdadeiro. Em todo caso, aquele que se interessa pelo saber
tem sempre o direito, mas não o dever, de negligenciar os seminários.
Nessa disposição geral, a conclusão se impõe: se os Scripta constituem
a obra, e não os seminários, isso quer dizer que Lacan confiou inte
gralmente na escrita (e não no transcrito) para transmitir sua doutrina.
Há um dado que não vale nada: a palavra de Lacan. Rejeitaremos
portanto, em definitivo, a constelação espiritualizante que nela se an
corava: Palavra, Presença, Mestre, Discípulos, Rememoração. Na ver
dade, a doutrina inteira do materna será feita para se opor a tal ence
nação (cf. infra, cap. 4). O que suscitou o teatro sacramental foi apenas
a mitificação de um dado bruto: Lacan ensinou oralmente.
Mas quem não o fez, desde que a Universidade se tornou a
instituição que acolhe toda doutrina? É verdade que Lacan falou como
poucos de seus contemporâneos - mas poderíamos dizer o mesmo
de alguns outros. Não serei cruel a ponto de lembrar os excessos
elegíacos de Alain sobre a palavra viva de Lagneau, ou de C.M. Des
Granges sobre a de Brunetiere. Que se ouçam em transcrições algumas
singularidades advindas do oral, o que há de surpreendente e o que
tanto há a sublinhar? Na verdade, o fato de que Lacan tenha exercido
um ensino oral serviria antes para confundi-lo com o universitário
comum do que para dele distingui-lo; quanto a isso, Sartre é infini
tamente mais surpreendente, por ter sido durante tanto tempo mantido
afastado de toda palavra pública de transmissão.
Poderíamos no máximo concordar que, entre escrito e falado,
Lacan sustentou uma disjunção que os universitários supostamente
não autorizam. Contam que Dumézil havia aconselhado a Foucault:
" Nada escrever que não tenha sido pronunciado; nada pronunciar que
não seja destinado a ser escrito." Pode-se reconhecer nessa regra de
projeção biunívoca uma praxe universitária (à qual muitos universi
tários franceses se acomodam, de resto com dificuldade, tanto por
· Introdução 2S
agrafia quanto por grafomania, tanto por afasia quanto por logorréia;
esta é uma de suas mais irrelevantes inferioridades). Lacan a infringe
decerto, porém, uma vez mais, não mais e antes menos do que Sartre.
De qualquer forma, nada seria mais deslocado do que evocar
Platão. O que quer que Platão tenha pensado do escrito, e que é menos
unívoco do que dizem, ele pertence a um mundo no qual a escrita
ainda é problemática, ao menos no tocante à relação com a verdade. 16
Lacan é outra coisa: ele se situa integralmente num universo em que
a relação da verdade com o escrito não é mais problemática. É verdade
que ele a reproblematizou - na psicanálise freudiana, a Verdade fala,
não escreve -, mas o movimento, em seu início e em seu termo,
supõe justamente o inverso de Platão.
Isso, naturalmente, não significa que o escrito, como tal, se situe
necessariamente na forma do livro; sabemos que a esse respeito Lacan
foi, primeiro por obrigação, depois por escolha, fora-de-livro; não é
apenas uma característica sua; ele a partilha com outros: André Breton
- Nadja, dissemos, é uma obra na medida em que é um atechnon,
mas é um livro? - ou Jakobson. Como estes, e diferentemente de
Freud, ele fez surgir a obra num lugar de fratura entre forma longa
e forma breve, entre alocução permitida e alocução refreada. Mas isso
não afeta a questão: ler Lacan é ler o que está escrito, e sobretudo os
Scripta, livrando-o das obscuridades nele ocasionalmente lançadas
pelo falar protréptico.
NOTAS
1 . As referências serão indicadas de maneira abreviada como se segue: a) Fonction et
champ de la parole et du langage en psychanalyse, É., p.237 = " Fonction et champ
de la parole et du langage en psychanalyse" , Écrits, Paris, Seuil, 1966, p.237. Após a
primeira menção, a sigla É. poderá ser omitida; b) L'étourdit, Se., 4, p.5 = "L'étourdit" ,
Scilicet, 4, Paris, Seuil, 1973, p.5. Após a primeira menção, a sigla Se. poderá ser
omitida; c) S., xx, p.9 = Le Séminaire, livro xx, Paris, Seuil, 1975, p.9.
2. Neste capítulo, cultura será sistematicamente entendido no sentido francês e não
como o correspondente do termo Kultur.
3. Deixo propositalmente de lado a questão da Universidade. É uma questão não trivial
saber se as produções profissionais dos universitários (teses, dissertações etc.) se ins
crevem na forma de obra. A tradição francesa responde afirmativamente; a tradição
alemã ou inglesa responde negativamente. O que evidentemente não significa que todas
as teses francesas (falo das teses de estilo antigo) sejam obras, nem que nenhuma tese
alemã ou inglesa o seja.
26 A obra clara
4. Nada prova melhor o caráter estritamente formal da noção de obra: o título do Cours
é equívoco entre singular e plural; ele não foi proposto por Saussure; o texto foi
retrabalhado ao ponto de nem uma de suas páginas poder ser atribuída, como está, ao
punho de Saussure; Saussure nunca teve a intenção de publicar nenhum curso. Entretanto,
existe uma obra, e portanto um autor, já que os critérios formais estão reunidos. Cf.
J . -C. Milner, " Retour à Saussure" , Lettres sur tous les sujets, 12, abril 1 994.
5. No dia 25 de maio de 19 13, por ocasião da primeira reunião do Comitê da IPA,
Freud ofereceu a cada um de seus cinco colaboradores uma pedra grega, que estes
engastaram num anel. O próprio Freud usava um anel semelhante e, em 1920, um novo
membro recebeu o mesmo presente. Ao todo sete anéis. Os interessados e o próprio
Freud não dissimulavam o que havia de romanesco naquele procedimento. Cf. E. Jones,
Sigmund Freud, Life and Work, Londres, Hogarth Press, 1955, 11, p. l74-5. Internacio
nalismo, anéis, Grécia, puerilidade, uma referência a Coubertin não é inverossímil.
6. Que se trate de uma decisão e que esta seja explícita, não podemos duvidar quando
lemos os documentos. Cf. L'Excommunication, suplemento do n.8 de Ornicar?, Paris,
1977. Que seja em estilo tão eclesiástico quando o disseram é menos certo. Lacan (S.,
XI, p.9) evoca a excomunhão-mor, mas é para logo assinalar a diferença: a Igreja de
Roma não fulmina com excomunhão sem esperança de volta; ele evoca em seguida a
sentença de Schammatha pronunciada pela sinagoga de Amsterdam contra Spinoza, a
qual acrescenta efetivamente a impossibilidade de volta. Mas não há e não poderia
haver sinagoga universal. Poderíamos evocar igualmente La lettre écarlate, mas tam
pouco existe paróquia calvinista internacional. Uma vez mais, pensamos antes nas
diversas lnternational Boards, a um só tempo todo-poderosas e frívolas, que regem o
entretenimento mundial.
7. O próprio Lacan me assinalara em 1964 o opúsculo com o qual J. Bidez apresentava
ao público de língua francesa os trabalhos de W. Jaeger e de E. Bignone: Un singulier
naufrage littéraire dans l 'Antiquité. À la recherche des épaves de l 'Aristote perdu,
Bruxelas, 1943. Parece, de resto, que W. Jaeger e Lacan tenham travado relações.
8. Lacan havia desenvolvido uma técnica que podemos chamar de a protréptica negativa:
incitar o sujeito a se desvencilhar da doxa repreendendo-o. A técnica não é nova; os
cínicos a haviam praticado; encontramo-la na obra de Lewis Carro!, na qual a excelente
Alice, amável e terna portadora daopinião mais vitoriana, não pára de ser devidamente
insultada pelos representantes do nonsense, que é sintoma do real; encontramo-la, enfim,
entre os surrealistas e em Groucho Marx.
9. Cf. a introdução de L 'instance de la lettre, É., p.493, na qual Lacan apresenta seu
próprio texto como a " meio-caminho" entre o escrito e a fala. É entretanto notável
que o ponto de partida seja uma entrevista solicitada pela FGEl, em 1957.
10. É claro que estamos pensando em Montaigne. O nome de Diderot vem da mesma
forma à mente; um dos raros, na França pelo menos, a ter usado a digressão em seus
romances; um dos raros modernos também a ter escrito diálogos longos, não, de resto,
por herança platônica, mas por invenção e genialidade. Vemo-nos por vezes, ao lermos
determinado seminário de Lacan, diante dos ecos de um Rêve de D 'Alembert, do qual
só ouviríamos as réplicas, entremeadas num único texto, de D' Alembert e de Bordeu,
enquanto o auditório - mudo ou quase - ocuparia a posição de uma infortunada
Lespinasse, trazida à existência unicamente pelas avanias que lhe infligimos.
1 1 . A estilística de Lacan está assim articulada de acordo com as balizas funcionais
que são a protréptica e a transmissão integral . F. Regnault propôs uma tipologia mais
" intrínseca" à estrutura da doutrina ("Traits de génie" , in M.P.-P. de Cossé-Brissac
Introdução 27
et alii. , Connaissez-vous Lacan?, Paris, Seuil, 1 992, p.219-30). A diferença no método
autoriza interessantes diferenças nos resultados.
12 . La persécution et l 'art d'écrire é citada, em sua edição norte-americana de 1952,
em L'instance de la lettre, p.508-9 (texto de 1 957). Uma tradução foi depois publicada
(Paris, Presses de la Cité, 1989).
13 . Daí uma obra escrita segundo essas regras (supostamente antigas e esquecidas)
parecer ao homem moderno uma desordenada mixórdia de proposições desinteressantes.
E isso quanto mais importante for a obra. Só resta então o argumento de autoridade:
uma obra antiga, outrora célebre, não pode ter-se tornado célebre por motivos levianos;
se portanto parece desinteressante e mal construída, é que a lêem mal, ou, mais exa
tamente, sem cuidado. De maneira recíproca, nenhuma obra antiga de fato importante
não pode ter sido desconhecida: porque existiam antigamente leitores cuidadosos. Quanto
ao autor moderno, ele pode almejar leitores assim, mas não pode estar seguro de que
existam. Inclusive, na maioria das vezes, ele deverá supor que não existem. Ao mesmo
tempo, ele escreve sempre sob a condição da obra desconhecida. Lacan, desse ponto
de vista, é de fato um moderno.
14. É possível , de direito, fazer um levantamento exaustivo dos logia. Deve haver
também logia malsucedidos. Eles terão a forma sintática exigida, mas a certeza ante
cipada que os marcava dissipou-se no instante seguinte. No registro do tempo lógico,
é uma moção para sempre suspensa. Um indício: Lacan não volta atrás, uma vez feito
o lance; desse modo, o efeito do enigma se constitui. Ora, não existe lugar legítimo
para o enigma em Lacan. Se existem enigmas de fato, eles assinalam um fracasso.
Proponho, a título de exemplo, o mandamento " não ceder em seu desejo" , que acharam
poder ser extraído do seminário VIL
1 5. Uma exceção, à qual será preciso voltar (cf. infra, cap. v, p . l66-7): o seminário
xx, que constitui o ápice do segundo classicismo lacaniano. Ele tende a anular a
diferença entre esotérico e exotérico - ou, o que dá no mesmo, dispensa freqüentemente
o estilo protréptico.
16. Ler a esse respeito M. Détienne, Les maitres de vérité dans la Grece archaique,
Paris, Maspero, 1%7, não sem esclarecê-lo com Roubaud, L'invention du fils de Leo
prepes, Paris, Circé, 1993.
CAPÍTULO 11
O doutrinai de ciência
1. A equação dos sujeitos e a ciência
Lacan formula uma equação: " o sujeito sobre o qual operamos em
psicanálise só pode ser o sujeito da ciência" (La science et la vérité,
É., p.858). Esta equação dos sujeitos enuncia três afirmações: 1 ) que
a psicanálise opera sobre um sujeito (e não, por exemplo, sobre um
eu); 2) que há um sujeito da ciência; 3) que estes dois sujeitos cons
tituem apenas um.
As três afirmações têm em comum o fato de que falam do sujeito;
o que se deve entender com isso depende do que se pode chamar de
o axioma do sujeito:
'Há algum sujeito, distinto de toda forma de individualidade
empírica. ' 1
Este axioma de existência usa um termo e uma distinção intei
ramente homônimos de proposições derivadas da metafísica kantiana
e pós-kantiana; que dela sejam sinônimos é uma questão que será,
por ora, deixada em suspenso.
A terceira afirmação constitui a equação como tal; ela se baseia
em correlações históricas, mas não é fundada por estas. A primeira
afirmação concerne à prática analítica (é o que indica o verbo operar);
ela não é de modo algum trivial; sua validade lhe é conferida pela
autoridade de um enunciador suposto saber o que é a psicanálise, e,
especificamente, o que dela fizera Freud. A segunda afirmação coloca
em prática um conceito, que Lacan interpreta num sentido preciso, o
de " sujeito da ciência" , mas esse conceito apenas em parte é lacaniano.
A definição da ciência que nele é invocada não é de Lacan - este
se explicou suficientemente quanto a isso; só é de Lacan a afirmação
de que dessa definição da ciência decorre uma figura particular do
28
O doutrinai de ciência 29
sujeito (tal como o axioma do sujeito propõe sua existência). Ora,
isso é, falando claro, uma hipótese.
Podemos portanto e devemos considerar que a equação dos su
jeitos depende dessa hipótese, que doravante chamaremos de a hipótese
do sujeito da ciência:
'A ciência moderna, como ciência e como moderna, determina
um modo de constituição do sujeito. '
De onde extraímos a definição do sujeito da ciência:
'O sujeito da ciência nada é exceto o nome do sujeito, na medida
em que, por hipótese, a ciência moderna determina seu modo de cons
tituição.'
Deve-se observar que a equação dos sujeitos nada diz da psicanálise
como teoria. Em particular, não se afirma absolutamente que a própria
psicanálise seja uma ciência. Lacan é explícito nessa questão: o fato
de que " sua praxis não implique outro sujeito senão o da ciência"
tem de " ser diferenciado da questão de saber se a psicanálise é uma
ciência (se seu campo é científico)" (ibid., p.863). Vê-se que o termo
praxis está explícito, o que faz com que se evoque a figura da theoria.
É por conseguinte notável que Lacan não diga que a equação dos
sujeitos concerne à theoria da análise. Isso não significa que essa
equação não seja uma proposição de theoria, significa que ela se situa
no ponto de passagem da praxis à theoria. Poderíamos dizer que ela
articula uma theoria no estado nascente, apreendida no movimento
de uma reflexão iniciada na praxis. Daí concluiremos que todas as
proposições da theoria lacaniana supõem a equação dos sujeitos, pois
supõem concluído o movimento de reflexão sobre a praxis. A equação
assume portanto uma função seminal.
O que mostra quão é importante que ela não seja vazia. Ela só
escapa ao vazio sob uma condição: que a própria hipótese do sujeito
da ciência não seja vazia. Isso supõe duas coisas: que a noção de
ciência seja objeto de uma teoria suficientemente determinada e, ad
mitida essa teoria, que possamos lhe vincular uma certa constituição
do sujeito.
Há de fato uma teoria da ciência em Lacan. Ela é bem completa e
não é trivial.2 Para restituir-lhe a coerência, deve-se primeiramente
estabelecer o que ela não é e partir da diferença que separa Freud de
Lacan. Pois também existe em Freud uma teoria da ciência. Ela é
bastante sumária, e se perguntarmos por que existe uma, a resposta é
30 A obra clara
simples. Ela reside naquilo que concordamos em chamar de cientifi
cismo de Freud,3 e que nele é apenas um assentimento conferido ao
ideal da ciência. Este ideal fundamenta plenamente o voto de que a
psicanálise seja uma ciência. Estou dizendo idealda ciência. Trata-se
com efeito de um ponto ideal - exterior ou infinitamente distante
- para o qual tendem as linhas retas do plano e que ao mesmo tempo
pertence a todas e nelas nunca se encontra. Não é a ciência ideal, a
qual "encarna" de maneira variável o ideal da ciência: determinação
estritamente imaginária, exigida a fim de que representações sejam
possíveis.4
É verdade que o homem sempre precisa de representações; em
particular, é difícil evitar, quando recorremos ao ideal da ciência,
como o fazia Freud, que tenhamos uma representação do que deve
ser a ciência, e é isso uma ciência ideal. Em geral, absorvemos os
traços de uma ciência constituída no momento em que falamos; depois
perguntamos: 'O que deve ser a psicanálise para constituir uma ciência
conforme ao modelo? ' ; a partir desse momento, transformamos os
traços em critérios. Estamos ao mesmo tempo abrindo caminho para
um outro cientificismo: não o do ideal da ciência, mas o da ciência
ideal. Freud a ele se entrega, retomando a fisionomia da ciência ideal
de outros, a seus olhos mais qualificados que ele próprio. Citemos
aqui Helmholtz, Mach e Boltzmann, para nos atermos aos maiores.5
É verdade que se acrescenta, reconstituível ao longo dos textos
freudianos, uma teoria transversal da ciência, não só uma teoria do
que deve ser uma ciência, mas uma resposta à pergunta: 'por que
existe ciência em vez de ciência nenhuma?' Mas essa teoria permanece
precisamente dispersa, e não é certo que Freud tenha consentido em
· integrá-la, como fez com sua teoria da religião.
Sobre a pergunta do porquê da ciência, Lacan apenas retoma os afo
rismos de Freud, resumindo-os da seguinte maneira: a ciência é, quando
nasce, uma técnica sexual (cf. S., XI, p. l 39). No mais, ele se mantém
prudente quanto a isso. Ele é igualmente prudente ao responder à
pergunta: 'por que existe psicanálise em vez de psicanálise nenhuma?'
Seja como for, não encontraremos sobre essas perguntas de origem
um corpo de doutrina integralmente constituído. A teoria lacaniana
da ciência incide sobre outra coisa.
Fiel a Freud na questão precedente, Lacan dele se separa quanto
à questão do ideal da ciência: ele não acredita nisso. Mais exatamente,
não acredita nisso para a psicanálise. Ao contrário do que poderíamos
O doutrinai de ciência 31
supor, é isso que a equação fundadora acarreta. Em relação à operação
analítiq, a ciência não desempenha o papel de um ponto ideal -
eventualmente afastado ao infinito; em estrito rigor, ela não lhe é
exterior; ao contrário, ela estrutura de maneira interna a própria matéria
de seu objeto. Se nos atermos à linguagem geométrica, o campo da
psicanálise pode ser concebido como o plano determinado pelas retas
de suas proposições (trata-se, no fundo, de encontrar, por meio de um
deslocamento calculável, a interpretação dada por Queneau de Hilbert);
se o ponto da ciência não é exterior a esse plano, ele não poderia
estruturá-lo como uma regulação. Não faz portanto sentido perguntar
em que condições a psicanálise seria uma ciência. Tampouco faz
sentido apresentar alguma ciência bem constituída como um modelo
que a psicanálise teria de seguir. Em outros termos, já que não há
ideal da ciência em relação à psicanálise, tampouco há para ela ciência
ideal. A psicanálise encontràrá em si mesma os fundamentos de seus
princípios e métodos.
Melhor, ela se verá suficientemente segura para poder questionar
a ciência. " O que é uma ciência que inclui a psicanálise?" , pergunta
Lacan em 1965 (resumo para o anuário da EPHE, citado na contracapa
da edição de 1973 do livro XI). De modo que a própria ciência poderia
revelar-se a forma mais consistente de uma atividade que chamaremos
de análise e que se acha, a um só tempo diversificada e idêntica a si,
em todas as regiões do saber. A partir dessa análise, a psicanálise
seria proposta como um ponto ideal, organizador do campo episte
mológico e permitindo nele se orientar (daí o tema da "orientação
lacaniana" ). Por mais que ela consinta ao ideal da ciência, cabe-lhe · construir para a ciência um ideal da análise.
Os Cahiers pour l 'analyse, em sua época, determinaram tal ponto,
acrescentando somente que o marxismo podia e devia nele encontrar
sua ordenação. Compreendemos que eles tenham, no mesmo movi
mento, apelado à psicanálise e à epistemologia. Partindo do ideal da
análise, chegamos com desenvoltura à análise ideal, cujo manequim
os pequenos lacanianos procurarão vestir: ajustar a matemática, a ló
gica, a física, a biologia etc., de tal maneira que fiquem à sua medida.
Mas isso pouco importa, salvo socialmente.
2. A teoria do moderno
A primeira característica que podemos identificar na teoria lacaniana
da ciência se explica assim. Ela deve mostrar essa conexão singular
32 A obra clara
pela qual a ciência é essencial à existência da psicanálise e, por essa
mesma razão, não se coloca diante dela como um ideal. A relação
mais apropriada a esse fim se apresenta em termos homônimos dos
operadores históricos: sucessão e corte. Baseamo-nos por conseguinte
em Koyré, lido à luz do muito historicizante Kojeve.
Para fins de clareza, será mais prático adotar aqui o costume dos
geômetras, que raciocinam por axiomas e teoremas. Os mais impor
tantes são:
- Teoremas de Kojeve:
a) 'há entre o mundo antigo e o universo moderno um corte' ;
b) 'este corte vem do cristianismo' .
- Teoremas de Koyré:
a) 'entre a episteme antiga e a ciência moderna existe um corte' ;
b) ' a ciência moderna é a ciência galileana, cujo tipo é a física
matematizada' ;
c) 'matematizando seu objeto, a ciência galileana o despoja de
suas qualidades sensíveis ' .
- Hipótese de Lacan:
'os teoremas de Koyré são um caso particular dos teoremas de
Kojeve' .6
- Lemas de Lacan:
a) 'a ciência moderna constitui-se pelo cristianismo, na medida
em que ele se distingue do mundo antigo' ;
b) 'já que o ponto de distinção entre cristianismo e mundo antigo
provém do judaísmo, a ciência moderna se constitui pelo que há de
judaico no cristianismo' ;7
c) 'tudo o que é moderno é síncrono da ciência galileana, e só
existe de moderno o que é síncrono da ciência galileana' .
Igualmente conforme a esse dispositivo, o tratamento da hipótese
do sujeito da ciência, que passa por Descartes. Sabemos que Lacan
comentou e analisou incansavelmente o Cogito cartesiano (cf. em
particular L'instance de la lettre, É., p.5 16-7; La science et la vérité,
É., p.856-8, p.864-5). Essa instância repousa, em última análise, na
tese de que Descartes é o primeiro filósofo moderno, enquanto mo
demo.
Esta proposição foi decerto exposta repetidas vezes, e principal
mente por Hegel. Deve-se ainda definir o que significa moderno. No
sentido estrito que Lacan dá ao termo (lema (iii)), só pode significar
o seguinte: considera-se que Descartes de fato propiciou, pelo orde
namento interno de sua obra, o que o nascimento da ciência moderna
O doutrinai de ciência 33
requer do pensamento. Ora, o edifício cartesiano repousa crucialmente
sobre o Cogito. O que quer dizer que o pensamento da ciência precisa
daquilo de que o Cogito é o testemunho. O fato de que o autor das
Meditações seja também o criador da geometria analítica e o autor
de uma Dióptrica constitui, por certo, uma prova de peso. É todavia
preciso que este não seja um dado contingente. É no que se baseia
um conjunto de proposições que articulam o que podemos chamar de
cartesianismo radical de Lacan:
'se Descartes é o primeiro filósofo moderno, é pelo Cogito' ;
'Descartes inventa o sujeito moderno' ;
'Descartes inventa o sujeito da ciência' ;
'o sujeito freudiano, na medida em que â psicanálise freudiana
é intrinsecamente moderna, não poderia ser outra coisa senão o sujeito
cartesiano' .
Naturalmente, não se trata apenas de uma correlação cronológica;
supomos, além disso, um parentesco discursivo. A argumentação é a
seguinte: a física matematizada elimina todas as qualidades dos existentes (teorema (iii)); uma teoria do sujeito que pretenda responder a
tal física deverá, ela também, despojar o sujeito de toda qualidade.
Este sujeito, constituído segundo a determinação característica da ciên
cia, é o sujeito da ciência (definição, p.34). Não lhe convirão as marcas
· qualitativas da individualidade empírica, seja ela psíquica ou somática;
tampouco lhe convirão as propriedades qualitativas de uma alma: ele
não é mortal nem imortal, puro nem impuro, justo nem injusto, pecador
nem santo, condenado nem salvo; não lhe convirão nem mesmo as
propriedades formais que durante muito tempo havíamos imaginado
constitutivas da subjetividade como tal: ele não tem nem Si, nem
reflexividade, nem consciência.
É justamente esse o existente que o Cogito faz emergir, ao menos
se levarmos a sério a ordem das razões. Com efeito, no momento em
que ele é enunciado como certo, ele está disjunto, por hipótese, de
toda qualidade, sendo estas então, coletiva e distributivamente, revo
gáveis como dúvida. O próprio pensamento mediante o qual o defi
nimos é estritamente qualquer; ele é o mínimo comum de todo pen
samento possível, visto que todo pensamento, seja qual for (verdadeiro
ou falso, empírico ou não, razoável ou absurdo, afirmado, ou negado,
ou posto em dúvida), pode dar-me ensejo para concluir que existo.
Correlato sem qualidades suposto num pensamento sem quali
dades, vemos em quê esse existente - chamado de sujeito por Lacan,
não por Descartes - responde ao gçsto da ciência moderna.
34 A obra clara
É verdade que Descartes não se detém aí; ele passa sem esperar,
e como que apressado, à consciência e ao pensamento qualificado.
Pois é de fato de pensamento qualificado que se trata assim que é
proposta a sinonímia: "uma coisa que pensa, isto é, uma coisa que
duvida, que concebe, que afirma, que nega, que quer, que não quer,
que imagina e que sente" (Méditation seconde, (Euvres philosophiq11es,
Paris, Gamier, 1 967, 11, p.42 1 ). Compreendemos então por que Lacan
nunca se vale do que podemos chamar de ponta extrema do Cogito
e que, de todas as maneiras, ele se esforce em suspender a passagem
do primeiro tempo ao segundo. Para isso, encerra o Cogito em sua
enunciação estrita e, além disso, fecha esta enunciação em si mesma,
fazendo da conclusão (" logo existo" ) o puro pronuntiatum da premissa
(" penso" ): "escrever: penso, 'logo existo' , com aspas em tomo da
segunda cláusula" (La science et la vérité, p.864-5). Está dessa maneira
assegurada a insistência do pensamento sem qualidades, interrompida
justo antes de ela se polimerizar em dúvida, concepção, afirmação,
negação etc.8
Ora, o pensamento sem qualidades não é apropriado apenas à
ciência moderna. Lacan demonstra que ele também é necessário para
fundar o inconsciente freudiano. O pivô do programa de Freud reside
nessa constatação, que o fato do sonho (jactum somnii) parece impor:
existe pensamento no sonho. Daí o raciocínio: se existe pensamento
no sonho (no chiste, nos tropeços da vida cotidiana etc.), então o
pensamento não é o que dele diz a tradição filosófica; principalmente,
ele não é um corolário da consciência de si. Ora, existe pensamento
no sonho ·(no chiste, nos tropeços da vida cotidiana etc. ; é o que
estabelecem a Traumdeutung e as obras posteriores); portanto etc.
Se admitimos que a proposição negativa 'a consciência de si não
é uma propriedade constitutiva do pensamento' se estenografa pelo
nome inconsciente, obtemos o teorema:
'se existe pensamento no sonho, existe um inconsciente' .
Obtemos ao mesmo tempo o lema:
'o sonho é a via real do inconsciente'
e a definição que se deduz do teorema e do leJilla:
'afu:m.ar que existe inconsciente equivale a afirmarisso pensa' .
Lacan acrescenta somente a proposição, retirada de Descartes e
estendida a Freud:
'se existe pensar, existe algum sujeito'.
O raciocínio só é entretanto verdadeiro sob duas condições. É
preciso, em primeiro lugar, que possa existir sujeito, embora não exista
O doutrinai de ciência 35
nem consc1encia nem Si - isso requer uma teoria não trivial do
sujeito; é preciso, em segundo lugar, que o pensamento que constitui
o tecido do sonho e do tropeço seja disjunto de toda qualidade. Assim
os fenômenos estarão salvos.9
O freudismo, segundo Lacan, repousa sobre a tripla afirmação
de que existe inconsciente, que este não é estranho ao pensar e que,
portanto, ele não é estranho ao sujeito de um pensar. Se o fosse, a
psicanálise seria ilegítima de direito e provavelmente impossível como
prática. Com efeito, um inconsciente estranho ao sujeito que pensa é
o somático, mas o somático não lida nem com a verdade nem com a
palavra; ora, a psicanálise lida com a verdade e com a palavra. O
inconsciente, na medida em que a psicanálise lida com ele, não é
portanto estranho nem ao sujeito, nem ao pensamento. Em contrapar
tida, nem o sujeito nem o pensamento exigem a consciência.
Mas dizer que o sujeito não tem a consciência de si como pro
priedade constitutiva corresponde a retificar a tradição filosófica e
principalmente Descartes. Ouçamos o Descartes do segundo tempo,
tão apressado em deixar a ponta extrema do Cogito quanto certos
prisioneiros a prisão. À luz de Freud, a consciência de si toma-se
somente uma marca da individualidade empírica, que a filosofia havia
indevidamente introduzido no sujeito, entretanto tão meticulosamente
filtrado por seus cuidados. A psicanálise entende portanto o axioma
do sujeito mais estritamente do que qualquer outra doutrina. Com uma
nitidez sem par, ela separa duas entidades; para uma, a consciência
de si pode sem contradição ser suposta não ser essencial; para outra,
a consciência de si não pode sem contradição ser suposta não ser
essencial. Só a primeira responde exatamente às exigências da ciência,
e só ela se encontra nos limites fixados pelo axioma do sujeito; vamos
chamá-lo portanto, com toda legitimidade, de sujeito da ciência. Agora
compreendemos em que ele é sujeito cartesiano e sujeito freudiano. 10
Quanto à segunda entidade, o nome de Eu pode lhe convir tanto
quanto um outro.
A teoria da ciência é derivada de Koyré e Kojeve, a interpretação
unitária de Descartes erudito e metafísico baseia-se em Koyré, a in
terpretação do Cogito é dependente de Gueroult, o axioma do sujeito
é retomado, em homonímia ou em sinonímia, da tradição pós-kantiana,
mas a hipótese do sujeito da ciência, a equação dos sujeitos, a inter
pretação de Freud que ela implica e a articulação do conjunto são
específicas de Lacan. Por isso é justo falar a respeito de Lacan não
36 A obra clara
mais de uma teoria da ciência, nem mesmo de uma epistemologia,
mas de um verdadeiro doutrinai de ciência. Com isso designaremos
especificamente a conjunção de proposições sobre a ciência e de pro
posições sobre o sujeito.
3. A estilística historicista
À primeira vista, o doutrinai de ciência é fundamentalmente histori
cizante em cada uma de suas partes. Ele o é no que conceme à hipótese
do sujeito da ciência: " . . . um certo momento do sujeito que considero
ser um correlato essencial da ciência: um momento historicamente
definido [ . . . ], aquele que Descartes inaugura e que se chama o Cogito"
(La science et la vérité, p.856). Ele o é no que conceme à ciência:
" esta mutação decisiva que por via da física fundou A ciência no
sentido moderno .. . " (ibid., p.855). Ele o é no que conceme à articulação
da ciência ao sujeito: " Em tudo isso nos parece ser radical uma mo
dificação em nossa posição de sujeito, no duplo sentido: que ela é ali
inaugural e que a ciência a reforça cada vez mais. Koyré é aqui nosso
guia . . . " (ibid., p.856).
O historicismo é ainda mais acentuado quando acompanhamos
Koyré mais detalhadamente. De seus teoremas, ele mesmo retirou,
com efeito, dois discriminantes, próprios segundo ele para distinguirem
uma ciência galileana em meio ao conjunto dos discursos que se
apresentariam como ciência; o primeiro se enuncia:'é galileana uma ciência que combina dois traços: a empiricidade
e a matematização'. .
Este primeiro discriminante, é verdade, poderia ser interpretado
em termos não-históricos; basta para isso que seja dada uma interpre
tação geral do termo 'empiricidade' e que respondamos à pergunta:
'como reconhecer uma proposição como empírica?' Mas o próprio
Koyré não diz nada assim. A fim de esclarecer o primeiro discriminante,
ele à completa com um segundo, tão historicizante quanto:
'admitindo-se que todo existente empírico é passível de ser tratado
por alguma técnica e que a matematização constitui o paradigma de
toda teoria, a ciência galileana é uma teoria da técnica e a técnica é
uma aplicação prática da ciência' .
O valor desse discriminante deve-se aparentemente e por inteiro
a sua capacidade de descrever exaustivamente e de explicar o que
O doutrinai de ciência 37
todos podem observar hoje: " a forma galopante de sua [ = da ciência]
imisção em nosso mundo" , " as reações em cadeia que caracterizam
o que podemos chamar de expansões de sua energética" (La science
et la vérité, p.855-6). Assim Lacan dará às expedições lunares valor
de índice (" o LEM alunissando, considerando a fórmula de Newton
realizada em aparelho . . . " , Radiophonie, Se., 2/3, p.75 ; cf. também em
Télévision, p.59). Ora, isso, são provas de historiador do presente, no
sentido exato de que o primeiro discriminante é de fato baseado em
provas de historiador do passado.
Do primeiro discriminante, podemos deduzir algumas conseqüên
cias: a ciência tem por objeto o conjunto do que existe empiricamente
- podemos chamar a isso de universo - e ela o trata com tanta
precisão quanto as disciplinas literais tratam o delas. Em outros termos,
a ciência literalizada é, como tal, uma ciência precisa. Ora, isso também
se deixa interpretar em termos de história.
Consideremos o aforismo de Galileu: " [o grande livro do uni
verso] está escrito em língua matemática e seus caracteres são os
triângulos, círculos e outras figuras geométricas" (ll Saggiatore, §6;
citado segundo a edição de C. Chauviré, L 'essayeur de Galilée, Paris,
1 980, p. l 4 1 , tradução modificada). Ele só é compreendido por inteiro
quando relacionado ao humanismo (Florença foi por muito tempo sua
capital e Galileu era toscano). Falar do livro da Natureza ou do mundo
ou do universo é em si uma figura de estilo bem antiga, mas ela ganha
novo alcance depois que a edição impressa se tomou uma arte erudita
e depois que o estabelecimento dos textos recebeu regras coercitivas;
falar dos caracteres desse livro é reencontrar Demócrito, Epicuro e
Lucrécio (Redondi assinalou a importância, talvez reveladora, desse
parentesco), 1 1 mas é também dizer algo de diferente, depois que a
tipografia, como tal, se submeteu às formas geométricas e que a emenda
se revelou capaz de depender da forma de uma letra.
Em outras palavras, a literalidade esclarece a abordagem da ma
tematização, que dela é a um só tempo o índice e o meio, quando se
trata da Natureza; mas ela se toma imediatamente algo a mais: uma
exigência de precisão. É que, através do · humanismo, o conjunto das
disciplinas da letra (digamos: a filologia) constitui a ciência ideal com
respeito à precisão. Que o físico seja tão preciso para com o universo
(e tão livre dos entraves herdados) quanto Estienne o foi para com o
texto de Platão, ou Laurent Valia para com o texto da Doação de
Constantino, ou Erasmo para com o texto dos Evangelhos, esta é a
injunção contida na própria palavra livro.
38 A obra clara
Isso significa que a passagem aparentemente direta da literalidade à
precisão só se explica inteiramente através de uma história. O mesmo
ocorre com a passagem, aparentemente direta, da precisão à instru
mentação. Aos olhos de Galileu, a matemática e a medida são os
meios - alguns dos meios, como veremos adiante - que permitirão
ao humilde físico igualar um dia o que, pela ciência da linguagem
(pela gramática) e pela ciência dos documentos escritos, a prestigiosa
filologia havia há muito realizado. É verdade que a precisão para com
o material empírico requer instrumentos eles mesmos materiais, bem
distintos daqueles que a filologia pode utilizar e sem dúvida, aos olhos
de Galileu, bem inferiores em dignidade. A ciência moderna, como
empírica, não é apenas experimental; ela é instrumental. 12
Aqui intervém o segundo discriminante. A técnica sempre foi
tratamento material, por instrumentos materiais, do empírico material;
a partir do momento em que a ciência toma o empírico por objeto, a
técnica pode e deve fornecer-lhe seus instrumentos; já que, enfim,
essa ciência, que toma o empírico por objeto, é também uma ciência
literal, isto é, uma ciência precisa, os instrumentos fornecidos pela
técnica podem e devem se tornar os instrumentos da precisão. Ora,
ocorre que o progresso técnico doravante permite isso, graças aos
célebres engenheiros do Renascimento: tese histórica uma vez mais.
O universo da ciência moderna é a um só tempo e pelo mesmo
movimento um universo da precisão e um universo da técnica. Ora,
a ciência só é literalmente precisa se os instrumentos produzidos pela
técnica lho permitirem materialmente. É verdade que aos olhos de
Galileu estes só permitem a precisão na medida em que a ciência
preside a sua concepção e a sua execução. Este é ó verdadeiro sentido
da luneta e da referência aos engenheiros. Assim se configura o uni
verso moderno: uma união entre a ciência e a técnica, tão íntima e
tão recíproca que podemos também dizer que continua se tratando de
uma mesma entidade sob duas formas, ou então uma ciência, ora
fundamental ora aplicada, ou então uma técnica, ora teórica ora prá
tica. 13
.
4. A episteme antiga
O historicismo acentua-se mais quando levamos em conta a pertinência
da referência antiga. Ora, ela é primordial. Se a ciência se toma teoria
da técnica e a técnica aplicação prática da ciência (ver o segundo
O doutrinai de ciência 39
discriminante), supomos que o par teoria/prática abrange exatamente
o par ciência/técnica. Para entendermos o alcance discriminante dessa
abrangência, é preciso supor que ela não ocorre por si mesma. O meio
mais simples de se assegurar disso consiste em estabelecer que ela
não foi sempre verdadeira. Por variação geográfica (é a questão da
ciência chinesa) ou por variação temporal.
Koyré escolheu a segunda. No mundo antigo, ele descobre o par
theoria/praxis, inteiramente independente do par episteme/techné.
Mas, por isso mesmo, podemos articular o que, para os modernos,
parece ser um paradoxo desse mundo passado: a existência de uma
episteme, a existência de technai, e paralelamente a inexistência das
máquinas produtivas. A doutrina de Koyré se conclui portanto em
hipóteses sobre questões propriamente historiadoras, tocantes ao mun
do antigo: a escravidão, o maquinismo, o trabalho. 14
Não se trata aí de uma extensão à qual Koyré poderia ter se
furtado. Ela aparentemente atinge o caroço de seus teoremas, tal como
ele próprio os formula. Considerados em sua versão de origem, estes
são, como vimos, fundamentalmente diferenciais. Eles falam da ciência
galileana, mas os traços distintivos que lhe conferem só são plenamente
apreendidos através de uma relação de oposição e de diferença. Ora,
os dois termos opositivos e diferenciais estão apresentados em lin
guagem histórica. Na verdade, a oposição da Antigüidade aos Tempos
modernos constitui o pivô do que chamamos História, e muitos mantêm
a recíproca: falar de Antigüidade e de modernidade só tem sentido se
admitirmos a História. A ciência galileana só é compreendida por
inteiro se compreendermos o que ela não é, mas, na teoria de Koyré,
o que ela não é só pode ser construído num espaço histórico. Koyré
não é somente historicizante, o que seria afinal uma questão de estilo;
ele é historiador.
A episteme se vê realizada apenas no instante em que ela expôs a
razão pela qual um objeto não pode, emtoda sua necessidade e em
toda sua eternidade, ser diferente do que de fato é. Mais precisamente
ainda, o que há de episteme num discurso é somente a reunião daquilo
que esse discurso apreende de eterno e de necessário em seu objeto.
Daí decorre que um objeto se presta tanto mais naturalmente à episteme
quanto mais facilmente ele deixa revelar o que nele o faz eterno e
necessário - de modo que não há ciência do que pode ser diferente
do que de fato é, e que a ciência mais acabada é a ciência do mais
eterno e do mais necessário objeto. Daí decorre também que no homem
40 A obra clara
a ciência só pode se apoiar no que aparenta o homem ao eterno e ao
necessário; existe um nome para isso: é a alma. Ela se distingue do
corpo, instância no homem do que o aparenta com o passageiro e com
o contingente. Daí decorre enfim que a matemática propõe à ciência
um paradigma de eleição.
Pois a matemática herdada dos gregos deriva do necessário e do
eterno. Figuras e Números não podem ser outra coisa do que são, e
ao mesmo tempo não podem nem vir a ser, nem deixar de ser
sendo como são, de toda eternidade. A necessidade das demonstrações
só vale na medida exata em que é conatural à necessidade em si.
Como as trajetórias dos corpos celestes cristalizam aos olhos corporais
a figura mais adequada do eterno, da mesma forma o caminho que
parte dos princípios e dos axiomas para chegar às conclusões cristaliza
aos olhos da alma a mais adequada figura do necessário. ·
Ao contrário, o empírico no que tem de diverso não cessa de vir
a ser ou de cessar de ser, sendo por conseguinte incessantemente outro
do que ele é. Ele é portanto intrinsecamente rebelde à matemática.
Mas se a matemática pode apreender o que quer que seja nesse diverso,
será então o que nele se deixa reconhecer de idêntico em si e de
eterno: o Mesmo como tal. Quer consideremos alguns objetos que,
sem a menor dúvida, se deixam integralmente matematizar, sejam
supostos em si mesmos seres eternos - assim como os corpos celestes
ou as harmonias. Quer consideremos que certos sentidos emanam mais
diretamente da alma - assim como o olhar. 15 Quer consideremos
que, de todo objeto percebido por qualquer sentido que seja, possamos
e devamos fazer surgir alguma centelha de eternidade. Se admitirmos
chamar Idéia essa centelha contida em cada ente, compreendemos por
que certos antigos puderam definir as Idéias pelos Números e que os
Números sejam somente uma via d.e acesso ao Mesmo. É nisso que
eles são importantes, e não para os cálculos que não obstante even
tualmente permitem.
Ainda mais que o Número não é a única marca do Mesmo. Mais
fundamental ainda, a necessidade nas demonstrações. A episteme grega
baseia-se nelas e apenas nelas; a matematicidade é apenas sua conse
qüência segunda. O gesto radical e definidor consiste em retirar de
princípios conhecidos e de axiomas evidentes conclusões conformes
às regras do raciocínio, respeitando ao mesmo tempo as aparências
fenomenais. Ora, a. matemática propõe o mais puro tipo de uma de
monstração, mesmo sendo preciso uma disciplina específica, quer a
chamemos lógica ou dialética, para expor-lhe as regras: a) o princípio
O doutrinai de ciência 41
da unicidade do objeto e da homogeneidade do campo: todas as pro
posições da ciência devem dizer respeito aos elementos de um mesmo
campo e se referir a um objeto único; b) o princípio do mínimo e do
máximo: as proposições da ciência são ou teoremas ou axiomas; um
número máximo de teoremas deve ser deduzido de um número mínimo
de axiomas, expressos por um número mínimo de conceitos primitivos;
c) o princípio da evidência: todos os axiomas e conceitos primitivos
devem ser evidentes, o que dispensa demonstrá-los e defini-los. 16
A matemática é soberana porque propõe o mais puro tipo de
demonstração; ela o propõe porque os seres de que trata, números ou
figuras, chegam o mais perto possível do eterno e do perfeito. Nada
de sensível vem alterar a necessidade de seus logoi. Ela é portanto o
paradigma formal da episteme como tal - do que existe em cada
episteme particular que a faz episteme em si, do que existe em todo
discurso que o faz episteme particular (daí a utilidade do more geo
metrico, para tomar visível, fora mesmo da matemática, a articulação
de episteme).
Ao mesmo tempo, compreendemos que a matemática é esse pa
radigma formal na medida exata em que ela não é a episteme suprema.
Ela não é a episteme suprema, porque seu objeto não é o objeto
supremo; mas ela propõe um modelo, pois seu objeto, maximamente
despojado de substância sensível, parece maximamente, por suas pro
priedades de forma, com o objeto supremo. Se o que há de ciência
num discurso depende do que esse discurso apreende de eterno, de
perfeito e de necessário em seu objeto, e se além disso existe um
objeto do qual podemos dizer que é o mais necessário, o mais perfeito
e o mais eterno, porque na verdade ele não é nada senão o necessário,
o perfeito e o eterno em si, a única ciência plena e inteira é aquela
que, conforme ao paradigma matemático, trata desse objeto, que está
acima e além de toda matemática: ou seja, Deus, se assim conviermos
nomear o ser necessário, perfeito e eterno, e portanto o mais necessário,
o mais perfeito e o mais eterno. O Número pode a ele dar acesso, o
melhor dos acessos, o único mesmo talvez, mas o Número não é Deus.
A matemática alude ao que ela não é, no instante mesmo em que
estabelece seu reinado, mas esta alusão deve desviar os olhares para
um Ser supremo.
Paralelamente, a possibilidade da ciência no homem nasce daquilo
que nele o aparenta com o necessário e com o eterno. O nome desse
parentesco, dissemo-lo, é a alma, quer seja uma região localizável no
homem, quer seja um lugar quase geométrico de pontos onde o pa-
42 A obra clara
rentesco se cumpre. Quanto ao corpo, que marca o homem com o
contingente e o passageiro, ele é ora alusão, ora obstáculo: alusão por
aquelas de suas partes que mais se parecem, em sua materialidade,
com materialidades que aludem elas mesmas ao necessário e ao eterno
(o olhar, que parece com a luz, a beleza proporcionada, que alude às
simetrias numeráveis); obstáculo em todos os outros lugares. Uma
filtragem faz-se desde então necessária, capaz de extenuar as opaci
dades vindas do corpo; a ela levam as vias da pureza. Só há portanto
episteme acabada para um ser dotado de uma alma e de um corpo, e
que os terá submetido aos exercícios apropriados.
Chegado ao termo dos exercícios, o sabente (sachant) reconhecerá
que a necessidade lógica na própria ciência nada é senão a marca que
a necessidade do ser de cada ente imprime no discurso. Aristóteles
aqui em nada desmente Platão. Quando define o silogismo - é, não
nos esqueçamos, o nome geral do raciocínio, antes de ser o nome
técnico de uma forma particular -, ele diz: " um discurso, no qual,
certas coisas tendo sido expostas, uma coisa diferente [ . . . ] resulta
necessariamente" (ex anankes) , mas equivale a repetir o Timeu, que
vincula o pensamento regrado ao curso dos corpos celestes: " se Deus
inventou para nós a vista e nô-la deu, foi a fim de que, observando
as revoluções da inteligência no céu, nós as utilizássemos para orga
nizar os circuitos do pensamento em nós, com as quais são aparentados,
mas estes estando perturbados, aquelas não perturbadas; graças a esse
estudo, e participando assim dos processos naturais de pensamento
em sua retidão, poderemos imitar os movimentos divinos que estão
absolutamente isentos de erro para pôr em ordem os movimentos
aberrantes que existem em nós" (Timeu, 47b)_ l7 Tanto a Academia
quanto o Liceu atestam o movimento próprio da episteme antiga, tal
como a supõem o teorema de Koyré e o doutrinai de ciência. A
necessidade nos logoi, enquanto necessidade, é o ponto onde se realiza,
na ciência, a semelhança entre o ser necessário do ente e o ser necessário
do sabente (sachant); reciprocamente, a ciência não é nada se não for
a realizaçãodessa semelhança que, pelas vias da alma depurada, une
o homem dotado de um corpo ao Ser supremo, incorpóreo: só existe
ciência do necessário. De forma ainda mais abrangente que o envol
vimento do microcosmo pelo macrocosmo (por mais recorrente que
seja esse esquema de imaginação), a busca da semelhança no ponto
do necessário constitui o motor primeiro do saber.
A peripécia galileana se esclarece por contraste: ela consiste, em
primeiro lugar, no fato de que a matemática, na ciência, possa soletrar
O doutrinai de ciência 43
todo o empírico, sem levar em conta nenhuma hierarquia do ser, sem
pôr em ordem os objetos numa escala que vai do menos perfeito -
intrinsecamente rebelde ao Número - ao mais perfeito - quase
integralmente numerável; ela consiste, em segundo lugar, no fato de
que a matemática, soletrando todo o empírico, intervém através do
que ela tem de literal, isto é, mais através do cálculo do que da
demonstração (a emergência da ciência é também o inexorável declínio
do mos geometricus); ela consiste, em terceiro lugar, no fato de que
a matemática soletra o empírico como tal, no que ele tem de passageiro,
de não perfeito, de opaco.
Compreendemos então que a ciência se articula com a técnica. 18 Não
que o mundo antigo não tenha conhecido a técnica. Mas se acreditarmos
no doutrinai de ciência, ele não a lê de maneira eletiva à episteme.
Mais exatamente, dispomos de dois pares: techne/episteme, theo
rialpraxis. O universo moderno os superpõem. Exceto se, é claro, ao
mesmo tempo as palavras deixarem de ser lícitas. No mundo antigo,
os pares não tinham nenhuma razão para se superporem exatamente.
Ao se combinarem, podem muito mais se misturar de tal modo que
um termo antigo pareça reagrupar traços que hoje diríamos incompa
tíveis. Isso significa que no sistema grego há uma parte de theoria
na techne e uma parte de praxis na episteme. É por isso que Sócrates
interroga os artesãos, a fim de obrigá-los a extrair por filtragem o
núcleq de theoria de que são a base; é por isso que os suportes da
episteme também devem agir com pureza - ciência ligada à cons
ciência, como que governando as ações (praxeis).
A ruptura moderna requer portanto que a matemática, em alguma
medida, deixe de estar ligada ao eterno. Os entes matematizáveis (e,
por excelência, os corpos celestes) não são mais, em função disso,
supost\)s eternos nem perfeitos; podemos sempre supô-los . tais, mas
isso dependerá de outras razões e se devemos cessar supô-los tais (se
devemos discernir manchas no Sol), isso não afetará a possibilidade
de matematizar sua trajetória. Do mesmo modo, é sempre possível
que a nec ... ssidade das demonstrações matemáticas exponha a neces
sidade do Ser, mas isso não ocorrerá por uma divina analogia e,
principalmente, isso não será válido para o uso que dela é feito na
ciência.
Aí, os números não funcionam mais como Números, chaves de
ouro do Mesmo, mas como letras e, como letras, devem apreender o
diverso no que ele tem de incessantemente outro. O empírico é lite-
44 A obra clara
ralizável como empírico; a letra não leva o objeto em direção ao céu
das Idéias; o céu não é o desdobramento visível da-esfera infinita do
Ser; a literalização não é idealização.
A peripécia não reside portanto no fato de a ciência moderna se
tomar matemática; a ciência antiga já o era e, sob certos aspectos, a
ciência moderna o é menos que ela. Mais que matemática, é preciso
dizê-la efetivamente matematizada. Da matematização, a mola pro
pulsora pri!fleira é o número, como letra, e portanto o cálculo - não
a boa forma lógica das demonstrações. Para os gregos, a ciência é
matemática; para sua matematicidade, que não é matematização, não
concorre o número na medida em que ele permite a conta, mas aquilo
que faz com que o Número seja um acesso ao Mesmo em si; entendamos
o fogos como demonstração necessária.
Ora, o desvio pela episteme não é apenas importante para Koyré. Ele
é também um dos mais importantes momentos do dispositivo lacaniano.
Se a psicanálise está aí ligada à emergência do universo moderno,
isso é evidentemente uma de suas condições positivas, mas o doutrinai
de ciência diz mais; ele contém igualmente uma condição negativa:
o desaparecimento da ciência antiga. Em outras palavras, há algo na
episteme que se liga de maneira radical à psicanálise para poder im
pedi-la; entender a episteme é portanto também entender a psicanálise.
Não mais apenas por um contraste, mas por uma relação íntima de
exclusão mútua.
Mas se a episteme não é nada além de uma figura histórica; então
a compreensão da psicanálise é radicalmente historicista. Ora, a his
tória, aos olhos do próprio Lacan, é falaciosa. Deve-se então concluir
que o doutrinai de ciência, tal como foi desenvolvido, é ele também
falacioso? Que, desse modo, a hipótese do sujeito da ciência, que
vincula a psicanálise à ciência moderna, é uma aparência a ser des
truída? Nada senão um meio de se fazer entender, que é preciso rejeitar
uma vez utilizado: " Jogue fora meu livro" dizia Gide; " é preciso se
livrar da escada após ter subido nela" , dizia Wittgenstein; será essa
a última palavra do doutrinai?
S. Que o historicismo não é necessário
Não acho entretanto que a conseqüência seja inevitável. A figura da
episteme fornece justamente a prova mais sólida disso. A persistência
O doutrinai de ciência 45
de sua pertinência. em relação à psicanálise, não deriva da rememo
ração, mas do presente.
Mais exatamente, ela deriva de uma lógica. Uma figura da epis
teme foi determinada; ela tem características distintivas. Estas foram
baseadas em testemunhos de arquivos. Mas esse lastro, por mais cô
modo e mesmo mais exato que seja, 1 9 nada tem de principiai. Basta
que a figura que está se desenhando seja consistente e responda a
discursos efetuáveis. Não é necessário que, de fato, o período referente
à Antigüidade tenha conhecido apenas essa figura; tampouco é neces
sário que essa figura seja atestada apenas durante aquele período.
Quem quer que demonstrasse a existência, na Grécia ou em Roma,
de discursos a um só tempo matematizados e empíricos20 fragilizaria
Koyré; não fragilizaria necessariamente o doutrinai de ciência. Quem
quer que demonstrasse a existência, no universo moderno, de discursos
conformes às regras da episteme não fragilizaria nem mesmo os teo
remas de Koyré.
O mesmo raciocínio seria válido, de resto, para as correlações
geográficas: fora do Ocidente, nenhum discurso conforme ao doutrinai
de ciência parece ter se desenvolvido. Mas não é indispensável a
Lacan que assim seja. De fato, no dispositivo de que Lacan se vale,
a episteme da qual se separa a ciência moderna é mais uma figura
estrutural do que uma entidade propriamente histórica. Ela é caracte
rizada por um conjunto de teses, não por datações, mesmo se pudermos
estabelecer entre teses e datas uma relação natural. As teses definidoras
se desenrolam_ sobre o status da matemática e sobre a relação do
contingente passageiro com o eterno necessário.
Ora, o poder dessas teses não se esvaneceu. Atendo-se aos mais
elementares dados de observação, quem pode duvidar que, nas figuras
da ciência ideal, não subsistam ainda hoje os traços da demonstração
euclidiana? Muitos discursos recentes valem-se abertamente de uma
epistemologia do mínimo e do m�imo, cuja fonte única é grega; este
é, veremos, um dos traços paradoxais do estruturalismo. Se a alma é,
como sustenta Lacan, baseando-se no doutrinai de ciência, intimamente
correlata à episteme e a seus princípios constitutivos, quem pode negar
que a alma não seja recorrente nos ditos mais cotidianos? Não pode
ríamos até sustentar que o discurso corrente da democracia civilizada
encontra na alma seu mais sólido tufo? Nas religiões, no partido do
espiritual, na gesticulação humanitária, no Tartufo político, não dis
cernimos, ao contrário do que erh geral se imagina, a percepção do
judaico-cristão (variante progressista do judaico-maçônico),mas muito
46 A obra clara
mais o dispositivo do Mesmo, oriundo dos Antigos. Que o demiurgo
do Timeu, que o Primeiro Motor de Aristóteles tenham sido colocados
ao nível de Papai Noel, supostamente capaz de restabelecer todo dano
visível aos olhos do corpo através de um ganho visível unicamente
aos olhos da alma, isso pode fazer rir ou chorar, mas não é incom7
preensível.
Quanto à ciência, por mais ornamentada de modernidades que
esteja, o mais insistente pedido que lhe é feito não é para que esclareça
as consciências? Ainda está vivaz a crença de que ao grande sábio
cabe uma magistratura moral. Desde que ele dê somente ressonância
àquilo que todos já pensaram por si mesmos, ao menos nos instantes
em que ele não pensa: é o que chamamos, por uma palavra que também
veio dos gregos, de ética. Não discutirei se alguma ética é legítima
no universo moderno.21 Mas uma coisa é certa: se a ética existe, a
ciência nada tem a dizer sobre isso e, sem dúvida, como ciência, ela
nada tem a fazer quanto a isso.
Ainda podemos decerto pensar em termos historicistas; podemos
retomar a linguagem de Gramsci : o homem moderno nunca é con
temporâneo de si mesmo (" somos anacrônicos em ri osso próprio tem
po" , escrevia em sua prisão, cf. A. Gramsci, (Euvres choisies, Paris,
Éditions sociales, 1 959, p. 19) . Mas Lacan é mais radical, isto é, mais
freudiano.
Num texto célebre (lntroduction à la psychanalyse ( = Vorlesungen
zur Einführung in der Psychoanalyse ) , Paris, Payot, 1 922, 1 8A lição,
p.266), Freud menciona três " feridas que a ciência infligiu ao ingênuo
amor de si da humanidade" (trad. Jankélévitch, modificada): Copérnico
por ter colocado em causa o geocentrismo, Darwin e W allace pela
seleção natural, e a psicanálise. Assim explicava ele a hostilidade
desmedida que então suscitava esta última, comparável a seus olhos
aos furores provocados por seus grandes predecessores. Pouco importa
afinal que ele tenha tido razão quanto ao detalhe histórico (Lacan,
por sua vez, duvidava dele, privilegiando Kepler em vez de Copérnico).
Para além desse detalhe, é preciso restituir a tese de fundo: há um
anticopernicianismo recorrente; ele está ligado ao Eu.
O termo Eigenliebe utilizado por Freud tem por certo uma nuance
moral (pensamos no amor sui, até mesmo no amor-próprio das Ma
ximes), mas dela facilmente o despojamos, para reduzi-lo a seu núcleo
material, que é o Eu. Ora, o Eu é de estrutura, e ele é de estrutura
porque é apenas o ,nome da função do imaginário. Eis o que diz
respeito à cosmologia moderna, quer a atribuamos a Copérnico ou a
O doutrina[ de ciência 47
Kepler. O heliocentrismo do primeiro importa menos pela suposta
decadência da Terra do que pela radical desarmonia que instala entre
o centro geométrico do sistema planetário e o centro de observação,
que passou a ocupar os lugares do homem; a idéia do segundo promove,
em vez do círculo de centro único, a elipse de dois núcleos, um dos
quais estará' irremediavelmente vazio. Em ambos os casos, a boa forma
do círculo onde todo centro coincide com todo centro o cede a uma
má forma.22
Paralelamente, o anticopemicianismo é de estrutura, porque o
Eu e o imaginário, por sua própria lei, privilegiam toda boa forma.
É portanto verdade que a episteme como figura histórica desapareceu,
mas alguns de seus traços característicos permanecem, porque o Eu
permanece, sejam quais forem as periodizações.
Daí as seguintes proposições, que se depreendem a um só tempo
de Freud e de Lacan:
'o Eu tem horror à ciência' ;
'o Eu tem horror à letra como tal ' ;
' o E u e o imaginário são gestálticos' ;
'a ciência e a letra são indiferentes às boas formas' ;
'o imaginário como tal é radicalmente estranho à ciência moder-
na' ;
'a ciência moderna, enquanto literal, dissolve o imaginário' .
Podemos doravante avaliar melhor o vocabulário da periodização tal
como ele aparece em Lacan e, bastante próximo do estilo neo-hegeliano
de Kojeve, o vocabulário do estabelecimento de relações maciças. Por
meio desses dois vocabulários, os hábeis não têm dificuldades em
articular uma das respostas possíveis à questão de saber por que Lacan
requer uma teoria da ciência. Não é, dirão eles, por cientificismo, já
que Lacan não acredita no ideal da ciência para a psicanálise, e ainda
menos na ciência ideal. Será, aparentemente, por teses historicizantes:
'a emergência da ciência galileana tomou possível a psicanálise' ou
'a psicanálise não se concebe sem a suturação que opera a ciência
moderna em relação ao sujeito (e da qual o Cogito é um marco do
cumental)' ou 'a psicanálise só poderia se desenvolver no universo
infinito da ciência' etc. O problema é que essas respostas em si mesmas
nada significam; elas só fazem reiterar a questão de outra forma.
De maneira mais geral, não devemos nos ater excessivamente
ao Lacan do estabelecimento das relações maciças; é um Lacan da
conversa erudita e da protréptica, mas não é um Lacan do saber.
48 A obra clara
No caso, a periodização tem uma função precisa: romper em
relação à psicanálise a pertinência do par ideal da ciência/ciência
ideal. O que de mais eficaz a esse respeito do que os operadores de
sucessão e de corte, cujo troco é um relativismo e um nominalismo
de boa companhia? Ousarei afirmar o seguinte: para desbravar a psi
canálise numa conjuntura dominada pelo idealismo filosófico, Freud
tivera que se basear no cientificismo do ideal da ciência; o preço a
ser pago era nada menos que o cientificismo da ciência ideal. Numa
conjuntura em que as instituições psicanalíticas haviam se deixado
dominar pelo cientificismo da ciência ideal, Lacan, para desbravar
a psicanálise, deveria relativizar e nominalizar; o preço a ser pago
era o discurso periodista. Nos dois casos, trata-se de âssegurar, por
meios distintos, uma função semelhante, a qual deriva, nos dois casos,
da protréptica. Ora, se pretendemos ter acesso ao núcleo de saber,
convém tomá-lo logicamente independente de toda protréptica. No
caso, isso é tomá-lo independente das sucessões e das simultaneidades
cronológicas.
Dessa forma, estamos apenas seguindo Lacan. Pois tudo foi feito para
aliviar os custos e sair do romance histórico. A partir do momento
em que a linguagem periodizante cumpriu seu efeito, assim que, por
ele, o duplo fantasma ciência ideaVideal da ciência se vê sem forças,
Lacan imediatamente se esforça em depurar a teoria do corte. Esta é
a função da teoria dos discursos, desenvolvida a partir de 1 969:23
evidenciar as propriedades de um discursÓ em geral (lembremos que
o discurso, em Lacan, é laço social) e, dessa maneira, manifestar que
nele a heterogeneidade e a multiplicidade são intrínsecas. Elas não
são simplesmente os efeitos, nos discursos, de períodos e épocas, os
quais seriam em si mesmos extrínsecos aos discursos. Em particular,
elas não se projetam simplesmente sobre o eixo das ·sucessões (" não
deve ser visto, em hipótese nenhuma, como uma seqüência de emer
gências históricas" , S., XX, p.20). Por uma doutrina da pluralidade
dos lugares, da pluralidade dos termos, da diferença entre propriedades
de lugar e propriedades de termos, da mutabilidade dos termos em
relação aos lugares, obtemos o que se poderia chamar de articulação
não cronológica e, mais comumente, não sucessiva do conceito de
corte. Talvez a emergência de um discurso novo, a passagem de um
discurso a outro (o que Lacan chama de o " quarto de volta" , Allocution,
p.395), em suma a mexida, possam criar um evento; talvez estes
eventos sejam um objeto que os historiadores procuram entender na
O doutrina[ de ciência 49
forma da cronologia. Mas eles não são o que os historiadores dizem
deles. Toda história, a esse respeito, parece ser falácia e a primeira
adulteração reside justamente na homogeneização mínima que a se
riação temporal supõe. Em si mesmo, o quarto de volta não precisa
se inscrever numa série " annalística" .
Admitindo-se que a teoria dos discursos éuma literalização dos
lugares e dos termos, o corte é, antes de tudo, o apontamento de um
impossível literal. Impossível que um sistema de letras seja um outro;
impossível para um sistema de letras passar sem transtornos a um
outro sistema de letras. Em outras palavras, não existe transformação
interna a um sistema; toda transformação é passagem de um sistema
a outro.
Mais profundamente, podemos sustentar que um discurso assirp
definido não é em si nada senão um conjunto de regras de sinonímia
e de não-sinonímia. Dois discursos serão diferentes um do outro na
medida exata em que suas regras definidoras forem elas também di
ferentes. A natureza do corte discursivo determina-se desde então da
seguinte maneira:
'dizer que existe corte entre dois discursos, é somente dizer que
nenhuma das proposições de um é sinônima de nenhuma das -propo
sições do outro' .
Daf concluiremos que só pode haver sinonímias - se é que
existem - no interior de um mesmo discurso, e que entre discursos
diferentes as únicM semelhanças possíves derivam da homonímia.
Numa teoria como essa, a noção de corte e a noção de discurso se
co-pertencem portanto inteiramente: entre dois discursos realmente
diferentes, não há outra relação a não ser de corte, mas o corte é
apenas o nome da diferença real desses discursos. A conclusão se
impõe:
'um corte não é fundamentalmente cronológico' .
Podemos dizê-la de outra maneira, generalizando seu alcance:
'a teoria dos discursos é uma anti-história' .
Daí pode se deduzir que a sincronia não significa aqui contempora
neidade. Ela deve antes ser entendida no sentido em que se diz que
dois pêndulos são síncronos. Que entre ditos de mesma datação, que
no meio do mesmo dito, haja não-sincronia, isso então se concebe
facilmente. Da mesma forma, a passagem de um discurso a outro não
induz sucessões unívocas; ditos síncronos da episteme podem suceder,
no tempo, a ditos síncronos da ciência e o inverso. De forma mais
50 A obra clara
profunda, a doutrina não cronológica do corte implica que uma su
cessão é sempre imaginária. Não existe última instância real que le
gitime as ordens seriais.
A leitura historicizante do doutrinai de ciência só é necessária se nos
ativermos a fins protrépticos; ela é radicalmente insuficiente se levar
mos em conta a construção de um saber. Convém portanto enunciarmos
de maneira mais explícita os traços estruturais e intrínsecos da ciência
galileana e não nos atermos a uma referência " annalística" a Galileu
e a seus sucessores. O que de resto corresponde a reencontrar uma
preocupação do próprio Koyré, que propôs teses sobre esse ponto.
Lacan fez uso destas e, sem ser sempre inteiramente explícito, emitiu
outras que as completam.
6. Literalidade e contingência
É possível ler Koyré eliminando os operadores historicizantes. Mais
exatamente, é possível depurar a leitura que dele propõe o doutrinai
lacaniano.
Combinando a matematicidade e a empiricidade, reagrupando a
theoria e a praxis, a episteme e a techne, os discriminantes de Koyré
cumprem operações múltiplas. Podemos entretanto resumi-las numa
só. Basta para compreendê-lo recorrer a uma epistemologia aparen
temente bem afastada de Koyré, em especial a de Popper. Uma pro
posição da ciência deve ser refutável, diz esse autor, determinando
assim, sob o nome de " demarcação" , o que se pode também chamar
de o discriminante de Popper. Ora, uma proposição só pode ser re
futável se sua negação não for logicamente contraditória ou material
mente invalidada por uma observação simples. Em outras palavras,
seu referente deve poder - lógica ou materialmente·- ser outro que
é. Mas isso é a contingência. Em suma, só uma proposição contingente
é refutável; só existe portanto ciência do contingente.
De maneira recíproca, todo contingente pode e deve ser apreen
sível pela ciência - tanto teórica quanto aplicada. O conjunto dos
contingentes na medida em que a ciência os apreende, em teoria e na
prática, é o universo.
É este o dispositivo em que verdadeiramente se inscreve Lacan. O
lneio-termo deste é o contingente. Por ele, o discriminante cronológico
O doutrinai de ciência 51
de Koyré e o discriminante estrutural de Popper deixam-se combinar.24
O doutrinai de ciência está baseado num lema escondido:
'o discriminante de Koyré e o discriminante de Popper são si
nônimos, desde que os apreendamos do ponto da contingência' .
Uma primeira conseqüência se impõe: qualquer que seja a for
mulação que dele tenha sido feita originalmente, o teorema de Koyré
não é fundamentalmente uma proposição histórica; se a psicanálise
dele depende, não é por motivos de história (nem, sobretudo, por
questões de cronologia).
Uma segunda conseqüência, mais profunda, propõe que a equação
dos sujeitos seja reescrita da seguinte maneira:
'o sujeito sobre o qual opera a psicanálise, sendo um correlato
da ciência moderna, é um correlato do contingente' .
Nessa reescrita, torna-se evidente que Popper é necessário a La
can. É verdade que Lacan não se refere muito a ele (interessou-se
tardiamente por ele e sem paixão); entretanto, é de fato a palavra
contingente que Lacan apreende em Kojeve e Koyré, os quais, no
entanto, não a proferem inteiramente: " a abóbada dos céus não mais
existe, e o conjunto dos corpos celestes [ ... ] apresenta-se como que
podendo também lá não estar - sua realidade é essencialmente mar
cada [ . . . ] por um caráter de facticidade; são fundamentalmente con
tingentes" (S., VII, p. 147). Na corrente de razões que leva proposições
de Koyré e Kojeve a dar tal prioridade à contingência, é legítimo,
seja na ignorância de Lacan a respeito de Popper e de Popper a respeito
de Lacan, restituir o elo perdido.
Mas se desejamos nos ater ao que Lacan podia explicitamente
pensar, será ir além do legítimo aqui evocar Mallarmé? Na verdade,
se admitimos que o próprio da letra moderna consiste em apreender
o contingente como contingente, a primeira divisa da idade da ciência
se enuncia: jamais alguma letra abolirá o acaso. E a segunda enuncia:
toda letra é um lance de dados.
A letra é como é, sem nenhuma razão que a faça ser como é;
ao mesmo tempo, não há razão para que ela seja outra que é. E se
fosse outra que é, seria apenas uma outra letra. Na verdade, a partir
do momento em que é, ela permanece e não muda ("o único Número
que não pode ser um outro" ). Um discurso pode, no máximo, não
mudá-la, mas mudar de letra. Assim, através de um contorno próprio
para enganar, a letra assume traços de imutabilidade, homeomorfos
àqueles da idéia eterna. A imutabilidade do que não tem razão de ser
como é não tem sem dúvida nada a fazer com a imutabilidade do que
52 A obra clara
não pode, sem violar a razão, ser outro que é. Mas a homeomorfia
imaginária permanece.
Daí decorre que a captação do diverso pela letra lhe dá, na medida
em que ele pode ser outro que é, os traços imaginários do que não
pode ser outro que é. É o que chamamos de a necessidade das leis
da ciência. Ela se parece em tudo com a necessidade do Ser supremo,
mas se parece com ela ainda mais porque nada tem a ver com ela. A
estrutura da ciência moderna repousa inteiramente na contingência.
A necessidade material que é dada às leis é a cicatriz dessa contingência
mesma. Durante um ínfimo momento, cada ponto de cada referente
de cada proposiçã,o da ciência surge como podendo ser infinitamente
outro que é, numa infinidade de pontos de vista; no momento ulterior
a letra o fixou como ele é e como não podendo ser outro que é, a
não ser mudando de letra, isto é, de partida. Mas a condição do
momento ulterior é de fato o momento anterior. Manifestar que um
ponto do universo é como é requer que sejam lançados os dados de
um universo possível onde esse ponto seria outro que é.25 Ao intervalo
de tempo em que os dados turbilhonam antes de cair, a doutrina deu
um nome: emergência· do sujeito, o qual não é o lançador (o lançador
não existe), mas os próprios dadosenquanto estão em suspensão. Na
vertigem desses possíveis mutuamente exclusivos, espoca enfim, no
momento ulterior em que os dados caem, o flash do impossível: im
possível, uma vez caídos, que eles tenham outro número sobre sua
face lisível. Onde vemos que o impossível não está disjunto da con
tingência, mas dela constitui o núcleo real.
Ainda seria necessário para vê-lo que não deixássemos de passar
do anterior ao ulterior. Ora, é isso que não é possível, pois seria
também preciso não çessar de voltar do ulterior ao anterior. A ciência,
em todo caso, não o permite; assim que a letra se fixou, só a necessidade
permanece e impõe o esquecimento da contingência que a autorizou.
A inoportunidade desse retorno do contingente é o que Lacan chama
de sutura. A radicalidade do esquecimento é o que Lacan chama de
foraclusão (La. science et la vérité, p.874). Já que o sujeito é o que
emerge no instante do ·momento anterior ao momento ulterior, sutura
e foraclusão são necessariamente sutura e foraclusão do sujeito.26
Admitir que uma proposição contingente e empírica enquanto
empírica e contingente seja matematizável corresponde, no horizonte
da letra, a rasgar e a costurar de maneira inteiramente inédita, inces
santemente precária e incessantemente restabelecida, as partes do imu
tável e do passageiro. O conjunto integral dos pontos a que referem
O doutrinai de ciência 53
as proposições da ciência é usualmente chamado de universo. Visto
que cada um desses pontos deve se deixar apreender como uma os
cilação de variação infinita, dado que basta que uma única variação
afett(, um único de seus pontos para que dois universos possíveis sejam
distintos, uma vez que em virtude disso os universos possíveis são
em número infinito, já que o universo só existe para a ciência mediante
o desvio desses universos possíveis, o universo é necessariamente
infinito e não deixaria de sê-lo, mesmo que os pontos que o constituem
fossem por acaso em número efetivamente finito. Infinito qualitativo,
quase diríamos, mais que quantitativo.
·
Ora, é unicamente pela contingência que este infinito advém no
universo, e a ele advém de seu próprio interior. O que, mais uma vez,
subverte as relações costumeiras, que vinculam facilmente o infinito
a um lugar exterior, transcendendo ao universo. O universo, como
objeto da ciência e como objeto contingente, é intrinsecamente infi
nito.27
'o infinito do universo é a marca de sua contingência radical' .
É portanto nele e não fora dele que devemos encontrar as marcas
dessa infinitude. A tese moderna por excelência será assim enunciada:
'a finitude não existe no universo' .
e como tudo só existe no universo, ela será enunciada também:
'a finitude não existe' .
Pois:
'não há nada fora do universo' .
Daí decorre em particular que o sujeito não é u m fora-do-universo.
Como, apesar disso, ele pode e deve ser dele distinto, ele constitui o
objeto da teoria do sujeito. Compreendem9s que esta recorra em par
ticular à teoria matemática do interno e do externo, em outras palavras
à topologia. Compreendemos que dela sejam consideradas singular
mente todas as variantes da .exclusão interna (La science et la vérité,
p.861 ). Estas são conseqüências necessárias do doutrinai de ciência.
Compreendemos também que o doutrinai de ciência deva se articular
com hipóteses sobre o sujeito, independentemente de toda correlação
histórica. A hipótese do sujeito da ciência pode estar disjunta do
historicismo.
Que não exista nada fora do universo, é difícil de imaginar. Daí a
recorrência, nas representações, das figuras do fora-do-universo: Deus,
o Homem, o Eu, aos quais atribuímos alguma propriedade específica
que os excetua do universo e constitui este universo num Todo. Essa
54 A obra clara
propriedade de exceção recebe nomes diversos; durante muito tempo,
a filosofia aqui invocou a alma, instância no homem do que o aparenta
a Deus. Mas a alma vem do mundo antigo e da episteme. Quando
esta o cedeu à ciência moderna, a alma pouco a pouco teve também
que dar a vez. Veio então a consciência.
Este é o ponto de incidência da psicanálise. Ela retoma o problema
do universo e o resolve desse modo: o conceito de que existe um
universo, de que nada dele se excetua, nem mesmo o Homem, é o
conceito que diz não à consciência, é o inconsciente. O nome incons
ciente e sua constituição negativa se esclarecem dessa forma. Se a
consciência e mais precisamente a consciência de si reúnem os pri
vilégios do homem, como exceção ao Todo, a negação com que Freud
afeta a consciência tem apenas uma única função: infundir de obso
lescência a esses privilégios. Por esse movimento, a alma é igualmente
atingida. Assim se esclarece a estocada que Lacan, dando um passo
a mais que Freud, imprime à alma: ver Télévision, p. l 6-7. Ele desen
volve apenas um dos efeitos contidos na palavra inconsciente. Ao
mesmo tempo que a alma, atinge-se a figura de Deus, na medida em
que ela seria o fora-do-universo por excelência. Compreendemos então
o logion de Lacan, " Deus é inconsciente" ; ele significa antes de mais
nada: o nome inconsciente estenografá a inexistência de qualquer
fora-do-universo que seja; ora, o nome Deus designa este fora-do-uni
verso; o triunfo do universo moderno sobre os mundos antigos cor
responde portanto a dizer que o inconsciente prevaleceu inclusive
sobre Deus.
Mas esse próprio logion está inteiramente articulado com a ciência
moderna e com o dispositivo do universo. Que a ciência requeira o
universo, que o universo cunhe de impossível todo fora-de-universo,
isso pode se estenografar apenas pela palavra inconsciente, mediante
a qual são ateizados de uma só vez a alma e Deus. Ao inverso, um
sistema de proposições que visaria a um objeto definido como incons
ciente só pode encontrar sua realização na ciência moderna e no uni
verso que ela funda. Rabelais havia dito: ciência sem consciência, e,
por essa única razão, ruína da alma. Ou, de maneira ainda mais precisa,
a ciência só se realiza tomando-se a ciência daquilo em que não há
nem consciência nem alma.28
É estritamente verdadeiro, como afirmava Freud, que a psic�riálise
fere o Eu e que nisso consiste o que a aparenta a Copémico, isto é,
à ciência moderna. Mas para compreendê-lo, é preciso acrescentar
que o narcisismo sempre se reduz a uma demanda de exceção para
\
O doutrinai de ciência 55
si mesmo - e reciprocamente. A hipótese do inconsciente é apenas
outra maneira de afirmar a inexistência de tais exceções; por essa
mesma razão, ela não é nada mais e nada menos do que uma afirmação
do universo da ciência. O inconsciente não só cumpre o programa
que temia Rabelais, como também assume muito precisamente as
funções do infinito.
De resto, ambos os termos têm a mesma estrutura: dizemos un
bewusst como dizemos unendlich. O infinito é o que diz não à exceção
da finitude; o inconsciente é o que diz não à consciência de si enquanto
privilégio. Lacan sem dúvida comentou com freqüência desfavoravel
mente o caráter negativo do termo unbewusst. Podemos reconhecer
aí uma doutrina cartesiana: o infinito é primeiro e positivo, o finito
é segundo e se obtém de certa forma por uma derivação; do mesmo
modo, o inconsciente explica o consciente, e não o inverso. Ele es
tenografa uma afirmação e não uma limitação. Discernimos entretanto
que a negação tem suas virtudes.
De mais a mais, a língua alemã lhe acrescenta algumas. O prefixo
un- não é sempre nela tão ordinariamente negativo quanto o prefixo
latino in-; ele não se restringe sempre a delimitar o complementar do
campo significado pelo positivo. Assim, o Unmensch não é um não
humano, mas um homem desfeito, um monstro; o Unkraut é uma erva
(Kraut), mas uma erva ruim, parasita; o unheimlich não é o inverso
do familiar, mas um familiar parasitado por uma inquietude que o
dispersa. 29 Da mesma forma, poderíamos sem dificuldade afirmar que
no universo moderno não existe distinção de campo entre o finitoe
o infinito, mas que o infinito parasita incessantemente o finito; naquilo
que todo finito, na medida em que a ciência o apreende, se coloca
primeiramente como tendo podido ser infinitamente outro que é. De
resto, não se estaria aí muito distante do Descartes teórico das verdades
eternas. Paralelamente, na psicanálise, o inconsciente parasita inces
santemente o consciente; ele o manifesta como podendo ser outro que
é e é, por essa razão somente, que estabelece em que não pode jus
tamente ser outro. O prefixo negativo é apenas o selo desse parasitismo.
A psicanálise é em seu âmago uma doutrina do universo infinito e
contingente. Assim se esclarece sua doutrina da morte e da sexualidade.
Não podemos ignorar que aos olhos da maioria a morte é a
própria marca da finitude. Mas o lema moderno sustenta que a finitude
não existe e a psicanálise segue esse lema. Dele dá inclusive uma
versão específica:
56 A obra clara
'na medida em que é uma marca de finitude, a morte nada é na
análise' ;
ou:
'a morte só conta na análise na medida em que é uma marca .de
infinitude' ;
ou:
'a morte nada é, a não ser o objeto de uma pulsão' .
Este é o fundamento do conceito de pulsão de morte. Daí se
concluirá que a palavra morte é um foco de homonímias entre finito
e infinito. Mas também que é incompatível com a possibilidade da
psicanálise toda filosofia em que a morte valha justamente pelo motivo
inverso: enquanto marca da finitude. p-ma conclusão particular: se a
filosofia de Heidegger é destas, se o ser para a morte é ser para a
finitude, então, apesar das trocas epistolares e das visitas privadas,
apesar mesmo do peso que se deve dar, quanto à doutrina do tratamento
analítico, a uma definição da verdade como desvelamento, a doutrina
de Lacan, enquanto doutrina da psicanálise, é antinômica da filosofia
de Heidegger - e reciprocamente.
A psicanálise lida com o que os modernos chamam de sexualidade.
É a coisa mais bem conhecida do mundo. É entretanto permitido se
perguntar por que e em que ela lida com a sexualidade. Inútil afirmar
que esta existe empiricamente e que é necessário que algum discurso
dela fale racionalmente. Pois não é justamente trivial que a sexualidade
exista - que uma região determinável da realidade tenha esse nome.
Isso o é
'
tão pouco que parece ter-se tornado insuportável que hoje
em dia a pergunta seja feita. Foucault sentiu o quanto custava ser
revisionista nesse ponto. Mesmo supondo que a sexualidade exista
como dizem que existe, não é evidente que a psicanálise dela fale
diretamente. Sabemos que mentes cultas - Jung era tudo menos
ignorante - o negaram.
Proporei que a sexualidade, na medida em que a psicanálise dela
fala, nada é senão isto: o lugar da contingência infinita nos corpos.
Que haja sexuação, em lugar de não haver, é contingente. Que . haja
dois sexos mais que um ou vários, é contingente. Que estejamos de
um lado ou do outro, é contingente. Que a uma sexuação sejam vin
culados determinados caracteres somáticos, é contingente. Que lhe
sejam vinculados determinados caracteres culturais, é contingente. Por
que é contingente, diz respeito ao infinito.
Para tanto, algo não deixa de ser literalizável. Já que os nomes
homem e mulher são antes de tudo uma maneira de se contar no seio
O doutrina[ de ciência 51
de um conjunto a um só tempo totalizável e aberto, e já que esse
desconto corresponde a um certo tipo de lógica. Em 1 945, Le temps
logique et l 'assertion de certitude anticipée (É., p. l 97-2 1 3) o chama
de lógica coletiva e dele propõe uma versão dialética, propícia a uma
dramatização quase sartreana (Entre quatro paredes não está longe);
ela se encontra, desdramatizada e formalizada num estilo quase rus
seliano, nas escritas de L'étourdit. Compreendemos que a questão do
limite seja um pivô destas últimas. Compreendemos também que ela
esteja ligada à questão do infinito. As escritas sexuais concemem a
um Todo infinito, na medida em que ele é afetado pela existência ou
inexistência de um limite.
O inconsciente freudiano enquanto sexual é o inconsciente na
medida em que poderia ser outro que é; é também o inconsciente na
medida em que ele é como é e cuja letra, · a partir do momento em
que é como é, enuncia que a partir daí não pode ser outro que é. Mas,
por outro lado e pelo mesmo movimento, o inconsciente é o infinito.
Nele cruzam-se portanto, como convém, o infinito e o contingente.
Ora, a sexualidade também é parasitada pelo infinito; ela o é em razão
da pulsão de morte, em razão do ·gozo, em razão da contingência
também, em razão das chicanas do Todo. De forma que a reversibi
lidade é total: o inconsciente é o assalto do universo infinito sobre o
pensamento do ser falante, mas enquanto tal, ele só pode ser sexual ;
a sexualidade é o assalto do universo infinito sobre o corpo do ser
falante, mas enquanto tal, ela só pode ser inconsciente. Encontramos
então a ciência moderna. A psicanálise só pode se autorizar o doutrinai
de ciência desde que se baseie na sexuação como fenômeno e na
sexualidade como região de realidade onde esse fenômeno pode ser
apreendido. O doutrinai de ciência, em contrapartida, é apenas um
outro nome da sexuação como lance de dados, isto é, como letra.
NOTAS
L Formulado explicitamente em La science et la vérité, É., p.875. As citações textuais
serão a partir deste ponto assinaladas por aspas duplas; as aspas simples isolam pro
posições doutrinais, que podem não ser encontradas expressis verbis nas fontes.
2. Remeto ao livro de F. Regnault, Dieu est inconscient, Paris, Navarin, 1 985; acres
centaremos a intervenção pronunciada na École de la Cause em 15 de outubro de 1 989,
58 A obra clara
" Entre Ferdinand et Léopold" . Estes trabalhos dispensariam outros, se outros existissem
sobre essa questão.
3. Será preciso explicar um dia em decorrência de quais manipulações essa palavra
passa, com tanta freqüência, por insultante. Ela não o é a meus olhos mais do que não
o são, por exemplo, as palavras materialismo, ateísmo ou irreligião (cito ao acaso).
Lacan constantemente estabelece uma relação entre Freud e o cientificismo (cf. em
particular, La science et la vérité, p.857-8); mesmo que fosse para demarcar uma
diferet�Ça, não parece que ele pretendesse dessa forma denegrir aquele a quem queria
retornar.
4. A disjunção-conjunção do ideal da ciência à ciência ideal fora introduzida nos Cahiers
pcur l'Analys�, n.9; ela evidentemente se conforma à disjunção-conjunção do Ideal do
Eu ao Eu. ideal, tal como Lacan a articulava a paitir de D. Lagache, em sua Remarque
sur I� mpport d� Dani�l úzgache "Psychanalyse et structure de la personnalité" , É.,
p. 647-84; ver, em particular. p.67l-83. De tal analogia estrutural extrairemos com
facilidade os efeitos de miragem que opera o nome ciência; eles existem, devem ser
dissipados, mas a ciência não se reduz a isso.
5. Um dado entre outros: Freud co-assinara em 1911 um manifesto que reclamava a
criação de uma sociedade cnde seria desenvolvida e difundida.uma filosofia positivista.
Dentre os signatários, encontramos os nomes de E. Mach, ·D. Hilbert, F. Klein, A.
Einstein. A indicação é dupla: o fato de que Freud tenha dado sua assinatura diz algo
sobre suas posições em um momento em que publicava a terceira edição da Traum
d�utung, acabava de fundar a Internacional e a Zentralblatt fiir Psychoanalys�; ademais,
quando conhecemos as filtragens que acompanham de hábito esse gênero de operação,
o fato de que o nome de Freud tenha sido aceito, até mesmo solicitado, permite também
medir seu sucesso social junto ao meio positivista de língua alemã. Ver sobre esse
ponto a importante introdução histórica dada por A. Soulez à coletânea Mamfest� du
cercl� de Vienne et autres écrits, Paris, PUF, 1985, p.32.
6. O próprio Kojeve, em " L'oriiine chrétienne de la science moderne" , L'aventure de
l'esprit (= mélanges Al�xandr� Koyre}, 11, Paris, Hermann, 1964, p.295-306, enuncia
uma proposiçãosemelhante, mas Lacan parece ter de fato a prioridade, uma vez que
formula sua hipótese já em 1960. Além disso, não é certo que as duas proposições
sejam exatamente sinônimas. Cf. nota seguinte.
7. Ver S., VII, p. l46: " ... a ciência moderna, a que nasceu de Galileu, só conseguira se
desenvolver a partir da ideologia bíblica, judaicà, e não da filosofia antiga e da perspectiva
aristotélica" . Aqui surge a diferença que separa Kojeve de Lacan; o primeiro atribui
ao cristianismo, e mais especialmente ao dogma da Encarnação (Kojeve, ibid., p.303),
um papel decisivo na emergência da ciência; ora, esse dogma é justamente o que separa
o cristianismo do judaísmo e justifica que o primeiro invoque o espírito contra a letra;
Lacan atribui um papel decisivo ao judaísmo e ao que resta, no cristianismo, do judaísmo
- a saber, justamente, a letra. Isso significa que a hipótese de Lacan ( 1960) não inclui
a de Kojeve ( I %4), embora elas sejam quase homônimas.
8. Naturalmente, o comentário de Lacan depende amplamente da interpretação instan
tanefsta de Gueroult, mas não inteiramente, e Gueroult poderia ser refutado nesse ponto
(cf. J.-M. Beyssade, La philosophie premiere de Descartes, Paris, Flammarion, 1979)
sem que a reescrita lacaniana seja radicalmente invalidada. Da mesma forma, não é
dirimente que Descartes, nas Méditations, não retome a formulação do Discurso do
método ou dos Princípios: " Penso, logo existo" , " Cogito, ergo sum" (cf. E. Balibar,
" Ego sum, ego existo. Descartes au point d'hérésie" , comunicação à Société Française
O doutrinai de ciência 59
de Philosoplúe, de 22 de fevereiro de 1992). Poderíamos mesmo S\1Mentar que a reescrita
de Lacan segue com bastante exatidão a letra das Miditatíons: "esta proposição: Sou ... " .
9. De resto, não menos que a coerência dos texlOS. Pois bá mna contradição aparente;
ela opõe a letra de Freud e a letra de La.can: o primciro propondo que o trabalho do
sonho, no que este tem de espedíJCO e na medida em que é forma maior do inconsciente,
não pensa (L'interpretation des rive.s, VI, p.432 da edição da PUF, Paris, 1967); o
segundo propondo que o inconsciente, no que tem de especÍÍICO e na medida em que
o sonho é urna de suas formas, é o estenognma do enunciado "isso pensa" . Acres
centemos a contradição que opõe Freud a si mesmo. afinnando ora que o sonho é uma
forma de pensamento. e ora que ele não pensa (ibid., p.43l). Tudo é claro, entretanto.
O pensamento que Freud nega ao inconscieDte é o pensamento qualtttcado; o pensamento
que ele lhe concede e pelo qual Lacan. o define é o pensamento sem qualidades. Ao
que o Cogito é necessário.
Para Freud, negar o pensamento ao lrllhalbo do soobo é negar-lhe as modalidades
do pensamento: a suputação e o julgamento ("o trabalho do soobo não pensa nem
calcula; de maneira mais geral, ele não julga", ibid, p.432). Isto é, tudo o que constitui
diferença qualitativa entre pólos opostos. É legítimo colocar frente a frente o texto da
Troumdermmg e o das Midilatioru; Descartes sustenta que uma coisa que pensa é uma
coisa que duvida, que concebe, que afirma e nega. que quer e não quer, que imagina
e que sente; essencial a esta análise, seu &aráter diferencial, não s6 entre as modalidades,
mas, no meio dessas, entre seus pólos (afinnar/negar etc.). Se o trabalho do sonho é
o que dele diz Freud, então, segundo esta análise, não é o trabalho de uma coisa que
pensa. Se, ao contrário, sustentamos que o sonho é uma forma do pensamento, então
é prec!so admitir que existe pensamento ali mesmo onde a diferença entre dúvida e
certeza, entre afirmação e negação, entre querer e recusar, entre imaginação e sensação
é problemática, até mesmo suspensa Freud, ainda retido na Traumdeutlfflg (cujo última
versão remonta a 191 1), será explícito no artigo sobre a negação (1925): existe pen
samento, mesmo quando nenhuma polaridade - e portanto nenhuma qualidade -
emergiu. Que esse pensamento sem qualidades seja regido unicamente pelas leis da
quantidade (energética), concebemos que Freud tenha pensado nisso. Veremos que o
significante proporá leis não qualitativas, que nem por isso serão quantitativas. Cf.
infra, cap. 111, p.92 e cap. IV, p. l 37.
De um ponto de vista mais genérico, é urna questão aberta saber se o pensamento
sem qualidades, tal como ele aqui se constitui, é também um pensamento sem proprie
dades . . É possível que ele tenha tido propriedades "mínimas" . Ainda aí, a teoria do
significante proporá para essa questão urna resposta específica.
I O. Helrnholtz havia, já em 1 855, levantado explicitamente a questão de um pensamento
sem consciência de si (" ein Denken ohne Selbstbewusstsein" ); cf. H. v. Helmholtz,
" Über das Sehen des Menschen" , Vortriige und Reden, l 896, 11, p. l l O. A articulação
histórica entre cientificismo e inconsciente está assim revelada. Mais exatamente ainda,
ao introduzir uma teoria do inconsciente, Freud não se separa do cientificisrno, ele
cumpre seu programa.
1 1 . P. Redondi, Galilée hérétique, Paris, Gallimard, 1985, p.69-75. Este autor considera
Galileu um atomista; opõe-se, nesse ponto, a Koyré, que faz de Galileu um platônico
(Études galiléennes, Paris, Hermann, 1 939, 111, p.267-8 l) . É verdade que as duas in
terpretações não são 'necessariamente inconciliáveis (cf. F. Hallyn, Le sens des formes,
Geneve, Droz, 1994, p.296-97).
12. Devo, para ser exato, ressaltar que a articulação da precisão e da literalidade não
é explícita em Koyré. Deixo de lado, apesar de sua importância histórica, a referência
60 A obra clara
baconiana, na qual o paradigma literal continua pertinente, mais referente entretanto à
criptografia do que à filologia. Dentre os encontros memoráveis entre filologia e ciência
moderna, é preciso citar a correspondência que R. Bentley (erudito editor de Horácio)
manteve com Newton (ver A. Koyré, Études newtoniennes, Paris, Gallimard, 1968,
p.245-65). Sobre a distinção entre "experimental" e ".instrumental" , cf. G. Simon, Le
regard l'être e l'apparence dans l'optique de l'Antiquité, Paris, Seuil, 1 988, p.201 .
Segundo esse autor, a ótica antiga era experimental; ela não era e não podia ser ins
trumental.
13. A situação de fato é evidentemente mais complicada: há sinonímia exata entre
ciência e teoria da técnica, entre técnica e ciência aplicada? Isso pode ser discutido.
Da mesma forma que podemos discutir se encontramos realmente a mesma coisa indo
"da direita à esquerda" , da ciência para a técnica, ou indo "da esquerda à direita" da
técnica para a ciência. Hoje vemos de fato, sob a pressão do temor e da esperança,
que ao vincularmos a pesquisa em biologia à descoberta de vacinas, fazemos da ciência
uma pura e simples técnica teorizada. Tão livre quanto quisermos em relação ao objeto
que ela teoriza, mas tendo entretanto este objeto: não a Natureza, mas a natureza tratada
pela técnica; no caso, não as configurações de moléculas, mas estas. configurações
enquanto modificáveis por procedimentos voluntários para fins de tratamento médico.
No que diz respeito à Aids a controvérsia se torna furiosa. Um número cada vez maior
de pesquisadores afirma que só se encontrará a vacina não a procurando. O que implica
que as verbas devam ser destinadas a outra coisa que à pesquisa da vacina. Trata-se
de koyreismo ortodoxo. Mas. os aidéticos têm dificuldade em aderir à idéia.
14. Ver os dois artigos que fecham os Études d'histoire de la pensée philosophique,
"Les philosophes et la machine" e "Du monde de l'à-peu-pres à l'univers de la pré
cision" , Paris, A. Colin, 1961 ; reeditados pela Gallimard, 1971 . Ambos os textos
haviam sido originalmente publicados em Critique, em 1948.
15 . Daí o eminente status da astronomia, da ótica e da harmonia. Cf. G. Simon, ibid.,
p. l 82-3. A elas será oposta, após E. Garin (Moyen Âge et Renaissance, Paris, Gallimard,
1969), a astrologia erudita, a qual pretendia justamente apreender os acidentes de um
destino no que este tem de mais individual,e isso por meio das configurações dos
astros eternos e dos cálculos de número. Daí o escândalo que ela pôde suscitar entre
certos filósofos antigos (bem resumido no discurso de Favorinus, relatado por Aulu
Gelle, Nuits attiques, XIV, l ) e a insistência sobre seu caráter "estrangeiro" (caldeu).
16. Cf. H. Scholz, "Die Axiomatik der Alten" , artigo de 1930, retomado em Mathesis
universalis, Darmstadt, 1969, p.27-44.
17. É interessante que H. Scholz, em seu breve Esquisse d'une histoire de la logique
(Paris, Aubier, 1968, p.47; a primeira edição alemã data de 193 1), cite essa passagem
e considere que ainda hoje determina ela a grandeza da lógica como disciplina. Estamos
aqui nos antípodas do positivismo lógico, mas também da ciência moderna. Lembremos
que Scholz, além de lógico e filósofo, era também teólogo. De maneira mais ampla,
notemos o quanto a atenção dada à lógica matemática pode levar certos filósofos a
suprimir o corte galileano; reciprocamente, sabemos que Koyré não tinha muita estima
pela lógica matemática (o que testemunha seu Épiménide le Menteur, Paris, Hermann,
1947).
18. E. Garin (ibid., p. 121-50) chega a afirmar que a combinação da matemática e do
empírico, característica da ciência moderna, foi possibilitada pelo retorno da astrologia
erudita, de novo acessível a partir do século XII e florescente nos séculos xv e XVL
Embora a magia, como ação sobre o mundo regrada por princípios teorizáveis, dê os
O doutrinai de ciência 61
primeiros elementos da relação moderna que une a ciência, como teoria da técnica, à
\écnica, como prática e aplicação da ciência.
1 9. Uma questão empírica permanece de resto aberta: seriam incontestáveis as propo
sições de Koyré tocantes à ciência antiga? É o que os especialistas discutem mesmo
se, em seu conjunto, o essencial da apresentação é mantido por autores sérios; cf. T.S.
Kuhn, "Tradition mathématique et tradition expérimentale dans les sciences physiques" ,
La tension essentielle, Paris, Gallimard, 1990, p.69-1 1 0; G. Simon, ibid.
20. Assim Arquimedes e Lucrécio segundo M. Serres, La naissanee de la physique
dans le texte de Luereee, Paris, Minuit, 1977. Independentemente das teses próprias
de M. Serres, a figura de Arquimedes quase sempre ilustra tal combinação do matemático
e do empírico, não sem aplicações tecnológicas. Cf. entre outros G. Lloyd, La scienee
greeque apres Aristote, Paris, La Découverte, 1990, p.54-62; p. 1 12-5. Ademais, o que
sabemos das posições doutrinais de Arquimedes confirma que ele próprio era adepto
dos princípios fundamentais da episteme antiga. Cf. sua obra inacabada, intitulada La
méthode e endereçada a Eratóstenes (fragmento citado em Lloyd, ibid., p.59-60.
2 1 . É a questão formulada por Lacan no seminário VIL Desse discurso exotérico, ele
não fez entretanto um escrito. Isso prova que considerava não ter ido até o termo do
que requer um saber, o que confirma a leitura do seminário. O que confirma igualmente
a ausência de estabelecimento de uma relação entre o que lá é proposto com respeito
à ética e o que, depois, será proposto a título da ética do Bem-dizer (ver, por exemplo,
Télévision). Sabemos portanto pouca coisa da ética lacaniana. Sabemos somente que
seria, de direito, legítima.
A questão da moralidade num universo infinito, matematizado e preciso é, eviden
temente, aquela que propõe Kant. Sobre esse ponto, remeto a G. Lardreau, La véraeité,
Lagrasse, Verdier, 1993 (cf. principalmente o segundo livro, la. seção - p.130-275 -
e o exame profundo ao qual está submetida a intervenção lacaniana, p. 159-60 e nota
16) e a J. Vuillernin, L'intuitionnisme kantien, Paris, Vrin, 1994, passim. Sobre a
questão geral da ética, num universo onde a matemática é ciência do Ser e não apenas
língua da ciência, ler A. Badiou, especialmente L'éthique, Paris, Hatier, 1993.
22. Graças a Copérnico, escreve Freud, está demonstrado que "a Terra, longe de ser
o centro do universo, forma apenas uma parcela insignificante do sistema cósmico"
(ibid). Lacan, ao evocar Koyré (La révolution astronomique, Paris, Hermann, 1960),
considera essa apresentação " mítica" ; a seus olhos, o passo revolucionário foi concluído,
não por Copérnico, mas por Kepler e ele concerne não ao geocentrismo, mas à subs
tituição da elipse pelo círculo. Cf. Subversion du sujet et dialeetique du désir dans
l 'ineonseient freudien, É., p.796-7; Radiophonie, Se., '113, p.73; S., xx, p.41-3. Seja
corno for, podemos discernir em Lacan uma preocupação quanto à precisão histórica
que o afasta justamente do historicismo - que procede por grandes massas.
Sobre uma rejeição galileana da Gestalt, num campo completamente distinto, cf.
J.-C. Milner, lntroduction à une seience du langage, Paris, Seuil, 1989, p.632-3.
Corno se insiste em chicanear Freud quanto aos dados, podemos também censurá-lo
por ter citado Wallace, ao lado de Darwin. Pois no ponto preciso do amor-próprio da
humanidade, Wallace aparentemente fez muito para agradá-lo (cf. por exemplo, S.J.
Gould, " Sélection naturelle et esprit humain: Darwin contre Wallace" , Le pouee du
panda, Paris, Grasset, p.45-55).
23. Cf. S., xvn (ern seu conjunto); Radiophonie, Se., '113, p.96-9; Elocução pronunciada
durante o encerramento do congresso da Escola Freudiana de Paris, em 19 de abril de
1970, ibid., p.391-9; Télévision, passirn; S., xx, p.20-l . Cf. adiante cap. 111.
62 A obra clara
24. A esse respeito, consultar os trabalhos de Kuhn e, em particular, sua coletânea La
tension essenrielle, Paris, Gallimard, 1990, mais expücita sobre o confronto com Popper
que La structure des révob.aions scil!lllifiques, Paris, Flammarion, 1 983.
25. Encontraremos em S. Kripk.e a articulação da letra, do universo possível e do lance
de dados: cf., em particular, La logique des noms propres (tradução de Naming and
Necessity), Paris, Minuit, 1982, p.l67-8. Evidentemente, não levaremos em conta o
horror que poderia inspirar a Kripke uma aproximação com Mallarmé ou Lacan, supondo
que até soubesse de quem se tratava.
26. Em outras palavras, a doutrina da letra repousa sobre uma lógica de dois tempos.
O leitor verificará que a fórmula de Lacan SJ(SJ(SJ(SJ�Sz))) - encontramo-la em S.,
xx, p.l 30 -.. é apenas a literalização dessa lógica.
27. De que infinito se trata? Em última instância, do infinito literalizável: o dos ma
temáticos, isto é, de Cantor. Mas ele veio tarde. Na origem da ciência galileana, o
paradoxo quer que, no instante mesmo em que esta se declara matematizada e refere
o universo ao infinito, não existam matemáticas do infinito. Nesse fundo de hysteresis,
estrutura-se a oscilação entre infinito positivo e indefinido negativo, cujo primeiro sinal
é Descartes.
28. Cf. L'étourdit, p.9: " Por ser a linguagem mais pr�ícia ao discurso científico, a
matemática é a ciência sem consciência cuja promessa foi feita por nosso bom Rabelais
[ ... ]; La gaye science sentia-se feliz por presumir a ruína da alma."
29. W. Benjamin relata este dito de Leiris (sem que os editores possam discernir se
se tratava de Michel Leiris ou de Pierre Leyris): " a palavra 'familiar' seria em Baudelaire
cheia de mistério e inquietude" (Charles Baudelaire, Paris, Payot, 1982, p.236). Não
separar de "Em qualquer lugar fora do mundo ... " e do não-familiar como refúgio.
CAPÍTULO III
O primeiro classicismo lacaniano
1. A linguagem do corte
O conjunto do doutrinai de ciência, seus teoremas, hipóteses e lemas
é de grande alcance. Ele permite balizar com mais exatidão do que
de hábito o espaço das proposições doutrinais lacanianas. Levado a
sério, poderia constituir um verdadeiro analisador do que por vezes
foi chamado o pensamento dos anos 60. Pois este pensamento, dentre
várias outras características, concordava, em particular, com uma tese
axiomática: 'há cortes' . 1 Ele a entendia em estilo historicizante. É
verdade que mais tarde o doutrinai irá entendê-la de maneira diferente.
É verdade também que, nos anos 60, ele partilhava a interpretaçãocomum.
O axioma de existência dos cortes e sua leitura cronológica nada
têm de novo em si. Desde as fulgurações de são Paulo, anunciando
o fim do mundo antigo ao qual ele próprio punha um termo (" Quanto
aos gregos, eles buscam a sabedoria . . . " , Cor.I, I , 22), eles são encon
trados, sob diferentes formas, em numerosos autores. Os letrados de
língua francesa comentaram incessantemente nesses termos o antes e
o depois da Revolução, de modo que o axioma dos cortes se tomava
para eles uma espécie de punção da política; afirmá-lo valia para
alguns quase tanto quanto um engaj amento. Os anos 60 apenas pro
puseram uma versão particular da operação.
Em O grau zero da escrita, Barthes enuncia em substância a
tese: 'a Literatura é intrinsecamente moderna' . Ela tem, portanto, um
antes e talvez um depois. Essa modernidade é passível de ser datada,
grosso modo, do advento da burguesia como classe dominante, a um
só tempo econômica e política. Ao menos na França. Daí poderíamos
facilmente concluir que a literatura francesa determina o tipo da Li-
63
64 A obra clara
teratura, da mesma forma que a revolução industrial inglesa determina,
segundo alguns, o tipo da índústria capitalista. Segundo a própria
lógica de Barthes, o corte cujo nome é Literatura pode e deve se
articular a outros: o corte político e social do século XVI, o do fim
do século XVIII estão mencionados; nada excluiria que lhe tivesse
parecido pertinente o corte koyreano. Ele simplesmente não construiu
a relação entre eles.
Coube a Althusser fazê-lo ou pelo menos colocar os termos que
permitiriam fazê-lo. Seu esforço repousa sobre a seguinte hipótese:
'o universo da ciência moderna é coextensivo ao mercado mun
dial ' .
Daí decorre que elucidar os fundamentos materiais do segundo
corresponde a esclarecer os fundamentos de legitimidade do primeiro
- e reciprocamente. Ora, a noção de universo e a noção de ciência
se co-pertencem; nenhuma das duas opera sem a outra; a teoria do
universo só pode ser a ciência; o objeto da ciência só pode ser o
universo. Paralelamente, uma teoria completa do mercado mundial
seria uma teoria do capitalismo. Com isso, a teoria do capitalismo e
a doutrina da ciência moderna estão vinculadas. Ao contrário do que
o próprio Althusser por vezes sustentou, não é só porque Marx, es
crevendo O capital, se inscreve no movimento da ciência - isso é
em si indubitável, mas insuficiente. A relação é mais fundamental e
diz respeito às condições de possibilidade da própria obra de Marx;
com mais exatidão: aos fundamentos de seu programa de pesquisa e
à definição de seu objeto. 2
Assim está disposta, por intermédio de Marx, e de uma maneira
que nada fica a dever ao progressismo sartreano dos anos 50, uma
constelação de teses mutuamente conexas. Vemos então o que existe
de próprio aos anos 60. Não consiste na afirmação dos cortes, mas
na função discursiva que reconhecemos nessa afirmação. Os cortes
são, explicitamente ou não, pensados como o análogo, no universo
dos pensamentos, das cesuras históricas cuja teoria o marxismo pro
punha. Eles nos permitem manter uma relação formal com o marxismo,
mas sem que lhe devamos permanecer substancialmente submissos.
Não cabe aqui retomar a mecânica discursiva graças à qual se
passou, por etapas sucessivas, do progressismo político, representado
singularmente por Sartre, a proposições que separavam, cada vez mais,
escolhas políticas e escolhas intelectuais.3 Basta estabelecer em que
o doutrinai de ciência, embora não seja fundamentalmente historiei-
O primeiro classicismo lacaniano 65
zante, exibe, em consistência e em completude, lógicas que encontra
mos em outras partes, sob forma explicitamente historicizante.
Para esse fim, convém passar por Foucault. Só ele, com efeito,
na conjuntura pertinente, operou uma variação significativa. Podemos
crer que, melhor que qualquer outro, ele havia compreendido os pa
rentescos que aponto. Que ele tenha, em contrapartida, aceitado o
doutrinai de ciência ou, mais simplesmente, os sistemas de ramificações
que o doutrinai permite engendrar, isso merece algum exame.
Na verdade, nem é certo que ele tenha aceito o axioma de exis
tência dos cortes. Ou melhor, ele o aceitou, mas para imediatamente
dissolvê-lo em uma família de problemas: o que é um corte, a que o
identificamos, existem cortes de várias espécies etc.? O programa de
Foucault constrói, assim, uma tipologia geral de todo corte discursivo
possível: uma espécie de topologia do conceito, caso a topologia seja,
realmente, a ciência das bordas, dos exteriores e dos interiores, dos
recobrimentos.
Foucault, enfim, não levou a História em consideração. Embora
ele mantenha uma última instância de seriação cronológica - tal que
há nele uma sucessão discursiva, que esta deve ser sempre homóloga
a uma sucessão temporal e que a compatibilidade dos discursos deve
se deixar projetar em proximidade (em período) -, resta que os pivôs
ficam fragilizados; os nomes Antigüidade, Idade Média, Tempos Mo
demos aparecem eventualmente, mas estão marcados por uma: suspeita
de princípio, que não proíbe seu uso, mas requer que ele seja submetido
a controles, de preferência inopinados. É verdade que, ao manter a
cronologia, Foucault conserva também o nome história, mas este é
banalizado e como que sujeito ao genitivo que o acompanha: história
da loucura, história dos corpos, história da sexualidade, estes sintagmas
recobrem e descobrem uma insolência dirigida aos empregos absolutos,
singular ("pensar a História" , " fazer a História" ) ou plural ("biblioteca
das Histórias" ).
A seu método ele preferiu dar o nome de arqueologia, ao mesmo
tempo esclarecedor e arriscado. Esclarecedor, porque esse nome não
é justamente o de história, que dele diria mais do que é legítimo;
arriscado porque liga estreitamente a teoria geral do corte a uma teoria
dos estratos e dos recobrimentos. Que uma descontinuidade seja ne
cessariamente recoberta por um estrato que a esconde, é uma hipótese
não trivial. Não podemos dizer que tenha sido demonstrada; entretanto,
ela é consubstanciai ao próprio termo " arqueologia" .
66 A obra clara
Seja como for, a teoria geral de Foucault não basta ao doutrinai
de ciência; não basta, portanto, para autorizar o discurso de Lacan.
Não basta no sentido estrito: ela não contém todos os axiomas de que
Lacan necessita. Isso significa que, do ponto de vista de Foucault,
Lacan contém axiomas em excesso. Não se trata da'História: Foucault
não a leva em consideração, mas Lacan a recusa. Nada incompatível
aqui . O ponto de heresia está alhures. Ele concerne aos cortes como
tais.
Com efeito, a teoria de Foucault se pretende radicalmente cética
em relação aos cortes - não, repetimos, em relação à existência deles
(mesmo supondo-a não axiomática, ela é considerada provada pelo
sucesso das investigações que a supõem), mas em relação aos tipos
possíveis de cortes; são consciente e voluntariamente rejeitadas as
teses, julgadas inúteis e temerárias, de Kojeve e Koyré: entendemos
supor apenas o que supõe, axiomática ou não, a afirmação de existência
'há cortes' ; o restante é assunto empírico.
Ora, essa afirmação, segundo Foucault, apenas propõe ( 1 ) que
existem heterogeneidades entre discursos e (2) que essas heterogenei
dades deixam traços localizáveis e datáveis no arquivo (cronologia,
mais que história). Ela não supõe que esses traços se reagrupam em
simultaneidades gerais. Permanece perfeitamente possível que a cesura
de heterogeneidade que afeta determinado discurso A não afeta ao
mesmo tempo determinado discurso B , embora compossível com A.
Ora, a combinação das proposições de Koyré e de Kojeve parece
realmente afirmar que certo corte é próprio a afetar não apenas dois
discursos (por exemplo, a ciência e a metafísica), mas todos os dis
cursos compossíveis. É o que implica, evidentemente, o uso de termos
totalizantes, mundo e universo (" o mundo do quase" , "o universoda
precisão" ). Chamemos maior tal corte. O doutrinai de ciência será
assim reformulado:
'o corte entre episteme e ciência moderna é um corte maior' .
Esta é , em todo caso, a leitura feita por Lacan; ela s e impõe se
o doutrinai tiver que incluir uma teoria do sujeito moderno (hipótese
do sujeito da ciência); impõe-se ainda com mais força se, como parece
ter pretendido Lacan, for preciso incorporar, a título de lema, a hipótese
de Althusser (Lacan não se interessou diretamente por Barthes, embora
ele próprio tenha apresentado proposições sobre o estilo e estas, me
diante Norden, sejam amplamente compatíveis com O grau zero).
Isso pode ser dito de outra forma: segundo Lacan, a palavra
" moderno" nada estenografa se não estenografar um corte maior.
O primeiro classicismo lacaniano 67
Podemos, decerto, discutir os elementos desse corte, mas não é
improvável que, supondo-o, supomos que ele afeta todos os discursos
compossíveis: nenhum deles a isso é imune, ao menos na medida em
que é moderno. Nem a economia material (hipótese de Althusser),
nem as letras (hipótese de Barthes e hipótese equivalente de Lacan),
nem as filosofias políticas (L. Strauss ou C. Schmitt), nem as imagens
(Panofsky), nem a filosofia especulativa (Heidegger). Nem, enfim, a
consciência: a psicanálise, em sua emergência, atesta que nem mesmo
a vida interior
·
está imune ao corte; o sujeito não é um império em
um império; existe um sujeito moderno (ou porque o distinguimos de
uma subjetividade antiga, ou porque supomos a subjetividade nascida
com a própria modernidade); de sua instauração, a psicanálise é a um
só tempo prova e efeito.
Em outros termos, já é hora de ressaltá-lo, o dispositivo do dou
trinai de ciência repousa sobre um axioma de existência suplementar:
'não só há cortes, mas há cortes maiores ' .
Ora, Foucault, justamente, não supõe isso; inclusive, tudo indica
que supõe o contrário. Todo seu propósito repousa sobre a possível
não-coincidência e não-homologia dos cortes; daí rompimentos cons
tantes, contratempos, efeitos de turbulência, que não se devem perder.
Desse modo, o cristianismo pode constituir um corte na história
da sexualidade, mas não necessariamente na da loucura. O galileísmo
do início do século XVII pode constituir um corte na ciência da natureza,
mas não nos discursos referentes ao falar, à classificação, à troca.
Estes últimos estão marcados por um outro corte, que data do fim do
século xvme que parece indiferente à física matematizada. Por mais
igualmente radicais que sejam, cada um desses cortes retira de cada
um dos outros as propriedades de um corte maior. Mesmo cortes
contemporâneos (ou quase contemporâneos) um do outro não estão
necessariamente articulados um ao outro. É inclusive ilusão caracte
rística do discurso " psi" (do qual a psicanálise, segundo Foucault, é
parte) crer em tal articulação entre teoria do íntimo e teoria dos pro
cessos públicos.
De maneira geral, é sempre possível que algum discurso seja
imune aos cortes reputados maiores pela vulgata: cristianismo, capi
talismo, ciência moderna. É sempre possível que os cortes estejam
dessincronizados uns dos outros, e isso mesmo quando seriam, quanto
à annalística, simultâneos. Além disso, não seria preciso levar muito
adiante a consistência de Foucault para nele deslindar uma suspeita
política: a figura do corte maior contém todos os traços daquilo que
68 A obra clara
o discurso político chamou " Revolução" . Indo além: da mesma forma
que se supõe que a ciência moderna nasceu de uma revolução científica,
da mesma forma o discurso político moderno se caracteriza por ter
construído o tipo da Revolução e através deste medir todo objeto
político possível. Ora, segundo Foucault, a Revolução não existe; a
crença nela conduz à catástrofe - na prática e na teoria. Paralelamente,
a figura discursiva do corte maior, por menos culpada que seja (não
podemos aparentemente lhe atribuir nenhum massacre), não é menos
enganadora.
Assim, o corte é radicalmente múltiplo, ou melhor, ele é o próprio
múltiplo. Quase sempre inominado - Foucault não gostava de falar
de corte -, ele está no cerne das nominações, cujo sistema articula.
Foucault fora o primeiro a relacionar o discurso exclusivamente ao
regime dos nomes; fora o primeiro a trabalhar, de maneira conseqüente,
para balizá-lo com suas compatibilidades e incompatibilidades apenas.
No entanto, ele não cedera à tentação que sempre acompanha tal gesto:
que, em última instância, haja sempre apenas um único discurso, pois
todo nome vale um outro. Ele nunca cedeu quanto ao múltiplo dis
cursivo, isto é, quanto à heterogeneidade dos nomes, isto é, quanto à
sua desigualdade. O corte nada designa além disso.
Ele é somente aquilo que diz não à sinonímia proliferante e ele
proliferará ao ritmo irregular daquilo que denega. Esclareceremos as
sim o aforismo de René Char, que Foucault colocou na contracapa
de sua História da sexualidade: " a história dos homens é a longa
sucessão dos sinônimos de um mesmo vocábulo. Contradizê-los é um
dever" . Em outros termos, os cortes são rebeliões discursivas; seu
surgimento é tão disperso quanto o são as desordens; eles têm mais
a ver com 68 do que com 17 ; o axioma de existência cede a um
mandamento indistinguivelmente ético e político: ' temos sempre razão
de nos revoltarmos contra os sinônimos' .4
Se não há cortes maiores, há então sistemas de cortes independentes
uns dos outros e não síncronos. Para todo discurso afetado por um
corte, haverá sempre pelo menos um outro que, nesse instante, não o
será. Através de uma metodologia inteligente, até mesmo astuciosa,
todo discurso pode, portanto, sucessivamente servir a um outro como
sólido de referência. Não há nenhuma necessidade de supor uma Baliza
absoluta que seja por essência fora do corte, já que as desarmonias e
as turbulências bastam para se balizar mutuamente.
O primeiro classicismo lacaniano 69
A não ser que, porventura (mas são as circunstâncias que deci
dem), algum efeito de paixão constitua, no espaço de um instante,
uma configuração empírica em Baliza. Pode-se assim entender a função
de intervenção que Foucault freqüentemente assumiu pelas vias do
Journal. Ela depende inteiramente de sua axiomática doutrinai ( 'não
há cortes maiores' ), mas corrigindo-a através de uma proposição prática
- no sentido kantiano da palavra: 'há certas circunstâncias que, no
instante de uma paixão, têm efeito de corte maior e de Baliza' .
A esse efeito, que se assemelha a um efeito de verdade, embora
não seja um, Foucault deu um nome. Durante seu trabalho sobre as
prisões, ele havia desenvolvido o conceito de " inquérito-intolerância" :
evidenciar através do mais rigoroso inquérito um objeto empÍI:ico
(atividades de um aparelho, afirmações deste ou daquele agente, de
cisões abertas ou secretas etc.), tal como ele desperta naqueles que
dele tomavam conhecimento o ponto de intolerância - o juízo, anterior
a todo enunciado, que isso, que vemos, não pode ser tolerado. Não
tendo o intelectual outra máxima ética senão proferir os enunciados
capazes de despertar esse juízo naqueles que nada proferem.
Agora compreendemos esse gesto e essa linguagem; desse ponto
de intolerância, suscitado no interior dos limite.s do inquérito, voltar
como se voltássemos de um ponto exterior, situado para além de um
corte maior (exceto que não há nem exterior nem corte maior), à
integral dos discursos (exceto que essa integral não é construível) e
julgá-la (exceto que esse juízo se autoriza apenas de sua pura e simples
proferição - ela mesma efêmera).
Mas se em contrapartida Lacan tem razão, se há realmente cortes
maiores, então os balizamentos mútuos são impossíveis; é preciso,
portanto, um sólido de referência que seja imune aos cortes. Esse
sólido deve, em todo caso, permitir que se tratem as homonímias e
as incertezas de sinonímia a que se reduzem, em sua forma mais
simples, os cortes. A questão do lugarde imunidade não é explicita
mente tratada nem por Koyré, nem por Kojeve, nem por Lacan.
Numa leitura historicizante, ela pede, entretanto, uma primeira
resposta, aparentemente simples: existe pelo menos um conjunto de
realidades que permanecem imunes aos cortes, e que são as línguas.
Em relação aos discursos e a seus deslocamentos e soluções de con
tinuidade, uma determinada língua é o lugar onde as homonímias se
deixam assimilar. De fato, só uma língua pode constituir esse lugar.
70 A obra clara
Em outros termos, a suposição segundo a qual há cortes maiores
é também a suposição de que eles não afetam a língua. Mas isso nada
mais é do que o que Stalin buscara estabelecer. Pode-se mesmo sus
tentar que, no modelo de escolástica marxista que era o seu, ele tivera
êxito, a ponto de se poder inclusive falar de um verdadeiro teorema
de Stalin.5 Em doutrina marxista, ele se enuncia (com sua recíproca):
'existem mudanças da Infra-estrutura que não acarretam mudanças na
língua; existem mudanças na língua que não dependem de mudan
ças na infra-estrutura ' ; mas, levando em conta essa doutrina, toda
mudança na infra-estrutura afeta, direta ou indiretamente, de maneira
mais ou menos perceptível, cada uma das instâncias superestruturais,
sem excetuar nenhuma; o que corresponde a dizer que toda mudança
da infra-estrutura é um corte maior. Em contrapartida, o marxismo
clássico supõe que só uma mudança da infra-estrutura pode produzir
um corte maior. É portanto possível reformular o teorema de Stalin:
'a língua é imune aos cortes maiores' (ou, em uma linguagem política:
'a língua é imune às revoluções') .6
Esse teorema evidentemente só é verdadeiro para a língua como
forma; para tudo o que na língua não é formal, ele seria facilmente
refutado e Stalin o ignorava menos do que ninguém. Ele supõe, por
tanto, que a língua como forma existe, oponível à língua como subs
tância. Ora, a língua como forma é o que a lingüística, na época de
Stalin, chamava de estrutura. Eis por que Jakobson se reconheceu no
. teorema e o avalizou.
Ao referir-se à estrutura (" o inconsciente é estruturado como
linguagem" ), Lacan se pronuncia portanto sobre a questão da Baliza.
Ele o faz, aparentemente, do mesmo modo que Stalin. Isso, é claro,
não esgota o alcance de sua relação com o estruturalismo. Ademais,
esta também comporta aquela.
Daí a relação que Lacan crê poder construir: se o que Lacan diz
da língua é verdade. então o marxismo pode ser verdade, embora não
o seja necessariamente; se o que o marxismo - isto é, Stalin - diz
da língua é verdade, então Lacan é necessariamente verdadeiro.7
Na verdade, a relação é ainda mais precisa: não se trata apenas
da língua, mas, de fato, do doutrinai de ciência; em sua leitura his
toricizante, este requer o teorema de Stalin (assim como o que se
pode chamar de o lema de Stalinç 'a língua, como forma, é a baliza
que permite constatar os cortes maiores ' ) . Ele o requer na medida
exata em que depende do teorema de Kojeve. No qual se percebe que,
inobstante o que ele próprio talvez pensasse, Kojeve depende do teórico
O primeiro classicismo lacaniano 71
Stalin, e não apenas de sua figura mítica de imperador do mundo
moderno.
Há mais. Indo além dos próprios textos, e provavelmente da
consciência clara dos autores, podemos descobrir, no teorema de Stalin,
um meio de resolver uma dificuldade do doutrinai.
Muitos autores assinalaram o quanto o status da matemática e o
da lógica eram aí problemáticos. Uma questão permanece aberta: a
própria matemática está submetida ao corte galileano? Em geral, a
resposta mais admitida é negativa. Não há, segundo a maioria das
autoridades (Bourbaki, por exemplo), ruptura absoluta entre a mate
mática grega e a matemática cartesiana ou cantoriana; diferenças,
decerto, mas nada que se compare à relação que mantêm entre si as
físicas pré-galileanas e pós-galileanas . O que equivale a afirmar que
a matemática está justamente em posição de funcionar como uma
baliza em relação ao corte maior.
A matemática não é uma ciência galileana; ela não é uma ciência
popperiana; o contingente não lhe conceme. Com isso se explica jus
tamente o papel que ela desempenha no corte. A imunidade da ma
temática em relação ao corte maior reside no princípio do próprio
corte.
Vê-se, então, que a matemática tem estritamente o status de uma
língua, tal como o teorema de Stalin a institui. Sabe-se, de resto, que
a definição linguageira das matemáticas se tomou prevalecente entre
os modernos. É verdade que ela já .está presente em Galileu: fazer da
matemática o alfabeto (e não, é claro, o hieróglifo) do universo cor
responde a lhe conferir in nuce um status que se revelará, ao termo
de um percurso sinuoso, em geral relativamente aceito. Que a mate
mática seja uma língua (a maioria dos modernos sustentam, além
disso, que cabe à lógica enunciar-lhe as regras, mas desde que a
própria lógica seja enunciada em língua matemática), essa afirmação
vincula-se, de maneira geral, ao doutrinai de ciência e resolve o pa
radoxo pelo qual só podemos reconhecer um corte pelo que a ele é
exceção. Não cabe aqui determinar se essa posição pode ser defendida.
O importante no presente momento é reconhecer aí uma versão des··
conhecida do teorema de Stalin.
Sob esse enfoque, interpretar o doutrinai de ciência em termos
historicizantes, atribuir às matemáticas uma continuidade imune aos
cortes maiores, reconhecer-lhes uma implicação constituinte no corte
maior do universo moderno, defini-las como uma língua, ser stalinista
72 A obra clara
em matéria de língua, tudo isso parece constituir cinco decisões so
lidárias.
A teoria de Foucault é completamente diferente; ela pode perfeitamente
integrar a hipótese segundo a qual as línguas não escapam aos cortes
disjuntos e turbulentos cuja teoria é feita pela arqueologia. Anti-sta
linista em doutrina política, Foucault o é também quanto à língua.
Com mais exatidão, ele se abstém, quanto às línguas, de emitir qualquer
juízo: impossível nele determinar se são ou não superestruturas. É
verdade que os pequenos foucaltianos demonstraram menos reserva;
mas pouco importa.
Assim se explica por que Foucault sempre fez uso com extrema
prudência de raciocínios entretanto freqüentes entre seus confrades:
concluir do aparecimento ou do desaparecimento das palavras ao apa
recimento ou ao desaparecimento das coisas. Que uma palavra comece
a existir ou deixe de existir é um dado de que ele faz uso, mas com
uma discrição que impressiona. Na verdade, poderíamos afirmar que
alguns dos trabalhos mais importantes de Foucault repousam sobre a
hipótese inversa: a mesma palavra " loucura" e a mesma palavra " pri
são" aparecem dos dois lados do corte que afeta os discursos nos
quais essas palavras aparecem. É verdade que outras proposições,
mais regionais, repousam sobre a hipótese exatamente inversa; a emer
gência do grupo nominal doença mental constitui, assim, um sinal
que o método retém.
É que a língua não importa para Foucault, tampouco a linguagem,
quer as consideremos em sua forma ou em sua substância. É verdade
que a lingüística lhe fornecera conceitos e apoios, mas podemos des
confiar que haja aí mais que analogias, autorizadas pela conjuntura
dos anos 60. É também verdade que as palavras e as frases constituem
a causa material dos discursos. Mas os díscursos possuem lei própria,
que nada deve às eventuais leis que governam as palavras e as frases.
A lei dos discursos se resume numa só: 'existem descontinuidades ' ,
ou 'devemos dizer não às sinonímias ' . Eis, portanto, o único objeto
que podemos tratar, através de uma espécie de física dos turbilhões,
na qual nada existe que mereça ser considerado absoluto. No sentido
em que Descartes admite tão-somente movimentos relativos.
Por contraste, avaliamos melhor a natureza da doutrina lacaniana:
existem não apenas descontinuidades, mas existem descontinuidades
tais que afetam todos os discursos.Isso supõe que existe algo como
O primeiro classicismo lacaniano 73
movimentos absolutos e, portanto, algo como uma baliza de referência
absoluta.
Evocamos, legitimamente, Stalin. Pois é este nome que convém de
cifrar sob o de Jakobson, lingüista: a afirmação segundo a qual a
baliza absoluta, independente a um só tempo da infra-estrutura e das
superestruturas, é a estrutura das línguas naturais, por essa razão in
tegráveis a um conceito formal único: a linguagem. Ora, com Stalin,
mesmo camuflado por Jakobson, continuamos na História. Mas Lacan
não crê na História, embora admita os cortes maiores.
A articulação é aqui inexorável. Se o corte maior for interpretado
em termos historicizantes, então Stalin é necessário; ele só é evitável
se uma interpretação não-historícizante for construída.
Foi precisamente por isso que Lacan fez questão de não se deter
na linguagem. Ele a evoca explicitamente, para abandoná-la logo no
instante em que nela se detém. O ponto de referência absoluto não é
a linguagem em si, nem as línguas nas quais se polimeriza, mas aquilo
de que a linguagem, reduzida a seu real, é o substituto. Isto é, o
sujeito.
Voltamos à teoria dos quatro discursos e avaliamos melhor sua
importância. Ela não apenas propõe uma teoria não cronológica das
descontinuidades, não apenas propõe uma teoria das propriedades ab
solutas destes ou daqueles discursos, não apenas admite o movimento
absoluto (" o quarto de volta" ), mas determina e nomeia também a
baliza absoluta sobre a qual repousa.
O doutrinai de ciência supõe essa baliza de referência absoluta,
unicamente pelo fato de ele requerer cortes maiores. Mas por outro
lado, ele se combina com a teoria dos discursos, segundo a qual
nenhum corte é cronológico. Afirma, portanto, que os cortes maiores
não o são. Em relação a eles, a baliza absoluta não tem, portanto, por
propriedade distintiva, escapar ao cronológico. Com a teoria não cro
nológica dos cortes repousando crucialmente sobre uma teoria dos
lugares, a propriedade da baliza deve residir em sua atopia: sua ca
pacidade de ocupar qualquer lugar que seja onde lhe ocorre insistir.
O único real que apresenta, por definição e por construção, essa pro
priedade de atopia e de insistência, é o sujeito do significante. É por
isso que os teoremas de Koyré e de Kojeve só são inteiramente fundados
se admitirmos conjuntamente a hipótese do sujeito da ciência e a
definição do sujeito como sujeito de um significante: a ciência mo-
74 A obra clara
dema, como ciência e como moderna, determina, de fato, um modo
de constituição do sujeito.
É preciso ainda que essa própria hipótese seja radicalmente des
historicizada. É o que permite a teoria do discurso psicanalítico. Sus
tentar que existem cortes maiores significa sustentar que, do ponto
do sujeito, existem suspensões integrais de sinonímias. A doutrina da
interpretação - a do tratamento analítico - encontra, desse modo,
seus títulos de legitimidade; não poderia ter outros. Uma interpretação
é apenas isso: proferir a palavra que fará com que entre o antes e o
depois nada mais seja sinônimo. Uma palavra só realiza isso caso se
refira ao sujeito. Só há, portanto, interpretação do ponto do sujeito.
Mas esse ponto do sujeito é aquilo mesmo que requer uma doutrina
geral dos cortes, na medida em que um corte é suspensão das sino
nímias. O doutrinai de ciência está vinculado com o que se pretende
o núcleo mais íntimo da prática freudiana, cuja matriz é exposta pela
teoria dos discursos, com o nome de discurso psicanalítico. Podemos
repetir, mas compreendendo enfim seu alcance, a equação dos sujeitos:
'a praxis da psicanálise é interpretação; o sujeito que a psicanálise
requer - na medida em que ela interpreta - é o sujeito que a ciência
requer na medida em que ela se constitui através de um corte maior;
todo corte maior tem a estrutura de uma interpretação' .s
Somente com isso o poder de Stalin é superado, isto é, o de
Marx.
2. O paradigma da estrutura
Toma-se patente que, no dispositivo de Lacan, o que Stalin e Jakobson
propunham com o nome de línguas ou linguagem era tão-somente o
estrito lugar-tenente do sujeito, do qual nem Stalin nem Jakobson
estão em condições de falar adequadamente. Passar das línguas ao
sujeito é o que permite a doutrina do inconsciente, enquanto estruturado
como uma linguagem. Compreender isso é compreender a relação
com o estruturalismo.
Lacan é uma figura do estruturalismo. Quanto a isso não há dúvida,
se nos ativermos à opinião. Resta esclarecer o que se entende por
isso. O que supõe que expliquemos, com mais clareza do que de
hábito, como Lacan se inseria no programa estruturalista, o que supõe,
em contrapartida, que expliquemos com mais clareza do que de hábito,
O primeiro classicismo lacaniano 7!5
o que era esse programa. O próprio Lacan havia julgado útil reafirmar
sua própria doutrina nos primórdios de sua maior difusão: " essa cor
reção, dizia ele em 1 965, influi no destino de tudo o que se reúne,
agora de maneira excessivamente ampla, sob a insígnia do estrutura
lismo�' (resumo redigido para o anuário da EHESS, cf. S;, XI). O mo
vimento recíproco raramente foi cumprido.9 Convém que seja hoje
retomado.
O estruturalismo constituiu, para além dos arroubos de moda,
uma figura da ciência: um momento em que se pensou que a jurisdição
da ciência moderna podia e devia. se estender bem além dos limites
que durante muito tempo lhe haviam sido reconhecidos.
Por exemplo, o ideal da ciência, como ciência matemati�ada do
universo. Por exemplo também, para representar a ciência. ideal, a
figura oriunda do século XIX e do i:nício do século XX; segu11do 'essa
visão, só podíamos, da matematização, propor uma única prova assi
milável, a medida quantitativa exata� desde então, um discurso empírico
será considet1ado matematiza:de se e somente se suas proposições com
portarem medidas ou referências numéricas. Desde Galileu, as ciências
que tomavam por objeto porções do reino da natureza tornaram-se
conformes a essa definição; quando se trata de objetos sociais ou mais
comumenie· humanos, deve-se proceder a adaptações. Fizeram-nas de
vários tipes-: conservando o ideal da medida (utilizando-se, principal
mente, procedimentos estatísticos), abandonando-o e substituindo-o
por outr;a figura ideal, renunciando a qualquer figura ideal etc.
O estruturalismo inscreve-se nessa discordância; reclama para si
o ideélll da ciência, mas lhe sugere uma figura nova; em relação à
ciênciia, ideal, ela é caracterizada por uma dupla modificação; uma
refere-se aos objetos empíricos: o estruturalismo dedica-se a objetos
humanos - é em virtude disso que a oposição da natureza e da cultura
lhe é principiai.
A segunda refere-se à matematização; ela deve doravante ser
entendida num sentido novo: que não se trata mais da medida, stricto
sensu, mas de uma literalização e de uma dissolução não quantitativa
do qualitativo. É uma reinterpretação do teorema 3 de Koyré (cap. 11,
p.38).
Sabemos que a ciência moderna, comparada à física aristotélica, se
vê perseguindo um desígnio tenaz: eliminar da ciência as qualidades.
Não apenas as qualidades práticas - bem, mal, útil, prazeroso etc.
-, mas também e sobretudo as qualidades sensíveis: rápido, pesado,
76 A obra clara
colorido, quente etc. Este é o primeiro gesto; ele não basta a uma
matematização, mas lhe é necessário. Através dele somente, as pro
posições matematicamente literalizadas poderão se tornar primeiras.
Quando tudo se consumar, as qualidades não poderão mais aparecer,
a não ser a título de estenogramas segundos, oriundos da língua usual.
A física nada diz diretamente sobre o calor e o frio; diz algo
sobre movimentos de moléculas, dos quais alguns são associáveis à
propriedade sensível usualmente chamada calor. Da mesma forma,
nada diz sobre o claro e o escuro, mas diz algo sobre a luz e sobre
as configurações associáveis às propriedades sensíveis usualmente cha
madas claroe escuro. Nada diz sobre as cores, mas diz algo sobre o
que as suscita num ser dotado de sensibilidade ocular.
De uma maneira que lhe é própria, o estruturalismo em lingüística
é ele também um método de redução das qualidades sensíveis. Essa
característica só pode se revelar de maneira limitada, uma vez que as
línguas naturais só dizem respeito à matéria sensível num único campo:
a forma fônica. Mas nesse campo, o método tem efeitos evidentes.
Tomemos um exemplo que se tornou famoso: o tratamento pro
posto por Trubetzkói das finais oclusivas em alemão. Uma palavra
como Rad ( 'roda' ) se realiza como homófona de Rat ( 'conselho') ;
nos dois casos, a fonética registra um [t], [rat] . A notação ortográfica
faz, entretanto, surgir um d no primeiro e um t no segundo; ela é,
além disso, confirmada pelo plural: Riider ( 'rodas' ), onde o /d/ é
audível e Riite ( 'conselhos'), onde o /ti é audível. Se, como parece
que devemos dizer, Rad no singular e Riider no plural são uma única
e mesma palavra, é preciso dizer algo sobre o que aconteceu ao /d/.
Alguns lingüistas dirão, portanto, que " o /d/ em alemão torna-se surdo
am final de palavra" .
Do ponto de vista estrito do método, objeta Trubetzkói, essa
proposição é inexata e imprecisa: a oclusiva final de Rad e Rat é
decerto materialmente surda, mas não o é do ponto de vista da ciência.
Com efeito, ela não pode se opor a uma oclusiva materialmente sonora,
já que estl\l.s justamente não aparecem nessa posição. Ora, as proprie
dades lingüísticas subsistem apenas na estrita medida em que fazem
parte de uma relação de oposição distintiva. O elemento final de Rad
e Rat é, no sentido estrito, neutro e sem propriedade quanto à sono
ridade. De maneira geral, uma entidade fônica não é, do ponto de
vista da ciência, surda (ou sonora, ou labial, ou dental etc.) por si
mesma; ela o é apenas pela diferença que a separa de alguma outra
entidade.
O primeiro classicismo lacaniano 77
No exemplo Rad/Rat, diremos que a final é uma entidade, cha
mada arquifonema, que não comporta nenhum valor do ponto de vista
da propriedade opositiva surdo/sonoro e que notamos, em maiúsculas,
ff/. As duas formas serão, portanto, notadas: /raT/. 10
Dizer isso corresponde a não considerar nem um pouco o dado
sensível, registrável pelos aparelhos fonéticos. Pois é verdade que o
elemento fônico final de Rat e o de Rad é " objetivamente" surdo,
isto é, surdo para a orelha. Mas os praticantes da fonologia estrutural
se lembram: eram levados a não se limitarem a essa qualidade.
Encontramos aqui o gesto próprio da física matematizada, talvez
mesmo estritamente galileana. 1 1 A qualidade não está, decerto, resu
mida à quantidade; ela não deixa, no entanto, de estar dissipada; ela
não está, por certo, reduzida em figuras geométricas, mas se insere
num quadro sobre o qual podemos determinar distâncias, proporções,
simetrias; ela não está, decerto, expressa por uma notação de cálculo
numérico, mas não deixa de ser, no entanto, captada por uma litera
lização: o mero fato de escrever o arquifonema com uma maiúscula
ff/ é uma decisão que deriva de um sistema de notação, tão rigoroso
quanto uma notação algébrica, embora incomparavelmente menos so
fisticado.
Estamos no direito de falar aqui de uma matematização estendida; ela
se pretende rigorosa e forçada, é verdade, mas também autônoma em
relação ao aparelho matemático stricto sensu - geometria, aritmética,
álgebra, teoria dos conjuntos, ingênua ou abstrata, teoria das estruturas
etc. Sabemos que a lingüística dos anos 20 se dedicou a essa tarefa.
No final do processo, nos anos 50, ela pôde ser considerada como
uma disciplina tão literal quanto a álgebra ou a lógica e no entanto
inteiramente independente delas. Baseada nesses fundamentos, ela co
nhecia sucessos empíricos. O conjunto das línguas naturais era reputado
assimilável, em sua extensão e detalhe, por seu método. Podia-se,
portanto, considerar que ela atuava estritamente como ciência galileana
de seu objeto. Galileísmo ampliado, portanto, baseado numa matemá
tica ampliada, e extensivo a objetos inéditos.
Pois esse objeto era a linguagem, isto é, o que separa de maneira
capital a espécie humana do reino da natureza, pelo menos tal como
a entendemos em geral. 12 Da mesma forma, a antropologia lévi-straus
siana parecia mostrar que aplicados a objetos eminentemente não na
turais - os sistemas de parentesco -métodos comparáveis conduziam
78 A obra clara
a uma apresentação exaustiva, exata, precisa e demonstrativa dos fun
cionamentos. O apoio que Lévi-Strauss encontrava na lingüística reside
numa analogia de procedimentos; ele reside principalmente numa ana
logia dos pontos de vista constituintes.
Sabemos que baseado nesse duplo fundamento, lingüístico e an
tropológico, desenvolveu-se um movimento de \pensamento; ao con
trário do que sempre sustentamos, sua unidade metodológica não deixa
nenhuma dúvida. Da mesma forma que não deixa dúvida sua impor
tância epistemológica. Que Lacan, cuja relação com o galileísmo é
principiai e que além disso apreende seu objeto mais do lado da cultura
do que da natureza (não ocorria necessariamente o mesmo com Freud),
tenha sido incluído nas fileiras dos estruturalistas, isso é facilmente
explicável.
·
É sob esse enfoque que deve ser lido o discurso de Roma. Ele
pode ser considerado como um verdadeiro manifesto. Um leitor atento
não deixa de nele perceber o tom da célebre carta de Rabelais: " O
tempo ainda era tenebroso e exalava a infelicidade e a calamidade
dos godos, que haviam destruído toda boa literatura. Mas a luz e a
'
dignidade foram devolvidas às letras. Agora, todas as disciplinas foram
restabelecidas, as línguas instauradas . . . " (Pantagruel, cap. VIII). É
verdade que Rabelais tem a ver com a ciência antiga; ele não poderia
ser, evidente, galileano; mas ele é, e o corte, sob certos aspectos, não
é menor, erasmiano. O que significa que ele é portador. em épocas
em que o estudo da natureza é ainda marcado pelo quase, do ideal
de precisão literal. De Erasmo a Galileu, sabemos que a transição é
boa.
Ainda mais que, pelas virtudes do estru:turalismo lingüístico, po
deríamos crer que após tantos séculos de separação eles se reencon
travam. Nunca, anteriormente, o ideal de precisão nas línguas e o
ideal de precisão na Natureza tinham se aproximado a esse ponto e
sido simultaneamente proclamados. A hora de um segundo Pantagruel
era, portanto, bem vinda. A ele será anunciado o nascimento de um
galileísmo de tipo novo, mais extensivo que o antigo, já que inclui a
cultura, baseado como de nos " caracteres matemáticos" de que fala
Galileu. Mas essas letras não são as da medida, são as de um cálculo.
É verdade que nesse ínterim a própria matemática, considerada em
sua determinação mais estrita, se apresentou como um simbolismo
forçado, disjunto da quantidade.
Bourbaki é aqui a testemunha escolhida. De seu literalismo ex
plícito à literalização dos lingüistas e antropólogos, o parentesco é
O primeiro classicismo lacaniano 19
reputado admissível por Lacan. Não se deve, portanto, concluir que
a matemática se " aplica" adaptando-se a objetos não mensuráveis,
ou que são possíveis, em lingüística ou antropologia, formalizações
outras que matemáticas; deve-se antes concluir que a matemática es
tende_seu império, sem nada ceder de sua essência. Trata-se, realmente,
de um galileísmo ampliado: mais extensivo que o primeiro, mas tam
bém mais rigoroso, já que se autoriza de uma matemática enfim levada
a seu literalismo absoluto. A lingüística, reputada ciência realizada,
só conta na medida em que propõe uma matemática. l3 O Lacan lingüista
é, assim, um Lacan matemático.
É verdade que apenas a lingüística estrutural interessou de fato a
Lacan. Entretanto, ela não é a única, entre as formas de lingüística
possível, a se apresentar como uma matematização. Outras, antes mes
mo de Chomsky, podiam desempenh�r esse papel de referência.Afinal,
a gramática comparada, considerada no que tem de incisivo, já bastava.
Além disso, é patente que, após Chomsky, a lingüística contou
cada vez menos para Lacan; ou se contou, não foi mais da mesma
maneira. Para além das relações de amizade que ele mantinha com
Jakôbson, para além das relações de estima que mantinha com Ben
veniste, e que eram, umas e outras, independentes do paradigma par
ticular em que estes podiam se inscrever, 'é preciso, portanto, discernir
um parentesco mais intrínseco à lingüística estrutural Devem ser con
sideradas teses específicas, que caracterizam a lingüística estrutural
por oposição a outras lmgüísticas --eventualmente mais recentes -
que também poderiam ser candidatas a representar um galileísmo da
língua.
A lingüística estrutural repousa sobre três teses minimalistas:
l ) um minimalismo da teoria: uma teoria ficará mais próxima
do ideal da ciência na medida em que ela se impuser, para um poder
descritivo máximo, o uso de um número mínimo de axiomas e de
conceitos iniciAis;
2) um minimalismo do objeto: só conheceremos uma língua se
nos impusermos nela considerar apenas as propriedades míni_mas que
a tornam um sistema, descomponível em elementos eles mesmos mí
nimos;
3) um mmimalismo das propriedades: um elemento de um sistema
tem por únicas propdedades aquelas que são determinadas pelo sistema.
80 A obra clara
A tese 1 é, na verdade, o ressurgimento da axiomática antiga. Parece
certo que os teóricos da lingüística - e sobretudo o primeiro deles:
Saussure - não tiveram uma consciência clara dessa genealogia; foi,
talvez, porque ela lhes parecia óbvia. Não é nada disso. Muito pelo
contrário, ela foi rejeitada pelos doutrinários da ciência moderna: por
Koyré implicitamente, por Popper explicitamente. Não foi , portanto,
sem conseqüências que ela assim ressurgiu.
Daí a lingüística utilizada por Lacan se inscrever como paradoxo:
supostamente portadora de uma nova forma de galileísmo, ela se baseia
numa figura pré-galileana da ciência. A ciência ideal não é síncrona
do ideal da ciência, que ela pretende, no entanto, repres�ntar. Aí reside
um elemento de instabilidade pelo qual o galileísmo ampliado se verá
afetado. Resta que Lacan, em seu primeiro movimento, não parece
ter sido sensível a isso.
,
A tese 2 permanece evidentemente vazia se nada de generalizável for
dito sobre o que constitui um sistema. A resposta é conhecida, e ela
remonta a Saussure: existe sistema se e somente se existir diferença;
considerando a tese minimalista, nada portanto deverá ser levado em
conta para se conhecer uma língua, a não ser a diferença. Admitimos
que um nome do sistema reduzido a sua relação mínima é o estrutura;
o nome estruturalismo designa sua teoria.
Isto posto, deve ficar evidente que um sistema assim definido
em termos mínimos nada tem de específico às línguas. O.estruturalismo
é, portanto, por princípio, extensível a outro� obj�tos; na verdade, o
conjunto dos objetos_.da cultura. A injunção genérica é portanto: dado
um objeto da cultura, só o conheceremos adequadamente impondo-nos
ali considerar apenas as propriedades que se analisam, em última
instância, como relações de diferença.
Trata-se decerto de um sistema mínimo, já que as propriedades
estão reduzidas a um tipo único; trata-se, também, de um sistema
qualquer, já que ele pode e deve valer para objetos materialmente
variados: fonemas, bens, mulheres.
A tese 3 é bem mais forte do que a tese 2. Talvez a lingüística seja
a única a tê-Ia praticado. Combinada com a tese 2, ela significa o
seguinte: se propusermos a questão da existência (an sit), um elemento
do sistema só subsiste, enquanto elemento, como termo numa relação
de diferença; se, estando essa questão resolvida, propusermos a questão
O primeiro classicismo lacaniano 81
das propriedades do elemento (quid sit), ele terá apenas as propriedades
que concorrerem para uma relação de diferença.
Todos os praticantes da lingüística estrutural conhecem essas
proposições e as consideram triviais. Não o são. Elas correspondem
a inverter a ordem geralmente admitida entre propriedades e relações.
De hábito, com efeito, um existente é dado; propriedades lhe são
atribuídas (por análise sensorial ou perceptiva ou conceitual, pouco
importa) ; é depois, e baseados nesse fundamento, que poderemos em
relação a um outro existente, analisado de maneira paralela e inde
pendente, concluir que ambos mantêm uma relação de semelhança ou
de diferença (completa ou parcial).
·
O procedimento aqui é outro: a diferença é dada primeiramente,
e é ela que autoriza as propriedades. Isso só pode significar uma única
coisa: existe uma relação de diferença que nada deve às propriedades
dos termos, já que é anterior a eles. De resto, é exatamente o que o
lingüista estruturalista conseqüente conclui: existem objetos lingüís
ticos qualitativamente semelhantes e que contam por dois (em outras
palavras, o princípio leibniziano dos indiscemíveis é rejeitado); existem
objetos lingüísticos qualitativamente dessemelhantes e que contam por
um. Assim, Benveniste sustentou que duas palavras gregas domas, da
mesma forma fônica e referindo-se à mesma coisa significada (o que
chamamos casa), eram lingüisticamente duas entidades separadas
(" Homophonies radicales en indo-européen" , BSL, 5 1 , 1 955, p .21 -2);
ao inverso, o raciocínio por variação livre afirma que duas entidades
fonicamente dessemelhantes constituem apenas uma do ponto de vista
lingüístico: assim o r vibrante e o r não-vibrante em francês; o raciocí
nio por variação contextual afirma que a dessemelhança perceptível
entre o [m] do inglês pimp e o [n] do inglês pint não afeta a unidade
dessas duas nasais: o caráter labial da primeira repete somente o
caráter labial do /p/ que a segue e o caráter dental da segunda repete
somente o caráter dental do /ti que a segue; na verdade, só há nesse
caso uma única entidade nasal, que assume duas formas dessemelhan
te_s, mas não distintas, determinadas pelo contexto; mais técnico é o
raciocínio por distribuição complementar: assim /ch-Laut e Ach-Laut
do alemão contam por um único fonema, precisamente porque são
dessemelhantes um do outro e nunca se encontram no mesmo con
texto. 14
Dizer que o lb/ é sonoro apenas porque é diferente do /p/ cor- .
responde a dizer que a afirmação da diferença precede a atribuição
,da propriedade " sonora" . Como, além disso, só existem propriedades
82 A obra clara
se atribuídas na base da diferença, isso quer dizer que a própria di
ferença é disjunta de toda propriedade.
Ela é disjunta até da existência positiva, já que, como observa
Saussure, " a língua pode se contentar com a oposição de algo com
nada" (Cours de linguistique générale, p. 1 24). De modo que um nada
de matéria sonora pode ser termo em uma relação de diferença e,
baseada nesse único fundamento, receber propriedades. É a teoria do
signo zero, que todos os estruturalistas, lingüistas ou não, utilizaram,
mas cujos elementos foram propostos apenas pelos lingüistas. Com a
tranqüila inconsciência do gênio, Saussure havia assim varrido de uma
só vez um axioma que a metafísica clássica considerava indispensável:
"o nada não tem propriedades" . 15 Ao contrário, é essencial à noção
geral de estrutura que o nada possa ter propriedades; Lacan disso se
lembrará na teoria do sujeito e do desejo (mesmo tendo que estenografar
com o nome falta, tomado de discursos no entanto estranhos à estrutura,
uma ruptura discursiva devida à mera estrutura).
A lingüística estrutural utiliza assim o que poderíamos chamar
de diferença pura. Vemos que ela não poderia ser o dual da semelhança,
ao contrário da doutrina usual. Dito de outra forma, a lingüística
estrutural não conhece a relação de semelhança; isso não lhe diz res
peito; ela dispõe apenas de uma relação de diferença, homônima do
que usualmente chamamos " diferença" , mas que lhe é disjunta, já
que não tem oposto.
3. O sério daestrutura
Sobre o minimalismo do método, Lacan não se pronunciou explici
tamente. Parece jamais tê-lo rejeitado, embora nunca tenha se imposto
nem o more geometrico nem a ordem das razões, mesmo como o
brigações estritamente estilísticas. Em todo caso, nunca desaprovou
as tentativas, esporádicas é verdade, que visassem submeter seu ensino
aos princípios do máximo e do mínimo demonstrativos. Pode-se aqui
falar de estrita neutralidade, até mesmo de indiferença. A questão
será, portanto, deixada de lado.
Lacan acreditou no minimalismo do objeto. Encontramos seu análogo
no apêndice da A carta roubada (É., p.44-6 1 ): compreender o incons
ciente considerando o funcionamento de um sistema no qual supomos
o mínimo possível de propriedades. O que aparece então, é que, me-
O primeiro classicismo lacaniano 83
diante termos iniciais estritamente diferenciáis (eles se reduzem a
entidades abstratas, desprovidas de qualquer propriedade e notadas
+I-) e operações extremamente pouco especificadas (na verdade, elas
se reduzem a ocorrências aleatórias e a sucessões de tais ocorrências),
podemos fazer surgir regularidades, lineamentos, concreções - em
suma, uma espécie de paisagem material e estruturada.
Um sistema a u m só tempo qualquer e reduzido a suas proprie
dades mínimas assume o nome de cadeia; nesse nome, não se lerá a
concatenação, enquanto operação formal; não se lerá tampouco o uni
dimensional como tal ; ele ali está apenas para aludir, pelo caráter
mínimo de sua dimensão única, ao minimalismo do sistema. Ao mesmo
tempo, as dimensões como horizontalidade, verticalidade, profundeza
desempenham um papel apenas figurado.
·
Se a estrutura é, portanto, o nome do sistema qualquer, a cadeia
é º nome da estrutura mínima. Compreende-se então por que o es
truturalismo em lingüística pode se expressar dessa maneira: 'conhe
ceremos a linguagem (uma língua natural dada) se nos impusermos
considerá-la unicamente como uma cadeia' . A lingüística estrutural
fornece portanto a prova de que uma teoria metodologicamente pura
da cadeia é a um só tempo possível e fecunda, e isso mesmo quando
ela não utiliza diret�mente a noção de cadeia.
Considerar um elemento qualquer apenas sob o ângulo das proprie
dades mínimas que lhe atribui um sistema ele próprio reduzido a suas
propriedades mínimas de sistema, considerar um sistema qualquer
apenas do ponto de vista dos elementos mínimos em que ele se divide,
é o que estenografa o nome significante: esse nome vem decerto de
Saussure, mas dele se afasta, já que é arrancado do acoplamento si
métrico significante/significado em que Saussure o inseria. Ele enuncia,
portanto, duas proposições divergentes: I ) que a lingüística é reinter
pretada, até mesmo desvirtuada, e 2) que, através dessa reinterpretação,
fica provado que a partir da lingüística uma análise estruturalista é
legítima para outros objetos além da língua.
Não podemos duvidar que exista por parte de Lacan um acua
mento meditado. Nem todos os lingüistas estruturalistas 16 consideram
a cadeia como suficiente; eles a completam geralmente através de
uma organização em estratos: cada um dos estratos é decerto uma
cadeia, mas é preciso que existam vários estratos para que se apreenda
a empiricidade das línguas. Em Lacan, ao contrário, os estratos não
84 A obra clàra
existem. Em outras palavras, a lingüística só dá provas quando des
locada. Falamos como ela, mas para dizer outra coisa que ela.
Compreendemos enfim que, na noção de cadeia significante, tudo
se co-pertence: só há significante numa cadeia, e para que um sistema
forme uma cadeia é preciso que seja constituído de significantes.
Lacan também acreditou no minimalismo das propriedades. Expressou
isso inclusive de maneira particularmente explícita. Sustentar que só
existem propriedades induzidas pelo sistema é sustentar que, quan'do
o sistema está definido como estrutura, toda propriedade é apenas
efeito da estrutura. Corresponde, portanto, a sustentar que a estrutura
é causa. E quando o elemento de toda estrutura é definido como sig-·
nificante, isso revela que o significante não tem propriedades, mas as
faz: ele é ação. Lacan retoma assim a letra gramatical do par saussuriano
(tomado talvez do grego: semainonta/semainomena) : " ação pura do
significante, paixão pura do significado" , que é decifrada através do
particípio ativo e do particípio passivo (cf. La signification du phallus,
É., p.688).
A diferença pura, que nada deve às propriedades porque, ao
fundá-las, lhes é anterior, éjsso que Lacan resume sob o nome de o
Outro. A maiúscula inicial, assim como o epíteto " grande" de que é
precedido, ensejaram muitos desvios teologizantes. 17 O ponto, no en
tanto, está alhures: trata-se de fazer entender que estamos aqui diante
de um outro que não é o dual do mesmo, que dele não é o limite,
nem o oposto, nem um caso particular. Esse Outro, sem oposto, não
repousa sobre diferenças de propriedades, já que nenhuma propriedade
é ainda atribuível a seu registro. 18 Que exista Outro, é isso que autoriza
que possamos propor um significante e um outro, ao passo que como
significantes, eles estejam fora do semelhante e do dessemelhante;
também é o que estabelece o factum linguae, já que quanto a este
próprio factum a lingüística estrutural foi durante um certo tempo
considerada capaz avalizar-lhe, dependendo de que haja alguma dife
rença que preceda ·as propriedades. O Outro é garante, mas não é
Deus; sua garantia reduz-se ao seguinte: se não pudéssemos sustentar
que existe Outro, eatão isso não falaria. Ora, isso fala.
Minimalismo do objeto e minimalismo das propriedades combinadas
têm uma conseqüência: é que o logion " o inconsciente, estruturado
como uma linguagem" é tautológico. Com efeito, uma linguagem,
O primeiro classicismo lacaniano 85
por hipótese, nada possui além de propriedades de estrutura, mas, por
hipótese ainda, essas propriedades de estrutura são necessariamente
mínimas. Ora, se são mínimas, tudo o que é estruturado as apresentará:
tudo o que é estruturado é, portanto, necessariamente estruturado como
uma linguagem. Além de ser tautológico, o logion é também contra
ditório, pois parece supor, ao utilizar o artigo uma, que se trata de
várias linguagens, estruturalmente distinguíveis; mas se uma lingua
gem enquanto linguagem tem apenas propriedades mínimas, nenhuma
linguagem pode se distinguir estruturalmente de outra. Portanto, o
logion diz apenas que o inconsciente é estruturado. Portanto, de duas
uma: ou nos limitamos assim a repetir que adotamos a tese estruturalista
e que nos ateremos ao método dela decorrente, mas nesse caso o
logion tem apenas um conteúdo social (adesão ao estruturalismo); ou
então exibimos uma propriedade estrutural determinada, que será ver
dadeira para uma estrutura qualquer, que distinguirá toda estrutura,
enquanto tal, daquilo que não é uma, mas que não distinguirá nenhuma,
enquanto tal, de nenhuma outra.
Lacan foi talvez o único de todos os estruturalistas a escolher
conscientemente a segunda via. Foi talvez o único a apreender-lhe a
necessidade. Esta corresponde a admitir o que podemos chamar de
conjectura hiperestrutural:
'a estrutúra qualquer tem propriedades não quaisquer' .
Embora jamais tenha sido explicitada formalmente, essa conjec
tura diz respeito ao caroço da doutrina lacaniana. Ela está no funda
mento de algumas de suas partes mais importantes. Mais exatamente
ainda, ela mostra que um dos objetos fundamentais da doutrina pode
e deve consistir em elaborar uma teoria da estrutura qualquer.
Um dos teoremas dessa teoria diz que, entre as propriedades não
quaisquer de uma estrutura qualquer, na medida pelo menos em que
ela é considerada unicamente como estrutura e na medida em que a
reduzimos a suas propriedades mínimas, existe a emergência do sujeito.
Reciprocamente, é necessário e suficiente para construir uma teoria
do sujeito enumerar as propriedades que lhe confere a estruturaqual
quer.
Seja um teorema provisório:
'a estrutura mínima qualquer contém em inclusão externa um
certo existente distinto, que chamaremos de sujeito' .
Como o significante nada mais é do que o elemento mínimo da
estrutura qualquer, a definição do significante deve incluir essa emer
gência. Daí o logion: "o significante representa o sujeito para um
86 A obra clara
outro significante" (Subversion du sujet et dialectique du désir dans
L 'inconscient freudien, É. , p.819); ele se analisa em quatro teses de
finidoras:
1 ) um significante só representa para;
2) aquilo para que representa só pode ser um significante;
3) um significante só pode representar o sujeito;
4) o sujeito é apenas o que um significante representa para outro
significante.
As teses 1 -3, toma<;tas em co?junto, são nada mais nada menos
do que uma definição da cadeia. Essa definição está integralmente
contida na relação " X representa Y para Z" . A relação, como vemos,
é ternária; nisso, distingue-se da relação clássica de representação, tal
como Foucault, em especial, a havia isolado (Les mots et Les choses,
Paris, Gallimard, 1966, p.72-8 1 ) e que é binária; distingue-se igual
mente da definição saussuriana do significante na qual a relação de
representação não desempenha papel algum. O sujeito toma-se uma
propriedade intrínseca da cadeia; é a tese 4: toda cadeia significante,
como tal, inclui o sujeito; mas o próprio sujeito não tem outra definição
senão ser o termo Z numa relação ternária onde X é um significante
e Y um outro. O sujeito é segundo em relação ao significante (S. , XI,
p. l 29). 19
Da conjectura hiperestrutural e da teoria da estrutura qualquer
segue portanto uma tese, que podemos chamar de a hipótese do sujeito
do significante:
'só existe sujeito de um significante' .
Sendo aceita, por outro lado, a hipótese do sujeito da ciência, a
equação dos sujeitos é uma conseqüência automática:
'o sujeüo da c�ncia, o sujeito cartesiano, o sujeito freudiano, se
são sujeitos, só podem ser o sujeito de um significante; eles apenas
são e só podem ser um' .
A conclusão é evidente, mas pode ser confirmada. O sujeito
cartesiano pode e deve ser instituído como sujeito de um significante:
é preciso e basta para isso que o Cogito seja reescrito como uma
cadeia: penso, "Logo existo " .20 O sujeito freudiano, isto é, o sujeito
capaz de inconsciente, pode e deve ser instituído como sujeito de um
significante: é preciso e basta para isso que o inconsciente seja pensado
como uma cadeia, o que assegura o logion 'o inconsciente, estruturado
como uma linguagem' . O sujeito da ciência matematizada pode e deve
ser instituído como sujeito de um significante: é preciso e basta para
isso que a matemática seja pensada como a forma eminente do sig-
O primeiro classicismo lacaniano 87
nificante, disjunto de todo significado, o que o galileísmo ampliado
permite: o logion " a matemática do significante" (É. , p.86 l ) é reputado
próprio para caracterizar toda ciência e deve ser lido reversivelmente
- o significante é intrinsecamente matemático, a matemática é in
trinsecamente da ordem do significante. Para que sujeito cartesiano e
sujeito freudiano sejam inteiramente equacionados, requer-se apenas
que haja sujeito ali onde se pensa, embora seja impossível que o
sujeito articule " logo existo" ("C' est à la lecture de Freud . . . " , Cahiers
du Cistre, n.3, 1 977, p . 14); é preciso e basta para isso que o sujeito
nada seja senão o que incessantemente emerge e desaparece numa
c:Weia significante. Ora, esse sujeito é também o sujeito sem qualidades
que a ciência requer; o pensamento sem qualidades do qual ele é o
correlato suposto deixa-se exibir positivamente como as leis não quais
quer do significante - leis sem qualidades, mas também fora da
quantidade. A série das razões fecha-se assim sobre si mesma, cada
uma confirmando a outra.
Em sua forma inicial (cap. 11, p.38-40), a identidade de consti
tuição entre sujeito cartesiano e sujeito freudiano estava apenas par
cialmente demonstrada. Estava deixada na sombra a constituição pró
pria do sujeito da ciência a que um e outro estavam, separadamente,
identificados; apenas se afirmava que estava despojado de toda qua
lidade, exceto um pensamento ele próprio despojado de toda qualidade.
Doravante, a teoria da estrutura qualquer permite articular uma tese
nositiva. Esta tese, além disso, não é histórica; a equação dos sujeitos
não mais depende de um regime de condições discursivas e de suces
sividade. Não é mais necessário supor que o advento do Cogito permite
no encadeamento annalísticó dos discursos a emergência do incons
ciente. A correlação é de estrutura.
4. Rumo a uma leitura transcendental
Vemos que nessas condições duas proposições podem ser extraídas:
I ) a cadeia significante é ,nada menos do que a definição, a mais
genérica possível, do pensamento, reduzido a suas propriedades mí
nimas; em outras palavras, o significante é o pensamento sem quali
d;:tdes;
2) reduzido a suas propriedades estruturais e despojado das qua
lidades que lhe são estranhas (elas no máximo derivam da alma), todo
sujeito metafísico deixa-se decifrar como o sujeito de um significante.
88 A obra clara
A conjectura hiperestrutural emite portanto um crédito sobre a meta
física.
Para falar a verdade, ela se deixa ler de maneira homônima como
uma filosofia transcendental. O parentesco é profundo. Alberto Magno
nomeava transcendentia as propriedades que convêm a todo objeto,
por oposição às propriedades " ordinárias" que convêm sempre a um
subconjunto de objetos, oponível a outro. Mais exatamente, urna pro
priedade P só é bem definida se permite distinguir entre os objetos
que têm essa propriedade e os objetos que não a têm. É .a_isso_.que
as _propriedades transcendentes são exceção, se elas existem: todo
opjeto as apresenta e nenhuma delas permite distinguir um objeto de
outro; elas convêm ao objeto qualquer. Alberto Magno reconhecia
três: a propriedade de ser um unum, a propriedade de ser um verum,
a propriedade de ser um bonum.21 É, portanto, transcendental uma
teoria que tem por objeto uma ou outra dessas propriedades. A filosofia
kantiana é bem transcendental nesse sentido estrito. Mas vemos a
conseqüência: admitir que existem propriedades " transcendentes" , que
não sejam indefiníveis nem vazias, é admitir que o objeto qualquer
tem propriedades não quaisquer.
Um método transcendental consistirá em despojar um objeto de
suas propriedades particulares, em fazê-lo da maneira mais sistemática
possível e em conseguir no entanto descobrir que, apesar desse des
pojamento, logo antes de deixar de ser simplesmente pensável, o objeto
nem está inteiramente vazio, nem inteiramente sem estrutura. As pro
priedades residuais nãQ podem ser outras que são, porque, se por acaso
fossem outras, o objeto deixaria de ser ou de ser pensável. Elas não
são afetadas pelo diverso, já que são obtidas por eliminação do diverso.
Entretanto, ao permitirem a apreensão desse mínimo pelo qual um
objeto é ou é pensável, permitem também a apreensão daquilo em
que o diverso é ou é pensável.
É óbvio que Lacan não adota a lista das propriedades transcen
dentais de Alberto Magno; poderíamos até afirmar que a contradiz
ponto a ponto. Como prova, a doutrina do significante. Ao ater-se à
letra de Saussure, o ser de um significante entre outros apenas se
sustenta pela multiplicidade de todos os outros ; eis a conseqüência
mais direta da definição apenas pelas diferenças. O ens aqui não é
um unum. Quanto ao arbitrário que deverá reger a relação do signi
ficante com o significado, pouco importa sua natureza exata (ela foi
discutida, tanto pelos lingüistas quanto por Lacan); uma coisa em todo
caso é certa: pelo arbitrário é evacuada toda pertinência, quanto ao
O primeiro classicismo lacaniano 89
significante, do Bem e da Verdade. A esse respeito, a definição laca
niana do significante não fazsenão acentuar a ruptura saussuriana:
como modo de ser, um significante, para Saussure como para Lacan,
não é nem um, nem bom, nem verdadeiro, no sentido em que o entende
a tradição filosófica, e no entanto, ele não deixa de ser.
Surge, entretanto, uma dúvida. É certo que Lacan nega sistema
ticamente as propriedades transcendentais legadas pela tradição; mas
será certo que admita propriedades desse tipo, sejam elas outras que
não as propriedades da tradição? Não o afirmarei. Entretanto, a analogia
salta aos olhos entre propriedades transcendentais do objeto qúalquer
e propriedades mínimas do sistema qualquer. Por mais que usemos a
língua filosófica - Lacan não a refutava então -, essa analogia
toma-se uma homonímia; ela duplica e confirma a homonímia que
marca o axioma do sujeito (cap. 11, p.33). Podemos considerar que o
programa dos Cahiers pour l 'Analyse repousou sobre essa dupla ho
monímia; mais exatamente, propôs-se a convertê-la em sinonímia. O
programa é então:
'a hipótese do. sujeito do significante não é apenas uma conse
qüência da conjectura hiperestrutural; ela é sua conseqüência maior'
ou:
'a conjectura hiperestrutural é a forma moderna da questão trans-
cendental' .
É também:
'o sujeito do significante é o sujeito metafísico moderno' .
É enfim:
'o que pode e deve uma metafísica moderna?'
Moderna, no seguinte aspecto: da mesma forma que Kant inte
grava a ciência galileana (na versão de Newton), a metafísica induzida
pela conjectura hiperestrutural integra o novo galileísmo, do qual Lacan
é a um só tempo a prova e o arauto. Da mesma forma que Kant
escreveu os Premiers príncipes métaphysiques de la science de la
nature, da mesma forma podemos imaginar que alguém escreva os
" Primeiros princípios da análise" , em que a análise designa o que há
de comum à psicanálise, à ciência galileana ampliada e, com isso, à
metafísica que aí se supõe. Seu meio escolhido é a teoria do significante,
na medida em que o significante é somente o elemento qualquer da
estrutura qualquer, na medida em que, pela conjectura hiperestrutural,
ele é suposto portador de propriedades não quaisquer e na medida em
que, pela teoria do sujeito, essas propriedades não quaisquer incluem
a emergência de um elemento distinto, que pode ser nomeado como
90 A obra clara
sujeito. Dentre as disciplinas constituídas, lhe convêm principalmente
aquelas que depuram seu objeto de toda substância e que, em seu
método, respeitam as leis do minimalismo axiomático; em outras pa
lavras, a lógica. Daí o nome de lógica do significante que atribuiremos
à teoria do significante.
Essa lógica inclui tanto a lógica matemática propriamente dita
quanto a ontologia formal - platônica, neoplatônica, fichteana. O
resultado esperado: engendrar de maneira axiomática (respeitando o
minimalismo do método) a lista exaustiva das propriedades mínimas
não quaisquer de um significante qualquer.
O encadeamento do programa transcendental e do programa mi
nimalista não deve surpreender. É verdade que o minimalismo dos
estruturalistas é quase sempre um fenomenismo, ligado a um empirismo
resoluto (esta é a posição de Martinet), mas sabemos que a passagem
do fenomenismo ao idealismo transcendental nada tem de impossível.
Além disso, entre um minimalismo empirista e um minimalismo me
tafísico, o parentesco é forte: nada supor do objeto que exceda aquilo
necessário para descrevê-lo empiricamente; nada supor do objeto que
exceda aquilo necessário para pensá-lo; descobrir que ao despojarmos
o objeto de suas propriedades, não descobrimos um vazio, mas que
subsiste uma rocha irredutível de propriedades não quaisquer.
O programa dos Cahiers pour l 'Analyse não é de Lacan; ele não
o assumiu, mas tampouco o desaprovou (cf. Discours à l 'EFP, Se.
2/3, p. l 7). Assim, é possível usá-lo como um revelador; nele se re
conhece sob uma forma mais ousada e, por essa razão, mais legível,
certas propriedades importantes do que chamarei doravante o primeiro
.classicismo lacaniano.
Esse classicismo tem por monumento maior os Escritos, consi
derados em seu conjunto, menos os textos explicitamente apresentados
como " antecedentes" (parte 11 dos Escritos). Ele constitui o desen
volvimento progressivo e quase sistemático do programa articulado
no discurso de Roma, em 1 953. Ele baseia a hipótese hiperestrutural
na evidência suposta dos estruturalismos, como formas contemporâ
neas de um novo galileísmo; este último deve ser considerado ele
próprio uma extensão do galileísmo estrito; essa extensão mantém ou,
mais exatamente, depura a equação dos sujeitos e a hipótese do sujeito
da ciência que é seu pivô. Suas partes constituintes estão agora claras:
- o doutrinai de ciência inclui especificamente a hipótese do
sujeito da ciência;
O primeiro classicismo lacaniano 91
- o galileísmo invocado no doutrinai assume uma forma parti
cular, baseada numa extensão da noção de matematização e numa
extensão do universo a objetos não propriamente naturais; é o gali
Ieísmo ampliado;
- o .galileísmo ampliado inclui a psicanálise, mediante o logion
'o inconsciente é estruturado como uma linguagem' , mas esse próprio
logion requer a conjectura hiperestrutural;
- a conjectura hiperestrutural, como teoria da estrutura qualquer,
e na medida em que essa teoria inclui a emergência do sujeito, é um
modo de resolução da hipótese do sujeito da ciência; dessa maneira,
ela se articula ao axioma do sujeito, homônimo e eventualmente si
nônimo da metafísica clássica.
O edifício é majestoso. Compreendemos que, ao se apresentar
ao olhar sob a forma do livro, ele tenha parecido uma obra. Entretanto,
ele não estava sendo chamado a se ampliar e a ganhar novas adjunções
que respeitariam a ordem da obra; seu destino foi ser subvertido.
Nessa peripécia, podemos convir que circunstâncias tenham tido sua
parte, mas apenas as causas intrínsecas são determinantes: por mais
majestoso que fosse, o edifício era instável.
NOTAS
l . Consultar E. Balibar, Lieux et noms de la vérité, Éditions de I' Aube, 1994.
2. Sobre Althusser, cf. a coletânea Politique et philosophie dans l'll!uvre de Louis
Althusser, S. Lazarus (org.), Paris, PUF, 1993.
3. Permito-me remeter à minha própria Archéologie d'un échec, Paris, Seuil, 1993.
4. Ler o comentário, um pouco diferente, que desenvolve P. Veyne, René Char en ses
poemes, Paris, Gallimard, 1990, p.499.
5. Acrescento que a demonstração é um belo exemplo de raciocínio apagógico.
6. Este era de resto um dos pontos fundamentais. Lacan o ressalta com mais clareza
que nenhum outro (cf. L'instance de la lettre, É., p.496, n. l ). Os maiores poetas de
língua russa, na década de 20 (o que quer dizer, sob certos aspectos, os maiores poetas
do mundo), estavam convencidos de que a Revolução pedia uma língua nova e que
cabia a eles construí-la. Ao que Stalin disse não. Antes mesmo que o teorema fosse
explicitamente formulado (ele data de 1950), a política efetiva nele se inspirou. Daí a
desesperança de Maiakovski, que dela morreu; daí as relações estritamente ambivalentes,
entre proteção e ferocidade, que Stalin manteve com os poetas: estes são chamados
para mudar a cultura sem mudar a língua, para fazer da não-mudança na língua o
próprio meio da mudança na cultura. Stalin sabe muito bem que só conseguirão fazê-lo
caso se achem capazes de mudar a língua. A ilusão dos poetas é, portanto, a um só
92 A obra clara
tempo criminosa e necessária para que tenham sucesso. É preciso, portanto, persegui-los
caso fracassem, e é preciso persegui-los se tiverem sucesso.
7. "Somente minha teoria da linguagem como estrutura do inconsciente pode ser con
siderada implicada pelo marxismo, se todavia você não for mais exigente que a impli
cação material" (Cahiers pour l 'Analyse, 3, mai 1966, " Réponses à des étudiants en
philosophie" , p. IO). Lembramos que a relação " A implica materialmente B" só é falsa
se A sendo verdadeiro, B for falso; ela é verdadeira em todos os outroscasos. Em
outras palavras, aqueles que consideram o marxismo como verdadeiro (eram numerosos
na época) devem considerar Lacan como verdadeiro; mas a falsidade do marxismo não
obriga a considerar Lacan como falso e a verdade de Lacan não obriga a que se exija
a verdade do marxismo. Observe-se que Lacan fala apenas da linguagem; lembremos
que, quanto à linguagem, o marxismo aos olhos de Lacan reduz-se a Stalin.
8. Isso implica a proposição de S., xx, p.20: " desse discurso psicanalítico, há sempre
alguma emergência a cada passagem de um discurso a outro" . Toda passagem discursiva
é um corte maior; todo corte é interpretação; toda interpretação inscreve-se na matriz
do discurso analítico.
9. Mas cf. J.-A. Miller, " Encyclopédie" , Ornicar?, 24, outono 198 1 , p.35-44 (retomado
do verbete "Jacques Lacan" da Encyclopaedia universalis, 1979); ver principalmente
p.41-2.
10. O arquifonema rrt é não-distinto do /t/ e do /d/. Por isso, o singular Rat (que
comporta rf/) e o plural Riider (que comporta /d/) são não distintos do ponto de vista
da oclusiva dental; pode-se por aí entender então a unicidade da palavra entre singular
e plural.
l i . A aproximação com Galileu impõe-se ainda mais se nos reportarmos a L'Essayeur,
§48 (ibid., p.239-43; ver igualmente o comentário de Redondi, ibid., p.65-7). Nele se
observa que a redução das qualidades sensíveis as resume a propriedades relacionais:
figura (na medida em que limitada por um exterior), posição espacial (mediante uma
doutrina do espaço relativ.o), tempo (mediante uma doutrina do tempo relativo), contato
com outros corpos etc. Ora, a lingüística estrutural consiste, ela também, em resumir
toda propriedade a uma relação: a oposição distintiva. Podemos levar a analogia mais
longe: um dado sistema fonemático pode ser considerado como um sistema inercial;
mesmo caso se mude sua materialidade fonética, ele será reputado idêntico a si mesmo
se as relações internas de diferença forem as mesmas (por exemplo, o sistema fonológico
francês permanece o mesmQ, seja o /r/ "vibrante" ou não, porque suas relações internas
não são afetadas por essa variação). A ausência de simultaneidade entre sistemas inerciais
independentes torna-se: não há fonemas homofônicos entre sistemas fonemáticos se
parados (mesmo se a fonética atribuir ao suporte desses sistemas propriedades sensíveis
idênticas).
12. Ver as proposições seguintes, tiradas de L'instance de la lettre, p.496: 1) " a
linguagem é o que distingue essencialmente a sociedade humana das sociedades natu
rais" , 2) " a linguagem conquistou o status de objeto científico" , 3) " a lingüística
apresenta-se em posição piloto nesse campo em torno do qual uma reclassificação das
ciências assinala uma revolução do conhecimento" . A proposição 3 utiliza a palavra
revolução que está associada a Copérnico e de maneira mais geral ao corte galileano;
a proposição 2 fala de ciência da linguagem; a proposição 1 enuncia que a linguagem
não pertence à natureza.
1 3. " A forma de matematização em que se inscreve a descoberta do fonema .. . " (F onction
et champ de la parole et du langage en psychanalyse, É., p.284).
O primeiro classicismo lacaniano 93
14. Gostaria de aqui ressaltar o quanto esse raciocínio é surpreendente: chega-se à
conclusão da identidade simplesmente porque há dessemelhança das qualidades e ex
clusão mútua. O raciocínio só é válido se o conjunto das entidades fonemáticas e se
o conjunto dos contextos forem finitos. A partir do manuscrito em que o conjunto é
infinito (por exemplo, no que conceme ao léxico), o raciocínio vacila. Uma versão
mítica, estranha e inquietante, desse raciocínio pode Ser encontrada no conto de Borges,
Os teólogos: dois teólogos sustentam doutrinas opostas e se combatem, sem nunca se
encontrarem. Um obtém a condenação do outro, que morre na fogueira. Fica claro,
enfim, que para Deus, "o ortodoxo e o herético, o que odiava e o que era odiado, o
acusador e a vítima eram uma mesma pessoa" . Eram, diríamos, como duas variantes
combinatórias em distribuição complementar. Note-se que a questão teológica levantada
pelo conto é justamente · a de saber se o tempo se compõe numa ordem fechada. De
mancira mais ampla, a doutrina da identidade aqui contida pode ser enunciada da
seguinte maneira: se duas entidades podem estar co-presentes, devemos concluí-las
distintas; se duas entidades são idênticas, então elas estão separadas; em particular, o
que é idêntico a si, está separado de si mesmo e por isso não tem Si ao qual ser
Wêntico. Aí se reconhece em germe certos teoremas fundamentais da teoria do sujeito.
Pode-se igualmente reconhecer a dramatização do Tempo lógico: os homens se reco
nhecem entre si por serem homens; a partir desse momento, eles se reconhecem disjuntos
uns dos outros. Em suma, a identidade é real, mas separadora; a semelhança une, mas
é imaginária.
15. Sabemos que esse axioma é essencial ao cartesianismo, tanto em metafísica quanto
em física. Ele fundamenta, em particular, a afirmação de que não pode haver vazio. É
interessante notar que a física epicurista, na qual a analogia do alfabeto e das combinações
de caracteres é tão prevalecente, propõe - talvez por essa razão - a existência do
vazio.
16. O acaso quis que Lacan não houvesse freqüentado a obra de Harris, que realiza
uma teoria metodologicamente pura da cadeia lingüística, mais plenamente, sob certos
aspectos, do que a obra de Jakobson.
17. Lacan opôs-se radicalmente a isso, através de sua doutrina do Outro barrado. Sendo
apenas o significante da diferença pura, o significante do Outro é também o significante
do fato de que há significante, já que só há significante se houver diferença pura.
Reciprocamente, o conceito do Outro só pode estar intrinsecamente marcado pela di
ferença constitutiva que articula um significante ao outro. Estamos aí nQs antípodas da
igéia de Deus, que não poderia admitir sem contradição tal diferença interna.
18. Paralelamente, existe um Mesmo, sem oposto, que não repousa sobre semelhanças
de propriedades. É bem exatamente esse Mesmo cuja teoria é feita por Kripke em La
logique des noms propres. Lacan recorre a esse Mesmo na teoria da repetição ("o real
é aquilo que volta sempre ao mesmo lugar" , S. , XI, p.49). Mas a lingüística estrutural
não o utiliza; não é pois dela que Lacan pode deduzi-lo. Não dispondo naquele momento
da referência kripkeana, ele deixa esse Mesmo sem teoria completa antes da teoria do ·
nó RSI.
19. É possível, mas não certo, que tenha havido encontro com os trabalhos de Queneau
sobre a relação ternária " X toma Y por Z:' ; cf. C. Berge, "Pour une analyse potentielle
de la littérature combinatoire" , Oulipo, Paris, Gallimard, 1973, p.56, e R. Queneau,
"La re1ation X prend Y pour Z", ibid., p.62-5. É verdade que as datas aparentemente
não estão de acordo, já que a apresentação de Queneau no Oulipo é de 1965, enquanto
o logion de Lacan é de 1960. Mas a investigação mereceria ser levada adiante. Isso
94 A obra clara
dito, as diferenças são tão instrutivas quanto as SP-melhanças. Assim, é crucial para
Queneau que X possa ser idêntico a Y ou a Z; é crucial para Lacan que a diferença
entre X, Y e Z (seja qual for sua natureza) subsista. É crucial para Queneau que. X,
Y, Z sejam variáveis não especificadas; é crucial para Lacan que X e Y sejam espe
cificados como significantes e Z como sujeito. Isso explica por que no seminário XVII
será desenvolvida, a partir da relação de três termos, uma escrita de variáveis específicas:
SI e S2 para X e Y, $ para Z. De onde extrairemos, por uma dedução suplementar,
um quarto termo (a). Para maiores detalhes, cf. infra, p. l 30.
20. " Na tentativa de escrever penso: "logo existo", com aspas em torno da segunda
cláusula, lê-se que o pensamento só funda o ser ao se vincular à palavra em que toda
OJleração diz respeito à essência da linguagem" (La science et la vérité, p.864-5). Que
exista ali uma cadeia significante de dois anéis, o do pensamentoe o do ser, é o que
prova o emprego do verbo vincular-se (não sem uma pressão sintáxica: o sujeito de
vincular-se tem por antecedente descontínuo a conjunção " pensamento + ser" e se é
mais recíproco do que reflexivo). Em outras palavras, o Cogito está ihtegrado na teoria
d.a estrutura qualquer e mínima. É o que também implica a reescrita entre aspas.
O Cogito relido por Lacan é, de maneira estrita, a enunciação " logo existo" ; dessa
enunciação, concentrada num significante unitário e segundo (sum), é proposto, por
retroação, um significante primeiro " penso" (cogito); o sujeito real insiste no batimento
(do segundo ao primeiro, do primeiro ao segundo) desses dois significantes. Batimento
assinalado pela caducidade alternante do " logo" (ergo), ora presente, ora ausente.
Compreendemos que, ulteriormente, toda cadeia significante estando reduzida a seu
mínimo de um significante e de um outro, S I e S2, o significante dois seja o do saber.
Isso corresponde a encontrar a função mesma do "existo" , que, segundo os comenta
dores, deveria fundar a possibilidade de algum saber certo, mediante, lembremos, a
passagem ao pensamento qualificado. Mas S2 é justamente essa mesma passagem. A
teoria dos discursos e a doutrina do seminário xx (lições 8 e 1 1) repousam sobre essa
análise do Cogito.
Podemos aqui nótar que, em tal apresentação, o Cogito é um exemplo de linguagem
privada no sentido de Wittgenstein (como o próprio inconsciente se o inconsciente for
estruturado como uma linguagem); é portanto passível, como toda linguagem privada,
do paradoxo de Wittgenstein-Kripke. Podemos resumir o paradoxo da seguinte maneira:
quent garante que o Deus enganador não é capaz de mudar as regras de emprego do
lexema sum e as do operador de conclusão ergo, entre o instante em que começo a
enunciar " logo" e o instante em que termino " existo" ? Le Bain de Diane de Klossowski
propõe-se como o mito ovidiano dessa eventualidade. O presidente Schreber dá exemplos
de proferimentos que se limitariam ao " logo" (cf. D'une question préliminaire à tout
traitement possible de la psychose, É., p.539-40). Uma interpretação instantanefsta
pode, decerto, escapar a tais objeções, mas não a variante extrema delas: o que me
garante que o Deus enganador não manteve intactas as regras de emprego dos lexemas,
exceto justamente para o instante singular em que acabo de proferir " logo existo" ?
2 1 . O que é resumido por são Tomás: "omne ens est unum, verum, bonumm" ["Todo
ente é um, verdadeiro, bom." ] . Ver, sobre tudo isso, H. Scholz, " Einführung in die
kantische Philosophie" , Mathesis universalis, p. 172.
CAPÍTULO IV
O segundo classicismo lacaniano
1. As instabilidades do primeiro classicismo
Se o primeiro classicismo é instável, isso se deve à versão por ele
apresentada do doutrinai de ciência. O diagnóstico é fácil de ser es
tabelecido:
- Instabilidade devida ao historicismo: em sua lógica interna,
o doutrinai de ciência não é historicizante; demonstra-o a existência
de uma teoria do sujeito. Mas o desdobramento das correlações não
se completou em 1 966. A versão dada nos Escritos recorre ao voca
bulário da emergência inaugural, da sucessão, da contemporaneidade;
ela é historiadora, mesmo que se trate, de maneira cada vez mais
clara, de uma estilística historicizante e mesmo que nada de substancial
dependa mais dela. A esse respeito, o primeiro classicismo não é
síncrono de si: a teoria do corte e a teoria do sujeito não se corres-
pondem. 1
·
- Instabilidade devida à noção de matematização·. É preciso que
esta última seja entendida como literalização não quantitativa. O que
permite isso é, dissemo-lo, a evolução da própria matemática: prin
cipalmente o bourbakismo. Ora, o bourbakismo é apenas uma das
formas de um movimento mais geral que reconstrói o conjunto da
matemática sobre fundamentos lógicos seguros. Em outras palavras,
o bourbakismo afirma três coisas tocantes à matemática: 1 ) ela é
autônoma em relação à ciência galileana; 2) sua essência não é a
quantidade; ela pode, portanto, estender-se a objetos não quantitativos;
3) existe uma lógica matemática. Ora, Koyré supõe exatamente o
contrário: 1 ' ) o que quer que seja para si mesma, a matemática é
considerada somente a serva da matematização; 2 ' ) ela deve ser en
tendida apenas no sentido restrito que, aos olhos de Koyré, interessa
95
96 A obra clara
à ciência moderna: a quantidade; 3 ' ) não existe lógica matemática
(cf. Épiménide le menteur).
A afirmação 3 ' ) pode, por certo, ser julgada idiossincrática e
supérflua para as teses sobre a física (não acredito nem um pouco
nisso, mas pouco importa). Mas o fato é que mesmo admitindo a
legitimidade da lógica matemática, um koyréano conseqüente sustenta
que a matematicidade desta não é nem um pouco importante pàra a
matematização cogitada na ciência. Em suma, o doutrinai de ciência,
reduzido a seus fundamentos, não poderia dàr a mínima importância
à lógica matemática em particular e à axiomatização da matemática
em geral.
Ora, esta é uma posição que o primeiro classicismo lacaniano,
em sua forma terminada, não pÓde sustentar. Em virtude, como dis
semos, do galileísmo ampliado: importa que a matemática seja literal
e não quantitativa; ora, só a axiomatização o permite. Por virtude
igualmente da teoria da estrutura qualquer: a lógica matemática é
supostamente capaz de nela desempenhar um papel determinante. O
primeiro classicismõ'necessita da lógica matemática: de sua existência
geral e de algumas de suas proposições particulares (por exemplo, o
teorema de Gõdel). Necessita também do doutrinai de ciência. Ora,
as duas vias divergem, assim que as percorremos com uma perseve
rança suficiente.
- Instabilidade devida à contradição entre a ciência ideal do
estruturalismo, que é oriunda da episteme grega, e o ideal da ciência
do doutrinai de ciência, que rejeita essa mesma 'episteme. A contradição
se acentua se o doutrinai de ciência for interpretado de maneira não
historicizante; então, com efeito, a sinonímia do discriminante de Koyré
e do discriminante de Popper torna-se decisiva. Ora, o discriminante
de Popper está diretamente oposto à axiomática antiga e a toda forma
de axiomática do mínimo. o paradoxo é que a leitura não historicizante
é justamente induzida pelo estruturalismo.
- Instabilidade devida às insuficiências de precisão que marcam
a noção de letra. Esta é constitutiva do galileísmo ampliado; apenas
ela permite que passemos harmoniosamente da matemát_ica às ciências
da cultura, e daí à psicanálise. Mas ela não constitui o objeto de uma
teoria autônoma, em relação à teoria do significante. O texto canônico
que desse ponto de vista L 'instance de la lettre constitui enuncia as
duas referidas teorias, mas que também estão em correlação recíproca.
Por essa razão, muitas proposições formuladas em termos de letra e
de literalidade parecem poder ser formuladas, de maneira equivalente,
O segundo classicismo lacaniano 97
em termos de significante, e reciprocamente. Relevante no minima
lismo, essa equivalência deveria tomar redundante uma das duas teo
rias. Se, por outro lado, não há redundância, é que a reciprocidade
da correlação deve poder estar errada. Mas nenhum erro é evidenciado.
Na_ ausência de decisão quanto a esse ponto, as noções de letra e de
significante se obscurecem mutuamente; nem o caráter significante
nem o caráter literal da matemática poderiam receber status inteira
mente determinado. Ao mesmo tempo, afirmar que a matematização
é uma literalização não é nem claro nem distinto.
- Instabilidade devida à evolução da lingüística. Na época de
Roma, ela parece ser ciência acabada, nos dois sentidos da palavra:
a um só tempo realizada e estéril. Lacan a considera, ao mesmo tempo,
como metodologicamente exemplar, e como incapaz de lhe ensinar
algo de novo em relação a sua idade de ouro de Genebra, Moscou e
Praga (" carência do lingüista" , diz Radiophonie, p.62, a propósitoda
fundação de La Psychanalyse em 1 953). Essa dupla crença, dissimulada
pelas relações de estima ou de amizade para com Benveniste ou Ja
kobson, é no entanto característica do primeiro classicismo: a lingüís
tica desempenha o papel de garante, mas é a título de suas contribuições
passadas; nada se espera dela daqui por diante.
Ora, dois acontecimentos ocorrerão, inversos um ao outro. Por
um lado, a descoberta dos anagramas de Saussure (em 1 964).e, ainda
mais importante, a conseqüência que essa descoberta teve para Jakob
son: este se julgou a partir de então no direito de fundar, em termos
de lingüística, uma poética inteiramente nova, digna a seus olhos de
figurar nas fileiras das grandes inovações do século XX. Por outro
lado, a emergência de Chomsky a partir dos anos 60: ela provava que
a lingüística estrutural não era uma ciência terminada; que existem
outras vias para o galileísmo em matéria de línguas; que coisas no.v..as
eram possíveis na ciência da linguagem. Mas, ao mesmo tempo, tudo
é subvertido.
Pois os anagramas e a poética revelar-se-ão importantes para a
psicanálise, mas conterão também algo de estranho ao galileísmo,
mesmo ·ampliado. Quanto a Chomsky, ele invoca o galileísmo, mas
numa versão não ampliada, que conduz no final a renaturalizar a
linguagem (tema do órgão, comentado na sessão de 9 de dezembro
de 1975, Ornicar?, 6, 1 976, p. l 3-4). Além de nada em seu método
dizer mais respeito ao significante, à cadeia, à estrutura qualquer, nada
tampouco no que esse método tem de novo acrescenta o que quer que
seja ao baconismo, e nada no que ele diz da linguagem é compatível
98 A obra clara
com o fato da psicanálise. Mais vale então voltar-se para as ciências
da natureza.
O galileísmo ampliado não resistirá a essas instabilidades multiplica
das. Podemos considerar que em 1970 o processo de transformação
está amplamente iniciado. Uma segunda fase começa. Vou chamá-la
de segundo classicismo lacaniano.
Seu programa jamais foi exposto por completo. Não se dispõe
de equivalente, na década de 70, do discurso de Roma, mesmo se o
seminário XX esporadicamente evoque alguns de seus matizes jubila
tórios. Tomando o primeiro classicismo por origem, é entretanto pos
sível descobrir deslocamentos, supressões e adjunções, cuja soma se
revela coerente e desenha a nova configuração.
Se a pertinência do doutrinai de ciência deve permanecer para a
psicanálise, ele deve, na ausência de galileísmo ampliado, ser refor
mulado. Podemos até pensar que, por um paradoxo que chamaríamos
facilmente de dialético, o fim observável do estruturalismo pôde con
duzir à explicitação do anti-historicismo ao qual o estruturaHsmo levava
na época de sua maior força. Em 1953 (antes que começasse sua
excessiva difusão, denunciada em 1965), o estruturalismo, ou melhor,
suas primícias podiam passar pela emergência, datável, de uma figura
nova da ciência moderna. Podíamos tanto mais crer nas leituras his
toricizantes na medida em que éramos simultaneamente testemunhas
de uma História: o ano de 1 945 não estava tão longe. Ora, em 1 968,
o estruturalismo já não existe; a emergência era uma falsa emergência.
Acrescentemos que aparentemente Lacan concluíra das barricadas que
a História, decididamente, não existia (ou não existia mais). Daí um
ceticismo, não para com o moderno, mas para com suas leituras an
nalísticas.
Na medida exata em que o doutrinai é a um só tempo depurado
do historicismo e despojado do galileísmo ampliado, ele não tem mais
senão um único fundamento: a literalização. Uma teoria autônoma da
letra torna-se portanto não só desejável, mas também indispensável.
Ela não deixará de afetar a teoria da matemática. Bourbaki estabelecera
a sinonímia da literalização com a matematização; isso permitia num
primeiro tempo esclarecer a primeira pela segunda; ficará evidente
que a segunda pode, por sua vez, ser esclarecida pela primeira.
Se a conjectura hiperestrutural deve ser mantida, ela estará na
situação paradoxal de não mais poder se basear num movimento es
truturalista. Mais ainda que antes, a doutrina de Lacan deve contar
O segundo classicismo lacaniano 99
com suas próprias forças para desenvolver a teoria da estrutura qualquer
e a teoria da diferença pura, disjunta de toda propriedade qualitativa.
Por mais conceitual que seja a formulação dessas duas teorias, elas
não poderiam mais dizer respeito ao transcendental; só o estruturalismo
autorizava a homonímia entre os minimalismos; com o seu desapare
cimento, o minimalismo do objeto e das propriedades não emitirá
nenhum' crédito sobre a metafísica moderna. Por isso, a leitura sino
nímica do axioma do sujeito perderá sua fecundidade; o próprio axioma
perderá sua importância, mesmo que se restrinja a uma homonímia.
O segundo classicismo, diversamente do primeiro, pode se permitir
ser desenvolto em relação à filosofia.
A lingüística também deixará de ter importância. Permanecem
apenas alguns estudiosos escolhidos. Lacan os tratará como testemu
nhas preciosas, não de uma ciência, mas de uma arte, que encontram
na matéria que tratam as falhas do sujeito - na verdade, suas próprias
falhas. Quanto a Jakobson, mestre das línguas, o lingüista nele dará
a vez ao poeta, e Lacan, ao contrário de Jakobson, não continuará
pensando que eles sejam o mesmo. Correlativamente, o teorema de
Stalin será relegado ao adventício. Marcar a língua, transformá-la num
instante em outra que havia sido, eis doravante o gesto que vale.
Maiakovski em lugar de Stalin, Joyce em lugar de qualquer outro. A
revolução nunca muda a língua, disseram políticos e sábios; revolução
ou não, algum sujeito às vezes muda a língua, dirá em breve Lacan.
Podemos considerar que o conjunto dos Scripta posteriores a 68 deriva
desse programa, através de alguns escritos de transição retrospectiva
(estamos nos referindo a Radiophonie) ou prospectiva (estamos nos
referindo às últimas lições do seminário XX). Apesar da ausência de
uma exposição sintética, uma obra foi, de fato, levada adiante.
2. O materna
O pivô do segundo classicismo é a noção de materna. Apenas ela per
mite articular umas às outras as proposições relativas ao doutrinai de
ciência, à letra, à matemática e à filosofia. Ela foi desenvolvida por
Lacan a partir de 1 972. As principais fontes são L' étourdit (Se. , 4,
p.5-52) e o seminário xx.
Algumas citações permitirão o início do exame: " . . . essa lingua
gem de puro materna, entendo dessa maneira a única coisa que pode
100 A obra clara
ser ensinada . . . " (L'étourdit, p.28); " O materna é proferido pelo único
reªl primeiramente reconhecido na linguagem: a saber o número"
(ibid., p.37); " . . . um dizer tal como o meu [ . . . ] se propõe [ . . . ] como
ensinável somente depois que o matematizei segundo os critérios me
nonianos . . . " (ibid., p.39); " O não-ensinável, fi-lo materna ao assegu
rá-lo da fixão da opinião verdadeira, fixão escrita com um x, mas não
sem possibilidade de equívoco" (ibid., p.39); "A formalização mate
mática é nosso objetivo, nosso ideal. Por quê? - porque só ela é
materna, isto é, cap_az de se transmitir integralmente" (S., XX, p. l08).
Convém distinguir de imediato duas questões: a questão particular
do materna, sua função e forma; a questão geral da matemática e seu
status. Essas duas questões se cruzam, já que a noção de materna
repousa sobre uma tese que conceme à matemática e já que cada
materna particular consiste numa amostragem especificada, operada
(por vezes não sem alteração) sobre o conjunto das escritas matemá
ticas. Mas a distinção permanece: existem em Lacan referências à
matemática que não derivam da doutrina do materna. Nem que fosse
por uma razão cronológica: os Escritos precedem L' étourdit de seis
ªnos. Além disso, são acrescentadas diferenças estruturais à cronologia.
Em outras palavras, o surgimento de uma doutrina explícita do materna
modificou a relação que Lacan mantinha com a matemática e, por
essarazão, com a matematização. Trata-se do princípio do doutrinai
de ciência.
2. 1 . A função e a forma do materna
A função e a forma do materna em Lacan encontram-se determinadas
por duas afirmações:
a) o materna assegura a transmissibilidade integral de um saber;
b) o materna confôrma-se ao paradigma matemático.
A proposição b, se nos ativermos aos próprios termos que a
articulam, implica o seguinte: o materna estará para a matemática
coll)o o fonema está para a fonemática: um átomo de saber, como o
outro é um átomo de fonia. Reciprocamente, a matemática estará para
o materna como a fonemática está para o fonema: uma teoria das
condições gerais para boa formação de um materna, como a outra é
uma teoria das condições gerais para boa formação de um fonema.
Isso supõe que a fonemática saiba definir o que é a fonematicidade
O segundo classicismo lacaniano 101
enquanto tal; isso supõe paralelamente que a matemática saiba definir
o que é a matematicidade enquanto tal.
Para compreender o alcance da proposição a, é preciso ponderar
que a transmissibilidade integral comporta uma questão fundamental,
que conduz ao doutrinai de ciência.
Durante muito tempo se supôs necessária à transmissão do saber,
ou pelo menos à sua transmissão integral, a intervenção de um sujeito
insubstituível - o que chamamos um mestre, dispensando a seus
discípulos através de sua Palavra (da qual uma forma pode ser o
silêncio) e de sua Presença (da qual uma forma pode ser a ausência)
o mais-saber. Sem esse rpais-saber, que chamamos sabedoria e que
deve inspirar uma forma de amor, e sem o mestre que é seu suporte,
nenhuma transmissão poderia se cumprir integralmente. Podemos aí
reconhecer o dispositivo antigo, ligado à episteme.
Eis justamente o que a doutrina do materna exclui; se podemos
admitir que ela não seja uma conseqüência necessária do doutrinai de
ciência, é certo, por outro lado, que ela o requer como sua condição
sine qua non. Afirmar a é, na verdade, afirmar proposições do tipo:
'não há mestres' ,
ou:
'não há discípulos' ,
ou:
'não há sabedoria' ,
ou:
'não há Palavra nem Presença' ,
ou:
'não há sabedoria para além do saber' .
Estas exclusões são o próprio do universo moderno. O que pode
ser mais bem entendido se combinarmos a e b. Através dessa com
binação é obtida a tese subjacente:
'a matemática é o paradigma da transmissibilidade integral' .
Se a transmissão da ciência moderna não requer mestres (mas
no máximo professores), é justamente porque ela se fia inteiramente
nos funcionamentos literais da matemática. Reciprocamente, se a ciên
cia moderna fiar-se inteiramente nos funcionam\' 111 • " literais da ma
temática, isso faz com que ela não seja uma sabedoria (escândalo que
os comitês de ética e as Igrejas se apressam em bloquear). Isso faz
também com que, no universo da ciência, não exista mestre ou, o que
dá no mesmo, que o nome mestre designe apenas uma posi�ão.
102 A obra clara
Em virtude do teorema de Stalin, as línguas não mudam mesmo
que a infra-estrutura mude; do mundo antigo ao universo moderno, o
nome mes�re subsiste portanto, mas ao preço de uma homonímia. O
mestre antigo era mestre enquanto termo insubstituíyel, e o permanecia
fora de toda posição no laço social; suas propriedades de termo (suas
virtudes) eram essenciais para qualificá-lo positivamente (Sócrates,
tal como o determinava o oráculo de Delfos). O mestre moderno só
é mestre porque ocupa uma posição, onde é infinitamente substituível
por qualquer outro, e suas propriedades de termos são inessenciais e
fundamentalmente negativas; basta que não o desqualifiquem.
Daí decorrem, entre outros, certos traços aparentemente anedó
ticos do que denominamos a ciência normal. Assim o status precário
dos QQmes próprios: eles só são aí admitidos a título de estenogramas
das proposições que lhes são atribuídas; não apontam, em nenhum
caso, um insubstituível. Assim a absorção, lenta, mas inelutável, da
ciência pela universidade: todo sábio é ali substituível por um outro
como sábio, mas, por essa mesma razão, ele é homeomorfo ao pro
fessor. Assim o aumento do poder do professor, cuja tarefa é a trans
missão (literalizada quando se trata da ciência, não necessariamente
literalizada quando se trata de outros saberes); contanto que o indi
víduo, instituído em meio a essa transmissão, assegure corretamente
sua função, não será considerado como virtude nenhuma de suas ca
racterísticas pessoais, exceto aquelas que, por sua transparência e ino
cuidade, saberão não alterar seu bom funcionamento; ele é, por essa
razão, facilmente substituível. Odores anódinos, cores acinzentadas,
man_eiras apagadas, eis o que se espera quando tudo é questão de
posição, não de sujeito.2 O que ocorre na ciência que está sendo feita,
na ciência das rupturas e das revoluções, é evidentemente outra coisa,
mas não estamos falando disso.
Em Lacan, a doutrina do materna articula-se, portanto, a uma doutrina
do mestre como pura determinação posicional. Só esta última é com
patível c
"
om o doutrinai de ciência; ela está exposta na teoria dos
quatro discursos, onde a distinção entre termos e posições se desenvolve
completamente.3 Mas, limitando-se à via negativa, a ausência de toda
figura antiga do mestre já estava implícita no retomo a Freud. Tal
palavra de ordem repousa sobre uma tese oculta: se, para apreender
o verdadeiro objeto da psicanálise, convém retomar a Freud, isso
implica que algo da psicanálise seja imune à diferença do alemão com
o francês. De maneira mais estrita, não é uma questão de tradução
O segundo classicismo lacaniano 103
boa ou ruim; mais exatamente, é possível traduzir Freud melhor do
que ele é, mas, na ausência de tradução apropriada, podemos, mediante
comentário e interpretação, nos dispensar de uma tradução que seria
fidedigna (aí se situa, afora qualquer anedota, o ponto de divisão em
relação a J. Laplanche). Aliás, a tese é tão impressionante que conside
ramos o objeto da psicanálise de um lado ao outro atravessado não
apenas pela linguagem, mas pelas línguas; isso não impede, entretanto,
que haja de Freud, falando e pensando em alemão, a Lacan, falando
e pensando em francês, uma possibilidade de transmissão integral.
A luta contra a Internacional (a primeira pelo menos, dirigida
contra a Internacional de Londres e seu establishment familiar; a se
gunda luta, dirigida contra a Internacional US é de outra natureza)
amplia a afirmação: já que Freud não é um mestre (embora ocupe
essa posição), a participação de sua Presença e de sua Palavra não
cQpstitui um título. Melanie Klein, em particular, consegue prevalecer
sobre Anna Freud. Da mesma forma Lacan, que nunca encontrou
Freud, pode prevalecer sobre Marie Bonaparte, que convivia com ele.
Quando, sob a forma do materna, a letra se torna necessária e suficiente
para a transmissão, não mais existe par mestre-discípulo, com seu
cortejo de fidelidades e traições; os únicos acasalamentos são literais:
" Marx e Lênin, Freud e Lacan não estão mais acasalados no ser
[l 'être]. Foi pela letra [lettre] que encontraram no Outro algo como
seres de saber, eles procedem dois a dois . . . " (S., XX, p.89).
Podemos afirmar que no materna e na determinação estritamente
posicional do mestre se articula o status da Escola. Esta nada mais é
do que o correlato institucional do materna e sua função maior consiste
em assegurar uma transmissão integral. Por isso a Escola terá por
expressão uma coletânea de maternas, intitulada Scilicet (glosa: 'você
pode saber' , scil. 'graças ao materna' ). Nessa coletânea, a pertinência
do modelo retórico de Bourbaki salta aos olhos: anonimato dos textos,
com uma única exceção (Bourbaki num caso, Lacan no outro), esse
anonimato-menos-um sendo testemunha de um " intelectual coletivo" ,
do qual um nome único - de referente fictício ou não, pouco importa
- estenografa o princípio de reunião; longe de ser um galanteio,
como o era no dizer de Marx ohegelianismo do Capital, a imitação
de Bourbaki confirma o domínio da matemática sobre a transmissão
do saber na Escola Freudiana. Na verdade, esse formato singular ma
nifesta um projeto: reescrever " matematicamente" a psicanálise, do
mesmo modo que Bourbaki pretendia reescrever " matematicamente"
a matemática. Que o nome Escola tenha sido escolhido de preferência
104 A obra clara
ao nome Sociedade ou Instituto, isso se deve, portanto, a um elemento
não trivial da doutrina.4
'Não sou mestre, ocupo a posiç�o' , eis portanto as conclusões
que Lacan não pôde deixar de tirar para si mesmo no momento em
que se desenvolveu de maneira mais completa o dispositivo de sua
matematização. É a essa tese que será associado o trocadilho: " leiam
Salomão, é o mestre dos mestres, é o metro, um tipo no meu gênero"
(S., xx, p. l 04), onde ouviremos o significante " antimestre" , análogo
estrito da antifilosofia. Tanto mais estrito que a filosofia e a mestria
foram por muito tempo interligadas.
2.2. A letra
Por que a matemática é o paradigma da transmissibilidade? Por causa,
como dissemos, da letra.
Ora, a letra não é o significante. A distinção entre eles pode ter
ficado confusa no primeiro classicismo (ver principalmente L'instance
de la lettre); ela se acentua e se aperfeiçoa ao longo do segundo (ver
sobretudo o seminário XX). Eis aqui seus principais elementos.
O significante é apenas relação: ele representa para e é aquilo
através do quê isso representa; a letra mantém, decerto, relações com
as outras letras, mas ela não consiste apenas em relações. Sendo apenas
relação de diferença, o significante é sem positividade; mas a letra é
positiva em sua ordem. A diferença significante sendo anterior a toda
qualidade, o significante é sem qualidade�; a letra é qualificada (ela
tem uma fisionomia, um suporte sensível, um referente etc.). O sig
nificante não é idêntico a si, não tendo um si a que uma identidade
possa ligá-lo; mas a letra, no discurso em que se situa, é idêntica a
si mesma. O significante sendo integralmente definido por seu lugar
sistêmico, é impossível deslocá-lo; mas é possível deslocar uma letra;
assim a operação literal por excelência deriva da permutação (teste
munha, a teoria dos quatro discursos). Pela mesma razão, o significante
não pode ser destruído: ele no máximo pode " faltar em seu lugar" ;
mas a letra, com suas qualidades e identidade, pode ser rasurada,
apagada, abolida.5 Ninguém pode fechar a mão sobre um significante,
já que ele é apenas por 1:1m outro significante; mas a letra é manipulável,
até mesmo empunhável (" este escrito [ . . . ] o que se resume a estas
cinco letrinhas escritas na palma de minha mão" , assim Lacan comenta
a fórmula da gravitação universal, S. , XX, p.43). Sendo deslocável e
O segundo classicismo lacaniano lOS
empunhável , a letra é transmissível; por essa transmissibilidade própria,
ela transmite aquilo de que ela é, no meio de um discurso, o suporte;
um significante não se transmite e nada transmite: ele representa, no
ponto das cadeias onde se encontra, o sujeito para um outro significante.
O significante não pode ser instituído; seja ele arbitrário (Saussure)
ou contingente (Lacan), não é decerto equivalente, mas importa pouco
em relação ao que é dito nos dois casos: que o significante não tem
razão de ser como é, e, antes de mais nada. porque ele não é como
é; porque ele não tem identidade própria; porque não tem si; porque
todo si é reflexivo e o significante não poderia ser reflexivo, sem logo
ser seu próprio segundo e um outro significante. A letra, ao contrário,
deriva sempre de uma declaração; nesse sentido, ela tem sempre razão
de ser o que é, mesmo se essa razão for uma pura e simples decisão;
é por isso que el_a sempre diz respeito a um discurso (" A letra, radi
calmente, é efeito de discurso" , S. , XX, p.36); ela nada é sem as regras
que cerceiam seu manejo, mas uma vez dadas essas regras, cada letra
é o que é, como é; a reflexividade lhe é permitida; ela tem um si.
Ora, as regras do manejo podem ser ditas (" a escrita [ . . . ] só subsiste
se me aplico em apresentar-lhe a língua de que faço uso" . S. , XX,
p. l 08); aquele que as diz ocupa por isso mesmo, no tempo usado em
dizê-las, a posição de um mestre do jogo de letras, até mesmo de um
inventor: Palamedes ou Cadmo, Cláudio ou são Cirilo. Não existe
mestre dos significantes; tampouco existe inventor (exceto Deus, se
esse gênero de coisas existisse).
Em linguagem de escola, o significante deriva apenas da instância
S; mas a letra vincula R, S e I, que são mutuamente heterogêneos.
Assim, tudo o que concerne ao significante será dito num vocabulário
da cadeia e da alteridade; reduzido a seu esqueleto, ele se resumirá a
S I (um significante), S2 (um outro significante); $ (o sujeito barrado
pelo intervalo de S I a S2); a (o que cai pelo efeito de barra).6 Mas
tudo o que concerne à letra será dito num vocabulário do encontro,
da cunhagem, do contato, do entre-dois. Esses vocabulários são múl
tiplos: a geometria da linha, a topologia, a lógica dos quantificadores
puderam sucessivamente servir. Elas serviram principalmente para
articular a doutrina do materna, precisamente na medida em que o
materna deriva da letra.
Compreendemos, assim, que Lacan o defina como uma orthe doxa;
em todo caso, o compreendemos se resumirmos o conceito de orthe
doxa a sua fonte platônica (Rep., 476c-478d; Menon, 97b-99b). Tra-
106 A obra clara
tava-se ali de traçar sobre uma linha um segmento intermediário entre
dois heterogêneos: agnosia e episteme. Uma versão topológica, anti
linear e dramática, da geometria linear de Platão é o cross-cap do
L ' étourdit (p.38-9): costurar um ao outro dois heterogêneos, um farrapo
esférico sobre um farrapo asférico, uma rodela sobre uma banda de
Mrebius. De um entrechoque análogo, há uma versão lógica: são os
paradoxos do Todo, onde se escreve a doutrina da sexuação. Duas
linhas ali se chocam; uma nota, numa simbólica inspirada em Russell,
a estrutura do Todo como limitado ao combinar duas proposições
acopladas: só podemos dizer " para todo x, <l>x" se pudermos também
dizer " existe um x tal como não-<l>x" ; a outra nota, numa simbólica
anti-russeliana, a estrutura do ilimitado a que não convém o nome
Todo: se devemos dizer " não existe x tal como não-<I>x" , então a
marca do todo deve ser barrada: " para não-todo x, <l>x" . O materna
não consiste em nenhuma das proposições considerada isoladamente,
em nenhum dos pares considerado isoladamente, mas no confronto
dos dois pares irreconciliáveis.7
Assim se constitui o tipo mais geral do materna, que mostra a
necessidade do heteróclito no cálculo sexual, mas também que a pos
sibilidade e a necessidade do materna em geral vêm do fato de que
o ser falante é sexuado.
Na referência à orthe doxa, há entretanto mais a ser decifrado do que
a estrutura de um entrechoque de heterogêneos. Platão, lembremos,
opõe a orthe doxa à episteme através do vínculo: " é por isso que a
ciência tem mais valor do que a opinião correta: é pelo vínculo que
ela se distingue da opinião" (Menon, 98a).
Ora� o próprio dos maternas da psicanálise é que eles não se vin
Ç1J}Jl.m entre si. Não só cada um deles costura heterogêneos em conjunto,
mas cada um é além disso heteromorfo a cada outro. A escrita de que
se formam varia. Não_ex,iste passagem literal de um a outro: impossível
calcular um materna a partir de um outro por um manejo. das letras.
A permutaÇão que estrutura a teoria dos quatro discursos é interna a
um materna único: aquele constituído pelas quatro .fórmulas, tomadas
em conjunto, e a regra que faz passar de uma à outra. Nenhuma das
quatro linhas do m�tema sexual se obtém por transformação a partir
de qualquer outra; elas funcionam em co-presença. De um desses
maternas ao outro, nenhuma transição literal. Em suma, os maternas
não se somam num corpo de �i_�J!cia.
O segurulo classicismo lacaniano 107
A conclusãose impõe: no materna, Lacan retoma tudo do para
digma matemático, exceto precisamente a dedução. O materna se pro
põe como um cálculo local; dele podemos decerto extrair todas as
proposições que ele autoriza pelo manejo de suas próprias letras, mas
dele apenas podemos extrair aquelas. Admitindo-se, além disso, que
de um materna não podemos extrair nenhum outro materna, essas
novas proposições só poderiam ser não-matemáticas e puramente des
critivas: um materna lacaniano, enquanto literal, funciona idealmente
como uma matriz de produção de proposições empíricas. Só podemos
e só devemos dele extrair contingências sublunares.8
O materna descreve o domínio formal da matemática sobre a
psicanálise, mas, da matemática, ele retém apenas a literalidade, dis
junta do encadeamento das razões. Ou, ainda com mais exatidão, o
cálculo local - o fragmento insecável de saber - permitido pela
letra (litterâ scire licet) apenas é permitido pela interrupção que a
letra impõe às cadeias de razões.
3. A matemática
A doutrina do materna, por mais nova que seja, repousa então sobre
uma característica comum ao conjunto dos empréstimos, numerosos
e variados, feitos por Lacan às letras matemáticas. Lacan retém dessas
letras o que elas articulam de suspensivo, isto é, de impossível: o
infinito como inacessível, a teoria do número como travessia da falha
incessante do zero, a topologia como teoria de um "n'espaço" , ar
rancando a geometria de toda estética transcendental.
Somando esses empréstimos e reduzindo-os a seu caráter comum,
obtém�se a definição da matemática como ciência do real, na medida
em q�:� o real nomeia a função do impossível (S., XX, p. l l 8). Natu
ralmente o teorema de Gõdel será freqüentemente citado a esse respeito,
mas observaremos que Lacan não o utiliza de maneira original. Ele
se limita a ali apreender o que todo homem honesto nele lê: a de
monstraçíh rigorosa de que existem em aritmética proposições inde
cidíveis. Sensivelmente mais estrutural, a referência ao intuicionismo.
Na necessidade de apenas admitir em matemática o que se deixa intuir
como produto de uma construção positiva, Lacan retém menos a dou
trina da intuição do que a rejeição de toda demonstração apagógica.9
O que está em jogo é de porte, já que os filósofos da matemática, e
sobretudo o mais recente e um dos maiores dentre eles, puderam
108 A obra clara
sustentar que a legitimidade do raciocínio apagógico dizia respeito à
essência da própria dedução matemática. 10 Mas a rejeição de Lacan
explica-se facilmente: o apagógico repousa crucialmente sobre o en
cadeamento das razões; ora, tªLencad!!amento é o próprio do imagi
nário.
A matemática disjunta da dedução e do apagógico, reduzida a suas
simples letras, eis o que funciona de fato nas referências dispersas e
múltiplas à matemática; eis o que o materna propõe de maneira intei
ramente explícita; eis, além disso, o que parece de fato constituir, aos
olhos de Lacan, a pertinência da matemática em relação à ciência
moderna.
·
Pois o segundo classicismo lacaniano de modo algum renunciou
a Galileu. Muito ao contrário, ele reafirma o doutrinai de ciência.
Exceto que, doravante, a matemática implicada na matematização está
inteiramente depurada de tudo o que lhe restava de Euclides e do
more geometrico. Ela se tornou profundamente não-grega. Ela importa
não_pelas cadeias de razão, mas pelas zonas estritamente circunscritas
de literalidade que ela autoriza - o que pode ser chamado de cálculo.
Não se deve temer aqui articular proposições radicais. A doutrina
do materna não só permite a Lacan reafirmar o gesto da matematização;
na verdade, ela esclarece os fundameotos do doutrinai de ciência, tal
como devem ser para que deles dependa a psicanálise. Que o materna
da psicanálise seja fragmentado, local, fechado sobre algumas letras
restritas, isso não é negável. Mas nisso ele não se excetua do que
funciona na matematização reivindicada desde Galileu. Muito ao con
trário, ele o evidencia da maneira mais crua.
Sob esse enfoque, torna-se patente que a ciência moderna convoca
a matemática por inteiro, mas que dela retira o que aos olhos dos
matemáticos fiéis ao que herdaram constituía sua essência mais pre
ciosa: não apenas o more geometrico, mas a demonstração e toda
espécie de vínculo. A própria medida é apenas um resíduo. Doravante,
apenas o cálculo funciona: " que você escreva que a inércia é mv2/2,
o que isso quer dizer? se não que seja qual for o número de uns que
vocês ponham sob cada uma dessas letras, vocês estão submetidos a
um certo número de leis, leis de grupo, adição, multiplicação etc."
(S. , XX, p. l l 8) . Entendam: todas as leis regionais de um tipo particular
de cálculo, mas também apenas elas.
Reencontramos, por uma nova via, a linha divisória que separa
a episteme da ciência.
O segundo classicismo lacaniano 109
Na primeira, o vínculo é determinante - é o que diz explicita
mente Platão; ele o é tanto mais quanto menos for localizado, e só
um raciocínio de forma geral lhe permitirá escapar à dependência
tópica. Importará, pois, que uma ciência particular estabeleça as formas
ger.a.is do raciocínio, que chamamos dialético ou lógico. Dessas formas
gerais, os modos euclidianos oferecem a ilustração mais depurada dà
sobrecarga de substância. " Longas cadeias de razões" , as palavras
devem ser entendidas pelo que dizem: vasta extensão dos espaços de
proposições, continuidade dos vínculos que as unem.
Na segunda, ousamos dizer que o vínculo não importa, nem a
demonstração por raciocínio, mas o cálculo, que é local (mesmo que
sua localidade se revele bem extensa). O cálculo opera sobre letras,
fixadas por um discurso e combinadas segundo regras explicitáveis,
de maneira a produzir uma combinação literal nova; mas essas regras
valem para um tipo de cálculo dado. A matematização lacaniana da
psicanálise apenas cumpre, a esse respeito, um passo a mais: o cálculo
liter:al afasta-se de maneira tão forte de toda dedução, sua localidade
circunscreve-se tão restritivamente que sua eficácia se limita ao único
farrapo de escrita em que ele se dá à leitura.
Mas não seria isso um nada de matemática? Aparentemente, a
maioria dos matemáticos e o conjunto da tradição filosófica respon
deriam afirmativamente; mas Lacan se separa deles. Não só afirma
que o uso que faz da matemática é lícito e próprio a autorizar uma
matematização, mas afirma muito mais do que isso: que esse uso
evidencia a própria essência da matematicidade. Sob a forma do ma
tema, ele propõe uma definição, nova e escandalosfi, da matematicidade
como tal, daquilo que f!!Z_ com que o matemático seja o matemático.
Essa definição repousa sobre uma localidade intrínseca, que decorre
da letra.
Lacan sente-se confortado em sua doutrina pelo que existe de
mais incisivo no projeto bourbakista. Na verdade, o programa enun
ciado na Introdução ao livro I dos Eléments de mathématique e os
procedimentos utilizados no capítulo I desse mesmo livro 1. Lembra
mos a importância retórica de Bourbaki na formatação de Scilicet. É
hora de assinalar uma importância mais substancial: a doutrina do
materna só se sustenta se admitirmos uma interpretação bourbakista
da matemática. Ou, ao menos, a interpretação integralmente literali
zante que dá Lacan do programa bourbakista: uma matemática baseada
ela própria no cálculo, na medida em que o cálculo não é uma dedução,
110 A obra clara
e na letra, na medida em que a letra não é um signo: " Coloquemos
juntos objetos [ . . . ] . Reunamos estas coisas absolutamente heteróclitas,
e concedamo-nos o direito de designar essa reunião por uma letra. É
assim que se exprime em seu início a teoria dos c.onjuntos, aquela,
por exemplo, que propus, da última vez, como sendo de Nicolas Bour
baki. Vocês deixaram passar isso, que a letra designa uma reunião. É
o que está expresso no texto da edição definitiva [ . . . ] [os autores]
tomam muito cuidado em dizer que as letras designamreuniões. Aí
reside sua timidez e seu erro - as letras fazem as reuniões, as letras
são, e não designam, essas reuniões, elas são consideradas como que
funcionando igual a essas próprias reuniões" (S., XX, p.46).
Aos olhos de Lacan, Bourbaki ainda não é na verdade suficien
temente bourbakista. De resto, sabemos que Bourbaki utiliza tanto a
dedução quanto o apagógico. Mais ainda, ele afirma a continuidade
sem falha desde os gregos da demonstração matemática: " o que era
uma demonstração para Euclides continua . sendo uma aos nossos
olhos" (Bourbaki, ibid., p. l ). Ele provavelmente propõe uma versão
literalizada ao extremo, mas trata-se aí, segundo ele, apenas de pôr a
nu a própria essência do more geometrico. Ora, essa continuidade é
bem precisamente o que Lacan recusa, mesmo que essa recusa per
maneça implícita na afirmação: " as letras fazem as reuniões" . Na
verdade, ele instala, ao dizer isso no lugar de Bourbaki, uma figura
fundamentalmente outra, que poderíamos antes chamar de hiperh.aur
bakismo. Igual como, há pouco, ele havia acrescentado ao estrutura
lismo uma hipótese hiperestrutural.
Ali onde a matemática pré-bourbakista se valia da coerência racional,
oriunda dos gregos, Bourbaki vale-se da simples consistência literal.
Mas ele a reputa homogênea à precedente. Lacan, baseando-se no
hiperbourbakismo, dá uma volta suplementar no garrote: mesmo que
tivesse existido consistência literal, ela não deixaria de ser imaginária,
porque toda consistência é sempre variante do vínculo; mas não existe
consistência literal, porque a literalidade não é da ordem da consis
tência.
A função específica da matemática, na medida em que o materna
a isola, deixa-se portanto resumir da seguinte maneira: tal como Bour
baki a articula e tal como Lacan, indo ao hiperbourbakismo, a desar
ticula, ela propõe um tesouro de materiais para uma teoria não ima
ginária e não qualitativa do pensamento.
O segundo classicismo lacaniano 111
O problema geral da psicanálise é, lembremos, que exista pensàmento
que não corresponda aos critérios imaginários e qualitativos do pen
samento (coerência, terceiro excluído, discursividade, negação etc.;
em suma: Aristóteles) . Só podemos sustentar a equação dos sujeitos
e principalmente sua versão mais ambiciosa sob essa condição: a
identidade do sujeito do Cogito e do sujeito freudiano. A psicanálise
deve, portanto, construir uma teoria do pensamento, que integre, não
como uma extensão adventícia, mas como uma propriedade constitu
tiva, o pensamento disjunto das regulações imaginárias. Em Freud,
essa teoria é quase inteiramente negativa; o que há de positivo nesse
ponto não merece o nome de teoria; no máximo um modelo energético
ou biológico. Em Lacan, pode-se reconhecer a ambição de uma teoria
positiva, que, para além do imaginário do pensamento, diz respeito a
seu real.
A matemática e todas as disciplinas formais estão convocadas
para cumprir esse programa.
Mas sabemos que sua extensão variou. No paradigma do primeiro
classicismo estão incluídas as disciplinas maiores do galileísmo am
pliado. Supõe-se que a lingüística deva evidenciar sobretudo os me
canismos de um pensamento não-reflexivo, não-consciente, não-aris
totélico. Naturalmente, a matemática bourbakista, a lógica russelliana
e pós-russelliana, a antropologia lévi-straussiana concorrem para o
mesmo desígnio. O que não chega a impressionar, já que a homoge
neidade fundamental de suas formalizações foi justamente proposta
como hipótese pelo discurso de Roma.
·
No segundo classicismo, a homogeneidade está rompida. Apenas
a matemática permanece, e permanece apenas em sua leitura hiper
bourbakista. Tal é o eixo maior de uma teoria do pensamento não
imaginário. O materna evidencia seu status decisivo.
É verdade que nada teria sido possível sem o galileísmo ampliado.
Acrescentemos que este não teria sido possível sem Bourbaki. Pois
só Bourbaki perseguiu, de maneira conseqüente, o desígnio pelo qual
a matemática é disjunta da quantidade. Suposição necessária para que
os estruturalismos, e singularmente a lingüística, sejam reputados ma
temáticos, embora não comportem nem medida nem mesmo dedução
lógico-matemática. De fato, mas é também verdade que algo muda
entre o relatório de Roma e o L'étourdit.
Em primeiro lugar, Lacan pouco a pouco separou a instância
específica da letra do simbólico generalizado; ao mesmo tempo, o
simbólico ainda humanista de Roma 1 1 viu-se reduzido à sua depuração:
112 A obra clara
a letra S em RSI.. Em segundo lugar, ele tematizou de maneira cada
vez mais explícita o literalismo na matemática; esta última, ainda
tecida em Roma de racionalidade contínua, apresenta-se apenas como
um amontoado inconsistente de escritas dispersas. Em terceiro lugar,
ele restringiu radicalmente o gesto da matematização na ciência mo
derna; esta é suposta fazer nada mais do que pinçar nos amontoados
de escritas para ali colher o que permitirá, à medida do necessário,
transliterar alguma linha do universo; mesmo que a física matematizada
fosse unificada (o que não é), a matemática de sua matematização
não teria de sê-lo, pois a matemática em si mesma não o é. Em quarto
lugar, em matéria de letras de ciência, Lacan doravante não aceita
mais outro recurso que a matemática estrita, a dos matemáticos puros.
Relida, naturalmente, segundo as regras da fragmentação hiperbour
bakista.
Não apenas a lógica matemática nela está incluída, mas oferece
seu tipo mais depm ado: por ela, deve ficar evidente que o euclidianismo
não é nada, e que o nervo real das pretensas demonstrações é um
cá_lculo sobre letras (chamado por vezes de dedução ou prova, mas
pouco importa). Essa lógica é com justiça dita matemática, não porque
considera a matemática um de seus ramos (logicismo), não porque
fale da matemática e legitime seus procedimentos (metamatemática),
mas porque exibe, em toda nudez, o que doravante define a matema
ticidade como tal.12 Não há por isso contradição em dizer que a ciência
do real seja, em variação livre, a matemática ou a lógica: em ambas
as expressões, está em questão a mesma propriedade - a literalidade.
Portanto, embora não se deva compartilhar a hostilidade de Koyré
em relação à lógica, tampouco convém àter-se à indiferença dos adep
tos mais moderados do koyréismo. A lógica matemática torna-se por
sua mera possibilidade o schibboleth da ciência; não tanto por seus
métodos e resultados particulares, mas porque ela evidencia a essência
autêntica da matematicidade. Assim vê-se reduzida uma das instabi
lidades graves com a qual o primeiro classicismo estava marcado
(c f. cap. IV, p.117).13
Mas esse sucesso se paga com uma mudança de discurso. No
L' étourdit, a matemática não é mais senão letras, mas as letras de
ciência não são mais senão matemática estrita, isto é, cálculo. A lin
güística, Lévi-Strauss, o estruturalismo inteiro não testemunham mais
nada que se sustente diante da mínima escrita matemática. O materna
é o indício, o efeito e o nome dessa mudança. Ele se torna ao mesmo
tempo lícito e necessário, na medida em que o campo matemático
O segundo classicismo lacaniano 113
não é mais senão literalização, e que não há mais literalização de
ciência fora do campo explicitamente matemático.
Da matemática fora-de-campo, comumente referida ao simbólico,
Jakobson fora o arauto. A sessão que o seminário xx lhe dedica é na
verdade um adeus a essa antiga figura. Não ao próprio Jakobson, que
se tomou, por sua força de sujeito, portador de outras e novas luzes,
mas a Roma. 14 É o que assinala o tema da " lingüisteria" (" minha
lingüisteria" , diz Lacan); o nome é formado como o nome de condutas
próprias aos artesanatos desprezados (pirataria, escroqueria, trapa
çaria, mistificações) e sobre a palavra lingüista mais do que sobre a
palavra lingüística - a lingüisteria, justamente não é a lingüistiqueria.
Os lingüistas reconhecidos não são mais, como outrora, matemáticos;
se fossem abertamenteo que são em segredo, revelar-se-iam garim
peiros, navegadores errantes e solitários, pilhadores de restos em vez
de sábios - sujeitos em exílio.
O relatório de Roma imaginava uma matemática tão consistente
consigo mesma que poderia sem tremores ampliar . seu império. Da
teoria dos conjuntos, corretamente axiomatizada, concluía-se sem so
lução de continuidade em relação a Freud, passando por Jakobson ou
Lévi-Strauss: uma verdadeira alameda de reis. Mais ainda concluiu
com um fechamento do portão; o nome de Bourbaki, após ter resumido
todos os sésamos, transforma-se em seu contrário e apõe definitiva
mente os lacres. O conjunto dos Escritos estava submetido ao programa
da . matemática ampliada. Deve-se sustentar agora que nada do que
nele é matematizado está diretamente conforme ao materna. Nem o
apêndice ao seminário sobre A carta roubada, nem as fórmulas da
metáfora e da metonímia, nem o esquema ótico da Nota sobre o
relatório de Daniel Lagache, nem os grafos e escritas da Subversão
do sujeito são maternas, embora procedam de uma matematização.
Não só porque a noção de materna ainda não foi formalmente cons
truída, mas porque a noção de materna determina uma configuração
radicalmente exclusiva do que parecia se anunciar em 1 953 e perma
necia vivaz em 1966.
Sem meias-palavras, poderíamos mesmo sustentar que só existe
materna com e após o L'étourdit. Nesse caso, mesmo a teoria dos
discQrsos não atenderia inteiramente às condições. Tratá-la em materna,
sem ser absolutamente ilegítimo, derivaria de uma injunção retroativa;
de resto, essa injunção é praticada para as letras do primeiro classi
cismo, ora retificando, ora confirmando (cf. por exemplo S. , XX, p.3 1 ).
Assim, o segundo classicismo pode ser apreendido do primeiro e
114 A obra clara
recpnvertê-lo em maternas derivados. Entretanto, haveria na psicanálise
apenas um único materna primário: o das escritas sexuais. O que
corresponde a e:ncontrar novamente o fio da meada de Freud: a psi
canálise diz apenas uma coisa, sempre a mesma, que há algum sexo.
Assim se explica por que Lacan se compraz em falar do materna tanto
no singular como no plural. No segundo classicismo, a matematização
é mais do que nunca requerida; se ela é supostamente possível, é
através de uma matemática fechada sobre sua própria fragmentação;
se está cumprida, é por um simples lance de letras. ··:
4. A visibilidade do literal
Ora, existe algo denominado nó borromeano, dotado de uma proprie
dade definidora: de três rodelas amarradas juntas, basta que uma não
segure as outras para que todas se dispersem. Mas isso é próprio do
literal como tal, e mais precisamente, do literal matemático.
Apenas um ano depois de L'étourdit, que introduz o materna,
nove meses depois de nele ter sido feita uma leitura hiperbourbakista
da matemática, o nó é chamado " o melhor suporte que podemos dar
daquilo por meio do que procede a linguagem matemática" . Por quê?
Porque " o próprio orla linguagem matemática, uma vez que estão su
ficientemente definidas suas exigências de pura demonstração, é que
tudo o que dela provém, não tanto no comentário falado quanto no
próprio manejo das letras, supõe_q_t,te basta que uma [das exigências]
não seja verdadeira para que todas :as outras [ . . . ] se dispersem" (S.,
XX, p. l l6) . Três proposições são assim apresentadas: em primeiro ·
lugar, o matemático do qual se sustenta o �atema é o matemático
separado da dedutividade, a qual é reputada a um só tempo adquirida
e sem alcance: é o que significa o inciso " uma vez que estão sufi
cientemente definidas as exigências de pura demonstração" ; estamos
aqui no cerne do segundo classicismo. Em segundo lugar, o matemá
tico, disjunto da dedutividade, consiste num literal puro: o manejo
das letras, e não o comentário falado, que conduz às cadeias de razões.
Em terceiro lugar, é o borromeanismo o suporte desse matemático,
já que o borromeanismo é nada mais nada menos do que isto: basta
que uma rodela se solte para que as outras se dispersem; ora, essa
propriedade é julgada o melhor e talvez o único análogo da propriedade
definidora do literal como tal.
O segundo classicismo lacaniano 115
Por outro lado, e não menos surpreendente, o nó, como borro
meano, revela-se próprio para estruturar, ou, mais exatamente, para
matematizar uma molécula doutrinai, sempre retomada desde o pri
meiro classicismo. A saber, o ternário do real, do simbólico e do
imaginário. Sob certos aspectos, poderíamos afirmar que nesse ternário
se encontra resumido o caroço do programa de Roma; o que em todo
caso dele subsiste nas subversões infligidas ao primeiro classicismo.
Até então, a doutrina podia, e de maneira cada vez mais precisa,
determinar o que entendia por real, por simbólico e por imaginário;
entretanto, ela nada podia articular de robusto sobre o modo de exis
tência deles. Doravante, o nó borromeano parece, por essa espécie de
felicidade que por vezes encontramos nas letras, oferecer a solução
mais clara e mais fecunda.
Anteriormente, as maiúsculas R, S, I podiam passar por simples
abreviações, sem outra regra de manejo senão a comodidade descritiva,
sem outra legitimidade senão a de serem iniciais. Uma vez que cada
uma dentre elas se tornou o rótulo de uma rodela borromeanamente
nodulada a duas outras, elas se vêem presas a uma lei real que as
limita. Elas permitem calcular categorias clássicas da experiência (ini
bição, sintoma, angústia, gozo, cf. " R, S, I" , Ornicar?, 2, p.95- 105).
Tornaram-se verdadeiras letras. O que permanecia do primeiro clas
sicismo no segundo, e se constituía dessa forma como substrato comum
aos dois; deixa-se inscrever no dispositivo borromeano, sob uma forma
trilítera; a doutrina inteira deixa-se desde então declinar a partir de
uma única matriz, infinitamente fecunda.
Até mesmo a equação dos sujeitos encontra enfim sua elucidação
completa. Das três afirmações nas quais ela se decompunha, to�as
haviam recebido ao longo dos anos um status preciso. Todas, exceto
a primeira: Lacan havia repetido ao longo de sua obra que a psicanálise
opera sobre um sujeito. Isso admitido, todo o _resto está firmemente
estabelecido: seja esse sujeito o sujeito cartesiano, seja determinado
pela ciência, seja representado por um signific3:nte para um outro
significante. Resta a afirmação em si. O que significa ela de fato?
Logo após ter introduzido o nó, e graças a ele, Lacan a despoja
de seus véus. Essa afirmação é uma hipótese, a hipótese de Lacan:
" O inconsciente, também não entro nele, como Newton, sem hipótese.
Minha hipótese é de _que o indivíduo que é afetado pelo inconsciente
é o mesmo que constitui o que chamo sujeito de um signifiCante" (S. ,
XX, p. 1 29).
116 A obra clara
Daí para frente tudo se dispõe. A equação dos sujeitos identificava
o sujeito da ciência e o sujeito sobre o qual opera a psicanálise: eles
eram apenas um, porque eram apenas um com o sujeito do significante;
pela hipótese de Lacan compreendemos que a expressão " sujeito sobre
o qual opera a psicanálise" deve ser desdobrada: há o indivíduo afetado
por um inconsciente, que a prática analítica encontra no que ela tem
de mais técnico; e há o sujeito tal como a teoria da estrutura qualquer
o define: é o sujeito de um significante. Não há dois sujeitos que
constituem apenas um, mas um único sujeito e um indivíduo que,
radicalmente distinto do sujeito, coincide com ele. Dizer isto é dizer
que a distinção é irredutível e que ser o mesmo significa ser o Outro.
Voltemos à doutrina:
- Premissa 1 : 'o sujeito da ciência é o sujeito de um significante'
(hipótese do sujeito do significante, formulada pelo primeiro classi
cismo, mantida no segundo).
- Premissa 2: 'o sujeito de um significante coincide com um
indivíduo afetado por um inconsciente' (hipótese de Lacan, formulada
apenas no segundo classicismo).
- Premissa 3: 'a psicanálise em sua prática opera sobre um
indivíduo afetado por um inconsciente' (hipótesefundadora de Freud).
- Conclusão: 'a psicanálise em sua prática encontra por coin
cidência um sujeito. ' 1 5
Elucidação, disse eu. Trata-se bem mais de uma supressão, a ser
pensada como uma Aujhebung. A equação dos sujeitos, da qual tudo
partira, desfaz-se no''instante mesmo em que encontra seu status. Não
que seu pivô não tenha sido conservado; simplesmente, .o que se
enunciava em termos de equação se enuncia em termos de coincidência
e de encontro. Quem agora perguntasse o que são uma coincidência
e um encontro, o nó o esclareceria: trata-se da nodulação borromeana
de uma determinação real (o sujeito), de uma determinação imaginária
(o indivíduo), de uma determinação simbólica (o significante). A quem
perguntasse o que é um sujeito, a definição do significante lhe bastaria;
ela bastaria, o que indica que nada mais é necessário, principalmente
o sujeito metafísico. O axioma do sujeito (cap. 11, p.33) não tem mais
nem status nem utilidade, visto que o sujeito é de imediato incluído
no significante como tal.
Tomemos cuidado: não se trata de uma inversão. O axioma e a
equação distinguiam indivíduo e sujeito; a teoria do nó permite articular
que indivíduo e sujeito se superpõero. Mas, na lógica borromeana,
O segundo classicismo lacaniano 117
eles só podem se superpor na estrita medida em que são absolutamente
heterogêneos. A hipótese de Lacan, falando a linguagem do encontro,
reformula o que diz o axioma do sujeito na linguagem da distinção,
mas ao mesmo tempo torna esse axioma supérfluo.
Ao declínio do axioma do sujeito corresponde a não-pertinência
do sujeito metafísico. Por essa razão, a referência ao pensamento perde
sua urgência: "o inconsciente não é que o ser pense" (S., XX, p.95);
com efeito, "o homem pensa com sua alma, o que significa que o
homem pensa com o pensamento de Aristóteles" (p. IOO). Em outros
termos, só existe pensamento imaginarizado e qualificado (semelhan
ças, negação, terceiro excluído, dictum de omni et nullo, categorias,
juízo, dúvida etc.), com o qual o inconsciente nada tem a fazer. A
ligar à proposição "o significante é besta" (S. , XX, p.24), de onde se
poderia deduzir a proposição 'o significante não pensa' ; em outras
pafavras, não se admite mais que o significante articule o pensamento
sem qualidades. Porque, na verdade, este pensamento não existe: não
existe pensamento senão o pensamento de Aristóteles.
De maneira recíproca, o " sem qualidades" requerido pela ciência
não se chama mais pensamento. Assim deve-se entender que Lacan,
voltando a Freud, mas também a Marx, prefere doravante falar de
trabalho: o inconsciente como " saber que não pensa, nem calcula,
riem julga, o que não o impede de trabalhar" (Télévision, p.26). Uma
vez mais, a definição do insconsciente como um " isso pensa" não se
encontra aqui propriamente invertida; ela está apenas deslocada, com
violência. Para que o inconsciente seja um " isso pensa" , é preciso,
sabemos, que exista o pensamento sem qualidades; a psicanálise obteve
plenamente êxito em estabelecer-lhe a existência, exceto que, no ins
tante mesmo do êxito, fica evidente que não se deve mais falar de
pensamento.
Se apenas existe o pensamento de Aristóteles, então o sem-quali
dades deve mudar de nome. Marx constitui aqui o recurso mais forte.
O trabalho de que se trata - trabalho do inconsciente, trabalho do
significante - é o trabalho indiferenciado e sem frases cuja teoria foi
produzida pelo livro I do Capital. É o trabalho sem qualidades . Assim
o sujeito suposto no saber inconsciente - sujeito sem qualidades -
pode ser chamado de " o trabalhador ideal" (Télévision, p.26; Ou pire,
Se. , 5, p.9, evoca Der Arbeiter, galanteio sem referência a Jünger?).
Se o significante é essencialmente disjunto do pensamento e se
este é doravante inseparável das qualidades, o sujeito sem qualidades
é estritamente sujeito do significante e não o sujeito do pensamento;
118 A obra clara
ele se abole como indivíduo imaginário logo que pensa o que quer
que seja e principalmente " existo" . Desde então, o Cogito, ao contrário
do que propunha o primeiro classicismo, não é emergência, mas imer
são do sujeito. O logion 'isso pensa onde não existo' é substituído
pelo logion ou quase-logion 'Onde isso fala, isso goza e isso nada
sabe' (em destaque na lição 9, S., XX, p.95). O isso fala e alíngua
(numa palavra só), que é apenas a forma substantivada do isso fala,
absorvem o isso pensa. Descartes inútil e impreciso.
A homonímia que ligava o axioma do sujeito à metafísica não
cumpre mais nenhum efeito de saber; quanto aos eventuais desenvol
vimentos sinonímicos, seu acesso está doravante barrado. Lacan li
cencia o cartesianismo radical e as escapadas transcendentais. Uma
recusa é definitivamente oposta aos Cahiers pour l 'Analyse.
Graças ao nó, o segundo classicismo parece pois integrar, ordenar e
redefinir a herança do primeiro. O nó absorve a matemática, no que
ela possui de essencial à psicanálise: sua literalidade. Ao mesmo tempo,
todas as dificuldades ligadas ao doutrinai de ciência podem ser con
sideradas resolvidas: a psicanálise está de direito matematizada e ela
sabe · soletrar o que quer dizer matematização. O galileísmo ampliado
confirma-se inútil. Está absorvida a teoria da estrutura qualquer, que
é doravante a teoria regional apenas da rodela S . 16 Está esclarecida
enfim - e desfeita - a equação dos sujeitos, onde se encontravam
o doutrinai de ciência e a teoria da estrutura qualquer.
Aí reconhecemos o movimento ideal que a história das ciências
celebra . . As instabilidades que marcam um primeiro modelo trazem a
emergência de um segundo, onde encontram-se resolvidas, muitas
vezes após um Io.ngo tempo. Assim considerado, o nó borromeano dá
ao materna força e coflfirmação. Sua definição abre, no sentido próprio,
a via real da psicanálise, em sua relação com a ciência moderna. 17
S. A antifilosofia
A psicanálise estabeleceu que ela é discurso do sujeito. Mas ela não
mais precisa, da filosofia para fazer com que entendam o que é um
sujeito. Se a filosofia lhe é inútil, então lhe é nociva e como tal deve
ser designada. É o momento da antifilosofia.
A palavra surpreendeu. A referência aos filósofos parecia inse
parável da obra de Lacan. Ali onde Freud se mantinha reservado -
O segundo classicismo lacaniano 119
mais austríaco do que alemão a esse respeito - e sempre mais disposto
a fundamentar-se nas letras e nas artes do que na filosofia, Lacan
citava constantemente o corpus philosophorum. Falando de antifilo
sofia, havia ele decidido desmentir a si próprio?
O tema está decerto datado. Ele nasce com · a reorganização, em
1 975, do departamento de psicanálise da Universidade de Paris-VIIL
Ressurge em 1980, por ocasião de uma polêmica iniciada por L. Alth-·
usser. Nesse caso como em outros, seria entretanto vão ater-se às
circunstâncias anedóticas. Que a reorganização do departamento de
psicanálise tenha tido que passar por curiosas e desagradáveis discus
sões com o departamento de filosofia, que a seu modo tenha ressurgido
nessa época um verdadeiro conflito das faculdades, isso não deixa de
ter importância, embora hoje nos faça sorrir. Mas nada da anedota
basta para legitimar a fabricação de uma palavra tão violenta. Ela só
pode ser inteiramente explicada por causas à medida de sua violência.
Mesmo que por motivos de cronologia, as causas devem ser manifes
tamente buscadas no dispositivo geral do segundo classicismo, isto é,
no materna.
Sabemos que por muito tempo Lacan hesitou em se inscrever no
organograma da Universidade, contentando-se com o abrigo que esta
podia lhe consentir às suas margens. Após 1 970, ele aceitou e talvez .
tenha desejado que um departamento o convocasse diretamente. Mu
dança cujas causas são múltiplas. Não se pode ignorar a própria con
vulsão sofrida pela instituição universitária francesa em 1968. A ques
tão é saber como Lacan a interpretava. Algumas razões levam a pensar
quea interpretava como um mecanismo de decadência; precisamente
por essa razão, ele concluiu que não custaria grande coisa utilizar os
meios disponíveis no seio de uma instituição obsolescente (da mesma
forma os cristãos não hesitaram em usar o Império, assim que ficou
claro para eles sua crise incurável. Mesmo que devessem se apresentar
como seus garantes mais seguros).
Mas não convém nos limitarmos a isso: a instituição universitária
repousa sobre um ato de transmissão; a legitimidade de um departa
mento universitário de psicanálise só se sustenta portanto numa dou
trina assegurada pela transmissibilidade da psicanálise. Se um depar
tamento universitário pôde de fato. 'ser admitido como um lugar apro
priado ao ensino de Lacan (decisão nova, lembremos); é porque a
doutrina do materna estava dali por diante completa. A ativação da
via universitária não é apenas contemporânea do segundo classicismo;
120 A obra clara
ela o requer como sua condição necessária (o que não quer dizer que
ela própria seja uma conseqüência necessária dele; quanto a esse ponto,
os hábeis não se entendem).
Ora, a reorganização do departamento foi pautada pela antifilo
sofia. Só pois o materna pode legitimar a antifilosofia. Mais exatamente
ainda, essa palavra é apenas um outro nome do materna.
Portanto, a tese é:
'existe uma exclusão mútua entre a filosofia e o materna da
psicanálise' .
N a verdade, o argumento é fácil de ser construído. Basta tomar ao pé
da letra o que tantos filósofos (não todos) dizem de si próprios: que
dependem, sem corte maior, da filosofia grega. Ora, a filosofia grega
está radicalmente vinculada ao mundo da episteme. Sob certos aspectos,
ela funda esse mundo. A episteme, em sua estrutura de theoria distinta
da praxis, só é inteiramente autorizada pela filosofia. Em contrapartida,
o filósofo nunca poderia ficar indiferente à possibilidade de existir
episteme (quer ele negue ou afirme essa possibilidade): isto é, um
saber que requer a alma e a convoca.
O próprio nome de filosofia concerne aos fundamentos de tal
mundo. O necessário e suas pompas, a semelhança e seus deveres, a
alma e suas purificações, eis o que juntas desenvolvem a filosofia e
a episteme; talvez o nome mais próprio para resumi-las seja o de
sophia, esta sabedoria que se deve amar cQmo a si próprio (philein).
É a isso justamente que a ciência moderna renuncia. A psicanálise
desenvolve explicitamente essa renúncia. No sentido estrito, ela é,
portanto, o inverso da filosofia.
Conclui-se, portanto:
'não existe filosofia que seja integralmente síncrona com a ciência
moderna, mesmo que dela seja contemporânea' .
O que corresponde, na verdade, a lhe conferir uma grandeza. A
filosofia contemporânea da ciência moderna testemunha junto a ela
dispositivos que lhe são estranhos; daí seu parentesco de essência à
matemática, desde que esta última não seja definida em termos de
linguagem. Mesmo que não negue o corte maior, a filosofia o mantém
aberto e problemático; ela convoca a pensá-lo. Alguns diriam que ela
está em posição de baliza absoluta.
Mas a psicanálise, por sua vez, é intrinsecamente síncrona com
a ciência moderna; ela é, portanto, de um outro tempo - lógico ou
cronológico - que a filosofia. Ainda é preciso que possa estabelecer
O segundo classicismo lacaniano 121
sua própria sincronia. Depois de Freud, para esse fim, ela apenas
dispunha da linguagem adulterada da ciência ideal. É isso que faz
com que, no dispositivo do primeiro classicismo, a psicanálise se sirva
da filosofia. Trata-se para ela de inserir uma cunha entre ela mesma
e a ciência ideal, tal como Freud e os pequenos freudianos o imagi
navam. Como podem bem testemunhar sobretudo o axioma do sujeito
e sua homonímia.
Freud se confiara à cultura humanista - literatura, história, ar
queologia. Este recurso não bastara; podia-se prever que bastaria ainda
menos após a derrocada institucional, militar, política e moral dos
países onde o humanismo clássico havia por longo tempo sobrevivido
- a Alemanha de Melanchthon, a Áustria dos jesuítas, a França da
Sorbonne dreyfusiana. Ainda mais que a ciência ideal tinha se tomado
poderosa: ela estava, de 45 em diante, no campo dos vencedores. A
vitória da democracia liberal dos engenheiros e dos comerciantes era
também a vitória da mais obtusa das ciências . I S
O retomo a Freud supunha, portanto, o desvio por regiões que
Freud proibira a si próprio. Contra o cientificismo deturpado da In
ternacional, as armas da filosofia eram doravante mais fortes do que
as armas da cultura. Para deixar claro que pertencia intimamente ao
universo da ciência, Lacan devia, primeiro, dissolver essa relação falsa
e estritamente imitativa que acabara construindo, longe de seu torrão
natal, a psicanálise de língua inglesa. Com esse fim, só a filosofia
podia servir, já que só ela se apresentava na ordem da sistematicidade
e da demonstração, como Outra que não a ciência.
O uso repetido que Lacan faz da filosofia durante esse tempo
não contradiz absolutamente a relação de exclusão mútua que ela
mantém com a psicanálise. Muito pelo contrário, ele supõe essa ex
clusão. Só ela permite que a filosofia seja levada a levantar as massas
imponentes da ciência ideal e de suas imitações institucionais. ü__uso
da filosofia é o reverso exato da antifilosofia. Issu significa também
que a segunda é o anverso do primeiro.
Resta que uma inversão ocorreu, com a criação de um nome.
Passou-se do anverso ao reverso, da coroa à cara. É que Lacan sem
dúvida julgou ganha sua primeira batalha contra a ciência ideal. A
ciência ideal dos W ASP, em todo caso. Graças talvez a 68, que deveria
ter posto um ponto final na indolor expansão desta. Graças talvez
também ao LEM alunissante, já que enquanto irrupção do real obtida
pela ciência, ele livra esta de seus lastros imaginários para convocá-la
122 A obra clara
para sua exclusiva matematização ("o discurso científico que conse
gue[iu] a alunissagem onde se comprova para o pensamento a irrupção
de um real. Isto sem que a matemática tenha outro aparelho que o da
linguagem" , Télévision, p.59).
A essas causas externas, que têm valor de sintoma, se acrescenta
uma causa interna: a emergência da teoria do materna, consolidada
pelo destaque dado ao nó. Durante o segundo classicismo, o nome de
antifilosofia concerne especificamente à transmissão. Durante o pri
meiro classicismo, ele não tem que ser proferido, porque o problema
da transmissibilidade integral da psicanálise não foi abordado de frente.
É verdade que durante esse período, Lacan mantém valorizada a relação
da psicanálise com a ciência moderna; é verdade que ele se serve
incessantemente de objetos matemáticos, mas não diz que a única
transmissão possível se opera pela letra matemática. Porque, na ver
dade, ele não autonomizou inteiramente a doutrina da letra e porque
não define a matemática pela letra. Assim que são proferidas as teses
determinantes, no que diz respeito à letra, à matemática e à transmissão,
a inversão pode se cumprir.
De resto, basta citar: " Por ser a linguagem mais propícia ao
discurso científico, a matemática é a ciência sem consciência de que
faz promessa nosso bom Rabelais, aquela à qual um filósofo não pode
senão ficar espantado" (L'étourdit, p.9; o grifo é meu); " O advento
do real, a alunissagem ocorreu [ . . . ] sem que o filósofo que existe em
cada pessoa pela via do jornal ftque comovido . . . " (Télévision, p.59;
o grifo é meu); "Insurjo-me, se posso dizer, contra a filosofia. O que
é certo é que é uma coisa finita. Mesmo se espero que dela surja uma
rejeição" ("Monsieur A." , Ornicar?, 20/21, 1 980, p. l 7 ; grifo de La
can).I9
Não é pois surpreendente que após ter c6nvivido incessantemente
com os textos filosóficos, após ter-se formado no conceito pela leitura
de Hegel, após ter traduzido Heidegger, comentado Platão e Descartes,
citado Aristóteles e são Tomás de Aquino, Lacan invente uma palavra
queos filósofos, é preciso dizê-lo, consideraram, em sua maioria, uma
injúria.
Quanto a isso, a filosofia funciona como a política. O fato de que
pertençam uma à outra torna-se um teorema: " A metafísica nunca foi
nada e só poderia se prolongar cuidando de tapar o buraco da política.
É sua mola propulsora" , escreve Lacan em 1 973, dirigindo-se espe-
O segundo classicismo lacaniano 123
cialmente a Heidegger (" Introdução à edição alemã dos Escritos" ,
Se., 5, p . 1 3) . Pois a política também se revela radicalmente des
sincronizada do universo moderno.
; Será um acaso que, falando de Estado, democracia, dominação,
liberdade, ela fale grego e latim (contanto, é claro, que fale; na maioria
das vezes, resmunga)? Por essa fundamental discronia, ela reclama
por parte da psicanálise uma indiferença de princípio. Porque nem
uma nem outra pertencem nem ao mesmo mundo nem ao mesmo
universo.
Da mesma forma que ciÇncia e política nada têm em comum -
a não ser cometer crimes - porque não pertencem nem ao mesmo
mundo nem ao mesmo universo, do mesmo modo a psicanálise nada
tem a ver com a polítiça - a não ser dizer besteiras. Tal era, podemos
nos lembrar, a posição de Freud: " agnosticismo político" , " indife
rença" (La science et la vérité, p.858).20 Antipolítica, poder-se-ia
dizer, paralela à antifilosofia.
A indiferença, considerada nesse sentido, não leva necessaria
mente a que se cale quanto aos objetos de que fala a política. Lacan
não permaneceu sistematicamente mudo a esse respeito. Admitamos
deixar de lado comentários bem ge�s sobre o que ocorre no mundo
- eles permanecem esparsos em intervenções protrépticas às quais
Lacan poucas vezes se deu o trabalho de voltar e se limitam, em sua
maioria, a estabelecimentos maciços de relações: luminosas de inte
ligência quanto à opinião, mas curtas quanto ao saber. Há, também,
outx:a coisa; estamos nos referindo à teoria dos quatro discursos. Ela
constitui uma intervenção no campo empírico dos objetos de que a
política cuida - como prática e pensamento. Bem sucedida ou não,
a questão não é essa. O que importa ressaltar é a natureza do que foi
dito. É patente que ele em nada corrige a radical indiferença, única
autorizada por Freud, já que os discursos políticos mais opostos podem
aí aparecer como os valores diferentes de uma mesma variável.
Há, igualmente, uma radical indiferença filosófica da psicànálise.
Tal é, na verdade, a mola propulsora das superabundantes refe
rências ao corpus philosophorum. É preciso ser profundamente indi
ferente em filosofia para usar com tanta liberdade de tantos conceitos
técnicos, de alusões explícitas ou não, ou, o que dá no mesmo, é
preciso sustentar que a filosofia forma uma constelação de textos
brilhantes, mas não um pensamento. Reencontramos a antifilosofia,
sob a forma da mais ampliada cultura filosófica.
124 A obra clara
Da mesma forma que a indiferença política não impede que se fale
ocasionalmente de política (a indiferença em política não é a indife
rerwa à política), a antifilosofia não deve impedir que se fale daquilo
de que fala a filosofia: a indiferença em filosofia não é a indiferença
à filosofia. Para falar a verdade, é preciso ir mais longe: a psicanálise
tem não apenas o direito, mas o dever de falar daquilo de que fala a
filosofia, pois ela tem exatamente os mesmos objetos. Em Télévision,
Lacan aceita responder à pergunta que lhe é feita sob o tríplice tema
" saber, ter esperanças, fazer" ; não objeta que essa pergunta, legada
por Kant, seja sem pertinência. Poderíamos por certo reconhecer ali
um simples encontro de cultura. No entanto, a relação é mais intrínseca.
O ponto de intervenção da psicanálise deixa-se, com efeito, re
sumir dessa maneira: a passagem do instante anterior em que o ser
falante poderia ser infinitamente outro que é - em seu corpo e pen
samento - ao instante ulterior em que o ser falante, em razão de sua
própria contingência, tomou-se idêntico a uma necessidade eterna.
Pois, afinal, a psicanálise fala apenas de . uma coisa: a conversão de
cada singularidade subjetiva em uma lei tão necessária quanto as leis
da natureza, tão contingente quanto elas e igualmente absoluta.
Ora, é verdade que a filosofia não parou de tratar esse instante.
Num sentido, poderíamos sustentar que propriamente o inventou. Mas,
para descrevê-lo, ela em geral tomou os caminhos do fora-de-universo.
Ora, a psicanálise não é nada se não mantém, como pivô de sua
doutrina, que não. existe fora-de-universo. Aí e somente aí reside o
que existe de estrutural e de não cronológico em sua relação com a
ciência moderna.
Ao mesmo tempo, compreendemos que a filosofia e a psicanálise
falem exatamente da mesma coisa, em termos tanto mais idênticos
porque visam um efeito oposto. Assim, a palavra antifilosofia deixa-se
interpretar mais completamente; ela está construída como o nome
Anticristo - tal como antes de Nietzsche o apresentava são João.
" Eles saíram do meio de nós, mas não eram dos nossos; pois se
tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco" ( 1 João, 2, 1 9) .
Assim poderiam falar dos lacanianos os filósofos; com mais pertinên
cia, poderiam lembrar que o Anticristo, enquanto tal, deve falar exa
tamente como o Cristo. Seu discurso requer o discurso com o qual
não tem o que fazer, é absolutamente igual a ele, fala das mesmas
coisas, utilizando os mesmos termos, e isso porque não tem nenhuma
relação com ele.
O segundo classicismo lacaniano 125
A única diferença em relação a são João é que os modernos, não
crendo na finitude, não crêem no Juízo Final. Se o Anticristo e o
Cristo prosseguirem com o desaparecimento um do outro, é porque
os tempos estão próximos: " existem agora vários anticristos: por aí
sabemos que é a última hora" , escreve o Apóstolo ( 1 João, 2, 1 8).
Para a antifilosofia e a filosofia, em contrapartida, os tempos estão
abertos, infinitamente. Nesta infinidade, sua exclusão mútua conver
te-se num envolvimento recíproco; ca.da ponto de uma terá seu correlato
invertido na outra; cada uma será sucessivamente o deus morto e o
sudário de púrpura.
NOTAS
1. Lévi-Strauss percebera essa discronia, sem entretanto situá-la exatamente. Cf. La
pensée sauvage, Paris, Plon, 1962, cap. 9, p.324-57. Pode-se encontrar nela duas séries
de afirmações: 1) há cortes maiores; pelo menos um, em todo caso: o corte entre
pensamento selvagem e pensamento da ciência moderna (p.356-7); 2) esse corte não
é de natureza histórica; a história é incapaz de apreendê-lo; ela é, de resto, primordial
mente incapaz de apreender qualquer corte maior (p.344). Em 1965, o próprio Lacan
observa o quanto a doutrina de Lévi-Strauss é mal compatível com Koyré; mas, apesar
disso, não a rejeita; o que confirma que o historicismo, por ser declarado, já não é
mais essencial, mas também que o dispositivo de conjunto não é homogêneo; cf. La
science et la vérité, p.861 .
2 . Entendemos que o professor verdadeiro, para sempre substituível, é o contrário do
mestre verdadeiro, para sempre insubstituível. Que, na linguagem corrente, falemos
com tanta freqüência dos "mestres" (conhecemos a mui h·onorável e mui honrada
"formação dos mestres" ) para designar o que há de mais substitufvel no mundo, é
apenas um exemplo de sentido oposto nas palavras primitivas.
3. Os termos são: S I , S2, $, a (cf. infra, n.6); os lugares são: o agente, a verdade, o
outro, a produção. Um exercício para o leitor: com a ajuda da teoria dos quatro discursos,
resolver o equívoco permitido pela homonímia entre mestre político e mestre de sabe
doria. Um indício: a questão da pedagogia está envolvida nesse equívoco.
Observe-se a sucessão cronológica. A teoria dos quatro discursos é apresentada em
1970 em O avesso da psicanálise (S., XVIij; ela precede de bem pouco a doutrina do
.p�atema ( 1912) e, numa certa medida, torna-a possível.
4. Intui-se que a doutrina do materna perpassa de maneira dramática a questão da
posição do analista. Poderemosdizer, com efeito, que este não intervém enquanto
sujeito? Mas se intervier enquanto sujeito, é possível negar que ele seja insubstituível?
Mas se é insubstituível, não é estruturalmente heteromorfo ao dispositivo da ciência
moderna? Mais precisamente ainda, não é ele homeomorfo aos Mestres de sabedoria
(eis o que existe de profundo na imagem de um Lacan-Gurdjieff)? Mas se o analista
é um Mestre, então não existe materna da psicanálise, a psicanálise é exterior ao
126 A obra clara
universo moderno e Freud não existe. Uma parte essencial do programa lacaniano
consiste na resolução da antinomia.
5. Em outras palavras, as operações chomskyanas de transformação concemem à letra,
e não ao significante. De maneira recíproca, a teoria dos quatro discursos, que é literal,
repousa, na verdade, sobre uma técnica de transformações. O que camiDha junto ao
fato de que os termos nela sejam qualificados e não quaisquer. Que cada transformação
literal seja registrada, numa representação histórica, como uma catástrofe (o que Lacan
chama de mexida), isso se deve à representação histórica.
6. O quaternário é introduzido no seminário xvn. No seminário xx, ele é reduzido a
uma· forma mais mínima ainda, onde apenas intervêm S I e S2 ( cf. S., XX. p. I 30 e
supra, cap. 11, n.26). Podemos considerar que esses escritos são os maternas do signi
ficante. Para ser absolutamente exato, esses maternas são da ordem da letra; eles captam
pois o significante em letras. A captura deixa-se precisar: o significante como tal é
não qualificado, mas, nos niatemas do significante, S I e S2 são qualificados: S I , como
Mestre e S2 como saber. Assim que há qualidades, estamos no registro d� Jetra, não
do significante. Para a qualificação de S2 como saber, cf. supra, p. I I6, n.20.
7. Cf. L' étourdit, p. l4, p.'22 e passim. Algumas explicações suplementares: a sexualidade,
em sua essência, nada mais é do que o princípio radical de um gesto consistente, para
o ser falante, a ser considerado nas fileiras ou fora das fileiras de um todo, sobre a
base de uma propriedade cil qualquer; as escritas sexuais são, portanto, um exercício
de lógica coletiva, cf. supra, cap. 11, p.69. A primeira linha, a do :rodo, confirmando-se
pela construtibilidade do que o limita, tem por estenograma o nome Homem; o artigo
definido, que também é em francês artigo totalizante, nele é, portanto, lícito: o Homem
existe. A segunda linha, a do não-Todo, isto é, da não-legitimidade do TP<i.o quando
nada nele o limita, tem por estenograma o nome Mulher; o artigo definido nele não é
lícito: a __ Mulher não existe. Que relação há entre esses nomes e o que todos chamam
os homens e as mulheres?
Na fonologia estrutural, certas propriedades de pura combinatória tinham por este
nograma o nome 'surdo' (ou 'oclusivo', ou 'nasal' etc.), e outras propriedades, elas
também combinatórias, tinham por estenograma o nome 'não-surdo' ( 'não-oclusivo',
'não-nasal' etc.). Esses nomes fonológicos são homônimos de nomes fonéticos, que
descrexem propriedades fônicas substanciais, que os foneticistas experimentais obser
vam. Os fonólogos, ao utilizarem esses nomes homônimos, afirmavam três coisas: I )
que a fonologia não é a fonética; que o nome 'surdo' em fonologia resume propriedades
estruturais e não diz nada em si mesmo das propriedades fônicas; que o ser fonológico
chamado 'surdo' não é, portanto, necessariamente surdo do ponto de vista de sua
substância fonética; · 2) que acontece de coincidirem o nome fonológico 'surdo' e o
nome fonético 'surdo' ; 3) que isso acontece com mais freqüência do que o contrário.
Da mesma forma, a posição dita Homem (ou Mulher) é estrutural e nada fala das
características somáticas masculinas (ou femininas) do sujeito que a ocupa. Mas acontece
de coincidirem as propriedades da posição dita Homem (ou Mulher) e as propriedades
somáticas masculinas (ou femininas) do sujeito. A hipótese (refutável) é que isso
acontece com mais freqüência do que o contrário.
8. Assim as escritas sexuais predizem e explicam que, no povo, a mulher seja chamada
burguesa (L'étourdit, p.25). É possível e legítimo prosseguir com exercícios desse
estilo: observar, por exemplo, que o inglês queen (nome indo-europeu da mulher,
análogo ao grego gyne) designa ao mesmo tempo a rainha e a prostituta (hoje mais
especialmente o prostituto macho efeminado), que Jean Genet dá o nome de Divine a
O segundo classicismo lacaniano 127
uma bicha, que Divine diga de si própria "Eu sou a Toda Toda" , que a guilhotina se
chame a Viúva, e a masturbação a Viúva Punheta, tudo isso, que por ser considerado
não deixa de ser menos empírico, é calculável pelo materna. Para os quatro discursos,
procedimentos comparáveis são utilizados; ver o seminário xvn Esse caráter matricial
está na linha direta de Freud ("Eu, um homem, amo um homem" , "bate-se numa
ctjança" etc.). Mas Freud apenas dispõe, a titulo de cálculo, da gramática; no que diz
respeito ao materna, esta é apenas alusão a seu princípio verdadeiro: o cálculo literal.
Matematizar mais abertamente do que Freud jamais o fizera corresponde, portanto, a
retornar a Freud de forma ainda mais decidida do que nos tempos do primeiro classicismo.
9. Sua própria doutrina da intuição é aparentemente antinômica da de Brouwer. Na
medida em que se pode compreender esta última, ela é uma doutrina da plenitude do
sujeito que intui (o que autoriza no final todas as derivações, inclusive para Guénon
ou Evola; o próprio Brouwer parece ter-se deixado levar a cometer as piores); segundo
Lacan, o instante da intuição é um instante de esvaziamento do sujeito - o que pode
ser considerado pelo próprio nome de evidência.
10. Cf. o conjunto dos trabalhos de Alain Badiou, e mais especialmente L'être et
l 'événement, p.275-9. Pode-se notar a diferença radical entre Lacan e Badiou; o segundo
se refere a uma matemática provida de procedimentos de dedução e capaz de raciocínio
apagógico. Em seus trabalhos mais recentes, Badiou tende a acentuar a diferença e não
a reduzi-la.
1 1 . "O homem fala portanto, mas é porque o símbolo o fez homem" (É., p.276).
Poderíamos sustentar que o conceito de símbolo consiste precisamente numa indistinção
eJitre letra e significante. Este é, com muita exatidão, seu status em Saussure (fragmento
aparentemente anterior aos cursos de lingüística geral, citado por Starobinski, Les mots
sous les mots, p. l 5-6): à runa, entidade literal, são conferidas propriedades de signifi
cante. Nessa indistinção consiste o impasse dos anagramas.
12. Para um exposto clássico da lógica matemática como cálculo de letras, cf. P.
Rosenbloom, The elements of mathematical logic, Nova York. Dover, 1 950, p.u-m e
p. l 52-80.
1 3. De maneira recíproca, se a matematicidade da matemática não é definida pela letra,
então, por uma cascata de conseqüências, o corte galileano é apagado. Um exemplo
ilustra entre todos, e infinitamente admirável: A. Lautman. Segundo Lautman, a ma
tematicidade reside na contemplação de seres matemáticos objetivos (independentes
das letras que porventura os designam); por conseguinte, a possibilidade da física
matemática requer que se reescreva o Timeu. ·A ciência moderna pode e deve ser
regulada pela episteme platônica. Cf., em virtude de sua clareza, o debate entre Cavailles
e Lautman, reproduzido em Cavailles, (Euvres completes de philosophie des sciences,
Paris, Hermann, p.593-630, e principalmente p.605-9.
Conseqüência comparável, se a logicidade da lógica não for definida pela letra, cf.
supra, cap. 11, n.l7.
14. Ver a segunda lição intitulada " A Jak.obson" , na qual se faz, de maneira explícita,
referência a L'étourdit. Seu tema central é a " mudança de discurso" . Ver igualmente,
em estilo protréptico, a sessão de 19 de abril de 1977, intitulada " Rumo a um significante
novo" , Ornicar?, 17/18, primavera de 1 979, p. l6.
15. Lema 1 : a expressão " sujeito do inconsciente" é imprópria; ela apenas é legitimada
por sua comodidade: ela estenografaa coincidência real entre sujeito e indivíduo. Deixo
aos doutos o cuidado de estabelecer se cabe evocar a doutrina cartesiana da união da
alma e do corpo. Lema 2: já que o indivíduo em questão é indivíduo biológico (cf. É.,
128 A obra clara
p.875), o inconsciente de que é dotado é, ele também, biológico. A hipótese de Lacan
pode também ser enunciada da seguinte maneira: o inconsciente como entidade biológica
coincide, articulação por articulação, com as cadeias significantes.
16. Permito-me remeter a meus próprios Noms indistincts, Paris, Seuil, 1 983. Pode-se
notar que a teoria do nó trilítero não é uma teoria do qualquer. Ela é mesmo todo o
seu contrário. Não basta, com efeito, para sua fecundidade que seja isolada a propriedade
borromeana, embora esta seja necessária a sua definição; é preciso, além disso, que
cada rodela esteja qualificada; as letras, R, S, ou I, estenografam essas qualidades. S,e
as rodelas estão qualificadas, elas não são quaisquer. O nó trilítero se desenvolve nos
antípodas da estrutura qualquer, que nada qualifica. Por essa mesma razão, ele pode
fundá-la e legitimá-la, como teoria regional.
17. Les noms indistincts atêm-se a essa posição.
18 . Este é o núcleo de sentido do artigo " A psiquiatria inglesa e a guerra" (L'évolution
psychiatrique, 1947, p.293-3 12); nele se poderia ler, através dos elogios dirigidos à
Inglaterra, o descritivo de um adversário futuro: o mundo w ASP, que submete a Inglaterra
aos Estados Unidos e reune em cada um dos dois países, em nome da ciência ideal, o
que existe de mais hostil ao pensamento livre. Uma versão desse mundo: a IPA. Em
1960, Lacan concluíra: "desvios notórios na Inglaterra e na América" (Subversion du
sujet, É., p.794); a menção à Inglaterra proíbe reconhecer aqui uma variante da denúncia
do american way of life.
19. Este texto, lido no seminário de 15 de março de 1980, é uma resposta a Althusser,
designado sob o nome " Monsieur A., filósofo" . Por contraste, Lacan assinala o título
de uma obra de Tristan Tzara: Monsieur Aa, l'antiphilosophe. Pode-se observar a
proposição "a filosofia é uma coisa finita" ; não é ilegítimo interpretá-la: " a filosofia
não cabe no universo infinito" . Agradeço a F. Regnault por ter chamado minha atenção
para essa referência.
20. Lacan aqui remete ao Essa i sur l 'indifférence de Lamennais. A referência se encontra
nos S., XI, p.238. Pode-se observar que a indiferença freudiana em política tem limites
que não somos forçados a aprovar; ela não proíbe que se fique ostensivamente a favor
do sistema político inglês. Por ser quase de regra entre os letrados europeus desde o
século XVIII, esse preconceito não ocorre sem tolice e contém em germe alguns desen
volvimentos ulteriores. Cf. supra, n. l 8.
CAPÍTULO V
A desconstrução
O materna conhecerá, no entanto, sua própria consumação. A marcha
dos acontecimentos comprova o episódio. A doutrina do materna estava
ligada a um correlato institucional: a Escola Freudiana; esta escola
era chamada escola e freudiana, porque estava baseada . na tríplice
hipótese de que algo se transmite integralmente a partir de Freud, de
que o lugar de uma transmissão integral é uma escola e de que o meio
de uma transmissão integral é o materna num tal lugar; ela agia para
o exterior através de uma revista intitulada Scilicet ("podes saber o
que disso pensa a Escola Freudiana" , esta era sua epígrafe; para com
pletar, dissemos: " graças ao materna" ) ; essa revista era modelada em
cima de Bourbaki, porque a matemática é o modelo da transmissão
literal e porque Bourbaki é o modelo da matemática literal. Ora, a
escola foi dissolvida, em um instante. Apesar de uma escola ter res
surgido no instante imediatamente ulterior, não podemos fazer como
se o instante de dissolução não tivesse ocorrido. A revista Scilicet
desapareceu. Por seu nome e forma (artigos assinados), as revistas
que a sucederam comprovam que elas se ordenam por outras regras,
mais clássicas. Paralelamente, o bourbakismo é doravante em mate
mática uma figura fechada e isso a, um ponto que Lacan não podia
ignorar.
É impensável que os acidentes históricos bastem para explicar a
correlação de tantas descontinuidades. Ainda mais que o querer ins
titucional em Lacan é sempre o sintoma de um acontecimento doutrinai.
Bem afastado de uma certa herança francesa, que leva os pensadores
a se satisfazerem, na medida do possível, com o que existe, muito
mais do que transformar qualquer dispositivo que seja, ele estava
nesse ponto próximo de Mallarmé. Este último acreditava que é per
mitido a um sujeito criar instituições; ele acreditou nisso durante todo
129
130 A obra clara
o tempo em que acreditou no Livro. É verdade que ele não teve
nenhuma posteridade. Sabe-se muito bem que o Livro não se inscreveu
na Sociedade; o próprio Mallarmé acabou talvez por duvidar; Valéry,
em todo caso, o mais afetuoso dos discípulos, apressou-se em professar
que em matéria de instituições não existe, para os poetas, alternativa
ao conformismo.
O Seminário, por sua vez, não era conforme. Era uma criação
institucional, não menos robusta que a Escola Freudiana, mais auda
ciosa talvez. Aqui encontramos de novo Mallarmé a cada passo (sabe-se
que os cartéis da Escola deviam algo às aritméticas do Livro). Cito
Mallarmé, mas evidentemente é preciso citar também Freud: que um
homem que invocava o ideal da ciência ten�a achado possível criar
fora das academias, fora dos poderes públicos, fora das Igrejas, fora
das uniões profissionais, algo como uma' profissão nova e algo como
a Internacional de psicanálise, é, quando nisso pensamos, propriamente
exorbitante; a primeira coisa que aprende um sábio moderno é que a
criação é difícil e raramente bem sucedida no que diz respeito a ofícios
e instituições cien_tíficas. Ela raramente resiste à morte biológica ou
legal de seus fundadores.
A vontade institucional de Lacan, como a de Mallarmé e de
Freud, é uma exceção. No entanto, ela só se legitima, a seus próprios
olhos, ligada a uma segurança doutrinai. É por certo permitido a um
sujeito criar instituições na ordem do saber - com uma única condição,
entretanto: que esse próprio sujeito possa, sem escândalo e sem der
rísão, ser suposto a algum saber. Convém, portanto, dar a maior im
portância às turbulências institucionais. Elas não derivam da crônica
da corte, mas do próprio saber lacaniano.
A Escola Freudiana encontrava seu suporte doutrinai na doutrina
do materna - a qual explicava em que sentido era permitido saber e
em que sentido, portanto, uma escola era suficiente (ou necessária)
como meio de exercício dessa permissão. Que a escola tenha sido
dissolvida num instante, isso significa, portanto, uma única coisa: o
materna, também, foi dissolvido. E da mesma forma que a escola
recomposta após dissolução não é a mesma que a anterior, do mesmo
modo o materna reafirmado não é o mesmo.
Os textos não desmentem a conclusão a que leva a seqüência dos
acontecimentos. É claro que o uso da matemática muda com o semi
nário XX. Em poucas palavras, a referência matemática encontra�se
doravante absorvida pela teoria do nó borromeano. Não sem razão.
A desconstrução 131
O nó aponta com precisão o que ocorre com a letra e singularmente,
' cQ_m a letra matemática. Esclarecer as leis do borromeanismo corres
ponde, portanto, a esclarecer os fundamentos do materna enquanto
tal; corresponde a evidenciar o princípio de sua eficácia. É justo que
todo o esforço leve ao ponto reputado determinante; se falar apenas
do nó é falar do único necessário, então é preciso ater-se a isso.
No entanto, desde o início, uma coisa· devia impressionar: embora
exista uma abordagem matematizante dos nós, não é isso que Lacan
dela retém. Mais precisamente ainda, tudo se passa como se Lacan
se interessasse pelo nó apenas pelo que ele tem de refratário a uma
matematização integral: " não existe nenhuma teoria dos nós. Aos nós
não se aplica até hoje nenhuma formalizaçãomatemática . . . " (S., XX,
p. l l6) .
O nó revela-se, portanto, algo completamente diferente dos di
versos objetos topológicos - banda de Mcebius, cross-cap - utili
zados anteriormente. A teoria matemática é feita destes últimos; mesmo
que ela não seja diretamente retomada por Lacan, sua possibilidade
geral permite que não se deixe o horizonte da matemática como teoria
geral de todo materna possível (" [meu exposto topológico] era factível
por uma pura álgebra literal. . ." , L'étourdit, p.28). Para o nó, as tranças
etc., a questão era bem outra. Eles provêm, sem dúvida, da matemática,
porém mais a título de curiosidades; o nó esgota-se em sua 'monstração'
incansavelmente variado ("pequenas fabricações" , S., XX, p. l 16) e
não requer, para legitimar sua eficácia, ser integralmente escrito. Isso
por certo não proíbe que ·os matemáticos se apliquem em matematizar
o nó. Alguns o tentaram com brilho, sob o olhar atento de Lacan.
Talvez, no momento em que escrevo, esteja demonstrado que eles ou
outros foram inteiramente bem sucedidos. Resta que o nó não tinha
esperado o esforço deles para funcionar no discurso.
É claro que existem precedentes. Lembremos do paradoxo que
o doutrinai de ciência institui ; foi preciso, após Galileu e Descartes,
admitir ao mesmo tempo três coisas: que o universo é integralmente
passível de uma ciência matematizada, que ele é infinito e que o
infinito não é, ao menos quando a ciência galileana se constrói, um
objeto matematicamente claro. 1 Nem por isso é menos verdade que
bem rápido o infinito deu lugar a um cálculo e a escritas matemáticas,
por mais opaca que fosse sua significação, até Bolzano pelo menos.
De modo que poderíamos reconhecer em sua emergência a vitória do
literal como tal, muito mais que sua derrota.
132 A obra clara
O nó é outra coisa; ele é antinômico à, letra e, por essa razão,
antinômico ao matema.2 Pois uma falha maior abriu-se: o nó pode
suportar letras (por exemplo, R, S, 1), seu borromeanismo mostra o
que é o literal, mas ele próprio não está integralmente literalizado:
" aos nós não sé aplica até hoje nenhuma formalização matemática" .
Em conseqüência, é a um objeto não literal que cabe a tarefa de
mostrar como fica o literal em sua essência. A letra não encontra em
si mesma de que se literalizar suficientemente.
Pensamos, por certo, nos diversos temas da incompletude radical,
recorrentes em Lacan; sem terem sido abandonados, eles aparentemente
tinham perdido sua intensidade dramática, ao menos enquanto nos
atínhamos a uma matematização conforme aos desígnios lacanianos:
dispersa, não dedutiva, local. Ora, o nó assinala o retomo dos dramas;
poderíamos encontrar, mal os modificando, alguns logia antigos; não
havia Outro do Outro, nem metalinguagem; não há materna do materna,
nem letra da letra; há apenas o nó, que permanece rebelde a uma
literalização integral, por mais longe que levemos a literalização.
Não que no tempo de Mais, ainda essa rebelião fosse suposta
para sempre irredutível; nada proíbe pensar que a matemática um dia
integrará a propriedade borromeana. Mas, à medida que o trabalho
matemático avança, ao longo dos seminários ulteriores, discemimos
não apenas que Q ê2tito se_ ��(nüva, mas que no instante em que to
cássemos em sua propriedade, esta teria perdido o que lhe dava valor.
Não só o nó não é matematizado, mas ele só funciona não o sendo.
Se, em todo caso, a matemática como tal tivesse permanecido o que
parecia ser. Mas isso tampouco é verdade. Em Bourbaki, reinterpretado
de maneira apropriada, a doutrina da letra, enquanto distinta da dol,ltrina
do �ignificante, achava seus fundamentos. Ora, o rumor já se fazia
insistente; ele tomar-se-á bem rápido suficientemente poderoso para
não ser negligenciado: e se Bourbaki tivesse morrido?3
Isso quereria dizer que a matemática tem um futuro em que
talvez a literalidade se tomará subalterna. Através de Bourbaki, o
hiperbourbakismo também seria atingido. Talvez Lacan tenha suspei
tado disso logo após o seminário xx. Suponhamos que assim tenha
sido; o nó, enquanto suporte da letra matemática, não suportaria mais
nada de essencial, já que, por hipótese, a letra não é mais essencial
à matemática. Ele se acharia reduzido a sua própria ausência de lite
ralidade. Não seria mais nada no campo da letra, a não ser uma figura
de luto : o luto da letra matemática e de seu poder. Não que o nó nada
A áesconstrução 133
diga da letra, não que não haja letra, não que não haja matemática,
mas o nó apenas diz algo da letra porque dela se excetua; a letra nele
se encontra na dimensão de sua própria, ausência; a matemática, se
mantém alguma força, não é literal. Ao termos os seminários poste
riores a Mais, ainda, não podemos deixar de estar convictos de que
tudo se desenvolve justamente dessa maneira.
Como o bastão nodoso se transforma em serpente sob os olhos do
Faraó, o nó, de sustentáculo para a imaginação, toma-se, então, animal
destruidor. Destruidor da letra. Não que Lacan a esta renuncie, mas
se letra deve haver, ele deve doravante procurá-la em outra parte. À
matemática, às curiosidades que ela oferece, sucedem lugares novos;
o caminho conduz a Joyce, ao poema, às Letras em suma. Esse mo
vimento sem dúvida se inicia a partir de Mais, ainda. Mas nesse texto
jubilatório, o materna está em seu clímax e o poema aparece apenas
para confirmá-lo. Saussure e Jakobson, desprezados enquanto garantes
do primeiro classicismo, voltam numa posição nova, a de sujeitos
lingüistas (tal é, nos lembramos, o alcance da lingüisteria), capazes,
enquanto sujeitos, e enquanto lingüistas, de assegurar uma transitivi
dade entre letras matemáticas e poemáticas. Assim podemos ler em
Mais, ainda, a respeito de Parmênides, uma equivalência, no registro
da letra, entre os dois dispositivos do materna e do poema: " Ainda
bem que Parmênides escreveu, na realidade, poemas. Ele não utiliza
- o testemunho do lingüista aqui está em primeiro lugar - aparelhos
de linguagem que muito se parecem com a articulação matemática,
alternância após sucessão, enquadramento após alternância" (S., XX,
p.25). Note-se o advérbio: uma felicidade boa faz com que a letra
advinda das Letras e a letra advinda dos Números se correspondam
harmoniosamente. Soberano das simetrias, vindo em pessoa falar no
Seminário, Jakobson testemunha uma vez mais. Como havia testemu
nhado outrora, mas por razões novas: " mudamos de discurso" , repete
Lacan em sua presença, " um novo amor" , acrescenta, citando Rimbaud
(ibid., p.20).
Depois de Mais, ainda, entretanto, a simetria se rompe. O poema
por certo consola; não poderia ele, um dia talvez, supondo-se que o
nó se esquive, propor um suporte mais robusto à literalidade? Mas o
poema também inquieta; pois prolifera. Se ele é o que dele diz o
lingüista (" alternância após sucessão, enquadramento após alternân
cia" ), ele surge a cada cintilar que provocaria, sobre o cristal da
língua, o jogo - aleatório ou não - de alguma faceta acasalada a
134 A obra clara
alguma outra. Os trocadilhos homonímicos de que é tecida a conversa
a partir dos anos 70 não são chistes; são disjuntos de todo Witz;
constituem, um por um, foracluída de todo sujeito, uma célula literal,
um átomo de cálculo poemático.4 Pensáveis no início como integral
mente homeomorfos à letra matemática (eis como, em L 'étourdit, nc;>
instante em que o materna é introduzido, o jogo de homofonia já se
encontra presente, desde o título), eles são como maternas dados pela
própria alíngua, respondendo aos maternas construídos por um dis
curso. Estritos análogos da Ursa Maior, que inscrevem no céu estrelado,
por um lance de acaso, o Sete, o mesmo número exatamente cujo
cálculo podemos fazer, eles brilham, na galáxia de alíngua, como
constelações - a um só tempo contingentes · e arquitetônicas.
Mas ocorre de a matemática não mais ser indubitavelmente literal.
A analogia se corrompe. Então, os homofônicos tornam-se a única
marca quepermanece da literalidade, não mais simétricos, mas luga
res-tenentes de um materna extenuado. Sua multiplicação contraba
lança a monstração silenciosa dos nós. Mas, em contrapartida, ela a
confirma e a repete.
Pois cada um desses jogos devora o outro. Ao ponto de cada um
devorar-se a si mesmo. O poema, polimerizado ao infinito ilimitado
de alíngua, explode fixamente sobre o abismo. De um lado os nós
taciturnos, do outro, a um só tempo disjunto de si mesmo e onipresente,
o poema, atestado e abolido por sua própria proliferação. Cada um
dentre os jogos de homofonia, nos títulos de seminários, nos desen
volvimentos escritos, no retorno incessante a Joyce, é como uma cáp
sula fechando a possibilidade de uma letra advinda meramente da
língua, bem diferente do que a matemática, doravante enfraquecida,
propunha, e no entanto carregada de funções exatamente- idênticas.
Exceto que a opacidade arrisca incessantemente prevalecer. O esque
cimento, sempre, pode transir as constelações.
Simultaneamente, a mão se fecha, falange após falange, sobre a
materialidade dos fios de barbante. Como antigamente, certa mão,
sobre as verdades.
Até que o último ato de um ensino incansavelmente perseguido
durante tantos anos, a última palavra de tantos conceitos arrebatadores,
de análises fulgurantes, de escritas audaciosas, de invenções perpétuas,
se torne um manejo mudo, indistinguível aos olhos vulgares, da mania
solitária.
Ele dela se distinguiria, por certo, se, através dele, pudesse ser
assegurada a transmissão integral do que é o literal. Mas, então, a
A desconstrução 135
ratoeira se fecharia. Se tivesse êxito, o nó provaria, através de seu
real, que é, pelo menos, üm caso onde uma transmissão integral não
passa pelo materna - já que o nó, não sendo uma letra, não é um
materna. Se fracassasse, em compensação, nada se transmitiria daquilo
que faz com que a letra transmita. Restaria, somente, o cristal da
língua, materializado no poema Proteu, indefinidamente multiplicado
em trocadilhos, mas a transmissão será, então, integral? Terá ela mesmo
jamais começado?
Ao fim do percurso, o nó tornou-se desvio da letra, mesmo com
o risco de que, através desse desvio, a letra chegue a seu endereço.
Ele se tornou, propriamente, uma antimatemática. Após a antilingüís
tica contida na doutrina do significante e exibida pela doutrina da
homofonia, após a anti política induzida pela teoria dos discursos, após
a antifilosofia contida no primeiro classicismo e exibida pelo segundo.
Em suma, a anacorese discursiva está consumada .
. O nó era, portanto, mortal.
O seminário XX, que o introduz, ocupa um lugar de exceção na
obra de Lacan. Por seu alcance doutrinai: o segundo classicismo la
caniano nele se cumpre, ao mesmo tempo no que ele tem de distinto
do primeiro e no que ainda o vincula a este (tal é o título do seminário:
Mais, ainda). Por sua forma: a disjunção do esotérico e do exotérico
nele se revela provisória; a forma de obra nele se junta à eficácia
protréptica. Por sua inversão enfim, digna das tragédias: em sua per
feição mesma, ele contém em germe o fator letal pelo qual O Seminário
como tal será desfeito, desde o primeiro livro até o último.
A conclusão é forte, deveras. Não poderíamos propô-la sem prudência.
As testemunhas dos últimos seminários deveriam, no entanto, ser as
menos afastadas para assumi-la. Pensar no Lacan daquele tempo é
invencivelmente pensar no Wittgenstein do final do Tractatus: é preciso
calar-se sobre o que não se deixa dizer; é preciso mostrar aquilo sobre
o que apenas podemos nos calar. Ora, Lacan se cala e Lacan mostra.5
O que é mostrado em silêncio é aquilo sem o que a transmissão
da psicanálise não poderia se cumprir integralmente. Como escapar
ao raciocínio indutivo? Se o materna estiver abolido, então não po
demos mais dizer, não podemos mais senão mostrar; ora, após o se
minário XX, Lacan, progressivamente, acaba por não fazer mais senão
mostrar, o que implica que o materna havia sido abolido. Ao mesmo
tempo, foi abolido o galileísmo em psicanálise: " o truque analítico
136 A obra clara
ni'io será matemático. É realmente por isso que o discurso da análise
se distingue do discurso científico" (S., XX, p . 1 05).
Não é por acaso que Lacan reencontrará formulações antigali
leanas do tipo " a Natureza tem horror do nó" (Seminário R, S , I,
Ornicar?, 3, maio de 1 975, p. l O I ). Além de sua forma, verdadeiro
brasão daquilo que a história elementar das ciências empresta aos
adversários aristotélicos de Galileu, tal logion tem uma conseqüência
radical: se a Natureza tem horror do nó e se o nó fosse uma letra
matemática, então a Natureza e alguma letra matemática poderiam
ser incompatíveis, o que se opõe diretamente ao axioma fundador da
ciência moderna. De duas uma: ou a ciência matematizada é consi
derada abolida, e então o conjunto do doutrinai de ciência cai, arras
tando consigo o segundo classicismo lacaniano no que ele tem de
comum com o primeiro; ou o nó não é uma letra; não é portanto um
materna, e então, o segundo classicismo está abolido, no que ele tem
de distinto do primeiro. Como no ou alienante, perde-se sempre.
Assim passou o segundo classicismo, no instante em que parecia se
cumprir. O próprio Lacan nele pôs um termo. O seminário XX, que
constitui o auge (do segundo classicismo), desencadeia também o
mecanismo de sua desconstrução. Tudo já está em pedaço�. qua.JldO
Lac_ap perto de 1 980 decidiu se calar. O nó de um lado, o poema do
outro; o fio de barbante e a letra; o silêncio e o trocadilho. Estamos
pensando na Etiópia.
O que não é tão afastado de Wittgenstein. Não cabe aqui iniciar
uma vinculação sistemática. Que Lacan tenha lido Wittgenstein, isso
não está em dúvida; que tenha dele tirado poucas conclusões explícitas,
isso tampouco está em dúvida. Podemos, de resto, prever que alguns
se apressem em ler um pelo outro; a conjuntura a isso se presta:
algumas novas alas serão assim acrescentadas ao Castelo das brumas.
Irei ater-me aqui ao mais elementar. Vejamos o que chamaremos
de o problema de Wittgenstein. Suponhamos, como parece tê-lo pro
posto este último, que haja antinomia entre dizer e mostrar. Há o que
se diz e há o que não se diz; entre os dois, a fronteira é real e
intransponível. O que não se diz se mostra e é preciso calar-se; o que
se mostra se mostra por quadros. Ao nível do que não se diz, e por
conseguinte se mostra por quadros, existe a verdade do que se diz.
É claro que Lacan, em sua obra escrita quase inteira, sustentou
que o problema de Wittgenstein era ao mesmo tempo real e tratável.
A desconstrução 137
Que ele não conduzia ao dever de silêncio. De fato, Lacan bem cedo
encontrou o silêncio, em sua relação com a verdade - e dele se
afastou. Já lembramos (cap. I, p. l7) a declaração de 1946; nunca será
excessivo ressaltá-la: " Entreguei-me, após Fontenelle, a essa fantasia
de ter a mão cheia de verdades para melhor fechá-la sobre elas."
Como ser mais explícito? Fechar a mão sobre as verdades é uma
fantasia; prestar-se a isso é um abandono; e Lacan prossegue: " Con
fesso disso o ridículo, porque ele marca os limites de um ser no
momento em que vai dar testemunho" .6 É preciso, portantó, abrir a
mão, isto é, desvelar, isto é, falar e dizer a verdade.
Ainda mais que o silêncio é, no registro do real, impossível.
Assim é preciso entender a prosopopéia: " Eu a verdade falo" (La
chose freudienne, É. , p.409; texto de 1 955). Com isso, Fontenelle
parece para sempre refutado: de que adianta fechar a mão sobre a
verdade, se esta fala. Estamos pensando em A jóia indiscreta. A in
discrição da verdade é proclamada - será um acaso? - em Viena,
cidade de Freud e de Wittgenstein. Em outras palavras, Wittgenstein
teria razão, se somente aquilo de que não podemos falar consentisse
em se calar. O ponto é que ele nisso não consente. O inconsciente é
justamente isso. Ora, do que não se cala, como consentir em não falar,
por mais impossívelque seja a tentativa? E trata-se de consentir,
quando o silêncio é impossível ao sujeito?
Impossível falar, impossível não falar. Daí as estratégias do en
tre-dois, de semidizer, do não-todo. O aforismo: " a verdade não se
diz toda" não significa que a verdade não se diga - ela se diz, mas
não toda. E sendo dita, mesmo que não toda, não deve ser mostrada.
Não existem quadros de verdade. A dicotomia de Wittgenstein é bar
rada pela lógica do parcial, do incompleto, do entre-dois, do heterQs:
dizer é juntar o que é radicalmente estranho a si mesmo.
Já no programa do primeiro classicismo, o significante emergia
no entrechoque do velar e do desvelar. Dentre os repetidos comentários
que Lacan propôs do fragmento 1 8 de Heráclito: " oute legei oute
kruptei, alia semainei" , consideraremos este: " o deus de Delfos fabrica
significante" . Como se o significante, e só ele, permitisse ultrapassar
as Colunas de Hércules, entre dizer e não dizer. Durante o segundo
classicismo, a ética do bem-dizer se apresenta como simétrica inversa
da última tese do Tractatus: " Wovon man nicht sprechen kann, darüber
muss man schweigen" , 'Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se
guardar silêncio' (trad. Granger). Que existam x tais de que não se
possa (konnen) falar, que seja preciso (müssen) calar, seja; entretanto,
138 A obra clara
suponhamos que cheguemos ao dever (sollen), então o dever é de
bem-dizer.7 Ora, bem-dizer corresponde a conjugar o que não pode
ser conjugado.
Essa heterologia percorre a obra. Em sua primeira forma, a dou
trina do nó não passa de uma versão entre outras. Encontramos, a
respeito do materna, a referência à orthe doxa platônica, ao cross-cap,
às escritas russellianas e anti-russellianas. Trata-se aí de dispositivos
radicalmente antiwittgensteinianos. Em sentido estrito, eles se situam
de um :l�do e de outro de uma fronteira, tida por real e intransponível ;
é o que Wittgenstein sempre deixou de lado: " para traçar uma fronteira
ao ato de pensar, deveríamos poder pensar os dois lados dessa fronteira
(deveríamos, portanto, poder pensar o que não se deixa pensar)" (Trac
tatus, Introdução). Mas, afinal, o que é o inconsciente, a não ser
precisamente uma fronteira ao ato de pensar, da qual a psicanálise, a
partir de Freud, se propõe pensar a um só tempo os dois lados? No
mais íntimo do objeto freudiano, reside esse batimento real do qual
o semidizer lacaniano é o mais fiel correspondente. A Spaltung que
fende novamente o sujeito como pensante e se denomina inconsciente,
a heterologia que cinde e recostura os ditos, é preciso reputá-las so
lidárias, se a psicanálise for verdadeira. Renunciar a uma é renunciar
à outra. Monstração por monstração, o nó entravou o semidizer en
quanto meio do bem-dizer, mas os entraves do semidizer e a inaces
sibilidade do bem-dizer são uma abolição do inconsciente. Se não
apenas o silêncio é requerido, mas também possível ( 'deves te calar,
logo o podes ') , é que a verdade não fala e que o inconsciente não
existe. Não há coisa freudiana. Se Wittgenstein prevalecer, se o nó
prevalecer sobre o escrito, Lacan não é o único destruído.
Poderíamos acreditar que, em suma, a dupla renúncia, a abolição
e o silêncio estabeleceram seu império. O Wittgenstein do Tractatus
seria, portanto, o Mestre absoluto? Os quadros que mostra fariam dele
o Signorelli do pensamento? Ou, para além dele, Górgias, contra Só
crates, teria triunfado ("nada é; aliás, se for, é incognoscível; aliás,
se for e se for cognoscível não é mostrável aos outros" )? Ou o Wit
tgenstein de Kripke, que talvez invalide o Cogito e que talvez seja
uma lenda? Ou o ceticismo antigo, que talvez também seja uma?8
Entretanto, não concluirei isso. Concluirei somente que há um pere
cimento do segundo classicismo. Como o primeiro, ele também, havia
perecido. Para esse acontecimento, há uma causa de doutrina: a emer
gência do nó. Por um efeito quase maquinal, essa emergência desamarra
A desconstrução 139
a instância da letra; esta, flutuando como um barco embriagado, pro
lifera indefinidamente - sob a égide de Joyce. O programa, então,
está claro; após o fim do segundo classicismo, um único problema
permanece: que relações mantêm (incompatibilidade ou não, equiva
lência ou não) o " está mostrado" e o " está escrito" ?
A solução não foi desenvolvida; ainda que aflore em alguns
Scfipta (Lituraterre, por exemplo), o próprio problema está aqui ar
ticulado apenas por um leitor, um entre outros. Ao abandono do se
gundo classicismo, não foi portanto dado fim. O ponteiro parou entre
duas posições. Isso significa apenas que a obra de Lacan está inacabada.
Comparável, eu disse, às grandes obras materialistas. O De natura
rerum se encerra com a peste de Atenas; ninguém sabe como Lucrécio
tê-lo-ia continuado; ninguém sabe se perdemos o que ele escreveu,
ou se decidiu se calar, ou se a morte a isso o forçou, ou a loucura.
Pode-se por isso dizer que a verdade de Vênus seja a morte de todos
e a purulência de cada uni?
Do que poderia acarretar o segundo classicismo, ninguém pode
estar seguro. Mas podemos assegurar que o segundo classicismo estava
consumado e que não era a última palavra.
NOTAS
l . Naturalmente, os problemas históricos são, sob outra forma, mais complicados.
Lembremos, particularmente, que a Descartes repugnava usar o conceito de infinito
para o Universo.
2. Observemos que a emergência do termo paterna, no seminário R, S, I, dois anos
após Mais, ainda e L'étourdit (cf. em Ornicar?, 5, inverno 75176, p. 17-28, a transcrição
da sessao de 1 1 de março de 1975, sob o título "O paterna do falo"). Não é necessário
ser um grande advogado para entender aí o foraclufdo não afetando o materna, como
ele afeta o operador do todo na doutrina da sexuação (sem prejuízo de outras conexões:
com o pathein, por exemplo).
3. A palavra de ordem tinha aparecido em 68. Segundo um dos autores (comunicação
pessoal), ela era naquela data prematura, mas também premonitória. Cinco anos depois,
tinha se tornado verdadeira.
4. Muito reveladores, os desenvolvimentos da sessão de 1 9 de abril de 1977, intitulada
"Vers un signifiant nouveau", Ornicar?, 17/18, primavera 1979, p.l5-6; baseando-se
nos trabalhos de F. Cheng tocantes à poesia chinesa escrita e renovando sua homenagem
a Jakobson, Lacan dirige-se aos psicanalistas: "Ser eventualmente inspirado por algo
da ordem da poesia para intervir como psicanalista? É, de fato, aquilo para o que vocês
devem se voltar [ . . . ]. Não é para o lado da lógica articulada - embora eventualmente
140 A obra clara
eu a ela recorra - que se deve sentir o alcance de nosso dizer ... " Difícil não ler,
naquilo que é dito da lógica, um repúdio do materna.
5. Sobre a relação de Lacan com Wittgenstein, cf. E. Roudinesco, Histoire de la
psyclumalyse en France, 2, Paris, Seuil, 1986, p.563-5; Jacques Lacan, Paris, Fayard,
1993, p.469-470.
6. Vale a pena citar a palavra de Fontenelle por inteiro: "Eu teria a mão tão cheia de
verdades que não a abriria para o povo." Esta é, pelo menos, a versão dada por O.
Guerlac, Les citations françaises, Paris, A. Co !in, 1954. Pode-se ali reconhecer a doutrina
política clássica dos letrados, à qual os modernos, enquanto tais, renunciaram desde o
Iluminismo e a Revolução (cf. Leo Strauss). Vê-se que Lacan depurou a citação e a
despolitizou; é que ele é moderno (em virtude, principalmente, do doutrinai de ciência).
Ele pode hesitar entre abrir e fechar a mão; mas não será, em todo caso, para pôr de
lado o povo. No máximo, os canalhas (Télévision, p.67): não é a mesma coisa.
7. Lembremos que a ética do Bem-dizer é proposta por Lacan em resposta à questão
kantiana "Que devo fazer?" (Was sol/ ich tun?), Télévision, p.65. Em Wittgenstein, o
sollen deriva do que não pode ser dito, logo não o dizemos, mostramo-lo (Tractatus,
6. 421 ). Em Lacan, o sollen deriva do que não pode ser dito por inteiro; logo devemos
bem-dizê-lo.
8. A interpretação cética queKripke dá de Wittgenstein foi rejeitada por autores com
petentes. A interpretação do ceticismo antigo, que Brochard, principalmente, tornou
clássica, foi contestada com argumentos sólidos por J.-P. Dumont. Pouco importa aqui.
Há uma figura do ceticismo em Lacan: "é a confirmação dessa posição subjetiva -
nada se pode saber" , S., XI, p.203. Ele a considera a um só tempo heróica e irrepre
sentável aos modernos. Em virtude, sobretudo, de Descartes e do Cogito. Mas que
resta do Cogito nos tempos do nó e de alíngua?
Este livro foi composto pela TopTex
tos Edições Gráficas Ltda., em Times
New Roman, e impresso por Tavares
e Tristão Ltda., em fevereiro de 1 996.