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A OBRA ClARA 
Lacan, a ciência, a filosofia 
J ean-Claude Milner 
qJCl /JI"Inc • "a"'t IPio P ., o ' I Ort. . llális a lfoca - anto, não me decidi 
ano e. Porém Çao de ciência da psica­
U Passad 1 Pode-se observar que 
111 Certo 
0 tomei como tio condutor 
considero momento do sujeito que 
Ciência· um correlato essencial da 
def . · um momento historicamente lnldo do qual talvez devamos sa· ber se é estritamente repetível na ex· 
periência, aquele inaugurado por Oes· 
cartes e que se chama o cogito. Este 
f o não nos guiou em vão, uma vez 
' 
05 \e"ou a tormu\ar nossa divi· que n t\men\ada do su\ei\o, como 
são. e�Pe \te o sa\let e a "etdade ... 
0�,sao et\ 
\ . ..... ,c\a e a "e�dade·) 
·�c,e•· 
�J. 
\..aca"· 
Jorge Zahar Editor 1\ 143'\ 
v 
Transmissão 
da Psicanálise 
A OBRA CLARA 
Lacan, a ciência, a filosofia 
"Lacan é, como ele próprio diz, um autor cris­
talino. Basta lê-lo com atenção." É partindo 
desse inusitado pressuposto que Jean-Claude 
Milner se propõe estudar as relações entre o 
pensamento de Lacan, a ciência e a filosofia. 
Seu pivô teórico é a teoria lacaniana, que sou­
be preservar e elaborar os pontos de choque e 
de atração entre esses diferentes discursos. O 
resultado é um livro magistral, cuja impor­
tância vem sendo cada vez mais sublinhada 
desde seu lançamento na França. 
Freud jamais negou seu aval ao "ideal da ciên­
cia", e almejava inscrever a psicanálise no qua­
dro já existente das outras disciplinas cientí­
ficas. Lacan, em contrapartida, ao contestar a 
ciência "ideal" como modelo para a psicaná­
lise, pretendeu detectar na própria psicanálise 
os fundamentos epistemológicos de seus prin­
cípios e métodos. A formulação viu-se assim 
invertida, a psicanálise tomando-se capaz de 
questionar a ciência. Em 1965, Lacan já in­
quiria: "O que será uma ciência que inclua a 
psicanálise?" 
Contudo, considerando a ciência essencial para 
a existência da psicanálise, Lacan vai requerer 
precisamente uma teoria à qual o Eu se mostra 
refratário: a da ciência moderna com sua litera­
lidade - a ciência e a letra são indiferen.tes 
às boas formas, ao passo que o Eu e o imagi­
nário são gestaltistas . . . 
Milner estabelece três diferentes períodos na 
obra de Lacan, a qual considera ter perinane­
cido inacabada: o primeiro classicismo, o se­
gundo classicismo e a desconstrução. 
Representado sobretudo pelos Escritos, o pri­
meiro classicismo consiste no desenvolvimento 
progressivo e quase sistemático do programa 
articulado no Discurso de Roma, de 1953, e T@íbhoteta jf reullíana 
se instaura através da ênfase na linguagem e 
na estrutura: o que se produz nesse período, 
com as doutrinas do significante e da homo­
fonia, é uma antilingüística. 
O segundo classicismo, cujos principais repre­
sentantes são o Seminário 20 (Mais, ainda) e 
os textos L'étourdit e Radiophonie, começa 
em 1970 e abrange o desenvolvimento dos ma­
temas: o que se produz aí, com a teoria dos 
discursos, é uma antipolítica e uma antifi­
losofia. 
A desconstrução é o período da emergência 
do nó borromeano: o que se produz então, pe­
lo desvio da letra, é uma antimatemática, e o 
interesse de Lacan pelos nós se dá na exata 
medida em que resistem a uma matematização 
integral, à diferença dos outros objetos topo­
lógicos (banda de Moebius, cross-cap). 
Como diz o autor, seu projeto é "constatar cla­
ramente que existe pensamento em Lacan. Pen­
samento, isto é, algo cuja existência impõe-se 
a quem não o pensou". 
JEAN-CLAUDE MILNER, nascido em 1941, é 
professor de lingüística na Universidade de Pa­
ris vn. Foi discípulo de Althusser e Barthes, 
tendo aderido à Escola Freudiana de Paris em 
1964, sob a liderança de Jacques Lacan, e inte­
grado o conselho de redação do periódico 
Cahiers pour l'Analyse. Seus trabalhos tratam 
sobretudo de efetuar uma leitura da lingüística 
a partir da teoria lacaniana. É autor de vários 
livros, entre os quais L'amour de la Zangue 
(1978), Ordres et raisons de la Zangue (1982), 
Les noms indistincts (1983 ), De L' é cole 
(1984), Archéologie d'un échec (1993). 
Jean-Claude Milner 
A OBRA CLARA 
Lacan, a ciência, a filosofia 
Tradução: 
PROCÓPIO ABREU 
Revisão técnica: 
MARCO ANTONIO COUTINHO 
psicanalista 
. Jorge Zahar Editor 
Rio de Janeiro 
T@íbhoteta jf reullíana 
Título original: 
L 'reuvre claire 
( Lacan, la science, la philosophie) 
Tradução autorizada da primeira edição francesa 
publicada em 1995 por Éditions du Seui1, 
de Paris, França, na coleção "L'ordre philosophique" 
Copyright © 1995, Éditions du Seuil 
Copyright © 1996 da edição brasileira: 
Jorge Zahar Editor Ltda. 
rua México 31 sobreloja 
20031-144 Rio de Janeiro, RJ 
te!.: (021) 240-0226 I fax: (021) 262-5123 
Todos os direitos reservados. 
A reprodução não-autorizada desta publicação, no todo 
ou em parte, constitui violação do copyright. (Lei 5.988) 
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte 
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. 
Milner, Jean-Claude 
M598o A obra clara: Lacan, a c1encia, a filosofia I 
iean-Claude Milner; tradução, Procópio Abreu; 
revisão técnica, Marco Antonio Coutinho. -Rio de 
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996 
-(Transmissão da psicanálise) 
Tradução de: L'ceuvre claire: (Lacan, la science, 
la philosophie) 
ISBN 85-7110-347-X 
I. Lacan, Jacques, 1901-1981. 2. Psicanálise. I. 
Título. 11. Série. 
W! 01411 
CDD- 150.195 
CDU - 159.964.2 
Sumário 
Introdução 7 
CAPÍTULO I. Considerações sobre uma obra 11 
CAPÍTULO 11. O doutrinai de ciência 28 
1. A equação dos sujeitos e a ciência 28 
2. A teoria do moderno 31 
3. A estilística historicista 36 
4. A episteme antiga 38 
5. Que o historicismo não é necessário 44 
6. Literalidade e contingência 50 
CAPÍTULO III. O primeiro classicismo lacaniano 63 
1. A linguagem do corte 63 
2. O paradigma da estrutura 74 
3. O sério da estrutura 82 
4. Rumo a uma leitura transcendental 87 
CAPÍTULO IV. O segundo classicismo lacaniano 95 
1. As instabilidades do primeiro classicismo 95 
2. O materna 99 
2.1. A função e a forma do materna 100 
2.2. A letra 104 
3. A matemática 107 
4. A visibilidade do literal 114 
5. A antifilosofia 118 
CAPÍTULO V. A desconstrução 129 
Introdução 
Não me proponho esclarecer o pensamento de Lacan. Não tenho nem 
autoridade nem qualificação para isso. Ademais, o projeto de tal elu­
cidação não parece especialmente urgente. Lacan é, como ele mesmo 
diz, um autor cristalino. Basta lê-lo com atenção. Acho, é claro, que 
tais leituras devem ser guiadas, mas para isso existem instituições 
sérias e obras excelentes. Na verdade, a bibliografia lacaniana distin­
gue-se pela quantidade e pela qualidade de seus títulos. Considerando 
as necessidades presentes, os comentários de que hoje dispomos são 
desde já perfeitos. Mas com uma ressalva: os melhores não são nem 
os mais acessíveis, nem os mais bem conhecidos. 
É verdade que um Lacan segundo a ordem das razões não existe. 
Dois séculos foram necessários para que o pensamento de Descartes 
fosse exposto de acordo com os princípios que ele próprio formulara. 
Kant requer a cada período releituras atentas; por mais rígida a forma 
escolástica que lhe havia legado Wolf, ela não o preservou de desvios. 
Podemos portanto supor que um dia, em breve talvez, será preciso 
retornar a Lacan, como o próprio Lacan teve de retornar a Freud. O 
erro de leitura é aqui previsível e provavelmente necessário; ele faz 
parte da gravidade dos destinos. Deve-se ainda dar-lhe tempo para 
que se desdobre. Na França, em todo caso, o tempo não foi suficiente 
(não direi o mesmo das Américas, mas não escrevo com elas em 
mente). 
Não é portanto oportuno fazer acerca de Lacan uma apresentação 
que o apreenda em sua lógica interna- seja esta, de fato, consistente 
ou não - e o exponha de maneira tão completa que eventuais 
contra-sensos sejam corrigidos. Meu intuito é bem distinto: não se 
trata de esclarecer o pensamento de Lacan, nem de retificar o que 
7 
8 A obra clara 
dele disseram, mas de deixarclaro que existe pensamento em Lacan. 
Pensamento, isto é, algo cuja existência se impõe a quem não o pen­
sou. 
Os servidores da exatidão e da clareza supõem essa existência 
como dada. Eles têm razão. Supõem também que o melhor método 
para eles é o de esclarecer Lacan por Lacan; mais uma vez, eles têm 
razão. Sejam quais forem as obras, as mais irrepreensíveis elucidações 
obedecem a esse princípio. Mas quando não se supõe a existência 
dada, é preciso proceder de outro modo. 
O único suporte que assegura a veracidade da existência de um 
pensamento são as proposições. Dizer que existe pensamento em Lacan 
corresponde portanto a dizer que nele existem proposições. Mas nada 
existe, se não tiver propriedades. E nada tem propriedades, se estas 
não forem, ao menos parcialmente, independentes do meio. É preciso 
portanto estabelecer que existem em Lacan proposições suficiente­
mente robustas para serem extraídas de seu próprio campo, para su­
portarem mudanças de posição e modificações do espaço discursivo. 
Mas tampouco é necessário ser exaustivo; basta que algumas proprie­
dades desse tipo sejam reconhecidas para algumas proposições. Assim 
caracterizado, o programa se define em exterioridade e em incomple­
tude. 
Tenciono reconstituir apenas certas articulações; além disso, pre­
tendo não reinseri-las num dispositivo global, que pretenderia tornar 
visível a construção geral da obra (veremos em que sentido o termo 
"obra" pode ser aqui entendido). Serei, por exemplo, levado a dar 
certa importância à questão da ciência. Sabemos que Lacan a abordou 
com alguma insistência; entretanto, não é verdade que a partir dela 
possamos deduzir, em detalhe, o conjunto dos conceitos fundamentais 
da psicanálise. Ademais, Lacan, nessa questão, não cessa de não se 
autorizar por si mesmo. Como se a questão da ciência fosse decisiva 
- a ponto de ser preciso a ela voltar de forma repetitiva- e como 
se, no entanto, ela fosse suficientemente estranha ao essencial para 
que um garante exterior - Koyré, especialmente - bastasse. Com­
parativamente, o paradigma da lingüística estrutural ganhou a impor­
tância que conhecemos, e, no entanto, em nenhum momento conse­
guimos nos persuadir de que Lacan tenha praticado os trabalhos pró­
prios a essa disciplina: como se sua pura e simples existência bastasse, 
esmalte exterior vedando e protegendo os espaços a serem conquis­
tados. 
Introdução 9 
Ora, eu sustento que existe um bom uso da exterioridade. O 
próprio Lacan colocou-a em prática; é legítimo pô-la em prática em 
relação a ele. 
A doutrina lacaniana da ciência é derivada de Koyré, mas ela 
submete Koyré a fins que lhe são alheios. Por conseguinte, ela ma­
nifesta propriedades da doutrina de Koyré, por vezes mantidas em 
estado latente nos textos de referência. Da mesma forma, Lacan revela 
propriedades da doutrina estrutural, na medida exata em que se mantém 
em relação a ela numa paradoxal posição de inclusão externa. Se, em 
contrapartida, partimos da doutrina da ciência e da estrutura, empe­
nhando-nos em desdobrar em si mesmas as teses discriminantes, a 
exterioridade destas permite violentar o ambiente natural das propo­
sições lacanianas; evidenciamos assim propriedades objetivas e quase 
materiais. 
Para esbarrar nas paredes, não é necessário, dizia Lacan, conhecer 
a planta da casa. Ou melhor: para encontrar as paredes ali onde estão, 
é melhor não conhecer a planta, ou se porventura a conhecemos, é 
melhor não levá-la em conta. Existem duas maneiras de se reconhecer 
a imagem de um objeto. Podemos partir do interior deste objeto e, 
por uma lei ou uma composição de leis, gerar-lhe os contornos. Assim 
faz o geômetra ao traçar um círculo; assim faz o lingüista ao construir 
uma gramática. Podemos também partir dos lados e do exterior; levar 
em conta a presença dos corpos vizinhos; estabelecer como esses 
corpos, por sua disposição lateral, determinam a forma de um espaço 
onde se aloja o objeto. Assim fazem os rios e as cidades, materialmente 
organizados pelos obstáculos que os encerram e os ignoram. Escolhe­
mos aqui a segunda via: descrever alguns relevos exteriores que o 
discurso lacaniano confrontou, contornou e erodiu, não sem deles 
receber uma forma e não sem lhes conferir uma. Podemos chamar 
isso de materialismo discursivo. 
Afinal, é assim que se legitimam as técnicas de leitura tão ca­
racterísticas de Freud ou de Lacan. Deslocar as ênfases, para que 
melhor se ouça o real da matriz rítmica. Romper as ligações visíveis, 
para que fiquem mais visíveis as ligações reais. Dissipar as signifi­
cações, articuladas e completas, para que o sentido emerja, sempre 
lacunar. 
Uma vez mais, a exaustividade não é necessária. Admitindo-se 
a exterioridade do ponto de vista, o materialismo discursivo estará 
satisfeito, e seu programa executado, por pouco que algumas proprie­
dades de algumas proposições tenham sido encontradas. Não nos sur-
10 A obra clara 
preenderemos portanto com que, sobre pontos claramente primordiais 
quanto à lógica doutrinai interna, poucas coisas sejam ditas. Nem o 
desejo, nem o objeto a, nem o falo, nem, de maneira geral, nada que 
legitime a existência de proposições clínicas serão abordados. Mas, 
se alguma coisa faltar, não será uma falha, principalmente se o que 
faltar for indispensável. 
A grandeza de todos os materialismos autênticos reside no fato 
de não serem eles totalizantes. Que o De natura rerum e O capital 
estejam inacabados, isso se deve ao acaso e, justamente por essa razão, 
isso decorreu de uma necessidade sistemática. Sua incomplctude au­
toriza que os tratemos de maneira parcial. Às obras não-totalizantes 
convêm leituras não totalizantes. Se é permitido comparar grandes 
coisas, o Lacan que proponho se revelará confirmado caso se revele 
tão incompleto quanto Lucrécio ou Marx. 
Conseqüência última: nenhum engajamento pessoal deverá ser 
percebido. Nem temor, nem esperança. Nem admiração, nem desdém, 
nem indiferença. Nem memória, nem esquecimento. Não me pareceu 
apropriado ter que dizer o que pessoalmente penso de Lacan ou, graças 
a Lacan, da conjuntura que o inclui e que ele esclarece. Era preciso 
adotar o ponto de vista do curso d'água que faz advir paisagem à 
existência. Isso não significa que necessariamente eu não pense nada 
sobre nada daquilo que falo - já me expus em outras circunstâncias 
-, mas um pensamento pessoal não teria sido aqui nem um pouco 
pertinente. 
Isso supondo que um pensamento pessoal tenha qualquer perti­
nência. Estou, com efeito, cada vez mais convencido de que o pen­
samento é algo sério demais para ser entregue às pessoas, a não ser 
a título excepcional. Lacan é provavelmente uma dessas exceções; há 
outras; por definição, elas valem unicamente por sua raridade. Em 
todo caso, elas dispensam aqueles que falam sobre isso de reivindicar 
a mínima exceção para si mesmos. Se pensamento deve haver no 
curso corrente do mundo, tenho por máxima ética aceitável fazer de 
maneira com que haja o mais possível. O que faz também com que 
sua existência se imponha ao maior número possível de seres pensantes. 
Esta é, para falar a verdade, a única justificativa que podemos propor 
para que um texto qualquer exista, em vez de não existir. Com uma 
condição entretanto: que, salvo exceção, o pensamento seja somente 
o dos objetos. 
CAPÍTULO I 
Considerações sobre uma obra 
O que de hábito chamamos "a obra de Lacan" apresenta-se sob duas 
formas. Temos, por um lado, os textos escritos por Lacan para serem 
publicados; por outro, dispomos dos seminários, transcritos e editados 
por outros que não Lacan - alguns deles sob o controle direto de 
Lacan. Os textos anteriores a outubro de 1966 foram reunidos num 
volume intitulado os Escritos; os mais importantes textos posteriores 
- mas não todos - foram publicados na revista Scilicet. Considero 
que todos os textos escritos para publicação têm um status semelhante, 
seja qual for sua data ou lugar; tomarei a liberdade de chamá-los em 
seu conjunto: os Scripta.Em tomo dos seminários surgiram diversas 
controvérsias; por motivos de fundo, que rápido surgirão, irei ater-me 
à edição em vias de publicação pela Seuil; ela tem por título Le 
Séminaire, cada volume constituindo um livro, identificado por um 
algarismo romano e um título, desse conjunto unitário. 1 
É impossível não se interrogar sobre a relação entre essas duas 
massas de textos. O que êorresponde na verdade a se interrogar sobre 
o que chamamos "a obra de Lacan". Não apenas sobre o que a compõe 
materialmente, mas mais radicalmente sobre o que autoriza que falemos 
de obr� a respeito de Lacan. Agi como se essa questão fosse simples. 
Ora, ela merece um exame atento. 
A noção de obra é moderna. Ao menos se a considerarmos num 
sentido est··ito, como esse princípio de unicidade que permite introduzir 
no múltiplo da cultura2 um desconto e diferenciações. Essa unicidade 
está centrada em tomo de um sistema de nomeações - o nome do 
autor e o título da obra -, subsumindo produções materiais, em 
particular do texto, sob o regime do Um. A questão de saber se há 
um ou vários textos é de resto inteiramente secundária, já que é a 
nomeação que os constitui em Um: em outras palavras, a obra não é 
11 
12 A obra clara 
necessariamente um livro, nem mesmo necessariamente um livro. A 
obra não é uma matéria. é uma forma e é uma forma que organiza a 
cultura. 
Um marxista conseqüente sustentaria que ela é, na ordem do 
pensamento, o equivalente do que é a forma mercadoria na ordem 
das coisas. Do mesmo modo que a riqueza das sociedades nas quais 
reina o modo de produção capitalista se anuncia como um imenso 
acúmulo de mercadorias Gá se terá aí reconhecido a primeira frase 
do primeiro livro do Capital), a cultura. para os modernos, anuncia-se 
como um imenso acúmulo de obras; cada uma delas vale por um, 
mediante a garantia que confere a essa unicidade a associação de um 
autor (geralmente nomeado, mas o anonimato é uma variante admis­
sível) e de um título (geralmente dado pelo autor, mas nem sempre); 
na ordem dos escritos, essa associação é estabilizada pela publicação, 
a qual manifesta a homologia da obra e da mercadoria: do mesmo 
modo que não existe mercadoria senão proposta para troca, só existe 
obra, num sentido estrito, publicada. 
Nem sempre foi assim. Nos tempos modernos, porém, o dispo­
sitivo que acaba de ser descrito prevalece e inclusive se amplia, mutatis 
mutandis, a todos os domínios da cultura; as diversas artes estão 
doravante submetidas à forma de obra, cada uma determinando o que 
para ela funciona como equivalente da publicação (representação tea­
tral, exposição, programa de televisão, censura etc.). É possível fur­
tar-se a esse dispositivo, mas há um preço a ser pago: renunciar a se 
inscrever na cultura. Podemos então falar de loucura - assim se deve 
entender a definição de Foucault: a loucura como ausência de obra. 
O que consiste em definir ao mesmo tempo a loucura como limite . 
externo da cultura. Isso não significa, evidentemente, que a cultura 
não tenha força para reabsorver as produções da loucura; basta-lhe, 
pára isso, reinscrevê-las na forma de obra, mas, no mesmo instante, 
o nome loucura terá deixado de ser pertinente. Os exemplos, sabemos, 
são numerosos e o rótulo da arte bruta não foi inventado para outros 
fins. 
Entretanto, não é só a loucura que está em causa, com seu cortejo de 
sofrimentos e dramas. Ao contrário do que poderíamos imaginar, pá­
ginas e mais páginas dos escritos modernos multiplicam-se serena­
mente fora da forma da obra. Globalmente, os escritos derivam da 
ciência e de seu paredro, a técnica. É nesse sentido, com efeito, que 
devemos entender a crença recorrente segundo a qual nem a ciência 
Introdução 13 
nem a técnica pertencem à cultura. Longe de querer denunciar com 
isso um preconceito de ignorantes ou de humanistas (o que nem sempre 
foi a mesma coisa). é preciso discernir aí uma relação estrutural: a 
exclusão mútua de dois sistemas que se definem por essa mesma ex­
c1usão. Uma conseqüência: o que atua na ciência não se inscreve na · 
forma de obra; esta forma, é verdade, ocorre vez por outra, mas no 
tempo ulterior, quando cessou a eficácia de ciência. Einstein consti­
tui-se em obra somente no instante em que a ciência considera que, 
tendo-o absorvido. ela se sente no direito de esquecê-lo. Somente 
então, a cultura, como fora-da-ciência, vem substituir a amnésia sis­
temática da ciência em progresso, como fora-da-cultura. 3 
Basta portanto que um moderno se veja convocado a um só 
tempo pela ciência e pela cultura para que a questão da obra se lhe 
apresente e exija uma decisão. Entre ambas, a escolha foi por vezes 
cruciaL Este foi o desafio proposto aos alunos de Saussure. Sabemos 
que eles tomaram o partido da obra. sustentando que a mera compilação 
dos trabalhos científicos não bastaria para salvar um nome próprio ao 
qual se apegavam. Daí nasceu este .. todo orgânico" chamado Cours 
de linguistique générale, sem que se saiba se este título fora concebido 
como singular ou plural ... O sucesso dos editores deve-se justamente 
ao fato de que o singular se impôs a todos (dizemos o Curso); a partir 
daí, existe de fato uma obra de Saussure, constituída pela associaçãó 
de um nome de autor e de um texto, entendido como unitário; a partir 
daí, Saussure ingressa nas fileiras da cultura. 4 
Freud, por sua vez, teve que fazer a escolha por si mesmo. Po­
demos inclusive lhe atribuir uma estratégia; tudo se passa como se 
tivesse preferido o desvio pela forma de obra para estabelecer o que 
a publicação propriamente científica não lhe permitia. A esse respeito, 
o sonho da monografia botânica (L'interprétation des rêves, Paris, 
PUF, 1967, cap. v, p.l53s.) merece ser lembrado. "Escrevi a monografia 
de uma certa planta. O livro está diante de mim, viro precisamente 
uma página etc." As associações giram em tomo de um fracasso: "fiz 
de fato, outrora, algo como a monografia de uma planta; era um 
trabalho sobre a coca, que chamou a atenção de K. Koller para as 
propriedades anestésicas da cocaína. Eu mesmo havia indicado esse 
uso, mas não havia aprofundado a questão ... " (ibid.). Advém daí a 
• A palavra cours, não precedida de artigo definido, tanto pode ser singular como 
pluraL (N.T.) 
14 A obra clara 
glória e o sucesso de Koller, como demonstra o volume comemorativo 
que Freud acabava de receber naquela mesma manhã. Freud pensa 
então com melancolia em seu próprio livro (a própria Traumdeutung) 
que ele tarda em concluir: " se pudesse [ . . . ] vê-lo acabado diante de 
mim" (p. l 55). Evoca enfim sua paixão juvenil pelos livros: " eu queria 
colecioná-los, ter muitos . . . " (p. l 55) . 
Interpretação: a monografia e o livro estão em conjunção-disjun­
ção; o sonho soletra a renúncia à monografia, isto é, à ciência normal, 
na qual existem jubileus e laboratórios, e a preferência dada ao livro, 
ou seja, à forma de obra e à cultura; a Traumdeutung, como livro, irá 
testemunhá-lo. De fato, monografia e livro derivam do mesmo para­
digma - é por isso que a primeira pode " representar" o segundo -, 
mas, ao derivar do mesmo paradigma, opõem-se mutuamente, como 
fariam dois fonemas. Esta oposição repete a da ciência à cultura, a 
respeito da obra. Freud decerto partira à conquista da ciência biomédica 
(jlectere Superos); com este objetivo, empunhou a arma da monografia; 
mas rejeitaram-no, ou, pelo menos, negligenciaram-no. Ele teve que 
substituir sua estratégia inicial pela do livro, mas o livro aqui é apenas 
o testemunho empírico da forma de obra, inscrita no campo fúnebre 
da cultura (Acheronta movebo ). 
Conhecemos a seqüência: a cultura foi suficientemente forte para 
se impor à ciência e à técnica médicas. A forma de obra vencera a 
monografia. 
Não sem pagar um alto preço: foi " bando selvagem" ao qual 
Freud teve que se acomodar, ele que sonhava com o laboratório, com 
a honesta colaboração científica, com alunos fiéis e jubileus. Sabemos 
também que Freud se esforçou de todas as maneirasem conformar a 
psicanálise à ciência normal ; a conquista do universo moderno exigia 
esse tributo. Para essa estratégia, a Internacional foi o meio escolhido. 
Que ela fosse uma figura adequada da ciência normal, podemos 
decerto duvidar; sob muitos aspectos, a ciência normal distingue-se 
justamente por ser robusta o bastante para não precisar criar tais 
instituições; a nitidez dos paradigmas, em conjunto com a rede herdada 
das universidades medievais e, por que não dizer, da Igreja, eis o que 
basta para tudo determinar. Mais que na ciência, a bem da verdade, 
é nos jogos do estádio - os cinco anéis olímpicos - e em suas 
imperiosas federações que faz pensar a IPA dos sete anéis.5 Entretanto, 
podemos garantir o seguinte: por mais exorbitante que fosse aos olhos 
dos bons costumes da ciência normal, a Internacional - segundo 
Freud, pelo menos - devia tomar o lugar de tais costumes. Seu 
Introdução 15 
protocolo pode ser assim resumido: tanto na psicanálise quanto na 
ciência, não haverá obra, à exceção de Freud; haverá apenas mono­
grafias. 
Lacan, também, teve que escolher. Ao final da Segunda Guerra, 
a Internacional triunfara; a psicanálise se inscrevera no universo or­
ganizacional da ciência normal e, como toda ciência digna desse nome 
no universo moderno, ela segregara sua própria técnica. Seria preciso, 
a partir disso, resignar-se unicamente à monografia? Sabemos que, 
mais experiente e mais genuinamente modesto que muitos outros, 
Lacan hesitou. Em favor do silêncio, por vezes: " entreguei-me, após 
Fontenelle" , escreveu ele em 1 946, " a essa fantasia de ter a mão 
cheia de verdades para mais bem fechá-la sobre elas" (Propos sur la 
causalité psychique, É., p. l 5 1 ). Em favor também da revista erudita; 
esta foi durante muito tempo seu modelo - La Psychanalyse asse­
melha-se, com as devidas ressalvas, ao majestoso e breve empreen­
dimento das Recherches Philosophiques, a que Lacan esteve associado 
durante a década de 30. Ora, esse modelo epõe-se diametralmente ao 
da obra: qualquer revista digna desse nome deriva da forma mono­
grafia. 
Ora, os Escritos são publicados no horizonte da obra. Lacan 
havia portanto escolhido. Ao mesmo tempo, afirmava que ao menos 
haveria uma obra a mais na psicanálise. O gesto era tanto mais sur­
preendente na medida em que ia contra um movimento próprio de 
Lacan. 
Lacan desenvolveu o tema da poubellication*, o qual encerra 
uma doutrina da obra: sustentar que a publicação deriva da lixeira é 
sustentar que o publicado deriva do dejeto; como só existe obra pu­
blicada, pode-se concluir que toda obra, como tal, deriva do dejeto. 
Reconhecemos aí uma teoria da civilização; ela é oriunda de Bataille: 
pertencer à civilização, por oposição ao bárbaro que a recusa ou ao 
louco que dela se isenta, é saber tratar o lixo e o excremento. A 
cultura, como elemento da civilização, a obra como elemento da cul­
tura, a publicação como dimensão da obra, o papel como suporte 
eleito pelo publicado e pelas fezes deixam-se decifrar sob essa luz. 
Que o dejeto seja a mesma coisa que o clarão próprio para capturar 
o desejo é certamente decisivo (teoremas do objeto pequeno a), mas 
aqui não importa. 
• Amálgama de poubelle (" lixeira") e publication ("publicação"). (N.R.T.) 
16 A obra clara 
Ora, assim sendo, Lacan consentiu em publicar; vale dizer que 
consentiu na obra; vale dizer que consentiu na lixeira. Era preciso 
que seus motivos fossem graves. 
Só as exclusões de 1963 foram motivo suficientemente grave. 
Uma vez mais, a ciência normal havia fechado suas portas, ainda que 
sob os traços de imitadores inconfessos; uma vez mais, era preciso 
recorrer à cultura para romper os lacres; uma vez mais, Orfeu teve 
de cantar para atravessar o Aqueronte. A resposta vem com os Escritos 
de 1 966, isto é, o livro, no que ele tem de mais clássico. 
Como Freud antes dele, Lacan precisava da cultura para se fazer 
ouvir. Mais nitidamente que Freud, sabia que isso correspondia a 
escolher a via do fúnebre e do dejeto. Não apenas a pedra tumular 
que cada livro apresenta, com sua capa trazendo, como um epitáfio, 
o nome de um indivíduo, seus títulos (o do texto assume o lugar de 
todos os outros), uma data, um lugar; não apenas o cadáver de papel 
(caro data vermibu), mas o que não tem nome em língua nenhuma: 
o livro enquanto critério de esquecimento (poublier*, diz também La­
can). Mais abertamente ainda que no caso de Freud, a escolha fora 
imposta pela decisão explícita de uma Autoridade. 6 
Contra a Internacional, Lacan teve sucesso. Podemos afirmar que 
existe, na psicanálise, pelo menos uma obra exterior à de Freud: a de 
Lacan. Eis o que marca a verdadeira vitória de Lacan e a verdadeira 
derrota da Internacional. Nada tenho a pronunciar sobre a questão 
empírica de saber se haverá outras obras. Nada tenho a pronunciar 
sobre a questão teórica de saber se uma obra pode deixar de sê-lo. 
Resta somente estabelecer o que, em Lacan, constitui obra. 
Será o conjunto das publicações, Scripta e Seminário, tomado em sua 
dupla integralidade? Será o conjunto único dos Scripta, até mesmo o 
volume único dos Escritos? Será, ao contrário, apenas a série dos 
seminários? Por baixo de certas controvérsias subalternas que se ma­
nifestaram, podemos assim reconstituir uma questão real. 
Durante muito tempo acreditei que O Seminário de Lacan fosse 
uma obra, que fosse, a bem da verdade, a única verdadeira obra de 
Lacan. Eu aprovava portanto o título geral que seu editor havia lhe 
dado - substantivo singular e artigo definido; aprovava que as divisões 
fossem apresentadas como " livros" numerados e intitulados; que as 
• Amálgama de poubelle ("lixeira") e oublier ("esquecer"). (N.R.T.) 
Introdução 17 
subdivisões desses livros não fossem apresentadas como " sessões" 
· ou " aulas" , mas como capítulos, eles próprios numerados e dotados 
de um título; que esses capítulos fossem, por sua vez, subdivididos 
em partes, elas também numeradas; aprovava o projeto de publicarem 
o texto dessa obra segundo as regras mais testadas da filologia eras­
miana (exaustividade, precisão, exatidão), pois a filologia é indisso­
ciável da emergência da obra: ela confere o status de obra ao que ela 
trata, pelo menos no tempo em que o trata (assim, Erasmo deve inserir 
os Evangelhos na forma de obra, a partir do momento em que os 
submete às regras da filologia; eis o que faz dele um radical ímpio 
aos olhos de Lutero); em contrapartida, a forma de obra requer a 
filologia para assegurar seu domínio sobre qualquer texto (a obra de 
um contemporâneo - Breton, Proust, Attali - estará consumada 
como obra no dia em que tivermos suscitado e resolvido a seu respeito 
os problemas filológicos clássicos - datações, estabelecimento do 
texto, classificação das variantes, levantamento das imitações e em­
préstimos etc. Esta é a função usual da Bibliotheque de La Pléiade). 
Restava o sentimento de uma inadequação. Que obra, no sentido 
estrito e moderno, permanece assim diretamente ligada a um ensino 
falado e a um calendário anual explicitamente fixado? Qual a relação 
entre O Seminário e os Scripta? Se estes últimos, apesar de sua mul­
tiplicidade sem ordem visível, derivavam da obra, podia ser pela mesma 
razão? Se dela em nada derivavam, em que consistiam? 
Os precedentes mais convincentes provinham da Antigüidade. 
Analisados em conjunto, Platão e Aristóteles também haviam produ­
zido ditos e escritos que derivavam de dois princípios diferentes. Do­
cumentos arcaicos, decerto, mas a filologia, tal como se constituiu no 
Renascimento, e a cultura, tal como se constituiu no século XIX, re­
pousam ambas em um anacronismo de princípio: certo ou errado, é 
preciso agir como se a Antigüidade fosse também passível da forma 
de obra. A aproximação estava portanto autorizada. 
Mas pensar em Platão e Aristóteles era de imediato pensar na 
combinação de duas distinções: a distinção entre ensino escrito e 
ensino oral, por um lado; a distinção entre escritos exotéricos e escritos 
esotéricos,de outro. Admitindo-se para tal que a relação entre as duas 
distinções se estabelece da seguinte maneira: o exotérico é escrito, o 
esotérico é oral (eventualmente transcrito). 
Sabemos que a questão do esotérico interessava a Lacan, que 
evoca freqüentemente a famosa lição sobre o Bem, núcleo do que 
uma certa tradição afirma constituir o ensino secreto e não escrito de 
18 A obra clara 
Platão. Da mesma forma, ele demonstrava o mais vivo interesse pela 
questão do Aristóteles perdido,7 cuja tese pode ser assim resumida: a 
maior parte do que Aristóteles escreveu está perdida; esses textos 
adotavam, no mais das vezes, a forma do diálogo e eram considerados 
um milagre da língua grega; eles desenvolviam um ensino exotérico; 
o que lemos sob o nome de Aristóteles não foi escrito por ele e 
constitui a transcrição, por alunos, unicamente do ensino oral e eso­
térico. Daí uma oposição simples entre Platão e Aristóteles: do pri­
meiro, conhecemos toda a obra exotérica escrita e nada da obra eso­
térica (supondo que tenha existido); do segundo, só conhecemos a 
obra esotérica, salvo alguns fragmentos exotéricos retransmitidos pela 
tradição manuscrita. 
A oposição, conhecida de todos, sob certos aspectos anuncia o 
que distingue Freud e Lacan: uma vez que, do primeiro, temos apenas 
escritos, dele nos restaria apenas o exotérico (as Transactions da So­
ciedade de Viena, publicadas tardiamente, não revelam à primeira 
vista nada de muito novo); uma vez que, do segundo, dispomos não 
só de escritos, mas também de um ensino oral, dele teríamos dois 
ensinos: o exotérico dos Escritos, o esotérico do Seminário, cujo peso 
material não cessa de crescer ao longo dos. anos. 
A distinção entre exotérico e esotérico, a bem da verdade, é cristalina. 
De um ponto de vista descritivo, concorda-se em geral quanto ao 
seguinte: o ensino exotérico de Aristóteles dirige-se àqueles que estão 
fora da filosofia (exo) e que (ainda?) não escolheram o modo de vida 
teórico; o ensino esotérico dirige-se àqueles que estão dentro da filo­
sofia (eso) ; eles escolheram este modo de vida próprio e já realizaram 
o percurso supostamente necessário. Quanto ao conceito, não poderia 
portanto haver nada de mais completo, ou de mais preciso, ou de mais 
claro, nos escritos exotéricos do que nas transcrições esotéricas; ao 
contrário, pode haver o mais completo, o mais preciso, o mais claro, 
nas transcrições esotéricas. Se há algo a mais nos escritos exotéricos 
em relação às transcrições esotéricas, isso não poderia derivar do 
conceito, mas de outra coisa, cujo nome conhecemos: a protréptica. 
Isto é, esse procedimento discursivo que tem por função arrancar o 
sujeito da doxa a fim de voltá-lo para a theoria. Aquilo mesmo que 
Aristóteles, no dizer dos Antigos, realizara e levara ao mais alto ponto 
de perfeição (cf. W. Jaeger, Aristotle, Oxford, Clarendon Press, 1967, 
cap. IV). Aquilo também que, no dizer de certos modernos, constitui 
o único móbil dos diálogos de Platão. 
Introdução 19 
Admitindo-se tudo isso, eu sustentava que O Seminário de Lacan 
estava para os Scripta, assim como o texto conservado de Aristóteles 
em relação ao Aristóteles perdido (ou o eventual ensino perdido de 
Platão, em relação ao Platão preservado): ele era esotérico ao passo 
que os Scripta eram exotéricos. A partir daí, concluía que O Seminário 
era indispensável à interpretação dos Scripta e, por conseguinte, à 
plena realização da obra. Como a publicação do Seminário estava 
inacabada, isso queria dizer que a obra também estava; sua interpre­
tação desse modo nada podia pretender de definitivo; nada dos Scripta 
podia esclarecer O Seminário; só O Seminário podia, de direito, es­
clarecer O Seminário e só podíamos utilizar os Scripta para conjecturar 
a parte ainda não publicada do Seminário. 
Nessa questão, eu concordava com o conjunto dos intérpretes. 
Alguns íam mais longe; não temiam dizer que, como escritos, os 
Scripta derivavam de uma instância inferior, em relação ao ensino 
forjado - a famosa Palavra, que desde Sócrates ou Jesus Cristo forja 
os discípulos encerrando um incomparável tesouro. Daí comentários 
indefinidos sobre as marcas do falar, supostamente constitutivas do 
Seminário. De onde se passa com desenvoltura à Presença e à figura 
de um Mestre, de quem se deve fazer a Apologia, comemorar o Pro­
cesso, se não a Paixão, e relatar os gestos ou ditos memoráveis. 
Hoje, após ter lido atentamente e várias vezes o que foi publicado 
do Seminário, afirmo que estava enganado. Os seminários de Lacan 
são exotéricos e não esotéricos; os Scripta é que são esotéricos - no 
sentido em que o corpus aristotélico o é. Os primeiros são tecidos de 
protréptica - alusões, floreios literários ou eruditos, diatribes, des­
construção da doxa; os segundos tendem a disso se livrar. Os primeiros 
buscam capturar o ouvinte (projetado, pela transcrição, em situação 
material de leitor, mas pouco importa) no ponto de imaginário onde 
a conjuntura do momento o colocou; tendo-o capturado, buscam de­
salojá-lo desse lugar natural através de um movimento violento, que 
em Lacan, ao contrário de Platão, toma de preferência a forma da 
diatribe, até mesmo da invectiva: diálogos monológicos e impolidos.8 
Os segundos podem, por certo, comportar a protréptica, mas o que 
eles têm de decisivo é indiferente a isto: o leitor (que tem bem mais 
a fazer do que se projetar em ouvinte fictício) deve decifrar, even­
tualmente nas entrelinhas, uma tese de saber. 
É verdade que os seminários dirigem-se aos analistas e aos ana­
lisandos. Poderíamos portanto supor-lhes essa forma de clausura in­
terna que caracterizava o esotérico das escolas gregas. A questão, 
20 A obra clara 
entretanto, é que Lacan considera que seus ouvintes não conseguiram 
ocupar a posição deles na análise. Que o analista enfim se coloque 
como analista e o analisando como analisando, que cada um entre de 
fato em análise, esta é a finalidade geral de cada seminário particular. 
Ela supõe um movimento bem exatamente análogo ao que, na pro­
tréptica, faz passar do exterior do bios theoretikos (exo) ao interior 
(eso). Nos Scripta, considera-se consumado o movimento. 
Há portanto, em Lacan como em Aristóteles, o esotérico e o 
exotérico; há também o escrito e o falado. Mas, de Lacan a Aristóteles, 
a relação se cruzou e propriamente se inverteu: o esotérico é escrito, 
o exotérico é falado e transcrito. Por conseguinte, deve-se concluir: 
do ponto de vista do pensamento, naga há e jamais nada haverá a 
mais nos seminários do que nos Scripta. Mas sempre pode haver algo 
a mais nos Scripta do que nos seminários. Nada nos seminários pode 
modificar a interpretação dos Scripta, tudo nos Scripta é relevante 
para a interpretação dos seminários. 
Daí uma conseqüência inevitável no que concerne à obra de 
Lacan. Se tal obra existe, ela está por inteiro nos Scripta. Ora, por 
definição, todos os Scripta foram publicados. Em outras palavras, a 
obra existe desde já por inteiro no momento em que escrevo, a despeito 
da publicação dos seminários não ter sido completada. 
O singular gramatical e o artigo definido do título O Seminário 
não devem ser lidos como as marcas da obra. Designam apenas a 
unicidade de uma instituição que se manteve, em locais diversos, ao 
longo dos anos. Se todavia pensarmos nos textos transcritos, o plural 
seria mais apropriado; assim sendo, falarei de preferência dos semi­
nários. Por outro lado, o plural gramatical do nome Scripta leva em 
conta somente a dispersão material dos textos; ele não deve prejulgar 
a existência ou a inexistência da obra, que depende apenas de critérios 
de pensamento. 
Quem não gostaria de poder ler o conjunto dos diálogos de Aris­
tóteles? Da mesmá forma, a publicação dos seminários é de importância 
documental incomparável. Não é entretanto garantido que ela possa 
facilitar o acesso aos Scripta por vias protrépticas; pois a protréptica 
é circunstancial; uma vez passadas as circunstâncias, ela pode se tornar 
opacidade. Foi o queaconteceu com os diálogos de Platão, que se 
tornaram obscuros no que têm de exotérico. Logo, é possível que os 
seminários obscureçam os Scripta (afinal, do mesmo modo que a 
Teodicéia é menos clara que a Monadologia, ou os Prolegômenos 
menos claros que a Crítica da razão pura, ou a Correspondência de 
Introdução 21 
Flaubert menos clara que Um coração singelo, ou os Pastiches menos 
claros que Em busca do tempo perdido). Ninguém contestará que 
justamente aí possa residir uma fonte de interesse apaixonado, mas 
convém não nos enganarmos quanto à natureza das coisas. 
É verdade que a própria divisão entre exotérico e esotérico requer 
ajustes. Ela supõe uma repartição clara entre os textos. Mas esta re­
partição deixa-se reconstituir com menos nitidez do que afirmei. Para 
ser exato, é preciso considerar que a linha divisória percorre os Scripta 
e os próprios seminários. Em cada um dos dois conjuntos, pode-se 
reconhecer a co-presença de proposições que derivam da protréptica 
e de proposições que derivam da doutrina. As primeiras, diversamente 
de Platão e de Aristóteles, não assumem a forma técnica do diálogo;9 
isso se explica com facilidade: a técnica do diálogo perdeu-se sim­
plesmente porque, entre os modernos, toda técnica literária é obsoleta. 
Norden (Die antike Kunstprosa, Leipzig, 1 898, I, p.48) formulara em 
teorema que nenhum escrito antigo é um atechnon; a recíproca é 
verdadeira: todo escrito moderno, ao menos na medida em que é 
moderno, é um atechnon. É isso que faz com que ele seja sempre 
único em seu gênero, onde encontramos a marca do Um insubstituível, 
característica da forma de obra. 
Ora, Lacan é um moderno. Utiliza portanto livremente poderes 
do atechnon e do insubstituível. Semelhante nesse aspecto a André 
Breton, cujo Nadja constitui o horizonte, pouco percebido, mas todavia 
determinante, de todo escrito lacaniano. Logo, quer se trate dos se­
minários ou dos escritos, reina aí o atechnon. Não há resíduo das 
technai escolásticas, legado pela tradição universitária (partes, capí­
tulos, parágrafos considerados distintos das frases) que Lacan não 
tenda a deixar de lado - nem um pouco por ignorância, ou desprezo, 
mas porque elas não seriam pertinentes. A protréptica assume em 
conseqüência, no espaço do parágrafo escrito, a forma atécnica da 
conversa erudita, retomada de Macróbio, por intermédio de La Mothe 
Le Vayer (citado por exemplo em Kant avec Sade, É., p.787). E como 
essa conversa não pode mais assumir a forma do diálogo, resta-lhe a 
forma que não é a do diálogo: o excursus.10 
No espaço da frase, a protréptica negativa não mais dispõe dos 
recursos da provocação e da diatribe para desalojar, através de seu 
movimento violento, a doxa adormecida de seu lugar de repouso. 
Surgem então os procedimentos ditos ordinariamente " gongóricos" . 
Um mínimo de informação basta para perceber que eles nada têm a 
ver com Góngora. Do estrito ponto de vista da história dos estilos, 
22 A obra clara 
trata-se muito mais da escrita artística, mantida viva desde os Goncourt, 
na estufa confinada do mundo hospitalar, graças aos cuidados de mé­
dicos cultos e amantes do belo (Clérambault, Du Boulbon). Salvo que 
Lacan a utilizou com outros fins; o lexema raro, o semantema inusitado, 
a sintaxe afetada devem impedir o leitor de se entregar a seu pendor 
lingüístico, fazê-lo desconfiar das sucessões lineares e das disposições 
simétricas, compeli-lo ao saber que advirá. 
Aos incessantes excursus, às frases complexas que preparam as 
vias do saber, vinculam-se as proposições que derivam da transmis­
sibilidade do saber. Estas são bem diferentes. 1 1 Sua diferença salta 
aos olhos quando Lacan recorre às escritas matemáticas. Mas desde 
antes do materna propriamente dito, a proposição transmissível dei­
xa-se reconhecer - assinalada por sua sintaxe (a mais simples possível) 
e por sua recorrência, É cômodo designá-la pelo nome de logion, um 
termo extraído da filologia dos Evangelhos, mas para fins inteiramente 
leigos. 
Da existência dos logia, concluiremos que Lacan, leitor de Leo 
Strauss, 1 2 não praticava sistematicamente a arte de escrever e não 
exigia as técnicas de leitura que Leo Strauss afirmava ter restituído. 
Essa arte e essas técnicas supõem, com efeito, ( 1 ) que as proposições 
verdadeiramente importantes só raramente aparecem de forma com­
pleta em uma obra (eventualmente nunca); (2) que via de regra as 
proposições muitas vezes repetidas só o são com alguma variação, 
eventualmente ínfima, mas sempre reveladora; (3) que as proposições 
repetidas de forma estritamente idênticas (quando existem) são desig­
nadas por isso mesmo como inessenciais ou fragmentárias; (4) que o 
caráter principal das proposições repetidas (com ou sem variação) é, 
na maioria das vezes, sua superficialidade, sua grosseira inadequação 
quanto aos dados mais evidentes, até mesmo sua incoerência (são 
estes os traços que devem suscitar a atenção e justificar uma leitura 
de " segundo tempo" ); (5) que uma obra assim composta é majorita­
riamente tecida de proposições inessenciais, anódinas e ilógicas (aí 
reside o enigma a ser desvendado); (6) que em geral toda proposição 
de uma obra tal, para ser relacionada ao que é importante, coerente 
e não trivial, deve ser lida como um fragmento a ser completado; o 
método consiste em conectá-la a outras proposições da obra, aparen" 
temente pouco compatíveis, até mesmo contraditórias, com a proposta 
estudada, mas igualmente parciais.I3 
Nada disso é verdadeiro para os logia: eles são a um só tempo 
recorrentes, verídicos, essenciais e suscetíveis de serem interpretados 
Introdução 23 
integralmente por si mesmos. Eles não são nem anódinos, nem incon­
sistentes, nem incompletos. Tampouco são enigmáticos. Se assim pa­
recem a um leitor menos atento, é que sua afirmação está sempre em 
antecipação do pensamento (asserção de certeza antecipada). Não es­
tenogramas de pensamentos estabelecidos, mas antes hologramas de 
pensamentos vindouros, eles são lidos no futuro do presente composto. 
Eles são para si mesmos a fonte de sua própria luz; a transparência 
lhes advém mediante uma incansável recorrência ao idêntico e um 
manejo repetido e quase material - o próprio Lacan engaja-se nesse 
trabalho, daí a recorrência ..,.-, não mediante o estabelecimento de uma 
conexão. Os logia derivam do bem dizer. 
Além disso, é verdade que Lacan praticou o " semi dizer'' (c f. 
infra, p. l 37); o que implica que certas proposições de saber só se 
deixam ler como ressecção do verdadeiro e como fragmentação; o 
que implica também que algumas outras - às vezes são as mesmas 
- misturam teses de saber e procedimentos protrépticos (digressões, 
escrita artística). Nem umas nem outras são portanto logia, e não 
há, na ordem do saber, senão logia em Lacan. Mas o semidizer é 
ele próprio subordinado ao bem dizer, sendo apenas uma via de acesso. 
Ora, o bem dizer (seja por lapso, chiste ou achados de língua), joga-se 
num único lance. Só há logion se houver lance vencedor, mas no 
jogo do logion, só se ganha ou só se perde ao se jogar uma única 
vez. 14 
É verdade que a arte de bem dizer é difícil ; talvez ela só possa 
subsistir a título de um mandamento ético (Télévision, p.65); talvez 
apenas o semi dizer seja prudente. Para que a mesa não seja abandonada, 
é preciso às vezes dividir a aposta, fingir encontrar Leo Strauss que 
crê somente no semidizer e reserva o logion para Deus. Daí partidas 
mais modestas, em que se ganha apenas ao se multiplicarem as ten­
tativas. 
Assim se entrelaçarão as frases de status diverso: contornos pro­
trépticos e proposições de saber. Mas seu enlace, sendo em si mesmo 
atécnico, só pode se consumar de maneira instável ; por isso só pode 
ser lido na forma atenuada da justaposição (digressão, desvio, esca­
pada). Para aquele que tem apego ao saber, o protréptico revela-se 
portanto um tecido conjuntivo, que parasita o fio da transmissibilidade. 
Para aquele que se apega às conversas eruditas, repletas de idéiasgeniais, de indicações luminosas, de erudição douta, de audácias es­
tilísticas, a proposição matematizada revela-se opaca e esquelética. 
24 A obra clara 
Cabe ao leitor dar prova de tato, mesmo conselho de Lacan para o 
analista, e não confundir a natureza das proposições. 
Compreendemos então a verdadeira relação entre os Scripta e 
os seminários: os dois conjuntos contêm proposições de saber e pro­
posições protrépticas, mas, do ponto de vista do saber, nada há nos 
seminários que não esteja nos Scripta; 15 do ponto de vista da protréptica 
e da conversa erudita, pode haver coisas distintas nos Scripta e nos 
seminários; se há algo nos segundos que não se encontra nos primeiros, 
é sempre derivado da conversa erudita, não do saber; mas o inverso 
não é verdadeiro. Em todo caso, aquele que se interessa pelo saber 
tem sempre o direito, mas não o dever, de negligenciar os seminários. 
Nessa disposição geral, a conclusão se impõe: se os Scripta constituem 
a obra, e não os seminários, isso quer dizer que Lacan confiou inte­
gralmente na escrita (e não no transcrito) para transmitir sua doutrina. 
Há um dado que não vale nada: a palavra de Lacan. Rejeitaremos 
portanto, em definitivo, a constelação espiritualizante que nela se an­
corava: Palavra, Presença, Mestre, Discípulos, Rememoração. Na ver­
dade, a doutrina inteira do materna será feita para se opor a tal ence­
nação (cf. infra, cap. 4). O que suscitou o teatro sacramental foi apenas 
a mitificação de um dado bruto: Lacan ensinou oralmente. 
Mas quem não o fez, desde que a Universidade se tornou a 
instituição que acolhe toda doutrina? É verdade que Lacan falou como 
poucos de seus contemporâneos - mas poderíamos dizer o mesmo 
de alguns outros. Não serei cruel a ponto de lembrar os excessos 
elegíacos de Alain sobre a palavra viva de Lagneau, ou de C.M. Des 
Granges sobre a de Brunetiere. Que se ouçam em transcrições algumas 
singularidades advindas do oral, o que há de surpreendente e o que 
tanto há a sublinhar? Na verdade, o fato de que Lacan tenha exercido 
um ensino oral serviria antes para confundi-lo com o universitário 
comum do que para dele distingui-lo; quanto a isso, Sartre é infini­
tamente mais surpreendente, por ter sido durante tanto tempo mantido 
afastado de toda palavra pública de transmissão. 
Poderíamos no máximo concordar que, entre escrito e falado, 
Lacan sustentou uma disjunção que os universitários supostamente 
não autorizam. Contam que Dumézil havia aconselhado a Foucault: 
" Nada escrever que não tenha sido pronunciado; nada pronunciar que 
não seja destinado a ser escrito." Pode-se reconhecer nessa regra de 
projeção biunívoca uma praxe universitária (à qual muitos universi­
tários franceses se acomodam, de resto com dificuldade, tanto por 
· Introdução 2S 
agrafia quanto por grafomania, tanto por afasia quanto por logorréia; 
esta é uma de suas mais irrelevantes inferioridades). Lacan a infringe 
decerto, porém, uma vez mais, não mais e antes menos do que Sartre. 
De qualquer forma, nada seria mais deslocado do que evocar 
Platão. O que quer que Platão tenha pensado do escrito, e que é menos 
unívoco do que dizem, ele pertence a um mundo no qual a escrita 
ainda é problemática, ao menos no tocante à relação com a verdade. 16 
Lacan é outra coisa: ele se situa integralmente num universo em que 
a relação da verdade com o escrito não é mais problemática. É verdade 
que ele a reproblematizou - na psicanálise freudiana, a Verdade fala, 
não escreve -, mas o movimento, em seu início e em seu termo, 
supõe justamente o inverso de Platão. 
Isso, naturalmente, não significa que o escrito, como tal, se situe 
necessariamente na forma do livro; sabemos que a esse respeito Lacan 
foi, primeiro por obrigação, depois por escolha, fora-de-livro; não é 
apenas uma característica sua; ele a partilha com outros: André Breton 
- Nadja, dissemos, é uma obra na medida em que é um atechnon, 
mas é um livro? - ou Jakobson. Como estes, e diferentemente de 
Freud, ele fez surgir a obra num lugar de fratura entre forma longa 
e forma breve, entre alocução permitida e alocução refreada. Mas isso 
não afeta a questão: ler Lacan é ler o que está escrito, e sobretudo os 
Scripta, livrando-o das obscuridades nele ocasionalmente lançadas 
pelo falar protréptico. 
NOTAS 
1 . As referências serão indicadas de maneira abreviada como se segue: a) Fonction et 
champ de la parole et du langage en psychanalyse, É., p.237 = " Fonction et champ 
de la parole et du langage en psychanalyse" , Écrits, Paris, Seuil, 1966, p.237. Após a 
primeira menção, a sigla É. poderá ser omitida; b) L'étourdit, Se., 4, p.5 = "L'étourdit" , 
Scilicet, 4, Paris, Seuil, 1973, p.5. Após a primeira menção, a sigla Se. poderá ser 
omitida; c) S., xx, p.9 = Le Séminaire, livro xx, Paris, Seuil, 1975, p.9. 
2. Neste capítulo, cultura será sistematicamente entendido no sentido francês e não 
como o correspondente do termo Kultur. 
3. Deixo propositalmente de lado a questão da Universidade. É uma questão não trivial 
saber se as produções profissionais dos universitários (teses, dissertações etc.) se ins­
crevem na forma de obra. A tradição francesa responde afirmativamente; a tradição 
alemã ou inglesa responde negativamente. O que evidentemente não significa que todas 
as teses francesas (falo das teses de estilo antigo) sejam obras, nem que nenhuma tese 
alemã ou inglesa o seja. 
26 A obra clara 
4. Nada prova melhor o caráter estritamente formal da noção de obra: o título do Cours 
é equívoco entre singular e plural; ele não foi proposto por Saussure; o texto foi 
retrabalhado ao ponto de nem uma de suas páginas poder ser atribuída, como está, ao 
punho de Saussure; Saussure nunca teve a intenção de publicar nenhum curso. Entretanto, 
existe uma obra, e portanto um autor, já que os critérios formais estão reunidos. Cf. 
J . -C. Milner, " Retour à Saussure" , Lettres sur tous les sujets, 12, abril 1 994. 
5. No dia 25 de maio de 19 13, por ocasião da primeira reunião do Comitê da IPA, 
Freud ofereceu a cada um de seus cinco colaboradores uma pedra grega, que estes 
engastaram num anel. O próprio Freud usava um anel semelhante e, em 1920, um novo 
membro recebeu o mesmo presente. Ao todo sete anéis. Os interessados e o próprio 
Freud não dissimulavam o que havia de romanesco naquele procedimento. Cf. E. Jones, 
Sigmund Freud, Life and Work, Londres, Hogarth Press, 1955, 11, p. l74-5. Internacio­
nalismo, anéis, Grécia, puerilidade, uma referência a Coubertin não é inverossímil. 
6. Que se trate de uma decisão e que esta seja explícita, não podemos duvidar quando 
lemos os documentos. Cf. L'Excommunication, suplemento do n.8 de Ornicar?, Paris, 
1977. Que seja em estilo tão eclesiástico quando o disseram é menos certo. Lacan (S., 
XI, p.9) evoca a excomunhão-mor, mas é para logo assinalar a diferença: a Igreja de 
Roma não fulmina com excomunhão sem esperança de volta; ele evoca em seguida a 
sentença de Schammatha pronunciada pela sinagoga de Amsterdam contra Spinoza, a 
qual acrescenta efetivamente a impossibilidade de volta. Mas não há e não poderia 
haver sinagoga universal. Poderíamos evocar igualmente La lettre écarlate, mas tam­
pouco existe paróquia calvinista internacional. Uma vez mais, pensamos antes nas 
diversas lnternational Boards, a um só tempo todo-poderosas e frívolas, que regem o 
entretenimento mundial. 
7. O próprio Lacan me assinalara em 1964 o opúsculo com o qual J. Bidez apresentava 
ao público de língua francesa os trabalhos de W. Jaeger e de E. Bignone: Un singulier 
naufrage littéraire dans l 'Antiquité. À la recherche des épaves de l 'Aristote perdu, 
Bruxelas, 1943. Parece, de resto, que W. Jaeger e Lacan tenham travado relações. 
8. Lacan havia desenvolvido uma técnica que podemos chamar de a protréptica negativa: 
incitar o sujeito a se desvencilhar da doxa repreendendo-o. A técnica não é nova; os 
cínicos a haviam praticado; encontramo-la na obra de Lewis Carro!, na qual a excelente 
Alice, amável e terna portadora daopinião mais vitoriana, não pára de ser devidamente 
insultada pelos representantes do nonsense, que é sintoma do real; encontramo-la, enfim, 
entre os surrealistas e em Groucho Marx. 
9. Cf. a introdução de L 'instance de la lettre, É., p.493, na qual Lacan apresenta seu 
próprio texto como a " meio-caminho" entre o escrito e a fala. É entretanto notável 
que o ponto de partida seja uma entrevista solicitada pela FGEl, em 1957. 
10. É claro que estamos pensando em Montaigne. O nome de Diderot vem da mesma 
forma à mente; um dos raros, na França pelo menos, a ter usado a digressão em seus 
romances; um dos raros modernos também a ter escrito diálogos longos, não, de resto, 
por herança platônica, mas por invenção e genialidade. Vemo-nos por vezes, ao lermos 
determinado seminário de Lacan, diante dos ecos de um Rêve de D 'Alembert, do qual 
só ouviríamos as réplicas, entremeadas num único texto, de D' Alembert e de Bordeu, 
enquanto o auditório - mudo ou quase - ocuparia a posição de uma infortunada 
Lespinasse, trazida à existência unicamente pelas avanias que lhe infligimos. 
1 1 . A estilística de Lacan está assim articulada de acordo com as balizas funcionais 
que são a protréptica e a transmissão integral . F. Regnault propôs uma tipologia mais 
" intrínseca" à estrutura da doutrina ("Traits de génie" , in M.P.-P. de Cossé-Brissac 
Introdução 27 
et alii. , Connaissez-vous Lacan?, Paris, Seuil, 1 992, p.219-30). A diferença no método 
autoriza interessantes diferenças nos resultados. 
12 . La persécution et l 'art d'écrire é citada, em sua edição norte-americana de 1952, 
em L'instance de la lettre, p.508-9 (texto de 1 957). Uma tradução foi depois publicada 
(Paris, Presses de la Cité, 1989). 
13 . Daí uma obra escrita segundo essas regras (supostamente antigas e esquecidas) 
parecer ao homem moderno uma desordenada mixórdia de proposições desinteressantes. 
E isso quanto mais importante for a obra. Só resta então o argumento de autoridade: 
uma obra antiga, outrora célebre, não pode ter-se tornado célebre por motivos levianos; 
se portanto parece desinteressante e mal construída, é que a lêem mal, ou, mais exa­
tamente, sem cuidado. De maneira recíproca, nenhuma obra antiga de fato importante 
não pode ter sido desconhecida: porque existiam antigamente leitores cuidadosos. Quanto 
ao autor moderno, ele pode almejar leitores assim, mas não pode estar seguro de que 
existam. Inclusive, na maioria das vezes, ele deverá supor que não existem. Ao mesmo 
tempo, ele escreve sempre sob a condição da obra desconhecida. Lacan, desse ponto 
de vista, é de fato um moderno. 
14. É possível , de direito, fazer um levantamento exaustivo dos logia. Deve haver 
também logia malsucedidos. Eles terão a forma sintática exigida, mas a certeza ante­
cipada que os marcava dissipou-se no instante seguinte. No registro do tempo lógico, 
é uma moção para sempre suspensa. Um indício: Lacan não volta atrás, uma vez feito 
o lance; desse modo, o efeito do enigma se constitui. Ora, não existe lugar legítimo 
para o enigma em Lacan. Se existem enigmas de fato, eles assinalam um fracasso. 
Proponho, a título de exemplo, o mandamento " não ceder em seu desejo" , que acharam 
poder ser extraído do seminário VIL 
1 5. Uma exceção, à qual será preciso voltar (cf. infra, cap. v, p . l66-7): o seminário 
xx, que constitui o ápice do segundo classicismo lacaniano. Ele tende a anular a 
diferença entre esotérico e exotérico - ou, o que dá no mesmo, dispensa freqüentemente 
o estilo protréptico. 
16. Ler a esse respeito M. Détienne, Les maitres de vérité dans la Grece archaique, 
Paris, Maspero, 1%7, não sem esclarecê-lo com Roubaud, L'invention du fils de Leo­
prepes, Paris, Circé, 1993. 
CAPÍTULO 11 
O doutrinai de ciência 
1. A equação dos sujeitos e a ciência 
Lacan formula uma equação: " o sujeito sobre o qual operamos em 
psicanálise só pode ser o sujeito da ciência" (La science et la vérité, 
É., p.858). Esta equação dos sujeitos enuncia três afirmações: 1 ) que 
a psicanálise opera sobre um sujeito (e não, por exemplo, sobre um 
eu); 2) que há um sujeito da ciência; 3) que estes dois sujeitos cons­
tituem apenas um. 
As três afirmações têm em comum o fato de que falam do sujeito; 
o que se deve entender com isso depende do que se pode chamar de 
o axioma do sujeito: 
'Há algum sujeito, distinto de toda forma de individualidade 
empírica. ' 1 
Este axioma de existência usa um termo e uma distinção intei­
ramente homônimos de proposições derivadas da metafísica kantiana 
e pós-kantiana; que dela sejam sinônimos é uma questão que será, 
por ora, deixada em suspenso. 
A terceira afirmação constitui a equação como tal; ela se baseia 
em correlações históricas, mas não é fundada por estas. A primeira 
afirmação concerne à prática analítica (é o que indica o verbo operar); 
ela não é de modo algum trivial; sua validade lhe é conferida pela 
autoridade de um enunciador suposto saber o que é a psicanálise, e, 
especificamente, o que dela fizera Freud. A segunda afirmação coloca 
em prática um conceito, que Lacan interpreta num sentido preciso, o 
de " sujeito da ciência" , mas esse conceito apenas em parte é lacaniano. 
A definição da ciência que nele é invocada não é de Lacan - este 
se explicou suficientemente quanto a isso; só é de Lacan a afirmação 
de que dessa definição da ciência decorre uma figura particular do 
28 
O doutrinai de ciência 29 
sujeito (tal como o axioma do sujeito propõe sua existência). Ora, 
isso é, falando claro, uma hipótese. 
Podemos portanto e devemos considerar que a equação dos su­
jeitos depende dessa hipótese, que doravante chamaremos de a hipótese 
do sujeito da ciência: 
'A ciência moderna, como ciência e como moderna, determina 
um modo de constituição do sujeito. ' 
De onde extraímos a definição do sujeito da ciência: 
'O sujeito da ciência nada é exceto o nome do sujeito, na medida 
em que, por hipótese, a ciência moderna determina seu modo de cons­
tituição.' 
Deve-se observar que a equação dos sujeitos nada diz da psicanálise 
como teoria. Em particular, não se afirma absolutamente que a própria 
psicanálise seja uma ciência. Lacan é explícito nessa questão: o fato 
de que " sua praxis não implique outro sujeito senão o da ciência" 
tem de " ser diferenciado da questão de saber se a psicanálise é uma 
ciência (se seu campo é científico)" (ibid., p.863). Vê-se que o termo 
praxis está explícito, o que faz com que se evoque a figura da theoria. 
É por conseguinte notável que Lacan não diga que a equação dos 
sujeitos concerne à theoria da análise. Isso não significa que essa 
equação não seja uma proposição de theoria, significa que ela se situa 
no ponto de passagem da praxis à theoria. Poderíamos dizer que ela 
articula uma theoria no estado nascente, apreendida no movimento 
de uma reflexão iniciada na praxis. Daí concluiremos que todas as 
proposições da theoria lacaniana supõem a equação dos sujeitos, pois 
supõem concluído o movimento de reflexão sobre a praxis. A equação 
assume portanto uma função seminal. 
O que mostra quão é importante que ela não seja vazia. Ela só 
escapa ao vazio sob uma condição: que a própria hipótese do sujeito 
da ciência não seja vazia. Isso supõe duas coisas: que a noção de 
ciência seja objeto de uma teoria suficientemente determinada e, ad­
mitida essa teoria, que possamos lhe vincular uma certa constituição 
do sujeito. 
Há de fato uma teoria da ciência em Lacan. Ela é bem completa e 
não é trivial.2 Para restituir-lhe a coerência, deve-se primeiramente 
estabelecer o que ela não é e partir da diferença que separa Freud de 
Lacan. Pois também existe em Freud uma teoria da ciência. Ela é 
bastante sumária, e se perguntarmos por que existe uma, a resposta é 
30 A obra clara 
simples. Ela reside naquilo que concordamos em chamar de cientifi­
cismo de Freud,3 e que nele é apenas um assentimento conferido ao 
ideal da ciência. Este ideal fundamenta plenamente o voto de que a 
psicanálise seja uma ciência. Estou dizendo idealda ciência. Trata-se 
com efeito de um ponto ideal - exterior ou infinitamente distante 
- para o qual tendem as linhas retas do plano e que ao mesmo tempo 
pertence a todas e nelas nunca se encontra. Não é a ciência ideal, a 
qual "encarna" de maneira variável o ideal da ciência: determinação 
estritamente imaginária, exigida a fim de que representações sejam 
possíveis.4 
É verdade que o homem sempre precisa de representações; em 
particular, é difícil evitar, quando recorremos ao ideal da ciência, 
como o fazia Freud, que tenhamos uma representação do que deve 
ser a ciência, e é isso uma ciência ideal. Em geral, absorvemos os 
traços de uma ciência constituída no momento em que falamos; depois 
perguntamos: 'O que deve ser a psicanálise para constituir uma ciência 
conforme ao modelo? ' ; a partir desse momento, transformamos os 
traços em critérios. Estamos ao mesmo tempo abrindo caminho para 
um outro cientificismo: não o do ideal da ciência, mas o da ciência 
ideal. Freud a ele se entrega, retomando a fisionomia da ciência ideal 
de outros, a seus olhos mais qualificados que ele próprio. Citemos 
aqui Helmholtz, Mach e Boltzmann, para nos atermos aos maiores.5 
É verdade que se acrescenta, reconstituível ao longo dos textos 
freudianos, uma teoria transversal da ciência, não só uma teoria do 
que deve ser uma ciência, mas uma resposta à pergunta: 'por que 
existe ciência em vez de ciência nenhuma?' Mas essa teoria permanece 
precisamente dispersa, e não é certo que Freud tenha consentido em 
· integrá-la, como fez com sua teoria da religião. 
Sobre a pergunta do porquê da ciência, Lacan apenas retoma os afo­
rismos de Freud, resumindo-os da seguinte maneira: a ciência é, quando 
nasce, uma técnica sexual (cf. S., XI, p. l 39). No mais, ele se mantém 
prudente quanto a isso. Ele é igualmente prudente ao responder à 
pergunta: 'por que existe psicanálise em vez de psicanálise nenhuma?' 
Seja como for, não encontraremos sobre essas perguntas de origem 
um corpo de doutrina integralmente constituído. A teoria lacaniana 
da ciência incide sobre outra coisa. 
Fiel a Freud na questão precedente, Lacan dele se separa quanto 
à questão do ideal da ciência: ele não acredita nisso. Mais exatamente, 
não acredita nisso para a psicanálise. Ao contrário do que poderíamos 
O doutrinai de ciência 31 
supor, é isso que a equação fundadora acarreta. Em relação à operação 
analítiq, a ciência não desempenha o papel de um ponto ideal -
eventualmente afastado ao infinito; em estrito rigor, ela não lhe é 
exterior; ao contrário, ela estrutura de maneira interna a própria matéria 
de seu objeto. Se nos atermos à linguagem geométrica, o campo da 
psicanálise pode ser concebido como o plano determinado pelas retas 
de suas proposições (trata-se, no fundo, de encontrar, por meio de um 
deslocamento calculável, a interpretação dada por Queneau de Hilbert); 
se o ponto da ciência não é exterior a esse plano, ele não poderia 
estruturá-lo como uma regulação. Não faz portanto sentido perguntar 
em que condições a psicanálise seria uma ciência. Tampouco faz 
sentido apresentar alguma ciência bem constituída como um modelo 
que a psicanálise teria de seguir. Em outros termos, já que não há 
ideal da ciência em relação à psicanálise, tampouco há para ela ciência 
ideal. A psicanálise encontràrá em si mesma os fundamentos de seus 
princípios e métodos. 
Melhor, ela se verá suficientemente segura para poder questionar 
a ciência. " O que é uma ciência que inclui a psicanálise?" , pergunta 
Lacan em 1965 (resumo para o anuário da EPHE, citado na contracapa 
da edição de 1973 do livro XI). De modo que a própria ciência poderia 
revelar-se a forma mais consistente de uma atividade que chamaremos 
de análise e que se acha, a um só tempo diversificada e idêntica a si, 
em todas as regiões do saber. A partir dessa análise, a psicanálise 
seria proposta como um ponto ideal, organizador do campo episte­
mológico e permitindo nele se orientar (daí o tema da "orientação 
lacaniana" ). Por mais que ela consinta ao ideal da ciência, cabe-lhe · construir para a ciência um ideal da análise. 
Os Cahiers pour l 'analyse, em sua época, determinaram tal ponto, 
acrescentando somente que o marxismo podia e devia nele encontrar 
sua ordenação. Compreendemos que eles tenham, no mesmo movi­
mento, apelado à psicanálise e à epistemologia. Partindo do ideal da 
análise, chegamos com desenvoltura à análise ideal, cujo manequim 
os pequenos lacanianos procurarão vestir: ajustar a matemática, a ló­
gica, a física, a biologia etc., de tal maneira que fiquem à sua medida. 
Mas isso pouco importa, salvo socialmente. 
2. A teoria do moderno 
A primeira característica que podemos identificar na teoria lacaniana 
da ciência se explica assim. Ela deve mostrar essa conexão singular 
32 A obra clara 
pela qual a ciência é essencial à existência da psicanálise e, por essa 
mesma razão, não se coloca diante dela como um ideal. A relação 
mais apropriada a esse fim se apresenta em termos homônimos dos 
operadores históricos: sucessão e corte. Baseamo-nos por conseguinte 
em Koyré, lido à luz do muito historicizante Kojeve. 
Para fins de clareza, será mais prático adotar aqui o costume dos 
geômetras, que raciocinam por axiomas e teoremas. Os mais impor­
tantes são: 
- Teoremas de Kojeve: 
a) 'há entre o mundo antigo e o universo moderno um corte' ; 
b) 'este corte vem do cristianismo' . 
- Teoremas de Koyré: 
a) 'entre a episteme antiga e a ciência moderna existe um corte' ; 
b) ' a ciência moderna é a ciência galileana, cujo tipo é a física 
matematizada' ; 
c) 'matematizando seu objeto, a ciência galileana o despoja de 
suas qualidades sensíveis ' . 
- Hipótese de Lacan: 
'os teoremas de Koyré são um caso particular dos teoremas de 
Kojeve' .6 
- Lemas de Lacan: 
a) 'a ciência moderna constitui-se pelo cristianismo, na medida 
em que ele se distingue do mundo antigo' ; 
b) 'já que o ponto de distinção entre cristianismo e mundo antigo 
provém do judaísmo, a ciência moderna se constitui pelo que há de 
judaico no cristianismo' ;7 
c) 'tudo o que é moderno é síncrono da ciência galileana, e só 
existe de moderno o que é síncrono da ciência galileana' . 
Igualmente conforme a esse dispositivo, o tratamento da hipótese 
do sujeito da ciência, que passa por Descartes. Sabemos que Lacan 
comentou e analisou incansavelmente o Cogito cartesiano (cf. em 
particular L'instance de la lettre, É., p.5 16-7; La science et la vérité, 
É., p.856-8, p.864-5). Essa instância repousa, em última análise, na 
tese de que Descartes é o primeiro filósofo moderno, enquanto mo­
demo. 
Esta proposição foi decerto exposta repetidas vezes, e principal­
mente por Hegel. Deve-se ainda definir o que significa moderno. No 
sentido estrito que Lacan dá ao termo (lema (iii)), só pode significar 
o seguinte: considera-se que Descartes de fato propiciou, pelo orde­
namento interno de sua obra, o que o nascimento da ciência moderna 
O doutrinai de ciência 33 
requer do pensamento. Ora, o edifício cartesiano repousa crucialmente 
sobre o Cogito. O que quer dizer que o pensamento da ciência precisa 
daquilo de que o Cogito é o testemunho. O fato de que o autor das 
Meditações seja também o criador da geometria analítica e o autor 
de uma Dióptrica constitui, por certo, uma prova de peso. É todavia 
preciso que este não seja um dado contingente. É no que se baseia 
um conjunto de proposições que articulam o que podemos chamar de 
cartesianismo radical de Lacan: 
'se Descartes é o primeiro filósofo moderno, é pelo Cogito' ; 
'Descartes inventa o sujeito moderno' ; 
'Descartes inventa o sujeito da ciência' ; 
'o sujeito freudiano, na medida em que â psicanálise freudiana 
é intrinsecamente moderna, não poderia ser outra coisa senão o sujeito 
cartesiano' . 
Naturalmente, não se trata apenas de uma correlação cronológica; 
supomos, além disso, um parentesco discursivo. A argumentação é a 
seguinte: a física matematizada elimina todas as qualidades dos exis­tentes (teorema (iii)); uma teoria do sujeito que pretenda responder a 
tal física deverá, ela também, despojar o sujeito de toda qualidade. 
Este sujeito, constituído segundo a determinação característica da ciên­
cia, é o sujeito da ciência (definição, p.34). Não lhe convirão as marcas 
· qualitativas da individualidade empírica, seja ela psíquica ou somática; 
tampouco lhe convirão as propriedades qualitativas de uma alma: ele 
não é mortal nem imortal, puro nem impuro, justo nem injusto, pecador 
nem santo, condenado nem salvo; não lhe convirão nem mesmo as 
propriedades formais que durante muito tempo havíamos imaginado 
constitutivas da subjetividade como tal: ele não tem nem Si, nem 
reflexividade, nem consciência. 
É justamente esse o existente que o Cogito faz emergir, ao menos 
se levarmos a sério a ordem das razões. Com efeito, no momento em 
que ele é enunciado como certo, ele está disjunto, por hipótese, de 
toda qualidade, sendo estas então, coletiva e distributivamente, revo­
gáveis como dúvida. O próprio pensamento mediante o qual o defi­
nimos é estritamente qualquer; ele é o mínimo comum de todo pen­
samento possível, visto que todo pensamento, seja qual for (verdadeiro 
ou falso, empírico ou não, razoável ou absurdo, afirmado, ou negado, 
ou posto em dúvida), pode dar-me ensejo para concluir que existo. 
Correlato sem qualidades suposto num pensamento sem quali­
dades, vemos em quê esse existente - chamado de sujeito por Lacan, 
não por Descartes - responde ao gçsto da ciência moderna. 
34 A obra clara 
É verdade que Descartes não se detém aí; ele passa sem esperar, 
e como que apressado, à consciência e ao pensamento qualificado. 
Pois é de fato de pensamento qualificado que se trata assim que é 
proposta a sinonímia: "uma coisa que pensa, isto é, uma coisa que 
duvida, que concebe, que afirma, que nega, que quer, que não quer, 
que imagina e que sente" (Méditation seconde, (Euvres philosophiq11es, 
Paris, Gamier, 1 967, 11, p.42 1 ). Compreendemos então por que Lacan 
nunca se vale do que podemos chamar de ponta extrema do Cogito 
e que, de todas as maneiras, ele se esforce em suspender a passagem 
do primeiro tempo ao segundo. Para isso, encerra o Cogito em sua 
enunciação estrita e, além disso, fecha esta enunciação em si mesma, 
fazendo da conclusão (" logo existo" ) o puro pronuntiatum da premissa 
(" penso" ): "escrever: penso, 'logo existo' , com aspas em tomo da 
segunda cláusula" (La science et la vérité, p.864-5). Está dessa maneira 
assegurada a insistência do pensamento sem qualidades, interrompida 
justo antes de ela se polimerizar em dúvida, concepção, afirmação, 
negação etc.8 
Ora, o pensamento sem qualidades não é apropriado apenas à 
ciência moderna. Lacan demonstra que ele também é necessário para 
fundar o inconsciente freudiano. O pivô do programa de Freud reside 
nessa constatação, que o fato do sonho (jactum somnii) parece impor: 
existe pensamento no sonho. Daí o raciocínio: se existe pensamento 
no sonho (no chiste, nos tropeços da vida cotidiana etc.), então o 
pensamento não é o que dele diz a tradição filosófica; principalmente, 
ele não é um corolário da consciência de si. Ora, existe pensamento 
no sonho ·(no chiste, nos tropeços da vida cotidiana etc. ; é o que 
estabelecem a Traumdeutung e as obras posteriores); portanto etc. 
Se admitimos que a proposição negativa 'a consciência de si não 
é uma propriedade constitutiva do pensamento' se estenografa pelo 
nome inconsciente, obtemos o teorema: 
'se existe pensamento no sonho, existe um inconsciente' . 
Obtemos ao mesmo tempo o lema: 
'o sonho é a via real do inconsciente' 
e a definição que se deduz do teorema e do leJilla: 
'afu:m.ar que existe inconsciente equivale a afirmarisso pensa' . 
Lacan acrescenta somente a proposição, retirada de Descartes e 
estendida a Freud: 
'se existe pensar, existe algum sujeito'. 
O raciocínio só é entretanto verdadeiro sob duas condições. É 
preciso, em primeiro lugar, que possa existir sujeito, embora não exista 
O doutrinai de ciência 35 
nem consc1encia nem Si - isso requer uma teoria não trivial do 
sujeito; é preciso, em segundo lugar, que o pensamento que constitui 
o tecido do sonho e do tropeço seja disjunto de toda qualidade. Assim 
os fenômenos estarão salvos.9 
O freudismo, segundo Lacan, repousa sobre a tripla afirmação 
de que existe inconsciente, que este não é estranho ao pensar e que, 
portanto, ele não é estranho ao sujeito de um pensar. Se o fosse, a 
psicanálise seria ilegítima de direito e provavelmente impossível como 
prática. Com efeito, um inconsciente estranho ao sujeito que pensa é 
o somático, mas o somático não lida nem com a verdade nem com a 
palavra; ora, a psicanálise lida com a verdade e com a palavra. O 
inconsciente, na medida em que a psicanálise lida com ele, não é 
portanto estranho nem ao sujeito, nem ao pensamento. Em contrapar­
tida, nem o sujeito nem o pensamento exigem a consciência. 
Mas dizer que o sujeito não tem a consciência de si como pro­
priedade constitutiva corresponde a retificar a tradição filosófica e 
principalmente Descartes. Ouçamos o Descartes do segundo tempo, 
tão apressado em deixar a ponta extrema do Cogito quanto certos 
prisioneiros a prisão. À luz de Freud, a consciência de si toma-se 
somente uma marca da individualidade empírica, que a filosofia havia 
indevidamente introduzido no sujeito, entretanto tão meticulosamente 
filtrado por seus cuidados. A psicanálise entende portanto o axioma 
do sujeito mais estritamente do que qualquer outra doutrina. Com uma 
nitidez sem par, ela separa duas entidades; para uma, a consciência 
de si pode sem contradição ser suposta não ser essencial; para outra, 
a consciência de si não pode sem contradição ser suposta não ser 
essencial. Só a primeira responde exatamente às exigências da ciência, 
e só ela se encontra nos limites fixados pelo axioma do sujeito; vamos 
chamá-lo portanto, com toda legitimidade, de sujeito da ciência. Agora 
compreendemos em que ele é sujeito cartesiano e sujeito freudiano. 10 
Quanto à segunda entidade, o nome de Eu pode lhe convir tanto 
quanto um outro. 
A teoria da ciência é derivada de Koyré e Kojeve, a interpretação 
unitária de Descartes erudito e metafísico baseia-se em Koyré, a in­
terpretação do Cogito é dependente de Gueroult, o axioma do sujeito 
é retomado, em homonímia ou em sinonímia, da tradição pós-kantiana, 
mas a hipótese do sujeito da ciência, a equação dos sujeitos, a inter­
pretação de Freud que ela implica e a articulação do conjunto são 
específicas de Lacan. Por isso é justo falar a respeito de Lacan não 
36 A obra clara 
mais de uma teoria da ciência, nem mesmo de uma epistemologia, 
mas de um verdadeiro doutrinai de ciência. Com isso designaremos 
especificamente a conjunção de proposições sobre a ciência e de pro­
posições sobre o sujeito. 
3. A estilística historicista 
À primeira vista, o doutrinai de ciência é fundamentalmente histori­
cizante em cada uma de suas partes. Ele o é no que conceme à hipótese 
do sujeito da ciência: " . . . um certo momento do sujeito que considero 
ser um correlato essencial da ciência: um momento historicamente 
definido [ . . . ], aquele que Descartes inaugura e que se chama o Cogito" 
(La science et la vérité, p.856). Ele o é no que conceme à ciência: 
" esta mutação decisiva que por via da física fundou A ciência no 
sentido moderno .. . " (ibid., p.855). Ele o é no que conceme à articulação 
da ciência ao sujeito: " Em tudo isso nos parece ser radical uma mo­
dificação em nossa posição de sujeito, no duplo sentido: que ela é ali 
inaugural e que a ciência a reforça cada vez mais. Koyré é aqui nosso 
guia . . . " (ibid., p.856). 
O historicismo é ainda mais acentuado quando acompanhamos 
Koyré mais detalhadamente. De seus teoremas, ele mesmo retirou, 
com efeito, dois discriminantes, próprios segundo ele para distinguirem 
uma ciência galileana em meio ao conjunto dos discursos que se 
apresentariam como ciência; o primeiro se enuncia:'é galileana uma ciência que combina dois traços: a empiricidade 
e a matematização'. . 
Este primeiro discriminante, é verdade, poderia ser interpretado 
em termos não-históricos; basta para isso que seja dada uma interpre­
tação geral do termo 'empiricidade' e que respondamos à pergunta: 
'como reconhecer uma proposição como empírica?' Mas o próprio 
Koyré não diz nada assim. A fim de esclarecer o primeiro discriminante, 
ele à completa com um segundo, tão historicizante quanto: 
'admitindo-se que todo existente empírico é passível de ser tratado 
por alguma técnica e que a matematização constitui o paradigma de 
toda teoria, a ciência galileana é uma teoria da técnica e a técnica é 
uma aplicação prática da ciência' . 
O valor desse discriminante deve-se aparentemente e por inteiro 
a sua capacidade de descrever exaustivamente e de explicar o que 
O doutrinai de ciência 37 
todos podem observar hoje: " a forma galopante de sua [ = da ciência] 
imisção em nosso mundo" , " as reações em cadeia que caracterizam 
o que podemos chamar de expansões de sua energética" (La science 
et la vérité, p.855-6). Assim Lacan dará às expedições lunares valor 
de índice (" o LEM alunissando, considerando a fórmula de Newton 
realizada em aparelho . . . " , Radiophonie, Se., 2/3, p.75 ; cf. também em 
Télévision, p.59). Ora, isso, são provas de historiador do presente, no 
sentido exato de que o primeiro discriminante é de fato baseado em 
provas de historiador do passado. 
Do primeiro discriminante, podemos deduzir algumas conseqüên­
cias: a ciência tem por objeto o conjunto do que existe empiricamente 
- podemos chamar a isso de universo - e ela o trata com tanta 
precisão quanto as disciplinas literais tratam o delas. Em outros termos, 
a ciência literalizada é, como tal, uma ciência precisa. Ora, isso também 
se deixa interpretar em termos de história. 
Consideremos o aforismo de Galileu: " [o grande livro do uni­
verso] está escrito em língua matemática e seus caracteres são os 
triângulos, círculos e outras figuras geométricas" (ll Saggiatore, §6; 
citado segundo a edição de C. Chauviré, L 'essayeur de Galilée, Paris, 
1 980, p. l 4 1 , tradução modificada). Ele só é compreendido por inteiro 
quando relacionado ao humanismo (Florença foi por muito tempo sua 
capital e Galileu era toscano). Falar do livro da Natureza ou do mundo 
ou do universo é em si uma figura de estilo bem antiga, mas ela ganha 
novo alcance depois que a edição impressa se tomou uma arte erudita 
e depois que o estabelecimento dos textos recebeu regras coercitivas; 
falar dos caracteres desse livro é reencontrar Demócrito, Epicuro e 
Lucrécio (Redondi assinalou a importância, talvez reveladora, desse 
parentesco), 1 1 mas é também dizer algo de diferente, depois que a 
tipografia, como tal, se submeteu às formas geométricas e que a emenda 
se revelou capaz de depender da forma de uma letra. 
Em outras palavras, a literalidade esclarece a abordagem da ma­
tematização, que dela é a um só tempo o índice e o meio, quando se 
trata da Natureza; mas ela se toma imediatamente algo a mais: uma 
exigência de precisão. É que, através do · humanismo, o conjunto das 
disciplinas da letra (digamos: a filologia) constitui a ciência ideal com 
respeito à precisão. Que o físico seja tão preciso para com o universo 
(e tão livre dos entraves herdados) quanto Estienne o foi para com o 
texto de Platão, ou Laurent Valia para com o texto da Doação de 
Constantino, ou Erasmo para com o texto dos Evangelhos, esta é a 
injunção contida na própria palavra livro. 
38 A obra clara 
Isso significa que a passagem aparentemente direta da literalidade à 
precisão só se explica inteiramente através de uma história. O mesmo 
ocorre com a passagem, aparentemente direta, da precisão à instru­
mentação. Aos olhos de Galileu, a matemática e a medida são os 
meios - alguns dos meios, como veremos adiante - que permitirão 
ao humilde físico igualar um dia o que, pela ciência da linguagem 
(pela gramática) e pela ciência dos documentos escritos, a prestigiosa 
filologia havia há muito realizado. É verdade que a precisão para com 
o material empírico requer instrumentos eles mesmos materiais, bem 
distintos daqueles que a filologia pode utilizar e sem dúvida, aos olhos 
de Galileu, bem inferiores em dignidade. A ciência moderna, como 
empírica, não é apenas experimental; ela é instrumental. 12 
Aqui intervém o segundo discriminante. A técnica sempre foi 
tratamento material, por instrumentos materiais, do empírico material; 
a partir do momento em que a ciência toma o empírico por objeto, a 
técnica pode e deve fornecer-lhe seus instrumentos; já que, enfim, 
essa ciência, que toma o empírico por objeto, é também uma ciência 
literal, isto é, uma ciência precisa, os instrumentos fornecidos pela 
técnica podem e devem se tornar os instrumentos da precisão. Ora, 
ocorre que o progresso técnico doravante permite isso, graças aos 
célebres engenheiros do Renascimento: tese histórica uma vez mais. 
O universo da ciência moderna é a um só tempo e pelo mesmo 
movimento um universo da precisão e um universo da técnica. Ora, 
a ciência só é literalmente precisa se os instrumentos produzidos pela 
técnica lho permitirem materialmente. É verdade que aos olhos de 
Galileu estes só permitem a precisão na medida em que a ciência 
preside a sua concepção e a sua execução. Este é ó verdadeiro sentido 
da luneta e da referência aos engenheiros. Assim se configura o uni­
verso moderno: uma união entre a ciência e a técnica, tão íntima e 
tão recíproca que podemos também dizer que continua se tratando de 
uma mesma entidade sob duas formas, ou então uma ciência, ora 
fundamental ora aplicada, ou então uma técnica, ora teórica ora prá­
tica. 13 
. 
4. A episteme antiga 
O historicismo acentua-se mais quando levamos em conta a pertinência 
da referência antiga. Ora, ela é primordial. Se a ciência se toma teoria 
da técnica e a técnica aplicação prática da ciência (ver o segundo 
O doutrinai de ciência 39 
discriminante), supomos que o par teoria/prática abrange exatamente 
o par ciência/técnica. Para entendermos o alcance discriminante dessa 
abrangência, é preciso supor que ela não ocorre por si mesma. O meio 
mais simples de se assegurar disso consiste em estabelecer que ela 
não foi sempre verdadeira. Por variação geográfica (é a questão da 
ciência chinesa) ou por variação temporal. 
Koyré escolheu a segunda. No mundo antigo, ele descobre o par 
theoria/praxis, inteiramente independente do par episteme/techné. 
Mas, por isso mesmo, podemos articular o que, para os modernos, 
parece ser um paradoxo desse mundo passado: a existência de uma 
episteme, a existência de technai, e paralelamente a inexistência das 
máquinas produtivas. A doutrina de Koyré se conclui portanto em 
hipóteses sobre questões propriamente historiadoras, tocantes ao mun­
do antigo: a escravidão, o maquinismo, o trabalho. 14 
Não se trata aí de uma extensão à qual Koyré poderia ter se 
furtado. Ela aparentemente atinge o caroço de seus teoremas, tal como 
ele próprio os formula. Considerados em sua versão de origem, estes 
são, como vimos, fundamentalmente diferenciais. Eles falam da ciência 
galileana, mas os traços distintivos que lhe conferem só são plenamente 
apreendidos através de uma relação de oposição e de diferença. Ora, 
os dois termos opositivos e diferenciais estão apresentados em lin­
guagem histórica. Na verdade, a oposição da Antigüidade aos Tempos 
modernos constitui o pivô do que chamamos História, e muitos mantêm 
a recíproca: falar de Antigüidade e de modernidade só tem sentido se 
admitirmos a História. A ciência galileana só é compreendida por 
inteiro se compreendermos o que ela não é, mas, na teoria de Koyré, 
o que ela não é só pode ser construído num espaço histórico. Koyré 
não é somente historicizante, o que seria afinal uma questão de estilo; 
ele é historiador. 
A episteme se vê realizada apenas no instante em que ela expôs a 
razão pela qual um objeto não pode, emtoda sua necessidade e em 
toda sua eternidade, ser diferente do que de fato é. Mais precisamente 
ainda, o que há de episteme num discurso é somente a reunião daquilo 
que esse discurso apreende de eterno e de necessário em seu objeto. 
Daí decorre que um objeto se presta tanto mais naturalmente à episteme 
quanto mais facilmente ele deixa revelar o que nele o faz eterno e 
necessário - de modo que não há ciência do que pode ser diferente 
do que de fato é, e que a ciência mais acabada é a ciência do mais 
eterno e do mais necessário objeto. Daí decorre também que no homem 
40 A obra clara 
a ciência só pode se apoiar no que aparenta o homem ao eterno e ao 
necessário; existe um nome para isso: é a alma. Ela se distingue do 
corpo, instância no homem do que o aparenta com o passageiro e com 
o contingente. Daí decorre enfim que a matemática propõe à ciência 
um paradigma de eleição. 
Pois a matemática herdada dos gregos deriva do necessário e do 
eterno. Figuras e Números não podem ser outra coisa do que são, e 
ao mesmo tempo não podem nem vir a ser, nem deixar de ser ­
sendo como são, de toda eternidade. A necessidade das demonstrações 
só vale na medida exata em que é conatural à necessidade em si. 
Como as trajetórias dos corpos celestes cristalizam aos olhos corporais 
a figura mais adequada do eterno, da mesma forma o caminho que 
parte dos princípios e dos axiomas para chegar às conclusões cristaliza 
aos olhos da alma a mais adequada figura do necessário. · 
Ao contrário, o empírico no que tem de diverso não cessa de vir 
a ser ou de cessar de ser, sendo por conseguinte incessantemente outro 
do que ele é. Ele é portanto intrinsecamente rebelde à matemática. 
Mas se a matemática pode apreender o que quer que seja nesse diverso, 
será então o que nele se deixa reconhecer de idêntico em si e de 
eterno: o Mesmo como tal. Quer consideremos alguns objetos que, 
sem a menor dúvida, se deixam integralmente matematizar, sejam 
supostos em si mesmos seres eternos - assim como os corpos celestes 
ou as harmonias. Quer consideremos que certos sentidos emanam mais 
diretamente da alma - assim como o olhar. 15 Quer consideremos 
que, de todo objeto percebido por qualquer sentido que seja, possamos 
e devamos fazer surgir alguma centelha de eternidade. Se admitirmos 
chamar Idéia essa centelha contida em cada ente, compreendemos por 
que certos antigos puderam definir as Idéias pelos Números e que os 
Números sejam somente uma via d.e acesso ao Mesmo. É nisso que 
eles são importantes, e não para os cálculos que não obstante even­
tualmente permitem. 
Ainda mais que o Número não é a única marca do Mesmo. Mais 
fundamental ainda, a necessidade nas demonstrações. A episteme grega 
baseia-se nelas e apenas nelas; a matematicidade é apenas sua conse­
qüência segunda. O gesto radical e definidor consiste em retirar de 
princípios conhecidos e de axiomas evidentes conclusões conformes 
às regras do raciocínio, respeitando ao mesmo tempo as aparências 
fenomenais. Ora, a. matemática propõe o mais puro tipo de uma de­
monstração, mesmo sendo preciso uma disciplina específica, quer a 
chamemos lógica ou dialética, para expor-lhe as regras: a) o princípio 
O doutrinai de ciência 41 
da unicidade do objeto e da homogeneidade do campo: todas as pro­
posições da ciência devem dizer respeito aos elementos de um mesmo 
campo e se referir a um objeto único; b) o princípio do mínimo e do 
máximo: as proposições da ciência são ou teoremas ou axiomas; um 
número máximo de teoremas deve ser deduzido de um número mínimo 
de axiomas, expressos por um número mínimo de conceitos primitivos; 
c) o princípio da evidência: todos os axiomas e conceitos primitivos 
devem ser evidentes, o que dispensa demonstrá-los e defini-los. 16 
A matemática é soberana porque propõe o mais puro tipo de 
demonstração; ela o propõe porque os seres de que trata, números ou 
figuras, chegam o mais perto possível do eterno e do perfeito. Nada 
de sensível vem alterar a necessidade de seus logoi. Ela é portanto o 
paradigma formal da episteme como tal - do que existe em cada 
episteme particular que a faz episteme em si, do que existe em todo 
discurso que o faz episteme particular (daí a utilidade do more geo­
metrico, para tomar visível, fora mesmo da matemática, a articulação 
de episteme). 
Ao mesmo tempo, compreendemos que a matemática é esse pa­
radigma formal na medida exata em que ela não é a episteme suprema. 
Ela não é a episteme suprema, porque seu objeto não é o objeto 
supremo; mas ela propõe um modelo, pois seu objeto, maximamente 
despojado de substância sensível, parece maximamente, por suas pro­
priedades de forma, com o objeto supremo. Se o que há de ciência 
num discurso depende do que esse discurso apreende de eterno, de 
perfeito e de necessário em seu objeto, e se além disso existe um 
objeto do qual podemos dizer que é o mais necessário, o mais perfeito 
e o mais eterno, porque na verdade ele não é nada senão o necessário, 
o perfeito e o eterno em si, a única ciência plena e inteira é aquela 
que, conforme ao paradigma matemático, trata desse objeto, que está 
acima e além de toda matemática: ou seja, Deus, se assim conviermos 
nomear o ser necessário, perfeito e eterno, e portanto o mais necessário, 
o mais perfeito e o mais eterno. O Número pode a ele dar acesso, o 
melhor dos acessos, o único mesmo talvez, mas o Número não é Deus. 
A matemática alude ao que ela não é, no instante mesmo em que 
estabelece seu reinado, mas esta alusão deve desviar os olhares para 
um Ser supremo. 
Paralelamente, a possibilidade da ciência no homem nasce daquilo 
que nele o aparenta com o necessário e com o eterno. O nome desse 
parentesco, dissemo-lo, é a alma, quer seja uma região localizável no 
homem, quer seja um lugar quase geométrico de pontos onde o pa-
42 A obra clara 
rentesco se cumpre. Quanto ao corpo, que marca o homem com o 
contingente e o passageiro, ele é ora alusão, ora obstáculo: alusão por 
aquelas de suas partes que mais se parecem, em sua materialidade, 
com materialidades que aludem elas mesmas ao necessário e ao eterno 
(o olhar, que parece com a luz, a beleza proporcionada, que alude às 
simetrias numeráveis); obstáculo em todos os outros lugares. Uma 
filtragem faz-se desde então necessária, capaz de extenuar as opaci­
dades vindas do corpo; a ela levam as vias da pureza. Só há portanto 
episteme acabada para um ser dotado de uma alma e de um corpo, e 
que os terá submetido aos exercícios apropriados. 
Chegado ao termo dos exercícios, o sabente (sachant) reconhecerá 
que a necessidade lógica na própria ciência nada é senão a marca que 
a necessidade do ser de cada ente imprime no discurso. Aristóteles 
aqui em nada desmente Platão. Quando define o silogismo - é, não 
nos esqueçamos, o nome geral do raciocínio, antes de ser o nome 
técnico de uma forma particular -, ele diz: " um discurso, no qual, 
certas coisas tendo sido expostas, uma coisa diferente [ . . . ] resulta 
necessariamente" (ex anankes) , mas equivale a repetir o Timeu, que 
vincula o pensamento regrado ao curso dos corpos celestes: " se Deus 
inventou para nós a vista e nô-la deu, foi a fim de que, observando 
as revoluções da inteligência no céu, nós as utilizássemos para orga­
nizar os circuitos do pensamento em nós, com as quais são aparentados, 
mas estes estando perturbados, aquelas não perturbadas; graças a esse 
estudo, e participando assim dos processos naturais de pensamento 
em sua retidão, poderemos imitar os movimentos divinos que estão 
absolutamente isentos de erro para pôr em ordem os movimentos 
aberrantes que existem em nós" (Timeu, 47b)_ l7 Tanto a Academia 
quanto o Liceu atestam o movimento próprio da episteme antiga, tal 
como a supõem o teorema de Koyré e o doutrinai de ciência. A 
necessidade nos logoi, enquanto necessidade, é o ponto onde se realiza, 
na ciência, a semelhança entre o ser necessário do ente e o ser necessário 
do sabente (sachant); reciprocamente, a ciência não é nada se não for 
a realizaçãodessa semelhança que, pelas vias da alma depurada, une 
o homem dotado de um corpo ao Ser supremo, incorpóreo: só existe 
ciência do necessário. De forma ainda mais abrangente que o envol­
vimento do microcosmo pelo macrocosmo (por mais recorrente que 
seja esse esquema de imaginação), a busca da semelhança no ponto 
do necessário constitui o motor primeiro do saber. 
A peripécia galileana se esclarece por contraste: ela consiste, em 
primeiro lugar, no fato de que a matemática, na ciência, possa soletrar 
O doutrinai de ciência 43 
todo o empírico, sem levar em conta nenhuma hierarquia do ser, sem 
pôr em ordem os objetos numa escala que vai do menos perfeito -
intrinsecamente rebelde ao Número - ao mais perfeito - quase 
integralmente numerável; ela consiste, em segundo lugar, no fato de 
que a matemática, soletrando todo o empírico, intervém através do 
que ela tem de literal, isto é, mais através do cálculo do que da 
demonstração (a emergência da ciência é também o inexorável declínio 
do mos geometricus); ela consiste, em terceiro lugar, no fato de que 
a matemática soletra o empírico como tal, no que ele tem de passageiro, 
de não perfeito, de opaco. 
Compreendemos então que a ciência se articula com a técnica. 18 Não 
que o mundo antigo não tenha conhecido a técnica. Mas se acreditarmos 
no doutrinai de ciência, ele não a lê de maneira eletiva à episteme. 
Mais exatamente, dispomos de dois pares: techne/episteme, theo­
rialpraxis. O universo moderno os superpõem. Exceto se, é claro, ao 
mesmo tempo as palavras deixarem de ser lícitas. No mundo antigo, 
os pares não tinham nenhuma razão para se superporem exatamente. 
Ao se combinarem, podem muito mais se misturar de tal modo que 
um termo antigo pareça reagrupar traços que hoje diríamos incompa­
tíveis. Isso significa que no sistema grego há uma parte de theoria 
na techne e uma parte de praxis na episteme. É por isso que Sócrates 
interroga os artesãos, a fim de obrigá-los a extrair por filtragem o 
núcleq de theoria de que são a base; é por isso que os suportes da 
episteme também devem agir com pureza - ciência ligada à cons­
ciência, como que governando as ações (praxeis). 
A ruptura moderna requer portanto que a matemática, em alguma 
medida, deixe de estar ligada ao eterno. Os entes matematizáveis (e, 
por excelência, os corpos celestes) não são mais, em função disso, 
supost\)s eternos nem perfeitos; podemos sempre supô-los . tais, mas 
isso dependerá de outras razões e se devemos cessar supô-los tais (se 
devemos discernir manchas no Sol), isso não afetará a possibilidade 
de matematizar sua trajetória. Do mesmo modo, é sempre possível 
que a nec ... ssidade das demonstrações matemáticas exponha a neces­
sidade do Ser, mas isso não ocorrerá por uma divina analogia e, 
principalmente, isso não será válido para o uso que dela é feito na 
ciência. 
Aí, os números não funcionam mais como Números, chaves de 
ouro do Mesmo, mas como letras e, como letras, devem apreender o 
diverso no que ele tem de incessantemente outro. O empírico é lite-
44 A obra clara 
ralizável como empírico; a letra não leva o objeto em direção ao céu 
das Idéias; o céu não é o desdobramento visível da-esfera infinita do 
Ser; a literalização não é idealização. 
A peripécia não reside portanto no fato de a ciência moderna se 
tomar matemática; a ciência antiga já o era e, sob certos aspectos, a 
ciência moderna o é menos que ela. Mais que matemática, é preciso 
dizê-la efetivamente matematizada. Da matematização, a mola pro­
pulsora pri!fleira é o número, como letra, e portanto o cálculo - não 
a boa forma lógica das demonstrações. Para os gregos, a ciência é 
matemática; para sua matematicidade, que não é matematização, não 
concorre o número na medida em que ele permite a conta, mas aquilo 
que faz com que o Número seja um acesso ao Mesmo em si; entendamos 
o fogos como demonstração necessária. 
Ora, o desvio pela episteme não é apenas importante para Koyré. Ele 
é também um dos mais importantes momentos do dispositivo lacaniano. 
Se a psicanálise está aí ligada à emergência do universo moderno, 
isso é evidentemente uma de suas condições positivas, mas o doutrinai 
de ciência diz mais; ele contém igualmente uma condição negativa: 
o desaparecimento da ciência antiga. Em outras palavras, há algo na 
episteme que se liga de maneira radical à psicanálise para poder im­
pedi-la; entender a episteme é portanto também entender a psicanálise. 
Não mais apenas por um contraste, mas por uma relação íntima de 
exclusão mútua. 
Mas se a episteme não é nada além de uma figura histórica; então 
a compreensão da psicanálise é radicalmente historicista. Ora, a his­
tória, aos olhos do próprio Lacan, é falaciosa. Deve-se então concluir 
que o doutrinai de ciência, tal como foi desenvolvido, é ele também 
falacioso? Que, desse modo, a hipótese do sujeito da ciência, que 
vincula a psicanálise à ciência moderna, é uma aparência a ser des­
truída? Nada senão um meio de se fazer entender, que é preciso rejeitar 
uma vez utilizado: " Jogue fora meu livro" dizia Gide; " é preciso se 
livrar da escada após ter subido nela" , dizia Wittgenstein; será essa 
a última palavra do doutrinai? 
S. Que o historicismo não é necessário 
Não acho entretanto que a conseqüência seja inevitável. A figura da 
episteme fornece justamente a prova mais sólida disso. A persistência 
O doutrinai de ciência 45 
de sua pertinência. em relação à psicanálise, não deriva da rememo­
ração, mas do presente. 
Mais exatamente, ela deriva de uma lógica. Uma figura da epis­
teme foi determinada; ela tem características distintivas. Estas foram 
baseadas em testemunhos de arquivos. Mas esse lastro, por mais cô­
modo e mesmo mais exato que seja, 1 9 nada tem de principiai. Basta 
que a figura que está se desenhando seja consistente e responda a 
discursos efetuáveis. Não é necessário que, de fato, o período referente 
à Antigüidade tenha conhecido apenas essa figura; tampouco é neces­
sário que essa figura seja atestada apenas durante aquele período. 
Quem quer que demonstrasse a existência, na Grécia ou em Roma, 
de discursos a um só tempo matematizados e empíricos20 fragilizaria 
Koyré; não fragilizaria necessariamente o doutrinai de ciência. Quem 
quer que demonstrasse a existência, no universo moderno, de discursos 
conformes às regras da episteme não fragilizaria nem mesmo os teo­
remas de Koyré. 
O mesmo raciocínio seria válido, de resto, para as correlações 
geográficas: fora do Ocidente, nenhum discurso conforme ao doutrinai 
de ciência parece ter se desenvolvido. Mas não é indispensável a 
Lacan que assim seja. De fato, no dispositivo de que Lacan se vale, 
a episteme da qual se separa a ciência moderna é mais uma figura 
estrutural do que uma entidade propriamente histórica. Ela é caracte­
rizada por um conjunto de teses, não por datações, mesmo se pudermos 
estabelecer entre teses e datas uma relação natural. As teses definidoras 
se desenrolam_ sobre o status da matemática e sobre a relação do 
contingente passageiro com o eterno necessário. 
Ora, o poder dessas teses não se esvaneceu. Atendo-se aos mais 
elementares dados de observação, quem pode duvidar que, nas figuras 
da ciência ideal, não subsistam ainda hoje os traços da demonstração 
euclidiana? Muitos discursos recentes valem-se abertamente de uma 
epistemologia do mínimo e do m�imo, cuja fonte única é grega; este 
é, veremos, um dos traços paradoxais do estruturalismo. Se a alma é, 
como sustenta Lacan, baseando-se no doutrinai de ciência, intimamente 
correlata à episteme e a seus princípios constitutivos, quem pode negar 
que a alma não seja recorrente nos ditos mais cotidianos? Não pode­
ríamos até sustentar que o discurso corrente da democracia civilizada 
encontra na alma seu mais sólido tufo? Nas religiões, no partido do 
espiritual, na gesticulação humanitária, no Tartufo político, não dis­
cernimos, ao contrário do que erh geral se imagina, a percepção do 
judaico-cristão (variante progressista do judaico-maçônico),mas muito 
46 A obra clara 
mais o dispositivo do Mesmo, oriundo dos Antigos. Que o demiurgo 
do Timeu, que o Primeiro Motor de Aristóteles tenham sido colocados 
ao nível de Papai Noel, supostamente capaz de restabelecer todo dano 
visível aos olhos do corpo através de um ganho visível unicamente 
aos olhos da alma, isso pode fazer rir ou chorar, mas não é incom7 
preensível. 
Quanto à ciência, por mais ornamentada de modernidades que 
esteja, o mais insistente pedido que lhe é feito não é para que esclareça 
as consciências? Ainda está vivaz a crença de que ao grande sábio 
cabe uma magistratura moral. Desde que ele dê somente ressonância 
àquilo que todos já pensaram por si mesmos, ao menos nos instantes 
em que ele não pensa: é o que chamamos, por uma palavra que também 
veio dos gregos, de ética. Não discutirei se alguma ética é legítima 
no universo moderno.21 Mas uma coisa é certa: se a ética existe, a 
ciência nada tem a dizer sobre isso e, sem dúvida, como ciência, ela 
nada tem a fazer quanto a isso. 
Ainda podemos decerto pensar em termos historicistas; podemos 
retomar a linguagem de Gramsci : o homem moderno nunca é con­
temporâneo de si mesmo (" somos anacrônicos em ri osso próprio tem­
po" , escrevia em sua prisão, cf. A. Gramsci, (Euvres choisies, Paris, 
Éditions sociales, 1 959, p. 19) . Mas Lacan é mais radical, isto é, mais 
freudiano. 
Num texto célebre (lntroduction à la psychanalyse ( = Vorlesungen 
zur Einführung in der Psychoanalyse ) , Paris, Payot, 1 922, 1 8A lição, 
p.266), Freud menciona três " feridas que a ciência infligiu ao ingênuo 
amor de si da humanidade" (trad. Jankélévitch, modificada): Copérnico 
por ter colocado em causa o geocentrismo, Darwin e W allace pela 
seleção natural, e a psicanálise. Assim explicava ele a hostilidade 
desmedida que então suscitava esta última, comparável a seus olhos 
aos furores provocados por seus grandes predecessores. Pouco importa 
afinal que ele tenha tido razão quanto ao detalhe histórico (Lacan, 
por sua vez, duvidava dele, privilegiando Kepler em vez de Copérnico). 
Para além desse detalhe, é preciso restituir a tese de fundo: há um 
anticopernicianismo recorrente; ele está ligado ao Eu. 
O termo Eigenliebe utilizado por Freud tem por certo uma nuance 
moral (pensamos no amor sui, até mesmo no amor-próprio das Ma­
ximes), mas dela facilmente o despojamos, para reduzi-lo a seu núcleo 
material, que é o Eu. Ora, o Eu é de estrutura, e ele é de estrutura 
porque é apenas o ,nome da função do imaginário. Eis o que diz 
respeito à cosmologia moderna, quer a atribuamos a Copérnico ou a 
O doutrina[ de ciência 47 
Kepler. O heliocentrismo do primeiro importa menos pela suposta 
decadência da Terra do que pela radical desarmonia que instala entre 
o centro geométrico do sistema planetário e o centro de observação, 
que passou a ocupar os lugares do homem; a idéia do segundo promove, 
em vez do círculo de centro único, a elipse de dois núcleos, um dos 
quais estará' irremediavelmente vazio. Em ambos os casos, a boa forma 
do círculo onde todo centro coincide com todo centro o cede a uma 
má forma.22 
Paralelamente, o anticopemicianismo é de estrutura, porque o 
Eu e o imaginário, por sua própria lei, privilegiam toda boa forma. 
É portanto verdade que a episteme como figura histórica desapareceu, 
mas alguns de seus traços característicos permanecem, porque o Eu 
permanece, sejam quais forem as periodizações. 
Daí as seguintes proposições, que se depreendem a um só tempo 
de Freud e de Lacan: 
'o Eu tem horror à ciência' ; 
'o Eu tem horror à letra como tal ' ; 
' o E u e o imaginário são gestálticos' ; 
'a ciência e a letra são indiferentes às boas formas' ; 
'o imaginário como tal é radicalmente estranho à ciência moder-
na' ; 
'a ciência moderna, enquanto literal, dissolve o imaginário' . 
Podemos doravante avaliar melhor o vocabulário da periodização tal 
como ele aparece em Lacan e, bastante próximo do estilo neo-hegeliano 
de Kojeve, o vocabulário do estabelecimento de relações maciças. Por 
meio desses dois vocabulários, os hábeis não têm dificuldades em 
articular uma das respostas possíveis à questão de saber por que Lacan 
requer uma teoria da ciência. Não é, dirão eles, por cientificismo, já 
que Lacan não acredita no ideal da ciência para a psicanálise, e ainda 
menos na ciência ideal. Será, aparentemente, por teses historicizantes: 
'a emergência da ciência galileana tomou possível a psicanálise' ou 
'a psicanálise não se concebe sem a suturação que opera a ciência 
moderna em relação ao sujeito (e da qual o Cogito é um marco do­
cumental)' ou 'a psicanálise só poderia se desenvolver no universo 
infinito da ciência' etc. O problema é que essas respostas em si mesmas 
nada significam; elas só fazem reiterar a questão de outra forma. 
De maneira mais geral, não devemos nos ater excessivamente 
ao Lacan do estabelecimento das relações maciças; é um Lacan da 
conversa erudita e da protréptica, mas não é um Lacan do saber. 
48 A obra clara 
No caso, a periodização tem uma função precisa: romper em 
relação à psicanálise a pertinência do par ideal da ciência/ciência 
ideal. O que de mais eficaz a esse respeito do que os operadores de 
sucessão e de corte, cujo troco é um relativismo e um nominalismo 
de boa companhia? Ousarei afirmar o seguinte: para desbravar a psi­
canálise numa conjuntura dominada pelo idealismo filosófico, Freud 
tivera que se basear no cientificismo do ideal da ciência; o preço a 
ser pago era nada menos que o cientificismo da ciência ideal. Numa 
conjuntura em que as instituições psicanalíticas haviam se deixado 
dominar pelo cientificismo da ciência ideal, Lacan, para desbravar 
a psicanálise, deveria relativizar e nominalizar; o preço a ser pago 
era o discurso periodista. Nos dois casos, trata-se de âssegurar, por 
meios distintos, uma função semelhante, a qual deriva, nos dois casos, 
da protréptica. Ora, se pretendemos ter acesso ao núcleo de saber, 
convém tomá-lo logicamente independente de toda protréptica. No 
caso, isso é tomá-lo independente das sucessões e das simultaneidades 
cronológicas. 
Dessa forma, estamos apenas seguindo Lacan. Pois tudo foi feito para 
aliviar os custos e sair do romance histórico. A partir do momento 
em que a linguagem periodizante cumpriu seu efeito, assim que, por 
ele, o duplo fantasma ciência ideaVideal da ciência se vê sem forças, 
Lacan imediatamente se esforça em depurar a teoria do corte. Esta é 
a função da teoria dos discursos, desenvolvida a partir de 1 969:23 
evidenciar as propriedades de um discursÓ em geral (lembremos que 
o discurso, em Lacan, é laço social) e, dessa maneira, manifestar que 
nele a heterogeneidade e a multiplicidade são intrínsecas. Elas não 
são simplesmente os efeitos, nos discursos, de períodos e épocas, os 
quais seriam em si mesmos extrínsecos aos discursos. Em particular, 
elas não se projetam simplesmente sobre o eixo das ·sucessões (" não 
deve ser visto, em hipótese nenhuma, como uma seqüência de emer­
gências históricas" , S., XX, p.20). Por uma doutrina da pluralidade 
dos lugares, da pluralidade dos termos, da diferença entre propriedades 
de lugar e propriedades de termos, da mutabilidade dos termos em 
relação aos lugares, obtemos o que se poderia chamar de articulação 
não cronológica e, mais comumente, não sucessiva do conceito de 
corte. Talvez a emergência de um discurso novo, a passagem de um 
discurso a outro (o que Lacan chama de o " quarto de volta" , Allocution, 
p.395), em suma a mexida, possam criar um evento; talvez estes 
eventos sejam um objeto que os historiadores procuram entender na 
O doutrina[ de ciência 49 
forma da cronologia. Mas eles não são o que os historiadores dizem 
deles. Toda história, a esse respeito, parece ser falácia e a primeira 
adulteração reside justamente na homogeneização mínima que a se­
riação temporal supõe. Em si mesmo, o quarto de volta não precisa 
se inscrever numa série " annalística" . 
Admitindo-se que a teoria dos discursos éuma literalização dos 
lugares e dos termos, o corte é, antes de tudo, o apontamento de um 
impossível literal. Impossível que um sistema de letras seja um outro; 
impossível para um sistema de letras passar sem transtornos a um 
outro sistema de letras. Em outras palavras, não existe transformação 
interna a um sistema; toda transformação é passagem de um sistema 
a outro. 
Mais profundamente, podemos sustentar que um discurso assirp 
definido não é em si nada senão um conjunto de regras de sinonímia 
e de não-sinonímia. Dois discursos serão diferentes um do outro na 
medida exata em que suas regras definidoras forem elas também di­
ferentes. A natureza do corte discursivo determina-se desde então da 
seguinte maneira: 
'dizer que existe corte entre dois discursos, é somente dizer que 
nenhuma das proposições de um é sinônima de nenhuma das -propo­
sições do outro' . 
Daf concluiremos que só pode haver sinonímias - se é que 
existem - no interior de um mesmo discurso, e que entre discursos 
diferentes as únicM semelhanças possíves derivam da homonímia. 
Numa teoria como essa, a noção de corte e a noção de discurso se 
co-pertencem portanto inteiramente: entre dois discursos realmente 
diferentes, não há outra relação a não ser de corte, mas o corte é 
apenas o nome da diferença real desses discursos. A conclusão se 
impõe: 
'um corte não é fundamentalmente cronológico' . 
Podemos dizê-la de outra maneira, generalizando seu alcance: 
'a teoria dos discursos é uma anti-história' . 
Daí pode se deduzir que a sincronia não significa aqui contempora­
neidade. Ela deve antes ser entendida no sentido em que se diz que 
dois pêndulos são síncronos. Que entre ditos de mesma datação, que 
no meio do mesmo dito, haja não-sincronia, isso então se concebe 
facilmente. Da mesma forma, a passagem de um discurso a outro não 
induz sucessões unívocas; ditos síncronos da episteme podem suceder, 
no tempo, a ditos síncronos da ciência e o inverso. De forma mais 
50 A obra clara 
profunda, a doutrina não cronológica do corte implica que uma su­
cessão é sempre imaginária. Não existe última instância real que le­
gitime as ordens seriais. 
A leitura historicizante do doutrinai de ciência só é necessária se nos 
ativermos a fins protrépticos; ela é radicalmente insuficiente se levar­
mos em conta a construção de um saber. Convém portanto enunciarmos 
de maneira mais explícita os traços estruturais e intrínsecos da ciência 
galileana e não nos atermos a uma referência " annalística" a Galileu 
e a seus sucessores. O que de resto corresponde a reencontrar uma 
preocupação do próprio Koyré, que propôs teses sobre esse ponto. 
Lacan fez uso destas e, sem ser sempre inteiramente explícito, emitiu 
outras que as completam. 
6. Literalidade e contingência 
É possível ler Koyré eliminando os operadores historicizantes. Mais 
exatamente, é possível depurar a leitura que dele propõe o doutrinai 
lacaniano. 
Combinando a matematicidade e a empiricidade, reagrupando a 
theoria e a praxis, a episteme e a techne, os discriminantes de Koyré 
cumprem operações múltiplas. Podemos entretanto resumi-las numa 
só. Basta para compreendê-lo recorrer a uma epistemologia aparen­
temente bem afastada de Koyré, em especial a de Popper. Uma pro­
posição da ciência deve ser refutável, diz esse autor, determinando 
assim, sob o nome de " demarcação" , o que se pode também chamar 
de o discriminante de Popper. Ora, uma proposição só pode ser re­
futável se sua negação não for logicamente contraditória ou material­
mente invalidada por uma observação simples. Em outras palavras, 
seu referente deve poder - lógica ou materialmente·- ser outro que 
é. Mas isso é a contingência. Em suma, só uma proposição contingente 
é refutável; só existe portanto ciência do contingente. 
De maneira recíproca, todo contingente pode e deve ser apreen­
sível pela ciência - tanto teórica quanto aplicada. O conjunto dos 
contingentes na medida em que a ciência os apreende, em teoria e na 
prática, é o universo. 
É este o dispositivo em que verdadeiramente se inscreve Lacan. O 
lneio-termo deste é o contingente. Por ele, o discriminante cronológico 
O doutrinai de ciência 51 
de Koyré e o discriminante estrutural de Popper deixam-se combinar.24 
O doutrinai de ciência está baseado num lema escondido: 
'o discriminante de Koyré e o discriminante de Popper são si­
nônimos, desde que os apreendamos do ponto da contingência' . 
Uma primeira conseqüência se impõe: qualquer que seja a for­
mulação que dele tenha sido feita originalmente, o teorema de Koyré 
não é fundamentalmente uma proposição histórica; se a psicanálise 
dele depende, não é por motivos de história (nem, sobretudo, por 
questões de cronologia). 
Uma segunda conseqüência, mais profunda, propõe que a equação 
dos sujeitos seja reescrita da seguinte maneira: 
'o sujeito sobre o qual opera a psicanálise, sendo um correlato 
da ciência moderna, é um correlato do contingente' . 
Nessa reescrita, torna-se evidente que Popper é necessário a La­
can. É verdade que Lacan não se refere muito a ele (interessou-se 
tardiamente por ele e sem paixão); entretanto, é de fato a palavra 
contingente que Lacan apreende em Kojeve e Koyré, os quais, no 
entanto, não a proferem inteiramente: " a abóbada dos céus não mais 
existe, e o conjunto dos corpos celestes [ ... ] apresenta-se como que 
podendo também lá não estar - sua realidade é essencialmente mar­
cada [ . . . ] por um caráter de facticidade; são fundamentalmente con­
tingentes" (S., VII, p. 147). Na corrente de razões que leva proposições 
de Koyré e Kojeve a dar tal prioridade à contingência, é legítimo, 
seja na ignorância de Lacan a respeito de Popper e de Popper a respeito 
de Lacan, restituir o elo perdido. 
Mas se desejamos nos ater ao que Lacan podia explicitamente 
pensar, será ir além do legítimo aqui evocar Mallarmé? Na verdade, 
se admitimos que o próprio da letra moderna consiste em apreender 
o contingente como contingente, a primeira divisa da idade da ciência 
se enuncia: jamais alguma letra abolirá o acaso. E a segunda enuncia: 
toda letra é um lance de dados. 
A letra é como é, sem nenhuma razão que a faça ser como é; 
ao mesmo tempo, não há razão para que ela seja outra que é. E se 
fosse outra que é, seria apenas uma outra letra. Na verdade, a partir 
do momento em que é, ela permanece e não muda ("o único Número 
que não pode ser um outro" ). Um discurso pode, no máximo, não 
mudá-la, mas mudar de letra. Assim, através de um contorno próprio 
para enganar, a letra assume traços de imutabilidade, homeomorfos 
àqueles da idéia eterna. A imutabilidade do que não tem razão de ser 
como é não tem sem dúvida nada a fazer com a imutabilidade do que 
52 A obra clara 
não pode, sem violar a razão, ser outro que é. Mas a homeomorfia 
imaginária permanece. 
Daí decorre que a captação do diverso pela letra lhe dá, na medida 
em que ele pode ser outro que é, os traços imaginários do que não 
pode ser outro que é. É o que chamamos de a necessidade das leis 
da ciência. Ela se parece em tudo com a necessidade do Ser supremo, 
mas se parece com ela ainda mais porque nada tem a ver com ela. A 
estrutura da ciência moderna repousa inteiramente na contingência. 
A necessidade material que é dada às leis é a cicatriz dessa contingência 
mesma. Durante um ínfimo momento, cada ponto de cada referente 
de cada proposiçã,o da ciência surge como podendo ser infinitamente 
outro que é, numa infinidade de pontos de vista; no momento ulterior 
a letra o fixou como ele é e como não podendo ser outro que é, a 
não ser mudando de letra, isto é, de partida. Mas a condição do 
momento ulterior é de fato o momento anterior. Manifestar que um 
ponto do universo é como é requer que sejam lançados os dados de 
um universo possível onde esse ponto seria outro que é.25 Ao intervalo 
de tempo em que os dados turbilhonam antes de cair, a doutrina deu 
um nome: emergência· do sujeito, o qual não é o lançador (o lançador 
não existe), mas os próprios dadosenquanto estão em suspensão. Na 
vertigem desses possíveis mutuamente exclusivos, espoca enfim, no 
momento ulterior em que os dados caem, o flash do impossível: im­
possível, uma vez caídos, que eles tenham outro número sobre sua 
face lisível. Onde vemos que o impossível não está disjunto da con­
tingência, mas dela constitui o núcleo real. 
Ainda seria necessário para vê-lo que não deixássemos de passar 
do anterior ao ulterior. Ora, é isso que não é possível, pois seria 
também preciso não çessar de voltar do ulterior ao anterior. A ciência, 
em todo caso, não o permite; assim que a letra se fixou, só a necessidade 
permanece e impõe o esquecimento da contingência que a autorizou. 
A inoportunidade desse retorno do contingente é o que Lacan chama 
de sutura. A radicalidade do esquecimento é o que Lacan chama de 
foraclusão (La. science et la vérité, p.874). Já que o sujeito é o que 
emerge no instante do ·momento anterior ao momento ulterior, sutura 
e foraclusão são necessariamente sutura e foraclusão do sujeito.26 
Admitir que uma proposição contingente e empírica enquanto 
empírica e contingente seja matematizável corresponde, no horizonte 
da letra, a rasgar e a costurar de maneira inteiramente inédita, inces­
santemente precária e incessantemente restabelecida, as partes do imu­
tável e do passageiro. O conjunto integral dos pontos a que referem 
O doutrinai de ciência 53 
as proposições da ciência é usualmente chamado de universo. Visto 
que cada um desses pontos deve se deixar apreender como uma os­
cilação de variação infinita, dado que basta que uma única variação 
afett(, um único de seus pontos para que dois universos possíveis sejam 
distintos, uma vez que em virtude disso os universos possíveis são 
em número infinito, já que o universo só existe para a ciência mediante 
o desvio desses universos possíveis, o universo é necessariamente 
infinito e não deixaria de sê-lo, mesmo que os pontos que o constituem 
fossem por acaso em número efetivamente finito. Infinito qualitativo, 
quase diríamos, mais que quantitativo. 
· 
Ora, é unicamente pela contingência que este infinito advém no 
universo, e a ele advém de seu próprio interior. O que, mais uma vez, 
subverte as relações costumeiras, que vinculam facilmente o infinito 
a um lugar exterior, transcendendo ao universo. O universo, como 
objeto da ciência e como objeto contingente, é intrinsecamente infi­
nito.27 
'o infinito do universo é a marca de sua contingência radical' . 
É portanto nele e não fora dele que devemos encontrar as marcas 
dessa infinitude. A tese moderna por excelência será assim enunciada: 
'a finitude não existe no universo' . 
e como tudo só existe no universo, ela será enunciada também: 
'a finitude não existe' . 
Pois: 
'não há nada fora do universo' . 
Daí decorre em particular que o sujeito não é u m fora-do-universo. 
Como, apesar disso, ele pode e deve ser dele distinto, ele constitui o 
objeto da teoria do sujeito. Compreendem9s que esta recorra em par­
ticular à teoria matemática do interno e do externo, em outras palavras 
à topologia. Compreendemos que dela sejam consideradas singular­
mente todas as variantes da .exclusão interna (La science et la vérité, 
p.861 ). Estas são conseqüências necessárias do doutrinai de ciência. 
Compreendemos também que o doutrinai de ciência deva se articular 
com hipóteses sobre o sujeito, independentemente de toda correlação 
histórica. A hipótese do sujeito da ciência pode estar disjunta do 
historicismo. 
Que não exista nada fora do universo, é difícil de imaginar. Daí a 
recorrência, nas representações, das figuras do fora-do-universo: Deus, 
o Homem, o Eu, aos quais atribuímos alguma propriedade específica 
que os excetua do universo e constitui este universo num Todo. Essa 
54 A obra clara 
propriedade de exceção recebe nomes diversos; durante muito tempo, 
a filosofia aqui invocou a alma, instância no homem do que o aparenta 
a Deus. Mas a alma vem do mundo antigo e da episteme. Quando 
esta o cedeu à ciência moderna, a alma pouco a pouco teve também 
que dar a vez. Veio então a consciência. 
Este é o ponto de incidência da psicanálise. Ela retoma o problema 
do universo e o resolve desse modo: o conceito de que existe um 
universo, de que nada dele se excetua, nem mesmo o Homem, é o 
conceito que diz não à consciência, é o inconsciente. O nome incons­
ciente e sua constituição negativa se esclarecem dessa forma. Se a 
consciência e mais precisamente a consciência de si reúnem os pri­
vilégios do homem, como exceção ao Todo, a negação com que Freud 
afeta a consciência tem apenas uma única função: infundir de obso­
lescência a esses privilégios. Por esse movimento, a alma é igualmente 
atingida. Assim se esclarece a estocada que Lacan, dando um passo 
a mais que Freud, imprime à alma: ver Télévision, p. l 6-7. Ele desen­
volve apenas um dos efeitos contidos na palavra inconsciente. Ao 
mesmo tempo que a alma, atinge-se a figura de Deus, na medida em 
que ela seria o fora-do-universo por excelência. Compreendemos então 
o logion de Lacan, " Deus é inconsciente" ; ele significa antes de mais 
nada: o nome inconsciente estenografá a inexistência de qualquer 
fora-do-universo que seja; ora, o nome Deus designa este fora-do-uni­
verso; o triunfo do universo moderno sobre os mundos antigos cor­
responde portanto a dizer que o inconsciente prevaleceu inclusive 
sobre Deus. 
Mas esse próprio logion está inteiramente articulado com a ciência 
moderna e com o dispositivo do universo. Que a ciência requeira o 
universo, que o universo cunhe de impossível todo fora-de-universo, 
isso pode se estenografar apenas pela palavra inconsciente, mediante 
a qual são ateizados de uma só vez a alma e Deus. Ao inverso, um 
sistema de proposições que visaria a um objeto definido como incons­
ciente só pode encontrar sua realização na ciência moderna e no uni­
verso que ela funda. Rabelais havia dito: ciência sem consciência, e, 
por essa única razão, ruína da alma. Ou, de maneira ainda mais precisa, 
a ciência só se realiza tomando-se a ciência daquilo em que não há 
nem consciência nem alma.28 
É estritamente verdadeiro, como afirmava Freud, que a psic�riálise 
fere o Eu e que nisso consiste o que a aparenta a Copémico, isto é, 
à ciência moderna. Mas para compreendê-lo, é preciso acrescentar 
que o narcisismo sempre se reduz a uma demanda de exceção para 
\ 
O doutrinai de ciência 55 
si mesmo - e reciprocamente. A hipótese do inconsciente é apenas 
outra maneira de afirmar a inexistência de tais exceções; por essa 
mesma razão, ela não é nada mais e nada menos do que uma afirmação 
do universo da ciência. O inconsciente não só cumpre o programa 
que temia Rabelais, como também assume muito precisamente as 
funções do infinito. 
De resto, ambos os termos têm a mesma estrutura: dizemos un­
bewusst como dizemos unendlich. O infinito é o que diz não à exceção 
da finitude; o inconsciente é o que diz não à consciência de si enquanto 
privilégio. Lacan sem dúvida comentou com freqüência desfavoravel­
mente o caráter negativo do termo unbewusst. Podemos reconhecer 
aí uma doutrina cartesiana: o infinito é primeiro e positivo, o finito 
é segundo e se obtém de certa forma por uma derivação; do mesmo 
modo, o inconsciente explica o consciente, e não o inverso. Ele es­
tenografa uma afirmação e não uma limitação. Discernimos entretanto 
que a negação tem suas virtudes. 
De mais a mais, a língua alemã lhe acrescenta algumas. O prefixo 
un- não é sempre nela tão ordinariamente negativo quanto o prefixo 
latino in-; ele não se restringe sempre a delimitar o complementar do 
campo significado pelo positivo. Assim, o Unmensch não é um não­
humano, mas um homem desfeito, um monstro; o Unkraut é uma erva 
(Kraut), mas uma erva ruim, parasita; o unheimlich não é o inverso 
do familiar, mas um familiar parasitado por uma inquietude que o 
dispersa. 29 Da mesma forma, poderíamos sem dificuldade afirmar que 
no universo moderno não existe distinção de campo entre o finitoe 
o infinito, mas que o infinito parasita incessantemente o finito; naquilo 
que todo finito, na medida em que a ciência o apreende, se coloca 
primeiramente como tendo podido ser infinitamente outro que é. De 
resto, não se estaria aí muito distante do Descartes teórico das verdades 
eternas. Paralelamente, na psicanálise, o inconsciente parasita inces­
santemente o consciente; ele o manifesta como podendo ser outro que 
é e é, por essa razão somente, que estabelece em que não pode jus­
tamente ser outro. O prefixo negativo é apenas o selo desse parasitismo. 
A psicanálise é em seu âmago uma doutrina do universo infinito e 
contingente. Assim se esclarece sua doutrina da morte e da sexualidade. 
Não podemos ignorar que aos olhos da maioria a morte é a 
própria marca da finitude. Mas o lema moderno sustenta que a finitude 
não existe e a psicanálise segue esse lema. Dele dá inclusive uma 
versão específica: 
56 A obra clara 
'na medida em que é uma marca de finitude, a morte nada é na 
análise' ; 
ou: 
'a morte só conta na análise na medida em que é uma marca .de 
infinitude' ; 
ou: 
'a morte nada é, a não ser o objeto de uma pulsão' . 
Este é o fundamento do conceito de pulsão de morte. Daí se 
concluirá que a palavra morte é um foco de homonímias entre finito 
e infinito. Mas também que é incompatível com a possibilidade da 
psicanálise toda filosofia em que a morte valha justamente pelo motivo 
inverso: enquanto marca da finitude. p-ma conclusão particular: se a 
filosofia de Heidegger é destas, se o ser para a morte é ser para a 
finitude, então, apesar das trocas epistolares e das visitas privadas, 
apesar mesmo do peso que se deve dar, quanto à doutrina do tratamento 
analítico, a uma definição da verdade como desvelamento, a doutrina 
de Lacan, enquanto doutrina da psicanálise, é antinômica da filosofia 
de Heidegger - e reciprocamente. 
A psicanálise lida com o que os modernos chamam de sexualidade. 
É a coisa mais bem conhecida do mundo. É entretanto permitido se 
perguntar por que e em que ela lida com a sexualidade. Inútil afirmar 
que esta existe empiricamente e que é necessário que algum discurso 
dela fale racionalmente. Pois não é justamente trivial que a sexualidade 
exista - que uma região determinável da realidade tenha esse nome. 
Isso o é 
'
tão pouco que parece ter-se tornado insuportável que hoje 
em dia a pergunta seja feita. Foucault sentiu o quanto custava ser 
revisionista nesse ponto. Mesmo supondo que a sexualidade exista 
como dizem que existe, não é evidente que a psicanálise dela fale 
diretamente. Sabemos que mentes cultas - Jung era tudo menos 
ignorante - o negaram. 
Proporei que a sexualidade, na medida em que a psicanálise dela 
fala, nada é senão isto: o lugar da contingência infinita nos corpos. 
Que haja sexuação, em lugar de não haver, é contingente. Que . haja 
dois sexos mais que um ou vários, é contingente. Que estejamos de 
um lado ou do outro, é contingente. Que a uma sexuação sejam vin­
culados determinados caracteres somáticos, é contingente. Que lhe 
sejam vinculados determinados caracteres culturais, é contingente. Por­
que é contingente, diz respeito ao infinito. 
Para tanto, algo não deixa de ser literalizável. Já que os nomes 
homem e mulher são antes de tudo uma maneira de se contar no seio 
O doutrina[ de ciência 51 
de um conjunto a um só tempo totalizável e aberto, e já que esse 
desconto corresponde a um certo tipo de lógica. Em 1 945, Le temps 
logique et l 'assertion de certitude anticipée (É., p. l 97-2 1 3) o chama 
de lógica coletiva e dele propõe uma versão dialética, propícia a uma 
dramatização quase sartreana (Entre quatro paredes não está longe); 
ela se encontra, desdramatizada e formalizada num estilo quase rus­
seliano, nas escritas de L'étourdit. Compreendemos que a questão do 
limite seja um pivô destas últimas. Compreendemos também que ela 
esteja ligada à questão do infinito. As escritas sexuais concemem a 
um Todo infinito, na medida em que ele é afetado pela existência ou 
inexistência de um limite. 
O inconsciente freudiano enquanto sexual é o inconsciente na 
medida em que poderia ser outro que é; é também o inconsciente na 
medida em que ele é como é e cuja letra, · a partir do momento em 
que é como é, enuncia que a partir daí não pode ser outro que é. Mas, 
por outro lado e pelo mesmo movimento, o inconsciente é o infinito. 
Nele cruzam-se portanto, como convém, o infinito e o contingente. 
Ora, a sexualidade também é parasitada pelo infinito; ela o é em razão 
da pulsão de morte, em razão do ·gozo, em razão da contingência 
também, em razão das chicanas do Todo. De forma que a reversibi­
lidade é total: o inconsciente é o assalto do universo infinito sobre o 
pensamento do ser falante, mas enquanto tal, ele só pode ser sexual ; 
a sexualidade é o assalto do universo infinito sobre o corpo do ser 
falante, mas enquanto tal, ela só pode ser inconsciente. Encontramos 
então a ciência moderna. A psicanálise só pode se autorizar o doutrinai 
de ciência desde que se baseie na sexuação como fenômeno e na 
sexualidade como região de realidade onde esse fenômeno pode ser 
apreendido. O doutrinai de ciência, em contrapartida, é apenas um 
outro nome da sexuação como lance de dados, isto é, como letra. 
NOTAS 
L Formulado explicitamente em La science et la vérité, É., p.875. As citações textuais 
serão a partir deste ponto assinaladas por aspas duplas; as aspas simples isolam pro­
posições doutrinais, que podem não ser encontradas expressis verbis nas fontes. 
2. Remeto ao livro de F. Regnault, Dieu est inconscient, Paris, Navarin, 1 985; acres­
centaremos a intervenção pronunciada na École de la Cause em 15 de outubro de 1 989, 
58 A obra clara 
" Entre Ferdinand et Léopold" . Estes trabalhos dispensariam outros, se outros existissem 
sobre essa questão. 
3. Será preciso explicar um dia em decorrência de quais manipulações essa palavra 
passa, com tanta freqüência, por insultante. Ela não o é a meus olhos mais do que não 
o são, por exemplo, as palavras materialismo, ateísmo ou irreligião (cito ao acaso). 
Lacan constantemente estabelece uma relação entre Freud e o cientificismo (cf. em 
particular, La science et la vérité, p.857-8); mesmo que fosse para demarcar uma 
diferet�Ça, não parece que ele pretendesse dessa forma denegrir aquele a quem queria 
retornar. 
4. A disjunção-conjunção do ideal da ciência à ciência ideal fora introduzida nos Cahiers 
pcur l'Analys�, n.9; ela evidentemente se conforma à disjunção-conjunção do Ideal do 
Eu ao Eu. ideal, tal como Lacan a articulava a paitir de D. Lagache, em sua Remarque 
sur I� mpport d� Dani�l úzgache "Psychanalyse et structure de la personnalité" , É., 
p. 647-84; ver, em particular. p.67l-83. De tal analogia estrutural extrairemos com 
facilidade os efeitos de miragem que opera o nome ciência; eles existem, devem ser 
dissipados, mas a ciência não se reduz a isso. 
5. Um dado entre outros: Freud co-assinara em 1911 um manifesto que reclamava a 
criação de uma sociedade cnde seria desenvolvida e difundida.uma filosofia positivista. 
Dentre os signatários, encontramos os nomes de E. Mach, ·D. Hilbert, F. Klein, A. 
Einstein. A indicação é dupla: o fato de que Freud tenha dado sua assinatura diz algo 
sobre suas posições em um momento em que publicava a terceira edição da Traum­
d�utung, acabava de fundar a Internacional e a Zentralblatt fiir Psychoanalys�; ademais, 
quando conhecemos as filtragens que acompanham de hábito esse gênero de operação, 
o fato de que o nome de Freud tenha sido aceito, até mesmo solicitado, permite também 
medir seu sucesso social junto ao meio positivista de língua alemã. Ver sobre esse 
ponto a importante introdução histórica dada por A. Soulez à coletânea Mamfest� du 
cercl� de Vienne et autres écrits, Paris, PUF, 1985, p.32. 
6. O próprio Kojeve, em " L'oriiine chrétienne de la science moderne" , L'aventure de 
l'esprit (= mélanges Al�xandr� Koyre}, 11, Paris, Hermann, 1964, p.295-306, enuncia 
uma proposiçãosemelhante, mas Lacan parece ter de fato a prioridade, uma vez que 
formula sua hipótese já em 1960. Além disso, não é certo que as duas proposições 
sejam exatamente sinônimas. Cf. nota seguinte. 
7. Ver S., VII, p. l46: " ... a ciência moderna, a que nasceu de Galileu, só conseguira se 
desenvolver a partir da ideologia bíblica, judaicà, e não da filosofia antiga e da perspectiva 
aristotélica" . Aqui surge a diferença que separa Kojeve de Lacan; o primeiro atribui 
ao cristianismo, e mais especialmente ao dogma da Encarnação (Kojeve, ibid., p.303), 
um papel decisivo na emergência da ciência; ora, esse dogma é justamente o que separa 
o cristianismo do judaísmo e justifica que o primeiro invoque o espírito contra a letra; 
Lacan atribui um papel decisivo ao judaísmo e ao que resta, no cristianismo, do judaísmo 
- a saber, justamente, a letra. Isso significa que a hipótese de Lacan ( 1960) não inclui 
a de Kojeve ( I %4), embora elas sejam quase homônimas. 
8. Naturalmente, o comentário de Lacan depende amplamente da interpretação instan­
tanefsta de Gueroult, mas não inteiramente, e Gueroult poderia ser refutado nesse ponto 
(cf. J.-M. Beyssade, La philosophie premiere de Descartes, Paris, Flammarion, 1979) 
sem que a reescrita lacaniana seja radicalmente invalidada. Da mesma forma, não é 
dirimente que Descartes, nas Méditations, não retome a formulação do Discurso do 
método ou dos Princípios: " Penso, logo existo" , " Cogito, ergo sum" (cf. E. Balibar, 
" Ego sum, ego existo. Descartes au point d'hérésie" , comunicação à Société Française 
O doutrinai de ciência 59 
de Philosoplúe, de 22 de fevereiro de 1992). Poderíamos mesmo S\1Mentar que a reescrita 
de Lacan segue com bastante exatidão a letra das Miditatíons: "esta proposição: Sou ... " . 
9. De resto, não menos que a coerência dos texlOS. Pois bá mna contradição aparente; 
ela opõe a letra de Freud e a letra de La.can: o primciro propondo que o trabalho do 
sonho, no que este tem de espedíJCO e na medida em que é forma maior do inconsciente, 
não pensa (L'interpretation des rive.s, VI, p.432 da edição da PUF, Paris, 1967); o 
segundo propondo que o inconsciente, no que tem de especÍÍICO e na medida em que 
o sonho é urna de suas formas, é o estenognma do enunciado "isso pensa" . Acres­
centemos a contradição que opõe Freud a si mesmo. afinnando ora que o sonho é uma 
forma de pensamento. e ora que ele não pensa (ibid., p.43l). Tudo é claro, entretanto. 
O pensamento que Freud nega ao inconscieDte é o pensamento qualtttcado; o pensamento 
que ele lhe concede e pelo qual Lacan. o define é o pensamento sem qualidades. Ao 
que o Cogito é necessário. 
Para Freud, negar o pensamento ao lrllhalbo do soobo é negar-lhe as modalidades 
do pensamento: a suputação e o julgamento ("o trabalho do soobo não pensa nem 
calcula; de maneira mais geral, ele não julga", ibid, p.432). Isto é, tudo o que constitui 
diferença qualitativa entre pólos opostos. É legítimo colocar frente a frente o texto da 
Troumdermmg e o das Midilatioru; Descartes sustenta que uma coisa que pensa é uma 
coisa que duvida, que concebe, que afirma e nega. que quer e não quer, que imagina 
e que sente; essencial a esta análise, seu &aráter diferencial, não s6 entre as modalidades, 
mas, no meio dessas, entre seus pólos (afinnar/negar etc.). Se o trabalho do sonho é 
o que dele diz Freud, então, segundo esta análise, não é o trabalho de uma coisa que 
pensa. Se, ao contrário, sustentamos que o sonho é uma forma do pensamento, então 
é prec!so admitir que existe pensamento ali mesmo onde a diferença entre dúvida e 
certeza, entre afirmação e negação, entre querer e recusar, entre imaginação e sensação 
é problemática, até mesmo suspensa Freud, ainda retido na Traumdeutlfflg (cujo última 
versão remonta a 191 1), será explícito no artigo sobre a negação (1925): existe pen­
samento, mesmo quando nenhuma polaridade - e portanto nenhuma qualidade -
emergiu. Que esse pensamento sem qualidades seja regido unicamente pelas leis da 
quantidade (energética), concebemos que Freud tenha pensado nisso. Veremos que o 
significante proporá leis não qualitativas, que nem por isso serão quantitativas. Cf. 
infra, cap. 111, p.92 e cap. IV, p. l 37. 
De um ponto de vista mais genérico, é urna questão aberta saber se o pensamento 
sem qualidades, tal como ele aqui se constitui, é também um pensamento sem proprie­
dades . . É possível que ele tenha tido propriedades "mínimas" . Ainda aí, a teoria do 
significante proporá para essa questão urna resposta específica. 
I O. Helrnholtz havia, já em 1 855, levantado explicitamente a questão de um pensamento 
sem consciência de si (" ein Denken ohne Selbstbewusstsein" ); cf. H. v. Helmholtz, 
" Über das Sehen des Menschen" , Vortriige und Reden, l 896, 11, p. l l O. A articulação 
histórica entre cientificismo e inconsciente está assim revelada. Mais exatamente ainda, 
ao introduzir uma teoria do inconsciente, Freud não se separa do cientificisrno, ele 
cumpre seu programa. 
1 1 . P. Redondi, Galilée hérétique, Paris, Gallimard, 1985, p.69-75. Este autor considera 
Galileu um atomista; opõe-se, nesse ponto, a Koyré, que faz de Galileu um platônico 
(Études galiléennes, Paris, Hermann, 1 939, 111, p.267-8 l) . É verdade que as duas in­
terpretações não são 'necessariamente inconciliáveis (cf. F. Hallyn, Le sens des formes, 
Geneve, Droz, 1994, p.296-97). 
12. Devo, para ser exato, ressaltar que a articulação da precisão e da literalidade não 
é explícita em Koyré. Deixo de lado, apesar de sua importância histórica, a referência 
60 A obra clara 
baconiana, na qual o paradigma literal continua pertinente, mais referente entretanto à 
criptografia do que à filologia. Dentre os encontros memoráveis entre filologia e ciência 
moderna, é preciso citar a correspondência que R. Bentley (erudito editor de Horácio) 
manteve com Newton (ver A. Koyré, Études newtoniennes, Paris, Gallimard, 1968, 
p.245-65). Sobre a distinção entre "experimental" e ".instrumental" , cf. G. Simon, Le 
regard l'être e l'apparence dans l'optique de l'Antiquité, Paris, Seuil, 1 988, p.201 . 
Segundo esse autor, a ótica antiga era experimental; ela não era e não podia ser ins­
trumental. 
13. A situação de fato é evidentemente mais complicada: há sinonímia exata entre 
ciência e teoria da técnica, entre técnica e ciência aplicada? Isso pode ser discutido. 
Da mesma forma que podemos discutir se encontramos realmente a mesma coisa indo 
"da direita à esquerda" , da ciência para a técnica, ou indo "da esquerda à direita" da 
técnica para a ciência. Hoje vemos de fato, sob a pressão do temor e da esperança, 
que ao vincularmos a pesquisa em biologia à descoberta de vacinas, fazemos da ciência 
uma pura e simples técnica teorizada. Tão livre quanto quisermos em relação ao objeto 
que ela teoriza, mas tendo entretanto este objeto: não a Natureza, mas a natureza tratada 
pela técnica; no caso, não as configurações de moléculas, mas estas. configurações 
enquanto modificáveis por procedimentos voluntários para fins de tratamento médico. 
No que diz respeito à Aids a controvérsia se torna furiosa. Um número cada vez maior 
de pesquisadores afirma que só se encontrará a vacina não a procurando. O que implica 
que as verbas devam ser destinadas a outra coisa que à pesquisa da vacina. Trata-se 
de koyreismo ortodoxo. Mas. os aidéticos têm dificuldade em aderir à idéia. 
14. Ver os dois artigos que fecham os Études d'histoire de la pensée philosophique, 
"Les philosophes et la machine" e "Du monde de l'à-peu-pres à l'univers de la pré­
cision" , Paris, A. Colin, 1961 ; reeditados pela Gallimard, 1971 . Ambos os textos 
haviam sido originalmente publicados em Critique, em 1948. 
15 . Daí o eminente status da astronomia, da ótica e da harmonia. Cf. G. Simon, ibid., 
p. l 82-3. A elas será oposta, após E. Garin (Moyen Âge et Renaissance, Paris, Gallimard, 
1969), a astrologia erudita, a qual pretendia justamente apreender os acidentes de um 
destino no que este tem de mais individual,e isso por meio das configurações dos 
astros eternos e dos cálculos de número. Daí o escândalo que ela pôde suscitar entre 
certos filósofos antigos (bem resumido no discurso de Favorinus, relatado por Aulu­
Gelle, Nuits attiques, XIV, l ) e a insistência sobre seu caráter "estrangeiro" (caldeu). 
16. Cf. H. Scholz, "Die Axiomatik der Alten" , artigo de 1930, retomado em Mathesis 
universalis, Darmstadt, 1969, p.27-44. 
17. É interessante que H. Scholz, em seu breve Esquisse d'une histoire de la logique 
(Paris, Aubier, 1968, p.47; a primeira edição alemã data de 193 1), cite essa passagem 
e considere que ainda hoje determina ela a grandeza da lógica como disciplina. Estamos 
aqui nos antípodas do positivismo lógico, mas também da ciência moderna. Lembremos 
que Scholz, além de lógico e filósofo, era também teólogo. De maneira mais ampla, 
notemos o quanto a atenção dada à lógica matemática pode levar certos filósofos a 
suprimir o corte galileano; reciprocamente, sabemos que Koyré não tinha muita estima 
pela lógica matemática (o que testemunha seu Épiménide le Menteur, Paris, Hermann, 
1947). 
18. E. Garin (ibid., p. 121-50) chega a afirmar que a combinação da matemática e do 
empírico, característica da ciência moderna, foi possibilitada pelo retorno da astrologia 
erudita, de novo acessível a partir do século XII e florescente nos séculos xv e XVL 
Embora a magia, como ação sobre o mundo regrada por princípios teorizáveis, dê os 
O doutrinai de ciência 61 
primeiros elementos da relação moderna que une a ciência, como teoria da técnica, à 
\écnica, como prática e aplicação da ciência. 
1 9. Uma questão empírica permanece de resto aberta: seriam incontestáveis as propo­
sições de Koyré tocantes à ciência antiga? É o que os especialistas discutem mesmo 
se, em seu conjunto, o essencial da apresentação é mantido por autores sérios; cf. T.S. 
Kuhn, "Tradition mathématique et tradition expérimentale dans les sciences physiques" , 
La tension essentielle, Paris, Gallimard, 1990, p.69-1 1 0; G. Simon, ibid. 
20. Assim Arquimedes e Lucrécio segundo M. Serres, La naissanee de la physique 
dans le texte de Luereee, Paris, Minuit, 1977. Independentemente das teses próprias 
de M. Serres, a figura de Arquimedes quase sempre ilustra tal combinação do matemático 
e do empírico, não sem aplicações tecnológicas. Cf. entre outros G. Lloyd, La scienee 
greeque apres Aristote, Paris, La Découverte, 1990, p.54-62; p. 1 12-5. Ademais, o que 
sabemos das posições doutrinais de Arquimedes confirma que ele próprio era adepto 
dos princípios fundamentais da episteme antiga. Cf. sua obra inacabada, intitulada La 
méthode e endereçada a Eratóstenes (fragmento citado em Lloyd, ibid., p.59-60. 
2 1 . É a questão formulada por Lacan no seminário VIL Desse discurso exotérico, ele 
não fez entretanto um escrito. Isso prova que considerava não ter ido até o termo do 
que requer um saber, o que confirma a leitura do seminário. O que confirma igualmente 
a ausência de estabelecimento de uma relação entre o que lá é proposto com respeito 
à ética e o que, depois, será proposto a título da ética do Bem-dizer (ver, por exemplo, 
Télévision). Sabemos portanto pouca coisa da ética lacaniana. Sabemos somente que 
seria, de direito, legítima. 
A questão da moralidade num universo infinito, matematizado e preciso é, eviden­
temente, aquela que propõe Kant. Sobre esse ponto, remeto a G. Lardreau, La véraeité, 
Lagrasse, Verdier, 1993 (cf. principalmente o segundo livro, la. seção - p.130-275 -
e o exame profundo ao qual está submetida a intervenção lacaniana, p. 159-60 e nota 
16) e a J. Vuillernin, L'intuitionnisme kantien, Paris, Vrin, 1994, passim. Sobre a 
questão geral da ética, num universo onde a matemática é ciência do Ser e não apenas 
língua da ciência, ler A. Badiou, especialmente L'éthique, Paris, Hatier, 1993. 
22. Graças a Copérnico, escreve Freud, está demonstrado que "a Terra, longe de ser 
o centro do universo, forma apenas uma parcela insignificante do sistema cósmico" 
(ibid). Lacan, ao evocar Koyré (La révolution astronomique, Paris, Hermann, 1960), 
considera essa apresentação " mítica" ; a seus olhos, o passo revolucionário foi concluído, 
não por Copérnico, mas por Kepler e ele concerne não ao geocentrismo, mas à subs­
tituição da elipse pelo círculo. Cf. Subversion du sujet et dialeetique du désir dans 
l 'ineonseient freudien, É., p.796-7; Radiophonie, Se., '113, p.73; S., xx, p.41-3. Seja 
corno for, podemos discernir em Lacan uma preocupação quanto à precisão histórica 
que o afasta justamente do historicismo - que procede por grandes massas. 
Sobre uma rejeição galileana da Gestalt, num campo completamente distinto, cf. 
J.-C. Milner, lntroduction à une seience du langage, Paris, Seuil, 1989, p.632-3. 
Corno se insiste em chicanear Freud quanto aos dados, podemos também censurá-lo 
por ter citado Wallace, ao lado de Darwin. Pois no ponto preciso do amor-próprio da 
humanidade, Wallace aparentemente fez muito para agradá-lo (cf. por exemplo, S.J. 
Gould, " Sélection naturelle et esprit humain: Darwin contre Wallace" , Le pouee du 
panda, Paris, Grasset, p.45-55). 
23. Cf. S., xvn (ern seu conjunto); Radiophonie, Se., '113, p.96-9; Elocução pronunciada 
durante o encerramento do congresso da Escola Freudiana de Paris, em 19 de abril de 
1970, ibid., p.391-9; Télévision, passirn; S., xx, p.20-l . Cf. adiante cap. 111. 
62 A obra clara 
24. A esse respeito, consultar os trabalhos de Kuhn e, em particular, sua coletânea La 
tension essenrielle, Paris, Gallimard, 1990, mais expücita sobre o confronto com Popper 
que La structure des révob.aions scil!lllifiques, Paris, Flammarion, 1 983. 
25. Encontraremos em S. Kripk.e a articulação da letra, do universo possível e do lance 
de dados: cf., em particular, La logique des noms propres (tradução de Naming and 
Necessity), Paris, Minuit, 1982, p.l67-8. Evidentemente, não levaremos em conta o 
horror que poderia inspirar a Kripke uma aproximação com Mallarmé ou Lacan, supondo 
que até soubesse de quem se tratava. 
26. Em outras palavras, a doutrina da letra repousa sobre uma lógica de dois tempos. 
O leitor verificará que a fórmula de Lacan SJ(SJ(SJ(SJ�Sz))) - encontramo-la em S., 
xx, p.l 30 -.. é apenas a literalização dessa lógica. 
27. De que infinito se trata? Em última instância, do infinito literalizável: o dos ma­
temáticos, isto é, de Cantor. Mas ele veio tarde. Na origem da ciência galileana, o 
paradoxo quer que, no instante mesmo em que esta se declara matematizada e refere 
o universo ao infinito, não existam matemáticas do infinito. Nesse fundo de hysteresis, 
estrutura-se a oscilação entre infinito positivo e indefinido negativo, cujo primeiro sinal 
é Descartes. 
28. Cf. L'étourdit, p.9: " Por ser a linguagem mais pr�ícia ao discurso científico, a 
matemática é a ciência sem consciência cuja promessa foi feita por nosso bom Rabelais 
[ ... ]; La gaye science sentia-se feliz por presumir a ruína da alma." 
29. W. Benjamin relata este dito de Leiris (sem que os editores possam discernir se 
se tratava de Michel Leiris ou de Pierre Leyris): " a palavra 'familiar' seria em Baudelaire 
cheia de mistério e inquietude" (Charles Baudelaire, Paris, Payot, 1982, p.236). Não 
separar de "Em qualquer lugar fora do mundo ... " e do não-familiar como refúgio. 
CAPÍTULO III 
O primeiro classicismo lacaniano 
1. A linguagem do corte 
O conjunto do doutrinai de ciência, seus teoremas, hipóteses e lemas 
é de grande alcance. Ele permite balizar com mais exatidão do que 
de hábito o espaço das proposições doutrinais lacanianas. Levado a 
sério, poderia constituir um verdadeiro analisador do que por vezes 
foi chamado o pensamento dos anos 60. Pois este pensamento, dentre 
várias outras características, concordava, em particular, com uma tese 
axiomática: 'há cortes' . 1 Ele a entendia em estilo historicizante. É 
verdade que mais tarde o doutrinai irá entendê-la de maneira diferente. 
É verdade também que, nos anos 60, ele partilhava a interpretaçãocomum. 
O axioma de existência dos cortes e sua leitura cronológica nada 
têm de novo em si. Desde as fulgurações de são Paulo, anunciando 
o fim do mundo antigo ao qual ele próprio punha um termo (" Quanto 
aos gregos, eles buscam a sabedoria . . . " , Cor.I, I , 22), eles são encon­
trados, sob diferentes formas, em numerosos autores. Os letrados de 
língua francesa comentaram incessantemente nesses termos o antes e 
o depois da Revolução, de modo que o axioma dos cortes se tomava 
para eles uma espécie de punção da política; afirmá-lo valia para 
alguns quase tanto quanto um engaj amento. Os anos 60 apenas pro­
puseram uma versão particular da operação. 
Em O grau zero da escrita, Barthes enuncia em substância a 
tese: 'a Literatura é intrinsecamente moderna' . Ela tem, portanto, um 
antes e talvez um depois. Essa modernidade é passível de ser datada, 
grosso modo, do advento da burguesia como classe dominante, a um 
só tempo econômica e política. Ao menos na França. Daí poderíamos 
facilmente concluir que a literatura francesa determina o tipo da Li-
63 
64 A obra clara 
teratura, da mesma forma que a revolução industrial inglesa determina, 
segundo alguns, o tipo da índústria capitalista. Segundo a própria 
lógica de Barthes, o corte cujo nome é Literatura pode e deve se 
articular a outros: o corte político e social do século XVI, o do fim 
do século XVIII estão mencionados; nada excluiria que lhe tivesse 
parecido pertinente o corte koyreano. Ele simplesmente não construiu 
a relação entre eles. 
Coube a Althusser fazê-lo ou pelo menos colocar os termos que 
permitiriam fazê-lo. Seu esforço repousa sobre a seguinte hipótese: 
'o universo da ciência moderna é coextensivo ao mercado mun­
dial ' . 
Daí decorre que elucidar os fundamentos materiais do segundo 
corresponde a esclarecer os fundamentos de legitimidade do primeiro 
- e reciprocamente. Ora, a noção de universo e a noção de ciência 
se co-pertencem; nenhuma das duas opera sem a outra; a teoria do 
universo só pode ser a ciência; o objeto da ciência só pode ser o 
universo. Paralelamente, uma teoria completa do mercado mundial 
seria uma teoria do capitalismo. Com isso, a teoria do capitalismo e 
a doutrina da ciência moderna estão vinculadas. Ao contrário do que 
o próprio Althusser por vezes sustentou, não é só porque Marx, es­
crevendo O capital, se inscreve no movimento da ciência - isso é 
em si indubitável, mas insuficiente. A relação é mais fundamental e 
diz respeito às condições de possibilidade da própria obra de Marx; 
com mais exatidão: aos fundamentos de seu programa de pesquisa e 
à definição de seu objeto. 2 
Assim está disposta, por intermédio de Marx, e de uma maneira 
que nada fica a dever ao progressismo sartreano dos anos 50, uma 
constelação de teses mutuamente conexas. Vemos então o que existe 
de próprio aos anos 60. Não consiste na afirmação dos cortes, mas 
na função discursiva que reconhecemos nessa afirmação. Os cortes 
são, explicitamente ou não, pensados como o análogo, no universo 
dos pensamentos, das cesuras históricas cuja teoria o marxismo pro­
punha. Eles nos permitem manter uma relação formal com o marxismo, 
mas sem que lhe devamos permanecer substancialmente submissos. 
Não cabe aqui retomar a mecânica discursiva graças à qual se 
passou, por etapas sucessivas, do progressismo político, representado 
singularmente por Sartre, a proposições que separavam, cada vez mais, 
escolhas políticas e escolhas intelectuais.3 Basta estabelecer em que 
o doutrinai de ciência, embora não seja fundamentalmente historiei-
O primeiro classicismo lacaniano 65 
zante, exibe, em consistência e em completude, lógicas que encontra­
mos em outras partes, sob forma explicitamente historicizante. 
Para esse fim, convém passar por Foucault. Só ele, com efeito, 
na conjuntura pertinente, operou uma variação significativa. Podemos 
crer que, melhor que qualquer outro, ele havia compreendido os pa­
rentescos que aponto. Que ele tenha, em contrapartida, aceitado o 
doutrinai de ciência ou, mais simplesmente, os sistemas de ramificações 
que o doutrinai permite engendrar, isso merece algum exame. 
Na verdade, nem é certo que ele tenha aceito o axioma de exis­
tência dos cortes. Ou melhor, ele o aceitou, mas para imediatamente 
dissolvê-lo em uma família de problemas: o que é um corte, a que o 
identificamos, existem cortes de várias espécies etc.? O programa de 
Foucault constrói, assim, uma tipologia geral de todo corte discursivo 
possível: uma espécie de topologia do conceito, caso a topologia seja, 
realmente, a ciência das bordas, dos exteriores e dos interiores, dos 
recobrimentos. 
Foucault, enfim, não levou a História em consideração. Embora 
ele mantenha uma última instância de seriação cronológica - tal que 
há nele uma sucessão discursiva, que esta deve ser sempre homóloga 
a uma sucessão temporal e que a compatibilidade dos discursos deve 
se deixar projetar em proximidade (em período) -, resta que os pivôs 
ficam fragilizados; os nomes Antigüidade, Idade Média, Tempos Mo­
demos aparecem eventualmente, mas estão marcados por uma: suspeita 
de princípio, que não proíbe seu uso, mas requer que ele seja submetido 
a controles, de preferência inopinados. É verdade que, ao manter a 
cronologia, Foucault conserva também o nome história, mas este é 
banalizado e como que sujeito ao genitivo que o acompanha: história 
da loucura, história dos corpos, história da sexualidade, estes sintagmas 
recobrem e descobrem uma insolência dirigida aos empregos absolutos, 
singular ("pensar a História" , " fazer a História" ) ou plural ("biblioteca 
das Histórias" ). 
A seu método ele preferiu dar o nome de arqueologia, ao mesmo 
tempo esclarecedor e arriscado. Esclarecedor, porque esse nome não 
é justamente o de história, que dele diria mais do que é legítimo; 
arriscado porque liga estreitamente a teoria geral do corte a uma teoria 
dos estratos e dos recobrimentos. Que uma descontinuidade seja ne­
cessariamente recoberta por um estrato que a esconde, é uma hipótese 
não trivial. Não podemos dizer que tenha sido demonstrada; entretanto, 
ela é consubstanciai ao próprio termo " arqueologia" . 
66 A obra clara 
Seja como for, a teoria geral de Foucault não basta ao doutrinai 
de ciência; não basta, portanto, para autorizar o discurso de Lacan. 
Não basta no sentido estrito: ela não contém todos os axiomas de que 
Lacan necessita. Isso significa que, do ponto de vista de Foucault, 
Lacan contém axiomas em excesso. Não se trata da'História: Foucault 
não a leva em consideração, mas Lacan a recusa. Nada incompatível 
aqui . O ponto de heresia está alhures. Ele concerne aos cortes como 
tais. 
Com efeito, a teoria de Foucault se pretende radicalmente cética 
em relação aos cortes - não, repetimos, em relação à existência deles 
(mesmo supondo-a não axiomática, ela é considerada provada pelo 
sucesso das investigações que a supõem), mas em relação aos tipos 
possíveis de cortes; são consciente e voluntariamente rejeitadas as 
teses, julgadas inúteis e temerárias, de Kojeve e Koyré: entendemos 
supor apenas o que supõe, axiomática ou não, a afirmação de existência 
'há cortes' ; o restante é assunto empírico. 
Ora, essa afirmação, segundo Foucault, apenas propõe ( 1 ) que 
existem heterogeneidades entre discursos e (2) que essas heterogenei­
dades deixam traços localizáveis e datáveis no arquivo (cronologia, 
mais que história). Ela não supõe que esses traços se reagrupam em 
simultaneidades gerais. Permanece perfeitamente possível que a cesura 
de heterogeneidade que afeta determinado discurso A não afeta ao 
mesmo tempo determinado discurso B , embora compossível com A. 
Ora, a combinação das proposições de Koyré e de Kojeve parece 
realmente afirmar que certo corte é próprio a afetar não apenas dois 
discursos (por exemplo, a ciência e a metafísica), mas todos os dis­
cursos compossíveis. É o que implica, evidentemente, o uso de termos 
totalizantes, mundo e universo (" o mundo do quase" , "o universoda 
precisão" ). Chamemos maior tal corte. O doutrinai de ciência será 
assim reformulado: 
'o corte entre episteme e ciência moderna é um corte maior' . 
Esta é , em todo caso, a leitura feita por Lacan; ela s e impõe se 
o doutrinai tiver que incluir uma teoria do sujeito moderno (hipótese 
do sujeito da ciência); impõe-se ainda com mais força se, como parece 
ter pretendido Lacan, for preciso incorporar, a título de lema, a hipótese 
de Althusser (Lacan não se interessou diretamente por Barthes, embora 
ele próprio tenha apresentado proposições sobre o estilo e estas, me­
diante Norden, sejam amplamente compatíveis com O grau zero). 
Isso pode ser dito de outra forma: segundo Lacan, a palavra 
" moderno" nada estenografa se não estenografar um corte maior. 
O primeiro classicismo lacaniano 67 
Podemos, decerto, discutir os elementos desse corte, mas não é 
improvável que, supondo-o, supomos que ele afeta todos os discursos 
compossíveis: nenhum deles a isso é imune, ao menos na medida em 
que é moderno. Nem a economia material (hipótese de Althusser), 
nem as letras (hipótese de Barthes e hipótese equivalente de Lacan), 
nem as filosofias políticas (L. Strauss ou C. Schmitt), nem as imagens 
(Panofsky), nem a filosofia especulativa (Heidegger). Nem, enfim, a 
consciência: a psicanálise, em sua emergência, atesta que nem mesmo 
a vida interior
· 
está imune ao corte; o sujeito não é um império em 
um império; existe um sujeito moderno (ou porque o distinguimos de 
uma subjetividade antiga, ou porque supomos a subjetividade nascida 
com a própria modernidade); de sua instauração, a psicanálise é a um 
só tempo prova e efeito. 
Em outros termos, já é hora de ressaltá-lo, o dispositivo do dou­
trinai de ciência repousa sobre um axioma de existência suplementar: 
'não só há cortes, mas há cortes maiores ' . 
Ora, Foucault, justamente, não supõe isso; inclusive, tudo indica 
que supõe o contrário. Todo seu propósito repousa sobre a possível 
não-coincidência e não-homologia dos cortes; daí rompimentos cons­
tantes, contratempos, efeitos de turbulência, que não se devem perder. 
Desse modo, o cristianismo pode constituir um corte na história 
da sexualidade, mas não necessariamente na da loucura. O galileísmo 
do início do século XVII pode constituir um corte na ciência da natureza, 
mas não nos discursos referentes ao falar, à classificação, à troca. 
Estes últimos estão marcados por um outro corte, que data do fim do 
século xvme que parece indiferente à física matematizada. Por mais 
igualmente radicais que sejam, cada um desses cortes retira de cada 
um dos outros as propriedades de um corte maior. Mesmo cortes 
contemporâneos (ou quase contemporâneos) um do outro não estão 
necessariamente articulados um ao outro. É inclusive ilusão caracte­
rística do discurso " psi" (do qual a psicanálise, segundo Foucault, é 
parte) crer em tal articulação entre teoria do íntimo e teoria dos pro­
cessos públicos. 
De maneira geral, é sempre possível que algum discurso seja 
imune aos cortes reputados maiores pela vulgata: cristianismo, capi­
talismo, ciência moderna. É sempre possível que os cortes estejam 
dessincronizados uns dos outros, e isso mesmo quando seriam, quanto 
à annalística, simultâneos. Além disso, não seria preciso levar muito 
adiante a consistência de Foucault para nele deslindar uma suspeita 
política: a figura do corte maior contém todos os traços daquilo que 
68 A obra clara 
o discurso político chamou " Revolução" . Indo além: da mesma forma 
que se supõe que a ciência moderna nasceu de uma revolução científica, 
da mesma forma o discurso político moderno se caracteriza por ter 
construído o tipo da Revolução e através deste medir todo objeto 
político possível. Ora, segundo Foucault, a Revolução não existe; a 
crença nela conduz à catástrofe - na prática e na teoria. Paralelamente, 
a figura discursiva do corte maior, por menos culpada que seja (não 
podemos aparentemente lhe atribuir nenhum massacre), não é menos 
enganadora. 
Assim, o corte é radicalmente múltiplo, ou melhor, ele é o próprio 
múltiplo. Quase sempre inominado - Foucault não gostava de falar 
de corte -, ele está no cerne das nominações, cujo sistema articula. 
Foucault fora o primeiro a relacionar o discurso exclusivamente ao 
regime dos nomes; fora o primeiro a trabalhar, de maneira conseqüente, 
para balizá-lo com suas compatibilidades e incompatibilidades apenas. 
No entanto, ele não cedera à tentação que sempre acompanha tal gesto: 
que, em última instância, haja sempre apenas um único discurso, pois 
todo nome vale um outro. Ele nunca cedeu quanto ao múltiplo dis­
cursivo, isto é, quanto à heterogeneidade dos nomes, isto é, quanto à 
sua desigualdade. O corte nada designa além disso. 
Ele é somente aquilo que diz não à sinonímia proliferante e ele 
proliferará ao ritmo irregular daquilo que denega. Esclareceremos as­
sim o aforismo de René Char, que Foucault colocou na contracapa 
de sua História da sexualidade: " a história dos homens é a longa 
sucessão dos sinônimos de um mesmo vocábulo. Contradizê-los é um 
dever" . Em outros termos, os cortes são rebeliões discursivas; seu 
surgimento é tão disperso quanto o são as desordens; eles têm mais 
a ver com 68 do que com 17 ; o axioma de existência cede a um 
mandamento indistinguivelmente ético e político: ' temos sempre razão 
de nos revoltarmos contra os sinônimos' .4 
Se não há cortes maiores, há então sistemas de cortes independentes 
uns dos outros e não síncronos. Para todo discurso afetado por um 
corte, haverá sempre pelo menos um outro que, nesse instante, não o 
será. Através de uma metodologia inteligente, até mesmo astuciosa, 
todo discurso pode, portanto, sucessivamente servir a um outro como 
sólido de referência. Não há nenhuma necessidade de supor uma Baliza 
absoluta que seja por essência fora do corte, já que as desarmonias e 
as turbulências bastam para se balizar mutuamente. 
O primeiro classicismo lacaniano 69 
A não ser que, porventura (mas são as circunstâncias que deci­
dem), algum efeito de paixão constitua, no espaço de um instante, 
uma configuração empírica em Baliza. Pode-se assim entender a função 
de intervenção que Foucault freqüentemente assumiu pelas vias do 
Journal. Ela depende inteiramente de sua axiomática doutrinai ( 'não 
há cortes maiores' ), mas corrigindo-a através de uma proposição prática 
- no sentido kantiano da palavra: 'há certas circunstâncias que, no 
instante de uma paixão, têm efeito de corte maior e de Baliza' . 
A esse efeito, que se assemelha a um efeito de verdade, embora 
não seja um, Foucault deu um nome. Durante seu trabalho sobre as 
prisões, ele havia desenvolvido o conceito de " inquérito-intolerância" : 
evidenciar através do mais rigoroso inquérito um objeto empÍI:ico 
(atividades de um aparelho, afirmações deste ou daquele agente, de­
cisões abertas ou secretas etc.), tal como ele desperta naqueles que 
dele tomavam conhecimento o ponto de intolerância - o juízo, anterior 
a todo enunciado, que isso, que vemos, não pode ser tolerado. Não 
tendo o intelectual outra máxima ética senão proferir os enunciados 
capazes de despertar esse juízo naqueles que nada proferem. 
Agora compreendemos esse gesto e essa linguagem; desse ponto 
de intolerância, suscitado no interior dos limite.s do inquérito, voltar 
como se voltássemos de um ponto exterior, situado para além de um 
corte maior (exceto que não há nem exterior nem corte maior), à 
integral dos discursos (exceto que essa integral não é construível) e 
julgá-la (exceto que esse juízo se autoriza apenas de sua pura e simples 
proferição - ela mesma efêmera). 
Mas se em contrapartida Lacan tem razão, se há realmente cortes 
maiores, então os balizamentos mútuos são impossíveis; é preciso, 
portanto, um sólido de referência que seja imune aos cortes. Esse 
sólido deve, em todo caso, permitir que se tratem as homonímias e 
as incertezas de sinonímia a que se reduzem, em sua forma mais 
simples, os cortes. A questão do lugarde imunidade não é explicita­
mente tratada nem por Koyré, nem por Kojeve, nem por Lacan. 
Numa leitura historicizante, ela pede, entretanto, uma primeira 
resposta, aparentemente simples: existe pelo menos um conjunto de 
realidades que permanecem imunes aos cortes, e que são as línguas. 
Em relação aos discursos e a seus deslocamentos e soluções de con­
tinuidade, uma determinada língua é o lugar onde as homonímias se 
deixam assimilar. De fato, só uma língua pode constituir esse lugar. 
70 A obra clara 
Em outros termos, a suposição segundo a qual há cortes maiores 
é também a suposição de que eles não afetam a língua. Mas isso nada 
mais é do que o que Stalin buscara estabelecer. Pode-se mesmo sus­
tentar que, no modelo de escolástica marxista que era o seu, ele tivera 
êxito, a ponto de se poder inclusive falar de um verdadeiro teorema 
de Stalin.5 Em doutrina marxista, ele se enuncia (com sua recíproca): 
'existem mudanças da Infra-estrutura que não acarretam mudanças na 
língua; existem mudanças na língua que não dependem de mudan­
ças na infra-estrutura ' ; mas, levando em conta essa doutrina, toda 
mudança na infra-estrutura afeta, direta ou indiretamente, de maneira 
mais ou menos perceptível, cada uma das instâncias superestruturais, 
sem excetuar nenhuma; o que corresponde a dizer que toda mudança 
da infra-estrutura é um corte maior. Em contrapartida, o marxismo 
clássico supõe que só uma mudança da infra-estrutura pode produzir 
um corte maior. É portanto possível reformular o teorema de Stalin: 
'a língua é imune aos cortes maiores' (ou, em uma linguagem política: 
'a língua é imune às revoluções') .6 
Esse teorema evidentemente só é verdadeiro para a língua como 
forma; para tudo o que na língua não é formal, ele seria facilmente 
refutado e Stalin o ignorava menos do que ninguém. Ele supõe, por­
tanto, que a língua como forma existe, oponível à língua como subs­
tância. Ora, a língua como forma é o que a lingüística, na época de 
Stalin, chamava de estrutura. Eis por que Jakobson se reconheceu no 
. teorema e o avalizou. 
Ao referir-se à estrutura (" o inconsciente é estruturado como 
linguagem" ), Lacan se pronuncia portanto sobre a questão da Baliza. 
Ele o faz, aparentemente, do mesmo modo que Stalin. Isso, é claro, 
não esgota o alcance de sua relação com o estruturalismo. Ademais, 
esta também comporta aquela. 
Daí a relação que Lacan crê poder construir: se o que Lacan diz 
da língua é verdade. então o marxismo pode ser verdade, embora não 
o seja necessariamente; se o que o marxismo - isto é, Stalin - diz 
da língua é verdade, então Lacan é necessariamente verdadeiro.7 
Na verdade, a relação é ainda mais precisa: não se trata apenas 
da língua, mas, de fato, do doutrinai de ciência; em sua leitura his­
toricizante, este requer o teorema de Stalin (assim como o que se 
pode chamar de o lema de Stalinç 'a língua, como forma, é a baliza 
que permite constatar os cortes maiores ' ) . Ele o requer na medida 
exata em que depende do teorema de Kojeve. No qual se percebe que, 
inobstante o que ele próprio talvez pensasse, Kojeve depende do teórico 
O primeiro classicismo lacaniano 71 
Stalin, e não apenas de sua figura mítica de imperador do mundo 
moderno. 
Há mais. Indo além dos próprios textos, e provavelmente da 
consciência clara dos autores, podemos descobrir, no teorema de Stalin, 
um meio de resolver uma dificuldade do doutrinai. 
Muitos autores assinalaram o quanto o status da matemática e o 
da lógica eram aí problemáticos. Uma questão permanece aberta: a 
própria matemática está submetida ao corte galileano? Em geral, a 
resposta mais admitida é negativa. Não há, segundo a maioria das 
autoridades (Bourbaki, por exemplo), ruptura absoluta entre a mate­
mática grega e a matemática cartesiana ou cantoriana; diferenças, 
decerto, mas nada que se compare à relação que mantêm entre si as 
físicas pré-galileanas e pós-galileanas . O que equivale a afirmar que 
a matemática está justamente em posição de funcionar como uma 
baliza em relação ao corte maior. 
A matemática não é uma ciência galileana; ela não é uma ciência 
popperiana; o contingente não lhe conceme. Com isso se explica jus­
tamente o papel que ela desempenha no corte. A imunidade da ma­
temática em relação ao corte maior reside no princípio do próprio 
corte. 
Vê-se, então, que a matemática tem estritamente o status de uma 
língua, tal como o teorema de Stalin a institui. Sabe-se, de resto, que 
a definição linguageira das matemáticas se tomou prevalecente entre 
os modernos. É verdade que ela já .está presente em Galileu: fazer da 
matemática o alfabeto (e não, é claro, o hieróglifo) do universo cor­
responde a lhe conferir in nuce um status que se revelará, ao termo 
de um percurso sinuoso, em geral relativamente aceito. Que a mate­
mática seja uma língua (a maioria dos modernos sustentam, além 
disso, que cabe à lógica enunciar-lhe as regras, mas desde que a 
própria lógica seja enunciada em língua matemática), essa afirmação 
vincula-se, de maneira geral, ao doutrinai de ciência e resolve o pa­
radoxo pelo qual só podemos reconhecer um corte pelo que a ele é 
exceção. Não cabe aqui determinar se essa posição pode ser defendida. 
O importante no presente momento é reconhecer aí uma versão des·· 
conhecida do teorema de Stalin. 
Sob esse enfoque, interpretar o doutrinai de ciência em termos 
historicizantes, atribuir às matemáticas uma continuidade imune aos 
cortes maiores, reconhecer-lhes uma implicação constituinte no corte 
maior do universo moderno, defini-las como uma língua, ser stalinista 
72 A obra clara 
em matéria de língua, tudo isso parece constituir cinco decisões so­
lidárias. 
A teoria de Foucault é completamente diferente; ela pode perfeitamente 
integrar a hipótese segundo a qual as línguas não escapam aos cortes 
disjuntos e turbulentos cuja teoria é feita pela arqueologia. Anti-sta­
linista em doutrina política, Foucault o é também quanto à língua. 
Com mais exatidão, ele se abstém, quanto às línguas, de emitir qualquer 
juízo: impossível nele determinar se são ou não superestruturas. É 
verdade que os pequenos foucaltianos demonstraram menos reserva; 
mas pouco importa. 
Assim se explica por que Foucault sempre fez uso com extrema 
prudência de raciocínios entretanto freqüentes entre seus confrades: 
concluir do aparecimento ou do desaparecimento das palavras ao apa­
recimento ou ao desaparecimento das coisas. Que uma palavra comece 
a existir ou deixe de existir é um dado de que ele faz uso, mas com 
uma discrição que impressiona. Na verdade, poderíamos afirmar que 
alguns dos trabalhos mais importantes de Foucault repousam sobre a 
hipótese inversa: a mesma palavra " loucura" e a mesma palavra " pri­
são" aparecem dos dois lados do corte que afeta os discursos nos 
quais essas palavras aparecem. É verdade que outras proposições, 
mais regionais, repousam sobre a hipótese exatamente inversa; a emer­
gência do grupo nominal doença mental constitui, assim, um sinal 
que o método retém. 
É que a língua não importa para Foucault, tampouco a linguagem, 
quer as consideremos em sua forma ou em sua substância. É verdade 
que a lingüística lhe fornecera conceitos e apoios, mas podemos des­
confiar que haja aí mais que analogias, autorizadas pela conjuntura 
dos anos 60. É também verdade que as palavras e as frases constituem 
a causa material dos discursos. Mas os díscursos possuem lei própria, 
que nada deve às eventuais leis que governam as palavras e as frases. 
A lei dos discursos se resume numa só: 'existem descontinuidades ' , 
ou 'devemos dizer não às sinonímias ' . Eis, portanto, o único objeto 
que podemos tratar, através de uma espécie de física dos turbilhões, 
na qual nada existe que mereça ser considerado absoluto. No sentido 
em que Descartes admite tão-somente movimentos relativos. 
Por contraste, avaliamos melhor a natureza da doutrina lacaniana: 
existem não apenas descontinuidades, mas existem descontinuidades 
tais que afetam todos os discursos.Isso supõe que existe algo como 
O primeiro classicismo lacaniano 73 
movimentos absolutos e, portanto, algo como uma baliza de referência 
absoluta. 
Evocamos, legitimamente, Stalin. Pois é este nome que convém de­
cifrar sob o de Jakobson, lingüista: a afirmação segundo a qual a 
baliza absoluta, independente a um só tempo da infra-estrutura e das 
superestruturas, é a estrutura das línguas naturais, por essa razão in­
tegráveis a um conceito formal único: a linguagem. Ora, com Stalin, 
mesmo camuflado por Jakobson, continuamos na História. Mas Lacan 
não crê na História, embora admita os cortes maiores. 
A articulação é aqui inexorável. Se o corte maior for interpretado 
em termos historicizantes, então Stalin é necessário; ele só é evitável 
se uma interpretação não-historícizante for construída. 
Foi precisamente por isso que Lacan fez questão de não se deter 
na linguagem. Ele a evoca explicitamente, para abandoná-la logo no 
instante em que nela se detém. O ponto de referência absoluto não é 
a linguagem em si, nem as línguas nas quais se polimeriza, mas aquilo 
de que a linguagem, reduzida a seu real, é o substituto. Isto é, o 
sujeito. 
Voltamos à teoria dos quatro discursos e avaliamos melhor sua 
importância. Ela não apenas propõe uma teoria não cronológica das 
descontinuidades, não apenas propõe uma teoria das propriedades ab­
solutas destes ou daqueles discursos, não apenas admite o movimento 
absoluto (" o quarto de volta" ), mas determina e nomeia também a 
baliza absoluta sobre a qual repousa. 
O doutrinai de ciência supõe essa baliza de referência absoluta, 
unicamente pelo fato de ele requerer cortes maiores. Mas por outro 
lado, ele se combina com a teoria dos discursos, segundo a qual 
nenhum corte é cronológico. Afirma, portanto, que os cortes maiores 
não o são. Em relação a eles, a baliza absoluta não tem, portanto, por 
propriedade distintiva, escapar ao cronológico. Com a teoria não cro­
nológica dos cortes repousando crucialmente sobre uma teoria dos 
lugares, a propriedade da baliza deve residir em sua atopia: sua ca­
pacidade de ocupar qualquer lugar que seja onde lhe ocorre insistir. 
O único real que apresenta, por definição e por construção, essa pro­
priedade de atopia e de insistência, é o sujeito do significante. É por 
isso que os teoremas de Koyré e de Kojeve só são inteiramente fundados 
se admitirmos conjuntamente a hipótese do sujeito da ciência e a 
definição do sujeito como sujeito de um significante: a ciência mo-
74 A obra clara 
dema, como ciência e como moderna, determina, de fato, um modo 
de constituição do sujeito. 
É preciso ainda que essa própria hipótese seja radicalmente des­
historicizada. É o que permite a teoria do discurso psicanalítico. Sus­
tentar que existem cortes maiores significa sustentar que, do ponto 
do sujeito, existem suspensões integrais de sinonímias. A doutrina da 
interpretação - a do tratamento analítico - encontra, desse modo, 
seus títulos de legitimidade; não poderia ter outros. Uma interpretação 
é apenas isso: proferir a palavra que fará com que entre o antes e o 
depois nada mais seja sinônimo. Uma palavra só realiza isso caso se 
refira ao sujeito. Só há, portanto, interpretação do ponto do sujeito. 
Mas esse ponto do sujeito é aquilo mesmo que requer uma doutrina 
geral dos cortes, na medida em que um corte é suspensão das sino­
nímias. O doutrinai de ciência está vinculado com o que se pretende 
o núcleo mais íntimo da prática freudiana, cuja matriz é exposta pela 
teoria dos discursos, com o nome de discurso psicanalítico. Podemos 
repetir, mas compreendendo enfim seu alcance, a equação dos sujeitos: 
'a praxis da psicanálise é interpretação; o sujeito que a psicanálise 
requer - na medida em que ela interpreta - é o sujeito que a ciência 
requer na medida em que ela se constitui através de um corte maior; 
todo corte maior tem a estrutura de uma interpretação' .s 
Somente com isso o poder de Stalin é superado, isto é, o de 
Marx. 
2. O paradigma da estrutura 
Toma-se patente que, no dispositivo de Lacan, o que Stalin e Jakobson 
propunham com o nome de línguas ou linguagem era tão-somente o 
estrito lugar-tenente do sujeito, do qual nem Stalin nem Jakobson 
estão em condições de falar adequadamente. Passar das línguas ao 
sujeito é o que permite a doutrina do inconsciente, enquanto estruturado 
como uma linguagem. Compreender isso é compreender a relação 
com o estruturalismo. 
Lacan é uma figura do estruturalismo. Quanto a isso não há dúvida, 
se nos ativermos à opinião. Resta esclarecer o que se entende por 
isso. O que supõe que expliquemos, com mais clareza do que de 
hábito, como Lacan se inseria no programa estruturalista, o que supõe, 
em contrapartida, que expliquemos com mais clareza do que de hábito, 
O primeiro classicismo lacaniano 7!5 
o que era esse programa. O próprio Lacan havia julgado útil reafirmar 
sua própria doutrina nos primórdios de sua maior difusão: " essa cor­
reção, dizia ele em 1 965, influi no destino de tudo o que se reúne, 
agora de maneira excessivamente ampla, sob a insígnia do estrutura­
lismo�' (resumo redigido para o anuário da EHESS, cf. S;, XI). O mo­
vimento recíproco raramente foi cumprido.9 Convém que seja hoje 
retomado. 
O estruturalismo constituiu, para além dos arroubos de moda, 
uma figura da ciência: um momento em que se pensou que a jurisdição 
da ciência moderna podia e devia. se estender bem além dos limites 
que durante muito tempo lhe haviam sido reconhecidos. 
Por exemplo, o ideal da ciência, como ciência matemati�ada do 
universo. Por exemplo também, para representar a ciência. ideal, a 
figura oriunda do século XIX e do i:nício do século XX; segu11do 'essa 
visão, só podíamos, da matematização, propor uma única prova assi­
milável, a medida quantitativa exata� desde então, um discurso empírico 
será considet1ado matematiza:de se e somente se suas proposições com­
portarem medidas ou referências numéricas. Desde Galileu, as ciências 
que tomavam por objeto porções do reino da natureza tornaram-se 
conformes a essa definição; quando se trata de objetos sociais ou mais 
comumenie· humanos, deve-se proceder a adaptações. Fizeram-nas de 
vários tipes-: conservando o ideal da medida (utilizando-se, principal­
mente, procedimentos estatísticos), abandonando-o e substituindo-o 
por outr;a figura ideal, renunciando a qualquer figura ideal etc. 
O estruturalismo inscreve-se nessa discordância; reclama para si 
o ideélll da ciência, mas lhe sugere uma figura nova; em relação à 
ciênciia, ideal, ela é caracterizada por uma dupla modificação; uma 
refere-se aos objetos empíricos: o estruturalismo dedica-se a objetos 
humanos - é em virtude disso que a oposição da natureza e da cultura 
lhe é principiai. 
A segunda refere-se à matematização; ela deve doravante ser 
entendida num sentido novo: que não se trata mais da medida, stricto 
sensu, mas de uma literalização e de uma dissolução não quantitativa 
do qualitativo. É uma reinterpretação do teorema 3 de Koyré (cap. 11, 
p.38). 
Sabemos que a ciência moderna, comparada à física aristotélica, se 
vê perseguindo um desígnio tenaz: eliminar da ciência as qualidades. 
Não apenas as qualidades práticas - bem, mal, útil, prazeroso etc. 
-, mas também e sobretudo as qualidades sensíveis: rápido, pesado, 
76 A obra clara 
colorido, quente etc. Este é o primeiro gesto; ele não basta a uma 
matematização, mas lhe é necessário. Através dele somente, as pro­
posições matematicamente literalizadas poderão se tornar primeiras. 
Quando tudo se consumar, as qualidades não poderão mais aparecer, 
a não ser a título de estenogramas segundos, oriundos da língua usual. 
A física nada diz diretamente sobre o calor e o frio; diz algo 
sobre movimentos de moléculas, dos quais alguns são associáveis à 
propriedade sensível usualmente chamada calor. Da mesma forma, 
nada diz sobre o claro e o escuro, mas diz algo sobre a luz e sobre 
as configurações associáveis às propriedades sensíveis usualmente cha­
madas claroe escuro. Nada diz sobre as cores, mas diz algo sobre o 
que as suscita num ser dotado de sensibilidade ocular. 
De uma maneira que lhe é própria, o estruturalismo em lingüística 
é ele também um método de redução das qualidades sensíveis. Essa 
característica só pode se revelar de maneira limitada, uma vez que as 
línguas naturais só dizem respeito à matéria sensível num único campo: 
a forma fônica. Mas nesse campo, o método tem efeitos evidentes. 
Tomemos um exemplo que se tornou famoso: o tratamento pro­
posto por Trubetzkói das finais oclusivas em alemão. Uma palavra 
como Rad ( 'roda' ) se realiza como homófona de Rat ( 'conselho') ; 
nos dois casos, a fonética registra um [t], [rat] . A notação ortográfica 
faz, entretanto, surgir um d no primeiro e um t no segundo; ela é, 
além disso, confirmada pelo plural: Riider ( 'rodas' ), onde o /d/ é 
audível e Riite ( 'conselhos'), onde o /ti é audível. Se, como parece 
que devemos dizer, Rad no singular e Riider no plural são uma única 
e mesma palavra, é preciso dizer algo sobre o que aconteceu ao /d/. 
Alguns lingüistas dirão, portanto, que " o /d/ em alemão torna-se surdo 
am final de palavra" . 
Do ponto de vista estrito do método, objeta Trubetzkói, essa 
proposição é inexata e imprecisa: a oclusiva final de Rad e Rat é 
decerto materialmente surda, mas não o é do ponto de vista da ciência. 
Com efeito, ela não pode se opor a uma oclusiva materialmente sonora, 
já que estl\l.s justamente não aparecem nessa posição. Ora, as proprie­
dades lingüísticas subsistem apenas na estrita medida em que fazem 
parte de uma relação de oposição distintiva. O elemento final de Rad 
e Rat é, no sentido estrito, neutro e sem propriedade quanto à sono­
ridade. De maneira geral, uma entidade fônica não é, do ponto de 
vista da ciência, surda (ou sonora, ou labial, ou dental etc.) por si 
mesma; ela o é apenas pela diferença que a separa de alguma outra 
entidade. 
O primeiro classicismo lacaniano 77 
No exemplo Rad/Rat, diremos que a final é uma entidade, cha­
mada arquifonema, que não comporta nenhum valor do ponto de vista 
da propriedade opositiva surdo/sonoro e que notamos, em maiúsculas, 
ff/. As duas formas serão, portanto, notadas: /raT/. 10 
Dizer isso corresponde a não considerar nem um pouco o dado 
sensível, registrável pelos aparelhos fonéticos. Pois é verdade que o 
elemento fônico final de Rat e o de Rad é " objetivamente" surdo, 
isto é, surdo para a orelha. Mas os praticantes da fonologia estrutural 
se lembram: eram levados a não se limitarem a essa qualidade. 
Encontramos aqui o gesto próprio da física matematizada, talvez 
mesmo estritamente galileana. 1 1 A qualidade não está, decerto, resu­
mida à quantidade; ela não deixa, no entanto, de estar dissipada; ela 
não está, por certo, reduzida em figuras geométricas, mas se insere 
num quadro sobre o qual podemos determinar distâncias, proporções, 
simetrias; ela não está, decerto, expressa por uma notação de cálculo 
numérico, mas não deixa de ser, no entanto, captada por uma litera­
lização: o mero fato de escrever o arquifonema com uma maiúscula 
ff/ é uma decisão que deriva de um sistema de notação, tão rigoroso 
quanto uma notação algébrica, embora incomparavelmente menos so­
fisticado. 
Estamos no direito de falar aqui de uma matematização estendida; ela 
se pretende rigorosa e forçada, é verdade, mas também autônoma em 
relação ao aparelho matemático stricto sensu - geometria, aritmética, 
álgebra, teoria dos conjuntos, ingênua ou abstrata, teoria das estruturas 
etc. Sabemos que a lingüística dos anos 20 se dedicou a essa tarefa. 
No final do processo, nos anos 50, ela pôde ser considerada como 
uma disciplina tão literal quanto a álgebra ou a lógica e no entanto 
inteiramente independente delas. Baseada nesses fundamentos, ela co­
nhecia sucessos empíricos. O conjunto das línguas naturais era reputado 
assimilável, em sua extensão e detalhe, por seu método. Podia-se, 
portanto, considerar que ela atuava estritamente como ciência galileana 
de seu objeto. Galileísmo ampliado, portanto, baseado numa matemá­
tica ampliada, e extensivo a objetos inéditos. 
Pois esse objeto era a linguagem, isto é, o que separa de maneira 
capital a espécie humana do reino da natureza, pelo menos tal como 
a entendemos em geral. 12 Da mesma forma, a antropologia lévi-straus­
siana parecia mostrar que aplicados a objetos eminentemente não na­
turais - os sistemas de parentesco -métodos comparáveis conduziam 
78 A obra clara 
a uma apresentação exaustiva, exata, precisa e demonstrativa dos fun­
cionamentos. O apoio que Lévi-Strauss encontrava na lingüística reside 
numa analogia de procedimentos; ele reside principalmente numa ana­
logia dos pontos de vista constituintes. 
Sabemos que baseado nesse duplo fundamento, lingüístico e an­
tropológico, desenvolveu-se um movimento de \pensamento; ao con­
trário do que sempre sustentamos, sua unidade metodológica não deixa 
nenhuma dúvida. Da mesma forma que não deixa dúvida sua impor­
tância epistemológica. Que Lacan, cuja relação com o galileísmo é 
principiai e que além disso apreende seu objeto mais do lado da cultura 
do que da natureza (não ocorria necessariamente o mesmo com Freud), 
tenha sido incluído nas fileiras dos estruturalistas, isso é facilmente 
explicável. 
· 
É sob esse enfoque que deve ser lido o discurso de Roma. Ele 
pode ser considerado como um verdadeiro manifesto. Um leitor atento 
não deixa de nele perceber o tom da célebre carta de Rabelais: " O 
tempo ainda era tenebroso e exalava a infelicidade e a calamidade 
dos godos, que haviam destruído toda boa literatura. Mas a luz e a 
' 
dignidade foram devolvidas às letras. Agora, todas as disciplinas foram 
restabelecidas, as línguas instauradas . . . " (Pantagruel, cap. VIII). É 
verdade que Rabelais tem a ver com a ciência antiga; ele não poderia 
ser, evidente, galileano; mas ele é, e o corte, sob certos aspectos, não 
é menor, erasmiano. O que significa que ele é portador. em épocas 
em que o estudo da natureza é ainda marcado pelo quase, do ideal 
de precisão literal. De Erasmo a Galileu, sabemos que a transição é 
boa. 
Ainda mais que, pelas virtudes do estru:turalismo lingüístico, po­
deríamos crer que após tantos séculos de separação eles se reencon­
travam. Nunca, anteriormente, o ideal de precisão nas línguas e o 
ideal de precisão na Natureza tinham se aproximado a esse ponto e 
sido simultaneamente proclamados. A hora de um segundo Pantagruel 
era, portanto, bem vinda. A ele será anunciado o nascimento de um 
galileísmo de tipo novo, mais extensivo que o antigo, já que inclui a 
cultura, baseado como de nos " caracteres matemáticos" de que fala 
Galileu. Mas essas letras não são as da medida, são as de um cálculo. 
É verdade que nesse ínterim a própria matemática, considerada em 
sua determinação mais estrita, se apresentou como um simbolismo 
forçado, disjunto da quantidade. 
Bourbaki é aqui a testemunha escolhida. De seu literalismo ex­
plícito à literalização dos lingüistas e antropólogos, o parentesco é 
O primeiro classicismo lacaniano 19 
reputado admissível por Lacan. Não se deve, portanto, concluir que 
a matemática se " aplica" adaptando-se a objetos não mensuráveis, 
ou que são possíveis, em lingüística ou antropologia, formalizações 
outras que matemáticas; deve-se antes concluir que a matemática es­
tende_seu império, sem nada ceder de sua essência. Trata-se, realmente, 
de um galileísmo ampliado: mais extensivo que o primeiro, mas tam­
bém mais rigoroso, já que se autoriza de uma matemática enfim levada 
a seu literalismo absoluto. A lingüística, reputada ciência realizada, 
só conta na medida em que propõe uma matemática. l3 O Lacan lingüista 
é, assim, um Lacan matemático. 
É verdade que apenas a lingüística estrutural interessou de fato a 
Lacan. Entretanto, ela não é a única, entre as formas de lingüística 
possível, a se apresentar como uma matematização. Outras, antes mes­
mo de Chomsky, podiam desempenh�r esse papel de referência.Afinal, 
a gramática comparada, considerada no que tem de incisivo, já bastava. 
Além disso, é patente que, após Chomsky, a lingüística contou 
cada vez menos para Lacan; ou se contou, não foi mais da mesma 
maneira. Para além das relações de amizade que ele mantinha com 
Jakôbson, para além das relações de estima que mantinha com Ben­
veniste, e que eram, umas e outras, independentes do paradigma par­
ticular em que estes podiam se inscrever, 'é preciso, portanto, discernir 
um parentesco mais intrínseco à lingüística estrutural Devem ser con­
sideradas teses específicas, que caracterizam a lingüística estrutural 
por oposição a outras lmgüísticas --eventualmente mais recentes -
que também poderiam ser candidatas a representar um galileísmo da 
língua. 
A lingüística estrutural repousa sobre três teses minimalistas: 
l ) um minimalismo da teoria: uma teoria ficará mais próxima 
do ideal da ciência na medida em que ela se impuser, para um poder 
descritivo máximo, o uso de um número mínimo de axiomas e de 
conceitos iniciAis; 
2) um minimalismo do objeto: só conheceremos uma língua se 
nos impusermos nela considerar apenas as propriedades míni_mas que 
a tornam um sistema, descomponível em elementos eles mesmos mí­
nimos; 
3) um mmimalismo das propriedades: um elemento de um sistema 
tem por únicas propdedades aquelas que são determinadas pelo sistema. 
80 A obra clara 
A tese 1 é, na verdade, o ressurgimento da axiomática antiga. Parece 
certo que os teóricos da lingüística - e sobretudo o primeiro deles: 
Saussure - não tiveram uma consciência clara dessa genealogia; foi, 
talvez, porque ela lhes parecia óbvia. Não é nada disso. Muito pelo 
contrário, ela foi rejeitada pelos doutrinários da ciência moderna: por 
Koyré implicitamente, por Popper explicitamente. Não foi , portanto, 
sem conseqüências que ela assim ressurgiu. 
Daí a lingüística utilizada por Lacan se inscrever como paradoxo: 
supostamente portadora de uma nova forma de galileísmo, ela se baseia 
numa figura pré-galileana da ciência. A ciência ideal não é síncrona 
do ideal da ciência, que ela pretende, no entanto, repres�ntar. Aí reside 
um elemento de instabilidade pelo qual o galileísmo ampliado se verá 
afetado. Resta que Lacan, em seu primeiro movimento, não parece 
ter sido sensível a isso. 
, 
A tese 2 permanece evidentemente vazia se nada de generalizável for 
dito sobre o que constitui um sistema. A resposta é conhecida, e ela 
remonta a Saussure: existe sistema se e somente se existir diferença; 
considerando a tese minimalista, nada portanto deverá ser levado em 
conta para se conhecer uma língua, a não ser a diferença. Admitimos 
que um nome do sistema reduzido a sua relação mínima é o estrutura; 
o nome estruturalismo designa sua teoria. 
Isto posto, deve ficar evidente que um sistema assim definido 
em termos mínimos nada tem de específico às línguas. O.estruturalismo 
é, portanto, por princípio, extensível a outro� obj�tos; na verdade, o 
conjunto dos objetos_.da cultura. A injunção genérica é portanto: dado 
um objeto da cultura, só o conheceremos adequadamente impondo-nos 
ali considerar apenas as propriedades que se analisam, em última 
instância, como relações de diferença. 
Trata-se decerto de um sistema mínimo, já que as propriedades 
estão reduzidas a um tipo único; trata-se, também, de um sistema 
qualquer, já que ele pode e deve valer para objetos materialmente 
variados: fonemas, bens, mulheres. 
A tese 3 é bem mais forte do que a tese 2. Talvez a lingüística seja 
a única a tê-Ia praticado. Combinada com a tese 2, ela significa o 
seguinte: se propusermos a questão da existência (an sit), um elemento 
do sistema só subsiste, enquanto elemento, como termo numa relação 
de diferença; se, estando essa questão resolvida, propusermos a questão 
O primeiro classicismo lacaniano 81 
das propriedades do elemento (quid sit), ele terá apenas as propriedades 
que concorrerem para uma relação de diferença. 
Todos os praticantes da lingüística estrutural conhecem essas 
proposições e as consideram triviais. Não o são. Elas correspondem 
a inverter a ordem geralmente admitida entre propriedades e relações. 
De hábito, com efeito, um existente é dado; propriedades lhe são 
atribuídas (por análise sensorial ou perceptiva ou conceitual, pouco 
importa) ; é depois, e baseados nesse fundamento, que poderemos em 
relação a um outro existente, analisado de maneira paralela e inde­
pendente, concluir que ambos mantêm uma relação de semelhança ou 
de diferença (completa ou parcial). 
· 
O procedimento aqui é outro: a diferença é dada primeiramente, 
e é ela que autoriza as propriedades. Isso só pode significar uma única 
coisa: existe uma relação de diferença que nada deve às propriedades 
dos termos, já que é anterior a eles. De resto, é exatamente o que o 
lingüista estruturalista conseqüente conclui: existem objetos lingüís­
ticos qualitativamente semelhantes e que contam por dois (em outras 
palavras, o princípio leibniziano dos indiscemíveis é rejeitado); existem 
objetos lingüísticos qualitativamente dessemelhantes e que contam por 
um. Assim, Benveniste sustentou que duas palavras gregas domas, da 
mesma forma fônica e referindo-se à mesma coisa significada (o que 
chamamos casa), eram lingüisticamente duas entidades separadas 
(" Homophonies radicales en indo-européen" , BSL, 5 1 , 1 955, p .21 -2); 
ao inverso, o raciocínio por variação livre afirma que duas entidades 
fonicamente dessemelhantes constituem apenas uma do ponto de vista 
lingüístico: assim o r vibrante e o r não-vibrante em francês; o raciocí­
nio por variação contextual afirma que a dessemelhança perceptível 
entre o [m] do inglês pimp e o [n] do inglês pint não afeta a unidade 
dessas duas nasais: o caráter labial da primeira repete somente o 
caráter labial do /p/ que a segue e o caráter dental da segunda repete 
somente o caráter dental do /ti que a segue; na verdade, só há nesse 
caso uma única entidade nasal, que assume duas formas dessemelhan­
te_s, mas não distintas, determinadas pelo contexto; mais técnico é o 
raciocínio por distribuição complementar: assim /ch-Laut e Ach-Laut 
do alemão contam por um único fonema, precisamente porque são 
dessemelhantes um do outro e nunca se encontram no mesmo con­
texto. 14 
Dizer que o lb/ é sonoro apenas porque é diferente do /p/ cor- . 
responde a dizer que a afirmação da diferença precede a atribuição 
,da propriedade " sonora" . Como, além disso, só existem propriedades 
82 A obra clara 
se atribuídas na base da diferença, isso quer dizer que a própria di­
ferença é disjunta de toda propriedade. 
Ela é disjunta até da existência positiva, já que, como observa 
Saussure, " a língua pode se contentar com a oposição de algo com 
nada" (Cours de linguistique générale, p. 1 24). De modo que um nada 
de matéria sonora pode ser termo em uma relação de diferença e, 
baseada nesse único fundamento, receber propriedades. É a teoria do 
signo zero, que todos os estruturalistas, lingüistas ou não, utilizaram, 
mas cujos elementos foram propostos apenas pelos lingüistas. Com a 
tranqüila inconsciência do gênio, Saussure havia assim varrido de uma 
só vez um axioma que a metafísica clássica considerava indispensável: 
"o nada não tem propriedades" . 15 Ao contrário, é essencial à noção 
geral de estrutura que o nada possa ter propriedades; Lacan disso se 
lembrará na teoria do sujeito e do desejo (mesmo tendo que estenografar 
com o nome falta, tomado de discursos no entanto estranhos à estrutura, 
uma ruptura discursiva devida à mera estrutura). 
A lingüística estrutural utiliza assim o que poderíamos chamar 
de diferença pura. Vemos que ela não poderia ser o dual da semelhança, 
ao contrário da doutrina usual. Dito de outra forma, a lingüística 
estrutural não conhece a relação de semelhança; isso não lhe diz res­
peito; ela dispõe apenas de uma relação de diferença, homônima do 
que usualmente chamamos " diferença" , mas que lhe é disjunta, já 
que não tem oposto. 
3. O sério daestrutura 
Sobre o minimalismo do método, Lacan não se pronunciou explici­
tamente. Parece jamais tê-lo rejeitado, embora nunca tenha se imposto 
nem o more geometrico nem a ordem das razões, mesmo como o­
brigações estritamente estilísticas. Em todo caso, nunca desaprovou 
as tentativas, esporádicas é verdade, que visassem submeter seu ensino 
aos princípios do máximo e do mínimo demonstrativos. Pode-se aqui 
falar de estrita neutralidade, até mesmo de indiferença. A questão 
será, portanto, deixada de lado. 
Lacan acreditou no minimalismo do objeto. Encontramos seu análogo 
no apêndice da A carta roubada (É., p.44-6 1 ): compreender o incons­
ciente considerando o funcionamento de um sistema no qual supomos 
o mínimo possível de propriedades. O que aparece então, é que, me-
O primeiro classicismo lacaniano 83 
diante termos iniciais estritamente diferenciáis (eles se reduzem a 
entidades abstratas, desprovidas de qualquer propriedade e notadas 
+I-) e operações extremamente pouco especificadas (na verdade, elas 
se reduzem a ocorrências aleatórias e a sucessões de tais ocorrências), 
podemos fazer surgir regularidades, lineamentos, concreções - em 
suma, uma espécie de paisagem material e estruturada. 
Um sistema a u m só tempo qualquer e reduzido a suas proprie­
dades mínimas assume o nome de cadeia; nesse nome, não se lerá a 
concatenação, enquanto operação formal; não se lerá tampouco o uni­
dimensional como tal ; ele ali está apenas para aludir, pelo caráter 
mínimo de sua dimensão única, ao minimalismo do sistema. Ao mesmo 
tempo, as dimensões como horizontalidade, verticalidade, profundeza 
desempenham um papel apenas figurado. 
· 
Se a estrutura é, portanto, o nome do sistema qualquer, a cadeia 
é º nome da estrutura mínima. Compreende-se então por que o es­
truturalismo em lingüística pode se expressar dessa maneira: 'conhe­
ceremos a linguagem (uma língua natural dada) se nos impusermos 
considerá-la unicamente como uma cadeia' . A lingüística estrutural 
fornece portanto a prova de que uma teoria metodologicamente pura 
da cadeia é a um só tempo possível e fecunda, e isso mesmo quando 
ela não utiliza diret�mente a noção de cadeia. 
Considerar um elemento qualquer apenas sob o ângulo das proprie­
dades mínimas que lhe atribui um sistema ele próprio reduzido a suas 
propriedades mínimas de sistema, considerar um sistema qualquer 
apenas do ponto de vista dos elementos mínimos em que ele se divide, 
é o que estenografa o nome significante: esse nome vem decerto de 
Saussure, mas dele se afasta, já que é arrancado do acoplamento si­
métrico significante/significado em que Saussure o inseria. Ele enuncia, 
portanto, duas proposições divergentes: I ) que a lingüística é reinter­
pretada, até mesmo desvirtuada, e 2) que, através dessa reinterpretação, 
fica provado que a partir da lingüística uma análise estruturalista é 
legítima para outros objetos além da língua. 
Não podemos duvidar que exista por parte de Lacan um acua­
mento meditado. Nem todos os lingüistas estruturalistas 16 consideram 
a cadeia como suficiente; eles a completam geralmente através de 
uma organização em estratos: cada um dos estratos é decerto uma 
cadeia, mas é preciso que existam vários estratos para que se apreenda 
a empiricidade das línguas. Em Lacan, ao contrário, os estratos não 
84 A obra clàra 
existem. Em outras palavras, a lingüística só dá provas quando des­
locada. Falamos como ela, mas para dizer outra coisa que ela. 
Compreendemos enfim que, na noção de cadeia significante, tudo 
se co-pertence: só há significante numa cadeia, e para que um sistema 
forme uma cadeia é preciso que seja constituído de significantes. 
Lacan também acreditou no minimalismo das propriedades. Expressou 
isso inclusive de maneira particularmente explícita. Sustentar que só 
existem propriedades induzidas pelo sistema é sustentar que, quan'do 
o sistema está definido como estrutura, toda propriedade é apenas 
efeito da estrutura. Corresponde, portanto, a sustentar que a estrutura 
é causa. E quando o elemento de toda estrutura é definido como sig-· 
nificante, isso revela que o significante não tem propriedades, mas as 
faz: ele é ação. Lacan retoma assim a letra gramatical do par saussuriano 
(tomado talvez do grego: semainonta/semainomena) : " ação pura do 
significante, paixão pura do significado" , que é decifrada através do 
particípio ativo e do particípio passivo (cf. La signification du phallus, 
É., p.688). 
A diferença pura, que nada deve às propriedades porque, ao 
fundá-las, lhes é anterior, éjsso que Lacan resume sob o nome de o 
Outro. A maiúscula inicial, assim como o epíteto " grande" de que é 
precedido, ensejaram muitos desvios teologizantes. 17 O ponto, no en­
tanto, está alhures: trata-se de fazer entender que estamos aqui diante 
de um outro que não é o dual do mesmo, que dele não é o limite, 
nem o oposto, nem um caso particular. Esse Outro, sem oposto, não 
repousa sobre diferenças de propriedades, já que nenhuma propriedade 
é ainda atribuível a seu registro. 18 Que exista Outro, é isso que autoriza 
que possamos propor um significante e um outro, ao passo que como 
significantes, eles estejam fora do semelhante e do dessemelhante; 
também é o que estabelece o factum linguae, já que quanto a este 
próprio factum a lingüística estrutural foi durante um certo tempo 
considerada capaz avalizar-lhe, dependendo de que haja alguma dife­
rença que preceda ·as propriedades. O Outro é garante, mas não é 
Deus; sua garantia reduz-se ao seguinte: se não pudéssemos sustentar 
que existe Outro, eatão isso não falaria. Ora, isso fala. 
Minimalismo do objeto e minimalismo das propriedades combinadas 
têm uma conseqüência: é que o logion " o inconsciente, estruturado 
como uma linguagem" é tautológico. Com efeito, uma linguagem, 
O primeiro classicismo lacaniano 85 
por hipótese, nada possui além de propriedades de estrutura, mas, por 
hipótese ainda, essas propriedades de estrutura são necessariamente 
mínimas. Ora, se são mínimas, tudo o que é estruturado as apresentará: 
tudo o que é estruturado é, portanto, necessariamente estruturado como 
uma linguagem. Além de ser tautológico, o logion é também contra­
ditório, pois parece supor, ao utilizar o artigo uma, que se trata de 
várias linguagens, estruturalmente distinguíveis; mas se uma lingua­
gem enquanto linguagem tem apenas propriedades mínimas, nenhuma 
linguagem pode se distinguir estruturalmente de outra. Portanto, o 
logion diz apenas que o inconsciente é estruturado. Portanto, de duas 
uma: ou nos limitamos assim a repetir que adotamos a tese estruturalista 
e que nos ateremos ao método dela decorrente, mas nesse caso o 
logion tem apenas um conteúdo social (adesão ao estruturalismo); ou 
então exibimos uma propriedade estrutural determinada, que será ver­
dadeira para uma estrutura qualquer, que distinguirá toda estrutura, 
enquanto tal, daquilo que não é uma, mas que não distinguirá nenhuma, 
enquanto tal, de nenhuma outra. 
Lacan foi talvez o único de todos os estruturalistas a escolher 
conscientemente a segunda via. Foi talvez o único a apreender-lhe a 
necessidade. Esta corresponde a admitir o que podemos chamar de 
conjectura hiperestrutural: 
'a estrutúra qualquer tem propriedades não quaisquer' . 
Embora jamais tenha sido explicitada formalmente, essa conjec­
tura diz respeito ao caroço da doutrina lacaniana. Ela está no funda­
mento de algumas de suas partes mais importantes. Mais exatamente 
ainda, ela mostra que um dos objetos fundamentais da doutrina pode 
e deve consistir em elaborar uma teoria da estrutura qualquer. 
Um dos teoremas dessa teoria diz que, entre as propriedades não 
quaisquer de uma estrutura qualquer, na medida pelo menos em que 
ela é considerada unicamente como estrutura e na medida em que a 
reduzimos a suas propriedades mínimas, existe a emergência do sujeito. 
Reciprocamente, é necessário e suficiente para construir uma teoria 
do sujeito enumerar as propriedades que lhe confere a estruturaqual­
quer. 
Seja um teorema provisório: 
'a estrutura mínima qualquer contém em inclusão externa um 
certo existente distinto, que chamaremos de sujeito' . 
Como o significante nada mais é do que o elemento mínimo da 
estrutura qualquer, a definição do significante deve incluir essa emer­
gência. Daí o logion: "o significante representa o sujeito para um 
86 A obra clara 
outro significante" (Subversion du sujet et dialectique du désir dans 
L 'inconscient freudien, É. , p.819); ele se analisa em quatro teses de­
finidoras: 
1 ) um significante só representa para; 
2) aquilo para que representa só pode ser um significante; 
3) um significante só pode representar o sujeito; 
4) o sujeito é apenas o que um significante representa para outro 
significante. 
As teses 1 -3, toma<;tas em co?junto, são nada mais nada menos 
do que uma definição da cadeia. Essa definição está integralmente 
contida na relação " X representa Y para Z" . A relação, como vemos, 
é ternária; nisso, distingue-se da relação clássica de representação, tal 
como Foucault, em especial, a havia isolado (Les mots et Les choses, 
Paris, Gallimard, 1966, p.72-8 1 ) e que é binária; distingue-se igual­
mente da definição saussuriana do significante na qual a relação de 
representação não desempenha papel algum. O sujeito toma-se uma 
propriedade intrínseca da cadeia; é a tese 4: toda cadeia significante, 
como tal, inclui o sujeito; mas o próprio sujeito não tem outra definição 
senão ser o termo Z numa relação ternária onde X é um significante 
e Y um outro. O sujeito é segundo em relação ao significante (S. , XI, 
p. l 29). 19 
Da conjectura hiperestrutural e da teoria da estrutura qualquer 
segue portanto uma tese, que podemos chamar de a hipótese do sujeito 
do significante: 
'só existe sujeito de um significante' . 
Sendo aceita, por outro lado, a hipótese do sujeito da ciência, a 
equação dos sujeitos é uma conseqüência automática: 
'o sujeüo da c�ncia, o sujeito cartesiano, o sujeito freudiano, se 
são sujeitos, só podem ser o sujeito de um significante; eles apenas 
são e só podem ser um' . 
A conclusão é evidente, mas pode ser confirmada. O sujeito 
cartesiano pode e deve ser instituído como sujeito de um significante: 
é preciso e basta para isso que o Cogito seja reescrito como uma 
cadeia: penso, "Logo existo " .20 O sujeito freudiano, isto é, o sujeito 
capaz de inconsciente, pode e deve ser instituído como sujeito de um 
significante: é preciso e basta para isso que o inconsciente seja pensado 
como uma cadeia, o que assegura o logion 'o inconsciente, estruturado 
como uma linguagem' . O sujeito da ciência matematizada pode e deve 
ser instituído como sujeito de um significante: é preciso e basta para 
isso que a matemática seja pensada como a forma eminente do sig-
O primeiro classicismo lacaniano 87 
nificante, disjunto de todo significado, o que o galileísmo ampliado 
permite: o logion " a matemática do significante" (É. , p.86 l ) é reputado 
próprio para caracterizar toda ciência e deve ser lido reversivelmente 
- o significante é intrinsecamente matemático, a matemática é in­
trinsecamente da ordem do significante. Para que sujeito cartesiano e 
sujeito freudiano sejam inteiramente equacionados, requer-se apenas 
que haja sujeito ali onde se pensa, embora seja impossível que o 
sujeito articule " logo existo" ("C' est à la lecture de Freud . . . " , Cahiers 
du Cistre, n.3, 1 977, p . 14); é preciso e basta para isso que o sujeito 
nada seja senão o que incessantemente emerge e desaparece numa 
c:Weia significante. Ora, esse sujeito é também o sujeito sem qualidades 
que a ciência requer; o pensamento sem qualidades do qual ele é o 
correlato suposto deixa-se exibir positivamente como as leis não quais­
quer do significante - leis sem qualidades, mas também fora da 
quantidade. A série das razões fecha-se assim sobre si mesma, cada 
uma confirmando a outra. 
Em sua forma inicial (cap. 11, p.38-40), a identidade de consti­
tuição entre sujeito cartesiano e sujeito freudiano estava apenas par­
cialmente demonstrada. Estava deixada na sombra a constituição pró­
pria do sujeito da ciência a que um e outro estavam, separadamente, 
identificados; apenas se afirmava que estava despojado de toda qua­
lidade, exceto um pensamento ele próprio despojado de toda qualidade. 
Doravante, a teoria da estrutura qualquer permite articular uma tese 
nositiva. Esta tese, além disso, não é histórica; a equação dos sujeitos 
não mais depende de um regime de condições discursivas e de suces­
sividade. Não é mais necessário supor que o advento do Cogito permite 
no encadeamento annalísticó dos discursos a emergência do incons­
ciente. A correlação é de estrutura. 
4. Rumo a uma leitura transcendental 
Vemos que nessas condições duas proposições podem ser extraídas: 
I ) a cadeia significante é ,nada menos do que a definição, a mais 
genérica possível, do pensamento, reduzido a suas propriedades mí­
nimas; em outras palavras, o significante é o pensamento sem quali­
d;:tdes; 
2) reduzido a suas propriedades estruturais e despojado das qua­
lidades que lhe são estranhas (elas no máximo derivam da alma), todo 
sujeito metafísico deixa-se decifrar como o sujeito de um significante. 
88 A obra clara 
A conjectura hiperestrutural emite portanto um crédito sobre a meta­
física. 
Para falar a verdade, ela se deixa ler de maneira homônima como 
uma filosofia transcendental. O parentesco é profundo. Alberto Magno 
nomeava transcendentia as propriedades que convêm a todo objeto, 
por oposição às propriedades " ordinárias" que convêm sempre a um 
subconjunto de objetos, oponível a outro. Mais exatamente, urna pro­
priedade P só é bem definida se permite distinguir entre os objetos 
que têm essa propriedade e os objetos que não a têm. É .a_isso_.que 
as _propriedades transcendentes são exceção, se elas existem: todo 
opjeto as apresenta e nenhuma delas permite distinguir um objeto de 
outro; elas convêm ao objeto qualquer. Alberto Magno reconhecia 
três: a propriedade de ser um unum, a propriedade de ser um verum, 
a propriedade de ser um bonum.21 É, portanto, transcendental uma 
teoria que tem por objeto uma ou outra dessas propriedades. A filosofia 
kantiana é bem transcendental nesse sentido estrito. Mas vemos a 
conseqüência: admitir que existem propriedades " transcendentes" , que 
não sejam indefiníveis nem vazias, é admitir que o objeto qualquer 
tem propriedades não quaisquer. 
Um método transcendental consistirá em despojar um objeto de 
suas propriedades particulares, em fazê-lo da maneira mais sistemática 
possível e em conseguir no entanto descobrir que, apesar desse des­
pojamento, logo antes de deixar de ser simplesmente pensável, o objeto 
nem está inteiramente vazio, nem inteiramente sem estrutura. As pro­
priedades residuais nãQ podem ser outras que são, porque, se por acaso 
fossem outras, o objeto deixaria de ser ou de ser pensável. Elas não 
são afetadas pelo diverso, já que são obtidas por eliminação do diverso. 
Entretanto, ao permitirem a apreensão desse mínimo pelo qual um 
objeto é ou é pensável, permitem também a apreensão daquilo em 
que o diverso é ou é pensável. 
É óbvio que Lacan não adota a lista das propriedades transcen­
dentais de Alberto Magno; poderíamos até afirmar que a contradiz 
ponto a ponto. Como prova, a doutrina do significante. Ao ater-se à 
letra de Saussure, o ser de um significante entre outros apenas se 
sustenta pela multiplicidade de todos os outros ; eis a conseqüência 
mais direta da definição apenas pelas diferenças. O ens aqui não é 
um unum. Quanto ao arbitrário que deverá reger a relação do signi­
ficante com o significado, pouco importa sua natureza exata (ela foi 
discutida, tanto pelos lingüistas quanto por Lacan); uma coisa em todo 
caso é certa: pelo arbitrário é evacuada toda pertinência, quanto ao 
O primeiro classicismo lacaniano 89 
significante, do Bem e da Verdade. A esse respeito, a definição laca­
niana do significante não fazsenão acentuar a ruptura saussuriana: 
como modo de ser, um significante, para Saussure como para Lacan, 
não é nem um, nem bom, nem verdadeiro, no sentido em que o entende 
a tradição filosófica, e no entanto, ele não deixa de ser. 
Surge, entretanto, uma dúvida. É certo que Lacan nega sistema­
ticamente as propriedades transcendentais legadas pela tradição; mas 
será certo que admita propriedades desse tipo, sejam elas outras que 
não as propriedades da tradição? Não o afirmarei. Entretanto, a analogia 
salta aos olhos entre propriedades transcendentais do objeto qúalquer 
e propriedades mínimas do sistema qualquer. Por mais que usemos a 
língua filosófica - Lacan não a refutava então -, essa analogia 
toma-se uma homonímia; ela duplica e confirma a homonímia que 
marca o axioma do sujeito (cap. 11, p.33). Podemos considerar que o 
programa dos Cahiers pour l 'Analyse repousou sobre essa dupla ho­
monímia; mais exatamente, propôs-se a convertê-la em sinonímia. O 
programa é então: 
'a hipótese do. sujeito do significante não é apenas uma conse­
qüência da conjectura hiperestrutural; ela é sua conseqüência maior' 
ou: 
'a conjectura hiperestrutural é a forma moderna da questão trans-
cendental' . 
É também: 
'o sujeito do significante é o sujeito metafísico moderno' . 
É enfim: 
'o que pode e deve uma metafísica moderna?' 
Moderna, no seguinte aspecto: da mesma forma que Kant inte­
grava a ciência galileana (na versão de Newton), a metafísica induzida 
pela conjectura hiperestrutural integra o novo galileísmo, do qual Lacan 
é a um só tempo a prova e o arauto. Da mesma forma que Kant 
escreveu os Premiers príncipes métaphysiques de la science de la 
nature, da mesma forma podemos imaginar que alguém escreva os 
" Primeiros princípios da análise" , em que a análise designa o que há 
de comum à psicanálise, à ciência galileana ampliada e, com isso, à 
metafísica que aí se supõe. Seu meio escolhido é a teoria do significante, 
na medida em que o significante é somente o elemento qualquer da 
estrutura qualquer, na medida em que, pela conjectura hiperestrutural, 
ele é suposto portador de propriedades não quaisquer e na medida em 
que, pela teoria do sujeito, essas propriedades não quaisquer incluem 
a emergência de um elemento distinto, que pode ser nomeado como 
90 A obra clara 
sujeito. Dentre as disciplinas constituídas, lhe convêm principalmente 
aquelas que depuram seu objeto de toda substância e que, em seu 
método, respeitam as leis do minimalismo axiomático; em outras pa­
lavras, a lógica. Daí o nome de lógica do significante que atribuiremos 
à teoria do significante. 
Essa lógica inclui tanto a lógica matemática propriamente dita 
quanto a ontologia formal - platônica, neoplatônica, fichteana. O 
resultado esperado: engendrar de maneira axiomática (respeitando o 
minimalismo do método) a lista exaustiva das propriedades mínimas 
não quaisquer de um significante qualquer. 
O encadeamento do programa transcendental e do programa mi­
nimalista não deve surpreender. É verdade que o minimalismo dos 
estruturalistas é quase sempre um fenomenismo, ligado a um empirismo 
resoluto (esta é a posição de Martinet), mas sabemos que a passagem 
do fenomenismo ao idealismo transcendental nada tem de impossível. 
Além disso, entre um minimalismo empirista e um minimalismo me­
tafísico, o parentesco é forte: nada supor do objeto que exceda aquilo 
necessário para descrevê-lo empiricamente; nada supor do objeto que 
exceda aquilo necessário para pensá-lo; descobrir que ao despojarmos 
o objeto de suas propriedades, não descobrimos um vazio, mas que 
subsiste uma rocha irredutível de propriedades não quaisquer. 
O programa dos Cahiers pour l 'Analyse não é de Lacan; ele não 
o assumiu, mas tampouco o desaprovou (cf. Discours à l 'EFP, Se. 
2/3, p. l 7). Assim, é possível usá-lo como um revelador; nele se re­
conhece sob uma forma mais ousada e, por essa razão, mais legível, 
certas propriedades importantes do que chamarei doravante o primeiro 
.classicismo lacaniano. 
Esse classicismo tem por monumento maior os Escritos, consi­
derados em seu conjunto, menos os textos explicitamente apresentados 
como " antecedentes" (parte 11 dos Escritos). Ele constitui o desen­
volvimento progressivo e quase sistemático do programa articulado 
no discurso de Roma, em 1 953. Ele baseia a hipótese hiperestrutural 
na evidência suposta dos estruturalismos, como formas contemporâ­
neas de um novo galileísmo; este último deve ser considerado ele 
próprio uma extensão do galileísmo estrito; essa extensão mantém ou, 
mais exatamente, depura a equação dos sujeitos e a hipótese do sujeito 
da ciência que é seu pivô. Suas partes constituintes estão agora claras: 
- o doutrinai de ciência inclui especificamente a hipótese do 
sujeito da ciência; 
O primeiro classicismo lacaniano 91 
- o galileísmo invocado no doutrinai assume uma forma parti­
cular, baseada numa extensão da noção de matematização e numa 
extensão do universo a objetos não propriamente naturais; é o gali­
Ieísmo ampliado; 
- o .galileísmo ampliado inclui a psicanálise, mediante o logion 
'o inconsciente é estruturado como uma linguagem' , mas esse próprio 
logion requer a conjectura hiperestrutural; 
- a conjectura hiperestrutural, como teoria da estrutura qualquer, 
e na medida em que essa teoria inclui a emergência do sujeito, é um 
modo de resolução da hipótese do sujeito da ciência; dessa maneira, 
ela se articula ao axioma do sujeito, homônimo e eventualmente si­
nônimo da metafísica clássica. 
O edifício é majestoso. Compreendemos que, ao se apresentar 
ao olhar sob a forma do livro, ele tenha parecido uma obra. Entretanto, 
ele não estava sendo chamado a se ampliar e a ganhar novas adjunções 
que respeitariam a ordem da obra; seu destino foi ser subvertido. 
Nessa peripécia, podemos convir que circunstâncias tenham tido sua 
parte, mas apenas as causas intrínsecas são determinantes: por mais 
majestoso que fosse, o edifício era instável. 
NOTAS 
l . Consultar E. Balibar, Lieux et noms de la vérité, Éditions de I' Aube, 1994. 
2. Sobre Althusser, cf. a coletânea Politique et philosophie dans l'll!uvre de Louis 
Althusser, S. Lazarus (org.), Paris, PUF, 1993. 
3. Permito-me remeter à minha própria Archéologie d'un échec, Paris, Seuil, 1993. 
4. Ler o comentário, um pouco diferente, que desenvolve P. Veyne, René Char en ses 
poemes, Paris, Gallimard, 1990, p.499. 
5. Acrescento que a demonstração é um belo exemplo de raciocínio apagógico. 
6. Este era de resto um dos pontos fundamentais. Lacan o ressalta com mais clareza 
que nenhum outro (cf. L'instance de la lettre, É., p.496, n. l ). Os maiores poetas de 
língua russa, na década de 20 (o que quer dizer, sob certos aspectos, os maiores poetas 
do mundo), estavam convencidos de que a Revolução pedia uma língua nova e que 
cabia a eles construí-la. Ao que Stalin disse não. Antes mesmo que o teorema fosse 
explicitamente formulado (ele data de 1950), a política efetiva nele se inspirou. Daí a 
desesperança de Maiakovski, que dela morreu; daí as relações estritamente ambivalentes, 
entre proteção e ferocidade, que Stalin manteve com os poetas: estes são chamados 
para mudar a cultura sem mudar a língua, para fazer da não-mudança na língua o 
próprio meio da mudança na cultura. Stalin sabe muito bem que só conseguirão fazê-lo 
caso se achem capazes de mudar a língua. A ilusão dos poetas é, portanto, a um só 
92 A obra clara 
tempo criminosa e necessária para que tenham sucesso. É preciso, portanto, persegui-los 
caso fracassem, e é preciso persegui-los se tiverem sucesso. 
7. "Somente minha teoria da linguagem como estrutura do inconsciente pode ser con­
siderada implicada pelo marxismo, se todavia você não for mais exigente que a impli­
cação material" (Cahiers pour l 'Analyse, 3, mai 1966, " Réponses à des étudiants en 
philosophie" , p. IO). Lembramos que a relação " A implica materialmente B" só é falsa 
se A sendo verdadeiro, B for falso; ela é verdadeira em todos os outroscasos. Em 
outras palavras, aqueles que consideram o marxismo como verdadeiro (eram numerosos 
na época) devem considerar Lacan como verdadeiro; mas a falsidade do marxismo não 
obriga a considerar Lacan como falso e a verdade de Lacan não obriga a que se exija 
a verdade do marxismo. Observe-se que Lacan fala apenas da linguagem; lembremos 
que, quanto à linguagem, o marxismo aos olhos de Lacan reduz-se a Stalin. 
8. Isso implica a proposição de S., xx, p.20: " desse discurso psicanalítico, há sempre 
alguma emergência a cada passagem de um discurso a outro" . Toda passagem discursiva 
é um corte maior; todo corte é interpretação; toda interpretação inscreve-se na matriz 
do discurso analítico. 
9. Mas cf. J.-A. Miller, " Encyclopédie" , Ornicar?, 24, outono 198 1 , p.35-44 (retomado 
do verbete "Jacques Lacan" da Encyclopaedia universalis, 1979); ver principalmente 
p.41-2. 
10. O arquifonema rrt é não-distinto do /t/ e do /d/. Por isso, o singular Rat (que 
comporta rf/) e o plural Riider (que comporta /d/) são não distintos do ponto de vista 
da oclusiva dental; pode-se por aí entender então a unicidade da palavra entre singular 
e plural. 
l i . A aproximação com Galileu impõe-se ainda mais se nos reportarmos a L'Essayeur, 
§48 (ibid., p.239-43; ver igualmente o comentário de Redondi, ibid., p.65-7). Nele se 
observa que a redução das qualidades sensíveis as resume a propriedades relacionais: 
figura (na medida em que limitada por um exterior), posição espacial (mediante uma 
doutrina do espaço relativ.o), tempo (mediante uma doutrina do tempo relativo), contato 
com outros corpos etc. Ora, a lingüística estrutural consiste, ela também, em resumir 
toda propriedade a uma relação: a oposição distintiva. Podemos levar a analogia mais 
longe: um dado sistema fonemático pode ser considerado como um sistema inercial; 
mesmo caso se mude sua materialidade fonética, ele será reputado idêntico a si mesmo 
se as relações internas de diferença forem as mesmas (por exemplo, o sistema fonológico 
francês permanece o mesmQ, seja o /r/ "vibrante" ou não, porque suas relações internas 
não são afetadas por essa variação). A ausência de simultaneidade entre sistemas inerciais 
independentes torna-se: não há fonemas homofônicos entre sistemas fonemáticos se­
parados (mesmo se a fonética atribuir ao suporte desses sistemas propriedades sensíveis 
idênticas). 
12. Ver as proposições seguintes, tiradas de L'instance de la lettre, p.496: 1) " a 
linguagem é o que distingue essencialmente a sociedade humana das sociedades natu­
rais" , 2) " a linguagem conquistou o status de objeto científico" , 3) " a lingüística 
apresenta-se em posição piloto nesse campo em torno do qual uma reclassificação das 
ciências assinala uma revolução do conhecimento" . A proposição 3 utiliza a palavra 
revolução que está associada a Copérnico e de maneira mais geral ao corte galileano; 
a proposição 2 fala de ciência da linguagem; a proposição 1 enuncia que a linguagem 
não pertence à natureza. 
1 3. " A forma de matematização em que se inscreve a descoberta do fonema .. . " (F onction 
et champ de la parole et du langage en psychanalyse, É., p.284). 
O primeiro classicismo lacaniano 93 
14. Gostaria de aqui ressaltar o quanto esse raciocínio é surpreendente: chega-se à 
conclusão da identidade simplesmente porque há dessemelhança das qualidades e ex­
clusão mútua. O raciocínio só é válido se o conjunto das entidades fonemáticas e se 
o conjunto dos contextos forem finitos. A partir do manuscrito em que o conjunto é 
infinito (por exemplo, no que conceme ao léxico), o raciocínio vacila. Uma versão 
mítica, estranha e inquietante, desse raciocínio pode Ser encontrada no conto de Borges, 
Os teólogos: dois teólogos sustentam doutrinas opostas e se combatem, sem nunca se 
encontrarem. Um obtém a condenação do outro, que morre na fogueira. Fica claro, 
enfim, que para Deus, "o ortodoxo e o herético, o que odiava e o que era odiado, o 
acusador e a vítima eram uma mesma pessoa" . Eram, diríamos, como duas variantes 
combinatórias em distribuição complementar. Note-se que a questão teológica levantada 
pelo conto é justamente · a de saber se o tempo se compõe numa ordem fechada. De 
mancira mais ampla, a doutrina da identidade aqui contida pode ser enunciada da 
seguinte maneira: se duas entidades podem estar co-presentes, devemos concluí-las 
distintas; se duas entidades são idênticas, então elas estão separadas; em particular, o 
que é idêntico a si, está separado de si mesmo e por isso não tem Si ao qual ser 
Wêntico. Aí se reconhece em germe certos teoremas fundamentais da teoria do sujeito. 
Pode-se igualmente reconhecer a dramatização do Tempo lógico: os homens se reco­
nhecem entre si por serem homens; a partir desse momento, eles se reconhecem disjuntos 
uns dos outros. Em suma, a identidade é real, mas separadora; a semelhança une, mas 
é imaginária. 
15. Sabemos que esse axioma é essencial ao cartesianismo, tanto em metafísica quanto 
em física. Ele fundamenta, em particular, a afirmação de que não pode haver vazio. É 
interessante notar que a física epicurista, na qual a analogia do alfabeto e das combinações 
de caracteres é tão prevalecente, propõe - talvez por essa razão - a existência do 
vazio. 
16. O acaso quis que Lacan não houvesse freqüentado a obra de Harris, que realiza 
uma teoria metodologicamente pura da cadeia lingüística, mais plenamente, sob certos 
aspectos, do que a obra de Jakobson. 
17. Lacan opôs-se radicalmente a isso, através de sua doutrina do Outro barrado. Sendo 
apenas o significante da diferença pura, o significante do Outro é também o significante 
do fato de que há significante, já que só há significante se houver diferença pura. 
Reciprocamente, o conceito do Outro só pode estar intrinsecamente marcado pela di­
ferença constitutiva que articula um significante ao outro. Estamos aí nQs antípodas da 
igéia de Deus, que não poderia admitir sem contradição tal diferença interna. 
18. Paralelamente, existe um Mesmo, sem oposto, que não repousa sobre semelhanças 
de propriedades. É bem exatamente esse Mesmo cuja teoria é feita por Kripke em La 
logique des noms propres. Lacan recorre a esse Mesmo na teoria da repetição ("o real 
é aquilo que volta sempre ao mesmo lugar" , S. , XI, p.49). Mas a lingüística estrutural 
não o utiliza; não é pois dela que Lacan pode deduzi-lo. Não dispondo naquele momento 
da referência kripkeana, ele deixa esse Mesmo sem teoria completa antes da teoria do · 
nó RSI. 
19. É possível, mas não certo, que tenha havido encontro com os trabalhos de Queneau 
sobre a relação ternária " X toma Y por Z:' ; cf. C. Berge, "Pour une analyse potentielle 
de la littérature combinatoire" , Oulipo, Paris, Gallimard, 1973, p.56, e R. Queneau, 
"La re1ation X prend Y pour Z", ibid., p.62-5. É verdade que as datas aparentemente 
não estão de acordo, já que a apresentação de Queneau no Oulipo é de 1965, enquanto 
o logion de Lacan é de 1960. Mas a investigação mereceria ser levada adiante. Isso 
94 A obra clara 
dito, as diferenças são tão instrutivas quanto as SP-melhanças. Assim, é crucial para 
Queneau que X possa ser idêntico a Y ou a Z; é crucial para Lacan que a diferença 
entre X, Y e Z (seja qual for sua natureza) subsista. É crucial para Queneau que. X, 
Y, Z sejam variáveis não especificadas; é crucial para Lacan que X e Y sejam espe­
cificados como significantes e Z como sujeito. Isso explica por que no seminário XVII 
será desenvolvida, a partir da relação de três termos, uma escrita de variáveis específicas: 
SI e S2 para X e Y, $ para Z. De onde extrairemos, por uma dedução suplementar, 
um quarto termo (a). Para maiores detalhes, cf. infra, p. l 30. 
20. " Na tentativa de escrever penso: "logo existo", com aspas em torno da segunda 
cláusula, lê-se que o pensamento só funda o ser ao se vincular à palavra em que toda 
OJleração diz respeito à essência da linguagem" (La science et la vérité, p.864-5). Que 
exista ali uma cadeia significante de dois anéis, o do pensamentoe o do ser, é o que 
prova o emprego do verbo vincular-se (não sem uma pressão sintáxica: o sujeito de 
vincular-se tem por antecedente descontínuo a conjunção " pensamento + ser" e se é 
mais recíproco do que reflexivo). Em outras palavras, o Cogito está ihtegrado na teoria 
d.a estrutura qualquer e mínima. É o que também implica a reescrita entre aspas. 
O Cogito relido por Lacan é, de maneira estrita, a enunciação " logo existo" ; dessa 
enunciação, concentrada num significante unitário e segundo (sum), é proposto, por 
retroação, um significante primeiro " penso" (cogito); o sujeito real insiste no batimento 
(do segundo ao primeiro, do primeiro ao segundo) desses dois significantes. Batimento 
assinalado pela caducidade alternante do " logo" (ergo), ora presente, ora ausente. 
Compreendemos que, ulteriormente, toda cadeia significante estando reduzida a seu 
mínimo de um significante e de um outro, S I e S2, o significante dois seja o do saber. 
Isso corresponde a encontrar a função mesma do "existo" , que, segundo os comenta­
dores, deveria fundar a possibilidade de algum saber certo, mediante, lembremos, a 
passagem ao pensamento qualificado. Mas S2 é justamente essa mesma passagem. A 
teoria dos discursos e a doutrina do seminário xx (lições 8 e 1 1) repousam sobre essa 
análise do Cogito. 
Podemos aqui nótar que, em tal apresentação, o Cogito é um exemplo de linguagem 
privada no sentido de Wittgenstein (como o próprio inconsciente se o inconsciente for 
estruturado como uma linguagem); é portanto passível, como toda linguagem privada, 
do paradoxo de Wittgenstein-Kripke. Podemos resumir o paradoxo da seguinte maneira: 
quent garante que o Deus enganador não é capaz de mudar as regras de emprego do 
lexema sum e as do operador de conclusão ergo, entre o instante em que começo a 
enunciar " logo" e o instante em que termino " existo" ? Le Bain de Diane de Klossowski 
propõe-se como o mito ovidiano dessa eventualidade. O presidente Schreber dá exemplos 
de proferimentos que se limitariam ao " logo" (cf. D'une question préliminaire à tout 
traitement possible de la psychose, É., p.539-40). Uma interpretação instantanefsta 
pode, decerto, escapar a tais objeções, mas não a variante extrema delas: o que me 
garante que o Deus enganador não manteve intactas as regras de emprego dos lexemas, 
exceto justamente para o instante singular em que acabo de proferir " logo existo" ? 
2 1 . O que é resumido por são Tomás: "omne ens est unum, verum, bonumm" ["Todo 
ente é um, verdadeiro, bom." ] . Ver, sobre tudo isso, H. Scholz, " Einführung in die 
kantische Philosophie" , Mathesis universalis, p. 172. 
CAPÍTULO IV 
O segundo classicismo lacaniano 
1. As instabilidades do primeiro classicismo 
Se o primeiro classicismo é instável, isso se deve à versão por ele 
apresentada do doutrinai de ciência. O diagnóstico é fácil de ser es­
tabelecido: 
- Instabilidade devida ao historicismo: em sua lógica interna, 
o doutrinai de ciência não é historicizante; demonstra-o a existência 
de uma teoria do sujeito. Mas o desdobramento das correlações não 
se completou em 1 966. A versão dada nos Escritos recorre ao voca­
bulário da emergência inaugural, da sucessão, da contemporaneidade; 
ela é historiadora, mesmo que se trate, de maneira cada vez mais 
clara, de uma estilística historicizante e mesmo que nada de substancial 
dependa mais dela. A esse respeito, o primeiro classicismo não é 
síncrono de si: a teoria do corte e a teoria do sujeito não se corres-
pondem. 1 
· 
- Instabilidade devida à noção de matematização·. É preciso que 
esta última seja entendida como literalização não quantitativa. O que 
permite isso é, dissemo-lo, a evolução da própria matemática: prin­
cipalmente o bourbakismo. Ora, o bourbakismo é apenas uma das 
formas de um movimento mais geral que reconstrói o conjunto da 
matemática sobre fundamentos lógicos seguros. Em outras palavras, 
o bourbakismo afirma três coisas tocantes à matemática: 1 ) ela é 
autônoma em relação à ciência galileana; 2) sua essência não é a 
quantidade; ela pode, portanto, estender-se a objetos não quantitativos; 
3) existe uma lógica matemática. Ora, Koyré supõe exatamente o 
contrário: 1 ' ) o que quer que seja para si mesma, a matemática é 
considerada somente a serva da matematização; 2 ' ) ela deve ser en­
tendida apenas no sentido restrito que, aos olhos de Koyré, interessa 
95 
96 A obra clara 
à ciência moderna: a quantidade; 3 ' ) não existe lógica matemática 
(cf. Épiménide le menteur). 
A afirmação 3 ' ) pode, por certo, ser julgada idiossincrática e 
supérflua para as teses sobre a física (não acredito nem um pouco 
nisso, mas pouco importa). Mas o fato é que mesmo admitindo a 
legitimidade da lógica matemática, um koyréano conseqüente sustenta 
que a matematicidade desta não é nem um pouco importante pàra a 
matematização cogitada na ciência. Em suma, o doutrinai de ciência, 
reduzido a seus fundamentos, não poderia dàr a mínima importância 
à lógica matemática em particular e à axiomatização da matemática 
em geral. 
Ora, esta é uma posição que o primeiro classicismo lacaniano, 
em sua forma terminada, não pÓde sustentar. Em virtude, como dis­
semos, do galileísmo ampliado: importa que a matemática seja literal 
e não quantitativa; ora, só a axiomatização o permite. Por virtude 
igualmente da teoria da estrutura qualquer: a lógica matemática é 
supostamente capaz de nela desempenhar um papel determinante. O 
primeiro classicismõ'necessita da lógica matemática: de sua existência 
geral e de algumas de suas proposições particulares (por exemplo, o 
teorema de Gõdel). Necessita também do doutrinai de ciência. Ora, 
as duas vias divergem, assim que as percorremos com uma perseve­
rança suficiente. 
- Instabilidade devida à contradição entre a ciência ideal do 
estruturalismo, que é oriunda da episteme grega, e o ideal da ciência 
do doutrinai de ciência, que rejeita essa mesma 'episteme. A contradição 
se acentua se o doutrinai de ciência for interpretado de maneira não 
historicizante; então, com efeito, a sinonímia do discriminante de Koyré 
e do discriminante de Popper torna-se decisiva. Ora, o discriminante 
de Popper está diretamente oposto à axiomática antiga e a toda forma 
de axiomática do mínimo. o paradoxo é que a leitura não historicizante 
é justamente induzida pelo estruturalismo. 
- Instabilidade devida às insuficiências de precisão que marcam 
a noção de letra. Esta é constitutiva do galileísmo ampliado; apenas 
ela permite que passemos harmoniosamente da matemát_ica às ciências 
da cultura, e daí à psicanálise. Mas ela não constitui o objeto de uma 
teoria autônoma, em relação à teoria do significante. O texto canônico 
que desse ponto de vista L 'instance de la lettre constitui enuncia as 
duas referidas teorias, mas que também estão em correlação recíproca. 
Por essa razão, muitas proposições formuladas em termos de letra e 
de literalidade parecem poder ser formuladas, de maneira equivalente, 
O segundo classicismo lacaniano 97 
em termos de significante, e reciprocamente. Relevante no minima­
lismo, essa equivalência deveria tomar redundante uma das duas teo­
rias. Se, por outro lado, não há redundância, é que a reciprocidade 
da correlação deve poder estar errada. Mas nenhum erro é evidenciado. 
Na_ ausência de decisão quanto a esse ponto, as noções de letra e de 
significante se obscurecem mutuamente; nem o caráter significante 
nem o caráter literal da matemática poderiam receber status inteira­
mente determinado. Ao mesmo tempo, afirmar que a matematização 
é uma literalização não é nem claro nem distinto. 
- Instabilidade devida à evolução da lingüística. Na época de 
Roma, ela parece ser ciência acabada, nos dois sentidos da palavra: 
a um só tempo realizada e estéril. Lacan a considera, ao mesmo tempo, 
como metodologicamente exemplar, e como incapaz de lhe ensinar 
algo de novo em relação a sua idade de ouro de Genebra, Moscou e 
Praga (" carência do lingüista" , diz Radiophonie, p.62, a propósitoda 
fundação de La Psychanalyse em 1 953). Essa dupla crença, dissimulada 
pelas relações de estima ou de amizade para com Benveniste ou Ja­
kobson, é no entanto característica do primeiro classicismo: a lingüís­
tica desempenha o papel de garante, mas é a título de suas contribuições 
passadas; nada se espera dela daqui por diante. 
Ora, dois acontecimentos ocorrerão, inversos um ao outro. Por 
um lado, a descoberta dos anagramas de Saussure (em 1 964).e, ainda 
mais importante, a conseqüência que essa descoberta teve para Jakob­
son: este se julgou a partir de então no direito de fundar, em termos 
de lingüística, uma poética inteiramente nova, digna a seus olhos de 
figurar nas fileiras das grandes inovações do século XX. Por outro 
lado, a emergência de Chomsky a partir dos anos 60: ela provava que 
a lingüística estrutural não era uma ciência terminada; que existem 
outras vias para o galileísmo em matéria de línguas; que coisas no.v..as 
eram possíveis na ciência da linguagem. Mas, ao mesmo tempo, tudo 
é subvertido. 
Pois os anagramas e a poética revelar-se-ão importantes para a 
psicanálise, mas conterão também algo de estranho ao galileísmo, 
mesmo ·ampliado. Quanto a Chomsky, ele invoca o galileísmo, mas 
numa versão não ampliada, que conduz no final a renaturalizar a 
linguagem (tema do órgão, comentado na sessão de 9 de dezembro 
de 1975, Ornicar?, 6, 1 976, p. l 3-4). Além de nada em seu método 
dizer mais respeito ao significante, à cadeia, à estrutura qualquer, nada 
tampouco no que esse método tem de novo acrescenta o que quer que 
seja ao baconismo, e nada no que ele diz da linguagem é compatível 
98 A obra clara 
com o fato da psicanálise. Mais vale então voltar-se para as ciências 
da natureza. 
O galileísmo ampliado não resistirá a essas instabilidades multiplica­
das. Podemos considerar que em 1970 o processo de transformação 
está amplamente iniciado. Uma segunda fase começa. Vou chamá-la 
de segundo classicismo lacaniano. 
Seu programa jamais foi exposto por completo. Não se dispõe 
de equivalente, na década de 70, do discurso de Roma, mesmo se o 
seminário XX esporadicamente evoque alguns de seus matizes jubila­
tórios. Tomando o primeiro classicismo por origem, é entretanto pos­
sível descobrir deslocamentos, supressões e adjunções, cuja soma se 
revela coerente e desenha a nova configuração. 
Se a pertinência do doutrinai de ciência deve permanecer para a 
psicanálise, ele deve, na ausência de galileísmo ampliado, ser refor­
mulado. Podemos até pensar que, por um paradoxo que chamaríamos 
facilmente de dialético, o fim observável do estruturalismo pôde con­
duzir à explicitação do anti-historicismo ao qual o estruturaHsmo levava 
na época de sua maior força. Em 1953 (antes que começasse sua 
excessiva difusão, denunciada em 1965), o estruturalismo, ou melhor, 
suas primícias podiam passar pela emergência, datável, de uma figura 
nova da ciência moderna. Podíamos tanto mais crer nas leituras his­
toricizantes na medida em que éramos simultaneamente testemunhas 
de uma História: o ano de 1 945 não estava tão longe. Ora, em 1 968, 
o estruturalismo já não existe; a emergência era uma falsa emergência. 
Acrescentemos que aparentemente Lacan concluíra das barricadas que 
a História, decididamente, não existia (ou não existia mais). Daí um 
ceticismo, não para com o moderno, mas para com suas leituras an­
nalísticas. 
Na medida exata em que o doutrinai é a um só tempo depurado 
do historicismo e despojado do galileísmo ampliado, ele não tem mais 
senão um único fundamento: a literalização. Uma teoria autônoma da 
letra torna-se portanto não só desejável, mas também indispensável. 
Ela não deixará de afetar a teoria da matemática. Bourbaki estabelecera 
a sinonímia da literalização com a matematização; isso permitia num 
primeiro tempo esclarecer a primeira pela segunda; ficará evidente 
que a segunda pode, por sua vez, ser esclarecida pela primeira. 
Se a conjectura hiperestrutural deve ser mantida, ela estará na 
situação paradoxal de não mais poder se basear num movimento es­
truturalista. Mais ainda que antes, a doutrina de Lacan deve contar 
O segundo classicismo lacaniano 99 
com suas próprias forças para desenvolver a teoria da estrutura qualquer 
e a teoria da diferença pura, disjunta de toda propriedade qualitativa. 
Por mais conceitual que seja a formulação dessas duas teorias, elas 
não poderiam mais dizer respeito ao transcendental; só o estruturalismo 
autorizava a homonímia entre os minimalismos; com o seu desapare­
cimento, o minimalismo do objeto e das propriedades não emitirá 
nenhum' crédito sobre a metafísica moderna. Por isso, a leitura sino­
nímica do axioma do sujeito perderá sua fecundidade; o próprio axioma 
perderá sua importância, mesmo que se restrinja a uma homonímia. 
O segundo classicismo, diversamente do primeiro, pode se permitir 
ser desenvolto em relação à filosofia. 
A lingüística também deixará de ter importância. Permanecem 
apenas alguns estudiosos escolhidos. Lacan os tratará como testemu­
nhas preciosas, não de uma ciência, mas de uma arte, que encontram 
na matéria que tratam as falhas do sujeito - na verdade, suas próprias 
falhas. Quanto a Jakobson, mestre das línguas, o lingüista nele dará 
a vez ao poeta, e Lacan, ao contrário de Jakobson, não continuará 
pensando que eles sejam o mesmo. Correlativamente, o teorema de 
Stalin será relegado ao adventício. Marcar a língua, transformá-la num 
instante em outra que havia sido, eis doravante o gesto que vale. 
Maiakovski em lugar de Stalin, Joyce em lugar de qualquer outro. A 
revolução nunca muda a língua, disseram políticos e sábios; revolução 
ou não, algum sujeito às vezes muda a língua, dirá em breve Lacan. 
Podemos considerar que o conjunto dos Scripta posteriores a 68 deriva 
desse programa, através de alguns escritos de transição retrospectiva 
(estamos nos referindo a Radiophonie) ou prospectiva (estamos nos 
referindo às últimas lições do seminário XX). Apesar da ausência de 
uma exposição sintética, uma obra foi, de fato, levada adiante. 
2. O materna 
O pivô do segundo classicismo é a noção de materna. Apenas ela per­
mite articular umas às outras as proposições relativas ao doutrinai de 
ciência, à letra, à matemática e à filosofia. Ela foi desenvolvida por 
Lacan a partir de 1 972. As principais fontes são L' étourdit (Se. , 4, 
p.5-52) e o seminário xx. 
Algumas citações permitirão o início do exame: " . . . essa lingua­
gem de puro materna, entendo dessa maneira a única coisa que pode 
100 A obra clara 
ser ensinada . . . " (L'étourdit, p.28); " O materna é proferido pelo único 
reªl primeiramente reconhecido na linguagem: a saber o número" 
(ibid., p.37); " . . . um dizer tal como o meu [ . . . ] se propõe [ . . . ] como 
ensinável somente depois que o matematizei segundo os critérios me­
nonianos . . . " (ibid., p.39); " O não-ensinável, fi-lo materna ao assegu­
rá-lo da fixão da opinião verdadeira, fixão escrita com um x, mas não 
sem possibilidade de equívoco" (ibid., p.39); "A formalização mate­
mática é nosso objetivo, nosso ideal. Por quê? - porque só ela é 
materna, isto é, cap_az de se transmitir integralmente" (S., XX, p. l08). 
Convém distinguir de imediato duas questões: a questão particular 
do materna, sua função e forma; a questão geral da matemática e seu 
status. Essas duas questões se cruzam, já que a noção de materna 
repousa sobre uma tese que conceme à matemática e já que cada 
materna particular consiste numa amostragem especificada, operada 
(por vezes não sem alteração) sobre o conjunto das escritas matemá­
ticas. Mas a distinção permanece: existem em Lacan referências à 
matemática que não derivam da doutrina do materna. Nem que fosse 
por uma razão cronológica: os Escritos precedem L' étourdit de seis 
ªnos. Além disso, são acrescentadas diferenças estruturais à cronologia. 
Em outras palavras, o surgimento de uma doutrina explícita do materna 
modificou a relação que Lacan mantinha com a matemática e, por 
essarazão, com a matematização. Trata-se do princípio do doutrinai 
de ciência. 
2. 1 . A função e a forma do materna 
A função e a forma do materna em Lacan encontram-se determinadas 
por duas afirmações: 
a) o materna assegura a transmissibilidade integral de um saber; 
b) o materna confôrma-se ao paradigma matemático. 
A proposição b, se nos ativermos aos próprios termos que a 
articulam, implica o seguinte: o materna estará para a matemática 
coll)o o fonema está para a fonemática: um átomo de saber, como o 
outro é um átomo de fonia. Reciprocamente, a matemática estará para 
o materna como a fonemática está para o fonema: uma teoria das 
condições gerais para boa formação de um materna, como a outra é 
uma teoria das condições gerais para boa formação de um fonema. 
Isso supõe que a fonemática saiba definir o que é a fonematicidade 
O segundo classicismo lacaniano 101 
enquanto tal; isso supõe paralelamente que a matemática saiba definir 
o que é a matematicidade enquanto tal. 
Para compreender o alcance da proposição a, é preciso ponderar 
que a transmissibilidade integral comporta uma questão fundamental, 
que conduz ao doutrinai de ciência. 
Durante muito tempo se supôs necessária à transmissão do saber, 
ou pelo menos à sua transmissão integral, a intervenção de um sujeito 
insubstituível - o que chamamos um mestre, dispensando a seus 
discípulos através de sua Palavra (da qual uma forma pode ser o 
silêncio) e de sua Presença (da qual uma forma pode ser a ausência) 
o mais-saber. Sem esse rpais-saber, que chamamos sabedoria e que 
deve inspirar uma forma de amor, e sem o mestre que é seu suporte, 
nenhuma transmissão poderia se cumprir integralmente. Podemos aí 
reconhecer o dispositivo antigo, ligado à episteme. 
Eis justamente o que a doutrina do materna exclui; se podemos 
admitir que ela não seja uma conseqüência necessária do doutrinai de 
ciência, é certo, por outro lado, que ela o requer como sua condição 
sine qua non. Afirmar a é, na verdade, afirmar proposições do tipo: 
'não há mestres' , 
ou: 
'não há discípulos' , 
ou: 
'não há sabedoria' , 
ou: 
'não há Palavra nem Presença' , 
ou: 
'não há sabedoria para além do saber' . 
Estas exclusões são o próprio do universo moderno. O que pode 
ser mais bem entendido se combinarmos a e b. Através dessa com­
binação é obtida a tese subjacente: 
'a matemática é o paradigma da transmissibilidade integral' . 
Se a transmissão da ciência moderna não requer mestres (mas 
no máximo professores), é justamente porque ela se fia inteiramente 
nos funcionamentos literais da matemática. Reciprocamente, se a ciên­
cia moderna fiar-se inteiramente nos funcionam\' 111 • " literais da ma­
temática, isso faz com que ela não seja uma sabedoria (escândalo que 
os comitês de ética e as Igrejas se apressam em bloquear). Isso faz 
também com que, no universo da ciência, não exista mestre ou, o que 
dá no mesmo, que o nome mestre designe apenas uma posi�ão. 
102 A obra clara 
Em virtude do teorema de Stalin, as línguas não mudam mesmo 
que a infra-estrutura mude; do mundo antigo ao universo moderno, o 
nome mes�re subsiste portanto, mas ao preço de uma homonímia. O 
mestre antigo era mestre enquanto termo insubstituíyel, e o permanecia 
fora de toda posição no laço social; suas propriedades de termo (suas 
virtudes) eram essenciais para qualificá-lo positivamente (Sócrates, 
tal como o determinava o oráculo de Delfos). O mestre moderno só 
é mestre porque ocupa uma posição, onde é infinitamente substituível 
por qualquer outro, e suas propriedades de termos são inessenciais e 
fundamentalmente negativas; basta que não o desqualifiquem. 
Daí decorrem, entre outros, certos traços aparentemente anedó­
ticos do que denominamos a ciência normal. Assim o status precário 
dos QQmes próprios: eles só são aí admitidos a título de estenogramas 
das proposições que lhes são atribuídas; não apontam, em nenhum 
caso, um insubstituível. Assim a absorção, lenta, mas inelutável, da 
ciência pela universidade: todo sábio é ali substituível por um outro 
como sábio, mas, por essa mesma razão, ele é homeomorfo ao pro­
fessor. Assim o aumento do poder do professor, cuja tarefa é a trans­
missão (literalizada quando se trata da ciência, não necessariamente 
literalizada quando se trata de outros saberes); contanto que o indi­
víduo, instituído em meio a essa transmissão, assegure corretamente 
sua função, não será considerado como virtude nenhuma de suas ca­
racterísticas pessoais, exceto aquelas que, por sua transparência e ino­
cuidade, saberão não alterar seu bom funcionamento; ele é, por essa 
razão, facilmente substituível. Odores anódinos, cores acinzentadas, 
man_eiras apagadas, eis o que se espera quando tudo é questão de 
posição, não de sujeito.2 O que ocorre na ciência que está sendo feita, 
na ciência das rupturas e das revoluções, é evidentemente outra coisa, 
mas não estamos falando disso. 
Em Lacan, a doutrina do materna articula-se, portanto, a uma doutrina 
do mestre como pura determinação posicional. Só esta última é com­
patível c
"
om o doutrinai de ciência; ela está exposta na teoria dos 
quatro discursos, onde a distinção entre termos e posições se desenvolve 
completamente.3 Mas, limitando-se à via negativa, a ausência de toda 
figura antiga do mestre já estava implícita no retomo a Freud. Tal 
palavra de ordem repousa sobre uma tese oculta: se, para apreender 
o verdadeiro objeto da psicanálise, convém retomar a Freud, isso 
implica que algo da psicanálise seja imune à diferença do alemão com 
o francês. De maneira mais estrita, não é uma questão de tradução 
O segundo classicismo lacaniano 103 
boa ou ruim; mais exatamente, é possível traduzir Freud melhor do 
que ele é, mas, na ausência de tradução apropriada, podemos, mediante 
comentário e interpretação, nos dispensar de uma tradução que seria 
fidedigna (aí se situa, afora qualquer anedota, o ponto de divisão em 
relação a J. Laplanche). Aliás, a tese é tão impressionante que conside­
ramos o objeto da psicanálise de um lado ao outro atravessado não 
apenas pela linguagem, mas pelas línguas; isso não impede, entretanto, 
que haja de Freud, falando e pensando em alemão, a Lacan, falando 
e pensando em francês, uma possibilidade de transmissão integral. 
A luta contra a Internacional (a primeira pelo menos, dirigida 
contra a Internacional de Londres e seu establishment familiar; a se­
gunda luta, dirigida contra a Internacional US é de outra natureza) 
amplia a afirmação: já que Freud não é um mestre (embora ocupe 
essa posição), a participação de sua Presença e de sua Palavra não 
cQpstitui um título. Melanie Klein, em particular, consegue prevalecer 
sobre Anna Freud. Da mesma forma Lacan, que nunca encontrou 
Freud, pode prevalecer sobre Marie Bonaparte, que convivia com ele. 
Quando, sob a forma do materna, a letra se torna necessária e suficiente 
para a transmissão, não mais existe par mestre-discípulo, com seu 
cortejo de fidelidades e traições; os únicos acasalamentos são literais: 
" Marx e Lênin, Freud e Lacan não estão mais acasalados no ser 
[l 'être]. Foi pela letra [lettre] que encontraram no Outro algo como 
seres de saber, eles procedem dois a dois . . . " (S., XX, p.89). 
Podemos afirmar que no materna e na determinação estritamente 
posicional do mestre se articula o status da Escola. Esta nada mais é 
do que o correlato institucional do materna e sua função maior consiste 
em assegurar uma transmissão integral. Por isso a Escola terá por 
expressão uma coletânea de maternas, intitulada Scilicet (glosa: 'você 
pode saber' , scil. 'graças ao materna' ). Nessa coletânea, a pertinência 
do modelo retórico de Bourbaki salta aos olhos: anonimato dos textos, 
com uma única exceção (Bourbaki num caso, Lacan no outro), esse 
anonimato-menos-um sendo testemunha de um " intelectual coletivo" , 
do qual um nome único - de referente fictício ou não, pouco importa 
- estenografa o princípio de reunião; longe de ser um galanteio, 
como o era no dizer de Marx ohegelianismo do Capital, a imitação 
de Bourbaki confirma o domínio da matemática sobre a transmissão 
do saber na Escola Freudiana. Na verdade, esse formato singular ma­
nifesta um projeto: reescrever " matematicamente" a psicanálise, do 
mesmo modo que Bourbaki pretendia reescrever " matematicamente" 
a matemática. Que o nome Escola tenha sido escolhido de preferência 
104 A obra clara 
ao nome Sociedade ou Instituto, isso se deve, portanto, a um elemento 
não trivial da doutrina.4 
'Não sou mestre, ocupo a posiç�o' , eis portanto as conclusões 
que Lacan não pôde deixar de tirar para si mesmo no momento em 
que se desenvolveu de maneira mais completa o dispositivo de sua 
matematização. É a essa tese que será associado o trocadilho: " leiam 
Salomão, é o mestre dos mestres, é o metro, um tipo no meu gênero" 
(S., xx, p. l 04), onde ouviremos o significante " antimestre" , análogo 
estrito da antifilosofia. Tanto mais estrito que a filosofia e a mestria 
foram por muito tempo interligadas. 
2.2. A letra 
Por que a matemática é o paradigma da transmissibilidade? Por causa, 
como dissemos, da letra. 
Ora, a letra não é o significante. A distinção entre eles pode ter 
ficado confusa no primeiro classicismo (ver principalmente L'instance 
de la lettre); ela se acentua e se aperfeiçoa ao longo do segundo (ver 
sobretudo o seminário XX). Eis aqui seus principais elementos. 
O significante é apenas relação: ele representa para e é aquilo 
através do quê isso representa; a letra mantém, decerto, relações com 
as outras letras, mas ela não consiste apenas em relações. Sendo apenas 
relação de diferença, o significante é sem positividade; mas a letra é 
positiva em sua ordem. A diferença significante sendo anterior a toda 
qualidade, o significante é sem qualidade�; a letra é qualificada (ela 
tem uma fisionomia, um suporte sensível, um referente etc.). O sig­
nificante não é idêntico a si, não tendo um si a que uma identidade 
possa ligá-lo; mas a letra, no discurso em que se situa, é idêntica a 
si mesma. O significante sendo integralmente definido por seu lugar 
sistêmico, é impossível deslocá-lo; mas é possível deslocar uma letra; 
assim a operação literal por excelência deriva da permutação (teste­
munha, a teoria dos quatro discursos). Pela mesma razão, o significante 
não pode ser destruído: ele no máximo pode " faltar em seu lugar" ; 
mas a letra, com suas qualidades e identidade, pode ser rasurada, 
apagada, abolida.5 Ninguém pode fechar a mão sobre um significante, 
já que ele é apenas por 1:1m outro significante; mas a letra é manipulável, 
até mesmo empunhável (" este escrito [ . . . ] o que se resume a estas 
cinco letrinhas escritas na palma de minha mão" , assim Lacan comenta 
a fórmula da gravitação universal, S. , XX, p.43). Sendo deslocável e 
O segundo classicismo lacaniano lOS 
empunhável , a letra é transmissível; por essa transmissibilidade própria, 
ela transmite aquilo de que ela é, no meio de um discurso, o suporte; 
um significante não se transmite e nada transmite: ele representa, no 
ponto das cadeias onde se encontra, o sujeito para um outro significante. 
O significante não pode ser instituído; seja ele arbitrário (Saussure) 
ou contingente (Lacan), não é decerto equivalente, mas importa pouco 
em relação ao que é dito nos dois casos: que o significante não tem 
razão de ser como é, e, antes de mais nada. porque ele não é como 
é; porque ele não tem identidade própria; porque não tem si; porque 
todo si é reflexivo e o significante não poderia ser reflexivo, sem logo 
ser seu próprio segundo e um outro significante. A letra, ao contrário, 
deriva sempre de uma declaração; nesse sentido, ela tem sempre razão 
de ser o que é, mesmo se essa razão for uma pura e simples decisão; 
é por isso que el_a sempre diz respeito a um discurso (" A letra, radi­
calmente, é efeito de discurso" , S. , XX, p.36); ela nada é sem as regras 
que cerceiam seu manejo, mas uma vez dadas essas regras, cada letra 
é o que é, como é; a reflexividade lhe é permitida; ela tem um si. 
Ora, as regras do manejo podem ser ditas (" a escrita [ . . . ] só subsiste 
se me aplico em apresentar-lhe a língua de que faço uso" . S. , XX, 
p. l 08); aquele que as diz ocupa por isso mesmo, no tempo usado em 
dizê-las, a posição de um mestre do jogo de letras, até mesmo de um 
inventor: Palamedes ou Cadmo, Cláudio ou são Cirilo. Não existe 
mestre dos significantes; tampouco existe inventor (exceto Deus, se 
esse gênero de coisas existisse). 
Em linguagem de escola, o significante deriva apenas da instância 
S; mas a letra vincula R, S e I, que são mutuamente heterogêneos. 
Assim, tudo o que concerne ao significante será dito num vocabulário 
da cadeia e da alteridade; reduzido a seu esqueleto, ele se resumirá a 
S I (um significante), S2 (um outro significante); $ (o sujeito barrado 
pelo intervalo de S I a S2); a (o que cai pelo efeito de barra).6 Mas 
tudo o que concerne à letra será dito num vocabulário do encontro, 
da cunhagem, do contato, do entre-dois. Esses vocabulários são múl­
tiplos: a geometria da linha, a topologia, a lógica dos quantificadores 
puderam sucessivamente servir. Elas serviram principalmente para 
articular a doutrina do materna, precisamente na medida em que o 
materna deriva da letra. 
Compreendemos, assim, que Lacan o defina como uma orthe doxa; 
em todo caso, o compreendemos se resumirmos o conceito de orthe 
doxa a sua fonte platônica (Rep., 476c-478d; Menon, 97b-99b). Tra-
106 A obra clara 
tava-se ali de traçar sobre uma linha um segmento intermediário entre 
dois heterogêneos: agnosia e episteme. Uma versão topológica, anti­
linear e dramática, da geometria linear de Platão é o cross-cap do 
L ' étourdit (p.38-9): costurar um ao outro dois heterogêneos, um farrapo 
esférico sobre um farrapo asférico, uma rodela sobre uma banda de 
Mrebius. De um entrechoque análogo, há uma versão lógica: são os 
paradoxos do Todo, onde se escreve a doutrina da sexuação. Duas 
linhas ali se chocam; uma nota, numa simbólica inspirada em Russell, 
a estrutura do Todo como limitado ao combinar duas proposições 
acopladas: só podemos dizer " para todo x, <l>x" se pudermos também 
dizer " existe um x tal como não-<l>x" ; a outra nota, numa simbólica 
anti-russeliana, a estrutura do ilimitado a que não convém o nome 
Todo: se devemos dizer " não existe x tal como não-<I>x" , então a 
marca do todo deve ser barrada: " para não-todo x, <l>x" . O materna 
não consiste em nenhuma das proposições considerada isoladamente, 
em nenhum dos pares considerado isoladamente, mas no confronto 
dos dois pares irreconciliáveis.7 
Assim se constitui o tipo mais geral do materna, que mostra a 
necessidade do heteróclito no cálculo sexual, mas também que a pos­
sibilidade e a necessidade do materna em geral vêm do fato de que 
o ser falante é sexuado. 
Na referência à orthe doxa, há entretanto mais a ser decifrado do que 
a estrutura de um entrechoque de heterogêneos. Platão, lembremos, 
opõe a orthe doxa à episteme através do vínculo: " é por isso que a 
ciência tem mais valor do que a opinião correta: é pelo vínculo que 
ela se distingue da opinião" (Menon, 98a). 
Ora� o próprio dos maternas da psicanálise é que eles não se vin­
Ç1J}Jl.m entre si. Não só cada um deles costura heterogêneos em conjunto, 
mas cada um é além disso heteromorfo a cada outro. A escrita de que 
se formam varia. Não_ex,iste passagem literal de um a outro: impossível 
calcular um materna a partir de um outro por um manejo. das letras. 
A permutaÇão que estrutura a teoria dos quatro discursos é interna a 
um materna único: aquele constituído pelas quatro .fórmulas, tomadas 
em conjunto, e a regra que faz passar de uma à outra. Nenhuma das 
quatro linhas do m�tema sexual se obtém por transformação a partir 
de qualquer outra; elas funcionam em co-presença. De um desses 
maternas ao outro, nenhuma transição literal. Em suma, os maternas 
não se somam num corpo de �i_�J!cia. 
O segurulo classicismo lacaniano 107 
A conclusãose impõe: no materna, Lacan retoma tudo do para­
digma matemático, exceto precisamente a dedução. O materna se pro­
põe como um cálculo local; dele podemos decerto extrair todas as 
proposições que ele autoriza pelo manejo de suas próprias letras, mas 
dele apenas podemos extrair aquelas. Admitindo-se, além disso, que 
de um materna não podemos extrair nenhum outro materna, essas 
novas proposições só poderiam ser não-matemáticas e puramente des­
critivas: um materna lacaniano, enquanto literal, funciona idealmente 
como uma matriz de produção de proposições empíricas. Só podemos 
e só devemos dele extrair contingências sublunares.8 
O materna descreve o domínio formal da matemática sobre a 
psicanálise, mas, da matemática, ele retém apenas a literalidade, dis­
junta do encadeamento das razões. Ou, ainda com mais exatidão, o 
cálculo local - o fragmento insecável de saber - permitido pela 
letra (litterâ scire licet) apenas é permitido pela interrupção que a 
letra impõe às cadeias de razões. 
3. A matemática 
A doutrina do materna, por mais nova que seja, repousa então sobre 
uma característica comum ao conjunto dos empréstimos, numerosos 
e variados, feitos por Lacan às letras matemáticas. Lacan retém dessas 
letras o que elas articulam de suspensivo, isto é, de impossível: o 
infinito como inacessível, a teoria do número como travessia da falha 
incessante do zero, a topologia como teoria de um "n'espaço" , ar­
rancando a geometria de toda estética transcendental. 
Somando esses empréstimos e reduzindo-os a seu caráter comum, 
obtém�se a definição da matemática como ciência do real, na medida 
em q�:� o real nomeia a função do impossível (S., XX, p. l l 8). Natu­
ralmente o teorema de Gõdel será freqüentemente citado a esse respeito, 
mas observaremos que Lacan não o utiliza de maneira original. Ele 
se limita a ali apreender o que todo homem honesto nele lê: a de­
monstraçíh rigorosa de que existem em aritmética proposições inde­
cidíveis. Sensivelmente mais estrutural, a referência ao intuicionismo. 
Na necessidade de apenas admitir em matemática o que se deixa intuir 
como produto de uma construção positiva, Lacan retém menos a dou­
trina da intuição do que a rejeição de toda demonstração apagógica.9 
O que está em jogo é de porte, já que os filósofos da matemática, e 
sobretudo o mais recente e um dos maiores dentre eles, puderam 
108 A obra clara 
sustentar que a legitimidade do raciocínio apagógico dizia respeito à 
essência da própria dedução matemática. 10 Mas a rejeição de Lacan 
explica-se facilmente: o apagógico repousa crucialmente sobre o en­
cadeamento das razões; ora, tªLencad!!amento é o próprio do imagi­
nário. 
A matemática disjunta da dedução e do apagógico, reduzida a suas 
simples letras, eis o que funciona de fato nas referências dispersas e 
múltiplas à matemática; eis o que o materna propõe de maneira intei­
ramente explícita; eis, além disso, o que parece de fato constituir, aos 
olhos de Lacan, a pertinência da matemática em relação à ciência 
moderna. 
· 
Pois o segundo classicismo lacaniano de modo algum renunciou 
a Galileu. Muito ao contrário, ele reafirma o doutrinai de ciência. 
Exceto que, doravante, a matemática implicada na matematização está 
inteiramente depurada de tudo o que lhe restava de Euclides e do 
more geometrico. Ela se tornou profundamente não-grega. Ela importa 
não_pelas cadeias de razão, mas pelas zonas estritamente circunscritas 
de literalidade que ela autoriza - o que pode ser chamado de cálculo. 
Não se deve temer aqui articular proposições radicais. A doutrina 
do materna não só permite a Lacan reafirmar o gesto da matematização; 
na verdade, ela esclarece os fundameotos do doutrinai de ciência, tal 
como devem ser para que deles dependa a psicanálise. Que o materna 
da psicanálise seja fragmentado, local, fechado sobre algumas letras 
restritas, isso não é negável. Mas nisso ele não se excetua do que 
funciona na matematização reivindicada desde Galileu. Muito ao con­
trário, ele o evidencia da maneira mais crua. 
Sob esse enfoque, torna-se patente que a ciência moderna convoca 
a matemática por inteiro, mas que dela retira o que aos olhos dos 
matemáticos fiéis ao que herdaram constituía sua essência mais pre­
ciosa: não apenas o more geometrico, mas a demonstração e toda 
espécie de vínculo. A própria medida é apenas um resíduo. Doravante, 
apenas o cálculo funciona: " que você escreva que a inércia é mv2/2, 
o que isso quer dizer? se não que seja qual for o número de uns que 
vocês ponham sob cada uma dessas letras, vocês estão submetidos a 
um certo número de leis, leis de grupo, adição, multiplicação etc." 
(S. , XX, p. l l 8) . Entendam: todas as leis regionais de um tipo particular 
de cálculo, mas também apenas elas. 
Reencontramos, por uma nova via, a linha divisória que separa 
a episteme da ciência. 
O segundo classicismo lacaniano 109 
Na primeira, o vínculo é determinante - é o que diz explicita­
mente Platão; ele o é tanto mais quanto menos for localizado, e só 
um raciocínio de forma geral lhe permitirá escapar à dependência 
tópica. Importará, pois, que uma ciência particular estabeleça as formas 
ger.a.is do raciocínio, que chamamos dialético ou lógico. Dessas formas 
gerais, os modos euclidianos oferecem a ilustração mais depurada dà 
sobrecarga de substância. " Longas cadeias de razões" , as palavras 
devem ser entendidas pelo que dizem: vasta extensão dos espaços de 
proposições, continuidade dos vínculos que as unem. 
Na segunda, ousamos dizer que o vínculo não importa, nem a 
demonstração por raciocínio, mas o cálculo, que é local (mesmo que 
sua localidade se revele bem extensa). O cálculo opera sobre letras, 
fixadas por um discurso e combinadas segundo regras explicitáveis, 
de maneira a produzir uma combinação literal nova; mas essas regras 
valem para um tipo de cálculo dado. A matematização lacaniana da 
psicanálise apenas cumpre, a esse respeito, um passo a mais: o cálculo 
liter:al afasta-se de maneira tão forte de toda dedução, sua localidade 
circunscreve-se tão restritivamente que sua eficácia se limita ao único 
farrapo de escrita em que ele se dá à leitura. 
Mas não seria isso um nada de matemática? Aparentemente, a 
maioria dos matemáticos e o conjunto da tradição filosófica respon­
deriam afirmativamente; mas Lacan se separa deles. Não só afirma 
que o uso que faz da matemática é lícito e próprio a autorizar uma 
matematização, mas afirma muito mais do que isso: que esse uso 
evidencia a própria essência da matematicidade. Sob a forma do ma­
tema, ele propõe uma definição, nova e escandalosfi, da matematicidade 
como tal, daquilo que f!!Z_ com que o matemático seja o matemático. 
Essa definição repousa sobre uma localidade intrínseca, que decorre 
da letra. 
Lacan sente-se confortado em sua doutrina pelo que existe de 
mais incisivo no projeto bourbakista. Na verdade, o programa enun­
ciado na Introdução ao livro I dos Eléments de mathématique e os 
procedimentos utilizados no capítulo I desse mesmo livro 1. Lembra­
mos a importância retórica de Bourbaki na formatação de Scilicet. É 
hora de assinalar uma importância mais substancial: a doutrina do 
materna só se sustenta se admitirmos uma interpretação bourbakista 
da matemática. Ou, ao menos, a interpretação integralmente literali­
zante que dá Lacan do programa bourbakista: uma matemática baseada 
ela própria no cálculo, na medida em que o cálculo não é uma dedução, 
110 A obra clara 
e na letra, na medida em que a letra não é um signo: " Coloquemos 
juntos objetos [ . . . ] . Reunamos estas coisas absolutamente heteróclitas, 
e concedamo-nos o direito de designar essa reunião por uma letra. É 
assim que se exprime em seu início a teoria dos c.onjuntos, aquela, 
por exemplo, que propus, da última vez, como sendo de Nicolas Bour­
baki. Vocês deixaram passar isso, que a letra designa uma reunião. É 
o que está expresso no texto da edição definitiva [ . . . ] [os autores] 
tomam muito cuidado em dizer que as letras designamreuniões. Aí 
reside sua timidez e seu erro - as letras fazem as reuniões, as letras 
são, e não designam, essas reuniões, elas são consideradas como que 
funcionando igual a essas próprias reuniões" (S., XX, p.46). 
Aos olhos de Lacan, Bourbaki ainda não é na verdade suficien­
temente bourbakista. De resto, sabemos que Bourbaki utiliza tanto a 
dedução quanto o apagógico. Mais ainda, ele afirma a continuidade 
sem falha desde os gregos da demonstração matemática: " o que era 
uma demonstração para Euclides continua . sendo uma aos nossos 
olhos" (Bourbaki, ibid., p. l ). Ele provavelmente propõe uma versão 
literalizada ao extremo, mas trata-se aí, segundo ele, apenas de pôr a 
nu a própria essência do more geometrico. Ora, essa continuidade é 
bem precisamente o que Lacan recusa, mesmo que essa recusa per­
maneça implícita na afirmação: " as letras fazem as reuniões" . Na 
verdade, ele instala, ao dizer isso no lugar de Bourbaki, uma figura 
fundamentalmente outra, que poderíamos antes chamar de hiperh.aur­
bakismo. Igual como, há pouco, ele havia acrescentado ao estrutura­
lismo uma hipótese hiperestrutural. 
Ali onde a matemática pré-bourbakista se valia da coerência racional, 
oriunda dos gregos, Bourbaki vale-se da simples consistência literal. 
Mas ele a reputa homogênea à precedente. Lacan, baseando-se no 
hiperbourbakismo, dá uma volta suplementar no garrote: mesmo que 
tivesse existido consistência literal, ela não deixaria de ser imaginária, 
porque toda consistência é sempre variante do vínculo; mas não existe 
consistência literal, porque a literalidade não é da ordem da consis­
tência. 
A função específica da matemática, na medida em que o materna 
a isola, deixa-se portanto resumir da seguinte maneira: tal como Bour­
baki a articula e tal como Lacan, indo ao hiperbourbakismo, a desar­
ticula, ela propõe um tesouro de materiais para uma teoria não ima­
ginária e não qualitativa do pensamento. 
O segundo classicismo lacaniano 111 
O problema geral da psicanálise é, lembremos, que exista pensàmento 
que não corresponda aos critérios imaginários e qualitativos do pen­
samento (coerência, terceiro excluído, discursividade, negação etc.; 
em suma: Aristóteles) . Só podemos sustentar a equação dos sujeitos 
e principalmente sua versão mais ambiciosa sob essa condição: a 
identidade do sujeito do Cogito e do sujeito freudiano. A psicanálise 
deve, portanto, construir uma teoria do pensamento, que integre, não 
como uma extensão adventícia, mas como uma propriedade constitu­
tiva, o pensamento disjunto das regulações imaginárias. Em Freud, 
essa teoria é quase inteiramente negativa; o que há de positivo nesse 
ponto não merece o nome de teoria; no máximo um modelo energético 
ou biológico. Em Lacan, pode-se reconhecer a ambição de uma teoria 
positiva, que, para além do imaginário do pensamento, diz respeito a 
seu real. 
A matemática e todas as disciplinas formais estão convocadas 
para cumprir esse programa. 
Mas sabemos que sua extensão variou. No paradigma do primeiro 
classicismo estão incluídas as disciplinas maiores do galileísmo am­
pliado. Supõe-se que a lingüística deva evidenciar sobretudo os me­
canismos de um pensamento não-reflexivo, não-consciente, não-aris­
totélico. Naturalmente, a matemática bourbakista, a lógica russelliana 
e pós-russelliana, a antropologia lévi-straussiana concorrem para o 
mesmo desígnio. O que não chega a impressionar, já que a homoge­
neidade fundamental de suas formalizações foi justamente proposta 
como hipótese pelo discurso de Roma. 
· 
No segundo classicismo, a homogeneidade está rompida. Apenas 
a matemática permanece, e permanece apenas em sua leitura hiper­
bourbakista. Tal é o eixo maior de uma teoria do pensamento não 
imaginário. O materna evidencia seu status decisivo. 
É verdade que nada teria sido possível sem o galileísmo ampliado. 
Acrescentemos que este não teria sido possível sem Bourbaki. Pois 
só Bourbaki perseguiu, de maneira conseqüente, o desígnio pelo qual 
a matemática é disjunta da quantidade. Suposição necessária para que 
os estruturalismos, e singularmente a lingüística, sejam reputados ma­
temáticos, embora não comportem nem medida nem mesmo dedução 
lógico-matemática. De fato, mas é também verdade que algo muda 
entre o relatório de Roma e o L'étourdit. 
Em primeiro lugar, Lacan pouco a pouco separou a instância 
específica da letra do simbólico generalizado; ao mesmo tempo, o 
simbólico ainda humanista de Roma 1 1 viu-se reduzido à sua depuração: 
112 A obra clara 
a letra S em RSI.. Em segundo lugar, ele tematizou de maneira cada 
vez mais explícita o literalismo na matemática; esta última, ainda 
tecida em Roma de racionalidade contínua, apresenta-se apenas como 
um amontoado inconsistente de escritas dispersas. Em terceiro lugar, 
ele restringiu radicalmente o gesto da matematização na ciência mo­
derna; esta é suposta fazer nada mais do que pinçar nos amontoados 
de escritas para ali colher o que permitirá, à medida do necessário, 
transliterar alguma linha do universo; mesmo que a física matematizada 
fosse unificada (o que não é), a matemática de sua matematização 
não teria de sê-lo, pois a matemática em si mesma não o é. Em quarto 
lugar, em matéria de letras de ciência, Lacan doravante não aceita 
mais outro recurso que a matemática estrita, a dos matemáticos puros. 
Relida, naturalmente, segundo as regras da fragmentação hiperbour­
bakista. 
Não apenas a lógica matemática nela está incluída, mas oferece 
seu tipo mais depm ado: por ela, deve ficar evidente que o euclidianismo 
não é nada, e que o nervo real das pretensas demonstrações é um 
cá_lculo sobre letras (chamado por vezes de dedução ou prova, mas 
pouco importa). Essa lógica é com justiça dita matemática, não porque 
considera a matemática um de seus ramos (logicismo), não porque 
fale da matemática e legitime seus procedimentos (metamatemática), 
mas porque exibe, em toda nudez, o que doravante define a matema­
ticidade como tal.12 Não há por isso contradição em dizer que a ciência 
do real seja, em variação livre, a matemática ou a lógica: em ambas 
as expressões, está em questão a mesma propriedade - a literalidade. 
Portanto, embora não se deva compartilhar a hostilidade de Koyré 
em relação à lógica, tampouco convém àter-se à indiferença dos adep­
tos mais moderados do koyréismo. A lógica matemática torna-se por 
sua mera possibilidade o schibboleth da ciência; não tanto por seus 
métodos e resultados particulares, mas porque ela evidencia a essência 
autêntica da matematicidade. Assim vê-se reduzida uma das instabi­
lidades graves com a qual o primeiro classicismo estava marcado 
(c f. cap. IV, p.117).13 
Mas esse sucesso se paga com uma mudança de discurso. No 
L' étourdit, a matemática não é mais senão letras, mas as letras de 
ciência não são mais senão matemática estrita, isto é, cálculo. A lin­
güística, Lévi-Strauss, o estruturalismo inteiro não testemunham mais 
nada que se sustente diante da mínima escrita matemática. O materna 
é o indício, o efeito e o nome dessa mudança. Ele se torna ao mesmo 
tempo lícito e necessário, na medida em que o campo matemático 
O segundo classicismo lacaniano 113 
não é mais senão literalização, e que não há mais literalização de 
ciência fora do campo explicitamente matemático. 
Da matemática fora-de-campo, comumente referida ao simbólico, 
Jakobson fora o arauto. A sessão que o seminário xx lhe dedica é na 
verdade um adeus a essa antiga figura. Não ao próprio Jakobson, que 
se tomou, por sua força de sujeito, portador de outras e novas luzes, 
mas a Roma. 14 É o que assinala o tema da " lingüisteria" (" minha 
lingüisteria" , diz Lacan); o nome é formado como o nome de condutas 
próprias aos artesanatos desprezados (pirataria, escroqueria, trapa­
çaria, mistificações) e sobre a palavra lingüista mais do que sobre a 
palavra lingüística - a lingüisteria, justamente não é a lingüistiqueria. 
Os lingüistas reconhecidos não são mais, como outrora, matemáticos; 
se fossem abertamenteo que são em segredo, revelar-se-iam garim­
peiros, navegadores errantes e solitários, pilhadores de restos em vez 
de sábios - sujeitos em exílio. 
O relatório de Roma imaginava uma matemática tão consistente 
consigo mesma que poderia sem tremores ampliar . seu império. Da 
teoria dos conjuntos, corretamente axiomatizada, concluía-se sem so­
lução de continuidade em relação a Freud, passando por Jakobson ou 
Lévi-Strauss: uma verdadeira alameda de reis. Mais ainda concluiu 
com um fechamento do portão; o nome de Bourbaki, após ter resumido 
todos os sésamos, transforma-se em seu contrário e apõe definitiva­
mente os lacres. O conjunto dos Escritos estava submetido ao programa 
da . matemática ampliada. Deve-se sustentar agora que nada do que 
nele é matematizado está diretamente conforme ao materna. Nem o 
apêndice ao seminário sobre A carta roubada, nem as fórmulas da 
metáfora e da metonímia, nem o esquema ótico da Nota sobre o 
relatório de Daniel Lagache, nem os grafos e escritas da Subversão 
do sujeito são maternas, embora procedam de uma matematização. 
Não só porque a noção de materna ainda não foi formalmente cons­
truída, mas porque a noção de materna determina uma configuração 
radicalmente exclusiva do que parecia se anunciar em 1 953 e perma­
necia vivaz em 1966. 
Sem meias-palavras, poderíamos mesmo sustentar que só existe 
materna com e após o L'étourdit. Nesse caso, mesmo a teoria dos 
discQrsos não atenderia inteiramente às condições. Tratá-la em materna, 
sem ser absolutamente ilegítimo, derivaria de uma injunção retroativa; 
de resto, essa injunção é praticada para as letras do primeiro classi­
cismo, ora retificando, ora confirmando (cf. por exemplo S. , XX, p.3 1 ). 
Assim, o segundo classicismo pode ser apreendido do primeiro e 
114 A obra clara 
recpnvertê-lo em maternas derivados. Entretanto, haveria na psicanálise 
apenas um único materna primário: o das escritas sexuais. O que 
corresponde a e:ncontrar novamente o fio da meada de Freud: a psi­
canálise diz apenas uma coisa, sempre a mesma, que há algum sexo. 
Assim se explica por que Lacan se compraz em falar do materna tanto 
no singular como no plural. No segundo classicismo, a matematização 
é mais do que nunca requerida; se ela é supostamente possível, é 
através de uma matemática fechada sobre sua própria fragmentação; 
se está cumprida, é por um simples lance de letras. ··: 
4. A visibilidade do literal 
Ora, existe algo denominado nó borromeano, dotado de uma proprie­
dade definidora: de três rodelas amarradas juntas, basta que uma não 
segure as outras para que todas se dispersem. Mas isso é próprio do 
literal como tal, e mais precisamente, do literal matemático. 
Apenas um ano depois de L'étourdit, que introduz o materna, 
nove meses depois de nele ter sido feita uma leitura hiperbourbakista 
da matemática, o nó é chamado " o melhor suporte que podemos dar 
daquilo por meio do que procede a linguagem matemática" . Por quê? 
Porque " o próprio orla linguagem matemática, uma vez que estão su­
ficientemente definidas suas exigências de pura demonstração, é que 
tudo o que dela provém, não tanto no comentário falado quanto no 
próprio manejo das letras, supõe_q_t,te basta que uma [das exigências] 
não seja verdadeira para que todas :as outras [ . . . ] se dispersem" (S., 
XX, p. l l6) . Três proposições são assim apresentadas: em primeiro · 
lugar, o matemático do qual se sustenta o �atema é o matemático 
separado da dedutividade, a qual é reputada a um só tempo adquirida 
e sem alcance: é o que significa o inciso " uma vez que estão sufi­
cientemente definidas as exigências de pura demonstração" ; estamos 
aqui no cerne do segundo classicismo. Em segundo lugar, o matemá­
tico, disjunto da dedutividade, consiste num literal puro: o manejo 
das letras, e não o comentário falado, que conduz às cadeias de razões. 
Em terceiro lugar, é o borromeanismo o suporte desse matemático, 
já que o borromeanismo é nada mais nada menos do que isto: basta 
que uma rodela se solte para que as outras se dispersem; ora, essa 
propriedade é julgada o melhor e talvez o único análogo da propriedade 
definidora do literal como tal. 
O segundo classicismo lacaniano 115 
Por outro lado, e não menos surpreendente, o nó, como borro­
meano, revela-se próprio para estruturar, ou, mais exatamente, para 
matematizar uma molécula doutrinai, sempre retomada desde o pri­
meiro classicismo. A saber, o ternário do real, do simbólico e do 
imaginário. Sob certos aspectos, poderíamos afirmar que nesse ternário 
se encontra resumido o caroço do programa de Roma; o que em todo 
caso dele subsiste nas subversões infligidas ao primeiro classicismo. 
Até então, a doutrina podia, e de maneira cada vez mais precisa, 
determinar o que entendia por real, por simbólico e por imaginário; 
entretanto, ela nada podia articular de robusto sobre o modo de exis­
tência deles. Doravante, o nó borromeano parece, por essa espécie de 
felicidade que por vezes encontramos nas letras, oferecer a solução 
mais clara e mais fecunda. 
Anteriormente, as maiúsculas R, S, I podiam passar por simples 
abreviações, sem outra regra de manejo senão a comodidade descritiva, 
sem outra legitimidade senão a de serem iniciais. Uma vez que cada 
uma dentre elas se tornou o rótulo de uma rodela borromeanamente 
nodulada a duas outras, elas se vêem presas a uma lei real que as 
limita. Elas permitem calcular categorias clássicas da experiência (ini­
bição, sintoma, angústia, gozo, cf. " R, S, I" , Ornicar?, 2, p.95- 105). 
Tornaram-se verdadeiras letras. O que permanecia do primeiro clas­
sicismo no segundo, e se constituía dessa forma como substrato comum 
aos dois; deixa-se inscrever no dispositivo borromeano, sob uma forma 
trilítera; a doutrina inteira deixa-se desde então declinar a partir de 
uma única matriz, infinitamente fecunda. 
Até mesmo a equação dos sujeitos encontra enfim sua elucidação 
completa. Das três afirmações nas quais ela se decompunha, to�as 
haviam recebido ao longo dos anos um status preciso. Todas, exceto 
a primeira: Lacan havia repetido ao longo de sua obra que a psicanálise 
opera sobre um sujeito. Isso admitido, todo o _resto está firmemente 
estabelecido: seja esse sujeito o sujeito cartesiano, seja determinado 
pela ciência, seja representado por um signific3:nte para um outro 
significante. Resta a afirmação em si. O que significa ela de fato? 
Logo após ter introduzido o nó, e graças a ele, Lacan a despoja 
de seus véus. Essa afirmação é uma hipótese, a hipótese de Lacan: 
" O inconsciente, também não entro nele, como Newton, sem hipótese. 
Minha hipótese é de _que o indivíduo que é afetado pelo inconsciente 
é o mesmo que constitui o que chamo sujeito de um signifiCante" (S. , 
XX, p. 1 29). 
116 A obra clara 
Daí para frente tudo se dispõe. A equação dos sujeitos identificava 
o sujeito da ciência e o sujeito sobre o qual opera a psicanálise: eles 
eram apenas um, porque eram apenas um com o sujeito do significante; 
pela hipótese de Lacan compreendemos que a expressão " sujeito sobre 
o qual opera a psicanálise" deve ser desdobrada: há o indivíduo afetado 
por um inconsciente, que a prática analítica encontra no que ela tem 
de mais técnico; e há o sujeito tal como a teoria da estrutura qualquer 
o define: é o sujeito de um significante. Não há dois sujeitos que 
constituem apenas um, mas um único sujeito e um indivíduo que, 
radicalmente distinto do sujeito, coincide com ele. Dizer isto é dizer 
que a distinção é irredutível e que ser o mesmo significa ser o Outro. 
Voltemos à doutrina: 
- Premissa 1 : 'o sujeito da ciência é o sujeito de um significante' 
(hipótese do sujeito do significante, formulada pelo primeiro classi­
cismo, mantida no segundo). 
- Premissa 2: 'o sujeito de um significante coincide com um 
indivíduo afetado por um inconsciente' (hipótese de Lacan, formulada 
apenas no segundo classicismo). 
- Premissa 3: 'a psicanálise em sua prática opera sobre um 
indivíduo afetado por um inconsciente' (hipótesefundadora de Freud). 
- Conclusão: 'a psicanálise em sua prática encontra por coin­
cidência um sujeito. ' 1 5 
Elucidação, disse eu. Trata-se bem mais de uma supressão, a ser 
pensada como uma Aujhebung. A equação dos sujeitos, da qual tudo 
partira, desfaz-se no''instante mesmo em que encontra seu status. Não 
que seu pivô não tenha sido conservado; simplesmente, .o que se 
enunciava em termos de equação se enuncia em termos de coincidência 
e de encontro. Quem agora perguntasse o que são uma coincidência 
e um encontro, o nó o esclareceria: trata-se da nodulação borromeana 
de uma determinação real (o sujeito), de uma determinação imaginária 
(o indivíduo), de uma determinação simbólica (o significante). A quem 
perguntasse o que é um sujeito, a definição do significante lhe bastaria; 
ela bastaria, o que indica que nada mais é necessário, principalmente 
o sujeito metafísico. O axioma do sujeito (cap. 11, p.33) não tem mais 
nem status nem utilidade, visto que o sujeito é de imediato incluído 
no significante como tal. 
Tomemos cuidado: não se trata de uma inversão. O axioma e a 
equação distinguiam indivíduo e sujeito; a teoria do nó permite articular 
que indivíduo e sujeito se superpõero. Mas, na lógica borromeana, 
O segundo classicismo lacaniano 117 
eles só podem se superpor na estrita medida em que são absolutamente 
heterogêneos. A hipótese de Lacan, falando a linguagem do encontro, 
reformula o que diz o axioma do sujeito na linguagem da distinção, 
mas ao mesmo tempo torna esse axioma supérfluo. 
Ao declínio do axioma do sujeito corresponde a não-pertinência 
do sujeito metafísico. Por essa razão, a referência ao pensamento perde 
sua urgência: "o inconsciente não é que o ser pense" (S., XX, p.95); 
com efeito, "o homem pensa com sua alma, o que significa que o 
homem pensa com o pensamento de Aristóteles" (p. IOO). Em outros 
termos, só existe pensamento imaginarizado e qualificado (semelhan­
ças, negação, terceiro excluído, dictum de omni et nullo, categorias, 
juízo, dúvida etc.), com o qual o inconsciente nada tem a fazer. A 
ligar à proposição "o significante é besta" (S. , XX, p.24), de onde se 
poderia deduzir a proposição 'o significante não pensa' ; em outras 
pafavras, não se admite mais que o significante articule o pensamento 
sem qualidades. Porque, na verdade, este pensamento não existe: não 
existe pensamento senão o pensamento de Aristóteles. 
De maneira recíproca, o " sem qualidades" requerido pela ciência 
não se chama mais pensamento. Assim deve-se entender que Lacan, 
voltando a Freud, mas também a Marx, prefere doravante falar de 
trabalho: o inconsciente como " saber que não pensa, nem calcula, 
riem julga, o que não o impede de trabalhar" (Télévision, p.26). Uma 
vez mais, a definição do insconsciente como um " isso pensa" não se 
encontra aqui propriamente invertida; ela está apenas deslocada, com 
violência. Para que o inconsciente seja um " isso pensa" , é preciso, 
sabemos, que exista o pensamento sem qualidades; a psicanálise obteve 
plenamente êxito em estabelecer-lhe a existência, exceto que, no ins­
tante mesmo do êxito, fica evidente que não se deve mais falar de 
pensamento. 
Se apenas existe o pensamento de Aristóteles, então o sem-quali­
dades deve mudar de nome. Marx constitui aqui o recurso mais forte. 
O trabalho de que se trata - trabalho do inconsciente, trabalho do 
significante - é o trabalho indiferenciado e sem frases cuja teoria foi 
produzida pelo livro I do Capital. É o trabalho sem qualidades . Assim 
o sujeito suposto no saber inconsciente - sujeito sem qualidades -
pode ser chamado de " o trabalhador ideal" (Télévision, p.26; Ou pire, 
Se. , 5, p.9, evoca Der Arbeiter, galanteio sem referência a Jünger?). 
Se o significante é essencialmente disjunto do pensamento e se 
este é doravante inseparável das qualidades, o sujeito sem qualidades 
é estritamente sujeito do significante e não o sujeito do pensamento; 
118 A obra clara 
ele se abole como indivíduo imaginário logo que pensa o que quer 
que seja e principalmente " existo" . Desde então, o Cogito, ao contrário 
do que propunha o primeiro classicismo, não é emergência, mas imer­
são do sujeito. O logion 'isso pensa onde não existo' é substituído 
pelo logion ou quase-logion 'Onde isso fala, isso goza e isso nada 
sabe' (em destaque na lição 9, S., XX, p.95). O isso fala e alíngua 
(numa palavra só), que é apenas a forma substantivada do isso fala, 
absorvem o isso pensa. Descartes inútil e impreciso. 
A homonímia que ligava o axioma do sujeito à metafísica não 
cumpre mais nenhum efeito de saber; quanto aos eventuais desenvol­
vimentos sinonímicos, seu acesso está doravante barrado. Lacan li­
cencia o cartesianismo radical e as escapadas transcendentais. Uma 
recusa é definitivamente oposta aos Cahiers pour l 'Analyse. 
Graças ao nó, o segundo classicismo parece pois integrar, ordenar e 
redefinir a herança do primeiro. O nó absorve a matemática, no que 
ela possui de essencial à psicanálise: sua literalidade. Ao mesmo tempo, 
todas as dificuldades ligadas ao doutrinai de ciência podem ser con­
sideradas resolvidas: a psicanálise está de direito matematizada e ela 
sabe · soletrar o que quer dizer matematização. O galileísmo ampliado 
confirma-se inútil. Está absorvida a teoria da estrutura qualquer, que 
é doravante a teoria regional apenas da rodela S . 16 Está esclarecida 
enfim - e desfeita - a equação dos sujeitos, onde se encontravam 
o doutrinai de ciência e a teoria da estrutura qualquer. 
Aí reconhecemos o movimento ideal que a história das ciências 
celebra . . As instabilidades que marcam um primeiro modelo trazem a 
emergência de um segundo, onde encontram-se resolvidas, muitas 
vezes após um Io.ngo tempo. Assim considerado, o nó borromeano dá 
ao materna força e coflfirmação. Sua definição abre, no sentido próprio, 
a via real da psicanálise, em sua relação com a ciência moderna. 17 
S. A antifilosofia 
A psicanálise estabeleceu que ela é discurso do sujeito. Mas ela não 
mais precisa, da filosofia para fazer com que entendam o que é um 
sujeito. Se a filosofia lhe é inútil, então lhe é nociva e como tal deve 
ser designada. É o momento da antifilosofia. 
A palavra surpreendeu. A referência aos filósofos parecia inse­
parável da obra de Lacan. Ali onde Freud se mantinha reservado -
O segundo classicismo lacaniano 119 
mais austríaco do que alemão a esse respeito - e sempre mais disposto 
a fundamentar-se nas letras e nas artes do que na filosofia, Lacan 
citava constantemente o corpus philosophorum. Falando de antifilo­
sofia, havia ele decidido desmentir a si próprio? 
O tema está decerto datado. Ele nasce com · a reorganização, em 
1 975, do departamento de psicanálise da Universidade de Paris-VIIL 
Ressurge em 1980, por ocasião de uma polêmica iniciada por L. Alth-· 
usser. Nesse caso como em outros, seria entretanto vão ater-se às 
circunstâncias anedóticas. Que a reorganização do departamento de 
psicanálise tenha tido que passar por curiosas e desagradáveis discus­
sões com o departamento de filosofia, que a seu modo tenha ressurgido 
nessa época um verdadeiro conflito das faculdades, isso não deixa de 
ter importância, embora hoje nos faça sorrir. Mas nada da anedota 
basta para legitimar a fabricação de uma palavra tão violenta. Ela só 
pode ser inteiramente explicada por causas à medida de sua violência. 
Mesmo que por motivos de cronologia, as causas devem ser manifes­
tamente buscadas no dispositivo geral do segundo classicismo, isto é, 
no materna. 
Sabemos que por muito tempo Lacan hesitou em se inscrever no 
organograma da Universidade, contentando-se com o abrigo que esta 
podia lhe consentir às suas margens. Após 1 970, ele aceitou e talvez . 
tenha desejado que um departamento o convocasse diretamente. Mu­
dança cujas causas são múltiplas. Não se pode ignorar a própria con­
vulsão sofrida pela instituição universitária francesa em 1968. A ques­
tão é saber como Lacan a interpretava. Algumas razões levam a pensar 
quea interpretava como um mecanismo de decadência; precisamente 
por essa razão, ele concluiu que não custaria grande coisa utilizar os 
meios disponíveis no seio de uma instituição obsolescente (da mesma 
forma os cristãos não hesitaram em usar o Império, assim que ficou 
claro para eles sua crise incurável. Mesmo que devessem se apresentar 
como seus garantes mais seguros). 
Mas não convém nos limitarmos a isso: a instituição universitária 
repousa sobre um ato de transmissão; a legitimidade de um departa­
mento universitário de psicanálise só se sustenta portanto numa dou­
trina assegurada pela transmissibilidade da psicanálise. Se um depar­
tamento universitário pôde de fato. 'ser admitido como um lugar apro­
priado ao ensino de Lacan (decisão nova, lembremos); é porque a 
doutrina do materna estava dali por diante completa. A ativação da 
via universitária não é apenas contemporânea do segundo classicismo; 
120 A obra clara 
ela o requer como sua condição necessária (o que não quer dizer que 
ela própria seja uma conseqüência necessária dele; quanto a esse ponto, 
os hábeis não se entendem). 
Ora, a reorganização do departamento foi pautada pela antifilo­
sofia. Só pois o materna pode legitimar a antifilosofia. Mais exatamente 
ainda, essa palavra é apenas um outro nome do materna. 
Portanto, a tese é: 
'existe uma exclusão mútua entre a filosofia e o materna da 
psicanálise' . 
N a verdade, o argumento é fácil de ser construído. Basta tomar ao pé 
da letra o que tantos filósofos (não todos) dizem de si próprios: que 
dependem, sem corte maior, da filosofia grega. Ora, a filosofia grega 
está radicalmente vinculada ao mundo da episteme. Sob certos aspectos, 
ela funda esse mundo. A episteme, em sua estrutura de theoria distinta 
da praxis, só é inteiramente autorizada pela filosofia. Em contrapartida, 
o filósofo nunca poderia ficar indiferente à possibilidade de existir 
episteme (quer ele negue ou afirme essa possibilidade): isto é, um 
saber que requer a alma e a convoca. 
O próprio nome de filosofia concerne aos fundamentos de tal 
mundo. O necessário e suas pompas, a semelhança e seus deveres, a 
alma e suas purificações, eis o que juntas desenvolvem a filosofia e 
a episteme; talvez o nome mais próprio para resumi-las seja o de 
sophia, esta sabedoria que se deve amar cQmo a si próprio (philein). 
É a isso justamente que a ciência moderna renuncia. A psicanálise 
desenvolve explicitamente essa renúncia. No sentido estrito, ela é, 
portanto, o inverso da filosofia. 
Conclui-se, portanto: 
'não existe filosofia que seja integralmente síncrona com a ciência 
moderna, mesmo que dela seja contemporânea' . 
O que corresponde, na verdade, a lhe conferir uma grandeza. A 
filosofia contemporânea da ciência moderna testemunha junto a ela 
dispositivos que lhe são estranhos; daí seu parentesco de essência à 
matemática, desde que esta última não seja definida em termos de 
linguagem. Mesmo que não negue o corte maior, a filosofia o mantém 
aberto e problemático; ela convoca a pensá-lo. Alguns diriam que ela 
está em posição de baliza absoluta. 
Mas a psicanálise, por sua vez, é intrinsecamente síncrona com 
a ciência moderna; ela é, portanto, de um outro tempo - lógico ou 
cronológico - que a filosofia. Ainda é preciso que possa estabelecer 
O segundo classicismo lacaniano 121 
sua própria sincronia. Depois de Freud, para esse fim, ela apenas 
dispunha da linguagem adulterada da ciência ideal. É isso que faz 
com que, no dispositivo do primeiro classicismo, a psicanálise se sirva 
da filosofia. Trata-se para ela de inserir uma cunha entre ela mesma 
e a ciência ideal, tal como Freud e os pequenos freudianos o imagi­
navam. Como podem bem testemunhar sobretudo o axioma do sujeito 
e sua homonímia. 
Freud se confiara à cultura humanista - literatura, história, ar­
queologia. Este recurso não bastara; podia-se prever que bastaria ainda 
menos após a derrocada institucional, militar, política e moral dos 
países onde o humanismo clássico havia por longo tempo sobrevivido 
- a Alemanha de Melanchthon, a Áustria dos jesuítas, a França da 
Sorbonne dreyfusiana. Ainda mais que a ciência ideal tinha se tomado 
poderosa: ela estava, de 45 em diante, no campo dos vencedores. A 
vitória da democracia liberal dos engenheiros e dos comerciantes era 
também a vitória da mais obtusa das ciências . I S 
O retomo a Freud supunha, portanto, o desvio por regiões que 
Freud proibira a si próprio. Contra o cientificismo deturpado da In­
ternacional, as armas da filosofia eram doravante mais fortes do que 
as armas da cultura. Para deixar claro que pertencia intimamente ao 
universo da ciência, Lacan devia, primeiro, dissolver essa relação falsa 
e estritamente imitativa que acabara construindo, longe de seu torrão 
natal, a psicanálise de língua inglesa. Com esse fim, só a filosofia 
podia servir, já que só ela se apresentava na ordem da sistematicidade 
e da demonstração, como Outra que não a ciência. 
O uso repetido que Lacan faz da filosofia durante esse tempo 
não contradiz absolutamente a relação de exclusão mútua que ela 
mantém com a psicanálise. Muito pelo contrário, ele supõe essa ex­
clusão. Só ela permite que a filosofia seja levada a levantar as massas 
imponentes da ciência ideal e de suas imitações institucionais. ü__uso 
da filosofia é o reverso exato da antifilosofia. Issu significa também 
que a segunda é o anverso do primeiro. 
Resta que uma inversão ocorreu, com a criação de um nome. 
Passou-se do anverso ao reverso, da coroa à cara. É que Lacan sem 
dúvida julgou ganha sua primeira batalha contra a ciência ideal. A 
ciência ideal dos W ASP, em todo caso. Graças talvez a 68, que deveria 
ter posto um ponto final na indolor expansão desta. Graças talvez 
também ao LEM alunissante, já que enquanto irrupção do real obtida 
pela ciência, ele livra esta de seus lastros imaginários para convocá-la 
122 A obra clara 
para sua exclusiva matematização ("o discurso científico que conse­
gue[iu] a alunissagem onde se comprova para o pensamento a irrupção 
de um real. Isto sem que a matemática tenha outro aparelho que o da 
linguagem" , Télévision, p.59). 
A essas causas externas, que têm valor de sintoma, se acrescenta 
uma causa interna: a emergência da teoria do materna, consolidada 
pelo destaque dado ao nó. Durante o segundo classicismo, o nome de 
antifilosofia concerne especificamente à transmissão. Durante o pri­
meiro classicismo, ele não tem que ser proferido, porque o problema 
da transmissibilidade integral da psicanálise não foi abordado de frente. 
É verdade que durante esse período, Lacan mantém valorizada a relação 
da psicanálise com a ciência moderna; é verdade que ele se serve 
incessantemente de objetos matemáticos, mas não diz que a única 
transmissão possível se opera pela letra matemática. Porque, na ver­
dade, ele não autonomizou inteiramente a doutrina da letra e porque 
não define a matemática pela letra. Assim que são proferidas as teses 
determinantes, no que diz respeito à letra, à matemática e à transmissão, 
a inversão pode se cumprir. 
De resto, basta citar: " Por ser a linguagem mais propícia ao 
discurso científico, a matemática é a ciência sem consciência de que 
faz promessa nosso bom Rabelais, aquela à qual um filósofo não pode 
senão ficar espantado" (L'étourdit, p.9; o grifo é meu); " O advento 
do real, a alunissagem ocorreu [ . . . ] sem que o filósofo que existe em 
cada pessoa pela via do jornal ftque comovido . . . " (Télévision, p.59; 
o grifo é meu); "Insurjo-me, se posso dizer, contra a filosofia. O que 
é certo é que é uma coisa finita. Mesmo se espero que dela surja uma 
rejeição" ("Monsieur A." , Ornicar?, 20/21, 1 980, p. l 7 ; grifo de La­
can).I9 
Não é pois surpreendente que após ter c6nvivido incessantemente 
com os textos filosóficos, após ter-se formado no conceito pela leitura 
de Hegel, após ter traduzido Heidegger, comentado Platão e Descartes, 
citado Aristóteles e são Tomás de Aquino, Lacan invente uma palavra 
queos filósofos, é preciso dizê-lo, consideraram, em sua maioria, uma 
injúria. 
Quanto a isso, a filosofia funciona como a política. O fato de que 
pertençam uma à outra torna-se um teorema: " A metafísica nunca foi 
nada e só poderia se prolongar cuidando de tapar o buraco da política. 
É sua mola propulsora" , escreve Lacan em 1 973, dirigindo-se espe-
O segundo classicismo lacaniano 123 
cialmente a Heidegger (" Introdução à edição alemã dos Escritos" , 
Se., 5, p . 1 3) . Pois a política também se revela radicalmente des­
sincronizada do universo moderno. 
; Será um acaso que, falando de Estado, democracia, dominação, 
liberdade, ela fale grego e latim (contanto, é claro, que fale; na maioria 
das vezes, resmunga)? Por essa fundamental discronia, ela reclama 
por parte da psicanálise uma indiferença de princípio. Porque nem 
uma nem outra pertencem nem ao mesmo mundo nem ao mesmo 
universo. 
Da mesma forma que ciÇncia e política nada têm em comum -
a não ser cometer crimes - porque não pertencem nem ao mesmo 
mundo nem ao mesmo universo, do mesmo modo a psicanálise nada 
tem a ver com a polítiça - a não ser dizer besteiras. Tal era, podemos 
nos lembrar, a posição de Freud: " agnosticismo político" , " indife­
rença" (La science et la vérité, p.858).20 Antipolítica, poder-se-ia 
dizer, paralela à antifilosofia. 
A indiferença, considerada nesse sentido, não leva necessaria­
mente a que se cale quanto aos objetos de que fala a política. Lacan 
não permaneceu sistematicamente mudo a esse respeito. Admitamos 
deixar de lado comentários bem ge�s sobre o que ocorre no mundo 
- eles permanecem esparsos em intervenções protrépticas às quais 
Lacan poucas vezes se deu o trabalho de voltar e se limitam, em sua 
maioria, a estabelecimentos maciços de relações: luminosas de inte­
ligência quanto à opinião, mas curtas quanto ao saber. Há, também, 
outx:a coisa; estamos nos referindo à teoria dos quatro discursos. Ela 
constitui uma intervenção no campo empírico dos objetos de que a 
política cuida - como prática e pensamento. Bem sucedida ou não, 
a questão não é essa. O que importa ressaltar é a natureza do que foi 
dito. É patente que ele em nada corrige a radical indiferença, única 
autorizada por Freud, já que os discursos políticos mais opostos podem 
aí aparecer como os valores diferentes de uma mesma variável. 
Há, igualmente, uma radical indiferença filosófica da psicànálise. 
Tal é, na verdade, a mola propulsora das superabundantes refe­
rências ao corpus philosophorum. É preciso ser profundamente indi­
ferente em filosofia para usar com tanta liberdade de tantos conceitos 
técnicos, de alusões explícitas ou não, ou, o que dá no mesmo, é 
preciso sustentar que a filosofia forma uma constelação de textos 
brilhantes, mas não um pensamento. Reencontramos a antifilosofia, 
sob a forma da mais ampliada cultura filosófica. 
124 A obra clara 
Da mesma forma que a indiferença política não impede que se fale 
ocasionalmente de política (a indiferença em política não é a indife­
rerwa à política), a antifilosofia não deve impedir que se fale daquilo 
de que fala a filosofia: a indiferença em filosofia não é a indiferença 
à filosofia. Para falar a verdade, é preciso ir mais longe: a psicanálise 
tem não apenas o direito, mas o dever de falar daquilo de que fala a 
filosofia, pois ela tem exatamente os mesmos objetos. Em Télévision, 
Lacan aceita responder à pergunta que lhe é feita sob o tríplice tema 
" saber, ter esperanças, fazer" ; não objeta que essa pergunta, legada 
por Kant, seja sem pertinência. Poderíamos por certo reconhecer ali 
um simples encontro de cultura. No entanto, a relação é mais intrínseca. 
O ponto de intervenção da psicanálise deixa-se, com efeito, re­
sumir dessa maneira: a passagem do instante anterior em que o ser 
falante poderia ser infinitamente outro que é - em seu corpo e pen­
samento - ao instante ulterior em que o ser falante, em razão de sua 
própria contingência, tomou-se idêntico a uma necessidade eterna. 
Pois, afinal, a psicanálise fala apenas de . uma coisa: a conversão de 
cada singularidade subjetiva em uma lei tão necessária quanto as leis 
da natureza, tão contingente quanto elas e igualmente absoluta. 
Ora, é verdade que a filosofia não parou de tratar esse instante. 
Num sentido, poderíamos sustentar que propriamente o inventou. Mas, 
para descrevê-lo, ela em geral tomou os caminhos do fora-de-universo. 
Ora, a psicanálise não é nada se não mantém, como pivô de sua 
doutrina, que não. existe fora-de-universo. Aí e somente aí reside o 
que existe de estrutural e de não cronológico em sua relação com a 
ciência moderna. 
Ao mesmo tempo, compreendemos que a filosofia e a psicanálise 
falem exatamente da mesma coisa, em termos tanto mais idênticos 
porque visam um efeito oposto. Assim, a palavra antifilosofia deixa-se 
interpretar mais completamente; ela está construída como o nome 
Anticristo - tal como antes de Nietzsche o apresentava são João. 
" Eles saíram do meio de nós, mas não eram dos nossos; pois se 
tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco" ( 1 João, 2, 1 9) . 
Assim poderiam falar dos lacanianos os filósofos; com mais pertinên­
cia, poderiam lembrar que o Anticristo, enquanto tal, deve falar exa­
tamente como o Cristo. Seu discurso requer o discurso com o qual 
não tem o que fazer, é absolutamente igual a ele, fala das mesmas 
coisas, utilizando os mesmos termos, e isso porque não tem nenhuma 
relação com ele. 
O segundo classicismo lacaniano 125 
A única diferença em relação a são João é que os modernos, não 
crendo na finitude, não crêem no Juízo Final. Se o Anticristo e o 
Cristo prosseguirem com o desaparecimento um do outro, é porque 
os tempos estão próximos: " existem agora vários anticristos: por aí 
sabemos que é a última hora" , escreve o Apóstolo ( 1 João, 2, 1 8). 
Para a antifilosofia e a filosofia, em contrapartida, os tempos estão 
abertos, infinitamente. Nesta infinidade, sua exclusão mútua conver­
te-se num envolvimento recíproco; ca.da ponto de uma terá seu correlato 
invertido na outra; cada uma será sucessivamente o deus morto e o 
sudário de púrpura. 
NOTAS 
1. Lévi-Strauss percebera essa discronia, sem entretanto situá-la exatamente. Cf. La 
pensée sauvage, Paris, Plon, 1962, cap. 9, p.324-57. Pode-se encontrar nela duas séries 
de afirmações: 1) há cortes maiores; pelo menos um, em todo caso: o corte entre 
pensamento selvagem e pensamento da ciência moderna (p.356-7); 2) esse corte não 
é de natureza histórica; a história é incapaz de apreendê-lo; ela é, de resto, primordial­
mente incapaz de apreender qualquer corte maior (p.344). Em 1965, o próprio Lacan 
observa o quanto a doutrina de Lévi-Strauss é mal compatível com Koyré; mas, apesar 
disso, não a rejeita; o que confirma que o historicismo, por ser declarado, já não é 
mais essencial, mas também que o dispositivo de conjunto não é homogêneo; cf. La 
science et la vérité, p.861 . 
2 . Entendemos que o professor verdadeiro, para sempre substituível, é o contrário do 
mestre verdadeiro, para sempre insubstituível. Que, na linguagem corrente, falemos 
com tanta freqüência dos "mestres" (conhecemos a mui h·onorável e mui honrada 
"formação dos mestres" ) para designar o que há de mais substitufvel no mundo, é 
apenas um exemplo de sentido oposto nas palavras primitivas. 
3. Os termos são: S I , S2, $, a (cf. infra, n.6); os lugares são: o agente, a verdade, o 
outro, a produção. Um exercício para o leitor: com a ajuda da teoria dos quatro discursos, 
resolver o equívoco permitido pela homonímia entre mestre político e mestre de sabe­
doria. Um indício: a questão da pedagogia está envolvida nesse equívoco. 
Observe-se a sucessão cronológica. A teoria dos quatro discursos é apresentada em 
1970 em O avesso da psicanálise (S., XVIij; ela precede de bem pouco a doutrina do 
.p�atema ( 1912) e, numa certa medida, torna-a possível. 
4. Intui-se que a doutrina do materna perpassa de maneira dramática a questão da 
posição do analista. Poderemosdizer, com efeito, que este não intervém enquanto 
sujeito? Mas se intervier enquanto sujeito, é possível negar que ele seja insubstituível? 
Mas se é insubstituível, não é estruturalmente heteromorfo ao dispositivo da ciência 
moderna? Mais precisamente ainda, não é ele homeomorfo aos Mestres de sabedoria 
(eis o que existe de profundo na imagem de um Lacan-Gurdjieff)? Mas se o analista 
é um Mestre, então não existe materna da psicanálise, a psicanálise é exterior ao 
126 A obra clara 
universo moderno e Freud não existe. Uma parte essencial do programa lacaniano 
consiste na resolução da antinomia. 
5. Em outras palavras, as operações chomskyanas de transformação concemem à letra, 
e não ao significante. De maneira recíproca, a teoria dos quatro discursos, que é literal, 
repousa, na verdade, sobre uma técnica de transformações. O que camiDha junto ao 
fato de que os termos nela sejam qualificados e não quaisquer. Que cada transformação 
literal seja registrada, numa representação histórica, como uma catástrofe (o que Lacan 
chama de mexida), isso se deve à representação histórica. 
6. O quaternário é introduzido no seminário xvn. No seminário xx, ele é reduzido a 
uma· forma mais mínima ainda, onde apenas intervêm S I e S2 ( cf. S., XX. p. I 30 e 
supra, cap. 11, n.26). Podemos considerar que esses escritos são os maternas do signi­
ficante. Para ser absolutamente exato, esses maternas são da ordem da letra; eles captam 
pois o significante em letras. A captura deixa-se precisar: o significante como tal é 
não qualificado, mas, nos niatemas do significante, S I e S2 são qualificados: S I , como 
Mestre e S2 como saber. Assim que há qualidades, estamos no registro d� Jetra, não 
do significante. Para a qualificação de S2 como saber, cf. supra, p. I I6, n.20. 
7. Cf. L' étourdit, p. l4, p.'22 e passim. Algumas explicações suplementares: a sexualidade, 
em sua essência, nada mais é do que o princípio radical de um gesto consistente, para 
o ser falante, a ser considerado nas fileiras ou fora das fileiras de um todo, sobre a 
base de uma propriedade cil qualquer; as escritas sexuais são, portanto, um exercício 
de lógica coletiva, cf. supra, cap. 11, p.69. A primeira linha, a do :rodo, confirmando-se 
pela construtibilidade do que o limita, tem por estenograma o nome Homem; o artigo 
definido, que também é em francês artigo totalizante, nele é, portanto, lícito: o Homem 
existe. A segunda linha, a do não-Todo, isto é, da não-legitimidade do TP<i.o quando 
nada nele o limita, tem por estenograma o nome Mulher; o artigo definido nele não é 
lícito: a __ Mulher não existe. Que relação há entre esses nomes e o que todos chamam 
os homens e as mulheres? 
Na fonologia estrutural, certas propriedades de pura combinatória tinham por este­
nograma o nome 'surdo' (ou 'oclusivo', ou 'nasal' etc.), e outras propriedades, elas 
também combinatórias, tinham por estenograma o nome 'não-surdo' ( 'não-oclusivo', 
'não-nasal' etc.). Esses nomes fonológicos são homônimos de nomes fonéticos, que 
descrexem propriedades fônicas substanciais, que os foneticistas experimentais obser­
vam. Os fonólogos, ao utilizarem esses nomes homônimos, afirmavam três coisas: I ) 
que a fonologia não é a fonética; que o nome 'surdo' em fonologia resume propriedades 
estruturais e não diz nada em si mesmo das propriedades fônicas; que o ser fonológico 
chamado 'surdo' não é, portanto, necessariamente surdo do ponto de vista de sua 
substância fonética; · 2) que acontece de coincidirem o nome fonológico 'surdo' e o 
nome fonético 'surdo' ; 3) que isso acontece com mais freqüência do que o contrário. 
Da mesma forma, a posição dita Homem (ou Mulher) é estrutural e nada fala das 
características somáticas masculinas (ou femininas) do sujeito que a ocupa. Mas acontece 
de coincidirem as propriedades da posição dita Homem (ou Mulher) e as propriedades 
somáticas masculinas (ou femininas) do sujeito. A hipótese (refutável) é que isso 
acontece com mais freqüência do que o contrário. 
8. Assim as escritas sexuais predizem e explicam que, no povo, a mulher seja chamada 
burguesa (L'étourdit, p.25). É possível e legítimo prosseguir com exercícios desse 
estilo: observar, por exemplo, que o inglês queen (nome indo-europeu da mulher, 
análogo ao grego gyne) designa ao mesmo tempo a rainha e a prostituta (hoje mais 
especialmente o prostituto macho efeminado), que Jean Genet dá o nome de Divine a 
O segundo classicismo lacaniano 127 
uma bicha, que Divine diga de si própria "Eu sou a Toda Toda" , que a guilhotina se 
chame a Viúva, e a masturbação a Viúva Punheta, tudo isso, que por ser considerado 
não deixa de ser menos empírico, é calculável pelo materna. Para os quatro discursos, 
procedimentos comparáveis são utilizados; ver o seminário xvn Esse caráter matricial 
está na linha direta de Freud ("Eu, um homem, amo um homem" , "bate-se numa 
ctjança" etc.). Mas Freud apenas dispõe, a titulo de cálculo, da gramática; no que diz 
respeito ao materna, esta é apenas alusão a seu princípio verdadeiro: o cálculo literal. 
Matematizar mais abertamente do que Freud jamais o fizera corresponde, portanto, a 
retornar a Freud de forma ainda mais decidida do que nos tempos do primeiro classicismo. 
9. Sua própria doutrina da intuição é aparentemente antinômica da de Brouwer. Na 
medida em que se pode compreender esta última, ela é uma doutrina da plenitude do 
sujeito que intui (o que autoriza no final todas as derivações, inclusive para Guénon 
ou Evola; o próprio Brouwer parece ter-se deixado levar a cometer as piores); segundo 
Lacan, o instante da intuição é um instante de esvaziamento do sujeito - o que pode 
ser considerado pelo próprio nome de evidência. 
10. Cf. o conjunto dos trabalhos de Alain Badiou, e mais especialmente L'être et 
l 'événement, p.275-9. Pode-se notar a diferença radical entre Lacan e Badiou; o segundo 
se refere a uma matemática provida de procedimentos de dedução e capaz de raciocínio 
apagógico. Em seus trabalhos mais recentes, Badiou tende a acentuar a diferença e não 
a reduzi-la. 
1 1 . "O homem fala portanto, mas é porque o símbolo o fez homem" (É., p.276). 
Poderíamos sustentar que o conceito de símbolo consiste precisamente numa indistinção 
eJitre letra e significante. Este é, com muita exatidão, seu status em Saussure (fragmento 
aparentemente anterior aos cursos de lingüística geral, citado por Starobinski, Les mots 
sous les mots, p. l 5-6): à runa, entidade literal, são conferidas propriedades de signifi­
cante. Nessa indistinção consiste o impasse dos anagramas. 
12. Para um exposto clássico da lógica matemática como cálculo de letras, cf. P. 
Rosenbloom, The elements of mathematical logic, Nova York. Dover, 1 950, p.u-m e 
p. l 52-80. 
1 3. De maneira recíproca, se a matematicidade da matemática não é definida pela letra, 
então, por uma cascata de conseqüências, o corte galileano é apagado. Um exemplo 
ilustra entre todos, e infinitamente admirável: A. Lautman. Segundo Lautman, a ma­
tematicidade reside na contemplação de seres matemáticos objetivos (independentes 
das letras que porventura os designam); por conseguinte, a possibilidade da física 
matemática requer que se reescreva o Timeu. ·A ciência moderna pode e deve ser 
regulada pela episteme platônica. Cf., em virtude de sua clareza, o debate entre Cavailles 
e Lautman, reproduzido em Cavailles, (Euvres completes de philosophie des sciences, 
Paris, Hermann, p.593-630, e principalmente p.605-9. 
Conseqüência comparável, se a logicidade da lógica não for definida pela letra, cf. 
supra, cap. 11, n.l7. 
14. Ver a segunda lição intitulada " A Jak.obson" , na qual se faz, de maneira explícita, 
referência a L'étourdit. Seu tema central é a " mudança de discurso" . Ver igualmente, 
em estilo protréptico, a sessão de 19 de abril de 1977, intitulada " Rumo a um significante 
novo" , Ornicar?, 17/18, primavera de 1 979, p. l6. 
15. Lema 1 : a expressão " sujeito do inconsciente" é imprópria; ela apenas é legitimada 
por sua comodidade: ela estenografaa coincidência real entre sujeito e indivíduo. Deixo 
aos doutos o cuidado de estabelecer se cabe evocar a doutrina cartesiana da união da 
alma e do corpo. Lema 2: já que o indivíduo em questão é indivíduo biológico (cf. É., 
128 A obra clara 
p.875), o inconsciente de que é dotado é, ele também, biológico. A hipótese de Lacan 
pode também ser enunciada da seguinte maneira: o inconsciente como entidade biológica 
coincide, articulação por articulação, com as cadeias significantes. 
16. Permito-me remeter a meus próprios Noms indistincts, Paris, Seuil, 1 983. Pode-se 
notar que a teoria do nó trilítero não é uma teoria do qualquer. Ela é mesmo todo o 
seu contrário. Não basta, com efeito, para sua fecundidade que seja isolada a propriedade 
borromeana, embora esta seja necessária a sua definição; é preciso, além disso, que 
cada rodela esteja qualificada; as letras, R, S, ou I, estenografam essas qualidades. S,e 
as rodelas estão qualificadas, elas não são quaisquer. O nó trilítero se desenvolve nos 
antípodas da estrutura qualquer, que nada qualifica. Por essa mesma razão, ele pode 
fundá-la e legitimá-la, como teoria regional. 
17. Les noms indistincts atêm-se a essa posição. 
18 . Este é o núcleo de sentido do artigo " A psiquiatria inglesa e a guerra" (L'évolution 
psychiatrique, 1947, p.293-3 12); nele se poderia ler, através dos elogios dirigidos à 
Inglaterra, o descritivo de um adversário futuro: o mundo w ASP, que submete a Inglaterra 
aos Estados Unidos e reune em cada um dos dois países, em nome da ciência ideal, o 
que existe de mais hostil ao pensamento livre. Uma versão desse mundo: a IPA. Em 
1960, Lacan concluíra: "desvios notórios na Inglaterra e na América" (Subversion du 
sujet, É., p.794); a menção à Inglaterra proíbe reconhecer aqui uma variante da denúncia 
do american way of life. 
19. Este texto, lido no seminário de 15 de março de 1980, é uma resposta a Althusser, 
designado sob o nome " Monsieur A., filósofo" . Por contraste, Lacan assinala o título 
de uma obra de Tristan Tzara: Monsieur Aa, l'antiphilosophe. Pode-se observar a 
proposição "a filosofia é uma coisa finita" ; não é ilegítimo interpretá-la: " a filosofia 
não cabe no universo infinito" . Agradeço a F. Regnault por ter chamado minha atenção 
para essa referência. 
20. Lacan aqui remete ao Essa i sur l 'indifférence de Lamennais. A referência se encontra 
nos S., XI, p.238. Pode-se observar que a indiferença freudiana em política tem limites 
que não somos forçados a aprovar; ela não proíbe que se fique ostensivamente a favor 
do sistema político inglês. Por ser quase de regra entre os letrados europeus desde o 
século XVIII, esse preconceito não ocorre sem tolice e contém em germe alguns desen­
volvimentos ulteriores. Cf. supra, n. l 8. 
CAPÍTULO V 
A desconstrução 
O materna conhecerá, no entanto, sua própria consumação. A marcha 
dos acontecimentos comprova o episódio. A doutrina do materna estava 
ligada a um correlato institucional: a Escola Freudiana; esta escola 
era chamada escola e freudiana, porque estava baseada . na tríplice 
hipótese de que algo se transmite integralmente a partir de Freud, de 
que o lugar de uma transmissão integral é uma escola e de que o meio 
de uma transmissão integral é o materna num tal lugar; ela agia para 
o exterior através de uma revista intitulada Scilicet ("podes saber o 
que disso pensa a Escola Freudiana" , esta era sua epígrafe; para com­
pletar, dissemos: " graças ao materna" ) ; essa revista era modelada em 
cima de Bourbaki, porque a matemática é o modelo da transmissão 
literal e porque Bourbaki é o modelo da matemática literal. Ora, a 
escola foi dissolvida, em um instante. Apesar de uma escola ter res­
surgido no instante imediatamente ulterior, não podemos fazer como 
se o instante de dissolução não tivesse ocorrido. A revista Scilicet 
desapareceu. Por seu nome e forma (artigos assinados), as revistas 
que a sucederam comprovam que elas se ordenam por outras regras, 
mais clássicas. Paralelamente, o bourbakismo é doravante em mate­
mática uma figura fechada e isso a, um ponto que Lacan não podia 
ignorar. 
É impensável que os acidentes históricos bastem para explicar a 
correlação de tantas descontinuidades. Ainda mais que o querer ins­
titucional em Lacan é sempre o sintoma de um acontecimento doutrinai. 
Bem afastado de uma certa herança francesa, que leva os pensadores 
a se satisfazerem, na medida do possível, com o que existe, muito 
mais do que transformar qualquer dispositivo que seja, ele estava 
nesse ponto próximo de Mallarmé. Este último acreditava que é per­
mitido a um sujeito criar instituições; ele acreditou nisso durante todo 
129 
130 A obra clara 
o tempo em que acreditou no Livro. É verdade que ele não teve 
nenhuma posteridade. Sabe-se muito bem que o Livro não se inscreveu 
na Sociedade; o próprio Mallarmé acabou talvez por duvidar; Valéry, 
em todo caso, o mais afetuoso dos discípulos, apressou-se em professar 
que em matéria de instituições não existe, para os poetas, alternativa 
ao conformismo. 
O Seminário, por sua vez, não era conforme. Era uma criação 
institucional, não menos robusta que a Escola Freudiana, mais auda­
ciosa talvez. Aqui encontramos de novo Mallarmé a cada passo (sabe-se 
que os cartéis da Escola deviam algo às aritméticas do Livro). Cito 
Mallarmé, mas evidentemente é preciso citar também Freud: que um 
homem que invocava o ideal da ciência ten�a achado possível criar 
fora das academias, fora dos poderes públicos, fora das Igrejas, fora 
das uniões profissionais, algo como uma' profissão nova e algo como 
a Internacional de psicanálise, é, quando nisso pensamos, propriamente 
exorbitante; a primeira coisa que aprende um sábio moderno é que a 
criação é difícil e raramente bem sucedida no que diz respeito a ofícios 
e instituições cien_tíficas. Ela raramente resiste à morte biológica ou 
legal de seus fundadores. 
A vontade institucional de Lacan, como a de Mallarmé e de 
Freud, é uma exceção. No entanto, ela só se legitima, a seus próprios 
olhos, ligada a uma segurança doutrinai. É por certo permitido a um 
sujeito criar instituições na ordem do saber - com uma única condição, 
entretanto: que esse próprio sujeito possa, sem escândalo e sem der­
rísão, ser suposto a algum saber. Convém, portanto, dar a maior im­
portância às turbulências institucionais. Elas não derivam da crônica 
da corte, mas do próprio saber lacaniano. 
A Escola Freudiana encontrava seu suporte doutrinai na doutrina 
do materna - a qual explicava em que sentido era permitido saber e 
em que sentido, portanto, uma escola era suficiente (ou necessária) 
como meio de exercício dessa permissão. Que a escola tenha sido 
dissolvida num instante, isso significa, portanto, uma única coisa: o 
materna, também, foi dissolvido. E da mesma forma que a escola 
recomposta após dissolução não é a mesma que a anterior, do mesmo 
modo o materna reafirmado não é o mesmo. 
Os textos não desmentem a conclusão a que leva a seqüência dos 
acontecimentos. É claro que o uso da matemática muda com o semi­
nário XX. Em poucas palavras, a referência matemática encontra�se 
doravante absorvida pela teoria do nó borromeano. Não sem razão. 
A desconstrução 131 
O nó aponta com precisão o que ocorre com a letra e singularmente, 
' cQ_m a letra matemática. Esclarecer as leis do borromeanismo corres­
ponde, portanto, a esclarecer os fundamentos do materna enquanto 
tal; corresponde a evidenciar o princípio de sua eficácia. É justo que 
todo o esforço leve ao ponto reputado determinante; se falar apenas 
do nó é falar do único necessário, então é preciso ater-se a isso. 
No entanto, desde o início, uma coisa· devia impressionar: embora 
exista uma abordagem matematizante dos nós, não é isso que Lacan 
dela retém. Mais precisamente ainda, tudo se passa como se Lacan 
se interessasse pelo nó apenas pelo que ele tem de refratário a uma 
matematização integral: " não existe nenhuma teoria dos nós. Aos nós 
não se aplica até hoje nenhuma formalizaçãomatemática . . . " (S., XX, 
p. l l6) . 
O nó revela-se, portanto, algo completamente diferente dos di­
versos objetos topológicos - banda de Mcebius, cross-cap - utili­
zados anteriormente. A teoria matemática é feita destes últimos; mesmo 
que ela não seja diretamente retomada por Lacan, sua possibilidade 
geral permite que não se deixe o horizonte da matemática como teoria 
geral de todo materna possível (" [meu exposto topológico] era factível 
por uma pura álgebra literal. . ." , L'étourdit, p.28). Para o nó, as tranças 
etc., a questão era bem outra. Eles provêm, sem dúvida, da matemática, 
porém mais a título de curiosidades; o nó esgota-se em sua 'monstração' 
incansavelmente variado ("pequenas fabricações" , S., XX, p. l 16) e 
não requer, para legitimar sua eficácia, ser integralmente escrito. Isso 
por certo não proíbe que ·os matemáticos se apliquem em matematizar 
o nó. Alguns o tentaram com brilho, sob o olhar atento de Lacan. 
Talvez, no momento em que escrevo, esteja demonstrado que eles ou 
outros foram inteiramente bem sucedidos. Resta que o nó não tinha 
esperado o esforço deles para funcionar no discurso. 
É claro que existem precedentes. Lembremos do paradoxo que 
o doutrinai de ciência institui ; foi preciso, após Galileu e Descartes, 
admitir ao mesmo tempo três coisas: que o universo é integralmente 
passível de uma ciência matematizada, que ele é infinito e que o 
infinito não é, ao menos quando a ciência galileana se constrói, um 
objeto matematicamente claro. 1 Nem por isso é menos verdade que 
bem rápido o infinito deu lugar a um cálculo e a escritas matemáticas, 
por mais opaca que fosse sua significação, até Bolzano pelo menos. 
De modo que poderíamos reconhecer em sua emergência a vitória do 
literal como tal, muito mais que sua derrota. 
132 A obra clara 
O nó é outra coisa; ele é antinômico à, letra e, por essa razão, 
antinômico ao matema.2 Pois uma falha maior abriu-se: o nó pode 
suportar letras (por exemplo, R, S, 1), seu borromeanismo mostra o 
que é o literal, mas ele próprio não está integralmente literalizado: 
" aos nós não sé aplica até hoje nenhuma formalização matemática" . 
Em conseqüência, é a um objeto não literal que cabe a tarefa de 
mostrar como fica o literal em sua essência. A letra não encontra em 
si mesma de que se literalizar suficientemente. 
Pensamos, por certo, nos diversos temas da incompletude radical, 
recorrentes em Lacan; sem terem sido abandonados, eles aparentemente 
tinham perdido sua intensidade dramática, ao menos enquanto nos 
atínhamos a uma matematização conforme aos desígnios lacanianos: 
dispersa, não dedutiva, local. Ora, o nó assinala o retomo dos dramas; 
poderíamos encontrar, mal os modificando, alguns logia antigos; não 
havia Outro do Outro, nem metalinguagem; não há materna do materna, 
nem letra da letra; há apenas o nó, que permanece rebelde a uma 
literalização integral, por mais longe que levemos a literalização. 
Não que no tempo de Mais, ainda essa rebelião fosse suposta 
para sempre irredutível; nada proíbe pensar que a matemática um dia 
integrará a propriedade borromeana. Mas, à medida que o trabalho 
matemático avança, ao longo dos seminários ulteriores, discemimos 
não apenas que Q ê2tito se_ ��(nüva, mas que no instante em que to­
cássemos em sua propriedade, esta teria perdido o que lhe dava valor. 
Não só o nó não é matematizado, mas ele só funciona não o sendo. 
Se, em todo caso, a matemática como tal tivesse permanecido o que 
parecia ser. Mas isso tampouco é verdade. Em Bourbaki, reinterpretado 
de maneira apropriada, a doutrina da letra, enquanto distinta da dol,ltrina 
do �ignificante, achava seus fundamentos. Ora, o rumor já se fazia 
insistente; ele tomar-se-á bem rápido suficientemente poderoso para 
não ser negligenciado: e se Bourbaki tivesse morrido?3 
Isso quereria dizer que a matemática tem um futuro em que 
talvez a literalidade se tomará subalterna. Através de Bourbaki, o 
hiperbourbakismo também seria atingido. Talvez Lacan tenha suspei­
tado disso logo após o seminário xx. Suponhamos que assim tenha 
sido; o nó, enquanto suporte da letra matemática, não suportaria mais 
nada de essencial, já que, por hipótese, a letra não é mais essencial 
à matemática. Ele se acharia reduzido a sua própria ausência de lite­
ralidade. Não seria mais nada no campo da letra, a não ser uma figura 
de luto : o luto da letra matemática e de seu poder. Não que o nó nada 
A áesconstrução 133 
diga da letra, não que não haja letra, não que não haja matemática, 
mas o nó apenas diz algo da letra porque dela se excetua; a letra nele 
se encontra na dimensão de sua própria, ausência; a matemática, se 
mantém alguma força, não é literal. Ao termos os seminários poste­
riores a Mais, ainda, não podemos deixar de estar convictos de que 
tudo se desenvolve justamente dessa maneira. 
Como o bastão nodoso se transforma em serpente sob os olhos do 
Faraó, o nó, de sustentáculo para a imaginação, toma-se, então, animal 
destruidor. Destruidor da letra. Não que Lacan a esta renuncie, mas 
se letra deve haver, ele deve doravante procurá-la em outra parte. À 
matemática, às curiosidades que ela oferece, sucedem lugares novos; 
o caminho conduz a Joyce, ao poema, às Letras em suma. Esse mo­
vimento sem dúvida se inicia a partir de Mais, ainda. Mas nesse texto 
jubilatório, o materna está em seu clímax e o poema aparece apenas 
para confirmá-lo. Saussure e Jakobson, desprezados enquanto garantes 
do primeiro classicismo, voltam numa posição nova, a de sujeitos 
lingüistas (tal é, nos lembramos, o alcance da lingüisteria), capazes, 
enquanto sujeitos, e enquanto lingüistas, de assegurar uma transitivi­
dade entre letras matemáticas e poemáticas. Assim podemos ler em 
Mais, ainda, a respeito de Parmênides, uma equivalência, no registro 
da letra, entre os dois dispositivos do materna e do poema: " Ainda 
bem que Parmênides escreveu, na realidade, poemas. Ele não utiliza 
- o testemunho do lingüista aqui está em primeiro lugar - aparelhos 
de linguagem que muito se parecem com a articulação matemática, 
alternância após sucessão, enquadramento após alternância" (S., XX, 
p.25). Note-se o advérbio: uma felicidade boa faz com que a letra 
advinda das Letras e a letra advinda dos Números se correspondam 
harmoniosamente. Soberano das simetrias, vindo em pessoa falar no 
Seminário, Jakobson testemunha uma vez mais. Como havia testemu­
nhado outrora, mas por razões novas: " mudamos de discurso" , repete 
Lacan em sua presença, " um novo amor" , acrescenta, citando Rimbaud 
(ibid., p.20). 
Depois de Mais, ainda, entretanto, a simetria se rompe. O poema 
por certo consola; não poderia ele, um dia talvez, supondo-se que o 
nó se esquive, propor um suporte mais robusto à literalidade? Mas o 
poema também inquieta; pois prolifera. Se ele é o que dele diz o 
lingüista (" alternância após sucessão, enquadramento após alternân­
cia" ), ele surge a cada cintilar que provocaria, sobre o cristal da 
língua, o jogo - aleatório ou não - de alguma faceta acasalada a 
134 A obra clara 
alguma outra. Os trocadilhos homonímicos de que é tecida a conversa 
a partir dos anos 70 não são chistes; são disjuntos de todo Witz; 
constituem, um por um, foracluída de todo sujeito, uma célula literal, 
um átomo de cálculo poemático.4 Pensáveis no início como integral­
mente homeomorfos à letra matemática (eis como, em L 'étourdit, nc;> 
instante em que o materna é introduzido, o jogo de homofonia já se 
encontra presente, desde o título), eles são como maternas dados pela 
própria alíngua, respondendo aos maternas construídos por um dis­
curso. Estritos análogos da Ursa Maior, que inscrevem no céu estrelado, 
por um lance de acaso, o Sete, o mesmo número exatamente cujo 
cálculo podemos fazer, eles brilham, na galáxia de alíngua, como 
constelações - a um só tempo contingentes · e arquitetônicas. 
Mas ocorre de a matemática não mais ser indubitavelmente literal. 
A analogia se corrompe. Então, os homofônicos tornam-se a única 
marca quepermanece da literalidade, não mais simétricos, mas luga­
res-tenentes de um materna extenuado. Sua multiplicação contraba­
lança a monstração silenciosa dos nós. Mas, em contrapartida, ela a 
confirma e a repete. 
Pois cada um desses jogos devora o outro. Ao ponto de cada um 
devorar-se a si mesmo. O poema, polimerizado ao infinito ilimitado 
de alíngua, explode fixamente sobre o abismo. De um lado os nós 
taciturnos, do outro, a um só tempo disjunto de si mesmo e onipresente, 
o poema, atestado e abolido por sua própria proliferação. Cada um 
dentre os jogos de homofonia, nos títulos de seminários, nos desen­
volvimentos escritos, no retorno incessante a Joyce, é como uma cáp­
sula fechando a possibilidade de uma letra advinda meramente da 
língua, bem diferente do que a matemática, doravante enfraquecida, 
propunha, e no entanto carregada de funções exatamente- idênticas. 
Exceto que a opacidade arrisca incessantemente prevalecer. O esque­
cimento, sempre, pode transir as constelações. 
Simultaneamente, a mão se fecha, falange após falange, sobre a 
materialidade dos fios de barbante. Como antigamente, certa mão, 
sobre as verdades. 
Até que o último ato de um ensino incansavelmente perseguido 
durante tantos anos, a última palavra de tantos conceitos arrebatadores, 
de análises fulgurantes, de escritas audaciosas, de invenções perpétuas, 
se torne um manejo mudo, indistinguível aos olhos vulgares, da mania 
solitária. 
Ele dela se distinguiria, por certo, se, através dele, pudesse ser 
assegurada a transmissão integral do que é o literal. Mas, então, a 
A desconstrução 135 
ratoeira se fecharia. Se tivesse êxito, o nó provaria, através de seu 
real, que é, pelo menos, üm caso onde uma transmissão integral não 
passa pelo materna - já que o nó, não sendo uma letra, não é um 
materna. Se fracassasse, em compensação, nada se transmitiria daquilo 
que faz com que a letra transmita. Restaria, somente, o cristal da 
língua, materializado no poema Proteu, indefinidamente multiplicado 
em trocadilhos, mas a transmissão será, então, integral? Terá ela mesmo 
jamais começado? 
Ao fim do percurso, o nó tornou-se desvio da letra, mesmo com 
o risco de que, através desse desvio, a letra chegue a seu endereço. 
Ele se tornou, propriamente, uma antimatemática. Após a antilingüís­
tica contida na doutrina do significante e exibida pela doutrina da 
homofonia, após a anti política induzida pela teoria dos discursos, após 
a antifilosofia contida no primeiro classicismo e exibida pelo segundo. 
Em suma, a anacorese discursiva está consumada . 
. O nó era, portanto, mortal. 
O seminário XX, que o introduz, ocupa um lugar de exceção na 
obra de Lacan. Por seu alcance doutrinai: o segundo classicismo la­
caniano nele se cumpre, ao mesmo tempo no que ele tem de distinto 
do primeiro e no que ainda o vincula a este (tal é o título do seminário: 
Mais, ainda). Por sua forma: a disjunção do esotérico e do exotérico 
nele se revela provisória; a forma de obra nele se junta à eficácia 
protréptica. Por sua inversão enfim, digna das tragédias: em sua per­
feição mesma, ele contém em germe o fator letal pelo qual O Seminário 
como tal será desfeito, desde o primeiro livro até o último. 
A conclusão é forte, deveras. Não poderíamos propô-la sem prudência. 
As testemunhas dos últimos seminários deveriam, no entanto, ser as 
menos afastadas para assumi-la. Pensar no Lacan daquele tempo é 
invencivelmente pensar no Wittgenstein do final do Tractatus: é preciso 
calar-se sobre o que não se deixa dizer; é preciso mostrar aquilo sobre 
o que apenas podemos nos calar. Ora, Lacan se cala e Lacan mostra.5 
O que é mostrado em silêncio é aquilo sem o que a transmissão 
da psicanálise não poderia se cumprir integralmente. Como escapar 
ao raciocínio indutivo? Se o materna estiver abolido, então não po­
demos mais dizer, não podemos mais senão mostrar; ora, após o se­
minário XX, Lacan, progressivamente, acaba por não fazer mais senão 
mostrar, o que implica que o materna havia sido abolido. Ao mesmo 
tempo, foi abolido o galileísmo em psicanálise: " o truque analítico 
136 A obra clara 
ni'io será matemático. É realmente por isso que o discurso da análise 
se distingue do discurso científico" (S., XX, p . 1 05). 
Não é por acaso que Lacan reencontrará formulações antigali­
leanas do tipo " a Natureza tem horror do nó" (Seminário R, S , I, 
Ornicar?, 3, maio de 1 975, p. l O I ). Além de sua forma, verdadeiro 
brasão daquilo que a história elementar das ciências empresta aos 
adversários aristotélicos de Galileu, tal logion tem uma conseqüência 
radical: se a Natureza tem horror do nó e se o nó fosse uma letra 
matemática, então a Natureza e alguma letra matemática poderiam 
ser incompatíveis, o que se opõe diretamente ao axioma fundador da 
ciência moderna. De duas uma: ou a ciência matematizada é consi­
derada abolida, e então o conjunto do doutrinai de ciência cai, arras­
tando consigo o segundo classicismo lacaniano no que ele tem de 
comum com o primeiro; ou o nó não é uma letra; não é portanto um 
materna, e então, o segundo classicismo está abolido, no que ele tem 
de distinto do primeiro. Como no ou alienante, perde-se sempre. 
Assim passou o segundo classicismo, no instante em que parecia se 
cumprir. O próprio Lacan nele pôs um termo. O seminário XX, que 
constitui o auge (do segundo classicismo), desencadeia também o 
mecanismo de sua desconstrução. Tudo já está em pedaço�. qua.JldO 
Lac_ap perto de 1 980 decidiu se calar. O nó de um lado, o poema do 
outro; o fio de barbante e a letra; o silêncio e o trocadilho. Estamos 
pensando na Etiópia. 
O que não é tão afastado de Wittgenstein. Não cabe aqui iniciar 
uma vinculação sistemática. Que Lacan tenha lido Wittgenstein, isso 
não está em dúvida; que tenha dele tirado poucas conclusões explícitas, 
isso tampouco está em dúvida. Podemos, de resto, prever que alguns 
se apressem em ler um pelo outro; a conjuntura a isso se presta: 
algumas novas alas serão assim acrescentadas ao Castelo das brumas. 
Irei ater-me aqui ao mais elementar. Vejamos o que chamaremos 
de o problema de Wittgenstein. Suponhamos, como parece tê-lo pro­
posto este último, que haja antinomia entre dizer e mostrar. Há o que 
se diz e há o que não se diz; entre os dois, a fronteira é real e 
intransponível. O que não se diz se mostra e é preciso calar-se; o que 
se mostra se mostra por quadros. Ao nível do que não se diz, e por 
conseguinte se mostra por quadros, existe a verdade do que se diz. 
É claro que Lacan, em sua obra escrita quase inteira, sustentou 
que o problema de Wittgenstein era ao mesmo tempo real e tratável. 
A desconstrução 137 
Que ele não conduzia ao dever de silêncio. De fato, Lacan bem cedo 
encontrou o silêncio, em sua relação com a verdade - e dele se 
afastou. Já lembramos (cap. I, p. l7) a declaração de 1946; nunca será 
excessivo ressaltá-la: " Entreguei-me, após Fontenelle, a essa fantasia 
de ter a mão cheia de verdades para melhor fechá-la sobre elas." 
Como ser mais explícito? Fechar a mão sobre as verdades é uma 
fantasia; prestar-se a isso é um abandono; e Lacan prossegue: " Con­
fesso disso o ridículo, porque ele marca os limites de um ser no 
momento em que vai dar testemunho" .6 É preciso, portantó, abrir a 
mão, isto é, desvelar, isto é, falar e dizer a verdade. 
Ainda mais que o silêncio é, no registro do real, impossível. 
Assim é preciso entender a prosopopéia: " Eu a verdade falo" (La 
chose freudienne, É. , p.409; texto de 1 955). Com isso, Fontenelle 
parece para sempre refutado: de que adianta fechar a mão sobre a 
verdade, se esta fala. Estamos pensando em A jóia indiscreta. A in­
discrição da verdade é proclamada - será um acaso? - em Viena, 
cidade de Freud e de Wittgenstein. Em outras palavras, Wittgenstein 
teria razão, se somente aquilo de que não podemos falar consentisse 
em se calar. O ponto é que ele nisso não consente. O inconsciente é 
justamente isso. Ora, do que não se cala, como consentir em não falar, 
por mais impossívelque seja a tentativa? E trata-se de consentir, 
quando o silêncio é impossível ao sujeito? 
Impossível falar, impossível não falar. Daí as estratégias do en­
tre-dois, de semidizer, do não-todo. O aforismo: " a verdade não se 
diz toda" não significa que a verdade não se diga - ela se diz, mas 
não toda. E sendo dita, mesmo que não toda, não deve ser mostrada. 
Não existem quadros de verdade. A dicotomia de Wittgenstein é bar­
rada pela lógica do parcial, do incompleto, do entre-dois, do heterQs: 
dizer é juntar o que é radicalmente estranho a si mesmo. 
Já no programa do primeiro classicismo, o significante emergia 
no entrechoque do velar e do desvelar. Dentre os repetidos comentários 
que Lacan propôs do fragmento 1 8 de Heráclito: " oute legei oute 
kruptei, alia semainei" , consideraremos este: " o deus de Delfos fabrica 
significante" . Como se o significante, e só ele, permitisse ultrapassar 
as Colunas de Hércules, entre dizer e não dizer. Durante o segundo 
classicismo, a ética do bem-dizer se apresenta como simétrica inversa 
da última tese do Tractatus: " Wovon man nicht sprechen kann, darüber 
muss man schweigen" , 'Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se 
guardar silêncio' (trad. Granger). Que existam x tais de que não se 
possa (konnen) falar, que seja preciso (müssen) calar, seja; entretanto, 
138 A obra clara 
suponhamos que cheguemos ao dever (sollen), então o dever é de 
bem-dizer.7 Ora, bem-dizer corresponde a conjugar o que não pode 
ser conjugado. 
Essa heterologia percorre a obra. Em sua primeira forma, a dou­
trina do nó não passa de uma versão entre outras. Encontramos, a 
respeito do materna, a referência à orthe doxa platônica, ao cross-cap, 
às escritas russellianas e anti-russellianas. Trata-se aí de dispositivos 
radicalmente antiwittgensteinianos. Em sentido estrito, eles se situam 
de um :l�do e de outro de uma fronteira, tida por real e intransponível ; 
é o que Wittgenstein sempre deixou de lado: " para traçar uma fronteira 
ao ato de pensar, deveríamos poder pensar os dois lados dessa fronteira 
(deveríamos, portanto, poder pensar o que não se deixa pensar)" (Trac­
tatus, Introdução). Mas, afinal, o que é o inconsciente, a não ser 
precisamente uma fronteira ao ato de pensar, da qual a psicanálise, a 
partir de Freud, se propõe pensar a um só tempo os dois lados? No 
mais íntimo do objeto freudiano, reside esse batimento real do qual 
o semidizer lacaniano é o mais fiel correspondente. A Spaltung que 
fende novamente o sujeito como pensante e se denomina inconsciente, 
a heterologia que cinde e recostura os ditos, é preciso reputá-las so­
lidárias, se a psicanálise for verdadeira. Renunciar a uma é renunciar 
à outra. Monstração por monstração, o nó entravou o semidizer en­
quanto meio do bem-dizer, mas os entraves do semidizer e a inaces­
sibilidade do bem-dizer são uma abolição do inconsciente. Se não 
apenas o silêncio é requerido, mas também possível ( 'deves te calar, 
logo o podes ') , é que a verdade não fala e que o inconsciente não 
existe. Não há coisa freudiana. Se Wittgenstein prevalecer, se o nó 
prevalecer sobre o escrito, Lacan não é o único destruído. 
Poderíamos acreditar que, em suma, a dupla renúncia, a abolição 
e o silêncio estabeleceram seu império. O Wittgenstein do Tractatus 
seria, portanto, o Mestre absoluto? Os quadros que mostra fariam dele 
o Signorelli do pensamento? Ou, para além dele, Górgias, contra Só­
crates, teria triunfado ("nada é; aliás, se for, é incognoscível; aliás, 
se for e se for cognoscível não é mostrável aos outros" )? Ou o Wit­
tgenstein de Kripke, que talvez invalide o Cogito e que talvez seja 
uma lenda? Ou o ceticismo antigo, que talvez também seja uma?8 
Entretanto, não concluirei isso. Concluirei somente que há um pere­
cimento do segundo classicismo. Como o primeiro, ele também, havia 
perecido. Para esse acontecimento, há uma causa de doutrina: a emer­
gência do nó. Por um efeito quase maquinal, essa emergência desamarra 
A desconstrução 139 
a instância da letra; esta, flutuando como um barco embriagado, pro­
lifera indefinidamente - sob a égide de Joyce. O programa, então, 
está claro; após o fim do segundo classicismo, um único problema 
permanece: que relações mantêm (incompatibilidade ou não, equiva­
lência ou não) o " está mostrado" e o " está escrito" ? 
A solução não foi desenvolvida; ainda que aflore em alguns 
Scfipta (Lituraterre, por exemplo), o próprio problema está aqui ar­
ticulado apenas por um leitor, um entre outros. Ao abandono do se­
gundo classicismo, não foi portanto dado fim. O ponteiro parou entre 
duas posições. Isso significa apenas que a obra de Lacan está inacabada. 
Comparável, eu disse, às grandes obras materialistas. O De natura 
rerum se encerra com a peste de Atenas; ninguém sabe como Lucrécio 
tê-lo-ia continuado; ninguém sabe se perdemos o que ele escreveu, 
ou se decidiu se calar, ou se a morte a isso o forçou, ou a loucura. 
Pode-se por isso dizer que a verdade de Vênus seja a morte de todos 
e a purulência de cada uni? 
Do que poderia acarretar o segundo classicismo, ninguém pode 
estar seguro. Mas podemos assegurar que o segundo classicismo estava 
consumado e que não era a última palavra. 
NOTAS 
l . Naturalmente, os problemas históricos são, sob outra forma, mais complicados. 
Lembremos, particularmente, que a Descartes repugnava usar o conceito de infinito 
para o Universo. 
2. Observemos que a emergência do termo paterna, no seminário R, S, I, dois anos 
após Mais, ainda e L'étourdit (cf. em Ornicar?, 5, inverno 75176, p. 17-28, a transcrição 
da sessao de 1 1 de março de 1975, sob o título "O paterna do falo"). Não é necessário 
ser um grande advogado para entender aí o foraclufdo não afetando o materna, como 
ele afeta o operador do todo na doutrina da sexuação (sem prejuízo de outras conexões: 
com o pathein, por exemplo). 
3. A palavra de ordem tinha aparecido em 68. Segundo um dos autores (comunicação 
pessoal), ela era naquela data prematura, mas também premonitória. Cinco anos depois, 
tinha se tornado verdadeira. 
4. Muito reveladores, os desenvolvimentos da sessão de 1 9 de abril de 1977, intitulada 
"Vers un signifiant nouveau", Ornicar?, 17/18, primavera 1979, p.l5-6; baseando-se 
nos trabalhos de F. Cheng tocantes à poesia chinesa escrita e renovando sua homenagem 
a Jakobson, Lacan dirige-se aos psicanalistas: "Ser eventualmente inspirado por algo 
da ordem da poesia para intervir como psicanalista? É, de fato, aquilo para o que vocês 
devem se voltar [ . . . ]. Não é para o lado da lógica articulada - embora eventualmente 
140 A obra clara 
eu a ela recorra - que se deve sentir o alcance de nosso dizer ... " Difícil não ler, 
naquilo que é dito da lógica, um repúdio do materna. 
5. Sobre a relação de Lacan com Wittgenstein, cf. E. Roudinesco, Histoire de la 
psyclumalyse en France, 2, Paris, Seuil, 1986, p.563-5; Jacques Lacan, Paris, Fayard, 
1993, p.469-470. 
6. Vale a pena citar a palavra de Fontenelle por inteiro: "Eu teria a mão tão cheia de 
verdades que não a abriria para o povo." Esta é, pelo menos, a versão dada por O. 
Guerlac, Les citations françaises, Paris, A. Co !in, 1954. Pode-se ali reconhecer a doutrina 
política clássica dos letrados, à qual os modernos, enquanto tais, renunciaram desde o 
Iluminismo e a Revolução (cf. Leo Strauss). Vê-se que Lacan depurou a citação e a 
despolitizou; é que ele é moderno (em virtude, principalmente, do doutrinai de ciência). 
Ele pode hesitar entre abrir e fechar a mão; mas não será, em todo caso, para pôr de 
lado o povo. No máximo, os canalhas (Télévision, p.67): não é a mesma coisa. 
7. Lembremos que a ética do Bem-dizer é proposta por Lacan em resposta à questão 
kantiana "Que devo fazer?" (Was sol/ ich tun?), Télévision, p.65. Em Wittgenstein, o 
sollen deriva do que não pode ser dito, logo não o dizemos, mostramo-lo (Tractatus, 
6. 421 ). Em Lacan, o sollen deriva do que não pode ser dito por inteiro; logo devemos 
bem-dizê-lo. 
8. A interpretação cética queKripke dá de Wittgenstein foi rejeitada por autores com­
petentes. A interpretação do ceticismo antigo, que Brochard, principalmente, tornou 
clássica, foi contestada com argumentos sólidos por J.-P. Dumont. Pouco importa aqui. 
Há uma figura do ceticismo em Lacan: "é a confirmação dessa posição subjetiva -
nada se pode saber" , S., XI, p.203. Ele a considera a um só tempo heróica e irrepre­
sentável aos modernos. Em virtude, sobretudo, de Descartes e do Cogito. Mas que 
resta do Cogito nos tempos do nó e de alíngua? 
Este livro foi composto pela TopTex­
tos Edições Gráficas Ltda., em Times 
New Roman, e impresso por Tavares 
e Tristão Ltda., em fevereiro de 1 996.

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