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Copyright © Walter Riso, 2011 Edição publicada de acordo com Pontas Literary & Film Agency, Espanha Título original: Manual para no morir de amor Todos os direitos desta edição reservados à Editora Academia de Inteligência Ltda. Avenida Francisco Matarazzo, 1500 – 3º andar – conj. 32B Edifício New York 05001-100 – São Paulo – SP www.editoraplaneta.com.br vendas@editoraplaneta.com.br Conversão para eBook: Freitas Bastos DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) (CÂMARA BRASILEIRA DO LIVRO, SP, BRASIL) Riso, Walter Manual para não morrer de amor / Walter Riso; tradução Sandra Martha Dolinsky. – São Paulo: Editora Academia de Inteligência, 2011. Título original: Manual para no morir de amor. ISBN 978-85-7665-723-1 1. Afetividade 2. Amor - Aspectos psicológicos 3. Relações interpessoais I. Título. 11-00074 CDD-152.41 http://www.editoraplaneta.com.br mailto:vendas.academia@editoraplaneta.com.br Para Ana María e Sandra, à infância que compartilhamos, à vida que transitamos, ao bem-querer que não se esgota. [...] entrou à tarde no rio, tirou-a morta o doutor: dizem que morreu de frio: eu sei que morreu de amor. José Martí Não é que morra de amor, morro de ti. Morro de ti, amor, de amor de ti, de urgência minha de minha pele de ti, de minha alma de ti e de minha boca, e do insuportável que sou sem ti. Jaime Sabines Introdução “Morrer de amor, devagar e em silêncio”,1 canta Miguel Bosé. E não é só ficção nem música, é realidade pura e dura. Para muitos, o amor é uma carga, uma doce e inevitável dor ou uma cruz que têm de carregar porque não sabem, não podem ou não querem amar de maneira mais saudável e inteligente. Há quem tire a própria vida ou a de seu amado, e há quem se esgote e seque como uma árvore no meio do deserto, porque o amor lhe pede demais. Para que um amor assim? Essa é a verdade: nem todo mundo se fortalece e desenvolve seu potencial humano com o amor; muitos se debilitam e deixam de ser quem são no afã de manter uma relação tão irracional quanto angustiante. Temos que viver o amor, e não morrer por causa dele. Amar não é um ato masoquista no qual nos perdemos sob o jugo de alguma obrigação imposta de fora ou de dentro. Morrer de amor não é irremediável, como dizem alguns românticos desmedidos. As relações afetivas que valem a pena e alegram nossa vida transitam um ponto médio entre a esquizofrenia (o amor é pura “loucura”) e a cura esotérica (o amor “tudo cura”). Amor terrestre, que voa baixinho, mas voa. Ter afinidade com uma pessoa, mental e emocionalmente, é uma sorte, uma sintonia assombrosa e quase sempre inexplicável. Aristóteles dizia que amar é alegrar-se, mas também é surpreender-se e ficar atônito perante um clique que acontece com alguém que não estava em nossos planos. Daí vem a pergunta típica de uma pessoa apaixonada: “Onde você estava esse tempo todo?”, ou “Como você podia existir sem que eu soubesse?”. Quando o amor não é doentio nem distorcido, amar é viver mais e melhor. No amor saudável, não há lugar para resignação nem martírio, e se alguém tem que se anular ou se destruir para que seu amado seja feliz, então está com a pessoa errada. Para amar não é preciso “morrer de amor”, sofrer, desvanecer-se, perder o norte, ser uno com o outro ou perder a identidade: isso é intoxicação afetiva. Quando confundimos a paixão com o amor, justificamos o sofrimento afetivo ou sua comoção/arroubo/agitação, e acabamos enrolados em relações negativas que amargam nossa vida, porque erroneamente pensamos que “o amor é assim”. Às vezes, na terapia, encontro casais tão incompatíveis que me pergunto como diabos foram ficar juntos. Será que estavam cegos? E a resposta é que, em certo sentido, estavam sim. Não uma cegueira física, mas emocional: o sentimento decidiu por eles e os arrastou como um rio que saiu de seu leito. O amor tem uma inércia que pode nos levar a qualquer lugar se não interviermos e exercermos nossa influência. Morrer de amor, ainda, é morrer de desamor: a rejeição, o insuportável jogo da incerteza e de não saber se nos amam de verdade, a espera, o impossível ou o “não” que chega como um balde de água fria. É humilhar-se, rogar, suplicar, insistir e persistir além de toda lógica, esperar milagres, reencarnações, passes de mágica e qualquer coisa que restitua a pessoa amada ou a intensidade de um sentimento que já se foi. Uma infinidade de pessoas no mundo já ficaram presas em nichos emocionais à espera de que sua sorte mudasse, sem ver que elas mesmas é que deveriam fazer uma revolução afetiva. Cada uma reinventa o amor a seu jeito e de acordo com suas necessidades e crenças básicas; cada uma o constrói ou o destrói, desfruta-o ou o padece. Morrer de amor não é um desígnio inevitável, uma determinação biológica, social ou cósmica: você pode estabelecer suas regras e se negar a sofrer inutilmente. Essa é a proposta. O que fazer, então? É possível amar sem errar tanto, e é possível que o sofrimento seja a exceção, e não a regra? Como amar sem morrer tentando e, ainda assim, aproveitar o amor e sentir sua irrevogável paixão? Neste livro tentarei deixar registrados alguns dos problemas que transformam o amor em um motivo de agonia e angústia, e, contraposta a eles, uma série de princípios básicos de sobrevivência afetiva, que proporciona ferramentas para não morrer de amor e mudar nossa concepção do amor tradicional por uma mais renovada e saudável. Esses princípios atuam como esquemas de imunidade ou fatores de proteção. Vejamos resumidamente esses problemas e qual princípio contrapor em cada caso. 1. Você está com alguém que não o ama, que diz isso sem rodeios e que não vê a hora de que um dos dois vá embora. Mas você continua ali, esperando o milagre que não chega e suportando uma rejeição que não lhe dá trégua. Independente da causa, a leitura do Princípio 1 lhe servirá de ajuda e reflexão: Se já não o amam, aprenda a perder e retire-se com dignidade. 2. Você tem outra pessoa, deseja-a e a ama. Sem perceber, pouco a pouco, você construiu uma vida paralela que vai muito além da aventura. Você se pergunta o dia inteiro o que fazer, mas, na realidade, já sabe; só não sabe como: falta-lhe coragem. Seu sonho é substituir magicamente seu companheiro por seu amante e que tudo continue igual, como se nada houvesse acontecido. Você está em um grande dilema que não o deixa viver em paz. A leitura do Princípio 2 lhe servirá de ajuda e reflexão: Casar-se com o amante é como pôr sal na sobremesa. 3. Você vive em um martírio permanente: por querer resolver os problemas da pessoa amada, esqueceu-se de si. Mas você não só a ajuda e tenta fazê- la seguir em frente a qualquer custo; utiliza uma maneira de se sacrificar absolutamente irracional: você se ofusca de propósito para que ela, por contraste, brilhe mais. Compensa negativamente e esconde suas virtudes para que os deficits de seu companheiro fiquem disfarçados ou não sejam tão notados. Você pratica uma curiosa forma de suicídio afetivo. A leitura do Princípio 3 lhe servirá de ajuda e reflexão: Evite o sacrifício irracional: não se anule para que seu companheiro seja feliz. 4. Você está em uma relação desesperadora porque seu companheiro é ambíguo e “hesita” sobre até onde quer chegar com você, já que não está seguro de seus sentimentos. É a síndrome do “nem com você nem sem você”, da qual você é uma vítima, e não tem a menor ideia de como lidar com isso. Seu companheiro flutua entre o amor e o desamor, e você dança ao compasso dele. A leitura do Princípio 4 lhe servirá de ajuda e reflexão: Nem com você nem sem você? Corra para o mais longe possível! 5. Você sente (e sabe) que o poder emocional ou afetivo na relação está com o outro, ou seja: que ele pode prescindir de você mais facilmente que você dele. E nesse duelo de forças e fraquezas, de apegos e desapegos, você está sempre por baixo; o que o leva a dizer sim quando quer dizer não, ou a concordar com coisas que não lhe servem. Tudo isso por amor ou por medo de perder a pessoa amada?A leitura do Princípio 5 lhe servirá de ajuda e reflexão: O poder afetivo está na mão daquele que precisa menos do outro. 6. Você tem um amor mal curado, recente ou antigo, que não consegue esquecer e que não o deixa estabelecer novos relacionamentos. Para tirá- lo de sua mente e de seu coração, pensou que “um prego tira outro”, e saiu em busca de alguém “maior” e mais poderoso para eliminar o passado. Infelizmente, não deu certo, e o velho amor continua flutuando em sua memória emocional com a mesma força de sempre. A leitura do Princípio 6 lhe servirá de ajuda e reflexão: Nem sempre um prego tira o outro: às vezes, os dois ficam dentro. 7. Seu relacionamento atual é frio e distante. Seu companheiro não expressa o amor como você gostaria e necessita. Você sente que o deixa de lado e que a indiferença é a regra básica na qual o vínculo se move. A displicência e a rejeição doem profundamente e afetam sua autoestima, mas você não é capaz de tomar decisões. A leitura do Princípio 7 lhe servirá de ajuda e reflexão: Se o amor não é visto nem sentido, não existe ou não lhe serve. 8. Você colocou sua metade da laranja nas alturas. Acha que está com uma pessoa extremamente especial, que você não a merece, e só vê maravilhas nela. Idealizou a pessoa amada e se apegou a essa imagem ilusória que o impede de ver seu lado normal e humano. O problema é que em algum momento você terá que aterrissar, e é possível que não goste do que verá sem autoenganos nem disfarces. Talvez esteja apaixonado por uma miragem criada por você. A leitura do Princípio 8 lhe servirá de ajuda e reflexão: Não idealize a pessoa amada; veja-a como é, cruamente e sem anestesia. 9. Você está com alguém muito mais velho ou muito mais novo para sua idade, e isso, embora tente disfarçar, o faz sentir certa ansiedade ou preocupação. Sabe que, com o tempo, a diferença de idade fica mais acentuada e não quer se transformar em uma pessoa ciumenta, chata ou insegura. Ainda assim, prefere não pensar nisso seriamente, porque teme acabar com a felicidade de viver um amor como o que agora sente. De qualquer maneira, consciente ou inconscientemente, você se pergunta: quantos anos me restam de felicidade? A leitura do Princípio 9 lhe servirá de ajuda e reflexão: O amor não tem idade, mas os apaixonados sim. 10. Você se separou e anda mal. Perdeu seus pontos de referência habituais, sente-se sozinho e está de saco cheio do amor. Além do mais, jura que nunca mais vai ter ninguém e que os homens ou as mulheres são todos uns idiotas. Enfim: você tem dificuldade de aceitar uma separação que ainda lhe dói e não se sente capaz de começar de novo. A leitura do Princípio 10 lhe servirá de ajuda e reflexão: Algumas separações são instrutivas; ensinam o que você não quer saber do amor. Cada capítulo aborda um princípio específico, explicitando, por sua vez, uma série de premissas e deduções que vão completando o quadro e servem como guias. No epílogo, resumo um conjunto de máximas, depreendidas dos capítulos anteriores, para pôr em prática. O decálogo sugerido aqui não pretende esgotar a temática do amor mal curado ou doente, longe disso, já que as variáveis que intervêm em sua configuração são múltiplas e complexas. Não obstante, os dez princípios de sobrevivência apresentados podem ser muito úteis se interiorizados e aplicados de forma continuada. Em minha experiência profissional, pude observar que seu uso aumenta notavelmente as probabilidades de estabelecer relações funcionais mais satisfatórias e felizes. Por tudo isso, minha recomendação é que leia todos os princípios, e não somente os que se encaixem mais em sua problemática específica. Para desenvolver o conteúdo do livro, tive em mente as pessoas afetivamente mais frágeis e as que sofrem por amor, apesar de seus esforços de seguir em frente e encontrar um amor que valha a pena. Não pensei nos durões nem nos predadores emocionais, e sim nos lutadores do amor, naqueles que insistem e persistem apesar de seus erros e decisões ruins. A verdadeira virtude não está em amar, e sim em amar bem; é com esse propósito que este livro deseja contribuir. 1 Letra da música “Morir de amor”. (N. E.) Princípio 1 Se já não o amam, aprenda a perder e retire-se com dignidade O esquecimento é uma forma de liberdade. K. Gibran Todas as paixões são boas quando se é dono delas, e todas são más quando nos escravizam. J.-J. Rousseau ANATOMIA DO ABANDONO 1. A surpresa Não acreditamos que algo assim possa acontecer conosco. Quem acredita? Quem imagina que, um dia qualquer, a pessoa que amamos vai nos dar a má notícia de que já não sente nada ou muito pouco por nós? Ninguém está preparado, e por isso a mente ignora os dados: “Às vezes sinto que está mais distante, que já não me olha como antes, mas deve ser imaginação minha”. Mas, um dia qualquer, seu companheiro pede para conversar com você, e com uma seriedade pouco habitual e um olhar desconhecido, diz à queima- roupa: “Eu não o amo mais, quero me separar, é melhor para nós dois”. Na realidade, ele tem razão; é melhor para os dois. Para que ficar com alguém que não nos ama? Ou para que ficar com alguém a quem não amamos? Mas isso não é consolo, de nada serve a “lógica”, porque tínhamos metas, sonhos, projetos... A ruptura não é um ato administrativo e dói na alma; não importa como venha embrulhada. 2. Colapso e aturdimento Quando ficamos sabendo, tudo acontece muito rápido, e em poucos minutos passamos por uma montanha-russa emocional. Depois do impacto da notícia, a angústia nos faz perguntar bobagens: “Você tem certeza? Já pensou bem?”. Na realidade, que mais podemos fazer senão perguntar e chorar? Não obstante, o organismo insiste, e uma esperança arrastada à força, tão lânguida quanto impossível, nos torna especialmente ingênuos: “Pensou bem? Não quer dar um tempo?”. Como se fosse questão de tempo! E a resposta do outro chega como um jato de água fria: “Não, não, já pensei bem”. Em algum momento, lançamos mão da manipulação: “Você não se importa em me fazer mal!”, “E se você se arrepender?”. Silêncio. Não há muito que responder nem muito mais a acrescentar; isso é o que ele quer. Outra vez o pranto. A crise aumenta, parece que vamos explodir, principalmente porque percebemos que ele não está mentindo. Será que existe algo mais insuportável que a segurança de quem nos abandona? 3. A pergunta inevitável: por que não me ama mais? Algumas possibilidades: tem outra pessoa, quer se reinventar, e para isso precisa de solidão (você seria um estorvo), ou, simplesmente – e essa é a pior –, o sentimento acabou sem razão nem motivos especiais. Um homem me dizia entre lamentos: “O que torna tudo mais cruel, o que mais me dói, mesmo que pareça absurdo, é que ela não me trocou por ninguém! Nada a impede de ficar comigo, senão ela mesma”. E é verdade, um desamor sem razões objetivas é mais difícil de superar porque não absorvemos a conclusão facilmente: “Se não há nada externo, nem amantes, nem crise, nem uma doença, não resta dúvida: o problema sou eu!”. Mais tarde, vem o repasse histórico, buscando até o mínimo erro ou inventando um: o que fizemos de errado, o que poderíamos ter feito melhor e não fizemos, os defeitos que deveríamos corrigir (se tivéssemos outra oportunidade), enfim, todo o aspecto pessoal é rigorosamente examinado. 4. Você me aceitaria novamente se eu prometesse mudar? Uma força desconhecida o leva a pensar que você é capaz de fazer uma mudança extrema em sua pessoa e reconquistar o amor perdido (acredita sinceramente que, onde houve algo tão maravilhoso, alguma coisa deve restar). Você conta a “boa-nova” a seu ex, jura que ele terá a seu lado uma pessoa renovada e faz um haraquiri emocional em sua presença, mas torna a encontrar o silêncio aterrador de antes. Como último recurso, inventa um otimismo de segunda: “Talvez amanhã ele mude de ideia, talvez amanhã acorde dessa letargia”. E como no dia seguinte nada acontece, você resolve esperar um pouco mais, e assim se passam as horas e os dias. Um mês depois, você perdeu 5 kg e seuex se mantém firme na decisão. Uma vez mais: o amor acabou. É caso encerrado, e você se nega a ver a realidade. 5. Vencer ou morrer Quando tudo parece liquidado, você tira um ás da manga. Desde sua mais tenra infância lhe ensinaram a nunca se dar por vencido e a lutar pelo que considera justo e valioso, e você tenta uma reconquista. Mas a cada tentativa você se humilha, e a rejeição se confirma. Pensar que as coisas que fazemos por amor nunca são ridículas é uma invenção dos apegados: o amor nos subjuga, faz que nos arrastemos, e, se nos descuidarmos, acaba conosco. Com o passar dos dias, à medida que o abandono se torna evidente, nossa autoestima diminui. Não podemos lutar quixotescamente contra o desamor da pessoa amada e tentar salvar a relação. São necessárias duas pessoas, duas vontades, duas necessidades, dois que “queiram querer”. Quando realmente não nos amam mais, independente das razões e causas possíveis, temos que abandonar o espírito guerreiro e não travar uma batalha inútil e lancinante. Lutar por um amor impossível, novo ou velho, deixa muitas sequelas. Melhor sofrer a perda de uma vez que submeter-se a uma incerteza constante e cruel; melhor um realismo desconsolador que a fé cega, que nunca move montanhas. HÁ OUTRA PESSOA? Se seu companheiro é infiel, você se transformará em um obstáculo para seus planos: o desamor que sentirá por você não será tão limpo nem tão honesto. A pessoa amada vai querer tirá-lo do caminho para ficar livremente com o substituto. É uma questão de espaço: “Outra pessoa entrou em meu coração e não cabem dois”. Não se trata de afastamento transitório, e sim de exclusão e, às vezes, de desprezo. Também existe outra possibilidade que soma mais dor e desconcerto ao que você já tem: não só o abandona porque tem outro alguém, como ainda por cima o culpa diretamente pelo ocorrido. Você deveria se alegrar por uma pessoa assim sair de sua vida; porém, a dignidade costuma se ajoelhar diante da avalanche de perguntas motivadas pelo desespero e pelo apego: “Por que comigo?”; “O que ele tem que eu não tenho?”; “Desde quando é infiel?”; “É uma pessoa mais velha que eu, tem mais dinheiro, é mais atraente?”. A vontade de saber, vasculhar e colocar o dedo na própria ferida tem muito de masoquismo e bastante de desespero. O como, quando e onde não pesam tanto quanto o que a pessoa lhe fez. O que importa é que foi infiel e não o ama; o resto é secundário ou uma curiosidade mórbida. Você realmente espera que o universo, em sua infinita bondade, lhe devolva seu amor em perfeito estado e como se nada houvesse acontecido? Os “milagres amorosos” e a “ressurreição afetiva” são pura superstição: quando o amor acaba, é preciso enterrá-lo. O DESAMOR QUE LIBERTA É o lado feliz do despeito, a perda que merece ser festejada. Quem diria? Às vezes, o desamor do outro tira de nós o peso da incerteza: você já não precisará desfolhar a margarida! Acabaram-se as indagações e os questionamentos existenciais! Há dúvidas dolorosas que a certeza acalma. Uma paciente comentava comigo: “Eu já não tinha certeza de que ele me amava e durante meses tentei decifrar seus sentimentos. Quanto sofri! Passava da ilusão à desilusão em um instante. E é curioso, mas quando ele disse que queria se separar, foi um alívio”. Como não seria? Como não reconhecer que o sofrimento de ver as coisas como são, cruamente, traz em si certo bem-estar? Já sabemos onde estamos pisando! Nem todo desamor é ruim e nem todo amor é sustentável. Eu me lembro de uma mulher que era amante de um mafioso, e o homem a usava como uma escrava sexual. Ela tinha que estar disponível 24 horas por dia e vivia ameaçada de morte se olhasse para outro homem. Acontece que o vigarista se enroscou com uma mocinha de dezoito anos de idade e automaticamente minha paciente passou a ser uma bruxa feia e velha. Quando ela me perguntou o que podia fazer, recomendei que se enfeasse o máximo possível, para dar uma mãozinha ao destino. Em pouco tempo, ele a pôs na rua, sem o menor cuidado. Na realidade, abriu sua gaiola e a deixou voar. Bendito o desamor que chega aos malcasados, aos mal acompanhados, aos que se machucam em nome do amor. PROPOSTAS PARA NÃO MORRER DE AMOR QUANDO JÁ NÃO NOS AMAM MAIS 1. Aprender a perder, mesmo que doa Faz sentido perseguir algo ou alguém que já fugiu ao nosso controle? Foi embora, não está mais aqui, já não quer estar, para que insistir? Algumas coisas são impossíveis; não importa o desejo e a vontade que tenhamos. O que você acharia de alguém que tivesse um chilique e se contorcesse de raiva porque está chovendo? Não seria melhor pegar o guarda-chuva em vez de choramingar e reclamar da água? Aprender a perder é a capacidade que uma pessoa tem de discernir o que depende dela e o que não, quando insistir e quando se deixar levar pelos fatos. Não faz muito sentido “convencer” alguém a nos amar (o amor não segue esse caminho), mas podemos limpar a mente para deixar entrar uma pessoa que se sinta feliz por nos amar. Cada gota de energia e suor que você investe em se lamentar pelo que poderia ter sido e não foi será mais bem empregada na cura de sua alma. Quem ama a si mesmo utiliza essa frase afirmativa e orgulhosa, saudável enfim: Se alguém não me ama, não sabe o que está perdendo. Como consolo, digo que conheci uma infinidade de pessoas que foram abandonadas e, com o tempo, acabaram agradecendo a ruptura porque encontraram alguém melhor. Pense nos amores que passaram por sua vida, no que representaram na época, naquela adolescência cega e frenética de amor, e olhe para tudo isso agora com a perspectiva dos anos. Provocam-lhe algum impulso irrefreável, algum sentimento incontrolável: agitam-no, mobilizam- no, angustiam-no? Não, não é mesmo? A memória emocional deu lugar a uma memória mais conceitual, mais fria e inteligente. Muitas dessas recordações não passam de casos passados, elementos de sua história pessoal e parte de seu currículo afetivo. E você teria feito qualquer coisa para manter esses relacionamentos! Na época, você pensava e sentia que ia morrer em cada adeus, em cada amor não correspondido, e atualmente não lhe fazem nem cócegas. Pois o mesmo vai acontecer com a pessoa que hoje deixou de amá-lo; será só mais uma recordação, cada vez mais asséptica e distante. À medida que o tempo passar e você começar a viver sua vida, chegará a calma. Não há remédio para esse tipo de dor, não há uma pílula do dia seguinte ou para os seis meses posteriores, que é mais ou menos o que dura um luto. É preciso suportá-lo e resistir, como se fosse uma luta de boxe: hoje você ganha um assalto do sofrimento, e amanhã quem ganha é ele. A única coisa com que deve se preocupar é não perder por nocaute, porque se aguentar, mesmo caindo na lona várias vezes, garanto que vai ganhar por pontos 2. Nos amores impossíveis, a esperança é a primeira coisa que deve morrer Nada de futuro. Realismo cru: o aqui e o agora nu e sem analgésicos. Você aprendeu que a esperança é a última que morre, e possivelmente seja verdade em algumas circunstâncias extremas, mas, no amor impossível ou no desamor declarado e demonstrado, a desesperança é um bálsamo. Se já não o amam, não espere nada, não antecipe positivamente: um pessimista inteligente é melhor que um otimista mal informado. Uma adolescente à beira da depressão me dizia: “E se ele voltar a me amar e eu já não o quiser mais?”. Minha resposta foi simples: “Então, você não vai estar nem aí para o fato de ele a amar ou não!”. Amores tardios são amores doentes e indesejáveis. 3. A distorção confirmatória: “Ainda me ama” O desespero pode levá-lo a acreditar que, por algum passe de mágica ou sabe-se lá que feitiço, tudo voltaria a ser como antes: “Se eu desejar com todo meu coração, meus sonhos se tornarão realidade”. Pura quimera, com um toque de alucinação. A esperança irracional e injustificada faz a mente distorcer a informação, e começamos a ver o que queremos ver e a sentir o que queremos sentir. Um olhar, um sorriso, uma expressão, um gesto, uma ligação, tudo é interpretadocomo um renascimento do velho amor. Um paciente, à beira do delírio, apresentava-me seus próprios sentimentos como prova de que sua ex ainda o amava: “Eu sei que ela me ama. Eu sinto, a sensação me chega, é como uma premonição”. Armado de uma confiança à prova de bala, tentou a reconquista, e o que conseguiu foi uma denúncia por assédio. Em outro caso, uma mulher havia pedido ajuda porque seu namorado a havia trocado por sua melhor amiga. Em uma sessão, ela comentava cheia de otimismo: “Ontem eu o encontrei depois de quatro meses e tenho certeza de que continua me amando. Pelo jeito como olhou para mim, sei que não me esqueceu. Entendi isso quando me deu o beijo de despedida. E tenho certeza de que flertou comigo”. Alguns dias depois, na mais profunda tristeza, ela me dizia: “Estou confusa, não sei o que pensar. Acabo de saber que ele vai se casar com ela. Ele me mandou um convite!”. Armações da mente, enigmas patrocinados por um coração que se apega ao pensamento mágico. “Ainda me ama, mas não sabe.” Há maior autoengano que esse? Ouvi isso de uma garota que estava havia três anos com alguém que nunca lhe havia dito que a amava. O amor romântico não é mágico, é o resultado de uma realidade que construímos com esforço, guiados pelo sentimento e por nossas crenças. Infelizmente, algumas são francamente irracionais. 4. Para que se humilhar? A humilhação, em qualquer uma de suas formas: suplicar, jurar, “baixar a cabeça”, escravizar-se ou elogiar excessivamente o outro, tem um efeito bumerangue. Más notícias para os que aderem a um amor sem limites: a submissão, com o tempo, irrita. Restava um pouco de afeto? Perde-se; Havia um pouco de respeito? Acaba-se. Quer que tenham dó de você? Quer dar mais poder à pessoa que não o ama? Quer aumentar o ego dela? Se fosse tão fácil convencer o desapaixonado! Como salvar a autoestima de um lacônico e lastimoso “por favor, me ame!”? As palavras não vão modificar o comportamento de quem não sente nada por você. Aceite isso com maturidade. Para que se humilhar se com isso não vai conseguir ressuscitar o amor? Um recesso ajuda. Voltar a falar com sua família, recuperar suas raízes, aqueles valores que lhe pertencem e que hoje parecem difusos por conta do afã e desespero de um amor que não lhe convém. Enfie isso em sua cabeça e em seu coração: princípios não se negociam. Se você quer sofrer, chorar e acabar com todas as lágrimas, gemer em voz alta, arrastar-se pelo quarto quando está sozinho... se quer fazer isso e muito mais, faça, mas não entregue sua soberania, não esmague seu ser. Sofra o quanto quiser, mas não machuque seu amor-próprio. 5. Cerque-se de gente que o ame Algumas pessoas se especializam em jogar sal nas feridas. Isso já não aconteceu com você? Imagine que sua “melhor amiga” lhe diz: “Você perdeu um grande homem. Ele era o melhor, entendo como você se sente”. Como assim? “Um grande homem” ou “o melhor”? Não há dúvida: inveja ou malquerença acumulada da suposta amiga. Qual a necessidade de fazer um comentário desses a uma desesperada quase moribunda? Quem nos ama de verdade toma partido e nos defende, tenta nos puxar para cima, não importa se temos razão ou não, preocupa-se conosco e pronto. Sabe essa mulher que adota o papel de camarada e lhe recorda a cada instante quão estúpida você foi ou é? Deixe-a de molho, afaste-se, e, se quiser fazer uma catarse, mande-a catar coquinho na descida! E também aqueles amigos que pretendem ser “objetivos” e procuram equilibrar o que não pode ser equilibrado. Eu me refiro a quem, em tom de conselho, diz: “É verdade que ela era uma mulher muito complicada, mas há de reconhecer que você não é nada fácil”. Que hora para ressaltar seus defeitos e fraquezas! Vá limpando o caminho e o habitat afetivo. O que você necessita é apoio, suporte afetivo, silêncios compartilhados, o tapinha nas costas, a palavra de ânimo, o amor da família, dos que buscam diminuir seu sofrimento. Precisa de “gentis mentirosos” que lhe digam que você é demais, atraente, bom partido ou qualquer outra coisa que faça bem a seu maltratado “eu”. A crítica construtiva deve ficar para depois que passar a tempestade. Você precisa sair do buraco, e nesse processo aqueles que gostam de você de verdade ajudarão muito. E é aí, nessa base segura da amizade, que irá reconstruindo sua capacidade de amar, pouco a pouco. 6. Afaste-se de tudo aquilo que faça lembrar seu ex Nada de romantismos melados. Além do mais, que romance, se já não tem com quem? Você não precisa frequentar sozinho os lugares contaminados de recordações afetivas. Para que ocupar “o breve espaço em que você não está” e apegar-se à música, aos cheiros, aos presentes? Às vezes, mergulhar fundo na recordação e sofrer até onde o organismo aguente tem uma função terapêutica, mas é melhor que essas “inundações” sejam dirigidas por um profissional especializado no assunto. Tente criar a seu redor um microclima de paz que se reflita em seu interior; limpe seu lugar e gere um novo ambiente motivacional. Lembre-se: não há mais esperança, já deixaram de amá-lo, é irrecuperável. Então, o que você está esperando? Jogue fora, empacote e doe tudo o que tenha restado da relação. Comece do zero, mas comece. 7. Aplique a técnica do stop Cada vez que surgir um pensamento referente a ele ou ela, uma imagem ou uma recordação, bata palmas e diga em voz alta: Stop! É um “pare”, um “alto lá” que desorganiza o pensamento por alguns instantes e lhe dá um respiro. Depois de tentar algumas vezes, não precisará mais dizer em voz alta; o stop simplesmente fará parte de sua linguagem interna. Não é a grande solução, mas ajuda e alivia. Não se tranque em sua própria mente, nem se afaste das pessoas. É bom ir ao cinema (mas não a filmes de amor ou de doces vampiros), comer fora (não ao lugar aonde você ia com ele, nem pedir o prato favorito dele), visitar um amigo (proibido falar do assunto), enfim, sair, expor-se ao mundo e ao próximo. Embora seja difícil acreditar, o sol continuará nascendo e o movimento da vida não deterá seu curso. Repito: quando se vir em algum ritual negativo motivado pela saudade, escrevendo sua própria telenovela, use o stop, e a trama se dissolverá até um próximo capítulo. 8. Recorde tanto o bom quanto o ruim É uma distorção típica. A mente gosta da nostalgia, regozija-se nela e se autocompadece sempre que pode. Não faz muito sentido exaltar e recordar os “anos gloriosos” nem os “belos momentos”. Equilibre! Sem precisar cair no tédio visceral, balanceie a informação: não esqueça o negativo, não santifique a quem já não o ama. Não adoce o desagradável, não desculpe o que merece ser repudiado. O sexo não era bom? Ele era egoísta? Ela foi infiel? Era indiferente? Não tinham do que conversar? Não esconda isso! Puxe-o da memória, reproduza os fatos! Não digo para amaldiçoar nem se deixar pegar pela vingança ou pelo ódio; o que proponho é ter consciência do lado ruim da relação. Porque, se você começar a maximizar e exagerar os atributos positivos do outro, será mais lento e difícil elaborar o luto. Separar-se de um anjo é muito mais complicado que de um ser humano. 9. Se você tem filhos, una-se a eles Não me refiro ao apego doentio. Nem sugiro que deixe de lado seus outros papéis para se transformar exclusivamente em pai ou mãe. Mas os filhos são parte de uma missão que está incorporada em nossos genes. Seus filhos são parte de você, e o amor que sente por eles e que eles sentem por você vence praticamente todas as provas. Então, dedique-se a eles, a esse amor genuíno e descontaminado; veja-os como algo que o alegra e torna a vida mais fácil. Eles não têm culpa e precisam de você forte e eficiente. Por mais triste que se sinta, você tem que continuar educando-os, cuidando deles, estando a seu lado. A fórmula parece funcionar assim: seu ex o afunda, seus filhos o puxam para cima. Seu ex não é nada seu, seus filhos são seu sangue; seu ex não o ama mais, seus filhos o amam incondicionalmente. Não é só o amor romântico que nos realiza: o amor aos filhos também. Princípio 2Casar-se com o amante é como pôr sal na sobremesa O amor é uma loucura passageira que se cura com o casamento. A. Bierce Amantes, dementes. Plauto As estatísticas são contundentes: computando dados de várias culturas, cerca de metade das pessoas tem um relacionamento secreto e trai seu companheiro. Os relacionamentos proibidos são especialmente atraentes porque o prazer que geram é muito concentrado, penetrante e viciante. Independentemente de concordarmos ou não com os relacionamentos clandestinos, devemos reconhecer que muitos deles acabam se transformando em um Disney World personalizado, em que os envolvidos estão mais perto da fantasia que da vida normal. Os amantes criam seu próprio microcosmo e suas próprias regras de sobrevivência: um mundo só para dois e exclusivo. Nessa intimidade amorosa, cada um determina a existência do outro e até lhe atribui significado. Uma paciente comentava comigo: “Só de ficar com ele algumas horas a semana se justifica e ganha sentido. Não vê-lo é ficar incompleta, como se arrancassem uma parte de mim”. Justificativa existencial e síndrome de abstinência ao mesmo tempo: nada a fazer. Alguns encontros dão ao cotidiano um toque especial e se passa de uma realidade em preto e branco a uma colorida em 3D. Por isso a resistência sai do enredo, não importa de onde venha a pressão contrária: ninguém quer perder o encanto de um amor que nos leva ao limite. Porém, apesar de estar em uma situação de felicidade expansiva, às vezes os envolvidos, não satisfeitos com o aqui e o agora, pretendem legalizar a situação e mantê-la no tempo. A estratégia? Formalizar o vínculo, mostrar-se ao mundo com dignidade. Do amor proscrito ao conto de fadas: “Nós nos amamos, vamos viver juntos e construir uma família, com os meus, os seus e talvez os nossos”. Se você está metido em um plano similar, recomendo que ponha o pé no freio. Não pretendo desanimá-lo, mas somente o relacionamento de uma pequena porcentagem de amantes que se casam ou vão morar juntos funciona. Aterrar o êxtase, reestruturar a loucura que mantinha a relação viva tem suas consequências e contraindicações. É muito difícil “regulamentar” o amor passional e fazer que tudo continue igual. A “montanha-russa” emocional dos amantes inclui satisfação sexual intensa, vertigem, ternura, alegria, culpa, medo e temeridade, encanto e desencanto, amor e desamor, dor e alívio, risos e tristezas, e muitas oscilações mais. Os amantes são sacudidos por uma confusão de afetos e desafetos de todo tipo e de caráter exponencial. E é essa velocidade e variedade de sentimentos que os fascina. Como canalizar essa energia fascinante e fora de controle para domesticá-la sem que perca sua essência vital? “NÃO QUERO ABRIR MÃO DESSA FELICIDADE” Isso é um contrassenso: você não quer renunciar à felicidade de ter um amante, mas ao mesmo tempo pretende desnaturá-lo, tirá-lo de seu ecossistema e levá-lo para casa. Para que isso? A dinâmica é mais ou menos assim: quando o apego vai deitando raízes, os lemas iniciais de “aproveite enquanto dure” ou “viva o momento” vão perdendo força, e à medida que a necessidade de estar juntos aumenta, surge o futuro. O argumento é uma curiosa mescla entre hedonismo e justiça cósmica: “Que mal há em irmos morar juntos? Não merecemos ser felizes? Não foi por acaso que nossas vidas se cruzaram!”. Obviamente, ninguém “merece” ser infeliz. A questão é saber se é possível transplantar a relação de amantes a um casamento estável, sem perder a vivacidade que nos faz felizes. Para você refletir: como saber se sua decisão não está sendo principalmente influenciada pelo apego ao prazer? Você conhece suficientemente seu amante, ou será que seu conhecimento do outro se reduz à efervescência de um amor de laboratório, isolado das contaminações e tão luminoso como os dias de verão? Pergunto: que felicidade você busca? Uma real e com os pés na terra, ou uma sem mais fundamento que a vontade de não perder? “QUERO MAIS, PRECISO DE MAIS” O efeito spa de ter um amante (relacionamento, massagens, carícias, orgasmos, lindas palavras, redução do estresse, bloqueio das preocupações por algumas horas) cria uma profunda dependência. Como pedir a um amante que seja “objetivo” e razoável na hora de tomar decisões? Um homem que estava prestes a se separar para ir morar com a amiga/amante defendeu sua decisão da seguinte maneira: “A paixão que sinto é tanta que, além de transarmos várias vezes quando nos vemos, eu me masturbo até três vezes por dia pensando nela. Só de ouvir o nome dela tenho uma ereção”. Como pedir um pouco de racionalidade a alguém que está pensando com o órgão genital? Sua motivação não era outra senão ter o máximo de tempo possível para ficar com a mulher que desejava. Em uma relação rotineira, sem ideais importantes, a presença de um substituto ou complemento afetivo/sexual se transforma em uma motivação básica e imprescindível. Como em qualquer consumo de droga, o nível de tolerância do organismo à substância (ou à pessoa) aumenta e precisamos de mais quantidade dela para manter a sensação em um nível satisfatório. Um casal de amantes tinha o seguinte ritual: umas duas vezes por semana, ela ia ao apartamento onde ele morava. Quando entrava, encontrava uma mesa muito bem-posta, flores silvestres e uns exóticos e delicados pratos feitos por ele, que era um excelente cozinheiro. Tudo amenizado por uma bela música clássica, e em cima de um colchão no chão, ele deixava pronta a roupa que ela devia vestir a cada encontro. Pela janela viam-se as montanhas, tudo cheirava a pinho e os pássaros cantavam sem parar, como se festejassem sua chegada. Nesse lugar, tudo se encaixava perfeitamente. Na realidade, a experiência era o que havia de mais parecido a estar no Olimpo abraçada a Zeus. Comparações são horríveis, mas como não as fazer? Minha paciente as fazia o tempo todo, especialmente quando descia do Olimpo e ia para sua casa, onde a esperava um marido que era um simples mortal, e, além disso, não cozinhava nem gostava de ouvir música, não lhe comprava roupas e não tinha a menor criatividade. Do céu ao purgatório e, às vezes, ao inferno. Em uma sessão, ela me dizia: “Peço a Deus que me libere de meu casamento, mas penso em meus filhos. Não sei o que fazer. Bem, sei o que fazer, quero ficar com meu amante, mas não tenho coragem. Cada dia o amo mais e preciso mais dele. Como isso vai acabar?”. Duas vezes por semana já não eram suficientes, nem três, nem quatro. A exigência era a eternidade completa. Ela tentou em várias ocasiões ir morar com aquele semideus feito homem, mas nunca teve coragem. Hoje, recorda-o como o grande amor de sua vida e se sente mal consigo mesma por não ter sido suficientemente corajosa para tomar a decisão. Ainda sente falta dele, seu corpo não se resignou à perda. Gostaria de repetir a dose. AMANTES ATÉ QUE OUTRO NOS SEPARE Um belo dia, chega a coragem e você toma a decisão: “Vou substituir meu companheiro por meu amante”. E o que será do ex, dos anos de convívio, da história construída? “Isso não é problema meu, ele que veja como vai sobreviver, ela que veja o que vai fazer.” E os filhos? “Vão se acostumar e compreender. Por que não? Tanta gente faz isso...” Em uma consulta, diante do olhar atônito de seus filhos de oito e nove anos, uma paciente tentava convencê-los das “vantagens” da separação: “Mamãe vai morar com outro homem porque o ama com todo o coração. É normal isso acontecer com os adultos. Vocês vão ficar comigo e terão um novo papai! Vão ver que ele é uma pessoa encantadora e vão se dar muito bem! De qualquer maneira, vão continuar vendo o papai de verdade sempre que quiserem. Não é maravilhoso?”. Ao ver a seriedade das crianças e a minha, tentando entender o que haveria de “maravilhoso” em tamanho despautério, ela tentou ajeitar a coisa: “Vejam pelo lado bom: vocês vão ter dois papais e duas casas!”. Para uma criança normal, a notícia de que vai ter um “novo papai” ou uma casa “extra” de fim de semana não é nada fenomenal; fica mais próximo de um trauma. Não digo queuma pessoa não pode se separar, mas precisa fazê-lo direito. Os amantes que se juntam pecam por uma ingenuidade e um egocentrismo incríveis: acham que os outros devem ficar tão felizes quanto eles, como se a felicidade tivesse que ser contagiosa. Mas o que costuma ocorrer nesses casos é que tudo se desorganiza e voa pelos ares, simplesmente porque não existe uma forma cirúrgica, precisa e delimitada para substituir o marido ou a esposa pelo amante e deixar as coisas como se nada houvesse acontecido. As pessoas afetadas e feridas pela decisão e os indignados não ficam de braços cruzados: protestam, ficam deprimidos e põem seus advogados para trabalhar. É POSSÍVEL IR MORAR COM O AMANTE E SOBREVIVER? CINCO REFLEXÕES PARA LEVAR EM CONTA Vamos começar repetindo o seguinte: a “passagem” não é nada fácil. No início, sua motivação estará nas alturas; você vai querer se beliscar por causa da alegria, achando que é um sonho que se tornou realidade e que ninguém o poderá acordar. Você sabe que haverá problemas de todo tipo, mas o amor o empurra e você se sente capaz de vencer qualquer obstáculo que se interponha em seu caminho. A crença que o move é, definitivamente, triunfalista: “O amor não conhece limites”. Vejamos alguns dos custos, riscos e consequências que possivelmente terá que enfrentar para calibrar suas forças de uma maneira adequada e não sofrer inutilmente. Talvez você possa estar nessa pequena porcentagem que consegue. 1. Custos sociais e perdas afetivas Você está preparado para as investidas orquestradas pela moral e bons costumes de plantão? É provável que, do ponto de vista social, cheguem algumas sanções e seu novo relacionamento não seja visto com bons olhos. É até de se esperar que alguns “amigos” considerem que os relacionamentos entre amantes devem permanecer sigilosos e que é de mau gosto expô-los abertamente. Também não vai faltar o parente que o censurará. Sentirá que sua imensa alegria é um incômodo para todos aqueles que desejam que você fracasse, e não serão poucos. Então, prepare-se: o que vem por aí não é cor- de-rosa. Seja forte e prepare-se para enfrentar as coisas de modo que sua autoestima não seja afetada. Nessa situação, há dois tipos de pessoas: aquelas que por culpa ou medo do que os outros vão dizer se dão por vencidas, e aquelas que se entrincheiram em uma couraça à prova de críticas e seguem em frente. Se você tem certeza do que quer, não se renda. 2. A queda na paixão Aqui a coisa é mais grave. Um encontro secreto não é a mesma coisa que o convívio aberto. Isso não o afetará porque o amor é muito? Não tenho tanta certeza. O estresse constante acaba com a maioria dos grandes amores e com o excesso de libido. Por que o estresse? Porque você vai entrar de cara nos problemas da vida cotidiana. Terá que conviver com alguém com quem não tem uma história de lutas e projetos compartilhados (antes, estavam mais concentrados nos prazeres), e terão que começar a enfrentar ombro a ombro a sobrevivência. Os casais estáveis, além de se amar e de tentar fazer dar certo, devem enfrentar uma realidade que não é tão divertida, embora não seja necessariamente incompatível com o amor. Já os amantes não “sobrevivem”: aproveitam. Algumas pessoas me perguntam: “Mas o mais importante não é que haja amor em grande quantidade?”. Minha resposta é que o amor é uma condição necessária, mas não suficiente para que a vida a dois funcione adequadamente. O que afirmo é que, para transformar o “amor passional” e secreto dos amantes em um “amor de casal estável” e aberto ao mundo, é preciso reestruturar completamente a relação. Vocês vão precisar criar uma nova visão do mundo, um pouco menos fantástica e mais realista: devem levar o nirvana para casa e mantê-lo vivo! E as fantasias sexuais? Continuarão, assim como o sexo (se as crianças e o cansaço permitirem). Não será mais a mesma coisa, mas, tanto faz, já estão juntos mesmo... não era isso que você queria? 3. Os seus, os meus e os que virão Não quero parecer trágico, mas um monte de filhos misturados, de diferentes procedências e geralmente incompatíveis entre si, só é agradável no sonho de alguém apegado ao mais rígido romantismo. Leva tempo e desgaste para adaptar-se aos filhos de seu ex-amante e para que seu ex veja com naturalidade que seus enteados vivam com os filhos dele, e que todos, além disso, aceitem uma gravidez inesperada. Você vai dizer que é um rebento fruto do amor e, portanto, um presente que deve ser abençoado, apesar da confusão de mães, pais, filhos e suas respectivas acomodações. Nem é preciso falar das primeiras comunhões, dos aniversários, das formaturas, dos futuros genros e das futuras noras, das regras, das tarefas escolares, de levar à escola, enfim, um todos contra todos em nome do amor. Você realmente prefere isso àquelas tardes no Éden? Quero recordar, só a título de reflexão, uma frase de Schopenhauer, para que pense nela em alguma noite amorosa em claro: “Em nosso hemisfério monográfico, casar-se é perder a metade dos direitos e duplicar os deveres”. Não sei se ele tem razão, mas não custa nada fazer a conta. 4. Três motivos de deserção e de regresso ao ninho original Embora possa haver muitas causas que explicam a deserção dos amantes de seu novo casamento, vou apontar as três mais frequentes. a. Tenho saudade do conforto que tinha antes Alguns apaixonados jogam a toalha quando começam a comparar as vantagens que tinham antes com as que têm hoje. O conforto goza de muitos adeptos. Uma paciente, que alguns meses antes parecia possuir a integridade e a convicção de Joana d’Arc, começou com um pequeno desconforto mental: “Antes, quando estava com meu marido, tudo andava direitinho, já tinha meu mundo organizado e aceito. Agora é tudo mais complicado, porque já não tenho essas comodidades: sinto falta da empregada, do motorista, do contador, do advogado. Meu amante, perdão, meu companheiro atual, não é tão abastado; tive que voltar a trabalhar. Eu sei, eu sei o que você vai dizer: é uma oportunidade para voltar a ser produtiva, blá, blá, blá... Mas a questão é que eu estava bem sem trabalhar. Meu marido não era um Adônis nem um gênio, mas era suportável e às vezes até doce”. Amor de araque? Materialismo do ruim? Pode ser, mas, em minha experiência, esse “regresso ao passado para garantir o futuro” é muito frequente. Antes de um ano, minha paciente estava de novo no purgatório de seu casamento anterior, feliz da vida. Um homem expressava assim suas dúvidas: “Deixei um apartamento de duzentos metros por um minúsculo, no primeiro andar, onde os carros passam beirando minha janela”. Quando alguém pensa: “Antes eu vivia melhor”, é um mau sinal. E quando o lamento se repete várias vezes, é bom deixar as malas prontas, por via das dúvidas. O problema é que, para muitos que querem recuperar o perdido, já é tarde: o antigo lar está ocupado, o amor se esvaziou e o rancor não deixa. O perdão não é uma obrigação, é uma escolha livre que tem seu próprio tempo. Se você sente falta da “boa vida” anterior, talvez o amor já não seja suficiente, talvez esteja retrocedendo. Pergunte-se o que anda fazendo seu ex; nunca se sabe... b. Saudades inesperadas Passado o furor dos primeiros meses de convivência, um vírus do qual não temos muitos dados pode fazer o coração funcionar em retrocesso. De repente, quando tudo parece andar bem, uma indiscreta nostalgia começa a incomodar. No início, você a afasta e pensa que é natural, mas com o passar das semanas percebe que vai se tornando mais penetrante. E se pergunta: “Como pode ser? Saudade de quê? Será que me enganei?”. Começa a revisar o passado e a fazer balanços de todo tipo. E se por esses dias encontrar seu ex por acaso, vai reparar em coisas que antes passavam totalmente despercebidas: deixou o cabelo crescer, e fica muito bem, essa cor lhe cai bem... enfim, análise perigosa. Essa “redescoberta” é fatal para quem está tentando iniciar um novo relacionamento. Para piorar, esse tipo de saudade age assim: maximiza o bom do ex e minimiza as supostas vantagens do amantetornado oficial. Você vai se encontrar em uma confusão imensa. Eu chamo isso de dor inversa ou reversa: você está pensando em deixar o amante para voltar com o ex! Morrer de amor em sentido contrário e a destempo. Pode ser que ninguém acredite em você, visto que há apenas alguns meses fez o contrário. Não quero dizer com isso que toda saudade do passado afetivo tem necessariamente um desenlace similar; porém, um número considerável de “nostálgicos arrependidos” puxa o freio de emergência e volta para casa com o rabo entre as pernas. Seja pela razão que for, busca do conforto ou reaparição repentina do amor anterior, o arrependimento ronda com muita frequência os amantes que se juntam. Se esse for seu caso, a melhor maneira de enfrentá-lo é sendo honesto consigo mesmo. Acha que vai fazer papel ridículo? E daí? Pior seria passar a vida amaldiçoando o medo que o impediu de terminar com um amante que não pôde ou não soube ser oficial. c. Meu ex precisa de mim! Não é pouco comum que certas pessoas mantenham um laço compensatório com o ex e acreditem, consciente ou inconscientemente, que ainda devem cuidar dele. As causas? Dó (“Não suporto vê-lo sofrer”), responsabilidade moral (“É meu dever como ex”) e especialmente culpa (“Preciso compensar o mal que lhe causei”). Qualquer uma das três deixa o companheiro atual de cabelo em pé. O que mais causa confusão são as depressões ou os ataques de ansiedade do ex. Conheci casos que entre o Prozac e o Rivotril, entre o apoio moral e as boas ações, Cupido flechou pela segunda vez os envolvidos. De novo! Pois sim, embora pareça impossível, podemos nos apaixonar duas vezes pela mesma pessoa; e um dos motivos dessa curiosa reincidência é o bom samaritano que temos dentro de nós. Um homem me dizia indignado: “Estou farto! Cada vez que o ex dela fica doente, minha mulher corre para ajudá-lo! E, para piorar, o cara passa a vida doente! Será que ela ainda sente algo por ele? Prefiro que o outro venha morar conosco; pelo menos, posso vigiá-lo!”. Obviamente, não é uma boa ideia um triângulo amoroso embaixo do mesmo teto, e menos ainda quando um dos vértices é justamente o ex da sua mulher. Essas relações de ajuda costumam funcionar como um círculo vicioso. No caso de meu paciente, cada vez que o ex-marido de sua mulher ligava (porque sentia uma “dor no peito”), ela entrava em pânico e o socorria imediatamente; o que reforçava a suposta doença coronária dele. Quando lhe perguntei por que agia desse modo, ela respondeu: “Ele é o pai dos meus filhos!”. E seu filho mais novo tinha 23 anos... A pergunta é óbvia: por que os filhos não corriam para “salvá-lo”? Às vezes, os ex se transformam em uma espécie de apêndice: não cumprem nenhuma função, são incômodos e deviam ser extirpados para se ter paz na vida. 5. Perguntas que podem lhe servir de guia antes de tomar a decisão Amante ou não amante? Pergunte-se por que precisa de um amante. A experiência mostra que se você não resolver primeiro o que tem com seu companheiro, para o bem ou para o mal, nunca terá clareza emocional acerca de seu amante nem de seu companheiro. A infidelidade é um paliativo, mas não conduz a nada de bom nem resolve os problemas de fundo. Há algum risco de ficar sem amante e sem marido ou esposa? Sim, há. O risco de ir morar com seu ou sua amante prematuramente é que não consiga lidar nem com a convivência nem com a separação. Ficar sozinho pode ser uma boa opção, mas isso deve ser uma decisão desejada e pensada, e não consequência de ações impulsivas. Cabeça fria, mesmo que o coração esteja quente. Você conhece seu amante o suficiente para saber se são compatíveis para uma vida a dois? Some as horas que esteve com ele. Pense nas situações que compartilharam, e se a convencem. Pergunte-se se precisa de mais tempo. Se a única coisa que você tem são lindas histórias de motel, então não tem nada. O que você sente é amor, ou foi vítima de um furacão de grau 10 que o leva e traz como um fantoche? Antes de pôr sal na sobremesa, antes de descer do céu e aterrissar as paixões, analise as razões que o mantêm junto a ele ou ela. Pense seriamente, examine os atrativos, as sensações, os desejos, e depois esfrie o ímpeto e a relação um pouco, procure compreender o que o levou a isso e o que o mantém ali. Tente ser realista. É possível construir algo positivo de um ponto que gerou tanta dor aos outros? Alguns dizem que não, que nada de bom deriva de machucar os outros, nem que seja em nome do amor. O amor não justifica tudo. Segundo aqueles que sustentam esse ponto de vista, o amor se desvirtua quando precisa do engano e da mentira. É só para você pensar: não sei se têm razão, mas vale a pena analisar. Você é capaz de confiar na fidelidade daquele que foi amante e agora divide a vida com você? Você é daquelas que pensa que se ele fez uma vez, mesmo que com você, pode fazer de novo? Ciúmes de que o amante tenha uma amante? De que o ex-amante (agora companheiro oficial) repita o amor proibido com outra pessoa? Na verdade, passar de cúmplice a vítima é um paradoxo que angustia e tira o sono de qualquer um. Princípio 3 Evite o sacrifício irracional: não se anule para que seu companheiro seja feliz Onde há amor, não há sacrifício. J. Benavente Todo excesso, assim como toda renúncia, traz seu castigo. O. Wilde Amor por contraste: ser um pouco mais ignorante para que o outro se sinta mais inteligente; passar despercebido para que seu amado se destaque; fracassar para que os erros do outro se diluam; enfear-se para que o outro pareça melhor. Sacrifício do pior e do mais autodestrutivo: ser menos para que a pessoa amada se sinta mais. Existe maior estupidez “amorosa”? Embora sempre fique evidente, uma infinidade de casais sofre dessa compensação negativa. Você mesmo poderia estar, exatamente agora, envolvido nesse jogo doentio de tentar nivelar disparidades por baixo. Uma jovem mulher, bem-sucedida em sua profissão, dizia-me: “Como vou vencer se ele não é bem-sucedido? Eu me sentiria muito mal. Prefiro me igualar e equilibrar a questão. Não posso me afastar tanto porque ele sofreria demais, e até poderia perdê-lo”. A conclusão é terrível: vamos fracassar juntos para que o amor se aguente! E nem sequer se trata de aceitar nossos defeitos ou incapacidades, mas de ser mais insuficiente que o outro. Um paciente aplicava essa “solidariedade negativa” da seguinte maneira: “Procuro não ver muito minha família. Ela está muito sozinha, seus pais morreram e só lhe resta um tio vivo. Já eu tenho oito irmãos e nos gostamos muito. Eu sei que quando me reúno com todos eles minha mulher fica com saudades da família que já não tem e fica triste, de modo que acho que é melhor me afastar um pouco dos meus”. Essa lógica é difícil de aceitar: já que você não tem família, eu assumo sua orfandade como minha e ficamos nós dois sozinhos! Quando lhe perguntei por que não usava a solução inversa e aproximava a esposa de sua família em vez de afastá-la (“adoção”, em vez de exclusão), ele respondeu que nunca havia pensado nisso. Às vezes, o deficit e as incapacidades da pessoa amada nos doem tanto que queremos eliminar o sofrimento a qualquer custo e “equilibrar” a questão, sofrendo mais que o outro. Afundar para que a pessoa amada flutue, em vez de lhe jogar um salva-vidas: “Relaxe, meu amor: sou (ou estou) pior que você!”. Mal a dois, consolo de apaixonados (como se as incapacidades ou as inseguranças da pessoa que amamos desaparecessem magicamente com o sacrifício). Castigar a si próprio ou anular-se para levantar a moral do outro é matar o amor em nome do amor. Esse é o paradoxo. Por causa do desespero e do desamor, alguns cortam os pulsos, outros se entregam à bebida ou às drogas e adotam uma vida licenciosa e sem controle. Para todos esses casos há protocolos e ajudas especiais que provêm de diversos serviços de saúde ou profissionais especialmente treinados. Mas a autoaniquilação psicológica por afeto passa despercebida, visto que não é tão dramática, e quem a executa o faz no mais cuidadoso anonimato (além do mais,nem sempre se tem consciência disso). É preciso alertar a população sobre sua existência, porque qualquer um pode acabar caindo na armadilha da autodestruição do eu. “SÓ ME SACRIFICO UM POUCO” Não é possível destruir-se “só um pouco” e que esse fato não afete a pessoa em sua totalidade. Ser “um pouco” ruim, de qualquer maneira o faz ruim; ser “um pouco” assassino o faz assassino. Não é possível deter ou inibir o impulso de nossos talentos naturais ou de nossas virtudes sem que notemos e nos impactemos. Anular-se e bloquear o desenvolvimento das próprias forças, mesmo que seja por amor, vai gerar uma desorganização interna que nosso cérebro avaliará como contraproducente e negativa. Uma “pitada” de infecção alterará todo nosso corpo; e “um pouco” de depressão nos fará andar em marcha lenta pela vida. O problema não é quantitativo, e sim qualitativo. Uma estudante de medicina que mostrava melhor rendimento acadêmico que seu namorado decidiu “baixar suas notas para se solidarizar com ele”. Ambos faziam o mesmo curso, mas ele ia bem mal, ao passo que ela era considerada uma das melhores alunas. Sua tática era a seguinte: se em uma prova sabia as respostas certas, respondia só algumas. Quando seu namorado comentava que ele havia cometido muitos erros, ela o animava: “Eu também não fui bem, não se preocupe, isso é normal!”, e lhe mostrava suas notas. Pouco tempo depois, os professores chamaram sua atenção por conta de sua “inexplicável” queda no rendimento e sugeriram que voltasse a seu nível, mas ela não apresentou mudança alguma. Continuava obstinada em sua estratégia e tudo fazia pensar que o “amor” por seu namorado podia mais que o amor pela medicina. Um dia qualquer, durante uma consulta, eu lhe perguntei por que não mudava a maneira de encarar o problema e tentava convencer seu namorado a pedir uma assessoria profissional na área vocacional. Ela disse que isso seria terrível para a autoestima do rapaz. Minha resposta foi a seguinte: “Não seria muito ‘mais terrível’ continuar indo de fracasso em fracasso? Sei que você não suporta vê-lo sofrer, mas talvez esteja lhe fazendo um mal ainda pior. Além do mais, nem todo o mundo nasceu para ser médico! Se realmente o ama, queira seu bem em vez de tapar ou mascarar os problemas”. Por fim, seu namorado consultou um orientador profissional e, em poucos meses, abandonou o curso de medicina e começou a estudar administração, e se destacou de imediato. Minha paciente se livrou da carga do sacrifício irracional e voltou a ser a boa estudante que era, mas precisou de várias sessões para mudar seu estilo afetivo. Não digo para não ajudar seu companheiro; o que afirmo é que a anulação de suas próprias capacidades por amor é insustentável para quem defende o bem-estar do ser humano. Ajudar a pessoa a quem se ama sem se destruir é ajudar duas vezes. OS BONS CASAIS SE COMPENSAM PELO POSITIVO Um homem, após ouvir atentamente o princípio de compensação negativa e suas implicações, comentou: “Acabo de perceber que sempre foi assim. Por exemplo, quando estamos em uma reunião social, procuro parecer menos ‘culto’ do que sou para que ela não se sinta mal”. Casais díspares que se equilibram no subsolo, ortopedia de um amor mal configurado ou deformado. Não é preciso cortar uma perna para equilibrar a coxeadura do outro; é melhor procurar um apoio ou uma prótese, pelo menos se o interesse for seguir em frente. Além do mais, realmente seu companheiro se incomoda que você se destaque e que suas qualidades sejam evidentes? Você acha isso? Quando perguntei à esposa de meu paciente se ela se sentia incomodada por não ter o “nível cultural” de seu marido, ela disse que não, que, pelo contrário, sentia-se orgulhosa de suas capacidades e achava que cada um tinha suas forças e fraquezas. O problema não era dela. O caminho do crescimento afetivo é buscar o positivo no outro e o positivo em si mesmo, para ajustar-se nesses pontos: estar atento ao negativo para modificá-lo e estar atento ao positivo para consolidá-lo. Sem distorções nem mentiras, com a dor e o tempo que forem necessários. Então, o processo de ajuste será dinâmico, realista e honesto, e talvez até divertido. O DESCARAMENTO: “ANULE-SE E EU ME SENTIREI BEM” Às vezes, a tentativa de equilibrar a relação chega por outro caminho mais escabroso e cruel. A pessoa que possui o deficit ofusca o companheiro para poder superar sua problemática, e este assume a coisa como um “sacrifício de amor”. O descaramento se torna evidente em frases como esta: “Seu sucesso me deprime, não é justo comigo!”. E a resposta do sacrificado serviçal: “Vou tentar não me destacar tanto, para que você não se sinta mal”. Explorador e explorado associados. Um homem que se sentia pouco atraente e fracassado economicamente temia que algum homem bonito e bem-sucedido pudesse conquistar sua nova esposa. O método maligno e quase delirante que havia desenvolvido para blindar a relação era induzi-la a comer o dia todo para que engordasse e não ficasse tão atraente; também tentava fazer que se vestisse mal. Enquanto ele fazia todo o possível para “ofuscar” sua esposa, ela nem sequer suspeitava que a intenção de seu “amado” era afastar qualquer candidato que lhe parecesse ameaçador. A motivação do homem era desconcertante: “Se ela fosse menos atraente, eu viveria mais tranquilo”. Quando lhe perguntei por que não confiava mais em sua mulher e em si mesmo, em vez de criar tamanho enredo, ele respondeu: “Sou um homem desconfiado por natureza. Não tenho coragem de jogar ácido no rosto dela, mas já pensei nisso. De modo que procurei algo mais suave que não lhe faça tanto mal: enfeá-la só um pouco”. COMO SAIR DO JOGO PERVERSO DE APARENTAR “SER MENOS” PARA QUE O OUTRO SE “SINTA MAIS” 1. O amor saudável não exige autocastigo Nas boas relações ambos crescem, mesmo que doa e haja custos a pagar. Se acredita que deve se incapacitar para que seu companheiro seja feliz, você tem um problema grave: interpretou mal o amor. Não me refiro a doar um rim para salvar a pessoa amada de uma doença grave, mas a evitar que o outro enfrente sua própria deficiência psicológica para que a supere. É paradoxal que seu sacrifício impeça o outro de melhorar e seguir em frente: por fazer o bem, faz o mal. Além do mais, como superar um problema se você o esconde? O amor nada tem a ver com carregar uma cruz nas costas. Se mostrar seu lado bom gera insegurança à pessoa que você ama, ela é quem deve mudar e não você: ela deve alcançar você, e não você diminuir a marcha. Muitas pessoas, influenciadas por uma subcultura que justifica e exalta o sacrifício como o motor principal das relações a dois, acham que o amor exige perder parte da própria identidade. O lema é tenebroso: “Se você amar de verdade, deixará de ser você”. Mas não é verdade; em um bom relacionamento não se perde nada vital. Você não tem que se despersonalizar para amar e ser amado. Evidentemente, haverá pactos e ajustes de ambos os lados, o que não significa negociar nossos valores e princípios. O que nos define como pessoa é intocável, não importa quanto amor esteja em jogo e quanto desamor você preveja. 2. Todos os casais são díspares Não seria mais lógico que seu companheiro se sentisse orgulhoso por você ser quem é, em vez de se comparar e se deprimir por ser “menos”? Simplesmente seja você mesmo, com suas capacidades e desacertos, sem esconder nem disfarçar nada, e se o outro se assustar ou se angustiar, talvez você esteja com a pessoa errada. Amor “invejoso” não é amor. Alguns defendem o mito da “igualdade total” e acreditam que um casal só vai funcionar se a coincidência entre seus membros for irrevogável. A realidade nos ensina que não existem clones afetivos. As “desigualdades” são inevitáveis e, às vezes, até interessantes e/ou pedagógicas (podemos aprender com o outro e manter vivo o poder de nos impressionarmos), mas, se formos inseguros e temerosos, cada disparidade e cada contraste se transformará em um martírio. Um paciente me dizia: “Ela tem mais dinheiro que eu e as pessoas a admiram maisque a mim; ela tem uma grande personalidade e é emocionalmente mais equilibrada. Não suporto isso, quero alguém que se pareça mais comigo, alguém mais pobre, menos bem-sucedida, mais odiada, mais insegura. Preciso de alguém tão imperfeito quanto eu”. O homem se comparava no que não se deve comparar, e a maneira de solucionar a defasagem era procurar uma companheira que se encaixasse melhor a suas “incapacidades”. Ele tinha razão? A polêmica fica aberta. 3. É melhor um sofrimento útil que uma calma falsa Não existe crescimento sem dor, sem desconforto e sem algum mal. Crescer implica um desajuste do que existe atualmente, para reorganizar-se em uma nova estrutura. Se seu companheiro deseja superar a si mesmo de verdade, vai se apegar a suas capacidades, em vez de rejeitá-las; pedirá a você que lhe estenda uma mão e agradecerá a ajuda. É melhor que sua força o faça forte, e não que a fraqueza dele o enfraqueça. Há um sofrimento inútil e muito daninho que surge quando se tenta equilibrar negativamente a relação, e há um sofrimento útil, associado a uma mudança real e profunda da pessoa que tem problemas. E se você me dissesse que prefere mentir a vê-lo sofrer, eu responderia que é muito mais saudável uma verdade desagradável que uma mentira piedosa. 4. Procure ajuda profissional para ambos Nas relações que se solidarizam por baixo, o problema é de ambos: um por falta e outro por excesso, mas é dos dois. Você quer ajudar a pessoa amada sem se aniquilar? Para isso é preciso ser valente e entrar na dança. A ajuda psicológica pode chegar à conclusão de que já é tarde e não há nada a fazer, ou que você ainda está a tempo de nivelar saudável e positivamente sua vida afetiva. Seja como for, e isso é o importante, em ambos os casos você estará vendo as coisas como são, sem autoenganos, o que é imprescindível para gerar uma transformação significativa. Uma terapia adequada lhe mostrará o que você deve mudar e o que seu companheiro deve modificar. Ir juntos para cima, e não para baixo. 5. Você realmente quer ser medíocre? Acredito firmemente que temos uma missão a cumprir, e parte desse destino se relaciona com nossas forças e capacidades. A possibilidade de otimizar as virtudes que possuímos é parte de nossa autorrealização. Para os gregos, a virtude é uma força ou disposição que permite desenvolver o que somos da melhor maneira possível. Apropriar-se e conciliar-se com o próprio ser enquanto usamos o melhor de cada um: puro crescimento. Porém, se “por amor” decido bloquear minhas capacidades e “viver menos”, estou tirando sentido e força de minha existência. Cada vez que você se anula, que desabilita seu “eu”, priva-se de avançar emocional e psicologicamente, e quando esse bloqueio se mantém, você acaba sem saber quem é e para onde vai. Confunde o ser com o “dever ser” ou com o ter. Perde-se em sua própria limitação e se habitua a isso: acostuma-se a ser medíocre, podendo não o ser. Se você tem a possibilidade de ser uma pessoa brilhante, empreendedora, inteligente, gentil ou eficiente, dentre muitas outras competências possíveis, precisa sê-lo; essa é sua missão e o que nasce de você. De modo que, quando decide se acoplar à incapacidade de seu companheiro, corre dois riscos: violentar-se internamente e resignar-se a seu novo papel. Um amor que obriga a involuir é um castigo. Princípio 4 Nem com você nem sem você? Corra para o mais longe possível! Nem com você nem sem você, minhas penas têm remédio. Com você porque me mata, sem você porque morro. Anônimo A dúvida no amor acaba por fazer duvidar de tudo. Amiel Conflito insuportável, desgastante. Faz tempo que você tenta se acomodar a uma contradição que o envolve e revolve, sobe e desce: “Sim, mas não”. “Não, mas sim.” Um amor inconcluso, que não é capaz de definir a si mesmo, pode durar séculos: quando você está ao meu lado fico entediado, canso-me, fico estressado, e quando está longe, não posso viver sem você, sinto sua falta, preciso de você. Que pesadelo! Como lidar com tamanho curto-circuito e não ser eletrocutado? Tamanha contradição, sem se asfixiar? Essa dúvida metódica sobre o que se sente, que nem sempre se expressa claramente, funciona como a areia movediça: quanto mais força fazemos para sair, mais ela nos suga. As pessoas vítimas desse amor fragmentado e indefinido, sob o efeito do desespero, tentam resolver a indecisão do outro investigando as causas, dando razões, mudando sua maneira de ser, enfim, fazendo e desfazendo a confusão, sem muito resultado. A razão do fracasso é que os indivíduos que sofrem do “nem com você nem sem você” se imobilizam e ficam girando em círculos, às vezes por anos. Na proximidade, a baixa tolerância à frustração ou a exigência irracional as impedem de ficar bem com a pessoa que supostamente amam, e, na distância, os ataques de saudade minimizam o que antes lhes parecia insuportável. Um paciente tinha uma namorada que morava em outra cidade e a via a cada dez ou quinze dias. Como uma síndrome, cada encontro acabava em uma guerra campal e cada despedida em um adeus torturante, repleto de perdões e boas intenções. Em uma sessão, perguntei-lhe por que não acabava de uma vez por todas com tamanha tortura, e ele respondeu: “Eu sei que não é normal. Quando estou com ela, não consigo me conter e a infernizo. Nesses momentos, acho que preciso de alguém melhor e estou disposto a terminar, mas não consigo. Quando nos despedimos, eu fico muito triste, os poucos momentos agradáveis que tivemos pesam muito. Depois, nos ligamos vinte vezes ao dia, dizemos que nos amamos, que não podemos viver um sem o outro, e é tudo assim, como um carma que se repete sem parar”. A conclusão de seu relato foi, no mínimo, surpreendente: meu paciente não amava sua namorada, mas sim sua ausência! Apaixonado por um fantasma que se portava como um demônio. Insisti novamente: “Por que não acaba com tudo isso e se dá a oportunidade de encontrar alguém a quem possa amar 24 horas por dia, sem tantas flutuações?”. Sua resposta: “Sinto que nunca dei uma oportunidade à relação”. Minha pergunta: “São quatro anos, não foi suficiente?”. O homem ficou mais dois anos nesse inferno, até que conheceu uma pessoa na cidade onde morava; porém, o “nem com você nem sem você” em pouco tempo voltou a se manifestar. O problema não era a distância, mas sua maneira distorcida de amar. Cada vez que se apaixonava, dois esquemas surgiam e interagiam: o medo do compromisso e o apego sexual. O “quero” e “não quero” oscilavam entre o pânico de estabelecer uma relação estável e o desejo desmedido. Obviamente, ele não tinha consciência do que acontecia, e só conseguiu nivelar-se após vários meses de terapia. Você está em uma situação parecida? Já esteve? Se não, não cante vitória, porque qualquer um pode se envolver em uma relação dessas. Os indecisos afetivos andam pela rua, rondam seu espaço e, infelizmente, é possível que mais de um se interesse por você. A premissa que você deve incorporar a sua mente e que depois vai operar como um fator de imunidade é a seguinte: Se alguém tem dúvidas se me ama, não me ama. Curto e grosso. Não me venham com conversa mole: os apaixonados de verdade têm que ser detidos, não empurrados. Gibran afirmava em sua sabedoria: “O amor e a dúvida jamais se darão bem”. E é verdade: se ele se cansa com sua presença, para que você volta? Se ela tem tantas dúvidas neuróticas, por que não se afasta até resolvê-las? Um jovem mandou o seguinte e-mail a sua namorada “nem com você nem sem você”, que o estava enlouquecendo: Sua indecisão, felizmente, não me contagiou. Eu sei o que quero, quero você. Mas a quero disposta, segura, comprometida, feliz por eu estar em sua vida, em vez de me tratando como se eu fosse um problema. Como você não sabe o que quer, trate de se definir; eu, enquanto isso, vou sair com outra. Quando estiver pronta, ligue-me e vamos ver se estou disponível ou não. Não quero mais saber de suas dúvidas; é você quem as deve resolver, não eu. Imediatamente, como era de se esperar, a garota ativou o “nem sem você”, eentão suplicou, chamou, jurou e prometeu fazer o que fosse, mas, felizmente, o jovem não deu o braço a torcer. Seu argumento era simples: “Não acredito”. Um mês depois, ela continuava com sua dúvida metódica (não havia mudado nem um fio de cabelo), enquanto ele já estava envolvido com uma mulher menos insegura e mais coerente. ATÉ ONDE AGUENTAR A INDECISÃO DO OUTRO Dezenas de milhares de pessoas em todo o mundo são vítimas das inseguranças afetivas de seus parceiros, que, além de causar uma imensa dor, exigem “paciência”. De que paciência estão falando? Em uma relação saudável e equilibrada os dois andam em ritmos similares, não na mesma velocidade, mas pela mesma estrada. Lembro que um amigo começou um relacionamento com uma mulher que não tinha certeza de nada, e menos ainda de gostar dele. O homem sofria tanto que, em certa ocasião, decidi confrontá-lo e lhe perguntei o que estava esperando para terminar com ela. Sua resposta foi: “Estou esperando que seu coração se defina”. O que ele esperava mesmo era um transplante. A indecisão da garota me fez lembrar de uma caricatura do humorista Quino, que tinha Sócrates como personagem. No primeiro quadrinho, o filósofo, com um olhar transcendente, afirmava: “Só sei que nada sei”; e, no segundo, sua expressão de sábio mudava radicalmente e, coçando a cabeça, dizia a si mesmo: “E às vezes nem tenho certeza”. Pode haver maior confusão? Há muita gente assim, especialmente nos assuntos afetivos: “Só sei que não sei se gosto de você e, às vezes, nem tenho certeza”. Quanto aguentar? Nem um segundo. Se alguém hesita e fica no “nem com você nem sem você”, a solução deve ser rápida e firme. Isso pode gerar angústia na pessoa instável e é possível que ela arremeta rasgando as vestes e prometendo um amor “constante”. Outra oportunidade? Muitos dão. Mas, se quiser manter um comportamento saudável, siga este conselho: assim que o “nem com você nem sem você” surgir, nem que seja um pouquinho, afaste- se! A ARMADILHA DO DESAFIO PESSOAL Uma mulher atraente e inteligente havia entrado em um jogo perverso por causa de seu ego. Choviam pretendentes e ela poderia ter escolhido qualquer um, porém, teve o azar de encontrar um homem “nem com você nem sem você”, que resistiu a cair rendido a seus pés: um dia queria e no outro não sabia o que fazer. A mulher, acostumada a sempre ganhar, sentiu-se afetada em sua autoestima e fez o que ninguém deveria fazer em uma situação como essa: transformou a conquista em um desafio pessoal. Desafios no amor não são aconselháveis; é como brincar com uma granada de mão sem pino de segurança. Quando as pessoas me dizem que seu relacionamento se transformou em um “desafio”, sei que a relação não é boa. Minha paciente ficou três anos presa entre o ódio e a alegria esporádica de um amor totalmente indeciso. É a síndrome do “caçador caçado”: de tanto insistir e tentar resolver o que não tinha solução, ela acabou apaixonada até a medula. Três anos mergulhada de cabeça, sem mais objetivo na vida que convencer o outro a amá-la em tempo integral! Aristófanes, o grande comediante grego, afirmava: “Se não o amam como você quer que o amem, que importa que o amem?”. Em outras palavras: se não sabem que o amam, de que serve esse amor? ALGUMAS CAUSAS DO “NEM COM VOCÊ NEM SEM VOCÊ” Não pretendo que você se transforme em psicólogo amador e trate de resgatar seu desorientado companheiro do mal que padece. O que proponho é uma compreensão maior do problema e que você possa identificar mais claramente a confusão afetiva em que está. Embora haja muitas causas possíveis, vou apontar as quatro razões mais comuns pelas quais as pessoas acabam em um amor ambíguo e contraditório. 1. Apego sexual O apego sexual, quando é a única coisa que existe, gera uma forma de atração/repulsão. A lógica subjacente é mais ou menos como se segue: “Quando você não está comigo, o desejo me leva a procurá-lo a qualquer custo, mas depois, uma vez saciado, quero sair de perto de você, porque sua simples presença me irrita”. Como é fácil confundir amor com sexo! Além do fato de que o orgasmo parece ter qualidades místicas, uma das principais razões da confusão é que o desejo sexual une fortemente as pessoas. Não há apaixonado verdadeiro que não deseje “devorar” a pessoa amada. Um homem me dizia: “Por que quero me casar? Eu a amo! Preciso dela! Eu a desejo!”. A semântica do amor e a do sexo: sentimento, posse/apego e sexualidade. Como duvidar, se há de tudo? Mas se a única coisa que os une é a vontade sexual, quando Eros vai embora ou acaba, o outro se torna insuportável. O apego sexual a uma pessoa é igual a qualquer vício quanto a suas consequências e características. Não falo da dependência “do sexo pelo sexo”, e sim da dependência sexual por alguém, um corpo, uma anatomia específica, uma relação que se encaixa às mil maravilhas e se torna extremamente prazerosa. Em certa ocasião, perguntei a uma mulher o que mais a atraía em seu amante. A resposta durou vários minutos: “Seu cheiro... Meu Deus, o cheiro dele! Tem cheiro de amêndoas torradas. E os braços, a forma dos bíceps... têm uma curva... As veias da testa quando ri. Os ombros, no momento da ejaculação se inclinam para trás e eu o vejo como um egípcio, como um faraó. Sinto como se seu pênis me pertencesse e me completasse a cada orgasmo... Posso ter uma infinidade deles, e quantos mais tenho, mais continuo tendo. E outra coisa, o calor de seu corpo nunca muda, é sempre morno. Antes eu nunca havia reparado nas nádegas de um homem, meu marido quase não tem, mas agora, se olho para as dele, tão firmes, tão redondas, me excitam, e quando caminho a seu lado quero mordê-las. É amor demais!”. Será que é amor? Eu duvido; é mais “paixão” por um corpo e pelo prazer que lhe proporciona: dependência sexual à enésima potência. De que sentia saudade nele quando não estava a seu lado? Do fisiológico, as curvas das formas, a pele, a temperatura corporal, as veias, os músculos, enfim, a apetência da qual não era capaz de prescindir. Eu me pergunto: que faria essa mulher se seu amante caísse em desgraça e sofresse um acidente que o incapacitasse? Amaria do mesmo modo esse homem com uns 10 kg a mais e um abdômen avantajado? Depois de ouvir sua descrição “sensorial”, perguntei-lhe que outro atributo admirava naquele homem, e ela apontou duas qualidades, para ela determinantes: “Vai à academia e levanta peso”. 2. A intolerância à solidão Assim como o apego sexual pode ser uma motivação para estar com alguém, a solidão mal administrada leva as pessoas a buscar companhia, coisa que nada tem a ver com o amor. O “parceiro” é um paliativo para superar uma vida solitária e, com o tempo, o alívio que essa companhia gera vai se transformando em apego: preciso de sua presença, não suporto ver meu mundo vazio. Lembro a declaração de amor que um homem fez a uma mulher em minha presença: “Você preenche um vazio”. Amor estomacal? Amor compensatório? Um amor que “preenche um vazio” é um amor suspeito, funcional demais para o meu gosto. Também ouvi algumas vezes: “Você me completa”, como se o outro fosse uma prótese. No caso que estou comentando, o “vazio” de que o suposto apaixonado falava não era nada senão a solidão em que se encontrava. A mensagem subjacente poderia ter sido expressa em outros termos: “Há muito lugar disponível em minha vida, espaço demais para uma só pessoa, por favor, ocupe-o!”. O conflito que a intolerância à solidão gera é complexo. A dinâmica oculta é mais ou menos assim: “Quando estou sem você, a solidão me angustia e preciso de sua companhia; mas quando você está em meu habitat, começo a sentir falta de minha solidão”. Impossível! A hipersensibilidade à solidão costuma aprontar conosco a fim de evitá-la. Alguns até se casam. 3. Medo do compromisso afetivo Aqueles que temem assumir compromissos afetivos administram um claro “nem tão perto nem tão longe” emocional: “Gosto de você, adoro estar com você, mas se você entrar um milímetro no território de minha reserva pessoal e tentar abalar minha solteirice/autonomia,eu me afastarei imediatamente”. O problema é que, ao não ser explícito, seus “quase parceiros” vivem em uma angústia permanente. Se você está em uma relação desse tipo, não lhe resta muito a fazer além de rezar ou partir. Enquanto o indivíduo “anticompromisso” estiver bem com você e a coisa ficar no superficial, tudo será redondinho. A problemática se tornará evidente quando o “estar bem” tocar alguma fibra afetiva dele e ele começar a sentir que poderia se apaixonar por você e, consequentemente, perder sua liberdade. Assim sendo, ele se afastará ou desaparecerá em um piscar de olhos. Não quero dizer com isso que ficar solteiro seja um erro; ao contrário, acho que é um projeto de vida válido e respeitável como qualquer outro. Porém, os solteiros “por convicção” amam sua solidão, e quando permitem a alguém entrar em seu espaço vital, não o fazem com medo nem com tabus. 4. O sentimento de culpa Há pessoas que já não amam o companheiro, mas a culpa as impede de se separar. Um paciente explicava o seguinte a sua esposa: “Quando você está longe, sei que sofre, e então eu me aproximo por dó, mas, quando estamos juntos, tenho raiva por você não ser corajosa o suficiente para me deixar ir”. A esposa se limitava a pedir outra oportunidade, como se não houvesse escutado o que o homem estava lhe dizendo. A mensagem era dolorosamente clara: ele não a amava, tinha dó dela. Porém, meu paciente partia de uma falácia: culpava sua mulher por não o deixar ir, quando, na realidade, o que o mantinha amarrado era “a dor de vê-la sofrer”. Estar com alguém para diminuir a culpa é um contrassenso que acaba acentuando o sofrimento do outro. É preferível ser abandonado honestamente que ter alguém que fique com você por caridade e compaixão. Você não é uma obra beneficente. COMO ENFRENTAR A AMBIGUIDADE AFETIVA E NÃO ENTRAR NO JOGO DE UMA ESPERA INÚTIL 1. Não aceite condescendente e passivamente a rejeição Por que devemos aceitar resignadamente a raiva e a rejeição do outro? Uma “mini-inapetência” esporádica é natural e ocorre praticamente em todas as relações, mas o desinteresse reiterado é inaceitável. Sabemos quando gostam de nós de verdade, quando nos amam ou estão fartos de nós. Sabemos, e não precisamos de um mundo de especialistas para que nos mostrem o evidente. Um homem ofuscado pela paixão, maltratado psicologicamente por sua esposa, disse-me certa vez: “O senhor está exagerando, doutor! Ela não me odeia o tempo todo”. Seria aceitável se nos torturassem só um pouco? Em certas questões, os pontos médios são inadmissíveis. Não desculpe o desamor do outro; não diga: “Vai passar; hoje ele está no pico negativo e amanhã vai voltar a me amar”. Minha recomendação psicológica é simples: quando seu companheiro “nem com você nem sem você” entrar na fase de antipatia e/ou desprezo, afaste-se; não fique ali para receber o castigo da rejeição. Retire-se, isole-se, abra um precedente mostrando que você não está disposto a continuar nessas condições. Essa retirada estratégica é conhecida como time out (dar um tempo): sair da situação que foge a seu controle para analisá-la à distância. Se fizer isso e se afastar, seu comportamento falará por você, mesmo que não diga uma palavra: não aceito suas oscilações afetivas, você está ou não está comigo. Suas dúvidas não são negociáveis para mim. 2. Não dance no compasso do outro Este ponto é consequência do anterior, uma reafirmação do “chega”. Se decidir seriamente sair do jogo, vai notar que, pouco a pouco, suas emoções começarão a depender de você. Esse processo é conhecido como autorregulação. A atitude dubitativa do outro o afetará menos. Quando se é forte intimamente, o que significa cuidar de si mesmo (“Eu mando em mim”), o externo nos balança, mas não nos derruba. Lembro o caso de um paciente que dançava ao compasso do estado de ânimo de sua namorada, que não havia conseguido esquecer o namorado anterior. Durante os períodos em que ela não recordava o ex, era amorosa e doce, mas, quando a memória do namorado se ativava, comportava-se de uma maneira distante e estúpida. O curioso é que o homem havia desenvolvido uma perfeita sincronia com esses estados emocionais, de tal modo que passava da depressão à euforia segundo se sentisse amado ou não pela namorada (as pessoas próximas podiam inferir se ela estava “nostálgica” só de vê-lo). Depois de alguns meses de trabalho terapêutico intenso e difícil, ele conseguiu criar um ritmo emocional mais independente. Seus pensamentos afirmativos eram: “Eu mando em mim”. “Não vou deixar que suas emoções negativas me afetem.” “Vou pensar menos nela.” “Minha vida não pode girar em função de seu estado de ânimo”; enfim, começou uma luta interna, um plano de resistência afetivo para não se deixar arrastar pela incerteza e dúvidas que ela manifestava. Finalmente, após várias tentativas frustradas de salvar a relação, a mulher voltou com seu ex-namorado e meu paciente, que já estava preparado para o pior e fortalecido psicologicamente, não sentiu tanto o golpe e conseguiu sair do buraco sem trauma. 3. Não se envolva em explicações e discussões inúteis Estar com alguém “nem com você nem sem você” pode nos levar a acreditar que, recorrendo a razões lógicas e bem sustentadas, o outro se dará conta da causa de suas dúvidas e mudará positivamente. Não se iluda, o problema não se deve à falta de informação. E ainda é muito provável que suas tentativas “esclarecedoras” acabem criando um clima de oposição negativa de maior envergadura. Não se envolva em uma disputa inútil, nem pretenda resolver o problema com demonstrações e argumentos pedagógicos: a causa costuma ser muito mais profunda. Além do mais: o que você vai explicar? Que um amor normal não tem tantas oscilações e dúvidas? Por acaso ele não sabe? Certas coisas não se pedem. O que você pensaria de alguém que dissesse: “Meu companheiro me maltrata; já me mandou para o hospital duas vezes. Acho que falta comunicação entre nós”. Fale menos e aja mais! Ou me amam como mereço, ou é preferível que não me amem. 4. Não confunda os papéis: você é companheiro, não terapeuta Algumas vítimas do “nem com você nem sem você” assumem o papel de terapeutas e começam a tecer teorias de todo tipo (a maioria sem fundamento e forçada) para explicar a indecisão do outro. Na realidade, é menos doloroso pensar que alguma “doença” explica o fato do que pensar que simplesmente não nos amam pelo que somos. Esses “bons samaritanos” leem sobre o tema, fazem cursos e consultam todo tipo de especialista para resolver o enigma que os consome: “Meu companheiro realmente me ama?”. Preferimos ser terapeutas a vítimas. Uma mulher que estava havia mais de dois anos nesse “chove não molha” me dizia: “Coitado, ele não está bem. Não quer ajuda, mas eu gostaria de saber como tirá-lo do poço em que se encontra”. Essa paciente teve três crises depressivas e um episódio de pânico por conta da relação tortuosa que mantinha com seu ambivalente namorado, e preferia ajudar a ele, não a si! Enquanto isso, o homem parecia não estar nem aí com o que estava acontecendo e se negava a fazer tratamento, mesmo sabendo do dano que estava provocando. Não era motivo suficiente para mandá-lo pastar? Primeiro, preocupe-se com seus problemas. Tente curar-se de tanto desgaste e depois, se ainda for necessário, decida o que fazer: permanecer na toca do lobo ou se libertar. Pelo menos vai agir por convicção. Grave isso a fogo, mesmo que não lhe agrade: o conflito de seu companheiro em relação a como e quanto a ama ele é quem deve resolver, e não você. 5. Não permita que adocem seus ouvidos É tão fácil convencer uma pessoa apaixonada! Isso não significa que não devamos acreditar na pessoa amada, mas que às vezes é melhor manter uma boa dose de ceticismo. O critério de confiabilidade poderia ser assim: até onde os atos da pessoa amada, no passado, respaldaram suas promessas e compromissos? O passado a condena ou a endossa. Se lhe prometeram diversas vezes a mesma coisa e não cumpriram, reserve-se o benefício da dúvida ou não acredite. Pense: sefoi uma pessoa incoerente e mentirosa antes, por que não haveria de sê-lo agora? Por acaso sofreu alguma mutação desconhecida? O amor precisa ser visto, não só ouvido. Eu sei que podemos nos viciar em belas palavras, mas o melhor antídoto contra os cantos da sereia é não perder de vista o contexto do relacionamento todo. As palavras o vento leva, e o que resta, no fim das contas, são as ações. Medite nesta premissa: De que vale que me adocem os ouvidos se me amargam a vida? Princípio 5 O poder afetivo está na mão daquele que precisa menos do outro O apego corrompe. J. Krishnamurti Essa necessidade de esquecer seu eu na carne estranha é o que o homem chama nobremente de necessidade de amar. C. Baudelaire Na maioria dos casais, camuflada ou abertamente, estabelece-se uma luta pelo poder, que pode ser entendida como uma confrontação de fraquezas (qual dos dois é mais sensível à dor de uma ruptura) ou forças (qual dos dois aguentaria mais a perda do outro). Suposições e antecipações catastróficas, cotejadas e medidas no dia a dia que definem o afetivamente dominante. Hierarquias são desagradáveis, mas também costumam ser inevitáveis, e embora quase sempre sonhemos com um amor horizontal e democrático, a dependência emocional turva as coisas e gera o que poderíamos chamar de um “poder afetivo” que responde a uma pergunta fundamental: quem precisa menos do outro? Krishnamurti afirmava que o apego corrompe, o que equivale a dizer que o que a pessoa apegada mais teme é perder a pessoa que representa para ela uma fonte de segurança/prazer. Nos dependentes, a retenção e manutenção do companheiro prevalece, acima de qualquer princípio. Dizer que “sem ele não sou nada!” ou “sem ela minha vida não faz sentido!” é pôr a própria existência em mãos alheias. Se acho que minha vida acaba quando você não está comigo, então farei qualquer coisa para retê-lo e não terei limites. Estamos falando de vida e de morte, porque, no apego, a pessoa amada é o ar que se respira. O vício afetivo é uma doença, não importa como a queiramos apresentar, não importa a embalagem: o apego é a incapacidade de renunciar ao outro quando é o que se deve fazer. E quando se deve fazê-lo? No mínimo, em três situações: quando já não nos amam, quando nossa autorrealização se vê bloqueada ou nossos princípios se veem afetados. Neste livro você encontrará mais razões válidas de renúncia emocional. Então, a luta pelo “poder afetivo” é a disputa gerada a partir do apego ou do desapego em cada relação. Se seu amor depende de você menos do que você depende dele, pelo menos em tese, ele poderia prescindir de você mais facilmente que você poderia prescindir dele. Essa “desvantagem” será processada consciente ou inconscientemente por sua mente, que imediatamente atuará na defensiva, porque se sentirá em uma posição de inferioridade emocional, mesmo que a pessoa amada não queira se aproveitar disso. Talvez o desconforto não seja evidente em condições normais, mas é muito provável que se ative quando houver brigas ou discussões e o apegado sinta disparar a confirmação do pior dos seus temores: “Ele vai me deixar!”. Por sua vez, aqueles que ostentam o poder afetivo não costumam se lamentar demais. Mais ainda: vi casos de apego em que essa diferença é considerada um privilégio ou um seguro contra o possível desamor do outro. Certas pessoas emocionalmente inseguras adoram estar com alguém extremamente dependente. Uma mulher me dizia: “O que mais gosto nele é que não pode viver sem mim, porque eu dou sentido à vida dele. Por isso, não deixo que leia seus livros sobre o apego”. Em outras palavras: amo a patologia dele porque sei que graças a ela nunca será capaz de me deixar, faça eu o que fizer. Não há nada mais prazeroso para uma pessoa que sofre de apego que estar com outra mais apegada. É o slogan de dependência afetiva que circula sigilosamente entre os apaixonados que são incapazes de viver um sem o outro: “Apegados do mundo, uni-vos!”. DESAPEGAR-SE É AMAR MAIS E SOFRER MENOS Há relações em que um pratica a autonomia extrema e o outro o máximo amor vicioso. Ambos sofrem, um porque se sente asfixiado e o outro porque se sente prestes a ser abandonado. Mas, independente desses casos extremos, os casais costumam se acomodar, tentando fazer que a diferença entre eles seja a mais suportável possível. O método de calibração? Desapegar-se um pouco e distribuir melhor o poder. Não é uma revolução nem uma façanha pela liberdade total e definitiva, mas uma forma gentil de compartilhar e negociar os respectivos vícios. Quando falo de “desapego” não me refiro a deixar de amar ou despreocupar-se irresponsavelmente em relação ao outro; falo de amar de uma forma mais tranquila e livre. Ou seja, amar com independência (poder fazer um uso adequado do tempo pessoal), de uma maneira não possessiva (ninguém pertence a ninguém) e sem a necessidade imperiosa do outro (lidar com a solidão e fazer atividades sem a presença da pessoa amada). Se você é capaz de decidir sobre seu tempo, não se sentir “de ninguém” e andar sozinho pela vida, então está no terreno do amor maduro. Não sou idealista nisso e sei que nunca vi um Buda namorando; portanto, sem chegar ao extremo de buscar a “impermanência afetiva” ou de perceber no próprio companheiro “todas as pessoas do mundo” (amor cósmico, amor sem motivo), proponho algo menos universal e mais localizado: ser “similarmente dependentes” e ir trabalhando juntos um desapego personalizado. De acordo com cada estilo afetivo particular, livrar-se um pouco, ou até onde for possível, da apetência amorosa que nos tira o sono, mesmo que seja aos poucos. CONSEQUÊNCIAS DA SUBORDINAÇÃO AFETIVA: ANSIEDADE ANTECIPATÓRIA (“ELA VAI ME DEIXAR”) E SUBMISSÃO (“TENHO MEDO DE DIZER ‘NÃO’”) Se você está por baixo de seu companheiro no jogo do poder afetivo, é provável que surjam dois sintomas claros de insegurança e medo: Primeiro, buscar a certeza de que nunca será abandonado, o que é impossível. E como a probabilidade de perder o outro nunca é zero, o medo do abandono estará constantemente ativado. Chamamos a isso de ansiedade antecipatória: antecipar-se à “catástrofe” do desamor ou da solidão imposta. As pessoas que são mais apegadas que seu companheiro costumam se tornar especialistas em ler emoções e gestos do outro, esperando encontrar indicadores de desamor. Um paciente me dizia com angústia: “Ela é muito tranquila, nunca demonstra ciúmes nem me pergunta aonde vou nem com quem. Tem tanta confiança em mim que me faz duvidar. Ou será uma estratégia para que eu não pergunte?”. A paranoia sempre se infiltra quando a incerteza está presente. Não havia nada de errado com a esposa de meu paciente; ela simplesmente era uma mulher que praticava uma relação independente: podia ser ela mesma, estando acompanhada. Nossa cultura associou o amor ao sofrimento, de tal modo que, se a relação não gera nenhum tipo de “dor amorosa”, o amor é insuficiente ou doente. Que grande estupidez, e quantos pensam assim! O compromisso afetivo não se instaura com base na invasão mútua, como promulgam os viciados afetivos. Amar também não é uma declaração de guerra ou uma apropriação indébita do ser alheio: embora doa reconhecer, seu companheiro não lhe pertence, não é “seu”. É doentio pensar que a pessoa que amamos nos deixará porque não é tão viciada como nós. Se o que você pretende para ficar tranquila ou tranquilo é ver seu companheiro de cama, com olheiras, deprimido e com medo de que você o deixe, então os fios estão cruzados: não é ele que deve se tornar apegado a você, e sim você que deve se desapegar dele no sentido que descrevi antes. Segundo, utilizar a obediência cega como estratégia para não deixar seu companheiro partir. Conforme disse antes, o efeito será paradoxal: o recurso de dizer sim a tudo e subjugar-se acaba cansando o outro! Se seu companheiro é mais desapegado que você, não há por que render- lhe homenagens. O mecanismo de submissão funciona como uma espiral descendente: cada vez que você se submete, se apega mais. Nãodigo que deve começar uma guerra de desamor e afastamento, mas que deve pensar e agir de um jeito mais livre, sem ficar acorrentado a ninguém. A escravidão afetiva não é uma ficção ou um fato fora de moda. Está vigente e destrói uma infinidade de indivíduos em todo o mundo: ocorre quando o medo de perder o outro nos faz esquecer de nós mesmos. OS QUE SE APROVEITAM DO PODER AFETIVO Não falta quem tente tirar proveito da “independência afetiva”. A estratégia consiste em recordar constantemente ao outro (ao mais dependente) que poderia abrir mão a qualquer momento da relação. Uma espada de Dâmocles apontando diretamente ao coração: “Se não fizer o que eu quero e ‘se comportar mal’, vai me perder”. Ou, em outra versão: “Sou afetivamente mais forte que você, e por isso tenho mais direitos”. Nietzsche dizia que o poder é o afrodisíaco mais forte, e se o misturarmos a um pouco de amor, o efeito se torna exponencial. Existe o abuso do poder afetivo. Por que falo de abuso? Porque aquele que exerce o poder tira vantagem da fraqueza emocional do outro, de sua incapacidade de se afastar afetivamente se fosse necessário. Em certa ocasião, uma mulher que tinha por companheiro um homem extremamente rico comentava como o manipulava: “O amor que ele sente por mim o mantém preso, e eu me limito a mantê-lo no fio da navalha: ‘Se não andar direito, eu o deixo’. Ele sabe que pode me perder a qualquer momento e, por isso, diz sim a tudo que eu peço. Ele ama mais a mim que eu a ele, ou, para dizer a verdade, não sei se o amo”. Pobre homem! E ele jurava que seu relacionamento era excelente! Se você é vítima de uma relação na qual o outro abusa do poder afetivo que você lhe outorga, não só o outro o ama muito menos do que você o ama (o que já é preocupante), como também tira partido da diferença. Faz sentido continuar nessa? Não. Para salvar a relação, seria preciso reestruturar a dinâmica básica do amor e estabelecer um vínculo sem exploradores nem explorados, sem vencidos nem vencedores. Em minha experiência, quando aquele que está por baixo dá um “golpe de estado”, pelas razões que for (saco cheio, desamor, presença de outra pessoa, desapego saudável), e as relações de poder se invertem, aquele que fazia o papel de amo adota a posição de serviçal em um piscar de olhos. Você alimenta aquele que pode acabar com você. Tire o poder dele: desapegue-se! ALGUMAS SUGESTÕES PARA TRABALHAR O DESAPEGO E NIVELAR O PODER AFETIVO NA RELAÇÃO 1. Assuma a liberdade e exerça-a Em meu consultório, vi muitas pessoas que temem ser livres, porque a autonomia implica assumir uma responsabilidade essencial perante si: ser o único e o último juiz da própria conduta. Pode ser aterrador se não se processar adequadamente e não se aceitar que o verdadeiro controle é interno. Para exercer o direito à liberdade, é preciso ser valente e atrevido, soltar-se, decidir por si mesmo e arriscar, e para obter tudo isso é necessária uma mente que não esteja amarrada a nenhum lastro psicológico ou emocional. Também não estou dizendo que podemos fazer tudo que nos der na telha e esquecer dos outros, mas que devemos canalizar nossos desejos para tentar realizá-los e repudiar qualquer tipo de sujeição, venha de onde vier. Se amar seu companheiro implica perder a liberdade básica de sentir e pensar por si mesmo, você está dominado ou preso. Comece a tomar aquelas decisões que nascem de sua alma, a expor suas opiniões sem medo e a expressar seus sentimentos sem esperar consensos nem aprovação. Trata-se de manter intacto seu núcleo, ir e vir sem permissões nem justificativas, ser você a cada momento e a cada pulsação. 2. Treine a solidão Um paciente me disse certa vez: “Para que vou ao cinema, se ela não vai comigo?”, e ele adorava cinema. Também me lembro de uma mulher que, cada vez que seu marido viajava, largava mão de seu asseio pessoal ao máximo (na realidade, nem tomava banho) e ficava trancada vendo televisão o dia todo. Não estava deprimida, era apenas vítima de um pensamento dependente: “Para que, se ele não está aqui?”. Absurdo, como qualquer patologia: para que me vestir, para que me cuidar, para que me relacionar com as pessoas, enfim, para que viver se o homem ou a mulher (meu homem ou minha mulher) não está presente? Aqueles que são mais ou menos independentes sabem que se manter arrumado, limpo e bem-vestido é para agradar a si. Narcisismo? Não. É mais autoexibicionismo: sentir-se atraente sem acordos nem consensos externos, ser espectador de si mesmo. Quando estamos em um relacionamento, acostumamo-nos a fazer a maioria das coisas a dois, e isso penetra nosso repertório comportamental até que se transforma em hábito, e, quando o outro não está presente, sentimo-nos estranhos e deslocados, como se as coisas perdessem o sentido de uma hora para outra. Não se define a solidão por subtração de matéria (estar “sem” ela ou “sem” ele), mas por uma multiplicação do “eu” que se recria na autodescoberta. E não estou falando de retiros espirituais ou de ir para o topo de uma montanha desolada (mas não nego que, às vezes, pode ser útil); o que sugiro é apropriar-se da solidão, tocá-la, ensaiá-la e mergulhar nela, perder o medo dela e transformá-la em uma experiência alegre e frutífera. A solidão inteligente não é desolação ou isolamento; é uma escolha racional na qual os outros continuam disponíveis para o encontro: seu companheiro não é um cão-guia (embora às vezes possa latir). Convide a si mesmo para sair e converse de “você para você” ou de “eu para eu”. Sua mente sente sua falta. E embora você faça todo o possível para justificar a presença da pessoa que ama a cada instante de sua vida, terá que reconhecer, mesmo que à força, que um companheiro às vezes sobra e incomoda, mesmo quando amado. Há momentos que são exclusivamente seus e que não foram projetados nem pensados para ninguém mais. 3. Você não tem por que contar tudo a seu amor Verborragia amorosa gera confusão, porque, de tanto falar, em algum momento acabamos dizendo algo que não devíamos e que é incompreensível para o outro. Comunicação compulsiva não é uma virtude. Uma paciente, em um acesso de sinceridade desproporcional, confessou a seu companheiro que sempre havia sentido certa atração pelo marido de sua irmã, mas “que era só atração, nada mais”. Isso foi como cravar-lhe uma faca nas costas. Ele transformou um pecado venial (imaginativo, brincalhão, inofensivo) em um mortal, porque, a partir desse momento, o marido cortou relações para sempre com seu concunhado, por considerá-lo altamente ameaçador para a estabilidade familiar. Por que ela contou? Uns dias antes, estivera em uma conferência e um especialista afirmou que em uma boa vida a dois não deve haver segredos, e ela assumiu isso de uma maneira radical. Minha opinião é que há segredos, sim, e muitos. Em uma relação afetiva inteligente, ambos sabem que há certos “arquivos secretos”, pequenos ou grandes, que não devem ser abertos sem a autorização do titular. Nesse assunto da informação é melhor aplicar certo recato e não soltar à queima-roupa no ouvido do outro tudo o que pensamos e sentimos. Não falo de infidelidade, mas de opiniões, gostos ou pequenas fantasias que não são para compartilhar, que são próprias e intransferíveis. Há muitos anos, uma tia minha contou a seu marido que vivia “apaixonada” por um ator daquela época chamado Ugo Tognazzi. Meu tio entrou em pânico e começou a ter pesadelos com o homem. Como competir com um adversário desses? Minha tia o tranquilizou com o seguinte argumento: “Apaixonada, apaixonada mesmo, não. É como uma inquietude”. Sabe-se lá como meu tio processou essa informação, mas a questão se resolveu rapidamente e tudo voltou ao normal. Porém, quando o assunto surgia, de vez em quando, em alguma conversa, eu percebia nela certa malícia que me fazia pensar que continuava imaginariamente com seu enredo cinematográfico. Amar não requer expor cada elemento de nossa personalidade, nem que nossa mente funcione em conexão direta com a da pessoa amada. Repito: certas coisas são exclusivamentenossas, pertencem-nos por direito próprio e fazem parte de nosso ser, como nossos ossos e nossa pele. Não se sinta culpado por não contar tudo; isso mantém viva sua identidade, suas crenças, seus sonhos, suas metas, suas dúvidas... suas. Anote esta premissa e tenha-a à mão, pois o manterá alerta: Ser uno com a pessoa que amamos é deixar de ser nós mesmos. 4. Explore situações novas Se quiser se desapegar, terá que trazer à luz o espírito aventureiro que há em você. Até o mais covarde ou o mais recatado o possui, é só questão de apertar a tecla certa. Infelizmente, embora nasçamos com o instinto de explorar o mundo, a aprendizagem social está organizada para deter esse impulso: muita investigação vivencial assusta, vai que nos libertamos demais... As pessoas que não sofrem de apego são exploradoras de coração e de ação, são curiosas e observadoras: voyeurs da vida. Não me refiro às indagações irresponsáveis como experimentar drogas e bobagens similares, mas ao dom de maravilhar-se ou decepcionar-se diante do existente, investigar por investigar, ver o que é, xeretar, como fazem os gatos. As pessoas apegadas a seu companheiro perdem esse comportamento, sacrificam-no “por amor” e acreditam que a exploração é potencialmente perigosa porque sentem que seu companheiro poderia se afastar delas. Por isso, adoram a rotina e a defendem com unhas e dentes: o medo de perder o outro ofusca a paixão pela descoberta, aquieta o impulso viajante, amansa-o. Se você realmente quer mudar, comece por coisas simples. Procure quebrar seus costumes cotidianos: pegue atalhos, aprenda a ser mais nômade. Se explorar seu entorno de outro jeito, com despreocupação e frescor, vai encontrar uma infinidade de coisas que não havia degustado ou sentido antes. Estou falando de tirar a poeira da capacidade de se surpreender. Você não precisa de seu companheiro para fazer isso! As pessoas dependentes acabam em uma espécie de torpor existencial de tanto pensar e agir em função de sua “cara-metade”. O “eu” adormece nos automatismos. Às vezes você não tem a impressão de que acabou o assunto de conversa com seu companheiro? E como não haveria de acabar se nunca acontece nada diferente! Um paciente me dizia: “O que o senhor me pede, doutor, é perigoso. Se eu explorar, estarei dando a ela autorização para explorar também”. Eu respondi: “E qual é o problema? Vocês vão ter muito mais coisas para conversar, muito mais que compartilhar, serão pessoas vivas e despertas”. Mais tarde, ele me confessou: “Só me sinto realmente em paz quando ela está dormindo ou em casa”. Ciúmes patrocinados pela dependência: um coquetel mortal. Independência não é desamor, é renovação, é ser uno apesar do amor e acima dele. 5. Negue-se a ser inútil Este ponto é consequência do anterior. Os dependentes vão assimilando a inutilidade como parte da vida e com o tempo vão perdendo a pouca autonomia que lhes resta. De novo o medo, sempre o medo. “Faça isso para mim” ou “Ajude-me com aquilo”, quando na realidade poderiam resolver ou fazer tudo sem ajuda. Lembro o caso de uma paciente que conseguiu sua emancipação graças a um infarto do marido. Durante o mês que durou a recuperação dele no hospital, ela teve que cuidar de absolutamente tudo. O pesadelo de qualquer dependente emocional (enfrentar a vida sem seu guarda-costas afetivo) havia se tornado realidade para ela. Sua inutilidade ficou em evidência rapidamente. Por exemplo: ela não sabia conectar a tevê aos canais a cabo; uma vez, passou uma manhã inteira tentando fazer uma transação bancária (nem sequer sabia qual era o banco!); não tinha ideia de quanto custava a gasolina nem como se enchia o tanque de seu carro; desconhecia todos os números de telefone importantes; não sabia como fazer uma ligação para fora do país, e assim sucessivamente. Muito a seu pesar, ficou “viúva” por um mês e teve que resolver todo tipo de problemas, alguns bastante complexos. Quando seu marido voltou do hospital, encontrou uma mulher mais segura e menos acomodada, como se houvesse passado por uma terapia de mudança extrema em tempo recorde. Em uma consulta posterior, chegamos à conclusão de que não devia esperar outro infarto para continuar melhorando, e que a autoeficácia (“Eu sou capaz”) ia se transformar em uma motivação de vida. 6. Identifique as fontes do apego O apego afetivo se infiltra por qualquer lugar e se manifesta de diversas maneiras: a baixa autoestima, a necessidade de ter sucesso, a busca da segurança ou o fato de sentir-se fraco, dentre outras. É importante conhecer as origens de sua dependência, como nasceu, como evoluiu e o que a mantém. Procure apoios, ajuda, grupos ou leituras. Nossa cultura confundiu o vício afetivo com o “grande amor” e deixou que se transformasse em pandemia. Diante de casos assim, não me canso de ouvir frases que fazem da dependência quase uma virtude: “Ela o ama tanto!”. “Ele faria qualquer coisa por ela!” “Amam-se tanto que não podem viver um sem o outro!” A dependência afetiva é um mal; lute contra ela: delimite-a, reconheça-a e enfrente-a. Talvez você não consiga fazer isso sem uma ajuda profissional, mas o mais importante é saber que tem cura e que você poderá amar sem sofrer. Princípio 6 Nem sempre um prego tira o outro: às vezes, os dois ficam dentro Todo remédio violento está impregnado de um novo mal. F. Bacon Nada é mais contrário à cura que trocar frequentemente de remédio. Sêneca Certos amores permanecem mal curados, mesmo que o outro tenha se afastado para sempre e nem sequer pense em nós. Nos primeiros meses da perda, a memória emocional está à flor da pele e é quando mais se sente a ausência: sensações, cheiros, vozes, imagens fazem que uma forma de presença se manifeste com uma nitidez impressionante. Amores incrustados: recordações resistentes, tara ou vírus? Uma mulher me dizia, aos prantos: “Ele está cravado em mim, faz parte do meu ser, não sei como arrancá-lo de mim!”. Não queria ou não podia? Às vezes, o inconsciente nos trai, e para conservar a ilusão de que continuamos afetivamente vivos recordamos várias vezes o outro em nossa fantasia. O homem em questão era um sujeito muito agressivo, e ela o havia deixado em um ato de coragem e dignidade, e ainda assim, apesar dos maus-tratos recebidos, as reminiscências afetivas não a deixavam em paz: seu ex doía nela como um espinho cravado e infeccionado. Alguns sentimentos, independente de como tenha sido a relação, ficam “atolados” em algum lugar da mente e são muito difíceis de extirpar. Se você já sofreu esse “estancamento emocional”, sabe a que estou me referindo: a saudade se transforma em uma carga que amarga a vida e nos impede de funcionar livremente. É um freio para a vida. Não me refiro às pessoas que faleceram (esse é outro tipo de luto), mas ao ex que ainda se move e respira, mesmo que longe de nós. Como enterrar em vida a pessoa que ainda amamos? Alguém me dizia: “Se minha ex-esposa houvesse falecido, ela não seria de ninguém e eu aceitaria melhor e mais fácil sua perda, porque não haveria nenhuma possibilidade de recuperá-la. Mas sabendo que está viva e com outro amor, eu me nego a aceitar. Ela é minha”. O homem afirmava categoricamente: eu me nego. O que significa: não estou com vontade ou não a quero esquecer. A compreensão desse ponto não é nada fácil para os sofredores: nos amores mal curados, a mente é que deve “enterrar afetivamente” o ex, e não o serviço funerário. Oscar Wilde afirmava que a paixão nos faz pensar em círculos. Por isso a sensação de sentirmo-nos presos em um passado que não passa. Você briga contra as recordações, trata de distraí-las, vai ao psicólogo, aos videntes, aos bruxos da moda, mas as imagens do ex chegam como cascata. Você tem a impressão de que arrancaram uma parte de você, falta alguma coisa, mas como acontece com algumas pessoas amputadas que continuam sentindo a extremidade, embora já não a tenham, seu cérebro processa a pessoa ausente como se ainda estivesse a seu lado. Esse fenômeno tormentoso em medicina é conhecido como “membro fantasma”. O amorpreso dentro de nós gera um efeito similar: a pessoa amada não está mais, mas é sentida como se estivesse. E não é um braço ou uma perna o que perdemos, é uma pessoa inteira! No desespero de uma dor que parece não ter fim, que supera nossas capacidades de autocontrole e cresce dia a dia, muitas pessoas não são capazes de esperar a “absorção interna” (luto) e recorrem a um procedimento de duvidosa efetividade, cuja premissa afirma que “um prego tira outro”. Com essa ideia na cabeça, lançam-se ao mundo da negociação afetiva em busca de um “prego” maior, mais forte e mais poderoso que, ao entrar, desloque e retire o anterior e o sofrimento associado. Infelizmente, a questão não é tão simples como empurrar e tirar, porque o mundo emocional tem umas leis que se afastam da mecânica clássica. A informação afetiva que subsiste do ex não vai sair à força: terá que ser assimilada e diluída pelo organismo em uma transformação que requer tempo. O amor que sentimos por alguém é fruto de uma história, uma narrativa que se escreve no cotidiano e, nesse sentido, a pessoa a quem amamos e já não está conosco tem um “histórico sentimental” e uma referência afetiva que não podemos descartar automaticamente, como se sofrêssemos uma amnésia repentina. Nos amores gravados a fogo, nem sempre um prego tira outro. O processo mais saudável é o inverso: primeiro é preciso tirar o velho e, então, se tiver sorte, encontrará uma pessoa que valha a pena e que possa entrar em sua vida tranquilamente e sem o estorvo do anterior. Isso não significa que, em determinadas ocasiões, a perspectiva de um amor não ajude a elaborar o luto (se já estivermos em uma etapa avançada) ou a curar feridas de um amor que foi torturante; algumas pessoas entram em nossa vida como se fossem um bálsamo. O que afirmo é que, se você ainda morre por causa de seu relacionamento anterior, começar um novo vínculo com a esperança de que ocorra uma substituição automática é um enorme erro. Esta recomendação de Monso De Cercilla y Zúñiga pode lhe servir de guia: “Cuidado para que a emenda não fique pior que o soneto”. POR QUE CORREMOS PARA UM NOVO RELACIONAMENTO? O senso comum nos diz: “A melhor cura para um velho amor é abrir as portas a um novo”. O problema, como já disse, é que, se o primeiro ainda está vivo e navegando pela memória consciente ou inconsciente, a aquisição recente não fará nem cócegas, porque não terá nem onde nem como brotar. Precipitar-se ao procurar um substituto para tentar apaziguar o coração ferido não costuma ser a solução. Por que fazemos isso, então? Três causas: necessidade de ser amado, baixa tolerância à dor afetiva ou revanchismo. Vejamos cada uma detalhadamente. 1. A necessidade de ser amado Aqueles que precisam ser amados para que sua vida tenha sentido não só são incapazes de renunciar ao amor quando se deve fazer isso, como também buscam-no a qualquer custo. Uma mocinha me dizia, angustiada: “O que vou fazer? Estou há seis meses sozinha!”. O que fazer? Nada, ora. Viver mesmo assim, aproveitar a vida. Quem disse que o amor é a única forma de autorrealização? A ansiedade de ter alguém leva milhões de pessoas a se agarrar ao primeiro que atravessa seu caminho, sem mais intenção que acalmar o desespero. Tagore dizia que o amor é como as borboletas: se as perseguimos desesperadamente, afastam-se, mas, se ficamos quietos, pousam em nós. Não podemos sair procurando alguém como se fôssemos comprar um produto qualquer no supermercado. Não nos apaixonamos nem desapaixonamos à la carte. O que podemos fazer é criar as condições para que o amor se manifeste. Preparação para o amor: organizar-se internamente, serenar e deixar o coração entreaberto. Se conseguir criar essas condições, quando menos esperar, vai tropeçar com alguém que valha a pena. Um ponto adicional para levar em conta: as pessoas necessitadas de amor não passam despercebidas. Não sei se são os feromônios que liberam, o jeito de olhar ou os gestos, mas se comportam como se tivessem um cartaz na testa dizendo: “Preciso de alguém urgente”. Esse é o paradoxo: se você mostra a vontade de arrumar alguém ou de ser amado, a maioria não se aproxima, porque ninguém quer compromissos apressados (a não ser que você encontre outra pessoa igualmente ansiosa e decidam unir patologias). Tagore tinha razão. 2. A baixa tolerância à dor afetiva Alguns não suportam a dor porque quimicamente não são capazes e outros simplesmente são mimados e se desesperam diante da primeira ameaça de mal-estar. A covardia também pode não ser generalizada e localizar-se em eventos ou situações muito idiossincrásicas. Por exemplo, certas pessoas aguentam estoicamente as investidas da vida como se fossem guerreiras, mas, quando se trata do amor e suas dores, tornam-se especialmente doentes e melindrosas. A suscetibilidade aqui não se refere à necessidade de ser amado, e sim à intolerância à dor afetiva. No primeiro caso, o que se busca é um “novo amor” que acalme a apetência; no segundo, um “amor analgésico”. A hipersensibilidade ao sofrimento afetivo (por exemplo, desamor, discussões com o companheiro, ciúmes, apego ou medo de perder o outro) pode tomar qualquer rumo. Em meu consultório, vi homens e mulheres de destaque em diversos campos, inteligentes e bem-sucedidos, encolhidos como crianças indefesas diante da dor de um amor impossível. As pessoas que são muito vulneráveis ao sofrimento amoroso tratam de arranjar rapidamente alguém que alivie o tormento de um amor mal curado. Um homem comentava comigo: “Encontrei uma mulher maravilhosa; quando estou com ela, paro de pensar em minha ex”. O que mais o atraía nela era o poder narcótico que exercia sobre ele. 3. O revanchismo: quando um prego afunda mais o outro O impulso de buscar um substituto emocional não é motivado somente pela necessidade de ser amado e o alívio da aversão; também pode se dar por revanchismo e desforra. Uma adaptação afetiva da lei do talião, do “olho por olho, dente por dente”: “Quero que você sofra o que eu sofri (ou estou sofrendo)”. Pura imaturidade. No amor, é preciso saber perder em vez de se envolver em disputas vingativas e reparações morais. Aqui, o novo prego faz parte de uma independência e superação falsas, porque, se a libertação fosse verdadeira, o ex não importaria tanto e não haveria nenhuma dívida a saldar nem nada a provar. O modus operandi é assim: você corre a se enroscar em uma nova relação para que ele ou ela, segundo você, morra de raiva e ciúmes. Você quer lhe dar uma lição e lhe mostrar que ele não é insubstituível. Analise com calma: você realmente acredita que essa estratégia vai mudar os sentimentos do outro e ele vai correr para seus braços? E mais uma dúvida: por que acha que ele ainda sente algo por você? Os despeitados fazem projeção e pensam que com o ex acontece o mesmo que com eles. Porém, os dados mostram que, na maioria dos casos, o outro nem mostra interesse. Lembre-se desta máxima: Se o outro o considera parte do passado, então, que ele não seja parte de seu presente. Cada vez que você tenta chamar a atenção do velho amor para se vingar o envolve de novo em sua vida e fere sua autoestima. O velho prego penetra mais. “JÁ O DEIXEI; E AGORA, COMO O ESQUEÇO?” Não é possível “esquecer” apenas porque se quer um amor que ainda nos assola, mas podemos lutar contra as consequências negativas de algumas recordações e diminuir sua força (no fim do Princípio 1, dou algumas sugestões para contrabalançar essa memória negativa). Mas o que mais me interessa destacar aqui é o fato de que não existe uma amnésia autoinduzida que nos livre do sofrimento. Teimar em “querer” esquecer alguém quase sempre gera o efeito contrário. Se disser a si mesmo que não quer pensar em um urso branco, não vai conseguir tirar o urso da cabeça (tente, para se convencer disso). Esse resultado paradoxal também é observado em questões amorosas. Se disser: “Não quero pensar em tal pessoa! Não vou pensar, não vou pensar!”, a recordação vai se ativar automaticamente e impregnar sua memória. Em certa ocasião, um pacienteme fez uma demonstração ao vivo do método que utilizava para esquecer aquela que havia sido “a mulher de sua vida”. Fechava os olhos, adotava uma postura corporal parecida a uma do ioga e começava a dizer, como se fosse um mantra: “Ela não existe, não existe, não existe...”. Pouco a pouco, ia erguendo o tom de voz e acabava socando o chão enquanto continuava repetindo aos gritos que ela não existia. Como é evidente, depois de um exercício desses, o homem ficava exausto e pensando nela mais que nunca. A meta de “esquecer o outro” como se este nunca houvesse existido, além de irracional, é ingênua, a não ser que você decida dar uma martelada na própria cabeça e causar uma lesão cerebral, coisa que não aconselho. A realidade é outra: aceitar a perda de uma maneira saudável não implica causar amnésia em relação a seu ex, e sim recordá-lo sem dor ou com uma dor suportável e esclarecedora. O processo que permite resolver a perda de maneira inteligente e saudável é conhecido como elaboração do luto. AS QUATRO FASES DO LUTO Em situações de perda afetiva, como a morte de um parente querido ou a ruptura de uma relação significativa, a natureza nos imprime uma resignação obrigatória para que não desperdicemos nossa energia vital esperando o impossível. Como se nos dissesse: “Não insista, ele se foi!”. O luto é a maneira natural de nos despojarmos de toda esperança para aceitar os fatos e fazer que o princípio da realidade se imponha sobre o princípio do prazer. O luto não elaborado, mal processado ou interrompido, ocorre quando a pessoa resiste a entrar na saudável desesperança (“Não há nada a fazer”) e apela para uma espécie de mumificação psicológica da pessoa ausente. O famoso filme Psicose, de Alfred Hitchcock, é uma demonstração dramática e terrível de uma perda não resolvida – no caso, a morte da mãe – por parte de um jovem psicologicamente doente (Norman Bates). O luto é uma resposta não aprendida, normal e útil, que possui no mínimo quatro fases. Calcula-se que pode durar de seis meses a um ano, dependendo da cultura e da história anterior da pessoa. Na primeira etapa, há um embotamento da sensibilidade, a pessoa se sente aturdida e incapaz de entender o que aconteceu (pode durar horas ou semanas). Porém, algumas pessoas ficam imobilizadas nesse ponto; o aturdimento se transforma em insensibilidade e reagem como se nada houvesse acontecido, quando na realidade estão arrasadas por dentro. Aos olhos de qualquer observador desprevenido, tudo parece normal e até se costuma elogiar a força daquele que sofre a perda, mas o estancamento vai acumulando sentimentos e pensamentos de todo tipo, até que um dia essa energia represada explode em forma de crise tardia. A aparente lucidez não era mais que um mecanismo de defesa. Essa suspensão do processamento emocional é denominada ausência de aflição consciente, e, quando ocorre, requer ajuda profissional. A segunda etapa se caracteriza pelo anseio e pela busca: a pessoa não aceita que a perda seja permanente. Aqui podem aparecer manifestações como pranto, angústia, insônia, pensamentos obsessivos, sensações de presença da pessoa ausente (e, obviamente, visitas a videntes e bruxos), cólera e raiva, enfim, nessa etapa tenta-se restabelecer inutilmente o vínculo que se quebrou. É uma etapa de ansiedade e desespero, na qual o indivíduo não quer se dar por vencido (pode durar de dois a três meses). Em uma terceira etapa, apesar da dor, o indivíduo aceita a perda. Vê as coisas como são e obviamente a tristeza aumenta (pode durar entre dois e três meses). Quando a pessoa fica estagnada nessa etapa surge a depressão, e, com ela, um transtorno conhecido como luto crônico ou transtorno de adaptação, que requer ajuda profissional. Na quarta etapa, começa a fase de reorganização, na qual a pessoa começa a abrir mão, de maneira definitiva, da esperança, e recupera a iniciativa e a vontade de viver. Aqui começam a estruturar-se os novos papéis. É quando os velhos presentes, as cartas de amor e as canções são definitivamente deixados de lado. Os terapeutas que acompanham esse processo estão muito atentos para que seus pacientes não fiquem estancados em nenhuma dessas fases, nem as pulem. Se aplicarmos os passos apontados à perda afetiva que os tortura, será de se esperar que: (a) fiquem aturdidos, (b) tentem recuperar a pessoa amada, (c) beirem a depressão, e (d) finalmente reorganizem sua vida. O amor mal curado será reabsorvido pelo organismo de maneira natural e sem marteladas. A pergunta mais frequente que me fazem sobre esse assunto é: e se surgir alguém quando meu luto ainda não se houver completado? Resumo a resposta: “Não há pressa. Se conhecer alguém que valha a pena, vá devagar; você não tem que se envolver emocionalmente de um dia para o outro. Uma boa companhia, um suporte afetivo pode ajudá-lo a fluir melhor e sofrer menos, mas se precipitar as coisas, seja porque precisa ser amado, porque não suporta a dor da perda ou simplesmente porque quer se vingar, terá dois pregos em vez de um, ou o mesmo de sempre, mas mais fundo. Chegará o momento em que recordará seu ex sem tanta dor, e então estará pronto para amar novamente, muito melhor e em paz”. A ESTRATÉGIA DE TARZAN Não soltar a antiga relação enquanto não houver começado uma nova. É uma versão avantajada e antecipada de “um prego tira o outro”: não soltar um cipó enquanto o próximo não estiver bem agarrado. Substituir o prego antes que fique encalacrado no lugar. Aqui não há luto: salta-se de um vínculo a outro constantemente, para não cair. A estratégia de Tarzan é cruel: um dia qualquer, sem aviso nem anestesia, você percebe que seu companheiro tem outra pessoa e não há tempo para mais nada. Chega o aviso de “falecimento” e nem cinzas restam. A surpresa é imensa: “Foi tudo tão rápido... Nunca tive indícios de que havia algo errado, ela nunca me disse nada...”. As perguntas são muitas e insistentes: “Quando, onde e como isso aconteceu? Por que comigo?”. E não há quem responda: seu ex já está longe. Se o histórico da pessoa que você ama o faz suspeitar que utiliza essa estratégia, antecipe-se. Como? Solte-se primeiro e não se deixe usar! Vejamos uma descrição do funcionamento. Um homem Tarzan, de quarenta anos, comentava comigo: “Quando estou com uma mulher, fico sempre atento para o caso de aparecer uma melhor. E quando isso acontece, vou me soltando pouco a pouco da primeira e me envolvendo com a segunda, até me soltar definitivamente da anterior. Dá certo, nunca fico sozinho”. Perguntei-lhe como fazia exatamente para “soltar-se” do vínculo anterior, e ele disse: “Vou ficando insuportável, invento brigas, discussões, fico mal- humorado... crio um pretexto e então vou embora”. Desaparecia sem deixar rastros, o que gerava uma grande dor e angústia em suas companheiras. De vítima em vítima, como se fosse um “apaixonador em série”, o homem andava fazendo mal sem o menor escrúpulo. Na verdade não tentava tirar um prego com outro: ele era o prego. É POSSÍVEL AMAR DUAS PESSOAS AO MESMO TEMPO? A resposta é afirmativa. Não me refiro a ter duas paixões ao mesmo tempo porque o cérebro explodiria (mas alguns adolescentes, energéticos e cheios de vida, parece que sobrevivem à sobrecarga), e sim a um amor mais moderado e maduro, um amor que não esteja somente arraigado em Eros, e também se baseie na amizade (filia) e na ternura/compaixão (agape). Apesar dos protestos dos defensores da monogamia e exclusividade emocional, muita gente abre filiais e bifurca o sentimento amoroso. Uma mulher explicava o surgimento nela de um amor bicéfalo do seguinte modo: “Meu marido é um homem atraente, um grande amante e um excelente pai. O problema é que não sabe se comunicar. Na realidade, quase não fala. Nossas conversas não passam de alguns intercâmbios verbais e nunca pude aprofundar com ele um assunto que me interesse. Isso gerava um vazio em mim, e foi quando me aproximei de um colega de trabalho. Nós nos entendemos às mil maravilhas, não temos segredos, rimos e passamos momentos ótimos. Sexualmente, não avançamosmuito, só uns beijos e umas carícias superficiais. Não que não me sinta sexualmente atraída por ele, mas não sei, falta alguma coisa. Por outro lado, vejo meu marido e fico arrepiada”. Entre duas águas e bebendo das duas. Os dois homens eram doces e amorosos (nesse ponto, havia empate técnico); porém, a um sobrava Eros, e ao outro faltava. Com o marido, ela fazia amor intensamente, e, com o amigo, comunicava-se de maneira aberta e franca. Sua fantasia era fundi-los e criar um único e monumental amado/amante. Psicologicamente falando, amava ambos, mas de maneiras diferentes, porque cada um completava o outro na carência. A balança se manteve insuportavelmente equilibrada por vários anos, até que o colega do trabalho conheceu uma mulher separada e abandonou a amiga. A vida decidiu por ela. Amar duas pessoas ao mesmo tempo: dois pregos compassados e paralelos. Dupla alegria ou dupla dor? A curto prazo, euforia e fascinação; a médio e longo prazo, tristeza e angústia. Soluções? Talvez seja preferível apostar em uma opção e tentar fazer que funcione a ter duas relações inconclusas. A outra possibilidade, que nunca se deve descartar, é ficar sozinho e deixar o amor entre parênteses por um tempo. COMO ARRANCAR O PREGO SOZINHO E ALIVIAR A DOR DO VELHO AMOR 1. Se você tem um amor mal curado, não se apresse, dê tempo ao tempo Não corra atrás do primeiro que cruzar seu caminho, ninguém fará o trabalho por você. Vá devagar, uma pessoa por vez e cada coisa em seu lugar. O mais importante é sair do velho amor, que é um estorvo e o imobiliza. Depois, você poderá se abrir para uma nova relação com calma. É muito complicado alguém estar bem ao seu lado se você não resolveu ainda sua situação anterior: você não poderá se entregar totalmente, e sem reciprocidade não há relação a dois que resista. Dar e receber livremente, esses são os bons princípios, mas como fazer isso se três quartos de seu coração ou mais estão em outro lugar? Salve-se da desagradável sensação de querer amar alguém e não poder. Uma jovem me dizia o seguinte: “Ter conhecido Luis complicou tudo. Percebo que não o posso amar porque continuo amarrada à relação anterior. E agora me sinto com uma dupla carga: amar quem não merece e não ser capaz de amar quem merece. Sei que estou perdendo uma grande chance, mas não posso ficar com ele”. Sem Luis (aquele que poderia ter sido e não foi) e com o ex nas costas (aquele que já não deveria ser e continua sendo). Insisto: dupla carga. 2. Elabore o luto Ao decidir que só vai entrar em uma nova relação quando estiver pronto para isso, terá tirado do caminho um grande obstáculo para que o luto siga seu curso normal. Se for muito difícil, peça ajuda profissional, mas não perca de vista que, além do sofrimento, o luto representa a cura que a natureza lhe oferece. É uma limpeza profunda que lhe permitirá amar sem o peso dos traumas; por isso, é importante vivê-lo e deixá-lo fluir. Obviamente, isso não significa que você deve se enclausurar, carregar luto fechado e amargurar sua vida. Pode sair, conhecer gente, estar com amigos e divertir-se como quiser: processar a perda e viver normalmente não são incompatíveis. Repito: a sugestão é, dentro do possível, não se envolver afetivamente com alguém sem solucionar o amor anterior. O apoio afetivo das pessoas queridas e da família, conforme mencionei no Princípio 1, são muito importantes. O prego será rejeitado e expulso por seu organismo, e não por um agente externo. E lembre-se: se começou o processo de aceitação, você não é mais vítima; talvez tenha sido, mas hoje, quando suas energias estão trabalhando para libertá-lo, não é mais. 3. Fique limpo internamente Um paciente, depois de quatro meses separado, dizia-me: “É incrível! Há alguns meses, eu teria feito qualquer coisa para estar com ela novamente, e agora não estou nem aí. Há momentos em que a saudade chega em ondas, mas vai embora rapidamente; não dói mais. Eu me sinto bem sozinho”. No início, meu paciente, tentando esquecer a ex, começou a sair com uma amiga de sua juventude de quem sempre havia gostado (não sei qual é a razão, mas, nos primeiros meses de uma separação, os velhos amigos e amigas que foram possibilidades afetivas em alguma época ressuscitam como zumbis). A experiência foi um desastre, visto que ele não conseguia acompanhar o ritmo da mulher, que exigia atenção, sexo e mimos no atacado. Quanto mais ela exigia, mais ele se inibia. Finalmente, não aguentou mais e decidiu ficar sozinho, chorar suas dores e enfrentar a perda com ajuda profissional. Sair de um amor mal curado é como sair de uma maldição e encontrar a si mesmo: “Olá! Está me reconhecendo? Sou eu!”. O que restou de si, para começar a reconstruir-se. O sinal que mais levo em conta para saber se a “limpeza interna” está indo por um bom caminho é o olhar. Sob o peso de um amor tortuoso que resiste a desaparecer, o olhar fica opaco e triste, como quando estamos com uma virose. Mas, quando o antivírus entra em ação e o estado de ânimo começa a se recuperar, o olhar se torna mais vivo e alegre, os olhos ficam maiores, mais brilhantes e inquietos. Há vida de novo. 4. Procure não comparar o novo com o velho O insano costume de comparar as atuais opções afetivas com o velho relacionamento sempre está presente naqueles que não conseguiram assimilar a perda. Comparar o quê? Tudo. O problema é que nem sempre os novos ganham. Embora a maioria pragueje contra o antigo relacionamento, quando começa a sair com outra pessoa entra em choque ao descobrir uma realidade terrível e desalentadora: não existem bons partidos (pelo menos é essa a percepção). É o paradoxo dos que comparam além da conta; tentando encontrar e exaltar os atributos da nova aquisição que justifiquem a troca, acabam fortalecendo a pessoa que querem esquecer. É verdade que algumas comparações às vezes são produtivas e ajudam a acelerar o luto, mas é melhor não correr o risco. Sem perceber, você poderia desviar a informação a favor de seu ex e maximizar aquele que quer esquecer. 5. A desforra o prende ao passado A vingança sempre volta, e o ódio engendra ódio, não importa como o queira disfarçar. Orgulho ferido? Um luto bem dirigido exige que você guarde o orgulho no bolso. Se já não é amado, de que vai se vingar? Do desamor? A vingança o mantém amarrado ao outro. Em uma relação sofrida, pelo motivo que for, você não deveria dizer: “Se acabou, melhor”? Ou prefere continuar sendo vítima de um amor insuficiente? A verdadeira desforra é deixar de amar a quem não o ama ou lhe fez mal intencionalmente. Alguém disse certa vez: “A melhor vingança é ser feliz”, apesar do outro e além de toda dúvida. Querer esfregar seu novo “amor” no nariz do ex mostra que seu novo relacionamento não é tão bom, porque, quando você está bem com alguém, não tenta tirar nenhum prego, e sim aproveitar tranquilamente o que tem. Uma vez mais: a tentativa de gerar raiva ou ciúmes no ex fará o velho amor ganhar mais força. 6. Rumo a um amor completo A proposta é não fragmentar o amor e tentar manter seus componentes ativos e unidos em uma mesma pessoa. Uma prova de que um prego não tira outro, ou de que pelo menos isso não é tão fácil, é que podemos nos apaixonar por duas pessoas ao mesmo tempo, mesmo que nossa intenção seja outra. A surpresa costuma ser imensa, porque, tratando de acabar com o amor mal curado, descobrimos que o velho amor e o substituto não são incompatíveis, e ficamos duplamente envolvidos. Não se deixe levar pela carência; negue-se a um amor fragmentado. Estou me referindo à possibilidade de construir uma relação sem nenhuma falta básica, e sem recorrer a suportes externos ou pequenos amores suplementares e subsidiários. Repartir o amor entre várias pessoas é viver uma insatisfação permanente: quando estiver com uma, sentirá falta do que a outra possui, e assim andará, de escassez em escassez, de penúria em penúria, tentando montar um quebra-cabeça no qual as peças não se encaixam. Princípio 7 Se o amor não é visto nem sentido, não existe ou não lhe serve O contráriodo amor não é o ódio, e sim a indiferença. E. Wiesel O amor não se declara, se prova. J. Mery Amor teórico? Um ex abrupto ou uma tortura quando estamos envolvidos de coração em um relacionamento. Eu amo conceitualmente? Que ridículo! O pior: “Eu amo secretamente, por trás dos bastidores, à distância, como um telegrama”. De que amor estamos falando se não é notado, se não chega? Apaixonar-se é uma atitude: sentir, pensar e agir para um mesmo lado; tudo junto. O que esperamos do outro é o amor coerente, o único que vale a pena. O amor a dois é interpessoal e inseparável de sua demonstração. Os reprimidos que fingem um amor insípido, frio e distante, justificam-se quase sempre apelando a algum trauma distante ou ao “estilo pessoal”: “Fui educado assim” ou “Não sei amar de outro jeito”. Quando a pessoa que você ama der uma dessas duas razões, sua resposta deverá ser categórica: “Então, reeduque-se, reinvente-se ou aprenda, se quiser ficar comigo!”. Como se adaptar (ou seja: submeter-se) à indiferença? Não tem jeito: em algum momento você vai explodir e vai sair fogo por seus olhos. Um amor pusilânime não serve para ninguém. Um homem que sofria muito porque sua esposa era um tanto avessa ao afeto comentava comigo sua “tática de aproximação afetiva”. À noite, estando juntos na cama, enquanto ela dormia, ele começava a deslizar cautelosamente a mão até tocar os cabelos dela, evitando acordá-la. Com a maior paciência, centímetro por centímetro, avançava até chegar à cabeça da mulher, para depois acariciá-la de maneira quase imperceptível. A cada aproximação, ainda adormecida, ela o rejeitava: mexia-se, resmungava, grunhia, mas ele não se dava por vencido e persistia. O trabalho dava seus frutos, porque quase sempre amanheciam abraçados. Porém, ao acordar e perceber que estava ao lado dele, ela rapidamente se afastava. O sexo era bom, não havia falta de vontade e até compartilhavam algumas fantasias; o problema estava na ternura e na falta de expressões amorosas verbais e não verbais. Uma vez, perguntei à mulher se realmente o amava, e ela respondeu: “Claro que amo, senão não estaria com ele”. Eu respondi que a questão não era tanto “estar” ou “não estar”, mas como estar. Expliquei-lhe a importância das palavras e das carícias afetuosas e convidei-a a fazer algumas sessões para que tentasse ser mais expressiva, mas ela se negou categoricamente. Embora não tenha sido explícita, o que ela pretendia era que seu marido se adaptasse a sua frieza, e não o inverso. Como já disse antes, o caminho mais saudável para uma boa convivência é que cada um se ajuste às qualidades do outro, mas não a seus defeitos: nivelar-se pelo positivo, e não pelo negativo. O que a mulher pedia era demais (uma pessoa não pode se “congelar” ou reprimir para que a outra se “sinta bem”), e agradá-la era impossível. Por isso a estratégia da “câmara lenta” noturna que meu paciente havia inventado para sobreviver afetivamente às demandas do corpo e do amor, que não pede só sexo. Por que os inibidos e os indiferentes resistem tanto (alguns até se ofendem) quando alguém sugere que sejam mais carinhosos, se só o que se pede deles são mais abraços, mais toques, beijos no rosto, alguns “eu te amo” e um ou outro carinho? Não custa nada assegurar que o amor está em pleno funcionamento. Um homem justificava assim sua indiferença: “Para que dizer que a amo se ela já sabe?”. Pobre mulher. O “eu te amo” ou o “eu também” não é um lembrete para gente esquecida; é um gosto, é o reforço que se manifesta em sentir-se amado a toda hora e em qualquer momento. E não estou falando do amor grudento e pesado, mas da expressão normal, da atenção, do romantismo inesperado que faz aumentar a frequência cardíaca, dos mimos que nos fazem sorrir quando estamos de mau humor ou nos fazem relaxar quando o estresse nos consome. Expressar amor é duplamente curativo: para quem o expressa e para quem recebe a expressão. Você nunca viu dois macacos tirando as pulgas um do outro? Eu faço em você e você faz em mim; eu o alivio e você me alivia. É a semântica mais primitiva do amor: hedonismo em estado puro. Basta ver seus gestos e suas expressões. O amor mesquinho, controlado, presumido, mas não evidente, é um amor de procedência duvidosa. Ao contrário, o amor pleno integra sentimento, pensamento e ação em um todo indissolúvel. Quando os três elementos não vão para o mesmo lado, o afeto é como uma espingarda de chumbo, e qualquer um pode sair ferido. Como sobreviver à seguinte declaração? “Não sinto que a amo, mas acho que devo amá-la; só não tenho vontade de abraçá- la e de ser doce”, disse um adolescente, enquanto sua namorada andava como um satélite fora de órbita tentando entender o que ele queria dizer. Um amor insípido é a coisa mais parecida ao desamor. O CARÁTER TRANSITIVO DO AMOR: “SUA ALEGRIA ME ALEGRA, SUA DOR ME DÓI” É o cara a cara de qualquer relação normal. Não compartilhamos só sexo, filhos, dívidas ou amigos; também compartilhamos estados de ânimo. Esse fluxo de ida e volta garante o equilíbrio emocional, e por isso é importante mantê-lo vivo e desperto: não nos comunicamos só verbalmente; nosso corpo fala e transmite o que sentimos em cada gesto e cada postura em silêncio. O assunto se complica quando um dos dois mostra no mínimo um dos seguintes impedimentos: (a) incapacidade de decifrar o que o outro sente (analfabetismo emocional), e/ou (b) indiferença, apatia ou desinteresse pelos sentimentos do outro (indolência amorosa). O bom amor requer certo contágio, uma mútua penetração emocional a fundo. Como ignorar a felicidade ou a tristeza da pessoa amada? Isso nem sequer é um compromisso; simplesmente acontece quando existe afeto suficiente, porque amar é abrir as comportas e baixar os limiares: penso em você, sinto você e também faço contato. Mas essa reciprocidade, básica e imprescindível, nem sempre está presente. Há pessoas egocêntricas que têm dificuldade de sair de si mesmos e se colocar no lugar dos outros: “Sua alegria não me alegra e sua dor não me dói”. “Não é coisa minha”, afirmava uma mulher ao ver que seu marido afundava cada vez mais na depressão. Eu lhe perguntei por que não lhe doía vê-lo sofrer, e sua resposta foi: “É que ele não tem motivos sérios para ficar assim!”. Se seu companheiro precisa que sua dor esteja bem “fundamentada”, seja “objetiva” e “lógica” para você se preocupar com ele e ajudá-lo, talvez você não o ame. Não digo que necessariamente haja crueldade, mas são requisitos demais para uma conduta de ajuda/compaixão que deveria surgir de maneira natural. Você chega em casa e vê seu companheiro chorando; a dor dele não lhe importa? Que importa que seja racional ou irracional? A primeira coisa a fazer é socorrê-lo, estar ali, apoiá-lo. Talvez lhe pareça que ele está exagerando e você sente que no lugar dele não reagiria assim. E daí? Por isso o sofrimento dele nesse momento é menor? Dói igual, perturba igual, por mais absurdo que isso possa lhe parecer. Respalde-o e, depois, quando ele estiver melhor e mais tranquilo, vejam juntos o porquê, o como e o quando. Faça a “análise” a posteriori. Dizer que a dor da pessoa amada não lhe importa porque é “idiota” torna-o idiota. Compaixão (compartilhar a dor) e congratulação (festejar a alegria) são duas emoções que devem estar presentes para que o amor possa ser sentido plenamente. Ninguém se resigna à indiferença: é preferível a dor da ruptura a um amor insensível. O PERVERSO: “SUA ALEGRIA ME DÓI E SUA DOR ME ALEGRA” Amor de verdugo; altamente patológico. A insegurança e o medo de perder a pessoa amada às vezes assume uma estranha face que beira o perverso: “Quando você está mal, sinto que precisa de mim, mas, se você está feliz, penso que poderia prescindir de mim porque não sou necessário; portanto, faço todo o possível para que você se sinta mal”. A soma de um esquema de insegurança pessoal e uma maneira distorcida de processar a informação pode engendrar um monstro amoroso, do qual nem sempre temos consciência. Aquele que pensa assim acaba sabotando qualqueratitude positiva do outro e reforçando o negativo. Outra forma de manifestar o curto-circuito: “Fico mais tranquilo quando você está mal, porque sei que vai buscar apoio em mim. Sua alegria ou sua felicidade me indicam que não precisa tanto de mim, e que até poderia abrir mão de mim”. Conclusão: odeio sua alegria e me alegro com sua desgraça. É a triste manifestação de uma fraqueza que se fortalece com o sofrimento alheio. NÃO IMPORTA QUANTO NOS AMAM, E SIM COMO Amor quantitativo e algébrico: “Quanto você me ama?” ou “Você me ama muito?”. Quando nos dizem “do tamanho do céu”, ficamos satisfeitos e felizes, nas nuvens. Mas a pergunta que mais vale, e você a deve fazer a si mesmo, é como é amado. Muitos psicopatas dizem amar demais seus companheiros antes de massacrá-los. Você precisa ser muito amado ou ser bem-amado? As duas coisas? Seria o ideal. Porém, é melhor um amor estável, cheio de ternura e alegria, mesmo que não chegue à estratosfera, que um amor imenso que anda como uma bala perdida. Para os amantes da medição, existe também o amor espacial: “Até onde você me ama?”. Se fôssemos objetivamente honestos, responderíamos que não temos nem ideia. Com que padrão medir o amor que sentimos: centímetros, metros, anos-luz? Uma resposta plausível e com certo ar matemático de consolação poderia ser: “Se o sinto companheiro e sei que posso contar com você nos momentos bons e nos ruins, não preciso de somas nem de subtrações”. Para que você quer ser amado “além das suas forças”? Vocês ficariam o dia todo cansados! Melhor ser amado de uma maneira sossegada, no dia a dia, inventando e embelezando o cotidiano. Vi muitos pacientes se debatendo na encruzilhada do quanto e como, presos em um dilema sem sentido: “Não sou feliz, mas ela me ama demais”. E quem se importa com o “quanto” ela o ama, se você vive infeliz? Ou você pensa que é pouco “querível”, e por isso precisa somar pontos a sua abalada autoestima? Ser amado “desmedidamente” ou daqui até a China não demonstra nada em relação a seu valor pessoal nem garante sua qualidade de vida. Acredite: a abundância amorosa, sem a qualidade básica que determina o afeto, vale pouco. Aliás, um amor excessivo e fora de controle pode ser muito mais desagradável e daninho que o desamor. A SEMÂNTICA DO AMOR A linguagem do amor ultrapassa o meramente linguístico e apela a sons e gesticulações de todo tipo, que nos recordam muitas vezes nossos ancestrais primatas. O amor passional possui algo de animalesco e indiscreto, que se pode notar até nos mais pudicos e austeros. Basta ver dois adolescentes em pleno amasso para se surpreender diante da variedade e quantidade de códigos afetivos existentes: ronronar, cheirar, olhar-se, sorrir, coçar, apertar, aconchegar-se são algumas formas de expressão que configuram o pacote de um idioma que, paradoxalmente, não requer aprendizagem. Por isso é tão difícil conceber ou aceitar um amor inexpressivo e apático, sendo que existem tantas vias de comunicação. O tom da voz, as inflexões e os silêncios, tudo conflui no outro, que acaba se transformando em um leitor afetivo experimentado. Não basta “sentir o amor”; é preciso mostrá-lo, prová-lo. Muito pouca gente aceita um amor robótico, exato e hipercontrolado. Precisamos de um pouco de loucura, um pouco de desordem, uma faísca que nos recorde que a paixão não morreu e que o jogo não acabou: entre um estilo afetivo inibido e preciso e um loquaz e explícito, a maioria prefere o segundo. Comparemos, por exemplo, uma definição científica com um enunciado afetivo em relação a uma manifestação típica do amor: Um médico do final do século retrasado, doutor Henry Gibbson, definiu o beijo como: a justaposição anatômica de dois músculos em estado de contração. Uma exata e operacional explicação fisiológica. De qualquer maneira, não imagino um apaixonado dizendo a outro: “Estou com vontade de proceder a uma justaposição anatômica de nossos respectivos músculos contraídos”. Beijar é muito mais que isso, como a Capela Sistina é muito mais que “paredes pintadas”. O escritor Fernando Pessoa, quase na mesma época em que o médico anterior dissecava o ato de beijar, tentava traduzir e transmitir um sentimento de amor, e as palavras pareciam insuficientes: Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar-te. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo? Quando lhe falam de amor ou sussurram em seu ouvido, o que você prefere? A explicação fria e mecanicista da ciência ou a expressão apaixonada e às vezes desconexa do apaixonado que tenta explicar o inexplicável? Jogos poéticos ou definições sisudas? Sem dúvida: Pessoa mais que Gibbson! Se seu companheiro carece da semântica afetiva necessária para enriquecer o amor, ou se sua expressão é seca e quase imperceptível, sacuda-o e ensine-lhe que, se o amor não é visto, então não existe ou não lhe serve. A MORTE LENTA DO AMOR Gota a gota, como uma tortura chinesa, a indiferença vai acabando lentamente com o amor. Por cada ato de indiferença perde-se um pouco de amor, e se a atitude se mantiver, o declive afetivo continuará até que não reste nada. O preocupante é que essa extinção afetiva pode durar anos. Os consultórios estão repletos de pessoas que demoraram metade da vida para reagir, porque não tiveram coragem de dizer chega antes que o amor desaparecesse por si só. Também existe uma morte rápida do amor: a que decorre da decepção. Quando você se decepciona com a pessoa amada, o desamor aparece como um raio e voa pelos ares. A questão se resolve em um piscar de olhos, e, onde houve amor, só restam escombros. O desencanto ocorre quando nossos princípios e os códigos morais que consideramos não negociáveis se veem afetados. Desiludir-se com a pessoa amada é uma flechada do Cupido ao contrário. Pude observar essa metamorfose em meu consultório clínico, quando alguém descobria que seu companheiro não era o que esperava ou que suas ações eram moral ou eticamente questionáveis. Ocorre um crac, inevitável e categórico. Voltando à morte lenta do amor, ninguém aceita a indiferença como modo de vida, a menos que seja um ermitão emocional ou um esquizoide. Nem mesmo os masoquistas se submetem à insensibilidade da pessoa amada: pedem castigo e dor, mas não indiferença. Aqueles que se resignam ao desprezo secam por dentro. Se você não teve a sorte de a decepção bater a sua porta, e continua preso na apatia afetiva de um companheiro que parece de plástico, faça seu este slogan e grave-o em seu coração: quem o faz sofrer não o merece. QUEM NÃO NOS ADMIRA, NÃO NOS AMA A indiferença é um monstro de mil cabeças, e uma delas é a falta de admiração. Pode haver admiração sem amor, mas o contrário é impossível. Como amar alguém que não nos deslumbra em algum sentido? Amar também é maravilhar-se e surpreender-se positivamente com o que o outro faz ou pensa, mesmo que seja de vez em quando. Admirar seu companheiro é sentir- se orgulhoso de estar com ele, é fascinação por alguma característica e/ou atributo que se destaca e o encanta. Talvez só você o veja, mas é suficiente para que o entusiasmo o mantenha vivo. O que se admira? Qualquer coisa, o que der na telha e o que o coração quiser: beleza, inteligência, capacidade de trabalho, tenacidade, honradez, seu jeito de fazer amor, ou todas as anteriores: o que quiser e como quiser. Não é obediência cega ou culto à personalidade, mas entusiasmo. Se você não sente de vez em quando certo fascínio, se nada o deslumbra nem cativa em seu companheiro, a relação não anda nada bem. Certa ocasião, perguntei a um homem o que admirava em sua mulher, e depois de pensar um pouco, respondeu: “Admirar... não sei, imagino que deve haver algo que admire nela, senão, não estaria apaixonado”. Exato! Quem não nos admira, não nos ama. COMO ENFRENTAR A INDIFERENÇA DO COMPANHEIRO E NÃO SE DEIXAR DEVASTAR PELO SOFRIMENTO 1. Fale e comunique-se até pelos cotovelos Que a comunicação fluente e espontânea seja a regra que guie seu comportamento interpessoal, não somentecom seu companheiro, mas também com o mundo que o cerca. Como existir para si mesmo e para os outros se ficar enclausurado em um monte de preconceitos, tabus e medos? Você precisa de assertividade: manifestar seus sentimentos positivos e negativos de uma maneira socialmente adequada. É sempre possível dizer as coisas com boas maneiras e não se engasgar com elas. Se aceitar o desafio de mostrar seu ser sem tantas reservas, de não se envergonhar de seus sentimentos, de ser você mesmo em cada beijo e em cada carícia, terá toda a autoridade moral para se negar à indiferença de seu companheiro. Aqueles que defendem a contenção emocional, com o argumento de que “esse é seu jeito de amar”, não deviam se envolver com pessoas que acreditam em um amor entusiasmado e ardente e o praticam. Deviam ser coerentes e pendurar um cartaz dizendo: “Não me adapto tão fácil ao amor, e não tenho a menor intenção de expor minha intimidade e me conectar além do superficial: alguém interessado?”. A debandada seria fenomenal. 2. Estabeleça suas necessidades e torne-as explícitas Muitas vezes ficamos calados em vez de expressar o mal-estar que sentimos para solucionar os problemas. O apego, o medo da autoridade ou do abandono nos faz agir de modo submisso e dizer sim quando queremos dizer não. Respeitar a si mesmo é reconhecer-se como merecedor do bom, do saudável, do que nos conduz à felicidade, e não à humilhação. E mais: algumas pessoas, tentando evitar o sofrimento causado pela indiferença, imitam o outro e se transformam em letárgicos emocionais para “equilibrar” a relação. Seu argumento é o seguinte: “Como não posso prescindir nem fugir do ‘carrasco afetivo’, eu me transformo nele”. Qualquer pessoa que tenha um parceiro frio e distante pode cair nessa espécie de síndrome de Estocolmo: uma estratégia desesperada de sobrevivência, na qual a personalidade da pessoa se dilui na do outro para evitar o sofrimento. A vítima se acopla ao predador. Uma mulher justificava sua atitude da seguinte forma: “O amor exige que a gente se adapte ao companheiro: é um ato de compreensão”. A afirmação seria verdadeira se a “adaptação” não implicasse a autodestruição do eu: o bom amor não exige que você seja infeliz. Antes de entregar-se a uma convivência fria e sem graça, tenha consciência de seus desejos mais íntimos, aquelas exigências sem as quais não poderia viver, e comunique-os: “Eu quero isso, é disso que necessito”; claro assim, simples assim. Uma boa tática para reconhecer quais são essas necessidades é escrever uma carta para si mesmo, como se fosse para um amigo que vive sua situação: o que você recomendaria? Escreva uma carta de verdade, comprometida e racional, distanciando-se de seu problema o máximo que puder. Ponha-a no correio, deixe-a descansar uns dias e depois leia-a. Ponha nela o que realmente quer, nada de “possivelmente”, “talvez” ou “quem sabe”. Nada de meias palavras. O categórico se impõe quando se trata de sua felicidade. 3. Seu companheiro o ama como você deseja? Depois que tiver suas necessidades claras e definidas, aquelas que não quer nem deveria negociar, pergunte-se se são suficientemente satisfeitas pela pessoa que você ama. Essa comprovação é fundamental para que você consiga equilíbrio interno e se sinta em paz consigo. Uma adolescente recriminava seu namorado em plena consulta: “Não é suficiente, entende? Seu amor não me basta, não é suficiente! É pouco, insosso, distante! Eu me sinto insatisfeita e abandonada, mesmo quando está a meu lado! Por que não vai embora e me larga de uma vez? Se não sabe amar, procure outra que lhe ensine!”. O jovem só piscava, enquanto a ouvia, perdido. Tentou consolá-la, mas ela estava furiosa e agressiva demais. Finalmente, ousou perguntar: “Mas então, como quer que eu a ame?”. O que desatou uma nova tempestade, porque ela esperava (como a maioria) que a pessoa que amasse soubesse amá-la ou atendesse a suas expectativas espontaneamente, e não que tivesse de fazer um curso para aprender. Assumir o papel de pedagogo para ensinar ao parceiro como nos amar não deixa de ser frustrante. Além do mais, como fazer isso? Você poderia pegar a mão dele, passá-la por sua pele e dizer: “Veja, é assim que quero que me acaricie”. Também poderia lhe entregar uma lista com as datas do seu aniversário, do aniversário de namoro, etc., para que ele não se esquecesse de fazer um agrado. Ou poderia ilustrar tudo no PowerPoint, apresentando as melhores maneiras de dizer “te amo” e de abraçá-la sem estrangulá-la e sem que parecesse estar dando pêsames. Mas seria ridículo, além de artificial. Em uma relação afetiva normal, as questões básicas, como a expressão de afeto, devem estar presentes, mesmo que precisem ser polidas em algum sentido. Portanto, se seu companheiro age como um zumbi e ostenta um “amor mecanizado e frio”, o primordial não está resolvido. Não digo que seja impossível humanizar o companheiro; o que afirmo é que essa tarefa é desalentadora e pouco gratificante para quem está apaixonado. No dia em que precisar dizer a seu amado que o amor dele não é visto nem sentido, terá começado a contagem regressiva. Seria como explicar a alguém que os socos doem, e que por isso não lhe deveria bater. 4. Você não tem que justificar sua dor ou alegria a ninguém Recordo o caso de um paciente que, quando chegava em casa preocupado com algum problema do trabalho, sua mulher o sentenciava: “O que você fez de errado?”. O homem, fazendo das tripas coração e deixando de lado a raiva que sentia pela falta de solidariedade, tentava lhe mostrar as “causas objetivas” de seu mal-estar. Essa curiosa forma de “comprovação amorosa” tinha uma exigência subjacente à qual ele se submetia passivamente: “Exponha seus argumentos, vamos ver quanta razão você tem!”. Mas a coisa não ficava nisso. Depois que o homem explicava seu “caso”, a esposa passava a rebater os pontos, afirmando que não eram motivos “reais” ou suficientemente “válidos”. Na realidade, acabava ficando sempre do lado do chefe ou do terceiro na disputa. A premissa da mulher era muito difícil de aceitar: “Sua dor não me dói; além de tudo, me incomoda extremamente”. Uma análise mais profunda mostrou que não havia admiração por parte dela e que desejava ter um marido “mais valente”. O desamor era evidente. Conheci muitas pessoas que mostram uma espécie de intolerância à fraqueza ou à fragilidade humana em geral e do companheiro em particular: “Não fique choramingando!”. É o oposto da compaixão budista ou da piedade cristã: chama-se dureza. Em um exemplo similar, uma mulher era sistematicamente criticada por seu marido (um psiquiatra em exercício) cada vez que ele a via contente e feliz, porque não encontrava “razões válidas” para “tanta felicidade”. Se a via muito alegre, costumava dizer: “Você está drogada ou em surto?”. Então, minha paciente caía na armadilha e imediatamente tentava “justificar” sua alegria. Como é natural, o júbilo desaparecia instantaneamente, e, com o tempo, ela chegou a duvidar de sua própria saúde mental. O marido nunca aceitou vir ao meu consultório, e finalmente foi morar sozinho, o que produziu em minha paciente uma forte depressão, que ela conseguiu vencer com o tempo. Nas últimas vezes, vi-a gargalhar sem culpa e sem medo. Conheci gente amargurada que é alérgica à alegria e a qualquer outra manifestação de felicidade, coisa incompatível com o amor e altamente destrutiva. Nos dois casos comentados, meus pacientes cometeram o erro de querer buscar apoio no outro, tentando mostrar que seus sentimentos de tristeza e felicidade eram legítimos. A premissa saudável é assim: um bom companheiro será seu cúmplice no fundamental e nunca será indiferente a sua dor ou a sua alegria. Mais ainda, ergue-se, lança em riste, contra quem ousa atacar você e recebe de braços abertos a quem faz que você se sinta bem. 5. Não se acostume à indiferença Assumir a indiferença afetiva como um fato irreversível em sua vida é matar a humanidade que reside em você, porque uma vida displicente com o próximo perde seu significado. Seucompanheiro não se interessa por você? Então, não aceite isso! Faça como as flores: solte seu perfume e que o mundo saiba de sua existência, que os outros possam perceber e respirar você, e que saibam que você é uma pessoa que continua emocionalmente viva e desperta. Talvez alguém queira aspirar seu aroma. A inapetência ou a negligência afetiva constante da pessoa que amamos não corresponde a uma posição política ou ideológica: é um sintoma. 6. Estilo ou patologia? Há a pessoa introvertida que tenta demonstrar seus estados emocionais e não consegue, que sofre por isso e que gostaria de sair do atoleiro da inibição, e há o típico indiferente crônico, que não se importa com o próximo em absoluto, que ignora totalmente o que seu companheiro sente e pensa e não faz nada para mudar isso. O introvertido melhora com ajuda profissional, pois sua estrutura mental está bloqueada e é necessário destravá-la para que sua capacidade de amar flua. O indiferente crônico (esquizoide), o egocêntrico narcisista ou o psicopata desalmado, só para citar alguns, estão em outra dimensão; requerem muitos anos de terapia e a melhora é duvidosa, sendo, às vezes, impossível. Como vemos, não é a mesma coisa estar nos braços de um e de outro. Se você der a mão a uma pessoa tímida ou introvertida, será muito possível que melhore e sua expressão de afeto deixe de ser insuficiente; mas, se der a mão a um esquizoide, um narcisista ou um psicopata, você será arrastado a seus respectivos infernos. 7. O sexo não substitui o afeto Sexualidade não é a mesma coisa que ternura, embora não sejam incompatíveis. Embora seja verdade que durante as relações sexuais os mecanismos de defesa cedem e amolecem (até um esquizoide pode gemer de prazer), a fisiologia da ternura percorre outros caminhos, mais sensitivos e carinhosos que o genital. Aqueles que são vítimas de pessoas afetivamente indiferentes costumam ver no desejo sexual do outro uma forma incipiente de afeto, já que, durante o coito, o indiferente perde um pouco de sua frieza. O problema é que ele se entrega ao prazer, e não à pessoa supostamente amada; não é o sentimento amoroso que dirige o convívio, e sim o desejo carnal. Ainda assim, os sofredores se empenham em perceber afeto onde não parece haver, ou não há mesmo. Uma mulher de 48 anos, que vivia com um indivíduo esquizoide, explicava assim sua estratégia de sobrevivência afetiva: “Quando o sinto mais expressivo, mais meu, ou mais ‘normal’, é durante o ato sexual. Aí, eu me torno o centro único de sua atenção e, às vezes, quando está muito excitado, ele me acaricia e abraça. Uma vez, sussurrou algo, e quando lhe perguntei, esperançosa, o que queria me dizer, ele perdeu a ereção. Então, com o tempo fui aumentando a frequência das relações sexuais para suprir a frieza da vida cotidiana. Ele acha que sou uma ninfomaníaca descontrolada, mas, na realidade, não sou mais que uma mulher que deseja se sentir amada e importante para ele. Parece que, quando tira a roupa, também tira a couraça e se torna mais carinhoso. Sei que não é a ‘grande ternura’ que uma mulher esperaria, mas é o mais próximo que consigo chegar”. Uma entrevista com o homem bastou para eu perceber que durante as relações sexuais ele não estava “concentrado em sua mulher”, como ela queria pensar, mas exclusivamente nele, na informação prazerosa de seu próprio corpo. Vamos repetir: o sexo não substitui a ternura, mas, em alguns casos, ajuda a fazer perder o autocontrole emocional, e, assim, podem surgir vestígios de afeto ou de algo parecido. Porém, quando a indiferença é crônica e responde a um padrão fixo de personalidade, o sexo não passa de sexo puro, e embora o desejo relaxe músculos e tendões, a frieza afetiva não cede nem um fio de cabelo. Tudo se reduz a uma fisiologia concentrada no prazer pelo prazer. Quando nos amam de verdade, o afeto nem sempre dependerá do sexo. 8. Se você não é feliz em seu relacionamento nem vai embora, peça ajuda profissional Esse é o limbo dos que amam demais e temem perder seu companheiro. Vejamos esta conversa: Terapeuta (T): A maneira de ele amar a satisfaz? Paciente (P): Não. T: O que falta? P: Mais carinho, gentileza, cortesia, cuidado, compromisso, interesse, preocupação, carícias... T: Então faltam muitas coisas. P: Sim. T: Poderíamos dar um nome a tudo isso... por exemplo, “indiferença”. P: Sim, essa é a palavra. A pior palavra para alguém tão apaixonada como eu. T: Você sofre muito, não é? P: Demais, já tentei me matar duas vezes. T: É uma relação perigosa... Já pensou em deixá-lo? P: Eu o amo. T: Entendo. Porém, o amor saudável é recíproco; se não se devolve, se perde. P: Eu é que estou perdida... T: ... resignada a sua sorte. P: Isso mesmo; nem exijo nem vou embora. T: Então, o que está esperando? P: Nada. Absolutamente nada. Poucos meses depois, o homem a trocou por outra e ela tentou suicídio pela terceira vez, e felizmente falhou. Depois de dois anos de terapia, conseguiu retomar sua vida, mais livre e lúcida. Metaforicamente, costumamos dizer: “Matei-o com a indiferença”. Porém, essa afirmação do acervo popular não é tão “metafórica”; em minha experiência como terapeuta, posso afirmar que a indiferença afetiva maltrata e mata, não só no sentido figurado. A pior coisa que você pode fazer, quando está com alguém que diz amá-lo mas que nem olha para você, é não fazer nada. Anote: se você sente que os dias se tornam cada vez mais longos e chatos, e tem pensamentos negativos sobre si, o mundo e o futuro, não hesite nem por um instante: peça ajuda profissional. A depressão está rondando por aí. Princípio 8 Não idealize a pessoa amada; veja-a como é, cruamente e sem anestesia Pode ter sido isso, pode ter sido aquilo, mas se ama e se odeia o que é. R. Kipling O amor é um estado em que o homem vê decididamente as coisas como não são. F. Nietzsche Os modos de idealizar a pessoa amada são muitos e variados. Você pode situá-la no céu ou no inferno, mentir aos outros e a si, distorcer, imaginar coisas que não são, acrescentar ou tirar, aumentar ou diminuir, acomodar e desacomodar, enfim, pode inventar o que quiser da pessoa amada e até se apaixonar depois de criar a imagem. Por experiência, cheguei à conclusão de que praticamente todos os apaixonados, em maior ou menor grau, inventam de alguma maneira seu companheiro. A parte racional ama o indivíduo verdadeiro, e o lado idealista e romântico constrói virtualmente a pessoa dos nossos sonhos. Ao querer “polir” o outro e aperfeiçoá-lo ao máximo, criamos uma casca psicológica isolante (a imagem projetada), que nos impede de fazer um verdadeiro contato com a outra pessoa. Não cante vitória; isso também acontece com você. Interiorizamos duas máximas sociais que são verdadeiras: “Se amar o que eu amo, nós nos amaremos mais” ou “Se valorizar o que eu valorizo, nós nos amaremos mais”; e fazemos qualquer coisa para isso, mesmo que seja alterar os dados. Quem já não ouviu a expressão “Somos iguaizinhos”? Como se a superposição absoluta permitisse um acesso direto à felicidade. Pois não é verdade. Vasculhando em mais de uma relação “tal e qual”, vamos nos surpreender com as discrepâncias mascaradas que se escondem nelas: os casais superpostos em 100% dos casos acabam confinados à rotina. Se você consegue antecipar com bastante certeza o que seu companheiro pensa, sente ou faz, está mal; uma relação sem sobressaltos, surpresas e descobertas é tão previsível quanto chata. Ver o parceiro tal como é, em sua mais seca e crua humanidade, requer certa dose de coragem, porque, se limparmos a mente de autoenganos, poderemos não gostar do que veremos. Sobre isso, alguém me dizia: “E se eu não gostar do que descobrir nela?”. Pois, se isso acontecer, tome um bom calmante e medite bem sobre a questão, porque você está com a pessoa errada (a não ser que prefira ter um “companheiro virtual”). Não estou dizendo que tudo em seu par deve lhe agradar; ninguém é perfeito. Estou falando é de fazer um contato full, completo, sem maquiagem nem camuflagens, e depois ponderarse lhe apetece, se quer se arriscar. Ame o que o outro é, ou não ame nada. IDEALIZAÇÃO E DEFESA DO EGO Às vezes, as mentes apaixonadas têm necessidade de superdimensionar o objeto de seu amor para obter um ganho adicional e engordar o ego: “Se meu companheiro é genial e é feliz comigo, algo de especial devo ter”. Você idealiza o outro para se sentir melhor consigo mesmo. A premissa é claramente narcisista: Deus nos cria e nós nos juntamos. Conheci pessoas que na hora de apresentar seu companheiro, expõem o currículo dele como se o quisessem negociar. Exibir-se com a pessoa amada é transformá-la em um objeto de desejo, uma conquista “pessoal” ou um triunfo. Algumas pessoas os penduram como medalhas, ao lado de outras coisas de valor. Não digo que devemos ser insensíveis aos atributos da pessoa que amamos, mas uma coisa é admiração, e outra é idolatria com fins lucrativos. Fazer a própria autoestima depender da valorização de nosso par é uma faca de dois gumes. Você não vai conseguir cuidar de seu próprio crescimento pessoal (vai viver enganchado a um ego alheio) e, cedo ou tarde, vai acabar exagerando algumas virtudes dele para que revertam em sua própria aceitação. Repito: se o que você deseja é louvar o valor pessoal de seu companheiro para maximizar o seu, vai viver tentando manter a “boa imagem” do outro, perdendo seu ponto de referência interno. QUATRO MANEIRAS DE IDEALIZAR A PESSOA AMADA E DISTORCER A REALIDADE EM FAVOR DO “AMOR” Não só idealizamos o amor, como também a pessoa que amamos, objeto e sujeito de nossos desejos amorosos. Muita gente pretende tirar a pessoa amada da realidade e dar-lhe um caráter astral: onipresente (já que ocupa todo nosso ser), onipotente (já que pode tudo) e onisciente (já que é fonte de profunda sabedoria). A pergunta fatídica é: para que você quer um companheiro com superpoderes? Você não está grande demais para brincar de super-heróis? Sei que o amor distorce a seu favor, mas se você acredita que está com um ser quase sobrenatural, o lado humano dele lhe parecerá insuportável. Esse é o problema principal da idealização amorosa: dar de cara com os fatos e descobrir que seu companheiro sua, cheira, se deprime, se frustra, é egoísta às vezes, fica confuso, chora, e coisas do gênero. Um paciente me dizia entre espantado e desiludido: “Não posso acreditar que a tenham demitido. Ela ia ser gerente da empresa. Mas o que mais me surpreendeu foi sua reação. Eu a vi tão fraca e insegura! Não sei o que pensar, estou um pouco decepcionado”. E o que meu paciente esperava? Que, depois de perder o emprego, a mulher pulasse de alegria? Desiludir-se porque o outro tem uma reação normal e compreensível beira a crueldade. Independente dos motivos pelos quais tendemos a idealizar a pessoa amada (por exemplo, amor romântico, medo, alimento do próprio ego, necessidade de aprovação social), há certa maneira idiossincrásica de distorcer a informação. Com fins didáticos, vou apontar as quatro formas mais comuns de idealização, tendo em conta que, na prática, todas costumam funcionar juntas e mescladas. 1. Cegueira amorosa, ou ignorar o mal Algumas idealizações são conscientes e abertamente descaradas. Uma mulher me explicava: “Todos os homens que tive foram uma calamidade. Eu me concentrava nos defeitos que tinham e morria de raiva. Então, decidi fazer vista grossa e olhar para outro lado quando algo não me agradava. É melhor assim, sofro menos, e, aos cinquenta anos, sei que não posso ser tão exigente”. A estratégia de enfrentamento escolhida por minha paciente poderia ser resumida assim: não me interessa conhecer ou ver o que não quero do outro, então, ignoro; não existe e pronto. Uma infinidade de pessoas ama somente a parte do outro que lhe convém ou que a afeta menos: “Meu marido é infiel? Essa parte não me interessa”. “Ela usa drogas? Não sei do que está falando.” “Meu marido joga nosso dinheiro no cassino? Não acho que seja verdade.” Táticas de sobrevivência para enfrentar uma realidade que é demais para nós e não sabemos o que fazer com ela. Quando o perigo ronda, alguns fazem como o avestruz e enfiam a cabeça em um buraco, achando que com isso o risco será menor. As crianças pequenas recorrem a uma tática similar quando estão diante de algo de que não gostam: tampam os olhos e pensam: “Se não vejo, não existe”. Obviamente, o custo de tamanho autoengano é fatal para qualquer relacionamento, porque o lado que não queremos ver nem assumir existe e se manifestará a seu devido tempo, gerando caos e desconcerto. Há certa imaturidade e irresponsabilidade em não levar em conta os comportamentos negativos do outro. Por exemplo: se não lhe importa que seu companheiro seja infiel ou que jogue suas economias em qualquer casa de apostas, vai acabar com chifres na cabeça e na pobreza absoluta. É o risco de ignorar o que não se deve ignorar, porque uma coisa é ficar obcecado pelos defeitos da pessoa que amamos, e outra é desconhecê-los por medo de enfrentá-los. Esse otimismo deformado não anima, engana. Ao passo que um bom pessimista é, acima de tudo, um indivíduo bem informado, e quanto mais informado for, menos probabilidades de erros haverá. Entre o otimismo eufórico da paixão e o ceticismo inteligente do amor maduro, recomendo este último, mesmo que não traga friozinho na barriga. 2. Focar o bom e exagerá-lo É a outra face da cegueira amorosa: ressaltar o bom e, se possível, maximizá-lo. Parabenizar e festejar o bom comportamento acima dos negativos, mesmo que esses últimos sejam muitos e consideravelmente mais graves. É a compulsão pelo reforço que se foca exclusivamente no positivo e o multiplica até criar a impressão de que tudo em seu par é maravilhoso. Dessa maneira, a pessoa apaixonada passa a premiar e elogiar o outro por qualquer coisa, mesmo que seja o mais normal do mundo: “Você é maravilhoso!”, “Você é genial!”, “Não existe ninguém como você!”, “Você não parece deste planeta!”, e coisas do gênero. E de tanto reforçar estrondosamente as condutas da pessoa amada e concentrar-se somente no “bom”, ambos acabam acreditando na mentira. Não acho que devemos ser rigorosamente objetivos com a pessoa amada (dentre outras coisas, porque o amor não nos permite), mas uma coisa é o jogo do embelezamento romântico e inofensivo, e outra, é ver grandiosidade onde não existe. Se todos os dias e a todo momento você ouve que é o mais parecido a um deus, vai acabar achando que quem o elogia deve ter certa razão. No dia em que menos se espera, você se olha no espelho e diz a si mesmo: “Por que não?”. O vínculo que se cria entre um elogiador compulsivo e um elogiado complacente costuma ser altamente simbiótico e muito resistente à mudança. Certa vez, assisti a uma cena com um casal que reunia essas condições. Só para citar um exemplo do que foi um rosário de congratulações e aplausos, vou me referir à salada. Uma simples e insípida salada! O homem, que segundo a mulher era excelente cozinheiro, colocou simetricamente em um prato grande umas alfaces da mesma variedade; depois, acrescentou um pouco de agrião, dois tomates em rodelas e sobre cada rodela um rabanete. Temperou com azeite de oliva e vinagre. A esposa lambia os beiços com cada folha de alface que provava, como se fosse um tipo especial de caviar. O resultado foi: alface, azeite, vinagre, e meia hora de comentários sobre a importância da distribuição das verduras no prato e a proporção exata dos ingredientes. Sem dúvida, algo próximo ao delírio culinário, enquanto os comensais faziam esforços vãos para encontrar genialidade onde não havia. Acho que, depois de tantos anos de reforço indiscriminado, o homem deve ter perdido o senso de proporção. E analisando com cuidado, recordo que ele, com dissimulação e amparado em uma falsa modéstia, se orgulhava das pálidas e insípidas alfaces. É tão fácil criar um monstro de vaidade! Se seu companheiro lhe diz que você é a pessoa mais maravilhosa, única, especial, brilhante, sexy, original, criativa, importante, e coisas do gênero, aproveite, mas não leve tudo ao pé da letra,não acredite em tudo. Essa frase de Ortega y Gasset nos possibilita uma reflexão interessante: “Não é que o amor erre às vezes, é que é um erro; nós nos apaixonamos quando nossa imaginação projeta sobre outra pessoa perfeições inexistentes”. O que você tanto projeta? Tem consciência disso? 3. Minimizar os problemas, ou “Não é tão grave” Algumas pessoas passam a vida escondendo a sujeira debaixo do tapete, até que um dia (isso sempre acontece) a montanha de lixo é tão grande que as obriga a olhar embaixo. E é quando, sem ter mais como escapar, ao dar de cara com a realidade, utilizam a distorção de minimizar: “Não é para tanto” ou “Não me parece tão grave”. Aqui, não ignoramos os problemas; reduzimo- los ou os interpretamos de um jeito benévolo, quando de benévolos não têm nada. Enquanto no caso anterior exageramos o bom para construir um paraíso emocional fictício, aqui colocamos a lupa ao contrário e tudo se torna imperceptível. Vejamos dois casos. a. “Não são agressões mal-intencionadas” Um paciente era vítima de uma mulher extremamente agressiva, que chegou até a agredi-lo fisicamente. Foi ao meu consultório porque a esposa havia jogado um ferro de passar na cabeça dele, e precisou ir ao pronto- socorro. Uma vez ali, estimulado por sua família, tentou fazer uma denúncia de maus-tratos, mas o delegado de plantão o puxou pelo braço dizendo que em sua delegacia não atendiam “homens efeminados e doentes”. Com a cabeça enfaixada e o ego ferido, começou as consultas com a esperança de que sua esposa fosse também, “para controlar um pouco seu caráter”. Vejamos parte de uma conversa que tive com ele: Terapeuta (T): Há quantos anos vem sofrendo esses maus-tratos? Paciente (P): Há uns quinze anos. T: É muito tempo. Alguma vez já se defendeu? P: O senhor está exagerando; minha mulher não é uma criminosa. T: É verdade. Porém, não acha que os treze pontos que lhe deram na cabeça, o hematoma e os exames neurológicos são para se preocupar? O desenlace poderia ter sido fatal. P: Esses atos assim tão violentos aconteceram só três vezes. A maioria das vezes são só insultos e empurrões. T: Não lhe incomoda que o insultem e empurrem? P: Isso acontece com quase todos os casais. T: Sinto discordar, mas não é verdade. P: Quando existe amor, tudo se supera, e ela é uma boa pessoa. O único problema é que tem um gênio muito forte. T: Você tem medo? P: Dela? T: Sim. P: Um pouco, mas nem sempre. Dá para levar. Não é que eu fique quieto e não tente me defender, mas penso muito nas coisas antes de falar ou fazer. T: Por que pediu ajuda? P: Minha família insistiu, mas eu acho que não é necessário. T: O que acha de eu falar com ela? P: Acho bom. A cada pergunta minha ele dava de ombros, como dizendo: “Não vale a pena”. Podemos tornar a vida pequena, se quisermos. Meu paciente tinha um problema de evitação crônica e falta de assertividade que o levava a menosprezar os fatos negativos de sua mulher e a não medir suas consequências reais. Só uma terapia intensa e de longo prazo conseguiu fazer que ele pudesse ter um relacionamento mais funcional. A mulher conseguiu diminuir suas condutas agressivas e ter mais autocontrole e meu paciente aprendeu a não minimizar a informação real e a ser mais assertivo. b. “Deus aperta, mas não enforca” Recordo o caso de uma mulher muito dependente, casada com um alcoólatra violento. A tática defensiva de minha paciente, no momento de ser atacada pelo marido, era cobrir o rosto com as mãos e repetir a si mesma, em voz alta, sem parar: “Deus aperta, mas não enforca! Deus aperta, mas não enforca!”. Sua crença era que Deus nos apresenta uma infinidade de dificuldades para que cresçamos e aprendamos, mas jamais pretende nos fazer mal. Independente do respeito que mereça sua maneira de pensar, procurei fazê-la entender que, em seu caso, quem apertava e enforcava era seu marido. Eu lhe sugeri que refletisse sobre um dito popular que é aceito pelas pessoas que compartilhavam suas crenças religiosas: “A Deus rogando e com o malho dando”. Tenho sérias dúvidas de que um ser superior nos “aperte” para que tomemos consciência e reajamos; e também não acredito que tal aperto justifique a violação dos direitos humanos. Porém, minha paciente estava protegida por um monumental mecanismo de defesa muito difícil de desarticular. Em uma sessão, ela afirmou: “Alguma coisa tenho que aprender com isso; a vida deve estar querendo me dizer alguma coisa”. Respondi que talvez a vida, a natureza, Deus ou o cosmo estivesse sugerindo que corresse para o mais longe possível e denunciasse o infrator. Existem formas mais civilizadas e humanas de aprender que se submeter à tortura (embora alguns ainda acreditem que “a letra, com sangue entra”). Ela acreditava que seu marido era um instrumento quase divino que lhe permitia se purificar. Não só o idealizava; santificava-o. Um conselheiro religioso conseguiu fazê-la reagir e ter acesso a seu Deus de uma maneira menos autodestrutiva, e, é claro, sem que seu marido tivesse nenhuma função de intermediário. 4. Pretender ser amigo de quem nos machuca Aqui a estratégia é fechar a conta e passar a régua, para modificar o vínculo de tal maneira que a idealização não se perca. O segredo é conferir ao companheiro o status de “amigo”, para salvar sua magnificência: “Ele não é um bom marido, mas é um excelente amigo”; ou “Como esposa é um desastre, mas como amiga é excepcional”. Tirar uma idealização e conectar- se a outra: trocar de pedestal sem afetar a condição do indivíduo. A pessoa que uns dias antes poderia ter sido considerada um espanto é agora avaliada positivamente. Como compreender isso? Podemos pular de quase inimigos a grandes amigos da noite para o dia? Pode alguém que tornou amarga sua vida por anos transformar-se repentinamente e sem rancores em um de seus melhores amigos? Os amigos são respeitados e admirados, gostamos deles e confiamos neles, e isso requer uma história prévia, na qual a proximidade vai se construindo no dia a dia, em volta a um número considerável de afinidades e experiências de vida. Não podemos mudar o status afetivo de uma relação em um passe de mágica e ignorar o passado. Perdoar não é sofrer amnésia; é recordar sem dor, e isso se consegue com um trabalho interno sério e constante, e não por decreto. Um paciente me dizia: “Não estamos mais juntos, mas somos amigos. Pelo menos, mantenho um vínculo com ela e não a perco totalmente. Vou ficar com seu lado bom”. E o que o homem devia fazer com o amor que saía por seus poros e o angustiava? O que fazer com o sofrimento que ela lhe havia gerado? Escondê-lo, sublimá-lo em uma suposta amizade que se transformaria em um novo suplício por estar perto dela e não a poder nem tocar? Ser “amigo” de alguém que amamos e não nos ama não deixa de ser uma “estupidez amorosa” que, sem dúvida, nos fará mal. Não superestime suas forças. O CULTO À PERSONALIDADE O culto à personalidade caracteriza-se por uma excessiva adulação e adoração à pessoa amada. Aqueles que entram nessa variante emocional passam do amor à submissão e do carinho à reverência. Uma vez, ouvi uma jovem dizer a seu namorado o seguinte: “Você não sabe quanto agradeço por ter me notado. Uma pessoa como você, que está acima dos outros”. Deve ser muito complicado apaixonar-se pelo líder, o professor ou o guru da vez, sendo um simples mortal. É verdade que às vezes erotizamos a quem admiramos, mas uma relação a dois saudável não é uma “seita a dois”, onde um é o “sagrado”. É preciso amar o companheiro de uma forma descontraída, degustá-lo, desfrutá-lo, abraçá-lo, fazer cócegas, debochar dele, rir, invadir seu território e compartilhar segredos, sem tantos códigos e requisitos formais, sem cair a seus pés ou acender velas para ele. Quando você presta homenagens à pessoa amada, passa a ser súdito, e não companheiro. Para que entenda melhor: se você identifica em si alguns dos seguintes comportamentos ou atitudes, está enfiado até o nariz em uma relação afetiva cujo motor é o culto à personalidade. Você sente que a pessoa amadaé alguém superdotado e fora de série, diante de quem se prostra. O amor que você sente se confunde com veneração, devoção, adoração ou idolatria. A personalidade dela merece que lhe rendam culto, porque, embora não seja um deus, ou uma deusa, parece bastante. Você aceita sem criticar tudo que seu companheiro diz ou sugere. Acha que seus pontos de vista são a expressão da mais profunda sabedoria, o que lhe impossibilita qualquer refutação ou oposição. Pouco a pouco, o vínculo afetivo/sexual vai se transformando em uma relação professor/aluno. Como fazer amor com seu “guia espiritual”? Como ser você mesmo com alguém que está “mais evoluído” e tem anos-luz de vantagem sobre você? Você ataca qualquer pessoa que não veja o inefável em seu companheiro. A premissa é: “Quem não consegue vislumbrar sua maravilhosa essência não merece estar ao seu lado e será declarado meu inimigo pessoal”. Você acredita que deve se tornar o biógrafo de seu par e documentar aspectos de sua vida cotidiana, como manter um diário com suas frases célebres ou seus pensamentos, um álbum com suas fotos, guardar a roupa que ele não usa mais, gravar ou filmar suas atividades, enfim, tentar construir uma memória histórica, bem organizada e sistematizada, que faça as vezes de santuário e arquivo. Você lhe atribui dons ou capacidades fora do normal e estabelece correlações ilusórias entre esses “poderes” e a realidade. Por exemplo, acredita que ele é capaz de adivinhar o futuro, identificar a maldade e a bondade das pessoas só de olhar, ler a mente, e coisas do gênero. Não estou me referindo à exaltação natural e divertida que fazemos da pessoa amada, quando adoçamos seus ouvidos para que estremeça e exageramos os elogios para apimentar o romance. Estou falando da certeza irracional e infundada de que nosso parceiro é tão especial e único que o amor comum não basta para cumular sua extraordinária condição. Não falo de amar, e sim de canonizar. Às vezes, quando enfrento certas idealizações afetivas francamente descabidas, costumo perguntar a meus pacientes: “Desculpe, mas seu companheiro voa?”. DA IDEALIZAÇÃO AO DESPREZO Não existe verdade maior: podemos passar rapidamente do amor ao ódio se apertarmos o botão certo. Às vezes, a indignação e a ira são disparadas com tanta força que o amor sai pela porta dos fundos e não resta mais nada. Já comentamos que a decepção possui essa faculdade libertadora de nos tirar das garras do mau amor, mas não é a única. Algumas pessoas com tendência à idealização afetiva, quando descobrem que seus companheiros já não as amam nem desejam, sentem-se profundamente “ofendidas” e passam da veneração ao desprezo em um instante. Não só a tristeza pela perda as toma, mas também, e principalmente, a cólera, por já não pertencer ao mundo celestial e admirável que o outro lhes oferecia; é a síndrome do anjo caído e sua consequente expulsão do paraíso amoroso, mesmo que seja uma ilusão. Alguns apaixonados pensam que sua metade da laranja tem a “obrigação” de amá-los ou desejá-los, e quando isso não ocorre, sentem-se “enganados”. Não deixa de ser absurdo exigir amor como se exige respeito, porque, se você pensa que tem o direito de ser amado, o outro teria o dever de amá-lo, o que é eticamente incorreto. Uma mulher gritava a seu desapaixonado marido: “Quem você pensa que é?! Acha que pode deixar de me amar de uma hora para outra?! Eu mereço respeito!”. E depois, batendo na mesa, gritava: “Traidor! Traidor!”. Uns minutos antes de saber que ele não a amava mais, a mulher havia dito que seu marido era o “melhor homem do mundo”, cheio de valores e virtudes. E em um abrir e fechar de olhos, a valoração positiva se despedaçou e ela passou do encanto ao desencanto. O motivo? Ele já não a amava. Perdoamos mais fácil o desprezo ou o desamor às pessoas comuns que a nossos ídolos. Mesmo que não nos agrade, nosso companheiro tem direito a deixar de nos amar. E o que podemos exigir, então? O direito de receber a tempo essa informação que possa nos machucar. Se a pessoa que você idealizou já não o ama, não será um simples luto que precisará enfrentar, e sim o desterro existencial de uma bem-aventurança que preenchia seu ser, mesmo que imaginária. Você a criou. PEQUENO GUIA PARA NÃO IDEALIZAR SEU COMPANHEIRO E ATERRISSAR O AMOR 1. Quem você ama: seu companheiro real ou imaginado? Esta é uma pergunta inevitável se quiser manter em pé seu relacionamento. Possivelmente vai lhe dar certo medo interrogar-se sobre o que você tanto “acrescentou” ou “tirou” da pessoa que ama. O primeiro passo para saber com quem você está realmente é assumir que poderia ter errado na escolha que fez; porém, para seu consolo, muitas pessoas que decidem ver o amado tal como é, sem distorções nem maquiagens, descobrem que o “não idealizado” é melhor e mais gratificante que o personagem “inventado”. Vamos começar pelo elementar e até óbvio: seu par não é perfeito. Bem- vindo ao mundo dos normais. E como a pessoa amada não é um corpo glorioso, você terá que lidar com seu lado bom e seu lado ruim. Isso o levará a tirar novas conclusões sobre o suportável e o insuportável, ver se as virtudes pesam mais que os defeitos ou vice-versa, e como se ajeita com o ruim. Essa é a má notícia para os idealizadores: se você ama só uma parte do outro, não pode construir uma relação estável. Pode ser que algumas coisas não lhe agradem, mas deve haver uma aceitação de sua essência, de seu valor pessoal, independente dos defeitos. Então, para saber a quem você ama, precisa conhecer a fundo seu companheiro. Em minha experiência como terapeuta, surpreende-me ver a ignorância de algumas pessoas acerca de seus companheiros e a surpresa que manifestam quando lhes conto alguma coisa. Vejamos dois exemplos de sobressaltos positivos. Eu disse ao marido: “Sua mulher adora fantasias sexuais. Uma de suas preferidas seria fazer um ménage à trois com você e outra mulher”. O homem ficou boquiaberto e disse: “Não posso acreditar, achei que ela era uma santinha. Meu Deus, eu tenho a mesma fantasia!”. Como não imaginar o encontro, nesse dia, quando cada um disser a verdade e apresentar suas cartas sexuais? Isso não significa que vão desesperada e compulsivamente buscar encontros com qualquer pessoa. O erotismo fantasioso é para se degustar devagar, de comum acordo e sem pressões, seja de forma real ou imaginária. É brincar junto, descobrir- se e divertir-se. Abriu-se entre eles uma porta que ficara fechada por anos. Eu disse a uma mulher: “Seu marido lê muitos livros de budismo. Guarda-os no escritório porque teme que você, por ser católica, o critique”. A mulher me olha espantada: “Mas eu estou fazendo aulas de budismo tibetano e meditação!”. Ela fazia ioga de manhã, depois que ele saía. Parece estranho, mas acontece com mais frequência do que se acredita. Vivemos com alguém que dizemos amar e, por falta de comunicação, acabamos em duas bolhas sem conexão. Nesse caso, eles não sabiam de suas inclinações espirituais! Os exemplos mencionados deixam claro que muitas vezes não temos contato suficiente, e embora vivamos debaixo do mesmo teto, não fazemos isso intimamente: se você não conhece seu companheiro, provavelmente ele também não a conhece. 2. Identifique as distorções com as quais idealiza Se você já aceitou, mesmo que contrariado, que talvez não conheça tão bem sua metade da laranja, deve dar apoio ao benefício da dúvida com atos inteligentes e psicologicamente bem encaminhados. Se for corajoso, arrancará o véu dos “embelezadores” para ver crua e diretamente a pessoa que ama. Identifique as distorções das quais falamos (cegueira afetiva, exagerar o bom ou minimizar o ruim) e, quando souber quais são, elimine-as. Você não vai descartar o ruim, mas integrá-lo ao resto. Também não maximizará seus aspectos positivos nem minimizará seus erros, mas os observará em sua verdadeira dimensão. Tudo em sua justa medida. Para poder olhar sem distorções, você tem que renunciar à ideia de que a pessoa que ama beira a perfeição. Ver a pessoa amada sem distorções é olhar para elaholisticamente: indagar por sua vida cotidiana, sua história, sua visão do mundo, cada um de seus papéis e demais recantos de sua existência. Seu companheiro, além de ser seu companheiro, tem pais, irmãos, trabalho, amigos, filhos, gente de fora com quem se relaciona, estabelece vínculos e cria sentimentos. E quando fizer a viagem desprevenido (sem distorções) rumo ao ser amado, convide-o a repetir a mesma viagem em sentido inverso. Seja qual for sua decisão, você agirá com pleno conhecimento de causa; aquilo que você pensar da pessoa que ama não será uma mentira autoimposta, e sim a certeza de quem age por convicção. 3. Para que você quer um superparceiro? Você é daquelas pessoas que sonham em ter como companheiro uma top model, ou um galã de novela? Pense um pouco e responda com sinceridade: para que você quer uma pessoa assim? Teria que manter na linha uma multidão desenfreada de admiradores! Além do mais, depois de uns meses juntos, a aparência física – quando é a única coisa que há – tende a perder seu efeito inicial (deixa de ser novidade). Talvez já tenha acontecido isso com você. Você está com alguém muito atraente e, depois de um tempo, não parece mais o que era. Normaliza-se, enfeia-se. E, quando menos espera, você começa a gostar de alguém que está muito longe de seus padrões de beleza. Por quê? Porque você não se apaixona pela fama, pelo status, por um corpo ou uma carteira (embora essas coisas ajudem bastante na etapa inicial da conquista): você se apaixona pela pessoa, pelo que é em si mesma, por sua personalidade, por seu humor, por seu jeito, seu sorriso, pelo modo como cuida de sua família, por sua sensibilidade, por suas ideias. Não digo que o físico não importa, o que afirmo é que não é suficiente para se apaixonar: mais importante que o corpo, é o que se faz com ele. Supercompanheiros não existem, de modo que não invente nem exija um. A armadilha é assim: se o sonho é encontrar a mulher nota dez ou o homem perfeito, por exemplo, famosos, ricos, bonitos, mas nenhuma dessas pessoas especiais repara em você, então você procura um companheiro “normal” (que lhe deveria bastar) e começa (consciente ou inconscientemente) a “recompô- lo” e enfeitá-lo para que suba de nível. Essa “mudança extrema” nem sequer precisa ser real; basta que a mente o perceba assim e você possa se exibir socialmente com ele. Pode haver maior estupidez, maior desgaste, maior desrespeito para com o outro? 4. Não preste reverência a ninguém Dar reforços, comemorar o sucesso da pessoa amada ou expressar afeto livremente é agradável e mantém ativa sua condição humana. Entregar amor ao próximo parece ser prazeroso em si mesmo; porém, tudo faz pensar que, quando estamos acompanhados, esse “altruísmo emocional” requer retroalimentação para que funcione direito. Nossa mente busca reciprocidade na pessoa amada. Essa correspondência não precisa ser milimétrica e meticulosa, mas deve existir, porque o coração e o corpo a demandam. Não se trata de egoísmo, e sim de necessidade e expectativas: se damos sexo, esperamos sexo; e se somos fiéis, esperamos fidelidade. Amor com amor se paga, diz o ditado, e não há nada de mercantilista nisso; simplesmente não queremos estar com alguém narcisista ou indiferente que nos olhe por cima do ombro ou que se “esqueça” de nos amar. No processo de idealização do outro, esse toma-lá-dá-cá, o equilíbrio essencial da democracia amorosa, rompe-se ou se enfraquece, pois vemos o outro como um ser superior. Prestar culto à pessoa amada levará à submissão e à obediência cega: quando sua vida adquire sentido graças a seu companheiro, você já está ladeira abaixo. 5. Que o amem pelo que você é Este é o outro ponto de vista: o daqueles idealizados que já estão um pouco fartos de representar o papel de pessoas especiais. Nunca pensou que talvez seu companheiro não goste de tanta parafernália em volta de sua personalidade? Não deixa de ser um peso incômodo manter o nível exigido por um súdito. Se quando seu companheiro o idealiza, você aceita a exaltação e fica ali, hipnotizado pelos elogios, alguma coisa não anda bem com sua autoestima. Não seria preferível que o amassem pelo que você é? Em certa ocasião, perguntei a uma mulher se realmente amava seu marido, e ela me respondeu: “Não sei, não tenho certeza. Mas ele sim me admira e me ama; ele me faz sentir como uma rainha”. Você quer um companheiro ou um adulador profissional? Vamos aceitar que é tentador que nos elevem à categoria de semideus, há algo de mitológico e mágico nisso, além de muitas vezes ser excitante. Fantasiar com ser Zeus ou Afrodite tem seu encanto (conheço alguns que transformaram isso em hábito sexual); porém, não falta quem se apegue ao personagem e, assim como ocorre com quem prova certas drogas, fica viciado. Sentir-se idealizado cria dependência e vício nas pessoas inseguras. Um homem, elevado às mais altas esferas cósmicas por sua esposa, dizia-me: “Eu sei que o que ela me diz não é verdade, mas é como se fosse. Prefiro acreditar que é”. Uma Matrix amorosa: viver na ilusão do autoengano afetivo como se essa fosse a realidade. Dizem-lhe que não existe um amante como você, e você acredita; que você é a pessoa mais linda do planeta, e você acredita; que ninguém tem sua inteligência, e você se sente Einstein. Depois de alguns anos, além de ter perdido sua identidade, você será um acúmulo de mentiras insustentáveis. 6. O amor terreno é mais divertido Esta é uma questão eminentemente prática e de bom senso. A graça do amor humano não está em sua santidade, e sim na humanidade imperfeita que nos define. Por isso, o amor pode nos levar ao maior sofrimento ou à maior felicidade. O amor glorificado é chato e sério, porque, por conta do “respeito reverencial”, perde-se o humor, a travessura, a espontaneidade, a surpresa e qualquer coisa que quebre a formalidade de uma maneira irreverente. Ninguém faz uma brincadeira com o líder da seita e sai ileso: virão os golpes no peito, as autopunições e uma ou outra oferenda para compensar o desrespeito. Melhor um amor terreno com alguém de carne e osso, sem muitos momentos estelares; melhor um amor defeituoso e tão realista e humano quanto possível. Se o amor normal não lhe basta, você tem um problema, porque esse amor é o único que existe. Princípio 9 O amor não tem idade, mas os apaixonados sim Feliz aquele que foi jovem em sua juventude; feliz aquele que soube amadurecer a tempo. A. Pushkin Nos olhos do jovem, arde a chama; nos do velho, brilha a luz. Victor Hugo O amor não tem idade? Talvez seja verdade: podemos nos apaixonar aos cem anos por um adolescente, ou pela professora do colégio quando somos moleques. Parece que o amor não respeita cronologias: solta suas redes e ficamos presos nelas, todos contra todos, não importa a época. Porém, embora seja verdade que o amor parece não ter idade, os apaixonados têm. “Eu com quarenta e você com vinte”, diz uma canção romântica, tentando mostrar que não é tão fácil balancear as diferenças cronológicas. Ou o inverso: “Eu vinte e você quarenta”, ou cinquenta, sessenta... Embora Cupido não respeite idade nem condição social, a convivência leva isso em conta, sim. O sentimento amoroso deve ser posto em seu devido lugar; não atribuir- lhe a responsabilidade total, e aceitar que, quando cruzamos longevidade e afeto, a questão é mais complexa do que parece. Uma paciente de 52 anos, separada e com dois filhos adultos, apaixonou-se por um jovem com metade de sua idade. Não julgo as intenções do apaixonado, mas o fato de ela ser uma pessoa muito rica criava certo receio nas pessoas que a cercavam, e especialmente em sua família, que se opunha ao relacionamento. Especialmente o pai de minha paciente, que não podia imaginar como seria ter um genro com cara de neto. Apesar dos protestos enfáticos dos outros, ela deu asas a seu romance aberta e publicamente, sem esconder nada. Diferente do que fazem algumas mulheres famosas e ricas, que se envolvem com um homem bonito e jovem para aproveitar por um tempo (sabendo que muito provavelmentenão durará a vida toda), minha paciente, que era uma romântica empedernida, tomou um rumo diferente: apaixonou-se e quis se casar. Não queria uma aventura, e sim um marido de papel passado. Em uma sessão, ela me disse: “Quero me casar, e não estou tão velha para ter filhos”; suas expectativas eram sérias e decisivas. As do homem eram um pouco mais cautelosas: “Por enquanto não quero ter filhos, e o casamento me assusta um pouco”. Ela começou a ajudá-lo economicamente, pagou-lhe um mestrado na universidade e alugou-lhe um apartamento, sem se sentir mal com isso. Em certa ocasião, perguntei-lhe quanto achava que o dinheiro pesava em sua relação, e ela respondeu, de maneira categórica, que no amor que eles sentiam não havia interesses escusos. Porém, uns dias depois, o futuro consorte lhe fez uma proposta indiscreta e desagradável: “Se realmente me ama, dê-me uma casa e ponha-a em meu nome”. E como o amor às vezes é melindroso, esse pedido produziu em minha paciente uma decepção radical. Consternada e abatida, primeiro hesitou, e depois decidiu não o ver mais, apesar de seus sentimentos. Obviamente, não se deve generalizar e pensar que todas as pessoas que se envolvem com alguém mais velho e rico são mal-intencionadas ou exploradoras, mas que não reste dúvida: há muitos “caça-fortunas” por aí rondando o patrimônio alheio. Se o que você quer é uma aventura, tanto faz, mas se o que quer é uma relação “séria”, é melhor começar a esfriar um pouco os ímpetos e tomar decisões mais pensadas e razoáveis. Lembre-se que a diferença inicial dos anos aumenta à medida que o tempo passa, e o que é aceitável no início torna-se mais pesado à medida que os anos vão passando. Não digo que é impossível, só que é importante preparar-se para isso. Por exemplo, uma diferença de 22 anos quando se é relativamente jovem (por exemplo, 18 e 40) não é a mesma coisa que a uma idade mais avançada (por exemplo, 50 e 72). Embora sejam numericamente os mesmos 22 anos, as necessidades mudam, as metas são revistas, o impulso se acalma e a visão de mundo vai se transformando. Insisto: não acho que seja impossível, mas não é fácil quando se fazem projeções de médio ou longo prazo. A MÚTUA INFLUÊNCIA PSICOLÓGICA Conheci casais nos quais a diferença de idade se reduz psicologicamente devido à atitude dos apaixonados. A pessoa mais jovem é mentalmente madura e a mais velha possui um espírito juvenil e vivo. No amor, não se juntam somente os corpos, mas também as mentes, as crenças, a vontade de viver e as ideologias. Lembro-me de um casal: ela tinha 35 anos e ele 64. Eram pessoas muito especiais a quem a diferença mal afetava. Dentre outras coisas, uma grande paixão os unia: a arte. Ambos moravam em uma casa de campo, ele era um escultor sem muito dinheiro, e ela, que havia sido sua aluna, tentava cavar seu espaço no mundo da pintura. Moravam entre ferros retorcidos, telas e pincéis, cercados de árvores e alguns animais. Naquele lugar, podia sentir-se o amor por todos os lados, uma mistura de afeto, desejo, inspiração, estética e vocação. Era muito mais que feromônios. Ela poderia conhecer o homem mais atraente e jovem da Terra e nada teria acontecido; seu coração estava selado e bem seguro. A BUSCA DE PROTEÇÃO É claro que amar pessoas mais velhas é válido e respeitável, seja porque se busca um pouco de sabedoria, sossego, maturidade ou experiência. Porém, há casos em que essa inclinação responde a uma profunda necessidade de proteção. As pessoas que foram abandonadas, que sofreram privação emocional na primeira infância ou foram exageradamente submetidas a figuras de autoridade são propensas a estabelecer relacionamentos com parceiros que cumprem uma função de cuidador. O que muitos apaixonados buscam nas pessoas de mais idade é um guarda-costas afetivo, alguém mais seguro e mais forte em quem poder confiar para enfrentar a vida. Isso não significa que o amor não surja em algum momento e o convívio se transforme em uma mescla de afeto e necessidade; mas, se existem traços de relações emocionais ruins na infância, é preciso tratá-los. Pergunte a si mesmo o que busca: ajuda, amor, as duas coisas? No final, todos buscamos uma base emocional confiável e segura; porém, o que você deve observar é que lugar ocupa a “segurança” em seu menu afetivo. Se estiver em primeiro lugar, a coisa vai mal. “PRECISO ME CONTAGIAR COM A ENERGIA DE GENTE JOVEM” Muitas pessoas mais velhas sonham em repetir os anos da juventude. Em dado momento, reativam-se os hormônios e começam a procurar “carne fresca” para se contagiar com seu brio e furor. Vi passar por meu consultório os dois extremos: aqueles que renascem graças à presença de uma companhia jovem, e os que se esgotam no segundo ou terceiro encontro com seu jovem amor, porque as dores lombares ou o ciático não lhe permitem. Não podemos rejuvenescer além do que determina o organismo, mesmo que a mente tente fazer regressões. A imagem de um velhinho feliz, balançando a cabeça ao compasso de uns jovens quadris, é um conto de Hollywood. Quando minha esposa e eu dançamos ou cantamos canções de nossa época, minhas filhas fazem cara de condescendência e nos dão um tapinha nas costas. A mensagem que consigo decifrar é: “Tudo bem, papai, se são felizes assim, fiquem à vontade”. Deixar-se levar pelo frescor dos corpos juvenis é tentador para a maioria. E não falo só dos homens; vamos pensar também naquelas mulheres não tão adolescentes que frequentam locais de striptease masculino, enlouquecem de felicidade e põem dinheiro na cueca dos homens que se contorcem ritmicamente. Porém, é frenesi de uma noite, um momento de descontração para liberar um pouco a testosterona feminina, e pronto. Coisa diferente seria conviver com um desses personagens, manter longe as admiradoras de plantão e dar-lhes calmantes de vez em quando para que sosseguem seu ímpeto. Em certo momento de minha vida, saí com uma mulher dezoito anos mais nova. Eu tinha 41 e ela, 23. O negócio começou bem, até que percebi uma coisa que não quis ou não soube encarar, possivelmente devido a minha susceptibilidade avançada em anos: cada vez que ouvia uma música, no carro, em uma loja ou na rua, ela começava a se mover no ritmo. Balançava a cabeça e os ombros como se dançasse mambo. Eu não era tão velho, mas enquanto minhas preferências musicais se concentravam mais na trova cubana, Beatles ou balada romântica, ela entrava em êxtase com o trans e a música eletrônica. Devo confessar, mesmo que não seja muito profundo de minha parte, que suas “contorções”, gesticulações e espasmos sinfônicos me afastaram dela. As emoções “fortes” que me motivavam eram outras e não tinham nada a ver com sair pulando de uma danceteria a outra. Cada idade tem sua “loucura” específica, mesmo que às vezes sejam intercambiáveis. Você não precisa esticar a pele como um tambor e vestir roupas de adolescentes de quinze anos para sentir emoções. Sem deixar de ser você mesmo, pode encontrar gente que se pareça com você. Isso é o maravilhoso de um mundo tão variado e pluricultural. Conheci pessoas idosas que fariam empalidecer mais de um hiperativo, com uma alegria e disposição para o prazer realmente invejáveis. Cada casal cria seu microcosmo, sua intimidade e seu jeito particular de sentir e degustar a vida. Esse é o vínculo secreto e insubstituível de cada apaixonado. Quem disse que é preciso ser jovem para gerar emoções fortes? “QUERO SABER SE AINDA FAÇO SUCESSO” Essa motivação decorre de um problema mais complicado. Poderíamos chamá-lo de síndrome do ator (ou atriz) em decadência. Por exemplo, muitas pessoas que foram famosas transformam a idade do ouro em uma tragédia, porque se apegam ao que foram e já não são. Conheci atores e atrizes maduros que, mesmo não sendo velhos, se envergonhavam de suas rugas e ficavam trancados vendo vídeos e fotos do passado (lembrem-se de Greta Garbo). Pôr a felicidade do lado de fora é entregar o poder pessoal aos outros e deixar que a aprovação social, os aplausos, a fama ou os elogios deem sentido a nossa vida. Em outros casos,negar-se a envelhecer e a sair de moda faz que algumas pessoas percam o senso de proporção e estética e tomem atitudes incoerentes com sua idade, tentando recuperar a juventude perdida. Podemos encontrá-las em qualquer lugar, e é como se carregassem um painel luminoso: “Eu me mantenho jovem, e você?”. E eu responderia: “Eu não, felizmente!”. E qual é o indicador que adotam para surrupiar anos ou meses à maturidade ou ao envelhecimento natural? A conquista, o ato de gerar desejo nos outros. É verdade que, social e medicamente falando, os cinquenta de hoje são os trinta de antigamente; porém, também é verdade que cada idade tem seu encanto, desde que a aceitemos com naturalidade. Um paciente de 64 anos, que havia sido a vida inteira um Dom Juan, nunca aceitava sua idade verdadeira e tentava suprir suas aventuras de outrora com prostitutas. Quase todos os dias pagava os serviços de uma mulher e até chegava a se apaixonar “loucamente” por algumas, o que complicava por demais sua vida: gastava mais dinheiro do que podia, ficava deprimido, humilhava-se, enfim, fazia exatamente tudo o que não devia fazer para ficar em paz. O que o motivava não era o sexo ou um vício em prostitutas, mas a tentativa de reviver o velho papel de conquistador: parodiava o comportamento do sedutor e se perdia no jogo, acreditando que era real. No dia em que chegou ao fundo do poço e teve consciência do que fazia, ele me disse: “Sou um iludido; a única coisa que consegui foi ser uma caricatura do que fui”. RELACIONAMENTOS IMBERBES O que podemos dizer daquelas relações a dois em que os apaixonados são quase crianças e vão morar juntos? Eu me refiro aos casamentos imberbes, patrocinados ou não pelos pais. Já dissemos que o amor não tem idade, mas às vezes precisa de fraldas. Se mal posso com minha vida, como vou poder conviver com outra? Atendi a muitos jovens, quase adolescentes, que tentavam levar uma impossível vida a dois adulta. Minha conclusão não é otimista: a maioria desses relacionamentos não funciona ou requer muita ajuda profissional para dar certo. Há um tempo cronológico e mental para ter a cabeça no lugar e outro para voar sem freios, e, por isso, criar “maturidade” ou “juventude” no consultório é impossível. Há épocas influenciadas por determinadas regras sociais, ciclos de vida e variações hormonais que nos levam a agir de tal ou qual maneira que não podemos ignorar. Não quero dizer com isso que não existem casamentos entre gente muito jovem que vive bem, mas a porcentagem de sucesso é bastante baixa. Alguns pais se apressam a casar a filha porque engravidou, sem perceber que é preferível uma mãe solteira bem constituída que uma mãe malcasada e ansiosa; e mais: ser casado não é uma virtude que se deve conquistar a qualquer custo. O casamento requer uma decisão pensada e analisada com o coração palpitante e a cabeça fria: não é uma brincadeira de criança. CADA COISA A SEU TEMPO. ARGUMENTOS PARA PÔR A IDADE EM SEU DEVIDO LUGAR 1. Pense bem no que quer Se você se apaixonou por alguém com idade para ser seu filho, pense bem no que quer: aventura ou estabilidade afetiva? Você sabe que, com o passar dos anos, a diferença cronológica se tornará mais acentuada e você vai precisar de um companheiro comprometido e que o ame de verdade. Pense bem: você está em condições de não sentir ciúmes, medo do abandono ou da rejeição à medida que os anos passarem? Insisto: se seu objetivo é se divertir, divirta-se! Mas se o que quer é estabelecer uma relação com futuro, avalie bem os fatos. O primeiro fator que você deve levar em conta é que seu companheiro seja confiável; que não confunda admiração ou desejo com amor, que andam sempre juntos. O segundo fator tem a ver com a segurança em si, com sua autoestima, com ser capaz de ignorar as rugas ou os achaques do outro e amar tranquilamente. Tudo isso vale também para a pessoa mais nova que se apaixona por quem poderia ser sua mãe ou pai (em alguns casos, avô ou avó). Você será capaz de encarar a diferença de interesses, gostos e todo o resto? Não pense no que você sente agora, porque a paixão o fará ver tudo cor-de-rosa. Adiante-se um pouco e imagine-se daqui a vinte anos. Faça esse exercício muitas vezes antes de tomar uma decisão. Por que todo esse cuidado? Porque o coração pode nos levar para qualquer lugar e com qualquer um. Tudo depende de quais são seus objetivos e de sua visão de mundo. Desde que não invente um conto de fadas, sempre haverá opções. 2. Eu desço ou você sobe? Quando existe uma diferença de idade significativa entre os apaixonados, a aproximação deve ser de ambas as partes: aproximarmo-nos psicológica e afetivamente do outro sem que isso afete nossa essência. O acoplamento não deve ser só horizontal, mas também vertical, para nos encontrarmos no meio do caminho: seus gostos, meus gostos e nossos gostos. Essa “mobilidade” para cima ou para baixo garante que nenhum dos dois se transforme em um polo fixo e imutável em volta do qual o outro deva girar. Recordo uma paciente que havia se casado com um homem muito mais velho porque o amava sinceramente. Quando a vi depois de quase dois anos de casada, fiquei impressionado. Seu olhar era triste e sua aparência havia mudado; estava mais encurvada e literalmente havia envelhecido uns dez anos. Vestia-se como uma senhora muito velha para sua idade, quase não usava maquiagem e seu cabelo ostentava alguns fios prematuramente brancos. A mulher viva e alegre que eu havia conhecido antes sofrera uma transformação dramática. Perguntei-lhe se tinha consciência de sua mudança, e ela respondeu: “Por isso vim. Não estou levando bem meu relacionamento. Poucos meses depois de casar, comecei a pensar que, se eu não mudasse e me tornasse mais ‘senhora’, ele se sentiria velho ao meu lado. Não sei o que aconteceu, mas isso se tornou uma obsessão”. Envelhecer por amor: uma nova forma de sacrifício que não aparece na literatura sobre o assunto. Envelhecer por fora e por dentro, encurtar caminhos pelo atalho errado. Ela havia acelerado o passo pela escada dos anos e ele não havia descido um único degrau. Em outro momento, ela me disse: “Há pouco tempo encontrei umas amigas, estavam tão jovens!”. Sua problemática mostrava uma dinâmica oposta à que costuma aparecer nesses casos: a pessoa prejudicada na relação não era a mais velha, e sim a mais nova. Em algumas sessões, o homem entendeu o que estava acontecendo e, de comum acordo, começaram a trabalhar para se encontrar no meio do caminho. A bela canção “Le Métèque” (O estrangeiro), de Georges Moustaki, insinua a ideia de descer alguns degraus e até propõe parar o tempo, se for necessário. Com minha cara de meteco, de judeu errante, de pastor grego, e meus cabelos aos quatro ventos, eu virei, minha doce cativa, minha alma gêmea, minha fonte viva, eu virei beber teus vinte anos. E serei príncipe de sangue, sonhador ou adolescente, como melhor te agradar. E nós faremos de cada dia toda uma eternidade de amor, que viveremos até dele morrer. E nós faremos de cada dia toda uma eternidade de amor, que viveremos até dele morrer.2 3. A pressão social e “o que vão dizer” Por alguma estranha razão, as pessoas não gostam de “casais díspares”. Por exemplo, nos Estados Unidos, 65% das mulheres não concordam que as veteranas se envolvam com homens muito jovens. Do mesmo modo, se um homem mais velho sai com uma mocinha, é provável que o apelido “velho safado” não tarde a chegar (obviamente, refiro-me a jovens maiores de idade). A isso temos que acrescentar outros adjetivos, como “incautos” ou “crédulos”, porque supostamente estariam se deixando enrolar por alguém que pretende obter algum ganho adicional com a relação, seja dinheiro, fama, prestígio ou posição. Vamos aceitar que isso ocorre em muitos casos, mas não podemos generalizar. O importante é não se deixar afetar pelo que vão dizer. Lembro-me de um amigo que saía com uma garota muito mais nova, a diferença de idade era evidente e ele tinha que enfrentar com bastante frequência momentos “constrangedores”. O mais comum era ouvir:“Parabéns, sua filha é muito bonita”. Meu amigo, que não se impressionava muito com as opiniões alheias, costumava responder com um sorriso malicioso: “Não é minha filha, é minha mulher; não acha que tenho muita sorte?”. Porém, um paciente, em uma situação similar, “ofendia-se”, exigia respeito e brigava. A mulher chorava, ele se via como um velho rabugento e tudo perdia o encanto. A irracionalidade de seu comportamento era evidente: por que os outros deviam saber que ela não era sua filha, se na realidade parecia? Sobrava indignação, e escândalo também. A única coisa que ele conseguia com essa atitude era confirmar que não se sentia seguro com sua jovem e linda esposa. O bom humor, sem dúvida e como sempre, ajuda a não levar a opinião dos outros muito a sério. Recordo a atitude de um garoto de uns vinte e poucos anos que saía com uma mulher de 52. Cada vez que estava com ela e alguém insinuava que “sua mãe era muito bonita”, ele punha o dedão na boca, adotava a posição fetal e pegava nos seios dela. As pessoas saíam atarantadas, não sei se pela cena grotesca ou se pela imprudência sexual. Ambos morriam de rir, mas tinham uma vantagem: era uma simples aventura. A questão muda quando o relacionamento é mais sério e é preciso enfrentar a família, seja por motivos econômicos ou simplesmente porque a relação não se encaixa em seus esquemas. Os argumentos costumam ser os mesmos de sempre e relacionados a um possível parentesco inexistente: “Ele podia ser seu pai!”, “Ela podia ser sua mãe!”, “Podia ser sua filha!”, ou “Podia ser seu filho!”. O que responder a isso? A verdade: “Mas não é!”. Em geral, a família esgrime uma grande quantidade de inconvenientes e conselhos de todo tipo, que vindos de quem não tem interesses ocultos, não custa nada levar em conta. Afinal, o último juiz de sua própria conduta será você. 4. Eu já acabei e você está só começando Já vi isso em meu consultório uma infinidade de vezes. Duas energias díspares e contrapostas. Ele se cansa rápido e ela é insaciável: cinquenta não é igual a trinta e poucos. Ou vice-versa: ele é feliz comprando roupa e exibindo seu corpo escultural e ela o acompanha às compras até onde aguenta e quer: quarenta não é igual a sessenta e poucos. Nem é preciso falar das metas existenciais. Um dos dois quer fazer uma nova faculdade e o outro só pensa em se aposentar. Ela anda de bicicleta, faz aeróbica e levanta peso; ele joga golfe, a duras penas. O jovem marido quer que façam investimentos arriscados, enquanto ela quer poupar tudo embaixo do colchão. A discrepância nos ciclos se torna evidente nas necessidades e na intensidade com que se perseguem os objetivos de vida. Não é uma lei geral; deve haver exceções e muitos superam as diferenças, mas elas existem. Repito: amar é uma coisa, e conviver é outra muito diferente; amor de alma e amor de convivência. Se você tem sonhos jovens a realizar e seu par quer é tirar um cochilo depois do almoço, avalie toda a relação. Sacuda-o e seja firme, não vá se contagiar com os bocejos. 5. Você está pronto para o que se avizinha? Como vimos, uma diferença de idade acentuada entre os membros do casal gera algumas particularidades que é bom ter em mente e estar preparado para que os imponderáveis não o peguem de surpresa. Só para citar alguns: A alta probabilidade de enviuvar a uma idade não muito avançada. Se seu par tem vinte anos a mais que você, ou mais, e especialmente se você é mulher (elas vivem, em média, mais que eles), a possibilidade de que fique viúva é muito mais alta que a de seu companheiro. Ter que cuidar do outro, mais que ser cuidado. Não é por desamor nem egoísmo, mas é provável que o suporte emocional e físico fique nas mãos da pessoa mais nova do casal, o que implica uma capacidade de entrega especial e uma grande responsabilidade. Não falo tanto de cuidar de um idoso doente, possibilidade que não se deve descartar, mas de continuar ali, com o mesmo amor, mesmo que não haja reciprocidade em algumas questões. A sanção social e/ou moral das pessoas, amigos e parentes. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura, diz o ditado, e alguns cedem às imposições das normas vigentes, à custa do amor. Desajuste nas atividades, metas ou gostos. Talvez ela, que é mais velha, queira descansar, e ele, mais jovem, sinta que a farra está só começando. A praia de manhã ou à tarde, almoçar no meio da tarde. A diferença entre gerações pode acabar com o amor. Ciúmes e insegurança à medida que os anos passam. Isso se vê tanto em homens como em mulheres mais velhos. Uns e outros podem começar a sentir que a “concorrência” aumenta e precisam se manter jovens a qualquer custo. É aí que entram os cirurgiões plásticos e os psiquiatras. Leve em conta que, se em qualquer relacionamento a dois é preciso preparar-se financeira, psicológica e emocionalmente para torná-lo funcional, com mais razão seria naqueles em que a diferença de idade é significativa. 2 Livre tradução da letra original. Princípio 10 Algumas separações são instrutivas; ensinam o que você não quer saber do amor Justamente quando duas pessoas estão sob a influência da mais violenta, louca, falsa e passageira das paixões, é quando se veem obrigadas a prometer que ficarão nesse estado de excitação incomum e extenuante até que a morte os separe. B. Shaw É um grande pecado jurar um pecado; mas é pior manter um mau juramento. W. Shakespeare O paradoxo que enfrento em meu consultório é que metade dos meus pacientes não vê a hora de se separar, e a outra metade não vê a hora de se casar. Parece que o casamento ou a vida a dois, apesar dos novos valores da pós-modernidade, continua sendo uma aspiração de muitos: não fomos feitos para a solidão afetiva. Os biólogos evolucionistas dizem que o instinto de procriação nos leva a buscar um parceiro; porém, ninguém pode negar que construir uma família é uma das experiências mais gratificantes do ponto de vista psicológico e espiritual: o problema é saber com quem empreendemos essa aventura, como escolher o companheiro. Se partimos do pressuposto de que a vida é mais fácil a dois, o outro não pode ser uma carga. Um saudável relacionamento a dois é leve; não é preciso arrastá-lo, não é uma cruz, nem uma tortura socialmente aceita; o bom casamento não é feito à base de sangue, suor e lágrimas, como ainda pensam certas pessoas. Em uma relação sofredora e extenuante, sem perspectivas de melhora, “adaptar-se” é perigoso, além de irracional. Não temos que padecer a pessoa amada, e sim usufruí-la. A SABEDORIA DO “NÃO” Alguns separados, além do mal-estar que isso representa, adquirem o que poderíamos chamar de sabedoria do “não”: é possível que não tenham uma clareza absoluta sobre o que esperam e querem do amor, mas sabem o que não querem e não estariam dispostos a tolerar pela segunda vez. Depois de um tempo, quando a vivência do “não mais” se instala e se torna consciente, funciona como um antivírus. O que você não gostaria de repetir em uma próxima relação? Por exemplo: não quero viver em abstinência sexual; não quero uma pessoa extremamente econômica, não quero uma pessoa ciumenta que tire minha liberdade; não quero que me desrespeitem; não quero alguém pouco carinhoso; não quero que se esqueçam de meu aniversário; não quero que meu companheiro seja chato; não quero que seja infiel, enfim: seus “não quero”, organizados e sistematizados do maior para o menor, o que não seria negociável, o que você não seria capaz de suportar novamente. Um mau casamento ou um mau relacionamento faz aflorar nossas sensibilidades mais profundas que, provavelmente, antes de sofrê-las, não sabíamos que existiam. Aprenda com as experiências anteriores. Que sua próxima “escolha afetiva” seja fundamentada e pensada: amar não é ficar bobo (mesmo que, na etapa da paixão, nosso QI diminua por alguns meses). Aqueles que erram pela segunda ou terceira vez fazem-no porque não decantaram nem incorporaram os “não quero” das primeiras tentativas. POR QUE ERRAMOS TANTO NO AMOR? É fato que a maioria das pessoas escolhe um par exclusivamentecom o coração e não considera racionalmente outros aspectos que poderiam ser fundamentais para a convivência diária. Os apaixonados que conhecem ou intuem o lado negro do outro encorajam a si mesmos dizendo que o amor os ajudará a sair vitoriosos. Eu me pergunto, brincando com as palavras, se realmente o amor “tudo cura” ou é “tudo loucura”. Dizemos e fazemos muitas bobagens em nome do amor: deixamo-nos enganar, persistimos em relacionamentos com quem não nos ama, suportamos os maus-tratos, renunciamos à vocação, matamos e nos suicidamos, sacrificamos nossa liberdade, negamos nossos valores, enfim, o tão louvado amor muitas vezes nos foge das mãos e nos conduz a um beco sem saída. É evidente que, em uma vida a dois, o sentimento não supre tudo. “Só o amor não basta”, dizem os especialistas, e têm razão. Devíamos escolher um companheiro de uma maneira mais “racional” e menos visceral: “Eu o desejo, gosto de muitas coisas em você, mas ainda não sei se você serve para minha vida, mesmo que meu corpo e meu ser me empurrem desordenadamente para você”. Lamento pelos fanáticos da paixão, mas o amor, para quem se move em um plano terreno e não transcendeu, não costuma ser tão incondicional (o número de desertores no assunto é cada dia maior) nem move montanhas: na verdade, esmaga-nos se nos descuidarmos e não o soubermos conduzir. Antes de se arriscar cegamente, ponha o entusiasmo entre parênteses por um tempo (é possível baixar a hipomania ou a paixão por alguns instantes quando realmente queremos) e conecte-se a um sistema de processamento mais controlado (não digo que deixe de amar, mas que tente um relaxamento voluntário). Quando descer da estratosfera, comece a considerar vantagens e desvantagens, prós e contras e suas expectativas mais íntimas; procure pensar da cintura para cima, e não da cintura para baixo. Faça isso como um exercício, uma disciplina: fique na realidade concreta, tentando ver as coisas como são. Se repetir essa prática de se conectar e desconectar à emoção, irá forjando uma nova habilidade que lhe servirá no futuro: você será capaz de integrar razão e emoção e discernir quando sobra uma ou falta outra. OS TRÊS PILARES DOS BONS RELACIONAMENTOS AFETIVOS Segundo a maioria dos tratados sobre o amor conjugal, para ter um bom relacionamento a dois é necessária uma série de “virtudes” de que nem todos dispomos. Algumas dessas qualidades, consideradas imprescindíveis, são: compromisso, sensibilidade, generosidade, consideração, lealdade, responsabilidade, confiabilidade, cooperação, adaptação, capacidade de reconhecer erros, de perdoar, solidariedade, altruísmo, e a lista continua. Quanta coisa! Se alguém houvesse incorporado a seu ser todos esses valores, estaria próximo à santidade e não precisaria de companheiro. A realidade nos mostra que a maioria de nós está muito longe desse nível de excelência, e, quando iniciamos uma relação afetiva, o fazemos com toda nossa defeituosa humanidade a tiracolo. Não nos apaixonamos por um “pedaço” da pessoa, não podemos fragmentá-la a nosso bel-prazer nem ignorar seus “vícios” e carências, porque cedo ou tarde eles aparecerão: vamos nos relacionar com tudo que o outro é, com o bom, o mau e o feio. É claro, então, que o conhecimento real do companheiro deveria acontecer antes, e não depois do casamento. Também é importante conhecer o Mr. Hyde de cada um. De uma perspectiva menos angelical e pé no chão, podemos dizer que um bom relacionamento (de carne e osso) requer, pelo menos, três fatores funcionando ao mesmo tempo. Quando falta um deles, o relacionamento degringola. Analise-os e chegue a suas próprias conclusões. 1. Desejo/atração Eros, pronto e disposto. Em uma relação a dois deve haver química, vontade do outro (se você tem que se benzer cada vez que faz amor e tomar coragem, está com a pessoa errada). O parceiro é como sua sobremesa preferida: quando você come, sua vontade passa, mas, no dia seguinte, a apetência renasce com o mesmo ímpeto; o organismo pede mais e o prazer se renova. Os casais que funcionam bem se devoram amorosamente entre si e fazem do erotismo um jogo gratificante e agradável. Fantasias consensuais e bem administradas, imaginação em equipe: eu faço para você, você faz para mim, nós fazemos um para o outro. Quando Eros está presente, a chama está sempre acesa; basta uma fagulha para que a labareda se acenda. E se Eros for se apagando sem causa evidente? É preciso intervir rapidamente, porque, uma vez extinto, recuperá-lo é praticamente impossível. Os casais vítimas da rotina vão trocando o arroubo inicial, alegre e energético, por uma sexualidade mecânica e quase sempre insossa, que deixa Eros ferido de morte: quando não há surpresa nem um pouco de loucura, o sexo se torna previsível, chato e, às vezes, grotesco. Se sua dinâmica é como a que se segue, peça ajuda urgente: Ele: “Você está a fim?”. Ela: “Bem, muito muito a fim, não... Além do mais, estou gripada. Mas, se você não está se aguentando, vamos lá”. Despem-se, ele descarrega e ela aguenta: missão cumprida. Isso não é Eros! Falta o flerte, o exibicionismo, a avidez, uivar um pouco, o jogo de representação de papéis, os acessórios, enfim: nunca se deve deixar que o carnal suplante o sensual. Suplicar por sexo é indigno; fazê-lo sem vontade, deprimente. 2. Amizade Por que nos sentimos tão bem com os amigos? O que mantém essa alegria compartilhada? Quando estamos com eles, queremos contar e ouvir coisas. O que há nisso? Cumplicidade e uma mescla encantadora de humor/sintonia. Há certa honestidade implícita, certa lealdade que facilita a comunicação e a torna mais fluente. Podemos dizer, como diz Montaigne, que os verdadeiros amigos são como uma extensão de nós: “A própria alma em corpo alheio”. A pergunta que surge e que gera polêmica é a seguinte: podemos ser amigos do nosso companheiro? Contra o que afirmam alguns pensadores, eu acredito que sim, e não só acredito, como acho isso imprescindível. Com o “companheiro amigo” você não tem que explicar a piada, o riso chega antes de você terminar de contá-la, o humor é tácito e compartilhado: não se faz só amor; também se faz amizade. O mito nos ensina que os opostos se atraem, mas não é verdade. Quando os desencontros são mais que os encontros e você se vê obrigado a sustentar e defender seus pontos de vista como se estivesse perante um júri, então está no lugar errado e com a pessoa errada. Algumas incompatibilidades não são fáceis de levar, e muito possivelmente sua presença afetará a amizade na relação. Por exemplo: a ideologia, os projetos pessoais, a religião, as posições éticas, a atitude perante a vida, e outras questões vitais que refletem visões de mundo opostas. Quando existe concordância sobre o fundamental, as mesmas coisas os inquietarão. Haverá certa paz no ambiente. Fazer sexo com o melhor amigo é estar muito perto do amor. Só falta uma coisa: o agape. 3. Ternura/entrega (agape) A ternura é o oposto da violência, implica o cuidado amoroso de quem nos necessita: a doçura age como um sistema defensivo contra a agressão e o desrespeito. Há ocasiões em que, por carência ou fatalidade, seu companheiro passa para o primeiro plano e seu “eu” dá um passo atrás. Nesses momentos, a democracia se rompe, não pela força de um amor impositivo, mas pelo desequilíbrio gerado pela compaixão perante o sofrimento da pessoa amada; dou mais do que recebo. Quando amamos de verdade, preferimos sofrer nós próprios a ver a pessoa amada sofrer; ocuparíamos o lugar dela com prazer se pudéssemos. Ser para si e ser para o outro, ter as duas opções disponíveis para agir conforme o caso. “EU TE AMO, MAS VIVO MELHOR SEM VOCÊ” Um jovem que sofria depressão chegou a meu consultório e expressou assim seu mal-estar: “Sou casado com uma mulher muito difícil. Ela é infiel há muito tempo e não quer sexo comigo. Sempre que pode, diz que sou um fracassado, considera-me um inútil e debocha de meu corpo. Temos um filho, e praticamente sou eu quem o cria, porque ela nunca está em casa. Ela odeia minha família e meus amigos.Vivo triste e amargurado (pranto)... às vezes quero me matar”. Estava havia cinco anos nessa mistura de tragédia e indignidade, e embora sobrevivesse à base de medicamentos e ajuda psicológica, não era capaz de tomar a decisão de deixá-la. Quando lhe perguntei por que continuava com ela, sua resposta me deixou boquiaberto: “Eu a amo”. É difícil entender como o amor resiste tanto em situações como essa: se meu paciente houvesse deixado de amá-la, a tortura não teria durado tanto. Porém, sentia-se amarrado por um sentimento que continuava vivo como no primeiro dia. Independente de suas motivações psicológicas e das explicações clínicas, quero apontar que o mesmo “argumento afetivo” de persistência (“Eu a amo”) mantém presos em relacionamentos doentios milhões de pessoas. Tanto se vendeu a ideia de que o principal motivo da união conjugal é o amor que sua mera presença justifica qualquer coisa. Perguntei a uma senhora, que vivia infeliz e submissa em seu casamento, o que estava esperando para se separar, e ela respondeu: “Que o senhor me ajude a não o amar mais”. Eu lhe expliquei que ninguém deixa de amar quando quer: você não pode se desapaixonar “desejando se desapaixonar”. O mecanismo não funciona assim, mas é possível racionalizar o sentimento, sim, esfriá-lo um pouco e tentar mantê-lo sob controle. Com treinamento e um pouco de estoicismo, podemos conseguir que a emoção não confunda a razão. De qualquer maneira, afirmar que o amor justifica o tormento de uma convivência ruim é incompreensível. Propiciar uma ruptura com a pessoa que nos faz sofrer, mesmo que a amemos, implica trocar um sofrimento continuado e inútil por uma dor mais inteligente, que será absorvida graças à elaboração do luto: “Eu te amo, mas vou embora. E vou não porque não o ame, mas porque você não me serve, porque não serve para minha vida”. Mudar de trilho, trocar uma dor interminável e constante por outra de final feliz, mesmo que o amor insista, nos empurre e nos torne idiotas. Podemos afirmar que algumas separações funcionam como uma cura por desintoxicação; o que mais dói é a síndrome de abstinência: o pico, quando a máxima necessidade enfrenta a máxima carência. Mas, a partir daí, uma vez superado o clímax da angústia, o organismo começa a se recuperar pouco a pouco. A máxima é esta: se você não vive em paz, amar não é suficiente. E essa é a razão pela qual se deveriam anunciar algumas separações ao público em geral e fazer uma festa de comemoração. A DECISÃO É SUA Na maioria das culturas, existe uma curiosa contradição no que diz respeito às relações que se estabelecem entre amor e casamento: de um lado, recomenda-se aos quatro ventos (é quase uma exigência) que o vínculo seja por amor e, por outro, não se aceita o desamor como uma causa válida de divórcio. Não dá para entender por que, se o amor nos une, o desamor não pode nos desunir. Poderia dizer que há outras questões pelas quais lutar (por exemplo, compromissos, filhos, valores religiosos) e talvez seja verdade em alguns contextos, mas eu me pergunto que sentido têm esses “compromissos” se não se tem a energia principal que os mantém vivos. Casamentos por conveniência? Não são por amor, e tudo fica claro desde o início. O que você acha desta declaração fervorosamente amorosa e esotérica? “Prometo amá-la daqui até a eternidade, em todos os planos astrais, em todas as dimensões existentes e em cada vida que reencarne.” Foi o que disse um homem apaixonado por uma mulher mais nova, que tremia de prazer ao ouvir tamanho disparate. O que o homem estava jurando? Como tinha tanta certeza de que ninguém mais tocaria seu coração? Além do mais, como ter certeza de que o que hoje me agrada nele ou nela daqui a vinte anos não vai se tornar insuportável? Ele poderia tentar seriamente, como um herói, mas não garantir. As pessoas mudam, assim como seus gostos e motivações. Garantir que jamais vamos nos apaixonar por mais ninguém é pretensioso demais para se levar a sério. Insisto: podemos ativar um sistema de resistência psicológica para nos defender de outros amores, mas jurar amor eterno é demais. Compromissos devem ser feitos com base em questões que dependem de nós: “Tentarei ser fiel, serei respeitoso, não tirarei vantagem nem o explorarei, serei honesto e sincero”, enfim, atitudes que realmente posso assumir. Se o desamor não é motivo de separação e o compromisso deve avalizar uma relação independente de toda dúvida e sem atenuantes, tal como defendem algumas subculturas e grupos sociais, contrair núpcias é um caminho sem retorno. Proibido se desapaixonar, proibido retratar-se! Não há nada a fazer. Não conheço ninguém que tenha tido seu casamento “anulado” por desamor ou tédio crônico. A decisão de continuar ou não em um relacionamento é exclusivamente sua: não entregue o poder a outra pessoa para que ela decida por você. Você é o único que sabe como sua relação é realmente e quanto o afeta. A PRESSÃO DA FAMÍLIA Quando decidir se separar, você vai sentir o peso dos valores tradicionais, as premissas religiosas e possivelmente uma dura cobrança de parte de sua família. Essa crítica externa à liberdade afetiva faz que muita gente permaneça presa em relações impossíveis de suportar, simplesmente porque acreditam que estão fazendo o certo. Não estou fazendo uma apologia à separação, mas ninguém tem o “dever” de ser infeliz: é a filosofia do martírio como virtude, que ainda existe e deixa sequelas. Em certa ocasião, presenciei o que se poderia chamar de uma “insolidariedade de gênero” entre uma paciente que queria se divorciar e sua mãe, que fazia o possível para desencorajá-la. Vejamos parte do diálogo que mantiveram: Paciente (P): (em lágrimas, suplicante) Mas, mamãe, eu já disse que não o amo, não o amo mais! Mãe (M): (em tom gentil, mas firme) O amor vai e volta... P: E se não voltar? O doutor disse que não via opções. Além do mais, ele me trai com a prima! Ele tem uma amante! M: E o que isso importa? Com certeza, vai passar. Você sabe a história do seu pai, os homens são assim. Mas você é a esposa oficial, a mãe dos filhos dele... Você tem que manter seu posto. P: Ele não me ama, entende? Ele me disse isso na cara, disse que não me suporta, que quer ir embora! M: Ele não vai... P: Não fazemos sexo há seis meses! Isso também não importa? M: Não foi para isso que você se casou. Minha paciente, devido a uma história anterior de carência afetiva, buscava o aval de sua mãe, que era impossível de obter porque esta se mantinha em uma posição dominante e fechada e não parecia se importar muito com o bem-estar de sua filha. Depois de muita discussão, minha paciente conseguiu vencer os antigos esquemas de dependência e compreendeu que não devia pedir permissão nem convencer ninguém para tomar suas decisões vitais. Finalmente, separou-se e a mãe a “perdoou” depois de um ano. A “FOBIA DO AMOR” E AS SEPARAÇÕES RUINS Esta frase de Stendhal sempre me impressiona por sua beleza e realismo: “O amor é um bela flor à beira de um precipício. É preciso ter muita coragem para ir colhê-la”. Amor de valentes. O amor é suado e lutado, fabricado e construído no dia a dia. Portanto, se você é daquelas pessoas melindrosas e ultrarromânticas, terá uma resistência mínima aos embates amorosos. Entre o calvário dos que acreditam que o amor foi feito para sofrer e a ingenuidade dos crédulos afetivos encontra-se o amor realista. O amor conjugal não é cor- de-rosa, por mais que queiramos pintá-lo assim: há momentos bons e maus que teremos que aprender a superar. Se os comportamentos e as atitudes negativas ultrapassarem a linha vermelha, você terá que ir embora; se se mantiverem dentro do aceitável e forem patrocinados por um amor sólido, siga em frente. O amor cresce e se desenvolve. Algumas pessoas escaldadas com a experiência amorosa aprendem a regular alguns aspectos do amor sem se traumatizar; e outras sofrem a dor do passado, que cria um condicionamento de aversão que as imobiliza e impede de ter relacionamentos satisfatórios por medo de sofrer. A ideia que se escondepor trás dessa rejeição generalizada é: “Se fracassei uma vez, vou fracassar de novo”, ou “Já sofri demais por amor, de modo que não quero saber da possibilidade de me apaixonar!”. Cansaço, hipersensibilidade e mecanismos de defesa, tudo agindo ao mesmo tempo. Às vezes, essas pessoas costumam assumir uma falsa autonomia. Aparentemente, estão além do bem e do mal e usufruindo de uma maravilhosa independência, mas, na realidade, a solidão em que se encontram é uma couraça protetora. “Amorofobia”: fobia do amor. Indivíduos que morrem de vontade de amar e ser amados, mas ao mesmo tempo entram em pânico com a simples ideia de voltar a se relacionar afetivamente, porque temem se enganar. Relacionamentos ruins e/ou separações ruins: é tão importante saber escolher quanto saber encerrar adequadamente um vínculo. “NÃO ME SEPAREI PORQUE NÃO QUERO FAZER MAL AOS MEUS FILHOS” Está justificado o sacrifício? Duvido. Viver em um furacão de brigas e discussões ou em uma relação na qual não existe a mínima expressão de afeto não é bom para o crescimento psicoafetivo dos filhos; e o que dizer da violência física! Precisamos ter em mente que as crianças fazem mais o que veem fazer que o que lhes dissemos que façam. São esponjas de informação e, ainda por cima, imitam-nos. É evidente que os filhos sofrem com a separação dos pais, mas o que mais os afeta é a atitude que estes assumem antes, durante e depois de terminar a relação. Uma separação consensual, sem ódios e em termos pacíficos diminuirá o impacto negativo. Para as crianças e não tão crianças, é melhor a dor de um divórcio inteligente que a tortura diária de uma convivência ruim. Cada olhar de ódio que você lança a seu companheiro é observado por seus filhos, processado e guardado na memória; cada atitude de rejeição ou de frieza é incorporada à base de dados de sua mente em formação. Você não pode disfarçar o desamor e a discórdia e agir como se nada fosse. Nota-se, sai pelos poros. O desamor cria um clima tenso que é sentido intimamente. É preciso fazer um balanço, saber com clareza se seu relacionamento tem opções ou se os profissionais (psicólogos, terapeutas de casal, conselheiros matrimoniais) acham que já não há nada a fazer. Você acha que seus filhos não percebem sua tristeza? Má notícia: a depressão é contagiosa. O ambiente emocional dos casamentos ruins é tão denso que pode ser cortado com uma faca. Tenho amigos malcasados, e, depois de passar um tempo em sua casa, saio esgotado de fazer força, de sofrer por tabela. Quando lhes pergunto por que continuam juntos, a resposta costuma ser a mesma: “Pelas crianças”. Obviamente, qualquer criança desejaria que seus pais fossem capazes de se amar e de viver bem juntos; friso: viver bem. Tive pacientes de dez e onze anos que me pediam nas consultas que ajudasse seus pais a se separar, porque o convívio entre eles havia se tornado insuportável. Uma menininha de doze anos me dizia: “Prefiro ter duas casas tranquilas a uma em guerra”. O “sacrifício” de ficar em um péssimo casamento “por nossos filhos” às vezes é criticado por eles próprios. Recordo o caso de uma mulher que preferiu ficar com um homem infiel e violento a se separar, para que suas crianças “não perdessem o pai”. Em uma sessão de terapia, sua filha mais velha, uma adolescente que tinha problemas de relações interpessoais, disse a ela: “O que não perdoo, mamãe, é que você tenha sido tão covarde e não tenha se separado de papai. Eu gostaria de ter tido uma mãe corajosa, forte, que não se deixasse maltratar nem enganar por um homem assim. Eu a amo demais, mas não a respeito”. Um golpe mortal para qualquer pai ou mãe e, em especial, para essa mulher que se sentia quase orgulhosa de ter aguentado seu marido por amor a seus filhos. Sua resposta mostrou uma dolorosa conscientização: “Eu estava esperando que eles crescessem. Talvez tenha sido um erro”. Em outros casos, os filhos são usados como uma desculpa ou uma tela para superar uma dependência afetiva altamente prejudicial para toda a família. A única coisa que nossos filhos querem é nos ver satisfeitos e realizados ou, pelo menos, bem encaminhados. Eles carregam nossa dor ou se contagiam com nossa angústia. Não nego que as separações ruins são desastrosas, qualquer um sabe disso, mas, como já disse antes: uma boa separação é preferível a um mau casamento. Quando há crianças no meio, a ajuda profissional é imprescindível, seja para tentar novamente ou para encerrar adequadamente a questão. COMO FAZER DA SEPARAÇÃO UM MOTIVO DE APRENDIZAGEM Já dissemos que, por mais dolorosa que seja uma ruptura afetiva, podemos tirar proveito psicológico dela. Pegar os aspectos positivos da experiência, analisar os erros cometidos e tentar compreender o que aconteceu são algumas das tantas maneiras de fazer seu inventário pessoal. Que a reflexão lhe sirva para crescer, e não para se afundar na culpa, no arrependimento ou na depressão. Este guia de seis passos o ajudará a pensar de uma forma ordenada na questão. 1. Saiba claramente por que se separou É muito importante que você saiba as razões pelas quais seu relacionamento foi a pique. Embora pareça estranho, muita gente não é capaz de explicar por que se separou, e essa ignorância a respeito da dissolução do vínculo gera incerteza e mal-estar. Como resolver algo que desconheço? Entre meus pacientes recém-separados é muito comum ouvir a frase: “Não sei o que aconteceu. De repente, tudo desmoronou”. Eu lhes pergunto onde estavam enquanto isso, porque nenhuma relação acaba “de repente”. Como pode ser possível tal desconhecimento se somos os principais envolvidos? Os relacionamentos se deterioram mais facilmente quando um fica de braços cruzados, e aquilo que hoje parece uma queixa menor, amanhã pode se transformar em um problema gigantesco. Por que as pessoas se separam? Os motivos são muitos e variados; porém, e a título de exemplo, vejamos a seguinte lista: Críticas, avaliação negativa e desqualificação. Tédio ou rotina. Insultos, agressão física. Infidelidade e/ou ciúmes. Projetos de vida discordantes. Dificuldades sexuais. Discrepâncias na educação dos filhos. Vícios de um dos membros do casal. Más relações familiares. Pressão e/ou dificuldades econômicas. Relações não equitativas. Vida social incompatível. Você se situa em alguma dessas possibilidades ou em várias? Os motivos não têm que ser catastróficos ou dramáticos; ser infeliz ou não ser feliz é razão suficiente para não seguir em frente com um relacionamento, mesmo que os outros não gostem. Experimente, e se alguém lhe perguntar por que se separou, simplesmente diga: “Porque eu não era feliz”. Você logo vai notar que a pessoa não saberá o que dizer e provavelmente responderá com um simples: “Claro, claro...”. A cultura espera algo mais trágico, mais dramático e irreconciliável (por exemplo, infidelidade descontrolada, homossexualidade latente, violência física) para que a decisão seja justificada. A causa de sua separação não tem por que estar nas profundezas do inconsciente ou em algum trauma obscuro da infância: às vezes, o relacionamento simplesmente não funciona, e o sintoma, aquilo que se nota e impacta, é que a infelicidade só aumenta. Se identificar erros de sua parte, assuma-os, sem culpa nem autopunição: assuma-os e, se possível, corrija-os ou não torne a repeti-los no futuro. Torne- se um especialista em sua própria vida, em cada desenlace, em cada tropeço e em cada sucesso. Sem se tornar obsessivo, examine os momentos relevantes que viveu a dois, o que fez e deixou de fazer, o que lhe fizeram, as insatisfações e as alegrias. Examine tudo, não deixe nada ao acaso. Como já disse antes: quem age mecanicamente e sem conhecimento de causa cai sempre nos mesmos erros. A vida passa diante de seu nariz e não percebe. 2. Tome consciência de tudo que negociou e aguentou na relação Esse ponto talvez seja o mais doloroso. Muitas pessoas, ao analisar o que negociaram e aguentaram, sentem raiva de si mesmos. A pergunta que os tortura é: “Por que não reagi a tempo?”. Cada um tem seuritmo de assimilação e seu tempo para reunir coragem. No amor, a coragem quase sempre começa onde termina a esperança. Sem chorar sobre o leite derramado, comece a se conscientizar do que não deveria ter negociado nem suportado. Pense em seus princípios e valores para que seja mais fácil compreender o que aconteceu. Pense nas situações em que você dizia sim querendo dizer não e vai entender que certas coisas não se vendem nem se emprestam, como a dignidade, a liberdade ou os direitos. Entregá-los é perder sua essência. Quando tiver a lista do que “não deveria ter feito”, simplesmente tenha consciência dela, sem se torturar por isso e sem entrar em compulsões inúteis. Encadeie os fatos e incorpore-os a sua história pessoal. Essa será a primeira aprendizagem vital que surgirá de sua separação: você terá descoberto o que não quer nem deve aceitar para se reafirmar como ser humano. Você terá um reduto, um núcleo duro altamente resistente ao amor submisso. 3. O que o impediu de impor limites? Neste ponto, você deve tentar determinar por que negociou o inegociável e suportou o insuportável. Porque deixou de ser você. O que o impediu? A culpa, a pressão social, o medo da solidão, a dependência, a submissão, a falta de assertividade, a esperança? Nas relações saudáveis, marcam-se limites constantemente (é normal fazer isso), e quando um passa a linha, o outro o faz perceber que se excedeu. Mas “o silêncio outorga”, de modo que cada vez que você concordava abnegadamente em fazer o que não queria, tornava-se cúmplice de seu próprio mal-estar. Não estou avalizando uma atitude incompreensiva e egocêntrica em relação ao que pensa e sente o companheiro, mas defendendo um estilo de vida no qual a infelicidade não seja a norma. Você falou quando devia falar? Fez constar seu protesto ou inconformismo? E esta é uma segunda aprendizagem importante: ser assertivo, comunicar-se e dizer o que nos incomoda oportunamente ajuda o amor a fluir mais fácil e evita que se criem ressentimentos. 4. Se pudesse voltar no tempo, sabendo o que sabe sobre seu par, repetiria a dose com a mesma pessoa? Esse é um bom ensaio imaginário para fazer o amor aterrissar. Em meu consultório, vejo pessoas que, embora saiam de um péssimo e ultrajante casamento, sentem-se angustiadas pelas dúvidas. “O relacionamento era terrível, mas...”. O que essa frase incompleta esconde são questionamentos sobre as próprias atuações, como: “Fiz todo o possível?”, ou “E se houvesse esperado um pouco mais?”. Esses “se” e “mas” geram fortes sentimentos de culpa e incerteza, pois impedem que se ponha um ponto final adequado na questão. Se você tivesse uma máquina do tempo, sabendo o que sabe hoje sobre seu ex, repetiria a dose? Você se deixaria arrastar novamente pelo amor por ele ou o rejeitaria? Se a resposta for: “Sim, eu repetiria”, procure ajuda profissional urgente (possivelmente sua separação foi prematura ou você não tem clareza das coisas). Se a resposta for: “Não repetiria”, então, do que está reclamando? Por que hesita se sua mente e seu coração lhe dizem que não deve voltar? Fique no aqui e agora, no que é, e não no que não foi. Suas expectativas não se realizaram, e pronto. A revisão histórica que antes mencionamos visa resgatar conhecimentos e experiências que sirvam para seu crescimento, e não para sentir saudades do inexistente. Sentir saudades do que não aconteceu? Irracional, no mínimo. Se sua resposta foi que “não repetiria” e você já está separado, comemore: você está fora, você já é livre. 5. Separação e trauma não são sinônimos Inconscientemente, você poderia estar fazendo papel de vítima, e não tem por que ser assim. A lógica diz que sair de uma relação ruim seria mais um motivo de comemoração que de amargura, como quem sai da prisão ou se salva de uma cirurgia de alto risco. Se o casamento em que você estava era excelente, por que ocorreu a separação, então? Talvez não fosse tão “excelente”. Um homem estava profundamente compungido porque sua mulher o havia deixado por outro. Consulta após consulta, ele me falava das virtudes de sua ex-esposa e de quão sortudo era seu novo companheiro por tê- la ao seu lado. Um dia qualquer, interrompi suas apaixonadas divagações e disse: “Sua ex-mulher foi infiel por quase três anos, pôs você na rua sem a menor consideração, está processando-o por metade do seu salário e, além de tudo, nega-se a lhe dirigir a palavra. De que pessoa extraordinária você está falando?”. O homem não pôde disfarçar seu espanto diante de minhas palavras (os apaixonados acreditam que todos os outros também devem ficar) e me perguntou: “O senhor não gosta dela?”. Minha resposta foi honesta: “Se eu tivesse um filho homem, não ia querê-la como nora”. Com o tempo, meu paciente elaborou sua perda de uma maneira mais realista e sem traumas “inventados”. Maximizar as qualidades do ex nas primeiras etapas de uma separação é uma resposta paradoxal que aparece em muitos casos. Seis meses depois, com a cabeça mais fria, o mesmo homem me dizia: “Não sei como pude viver com ela!”. Se a relação que você terminou era regular, ruim ou péssima, não chore pelo que não vale a pena. Belisque-se: você é livre! Não terá mais que ficar salvando o que não se pode salvar, não terá que dar conta do que pensa, sente ou faz. Embora nossa cultura tenha como regra que toda separação é traumática, nem sempre é assim. É nossa atitude que as torna problemáticas. Você se separou porque já não havia amor? Melhor! Para que continuar com alguém que não nos ama? Era maltratado? Era traído? Eram incompatíveis? Todos são motivos válidos. Quando alguém o olhar com dó devido a sua separação e tentar lhe dar os “pêsames”, não entre no jogo, não deixe que o rotulem nem lhe pendurem o cartaz de vítima. As feridas irão se curando quando você começar a se conectar com o lado positivo da vida e conhecer pessoas que valham a pena. 6. Começar de novo Separação: fracasso ou libertação? Tristeza ou comemoração? Uma coisa é certa, independente de como se sinta: você terá que começar de novo. Viver sozinho, com ou sem filhos, reacomodar sua casa, organizar os horários, enfim, separar-se implica reestruturar todos os seus papéis e começar uma vida diferente, com outras exigências. Você entrará em um processo de mudança radical, uma “crise”, e deverá se reinventar da cabeça aos pés. Porém, essa crise pode ser vista como benefício. Muitos dos meus pacientes divorciados vão descobrindo uma infinidade de aspectos positivos da nova faceta que devem assumir. Nem tudo é escuro. É verdade que começar de novo requer trabalho e dedicação, mas você não será um principiante, já sabe o que não quer, e isso lhe permitirá otimizar seus esforços. Considere esse início como se houvesse formatado seu hd: você vai criar uma nova base de dados e instalará programas mais atualizados; um novo software. Você tem a possibilidade de começar do zero, sem tantas crenças irracionais e com uma atitude mais realista. Será como um veterano de guerra que, apesar de suas feridas, não renega a paz e a defende. Epílogo Para não morrer de amor Por trás de cada princípio que você leu e tentou praticar há um fator comum: a negação explícita a “morrer de amor” e a sofrer inutilmente por seu companheiro ou pela pessoa que ama. Cada premissa e cada parágrafo se reafirmam em um decálogo de resistência emocional que pretende ir além do amor tradicional e resgatar o valor da vida digna. E é só o começo. Cada um deve investigar a si e ser um precursor de sua causa afetiva. O preceito é o seguinte: “Mereço ser feliz no amor, não me resignarei à dor de uma relação ruim, não me acostumarei a tolerar o que não se deve tolerar”. Não morrer de amor é repudiar qualquer vínculo afetivo incompleto ou insuficiente e toda esperança que nos prenda a uma relação doentia ou limitante. Diferente da morte física, que é única, no mundo afetivo podemos morrer mais de uma vez. Podemos agonizar e ressuscitar, e até, em alguns casos, voltar à mesma vida, à mesma rotina, com a mesma pessoa. O amor irracional e daninho,aquele que tira o fôlego e nos derruba, é como um carma: você o escolhe e decide estar ali. Você não precisa ser um acadêmico experimentado para construir uma ecologia afetiva que lhe permita crescer como pessoa. Se é um sobrevivente do amor, melhor ainda: tem todas as credenciais para ser bem-sucedido. Não tropeçar duas vezes na mesma pedra, diz o ditado popular, e você sabe qual é a pedra e qual é o atalho que deve pegar para evitá-la ou, se for o caso, como passar por cima dela. Você sabe porque já esteve ali ou já lhe contaram, já leu ou viu em outros lutadores do amor. Negue-se a sofrer por amor, declare-se em greve afetiva, faça as pazes com a solidão e aquiete a necessidade de “amar acima de tudo e a qualquer custo”. Resgate seu amor-próprio, seu primeiro grande amor com base no qual se geram os outros: se não amar a si mesmo, ninguém o amará. Como amar uma máquina de autopunição? Como querer a quem se odeia e vive amargurado por ser como é? O amor começa em casa, na intenção imprescindível de querer perseverar no próprio ser, e se o amor que você sente não aponta na direção de viver mais e melhor, ele não lhe serve, não “casa” com sua vida. Se você passou pelas páginas deste livro, talvez tenha conseguido criar um espaço de reflexão e tenha se questionado se amar a qualquer preço realmente se justifica. Existe um ponto médio? Existe, mesmo que não saibamos qual é. É um ponto de inflexão no qual não supervalorizamos o amor nem nos subestimamos (eu te amo e me amo), no qual o amor não nos esmaga nem o ignoramos: coexistência pacífica entre o impulso de amar e o “eu” que se nega a desaparecer. Princípios para não morrer de amor, princípios para não fazer do amor um peso. O amor descontrolado e avassalador é uma invenção dos viciados. Você pode amar sem perder o norte nem perder a si mesmo, e, ainda assim, manter vivo o fogo da paixão. Os sobreviventes de tantos amores irracionais, loucos e impensáveis ratificam isso diariamente quando conseguem amar calmamente. Leia os princípios, ensaie-os e torne-os seus, se assim sentir; incorpore-os a sua base de dados e mantenha-os ativos. Eles lhe servirão como fatores de proteção, vão deixá-lo menos vulnerável ao sofrimento amoroso. Vejamos as perguntas fundamentais que essas premissas suscitam e as respostas possíveis. Não é mais amado? Liberte-se do desamor, não suplique, ande com a cabeça erguida. Quer morar com seu amante? Antes de tomar a decisão, pense bem; seja realista e recorde que uma vida a dois não é a mesma coisa que mergulhar no prazer uma ou duas vezes por semana. Você vive se sacrificando para que seu companheiro seja feliz? Esse não é o caminho; o amor é recíproco: ofuscar-se para que o outro brilhe é uma forma de suicídio emocional. O poder afetivo está nas mãos de seu companheiro? Desapegue-se, faça sua pequena e maravilhosa revolução, nivele o status; não esqueça que o apego o torna idiota. Você está com alguém que ainda não sabe ou não decidiu se o ama? Fuja para o mais longe possível; perca-se na multidão e comece de novo, porque esse amor não lhe serve e o arrastará por anos. Quer esquecer um amor mal curado procurando um substituto? Cuidado; às vezes, a confusão se duplica e um prego não tira outro, afunda-o mais: existem soluções mais elegantes, como um “luto” bem trabalhado. Seu companheiro diz que o ama, mas esse amor não se manifesta de jeito nenhum? Avalie tudo, sacuda a relação: se o amor que dizem sentir por você não é visto nem sentido, não existe ou não lhe serve. Você colocou seu companheiro nas nuvens? Pois faça-o aterrissar antes que ele acredite, porque amar não é santificar nem reverenciar: não faça um culto à personalidade. Você ama uma pessoa muito mais velha ou muito mais nova que você? Cabeça fria, mesmo que o coração esteja satisfeito; avalie bem a questão, porque, se o amor não tem idade, os apaixonados têm. O que fazer com as separações? Tirar delas o maior proveito possível, visto que você já aprendeu o que não quer do amor: aquilo que jamais gostaria de repetir. Quando treinar o suficiente e adotar uma visão mais realista do amor, vai descobrir que é possível amar sem se machucar. Você saberá que as pessoas que sabem amar simplesmente tomaram uma decisão fundamental: não se deve viver para amar, nem morrer em seu nome. MÁXIMAS DE SOBREVIVÊNCIA AFETIVA 1. Bendito o desamor que chega aos malcasados, aos mal acompanhados e aos que se fazem mal em nome do amor. 2. Ajudar a pessoa que você ama, sem se destruir, é ajudar duas vezes. 3. De que adianta que adocem seus ouvidos, se amargam sua vida? 4. O poder afetivo está nas mãos daquele que precisa menos do outro. 5. Não há nada mais prazeroso para uma pessoa que sofre de apego que estar com outra mais apegada. 6. Se você é capaz de controlar seus tempos, não se sentir “de ninguém” e andar sozinho pela vida, está no terreno do amor maduro. 7. Quem não nos admira, não nos ama. 8. O parceiro, às vezes, sobra e incomoda, mesmo quando você o ama; há momentos que são exclusivamente seus, que não foram criados para ninguém mais. 9. Independência não é desamor; é renovação, é ser uno apesar do amor e acima dele. 10. Se alguém duvida que o ama, não o ama. 11. Se amar implica perder a liberdade básica de sentir e pensar por sua conta, você está dominado ou preso. 12. O amor saudável não exige autopunição. 13. Não temos que padecer a pessoa amada, e sim usufruí-la. 14. No amor, a coragem quase sempre começa onde termina a esperança. 15. Dizer que a dor da pessoa que você ama não lhe importa porque o motivo é “idiota”, torna-o idiota. 16. Um amor que o obriga a involuir não é amor. 17. A escravidão afetiva não é uma ficção: ocorre quando o medo de perder o outro faz que você se esqueça de si mesmo. 18. Ninguém se resigna à indiferença: é preferível a dor da ruptura a um amor insensível. 19. O apego é a incapacidade de renunciar ao outro quando se deve renunciar, ou seja, quando já não nos amam, quando nossa autorrealização está bloqueada ou nossos princípios estão sendo afetados. 20. Desiludir-se com o companheiro é uma flechada de Cupido ao contrário. 21. Quem o machuca intencionalmente não o merece. 22. Ser uno com a pessoa que ama é deixar de ser você mesmo. 23. Um amor que o obriga a involuir é um castigo. 24. Se não sabem que o amam, de que lhe serve esse amor? 25. Quando você rende tributo à pessoa que ama, é um súdito, não um companheiro. 26. O bom amor conjugal é recíproco; não milimétrico, mas justo: você dá e recebe. 27. É melhor um sofrimento útil que uma calma fictícia. 28. Perdoar não é sofrer amnésia; é recordar sem dor, e isso não se consegue por decreto. 29. Não alimente o poder de quem o explora afetivamente: sua fraqueza (o apego) é a força do outro. 30. Se seu ex o considera parte do passado, que ele não seja parte de seu presente. 31. Se você não se amar, ninguém o amará. 32. Não importa quanto o amam, mas sim como o amam. Bibliografia Barthes, R. (1998). Fragmentos de un discurso amoroso. México: Siglo Veintiuno Editores. Bauman, Z. (2005). Amor líquido. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica de Argentina. Beck, A. T. (2005). Con el amor no basta. Barcelona: Paidós. Buunk, B. P.; Dijksatra, P. (2004). “Gender Differences in Rival Characteristics That Evoke Jealousy in Response to Emotional Versus Sexual Infidelity”. Personal Relationships, 11, 395-408. Comte-Sponville, A. (2001). El amor la soledad. 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