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Prévia do material em texto

Copyright © Walter Riso, 2011
Edição publicada de acordo com Pontas Literary & Film Agency, Espanha
Título original: Manual para no morir de amor
Todos os direitos desta edição reservados à
Editora Academia de Inteligência Ltda.
Avenida Francisco Matarazzo, 1500 – 3º andar – conj. 32B
Edifício New York
05001-100 – São Paulo – SP
www.editoraplaneta.com.br
vendas@editoraplaneta.com.br
Conversão para eBook: Freitas Bastos
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)
(CÂMARA BRASILEIRA DO LIVRO, SP, BRASIL) 
Riso, Walter
Manual para não morrer de amor / Walter Riso; tradução Sandra Martha
Dolinsky. – São Paulo: Editora Academia de Inteligência, 2011.
Título original: Manual para no morir de amor.
ISBN 978-85-7665-723-1
1. Afetividade 2. Amor - Aspectos psicológicos 3. Relações interpessoais I.
Título.
11-00074 CDD-152.41
http://www.editoraplaneta.com.br
mailto:vendas.academia@editoraplaneta.com.br
Para Ana María e Sandra,
à infância que compartilhamos,
à vida que transitamos,
ao bem-querer que não se esgota.
 
[...] entrou à tarde no rio,
tirou-a morta o doutor:
dizem que morreu de frio:
eu sei que morreu de amor.
José Martí
Não é que morra de amor, morro de ti.
Morro de ti, amor, de amor de ti,
de urgência minha de minha pele de ti,
de minha alma de ti e de minha boca,
e do insuportável que sou sem ti.
Jaime Sabines
Introdução
“Morrer de amor, devagar e em silêncio”,1 canta Miguel Bosé. E não é só
ficção nem música, é realidade pura e dura. Para muitos, o amor é uma carga,
uma doce e inevitável dor ou uma cruz que têm de carregar porque não
sabem, não podem ou não querem amar de maneira mais saudável e
inteligente. Há quem tire a própria vida ou a de seu amado, e há quem se
esgote e seque como uma árvore no meio do deserto, porque o amor lhe pede
demais. Para que um amor assim? Essa é a verdade: nem todo mundo se
fortalece e desenvolve seu potencial humano com o amor; muitos se
debilitam e deixam de ser quem são no afã de manter uma relação tão
irracional quanto angustiante. Temos que viver o amor, e não morrer por
causa dele. Amar não é um ato masoquista no qual nos perdemos sob o jugo
de alguma obrigação imposta de fora ou de dentro.
Morrer de amor não é irremediável, como dizem alguns românticos
desmedidos. As relações afetivas que valem a pena e alegram nossa vida
transitam um ponto médio entre a esquizofrenia (o amor é pura “loucura”) e a
cura esotérica (o amor “tudo cura”). Amor terrestre, que voa baixinho, mas
voa. Ter afinidade com uma pessoa, mental e emocionalmente, é uma sorte,
uma sintonia assombrosa e quase sempre inexplicável. Aristóteles dizia que
amar é alegrar-se, mas também é surpreender-se e ficar atônito perante um
clique que acontece com alguém que não estava em nossos planos. Daí vem a
pergunta típica de uma pessoa apaixonada: “Onde você estava esse tempo
todo?”, ou “Como você podia existir sem que eu soubesse?”. Quando o amor
não é doentio nem distorcido, amar é viver mais e melhor. No amor saudável,
não há lugar para resignação nem martírio, e se alguém tem que se anular ou
se destruir para que seu amado seja feliz, então está com a pessoa errada.
Para amar não é preciso “morrer de amor”, sofrer, desvanecer-se, perder o
norte, ser uno com o outro ou perder a identidade: isso é intoxicação afetiva.
Quando confundimos a paixão com o amor, justificamos o sofrimento afetivo
ou sua comoção/arroubo/agitação, e acabamos enrolados em relações
negativas que amargam nossa vida, porque erroneamente pensamos que “o
amor é assim”. Às vezes, na terapia, encontro casais tão incompatíveis que
me pergunto como diabos foram ficar juntos. Será que estavam cegos? E a
resposta é que, em certo sentido, estavam sim. Não uma cegueira física, mas
emocional: o sentimento decidiu por eles e os arrastou como um rio que saiu
de seu leito. O amor tem uma inércia que pode nos levar a qualquer lugar se
não interviermos e exercermos nossa influência.
Morrer de amor, ainda, é morrer de desamor: a rejeição, o insuportável
jogo da incerteza e de não saber se nos amam de verdade, a espera, o
impossível ou o “não” que chega como um balde de água fria. É humilhar-se,
rogar, suplicar, insistir e persistir além de toda lógica, esperar milagres,
reencarnações, passes de mágica e qualquer coisa que restitua a pessoa amada
ou a intensidade de um sentimento que já se foi.
Uma infinidade de pessoas no mundo já ficaram presas em nichos
emocionais à espera de que sua sorte mudasse, sem ver que elas mesmas é
que deveriam fazer uma revolução afetiva. Cada uma reinventa o amor a seu
jeito e de acordo com suas necessidades e crenças básicas; cada uma o
constrói ou o destrói, desfruta-o ou o padece. Morrer de amor não é um
desígnio inevitável, uma determinação biológica, social ou cósmica: você
pode estabelecer suas regras e se negar a sofrer inutilmente. Essa é a
proposta.
O que fazer, então? É possível amar sem errar tanto, e é possível que o
sofrimento seja a exceção, e não a regra? Como amar sem morrer tentando e,
ainda assim, aproveitar o amor e sentir sua irrevogável paixão?
Neste livro tentarei deixar registrados alguns dos problemas que
transformam o amor em um motivo de agonia e angústia, e, contraposta a
eles, uma série de princípios básicos de sobrevivência afetiva, que
proporciona ferramentas para não morrer de amor e mudar nossa concepção
do amor tradicional por uma mais renovada e saudável. Esses princípios
atuam como esquemas de imunidade ou fatores de proteção.
Vejamos resumidamente esses problemas e qual princípio contrapor em
cada caso.
1. Você está com alguém que não o ama, que diz isso sem rodeios e que não
vê a hora de que um dos dois vá embora. Mas você continua ali,
esperando o milagre que não chega e suportando uma rejeição que não lhe
dá trégua. Independente da causa, a leitura do Princípio 1 lhe servirá de
ajuda e reflexão: Se já não o amam, aprenda a perder e retire-se com
dignidade.
2. Você tem outra pessoa, deseja-a e a ama. Sem perceber, pouco a pouco,
você construiu uma vida paralela que vai muito além da aventura. Você se
pergunta o dia inteiro o que fazer, mas, na realidade, já sabe; só não sabe
como: falta-lhe coragem. Seu sonho é substituir magicamente seu
companheiro por seu amante e que tudo continue igual, como se nada
houvesse acontecido. Você está em um grande dilema que não o deixa
viver em paz. A leitura do Princípio 2 lhe servirá de ajuda e reflexão:
Casar-se com o amante é como pôr sal na sobremesa.
3. Você vive em um martírio permanente: por querer resolver os problemas
da pessoa amada, esqueceu-se de si. Mas você não só a ajuda e tenta fazê-
la seguir em frente a qualquer custo; utiliza uma maneira de se sacrificar
absolutamente irracional: você se ofusca de propósito para que ela, por
contraste, brilhe mais. Compensa negativamente e esconde suas virtudes
para que os deficits de seu companheiro fiquem disfarçados ou não sejam
tão notados. Você pratica uma curiosa forma de suicídio afetivo. A leitura
do Princípio 3 lhe servirá de ajuda e reflexão: Evite o sacrifício
irracional: não se anule para que seu companheiro seja feliz.
4. Você está em uma relação desesperadora porque seu companheiro é
ambíguo e “hesita” sobre até onde quer chegar com você, já que não está
seguro de seus sentimentos. É a síndrome do “nem com você nem sem
você”, da qual você é uma vítima, e não tem a menor ideia de como lidar
com isso. Seu companheiro flutua entre o amor e o desamor, e você dança
ao compasso dele. A leitura do Princípio 4 lhe servirá de ajuda e reflexão:
Nem com você nem sem você? Corra para o mais longe possível!
5. Você sente (e sabe) que o poder emocional ou afetivo na relação está com
o outro, ou seja: que ele pode prescindir de você mais facilmente que você
dele. E nesse duelo de forças e fraquezas, de apegos e desapegos, você
está sempre por baixo; o que o leva a dizer sim quando quer dizer não, ou
a concordar com coisas que não lhe servem. Tudo isso por amor ou por
medo de perder a pessoa amada?A leitura do Princípio 5 lhe servirá de
ajuda e reflexão: O poder afetivo está na mão daquele que precisa menos
do outro.
6. Você tem um amor mal curado, recente ou antigo, que não consegue
esquecer e que não o deixa estabelecer novos relacionamentos. Para tirá-
lo de sua mente e de seu coração, pensou que “um prego tira outro”, e saiu
em busca de alguém “maior” e mais poderoso para eliminar o passado.
Infelizmente, não deu certo, e o velho amor continua flutuando em sua
memória emocional com a mesma força de sempre. A leitura do Princípio
6 lhe servirá de ajuda e reflexão: Nem sempre um prego tira o outro: às
vezes, os dois ficam dentro.
7. Seu relacionamento atual é frio e distante. Seu companheiro não expressa
o amor como você gostaria e necessita. Você sente que o deixa de lado e
que a indiferença é a regra básica na qual o vínculo se move. A
displicência e a rejeição doem profundamente e afetam sua autoestima,
mas você não é capaz de tomar decisões. A leitura do Princípio 7 lhe
servirá de ajuda e reflexão: Se o amor não é visto nem sentido, não existe
ou não lhe serve.
8. Você colocou sua metade da laranja nas alturas. Acha que está com uma
pessoa extremamente especial, que você não a merece, e só vê maravilhas
nela. Idealizou a pessoa amada e se apegou a essa imagem ilusória que o
impede de ver seu lado normal e humano. O problema é que em algum
momento você terá que aterrissar, e é possível que não goste do que verá
sem autoenganos nem disfarces. Talvez esteja apaixonado por uma
miragem criada por você. A leitura do Princípio 8 lhe servirá de ajuda e
reflexão: Não idealize a pessoa amada; veja-a como é, cruamente e sem
anestesia.
9. Você está com alguém muito mais velho ou muito mais novo para sua
idade, e isso, embora tente disfarçar, o faz sentir certa ansiedade ou
preocupação. Sabe que, com o tempo, a diferença de idade fica mais
acentuada e não quer se transformar em uma pessoa ciumenta, chata ou
insegura. Ainda assim, prefere não pensar nisso seriamente, porque teme
acabar com a felicidade de viver um amor como o que agora sente. De
qualquer maneira, consciente ou inconscientemente, você se pergunta:
quantos anos me restam de felicidade? A leitura do Princípio 9 lhe servirá
de ajuda e reflexão: O amor não tem idade, mas os apaixonados sim.
10. Você se separou e anda mal. Perdeu seus pontos de referência habituais,
sente-se sozinho e está de saco cheio do amor. Além do mais, jura que
nunca mais vai ter ninguém e que os homens ou as mulheres são todos
uns idiotas. Enfim: você tem dificuldade de aceitar uma separação que
ainda lhe dói e não se sente capaz de começar de novo. A leitura do
Princípio 10 lhe servirá de ajuda e reflexão: Algumas separações são
instrutivas; ensinam o que você não quer saber do amor.
Cada capítulo aborda um princípio específico, explicitando, por sua vez,
uma série de premissas e deduções que vão completando o quadro e servem
como guias. No epílogo, resumo um conjunto de máximas, depreendidas dos
capítulos anteriores, para pôr em prática.
O decálogo sugerido aqui não pretende esgotar a temática do amor mal
curado ou doente, longe disso, já que as variáveis que intervêm em sua
configuração são múltiplas e complexas. Não obstante, os dez princípios de
sobrevivência apresentados podem ser muito úteis se interiorizados e
aplicados de forma continuada. Em minha experiência profissional, pude
observar que seu uso aumenta notavelmente as probabilidades de estabelecer
relações funcionais mais satisfatórias e felizes. Por tudo isso, minha
recomendação é que leia todos os princípios, e não somente os que se
encaixem mais em sua problemática específica.
Para desenvolver o conteúdo do livro, tive em mente as pessoas
afetivamente mais frágeis e as que sofrem por amor, apesar de seus esforços
de seguir em frente e encontrar um amor que valha a pena. Não pensei nos
durões nem nos predadores emocionais, e sim nos lutadores do amor,
naqueles que insistem e persistem apesar de seus erros e decisões ruins. A
verdadeira virtude não está em amar, e sim em amar bem; é com esse
propósito que este livro deseja contribuir.
1 Letra da música “Morir de amor”. (N. E.)
 
Princípio 1
Se já não o amam, aprenda a perder
e retire-se com dignidade
O esquecimento é uma forma de liberdade.
K. Gibran 
Todas as paixões são boas quando se é dono delas, e todas são más
quando nos escravizam.
J.-J. Rousseau 
ANATOMIA DO ABANDONO
1. A surpresa
Não acreditamos que algo assim possa acontecer conosco. Quem acredita?
Quem imagina que, um dia qualquer, a pessoa que amamos vai nos dar a má
notícia de que já não sente nada ou muito pouco por nós? Ninguém está
preparado, e por isso a mente ignora os dados: “Às vezes sinto que está mais
distante, que já não me olha como antes, mas deve ser imaginação minha”.
Mas, um dia qualquer, seu companheiro pede para conversar com você, e
com uma seriedade pouco habitual e um olhar desconhecido, diz à queima-
roupa: “Eu não o amo mais, quero me separar, é melhor para nós dois”. Na
realidade, ele tem razão; é melhor para os dois. Para que ficar com alguém
que não nos ama? Ou para que ficar com alguém a quem não amamos? Mas
isso não é consolo, de nada serve a “lógica”, porque tínhamos metas, sonhos,
projetos... A ruptura não é um ato administrativo e dói na alma; não importa
como venha embrulhada.
2. Colapso e aturdimento
Quando ficamos sabendo, tudo acontece muito rápido, e em poucos
minutos passamos por uma montanha-russa emocional. Depois do impacto da
notícia, a angústia nos faz perguntar bobagens: “Você tem certeza? Já pensou
bem?”. Na realidade, que mais podemos fazer senão perguntar e chorar? Não
obstante, o organismo insiste, e uma esperança arrastada à força, tão lânguida
quanto impossível, nos torna especialmente ingênuos: “Pensou bem? Não
quer dar um tempo?”. Como se fosse questão de tempo! E a resposta do outro
chega como um jato de água fria: “Não, não, já pensei bem”. Em algum
momento, lançamos mão da manipulação: “Você não se importa em me fazer
mal!”, “E se você se arrepender?”. Silêncio. Não há muito que responder nem
muito mais a acrescentar; isso é o que ele quer. Outra vez o pranto. A crise
aumenta, parece que vamos explodir, principalmente porque percebemos que
ele não está mentindo. Será que existe algo mais insuportável que a segurança
de quem nos abandona?
3. A pergunta inevitável: por que não me ama mais?
Algumas possibilidades: tem outra pessoa, quer se reinventar, e para isso
precisa de solidão (você seria um estorvo), ou, simplesmente – e essa é a pior
–, o sentimento acabou sem razão nem motivos especiais.
Um homem me dizia entre lamentos: “O que torna tudo mais cruel, o que
mais me dói, mesmo que pareça absurdo, é que ela não me trocou por
ninguém! Nada a impede de ficar comigo, senão ela mesma”. E é verdade,
um desamor sem razões objetivas é mais difícil de superar porque não
absorvemos a conclusão facilmente: “Se não há nada externo, nem amantes,
nem crise, nem uma doença, não resta dúvida: o problema sou eu!”. Mais
tarde, vem o repasse histórico, buscando até o mínimo erro ou inventando
um: o que fizemos de errado, o que poderíamos ter feito melhor e não
fizemos, os defeitos que deveríamos corrigir (se tivéssemos outra
oportunidade), enfim, todo o aspecto pessoal é rigorosamente examinado.
4. Você me aceitaria novamente se eu prometesse mudar?
Uma força desconhecida o leva a pensar que você é capaz de fazer uma
mudança extrema em sua pessoa e reconquistar o amor perdido (acredita
sinceramente que, onde houve algo tão maravilhoso, alguma coisa deve
restar). Você conta a “boa-nova” a seu ex, jura que ele terá a seu lado uma
pessoa renovada e faz um haraquiri emocional em sua presença, mas torna a
encontrar o silêncio aterrador de antes. Como último recurso, inventa um
otimismo de segunda: “Talvez amanhã ele mude de ideia, talvez amanhã
acorde dessa letargia”. E como no dia seguinte nada acontece, você resolve
esperar um pouco mais, e assim se passam as horas e os dias. Um mês depois,
você perdeu 5 kg e seuex se mantém firme na decisão. Uma vez mais: o
amor acabou. É caso encerrado, e você se nega a ver a realidade.
5. Vencer ou morrer
Quando tudo parece liquidado, você tira um ás da manga. Desde sua mais
tenra infância lhe ensinaram a nunca se dar por vencido e a lutar pelo que
considera justo e valioso, e você tenta uma reconquista. Mas a cada tentativa
você se humilha, e a rejeição se confirma. Pensar que as coisas que fazemos
por amor nunca são ridículas é uma invenção dos apegados: o amor nos
subjuga, faz que nos arrastemos, e, se nos descuidarmos, acaba conosco. Com
o passar dos dias, à medida que o abandono se torna evidente, nossa
autoestima diminui. Não podemos lutar quixotescamente contra o desamor da
pessoa amada e tentar salvar a relação. São necessárias duas pessoas, duas
vontades, duas necessidades, dois que “queiram querer”.
Quando realmente não nos amam mais, independente das razões e causas
possíveis, temos que abandonar o espírito guerreiro e não travar uma batalha
inútil e lancinante. Lutar por um amor impossível, novo ou velho, deixa
muitas sequelas. Melhor sofrer a perda de uma vez que submeter-se a uma
incerteza constante e cruel; melhor um realismo desconsolador que a fé cega,
que nunca move montanhas.
HÁ OUTRA PESSOA?
Se seu companheiro é infiel, você se transformará em um obstáculo para
seus planos: o desamor que sentirá por você não será tão limpo nem tão
honesto. A pessoa amada vai querer tirá-lo do caminho para ficar livremente
com o substituto. É uma questão de espaço: “Outra pessoa entrou em meu
coração e não cabem dois”. Não se trata de afastamento transitório, e sim de
exclusão e, às vezes, de desprezo. Também existe outra possibilidade que
soma mais dor e desconcerto ao que você já tem: não só o abandona porque
tem outro alguém, como ainda por cima o culpa diretamente pelo ocorrido.
Você deveria se alegrar por uma pessoa assim sair de sua vida; porém, a
dignidade costuma se ajoelhar diante da avalanche de perguntas motivadas
pelo desespero e pelo apego: “Por que comigo?”; “O que ele tem que eu não
tenho?”; “Desde quando é infiel?”; “É uma pessoa mais velha que eu, tem
mais dinheiro, é mais atraente?”. A vontade de saber, vasculhar e colocar o
dedo na própria ferida tem muito de masoquismo e bastante de desespero. O
como, quando e onde não pesam tanto quanto o que a pessoa lhe fez. O que
importa é que foi infiel e não o ama; o resto é secundário ou uma curiosidade
mórbida. Você realmente espera que o universo, em sua infinita bondade, lhe
devolva seu amor em perfeito estado e como se nada houvesse acontecido?
Os “milagres amorosos” e a “ressurreição afetiva” são pura superstição:
quando o amor acaba, é preciso enterrá-lo.
O DESAMOR QUE LIBERTA
É o lado feliz do despeito, a perda que merece ser festejada. Quem diria?
Às vezes, o desamor do outro tira de nós o peso da incerteza: você já não
precisará desfolhar a margarida! Acabaram-se as indagações e os
questionamentos existenciais! Há dúvidas dolorosas que a certeza acalma.
Uma paciente comentava comigo: “Eu já não tinha certeza de que ele me
amava e durante meses tentei decifrar seus sentimentos. Quanto sofri!
Passava da ilusão à desilusão em um instante. E é curioso, mas quando ele
disse que queria se separar, foi um alívio”. Como não seria? Como não
reconhecer que o sofrimento de ver as coisas como são, cruamente, traz em si
certo bem-estar? Já sabemos onde estamos pisando!
Nem todo desamor é ruim e nem todo amor é sustentável. Eu me lembro de
uma mulher que era amante de um mafioso, e o homem a usava como uma
escrava sexual. Ela tinha que estar disponível 24 horas por dia e vivia
ameaçada de morte se olhasse para outro homem. Acontece que o vigarista se
enroscou com uma mocinha de dezoito anos de idade e automaticamente
minha paciente passou a ser uma bruxa feia e velha. Quando ela me
perguntou o que podia fazer, recomendei que se enfeasse o máximo possível,
para dar uma mãozinha ao destino. Em pouco tempo, ele a pôs na rua, sem o
menor cuidado. Na realidade, abriu sua gaiola e a deixou voar. Bendito o
desamor que chega aos malcasados, aos mal acompanhados, aos que se
machucam em nome do amor.
PROPOSTAS PARA NÃO MORRER DE AMOR QUANDO JÁ
NÃO NOS AMAM MAIS
1. Aprender a perder, mesmo que doa
Faz sentido perseguir algo ou alguém que já fugiu ao nosso controle? Foi
embora, não está mais aqui, já não quer estar, para que insistir? Algumas
coisas são impossíveis; não importa o desejo e a vontade que tenhamos. O
que você acharia de alguém que tivesse um chilique e se contorcesse de raiva
porque está chovendo? Não seria melhor pegar o guarda-chuva em vez de
choramingar e reclamar da água? Aprender a perder é a capacidade que uma
pessoa tem de discernir o que depende dela e o que não, quando insistir e
quando se deixar levar pelos fatos. Não faz muito sentido “convencer”
alguém a nos amar (o amor não segue esse caminho), mas podemos limpar a
mente para deixar entrar uma pessoa que se sinta feliz por nos amar. Cada
gota de energia e suor que você investe em se lamentar pelo que poderia ter
sido e não foi será mais bem empregada na cura de sua alma. Quem ama a si
mesmo utiliza essa frase afirmativa e orgulhosa, saudável enfim: Se alguém
não me ama, não sabe o que está perdendo.
Como consolo, digo que conheci uma infinidade de pessoas que foram
abandonadas e, com o tempo, acabaram agradecendo a ruptura porque
encontraram alguém melhor. Pense nos amores que passaram por sua vida, no
que representaram na época, naquela adolescência cega e frenética de amor, e
olhe para tudo isso agora com a perspectiva dos anos. Provocam-lhe algum
impulso irrefreável, algum sentimento incontrolável: agitam-no, mobilizam-
no, angustiam-no? Não, não é mesmo? A memória emocional deu lugar a
uma memória mais conceitual, mais fria e inteligente. Muitas dessas
recordações não passam de casos passados, elementos de sua história pessoal
e parte de seu currículo afetivo. E você teria feito qualquer coisa para manter
esses relacionamentos! Na época, você pensava e sentia que ia morrer em
cada adeus, em cada amor não correspondido, e atualmente não lhe fazem
nem cócegas. Pois o mesmo vai acontecer com a pessoa que hoje deixou de
amá-lo; será só mais uma recordação, cada vez mais asséptica e distante. À
medida que o tempo passar e você começar a viver sua vida, chegará a calma.
Não há remédio para esse tipo de dor, não há uma pílula do dia seguinte ou
para os seis meses posteriores, que é mais ou menos o que dura um luto. É
preciso suportá-lo e resistir, como se fosse uma luta de boxe: hoje você ganha
um assalto do sofrimento, e amanhã quem ganha é ele. A única coisa com
que deve se preocupar é não perder por nocaute, porque se aguentar, mesmo
caindo na lona várias vezes, garanto que vai ganhar por pontos
2. Nos amores impossíveis, a esperança é a primeira coisa que deve
morrer
Nada de futuro. Realismo cru: o aqui e o agora nu e sem analgésicos. Você
aprendeu que a esperança é a última que morre, e possivelmente seja verdade
em algumas circunstâncias extremas, mas, no amor impossível ou no
desamor declarado e demonstrado, a desesperança é um bálsamo. Se já não o
amam, não espere nada, não antecipe positivamente: um pessimista
inteligente é melhor que um otimista mal informado. Uma adolescente à beira
da depressão me dizia: “E se ele voltar a me amar e eu já não o quiser mais?”.
Minha resposta foi simples: “Então, você não vai estar nem aí para o fato de
ele a amar ou não!”. Amores tardios são amores doentes e indesejáveis.
3. A distorção confirmatória: “Ainda me ama”
O desespero pode levá-lo a acreditar que, por algum passe de mágica ou
sabe-se lá que feitiço, tudo voltaria a ser como antes: “Se eu desejar com todo
meu coração, meus sonhos se tornarão realidade”. Pura quimera, com um
toque de alucinação. A esperança irracional e injustificada faz a mente
distorcer a informação, e começamos a ver o que queremos ver e a sentir o
que queremos sentir. Um olhar, um sorriso, uma expressão, um gesto, uma
ligação, tudo é interpretadocomo um renascimento do velho amor.
Um paciente, à beira do delírio, apresentava-me seus próprios sentimentos
como prova de que sua ex ainda o amava: “Eu sei que ela me ama. Eu sinto, a
sensação me chega, é como uma premonição”. Armado de uma confiança à
prova de bala, tentou a reconquista, e o que conseguiu foi uma denúncia por
assédio. Em outro caso, uma mulher havia pedido ajuda porque seu namorado
a havia trocado por sua melhor amiga. Em uma sessão, ela comentava cheia
de otimismo: “Ontem eu o encontrei depois de quatro meses e tenho certeza
de que continua me amando. Pelo jeito como olhou para mim, sei que não me
esqueceu. Entendi isso quando me deu o beijo de despedida. E tenho certeza
de que flertou comigo”. Alguns dias depois, na mais profunda tristeza, ela me
dizia: “Estou confusa, não sei o que pensar. Acabo de saber que ele vai se
casar com ela. Ele me mandou um convite!”. Armações da mente, enigmas
patrocinados por um coração que se apega ao pensamento mágico.
“Ainda me ama, mas não sabe.” Há maior autoengano que esse? Ouvi isso
de uma garota que estava havia três anos com alguém que nunca lhe havia
dito que a amava. O amor romântico não é mágico, é o resultado de uma
realidade que construímos com esforço, guiados pelo sentimento e por nossas
crenças. Infelizmente, algumas são francamente irracionais.
4. Para que se humilhar?
A humilhação, em qualquer uma de suas formas: suplicar, jurar, “baixar a
cabeça”, escravizar-se ou elogiar excessivamente o outro, tem um efeito
bumerangue. Más notícias para os que aderem a um amor sem limites: a
submissão, com o tempo, irrita. Restava um pouco de afeto? Perde-se; Havia
um pouco de respeito? Acaba-se. Quer que tenham dó de você? Quer dar
mais poder à pessoa que não o ama? Quer aumentar o ego dela? Se fosse tão
fácil convencer o desapaixonado! Como salvar a autoestima de um lacônico e
lastimoso “por favor, me ame!”? As palavras não vão modificar o
comportamento de quem não sente nada por você. Aceite isso com
maturidade. Para que se humilhar se com isso não vai conseguir ressuscitar o
amor?
Um recesso ajuda. Voltar a falar com sua família, recuperar suas raízes,
aqueles valores que lhe pertencem e que hoje parecem difusos por conta do
afã e desespero de um amor que não lhe convém. Enfie isso em sua cabeça e
em seu coração: princípios não se negociam. Se você quer sofrer, chorar e
acabar com todas as lágrimas, gemer em voz alta, arrastar-se pelo quarto
quando está sozinho... se quer fazer isso e muito mais, faça, mas não entregue
sua soberania, não esmague seu ser. Sofra o quanto quiser, mas não
machuque seu amor-próprio.
5. Cerque-se de gente que o ame
Algumas pessoas se especializam em jogar sal nas feridas. Isso já não
aconteceu com você? Imagine que sua “melhor amiga” lhe diz: “Você perdeu
um grande homem. Ele era o melhor, entendo como você se sente”. Como
assim? “Um grande homem” ou “o melhor”? Não há dúvida: inveja ou
malquerença acumulada da suposta amiga. Qual a necessidade de fazer um
comentário desses a uma desesperada quase moribunda? Quem nos ama de
verdade toma partido e nos defende, tenta nos puxar para cima, não importa
se temos razão ou não, preocupa-se conosco e pronto. Sabe essa mulher que
adota o papel de camarada e lhe recorda a cada instante quão estúpida você
foi ou é? Deixe-a de molho, afaste-se, e, se quiser fazer uma catarse, mande-a
catar coquinho na descida! E também aqueles amigos que pretendem ser
“objetivos” e procuram equilibrar o que não pode ser equilibrado. Eu me
refiro a quem, em tom de conselho, diz: “É verdade que ela era uma mulher
muito complicada, mas há de reconhecer que você não é nada fácil”. Que
hora para ressaltar seus defeitos e fraquezas! Vá limpando o caminho e o
habitat afetivo.
O que você necessita é apoio, suporte afetivo, silêncios compartilhados, o
tapinha nas costas, a palavra de ânimo, o amor da família, dos que buscam
diminuir seu sofrimento. Precisa de “gentis mentirosos” que lhe digam que
você é demais, atraente, bom partido ou qualquer outra coisa que faça bem a
seu maltratado “eu”. A crítica construtiva deve ficar para depois que passar a
tempestade. Você precisa sair do buraco, e nesse processo aqueles que
gostam de você de verdade ajudarão muito. E é aí, nessa base segura da
amizade, que irá reconstruindo sua capacidade de amar, pouco a pouco.
6. Afaste-se de tudo aquilo que faça lembrar seu ex
Nada de romantismos melados. Além do mais, que romance, se já não tem
com quem? Você não precisa frequentar sozinho os lugares contaminados de
recordações afetivas. Para que ocupar “o breve espaço em que você não está”
e apegar-se à música, aos cheiros, aos presentes? Às vezes, mergulhar fundo
na recordação e sofrer até onde o organismo aguente tem uma função
terapêutica, mas é melhor que essas “inundações” sejam dirigidas por um
profissional especializado no assunto. Tente criar a seu redor um microclima
de paz que se reflita em seu interior; limpe seu lugar e gere um novo
ambiente motivacional. Lembre-se: não há mais esperança, já deixaram de
amá-lo, é irrecuperável. Então, o que você está esperando? Jogue fora,
empacote e doe tudo o que tenha restado da relação. Comece do zero, mas
comece.
7. Aplique a técnica do stop
Cada vez que surgir um pensamento referente a ele ou ela, uma imagem ou
uma recordação, bata palmas e diga em voz alta: Stop! É um “pare”, um “alto
lá” que desorganiza o pensamento por alguns instantes e lhe dá um respiro.
Depois de tentar algumas vezes, não precisará mais dizer em voz alta; o stop
simplesmente fará parte de sua linguagem interna. Não é a grande solução,
mas ajuda e alivia. Não se tranque em sua própria mente, nem se afaste das
pessoas. É bom ir ao cinema (mas não a filmes de amor ou de doces
vampiros), comer fora (não ao lugar aonde você ia com ele, nem pedir o prato
favorito dele), visitar um amigo (proibido falar do assunto), enfim, sair,
expor-se ao mundo e ao próximo. Embora seja difícil acreditar, o sol
continuará nascendo e o movimento da vida não deterá seu curso. Repito:
quando se vir em algum ritual negativo motivado pela saudade, escrevendo
sua própria telenovela, use o stop, e a trama se dissolverá até um próximo
capítulo.
8. Recorde tanto o bom quanto o ruim
É uma distorção típica. A mente gosta da nostalgia, regozija-se nela e se
autocompadece sempre que pode. Não faz muito sentido exaltar e recordar os
“anos gloriosos” nem os “belos momentos”. Equilibre! Sem precisar cair no
tédio visceral, balanceie a informação: não esqueça o negativo, não santifique
a quem já não o ama. Não adoce o desagradável, não desculpe o que merece
ser repudiado. O sexo não era bom? Ele era egoísta? Ela foi infiel? Era
indiferente? Não tinham do que conversar? Não esconda isso! Puxe-o da
memória, reproduza os fatos! Não digo para amaldiçoar nem se deixar pegar
pela vingança ou pelo ódio; o que proponho é ter consciência do lado ruim da
relação. Porque, se você começar a maximizar e exagerar os atributos
positivos do outro, será mais lento e difícil elaborar o luto. Separar-se de um
anjo é muito mais complicado que de um ser humano.
9. Se você tem filhos, una-se a eles
Não me refiro ao apego doentio. Nem sugiro que deixe de lado seus outros
papéis para se transformar exclusivamente em pai ou mãe. Mas os filhos são
parte de uma missão que está incorporada em nossos genes. Seus filhos são
parte de você, e o amor que sente por eles e que eles sentem por você vence
praticamente todas as provas. Então, dedique-se a eles, a esse amor genuíno e
descontaminado; veja-os como algo que o alegra e torna a vida mais fácil.
Eles não têm culpa e precisam de você forte e eficiente. Por mais triste que se
sinta, você tem que continuar educando-os, cuidando deles, estando a seu
lado. A fórmula parece funcionar assim: seu ex o afunda, seus filhos o puxam
para cima. Seu ex não é nada seu, seus filhos são seu sangue; seu ex não o
ama mais, seus filhos o amam incondicionalmente. Não é só o amor
romântico que nos realiza: o amor aos filhos também.
 
Princípio 2Casar-se com o amante é como
pôr sal na sobremesa
O amor é uma loucura passageira que se cura com o casamento.
A. Bierce 
Amantes, dementes.
Plauto 
As estatísticas são contundentes: computando dados de várias culturas, cerca
de metade das pessoas tem um relacionamento secreto e trai seu
companheiro. Os relacionamentos proibidos são especialmente atraentes
porque o prazer que geram é muito concentrado, penetrante e viciante.
Independentemente de concordarmos ou não com os relacionamentos
clandestinos, devemos reconhecer que muitos deles acabam se transformando
em um Disney World personalizado, em que os envolvidos estão mais perto
da fantasia que da vida normal. Os amantes criam seu próprio microcosmo e
suas próprias regras de sobrevivência: um mundo só para dois e exclusivo.
Nessa intimidade amorosa, cada um determina a existência do outro e até lhe
atribui significado. Uma paciente comentava comigo: “Só de ficar com ele
algumas horas a semana se justifica e ganha sentido. Não vê-lo é ficar
incompleta, como se arrancassem uma parte de mim”. Justificativa
existencial e síndrome de abstinência ao mesmo tempo: nada a fazer. Alguns
encontros dão ao cotidiano um toque especial e se passa de uma realidade em
preto e branco a uma colorida em 3D. Por isso a resistência sai do enredo,
não importa de onde venha a pressão contrária: ninguém quer perder o
encanto de um amor que nos leva ao limite.
Porém, apesar de estar em uma situação de felicidade expansiva, às vezes
os envolvidos, não satisfeitos com o aqui e o agora, pretendem legalizar a
situação e mantê-la no tempo. A estratégia? Formalizar o vínculo, mostrar-se
ao mundo com dignidade. Do amor proscrito ao conto de fadas: “Nós nos
amamos, vamos viver juntos e construir uma família, com os meus, os seus e
talvez os nossos”. Se você está metido em um plano similar, recomendo que
ponha o pé no freio. Não pretendo desanimá-lo, mas somente o
relacionamento de uma pequena porcentagem de amantes que se casam ou
vão morar juntos funciona. Aterrar o êxtase, reestruturar a loucura que
mantinha a relação viva tem suas consequências e contraindicações. É muito
difícil “regulamentar” o amor passional e fazer que tudo continue igual.
A “montanha-russa” emocional dos amantes inclui satisfação sexual
intensa, vertigem, ternura, alegria, culpa, medo e temeridade, encanto e
desencanto, amor e desamor, dor e alívio, risos e tristezas, e muitas
oscilações mais. Os amantes são sacudidos por uma confusão de afetos e
desafetos de todo tipo e de caráter exponencial. E é essa velocidade e
variedade de sentimentos que os fascina. Como canalizar essa energia
fascinante e fora de controle para domesticá-la sem que perca sua essência
vital?
“NÃO QUERO ABRIR MÃO DESSA FELICIDADE”
Isso é um contrassenso: você não quer renunciar à felicidade de ter um
amante, mas ao mesmo tempo pretende desnaturá-lo, tirá-lo de seu
ecossistema e levá-lo para casa. Para que isso? A dinâmica é mais ou menos
assim: quando o apego vai deitando raízes, os lemas iniciais de “aproveite
enquanto dure” ou “viva o momento” vão perdendo força, e à medida que a
necessidade de estar juntos aumenta, surge o futuro. O argumento é uma
curiosa mescla entre hedonismo e justiça cósmica: “Que mal há em irmos
morar juntos? Não merecemos ser felizes? Não foi por acaso que nossas
vidas se cruzaram!”. Obviamente, ninguém “merece” ser infeliz. A questão é
saber se é possível transplantar a relação de amantes a um casamento estável,
sem perder a vivacidade que nos faz felizes.
Para você refletir: como saber se sua decisão não está sendo
principalmente influenciada pelo apego ao prazer? Você conhece
suficientemente seu amante, ou será que seu conhecimento do outro se reduz
à efervescência de um amor de laboratório, isolado das contaminações e tão
luminoso como os dias de verão? Pergunto: que felicidade você busca? Uma
real e com os pés na terra, ou uma sem mais fundamento que a vontade de
não perder?
“QUERO MAIS, PRECISO DE MAIS”
O efeito spa de ter um amante (relacionamento, massagens, carícias,
orgasmos, lindas palavras, redução do estresse, bloqueio das preocupações
por algumas horas) cria uma profunda dependência. Como pedir a um amante
que seja “objetivo” e razoável na hora de tomar decisões? Um homem que
estava prestes a se separar para ir morar com a amiga/amante defendeu sua
decisão da seguinte maneira: “A paixão que sinto é tanta que, além de
transarmos várias vezes quando nos vemos, eu me masturbo até três vezes
por dia pensando nela. Só de ouvir o nome dela tenho uma ereção”. Como
pedir um pouco de racionalidade a alguém que está pensando com o órgão
genital? Sua motivação não era outra senão ter o máximo de tempo possível
para ficar com a mulher que desejava.
Em uma relação rotineira, sem ideais importantes, a presença de um
substituto ou complemento afetivo/sexual se transforma em uma motivação
básica e imprescindível. Como em qualquer consumo de droga, o nível de
tolerância do organismo à substância (ou à pessoa) aumenta e precisamos de
mais quantidade dela para manter a sensação em um nível satisfatório.
Um casal de amantes tinha o seguinte ritual: umas duas vezes por semana,
ela ia ao apartamento onde ele morava. Quando entrava, encontrava uma
mesa muito bem-posta, flores silvestres e uns exóticos e delicados pratos
feitos por ele, que era um excelente cozinheiro. Tudo amenizado por uma
bela música clássica, e em cima de um colchão no chão, ele deixava pronta a
roupa que ela devia vestir a cada encontro. Pela janela viam-se as montanhas,
tudo cheirava a pinho e os pássaros cantavam sem parar, como se festejassem
sua chegada. Nesse lugar, tudo se encaixava perfeitamente. Na realidade, a
experiência era o que havia de mais parecido a estar no Olimpo abraçada a
Zeus.
Comparações são horríveis, mas como não as fazer? Minha paciente as
fazia o tempo todo, especialmente quando descia do Olimpo e ia para sua
casa, onde a esperava um marido que era um simples mortal, e, além disso,
não cozinhava nem gostava de ouvir música, não lhe comprava roupas e não
tinha a menor criatividade. Do céu ao purgatório e, às vezes, ao inferno. Em
uma sessão, ela me dizia: “Peço a Deus que me libere de meu casamento, mas
penso em meus filhos. Não sei o que fazer. Bem, sei o que fazer, quero ficar
com meu amante, mas não tenho coragem. Cada dia o amo mais e preciso
mais dele. Como isso vai acabar?”. Duas vezes por semana já não eram
suficientes, nem três, nem quatro. A exigência era a eternidade completa. Ela
tentou em várias ocasiões ir morar com aquele semideus feito homem, mas
nunca teve coragem. Hoje, recorda-o como o grande amor de sua vida e se
sente mal consigo mesma por não ter sido suficientemente corajosa para
tomar a decisão. Ainda sente falta dele, seu corpo não se resignou à perda.
Gostaria de repetir a dose.
AMANTES ATÉ QUE OUTRO NOS SEPARE
Um belo dia, chega a coragem e você toma a decisão: “Vou substituir meu
companheiro por meu amante”. E o que será do ex, dos anos de convívio, da
história construída? “Isso não é problema meu, ele que veja como vai
sobreviver, ela que veja o que vai fazer.” E os filhos? “Vão se acostumar e
compreender. Por que não? Tanta gente faz isso...” Em uma consulta, diante
do olhar atônito de seus filhos de oito e nove anos, uma paciente tentava
convencê-los das “vantagens” da separação: “Mamãe vai morar com outro
homem porque o ama com todo o coração. É normal isso acontecer com os
adultos. Vocês vão ficar comigo e terão um novo papai! Vão ver que ele é
uma pessoa encantadora e vão se dar muito bem! De qualquer maneira, vão
continuar vendo o papai de verdade sempre que quiserem. Não é
maravilhoso?”. Ao ver a seriedade das crianças e a minha, tentando entender
o que haveria de “maravilhoso” em tamanho despautério, ela tentou ajeitar a
coisa: “Vejam pelo lado bom: vocês vão ter dois papais e duas casas!”. Para
uma criança normal, a notícia de que vai ter um “novo papai” ou uma casa
“extra” de fim de semana não é nada fenomenal; fica mais próximo de um
trauma. Não digo queuma pessoa não pode se separar, mas precisa fazê-lo
direito.
Os amantes que se juntam pecam por uma ingenuidade e um egocentrismo
incríveis: acham que os outros devem ficar tão felizes quanto eles, como se a
felicidade tivesse que ser contagiosa. Mas o que costuma ocorrer nesses casos
é que tudo se desorganiza e voa pelos ares, simplesmente porque não existe
uma forma cirúrgica, precisa e delimitada para substituir o marido ou a
esposa pelo amante e deixar as coisas como se nada houvesse acontecido. As
pessoas afetadas e feridas pela decisão e os indignados não ficam de braços
cruzados: protestam, ficam deprimidos e põem seus advogados para
trabalhar.
É POSSÍVEL IR MORAR COM O AMANTE E SOBREVIVER?
CINCO REFLEXÕES PARA LEVAR EM CONTA
Vamos começar repetindo o seguinte: a “passagem” não é nada fácil. No
início, sua motivação estará nas alturas; você vai querer se beliscar por causa
da alegria, achando que é um sonho que se tornou realidade e que ninguém o
poderá acordar. Você sabe que haverá problemas de todo tipo, mas o amor o
empurra e você se sente capaz de vencer qualquer obstáculo que se
interponha em seu caminho. A crença que o move é, definitivamente,
triunfalista: “O amor não conhece limites”.
Vejamos alguns dos custos, riscos e consequências que possivelmente terá
que enfrentar para calibrar suas forças de uma maneira adequada e não sofrer
inutilmente. Talvez você possa estar nessa pequena porcentagem que
consegue.
1. Custos sociais e perdas afetivas
Você está preparado para as investidas orquestradas pela moral e bons
costumes de plantão? É provável que, do ponto de vista social, cheguem
algumas sanções e seu novo relacionamento não seja visto com bons olhos. É
até de se esperar que alguns “amigos” considerem que os relacionamentos
entre amantes devem permanecer sigilosos e que é de mau gosto expô-los
abertamente. Também não vai faltar o parente que o censurará. Sentirá que
sua imensa alegria é um incômodo para todos aqueles que desejam que você
fracasse, e não serão poucos. Então, prepare-se: o que vem por aí não é cor-
de-rosa. Seja forte e prepare-se para enfrentar as coisas de modo que sua
autoestima não seja afetada. Nessa situação, há dois tipos de pessoas: aquelas
que por culpa ou medo do que os outros vão dizer se dão por vencidas, e
aquelas que se entrincheiram em uma couraça à prova de críticas e seguem
em frente. Se você tem certeza do que quer, não se renda.
2. A queda na paixão
Aqui a coisa é mais grave. Um encontro secreto não é a mesma coisa que o
convívio aberto. Isso não o afetará porque o amor é muito? Não tenho tanta
certeza. O estresse constante acaba com a maioria dos grandes amores e com
o excesso de libido. Por que o estresse? Porque você vai entrar de cara nos
problemas da vida cotidiana. Terá que conviver com alguém com quem não
tem uma história de lutas e projetos compartilhados (antes, estavam mais
concentrados nos prazeres), e terão que começar a enfrentar ombro a ombro a
sobrevivência. Os casais estáveis, além de se amar e de tentar fazer dar certo,
devem enfrentar uma realidade que não é tão divertida, embora não seja
necessariamente incompatível com o amor. Já os amantes não “sobrevivem”:
aproveitam.
Algumas pessoas me perguntam: “Mas o mais importante não é que haja
amor em grande quantidade?”. Minha resposta é que o amor é uma condição
necessária, mas não suficiente para que a vida a dois funcione
adequadamente. O que afirmo é que, para transformar o “amor passional” e
secreto dos amantes em um “amor de casal estável” e aberto ao mundo, é
preciso reestruturar completamente a relação. Vocês vão precisar criar uma
nova visão do mundo, um pouco menos fantástica e mais realista: devem
levar o nirvana para casa e mantê-lo vivo! E as fantasias sexuais?
Continuarão, assim como o sexo (se as crianças e o cansaço permitirem). Não
será mais a mesma coisa, mas, tanto faz, já estão juntos mesmo... não era isso
que você queria?
3. Os seus, os meus e os que virão
Não quero parecer trágico, mas um monte de filhos misturados, de
diferentes procedências e geralmente incompatíveis entre si, só é agradável
no sonho de alguém apegado ao mais rígido romantismo. Leva tempo e
desgaste para adaptar-se aos filhos de seu ex-amante e para que seu ex veja
com naturalidade que seus enteados vivam com os filhos dele, e que todos,
além disso, aceitem uma gravidez inesperada. Você vai dizer que é um
rebento fruto do amor e, portanto, um presente que deve ser abençoado,
apesar da confusão de mães, pais, filhos e suas respectivas acomodações.
Nem é preciso falar das primeiras comunhões, dos aniversários, das
formaturas, dos futuros genros e das futuras noras, das regras, das tarefas
escolares, de levar à escola, enfim, um todos contra todos em nome do amor.
Você realmente prefere isso àquelas tardes no Éden? Quero recordar, só a
título de reflexão, uma frase de Schopenhauer, para que pense nela em
alguma noite amorosa em claro: “Em nosso hemisfério monográfico, casar-se
é perder a metade dos direitos e duplicar os deveres”. Não sei se ele tem
razão, mas não custa nada fazer a conta.
4. Três motivos de deserção e de regresso ao ninho original
Embora possa haver muitas causas que explicam a deserção dos amantes
de seu novo casamento, vou apontar as três mais frequentes.
a. Tenho saudade do conforto que tinha antes
Alguns apaixonados jogam a toalha quando começam a comparar as
vantagens que tinham antes com as que têm hoje. O conforto goza de muitos
adeptos. Uma paciente, que alguns meses antes parecia possuir a integridade
e a convicção de Joana d’Arc, começou com um pequeno desconforto
mental: “Antes, quando estava com meu marido, tudo andava direitinho, já
tinha meu mundo organizado e aceito. Agora é tudo mais complicado, porque
já não tenho essas comodidades: sinto falta da empregada, do motorista, do
contador, do advogado. Meu amante, perdão, meu companheiro atual, não é
tão abastado; tive que voltar a trabalhar. Eu sei, eu sei o que você vai dizer: é
uma oportunidade para voltar a ser produtiva, blá, blá, blá... Mas a questão é
que eu estava bem sem trabalhar. Meu marido não era um Adônis nem um
gênio, mas era suportável e às vezes até doce”. Amor de araque?
Materialismo do ruim? Pode ser, mas, em minha experiência, esse “regresso
ao passado para garantir o futuro” é muito frequente. Antes de um ano, minha
paciente estava de novo no purgatório de seu casamento anterior, feliz da
vida.
Um homem expressava assim suas dúvidas: “Deixei um apartamento de
duzentos metros por um minúsculo, no primeiro andar, onde os carros passam
beirando minha janela”. Quando alguém pensa: “Antes eu vivia melhor”, é
um mau sinal. E quando o lamento se repete várias vezes, é bom deixar as
malas prontas, por via das dúvidas. O problema é que, para muitos que
querem recuperar o perdido, já é tarde: o antigo lar está ocupado, o amor se
esvaziou e o rancor não deixa. O perdão não é uma obrigação, é uma escolha
livre que tem seu próprio tempo. Se você sente falta da “boa vida” anterior,
talvez o amor já não seja suficiente, talvez esteja retrocedendo. Pergunte-se o
que anda fazendo seu ex; nunca se sabe...
b. Saudades inesperadas
Passado o furor dos primeiros meses de convivência, um vírus do qual não
temos muitos dados pode fazer o coração funcionar em retrocesso. De
repente, quando tudo parece andar bem, uma indiscreta nostalgia começa a
incomodar. No início, você a afasta e pensa que é natural, mas com o passar
das semanas percebe que vai se tornando mais penetrante. E se pergunta:
“Como pode ser? Saudade de quê? Será que me enganei?”. Começa a revisar
o passado e a fazer balanços de todo tipo. E se por esses dias encontrar seu ex
por acaso, vai reparar em coisas que antes passavam totalmente
despercebidas: deixou o cabelo crescer, e fica muito bem, essa cor lhe cai
bem... enfim, análise perigosa. Essa “redescoberta” é fatal para quem está
tentando iniciar um novo relacionamento. Para piorar, esse tipo de saudade
age assim: maximiza o bom do ex e minimiza as supostas vantagens do
amantetornado oficial. Você vai se encontrar em uma confusão imensa. Eu
chamo isso de dor inversa ou reversa: você está pensando em deixar o amante
para voltar com o ex! Morrer de amor em sentido contrário e a destempo.
Pode ser que ninguém acredite em você, visto que há apenas alguns meses
fez o contrário.
Não quero dizer com isso que toda saudade do passado afetivo tem
necessariamente um desenlace similar; porém, um número considerável de
“nostálgicos arrependidos” puxa o freio de emergência e volta para casa com
o rabo entre as pernas. Seja pela razão que for, busca do conforto ou
reaparição repentina do amor anterior, o arrependimento ronda com muita
frequência os amantes que se juntam. Se esse for seu caso, a melhor maneira
de enfrentá-lo é sendo honesto consigo mesmo. Acha que vai fazer papel
ridículo? E daí? Pior seria passar a vida amaldiçoando o medo que o impediu
de terminar com um amante que não pôde ou não soube ser oficial.
c. Meu ex precisa de mim!
Não é pouco comum que certas pessoas mantenham um laço
compensatório com o ex e acreditem, consciente ou inconscientemente, que
ainda devem cuidar dele. As causas? Dó (“Não suporto vê-lo sofrer”),
responsabilidade moral (“É meu dever como ex”) e especialmente culpa
(“Preciso compensar o mal que lhe causei”). Qualquer uma das três deixa o
companheiro atual de cabelo em pé. O que mais causa confusão são as
depressões ou os ataques de ansiedade do ex. Conheci casos que entre o
Prozac e o Rivotril, entre o apoio moral e as boas ações, Cupido flechou pela
segunda vez os envolvidos. De novo! Pois sim, embora pareça impossível,
podemos nos apaixonar duas vezes pela mesma pessoa; e um dos motivos
dessa curiosa reincidência é o bom samaritano que temos dentro de nós.
Um homem me dizia indignado: “Estou farto! Cada vez que o ex dela fica
doente, minha mulher corre para ajudá-lo! E, para piorar, o cara passa a vida
doente! Será que ela ainda sente algo por ele? Prefiro que o outro venha
morar conosco; pelo menos, posso vigiá-lo!”. Obviamente, não é uma boa
ideia um triângulo amoroso embaixo do mesmo teto, e menos ainda quando
um dos vértices é justamente o ex da sua mulher.
Essas relações de ajuda costumam funcionar como um círculo vicioso. No
caso de meu paciente, cada vez que o ex-marido de sua mulher ligava
(porque sentia uma “dor no peito”), ela entrava em pânico e o socorria
imediatamente; o que reforçava a suposta doença coronária dele. Quando lhe
perguntei por que agia desse modo, ela respondeu: “Ele é o pai dos meus
filhos!”. E seu filho mais novo tinha 23 anos... A pergunta é óbvia: por que os
filhos não corriam para “salvá-lo”? Às vezes, os ex se transformam em uma
espécie de apêndice: não cumprem nenhuma função, são incômodos e deviam
ser extirpados para se ter paz na vida.
5. Perguntas que podem lhe servir de guia antes de tomar a decisão
Amante ou não amante? Pergunte-se por que precisa de um amante. A
experiência mostra que se você não resolver primeiro o que tem com
seu companheiro, para o bem ou para o mal, nunca terá clareza
emocional acerca de seu amante nem de seu companheiro. A
infidelidade é um paliativo, mas não conduz a nada de bom nem
resolve os problemas de fundo.
Há algum risco de ficar sem amante e sem marido ou esposa? Sim,
há. O risco de ir morar com seu ou sua amante prematuramente é que
não consiga lidar nem com a convivência nem com a separação. Ficar
sozinho pode ser uma boa opção, mas isso deve ser uma decisão
desejada e pensada, e não consequência de ações impulsivas. Cabeça
fria, mesmo que o coração esteja quente.
Você conhece seu amante o suficiente para saber se são compatíveis
para uma vida a dois? Some as horas que esteve com ele. Pense nas
situações que compartilharam, e se a convencem. Pergunte-se se
precisa de mais tempo. Se a única coisa que você tem são lindas
histórias de motel, então não tem nada.
O que você sente é amor, ou foi vítima de um furacão de grau 10 que
o leva e traz como um fantoche? Antes de pôr sal na sobremesa, antes
de descer do céu e aterrissar as paixões, analise as razões que o
mantêm junto a ele ou ela. Pense seriamente, examine os atrativos, as
sensações, os desejos, e depois esfrie o ímpeto e a relação um pouco,
procure compreender o que o levou a isso e o que o mantém ali. Tente
ser realista.
É possível construir algo positivo de um ponto que gerou tanta dor
aos outros? Alguns dizem que não, que nada de bom deriva de
machucar os outros, nem que seja em nome do amor. O amor não
justifica tudo. Segundo aqueles que sustentam esse ponto de vista, o
amor se desvirtua quando precisa do engano e da mentira. É só para
você pensar: não sei se têm razão, mas vale a pena analisar.
Você é capaz de confiar na fidelidade daquele que foi amante e agora
divide a vida com você? Você é daquelas que pensa que se ele fez uma
vez, mesmo que com você, pode fazer de novo? Ciúmes de que o
amante tenha uma amante? De que o ex-amante (agora companheiro
oficial) repita o amor proibido com outra pessoa? Na verdade, passar
de cúmplice a vítima é um paradoxo que angustia e tira o sono de
qualquer um.
 
Princípio 3
Evite o sacrifício irracional: não se anule
para que seu companheiro seja feliz
Onde há amor, não há sacrifício.
J. Benavente 
Todo excesso, assim como toda
renúncia, traz seu castigo.
O. Wilde 
Amor por contraste: ser um pouco mais ignorante para que o outro se sinta
mais inteligente; passar despercebido para que seu amado se destaque;
fracassar para que os erros do outro se diluam; enfear-se para que o outro
pareça melhor. Sacrifício do pior e do mais autodestrutivo: ser menos para
que a pessoa amada se sinta mais. Existe maior estupidez “amorosa”?
Embora sempre fique evidente, uma infinidade de casais sofre dessa
compensação negativa. Você mesmo poderia estar, exatamente agora,
envolvido nesse jogo doentio de tentar nivelar disparidades por baixo. Uma
jovem mulher, bem-sucedida em sua profissão, dizia-me: “Como vou vencer
se ele não é bem-sucedido? Eu me sentiria muito mal. Prefiro me igualar e
equilibrar a questão. Não posso me afastar tanto porque ele sofreria demais, e
até poderia perdê-lo”. A conclusão é terrível: vamos fracassar juntos para que
o amor se aguente! E nem sequer se trata de aceitar nossos defeitos ou
incapacidades, mas de ser mais insuficiente que o outro.
Um paciente aplicava essa “solidariedade negativa” da seguinte maneira:
“Procuro não ver muito minha família. Ela está muito sozinha, seus pais
morreram e só lhe resta um tio vivo. Já eu tenho oito irmãos e nos gostamos
muito. Eu sei que quando me reúno com todos eles minha mulher fica com
saudades da família que já não tem e fica triste, de modo que acho que é
melhor me afastar um pouco dos meus”. Essa lógica é difícil de aceitar: já
que você não tem família, eu assumo sua orfandade como minha e ficamos
nós dois sozinhos! Quando lhe perguntei por que não usava a solução inversa
e aproximava a esposa de sua família em vez de afastá-la (“adoção”, em vez
de exclusão), ele respondeu que nunca havia pensado nisso.
Às vezes, o deficit e as incapacidades da pessoa amada nos doem tanto que
queremos eliminar o sofrimento a qualquer custo e “equilibrar” a questão,
sofrendo mais que o outro. Afundar para que a pessoa amada flutue, em vez
de lhe jogar um salva-vidas: “Relaxe, meu amor: sou (ou estou) pior que
você!”. Mal a dois, consolo de apaixonados (como se as incapacidades ou as
inseguranças da pessoa que amamos desaparecessem magicamente com o
sacrifício). Castigar a si próprio ou anular-se para levantar a moral do outro é
matar o amor em nome do amor. Esse é o paradoxo.
Por causa do desespero e do desamor, alguns cortam os pulsos, outros se
entregam à bebida ou às drogas e adotam uma vida licenciosa e sem controle.
Para todos esses casos há protocolos e ajudas especiais que provêm de
diversos serviços de saúde ou profissionais especialmente treinados. Mas a
autoaniquilação psicológica por afeto passa despercebida, visto que não é tão
dramática, e quem a executa o faz no mais cuidadoso anonimato (além do
mais,nem sempre se tem consciência disso). É preciso alertar a população
sobre sua existência, porque qualquer um pode acabar caindo na armadilha da
autodestruição do eu.
“SÓ ME SACRIFICO UM POUCO”
Não é possível destruir-se “só um pouco” e que esse fato não afete a
pessoa em sua totalidade. Ser “um pouco” ruim, de qualquer maneira o faz
ruim; ser “um pouco” assassino o faz assassino. Não é possível deter ou inibir
o impulso de nossos talentos naturais ou de nossas virtudes sem que notemos
e nos impactemos. Anular-se e bloquear o desenvolvimento das próprias
forças, mesmo que seja por amor, vai gerar uma desorganização interna que
nosso cérebro avaliará como contraproducente e negativa. Uma “pitada” de
infecção alterará todo nosso corpo; e “um pouco” de depressão nos fará andar
em marcha lenta pela vida. O problema não é quantitativo, e sim qualitativo.
Uma estudante de medicina que mostrava melhor rendimento acadêmico
que seu namorado decidiu “baixar suas notas para se solidarizar com ele”.
Ambos faziam o mesmo curso, mas ele ia bem mal, ao passo que ela era
considerada uma das melhores alunas. Sua tática era a seguinte: se em uma
prova sabia as respostas certas, respondia só algumas. Quando seu namorado
comentava que ele havia cometido muitos erros, ela o animava: “Eu também
não fui bem, não se preocupe, isso é normal!”, e lhe mostrava suas notas.
Pouco tempo depois, os professores chamaram sua atenção por conta de sua
“inexplicável” queda no rendimento e sugeriram que voltasse a seu nível,
mas ela não apresentou mudança alguma. Continuava obstinada em sua
estratégia e tudo fazia pensar que o “amor” por seu namorado podia mais que
o amor pela medicina. Um dia qualquer, durante uma consulta, eu lhe
perguntei por que não mudava a maneira de encarar o problema e tentava
convencer seu namorado a pedir uma assessoria profissional na área
vocacional. Ela disse que isso seria terrível para a autoestima do rapaz. Minha
resposta foi a seguinte: “Não seria muito ‘mais terrível’ continuar indo de
fracasso em fracasso? Sei que você não suporta vê-lo sofrer, mas talvez esteja
lhe fazendo um mal ainda pior. Além do mais, nem todo o mundo nasceu
para ser médico! Se realmente o ama, queira seu bem em vez de tapar ou
mascarar os problemas”. Por fim, seu namorado consultou um orientador
profissional e, em poucos meses, abandonou o curso de medicina e começou
a estudar administração, e se destacou de imediato. Minha paciente se livrou
da carga do sacrifício irracional e voltou a ser a boa estudante que era, mas
precisou de várias sessões para mudar seu estilo afetivo.
Não digo para não ajudar seu companheiro; o que afirmo é que a anulação
de suas próprias capacidades por amor é insustentável para quem defende o
bem-estar do ser humano. Ajudar a pessoa a quem se ama sem se destruir é
ajudar duas vezes.
OS BONS CASAIS SE COMPENSAM PELO POSITIVO
Um homem, após ouvir atentamente o princípio de compensação negativa
e suas implicações, comentou: “Acabo de perceber que sempre foi assim. Por
exemplo, quando estamos em uma reunião social, procuro parecer menos
‘culto’ do que sou para que ela não se sinta mal”. Casais díspares que se
equilibram no subsolo, ortopedia de um amor mal configurado ou deformado.
Não é preciso cortar uma perna para equilibrar a coxeadura do outro; é
melhor procurar um apoio ou uma prótese, pelo menos se o interesse for
seguir em frente. Além do mais, realmente seu companheiro se incomoda que
você se destaque e que suas qualidades sejam evidentes? Você acha isso?
Quando perguntei à esposa de meu paciente se ela se sentia incomodada por
não ter o “nível cultural” de seu marido, ela disse que não, que, pelo
contrário, sentia-se orgulhosa de suas capacidades e achava que cada um
tinha suas forças e fraquezas. O problema não era dela.
O caminho do crescimento afetivo é buscar o positivo no outro e o positivo
em si mesmo, para ajustar-se nesses pontos: estar atento ao negativo para
modificá-lo e estar atento ao positivo para consolidá-lo. Sem distorções nem
mentiras, com a dor e o tempo que forem necessários. Então, o processo de
ajuste será dinâmico, realista e honesto, e talvez até divertido.
O DESCARAMENTO: “ANULE-SE E EU ME SENTIREI BEM”
Às vezes, a tentativa de equilibrar a relação chega por outro caminho mais
escabroso e cruel. A pessoa que possui o deficit ofusca o companheiro para
poder superar sua problemática, e este assume a coisa como um “sacrifício de
amor”. O descaramento se torna evidente em frases como esta: “Seu sucesso
me deprime, não é justo comigo!”. E a resposta do sacrificado serviçal: “Vou
tentar não me destacar tanto, para que você não se sinta mal”. Explorador e
explorado associados. Um homem que se sentia pouco atraente e fracassado
economicamente temia que algum homem bonito e bem-sucedido pudesse
conquistar sua nova esposa. O método maligno e quase delirante que havia
desenvolvido para blindar a relação era induzi-la a comer o dia todo para que
engordasse e não ficasse tão atraente; também tentava fazer que se vestisse
mal. Enquanto ele fazia todo o possível para “ofuscar” sua esposa, ela nem
sequer suspeitava que a intenção de seu “amado” era afastar qualquer
candidato que lhe parecesse ameaçador. A motivação do homem era
desconcertante: “Se ela fosse menos atraente, eu viveria mais tranquilo”.
Quando lhe perguntei por que não confiava mais em sua mulher e em si
mesmo, em vez de criar tamanho enredo, ele respondeu: “Sou um homem
desconfiado por natureza. Não tenho coragem de jogar ácido no rosto dela,
mas já pensei nisso. De modo que procurei algo mais suave que não lhe faça
tanto mal: enfeá-la só um pouco”.
COMO SAIR DO JOGO PERVERSO DE APARENTAR “SER
MENOS” PARA QUE O OUTRO SE “SINTA MAIS”
1. O amor saudável não exige autocastigo
Nas boas relações ambos crescem, mesmo que doa e haja custos a pagar.
Se acredita que deve se incapacitar para que seu companheiro seja feliz, você
tem um problema grave: interpretou mal o amor. Não me refiro a doar um
rim para salvar a pessoa amada de uma doença grave, mas a evitar que o
outro enfrente sua própria deficiência psicológica para que a supere. É
paradoxal que seu sacrifício impeça o outro de melhorar e seguir em frente:
por fazer o bem, faz o mal. Além do mais, como superar um problema se
você o esconde? O amor nada tem a ver com carregar uma cruz nas costas. Se
mostrar seu lado bom gera insegurança à pessoa que você ama, ela é quem
deve mudar e não você: ela deve alcançar você, e não você diminuir a
marcha.
Muitas pessoas, influenciadas por uma subcultura que justifica e exalta o
sacrifício como o motor principal das relações a dois, acham que o amor
exige perder parte da própria identidade. O lema é tenebroso: “Se você amar
de verdade, deixará de ser você”. Mas não é verdade; em um bom
relacionamento não se perde nada vital. Você não tem que se despersonalizar
para amar e ser amado. Evidentemente, haverá pactos e ajustes de ambos os
lados, o que não significa negociar nossos valores e princípios. O que nos
define como pessoa é intocável, não importa quanto amor esteja em jogo e
quanto desamor você preveja.
2. Todos os casais são díspares
Não seria mais lógico que seu companheiro se sentisse orgulhoso por você
ser quem é, em vez de se comparar e se deprimir por ser “menos”?
Simplesmente seja você mesmo, com suas capacidades e desacertos, sem
esconder nem disfarçar nada, e se o outro se assustar ou se angustiar, talvez
você esteja com a pessoa errada. Amor “invejoso” não é amor.
Alguns defendem o mito da “igualdade total” e acreditam que um casal só
vai funcionar se a coincidência entre seus membros for irrevogável. A
realidade nos ensina que não existem clones afetivos. As “desigualdades” são
inevitáveis e, às vezes, até interessantes e/ou pedagógicas (podemos aprender
com o outro e manter vivo o poder de nos impressionarmos), mas, se formos
inseguros e temerosos, cada disparidade e cada contraste se transformará em
um martírio. Um paciente me dizia: “Ela tem mais dinheiro que eu e as
pessoas a admiram maisque a mim; ela tem uma grande personalidade e é
emocionalmente mais equilibrada. Não suporto isso, quero alguém que se
pareça mais comigo, alguém mais pobre, menos bem-sucedida, mais odiada,
mais insegura. Preciso de alguém tão imperfeito quanto eu”. O homem se
comparava no que não se deve comparar, e a maneira de solucionar a
defasagem era procurar uma companheira que se encaixasse melhor a suas
“incapacidades”. Ele tinha razão? A polêmica fica aberta.
3. É melhor um sofrimento útil que uma calma falsa
Não existe crescimento sem dor, sem desconforto e sem algum mal.
Crescer implica um desajuste do que existe atualmente, para reorganizar-se
em uma nova estrutura. Se seu companheiro deseja superar a si mesmo de
verdade, vai se apegar a suas capacidades, em vez de rejeitá-las; pedirá a
você que lhe estenda uma mão e agradecerá a ajuda. É melhor que sua força o
faça forte, e não que a fraqueza dele o enfraqueça. Há um sofrimento inútil e
muito daninho que surge quando se tenta equilibrar negativamente a relação,
e há um sofrimento útil, associado a uma mudança real e profunda da pessoa
que tem problemas. E se você me dissesse que prefere mentir a vê-lo sofrer,
eu responderia que é muito mais saudável uma verdade desagradável que
uma mentira piedosa.
4. Procure ajuda profissional para ambos
Nas relações que se solidarizam por baixo, o problema é de ambos: um por
falta e outro por excesso, mas é dos dois. Você quer ajudar a pessoa amada
sem se aniquilar? Para isso é preciso ser valente e entrar na dança. A ajuda
psicológica pode chegar à conclusão de que já é tarde e não há nada a fazer,
ou que você ainda está a tempo de nivelar saudável e positivamente sua vida
afetiva. Seja como for, e isso é o importante, em ambos os casos você estará
vendo as coisas como são, sem autoenganos, o que é imprescindível para
gerar uma transformação significativa. Uma terapia adequada lhe mostrará o
que você deve mudar e o que seu companheiro deve modificar. Ir juntos para
cima, e não para baixo.
5. Você realmente quer ser medíocre?
Acredito firmemente que temos uma missão a cumprir, e parte desse
destino se relaciona com nossas forças e capacidades. A possibilidade de
otimizar as virtudes que possuímos é parte de nossa autorrealização. Para os
gregos, a virtude é uma força ou disposição que permite desenvolver o que
somos da melhor maneira possível. Apropriar-se e conciliar-se com o próprio
ser enquanto usamos o melhor de cada um: puro crescimento. Porém, se “por
amor” decido bloquear minhas capacidades e “viver menos”, estou tirando
sentido e força de minha existência. Cada vez que você se anula, que
desabilita seu “eu”, priva-se de avançar emocional e psicologicamente, e
quando esse bloqueio se mantém, você acaba sem saber quem é e para onde
vai. Confunde o ser com o “dever ser” ou com o ter. Perde-se em sua própria
limitação e se habitua a isso: acostuma-se a ser medíocre, podendo não o ser.
Se você tem a possibilidade de ser uma pessoa brilhante, empreendedora,
inteligente, gentil ou eficiente, dentre muitas outras competências possíveis,
precisa sê-lo; essa é sua missão e o que nasce de você. De modo que, quando
decide se acoplar à incapacidade de seu companheiro, corre dois riscos:
violentar-se internamente e resignar-se a seu novo papel. Um amor que
obriga a involuir é um castigo.
 
Princípio 4
Nem com você nem sem você?
Corra para o mais longe possível!
Nem com você nem sem você, minhas penas têm remédio.
Com você porque me mata, sem você porque morro.
Anônimo 
A dúvida no amor acaba por fazer
duvidar de tudo.
Amiel 
Conflito insuportável, desgastante. Faz tempo que você tenta se acomodar a
uma contradição que o envolve e revolve, sobe e desce: “Sim, mas não”.
“Não, mas sim.” Um amor inconcluso, que não é capaz de definir a si
mesmo, pode durar séculos: quando você está ao meu lado fico entediado,
canso-me, fico estressado, e quando está longe, não posso viver sem você,
sinto sua falta, preciso de você. Que pesadelo! Como lidar com tamanho
curto-circuito e não ser eletrocutado? Tamanha contradição, sem se asfixiar?
Essa dúvida metódica sobre o que se sente, que nem sempre se expressa
claramente, funciona como a areia movediça: quanto mais força fazemos para
sair, mais ela nos suga. As pessoas vítimas desse amor fragmentado e
indefinido, sob o efeito do desespero, tentam resolver a indecisão do outro
investigando as causas, dando razões, mudando sua maneira de ser, enfim,
fazendo e desfazendo a confusão, sem muito resultado. A razão do fracasso é
que os indivíduos que sofrem do “nem com você nem sem você” se
imobilizam e ficam girando em círculos, às vezes por anos. Na proximidade,
a baixa tolerância à frustração ou a exigência irracional as impedem de ficar
bem com a pessoa que supostamente amam, e, na distância, os ataques de
saudade minimizam o que antes lhes parecia insuportável.
Um paciente tinha uma namorada que morava em outra cidade e a via a
cada dez ou quinze dias. Como uma síndrome, cada encontro acabava em
uma guerra campal e cada despedida em um adeus torturante, repleto de
perdões e boas intenções. Em uma sessão, perguntei-lhe por que não acabava
de uma vez por todas com tamanha tortura, e ele respondeu: “Eu sei que não
é normal. Quando estou com ela, não consigo me conter e a infernizo. Nesses
momentos, acho que preciso de alguém melhor e estou disposto a terminar,
mas não consigo. Quando nos despedimos, eu fico muito triste, os poucos
momentos agradáveis que tivemos pesam muito. Depois, nos ligamos vinte
vezes ao dia, dizemos que nos amamos, que não podemos viver um sem o
outro, e é tudo assim, como um carma que se repete sem parar”. A conclusão
de seu relato foi, no mínimo, surpreendente: meu paciente não amava sua
namorada, mas sim sua ausência! Apaixonado por um fantasma que se
portava como um demônio. Insisti novamente: “Por que não acaba com tudo
isso e se dá a oportunidade de encontrar alguém a quem possa amar 24 horas
por dia, sem tantas flutuações?”. Sua resposta: “Sinto que nunca dei uma
oportunidade à relação”. Minha pergunta: “São quatro anos, não foi
suficiente?”. O homem ficou mais dois anos nesse inferno, até que conheceu
uma pessoa na cidade onde morava; porém, o “nem com você nem sem você”
em pouco tempo voltou a se manifestar. O problema não era a distância, mas
sua maneira distorcida de amar. Cada vez que se apaixonava, dois esquemas
surgiam e interagiam: o medo do compromisso e o apego sexual. O “quero” e
“não quero” oscilavam entre o pânico de estabelecer uma relação estável e o
desejo desmedido. Obviamente, ele não tinha consciência do que acontecia, e
só conseguiu nivelar-se após vários meses de terapia.
Você está em uma situação parecida? Já esteve? Se não, não cante vitória,
porque qualquer um pode se envolver em uma relação dessas. Os indecisos
afetivos andam pela rua, rondam seu espaço e, infelizmente, é possível que
mais de um se interesse por você. A premissa que você deve incorporar a sua
mente e que depois vai operar como um fator de imunidade é a seguinte: Se
alguém tem dúvidas se me ama, não me ama. Curto e grosso. Não me
venham com conversa mole: os apaixonados de verdade têm que ser detidos,
não empurrados. Gibran afirmava em sua sabedoria: “O amor e a dúvida
jamais se darão bem”. E é verdade: se ele se cansa com sua presença, para
que você volta? Se ela tem tantas dúvidas neuróticas, por que não se afasta
até resolvê-las? Um jovem mandou o seguinte e-mail a sua namorada “nem
com você nem sem você”, que o estava enlouquecendo: Sua indecisão,
felizmente, não me contagiou. Eu sei o que quero, quero você. Mas a quero
disposta, segura, comprometida, feliz por eu estar em sua vida, em vez de me
tratando como se eu fosse um problema. Como você não sabe o que quer,
trate de se definir; eu, enquanto isso, vou sair com outra. Quando estiver
pronta, ligue-me e vamos ver se estou disponível ou não. Não quero mais
saber de suas dúvidas; é você quem as deve resolver, não eu.
Imediatamente, como era de se esperar, a garota ativou o “nem sem você”,
eentão suplicou, chamou, jurou e prometeu fazer o que fosse, mas,
felizmente, o jovem não deu o braço a torcer. Seu argumento era simples:
“Não acredito”. Um mês depois, ela continuava com sua dúvida metódica
(não havia mudado nem um fio de cabelo), enquanto ele já estava envolvido
com uma mulher menos insegura e mais coerente.
ATÉ ONDE AGUENTAR A INDECISÃO DO OUTRO
Dezenas de milhares de pessoas em todo o mundo são vítimas das
inseguranças afetivas de seus parceiros, que, além de causar uma imensa dor,
exigem “paciência”. De que paciência estão falando? Em uma relação
saudável e equilibrada os dois andam em ritmos similares, não na mesma
velocidade, mas pela mesma estrada. Lembro que um amigo começou um
relacionamento com uma mulher que não tinha certeza de nada, e menos
ainda de gostar dele. O homem sofria tanto que, em certa ocasião, decidi
confrontá-lo e lhe perguntei o que estava esperando para terminar com ela.
Sua resposta foi: “Estou esperando que seu coração se defina”. O que ele
esperava mesmo era um transplante. A indecisão da garota me fez lembrar de
uma caricatura do humorista Quino, que tinha Sócrates como personagem.
No primeiro quadrinho, o filósofo, com um olhar transcendente, afirmava:
“Só sei que nada sei”; e, no segundo, sua expressão de sábio mudava
radicalmente e, coçando a cabeça, dizia a si mesmo: “E às vezes nem tenho
certeza”. Pode haver maior confusão? Há muita gente assim, especialmente
nos assuntos afetivos: “Só sei que não sei se gosto de você e, às vezes, nem
tenho certeza”.
Quanto aguentar? Nem um segundo. Se alguém hesita e fica no “nem com
você nem sem você”, a solução deve ser rápida e firme. Isso pode gerar
angústia na pessoa instável e é possível que ela arremeta rasgando as vestes e
prometendo um amor “constante”. Outra oportunidade? Muitos dão. Mas, se
quiser manter um comportamento saudável, siga este conselho: assim que o
“nem com você nem sem você” surgir, nem que seja um pouquinho, afaste-
se!
A ARMADILHA DO DESAFIO PESSOAL
Uma mulher atraente e inteligente havia entrado em um jogo perverso por
causa de seu ego. Choviam pretendentes e ela poderia ter escolhido qualquer
um, porém, teve o azar de encontrar um homem “nem com você nem sem
você”, que resistiu a cair rendido a seus pés: um dia queria e no outro não
sabia o que fazer. A mulher, acostumada a sempre ganhar, sentiu-se afetada
em sua autoestima e fez o que ninguém deveria fazer em uma situação como
essa: transformou a conquista em um desafio pessoal. Desafios no amor não
são aconselháveis; é como brincar com uma granada de mão sem pino de
segurança. Quando as pessoas me dizem que seu relacionamento se
transformou em um “desafio”, sei que a relação não é boa. Minha paciente
ficou três anos presa entre o ódio e a alegria esporádica de um amor
totalmente indeciso. É a síndrome do “caçador caçado”: de tanto insistir e
tentar resolver o que não tinha solução, ela acabou apaixonada até a medula.
Três anos mergulhada de cabeça, sem mais objetivo na vida que convencer o
outro a amá-la em tempo integral! Aristófanes, o grande comediante grego,
afirmava: “Se não o amam como você quer que o amem, que importa que o
amem?”. Em outras palavras: se não sabem que o amam, de que serve esse
amor?
ALGUMAS CAUSAS DO “NEM COM VOCÊ NEM SEM
VOCÊ”
Não pretendo que você se transforme em psicólogo amador e trate de
resgatar seu desorientado companheiro do mal que padece. O que proponho é
uma compreensão maior do problema e que você possa identificar mais
claramente a confusão afetiva em que está. Embora haja muitas causas
possíveis, vou apontar as quatro razões mais comuns pelas quais as pessoas
acabam em um amor ambíguo e contraditório.
1. Apego sexual
O apego sexual, quando é a única coisa que existe, gera uma forma de
atração/repulsão. A lógica subjacente é mais ou menos como se segue:
“Quando você não está comigo, o desejo me leva a procurá-lo a qualquer
custo, mas depois, uma vez saciado, quero sair de perto de você, porque sua
simples presença me irrita”.
Como é fácil confundir amor com sexo! Além do fato de que o orgasmo
parece ter qualidades místicas, uma das principais razões da confusão é que o
desejo sexual une fortemente as pessoas. Não há apaixonado verdadeiro que
não deseje “devorar” a pessoa amada. Um homem me dizia: “Por que quero
me casar? Eu a amo! Preciso dela! Eu a desejo!”. A semântica do amor e a do
sexo: sentimento, posse/apego e sexualidade. Como duvidar, se há de tudo?
Mas se a única coisa que os une é a vontade sexual, quando Eros vai embora
ou acaba, o outro se torna insuportável.
O apego sexual a uma pessoa é igual a qualquer vício quanto a suas
consequências e características. Não falo da dependência “do sexo pelo
sexo”, e sim da dependência sexual por alguém, um corpo, uma anatomia
específica, uma relação que se encaixa às mil maravilhas e se torna
extremamente prazerosa. Em certa ocasião, perguntei a uma mulher o que
mais a atraía em seu amante. A resposta durou vários minutos: “Seu cheiro...
Meu Deus, o cheiro dele! Tem cheiro de amêndoas torradas. E os braços, a
forma dos bíceps... têm uma curva... As veias da testa quando ri. Os ombros,
no momento da ejaculação se inclinam para trás e eu o vejo como um
egípcio, como um faraó. Sinto como se seu pênis me pertencesse e me
completasse a cada orgasmo... Posso ter uma infinidade deles, e quantos mais
tenho, mais continuo tendo. E outra coisa, o calor de seu corpo nunca muda, é
sempre morno. Antes eu nunca havia reparado nas nádegas de um homem,
meu marido quase não tem, mas agora, se olho para as dele, tão firmes, tão
redondas, me excitam, e quando caminho a seu lado quero mordê-las. É amor
demais!”. Será que é amor? Eu duvido; é mais “paixão” por um corpo e pelo
prazer que lhe proporciona: dependência sexual à enésima potência. De que
sentia saudade nele quando não estava a seu lado? Do fisiológico, as curvas
das formas, a pele, a temperatura corporal, as veias, os músculos, enfim, a
apetência da qual não era capaz de prescindir. Eu me pergunto: que faria essa
mulher se seu amante caísse em desgraça e sofresse um acidente que o
incapacitasse? Amaria do mesmo modo esse homem com uns 10 kg a mais e
um abdômen avantajado? Depois de ouvir sua descrição “sensorial”,
perguntei-lhe que outro atributo admirava naquele homem, e ela apontou
duas qualidades, para ela determinantes: “Vai à academia e levanta peso”.
2. A intolerância à solidão
Assim como o apego sexual pode ser uma motivação para estar com
alguém, a solidão mal administrada leva as pessoas a buscar companhia,
coisa que nada tem a ver com o amor. O “parceiro” é um paliativo para
superar uma vida solitária e, com o tempo, o alívio que essa companhia gera
vai se transformando em apego: preciso de sua presença, não suporto ver
meu mundo vazio. Lembro a declaração de amor que um homem fez a uma
mulher em minha presença: “Você preenche um vazio”. Amor estomacal?
Amor compensatório? Um amor que “preenche um vazio” é um amor
suspeito, funcional demais para o meu gosto. Também ouvi algumas vezes:
“Você me completa”, como se o outro fosse uma prótese. No caso que estou
comentando, o “vazio” de que o suposto apaixonado falava não era nada
senão a solidão em que se encontrava. A mensagem subjacente poderia ter
sido expressa em outros termos: “Há muito lugar disponível em minha vida,
espaço demais para uma só pessoa, por favor, ocupe-o!”.
O conflito que a intolerância à solidão gera é complexo. A dinâmica oculta
é mais ou menos assim: “Quando estou sem você, a solidão me angustia e
preciso de sua companhia; mas quando você está em meu habitat, começo a
sentir falta de minha solidão”. Impossível! A hipersensibilidade à solidão
costuma aprontar conosco a fim de evitá-la. Alguns até se casam.
3. Medo do compromisso afetivo
Aqueles que temem assumir compromissos afetivos administram um claro
“nem tão perto nem tão longe” emocional: “Gosto de você, adoro estar com
você, mas se você entrar um milímetro no território de minha reserva pessoal
e tentar abalar minha solteirice/autonomia,eu me afastarei imediatamente”. O
problema é que, ao não ser explícito, seus “quase parceiros” vivem em uma
angústia permanente. Se você está em uma relação desse tipo, não lhe resta
muito a fazer além de rezar ou partir. Enquanto o indivíduo
“anticompromisso” estiver bem com você e a coisa ficar no superficial, tudo
será redondinho. A problemática se tornará evidente quando o “estar bem”
tocar alguma fibra afetiva dele e ele começar a sentir que poderia se
apaixonar por você e, consequentemente, perder sua liberdade. Assim sendo,
ele se afastará ou desaparecerá em um piscar de olhos. Não quero dizer com
isso que ficar solteiro seja um erro; ao contrário, acho que é um projeto de
vida válido e respeitável como qualquer outro. Porém, os solteiros “por
convicção” amam sua solidão, e quando permitem a alguém entrar em seu
espaço vital, não o fazem com medo nem com tabus.
4. O sentimento de culpa
Há pessoas que já não amam o companheiro, mas a culpa as impede de se
separar. Um paciente explicava o seguinte a sua esposa: “Quando você está
longe, sei que sofre, e então eu me aproximo por dó, mas, quando estamos
juntos, tenho raiva por você não ser corajosa o suficiente para me deixar ir”.
A esposa se limitava a pedir outra oportunidade, como se não houvesse
escutado o que o homem estava lhe dizendo. A mensagem era dolorosamente
clara: ele não a amava, tinha dó dela. Porém, meu paciente partia de uma
falácia: culpava sua mulher por não o deixar ir, quando, na realidade, o que o
mantinha amarrado era “a dor de vê-la sofrer”. Estar com alguém para
diminuir a culpa é um contrassenso que acaba acentuando o sofrimento do
outro. É preferível ser abandonado honestamente que ter alguém que fique
com você por caridade e compaixão. Você não é uma obra beneficente.
COMO ENFRENTAR A AMBIGUIDADE AFETIVA E NÃO
ENTRAR NO JOGO DE UMA ESPERA INÚTIL
1. Não aceite condescendente e passivamente a rejeição
Por que devemos aceitar resignadamente a raiva e a rejeição do outro?
Uma “mini-inapetência” esporádica é natural e ocorre praticamente em todas
as relações, mas o desinteresse reiterado é inaceitável. Sabemos quando
gostam de nós de verdade, quando nos amam ou estão fartos de nós.
Sabemos, e não precisamos de um mundo de especialistas para que nos
mostrem o evidente. Um homem ofuscado pela paixão, maltratado
psicologicamente por sua esposa, disse-me certa vez: “O senhor está
exagerando, doutor! Ela não me odeia o tempo todo”. Seria aceitável se nos
torturassem só um pouco? Em certas questões, os pontos médios são
inadmissíveis. Não desculpe o desamor do outro; não diga: “Vai passar; hoje
ele está no pico negativo e amanhã vai voltar a me amar”. Minha
recomendação psicológica é simples: quando seu companheiro “nem com
você nem sem você” entrar na fase de antipatia e/ou desprezo, afaste-se; não
fique ali para receber o castigo da rejeição. Retire-se, isole-se, abra um
precedente mostrando que você não está disposto a continuar nessas
condições. Essa retirada estratégica é conhecida como time out (dar um
tempo): sair da situação que foge a seu controle para analisá-la à distância. Se
fizer isso e se afastar, seu comportamento falará por você, mesmo que não
diga uma palavra: não aceito suas oscilações afetivas, você está ou não está
comigo. Suas dúvidas não são negociáveis para mim.
2. Não dance no compasso do outro
Este ponto é consequência do anterior, uma reafirmação do “chega”. Se
decidir seriamente sair do jogo, vai notar que, pouco a pouco, suas emoções
começarão a depender de você. Esse processo é conhecido como
autorregulação. A atitude dubitativa do outro o afetará menos. Quando se é
forte intimamente, o que significa cuidar de si mesmo (“Eu mando em mim”),
o externo nos balança, mas não nos derruba.
Lembro o caso de um paciente que dançava ao compasso do estado de
ânimo de sua namorada, que não havia conseguido esquecer o namorado
anterior. Durante os períodos em que ela não recordava o ex, era amorosa e
doce, mas, quando a memória do namorado se ativava, comportava-se de
uma maneira distante e estúpida. O curioso é que o homem havia
desenvolvido uma perfeita sincronia com esses estados emocionais, de tal
modo que passava da depressão à euforia segundo se sentisse amado ou não
pela namorada (as pessoas próximas podiam inferir se ela estava “nostálgica”
só de vê-lo). Depois de alguns meses de trabalho terapêutico intenso e difícil,
ele conseguiu criar um ritmo emocional mais independente. Seus
pensamentos afirmativos eram: “Eu mando em mim”. “Não vou deixar que
suas emoções negativas me afetem.” “Vou pensar menos nela.” “Minha vida
não pode girar em função de seu estado de ânimo”; enfim, começou uma luta
interna, um plano de resistência afetivo para não se deixar arrastar pela
incerteza e dúvidas que ela manifestava. Finalmente, após várias tentativas
frustradas de salvar a relação, a mulher voltou com seu ex-namorado e meu
paciente, que já estava preparado para o pior e fortalecido psicologicamente,
não sentiu tanto o golpe e conseguiu sair do buraco sem trauma.
3. Não se envolva em explicações e discussões inúteis
Estar com alguém “nem com você nem sem você” pode nos levar a
acreditar que, recorrendo a razões lógicas e bem sustentadas, o outro se dará
conta da causa de suas dúvidas e mudará positivamente. Não se iluda, o
problema não se deve à falta de informação. E ainda é muito provável que
suas tentativas “esclarecedoras” acabem criando um clima de oposição
negativa de maior envergadura. Não se envolva em uma disputa inútil, nem
pretenda resolver o problema com demonstrações e argumentos pedagógicos:
a causa costuma ser muito mais profunda. Além do mais: o que você vai
explicar? Que um amor normal não tem tantas oscilações e dúvidas? Por
acaso ele não sabe? Certas coisas não se pedem. O que você pensaria de
alguém que dissesse: “Meu companheiro me maltrata; já me mandou para o
hospital duas vezes. Acho que falta comunicação entre nós”. Fale menos e aja
mais! Ou me amam como mereço, ou é preferível que não me amem.
4. Não confunda os papéis: você é companheiro, não terapeuta
Algumas vítimas do “nem com você nem sem você” assumem o papel de
terapeutas e começam a tecer teorias de todo tipo (a maioria sem fundamento
e forçada) para explicar a indecisão do outro. Na realidade, é menos doloroso
pensar que alguma “doença” explica o fato do que pensar que simplesmente
não nos amam pelo que somos. Esses “bons samaritanos” leem sobre o tema,
fazem cursos e consultam todo tipo de especialista para resolver o enigma
que os consome: “Meu companheiro realmente me ama?”. Preferimos ser
terapeutas a vítimas. Uma mulher que estava havia mais de dois anos nesse
“chove não molha” me dizia: “Coitado, ele não está bem. Não quer ajuda,
mas eu gostaria de saber como tirá-lo do poço em que se encontra”. Essa
paciente teve três crises depressivas e um episódio de pânico por conta da
relação tortuosa que mantinha com seu ambivalente namorado, e preferia
ajudar a ele, não a si! Enquanto isso, o homem parecia não estar nem aí com
o que estava acontecendo e se negava a fazer tratamento, mesmo sabendo do
dano que estava provocando. Não era motivo suficiente para mandá-lo
pastar?
Primeiro, preocupe-se com seus problemas. Tente curar-se de tanto
desgaste e depois, se ainda for necessário, decida o que fazer: permanecer na
toca do lobo ou se libertar. Pelo menos vai agir por convicção. Grave isso a
fogo, mesmo que não lhe agrade: o conflito de seu companheiro em relação a
como e quanto a ama ele é quem deve resolver, e não você.
5. Não permita que adocem seus ouvidos
É tão fácil convencer uma pessoa apaixonada! Isso não significa que não
devamos acreditar na pessoa amada, mas que às vezes é melhor manter uma
boa dose de ceticismo. O critério de confiabilidade poderia ser assim: até
onde os atos da pessoa amada, no passado, respaldaram suas promessas e
compromissos? O passado a condena ou a endossa. Se lhe prometeram
diversas vezes a mesma coisa e não cumpriram, reserve-se o benefício da
dúvida ou não acredite. Pense: sefoi uma pessoa incoerente e mentirosa
antes, por que não haveria de sê-lo agora? Por acaso sofreu alguma mutação
desconhecida? O amor precisa ser visto, não só ouvido. Eu sei que podemos
nos viciar em belas palavras, mas o melhor antídoto contra os cantos da
sereia é não perder de vista o contexto do relacionamento todo. As palavras o
vento leva, e o que resta, no fim das contas, são as ações. Medite nesta
premissa: De que vale que me adocem os ouvidos se me amargam a vida?
 
Princípio 5
O poder afetivo está na mão daquele
que precisa menos do outro
O apego corrompe.
J. Krishnamurti 
Essa necessidade de esquecer seu eu na carne
estranha é o que o homem chama nobremente
de necessidade de amar.
C. Baudelaire 
Na maioria dos casais, camuflada ou abertamente, estabelece-se uma luta
pelo poder, que pode ser entendida como uma confrontação de fraquezas
(qual dos dois é mais sensível à dor de uma ruptura) ou forças (qual dos dois
aguentaria mais a perda do outro). Suposições e antecipações catastróficas,
cotejadas e medidas no dia a dia que definem o afetivamente dominante.
Hierarquias são desagradáveis, mas também costumam ser inevitáveis, e
embora quase sempre sonhemos com um amor horizontal e democrático, a
dependência emocional turva as coisas e gera o que poderíamos chamar de
um “poder afetivo” que responde a uma pergunta fundamental: quem precisa
menos do outro?
Krishnamurti afirmava que o apego corrompe, o que equivale a dizer que o
que a pessoa apegada mais teme é perder a pessoa que representa para ela
uma fonte de segurança/prazer. Nos dependentes, a retenção e manutenção do
companheiro prevalece, acima de qualquer princípio. Dizer que “sem ele não
sou nada!” ou “sem ela minha vida não faz sentido!” é pôr a própria
existência em mãos alheias. Se acho que minha vida acaba quando você não
está comigo, então farei qualquer coisa para retê-lo e não terei limites.
Estamos falando de vida e de morte, porque, no apego, a pessoa amada é o ar
que se respira.
O vício afetivo é uma doença, não importa como a queiramos apresentar,
não importa a embalagem: o apego é a incapacidade de renunciar ao outro
quando é o que se deve fazer. E quando se deve fazê-lo? No mínimo, em três
situações: quando já não nos amam, quando nossa autorrealização se vê
bloqueada ou nossos princípios se veem afetados. Neste livro você encontrará
mais razões válidas de renúncia emocional.
Então, a luta pelo “poder afetivo” é a disputa gerada a partir do apego ou
do desapego em cada relação. Se seu amor depende de você menos do que
você depende dele, pelo menos em tese, ele poderia prescindir de você mais
facilmente que você poderia prescindir dele. Essa “desvantagem” será
processada consciente ou inconscientemente por sua mente, que
imediatamente atuará na defensiva, porque se sentirá em uma posição de
inferioridade emocional, mesmo que a pessoa amada não queira se aproveitar
disso. Talvez o desconforto não seja evidente em condições normais, mas é
muito provável que se ative quando houver brigas ou discussões e o apegado
sinta disparar a confirmação do pior dos seus temores: “Ele vai me deixar!”.
Por sua vez, aqueles que ostentam o poder afetivo não costumam se
lamentar demais. Mais ainda: vi casos de apego em que essa diferença é
considerada um privilégio ou um seguro contra o possível desamor do outro.
Certas pessoas emocionalmente inseguras adoram estar com alguém
extremamente dependente. Uma mulher me dizia: “O que mais gosto nele é
que não pode viver sem mim, porque eu dou sentido à vida dele. Por isso, não
deixo que leia seus livros sobre o apego”. Em outras palavras: amo a
patologia dele porque sei que graças a ela nunca será capaz de me deixar,
faça eu o que fizer. Não há nada mais prazeroso para uma pessoa que sofre de
apego que estar com outra mais apegada. É o slogan de dependência afetiva
que circula sigilosamente entre os apaixonados que são incapazes de viver
um sem o outro: “Apegados do mundo, uni-vos!”.
DESAPEGAR-SE É AMAR MAIS E SOFRER MENOS
Há relações em que um pratica a autonomia extrema e o outro o máximo
amor vicioso. Ambos sofrem, um porque se sente asfixiado e o outro porque
se sente prestes a ser abandonado. Mas, independente desses casos extremos,
os casais costumam se acomodar, tentando fazer que a diferença entre eles
seja a mais suportável possível. O método de calibração? Desapegar-se um
pouco e distribuir melhor o poder. Não é uma revolução nem uma façanha
pela liberdade total e definitiva, mas uma forma gentil de compartilhar e
negociar os respectivos vícios.
Quando falo de “desapego” não me refiro a deixar de amar ou
despreocupar-se irresponsavelmente em relação ao outro; falo de amar de
uma forma mais tranquila e livre. Ou seja, amar com independência (poder
fazer um uso adequado do tempo pessoal), de uma maneira não possessiva
(ninguém pertence a ninguém) e sem a necessidade imperiosa do outro (lidar
com a solidão e fazer atividades sem a presença da pessoa amada). Se você é
capaz de decidir sobre seu tempo, não se sentir “de ninguém” e andar sozinho
pela vida, então está no terreno do amor maduro.
Não sou idealista nisso e sei que nunca vi um Buda namorando; portanto,
sem chegar ao extremo de buscar a “impermanência afetiva” ou de perceber
no próprio companheiro “todas as pessoas do mundo” (amor cósmico, amor
sem motivo), proponho algo menos universal e mais localizado: ser
“similarmente dependentes” e ir trabalhando juntos um desapego
personalizado. De acordo com cada estilo afetivo particular, livrar-se um
pouco, ou até onde for possível, da apetência amorosa que nos tira o sono,
mesmo que seja aos poucos.
CONSEQUÊNCIAS DA SUBORDINAÇÃO AFETIVA:
ANSIEDADE ANTECIPATÓRIA (“ELA VAI ME DEIXAR”) E
SUBMISSÃO (“TENHO MEDO DE DIZER ‘NÃO’”)
Se você está por baixo de seu companheiro no jogo do poder afetivo, é
provável que surjam dois sintomas claros de insegurança e medo: 
Primeiro, buscar a certeza de que nunca será abandonado, o que é
impossível. E como a probabilidade de perder o outro nunca é zero, o
medo do abandono estará constantemente ativado. Chamamos a isso
de ansiedade antecipatória: antecipar-se à “catástrofe” do desamor ou
da solidão imposta. As pessoas que são mais apegadas que seu
companheiro costumam se tornar especialistas em ler emoções e
gestos do outro, esperando encontrar indicadores de desamor. Um
paciente me dizia com angústia: “Ela é muito tranquila, nunca
demonstra ciúmes nem me pergunta aonde vou nem com quem. Tem
tanta confiança em mim que me faz duvidar. Ou será uma estratégia
para que eu não pergunte?”. A paranoia sempre se infiltra quando a
incerteza está presente. Não havia nada de errado com a esposa de
meu paciente; ela simplesmente era uma mulher que praticava uma
relação independente: podia ser ela mesma, estando acompanhada.
Nossa cultura associou o amor ao sofrimento, de tal modo que, se a
relação não gera nenhum tipo de “dor amorosa”, o amor é insuficiente
ou doente. Que grande estupidez, e quantos pensam assim!
O compromisso afetivo não se instaura com base na invasão mútua,
como promulgam os viciados afetivos. Amar também não é uma
declaração de guerra ou uma apropriação indébita do ser alheio: embora
doa reconhecer, seu companheiro não lhe pertence, não é “seu”. É
doentio pensar que a pessoa que amamos nos deixará porque não é tão
viciada como nós. Se o que você pretende para ficar tranquila ou tranquilo
é ver seu companheiro de cama, com olheiras, deprimido e com medo de
que você o deixe, então os fios estão cruzados: não é ele que deve se
tornar apegado a você, e sim você que deve se desapegar dele no sentido
que descrevi antes.
Segundo, utilizar a obediência cega como estratégia para não deixar
seu companheiro partir. Conforme disse antes, o efeito será paradoxal:
o recurso de dizer sim a tudo e subjugar-se acaba cansando o outro! Se
seu companheiro é mais desapegado que você, não há por que render-
lhe homenagens. O mecanismo de submissão funciona como uma
espiral descendente: cada vez que você se submete, se apega mais.
Nãodigo que deve começar uma guerra de desamor e afastamento,
mas que deve pensar e agir de um jeito mais livre, sem ficar
acorrentado a ninguém. A escravidão afetiva não é uma ficção ou um
fato fora de moda. Está vigente e destrói uma infinidade de indivíduos
em todo o mundo: ocorre quando o medo de perder o outro nos faz
esquecer de nós mesmos.
OS QUE SE APROVEITAM DO PODER AFETIVO
Não falta quem tente tirar proveito da “independência afetiva”. A
estratégia consiste em recordar constantemente ao outro (ao mais dependente)
que poderia abrir mão a qualquer momento da relação. Uma espada de
Dâmocles apontando diretamente ao coração: “Se não fizer o que eu quero e
‘se comportar mal’, vai me perder”. Ou, em outra versão: “Sou afetivamente
mais forte que você, e por isso tenho mais direitos”. Nietzsche dizia que o
poder é o afrodisíaco mais forte, e se o misturarmos a um pouco de amor, o
efeito se torna exponencial.
Existe o abuso do poder afetivo. Por que falo de abuso? Porque aquele que
exerce o poder tira vantagem da fraqueza emocional do outro, de sua
incapacidade de se afastar afetivamente se fosse necessário. Em certa ocasião,
uma mulher que tinha por companheiro um homem extremamente rico
comentava como o manipulava: “O amor que ele sente por mim o mantém
preso, e eu me limito a mantê-lo no fio da navalha: ‘Se não andar direito, eu o
deixo’. Ele sabe que pode me perder a qualquer momento e, por isso, diz sim
a tudo que eu peço. Ele ama mais a mim que eu a ele, ou, para dizer a
verdade, não sei se o amo”. Pobre homem! E ele jurava que seu
relacionamento era excelente!
Se você é vítima de uma relação na qual o outro abusa do poder afetivo
que você lhe outorga, não só o outro o ama muito menos do que você o ama
(o que já é preocupante), como também tira partido da diferença. Faz sentido
continuar nessa? Não. Para salvar a relação, seria preciso reestruturar a
dinâmica básica do amor e estabelecer um vínculo sem exploradores nem
explorados, sem vencidos nem vencedores. Em minha experiência, quando
aquele que está por baixo dá um “golpe de estado”, pelas razões que for (saco
cheio, desamor, presença de outra pessoa, desapego saudável), e as relações
de poder se invertem, aquele que fazia o papel de amo adota a posição de
serviçal em um piscar de olhos. Você alimenta aquele que pode acabar com
você. Tire o poder dele: desapegue-se!
ALGUMAS SUGESTÕES PARA TRABALHAR O DESAPEGO
E NIVELAR O PODER AFETIVO NA RELAÇÃO
1. Assuma a liberdade e exerça-a
Em meu consultório, vi muitas pessoas que temem ser livres, porque a
autonomia implica assumir uma responsabilidade essencial perante si: ser o
único e o último juiz da própria conduta. Pode ser aterrador se não se
processar adequadamente e não se aceitar que o verdadeiro controle é interno.
Para exercer o direito à liberdade, é preciso ser valente e atrevido, soltar-se,
decidir por si mesmo e arriscar, e para obter tudo isso é necessária uma mente
que não esteja amarrada a nenhum lastro psicológico ou emocional. Também
não estou dizendo que podemos fazer tudo que nos der na telha e esquecer
dos outros, mas que devemos canalizar nossos desejos para tentar realizá-los
e repudiar qualquer tipo de sujeição, venha de onde vier. Se amar seu
companheiro implica perder a liberdade básica de sentir e pensar por si
mesmo, você está dominado ou preso. Comece a tomar aquelas decisões que
nascem de sua alma, a expor suas opiniões sem medo e a expressar seus
sentimentos sem esperar consensos nem aprovação. Trata-se de manter
intacto seu núcleo, ir e vir sem permissões nem justificativas, ser você a cada
momento e a cada pulsação.
2. Treine a solidão
Um paciente me disse certa vez: “Para que vou ao cinema, se ela não vai
comigo?”, e ele adorava cinema. Também me lembro de uma mulher que,
cada vez que seu marido viajava, largava mão de seu asseio pessoal ao
máximo (na realidade, nem tomava banho) e ficava trancada vendo televisão
o dia todo. Não estava deprimida, era apenas vítima de um pensamento
dependente: “Para que, se ele não está aqui?”. Absurdo, como qualquer
patologia: para que me vestir, para que me cuidar, para que me relacionar
com as pessoas, enfim, para que viver se o homem ou a mulher (meu homem
ou minha mulher) não está presente? Aqueles que são mais ou menos
independentes sabem que se manter arrumado, limpo e bem-vestido é para
agradar a si. Narcisismo? Não. É mais autoexibicionismo: sentir-se atraente
sem acordos nem consensos externos, ser espectador de si mesmo. Quando
estamos em um relacionamento, acostumamo-nos a fazer a maioria das coisas
a dois, e isso penetra nosso repertório comportamental até que se transforma
em hábito, e, quando o outro não está presente, sentimo-nos estranhos e
deslocados, como se as coisas perdessem o sentido de uma hora para outra.
Não se define a solidão por subtração de matéria (estar “sem” ela ou “sem”
ele), mas por uma multiplicação do “eu” que se recria na autodescoberta. E
não estou falando de retiros espirituais ou de ir para o topo de uma montanha
desolada (mas não nego que, às vezes, pode ser útil); o que sugiro é
apropriar-se da solidão, tocá-la, ensaiá-la e mergulhar nela, perder o medo
dela e transformá-la em uma experiência alegre e frutífera. A solidão
inteligente não é desolação ou isolamento; é uma escolha racional na qual os
outros continuam disponíveis para o encontro: seu companheiro não é um
cão-guia (embora às vezes possa latir).
Convide a si mesmo para sair e converse de “você para você” ou de “eu
para eu”. Sua mente sente sua falta. E embora você faça todo o possível para
justificar a presença da pessoa que ama a cada instante de sua vida, terá que
reconhecer, mesmo que à força, que um companheiro às vezes sobra e
incomoda, mesmo quando amado. Há momentos que são exclusivamente seus
e que não foram projetados nem pensados para ninguém mais.
3. Você não tem por que contar tudo a seu amor
Verborragia amorosa gera confusão, porque, de tanto falar, em algum
momento acabamos dizendo algo que não devíamos e que é incompreensível
para o outro. Comunicação compulsiva não é uma virtude. Uma paciente, em
um acesso de sinceridade desproporcional, confessou a seu companheiro que
sempre havia sentido certa atração pelo marido de sua irmã, mas “que era só
atração, nada mais”. Isso foi como cravar-lhe uma faca nas costas. Ele
transformou um pecado venial (imaginativo, brincalhão, inofensivo) em um
mortal, porque, a partir desse momento, o marido cortou relações para
sempre com seu concunhado, por considerá-lo altamente ameaçador para a
estabilidade familiar. Por que ela contou? Uns dias antes, estivera em uma
conferência e um especialista afirmou que em uma boa vida a dois não deve
haver segredos, e ela assumiu isso de uma maneira radical. Minha opinião é
que há segredos, sim, e muitos. Em uma relação afetiva inteligente, ambos
sabem que há certos “arquivos secretos”, pequenos ou grandes, que não
devem ser abertos sem a autorização do titular.
Nesse assunto da informação é melhor aplicar certo recato e não soltar à
queima-roupa no ouvido do outro tudo o que pensamos e sentimos. Não falo
de infidelidade, mas de opiniões, gostos ou pequenas fantasias que não são
para compartilhar, que são próprias e intransferíveis. Há muitos anos, uma tia
minha contou a seu marido que vivia “apaixonada” por um ator daquela
época chamado Ugo Tognazzi. Meu tio entrou em pânico e começou a ter
pesadelos com o homem. Como competir com um adversário desses? Minha
tia o tranquilizou com o seguinte argumento: “Apaixonada, apaixonada
mesmo, não. É como uma inquietude”. Sabe-se lá como meu tio processou
essa informação, mas a questão se resolveu rapidamente e tudo voltou ao
normal. Porém, quando o assunto surgia, de vez em quando, em alguma
conversa, eu percebia nela certa malícia que me fazia pensar que continuava
imaginariamente com seu enredo cinematográfico.
Amar não requer expor cada elemento de nossa personalidade, nem que
nossa mente funcione em conexão direta com a da pessoa amada. Repito:
certas coisas são exclusivamentenossas, pertencem-nos por direito próprio e
fazem parte de nosso ser, como nossos ossos e nossa pele. Não se sinta
culpado por não contar tudo; isso mantém viva sua identidade, suas crenças,
seus sonhos, suas metas, suas dúvidas... suas. Anote esta premissa e tenha-a à
mão, pois o manterá alerta: Ser uno com a pessoa que amamos é deixar de
ser nós mesmos.
4. Explore situações novas
Se quiser se desapegar, terá que trazer à luz o espírito aventureiro que há
em você. Até o mais covarde ou o mais recatado o possui, é só questão de
apertar a tecla certa. Infelizmente, embora nasçamos com o instinto de
explorar o mundo, a aprendizagem social está organizada para deter esse
impulso: muita investigação vivencial assusta, vai que nos libertamos
demais... As pessoas que não sofrem de apego são exploradoras de coração e
de ação, são curiosas e observadoras: voyeurs da vida. Não me refiro às
indagações irresponsáveis como experimentar drogas e bobagens similares,
mas ao dom de maravilhar-se ou decepcionar-se diante do existente,
investigar por investigar, ver o que é, xeretar, como fazem os gatos. As
pessoas apegadas a seu companheiro perdem esse comportamento,
sacrificam-no “por amor” e acreditam que a exploração é potencialmente
perigosa porque sentem que seu companheiro poderia se afastar delas. Por
isso, adoram a rotina e a defendem com unhas e dentes: o medo de perder o
outro ofusca a paixão pela descoberta, aquieta o impulso viajante, amansa-o.
Se você realmente quer mudar, comece por coisas simples. Procure
quebrar seus costumes cotidianos: pegue atalhos, aprenda a ser mais nômade.
Se explorar seu entorno de outro jeito, com despreocupação e frescor, vai
encontrar uma infinidade de coisas que não havia degustado ou sentido antes.
Estou falando de tirar a poeira da capacidade de se surpreender. Você não
precisa de seu companheiro para fazer isso! As pessoas dependentes acabam
em uma espécie de torpor existencial de tanto pensar e agir em função de sua
“cara-metade”. O “eu” adormece nos automatismos. Às vezes você não tem a
impressão de que acabou o assunto de conversa com seu companheiro? E
como não haveria de acabar se nunca acontece nada diferente! Um paciente
me dizia: “O que o senhor me pede, doutor, é perigoso. Se eu explorar,
estarei dando a ela autorização para explorar também”. Eu respondi: “E qual
é o problema? Vocês vão ter muito mais coisas para conversar, muito mais
que compartilhar, serão pessoas vivas e despertas”. Mais tarde, ele me
confessou: “Só me sinto realmente em paz quando ela está dormindo ou em
casa”. Ciúmes patrocinados pela dependência: um coquetel mortal.
Independência não é desamor, é renovação, é ser uno apesar do amor e
acima dele.
5. Negue-se a ser inútil
Este ponto é consequência do anterior. Os dependentes vão assimilando a
inutilidade como parte da vida e com o tempo vão perdendo a pouca
autonomia que lhes resta. De novo o medo, sempre o medo. “Faça isso para
mim” ou “Ajude-me com aquilo”, quando na realidade poderiam resolver ou
fazer tudo sem ajuda. Lembro o caso de uma paciente que conseguiu sua
emancipação graças a um infarto do marido. Durante o mês que durou a
recuperação dele no hospital, ela teve que cuidar de absolutamente tudo. O
pesadelo de qualquer dependente emocional (enfrentar a vida sem seu
guarda-costas afetivo) havia se tornado realidade para ela. Sua inutilidade
ficou em evidência rapidamente. Por exemplo: ela não sabia conectar a tevê
aos canais a cabo; uma vez, passou uma manhã inteira tentando fazer uma
transação bancária (nem sequer sabia qual era o banco!); não tinha ideia de
quanto custava a gasolina nem como se enchia o tanque de seu carro;
desconhecia todos os números de telefone importantes; não sabia como fazer
uma ligação para fora do país, e assim sucessivamente. Muito a seu pesar,
ficou “viúva” por um mês e teve que resolver todo tipo de problemas, alguns
bastante complexos. Quando seu marido voltou do hospital, encontrou uma
mulher mais segura e menos acomodada, como se houvesse passado por uma
terapia de mudança extrema em tempo recorde. Em uma consulta posterior,
chegamos à conclusão de que não devia esperar outro infarto para continuar
melhorando, e que a autoeficácia (“Eu sou capaz”) ia se transformar em uma
motivação de vida.
6. Identifique as fontes do apego
O apego afetivo se infiltra por qualquer lugar e se manifesta de diversas
maneiras: a baixa autoestima, a necessidade de ter sucesso, a busca da
segurança ou o fato de sentir-se fraco, dentre outras. É importante conhecer
as origens de sua dependência, como nasceu, como evoluiu e o que a
mantém. Procure apoios, ajuda, grupos ou leituras. Nossa cultura confundiu o
vício afetivo com o “grande amor” e deixou que se transformasse em
pandemia. Diante de casos assim, não me canso de ouvir frases que fazem da
dependência quase uma virtude: “Ela o ama tanto!”. “Ele faria qualquer coisa
por ela!” “Amam-se tanto que não podem viver um sem o outro!” A
dependência afetiva é um mal; lute contra ela: delimite-a, reconheça-a e
enfrente-a. Talvez você não consiga fazer isso sem uma ajuda profissional,
mas o mais importante é saber que tem cura e que você poderá amar sem
sofrer.
 
Princípio 6
Nem sempre um prego tira o outro:
às vezes, os dois ficam dentro
Todo remédio violento está impregnado
de um novo mal.
F. Bacon 
Nada é mais contrário à cura que trocar frequentemente de remédio.
Sêneca 
Certos amores permanecem mal curados, mesmo que o outro tenha se
afastado para sempre e nem sequer pense em nós. Nos primeiros meses da
perda, a memória emocional está à flor da pele e é quando mais se sente a
ausência: sensações, cheiros, vozes, imagens fazem que uma forma de
presença se manifeste com uma nitidez impressionante. Amores incrustados:
recordações resistentes, tara ou vírus? Uma mulher me dizia, aos prantos:
“Ele está cravado em mim, faz parte do meu ser, não sei como arrancá-lo de
mim!”. Não queria ou não podia? Às vezes, o inconsciente nos trai, e para
conservar a ilusão de que continuamos afetivamente vivos recordamos várias
vezes o outro em nossa fantasia. O homem em questão era um sujeito muito
agressivo, e ela o havia deixado em um ato de coragem e dignidade, e ainda
assim, apesar dos maus-tratos recebidos, as reminiscências afetivas não a
deixavam em paz: seu ex doía nela como um espinho cravado e infeccionado.
Alguns sentimentos, independente de como tenha sido a relação, ficam
“atolados” em algum lugar da mente e são muito difíceis de extirpar.
Se você já sofreu esse “estancamento emocional”, sabe a que estou me
referindo: a saudade se transforma em uma carga que amarga a vida e nos
impede de funcionar livremente. É um freio para a vida. Não me refiro às
pessoas que faleceram (esse é outro tipo de luto), mas ao ex que ainda se
move e respira, mesmo que longe de nós. Como enterrar em vida a pessoa
que ainda amamos? Alguém me dizia: “Se minha ex-esposa houvesse
falecido, ela não seria de ninguém e eu aceitaria melhor e mais fácil sua
perda, porque não haveria nenhuma possibilidade de recuperá-la. Mas
sabendo que está viva e com outro amor, eu me nego a aceitar. Ela é minha”.
O homem afirmava categoricamente: eu me nego. O que significa: não estou
com vontade ou não a quero esquecer. A compreensão desse ponto não é
nada fácil para os sofredores: nos amores mal curados, a mente é que deve
“enterrar afetivamente” o ex, e não o serviço funerário.
Oscar Wilde afirmava que a paixão nos faz pensar em círculos. Por isso a
sensação de sentirmo-nos presos em um passado que não passa. Você briga
contra as recordações, trata de distraí-las, vai ao psicólogo, aos videntes, aos
bruxos da moda, mas as imagens do ex chegam como cascata. Você tem a
impressão de que arrancaram uma parte de você, falta alguma coisa, mas
como acontece com algumas pessoas amputadas que continuam sentindo a
extremidade, embora já não a tenham, seu cérebro processa a pessoa ausente
como se ainda estivesse a seu lado. Esse fenômeno tormentoso em medicina é
conhecido como “membro fantasma”. O amorpreso dentro de nós gera um
efeito similar: a pessoa amada não está mais, mas é sentida como se estivesse.
E não é um braço ou uma perna o que perdemos, é uma pessoa inteira!
No desespero de uma dor que parece não ter fim, que supera nossas
capacidades de autocontrole e cresce dia a dia, muitas pessoas não são
capazes de esperar a “absorção interna” (luto) e recorrem a um procedimento
de duvidosa efetividade, cuja premissa afirma que “um prego tira outro”.
Com essa ideia na cabeça, lançam-se ao mundo da negociação afetiva em
busca de um “prego” maior, mais forte e mais poderoso que, ao entrar,
desloque e retire o anterior e o sofrimento associado. Infelizmente, a questão
não é tão simples como empurrar e tirar, porque o mundo emocional tem
umas leis que se afastam da mecânica clássica. A informação afetiva que
subsiste do ex não vai sair à força: terá que ser assimilada e diluída pelo
organismo em uma transformação que requer tempo.
O amor que sentimos por alguém é fruto de uma história, uma narrativa
que se escreve no cotidiano e, nesse sentido, a pessoa a quem amamos e já
não está conosco tem um “histórico sentimental” e uma referência afetiva que
não podemos descartar automaticamente, como se sofrêssemos uma amnésia
repentina. Nos amores gravados a fogo, nem sempre um prego tira outro. O
processo mais saudável é o inverso: primeiro é preciso tirar o velho e, então,
se tiver sorte, encontrará uma pessoa que valha a pena e que possa entrar
em sua vida tranquilamente e sem o estorvo do anterior.
Isso não significa que, em determinadas ocasiões, a perspectiva de um
amor não ajude a elaborar o luto (se já estivermos em uma etapa avançada)
ou a curar feridas de um amor que foi torturante; algumas pessoas entram em
nossa vida como se fossem um bálsamo. O que afirmo é que, se você ainda
morre por causa de seu relacionamento anterior, começar um novo vínculo
com a esperança de que ocorra uma substituição automática é um enorme
erro. Esta recomendação de Monso De Cercilla y Zúñiga pode lhe servir de
guia: “Cuidado para que a emenda não fique pior que o soneto”.
POR QUE CORREMOS PARA UM NOVO
RELACIONAMENTO?
O senso comum nos diz: “A melhor cura para um velho amor é abrir as
portas a um novo”. O problema, como já disse, é que, se o primeiro ainda está
vivo e navegando pela memória consciente ou inconsciente, a aquisição
recente não fará nem cócegas, porque não terá nem onde nem como brotar.
Precipitar-se ao procurar um substituto para tentar apaziguar o coração ferido
não costuma ser a solução. Por que fazemos isso, então? Três causas:
necessidade de ser amado, baixa tolerância à dor afetiva ou revanchismo.
Vejamos cada uma detalhadamente.
1. A necessidade de ser amado
Aqueles que precisam ser amados para que sua vida tenha sentido não só
são incapazes de renunciar ao amor quando se deve fazer isso, como também
buscam-no a qualquer custo. Uma mocinha me dizia, angustiada: “O que vou
fazer? Estou há seis meses sozinha!”. O que fazer? Nada, ora. Viver mesmo
assim, aproveitar a vida. Quem disse que o amor é a única forma de
autorrealização? A ansiedade de ter alguém leva milhões de pessoas a se
agarrar ao primeiro que atravessa seu caminho, sem mais intenção que
acalmar o desespero. Tagore dizia que o amor é como as borboletas: se as
perseguimos desesperadamente, afastam-se, mas, se ficamos quietos, pousam
em nós. Não podemos sair procurando alguém como se fôssemos comprar
um produto qualquer no supermercado. Não nos apaixonamos nem
desapaixonamos à la carte. O que podemos fazer é criar as condições para
que o amor se manifeste. Preparação para o amor: organizar-se internamente,
serenar e deixar o coração entreaberto. Se conseguir criar essas condições,
quando menos esperar, vai tropeçar com alguém que valha a pena.
Um ponto adicional para levar em conta: as pessoas necessitadas de amor
não passam despercebidas. Não sei se são os feromônios que liberam, o jeito
de olhar ou os gestos, mas se comportam como se tivessem um cartaz na testa
dizendo: “Preciso de alguém urgente”. Esse é o paradoxo: se você mostra a
vontade de arrumar alguém ou de ser amado, a maioria não se aproxima,
porque ninguém quer compromissos apressados (a não ser que você encontre
outra pessoa igualmente ansiosa e decidam unir patologias). Tagore tinha
razão.
2. A baixa tolerância à dor afetiva
Alguns não suportam a dor porque quimicamente não são capazes e outros
simplesmente são mimados e se desesperam diante da primeira ameaça de
mal-estar. A covardia também pode não ser generalizada e localizar-se em
eventos ou situações muito idiossincrásicas. Por exemplo, certas pessoas
aguentam estoicamente as investidas da vida como se fossem guerreiras, mas,
quando se trata do amor e suas dores, tornam-se especialmente doentes e
melindrosas. A suscetibilidade aqui não se refere à necessidade de ser
amado, e sim à intolerância à dor afetiva. No primeiro caso, o que se busca é
um “novo amor” que acalme a apetência; no segundo, um “amor analgésico”.
A hipersensibilidade ao sofrimento afetivo (por exemplo, desamor,
discussões com o companheiro, ciúmes, apego ou medo de perder o outro)
pode tomar qualquer rumo. Em meu consultório, vi homens e mulheres de
destaque em diversos campos, inteligentes e bem-sucedidos, encolhidos
como crianças indefesas diante da dor de um amor impossível. As pessoas
que são muito vulneráveis ao sofrimento amoroso tratam de arranjar
rapidamente alguém que alivie o tormento de um amor mal curado. Um
homem comentava comigo: “Encontrei uma mulher maravilhosa; quando
estou com ela, paro de pensar em minha ex”. O que mais o atraía nela era o
poder narcótico que exercia sobre ele.
3. O revanchismo: quando um prego afunda mais o outro
O impulso de buscar um substituto emocional não é motivado somente
pela necessidade de ser amado e o alívio da aversão; também pode se dar por
revanchismo e desforra. Uma adaptação afetiva da lei do talião, do “olho por
olho, dente por dente”: “Quero que você sofra o que eu sofri (ou estou
sofrendo)”. Pura imaturidade. No amor, é preciso saber perder em vez de se
envolver em disputas vingativas e reparações morais. Aqui, o novo prego faz
parte de uma independência e superação falsas, porque, se a libertação fosse
verdadeira, o ex não importaria tanto e não haveria nenhuma dívida a saldar
nem nada a provar.
O modus operandi é assim: você corre a se enroscar em uma nova relação
para que ele ou ela, segundo você, morra de raiva e ciúmes. Você quer lhe
dar uma lição e lhe mostrar que ele não é insubstituível. Analise com calma:
você realmente acredita que essa estratégia vai mudar os sentimentos do
outro e ele vai correr para seus braços? E mais uma dúvida: por que acha que
ele ainda sente algo por você? Os despeitados fazem projeção e pensam que
com o ex acontece o mesmo que com eles. Porém, os dados mostram que, na
maioria dos casos, o outro nem mostra interesse.
Lembre-se desta máxima: Se o outro o considera parte do passado, então,
que ele não seja parte de seu presente. Cada vez que você tenta chamar a
atenção do velho amor para se vingar o envolve de novo em sua vida e fere
sua autoestima. O velho prego penetra mais.
“JÁ O DEIXEI; E AGORA, COMO O ESQUEÇO?”
Não é possível “esquecer” apenas porque se quer um amor que ainda nos
assola, mas podemos lutar contra as consequências negativas de algumas
recordações e diminuir sua força (no fim do Princípio 1, dou algumas
sugestões para contrabalançar essa memória negativa). Mas o que mais me
interessa destacar aqui é o fato de que não existe uma amnésia autoinduzida
que nos livre do sofrimento. Teimar em “querer” esquecer alguém quase
sempre gera o efeito contrário. Se disser a si mesmo que não quer pensar em
um urso branco, não vai conseguir tirar o urso da cabeça (tente, para se
convencer disso). Esse resultado paradoxal também é observado em questões
amorosas. Se disser: “Não quero pensar em tal pessoa! Não vou pensar, não
vou pensar!”, a recordação vai se ativar automaticamente e impregnar sua
memória. Em certa ocasião, um pacienteme fez uma demonstração ao vivo
do método que utilizava para esquecer aquela que havia sido “a mulher de
sua vida”. Fechava os olhos, adotava uma postura corporal parecida a uma do
ioga e começava a dizer, como se fosse um mantra: “Ela não existe, não
existe, não existe...”. Pouco a pouco, ia erguendo o tom de voz e acabava
socando o chão enquanto continuava repetindo aos gritos que ela não existia.
Como é evidente, depois de um exercício desses, o homem ficava exausto e
pensando nela mais que nunca.
A meta de “esquecer o outro” como se este nunca houvesse existido, além
de irracional, é ingênua, a não ser que você decida dar uma martelada na
própria cabeça e causar uma lesão cerebral, coisa que não aconselho. A
realidade é outra: aceitar a perda de uma maneira saudável não implica
causar amnésia em relação a seu ex, e sim recordá-lo sem dor ou com uma
dor suportável e esclarecedora. O processo que permite resolver a perda de
maneira inteligente e saudável é conhecido como elaboração do luto.
AS QUATRO FASES DO LUTO
Em situações de perda afetiva, como a morte de um parente querido ou a
ruptura de uma relação significativa, a natureza nos imprime uma resignação
obrigatória para que não desperdicemos nossa energia vital esperando o
impossível. Como se nos dissesse: “Não insista, ele se foi!”. O luto é a
maneira natural de nos despojarmos de toda esperança para aceitar os fatos e
fazer que o princípio da realidade se imponha sobre o princípio do prazer. O
luto não elaborado, mal processado ou interrompido, ocorre quando a pessoa
resiste a entrar na saudável desesperança (“Não há nada a fazer”) e apela para
uma espécie de mumificação psicológica da pessoa ausente. O famoso filme
Psicose, de Alfred Hitchcock, é uma demonstração dramática e terrível de
uma perda não resolvida – no caso, a morte da mãe – por parte de um jovem
psicologicamente doente (Norman Bates).
O luto é uma resposta não aprendida, normal e útil, que possui no mínimo
quatro fases. Calcula-se que pode durar de seis meses a um ano, dependendo
da cultura e da história anterior da pessoa.
Na primeira etapa, há um embotamento da sensibilidade, a pessoa se
sente aturdida e incapaz de entender o que aconteceu (pode durar
horas ou semanas). Porém, algumas pessoas ficam imobilizadas nesse
ponto; o aturdimento se transforma em insensibilidade e reagem como
se nada houvesse acontecido, quando na realidade estão arrasadas por
dentro. Aos olhos de qualquer observador desprevenido, tudo parece
normal e até se costuma elogiar a força daquele que sofre a perda, mas
o estancamento vai acumulando sentimentos e pensamentos de todo
tipo, até que um dia essa energia represada explode em forma de crise
tardia. A aparente lucidez não era mais que um mecanismo de defesa.
Essa suspensão do processamento emocional é denominada ausência
de aflição consciente, e, quando ocorre, requer ajuda profissional.
A segunda etapa se caracteriza pelo anseio e pela busca: a pessoa não
aceita que a perda seja permanente. Aqui podem aparecer
manifestações como pranto, angústia, insônia, pensamentos
obsessivos, sensações de presença da pessoa ausente (e, obviamente,
visitas a videntes e bruxos), cólera e raiva, enfim, nessa etapa tenta-se
restabelecer inutilmente o vínculo que se quebrou. É uma etapa de
ansiedade e desespero, na qual o indivíduo não quer se dar por
vencido (pode durar de dois a três meses).
Em uma terceira etapa, apesar da dor, o indivíduo aceita a perda. Vê as
coisas como são e obviamente a tristeza aumenta (pode durar entre
dois e três meses). Quando a pessoa fica estagnada nessa etapa surge a
depressão, e, com ela, um transtorno conhecido como luto crônico ou
transtorno de adaptação, que requer ajuda profissional.
Na quarta etapa, começa a fase de reorganização, na qual a pessoa
começa a abrir mão, de maneira definitiva, da esperança, e recupera a
iniciativa e a vontade de viver. Aqui começam a estruturar-se os novos
papéis. É quando os velhos presentes, as cartas de amor e as canções
são definitivamente deixados de lado.
Os terapeutas que acompanham esse processo estão muito atentos para que
seus pacientes não fiquem estancados em nenhuma dessas fases, nem as
pulem. Se aplicarmos os passos apontados à perda afetiva que os tortura, será
de se esperar que: (a) fiquem aturdidos, (b) tentem recuperar a pessoa amada,
(c) beirem a depressão, e (d) finalmente reorganizem sua vida. O amor mal
curado será reabsorvido pelo organismo de maneira natural e sem marteladas.
A pergunta mais frequente que me fazem sobre esse assunto é: e se surgir
alguém quando meu luto ainda não se houver completado? Resumo a
resposta: “Não há pressa. Se conhecer alguém que valha a pena, vá devagar;
você não tem que se envolver emocionalmente de um dia para o outro. Uma
boa companhia, um suporte afetivo pode ajudá-lo a fluir melhor e sofrer
menos, mas se precipitar as coisas, seja porque precisa ser amado, porque
não suporta a dor da perda ou simplesmente porque quer se vingar, terá dois
pregos em vez de um, ou o mesmo de sempre, mas mais fundo. Chegará o
momento em que recordará seu ex sem tanta dor, e então estará pronto para
amar novamente, muito melhor e em paz”.
A ESTRATÉGIA DE TARZAN
Não soltar a antiga relação enquanto não houver começado uma nova. É
uma versão avantajada e antecipada de “um prego tira o outro”: não soltar um
cipó enquanto o próximo não estiver bem agarrado. Substituir o prego antes
que fique encalacrado no lugar. Aqui não há luto: salta-se de um vínculo a
outro constantemente, para não cair. A estratégia de Tarzan é cruel: um dia
qualquer, sem aviso nem anestesia, você percebe que seu companheiro tem
outra pessoa e não há tempo para mais nada. Chega o aviso de “falecimento”
e nem cinzas restam. A surpresa é imensa: “Foi tudo tão rápido... Nunca tive
indícios de que havia algo errado, ela nunca me disse nada...”. As perguntas
são muitas e insistentes: “Quando, onde e como isso aconteceu? Por que
comigo?”. E não há quem responda: seu ex já está longe. Se o histórico da
pessoa que você ama o faz suspeitar que utiliza essa estratégia, antecipe-se.
Como? Solte-se primeiro e não se deixe usar!
Vejamos uma descrição do funcionamento. Um homem Tarzan, de
quarenta anos, comentava comigo: “Quando estou com uma mulher, fico
sempre atento para o caso de aparecer uma melhor. E quando isso acontece,
vou me soltando pouco a pouco da primeira e me envolvendo com a segunda,
até me soltar definitivamente da anterior. Dá certo, nunca fico sozinho”.
Perguntei-lhe como fazia exatamente para “soltar-se” do vínculo anterior, e
ele disse: “Vou ficando insuportável, invento brigas, discussões, fico mal-
humorado... crio um pretexto e então vou embora”. Desaparecia sem deixar
rastros, o que gerava uma grande dor e angústia em suas companheiras. De
vítima em vítima, como se fosse um “apaixonador em série”, o homem
andava fazendo mal sem o menor escrúpulo. Na verdade não tentava tirar um
prego com outro: ele era o prego.
É POSSÍVEL AMAR DUAS PESSOAS AO MESMO TEMPO?
A resposta é afirmativa. Não me refiro a ter duas paixões ao mesmo tempo
porque o cérebro explodiria (mas alguns adolescentes, energéticos e cheios de
vida, parece que sobrevivem à sobrecarga), e sim a um amor mais moderado
e maduro, um amor que não esteja somente arraigado em Eros, e também se
baseie na amizade (filia) e na ternura/compaixão (agape). Apesar dos
protestos dos defensores da monogamia e exclusividade emocional, muita
gente abre filiais e bifurca o sentimento amoroso.
Uma mulher explicava o surgimento nela de um amor bicéfalo do seguinte
modo: “Meu marido é um homem atraente, um grande amante e um excelente
pai. O problema é que não sabe se comunicar. Na realidade, quase não fala.
Nossas conversas não passam de alguns intercâmbios verbais e nunca pude
aprofundar com ele um assunto que me interesse. Isso gerava um vazio em
mim, e foi quando me aproximei de um colega de trabalho. Nós nos
entendemos às mil maravilhas, não temos segredos, rimos e passamos
momentos ótimos. Sexualmente, não avançamosmuito, só uns beijos e umas
carícias superficiais. Não que não me sinta sexualmente atraída por ele, mas
não sei, falta alguma coisa. Por outro lado, vejo meu marido e fico
arrepiada”. Entre duas águas e bebendo das duas. Os dois homens eram doces
e amorosos (nesse ponto, havia empate técnico); porém, a um sobrava Eros, e
ao outro faltava. Com o marido, ela fazia amor intensamente, e, com o amigo,
comunicava-se de maneira aberta e franca. Sua fantasia era fundi-los e criar
um único e monumental amado/amante. Psicologicamente falando, amava
ambos, mas de maneiras diferentes, porque cada um completava o outro na
carência. A balança se manteve insuportavelmente equilibrada por vários
anos, até que o colega do trabalho conheceu uma mulher separada e
abandonou a amiga. A vida decidiu por ela.
Amar duas pessoas ao mesmo tempo: dois pregos compassados e paralelos.
Dupla alegria ou dupla dor? A curto prazo, euforia e fascinação; a médio e
longo prazo, tristeza e angústia. Soluções? Talvez seja preferível apostar em
uma opção e tentar fazer que funcione a ter duas relações inconclusas. A
outra possibilidade, que nunca se deve descartar, é ficar sozinho e deixar o
amor entre parênteses por um tempo.
COMO ARRANCAR O PREGO SOZINHO E ALIVIAR A DOR
DO VELHO AMOR
1. Se você tem um amor mal curado, não se apresse, dê tempo ao
tempo
Não corra atrás do primeiro que cruzar seu caminho, ninguém fará o
trabalho por você. Vá devagar, uma pessoa por vez e cada coisa em seu lugar.
O mais importante é sair do velho amor, que é um estorvo e o imobiliza.
Depois, você poderá se abrir para uma nova relação com calma. É muito
complicado alguém estar bem ao seu lado se você não resolveu ainda sua
situação anterior: você não poderá se entregar totalmente, e sem
reciprocidade não há relação a dois que resista. Dar e receber livremente,
esses são os bons princípios, mas como fazer isso se três quartos de seu
coração ou mais estão em outro lugar? Salve-se da desagradável sensação de
querer amar alguém e não poder. Uma jovem me dizia o seguinte: “Ter
conhecido Luis complicou tudo. Percebo que não o posso amar porque
continuo amarrada à relação anterior. E agora me sinto com uma dupla carga:
amar quem não merece e não ser capaz de amar quem merece. Sei que estou
perdendo uma grande chance, mas não posso ficar com ele”. Sem Luis
(aquele que poderia ter sido e não foi) e com o ex nas costas (aquele que já
não deveria ser e continua sendo). Insisto: dupla carga.
2. Elabore o luto
Ao decidir que só vai entrar em uma nova relação quando estiver pronto
para isso, terá tirado do caminho um grande obstáculo para que o luto siga
seu curso normal. Se for muito difícil, peça ajuda profissional, mas não perca
de vista que, além do sofrimento, o luto representa a cura que a natureza lhe
oferece. É uma limpeza profunda que lhe permitirá amar sem o peso dos
traumas; por isso, é importante vivê-lo e deixá-lo fluir. Obviamente, isso não
significa que você deve se enclausurar, carregar luto fechado e amargurar sua
vida. Pode sair, conhecer gente, estar com amigos e divertir-se como quiser:
processar a perda e viver normalmente não são incompatíveis. Repito: a
sugestão é, dentro do possível, não se envolver afetivamente com alguém sem
solucionar o amor anterior. O apoio afetivo das pessoas queridas e da família,
conforme mencionei no Princípio 1, são muito importantes. O prego será
rejeitado e expulso por seu organismo, e não por um agente externo. E
lembre-se: se começou o processo de aceitação, você não é mais vítima;
talvez tenha sido, mas hoje, quando suas energias estão trabalhando para
libertá-lo, não é mais.
3. Fique limpo internamente
Um paciente, depois de quatro meses separado, dizia-me: “É incrível! Há
alguns meses, eu teria feito qualquer coisa para estar com ela novamente, e
agora não estou nem aí. Há momentos em que a saudade chega em ondas,
mas vai embora rapidamente; não dói mais. Eu me sinto bem sozinho”. No
início, meu paciente, tentando esquecer a ex, começou a sair com uma amiga
de sua juventude de quem sempre havia gostado (não sei qual é a razão, mas,
nos primeiros meses de uma separação, os velhos amigos e amigas que foram
possibilidades afetivas em alguma época ressuscitam como zumbis). A
experiência foi um desastre, visto que ele não conseguia acompanhar o ritmo
da mulher, que exigia atenção, sexo e mimos no atacado. Quanto mais ela
exigia, mais ele se inibia. Finalmente, não aguentou mais e decidiu ficar
sozinho, chorar suas dores e enfrentar a perda com ajuda profissional. Sair de
um amor mal curado é como sair de uma maldição e encontrar a si mesmo:
“Olá! Está me reconhecendo? Sou eu!”. O que restou de si, para começar a
reconstruir-se.
O sinal que mais levo em conta para saber se a “limpeza interna” está indo
por um bom caminho é o olhar. Sob o peso de um amor tortuoso que resiste a
desaparecer, o olhar fica opaco e triste, como quando estamos com uma
virose. Mas, quando o antivírus entra em ação e o estado de ânimo começa a
se recuperar, o olhar se torna mais vivo e alegre, os olhos ficam maiores,
mais brilhantes e inquietos. Há vida de novo.
4. Procure não comparar o novo com o velho
O insano costume de comparar as atuais opções afetivas com o velho
relacionamento sempre está presente naqueles que não conseguiram assimilar
a perda. Comparar o quê? Tudo. O problema é que nem sempre os novos
ganham. Embora a maioria pragueje contra o antigo relacionamento, quando
começa a sair com outra pessoa entra em choque ao descobrir uma realidade
terrível e desalentadora: não existem bons partidos (pelo menos é essa a
percepção). É o paradoxo dos que comparam além da conta; tentando
encontrar e exaltar os atributos da nova aquisição que justifiquem a troca,
acabam fortalecendo a pessoa que querem esquecer. É verdade que algumas
comparações às vezes são produtivas e ajudam a acelerar o luto, mas é
melhor não correr o risco. Sem perceber, você poderia desviar a informação a
favor de seu ex e maximizar aquele que quer esquecer.
5. A desforra o prende ao passado
A vingança sempre volta, e o ódio engendra ódio, não importa como o
queira disfarçar. Orgulho ferido? Um luto bem dirigido exige que você
guarde o orgulho no bolso. Se já não é amado, de que vai se vingar? Do
desamor? A vingança o mantém amarrado ao outro. Em uma relação sofrida,
pelo motivo que for, você não deveria dizer: “Se acabou, melhor”? Ou
prefere continuar sendo vítima de um amor insuficiente? A verdadeira
desforra é deixar de amar a quem não o ama ou lhe fez mal intencionalmente.
Alguém disse certa vez: “A melhor vingança é ser feliz”, apesar do outro e
além de toda dúvida. Querer esfregar seu novo “amor” no nariz do ex mostra
que seu novo relacionamento não é tão bom, porque, quando você está bem
com alguém, não tenta tirar nenhum prego, e sim aproveitar tranquilamente o
que tem. Uma vez mais: a tentativa de gerar raiva ou ciúmes no ex fará o
velho amor ganhar mais força.
6. Rumo a um amor completo
A proposta é não fragmentar o amor e tentar manter seus componentes
ativos e unidos em uma mesma pessoa. Uma prova de que um prego não tira
outro, ou de que pelo menos isso não é tão fácil, é que podemos nos
apaixonar por duas pessoas ao mesmo tempo, mesmo que nossa intenção seja
outra. A surpresa costuma ser imensa, porque, tratando de acabar com o amor
mal curado, descobrimos que o velho amor e o substituto não são
incompatíveis, e ficamos duplamente envolvidos. Não se deixe levar pela
carência; negue-se a um amor fragmentado. Estou me referindo à
possibilidade de construir uma relação sem nenhuma falta básica, e sem
recorrer a suportes externos ou pequenos amores suplementares e
subsidiários. Repartir o amor entre várias pessoas é viver uma insatisfação
permanente: quando estiver com uma, sentirá falta do que a outra possui, e
assim andará, de escassez em escassez, de penúria em penúria, tentando
montar um quebra-cabeça no qual as peças não se encaixam.
 
Princípio 7
Se o amor não é visto nem sentido,
não existe ou não lhe serve
O contráriodo amor não é o ódio, e sim a indiferença.
E. Wiesel 
O amor não se declara, se prova.
J. Mery 
Amor teórico? Um ex abrupto ou uma tortura quando estamos envolvidos de
coração em um relacionamento. Eu amo conceitualmente? Que ridículo! O
pior: “Eu amo secretamente, por trás dos bastidores, à distância, como um
telegrama”. De que amor estamos falando se não é notado, se não chega?
Apaixonar-se é uma atitude: sentir, pensar e agir para um mesmo lado; tudo
junto. O que esperamos do outro é o amor coerente, o único que vale a pena.
O amor a dois é interpessoal e inseparável de sua demonstração. Os
reprimidos que fingem um amor insípido, frio e distante, justificam-se quase
sempre apelando a algum trauma distante ou ao “estilo pessoal”: “Fui
educado assim” ou “Não sei amar de outro jeito”. Quando a pessoa que você
ama der uma dessas duas razões, sua resposta deverá ser categórica: “Então,
reeduque-se, reinvente-se ou aprenda, se quiser ficar comigo!”. Como se
adaptar (ou seja: submeter-se) à indiferença? Não tem jeito: em algum
momento você vai explodir e vai sair fogo por seus olhos. Um amor
pusilânime não serve para ninguém.
Um homem que sofria muito porque sua esposa era um tanto avessa ao
afeto comentava comigo sua “tática de aproximação afetiva”. À noite,
estando juntos na cama, enquanto ela dormia, ele começava a deslizar
cautelosamente a mão até tocar os cabelos dela, evitando acordá-la. Com a
maior paciência, centímetro por centímetro, avançava até chegar à cabeça da
mulher, para depois acariciá-la de maneira quase imperceptível. A cada
aproximação, ainda adormecida, ela o rejeitava: mexia-se, resmungava,
grunhia, mas ele não se dava por vencido e persistia. O trabalho dava seus
frutos, porque quase sempre amanheciam abraçados. Porém, ao acordar e
perceber que estava ao lado dele, ela rapidamente se afastava. O sexo era
bom, não havia falta de vontade e até compartilhavam algumas fantasias; o
problema estava na ternura e na falta de expressões amorosas verbais e não
verbais. Uma vez, perguntei à mulher se realmente o amava, e ela respondeu:
“Claro que amo, senão não estaria com ele”. Eu respondi que a questão não
era tanto “estar” ou “não estar”, mas como estar. Expliquei-lhe a importância
das palavras e das carícias afetuosas e convidei-a a fazer algumas sessões
para que tentasse ser mais expressiva, mas ela se negou categoricamente.
Embora não tenha sido explícita, o que ela pretendia era que seu marido se
adaptasse a sua frieza, e não o inverso. Como já disse antes, o caminho mais
saudável para uma boa convivência é que cada um se ajuste às qualidades do
outro, mas não a seus defeitos: nivelar-se pelo positivo, e não pelo negativo.
O que a mulher pedia era demais (uma pessoa não pode se “congelar” ou
reprimir para que a outra se “sinta bem”), e agradá-la era impossível. Por isso
a estratégia da “câmara lenta” noturna que meu paciente havia inventado para
sobreviver afetivamente às demandas do corpo e do amor, que não pede só
sexo.
Por que os inibidos e os indiferentes resistem tanto (alguns até se ofendem)
quando alguém sugere que sejam mais carinhosos, se só o que se pede deles
são mais abraços, mais toques, beijos no rosto, alguns “eu te amo” e um ou
outro carinho? Não custa nada assegurar que o amor está em pleno
funcionamento. Um homem justificava assim sua indiferença: “Para que dizer
que a amo se ela já sabe?”. Pobre mulher. O “eu te amo” ou o “eu também”
não é um lembrete para gente esquecida; é um gosto, é o reforço que se
manifesta em sentir-se amado a toda hora e em qualquer momento. E não
estou falando do amor grudento e pesado, mas da expressão normal, da
atenção, do romantismo inesperado que faz aumentar a frequência cardíaca,
dos mimos que nos fazem sorrir quando estamos de mau humor ou nos fazem
relaxar quando o estresse nos consome. Expressar amor é duplamente
curativo: para quem o expressa e para quem recebe a expressão. Você nunca
viu dois macacos tirando as pulgas um do outro? Eu faço em você e você faz
em mim; eu o alivio e você me alivia. É a semântica mais primitiva do amor:
hedonismo em estado puro. Basta ver seus gestos e suas expressões.
O amor mesquinho, controlado, presumido, mas não evidente, é um amor
de procedência duvidosa. Ao contrário, o amor pleno integra sentimento,
pensamento e ação em um todo indissolúvel. Quando os três elementos não
vão para o mesmo lado, o afeto é como uma espingarda de chumbo, e
qualquer um pode sair ferido. Como sobreviver à seguinte declaração? “Não
sinto que a amo, mas acho que devo amá-la; só não tenho vontade de abraçá-
la e de ser doce”, disse um adolescente, enquanto sua namorada andava como
um satélite fora de órbita tentando entender o que ele queria dizer. Um amor
insípido é a coisa mais parecida ao desamor.
O CARÁTER TRANSITIVO DO AMOR: “SUA ALEGRIA ME
ALEGRA, SUA DOR ME DÓI”
É o cara a cara de qualquer relação normal. Não compartilhamos só sexo,
filhos, dívidas ou amigos; também compartilhamos estados de ânimo. Esse
fluxo de ida e volta garante o equilíbrio emocional, e por isso é importante
mantê-lo vivo e desperto: não nos comunicamos só verbalmente; nosso corpo
fala e transmite o que sentimos em cada gesto e cada postura em silêncio. O
assunto se complica quando um dos dois mostra no mínimo um dos seguintes
impedimentos: (a) incapacidade de decifrar o que o outro sente
(analfabetismo emocional), e/ou (b) indiferença, apatia ou desinteresse pelos
sentimentos do outro (indolência amorosa). O bom amor requer certo
contágio, uma mútua penetração emocional a fundo. Como ignorar a
felicidade ou a tristeza da pessoa amada? Isso nem sequer é um
compromisso; simplesmente acontece quando existe afeto suficiente, porque
amar é abrir as comportas e baixar os limiares: penso em você, sinto você e
também faço contato. Mas essa reciprocidade, básica e imprescindível, nem
sempre está presente. Há pessoas egocêntricas que têm dificuldade de sair de
si mesmos e se colocar no lugar dos outros: “Sua alegria não me alegra e sua
dor não me dói”.
“Não é coisa minha”, afirmava uma mulher ao ver que seu marido
afundava cada vez mais na depressão. Eu lhe perguntei por que não lhe doía
vê-lo sofrer, e sua resposta foi: “É que ele não tem motivos sérios para ficar
assim!”. Se seu companheiro precisa que sua dor esteja bem “fundamentada”,
seja “objetiva” e “lógica” para você se preocupar com ele e ajudá-lo, talvez
você não o ame. Não digo que necessariamente haja crueldade, mas são
requisitos demais para uma conduta de ajuda/compaixão que deveria surgir
de maneira natural.
Você chega em casa e vê seu companheiro chorando; a dor dele não lhe
importa? Que importa que seja racional ou irracional? A primeira coisa a
fazer é socorrê-lo, estar ali, apoiá-lo. Talvez lhe pareça que ele está
exagerando e você sente que no lugar dele não reagiria assim. E daí? Por isso
o sofrimento dele nesse momento é menor? Dói igual, perturba igual, por
mais absurdo que isso possa lhe parecer. Respalde-o e, depois, quando ele
estiver melhor e mais tranquilo, vejam juntos o porquê, o como e o quando.
Faça a “análise” a posteriori. Dizer que a dor da pessoa amada não lhe
importa porque é “idiota” torna-o idiota.
Compaixão (compartilhar a dor) e congratulação (festejar a alegria) são
duas emoções que devem estar presentes para que o amor possa ser sentido
plenamente. Ninguém se resigna à indiferença: é preferível a dor da ruptura a
um amor insensível.
O PERVERSO: “SUA ALEGRIA ME DÓI E SUA DOR ME
ALEGRA”
Amor de verdugo; altamente patológico. A insegurança e o medo de perder
a pessoa amada às vezes assume uma estranha face que beira o perverso:
“Quando você está mal, sinto que precisa de mim, mas, se você está feliz,
penso que poderia prescindir de mim porque não sou necessário; portanto,
faço todo o possível para que você se sinta mal”. A soma de um esquema de
insegurança pessoal e uma maneira distorcida de processar a informação pode
engendrar um monstro amoroso, do qual nem sempre temos consciência.
Aquele que pensa assim acaba sabotando qualqueratitude positiva do outro e
reforçando o negativo. Outra forma de manifestar o curto-circuito: “Fico mais
tranquilo quando você está mal, porque sei que vai buscar apoio em mim. Sua
alegria ou sua felicidade me indicam que não precisa tanto de mim, e que até
poderia abrir mão de mim”. Conclusão: odeio sua alegria e me alegro com
sua desgraça. É a triste manifestação de uma fraqueza que se fortalece com o
sofrimento alheio.
NÃO IMPORTA QUANTO NOS AMAM, E SIM COMO
Amor quantitativo e algébrico: “Quanto você me ama?” ou “Você me ama
muito?”. Quando nos dizem “do tamanho do céu”, ficamos satisfeitos e
felizes, nas nuvens. Mas a pergunta que mais vale, e você a deve fazer a si
mesmo, é como é amado. Muitos psicopatas dizem amar demais seus
companheiros antes de massacrá-los. Você precisa ser muito amado ou ser
bem-amado? As duas coisas? Seria o ideal. Porém, é melhor um amor
estável, cheio de ternura e alegria, mesmo que não chegue à estratosfera, que
um amor imenso que anda como uma bala perdida.
Para os amantes da medição, existe também o amor espacial: “Até onde
você me ama?”. Se fôssemos objetivamente honestos, responderíamos que
não temos nem ideia. Com que padrão medir o amor que sentimos:
centímetros, metros, anos-luz? Uma resposta plausível e com certo ar
matemático de consolação poderia ser: “Se o sinto companheiro e sei que
posso contar com você nos momentos bons e nos ruins, não preciso de somas
nem de subtrações”. Para que você quer ser amado “além das suas forças”?
Vocês ficariam o dia todo cansados! Melhor ser amado de uma maneira
sossegada, no dia a dia, inventando e embelezando o cotidiano.
Vi muitos pacientes se debatendo na encruzilhada do quanto e como,
presos em um dilema sem sentido: “Não sou feliz, mas ela me ama demais”.
E quem se importa com o “quanto” ela o ama, se você vive infeliz? Ou você
pensa que é pouco “querível”, e por isso precisa somar pontos a sua abalada
autoestima? Ser amado “desmedidamente” ou daqui até a China não
demonstra nada em relação a seu valor pessoal nem garante sua qualidade de
vida. Acredite: a abundância amorosa, sem a qualidade básica que determina
o afeto, vale pouco. Aliás, um amor excessivo e fora de controle pode ser
muito mais desagradável e daninho que o desamor.
A SEMÂNTICA DO AMOR
A linguagem do amor ultrapassa o meramente linguístico e apela a sons e
gesticulações de todo tipo, que nos recordam muitas vezes nossos ancestrais
primatas. O amor passional possui algo de animalesco e indiscreto, que se
pode notar até nos mais pudicos e austeros. Basta ver dois adolescentes em
pleno amasso para se surpreender diante da variedade e quantidade de
códigos afetivos existentes: ronronar, cheirar, olhar-se, sorrir, coçar, apertar,
aconchegar-se são algumas formas de expressão que configuram o pacote de
um idioma que, paradoxalmente, não requer aprendizagem. Por isso é tão
difícil conceber ou aceitar um amor inexpressivo e apático, sendo que
existem tantas vias de comunicação. O tom da voz, as inflexões e os
silêncios, tudo conflui no outro, que acaba se transformando em um leitor
afetivo experimentado.
Não basta “sentir o amor”; é preciso mostrá-lo, prová-lo. Muito pouca
gente aceita um amor robótico, exato e hipercontrolado. Precisamos de um
pouco de loucura, um pouco de desordem, uma faísca que nos recorde que a
paixão não morreu e que o jogo não acabou: entre um estilo afetivo inibido e
preciso e um loquaz e explícito, a maioria prefere o segundo. Comparemos,
por exemplo, uma definição científica com um enunciado afetivo em relação
a uma manifestação típica do amor: 
Um médico do final do século retrasado, doutor Henry Gibbson,
definiu o beijo como: a justaposição anatômica de dois músculos em
estado de contração. Uma exata e operacional explicação fisiológica.
De qualquer maneira, não imagino um apaixonado dizendo a outro:
“Estou com vontade de proceder a uma justaposição anatômica de
nossos respectivos músculos contraídos”. Beijar é muito mais que
isso, como a Capela Sistina é muito mais que “paredes pintadas”.
O escritor Fernando Pessoa, quase na mesma época em que o médico
anterior dissecava o ato de beijar, tentava traduzir e transmitir um
sentimento de amor, e as palavras pareciam insuficientes:
Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar
senão amar-te. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que
quero dizer-te é que te amo?
Quando lhe falam de amor ou sussurram em seu ouvido, o que você
prefere? A explicação fria e mecanicista da ciência ou a expressão
apaixonada e às vezes desconexa do apaixonado que tenta explicar o
inexplicável? Jogos poéticos ou definições sisudas? Sem dúvida: Pessoa mais
que Gibbson! Se seu companheiro carece da semântica afetiva necessária
para enriquecer o amor, ou se sua expressão é seca e quase imperceptível,
sacuda-o e ensine-lhe que, se o amor não é visto, então não existe ou não lhe
serve.
A MORTE LENTA DO AMOR
Gota a gota, como uma tortura chinesa, a indiferença vai acabando
lentamente com o amor. Por cada ato de indiferença perde-se um pouco de
amor, e se a atitude se mantiver, o declive afetivo continuará até que não reste
nada. O preocupante é que essa extinção afetiva pode durar anos. Os
consultórios estão repletos de pessoas que demoraram metade da vida para
reagir, porque não tiveram coragem de dizer chega antes que o amor
desaparecesse por si só.
Também existe uma morte rápida do amor: a que decorre da decepção.
Quando você se decepciona com a pessoa amada, o desamor aparece como
um raio e voa pelos ares. A questão se resolve em um piscar de olhos, e, onde
houve amor, só restam escombros. O desencanto ocorre quando nossos
princípios e os códigos morais que consideramos não negociáveis se veem
afetados. Desiludir-se com a pessoa amada é uma flechada do Cupido ao
contrário. Pude observar essa metamorfose em meu consultório clínico,
quando alguém descobria que seu companheiro não era o que esperava ou
que suas ações eram moral ou eticamente questionáveis. Ocorre um crac,
inevitável e categórico.
Voltando à morte lenta do amor, ninguém aceita a indiferença como modo
de vida, a menos que seja um ermitão emocional ou um esquizoide. Nem
mesmo os masoquistas se submetem à insensibilidade da pessoa amada:
pedem castigo e dor, mas não indiferença. Aqueles que se resignam ao
desprezo secam por dentro. Se você não teve a sorte de a decepção bater a sua
porta, e continua preso na apatia afetiva de um companheiro que parece de
plástico, faça seu este slogan e grave-o em seu coração: quem o faz sofrer
não o merece.
QUEM NÃO NOS ADMIRA, NÃO NOS AMA
A indiferença é um monstro de mil cabeças, e uma delas é a falta de
admiração. Pode haver admiração sem amor, mas o contrário é impossível.
Como amar alguém que não nos deslumbra em algum sentido? Amar também
é maravilhar-se e surpreender-se positivamente com o que o outro faz ou
pensa, mesmo que seja de vez em quando. Admirar seu companheiro é sentir-
se orgulhoso de estar com ele, é fascinação por alguma característica e/ou
atributo que se destaca e o encanta. Talvez só você o veja, mas é suficiente
para que o entusiasmo o mantenha vivo. O que se admira? Qualquer coisa, o
que der na telha e o que o coração quiser: beleza, inteligência, capacidade de
trabalho, tenacidade, honradez, seu jeito de fazer amor, ou todas as
anteriores: o que quiser e como quiser. Não é obediência cega ou culto à
personalidade, mas entusiasmo.
Se você não sente de vez em quando certo fascínio, se nada o deslumbra
nem cativa em seu companheiro, a relação não anda nada bem. Certa ocasião,
perguntei a um homem o que admirava em sua mulher, e depois de pensar um
pouco, respondeu: “Admirar... não sei, imagino que deve haver algo que
admire nela, senão, não estaria apaixonado”. Exato! Quem não nos admira,
não nos ama.
COMO ENFRENTAR A INDIFERENÇA DO COMPANHEIRO
E NÃO SE DEIXAR DEVASTAR PELO SOFRIMENTO
1. Fale e comunique-se até pelos cotovelos
Que a comunicação fluente e espontânea seja a regra que guie seu
comportamento interpessoal, não somentecom seu companheiro, mas
também com o mundo que o cerca. Como existir para si mesmo e para os
outros se ficar enclausurado em um monte de preconceitos, tabus e medos?
Você precisa de assertividade: manifestar seus sentimentos positivos e
negativos de uma maneira socialmente adequada. É sempre possível dizer as
coisas com boas maneiras e não se engasgar com elas. Se aceitar o desafio de
mostrar seu ser sem tantas reservas, de não se envergonhar de seus
sentimentos, de ser você mesmo em cada beijo e em cada carícia, terá toda a
autoridade moral para se negar à indiferença de seu companheiro.
Aqueles que defendem a contenção emocional, com o argumento de que
“esse é seu jeito de amar”, não deviam se envolver com pessoas que
acreditam em um amor entusiasmado e ardente e o praticam. Deviam ser
coerentes e pendurar um cartaz dizendo: “Não me adapto tão fácil ao amor, e
não tenho a menor intenção de expor minha intimidade e me conectar além
do superficial: alguém interessado?”. A debandada seria fenomenal.
2. Estabeleça suas necessidades e torne-as explícitas
Muitas vezes ficamos calados em vez de expressar o mal-estar que
sentimos para solucionar os problemas. O apego, o medo da autoridade ou do
abandono nos faz agir de modo submisso e dizer sim quando queremos dizer
não. Respeitar a si mesmo é reconhecer-se como merecedor do bom, do
saudável, do que nos conduz à felicidade, e não à humilhação.
E mais: algumas pessoas, tentando evitar o sofrimento causado pela
indiferença, imitam o outro e se transformam em letárgicos emocionais para
“equilibrar” a relação. Seu argumento é o seguinte: “Como não posso
prescindir nem fugir do ‘carrasco afetivo’, eu me transformo nele”. Qualquer
pessoa que tenha um parceiro frio e distante pode cair nessa espécie de
síndrome de Estocolmo: uma estratégia desesperada de sobrevivência, na
qual a personalidade da pessoa se dilui na do outro para evitar o sofrimento.
A vítima se acopla ao predador. Uma mulher justificava sua atitude da
seguinte forma: “O amor exige que a gente se adapte ao companheiro: é um
ato de compreensão”. A afirmação seria verdadeira se a “adaptação” não
implicasse a autodestruição do eu: o bom amor não exige que você seja
infeliz. Antes de entregar-se a uma convivência fria e sem graça, tenha
consciência de seus desejos mais íntimos, aquelas exigências sem as quais
não poderia viver, e comunique-os: “Eu quero isso, é disso que necessito”;
claro assim, simples assim.
Uma boa tática para reconhecer quais são essas necessidades é escrever
uma carta para si mesmo, como se fosse para um amigo que vive sua
situação: o que você recomendaria? Escreva uma carta de verdade,
comprometida e racional, distanciando-se de seu problema o máximo que
puder. Ponha-a no correio, deixe-a descansar uns dias e depois leia-a. Ponha
nela o que realmente quer, nada de “possivelmente”, “talvez” ou “quem
sabe”. Nada de meias palavras. O categórico se impõe quando se trata de sua
felicidade.
3. Seu companheiro o ama como você deseja?
Depois que tiver suas necessidades claras e definidas, aquelas que não quer
nem deveria negociar, pergunte-se se são suficientemente satisfeitas pela
pessoa que você ama. Essa comprovação é fundamental para que você
consiga equilíbrio interno e se sinta em paz consigo.
Uma adolescente recriminava seu namorado em plena consulta: “Não é
suficiente, entende? Seu amor não me basta, não é suficiente! É pouco,
insosso, distante! Eu me sinto insatisfeita e abandonada, mesmo quando está
a meu lado! Por que não vai embora e me larga de uma vez? Se não sabe
amar, procure outra que lhe ensine!”. O jovem só piscava, enquanto a ouvia,
perdido. Tentou consolá-la, mas ela estava furiosa e agressiva demais.
Finalmente, ousou perguntar: “Mas então, como quer que eu a ame?”. O que
desatou uma nova tempestade, porque ela esperava (como a maioria) que a
pessoa que amasse soubesse amá-la ou atendesse a suas expectativas
espontaneamente, e não que tivesse de fazer um curso para aprender.
Assumir o papel de pedagogo para ensinar ao parceiro como nos amar não
deixa de ser frustrante. Além do mais, como fazer isso? Você poderia pegar a
mão dele, passá-la por sua pele e dizer: “Veja, é assim que quero que me
acaricie”. Também poderia lhe entregar uma lista com as datas do seu
aniversário, do aniversário de namoro, etc., para que ele não se esquecesse de
fazer um agrado. Ou poderia ilustrar tudo no PowerPoint, apresentando as
melhores maneiras de dizer “te amo” e de abraçá-la sem estrangulá-la e sem
que parecesse estar dando pêsames. Mas seria ridículo, além de artificial. Em
uma relação afetiva normal, as questões básicas, como a expressão de afeto,
devem estar presentes, mesmo que precisem ser polidas em algum sentido.
Portanto, se seu companheiro age como um zumbi e ostenta um “amor
mecanizado e frio”, o primordial não está resolvido. Não digo que seja
impossível humanizar o companheiro; o que afirmo é que essa tarefa é
desalentadora e pouco gratificante para quem está apaixonado. No dia em que
precisar dizer a seu amado que o amor dele não é visto nem sentido, terá
começado a contagem regressiva. Seria como explicar a alguém que os socos
doem, e que por isso não lhe deveria bater.
4. Você não tem que justificar sua dor ou alegria a ninguém
Recordo o caso de um paciente que, quando chegava em casa preocupado
com algum problema do trabalho, sua mulher o sentenciava: “O que você fez
de errado?”. O homem, fazendo das tripas coração e deixando de lado a raiva
que sentia pela falta de solidariedade, tentava lhe mostrar as “causas
objetivas” de seu mal-estar. Essa curiosa forma de “comprovação amorosa”
tinha uma exigência subjacente à qual ele se submetia passivamente:
“Exponha seus argumentos, vamos ver quanta razão você tem!”. Mas a coisa
não ficava nisso. Depois que o homem explicava seu “caso”, a esposa
passava a rebater os pontos, afirmando que não eram motivos “reais” ou
suficientemente “válidos”. Na realidade, acabava ficando sempre do lado do
chefe ou do terceiro na disputa. A premissa da mulher era muito difícil de
aceitar: “Sua dor não me dói; além de tudo, me incomoda extremamente”.
Uma análise mais profunda mostrou que não havia admiração por parte dela e
que desejava ter um marido “mais valente”. O desamor era evidente. Conheci
muitas pessoas que mostram uma espécie de intolerância à fraqueza ou à
fragilidade humana em geral e do companheiro em particular: “Não fique
choramingando!”. É o oposto da compaixão budista ou da piedade cristã:
chama-se dureza.
Em um exemplo similar, uma mulher era sistematicamente criticada por
seu marido (um psiquiatra em exercício) cada vez que ele a via contente e
feliz, porque não encontrava “razões válidas” para “tanta felicidade”. Se a via
muito alegre, costumava dizer: “Você está drogada ou em surto?”. Então,
minha paciente caía na armadilha e imediatamente tentava “justificar” sua
alegria. Como é natural, o júbilo desaparecia instantaneamente, e, com o
tempo, ela chegou a duvidar de sua própria saúde mental. O marido nunca
aceitou vir ao meu consultório, e finalmente foi morar sozinho, o que
produziu em minha paciente uma forte depressão, que ela conseguiu vencer
com o tempo. Nas últimas vezes, vi-a gargalhar sem culpa e sem medo.
Conheci gente amargurada que é alérgica à alegria e a qualquer outra
manifestação de felicidade, coisa incompatível com o amor e altamente
destrutiva.
Nos dois casos comentados, meus pacientes cometeram o erro de querer
buscar apoio no outro, tentando mostrar que seus sentimentos de tristeza e
felicidade eram legítimos. A premissa saudável é assim: um bom
companheiro será seu cúmplice no fundamental e nunca será indiferente a sua
dor ou a sua alegria. Mais ainda, ergue-se, lança em riste, contra quem ousa
atacar você e recebe de braços abertos a quem faz que você se sinta bem.
5. Não se acostume à indiferença
Assumir a indiferença afetiva como um fato irreversível em sua vida é
matar a humanidade que reside em você, porque uma vida displicente com o
próximo perde seu significado. Seucompanheiro não se interessa por você?
Então, não aceite isso! Faça como as flores: solte seu perfume e que o mundo
saiba de sua existência, que os outros possam perceber e respirar você, e que
saibam que você é uma pessoa que continua emocionalmente viva e desperta.
Talvez alguém queira aspirar seu aroma. A inapetência ou a negligência
afetiva constante da pessoa que amamos não corresponde a uma posição
política ou ideológica: é um sintoma.
6. Estilo ou patologia?
Há a pessoa introvertida que tenta demonstrar seus estados emocionais e
não consegue, que sofre por isso e que gostaria de sair do atoleiro da inibição,
e há o típico indiferente crônico, que não se importa com o próximo em
absoluto, que ignora totalmente o que seu companheiro sente e pensa e não
faz nada para mudar isso. O introvertido melhora com ajuda profissional, pois
sua estrutura mental está bloqueada e é necessário destravá-la para que sua
capacidade de amar flua. O indiferente crônico (esquizoide), o egocêntrico
narcisista ou o psicopata desalmado, só para citar alguns, estão em outra
dimensão; requerem muitos anos de terapia e a melhora é duvidosa, sendo, às
vezes, impossível. Como vemos, não é a mesma coisa estar nos braços de um
e de outro. Se você der a mão a uma pessoa tímida ou introvertida, será muito
possível que melhore e sua expressão de afeto deixe de ser insuficiente; mas,
se der a mão a um esquizoide, um narcisista ou um psicopata, você será
arrastado a seus respectivos infernos.
7. O sexo não substitui o afeto
Sexualidade não é a mesma coisa que ternura, embora não sejam
incompatíveis. Embora seja verdade que durante as relações sexuais os
mecanismos de defesa cedem e amolecem (até um esquizoide pode gemer de
prazer), a fisiologia da ternura percorre outros caminhos, mais sensitivos e
carinhosos que o genital. Aqueles que são vítimas de pessoas afetivamente
indiferentes costumam ver no desejo sexual do outro uma forma incipiente de
afeto, já que, durante o coito, o indiferente perde um pouco de sua frieza. O
problema é que ele se entrega ao prazer, e não à pessoa supostamente amada;
não é o sentimento amoroso que dirige o convívio, e sim o desejo carnal.
Ainda assim, os sofredores se empenham em perceber afeto onde não parece
haver, ou não há mesmo.
Uma mulher de 48 anos, que vivia com um indivíduo esquizoide, explicava
assim sua estratégia de sobrevivência afetiva: “Quando o sinto mais
expressivo, mais meu, ou mais ‘normal’, é durante o ato sexual. Aí, eu me
torno o centro único de sua atenção e, às vezes, quando está muito excitado,
ele me acaricia e abraça. Uma vez, sussurrou algo, e quando lhe perguntei,
esperançosa, o que queria me dizer, ele perdeu a ereção. Então, com o tempo
fui aumentando a frequência das relações sexuais para suprir a frieza da vida
cotidiana. Ele acha que sou uma ninfomaníaca descontrolada, mas, na
realidade, não sou mais que uma mulher que deseja se sentir amada e
importante para ele. Parece que, quando tira a roupa, também tira a couraça e
se torna mais carinhoso. Sei que não é a ‘grande ternura’ que uma mulher
esperaria, mas é o mais próximo que consigo chegar”. Uma entrevista com o
homem bastou para eu perceber que durante as relações sexuais ele não
estava “concentrado em sua mulher”, como ela queria pensar, mas
exclusivamente nele, na informação prazerosa de seu próprio corpo.
Vamos repetir: o sexo não substitui a ternura, mas, em alguns casos, ajuda
a fazer perder o autocontrole emocional, e, assim, podem surgir vestígios de
afeto ou de algo parecido. Porém, quando a indiferença é crônica e responde
a um padrão fixo de personalidade, o sexo não passa de sexo puro, e embora
o desejo relaxe músculos e tendões, a frieza afetiva não cede nem um fio de
cabelo. Tudo se reduz a uma fisiologia concentrada no prazer pelo prazer.
Quando nos amam de verdade, o afeto nem sempre dependerá do sexo.
8. Se você não é feliz em seu relacionamento nem vai embora, peça
ajuda profissional
Esse é o limbo dos que amam demais e temem perder seu companheiro.
Vejamos esta conversa: 
Terapeuta (T): A maneira de ele amar a satisfaz?
Paciente (P): Não.
T: O que falta?
P: Mais carinho, gentileza, cortesia, cuidado, compromisso, interesse,
preocupação, carícias...
T: Então faltam muitas coisas.
P: Sim.
T: Poderíamos dar um nome a tudo isso... por exemplo, “indiferença”.
P: Sim, essa é a palavra. A pior palavra para alguém tão apaixonada como
eu.
T: Você sofre muito, não é?
P: Demais, já tentei me matar duas vezes.
T: É uma relação perigosa... Já pensou em deixá-lo?
P: Eu o amo.
T: Entendo. Porém, o amor saudável é recíproco; se não se devolve, se
perde.
P: Eu é que estou perdida...
T: ... resignada a sua sorte.
P: Isso mesmo; nem exijo nem vou embora.
T: Então, o que está esperando?
P: Nada. Absolutamente nada.
Poucos meses depois, o homem a trocou por outra e ela tentou suicídio
pela terceira vez, e felizmente falhou. Depois de dois anos de terapia,
conseguiu retomar sua vida, mais livre e lúcida. Metaforicamente,
costumamos dizer: “Matei-o com a indiferença”. Porém, essa afirmação do
acervo popular não é tão “metafórica”; em minha experiência como
terapeuta, posso afirmar que a indiferença afetiva maltrata e mata, não só no
sentido figurado.
A pior coisa que você pode fazer, quando está com alguém que diz amá-lo
mas que nem olha para você, é não fazer nada. Anote: se você sente que os
dias se tornam cada vez mais longos e chatos, e tem pensamentos negativos
sobre si, o mundo e o futuro, não hesite nem por um instante: peça ajuda
profissional. A depressão está rondando por aí.
 
Princípio 8
Não idealize a pessoa amada;
veja-a como é, cruamente e sem anestesia
Pode ter sido isso, pode ter sido aquilo,
mas se ama e se odeia o que é.
R. Kipling 
O amor é um estado em que o homem vê
decididamente as coisas como não são.
F. Nietzsche 
Os modos de idealizar a pessoa amada são muitos e variados. Você pode
situá-la no céu ou no inferno, mentir aos outros e a si, distorcer, imaginar
coisas que não são, acrescentar ou tirar, aumentar ou diminuir, acomodar e
desacomodar, enfim, pode inventar o que quiser da pessoa amada e até se
apaixonar depois de criar a imagem. Por experiência, cheguei à conclusão de
que praticamente todos os apaixonados, em maior ou menor grau, inventam
de alguma maneira seu companheiro. A parte racional ama o indivíduo
verdadeiro, e o lado idealista e romântico constrói virtualmente a pessoa dos
nossos sonhos. Ao querer “polir” o outro e aperfeiçoá-lo ao máximo, criamos
uma casca psicológica isolante (a imagem projetada), que nos impede de
fazer um verdadeiro contato com a outra pessoa. Não cante vitória; isso
também acontece com você.
Interiorizamos duas máximas sociais que são verdadeiras: “Se amar o que
eu amo, nós nos amaremos mais” ou “Se valorizar o que eu valorizo, nós nos
amaremos mais”; e fazemos qualquer coisa para isso, mesmo que seja alterar
os dados. Quem já não ouviu a expressão “Somos iguaizinhos”? Como se a
superposição absoluta permitisse um acesso direto à felicidade. Pois não é
verdade. Vasculhando em mais de uma relação “tal e qual”, vamos nos
surpreender com as discrepâncias mascaradas que se escondem nelas: os
casais superpostos em 100% dos casos acabam confinados à rotina. Se você
consegue antecipar com bastante certeza o que seu companheiro pensa, sente
ou faz, está mal; uma relação sem sobressaltos, surpresas e descobertas é tão
previsível quanto chata.
Ver o parceiro tal como é, em sua mais seca e crua humanidade, requer
certa dose de coragem, porque, se limparmos a mente de autoenganos,
poderemos não gostar do que veremos. Sobre isso, alguém me dizia: “E se eu
não gostar do que descobrir nela?”. Pois, se isso acontecer, tome um bom
calmante e medite bem sobre a questão, porque você está com a pessoa errada
(a não ser que prefira ter um “companheiro virtual”). Não estou dizendo que
tudo em seu par deve lhe agradar; ninguém é perfeito. Estou falando é de
fazer um contato full, completo, sem maquiagem nem camuflagens, e depois
ponderarse lhe apetece, se quer se arriscar. Ame o que o outro é, ou não ame
nada.
IDEALIZAÇÃO E DEFESA DO EGO
Às vezes, as mentes apaixonadas têm necessidade de superdimensionar o
objeto de seu amor para obter um ganho adicional e engordar o ego: “Se meu
companheiro é genial e é feliz comigo, algo de especial devo ter”. Você
idealiza o outro para se sentir melhor consigo mesmo. A premissa é
claramente narcisista: Deus nos cria e nós nos juntamos. Conheci pessoas
que na hora de apresentar seu companheiro, expõem o currículo dele como se
o quisessem negociar. Exibir-se com a pessoa amada é transformá-la em um
objeto de desejo, uma conquista “pessoal” ou um triunfo. Algumas pessoas os
penduram como medalhas, ao lado de outras coisas de valor.
Não digo que devemos ser insensíveis aos atributos da pessoa que
amamos, mas uma coisa é admiração, e outra é idolatria com fins lucrativos.
Fazer a própria autoestima depender da valorização de nosso par é uma faca
de dois gumes. Você não vai conseguir cuidar de seu próprio crescimento
pessoal (vai viver enganchado a um ego alheio) e, cedo ou tarde, vai acabar
exagerando algumas virtudes dele para que revertam em sua própria
aceitação. Repito: se o que você deseja é louvar o valor pessoal de seu
companheiro para maximizar o seu, vai viver tentando manter a “boa
imagem” do outro, perdendo seu ponto de referência interno.
QUATRO MANEIRAS DE IDEALIZAR A PESSOA AMADA
E DISTORCER A REALIDADE EM FAVOR DO “AMOR”
Não só idealizamos o amor, como também a pessoa que amamos, objeto e
sujeito de nossos desejos amorosos. Muita gente pretende tirar a pessoa
amada da realidade e dar-lhe um caráter astral: onipresente (já que ocupa
todo nosso ser), onipotente (já que pode tudo) e onisciente (já que é fonte de
profunda sabedoria). A pergunta fatídica é: para que você quer um
companheiro com superpoderes? Você não está grande demais para brincar
de super-heróis? Sei que o amor distorce a seu favor, mas se você acredita
que está com um ser quase sobrenatural, o lado humano dele lhe parecerá
insuportável. Esse é o problema principal da idealização amorosa: dar de cara
com os fatos e descobrir que seu companheiro sua, cheira, se deprime, se
frustra, é egoísta às vezes, fica confuso, chora, e coisas do gênero. Um
paciente me dizia entre espantado e desiludido: “Não posso acreditar que a
tenham demitido. Ela ia ser gerente da empresa. Mas o que mais me
surpreendeu foi sua reação. Eu a vi tão fraca e insegura! Não sei o que
pensar, estou um pouco decepcionado”. E o que meu paciente esperava? Que,
depois de perder o emprego, a mulher pulasse de alegria? Desiludir-se porque
o outro tem uma reação normal e compreensível beira a crueldade.
Independente dos motivos pelos quais tendemos a idealizar a pessoa amada
(por exemplo, amor romântico, medo, alimento do próprio ego, necessidade
de aprovação social), há certa maneira idiossincrásica de distorcer a
informação. Com fins didáticos, vou apontar as quatro formas mais comuns
de idealização, tendo em conta que, na prática, todas costumam funcionar
juntas e mescladas.
1. Cegueira amorosa, ou ignorar o mal
Algumas idealizações são conscientes e abertamente descaradas. Uma
mulher me explicava: “Todos os homens que tive foram uma calamidade. Eu
me concentrava nos defeitos que tinham e morria de raiva. Então, decidi fazer
vista grossa e olhar para outro lado quando algo não me agradava. É melhor
assim, sofro menos, e, aos cinquenta anos, sei que não posso ser tão
exigente”. A estratégia de enfrentamento escolhida por minha paciente
poderia ser resumida assim: não me interessa conhecer ou ver o que não
quero do outro, então, ignoro; não existe e pronto.
Uma infinidade de pessoas ama somente a parte do outro que lhe convém
ou que a afeta menos: “Meu marido é infiel? Essa parte não me interessa”.
“Ela usa drogas? Não sei do que está falando.” “Meu marido joga nosso
dinheiro no cassino? Não acho que seja verdade.” Táticas de sobrevivência
para enfrentar uma realidade que é demais para nós e não sabemos o que
fazer com ela. Quando o perigo ronda, alguns fazem como o avestruz e
enfiam a cabeça em um buraco, achando que com isso o risco será menor. As
crianças pequenas recorrem a uma tática similar quando estão diante de algo
de que não gostam: tampam os olhos e pensam: “Se não vejo, não existe”.
Obviamente, o custo de tamanho autoengano é fatal para qualquer
relacionamento, porque o lado que não queremos ver nem assumir existe e se
manifestará a seu devido tempo, gerando caos e desconcerto.
Há certa imaturidade e irresponsabilidade em não levar em conta os
comportamentos negativos do outro. Por exemplo: se não lhe importa que seu
companheiro seja infiel ou que jogue suas economias em qualquer casa de
apostas, vai acabar com chifres na cabeça e na pobreza absoluta. É o risco de
ignorar o que não se deve ignorar, porque uma coisa é ficar obcecado pelos
defeitos da pessoa que amamos, e outra é desconhecê-los por medo de
enfrentá-los. Esse otimismo deformado não anima, engana. Ao passo que um
bom pessimista é, acima de tudo, um indivíduo bem informado, e quanto
mais informado for, menos probabilidades de erros haverá. Entre o otimismo
eufórico da paixão e o ceticismo inteligente do amor maduro, recomendo este
último, mesmo que não traga friozinho na barriga.
2. Focar o bom e exagerá-lo
É a outra face da cegueira amorosa: ressaltar o bom e, se possível,
maximizá-lo. Parabenizar e festejar o bom comportamento acima dos
negativos, mesmo que esses últimos sejam muitos e consideravelmente mais
graves. É a compulsão pelo reforço que se foca exclusivamente no positivo e
o multiplica até criar a impressão de que tudo em seu par é maravilhoso.
Dessa maneira, a pessoa apaixonada passa a premiar e elogiar o outro por
qualquer coisa, mesmo que seja o mais normal do mundo: “Você é
maravilhoso!”, “Você é genial!”, “Não existe ninguém como você!”, “Você
não parece deste planeta!”, e coisas do gênero. E de tanto reforçar
estrondosamente as condutas da pessoa amada e concentrar-se somente no
“bom”, ambos acabam acreditando na mentira. Não acho que devemos ser
rigorosamente objetivos com a pessoa amada (dentre outras coisas, porque o
amor não nos permite), mas uma coisa é o jogo do embelezamento romântico
e inofensivo, e outra, é ver grandiosidade onde não existe.
Se todos os dias e a todo momento você ouve que é o mais parecido a um
deus, vai acabar achando que quem o elogia deve ter certa razão. No dia em
que menos se espera, você se olha no espelho e diz a si mesmo: “Por que
não?”. O vínculo que se cria entre um elogiador compulsivo e um elogiado
complacente costuma ser altamente simbiótico e muito resistente à mudança.
Certa vez, assisti a uma cena com um casal que reunia essas condições. Só
para citar um exemplo do que foi um rosário de congratulações e aplausos,
vou me referir à salada. Uma simples e insípida salada! O homem, que
segundo a mulher era excelente cozinheiro, colocou simetricamente em um
prato grande umas alfaces da mesma variedade; depois, acrescentou um
pouco de agrião, dois tomates em rodelas e sobre cada rodela um rabanete.
Temperou com azeite de oliva e vinagre. A esposa lambia os beiços com cada
folha de alface que provava, como se fosse um tipo especial de caviar. O
resultado foi: alface, azeite, vinagre, e meia hora de comentários sobre a
importância da distribuição das verduras no prato e a proporção exata dos
ingredientes. Sem dúvida, algo próximo ao delírio culinário, enquanto os
comensais faziam esforços vãos para encontrar genialidade onde não havia.
Acho que, depois de tantos anos de reforço indiscriminado, o homem deve ter
perdido o senso de proporção. E analisando com cuidado, recordo que ele,
com dissimulação e amparado em uma falsa modéstia, se orgulhava das
pálidas e insípidas alfaces. É tão fácil criar um monstro de vaidade!
Se seu companheiro lhe diz que você é a pessoa mais maravilhosa, única,
especial, brilhante, sexy, original, criativa, importante, e coisas do gênero,
aproveite, mas não leve tudo ao pé da letra,não acredite em tudo. Essa frase
de Ortega y Gasset nos possibilita uma reflexão interessante: “Não é que o
amor erre às vezes, é que é um erro; nós nos apaixonamos quando nossa
imaginação projeta sobre outra pessoa perfeições inexistentes”. O que você
tanto projeta? Tem consciência disso?
3. Minimizar os problemas, ou “Não é tão grave”
Algumas pessoas passam a vida escondendo a sujeira debaixo do tapete,
até que um dia (isso sempre acontece) a montanha de lixo é tão grande que as
obriga a olhar embaixo. E é quando, sem ter mais como escapar, ao dar de
cara com a realidade, utilizam a distorção de minimizar: “Não é para tanto”
ou “Não me parece tão grave”. Aqui, não ignoramos os problemas; reduzimo-
los ou os interpretamos de um jeito benévolo, quando de benévolos não têm
nada. Enquanto no caso anterior exageramos o bom para construir um paraíso
emocional fictício, aqui colocamos a lupa ao contrário e tudo se torna
imperceptível. Vejamos dois casos.
a. “Não são agressões mal-intencionadas”
Um paciente era vítima de uma mulher extremamente agressiva, que
chegou até a agredi-lo fisicamente. Foi ao meu consultório porque a esposa
havia jogado um ferro de passar na cabeça dele, e precisou ir ao pronto-
socorro. Uma vez ali, estimulado por sua família, tentou fazer uma denúncia
de maus-tratos, mas o delegado de plantão o puxou pelo braço dizendo que
em sua delegacia não atendiam “homens efeminados e doentes”. Com a
cabeça enfaixada e o ego ferido, começou as consultas com a esperança de
que sua esposa fosse também, “para controlar um pouco seu caráter”.
Vejamos parte de uma conversa que tive com ele: 
Terapeuta (T): Há quantos anos vem sofrendo esses maus-tratos?
Paciente (P): Há uns quinze anos.
T: É muito tempo. Alguma vez já se defendeu?
P: O senhor está exagerando; minha mulher não é uma criminosa.
T: É verdade. Porém, não acha que os treze pontos que lhe deram na
cabeça, o hematoma e os exames neurológicos são para se preocupar? O
desenlace poderia ter sido fatal.
P: Esses atos assim tão violentos aconteceram só três vezes. A maioria das
vezes são só insultos e empurrões.
T: Não lhe incomoda que o insultem e empurrem?
P: Isso acontece com quase todos os casais.
T: Sinto discordar, mas não é verdade.
P: Quando existe amor, tudo se supera, e ela é uma boa pessoa. O único
problema é que tem um gênio muito forte.
T: Você tem medo?
P: Dela?
T: Sim.
P: Um pouco, mas nem sempre. Dá para levar. Não é que eu fique quieto e
não tente me defender, mas penso muito nas coisas antes de falar ou
fazer.
T: Por que pediu ajuda?
P: Minha família insistiu, mas eu acho que não é necessário.
T: O que acha de eu falar com ela?
P: Acho bom.
A cada pergunta minha ele dava de ombros, como dizendo: “Não vale a
pena”. Podemos tornar a vida pequena, se quisermos. Meu paciente tinha um
problema de evitação crônica e falta de assertividade que o levava a
menosprezar os fatos negativos de sua mulher e a não medir suas
consequências reais. Só uma terapia intensa e de longo prazo conseguiu fazer
que ele pudesse ter um relacionamento mais funcional. A mulher conseguiu
diminuir suas condutas agressivas e ter mais autocontrole e meu paciente
aprendeu a não minimizar a informação real e a ser mais assertivo.
b. “Deus aperta, mas não enforca”
Recordo o caso de uma mulher muito dependente, casada com um
alcoólatra violento. A tática defensiva de minha paciente, no momento de ser
atacada pelo marido, era cobrir o rosto com as mãos e repetir a si mesma, em
voz alta, sem parar: “Deus aperta, mas não enforca! Deus aperta, mas não
enforca!”. Sua crença era que Deus nos apresenta uma infinidade de
dificuldades para que cresçamos e aprendamos, mas jamais pretende nos
fazer mal. Independente do respeito que mereça sua maneira de pensar,
procurei fazê-la entender que, em seu caso, quem apertava e enforcava era
seu marido. Eu lhe sugeri que refletisse sobre um dito popular que é aceito
pelas pessoas que compartilhavam suas crenças religiosas: “A Deus rogando
e com o malho dando”.
Tenho sérias dúvidas de que um ser superior nos “aperte” para que
tomemos consciência e reajamos; e também não acredito que tal aperto
justifique a violação dos direitos humanos. Porém, minha paciente estava
protegida por um monumental mecanismo de defesa muito difícil de
desarticular. Em uma sessão, ela afirmou: “Alguma coisa tenho que aprender
com isso; a vida deve estar querendo me dizer alguma coisa”. Respondi que
talvez a vida, a natureza, Deus ou o cosmo estivesse sugerindo que corresse
para o mais longe possível e denunciasse o infrator. Existem formas mais
civilizadas e humanas de aprender que se submeter à tortura (embora alguns
ainda acreditem que “a letra, com sangue entra”). Ela acreditava que seu
marido era um instrumento quase divino que lhe permitia se purificar. Não só
o idealizava; santificava-o. Um conselheiro religioso conseguiu fazê-la reagir
e ter acesso a seu Deus de uma maneira menos autodestrutiva, e, é claro, sem
que seu marido tivesse nenhuma função de intermediário.
4. Pretender ser amigo de quem nos machuca
Aqui a estratégia é fechar a conta e passar a régua, para modificar o
vínculo de tal maneira que a idealização não se perca. O segredo é conferir ao
companheiro o status de “amigo”, para salvar sua magnificência: “Ele não é
um bom marido, mas é um excelente amigo”; ou “Como esposa é um
desastre, mas como amiga é excepcional”. Tirar uma idealização e conectar-
se a outra: trocar de pedestal sem afetar a condição do indivíduo. A pessoa
que uns dias antes poderia ter sido considerada um espanto é agora avaliada
positivamente. Como compreender isso? Podemos pular de quase inimigos a
grandes amigos da noite para o dia? Pode alguém que tornou amarga sua vida
por anos transformar-se repentinamente e sem rancores em um de seus
melhores amigos? Os amigos são respeitados e admirados, gostamos deles e
confiamos neles, e isso requer uma história prévia, na qual a proximidade vai
se construindo no dia a dia, em volta a um número considerável de afinidades
e experiências de vida. Não podemos mudar o status afetivo de uma relação
em um passe de mágica e ignorar o passado. Perdoar não é sofrer amnésia; é
recordar sem dor, e isso se consegue com um trabalho interno sério e
constante, e não por decreto.
Um paciente me dizia: “Não estamos mais juntos, mas somos amigos. Pelo
menos, mantenho um vínculo com ela e não a perco totalmente. Vou ficar
com seu lado bom”. E o que o homem devia fazer com o amor que saía por
seus poros e o angustiava? O que fazer com o sofrimento que ela lhe havia
gerado? Escondê-lo, sublimá-lo em uma suposta amizade que se
transformaria em um novo suplício por estar perto dela e não a poder nem
tocar? Ser “amigo” de alguém que amamos e não nos ama não deixa de ser
uma “estupidez amorosa” que, sem dúvida, nos fará mal. Não superestime
suas forças.
O CULTO À PERSONALIDADE
O culto à personalidade caracteriza-se por uma excessiva adulação e
adoração à pessoa amada. Aqueles que entram nessa variante emocional
passam do amor à submissão e do carinho à reverência. Uma vez, ouvi uma
jovem dizer a seu namorado o seguinte: “Você não sabe quanto agradeço por
ter me notado. Uma pessoa como você, que está acima dos outros”. Deve ser
muito complicado apaixonar-se pelo líder, o professor ou o guru da vez,
sendo um simples mortal. É verdade que às vezes erotizamos a quem
admiramos, mas uma relação a dois saudável não é uma “seita a dois”, onde
um é o “sagrado”. É preciso amar o companheiro de uma forma descontraída,
degustá-lo, desfrutá-lo, abraçá-lo, fazer cócegas, debochar dele, rir, invadir
seu território e compartilhar segredos, sem tantos códigos e requisitos
formais, sem cair a seus pés ou acender velas para ele. Quando você presta
homenagens à pessoa amada, passa a ser súdito, e não companheiro.
Para que entenda melhor: se você identifica em si alguns dos seguintes
comportamentos ou atitudes, está enfiado até o nariz em uma relação afetiva
cujo motor é o culto à personalidade.
Você sente que a pessoa amadaé alguém superdotado e fora de série,
diante de quem se prostra. O amor que você sente se confunde com
veneração, devoção, adoração ou idolatria. A personalidade dela
merece que lhe rendam culto, porque, embora não seja um deus, ou
uma deusa, parece bastante.
Você aceita sem criticar tudo que seu companheiro diz ou sugere.
Acha que seus pontos de vista são a expressão da mais profunda
sabedoria, o que lhe impossibilita qualquer refutação ou oposição.
Pouco a pouco, o vínculo afetivo/sexual vai se transformando em uma
relação professor/aluno. Como fazer amor com seu “guia espiritual”?
Como ser você mesmo com alguém que está “mais evoluído” e tem
anos-luz de vantagem sobre você?
Você ataca qualquer pessoa que não veja o inefável em seu
companheiro. A premissa é: “Quem não consegue vislumbrar sua
maravilhosa essência não merece estar ao seu lado e será declarado
meu inimigo pessoal”.
Você acredita que deve se tornar o biógrafo de seu par e documentar
aspectos de sua vida cotidiana, como manter um diário com suas
frases célebres ou seus pensamentos, um álbum com suas fotos,
guardar a roupa que ele não usa mais, gravar ou filmar suas atividades,
enfim, tentar construir uma memória histórica, bem organizada e
sistematizada, que faça as vezes de santuário e arquivo.
Você lhe atribui dons ou capacidades fora do normal e estabelece
correlações ilusórias entre esses “poderes” e a realidade. Por exemplo,
acredita que ele é capaz de adivinhar o futuro, identificar a maldade e
a bondade das pessoas só de olhar, ler a mente, e coisas do gênero.
Não estou me referindo à exaltação natural e divertida que fazemos da
pessoa amada, quando adoçamos seus ouvidos para que estremeça e
exageramos os elogios para apimentar o romance. Estou falando da certeza
irracional e infundada de que nosso parceiro é tão especial e único que o
amor comum não basta para cumular sua extraordinária condição. Não falo
de amar, e sim de canonizar. Às vezes, quando enfrento certas idealizações
afetivas francamente descabidas, costumo perguntar a meus pacientes:
“Desculpe, mas seu companheiro voa?”.
DA IDEALIZAÇÃO AO DESPREZO
Não existe verdade maior: podemos passar rapidamente do amor ao ódio se
apertarmos o botão certo. Às vezes, a indignação e a ira são disparadas com
tanta força que o amor sai pela porta dos fundos e não resta mais nada. Já
comentamos que a decepção possui essa faculdade libertadora de nos tirar das
garras do mau amor, mas não é a única. Algumas pessoas com tendência à
idealização afetiva, quando descobrem que seus companheiros já não as
amam nem desejam, sentem-se profundamente “ofendidas” e passam da
veneração ao desprezo em um instante. Não só a tristeza pela perda as toma,
mas também, e principalmente, a cólera, por já não pertencer ao mundo
celestial e admirável que o outro lhes oferecia; é a síndrome do anjo caído e
sua consequente expulsão do paraíso amoroso, mesmo que seja uma ilusão.
Alguns apaixonados pensam que sua metade da laranja tem a “obrigação”
de amá-los ou desejá-los, e quando isso não ocorre, sentem-se “enganados”.
Não deixa de ser absurdo exigir amor como se exige respeito, porque, se você
pensa que tem o direito de ser amado, o outro teria o dever de amá-lo, o que é
eticamente incorreto. Uma mulher gritava a seu desapaixonado marido:
“Quem você pensa que é?! Acha que pode deixar de me amar de uma hora
para outra?! Eu mereço respeito!”. E depois, batendo na mesa, gritava:
“Traidor! Traidor!”. Uns minutos antes de saber que ele não a amava mais, a
mulher havia dito que seu marido era o “melhor homem do mundo”, cheio de
valores e virtudes. E em um abrir e fechar de olhos, a valoração positiva se
despedaçou e ela passou do encanto ao desencanto. O motivo? Ele já não a
amava. Perdoamos mais fácil o desprezo ou o desamor às pessoas comuns
que a nossos ídolos. Mesmo que não nos agrade, nosso companheiro tem
direito a deixar de nos amar. E o que podemos exigir, então? O direito de
receber a tempo essa informação que possa nos machucar. Se a pessoa que
você idealizou já não o ama, não será um simples luto que precisará
enfrentar, e sim o desterro existencial de uma bem-aventurança que preenchia
seu ser, mesmo que imaginária. Você a criou.
PEQUENO GUIA PARA NÃO IDEALIZAR SEU
COMPANHEIRO E ATERRISSAR O AMOR
1. Quem você ama: seu companheiro real ou imaginado?
Esta é uma pergunta inevitável se quiser manter em pé seu relacionamento.
Possivelmente vai lhe dar certo medo interrogar-se sobre o que você tanto
“acrescentou” ou “tirou” da pessoa que ama. O primeiro passo para saber
com quem você está realmente é assumir que poderia ter errado na escolha
que fez; porém, para seu consolo, muitas pessoas que decidem ver o amado
tal como é, sem distorções nem maquiagens, descobrem que o “não
idealizado” é melhor e mais gratificante que o personagem “inventado”.
Vamos começar pelo elementar e até óbvio: seu par não é perfeito. Bem-
vindo ao mundo dos normais. E como a pessoa amada não é um corpo
glorioso, você terá que lidar com seu lado bom e seu lado ruim. Isso o levará
a tirar novas conclusões sobre o suportável e o insuportável, ver se as
virtudes pesam mais que os defeitos ou vice-versa, e como se ajeita com o
ruim. Essa é a má notícia para os idealizadores: se você ama só uma parte do
outro, não pode construir uma relação estável. Pode ser que algumas coisas
não lhe agradem, mas deve haver uma aceitação de sua essência, de seu valor
pessoal, independente dos defeitos.
Então, para saber a quem você ama, precisa conhecer a fundo seu
companheiro. Em minha experiência como terapeuta, surpreende-me ver a
ignorância de algumas pessoas acerca de seus companheiros e a surpresa que
manifestam quando lhes conto alguma coisa. Vejamos dois exemplos de
sobressaltos positivos.
Eu disse ao marido: “Sua mulher adora fantasias sexuais. Uma de suas
preferidas seria fazer um ménage à trois com você e outra mulher”. O
homem ficou boquiaberto e disse: “Não posso acreditar, achei que ela
era uma santinha. Meu Deus, eu tenho a mesma fantasia!”. Como não
imaginar o encontro, nesse dia, quando cada um disser a verdade e
apresentar suas cartas sexuais? Isso não significa que vão desesperada
e compulsivamente buscar encontros com qualquer pessoa. O erotismo
fantasioso é para se degustar devagar, de comum acordo e sem
pressões, seja de forma real ou imaginária. É brincar junto, descobrir-
se e divertir-se. Abriu-se entre eles uma porta que ficara fechada por
anos.
Eu disse a uma mulher: “Seu marido lê muitos livros de budismo.
Guarda-os no escritório porque teme que você, por ser católica, o
critique”. A mulher me olha espantada: “Mas eu estou fazendo aulas
de budismo tibetano e meditação!”. Ela fazia ioga de manhã, depois
que ele saía. Parece estranho, mas acontece com mais frequência do
que se acredita. Vivemos com alguém que dizemos amar e, por falta
de comunicação, acabamos em duas bolhas sem conexão. Nesse caso,
eles não sabiam de suas inclinações espirituais!
Os exemplos mencionados deixam claro que muitas vezes não temos
contato suficiente, e embora vivamos debaixo do mesmo teto, não fazemos
isso intimamente: se você não conhece seu companheiro, provavelmente ele
também não a conhece.
2. Identifique as distorções com as quais idealiza
Se você já aceitou, mesmo que contrariado, que talvez não conheça tão
bem sua metade da laranja, deve dar apoio ao benefício da dúvida com atos
inteligentes e psicologicamente bem encaminhados. Se for corajoso,
arrancará o véu dos “embelezadores” para ver crua e diretamente a pessoa
que ama. Identifique as distorções das quais falamos (cegueira afetiva,
exagerar o bom ou minimizar o ruim) e, quando souber quais são, elimine-as.
Você não vai descartar o ruim, mas integrá-lo ao resto. Também não
maximizará seus aspectos positivos nem minimizará seus erros, mas os
observará em sua verdadeira dimensão. Tudo em sua justa medida. Para
poder olhar sem distorções, você tem que renunciar à ideia de que a pessoa
que ama beira a perfeição.
Ver a pessoa amada sem distorções é olhar para elaholisticamente: indagar
por sua vida cotidiana, sua história, sua visão do mundo, cada um de seus
papéis e demais recantos de sua existência. Seu companheiro, além de ser seu
companheiro, tem pais, irmãos, trabalho, amigos, filhos, gente de fora com
quem se relaciona, estabelece vínculos e cria sentimentos. E quando fizer a
viagem desprevenido (sem distorções) rumo ao ser amado, convide-o a
repetir a mesma viagem em sentido inverso. Seja qual for sua decisão, você
agirá com pleno conhecimento de causa; aquilo que você pensar da pessoa
que ama não será uma mentira autoimposta, e sim a certeza de quem age por
convicção.
3. Para que você quer um superparceiro?
Você é daquelas pessoas que sonham em ter como companheiro uma top
model, ou um galã de novela? Pense um pouco e responda com sinceridade:
para que você quer uma pessoa assim? Teria que manter na linha uma
multidão desenfreada de admiradores! Além do mais, depois de uns meses
juntos, a aparência física – quando é a única coisa que há – tende a perder seu
efeito inicial (deixa de ser novidade). Talvez já tenha acontecido isso com
você. Você está com alguém muito atraente e, depois de um tempo, não
parece mais o que era. Normaliza-se, enfeia-se. E, quando menos espera,
você começa a gostar de alguém que está muito longe de seus padrões de
beleza. Por quê? Porque você não se apaixona pela fama, pelo status, por um
corpo ou uma carteira (embora essas coisas ajudem bastante na etapa inicial
da conquista): você se apaixona pela pessoa, pelo que é em si mesma, por sua
personalidade, por seu humor, por seu jeito, seu sorriso, pelo modo como
cuida de sua família, por sua sensibilidade, por suas ideias. Não digo que o
físico não importa, o que afirmo é que não é suficiente para se apaixonar:
mais importante que o corpo, é o que se faz com ele.
Supercompanheiros não existem, de modo que não invente nem exija um.
A armadilha é assim: se o sonho é encontrar a mulher nota dez ou o homem
perfeito, por exemplo, famosos, ricos, bonitos, mas nenhuma dessas pessoas
especiais repara em você, então você procura um companheiro “normal” (que
lhe deveria bastar) e começa (consciente ou inconscientemente) a “recompô-
lo” e enfeitá-lo para que suba de nível. Essa “mudança extrema” nem sequer
precisa ser real; basta que a mente o perceba assim e você possa se exibir
socialmente com ele. Pode haver maior estupidez, maior desgaste, maior
desrespeito para com o outro?
4. Não preste reverência a ninguém
Dar reforços, comemorar o sucesso da pessoa amada ou expressar afeto
livremente é agradável e mantém ativa sua condição humana. Entregar amor
ao próximo parece ser prazeroso em si mesmo; porém, tudo faz pensar que,
quando estamos acompanhados, esse “altruísmo emocional” requer
retroalimentação para que funcione direito. Nossa mente busca reciprocidade
na pessoa amada. Essa correspondência não precisa ser milimétrica e
meticulosa, mas deve existir, porque o coração e o corpo a demandam. Não
se trata de egoísmo, e sim de necessidade e expectativas: se damos sexo,
esperamos sexo; e se somos fiéis, esperamos fidelidade. Amor com amor se
paga, diz o ditado, e não há nada de mercantilista nisso; simplesmente não
queremos estar com alguém narcisista ou indiferente que nos olhe por cima
do ombro ou que se “esqueça” de nos amar.
No processo de idealização do outro, esse toma-lá-dá-cá, o equilíbrio
essencial da democracia amorosa, rompe-se ou se enfraquece, pois vemos o
outro como um ser superior. Prestar culto à pessoa amada levará à submissão
e à obediência cega: quando sua vida adquire sentido graças a seu
companheiro, você já está ladeira abaixo.
5. Que o amem pelo que você é
Este é o outro ponto de vista: o daqueles idealizados que já estão um pouco
fartos de representar o papel de pessoas especiais. Nunca pensou que talvez
seu companheiro não goste de tanta parafernália em volta de sua
personalidade? Não deixa de ser um peso incômodo manter o nível exigido
por um súdito.
Se quando seu companheiro o idealiza, você aceita a exaltação e fica ali,
hipnotizado pelos elogios, alguma coisa não anda bem com sua autoestima.
Não seria preferível que o amassem pelo que você é? Em certa ocasião,
perguntei a uma mulher se realmente amava seu marido, e ela me respondeu:
“Não sei, não tenho certeza. Mas ele sim me admira e me ama; ele me faz
sentir como uma rainha”. Você quer um companheiro ou um adulador
profissional? Vamos aceitar que é tentador que nos elevem à categoria de
semideus, há algo de mitológico e mágico nisso, além de muitas vezes ser
excitante. Fantasiar com ser Zeus ou Afrodite tem seu encanto (conheço
alguns que transformaram isso em hábito sexual); porém, não falta quem se
apegue ao personagem e, assim como ocorre com quem prova certas drogas,
fica viciado. Sentir-se idealizado cria dependência e vício nas pessoas
inseguras. Um homem, elevado às mais altas esferas cósmicas por sua
esposa, dizia-me: “Eu sei que o que ela me diz não é verdade, mas é como se
fosse. Prefiro acreditar que é”. Uma Matrix amorosa: viver na ilusão do
autoengano afetivo como se essa fosse a realidade. Dizem-lhe que não existe
um amante como você, e você acredita; que você é a pessoa mais linda do
planeta, e você acredita; que ninguém tem sua inteligência, e você se sente
Einstein. Depois de alguns anos, além de ter perdido sua identidade, você
será um acúmulo de mentiras insustentáveis.
6. O amor terreno é mais divertido
Esta é uma questão eminentemente prática e de bom senso. A graça do
amor humano não está em sua santidade, e sim na humanidade imperfeita que
nos define. Por isso, o amor pode nos levar ao maior sofrimento ou à maior
felicidade. O amor glorificado é chato e sério, porque, por conta do “respeito
reverencial”, perde-se o humor, a travessura, a espontaneidade, a surpresa e
qualquer coisa que quebre a formalidade de uma maneira irreverente.
Ninguém faz uma brincadeira com o líder da seita e sai ileso: virão os golpes
no peito, as autopunições e uma ou outra oferenda para compensar o
desrespeito. Melhor um amor terreno com alguém de carne e osso, sem
muitos momentos estelares; melhor um amor defeituoso e tão realista e
humano quanto possível. Se o amor normal não lhe basta, você tem um
problema, porque esse amor é o único que existe.
 
Princípio 9
O amor não tem idade,
mas os apaixonados sim
Feliz aquele que foi jovem em sua juventude; feliz aquele que soube
amadurecer a tempo.
A. Pushkin 
Nos olhos do jovem, arde a chama;
nos do velho, brilha a luz.
Victor Hugo 
O amor não tem idade? Talvez seja verdade: podemos nos apaixonar aos cem
anos por um adolescente, ou pela professora do colégio quando somos
moleques. Parece que o amor não respeita cronologias: solta suas redes e
ficamos presos nelas, todos contra todos, não importa a época. Porém,
embora seja verdade que o amor parece não ter idade, os apaixonados têm.
“Eu com quarenta e você com vinte”, diz uma canção romântica, tentando
mostrar que não é tão fácil balancear as diferenças cronológicas. Ou o
inverso: “Eu vinte e você quarenta”, ou cinquenta, sessenta... Embora Cupido
não respeite idade nem condição social, a convivência leva isso em conta,
sim. O sentimento amoroso deve ser posto em seu devido lugar; não atribuir-
lhe a responsabilidade total, e aceitar que, quando cruzamos longevidade e
afeto, a questão é mais complexa do que parece.
Uma paciente de 52 anos, separada e com dois filhos adultos, apaixonou-se
por um jovem com metade de sua idade. Não julgo as intenções do
apaixonado, mas o fato de ela ser uma pessoa muito rica criava certo receio
nas pessoas que a cercavam, e especialmente em sua família, que se opunha
ao relacionamento. Especialmente o pai de minha paciente, que não podia
imaginar como seria ter um genro com cara de neto. Apesar dos protestos
enfáticos dos outros, ela deu asas a seu romance aberta e publicamente, sem
esconder nada. Diferente do que fazem algumas mulheres famosas e ricas,
que se envolvem com um homem bonito e jovem para aproveitar por um
tempo (sabendo que muito provavelmentenão durará a vida toda), minha
paciente, que era uma romântica empedernida, tomou um rumo diferente:
apaixonou-se e quis se casar. Não queria uma aventura, e sim um marido de
papel passado. Em uma sessão, ela me disse: “Quero me casar, e não estou
tão velha para ter filhos”; suas expectativas eram sérias e decisivas. As do
homem eram um pouco mais cautelosas: “Por enquanto não quero ter filhos,
e o casamento me assusta um pouco”. Ela começou a ajudá-lo
economicamente, pagou-lhe um mestrado na universidade e alugou-lhe um
apartamento, sem se sentir mal com isso. Em certa ocasião, perguntei-lhe
quanto achava que o dinheiro pesava em sua relação, e ela respondeu, de
maneira categórica, que no amor que eles sentiam não havia interesses
escusos. Porém, uns dias depois, o futuro consorte lhe fez uma proposta
indiscreta e desagradável: “Se realmente me ama, dê-me uma casa e ponha-a
em meu nome”. E como o amor às vezes é melindroso, esse pedido produziu
em minha paciente uma decepção radical. Consternada e abatida, primeiro
hesitou, e depois decidiu não o ver mais, apesar de seus sentimentos.
Obviamente, não se deve generalizar e pensar que todas as pessoas que se
envolvem com alguém mais velho e rico são mal-intencionadas ou
exploradoras, mas que não reste dúvida: há muitos “caça-fortunas” por aí
rondando o patrimônio alheio.
Se o que você quer é uma aventura, tanto faz, mas se o que quer é uma
relação “séria”, é melhor começar a esfriar um pouco os ímpetos e tomar
decisões mais pensadas e razoáveis. Lembre-se que a diferença inicial dos
anos aumenta à medida que o tempo passa, e o que é aceitável no início
torna-se mais pesado à medida que os anos vão passando. Não digo que é
impossível, só que é importante preparar-se para isso. Por exemplo, uma
diferença de 22 anos quando se é relativamente jovem (por exemplo, 18 e 40)
não é a mesma coisa que a uma idade mais avançada (por exemplo, 50 e 72).
Embora sejam numericamente os mesmos 22 anos, as necessidades mudam,
as metas são revistas, o impulso se acalma e a visão de mundo vai se
transformando. Insisto: não acho que seja impossível, mas não é fácil quando
se fazem projeções de médio ou longo prazo.
A MÚTUA INFLUÊNCIA PSICOLÓGICA
Conheci casais nos quais a diferença de idade se reduz psicologicamente
devido à atitude dos apaixonados. A pessoa mais jovem é mentalmente
madura e a mais velha possui um espírito juvenil e vivo. No amor, não se
juntam somente os corpos, mas também as mentes, as crenças, a vontade de
viver e as ideologias. Lembro-me de um casal: ela tinha 35 anos e ele 64.
Eram pessoas muito especiais a quem a diferença mal afetava. Dentre outras
coisas, uma grande paixão os unia: a arte. Ambos moravam em uma casa de
campo, ele era um escultor sem muito dinheiro, e ela, que havia sido sua
aluna, tentava cavar seu espaço no mundo da pintura. Moravam entre ferros
retorcidos, telas e pincéis, cercados de árvores e alguns animais. Naquele
lugar, podia sentir-se o amor por todos os lados, uma mistura de afeto, desejo,
inspiração, estética e vocação. Era muito mais que feromônios. Ela poderia
conhecer o homem mais atraente e jovem da Terra e nada teria acontecido;
seu coração estava selado e bem seguro.
A BUSCA DE PROTEÇÃO
É claro que amar pessoas mais velhas é válido e respeitável, seja porque se
busca um pouco de sabedoria, sossego, maturidade ou experiência. Porém, há
casos em que essa inclinação responde a uma profunda necessidade de
proteção. As pessoas que foram abandonadas, que sofreram privação
emocional na primeira infância ou foram exageradamente submetidas a
figuras de autoridade são propensas a estabelecer relacionamentos com
parceiros que cumprem uma função de cuidador. O que muitos apaixonados
buscam nas pessoas de mais idade é um guarda-costas afetivo, alguém mais
seguro e mais forte em quem poder confiar para enfrentar a vida. Isso não
significa que o amor não surja em algum momento e o convívio se transforme
em uma mescla de afeto e necessidade; mas, se existem traços de relações
emocionais ruins na infância, é preciso tratá-los. Pergunte a si mesmo o que
busca: ajuda, amor, as duas coisas? No final, todos buscamos uma base
emocional confiável e segura; porém, o que você deve observar é que lugar
ocupa a “segurança” em seu menu afetivo. Se estiver em primeiro lugar, a
coisa vai mal.
“PRECISO ME CONTAGIAR COM A ENERGIA DE GENTE
JOVEM”
Muitas pessoas mais velhas sonham em repetir os anos da juventude. Em
dado momento, reativam-se os hormônios e começam a procurar “carne
fresca” para se contagiar com seu brio e furor. Vi passar por meu consultório
os dois extremos: aqueles que renascem graças à presença de uma companhia
jovem, e os que se esgotam no segundo ou terceiro encontro com seu jovem
amor, porque as dores lombares ou o ciático não lhe permitem. Não podemos
rejuvenescer além do que determina o organismo, mesmo que a mente tente
fazer regressões. A imagem de um velhinho feliz, balançando a cabeça ao
compasso de uns jovens quadris, é um conto de Hollywood. Quando minha
esposa e eu dançamos ou cantamos canções de nossa época, minhas filhas
fazem cara de condescendência e nos dão um tapinha nas costas. A
mensagem que consigo decifrar é: “Tudo bem, papai, se são felizes assim,
fiquem à vontade”.
Deixar-se levar pelo frescor dos corpos juvenis é tentador para a maioria. E
não falo só dos homens; vamos pensar também naquelas mulheres não tão
adolescentes que frequentam locais de striptease masculino, enlouquecem de
felicidade e põem dinheiro na cueca dos homens que se contorcem
ritmicamente. Porém, é frenesi de uma noite, um momento de descontração
para liberar um pouco a testosterona feminina, e pronto. Coisa diferente seria
conviver com um desses personagens, manter longe as admiradoras de
plantão e dar-lhes calmantes de vez em quando para que sosseguem seu
ímpeto.
Em certo momento de minha vida, saí com uma mulher dezoito anos mais
nova. Eu tinha 41 e ela, 23. O negócio começou bem, até que percebi uma
coisa que não quis ou não soube encarar, possivelmente devido a minha
susceptibilidade avançada em anos: cada vez que ouvia uma música, no
carro, em uma loja ou na rua, ela começava a se mover no ritmo. Balançava a
cabeça e os ombros como se dançasse mambo. Eu não era tão velho, mas
enquanto minhas preferências musicais se concentravam mais na trova
cubana, Beatles ou balada romântica, ela entrava em êxtase com o trans e a
música eletrônica. Devo confessar, mesmo que não seja muito profundo de
minha parte, que suas “contorções”, gesticulações e espasmos sinfônicos me
afastaram dela. As emoções “fortes” que me motivavam eram outras e não
tinham nada a ver com sair pulando de uma danceteria a outra.
Cada idade tem sua “loucura” específica, mesmo que às vezes sejam
intercambiáveis. Você não precisa esticar a pele como um tambor e vestir
roupas de adolescentes de quinze anos para sentir emoções. Sem deixar de ser
você mesmo, pode encontrar gente que se pareça com você. Isso é o
maravilhoso de um mundo tão variado e pluricultural. Conheci pessoas idosas
que fariam empalidecer mais de um hiperativo, com uma alegria e disposição
para o prazer realmente invejáveis. Cada casal cria seu microcosmo, sua
intimidade e seu jeito particular de sentir e degustar a vida. Esse é o vínculo
secreto e insubstituível de cada apaixonado. Quem disse que é preciso ser
jovem para gerar emoções fortes?
“QUERO SABER SE AINDA FAÇO SUCESSO”
Essa motivação decorre de um problema mais complicado. Poderíamos
chamá-lo de síndrome do ator (ou atriz) em decadência. Por exemplo, muitas
pessoas que foram famosas transformam a idade do ouro em uma tragédia,
porque se apegam ao que foram e já não são. Conheci atores e atrizes
maduros que, mesmo não sendo velhos, se envergonhavam de suas rugas e
ficavam trancados vendo vídeos e fotos do passado (lembrem-se de Greta
Garbo). Pôr a felicidade do lado de fora é entregar o poder pessoal aos outros
e deixar que a aprovação social, os aplausos, a fama ou os elogios deem
sentido a nossa vida.
Em outros casos,negar-se a envelhecer e a sair de moda faz que algumas
pessoas percam o senso de proporção e estética e tomem atitudes incoerentes
com sua idade, tentando recuperar a juventude perdida. Podemos encontrá-las
em qualquer lugar, e é como se carregassem um painel luminoso: “Eu me
mantenho jovem, e você?”. E eu responderia: “Eu não, felizmente!”. E qual é
o indicador que adotam para surrupiar anos ou meses à maturidade ou ao
envelhecimento natural? A conquista, o ato de gerar desejo nos outros. É
verdade que, social e medicamente falando, os cinquenta de hoje são os trinta
de antigamente; porém, também é verdade que cada idade tem seu encanto,
desde que a aceitemos com naturalidade.
Um paciente de 64 anos, que havia sido a vida inteira um Dom Juan, nunca
aceitava sua idade verdadeira e tentava suprir suas aventuras de outrora com
prostitutas. Quase todos os dias pagava os serviços de uma mulher e até
chegava a se apaixonar “loucamente” por algumas, o que complicava por
demais sua vida: gastava mais dinheiro do que podia, ficava deprimido,
humilhava-se, enfim, fazia exatamente tudo o que não devia fazer para ficar
em paz. O que o motivava não era o sexo ou um vício em prostitutas, mas a
tentativa de reviver o velho papel de conquistador: parodiava o
comportamento do sedutor e se perdia no jogo, acreditando que era real. No
dia em que chegou ao fundo do poço e teve consciência do que fazia, ele me
disse: “Sou um iludido; a única coisa que consegui foi ser uma caricatura do
que fui”.
RELACIONAMENTOS IMBERBES
O que podemos dizer daquelas relações a dois em que os apaixonados são
quase crianças e vão morar juntos? Eu me refiro aos casamentos imberbes,
patrocinados ou não pelos pais. Já dissemos que o amor não tem idade, mas
às vezes precisa de fraldas. Se mal posso com minha vida, como vou poder
conviver com outra? Atendi a muitos jovens, quase adolescentes, que
tentavam levar uma impossível vida a dois adulta. Minha conclusão não é
otimista: a maioria desses relacionamentos não funciona ou requer muita
ajuda profissional para dar certo. Há um tempo cronológico e mental para ter
a cabeça no lugar e outro para voar sem freios, e, por isso, criar “maturidade”
ou “juventude” no consultório é impossível. Há épocas influenciadas por
determinadas regras sociais, ciclos de vida e variações hormonais que nos
levam a agir de tal ou qual maneira que não podemos ignorar. Não quero
dizer com isso que não existem casamentos entre gente muito jovem que vive
bem, mas a porcentagem de sucesso é bastante baixa. Alguns pais se
apressam a casar a filha porque engravidou, sem perceber que é preferível
uma mãe solteira bem constituída que uma mãe malcasada e ansiosa; e mais:
ser casado não é uma virtude que se deve conquistar a qualquer custo. O
casamento requer uma decisão pensada e analisada com o coração palpitante
e a cabeça fria: não é uma brincadeira de criança.
CADA COISA A SEU TEMPO. ARGUMENTOS PARA PÔR A
IDADE EM SEU DEVIDO LUGAR
1. Pense bem no que quer
Se você se apaixonou por alguém com idade para ser seu filho, pense bem
no que quer: aventura ou estabilidade afetiva? Você sabe que, com o passar
dos anos, a diferença cronológica se tornará mais acentuada e você vai
precisar de um companheiro comprometido e que o ame de verdade. Pense
bem: você está em condições de não sentir ciúmes, medo do abandono ou da
rejeição à medida que os anos passarem? Insisto: se seu objetivo é se divertir,
divirta-se! Mas se o que quer é estabelecer uma relação com futuro, avalie
bem os fatos. O primeiro fator que você deve levar em conta é que seu
companheiro seja confiável; que não confunda admiração ou desejo com
amor, que andam sempre juntos. O segundo fator tem a ver com a segurança
em si, com sua autoestima, com ser capaz de ignorar as rugas ou os achaques
do outro e amar tranquilamente.
Tudo isso vale também para a pessoa mais nova que se apaixona por quem
poderia ser sua mãe ou pai (em alguns casos, avô ou avó). Você será capaz de
encarar a diferença de interesses, gostos e todo o resto? Não pense no que
você sente agora, porque a paixão o fará ver tudo cor-de-rosa. Adiante-se um
pouco e imagine-se daqui a vinte anos. Faça esse exercício muitas vezes antes
de tomar uma decisão. Por que todo esse cuidado? Porque o coração pode nos
levar para qualquer lugar e com qualquer um. Tudo depende de quais são
seus objetivos e de sua visão de mundo. Desde que não invente um conto de
fadas, sempre haverá opções.
2. Eu desço ou você sobe?
Quando existe uma diferença de idade significativa entre os apaixonados, a
aproximação deve ser de ambas as partes: aproximarmo-nos psicológica e
afetivamente do outro sem que isso afete nossa essência. O acoplamento não
deve ser só horizontal, mas também vertical, para nos encontrarmos no meio
do caminho: seus gostos, meus gostos e nossos gostos. Essa “mobilidade”
para cima ou para baixo garante que nenhum dos dois se transforme em um
polo fixo e imutável em volta do qual o outro deva girar.
Recordo uma paciente que havia se casado com um homem muito mais
velho porque o amava sinceramente. Quando a vi depois de quase dois anos
de casada, fiquei impressionado. Seu olhar era triste e sua aparência havia
mudado; estava mais encurvada e literalmente havia envelhecido uns dez
anos. Vestia-se como uma senhora muito velha para sua idade, quase não
usava maquiagem e seu cabelo ostentava alguns fios prematuramente
brancos. A mulher viva e alegre que eu havia conhecido antes sofrera uma
transformação dramática. Perguntei-lhe se tinha consciência de sua mudança,
e ela respondeu: “Por isso vim. Não estou levando bem meu relacionamento.
Poucos meses depois de casar, comecei a pensar que, se eu não mudasse e me
tornasse mais ‘senhora’, ele se sentiria velho ao meu lado. Não sei o que
aconteceu, mas isso se tornou uma obsessão”. Envelhecer por amor: uma
nova forma de sacrifício que não aparece na literatura sobre o assunto.
Envelhecer por fora e por dentro, encurtar caminhos pelo atalho errado. Ela
havia acelerado o passo pela escada dos anos e ele não havia descido um
único degrau. Em outro momento, ela me disse: “Há pouco tempo encontrei
umas amigas, estavam tão jovens!”. Sua problemática mostrava uma
dinâmica oposta à que costuma aparecer nesses casos: a pessoa prejudicada
na relação não era a mais velha, e sim a mais nova. Em algumas sessões, o
homem entendeu o que estava acontecendo e, de comum acordo, começaram
a trabalhar para se encontrar no meio do caminho.
A bela canção “Le Métèque” (O estrangeiro), de Georges Moustaki,
insinua a ideia de descer alguns degraus e até propõe parar o tempo, se for
necessário.
Com minha cara de meteco, de judeu errante, de pastor grego, e meus
cabelos aos quatro ventos, eu virei, minha doce cativa, minha alma
gêmea, minha fonte viva, eu virei beber teus vinte anos.
E serei príncipe de sangue, sonhador ou adolescente, como melhor te
agradar.
E nós faremos de cada dia toda uma eternidade de amor, que viveremos
até dele morrer.
E nós faremos de cada dia toda uma eternidade de amor, que viveremos
até dele morrer.2
3. A pressão social e “o que vão dizer”
Por alguma estranha razão, as pessoas não gostam de “casais díspares”. Por
exemplo, nos Estados Unidos, 65% das mulheres não concordam que as
veteranas se envolvam com homens muito jovens. Do mesmo modo, se um
homem mais velho sai com uma mocinha, é provável que o apelido “velho
safado” não tarde a chegar (obviamente, refiro-me a jovens maiores de
idade). A isso temos que acrescentar outros adjetivos, como “incautos” ou
“crédulos”, porque supostamente estariam se deixando enrolar por alguém
que pretende obter algum ganho adicional com a relação, seja dinheiro, fama,
prestígio ou posição. Vamos aceitar que isso ocorre em muitos casos, mas
não podemos generalizar.
O importante é não se deixar afetar pelo que vão dizer. Lembro-me de um
amigo que saía com uma garota muito mais nova, a diferença de idade era
evidente e ele tinha que enfrentar com bastante frequência momentos
“constrangedores”. O mais comum era ouvir:“Parabéns, sua filha é muito
bonita”. Meu amigo, que não se impressionava muito com as opiniões
alheias, costumava responder com um sorriso malicioso: “Não é minha filha,
é minha mulher; não acha que tenho muita sorte?”. Porém, um paciente, em
uma situação similar, “ofendia-se”, exigia respeito e brigava. A mulher
chorava, ele se via como um velho rabugento e tudo perdia o encanto. A
irracionalidade de seu comportamento era evidente: por que os outros deviam
saber que ela não era sua filha, se na realidade parecia? Sobrava indignação, e
escândalo também. A única coisa que ele conseguia com essa atitude era
confirmar que não se sentia seguro com sua jovem e linda esposa. O bom
humor, sem dúvida e como sempre, ajuda a não levar a opinião dos outros
muito a sério. Recordo a atitude de um garoto de uns vinte e poucos anos que
saía com uma mulher de 52. Cada vez que estava com ela e alguém insinuava
que “sua mãe era muito bonita”, ele punha o dedão na boca, adotava a
posição fetal e pegava nos seios dela. As pessoas saíam atarantadas, não sei
se pela cena grotesca ou se pela imprudência sexual. Ambos morriam de rir,
mas tinham uma vantagem: era uma simples aventura.
A questão muda quando o relacionamento é mais sério e é preciso
enfrentar a família, seja por motivos econômicos ou simplesmente porque a
relação não se encaixa em seus esquemas. Os argumentos costumam ser os
mesmos de sempre e relacionados a um possível parentesco inexistente: “Ele
podia ser seu pai!”, “Ela podia ser sua mãe!”, “Podia ser sua filha!”, ou
“Podia ser seu filho!”. O que responder a isso? A verdade: “Mas não é!”. Em
geral, a família esgrime uma grande quantidade de inconvenientes e
conselhos de todo tipo, que vindos de quem não tem interesses ocultos, não
custa nada levar em conta. Afinal, o último juiz de sua própria conduta será
você.
4. Eu já acabei e você está só começando
Já vi isso em meu consultório uma infinidade de vezes. Duas energias
díspares e contrapostas. Ele se cansa rápido e ela é insaciável: cinquenta não
é igual a trinta e poucos. Ou vice-versa: ele é feliz comprando roupa e
exibindo seu corpo escultural e ela o acompanha às compras até onde aguenta
e quer: quarenta não é igual a sessenta e poucos. Nem é preciso falar das
metas existenciais. Um dos dois quer fazer uma nova faculdade e o outro só
pensa em se aposentar. Ela anda de bicicleta, faz aeróbica e levanta peso; ele
joga golfe, a duras penas. O jovem marido quer que façam investimentos
arriscados, enquanto ela quer poupar tudo embaixo do colchão. A
discrepância nos ciclos se torna evidente nas necessidades e na intensidade
com que se perseguem os objetivos de vida. Não é uma lei geral; deve haver
exceções e muitos superam as diferenças, mas elas existem. Repito: amar é
uma coisa, e conviver é outra muito diferente; amor de alma e amor de
convivência. Se você tem sonhos jovens a realizar e seu par quer é tirar um
cochilo depois do almoço, avalie toda a relação. Sacuda-o e seja firme, não vá
se contagiar com os bocejos.
5. Você está pronto para o que se avizinha?
Como vimos, uma diferença de idade acentuada entre os membros do casal
gera algumas particularidades que é bom ter em mente e estar preparado para
que os imponderáveis não o peguem de surpresa. Só para citar alguns: 
A alta probabilidade de enviuvar a uma idade não muito avançada. Se
seu par tem vinte anos a mais que você, ou mais, e especialmente se
você é mulher (elas vivem, em média, mais que eles), a possibilidade
de que fique viúva é muito mais alta que a de seu companheiro.
Ter que cuidar do outro, mais que ser cuidado. Não é por desamor nem
egoísmo, mas é provável que o suporte emocional e físico fique nas
mãos da pessoa mais nova do casal, o que implica uma capacidade de
entrega especial e uma grande responsabilidade. Não falo tanto de
cuidar de um idoso doente, possibilidade que não se deve descartar,
mas de continuar ali, com o mesmo amor, mesmo que não haja
reciprocidade em algumas questões.
A sanção social e/ou moral das pessoas, amigos e parentes. Água mole
em pedra dura, tanto bate até que fura, diz o ditado, e alguns cedem às
imposições das normas vigentes, à custa do amor.
Desajuste nas atividades, metas ou gostos. Talvez ela, que é mais
velha, queira descansar, e ele, mais jovem, sinta que a farra está só
começando. A praia de manhã ou à tarde, almoçar no meio da tarde. A
diferença entre gerações pode acabar com o amor.
Ciúmes e insegurança à medida que os anos passam. Isso se vê tanto
em homens como em mulheres mais velhos. Uns e outros podem
começar a sentir que a “concorrência” aumenta e precisam se manter
jovens a qualquer custo. É aí que entram os cirurgiões plásticos e os
psiquiatras. Leve em conta que, se em qualquer relacionamento a dois
é preciso preparar-se financeira, psicológica e emocionalmente para
torná-lo funcional, com mais razão seria naqueles em que a diferença
de idade é significativa.
2 Livre tradução da letra original.
 
Princípio 10
Algumas separações são instrutivas;
ensinam o que você não quer saber do amor
Justamente quando duas pessoas estão sob a influência da mais
violenta, louca, falsa e passageira das paixões, é quando se veem
obrigadas a prometer que ficarão nesse estado de excitação
incomum e extenuante até que a morte os separe.
B. Shaw 
É um grande pecado jurar um pecado; mas é pior manter um mau
juramento.
W. Shakespeare 
O paradoxo que enfrento em meu consultório é que metade dos meus
pacientes não vê a hora de se separar, e a outra metade não vê a hora de se
casar. Parece que o casamento ou a vida a dois, apesar dos novos valores da
pós-modernidade, continua sendo uma aspiração de muitos: não fomos feitos
para a solidão afetiva. Os biólogos evolucionistas dizem que o instinto de
procriação nos leva a buscar um parceiro; porém, ninguém pode negar que
construir uma família é uma das experiências mais gratificantes do ponto de
vista psicológico e espiritual: o problema é saber com quem empreendemos
essa aventura, como escolher o companheiro. Se partimos do pressuposto de
que a vida é mais fácil a dois, o outro não pode ser uma carga. Um saudável
relacionamento a dois é leve; não é preciso arrastá-lo, não é uma cruz, nem
uma tortura socialmente aceita; o bom casamento não é feito à base de
sangue, suor e lágrimas, como ainda pensam certas pessoas. Em uma relação
sofredora e extenuante, sem perspectivas de melhora, “adaptar-se” é perigoso,
além de irracional. Não temos que padecer a pessoa amada, e sim usufruí-la.
A SABEDORIA DO “NÃO”
Alguns separados, além do mal-estar que isso representa, adquirem o que
poderíamos chamar de sabedoria do “não”: é possível que não tenham uma
clareza absoluta sobre o que esperam e querem do amor, mas sabem o que
não querem e não estariam dispostos a tolerar pela segunda vez. Depois de
um tempo, quando a vivência do “não mais” se instala e se torna consciente,
funciona como um antivírus.
O que você não gostaria de repetir em uma próxima relação? Por exemplo:
não quero viver em abstinência sexual; não quero uma pessoa extremamente
econômica, não quero uma pessoa ciumenta que tire minha liberdade; não
quero que me desrespeitem; não quero alguém pouco carinhoso; não quero
que se esqueçam de meu aniversário; não quero que meu companheiro seja
chato; não quero que seja infiel, enfim: seus “não quero”, organizados e
sistematizados do maior para o menor, o que não seria negociável, o que você
não seria capaz de suportar novamente. Um mau casamento ou um mau
relacionamento faz aflorar nossas sensibilidades mais profundas que,
provavelmente, antes de sofrê-las, não sabíamos que existiam. Aprenda com
as experiências anteriores. Que sua próxima “escolha afetiva” seja
fundamentada e pensada: amar não é ficar bobo (mesmo que, na etapa da
paixão, nosso QI diminua por alguns meses). Aqueles que erram pela
segunda ou terceira vez fazem-no porque não decantaram nem incorporaram
os “não quero” das primeiras tentativas.
POR QUE ERRAMOS TANTO NO AMOR?
É fato que a maioria das pessoas escolhe um par exclusivamentecom o
coração e não considera racionalmente outros aspectos que poderiam ser
fundamentais para a convivência diária. Os apaixonados que conhecem ou
intuem o lado negro do outro encorajam a si mesmos dizendo que o amor os
ajudará a sair vitoriosos. Eu me pergunto, brincando com as palavras, se
realmente o amor “tudo cura” ou é “tudo loucura”.
Dizemos e fazemos muitas bobagens em nome do amor: deixamo-nos
enganar, persistimos em relacionamentos com quem não nos ama,
suportamos os maus-tratos, renunciamos à vocação, matamos e nos
suicidamos, sacrificamos nossa liberdade, negamos nossos valores, enfim, o
tão louvado amor muitas vezes nos foge das mãos e nos conduz a um beco
sem saída. É evidente que, em uma vida a dois, o sentimento não supre tudo.
“Só o amor não basta”, dizem os especialistas, e têm razão. Devíamos
escolher um companheiro de uma maneira mais “racional” e menos visceral:
“Eu o desejo, gosto de muitas coisas em você, mas ainda não sei se você
serve para minha vida, mesmo que meu corpo e meu ser me empurrem
desordenadamente para você”. Lamento pelos fanáticos da paixão, mas o
amor, para quem se move em um plano terreno e não transcendeu, não
costuma ser tão incondicional (o número de desertores no assunto é cada dia
maior) nem move montanhas: na verdade, esmaga-nos se nos descuidarmos e
não o soubermos conduzir.
Antes de se arriscar cegamente, ponha o entusiasmo entre parênteses por
um tempo (é possível baixar a hipomania ou a paixão por alguns instantes
quando realmente queremos) e conecte-se a um sistema de processamento
mais controlado (não digo que deixe de amar, mas que tente um relaxamento
voluntário). Quando descer da estratosfera, comece a considerar vantagens e
desvantagens, prós e contras e suas expectativas mais íntimas; procure pensar
da cintura para cima, e não da cintura para baixo. Faça isso como um
exercício, uma disciplina: fique na realidade concreta, tentando ver as coisas
como são. Se repetir essa prática de se conectar e desconectar à emoção, irá
forjando uma nova habilidade que lhe servirá no futuro: você será capaz de
integrar razão e emoção e discernir quando sobra uma ou falta outra.
OS TRÊS PILARES DOS BONS RELACIONAMENTOS
AFETIVOS
Segundo a maioria dos tratados sobre o amor conjugal, para ter um bom
relacionamento a dois é necessária uma série de “virtudes” de que nem todos
dispomos. Algumas dessas qualidades, consideradas imprescindíveis, são:
compromisso, sensibilidade, generosidade, consideração, lealdade,
responsabilidade, confiabilidade, cooperação, adaptação, capacidade de
reconhecer erros, de perdoar, solidariedade, altruísmo, e a lista continua.
Quanta coisa! Se alguém houvesse incorporado a seu ser todos esses valores,
estaria próximo à santidade e não precisaria de companheiro. A realidade nos
mostra que a maioria de nós está muito longe desse nível de excelência, e,
quando iniciamos uma relação afetiva, o fazemos com toda nossa defeituosa
humanidade a tiracolo. Não nos apaixonamos por um “pedaço” da pessoa,
não podemos fragmentá-la a nosso bel-prazer nem ignorar seus “vícios” e
carências, porque cedo ou tarde eles aparecerão: vamos nos relacionar com
tudo que o outro é, com o bom, o mau e o feio. É claro, então, que o
conhecimento real do companheiro deveria acontecer antes, e não depois do
casamento. Também é importante conhecer o Mr. Hyde de cada um.
De uma perspectiva menos angelical e pé no chão, podemos dizer que um
bom relacionamento (de carne e osso) requer, pelo menos, três fatores
funcionando ao mesmo tempo. Quando falta um deles, o relacionamento
degringola. Analise-os e chegue a suas próprias conclusões.
1. Desejo/atração
Eros, pronto e disposto. Em uma relação a dois deve haver química,
vontade do outro (se você tem que se benzer cada vez que faz amor e tomar
coragem, está com a pessoa errada). O parceiro é como sua sobremesa
preferida: quando você come, sua vontade passa, mas, no dia seguinte, a
apetência renasce com o mesmo ímpeto; o organismo pede mais e o prazer se
renova.
Os casais que funcionam bem se devoram amorosamente entre si e fazem
do erotismo um jogo gratificante e agradável. Fantasias consensuais e bem
administradas, imaginação em equipe: eu faço para você, você faz para mim,
nós fazemos um para o outro. Quando Eros está presente, a chama está
sempre acesa; basta uma fagulha para que a labareda se acenda. E se Eros for
se apagando sem causa evidente? É preciso intervir rapidamente, porque, uma
vez extinto, recuperá-lo é praticamente impossível. Os casais vítimas da
rotina vão trocando o arroubo inicial, alegre e energético, por uma
sexualidade mecânica e quase sempre insossa, que deixa Eros ferido de
morte: quando não há surpresa nem um pouco de loucura, o sexo se torna
previsível, chato e, às vezes, grotesco.
Se sua dinâmica é como a que se segue, peça ajuda urgente: Ele: “Você
está a fim?”. Ela: “Bem, muito muito a fim, não... Além do mais, estou
gripada. Mas, se você não está se aguentando, vamos lá”. Despem-se, ele
descarrega e ela aguenta: missão cumprida. Isso não é Eros! Falta o flerte, o
exibicionismo, a avidez, uivar um pouco, o jogo de representação de papéis,
os acessórios, enfim: nunca se deve deixar que o carnal suplante o sensual.
Suplicar por sexo é indigno; fazê-lo sem vontade, deprimente.
2. Amizade
Por que nos sentimos tão bem com os amigos? O que mantém essa alegria
compartilhada? Quando estamos com eles, queremos contar e ouvir coisas. O
que há nisso? Cumplicidade e uma mescla encantadora de humor/sintonia.
Há certa honestidade implícita, certa lealdade que facilita a comunicação e a
torna mais fluente. Podemos dizer, como diz Montaigne, que os verdadeiros
amigos são como uma extensão de nós: “A própria alma em corpo alheio”.
A pergunta que surge e que gera polêmica é a seguinte: podemos ser
amigos do nosso companheiro? Contra o que afirmam alguns pensadores, eu
acredito que sim, e não só acredito, como acho isso imprescindível. Com o
“companheiro amigo” você não tem que explicar a piada, o riso chega antes
de você terminar de contá-la, o humor é tácito e compartilhado: não se faz só
amor; também se faz amizade. O mito nos ensina que os opostos se atraem,
mas não é verdade. Quando os desencontros são mais que os encontros e
você se vê obrigado a sustentar e defender seus pontos de vista como se
estivesse perante um júri, então está no lugar errado e com a pessoa errada.
Algumas incompatibilidades não são fáceis de levar, e muito possivelmente
sua presença afetará a amizade na relação. Por exemplo: a ideologia, os
projetos pessoais, a religião, as posições éticas, a atitude perante a vida, e
outras questões vitais que refletem visões de mundo opostas.
Quando existe concordância sobre o fundamental, as mesmas coisas os
inquietarão. Haverá certa paz no ambiente. Fazer sexo com o melhor amigo é
estar muito perto do amor. Só falta uma coisa: o agape.
3. Ternura/entrega (agape)
A ternura é o oposto da violência, implica o cuidado amoroso de quem nos
necessita: a doçura age como um sistema defensivo contra a agressão e o
desrespeito. Há ocasiões em que, por carência ou fatalidade, seu companheiro
passa para o primeiro plano e seu “eu” dá um passo atrás. Nesses momentos,
a democracia se rompe, não pela força de um amor impositivo, mas pelo
desequilíbrio gerado pela compaixão perante o sofrimento da pessoa amada;
dou mais do que recebo. Quando amamos de verdade, preferimos sofrer nós
próprios a ver a pessoa amada sofrer; ocuparíamos o lugar dela com prazer se
pudéssemos. Ser para si e ser para o outro, ter as duas opções disponíveis
para agir conforme o caso.
“EU TE AMO, MAS VIVO MELHOR SEM VOCÊ”
Um jovem que sofria depressão chegou a meu consultório e expressou
assim seu mal-estar: “Sou casado com uma mulher muito difícil. Ela é infiel
há muito tempo e não quer sexo comigo. Sempre que pode, diz que sou um
fracassado, considera-me um inútil e debocha de meu corpo. Temos um filho,
e praticamente sou eu quem o cria, porque ela nunca está em casa. Ela odeia
minha família e meus amigos.Vivo triste e amargurado (pranto)... às vezes
quero me matar”. Estava havia cinco anos nessa mistura de tragédia e
indignidade, e embora sobrevivesse à base de medicamentos e ajuda
psicológica, não era capaz de tomar a decisão de deixá-la. Quando lhe
perguntei por que continuava com ela, sua resposta me deixou boquiaberto:
“Eu a amo”. É difícil entender como o amor resiste tanto em situações como
essa: se meu paciente houvesse deixado de amá-la, a tortura não teria
durado tanto. Porém, sentia-se amarrado por um sentimento que continuava
vivo como no primeiro dia. Independente de suas motivações psicológicas e
das explicações clínicas, quero apontar que o mesmo “argumento afetivo” de
persistência (“Eu a amo”) mantém presos em relacionamentos doentios
milhões de pessoas. Tanto se vendeu a ideia de que o principal motivo da
união conjugal é o amor que sua mera presença justifica qualquer coisa.
Perguntei a uma senhora, que vivia infeliz e submissa em seu casamento, o
que estava esperando para se separar, e ela respondeu: “Que o senhor me
ajude a não o amar mais”. Eu lhe expliquei que ninguém deixa de amar
quando quer: você não pode se desapaixonar “desejando se desapaixonar”. O
mecanismo não funciona assim, mas é possível racionalizar o sentimento,
sim, esfriá-lo um pouco e tentar mantê-lo sob controle. Com treinamento e
um pouco de estoicismo, podemos conseguir que a emoção não confunda a
razão. De qualquer maneira, afirmar que o amor justifica o tormento de uma
convivência ruim é incompreensível.
Propiciar uma ruptura com a pessoa que nos faz sofrer, mesmo que a
amemos, implica trocar um sofrimento continuado e inútil por uma dor mais
inteligente, que será absorvida graças à elaboração do luto: “Eu te amo, mas
vou embora. E vou não porque não o ame, mas porque você não me serve,
porque não serve para minha vida”. Mudar de trilho, trocar uma dor
interminável e constante por outra de final feliz, mesmo que o amor insista,
nos empurre e nos torne idiotas. Podemos afirmar que algumas separações
funcionam como uma cura por desintoxicação; o que mais dói é a síndrome
de abstinência: o pico, quando a máxima necessidade enfrenta a máxima
carência. Mas, a partir daí, uma vez superado o clímax da angústia, o
organismo começa a se recuperar pouco a pouco. A máxima é esta: se você
não vive em paz, amar não é suficiente. E essa é a razão pela qual se
deveriam anunciar algumas separações ao público em geral e fazer uma festa
de comemoração.
A DECISÃO É SUA
Na maioria das culturas, existe uma curiosa contradição no que diz respeito
às relações que se estabelecem entre amor e casamento: de um lado,
recomenda-se aos quatro ventos (é quase uma exigência) que o vínculo seja
por amor e, por outro, não se aceita o desamor como uma causa válida de
divórcio. Não dá para entender por que, se o amor nos une, o desamor não
pode nos desunir. Poderia dizer que há outras questões pelas quais lutar (por
exemplo, compromissos, filhos, valores religiosos) e talvez seja verdade em
alguns contextos, mas eu me pergunto que sentido têm esses “compromissos”
se não se tem a energia principal que os mantém vivos. Casamentos por
conveniência? Não são por amor, e tudo fica claro desde o início.
O que você acha desta declaração fervorosamente amorosa e esotérica?
“Prometo amá-la daqui até a eternidade, em todos os planos astrais, em todas
as dimensões existentes e em cada vida que reencarne.” Foi o que disse um
homem apaixonado por uma mulher mais nova, que tremia de prazer ao ouvir
tamanho disparate. O que o homem estava jurando? Como tinha tanta certeza
de que ninguém mais tocaria seu coração? Além do mais, como ter certeza de
que o que hoje me agrada nele ou nela daqui a vinte anos não vai se tornar
insuportável? Ele poderia tentar seriamente, como um herói, mas não
garantir. As pessoas mudam, assim como seus gostos e motivações. Garantir
que jamais vamos nos apaixonar por mais ninguém é pretensioso demais para
se levar a sério. Insisto: podemos ativar um sistema de resistência psicológica
para nos defender de outros amores, mas jurar amor eterno é demais.
Compromissos devem ser feitos com base em questões que dependem de nós:
“Tentarei ser fiel, serei respeitoso, não tirarei vantagem nem o explorarei,
serei honesto e sincero”, enfim, atitudes que realmente posso assumir. Se o
desamor não é motivo de separação e o compromisso deve avalizar uma
relação independente de toda dúvida e sem atenuantes, tal como defendem
algumas subculturas e grupos sociais, contrair núpcias é um caminho sem
retorno. Proibido se desapaixonar, proibido retratar-se! Não há nada a fazer.
Não conheço ninguém que tenha tido seu casamento “anulado” por desamor
ou tédio crônico.
A decisão de continuar ou não em um relacionamento é exclusivamente
sua: não entregue o poder a outra pessoa para que ela decida por você. Você é
o único que sabe como sua relação é realmente e quanto o afeta.
A PRESSÃO DA FAMÍLIA
Quando decidir se separar, você vai sentir o peso dos valores tradicionais,
as premissas religiosas e possivelmente uma dura cobrança de parte de sua
família. Essa crítica externa à liberdade afetiva faz que muita gente
permaneça presa em relações impossíveis de suportar, simplesmente porque
acreditam que estão fazendo o certo. Não estou fazendo uma apologia à
separação, mas ninguém tem o “dever” de ser infeliz: é a filosofia do martírio
como virtude, que ainda existe e deixa sequelas.
Em certa ocasião, presenciei o que se poderia chamar de uma
“insolidariedade de gênero” entre uma paciente que queria se divorciar e sua
mãe, que fazia o possível para desencorajá-la. Vejamos parte do diálogo que
mantiveram: 
Paciente (P): (em lágrimas, suplicante) Mas, mamãe, eu já disse que não o
amo, não o amo mais!
Mãe (M): (em tom gentil, mas firme) O amor vai e volta...
P: E se não voltar? O doutor disse que não via opções. Além do mais, ele
me trai com a prima! Ele tem uma amante!
M: E o que isso importa? Com certeza, vai passar. Você sabe a história do
seu pai, os homens são assim. Mas você é a esposa oficial, a mãe dos
filhos dele... Você tem que manter seu posto.
P: Ele não me ama, entende? Ele me disse isso na cara, disse que não me
suporta, que quer ir embora!
M: Ele não vai...
P: Não fazemos sexo há seis meses! Isso também não importa?
M: Não foi para isso que você se casou.
Minha paciente, devido a uma história anterior de carência afetiva, buscava
o aval de sua mãe, que era impossível de obter porque esta se mantinha em
uma posição dominante e fechada e não parecia se importar muito com o
bem-estar de sua filha. Depois de muita discussão, minha paciente conseguiu
vencer os antigos esquemas de dependência e compreendeu que não devia
pedir permissão nem convencer ninguém para tomar suas decisões vitais.
Finalmente, separou-se e a mãe a “perdoou” depois de um ano.
A “FOBIA DO AMOR” E AS SEPARAÇÕES RUINS
Esta frase de Stendhal sempre me impressiona por sua beleza e realismo:
“O amor é um bela flor à beira de um precipício. É preciso ter muita coragem
para ir colhê-la”. Amor de valentes. O amor é suado e lutado, fabricado e
construído no dia a dia. Portanto, se você é daquelas pessoas melindrosas e
ultrarromânticas, terá uma resistência mínima aos embates amorosos. Entre o
calvário dos que acreditam que o amor foi feito para sofrer e a ingenuidade
dos crédulos afetivos encontra-se o amor realista. O amor conjugal não é cor-
de-rosa, por mais que queiramos pintá-lo assim: há momentos bons e maus
que teremos que aprender a superar. Se os comportamentos e as atitudes
negativas ultrapassarem a linha vermelha, você terá que ir embora; se se
mantiverem dentro do aceitável e forem patrocinados por um amor sólido,
siga em frente. O amor cresce e se desenvolve.
Algumas pessoas escaldadas com a experiência amorosa aprendem a
regular alguns aspectos do amor sem se traumatizar; e outras sofrem a dor do
passado, que cria um condicionamento de aversão que as imobiliza e impede
de ter relacionamentos satisfatórios por medo de sofrer. A ideia que se
escondepor trás dessa rejeição generalizada é: “Se fracassei uma vez, vou
fracassar de novo”, ou “Já sofri demais por amor, de modo que não quero
saber da possibilidade de me apaixonar!”. Cansaço, hipersensibilidade e
mecanismos de defesa, tudo agindo ao mesmo tempo.
Às vezes, essas pessoas costumam assumir uma falsa autonomia.
Aparentemente, estão além do bem e do mal e usufruindo de uma
maravilhosa independência, mas, na realidade, a solidão em que se encontram
é uma couraça protetora. “Amorofobia”: fobia do amor. Indivíduos que
morrem de vontade de amar e ser amados, mas ao mesmo tempo entram em
pânico com a simples ideia de voltar a se relacionar afetivamente, porque
temem se enganar. Relacionamentos ruins e/ou separações ruins: é tão
importante saber escolher quanto saber encerrar adequadamente um vínculo.
“NÃO ME SEPAREI PORQUE NÃO QUERO FAZER MAL
AOS MEUS FILHOS”
Está justificado o sacrifício? Duvido. Viver em um furacão de brigas e
discussões ou em uma relação na qual não existe a mínima expressão de afeto
não é bom para o crescimento psicoafetivo dos filhos; e o que dizer da
violência física! Precisamos ter em mente que as crianças fazem mais o que
veem fazer que o que lhes dissemos que façam. São esponjas de informação e,
ainda por cima, imitam-nos. É evidente que os filhos sofrem com a separação
dos pais, mas o que mais os afeta é a atitude que estes assumem antes,
durante e depois de terminar a relação.
Uma separação consensual, sem ódios e em termos pacíficos diminuirá o
impacto negativo. Para as crianças e não tão crianças, é melhor a dor de um
divórcio inteligente que a tortura diária de uma convivência ruim. Cada olhar
de ódio que você lança a seu companheiro é observado por seus filhos,
processado e guardado na memória; cada atitude de rejeição ou de frieza é
incorporada à base de dados de sua mente em formação. Você não pode
disfarçar o desamor e a discórdia e agir como se nada fosse. Nota-se, sai
pelos poros. O desamor cria um clima tenso que é sentido intimamente.
É preciso fazer um balanço, saber com clareza se seu relacionamento tem
opções ou se os profissionais (psicólogos, terapeutas de casal, conselheiros
matrimoniais) acham que já não há nada a fazer. Você acha que seus filhos
não percebem sua tristeza? Má notícia: a depressão é contagiosa. O ambiente
emocional dos casamentos ruins é tão denso que pode ser cortado com uma
faca. Tenho amigos malcasados, e, depois de passar um tempo em sua casa,
saio esgotado de fazer força, de sofrer por tabela. Quando lhes pergunto por
que continuam juntos, a resposta costuma ser a mesma: “Pelas crianças”.
Obviamente, qualquer criança desejaria que seus pais fossem capazes de se
amar e de viver bem juntos; friso: viver bem. Tive pacientes de dez e onze
anos que me pediam nas consultas que ajudasse seus pais a se separar, porque
o convívio entre eles havia se tornado insuportável. Uma menininha de doze
anos me dizia: “Prefiro ter duas casas tranquilas a uma em guerra”.
O “sacrifício” de ficar em um péssimo casamento “por nossos filhos” às
vezes é criticado por eles próprios. Recordo o caso de uma mulher que
preferiu ficar com um homem infiel e violento a se separar, para que suas
crianças “não perdessem o pai”. Em uma sessão de terapia, sua filha mais
velha, uma adolescente que tinha problemas de relações interpessoais, disse a
ela: “O que não perdoo, mamãe, é que você tenha sido tão covarde e não
tenha se separado de papai. Eu gostaria de ter tido uma mãe corajosa, forte,
que não se deixasse maltratar nem enganar por um homem assim. Eu a amo
demais, mas não a respeito”. Um golpe mortal para qualquer pai ou mãe e,
em especial, para essa mulher que se sentia quase orgulhosa de ter aguentado
seu marido por amor a seus filhos. Sua resposta mostrou uma dolorosa
conscientização: “Eu estava esperando que eles crescessem. Talvez tenha
sido um erro”. Em outros casos, os filhos são usados como uma desculpa ou
uma tela para superar uma dependência afetiva altamente prejudicial para
toda a família.
A única coisa que nossos filhos querem é nos ver satisfeitos e realizados
ou, pelo menos, bem encaminhados. Eles carregam nossa dor ou se
contagiam com nossa angústia. Não nego que as separações ruins são
desastrosas, qualquer um sabe disso, mas, como já disse antes: uma boa
separação é preferível a um mau casamento. Quando há crianças no meio, a
ajuda profissional é imprescindível, seja para tentar novamente ou para
encerrar adequadamente a questão.
COMO FAZER DA SEPARAÇÃO UM MOTIVO DE
APRENDIZAGEM
Já dissemos que, por mais dolorosa que seja uma ruptura afetiva, podemos
tirar proveito psicológico dela. Pegar os aspectos positivos da experiência,
analisar os erros cometidos e tentar compreender o que aconteceu são
algumas das tantas maneiras de fazer seu inventário pessoal. Que a reflexão
lhe sirva para crescer, e não para se afundar na culpa, no arrependimento ou
na depressão.
Este guia de seis passos o ajudará a pensar de uma forma ordenada na
questão.
1. Saiba claramente por que se separou
É muito importante que você saiba as razões pelas quais seu
relacionamento foi a pique. Embora pareça estranho, muita gente não é capaz
de explicar por que se separou, e essa ignorância a respeito da dissolução do
vínculo gera incerteza e mal-estar. Como resolver algo que desconheço?
Entre meus pacientes recém-separados é muito comum ouvir a frase: “Não
sei o que aconteceu. De repente, tudo desmoronou”. Eu lhes pergunto onde
estavam enquanto isso, porque nenhuma relação acaba “de repente”. Como
pode ser possível tal desconhecimento se somos os principais envolvidos? Os
relacionamentos se deterioram mais facilmente quando um fica de braços
cruzados, e aquilo que hoje parece uma queixa menor, amanhã pode se
transformar em um problema gigantesco.
Por que as pessoas se separam? Os motivos são muitos e variados; porém,
e a título de exemplo, vejamos a seguinte lista: 
Críticas, avaliação negativa e desqualificação.
Tédio ou rotina.
Insultos, agressão física.
Infidelidade e/ou ciúmes.
Projetos de vida discordantes.
Dificuldades sexuais.
Discrepâncias na educação dos filhos.
Vícios de um dos membros do casal.
Más relações familiares.
Pressão e/ou dificuldades econômicas.
Relações não equitativas.
Vida social incompatível.
Você se situa em alguma dessas possibilidades ou em várias? Os motivos
não têm que ser catastróficos ou dramáticos; ser infeliz ou não ser feliz é
razão suficiente para não seguir em frente com um relacionamento, mesmo
que os outros não gostem. Experimente, e se alguém lhe perguntar por que se
separou, simplesmente diga: “Porque eu não era feliz”. Você logo vai notar
que a pessoa não saberá o que dizer e provavelmente responderá com um
simples: “Claro, claro...”. A cultura espera algo mais trágico, mais dramático
e irreconciliável (por exemplo, infidelidade descontrolada, homossexualidade
latente, violência física) para que a decisão seja justificada. A causa de sua
separação não tem por que estar nas profundezas do inconsciente ou em
algum trauma obscuro da infância: às vezes, o relacionamento simplesmente
não funciona, e o sintoma, aquilo que se nota e impacta, é que a infelicidade
só aumenta.
Se identificar erros de sua parte, assuma-os, sem culpa nem autopunição:
assuma-os e, se possível, corrija-os ou não torne a repeti-los no futuro. Torne-
se um especialista em sua própria vida, em cada desenlace, em cada tropeço e
em cada sucesso. Sem se tornar obsessivo, examine os momentos relevantes
que viveu a dois, o que fez e deixou de fazer, o que lhe fizeram, as
insatisfações e as alegrias. Examine tudo, não deixe nada ao acaso. Como já
disse antes: quem age mecanicamente e sem conhecimento de causa cai
sempre nos mesmos erros. A vida passa diante de seu nariz e não percebe.
2. Tome consciência de tudo que negociou e aguentou na relação
Esse ponto talvez seja o mais doloroso. Muitas pessoas, ao analisar o que
negociaram e aguentaram, sentem raiva de si mesmos. A pergunta que os
tortura é: “Por que não reagi a tempo?”. Cada um tem seuritmo de
assimilação e seu tempo para reunir coragem. No amor, a coragem quase
sempre começa onde termina a esperança.
Sem chorar sobre o leite derramado, comece a se conscientizar do que não
deveria ter negociado nem suportado. Pense em seus princípios e valores para
que seja mais fácil compreender o que aconteceu. Pense nas situações em que
você dizia sim querendo dizer não e vai entender que certas coisas não se
vendem nem se emprestam, como a dignidade, a liberdade ou os direitos.
Entregá-los é perder sua essência.
Quando tiver a lista do que “não deveria ter feito”, simplesmente tenha
consciência dela, sem se torturar por isso e sem entrar em compulsões inúteis.
Encadeie os fatos e incorpore-os a sua história pessoal. Essa será a primeira
aprendizagem vital que surgirá de sua separação: você terá descoberto o que
não quer nem deve aceitar para se reafirmar como ser humano. Você terá
um reduto, um núcleo duro altamente resistente ao amor submisso.
3. O que o impediu de impor limites?
Neste ponto, você deve tentar determinar por que negociou o inegociável e
suportou o insuportável. Porque deixou de ser você. O que o impediu? A
culpa, a pressão social, o medo da solidão, a dependência, a submissão, a
falta de assertividade, a esperança? Nas relações saudáveis, marcam-se
limites constantemente (é normal fazer isso), e quando um passa a linha, o
outro o faz perceber que se excedeu. Mas “o silêncio outorga”, de modo que
cada vez que você concordava abnegadamente em fazer o que não queria,
tornava-se cúmplice de seu próprio mal-estar. Não estou avalizando uma
atitude incompreensiva e egocêntrica em relação ao que pensa e sente o
companheiro, mas defendendo um estilo de vida no qual a infelicidade não
seja a norma. Você falou quando devia falar? Fez constar seu protesto ou
inconformismo? E esta é uma segunda aprendizagem importante: ser
assertivo, comunicar-se e dizer o que nos incomoda oportunamente ajuda o
amor a fluir mais fácil e evita que se criem ressentimentos.
4. Se pudesse voltar no tempo, sabendo o que sabe sobre seu par,
repetiria a dose com a mesma pessoa?
Esse é um bom ensaio imaginário para fazer o amor aterrissar. Em meu
consultório, vejo pessoas que, embora saiam de um péssimo e ultrajante
casamento, sentem-se angustiadas pelas dúvidas. “O relacionamento era
terrível, mas...”. O que essa frase incompleta esconde são questionamentos
sobre as próprias atuações, como: “Fiz todo o possível?”, ou “E se houvesse
esperado um pouco mais?”. Esses “se” e “mas” geram fortes sentimentos de
culpa e incerteza, pois impedem que se ponha um ponto final adequado na
questão.
Se você tivesse uma máquina do tempo, sabendo o que sabe hoje sobre seu
ex, repetiria a dose? Você se deixaria arrastar novamente pelo amor por ele
ou o rejeitaria? Se a resposta for: “Sim, eu repetiria”, procure ajuda
profissional urgente (possivelmente sua separação foi prematura ou você não
tem clareza das coisas). Se a resposta for: “Não repetiria”, então, do que está
reclamando? Por que hesita se sua mente e seu coração lhe dizem que não
deve voltar? Fique no aqui e agora, no que é, e não no que não foi. Suas
expectativas não se realizaram, e pronto. A revisão histórica que antes
mencionamos visa resgatar conhecimentos e experiências que sirvam para
seu crescimento, e não para sentir saudades do inexistente. Sentir saudades
do que não aconteceu? Irracional, no mínimo. Se sua resposta foi que “não
repetiria” e você já está separado, comemore: você está fora, você já é livre.
5. Separação e trauma não são sinônimos
Inconscientemente, você poderia estar fazendo papel de vítima, e não tem
por que ser assim. A lógica diz que sair de uma relação ruim seria mais um
motivo de comemoração que de amargura, como quem sai da prisão ou se
salva de uma cirurgia de alto risco. Se o casamento em que você estava era
excelente, por que ocorreu a separação, então? Talvez não fosse tão
“excelente”. Um homem estava profundamente compungido porque sua
mulher o havia deixado por outro. Consulta após consulta, ele me falava das
virtudes de sua ex-esposa e de quão sortudo era seu novo companheiro por tê-
la ao seu lado. Um dia qualquer, interrompi suas apaixonadas divagações e
disse: “Sua ex-mulher foi infiel por quase três anos, pôs você na rua sem a
menor consideração, está processando-o por metade do seu salário e, além de
tudo, nega-se a lhe dirigir a palavra. De que pessoa extraordinária você está
falando?”. O homem não pôde disfarçar seu espanto diante de minhas
palavras (os apaixonados acreditam que todos os outros também devem ficar)
e me perguntou: “O senhor não gosta dela?”. Minha resposta foi honesta: “Se
eu tivesse um filho homem, não ia querê-la como nora”. Com o tempo, meu
paciente elaborou sua perda de uma maneira mais realista e sem traumas
“inventados”. Maximizar as qualidades do ex nas primeiras etapas de uma
separação é uma resposta paradoxal que aparece em muitos casos. Seis meses
depois, com a cabeça mais fria, o mesmo homem me dizia: “Não sei como
pude viver com ela!”.
Se a relação que você terminou era regular, ruim ou péssima, não chore
pelo que não vale a pena. Belisque-se: você é livre! Não terá mais que ficar
salvando o que não se pode salvar, não terá que dar conta do que pensa, sente
ou faz. Embora nossa cultura tenha como regra que toda separação é
traumática, nem sempre é assim. É nossa atitude que as torna problemáticas.
Você se separou porque já não havia amor? Melhor! Para que continuar com
alguém que não nos ama? Era maltratado? Era traído? Eram incompatíveis?
Todos são motivos válidos. Quando alguém o olhar com dó devido a sua
separação e tentar lhe dar os “pêsames”, não entre no jogo, não deixe que o
rotulem nem lhe pendurem o cartaz de vítima. As feridas irão se curando
quando você começar a se conectar com o lado positivo da vida e conhecer
pessoas que valham a pena.
6. Começar de novo
Separação: fracasso ou libertação? Tristeza ou comemoração? Uma coisa é
certa, independente de como se sinta: você terá que começar de novo. Viver
sozinho, com ou sem filhos, reacomodar sua casa, organizar os horários,
enfim, separar-se implica reestruturar todos os seus papéis e começar uma
vida diferente, com outras exigências. Você entrará em um processo de
mudança radical, uma “crise”, e deverá se reinventar da cabeça aos pés.
Porém, essa crise pode ser vista como benefício. Muitos dos meus pacientes
divorciados vão descobrindo uma infinidade de aspectos positivos da nova
faceta que devem assumir. Nem tudo é escuro. É verdade que começar de
novo requer trabalho e dedicação, mas você não será um principiante, já sabe
o que não quer, e isso lhe permitirá otimizar seus esforços. Considere esse
início como se houvesse formatado seu hd: você vai criar uma nova base de
dados e instalará programas mais atualizados; um novo software. Você tem a
possibilidade de começar do zero, sem tantas crenças irracionais e com uma
atitude mais realista. Será como um veterano de guerra que, apesar de suas
feridas, não renega a paz e a defende.
 
Epílogo
Para não morrer de amor
Por trás de cada princípio que você leu e tentou praticar há um fator comum:
a negação explícita a “morrer de amor” e a sofrer inutilmente por seu
companheiro ou pela pessoa que ama. Cada premissa e cada parágrafo se
reafirmam em um decálogo de resistência emocional que pretende ir além do
amor tradicional e resgatar o valor da vida digna. E é só o começo. Cada um
deve investigar a si e ser um precursor de sua causa afetiva. O preceito é o
seguinte: “Mereço ser feliz no amor, não me resignarei à dor de uma relação
ruim, não me acostumarei a tolerar o que não se deve tolerar”. Não morrer de
amor é repudiar qualquer vínculo afetivo incompleto ou insuficiente e toda
esperança que nos prenda a uma relação doentia ou limitante.
Diferente da morte física, que é única, no mundo afetivo podemos morrer
mais de uma vez. Podemos agonizar e ressuscitar, e até, em alguns casos,
voltar à mesma vida, à mesma rotina, com a mesma pessoa. O amor irracional
e daninho,aquele que tira o fôlego e nos derruba, é como um carma: você o
escolhe e decide estar ali.
Você não precisa ser um acadêmico experimentado para construir uma
ecologia afetiva que lhe permita crescer como pessoa. Se é um sobrevivente
do amor, melhor ainda: tem todas as credenciais para ser bem-sucedido. Não
tropeçar duas vezes na mesma pedra, diz o ditado popular, e você sabe qual é
a pedra e qual é o atalho que deve pegar para evitá-la ou, se for o caso, como
passar por cima dela. Você sabe porque já esteve ali ou já lhe contaram, já leu
ou viu em outros lutadores do amor.
Negue-se a sofrer por amor, declare-se em greve afetiva, faça as pazes com
a solidão e aquiete a necessidade de “amar acima de tudo e a qualquer custo”.
Resgate seu amor-próprio, seu primeiro grande amor com base no qual se
geram os outros: se não amar a si mesmo, ninguém o amará. Como amar
uma máquina de autopunição? Como querer a quem se odeia e vive
amargurado por ser como é? O amor começa em casa, na intenção
imprescindível de querer perseverar no próprio ser, e se o amor que você
sente não aponta na direção de viver mais e melhor, ele não lhe serve, não
“casa” com sua vida.
Se você passou pelas páginas deste livro, talvez tenha conseguido criar um
espaço de reflexão e tenha se questionado se amar a qualquer preço realmente
se justifica. Existe um ponto médio? Existe, mesmo que não saibamos qual é.
É um ponto de inflexão no qual não supervalorizamos o amor nem nos
subestimamos (eu te amo e me amo), no qual o amor não nos esmaga nem o
ignoramos: coexistência pacífica entre o impulso de amar e o “eu” que se
nega a desaparecer. Princípios para não morrer de amor, princípios para não
fazer do amor um peso. O amor descontrolado e avassalador é uma invenção
dos viciados. Você pode amar sem perder o norte nem perder a si mesmo, e,
ainda assim, manter vivo o fogo da paixão. Os sobreviventes de tantos
amores irracionais, loucos e impensáveis ratificam isso diariamente quando
conseguem amar calmamente.
Leia os princípios, ensaie-os e torne-os seus, se assim sentir; incorpore-os a
sua base de dados e mantenha-os ativos. Eles lhe servirão como fatores de
proteção, vão deixá-lo menos vulnerável ao sofrimento amoroso.
Vejamos as perguntas fundamentais que essas premissas suscitam e as
respostas possíveis.
Não é mais amado? Liberte-se do desamor, não suplique, ande com a
cabeça erguida.
Quer morar com seu amante? Antes de tomar a decisão, pense bem;
seja realista e recorde que uma vida a dois não é a mesma coisa que
mergulhar no prazer uma ou duas vezes por semana.
Você vive se sacrificando para que seu companheiro seja feliz? Esse
não é o caminho; o amor é recíproco: ofuscar-se para que o outro
brilhe é uma forma de suicídio emocional.
O poder afetivo está nas mãos de seu companheiro? Desapegue-se,
faça sua pequena e maravilhosa revolução, nivele o status; não
esqueça que o apego o torna idiota.
Você está com alguém que ainda não sabe ou não decidiu se o ama?
Fuja para o mais longe possível; perca-se na multidão e comece de
novo, porque esse amor não lhe serve e o arrastará por anos.
Quer esquecer um amor mal curado procurando um substituto?
Cuidado; às vezes, a confusão se duplica e um prego não tira outro,
afunda-o mais: existem soluções mais elegantes, como um “luto” bem
trabalhado.
Seu companheiro diz que o ama, mas esse amor não se manifesta de
jeito nenhum? Avalie tudo, sacuda a relação: se o amor que dizem
sentir por você não é visto nem sentido, não existe ou não lhe serve.
Você colocou seu companheiro nas nuvens? Pois faça-o aterrissar
antes que ele acredite, porque amar não é santificar nem reverenciar:
não faça um culto à personalidade.
Você ama uma pessoa muito mais velha ou muito mais nova que
você? Cabeça fria, mesmo que o coração esteja satisfeito; avalie bem a
questão, porque, se o amor não tem idade, os apaixonados têm.
O que fazer com as separações? Tirar delas o maior proveito possível,
visto que você já aprendeu o que não quer do amor: aquilo que jamais
gostaria de repetir.
Quando treinar o suficiente e adotar uma visão mais realista do amor, vai
descobrir que é possível amar sem se machucar. Você saberá que as pessoas
que sabem amar simplesmente tomaram uma decisão fundamental: não se
deve viver para amar, nem morrer em seu nome.
MÁXIMAS DE SOBREVIVÊNCIA AFETIVA
1. Bendito o desamor que chega aos malcasados, aos mal acompanhados e
aos que se fazem mal em nome do amor.
2. Ajudar a pessoa que você ama, sem se destruir, é ajudar duas vezes.
3. De que adianta que adocem seus ouvidos, se amargam sua vida?
4. O poder afetivo está nas mãos daquele que precisa menos do outro.
5. Não há nada mais prazeroso para uma pessoa que sofre de apego que estar
com outra mais apegada.
6. Se você é capaz de controlar seus tempos, não se sentir “de ninguém” e
andar sozinho pela vida, está no terreno do amor maduro.
7. Quem não nos admira, não nos ama.
8. O parceiro, às vezes, sobra e incomoda, mesmo quando você o ama; há
momentos que são exclusivamente seus, que não foram criados para
ninguém mais.
9. Independência não é desamor; é renovação, é ser uno apesar do amor e
acima dele.
10. Se alguém duvida que o ama, não o ama.
11. Se amar implica perder a liberdade básica de sentir e pensar por sua
conta, você está dominado ou preso.
12. O amor saudável não exige autopunição.
13. Não temos que padecer a pessoa amada, e sim usufruí-la.
14. No amor, a coragem quase sempre começa onde termina a esperança.
15. Dizer que a dor da pessoa que você ama não lhe importa porque o
motivo é “idiota”, torna-o idiota.
16. Um amor que o obriga a involuir não é amor.
17. A escravidão afetiva não é uma ficção: ocorre quando o medo de perder
o outro faz que você se esqueça de si mesmo.
18. Ninguém se resigna à indiferença: é preferível a dor da ruptura a um
amor insensível.
19. O apego é a incapacidade de renunciar ao outro quando se deve
renunciar, ou seja, quando já não nos amam, quando nossa autorrealização
está bloqueada ou nossos princípios estão sendo afetados.
20. Desiludir-se com o companheiro é uma flechada de Cupido ao contrário.
21. Quem o machuca intencionalmente não o merece.
22. Ser uno com a pessoa que ama é deixar de ser você mesmo.
23. Um amor que o obriga a involuir é um castigo.
24. Se não sabem que o amam, de que lhe serve esse amor?
25. Quando você rende tributo à pessoa que ama, é um súdito, não um
companheiro.
26. O bom amor conjugal é recíproco; não milimétrico, mas justo: você dá e
recebe.
27. É melhor um sofrimento útil que uma calma fictícia.
28. Perdoar não é sofrer amnésia; é recordar sem dor, e isso não se consegue
por decreto.
29. Não alimente o poder de quem o explora afetivamente: sua fraqueza (o
apego) é a força do outro.
30. Se seu ex o considera parte do passado, que ele não seja parte de seu
presente.
31. Se você não se amar, ninguém o amará.
32. Não importa quanto o amam, mas sim como o amam.
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Walter Riso nasceu na Itália, em 1951. Sua
família emigrou para a Argentina quando ele era
muito jovem. De lá, partiu para a Colômbia, onde
se formou em psicologia, especializando-se em
terapia cognitiva, e tornou-se mestre em bioética.
Há trinta anos, trabalha como psicólogo clínico,
prática que alterna com a docência universitária e
com a publicação de artigos em revistas científicas
e na imprensa. Seus livros são como uma vacina
contra o sofrimento humano, propondo estilos de
vida saudáveis. Atualmente, Riso mora em
Barcelona, na Espanha.
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