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Caso 11 Cirrose hepática É o estágio final de qualquer doença hepática crônica, sendo um processo difuso e caracterizado por fibrose e transformação da arquitetura normal em nódulos estruturalmente anormais. O processo acomete todo o fígado e, geralmente, é irreversível, sendo clinicamente classificada em compensada ou descompensada (ascite, sangramento varicoso, encefalopatia ou icterícia). Muitos pacientes são assintomáticos até que ocorra descompensação. A hepatite C e a doença hepática alcoólica são as causas mais comuns de cirrose. FISIOPATOLOGIA Omecanismo patogênico essencial da fibrose/cirrose é a ativação das células estreladas hepáticas, conhecidas também como células de Ito ou células perissinusoidais. Elas estão localizadas no espaço de Disse, entre os hepatócitos e as células endoteliais sinusoidais. Em resposta a uma lesão, as células estreladas hepáticas são ativadas, proliferam-se e secretamMEC (colágeno tipo I e II, proteoglicanos sulfatados e glicoproteínas), além de formarem faixas contráteis. O tecido fibroso formado + as faixas contráteis formadas bloqueiam o fluxo nos canais vasculares e nos ductos biliares do fígado, aumentando o risco de hipertensão portal e exposição aos efeitos destrutivos da bile, respectivamente, além de destruição de hepatócitos e progressão para insuficiência hepática. PRINCIPAIS CAUSAS VIRAL Cerca de 80% dos pacientes expostos ao vírus da hepatite C desenvolvem a forma crônica da doença e, destes, cerca de 20 a 30% evolui para cirrose. O HCV é um vírus não citopático, e o dano hepático é causado por mecanismos imunes. Acredita-se que o mesmo ocorra para o HBV. Os dois causam fibrose portal e o desenvolvimento de nódulos que, por fim, culminam em cirrose. Manifestações clínicas: podem apresentar sinais e sintomas habituais de hepatopatia crônica. Fadiga,mal-estar, dor difusa no QSD e anormalidades laboratoriais são frequentes. ALCOÓLICA A ingestão excessiva e prolongada de álcool pode causar vários tipos de hepatopatia crônica, incluindo esteatose hepática, hepatite alcoólica e cirrose. A ingestão crônica de álcool causa fibrose e/ou necrose concomitante. Quando a fibrose alcança determinado grau, ocorre desorganização da arquitetura normal do fígado e substituição das células hepáticas por nódulos regenerativos. Na cirrose alcoólica, os nódulos geralmente tem diâmetro menor que 3 mm, e esse tipo de cirrose recebe o nome demicronodular. O etanol é absorvido principalmente pelo intestino delgado. A álcool-desidrogenase (ADH) gástrica inicia o metabolismo do álcool, e 3 sistemas enzimáticos são responsáveis pelo metabolismo dele no fígado (ADH do citosol, o sistema microssomal de oxidação do etanol e a catalase dos peroxissomos). Amaior parte da oxidação do etanol acontece via ADH para formar acetaldeído, mas em casos de uso crônico, a via do MEOS leva a produção de ROS, além de produzir mais acetaldeído. A lesão oxidativa da membrana dos hepatócitos ocorre por conta das ROS; o acetaldeído é umamolécula altamente reativa, que se combina com proteínas e ácidos nucleicos para formar adutos de acetaldeído, que interferem na atividade de enzimas específicas. As ROS ativam as células de Kupffer, que liberam citocinas pró-fibrogênicas que ativam as células estreladas hepáticas, resultando na produção e liberação excessiva de colágeno eMEC. Manifestações clínicas: podem apresentar sintomas inespecíficos, como dor abdominal no QSD, febre, náuseas e vômito, diarreia emal-estar. Podem também apresentar complicações mais específicas, como ascite, edema, hemorragia gastrointestinal alta, icterícia ou encefalopatia. O início súbito de qualquer uma dessas complicações pode ser o primeiro evento que leva o paciente a procurar assistência médica. Outros sinais frequentes são eritema palmar, telangiectasias, aumento de volume das parótidas, baqueteamento digital e atrofia muscular. Os homens podem ter redução dos pelos corporais, ginecomastia e atrofia testicular, consequência do efeito tóxico direto do álcool sobre os testículos, causando anormalidades hormonais. GORDUROSA A frequência de pacientes com esteatose hepática não alcoólica que progridem para cirrose aumenta cada vez mais. Nos últimos anos, tem sido reconhecido que muitos pacientes considerados portadores de cirrose idiopática têm, na verdade, esteatose hepática não alcoólica (à medida que a cirrose progride, esses indivíduos perdem os sinais reveladores de esteatose observados à biópsia). DOENÇAS DE DEPÓSITO A hemocromatose é um distúrbio hereditário dometabolismo do ferro, onde há absorção excessiva de ferro e, consequentemente, aumento da deposição do mineral no fígado. O excesso de ferro lesiona a célula por conta da formação de ROS e/ou liberação de enzimas hidrolíticas, e, com o passar do tempo, há evolução para fibrose e cirrose. A doença de Wilson é um distúrbio hereditário da homeostasia do cobre, em que há incapacidade de excretar as quantidades excessivas do mineral, resultando no acúmulo no fígado. A deficiência de α1AT é um distúrbio hereditário causando pelo dobramento anormal da proteína, resultando em falha na eliminação dela pelo fígado. Ainda não está claro de que forma o excesso dessa proteína no fígado causa doença hepática. ALTERAÇÕES DO EXAME FÍSICO Há atrofia muscular, acometendo principalmente as regiões dosmúsculos temporais e as eminências tenar e hipotenar. Há telangiectasias, principalmente no tronco, face eMMSS, e eritema palmar (palidez central). Os homens podem apresentar queda dos pelos no tórax e abdome, ginecomastia e atrofia testicular. Podem haver também petéquias e equimoses, consequência de trombocitopenia. A contratura de Dupuytren, que é o espessamento da fáscia palmar, ocorre principalmente na cirrose alcoólica. Uma característica patognomônica da cirrose hepática é o achado, ao exame do abdome, de um lobo hepático direito pequeno (com menos de 7 cm) e um lobo esquerdo palpável, que é nodular e com consistência aumentada. A esplenomegalia também pode ocorrer e é indicativa de hipertensão portal, assim como a circulação colateral (cabeça de Medusa) na parede abdominal. COMPLICAÇÕES HIPERTENSÃO PORTAL É causada pela combinação de dois processos hemodinâmicos que ocorrem simultaneamente: (1) aumento da resistência intra-hepática à passagem do fluxo sanguíneo pelo fígado por conta da cirrose, dos nódulos regenerativos e de microtrombos e (2) aumento do fluxo sanguíneo esplâncnico secundário à vasodilatação dentro do leito vascular esplâncnico. Nos estágios mais avançados, também há ativação de respostas neuro- humorais e de sistemas vasoconstritivos, que resultam na retenção de sódio e água e, consequentemente, no aumento do volume sanguíneo, produzindo mais hipertensão portal. As causas de hipertensão portal podem ser pré-hepáticas, intra-hepáticas e pós- hepáticas. As causas intra-hepáticas são responsáveis por 95% dos casos e são representadas pelas principais formas de cirrose. Manifestações clínicas: as 3 principais complicações são hemorragia digestiva alta por varizes gastroesofágicas, ascite e hiperesplenismo. → As varizes devem ser identificadas por endoscopia. → O sangramento de varizes gastroesofágicas pode se manifestar como hematêmese e/oumelena. → A hemorragia varicosa é a ruptura de varizes esofágicas, sendo um problema imediato e ameaçador. GASTROPATIA HIPERTENSIVA PORTAL Está associada a todas as causas de hipertensão portal, sendo diagnosticada por achados endoscópicos característicos de um padrão de mosaico semelhante à pele de cobra na mucosa gástrica, geralmente commanchas centrais de cor vermelha oumarrom. Pode causar sangramento gastrointestinal agudo clinicamente aparente ou sangramento crônico, resultando em anemia ferropriva. ESPLENOMEGALIA E HIPERESPLENISMO A esplenomegalia congestiva com hiperesplenismo é comum em pacientes com hipertensão portal e costuma ser a primeira indicação do quadro. Manifestações clínicas: baço aumentado no exame físico, trombocitopenia e leucopenia. Pode haver também dor abdominalsignificativa no lado esquerdo. ASCITE Há aumento da resistência intra-hepática e vasodilatação do sistema arterial esplâncnico, que ativa o SRAA. Os efeitos renais por conta do aumento da aldosterona e a consequente ativação do sistema simpático levam à retenção de sódio e acúmulo de fluidos, causando edema periférico e ascite. A hipoalbuminemia, causada pela redução da função de síntese hepática em um fígado cirrótico, reduz a pressão oncótica do plasma e contribui para a perda de líquido do compartimento vascular para a cavidade peritoneal. Manifestações clínicas: aumento da CA acompanhado, geralmente, por edema periférico. Costuma ser um processo insidioso, e os pacientes costumam acumular pelo menos 1 a 2 L antes de perceberem algum aumento. PERITONITE BACTERIANA ESPONTÂNEA A PBE é uma complicação comum e grave da ascite, sendo uma infecção espontânea do líquido ascítico. A translocação bacteriana é omecanismo patogênico, quando a flora intestinal atravessa o intestino e penetra os linfonodos mesentéricos, resultando em bacteriemia e implantação no líquido ascítico. O microrganismo predominante é a Escherichia coli. Manifestações clínicas: os pacientes com ascite podem apresentar febre, estado mental alterado, leucocitose, dor ou desconforto abdominal e IRA, mas também podem ser assintomáticos. Em pacientes com hemorragia varicosa, a frequência de PBE aumenta, e recomenda-se profilaxia de PBE quando o paciente tem hemorragia digestiva alta. SÍNDROME HEPATORRENAL É um tipo de insuficiência renal funcional sem patologia renal. O diagnóstico geralmente é estabelecido quando há ascite volumosa nos pacientes que demonstram aumento progressivo da creatinina. É causada por distúrbios significativos na circulação renal dos pacientes, com aumento da resistência vascular renal. ENCEFALOPATIA HEPÁTICA É um conjunto de alterações do estado mental e da função cognitiva que ocorre nos pacientes com insuficiência hepática. Na lesão hepática aguda grave, o desenvolvimento de encefalopatia é um requisito para o diagnóstico de insuficiência hepática aguda. As neurotoxinas derivadas do intestino e que não são removidas pelo fígado em razão de um shunt vascular (o sangue que entra no leito arterial sistêmico sem passar pelas áreas ventiladas do pulmão) e da massa hepática reduzida chegam ao cérebro e causam os sintomas. Manifestações clínicas: nos pacientes com cirrose, a encefalopatia é observada como resultado de certos eventos desencadeantes, como hipopotassemia e infecção. Os pacientes podem estar confusos oumostrar uma mudança de personalidade. Eles podem ficar bastante violentos e difíceis de controlar, oumuito sonolentos e difíceis de despertar. Pacientes com encefalopatia frequentemente tem asterixe (tremor no punho quando estendido, às vezes parecido com o “bater de asas de um pássaro”; também chamado de “flap hepático”), que pode ser melhor evidenciado pedindo-se que o paciente faça extensão dos braços e dobre os punhos para trás. SÍNDROMES FÍGADO-PULMÃO A síndrome hepatopulmonar (SHP) se caracteriza por hipoxemia arterial em pacientes com cirrose sem doença pulmonar significativa. A doença hepática causa dilatações vasculares intrapulmonares que resultam em shunt de sangue desviando dos alvéolos e desequilíbrio da ventilação-perfusão.Os sintomas incluem dispneia e platipneia. A hipertensão portopulmonar (HPP) é a hipertensão pulmonar em um paciente com hipertensão portal. A hipertensão portal resulta na produção de substâncias vasoconstritoras que afetam a artéria pulmonar. Muitos pacientes são assintomáticos, especialmente no início, mas eles acabam desenvolvendo dispneia aos esforços e fadiga. É rara, ocorrendo em cerca de 5% dos pacientes com cirrose avançada. DESNUTRIÇÃO Como o fígado participa sobretudo da regulação do metabolismo proteico e energético do corpo, pacientes com doença hepática avançada estão comumente desnutridos. Pacientes com cirrose tornam-se mais catabólicos, e as proteínas musculares são metabolizadas. Diversos fatores contribuem para a desnutrição, incluindo uma dieta precária, alterações da absorção intestinal de nutrientes e alterações do metabolismo das proteínas. É preciso ter atenção à alimentação desses pacientes, e as recomendações gerais incluemmúltiplas refeições pequenas ao dia, incluindo um lanche antes de deitar. ANORMALIDADES DA COAGULAÇÃO Os distúrbios de coagulação na cirrose são pouco compreendidos. A cascata de coagulação pode facilmente tender para o lado da trombose ou do sangramento. Além disso, os pacientes podem apresentar trombocitopenia por hiperesplenismo devido à hipertensão portal e algum grau de disfunção plaquetária. OSTEOPOROSE A taxa de reabsorção óssea é maior que a de formação de mais tecido ósseo, o que causa perda óssea. ANORMALIDADES HEMATOLÓGICAS Diversas manifestações hematológicas estão presentes na cirrose, incluindo anemia decorrente de uma ampla variedade de causas, dentre elas hiperesplenismo, hemólise e deficiência de ferro. Amacrocitose é uma anormalidade comum da morfologia das hemácias em pacientes com hepatopatia crônica.