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CONVERSA INICIAL
Durante nosso estudo, veremos as estruturas clínicas da psicanálise, são elas: neuroses, psicoses e perversão. Verificaremos que Freud pouco usou o termo estrutura, ele surge vez ou outra para abordar o diagnóstico diferencial. Pois foi Lacan que de fato inseriu o estruturalismo na psicanálise a partir da ciência linguística e, assim, conceitualizou os modelos estruturais da clínica psicanalítica.
Assim, quando apresentamos uma estrutura clínica, estamos falando de uma conjunção de elementos que se encontram implicados em suas posições no interior do conjunto em suas relações mutuas. As leis válidas para o conjunto, sublinha Coelho (1976), são validas também para cada um de seus elementos isoladamente. (p. 21)
 No período pré-psicanalítico que durou cerca de oito anos, e que antecedeu a publicação da Interpretação do sonho datada em 1900, é possível encontrar nos escritos de Freud uma pesquisa sobre as diferentes formas de constituição do psiquismo. Pois, desde o início, ele pôde se dar conta de que ao lado da histeria, enquadrada como uma neurose de defesa, poderia ocorrer um outro tipo de neurose:
Foi-me preciso começar meu trabalho por uma inovação nosográfica. Ao lado da histeria, encontrei razões para situar a neurose das obsessões (Zwangsneurose) como uma afecção autônoma e independente, embora a maioria dos autores classifique as obsessões entre as síndromes que constituem a degenerescência mental ou as confunda com a neurastenia.”. (Freud, citado por Roudinesco, 1998, p. 535)
E, assim, com os desdobramentos da teoria do autoerotismo e narcisismo até a elaboração da segunda tópica, entre os anos de 1914 a 1924, Freud concebe uma diferenciação estrutural entre neurose e psicose. Onde a neurose é resultado de um conflito entre o eu e o isso, cujo efeito produz uma renúncia das exigências pulsional, produzindo o recalque. Contudo, Freud ressalta que o sujeito, nessa formação, preserva a realidade. Já na psicose, há uma perturbação entre o eu e o mundo externo e, por conta disso, o psicótico rompe com a realidade e produz uma realidade nova através de sua produção delirante e alucinatória.
A perversão, como uma terceira estrutura, é caracterizada nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, sendo ela uma manifestação bruta e não recalcada da sexualidade infantil, pois trata-se de uma perversão polimorfa vivida na infância. Assim, Freud reúne as estruturas, na qual: a neurose é produzida pelo recalque, a psicose como reconstrução de uma realidade alucinatória e a perversão como efeito de uma renegação da castração, cujo gozo retorna na vida sexual.
Para entendermos, então, a impotência do diagnóstico estrutural na clínica psicanalítica, iremos, primeiramente, considerar as dimensões que a separa da clínica médica, pois, ainda que os diagnósticos tenham herdado as mesmas nomenclaturas da clínica psiquiátrica, elas servem à psicanálise de maneira diferente e se sustentam por via de um outro discurso. Assim, para compreender o modo como a psicanálise atua sobre uma condição psicopatológica, é valido acompanhar, brevemente, a história da evolução da clínica medica, visto que ela foi a matriz da clínica terapêutica psicanalítica inventada por Freud.
E para ampliar nosso entendimento a respeito do diagnóstico estrutural, pretendemos abordar as psicopatologias Operacional-pragmática, que estão inseridas nos DSM e no CID para que, dessa forma, possamos estabelecer um limiar entre a clínica psicanalítica e a psiquiatria.
TEMA 1 – O MODELO DA ESTRUTURA CLÍNICA CLÁSSICA
Na medicina clássica, é possível observar que o seu funcionamento se dá pela articulação entre classificação e ordenamento, que visam contribui para a construção de um domínio de linguagem, pondo em cena a semântica do termo, que determina o significado clínico de signos, traços, sintomas e síndromes.
No projeto clínico moderno, busca-se estabelecer uma semiologia, isto é, uma classificação e organização de signos, índices, sintomas e traços que devem ser apresentados como diferenças significativas ao olhar clínico. Tipo: na febre, as alterações na coloração, na textura ou na forma de uma região do corpo são signos que se articulam de forma simultânea e sucessiva. Sendo, então, o total dessas articulações que devem ser captados pelo olhar clínico como uma unidade dotada de valor e significação. Nesse sentido o olhar clínico se estabelece apenas sobre a nomenclatura da doença, se reduzindo a essência de uma palavra (Dunke, 2011, p. 403).
A sanção da ordem médica ocorreu no sec. XVIII, com o nascimento da clínica moderna, onde os sintomas vão se aproximar da matéria de linguagem antes de ser recortada em unidades significantes, isso significa que os sintomas, no sentido lato, que incluem e se misturam com o mal-estar e o sofrimento que eram expressos, como vimos anteriormente, de forma narrativa, nesse momento da história passam a ser tratados como sintoma, no sentido estrito. Trata-se da operação da clínica do olhar. “É este movimento que torna o sintoma, como queixa genérica, ao sintoma no sentido clínico” (Dunker, 2011, p. 405).
No entanto, se verifica que os pensamentos da clínica médica mantiveram estável a relação entre signos e seus referentes, pois só eram considerados signos os que, de fato, se apresentavam imediatamente legíveis na relação entre o olhar do clínico e o corpo do doente. Desse modo, o que se refere à fala ou lembrança do paciente, do relato de seus familiares e amigos ou da simples impressão do observador, segundo Dunker, possuíam um valor secundário e suspeito.
Nesse sentido, o clínico ouve o paciente, mas, não o escuta. Ou seja, ouve na medida em que as informações, que lhe são transmitidas, possam ser cortejadas pela referência anatomopatológica. Assim, a clínica exclui o paciente como sujeito, pelo qual, o único sujeito, desta clínica, é o médico, cujo signo em certificar a doença como tal, é legitimo.
E se na clínica clássica a semiologia é uma prática de leitura, o diagnóstico diz respeito a um ato, onde, nele se presume uma organização estável da semiologia, a saber, a nosografia. Dessa forma, o diagnóstico implica a capacidade de discernimento acerca do valor e da significação que um conjunto de signos possui quando estes aparecem de forma simultânea ou sucessiva na particularidade de um caso (Dunker, 2011, p. 407).
Dunker nos remete à problemática do diagnóstico da clínica clássica, pois é possível existir inúmeras variações: síndrome, quadro, transtorno, disfunção, sintoma. Portanto, sua prática se torna ainda mais complexa por não possuírem um valor de diagnóstico fixo quando tomados de formas isoladas, ou quando são integrados numa situação de comorbidade em seu processo transformativo.
O processo do diagnóstico inclui, também, a anamnese que implica um “desesquecimento” do passado da doença, pelo qual passa a relacionar-se sincronicamente com sua capacidade de estabelecer um prognóstico. A qualidade do prognóstico está, justamente, na possibilidade de estabelecer o curso esperado para a enfermidade naquele paciente específico. Assim, a diagnostica inclui não só a avaliação da perturbação, como também os recursos e circunstâncias que o paciente dispõe para atravessar o seu processo mórbido. Portanto, na estrutura da clínica moderna, se supõe, também, uma causalidade, isto é, uma etiologia da doença, que segundo Dunker, está seria a ambição máxima do trabalho diagnóstico, que, além de descrever e classificar a enfermidade, visa indicar a causa precisamente. (p. 411)
E por último, a estrutura da clínica clássica apresenta em sua perspectiva a operação terapêutica, que inclui todas as estratégias que visam interferir e transformar a rede causal que constitui a etiologia, confirmam a diagnóstica e verifica o valor semiológico dos signos e sintomas. Desse modo, a ação terapêutica, na medida do possível, deve indicar a causa e, portanto, é nesse sentido que Freud veio estabelece a psicanálise como terapêutica das causas.
Dito isso, Dunker compara as três tradições arqueológicas que compõema psicanálise com a da clínica em relação às estruturas e dispositivo de tratamento:
1. As técnicas de tratamentos têm seus métodos definidos pela aspiração moderna científica: nesse caso, a noção de terapia subordina-se aos procedimentos de estrutura do tratamento (semiologia, diagnóstico e etiologia). No entanto, vê-se que a estrutura da clínica absorve em seu interior a metafísica do retorno, pela qual os signos retornam aos mesmos lugares, nos mesmos tempos, caracterizando a diagnostica das doenças. Dessa forma, o restabelecimento passa a contornar ângulos fisiológicos (organismo), clínico (funcionalidade da vida), ou da medicina social (equilíbrio antropológico);
2. Observa-se a tradição da terapia como aspiração de recomposição social e integração narrativa. Nesse caso, a relação com a estrutura clínica é de sobreposição incidental, indica Dunker, pela qual a tradição terapêutica onde noção de “sanação” diz respeito à diminuição ou retirada de sofrimento é entendida como noção moral e política, sendo, portanto, indiferente para a estrutura clínica. Assim, surgem os espaços residuais, que desenvolverão práticas higienistas, cuidados com o corpo, e no campo da saúde mental, a psicoterapia francesa, a terapia moral entre outras técnicas de alívio de sofrimento, formado pelo campo não recoberto pela estrutura. (p. 417)
3. A tradição da cura: de modo mais simplista, esta designaria a extinção do processo patológico. Aqui, há várias vertentes para serem pensadas contextualizando com o momento histórico de cada época. Mas, a partir da segunda metade do século XIX, Dunker sublinha que essa noção tende a representar aquilo que era essencial à clínica na antiguidade e torna-se contingente na clínica moderna: a atitude ética do médico diante do doente. Gradualmente essa atitude vai se transferindo para os auxiliares do médico. O médico observa e trata, o enfermeiro cuida, o padre cura (p. 419).
Desta feita, a ação terapêutica inclui três aspectos heterogêneos: a intervenção metódica no quadro da estrutura da clínica, a atitude de cuidado, atenção e acompanhamento e a utilização de técnicas secundárias, adjuvantes ou auxiliares.
TEMA 2 – A SUBVERSÃO DA CLÍNICA PSICANALÍTICA
A novidade trazida por Freud à clínica refere-se a mudanças estruturais, ao invés de caminhar da semiologia para o diagnóstico e daí sustentar uma hipótese etiológica. Freud faz um caminho contrário e parte do “ponto fraco” do sistema – a terapêutica, cuja estrutura é dada pelo ponto de vista tópico, dinâmico e econômico. Para isso, ele dá a palavra às histéricas abrindo um novo campo discursivo completamente inédito.
Verifica-se, então, que o sistema estava adequado para que não se passasse da semiologia à terapêutica sem passar pela diagnostica. E não se chegasse à diagnóstica sem semiologia; e para que não se fosse da diagnóstica à etiologia sem passar pela semiologia ou pela terapêutica. Por fim, era possível conceber as circulações fechadas entre diagnostica e semiologia, ou a pequena circulação envolvendo semiologia, diagnóstico e terapêutica.
A proposta de Freud se dá após a descoberta dos sintomas histéricos, descreve Dunker, visto que as histéricas podiam simular os sintomas através da sugestão hipnótica. E assim, conforme especificou Bercherie, “podemos falar em clínica psicanalítica sob a condição de não esquecer que, nesta expressão composta, o adjetivo é mais importante do que o substantivo, e os dois termos são inseparáveis” (Bercherie, citado por Dunker, p. 440).
Portanto, podemos verificar que a clínica psicanalítica submeteu a estrutura clínica aos seus próprios pressupostos, pelo qual Dunker declara que, “a psicanálise subverte, na acepção forte do termo, o estatuto dos parâmetros da clínica da qual se originou.” (p. 440). Pois, então, se o sentido de subversão é inverter e deslocar o sentido de um processo, podemos pensar que a psicanálise promoveu uma ruptura constitutiva quando passa da clínica do olhar para uma clínica da escuta.
2.1 SEMIOLOGIA
Freud abandona o sistema baseado na semântica orgânica, onde se prescrevia a estabilidade dos signos em relação a seu referente, e passa a se interessar pelo seu carácter singular e instável da ligação entre o significante e o significado e pelo aspecto multifacetado e temporal da produção da significação. Isso significa que numa conversão histérica, com paralisia de um membro, isso se realiza sobre a representação que o sujeito faz desse membro, e não pela sua estrutura anatômica, ou seja, é o órgão sociossimbólico e não o órgão anatômico que é convertido.
Dessa forma, a clínica psicanalítica rompe com o estilo epistêmico em relação aos relatos clínicos, pelo qual passa a realizar uma genealogia do sujeito e uma arqueologia do sentido. Visto que, as regras de composição do sonho, dos chistes, dos atos falhos e dos sintomas possuem uma semiologia própria, da qual se assenta a noção de inconsciente.  
2.2 ETIOLOGIA
No plano da etiologia, Dunke afirma que a psicanálise introduz uma subversão correlativa da noção de causalidade, sendo este o tema que a domina desde sua origem.
Ao contrário da tradição que reinava no período da publicação do Estudos sobre histeria, onde era enfatizada a diagnóstica e a semiologia, Freud sempre esteve concentrado na possível articulação entre etiologia e terapêutica, pelo qual é possível verificar nos primeiros textos pré-psicanalíticos e principalmente nas correspondências com Fliess, essa intenção.
Em Lacan a noção da etiologia passará por dois momentos de revisões: no primeiro momento, a noção de causalidade é revertida pelo conceito de estrutura. “A estrutura não é nem um mecanismo, nem uma rede de condições, e também não se reduz à determinação dialética reflexiva, mas de certa forma, pode ser construída de modo a agregar dentro de si todos estes modelos de causalidade.” O segundo momento “reintroduz a noção de causalidade do sujeito (alienação e separação como categorias existenciais) e objeto a causa de desejo (como causa negativa) e depois disseminada na teoria do real sob as diferentes expressões da causalidade negativa.” (p. 450 -51).
2.3 DIAGNÓSTICA
Nesse ponto, encontramos, talvez, a maior subversão, onde Freud, no lugar de uma exaustiva classificação e de uma descrição objetivante, introduz uma homogeneidade entre tratamento e diagnóstico. E se na psiquiatria a posição de sujeito era tomada pelo discurso médico, representado pela figura do médico, situação na qual o objeto era o paciente representado pelo seu corpo, Freud inverte essa relação: aqui, o paciente é quem toma a posição de sujeito e que será posto por condição do método clínico. Assim, o analista exercerá a posição de objeto, ainda que no lugar de agente do discurso. Seguindo essa estratégia, Dunker acrescenta:
O diagnóstico é a leitura dessas articulações entre traços, significantes e sintomas em sua reatualização da realidade sexual do inconsciente, ou seja, é o diagnóstico feito não apenas através da transferência, mas da transferência. Isso implica uma reformulação radical da psicopatologia. Ela não exprime quadros fixos para um observador anônimo, mas formas mais ou menos regulares de transferência. (Dunker, 2011, p. 457)
Portanto, se o trabalho do diagnóstico depende da semiologia, como apresentamos acima, na psicanálise a semiologia não implica numa semântica de regime de signos fixos, de modo que a universalidade está apenas na forma vazia das leis de articulação do inconsciente e da pulsão. Assim, o trabalho de diagnóstico deve ser feito através de isolamento de significantes particulares que aparece na articulação de cada paciente.
A linguagem entra na diagnostica psicanalítica não apenas como estrutura, sublinha Dunker, mas como mediação fundamental na dialética com o Outro. A linguagem tem a dimensão da alteridade, o campo simbólico, no qual o sujeito está submetido, “que o constrange ali onde ele não é mais senhor em sua própria morada”.  (p.458)
É importante termos a distinção entre o diagnóstico para a clínica médica da clínica psicanalítica, pois naprimeira o paciente é objetivado ao seu diagnóstico em forma de uma alienação, enquanto na psicanálise o analisante não perde sua posição de sujeito para o seu diagnóstico.
Os desdobramentos do diagnóstico em psicanálise têm a prerrogativa de se completar apenas ao final do tratamento, de modo que a cada sessão deve-se buscar a posição do sujeito nas transferências, isso, porque em psicanálise a investigação diagnóstica diz respeito à exploração e construção da fantasia, pelo qual, em última análise o que se busca é um diagnóstico etiológico (p. 459).
Quantos às categorias semiológicas e diagnósticas, Freud importou e manteve as noções descritivas da psiquiatria: histeria, neurose obsessiva, fobia, paranoia (demência precoce), esquizofrenia, melancolia, sadismo, fetichismo e masoquismo. O mesmo aconteceu com outros níveis semiológicos. No entanto, Dunker demarca, neste ponto, três procedimentos decisivos para a clínica psicanalítica que subverteram a clínica clássica:
1. A separação entre psiconeuroses de defesa (fobia, neurose obsessiva, histeria e paranoia) e psiconeuroses atuais (neurastenia, hipocondria e neurose de angústia) tem como crivo de organização a incidência diferencial da sexualidade. A separação entre neuroses de transferência (histeria de angústia, histeria de conversão e neurose obsessiva) e neuroses narcísicas (melancolia, paranoia e parafrenia) tem como princípio de ordem a relação diferencial da circulação da libido entre o eu e os objetos. A separação entre psicoses, neuroses e perversões tem como parâmetro a relação com a perda da realidade. Desse modo, verifica-se que são os conceitos psicanalíticos que comandam as redescrições e não apenas as descrições clínicas puras dos quadros psiquiátricos.
2. A introdução de nova categoria clínica, como as neuroses atuais (de angústia, neurastenia, hipocondria), a parafrenia (espécie de híbrido entre paranoia e esquizofrenia), e as neuroses não estruturais (neurose de caráter, neurose de destino, neurose traumática). Assim, Dunker assinala que “não há dependência ou soberania da origem psiquiátrica das descrições”, pelo qual elas se apresentam como verdadeiras contribuições da psicanálise à clínica em geral.
3. As redescrições das categorias da clínica clássica, que Dunker considera ser a de maior importância, na psicanálise não foi reduzida a uma linguagem regional de uso próprio apenas pelos psicanalistas, ainda que sua circunscrição seja para o tratamento que lhe será próprio. No entanto, foi preciso essa redescrição para as categorias da diagnóstica psicanalítica, cujo objetivo foi sujeitá-las à dependência de sua semiologia, de sua terapêutica e de sua concepção etiológica. Mas, o que Dunker nos chama a atenção é que, nem sempre esse trabalho de redescrição foi orientado pelas exigências da metapsicologia, visto que é possível observar na história da psicanálise inúmeras afecções que migraram para o seu interior sem um trabalho de redescrição subversiva. De modo que encontrarmos vários tipos de categorias como a depressão, a dependência química, o déficit de atenção, os transtornos psicomotores, os problemas de aprendizagem e outros inúmeros gêneros que foram empregados em seu valor de face descritiva, sem qualquer consideração pelo seu funcionamento na clínica psicanalítica. Por outro lado, sublinha Dunker, há também algumas categorias introduzidas pela própria psicanálise, tais como os estados-limite e casos borderline. (p. 461)
Em Lacan, os fundamentos naturalistas serão completamente afastados do campo da psicopatologia, contudo, deixaremos para nos aprofundar nos diagnósticos a partir de Lacan quando tocarmos no tema das estruturas clínicas.
2.4 TERAPÊUTICA
Sobre a questão da terapêutica, Dunker nos remete ao texto do próprio Lacan: Variantes do Tratamento Padrão, de 1955. E sublinha que a terapêutica psicanalítica se caracteriza por acolher o discurso reconhecendo “o poder discricionário do ouvinte para elevá-lo a uma segunda potência” (p. 472). Desse modo, quem escuta tem de fato o poder discricionário, isto é, determina o sentido da mensagem e não que a profere, mas, ao invés de se colocar como intérprete do discurso do paciente, cabe a ele devolver ao analisante suas próprias palavras para que ele possa se apropriar delas e reconhecer nelas o seu desejo.
Sendo assim, as exigências terapêuticas, afirma Dunker, são exigências de discurso: interrupção, contenção, coerência, racionalidade interna, referencialidade externa, aceitação pelo outro. Pelos quais os critérios terapêuticos são critérios de linguagem: fala constitutiva, discurso constituído. E sobre a questão da técnica terapêutica, encontramos algo que foge à questão da técnica, ou seja, o desejo do analista que diz respeito a “considerar a ação que lhe cabe na produção da verdade”, sendo este, ponto de intersecção entre o plano da terapia e o plano da cura em psicanálise, conclui o autor (p. 473).
Dunker ainda nos apresenta um quadro, proposto por ele, onde nos ajuda a situar as operações de covariância internas à terapêutica psicanalítica:
Quadro 1 – Operações de covariância internas
	 
	Momento do tratamento
	Operação lógica
	Operação clínica
	Primeiro tempo
	Entrevistas preliminares
	Ou não penso
ou não sou
	Retificação das relações com o Real
	
	Implicação subjetiva
	Desalienação
	Entrada em análise
	
	Neurose de transferência
	Corte
(operação verdade)
	Interpretação
	Segundo tempo
	Mutação da transferência
	Não penso e não sou
	Análise das resistências
	
	
	
	Travessia da angústia
	
	
	
	Travessia das identificações
	Terceiro tempo
	Construção da fantasia
	Penso onde não sou
Sou onde não penso
	Castração
	
	Separação entre sujeito
suposto saber e objeto a
	Luto (não penso)
	Queda do objeto a
	
	Destituição Subjetiva
	Separação (não sou)
	Passagem de analisante a analista
TEMA 3 – AS PSICOPATOLOGIAS E A PSICANÁLISE
Psicopatologia é o termo usado para designar as manifestações das doenças mentais. A palavra vem do grego: psique = “alma” e pathos = “doenças”, ou seja, doenças da alma ou doenças do espirito. Os elementos que constituem sua disciplina – semiológicos e diagnósticos, são partilhados entre a psicologia, psiquiatria e psicanálise, cujas definições foram erigidas da medicina. A psicopatologia, como prática, pretende estabelecer a distinção diagnóstica e explicá-la.
Assim, para alinhar o entendimento dos diversos profissionais sobre questões, critérios e conceitos relacionadas à saúde, tais como: diagnóstico, funcionalidade e incapacidade, a Organização Mundial de Saúde recomenda algumas classificações internacionais, onde é utiliza uma linguagem comum padronizada, permitindo, dessa forma, uma comunicação segura.
Dunker e Kyrillos Neto (2011), no artigo: A psicopatologia no limiar entre psicanálise e a psiquiatria: estudo comparativo sobre o DSM, declaram:
Pelo número de disciplinas, disparidade de métodos e diversidade de posições, vê-se que a psicopatologia exige e implica a tomada de posição, visando organizar de modo coerente e homogêneo práticas terapêuticas e diagnósticas, bem como discursos semiológicos e etiológicos (Dunker, 2010). Isso implica a articulação entre experiências regulares de aspecto universal pelas quais pathos aparece como determinação excessiva ou deficitária e experiências contingentes ou singulares pelas quais pathos aparece como indeterminação produtiva ou improdutiva (Honneth, 2007). Não se trata de oposição simples entre quantidades e qualidades, entre singularidade e universalidade, mas da lógica de constituição da experiência, ou seja, do real e do regime de verdade em curso na psicopatologia. (Dunker; Kyrillos Neto, 2011)
Portanto, as psicopatologias se desenvolveram conceitualmente num terreno de trocas conceituais entre psiquiatria e psicanálise, contudo, a oposição na contemporaneidade entre elas parece atualizar um dilema antigo entre corpo-alma, impondo uma distância cada vez maior na medida em que a clínica do caso a caso, tão cara à psicanálise, não consegue encontrar lugar nas classificações consideradasuniversais e generalizáveis. Portanto, resta-nos saber o que sobrou de diálogo entre esses dois campos.
Sendo assim, precisamos, primeiramente, conhecer os instrumentos que geraram essa correspondência psicanalítico-psiquiátrico, onde se destacam três:
· CID: critérios para diagnóstico de doença: fornece código que gera motivo para vincular a pessoa a um serviço de saúde ou garantir direitos jurídicos.
· DSM: critérios diagnósticos para transtornos mentais.
· CIF: caracteriza a funcionalidade e limitação, mas não define diagnóstico e não dá nome de doença. Apresenta apenas as manifestações das doenças / patologias. A CIF contribui por fazer uma descrição das condições atuais da pessoa em relação ao que ela tem de positivo e negativo, ou seja, o que ela consegue ou não fazer em determinado contexto. Não se propõe a investigar e nem descrever determinantes, ou seja, não se detém ao que levou a pessoa a estar assim atualmente. Apenas descreve as potencialidades e limitações para a vida diária em determinado contexto. Tem aplicação universal e é bastante útil para fundamentar laudos sobre saúde mental.
O principal deles é o que tomaremos para análise: o Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorders (DSM), editado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA). Em sua primeira versão, o DSM-1 (1952), reconhece o papel proeminente da psicanálise.  Nele se revelou, pela primeira vez, a tentativa de concilia a classificação, que era provida pela Organização Mundial da Saúde - a Classificação Internacional de Doença (CID-6), as ideias psicanalíticas e psicopatológicas subjacentes, na qual elas poderiam conter particularidades não tão facilmente aceitas no resto do mundo. Mas, a partir do DSM-III (1980-1987), foi observada a retirada gradativa das categorias e signos clínicos advindos da psicanálise para serem substituídos por entidades “propriamente psiquiátricas”. Assim, nos DSM de nossos dias, que tipo de expressão poderíamos encontrar no campo da psicopatologia que seria capaz de contemplar as referências clínicas, semiológicas e diagnósticas tanto de solo psicanalítico quanto psiquiátrico?
3.1 A EVOLUÇÃO DOS DSM
O DSM é um manual diagnóstico e estatístico que possui relação com a classificação de transtornos mentais e de comportamento da Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS). Pelas palavras de Dunker e Kyrillos Neto: “o DSM é um imenso empreendimento coletivo, do qual participam diferentes grupos de trabalho, comportando milhares de pesquisadores divididos em seções que expressam orientações teóricas e clínicas distintas”.
No DSM-I, encontramos uma lista de diagnósticos categorizados, isto é, um glossário com descrição clínica de cada categoria diagnóstica. E através dele surge uma série de revisões sobre questões relacionadas às doenças mentais.
Em 1968, foi publicado o DSM-II, desenvolvido paralelamente com a CID-8, que trouxe apenas pequenas alterações nas terminologias. As alterações importantes vieram na publicação do DSM-III em 1980, quando a APA introduz modificações metodológicas e estruturais.
É, portanto, a partir do DSM-III, que o enfoque passa a ser mais descritivo, com critérios explícitos de diagnóstico organizados em um sistema multiaxial. Seu objetivo era facilitar a coleta de dados estatísticos. Em 1987 o DSM-III passa por uma revisão e sua publicação é feita como DSM-III – R. Nessa nova revisão, a homossexualidade foi retirada de uma condição patológica e posta nos termos de Homossexualidade Egodistônica. Mas o ponto que definitivamente estremeceu a relação entre psicanálise e psiquiatria fico sob a supressão do conceito de neurose, visto que se trata da classe fundamental da psicopatologia psicanalítica.
Dunker e Kyrillos Neto mencionam que, a partir do DSM-III, a psiquiatria, pela primeira vez, define-se em oposição à psicoterapia e “os psicoterapeutas são acusados de criar demandas e serviços para aqueles que realmente não estavam doentes, mas apenas descontentes (discontents)” (Mayes; Horwitz, citado por Dunker; Kyrillos). Por outro lado, os psicanalistas se posicionaram contra os psiquiatras partidários de uma visão fiscalista do transtorno mental.
Em 1994, foi publicado o DSM-IV, esse período representa uma grande mudança no manual que resultaram na inclusão de novos diagnósticos descritos com maior critério e precisão, sendo que, em 2013, ele passa por uma revisão e é lançado como DSM-IV – TR, um manual diagnóstico e estatístico que está relacionado ao CID-10. Antonio Quinet (2009) nos reporta que a partir dessa publicação os tipos clínicos da neurose (histeria, neurose obsessiva e fobia) foram retiradas do catálogo, e no campo da psicose apenas permaneceu a esquizofrenia, sendo removida a paranoia e melancolia.
Ao se substituir as doenças própria da psiquiatria clássicas por transtornos, opta-se mais pela descrição e pela comunicação desses fenômenos entre colegas que por uma clínica em que cada caso seja efetivamente um caso e onde os fenômenos sejam considerados sintomas, ou seja, formações entre as diversas instancias do aparelho psíquico. (Quinet 2009, p. 11)
Para Pessoti (1999), a CID, o DSM, tem por finalidade padronizar os critérios diagnósticos, o registro estatístico e o entendimento entre os clínicos, criando uma linguagem comum para a psiquiatria.
Kyrrillos, em seu artigo: DSM e psicanálise: uma discussão diagnóstica, enfatiza que entre a psicanálise e psiquiatria não se trata de uma disputa ideológica, “a psicanálise conservou a função diagnóstica da psiquiatria sem deixar de se referir à psiquiatria clássica, mantendo a relevância e a singularidade da fala de cada sujeito tanto no nível do enunciado quanto no da enunciação”. E conclui o autor, “o que colocamos em questão é que atualmente a psiquiatria encontra-se tomada pelo furor sanandi da farmacopeia, abandonando o seu saber clássico e clínico”.
Atualmente, temos vigente o DSM-V, publicado também em 2013, resultado de doze anos de estudos de diferentes grupos de trabalho. Seu objetivo foi trazer uma nova classificação, com a inclusão, reformulação e exclusão de outros diagnósticos. O DSM progressivamente foi ficando cada vez menos preocupado com a etiologia e voltado para o uso de drogas dotadas de eficácia para fazer correções biológicas capazes de suportar sua prática. Assim, a psiquiatria afasta-se progressivamente da psicanálise e dos seus preceitos conceituais e clínicos.
TEMA 4 – PSICANÁLISE E PSICOPATOLOGIA  
Para abordar as psicopatologias pelo olhar da psicanálise, é preciso efetuar um diagnóstico que, como vimos, diz respeito a um reconhecimento de um conjunto de signos, contudo, ela não se explica pela etiologia orgânica, mas pela linguagem, pois, na psicanálise, as psicopatologias estão diretamente ligadas ao recalcamento do desejo.
O desejo está desde sempre, para a psicanálise, na origem edipiana e, ainda que as modalidades dos sintomas se transformem de acordo com o seu tempo, o diagnóstico será fruto de um processo de construção do caso clínico que deve, necessariamente, se referir à estrutura que o condiciona. Freud, ao desenvolver a metapsicologia, pôde conceber um modelo para as psicopatologias clínicas da psicanálise a partir das formações inconsciente, a saber: neuroses, psicoses e perversão.
Antonio Quinet (2009), em seu livro Psicose e laço social, declara: “Freud mostrou que as leis do inconsciente estão presentes em todos os sujeitos: neuróticos, perversos e psicóticos”. Assim, ele encontra semelhança da formação dos sonhos com a formação dos sintomas neuróticos, a analogia do sonho com a alucinação e seu parentesco com a psicose”. (Quinet, 2009, p. 13).
No texto Considerações acerca do DSM-IV, os autores Roberto Calazans, Pedro Sobrino Laureano e Fuad Kyrillos Neto (2019), a respeito da etiologia, dizem: “a respeito da hipótese etiológica, Freud não se contenta apenas em deslocar para o psiquismo a causa dos distúrbios. Ele confere valor etiológico ao fracasso mesmo de representação da causa”. (p. 71). Isso significa que a etiologiado sofrimento será buscada, na psicanálise, à falha de inscrição psíquica do evento traumático.
Foi assim que Freud fez no Estudo sobre histeria: ele transpôs a dificuldade etiológica, encontrada pela medicina, para o psiquismo do doente, pelo qual declara: “as histéricas sofrem de reminiscência” (Freud; Breuer, 1895, p. 217).
O sintoma é efeito de um trabalho psíquico bastante elaborado que surge diante do mal-estar que acomete o sujeito e, como sublinha Silvia G. Myssior e Zilda Machado (2019) no texto: O que será das atividades da criança, ele “tem a função essencial de sustentar a estrutura do aparelho psíquico” (p. 115).
O texto O único não cabe no Manual, escrito pelas autoras: Cláudia Ferreira Melo Rodrigues, Cláudia Aparecida de Oliveira Leite e Rogéria Araújo Guimarães Gontijo (2019), afirma que narrativa sempre única do mal-estar escapa ao imperativo da codificação universal que o manual (DSM) propõe, pois a singularidade emerge na estampa de cada vivência de sofrimento. E foi assim que Freud concebeu a psicanálise, destacando a maneira única em que cada um é afetado para dizer do seu sintoma. “A estranha psicanálise demarca que o initium subjetivo é operado pelo traço unário, essa marca que recebemos do Outro e que traz para cada um a inscrição da diferença absoluta.” (p. 129).
Portanto, se a proposta do DSM é a de silenciar o sujeito, uma vez que oferta universalmente a descrição do sintoma, levando a palavra do que confere o “cada um” a desaparecimento, a psicanálise sustenta a palavra como direção de cura.
É imprescindível entender que ainda que a psicanálise tenha mantido as categorias psicopatológicas da psiquiatria clássica, Freud construiu uma semiologia própria da psicanálise e incluiu algumas inovações que na época acabaram influenciando as classificações da própria psiquiatria.
TEMA 5 – A QUESTÃO DO DIAGNÓSTICO EM PSICANÁLISE
A importância do diagnóstico diferencial em psicanálise não está para submeter o sujeito a uma categoria, nem mesmo a noção de estrutura clínica deve ambicionar a totalização da subjetividade e de suas formas de sofrimento, como nos adverte Dunker (2011), pois, assim, seria o mesmo de confundir semiologia e diagnostica, mas, na verdade, se trata de considerar a posição do sujeito no Édipo, ou seja, o modo como o sujeito entra na linguagem e a sua relação com a realidade. Desse modo, o psicanalista não trabalha com o diagnóstico, mas efetua uma leitura sobre o modo como sujeito é incidindo pela linguagem.
Nesse sentido, verificamos que o diagnóstico na clínica psicanalítica está relacionado à estrutura do sujeito e não aos fenômenos, portanto, o analista, ao nomear a estrutura do paciente, incide sobre a condução do tratamento, mantendo em seu horizonte aquilo que se impõe como verdade singular do sujeito.
Contudo, Freud buscou referências dos grandes nomes da psiquiatria clássica, como Kraepelin, fazendo da psicopatologia um tributo a ela. Reuniu as neuroses no fim do século XIX, com uma formulação etiológicas, muito diferente daquelas preconizado pela clínica psiquiátrica, pois, Freud possibilitou uma nova maneira de compreender os fenômenos e situou os sintomas numa relação de compromisso entre as diversas instancias do aparelho psíquico.
Os termos Verdrängung, Verwerfung e Verleugnung (repressão, rejeição e negação), que a princípio não representavam o marco divisório, aos poucos vão ganhando na obra freudiana a importância de um mecanismo que efetua uma forma de defesa especifica do sujeito e que determinará a sua constituição estrutural.
Para a psicanálise, o diagnóstico estrutural é, portanto, o resultado de uma investigação feita no um a um, no registro simbólico, pois é desde aí, onde todas as questões fundamentais do sujeito estarão articuladas (sobre sexo, morte e procriação) e por onde podemos encontrar os três modos de negação do Édipo, que correspondem às três estruturas clínicas:
1. Recalque = neurose, a castração do Outro é negada na consciência e mantida no inconsciente.
2. Desmentido = perversão, a castração do Outro é encoberta pelo objeto fetiche.
3. Negação = psicose, o Outro não é castrado.
NA PRÁTICA
Vemos então que o valor da clínica psicanalítica não se constituiu pelo olhar sobre a doença e tampouco pelo efeito de cura sobre uma doença, mas em estabelecer, ou dito de outro modo, restituir a verdade do sintoma do sujeito e essa pode ser considerada uma das maiores subversão da clínica dada pela psicanálise.
Freud, ao situar o sujeito em sua constituição estrutural, não submeteu à clínica ao diagnóstico, mas submeteu o diagnóstico a uma causalidade psíquica singular ao sujeito, portanto, o sujeito passa a se implicar no seu discurso. Assim, reconhecer as estruturas psíquicas através do discurso do sujeito é poder atuar na clínica como o agente de causa psicanalítica, ou seja, atuar na posição de analista.
Recorte de um caso: esse caso ocorreu no CAPS Nise da Silveira RJ, com um senhor que nomeamos de “Lopes”. Trata-se de um usuário antigo do CAPS, com um alto grau de socialização com os outros usuários e amigável com os técnicos. Lopes vivia sozinho em sua casa, pois seus pais já eram falecidos e casualmente mantinha contato com seus familiares.
De acordo com os eixos classificatórios do DSM-IV-TR, Lopes era tratado pelo seguinte diagnóstico: esquizofrênico paranoide, transtorno de personalidade Borderline, heteroagressividade, autoagressão, transtorno sexual sem outra especificação.
Por manter uma relação amistosa no CAPS, um grupo de técnicos e usuários realizaram uma vaquinha para reformar a casa de Lopes, pois a casa estava bastante depredada, com porta quebrada, paredes rabiscadas, sendo que Lopes dormia no chão em um colchão sujo.
A reforma foi realizada: doaram uma cama com colchão as paredes foram pintadas a porta consertada. A casa foi entregue limpa e arrumada para Lopes, que ao receber não esboçou nenhuma reação, ficou paralisado e sem falar nada.
Lopes não compareceu no CAPS durante duas semanas após a interversão, por conta disso, dois técnicos foram visitá-lo. Lopes estava agressivo e não quis recebê-los. A porta de sua casa estava quebrada e as paredes rabiscadas.
Na semana seguinte, Lopes retornou ao CAPS e disse que sua casa havia sido destruída pelos técnicos e que teve muito trabalho para consertá-la. Ao ouvir o relato, o analista pediu para que ele falasse sobre o que teve que consertar e Lopes não teve dúvida, “tive que colocar tudo como estava, pois ninguém iria saber que aquela era a casa era a minha casa do jeito que a deixaram”.
Lopes nos ensina sobre o belo, a escuta do um a uma, será que a intervenção feita pelo CAPS era o que Lopes desejava ou desejaram por ele? O que é o bom e belo para o sujeito?
O trabalho do psicanalista é com a escuta, cujas referência são dadas pelo sujeito que fala. As produções delirantes estão para o sujeito como sintoma na neurose, portanto, a casa do caso clinico refere-se à sua identidade, qualquer intervenção nela pode destruir o modo como o sujeito se relaciona no laço social, podendo levá-lo ao surto.
FINALIZANDO
O modelo da estrutura clínica foi o modelo herdado pela psicanálise, no entanto, Freud não submeteu a psicanálise ao seu sistema, pelo contrario, ele subverteu a clínica classica é inovou o funcionamento que a ordenava. A subversão da clínica passa do olhar para a escuta.
A semiologia psicanalítica se interessa pelo carácter singular e instável da ligação entre o significante e o significado e pelo aspecto multifacetado e temporal da produção da significação.
A etiologia – correlativa da noção de causalidade, sendo, este, o tema que a domina desde sua origem.
A diagnostica – está foi a maior subversão, onde Freud, no lugar de uma exaustiva classificação e de uma descrição objetivante, introduz uma homogeneidade entre tratamento e diagnóstico, no qual o paciente é quem toma a posição de sujeito e que será posto por condição do método clínico.
A terapêutica – a terapêutica psicanalítica se caracteriza por acolher o discurso reconhecendo “o poder discricionário doouvinte para elevá-lo a uma segunda potência”.
O DSM é um manual diagnóstico e estatístico que possui relação com a classificação de transtornos mentais e de comportamento da Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS). Cada vez menos preocupada com a etiologia e dispondo de drogas dotadas de eficácia para fazer correções biológicas capazes de suportar sua prática, a psiquiatria afasta-se progressivamente da psicanálise e dos seus preceitos conceituais e clínicos.
As psicopatologias em psicanálise – estão diretamente ligadas ao recalcamento do desejo, desejo de origem edípica, que resultam no modo de linguagem: neuroses, psicoses e perversão.
As psicopatologias em psicanálise são, portanto, tributárias da psiquiatria clássica, contudo ela é justamente o que podemos considerar como uma descontinuidade dessa prática, visto o modo como Freud utilizou o termo, pois ele introduz o patologico na vida cotidiana em seu eximio texto: As psicopatologia da vida cotidiana, no qual ele inclui os acontecimentos ordinarios da vida humana, como o esquecimento, os atos falhos, as supertiçoes, etc. a uma especie de patologia para além da doença.
Na clínica psicanalítica, é a escuta do complexo de Édipo na história do sujeito que vai determinar a sua posição subjetiva, no qual cada estrutura clínica será o resultado de múltiplas vivências complexas e paradoxais de cada criança com o seu par parental (mãe e pai), onde pela presença e ausência, se configurará diferentes versões que engendra as versões das neuroses, das perversões ou das psicoses.
REFERÊNCIAS
COELHO, E. P. Introdução a um pensamento cruel: estruturas, estruturalidade e estruturalismos, in Estruturalismo antologia de textos teóricos. Portugal: Martins Fontes, 1956
CALAZANS, R.; SOBRINO, P.; NETO, F. K. Considerações acerca do DSM-IV. In: psicanálise e psicopatologia: Olhares contemporâneo. São Paulo: Blucher, 2019.
DUNKER, C. Estrutura e constituição da clínica psicanalítica: uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento. São Paulo: Annablume, 2011.
DUNKER, C. I.; KYRILLOS NETO, F. A psicopatologia no limiar entre psicanálise e a psiquiatria: estudo comparativo sobre o DSM. Vínculo - Revista do NESME, v; 8, n. 2, 2011.
GARCIA ROZA, L. A. Introdução à metapsicologia freudiana. Vol. 2. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
FREUD, S. (1895). Rascunho K. As neuroses de defesa. In: Obras completas. Vol. I. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. (1913). Totem e tabu. In: Obras completas. Vol. XIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
MELO, C. F.; LEITE, C. A. de O.; GONTIJO, R. A. G. O único não cabe no manual. In: psicanálise e psicopatologia: Olhares contemporâneo. São Paulo: Blucher, 2019.
NETO, F. K. et al. DSM e psicanálise: uma discussão diagnóstica. Rev. SPAGESP, Ribeirão Preto, v. 12, n. 2, p. 44-55, dez. 2011.
PESSOTI, I. Os nomes da loucura. São Paulo: Editora 34, 1999.
QUINET, A. Psicose e laço social. Rio de Janeiro: Zahar, 2019.
ESTRUTURAS PSICANALÍTICAS
AULA 2
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Juliana Santos
CONVERSA INICIAL
Nesta etapa, vamos dar continuidade ao tema do diagnóstico diferencial da clínica psicanalítica. Para a psicanálise, o que lhe interessa, de fato, são as estruturas que constituem os fenômenos. Portanto, ao estabelecer um diagnóstico diferencial, como propôs Freud, estamos falando de uma ruptura com a psiquiatria que apresenta a cada nova edição do manual uma descrição nosográfica ampliada para estabelecer um diagnóstico. Assim, para pensarmos sobre a constituição estrutural que orienta o diagnóstico da clínica psicanalítica, temos que retomar os pensamentos iniciais de Freud.
Freud, no Projeto para uma psicologia científica (1895), nos apresenta a fundação do aparelho psíquico através da primeira experiência de satisfação, onde a relação mãe-filho é uma fonte contínua de excitação e satisfação sexual que se intensifica a cada toque e faz despertar, na criança, a pulsão sexual. E é dessa relação primitiva e arcaica, na qual a criança se considera o objeto de amor exclusivo dessa relação, que Freud extrai o complexo de Édipo, como sendo, este, o fundamento da fantasia do sujeito, pois, como afirma Nasio (2007) na abertura de seu livro Édipo: o complexo do qual nenhuma criança escapa: “não, o Édipo nada tem a ver com sentimento e ternura, mas com corpo, desejo, fantasias e prazer. Provavelmente, pais e filhos amam-se ternamente e podem se odiar, mas, no coração do amor e do ódio familiar, medra o desejo sexual”.
São, portanto, os efeitos da vivência edípica no psiquismo que, quando recalcado, desmentido ou foracluído, vão traçar o destino do sujeito e posicioná-los dentro ou fora da partilha dos sexos. Então, para esta aula, iremos nos deter de forma minuciosa sobre a teoria do complexo de Édipo que foi formulada por Freud em 1900 e que, desde então, sustenta a sua tese sobre a constituição psíquica, visto que o complexo de Édipo é o complexo nuclear da constituição das neuroses, como também da sexualidade humana.
O Édipo é a experiência vivida por uma criança de cerca de quatro anos que, absorvida por um desejo sexual incontrolável, tem de aprender a limitar seu impulso e ajustá-lo aos limites de seu corpo imaturo, aos limites de sua consciência nascente, aos limites de seu medo e, finalmente, aos limites de uma lei tácita que lhe ordena que pare de tomar seus pais por objetos sexuais. Eis então o essencial da crise edipiana: aprender a canalizar um desejo transbordante. No Édipo, é a primeira vez na vida que dizemos ao nosso insolente desejo: “Calma! Fique mais tranquilo! Aprenda a viver em sociedade!” Assim, concluímos que o Édipo é a dolorosa e iniciática passagem de um desejo selvagem para um desejo socializado, e a aceitação igualmente dolorosa de que nossos desejos jamais serão capazes de se satisfazer totalmente. (Nasio, 2007, p. 10)
TEMA 1 – O ÉDIPO REI
A peça do Édipo rei foi a inspiração de Freud para a sua teoria do complexo de Édipo. A peça retrata a história do jovem Édipo que, em dúvida quanto à sua origem, vai em busca de um oráculo. Este, lhe adverte sobre o seu destino e profetiza dizendo que Édipo mataria o seu pai e se casaria com a sua mãe. Horrorizado com a fala do oráculo, Édipo abandona sua cidade em Corinto, onde vivia com seus pais Pólibo e Peribéia, e vai em direção a Tebas, a fim de evitar o cumprimento da tão sinistra profecia enunciada pelo oráculo.
No caminho para Tebas, Édipo se envolve numa briga com um desconhecido, tendo como resultado a morte do homem. Prosseguindo seu caminho, encontra-se com uma Esfinge às portas de Tebas, que lhe propõe um enigma, pelo qual, se Édipo o decifrasse, a cidade se livraria da peste que a assolava, caso contrário, seria devorado. Tendo decifrado o enigma, Édipo é acolhido como herói, recebendo em troca o trono de Tebas, que estava vago devido à morte do rei Laio. Juntamente com o trono, Édipo recebe a mão da rainha Jocasta.
Com o passar do tempo, a cidade passa a ser assolada por uma nova peste, onde os sacerdotes declaram que o motivo da peste vinha por conta de um acolhimento dado a um culpado. Desse modo, enquanto o culpado se mantivesse encoberto, a peste seguiria dizimando a população.
Édipo ordena, então, que houvesse uma investigação em busca do culpado. No transcorrer da investigação, eis que na cidade chega um adivinho, vindo de Tirésias, e ele dá indícios de que o culpado seria ninguém menos que o próprio Édipo. Ao final, depois da revelação de que Édipo seria um filho adotado por Pólibo e Peribéia, fica evidente que seus verdadeiros pais são Laio e Jocasta. Com isso, a trágica verdade emerge: rei Édipo, parricida e incestuoso.
1.1 A TESE DO COMPLEXO DE ÉDIPO
Antes mesmo de publicar a sua tese do complexo de Édipo na Interpretação dos sonhos, Freud, em 1987, já havia abordado o tema com Fliess, seu amigo de correspondências, porém vale ressaltar que a construção conceitual do complexo de Édipo como operador clínico foi elaborado ao longo de toda a sua obra.
Édipo assassinou o seu pai e casou-se com a sua mãe e,para Freud, o efeito trágico da peça se efetua ao ecoar nos espectadores o reconhecimento de seus desejos criminosos, a saber: o assassinato do pai e o incesto com a mãe. Garcia Roza, em seu livro Introdução à metapsicologia Vol. II (2008), enfatiza que a verdade do parricídio e do incesto só emerge para Édipo no final do processo, pois entre a certeza do rei Édipo (ser herói) e a verdade do criminoso, interpõe-se um processo que transforma o primeiro momento no segundo, sendo este o produtor-revelador da verdade de Édipo.
Em primeiro lugar, para Freud, o complexo de Édipo vem vinculado à interdição do incesto, diferentemente do que ocorreu na peça, onde após assassinar o pai, Édipo casa com a mãe e tem quatro filhos. Mas o que se segue da peça mostra que Édipo, ao descobrir seu ato incestuoso, fura seus olhos, se autocegando, o que, para Freud, configura-se uma punição, que equivale ao que ele nomeou de castração, uma consequência lógica da vivência edipiana.
O mito de Édipo forneceu a Freud a estrutura de um desejo criminoso que se articula a uma proibição de um impossível de ser suportado. Por outro lado, por se tratar de um desejo, o sujeito se divide — rejeitando na consciência o desejo proibido e conservando no inconsciente, “entre não querer saber e um saber que não cessa de se escrever”, como declara Quinet em seu livro Édipo ao pé da letra (2015).
Portanto, a condição de não saber do Édipo é a condição legitima do inconsciente, enquanto saber não-sabido, isto é, o saber inconsciente do qual o sujeito não quer conscientemente saber. Assim, o destino do complexo de Édipo tende sempre ao recalque, que resulta, como veremos, em algumas consequências psíquicas.
TEMA 2 – O COMPLEXO DE CASTRAÇÃO
Freud (1924) explica a relação do complexo de Édipo com o complexo de castração nos textos A organização genital infantil e A dissolução do complexo de Édipo. No primeiro texto, Freud apresenta a primazia do falo como característica da organização sexual infantil, onde o órgão genital masculino representa o falo. Freud então instaura a fase fálica no desenvolvimento sexual, onde explica que o pênis está em posse comum a ambos os sexos, portanto, o falo é universal.
Mas com o surgimento da imagem “acidental” do órgão genital feminino, faz emergir a primeira negação da falta de pênis e, posteriormente, a conclusão de que ele esteve lá, mas foi arrancado. Assim, para o menino, ele conclui que ele também pode ser castrado (ameaça de castração).
Para a menina, a visão do pênis faz com que repare na sua falta (castrada). Dessa forma, Quinet (2015) declara: “Doravante, o falo imaginário, objeto ameaçado de perda para um, e objeto de inveja para outro, é inscrito na subjetividade, para ambos os sexos como faltante (-j). Nesse momento, que representa o declínio do Édipo para os meninos e a entrada no drama edípico das meninas, Freud estabelece o surgimento do supereu, como o herdeiro do complexo de Édipo, cujas exigências serão paradoxais, pois ao mesmo tempo que exige que se cumpra a lei, ordena a sua transgressão. Veremos isso adiante.
Mas o que precisamos destacar por ora é que tal momento que constitui o complexo de castração é o momento de instauração da lei, pois, em termos, é a ameaça a castração que valida a vivência edipiana e funda a relação do ser humano através da interdição universal, a lei do incesto.
2.1 O EFEITO TRÁGICO DA EPOPEIA EDIPIANA
No texto Para além do princípio de prazer, Freud (1920) retoma a dimensão trágica do Édipo para mostrar que na repetição transferencial e nas relações amorosas, o que se repete é o que se encontra na própria estrutura do complexo de Édipo, que se conjuga com o complexo de castração, onde Quinet sublinha o “ser-para-o-sexo”:
O laço da afeição, que via de regra liga a criança ao genitor do sexo oposto, sucumbe ao desapontamento, a vã expectativa de satisfação, ou ao ciúme pelo nascimento de um novo bebê, prova inequívoca da infidelidade do objeto da afeição da criança. Sua própria tentativa de fazer um bebê, afetuada com trágica seriedade, fracassa vergonhosamente. A menor quantidade de afeição que recebe, as exigências crescentes da educação, palavras duras e um castigo ocasional mostram-lhe por fim toda extensão do desdém que lhe concederam. (Freud citado por Quinet, 2015, p. 30)
Trata-se da experiência que está para além do princípio do prazer, o gozo oriundo daquilo que escapa a simbolização do complexo de Édipo, que mais tarde Lacan textualiza pelo não inscrição da relação sexual.
TEMA 3 – TOTEM E TABU
Na peça grega Édipo rei, o assassinato do pai permitiu o gozo à mãe, mesmo que tenha sido preciso pagar o preço dos olhos furados (castração real no corpo). Anos depois, Freud elabora o texto de Totem e tabu (1913-14), onde demonstra a interdição universal ampliando a discussão sobre o complexo de Édipo, projetando-o no âmbito social.
Esse texto, segundo Quinet, é mais adequado do que o mito de Édipo, pois, como vimos, o próprio Édipo não tinha o complexo de Édipo. Em Totem e tabu, o pai da horda primitiva retinha o gozo total de todas as mulheres, enquanto seus filhos eram proibidos de gozar sexualmente delas. O gozo do pai primitivo era absoluto, e ameaça de castração os outros homens, pois ele era o único que podia gozar, já que seu gozo estava excluído de interdição.
Certa vez, movidos pelo ódio da proibição, os filhos em comum acordo assassinam o pai gozador. No entanto, depois do pai assassinado, os próprios filhos restauram a interdição da endogamia e erguem um totem que simbolizava o pai morto, erigindo a interdição do incesto, ou seja, não se goza com a mulher do pai, esteja ele vivo ou morto. Nesse mito, verificam-se duas figuras do pai: o pai gozador e o pai morto, que após a sua morte assume a função do pai simbólico.
Freud, então, ressalta no texto a importância do assassinato do pai da horda para que todos pudessem ter acesso ao gozo, mas não ao gozo supremo, pois, com o pai morto, o acesso ao gozo supremo também foi excluído.
Quinet (2015) afirma que tanto na tragédia do Édipo rei, onde o parricídio permite o gozo à mãe ao preço da castração no real do corpo (os olhos furados), quanto no parricídio do pai da horda, onde se erige um totem que o representa e reafirma que o gozo supremo está barrado para o sujeito, é a função do pai, enquanto morto, ou seja, enquanto função simbólica, que faz barra o gozo da mãe, pois o sentimento de culpa é que faz vigorar o olhar de vigilância e a voz que critica sob a forma do supereu. Diz:
O gozo do pai desaparece com a sua morte e fica a Lei da interdição do incesto e o nome (substituto do pai que é um animal) como significante da lei e insígnia identificativa daquela “tribo”. Assim, o Nome-do-Pai elaborado por Lacan a partir do mito de totem e tabu nomeia o pai da lei e o pai da nomeação (função que Lacan atribuirá ao Nome-do-Pai nos anos 1970). (Quinet, 2015, p. 26)
O pai é o personagem que ameaça com a castração para punir o sujeito pelo desejo incestuoso. Quinet (2015) apresenta as articulações propostas por Freud na seguinte ordem: 1º - desejo sexual com a mãe; 2º - ameaça da punição-castração; 3º - desejo de assassinar o pai. Lacan, ao incidir sobre a teoria do complexo de Édipo e o mito de totem e tabu, acrescenta que o pai é o portador da lei, não só para proibir o incesto, mas o pai da Lei simbólica que funciona no psiquismo com o significante do Nome-do-Pai, que articula a Lei e desejo [lei (do pai) e desejo (pela mãe)].
Para além da lei civilizatória imposta pela figura do pai, como pai simbólico, Lacan pontua que o pai de Totem e tabu é o pai gozador que submete todos a seu poder. Tal representação constitui a figura do pai real que, em Freud, recebe o nome de supereu, instância herdada pelo filho.
TEMA 4 – A RELEITURA DO ÉDIPO EM LACAN
A leitura que Lacan faz do complexo de Édipo rende novos horizontes para a clínica, pois ele coloca o Édipo no centro do diagnóstico estrutural, isto é, o complexo de Édipo surge como divisor de águas entre o campo da neurose e psicose, isso significa que, sem o complexode Édipo, o sujeito responderá a partir da foraclusão do Nome-do-Pai.
O Édipo em Lacan corresponde, então, a uma primeira metaforização, do desejo materno, pois como vimos em Freud, a mãe e o bebê inicialmente vivem uma relação plena de amor, com a incisão da lei do pai, o bebê se separa da mãe, e esse momento representa a entrada do sujeito na linguagem. Desse modo, verificaremos que os desdobramentos do complexo de Édipo nos ensinos de Lacan implicarão o sujeito na sua relação com o seu desejo, situando-o na partilha dos sexos.
É, então, no seminário 5, As formações do inconsciente (1958), que Lacan traz à tona o que sempre esteve na mira de Freud, a função do pai. O pai, como um registro imaginário, tem a função de sustentar a lei simbólica através do significante do Nome-do-Pai, interditando o gozo da mãe. Assim, Lacan nos ensina a ler o Édipo pela “metáfora paterna” uma operação lógica dos significantes que terá como resultado a inscrição do Nome-do-Pai no lugar do Outro.
4.1 A METÁFORA PATERNA
A metáfora paterna é o modo como Lacan nos ensina a ler o acontecimento edipiano. Em primeiro lugar, verificamos a preeminência do simbólico sobre o imaginário e o real, e reordenando o campo das estruturas clínicas.
A função simbólica do pai é apreendida pela linguagem, onde o pai se transforma num significante que Lacan nomeou de Nome-do-Pai. O momento fecundo que institui essa constituição pode ser pensado através do mito freudiano de Totem e tabu, onde o pai morto provoca uma dívida simbólica, que liga o sujeito a vida e a lei, destaca Antonio Quinet (2015).
Desse modo, a função paterna evocada por Lacan não é a do pai genitor, e sim a função simbólica do significante do Nome-do-Pai que representa a lei simbólica no lugar do Outro.
A importância do simbólico como um registro na organização psíquica é abordada por Lacan no seminário 3, As psicoses (1956), onde a função da estruturação da cadeia significante é destacada pelo seu arranjo especifico, que operar por meio da metáfora. Ou seja, a metáfora opera pela lei de linguagem, portanto, ela não ocorre por qualquer arranjo de significante, é preciso de um vínculo posicional, internos ao significante, para que haja ordem das palavras e, assim, gere um fundamento de sentido. Assim, é apenas por esse sentido, que ordena a cadeia significante, que a metáfora pode cumprir sua função e precipitar um novo sentido. “Para que vocês compreendam isso, basta lembrarem-se de que Pedro mata Paulo não é equivalente a Paulo mata Pedro”, portanto, a organização das palavras, da cadeia significante, é um sistema de linguagem de coerência posicional.
Lacan afirma que o inconsciente funciona pela mesma lei de linguagem. Assim, a metáfora é a substituição de significantes que se articulam na cadeia, cuja função é criar um novo sentido a uma articulação já existente. Keylla Barbosa, em seu artigo “De Jakobson a Lacan: a construção da metáfora paterna”, declara:
Para que os significantes possam se substituir, eles devem estar encadeados e deve haver uma identidade entre eles, porque a identidade se dá pela posição, e, para haver pareamento posicional, é indispensável uma cadeia significante articulada. Portanto, se a metáfora se faz por uma articulação posicional, a condição para que ela exista é que haja articulação significante e que, nesta articulação, cada elemento ocupe a posição específica que lhe caiba. Um significante resta e outro é elidido. O significante que cai no decorrer desta operação não sai totalmente de cena. Ele se mantém em uma relação metonímica com o restante da cadeia.
Portanto, é preciso sublinhar que na operação da metáfora, ela fica subordinada à metonímia, pois é ela que garante o encadeamento para dar origem a um novo sentido, ou seja, o significante metaforizado se mantém na cadeia pela metonímia: “É a metonímia a responsável por fazer com que toda significação remeta a outra e, deste modo, a cadeia não para de se articular”. A fórmula da metáfora apresentada por Lacan em De uma questão preliminar é a seguinte:
Onde se lê assim: os S são significantes, x é a significação desconhecida e s é o significado induzido pela metáfora, que consiste na substituição, na cadeia significante, de S’ por S. A elisão de S’ está representado pelo risco, sendo essa a condição de sucesso da metáfora. No segundo termo da fórmula, o símbolo I (inconsciente) nos lembra que S’ foi recalcado.
Vamos pelo exemplo de Antonio Quinet, que explica essa operação assim: se digo: “Maria é uma flor” é porque há um significante que encontro tanto em “Maria” quanto em “flor”: o significante “delicado”, podemos então escrever através da operação:
Na metáfora paterna, o pai como significante que metaforiza o desejo da mãe para a criança vai ser posto por Lacan a partir do seminário 3, onde o pai totêmico, de Freud, passará assumir a função simbólica, instância da lei. Isso significa que o pai, que funciona para o filho, não é o pai genitor, mas trata-se do significante Nome-do-Pai.
O Nome-do-Pai é um significante e não uma pessoa, ele está no discurso da mãe, declara Antonio Quinet (2015). Assim, Lacan propõe uma operação simbólica, fundamental, que corresponde em Freud à epopeia edipiana, que efetuara a inscrição do Nome-do-Pai, o significante que permite a simbolização da procriação, isto é, da posição feminina e masculina na partilha dos sexos. Em última análise, o significante do Nome-do-Pai é o significante que estrutura o inconsciente como uma linguagem e instaura a ordem das leis de linguagem — metáfora e metonímia, portanto, trata-se do significante primordial para a organização psíquica.
4.1.2 A leitura da metáfora paterna
Se tomarmos a metáfora por fração, verificamos que, de início, temos a relação mãe-bebê, onde o bebê está enredado ao Desejo-da-Mãe (DM), resume-se o desejo por ele (o bebê) como desejo dela. O denominador X é o que significa para o sujeito, portanto, uma incógnita, pois para o sujeito bebê, perante o desejo da mãe: o que ela quer?
No segundo tempo, de um tempo lógico e não cronológico, o discurso da mãe insere na relação o Nome-do-Pai, pelo qual este vem substituir o DM, pela operação metafórica (trabalho, pai, corpo etc.); desse modo, X recebe uma significação, ou seja, um valor fálico:
Assim, a operação de substituição metafórica resulta na inscreve o Nome-do-Pai no lugar do Outro em A. Logo, o sujeito entra na lógica fálica, pois o falo é significação dada ao desejo do Outro, que é marcado pela falta.
O falo, diz Quinet, entra em jogo como significante (ɸ) produto da operação da metáfora paterna. Ele se distingue do falo imaginário, que é sempre negativo (-φ), pois evoca nos homens a castração e nas mulheres a inveja desejo de pênis. Lacan faz da metáfora paterna a sua releitura do Édipo freudiano.
TEMA 5 – OS TRÊS TEMPOS DO ÉDIPO
Ainda no seminário 5, As formações inconscientes (1958), Lacan introduz uma nova forma de pensar o complexo de Édipo, distinguindo três tempos lógicos.
· 1º tempo: momento em que a criança está totalmente identificada ao objeto de desejo da mãe. O bebê=falo, uma equivalência simbólica que é resultado do complexo de Édipo na mulher, pois daí resulta essa posição de identificação com o falo materno. Antonio Quinet (2015) sublinha que há nesse tempo três elementos: a criança, a mãe e o falo, sendo que a criança equivalente ao falo.
Nesse tempo, a mãe está na posição do Outro absoluto, pois, para a criança, ela é a única capaz de suprir as suas necessidades, dependendo apenas da boa ou má vontade. Trata-se da lei do capricho, ressalta Quinet, na qual a criança se encontra assujeitada, assim, “nesse primeiro tempo lógico do Édipo, a mãe é para a criança um Outro absoluto. Se a criança jubilar, se ela atinge o equivalente ao orgasmo, como diz Freud em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, é porque ela responde de um lugar de objeto do desejo da mãe” (Quinet, 2015, p. 40).
· 2º tempo: esse momento corresponde à inauguração da simbolização. Lacan explica essa passagem através do brincar da criança e resgata o jogo decarretel (fort-da), descrito por Freud em Além do princípio de prazer. Trata-se da repetição feita de forma lúdica pela criança, onde ela lança o carretel, fazendo desaparecer; depois puxa o carretel, fazendo reaparecer. Tal repetição seria uma forma de simbolizar o desaparecimento e o retorno da mãe que é enunciando pelas palavras que representam o seu afastamento e o seu retorno (fort-da).
Lacan aponta nessa brincadeira uma tentativa de poder representar a mãe de forma simbólica pelo objeto e fonemas entonados. Pois, ao enunciar o par de fonema “ooo”, que Freud interpreta por fort (longe), e “aaa”, por da (aqui), é fundada a sua entrada na linguagem, posto que é possível situar o par significantes (S1 – S2) base da cadeia significante, por onde se desloca o sujeito. Quinet diz assim:
Ela (a criança) entra no binarismo significante (S1 – S2), fundamento da cadeia significante, por onde se desloca o sujeito. A mãe, podendo ser simbolizada por um significante, passa do status de objeto primordial ao de signo. A relação da criança com ela deixa de ser imediata, pois há uma mediação simbólica pela linguagem. (Quinet, 2015, p. 40-41)
É preciso enfatizar que no segundo tempo do Édipo, essa operação que efetua a simbolização da ausência da mãe não ocorre de forma espontânea, é necessário que surja a intervenção de um quarto termo que possa inscrever a lei de interdição. Trata-se do significante do Nome-do-Pai, que se impõe barrando o desejo da mãe, interditando a posse da criança como objeto e significando para a criança que o desejo da mãe está para além dessa relação.
O Nome-do-Pai, portanto, o pai enquanto uma função simbólica, entra em cena para metaforizar o lugar de ausência da mãe. Se no primeiro tempo o Outro, encarnado pela mãe, era um Outro pleno e absoluto, com a interdição do Nome-do-Pai o Outro é barrado e, assim, a lei simbólica se instaura para o sujeito, pela qual o Outro em A, passa a se constituir como lugar de lei, do pacto da fala.
O segundo tempo do Édipo, portanto, equivale à castração simbólica, o recalque originário, pelo qual a criança perde a sua identificação ao falo da mãe, ou pelo menos recalca. O falo é elevado ao nível de significante de desejo da mãe, pois a ela o falo falta também (A). Quinet declara assim:
O Nome-do-Pai, inscreve-se no Outro, lugar ocupado anteriormente pela mãe, não simbolizada, permite a articulação entre o complexo de castração e o acesso ao simbólico no processo do Édipo. Por intermédio da metáfora paterna, a significação do falo é evocada no imaginário do sujeito. Antes disso, não havia tal possibilidade. Mas o preço de tornar-se significante é o próprio desaparecimento do falo. O efeito da castração simbólica aparece no imaginário como falta: (-φ). (Quinet, 2015, p. 41)
Dessa forma o falo é elevado ao nível de significante (ɸ), como desejo do Outro, não como (-φ), que é a sua forma imaginarizada. O falo, diz Quinet, é o significante que permitirá ao sujeito atribuir significações a seus significantes, ou seja, é o significante que, por excelência, permite ao sujeito situar-se na ordem simbólica e na partilha dos sexos. “O sujeito passa de uma posição de ser falo a uma posição de falta-a-ser, entrando na dialética do ter ou não ter”.
· 3º tempo: configura-se pelo declínio do complexo de Édipo, onde o menino passa da posição inicial de ser o falo à posição de ter o falo, podendo a partir daí dar uma significação ao seu pênis. Nesse sentido, a figura do pai, enquanto marido da mãe, é tomado como modelo de identificação do Ideal do eu, cuja matriz simbólica é o significante do Nome-do-Pai. A mulher se situará como o objeto de desejo do homem, ser o falo.
5.1 A PROBLEMÁTICA DO FALO
A assimetria que há no Édipo, entre menina e menino, deve ser entendida pela assunção do falo, isto é, ter ou não o falo como o elemento pivô, na qual a identificação sexual (e não genital) do sujeito se organiza e se diferencia. Patrick Valas (2001) nos ajuda a alcançar esse discernimento em seu livro As dimensões do gozo, que diz assim:
• a menina entra no Édipo através do complexo de castração, isto é, como castrada, e ela sai pela angústia, que funciona para ela como equivalência da castração, pois na realidade a ela o falo só falta simbolicamente; ela não está privada de nenhum órgão;
• o menino entra no Édipo pela angústia de castração, angústia de ser castrado, e sai pelo complexo de castração, o que significa que paira sempre sobre ele o temor de ser castrado - Freud precisa que se trata essencialmente de um temor que se enraíza no narcisismo.
A posição de ter o falo ou ser castrado, é importante que se entenda, não se designa pela realidade anatômica, mas sim entre a presença e ausência de um único termo — o simbólico. A função simbólica que pode dizer ao homem tem o falo, enquanto a mulher se diz castrada. Isso porque o pênis, enquanto forma, é sede de um gozo privilegiado, que, como situa Patrick, Freud o designa muito bem, pois é a parte de libido que permanece fixada ao corpo próprio, porque sempre há uma parte de libido que não é transferida para o objeto.
O falo, como definido por Lacan, “é a significação, nenhuma outra significação, que não a própria significação", dito de outra maneira, por Patrick valas: “o falo como significado é justamente o objeto que dá à criança a significação das idas e vindas da mãe, isto é, o falo enquanto ela não o tem e enquanto a criança o atribui a ela, na sua fantasia”. Sendo assim, o falo torna-se pivô da economia do desejo, na medida que ele é o desejo sexual (o que falta a mãe).
Lacan faz a distinção de dois falos, o falo como significante do desejo resultado da inscrição simbólica (ɸ) e o falo significado, que é o objeto imaginário da castração (-φ). Suas articulações se inscreve no processo da metáfora paterna, que se efetua no processo edipiano, onde um laço vem se estabelecer entre eles, por suas funções respectivas, como situa Patrick, não são intercambiáveis, naquilo que Lacan chama de heteróclito do complexo de castração — termo que aparece para lembrar que os elementos reais, imaginários e simbólicos que o organizam são heterogêneos.
 
NA PRÁTICA
A nova leitura de Lacan sobre o complexo Édipo deu ao conceito uma afinação precisa para a clínica, pois a referência edípica passou a se situar no centro da escuta para o diagnostico diferenciado das estruturas clínicas. Pois é só partir da escuta da epopeia edípica do sujeito que podemos pensar na hipótese de um diagnóstico diferencial. Na psicose, o sujeito não viveu o complexo de Édipo, a inscrição do Nome-do-Pai foi foracluído.
Mas, na prática, como ouvir a história edipiana na clínica? Claro que o sujeito não fala declaradamente sobre a sua relação edipiana, pois ela é inconsciente. Ela em suas relações transferenciais. Por exemplo: nas entrevistas preliminares, o analista deve investigar as relações do sujeito, se ele é casado, se namora, com quem vive, se tem muitos amigos etc. Essas relações sociais apontam para o modo como o sujeito se posiciona no laço social.
Certa vez, uma mulher de 49 anos, divorciada, sem filhos, formada em história, mas nunca exerceu a profissão, buscou análise, pois dizia que estava muito cansada da vida. Tudo lhe cansava, não tinha ânimo para nada, queria dormir e não falar com ninguém. Aparentemente, parecia um quadro de depressão, mas, ao ser questionada sobre o tempo que vinha se sentindo assim, ela responde que sempre foi assim, nunca viu sentido na vida.
Sobre o seu casamento, diz que na faculdade conheceu um rapaz muito bonito e que ele gostou dela, pois ela sempre chamou muita atenção. Assim, eles começaram a namorar, ficaram noivos, sem saber o real motivo, pois brigavam muito, ele vivia na praia e não gostava de trabalhar, mas que mesmo assim se casaram, pois queria ter um casamento bem chique e eles juntos faziam um belo casal. O casamento durou menos de um ano, um dia ele saiu e não voltou mais. O seu pai conseguiu anular o casamento e, depois dele, nunca quis ficar com ninguém.
O decorrer de suas sessões foi marcado por relatosde intrigas familiares. Ela declaradamente odeia a sua mãe, chegando a agredi-la fisicamente, e nutre um amor sexual pelo seu pai. Suas declarações não passam por nenhum crivo de censura.
Portanto, nesse curto recorte de um caso clínico, é possível notar que no discurso da paciente, o desejo como causa é esvaziado, pois a vivência edipiana que funda o desejo através da interdição do incesto não ocorreu. Nesse caso, a hipótese do diagnóstico estrutural é de uma psicose com delírios paranoicos.
FINALIZANDO
1. O mito de Édipo forneceu a Freud a estrutura de um desejo criminoso que se articula a uma proibição de um impossível de ser suportado. Mas, por outro lado, por se tratar de um desejo, o sujeito se divide — rejeitando na consciência o desejo proibido e conservando no inconsciente, “entre não querer saber e um saber que não cessa de se escrever”, como declara Quinet (2015).
2. O complexo de castração é o momento de instauração da lei, pois, em termos, é a ameaça de castração que valida a vivência edipiana e funda a relação do ser humano através da interdição universal, a lei do incesto.
3. No mito de Totem e tabu, o pai é o personagem que ameaça com a castração para punir o sujeito pelo desejo incestuoso. Quinet (2015) apresenta as articulações proposta por Freud na seguinte ordem: 1º - desejo sexual com a mãe; 2º - a ameaça da punição-castração; 3º - desejo de assassinar o pai. Lacan, ao incidir sobre a teoria do complexo de Édipo e o mito de totem e tabu, acrescenta que o pai é o portador da lei, não só para proibir o incesto, mas o pai da Lei simbólica que funciona no psiquismo com o significante do Nome-do-Pai, que articula a Lei e desejo [lei (do pai) e desejo (pela mãe)].
4. Na releitura do complexo de Édipo em Lacan, ele vai resumir o complexo de Édipo na metáfora paterna, onde o Nome-do-Pai surge como um novo termo que vem barrar o gozo do Outro, destruído a identificação da criança com o falo da mãe. E elabora os três tempos lógicos do Édipo: 1º) A criança está identificada ao falo materno (mãe-bebê-falo); 2º) A criança perde a identificação ao falo e recalca, simbolizando a ausência da mãe pelo Nome-do-Pai (recalque originário); 3º) A saída do complexo de Édipo, onde a questão do falo é colocada entre o ser e o ter.
5. A problemática do falo: Lacan faz a distinção de dois falos, o falo como significante do desejo resultado da inscrição simbólica (ɸ) e o falo significado, que é o objeto imaginário da castração (-φ).
REFERÊNCIAS
BARBOSA, K. De Jakobson a Lacan: a construção da metáfora paterna. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica [online], v. 23, n. 3, p. 29-37, 2020. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/1809-44142020003005>. Acesso em: 10 maio 2022.
FREUD, S. As neuroses de defesa. In: Obras completas. Vol. I. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
_____. Conferência XXXI. A dissecção da personalidade. In: Obras completas. Vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LACAN, J. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
_____. Livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
NASIO, J. D. Édipo, o complexo do qual nenhuma criança escapa. Rio de Janeiro: Zahar.
QUINET, A. Édipo ao pé da letra: fragmentos de tragédia e psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.
_____. Os outros em Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.
VALAS, P. As dimensões do gozo: do mito da pulsão à deriva do gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
ESTRUTURAS PSICANALÍTICAS
AULA 3
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Juliana Santos
CONVERSA INICIAL
Em conteúdos anteriores, vimos que o mito do Édipo é a tentativa de dar forma a uma estrutura, ou seja, ele é a ficção do nosso envolvimento com o registro simbólico. O falo em sua função imaginária coloca o sujeito diante da questão do próprio sexo, na medida em que ele se inscreve como falta (-φ). A castração, contudo, só opera se o Outro trasmitir a lei da interdição.
A intervenção do Nome-do-Pai no Outro é a releitura do Édipo feita por Lacan, que se configura em um tempo lógico em que a identificação imaginária da criança com o falo da mãe será recalcada. Assim, o falo passa para o nível de significante do desejo do Outro, instituindo a castração no Outro.
Portanto, é o Nome-do-Pai inscrito no lugar do Outro, como lei simbólica, que coloca o sujeito na ordem simbólica, permitindo a inauguração da cadeia do significante no inconsciente. Essa situação pode ser vista, também, no esquema L. Vejamos:
Lacan declara que tudo que acontece com o sujeito depende do que acontece em A. Então, se o Outro foi barrado pelo Nome-do-Pai, as questões do sexo e da existência do sujeito se colocaram no Outro em A (tesouro do significante); assim, as questões ficaram barradas pelo muro da linguagem (a-a’), eixo narcísico. Desse modo, o sujeito neurótico só terá acesso a elas pelas formações do inconsciente (lapso, sonho, ato-falho).
Portanto, o neurótico paga um preço para entrar na linguagem, e o preço é o Édipo, que lhe condenará à falta através da castração simbólica. Não pagar esse preço equivale a escolher o campo da psicose.
Nesta etapa, primeiramente vamos desenvolver um breve estudo sobre a evolução conceitual da constituição das estruturas clínicas, isolando os principais mecanismos que caracterizam cada estrutura na teoria freudiana. Em seguida, vamos estabelecer o desenvolvimento conceitual proposto por Lacan. 
TEMA 1 – ESTRUTURAS CLÍNICAS EM FREUD
As estruturas clínicas no campo da psicanálise dizem respeito à posição do sujeito na linguagem. São elas: neurose, psicose e perversão. Ao dar ouvidos ao sofrimento das histéricas que apresentavam sintomas de conversão somática, Freud observou que as formações dos sintomas, dos atos falhos, dos chistes e sonhos tinha gênese inconsciente. Por conta disso, ele se questionou a respeito da organização do psiquismo, declarando que a própria neurose podia se estruturar por conjecturas diferentes, não estando restrita à histeria. Nesse sentido, Freud passa a se interessar pela “escolha da neurose”.
Na carta 125 (Freud, 1996b, p. 331), endereçada a Fliess, Freud declara: “Tenho diante de mim o problema da “escolha da neurose”. Quando é que uma pessoa se torna histérica em vez de paranoica?”. Já no texto A disposição à neurose obsessiva uma contribuição ao problema da escolha da neurose, de 1913 (Freud, 1996a, p. 193), encontramos o seguinte questionamento: “por que é que esta ou aquela pessoa tem de cair enferma de uma neurose específica e de nenhuma outra. Este é o problema da ‘escolha da neurose’”.
Assim, se traçamos uma linha de desenvolvimento da teoria freudiana, veremos que a questão da escolha da estrutura sempre esteve presente em sua obra. Nos textos sobre a etiologia das neuroses, Freud apresenta a sua tese inicial, que estabelece cronologicamente as ocorrências sexuais infantis traumáticas. Cada neurose teria um requisito específico que determinaria a origem do mecanismo de defesa.
Quadro 1 – Neuroses
	 
	Ia
	Ib
	A
	II
	B
	III
	
	Até 4 anos
Pré-consciente
	Até 8 anos
Infantil
	(De 8 a 10 anos)
Segunda dentição
	Até 14 anos
Pré-puberdade
	(de 13 a 17 anos)
Puberdade
	Até X
Maturidade
	Histeria
	Cena
	 
	Recalque
	 
	Recalque
	 
	N. obsessiva
	 
	Cena
	Recalque
	 
	Recalque
	 
	Paranoia
	 
	 
	 
	Cena
	Recalque
	 
Portanto, o momento da ocorrência do evento sexual na infância seria determinante para a escolha da neurose, como demonstra o anterior. Camilia Alvarenga Côrtes (2016, p. 28) descreve:
Na histeria, as cenas ocorreriam no primeiro período da infância, época em que os resíduos de memória não são traduzidos em imagens verbais. Assim, o resultado do despertar dessas cenas nas fases A e B é sempre uma conversão, pois a tradução é impedida pela atuação conjunta da defesa como excesso de sexualidade. Na neurose obsessiva, as cenas seriam referentes a uma época em que já existe tradução em palavras, e seu despertar, nas épocas II e III, provoca a formação de sintomas psíquicos. Na paranoia, as cenas ocorrem na época II, sendo despertadas em III, na maturidade,e a defesa manifesta-se pela desconfiança.
Assim, o trauma sexual infantil coloca em função o mecanismo de defesa, que funcionaria como o operador da estrutura. Porém, essa teoria não se sustenta por muito tempo, pois para tanto Freud teria que admitir um abuso sexual em todas as crianças.
Mais adiante, Freud, em Interpretação dos sonhos (1900), conceitualiza a primeira tópica do aparelho psíquico, cujo funcionamento se baseia em três sistemas: inconsciente, pré-consciente e consciente. Cada sistema exerceria uma função específica. No surgimento da enfermidade, as instâncias estariam em desarmonia, por conta da ocorrência de circunstâncias externas. Esse discernimento leva Freud à elaboração do mecanismo do recalque, evidenciando a sua relação com o desejo proibido – o Édipo.
Em 1911, na análise do “Caso Schreber”, um caso de paranoia, Freud chega a mais uma constatação importante. Ele declara que, no cerne do conflito paranoico, existe um desejo homossexual. Para explicar a sua descoberta, Freud desenvolve o conceito do narcisismo, momento em que o sujeito toma para si o seu próprio corpo como objeto amoroso, para só depois passar à escolha de um objeto de amor. Segundo Freud, na paranoia há uma fixação libidinal nesse estádio.
Logo, a história do desenvolvimento da libido está relacionada com o modo como o recalque se efetua, a partir de uma distinção em três fases: fixação, recalque propriamente dito e retorno do recalcado. Sobre a fixação, Côrtes (2016, p. 40) declara:
A fixação é a condição necessária de todo recalque, caracterizando-se pela inibição de um determinado componente pulsional no desenvolvimento, que é deixado para trás, em um estádio mais infantil, comportando-se como se pertencesse ao sistema inconsciente, como recalcada. Tais fixações pulsionais formam a base para a disposição à enfermidade posterior.
O recalque provém de um sistema mais desenvolvido do eu, que segundo Freud se caracteriza por um processo ativo, enquanto a fixação é passiva. Contudo, para que haja um recalque, é necessário repressão por parte do sistema consciente, que exerce uma certa atração por parte do sistema inconsciente. O retorno do recalcado diz respeito ao fracasso do recalque, que produz efeitos patológicos no sujeito, quando os sintomas se fundem no ponto de fixação da libido.
Na última parte da teoria freudiana, que se formalizou com a elaboração da segunda tópica, Freud – com destaque para o texto Neurose e psicose, de 1924 – retoma a instância do eu para pensar a sua relação com o Id e todos os outros elementos, aos quais o eu se submete simultaneamente. O autor estabelece aí uma nova distinção entre neurose e psicose: “a neurose é o resultado de um conflito entre o eu e o id, ao passo que a psicose é o desfecho análogo de um distúrbio semelhante nas relações entre o eu e o mundo externo” (Freud, 1996e, p. 89). Sobre o tema, Côrtes (2016, p. 44) traz o seguinte esclarecimento:
Desta forma, a neurose seria decorrente de uma recusa do eu em acolher ou conduzir a uma resolução motora uma pulsão oriunda do Id, o que é realizado através do recalque. Porém, como o conteúdo recalcado usa algumas vias para escapar disso, ocorre a formação do sintoma, que se opõe ao eu e contra o qual este irá lutar a partir de então, como antes lutou contra a moção pulsional. Disso resultaria o quadro da neurose. Quanto ao mecanismo da psicose, [...] Freud afirma que haveria uma perturbação entre as relações do eu com o mundo externo. Segundo ele, este dominaria o eu pelas percepções atualizáveis ou pelas lembranças de percepção passadas, o “mundo interno”, que teria como função representar a realidade externa internamente.
A tentativa de distinguir o mecanismo da neurose e da psicose sempre esteve presente em Freud. Contudo, os mecanismos específicos da psicose não chegaram a ser isolados, assim como foi feito com o recalque na neurose e com o fetiche na perversão. Quem estabeleceu essa conceituação foi Lacan.
TEMA 2 – ESTRUTURAS CLÍNICAS EM LACAN
Lacan entra na psicanálise justamente pela porta da psicose, o caminho inverso de Freud, que entrou pela histeria. Mesmo respeitando as elaborações freudianas a respeito dos mecanismos de neuroses, perversões e psicose, ele avança sobre outras dimensões, localizando as estruturas subjetivas de cada uma delas.
De fato, a psicose não ocupou um lugar central nas obras de Freud. No entanto, ele nunca deixou de abordá-la ao longo de sua teorização. E foi exatamente a partir das pegadas deixadas por Freud que Lacan encontrou os elementos necessários para o seu estudo, levando a cabo a sua tese a respeito do mecanismo próprio da psicose.
Lacan (1988) dedicou um seminário às psicoses, partindo dos termos Verneinung e Verwerfung, que são retomados da obra freudiana e devidamente, distinguidos. O primeiro termo diz respeito ao mecanismo responsável por operar no psiquismo o fenômeno de negação, enquanto o segundo opera uma exclusão (Verwerfung). Essa distinção será importante para a compreensão da escolha de estrutura e também para definir o mecanismo específico da psicose – afinal, segundo Lacan, a Verwerfung é um acontecimento anterior ao Verneinung, cujo mecanismo pressente o juízo, que diz respeito à censura que opera o recalque.
A Verwerfung é, então, o ponto de partida de Lacan para construir a sua tese sobre o mecanismo da psicose. Ele declara tratar-se de uma falha no registro simbólico, situado na origem da vida psíquica, sendo portanto o primeiro tempo lógico do processo de estruturação do sujeito, anterior ao recalque e à formulação do juízo.
2.1 ORIGEM DA VIDA PSÍQUICA
Lacan, assim como Freud, também buscou compreender o momento primitivo da origem da simbolização. Sobre isso, ele afirma: “na relação do sujeito com o simbólico, há a possibilidade de uma Verwerfung primitiva, ou seja, que alguma coisa não seja simbolizada, que vai se manifestar no real” (Lacan, 1988, p. 100). Lacan levanta a hipótese de que no início da vida psíquica poderia ocorrer uma rejeição primitiva.
Na origem da vida psíquica, Freud estabeleceu a ocorrência de uma afirmação, a Bejahung (afirmação). A Bejahung deve ser entendida como um processo primário, um primeiro juízo ou, dito de outro modo, uma aceitação do simbólico ou da realidade – “Há, portanto, na origem, Bejahung, isto é, afirmação do que é, ou Verwerfung” (Lacan, 1988, p. 101).
É aí, na origem, que Lacan localiza todas as espécies de acidentes, em relação aos quais o sujeito terá que se arranjar para o resto da vida, tentando se aproximar daquilo que ele admitiu que fosse: “Um homem quando ele se vê sendo do sexo masculino, ou uma mulher em caso inverso” (Lacan, 1988, p. 102). Nesse sentido, Lacan (1998, p. 389) declara sobre a Bejahung: “não é outra coisa senão a condição primordial para que, do real, alguma coisa venha a se oferecer à revelação do ser”. Desse modo, pode-se compreender que a Bejahung é uma aceitação de um registro simbólico primordial.
No caminho contrário à Bejahung, temos a Verneinung (negação). Trata-se da negação que, como afirma Freud no texto A negativa, só pode ser produzida de algo que, primeiramente, foi afirmado. Assim, a Verneinung é tributária da afirmação primeira e de ordem do simbólico, não pelo seu valor simbólico, mas sim pelo seu valor de existência, tendo se constituído por aquilo que foi expulso, não como se fosse algo inexistente, mas como aquilo que foi negado – por isso, pode ser encontrado, de modo lógico, pela palavra inconsciente, pois pode se articular no discurso.
Desse modo, para Freud, a negação se constitui como um modo de tomar conhecimento do recalcado pelo “não”; ou seja, o não tem o valor de signo da marca, visto que o juízo gera processos a partir dos quais é realizada a inclusão no eu ou a expulsão para fora do eu, tudo em complacência com o princípio de prazer. Portanto, a Verneinung opera em consonância com a Behajung, pela qual o seu produto pode ser recortado pelo simbólico.
Assim, o efeito da expulsão produzida pela Verneinung é posto em comparação com a expulsão produzida peloVerwerfung. Desde aí, Lacan passará a pensar o início da psicose. Diz assim: “A Verwerfung não está no mesmo nível da Verneinung. Quando, no início da psicose, o não simbolizado reaparece no real, há respostas do lado do mecanismo da Verneinung, mas elas são inadequadas” (Lacan, 1988, p. 106). Isso significa dizer que o sujeito, ao se deparar com alguma coisa do mundo exterior que não foi primitivamente simbolizada, é incapaz de produzir uma Verneinung, já que não se trata de um sentimento que originalmente suprimiu de uma Bejahung, mas daquilo que nunca existiu.
A Verwerfung não é encontrada na história do sujeito; afinal, como nos ensina Lacan, ela corta qualquer manifestação simbólica na abertura do ser, pois trata-se daquilo que não existiu propriamente, ou seja, “nada existe senão na medida em que não existe” (Lacan, 1998b, p. 394). Isso equivale a dizer que, não pode se constituir como um saber inconsciente. Assim, o seu caráter é formado através da percepção da realidade do sujeito, ou, pela formula lacaniana: “O que não veio à luz do simbólico, aparece no real” (Lacan, 1998b, p. 390).
É o caso do “homem dos lobos”, em que a alucinação, o conteúdo maciçamente simbólico (castração), aparece no real, pelo fato de não existir na pré-história do sujeito. Trata-se de um significante inconsciente, mas de um inconsciente que permanecerá exterior ao sujeito, ao qual ele estará ligado (Lacan, 1998b, p. 394).
TEMA 3 – VERWERFUNG
Quando na origem não há a Bejahung, o que se encontra lá é a Verwerfung, que funciona como um mecanismo de rejeição primitiva, que se difere da Verneinung (negação) e se contrapõe de forma fundamental a Verdrangung (recalque), por ser anterior ao juízo. Lacan define: “Ao nível dessa Bejahung pura, primitiva, que pode realizar-se ou não, estabelece-se uma primeira dicotomia – o que teria sido submetido à Bejahung, à simbolização primitiva, terá diversos destinos, o qual cai sob o golpe da Verwerfung primitiva terá um outro” (Lacan, 1988, p. 100)
O termo Verwerfung é usado por Freud desde os Estudos sobre histeria, para se referir à recusa do eu em relação às representações insuportáveis, de modo que se comportam como se ela nunca houvesse existido. No entanto, de acordo com o exemplo empregado por Freud, o preço pago por essa defesa implica em uma psicose (quadro de confusão alucinatória). Porém, ele não enunciou essa ideia nesses termos, pois o mecanismo da psicose ainda não tinha sido elaborado.
Amelia Imbriano (2010) destaca uma noção da Verwerfung inserida por Freud em 1915, a partir de uma distinção entre estímulos internos e externos: “Enquanto que as últimas podem ser aludidas por meio da fuga, as primeiras (estímulos pulsionais que provem do interior do organismo) não são suscetíveis de uma evitação desse tipo” (Imbriano, 2010, p. 68, tradução nossa). Segundo Imbriano, Freud buscava aí uma equivalência, que encontra no exercício de repudio do eu, usando o termo Verwerfung. Dito de outro modo, a Verwerfung seria uma forma de rejeitar uma identificação no eu – isto é, tal rejeição seria o resultado de uma expulsão de um conteúdo de experiência fora do eu.    
Em 1918, Freud apresenta o caso do “homem dos lobos”, em que a questão da castração aparece vinculada ao mecanismo em que o sujeito “nada quer saber”. Nesse ponto, o termo Verwerfung é utilizado pela primeira vez como um mecanismo diferente da Verdrangung:
Já nos é de conhecimento a atitude que o nosso paciente adotou, de início, em relação ao problema da castração. Ele a rejeitou e apegava-se à sua teoria de relação sexual pelo ânus. Quando digo que ele o havia rejeitado, o primeiro significado da frase é o de que ele não queria saber nada dela no sentido da repressão. Com isso não se pronunciava nenhum juízo sobre a sua existência, pois era como se não existisse. (Freud, 1996d, p. 78)
Nesse sentido, Roland Broca (2017) declara que o sujeito, nesse caso, foi posto antes da descoberta da diferença sexual, pois havia rejeitado a significação genital. Freud havia enunciado no mesmo texto: “Todo processo se torna assim característico do modo como trabalha o inconsciente. Uma repressão [Verdrangung] é algo diferente de uma rejeição [Verwerfung]”. (Freud 1996d, p. 74).
Nessa ocasião, a Verwerfung é posta em oposição à Verdrangung, pois trata-se de um mecanismo anterior ao juízo, pelo qual, segundo Lacan, o sujeito recusa o acesso ao mundo simbólico, pois se trata da própria ausência desse registro, uma vez que a Bejahung faltou.
Lacan se interessa pelo caso do homem dos lobos, pois encontra nele os argumentos que precisava para formular a sua tese sobre o conceito da Verwerfung. Assim, ao analisar a alucinação do dedo cortado do homem dos lobos, pôde demonstrar uma significação que lhe era desconhecida, já que se tratava de um inconsciente externo ao sujeito.
3.1 ANÁLISE DO CASO DO HOMEM DOS LOBOS
Lacan trabalha com um relato de caso clínico apresentado por Freud, conhecido como o homem dos lobos. O paciente faz um relato de quando ainda era criança. Ele conta que estava brincando com uma faca e cortou o dedo mindinho, que ficou preso à mão apenas por um pedacinho de pele. Tomado pela angústia, debruçou-se sobre um banco, sem coragem de olhar para o dedo ou pedir socorro para a babá, que estava ao seu lado. A babá, conforme ele conta, era a sua principal confidente; contudo, naquele momento, não foi capaz de ajudá-lo a aplacar tamanha angústia. Assim, ele relata que ficou quieto e não falou nada sobre o ocorrido.
Lacan (1988) destaca no caso a ausência da fala, pois para ele o que sucede é uma suspensão total da possibilidade de dispor de um significante. Descreve, ainda, a existência de uma imersão temporal, pois mesmo se esforçando para voltar à superfície do tempo comum, o seu esforço não resulta em nada: “acabou, não falemos mais disso”. Segundo Lacan, esse é o sentido de quando Freud havia estabelecido o “especialíssimo não saber nada da coisa, mesmo no sentido do recalcado”, que por sua vez leva à seguinte interpretação: “o que é recusado na ordem simbólica ressurge no real” (Lacan, 1988, p. 22).
Lacan declara que, diferentemente do recalcado e do retorno do recalcado, que são a mesma coisa e estão sempre aí articulados em sintomas e outros fenômenos, o que foi rejeitado no sentido Verwerfung passa a ter um destino completamente diferente.
O destino tomado pela Verwerfung passa a ocupar o ensino de Lacan (1988), visto que o próprio Freud havia declarado que uma repressão (Verdrangung) é algo diferente de uma rejeição (Verwerfung). Seguindo os interesses freudianos, Lacan traz para o campo de seus estudo o termo da Verwerfung, que traduz por foraclusão. A partir dessa interpretação, ele elabora a sua tese a respeito daqueles que caem do galope da Verwerfung.
TEMA 4 – FORACLUSÃO
A base da tese de Lacan sobre o mecanismo da psicose tem seu fundamento nos processos primitivo da Verwerfung, pois é aí, a partir desse termo freudiano, que ele estabelece o cerne do seu discernimento a respeito do conceito da foraclusão.
O termo foraclusão, como foi traduzido para o português, tem origem na língua francesa (forclusion), que carrega um sentido do campo jurídico. A tradução literal para o português é prescrição, que significa “perda do direito de exercer ou validar um ato”.
Como vimos, Lacan considerou o surgimento da Verwerfung pela ausência da Bejahung (afirmação primordial). Desse modo, a falta dessa afirmação primordial precipita no psiquismo a “rejeição de um significante primordial em trevas exteriores, significante que faltará desde então nesse nível” (Lacan, 1988, p. 178). Nesse sentido, trata-se de um significante que surgiu, mas foi prescrito e perdeu o seu valor.
A Verwerfung será interpretada como foraclusão: “A Verwerfung será tida por nós, portanto, como foraclusão do significante” (Lacan, 1998a, p. 564)
A foraclusão é uma operação psíquica cuja consequência no sujeito é estrutural. Assim como o recalque (Verdrangung) na neurose e a recusa (Verleugnung) na perversão, a foraclusão refere-se a um modo de acessoà linguagem, mas que diz respeito à psicose.  
Mas do que se trata a foraclusão? A explicação é encontrada na metáfora patena, pois é o significante do Nome-do-Pai que é foracluído no lugar do Outro.
4.1 A FORACLUSÃO DO NOME-DO-PAI
O Nome-do-Pai, como vimos na metáfora paterna, é o significante fundamental que se inscreve na neurose, mas que na psicose é foracluído. Porém, o que é o pai nos ensinos de Lacan, enquanto significante, Nome-do-Pai? A resposta a essa questão só pode ser encontrada na função simbólica do pai, problema central da psicanálise e ponto mais fecundo de toda obra de Freud, que por sua vez remonta a uma questão edipiana, o conceito central das diversas indagações clínicas.
O Nome-do-Pai é o significante primordial. Por isso, se torna fonte de toda significação, pois garante que o significante possa ser atado ao significado e, assim, sustentar a realidade. Vamos considerar a seguinte uma representação:
 Quando o significante do Nome-do-Pai se localiza no lugar do Outro, o sujeito pode endereçar a questão do seu ser (sexualidade, morte etc.) a essa função simbólica que ele representa.
Na experiência psicótica, o significante do Nome-do-Pai é foracluído, o que significa que a metáfora paterna não aconteceu. Portanto, o sujeito não ascende à linguagem pela via do simbólico. Segundo Lacan (1995), o sujeito transita do registro imaginário (estádio do espelho) ao simbólico através de sua vivência edipiana, momento em que o Nome-do-Pai surge para barrar o gozo da mãe, fazendo emergir o falo como significante do desejo do Outro. No entanto, na psicose, ao invés da emergência do falo, como causa de desejo do Outro, o sujeito permanecerá preso em uma identificação arcaica ao desejo da mãe.
A foraclusão do Nome-do-Pai, é importante ressaltar, não se trata de um fenômeno, visto que não está no nível de observação. Trata-se de uma hipótese que Lacan define como falha no nível do Outro, na psicose, sendo esse o motivo fundamental que a separa, de modo estrutural, da neurose. A identificação da foraclusão é feita pelos seus efeitos, ou seja, é pela foraclusão que se explica os fenômenos da psicose: “É num acidente desse registro e do que ele realiza, a saber, na foraclusão do Nome-do-Pai no lugar do Outro, e no fracasso da metáfora paterna, que apontamos a falha que confere à psicose sua condição essencial, com a estrutura que a separa da neurose” (Lacan, 1999, p.582).
Portanto, nos fenômenos psicóticos ocorre o efeito da foraclusão do Nome-do-Pai no simbólico. Podemos compreender também que, pelo fracasso da metáfora paterna, o falo não vai estar no nível de significante do desejo do Outro. Sendo assim, o “ser do ente” do sujeito, que precisa ser significado, não está implicado na significação fálica – com isso, o sujeito psicótico não entra na lógica fálica da cadeia significante. Com efeito, o simbólico que produz o significante é vazio; o imaginário que produz o significado é concreto; e o real onde se encontra o ser do ente do sujeito não é uma incógnita. Assim o sujeito psicótico se arranja para suprir a ausência do Nome-do-Pai.
4.2 O PONTO DE BASTA
O pai, como função simbólica, é elaborado por Lacan no seminário 3. Porém, no seminário 5, que data do mesmo período do texto De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose (1958), a função simbólica do pai é lida através da metáfora paterna.
O Nome-do-Pai é o significante que metaforiza o desejo da mãe. Trata-se, portanto, de uma simbolização primordial que produz a significação fálica, que confere sentido ao ser do sujeito, ordenado na cadeia significante. Portanto, a significação fálica é a via em que todo significante pode se atar a outro significante, pois é ele que confere estabilidade de sentido à cadeia. Essa função é chamada por Lacan de “ponto de basta”, isto é, algo que detém o deslizamento do significado sobre o significante, permitindo assim a sustentação de uma significação. Veja o que Lacan diz:
Observem bem do que se trata aqui, que é, no nível mais fundamental, exatamente a mesma coisa que a longa metáfora comum no terreno maníaco. De fato, a fórmula da metáfora que lhes forneci não quer dizer nada senão isto: existem duas cadeias, os S do nível superior, que são significantes, ao passo que encontramos abaixo deles tudo o que circula de significados ambulantes, porque eles estão sempre deslizando. A amarração de que falo, o ponto de basta, é tão somente uma história mística, pois ninguém jamais pode alinhavar uma significação num significante. Em contrapartida, o que se pode fazer é atar um significante num sÍgn-ificante e ver no que dá. Nesse caso, sempre se produz alguma coisa de novo, a qual, às vezes, é tão inesperada quanto uma reação química, ou seja, o surgimento de uma nova significação. (Lacan, 1998a, p. 202)
A partir desses termos, Lacan concebe a noção de sujeito como um efeito do significante, de modo que os fenômenos que decorrem da foraclusão não podem ser equivalentes a um déficit de simbólico, pois a foraclusão implica, justamente, no retorno do simbólico no real.
TEMA 5 – PERVERSÃO
As estruturas clínicas da psicanálise só podem ser pensadas a partir do complexo de Édipo – ou, como dito por Lacan, a partir da metáfora paterna. Portanto, a questão da perversão não é diferente.
Freud examinou a perversão a partir de diversos aspectos. O maior escândalo de sua elaboração foi romper a fronteira entre perversão e normalidade. Segundo Freud, a perversão é o resultado da Verleugnung, isto é, da negação da castração no Outro, não no sentido da foraclusão, tampouco como resposta de um recalque, pois trata-se de um tempo que surge a partir do complexo de Édipo.
No texto Fetichismo (1996c), Freud concebe o mecanismo da perversão por uma dupla posição a um só tempo: reconhece que a mãe é castrada, ou seja, não tem o falo, mas nega esse reconhecimento:
O fetiche é um substituto do pênis da mulher (da mãe) em que o menininho outrora acreditou e que - por razões que nos são familiares - não deseja abandonar. O que sucedeu, portanto, foi que o menino se recusou a tomar conhecimento do fato de ter percebido que a mulher não tem pênis. Não, isso não podia ser verdade, pois, se uma mulher tinha sido castrada, então sua própria posse de um pênis estava em perigo, e contra isso ergueu-se em revolta a parte de seu narcisismo que a Natureza, como precaução, vinculou a esse órgão específico. (Freud, 1996c, p. 95)
Segundo Lacan (1995, p. 158), a relação de objeto, apresenta a estrutura do perverso a partir do fetiche. Ele ocupa a forma mais paradigmática na perversão, cuja função é de véu ou cortina. O esquema é assim:
Philippe Julien (2003, p. 112) explica que o véu esconde o Nada que fica para além do Objeto enquanto desejo do Outro: “a mãe não tem o falo. Mas, ao mesmo tempo e mesmo assim, o véu é o lugar onde se projeta a imagem fixa do falo simbólico: a mãe tem o falo”.
Portanto, a imagem fálica projetada no véu, que esconde ao mesmo tempo que designa o Nada, é o que o sujeito coloca diante dele, e onde podemos localizar as seguintes perversões:
· Fetichismo: coloca véu sobre a falta fálica da mãe.
· Masoquismo: para o sujeito, o Outro é aquele que tem o chicote na mão, como potência fálica.
· Voyeurismo: ele visa o desejo do Outro, introduz-se em seu mundo privado. “O sujeito é fenda, fissura do véu que separa o escondido do mostrado, o privado do público do espaço do Outro” (Julien 2003, p. 112).
De acordo com a crença perversa, todos tem o falo. Já ná homossexualidade feminina, o que a mulher deseja na outra está para além de ser amada por ela – é o que lhe falta.
NA PRÁTICA
Quem assistiu a série Motel Bates vai se lembrar da história de Norma e Norman, mãe e filho que adquirem um motel em uma pequena cidade, onde vão morar em busca de uma nova vida após a morte misteriosa do pai da família.
Norma era uma mulher bonita, sedutora, com um emocional complicado, que se dedicava totalmente aos cuidados com o seu filho. No entanto, nem sempre foi assim, pois teve um filho quando era mais jovem, que cresceu semos seus cuidados. Por outro lado, a relação com Norman, seu filho mais novo, era excessivamente afetiva.
Norman era um jovem inteligente, bonito e às vezes tímido, com um vínculo intenso, praticamente simbiótico com a mãe. Nessa relação entre mãe-filho podemos encontrar o desejo da mãe, não metaforizado pelo significante do Nome-do-Pai. Assim, a criança permanece identificada ao desejo materno, não se diferenciando do outro. Afinal, é através da interdição do Nome-do-Pai que a criança pode se separar da mãe, em busca de uma satisfação individual, se diferenciando do Outro. 
Normam era invadido o tempo todo pelo olhar da mãe, sentindo-se preso a esse olhar onipotente, que tudo via. Quando entra um outro elemento na relação, o xerife, Normam não consegue se sustentar, pois o seu eu estava ligado, quase colado ao desejo da mãe. A perda desse olhar leva Normam a um surto.
FINALIZANDO  
A escolha da estrutura: vimos que Freud sempre se indagou a respeito do modo como uma pessoa se constitui dentro de um tipo de estrutura clínica. No início, suas investigações a respeito da etiologia se pautavam em acontecimentos de ordem sexual. No último momento do seu ensino, Freud estabelece uma distinção entre neurose e psicose: a neurose é o resultado de um conflito entre o eu e o id, ao passo que a psicose é o desfecho análogo de um distúrbio semelhante nas relações entre o eu e o mundo externo.
A tese de Lacan: vimos que Lacan busca, na origem da vida psíquica, ocorrências fundamentais, isto é, mecanismos operantes que resultam na constituição estrutural do sujeito. Ele pinça da teoria freudiana os temos Verwerfung e Verneinung, buscando compreender as últimas consequências de tais mecanismo.
A Verwerfung é uma rejeição primordial anterior a qualquer formulação de juízo, que teria sido submetido à Bejahung, à simbolização primitiva, com diversos destinos, que sob o golpe da Verwerfung primitiva terá um outro. O destino da Verwerfung será apontado por Lacan como o mecanismo específico da psicose.
A foraclusão: a Verwerfung será interpretada por Lacan como foraclusão, pois a tese lacaniana recai sobre a simbolização primitiva do significante primordial para organizar o psiquismo, a saber: o Nome-do-Pai, que foi foracluído, ou seja, rejeitado da simbolização.
O fetiche: estrutura perversa elaborada por Freud a partir do objeto de fetiche, que é colocado no lugar da castração do Outro.
REFERÊNCIAS
BROCA, R. El sujeito psicótico em el discurso analítico. Buenos Aires: Logos Kalós, 2017.
CÔRTES, C. A. Psicose na psicanálise, escolha ou determinação? Curitiba: Juruá, 2016.
FREUD, S. A disposição à neurose obsessiva: uma contribuição ao problema da escolha da neurose. In: _____. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996a. v. 12.
_____. Carta 125. In: _____. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996b. v. 1.
_____. Fetichismo. In: _____. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996c. v. 21.
_____. História de uma neurose infantil. In: _____. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996d. v. 17.
_____. Neurose e psicose. In: _____. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996e. v. 19.
IMBRIANO, A.  Las enseñanzas de las psicoses. Buenos Aires: Letra viva, 2010.
JULIEN, P. Pisicose, perversão, neurose: a litura de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de letras, 2003.
LACAN, J. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose In: _____. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998a.
_____. Livro 3, as psicose. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.
_____. Livro 4, a relação de objeto. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.
_____. Livro 5, as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
_____. Resposta ao comentário de Jean Hyppolite. In: _____. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998b.
ESTRUTURAS PSICANALÍTICAS
AULA 4
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Juliana Santos
CONVERSA INICIAL
Em conteúdos anteriores, buscamos percorrer as trilhas de Freud e Lacan para entendermos de que modo as estruturas clínicas se constituem. Freud se indagava a respeito de por que uma pessoa “escolheria” a neurose ao invés da psicose. Através dessa indagação, ele, ao longo de sua teorização, foi encontrando alguns mecanismos que operam no início da vida psíquica e condicionada à subjetividade em sua forma de apreender a realidade.
Freud, ainda que não tenha usado o termo estrutura, deixou pegadas para que Lacan pudesse fundamentar a sua tese sobre a constituição das estruturas clínicas. Isso porque foi através da interpretação do texto A negação (1925) que Lacan apreende o conceito da Bejahung, uma afirmação primordial, que opera no psiquismo a verificação de posse e de realidade das representações internalizadas, atribuindo um juízo de existência.
A Bejahung é, portanto, a operação mais primordial de todas. Na sua contraposição, está o que Freud nomeou de Austossung (expulsão), que, segundo Lacan, é o campo do o real “na medida em que ele é o domínio que subsiste fora da simbolização” (Lacan, 1954, p. 384). Contudo, se a Bejahung é pura afirmação, para que ela se constitua como tal, algo tem que ser expulso, ou melhor negado. A negação é, então, a forma possível da Bejahung se constituir e se produzir no campo da consciência. Desse modo, o não viabiliza a existência de um Bejahung.
É nesse sentido que Freud elabora a sua teoria da constituição da neurose e perversão, onde é sob a égide da negação, da castração propriamente, que a afirmação se institui por outras vias, isto é, pela via do recalque na neurose e por via do desmentido na perversão.
Assim, para esta etapa, iremos nos deter nas ocorrências dessa afirmação primária — a Bejahung, priorizando a ocorrência do recalque da castração, em que o neurótico, para negar sua existência na consciência, perpetua essa afirmação no inconsciente. E é daí que o sujeito se divide: por um lado, pela força em que essa afirmação se institui; e por outro lado, por um não querer saber nada sobre isso. E aí está a fórmula do conflito neurótico, que se dá entre os impulsos do id e do ego.
Portanto, se as investigações acerca das neuroses sempre tiveram nos holofotes da clínica psicanalítica, cabe-nos agora nos aprofundar sobre essa estrutura, a fim de compreendermos o modo como o sujeito neurótico lida com a sua realidade.
TEMA 1 – A NEUROSE
A neurose é o resultado de um conflito psíquico no qual resulta em bloqueio das descargas necessárias, criando, desse modo, um estado recalcado. Otto Fenichel (2004, p.119) afirma que, por definição, “o conflito neurótico é um conflito que surge entre uma tendência que luta pela descarga e outra tendência que tenta impedir esta última”.
Para entendermos a origem do conflito neurótico, vamos retomar o Projeto para uma psicologia científica (1985), em que Freud apresenta a perspectiva econômica do aparelho psíquico, aferindo à consciência o processo de descarga do excesso de energia psíquica. Contudo, na evocação de lembranças muito penosas, a consciência fica incapaz de reagir a essas representações, daí ela se defende pela operação do recalque.
O recalque é, portanto, um mecanismo de defesa característico da neurose, cujo objetivo é, essencialmente, afastar da consciência as ideias incompatíveis. Porém, diante da queixa de seus pacientes, Freud se deu conta que a operação do recalque é ineficiente e de que tais representações insuportáveis retornam à consciência pelas formações inconscientes, a qual Freud nomeou de sintoma.
Na Carta 105 (1899, p. 329), Freud destaca que “o sintoma surge ali onde o pensamento recalcado e o pensamento recalcador conseguem juntar-se na realização do desejo”. Desse modo, o sentido do sintoma é um par contraditório de realização de desejo, conclui Freud.
Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, (1905), Freud nos indica que a amnésia infantil se produz por uma ação do recalque e, por isso, tais lembranças poderiam ser trazidas de volta em análise, já que elas não foram apagadas. Nesse ponto, ele afirma que os neuróticos sofrem da mesma amnésia infantil e, que, na sexualidade adulta seria um resíduo dessas experiências infantis, queresistiria à recordação em virtude da moralidade impressa.
Assim, a sexualidade desempenha um papel fundamental na etiologia das neuroses, pois é nesse encontro inevitavelmente traumático, que o sujeito constitui sua defesa pela escolha de uma neurose.
1.1 O RECALQUE
Freud concebeu o recalque como um mecanismo de defesa no qual as representações insuportáveis são retidas e separadas da consciência, tal operação estaria a serviço do princípio do prazer e se organiza no sistema inconsciente. Com o desenvolvimento da teoria até a segunda tópica, o aparelho psíquico é formulado em três instâncias: o eu, o id e o superego. Nessa nova organização, o eu e o superego participam de determinada parcela inconsciente. Desse modo, o recalcado é apenas parte do inconsciente, e não a parte inteira dele, como se pensava antes.
A partir do conceito de pulsão de morte, o recalque passa por uma revisão. No texto Inibição, sintoma e angústia (1926), o recalque é articulado a “fora-da-lei”, visto que ele está submetido à lei do id, não a serviço do princípio de prazer. Entretanto, o eu segue impondo uma censura, mas as moções pulsionais não cessam de buscar a satisfação (Freud, 1926, p. 150). Assim, o sujeito é impelido a uma compulsão à repetição inconsciente.
TEMA 2 – PULSÃO E FANTASIA
Freud, após comunicar à sociedade a existência da sexualidade infantil, pôde conceber a teoria da pulsão como uma atividade primária. Nesse sentido, a pulsão é posta como uma quantidade de energia que exerce força constante em busca de satisfação, que só se encontra ao ser descarregada pelas zonas erógenas (boca e ânus). É sob esse ponto de evacuação que a pulsão cria uma fixação.
Assim, o corpo é uma superfície onde se inscrevem as primeiras marcas, sede dos investimentos pulsionais. É a partir das incidências da linguagem que o corpo perde a sua relação com a natureza e se transforma em um corpo simbólico. O resultado dessa operação é a perda do objeto, isto é, a renúncia pulsional imprescindível para a entrada no campo simbólico. Contudo, as zonas erógenas não deixaram de buscar esse reencontro com o objeto perdido da satisfação.
É nesse sentido que Freud declara que o neurótico sofre por reminiscência. Ele se recusa a renunciar o objeto perdido, o objeto da satisfação plena. Trata-se de das Ding, a coisa freudiana inominável, que se apresenta no campo simbólico como falta.
Portanto, é em torno desse vazio que o sujeito vai se constituir no campo simbólico, se utilizando dos sistemas de linguagem (metáfora e metonímia) inconscientemente para tentar tamponar sua falta. A partir daí, surgem vários objetos que vão sendo inseridos na cadeia significante e que têm por aspiração o “eu ideal” (i(a)), a imagem plena. Trata-se do investimento feito na fantasia que tenta articular o sujeito e o objeto.
2.1 A CLÍNICA DA FANTASIA
Freud se deparou com a fantasia desde o início de sua prática clínica com as histéricas. De início, chegou a acreditar nas cenas de sedução, as quais suas pacientes relatavam nas entrelinhas. Mas, com o desenvolvimento da sua teoria, pôde se dar conta que se tratava de uma realidade que não se conjectura com o real, mas de uma realidade psíquica. Alessandra Fernandes Carreira (2009) explica assim:
É justamente em função de seu caráter traumático que a verossimilhança dessas cenas, narradas pelas histéricas freudianas, não pôde ser tomada como inverdade, mas como ficção que dá estrutura à verdade. Tal verdade é reiterada na enunciação que subsiste nos enunciados dessa ficção e os engendra, fixando o sujeito em um instante eterno e inenarrável: instante em que ele (não) é tomado pelo desejo do Outro. (Carreira, 2009)
A fantasia passa a assumir o ponto crucial da escuta clínica, pois nela se constitui um saber inconsciente onde o sujeito busca responder à questão sobre o seu ser, tentando encobrir a falta inerente a ele.
2.2 DO ÉDIPO À FANTASIA FUNDAMENTAL
Já sabemos que a constituição psíquica do sujeito se situa na vivência edipiana, onde ocorrem os três tempos lógicos do Édipo. No primeiro tempo, a criança está identificada ao objeto desejado da mãe (o falo materno), sendo assim, a relação mãe-bebê plena; o segundo tempo ocorre a partir da presença de um terceiro elemento, que faz a criança perceber que o desejo da mãe não está dirigido apenas para ela, mas a mãe deseja outra coisa, geralmente o pai. A interpretação da criança de que a mãe deseja o pai faz emergir uma rivalidade imaginária com o pai, pois, para a criança, o pai tem o falo, que falta à mãe. Assim, conforme nos ensina Lacan, é a função paterna, através do significante Nome-do-Pai, que introduz a falta na relação mãe-bebê. A criança, então, perde a identificação ao falo materno e recalca; começa o terceiro tempo lógico, onde a criança se dá conta da castração da mãe e, assim, da sua própria castração e vai em busca de ter falo. Portanto, o falo é elevado ao nível simbólico, fazendo de todos castrados, inclusive o pai.
Ocorre que a criança, ao perder sua identificação ao falo, irá demandar ao Outro, tesouro do significante, que responda sobre o seu desejo. Contudo, o que surge desde aí é a pergunta: que quer você? (Lacan, 1960, p. 829).
O vazio pela falta de resposta do Outro indica que o Outro também é faltoso, pois não existe nada que supra essa incompletude do Outro, portanto, declara Lacan (1960, p. 833): “não há Outro do Outro”. Desse modo, o sujeito se constitui pela falta do Outro, advindo como um falta-a-ser, pois do Outro não receberá a resposta para o seu desejo. A falta, portanto, é irremediável, sendo assim, a fantasia se forma para dar conta dela.
Portanto, a fantasia pode ser considerada o produto da operação do complexo de Édipo, cujo registro é imaginário, mas que se articula ao simbólico, e sua montagem inconsciente se ergue na tentativa de sanar o vazio deixado à questão “Che Vuoi?”.
Coutinho Jorge (2010) afirma que a fantasia é um elemento que se instaura para a criança como uma verdadeira contrapartida ao gozo que ela perdeu. Assim, ela se constrói, essencialmente, como uma fantasia de completude.
TEMA 3 – A FANTASIA FUNDAMENTAL
Freud (1919), em seu texto Bate-se numa criança, onde ele privilegia o espancamento, mas poderia ser qualquer outra coisa, afirma que a fantasia fundamental é uma fantasia origem edipiana, cuja dissolução desse complexo faz emergir a fantasia como um resíduo que irá determinar a posição do sujeito em seu modo de gozo.
O mecanismo principal que organiza a estrutura fantasmática, declara Nasio (1993), está sempre encoberto por uma frase organizada em torno de um verbo fácil de identificar no relato do paciente. O autor diz, ainda, que a identificação do sujeito à posição de objeto, de fato, está no verbo da frase: morder, espancar, sujar, ignorar etc.
Para entendermos isso, voltemos ao texto Bate-se numa criança, onde Freud nos indica três tempos da fantasia:
1. Uma criança é espancada: é o relato de uma primeira cena emergente, onde o relator não faz parte da cena, portanto, ela não é uma cena masoquista nem sádica: bate-se.
2. Estou sendo espancada pelo meu pai: o relator da cena coincide com a criança espancada. É uma cena de masoquismo, mas, segundo Freud, trata-se de uma cena que nunca existiu, assim, diz respeito a uma construção de análise.
3. Provavelmente estou olhando: o relator surge na cena apenas no lugar de quem olha, não coincidindo com a criança espancada. Há presença de excitação sexual masturbatória cujo caráter é sádico manifesto.
Freud, que de início considerou o sadismo de caráter primário, resultado da rivalidade com a figura do pai, em 1920, com o conceito de pulsão de morte, dá um passo atrás e reconhece no texto O problema econômico do masoquismo (1924), que na origem está o masoquismo e permanecerá na base da estrutura do sujeito. Portanto, com a nova leitura do masoquismo primário, podemos entender que sobre o mecanismo da fantasia há um masoquismo nuclear, assim: uma cena primária (deixa um traço de memória); depois, com a dissolução do Édipo, a criança vai se identificar ao objetoda cena (a criança espancada), ou seja, retroativamente (S1-S2), construindo a sua fantasia de base masoquista, onde se vincula o gozo; e no terceiro tempo, o que caracteriza essa fase é que a fantasia está fortemente ligada a uma excitação sexual e seu modo de gozo resquícios dessas experiências. Sobre esse texto, Coutinho Jorge declara:
Os três tempos da fantasia “Uma criança é espancada” parecem, assim, caminhar precisamente na seguinte direção: do amor ao gozo. Da posição de sujeito, $, que a criança ocupa no primeiro tempo, para a posição de objeto, a, que se delineia no segundo tempo e se configura rapidamente no terceiro. (Coutinho Jorge, 2010, p. 108)
Portanto, a fantasia não se trata de um devaneio, ela porta o desejo. Sendo assim, é a forma como o sujeito tenta encadear o seu desejo na cadeia de significantes. Mas, em contrapartida, é justamente nessa tentativa de passagem ao significante que o recalque é gerado.
Surge, então, o sintoma para encobrir a verdade do sujeito e, na clínica psicanalítica, ele recebe voz para denunciar o desejo recalcado e desvelar o modo de gozo da estrutura. Portanto, é dessa forma que o sujeito se apega ao seu sintoma. Lacan situa o sintoma numa estreita relação com o corpo, que se impõe para além das construções imaginárias e simbólicas que atravessam o sujeito, pois há algo da dimensão do real, do sem sentido que não entra no campo da linguagem do Outro.
TEMA 4 – A HISTERIA
Para a psicanálise, a histeria é, antes de mais nada, um dos modos como o sujeito neurótico se enlaça e tece a suas relações com os outros a partir de suas fantasias. Coutinho Jorge (2010) declara que a fantasia é uma espécie de matriz psíquica que funciona mediatizando o encontro do sujeito com o real. Desse modo, a fantasia constitui o princípio da realidade de cada sujeito. “Essa fantasia, em que o sujeito é preso, é, como tal, o suporte do que se chama expressamente, na teoria freudiana, o princípio de realidade” (Lacan citado por Coutinho Jorge, 2010, p. 77).
Isso significa que o histérico, assim como qualquer sujeito neurótico, vai se posicionar na relação afetiva com o outro de acordo com lógica de sua estrutura, condicionado, sempre, por sua fantasia inconsciente sem que ele tenha poder sobre isso.
A fantasia inconsciente diz respeito a algo traumático inerente à sexualidade do histérico, contudo, Coutinho Jorge e Travasso (2021) sublinham que se trata de um trauma contingencial, visto que não há como não ocorrer, pois refere-se à falta de inscrição da diferença sexual no inconsciente. Sendo assim, a própria concepção do sexo é, inevitavelmente, traumática. “Trata-se aqui do real inerente ao pulsional, do inassimilável inerente à sexualidade, com sua intensidade e excesso” (Coutinho Jorge; Travasso, 2021).
Freud descobre um paradoxo da sexualidade histérica, no qual aponta para uma grande necessidade sexual, no mesmo passo que demostra uma profunda aversão ao sexo. Assim, constata que o sujeito histérico erotiza o corpo e amortece o órgão sexual. Na histeria, o corpo é sexualizado, exceto o próprio sexo. Nesse sentido, os sintomas histéricos ocorrem geralmente no corpo, obedecendo ao significante inconsciente. No texto Fragmento da análise de um caso de histeria, Freud (1905, p. 37) declara: “Eu tomaria por histérica, sem hesitação, qualquer pessoa em quem uma oportunidade de excitação sexual despertasse sentimentos preponderantes ou exclusivamente desprazerosos, fosse ela ou não capaz de produzir sintomas somáticos”.
A inibição sexual histérica, contudo, não significa um retraimento, destaca Nasio (1991), pois, na verdade, trata-se de um movimento ativo de rechaço. Diz mais em A Histeria:
A impotência, a ejaculação precoce, o vaginismo ou a frigidez, todos são distúrbios característicos da vida sexual do histérico, os quais, de uma maneira ou de outra, exprimem a angústia inconsciente do homem de penetrar no corpo da mulher, e a angústia inconsciente da mulher de se deixar penetrar. O paradoxo do histérico diante da sexualidade caracteriza-se, portanto, por uma contradição: de um lado, há homens e mulheres excessivamente preocupados com a sexualidade, procurando erotizar toda e qualquer relação social, e de outro, eles sofrem — sem saber por que sofrem — por ter que passar pela experiência do encontro genital com o sexo oposto. (Nasio, 1991, p. 45)
É preciso compreender, o quanto antes, que a sexualidade histérica não é uma sexualidade genital, mas um “simulacro de sexualidade”, visto que seu gozo está mais em criar sinais sexuais que raramente vão estar articulados ao ato sexual que ele enuncia. “E, no entanto, se há um desejo a que o histérico se atém é o de que esse ato (sexual enunciado por ele) fracasse; mais exatamente, ele se apega ao desejo inconsciente de não realização do ato” (Nasio, 1991, p. 18), pois para o histérico, o desejo é que o desejo continue insatisfeito.
Mas, por que sustentar um desejo insatisfeito, se deveríamos ir em busca de satisfação? Nasio (1991, p. 15) responde:
o histérico é fundamentalmente um ser de medo que, para atenuar sua angústia, não encontrou outro recurso senão manter incessantemente, em suas fantasias e em sua vida, o doloroso estado de insatisfação, pois, para ele, o perigo pressentido que o levaria a seu aniquilamento é “o perigo de viver o gozo máximo”.
Portanto, a questão da histeria é posta por Nasio da seguinte forma:
Pouco importa que ele imagine esse gozo máximo como o gozo do incesto, o sofrimento da morte ou a dor da agonia; e pouco importa que imagine os riscos desse perigo sob a forma da loucura, da dissolução ou do aniquilamento de seu ser: o problema consiste em evitar a qualquer preço qualquer experiência que evoque de perto ou de longe um estado de plena e absoluta satisfação. Esse estado, de resto impossível, é pressentido pelo histérico, no entanto, como o perigo supremo de um dia ser arrebatado pelo êxtase e gozar até a derradeira morte. (Nasio, 1991, p. 16)
O sujeito histérico é aquele, então, que para se defender de um gozo máximo, ele se mantém num estado fantasmático de insatisfação. O histérico se afasta da ameaça do gozo, construindo inconscientemente um cenário fantasmático, do qual tenta provar a si mesmo que há falta e, portanto, o seu gozo permanecerá insatisfeito.
A realidade histérica, consequentemente, terá os moldes de sua fantasia. Desse modo, as pessoas de seu convívio também serão portadoras da falta, pelo qual o histérico desenvolve, de formas aguçadas, meios incessantes de busca, para poder apontar a falta do outro.
4.1 O CASO DORA
O caso Dora é o caso clínico de histeria mais paradigmático da psicanálise. Dora era uma jovem de 18 anos quando chegou para receber o tratamento psicanalítico. Segundo relato de Freud, Dora apresentava todos os sintomas que caracterizavam uma pequena histeria: enxaquecas, tosse nervosa, perda da voz, abatimento e tédio da vida. Mas o fato que levou o pai de Dora a buscar ajuda de Freud foi ter encontrado uma carta de despedida endereçada aos seus pais, pois ela “não podia mais suportar a vida”, somada a um ataque de perda de consciência.
A trama que rodeia a vida de Dora é formada pela relação conturbada com a sua mãe, pois ela se recusa a ajudar nos afazeres domésticos; pela relação com o pai, que manteve uma relação de amante com a Sra. K; pelo Sr. K, que a cortejava e ela fingia não ver, pois, por causa da relação de amantes entre o seu pai e a Sra. K, Dora se colocava como objeto de troca dessa relação.
Dora admite à Freud que era cúmplice dessa relação amorosa extraconjugal de seu pai, pois todas as vezes que visitavam a Sra. K, cuidava de seus dois filhos para deixá-los sozinhos.
Dora e a Sra. K eram amigas, confidentes e conselheiras. Nas vezes em que Dora dormia na casa da Sra. K, o Sr. K deixava o quarto para que elas dormissem na mesma cama, já que entre as duas não havia nada que não pudessem ser conversado. Dora elogiava o corpo, a pele e a aparência da Sra. K para Freud, o que lhe parecia mais um relato de amantes do que uma mulher se referindo a uma rival.Nessa relação com a família K, Dora relata a Freud que, quando tinha 14 anos, o Sr. K a convidou para encontrar-se com ele e a Sra. K, para juntos irem à procissão. Ocorre que quando Dora chega à loja do Sr. K, ele estava sozinho, e quando os dois vão sair, ele abraça Dora e lhe dá um beijo na boca. Dora conta que sente uma violenta repugnância. Nadiá P. Ferreira e Marcus A. Motta (2014) destacam essa cena e apontam para o horror histérico:
Esse beijo, um segredo só revelado na análise, opera, segundo Freud, um trauma sexual que se conecta com outras experiências sexuais traumáticas da infância. Referindo-se a esse episódio, Jacques-Alain Miller comenta que o horror que Dora passa a sentir por um homem sexualmente excitado e o nojo, que provém do recalque da parte erógena dos lábios, permitem “afirmar que a interpretação que Freud realiza centra-se no mau encontro de Dora com o gozo sexual”. (Ferreira; Motta, 2014, p. 15)
Um segundo episódio é relatado por Dora. Ela conta que num passeio à beira do lago com o Sr. K, ele a beija novamente e lhe faz uma declaração de amor. Dessa vez, Dora lhe bofeteia e sai correndo. Passados uns dias, Dora conta à mãe o que ocorre. Esta, por sua vez, relata ao seu marido. Contudo, o Sr. K, ao ser procurado pelo pai de Dora, nega a acusação e diz ser fruto da imaginação de Dora. O Sr. K tinha ao seu favor a denúncia de que Dora, junto com sua esposa, tinham o hábito de ler livros inapropriados para a idade dela.
Freud aponta para a traição da Sra. K com a sua amiga, pois revelara o segredo das duas, mas o que surpreende Freud é que Dora, no lugar de sentir ódio de sua amiga, sente ciúmes da relação amorosa que ela tinha com o pai.
Lacan (1951), em seu texto Intervenção sobre a transferência, assinala para a inversão dialética estabelecida por Freud, pois ele se dá conta de que o repentino ciúme de Dora pelo pai mascara, na verdade, uma fascinação pela Sra. K, motivo pelo qual Dora se mantém leal, mesmo depois da traição e ela própria se passando por mentirosa.
Numa primeira interpretação dada por Freud, ele acreditou que se tratava de um amor recalcado pelo Sr. K. Mas, com a cena do lago, esse amor, por motivos ainda desconhecidos, fez desencadear uma violenta resistência, fazendo ressurgir o amor infantil. Já na última interpretação, Freud descobre a face homossexual da neurose histérica, de modo que, a nível inconsciente, o ciúme de Dora pela Sra. K é, de fato, fruto de sua identificação com o homem. “Essas correntes afetivas masculinas, ou, melhor dizendo, ginecofílicas, devem ser consideradas típicas da vida amorosa inconsciente das jovens histéricas” (Freud citado por Ferreira; Motta, 2014, p. 16).
No seminário 4, Lacan (1957) sublinha que o laço libidinal que liga Dora à Sra. K trata-se de uma identificação histérica à imagem viril. Portanto, ela, por via do Sr. K, na medida em que está identificada imaginariamente ao Sr. K, está ligada à Sra. K. Assim, conforme nos explica Ferreira e Motta, entre Dora e a Sra. K, é muito mais do que uma paixão, mas trata-se de uma questão histérica: o que é uma mulher?
Muito mais que uma paixão, o que liga Dora à Sra. K. é uma questão: o que é ser mulher? É a partir dessa questão, encarnada na Sra. K., que Dora se situa em uma relação triangular. Todos, ou seja, ela, seu pai e o Sr. K., idolatram a Sra. K. Dora, de certa forma, é condescendente com o assédio do Sr. K. Mas ela o esbofeteia quando ele lhe diz que a Sra. K. não é nada para ele. (Ferreira; Motta, 2014, p. 17)
Freud apreende, a partir do caso Dora, que a estrutura da fantasia histérica é atravessada pelo desejo da bissexualidade que se enuncia através da questão do impossível do sexo: sou homem ou mulher?
TEMA 5 – NEUROSE OBSESSIVA
Que a psicanálise foi inventada pelo encontro de Freud com as histerias, todo mundo já sabe, mas o que é menos evidenciado é que Freud “inventou” a neurose obsessiva. Pois bem, Maria Anita Carneiro (2011, p. 23), em seu livro Um certo tipo de mulher, enfatiza que Freud foi o pai da neurose obsessiva: “sua cria, surgida do rigor da pesquisa e do cuidado meticuloso com o diagnóstico diferencial”. Ao contrário da histeria que os sintomas se manifestam primordialmente no corpo, na neurose obsessiva, o sujeito sofre dos pensamentos.
Na neurose obsessiva, o encontro com o sexo, que é sempre traumático, é acompanhado com um excesso de gozo, que posteriormente, ao surgir na consciência, será acompanhado de culpa e autorrecriminação. Desse modo, será recalcado, e o afeto é deslocado para uma ideia substitutiva. O sujeito obsessivo passará, então, a ser atormentado por uma autorrecriminação sobre fatos aparentemente fúteis e irrelevantes.
Freud diz que, na verdade, a ideia obsessiva é correta no que tange ao afeto e à categoria, mas é falsa em decorrência do deslocamento e da substituição por analogia. Ou seja: a ideia obsessiva pode ser contrária a qualquer lógica, embora sua força compulsiva seja inabalável. (Carneiro, 2011, p. 16)
A formação dos sintomas da neurose obsessiva tem como efeito o deslocamento do afeto e a substituição por analogia da representação traumática. Por isso, a operação do recalque é mais frágil do que de uma histeria que converte o sintoma no corpo. A consequência dessa fragilidade do recalque pode ser observada facilmente na clínica, pois o obsessivo acaba colocando na sua fala elementos que deveriam estar recalcados. Por exemplo: com frequência, vemos relatos de sonhos eróticos, que ao final o analisante diz: “não era a minha mãe”. Assim, através da negação, Freud vai nos dizer que o sujeito se autoriza a dizer a frase proibida: “era a minha mãe”, pois, afinal, foi o próprio analisante, que colocou a mãe na conversa.
Outro fenômeno presente nos sintomas obsessivos é a crença na representação recalcada, pois o obsessivo crê na autorrecriminação, crê na representação recalcada, e é porque crê, ele se permite duvidar. A dúvida, que, como destaca Carneiro (2011), Descartes elevou à dignidade de um método filosófico, não será apenas um sintoma da neurose obsessiva, mas também uma defesa contra a angústia, contra o afeto que se desloca de uma representação à outra. Desse modo, o neurótico obsessivo tende a esvaziar o seu afeto.
É nesse ponto, da crença, que Freud distingue a paranoia da neurose obsessiva, pois em ambas o encontro com o sexo é vivenciado com gozo excessivo, mas enquanto na neurose há uma autorrecriminação, na paranoia o sujeito não crê na autorrecriminação, pois ele projeta a culpa para o outro.
5.1 DO SINTOMA DA NEUROSE OBSESSIVA A SUA FANTASIA
A neurose, como bem vimos, é resposta do recalque ao trauma sexual. Através dessa descoberta, Freud conclui que não há indicação de realidade objetiva no inconsciente, portanto, a realidade é psíquica, fruto de uma fantasia inconsciente. Assim, quando tratamos do inconsciente, não há como distinguir a verdade da ficção, pois a verdade do sujeito é tecida pela sua ficção. Sendo assim, a fidedignidade dos fatos não nos interessa, visto que a verdade está no que o sujeito conta.
Na neurose obsessiva, o sujeito está preso ao tema da morte, pois ela configura o tema da castração, visto que na fantasia inconsciente, o pai pode matá-lo por ter desejado e gozado da mãe. Essa ideia está na origem do sintoma, que se constitui como compromisso à representação intolerável do trauma que provocou gozo e culpa.
Outra consequência dessa fantasia inconsciente, na neurose obsessiva o sujeito tenta, a todo custo, anular o seu desejo, cujas estratégias são de várias consequências clínicas, mas com o mesmo objetivo: dar um curto-circuito no desejo. Maria Anita Carneiro (2011) declara:
A estratégia obsessiva divide-se em duas partes: em primeiro lugar, trata-se de fazer calar o desejo do outro reduzindo-o aos pedidos que o outro lhe faz. Assim, um obsessivo pode ser muito solícito, muito gentil, atendendo da melhor maneira a tudo que lhe pedem para não deixar espaço para o desejo, que está oculto para além do que se pede explicitamente. Ou então pode ser um sujeito “do contra”, que seopõe aos pedidos dos outros, mantendo assim a ilusão de que anula o desejo. São manobras opostas a serviço da mesma estratégia. (Carneiro, 2011, p. 25)
Para se afastar do seu desejo, o sujeito obsessivo o mantém no lugar do impossível. Assim, a procrastinação faz parte de sua vida, visto que ele joga para o tempo o seu desejo. Portanto, só faz o que precisa quando não tem mais tempo e precisa fazer. Carneiro sublinha que os sintomas da neurose obsessiva estão articulados ao pai.
O obsessivo crê no pai, crê no traço identificatório tomado do pai e, portanto, crê nas palavras, crê no pensamento, e é a partir dessa crença que combate o desejo. O desejo é contra a lei, incestuoso — o desejo proibido pela mãe inclui o desejo da morte do pai. O obsessivo, submisso, se identifica ao traço tomado do pai (identificação simbólica), mas também se identifica imaginariamente ao pai, cujo lugar quer ocupar. E é a partir daí que a culpa cobra seu preço. (Carneiro, 2011, p. 26)
5.2 O CASO DO HOMEM DOS RATOS
O caso do homem dos ratos é paradigmático na clínica da neurose obsessiva. Trata-se do relato de um jovem tenente de nome Lehrs, que buscou Freud (1909), em meio a muito sofrimento. Ele conta que em seu acampamento militar havia um certo capitão, que narrou uma crueldade que se aplicava no Oriente, onde, segundo o capitão, tomava-se um tonel com uma única abertura e nele se colocavam muitos ratos famintos. E sobre a abertura do tonel, era posta uma pessoa completamente nua para ser torturada, oferecendo-o, assim, como única saída o seu corpo.
A partir dessa história, o jovem tenente passou a se sentir perturbado com uma viva impressão, que a história que deixara. Passados uns dias, os óculos que ele havia encomendado, após perder os seus, chegaram de Viena, e o tal capitão, erroneamente, cobrou-lhe, dizendo que ele deveria pagar o reembolso postal ao tenente Z, pois este havia pagado a dívida. Prontamente, jurou mentalmente fazê-lo, e completou em pensamento a frase do capitão: “senão o suplício dos ratos será aplicado à moça que eu amo e a meu pai”. O detalhe é que seu pai já havia falecido.
Ocorre que quando vai pagar a sua dívida, descobre que quem pagou a sua postagem foi uma senhora que trabalhava no correio. Então, armou de pagar o tenente Z, para que ele pagasse a senhora do correio, mas o tenente Z havia sido transferido para outro regimento em outra cidade. O tenente Lehrs resolveu, então, pegar um trem e ir ao encontro do tenente Z, para convencê-lo a voltar com ele para que ele o entregasse à senhora do correio, para que assim o dinheiro fosse entregue ao verdadeiro encarregado do correio, o tenente B. Todo esse jogo logístico ocorreu para que o tormento dos ratos não fosse aplicado à sua namorada e ao seu pai, que aliás já estava morto.
Freud se dá conta de um elemento central em todos os casos de neurose obsessiva — a dívida. A dívida, no caso do homem dos ratos, tem uma estreita relação com a imagem do seu pai, pois, seu pai morreu devendo uma dívida de jogo. “Diante de sua própria dívida para com a senhora do correio, agravada pelo juramento que fizera, o tenente Lehrs se vê identificado ao pai devedor” (Carneiro, 2011, p. 31).
No relato do homem dos ratos, Freud destaca que, em sua fala de suplício, era possível observar em seu rosto um gozo desconhecido para o próprio sujeito, pois parecia que ele se sentia fascinado e assustado pelo próprio relato. Outro ponto destacado por Freud é que, o obsessivo, traz uma fala interrompida, incompleta, mostrando dificuldade de tocar em assuntos difíceis, trata-se de “mecanismo auxiliares do recalque”, pois o obsessivo sabe que ao falar o desejo escapa. Nesse sentido, ele tenta anular a significação dos seus atos e fala, por conta disso, que é necessário ao analista auxiliá-lo, emprestando-lhe palavras.
NA PRÁTICA
Na clínica da neurose obsessiva, o Outro goza, como o capitão do homem dos ratos, pois o Outro é patente do pai da horda primitiva que barra o seu acesso ao gozo. Assim, para não deixar emergir o gozo do Outro, o sujeito anula o seu desejo, com a dúvida, com pensamentos trágicos, com cálculos impossíveis, pois, diante do Outro, o sujeito está sempre na posição de escravo.
Por exemplo: um analisante que desde criança buscava ganhar dinheiro, pois achava que não podia ser um peso para sua família. Começou a trabalhar logo que pôde e arcou com muita dificuldade a todo custo da sua faculdade. Diz ser muito dinheirista e nunca se sentiu à vontade para pedir as coisas para a sua mãe.
Nesse caso, a relação com o dinheiro se agravou quando a analisante perde o seu pai, e sua mãe fica muito “depressiva”. Essa situação a levou a assumir o papel de supridor, cuja falta da família não podia parecer que prontamente se forçava por tamponar. Entrava em relacionamentos abusivos, dos quais não conseguia sair.
Quando a analisante começa o tratamento, aos poucos ela vai se dando conta de todas as contradições de sua vida, pois sempre se direcionava para caminhos que se opunha ao que deseja, visto que seu desejo era diminuído frente ao desejo do outro, uma relação de escravo. A fantasia do neurótico obsessivo é sustentada por uma dívida simbólica impagável, que o coloca sempre culpado diante do seu desejo.
FINALIZANDO
A neurose: vimos que a neurose é resposta do recalque que opera no encontro com o sexo, que, inevitavelmente, é da ordem do trauma.
A clínica da fantasia: assim, na neurose, o sujeito retira o investimento da libido no objeto da realidade e o investe no objeto da fantasia.
A fantasia fundamental: na base estrutural de toda fantasia, existe o masoquismo original, pelo qual o sujeito constitui o seu modo de gozo apoiado em sua fantasia fundamental.
A histeria: em sua fantasia, o sujeito histérico se questiona: sou homem ou mulher? Visto que seu corpo é entregue, mas seu gozo se mantém insatisfeito.
A neurose obsessiva: em sua fantasia, o sujeito obsessivo está preso ao tema da morte, pelo qual a morte é a grande figura da castração.
REFERÊNCIAS
CARNEIRO, M. A. A neurose obsessiva. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
CARREIRA, A. F. Algumas considerações sobre a fantasia em Freud e Lacan. Psicologia USP [online], v. 20, n. 2, p. 157-171, 2009. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0103-65642009000200002>. Acesso em: 8 maio 2022.
COUTINHO JORGE, M. A.; TRAVASSO, N. P. Histeria e sexualidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
FERREIRA, N. P.; MOTTA, M. A. A histeria: o caso Dora. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.
FREUD, S. Carta 125. In: Obras completas, Vol. 1. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
_____. Fragmentos da análise de um caso de histeria. Obras completas, Vol. 1. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
_____. Projeto para uma psicologia científica. In: Obras completas, Vol. 1. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
_____. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Obras completas, Vol. 1. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
NASIO, J. D. A histeria: teoria e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.
ESTRUTURAS PSICANALÍTICAS
AULA 5
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Juliana Santos
CONVERSA INICIAL
Nosso percurso, até aqui, nos possibilitou conhecer a constituição da vida psíquica, isto é, o modo como cada sujeito acessa ao registro simbólico, que pode ser pelo recalque na neurose, a foraclusão na psicose e desmentida pela perversão.
Em conteúdos anteriores, estudamos, mais especificamente, as neuroses e o modo como os sintomas histéricos e obsessivos se moldam de acordo com a fantasia que estrutura a sua posição subjetiva.
Nesta etapa, vamos nos deter, de forma mais minuciosa, sobre a clínica da psicose, a fim que possamos compreender os fenômenos elementares que constitui essa estrutura, bem como as formações delirantes que são produzidas a partir dos subtipos clínicos: Paranoia, esquizofrenia e melancolia.
É evidente que a loucura sempre esteve no alvo das reflexões de Freud, contudo, ele mesmo não acreditava que o tratamento da psicanálise pudesse operar sob essa estrutura – pois, para Freud era impossível que o sujeito psicótico estabelecesse transferência com o analista, porconta de sua fixação narcísica. Contudo, Lacan, ao adentar a psicanálise por via da psicose declara que os psicanalistas não devem recuar diante dessa estrutura clínica.
Para Lacan, a transferência na psicose acontece por uma outra via, diferente da neurose – o delírio erotomaníaco, ou seja, “uma forma de amor projetiva, exacerbada que precisa ser manejada a fim de que o psicótico possa produzir, durante seu percurso analítico, uma solução subjetiva”, conforme citado por Guerra (2010).
A solução subjetiva da psicose é completamente diferente da neurose, porém, Lacan ensina que ela também possui uma lógica, pela qual necessita ganhar escuta, assim como os sintomas neuróticos, pois, ainda que o psicótico delire, fale sobre coisas que pareçam não existir, alucine, deprima-se profundamente e desconfie do outro a ponto de agir com violência, é imprescindível que suas produções sejam ouvidas não como uma déficit, mas, como uma linguagem, uma posição subjetiva que abre o caminho para fazer advir o sujeito.
TEMA 1 – A PSICOSE  
A psicose se diferencia da neurose e perversão e, foi a psicanálise que evidenciou o seu mecanismo específico. Em Freud a psicose refere-se a um estado de defesa rigoroso, no qual, o eu para se defender de representações insuportáveis se refugiando na psicose. Dito de outro modo, o eu rejeita a ideia inassimilável e expulsa-a para fora, se separando, assim, da realidade, visto que essa ideia inassimilável está inseparavelmente ligada a um fragmento da realidade.
O caso Schreber é um dos maiores textos da tradição psicanalítica, pois trata-se do texto mais frutífero, no campo da psicose, escrito por Freud. Sua análise decorre do livro autobiográfico do presidente Dr. Daniel Paul Schreber, portanto, Freud só teve contato com Schreber pelo seu livro e nunca pessoalmente. Na sequência, vamos conhecer o caso.
1.1 UM BREVE RESUMO DO CASO SCHREBER  
Daniel Paul Schreber era considerado um homem incomum, pois possuía inúmeras capacidade analíticas e intelectuais para a sua época, sendo doutor em direito e juiz-presidente da Corte de Apelação da Saxônia. Sua primeira crise ocorreu quando tinha 42 anos - em seu registro médico constava o diagnóstico de “hipocondria grave”. Schreber ficou internado por vários meses na clínica do Dr. Flechsig, motivo pelo qual nutriu uma imensa gratidão ao doutor que lhe curou.
Schreber escreve em sua biografia a frustração de não ter tido filhos. Conta que, mesmo casado por tanto tempo e mesmo passados 8 anos após a sua internação e tido momentos “muito felizes” ao lado de sua esposa, o fato de não ter filhos o desagradava.
Aos 51 anos de idade, foi nomeado presidente da Corte de Apelação. E antes de assumir o cargo, sonhou por diversas noites que estava enfermo novamente. Relata, ainda, que em uma manhã, quando estava semiacordado, surgiu-lhe um pensamento: “seria muito bom ser uma mulher submetendo-se ao coito”. Essa ideia foi extremamente rejeitada por Schreber.
Passados alguns meses, após sua nomeação, Schreber começou a ter insônia, que foi se agravando e juntou-se à sensação de “amolecimento” cerebral. Em seguida, surgiram ideias de perseguição e prenúncios de morte, somadas a sensibilidades à luz e ao barulho. Depois disso, vieram as alucinações visuais e auditivas, nas quais se via morto e se decompondo, acometido pela peste e lepra.
Schreber passou a ficar por horas submetido ao terror de sua alucinação, chegando a desejar a morte e tentar o suicídio em vários momentos. O último estágio do seu delírio ganhou ares místicos, no qual passou a se relacionar diretamente com Deus.
1.2 O DELÍRIO DE SCHREBER
Os delírios de Schreber seguem duas vertentes de suma engenhosidade. Uma se configura em perseguição e a outra na sua transformação em mulher. No primeiro momento do discurso delirante de Schreber, ele se acha perseguido por ninguém menos que o próprio Deus. É Deus quem está no comando de um complô contra a sua integridade física e ameaçando a sua sanidade mental - e que, para isso, instrumentaliza de tudo que o cerca, utilizando até mesmo o Dr. Flechsig para lhe atingir. Segundo o relato de Schreber, de sua segunda crise, o Dr. Flechsig se apresentou como um “agente divino” que operou nele ligações nervosas para falar-lhe em sua cabeça, sendo isso nomeado por Schreber de “assassinato de alma”.
Nenhuma parte do corpo de Schreber é poupada. J. D. Nasio, em seu livro Os Grandes Casos de Psicose (2001), traz um recorte da ameaça ao corpo de Schreber, em que se descreve que: “retiraram-lhe seus intestinos. Seu esôfago foi picado em pedacinhos. Suas costelas foram quebradas e ele engoliu parte da laringe. Seu estômago foi substituído por um judeu. Os nervos da cabeça foram-lhe arrancados”. Os “raios de Deus”, que atravessavam o corpo de Schreber, se aproveitavam de qualquer “descuido” para fugir e nesse momento Schreber emitia uivos, para mostrar a Deus que ainda estava vivo e não havia “perdido a cabeça”.
No segundo momento de seu delírio, Schreber consente ser a mulher de Deus, sendo esse o momento crucial, em que ele se transforma em mulher por via de sua emasculação. Nasio aponta ainda que no auge do delírio de perseguição, a emasculação destinava-se a humilhá-lo, a fim de que ele fosse posto como uma prostituta para ser abusado sexualmente. A prova disso era que os raios de Deus o chamavam de “miss Schreber”. Mas, nesse segundo momento do delírio, Schreber aceita ser transformado em mulher pelo “bem da humanidade”. Em suma, diz o autor, Schreber começou a se reconciliar com a ideia de transformar-se em mulher, quando entendeu que esse era um “propósito” de Deus, que reclamava por sua feminilidade para salvar a humanidade: “é meu dever oferecer aos raios divinos a volúpia e o gozo que eles buscam em meu corpo”. (Schreber, citado por Nasio, 2001, p. 51)
A missão de Schreber era criar uma humanidade (de raça “schreberiana”), sendo essa construção delirante a solução de seu conflito.
TEMA 2 – AS LIÇÕES DO CASO SCHREBER 
Freud, ao analisar o caso Schreber, abordou os seus sintomas restabelecendo a função da doença, como sempre fez, pois, assim como o inconsciente obedece a uma lógica em suas manifestações clínicas, na psicose, ele demostra que também obedece a um rigor próprio dela.
Assim, ao confrontar-se com o delírio de Schreber, Freud propõe encontrar uma ideia coerente e específica à ele, rompendo, desde aí, com a tradição psiquiátrica. Freud apontou para a evolução sistemática e projetiva dos delírios de Schreber, distinguindo como um caso de paranoia e separando-o nosograficamente da esquizofrenia, pois, do ponto de vista teórico, Freud sustenta sua teoria da libido - na qual o paranoico retira do mundo externo a libido investida e reinveste no próprio eu. Foi o que aconteceu com Schreber, quando seu mundo foi destruído.
Voltemos à irrupção da doença de Schreber, que, segundo Freud, se originou de um conflito que o levou ao rompante da doença quando foi acometido pela ideia inassimilável, na qual ele relata: “como seria bom ser mulher submetendo-se ao coito”. Sendo, portanto, por essa via que a psicose surge, como tentativa de resolver o conflito.
Freud, então, nos ensina, a partir do delírio de Schreber, que todo delírio é uma tentativa de cura. Schreber, no caso, ao ser confrontado com ideias “incompatíveis”, forma uma rede com vários elementos que parecem aleatórios, contudo, a complexidade com que os elementos se conectam, demostra que, na verdade, trata-se de uma “produção” que busca restabelecer o laço com a realidade.
Portanto, Freud destaca que o desmonte do mundo de Schreber, isto é, o surto, representa a retirada da libido dos objetos do mundo externo. E o restabelecimento da libido é feito pelas formações delirantes. Freud diz: “A formação delirante, que presumimos ser o produto patológico, é, na realidade, uma tentativa de restabelecimento, um processo de reconstrução” (1996, p. 78). Além disso:
Podemos dizer, então, que o processo da repressão propriamente dita consiste num desligamento da libido em relação às pessoas – e coisas – que foramanteriormente amadas. Acontece silenciosamente; dele não recebemos informação, só podemos inferi-los dos acontecimentos subsequentes. O que se impõe tão ruidosamente à nossa atenção é o processo de restabelecimento [...]. Foi incorreto dizer que a percepção suprimida internamente é projetada para o exterior; na verdade é, pelo contrário, como agora percebemos, que aquilo que foi internamente abolido retorna desde fora. (Freud, 1911, p. 78)
O trabalho do delírio tem, por fim, a construção da metáfora delirante, isto é, a produção do falo – que para Schreber é a mulher de Deus, que foi de ameaça insuportável a uma saída benéfica – a redenção do mundo, via pela qual Schreber restabelece a ligação com os outros.
2.1 FENÔMENOS ELEMENTARES
Partindo da definição do sintoma como metáfora nas neuroses, os fenômenos elementares são os que fazem sintoma nas psicoses, sendo a expressão radical da passagem do simbólico para o real, ao que se refere ao significante foracluído na estrutura do discurso inconsciente.
Os fenômenos elementares estão na estrutura psicótica. É Lacan, no Seminário 3 (1956), que evidencia a lógica da composição estrutural dos fenômenos elementares que estão postos e não são subjacentes à construção do delírio, pois eles possuem a sua própria “força” constituinte nos trabalhos de delírio, quer seja em uma de suas partes, ou em sua totalidade. “Isso quer dizer que a noção de elemento não deve ser tomada aí de modo diferente da de estrutura, estrutura diferenciada, irredutível à outra que não ela mesma” (p. 30).
Dessa forma, as psicoses e seus fenômenos possuem uma estrutura de linguagem (bem como as neuroses) sendo que os sintomas psicóticos não são os de metáfora e, sim, os que surgem pela falta da metáfora, sendo eles os fenômenos elementares que estão ao nível do fenômeno e da causa da psicose.
Os fenômenos elementares podem ser compreendidos pelo conjunto de fenômenos que se enquadram na semiologia da psicose. São os elementos que obedecem ao automatismo da repetição quando isolados. Uns podem acompanhar toda a vida do sujeito, enquanto outros surgem ao desencadear uma psicose.
Ao nível dos fenômenos, Lacan evidencia a alucinação verbal com o “significante no real”. Trata-se daquilo que foi rejeitado no simbólico e que reaparece no real - essa demarcação, aliás, é feita à propósito, para demostrar que o significante é no real e não no sujeito, ao passo que ele “rompe” a cadeia significante, que deixa de produzir significação. Colette Soler, no livro O Inconsciente a Céu Aberto da Psicose, nos apresenta essa demarcação da seguinte forma:
É essa expressão que ele (Lacan) emprega nesse momento. “Significante no real” não quer dizer significante no percepto (aquele que percebe) – o significante no percepto não é o único gênero do significante no real. O significante está no real quando é rompida a cadeia significante, que concatena os significantes para produzir significação. (Soler, 2007, p. 198)
Para Lacan, a percepção é um campo ordenado pela relação do sujeito com a linguagem - sendo assim, o perceptum (objeto percebido) depende da articulação entre sujeito e linguagem. Contudo, o próprio sujeito é produto da linguagem, ou seja, o sujeito também se constitui como efeito do significante, sendo assim, a alucinação tem uma primazia sobre o sujeito. Soler sublinha: “Ao contrário do que dizem todas as teorias clássicas que postulam que o perceptum resulta de uma atividade do percipiens, o perceptum já é estruturado. Que a estrutura, portanto, não vem do percipiens, mas já está no perceptum, e que, além disso, é ela que determina o sujeito, que não é um simples percipiens” (Soler, 2003, p. 35).
Portanto, a alucinação verbal é um fenômeno elementar, visto que é uma estrutura que já está no perceptum, constituindo-se como paradigma da psicose. Ou seja, os fenômenos da psicose decorrem, de fato, da fala, assim: “quando é o outro que fala, ele sofre efeito de sugestão; quando ele quem fala, divide-se entre locução e audição. Quando ele é alucinado, sua fala é ouvida como vindo do outro” (Soler, 2003, p. 35), o sujeito está totalmente identificado ao seu eu com que ele fala, ou o eu assumido como seu instrumento.
Para explicar o efeito da alucinação, Lacan (1988) expõe o caso de uma paciente. Conta que ela vivia numa relação dual com a mãe, mas entre elas, tinha uma vizinha que era considerada invasiva, pois sempre vinha bater na porta quando as duas estavam em certa intimidade. Um dia, no caminho de casa, a paciente encontra com o amante dessa vizinha e ouve-o chamando-a de “porca”.  No momento em que Lacan a examinou, perguntou-lhe em que ela pensava imediatamente antes de ouvir a palavra “porca”. Ela lhe respondeu: “Eu venho do salsicheiro”.
Com esse exemplo, Lacan explica que, ao nível simbólico, a alucinação verbal consiste na foraclusão do Nome-do-Pai, no qual o eu permanece oscilante, pois não recebeu um designo simbólico. Desse modo, o “porca” é o significante que surge onde o sujeito mostra todos os paradoxos de uma percepção singular. Pois o sujeito “cai”, sob o efeito de uma sugestão na qual o outro é o porta-voz de um discurso que vai em sua direção para fazer suplência ao seu eu, de uma intenção que se mantém em segredo para ele.
Assim, quando o amante da vizinha aparece, ele vai corresponder ao chamado do Nome-do-Pai, o terceiro elemento, visto que ele faz emergir um novo significante que descontrói a sua relação dual, mãe-filha, desestabilizando o par a – a’, da relação especular da paciente. Passemos ao esquema L, para situar a posição do significante na alucinação:
Figura 1 – Esquema L
Verifica-se que o lugar do significante do Nome-do-Pai é vazio, por isso, o sujeito, em S, não consegue responder desde o lugar simbólico, em A; daí, quando surge uma situação que abala a relação especular imaginária com o outro (Eu-mãe), surge um significante desconhecido para o sujeito “porca”, mas que designa o sujeito da frase “eu venho do salsicheiro”, não conseguindo se sustentar na realidade.
E o que retornou no real? No real, retorna o foracluído do simbólico sob forma de alucinação. No caso, “porca” é o significante que aponta para o ser de objeto do sujeito. Lacan aqui se propôs a buscar no romance da vida do sujeito as evidências que sustentam o seu delírio. Nessa paciente, foi possível encontrar em seu histórico o relato de que, um dia, ela fugiu de seu ex-marido, pois, pensava que ele e sua família queriam esquartejá-la como uma porca: “cortá-la em rodelas”. Portanto, o significante “porca” é o seu nome de gozo, pois desvela sua posição enquanto sujeito psicótico, visto que, no registro imaginário, o sujeito desestabilizado é tomado pelo sentido corporal de despedaçamento.
Portanto, o que Lacan nos ensina é que, a alucinação verbal se situa no interior dos paradoxos da percepção da palavra, em que a palavra escutada é a própria palavra do locutor e em que se pode observar o fenômeno, sendo assim a própria palavra do sujeito que vêm de fora, trazida pelo Outro foracluído.
TEMA 3 – PARANOIA
A paranoia, esquizofrenia e a melancolia são subestruturas da psicose, que se encontram submetidas ao mecanismo da foraclusão do Nome-do-Pai. Portanto, essa é a característica fundamental do diagnóstico da clínica psicanalítica – remeter à estrutura que o condiciona.
O paranoico é um tipo clínico que Freud aproximou da neurose, pois ela estava dentro do quadro do mecanismo de defesa, ao lado da histeria e neurose obsessiva. Essa aproximação da paranoia com as neuroses foi explicada por Antonio Quinet (2009) pelo mecanismo de retenção (Verhaltung).
A Verhaltung é um termo alemão que se traduz por “retenção”. A retenção, posta como o mecanismo específico da paranoia, diz respeito a uma identificação imediata a Um significante mestre. Segundo Lacan, foi pela teoria psicanalítica, por meio do conceito energético da libido, que Freud discerniu um ponto de fixação que pode dar conta da noção de retenção psíquica.
3.1 O UM DA PARANOIA
A compreensão do mecanismo de retenção na paranoia pode ser buscada desdeFreud, como iremos verificar. No Rascunho K, sob a égide de uma psiconeurose de defesa, Freud compara a neurose obsessiva com a paranoia, pois, no que se refere ao primeiro encontro com o sexo, tanto uma quanto a outra são acompanhadas de uma experiência de prazer excessivo, mas, posteriormente quando essa recordação é evocada, em estado de neurose obsessiva ela vem acompanhada por uma recriminação, causando desprazer lá onde havia prazer. Por outro lado, na paranoia, segundo Freud, o sujeito paranoico não acredita na recriminação. Quinet explica assim:
A crença ou a descrença na recriminação primária (que acompanha o gozo) determina a “escolha da neurose”, expressão de Freud para designar em que tipo de “psiconeurose” se situará o sujeito. A recriminação, na medida em que marca a Coisa gozosa como proibida, é índice do Nome-do-Pai, é a expressão da lei ao nível do fenômeno. A crença na recriminação promove o recalque desta, assim como da cena de gozo recriminada. Deste recalque resultará o sintoma. a descrença na recriminação corresponde a foraclusão do Nome-do-Pai. A recriminação foracluída do simbólico retorna no real sob forma frequente de injuria alucinatória. (Quinet, 2009, p. 98)
Seguindo o esquema freudiano, Quinet propõe a constituição do sintoma sob dois significantes: o significante do gozo, que ao ser evocado na memória se transforma no significante traumático (St), e o significante da lei, que provoca a recriminação e que equivale ao Nome-do-Pai (Sl).
Na neurose obsessiva, os dois significantes (Sl – St) serão recalcados, na paranoia o significante da lei é foracluído, enquanto o significante do trauma é retido. E assim, diferentemente da neurose, onde o significante traumático é recalcado e retorna na cadeia significante, Quinet sublinha que, na paranoia, o significante do trauma fica “congelado” e retém, portanto, o sujeito, trazendo-lhe um gozo excessivo e conotado de desprazer. Assim, o destino do significante da lei e do significante do trauma na paranoia seguem o caminho descrito abaixo:
Na paranoia, diferentemente do tipo clínico da esquizofrenia, o significante do trauma não se pulveriza – o esquizofrênico sofre, de fato, de dispersão do significante, como veremos mais adiante, mas o paranoico tem o seu significante retido, sendo esse o significante que o aproxima da neurose.
Na neurose, o significante representa o sujeito para outro significante que não o representa. Essa representação no significante coloca o sujeito em afânise, ou seja, o sujeito se aliena e se separa do significante de causa do sujeito, pois o neurótico é, por excelência, um sujeito dividido e essa separação desliza na cadeia significante para se fazer representar por outros significantes.
Na paranoia, por outro lado, o sujeito está alienado ao significante que o representa para outros significantes, de modo que ele se encontra totalmente identificado a esse significante-mestre, que se inscreve como Um. O paranoico é o Um da referência, sendo desse ponto que surge o principal fenômeno que o caracteriza.
3.2 A AUTORREFERÊNCIA PARANOICA
Os fenômenos que estão na base da interpretação delirante, que foi descrita por Sérieux e Capgras como “auto-referência mórbida”, diz respeito ao significante retido pelo sujeito. Trata-se da significação dada, no qual o sujeito se coloca como referência: “hoje entrou uma borboleta na minha casa e sempre que ela entra, é um sinal pra mim”. Assim, os significantes se transformam em signos que “se dirigem” a eles.
Seguindo os esclarecimentos de Quinet (2009), a autorreferência se conjuga ao retorno do foracluído no real, no qual o primeiro diz respeito ao significante traumático fixo no sujeito e o segundo diz respeito ao Nome-do-Pai foracluído no Outro. Nesse sentido, a interpretação delirante estabelece a significação que inicialmente está em suspenso no fenômeno da autorreferência (St), em que o sujeito é tomado de perplexidade, mas, ao se conjugar com o foracluído (Sl), o sujeito é tirado da perplexidade e lançado a uma certeza delirante: “querem me matar”.
Assim, é pela falta de divisão subjetiva em que o sujeito paranoico é movido por uma certeza absoluta, que ele acaba se tornando um atrativo “hipnótico” (política, religião ou seitas) para o neurótico que vive aflito pelos seus conflitos internos.
TEMA 4 – ESQUIZOFRENIA
Tanto a paranoia quanto a esquizofrenia se desenvolvem no âmbito do registro imaginário, isto é, no campo do narcisismo, onde a imagem do eu se constitui. Na esquizofrenia, Freud aponta para um ponto de regressão no autoerotismo, sendo o paranoico localizado num ponto de regressão no narcisismo. Desse modo, no esquizofrênico a imagem corporal se encontra “despedaçada”, daí se especificando um corpo fragmentado que institui a dispersão do sentido, enquanto na paranoia, a imagem corporal é unificada pela identificação imediata à imagem do outro (a-a´), cujo sentido é fixo e o eu megalomaníaco.
No registro real, o esquizofrênico goza de um corpo. A fala e o sentido são fragmentados, pois o gozo está disperso de forma anárquica, enquanto na paranoia, o gozo se encontra concentrado no Outro, o seu perseguidor que o “ama” ou “odeia”. De modo que, no sentido do registro simbólico, o Outro do paranoico é consistente, enquanto na esquizofrenia o Outro é ausente. Com base nisso, Quinet apesenta um quadro comparativo entre paranoia e esquizofrenia:
Tabela 1 – Quadro comparativo
	Registro
	Paranoia
	Esquizofrenia
	Imaginário
	Retorno ao narcisismo
Fixação da imagem e sentido
Um corpo preso na imagem do outro
Eu megalomaníaco
	Retorno ao auto-erotismo
Dispersão da imagem e sentido
Imagem do corpo despedaçado
Eu fragmentado
	Real
	J(A) gozo do Outro
	Dispersão do gozo
	Simbólico
	Verhaltung (retenção) do Um
NP°
Outro consistente
	Dispersão, não há Um significante
NPº
Outro fragmentado
Fonte: Elaborado com base em Quinet, 2009.
4.1 O CORPO DESPEDAÇADO DO ESQUIZOFRÊNICO
Todo funcionamento psíquico da esquizofrenia é, segundo Bleuler - o médico que situou a esquizofrenia como uma causalidade psíquica na psiquiatria - consequência do desaparecimento da ordenação exercida pela representação-meta, pela qual o sujeito fica entregue a um estado de devaneio.
Para Freud (1900), a ausência da representação-meta pode ser desastrosa, pois representaria um pensamento com desagregação psíquica, de modo que a representação-meta inconsciente é que garante o encadeamento significante, do mesmo modo como ocorre nos sonhos:
A psicanálise das neuroses aproveita imensamente as duas regras que indicamos: ela sabe que, quando renunciamos às representações-meta conscientes, são as representações escondidas que dirigem o curso de nossas representações; e que as associações superficiais só fazem substituir, graças ao deslocamento, as associações recalcadas profundas. (Freud, citado por Quinet, 2009, p. 69)
Em Lacan verificamos que toda representação-meta presentes no pensamento, consciente ou inconsciente, é tributária do significante-mestre (S1), cuja inscrição logica se dá pela operação do Nome-do-Pai no Outro. Dito de outro modo, é com a inscrição do Nome-do-Pai no lugar do Outro que o sujeito se situa com desejante e seus pensamentos têm uma meta que o guiam. Quinet afirma que sem representação-meta “não há produção de sentido, que é sempre sexual. As representações-meta fundamentais e inconscientes do sujeito constituem os significantes primordiais do sujeito de desejo” (Quinet, 2009, p. 70).
Quando falamos de esquizofrenia, nos referimos à ausência do S1, o suporte das representações-meta do pensamento inconsciente/consciente. Portanto, o sujeito esquizofrênico tem uma dispersão de significantes, visto que falta o significante mestre, que encadeia hierarquicamente a cadeia significante.
Na esquizofrenia, então, o S1 não equivale à ordem significante estruturada, pois o que vemos é uma multiplicidade de S1 sem hierarquia alguma que tende para o infinito. O matema proposto por Quinet (2009) para escrever a dispersão, que se manifesta nas diferentes formas fenomenológicas é a seguinte:Portanto, no lugar que deveria advir um S2 como produto da cadeia significante, ocorre um conjunto vazio. Nesse sentido, os significantes se alinham, constituindo uma cadeia ordenada sem o par significante e, o resultado é a dispersão, sendo aí em que todos os fenômenos esquizofrênicos se formam.
TEMA 5 – MELANCOLIA
A melancolia na clínica psicanalítica refere-se ao terceiro tipo clínico da psicose, contudo, na psiquiatria ela está sob a etiqueta de distúrbio bipolar, e no senso comum, muitas das vezes, confundida como depressão. Mas, na verdade, a melancolia trata-se de uma tristeza estrutural que deve ser diferenciada do luto, um estado depressivo neurótico, pois os sujeitos melancólicos estão identificados à dor de existir.
No célebre texto Luto e melancolia, Freud (1915) compara o trabalho do luto à dor, mas, posteriormente, quando elabora o conceito de pulsão de morte e o masoquismo primordial, é que ele caracteriza a economia da dor, onde ela vai corresponder à satisfação da pulsão de morte, que se revela na perversão masoquista, no gozo do sintoma e na melancolia. (Quinet, 2009)
No luto, a dor está relacionada a um gozo que de modo paradoxal provoca dores e prazer que surgem na perda do ideal, sendo assim, a dor do luto está diretamente vinculada à castração – e a cada perda o sujeito é remetido a ela. No neurótico, declara Quinet, a castração se inscreve como a falta de um significante que complete o Outro – (S(A)). Portanto, a perda está relacionada ao objeto que escamoteia a castração. “A dor da depressão é a dor constitutiva da castração, que, em vez de aparecer como angústia, deixa triste o sujeito com a nostalgia do Ideal, saudade do Um que encobria a falta” (Quinet, 2009, p. 173).
A melancolia corresponde a uma dor, porém, Freud a diferencia do luto, pois, diferentemente deste, que possui um objeto perdido, na melancolia, o sujeito se constitui identificado ao objeto perdido.
5.1 A COISA MELANCÓLICA
No Rascunho G, de 1885, Freud faz uma indicação à melancolia, apresentando quatro constatações:
· Melancolia e anestesia sexual: uma falta de vontade de tudo e principalmente sexual. Desejo = 0;
· Melancolia e neurastenia: perda de vitalidade e cansaço;
· Melancolia e angústia: diferente da neurose de transferência, não faz economia de angústia;
· Melancolia e mania: onde a primeira pode se transformar na segunda. Segundo Quinet, Freud não propõe uma bipolaridade, mas sim uma existência de melancolia que pode ser transformada em mania, sem que deixe de ser melancolia.
Assim, conforme o Rascunho G, a melancolia é um luto provocado pela perda da libido. Lacan propõe, a partir daí, um “furo no psiquismo”, que promove uma dissolução das associações, por onde a libido se esvanece. Sendo desde aí onde se forma os delírios melancólicos de ruína. Quinet explica:
A hemorragia (da libido) é descrita como uma excitação escorrendo por um furo, que funciona como um ralo. Esse furo no psiquismo é equivalente ao furo no simbólico, à foraclusão do Nome-do-Pai. Lá onde deveria estar o Nome-do-Pai não se encontra nada, só um furo, um ralo aberto por onde toda a libido escoa. Para Freud, é isso que explica a anestesia sexual, pois “todos os neurônios devem abandonar a excitação”. É essa perda hemorrágica que é dolorosa. Em outras palavras, é a dor do furo, do que é foracluído do simbólico, que é desvelada na melancolia – dor que corresponde à anestesia sexual, à abolição do desejo. (Quinet 2009, p.198)
Contudo, esse estado melancólico da estrutura melancólica, assim como nos demais tipos clínicos da psicose, quando estão fora da crise, há algo que funciona como uma suplência no psiquismo, que vem para suprir no imaginário a falta simbólica do Nome-do-Pai, na melancolia essa suplência funciona como uma tampa dos psiquismos. Esse tema em específico, abordaremos no desdobrar da clínica com psicose.
NA PRÁTICA
Para pensarmos o “Na Prática”, nos reportaremos ao filme Melancolia (2011) do diretor Lars Von Trier. Sem, contudo, nos atermos as riquezas de detalhes que compõem toda essa trama, mas atendo-nos apenas ao nosso foco, para demostrar um caso de melancolia. Assim, faremos alguns recortes no personagem que nos interessa: Justine.
O filme inicia com o casamento de Justine, uma luxuosa festa organizada pela sua irmã mais velha, chamada Claire. O perfil de Claire é sem dúvida um prato cheio para análise, uma mulher que além de cuidar de seu filho e marido, está sempre tomando conta de Justine. O pai das irmãs é um homem bobo, com imagem fraca e sem autoridade. Já a mãe é uma mulher hostil, que não gosta de nada e não demostra interesse pelas filhas e muito menos se mostra interessada na ocasião, pois, de fato, ela demostra que não queria estar no casamento.
Justine é uma mulher que apesar de bonita, tem um rosto sombrio e um olhar sem vida. Ela chega a sua festa de casamento, com o noivo, já com bastante atraso, mas não demostra se importar com os convidados que os espera. Ela está sorridente e aparentemente feliz com a ocasião, mas ao longo da festa, logo essa imagem vai se desfazendo, demostrando um cansaço e um olhar sofrido de quem não está aguentando mais.
Claire, ao perceber o estado de Justine, a pressiona pedindo para que ela não estrague a festa. Em seguida Justine sai da festa e vaga sem rumo pelo imenso jardim, tentando encontrar força para suportar aquilo, que para ela, não fazia o menor sentido.
Quando Justine retorna à festa, tenta se manter por mais um pouco animada, mas logo arruma um pretexto para abandonar o local novamente. Justine então leva o sobrinho para a cama e vai tomar banho, enquanto todos a espera para cortar o bolo.
Quando o noivo a leva para o quarto de núpcias, Justine pede para que ele a aguarde por um instante, ela, então, desce para a festa e transa com um convidado no jardim. Em seguida, volta para o salão da festa e começa a dançar animada. No final da festa o noivo vai embora e diz para ela: “poderia ter sido diferente” e ela responde: como? Pois, Justine sabia que a única coisa que ela podia fazer era isso mesmo.
Outra fala marcante do filme é a de sua irmã, dizendo: “pensei que era isso que você queria”, mas Justine demonstrava que não queria era nada.
O filme, na verdade, não adota o sentido dado por Freud à melancolia, pois melancolia, no filme, é o nome do planeta fictício que irá se chocar com a Terra. O que, para nós, é mais um ponto interessante, pois, ao saber da tragédia a caminho, Justine consegue se recompor e até toma banho, dando sinais de um revestimento libidinal no próprio corpo. Pois esse planeta, para Justine, representava o Outro, vindo de fora e barrando o seu gozo. A destruição do planeta não abala Justine como abala a sua irmã, pois Justine já vivia em um mundo destruído.
FINALIZANDO
O caso Schreber é um dos maiores textos de tradição psicanalítica no campo da psicose escrito por Freud. O texto é decorrente de uma análise de um livro autobiográfico do presidente do Dr. Daniel Paul Schreber, um homem incomum, pois possuía inúmeras capacidade analíticas e intelectual para a sua época, doutor em direito e juiz-presidente da Corte de Apelação da Saxônia.
O adoecimento de Schreber se sustenta pelos delírios que seguem duas vertentes de suma engenhosidade. Uma se configura em perseguição e a outra na sua transformação em mulher.
Segundo Freud, todo delírio é uma tentativa de cura. Pois, Schreber ao ser confrontado com ideias incompatíveis, forma uma rede com vários elementos que parecem aleatórios, contudo, a complexidade com que os elementos se conectam, demostra que, na verdade, trata-se uma produção que busca restabelecer o laço com a realidade. 
Nesse sentido, Lacan, no Seminário 3 (1956), evidencia a lógica da composição estrutural dos fenômenos elementares das psicoses cujos fenômenos possuem uma estrutura de linguagem, bem como as neuroses, sendo que os sintomas psicóticos não são os de metáfora e, sim, os que surgem pela falta da metáfora, sendo eles os fenômenos elementares que estão ao nível do fenômeno e da causa da psicose.
O paranoico é um tipoclínico que Freud aproximou da neurose, pois, ela estava dentro do quadro do mecanismo de defesa, ao lado da histeria e neurose obsessiva. Essa aproximação da paranoia com as neuroses foi explicada por Antonio Quinet (2009) pelo mecanismo de retenção (Verhaltung). A retenção posta como o mecanismo específico da paranoia, diz respeito, a uma identificação imediata, do sujeito paranoico, a Um significante mestre.
Na esquizofrenia, Freud aponta para um ponto de regressão no autoerotismo e, o paranoico num ponto de regressão no narcisismo. Desse modo, o esquizofrênico a imagem corporal se encontra despedaçada, daí um corpo fragmentado que institui a dispersão do sentido.  Outra diferença é que ao contrário do paranoico, o esquizofrênico não tem um significante mestre. Assim, o sujeito esquizofrênico tem uma dispersão de significantes, visto que falta o significante S1, que encadeia hierarquicamente a cadeia significante.
A melancolia é uma tristeza estrutural, pois trata-se de uma dor que Freud diferencia do luto, pois diferente deste que possui um objeto perdido, na melancolia o sujeito se constitui identificado ao objeto perdido.
REFERÊNCIAS
FREUD, S. (1895) Rascunho G, In Obras Completas, vol. 1. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
________. (1911) Caso Schreber, In Obras Completas, vol. 12. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
GUERRA, A. M. C. A Psicose. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
QUINET, A. Psicose e laço social: esquizofrenia, paranoia e melancolia. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
LACAN, J. (1956). Livro 3 -  As psicoses. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.
PISANI, C., CORIAT, A. Um caso de S. Freud: Schreber ou a paranoia. In NASIO, J. D.  Os Grandes Casos de Psicose. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
SOLER, C. O Inconsciente a Céu Aberto da Psicose. São Paulo: Companhia das Letras, 2003
ESTRUTURAS PSICANALÍTICAS
AULA 6
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Juliana Santos
CONVERSA INICIAL
Nesta etapa, apresentaremos a terceira estrutura clínica – a perversão. E é interessante pensar que, por mais que a psicanálise tenha cunhado o termo perversão para designar um campo de estudo clínico e uma estrutura psíquica, ainda se ouve, no dito popular, “você é um perverso” para adjetivar uma ação ou fantasia que imputa certa crueldade.
A perversidade confere um sentido moral e religioso que a psicanálise, mesmo depois de um século, não conseguiu barrar do senso comum. A partir o século XIX, verifica-se um apelo jurídico ao discurso médico para intervir sobre a responsabilidade do sujeito, o qual visa encontrar resposta para uma “perversão” moral ou de ordem patológica.
O médico responderá, então, falando de monomanias instintivas (Esquirol), de busca de excitação (Janet) e de parestesias (Krafft-Ebing), situa-nos Philippe Julien (2003), autor do livro Psicose, perversão e neurose. Já a perícia responderá a partir das classificações descritivas da perversão. Assim, para responder ao juiz, faz-se semiologia, recenseamento e nomenclatura (Julien, 2003, p. 102).
Contudo, segundo Julien, ao se submeter à demanda do judiciário na tentativa de “proteger” a sociedade, a psiquiatria inibe o avanço da ciência das causas. Portanto, o avanço da psiquiatria foi em dar resposta, visto que a clínica não ficou reduzida à perícia.
A ausência de demanda em pesquisas se dá pelo fato de que o perverso não é uma doença, mas trata-se de pessoas comuns em sua vida diária, cuja sexualidade pode levá-los à anormalidade. Krafft-Ebing, em 1887, trouxe o entendimento para sua época de que toda exteriorização do instinto sexual que não vai na direção da natureza, isto é, da reprodução, é perversa. Subverter o sentido da natureza é consentir com a violência da sexualidade, admitindo uma satisfação sexual de um e do outro. Assim, para o autor, as perversões se dividem em dois grupos:
As perversões se dividem em dois grandes grupos: primeiro aquelas em que o objetivo da ação é perverso e é preciso pôr aqui o sadismo, o masoquismo, o fetichismo e o exibicionismo; em seguida aquelas em que o objeto é perverso, a ação o sendo quase sempre, em consequência: é o grupo da homossexualidade, da pedofilia, da gerontologia, da zoofilia e do autoerotismo. (Krafft-Ebing, 1887 citado por Julien, 2003, p. 103)
A psiquiatria parou até certo ponto aí, estando, por outro lado, salvaguardado o essencial: definir o punível e proteger o futuro, declara Julien. Freud, com a psicanálise, rompe a condenação dada à perversão.  
TEMA 1 – A PERVERSÃO
Freud abordou a perversão em diversas perspectivas, a fim de contrapô-la à neurose e psicose. Contudo, ao estudar seus construtos teóricos e clínicos, deparamo-nos com conceitos tênues e de referências confusas no que tange a sua especificidade. Se comparada à neurose e psicose, parece que a perversão ficou à margem da teoria. E, pensando conforme a psicanálise nos ensina, podemos imaginar o quanto esse tema é revelador e traz à tona afetos sobre os quais “nada queremos saber”. Mas, desafiando-nos a pensar sobre a perversão, vemos que Freud, primeiramente, rompe a fronteira entre a perversão e normalidade.
No texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud (1905) instaura um verdadeiro escândalo na sociedade ao declarar que toda criança é “polimorficamente perversa”, pois trata-se de uma plasticidade pulsional no que tange ao seu objeto, pois a sexualidade infantil, em sua gênese, tem uma libido das pulsões parciais com objetos pré-genitais (oral, anal, escópica). Nesse sentido, Freud afirma uma predisposição original e universal da sexualidade humana perversa.
Desse modo, a perversão só poderia ser superada num tempo ulterior do genital, em que as pulsões parciais infantis se unificam numa só pulsão e passa a se dirigir a um objeto genital. Ainda nesse texto, Freud nos dá a formula determinante que demarca o destino para uma neurose e perversão; diz: "A neurose é, por assim dizer, o negativo da perversão" (Freud, 1905, p. 102).
Joel Dor (1991) destaca, em seu livro Estruturas e clínica psicanalítica, a economia pulsional, na qual os sintomas neuróticos resultam sempre de um recalcamento dos componentes pulsionais da sexualidade, respondendo com os sintomas neuróticos, representados da seguinte forma por Freud: “[...] uma conversão de pulsões sexuais que deveriam ser chamadas perversas (no sentido amplo da palavra) se pudessem, sem se afastarem da consciência, encontrar uma expressão em atos imaginários ou reais". (Freud citado por Joel Dor, 1991, p. 33).
No texto Pulsões e suas vicissitudes (1915), Freud aponta para dois destinos pulsionais que são característicos do processo perverso: a "inversão em seu contrário" e o "retorno sobre a própria pessoa". Desde aí, ele começa a orienta as suas investigações a buscar um mecanismo metapsicológico inaugural da perversão.
O complexo de Édipo é pensado a partir da atribuição fálica à mãe, cujo efeito gira em torno da questão da diferença do sexo, que, para a criança, gera um enigma. Desse modo, a vivência edípica em seu desenvolvimento efetuará a elaboração da resposta ao sexo, quando o pênis deixa de ser um bem comum. Freud formula isso no texto A organização genital infantil, em que declara:
No decurso dessa pesquisa, a criança chega à descoberta de que o pênis não é um bem comum a todos os seres que se lhe assemelham [...]. Sabemos como elas reagem às primeiras impressões provocadas pela ausência de pênis. Negam esta ausência e creem ver, apesar de tudo, um membro: lançam um véu sobre a contradição entre observação e preconceito; achando que ele ainda está pequeno e que crescerá dentro em pouco, chegam lentamente a esta conclusão, de um grande alcance afetivo: antes, em todo caso, ele estava aí com certeza, tendo em seguida sido retirado. A ausência de pênis é concebida como o resultado de uma castração e a criança encontra-se agora no dever de enfrentar a relação de castração com sua própria pessoa. (Freud, 1923, p. 85-86)
A criança, contudo, não renuncia de bom grado a ausência fálica da mãe, pois trata-se de algo que deveria estar lá, mas está como falta. A falta fálica da mãe gera um confrontoreal com a diferença do sexo, o qual a criança não tem interesse algum em acolher. Com efeito, declara Dor (1991), o real desta diferença é precisamente aquilo que o remete a uma consequência insuportável – a dimensão imaginária de sua própria identificação fálica, que, em última análise, implica numa renúncia de gozo.
É sob essa construção teórica que Freud estabelece o curso da economia psíquica, no qual se erige o arcabouço das estruturas psíquicas. Neste contexto, diante da ameaça de castração, o sujeito, em uma possibilidade, recalca e forma os sintomas neuróticos e, em outra possibilidade, só aceita a incidência da castração sob a reserva de continuamente transgredi-la, sendo esse o caso da perversão.
A estrutura perversa se constitui sob dois polos: de um lado, pela angústia da castração; do outro lado, pela mobilização de processos defensivos destinados a contorná-la, descreve Dor (1991, p. 36). Sob o escopo do processo defensivo, Freud evidencia dois modos de organização do funcionamento perverso, a fixação (e a regressão) e a denegação da realidade, sendo estes os dois mecanismos respectivamente constitutivos da homossexualidade e do fetichismo. Nesse sentido, Freud coloca a homossexualidade como uma resposta de defesa narcísica diante da castração, em que a criança fixaria efetivamente a representação de uma mulher provida do pênis no inconsciente, persistindo ulteriormente, de maneira ativa, o dinamismo libidinal.
Dor (1991) chama atenção que, enquanto a homossexualidade masculina verte sobre a estrutura perversa, a homossexualidade feminina não deixa claro o mecanismo que a consente, pois a própria ideia de uma estrutura perversa em mulher ainda gera questionamentos. Todavia, o autor afirma que, de fato, a homossexualidade masculina inscreve-se em um dispositivo psíquico radicalmente diferente daquele que preside a homossexualidade feminina (1991, p. 36).
Do ponto de vista clínico, o aspecto do fetichismo é um processo defensivo ainda mais complexo do que na homossexualidade. Ele se funda pela negação da realidade, pois trata-se de uma recusa em reconhecer a diferença do sexo: a ausência do pênis na mãe. O mecanismo de denegação da realidade, é explicada em dois tempos: de um lado, a denegação da realidade propriamente dita, isto é, o sujeito percebe a realidade, mas a rejeita, no intuito de neutralizar a angústia da castração.
Entretanto, a diferença do que ocorre na homossexualidade, em que há uma fixação da representação da mãe fálica, assume uma situação de compromisso. No caso do fetichismo, já que a mulher, na realidade, não tem pênis, o sujeito vai encarnar o objeto suposto faltar em outro objeto da realidade, assim o objeto fetiche é, na verdade, uma encarnação do falo. Pelas próprias palavras de Freud: "O fetiche é o substituto do falo da mulher (da mãe) no qual acreditou a criancinha e ao qual nós sabemos por que ela não quer renunciar" (Freud, 1927, p. 95).
Joel Dor (1991) situa o objeto fetiche em três formas de mediar a castração: a) antes de tudo, o objeto fetiche permite a não renuncia ao falo; b) permite conjurar a angústia de castração e dela se proteger; c) permite finalmente escolher uma mulher como objeto sexual, visto que supostamente possuir o falo.
TEMA 2 – A ESTRUTURA PERVERSA NA DIALÉTICA EDIPIANA
Aprendemos que a identificação fálica no início da vida é posta em questão com a intrusão do pai imaginário, que surge na fantasia da criança como o objeto fálico de desejo da mãe. O fato é que, através do surgimento do terceiro elemento, nessa relação dual mãe-bebê evidencia para a criança que o amor da mãe não é exclusivo dele, abrindo a expectativa de um desejo materno para além dele. Assim, a presença do terceiro elemento na imagem do pai se inscreve para a criança como rival, que disputa o desejo da mãe.
Na estrutura perversa, o traço da rivalidade reaparece como um estereótipo do perverso, que está sempre desafiando o outro. E, paralelamente ao desafio do perverso, está a transgressão. Segundo Dor (1991), o que institui e, ao mesmo tempo, confronta o terreno rivalidade fálica imaginária é o surgimento irreversível da diferença dos sexos, pois, para a criança, trata-se de antecipar um universo de gozo novo que se apresenta por trás da figura paterna, um gozo que ela supõe interditado. Portanto, “é efetivamente com o sinal desta incidência que o perverso lança a sorte de sua própria estrutura. Permanecendo cativa deste êxtase do desejo, a criança pode aí sempre encontrar um modo definitivo em relação à função fálica” (Dor, 1991, p. 40).
O perverso faz, então, da assunção à castração sua base, sem nunca admitir a falta que lhe comete. Assim, ele se aliena na falta não simbolizável, de dimensão inesgotavelmente psíquica, que efetua a denegação ou, ainda, renegação da castração da mãe.
Contudo, a falta introduzida pela imagem do pai é justamente o que assegura ao perverso a mobilização do desejo em direção à possibilidade de uma nova dinâmica para a criança. Nessa perspectiva, a leitura que Lacan dá à questão da falta do Outro e à dialética do desejo na estrutura perversa deve ser buscada pela via da identificação ao falo.
2.1 A DIALÉTICA DO DESEJO
É em torno do significante da falta no Outro, S(A), que a questão da perversão se impõe, como um ponto de báscula que se introduz no processo de da estruturação do sujeito. Nesse sentido, Joel Dor declara que será a sensibilidade da criança para abdicar do pai imaginário e acender ao pai simbólico que determinará a sua constituição estrutural entre neurose e perversão.  
Assim, seguindo a explicação de Joel Dor, o pai aparece para a criança como tendo aquilo que a mãe deseja ou, pelo pressentimento do perverso, como sendo suposto ter o que a mãe é suposta a desejar junto a ele. Portanto, “esta atribuição fálica do pai é justamente o que o institui como pai simbólico, ou seja, o pai enquanto representante da Lei para a criança, portanto o pai enquanto mediação estruturante do interdito do incesto” (Dor, 1991, p. 41).
Contudo, o perverso não quer saber nada da falta que a sombra do pai simbólico impõe para ele; desse modo, o sujeito denega a falta, isto é, não simboliza a falta no Outro. Dito de outro modo, a criança se encerra numa convicção contraditória, na qual, por um lado, a criança entreve que a mãe, que não tem o falo, deseja o pai porque ele o tem ou porque ele é o falo; por outro lado, se a mãe não tem, talvez ela pudesse ter? E, para isto, basta-lhe ser atribuído imaginariamente a atribuição fálica.
O desejo da criança, declara Santos e Besset (2013), faz-se desejo encarnado pela mãe onipotente: por um lado, por razões de se sujeitar àquela que lhe satisfaz todas as necessidades, e, por outro lado, pelo capital de gozo que ela lhe assegura para além das necessidades. Nesse sentido, na estrutura perversa, o sujeito se identificará ao falo que faz da mãe um Outro onipotente. Lacan (1958) diz assim:
Todo o problema das perversões consiste em conceber como a criança, em relação com a mãe, relação esta constituída na análise, não por sua dependência vital, mas pela dependência de seu amor, isto é, pelo desejo de seu desejo, identifica-se com o objeto imaginário desse desejo. Ne medida em que a própria mãe o simboliza no falo. (Lacan, 1958, p. 561)   
A identificação ao falo imaginário da mãe visa, então, restabelecer o gozo perdido pela inscrição do pai simbólico. Portanto, é em razão da sua economia de gozo que o perverso entra na dialética do desejo e se mantém imperativamente “fixado em sua gestão cega”, pela qual reafirma a sua lei do desejo como única. Assim, Dor (1991) destaca que é pela “lei do seu desejo” que podemos situar os diferentes expedientes do funcionamento perverso e os traços estruturais que o caracterizam: o desafio e a transgressão, sendo estas as duas saídas para o desejo perverso. 
TEMA 3 – ENTRE AS NEUROSES E PERVERSÃO
Os traços estruturais que caracterizam a perversão podem ser observados tanto na neurose obsessiva quanto na histeria. Contudo, a transgressão não se articula ao desafio da mesmamaneira. Desse modo, para estabelecer um diagnóstico diferencial, é preciso que reconheçamos, de maneira específica, a relação do sujeito com o Outro. Portanto, é apenas na relação transferencial que sem tem essa resposta. Joel Dor evidencia a oposição entre neurose e perversão da seguinte forma:
No perverso, a problemática da denegação se organiza de modo diferente. Enquanto na histeria e na neurose obsessiva, é a posse imaginária do objeto fálico que é desafiada, nas perversões, é fundamentalmente a Lei do pai. O desafio da Lei do pai, no perverso, situa-se essencialmente na vertente da dialética do ser. No obsessivo, como no histérico, o desafio concernindo à posse do objeto fálico se situa, em contrapartida, na alternativa do ter ou não ter. (Dor, 1991, p. 48)
No entanto, no que concerne ao diagnóstico diferencial, para que ele seja operatório, ainda há de considerar o caráter imperativo, no qual o perverso faz intervir o seu desejo como única lei do desejo que ele reconhece, pois, no neurótico, o desejo se funda pela lei do desejo do Outro, que tem sua inauguração com a inscrição do significante do Nome-do-Pai. Na perversão, a lei do pai só é articulada para desafiá-la, por meio de tudo aquilo que ela impõe enquanto simboliza a falta. Joel Dor declara:
Desafiando esta Lei, ele recusa, em definitivo, que a lei do seu desejo seja submetida à lei do desejo do outro. O perverso põe, então, em ação duas opções: de um lado, a predominância da lei do seu desejo como única lei possível do desejo; por outro lado, o desconhecimento da lei do desejo do outro como a que viria mediar o desejo de cada um. (Dor, 1991, p. 48)
Assim, a lei do pai é posta pelo perverso como um limite que ele demonstra para, em seguida, ultrapassar. É dessa estratégia que o perverso efetivamente goza. Contudo, para isso, o sujeito perverso busca um cúmplice ou uma testemunha, imaginária ou real, que possa testemunhar o seu agir frente à castração. Nesse sentido, Dor evoca a passagem Jean Clavreul:
É claro que é enquanto portador de um olhar que o Outro será o parceiro, isto é, antes de tudo o cúmplice, do ato perverso. Tocamos, aqui, no que distingue radicalmente a prática perversa, onde o olhar do outro é indispensável, porque necessário à cumplicidade sem a qual não existiria o campo da ilusão, e o fantasma perverso que não só se acomoda muito bem com a ausência do olhar do outro, mas necessita para ter êxito, se satisfazer na solidão do ato masturbatorio. Se o ato perverso se distingue sem equívoco do fantasma, será, então, nesta linha em que se inscreve o olhar do Outro que discerniremos a fronteira, olhar cuja cumplicidade é necessária para o perverso, enquanto é denunciador para o normal e para o neurótico. (Clavreul citado por Dor, 1991, p. 49)
Desse modo, o perverso acessa o seu gozo, fazendo desencaminhar o Outro com relação às balizas e aos limites que o inscreve diante da lei, pois, para o sujeito perverso, é essa experiência de “devassidão”, isto é, da extração do Outro do sistema que importa.
3.1 O TERCEIRO CÚMPLICE
O gozo perverso é, então, acessado através de sua estratégia de conciliar o impossível: de um lado, a prevalência da lei do seu desejo como única lei possível do desejo; do outro lado, o reconhecimento do desejo do outro como instância que vem mediar o desejo de cada um. Essencialmente, o interesse perverso é despertar a convicção de um terceiro de quem ela talvez “não o seja”, isto é, seu interesse não está em relação ao Outro, e, assim, em capturá-la. “O perverso é assim levado a colocar, primeiramente, a lei do pai (e a castração) como um limite existente, a fim de melhor demonstrar em seguida que ela talvez não seja, já que se pode sempre aceitar o risco de transpô-la” (Dor, 1991, p. 135).
Portanto, a convocação do terceiro cúmplice é necessária para sustentar a assunção do gozo perverso, que remonta, de forma metonímica, a gênese da ordem inaugural que a fez nascer tanto quanto sustentou, a saber, a mãe. É, neste sentido, destaca Joel Dor, que o agir perverso somente pode assegurar-se de seu prêmio de gozo, por meio de um terceiro cúmplice, cuja presença e olhar lhe são indispensáveis.
TEMA 4 – A MÃE FÁLICA
O ponto fundamental no qual a estrutura perversa se ancora se encontra indubitavelmente na questão da identificação fálica, que se sustenta pela conjunção de dois fatores determinantes: a cumplicidade libidinal da mãe e a complacência silenciosa do pai.
A cumplicidade materna manifesta-se no terreno da sedução, pois trata-se de uma cumplicidade erótica que se exprime sobretudo em suas respostas às demandas eróticas da criança. “Respostas que a criança inevitavelmente recebe como testemunhos de reconhecimento e encorajamento”, pois, conforme declara Dor, é uma resposta que a criança encara como um verdadeiro chamado para o gozo, na medida em que mantém a atividade libidinal do filho junto à mãe. No entanto, este apelo sedutor permanece hipotecado com um pesado equívoco – o desejo da mãe concernente ao pai, pois o pai não deixa de aparecer como um verdadeiro intruso, e a mãe não confirma esse desejo.  Assim, o apelo sedutor da mãe se organiza tanto nos registros de “dar-se a ver” quanto nos de “dar-se a entender”, que se traduz no momento crucial do Édipo, tornando-se um verdadeiro convite ao tormento para a criança. Ocorre que, por mais que a criança perceba uma autêntica incitação ao gozo, já que não estamos tratando de uma fantasia, na maioria das vezes, a mãe se silencia diante da questão do desejo que se supõe ao pai.
É, então, na medida em que se instaura esta ambiguidade que a atividade libidinal da criança se desenvolve junto à mãe, pois, desde então, ela passa a se esforçar por seduzir cada vez mais, “na esperança de levantar esta dúvida em relação à intrusão paterna” (Dor, 1991, p. 52). Assim, diante da sedução materna que paralelamente coincide com uma interdição à mãe, a criança encontra cumplicidade na mãe para transgredir a lei do pai. E, por outro lado, o pai se mostra complacente, despossuindo, de bom grado, da representação de sua função simbólica. “Se, nesse caso, podemos falar da complacência silenciosa do pai, é em referência à aptidão que ele demonstra em delegar sua própria palavra através da palavra da mãe, com toda a ambiguidade que a coisa supõe” (Dor, 1991, p. 52).
Portanto, a criança se aliena ao jogo de sedução materna, que coloca como plano de fundo a função simbólica do pai. A consequência deste processo é vista desde o ponto de vista clínico, no qual a mãe fálica está posta de forma definitiva na fantasia, sendo essa a gênese da ordem que funda o seu desejo. Desse modo, a imagem da mulher fálica o acompanhará a cada estratégia desejante a respeito das mulheres, dirá Joel Dor, “com o risco de procurar algumas vezes e encontrá-las, apesar de todos os obstáculos, na pessoa de outros homens” (Dor, 1991, p. 111).
4.1 O FETICHE
O objeto fetiche é o paradigma da perversão. Ele funciona como um memorial que é posto no lugar da falta. Porém, ao cobrir a falta, marca-se, mais que tudo, a existência desse vazio, que é resultado de uma operação simbólica. Lacan, no seminário 4, A relação de objeto (1957), relança o olhar sobre o caso do pequeno Hans, para demostrar a reação de Hans diante a calcinha da mãe, apontando, desde aí, constituição do objeto fetiche.
O essencial é o seguinte: as calças em si mesmas estão ligadas para Hans a uma reação de repulsa. Mais que isso, o pequeno Hans pediu que se escrevesse a Freud, dizendo que quando viu as calças, ele havia cuspido, caído no chão e depois fechara os olhos. É por causa desta reação que a escolha está feita: o pequeno Hans jamais será um fetichista. Se ele houvesse reconhecido, ao contrário, essas calças como seu objeto […] ficaria satisfeito com elas, e se teria tornado fetichista, mas como o destino quis outra coisa, o pequeno Hans fica repugnado pelas calças. Só que ele explica que, quando a mãe as usa, a coisa é outra. Aí elas não são mais repugnantes, em absoluto. Aí está toda a diferença. Ali onde elas poderiam se oferecera ele como objeto, quando as calças estão ali em si mesmas, ele as rejeita. Elas só conservam sua virtude, se assim podemos dizer, estando em função, ali onde ele pode continuar a sustentar o engodo do falo. (Lacan, 1957, p. 359)
Nesse sentido, observa-se que Lacan estabelece uma relação clara com a repugnância da calcinha, como uma recusa de tomá-la como objeto. Desse modo, segundo o autor, Hans não se posiciona como um fetichista. Contudo, a solução provisória para se proteger da mãe insaciável se dá pelo desenvolvimento de uma fobia.
Assim, para Lacan, tanto o objeto fóbico e o objeto fetiche são soluções imaginárias na trama edípica para lidar com o horror da castração materna. Do lado da fobia, encontramos o “nada de saber” sobre a castração, pois trata-se do recalque nos termos freudiano, em que a eficácia do saber inconsciente é que fabrica o sintoma. Enquanto isso, no fetiche, a eficácia se manifesta pela constituição do objeto substitutivo que vela a verdade da castração.
Nesse sentido, o objeto fetiche funciona como lembrança encobridora, cuja natureza é de variedade infinita, mas a ligação tem por via de regra o deslocamento do olhar para a falta do pênis. O objeto fetiche guarda, portanto, essa dupla vertente no inconsciente: por um lado, a recusa e por outro a afirmação da castração, constituindo no sujeito uma clivagem do eu. Por fim, Lacan (1957) afirma que o objeto fetiche não é o falo, “mas o véu por trás do qual se deixa desenhar a possibilidade de sua presença escondida”.
TEMA 5 – A IDENTIFICAÇÃO AO FALO NA PERVERSÃO E PSICOSE
O sujeito, como enfatizamos ao longo desse estudo, é efeito de linguagem. Assim, a sua constituição estrutural deve ser pensada a partir da estrutura edípica, composta por quatro elementos (criança, mãe, falo e pai), pois é desde aí que cada sujeito internaliza o interdito, função da inscrição do Nome-do-Pai no Outro, cujo efeito é S(A).
Assim, a lei do significante do Nome-do-Pai pode ser buscada como o agente discriminador da estrutura psíquica. Portanto, nos processos de estruturação da perversão e da psicose, ele também pode ser buscado no lugar em que esse significante fará significação para o sujeito.
Joel Dor (1991) explica que é na diferença entre significante da lei e significação da lei que, de fato, podemos dizer que o perverso "escapa" à psicose. No perverso, mesmo que de forma radicalmente marginal, o significante da lei permanece relacionado à única instância que lhe garante seu caráter obrigatório, ou seja, pelo significante do Nome-do-Pai.
A atribuição do falo à mãe só é possível, portanto, pela lógica do registro simbólico, no qual a criança, ao se confrontar com castração da mãe, isto é, a falta de pênis, concebe essa falta pela referência àquele que o tem. Desse modo, a atribuição fálica paterna surge no horizonte da interrogação fantasmática do perverso sobre a diferença dos sexos. Assim, a atribuição fálica paterna é estabelecida, mesmo que no limite, a preço de coexistir a atribuição contraditória do falo à mãe (Dor, 1991).
Na psicose, a identificação fálica da criança persistira, pois o significante da lei não opera, portanto não efetua nenhuma significação sobre o Desejo da Mãe. Assim, nos termos lacanianos, a forclusão do Nome-do-Pai só ocorre pelo que ele evoca ou pelo que ele significa. Nesse sentido, Joel Dor sublinha que o psicótico tem, então, uma certa experiência da castração, mesmo que essa castração não tem, para ele, nenhuma inserção simbólica, visto que ela escapa a qualquer tentativa de simbolização. Dito de outro modo, a foraclusão do Nome-do-Pai não pode ser pensada como forclusão da castração, pois, na verdade, é por essa via que se pode supor que o psicótico toma conhecimento da castração.
No caso das perversões, então, o significante do Nome-do-Pai substitui, na metáfora paterna, o significante do desejo da mãe. Contudo, o significante fálico somente se presta a essa substituição metafórica com algumas reservas, pois ele estará se referido a uma atribuição paterna, ainda que seja no estado de suposição, considerando que o pai não soube dar provas disso. Essa ausência de prova, destaca Joel Dor, é o que induz à uma trajetória de "curto-circuito", que confere ao significante fálico uma referência ambígua. Nesse sentido, o perverso estará continuamente descobrindo um lugar onde ele permanece fundamentalmente “aquém da castração”. Por outro lado, o psicótico ficará alienado nesse lugar, aquém da castração, preso a uma identificação fálica.
NA PRÁTICA
Para demonstrar o modo como a estrutura perversa se presentifica na clínica, tomaremos um recorte de um caso clínico, de forma literal, apresentado por Paul Lemoine no livro Clínica lacaniana: casos clínicos do campo freudiano (1994) e nomeado como “O homem da caneta Bic”.
O caso retratado é de um homem de vinte e oito anos que procurou atendimento porque desejava livrar-se de um sintoma incômodo: não conseguia fazer amor se não desenhasse, no peito da mulher, uns traços com uma caneta Bic. Ele chamava esses traços de “tatuagens”. Não eram desenhos realmente, mas traços quaisquer. Esse era o meio pelo qual a ereção, que sumia assim que ele a penetrava, podia se manter. Desse modo, declara Lemoine, as "tatuagens” tinham o valor de fetiche.
O motivo dele, que deseja se libertar de seu sintoma, era, em grande parte, por causa das reações da mulher, que não cedia sem mal-estar a essas práticas extravagantes e que temia que elas pudessem atingi-la profundamente. "Faz meia hora que decidimos nos separar", começou o paciente no momento da primeira consulta – a esposa o acompanhava. A separação veio de fato a realizar-se só alguns anos depois.
Logo, fica claro que essa necessidade de tatuagem tem sua origem numa fala da mãe. "Se eu perdesse um de meus filhos na multidão, eu o reconheceria pelo sinal no braço". Lemoine conta que isso se referia ao filho mais velho e ao caçula, porque o paciente estava desprovido de sinal (na pele). Todos os quatro estavam numa feira, tendo ele se perdido entre os carrinhos elétricos que se entrechocavam.
Relata que, na primeira vez que aplicou a “tatuagem” no corpo, estava sentado junto de uma escrivaninha onde tinha, diante de si, uma jovem colegial, na qual ele aplica, no peito e na coxa (zona mais erógena que o braço), um carimbo da fábrica do pai e vai ao pátio, onde sobe numa árvore, como Tarzan. Temia e desejava ser visto pelos operários do pai. Em seguida, volta para a sala e masturba-se.
Essa prática passa a acompanhá-lo. Em outra época, mais adulto, ele se aplicou no escritório um carimbo de um chefe que lhe fazia medo, cujas inscrição era "Para classificar"; depois, foi ao banheiro e masturbou-se. Ele gozava não só dos carimbos cinzentos, mas coloria também seu corpo com pintura a óleo e traçava também desenhos. Um dos operários do pai, tatuado desde o serviço militar, tinha com ele uma relação particular: iam urinar juntos num muro da fábrica. Era uma maneira, pensava, de se virilizar, e conservou dessas práticas um forte erotismo uretral. De modo que, tendo percebido operários tatuados, já adulto, vai urinar num mictório e depois volta para olhá-los com admiração.
A recordação de infância que evoca quase sempre é de uma cena em que, tendo ele ficado no leito até tarde, sua empregada, que arrumava a cama do irmão caçula, lhe diz: "Se você borrar na cama, vou lambuzar você." E o caçula acrescentou: "Eu vou pintar você com minhas tintas." Tatuando-se, ele se identifica com a mulher, com a sua submissão no ato sexual e finalmente com a mãe, de quem ele, assim, obtém o amor, por estar marcado como os irmãos.
Tatuar-se, segundo ele, é aviltar-se para ser amado: "Aviltar-me no amor é submeter-me e tentar reviver... Sou castrado e tenho tatuagens, o que me assimila às mulheres." A tatuagem, para ele, tem a mesma necessidade de qualquer outro objeto no fetichista. É sua necessidade que lhe faz temer a cura:
Se elimino as tatuagens, tenho medo de não ter mais sexo. Por isso é que procuro um sexo não importa onde, até na máquina fotográfica, porexemplo. Como compreender que o primeiro sexo que eu recuso é o que tenho verdadeiramente? Se me amarro na tatuagem é para procurar o gozo. Ele não é coisa de homem, pois que minha mãe me fez compreender que eu não podia ter gozo com o meu sexo masculino, era proibido.
Portanto, a partir do que estudamos e conforme confirma Lemoine, a prática da tatuagem era um verdadeiro rito para evitar o confronto com a angústia.
FINALIZANDO
· A perversão, na psicanálise, trata-se de uma estrutura clínica, cujo mecanismo específico é a denegação, que opera sob dois polos: de um lado, pelo horror da castração no Outro; e por outro lado, pela mobilização de processos defensivos destinados contornar a falta no Outro.
· Contudo, é em torno do significante da falta no Outro, S(A), que a questão da perversão se impõe, como um ponto de báscula que se introduz no processo de estruturação do sujeito.  Nesse sentido, será a sensibilidade da criança de abdicar do pai imaginário e acender ao pai simbólico que determinará a sua constituição estrutural entre neurose e perversão.
· No que concerne ao diagnostico diferencial, para que ele seja operatório, ainda há de considerar o caráter imperativo, no qual o perverso faz intervir o seu desejo como única lei do desejo que ele reconhece, pois, enquanto neurótico, o desejo se funda pela lei do desejo do Outro, que tem sua inauguração com a inscrição do significante do Nome-do-Pai. Na perversão, a lei do pai só é articulada para desafiá-la através de tudo aquilo que ela impõe enquanto simboliza a falta.
· O apelo sedutor da mãe se organiza tanto nos registros de “dar-se a ver” quanto nos de “dar-se a entender”, que se traduz no momento crucial do Édipo, tornando-se um verdadeiro convite ao tormento para a criança. Ocorre que, por mais que a criança perceba uma autêntica incitação ao gozo, já que não estamos tratando de uma fantasia, na maioria das vezes, a mãe se silencia diante da questão do desejo que se supõe ao pai.
· A diferença entre significante da lei e significação da lei é que, de fato, podemos dizer que o perverso "escapa" à psicose. No perverso, mesmo que de forma radicalmente marginal, o significante da lei permanece relacionado à única instância que lhe garante seu caráter obrigatório, ou seja, pelo significante do Nome-do-Pai.
REFERÊNCIAS
DOR, J. Estruturas e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Taurus-Timbre, 1991.
_____. Estruturas e perversão. Porto Alegre: Arte Médicas, 1991.
FREUD, S. Três ensaios sobre a sexualidade. In: _____. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1995. v. 6.
LACAN, J. O Seminário, livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.
Lemoine, P. O homem da caneta Bic, in Clínica Lacaniana, casos clínicos do campo freudiano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
SANTOS, A. B. dos R.; BESSET, V. L. A perversão, o desejo e o gozo: articulações possíveis. Estudos de Psicologia, Campinas, v. 30, n. 3, p. 405-413, nov. 2013
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