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ISBN 9788553602056 Amaral, Francisco Direito civil : introdução / Francisco Amaral. – 10. ed. revista e modificada – São Paulo : Saraiva Educação, 2018. 1. Direito civil 2. Direito civil - Brasil I. Título. 18-0429 CDU 347(81) Índices para catálogo sistemático: 1. Brasil : Direito civil 347(81) Diretoria executiva Flávia Alves Bravin Diretora editorial Renata Pascual Müller Gerência editorial Roberto Navarro Consultoria acadêmica Murilo Angeli Dias dos Santos Edição Eveline Gonçalves Denardi (coord.) | Aline Darcy Flôr De Souza Produção editorial Ana Cristina Garcia (coord.) | Carolina Massanhi | Luciana Cordeiro Shirakawa | Rosana Peroni Fazolari Arte e digital Mônica Landi (coord.) | Claudirene de Moura Santos Silva | Guilherme H. M. Salvador | Tiago Dela Rosa | Verônica Pivisan Reis Planejamento e processos Clarissa Boraschi Maria (coord.) | Juliana Bojczuk Fermino | Kelli Priscila Pinto | Marília Cordeiro | Fernando Penteado | Mônica Gonçalves Dias | Tatiana dos Santos Romão Novos projetos Fernando Alves Diagramação (Livro Físico) Luciano Assis Revisão Jaqueline Kanashiro Capa Tiago Dela Rosa Livro digital (E-pub) Produção do e-pub Guilherme Henrique Martins Salvador Data de fechamento da edição: 18-5-2018 Dúvidas? Acesse www.editorasaraiva.com.br/direito Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Editora Saraiva. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei n. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. http://www.editorasaraiva.com.br/direito Sumário Prefácio à 10ª edição Prefácio à 9ª edição Prefácio à 8ª edição Prefácio à 7ª edição Prefácio à 6ª edição Prefácio à 5ª edição Prefácio à 4ª edição Prefácio à 3ª edição Prefácio à 2ª edição Introdução Capítulo I - O Direito. Estrutura. Funções. Fundamento 1. O direito. Significados e perspectivas de estudo 2. A natureza do direito 3. O direito. Gênese e estrutura 4. As funções do direito 5. O fundamento do direito. Os valores 6. A pessoa como valor fundamental 7. A justiça 8. A segurança 9. O bem comum 10. A liberdade 11. A igualdade 12. A teoria do direito civil 13. O direito civil na perspectiva da norma jurídica 14. O direito civil na perspectiva da relação jurídica 15. O direito civil na perspectiva da instituição 16. Apreciação crítica 17. O direito como sistema. O sistema de direito civil 18. O método adotado 19. O fundamento e a justificação do direito. Jusnaturalismo e positivismo jurídico 20. A metodologia da realização do direito. A decisão justa do caso concreto Capítulo II - A realização do Direito. O Raciocínio Jurídico. Os Princípios Jurídicos 1. A realização do direito. O raciocínio jurídico O silogismo de subsunção. Crítica e superação O raciocínio dialético 2. Os princípios jurídicos Classificação As funções dos princípios jurídicos 3. Os princípios gerais do Código Civil 4. Os princípios institucionais do Código Civil 5. O princípio da dignidade da pessoa humana 6. A Autonomia privada Concretizações jurídicas do princípio da autonomia privada Os limites da autonomia privada: ordem pública e bons costumes 7. A boa -fé 8. A função social do contrato e da propriedade 9. A responsabilidade patrimonial 10. A equidade 11. A interpretação jurídica conforme aos princípios Capítulo III - O Raciocínio Jurídico. A Norma Jurídica 1. A norma jurídica. Conceito. Razão de ser. Objeto. Destinatários. Aspectos formal e material 2. Natureza da norma jurídica. A norma como comando, como juízo e como proposição linguística 3. Características da norma jurídica. Bilateralidade e coercitividade 4. Sanção. Natureza. Finalidade. Espécies 5. Estrutura da norma jurídica. Condição de aplicação e dispositivo 6. Cláusulas gerais 7. Classificação das normas jurídicas 8. Normas de direito público e normas de direito privado. Critérios distintivos 9. Crítica à dicotomia direito público – direito privado 10. Normas privadas e normas públicas 11. Normas gerais e normas singulares 12. Normas abstratas e normas concretas 13. Normas rígidas e normas elásticas 14. Normas cogentes e normas não cogentes 15. Normas interpretativas e normas integrativas 16. Normas perfeitas e normas imperfeitas 17. Normas de direito comum, normas de direito especial e normas de direito excepcional 18. Fontes das normas jurídicas ou fontes de direito 19. Interpretação da norma jurídica. A perspectiva tradicional 20. Espécies de interpretação 21. As disposições do Código Civil sobre a interpretação 22. Integração da norma jurídica. A analogia e suas espécies 23. Interpretação e integração. Nova perspectiva metodológica 24. A vigência da norma jurídica. Princípios da obrigatoriedade e da continuidade. O erro de direito 25. A vigência temporal da norma. Princípios fundamentais. O direito adquirido. Regras fundamentais 26. A vigência espacial da norma. Conflitos de normas no espaço. Princípios diretores Capítulo IV - O Direito Civil. Gênese e Evolução 1. O direito civil. Conceito e importância 2. Características do Direito Civil 3. O direito civil como produto histórico e cultural. Historicidade e continuidade 4. A fase originária. As fontes romanas 5. O direito medieval 6. O direito germânico 7. O direito canônico 8. O direito comum (ius commune) 9. O direito moderno 10. O Estado moderno na formação do direito civil. O Estado liberal de Direito Leonardo Gouvêa 11. A sistematização do direito civil. O processo de codificação 12. O Código Civil francês 13. O Código Civil alemão 14. O direito civil brasileiro. Esboço histórico 15. A codificação civil brasileira: (a) antecedentes; (b) o Código Civil de 1916. Estrutura, características a) Antecedentes b) O Código Civil de 1916. Estrutura e características 16. A reforma do Código Civil 17. O Código Civil de 2002 18. A unidade do direito privado 19. Conteúdo do direito civil. Os institutos fundamentais 20. A personalidade 21. A família 22. A propriedade 23. O contrato 24. A empresa 25. A responsabilidade civil 26. A sucessão hereditária 27. O direito civil contemporâneo. Tendências e características Capítulo V - A Relação Jurídica de Direito Privado 1. Relação jurídica. Conceito e aspectos gerais 2. Notícia histórico -doutrinária 3. Fundamento ideológico 4. Natureza 5. Importância da relação jurídica Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa 6. Estrutura e origem 7. Conteúdo 8. Espécies de relação jurídica 9. Efeitos da relação jurídica 10. A dinâmica da relação jurídica. Aquisição, modificação e extinção de direitos. Os fatos jurídicos 11. Aquisição de direitos 12. Aquisição originária e aquisição derivada 13. Direitos atuais e direitos futuros. Sua proteção 14. Modificação da relação jurídica 15. Extinção dos direitos 16. Relações de fato: a) a união estável; b) a sociedade de fato; c) a separação de fato; d) a filiação de fato; e e) as relações contratuais de fato a) A união estável b) A sociedade de fato c) A separação de fato d) A filiação de fato e) As relações contratuais de fato Capítulo VI - As Situações Jurídicas 1. As situações jurídicas 2. O direito subjetivo. Conceito e importância 3. Notícia histórico -doutrinária 4. Teorias que negam o direito subjetivo. Crítica 5. O direito subjetivo como realidade jurídica 6. A essência do direito subjetivo. Teorias 7. Classificação dos direitos subjetivos Leonardo Gouvêa 8. Os direitos subjetivos públicos 9. Direitos patrimoniais e direitos extrapatrimoniais 10. Dever jurídico. Ônus 11. Direito potestativo 12. Faculdade jurídica 13. Expectativa de direito. Direito eventual. Direito condicional. Direito atual e futuro 14. Direito subjetivo, pretensão e ação 15. Exercício dos direitos subjetivos 16. Limites ao exercício dos direitos subjetivos 17. Interesse jurídico 18. O abuso de direito 19. Proteção dos direitos subjetivos 20. Conciliação. Mediação. Arbitragem Capítulo VII - Sujeitos de Direito. APessoa Natural 1. Os sujeitos de direito. A personalidade 2. Personalidade e capacidade 3. A pessoa natural. Aquisição da capacidade jurídica 4. O problema da personalidade jurídica do nascituro 5. Extinção da capacidade jurídica. A morte 6. Presunção de morte. Ausência 7. Comoriência 8. Capacidade de direito. Capacidade de fato. Legitimidade 9. Incapacidade absoluta 10. Incapacidade relativa 11. Proteção aos incapazes Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa 12. Emancipação 13. Estado Civil. Conceito. Importância 14. Natureza do estado. Atributo da personalidade e direito subjetivo 15. Fontes e espécies de estado 16. Características do estado 17. O estado familiar 18. O estado político 19. A posse de estado 20. Ações de estado 21. O registro dos atos de estado 22. O domicílio. Conceito. Características. Importância. Determinação. Espécies Capítulo VIII - Direitos da Personalidade 1. Direitos da personalidade. Conceito e razão de ser 2. Natureza jurídica e características 3. Objeto e titularidade 4. Sistematização jurídica 5. A tutela jurídica dos direitos da personalidade 6. Classificação 7. Direito à vida e à integridade física 8. Os direitos do embrião 9. Direito ao corpo e ao cadáver. Os transplantes e sua disciplina legal 10. Direito à integridade moral 11. Direito à integridade intelectual 12. Direito à identidade pessoal. O nome Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa 13. Elementos constitutivos do nome 14. Aquisição e formação do nome 15. Alteração do nome 16. Proteção do nome Capítulo IX - Sujeitos de Direito. A Pessoa Jurídica 1. Conceito. Razão de ser 2. Notícia histórica. A formação do conceito 3. O problema da existência e da natureza da pessoa jurídica. Teorias 4. A personificação e seus efeitos 5. Classificação 6. Associações 7. Sociedades 8. Fundações 9. Organizações religiosas 10. Partidos políticos 11. Empresa individual de responsabilidade limitada 12. Elementos constitutivos da pessoa jurídica 13. Constituição e funcionamento. Representação 14. Modificação e extinção 15. Associações e sociedades não personificadas 16. Atributos da pessoa jurídica 17. A personalidade jurídica como instrumento de atividade ilícita. A teoria da desconsideração 18. As Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público Capítulo X - Objeto da Relação Jurídica. Os Bens Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa 1. Objeto da relação jurídica 2. Coisa e bem 3. Objeto e conteúdo da relação jurídica 4. Classificação dos bens 5. Bens corpóreos e incorpóreos 6. Ambiente natural e Ambiente cultural 7. A informação como bem jurídico 8. Bens móveis e imóveis. Origem histórica da distinção 9. Importância da distinção 10. Bens imóveis: a) imóveis por natureza; b) imóveis por acessão física; c) imóveis por disposição legal a) Imóveis por natureza b) Imóveis por acessão física c) Imóveis por disposição legal 11. Bens móveis. Conceito e determinação legal 12. Bens genéricos e individuais 13. Bens fungíveis e infungíveis 14. Bens consumíveis e inconsumíveis 15. Bens divisíveis e indivisíveis 16. Bens singulares e coletivos 17. Bens principais e bens acessórios 18. Espécies de bens acessórios 19. Pertenças 20. Bens públicos e bens privados 21. Bens comerciáveis e bens incomerciáveis 22. O patrimônio. Conceito. Composição. Importância. Concepções teóricas Capítulo XI - Os Fatos Jurídicos. O Negócio Jurídico 1. Os fatos jurídicos 2. O papel da vontade na nomogênese jurídica. Vontade, liberdade, autonomia da vontade e autonomia privada1017 3. O negócio jurídico. Conceito. Distinção do ato jurídico em senso estrito. Importância 4. Notícia histórica. Nascimento e evolução do conceito. Razão de ser e função ideológica 5. Crítica e superação do conceito de negócio jurídico 6. A importância da vontade e da declaração na teoria do negócio jurídico. Concepções subjetiva e objetiva 7. As teorias preceptiva e normativa 8. O problema da norma jurídica negocial 9. A relação entre a vontade e seus objetivos 10. Classificação dos negócios jurídicos Capítulo XII - Elementos do Negócio Jurídico 1. Elementos do negócio jurídico 2. A declaração de vontade e sua função 3. Reserva mental 4. O silêncio como declaração de vontade 5. Capacidade e legitimidade 6. Objeto e conteúdo do negócio jurídico 7. Forma e formalidades. Consensualismo e formalismo. Forma livre e vinculada. Instrumento público e instrumento particular 8. Prova do negócio jurídico 9. Publicidade 10. Interpretação do negócio jurídico 11. A boa -fé no negócio jurídico 12. Integração 13. A causa como elemento do negócio jurídico 14. Notícia histórica. A diversidade doutrinária acerca do conceito e utilidade da causa 15. A causa no direito brasileiro Capítulo XIII - Representação 1. Introdução. Conceito. Razão de ser. Fundamento. Pressupostos 2. Notícia histórica 3. Espécies de representação 4. A representação voluntária. O poder de representação. Conceito. Natureza. Fontes 5. Conteúdo do poder de representação. Poderes gerais e especiais 6. Exercício do poder de representação 7. A procuração 8. Os sujeitos na procuração 9. A forma da procuração 10. A relação jurídica da representação. O elemento subjetivo 11. O elemento objetivo 12. O conteúdo da relação jurídica. Direitos e deveres 13. O substabelecimento 14. O contrato do representante consigo mesmo. A autocontratação 15. Extinção da representação 16. A procuração irrevogável e a procuração em causa própria Capítulo XIV - Elementos Acidentais do Negócio Jurídico. Condição. Termo. Encargo 1. Introdução. O negócio jurídico no plano de sua eficácia. Os elementos acidentais 2. A condição. Conceito e razão de ser 3. A natureza jurídica da condição 4. Atos condicionáveis e atos puros 5. Condição voluntária e condição legal 6. Condição e pressuposição 7. Elementos da condição 8. Espécies de condição 9. Condições casuais, potestativas e mistas 10. Condições possíveis e impossíveis 11. Condições lícitas e ilícitas 12. Condições suspensivas e resolutivas 13. Condições positivas e negativas 14. Pendência da condição 15. Implemento da condição 16. O problema da retroatividade da condição 17. As teorias acerca da retroatividade da condição 18. O direito brasileiro 19. O termo 20. Espécies de termo 21. Os prazos e sua contagem 22. Modo ou encargo Capítulo XV - Defeitos do Negócio Jurídico 1. Introdução 2. Notícia histórica 3. Erro 4. Erro essencial 5. Erro sobre os motivos 6. Transmissão errônea da vontade 7. Dolo 8. Coação 9. Estado de perigo e lesão 10. Fraude contra credores 11. As hipóteses legais de fraude 12. A ação revocatória ou pauliana Capítulo XVI - Invalidade do Negócio Jurídico 1. Introdução. A invalidade dos atos e dos negócios jurídicos. A teoria das nulidades 2. Existência, validade e eficácia 3. Nulidade. Conceito. Fundamento histórico -ideológico 4. Espécies de nulidade 5. Causas da nulidade 6. Simulação. Conceito e âmbito de aplicação 7. Elementos da simulação 8. Espécies de simulação 9. Simulação absoluta e relativa. Simulação total e parcial 10. As hipóteses legais de simulação 11. Efeitos da simulação 12. A ação de nulidade. Efeitos 13. Características do negócio jurídico nulo 14. Anulabilidade. Conceito. Fundamento. Origem 15. Causas da anulabilidade 16. A ação de anulação 17. Confirmação do ato anulável 18. Características do negócio jurídico anulável 19. Conversão do negócio jurídico Capítulo XVII - Atos Ilícitos. A Responsabilidade Civil 1. Introdução. O ato ilícito como categoria geral 2. Ato ilícito. Conceito. Importância. Elementos 3. A ação ou omissão do agente 4. A ilicitude 5. Exclusão de ilicitude 6. A culpa. Conceito. Elementos. Espécies 7. As presunções de culpa do direito anterior 8. O nexo de causalidade 9. O dano. Conceito. Espécies 10. O dano moral 11. O dano à saúde. O dano à vida 12. O dano à integridade física. O corpo humano 13. O dano à integridade moral 14. O dano à integridade intelectual 15. A reparação do dano. A valoração do dano à pessoa humana 16. A responsabilidade civil. Conceito. Natureza. Importância prática e teórica 17. Notíciahistórica Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa 18. Espécies de responsabilidade civil 19. Responsabilidade contratual e extracontratual ou aquiliana 20. O sistema legal da responsabilidade civil 21. Responsabilidade subjetiva e objetiva 22. Responsabilidade por fato próprio e por fato de terceiro 23. Responsabilidade por fato da coisa 24. Responsabilidade por fato de animal Capítulo XVIII - Prescrição e Decadência 1. O tempo como fato jurídico 2. A relação jurídica e seu conteúdo. A pretensão 3. A exceção 4. Exigibilidade e exercício de direitos 5. Prescrição. Conceito. Fundamento. Objeto 6. O problema da prescrição das exceções 7. Decadência. Conceito. Fundamento. Objeto 8. Prescrição e decadência. Comparação 9. Regras gerais da prescrição 10. Renúncia da prescrição 11. Impedimento e suspensão 12. Interrupção da prescrição 13. Prazos prescricionais 14. Regras gerais da decadência 15. Os prazos prescricionais em matéria de direito intertemporal Bibliografia Índice Analítico e Remissivo Índice Onomástico Prefácio à 10ª edição Fiel ao seu objetivo original de contribuir para a formação teórica no campo do direito civil brasileiro, como introdução necessária e indispensável ao estudo do direito positivo, apresenta-se este livro agora em nova edição revista e atualizada quanto à respectiva doutrina e legislação. Nessa revisão, deu-se especial importância e destaque aos mecanismos alternativos e informais de resolução de conflitos, a saber, a mediação e arbitragem, e também ao estatuto da pessoa com deficiência e à nova espécie de direito real, o direito de laje, inserido este na lei sobre a regularização fundiária, rural e urbana, tudo isso matéria que veio enriquecer o universo jurídico brasileiro, principalmente de natureza privada. São novas soluções que surgem como resposta do legislador aos crescentes desafios da sociedade contemporânea, complexa, dinâmica e inovadora. Também se registra o acréscimo das disposições da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro pela Lei n. 13.655, de 25 de abril de 2018, visando à segurança jurídica e eficiência na criação e aplicação do direito público e estabelecendo, como novo critério interpretativo, que, nas decisões jurídicas nas esferas administrativa, controladora e judicial, não se decidirá com base em valores jurídicos abstratos sem que sejam consideradas as consequências práticas da decisão. Sendo uma obra de teoria, contempla e desenvolve a matéria pertinente aos conceitos fundamentais do direito civil, principalmente a pessoa, as coisas e os atos jurídicos, categorias essas indispensáveis ao raciocínio do jurista no seu processo criativo de interpretação jurídica, considerada esta, hoje, o tema central do conhecimento e da prática do direito. Prefácio à 9ª edição Publica -se esta nova edição, devidamente atualizada, com as mais recentes contribuições à matéria de direito privado, mais especificamente as que dizem respeito ao instituto jurídico da personalidade e da capacidade da pessoa humana, visando à inclusão social e à cidadania da pessoa com deficiência e à integridade moral das pessoas naturais e jurídicas atacadas em sua honra. É oportuna a sua publicação, sendo um trabalho de direito civil, pois se comemora, agora, no Brasil; (i) o bicentenário de nascimento de Teixeira de Freitas (1816 -1883), romanista e civilista, autor da Consolidação das Leis Civil e do Esboço de Código Civil, trabalhos de notável envergadura que, baseados nas grandes categorias das Instituições de Gaio, personae, res e actiones, serviram de base à codificação civil brasileira; (ii) o centenário do Código Civil de 1916, de Clóvis Beviláqua, em muito baseado na obra de Teixeira de Freitas; e (iii) o cinquentenário do Código Civil português (1966). São acontecimentos de relevo na história do direito civil brasileiro, pela contribuição que deram ao processo legislativo que culminou no Código Civil de 2002. Demonstram não só apurada técnica na elaboração dogmática, como também a historicidade do nosso direito civil, herdeiro da experiência jurídica romana e, por isso, um dos últimos sistemas do pensamento jurídico ocidental. No mais, permanece este livro com seu objetivo didático, que é o de contribuir para a formação jurídica em matéria de direito privado, com o domínio dos conceitos e categorias fundamentais do direito civil e também do raciocínio jurídico, atividade intelectual própria dos juristas na sua atividade profissional, que têm na interpretação jurídica o seu principal campo de atuação. O livro reúne as formas universais com que se constrói o pensamento jurídico, de elevado grau de abstração, comuns aos diversos ramos do direito civil, formando o conjunto de enunciados normativos que é a Parte Geral do Código Civil. Diversamente do que era próprio da ciência jurídica tradicional, esta matéria oferece, hoje, certo grau de incerteza, dada a elevada complexidade da sociedade contemporânea, por efeito da revolução científica e tecnológica que marcou o século XX, levando à configuração de um novo paradigma epistemológico, o paradigma da complexidade, que se impõe destacar em uma obra de teoria do direito civil. Esta complexidade leva, por vezes, a um estado de incerteza, de embaraço e de confusão, que põe em xeque não só as categorias e os institutos tradicionais do direito privado como também o método de sua realização prática, o que implica outra grande questão que o civilista tem de enfrentar, que é a da interpretação jurídica, hoje considerada um processo de criação jurídica. Essa atividade leva, também, à reflexão sobre as categorias fundamentais do direito civil, comuns aos demais ramos do direito, já que a complexidade torna difícil a permanência de conceitos claros, distintos, e, principalmente, do modelo dedutivo da interpretação jurídica tradicional, próprio da modernidade, que dá lugar a um novo modelo, o argumentativo ou dialético, em que o intérprete parte não da lei, mas dos fatos concretos da vida real. É, assim, necessário reconsiderar os conceitos e as categorias clássicas do direito civil em face da realidade da vida contemporânea, por serem noções instrumentais com papel destacado na análise teórica e na realização prática de qualquer ramo do direito civil. Há de assinalar, ainda, que a inserção de princípios, cláusulas gerais e conceitos indeterminados, se contribui para a abertura e flexibilidade do sistema, também exige maior preparo do intérprete e maior poder do juiz na realização prática dos enunciados normativos do Código Civil. Cresce, assim, a importância do raciocínio jurídico, processo ou atividade intelec tual que o jurista desenvolve para conhecer o direito na sua teoria e na sua prática, e para criar a regra jurídica adequada à prevenção ou à solução de determinado caso, em abstrato ou em concreto, como é próprio da interpretação jurídica. Com este livro, dedicado à matéria doutrinária da Parte Geral do Código Civil, além do ensino das noções, categorias e princípios que formam a doutrina do direito civil, procura -se, também, despertar o interesse pela metodologia de realização do direito, mais precisamente, o raciocínio jurídico, atividade intelectual que o jurista intérprete desenvolve na sua função de criar soluções jurídicas para prevenir ou resolver os conflitos de interesses surgidos nas relações jurídicas de natureza privada, aquelas em que as partes atuam com base nos valores fundamentais da pessoa, da liberdade e da igualdade. Prefácio à 8ª edição Publica -se esta nova edição, revista, atualizada e aumentada, com especial referência às inovações da Parte Geral do Código Civil, quando já decorridos dez anos de vigência do novo diploma, período de significativas mudanças no pensamento e no sistema brasileiro de direito privado. O objetivo do livro, como nas edições anteriores, é contribuir para o estudo e a compreensão da Parte Geral, nos seus princípios, conceitos e disposições normativas que servem de fundamentoaos institutos da Parte Especial e orientam o intérprete na sua tarefa de realização prática. Compreende, assim, as disposições sobre a pessoa humana, os direitos da personalidade, as pessoas jurídicas, agora acrescidas de uma nova espécie, a empresa individual de responsabilidade limitada e, na matéria dos bens, o reconhecimento da crescente importância da informação e do ambiente como objeto do direito. Nos fatos jurídicos, o negócio jurídico como categoria distinta, com uma nova espécie, o negócio de acertamento, e também a disciplina da representação, do estado de perigo e da lesão, assim como a conversão do negócio jurídico nulo, a disciplina da prescrição e da decadência e, em matéria de prova, o reconhecimento do documento eletrônico ou digital. O Código Civil é lei básica do direito privado. Organiza e sistematiza a disciplina das relações jurídicas privadas, aquelas em que os sujeitos participam em condições de igualdade e de autodeterminação. Suas disposições normativas elabora -as o legislador para responder aos desafios da sociedade contemporânea, de crescente complexidade em virtude do elevado nível de desenvolvimento científico e tecnológico que a caracteriza, com especial relevo para o campo da informação e das ciências da vida. Essas respostas consagram os valores dominantes em nossa sociedade, uma criação cultural, portanto, que reconhece a pessoa humana como valor fonte de toda a constelação ética e social do direito civil brasileiro. Sua Parte Geral reúne os princípios, conceitos, categorias e institutos que fundamentam essa disciplina. Nesta edição também se acentua a importância da interpretação, tema hoje central do pensamento jurídico, donde a necessidade de um novo raciocínio para a realização prática do direito civil. Tema central da teoria do direito, encontra no novo Código Civil, mais propriamente nos seus princípios, cláusulas gerais e conceitos indeterminados, que lhe dão o caráter de sistema aberto e flexível, a exigir dos magistrados “maior participação decisória”, um precioso meio de renovação do pensamento jurídico brasileiro, no sentido de sugerir um novo método de realização do direito, diverso do tradicional raciocínio lógico -dedutivo da “mentalidade formalista e abstrata” dominante. Procura -se, também, suscitar uma reflexão sobre o estado atual do direito civil, em fase de mudança de paradigma epistemológico no pensamento jurídico. Renova -se, assim, o propósito de contribuir para a formação teórica do estudante, desenvolvendo a sua capacidade de pensar por si só no enfrentamento das questões jurídicas de sua futura vida profissional, tendo sempre presente a máxima de Montaigne, segundo a qual il vaut mieux une tête bien formée que une tête pleine. Prefácio à 7ª edição Esta nova edição apresenta -se revista e modificada. Acrescentou -se um novo capítulo, totalmente dedicado aos princípios jurídicos, elementos sistêmicos de significativa importância, pela revisão que suscitam na teoria das fontes e no próprio fundamento das normas jurídicas. Proporcionando abertura e flexibilidade ao sistema, contribuem para um novo raciocínio jurídico que tem no caso concreto o seu ponto de partida, nos princípios e regras os seus fundamentos decisórios, e na interpretação jurídica um processo criativo. Ampliou -se, também, a matéria pertinente à formação histórica do direito civil (capítulo IV), assim como aos direitos da personalidade (capítulo VIII), com especial ênfase na relação destes com a teoria do ato ilícito, particularmente o dano à pessoa (capítulo XVII), de crescente relevo pelos novos problemas da sociedade contemporânea, a chamada sociedade do conhecimento e do risco. Com o deslocamento da matéria referente à autonomia privada para o capítulo II, dedicado, nesta edição, aos princípios jurídicos, fundiram -se os capítulos X e XI das edições anteriores, referentes, respectivamente, aos fatos jurídico, à autonomia privada e à teoria do negócio jurídico, em um só capítulo, o XI, dedicado aos fatos e ao negócio jurídico. Reafirmou -se, também, a concepção axiológica do direito, considerando -se a pessoa humana o valor fundamental do direito civil brasileiro, e na sua proteção jurídica a expressão do personalismo ético que orienta a realização prática desse direito. No que respeita aos aspectos formais, fez -se a indispensável revisão ortográfica e digital, na tentativa de eliminar as imperfeições que resistem ao trabalho de correção periodicamente renovado. No mais, continua a obra como introdução, que se pretende didática, à teoria contemporânea do direito civil brasileiro. Prefácio à 6ª edição Vem esta nova edição acrescida das modificações decorrentes de novos diplomas legais, principalmente no campo das pessoas jurídicas. Deu -se, também, maior ênfase à matéria dos princípios, normas e situações jurídicas, assim como ao processo de interpretação do Código Civil. No mais, continua com a finalidade básica de servir aos estudiosos do Direito, principalmente no que diz respeito à Teoria do Direito Civil. Prefácio à 5ª edição A instituição do novo Código Civil brasileiro (Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002), com as significativas mudanças que introduz na matéria jurídica de direito privado, implicou a revisão global deste livro, que incorpora os conceitos e modelos jurídicos das novas disposições. As principais inovações dizem respeito à teoria geral da personalidade e à teoria geral do negócio jurídico. Na primeira, estabeleceu -se que a menoridade cessa aos dezoito anos, sendo possível a emancipação aos dezesseis anos. Criaram -se, também, dois novos capítulos, um dedicado aos Direitos da Personalidade, e outro às Associações, temas que assumem, no novo código, expressivo e merecido destaque. Na segunda, adotou -se o negócio jurídico como categoria fundamental dos atos jurídicos, sendo nessa matéria que se apresentam “as maiores alterações em face do Código Civil de 1916”. Novidade é, também, o capítulo da Representação, com preceitos gerais sobre a representação legal e a voluntária e, na matéria dos defeitos do negócio jurídico, a introdução do estado de perigo e da lesão. Permitiu -se, ainda, a conversão do negócio jurídico nulo, e deu -se nova disciplina à prescrição e à decadência, com redução dos respectivos prazos. Além desses aspectos, pertinentes à estrutura da Parte Geral, outro se me afigura de grande importância. É a referência, explícita ou implícita, conforme o caso, aos princípios jurídicos e às cláusulas gerais, considerando -se estas como os preceitos jurídicos vazios ou incompletos que, graças à sua generalidade, podem abranger maior número de situações fáticas. Implicam, uns e outros, mudanças significativas no processo de realização do direito, isto é, na construção da norma adequada à solução dos casos concretos que se apresentem ao intérprete. Os novos princípios do Código Civil são o da socialidade, que limita o exercício dos direitos subjetivos, o da eticidade, que privilegia os critérios ético -jurídicos em detrimento dos tradicionais lógico -formais, no processo de construção ou concreção jurídica, e o da operabilidade, um princípio metodológico da realização do direito, que recomenda tenha -se em vista mais o ser humano in concreto, situado, do que o sujeito in abstrato, próprio do direito liberal da modernidade (séculos XIV e XX). E no campo do negócio jurídico, o princípio da boa -fé objetiva como regra de interpretação das manifestações de autonomia privada. Todos esses princípios implicam radical mudança na interpretação jurídica, que deixa de ser mera interpretação da lei para tornar -se parte integrante do processo de realização do direito, tudo isso a exigir um mais sólido conhecimento teórico e “uma função mais criadora por parte da Justiça”, sempre com base no reconhecimento do valor da pessoa humana como fonte de todos os valores. Com esses acréscimos e novidades, que esta nova edição incorpora, permanece o livro como singelo instrumento de compreensão da Parte Geral, o nível mais elevadodo sistema básico do direito privado que é o Código Civil. Prefácio à 4ª edição Nesta quarta edição, mantidos os objetivos e as características iniciais da obra didática, introduz -se sumária referência a novos problemas que a sociedade contemporânea, complexa e pluralista, suscita perante o direito, causando ambiguidades e incertezas que, por isso mesmo, a transformam em uma sociedade de risco. O notável desenvolvimento das ciências da vida e da informação afeta a teoria da personalidade, tornando imprecisos e discutíveis os seus tradicionais princípios. Alarga -se a teoria dos bens, com o reconhecimento de novas espécies, e com a transformação da própria informação em bem jurídico de significativa importância. Desenvolve -se o uso da informática, fazendo surgir os contratos, os documentos e as firmas eletrônicas, ou digitais. Supera -se a clássica e nítida distinção entre o público e o privado, o Estado e a sociedade civil, configurando -se o público que não é estatal, o terceiro setor, campo de atuação das entidades não governamentais que, sendo particulares, realizam interesses públicos, não estatais. No que diz respeito à defesa dos direitos subjetivos, surgem meios alternativos de composição de interesses em conflito, de grande importância para a realização do direito à margem dos tribunais, descongestionando -se (espera -se) o sistema judiciário. Estamos assim em uma sociedade de profundas transformações, complexa, pluralista e fragmentada, para o que nem sempre bastam os tradicionais modelos jurídicos, cabendo ao jurista a elaboração das regras adequadas, para o que a teoria do direito civil, com suas noções básicas e fundamentais, se reveste de especial importância. Nessa perspectiva, é este livro, modesta contribuição. Prefácio à 3ª edição Nesta nova edição, revista e ampliada, procuramos corrigir falhas de digitação e injustificadas lacunas, assim como aumentar a informação teórica, jurisprudencial e bibliográfica. O livro mantém -se fiel ao propósito inicial, que é o de constituir -se em instrumento adequado à construção do conhecimento jurídico, principalmente no campo das relações privadas. Seu objetivo é, natural e imediatamente, de natureza didática, do que resulta a preocupação constante com a clareza e a concisão, sem concessões, porém, à superficialidade. Não se furta, todavia, ao superior dever de provocar e de contribuir para um debate e uma reflexão sobre o processo de mudança do direito civil contemporâneo, à luz daquilo que se poderia chamar, por falta de melhor designação, o paradigma da pós -modernidade. O direito está em crise porque em crise estão as teorias jurídicas puramente formais e racionalistas do pensamento sistemático que marcam o direito da modernidade (século XIX). Legatários desse direito, nos seus princípios, conceitos e estruturas, os juristas brasileiros vêm se desvencilhando dos seus dogmas e mostrando - se criativos e inovadores na formulação de novos modelos, como resposta aos desafios da sociedade contemporânea, marcada pela complexidade, pela revolução da ciência e da técnica, pela mundialização da economia, pelo domínio do conhecimento e pela rapidez da informação. No campo do direito, a fragmentação dos sistemas unitários, o pluralismo das fontes jurígenas e a preocupação com o ser humano e a vida, em todos os estágios e formas, são novas realidades a considerar. No que particularmente diz respeito ao problema da realização do direito, novos endereços metodológicos apontam para a superação do agir tradicional, em favor de uma razão prática e de um pensamento dialético a partir do caso concreto. Quanto à bibliografia, é nítida a prevalência latina, porque latinos são o direito e a cultura brasileira, sem desconhecimento e menosprezo pela importante contribuição germânica e a hoje crescente produção anglo -saxônica. Concebendo o direito brasileiro como uma das expressões de um povo e de uma história social, que se vem forjando ao longo dos últimos séculos, e acreditando, como Pontes de Miranda (Tratado de direito privado, Prefácio), que esse povo tem um sentido e um destino, creio ser apropriado e justo reverenciar o trabalho e a memória de todos aqueles juristas, alguns anônimos, outros esquecidos, que, com seu saber e trabalho diuturno de construção e de exegese, têm vindo a edificar aquilo que hoje, no ano 2000, fim de uma época, podemos chamar de a experiência jurídica brasileira. A eles, esta edição. Francisco Amaral Prefácio à 2ª edição A segunda edição deste livro, revista, aumentada e atualizada, mantém -se fiel ao objetivo originário da obra, que é o de se constituir em instrumento de trabalho adequado à construção do conhecimento na área do direito civil. A benévola acolhida que à primeira edição lhe dispensou a comunidade jurídica demonstra a viabilidade desse objetivo, sendo, porém, indispensável a contínua atualização do livro, corrigindo -se - lhe falhas, lacunas e imperdoáveis omissões, que só a vastidão do direito civil e a profundidade de sua teoria geral permitem relevar. Fizemos, assim, alguns acréscimos, não só quanto às questões teóricas e metodológicas que o direito civil contemporâneo enfrenta, mas também no que diz respeito às mudanças formais do ordenamento jurídico brasileiro, continuamente enriquecido com novos diplomas legais com que se procura dar resposta aos desafios da sociedade atual. Como obra propedêutica, reunindo princípios, categorias, conceitos e regras fundamentais, que formam a tradicionalmente chamada teoria do direito civil, demos ênfase, na atualização, às correntes do pensamento jurídico contemporâneo, principalmente no que diz respeito à criação do direito e à metodologia de sua realização. Quanto às modificações do sistema jurídico, atualizamos as informações sobre o direito positivo, com referência obrigatória à legislação especial mais significativa, sempre atentos à íntima relação que deve existir entre a teoria e a prática, o texto e a lei. Se uma obra de introdução teórica reflete a doutrina de seu tempo, o processo de sua atualização segue as tendências dessa doutrina, devendo salientar -se as seguintes linhas de orientação: a consideração da pessoa humana como sujeito concreto da atuação jurídica, distinta do sujeito abstrato, que se constituiu em verdadeiro princípio organizativo do direito moderno, levando ao reestudo da personalidade, na sua materialidade e defesa; a mundialização das relações econômicas, dando margem à massificação jurídica, com novas figuras contratuais; a superação da dicotomia público/privado, com o inter -relacionamento crescente da Constituição com o Código Civil, e a importância crescente dos princípios como fontes normativas e como critérios de interpretação e concretização jurídica. A sociedade contemporânea é pluralista, complexa, marcada pela revolução da técnica, pela mundialização da economia, pela massificação dos meios de comunicação. Será que essa sociedade é idêntica à que construiu e legitimou o direito que diariamente utilizamos? Isso exige, evidentemente, um repensar do direito que recebemos e cultivamos, que é o direito do século XIX, cristalizado em um belo Código Civil que, como todos os códigos, é um fenômeno de síntese que consagra o passado, muito mais do que um fenômeno de inovação para o futuro. Se é verdade que o século XIX e a primeira metade do XX foram propícios ao advento dos Códigos Civis, em um processo de sistematização e síntese da tradição jusracionalista, do que é exemplo o Código Civil alemão e sua Parte Geral que profundamente nos influenciou, levando o nosso legislador a adotar idêntico modelo, hoje a realidade é diversa, com o final do século marcado pela “fragmentação das experiências e a explosão dos particularismos jurídicos”, levando -nos a repensar a nossa própria experiência, para inventariar o que foi feito e construir um novo direito, o direito da sociedade contemporânea. Além disso, a época atual não é propícia à sistematização e às grandes sínteses, mas sim à análise crítica e à desconstruçãodos institutos vigentes, sob a égide de princípios constitucionais que, em uma reviravolta histórica, dão nova disciplina à matéria privada. Foi com esse pensamento que buscamos a atualização teórica, procurando informar sobre as mais recentes contribuições da teoria jurídica, particularmente no que diz respeito à questão metodológica da realização do direito, e também, no campo do direito positivo, dando notícia da mais recente legislação brasileira, relacionada com a matéria tratada. Uma última referência ao título da obra. Um livro de introdução ao direito civil reúne princípios e conceitos fundamentais que formam aquele corpo doutrinário que tradicionalmente se denomina de teoria (geral) do direito civil, e que hoje constitui patrimônio comum a todo o pensamento jurídico ocidental. Não se coaduna, assim, com a nacionalização que se lhe impôs na primeira edição, intitulando -se de Direito civil brasileiro, pelo que, nesta, se optou pela denominação, menos pretensiosa, de Direito civil – Introdução. Introdução Este livro traduz uma experiência de mais de três décadas no campo do ensino e da investigação científica, nos cursos de graduação e de pós -gradua ção das Faculdades de Direito em que tenho tido a honra de lecionar. Ao elaborá -lo, sempre tive em mente produzir um instrumento de trabalho que fosse útil ao estudo, à pesquisa, ao raciocínio e à reflexão jurídica dos estudantes, a quem o dedico e ofereço como reconhecimento ao incentivo que deles sempre recebi. Justifica -se, assim, a minha preocupação em oferecer não só um texto claro e conciso, embora sem concessões à superficialidade, como também atualizada informação jurisprudencial e bibliográfica que permita conhecer os modos de realização prática do direito e o processo de renovação científica por que passa o direito civil contemporâneo. Sendo uma introdução ao estudo do direito civil, tem como objetivos básicos: (a) iniciar no estudo e na análise das noções, categorias e princípios que formam a doutrina do direito civil e dele permitam uma visão geral e compreensiva; (b) orientar no conhecimento da técnica jurídica, isto é, na arte de realizar o direito civil na solução dos problemas da vida real, procurando integrar o conhecimento científico com a prática de nossos tribunais; (c) contribuir para a formação jurídica do aluno, por meio de uma perspectiva interdisciplinar que possa facilitar a compreensão do fenômeno jurídico; (d) suscitar a reflexão teórica sobre a importância do direito civil na sociedade contemporânea, cujos problemas desafiam o paradigma dominante e suscitam novas estruturas jurídicas de resposta. O direito civil é o direito comum, é o direito das pessoas e das relações jurídicas de natureza privada. Compreende os direitos pessoais, que protegem a pessoa humana e sua família, os direitos patrimoniais, pertinentes à atividade econômica, à propriedade dos bens e à prestação de serviços, e ainda uma terceira parte, de importância crescente, na teoria e na prática, que é da responsabilidade civil, cujas normas disciplinam a indenização do dano alheio. Configura -se, portanto, o direito civil, como a ordem jurídica da sociedade civil, assim entendido o universo social em que se desenvolvem as relações de natureza familiar e econômica, com base na igualdade jurídica e no poder de autodeterminação das pessoas, com as limitações decorrentes da atuação jurídica dos demais componentes sociais. O seu estudo científico, indispensável à atividade dos profissionais de direito, os juristas, deve levar em conta, porém, as condições políticas, econômicas e sociais que determinaram ou influíram no seu processo de formação histórica e cultural, assim como as funções que pode desempenhar na solução dos problemas típicos de uma sociedade em desenvolvimento, tendo presentes os valores e os princípios que lhe servem de fundamento e lhe conferem legitimidade. Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa É por isso conveniente, se não necessário, articular o direito, particularmente o civil, com as demais ciências sociais, de modo a compreender melhor o que realmente seja o direito privado, ou dos particulares. Nesse processo interdisciplinar destaca -se a importância da história das instituições jurídicas, pois quem não perceber o sentido histórico do direito só pode ter dele uma visão estática, que não se coaduna com a natureza prática do direito e do processo de sua realização. O direito é uma regulamentação da vida que arranca da realidade, inter -relacionando -se com outros sistemas de valores para a solução dos conflitos de interesses e para a organização da vida social. O recurso às ciências sociais permite, ainda, inserir o direito civil, que é um direito de formação histórica e jurisprudencial, em uma perspectiva global da cultura, superando -se, desse modo, o mito da neutralidade científica tão caro ao positivismo e ao formalismo, tradicionalmente imperantes em nossos meios jurídicos. E também aproxima o direito da realidade concreta, donde provém e à qual se destina, como um dos mais credenciados instrumentos de transformação social de que o homem dispõe. Essa articulação do direito com a história e as demais ciências sociais (sociologia, economia, antropologia) permite ainda uma percepção crítica do fenômeno jurídico, no sentido de o jurista considerar as condições políticas, econômicas e sociais que, integrando um projeto político -filosófico, determinam ou condicionam as regras jurídicas, assim como a adequação dos seus modelos às exigências da sociedade contemporânea. Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Coerentemente com tal concepção, procura -se conjugar neste livro, que é uma introdução ao direito civil: (a) uma perspectiva axiológica, que identifica os valores e os princípios que o fundamentam e legitimam; (b) uma perspectiva dogmático -jurídica, segundo a qual o direito civil se estuda nos seus conceitos, categorias e estruturas fundamentais, assim como no processo de realização de suas normas; (c) uma perspectiva sociológica, que leva em conta a realidade social a que se destina e, consequentemente, as funções que nela desempenha; e (d) uma perspectiva metodológica, no sentido de um novo modelo de interpretação jurídica, que tenha no caso concreto, e não nas regras do sistema, como é próprio do modelo positivista, o ponto inicial do processo de constituição normativa. Tais dimensões permitem ao estudioso apreender a experiência jurídica no campo do direito civil brasileiro, entendendo -se como tal o conjunto de manifestações jurídicas que tem solucionado os conflitos de interesses que a vida em sociedade faz nascer. No que particularmente diz respeito à vertente científica, preocupa -se o autor em expor a matéria que constitui a chamada teoria do direito civil, que estuda os princípios, as normas, os conceitos e as categorias jurídicas comuns aos diversos ramos do direito privado, e que têm na Parte Geral do Código Civil a sua expressão formal. No desenvolvimento dessa matéria levam -se em conta as concepções teóricas dominantes, segundo as quais se pode estudar o direito sob a perspectiva dos valores e dos princípios, da norma, da relação e da instituição jurídica, integrando -as, porém, na visão global e mais elevada, que é a da experiência jurídica, expressão nacional do modus vivendi da nossa sociedade, no curso de sua existência. Para a teoria da relação jurídica, que preferencialmente se adota no âmbito do direito civil, embora consciente de suas limitações, o direito é um sistema de relações qualificadas e ordenadas pelas regras jurídicas. Seu conceito fundamental é a relação intersubjetiva, que tem como ideia -chave a autonomia privada, poder dos particulares de criar relações jurídicas e estabelecer -lhes o respectivo conteúdo (direitos e deveres). A concepção do direito como experiência jurídica, compreensiva das demais perspectivas unilaterais, traduza atividade humana em todos os sentidos e em todas as manifestações que configuram o lado humano da história, e representa o esforço máximo realizado pelo pensamento jurídico mais atual, para reunir e organizar o que se costuma chamar de vida do direito, sendo este uma ordenação normativa da realidade social segundo certos valores1. Pode -se assim dizer que nenhuma dessas perspectivas anula as demais, sendo apropriado salientar que elas não se excluem, antes se completam, em uma concepção tridimensional do direito que se realiza no Código Civil brasileiro de 2002. Tratando -se aqui de uma introdução ao direito civil, segue, entretanto, este livro, a perspectiva ainda dominante nessa matéria, que é a da relação jurídica, observada a prioridade dos valores e dos princípios jurídicos. O referencial básico é a experiência privada, “na qual a vida jurídica se apresenta, principalmente, como um conjunto de relações que a norma jurídica estabelece de modo Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa típico e comum, e das quais a autonomia dos particulares estabelece o conteúdo preceptivo”2. A ordem seguida na explanação da matéria é coerente com a perspectiva adotada. Tomando -se por base a relação jurídica, expõem -se os respectivos aspectos doutrinários e normativos que se sistematizam em torno dos seus elementos fundamentais, a saber: os sujeitos, o vínculo, o objeto e a sua causa determinante, os fatos jurídicos. O primeiro capítulo contém noções de sociologia e de filosofia do direito, dedicando -se ao conceito, às funções e aos fundamentos do direito, especialmente do direito civil, assim como à metodologia de sua realização. O segundo capítulo dedica -se aos princípios jurídicos, tema que hoje se reveste de grande importância, pela mobilidade e abertura que eles proporcionam ao sistema. No direito civil, implicam uma revisão no quadro tradicional das fontes, dos fundamentos, e do próprio raciocínio jurídico, estimulando uma radical mudança em matéria de interpretação jurídica. O terceiro capítulo, refletindo a importância tradicional da concepção normativa do direito, dedica -se às normas jurídicas, elementos constitutivos do sistema de direito civil, expondo diversas concepções sobre a sua natureza, estrutura, incidência e classificação. O capítulo quarto apresenta verdadeiramente o direito civil, estudando -o na sua gênese, caracterização e processo evolutivo, indicando -se ainda o seu conteúdo, isto é, as instituições fundamentais que sua disciplina contém. O capítulo quinto dedica -se à relação jurídica de direito privado, desenvolvendo -se como o estudo pormenorizado do seu Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa conceito, fundamento doutrinário, importância atual, estrutura, conteúdo e espécies. Os capítulos subsequentes dizem respeito aos elementos da relação, vale dizer, os sujeitos (as pessoas), o objeto (os bens), assim como os acontecimentos que os determinam (os fatos jurídicos), formulando com os princípios fundamentais que lhes são inerentes, uma teoria da personalidade, uma teoria do patrimônio e uma teoria do negócio jurídico. Com esse material doutrinário, que deve alimentar -se permanentemente com a consulta ao código e à jurisprudência, em um processo de enriquecimento recíproco da teoria com a prática jurídica – pois o direito é expressão inseparável da vida social, a cuja organização e disciplina se destina –, acredito poder colocar à disposição dos meus alunos e dos estudiosos em geral um instrumento de trabalho para a pesquisa e para a reflexão científica sobre o direito civil, que ainda se constitui na principal esfera de afirmação da personalidade humana e de realização dos seus mais legítimos anseios de justiça, liberdade e igualdade material. Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa CAPÍTULO I O Direito. Estrutura. Funções. Fundamento SUMÁRIO: 1. O direito. Significados e perspectivas de estudo. 2. A natureza do direito. 3. O direito. Gênese e estrutura. 4. As funções do direito. 5. O fundamento do direito. Os valores. 6. A pessoa como valor fundamental. 7. A justiça. 8. A segurança. 9. O bem comum. 10. A liberdade. 11. A igualdade. 12. A teoria do direito civil. 13. O direito civil na perspectiva da norma jurídica. 14. O direito civil na perspectiva da relação jurídica. 15. O direito civil na perspectiva da instituição. 16. Apreciação crítica. 17. O direito como sistema. O sistema de direito civil. 18. O método adotado. 19. O fundamento e a justificação do direito. Jusnaturalismo e positivismo jurídico. 20. A metodologia da realização do direito. A decisão justa do caso concreto. 1. O DIREITO. SIGNIFICADOS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO A palavra direito pode ter vários significados. É um termo polissêmico, do que decorre a dificuldade de uma definição única3. Na acepção mais comum e frequente, usa -se para designar o conjunto de prescrições com que se disciplina e organiza a vida em sociedade, prescrições essas que encontramos formuladas e cristalizadas em regras dotadas de juridicidade, isto é, de caráter jurídico, o que as diferencia das demais regras de comportamento social e lhes confere eficácia garantida pelo Estado. A juridicidade, conceito novo na ciência do direito, significando o atributo que diferencia a regra do direito das demais regras de comportamento social, serve de fronteira entre o jurídico e o não jurídico, caracterizando as normas que pertencem aos sistemas de direito, conjuntos de princípios e regras dotadas de legitimidade e obrigatoriedade4. Essas regras ou normas, expressão jurídica de valores dominantes em nossa sociedade, estão nas leis, nos costumes, na jurisprudência, nos princípios jurídicos, constituindo o chamado direito objetivo, de ob + jectum, exterior ao sujeito, e positivo, no sentido de que é posto na sociedade por uma vontade superior. É o ius in civitate positum. É neste sentido que se utiliza para designar o direito vigente, por exemplo, o direito brasileiro, o direito civil, o direito penal etc. Toma -se aqui o direito como conjunto de regras jurídicas, o que é próprio da concepção normativista do direito, ainda dominante no pensamento jurídico brasileiro, mas objeto de Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa percuciente crítica, que defende o primado dos princípios jurídicos no quadro das fontes de direito. Em outra acepção, ligada à primeira e dela dependente, direito designa um poder que o sujeito tem de agir e de exigir de outrem determinado comportamento. É o chamado direito subjetivo, de sub + jectum, reconhecido e garantido pelo direito objetivo, como é, por exemplo, o direito de propriedade, o direito do consumidor, o direito do inquilino, do credor, do possuidor etc. Em perspectiva mais idealista e menos frequente, traduz um sentimento de justiça. Quem diz “não é direito o que fazem comigo”, ou “isso não está direito”, refere -se a um comportamento injusto. Neste caso, direito é expressão de justiça. Em outro sentido, ainda, designa a ciência jurídica, o conjunto de conhecimentos teóricos e práticos que tem como objeto o próprio direito como ordem social, na sua estrutura e função, nos seus métodos de elaboração e realização, e nos seus fundamentos, enfim, na fenomenologia da sua existência, validade e eficácia5. E como ciência, é de natureza prática. Seu objeto é o comportamento humano e social6. Essa polissemia, que produz certa ambiguidade,dificultando uma definição precisa do direito, revela a complexidade do mundo jurídico, que é plural e diverso, como se pode verificar no curso de sua história, sendo exemplo, no ordenamento medieval, o direito dos feudos e das corporações, e, hoje em dia, a multiplicidade de fontes, de sistemas e de meios de solução de conflitos (direito comunitário, direitos especiais etc.). Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Notas incontroversas do direito são o seu caráter humano e social7, a sua historicidade e a sua normatividade. Ele existe em razão das pessoas que se relacionam entre si. Onde houver sociedade, lá estará o direito (ubi societas, ibi ius) que, reciprocamente, também a pressupõe (ubi ius, ibi societas), sendo inconcebível uma regra jurídica que não a tenha como referência. Da sua dimensão humana deflui a importância da pessoa e o seu reconhecimento como valor fundamental da ordem jurídica brasileira, positivado no princípio da dignidade humana (CR, art. 1º, III). Da sua socialidade, dimensão intersubjetiva, resulta o reconhecimento da relação jurídica como categoria básica do direito civil e como perspectiva de estudo do fenômeno jurídico. Da sua historicidade, isto é, da sua natureza histórico -evolutiva, emergem os valores, ideias básicas que orientam o comportamento individual e social e constituem a ética dominante na consciência coletiva. Regulando esses comportamentos, o direito é, também, modelo de organização social que se formaliza e estrutura segundo esses critérios. No conjunto dos valores supremos da sociedade e da ordem jurídica brasileira, a pessoa humana é o valor prioritário, a que se seguem a justiça, a segurança e o bem comum. Outra característica é a sua normatividade, isto é, o direito como regra ou norma8 dotada de juridicidade, o que é próprio da concepção normativista que ainda prepondera na teoria jurídica, orientando o raciocínio dos juristas que buscam soluções para os conflitos de interesses, e constroem, com o seu trabalho, a chamada experiência jurídica de um povo9. O direito apresenta -se, então, como uma ordem jurídica, um conjunto de valores, princípios e Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa normas que regem uma comunidade10, impondo ou oferecendo modelos de comportamento. Se a polissemia do termo torna difícil uma definição única do direito, pode -se, todavia, tentar compreendê -lo no processo de sua formação histórica. O direito, particularmente o direito civil, vem se formando ao longo dos séculos como uma prática inerente à vida e à cultura dos povos, tendo como sentido e razão de ser a solução de conflitos, do que resulta o caráter de sua problematicidade, vale dizer, a sua função de pensamento chamado a resolver questões jurídicas concretas11. É um fenômeno histórico, que se forma ao longo dos tempos, como cultura e como processo de solução de controvérsias, que vai da previsão dos conflitos, pela tipicidade estabelecida nas regras, até chegar a uma institucionalização dos órgãos e dos critérios de decisão, critérios esses ditados pela ética da comunidade a que se destina. Como cultura, exprime valores espirituais da sociedade humana, sendo, por isso, também, fenômeno cultural. Como processo de solução de conflitos, pode ser visto como uma prática a serviço de uma ética, e também como expressão da experiência jurídica de um povo. Qualquer que seja a perspectiva adotada, o direito é um fenômeno social e um objeto de estudo científico. Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa 2. A NATUREZA DO DIREITO Sobre a natureza do direito, duas concepções se destacam: a normativista e a axiológica. Para a primeira, o direito é um conjunto de normas de comportamento ou de organização que emanam do Estado ou por ele têm sua realização garantida. É uma variante do positivismo, própria do pensamento jurídico -científico da modernidade (séculos XVIII, XIX e XX). Para a segunda, a concepção axiológica, o direito é um conjunto de valores, princípios e normas. Pertence ao campo da ética. Para a concepção normativista (o direito essencialmente como norma), surgem várias perspectivas de estudo. Tem -se, em primeiro lugar, a perspectiva dogmático -jurídica, a da ciência do direito, “conjunto de conhecimentos ordenados segundo princípios” e com método próprio. Ocupa -se da estrutura do direito, vale dizer, de suas normas, institutos, conceitos e categorias, material com que trabalha a doutrina jurídica no processo de análise e realização do direito. Estuda o direito que é, o direito positivo. Em segundo lugar, a perspectiva sociológica, da sociologia do direito, que estuda a relação direito ‒sociedade, o direito como fato social, ocupando -se das funções e da eficácia das normas jurídicas, mais propriamente, da análise sociológica dos sistemas jurídicos, o que lhe permite apreciar o sistema em sua totalidade e em relação com o seu contexto12. Interessa -se pelo que o direito deve ser. Em terceiro lugar, a perspectiva filosófica, que se ocupa dos fundamentos da ordem jurídica, isto é, dos valores que lhe dão sustentação e legitimidade, e dos quais os mais importantes são a pessoa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa humana, a justiça, a segurança e o bem comum. Ocupa -se, também, da metodologia de sua realização prática. E ainda a perspectiva histórica, que permite conhecer a gênese e evolução das instituições jurídicas, matéria objeto da história do direito. Estuda como o direito se formou, ao longo dos séculos. Essas perspectivas, a social, a valorativa e a estrutural ou normativa, podem considerar -se dimensões (fato, valor e norma) que se conjugam numa visão integral do fenômeno jurídico13. Para a concepção axiológica, diretamente relacionada com a filosofia do direito, a perspectiva metodológica tem importância crescente no estudo do processo de realização do direito. A metodologia jurídica, não como disciplina autônoma14, mas como proposta de reflexão filosófica sobre o processo de realização do direito, não procura somente definir técnicas ou estabelecer regras instrumentais para determiná -lo, mas também refletir sobre ele de modo crítico, vendo -o mais como prática social e prudencial do que como conjunto de regras vigentes em determinada sociedade. Para seus cultores, o direito é um pensamento que se destina a resolver problemas práticos, configurando -se mais como “ciência de decisão” do que como “ciência do conhecimento”. Estuda como o direito se realiza. De tudo isso se conclui que o direito, na ambiguidade e na polissemia do seu termo, e na sua própria natureza histórico - cultural, revela, mais do que uma configuração técnico -científica, uma natureza problemática e uma função prática que exigem do jurista não só o conhecimento, mas, principalmente, a compreensão do seu sentido e significado, e da sua importância como forma de organização e disciplina social e como expressão da cultura e da experiência jurídica de um povo. O direito não é, assim, um dado, um objeto isolado que já encontramos pronto, à nossa disposição, como defende o positivismo normativista, com sua concepção objetivista do direito, mas um processo que permite reunir as suas diversas perspectivas em uma construção permanente, in fieri, das normas jurídicas, superando -se a distinção entre o ser e o dever ser. Reafirma -se, então, o direito como uma ciênciaprática, destinada a resolver problemas concretos da realidade quotidiana, sob a orientação de critérios que se extraem dos princípios, das regras, da doutrina e da jurisprudência que, em conjunto, formam o sistema jurídico de um povo. São essas as perspectivas que hoje mais interessam e que, neste livro, se pretende observar, como introdução ao estudo do direito civil, na sua formulação mais teórica e geral, na compreensão de seus princípios e valores, no conhecimento das suas estruturas e de suas funções, e no processo metodológico de sua realização prática. Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa 3. O DIREITO. GÊNESE E ESTRUTURA Ao longo do seu processo de evolução histórica, o direito vem se apresentando como um conjunto de regras que tem por objetivo a disciplina e a organização da vida em sociedade, resolvendo os conflitos de interesses e promovendo a justiça. Compreende -se, assim, o predomínio da concepção normativista do direito, segundo a qual o direito se define como norma ou conjunto de normas. A compreensão do que realmente seja o fenômeno jurídico não deve partir, todavia, da visão do direito como simples objeto, um conjunto de normas, ou como determinado procedimento de solução de conflitos de interesses, mas da certeza de ser ele produto de uma realidade complexa e dinâmica, que é a vida em sociedade, com seus problemas e controvérsias. Disso lhe advém a já referida natureza problemática e o reconhecimento de sua função prática. Como fenômeno histórico e, consequentemente, cultural, o direito resulta de um processo de institucionalização de práticas e de comportamentos típicos, de órgãos e de critérios de decisão, que a sociedade e o Estado estabelecem, para o fim de dirimirem conflitos de interesses, previsíveis e tipificados. Como diz Reale15, “o direito surgiu quando os jurisconsultos romanos, com sabedoria empírica, quase intuitiva, vislumbraram na sociedade ‘tipos de conduta’ e criaram, como visão antecipada dos comportamentos prováveis, os estupendos modelos jurídicos do direito romano”. Esses modelos jurídicos, que funcionam como “diretivas para a ação”, fins ou valores a realizar, formalizam -se em princípios, Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa normas, institutos, instituições, conceitos, categorias, enfim, todos os elementos que, de natureza essencialmente técnica e formal, constituem o sistema de direito. Princípios jurídicos são pensamentos diretores de uma regulamentação jurídica, critérios para agir e constituir normas e institutos jurídicos (V. Capítulo II). Normas jurídicas são normas de comportamento ou de organização social que provêm do Estado ou por ele têm sua realização garantida. São públicas, quando contidas nas leis, sentenças, atos administrativos, e privadas, quando nos contratos. Os institutos são conjuntos de normas que disciplinam determinada relação jurídica (exemplo, o casamento, a propriedade, a filiação, o contrato etc.). As instituições, termo de natureza sociológica, são grupos sociais dotados de determinada ordem e uma organização interna, que se criam e se justificam por um fim comum, como a família, a empresa, o Estado. Instituto é uma construção técnico -jurídica, enquanto instituição é um grupo social, dotado de ordem e organização. Conceitos e categorias são instrumentos que o jurista utiliza no seu trabalho de elaboração jurídica, isto é, na sua atividade de criação de normas e de elaboração dos sistemas e da própria terminologia da ciência do direito. Os conceitos são representações mentais de objetos, indivíduos ou fenômenos. Sua função é a de descrever, classificar ou organizar os dados da experiência concreta, no caso, a jurídica, permitindo estabelecer conexões de natureza lógica, e facilitando o raciocínio jurídico. Produto de uma Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa atividade de abstração, o que, por vezes, os leva a desligarem -se demasiadamente da realidade, são elementos fundamentais do sistema e da ciência do direito. Sua utilidade está no fato de permitir, não só o conhecimento teórico, indispensável à reflexão crítica, como também a subsunção (V. Capítulo II, nota 13) de todos “os objetos que apresentam as mesmas notas compreendidas no conceito”, com a formulação de regras para tudo o que se compreender no seu âmbito de incidência. É o que se verifica, por exemplo, com os conceitos fundamentais de domicílio (CC, art. 70), de empresário (CC, art. 966), de pessoa, bem, relação jurídica, capacidade, contrato, direito real, direito de crédito etc., que, inseridos no sistema jurídico (na teoria ou na parte geral do Código Civil), permitem estabelecer a disciplina básica que irá reger todos os casos que venham a subsumir -se nas hipóteses conceitualmente estabelecidas, evitando repetições supérfluas16. Distinguem -se, nos conceitos, a compreensão e a extensão. Compreensão é o conjunto de notas ou características que o conceito encerra. Por exemplo, o conceito de cidadão brasileiro compreende as características de homem, de nacionalidade brasileira, e titular de direitos de cidadania. Extensão é o conjunto de objetos ou indivíduos que o conceito abarca. No Código Civil, art. 1º, o conceito de pessoa abrange todos os indivíduos da espécie humana. Os conceitos, cuja compreensão e extensão se apresentam com grande margem de incerteza, denominam -se indeterminados, por exemplo, os conceitos de negócio jurídico, de apreciação livre do Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa juiz (CPC, art. 371), modificação equitativa das condições do contrato, montante excessivamente excessivo da cláusula penal (CC, art. 413), prestação manifestamente desproporcional (CC, art. 517), vida em comum insuportável (CC, art. 1.572), grave violação (CC, art. 1.572), fixação equitativa (CC, art. 953, parágrafo único)17. São também conceitos indeterminados os de negligência, imprudência, interesse, equidade, força maior, bons costumes, bom pai de família, abuso de direito etc.18. Entre os conceitos se estabelecem relações de coordenação e de subordinação. Nestas, submetem -se os conceitos que se põem sob outros mais amplos (os subordinantes). Na subordinação há que distinguir o gênero, da espécie e do indivíduo. Gênero é conceito subordinante que compreende conceitos subordinados. Indica um conjunto de espécies de características comuns. Espécie é conceito subordinado de menor extensão que o gênero. Significa um conjunto de indivíduos, da mesma natureza. Indivíduo é o ente singular que pertence, como unidade, a uma espécie. Estas noções têm utilidade nas classificações jurídicas. Nos bens jurídicos, por exemplo, bem é gênero, móvel é espécie, e livro é indivíduo. Nos contratos, a compra e venda é um ato que se subordina às regras da espécie contrato (CC, art. 488) que, por sua vez, subordina -se às do gênero negócio jurídico. Os gêneros supremos, isto é, os conceitos mais universais, chamam -se categorias, “quadros em que se agrupam,por afinidade, os elementos da vida jurídica”19 e fora dos quais não se reconhece eficácia jurídica. São conceitos universais, por exemplo, os de Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa direito subjetivo, de direito pessoal, de direito real, de dever, de relação jurídica, de sanção, de pessoa etc. Aplicação prática disso está, por exemplo, no fato de que, tendo os direitos do consumidor uma disciplina específica, basta qualificar um direito como tal, para que lhe seja aplicado o respectivo regime. As categorias são noções fundamentais que reúnem elementos constantes e necessários. Por exemplo, o dolo, como categoria jurídica (CC, art. 145), reúne dois elementos, um objetivo, que é o comportamento ilícito do autor, e outro subjetivo, que é a intenção de enganar, de induzir alguém em erro20. É na experiência jurídica de um povo que as categorias jurídicas nascem e se desenvolvem, o que exprime a sua natureza histórica, como produto da elaboração doutrinária da ciência jurídica, e é na Parte Geral dos códigos que se põem em ordem lógica, como resultado do trabalho sistemático- conceitual desenvolvido pelo positivismo-formalista. Categorias básicas do direito civil são, principalmente, a pessoa como sujeito de direito, a relação jurídica, o ato e o negócio jurídico, a sanção, o direito subjetivo, os bens e os direitos reais, o contrato, a responsabilidade civil, a família, a sucessão. Tratadas como conceitos fundamentais, contribuem para a formação do sistema21 como critérios de classificação que permitem pensar e entender os fatos22, e assim, orientadoras do processo interpretativo, pelo que constituem objeto da filosofia e da teoria do direito. São referências básicas a partir das quais se desenvolve o raciocínio do jurista prático na sua atividade de criação jurídica. Em uma delicada etapa de trânsito como a que atravessa hoje a ciência jurídica, Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa particularmente o direito civil, a ótica das categorias e a reflexão sobre como são utilizadas pode constituir-se em significativo ponto de vista para um novo sentido do sistema jurídico. Sistematizando -se tais modelos ou estruturas, chega -se, na matéria civil, à formação do Código Civil, conjunto unitário e logicamente ordenado dos princípios e das regras que disciplinam as relações jurídicas de direito privado. O Código Civil brasileiro é uma lei que disciplina as relações entre os particulares, contendo 2.046 enunciados que se aglutinam em cinco institutos fundamentais: a pessoa ou sujeito de direito, a família, a propriedade, o contrato e a sucessão. Por influência de Teixeira de Freitas, primeiro, e depois do direito alemão, o Código divide -se em uma Parte Geral, que reúne os princípios e regras aplicáveis à generalidade das pessoas, bens e fatos jurídicos, e uma Parte Especial, que compreende o direito de obrigações, o direito de empresa, o direito das coisas, o direito de família e o direito das sucessões. É, assim, o Código Civil um conjunto formado de subconjuntos, ou, se quisermos, um sistema composto de subsistemas, cada qual dedicado a uma das matérias ou dos institutos tradicionais do direito civil. As regras têm lugar próprio nesse sistema. Encontrá -las é determinar -lhe a natureza jurídica, tarefa preliminar da técnica de realização do direito. Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa 4. AS FUNÇÕES DO DIREITO Outra perspectiva de estudo do fenômeno jurídico, de particular interesse para o civilista atento às transformações da ordem jurídica privada, é a das funções que o direito pode ter na sociedade contemporânea, problema teórico da sociologia do direito. Nesta perspectiva, enfatiza -se a dimensão social do direito, que focaliza a relação entre ele e a sociedade, suas recíprocas influências e modificações. Considera -se, aqui, função, a tarefa ou conjunto de tarefas, que o direito desempenha, ou pode desempenhar, na sociedade humana23. Entre as várias funções que se podem atribuir ao direito, destaque -se, pela importância no direito civil, a de resolução de conflitos de natureza privada, quer pelos meios formais de procedimento judicial, quer por meio de mecanismos alternativos e informais, como a mediação e a arbitragem. Dá -se a mediação quando as partes aceitam ou solicitam a intervenção de terceiro neutro, não se obrigando a acatar sua opinião, e a arbitragem quando as partes elegem um árbitro, obrigando -se, previamente, a aceitar a sua decisão24. A mediação é, assim, a atividade técnica exercida por terceiro, o mediador, imparcial e sem poder decisório, que, escolhido ou aceito pelas partes, as auxilia e estimula a identificar ou desenvolver soluções consensuais para a controvérsia25. Configura-se, assim, como um contrato26 que se conclui quando há o resultado previsto e desejado27 isto é, quando se põem efetivamente em relação, duas ou mais pessoas, sem que o mediador se ligue a qualquer uma delas, por laços de colaboração, dependência ou de representação. Seu objeto é o conflito e sua característica marcante é a independência e imparcialidade do mediador, que leva a uma solução proposta, não imposta às partes28. A arbitragem, por sua vez, é um meio privado de resolver um litígio relativo a direitos patrimoniais disponíveis, que os respectivos interessados estabelecem de comum acordo, instituindo um árbitro para decidir a controvérsia, na forma da lei29. A vivência social que interessa ao direito, a chamada experiência jurídica, é uma concreta experiência de conflitos de interesses que o direito é chamado a disciplinar no exercício de uma das suas mais importantes funções, a de resolver tais problemas, visando garantir a realização dos ideais humanos de ordem, justiça e bem comum. Considera -se, assim, experiência jurídica, a concepção do direito como experiência da vida social e histórica, que se conhece e explica a partir da vivência, não de categorias lógicas, formais e abstratas. “Conhecemos o direito porque o experimentamos, porque o utilizamos para garantir nossos bens e realizar nossos fins, umas vezes; porque o sofremos ao ter que adaptar novos atos a seus preceitos, outras; e porque o vivemos sempre.”30 Como se realiza essa função? A vida em sociedade desenvolve - se sob a orientação e a disciplina de regras da mais variada espécie. São regras morais, religiosas, sociais, costumeiras, jurídicas, que constituem, em conjunto, vasto sistema de controle social31. Princípios, regras, ou normas, procuram estabelecer determinada ordem para o comportamento dos indivíduos e dos grupos, fixando critérios de solução para as questões que se apresentam, inevitavelmente, no curso da convivência social. Surgem tais questões ou conflitos quando duas ou mais pessoas revelam pretensões antagônicas sobre o mesmo bem32, disputando a sua posse ou propriedade. A reiteração desses conflitos e a necessidade de sua solução fazem com que se estabeleçam normas definidoras do que é lícito ou ilícito, tipificando os fatos que interessam ao direito e institucionalizando os órgãos e os critérios de decisão respectiva. O conjunto dessas normas, que se dirigem ao comportamento humano e que têm no Estado a garantia de sua existência e eficácia, constitui o direito, o mais institucionalizado sistema de organização e controle social. Um dos seus mais importantes ramos, se não o mais importante, pelo menos o mais antigo, profundo e tradicional, é o direito civil, conjunto de normas que protegem os interesses individuais, de natureza econômica e familiar. O direito surge, assim, ao longo de um processo histórico, dialético e cultural, como uma prática social de solução de conflitos de interesses, donde a sua natureza problemática, e, progressivamente, como um conjunto sistematizado deprincípios e normas, fundamentado e legitimado por determinados valores sociais. É, assim, a expressão de um modo de vida de um povo e de sua cultura. Não se limitam a isso, todavia, as funções do direito na sociedade contemporânea. As mudanças sociais decorrentes da Revolução Industrial e do avanço tecnológico têm exigido do Estado uma intervenção crescente em favor do bem -estar e da justiça social, acentuando -se a importância do direito no planejamento econômico, multiplicando -se as normas jurídicas de programação social e estabelecendo -se novos critérios de distribuição de bens e de serviços. O direito evolui de suas funções tradicionalmente repressivas para outras de natureza organizatória e promocional, estabelecendo novos padrões de conduta e promovendo a cooperação dos indivíduos na realização dos objetivos da sociedade contemporânea, caracterizando o chamado Estado Social. A ordem jurídica não pode ser vista, porém, como um objeto em si, uma estrutura desvinculada da realidade social em que se situa e à qual se destina na sua criação e funcionamento. Dentro do vasto sistema criado pelas relações sociais integram -se, em um processo de interdependência crescente e interativa, vários subsistemas, o jurídico, o político e o econômico, de tal modo que o direito, conjunto de princípios e normas disciplinadoras do comportamento social, passa a ter também, como efeito inexorável das exigências sociais, a função de organizar a economia e a de institucionalizar os modos de criação e exercício dos poderes públicos. Pode considerar -se, portanto, tríplice o papel do direito: resolver os conflitos de interesses, reprimindo e penalizando os comportamentos socialmente perigosos, organizar a produção e uma justa distribuição de bens e serviços, e institucionalizar os poderes do Estado e da administração pública33, tendo sempre em vista, como causa final e superior, a realização da justiça34. Por sua íntima conexão com o sistema político, pode ser também instrumento do poder dominante35 que, complexo e institucionalizado (poderes públicos e privados), estabelece regras de comportamento e de organização social. Tais funções correspondem, se bem que de modo imperfeito, aos setores em que tradicionalmente se divide o direito: à função de institucionalizar o poder e organizar o seu exercício, o direito constitucional, o direito administrativo e, em parte, o processual; à função repressiva, o direito penal e seus ramos específicos; à função organizadora da produção e circulação de bens e serviços, o direito civil e o comercial, tendo como ponto básico de referência a pessoa humana, com sua família, seu patrimônio e sua atividade jurídica. De modo geral, poder -se -ia dizer que todas essas funções giram em torno dos fins básicos do direito contemporâneo, a realização da justiça e o respeito aos direitos humanos. Considerando -se tanto a estrutura quanto as funções do direito civil, pode -se então defini -lo como o conjunto de princípios e normas que disciplinam a atividade e a realização dos interesses da pessoa na sociedade, protegendo os indivíduos nas suas relações pessoais e patrimoniais, assim como sua família, o grupo social básico em que a pessoa nasce e se desenvolve. A dimensão ou perspectiva funcional do direito deve levar em conta, principalmente no que se refere à época moderna (séculos XVIII e XIX), a correlação estreita entre direito e poder, entre direito e Estado. O direito sem poder é vazio. O poder sem direito é cego36. Com o advento do Código Civil de 2002, a funcionalização dos institutos jurídicos passa a ter especial importância, do que é exemplo a função social do contrato (art. 421) e da propriedade (art. 1.287). 5. O FUNDAMENTO DO DIREITO. OS VALORES As normas jurídicas não são proposições neutras, desvinculadas das razões, motivos ou finalidades que lhes justificam a criação. Toda a técnica jurídica, como conjunto de processos de realização do direito, modela -se em um projeto político -filosófico a serviço do qual se coloca37. A finalidade desse projeto é a realização de ideias ou objetivos que a sociedade considera fundamentais e que, por traduzirem uma escolha entre diversas opções, se exprimem por meio de valores, que constituem a ética da comunidade. Fundamento da norma jurídica ou do sistema de direito são, portanto, valores, ideias básicas que se apresentam como qualidades ideais dos bens e que, por isso mesmo, determinam os modos de comportamento individual e social38 “subordinando -os a um sistema de normas cujo cumprimento permite ou destina -se à realização de tais valores”. O direito é, portanto, sob esse aspecto, um instrumento de controle social constituído de preceitos (princípios e normas) que representam a escolha que o legislador faz entre diversos valores, como resposta à necessidade de solução dos conflitos ou de organização social. Justifica -se, portanto, o direito na sua existência e nos seus efeitos, pela realização dos valores que a sociedade estabelece como finalidade básica do ordenamento jurídico e que, por isso mesmo, lhe servem de fundamento. O direito é, assim, uma realidade cultural e histórica que somente se compreende com a referência e o conhecimento dos valores que constituem a sua finalidade e a razão de ser. Como diz Bobbio, o jurista que não ultrapassar o direito positivo é capaz de estabelecer o que é juridicamente válido (problema de validade), mas não é capaz de reconhecer o que vale como direito (problema do valor do direito). A única via para compreender o direito como ideia de justiça é a de abandonar o terreno empírico, ascendendo ao fundamento do direito, os valores39. Os valores jurídicos podem classificar -se, de acordo com o seu grau de relevância, em valores jurídicos fundamentais, valores jurídicos consecutivos e valores jurídicos instrumentais40. Valores jurídicos fundamentais são aqueles de que depende todo o sistema jurídico. Compreendem a pessoa humana, a justiça, a segurança jurídica e o bem comum. Valores jurídicos consecutivos são os que se configuram como efeito imediato da realização dos valores fundamentais. Os mais importantes são a liberdade, a igualdade e a paz social, de especial importância para o direito civil. Valores jurídicos instrumentais são os que se traduzem em meios ou processos de realização dos anteriores. Seu objetivo é possibilitar que se concretizem os valores fundamentais e os consecutivos. Consistem nas chamadas garantias constitucionais e nos procedimentos judiciais à disposição dos cidadãos. Embora os valores sejam matéria de reflexão jurídico -filosófica, interessam ao direito civil como fundamento e justificativa da razão de ser dos principais institutos de direito privado e da prática jurídica diária. 6. A PESSOA COMO VALOR FUNDAMENTAL A pessoa é hoje um valor fonte do direito41, no sentido de que dele é causa eficiente e a ele preexiste. Já assim pensava Hermogeniano ao dispor que “...hominum causa omne ius constitutum sit” (D. I,2,2). Também a Constituição da República a ela se refere, atribuindo -lhe caráter central e natureza de fundamento da ordem jurídica brasileira (CR, art. 1º, III). Sua natureza e dignidade são o fundamento, a causa e medida dos direitos e deveres42. Como categoria jurídica, resulta de longo processo histórico43. Segundo opinião dominante na doutrina, o termo pessoa, do grego prosopom e do latim persona, significava, na antiguidade clássica, a máscara (larva histrionalis) com que os atores participavam dos espetáculos teatrais e religiosos, para tornar mais forte a sua voz44. A palavra passou a ser usada como sinônimo de personagem. E como na vida real os indivíduos desempenham papéis, à semelhança dos atores no palco, o termo passou a significar o ser humano nas suas relações sociais e jurídicas. Desse modo, toda pessoa seria jurídica, no sentido de que tal qualificação, como centro de direitos e deveres, é reconhecida pelo direito45, compreendendo -se, assim, que na história se encontrem indivíduos que não eram considerados pessoas,como os escravos e os mortos civis (os condenados), enquanto no direito moderno há pessoas que não são seres humanos, como as associações, as sociedades, as fundações. Hoje, o termo pessoa é uma categoria jurídica com vários significados, um vulgar, um filosófico e outro jurídico. Na linguagem comum, pessoa é o ser humano. Todo ser humano é pessoa pelo fato de nascer ou até de ser concebido. No plano filosófico, é o ser humano individualizado, concebido como tendo uma existência e uma substância própria, e caracterizado também por sua interioridade (consciência de si), sua racionalidade (faculdade de raciocínio), sua autonomia (vontade livre e faculdade de se darem normas)46 e sua sociabilidade. Pessoa como indivíduo e ser social. Mercê desses atributos, principalmente a sua autonomia, não pode ser considerada um objeto ou instrumento de realização. Na linguagem jurídica, que tem vocabulário próprio, o termo pessoa designa o ser com aptidão para a titularidade de direitos e deveres, atributo que se chama personalidade jurídica. Pessoa é, assim, o ser humano e social, sujeito de direitos e deveres. Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa 7. A JUSTIÇA Valor fundamental é a justiça. Sua conceituação unitária é difícil. Desde os filósofos gregos, passando por Platão, Aristóteles, pelos juristas romanos, pelos mestres do direito natural e pelas modernas teorias jurídicas, uma definição precisa nunca foi possível estabelecer. De qualquer modo, como valor cultural, como standard, é produto histórico e relativo, de acordo com as épocas e os povos que estabelecem. Na cultura grega, a ideia de justiça pressupunha conformidade e igualdade; na cultura hebraico -cristã, obediência à lei de Deus; na cultura romana, uma ordem de paz por meio de contínuo confronto com a ideia de autoridade. Tais aspectos apresentam -se hoje, em conjunto, na problemática da justiça, o que lhe dificulta a definição. Ulpiano dizia que justitia est constans et perpetua voluntas jus suum cuique tribuendi47(a justiça é a vontade constante e perpétua de dar a cada um o que é seu). É uma virtude, uma atitude dos homens no seu relacionamento social. A justiça representa, antes de tudo, uma preocupação com a igualdade, o que pressupõe a correta aplicação das regras de direito, evitando -se o arbítrio, e com a proporcionalidade, isto é, tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, mas na proporção de sua desigualdade e de acordo com seus méritos. A cada um de acordo com suas necessidades e exigindo -se de cada um conforme suas possibilidades. O problema central consiste, todavia, em determinar o “devido”, o justo meio, dando -se a cada um de acordo com seu trabalho e a utilidade social do que produz. A ideia de justiça traduz, enfim, um princípio de distribuição de bens e de ônus, que oferece três perspectivas: a justiça como virtude, realizando -se nas relações intersubjetivas; o seu objeto, o que é devido nessas relações; e a igualdade proporcional, a ideia de equivalência e de proporção. Podem -se visualizar duas espécies de justiça: uma geral, que é a conformidade do comportamento da pessoa com a lei moral, e uma particular, que se manifesta nas relações da pessoa com os demais membros da sociedade. Aristóteles distinguia a justiça particular em três espécies: a comutativa, a distributiva e a legal. A primeira visa a igualdade entre os sujeitos, a equivalência das prestações, o equilíbrio patrimonial entre as partes da relação jurídica. É a justiça dos contratos, da vida particular. A justiça distributiva “consiste em repartir proporcionalmente entre os membros da comunidade as vantagens sociais e os encargos comuns”48. Adota o princípio da proporcionalidade, o que significa dizer: a cada um conforme sua necessidade. A justiça legal (ou geral) é a justiça nas relações dos sujeitos com autoridade, que se traduz na submissão à ordem vigente. A justiça comutativa representa o ideal do cidadão; a distributiva, o ideal do governante; a legal, o ideal do cidadão - pessoa49. A complexidade das relações e do processo de desenvolvimento econômico e social, a exigir um direito eficaz, no sentido de harmonizar os interesses dos indivíduos e dos grupos, fez surgir outra modalidade, a da justiça social. Revelada pela doutrina da Igreja, visa estabelecer uma conexão entre a consciência moral e a consciência social da coletividade, exigindo que a ordem jurídica se mantenha ligada à ordem moral. Defende a luta contra os privilégios e exalta a dignidade humana, no sentido de fazer com que cada um contribua para o desenvolvimento, em todos os seus aspectos, da comunidade. O direito, fundamentado nos valores da justiça social, exerce, assim, uma função corretora do individualismo, equilibrando a atividade e os interesses dos vários setores sociais. A justiça social surge não mais como virtude, mas como tomada de consciência da noção de bem comum, em uma perspectiva do direito como instrumento de controle e de mudança social. No âmbito do direito civil, a justiça é um dos princípios fundamentais que se manifesta, principalmente, nos contratos onerosos, como justiça comutativa, nos contratos gratuitos, como defesa da parte que pratica a liberalidade contra seus próprios excessos, e nos contratos bilaterais, em geral, como proteção da parte economicamente mais fraca50. Procura realizar a equivalência das prestações, segundo a qual cada parte deve receber o equivalente ao que entrega, legitimando -se o poder do credor de exigir do devedor a prestação devida. E, temos ainda, com base no mesmo princípio, as limitações à autonomia da vontade, como medida de proteção à parte contratual mais fraca, que se concretiza, por exemplo, na legislação especial de defesa do consumidor51, da locação dos imóveis urbanos52, e de reforma agrária e política agrícola53. 8. A SEGURANÇA A segurança jurídica significa a paz, a ordem e a estabilidade e consiste na certeza de realização do direito. Os sistemas jurídicos devem permitir que cada pessoa possa prever o resultado de seu comportamento, o que ressalta a importância do aspecto formal das normas jurídicas, a sua forma de expressão. O direito tem, por isso, como um dos seus valores fundamentais, para muitos o primeiro na sua escala, a segurança54, que consiste, precisamente, na certeza da ordem jurídica e na confiança de sua realização, isto é, no conhecimento dos direitos e deveres estabelecidos e na certeza de seu exercício e cumprimento, e ainda na previsibilidade dos efeitos do comportamento pessoal. A segurança jurídica, significando a estabilidade nas relações e a garantia de sua permanência, justifica o formalismo no direito e encontra no positivismo o seu principal fundamento teórico. Apresenta -se tanto como uma segurança de orientação, que se refere ao conhecimento que os destinatários têm das respectivas normas de direito, como também uma segurança de realização, ou confiança na ordem, que é a certeza do exercício dos direitos e do cumprimento dos deveres. Significa, portanto, a possibilidade de cada um compreender o que é e o que não é lícito, podendo, consequentemente, regular seus atos e seu comportamento. Constituir -se -ia, por isso, no mais antigo valor, na premissa de todas as civilizações. O valor da segurança está presente e realiza -se em muitos institutos jurídicos. Quando, por exemplo, o Código de Processo Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Civil, no seu art. 140, dispõe que o juiz não pode deixar de dar sentença, julgando o litígio que lhe é submetido, concretiza o ideal da segurança jurídica, pois todas as pessoas têm direito à prestação jurisdicional, à decisão de uma controvérsia, sem o que a vida social se transformaria em permanente conflito. Também a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro55 dispõe, agora, com os acréscimos da Lei n. 13.655, de 25 de abril de 2018, sobre a “segurança jurídica e eficiência na criaçãoe na aplicação do direito público” que, nas esferas administrativa, controladora e judicial, não se decidirá com base em valores jurídicos abstratos sem que sejam consideradas as consequências práticas da decisão (art. 20). No mesmo sentido, que é a garantia de segurança, a Constituição da República dispõe (artigo 103-A) que o Supremo Tribunal Federal poderá aprovar súmula com efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, tendo por objetivo a validade, a interpretação e a eficácia de normas determinadas, acerca das quais haja controvérsia atual entre órgãos judiciários ou entre esses e a administração pública, que acarrete grave insegurança jurídica e relevante multiplicação de processos sobre questão idêntica. Um dos objetivos da realização do direito é, assim, a exigência de ordem e de segurança. Como outros exemplos de realização do ideal de segurança jurídica temos: (a) as formalidades essenciais dos atos jurídicos. Os mais importantes atos da vida de uma pessoa – casamento, divórcio, adoção, emancipação, testamento, escritura de compra e venda etc. – devem obedecer a formalidades que a lei especificamente estabelece, para que os interessados tenham deles um conhecimento perfeito e melhor possam provar a sua existência; (b) a fixação de prazos para o exercício de direitos, sob pena de extinção, como ocorre com os institutos da prescrição e da decadência; (c) as normas sobre a capacidade e o estado das pessoas, a idade para emancipação e para a maioridade; (d) os sistemas de registros públicos, destinados a garantir a autenticidade, a segurança e a eficácia dos atos jurídicos; (e) a consagração do princípio da não retroatividade da lei e do respeito ao ato jurídico perfeito, ao direito adquirido e à coisa julgada; (f) o instituto da coisa julgada, isto é, a decisão judicial de que não cabe recurso e que, por isso mesmo, é imutável e indiscutível, presumindo -se verdadeira e justa a decisão sobre o mérito da causa, mesmo não o sendo (res judicata pro veritate accipitur). Hoje em dia, nota -se uma perda crescente da importância da segurança jurídica, em prol da realização da justiça e do bem comum. 9. O BEM COMUM O bem comum é o bem da comunidade, é o bem que as pessoas promovem enquanto associadas em uma ação conjunta no seu meio. Compreende o conjunto das condições sociais que permitem o desenvolvimento integral da personalidade humana e o bem -estar material, espiritual e cultural da comunidade, pelo que se constitui em um dos objetivos fundamentais do Estado e do direito56. O bem comum não se pode considerar nem sob uma perspectiva individualista, na qual seria apenas a soma dos bens individuais, nem sob uma coletivista, que subordina os valores da personalidade aos coletivos. Traduz um equilíbrio entre o interesse geral e os interesses privados, assim como a cooperação dos indivíduos para a obtenção dos fins comuns a todos. O bem comum é, portanto, o conjunto de condições necessárias ao bem particular dos membros da comunidade, e é também um valor social que se realiza com a participação de todos na criação das condições necessárias à existência de paz e estabilidade, presidindo o desenvolvimento do direito em geral. Enquanto os indivíduos procuram a realização do seu bem, o fim da sociedade e da ordem social é o bem de todos. Existe, assim, um bem público individual e um bem público coletivo, social, comunitário. É preciso, por isso, um tertius que se relacione diretamente com o bem comum individual e com o coletivo, que podemos chamar de solidariedade, para exprimir a ideia de valor Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa comum, de interesse tanto do grupo quanto dos seus membros. O valor da solidariedade é, assim, um valor de integração, como já previsto na Declaração Universal dos Direitos do Homem (art. 29), justificando as limitações da lei ao exercício dos direitos e ao gozo das liberdades individuais para assegurar o reconhecimento dos direitos e liberdades de outrem e para satisfazer as exigências da moral e da ordem pública. O que se verifica em todos os ordenamentos jurídicos contemporâ neos é a conjugação harmônica do bem comum, ou da solidariedade social, com os valores da liberdade e da igualdade, “centrando -se sobre a pessoa humana, sujeito de direito, sobre a qual encontram seu ponto de reencontro e reajustamento”. A liberdade não é mais possível sem igualdade e sem solidariedade. Por sua vez, a igualdade resulta do valor básico que é o bem comum. No que respeita ao direito civil, realiza -se o bem comum nos preceitos de ordem pública que limitam a autonomia da vontade e impedem os abusos no exercício dos direitos subjetivos, como ocorre, por exemplo, com as limitações no campo da locação, em favor do inquilino, e em matéria de prescrição, de direitos reais (numerus clausus), de direito de família, com a proteção da família em si e de seus membros, e em matéria sucessória, com as normas da sucessão legítima e da sucessão testamentária. Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa 10. A LIBERDADE Um dos valores mais importantes para o direito em geral e para o direito civil em particular é a liberdade. Do ponto de vista filosófico, a liberdade significa possibilidade de opção, manifestando -se como liberdade de fazer, ou livre -arbítrio. É o estado do ser que não sofre constrangimento, que age conforme sua vontade e sua natureza57. Do ponto de vista sociológico, é a ausência de condicionamentos materiais e sociais. A liberdade jurídica é a que reconhece no indivíduo o poder de produzir efeitos no campo do direito. É, portanto, o poder de atuar com eficácia jurídica. Consiste no poder de praticar todos os atos não ordenados, tampouco proibidos em lei, optando entre o exercício e o não exercício de seus direitos subjetivos. A liberdade jurídica compreende, assim, um conjunto de garantias que protegem a pessoa na sua atividade privada e social. A Constituição delimita o campo dessa liberdade, definindo o âmbito material que compete ao Estado e o que compete ao indivíduo como pessoa e como cidadão. O setor que o Estado reconhece como externo ao seu domínio de atuação é o do direito privado, em que o indivíduo pode exercitar sua liberdade de modo subjetivo e de modo objetivo. Esse âmbito de atuação do particular é como uma esfera de imunidade, relativamente isenta da presença estatal. O direito privado surge, assim, como um espaço livre deixado ao particular pelo direito público. A liberdade serviu de fundamento ideológico ao liberalismo, doutrina política, econômica e social, segundo a qual a liberdade deveria presidir a organização do todo social e, no plano do direito, orientar o juízo de todas as coisas58. Confere à pessoa humana o primado em relação à sociedade em que se insere. No aspecto subjetivo, a liberdade manifesta -se, no campo do direito privado, no poder de a pessoa estabelecer, pelo exercício de sua vontade, o nascimento, a modificação e a extinção de suas relações jurídicas. No aspecto objetivo, significa o poder de criar juridicamente essas relações, es tabelecendo -lhes o respectivo conteúdo e disciplina. No aspecto subjetivo, autonomia da vontade, e no aspecto objetivo, como poder jurídico normativo, denomina -se autonomia privada. Instrumento de sua atuação e realização é o negócio jurídico59. A autonomia privada manifesta -se particularmente no campo das relações jurídicas de natureza patrimonial de ordem particular, realizando -se em temas de contrato e de testamento. Manifesta-se muito menos no campo do direito de família e no dos direitos reais, em que, quase não havendo campo para a sua atuação, as normas são cogentes, imperativas. Suas consequências mais evidentes, no campo da normatividade jurídica, são a liberdade contratual, em suas várias espécies, a natureza dispositiva da grande maioria das normas do direito das obrigações, a teoria dos vícios do consentimento (erro, dolo, coação, estado de perigo, lesão), a indiferença quanto aos motivos do contrato,a força obrigatória do contrato e a eficácia jurídica do simples acordo de vontade, que caracteriza o consensualismo em matéria contratual60. Princípio de grande importância no direito privado, a autonomia privada, como expressão de liberdade e como poder jurídico, encontra limitações crescentes na matéria de ordem pública e dos bons costumes (defesa do consumidor, contratos agrários, locação de imóveis urbanos, contratos de trabalho etc.). No campo econômico, a liberdade consubstancia -se no princípio da liberdade de iniciativa, um dos princípios básicos da ordem econômica e social prevista na Constituição brasileira61. É a liberdade dos particulares de atuarem no domínio econômico, organizando os meios de produção e promovendo a aquisição e a circulação de bens e serviços, o que pressupõe outros direitos, como a propriedade e a liberdade de contratar. Outras manifestações do mesmo princípio no âmbito do direito privado são a liberdade de associação, de atuação profissional, as liberdades consubstanciadas nos direitos da personalidade (integridade física, moral e intelectual), a liberdade matrimonial e a liberdade testamentária, e ainda a possibilidade de se estabelecerem meios alternativos de solução de conflitos, como a arbitragem e a mediação. 11. A IGUALDADE A realização da justiça implica igualdade. Dizia Aristóteles que a justiça consiste em tratar de modo igual os iguais e desigualmente os desiguais, proporcionalmente à sua desigualdade. A igualdade configura -se, portanto, como um valor jurídico consecutivo, o que significa dizer que a igualdade está corretamente ligada à realização da justiça, da segurança e do bem comum. A ideia ou valor da igualdade compreende a ideia de igual dignidade de todos, combinada com a desigualdade de suas aptidões e funções. Ora, a questão da desigualdade pressupõe outra, que é a da diversidade de poderes em uma sociedade igualitária, pois as relações de subordinação são relações de poder, como as que existem entre pais e filhos, tutores e tutelados, curadores e curatelados. A igualdade traduz -se não na igualdade formal das pessoas, mas na sua igualdade material em face das oportunidades da vida, pois “uma declaração formal de igualdade resulta ilusória quando os sujeitos legalmente iguais carecem de meios para exercitar os direitos ligados a essa declaração de igualdade”62. Várias contribuições se reúnem, ao longo do processo histórico, para caracterizar o que hoje se identifica como o princípio da igualdade no direito. O cristianismo introduz a noção de pessoa, a “unidade do gênero humano”. A filosofia patrística e a escolástica levam à concepção individualista do Renascimento, que se consagra na Revolução Francesa com a teoria do primado do indivíduo, liberto dos privilégios do feudalismo, proclamando a liberdade, a igualdade e a fraternidade como direitos fundamentais do homem e do cidadão. Com o constitucionalismo liberal firma -se o princípio da igualdade de todos perante a lei (geral e abstrata), que o princípio democrático estende aos direitos políticos da cidadania. E com o Estado social advoga -se a igualdade de “condições efetivas de exercício dos direitos, pois não basta a todos atribuir idênticos direitos quando divergem as situações concretas em que se encontram e que a esse exercício podem constituir obstáculo”63. Desse processo resulta que a igualdade jurídica apresenta -se sob dois aspectos: formal, que é a igualdade de todos perante a lei, e que corresponde à concepção legalista do direito64, e a igualdade material ou substancial, que é a igualdade “imposta como exigência à própria lei”, a igualdade na lei, e que consiste no reconhecimento das desigualdades sociais de modo a justificar a interferência do poder público para proteger os interesses dos mais fracos, ou vulneráveis, como é o caso das crianças e adolescentes, dos idosos, dos consumidores, dos inquilinos, dos trabalhadores, objeto, por isso mesmo, de legislação específica. No princípio da igualdade formal baseia -se a tendência à codificação que se verificou nos séculos XVIII e XIX no continente europeu. “Os cidadãos, para serem iguais entre si, devem sujeitar - se todos à mesma lei, para ser igual para todos, deve formular -se nos termos mais gerais e abstratos.”65 Ao mesmo tempo que o processo de codificação consagrava a estatalidade do direito (o direito como produto do Estado), afirmava também a igualdade de todos na cidadania. Não mais as diversas condições de classe, mas as diversas funções econômicas do indivíduo eram as notas distintivas da legislação que passava a considerar o indivíduo como proprietário (Código Civil), ou como comerciante (Código Comercial), ou como delinquente (Código Penal), ou como parte em juízo (Código de Processo). E, ao contrário do que antes ocorria com a aristocracia, detentora de privilégios, a nova classe ascendente, a burguesia, que acreditava nos princípios do liberalismo econômico, acreditava também no livre jogo das forças do mercado. Ora, uma lei, igual para todos, um Código, ao mesmo tempo que extinguia os privilégios de classe, próprios da aristocracia, permitia também a criação de condições necessárias para a instauração de uma economia de mercado. “A igualdade jurídica aparecia, assim, como a condição necessária para que se constituíssem relações econômicas de mercado.” Mas disso nasceriam depois outras desigualdades, não mais jurídicas, mas econômicas, não mais formais, mas substanciais, nascendo, outrossim, a exigência de um novo princípio de igualdade, o da igualdade substancial. A Constituição da República dispõe no seu art. 5º que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de sexo, raça, trabalho, credo religioso e convicções políticas”, sendo punido o preconceito de raça. Trata -se aqui da igualdade perante a lei, o chamado princípio da isonomia, que se impõe ao legislador, ao Poder Judiciário e à administração pública, e em virtude do qual em matéria de hermenêutica deve preferir -se, sempre, a interpretação que iguale, não a que diferencie66. Expressão direta do valor da igualdade no direito civil é o postulado de que todas as pessoas, significando esta expressão “como todos os seres da espécie humana”, são iguais na sua capacidade jurídica, isto é, na sua aptidão para titulares de direitos e deveres na ordem jurídica civil (CC, art. 1º) como sujeitos ativos ou passivos de relações jurídicas. Também a lei não distingue, em princípio, os estrangeiros dos nacionais, quanto à aquisição e gozo dos direitos civis (CR, art. 5º), embora existam, na própria Constituição e em leis ordinárias, exceções a tal princípio. No corpo do Código Civil encontramos ainda alguns casos de igualdade especial, como a que existe entre credores do mesmo devedor (CC, art. 957), salvo as exceções legais que tomam o nome de privilégios (CC, art. 958), a que existe entre os herdeiros da mesma classe chamada à sucessão, salvo o direito de representação (CC, art. 1.851), entre os cônjuges, quanto aos seus direitos e deveres (CC, art. 1.566), entre os filhos (CC, art. 1.596). Em princípio, a igualdade está presente em todas as relações jurídicas. Inúmeras situações de fato, porém, em que se configura flagrante desequilíbrio entre os poderes das respectivas partes, justificam o surgimento de leis especificamente destinadas a proteger a parte mais fraca, mais vulnerável, como se verifica, por exemplo, em matéria de locação, em que a falta de imóveis disponíveis exigia a intervenção do Estado para proteger os inquilinos contra as pretensões abusivas dos locadores. E também a proteção ao consumidor nos contratos de adesão; do empregado no contrato de trabalho; da companheira no reconhecimento da sociedade de fato mantida com o companheiro; do menor nas suas relações jurídicas de família; no campo das obrigações, a obrigação de contratar imposta a quem celebrar contrato preliminar (CC, art. 463), como a promessa de compra e venda (CPC, art. 639). 12. A TEORIA DO DIREITO CIVIL A teoria do direito civil tem por objeto a própriaciência do direito civil, na sua estrutura, suas regras, seus conceitos fundamentais, suas fontes e seu método de realização prática. O direito civil é o direito comum67. Regula as relações entre os indivíduos nos seus conflitos de interesses e nos problemas de organização de sua vida diária, disciplinando os direitos referentes ao indivíduo e à sua família, e os direitos patrimoniais, pertinentes à atividade econômica, à propriedade dos bens e à responsabilidade civil. Este livro é uma introdução ao direito civil. Como tal, visa a iniciar no estudo da sua doutrina, das suas normas e do seu processo de realização prática, contribuindo para a formação jurídica do aluno por meio dos vários ângulos de apreciação científica, que permitem conhecer o fenômeno jurídico em sua múltipla dimensão, assim como os fatores que influenciam sua gênese e determinam suas modificações. É uma obra de teoria na medida em que trabalha com um conjunto de conceitos, elementos e estruturas comuns aos diferentes setores do direito civil. À semelhança das obras de teoria geral do direito, exposição sistemática do que os ordenamentos jurídicos têm em comum68, reúnem -se aqui os conceitos e os princípios fundamentais do direito civil, de modo descritivo, explicando as noções elementares, e de modo normativo, pela referência que se faz às normas que integram e constituem a chamada Parte Geral do Código Civil, indispensáveis à realização dos institutos da chamada Parte Especial. A Parte Geral do Código Civil reúne princípios, conceitos e regras de caráter pretensamente comum aos diversos ramos da Parte Especial (Direito das Obrigações, Direito de Empresa, Direito das Coisas, Direito de Família e Direito das Sucessões). Fiel ao princípio de que o geral precede o particular e de que o gênero (genus) compreende as espécies (species), a Parte Geral é uma construção científica do direito alemão do século XIX, a chamada Pandectística, tendo por base o direito romano justiniâneo. A Pandectística, ou ciência das Pandectas, é uma construção abstrata, conceitual e sistemática do direito privado alemão, tendo por base o direito romano justiniâneo, feita pelos juristas alemães do século XIX, que possibilitaram, assim, o chamado usus modernum pandectarum por meio de perfeita e completa realização do método sistemático69. Desde a sua criação, a Parte Geral tem sido objeto da crítica doutrinária, pelo fato de seus preceitos ou enunciados não se aplicarem a todas as disposições da Parte Especial, sendo considerada dispensável e até prejudicial70. Sendo este livro uma obra de teoria, leva em conta as orientações metodológicas mais recentes, focalizando o fenômeno jurídico de direito civil sob a perspectiva da norma jurídica, da relação jurídica e da instituição, sem deixar de considerar a perspectiva sistêmica, o direito civil como um todo unitário, harmônico e coerente, subordinado a princípios e valores fundamentais, aberto, porém, aos problemas que a realidade da vida constantemente produz e submete ao direito. No estudo dessa matéria tem sempre em vista a necessidade de uma perspectiva histórica, para considerar o direito como produto de um vasto processo dialético, histórico e cultural, ao longo do qual vem forjando seus princípios, noções e categorias fundamentais, e de uma perspectiva crítica e filosófica, no sentido de manter presente uma atitude de busca e reflexão sobre o fundamento de suas normas, institutos e método de realização, enfrentando os problemas que historicamente se têm posto quanto à origem e evolução desse ramo jurídico. A perspectiva fundamental e orientadora desta introdução ao direito civil é a da relação jurídica, vínculo intersubjetivo que contém direitos e deveres das pessoas entre as quais se desenvolve, tendo por objeto os bens sobre que tal conteúdo se exerce, e que nasce dos fatos, atos ou negócios jurídicos, acontecimentos a que o direito atribui eficácia jurídica, integrada, porém, em uma visão mais ampla, que é a da experiência jurídica brasileira. Depois de um estudo preliminar da teoria da norma jurídica de direito privado e do processo de sua realização, entra -se no estudo propriamente dito da gênese e da evolução do direito civil brasileiro e, em seguida, no dos conjuntos normativos, modelos ou institutos formados em torno dos elementos fundamentais da relação jurídica, isto é, as pessoas, os bens e os fatos jurídicos, pressupostos, respectivamente, de uma teoria da personalidade, de uma teoria do patrimônio e de uma teoria do ato jurídico. A compreensão dessa matéria exige, porém, a consulta permanente ao código e à legislação especial citada. Como advertência de método, sugere -se o estudo paralelo do texto e da lei, enriquecendo -se esta com o texto, e, com este, esclarecendo -se os dispositivos legais, além da pesquisa constante dos repertórios de jurisprudência que demonstram o correspondente processo jurisprudencial. Os artigos do Código Civil correspondentes à matéria exposta citam -se ao longo do texto, entre parênteses; os da legislação especial ou de outros códigos ou diplomas legais, assim como as indicações bibliográficas, citam -se em notas de rodapé. 13. O DIREITO CIVIL NA PERSPECTIVA DA NORMA JURÍDICA O direito civil consubstancia -se no Código Civil e nas leis complementares, encontrando -se, porém, alguns de seus princípios fundamentais na Constituição, referentes à proteção da pessoa, da família e do patrimônio (V. Capítulo II). Seu estudo pode realizar -se, como referido no item anterior, sob as perspectivas do direito como norma jurídica, como relação jurídica e como instituição, correspondentes a diversas concepções ideológicas e metodológicas que tomam o nome às categorias fundamentais da experiência jurídica que os teóricos do direito utilizam no seu trabalho de sistematização científica, categorias essas: a norma, a instituição e a relação jurídica, sob a égide dos valores e dos princípios jurídicos. Surgem, desse modo, as teorias normativa, institucional e relacional, cada uma delas com significado ideológico próprio, expresso na afirmação de certos valores, e tendo como objetivo científico determinado a compreensão e explicação da realidade social e jurídica71 em que o homem vive. A teoria normativa faz da norma jurídica o elemento fundamental e característico da experiência jurídica. Considera que o direito é, essencialmente, um conjunto de normas de comportamento ou de organização impostas ou de observância obrigatória, como demonstra a ementa da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro72, anteriormente designada Lei de Introdução ao Código Civil. Tal posicionamento decorre da constatação de que a vida em sociedade pressupõe a existência de normas de comportamento e de organização, pelo que a experiência jurídica seria predominantemente uma experiência normativa73. Da concepção à morte, submetem -se as pessoas, permanentemente, a todo tipo de normas que lhes determinam o comportamento ou organizam a existência. São normas de educação familiar ou escolar, de prática religiosa, de atividade produtiva ou laboral, enfim, um mundo de normas a dirigir ou a condicionar a nossa existência. A norma de comportamento é, assim, onipresente em nossa vida, e a espécie mais frequente, objeto do nosso interesse, é a norma jurídica, cuja ideia -chave e seu fundamento é o poder de que provém. O direito civil leva em excepcional consideração o estudo do fenômeno jurídico a partir da norma, porque, do ponto de vista histórico, foram as normas de direito privado que, servindo de modelo para os outros ramos do direito, constituíram o direito por excelência, fixando os princípios da propriedade privada, da circulação dos bens, da sucessão por morte e da obrigatoriedade do contrato74. O direito civil, ou privado, tem prioridade histórica em relação aos demais direitos75, o que explica a inserção, nos Códigos e nos manuais de direito civil, de uma parte introdutória contendo normas gerais sobre aplicação das leis em todos os ramos do direito. Distinguem -seas suas normas das demais por sua diferença específica, a saber: os institutos próprios e a matéria que disciplinam, a personalidade, a família, a propriedade, o contrato e a sucessão, que se encontram originalmente no Código Civil e na legislação que lhe é complementar. Pode -se assim dizer que o direito constitui a parte mais destacada da nossa experiência normativa76. Sua função é evitar ou dirimir conflitos de interesses, realizando objetivos considerados fundamentais, como a segurança, individual e social, a justiça, o bem comum. Para a concepção normativista, a norma jurídica é, portanto, a realidade fundamental e onipresente da disciplina legal da existência humana. É ela que dá o caráter de juridicidade aos fatos da vida real, e é a partir dela que se pode estudar o direito na sua estrutura, nas suas funções e no seu fundamento. A crítica que se faz ao normativismo deve -se à consideração da sua possível neutralidade quanto aos problemas sociais, e também à sua inadequação metodológica relativamente à realização do direito, que, segundo ele, se desenvolve por meio do raciocínio lógico -dedutivo. 14. O DIREITO CIVIL NA PERSPECTIVA DA RELAÇÃO JURÍDICA Para a teoria relacional, ou teoria da relação jurídica, o fenômeno jurídico deve apreciar -se do ponto de vista da relação entre pessoas. Não era outro o sentido do art. 1º do Código Civil de 1916 ao dispor: “Este Código regula os direitos e obrigações de ordem privada concernentes às pessoas, aos bens e às suas relações”. No Código atual, o art. 1º dispõe: “Toda pessoa é capaz de direitos e deveres na ordem civil”, o que igualmente pressupõe a relação jurídica, pois os direitos e deveres e, principalmente, as pretensões deles decorrentes, verificam -se no âmbito da relação jurídica. Essa perspectiva é bastante antiga, mas é com Kant que alcança sua maior expressão na filosofia, e com Savigny no campo da técnica jurídica. O filósofo de Köenisberg via na relação entre pessoas, com direitos e deveres, “o momento central da experiência jurídica”, tese posteriormente desenvolvida pela escola histórica alemã, que recusava o primado do legislador, representado pela norma, e via o direito como expressão da vida social e das relações que a constituem77. E sua marca, a intersubjetividade, concretiza -se na reciprocidade de poderes e de deveres. Representa, assim, uma concepção personalista do fenômeno jurídico. Essa teoria baseia -se no princípio da autonomia da vontade, segundo a qual os sujeitos podem criar e modificar relações jurídicas, no exercício de um poder que lhe é reconhecido pelo Estado. Manifestação prática de sua importância está no reconhecimento constitucional dos direitos humanos, dos direitos subjetivos públicos, das garantias individuais, enfim, da proteção que o Estado deve ao cidadão na sua vida social e jurídica e que pressupõe relações criadas pela autonomia dos indivíduos. A relação jurídica apresenta -se, então, como categoria capaz de explicar toda a atividade jurídica do indivíduo. O conceito de relação jurídica é fundamental no direito, podendo -se dizer que é uma categoria básica do direito privado. Representa um nexo jurídico entre pessoas, contendo poderes e deveres. Tem como fundamentos axiológicos a moral kantiana e a doutrina liberal democrática78, e seu principal campo de atuação particular é a experiência jurídica na qual “a vida jurídica se apresenta como conjunto de relações, que a norma estatal fixa de modo típico”, e na qual a autonomia privada estabelece o conteúdo preceptivo. Substancialmente, a relação jurídica está na origem, “mediante a manifestação de vontade ou o encontro consensual das vontades”, da norma que regula o comportamento concreto das partes. Não obstante a relação jurídica seja categoria própria do direito privado, também no direito público tem acolhida, não como decorrente de prévias relações sociais, mas como vínculo que a lei estabelece entre os particulares e o Estado, como decorrência de fatos jurídicos típicos, como, por exemplo, a obrigação de pagar impostos. A concepção tradicional supradescrita evolui hoje para uma nova perspectiva, segundo a qual a relação jurídica, mais do que entre pessoas, estabelece -se entre situações jurídicas subjetivas, representativas de centros de interesses opostos79. 15. O DIREITO CIVIL NA PERSPECTIVA DA INSTITUIÇÃO Perspectiva oposta à tese da estatalidade do direito, para a qual a regra jurídica é comando imposto pelo Estado, é a do pluralismo jurídico, que defende a multiplicidade de ordens jurídicas, ao lado do “direito do Estado”. Este não teria o monopólio da produção jurídica. A seu lado existiriam outros centros jurígenos, de que a instituição seria o melhor exemplo. É a tese de Hauriou e Santi Romano desenvolvida a partir dos trabalhos de Otto von Gierke, segundo o qual “toda comunidade orgânica é capaz de produzir direito”. O direito surge com toda a forma de organização, seja ela o Estado ou uma corporação80. Esses juristas têm como ideia -chave a instituição, grupo social dotado de uma ordem e de uma organização próprias, com o “poder de criar seu próprio direito, naturalmente de caráter derivado e secundário” em relação ao Estado, que é a instituição fundamental. Este não teria o monopólio da produção jurídica, sendo de admitir - se uma pluralidade de fontes e de meios de solução de controvérsias jurídicas. A teoria institucional vê, assim, como elemento fundamental e característico do direito, a instituição, não a norma nem a relação jurídica81. Essa teoria encontra origem na tradição jurídica da Igreja católica, que se constituía em um sistema independente do Estado, e que reconhecia um novo tipo de pessoa jurídica, diverso da fundação e da corporação, tipo esse marcado pela auctoritas superiori, a vontade do fundador, de que são exemplo as ordens monásticas. A nova espécie era a institutio, ou instituição, conjunto de elementos materiais destinados à realização de uma vontade externa e superior, sob a forma de uma entidade ou corpo social. Com Otto von Gierke, por efeito de suas pesquisas sobre as comunidades e corporações medievais, essa teoria adquire nova substância, desenvolvendo -se a concepção pluralística e societária dos ordenamentos jurídicos. De acordo com esse entendimento, o direito pode ser produzido pelo Estado, assim como pelas demais comunidades que formam a sociedade. Existe entre o direito e as comunidades (entre as quais o Estado) um vínculo de interação pelo qual se determinam reciprocamente. Com a doutrina da instituição defende -se a pluralidade dos ordenamentos jurídicos, chegando Cesarini -Sforza a advogar a tese do “direito dos particulares”, que é a esfera de liberdade de atuação das pessoas, o campo de atuação da chamada autonomia privada. O “direito dos particulares é aquele que eles mesmos criam para regular determinadas relações de interesse coletivo na falta ou insuficiência da lei estatal”82. Não é sinônimo de direito privado, é direito que não emana do Estado, nem mediata nem imediatamente. A superioridade do Estado deve consistir não na negação de outras possíveis fontes de direito, mas no fato de ele ser o ente que aplica a maior parte do direito, garantindo a sanção. E o problema da autonomia privada é, por isso mesmo, não um problema de existência ou de validade, mas sim um problema de limites. Aplicações concretas da teoria da instituição no direito civil são os casos de personalização ou personificação jurídica, do que resultam as associações, sociedades, fundações, conjunto de pessoas e de bens que se organizam sob determinada ordem para realizar determinados fins, ou, ainda, a ordenação lógica de normas jurídicas em torno de determinada relação, para discipliná -la na sua origem, validade e eficácia, como ocorre com o casamento, a propriedade, o título de crédito, as garantias creditícias etc., quando então se costuma denominar instituto. Distingue -se, doutrinariamente, instituição de instituto. A primeira tem acepção mais ampla, no sentido de uma organização,um corpo social, exemplo, a família, o Estado. O segundo significa um resultado, um conjunto de elementos pessoais e materiais organizado segundo regras específicas, visando determinado fim, geralmente especificado no seu próprio nome, exemplo, o INSS, e também um conjunto de princípios e normas que disciplinam determinada relação, exemplo, o casamento, a propriedade, o contrato83. O que caracteriza, portanto, o instituto, é o fato de ele se constituir em um conjunto unitário de normas com a função de disciplinar relações jurídicas típicas. Já o termo instituição tem o significado mais amplo de organização social, consistindo não só em uma estrutura jurídica, como também em uma realidade econômica, ética, profissional. Neste caso, são instituições fundamentais do direito privado a personalidade, a família, a propriedade, a empresa. No direito público, temos as mais importantes: o Estado, as autarquias, as fundações públicas. No ensino do direito utiliza -se também a palavra “instituições” para indicar “uma breve, sucinta exposição não aprofundada de matérias jurídicas”, como ocorre com os “manuais”, as “noções”, os “comentários”, as “introduções”84. 16. APRECIAÇÃO CRÍTICA Cada uma dessas teorias, embora com a pretensão de explicar o fenômeno jurídico do seu ângulo de apreciação, não exclui as demais, todas se completam. A teoria normativa tem como ideia -chave o poder jurígeno do Estado e como categoria fundamental a norma de direito. A teoria relacional baseia -se na autonomia individual, tendo na relação jurídica a sua principal categoria, que nasce da experiência jurídica privada. A teoria institucional baseia -se na ordem social organizada e tem como categoria básica a instituição. Nasce no terreno publicístico, embora também tenha sido utilizada no âmbito privado, como atestam as concepções de Cesarini -Sforza (Il diritto dei privati) e de Santi Romano (Lo stato moderno e la sua crisi) sobre o direito dos particulares. Exame superficial demonstra, todavia, que a dimensão normativa é comum a todas as teorias. A existência da instituição pressupõe a da norma, pois, sem esta, a matéria social a institucionalizar -se não se ordena e não se organiza. E para que se configure a relação jurídica, necessária é a incidência da norma sobre a relação social específica, pois a relação jurídica distingue -se de quaisquer outras espécies de relação, exatamente por ser regulada por uma norma jurídica. Podemos assim dizer que as três teorias, correspondentes a três diversos modos de enfocar o fenômeno jurídico, não se excluem, antes se integram e se completam, cada uma delas pondo em evidência um aspecto da experiência jurídica: a da relação, o aspecto da intersubjetividade; a da instituição, a da organização social; e a da norma, o aspecto da regularidade ou juridicidade. A autonomia individual faz nascerem as relações entre sujeitos, que se organizam em grupos e em sociedades mediante o uso de regras de comportamento e de organização. “Enquanto a intersubjetividade e a organização são condições necessárias, o aspecto normativo é condição necessária e suficiente.”85 Deve -se, portanto, recusar o predomínio de qualquer concepção monista, unilateral, que reduza experiência jurídica a fenômeno de uma só justificação. O direito não é só relação jurídica, nem só instituição, nem só norma, mas as três, cada uma a seu modo e com sua importância, conforme se enfatize a liberdade que está na base da teoria relacional e da institucional, ou o poder, a autoridade sobre que se fundamente a normativa. Conforme os momentos da evolução jurídica dos povos, ora se enfatiza a liberdade, ora a autoridade86. Qualquer que seja, todavia, o ângulo de apreciação da experiência jurídica, não se pode negar a importância da norma de direito no sentido de ser o meio da realização dos princípios cardiais da convivência social, os valores. São estes os objetivos finais do direito. Surgem, assim, o Estado e a ordem jurídica como instrumentos de realização dos valores fundamentais da sociedade, o que significa dizer meio de realização dos fins sociais e individuais. 17. O DIREITO COMO SISTEMA. O SISTEMA DE DIREITO CIVIL Não obstante a reserva atual à ideia de sistema, é frequente encontrar -se nas obras de teoria do direito, particularmente nas de cunho sociológico, a consideração da sociedade como “um conjunto unitário e integrado por elementos em relação”, e do direito como um subsistema social, relacionado com os demais subsistemas, o econômico, o político, o cultural, o que facilitaria a compreensão da crise do direito. Essa crise tem como principal sintoma a inflação legislativa que marcou o direito do pós -guerra, gerando insegurança nas relações jurídicas, a desarmonia entre a teoria e a prática, entre o direito e a justiça, e a redução do campo do direito pelo desenvolvimento das demais ciências sociais, chegando -se a ponto de se reconhecer a existência de um domínio do “não direito”87. Tudo isso contribui para a crítica ao direito como ciência, acentuando -se o seu estado atual de anormalidade e afirmando -se, até, o seu declínio88. As críticas que se fazem, demonstrando o descompasso entre o discurso teórico e a prática judicial e administrativa, ou entre a ideologia jurídica, isto é, a justificação das regras jurídicas, e os verdadeiros valores econômicos que elas exprimem, demonstram a necessidade de uma nova direção no estudo do fenômeno jurídico, superando as tradicionais concepções já referidas, por unilaterais. O endereço metodológico que logo se impôs e desenvolveu foi o da análise sistêmica do direito, tentando -se compreender a experiência jurídica por meio de uma perspectiva global que, levando em conta as normas, relações e instituições, a relacionasse com o meio de que provém e permitisse superar a “contestação recíproca do direito e da sociedade”. A análise sistêmica, mais propriamente análise sociológica dos sistemas jurídicos, é um processo que tem como objetivo estudar o direito em sua totalidade e complexidade, para melhor compreender os seus problemas estruturais e o seu funcionamento interno, desenvolvendo -se, por isso, a partir de uma concepção sistêmica, interdisciplinar, pluralista e construtivista. Sistêmica no sentido de considerar o direito como um conjunto unitário e organizado de elementos (princípios, normas, conceitos, valores, doutrina e jurisprudência), coerentes e solidários entre si, o que permite estudá -lo na sua totalidade, nos seus problemas estruturais, no seu funcionamento interno e na sua conexão com outros sistemas da sociedade. Interdisciplinar, como articulação do direito com outras ciências sociais (sociologia, antropologia, psicologia social, criminologia, economia, política...), no desenvolvimento de um projeto comum que é o “estudo e investigação empírica das relações entre o direito e a sociedade”. Pluralista, no reconhecer várias fontes de produção jurídica e vários meios de solução de conflitos, contestando a opinião tradicional que identifica o jurídico com o direito estatal. Construtivista, no sentido de ver o direito não como um conjunto de regras preestabelecidas, nem como objeto do conhecimento dado de antemão, que se observa e descreve, mas como um processo in fieri, de elaboração contínua e realização permanente, que não separa o ser do dever ser, nem o sujeito cognoscente do objeto de conhecimento, como é próprio da lógica positivista89. Essas perspectivas favorecem também o desenvolvimento de uma visão crítica do direito, no sentido antidogmático do termo, permitindo compreender “o jogo concreto dos mecanismos jurídicos” no interior dos sistemas, e a sua relação com as exigências sociais. A consideração do sistema, se não é nova, não tem sido objeto de grande atenção por parte dos civilistas, o que justifica a conveniência de sua abordagem num livro de teoria do direito civil. Impõe -se, preliminarmente, precisar o significado do termo sistema, dada a variedade de sentidos que pode oferecer em filosofia, em lógica e na própria ciência dodireito90. Antes de mais, diga -se que a ideia de sistema e o ideal de sistematização caracterizam o direito ocidental moderno e representam um paradigma científico91. “A noção de sistema é uma pilastra da sabedoria ocidental. É uma chave de leitura para passar em revista a evolução da inteira ciência jurídica.”92 Sistema é um conjunto unitário e coerente de elementos harmonicamente conjugados, com relações de subordinação e coordenação entre si. Poderia também definir -se como “um conjunto único e ordenado, cujos componentes são coerentes e solidários entre si”93. Sistema não é sinônimo de ordenamento, embora alguns juristas defendam a sinonímia94. Uma visão histórica oferece alguns exemplos dessa concepção unitária do fenômeno jurídico. Os romanos, desde o último século da República, já relacionavam entre si as construções jurídicas que faziam, estabelecendo uma relação (de dedução) lógica entre os princípios gerais e as soluções que davam aos casos concretos que se lhes submetiam a exame e julgamento. Fala -se, assim, em sistema muciano, de Quinto Mucio Scaevola, em sistema sabiniano, de Mazurio Sabino95, encontrando -se a primeira visão de sistema “inspirada em princípios sociológicos e acomodada às exigências didáticas, nas Instituições de Gaio, com sua distribuição em personae, res e actiones”. Os juristas medievais já se teriam preocupado com a sistematicidade do fenômeno jurídico, como se pode ver na obra dos comentadores, embora apenas no seu aspecto extrínseco, isto é, como processo de exposição do material jurídico. Noutra perspectiva, a do direito como sistema intrínseco, no sentido de um todo unitário, formado por um conjunto de preposições jurídicas conexas entre si, dotado de finalidade específica, é a obra de Ihering, que afirma não se poder compreender o direito sem conhecer a sua conexão sistemática96. O sistema caracteriza -se pela unidade, plenitude e coerência de suas normas, e pela dedutibilidade, subordinação e coordenação de seus elementos. Unidade no sentido de um conjunto ordenado segundo um ponto de vista unitário que, para Kelsen, seria uma norma básica. Plenitude, ou completude, no sentido de ser completo, de ter normas para quaisquer casos. Como a falta de norma adequada constitui uma lacuna, plenitude significa ausência de lacunas. A plenitude é ideal inatingível, pelo que os sistemas jurídicos possuem meios de preenchimento de suas lacunas, denominados de integração. Coerência como inexistência de incompatibilidade entre suas normas. A existência de normas incompatíveis ou em conflito denomina -se antinomia (do grego antí, contra, e nomos, norma). Dedutibilidade pelo raciocínio que estabelece a partir das causas para os efeitos. Subordinação, pela dependência a um princípio superior, e coordenação, no sentido de disposição segundo certa ordem. Consequência direta da concepção do direito como sistema é o processo de integração da norma jurídica e a possibilidade de sua aplicação por analogia. O sistema pode considerar -se no seu aspecto interno, quando tem por objeto as relações entre os seus elementos estruturais. Corresponde ao direito objetivo. E no seu aspecto externo, quando aceita sua interação com outros sistemas da vida social97. A ideia do direito como sistema representa, assim, a mais importante contribuição do jusracionalismo ao direito privado europeu, a que se seguiu o advento das construções conceituais, da utilização dos conceitos, que eram princípios jusnaturalistas transformados em princípios de caráter técnico -jurídico e do que a jurisprudência dos conceitos, do século XIX, é a maior herdeira. Há, porém, que se considerar a distinção entre sistema fechado e sistema aberto. Sistema fechado é aquele em que o direito se solidifica num corpo sistemático de regras, com pretensão de completude, excluindo -se a contribuição do jurista das fontes formais do direito. Implica um número limitado de critérios para uma solução justa98. Sistema aberto é aquele em que a maior parte das regras está em permanente transformação, atribuindo -se ao jurista a tarefa de colaborar com o legislador e com o juiz na obra de criação do direito99. O direito como sistema fechado, axiomático ou dedutivo foi a grande contribuição do jusracionalismo que, libertando “a ciência jurídica privatística de sua submissão às fontes romanas e às antigas autoridades, abre caminho, com sua visão de conjunto, para a construção sistemática e autônoma”100. Hoje, a concepção dominante nos meios doutrinários é a da conveniência do sistema aberto, aplicável, em parte, ao Código Civil brasileiro. Os Códigos são, assim, a representação mais tangível da sistematicidade do direito101. Considerar -se o direito sob o prisma de sistema oferece vantagens. Facilita o seu conhecimento e a sua realização, pela coerência dos conceitos e das regras jurídicas; permite superar a tradicional distinção entre o aspecto morfológico das coisas e sua própria dinâmica; e permite uma análise interdisciplinar do fenômeno social, considerando as relações existentes entre os diversos sistemas sociais – o político, o econômico, o jurídico, o cultural etc. – e confere ainda certa segurança pela previsibilidade dos efeitos jurídicos decorrentes das hipóteses de fato contidas nas disposições normativas, nos artigos de lei. E, ainda, a validade da norma jurídica significa a pertinência da norma a determinado sistema. Concluindo, devemos dizer que, para a concepção sistêmica do direito, o fenômeno jurídico não se deve estudar apenas como norma, relação ou instituição, aspectos que lhe são fundamentais, mas cujo estudo unilateral apenas lhe fragmenta o entendimento. Deve apreciar -se o direito com uma visão global e compreensiva da totalidade que se forma com as normas, as relações, as instituições, integradas em um conjunto unitário, coerente e dinâmico, que se processa sob a égide de valores e princípios fundamentais. O sistema jurídico, embora apresentando características de unidade, plenitude e coerência, não pode ser considerado, todavia, produto de puras conexões lógicas, deduzidas de princípios fundamentais harmonicamente dispostos, de modo estático e fechado. Deve ser concebido como uma totalidade social e dinâmica, suficientemente aberta para acolher os novos problemas, sem prejuízo da sua ordenação sistemática102. A ideia de sistema é, assim, objeto de crítica e de contestação, havendo filósofos até que a consideram “inteiramente superada” e, no campo do direito, contestada103. Para a corrente culturalista, que vê o saber, filosófico e jurídico, gravitando em torno de problemas e não de sistemas, o pensamento sistemático, particularmente o do sistema fechado, axiomático -dedutivo, estaria sendo superado pelo pensamento problemático, para o qual o direito é uma ética na solução de problemas. Elementos de um sistema jurídico são os valores, os princípios, as normas, os institutos, os conceitos, as categorias doutrinárias e a jurisprudência. Para Friedmamn104, são as estruturas e as normas jurídicas, em permanente interação. 18. O MÉTODO ADOTADO A partir de uma concepção axiológica do direito, que considera o direito civil como uma prática social, orientada por valores, princípios e regras, e não apenas por estas, e considerando a pessoa como o valor fundamental da ordem jurídica, o método desta exposição tem como ponto de partida a relação jurídica concreta que se estabelece entre pessoas titulares de direitos e deveres na ordem privada. Quanto ao método adotado na exposição da matéria, segue -se, portanto, neste livro, a perspectiva da relação jurídica, que se analisa dos pontos de vista estrutural, funcional, axiológico e histórico. Na sua estrutura, estudam -se os seus elementos, a saber: os sujeitos, o vínculo ou conteúdo, e o objeto. Na sua função, considera -se o papel que a relação jurídica, como categoria chave que abre as portas para conhecimento adequado do direito105, pode desempenhar na teoria do direito civil (V. Capítulo V). Do ponto de vista axiológico, desenvolve -sea partir da consideração da pessoa como valor fundamental da ordem jurídica. Do ponto de vista histórico, revela -se a relação jurídica como um conceito moderno na ciência do direito, introduzido por Savigny sob a influência do pensamento kantiano (V. Capítulo V, item 2). Também a sua causa, os fatos jurídicos. Corresponde essa matéria à Parte Geral do Código Civil, exemplificando -se com a incidência dos seus princípios, quando cabível, nos diversos ramos da Parte Especial (o direito das obrigações, os direitos reais, o direito da família e o direito das sucessões). A perspectiva adotada é, portanto, a de pensar o direito civil como uma experiência global sistematizada, pela coerência lógica de princípios e normas, agrupados em institutos e estes em ramos codificados, formando um todo unitário, porém dinâmico e aberto aos desafios da sociedade contemporânea, e em permanente interação com os demais sistemas, o político, o econômico e o social. Tudo isso a partir de uma concepção axiológica que considera o direito civil uma prática social orientada por valores, princípios e normas, sendo a pessoa o elemento central dessa experiência jurídica. 19. O FUNDAMENTO E A JUSTIFICAÇÃO DO DIREITO. JUSNATURALISMO E POSITIVISMO JURÍDICO Tema de relevante interesse para o jurista é o do fundamento e justificação do direito, isto é, a sua fonte primeira e razão de ser da sua obrigatoriedade. A esse respeito confrontam -se duas concepções filosóficas: o jusnaturalismo e o positivismo jurídico, cujo conhecimento é útil para a compreensão do fenômeno jurídico, na sua gênese, estrutura e realização. Seu ponto de partida é a distinção histórica entre o direito natural e o direito positivo. O direito natural é o conjunto de princípios essenciais e permanentes atribuídos à Natureza (na antiguidade greco -romana), a Deus (na Idade Média), ou à razão humana (na época moderna), que serviriam de fundamento e legitimação ao direito positivo, o direito criado por uma vontade humana106. Reconhece a existência desses dois direitos e defende a sua superioridade quanto ao positivo. Na época moderna, o direito natural desenvolve -se sob o nome de jusnaturalismo (Grotius e Pufendorf), sendo visto como “expressão de princípios superiores ligados à natureza racional e social do homem”107, dos quais se pode deduzir um sistema de regras jurídicas. No século XVIII, por influência do Iluminismo108, torna -se a expressão do racionalismo no direito, denominando -se, por isso mesmo, jusracionalismo109. A questão principal que o direito natural suscita é a da sua possível superioridade em relação ao direito positivo, que o deve respeitar, sob pena da desobediência dos cidadãos. Sua função seria legitimar o poder do legislador, a ele se recorrendo, também, no processo de determinação das normas. Contrapondo -se ao jusnaturalismo, o positivismo jurídico afirma não existir outro direito que não seja o positivo. Defende, portanto, a sua exclusividade. O positivismo jurídico nasceu da intenção de converter -se o direito em autêntica ciência, com as mesmas características das ciências da natureza: permanência, certeza, universalidade. Isso implicou a questão central do método, resolvida com a adoção do modelo lógico -dedutivo, herdado do jusracionalismo, e do modelo empírico das ciências sociais, como a sociologia110. O positivismo jurídico oferece, historicamente, três perspectivas de compreensão e conhecimento: como aproximação ao estudo do direito, como teoria do direito e como ideologia111. Distinguindo, quanto à primeira, o direito real do direito ideal, o direito como fato do direito como valor, o direito que é do direito que deveria ser (devendo o jurista, na concepção positivista, preocupar -se apenas com o primeiro), o positivismo defende uma ciência positiva do direito à semelhança das ciências naturais, tendo como objeto o próprio direito positivo. Como teoria, o positivismo jurídico vê o direito como um conjunto de ordens ou comandos, produto da vontade humana ou da autoridade (auctoritas non veritas facit ius) garantidos pelo Estado e providos de sanção. Desse vínculo com o Estado (concepção estatal do direito) decorreriam algumas características: (a) a imperatividade das normas jurídicas (concepção imperativa), no sentido de estabelecerem ordens, comandos, o que permitia não só distinguir a criação da aplicação do direito, assim como separar os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, cada um com sua função específica; (b) a coercitividade do direito, pela possibilidade de recurso à coação física. Essas ordens ou comandos seriam providas de sanção, o que garantia a sua aplicação; (c) a supremacia da lei sobre as outras fontes do direito (costume, jurisprudência, princípios gerais); (d) a consideração do direito como um sistema de normas, fechado, completo (ausência de lacunas) e coerente (ausência de antinomias, contradições ou incompatibilidades entre normas); (e) a consideração da atividade do juiz como essencialmente lógica, deduzida a sentença de regras anteriormente criadas pela autoridade soberana, sem referência a fins sociais ou regras morais112, e a ciência jurídica como uma dogmática113 ou uma exegese114. Como ideologia, o positivismo jurídico considera que o direito em vigor é justo e deve ser obedecido115, prescindindo -se de qualquer consideração sobre sua correspondência com o direito ideal. O positivismo jurídico, muito desenvolvido nos séculos XIX e XX, apresenta hoje limitações e insuficiências que atestam a sua crise, embora seja ainda a doutrina dominante. Essa crise refletiria a “quebra do modelo de ciência que o sustentava”, com a perda da certeza e da universalidade do direito. Além da permanência da corrente jusracionalista, como direito superior e como critério de valoração do direito positivo, o positivismo enfrenta ainda os desafios do realismo jurídico – outra corrente filosófico -jurídica que defende a existência de “um direito nascido espontaneamente da sociedade, pela atividade de seus membros”, do que decorreria a “revalorização do papel do juiz e a crescente admissão de sua função criadora do direito”116. Outro fator de enfraquecimento ou superação do positivismo seria a importância crescente dos princípios jurídicos. Segundo Dworkin, o ordenamento compõe -se não só de normas, como defende o positivismo, mas também de princípios e diretrizes, valores de natureza moral ou prática que orientam comportamentos e a própria realização do direito117. Este jurista considera o modelo positivista estritamente normativo e também falsa a tese da separação entre direito e moral, pois a prática demonstra ser o raciocínio jurídico dependente, em muitos casos, do raciocínio moral. Também se afirma ser o positivismo insuficiente e perigoso. Insuficiente porque identifica o direito com a lei do Estado, o que justifica a sua coatividade, mas não explica o conteúdo da norma jurídica. Além disso, ver todo o direito nas regras postas pelo Estado leva ao método estreito da exegese, que se caracteriza, precisamente, pelo culto da lei, pela identificação desta com o direito e pela interpretação como processo de pesquisa da vontade do legislador118. O positivismo seria também perigoso porque, em nome do Estado, podem justificar -se as leis mais desumanas119. Em uma síntese conclusiva e diferenciadora das duas correntes doutrinárias, poder -se -ia dizer que: (a) quanto ao conceito de direito, o jusnaturalismo é dualista, admitindo a existência e o primado do direito natural sobre o positivo, pelo que este, para existir e ser válido, deve ser justo, sob pena de poder ser desobedecido; o jusnaturalismo defende, consequentemente, uma concepção valorativa, ontológica e ética do direito, enquanto o positivismo tem deste uma concepção avalorativa, empírica e técnica; (b) quanto às fontes do direito, o jusnaturalismo defende o recurso a fontes suprapositivas, como os princípios, o costume, a equidade, enquanto o positivismo limita as fontes ao direito positivo; (c) quanto ao método, o jusnaturalismodefende um critério teleológico e prudencial na realização do direito, visando ao justo concreto, isto é, a decisão justa do caso específico, enquanto o positivismo segue a orientação empirista, considerando o juiz mero aplicador das normas ao caso concreto, segundo procedimentos lógico -dedutivos de subsunção120. São manifestações da influência do jusracionalismo no direito moderno o processo de racionalização e sistematização do direito, de que resultaram os códigos e as constituições dos séculos XVIII e XIX, e, ainda, a preocupação com a justiça e a igualdade material, o reconhecimento de princípios suprapositivos, o conceito e a defesa dos direitos fundamentais, o desenvolvimento da responsabilidade civil, a fundamentação de um direito geral da personalidade, a elaboração de categorias de natureza técnico -jurídica, como a de sujeito de direito, de declaração de vontade, de negócio jurídico etc.121. O positivismo jurídico, por sua vez, influiu na concepção normativa do direito, na separação radical entre o ser e o dever ser, isto é, entre o direito e a moral; na compreensão do direito como o ordenamento jurídico de um Estado, recusando a existência do direito natural como legitimador desse ordenamento; na consideração da validade e eficácia das normas jurídicas, independentemente do seu conteúdo etc. Do positivismo decorre ainda o raciocínio lógico dedutivo na aplicação do direito, deduzindo -se as normas jurídicas dos conceitos e dos princípios da ciência jurídica, sem recurso a valores extrajurídicos, considerando - se que a aplicação do direito leva, necessariamente, a uma decisão justa122. A norma seria justa só pelo fato de ser válida123. Além disso, considerando o direito um sistema fechado e pleno, nega a existência de lacunas do sistema. É o dogma da plenitude da ordem jurídica, hoje superado. Decorre ainda da concepção positivista a formação técnica do jurista, vinculado à teoria científica, que leva a um ensino sistemático -conceitual, independente e anterior à formação prática do estudante. Ambas as concepções, jusnaturalismo e positivismo jurídico, são hoje objeto de profunda revisão crítica, que apontam para a sua superação. São teorias de ontem124. Têm em comum a concepção objetivista do direito, isto é, a crença de que este é um conjunto de enunciados normativos, externo e preexistente, que a ciência jurídica pode objetivamente conhecer e descrever125. 20. A METODOLOGIA DA REALIZAÇÃO DO DIREITO. A DECISÃO JUSTA DO CASO CONCRETO Método, do latim, methodus, e do grego meta + odos, significa o modo e o caminho que se segue para atingir determinada coisa. No campo da pesquisa científica, é um “procedimento de investigação ordenado, que garante a obtenção de resultados válidos”. Methodicus é adjetivo latino indicativo do que procede com método. Metodologia é não só o “conjunto de procedimentos metódicos de uma ciência”, mas também a “análise filosófica de tais procedimentos”126. No campo do direito, a metodologia estuda as diversas atividades de: 1) elaboração de regras e textos jurídicos (metodologia da arte de legislar); 2) construção científica do direito, que compreende a elaboração de princípios, conceitos e sistemas (metodologia da ciência do direito); e 3) realização do direito, determinando o que é justo em cada caso concreto. Entende -se a realização do direito como a decisão judicial concreta, distinguindo -se da aplicação, mero procedimento de conexão silogística dos fatos com as regras jurídicas. A metodologia da realização ou determinação do direito estudaria, portanto, os procedimentos com que se decidem os casos jurídicos, questões jurídicas concretas127, determinando -se o que é justo. Leva -se aqui prioritariamente em conta que o pensamento jurídico é um pensamento prático, seu objetivo é a decisão concreta, cabendo à teoria do direito civil a tarefa, também prática, de propor diretivas ou modelos jurídicos que proporcionem e justifiquem a resolução correta de problemas128. O problema metodológico da realização do direito assume, portanto, dimensão relevante no pensamento jurídico, porque este pensamento está em crise, superado que foi o modelo sistemático, conceitual e positivista da época moderna (século XIX), ainda hoje dominante. Disso decorre uma necessária reflexão sobre os procedimentos adequados à determinação do direito, que, partindo da fundamental diferença entre a aplicação e a realização do direito, como defende a teoria tradicional, proceda a uma renovação metodológica que estabeleça novos procedimentos para a realização do direito. Nas últimas décadas a teoria jurídica, principalmente de origem alemã, defende a renovação da metodologia jurídica moderna129, visando superar os limites do jusnaturalismo e do positivismo, ambos referentes a um direito que nos é previamente dado, formado e cristalizado em normas, e cuja aplicação se mostra insatisfatória em face da crescente complexidade das relações sociais. Essa revisão metodológica começou com o livro de Theodor Viehweg, em 1953, Tópica e jurisprudência, com o qual o autor demonstra ser a ciência do direito marcada por um estilo de pensamento, o pensamento problemático, “uma técnica de raciocínio que se orienta a partir de e em direção a problemas”, o que exigiria um método jurídico diverso do até então usado pelo positivismo jurídico, adequado a outro tipo de pensamento, o pensamento sistemático. O então chamado pensamento tópico levou à compreensão de que o instrumento decisivo do método jurídico não é a subsunção (V. Capítulo II, nota 13) mas sim a retórica e o argumento. A par disso, o direito natural, como referência legitimadora do direito positivo, teria sido substituído pelos valores e princípios das Constituições, sendo notória a importância do texto constitucional para a garantia de direitos fundamentais de natureza privada. Isso teria levado à abertura da ciência jurídica a outras ciências do espírito, como a hermenêutica130, a teoria da linguagem131 e a teoria sociológica dos sistemas132. Dessas contribuições surge uma ciência jurídica marcada pelo pluralismo temático e metodológico, ciência jurídica simultaneamente hermenêutica e analítico -sistemática133. Hermenêutica no sentido de buscar a compreensão do mundo histórico -cultural em que se desenvolve o direito, compreensão que só é possível por meio da comunicação e, por isso, uma teoria compreensiva é o mesmo que uma teoria comunicativa134. O objetivo da hermenêutica jurídica é demonstrar que a investigação do direito não é uma subsunção, de acordo com regras lógico - formais fixadas em lei, mas sim um processo criativo, construtivo e concretizador da norma adequada ao caso, que parte da compreensão de que a lei não é unívoca e completa, que sua realização não é mera reprodução mecânica. Para a moderna hermenêutica jurídica, “as normas positivas são estruturas linguísticas abertas, cujo significado não se deixa colher completamente senão em relação ao caso a decidir, e, portanto, por meio de um processo de transformação da norma em regra concreta de decisão”135. A compreensão da norma está condicionada à específica relação com a situação de fato a que a norma se destina. Além disso, reconhece -se o papel criador da interpretação jurídica e considera -se o pensamento jurídico como um “pensamento orientado ao problema”. A par da hermenêutica, e como contribuição do pensamento anglo -saxão, desenvolve -se a teoria analítica que se debruça sobre a linguagem do direito para investigar sua estrutura formal. Essas duas correntes doutrinárias – hermenêutica e analítica – que sempre se opuseram, hoje se aproximam em produtiva colaboração. O objetivo da analítica é “produzir enunciados evidentes sobre o direito, por meio de análises lógico -linguísticas, com estrita separação entre moral e direito”136. A lógica analítica, que trabalha com a ideia de sistema axiomático, fechado, ideia comum ao jusracionalismo e ao positivismo jurídico, é contrabalançada pela jurisprudência tópica137 que trabalha com o modelo de sistemaaberto138, ao qual é subjacente a ideia de que os critérios, para se alcançar a decisão justa, são ilimitados em número. Aqui se encontram, também, as raízes da moderna teoria da argumentação139. Essas correntes, por sua vez, consideram -se hoje superadas, por insuficientes, pois não são constitutivas de direito, limitam -se à sua aplicação, pela concepção metodológica segundo a qual a interpretação jurídica deixa de ser mera interpretação da lei para constituir -se em ato de realização do direito140, a partir não do texto legal, mas do caso concreto a decidir. Enfim, o direito existente não depende, na sua integralidade, de um poder legiferante, mas é conformado pela vida, pela prática de sua aplicação141. Não deve considerar -se como objeto previamente dado e construído, mas um processo de construção permanente. Como efeito desse movimento pós -positivista, passa a ocupar um lugar central na teoria do direito o tema da decisão judicial que, tido como “fenômeno central e paradigmático do pensamento jurídico, é analisado à luz da sua motivação e de sua justificação racional”. Passa a considerar -se que a realização do direito é muito mais do que um simples silogismo, e que o juiz também cria direito, não é só a boca que pronuncia as palavras da lei. O direito, de ciência normativa, passa a ciência da ação142, a ciência prático -interpretativa. Do exposto, pode concluir -se que o pensamento jurídico atual, acompanhando o elevado grau de complexidade e diversificação da sociedade contemporânea, caracteriza -se por uma grande variedade temática e um pluralismo epistemológico, o que, se atesta a crise e a superação do positivismo, não faz pressupor a volta do direito natural, pelo menos no sentido estrito. Ambas as concepções estariam superadas, entre outras razões, pela circunstância de se referirem a um direito previamente estabelecido, que o jurista, o realizador do direito, já encontra formulado à sua disposição, anterior à realidade que deve ordenar. Ora o direito não é um dado, mas uma realidade construída. Essas concepções aproximam -se e integram -se, todavia, na criação e reconhecimento de princípios jurídicos estabelecidos nos textos constitucionais, assim como no respeito à justiça, como valor, e a pessoa como titular dos direitos humanos, ideia até então de matriz jusnaturalista. Quanto ao direito brasileiro, pode -se afirmar que, desde os primórdios até 1940, foi dominante a corrente positivista, com destaque para as figuras eminentes de Clóvis Beviláqua, Pedro Lessa e Pontes de Miranda. A partir dessa data (superado o positivismo sem retorno ao direito natural), desenvolve -se o culturalismo jurídico que, remontando a Tobias Barreto, da Escola do Recife, desenvolve -se em várias perspectivas, sendo francamente dominante a que enfoca o direito como experiência jurídica, e que tem no Prof. Miguel Reale a sua mais excelsa figura. No campo do direito civil iniciou -se um processo de reflexão sobre a pessoa e o conceito de pessoa e de sujeito de direito, e suas implicações no campo dos principais institutos jurídicos, como o da família, da propriedade e do contrato, cujos princípios fundamentais encontraram acolhida no texto constitucional. No que respeita à sistematização do direito, ideia tão cara ao jusnaturalismo, passou -se a assistir à fragmentação dos sistemas e ao surgimento dos microssistemas jurídicos com todas as suas implicações no campo das fontes do direito, e à superação do pensamento sistemático pelo pensamento problemático, embora ambos reciprocamente se exijam143. Isso levou ao reconhecimento da necessidade de revisão do sistema jurídico brasileiro, tendo -se decidido, em 1961, a reformulação dos principais códigos, o que ficou a cargo de notáveis juristas. Disso resultou um processo que, no direito civil, se concluiu com a aprovação do novo Código Civil, em 10 de janeiro de 2002, para entrar em vigor um ano após a sua publicação (V. Capítulo IV, item 17). O novo Código apresenta -se como um sistema aberto e flexível, no sentido de incompleto, mutável e evolutivo, graças aos princípios, às cláusulas gerais (V. Capítulo III, item 6) e aos conceitos indeterminados que enriquecem a sua estrutura. Isso implica mudanças na metodologia da realização do direito civil, que, da concepção tradicional de interpretação jurídica, que tinha por objeto as normas do texto legal, a caracterizar um sentido hermenêutico -positivista144, passa a ter um sentido prático - normativo, no sentido de orientar a criação, pelo intérprete, da norma adequada ao caso concreto. A interpretação jurídica pode deixar de ser uma simples hermenêutica do texto legal para transformar -se em uma atividade prático -criativa do direito a cargo do jurista intérprete. A abertura do pensamento jurídico contemporâneo aos valores ético -jurídicos, como decorrência da crise e superação do positivismo e de sua teoria formal do direito, justifica uma especial consideração pelos princípios jurídicos e o reconhecimento da sua importância para uma concepção do direito como prática interpretativa, no sentido de criadora do direito. O Código Civil surge, assim, como desaguadouro das novas tendências jurídicas, que nele encontram um meio de realização prática. CAPÍTULO II A realização do Direito. O Raciocínio Jurídico. Os Princípios Jurídicos SUMÁRIO: 1. A realização do direito. O raciocínio jurídico. 2. Os princípios jurídicos. 3. Os princípios gerais do Código Civil. 4. Os princípios institucionais do Código Civil. 5. O princípio da dignidade da pessoa humana. 6. A autonomia privada. 7. A boa -fé. 8. A função social do contrato e da propriedade. 9. A responsabilidade patrimonial. 10. A equidade. 11. A interpretação jurídica conforme aos princípios. 1. A REALIZAÇÃO DO DIREITO. O RACIOCÍNIO JURÍDICO O direito existe para realizar -se. A realização é a vida e a verdade do direito. Ela é o próprio direito145. O que só existe nas leis é um fantasma146. Realiza -se o direito quando os juristas, na sua atividade profissional, estabelecem regras para resolver conflitos de interesses, organizar a vida social e legitimar o poder, com base nos valores fundamentais da ordem jurídica. A realização do direito consiste, portanto, em um processo criativo de normas para evitar ou resolver problemas, a partir de valores, princípios, regras e demais elementos que integram o sistema legal. Essas regras contribuem para a elaboração de normas, e é para isso que elas se criam147. Pensadas como simples regra gerais, não passam de mera abstração. Essa atividade criadora desenvolve -se por meio de um raciocínio prático, assim chamado por dirigir -se ao comportamento humano, visando obter um juízo concreto para decidir um caso específico148. O raciocínio jurídico é, portanto, a atividade intelectual do jurista para criar uma norma jurídica concreta ou justificar uma decisão judicial. Ele desenvolve -se para resolver um problema, um fato concreto da vida real que deve ser resolvido pelo jurista. Exige, portanto, não só conhecimento (teoria), mas também criação (poiesis). “Raciocinar constitui um dos principais exercícios do pensamento jurídico. O legislador dispõe. O advogado raciocina e argumenta para convencer. O juiz raciocina para motivar a sua decisão”149. O termo raciocínio designa, assim, tanto uma atividade mental quanto o resultado dessa atividade150. Em termos gerais, o raciocínio é a operação pela qual se passa de uma coisa conhecida para outra desconhecida151, é um processo por meio do qual de uns juízos ou proposições (antecedentes, premissas), inferimos outro juízo (conclusão). Como forma de pensamento, interessa à lógica formal ou analítica, que se ocupa das leis que asseguram a correção formal de nossas operações intelectuais, e interessa à lógica aplicada, concreta, ou dialética, que estuda a arte do diálogo, visando o convencimento. Sua expressão verbal é o argumento. Quando se trata do discurso jurídico152, cuja especificidade decorre da combinação de elementos diversos, em que predominam a argumentação,a controvérsia, a persuasão, deve usar -se simplesmente raciocínio jurídico. O raciocínio é dedutivo quando se parte de uma verdade universal para descobrir outra, singular. Por exemplo, “Toda virtude é louvável, digna de valor. A justiça é uma virtude, pelo que se conclui que é louvável”153. E é indutivo, ou empírico, quando se passa do particular para o universal, do especial ao geral. Enquanto o raciocínio dedutivo desce do universal para o particular, do geral para o especial, o raciocínio indutivo consiste em procedimento inverso, sobe do particular para o universal, do especial para o geral. No direito civil, exemplo de raciocínio indutivo é o que leva ao estabelecimento de uma presunção, que é meio de prova ou demonstração de fatos jurídicos (CC, art. 212, IV). As presunções são processos lógicos que se baseiam nas regras da experiência da vida (CPC, art. 375), segundo o que “um fato é consequência típica de outro”. Nascem da dificuldade ou até impossibilidade de se provarem certos fatos, o que obriga o legislador a contentar -se com indícios como prova de fato jurídico, para que o juiz possa extinguir o conflito de interesses154. Diz -se por isso que “a presunção é a consequência que a lei ou o magistrado tira de um fato conhecido para provar um desconhecido” (CC francês, art. 1.351). O direito diz que é o que é provável que seja. São exemplos de presunção a crença de que o marido é o pai dos filhos de sua mulher (pater is est quem nuptiae demonstrant) (CC, art. 1.597) e a que resulta da recusa do suposto pai a submeter -se ao exame de código genético (DNA)155; a de que a coisa julgada é tida como verdadeira (res judicata pro veritate habetur) (CPC, art. 502); a de que houve pagamento ou remissão, quando o devedor está na posse do título (CC, arts. 324 e 386); a de que o direito real pertence à pessoa em nome de quem está registrado156; a de que o filho foi concebido na constância do casamento (CC, art. 1.597); a ocorrência de morte de uma pessoa em caso de sua ausência (CC, art. 6º), ou de situação em perigo de vida, ou no caso de alguém não ser encontrado até dois anos após o término da guerra, quando desaparecido em campanha ou feito prisioneiro (CC, art. 7º). Para os cultores do normativismo jurídico, isto é, aqueles que consideram o direito essencialmente um conjunto de normas, concepção ainda hoje dominante, embora objeto de crítica, o raciocínio é uma atividade lógico -dedutiva que se desenvolve por meio de um silogismo em que a premissa maior é a regra de direito, a premissa menor é o fato concreto da vida, e a conclusão, a sentença do juiz. Por exemplo: (a) verificando -se determinado fato (um atropelamento, um acidente, uma agressão), que corresponda à hipótese de ato ilícito (CC, arts. 186 e 187); (b) surge uma consequência automática, que é a obrigação de reparar o dano (CC, art. 927). Esse esquema lógico configura o chamado raciocínio de subsunção157. A realização do direito seria, assim, o procedimento por meio do qual os fatos da vida ligam -se a uma regra jurídica específica para a solução do problema. O direito realizar -se -ia quando conectado ao caso e convertido em sentença158. Nessa mesma perspectiva normativista, confrontam -se duas concepções a que se deve aqui referir, para melhor compreensão da mudança que a metodologia jurídica hoje propõe. A primeira, clássica, própria do formalismo jurídico, distingue a criação do direito, que compete ao Poder Legislativo, da aplicação do direito, atribuída ao juiz. Esta realizar -se -ia por meio do silogismo judiciário, pelo qual se passa da norma geral e abstrata ao caso concreto, como já demonstrado. Para a concepção tradicional, portanto, o trabalho do intérprete consistiria em transportar para o caso particular a decisão que o dispositivo já contém em abstrato, o que dependeria de verificar -se a circunstância para a qual o legislador criou a norma159. Aplicar o direito seria, assim, encaixar o caso da vida real na hipótese legal (Tatbestand, fattispecie), a previsão que a regra contém (qualificação), do que logicamente decorreria a consequência jurídica. Transporta -se, para o caso particular, a decisão que abstratamente a norma contém, por meio de medidas que, em conjunto, formam a técnica jurídica160. Considera -se, assim, que, nos problemas jurídicos, configuram -se 1) uma questão de fato (quaestio facti), um acontecimento da vida real, por exemplo, um acidente, o descumprimento de um contrato, uma infração dos deveres conjugais, um desrespeito à propriedade etc.; e 2) uma questão de direito (quaestio iuris), que é a escolha da norma jurídica aplicável ao caso. Na primeira, indaga -se o quê e como efetivamente aconteceu, fixando -se os fatos (o fato concreto), por meio de um relato. Diz -se, por isso, que todo caso jurídico é uma história que se conta ao advogado, ao promotor, ao juiz, ao jurista enfim161. Na segunda, procura -se a norma adequada à solução do problema, e como realizar o seu conteúdo. Para outra perspectiva, não normativista, desenvolvida, aliás, nos países de Commom Law, inexiste oposição entre criação e aplicação do direito, como também entre interpretação e aplicação, processos que se conjugam em indissolúvel unidade162. A realização do direito consistiria, assim, em um processo intelectual que, de modo dedutivo e indutivo, e por meio de uma interpretação criativa, elaborasse a norma adequada à solução do problema, não se distinguindo, portanto, o ato de criar do ato de aplicar o direito. O processo interpretativo seria um só, e criador da norma jurídica para o caso concreto. O silogismo de subsunção. Crítica e superação Deve advertir -se, porém, que essa operação lógica, o silogismo de subsunção, pode funcionar apenas nas questões simples, em que facilmente se pode precisar a questão de fato e a questão de direito, combinando -as em um raciocínio de lógica formal. Por exemplo, se o art. 5º do Código Civil dispõe que a menoridade cessa aos dezoito anos completos, e Antônio completou essa idade, ele é, logicamente, maior de idade. É raro, porém, que o raciocínio jurídico possa conduzir -se, assim, de modo tão singelo, como nas demonstrações matemáticas163 (se B é C e A é B, logo A é C). A vida real é muito mais complexa do que as leis podem prever, exigindo uma lógica específica, a chamada lógica dialética ou lógica da argumentação, que opõe ao pensamento sistemático, baseado na ideia de sistema, o pensamento problemático, que se desenvolve a partir de problemas específicos. Contesta -se, assim, que a sentença seja a conclusão de mero silogismo164 demonstrativo. O raciocínio dedutivo nasceu com o positivismo, que acentuou o aspecto sistemático e o pensamento axiomático -dedutivo do direito no raciocínio judicial165. “As regras de direito seriam deduzidas dos princípios gerais dos sistemas jurídicos e as decisões judiciárias seriam deduzidas das regras jurídicas por uma série de silogismos sucessivos.” Os abusos e os limites da lógica formal, denunciados, porém, desde o começo do século por François Geny166 levaram à tendência, hoje dominante, de ver no raciocínio jurídico um processo da lógica dialética ou da argumentação, em que a lógica é utilizada, não para demonstrar, mas para convencer. A lógica desempenha, assim, importante papel na gênese da decisão judicial, que surge não como efeito de um processo lógico -dedutivo, mas de um raciocínio dialético, que permite conhecer os argumentos que levaram à convicção do juiz167. Reconhece -se, assim, que o raciocínio jurídico, como espécie de raciocínio prático, é hoje irredutível à lógica formal de tipo dedutivo. Ele combina elementos de natureza lógico -dedutiva, técnicas de argumentação dogmática e elementos de tipo prático - argumentativo168, no desenvolvimento de um raciocínio dialético, partindo o intérprete não mais da norma ou do sistema, mas do problema, do caso concreto, para a determinação da norma adequada, com base na regra jurídica própria. O raciocínio dialético Para a concepção dialética do raciocínio jurídico, cultivadana antiguidade, na Idade Média e no Renascimento, essa deixa de ser uma simples dedução silogística para transformar -se na busca de uma síntese que leve em conta o valor da solução e sua conformidade com o direito169. Sendo o argumento a expressão do raciocínio, desenvolve -se este por meio de um diálogo, uma argumentação, o que é próprio da dialética, considerada esta como a “arte de discorrer ou argumentar por problemas e contraposições”170. Raciocínios dialéticos são os que se dirigem a guiar deliberações e controvérsias, não a estabelecer demonstrações científicas171. Têm uma lógica específica, que se caracteriza pela controvérsia e pela argumentação. Sua natureza é preponderantemente dialética ou retórica, no sentido de que procura o convencimento, como é próprio de uma lógica da persuasão172, e não de uma lógica puramente formal. Disso resulta poder afirmar -se que o raciocínio jurídico “possui uma lógica própria”. É o processo intelectual do jurista que se propõe a interpretar o direito para determinar a norma jurídica adequada ao caso concreto e, assim, resolver um conflito de interesses. A norma não a encontra já estabelecida, é preciso determiná -la. Nisso consiste o processo criador do jurista. Contesta -se, assim, a concepção tradicional segundo a qual “existe ao nosso dispor uma ordem jurídica pronta e acabada, e que o juiz não teria mais do que aplicá -la ao caso concreto, para dela deduzir, por subsunção, a decisão concreta”. O intérprete, o juiz, o advogado, orientados por princípios e regras, são os atores da cena jurídica que determinam as normas adequadas à solução dos problemas que se lhes oferecem. A lógica formal é útil, mas não absoluta, pois a passagem da regra abstrata ao caso concreto não é simples processo dedutivo, mas uma adaptação constante das disposições legais aos valores em conflito na controvérsia judicial, razão por que se constata a presença de fatores irracionais no raciocínio jurídico e se afirma serem “escolhas ideológicas fundamentais que determinam não somente a legislação, mas também sua aplicação às situações particulares”173. O raciocínio jurídico caracteriza -se, assim, por ser problemático, no sentido de que se desenvolve em função de casos concretos, problemas, que o jurista intérprete deve solucionar, ser prático, porque em função de comportamentos humanos, axiológico, por fundamentar -se em valores básicos do meio social e jurídico, dialético (retórico), e não demonstrativo (lógico -formal), no sentido de que parte de “opiniões geralmente admitidas”, sendo o trabalho do intérprete muito mais de invenção do que de demonstração174. Para concluir, deve assinalar -se que a tendência atual, embora reconheça a importância da lógica formal, é para combater “a concepção mecânica do silogismo”, aceitando a contribuição da lógica dialética ou lógica de argumentação, que contesta uma aplicação rígida e inflexível das leis, embora respeitando a dupla exigência do direito, uma de ordem sistemática, que é a criação de uma ordem coerente e unitária, e outra de ordem pragmática, que é a busca de soluções ideologicamente aceitáveis e socialmente justas175. Isso pode levar a verdadeira revolução metodológica no direito. Do paradigma da aplicação, próprio do pensamento jurídico da modernidade, que tinha como coordenadas a norma como prius, e o direito como sistema de normas dedutivamente aplicáveis, passa -se ao paradigma jurisprudencial, da pós -modernidade, no qual o ponto de partida do raciocínio jurídico é o caso, o problema concreto, e os princípios e as normas, o seu fundamento, e a decisão concreta, uma autônoma constituição normativa176, tudo isso a caracterizar o pensamento jurídico como razão prática, e o direito como uma prática interpretativa criativa. Reabilita -se, assim, a filosofia prática, no campo do direito. Esse processo de criação jurídica orienta -se por princípios e regras, sendo que os primeiros têm hoje especial relevo no quadro das fontes do direito, o que justifica a crescente importância do raciocínio jurídico e a necessidade de revisão de sua concepção tradicional177. 2. OS PRINCÍPIOS JURÍDICOS O direito brasileiro constitui -se não só de regras, mas também de princípios, que exprimem os valores supremos do sistema jurídico178. Valores e princípios tornaram -se, por isso, objeto de crescente interesse da doutrina jurídica179, diversamente do pensamento jurídico da modernidade que, sob a influência do positivismo normativista, considerava o direito essencialmente como um sistema de normas e estas como o seu elemento fundamental. Juntamente com os costumes, os princípios jurídicos são fontes extralegais do direito, no sentido de que, no Código Civil, não se tornam explícitos em enunciados jurídicos. O costume é a prática reiterada e uniforme de um comportamento (elemento material) que gera a convicção de sua obrigatoriedade, a “opinio juris et necessitatis” (elemento psicológico). Difere da lei no fato de que esta nasce de um processo legislativo, tendo origem certa e determinada, enquanto o costume tem origem incerta e imprevista. Também quanto à forma, a lei apresenta -se sempre como texto escrito enquanto o costume é direito não escrito, salvo no caso de sua consolidação, como ocorre, por exemplo, com os usos reconhecidos pelas Juntas Comerciais. O conceito de princípio jurídico, assim como o de direito, é demasiadamente complexo para admitir, de início, uma definição unitária180. É, assim, conceito que admite várias acepções, por exemplo, como norma programática ou diretriz (CR, art. 5º, XXXII), como expressão de valores supremos de uma ordem jurídica, por exemplo, a igualdade (CR, Preâmbulo), como regra jurídica que serve de fundamento à sistematização de determinado setor de direito, por exemplo, o princípio da dignidade da pessoa humana (CR, art. 1º, III)181. Princípio, do latim primum capere, significa começo, início de obra e, no plural, principia, os fundamentos. Do ponto de vista filosófico, “é aquilo de donde uma coisa procede quanto ao ser, ao acontecer ou ao conhecer”182. “Traduz uma projeção para o futuro e pode ser observado ou no seu dinamismo prospectivo ou retrospectivamente a partir do sucesso da sua realização”183. Esse termo compreende, portanto, dois significados, um, como ponto de partida, outro, como fundamento ou causa de um processo. Com esses dois sentidos conexos surgiu o termo no pensamento filosófico grego (Anaximandro, Platão, Aristóteles). Não obstante a sua complexidade, o conceito de princípio jurídico torna -se compreensível na medida em que ele se relaciona com outros conceitos, de significado aproximado, como os de valor e o de norma jurídica. Os valores como ideias básicas que determinam o modo de comportamento individual e social184, e as normas jurídicas como regras de comportamento ou de organização, de eficácia garantida pelo Estado. De modo geral, podem -se considerar os princípios como pensamentos diretores de uma regulamentação jurídica, critérios para a ação e para a constituição de normas e de institutos jurídicos185. Seriam diretivas básicas e gerais que orientam o intérprete na criação da norma legal adequada. Constituem -se, portanto, em critérios de conduta de observância variável que se impõem por sua própria importância, sem referência a pressupostos concretos de aplicação. Eles orientam o intérprete no processo de criação da norma jurídica. Servem, assim, de garantia e certeza a um conjunto de juízos186. Servem também para fundamentar e dar unidade a um sistema ou a uma instituição. O direito seria, assim, um conjunto ordenado segundo princípios, e o Código Civil, como sistema, seria, então, um conjunto unitário de normas, ordenado segundo princípios. Do ponto de vista formal, apresentam -se estes como pautas abertas, só plenamente compreensíveis nas suas concretizações187, como se verifica, por exemplo, nos princípios contratuais, que melhor se compreendem na solução de problemas concretos dos negócios jurídicos. Situam -se na zona de confim entre o direitopositivo e o mundo ético -social188. Os princípios diferem dos valores pelo fato de estes apresentarem maior grau de generalidade, enquanto aqueles, “por conterem um pensamento jurídico diretor ou condutor”, já indicam a direção em que se situará a regra que se há de determinar. Em uma perspectiva normativista, isto é, o direito como norma, poderiam considerar -se normas para a produção ou determinação de outras normas189. Por exemplo, a Constituição da República, no seu art. 227, § 6º, estabelece o princípio da igualdade dos filhos, o que já se constitui no primeiro passo para a gênese da norma adequada a “eventual questão envolvendo pretensões de filhos havidos dentro e fora do matrimônio”. Os princípios diferem também das normas jurídicas porque não têm os elementos que formam a estrutura característica destas, isto é, a hipótese de fato e o dispositivo ou consequência jurídica. Não podem, assim, constituir -se em premissa maior de um silogismo de subsunção. Adquirem, porém, natureza normativa, quando expressos em texto legal ou reconhecidos pela jurisprudência. Sua natureza é, portanto, controversa, alinhando -se vários critérios para a distinção entre princípios e normas. Assim, quanto ao grau de abstração, os princípios seriam normas com um grau de abstração relativamente elevado, enquanto as regras possuem um relativamente reduzido. Quanto ao grau de determinabilidade relativamente a um caso concreto, os princípios, vagos e indeterminados, precisam de mediações concretizadoras (do legislador, do juiz), enquanto as regras seriam suscetíveis de incidência direta. Quanto ao carácter de fundamentabilidade no sistema de fontes do direito, os princípios são normas de natureza estruturante ou com um papel fundamental no ordenamento jurídico, devido à sua posição hierárquica no sistema das fontes. Quanto à proximidade da ideia de direito, os princípios são standards juridicamente vinculantes, radicados nas exigências de justiça (Dworkin) ou na ideia de direito (Larenz); as regras podem ser normas vinculativas com um conteúdo meramente funcional. Quanto à natureza normogenética, os princípios são fundamento de regras, isto é, estão na base ou constituem a ratio de regras jurídicas, desempenhando, por isso, uma função normogenética fundamentadora190. De modo sintético, pode -se dizer que os princípios apresentam -se como enunciados imprecisos, vagos, não direcionados a comportamentos específicos, enquanto as normas enunciam um comportamento preciso, específico191. Os princípios exprimem valores, as normas concretizam os princípios e os valores neles subentendidos. Por exemplo, o art. 421 do Código Civil, enunciando a liberdade de contratar, realiza o princípio da autonomia privada que, por sua vez, exprime o valor da liberdade de iniciativa econômica consagrada na Constituição da República, no art. 160. Considere -se ainda que as normas incidem na forma do tudo ou nada. Se verificado o fato previsto na regra, e a regra é válida, deve -se aceitar a consequência nela prevista. Já os princípios têm uma dimensão inexistente nas regras, a do peso e importância192. Segundo Esser193, cujo parecer aqui se adota, o princípio não é uma diretiva, mas fundamento, critério e justificação da diretiva, e por isso identifica -se com a ratio legis194. Na época da codificação do direito privado (século XIX), os princípios mais relevantes passaram a denominar -se “princípios gerais”195, com o sentido de ideias básicas, expressão de valores sobre os quais se elabora a inteira ordem jurídica de determinada sociedade. Esses princípios gerais não se confundem, porém, com as máximas jurídicas, os adágios ou brocardos reunidos pelos juristas romanos no livro do Digesto De diversis regulis iuris antiqui (D. 50. 17. 1), que nada mais são do que fórmulas concisas representativas de uma experiência secular, sem valor jurídico próprio, mas dotados de valor pedagógico196. Os princípios jurídicos estão presentes em todos os setores do direito, mas é principalmente nos campos da teoria geral, do direito civil e do direito constitucional que o seu estudo mais se desenvolveu, particularmente no que diz respeito à realização metodológica do direito. Justifica -se, assim, a exposição de sua matéria neste livro, uma teoria do direito civil brasileiro. Classificação Os princípios jurídicos podem classificar -se em positivos, quando expressamente enunciados pelo direito vigente, transpositivos, quando transcendentais e estruturantes dos diversos domínios da ordem jurídica, como os princípios gerais do Código Civil, e suprapositivos quando expressam os valores fundamentais do direito197. Os princípios positivos compreendem os princípios fundamentais, constitucionais ou superiores, “aqueles sobre os quais a ordem jurídica se constrói” (CR, art. 1º), e os princípios institucionais, que fundamentam os diversos institutos jurídicos que compõem o sistema. No direito brasileiro são princípios fundamentais, constitucionais, superiores, os referidos no art. 1º da Constituição da República: soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre -iniciativa, o pluralismo político. Têm força normativa, com aplicação preferencial sobre qualquer norma ordinária. São princípios institucionais do direito civil os pertinentes aos diversos institutos ou ramos jurídicos, por exemplo, no direito de família, os princípios da igualdade dos cônjuges (CC, art. 1.511) e o da igualdade dos filhos (CC, art. 1.596). Nos direitos reais, o princípio da função social da propriedade (CC, art. 1.228, § 1º). No direito contratual, o princípio da autonomia privada, da função social do contrato, da responsabilidade civil patrimonial. Nos direitos da personalidade, o princípio da dignidade da pessoa humana, também de natureza constitucional e suprapositivo. Os princípios suprapositivos são os grandes princípios, os princípios gerais, expressão jurídica dos valores fundamentais e consecutivos do direito, a saber, o da justiça, o da segurança, o da liberdade, o da igualdade, o da dignidade da pessoa humana. O adjetivo geral significa que não têm “um campo de aplicação definitiva a priori”, dizem respeito a todo o direito. Identificam -se como diretivas básicas e gerais, valores não expressos em lei, que orientam o intérprete no caso de omissão do texto legal198, e se constituem, em recurso último quando o ordenamento jurídico é incompleto, lacunoso, não dispondo da norma jurídica adequada ao caso material surgido. Com esse sentido o art. 4º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro199. Os chamados princípios gerais do direito, acolhidos expressa e formalmente, pela primeira vez no Código austríaco de 1811, por inspiração do jusnaturalismo, são referidos em alguns Códigos Civis em vigor200. As funções dos princípios jurídicos Reconhecem -se nos princípios jurídicos várias funções: a interpretativa, quando se constituem em critérios para a solução de dúvidas na interpretação do direito positivo, por exemplo, os princípios de natureza constitucional; a integrativa, no sentido do art. 4º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, quando se utilizam no preenchimento de lacunas da lei. Sua utilização constitui a chamada analogia iuris que se verifica quando, “esgotado o império da lei, e na falta de costume se passa a outra norma de direito supletório, os princípios gerais de sistema de direito vigente”. Nesse aspecto são regras de direito. E ainda uma função diretiva ou programática, como a dos princípios de organização constitucional do país (CR, arts. 1º a 4º) os que orientam a política legislativa, ou ainda os que decorrem do sistema constitucional brasileiro, como o do sistema federativo, o do estado de direito, o do sistema democrático, o do sistema econômico e social; e ainda uma função construtiva, no sentido de garantir certa unidade sistemática ao direito, ordenando -o segundo orientações fundamentais e impedindo -o de transformar -se em um “mosaico de textos legais incoerentes e de decisõesjudiciárias esparsas”201. Pode -se também dizer que têm uma função metodológica quando se usam para orientar o conhecimento, interpretação e realização das normas; uma função ontológica, quando se constituem em fonte de direito202, e uma função axiológica, quando exprimem valores fundamentais que inspiram e legitimam o direito positivo (justiça, segurança, bem comum etc.). Esses princípios flexibilizam a ordem jurídica do Código e favorecem o processo de jurisdicização que vem marcando o direito da sociedade pós -industrial, e que se traduz na crescente importância e responsabilidade do juiz e dos juristas, dos quais se esperam extraordinárias faculdades de conhecimento e de juízo203 para formular novas e adequadas estruturas jurídicas de resposta aos problemas da sociedade contemporânea. 3. OS PRINCÍPIOS GERAIS DO CÓDIGO CIVIL São princípios gerais ou transpositivos do Código Civil, os princípios da socialidade, da eticidade e o da operabilidade. O princípio da socialidade orienta o intérprete no sentido da prevalência, na ordem jurídica, dos valores coletivos sobre os individuais, sem perda, porém, do valor fundante da pessoa humana204, o que permite superar o individualismo predominante no Código Civil de 1916. No direito de família desaparece o patriarcalismo da sociedade familiar, expresso no absolutismo do poder marital e do pátrio poder, passando este a denominar -se poder familiar (CR, art. 226, § 5º e art. 227, § 6º). Nos direitos reais, limita -se o exercício do direito de propriedade, no sentido de que esse direito deve exercer -se de acordo com as suas finalidades econômicas e sociais, e de modo que se preservem o ambiente, o equilíbrio ecológico e o patrimônio artístico, bem como se evitem a poluição do ar e das águas (CC, art. 1.228, § 1º). E, ainda, dispõe - se que o proprietário pode ser privado da coisa se o imóvel reivindicado consistir em extensa área, e estiver na posse ininterrupta e de boa -fé, por mais de 5 anos, de considerável número de pessoas, e estas nela houverem realizado, em conjunto ou separadamente, obras e serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico relevante (CC, art. 1.228, § 4º). O princípio da socialidade fez também surgir um novo conceito de posse, a posse -trabalho, pelo qual o prazo de usucapião de um imóvel reduz -se de 15 para 10 anos, se estabelecida no imóvel a moradia habitual do possuidor, ou nele realizadas obras ou serviços de carácter produtivo (CC, art. 1.238, parágrafo único). Outra realização desse princípio é a função social do contrato (CC, art. 421), no sentido de que este deve ter, no sistema do Código, um papel orientado para o bem comum e a justiça social, não devendo prejudicar terceiros. Do mesmo modo, as disposições pertinentes ao contrato de adesão, segundo as quais deve adotar -se interpretação mais favorável à parte aderente no caso de cláusula ambígua ou contraditória, assim como a nulidade com que se fulminam as cláusulas estipuladoras da renúncia antecipada de direito resultante da natureza do negócio (CC, arts. 423 e 424). O princípio da eticidade privilegia os critérios ético -jurídicos em detrimento dos critérios lógico -formais no processo de realização do direito, a chamada concreção jurídica205. Significa isso que o legislador preocupou -se em legislar para o ser humano situado, em concreto, não para a pessoa em abstrato. “Daí a opção, muitas vezes, por normas genéricas ou cláusulas gerais, sem a preocupação de excessivo rigorismo conceitual, a fim de possibilitar a criação de modelos jurídicos hermenêuticos, quer pelos advogados, quer pelos juízes, para contínua atualização dos preceitos legais.”206 Isso implica, naturalmente, maior conhecimento teórico do direito, na medida em que uma das funções da doutrina é precisamente a de auxiliar o jurista -intérprete na concretização normativa, e para o juiz, um maior grau de poder e de responsabilidade, quando chamado a realizar o direito do caso concreto. Desse modo, o novo Código confere ao juiz um poder muito grande, não só para suprir lacunas, mas também para resolver, onde e quando previsto, de conformidade com valores éticos. Com este princípio demonstra o legislador207 a não aceitação do dogma da plenitude da ordem jurídica, vendo esta como um sistema aberto, flexível e lacunoso, do que decorre a necessidade de recurso à integração e a consequente importância dos princípios jurídicos. O significado do princípio da eticidade é, porém, mais extenso, não se limitando à crítica da sistematicidade lógico -formal típica do positivismo. Ele fundamenta, ainda, a crença de que o equilíbrio econômico dos contratos é a base ética de todo o direito obrigacional208, o que o aproxima do princípio da boa -fé, no seu sentido ético, objetivo. Realizações do princípio da eticidade encontram -se no Código Civil, por exemplo: “Art. 113. Os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa -fé e os usos do lugar de sua celebração”. “Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê -lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa -fé ou pelos bons costumes.” “Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa -fé.”209 E ainda o art. 157, que estabelece a lesão como defeito do negócio jurídico, tornando este anulável. A lesão é o prejuízo econômico resultante da desproporção entre as prestações de uma relação contratual, recebendo uma das partes mais do que efetivamente dá. O princípio da eticidade está ainda presente no campo dos defeitos do negócio jurídico, como o estado de perigo (CC, art. 156), que se configura quando alguém, premido da necessidade de salvar -se, ou a pessoa de sua família, de grave dano conhecido pela outra parte, assume obrigação excessivamente onerosa. E também na possibilidade de resolução contratual por onerosidade excessiva, dispondo que, nos contratos de execução continuada ou diferida, se a prestação de uma das partes se tornar excessivamente onerosa, com extrema vantagem para a outra, em virtude de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis, poderá o devedor pedir a resolução do contrato (CC, art. 478). O princípio da operabilidade ou o princípio da concretitude ou concretude210 indica um critério metodológico para a realização do direito: a interpretação jurídica não deve ter por objetivo descobrir o sentido e o alcance da regra jurídica, mas sim constituir -se na primeira fase de um processo de criação ou concretização da norma jurídica adequada ao caso concreto. As regras jurídicas são enunciados gerais, a partir dos quais deve o intérprete construir uma norma -decisão concreta e específica para o caso em tela211, considerando -se o ser humano in concreto, circunstanciado, não o sujeito de direito in abstracto, o que era próprio do direito anterior. Isso implica conceder -se grande margem de criação ao intérprete para determinar a norma jurídica adequada ao caso concreto, influenciando -se reciprocamente doutrina e prática, a revelar um processo de jurisdicização do direito, no sentido de reconhecer -se, no juiz, maior poder no processo criativo do direito. 4. OS PRINCÍPIOS INSTITUCIONAIS DO CÓDIGO CIVIL Chamamos de princípios institucionais os que fundamentam os principais institutos do Código Civil. Nos direitos da personalidade, o princípio da dignidade da pessoa humana. No direito de família, o princípio da igualdade dos cônjuges (CC, arts. 1.511, 1.565 e 1.566) e dos filhos (CC, art. 1.596). No direito contratual, os princípios da autonomia privada, da boa -fé, da equidade, da função social do contrato. Nos direitos reais, o princípio da função social da propriedade (CC, art. 1.228, § 1º). Na responsabilidade civil, o princípio da responsabilidade patrimonial212. 5. O PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA O princípio da dignidade da pessoa humana é a expressão normativa do valor fundamental do ser humano na ordem jurídica brasileira. Embora assenteem profundas raízes históricas, de natureza ética, filosófica e religiosa, esse princípio é relativamente novo na sua positivação jurídica, tendo adquirido relevância com a Segunda Guerra Mundial, integrando -se, por sua reconhecida importância, na Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 10 -12 -1948, e em diversas Constituições europeias e documentos internacionais213. Aparece na Constituição da República italiana (1947)214, na Lei Fundamental alemã (1949)215, na Constituição da República portuguesa216, leis constitucionais que nos são, nessa matéria, mais próximas. Esse princípio exprime a convicção de que a pessoa humana é um valor em si mesmo, intrínseco, absoluto, não meio de realizar interesses alheios217. Na filosofia do direito, apresenta -se como imperativo categórico, que exige o respeito à integridade física, moral e intelectual da pessoa, aspectos que se consideram hoje bem jurídico, objeto dos chamados Direitos da Personalidade, uma inovação no nosso Código Civil (arts. 11 a 21), relativamente ao anterior. Por sua importância, transcende o sistema do Código, figurando como um dos princípios estruturantes da Constituição da República (art. 1º, III), sendo, consequentemente, a matriz, a fonte, o alicerce dos direitos e das garantias fundamentais da ordem jurídica brasileira. A pessoa humana é, assim, um valor que se positiva no elenco dos princípios fundamentais do direito brasileiro, do que decorre a pretensão que cada pessoa tem ao respeito à sua integridade física e psíquica, à sua autonomia e liberdade pessoal, à segurança e à propriedade, pressupostos materiais mínimos para o exercício da vida e da convivência igualitária218. A dignidade da pessoa humana é um conceito novo, um conceito fundador de difícil definição219, pois que oscila entre a moral e o direito220. Apresenta -se como um standard jurídico, no sentido de modelo sem significado preciso, de conteúdo indeterminado, que requer, por isso, a apreciação do juiz, no enfrentamento de problemas concretos221. O standard como diretiva geral que, indicando o fim perseguido, orienta o juiz na administração do direito, como critério de avaliação e como premissa básica do seu raciocínio jurídico. Já conhecido dos romanos (boa -fé, bom pai de família), foi adotado pelo direito ocidental, principalmente o pensamento norte -americano, de tipo jurisprudencial. Pode aspirar ao título de princípio jurídico, princípio geral do direito. Difere da norma jurídica comum por seu mais elevado grau de generalidade e abstração, e também por sua maior flexibilidade na realização do direito. Enquanto que a norma realiza -se por meio do silogismo jurídico, no standard requer -se “fina intuição e larga experiência”222. A compreensão da sua natureza, de seu sentido e de seu alcance, facilita -se com o conhecimento do seu processo histórico, no qual se entrelaçam moral, religião e política. A ideia da dignidade é própria, mas não exclusiva, da cultura cristã, segundo a qual os homens são iguais na sua qualidade de pessoa223. Essa ideia existia já no antigo pensamento chinês, no qual se acreditava que o mais importante é o homem224. Na antiguidade clássica (450 a.C. -200 d.C.), firmou -se, na filosofia estoica, principalmente nos desenvolvimentos romanos (Sêneca, Epíteto, Marco Aurélio), a ideia da igualdade de todos os homens com base na dignidade de cada um, e na idade moderna, a ideia cristã de que o ser humano é o centro e o fim de toda a cultura. Foi, todavia, com o cristianismo, que a ideia da dignidade da pessoa individual adquiriu maior relevo e alcançou uma posição central, vindo a encontrar em Kant o seu fundamento filosófico. A concepção kantiana de que neste mundo todas as coisas têm um preço, menos a pessoa, porque tem dignidade, e por isso é um fim em si mesmo, veio a recolher o sentido cristão da vida e o espírito da cultura moderna225. No pensamento político -jurídico romano, considerava -se inicialmente a dignidade como uma qualidade inerente a um status, um posto ou função pública, o que impunha deveres e responsabilidade ligados àquilo que o dignatário representava, à sua função ou ofício. Dignitas era, assim, uma noção próxima de honor, com o sentido de respeito e consideração devidos às autoridades, aos magistrados. Era a expressão de uma “autoridade honesta, que merecia homenagens, honrarias e respeito”226. Tinha a ver, portanto, quer com a posição social, quer com o prestígio e a honra pessoal227. A dignidade de uma pessoa impunha, assim, a terceiros, um dever geral de respeito por esse posto ou função, dever esse juridicamente sancionado. Era, assim, um atributo da soberania228. Leonardo Gouvêa Leonardo Gouvêa Com o humanismo renascentista, no início da idade moderna, a obra charneira de Pico della Mirandola (1463 -1493), concebendo o homem como a suprema realidade da natureza, “realiza a passagem de uma dignidade ligada a uma posição hierárquica da pessoa a uma dignidade fundada no exercício da liberdade”229. Mais tarde, em plena idade moderna, o termo já pertencia ao léxico da teoria jurídica do Estado como entidade soberana, designando a natureza da palavra que, ligada à ideia de soberania, valia por si só. Tratava -se aqui da dignidade da pessoa pública e da qualidade de uma palavra que valia por si230. A isso aludia Jean Bodin (1529 -1596), primeiro teórico da soberania a definir o Estado e suas funções: “Car la parole du principe doit être comme un oracle qui perd sa dignité, quand on a si mauvaise opinion de lui, qu’il n’est pas cru s’il ne jure, ou qu’il n’est pas sujet à sa promesse, si on ne lui donne de l’argent”231. A dignidade seria, assim, atributo de uma instituição232. Com o racionalismo jurídico dá -se o processo de subjetivização dos direitos e, com ela, uma segunda concepção, oposta à precedente, que faz da dignidade um atributo da pessoa humana, atributo esse que se caracteriza como direito que todos devem respeitar, à semelhança do que ocorre com a liberdade e a igualdade. A aparição dos direitos do homem marca, portanto, a modernidade desta concepção233. Uma terceira perspectiva vê na dignidade não só um atributo, mas também um conceito compreensivo de deveres gerais de respeito, um componente até da noção de ordem pública234, pelo Leonardo Gouvêa que oponível à pessoa por terceiros. Foi esta concepção de dignidade que fundamentou a “grande decisão” proferida em marcante processo judicial francês, o da Commune de Morsang - sur -Orge235, em que se discutiu a posição da dignidade humana entre a ética pública e a ética privada, aquela dirigida ao poder público, visando o bem comum, esta dirigida à autonomia privada, para realização dos interesses individuais, decidindo o Conselho de Estado francês que “o respeito à dignidade da pessoa humana era um componente da ordem pública”. Tratava -se de um processo que visava anular a proibição, determinada pela administração municipal francesa, de um espetáculo em uma discoteca, cujos clientes se divertiam lançando entre si um anão, com uma alça presa às costas, contratado para esse fim. Alegava -se que o espetáculo violava o princípio da dignidade humana, contrário, portanto, à ordem pública, o que teria levado a administração pública a proibi -lo. A autoridade administrativa, nesse caso, representando a sociedade, terceiros, portanto, invocava o princípio da dignidade humana para impedir o uso do anão nesse divertimento. O autor do processo judicial para anular a decisão administrativa foi o próprio anão, que se insurgiu contra o impedimento, alegando ser impedido de trabalhar, o que representava, por sua vez, um atentado à sua dignidade pessoal, pois violava o seu direito à liberdade, ao trabalho, e ao respeito da sua vida privada, causando -lhe prejuízos materiais. A decisão do Conselho de Estado foi a seguinte: “A atração de ‘lançar anões’, que consiste em fazer lançar um anão por espectadores que utilizam como projétil uma pessoa com deficiência física causa prejuízo, por seu próprio objetivo, à dignidade humana”. Em grau de recursopara o Comitê dos Direitos do Homem das Nações Unidas, contra essa decisão, alegou o recorrente que em França não havia trabalho para anões, e que a sua utilização nesse divertimento não constituía atentado à sua dignidade, porque esta residia precisamente no seu direito e na sua possibilidade de trabalhar. A concepção da dignidade como componente da ordem pública superou -se, depois, na jurisprudência francesa236. Essa evolução histórica mostra as três dimensões da dignidade da pessoa humana no direito francês, como qualidade inerente a um status político ou social, como direito subjetivo absoluto, oponível a terceiros, e como um dever geral de respeito, ligado à concepção de bons costumes, exigível pelas sociedades, por terceiros, à pessoa. O princípio da dignidade da pessoa humana passou a integrar o direito positivo francês a partir de uma construção do Conselho Constitucional sobre a lei da bioética237. E na doutrina do direito civil passou a desempenhar duas funções, a de justificar os limites jurídicos à disposição, pela pessoa, do seu próprio corpo, e a de criar mecanismos de proteção dos mais fracos238. A respectiva matéria está disciplinada no Código Civil, nos direitos da personalidade e na legislação especial correlata. No que diz respeito à proteção dos mais fracos, a doutrina dedicou especial interesse ao problema da indenização dos pacientes em estado vegetativo crônico e a casos considerados difíceis (hard case), de que é paradigma o affaire Perruche, em que se discutiu o “dano do nascimento”. Trata -se de um rumoroso caso judicial, l’affaire Perruche, nome do requerente, em que se discutiu se o nascimento pode ser causa de dano para a pessoa, o chamado dano do nascimento. Uma gestante, vítima de rubéola, transmitiu essa doença ao feto. Nascido o filho com deficiência física, propôs ele uma ação de indenização em face do médico e do laboratório que assistiram sua mãe, alegando que a atuação culposa deles, na prestação de assistência médica e laboratorial, induziu a gestante a confiar na exatidão dos relatórios e na sua própria imunidade, impedindo -a de exercer o seu direito de interromper a gravidez, e assim evitar dar à luz o autor, com deficiência física. A Corte de Cassação francesa, reunida em assembleia plenária no dia 17 de novembro de 2000, reconheceu a legitimidade do filho para requerer e ser indenizado pelo dano resultante do seu nascimento nessa condição, decorrente da culpa comprovada do médico e do laboratório que, negligentemente, assistiram sua mãe durante a gravidez, não permitindo a essa abortar, como era seu direito. A tal respeito manifestou -se a doutrina: “A decisão leva a reconhecer que a vida pode ser um dano tanto para aquele que lhe deve a sua existência quanto para os terceiros e a sociedade em geral. O ser humano tende a ser concebido com o produto bem -sucedido ou mal -sucedido do poder médico. Isso está em contradição flagrante com o princípio juridicamente consagrado da dignidade da pessoa humana”239. O direito alemão, com o qual nesta matéria o direito brasileiro tem mais afinidade, considera a dignidade da pessoa humana fundamento da ordem constitucional240, associando as noções de dignidade e de direitos fundamentais. Além da profunda depressão causada pela Segunda Guerra Mundial, contribuiu para isso a filosofia kantiana, segundo a qual a pessoa humana deve, sempre, ser tratada como fim, e não um meio, assim como, também, a influência da concepção cristã do direito natural. Pode -se, assim, reconhecer que, no direito alemão, como no brasileiro, a dignidade da pessoa humana tem dupla natureza, subjetiva e objetiva. Reveste -se de um aspecto subjetivo como direito que pode ser invocado por seu titular para exigir do Estado sua realização concreta, e de um aspecto objetivo, como princípio fundador da ordem jurídica que orienta terceiros a respeitarem a dignidade da pessoa. Quanto ao primeiro aspecto, a dignidade da pessoa humana apresenta -se como direito subjetivo público241 que, sendo direito fundamental, domina toda a ordem jurídica alemã, impondo -se ao legislador, à administração e à justiça, sendo constante a jurisprudência constitucional a esse respeito242. A dignidade humana é, também, um princípio objetivo que se impõe ao conjunto de poderes públicos e em primeiro lugar ao intérprete. Impõe -se a todos mesmo contra a vontade de seu titular. É, assim, um princípio fundador da ordem constitucional alemã e, do ponto de vista material, um valor supremo no sistema de valores dos direitos fundamentais, fazendo parte dos princípios constitucionais fundantes da “Lei fundamental alemã”243. Como princípio, constitui - se em garantia de outros direitos fundamentais, e é, também, um princípio de interpretação244. Há, assim, diferença relativamente ao direito francês. Enquanto neste se defende a existência de uma dignidade oponível por terceiros ao sujeito, ao lado de uma dignidade oponível pelo sujeito a terceiros, no direito alemão, do qual o direito brasileiro mais se aproxima, evoca -se uma dupla natureza da dignidade humana, como direito subjetivo público e como princípio de direito objetivo, o que permite o encontro dessas duas faces, que o direito francês distingue. O direito brasileiro segue a linha do direito alemão, considerando a dignidade humana como princípio, que positiva o valor fundamental da ordem jurídica, que é a pessoa humana, no qual se baseiam os direitos subjetivos fundamentais expressos na Constituição da República (art. 5º) e os direitos da personalidade do Código Civil (arts. 11 a 21). 6. A AUTONOMIA PRIVADA A autonomia privada é o poder que os particulares têm de regular, pelo exercício de sua própria vontade, as relações de que participam, estabelecendo -lhes o conteúdo e a respectiva disciplina jurídica. É uma das mais significativas representações da liberdade como valor jurídico, expresso no Preâmbulo do texto constitucional, no princípio da liberdade de iniciativa econômica (CR, art. 170) e na liberdade contratual (CC, art. 421). Autonomia privada não se confunde com autonomia da vontade. Esta tem uma conotação subjetiva, psicológica, enquanto aquela exprime o poder da vontade no direito, de modo objetivo, concreto e real. Por isso mesmo, a autonomia da vontade é a causa do ato jurídico (CC, art. 185), enquanto a autonomia privada é a causa do negócio jurídico (CC, art. 104), fonte principal de obrigações. A autonomia privada é princípio fundamental do sistema de direito privado245, que se forma a partir do reconhecimento de um âmbito particular de atuação da pessoa, com eficácia normativa. Trata -se da projeção, no direito, do personalismo ético, concepção axiológica da pessoa como centro e destinatário da ordem jurídica privada246, sem o que a pessoa humana, embora formalmente revestida de titularidade jurídica, nada mais seria do que mero instrumento a serviço da sociedade247. Esse princípio tem, como pressuposto, a liberdade individual, que, filosoficamente, é a possibilidade de opção, como liberdade de fazer ou de não fazer, e sociologicamente, ausência de condicionamentos materiais e sociais. Do ponto de vista jurídico, a liberdade é o poder de praticar ou não, ao arbítrio do sujeito, todo ato não ordenado nem proibido por lei, e, de modo positivo, é o poder que as pessoas têm de optar entre o exercício e o não exercício de seus direitos subjetivos248. A autonomia privada significa, assim, o espaço que o ordenamento estatal deixa ao poder jurídico dos particulares, uma verdadeira esfera de atuação com eficácia jurídica, reconhecendo que, tratando -se de relações de direito privado, são os particulares os melhores a saber de seus interesses e da melhor forma de regulá -los juridicamente. No seu aspecto técnico, que revela a importância prática do princípio, a autonomia privada funciona como verdadeiro poder jurídico particular de criar, modificar ou extinguir situações jurídicas, próprias ou de outrem. É, também, princípio informador do sistema jurídico, como princípio aberto, no sentidode que não se apresenta como norma de direito, mas como ideia diretriz ou justificadora da configuração e funcionamento do próprio sistema jurídico249. E é também critério interpretativo, apontando o caminho a seguir na pesquisa do sentido e alcance da regra jurídica, do que são exemplos, no Código Civil brasileiro, os arts. 112, 114, 819 e 1.899. O princípio da autonomia privada faz ainda presumir que, em matéria de direito patrimonial, campo por excelência de incidência desse princípio, as regras contidas nas leis são de natureza permissiva, não cogente, por permitirem o livre exercício da vontade individual na disciplina dos interesses particulares. São dispositivas, se permitem que os sujeitos disponham como lhes aprouver, e supletivas, quando a elas se recorre na falta de regulamentação privada, preen chendo eventuais lacunas. As regras cogentes têm principal incidência, no direito civil, em matéria de família, de sucessões e de direitos reais, enquanto as supletivas incidem, principalmente, no campo das obrigações, para suprir a ausência de manifestação de vontade das partes. A autonomia privada não é um poder originário e ilimitado. Deriva do ordenamento jurídico estatal, que o reconhece e exerce -se nos limites que esse fixa, limites esses crescentes, com a passagem do Estado de direito para o Estado intervencionista ou assistencial250. Sua esfera de incidência é, como referido supra, o direito patrimonial, aquela parte do direito civil que diz respeito à disciplina das atividades econômicas da pessoa. Aplica -se de modo restrito em matéria de estado e capacidade das pessoas (por exemplo, contratos de concessão de uso de nome ou de imagem) e de família (acordo de separação judicial com partilha de bens). Seu campo de realização é, por excelência, e por sua própria origem histórica, o direito das obrigações, onde o contrato é lei, nas suas diversas espécies de liberdade contratual, nas cláusulas gerais, nas garantias etc. No direito sucessório, realiza -se no testamento, negócio jurídico com que a pessoa dispõe de seus bens ou estabelece outras prescrições para depois de sua morte, e nos eventuais acordos de partilha. Seu âmbito de realização nessas matérias ampliou -se com o advento da Lei n. 11.441, de 4 de janeiro de 2007, que possibilitava a realização de inventário, partilha, divórcio e separação consensual por escritura pública, lavrada de acordo com o que as partes interessadas dispusessem, matéria ora constante do CPC, arts. 610, § 1º, 659, e 731,733 e 734, incluindo estes últimos, também, a extinção consensual de união estável e a alteração do regime de bens do matrimônio. O princípio da autonomia privada tem sido objeto, nas últimas décadas, de um processo de revisão crítica, reduzindo -se o seu campo de atuação, com a intervenção do Estado, embora permaneça como essência do negócio jurídico, particularmente de sua principal categoria, o contrato. Em contrapartida, o processo da globalização de economia e o da mundialização da cultura, com o uso crescente dos modelos contratuais, e o reconhecimento de uma pluralidade nas fontes de direito e nos meios de composição de conflitos (v.g., a autocomposição, a arbitragem) apontam para o recrudescimento de sua importância. Concretizações jurídicas do princípio da autonomia privada Consequências imediatas do reconhecimento da autonomia privada são, no direito civil, que é o seu campo por excelência, os princípios da liberdade contratual, do consensualismo, da força obrigatória dos contratos, do efeito relativo dos contratos, e da natureza supletiva ou dispositiva da maioria das normas estatais do direito das obrigações, e ainda a categoria do negócio jurídico, com a teoria dos vícios do consentimento. No campo das pessoas jurídicas, a liberdade de associação. Em matéria sucessória e no campo do direito de família, como anteriormente já descrito. O princípio da liberdade contratual fundamenta “o poder conferido às partes contratantes de suscitar os efeitos que pretendem, sem que a lei imponha os preceitos que traça”251. Manifesta -se nas seguintes faculdades: liberdade de contratar, de escolher as partes com quem contratar, de estabelecer o tipo, o conteúdo, a forma e os efeitos do contrato. O exercício desse poder condiciona -se, porém, pela existência de normas cogentes ou não cogentes sobre a matéria objeto do negócio jurídico, devendo assinalar -se que, no direito contratual, predominam as normas supletivas, o que deixa “larga margem à vontade dos que agem em sua esfera”. O princípio do consensualismo significa que basta o consentimento, o acordo de vontades, para que o contrato se estabeleça e as obrigações nasçam, não sendo preciso forma especial. O nosso Código Civil adota -o no art. 107. Sendo assim, o reconhecimento da autonomia privada contribui para a redução do formalismo típico dos primeiros tempos do direito. A vontade deve ser livremente manifestada, o que faz com que os vícios do consentimento sejam relevantes. Se o consentimento não é livre, a manifestação de vontade torna -se defeituosa e, portanto, anulável. Por outro lado, sendo o contrato manifestação de liberdade, não importam os motivos que levaram a tal manifestação. A vontade vale por si mesma, se lícito o respectivo objeto. Deve chamar -se, porém, a atenção para um novo aspecto que hoje se verifica no formalismo, isto é, a necessária observância de formalidades de escritura e de publicidade, não por apego à solenidade, mas por simplificação, celeridade e segurança nos negócios jurídicos (títulos de crédito, contratos padronizados, contratos digitais), em virtude do alargamento dos mercados e da facilidade de contratação por meio eletrônico. O formalismo justifica -se hoje como vantagem pelo fato de precisar o momento da prática do ato, de favorecer a prova judicial, quando existente uma controvérsia, o que contribui para a segurança jurídica, aliada à simplicidade, economia e rapidez das atividades negociais. A exigência de certas formalidades verifica -se ainda nos contratos em que possa haver desequilíbrio entre as partes, designadamente, os de consumo, de locação, de operações de crédito, e ainda os contratos em que haja transferência de direito real. O princípio da força obrigatória dos contratos reconhece que a vontade particular, autônoma, pode estabelecer regras entre as partes contratantes, que se vinculam ao cumprimento das respectivas obrigações. O contrato é lei entre as partes, obrigando os contratantes, sejam quais forem as circunstâncias em que deva ser cumprido252. Estabelecida a relação jurídica obrigacional, torna - se ela irrevogável por arbítrio de uma das partes, o que dá segurança ao comércio jurídico. Os efeitos são inalteráveis por arbítrio de uma das partes, admitindo -se, todavia, a revisão do contrato, com base na teoria da imprevisão. Admite -se também a alteração bilateral, salvo no caso de contrato de trabalho (CLT, art. 468). A modificação faz -se por meio de aditamento, cujas cláusulas se incorporam ao conjunto do contrato alterado. O princípio da relatividade dos efeitos orienta no sentido de que a eficácia do contrato, isto é, as obrigações e as regras estabelecidas para o seu cumprimento, produzem efeitos apenas entre as respectivas partes, não afetando terceiros. Em princípio, o contrato produz efeitos apenas entre as partes contratantes (res inter alios acta aliis nec nocet nec prodest). Tal princípio não é absoluto, sofre exceção, como no caso de estipulação em favor de terceiro (CC, art. 436), e está hoje condicionado pela função social do contrato (CC, art. 421), segundo o que o contrato, pela sua natureza e importância, pode ser eficaz em face de terceiros, eventualmente afetados. Finalmente, para os que vêm na vontade individual um poder jurígeno, o negócio jurídico, seu instrumento, tem eficácia normativa, isto é, a manifestação de vontade faz nascer regras jurídicas que, ao lado das estabelecidas em lei, disciplinam as obrigações nascidas desse negócio. As normas que nascem da declaração de vontadesão jurídicas, ao lado das que nascem do poder estatal, ou dos costumes, ou dos princípios gerais do direito. “Qualitativamente não há diferença entre as distintas fontes normativas que integram o complexo regulador da relação jurídica concreta, ainda que se estabeleça uma hierarquia entre a norma procedente de cada fonte.”253 E no processo de revisão da teoria das fontes de direito, o negócio jurídico, como expressão da autonomia privada, é tido como “ato constitutivo de normatividade jurídica”, subordinado à lei, mas não dela normativamente derivado254. Em face disso, as normas jurídicas que a lei estabelece no campo da autonomia privada, que é por excelência o das obrigações, são em grande maioria, salvo disposição expressa em contrário ou em virtude de sua natureza de ordem pública ou de bons costumes, dispositivas ou supletivas. Os limites da autonomia privada: ordem pública e bons costumes A autonomia privada limita -se pela ordem pública e pelos bons costumes. A ordem pública como conjunto de normas que regulam e protegem os interesses fundamentais da sociedade e do Estado, e as que, no âmbito do direito privado, estabelecem as bases jurídicas fundamentais da ordem econômica, intervindo na economia, criando mecanismos de proteção ao consumidor e regulamentando determinadas espécies contratuais. São exemplos de limitações impostas pela ordem pública de proteção, em nosso direito, as decorrentes da Lei n. 8.245, de 18 de outubro de 1991, que dispõe sobre a locação dos imóveis urbanos, da Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990, sobre a proteção do consumidor, da Lei n. 8.177, de 1º de março de 1991, que estabelece regras para a desindexação da economia, da Lei n. 9.514, de 20 de novembro de 1997, que dispõe sobre o Sistema de Financiamento Imobiliário e institui a alienação fiduciária de coisa imóvel, da Lei n. 12.529, de 30 de novembro de 2011, que dispõe sobre a prevenção e a repressão às infrações contra a ordem econômica. São também exemplos de limitações impostas pelo princípio de ordem pública as sanções de nulidade e anulabilidade para os casos de contratos com determinados vícios de vontade ou de forma (CC, arts. 138 e ss.). Os bons costumes são as regras morais da sociedade, as regras morais que formam a mentalidade de um povo e que se expressam em princípios como o da lealdade contratual, da proibição de lenocínio, dos contratos matrimoniais, do jogo etc. Manifestam -se na ordem jurídica sob a fórmula de cláusulas gerais, noções indeterminadas de conteúdo variável, a precisar pelo juiz em cada caso. 7. A BOA -FÉ O princípio da boa -fé é um princípio ético -jurídico, uma diretiva básica e geral que orienta o intérprete na realização do direito. Isso dá -lhe significativa importância no campo da metódica jurídica, que reconhece a atividade criadora da jurisprudência e o papel que nela desempenham os princípios jurídicos. É um princípio normativo que se exprime por meio de cláusulas gerais, cuja importância crescente traduz a superação do positivismo legalista, com o seu modelo de sistema fechado, em favor da “eticização” das relações jurídicas. Cláusulas gerais são enunciados jurídicos de conteúdo variável, noções indeterminadas a precisar pelo juiz em cada caso. Têm uma função de auxílio à prática judicial, como critério orientador na interpretação e integração dos contratos, adjuvandi vel suplendi vel corrigendi, e também como limite ao exercício dos direitos subjetivos, em contraposição ao princípio da autonomia privada, à semelhança do que ocorreu no direito romano, em que o ius praetorium teve a finalidade de reforçar, suprir ou corrigir o ius civile. Seu conteúdo compõe -se de um dever de lealdade, que impede comportamentos desleais (sentido negativo) e de um dever de cooperação entre os contraentes (sentido positivo). Esse dever de lealdade remonta ao princípio romano da fides, impondo a abstenção de todo o comportamento que possa tornar a execução do contrato mais difícil ou onerosa. Sua antítese é o dolo na execução do contrato. Quanto ao âmbito de atuação, aplica -se, principalmente, no campo contratual, na formação dos contratos (responsabilidade pré -contratual – culpa in contrahendo), no seu desenvolvimento (abuso de direito) e na sua inexecução (responsabilidade pós - contratual). É, portanto, no campo das obrigações que tem particular incidência255. O Código Civil atual deu ênfase e maior possibilidade de eficácia ao princípio da boa -fé objetiva do que o Código de 1916. Primeiro, como norma interpretativo -integrativa, no art. 113, segundo o qual os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa -fé e os usos do lugar de sua celebração. Isso constitui significativa inovação do novo Código, que formaliza, assim, expressamente, o princípio da boa -fé do ponto de vista ético. Ao dispor que os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa -fé e os usos do lugar de celebração, deve entender -se que se refere à boa - fé no sentido objetivo, como regra de comportamento. Ora, nesta espécie reconhecem -se três funções, a interpretativa, no sentido de ser um critério para se estabelecer o sentido e alcance da norma, a integrativa, no sentido de que se constitui em princípio normativo a que se recorre para preencher eventuais lacunas, e ainda uma função limitadora de direitos subjetivos, principalmente no campo da autonomia privada. No caso do art. 113 do Código Civil tem -se, porém, uma boa -fé objetiva imprópria, no sentido de que, sendo um princípio normativo que se realiza por meio da integração, é neste caso invocado como critério orientador no processo de fixação do conteúdo e sentido da declaração de vontade256. Seria, a meu ver, um princípio com função interpretativa integrativa (p. 465). Quanto aos usos do lugar a que se refere o mesmo dispositivo legal, trata - se de regras observadas de modo uniforme, público e constante pelas pessoas de uma mesma localidade, e por elas consideradas juridicamente obrigatórias para, na falta da lei, regularem determinados negócios257. Em segundo lugar, o art. 422, agora em matéria contratual, também se baseia no princípio da boa -fé objetiva, ao dispor serem os contratantes obrigados a guardar, na conclusão do contrato como em sua execução, os princípios da probidade e da boa -fé, um valor ético que se exprime em um dever de lealdade e correção no surgimento e desenvolvimento de uma relação contratual. É regra de comportamento que se funda na honestidade, na retidão, na lealdade, e que impõe um dever de conduta não abusiva e razoável das partes contratantes em relação ao conteúdo das respectivas prestações. Implica também deveres acessórios de cuidado e segurança, aviso e esclarecimento, informação e colaboração, segredo, proteção e cuidado com a pessoa e o patrimônio da outra parte. A boa -fé objetiva aplica -se nos processos de formação, interpretação e execução dos negócios jurídicos, de modo geral, mas com alcance, também, na atividade extranegocial, já que aos atos jurídicos lícitos, que não sejam negócios jurídicos, aplicam -se, no que couber, as disposições legais do negócio jurídico (CC, art. 185). Destinatários do princípio da boa -fé são os intérpretes da declaração de vontade, no mais das vezes os magistrados chamados a resolver um conflito de interesses. 8. A FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO E DA PROPRIEDADE Outro princípio do direito civil brasileiro é o que reconhece a existência de uma função social nos dois institutos básicos do direito civil patrimonial, a propriedade e o contrato. Com as tranformações da sociedade contemporânea, a ideia do social começa a prevalecer sobre a do individual, levando a uma intervenção crescente do Estado no domínio econômico, que suscita dois novos temas, o da função social e o do abuso do direito258. Interessa -nos aqui o primeiro. A referência à função social ou econômico -social de um princípio, um instituto, uma categoria jurídica, neste caso a autonomia privada e o seu instrumento de realização, o negócio jurídico, significa a aproximaçãodo direito com as demais ciências sociais, como a sociologia, a economia, a ciência política e a antropologia, em um processo interdisciplinar de resposta às questões que a sociedade contemporânea apresenta ao jurista, considerado não mais a “figura tradicional de cultor do direito privado, ancorado aos dogmas das tradicionais características civilísticas”, mas atento às exigências do seu tempo, a exigir -lhe uma postura crítica em prol de uma ordem mais justa na sociedade259. A funcionalização dos institutos jurídicos significa, então, que o direito em particular e a sociedade em geral começam a interessar - se pela eficácia das normas e dos institutos vigentes, não só no tocante ao controle ou disciplina social, mas também no que diz respeito à organização e direção da sociedade, abandonando -se a costumeira função repressiva tradicionalmente atribuída ao direito, em favor de novas funções, de natureza distributiva, promocional e inovadora, principalmente na relação do direito com a economia. Surge, assim, o conceito de função no direito, ou melhor, dos institutos jurídicos260, inicialmente em matéria de propriedade e, depois, de contrato. Representa, assim, a função econômico -social, a preocupação com a eficácia social do instituto, e, no caso particular da autonomia privada, significa que o reconhecimento e o exercício desse poder, ao realizar -se na promoção da livre circulação de bens e de prestação de serviços e na autorregulamentação das relações disso decorrentes, condicionam - se aos efeitos sociais que tal circulação possa causar, tendo em vista o bem comum e a igualdade material, ideia que “se desenvolve paralelamente à evolução do Estado moderno como ente ou legislador racional”. De tudo isso resulta que a funcionalização de um princípio, uma regra, um instituto ou um direito implica, na sua positivação normativa, o reconhecimento de limites que o ordenamento jurídico, ou algum de seus princípios vinculantes, estabelece para o exercício das faculdades subjetivas (em face de situações concretas) que possa caracterizar abuso de direito. Atribuir ao direito uma função social significa considerar que os interesses da sociedade se sobrepõem aos do indivíduo, sem que isso implique, necessariamente, a anulação da pessoa humana, justificando -se a ação do Estado pela necessidade de acabar com as injustiças sociais. Função social significa não individual, sendo critério de valoração de situações jurídicas conexas ao desenvolvimento das atividades da ordem econômica. Seu objetivo é o bem comum, o bem -estar econômico coletivo. A ideia de função social deve entender -se, portanto, em relação ao quadro ideológico e sistemático em que se desenvolve261, abrindo a discussão em torno da possibilidade de se realizarem os interesses sociais sem desconsiderar os do indivíduo. Sistematicamente, atua no âmbito dos fins básicos da propriedade, da garantia de liberdade, principalmente contratual, e, consequentemente, da afirmação da pessoa. Historicamente, o recurso à função social demonstra a consciência político -jurídica de se realizarem os interesses públicos de modo diverso do até então proposto pela ciência tradicional do direito privado, liberal e capitalista. Neste particular, pode -se dizer que “revoga um dos pontos cardeais do sistema privatista, o direito subjetivo modelado sobre a estrutura da propriedade absoluta”, o que poderia sugerir certa incompatibilidade entre a ideia de função social e a própria natureza do direito subjetivo. Mas o que se assenta, é que a função social se configura como princípio superior ordenador da disciplina da propriedade e do contrato, legitimando a intervenção do Estado por meio de normas excepcionais, operando ainda como critério de interpretação jurídica. A função social é, por tudo isso, um princípio geral, um verdadeiro standard jurídico, uma diretiva mais ou menos flexível, uma indicação programática que não colide nem torna ineficazes os direitos subjetivos, orientando - lhes o respectivo exercício na direção mais consentânea com o bem comum e a justiça social. E é precisamente o contrato, instrumento da autonomia privada, o campo de maior aceitação dessa teoria, acolhida primeiramente no Código Civil italiano, art. 1.322, segundo o qual podem as partes determinar livremente o conteúdo do contrato nos limites impostos por lei e celebrar contratos atípicos ou inominados, desde que destinados a realizar interesses dignos de tutela, segundo o ordenamento jurídico. Do mesmo modo, e de forma idêntica, a consagra o Código Civil português no seu art. 405º, ao dispor que as partes podem livremente fixar o conteúdo do contrato, nos limites da lei, e celebrar contratos diferentes dos previstos no mesmo Código, completando -se esse com o art. 280º, que fixa limites ao exercício da autonomia privada, estabelecendo a nulidade do negócio jurídico contrário à ordem pública ou aos bons costumes. Consagrada, assim, a função econômico -social desses institutos jurídicos e, implicitamente, da autonomia privada, tem -se que o exercício deste poder jurídico deve limitar -se, de modo geral, pela ordem pública e pelos bons costumes e, em particular, pela utilidade que possa ter também na consecução dos interesses gerais da comunidade, com vistas ao desenvolvimento econômico e ao seu bem -estar social. O que se pretende, enfim, é a realização da justiça social, sem prejuízo da liberdade da pessoa humana. É precisamente com esse entendimento que a autonomia privada pode e deve direcionar -se. A ideia de justiça que se realiza na dimensão comutativa, entre particulares, iguais nos seus direitos, e distributiva, entre esses e o Estado aparece agora com nova dimensão, a justiça social que se insere em uma outra categoria, a justiça geral, que diz respeito aos deveres das pessoas em relação à sociedade262, superando -se o individualismo jurídico em favor dos interesses comunitários e corrigindo -se os excessos da autonomia da vontade dos primórdios do liberalismo e do capitalismo. O direito é, assim, chamado a exercer uma função corretora e de equilíbrio dos interesses dos vários setores da sociedade, para o que limita, em maior ou menor grau de intensidade, o poder jurídico do sujeito, mas sem desconsiderá -lo, já que ele é, em última análise, o substrato político -jurídico do sistema em vigor nas sociedades democráticas e desenvolvidas do mundo contemporâneo que se caracterizam, precisamente, pela conjunção da liberdade individual com a justiça social e a racionalidade econômica. Embora, do ponto de vista técnico -jurídico, o princípio da autonomia privada se apresente bastante limitado nas possibilidades de seu exercício pela ingerência do Estado na economia, hoje em dia menor pela tendência à privatização e à desregulamentação que perpassa pelas nações desenvolvidas do mundo ocidental, por outro lado, sob o ponto de vista político, constitui -se em um âmbito de atuação político -jurídico individual com eficácia jurídica, garantia de sobrevivência e de realização dos postulados básicos da liberdade e do reconhecimento do valor jurídico da pessoa humana. Reconhecimento expresso da limitação funcional da autonomia privada no direito brasileiro é o disposto no art. 421 do Código Civil, segundo o qual a liberdade de contratar será exercida nos limites da função social do contrato. Significa isso que esse poder só deve exercer -se em consonância com os fins sociais do contrato, isto é, os que ultrapassam os objetivos das partes, respeitados os valores primordiais da boa -fé e da probidade263, e levando -se em conta os efeitos que se possam produzir em face de terceiros. A função social significa assim que o proprietário não tem apenas poderes, mas também deveres no exercício do seu direito, que deve fazer -se de acordo com as exigências do bem comum. Com tal sentido, dispõe o Código Civil, no seu art. 1.228: “O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê -la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha. § 1º.O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais e de modo que sejam preservados, de conformidade com o estabelecido em lei especial, a flora, a fauna, as belezas naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico, bem como evitada a poluição do ar e das águas. § 2º São defesos os atos que não trazem ao proprietário qualquer comodidade, ou utilidade, e sejam animados pela intenção de prejudicar outrem”. 9. A RESPONSABILIDADE PATRIMONIAL O princípio da responsabilidade patrimonial significa que o devedor responde, para o cumprimento das suas obrigações, com todos os seus bens presentes e futuros, salvo as restrições estabelecidas em lei (CPC, art. 789), assegurando, assim, o cumprimento da obrigação de indenizar nascida de atos ilícitos de natureza contratual (CC, art. 391) ou extracontratual (CC, art. 927). 10. A EQUIDADE O princípio da equidade é critério intermediador no processo de realização do direito, um critério interpretativo, que permite adequar a norma ao caso concreto e chegar à solução justa. É um modelo ideal de justiça, um princípio inspirador do direito que visa a realização da igualdade material. É, antes e acima de tudo, um critério de decisão que leva em conta a singularidade de cada caso264, apresentando -se sob a forma de cláusula geral, no sentido de enunciado de conteúdo variável, a precisar em cada caso. A equidade é um princípio que orienta o intérprete no processo de criação da regra para o caso concreto265. Define -se, por isso, como a justiça do caso particular, sendo matéria da teoria das fontes do direito. Criação original do direito romano (aequitas), no período arcaico, surge também no pensamento aristotélico266, como um “meio de atenuar o rigor do direito escrito”, um princípio ético que adapta a lei às peculiaridades do caso em tela267. Contribui, assim, para aperfeiçoar a justiça legal, ou de direito positivo, que não pode contemplar todas as variantes que a vida real oferece, por demasiadamente complexa. Nesse sentido, as famosas passagens de Celso, jus est ars boni et aequi (D. 1, 1.pr.) e de Papiniano, definindo o direito pretoriano, Ius praetorium est, quod praetores introduxerunt adiuvandi vel supplendi vel corrigendi iuris ciilis gratia proter utilitatem (o direito pretório é o que os pretores introduziram para ajudar (interpretar) ou para suprir (integrar) ou para corrigir o ius civile por motivo de utilidade pública) (D. 1, 1, 7, 1). No Código Civil brasileiro registram -se diversas referências a esse princípio, quase todas no campo das obrigações. O art. 413 dispõe que, na cláusula penal, a sanção deve ser reduzida equitativamente pelo juiz se a obrigação principal tiver sido cumprida em parte, ou se o montante da penalidade for manifestamente excessivo, tendo -se em vista a natureza e a finalidade do negócio. Em matéria de resolução contratual por onerosidade excessiva, o art. 479 estabelece que a resolução poderá ser evitada, oferecendo -se o réu a modificar equitativamente as condições do contrato. No campo da responsabilidade civil, o art. 944 dispõe que a indenização mede -se pela extensão do dano e, no seu parágrafo único, que, se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir, equitativamente, a indenização. O parágrafo único do art. 953 dispõe que se o ofendido não puder provar prejuízo material, caberá ao juiz fixar, equitativamente, o valor da indenização, na conformidade das circunstâncias do caso. Recorre, aqui, o juiz, à equidade, que tem, como nas hipóteses dos artigos anteriores, uma função quantificadora, fixando o valor da indenização. No mesmo sentido o art. 954, que recomenda um juízo de equidade no caso de ofensa à liberdade pessoal, se a vítima não puder provar o prejuízo. Deverá, também, fixar -se, por equidade quantificadora, a indenização devida pelo incapaz, pelos prejuízos que causar (CC, art. 928, parágrafo único). Recorre o juiz à equidade para determinar o valor da indenização. Também no parágrafo único do art. 156, pertinente ao estado de perigo, “a situação de receio ou temor que leva o necessitado a praticar um ato que em outras condições não faria”, ao dispor o código, que tratando -se de pessoa não pertencente à família do declarante, o juiz decidirá segundo as circunstâncias, o que configura uma cláusula geral, pela vagueza e imprecisão do termo, é de considerar -se implícita a necessidade de recurso à equidade, pois decidir segundo as circunstâncias é solucionar o caso concreto com equilíbrio e proporcionalidade. A equidade tem aqui uma função supletiva, pela insuficiência do texto legal. Idêntica afirmação se pode fazer quanto ao art. 1.638, III, em que se dispõe que o pai ou a mãe perderá, por ato judicial, o poder familiar, se praticarem atos contrários à moral e aos bons costumes. Configura -se aqui outra cláusula geral, o que leva o intérprete a valer -se da equidade, sendo necessário estabelecer -se, com precisão, o conteúdo dos atos que justificam a perda do referido poder. O Código de Processo Civil, todavia, dispõe no art. 140, parágrafo único, que o juiz só decidirá por equidade nos casos previstos em lei268. Desta disposição resultaria evidente que, no direito brasileiro, só se admitiria o juízo de equidade nos casos em que a lei o permitisse, embora também se reconheça, nos procedimentos de jurisdição voluntária, que o juiz não é obrigado a observar critério de legalidade estrita, podendo adotar em cada caso a solução que considerar mais conveniente ou oportuna (CPC, art. 723, parágrafo único). É de explicitar -se, porém, que o juízo de equidade não se contrapõe ao juízo legal, ambos pertencem ao mesmo sistema de tutela jurisdicional, sendo aquele apenas um derivativo deste269. E, também, com Philip Heck, que “em cada decisão jurídica concreta pode atuar o conteúdo global da ordem jurídica”270, ordem essa que, segundo o disposto no caput desse mesmo art. 140, inclui, obviamente o disposto nos arts. 4º e 5º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, segundo os quais “quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais do direito” e “na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum”. Essas disposições conjugam -se também, com os “princípios constitucionais na sua versão processual”, o que, tudo somado, permite concluir pela superação da concepção formal e legalista do parágrafo único do art. 140 do Código de Processo Civil, orientado para a aplicação lógico -dedutiva das regras jurídicas, em prol de uma nova metodologia de realização do direito que, orientando o intérprete para a decisão jurídica de modo problemático -dialético, prevê o recurso a critérios ético -jurídicos na concreção jurídica, conferindo -se maior poder ao juiz para encontrar a solução mais justa ou equitativa271. Deve -se, todavia, reconhecer que a equidade continua sendo uma noção ambígua, senão equívoca, com que os juízes se sentem mais embaraçados do que auxiliados272, mas a sua admissibilidade em dois importantes códigos, o civil e o de processo civil, dá vida e utilidade a esse conceito a que historicamente sempre se recorre quando esgotados se acham os meios de interpretação e de criação do direito, embora raríssimo seja o recurso a esse princípio nos tribunais brasileiros. A referência à equidade nos referidos dispositivos justifica as questões que se levantam quanto à sua natureza e função no Código Civil brasileiro. Quanto à sua própria natureza, a equidade é um princípio ético, um modelo ideal de justiça, um princípio inspirador do direito que visa a realização da perfeita igualdade material, transformando -se em modelo jurídico a que recorre o órgão jurisdicional quando em face de um conflito de interesses específico. Não é uma instância menor do direito, ao contrário, constitui -se em arquétipo axiológico que orienta a realização do direito, de modo a evitar -se eventualinjustiça ou desigualdade decorrente da rigidez da fórmula legal. Quanto às funções que a equidade pode desempenhar, reconhece -se, primeiro, uma função básica e geral de natureza interpretativa, no sentido de adequar a regra ao caso concreto, recorrendo aos critérios da igualdade e da proporcionalidade, de modo a realizar não a justiça do caso concreto, mas o direito do caso concreto273. Tem ainda uma função corretiva, no sentido de temperar o direito positivo, principalmente, em matéria contratual, e uma função quantificadora, quando se constitui em uma medida, uma quantificação dos efeitos da aplicação da norma, como ocorre, por exemplo, no caso de se fixarem os valores de uma indenização. Pode ainda a equidade ser eleita pelas partes para a solução do seu litígio, como acontece nos casos de compromisso arbitral, quando então lhe é reconhecida uma função supletiva. De tudo o que foi exposto, pode afirmar -se que, no direito civil brasileiro, recorre -se à equidade: (a) quando a lei assim determinar (CPC, art. 140, parágrafo único), como dispõe o Código Civil nos arts. 413 (cláusula penal), 479 (onerosidade excessiva), parágrafo único do art. 944 (responsabilidade civil), parágrafo único do art. 953 (valor da indenização), art. 156 (estado de perigo); (b) quando as partes assim o convencionarem (compromisso arbitral); e (c) quando o juiz tiver de decidir com base em cláusulas gerais e com fundamento no princípio da concretude, do novo Código Civil. 11. A INTERPRETAÇÃO JURÍDICA CONFORME AOS PRINCÍPIOS A complexidade da vida social e a necessidade de sua disciplina e organização fazem com que o direito seja constantemente realizado pelas pessoas nos atos de sua existência diária, prevenindo ou solucionando conflitos, ou organizando sua própria vida, realização essa de modo imperceptível e até inconsciente. É, porém, na solução das controvérsias que a atuação do direito se faz presente de modo mais evidente. E o advogado, o juiz, o promotor, o defensor, enfim, o interessado na realização do direito, terá de determinar a norma jurídica para o caso concreto. Tal escolha pressupõe conhecer o sentido e o alcance do enunciado jurídico próprio, que se apresenta como proposição linguística, cujo texto pode ter vários significados. A atividade que se desenvolve para elaborar a norma adequada chama -se interpretação274. A atividade, rectius, o raciocínio prático que se desenvolve para elaborar a norma adequada chama -se interpretação, que deixou de ser a interpretação da lei para tornar -se um “ato de realização do direito”, com fundamento nas chamadas fontes do direito, isto é, as regras contidas nos textos (leis, contratos, testamentos), e agora, também, os princípios jurídicos275. Pode, assim, considerar -se a interpretação jurídica como a atividade, o raciocínio prático, pelo qual o jurista elabora a norma adequada à solução do problema concreto. O primado dos princípios jurídicos faz crescer a importância do raciocínio jurídico e constitui -se na causa principal da necessidade de revisão dos temas tradicionais da ciência jurídica276, permitindo reconhecer que a determinação da norma jurídica funda -se nos elementos do sistema, entre os quais, agora, os princípios jurídicos. O reconhecimento dos princípios como fundamentos constitutivos e normativos do direito e como elementos do sistema do Código Civil, conduz então à possibilidade de um novo modelo interpretativo, a interpretação conforme os princípios. Interpretar segundo um princípio significa formular uma regra com base na qual se resolve o caso em questão, modificando -se a convicção, comum na ciência do direito, de que as regras jurídicas já se encontram definidas antes da sua aplicação e que, portanto, a tarefa do juiz seja limitada a pescar a regra adaptada ao caso. A interpretação conforme os princípios, que pode ser simultânea com as outras modalidades, implica, portanto, a passagem metodológica da ratio legis à ratio iuris277, isto é, do sentido da norma legal ao sentido dos fundamentos do próprio sistema, neste caso, os princípios jurídicos. Ocorrendo contradição entre estes e as normas do sistema, isto é, uma contradição entre a norma e seu fundamento normativo (o princípio -fundamento), suscitam -se duas soluções diversas. Uma primeira, de correção da norma, conforme aos princípios. A norma deve adequar -se ao princípio. Uma segunda solução, no caso de a norma ser claramente contraditória ou oposta aos fundamentos axiológicos que o princípio representa, deve preferir -se a ratio iuris à ratio legis278. Há, assim, uma preterição e superação da norma, pois os fundamentos normativos (os princípios jurídicos) devem prevalecer contra os critérios jurídicos positivados (as normas). Verifica -se uma decisão jurídica contra legem, mas secundum iuris. O decidir contra legem legitima -se pelos fundamentos axiológicos do sistema279. CAPÍTULO III O Raciocínio Jurídico. A Norma Jurídica SUMÁRIO: 1. A norma jurídica. Conceito. Razão de ser. Objeto. Destinatários. Aspectos formal e material. 2. Natureza da norma jurídica. A norma como comando, como juízo e como proposição linguística 3. Características da norma jurídica. Bilateralidade e coercitividade. 4. Sanção. Natureza. Finalidade. Espécies. 5. Estrutura da norma jurídica. Condição de aplicação e dispositivo. 6. Cláusulas gerais. 7. Classificação das normas jurídicas. 8. Normas de direito público e normas de direito privado. Critérios distintivos. 9. Crítica à dicotomia direito público – direito privado. 10. Normas privadas e normas públicas. 11. Normas gerais e normas singulares. 12. Normas abstratas e normas concretas. 13. Normas rígidas e normas elásticas. 14. Normas cogentes e normas não cogentes. 15. Normas interpretativas e normas integrativas. 16. Normas perfeitas e normas imperfeitas. 17. Normas de direito comum, normas de direito especial e normas de direito excepcional. 18. Fontes das normas jurídicas ou fontes do direito. 19. Interpretação da norma jurídica. A perspectiva tradicional. 20. Espécies de interpretação. 21. As disposições do Código Civil sobre a interpretação. 22. Integração da norma jurídica. A analogia e suas espécies. 23. Interpretação e integração. Nova perspectiva metodológica. 24. A vigência da norma jurídica. Princípios da obrigatoriedade e da continuidade. O erro de direito. 25. A vigência temporal da norma. Princípios fundamentais. O direito adquirido. Regras fundamentais. 26. A vigência espacial da norma. Conflitos de normas no espaço. Princípios diretores. 1. A NORMA JURÍDICA. CONCEITO. RAZÃO DE SER. OBJETO. DESTINATÁRIOS. ASPECTOS FORMAL E MATERIAL Para a concepção normativista, variante do positivismo jurídico, o direito é, por sua natureza, um conjunto de normas. Embora concepção em vias de superamento, deve ser considerada por sua grande aceitação no pensamento jurídico brasileiro. Demonstra -o a própria ementa da “Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro”280. Essa concepção está na base do pensamento sistemático, segundo o qual a interpretação jurídica desenvolve -se por meio de um raciocínio lógico -dedutivo cuja premissa maior é a regra de direito preestabelecida, a premissa menor é o fato concreto da vida que se encaixa na fattispecie da regra, e a conclusão a sentença do juiz. As normas jurídicas são normas de comportamento ou de organização que emanam do Estado ou por ele têm sua realização garantida. Pertencem, portanto, à ordem ética, que estabelece as leis do dever ser. Sua existência prende -se à necessidade de se estabelecer uma ordem que permita a vida em sociedade, evitando ou solucionando conflitos, garantindo a segurança nas relações sociais e jurídicas, promovendo a justiça, a segurança, o bem comum, com o que também garante a realização da liberdade, da igualdade e da paz social, os chamados valores fundamentais e consecutivos da axiologia jurídica. Seu objeto é, em suma, o comportamento das pessoas, que se visa disciplinar ou orientar de acordo com os valores fundamentais de cada grupo social281. Seusdestinatários são aqueles a quem disserem respeito, isto é, aqueles para quem a norma se torna eficaz, os que forem por ela afetados em suas relações jurídicas. No tocante ao seu aspecto formal (no sentido de independente do seu conteúdo), as normas jurídicas apresentam -se como proposições, grupos de palavras com significado próprio e específico que prescrevem determinado tipo de comportamento ou de organização social, reconhecendo direitos e deveres e orientando o comportamento dos indivíduos ou dos grupos. Vêm expressas nas disposições da lei, um texto que as apresenta, depois de elaboradas pelo poder competente. Norma jurídica não é sinônimo de lei. Esta pode conter ou dar origem a inúmeras normas, como ocorre com o Código Civil. Não se confundem, também, as normas jurídicas com os dispositivos de lei que as expressam. Esses dispositivos, ou proposições, são os sinais linguísticos, conjunto de palavras que as revelam. Daí dizer -se que a ciência do direito é uma ciência de palavras, sendo a proposição jurídica a forma lógico -gramatical da norma282. Apresenta -se essa nos textos legais sob a forma de artigos, subdivididos em itens e estes em alíneas. Os artigos podem ter parágrafos, subdivididos do mesmo modo. Os dispositivos são a expressão linguística e formal das normas jurídicas, mas a cada um não corresponde, necessariamente, uma norma, sendo às vezes necessário buscarem -se vários artigos no texto legal para encontrar -se a norma necessária, o que se faz por meio da interpretação jurídica. Quanto à sua matéria, ou aspecto material, a proposição jurídica contém ordens, diretrizes, autorizações, definições, conforme se apresente como proposição imperativa, permissiva, atributiva ou meramente auxiliadora. Exemplos de proposições jurídicas do Código Civil, em que se podem verificar os aspectos formal e material supradescritos: “Art. 2º A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida, mas a lei põe a salvo desde a concepção os direitos do nascituro”. “Art. 91. Constitui universalidade de direito o complexo de relações jurídicas, de uma pessoa, dotadas de valor econômico”. “Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência, ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”. “Art. 1.566. São deveres de ambos os cônjuges: I – fidelidade recíproca; II – vida em comum, no domicílio conjugal; III – mútua assistência; IV – sustento, guarda e educação dos filhos; V – respeito e consideração mútuos”. “Art. 1.277. O proprietário ou inquilino de um prédio tem o direito de impedir que o mau uso da propriedade vizinha possa prejudicar a segurança, o sossego e a saúde dos que o habitam”. “Art. 389. Não cumprindo a obrigação, ou deixando de cumpri -la pelo modo e no tempo devidos, responde o devedor por perdas e danos”. “Art. 1.784. Aberta a sucessão, o domínio e a posse da herança transmitem -se, desde logo, aos herdeiros legítimos e testamentários”. 2. NATUREZA DA NORMA JURÍDICA. A NORMA COMO COMANDO, COMO JUÍZO E COMO PROPOSIÇÃO LINGUÍSTICA Quanto à natureza, isto é, quanto à essência da norma jurídica, diversas são as concepções283. Para uns, a norma jurídica é comando ou imperativo. Para outros, é juízo. Para os primeiros, as normas de direito são comandos ou imperativos emanados do Estado. Tal concepção corresponde à crença de que direito é produto exclusivo do Estado, ou de quem detém o poder soberano284, o que implica a ideia de um vínculo de subordinação entre os titulares do poder e os destinatários da norma, assim como na existência de sanções para o caso da inobservância do preceito normativo. Para esses, a regra jurídica vale porque imposta pelo Estado, pela autoridade soberana, fonte exclusiva do direito. É chamada doutrina da estatalidade, segundo a qual o Estado tem o monopólio da produção jurídica por ser o titular exclusivo da soberania, “poder originário e exclusivo de produzir direito positivo”285. É um monismo jurídico, pois só considera direito positivo o que for criado pelo Estado, e liga -se a determinada fase da história político -jurídica, a dos séculos XVII e XVIII, quando surgiu a ideia de Estado nacional. Além do vínculo de subordinação, essa tese pressupõe sanções para o transgressor da norma, como consequência do descumprimento do dever jurídico. Existem normas, porém, que não exprimem comandos, pois não apresentam vínculo de subordinação intersubjetiva, por exemplo, as de direito internacional, as de direito costumeiro e, no âmbito do direito civil, as que formam o vasto domínio da autonomia privada, o direito dos particulares, que surge entre as pessoas ligadas por laços de coordenação, de igualdade, não de dependência, e onde se pressupõe a igualdade das partes a que se referem. Há ainda normas sem sanção, somente permissivas, cujo conteúdo é apenas autorizativo, sem estabelecer deveres ou obrigações, normas simplesmente atributivas do poder de modificar a esfera jurídica de outrem, e normas que apenas contêm definições legais, que ajudam na efetivação de outras normas. Concepções mais modernas rejeitam a ideia da norma como comando ou imperativo, preferindo vê -la como expressão de um juízo hipotético, juízo de valor, juízo disjuntivo286. Para a tese da norma como juízo hipotético, “se é A (fato hipotético previsto), deve ser B (consequência ligada a esse fato)”. A norma não seria comando, mas juízo objetivo de natureza hipotética, que estabelece um nexo de causalidade entre uma condição de aplicação, ou hipótese de um fato (um ilícito, por exemplo), e uma consequência (a sanção). Para os que consideram a norma juízo de valor ou juízo valorativo, o que é conexo ou idêntico ao juízo hipotético, a norma, para a hipótese de verificar -se determinado fato, estabelece como devido um comportamento humano. E para os que consideram a norma juízo disjuntivo, “dado um fato, deve ser uma prestação, ou dada a não prestação, deve ser a sanção (dado A deve ser P, ou dado não – P deve ser S). Para a terceira concepção, a norma jurídica tem, simultaneamente, caráter hipotético e categórico. Hipotético porque a realização do preceito jurídico depende de verificar -se determinada hipótese de fato nele prevista. Categórico, no sentido de que prescreve determinado comportamento de modo incondicional287. Exemplo de preceito categórico é aquele que ordena o cumprimento de obrigações decorrentes de declaração de vontade, como ocorre nos contratos. Concepção mais recente ainda vê a norma jurídica como proposição linguística, de função prescritiva ou normativa, o que ressalta a importância da linguagem no direito. A norma jurídica seria uma proposição prescritiva que, aconselhando, comandando ou advertindo, influi no comportamento das pessoas. Qualquer que seja o entendimento acerca da natureza da regra jurídica, certo é que ela traduz uma prescrição, um modelo de comportamento ou de organização que, por sua vez, representa valores ou fins a atingir, podendo ser considerada uma regra de motivação social indireta por sua influência no comportamento social. Melhor seria considerar a norma jurídica regra de comportamento socialmente garantida, no sentido de ser um fenômeno da sociedade humana que representa ou exprime um “princípio de ordem garantidor de uma estrutura social”288. 3. CARACTERÍSTICAS DA NORMA JURÍDICA. BILATERALIDADE E COERCITIVIDADE O que distingue as normas jurídicas das demais regras de comportamento social é uma diferença específica, que consiste em particulares aspectos, a bilateralidade e a coercitividade. Bilateralidade significa que a determinação da norma jurídica pressupõe uma pessoa em relação com outra, atribuindo poderes a uma e deveres a outra, com ou sem reciprocidade. Veja -se o art. 1.566 do Código Civil, que, enunciando os efeitos jurídicos do casamento, estabelece, para ambos os cônjuges, poderes e deveres recíprocos. A regra moral estabelece apenas deveres e para um só sujeito. É autônoma289. A coercitividade, e não coercibilidade, consistena possibilidade de coação para se compelir o devedor a cumprir seu dever ou obrigação. É a possibilidade de recurso à sanção, para se fazer cumprir o preceito da norma jurídica, se não cumprido espontaneamente. Outros aspectos que a doutrina comumente vê nas normas jurídicas, como a generalidade e a abstração, não são características, mas simples atributos, requisitos que a norma deve ter, juntamente com a impessoalidade, como garantia de valores fundamentais do direito, a imparcialidade, a igualdade e a certeza290. A generalidade ou universalidade consiste na indeterminação dos sujeitos a que a norma se destina (lex est commune praeceptum), como se verifica, por exemplo, no art. 1º do Código Civil: “Toda pessoa é capaz de direitos e deveres na ordem civil”. Visa garantir a igualdade na realização do direito. A abstração é atributo que faz com que a norma se destine a casos indeterminados, como, por exemplo, o art. 481 do Código Civil, que estabelece a hipótese de um gênero de atos, a compra e venda. Garante a imparcialidade na realização do direito. Tanto a abstração quanto a generalidade são atributos que decorrem do princípio da igualdade formal, próprio do modelo jurídico do liberalismo e da ideologia do Estado de Direito. 4. SANÇÃO. NATUREZA. FINALIDADE. ESPÉCIES Sanção é a pena que se impõe ao infrator da norma pelo descumprimento do dever nela contido. Não é elemento essencial nem característico da norma jurídica, pois existem normas sem sanção, como ocorre no direito constitucional, no administrativo, no processual, em que a função básica é a organizativa, tanto dos poderes públicos quanto da administração judiciária. A sanção consiste, sim, em um meio criado pelo poder jurídico para motivar o respeito à lei, punindo a infração. Note -se que a grande maioria das pessoas observa, espontaneamente, as diretrizes da norma, sendo inconcebível que a eficiência do direito decorra apenas do receio às sanções. Estas consistem, sim, em uma garantia do cumprimento da norma, embora sejam efeito da sua inobservância. Sanção não é coação. Esta é a aplicação forçada da sanção291, que no direito privado não opera, de regra, diretamente. Quando o juiz condena, estabelece uma sanção. Se o réu não a cumpre, pode o autor pedir que ela seja imposta pela força, coativamente. O arresto de bens e a hasta pública são formas de coação. Consequentemente, coatividade é a possibilidade de coagir, não consistindo em característica essencial do direito292. Não se confunde com a coercibilidade, que é a possibilidade de alguém ser coagido. Quem coage é o lesado, não a norma jurídica. A sanção é direta quando visa restabelecer a situação anterior e indireta quando, impossível aquela, consiste na reparação do dano causado, ou na perda de direitos ou poderes específicos. São exemplos de sanção direta a execução forçada de um serviço, a expulsão do locatário da casa alugada, a adjudicação compulsória, a hasta pública, a prisão do devedor pelo descumprimento de obrigação alimentar. Sanção indireta é a responsabilidade civil, a obrigação de reparar o dano causado, são as nulidades dos atos jurídicos, o desfazimento dos contratos, o divórcio, a perda do poder familiar, a declaração de indignidade no direito sucessório etc. A sanção tem finalidade preventiva, garantindo o respeito à lei, e restauradora, no sentido de que, violado o preceito contido na norma e configurado o dano, o infrator é obrigado a restabelecer a situação anterior (sanção direta) ou indenizar o lesado (sanção indireta)293. Significa isso que a sanção se põe à disposição de uma pessoa, o lesado, ou da coletividade, para que ela a exija, se o desejar. Conforme a sua finalidade específica, encontram -se no direito civil diversas modalidades de sanção: preventivas, restauradoras, indenizatórias, coativas e punitivas294. A preventiva visa garantir o respeito ao mandamento contido na norma. Configurando -se a possibilidade de lesão de um direito subjetivo, permite o ordenamento jurídico que se tomem medidas cautelares para afastar tal possibilidade (CPC art. 301), como ocorre, por exemplo, com a guarda judicial de pessoas e de bens, a prestação de caução, a busca e apreensão, a prestação de alimentos provisionais, o afastamento temporário de um dos cônjuges da morada do casal. A restauradora destina -se a reconstituir o estado anterior ao fato lesivo, como ocorre, por exemplo, com a reintegração na posse de determinado bem, em caso de esbulho (CC, art. 1.210, e CPC, art. 560), ou com a busca e apreensão de coisa no caso de descumprimento da obrigação de devolvê -la. A indenizatória tem o objetivo de recompor a situação patrimonial existente antes do ato danoso, realizando -se por meio do instituto da responsabilidade civil. Todo aquele que não cumprir suas obrigações, ou deixar de cumpri -las pelo modo e no tempo devido (ilícito contratual), responde por perdas e danos (CC, art. 389), ou ainda, aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem (ilícito extracontratual), fica obrigado a repará -lo (CC, art. 927). A sanção indenizatória consiste, sempre, no ressarcimento pelos danos sofridos de ordem material ou moral. As sanções coativas destinam -se a compelir o devedor a praticar o ato devido. Em princípio, ninguém pode ser obrigado a fazer algo contra sua vontade (nemo ad factum praecise cogi potest), mas o direito dispõe de instrumentos para tal fim. É o que se verifica com a única hipótese de prisão do devedor em direito civil (CR, art. 5º, LXVII), a do devedor de prestação de alimentos (art. 19 da Lei n. 5.478, de 25 -7 -1968). Ainda como sanção coativa, podemos considerar o direito de retenção, pelo qual o locatário pode recusar - se a devolver a coisa locada enquanto o locador não o indenizar dos gastos feitos com a manutenção ou melhoramento da coisa, na forma da lei (CC, art. 578). Como sanção punitiva, aquela que se traduz efetivamente em pena decorrente da violação de um dever legal, temos a exclusão do herdeiro declarado indigno, na forma que a lei estabelece (CC, art. 1.814), a declaração da invalidade de um ato jurídico, compreendendo a sua nulidade ou anulabilidade (CC, arts. 166 e 171), o desfazimento de um contrato (resolução), a expulsão de um membro da sociedade, a destituição do poder familiar (CC, art. 1.638), da tutela ou da curatela (CC, arts. 1.766 e 1.774). 5. ESTRUTURA DA NORMA JURÍDICA. CONDIÇÃO DE APLICAÇÃO E DISPOSITIVO A estrutura da norma jurídica forma -se de dois elementos: a condição de aplicação, ou hipótese de fato, que a doutrina italiana chama de fattispecie, a alemã de Tatbestand e a inglesa de operative facts, significando previsão de ocorrência de fato hipoteticamente previsto, e o dispositivo ou preceito, disposizione, Rechtsfolg, que é a consequência jurídica estabelecida para o caso de verificar -se a hipótese. Se ocorre A, verifica -se B295. Nem todas as normas têm essa estrutura. Algumas têm apenas dispositivo como, no direito constitucional, campo das normas gerais programáticas, o art. 170 da Constituição da República, que estabelece os princípios da ordem econômica e financeira. A condição de aplicação pode consistir: a) em uma previsão de acontecimento natural, por exemplo, a morte ou o decurso do tempo. Verificando -se tal evento, o domínio e a posse da herança transmitem -se, desde logo, aos herdeiros legítimos e testamentários (CC, art. 1.784), ou ainda, atingindo uma pessoa os dezoito anos completos, acaba a menoridade, ficando habilitado o indivíduo para todos os atos da vida civil (CC, art. 5º); b) em um ato jurídico, uma manifestação de vontade, por exemplo, o sinal dado por um dos contraentes firma a presunção de acordo final e torna obrigatório o contrato, devendo ser restituído ou computado no preço, em caso de execução do contrato (CC, art. 417); c) em uma situação jurídica, um estado pessoal, por exemplo, o de cônjuge, caso em que ele não pode praticar determinados atos, como a venda ou a doação de um imóvel,salvo no regime de separação absoluta de bens, sem o consentimento do outro (CC, art. 1.647). O dispositivo pode estabelecer: (a) obrigações, como ocorre quando se pratica um ato ilícito (CC, art. 927); (b) poderes jurídicos, como no caso dos contratos bilaterais em que a parte que deve pagar em primeiro lugar pode recusar -se a fazê -lo sem que a outra pague ou dê garantias, se ocorrer diminuição no seu patrimônio capaz de comprometer ou tornar duvidosa a prestação pela qual se obrigou (CC, art. 476); (c) proibições, como se verifica, por exemplo, no caso de alguém ser nomeado tutor (CC, art. 1.749). Verbos típicos do dispositivo são: dever, poder, ser obrigado, que exprimem ações necessárias por ter -se verificado a respectiva condição de aplicação296. A hipótese de fato é marcada por grande abstração e generalidade. Abstração, no sentido de compreender um grande número de acontecimentos, e generalidade, um grande número de pessoas que podem participar desses eventos, uma realidade que antecipadamente se prefigura com base em experiências anteriores e refere -se a um fato eventual, não a um acontecimento real. A consequência jurídica é a resposta do direito à ocorrência de determinado fato, previsto na hipótese normativa, e traduz a valoração que o grupo social dá a esse fato. Não se confunda, porém, a consequência jurídica com o efeito realmente verificado. Este situa -se no campo do ser, enquanto aquela pertence ao mundo do dever ser. A norma jurídica não corresponde, necessariamente, a um artigo de lei, que pode conter várias disposições, como o art. 1.538 do Código Civil, que prevê três casos de suspensão da cerimônia do casamento. Pode formar -se com vários dispositivos, como os que contêm definições, por exemplo, os arts. 79, 80, 82 e 83 do Código Civil, que, discriminando os bens imóveis e móveis, constituem condições de aplicação que levam a determinadas consequências jurídicas. Se se considera imóvel o direito à sucessão aberta (CC, art. 80, II), a alienação desse direito deve obedecer à forma legal estabelecida (CC, art. 108). Pode ainda a norma jurídica conter simples remissão, como a do art. 533 do Código Civil, que manda aplicar ao contrato de troca as disposições referentes à compra e venda. 6. CLÁUSULAS GERAIS Significativa inovação do Código Civil de 2002 é o enriquecimento de seu sistema normativo com a inserção de variados princípios e regras jurídicas de genérica atuação, as chamadas cláusulas gerais. Significativa porque exprime um novo pensamento jurídico, pós - positivista, diverso do que orientou a codificação de 1916, contribuindo, assim, para a reabilitação do direito como ciência prática e realçando a importância da doutrina e a responsabilidade do intérprete na realização do direito. Cláusulas gerais são proposições normativas cuja hipótese de fato (fattispecie), em virtude de sua ampla abstração e generalidade, pode disciplinar um amplo número de casos, conferindo ao intérprete maior autonomia na sua função criadora. Diferem das regras jurídicas pelo fato de estas terem uma estrutura mais precisa, menos vaga. Apresentam certa indeterminação na hipótese de fato, e por isso elas só se compreendem em cotejo com outras realidades normativas297. Seriam, assim, regras incompletas, que se concretizam no âmbito dos programas normativos de outras disposições. As cláusulas gerais, por sua imprecisão, situam -se ao lado dos standards jurídicos, no quadro das fontes, e também dos conceitos jurídicos indeterminados, estes no campo teórico - doutrinário. A função das cláusulas gerais seria a de “permitir a abertura e a mobilidade do sistema jurídico”298, estando presentes nas Constituições, nos Códigos, nas leis especiais, na doutrina, na jurisprudência. No Código Civil brasileiro, dotado de “fórmulas genéricas e flexíveis”299 ou “modelos abertos”, aptos a permitir “a evolução e a obra de interpretação, quer dos autores, quer da jurisprudência”300, são exemplo de cláusulas gerais os dispositivos que se referem à boa -fé (arts. 113, 187 e 422), aos bons costumes (arts. 187, 1.638, III), ao exercício abusivo de direito subjetivo (art. 187), aos usos do lugar (art. 113), à equidade (arts. 413, 944, 953, parágrafo único), à função social do contrato (art. 421), à reparação de danos decorrentes de culpa ou risco (arts. 186, 927 e parágrafo único). A valorização das cláusulas gerais leva a maior contribuição pessoal do intérprete e, consequentemente, ao reconhecimento de maior poder ao juiz. Isso explica que o interesse doutrinário nesta matéria se tenha desenvolvido somente a partir dos anos 60 do século XX301, quando a crise do positivismo legalista, com a superação dos seus dogmas (a divisão dos poderes, a natureza exegética da interpretação jurídica, a limitação do intérprete ao mecanismo de subsunção, a crença na completude da lei e consequente ausência de lacunas, a proibição de heterointegração do sistema com o recurso a fontes extralegais, e ainda a adoração da lei como fonte suprema do direito), permitiu reconhecer a importância das cláusulas gerais e o alargamento da teoria das fontes com a sua inclusão, juntamente com os princípios, no sistema normativo. Isso aumentou a responsabilidade do intérprete, do juiz, a par de nova ideia sobre a natureza da interpretação que, de simples exegese, passou a ser vista como um processo integral de determinação do direito. Surge um novo modelo de jurista, apto a responder aos novos desafios da complexa sociedade pós - moderna, justificando o recurso de Dworkin à metáfora de Hércules, como figura emblemática do “juiz dotado de habilidade, erudição, paciência e perspicácia sobre -humanas” que, “por suas excepcionais qualidades de conhecimento e de juízo, estaria hipoteticamente apto a desempenhar a tarefa de decidir”302. 7. CLASSIFICAÇÃO DAS NORMAS JURÍDICAS Classificar é distribuir em classes ou grupos, de acordo com determinados critérios de ordem teórica ou prática. Existem vários critérios para a classificação das normas jurídicas como, por exemplo, o sistema a que pertencem, a fonte de que emanam, o âmbito especial, temporal, material e pessoal de validade, a sua hierarquia, a sua sanção, a sua qualidade, e sua relação com a vontade dos particulares303. Outro critério são os elementos estruturais da norma jurídica, a hipótese de fato e o efeito jurídico304. Respeitando os critérios estabelecidos, selecionamos as espécies que consideramos mais importantes para o estudo do direito civil, iniciando com a tradicional distinção entre as normas de direito público e as de direito privado. 8. NORMAS DE DIREITO PÚBLICO E NORMAS DE DIREITO PRIVADO. CRITÉRIOS DISTINTIVOS A distinção entre as normas de direito público e as de direito privado é tradicional, clássica, e tem utilidade didática para o estudo e compreensão dos sistemas jurídicos de base romana, europeia e continental, como é a do nosso direito. O direito comum de origem inglesa não conhece tal distinção. Inexiste critério único para essa dicotomia. Os mais aceitos pela doutrina são o do interesse dominante na relação jurídica, o da natureza dos sujeitos, o do vínculo de subordinação entre eles e o da finalidade ou função do direito. Pelo critério do interesse dominante, a norma jurídica é de direito público ou de direito privado conforme seu objetivo seja proteger os interesses da sociedade ou dos indivíduos305. Com efeito, o direito privado visa assegurar, ao máximo, a satisfação dos interesses individuais, enquanto o direito público visa proteger os interesses da sociedade. Esse critério é insuficiente. As normas jurídicas destinam -se, em sua generalidade, à proteção de todos os interesses, sendo que os dos particulares são também de natureza pública, tendo em vista o bem comum. Talvez se possa dizer que o direito público protege, de modo imediato e direto, os interesses gerais, enquanto o direito privado o faz de modo indireto. Quando a lei determina a escritura pública para a venda de imóveis acima de certo valor (CC, art. 108) ou impõe uma formapara o casamento (CC, art. 1.533), a adoção (CC, art. 1.623), o testamento (CC, art. 1.862) etc., por meio de norma de direito privado, visa também proteger o interesse geral, que é a segurança das relações jurídicas. Segundo a natureza dos sujeitos, o direito público disciplina a atividade do Estado, e o direito privado, a dos particulares. Esse critério é, também, insuficiente, pois nem sempre o Estado atua como titular do poder público. Coloca -se, muitas vezes, em plano de igualdade com os particulares, principalmente nos atos de gestão patrimonial, isto é, nos atos normais de administração, quando se submete às normas de direito privado. Basear -se nesse critério seria conferir à vontade estatal valor jurídico superior ao dos demais sujeitos, o que, em um Estado de direito, é inadmissível. Pelo critério da relação de coordenação ou de subordinação em que os agentes se coloquem, as normas de direito privado dirigem - se a pessoas no mesmo plano de relação jurídica, enquanto as de direito público pressupõem um vínculo de subordinação. É a teoria do ius imperium, para a qual o direito público regula as relações do Estado e de outras entidades com poder de autoridade, enquanto o direito privado disciplina as relações particulares entre si, com base na igualdade jurídica e no poder de autodeterminação. Ocorre que, perante o direito, todos são iguais, particulares e Estado. Além disso, se adotado o critério da autoridade, veríamos que no direito privado também existem relações de subordinação, como acontece no direito de família, entre pai e filhos, tutor e tutelado, curador e curatelado, e no direito societário, nas relações entre sociedades ou associações e seus membros. Finalmente, para o critério da função, o direito privado teria o objetivo de “permitir a coexistência de interesses individuais divergentes, por meio de regras que tornem menos frequentes os conflitos”, enquanto ao direito público caberia a função de dirigir interesses divergentes para um fim comum, por meio de regras imperativas e geralmente restritivas306. E, segundo as mais recentes concepções da teoria do direito e da sociologia jurídica, as funções do direito seriam as de reprimir os comportamentos socialmente perigosos, promover a justa distribuição dos bens e organizar os poderes do Estado e da administração pública. De qualquer modo, a distinção é difícil e de pouca nitidez, pela inexistência de critérios absolutos. A doutrina dominante, porém, inclina -se pela teoria do ius imperium. Direito público seria o que regula as relações em que o Estado intervém com poder de autoridade, enquanto direito privado seria o que regula as relações dos particulares entre si ou com o Estado, com base na igualdade jurídica e no seu poder de autodeterminação. A conclusão a que se chega é que nesta matéria, como em qualquer outra de natureza social, confrontam -se dois polos opostos, da sociedade como um todo e dos indivíduos entre si, o social e o individual, cada um a sobressair em sua importância conforme o enfoque ideológico da análise jurídica. Quando, por exemplo, Kelsen defende que o direito é uma técnica de organização social, cuja função é promover a paz, situa -se no ponto de vista da sociedade como um todo. Quando Ihering afirma ser o direito a garantia das condições de existência em sociedade, põe -se no ponto de vista dos indivíduos307. Ora, o fim primordial do direito deve ser a realização da justiça como forma específica de garantir a segurança existencial308. A importância dessa distinção manifesta -se em alguns aspectos práticos: (a) nas normas de direito privado, sua realização é deixada à iniciativa individual, cabendo ao interessado pedir a tutela do Estado, enquanto nas de direito público, esse impõe, por si só, a respectiva observância, além do privilégio de poder tomar decisões unilaterais obrigatórias para os administradores (desapropriação, servidão pública, ocupação temporária, requisição de bens etc.); (b) os contratos de que o Estado participa (contratos administrativos) contêm, muitas vezes, regras derrogatórias do direito comum; (c) a propriedade dos bens do Estado constitui domínio público, e tais bens são inalienáveis e insuscetíveis de aquisição pela usucapião; (d) a responsabilidade civil do Estado é disciplinada por normas especiais; e (e) a competência para julgar conflitos em que o Estado intervém é privativa de órgãos especiais (Justiça Federal no âmbito federal, Varas de Fazenda Pública, no âmbito estadual). 9. CRÍTICA À DICOTOMIA DIREITO PÚBLICO – DIREITO PRIVADO Uma perspectiva histórica facilita a compreensão da origem e significado da dicotomia direito público – direito privado. Essa distinção foi um dos postulados básicos do Estado liberal, assim como o da divisão dos poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e também o do caráter abstrato e geral das normas jurídicas. O direito público era o conjunto de normas com que o Estado se organizava e regulava as relações entre si e os particulares, visando proteger os indivíduos, não a coletividade. A separação dos dois ramos correspondia à existente entre os sistemas da política e da economia, com outra característica, a da abstenção do Estado em intervir na segunda. Contrapunha -se, desse modo, a sociedade civil, que era a natural, dirigida pelas suas próprias leis, emanadas da natureza ou da razão, ao Estado, que era o organismo mantenedor da ordem econômica e social309. Tal distinção já existia em Roma, sendo certo que os seus termos ius publicum e ius privatum não correspondiam à divisão atual310. Ius publicum era o direito derivado do Estado, obrigatório para a comunidade, incluindo setores hoje considerados direito privado. Ao contrário, o ius privatum representava as relações que os indivíduos estabeleciam entre si, no exercício de sua autonomia. Essa diferença perde sentido na Idade Média, ressurgindo com a revolução comercial do século XV e reafirmando -se com o direito da revolução francesa, correspondendo, na época moderna, à separação Estado -sociedade civil, representando esta o conjunto das relações econômicas. Posteriormente, a interferência do Estado na economia contemporânea, causada pela concentração capitalista dos meios de produção311, conduz a uma interpenetração de ambas as esferas e a uma superação da tradicional dicotomia. Uma das provas mais consistentes desse processo é o surgimento de um novo direito, o direito da economia, que combina processos jurídicos, institutos e conceitos de direito público e de direito privado. Com ele, o Estado intervém na economia, órbita tradicional do direito privado, utilizando -se do instrumental jurídico deste ramo, como a técnica de constituição das pessoas jurídicas e os atos jurídicos. Com o direito público ficaria assim a função de organizar atividades políticas e sociais do Estado, e com o direito privado, as atividades econômicas, quaisquer que fossem312, correspondendo isso à passagem do Estado liberal para o Estado social, do Estado da ordem pública para o Estado promotor do bem -estar social. A distinção, a dicotomia direito público -direito privado, tem, assim, caráter manifestamente ideológico313. O direito privado permanece, portanto, como direito comum das pessoas e da economia, disciplinando as relações jurídicas comuns de ordem pessoal e patrimonial, enquanto o direito público disciplina relações jurídicas especiais e autoritárias, criadas em função de uma atividade dirigida a fins de interesse geral. 10. NORMAS PRIVADAS E NORMAS PÚBLICAS As normas de direito privado, quanto à sua fonte de produção, isto é, quanto ao poder que as cria, dividem -se em normas privadas e normas públicas. As primeiras são produto da autonomia privada, poder que os particulares têm de estabelecer por si só, embora respeitando os critérios de sua validade e eficácia, estabelecidos por normas públicas superiores (como as que estabelecem os elementos e requisitos do ato jurídico), as regras disciplinadoras de sua própria atividade, de seus interesses. A autonomia privadaé a mais importante manifestação do princípio da liberdade jurídica, um dos princípios fundamentais do direito civil. Seu instrumento de realização é o negócio jurídico. As normas privadas são autônomas no sentido de que são os próprios particulares, interessados, que as estabelecem314. As normas públicas, ou heterônomas, são as que se contêm nas leis, elaboradas pelos órgãos legislativos competentes para a disciplina e organização da vida em sociedade, como as de organização e funcionamento das pessoas jurídicas de direito privado. Normas privadas e normas públicas não se confundem com normas de direito privado e normas de direito público pelos critérios já apontados. Além disso, as normas privadas são, geralmente, individuais e concretas como as que nascem dos contratos, enquanto as normas públicas são gerais e abstratas como as contidas nas leis. 11. NORMAS GERAIS E NORMAS SINGULARES As normas gerais preveem, como agente da ação prevista na hipótese de fato, uma classe de sujeitos (por exemplo, o art. 186 do Código Civil refere -se à generalidade das pessoas), enquanto as normas singulares indicam determinadas pessoas, como ocorre nas autorizações, nas concessões, nos privilégios, nas sentenças, nos tratados internacionais e nos contratos. As normas de direito singular não devem produzir outros efeitos além dos especificamente visados. As normas singulares podem ser privadas e públicas, conforme derivem da vontade particular (contratos, testamentos), ou da atividade das autoridades (decisões judiciais e administrativas). 12. NORMAS ABSTRATAS E NORMAS CONCRETAS As normas abstratas são as que preveem, como hipótese de aplicação, uma categoria de fatos indeterminados (por exemplo, o ato ilícito, em geral CC, art. 186). São universais com respeito à ação. Normas concretas são as que preveem determinado fato (compra e venda de objeto determinado)315. É no campo do direito civil que se encontram, por excelência, as normas jurídicas individuais e concretas, como as que nascem, por exemplo, dos negócios jurídicos. 13. NORMAS RÍGIDAS E NORMAS ELÁSTICAS Normas rígidas são aquelas em que a hipótese de fato é bem determinada pelo legislador, não permitindo maior amplitude na apreciação dos fatos e na determinação de suas consequências, como ocorre, por exemplo, com o que se dispõe sobre o estado e a capacidade das pessoas (CC, arts. 3º e 4º), os prazos de prescrição (CC, art. 206), a fixação dos juros de mora (CC, art. 591). Quando a lei estabelece os requisitos do testamento (CC, arts. 1.864, 1.868, 1.876), a validade desse ato depende da estreita observância dessas disposições legais. Normas elásticas são as que permitem maior liberdade ao intérprete na avaliação dos fatos, por utilizarem conceitos de conteúdo variável, como os de equidade, dolo, culpa, fraude, boa -fé, ilicitude, ordem pública, bons costumes, diligência de bom pai de família, abuso de direito, justo preço, justa indenização etc. São os chamados standards jurídicos ou conceitos em branco, ou ainda cláusulas gerais, que servem para adequar a generalidade da norma à singularidade dos casos distintos e individuais316. 14. NORMAS COGENTES E NORMAS NÃO COGENTES As normas cogentes são as que se impõem de modo absoluto, não sendo possível a sua derrogação pela vontade das partes. São imperativas (determinam uma ação) ou proibitivas (impõem uma abstenção). Regulam matéria de ordem pública e de bons costumes, entendendo -se como ordem pública o conjunto de normas que regulam os interesses fundamentais do Estado ou que estabelecem, no direito privado, as bases jurídicas da ordem econômica ou social317. A ordem pública compreende o que é indispensável à organização social, isto é, as normas referentes à liberdade e à igualdade dos cidadãos, ao direito de associação, à liberdade de trabalho, à responsabilidade civil, ao estado e capacidade das pessoas, aos efeitos do casamento, ao pátrio poder, à proteção dos incapazes, à obrigação alimentar, ao estado civil, à propriedade, às sucessões, à proibição de anatocismo, à prescrição e à decadência. Ordem pública não se confunde com direito público. Bons costumes são o aspecto moral da ordem pública, são o conjunto de regras morais de um povo. As normas não cogentes, ou permissivas, são aquelas que permitem o livre exercício da vontade individual na disciplina dos interesses particulares. Distinguem -se em dispositivas, quando permitem que os sujeitos disponham como lhes aprouver; e supletivas, quando se aplicam na falta de regulamentação privada, preenchendo, no exercício de uma função integradora, as lacunas por ela deixadas. As normas cogentes predominam, em matéria privada, no direito de família, no das sucessões e nos direitos reais. As normas supletivas aplicam -se, principalmente, no campo das obrigações, na ausência de manifestação de vontade das partes. As normas cogentes aplicam -se em qualquer hipótese, enquanto as não cogentes só se aplicam na ausência da regulamentação privada. A distinção das normas em cogentes e não cogentes baseia -se, portanto, na eficácia da vontade particular em face das normas jurídicas que emanam do Estado, tendo grande importância nos países de direito codificado, pois não existem nos países de common law. Importância prática dessa distinção está no fato de que a manifestação da vontade privada contrária à norma cogente é nula, não produzindo efeitos, em princípio. Também os direitos reconhecidos pelas normas imperativas são, no mais das vezes, irrenunciáveis, por exemplo, os efeitos do casamento (CC, art. 1.566), o direito a alimentos (CC, art. 1.694). Poderíamos ainda nos referir à norma semi -imperativa, própria da legislação de direito social, a qual, para proteger a parte considerada mais fraca no contrato, estabelece a sua inderrogabilidade, salvo no caso de beneficiar essa parte, como se encontra na Lei do Inquilinato e na legislação trabalhista318. 15. NORMAS INTERPRETATIVAS E NORMAS INTEGRATIVAS As normas interpretativas estabelecem os critérios a seguir na pesquisa do sentido da norma (CC, art. 112) ou fixam -lhe previamente o sentido. Normas integrativas são as que se compõem com outras normas, preenchendo -lhes as lacunas. Por exemplo, nos contratos, deixando os contratantes de fixar o local de pagamento, aplica -se a norma do art. 327 do Código Civil, que dispõe: “Efetuar - se -á o pagamento no domicílio do devedor, salvo se as partes convencionarem diversamente, ou se contrário resultar da lei, da natureza da obrigação ou das circunstâncias”. 16. NORMAS PERFEITAS E NORMAS IMPERFEITAS Quanto à sanção, a norma pode ser perfeita, mais que perfeita, menos que perfeita e imperfeita (lex perfecta, lex plus quam perfecta, lex minus quam perfecta, lex imperfecta). A norma perfeita estabelece, como sanção, a inexistência ou a nulidade do ato (exemplos: CC, arts. 1.548, 1.749); a mais que perfeita estabelece duas sanções, por exemplo, a Lei n. 5.478, de 25 de julho de 1968 (Lei da Ação de Alimentos), no art. 19 e seu § 1º. A menos que perfeita estabelece sanção diversa da nulidade, permitindo a eficácia do ato (CC, art. 1.641). A imperfeita não tem sanção (ex.: obrigação natural, aquela em que o credor não dispõe de ação para compelir o devedor ao pagamento), sendo mais frequente no direito público, nas leis de organização e no direito internacional. 17. NORMAS DE DIREITO COMUM, NORMAS DE DIREITO ESPECIAL E NORMAS DE DIREITO EXCEPCIONAL Relativamente aos princípios do sistema jurídico e à função que nele desempenha, as normas ainda se dividem em comuns, especiais e excepcionais. Normas comuns ou gerais são as que disciplinam todas as relações de determinada natureza, como as de direito civil. Normas especiais são as que se aplicam a certas relações jurídicas de direito comum, regulando -as diversamente, como ocorre com as de direito do consumidor, ou da previdência social. O direito especial afasta -se das regras de direito comum e destina -se a classes especiais de pessoas, de coisas e de relações. Enquanto o direito comumdestina -se a regular a realidade jurídica e social considerada em sua totalidade, o direito especial forma -se de normas que se destinam a determinadas relações. São normas especiais as que formam o código do consumidor, a lei dos registros públicos, a lei do condomínio, a lei do inquilinato, a lei da propriedade intelectual etc. Direito comum e direito especial não são contrários. Este desenvolve os princípios daquele, sendo o direito comum supletivo do especial. O direito civil é o direito privado comum, supletivo da legislação civil complementar. O direito excepcional aparece como contrário aos princípios que informam o sistema jurídico. Suas normas regulam, de modo diverso ao estabelecido no direito comum, fatos ou relações jurídicas que, por sua natureza, estariam nele compreendidos. São uma “exceção” às normas gerais. O direito excepcional não produz mais efeitos do que os estabelecidos na lei, não admitindo, por isso, interpretação extensiva nem aplicação por analogia. São exemplos de normas excepcionais as que consagram a responsabilidade civil objetiva, contrariamente ao princípio geral e secular da culpa, e as que se inserem no CC, arts. 497, 1.561, 1.647, 1.749. 18. FONTES DAS NORMAS JURÍDICAS OU FONTES DE DIREITO A compreensão da natureza e eficácia das normas jurídicas pressupõe o conhecimento da sua origem ou fonte, isto é, dos mecanismos institucionais que fixam o modo como se produzem e manifestam as regras de direito. É uma questão política e sociológica, na medida em que envolve o reconhecimento de um âmbito de poder em que se confrontam grupos sociais diversos, na defesa de seus interesses. A expressão fonte de direito tanto significa o poder de criar normas jurídicas quanto a forma de expressão dessas normas. No primeiro caso, as fontes dizem -se de produção e, segundo a estrutura de poder que representam, são o poder legislativo, o poder judiciário, o poder social (os usos e costumes) e o poder dos particulares. A fonte de direito consiste, assim, em um ato de vontade, da sociedade, por seus poderes de natureza executiva, legislativa e judiciária, ou de grupos sociais ou instituições, ou até dos próprios indivíduos no exercício de um poder que lhes é reconhecido pela ordem jurídica, que é a chamada autonomia privada319. Em todos esses poderes existe um fator comum, que é a vontade, social ou individual, exercitável na forma e nos limites que o sistema jurídico estabelece, obedecendo à escala de competências instituídas, e também a uma identidade de propósitos, que é a eficácia jurídica, a produção de efeitos jurídicos. É por isso que a doutrina realista de Duguit, Jéze, Bonnard, unifica as diversas fontes de produção jurídica em uma só manifestação, o ato jurídico, distinguindo -o em quatro espécies: ato -regra, ato subjetivo, ato - condição e ato jurisdicional, de acordo com a origem da vontade e os efeitos produzidos. O ato -regra é o gênero que reúne todas as espécies de lei, em sentido amplo, a lei, o decreto, as resoluções. O ato subjetivo seria a manifestação de vontade individual, apta a produzir efeitos juridicamente reconhecidos. Constitui a espécie de maior interesse para o direito civil, que estabelece a respectiva disciplina legal de sua existência, validade e eficácia e que tem no negócio jurídico a sua mais relevante espécie. O ato -condição é manifestação de vontade de órgão público ou de particular, destinada a inserir um indivíduo em uma situação jurídica própria, como ocorre, por exemplo, com a naturalização, a nomeação de funcionário público, o casamento, a separação judicial, a admissão de pessoa como empregado320. O ato jurisdicional compreende as decisões dos juízes e tribunais. No segundo caso, isto é, a ideia de fonte de direito como forma de revelação desse direito, as fontes dizem -se de cognição, constituindo -se no modo de expressão das normas jurídicas, e são a lei, compreendendo a Constituição e suas leis complementares, as leis ordinárias, as leis delegadas, as medidas provisórias, os decretos legislativos e as resoluções (CR, art. 59), o estatuto social, o negócio jurídico, o costume, os princípios jurídicos e a sentença judicial. A lei é um conjunto ordenado de regras que se apresenta como um texto escrito. Caracteriza -se por ser estatal, obrigatória, geral e permanente. Estatal, no sentido de ato do Estado, pelo seu poder legislativo; obrigatória, porque se impõe à vontade dos destinatários, que a devem observar e respeitar, sob pena de sanção; geral, porque se dirige a todos e a cada um indeterminadamente; permanente, porque dispõe para o futuro, em princípio sem limitações de tempo. A lei é, assim, um ato do poder legislativo que estabelece normas de comportamento social. Para entrar em vigor, deve ser promulgada e publicada no Diário Oficial. Em matéria de direito civil, a lei básica, geral, é o Código Civil, que se complementa com leis e decretos de natureza especial, referentes a institutos que, por sua importância, têm merecido particular atenção do legislador, como a locação, o parcelamento do solo urbano, o condomínio, os direitos autorais, a separação judicial e o divórcio, os registros públicos etc. A autonomia privada é o poder que a pessoa tem de regular seus interesses, estabelecendo as normas de seu próprio comportamento. Seu instrumento é o negócio jurídico, declaração de vontade destinada a produzir efeitos que os declarantes pretendem e o direito protege321. O negócio jurídico é, assim, modo de expressão das regras jurídicas criadas pela vontade dos particulares. Suas normas têm as mesmas características das que emanam do Estado, a saber, a bilateralidade e a coatividade. No mais das vezes, são individuais e concretas (eventualmente gerais e abstratas, como o estatuto das grandes associações, empresas, clubes etc.). Do mesmo modo que as estatais, as normas particulares estabelecem direitos e deveres (bilateralidade), apresentam -se como juízos hipotéticos (abstração) e estabelecem sanções (coatividade). O poder judiciário realiza o direito nos casos concretos, solucionando os conflitos de interesses e concretizando a justiça. Por meio de suas decisões, as sentenças estabelecem normas individuais e concretas. A reiteração desses julgados no mesmo sentido, criando uma orientação geral para os tribunais, forma a jurisprudência. As fontes do direito civil brasileiro são assim, basicamente, o Código Civil e a legislação complementar, os negócios jurídicos, as decisões que formam a jurisprudência uniforme, expressa nas súmulas, e os costumes. Quanto a estes, o próprio Código permite a sua aplicação em determinadas matérias (arts. 372, 569, II, 596, 597, 615, 965, I, 1.297, § 1º), como também dispõe a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, art. 4º. Há que se considerar, porém, a influência da Constituição no direito civil. O Código Civil de 1916, por força das transformações políticas, jurídicas e sociais que marcaram a sociedade brasileira no curso do século XX, viu -se privado da posição central que ocupava no sistema de fontes do direito moderno em favor da Constituição da República, que passou a ser a fonte suprema do processo orientador da cognição jurídica. A Constituição incorporou ao seu texto, para protegê -los, valores, princípios e institutos básicos do direito civil, como a liberdade, a segurança, a igualdade (no Preâmbulo), a dignidade humana e a livre -iniciativa (no seu art. 1º), os direitos da personalidade (art. 5º, X, XI, XII, XIIX), o direito de propriedade (art. 5º, XXII), o direito da herança (art. 5º, XXX), a proteção à família (arts. 203 e 226), dotados, não obstante o seu caráter programático, própria de sua natureza constitucional, de eficácia imediata e direta (art. 5º, § 1º). A constitucionalização desses princípios e institutos de direito civil deu azo à defesa de um novel Direito Civil Constitucional322, que seria materialmente direito civil e formalmente direito constitucional, sistematizado em três blocos: o direito civil constitucional da pessoa, o da famíliae o do patrimônio. Em face disso, pode reconhecer -se que as normas constitucionais tiveram uma função preponderante na produção jurídica e na transformação dos institutos tradicionais do direito civil323 até o advento do Código atual. A aprovação do Código Civil de 2002324, que incorpora, desenvolve e regulamenta as disposições constitucionais de natureza civil, isto é, os princípios e institutos supramencionados, deve produzir inevitável refluxo na ideia da constitucionalização da matéria civil, recuperando esse novo diploma a sua posição central no ordenamento jurídico brasileiro, “como lei básica, mas não global, do direito privado”. A disposição do art. 1º do Código no sentido de que “Toda pessoa é capaz de direitos e deveres na ordem civil”, implica reconhecer que os conflitos e as pretensões decorrentes da violação desses direitos devem resolver -se, prioritariamente, no âmbito do direito privado, que é um direito fundamentado em valores próprios e sistematizado em função de relações específicas, respeitando, evidentemente, a normativa de natureza constitucional. 19. INTERPRETAÇÃO DA NORMA JURÍDICA. A PERSPECTIVA TRADICIONAL Concepção tradicional e ainda dominante em nosso direito considera que interpretar é descobrir o sentido e o alcance da regra jurídica. Com o termo sentido, queremos nos referir ao significado dos conceitos, das fórmulas verbais constantes da norma; e com o termo alcance, queremos dizer o âmbito de aplicação, a extensão, os casos individuais abrangidos pelo conceito325. Para realizar -se o direito, é necessária prévia compreensão de suas regras, pois sua concretização depende do seu exato sentido e significado. Aplicar e interpretar o direito seriam atividades diversas, mas de íntima conexão, pois só pode ser aplicado o que é compreendido. A interpretação é, por isso, o problema central da metodologia jurídica, não tendo mais sentido a tese de sua exclusão quando o texto for claro e inequívoco (in claris non fit interpretatio). A determinação do direito exige sempre interpretação. Sendo a matéria tão importante, foi necessário estabelecerem -se critérios orientadores da atividade do intérprete, procurando -se certa uniformidade nas soluções, indispensável à segurança jurídica. A ciência que estuda e sistematiza os processos interpretativos chama -se hermenêutica jurídica326. Nessa matéria domina hoje a tese de que o problema da interpretação “reflete a concepção fundamental do direito de cada época e pressupõe o contexto cultural” em que o direito se situa327. Seu objeto (o que se interpreta) é não só o texto da lei, como a doutrina tradicional defendia, e era próprio do positivismo jurídico, mas principalmente a regra que esse texto contém. Seu objetivo (o fim que, com a interpretação, se procura alcançar) suscita três orientações distintas: a da interpretação subjetivista, a da interpretação objetivista e a da livre pesquisa do direito. Para os adeptos da interpretação subjetivista, historicamente a primeira, o que se pesquisa é a vontade do legislador (voluntas legislatoris) expressa na lei. Sendo esta uma obra do poder legislativo, o sentido é o que o autor pretendeu dar -lhe328. Nesse caso, teriam grande importância os trabalhos preliminares à promulgação da lei. Tal concepção tem graves inconvenientes. Quando a norma aplicável é antiga, conservada pela tradição, a vontade do legislador originário está, normalmente, superada. Quando o legislador da norma é um colegiado, o Congresso Nacional, por exemplo, a vontade do legislador é uma ficção. Para os seguidores da interpretação objetivista, não é a vontade do legislador que se visa, mas a vontade da lei (voluntas legis). Na verdade, não a vontade, pois a lei não tem vontade, mas o sentido da norma. A lei, promulgada, separa -se de seu autor e alcança uma existência objetiva329. Para outra concepção, a da escola da livre pesquisa do direito (Freirecht), o juiz determina a norma, levando em conta as concepções jurídicas, morais e sociais de cada época330. A interpretação jurídica é, assim, uma atividade criadora da norma, critério ou diretiva para a solução do caso. O trabalho do jurista, dirigido à solução de problemas concretos, não é uma tarefa mecânica, mas um raciocínio prático vinculado a um marco normativo331. A interpretação jurídica não é, portanto, de natureza hermenêutica, mas sim de natureza normativa. 20. ESPÉCIES DE INTERPRETAÇÃO Segundo a teoria dominante, a interpretação pode classificar -se em várias espécies, de acordo com os agentes e os elementos que utiliza, segundo o modelo tradicional, hoje em vias de superação, elaborado por Savigny. Quanto aos agentes da interpretação, ela se diz autêntica, se realizada pelo próprio legislador, o que é raro; judicial, quando feita pelos tribunais; e doutrinária, se feita pelos cientistas do direito. As duas primeiras têm caráter oficial. Quanto aos elementos ou critérios de que se utiliza, a interpretação poderia ser gramatical, lógica, sistemática, histórica e teleológica. Interpretação gramatical ou literal é a que se processa apenas no campo linguístico, procurando o sentido e o alcance das palavras, dos conceitos da norma. Seria a primeira fase do processo interpretativo. A interpretação lógica utiliza as regras do raciocínio para compreender o significado da norma, procurando a coerência, a conexão com outros preceitos. Com ela afasta -se a interpretação que leva a um “resultado contraditório” com o disposto em outras normas. Diretamente ligada à interpretação lógica, temos a interpretação sistemática, que relaciona a norma visada com as que compõem o mesmo instituto jurídico, levando -se em conta o contexto legal em que a norma se inscreve, considerando -se o livro, o título, o capítulo, a seção, o parágrafo. Nesse sentido, diz -se que as palavras da lei devem relacionar -se com o contexto em que se situam, pelo que muitos juristas preferem denominá -la de interpretação lógico -sistemática332. A interpretação histórica considera a norma na dimensão temporal em que ela se formou, pesquisando a occasio legis, as circunstâncias que presidiram à sua elaboração, de ordem econômica, política e social, o que se reflete particularmente no direito civil, um direito de formação histórica e jurisprudencial, profundamente influenciado por tais elementos. Temos ainda a interpretação teleológica, que investiga a finalidade social da lei, isto é, os interesses predominantes ou os valores que, com ela, se pretende realizar: a proteção da pessoa, a justiça, a segurança, o bem comum, a liberdade, a igualdade, a paz social, como aliás dispõe o art. 5º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro. Tais processos, indissociáveis, são, porém, gradativos. O intérprete procura, inicialmente, compreender o significado das palavras que formam o enunciado da proposição, dando -lhe sentido jurídico, não vulgar. Se necessário, passa à pesquisa do espírito da lei, identificando a relação de autonomia ou de subordinação com as diversas normas do mesmo ordenamento. Recorre às regras da lógica jurídica, recusando a interpretação que leve a resultado contrário a outras normas ou ao próprio sistema, ou que conduza à consequência absurda, levando em conta o contexto histórico de sua elaboração e os fins sociais a que se destina. Quanto aos resultados, a interpretação é declarativa, extensiva e restritiva. Interpretação declarativa é aquela em que o texto legal corresponde ou coincide com a mens legis, o espírito da lei. Interpretação extensiva, ou ampliativa, quando a fórmula legal, a letra, é menos ampla que o espírito, a mens legis. Interpretação restritiva, quando a letra da lei é mais ampla que o espírito, o sentido da norma333. As regras jurídicas de direito excepcional, as que impõem sanções ou concedem privilégios, as limitadoras da capacidade, não são suscetíveis de interpretação extensiva, exigindo, de regra, uma restritiva. A interpretação declarativa ainda se diz estrita e lata, conforme dê sentido limitado ou amplo à expressão que temvários significados. Por exemplo, o parentesco pode significar apenas consanguinidade, como também abranger a afinidade e a adoção (CC, art. 1.591 ss.) em uma concepção lata. A interpretação extensiva e a restritiva implicam uma correção do texto legal para modificar -lhe o alcance, ampliando -o ou restringindo -o. Alguns critérios interpretativos têm sido tradicionalmente observados pela doutrina e jurisprudência334, sendo que o modelo dominante está em vias de franca superação. 21. AS DISPOSIÇÕES DO CÓDIGO CIVIL SOBRE A INTERPRETAÇÃO O Código Civil brasileiro não dispõe de normas gerais sobre a interpretação legal, contendo disposições apenas quanto à interpretação das normas decorrentes da autonomia privada (arts. 112, 114 e 1.899), com o predomínio de critérios objetivos, pois dispõe, no art. 112, que nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nelas consubstanciadas do que ao sentido literal da linguagem. Tratando -se de testamento, prevalece o critério subjetivo (art. 1.899). Ainda em matéria de autonomia privada, dispõe o Código que os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa -fé e os usos do lugar de sua celebração (CC, art. 113). A Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro estabelece, todavia, que, “na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais do direito e às exigências do bem comum” (art. 5º). Não obstante a referência à aplicação, tal dispositivo compreende também a interpretação, inserida esta no conjunto de processos pelos quais o direito se determina. Consigna -se, então, de modo expresso, o recurso ao critério teológico, ao referir -se o dispositivo aos fins sociais do direito e às exigências do bem comum, valores que o legislador considerou primordiais e que representam o predomínio do social sobre o individual. 22. INTEGRAÇÃO DA NORMA JURÍDICA. A ANALOGIA E SUAS ESPÉCIES Quando o intérprete não encontra no sistema jurídico a norma à questão de fato, verifica -se uma lacuna, um vazio, melhor seria dizer, uma imperfeição ou falta de previsão específica. A lacuna é a ausência de norma adequada ao caso concreto. E como o juiz não pode eximir -se de proferir decisão quando chamado a intervir (CPC, art. 140)335, constatando esse vazio, deve recorrer à integração, processo da técnica jurídica com o qual se preenchem as lacunas mediante o recurso a outras normas ou princípios do sistema jurídico. A própria lei, prevendo a possibilidade de omissão, indica ao juiz o meio de supri -la, prescrevendo o recurso à analogia, aos costumes e aos princípios gerais do direito336. Acerca das lacunas de direito existem duas concepções doutrinárias: a que reconhece existirem lacunas em todos os sistemas jurídicos, pela impossibilidade de se prever a totalidade das situações de fato que a vida oferece, e a que defende a inexistência de tais vazios, em face da plenitude de ordem jurídica. Se existem lacunas na lei, no direito não podem existir, e por isso, para os juristas que contestam a existência de lacunas, o direito, concebido como sistema, dispõe de princípios gerais dos quais sempre se poderá deduzir uma solução337. A integração realiza -se pela analogia, que consiste em recorrer, para caso não previsto, a norma legal concernente a uma hipótese prevista e, por isso mesmo, tipificada338. Seu fundamento jurídico - filosófico é o princípio da igualdade de tratamento, segundo o qual fatos de igual natureza devem julgar -se de igual maneira, e se um desses fatos já tem no sistema jurídico a sua regra, é essa que se aplica. Ubi eadem est legis ratio, ibi eadem legis dispositio339. Há limites, porém, para o recurso à analogia, não se podendo aplicar, analogicamente, normas criadas para determinada hipótese excepcional aos casos que não apresentem tal característica (singularia non sunt extendenda)340. Há duas espécies de analogia: a legal e a jurídica. A primeira consiste em obter a norma adequada à disciplina do caso de outro dispositivo legal; na segunda, infere -se a norma de todo o sistema jurídico, utilizando -se a doutrina, a jurisprudência e os princípios que disciplinam a matéria semelhante ou até os princípios gerais de direito. Na analogia legal, parte -se de norma jurídica isolada para aplicá -la a casos idênticos. Na analogia jurídica, parte -se de uma pluralidade de normas jurídicas e com base nelas, por indução, chega -se a um princípio aplicável ao caso, não previsto em nenhuma hipótese legal. A diferença é de grau. São pressupostos da analogia legal: (a) o caso deve ser absolutamente não previsto em lei; (b) deve existir, pelo menos, um elemento de identidade entre o caso previsto e o não previsto; e (c) a identidade entre os dois casos deve atender à ratio legis341. Quanto aos seus limites de aplicabilidade no direito brasileiro, não se admite analogia nas leis penais, salvo na hipótese de beneficiar o réu. Também não se admite nas normas excepcionais e nas fiscais que impõem tributos342. A analogia difere da interpretação extensiva. A primeira implica o recurso às normas do sistema jurídico, em face da inexistência de norma adequada à solução do caso concreto, enquanto a segunda realiza -se no âmbito de incidência da mesma norma. Poderíamos dizer que, na interpretação extensiva, estende -se a norma a casos não previstos na sua fórmula legal, mas compreendidos pelo seu espírito, enquanto na analogia, ou aplicação analógica, incide a norma em situações não compreendidas em seu espírito. Não há, porém, limites, nem solução de continuidade, entre interpretação jurídica e integração. 23. INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO. NOVA PERSPECTIVA METODOLÓGICA A interpretação e a integração jurídicas supradescritas correspondem à concepção tradicional e ainda dominante no direito brasileiro, isto é, a interpretação como processo ou resultado da pesquisa do sentido e alcance das proposições normativas, e a integração como técnica de preenchimento de lacunas da lei. Esse entendimento reflete o pensamento jurídico ocidental dos últimos séculos, a época da modernidade jurídica, caracterizada pelo positivismo normativista, que tinha do direito uma visão objetivista, como realidade externa ao sujeito, pré -constituída, referida a normas e com o objetivo de sua aplicação, e não como “conjunto de critérios orientadores da atividade humana” resultante de uma prática interpretativo -criativa. Esse pensamento constitui o chamado paradigma da aplicação343, que tem a norma jurídica como ponto de partida, o direito como sistema de normas, unitário, fechado e completo, e a realização do direito, um processo em que a interpretação, a aplicação e a integração das leis se distinguem e separam. Estando esse normativismo em vias de superação344, com uma consistente crítica a esse paradigma, e afastado o dogma do sistema unitário e fechado345, perde sentido a tradicional diferença entre interpretação e integração. Admite -se hoje uma interpretação ampla que, absorvendo a aplicação e compreendendo a integração, se constitua em processo contínuo de criação normativa. Perde sentido, assim, falar -se em aplicação do direito. Interpretação e aplicação são inseparáveis, conjugam -se em uma unidade indissolúvel346, sendo a interpretação jurídica a fase essencial da realização de direito pelo intérprete, jurista, advogado ou magistrado. Surge uma nova perspectiva a que podemos chamar de direito jurisprudencial347, ou jurisprudencialismo, no sentido de um processo de determinação do direito, que tem o pensamento jurídico como razão prática, o caso concreto como ponto de partida, e a decisão do caso por meio de determinação da norma específica pelo intérprete, fundamentada em princípios axiológico - normativos348. 24. A VIGÊNCIA DA NORMA JURÍDICA. PRINCÍPIOS DA OBRIGATORIEDADE E DA CONTINUIDADE. O ERRO DE DIREITO A principal forma de expressão das normas jurídicas é a lei, cuja vigência e obrigatoriedade começam a partir de sua publicação oficial, pois, sem tal providência, não se poderia pretender que todos a conhecessem e cumprissem. O termo inicial davigência está expresso no próprio texto legal e pode ser a data da sua publicação ou outra posterior. Neste caso, a lei fixa o prazo entre a publicação e o começo de vigência, prazo que se denomina vacatio legis, destinado a facilitar a divulgação e a respectiva aplicação. No caso do Código Civil, o art. 2.044 dispõe que “Este Código entrará em vigor um ano após a sua publicação”, que se realizou no dia 11 de janeiro de 2002. Aplicando -se a regra do art. 132 do Código, sobre a contagem de prazos, deve concluir -se que o novo Código entrou em vigor a 12 de janeiro de 2003, opinião que não é, porém, pacífica349. Na falta de indicação, a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, Decreto -lei n. 4.657, de 4 de setembro de 1942, no art. 1º, fixa em quarenta e cinco dias o prazo para o início da vigência no país, e em três meses para os Estados estrangeiros, nos casos em que se admitir a obrigatoriedade da lei brasileira como, por exemplo, quando aplicável aos atos e negócios praticados fora do território brasileiro por particulares e por funcionários das representações diplomáticas. Quanto ao termo final, “não se destinando a vigência temporária, a lei terá vigor até que outra a modifique ou revogue”. Acerca dessa matéria, dois princípios são cardeais: o da obrigatoriedade e o da continuidade350. Pelo princípio da obrigatoriedade, ninguém pode escusar -se de cumprir a lei, alegando não a conhecer (ignorantia iuris neminem excusat et nemo ius ignorare censetur)351, o que torna desnecessária a prova judicial da norma aplicável à espécie, pois os juízes conhecem a lei nacional (iuria novit curia)352. Tal princípio leva à conhecida presunção de fato e de direito (praesumptio juris et de jure), segundo a qual, publicada a lei, todos a conhecem, não admitindo prova em contrário. Fundamento de tal presunção é a necessidade da certeza jurídica quanto à generalidade e eficácia da lei. O princípio da obrigatoriedade não é absoluto, porém, distinguindo a doutrina a questão da obrigatoriedade da ignorância da lei como causa de erro. A ignorância (ausência de conhecimento) ou má interpretação da lei não justifica a falta do seu cumprimento nem isenta as pessoas das sanções nela estabelecidas. Tal disposição não afasta, contudo, a relevância do erro de direito (conhecimento falso da lei) como causa de anulação de negócios jurídicos, “ou como constitutivo do estado de boa -fé, como estado psicológico, ao qual podem ser atribuídos vários efeitos”353. Defende -se, atualmente, a tese de que “o erro de direito é escusável nos mesmos termos em que é o de fato”. Pode -se assim dizer que “os indivíduos não podem eximir -se do cumprimento das obrigações imperativamente impostas pelo direito, alegando a ignorância da lei, mas não se tratando da questão do cumprimento de obrigações desse tipo, nada impede, em princípio, que a ignorância da lei possa realmente aproveitar aos particulares”. Dispõe o Código Civil, a propósito, ser anulável o negócio jurídico quando a declaração de vontade emanar de erro substancial, considerando -se como tal, também, o erro de direito, quando este não implique recusa à aplicação de lei e for o motivo único ou principal do negócio jurídico (CC, arts. 138 e 139, III)354. Alguns casos são esclarecedores. Cita o Prof. Ferrer Correia, em sua obra Erro e interpretação na teoria do negócio jurídico, o seguinte exemplo: “A institui no seu testamento a B, herdeiro da metade dos seus bens, afirmando que só não o institui herdeiro universal porque a lei lhe impõe o dever de guardar para os irmãos (únicos parentes próximos que de fato lhe sobrevivem) a outra metade do seu patrimônio”355. Também Eduardo Espínola, no Manual do Código Civil brasileiro, de Paulo Lacerda, no volume dedicado aos fatos jurídicos (vol. III, p. 281), citando Colin e Capitant, dá o seguinte exemplo: “Paulo, menor de 16 anos, morre, depois de fazer testamento. Eu, que sou seu herdeiro, satisfaço os legados, ignorando que o menor de 16 anos não pode fazer testamento”. Trata -se de erro de direito capaz de anular tais atos, pois o que se verifica não é a intenção de descumprir a lei, mas a circunstância de que seu desconhecimento é que levou à prática de ato normalmente não realizável356. Pelo princípio da continuidade, a lei vige até que outra a modifique ou revogue357. A cessação da vigência pode ser prevista no próprio texto legal ou depender de lei nova. Está na lei quando ela mesma limita o prazo de sua vigência, ou quando a temporariedade resulta da própria natureza da lei, como ocorre com as leis orçamentárias anuais, ou quando se destina a fins determinados, por exemplo, mandar fazer certa obra e conceder favores fiscais a empresas por períodos determinados. A publicação de lei nova revoga a anterior, denominando -se ab -rogação, quando total, e derrogação, se parcial358. A revogação por lei nova é expressa ou tácita, neste caso, quando as disposições novas forem incompatíveis com as já existentes, ou regularem inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior. A incompatibilidade pode ocorrer entre lei geral e lei especial, e vice -versa. Não ocorrendo, prevalecem as disposições de ambas, não havendo revogação, isto é, “a disposição especial não revoga a geral, nem a geral revoga a especial, senão quando a ela ou ao seu assunto se referir, alterando -a explícita ou implicitamente”. É possível a coexistência de normas gerais com especiais, versando a mesma matéria, desde que não se contradigam. Havendo incompatibilidade, tanto a lei geral pode revogar a especial, como esta, aquela359. O direito brasileiro não aceita a repristinação, que é a restauração da lei revogada pelo fato de a lei revogadora ter perdido a sua vigência360. 25. A VIGÊNCIA TEMPORAL DA NORMA. PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS. O DIREITO ADQUIRIDO. REGRAS FUNDAMENTAIS A vigência da norma jurídica manifesta -se no tempo (dimensão temporal) e no espaço (dimensão espacial). Quando surge a questão de saber qual a norma aplicável a determinado fato, a revogada ou a vigente, configura -se o conflito de normas no tempo. Quando se indaga qual a norma aplicável em termos espaciais, surge o conflito de normas no espaço. O primeiro é objeto do direito intertemporal ou direito transitório; o segundo, do direito internacional privado. No direito intertemporal vigem dois princípios fundamentais: (a) o do efeito imediato da lei, pelo qual a lei nova se aplica a todos os fatos que ocorrerem durante a sua vigência; e (b) o da irretroatividade, pelo qual os fatos verificados sob o império da lei antiga continuam regidos por ela, respeitando -se o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada, tudo isso em favor da segurança jurídica. Esses dois princípios correspondem a duas concepções teóricas fundamentais: a objetiva de Roubier, que distingue o efeito retroativo do efeito imediato da lei, e a subjetiva, de Gabba, que estabelece, como limite à vigência da lei nova, o direito adquirido361. Direito adquirido é a consequência de uma lei, por via direta ou por intermédio de fato idôneo que, tendo passado a integrar o patrimônio do adquirente, não se fez valer antes da vigência da lei nova sobre o mesmo objetivo362. O sistema jurídico brasileiro contém as seguintes regras sobre essa matéria: (a) são de ordem constitucional os princípios da irretroatividade da lei nova e do respeito ao direito adquirido363; (b) esses dois princípios obrigam ao legislador e ao juiz; (c) a regra, no silêncio da lei, é a irretroatividade; (d) pode haver retroatividade expressa, desde que não atinja direito adquirido; e (e) a lei nova tem efeito imediato, não se aplicando aos fatos anteriores. 26. A VIGÊNCIA ESPACIAL DA NORMA. CONFLITOS DE NORMAS NO ESPAÇO. PRINCÍPIOS DIRETORES O direito internacional privado tem por objetivo a solução de conflitos de normas jurídicas no espaço, indicando os critérios que determinam a vigência territorial ou extraterritorial de certa norma. Esses critérios são os seguintes, no direito brasileiro: a) aplica -se a lei do domicílioda pessoa nas questões sobre o começo e fim da personalidade, o nome, a capacidade e os direitos de família364; b) aplica -se a lei do lugar da situação dos imóveis para qualificá - los (se não móveis ou imóveis) e reger as relações que lhes forem pertinentes365; c) aplica -se a lei do lugar de constituição à qualificação e disciplina das obrigações, sendo que a obrigação resultante de contrato reputa -se constituí da no lugar onde residir o proponente366; d) aplica -se a lei do domicílio do defunto ou desaparecido à sucessão por morte ou ausência. Quanto à capacidade para suceder, aplica -se a lei do domicílio do herdeiro ou legatário. Todavia, no caso de a sucessão incidir sobre bens de estrangeiro situado no Brasil, aplicar -se -á a lei brasileira em favor do cônjuge brasileiro e dos filhos do casal sempre que não lhes for mais favorável a lei do domicílio do falecido367. CAPÍTULO IV O Direito Civil. Gênese e Evolução SUMÁRIO: 1. O direito civil. Conceito e importância. 2. Características do direito civil. 3. O direito civil como produto histórico e cultural. Historicidade e continuidade. 4. A fase originária. As fontes romanas. 5. O direito medieval. 6. O direito germânico. 7. O direito canônico. 8. O direito comum (ius commune). 9. O direito moderno. 10. O Estado moderno na formação do direito civil. O Estado Liberal de Direito. 11. A sistematização do direito civil. O processo de codificação. 12. O Código Civil francês. 13. O Código Civil alemão. 14. O direito civil brasileiro. Esboço histórico. 15. A codificação civil brasileira: (a) antecedentes; (b) o Código Civil de 1916. Estrutura e características. 16. A reforma do Código Civil. 17. O Código Civil de 2002. 18. A unidade do direito privado. 19. Conteúdo do direito civil. Os institutos fundamentais. 20. A personalidade. 21. A família. 22. A propriedade. 23. O contrato. 24. A empresa. 25. A responsabilidade civil. 26. A sucessão hereditária. 27. O direito civil contemporâneo. Tendências e características. 1. O DIREITO CIVIL. CONCEITO E IMPORTÂNCIA Direito civil é o conjunto de princípios e normas que disciplinam as relações jurídicas comuns de natureza privada. É o direito privado comum, geral ou ordinário368. De modo analítico, é o direito que regula a pessoa, na sua existência e atividade, a família e o patrimônio. É direito privado porque se baseia na igualdade jurídica e no poder de autodeterminação das pessoas que intervêm nas relações jurídicas, objeto de sua disciplina, e é comum ou geral, porque suas normas aplicam -se de modo uniforme a todas essas relações, disciplinando a realidade social como um todo. A importância do direito civil manifesta -se em diversos aspectos. Em primeiro lugar, constitui a base do ordenamento jurídico de todas as sociedades. É o direito comum por excelência, dele nascendo outros ramos, outras disciplinas de natureza especial, que a ele continuam ligadas, quer pela existência de princípios fundamentais comuns, quer pela incidência subsidiária de suas normas, como ocorre com o direito comercial, hoje direito empresarial, o direito do trabalho, o direito econômico, o direito agrário, o direito previdenciário etc. Em segundo lugar, o seu espírito e sua técnica têm influenciado profundamente os demais ramos da ciência jurídica. É no direito civil que a técnica jurídica, conjunto de processos que se utilizam na determinação do direito, mais se desenvolveu, continuando a ser a espinha dorsal da ciência jurídica369. O próprio Estado, no exercício de sua atividade econômica, a ele se submete. 2. CARACTERÍSTICAS DO DIREITO CIVIL O direito civil apresenta características que o diferenciam dos demais ramos de direito. É um direito de formação histórica e jurisprudencial, estável, altamente desenvolvido em sua técnica, personalista e liberal. É direito de formação histórica porque, arrancando das mais antigas tradições e práticas costumeiras dos romanos, o ius quiritium, veio se formando, ao longo dos séculos, com a contribuição de vários povos e culturas. Sua unidade é histórica, não lógica370. É jurisprudencial porque suas normas resultam da cristalização das reiteradas decisões dos magistrados romanos, em face de casos concretos. A base do direito da chamada civilização ocidental cristã é o direito romano, do qual nos vieram as noções fundamentais, o método e os principais institutos, principalmente em matéria de obrigações. É um direito estável em comparação com os sistemas de direito público, variáveis no tempo e no espaço, ao sabor das modificações políticas e ideológicas que justificam as mudanças nas estruturas do poder, mantendo o direito civil, ao longo dos séculos, uma linha de continuidade histórica nos seus aspectos formais e materiais. Os seus principais institutos, que hoje disciplinam a nossa vida em sociedade, como a personalidade, a família, a propriedade, o contrato, a herança e a responsabilidade civil, são idênticos às que, guardadas as inevitáveis modificações resultantes do progresso social, já existiam em Roma e na Europa medieval. Consagrando o valor fundamental da pessoa, é o direito civil o setor jurídico em que mais lentamente repercutem as mudanças sociais e as revoluções políticas, pois nele não existem diferenças de poder e de hierarquia, predominando os valores da igualdade e da liberdade. Apresenta - se, assim, como depositário dos valores e das tradições nacionais, mantendo -se ao longo dos tempos como produto da história social e cultural de um povo371, o que não impede que seja, quando necessário, expressão de reforma e de institucionalização de processos de mudança. A sua estabilidade não impede a atualização de seus institutos por força do progresso social. É um direito altamente desenvolvido porque em nenhum outro a técnica jurídica alcançou tão grande aperfeiçoamento, elaborando regras, princípios, conceitos, categorias e construções que, por sua amplidão e generalidade, aplicam -se a todos os ramos do direito. É, assim, o principal depositário dos conceitos básicos da ciência do direito372. Sua técnica e seu espírito servem de base a toda atividade jurídica, tendo sido nele, também, que se desenvolveram os métodos de criação e de realização, próprios dos juristas. É um direito personalista, na medida em que tem por objetivo a proteção da pessoa e dos seus interesses de ordem familiar e patrimonial. A pessoa é o centro e a razão de ser da ordem jurídica civil, que se baseia no princípio da dignidade da pessoa humana e tem, como expressão imediata, os chamados direitos da personalidade (CC, arts. 11 a 21). Fundamento ideológico do direito civil é, historicamente, o individualismo, temperado, hoje em dia, pelas preocupações da ética social373 que justificam o princípio da socialidade do Código Civil (V. Capítulo II, item 3). Exemplo desse individualismo seria o enunciado do art. 1.228, caput, do Código Civil, que estabelece o conceito e o conteúdo do direito de propriedade como o direito subjetivo absoluto por excelência, hoje relativizado pela função social que a Constituição da República exige (art. 5º, XXIII) e o Código Civil regulamenta nos diversos parágrafos desse dispositivo. É um direito liberal porque consagra, como um de seus valores fundamentais, a liberdade da pessoa humana. Essa liberdade traduz -se em uma esfera de autonomia reconhecida no indivíduo, de que são principais manifestações o direito de propriedade e a autonomia da vontade, esta revelada em várias facetas, principalmente na área do contrato374, observadas as limitações de cada sistema jurídico. É, por tudo isso, considerado o direito da sociedade civil, entendendo -se esta como a esfera de relações econômicas ou materiais entre indivíduos ou grupos, fora do âmbito do poder estatal. 3. O DIREITO CIVIL COMO PRODUTO HISTÓRICO E CULTURAL. HISTORICIDADE E CONTINUIDADE O direito civil é, antes de tudo, um fenômeno cultural, em que predominam as notas da historicidade e da continuidade. Historicidade no sentido de que se formou gradativamente, desde os primórdios da civilizaçãoocidental até transformar -se em um dos mais importantes ramos da ciência jurídica. Continuidade, pelo fato de ter -se mantido como processo constante de recurso, não obstante eventuais rupturas, aos conceitos e categorias romanas (propriedade, contrato, obrigação etc.)375 para a solução dos problemas que lhe são próprios, revelando a existência de princípios fundamentais a orientar a gênese e a realização de suas normas. Creio ser impossível uma perfeita compreensão do fenômeno jurídico, principalmente do direito civil, sem o recurso à investigação histórica, que permite identificar os fatores que nele vêm influindo, ao longo do seu processo de formação, principalmente os que se verificam no seu estágio atual, de significativas mudanças. É importante, também, pela perspectiva que oferece das relações entre o sistema jurídico e os demais subsistemas que formam a sociedade, como o político e o econômico. Consequentemente, é de recusar -se toda a argumentação que se desenvolva em termos de pura lógica, ou limitada à perspectiva da ciência do direito como pura dogmática376, separada da realidade que a justifica. As estruturas jurídicas não são neutras, e os sistemas de direito não se constituem em instrumentos técnicos para fins de qualquer natureza, mas para a realização dos valores essenciais da sociedade de que resultam. O estudo do direito civil e, particularmente, do direito civil brasileiro, deve, portanto, levar em conta a realidade que o faz nascer, não somente os aspectos formais de suas instituições, pois o direito se torna incompreensível com o exame, apenas, de suas normas, e sem a necessária perspectiva histórica e social377. A compreensão do conceito, da natureza, do conteúdo e das características do direito civil exige, assim, breve notícia que esclareça as causas e os modos de sua formação histórica e sistemática, levando -se em conta as circunstâncias de ordem cultural, política e econômica que presidiram à sua gênese e ao seu processo evolutivo. De tudo isso resulta que o direito civil, por sua origem e evolução, seja um direito jurisprudencial no sentido de que se formou pelas reiteradas decisões dos magistrados romanos, transformando -se, por notável esforço de abstração, em regras fixas e gerais que vieram a constituir -se no direito positivo (ius in civitate positum) de cada povo, e doutrinário porque também resultante da elaboração científica dos juristas sobre tal matéria, coordenando -a e sistematizando -a. Nesse processo evolutivo do direito civil podem distinguir -se quatro fases: a do direito romano, a do direito medieval, com o direito germânico e o direito canônico, a do direito moderno e a do direito contemporâneo. 4. A FASE ORIGINÁRIA. AS FONTES ROMANAS No Código Civil brasileiro de 1916, quatro quintos dos seus 1.807 artigos, ou seja, 1.445, eram produto da cultura jurídica romana, diretamente da compilação justiniânea ou indiretamente, por meio das legislações que nela se nutriram e depois se constituíram em fontes da codificação brasileira378. O código atual mantém essa presença em proporção menor, devido à inclusão no seu texto da matéria do direito de empresa, o que não diminui a importância do direito romano na formação do direito brasileiro. Entende -se como direito romano o conjunto de princípios e normas que vigoraram em Roma e seus territórios desde a criação da cidade, em 753 a.C., até a morte do imperador Justiniano, em 565 d.C. Direito vigente por treze séculos, com fases diversas, conforme as variações ocorridas no sistema econômico e social379, não foi um todo unitário, mas um processo evolutivo que nasceu, desenvolveu -se, atingiu o apogeu e decaiu, até compilar -se no Corpus iuris civilis. Embora com raízes na religião e na magia, foi um direito laico, uma criação humana, não um reflexo da lei divina380. Caracterizou -se como um direito flexível, elaborado principalmente pelos magistrados (pretores, cônsules, edis curuis, censores, questores) que, realistas, jamais se deixaram seduzir pelas consequências estritamente lógicas de princípios gerais. Seus cultores, dotados de espírito analítico, elaboraram todos os conceitos e distinções necessárias ao raciocínio jurídico, devendo - se -lhes a distinção entre as situações de fato e as situações de direito. Era também um direito econômico, simples, que procurava realizar -se com o menor número possível de fontes formais381. O ponto de partida é o ius civile, o direito dos cidadãos romanos, os cives, direito baseado nos costumes dos antepassados (mores maiorum), com sua primeira formulação legal na Lei das XII Tábuas, a primeira codificação romana, assim chamada por ter sido apresentada em doze tábuas de bronze, no Forum romano, em 499 a.C. Na primeira fase, chamada de antiga ou arcaica, que vai da criação de Roma até o começo das guerras púnicas, no século III a.C., a sociedade romana era simples e rústica. A propriedade dividia -se entre os chefes de família, conforme os interesses da agricultura, a base da economia. No direito, imperava o formalismo jurídico, concepção que considera mais importante a forma do que a substância das questões jurídicas. A simples manifestação de vontade não bastava para que o ato produzisse efeitos jurídicos, exigia -se a observância de determinados ritos, palavras, gesto, sob pena de ineficácia. O direito era, assim, formal e solene, do que são exemplos a mancipatio, o nexum, a sponsio ou stipulatio iuris civilis, a actio sacramenti. A Lei das XII Tábuas e o ius civile, criado pela jurisprudência dos pontífices, eram a expressão da época. O ius civile como direito quiritário, exclusivamente romano, dos cidadãos romanos, tendo como fonte as sentenças proferidas pelos jurisconsultos clássicos, disciplinava as relações de natureza privada, ainda que não exclusivamente, pois continha normas de direito penal, processual e administrativo. A segunda fase acompanhou as alterações econômicas e sociais que a sociedade romana sofreu após as guerras púnicas. As conquistas dos exércitos de Roma, criando o império, fizeram com que os antigos romanos, simples agricultores do Lácio, se tornassem, no curto período de 60 anos, dominadores do mundo antigo e herdeiros das mais florescentes civilizações. As práticas do tráfico mercantil de Roma com suas colônias e com novas formas de vida, passaram a exigir um novo direito civil, mais flexível, mais atuante, sem a rigidez dos antigos princípios quiritários. O direito perde a imprecisão característica da época arcaica e alcança o ponto de maior exatidão e grandeza. Começa o seu período clássico (130 a.C., 230 d.C.), assim chamado por ser a fase dos grandes jurisconsultos. Roma perde as características rurais, tornando -se uma cidade cosmopolita, o centro do comércio mundial382, enriquecendo -se o direito com novas categorias, próprias de um sistema comercial de trocas, substituindo -se o formalismo pela simplicidade e celeridade dos atos jurídicos. No ano 367 a.C. surgiu o praetor urbanus, magistrado encarregado da jurisdição civil. Suas decisões constituíram o ius praetorium, ou ius honorarium, de honos, honra, significado técnico da função conferida ao magistrado pelo povo romano. O ius honorarium era uma evolução do direito romano, no sentido de conjugar a criação do direito com a sua realização. Sua distinção relativamente ao ius civile foi uma das características da época clássica, representando a consolidação, o apogeu e a exatidão do direito romano. Aspecto a destacar -se em um livro de introdução ao direito civil, é o de que em Roma o direito nascia da prática. A justiça romana começou a funcionar sem leis que a orientassem383 o que foi, aliás, uma das causas da grandeza do direito romano. Enquanto o ius civile, o antigo direito, resultava dos tradicionais costumes dos primeiros cidadãos romanos, e eventualmente da lei, o ius honorarium era produto da atividade judicante do magistrado que, além de aplicar o ius civile (iuris civilis adjuvandi gratia), completava -lhe as normas (iuris civilis suplendi gratia), ouaté o reformava (iuris civilis corrigendi gratia)384. Pode assim reconhecer - se que o ius civile nasceu “ex legibus, plebis scitis, senatus consultis, decretis principum, auctoritate prudentium”, enquanto o ius honorarium era um direito eminentemente jurisprudencial385. O direito romano constituiu -se, assim, como um direito casuístico, nascido menos da aplicação de leis que do estudo e da análise dos casos concretos, segundo o princípio do bom e do equitativo (D. 1,1,1,1: “Ius est ars boni et aequi”)386. Na mesma época surgiu o ius gentium. O caráter exclusivo do ius civile, destinado somente aos cidadãos de Roma, impedia que a ele recorressem os estrangeiros, os não romanos, os peregrini. Ora, cada vez mais, os juízes eram chamados a resolver conflitos de interesses, a disciplinar relações jurídicas entre os romanos e os estrangeiros (civis romani e peregrini), dada a complexidade do tráfico mercantil no Mediterrâneo. No ano 242 a.C. instituiu -se o cargo de praetor peregrinus, o juiz para os estrangeiros, de cuja atividade resultou o ius gentium. O ius civile, direito dos cidadãos, opunha -se, desse modo, ao ius gentium, direito dos estrangeiros. Com este, obra do prae tor peregrinus, o direito romano vai assimilando novos elementos e sobrepondo -se às suas características nacionais, para converter -se, progressivamente, em um direito comum e universal387. Nasceu, assim, um novo direito romano, um ius civile isento de formalismo, próprio dos romanos e estrangeiros na disciplina de suas relações comerciais. Apresentando -se como direito comum e universal, invocável por todos os que se encontravam no império romano, surgia como direito natural, um direito de todos os participantes do comércio mediterrâneo que nele viam consagradas algumas de suas práticas. Com ele surgiam diversos institutos ainda vigentes, como as arras ou sinal nos contratos, a promessa unilateral obrigatória, germe da liberdade de comércio, o aperfeiçoamento dos contratos de compra e venda, de depósito, de sociedade, os negócios fiduciários, os contratos de boa -fé. O ius gentium foi, assim, o direito das relações comerciais e o instrumento da nova classe ascendente: a dos comerciantes e mercadores. A terceira e última fase, a partir do século III (230 d.C.), caracteriza -se pela vulgarização do direito romano, isto é, a sua expansão por todas as províncias do império. Esse direito deixa de ser nacional e passa a direito universal, com prejuízo do pensamento e da técnica jurídica da época clássica. Influenciando ou até sendo adotado por todos os povos do continente europeu, passa a ser o direito comum ou vulgar, mandado compilar em 565 pelo imperador Justiniano no Corpus iuris civilis. Do final do século IX a meados do século XII, reduz -se a importância do direito romano e aumenta a do costume, como principal fonte de direito. Com o advento do humanismo no século XVI, o direito romano torna -se objeto de verdadeiro renascimento. Durante a alta Idade Média, ele é conhecido principalmente por meio do Código Teodosiano, do qual o direito visigótico (Breviário de Alarico) recebeu grande contribuição388. O direito romano está presente na cultura ocidental, sendo um fator de unidade para os países de direito escrito. Manifesta -se em princípios fundamentais, como a liberdade, no sentido de uma esfera de atividade própria de cada indivíduo e, especificamente, em alguns institutos de direito civil, como a personalidade, a família, as obrigações, os direitos reais e a sucessão. Da crença na liberdade surgiram o princípio da autonomia da vontade e a propriedade, como direito subjetivo absoluto. Dele descendem duas famílias distintas. A do direito romano francês (Código de Napoleão, 1804) e a do direito romano alemão (Código Civil, BGB, 1900), ambas com grande influência nos códigos civis da América Latina389. No que respeita à personalidade, o direito romano protegia o concebido ainda não nascido, reservando -lhe os direitos, especialmente sucessórios, que ficavam dependendo do nascimento. Dizia -se, por isso, em um adágio popular, que os concebidos se assemelhavam aos já nascidos (nasciturus pro iam nato habetur quotiens de eius commodis agitur, ou então, que in utero sunt in toto paene iure civili intelleguntur in rerum natura esse, os que se encontram no útero são considerados em quase todo o direito civil como nascidos) (D. 1, 5, 26). Esse preceito conserva -se no art. 2º do nosso Código Civil, que dispõe: “A personalidade civil do homem começa do nascimento com a vida, mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro”, embora com divergência a respeito390. Em matéria de família, as fontes romanas tinham duas definições de casamento, uma de Modestino (D. 23, 2, 1) e outra de Ulpiano (I. 9, 1). Seus requisitos de existência e validade permanecem no direito contemporâneo, com as modificações impostas pelo processo histórico, em que se destaca a influência do direito canônico. Aspecto peculiar do casamento romano, pelo menos na época clássica, era ser um ato que dispensava a intervenção dos poderes públicos, não estando submetido a formalidade de qualquer espécie. Quanto à adoção, ato civil pela qual alguém aceita estranho como filho391, o direito romano admitia duas espécies, a plena (adoptio plena), quando feita por um ascendente do adotado, desligando -se este completamente da sua família de origens, e a simples (adoptio minus plena) quando o adotado permanecia sob o poder de seu pai natural, adquirindo somente um direito sucessão legítima sobre os bens do adotante (C. 8, 47). O direito brasileiro reconhece hoje uma só espécie de adoção (CC, arts. 1.618), tendo recepcionado também a tutela (CC, art. 1.728), que se instituía por testamento (tutela testamentária) por lei (tutela legítima) ou pelo magistrado (tutela dativa), espécies que o direito contemporâneo mantém. No campo das obrigações têm especial interesse os contratos, sendo a compra e venda (emptio venditio) o primeiro na disciplina do Código Civil, por sua importância e frequência. Em nosso direito, esse contrato tem eficácia meramente obrigacional, não transmite a propriedade, cria apenas a obrigação de transferi -la, à semelhança do que ocorria no direito romano e diversamente do que ocorre no direito francês e nos direitos por esse influenciado. A fiança tinha no direito romano, como no contemporâneo, a função de garantir o cumprimento das obrigações. Nas relações entre o credor e o fiador, a este era assegurado o benefício de ordem ou de excussão (beneficium excussionis) (CC, art. 827), e o benefício de divisão (beneficium divisionis) (CC, art. 829). Por sua vez o fiador que pagasse integralmente a dívida, sub -rogava -se nos direitos do credor (D. 46, 1, pr.), o que o direito brasileiro também consagra (CC, art. 831). Em matéria de direito reais, a propriedade tinha um conteúdo complexo, reunindo as faculdades de usar, fruir e dispor (ius utendi, fruendi, abutendi). Sendo hoje o direito subjetivo por excelência, e elemento básico do direito patrimonial, sua estrutura, conteúdo e função permancem como no direito ro mano, guardadas as modificações decorrentes da evolução histórica. Finalmente, no direito das sucessões, o testamento (testamentum) permanece como “ato solene de última vontade que produz efeitos post mortem do testador”. “À parte as velhas formas prescritas pelo ius civile, a substância persiste em nosso direito, cuja compreensão postula o conhecimento do testamento romano”392. 5. O DIREITO MEDIEVAL Costuma -se considerar a Idade Média como o período que vai da conquista de Roma até a queda de Constantinopla, sede do Império Romano do Oriente (476 -1453 d.C.). Caracteriza -se o direito civil dessa época pela permanência do direito romano como direito comum, pelo surgimento dos direitos civis nacionais e pela criação das bases ou pressupostos culturais e científicos do direito privado contemporâneo393. Para alguns juristas, porém, a experiência jurídica medieval é autônoma e distinta da romana394. Com a queda deRoma (476 d.C.) e a deposição do último imperador do Ocidente, Romulo Augustulo, acabava o Império Romano do Ocidente, substituído por uma série de reinos bárbaros e, depois, por uma pluralidade de cidades, nações e estados independentes, cada um com seu direito particular, os estatutos, os foros, os costumes. Separava -se política e culturalmente o Ocidente do Oriente, e naquele, o direito romano perdia sua vigência como ordenamento jurídico positivo até ser redescoberto no século XII, quando passou a ser considerado direito comum (ius commune), conjunto de elementos de direito romano, canônico e germânico, assim chamado porque era geral, sendo o direito de cada unidade territorial um direito particular (ius proprium). Da combinação de ambos surge o direito territorial (ius compositum), germe dos direitos civis modernos395. De qualquer modo, durante a Idade Média, direito civil é direito romano. As sucessivas invasões dos bárbaros, o estado de permanente intranquilidade, a ausência de um governo central e de um sistema de defesa, como o garantido pelos exércitos romanos, levavam as pessoas a solicitar a proteção dos mais ricos e poderosos, normalmente os senhores de terras, os suseranos, com quem estabeleciam relações de vassalagem. Em troca de proteção e assistência econômica, os vassalos obrigavam -se a servir ao seu senhor, compensando -o com o pagamento de impostos correspondentes ao amparo que ele lhes dava. Criava -se, desse modo, uma relação contratual, de obrigações recíprocas, o que veio a caracterizar o regime feudal, um sistema de organização econômica, política e social baseado nos laços de dependência e de serviço, sobretudo militar, da parte dos vassalos para com o senhor, e das obrigações de proteção e sustento da parte deste para com aqueles396. Com o regime feudal surgem os direitos particulares, os estatutos de cada cidade, nação ou estado (ius proprium), que, incorporando sobre o fundo comum do direito romano novos elementos, como o germânico e o canônico, vêm a formar a base do direito civil moderno. Com a recepção, nome que se dá à adoção, pelos estados, na Idade Média, do direito romano, passa este a ser o direito comum, subsidiário397, aplicável na maior parte do continente europeu. Mas não só o direito romano se faz presente; existe ainda a influência do direito germânico e do direito canônico. Enquanto o direito romano é individualista, colocando no centro do sistema jurídico o indivíduo e sua liberdade, o direito germânico é social, no sentido de considerar o mesmo indivíduo como participante de uma comunidade, em que predomina o bem comum sobre a vontade dos indivíduos. Já o elemento canônico é o responsável pelo processo de espiritualização do direito, com preocupações éticas e idealistas, como demonstram a sacramentalização do matrimônio, a doutrina da posse e o elemento da boa -fé em matéria de usucapião (v. item 7, seguinte). Com o decurso do tempo e as transformações políticas e sociais, o direito civil passa a ser considerado o direito privado dos povos, decorrente da nacionalização que cada estado faz do direito romano comum, e, como direito privado especial, o direito dos comerciantes e mercadores, consolidando seus usos e costumes e sua jurisdição específica, pela necessidade de segurança e rapidez das operações mercantis, a exigir, por isso mesmo, um direito mais flexível. 6. O DIREITO GERMÂNICO Outra contribuição significativa para a cultura e o direito comum europeus, se bem que inferior ao direito romano, foi a do elemento germano -feudal, que nos chegou por meio dos povos germânicos que dominaram a Península Ibérica, dentre os quais o mais importante foi o dos visigodos.398 Aproveitando -se da queda do Império Romano do Ocidente, esses povos dominaram a Península Ibérica (Hispânia) até a invasão dos muçulmanos em 711, convivendo, nesse território, os visigodos, os vândalos, os suevos e os alanos, povos germânicos, e os conquistados “em que entravam os indígenas celtiberos, cantábricos, lusitanos, e um misto de fenícios, cartagineses e romanos, população esta que se reputava romana, porque de há muito vivia e se regia pela legislação de Roma”399. Uma das principais contribuições do direito germânico foi o princípio da personalidade ou da nacionalidade das leis, pelo qual cada povo regia -se por seu direito próprio, isto é, o direito da sua raça”400. No direito, as principais fontes eram o Breviário de Alarico ou Lex Romana Visigothorum (ano 506), e o Código Visigótico, nas suas versões de Recesvindo (ano 654) e Ervígio (ano 681). “O Código Visigótico resultava de três correntes jurídicas, a romana, a germânica e a canônica”, tendo sido preponderante a romana. Demonstra isso o fato de o Breviário de Alarico ser muito mais uma seleção de textos de direito romano, leges e iura, do que de direito visigodo401. Quanto à influência que poderá ter tido no direito medieval português e, por meio deste, no direito brasileiro, particularmente o civil, destacam -se os seguintes aspectos. No campo da personalidade, a compreensão da pessoa “em sua natureza moral e jurídica, em sua liberdade e honra, de um modo mais profundo que nenhum outro foro”, o que foi fortalecido pelo cristianismo, e realçado pela reforma protestante, que “reconheceu a pessoa em sua dignidade e liberdade moral e jurídica”. Também a distinção entre pessoas físicas e jurídicas, matéria em que o direito romano, com os conceitos opostos de communio e universitas, não era suficiente para as necessidades da vida econômica e social. No campo dos direitos reais, o reconhecimento de uma propriedade sobre direitos, ideia que veio a ser reconhecida pelos códigos modernos, assim como a distinção entre posse e propriedade, distinta da concepção romana. A posse germânica (Gewere) como proteção jurídica, onde ressaltava o elemento objetivo da proteção, diversa da posse romana, em que predominava a relação subjetiva de uma pessoa a uma coisa. Também o reconhecimento da propriedade comum e dividida, ou de exercício simultâneo por vários titulares, que não se confundia com o condominium romano. Diversamente do direito romano, que definia a propriedade (dominium ou proprietas) como um conjunto de faculdades jurídicas (utendi, fruendi, abutendi) titulado de modo, se não absoluto, pelo menos individual, o direito germânico sempre defendeu a ideia da propriedade comum. No campo do direito das obrigações, “o direito germânico não apresentava nenhuma dificuldade para admitir a substituição de uma pessoa por outra” na relação jurídica obrigacional, sendo assim preponderante o respectivo conteúdo material e objetivo, diversamente do que se verificava no direito romano em que não se admitia a mudança subjetiva na obrigação. No âmbito do direito de família o matrimônio era um vínculo sagrado, a que o cristianismo deu o caráter de sacramento. Os regimes de bens eram três: o da reunião de bens, em que os dos cônjuges permaneciam separados, embora externamente reunidos e submetidos à administração e usufruto do marido, o da comunhão geral ou parcial, e o sistema dotal romano, modificado. Em matéria sucessória, não se considerava a herança uma universitas rerum, como no direito romano. O herdeiro respondia pelas dívidas da herança até o limite dos bens que a formavam, o que corresponde ao nosso benefício de inventário402. 7. O DIREITO CANÔNICO O direito canônico é o direito da Igreja cristã403. Composto de princípios e regras (Kanon) que as autoridades eclesiásticas estabeleceram para a organização da Igreja e disciplina das relações dos fiéis404, esse direito formou -se gradativamente, a partir de um Concílio, em Jerusalém (ano 49), que estabeleceu normas fundamentais, notadamente as que liberavam os cristãos dos ritos do judaísmo (por exemplo, a circuncisão)405. O direito canônico é uma síntese do direito romano, das regras jurídicas do antigo testamento e dos preceitos éticos dos Pais da Igreja. Surgido como direito costumeiro, foi inicialmente um direito interno, aplicável somente aos religiosos,vindo a adquirir uma importância geral pelo o caráter ecumênico da igreja e o regime confessional dos antigos estados europeus, onde a religião era intimamente ligada aos poderes públicos e à sociedade406. Sua influência manifesta -se em diversos institutos. No campo dos princípios gerais, o princípio da não retroatividade das leis, decorrente do princípio de origem romana Leges respiciunt futura non praeterita, sempre em vigor no direito da Igreja407, está presente no direito público (CR, art. 5º, XXXVI), no direito civil408 e no penal (CR, art. 5º, XL). O estado de necessidade vem do direito canônico. Com base nas Escrituras409, os canonistas foram levados a admitir o furto de alimentos em caso de necessidade extrema. A máxima necessitas non habent lege figura no Decreto de Graciano (D. 1. C. 11.). O direito canônico contribuiu ainda para a moralização das relações privadas, embora tenham sido os juristas pagãos os primeiros a defender que o direito era ars boni et aequi, como dizia Celso (D. 1, 1, 1, pr.). Contribuiu, também, para o fortalecimento de princípios gerais como do enriquecimento sem causa410 (CC, arts. 884 a 886), e o abuso do direito (CC, art. 187)411. Os princípios canônicos, entretanto, sempre se opuseram à reparação do dano corporal, julgado incompatível com a ideia do caráter sagrado do corpo humano, fora de comércio412. Foi preciso chegar -se à Revolução Industrial, com o progresso da máquina e a multiplicação dos acidentes de trabalho, para que o legislador o introduzisse no direito francês. No direito brasileiro, esta matéria regula -se pela Lei n. 8.213, de 24 -7 -1991 (Lei dos Acidentes do Trabalho). O princípio da inviolabilidade do corpo humano, fora de comércio, vem diretamente do provérbio Noli me tangere (Não me toquem), tirado da palavra de Cristo ressuscitado, segundo Maria Madalena (João, XX, 17)413. Está hoje no Código Civil (arts. 13 e 15). É também notória a influência do direito canônico em matéria de casamento e das relações pessoais entre cônjuges414. O casamento civil é hoje, como no direito canônico pós -concílio de Trento, um ato consensual, público e solene, celebrado na presença de várias testemunhas (CC, art. 1.534). O casamento monogâmico, os impedimentos matrimoniais do parentesco consanguíneo, o uso da aliança, a necessidade do consentimento recíproco, a teoria dos vícios do consentimento e a oposição ao casamento são herança direta do direito canônico medieval, assim como o dever de fidelidade, a permissão de separação de corpos (separatio a mensa et thoro), a separação judicial, com a extinção da vida em comum, dos deveres conjugais e do regime matrimonial. Também o dever alimentar entre os parentes, principalmente os filhos415, e a legitimação dos filhos pelo casamento subsequente416, consagrada no Ocidente pela Decretal tanta est vis matrimonii, de Alexandre III. Nos direitos reais, para o caso de espoliação com violência, é de direito canônico o princípio spoliatus ante omnia restituendus, segundo o qual quem for espoliado deve reintegrar -se na posse, antes de qualquer procedimento. A instituição do remedium spolii ou actio spolii está na origem da reintegração atual417. No direito das obrigações, em vez da forma, a valorização da vontade, expressa nos princípios do consensualismo e da obrigatoriedade contratual. É o sentido das duas máximas célebres solus consensus obligat e pacta sunt servanda. Também a regra rebus sic stantibus, tirada do Decreto de Graciano (Decreto, XIV, c. 2), que libera o devedor de uma prestação que se tornou muito onerosa; a subordinação da validade dos contratos a uma causa moral e lícita; a condenação da usura. E ainda, no campo legislativo, a ideia da generalidade da lei desenvolvida pela doutrina canônica da segunda metade do século XII; a ideia de que as leis não são obrigatórias senão depois da sua publicação418; e ainda a regra segundo a qual na contagem do prazo, não se conta o dia inicial (CC, art. 132) (dies a quo non computatur in termino), forjado pelos romanistas medievais a partir de uma passagem do Digesto419, e ainda o adágio speciala generalibus derogant, consagrado no Sexto420. Também a redação dos atos do estado civil, estabelecida pelo Concílio de Trento para o batismo e o casamento421, e a noção de pessoa moral, que deve muito à doutrina do século XIII422. No campo processual, a mudança “dos primitivos e bárbaros processos de prova dos germanos; a necessidade do processo escrito, com os tramites de citação, de produção de documentos, da prova testemunhal etc.; o recurso de apelação; a utilização das expressões processus, processus iuris, processus judiciarius, em vez do judicium e da ordo judiciorum privatorum dos romanos”423. 8. O DIREITO COMUM (IUS COMMUNE) Os direitos romano, canônico e germânico conjugaram -se na formação de um direito comum (ius commune) porque geral, contraposto aos direitos particulares (ius proprium) dos novos reinos, nações, territórios, cidades etc., que surgiram com a queda do Império Romano do Ocidente. Esse direito veio a ser o elemento básico da tradição romana na Europa medieval, constituindo a ligação entre o direito antigo e o moderno. Vários fatores contribuíram para a configuração desse direito. A queda e consequente fragmentação do Império Romano do Ocidente fizeram surgir reinos bárbaros, de origem germânica (Visigodos na Hispania, Francos na Gália, Lombardos na Itália etc.), reinos esse que formaram o seu próprio direito (ius proprium), verdadeiras ordens jurídicas424, sem prejuízo da influência romana. O direito privado romano permanecia o direito das populações romanizadas e os invasores germânicos mantinham os seus costumes ancestrais425, vigorando o já referido princípio da personalidade do direito, segundo o qual “o vencedor deixava que os vencidos vivessem segundo o seu próprio direito”426, princípio dominante sobretudo em matéria civil e penal. Isso criava a necessidade de se determinar a lei aplicável no caso de conflito entre pessoas regidas por ordens jurídicas diversas. As regras estabelecidas nessa matéria estão na origem dos princípios do direito internacional privado contemporâneo427. Com a redescoberta do Corpus iuris civilis, no século XII, mais o surgimento da Universidade de Bolonha, a criação da ciência jurídica por obra dos glosadores e, principalmente, dos pós - glosadores ou comentadores, e também com o restabelecimento do Sacro Império Romano, por Carlos Magno428, surge a ideia de um direito uno, o direito romano, que retoma o seu primado sob o título de ius commune. Esse direito seria “o complexo das instituições jurídicas que os povos da bacia mediterrânea tinham em comum”429. Ius commune era, então, uma categoria lógica, abstrata, designativa de um conjunto de normas que valiam genericamente para todos, em contraposição às normas que valiam só para alguns. Configurava -se, desse modo, uma pluralidade de ordens jurídicas, constituídas por regras de direito romano, canônico, germânico, feudal (própria dos feudos que então já se haviam constituído), costumes locais, estatutos comunais430, estatutos corporativos, estatutos de direito marítimo, ordenamentos monárquicos etc. Surgiu, assim, o dualismo ius commune e ius proprium, só se aplicando, de regra, aquele, no caso de lacunas neste. O direito comum foi recebido em todo o ocidente europeu, incluindo -se a Península Ibérica. Vários fatores favoreceram tal recepção: 1) o interesse político dos reis na aplicação dos princípios do direito romano, 2) a insuficiência do direito consuetudinário vigente nos diferentes territórios, 3) a superioridade e perfeição técnica do novo direito, 4) a obra jurídico -cultural das Universidades (Bolonha, Montpellier), que se transformaram em verdadeiros “focos de romanismo jurídico”, com a formação do “Estamento Letrado” e a difusão dos livros de direito431. Na Espanha, o direito comum foi recebido nos fins do século XII, por meio não só dos estudantes de direito que iam estudar na Universidade de Bolonha, e dali voltavam com oconhecimento do direito romano, a influenciar posteriormente o direito espanhol, como também dos textos jurídicos romanos do Corpus iuris civilis usados pelos juristas e legisladores. No campo da literatura jurídica, há que fazer referência a Jacome Ruiz, autor das Flores del Derecho, do Doctrinal de los pleytos e os Nuevos tiempos del juicio, obras principalmente de direito processual civil romano432. Quanto à produção legislativa, as principais leis eram o Fuero Real (1255), no reinado de Afonso X, o Sábio, rei de Castela, e a Ley das Siete Partidas, assim chamada por ser dividida em 7 livros, e que se constituía em “uma grande enciclopédia do direito, em que se pretendia incluir todo o saber jurídico da época”433. Essas obras são o instrumento de penetração do ius commune em Portugal, facilitado pelo fato de serem “escritas em idioma que facilita sua direta consulta ou tradução”, com resumos ou sínteses de soluções justiniâneas, e refletirem o “ambiente hispânico”434. A Siete Partidas teve grande influência no direito português, principalmente nas Ordenações Afonsinas, para as quais os legisladores portugueses transladaram quase que literalmente leis inteiras da compilação espanhola435. As subsequentes Ordenações Manuelinas (1521) e Ordenações Filipinas (1603) não apresentam grande mudança, salvo em dois pontos: o direito comum mantém sua aplicação subsidiária não mais em função de qualquer vínculo com o Império, mas porque fundado na razão (ractio scripta); a glosa de Acúrsio e a opinião de Bártolo vigem, na medida em que não sofrem contraste com a interpretação da doutrina que lhes é posterior, isso até a Lei da Boa Razão436. No que diz respeito ao direito brasileiro, as Ordenações Filipinas, cujo objetivo principal foi reunir, em um mesmo texto, as Ordenações Manuelinas, a Coleção de Duarte Nunes de Leão e as leis a essa posteriores437, pouco apresentaram de inovação, mantendo o direito comum como subsidiário. 9. O DIREITO MODERNO A idade moderna é o período compreendido entre a queda de Constantinopla, em 1453, ou a descoberta dos novos mundos, ou ainda, a revolução protestante iniciada em 1517, na Alemanha, e a Revolução Francesa de 1789, para uns, ou a revolução industrial do séc. XIX, para outros. Caracteriza -se pelos importantes processos de natureza política, econômica, social, religiosa e cultural que nela se verificaram, dos quais os mais importantes, com profunda repercussão no direito privado, foram a revolução comercial, a reforma religiosa, o desenvolvimento dos estados nacionais e dos governos absolutos, a revolução intelectual do racionalismo e o desenvolvimento do individualismo. A revolução comercial é o processo econômico da fase originária do capitalismo, com o comércio desenvolvendo -se por toda a Europa, modificando a economia estática das corporações medievais e estabelecendo um regime dinâmico de operações com fins lucrativos438. Com a expansão do comércio desenvolveu -se uma nova classe, a burguesia mercantil, que iria ter grande papel no processo de evolução política, econômica e jurídica da sociedade europeia. Política porque “desejosa de paz e estabilidade, necessárias ao bom andamento dos negócios, favoreceu a centralização do governo e o fortalecimento do poder real”. Econômica, por ser a base da criação e desenvolvimento do capitalismo. E jurídica porque com ela se consagrava o individualismo como princípio fundamental da ordem jurídica moderna. Consequência imediata da revolução mercantil é, assim, o advento do capitalismo, sistema econômico que se caracteriza pela propriedade privada dos bens de produção e de consumo. Seus traços marcantes são a liberdade de iniciativa privada, a concorrência e a atividade negocial com fins lucrativos, assim como o desenvolvimento do sistema bancário, a expansão dos instrumentos de crédito, o declínio das corporações, o surgimento da indústria e, como instrumento jurídico de larga dimensão, o desenvolvimento das sociedades por ações. À revolução comercial devem -se, portanto, “quase todos os elementos que vieram a constituir o regime capitalista” e, ainda, a “ascensão da burguesia ao poder econômico e político, o início da europeização do mundo, entendendo -se como tal o transplante dos hábitos e da cultura europeia para outros continentes”. Como não podia deixar de ser, tal processo produziu efeitos de ordem econômica, política e social de grande importância para o direito, sendo a partir dele que se desenvolveu o direito natural (séculos XVII e XVIII), a escola histórica, o positivismo jurídico e se institucionalizou o Estado de Direito, Estado Liberal ou burguês. A reforma religiosa compreendeu a revolução protestante que irrompeu em 1517, levando a maior parte da Europa do norte a separar -se da igreja romana, e a reforma católica, ou contrarreforma, movimento contrário que nasceu com o Concílio de Trento (1545 -1563). Entre seus principais efeitos, temos o impulso dado ao individualismo, com grande repercussão no campo do direito civil, na medida em que contribuiu para o desenvolvimento e aplicação de um direito geral e igualitário. Efeito da revolução comercial e da reforma religiosa é o fortalecimento do poder real, com o surgimento do Estado -Nação e o desenvolvimento de absolutismo como forma de governo. A criação dos impérios coloniais e o desenvolvimento do mercantilismo proporcionam aos reis grande riqueza, usada na organização de exércitos e armadas. Por outro lado, a expansão dos negócios acentua a necessidade de um governo forte, tendo a classe média, no governo, a garantia para o seu desenvolvimento e bem-estar439. Fenômeno diretamente ligado à revolução comercial é o progresso da filosofia e da ciência, verificado nos séculos XVII e XVIII, a chamada revolução intelectual, de que são notáveis expressões o racionalismo e o individualismo. O primeiro considerava a razão o guia infalível da sabedoria. O segundo acentuava o predomínio da personalidade (individualismo filosófico), considerando -se que as instituições políticas e jurídicas de um país devem colocar -se preferencialmente a serviço dos interesses particulares (individualismo político), acreditando -se que a “autoridade pública não deve perverter o resultado do livre jogo das atividades econômicas individuais, mas deve reduzir sua intervenção no domínio econômico ao mínimo, concentrando -se em garantir a cada um a liberdade de trabalho e do comércio e o benefício da propriedade de seus bens” (individualismo econômico), ou ainda, que “o indivíduo é a única finalidade de todas as regras do direito, a causa final de toda atividade jurídica do Estado” ou, também, “a fonte das regras de direito ou de mutações jurídicas” (o individualismo como prioridade axiológica dos indivíduos sobre as instituições)440. O racionalismo no direito exprime -se na doutrina do direito natural, de que uma das mais importantes consequências é o processo de codificação do direito civil, realizado pelos Estados modernos e soberanos. O direito civil deixa de ser o direito romano para ser direito nacional, adquirindo sua forma e seu conteúdo atuais. Reflexo do racionalismo (rectius, do jusracionalismo) é a concepção do “direito como sistema, dotado de método dedutivo específico, construído a partir de conceitos gerais”. No campo do direito privado, liberta -se o direito civil da submissão histórica às fontes do direito romano, abrindo caminho para a construção do sistema que tem hoje nos códigos sua mais importante aplicação. Surgem as figuras abstratas da obrigação e do dever contratual, do sujeito de direito, da declaração de vontade, do negócio jurídico, doutrinas que o direito comum não tinha construído como teorias gerais, e que são princípios jusnaturalistas transformados em categorias técnico -jurídicas. 10. O ESTADO MODERNO NA FORMAÇÃO DO DIREITO CIVIL. O ESTADO LIBERAL DE DIREITO A idade moderna tem, assim, especial importância para o estudo do direito civil, pelo surgimento do Estado moderno e pela racionalização do pensamento e da cultura,o que levou ao desenvolvimento da ciência jurídica, com seus conceitos abstratos, suas operações lógicas e o caráter sistemático da ordem jurídica. O Estado moderno surge inicialmente como Estado absoluto, vigente até fins do séc. XVIII, caracterizado pela concentração do poder real, enfraquecimento da nobreza, ascensão da burguesia, culto da razão de Estado, e pela vontade do rei como lei441. Com a Revolução Francesa, e tendo como antecedentes imediatos o Bill of Rights inglês de 1689, a Declaração de Direitos de Virgínia (EUA) de 1776 e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, o Estado absoluto substitui -se pelo Estado liberal, próprio do liberalismo econômico, denominado, também, de Estado de Direito pelas seguintes características: (a) império da lei, no sentido de que todos os poderes dela derivam, como expressão da vontade geral442. O primado da lei é a característica fundamental, subordinando -se a lei à Constituição, conforme a hierarquia das normas; (b) divisão dos poderes, respectivamente, legislativo, judiciário e executivo, a que correspondem os três momentos do processo jurídico: formação, aplicação e execução das leis. Não se trata de rígida separação, mas de distribuição de funções, com base na diferença entre criação e aplicação do direito, tarefas dos poderes legislativo e executivo443, respectivamente. Não podem legislar o executivo e o judiciário, como também não podem julgar o executivo e o legislativo; (c) generalidade e abstração das regras jurídicas444; (d) distinção entre direito público e direito privado, entendendo -se aquele como “o conjunto de normas com as quais o Estado determina a própria estrutura e organiza e regula as relações com os cidadãos, e por direito privado, o conjunto de normas que se destinam a regular as relações entre particulares”; (e) crença na completude e na neutralidade do ordenamento jurídico: (f) concepção do homem como um abstrato sujeito de direito, por efeito do processo de abstração do direito moderno, e correspondente à ideia do homem livre e igual, da tradição iluminista, pressuposto do processo de aquisição e circulação de direitos. Enfim, o Estado de Direito é o Estado da legalidade e da liberdade dos indivíduos, livres e iguais. Fundamento dessa construção é a subjetividade jurídica que, segundo Hegel, é o princípio dos tempos modernos, expresso no individualismo, na autonomia do agir e na responsabilidade do indivíduo pelo exercício de suas pretensões445. Contribuem para o desenvolvimento desse princípio a Reforma, o Iluminismo e a Revolução Francesa446. A Reforma Protestante com a crença de que a salvação é puramente individual, proclama a soberania do indivíduo e do seu pensamento. O Iluminismo como filosofia do homem novo, o burguês, que luta pelo progresso contra o obscurantismo e os privilégios da aristocracia e do clero. E a Revolução Francesa, abolindo o regime feudal e consagrando os princípios da igualdade, da liberdade individual e da propriedade privada. A sociedade moderna é, assim, marcada pela instituição do homem como sujeito singular, livre e igual, sem vínculos sociais (como acontecia na Idade Média) e responsável por si mesmo. O sujeito de direito em abstrato é o homem, livre e igual, do Iluminismo. No campo jurídico, a liberdade individual, a propriedade, o contrato e a responsabilidade civil são institutos jurídicos fundamentais, que a ciência jurídica elabora com princípios, conceitos, categorias e modelos que formam o direito como sistema racional. A importância do direito moderno para o direito civil está, portanto, no fato de ter, pelas circunstâncias políticas, econômicas e culturais, levado à formação da ciência jurídica, com seus conceitos, suas técnicas de abstração447, suas operações lógicas, seu formalismo, com a “imagem do homem como indivíduo singular, como sujeito abstrato, matéria com que trabalha o pensamento sistemático e que tem, no positivismo jurídico, a grande herança deixada para as mudanças do direito civil contemporâneo”. Concluindo, a grande contribuição do Estado moderno ao direito, principalmente do Estado liberal, é a racionalização da vida jurídica, com a adoção da ideia de sistema e o desenvolvimento do pensamento sistemático, do que os maiores exemplos foram os códigos e as constituições do séc. XIX, e ainda o princípio da subjetividade jurídica que estabelece o indivíduo como causa e razão final da esfera jurídica privada. 11. A SISTEMATIZAÇÃO DO DIREITO CIVIL. O PROCESSO DE CODIFICAÇÃO Produto do jusracionalismo é a concepção do direito como sistema, conjunto unitário e coerente de princípios e normas jurídicas. Partindo da formulação de conceitos gerais e utilizando o método dedutivo, por meio de uma demonstratio more geometrico, aplica -se o método cartesiano ao direito e chega -se à ideia de sistema jurídico, do que a jurisprudência dos conceitos, de Puchta e Windscheid, e a parte geral dos códigos civis são a melhor expressão. Entende -se que a ideia de sistema permite uma compreensão melhor do direito, não só de ordem didática como também de direito comparado, na medida em que autoriza o confronto e o relacionamento entre sistemas diversos. Além disso, possibilita compreender a matéria social em que se insere o sistema jurídico, isto é, as relações sociais e os valores determinantes do agir em sociedade, e, ainda, a interpenetração do direito com os demais sistemas que formam o universo social, como o econômico, o político e o religioso. O direito surge, assim, como um sistema de controle que emerge da vida, da sociedade, não podendo isolar -se da realidade que o produz. Já Savigny dizia que a ciência e a história do direito são inseparáveis do estudo da sociedade que lhe for contemporânea. A ideia de sistema liga -se diretamente à de codificação, agrupamento de normas jurídicas da mesma natureza em um corpo unitário e homogêneo. Difere essa da compilação, mero ajuntamento de leis, geralmente por ordem cronológica, e da consolidação, que é a reunião de leis pelo critério da matéria, simplificando -se e apresentando -se no seu último estágio448. Em senso estrito, codificação significa o processo legislativo, verdadeiramente revolucionário, que marcou os séculos XVIII e XIX, de acordo com os critérios científicos decorrentes do jusnaturalismo e do iluminismo, e que produziu os códigos, leis gerais e sistemáticas449. Sua causa imediata é a necessidade de unificar e uniformizar a legislação vigente em determinada matéria, simplificando o direito e facilitando o seu conhecimento, dando -lhe ainda mais certeza e estabilidade. Eventual mente, constitui -se em instrumento de reforma de sociedade como reflexo da evolução social. Seu fundamento filosófico ou ideológico é o jusracionalismo, que vê nos códigos o instrumento de planejamento global da sociedade pela reordenação sistemática e inovadora da matéria jurídica, pelo que se afirma que “os códigos jusnaturalistas foram atos de transformação revolucionária”450. A codificação apresenta vantagens, como a de simplificar o sistema jurídico, facilitando o conhecimento e a realização do direito, permitindo ainda elaborar os princípios gerais do ordenamento que “servirão de base para adaptar o direito à complexidade da vida real”, o que explica o triunfo da codificação. Como inconveniente, afirma -se que a codificação impede o desenvolvimento do direito, produto da vida social que não pode ficar circunscrito, limitado, aprisionado por estruturas formais e abstratas451. A codificação é fenômeno histórico frequente na vida dos povos, havendo, todavia, grande diferença entre as codificações antigas e as modernas. As antigas tinham um caráter mais geral, visando a totalidade do direito, enquanto que as modernas são especiais, disciplinando um só ramo jurídico. As primeiras surgiam como simples compilações, já as modernas apresentam -se sob a forma sistemática. Os códigos antigos recolhiam leis, doutrinas, princípios jurídicos, enquanto os modernos contêm, apenas, preceitos legais, que enunciam regrasou, eventualmente princípios. Os códigos antigos eram difusamente redigidos, os modernos são redigidos de forma breve e concisa. O código passou também a ser, na esfera do direito privado, a garantia das liberdades civis e do predomínio do poder legislativo sobre o judiciário, assegurando a autonomia do indivíduo contra a ingerência do poder estatal, como fazem, no direito público, as declarações de direitos e as constituições. Ocupava o centro da disciplina social. Conjugam -se, assim, os códigos civis e as constituições, criando uma nova organização jurídica da sociedade, e realizando o espírito da época, o “individualismo jurídico próprio do pensamento liberal”, que se exprime na divisão do direito em público e privado, na garantia da liberdade dos indivíduos, e na concepção da centralidade do direito em face da política e da filosofia. Os exemplos historicamente mais importantes desse processo de codificação, tanto pela importância político -ideológica que encarnavam quanto pelo exemplo que ofereceram às codificações posteriores, são os Códigos Civis francês e alemão. 12. O CÓDIGO CIVIL FRANCÊS O Código Civil francês é o primeiro das codificações modernas. Promulgado em 21 de março de 1804, elaborou -o uma comissão formada por Napoleão Bonaparte e constituída por Portalis (1746 -1807), Tronchet (1726 -1806), Bigot de Préameneu (1747 -1825) e Maleville, todos juristas práticos. O material com que trabalharam foram os costumes, o direito romano, recolhido por grandes jurisconsultos como Domat e Pothier, este o mais importante jurista francês de sua época, as Ordenações Reais, as leis da Revolução e, ainda, secundariamente, a jurisprudência dos antigos parlamentos e o direito canônico. Ideologicamente, caracteriza -se o Código Civil francês por seu laicismo, isto é, a separação da Igreja em matéria de estado civil ou de casamento, e por seu individualismo, expressão civilista da Declaração dos Direitos de 1789, manifesto nos princípios da igualdade, liberdade e espiritualidade do homem452. É a igualdade, a liberdade econômica e a autonomia da vontade garantidas em um corpo jurídico de elaboração essencialmente prática. Representa o triunfo do individualismo liberal, expresso no caráter absoluto do direito de propriedade e no princípio da liberdade contratual contido no art. 1.134, que afirma ser o contrato lei entre as partes. O Código Civil passou a denominar -se, em 1807, Código de Napoleão, depois, novamente, Código Civil dos franceses, em 1814 e, finalmente, Código de Napoleão, em 1852. Contém as premissas filosóficas de toda a legislação burguesa, sendo o modelo específico das relações entre o humanismo jurídico e a ordem civil. Foi, assim, o instrumento jurídico da ideologia e do espírito da Revolução Francesa453. Quanto à forma, é reconhecidamente conciso e preciso. Sua influência foi notável. Além de adotado por alguns Estados, como a Bélgica, influiu na elaboração dos Códigos Civis da Holanda, da Romênia, de Portugal, de Mônaco, do Egito, do Baixo Canadá, da Luisiana, e dos países da América Central e América do Sul. 13. O CÓDIGO CIVIL ALEMÃO O Código Civil alemão aprovou -se em 1º de julho de 1896 e entrou em vigor em 1º de janeiro de 1900. Compondo -se de duas partes, uma geral e uma especial, representa a síntese dos estudos doutrinários desenvolvidos na Alemanha no curso do século XIX, tomando por base o direito romano, que lhe ofereceu a matéria e os conceitos técnicos, principalmente na parte geral e no direito das obrigações, e o direito germânico, que o influenciou nos direitos reais, família e sucessão. É um código sistemático, profundo, rigoroso, dogmático, no sentido de uma construção lógica, racional. Apresenta, como vantagens, a disciplina lógica, a universalidade ou amplitude, e, como defeitos, a falta de clareza, a abstração demasiada, a dificuldade de compreensão pelo povo. Do ponto de vista da técnica jurídica, suas normas têm elevado nível de abstração e elasticidade, o que permite à jurisprudência adaptar seus dispositivos a muitas e distintas situações de fato. O esmerado rigor técnico de suas construções jurídicas e certa obscuridade na linguagem tornam -no acessível, todavia, somente aos juristas. Do ponto de vista moral, confere grande valor à boa -fé na interpretação dos contratos e à função educadora dos costumes. Do ponto de vista político e econômico, corresponde à ordem privada da época de sua redação, consagrando os princípios do individualismo454. Sua influência é notável em códigos de vários países como o Brasil, Japão, Suíça, China e Grécia. Foi recentemente objeto de um processo de recodificação, no campo das obrigações, por meio de uma lei que entrou em vigor em 1º de janeiro de 2002. 14. O DIREITO CIVIL BRASILEIRO. ESBOÇO HISTÓRICO A história do direito civil brasileiro compreende três fases: do descobrimento do Brasil à codificação, o processo de codificação em si, com o Código Civil de 1916, e o período de sua vigência até o advento do novo Código Civil, de 2002. A primeira fase divide -se em duas, de 1500 a 1808, época do Brasil -Colônia, e de 1808 a 1889, época do Brasil Império. A fase do Brasil -Colônia caracteriza -se pela aplicação das Ordenações Filipinas, legislação portuguesa que já era, no dizer de Coelho da Rocha, “atrasada, retrógrada”, mantendo em vigor, na época moderna, regras do século XV. Trazidas para o Brasil, consolidou -se aqui esse atraso455. Nos primeiros tempos de colônia, até 1531, data da expedição de Martin Afonso de Souza, o direito era o dos costumes e usos, no mais das vezes, a força física. O primeiro ato legislativo que nos diz respeito é a bula do Papa João II, de 20 -1 -1506, confirmando os direitos de D. Manuel, rei de Portugal, sobre as terras do Brasil, em consequência do Tratado de Tordesilhas, de 1494. No período das capitanias hereditárias (1532 -1542), a legislação brasileira formava -se de cartas régias, cartas de doação das capitanias, a primeira das quais lavrada em Évora, em 20 de janeiro de 1534 e, principalmente, pelos forais, ou cartas de foral, que, completando a carta de doação, eram o verdadeiro documento jurídico. Enquanto as cartas de doação estabeleciam “apenas a legitimidade da posse e os direitos e privilégios dos donatários”, as cartas de foral eram “um contrato enfitêutico em virtude do qual se constituíram perpétuos tributários da coroa e dos donatários capitães -mores, os solarengos que recebessem terras de sesmarias”456. De 1549 a 1581 temos o período do Governo Geral, iniciado com a carta régia de 7 de janeiro de 1549, dando início ao sistema do poder central de 1640 até 1750 (a subida do Marquês de Pombal) e daí até 1808 (ano em que a corte portuguesa se desloca para o Brasil), período em que surgiu incipiente legislação voltada para a atividade mercantil, letras de câmbio, câmbio marítimo, corretagem de câmbio, ao mesmo tempo que as relações civis se tornavam mais complexas, surgindo uma legislação sobre casamento, pátrio poder (hoje poder familiar), tutela e curatela, sucessão e contratos. A fase do Brasil Império, da abertura dos portos por D. João VI, em 1808, até a implantação da República, em 1889, tem dois aspectos marcantes para a nossa história jurídica. Politicamente, o estabelecimento da sede da monarquia portuguesa no Brasil; sociologicamente, a plena configuração do povo brasileiro. Em 16 de dezembro de 1815, a carta régia elevou o Brasil à categoria de reino, provocando a centralização administrativa e, consequentemente, fértil atividade legislativa. Proclamada a independência do Brasil em 7 de setembro de 1822, a lei de 20 de outubro de 1823 determina a manutenção da vigência das ordenações, das leis, dos regimentos, dos alvarás, dos decretos e das resoluções dos reis de Portugal em vigor no Brasil até 26 de abril de 1821, data em que D. João VI regressou a Portugal. E a Constituição do Império, de 25 de março de 1824, no art. 179 (n. XVIII), manda organizar -se, o quanto antes, um Código Civil e um Criminal, “fundados nas sólidasbases da justiça e da equidade”. 15. A CODIFICAÇÃO CIVIL BRASILEIRA: (A) ANTECEDENTES; (B) O CÓDIGO CIVIL DE 1916. ESTRUTURA, CARACTERÍSTICAS a) Antecedentes O Código Civil brasileiro resulta de um processo de elaboração legislativa que se desdobra em várias fases, no curso de noventa e dois anos. Em 1845, o grande advogado Francisco Inácio de Carvalho Moreira, Barão de Penedo, defende no Instituto da Ordem dos Advogados Brasileiros a tese da imediata remodelação do direito civil brasileiro, formado por legislação “esparsa, desordenada e numerosíssima”. Sentindo a mesma necessidade, Eusébio de Queirós propõe, em 1851, que se adote o Digesto Português de Correia Teles. Mas é Teixeira de Freitas quem inicia os trabalhos de codificação. Atendendo a convite de José Tomás Nabuco, Ministro da Justiça, encarrega -se Teixeira de Freitas, em 1855, de consolidar a legislação civil existente no Brasil, para que fosse bem conhecida, e depois, redigir o Código Civil. O que foi a ciclópica obra de Freitas na sua tarefa de coligir e classificar toda a legislação brasileira, consolidando a civil, e de elaborar o projeto de Código Civil, merece especial atenção457. Deve -se, inicialmente, lembrar que a sua produção científica, a Consolidação das Leis Civis e o Esboço, constitui uma das maiores glórias da cultura jurídica nacional e estrangeira, comparável, se não superior, à dos maiores juristas do seu século, consideradas as circunstâncias de ordem material e cultural em que se produziu. Rescindido, porém, o contrato de Teixeira de Freitas com o governo, incumbiu -se Nabuco de Araújo, em 3 de dezembro de 1872, de elaborar o projeto de Código Civil, no que trabalhou até 1878, quando morreu, deixando prontos 118 artigos do título preliminar e, com redação incompleta, mais 182 artigos da parte geral. Nesse projeto é visível a influência do Esboço de Freitas. A obra de codificação prossegue, no mesmo ano, com Joaquim Felício dos Santos, que se oferece para terminar esse trabalho. Redige 2.692 artigos que apresenta sob o título “Apontamentos para o Projeto de Código Civil Brasileiro”, distribuídos em uma Parte Geral, com três livros, das pessoas, das coisas e dos atos jurídicos em geral, e uma Parte Especial, com idêntica divisão. Não vingando esse projeto, em 15 de junho de 1890, logo depois de proclamada a República, encarregou -se Antonio Coelho Rodrigues de elaborar o projeto do Código Civil, o que faz em Genebra sob a influência do Código de Zurique e do direito alemão, como se verifica na própria divisão adotada: uma lei preliminar, uma parte geral, subdividida em três livros, das pessoas, dos bens, dos fatos e atos jurídicos, e uma parte especial, subdividida em quatro livros, das obrigações, da posse, da propriedade e de outros direitos reais, do direito de família e do direito das sucessões. Não se tendo aprovado nenhum desses projetos, em janeiro de 1889 o Ministro da Justiça Epitácio Pessoa convida Clóvis Beviláqua, eminente professor da Faculdade de Direito do Recife, para prosseguir no trabalho de codificação, aproveitando, no que fosse possível e não contrariasse as suas próprias ideias, os trabalhos dos juristas precedentes. O novo projeto foi elaborado de abril a outubro de 1889 e, concluído, remetido a alguns jurisconsultos para opinarem a respeito, a princípio individualmente e depois em comissão presidida pelo próprio Ministro. O projeto Clóvis Beviláqua compunha -se de uma lei de introdução, uma parte geral dividida em três livros, pessoas, bens, nascimento e extinção de direitos, e uma parte especial, desdobrada em quatro livros, direito de família, di reito das coisas, direito das obrigações e direito das sucessões. Caracterizava -se pela “harmonia entre a ordem e a liberdade, entre a tradição e o progresso”. Adotava a concepção de Ihering em matéria de posse, embora não exclusivamente, e disciplinava o direito de propriedade sem o absolutismo do direito romano. Apresentava algumas ideias novas, como o reconhecimento de filhos ilegítimos de qualquer espécie, a investigação de paternidade, a insolvência civil, a igualdade jurídica dos cônjuges, ideias essas não aceitas pela primeira comissão revisora, que modificou um pouco o sistema originário do autor. O projeto Beviláqua foi discutido na Câmara em 1901 e 1902 e remetido ao Senado neste mesmo ano, onde foi objeto de notável parecer do Senador Ruy Barbosa, redigido em apenas três dias, de natureza mais filológica do que jurídica, verdadeira “mão de obra literária do projeto”. Esse parecer foi objeto de crítica do Prof. Ernesto Carneiro Ribeiro, eminente filólogo da Bahia, autor da revisão gramatical do projeto, nas suas “ligeiras observações sobre as emendas do dr. Ruy Barbosa”, feitas à redação do Projeto do Código Civil, em setembro de 1902. A essa manifestação reagiu Ruy Barbosa com a sua monumental Réplica, que mereceu de Carneiro Ribeiro nova manifestação (“A redação do projeto do Código Civil e a Réplica do Dr. Ruy Barbosa”), obras que, no seu conjunto, constituem a mais genial realização de nossa história filológica, e talvez das letras neolatinas458. A polêmica instaurada com o projeto do Código faz com que este permaneça no senado até 1912, sendo devolvido a 31 de dezembro desse ano à Câmara para apreciação da “Redação final das emendas do Senado”, em número de 1.736. Em 1915, foi o projeto remetido ao senado para exame das emendas rejeitadas pela Câmara. O projeto volta a esta, que aprova a redação final a 26 de dezembro de 1915, sendo sancionado e promulgado com a Lei n. 3.071 de 1º de janeiro de 1916, para entrar em vigor a 1º de janeiro de 1917. Existindo algumas incorreções no texto, a Lei n. 3.725, de 15 de janeiro de 1919, eliminou -as. A elaboração do Código Civil brasileiro deu origem a grande floração doutrinária, com notável desenvolvimento da civilística nacional. b) O Código Civil de 1916. Estrutura e características À semelhança do que ocorre com o Código alemão (Bürgerliches Gesetzbuch), o Código Civil brasileiro de 1916 tinha a precedê -lo uma lei de Introdução, com regras sobre publicação, vigência e aplicação das leis, sua interpretação e integração, e ainda os critérios para solução de conflitos de normas no tempo e no espaço, isto é, regras de direito intertemporal e de direito internacional privado. Atendia, assim, à necessidade de normas gerais de aplicação para todas as leis, já previstas no título primeiro do Código de Napoleão (“De la publication, des effets et de l’aplication des lois en général) e na proposta de Teixeira de Freitas, que, em 1867, propunha, juntamente com a elaboração de um código geral de direito privado, unindo as matérias civil e comercial, uma Lei Geral que dominasse a legislação inteira, abrangendo “matérias superiores a todos os ramos da legislação”. Compreendia o Código de 1916 duas partes, uma geral e outra especial. A parte geral, com 179 artigos distribuídos em três livros, referentes às pessoas, aos bens e aos fatos jurídicos, reúne os princípios e regras aplicáveis à generalidade dos atos e das relações jurídicas disciplinadas pelas normas da parte especial, isto é, aos sujeitos e aos objetos dessas relações e aos fatos jurídicos que as fazem nascer, modificar ou extinguir. A parte especial subdivide -se em quatro livros. O primeiro, do direito de família, com 305 artigos, compreende a matéria pertinente ao casamento, sua validade e eficácia; aos regimes de bens entre os cônjuges; à dissolução da sociedade conjugal e à proteção da pessoa dos filhos; às relações de parentesco e à tutela, curatela e ausência. O segundo, do direito das coisas, com 372 artigos, compreendendo a posse, a propriedade e os direitos reais sobre as coisas alheias. O terceiro, do direito das obrigações, com 709 artigos, que disciplina as obrigações nas suas modalidades, transmissão, fontes e extinção. E finalmente, o livro quatro, do direito das sucessões, com 234 artigos, compreende as normas sobre a sucessão em geral, a sucessão legítima, a sucessão testamentária, o inventário