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Karine Naves de Oliveira Goulart TREINO DE FORÇA NO PÓS-JOGO EM ATLETAS PROFISSIONAIS DE FUTEBOL FEMININO: qual o melhor momento de se realizar essa sessão? Belo Horizonte Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional - UFMG Faculty of Health - University of Technology Sydney - UTS 2020 Karine Naves de Oliveira Goulart TREINO DE FORÇA NO PÓS-JOGO EM ATLETAS PROFISSIONAIS DE FUTEBOL FEMININO: qual o melhor momento de se realizar essa sessão? Tese apresentada ao Curso de Doutorado em Ciências do Esporte da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais, e ao Curso de Doctor of Philosophy da University of Technology Sydney como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em Ciências do Esporte e Doctor of Philosophy in Sports and Exercises. Orientador: Prof. Dr. Bruno Pena Couto Prof. Dr. Rob Duffield Linha de pesquisa: Análise de métodos para o desempenho humano e esportivo Belo Horizonte Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional - UFMG Faculty of Health - University of Technology Sydney – UTS 2020 G694t 2020 Goulart, Karine Naves de Oliveira Treino de força no pós-jogo em atletas profissionais de futebol feminino: qual o melhor momento de se realizar essa sessão? [manuscrito] / Karine Naves de Oliveira Goulart – 2020. 167 f., enc.: il. Orientador: Bruno Pena Couto Coorientador: Rob Duffield Tese (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional. Bibliografia: f. 144-158 1. Exercícios físicos – Teses. 2. Futebol para mulheres – Teses. 3. Força muscular – Teses. 4. Fadiga muscular – Teses. I. Couto, Bruno Pena. II. Duffield, Rob. III. Universidade Federal de Minas Gerais. Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional. IV. Título. CDU: 371.73 Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário Danlo Francisco de Souza Lage, CRB 6: n° 3132, da Biblioteca da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG. Production Note: Signatures removed prior to publication. Production Note: Signature removed prior to publication. AGRADECIMENTOS Primeiramente, agradeço a Deus, a quem dedico esse momento e por quem me inspiro durante a busca pelo significado do estudo e do trabalho em minha vida. Aos meus pais, pelo cuidado e amor oferecidos diariamente. Por não medirem esforços para que eu tenha o melhor. A toda minha família, pelo apoio e torcida. Ao meu orientador Bruno Pena, por todos esses anos de caminhada acadêmica, desde a graduação, mestrado e doutorado, sempre abrindo as portas para oportunidades profissionais e acreditando em meu potencial. Obrigada por tudo que fez para que eu pudesse realizar o sonho de um doutorado sanduíche. Ao meu orientador Rob Duffield, obrigada por todo suporte e tempo dedicado ao meu aprendizado, que não se restringiram a minha estadia na Austrália. Mesmo de longe, me senti como peça importante nas suas horas de trabalho. Obrigada por ser exemplo de eficiência, dedicação e excelência. Cada nova versão de um artigo foram etapas desafiadoras e instigantes, que me ensinaram muito além da escrita em inglês, e me fizeram perceber que a persistência e paciência são importantes para se alcançar um trabalho de qualidade. A todos os atuais e ex-membros do LAC, que de alguma forma participaram do meu percurso acadêmico. Em especial, ao Geraldo, por abraçar as minhas coletas como se fossem dele, e dividir comigo todo o peso das dificuldades que uma coleta de dados pode gerar, e ao Túlio pela ajuda constante durante sua iniciação científica. Sem vocês, nada disso seria possível. A todos os professores, colegas e alunos do grupo de Esporte e Exercício da University of Technology Sydney, pela experiência, aprendizado e momentos compartilhados. Por me propiciarem o sentimento de pertencimento a uma equipe de alto nível, por me tratarem como igual. Meu agradecimento e admiração ao Prof. Aaron Coutts, por todas as oportunidades oferecidas durante o meu período na UTS e por ser referência na Ciências do Esporte em todo o mundo. Prof. Job Fransen, por todas as dúvidas estatísticas esclarecidas e por ser sempre tão acessível. Prof. Mark Watsford, obrigada pela ajuda com os dados da plataforma de força e pelas contribuições durante os Estágios 2 e 3. Obrigada aos professores Franco Impellizeri, Sharon Coutts, Rob Bower, Lee Wallace, Hugh Fullagar, Katie Slattery, John Evans, Cristina Caperchione, Elaine, Shiree, Geoff and Brett. Com vocês aprendi sobre um ambiente de trabalho saudável e cooperativo. Gostaria também de agradecer a GRS, UTS helps e departamento internacional, especialmente Ana Paula, por todo apoio. Aos meus colegas pelas trocas de informação, conhecimento e momentos partilhados. Obrigada Judd, Donna e Nick pela oportunidade de assistir as suas aulas e aprender tanto com vocês. Sam, pela oportunidade de participar do seu projeto. Paul, Mitch, Anthony, Rhys, Will, Clem, Anne, pela convivência prazerosa e enriquecedora nesse meu um ano de UTS. Em especial, obrigada Donna, pelo companheirismo dentro e fora da UTS. A todos as amizades que surgiram no meu um ano de Austrália, que fizeram dessa experiência, a melhor que eu podia ter. A Carolina Wilke, pioneira do processo de cotutela, por não negar esforços nem respostas a todas as minhas dúvidas sobre Austrália e UTS. Obrigada pela disponibilidade e por tornar todo o processo muito mais simples para mim. A todos os meus amigos da vida, que de alguma forma me ofereceram suporte quando precisava. Em especial a Cris, amiga enfermeira, pela disponibilidade em ajudar com a coleta de sangue dos meus voluntários. Ao Gabriel e Letícia, pela ajuda com o inglês, por me incentivarem na luta contra a prova de proficiência, e por fazerem de uma viagem um marco fundamental para que o impossível se tornasse realidade. A comissão técnica do Vila Nova, por me receberem e proporcionarem um primeiro contato com o futebol de base e profissional. A comissão do América, pela parceria. Aos atletas de futebol que participaram do meu estudo, meu muito obrigada pelo envolvimento e por fazerem dessa experiência algo que realmente valesse a pena. Em especial, obrigada Bárbara, Victor Alberice, Raphael e Mariana. Aos professores Eduardo Mendonça Pimenta, Luciano Sales Prado e Guilherme Passos Ramos, por toda contribuição durante a qualificação do meu doutorado. E aos professores que hoje fazem parte da minha banca de defesa de tese. Gostaria ainda de estender os meus agradecimentos aos professores da UFMG que foram exemplo e inspiração durante a minha trajetória acadêmica. Foram 10 anos contínuos de muito aprendizado e diferentes experiências. Prof. Samuel Penna, Mauro Heleno Chagas, Luciano Sales Prado, Eduardo Pimenta, André Gustavo, Gustavo Peixoto, Marcos Daniel, Fernando Vitor, Ricardo Carneiro, Reginaldo Gonçalves, Leszek Schmuchrowski, Danusa Dias Leão, Emerson Silami Garcia, Ivana Montandon, Kátia Lemos, meu muito obrigada. Todos vocês, de alguma forma, marcaram a minha caminhada acadêmica. Por fim, agradeço ao povo brasileiro que, ao pagarem os impostos, me permitiram realizar o doutorado. Espero, com ética, humildade, dedicação e comprometimento profissional, poder retribuir todo o investimento ao qual tive o privilégio de ser contemplada. Muito obrigada! RESUMO Introdução: Durante a temporada competitiva no futebol profissional, microciclos semanais geralmente consistem em sessões de treinamento, jogos e recuperação.Informações sobre o perfil de recuperação pós-jogo permanecem limitadas na literatura, especialmente no futebol feminino, com poucas descrições de parâmetros de desempenho físico, fisiológico e respostas perceptivas no mesmo estudo e observadas em um período de até 72 h. Sessões de treinamento adicionais durante calendários congestionados tem o potencial de prejudicar o processo de recuperação, embora sejam necessárias para preparar a equipe e manter a capacidade física dos atletas, evitando a perda de adaptações. O treinamento de força (TF), mais especificamente o treinamento de potência muscular, contribui para melhorias no desempenho físico de atletas de futebol, tais como aumento da força, melhora no desempenho de salto, tempo de sprint, agilidade e velocidade de chute. Apesar da importância de realizar TF durante a temporada competitiva, o momento de se realizar essas sessões após o jogo permanece discutível. Realizar uma sessão de treinamento de força (STF) 24 h pós-jogo pode aumentar o estresse em atletas já fadigados. Por outro lado, realizar uma STF 48 h pós-jogo pode atrasar a recuperação para o jogo subsequente, que geralmente ocorre dentro de 72 h. Considerações adicionais também são necessárias sobre a qualidade da sessão de treinamento de força realizada nesses momentos, que pode ser afetada pela proximidade de uma partida anterior. Portanto, a investigação de STF em diferentes momentos pós-jogo é importante para entender a recuperação, planejar o treinamento e preparar os atletas para os próximos jogos. O presente projeto foi dividido em três estudos, de acordo com os seguintes objetivos: 1) Analisar a dinâmica de recuperação pós-jogo em atletas de futebol feminino; 2) Analisar a dinâmica de recuperação pós-treino de potência muscular em atletas de futebol feminino; 3) Investigar o efeito de uma sessão de treino de potência realizada 24 ou 48 h pós-jogo na recuperação de atletas de futebol feminino. Métodos: Participaram do estudo 21 atletas profissionais de futebol do sexo feminino de uma equipe de Belo Horizonte (estudo 1: n = 15; estudo 2: n=10; estudo 3: n=10). Durante a temporada competitiva, a recuperação das atletas foi monitorada 24, 48 e 72 h após o jogo e comparada com os valores pré-jogo. Foram realizadas três condições experimentais: (1) condição controle, sem treinamento de força (2) sessão de treinamento de força realizada 24 h pós-jogo (STF24h) e (3) 48 h pós-jogo (STF48h). Durante a intertemporada, para verificar os efeitos do treinamento de força isolado, o desempenho em testes físicos e respostas perceptivas foram monitorados pré, imediatamente após, 24 e 48 h após a STF. O TF consistiu em 3 séries de 6 repetições explosivas dos exercícios de half-squat, jump squat, deadlift e lunges a 50% de 1RM estimado. Para comparar a qualidade do TF entre as condições (STF24h e STF48h), o exercício half-squat foi realizado em uma plataforma de força. Variáveis de desempenho (média e melhor altura do salto com contramovimento (SCM), média e melhor tempo de 10 e 20 m de sprint), fisiológicas (proteína C reativa (PCR)) e respostas perceptivas (escala de dor muscular tardia (DOMS), escala de qualidade total de recuperação (TQR) e escala brasileira de humor (BRAMS) para avaliar fadiga e vigor) foram usadas para quantificar a recuperação. Análise estatística: ANOVA one-way de medidas repetidas (para SCM e sprint) e teste de Friedman (para PCR, DOMS, TQR, fadiga e vigor) foram utilizadas para verificar o efeito do jogo (Estudo 1) e do treinamento de força (Estudo 2). ANOVA two-way de medidas repetidas (3x4) com análises de tamanho de efeito (ES) foram realizadas para comparar as três condições experimentais ao longo do tempo (Estudo 3). Um teste t comparou o desempenho (qualidade do treinamento) entre STF24h e STF48h (Estudo 3). O nível de significância adotado foi de α =0,05. Resultados: Estudo 1: A altura média do SCM reduziu 24 h pós-jogo (p<0,05; ES=- 0,45), embora o melhor desempenho do SCM permaneceu reduzido até 48 h pós- jogo (p<0,05; ES=-0,33). Tanto a média quanto o melhor tempo nos 20 m de sprint estavam elevados até 48 h pós-jogo (p<0,05; ES=0,68 e p<0,05; ES=0,73, respectivamente). A PCR aumentou 24 h pós-jogo (p<0,05; ES=0,78), retornando a valores basais dentro de 48 h. A DOMS atingiu valores pico 24 h pós-jogo (ES=0,14), embora não tenha diferido dos valores pré (p<0,05). A TQR e o vigor estavam significativamente reduzidos (p<0,05; ES=-1,92; p<0,05, ES=-0,42; respectivamente), enquanto a fadiga aumentou significativamente (p<0,05; ES=0,37) 24 h pós-jogo. Estudo 2: Ambos, média e melhor desempenho do SCM reduziram imediatamente após a STF (p<0,05; ES=-0,49 e -0,65, respectivamente), enquanto apenas efeitos triviais-pequenos, sem diferenças significativas foram verificados 24 h (p>0,05; ES=-0,15 e -0,08) e 48 h (p>0,05; ES=0,14 e -0,21). Não foram evidenciadas diferenças significativas e apenas efeitos triviais-pequenos em qualquer momento pós-STF para desempenho médio e melhor tempo de 10 m (p>0,05; ES=-0,18-0,26) ou 20 m (p>0,05; ES=-0,08-0,19) de sprint. Respostas perceptivas, incluindo DOMS (p>0,05; ES=-0,30–0,45), TQR (p>0,05; ES=-0,51- 0,01), fadiga (p>0,05, ES=-0,13-0,48) e vigor (p>0,05, ES=0,18-0,41) não alteraram após a STF. Estudo 3: Embora não tenham sido verificadas diferenças significativas (p>0,05) entre as condições (STF24h, STF48h e Controle), maiores ES para alterações entre pré e 72 h foram evidentes para a condição STF48h (ES=0,34- 2,13) comparado a STF24h (ES=0,06-0,68) e condição controle (ES=0,03-0,36), nas variáveis média e melhor altura do SCM, média e melhor tempo de 10 e 20 m de sprint, e DOMS. Contrariamente, maiores ES de pré a 72 h foram verificados para PCR na condição Controle (ES=0,67) comparado a STF24h (ES=0,19) e STF48h (ES=0,01). Não foram verificadas diferenças significativas na taxa de desenvolvimento de força, na força média e na força pico do exercício half-squat entre as condições (p>0,05; ES=0,05-0,43). Conclusão: Jogos de futebol feminino induzem alterações no desempenho físico por pelo menos 48 h, enquanto PCR e respostas perceptivas permanecem alteradas apenas 24 h pós-jogo. Uma STF causa apenas alterações imediatas no desempenho do SCM, sem alterações residuais no desempenho físico e nas respostas perceptivas. No entanto, realizar uma STF 48 h pós-jogo aparentemente reduz o desempenho do salto, a velocidade e aumenta mais a DOMS em 72 h em comparação a realização de uma STF 24 h pós-jogo ou a ausência de STF (Controle). A força pico, força média e taxa de desenvolvimento da força produzidos no exercício half-squat não foram significativamente diferentes, independentemente do tempo pós-jogo (STF24h ou STF48h). Assim, se treinadores e preparados físicos de futebol desejam prescrever uma STF, mais especificamente um treino de potência muscular, durante um calendário congestionado, é recomendável prescrever esta sessão 24 h após o jogo. Palavras-Chave: Futebol feminino. Recuperação. Fadiga. Treino de potência. Jogos. ABSTRACT Introduction: During the in-season in professional soccer, weekly micro-cycles usually consist of training sessions, matches, and recovery. Limited scope exists on post-match recovery profile of female soccer players with few descriptions of performance, physiological and perceptual markers of recovery in the same study and with recovery responses observed up to 72 h. Further training during congested schedules has the potential to blunt the recovery process, though it is equally necessary to prepare the team and maintain physical capacity to avoid the loss of adaptations acquired. Resistance training (RT) for strength and power can make important contributions to improvements in the physical performance of soccer players (i.e. strength, jump performance, sprint time, agility andball strike speed). Despite the importance of performing RT during the in-season, the timing of these sessions post-match remains debatable. Performing RT 24 h post-match may potentially increase stress on already fatigued athletes, contrastingly, at 48 h post- match it may suppress recovery for any ensuing match at 72 h. Further consideration is also required for the quality of any explosive strength training session performed at these times, which may be affected by the proximity to a prior match. Therefore, the investigation into RT in different post-match timelines in females is important to understand recovery, plan training and prepare players for ensuing matches. The present project was divided into three studies, according to the following objectives: 1) Quantify the post-match recovery time-course in female soccer players; 2) Quantify the post-resistance training recovery time-course in female soccer players; 3) Investigate the effect of a low-load, high-speed RT performed 24 or 48 h post- match on recovery in female soccer players. Methods: A total of 21 Brazilian female professional soccer athletes participated in the study (study 1: n=15; study 2: n=10; study 3: n=10). During the competitive season, the athletes' recovery was monitored at 24, 48 and 72 h post-match and compared to the pre-match values. Three experimental conditions were performed: (1) Control condition, without resistance training (2) Resistance training session performed 24 h post-match (RT24h) and (3) 48 h post-match (RT48h). During the inter-season, in order to verify the effects of isolated resistance training, the performance in physical tests and perceptual responses were monitored pre, immediately, 24 and 48 h post-RT. The RT consisted of 3 sets of 6 explosive repetitions of half-squat, jump squat, deadlift and lunges exercises at 50% of estimated 1 RM. To compare the quality of the RT between conditions (RT24h and RT48h), the half-squat exercise was performed on a force platform. Performance variables (mean and best countermovement jump (CMJ) height, mean and best 10 m and 20 m sprint time) physiological (C-reactive protein (CRP)) and perceptual responses (delayed onset muscle soreness scale (DOMS), total quality recovery scale (TQR), and Brazilian mood scale (BRAMS) for fatigue and vigor) were used to quantify recovery. Statistical analyses: One-way repeated measures ANOVA (for CMJ and sprint) and Friedman test (for CRP, DOMS, TQR, fatigue, and vigor) were used to verify the single effect of the match (Study 1) and of the resistance training session (Study 2). Two-way (3x4) repeated measures ANOVA with respective effect size (ES) analyzes were performed to compare the 3 experimental conditions over time (Study 3). A t-test compared the performance (quality of training) between RT24h and RT48h (Study 3). Significance level was accepted at α=0.05. Results: Study 1: Mean post-match CMJ height was reduced at 24 h (p<0.05, ES=-0.45), though best effort was still reduced at 48 h (p<0.05, ES=- 0.33). Both mean and best 20 m sprint time were slower until 48 h post-match (p<0.05, ES=0.68; p<0.05, ES=0.73, respectively). CRP was increased until 24 h (p<0.05, ES=0.78), returning to baseline by 48 h. DOMS peaked at 24 h (ES=0.14), although did not differ to pre (p<0.05). TQR and vigor were significantly reduced at 24 h post-match (p<0.05, ES=-1.92; p<0.05, ES=-0.42; respectively), while fatigue was significantly increased (p<0.05, ES=0.37). Study 2: Both mean and best CMJ performance decreased immediately post-RT (p<0.05, ES=-0.49; -0.65, respectively), though no significant differences and trivial-small effects existed at 24 h (p>0.05, ES=-0.15 and -0.08) and 48 h (p>0.05, ES=0.14 and -0.21). No significant differences and trivial-small effects were evident at any time for mean or best 10 m (p>0.05, ES=-0.18–0.26) or 20 m (p>0.05, ES=-0.08–0.19) performance. Perceptual responses including DOMS (p>0.05, ES=-0.30–0.45), TQR (p>0.05, ES=-0.51–- 0.01), fatigue (p>0.05, ES=-0.13–0.48) and vigor (p>0.05, ES=0.18–0.41) did not change following RT. Study 3: Despite no significant differences (p>0.05) existing between conditions (RT24h, RT48h and Control), ES for changes from pre to 72 h were larger for mean and best CMJ, 10 and 20 m sprint time, and DOMS in RT48h (ES=0.34-2.13) than in RT24h (ES=0.06-0.68) and in Control (ES=0.03-0.36). Contrarily, CRP changes from pre to 72 h tended to be larger in Control (ES=0.67) than in RT24h (ES=0.19) and RT48h (ES=0.01). No differences in the rate of force development, mean and peak force of half-squat exercise existed between conditions (p>0.05; ES=0.05-0.43). Conclusions: Female soccer matches induce changes in physical performance for at least 48 h, while CRP and perceptual responses remain altered only 24 h post-match. High-speed, low-load RT causes only immediate changes in CMJ performance, with no residual changes in physical performance and perceptual responses. However, performing a RT 48 h post-match apparently reduces jumping performance, speed and further increases the DOMS at 72 h compared to performing a RT 24 h post-match or the absence of RT (Control). Rate of force development, mean and peak force values produced in the squat exercise were not significantly different, regardless of the post-match time (RT24h or RT48h). Thus, if strength and conditioning soccer coaches want to prescribe a high-speed, low-load RT during a congested schedule, it is suggested to prescribe this session 24 h post-match. Keywords: Female soccer. Recovery. Fatigue. Resistance training. Matches. LISTA DE PUBLICAÇÕES INCLUSAS NA TESE (LIST OF PAPERS/PUBLICATIONS INCLUDED) Estudo 1 Post-match performance, physiological and perceptual recovery in female footballers *Artigo submetido ao periódico Journal of Strength and Conditioning Research no dia 23 de janeiro de 2020. *Submitted to the Journal of Strength and Conditioning Research on 23 January 2020. Estudo 2 Recovery timeline following resistance training in professional female soccer players *Artigo publicado no dia 09 de Março no periódico Science and Medicine in Football. *Published online on 09 March 2020 in Science and Medicine in Football. Estudo 3 Post-match resistance training in female footballers; when is the best time to train? *Artigo submetido ao periódico International Journal of Sports Physiology and Performance, no dia 22 de Novembro de 2019 (Qualis A2). *Submitted to the International Journal of Sports Physiology and Performance on 22 November 2019. LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURA 3.1 Delineamento Experimental .................................................................. 64 FIGURA 3.2 Situações Experimentais ...................................................................... 68 FIGURA 3.3 Salto com contramovimento ................................................................. 69 FIGURA 3.4 Coleta de sangue para análise de variável fisiológica .......................... 71 FIGURA 3.5 Escala Analógica Visual de dor muscular ............................................. 71 FIGURA 3.6 Qualidade Total de Recuperação ......................................................... 72 FIGURA 3.7 Curva força x tempo para o exercício agachamento ............................. 76 FIGURE 4.1 Group mean and individual player responses for Countermovement Jump (CMJ), 20 and 10 m sprint at pre, 24 h 48 h and 72 h post-match. .................. 89 FIGURE 4.2 Group median and individual player responses for C-Reactive Protein (CRP) at pre, 24 h, 48 h, and 72 h post-match .......................................................... 90 FIGURE 4.3 Group median and individual player responses for Delayed onset muscle soreness (DOMS), Total quality of recovery (TQR) and Brazilian Mood Scale(BRAMS) for fatigue and vigor at pre, 24 h, 48 h, and 72 h post-match. ................... 92 FIGURE 5.1 Time course of recovery for performance variables ............................ 107 FIGURE 5.2 Time course of recovery for perceptual variables ............................... 109 FIGURE 6.1 Time course of recovery for mean and best Countermovement Jump (CMJ), 20 m and 10 m sprint time at pre, 24 h, 48 h, and 72 h post-match in Control, RT24h and RT48h conditions .................................................................................. 125 FIGURE 6.2 Effect size changes from pre to 72 h post-match for all variables in Control, resistance training 24 hours post-match (RT24h) and resistance training 48 hours post-match (RT48h), n=10 ............................................................................ 126 FIGURE 6.3 Time course of recovery for C-Reactive Protein (CRP) and Delay Onset Muscle Soreness (DOMS) at pre, 24 h, 48 h, and 72 h post-match in Control, RT24h and RT48h conditions ............................................................................................. 128 LISTA DE TABELAS TABLE 4.1 Match characteristics, times, locations, environmental conditions and number of athletes evaluated at each match (N) ....................................................... 87 TABLE 6.1 Match characteristics, times, locations and environmental conditions .. 121 TABLE 6.2 Mean ± SD external and internal match loads for resistance training 24 hours post-match (RT24h), resistance training 48 hours post-match (RT48h) and Control Condition ..................................................................................................... 122 TABLE 6.3 Mean ± SD training loads for resistance training at 24 and 48 h post- match ...................................................................................................................... 122 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ANOVA Analysis of Variance - Análise de Variância BRAMS Brazilian Mood Scale - Escala de Humor Brasileira BRUMS Brunel Mood Scale - Escala de Humor de Brunel Ca2+ Íons Cálcio CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CBF Confederação Brasileira de Futebol CCI Coeficiente de Correlação Intraclasse CI Confidence Intervals CK Creatine Kinase - Creatina Quinase CMJ Countermovement jump CNPQ Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CRP C-reactive protein CV Coeficiente de Variabilidade DGPS Differential GPS DOMS Delayed Onset Muscle Soreness - dor muscular de início tardio EGNOS European Geostationary Navigation Overlay Service EPM Erro Padrão da Medida EROS Espécies Reativas de Oxigênio ES Effect Size - tamanho do efeito FAPEMIG Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de Minas Gerais FC Frequência Cardíaca FCmáx Frequência Cardíaca Máxima GPS Global Positioning Satellite - Sistema de posicionamento global HR Heart Rate ICC Intraclass Correlation Coefficient IL-6 Interleucina 6 MSAS Multi-functional Satellite Augmentation System PCR Proteína C Reativa POMS Profile of Mood States PRPQ Pró-Reitoria de Pesquisa PSE Percepção Subjetiva de Esforço RFD Rate of force development RMS Erro médio quadrático RPE Rating of Perceived Exertion RPM Rotações por minuto RT Resistance Training RT24h Resistance Training performed 24h post-match RT48h Resistance Training performed 48h post-match SCM Salto com Contramovimento SD Standard Deviation SEM Standard Error of Measurement SPSS Statistical Package for the Social Sciences STF Sessão de Treinamento de Força STF24h Sessão de Treinamento de Força realizada 24h pós-jogo STF48h Sessão de Treinamento de Força realizada 48h pós-jogo TDF Taxa de desenvolvimento da força TF Treinamento de Força TNF-α Fator de Necrose Tumoral alfa TQR Total Quality Recovery - Qualidade total de recuperação VAS Visual Analogue Scale VO2max Consumo máximo de oxigênio Yo-Yo IR Yoyo Intermittent Recovery-test Yo-Yo IR1 Yoyo Intermittent Recovery-test level 1 Yo-Yo IR2 Yoyo Intermittent Recovery-test level 2 1RM 1 Repetition Maximum - 1 repetição máxima 1RMest 1 Repetição Máxima estimada χ2 Chi-Square WAAS Wide Area Augmentation System SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 24 1.1 Objetivo geral ................................................................................................... 30 1.2 Objetivos específicos ....................................................................................... 30 1.3 Hipóteses ......................................................................................................... 30 2.1 Caracterização do futebol ................................................................................ 32 2.2 Fadiga e recuperação após jogos de futebol ................................................... 37 2.3 Utilização do desempenho em testes físicos no monitoramento da fadiga no futebol .................................................................................................................... 41 2.4 Dano muscular, inflamação e reparo tecidual .................................................. 42 2.5 Dano muscular e inflamação induzidos por jogos de futebol ........................... 45 2.6 Respostas Perceptivas .................................................................................... 49 2.7 Variabilidade entre jogos ................................................................................. 52 2.8 Treinamento de força e futebol ........................................................................ 54 3 MATERIAIS E MÉTODOS...................................................................................... 62 3.1 Cuidados éticos ............................................................................................... 62 3.2 Sujeitos ............................................................................................................ 62 3.3 Delineamento Experimental ............................................................................. 63 3.4 Procedimentos ................................................................................................. 65 3.4.1 Caracterização antropométrica ................................................................. 65 3.4.2 Yo-Yo Intermittent Recovery Test ............................................................. 65 3.4.3 Teste para estimar 1RM ............................................................................ 66 3.5 Procedimentos de Coleta para Variáveis de Monitoramento ........................... 67 3.5.1 Teste de salto com contramovimento ........................................................ 68 3.5.2 Teste de velocidade de 20 metros ............................................................ 69 3.5.3 Variáveis fisiológicas ................................................................................. 70 3.5.4 Escala de Dor muscular ............................................................................ 71 3.5.5 Escala de Qualidade Total de Recuperação ............................................. 72 3.5.6 Escala de Humor Brasileira ....................................................................... 72 3.5.7 Questionários ............................................................................................ 73 3.6 Procedimentos no dia dos jogos e monitoramento da carga de jogo .............. 73 3.7 Protocolo de Treinamento de Força ................................................................ 74 4 STUDY 1 POST-MATCH PERFORMANCE, PHYSIOLOGICAL AND PERCEPTUAL RECOVERY IN FEMALE SOCCER PLAYERS ................................ 79 4.1 Introduction ......................................................................................................81 4.2 Methods ........................................................................................................... 83 4.2.1 Experimental Approach to the Problem ..................................................... 83 4.2.2 Subjects .................................................................................................... 84 4.2.3 Procedures ................................................................................................ 84 4.2.3.1 Match day procedures and load measurement ................................... 84 4.2.3.2 Performance tests ............................................................................... 85 4.2.3.3 Physiological and Perceptual variables .............................................. 85 4.2.4 Statistical analysis ..................................................................................... 86 4.3 Results ............................................................................................................. 87 4.3.1 Performance tests ..................................................................................... 87 4.3.2 Physiological and perceptual responses ................................................... 90 4.4 Discussion ....................................................................................................... 92 4.5 Practical applications ....................................................................................... 96 5 STUDY 2 RECOVERY TIMELINE FOLLOWING RESISTANCE TRAINING IN PROFESSIONAL FEMALE SOCCER PLAYERS ..................................................... 97 5.1 Introduction ...................................................................................................... 99 5.2 Methods ......................................................................................................... 101 5.2.1 Subjects .................................................................................................. 101 5.2.2 Experimental Approach to the Problem ................................................... 101 5.2.3 Procedures .............................................................................................. 102 5.2.3.1 Estimation of 1 Repetition Maximum (RM) ....................................... 102 5.2.3.2 Resistance training protocol ............................................................. 103 5.2.3.3 Pre and post resistance training assessment ................................... 103 5.2.3.3.1 Performance tests ...................................................................... 103 5.2.3.3.2 Perceptual responses ................................................................ 104 5.2.4 Statistical analysis ................................................................................... 105 5.3 Results ........................................................................................................... 105 5.3.1 Performance tests ................................................................................... 105 5.3.2 Perceptual responses .............................................................................. 108 5.4 Discussion ..................................................................................................... 109 5.5 Practical applications ..................................................................................... 112 6 STUDY 3 POST-MATCH RESISTANCE TRAINING IN FEMALE FOOTBALLERS; WHEN IS THE BEST TIME TO TRAIN? ................................................................. 113 6.1 Introduction .................................................................................................... 115 6.2 Methods ......................................................................................................... 116 6.2.1 Participants ............................................................................................. 116 6.2.2 Experimental Design ............................................................................... 117 6.2.3 Procedures .............................................................................................. 118 6.2.3.1 Estimation of 1 Repetition Maximum (RM) ....................................... 118 6.2.3.2 Match day procedures and load measurement ................................. 118 6.2.3.3 Resistance training protocol ............................................................. 119 6.2.3.4 Pre and 24, 48, 72h post-match measures ....................................... 119 6.2.3.4.1 Performance tests ...................................................................... 119 6.2.3.4.2 Physiological and Perceptual responses .................................... 120 6.2.4 Statistical analysis ................................................................................... 121 6.3 Results ........................................................................................................... 121 6.3.1 Performance tests ................................................................................... 123 6.3.2 Physiological and perceptual responses ................................................. 126 6.4 Discussion ..................................................................................................... 129 6.5 Practical applications ..................................................................................... 132 6.6 Conclusion ..................................................................................................... 132 7 DISCUSSÃO ........................................................................................................ 133 8 APLICAÇÕES PRÁTICAS .................................................................................... 143 9 CONCLUSÃO ....................................................................................................... 144 REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 145 MATOS, M. Tensão na face e o diagnostico de DTM muscular. Instituto Internacional de Neurofisiologia e Patologia da ATM. Disponível em: http://www.patologiadaatm.com.br/tensao-na-face-e-o-diagnostico-de-dtm- muscular/. Acesso em: 16 março 2020. ............................................................... 153 APÊNDICES ............................................................................................................ 160 ANEXOS ................................................................................................................. 164 24 1 INTRODUÇÃO O futebol é uma modalidade que exige preparação física, técnica, tática e psicológica dos atletas (STOLEN et al., 2005; LOCKIE et al., 2018). Dentre os aspectos físicos, o futebol feminino pode ser caracterizado por demandas de jogo que incluem distâncias totais de aproximadamente 10 km, sendo 1,3 km em alta intensidade, com 1400 mudanças de ações a cada 3 – 6 s (MOHR et al., 2008; KRUSTRUP et al., 2005; RAMOS et al., 2017; RAMOS et al., 2019). Como consequência, um jogo de futebol resulta em decréscimo do desempenho físico associado com alterações em parâmetros fisiológicos e respostas perceptivas, que progressivamente retornam aos valores basais durante o processo de recuperação (NÉDÉLEC et al., 2012; BISHOP, JONES E WOODS, 2008; KELLMANN et al., 2018). Considerando que um novo jogo pode ocorrer dentro de 72 h, a recuperação se torna um processo crucial nesse período, embora seja complexo e dependente da magnitude da fadiga induzida pelo jogo e das capacidades físicas de cada atleta (NÉDÉLEC et al., 2012; DOEVEN et al., 2018). Portanto, a variabilidade entre indivíduos é uma perspectiva importante quando se retrata a recuperação pós-jogo (WILKE et al., 2019; JOHNSTON et al., 2015), embora poucos estudos tenham reportado essa variabilidade na recuperação em atletas de futebolfeminino. Em uma recente revisão e meta-análise sobre fadiga aguda e residual induzida por jogos de futebol (SILVA et al., 2017), foi reportado que o desempenho físico, fisiológico e respostas perceptivas permanecem alterados por pelo menos 72 h pós- jogo. Contudo, dos 42 estudos incluídos nessa revisão, apenas 10 consistiram em respostas relacionadas ao futebol feminino. Souglis et al. (2018) sugerem que diferentes magnitudes de respostas de fadiga pós-jogo existem entre homens e mulheres, possivelmente devido a menor carga e trabalho excêntrico que mulheres realizam durante o jogo (STOLEN et al. 2005; DATSON et al., 2014). Além disso, homens e mulheres diferem em anatomia e fisiologia, o que resulta em diferenças no desempenho neuromuscular e na fatigabilidade entre os sexos (HUNTER, 2014). De maneira geral, os músculos esqueléticos dos homens são maiores e apresentam maior área proporcional de fibras musculares metabolicamente e funcionalmente mais rápidas (fibras tipo II), comparado a mulheres (ROEPSTORFF et al., 2006), 25 devido a diferenças relacionadas ao sexo na expressão gênica do músculo esquelético e nas interações com hormônios específicos do sexo (LIU et al., 2010; MAHER et al., 2009). Como consequência, os músculos dos homens são geralmente mais fortes e potentes que o das mulheres (HUNTER, 2014). Em relação aos 10 estudos com futebol feminino da revisão supracitada (SILVA et al., 2017), algumas limitações podem ser ressaltadas: quatro deles reportaram apenas medidas pré e imediatamente pós-jogo (BENDIKSEN et al., 2013; DELEXTRAT et al., 2013; TSUBAKIHARA et al., 2013; KRUSTRUP et al., 2010); dois realizaram medidas até 24 h (ANDERSSON et al., 2010; GRAVINA et al., 2011) e um até 48 h pós-jogo (SOUGLIS et al., 2015). Dos 10 estudos, dois foram realizados em condições simuladas de jogo (BENDIKSEN et al., 2013; DELEXTRAT et al., 2013), o que representa uma limitação considerando que maiores magnitudes de alterações em respostas fisiológicas e perceptivas são induzidas em condições reais de jogo quando comparados a protocolos simulados (SILVA et al., 2017). Em se tratando do aspecto multifatorial da recuperação, na revisão supracitada apenas um estudo investigou respostas de desempenho físico, sendo verificada redução na altura do salto com contramovimento (SCM) por até 69 h, enquanto o tempo no teste de sprint retornou a valores basais 5 h após o jogo (ANDERSSON et al., 2008). A maioria dos estudos avaliou apenas a resposta de marcadores sanguíneos de dano muscular e inflamação, tais como creatina quinase (CK) e proteína C reativa (PCR). Embora ambos marcadores tenham apresentado valores pico 24 h pós-jogo, a PCR retornou a seus valores basais 48 h pós-jogo (SOUGLIS et al., 2015), enquanto a CK retornou dentro de 69 h (ANDERSSON et al., 2008). Por fim, apenas um estudo dessa revisão reportou respostas perceptivas no futebol feminino, com a dor muscular de início tardio (delayed onset muscle soreness - DOMS) apresentando pico em 24 h e retornando ao basal 69 h pós-jogo (ANDERSSON et al., 2008). Dessa forma, considerando o que foi exposto, informações sobre o perfil de recuperação em atletas de futebol feminino permanecem limitadas na literatura, com poucas descrições de marcadores físicos, fisiológicos e respostas perceptivas de recuperação no mesmo estudo (ANDERSSON et al., 2008; SOUGLIS et al., 2015). Portanto, devido à natureza multifatorial do processo de recuperação, mais estudos são necessários para um 26 melhor entendimento sobre a cinética (decurso temporal) de recuperação pós-jogo e sua variabilidade no futebol feminino. A rotina de treinamento de jogadores de futebol geralmente consiste em exercícios técnico-táticos, treinamento de força, aeróbico, resistência anaeróbica e flexibilidade (HAMMAMI et al., 2017; BARBALHO et al., 2018). A força, contudo, é uma das capacidades que mais contribuem nas ações determinantes dessa modalidade, tais como chutes, sprints, saltos, mudanças de direção e disputas de bola contra o adversário (JULLIEN et al., 2008). Além disso, a força muscular pode ser observada nos contatos com a bola (passe, cabeceio), nas arrancadas em velocidades, nos giros, nas fintas, acelerações e desacelerações (RAMPININI et al., 2011; NEGRA et al., 2016). Considerando as características do futebol, é possível afirmar que a força rápida é uma manifestação determinante da modalidade. Sendo assim, programas de treinamento com objetivos de desenvolver a força máxima (JULLIEN et al., 2008; CHELLY et al., 2009; BRITO et al., 2014) e ou explosiva (NEGRA et al., 2016; RODRIGUEZ-ROSELL et al., 2016) tem sido sugerido para atletas de futebol. Literatura recente sugere que cronicamente, o treinamento de força induz adaptações que resultam na melhora da força máxima, do desempenho no salto, tempo no sprint, da agilidade e velocidade de chute em jogadores de futebol (BARBALHO et al., 2018; FRANCO-MARQUEZ et al., 2015; HAMMAMI et al., 2017; TORRES-TOLEDO et al., 2016), sendo portanto, cruciais para a melhora do desempenho físico desses atletas (HAMMAMI et al., 2017; BARBALHO et al., 2018). Esse treinamento de força geralmente é baseado no componente vertical durante a tripla extensão dos membros inferiores (tornozelo, joelho e quadril), verificada nos diferentes exercícios de agachamento, devido a sua proximidade com ações explosivas da modalidade (DE HOYO et al., 2016; KAWAMORI & HAFF, 2004). Além disso, métodos de treinamento baseados em alta velocidade de execução associados com percentual de uma repetição máxima e volume de baixos a moderados (40 a 60% de 1RM, 4 a 12 repetições) (NEGRA et al., 2016; RODRIGUEZ-ROSELL et al., 2017) parecem ser mais benéficos que treinos de maiores intensidades (80 a 90% de 1RM) e baixo volume (2 a 6 repetições) (JULLIEN et al., 2008; CHELLY et al., 2009; BRITO et al., 2014) em velocidades lentas. Esse método de treinamento é justificado pelo aumento na força de 27 contração muscular, aceleração e velocidade, o que pode ser transferido para habilidades do futebol, tais como giros, sprints e saltos (STOLEN et al., 2005; FRANCO-MARQUEZ et al., 2015; NEGRA et al., 2016; RODRIGUEZ-ROSELL et al., 2016). Além disso, esses estudos enfatizam o baixo nível de fadiga induzido por esse método de treinamento comparado com sessão de treinamento de força (STF) realizada com altas cargas, o que constitui uma importante consideração para realização de treino técnico-tático subsequente (FRANCO-MARQUEZ et al., 2015). Contudo, a magnitude da fadiga induzida por esses treinos não foi quantificada nesses estudos (FRANCO-MARQUEZ et al., 2015; NEGRA et al., 2016; RODRIGUEZ-ROSELL et al., 2016), e essa informação poderia fornecer suporte para o uso de STF durante microciclos no futebol. Apesar dos benefícios apresentados em relação a um treino de força para jogadores de futebol, considerações sobre o efeito agudo gerado por essas sessões de treinamento são necessárias. Draganidis et al. (2013) e Kesoglou et al. (2009) reportaram que uma sessão única de treino de força produz apenas dano muscular e respostas inflamatórias leves e de curto prazo em jogadores homens, afetando minimamente o desempenho de habilidades do futebol. Essa sessão de treino investigada consistiu de 4 séries de 4-6 repetições do exercício agachamento, executado o mais rápido possível, a 40% 1RM (KESOGLOU et al., 2009). Além disso, Draganidis et al. (2013) compararam uma STF de menor intensidade (4 séries, 8-10 repetições por série a 65-70% de 1RM) com uma STF de maior intensidade (4 séries, 4-6 repetições por série a 85-90% 1RM) e encontraram uma redução de força somente no momento pós-exercício no grupo de maior intensidade. A CK apresentou pico 24 h no grupo de menor intensidade e 48 h no grupo de maior intensidade, enquanto a PCR estava aumentada imediatamentepós-STF e 24 h, com maiores valores no grupo de maior intensidade. Foi verificada dor muscular elevada imediatamente após e 24 h no grupo de menor intensidade, enquanto no grupo de maior intensidade essa variável permaneceu elevada 48 h pós-STF. Dessa forma, técnicos e demais profissionais do futebol permanecem resistentes para incluir STF na rotina de jogadores de futebol sem evidências suficientes sobre o efeito residual desse tipo de treinamento, especialmente em atletas mulheres. Além disso, permanece a lacuna sobre a variabilidade entre indivíduos nessa resposta de 28 recuperação pós-STF, uma vez que todos os estudos supracitados reportaram respostas médias de grupo em jogadores homens. Por fim, durante temporadas competitivas no futebol, o planejamento de microciclos semanais geralmente é constituído por sessões de treinamento, jogos e recuperação. Muitos destes microciclos podem conter de 2 a 3 jogos por semana (ISPIRLIDIS et al., 2008), o que reduz o tempo de recuperação entre jogos e sessões de treinamento (NÉDÉLEC et al., 2012). Portanto, durante esses microciclos a recuperação se torna um processo ainda mais complexo devido à fadiga induzida pelo jogo associada à fadiga induzida pelas sessões de treinamento. Embora possa prejudicar o processo de recuperação, o treino é indispensável para manter ou aumentar as capacidades físicas e evitar a perda de adaptações adquiridas durante a pré-temporada (MUJIKA & PADILLA, 2000; ROLLO et al., 2014). Como consequência, o treinamento de força é geralmente sacrificado durante o período competitivo devido a preocupações sobre o efeito residual desse tipo de treinamento na velocidade, potência e no desempenho em habilidades do futebol nos jogos subsequentes (CROSS et al., 2019). Embora Draganidis et al. (2013) e Kesoglou et al. (2009) tenham verificado que sessões de treinamento de força de diferentes intensidades não provocam redução no desempenho de habilidades do futebol quando realizadas 24 h previamente a um jogo, em ambos os estudos os jogadores realizaram a sessão de força em condições que estavam descansados. Portanto, não é possível extrapolar tais resultados para microciclos competitivos, em que a fadiga é induzida por ambos, jogos e sessões de treinamento. Dessa forma, permanece desconhecida a influência que uma sessão de força realizada no pós-jogo exerce sobre a recuperação de jogadores de futebol, bem como quando realizar essas sessões em um microciclo competitivo. Em outras palavras, ainda não se sabe o efeito da fadiga induzida por um jogo, acumulada com a fadiga induzida por sessões de treinamento de força realizadas 24 ou 48 h após o jogo, no desempenho do jogo seguinte, realizado 72 h após o primeiro. Realizar uma STF 24 h pós-jogo pode aumentar o estresse em atletas já fadigados. Por outro lado, realizar uma STF 48 h pós-jogo pode atrasar a recuperação para o jogo subsequente. Considerações adicionais também são necessárias sobre a qualidade da sessão de treinamento de força realizada nesses 29 diferentes momentos, que pode ser afetada pela proximidade de uma partida. Considerando a necessidade de recuperação rápida entre jogos realizados em uma mesma semana e o desafio de planejar e organizar o treinamento para modalidades que possuem essa característica quanto ao calendário competitivo, o presente estudo pode contribuir para que treinadores reconsiderem o momento de se realizar essas sessões. A hipótese geral do presente estudo é de que a realização de uma STF 48 h pós-jogo em microciclos competitivos seria o momento mais adequado, considerando que o protocolo para treino de força não produzirá fadiga residual prolongada e que em 24 h as atletas apresentarão fadiga decorrente do jogo. 30 1.1 Objetivo geral Investigar os efeitos de uma sessão de treino de força na recuperação pós-jogo de atletas de futebol feminino. Para isso, o projeto foi dividido em três estudos, de acordo com os objetivos específicos descritos a seguir: 1.2 Objetivos específicos Estudo 1: Analisar a dinâmica de recuperação pós-jogo em atletas profissionais de futebol feminino a partir de variáveis de desempenho, fisiológicas e perceptivas. Estudo 2: Analisar a dinâmica de recuperação pós-treino de força em atletas profissionais de futebol feminino a partir de variáveis de desempenho e perceptivas. Estudo 3: Investigar o efeito de uma sessão de treino de força realizada 24 ou 48h pós-jogo na recuperação a partir de variáveis de desempenho, fisiológicas e perceptivas de atletas de futebol feminino. 1.3 Hipóteses Estudo 1: O jogo de futebol feminino provocará alterações significativas nas variáveis de desempenho, fisiológicas e nas respostas perceptivas em atletas do sexo feminino. Estudo 2: Uma única sessão de treino de força provocará alterações significativas apenas imediatamente pós-treino nas variáveis de desempenho e nas respostas perceptivas em atletas de futebol feminino. Estudo 3: A realização de uma STF 48h pós-jogo produzirá o perfil de recuperação mais adequado para um jogo subsequente dentro de 72h, comparado a STF 24h pós-jogo em atletas de futebol feminino. 31 2 REVISÃO DE LITERATURA Esta seção foi organizada de maneira a contemplar e contextualizar os principais tópicos relacionados ao tema do presente estudo. Dessa forma, inicialmente foi realizada uma caracterização geral da modalidade futebol, incluindo as principais demandas físicas do jogo, tanto no futebol masculino como no feminino. Essa caracterização também incluiu comparações entre primeiro e segundo tempo de jogo, atletas profissionais e não profissionais, entre diferentes posições e categorias. Em seguida, considerando que o tema principal do presente estudo é a recuperação, foram apresentados conceitos para esse fenômeno bem como para a fadiga, e apresentado resultados de alguns estudos que investigaram ambos os processos (fadiga e recuperação). Com o intuito de justificar a escolha das variáveis dependentes e apresentar o que a literatura já descreveu em relação a essas variáveis no contexto do futebol, os tópicos ―Utilização do desempenho em testes físicos no monitoramento da fadiga no futebol‖, ―Dano muscular e inflamação induzidos por jogos de futebol‖ e ―Respostas perceptivas‖ foram elaborados para apresentar as variáveis de desempenho, fisiológicas e perceptivas, respectivamente. Além disso, previamente a apresentação das variáveis fisiológicas, os processos de dano muscular, inflamação e reparo tecidual foram definidos, detalhadamente descritos e exemplificados. Considerando que a variabilidade entre jogos é um aspecto relevante e que na metodologia proposta do presente estudo vários jogos foram analisados, um tópico específico para esse tema foi elaborado com o intuito de discutir potenciais limitações. Por fim, um último tópico destinado ao treinamento de força no futebol foi apresentado, com uma descrição detalhada de estudos que investigaram essa temática, incluindo principais lacunas existentes para enfatizar a relevância e originalidade do presente estudo diante daquilo que já foi verificado na literatura. Os principais bancos de dados utilizados foram Pubmed e Google scholar com busca por palavras-chave tais como: ―soccer‖, ―female soccer‖, ―recovery‖, ―fatigue‖, ―resistance training‖, ―strength training‖, ―muscle damage‖, ―countermovement jump‖, ―sprint‖, ―creatina kinase‖, ―c-reactive protein‖, ―delayed onset muscle soreness‖, ―total quality recovery‖, ―Bunel Mood Scale‖ e ―match variability‖. 32 2.1 Caracterização do futebol O futebol é um esporte intermitente de alta intensidade, normalmente com jogos de duração de 90 min, consistindo de dois tempos de 45, com um intervalo de 15 min entre eles (ALDOUS et al., 2014). Estudos apontam que em uma partida de futebol masculino, adistância total percorrida varia entre 9 e 12 km (MOHR et al., 2003; STOLEN et al., 2005; THORPE et al., 2012), sendo que cada jogador realiza entre 1000 e 1400 ações, principalmente de curta duração, variando entre 4 a 6 s (MOHR et al., 2003; STOLEN et al., 2005). Dentre as atividades realizadas, destacam-se sprints, corridas de alta intensidade (aproximadamente a cada 70 s), cerca de 10 a 17 cabeceios, 50 envolvimentos com a bola, 30 passes, mudanças de ritmo e sustentação de contrações para manter o equilíbrio e o controle da bola contra a pressão defensiva (MOHR et al., 2003; STOLEN et al., 2005). Thorpe et al. (2012) verificaram que jogadores de futebol masculino realizam em média 6 ± 2% do tempo de jogo em alta intensidade, 39 ± 18 sprints durante os 90 min e percorrem uma distância média de 15,7 ± 2,3 m por sprint. A intensidade média do jogo corresponde a aproximadamente 70-75% do consumo máximo de oxigênio (VO2max) e 85% da frequência cardíaca máxima (FCmax) (STOLEN et al., 2005; SOUGLIS et al., 2015). Quando analisamos essas mesmas variáveis em jogos de futebol feminino, valores muito próximos ou ligeiramente inferiores são encontrados comparados àqueles apresentados por atletas de futebol de elite do sexo masculino. Mulheres percorrem distâncias entre 8 e 11 km, realizam em média 1400 ações a cada 4 s durante o jogo, 125 corridas de alta intensidade com duração média de 2,3 s, o que corresponde a 4,8% do tempo total dos jogos (MOHR et al., 2008; STOLEN et al., 2005; KRUSTRUP et al., 2005; MCCORMACK et al., 2015). A distância percorrida em corridas de baixa intensidade, alta intensidade e sprints são de 9,00, 1,31 e 0,16 km, respectivamente (KRUSTRUP et al., 2005). Há relatos de número total de sprints, cabeceios e posse de bola de 26, 8 e 14, respectivamente (KRUSTRUP et al., 2005). Sendo assim, parece que a principal diferença nas variáveis de desempenho entre homens e mulheres é quando comparamos a distância percorrida em corridas de alta intensidade. Mulheres percorrem em média 1,3 km, ou seja, menos de dois terços, comparado a distância percorrida por homens de 33 aproximadamente 2 a 3 km (KRUSTRUP et al., 2005; MOHR et al., 2003). Importante apontar que a maioria dos estudos relatados adotam as seguintes categorias de classificação: em pé (0 km/h), caminhada (6 km/h), trote (8 km/h), corrida de baixa velocidade (12 km/h), corrida de velocidade moderada (15 km/h), corrida de velocidade alta (18 km/h), sprint (25 km/h para mulheres e 30 km/h para homens), corrida de costas (10 km/h) (MOHR et al., 2003; KRUSTRUP et al. 2005; MOHR et al., 2008). McCormack et al. (2014), contudo, definiram corridas de alta intensidade como corridas cuja velocidade fosse igual ou superior a apenas 13 km/h. No estudo desses autores, considerando essa definição, mulheres percorreram de 70 a 190 corridas de alta intensidade por jogo, totalizando até 2 km de corridas de alta intensidade. Dessa forma, é importante verificar as faixas de intensidades de corrida adotadas entre os diferentes estudos ao se fazer comparações. Em geral, os maiores valores encontrados para homens na distância total, na distância percorrida em alta intensidade e em sprints comparado a mulheres (DATSON et al., 2014; ANDERSON et al., 2010; MOHR et al., 2003; STOLEN et al., 2005) são devido ao menor consumo máximo de oxigênio e potência anaeróbica de mulheres (DATSON et al., 2014; SOUGLIS et al., 2018, MCCORMACK et al., 2014). Em relação à intensidade do jogo, atletas de futebol feminino apresentam frequência cardíaca (FC) média acima de 80% da FCmáx durante o jogo, variando entre 81 e 93% (KRUSTRUP et al., 2005). Esses resultados são similares àqueles encontrados em estudos realizados com homens (STOLEN et al., 2005; SOUGLIS et al., 2015). Souglis et al. (2015) não encontraram diferenças significativas (p = 0,23) entre a FC média no jogo de homens e mulheres (173 ± 7 e 169 ± 5 b.min-1) que correspondeu respectivamente, a 86,9 ± 4,3 e 85,6 ± 2,3% da FCmáx. Parece que a intensidade e a distância percorrida em jogos de futebol são maiores quando comparamos o primeiro com o segundo tempo, e quando comparamos atletas profissionais e não profissionais (STOLEN et al., 2005). Mohr et al. (2003) mostraram que durante o jogo, a distância total percorrida por jogadores top class é 5,51 ± 0,10 vs 5,35 ± 0,09 km quando comparados primeiro e segundo tempos, respectivamente. Jogadores de nível moderado, por sua vez, percorrem 5,20 ± 0,01 vs 5,13 ± 0,01 km no primeiro e segundo tempo, respectivamente, sem diferenças significativas. Para a variável distância percorrida em corridas de alta intensidade, 34 jogadores top-class percorrem 1,27 ± 0,07 vs 1,15 ± 0.08 km quando comparados primeiro e segundo tempos, respectivamente, ao passo que jogadores de nível moderado percorrem 1,01 ± 0,07 vs 0,90 ± 0,06 km no primeiro e segundo tempo, respectivamente (MOHR et al., 2003). A distância percorrida em sprints também é diferente entre o primeiro e segundo tempo (0,35 ± 0,04 vs 0,30 ± 0,03 e 0,21 ± 0,03 vs 0,19 ± 0,02 km) para jogadores top class e para jogadores de nível moderado, respectivamente (MOHR et al., 2003). Em jogos de futebol feminino, Krustrup et al. (2005) verificaram que a distância percorrida em alta intensidade reduz em 30% (de 0,27 para 0,19 km) e 34% (de 0,24 para 0,16 km) quando comparados os primeiros e últimos períodos de 15 min do primeiro e segundo tempos, respectivamente. Tais resultados corroboram os achados de Ramos et al. (2017) que também verificaram redução na distância total, distância percorrida em alta intensidade e carga de jogo ao comparar 15 min de cada tempo, em jogadoras de futebol feminino da seleção brasileira. Contudo, é importante ressaltar que jogos que apresentam maior distância total, número de corridas de alta intensidade e carga de jogo no primeiro tempo, resultam em reduções nas respectivas variáveis no segundo tempo (RAMOS et al., 2017). Contrariamente, jogos com menor demanda no primeiro tempo, resultam em aumento da distância percorrida em sprints, número de acelerações (>2 m.s-2) e desacelerações (>-2 m.s-2) no segundo tempo (RAMOS et al., 2017). Em relação às diferentes posições, é importante considerar as exigências e funções para cada jogador, a fim de contextualizar e melhor compreender as diferenças físicas e fisiológicas características de goleiros, atacantes, meios de campo ou defensores. Uma vez que goleiros não percorrem grandes distâncias e nem realizam muitas ações de alta intensidade (ex: corridas) durante os jogos, quando avaliados, geralmente são os mais lentos em testes de sprints (SPORIS et al., 2009; HAUGEN et al., 2012) e apresentam um desempenho pior em testes de capacidade aeróbica máxima e de agilidade, comparado a jogadores de linha (BOONE et al., 2012). Contudo, goleiros geralmente são os atletas da equipe que apresentam maior estatura e massa corporal (SPORIS et al., 2009) e possuem grande potência em membros inferiores principalmente quando mensurada por meio de testes de salto máximo (SPORIS et al., 2009; BOONE et al., 2012). 35 Estudos prévios em atletas de futebol masculino de alto nível (MOHR et al., 2003) e feminino (MOHR et al., 2008; RAMOS et al., 2017) têm relatado que atacantes tendem a realizar um maior número de sprints e, como consequência, maiores distâncias percorridas em sprints (até 30 m) durante os jogos. Além disso, são geralmente mais rápidos que jogadores de outras posições em testes de velocidade linear de distâncias até 20 m (SPORIS et al., 2009). Há relatos que meios de campo são os jogadores que percorrem maiores distâncias e realizam um maior número de atividades de alta intensidade durante jogos de futebol (MOHR et al., 2008; BLOOMFIELD et al., 2007, DATSON et al., 2014). Além disso, parece que jogadores dessa posiçãoapresentam melhor capacidade aeróbica, verificada por meio do desempenho no Yo-yo Intermittent Recovery Test (Yo-yo IRT) e habilidade em realizar sprints repetidos (MOHR et al, 2003; REILLY, BANGSBO & FRANKS, 2000). Jogadores que desempenham papéis defensivos precisam frequentemente se reposicionar para defender a bola e conter os jogadores atacantes que se aproximam. Tal função pode significar que esses jogadores percorrem um maior percentual do tempo correndo de costas (BLOOMFIELD et al., 2007). Sendo assim, essa característica pode justificar resultados encontrados na literatura que mostram que defensores são mais lentos até os 5 primeiros metros de sprint considerando que iniciam de uma posição corporal diferente daquela geralmente avaliada em testes de sprint (LOCKIE et al., 2018). Defensores percorrem geralmente menores distâncias e completam um menor número de esforços de alta intensidade durante o jogo (MOHR et al., 2003; MOHR et al., 2008) quando comparados a meios de campo e atacantes, e ainda assim, precisam de um alto nível de condicionamento físico. Além disso, defensores são geralmente mais altos e pesados comparados a atacantes e meios de campo (SPORIS et al., 2009; VESCOVI et al., 2006). Em relação à FC média durante o jogo, Krustrup et al. (2005) verificaram valores similares em atletas mulheres de futebol de elite, independente da posição (86, 88 e 88% da FC pico para defensores, meios de campo e atacantes, respectivamente). 36 Embora haja uma aparente consistência na literatura em relação à caracterização de cada posição, também há estudos que mostram pouca ou nenhuma diferença em diversos parâmetros quando comparados jogadores de diferentes posições. Lockie et al. (2018), por exemplo, encontraram poucas diferenças entre as posições nas características físicas e fisiológicas de uma equipe de futebol feminino de primeira divisão. Foram encontradas diferenças na aceleração de sprint até 5 m (meios de campo foram significativamente mais rápidos quando comparados a defensores e goleiros) e no Yo-yo IRT2 (defensores e meios de campo percorreram maiores distâncias comparados a goleiros). Para as demais variáveis, massa corporal, estatura, salto vertical e horizontal, testes de agilidade, Yo-yo IRT1 e tempo de 10 e 30 m de sprint não foram encontradas diferenças significativas entre as posições. Vescovi et al. (2006) também analisaram características fisiológicas em jogadores de futebol feminino e encontraram características semelhantes entre grupos de diferentes posições, embora defensores tenderam a ser mais lentos em teste de velocidade e agilidade. Além das diferentes posições, o desempenho físico e características antropométricas de jogadores profissionais de futebol feminino são também influenciados pela faixa etária (RAMOS et al., 2019). Em estudo realizado com a seleção feminina brasileira, as categorias sub-20 (31,6 ± 4,3 cm) e sênior (33,0 ± 4,1 cm) apresentaram melhor desempenho no SCM comparado ao sub-15 (27,2 ± 3,1 cm) e sub-17 (28,1 ± 3,8 cm). Para o salto agachado (SA), jogadoras pertencentes ao sub-20 (29,4 ± 4,2 cm) apresentaram melhor desempenho comparado ao sub-15 (25,8 ± 2,9 cm) e sub-17 (26,1 ± 3,9 cm), enquanto a categoria sênior (32,1 ± 3,9 cm) apresentou desempenho superior comparado às demais categorias. Similarmente, no teste de velocidade linear de 20 m, atletas seniores foram significativamente mais rápidas (6,2 ± 0,5 m.s-1) comparadas às demais categorias (5,9 ± 0,2; 5,8 ± 0,2 e 5,9 ± 0,3 m.s-1 para sub-15, sub-17 e sub-20, respectivamente) e também percorreram maiores distâncias no teste Yo-Yo IR1 (1,51 ± 0,32 km) comparado ao sub-15 (0,71 ± 0,21 km), sub-17 (0,72 ± 0,23 km) e sub-20 (0,86 ± 0,24 km) (RAMOS et al., 2019). O perfil de atividades durante competições internacionais também difere entre categorias (RAMOS et al., 2017). A distância total percorrida, a distância percorrida em alta intensidade (15,6 – 20 km.h-1), a distância percorrida em sprints (>20km.h-1), o número de acelerações (>1m.s-2), 37 desacelerações (>-1m.s-2) e a carga de jogo aumenta com a idade (sub-17 < sub-20 < sênior) no futebol feminino (RAMOS et al., 2017). Sendo assim, embora não seja foco do presente estudo, a caracterização da modalidade e um entendimento geral dos principais fatores contextuais (diferenças entre posições, faixa etária, sexo, primeiro vs segundo tempo) podem nos ajudar a compreender a variabilidade nas respostas relacionadas a fadiga e recuperação no futebol. 2.2 Fadiga e recuperação após jogos de futebol A fadiga pode ser definida como uma redução aguda do desempenho que inclui tanto um aumento na percepção de esforço para realizar uma força ou potência desejada como uma redução na capacidade de realizar uma força ou potência máximas (GANDEVIA, 2001). Sendo assim, a fadiga envolve alterações na força máxima, na velocidade máxima de encurtamento e na relação da curva força- velocidade com diferentes mecanismos subjacentes (ALLEN, LAMB & WESTERBLAD, 2008). Além disso, dentre os diferentes mecanismos associadas à fadiga, podemos citar prejuízos no processo de acoplamento excitação-contração, devido a uma redução na liberação de cálcio (Ca2+) e na ligação de Ca2+ à troponina, e ou ainda, por danos musculares estruturais (ALLEN, LAMB e WESTERBLAD, 2008). No futebol, ações típicas dessa modalidade (sprints, corridas com mudanças de direção, saltos, assim como ações técnicas tais como dribles, passes e chutes) são de grande demanda física e, associadas a outros fatores como desidratação, depleção de glicogênio e dano muscular levam à fadiga pós-jogo (NÉDÉLEC et al., 2012). Dessa forma, no futebol, a fadiga pode ser entendida como uma redução no desempenho em atividades características dessa modalidade. Nesse contexto, a fadiga pode ocorrer após curtos períodos de alta intensidade em ambas as metades do tempo, em direção ao fim da partida e após o jogo (NÉDÉLEC et al., 2012), sendo, nesse caso, denominada fadiga aguda. Quando a redução do desempenho 38 permanece nos dias após o jogo, passa a ser denominada fadiga residual. Portanto, a fadiga é um processo contínuo que transforma o estado funcional do organismo. A recuperação, por sua vez, de uma perspectiva prática, pode ser entendida como a capacidade de alcançar ou superar o desempenho de uma atividade específica. Ou seja, a capacidade do indivíduo realizar um novo estímulo de treinamento/jogo mantendo ou superando o desempenho alcançado em uma sessão de treino/jogo anterior (BISHOP, JONES E WOODS, 2008). Sendo assim, a recuperação é um processo multifatorial de reestabelecimento do desempenho físico, fisiológico e de respostas perceptivas em relação ao tempo (KELLMANN et al., 2018). Os estímulos de treinamento e a sobrecarga gerada em jogos de futebol são fatores cruciais para a melhora do desempenho dos atletas, contudo, não se pode negligenciar a importância do período de recuperação, uma vez que a maioria das adaptações induzidas pelo exercício ocorre durante esse período (BISHOP, JONES & WOODS, 2008). Dessa forma, monitorar a fadiga, ou seja, o quanto a execução da carga de treinamento prescrita (ou do jogo) provoca de alteração funcional no organismo, bem como monitorar a recuperação, ou seja, o retorno ou supercompensação de variáveis de desempenho, fisiológicas e perceptivas para valores pré-treino/jogo, são processos fundamentais para o desenvolvimento da performance esportiva. Rampinini et al. (2011) mostraram que fatores centrais e periféricos podem explicar a fadiga tanto imediatamente após o jogo como após dois dias de recuperação. Esses autores apontaram que fatores centrais parecem ser a causa principal da redução na produção de força máxima e na capacidade de sprint verificados após o jogo, enquanto a fadiga residual parece estar relacionadaao aumento da dor muscular, e dessa forma, possivelmente está associada ao dano muscular e inflamação. Além disso, no estudo de Rampinini et al. (2011), as variáveis que foram negativamente afetadas após o jogo retornaram aos valores basais após 48 h de recuperação. Embora esses autores tenham postulado sobre a origem da fadiga, os mecanismos fisiológicos não foram investigados. Especulações apontadas por esses autores que podem explicar o fenômeno da fadiga são o dano muscular, a depleção de 39 glicogênio, a inflamação geral associada ao exercício e a dor muscular, que são comuns após jogos de futebol (RAMPININI et al., 2011). McCormack et al. (2015), ao compararem o desempenho em dois jogos de futebol realizados com um intervalo de 42 h, em mulheres de uma equipe da primeira divisão, não encontraram diferenças na distância percorrida e no número de sprints, porém, verificaram redução significativa na quantidade de corridas de alta intensidade. Embora esses autores não tenham investigado os fatores que podem ter causado tais achados, foram apontadas como possíveis causas dessa diferença a depleção de glicogênio, o dano muscular, nutrição inadequada e desidratação. Outros fatores como motivação, táticas do jogo e diferentes adversários foram apontados como possíveis influentes na redução do desempenho quando jogos são realizados em um intervalo inferior a 48 h (MCCORMACK et al., 2015). Embora a recuperação no futebol consista num tema comumente investigado (SILVA et al., 2017; ANDERSSON et al., 2008; NÉDÉLEC et al., 2014), resultados inconsistentes são verificados na literatura, dificultando conclusões definitivas sobre essa temática. De fato, alguns autores mostraram que as variáveis negativamente afetadas pelo jogo retornam aos valores basais após um período de recuperação de 48 h em atletas profissionais de alto nível (RAMPININI et al., 2011), ao passo que outros autores revelam que 72 h não são suficientes para recuperação dos atletas (NÉDÉLEC et al., 2014). Sendo assim, a recuperação no futebol é um processo complexo, ainda com resultados inconsistentes na literatura, e, dessa forma, necessita de constante investigação. Essa complexidade da recuperação no futebol é, em parte, justificada pelos diferentes fatores que influenciam esse processo. Por exemplo, fatores extrínsecos (resultado do jogo, qualidade do adversário, local do jogo) e ou fatores intrínsecos (nível de treinamento, idade, gênero, tipologia de fibra muscular) influenciam o tempo de recuperação (NÉDÉLEC et al., 2012). De maneira geral, a recuperação é dependente tanto da variação da carga de jogo que os atletas são expostos (diferentes posições, tempo de jogo), ou seja, da magnitude da fadiga induzida pelo jogo, como das capacidades individuais (diferenças no desempenho e condicionamento físico dos atletas) (RAMPININI et al., 2011; DOEVEN et al., 2018). 40 Essas capacidades determinam como os atletas respondem à carga de jogo e têm um papel importante no processo de recuperação (DOEVEN et al., 2018). Sendo assim, é importante entender o perfil de recuperação dos atletas de maneira individual. Além do jogo, atletas de futebol podem sofrer diferentes estresses físicos durante a mesma sessão de treinamento da equipe. A esse respeito, identificar diferenças interindividuais no potencial de recuperação entre atletas da mesma equipe pode contribuir para o desenvolvimento de protocolos de recuperação individualizados (NÉDÉLEC et al., 2014). Além disso, a recuperação do desempenho físico, fisiológica (em termos de dano muscular, inflamação e reparo tecidual) e as respostas perceptivas nem sempre apresentam o mesmo padrão, magnitude, consistência e ou tempo de retorno a valores basais (SILVA et al., 2017; DOEVEN et al., 2018). Doeven et al. (2018) em sua revisão mostraram que monitorando variáveis de desempenho (altura do SCM e tempo no teste de sprint), atletas podem estar fisicamente recuperados 48 h pós- jogo. Contudo, a CK pode demorar em média 72 h ou mais para retornar aos valores basais. Dessa forma, tais respostas podem ser dependentes da natureza do teste físico (força, velocidade, potência), ou da função fisiológica da variável na cascata inflamatória. Por exemplo, Andersson et al. (2008), relataram que o desempenho no sprint foi o primeiro a retornar a valores basais (5 h), seguido da ureia e acido úrico (21 h), força isocinética de extensão de joelhos (27 h), força isocinética de flexão de joelhos (51 h), CK e dor muscular (69 h), enquanto o desempenho no salto estava ainda reduzido 69 h pós-jogo. Tais resultados destacam a complexidade e o aspecto multifatorial do processo de recuperação. Outro desafio que concerne o contexto do futebol se refere ao planejamento da semana e temporada com relação a conciliar recuperação, desenvolvimento de habilidades com deficiências conhecidas, melhora do condicionamento e da consciência tática dentro de um calendário cheio de jogos (KIRKENDALL et al., 2007). De fato, uma recuperação de qualidade é fundamental principalmente durante períodos competitivos em que o intervalo de recuperação entre jogos consecutivos pode ser limitado há 2 ou 3 dias (ISPIRLIDIS et al., 2008). Dessa forma, quantificar a fadiga e ou recuperação por meio de alterações fisiológicas, perceptivas e de desempenho após jogos de futebol é importante para auxiliar no planejamento e 41 otimizar a prescrição da carga de treinamento, sobretudo durante temporadas competitivas (ANDERSSON et al., 2008; NÉDÉLEC et al., 2014). 2.3 Utilização do desempenho em testes físicos no monitoramento da fadiga no futebol Variáveis de desempenho têm sido utilizadas para monitoramento da fadiga e recuperação de atletas. Considerando que o futebol envolve muitas ações com ciclo de alongamento-encurtamento, e esse, por sua vez, está relacionado com fadiga de exercício, o desempenho no salto com contramovimento tem sido um marcador de recuperação bastante utilizado (ISPIRLIDIS et al., 2008; FATOUROS et al., 2010; NÉDÉLEC et al., 2014). Ispirlidis et al. (2008) e Fatouros et al. (2010) encontraram reduções significativas (aproximadamente 10%) no desempenho do salto vertical somente quando avaliado 24 h pós-jogo em atletas homens. Esses resultados sugerem que os jogadores podem não ser capazes de realizar atividade anaeróbica intensa com desempenho máximo por pelo menos 48 h após o jogo. Essa resposta pode ser atribuída, entre outros fatores, a síntese proteica reduzida, perda de proteínas contráteis e de neurotransmissores, resultando em reduções da força muscular (FATOUROS et al., 2010). No estudo de Nédélec et al. (2014) as variáveis de monitoramento mais sensíveis para avaliar o status neuromuscular após o jogo foram o desempenho no SCM e a velocidade pico no sprint. Esses autores sugeriram que ações comumente realizadas em jogos de futebol, tais como mudanças bruscas de direção, acelerações e desacelerações estão associadas com fadiga neuromuscular significativa, que permanece evidente por até 72 h. Fatouros et al. (2010) avaliaram a recuperação por até 72 h pós-jogo e verificaram reduções na habilidade de sprint de aproximadamente 2% ao longo desse período. Ascensão et al. (2008) encontraram resultados similares, com reduções de 42 aproximadamente 5% no desempenho de sprint ao longo de 72 h de recuperação pós-jogo futebol masculino. Ispirlidis et al. (2008) por sua vez, encontraram o pior desempenho no teste de sprint de 20 m no momento 48 h pós-jogo, sendo que o desempenho somente retornou aos valores pré-jogo após 120 h de recuperação. No futebol feminino, Andersson et al. (2008) encontraram diferentes padrões de recuperação em variáveis neuromusculares. Foram verificadas reduções agudas de 3 e 4% no desempenho de sprint e SCM, respectivamente. Contudo, o desempenho nosprint apresentou um padrão de recuperação mais rápido, uma vez que retornou aos valores pré-jogo após 5 h de recuperação, ao passo que o desempenho do SCM mesmo após 69 h, ainda não havia retornado aos valores pré-jogo. Esses resultados contrapõem os estudos de Fatouros et al. (2010) e Ispirlidis et al. (2008) que verificaram um padrão de recuperação mais rápido para o SCM (48 h) comparado ao sprint (120 h), em homens. Andersson et al. (2008) postularam que as diferenças nos padrões de recuperação podem ser explicadas pelas distintas exigências na quantidade de trabalho muscular e coordenação intermuscular existentes entre salto e sprint. Portanto, mais estudos são necessários para compreender a cinética de recuperação pós-jogo de futebol por meio de variáveis de desempenho, tais como SCM e sprint. 2.4 Dano muscular, inflamação e reparo tecidual O dano muscular pode consistir na ruptura mecânica da fibra, incluindo danos à membrana, distúrbios miofibrilares caracterizados por desorganização de miofilamentos e perda da integridade do disco Z, como consequência, processos inflamatórios e alterações no acoplamento excitação-contração dentro dos músculos ocorrem (PROSKE & MORGAN, 2001). A gravidade do dano muscular varia de uma micro lesão em um pequeno número de fibras até a ruptura de um músculo inteiro. O dano muscular é caracterizado por uma diminuição temporária na função do músculo, um aumento no sangue das proteínas intracelulares, aumento da dor muscular e aumento do edema no grupo muscular envolvido (CLARKSON, NOSAKA & BRAUN, 1992). Consequentemente, os principais marcadores utilizados para 43 estudar o dano muscular são a força de uma contração voluntária máxima, marcadores sanguíneos tais como concentrações de CK e mioglobina, dor muscular e amplitude de movimento (NÉDÉLEC et al., 2012). A inflamação, por sua vez, é uma reação ou resposta de defesa do organismo a uma infecção ou lesão dos tecidos, cujo objetivo é promover a cura ou reparo (SILVA & MACEDO, 2011). Sendo assim, o dano muscular está também associado a uma resposta inflamatória e a um aumento de citocinas e outros marcadores sanguíneos inflamatórios (ISPIRLIDIS et al., 2008; MOHR et al., 2016; SOUGLIS et al., 2018). Já o processo de reparo ou regeneração após o dano muscular induzido pelo exercício pode ser dividido basicamente em três fases: (1) fase degenerativa ou fase de destruição; (2) fase regenerativa ou de reparo e (3) fase de remodelamento do tecido danificado ou fase de remodelação (JÄRVINEN et al., 2005; SILVA, 2009). A primeira fase é caracterizada pela ruptura e necrose de miofibras, formação de hematoma entre miofibras rompidas e reação inflamatória (JÄRVINEN et al., 2005). Portanto, a lesão no sarcolema constitui o primeiro estímulo que favorece a liberação de eicosanoides (mediadores inflamatórios), sobretudo prostaglandinas, prostaciclinas, leucotrienos e tromboxanas (SILVA & MACEDO, 2011). Esses mediadores, por quimiotaxia, atraem leucócitos especializados na fagocitose. Sendo assim, após influxo de células inflamatórias para o local lesionado (diapedese), neutrófilos e macrófagos passam a englobar e destruir os agentes invasores (elementos indesejáveis relacionados à lesão tecidual) (JÄRVINEN et al., 2005; SILVA & MACEDO, 2011). A remoção do tecido necrosado e dos produtos de lise celular do foco de lesão constitui um fator determinante no mecanismo de regeneração muscular, sendo o principal evento da fase 1 desse processo (SILVA, 2009). Os neutrófilos são a primeira subpopulação de leucócitos a migrar para o tecido danificado, alcançando seu pico 1 h após o exercício e podendo permanecer com sua concentração elevada por até 5 dias (TIDBALL, 2005). A principal função dos neutrófilos é fagocitar ―organismos estranhos‖. Para isso, ocorre a liberação de proteases lisossomais, que degradam as proteínas locais, e formação de espécies 44 reativas de oxigênio (EROS) por meio de um processo denominado burst respiratório. Sendo assim, sua ação deve ser muito bem modulada, a fim de preservar a integridade das células que circundam o local onde o evento inflamatório está ocorrendo e evitar a exacerbação do dano por meio de um aumento na produção de EROS. Além disso, sua ação pode ser considerada ponto de partida para as respostas subsequentes de reparo tecidual (fases 2 e 3) (SILVA & MACEDO, 2011). Os monócitos constituem a segunda subpopulação de leucócitos a aparecer no local danificado, sendo denominados macrófagos ao sair da circulação e migrar para os tecidos (SILVA & MACEDO, 2011). O papel dos macrófagos na regeneração não se restringe à fagocitose do tecido necrosado, sendo também reconhecida sua atuação, por meio da síntese e liberação de moléculas biologicamente ativas, na instalação do processo inflamatório, na secreção de moléculas pro-regenerativas (fator de crescimento semelhante a insulina e algumas citocinas) e na ativação, proliferação e diferenciação de células satélite musculares (SILVA & MACEDO, 2011; JÄRVINEN et al., 2005; TIDBALL, 2005). Enquanto os macrófagos que invadem precocemente o local lesionado (24-48 h) são os responsáveis pela remoção do tecido danificado (fase 1), aqueles que aparecem mais tardiamente (48-96 h) desempenhariam um papel mais ativo no reparo muscular (fase 2 e 3) (SILVA & MACEDO, 2011). A segunda fase, denominada fase de reparo é caracterizada pela regeneração de miofibras, produção de tecido conjuntivo cicatricial e neovascularização dentro da área lesada (JÄRVINEN et al., 2005). Sobretudo, a fase intermediária do processo de regeneração consiste em ativação, determinação, proliferação e diferenciação das células satélites, encarregadas de restaurar, parcial ou totalmente as fibras lesadas (SILVA & MACEDO, 2011). Citocinas, fatores neurotróficos e demais fatores de crescimento liberados durante o processo inflamatório inicial constituem os principais sinais biológicos relacionados à regulação da atividade das células satélite (TIDBALL, 2005). Tais substâncias são capazes de estimular ou inibir a proliferação celular, além de influenciar no processo de citodiferenciação (SILVA & MACEDO, 2011). 45 A terceira e última fase constitui na fase de remodelamento do tecido danificado, período no qual ocorre maturação de miofibras regeneradas, contração e reorganização do tecido cicatricial e recuperação da capacidade funcional do músculo (JÄRVINEN et al., 2005). Caso a inervação da fibra tenha sido comprometida, sua re-inervação ocorre na fase final do processo de regeneração, em consequência de brotamentos axonais que se originam das terminações nervosas de regiões íntegras adjacentes, o que permite o restabelecimento da funcionalidade contrátil das fibras (SILVA e MACEDO, 2011). Para entender a condição do atleta e assim prescrever uma recuperação apropriada, é importante conhecer a forma pela qual o dano muscular e marcadores imunes respondem após o exercício, bem como o processo de reparo tecidual (THORPE e SUNDERLAND, 2012). 2.5 Dano muscular e inflamação induzidos por jogos de futebol A creatina quinase é uma molécula proteica citoplasmática e não tem a capacidade de atravessar a barreira da membrana sarcoplasmática (BROWN; CHILD & DONNELLY, 1997). Dessa forma, se constatado um aumento da concentração sérica dessa enzima, pode-se inferir que foi devido ao aumento da permeabilidade ou dano na membrana muscular e em outras estruturas teciduais (FOSCHINI; PRESTES & CHARRO, 2007). Souglis et al. (2018) mostraram que após jogos de futebol, mulheres apresentam menores valores de CK comparado a homens para todas as posições e momentos (pré, imediatamente após, e por um período de até 5 dias após o jogo). Além disso, meios de campo e atacantes mulheres apresentam maior pico comparado a defensores (SOUGLIS et al.,2018). O pico da CK ocorre com 24 h (SOUGLIS et al., 2015) e os valores permanecem 1,7 a 2 vezes maiores por até 5 dias após o jogo, comparado aos valores pré-jogo em homens e mulheres (SOUGLIS et al., 2018). Thorpe e Sunderland (2012), por sua vez, verificaram aumentos na concentração de CK em todos os 7 jogadores semi-profissionais de futebol (3 defensores, 2 meios de campo e 2 atacantes) que completaram todo o tempo de jogo. Embora o aumento médio tenha sido de 84 ± 61% comparando pré e 46 pós-jogo, não foram encontradas diferenças significativas devido a grande variação nos valores de CK (p=0,17). Citocinas, por sua vez, estão envolvidas no controle da resposta da fase aguda de reações inflamatórias e no processo de reparo tecidual (SOUGLIS et al., 2015). Dentro da cascata inflamatória, a IL-6 é uma das primeiras citocinas a serem liberadas, principalmente pelo músculo (MUNOZ-CANOVES et al., 2013). O dano muscular por si só induz uma resposta de reparo, incluindo a entrada de macrófagos no músculo e causando maior produção de IL-6. Contudo, há evidência de que a IL- 6 seja secretada pela contração muscular (CROISIER et al., 1999), independentemente de dano muscular (SOUGLIS et al., 2015). Souglis et al. (2015) mostraram que um jogo de futebol induz respostas inflamatórias semelhantes em homens e mulheres, com aumentos significativos da IL-6 e TNF-α imediatamente após o jogo e retorno dessas citocinas a valores basais dentro de 24 h pós-jogo. Essa cinética pós-jogo da IL-6 (pico imediatamente após o jogo e retorno a valores basais na manhã seguinte ao jogo) corrobora o estudo de Souglis et al. (2018). Contudo, Souglis et al. (2018) encontraram valores pico de IL-6 significativamente menores em mulheres comparado a homens independente da posição (atacantes, meios de campo e defensores). Além disso, Souglis et al. (2018) verificaram que em homens, o pico de IL-6 foi maior em jogadores meios de campo comparado a atacantes e defensores, e em mulheres, meios de campo tiveram maior pico comparado a defensoras (SOUGLIS et al., 2018). Embora o TNF-α e a IL-6 estejam intimamente relacionados, uma vez que são mediadores iniciais da inflamação, Souglis et al. (2015) encontraram um pico 18% maior apenas para TNF-α em homens comparado as mulheres. Os autores postularam que a menor carga absoluta durante o jogo (mulheres percorrem menor distância total assim como menor distância em alta intensidade comparado a homens) (DATSON et al., 2014; ANDERSSON et al., 2010; MOHR et al., 2003; STOLEN et al., 2005), pode ser uma das possíveis razões para esses resultados. Isso se deve ao menor consumo máximo de oxigênio, à menor potência muscular e capacidade de sprint de mulheres em comparação aos homens (DATSON et al., 2014; SOUGLIS et al., 2018, MCCORMACK et al., 2014). Sendo assim, embora 47 medidas de FC média durante o jogo sejam similares entre homens e mulheres, (SOUGLIS et al., 2015; KRUSTRUP et al., 2005) a carga absoluta se difere. Outra especulação para explicar o menor pico do TNF-α em mulheres consiste em um possível efeito supressor do estradiol sobre o TNF-α (MURPHY, GUYRE & PIOLI, 2010), sendo o estradiol o principal hormônio feminino produzido pelo folículo ovariano (TIIDUS, 2000). O dano muscular não parece ser o regulador primário da concentração de TNF-α na circulação. Andersson et al. (2010) investigaram alterações do TNF-α em atletas mulheres, profissionais de elite, após dois jogos de futebol de 90 min separados por um intervalo de recuperação ativa ou passiva de 72 h. Não foi verificado aumento do TNF-α após o segundo jogo, apenas após o primeiro, sugerindo que sua concentração no sangue não é regulada somente pelo dano muscular. Souglis et al., (2015) também apontaram que há indícios de que o TNF-α e seus receptores estão envolvidos no processo de regeneração muscular, por meio de um mecanismo que envolve a expressão de fatores reguladores miogênicos, já demonstrado em experimentos com animais (WARREN et al., 2002). A proteína C reativa, no que lhe concerne, tem um papel na indução de citocinas anti-inflamatórias em monócitos circulantes e na supressão da síntese de citocinas pró-inflamatórias em macrófagos teciduais (PUE et al., 1996). Durante a inflamação, o aumento da IL-6 circulante atua nos hepatócitos para estimular a síntese de proteínas de fase aguda tais como a PCR. Além da IL-6, essa proteína também é regulada pela IL-1 e TNF-α (KASAPIS et al., 2005). Sua concentração no plasma pode aumentar milhares de vezes durante a lesão e infecção. A cinética pós-jogo da PCR tem sido bem delimitada pela literatura (ISPIRLIDIS et al., 2008; SOUGLIS et al., 2018), apresentando valores pico no dia seguinte ao jogo e retornando aos valores basais no segundo dia após o jogo. Sendo assim, o futebol induz uma elevação marcada, mas transitória da PCR em 24 h, tanto em atletas homens quanto mulheres (SOUGLIS et al., 2015; SOUGLIS et al., 2018). Embora Souglis et al. (2015) não tenham encontrado diferenças nos valores de PCR entre homens e mulheres, Souglis et al. (2018) verificaram que homens apresentam maiores valores de PCR comparado a mulheres para todas as posições de jogo. Além disso, meios 48 de campo apresentam maior pico de PCR comparado às outras posições em ambos os sexos (SOUGLIS et al., 2018). Dessa forma, embora Souglis et al. (2015) tenham mostrado que um jogo de futebol induz respostas inflamatórias semelhantes em homens e mulheres, estudo mais recente realizado por Souglis et al. (2018) mostrou que o sexo e a posição do jogador tem um efeito significativo no tempo de recuperação de marcadores de dano muscular, estresse oxidativo e inflamação após um jogo oficial de futebol. Esses resultados, em relação ao sexo, foram explicados por dois fatores (1) natureza hormonal, baseado no papel protetor dos hormônios ovarianos e (2) em termos de variáveis de desempenho, baseado na menor carga de trabalho excêntrico e de alta intensidade realizada por mulheres durante os jogos. Embora ainda inconclusivo, tem sido sugerido que o estrógeno desempenha um papel protetor no processo de dano muscular induzido pelo exercício, por meio da manutenção da estabilidade da membrana celular, limitando, dessa forma, o extravasamento de marcadores de dano muscular, tais como a CK (TIIDUS, 2000). Além disso, há indícios de que o 17B-estradiol exerça algum efeito para atenuar a resposta inflamatória induzida pelo exercício após atividade física excêntrica intensa e que estrógenos têm a capacidade de atuar como antioxidantes, reduzindo os níveis de peroxidação lipídica (TIIDUS, 2000). Embora Souglis et al. (2018) tenham justificado a diferença entre os sexos baseado nessas duas premissas, o estradiol não foi mensurado e nem apresentados valores de distância percorrida ou carga de trabalho nos jogos. Os resultados referentes às posições dos jogadores apontam que meios de campo apresentam maiores respostas para todas as variáveis analisadas, comparado a defensores, enquanto atacantes demonstram uma resposta intermediária. Esses resultados podem estar relacionados com os diferentes perfis de atividades realizadas durante o jogo por meio-campistas, atacantes e defensores (SOUGLIS et al., 2018). 49 2.6 Respostas Perceptivas A DOMS é uma sensação de dor e rigidez nos músculos que ocorre entre 1 e 5 dias após realização de exercícios excêntricos ou de estímulos novos de exercício, podendo afetar o desempenho devido à redução voluntária de esforço ou à inerente perda da capacidade do músculo de produzir força (ARMSTRONG, 1984; HOTFIEL et al., 2018). Permanece controvérsia em relação aos mecanismos associados à DOMS, embora exista uma série de hipóteses para explicar tal fenômeno. Armstrong (1984) descreveu uma sequência de eventos que desencadeiam a dor, a partirde um estresse mecânico (sobretudo excêntrico) gerado durante o exercício. Dessa forma, forças mecânicas geram dano estrutural nas fibras musculares e tecido conectivo, alterando a permeabilidade das membranas celulares e ocasionando consequente influxo de Ca2+. Altas concentrações de Ca2+ nas células musculares ativam enzimas proteolíticas que degradam discos z, troponina e tropomiosiona. Essa progressiva deterioração do sarcolema é acompanhada da difusão de componentes intracelulares que atraem monócitos, histocinas e proteases lisossomais para as aéreas de lesão. Tais substâncias ativam os processos de fagocitose e necrose celular, aumentam a temperatura local e então ativam as terminações nervosas do músculo (nociceptores) que sinalizam a sensação de dor (ARMSTRONG, 1984). Portanto, parece que a DOMS está associada ao processo inflamatório desencadeado pelo reparo do tecido danificado. O surgimento tardio da dor, por sua vez, pode ser explicado pelo tempo decorrido entre o estímulo, a liberação de subprodutos celulares e a sinalização dos receptores de dor (ARMSTRONG, 1984). No contexto do futebol, há relatos de DOMS apresentando valores pico imediatamente pós-jogo (KRUSTRUP et al., 2011, RAMPININI et al., 2011); 24 h (ANDERSSON et al., 2008; NÉDÉLEC et al., 2012; FATOUROS et al., 2010) e 48 h pós-jogo (ISPIRLIDIS et al., 2008; NÉDÉLEC et al., 2014). Além disso, há relatos de que a DOMS permanece elevada até 24 h (NÉDÉLEC et al., 2012; NÉDÉLEC et al., 2013; RAMPININI et al. 2011 ; STONE et al., 2014), 72 h (ISPIRLIDIS et al., 2008; KRUSTRUP et al., 2011; ANDERSSON et al., 2008 ; NÉDÉLEC et al., 2014) ou mais 50 de 72 h pós-jogo (HUGHES et al., 2018). Corroborando tais achados, em uma revisão e meta-análise foram reportados tamanhos de efeito grande e muito grande nos momentos pós-jogo e 24 h, enquanto tamanhos de efeito moderado a grande ocorreram até 72 h pós-jogo (SILVA et al., 2017). O amplo espectro de resultados relacionados à DOMS possivelmente é justificado pela natureza e demanda dos jogos e pelas características da amostra (nível de condicionamento físico). Outro método comumente utilizado para avaliar a percepção de recuperação é a escala de qualidade total de recuperação, denominada Total Quality Recovery (TQR), proposta por Kentta e Hassmen (1998). Essa escala foi estruturada em torno da escala de percepção subjetiva de esforço (PSE) de forma que o processo de recuperação possa ser monitorado e comparado com as respostas de percepção do treinamento (KENTTA & HASSMEN, 1998). Além de suas vantagens tais como baixo custo, fácil e rápida aplicação (OSIECKI et al., 2015), estudos mostram que a TQR é um instrumento sensível que pode ajudar com o planejamento das cargas de treinamento e monitoramento da recuperação em atletas (FREITAS et al., 2014; KENTTA & HASSMEN, 1998). No futebol, Osiecki et al. (2015) verificaram uma associação significativa entre a TQR e CK (r= -0.75; p<0.05) em jogadores profissionais, sugerindo que essa escala pode ser usada para determinar a recuperação de atletas de futebol após jogos oficiais (OSIECKI et al., 2015). A TQR também já foi utilizada para comparar a recuperação após condição simulada de jogo, por meio de exercícios específicos para o futebol, realizados em grama natural e artificial (NEDELEC et al., 2013). Porém, não foram verificas diferenças significativas após o treino e entre condições para essa variável (NEDELEC et al., 2013). Quando monitorado após um jogo de futebol, reduções significativas na TQR foram verificadas 24 h após o jogo (NEDELEC et al., 2014) em jogadores homens profissionais. Howle et al. (2019), ao investigar a resposta de jogadores 48 h após um ou múltiplos jogos, verificaram reduções na TQR apenas após a realização do segundo jogo na condição de múltiplos jogos. Dessa forma, foi sugerido que essa ferramenta parece ser mais sensível durante calendários congestionados no futebol, quando atletas disputam vários jogos (HOWLE et al., 2019). Associado ao número limitado de estudos que investigaram a TQR no futebol, destaca-se o fato de relatos apenas em jogadores do 51 sexo masculino. Portanto, permanece a lacuna sobre uso da TQR para monitorar a recuperação em atletas mulheres de futebol. Respostas de humor no esporte têm sido investigadas em todo o mundo (MIRANDA et al., 2008), sendo frequentemente temporárias e podendo variar em intensidade e duração (LANE & TERRY, 2000). Estudos sugerem que estados de humor positivos tais como elevado vigor e baixa fadiga, depressão, tensão, raiva e confusão, estão associados com um melhor desempenho em competições e são ideais para a melhora do desempenho esportivo (BRANDT et al., 2017; TERRY & LANE, 2000). Por outro lado, estudos mostram que estados de humor negativos predominam em atletas que perdem competições (BRANDT et al., 2017). Perfis de estado de humor foram pioneiramente avaliados por meio do Profile of Mood States (POMS) (MCNAIR, LORR, & DROPPLEMAN, 1971). Um de seus derivados, desenvolvido especificamente para monitorar as respostas de humor no contexto de esportes e exercícios, é a escala de humor de Brunel, ou Brunel Mood Scale (BRUMS) (TERRY, LANE, LANE, & KEOHANE, 1999; TERRY, LANE, & FOGARTY, 2003). Essa escala foi validada para a língua portuguesa (MIRANDA et al., 2008) sendo denominada escala de humor Brasileira ou Brazilian Mood Scale (BRAMS). A BRAMS é uma medida de auto-relato, consiste de 24 itens e 6 sub- escalas que avaliam o humor (raiva, confusão, depressão, fadiga, tensão, vigor). Os respondentes, em uma escala Likert de 5 pontos (0=nada e 4=extremamente), devem assinalar o que melhor define ―Como você está se sentindo agora?‖ (TERRY, STEVENS, & LANE, 2005). Desde o seu desenvolvimento, a BRUMS tem sido utilizada para monitorar respostas de humor em diferentes modalidades esportivas (BRANDT et al., 2019), tais como voleibol (ANDRADE et al., 2016), futebol (THELWELL et al., 2006), futsal (WILKE et al., 2019), Judô e Jiu-Jitsu (BRANDT et al., 2016), ginástica artística (BOLDIZSÁR et al., 2016) e ciclismo (LASTELLA et al., 2015). Contudo, o uso dessa variável no contexto da recuperação pós-jogo ou pós-treino de força em jogadores de futebol ainda não foi investigado e poderia trazer informações adicionais relacionadas ao uso dessa escala no monitoramento da fadiga. 52 2.7 Variabilidade entre jogos O futebol é um esporte caracterizado por uma grande variabilidade (em termos de demandas físicas, fisiológicas e perceptivas) dentro e entre jogos (SLIMANI et al., 2017; GREGSON et al., 2010). Vários fatores contextuais, tais como resultado do jogo, qualidade da equipe adversária, aspectos táticos, local e tempo de jogo, condições ambientais, ranking da liga, competição disputada, demanda de viagens próximas a competições, entre outros podem influenciar as características do jogo e as respostas fisiológicas e perceptivas pós-jogo (SLIMANI et al., 2017; RAMPININI et al., 2007; GREGSON et al., 2010). Sendo assim, existem vários fatores que podem causar uma variação nos dados de desempenho entre jogos (MCCORMACK et al., 2015). Slimani et al. (2017) em sua revisão, verificaram a influência do resultado do jogo (vitória ou derrota), do gênero (homens x mulheres), tipo de contexto (competitivo x não competitivo) e do nível dos competidores (novatos x alto nível) nas respostas hormonais de cortisol e testosterona após jogos de futebol. Esses autores encontraram que a resposta da testosterona varia de acordo com o resultado do jogo, com uma maior resposta em vencedores em comparação aos perdedores, enquanto as concentrações de cortisol não variam para esse fator. O nível dos competidores, por sua vez, pode influenciar a resposta ao cortisol, uma vez que novatos do sexo masculino apresentaram maiores níveis de cortisol comparado aatletas de futebol de alto nível. Além disso, partidas competitivas de futebol aumentaram os níveis de cortisol em maior magnitude em comparação a jogos não competitivos. Por fim, independentemente das diferenças de gênero, foi verificado maior reatividade à testosterona em atletas de alto nível comparado a novatos (SLIMANI et al., 2017). Rampinini et al. (2007) mostraram que parte da variação nas medidas de desempenho encontradas entre as partidas pode ser atribuída a influências dos diferentes adversários, com fatores tais como estilo de jogo e características físicas e táticas sendo causas prováveis associadas a variância. Ainda segundo esses autores, a distância total percorrida em um jogo e a distância percorrida em corridas 53 de alta intensidade são maiores quando se joga contra adversários de maior qualidade (classificados como melhores equipes nacionais e internacionais) comparados a adversários mais fracos ou de menor qualidade. Contudo, o tamanho do efeito mensurado para essas variáveis foi pequeno, o que sugere que o efeito do nível da equipe adversária sobre a fadiga geral ou capacidade de trabalho seja relativamente pequeno (RAMPININI et al., 2007). McCormack et al. (2015) não verificaram correlação entre o total de vitórias e derrotas do adversário e a distância total percorrida em corridas de intensidade alta. Além disso, também não foi encontrada correlação entre o tempo de jogo e a distância total percorrida em corridas de intensidade alta. Esses resultados sugerem que o nível do adversário e o tempo de jogo não foram fatores que contribuíram para a redução observada na distância total percorrida em corridas de intensidade alta. Outro aspecto que pode contribuir para a variabilidade entre jogos é o momento do período competitivo em que ocorrem os jogos. Rampinini et al. (2007) mostraram que medidas de desempenho físico, tais como distância total percorrida e corridas de alta intensidade e de intensidade muito alta foram maiores ao final do período competitivo. Russel et al. (2015) investigaram a variabilidade entre jogos em marcadores de recuperação. Foram analisados quatro jogos realizados no período de novembro de 2013 a janeiro de 2014. A variabilidade entre jogos para a potência pico foi de 10,9, 11,0 e 9,9 respectivamente para basal, 24 e 48 h pós-jogo, enquanto para a CK a variabilidade foi de 41,7, 30,0 e 34,3%, respectivamente (RUSSEL et al., 2015). Assim como a maioria das medidas de desempenho esportivo, esforços de alta velocidade em jogos de futebol não são estáveis e estão sujeitos a variação entre partidas sucessivas (GREGSON et al., 2010). Alterações na condição física do jogador e condições ambientais podem levar a variação no próprio atleta e entre jogos ao longo da temporada competitiva (RAMPININI et al., 2007). Gregson et al. (2010) avaliaram a variabilidade de atividades em alta velocidade entre jogos realizados por uma grande amostra de jogadores de futebol de elite ao 54 longo de um período de tempo e verificaram a influência da posição do jogador sobre a magnitude dessa variabilidade. Esses autores encontraram que a variabilidade entre jogos foi alta em todas as variáveis com coeficiente de variabilidade (CV) médio de 16,2 ± 6,4% e 30,8 ± 11,2% reportados para corridas de alta velocidade e distância percorrida em sprints. Além disso, essa variabilidade foi maior para jogadores centrais (meios de campo e defensores) e menor para atacantes e laterais. Maior variabilidade também foi observada quando a equipe estava com a posse da bola (~30%) do que quando não estava (~23%). Esses resultados sugerem que a variabilidade entre jogos nas características de desempenho de atletas de futebol de elite é alta e que os jogadores não reproduzem perfis consistentes de atividade de alta velocidade em jogos realizados ao longo do tempo. Outros estudos, contudo, relatam baixa variabilidade entre jogos (MOHR et al., 2003; RAMPININI et al., 2007), sobretudo quando analisados em dois jogos consecutivos, com CV de 2,4, 6,8 e 14,4% para distância total, corrida de intensidade alta e corrida de intensidade muita alta, respectivamente (RAMPININI et al., 2007). Mohr et al. (2003) encontraram valores de CV para corridas de intensidade alta de 9,2% entre jogos sucessivos e de 24,8% entre diferentes períodos de uma temporada. Sendo assim, parece que a variabilidade entre jogos aumenta à medida que aumenta o tempo em que os mesmos são realizados. 2.8 Treinamento de força e futebol Em esportes como o futebol, fatores como força, velocidade e potência são essenciais para um bom desempenho dos atletas em competições (STOLEN et al., 2005; KOBAL et al., 2017; NEGRA et al., 2016). Isso porque muitas ações presentes nessa modalidade, tais como correr, mudar de ritmo e direção, atacar, saltar e chutar são explosivas e demandam força (sobretudo de membros inferiores) e, muitas vezes, constituem os momentos mais cruciais do jogo (JULLIEN et al., 2008; NEGRA et al., 2016; RAMOS et al., 2019). Sendo assim, muitas situações no futebol, tais como marcar gols, impedir que os gols sejam marcados, correr mais 55 rápido ou saltar mais alto para dominar a bola antes do adversário exigem força muscular e potência. A potência produzida, por sua vez, depende da força e velocidade (CHELLY et al., 2009). O treinamento para melhorar a força máxima geralmente repercute em uma melhora na potência, provocando deslocamento para direita na curva força-velocidade (CHELLY et al., 2009). A força muscular pode aumentar sem que ocorra hipertrofia e, de fato, essas alterações constituem em evidências do envolvimento neural na aquisição de força muscular (CHELLY et al., 2009). Adaptações neurais incluem o aumento do recrutamento de unidades motoras, taxa de frequência ou taxa de potenciais de ação, sincronização e coordenação intermuscular (CORMIE et al., 2011). Além disso, atletas com maior força e potência muscular geralmente apresentam menores decréscimos de desempenho durante o jogo (SILVA et al., 2013). Portanto, é benéfico para um atleta de futebol adquirir melhoras na força muscular (JULLIEN et al., 2008). Pelo aumento da força em determinados músculos, aceleração e velocidade podem melhorar habilidades determinantes no futebol, como giros, sprints e mudanças de ritmo (CHELLY et al., 2009). Dessa forma, pesquisadores e profissionais têm proposto diferentes abordagens de treinamento visando melhorar essas habilidades específicas (BRITO et al., 2014; LOTURCO et al., 2015; ENRIGHT et al., 2015; HAMMAMI et al., 2017; DE HOYO et al., 2016; KOBAL et al., 2017). Nesse sentido, o treinamento de ―força com pesos‖ é uma das estratégias mais utilizadas para melhorar o desempenho esportivo, sobretudo por meio de protocolos que visam melhorias da força máxima (CHELLY et al., 2009; BRITO et al., 2014; JULLIEN et al., 2008), força explosiva e potência muscular (NEGRA et al., 2016; RODRÍGUEZ- ROSELL et al., 2017). Tais protocolos geralmente são compostos por exercícios com padrões de movimento mais próximo possível das habilidades específicas do futebol, visando garantir o mais alto grau de transferência entre ganhos de força e habilidades técnicas de futebol (BRITO et al., 2014). Dessa forma, exercícios de agachamento são inseridos na maioria dos programas de treinamento de força para atletas de futebol (CHELLY et al., 2009; HAMMAMI et al., 2017; DE HOYO et al., 2016; JULLIEN et al., 2008; KOBAL et al., 2017; RODRÍGUEZ-ROSELL et al., 2017). Protocolos com elevados percentuais de uma repetição máxima (80 a 90% de 56 1RM) e baixo volume (2 a 6 repetições) têm sido utilizados para desenvolvimento da força máxima (JULLIEN et al., 2008; CHELLY et al., 2009; BRITO et al., 2014), envolvendo adaptações neurais e mais especificamente aumento da taxa de desenvolvimento daforça (CHELLY et al., 2009). Protocolos com percentuais de uma repetição máxima e volume baixos a moderados (40 a 60% de 1RM, 4 a 12 repetições) e alta velocidade tem sido utilizados para desenvolvimento da potência em atletas de futebol (NEGRA et al., 2016; RODRIGUEZ-ROSELL et al., 2017). A maioria dos estudos que investigou o efeito crônico do treinamento de força em atletas de futebol encontrou melhoras significativas em ganhos de força, desempenho de salto e sprint, mas sem alterações nos testes de mudança de direção ou agilidade (HAMMAMI et al., 2017; DE HOYO et al., 2016; CHELLY et al., 2009; NEGRA et al., 2016; RODRIGUEZ-ROSELL et al., 2017; BRITO et al., 2014). Outros estudos, não encontraram melhoras significativas em testes de sprints (KOBAL et al., 2017; JULLIEN et al., 2008). Segundo Hammami et al. (2017), os ganhos em desempenho de sprint após um programa de treinamento de força ocorrem principalmente devido à adaptação neural, incluindo alteração na velocidade de condução nervosa e na estratégia de recrutamento de unidades motoras. Em relação ao aumento no desempenho do salto vertical, esses autores postulam que, possivelmente, essa melhora ocorre devido à adaptação neural e melhora da coordenação, incluindo ativação seletiva de unidades motoras, maior sincronização de esforço, ativação seletiva dos músculos, melhor coordenação intermuscular e aumento do recrutamento de unidades motoras (CORMIE et al., 2011). A ―mudança de direção‖, por sua vez, é um atributo físico importante para os atletas de futebol, considerando a ampla gama de situações dentro do jogo que proporcionam mudanças súbitas de direção (por exemplo, roubadas de bola ou ataques) (MOHR et al., 2003; NEGRA et al., 2016). Tais ações demandam alta força e capacidade de gerar potência dos membros inferiores (JULLIEN et al., 2008; NEGRA et al., 2016). No entanto, a transferência da velocidade em linha reta para a agilidade é complexa e não pode ser garantida (HAMMAMI et al., 2017). Além disso, pode haver outros fatores, tais como a técnica, que são ainda mais importantes do 57 que o treinamento de força, quando se trata de testes que envolvem várias mudanças de direção (DE HOYO et al., 2016). De Hoyo et al. (2016) realizaram um estudo cuja hipótese era de que a combinação de cargas leves, altas velocidades de execução e velocidade máxima pretendida de contração é um estímulo potencial (adaptações específicas da velocidade) para melhorar a força explosiva. Esses autores compararam o efeito de 8 semanas de 3 diferentes métodos de treinamento de força de carga baixa a moderada (agachamento, sprint com resistência e pliometria) no desempenho de salto, sprint e no teste de mudança de direção. De maneira geral, todos os grupos apresentaram melhora no desempenho do salto, o grupo que realizou o treinamento com exercício de agachamento apresentou melhores resultados no desempenho de sprints comparado aos demais grupos, e nenhum método de força adotado provocou alterações nos testes de mudança de direção. Dessa forma, De Hoyo et al. (2016) mostraram que o treinamento de força com agachamento completo, baixo a moderados percentuais de 1RM (40-60% de 1RM), baixo volume (2-3 séries por sessão e 4 a 8 repetições por série) e executado o mais rápido possível repercute em efeitos positivos em ações explosivas, podendo ser usado como parte de um programa de treinamento sistematizado para atletas jovens de futebol. Durante a temporada competitiva do futebol, o treinamento é organizado em microciclos compostos por sessões voltadas para o desenvolvimento do condicionamento físico, técnico-tático e ainda por um ou dois jogos competitivos. Para manter os padrões de desempenho e as adaptações fisiológicas adquiridas durante o período de pré-temporada, o treinamento de força geralmente ocorre duas a três vezes na semana, dependendo do microciclo e do calendário de jogos (HOFF, 2005; REVERTER-MASÍA et al., 2009). Contudo, há evidências de que o treinamento de força pode dificultar o desempenho técnico devido ao aparecimento de fadiga muscular localizada (APRIANTONO et al., 2006; LYONS et al., 2006) e induzir uma resposta inflamatória de fase aguda devido à lesão muscular. Essa resposta é caracterizada pela infiltração de fagócitos no músculo, produção de radicais livres e deterioração do desempenho (PEAKE et al., 2016). 58 Dessa forma, estudos têm investigado o efeito agudo de sessões de treinamento de força no desempenho de atletas de futebol com o intuito de verificar uma adequada organização das sessões de treinamento, recuperação e jogos durante microciclos, evitando assim, que essas sessões não interfiram de maneira negativa no desempenho em jogos de futebol (DRAGANIDIS et al., 2013; KESOGLOU et al., 2009). Esse tipo de estudo, contribui para trazer informações sobre o tempo ótimo necessário para recuperar dentro de microciclos, evitando assim, decréscimos no desempenho durante os jogos ocasionados por fadiga gerada durante sessões de treinamento de força. Draganidis et al. (2013) investigaram a janela ótima de recuperação após uma sessão de treinamento de força de baixa a moderara ou alta intensidade, antes da realização de um jogo durante um microciclo de atletas de futebol de elite. O objetivo desses autores foi determinar se o desempenho em habilidades do futebol é afetado pela realização de uma sessão de treinamento de força aguda e se tal efeito é dependente da intensidade. O desempenho das habilidades do futebol foi avaliado por meio de testes de passe longo, chute, drible e cabeceio. Dor muscular de início tardio, amplitude de movimento articular do joelho e força muscular (1RM) no agachamento foram considerados marcadores de dano muscular. Amostras de sangue para análise da CK, PCR e contagem de leucócitos também foram coletadas. Todas essas variáveis foram mensuradas nos momentos pré, imediatamente após, 24, 48 e 72 h após a sessão de treinamento de força. Os exercícios realizados na sessão de treinamento foram agachamento, extensão de pernas na posição sentada, leg horizontal, lunges e flexão/extensão de tornozelo. O protocolo de menor intensidade consistiu de 4 séries de 8 a 10 repetições com intensidade de 65 a 70% de 1RM para cada exercício, ao passo que o protocolo de maior intensidade foi composto por 4 séries de 4 a 6 repetições com 85 a 90% de 1RM. O intervalo de recuperação entre as séries e exercícios foi de um e três minutos para os protocolos de menor e maior intensidade, respectivamente. Esses autores encontraram que a dor muscular aumentou imediatamente após o exercício e com 24 h de recuperação para ambos os grupos. Contudo, a dor permaneceu elevada por até 48 h somente no grupo de maior intensidade e retornou 59 aos valores basais depois desse período. A amplitude de movimento do joelho permaneceu inalterada em ambos os grupos durante o período de recuperação. Em ambos os protocolos a CK permaneceu elevada por até 48 h, contudo, para o protocolo de menor intensidade o pico da CK foi verificado com 24 h, ao passo que para o protocolo de maior intensidade o pico da CK ocorreu com 48 h. Além disso, o pico da CK foi próximo a 390 U/L-1 em ambos os grupos, valor bem abaixo daqueles observados após jogos de futebol (FATOUROS et al., 2010; ISPIRLIDIS et al., 2008), o que sugere que os protocolos provocaram apenas uma resposta leve ao dano muscular (DRAGANIDIS et al., 2013). A força da perna permaneceu inalterada no grupo de menor intensidade e reduziu somente imediatamente após o protocolo de maior intensidade. A contagem de leucócitos aumentou com 24 h de recuperação de maneira similar em ambos os protocolos, e após esse período retornou aos valores basais. A PCR aumentou significativamente após o exercício, apresentou valores pico com 24 h de recuperação e retornou aos valoresbasais após esse período, em ambos os grupos. Contudo, o grupo de maior intensidade apresentou maiores valores de PCR pós e 24 h, comparado ao grupo de menor intensidade, indicando um efeito dependente da intensidade. A cinética de recuperação da PCR verificada no estudo de Draganidis et al. (2013) é semelhante àquela verificada após jogos de futebol (FATOUROS et al., 2010; ISPIRLIDIS et al., 2008; SOUGLIS et al., 2015; SOUGLIS et al., 2018), porém, de menor magnitude, sugerindo uma menor resposta inflamatória após a sessão de treinamento de força. Essa resposta inflamatória leve aos protocolos coincidiu com o padrão de resposta do desempenho na maioria das habilidades do futebol, que não foram afetadas. Sendo assim, os protocolos de força adotados no estudo de Draganidis et al. (2013) simularam aqueles utilizados por equipes de futebol durante temporadas competitivas e não induziram fraqueza local (a força permaneceu inalterada) ou desconforto (resposta leve de dano muscular) em membros inferiores. O desempenho das habilidades permaneceu inalterado após a sessão de treinamento de força, exceto no Loughborough Soccer Passing Test e no teste de chutes, que estavam reduzidos apenas imediatamente após o exercício. O chute depende da força muscular da perna e da velocidade resultante da bola durante o chute. De fato, um movimento de chute coordenado depende da aplicação da força muscular controlada e das interações segmentares (APRIANTONO et al., 2006). Extensões e 60 flexões do joelho com cargas e realizadas de maneira repetida, como nos protocolos do estudo, podem prejudicar a coordenação intersegmentos (APRIANTONO et al., 2006). Contudo, com 24 h não foram mais encontrados prejuízos no desempenho dos chutes (DRAGANIDIS et al., 2013). Esses resultados sugerem que, de forma aguda, os dois protocolos de exercícios de força produziram apenas danos musculares e respostas inflamatórias leves e de curta duração em jogadores de futebol. Além disso, o desempenho de habilidades de futebol é minimamente afetado pelo exercício de força, independente da intensidade. O efeito residual do exercício de força de maior intensidade no desempenho de habilidades de futebol dura menos de 24 h, sugerindo que atletas de elite podem estar aptos a participar de jogos de futebol 24 h após uma sessão de treinamento de força. Portanto, com base nos achados de Draganidis et al. (2013), o treinamento de força para membros inferiores pode ser realizado pelo menos 24 h antes do próximo jogo ou sessão de treino durante um microciclo de treinamento. Contudo, vale ressaltar que esses achados correspondem ao treino de maneira isolada, e não a combinação do jogo com o treino. Kesoglou et al. (2009), com o objetivo de verificar o impacto de uma sessão de treinamento de força após um ou dois dias de recuperação no desempenho de variáveis associadas ao futebol, realizaram um estudo experimental com 6 homens, jogadores de futebol universitário. Para isso, os indivíduos realizaram duas situações experimentais de maneira randomizada: treinamento de força seguido de um dia de recuperação passiva (S1) ou dois dias de recuperação passiva (S2). Após a recuperação (1 ou 2 dias), os indivíduos realizaram um jogo de futebol simulado. A força isométrica, ativação muscular, dor muscular e salto vertical foram as variáveis mensuradas antes e imediatamente após a sessão de treinamento de força, 24 h após, antes e imediatamente após o jogo simulado para S1 e S2. Essas variáveis também foram coletadas 48 h após a sessão de força para S2. O protocolo de treinamento consistiu no exercício agachamento, até 90 graus, com ênfase no treinamento de alta velocidade e potência. Sendo assim, os jogadores levantaram pesos relativamente leves, o mais rápido possível, com foco em uma rápida extensão de quadril. Foram realizadas 4 séries de 4 a 6 repetições a 40% do 1RM, com intervalos de recuperação entre as séries de 3 a 5 min. Esses autores não 61 encontraram diferenças nas variáveis medidas com um ou dois dias de recuperação. Tais resultados sugerem que o treinamento de alta velocidade e baixos percentuais de 1RM é relativamente não fatigante, produz pouca dor muscular e permite que a força muscular isométrica e a altura do salto vertical sejam mantidas em níveis semelhantes aos observados antes de sua aplicação após apenas um dia de recuperação. Embora Draganidis et al. (2013) e Kesoglou et al. (2009) tenham verificado que sessões de treinamento de força de diferentes intensidades não provocam redução no desempenho de habilidades do futebol quando realizadas 24 h previamente a um jogo, em ambos os estudos os jogadores realizaram a sessão de força em condições descansados. Draganidis et al. (2013), para garantir a recuperação completa dos atletas, realizou o estudo em período fora da temporada, duas semanas após finalizada a temporada competitiva dos atletas. Dessa forma, permanece a lacuna na literatura sobre o efeito agudo de sessões de treinamento de força realizadas no período pós-jogo dentro de um microciclo. Durante temporadas competitivas, conforme reportado anteriormente, podem ocorrer de dois a três jogos por semana. Portanto, ainda não se sabe o efeito da fadiga induzida por um jogo, acumulada com a fadiga induzida por sessões de treinamento de força realizadas 24 ou 48 h após o jogo, no desempenho do jogo seguinte, realizado 72 h após o primeiro. Em outras palavras, permanece a questão se em um mesmo microciclo, quando jogos de futebol são realizados no domingo e na quarta-feira, sessões de treinamento de força realizadas na segunda ou terça-feira influenciam de maneira negativa e distinta a cinética de recuperação dos atletas. 62 3 MATERIAIS E MÉTODOS 3.1 Cuidados éticos O projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (CAAE: 74974117.3.0000.5149) (ANEXO 1) e respeita todas as normas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Saúde (Res 466/2012). Uma carta de anuência (APÊNDICE 1) foi obtida pelo responsável técnico do clube e todas as atletas, após receberam esclarecimento quanto aos procedimentos a serem realizados, assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido em concordância à participação nos experimentos (APÊNDICE 2). 3.2 Sujeitos Conforme descrito no capítulo ―Objetivo geral‖ e por fins didáticos, o presente projeto foi dividido em 3 estudos, para os quais foram adotados diferentes procedimentos que serão descritos a seguir e nos capítulos correspondentes a cada estudo, com a apresentação dos artigos científicos redigidos para cada um. Participaram do estudo 21 atletas profissionais de futebol do sexo feminino de uma equipe de Belo Horizonte (estudo 1: n = 15; estudo 2: n=10; estudo 3: n=10). Todas as atletas eram afiliadas à Confederação Brasileira de Futebol (CBF), treinavam 5-6 vezes por semana (2-3 horas por sessão), incluindo treinos físicos e técnico-táticos. Todas as atletas apresentavam experiência com o treinamento de força, e, além disso, os exercícios da STF realizados nos estudos 1 e 2 foram incluídos na rotina de treinamento durante a pré-temporada, com o propósito de familiarização. Apenas jogadoras de linha participaram do presente estudo, sendo adotado um tempo mínimo de jogo de 45 minutos como critério de inclusão para os estudos 1 e 3. A coleta foi realizada durante a pré-temporada (familiarização), período competitivo, em que as atletas estavam participando de duas competições simultaneamente, 63 uma regional aos domingos - jogos da Copa BH de futebol feminino 2018 e outra nacional às quartas-feiras - campeonato Brasileiro A2 (estudos 1 e 3) e durante o período intertemporada (estudo 2). 3.3 Delineamento Experimental Durante o período da pré-temporada, as atletas realizaram osseguintes testes para caracterização da amostra: avaliação antropométrica (massa corporal, estatura e percentual de gordura por meio do método de dobras cutâneas) e Yoyo Intermittent Recovery-test level 2 (Yo-Yo IR2). Com o propósito de familiarização, testes de salto com contramovimento, teste de velocidade de 20m e exercícios para membros inferiores (squat, deadlift, lunges) foram incluídos na rotina de treinamento das atletas, bem como o uso de escalas de dor muscular e TQR. Duas sessões de testes separadas por um intervalo de 5 dias foram realizadas para obtenção do Coeficiente de Correlação Intraclasse (CCI2,1) e do Erro Padrão de Medida (EPM) do SCM e sprint (WEIR, 2005). Previamente ao início do período competitivo, foi realizado um teste de repetições máximas (até a falha concêntrica) para estimativa de 1RM por meio da equação de Lombardi (BRECHUE & MAYHEW, 2012). Esse teste foi repetido a cada dois meses, com o intuito de atualizar os valores de 1RM estimados. As coletas foram realizadas de acordo com o calendário de competições, ao longo de 5 partidas oficiais da Copa BH de futebol feminino, realizadas aos domingos. Esses jogos ocorreram no período de Abril a Julho de 2018 e iniciaram em horários semelhantes (TABELA 6.1, p.118). Uma série de variáveis, descritas no tópico ―3.5 Procedimentos de coleta para variáveis de monitoramento‖, foi coletada nos momentos pré, 24, 48 e 72h após a realização dos jogos. A recuperação física, fisiológica e respostas perceptivas após os jogos de futebol feminino foram monitoradas em um total de 15 atletas, cujos dados estão apresentados no estudo 1. Com o intuito de verificar a recuperação após realização de uma sessão de treinamento de força, foi selecionada uma semana do período intertemporada em 64 que não havia jogos. Nessa semana, 10 atletas realizaram uma sessão de treinamento de força e variáveis de monitoramento foram avaliadas nos momentos pré, imediatamente pós, 24 e 48h pós-treino de força. Esses procedimentos foram realizados para contemplar o estudo 2. Para avaliar a recuperação pós-treino de força no período pós-jogo, foram comparadas três situações experimentais: (1) sessão de treinamento de força realizada 24h pós-jogo (STF24h), (2) sessão de treinamento de força realizada 48h pós-jogo (STF48h) e (3) situação Controle, em que as atletas não realizaram sessão de treinamento de força, apenas a coleta das variáveis de monitoramento (semelhante ao estudo 1). Um total de 10 atletas completaram as 3 situações experimentais, sendo estes dados apresentados no estudo 3. Para minimizar a influência dos diferentes jogos sobre os resultados do estudo, a ordem das situações experimentais foi randomizada entre as atletas. FIGURA 3.1 Delineamento Experimental Legenda: STF sessão de treinamento de força. Fonte: Elaborado pela autora 65 3.4 Procedimentos 3.4.1 Caracterização antropométrica Foram realizadas medidas antropométricas de estatura, massa corporal (balança digital WELMY, Modelo W200/5, 2012) e dobra cutânea (Plicômetro clínico Cescorf, Brasil) para caracterização da amostra. Foi adotado o protocolo de 7 dobras de Jackson e Pollock (1978), sendo o percentual de gordura estimado por meio da equação de Siri (1961). Avaliações de percentual de gordura foram refeitas mensalmente e os dados mais recentes (de acordo com as coletas de cada estudo) foram usados para análise descritiva da respectiva amostra. 3.4.2 Yo-Yo Intermittent Recovery Test O Yo-Yo IR consiste em um teste que avalia a capacidade de uma pessoa treinada em realizar um exercício intenso repetido com uma grande contribuição anaeróbia de fornecimento de energia (BANGSBOO, IAIA & KRUSTRUP, 2008). As atletas foram orientadas a correr o maior tempo possível, ao longo de uma distância de 20 m demarcada por cones, indo e voltando, em uma velocidade que aumentava progressivamente, indicada por um gravador. A cada 40 m percorridos (ida e volta), havia um intervalo de recuperação ativa de 10 s. Um sinal sonoro avisava quando as atletas deveriam estar em uma extremidade ou outra da faixa dos 20 m e também controlava o intervalo de recuperação. O teste era interrompido quando a atleta não alcançava a extremidade dentro do tempo determinado por mais de duas vezes consecutivas, ou quando a própria atleta decidisse voluntariamente interromper o teste. Existem dois níveis para esse teste, o nível 1 (Yo-Yo IR1) inicia em uma menor velocidade e com aumentos mais moderados na velocidade comparada ao nível 2 (Yo-Yo IR2). As atletas realizaram o Yo-Yo IR2 durante a pré-temporada e o Yo-Yo IR1 durante o período intertemporada. Dessa forma, o consumo máximo de oxigênio (VO2máx) de cada atleta foi estimado por meio da equação 1 para os 66 estudos 1 e 3; e por meio da equação 2 no estudo 2 (BANGSBOO, IAIA e KRUSTRUP, 2008). Yo-yo IR2: VO2máx (mL.min-1.kg-1) = distância (m) × 0.0136 + 45.3 (equação 1) Yo-yo IR1: VO2máx (mL.min-1.kg-1) = IR1 distância (m) × 0.0084 + 36.4 (equação 2) 3.4.3 Teste para estimar 1RM Na semana anterior ao primeiro jogo da coleta, as atletas realizaram um teste para estimar o peso correspondente a 1RM dos seguintes exercícios: half-squat, deadlift e lunges. Inicialmente, realizaram um aquecimento que consistiu de 1 série de 6 repetições de cada exercício, somente com os 20 kg da barra olímpica. Em seguida, as atletas escolheram um peso para realizar repetições até a falha concêntrica. Caso a falha não ocorresse até a sexta repetição, a tentativa era interrompida, e uma nova tentativa realizada com um peso maior. Foram realizadas no máximo 3 tentativas para cada exercício de forma que a falha concêntrica ocorresse antes da sexta repetição. Caso isso não ocorresse nas 3 primeiras tentativas, um novo dia de teste era realizado. O peso e número de repetições até a falha foram utilizados para estimar o valor de 1RM por meio da equação de Lombardi (equação 3) (BRECHUE & MAYHEW, 2012). Essa equação produziu a melhor estimativa de 1RM no exercício squat quando realizado com carga próxima a 80% 1RM, na faixa de 5 a 17 repetições até a falha em jogadores de futebol (BRECHUE & MAYHEW, 2012). Testes para predizer o 1RM a partir de repetições até a falha tem sido utilizados (KESOGLOU et al., 2009) para evitar os riscos e demanda de tempo exigidos por testes de 1RM em jogadores profissionais de futebol. Devido a dificuldades em realizar um teste máximo para o jump squat, o valor de 1RM determinado para o half-squat foi também adotado para o exercício jump squat. Esse teste foi repetido a cada dois meses com o propósito de atualizar os valores estimados de 1RM durante 67 os jogos coletados no período competitivo (estudos 3) e durante o período intertemporada (estudo 2). Equação de Lombardi: 1RM = (Peso x número de repetições) 0.10 (equação 3) 3.5 Procedimentos de Coleta para Variáveis de Monitoramento Conforme já descrito, a dinâmica das variáveis investigadas foi verificada nos momentos pré, 24, 48 e 72 h pós-jogo (estudos 1 e 3) e nos momentos pré, pós, 24 e 48 h pós-treino de força (estudo 2). O momento pré-jogo para os testes físicos (SCM e sprint) foi realizado 2-3 dias previamente ao jogo. Para as demais variáveis (coleta de sangue, escalas de percepção e questionários) o momento pré-jogo correspondeu aproximadamente a 60 min antes do início dos jogos. As variáveis de monitoramento foram classificadas em variáveis de desempenho (altura do SCM e tempo nos 10 e 20 m de sprint), fisiológica (PCR) e respostas perceptivas (DOMS, TQR e BRAMS, para dados de fadiga e vigor). Contudo, como questionários para avaliar a escala de humor e TQR foram inseridos no meio do período competitivo, dados para essa variável foram apresentados apenasnos estudos 1 e 2. Devido à indisponibilidade do equipamento durante o período intertemporada, a PCR não foi coletada no estudo 2. 68 FIGURA 3.2 Situações Experimentais Legenda: STF sessão de treino de força. Fonte: Elaborado pela autora 3.5.1 Teste de salto com contramovimento Durante o período da pré-temporada, as atletas receberam instruções verbais e demonstrações sobre a técnica do salto com contramovimento. Com o intuito de familiarização, as atletas foram orientadas a realizar os saltos durante sessões de preparação física e receberam correções quando necessário. Por fim, as voluntárias realizaram dois dias de teste durante esse período, separados por um intervalo de 5 dias, para obtenção do CCI2,1 (0.931) e do EPM (0.7 cm). O SCM foi realizado a partir da posição ortostática, com joelhos estendidos e as mãos apoiadas no quadril, na região supra-ilíaca. As atletas executavam uma ação excêntrica de flexão de joelhos até a angulação que julgassem mais eficiente, seguida por uma ação concêntrica de extensão de joelhos. Os joelhos permaneceram estendidos durante a fase de voo e a aterrissagem foi em flexão plantar. 69 O mesmo protocolo foi adotado em todos os testes de SCM. Inicialmente, as atletas realizavam um aquecimento padrão que consistiu de 3 SCM submáximos, seguido de 4 saltos máximos com intervalo mínimo de 15 s entre eles (SZMUCHROWSKI et al., 2011; OLIVEIRA et al., 2018). Os testes de SCM foram realizados em um tapete de contato (Multisprint®, Hidrofit Ltda, Brasil), a altura do salto estimada pelo tempo de voo e os dados registrados por meio do software Multi-Sprint®. Para análise dos dados foi utilizada a média e o melhor desempenho dos 4 saltos. FIGURA 3.3 Salto com contramovimento Fonte: fotografia da autora 3.5.2 Teste de velocidade de 20 metros Com o propósito de familiarização, durante o período da pré-temporada foi registrado o tempo no teste de velocidade, por meio de 3 fotocélulas (Multisprint®, Hidrofit Ltda, Brasil), posicionadas a distâncias de 10 e 20 m da primeira fotocélula. Sendo assim, foram registrados os tempos dos 10 m iniciais e 20 m totais. Por fim, as atletas realizaram dois dias de teste durante esse período, separados por um intervalo de 5 dias, para obtenção do CCI2,1 (0.640) e do EPM (0.050 s) no teste de sprint. 70 O mesmo protocolo foi adotado em todos os testes de sprint. Inicialmente as atletas percorriam os 20 m em baixa intensidade, com o propósito de aquecimento e reconhecimento do espaço / distância. Em seguida, as atletas posicionavam o pé a 0,5 m de distância da primeira fotocélula e eram orientadas a correr os 20 m o mais rápido possível. Foram realizadas duas tentativas de 20 m de sprint, com intervalo aproximado de 2 min entre elas. Estímulos verbais foram proporcionados em todas as tentativas com o propósito de motivação. Os dados foram fornecidos online pelo software Multi-Sprint®, com precisão de 0.001 s. As fotocélulas foram posicionas em um tripé, a uma altura aproximada de 1 m do chão. Para análise dos dados foi utilizada a média e o melhor tempo nos 10 m iniciais e 20 m totais de sprint. 3.5.3 Variáveis fisiológicas Foi realizada punção digital, após esterilização local com álcool etílico 70%. Uma lanceta com disparador automático foi utilizada e o sangue drenado para um coletor de amostra. Em seguida, esse coletor de amostra foi conectado a um tubo de tampão de detecção e o reagente homogeneizado. As duas primeiras gotas do reagente foram descartadas e então duas gotas adicionadas no poço da amostra de um cassete. Após três minutos, o cassete carregado com a amostra foi inserido em um analisador automático de imunoensaio fluorescente (ICHROMATM Reader, BS Ver01 01-2016, Coréia do Sul), para quantificação da PCR. 71 FIGURA 3.4 Coleta de sangue para análise de variável fisiológica Fonte: fotografia da autora 3.5.4 Escala de Dor muscular A dor muscular foi avaliada utilizando uma escala visual analógica exibida na figura 3.5. Essa escala foi inicialmente apresentada e utilizada pelas atletas durante a pré- temporada, com o propósito de familiarização. Durante o período de coletas foi solicitado às atletas que apontassem a opção que melhor descrevesse seu nível de dor muscular nos momentos pré, 24, 48 e 72 h após a realização dos jogos de futebol (estudo 1 e 3) e nos momentos pré, pós, 24 e 48 h após a realização da sessão de treino de força (estudo 2). FIGURA 3.5 Escala Analógica Visual de dor muscular Fonte: Matos, M. Disponível em http://www.patologiadaatm.com.br/tensao-na-face-e-o- diagnostico-de-dtm-muscular/ http://www.patologiadaatm.com.br/tensao-na-face-e-o-diagnostico-de-dtm-muscular/ http://www.patologiadaatm.com.br/tensao-na-face-e-o-diagnostico-de-dtm-muscular/ 72 3.5.5 Escala de Qualidade Total de Recuperação Para determinação da percepção de recuperação, cada atleta apontava um valor na escala TQR (FIGURA 3.6) para responder a seguinte questão: ―Como você se sente em relação a sua recuperação?‖ nos momentos pré, 24, 48 e 72 h após os jogos (estudo 1 e 3) e nos momentos pré, pós, 24 e 48 h após a realização da sessão de treino de força (estudo 2). FIGURA 3.6 Qualidade Total de Recuperação Nota Descritor 6 7 Muito, muito mal recuperado 8 9 Muito mal recuperado 10 11 Mal recuperado 12 13 Razoavelmente recuperado 14 15 Bem recuperado 16 17 18 19 20 Muito bem recuperado Muito, muito bem recuperado Fonte: Adaptado Kentta e Hassmen (1998) 3.5.6 Escala de Humor Brasileira Uma avaliação do estado de humor das atletas foi realizada por meio da Escala de humor Brasileira (BRAMS) (MIRANDA et al., 2008). Esse instrumento consiste de 24 itens e 6 sub-itens avaliando o humor: vigor, fadiga, tensão, depressão, raiva e 73 confusão. Cada item é ranqueado em uma escala Likert que varia de 0 (nada) a 4 (extremamente) e os respondentes devem indicar como se sentem naquele momento (ANEXO 2). Esse instrumento foi validado para a língua portuguesa por Miranda et al. (2008). Contudo, uma vez que a maioria das atletas indicou valores diferentes de zero apenas para fadiga e vigor, foram reportados os dados apenas desses dois sub-itens. 3.5.7 Questionários Para monitoramento das condições relacionadas ao ciclo menstrual, um questionário foi incluído no meio da temporada competitiva. Dessa forma, as atletas responderam as seguintes questões nos momentos pré, 24, 48 e 72 h após os jogos (estudo 1 e 3) e nos momentos pré, pós, 24 e 48 h após a realização da sessão de treino de força (estudo 2): 1) Você está menstruada? 2) Se sim, fez uso de algum remédio para cólica? Qual? 3) Qual foi a data do primeiro dia da sua última menstruação? 4) Fez uso de algum remédio para cólica nos últimos 3 meses? Qual? Quando? 5) Você faz uso de anticoncepcional? Se sim, qual? 3.6 Procedimentos no dia dos jogos e monitoramento da carga de jogo No dia dos jogos foi realizada coleta de urina das atletas para verificar o estado de hidratação das mesmas por meio de um refratômetro portátil (Uridens Inlab, São Paulo, Brasil) e registrada a massa corporal antes e após o jogo por meio de uma balança digital (G-Tech Glass 10, China). Água ad libitum foi permitida durante o jogo. As atletas utilizaram um monitor de frequência cardíaca (Firsbeat 1425652, Firstbeat Technologies Oy, Finlândia) para registro da frequência cardíaca média, máxima e percentual da frequência cardíaca máxima (%FCmax). Além disso, foram 74 monitoradas por meio do sistema de posicionamento global (GPS), com uma frequência de amostragem de 5 Hz (QStarz BT-Q1300ST, Qstarz International Co., Ltd., Taiwan) para registro da distância total e distânciapercorrida em diferentes intensidades (alta: >18 km.h-1, moderada: 10 a 18 km.h-1 e baixa: 0 a 10 km.h-1) (adaptado de KRUSTRUP et al., 2005). Especificações do instrumento (QStarz BT- Q1300ST) para dados de acurácia: a precisão da posição é 3,0 m 2D-RMS sem auxílio ou <3m CEP (50%) sem SA (horizontal); Com DGPS (WAAS, EGNOS, MSAS) a precisão da posição é 2,5 m. A precisão da velocidade é 0,1 m/s sem auxílio e 0.05 m/s com DGPS (WAAS, EGNOS, MSAS). Tempo 50 ns RMS. Datum WGS-84. A temperatura ambiente e umidade relativa do ar também foram registradas durante o jogo, a cada 15 min, por meio de um termo-higrômetro digital (TTH100, Incoterm®, Brasil). 3.7 Protocolo de Treinamento de Força O protocolo de treino de força consistiu nos exercícios half-squat, jump squat, deadlift e lunges, com ênfase no treinamento de potência. As atletas realizaram o movimento o mais rápido possível, com foco em uma rápida extensão de quadril. Dessa forma, as atletas foram orientadas a realizar a fase concêntrica com velocidade explosiva e a fase excêntrica em dois segundos. Foram realizadas 3 séries de 6 repetições com intensidade de 50% de 1RM e um período de recuperação de 3 minutos entre as séries (DE HOYO et al., 2016). Justificando o protocolo adotado, tem sido reportado na literatura protocolos semelhantes com baixos a moderados percentuais de 1RM e alta velocidade (4-8 repetições por série, a 45-60% de 1RM) (FRANCO-MARQUEZ et al., 2015; RODRIGUEZ-ROSELL et al., 2016; TORRES-TOLEDO et al., 2016) na rotina de jogadores de futebol. Além disso, esse protocolo é semelhante a sessões de treino de força que atletas de futebol são submetidos durante o período competitivo. Para analisar o desempenho na STF nas condições do estudo 3 (STF24h e STF48h), o exercício agachamento (half-squat) foi realizado sobre uma plataforma de força (PLA3–1D-7KN/JBA Zb; Staniak; Warsaw, Poland). A frequência de 75 amostragem foi configurada para 400 Hz. O software Max (Universal Programme for Measurement Maintance by Integrated Amplifires, versão 5.5) foi utilizado para registro dos dados. Inicialmente foi realizado procedimentos de calibração com valores de referência de 0, 10, 30, 50 e 80 kg. Após coleta dos dados, a opção smooth foi selecionada e um filtro de 60 Hz foi passado automaticamente pelo programa. Os dados foram então importados em arquivos de texto e convertidos de DAX para ASCII utilizando o SPSS. Após salvo, o arquivo foi alterado de .dat para .asc, tornando-se compatível com o programa de análise. O software Data Acquisition System Laboratory (DASYLab, versão 11.0) foi utilizado para análise dos dados. A força média e a força pico das seis repetições de uma série foram analisadas. O início e fim de cada repetição foram definidos quando a força de reação do solo fosse equivalente ao peso corporal somado ao peso da barra e anilhas (peso do sistema). A taxa de desenvolvimento da força (TDF) foi definida como a variação (delta) da força (força pico menos força do sistema), dividido pela variação do tempo (tempo até alcançar a força pico) (n=8). A figura 3.7 ilustra como a análise dos dados foi realizada para a TDF. O cursor da esquerda foi posicionado no valor de força referente ao peso do sistema (F=1298,65 N e Tempo=11,64 s), ao passo que o cursor da direita foi posicionado no valor máximo de força atingido, ou força pico (F=1673,49 N e Tempo=11,94 s). A TDF foi então calculada pela razão entre o delta de força e o delta de tempo resultando em 1249,47 N/s. 76 FIGURA 3.7 Curva força x tempo para o exercício agachamento Fonte: fotografia da autora Para avaliar a percepção subjetiva de esforço da sessão de treinamento de força, as atletas responderam a seguinte pergunta: ―Como foi sua sessão?‖, e apontavam um valor na escala proposta por Foster et al. (2001) aproximadamente 30 min finalizada a sessão de força (estudo 2). 3.8 Análise estatística Inicialmente foram verificados os pressupostos de normalidade e esfericidade dos dados, por meio dos testes de Shapiro-Wilk e Mauchly, respectivamente. Quando violada, correção de Greenhouse-Geisser foi utilizada. Para análise descritiva dos dados foram utilizados valores médios e respectivos desvios padrão. O nível de significância adotado foi de α=0,05. Análise do CCI2,1 (ANOVA two-way random effects com concordância absoluta - absolute agreement) foi utilizada para avaliar a confiabilidade do SCM e 20 m sprint por meio do desempenho médio obtido em 77 ambos os testes em duas sessões da pré-temporada. O EPM foi calculado conforme proposto por Weir (2005). O tamanho do efeito (effect size (ES)) e intervalos de confiança foram determinados em cada estudo, por meio das planilhas “post-only crossover” disponibilizadas em http://www.sportsci.org/resource/stats/ para comparações pareadas. Valores limiares para ES foram definidos como trivial (<0.2), pequeno (0.2-0.6), moderado (0.6-1.2), grande (1.2-2.0) e muito grande (>2.0) (HOPKINS, 2000). Os dados foram analisados no programa Statistical Package of the Social Sciences versão 22.0 (SPSS Inc., Chicago, Illinois) e no programa Graphpad® (Prism 5.0, San Diego, CA, USA). Estudo 1: Anova one-way de medidas repetidas foi utilizada para verificar alterações ao longo do tempo (pré, 24, 48 e 72 h pós-jogo) nas variáveis paramétricas de monitoramento (média e melhor altura do SCM, média e melhor tempo nos 10 e 20 m de sprint) e o post hoc de Bonferroni utilizado para localizar essas diferenças. Teste de Friedman e post hoc de Dunns foram utilizados para os dados não paramétricos, tais como PCR, DOMS, TQR, fadiga e vigor. Medidas de tamanho do efeito foram apresentadas para todas as variáveis (HOPKINS et al., 2009). Estudo 2: Anova one-way de medidas repetidas foi utilizada para verificar alterações ao longo do tempo (pré, pós, 24 e 48 h pós-STF) nas variáveis paramétricas de monitoramento (média e melhor altura do SCM, média e melhor tempo nos 10 e 20 m de sprint) e o post hoc de Bonferroni utilizado para localizar essas diferenças. Teste de Friedman e post hoc de Dunns foi utilizado para os dados não paramétricos, tais como DOMS, TQR, fadiga e vigor. Medidas de tamanho do efeito foram apresentadas para todas as variáveis (HOPKINS et al., 2009). Estudo 3: Anova two-way de medidas repetidas (3x4) foi realizada para verificar diferenças nas variáveis dependentes (média e melhor SCM, média e melhor tempo nos 10 e 20 m de sprint, PCR e DOMS) entre as condições experimentais (STF24h, STF48h e Controle) e ao longo do tempo (pré, 24, 48 e 72 h pós-jogo). Post hoc de Bonferroni foi utilizado para localizar essas diferenças. Anova one-way de medidas repetidas foi utilizada para comparar as cargas de jogo entre condições experimentais. Test t foi utilizado para comparar a qualidade das STF (TDF, força http://www.sportsci.org/resource/stats/ 78 média e força pico) entre as condições (STF24h e STF48h). Medidas de tamanho do efeito foram apresentadas para todas as variáveis (HOPKINS et al., 2009). 79 4 STUDY 1 POST-MATCH PERFORMANCE, PHYSIOLOGICAL AND PERCEPTUAL RECOVERY IN FEMALE SOCCER PLAYERS Submitted to the Journal of Strength and Conditioning Research on 23 January 2020 80 Abstract The aim of this study was to quantify the 72 h post-match recovery profile, of female soccer players, including use of best vs mean performance effort to infer physical recovery. Fifteen professional Brazilian female soccer players undertook testing prior to and at 24, 48 and 72 h post-match. Tests included countermovement jump (CMJ) and 20 m sprint, with best and mean efforts analysed. C-reactive protein (CRP) analyses, and perceptual measures, such as delayed onset muscle soreness (DOMS), total quality of recovery (TQR) and Brazilian MoodScale (Fatigue and Vigor) were collected. One-way repeated-measures ANOVA, Friedman test and Effect size (ES) analyses compared the time-course of recovery. Significance was accepted at α=0.05. Mean post-match CMJ height was reduced at 24 h (p<0.05, ES=-0.45), though best effort was still reduced at 48 h (p<0.05, ES=-0.33). Both mean and best 20 m sprint time were slower until 48 h post-match (p<0.05, ES=0.68; p<0.05, ES=0.73, respectively). CRP was increased until 24 h (p<0.05, ES=0.78), returning to baseline by 48 h. DOMS peaked at 24 h (ES=0.14), although did not differ to pre (p<0.05). TQR and vigor were significantly reduced at 24 h post-match (p<0.05, ES=-1.92; p<0.05, ES=-0.42; respectively), while fatigue was significantly increased (p<0.05, ES=0.37). In conclusion, reductions in speed and power were evident until 48 h post-match, while physiological and perceptual responses were altered until 24 h in female soccer players. Finally, best effort of power is more likely to inform physical recovery status of speed or power in the 72 h post-match. Keywords: football, women, fatigue. [Production Note: This paper is not included in this digital copy due to copyright restrictions.] 97 5 STUDY 2 RECOVERY TIMELINE FOLLOWING RESISTANCE TRAINING IN PROFESSIONAL FEMALE SOCCER PLAYERS Published in Science and Medicine in Football. 98 Abstract Objective: Determine the time-course of recovery after a resistance training session (RT) in female soccer players. Methods: Ten Brazilian female professional soccer players undertook testing prior to and at immediately, 24 and 48 h post-RT. RT was a high-speed and low-load session, consisting of three sets of six repetitions of lower body exercises at 50% 1RM. Tests included countermovement jump (CMJ) and 20 m sprint, with the best and mean efforts recorded. Delayed onset muscle soreness (DOMS), total quality recovery (TQR) and Brazilian Mood Scale (BRAMS) were collected. Repeated measures ANOVA with effect sizes (ES) assessed the time-course of recovery (α=0.05). Results: Mean and best CMJ performance decreased immediately post-RT (p<0.05, ES=-0.49; -0.65) though no significant differences and trivial-small effects existed at 24h (p>0.05, ES=−0.15; −0.08) and 48 h (p>0.05, ES=0.14; −0.21). No significant differences and trivial-small effects were evident at any time for mean or best 10 m (p>0.05, ES=−0.18–0.26) or 20 m (p>0.05, ES=−0.08–0.19) performance. DOMS, TQR, fatigue and vigor did not change following RT (p>0.05; ES=-0.51-0.48). Conclusion: Light-load, high-speed RT induces only small, immediate changes in CMJ, without prolonged suppression of recovery parameters. Such training seems feasible for inclusion in competitive micro-cycles at least 24 h prior to the next match. Keywords: power training, women, soccer, fatigue. [Production Note: This paper is not included in this digital copy due to copyright restrictions.] View/Download from: Publisher's site https://doi.org/10.1080/24733938.2020.1737724 113 6 STUDY 3 POST-MATCH RESISTANCE TRAINING IN FEMALE FOOTBALLERS; WHEN IS THE BEST TIME TO TRAIN? Submitted to the International Journal of Sports Physiology and Performance on 22 November 2019. 114 Abstract Purpose To examine the effect of high-speed, low-load resistance training (RT) performed 24 or 48 h post-match on recovery in female soccer players. Methods In a randomized cross-over design, ten professional female soccer players undertook matches followed by three conditions; Control (no RT), RT-24h and RT-48h post- match. RT was a high-speed and low-load session, consisting of 3 sets of 6 repetitions of lower-body exercises at 50% 1RM. A half-squat was performed on a force platform to compare quality of RT. Tests were undertaken prior to and at 24, 48 and 72 h post-match and included repeated trials of countermovement jump (CMJ) and 20 m sprint, with best and mean efforts analyzed. Further, C-reactive protein (CRP) and delayed onset muscle soreness (DOMS) were collected. Two-way (3x4) repeated-measures ANOVA and Effect size (ES) analyses compared the time-course of recovery. Results Despite no significant differences (p>0.05) existing between conditions, ES for changes from pre to 72 h were larger for mean and best CMJ, 10 and 20 m sprint time, and DOMS in RT48h (ES=0.34-2.13) than in RT24h (ES=0.06-0.68) and in Control (ES=0.03-0.36). Contrarily, CRP changes from pre to 72 h tended to be larger in Control (ES=0.67) than in RT24h (ES=0.19) and RT48h (ES=0.01). No differences in the rate of force development, mean and peak force of half-squat exercise existed between conditions (p>0.05; ES=0.05-0.43). Conclusion The time-course of post-match recovery in female soccer players suggests RT48h is less ideal during congested micro-cycles given the trend for suppressed recovery on speed, power and perceptual responses at 72 h post-match. Keywords: strength training, women, soccer, fatigue, recovery. [Production Note: This paper is not included in this digital copy due to copyright restrictions.] 133 7 DISCUSSÃO O estudo 1 investigou a recuperação até 72 h pós-jogo por meio de variáveis físicas, fisiológicas e respostas perceptivas em atletas profissionais de futebol feminino. De maneira geral, as variáveis de desempenho físico retornaram aos valores basais dentro de 72 h, enquanto a PCR e as respostas perceptivas retornaram aos valores pré-jogo dentro de 48 h, o que enfatiza a natureza multifatorial do processo de recuperação. Dentre os principais achados, destaca-se que, quando considerada a média das tentativas, o desempenho do SCM no momento 48 h já havia retornado a valores basais, enquanto a melhor tentativa (desempenho) do SCM apresentou um padrão de recuperação mais lento (72 h), o que, provavelmente, informa o status real de recuperação física. Dessa forma, a recuperação pós-jogo em atletas mulheres de futebol ocorre, geralmente, dentro de 72 h, embora algumas jogadoras necessitem de um tempo maior ou menor de recuperação, o que demonstra influência da individualidade e da natureza da variável investigada no processo de recuperação. Enquanto o desempenho médio no SCM estava reduzido 24 h pós-jogo, quando avaliado valores do melhor salto essa redução prevaleceu por até 48 h. No futebol feminino, Andersson et al. (2008) verificaram uma redução na altura do SCM (melhor tentativa analisada) por até 69 h. Dessa forma, a recuperação mais rápida para o SCM, talvez seja explicada pela menor distância percorrida em alta intensidade pelas atletas do presente estudo (120 ± 88 m), comparado ao estudo de Andersson et al. (2008) (1090 ± 200 m). Em jogadores homens, reduções no desempenho do SCM já foram verificadas até 24 (FATOUROS et al., 2010; SILVA et al., 2013), 48 (ISPIRLIDIS et al., 2008, ROMAGNOLI et al., 2015; RUSSEL et al., 2015) ou 72 h pós-jogo (NÉDÉLEC et al., 2014; MAGALHÃES et al., 2010). Essa redução no desempenho do SCM pós-jogo pode ser explicada pela demanda de ações que contemplam o ciclo de alongamento-encurtamento e pela natureza explosiva das cargas de jogo (NEDELEC et al., 2014). A menor carga reportada no presente estudo, quando comparada tanto a estudos com homens quanto com mulheres, é, provavelmente, a explicação para o retorno mais rápido a valores basais observados no desempenho do salto. 134 Ainda no estudo 1, tanto o tempo médio das tentativas quanto o melhor tempo no sprint de 20 m estavam mais elevados 48 h após o jogo. Durante a fase de aterrisagem na corrida, a flexão do quadril e a extensão do joelho são desaceleradas pelo trabalho excêntrico dos isquiotibiais, produzindo alta tensão e dano muscular estrutural (ISPIRLIDIS et al., 2008; FATOUROS et al., 2010). Apesar das menores cargas de jogo já relatadas no presente estudo (menor distância percorrida em alta intensidade),o aumento no tempo de sprint foi similar (3%), embora de maior duração (5 h vs 48 h) comparado ao outro estudo com atletas do sexo feminino (ANDERSSON et al., 2008). Esses resultados mostram que, embora a magnitude da fadiga induzida pelos jogos no desempenho do sprint seja semelhante, a resposta de recuperação dos jogadores foi diferente. Essas diferenças na recuperação podem ser atribuídas às características específicas dos jogadores de futebol, como nível físico do jogador ou nível da partida (RAMPININI et al., 2011). Comparativamente, em alguns estudos com atletas homens de futebol não foi verificada diferença em sprints de 5 e 30 m durante o período pós-jogo (SILVA et al., 2013), enquanto outros relatam tempos de 20-40 m maiores até 24 h pós-jogo (RAMPININI et al., 2011); ou ainda 48 – 72 h (STONE et al., 2014; FATOUROS et al., 2010; ASCENSÃO et al., 2008; MAGALHÃES et al., 2010). Novamente, esses achados mostram que a variação na carga de jogos, tais como a quantidade de movimentos de aceleração e desaceleração realizados por homens e mulheres, bem como características individuais de jogadores de futebol poderiam explicar tal inconsistência na literatura. É importante ressaltar que o tempo nos 10 m iniciais de sprint foi semelhante em todos os momentos pós-jogo, o que sugere que o aumento no tempo dos 20 m não foi devido a prejuízos na fase de aceleração, apesar de reduções verificadas no SCM. Dessa forma, o desempenho no sprint (ambos, média e melhor tempo) retorna a valores pré-jogo dentro de 72 h em atletas profissionais de futebol feminino. A PCR é uma proteína de fase aguda frequentemente usada como marcador de inflamação (MERINO et al., 2015). Os resultados do estudo 1 estão de acordo com a literatura que reporta que um jogo de futebol induz uma elevação acentuada, porém transitória, da PCR 24 h pós-jogo (aumento de 120 a 150%) em ambos, homens (ISPIRLIDIS et al., 2008; SOUGLIS et al., 2015; SOUGLIS et al., 2018) e mulheres (GRAVINA et al., 2011; SOUGLIS et al., 2015; SOUGLIS et al., 2018). Souglis et al. 135 (2018) mostraram valores mais altos de PCR para homens em comparação a mulheres. Esses autores justificaram o menor dano e inflamação muscular devido à menor distância percorrida em alta intensidade, além de menor aceleração e desaceleração realizadas pelas mulheres. No estudo 1 foi demonstrado aumento dos valores de PCR em 24 h, embora a não padronização do período menstrual possa ter impactado este achado, uma vez que a PCR encontra-se elevada durante o início da fase folicular (CHAIRETI et al., 2016). Independentemente do possível viés, a PCR retornou a valores basais dentro de 48 h em mulheres atletas de futebol. Respostas perceptivas, incluindo TQR, fadiga e vigor, retornaram a valores pré-jogo dentro de 48 h. Nenhum outro estudo com atletas de futebol feminino relata essas variáveis após jogos de futebol, dificultando comparações. No entanto, a redução da TQR 24 h após o jogo verificada no estudo 1 se compara à relatada em jogadores de futebol masculino (NÉDÉLEC et al., 2014) (13,3 ± 2,8 e 13,6 ± 1,7 UA, respectivamente). Também foi relatado um aumento significativo na fadiga 24 h após o jogo em homens (NÉDÉLEC et al., 2014), embora, em vez de BRUMS, a fadiga tenha sido mensurada por meio de índices de bem-estar, juntamente com sono, estresse e DOMS (NÉDÉLEC et al., 2014). Os valores pico da DOMS foram verificados 24 h após o jogo, corroborando os achados de Andersson et al. (2008) e Nédélec et al. (2012). Embora diferenças significativas para alterações na DOMS não tenham sido verificadas no estudo 1, há evidente variabilidade na DOMS pré e pós-jogo, que pode ser devido às sessões de treinamento prévias ou à fadiga induzida pelo acúmulo de jogos devido a competições concorrentes. Independentemente disso, parece que as respostas perceptivas relacionadas à recuperação retornam a valores pré-jogo dentro de 48 h em atletas mulheres de futebol. A inconsistência entre o perfil (magnitude e duração) da recuperação entre indivíduos e entre as variáveis investigadas nos estudos mencionados dificulta conclusões definitivas sobre essa temática no futebol, embora dados baseados em respostas de grupo revelem que a maioria das variáveis de monitoramento em homens permanece alterada até 72 h (NÉDÉLEC et al., 2014; MAGALHÃES et al., 2010; FATOUROS et al., 2010; ASCENSÃO et al., 2008; SILVA et al., 2017), e no sexo feminino essa alteração ocorre até 48 h. Como dito anteriormente, a aparente 136 recuperação mais rápida nas mulheres pode ser explicada pela menor carga e trabalho excêntrico que as mulheres realizam durante os jogos (SOUGLIS et al., 2018; STOLEN et al., 2005; DATSON et al., 2014). Além disso, parece que a distância total e a distância percorrida em alta intensidade pelas atletas do estudo 1 foram menores que as relatadas na literatura para atletas de futebol feminino (DATSON et al., 2014). Ainda, a variabilidade individual foi evidente em todas as variáveis analisadas (conforme representado graficamente). Apesar das respostas médias do grupo, algumas atletas apresentaram respostas pós-jogo distintas, reforçando a natureza individual da recuperação. Embora o estudo 1 tenha confirmado a natureza multifatorial da recuperação por meio da resposta pós-jogo distinta entre as variáveis em jogadoras de futebol, uma limitação notável foi o pequeno tamanho amostral e número de partidas analisadas. Isso consiste, contudo, em uma limitação com testes ecológicos válidos em clubes profissionais e, portanto, representa um estudo de caso de jogadores de uma equipe. Estudos futuros devem investigar a cinética da recuperação pós-jogo em um grupo maior de jogadoras para permitir que relações mais detalhadas sejam determinadas com as cargas de jogo. No estudo 2 foi investigada a recuperação após uma sessão de treino de potência em atletas de futebol feminino, por meio do desempenho físico e respostas perceptivas. Os resultados mostraram que este tipo de STF não afetou o desempenho físico nas 48 h após o treino. Por exemplo, apenas pequenas e imediatas alterações no SCM foram evidentes, sem reduções no desempenho do sprint ou nas respostas perceptivas nas 48 h após a STF. Tais achados indicam que uma sessão isolada de treino de força, mais especificamente uma sessão de treino de potência, pode ser prescrita durante microciclos competitivos sem efeitos adversos sobre o status de fadiga subsequente. Estudos anteriores demonstraram que protocolos de treinamento de força (TF) de alta velocidade e baixo a moderado percentual de 1RM provocam adaptações crônicas que melhoram a força, potência, velocidade e desempenho físico, o que seria relevante para o desempenho no futebol (FRANCO-MARQUEZ et al., 2015; NEGRA et al., 2016; RODRIGUEZ-ROSELL et al., 2016). Esses estudos ressaltam a 137 importância de incluir programas de TF na rotina de treinamento para melhorar as capacidades físicas relacionadas à velocidade e potência (GONZALEZ-BADILLO et al., 2015; RODRIGUEZ-ROSELL et al., 2016; FRANCO-MARQUEZ et al., 2015). Contudo, em semanas de jogos ou durante calendários congestionados no futebol, é importante garantir que o TF não afete a recuperação para os próximos jogos. No estudo 2, nenhum declínio no desempenho físico ocorreu 24 ou 48 h após a STF, sugerindo que este tipo de protocolo não induz uma fadiga residual que poderia prejudicar o desempenho na velocidade ou potência em sessões subsequentes. Em estudos recentes foi relatado que o TF de alta velocidade e baixo percentual de 1RM produz baixa fadiga (FRANCO-MARQUEZ et al., 2015; GONZALEZ-BADILLO et al., 2015; RODRIGUEZ-ROSELL et al., 2016), porém, tais estudos não quantificaram a magnitude da fadiga. Além disso, o estudo 2 foi o primeiro a quantificar a recuperação pós-STF em atletas do sexo feminino, uma vez que relatosanteriores se limitam a atletas homens (KESOGLOU et al., 2009; DRAGANIDIS et al., 2014). Independentemente disso, os achados do estudo 2 corroboram Draganidis et al. (2013), que sugeriram que jogadores de elite se recuperam dentro de 24 h após uma sessão de treinamento de força semelhante. As respostas de recuperação física (SCM e sprint) foram semelhantes quando a média ou o melhor desempenho foram considerados. Tal resultado pode ser atribuído à baixa magnitude de fadiga induzida pela STF. A única variável que apresentou alterações significativas imediatamente pós-STF foi o SCM, provavelmente devido ao fato de que o protocolo de TF caracterizou-se, principalmente, por um padrão de movimento vertical, por meio de exercícios de agachamento, squat jump, deadlift e lunges (ARCOS et al., 2014). Dessa forma, a fadiga leve e transitória induzida imediatamente pós-STF talvez tenha desenvolvido apenas no componente de força vertical, devido à especificidade com os exercícios. Por essa mesma razão, o desempenho no teste de 10 e 20 m de sprint, com o componente horizontal de força predominante, não foi afetado durante o pós-STF (imediatamente pós à 48 h) (ARCOS et al., 2014). Consequentemente, é possível que atletas de futebol feminino realizem uma sessão isolada de treinamento de força, mais especificamente um protocolo de potência muscular, dentro de 48 h prévias a um jogo, considerando que o desempenho físico não será indevidamente afetado, embora o uso dessas sessões no pós-jogo ainda precisa ser investigado. 138 Respostas perceptivas incluindo DOMS, TQR, fadiga e vigor não foram alteradas imediatamente pós-STF e nenhuma fadiga prolongada nessas respostas foi observada. Índices subjetivos de fadiga e TQR têm sido reportados em jogadores profissionais homens, após simulação de exercícios específicos para o futebol, sem diferenças ao longo do tempo para TQR e um aumento na percepção de fadiga imediatamente após o exercício (NÉDÉLEC et al., 2013). Contudo, tais comparações entre estudos são limitadas devido à natureza distinta entre as sessões de treinamento (sessão de treino de potência muscular vs 90 min de um teste de campo aeróbico específico para o futebol). Dessa forma, os resultados do estudo 2 sugerem que uma sessão de treino de potência pode ser usada como parte inicial de uma sessão de treinamento, sem alterações na percepção de recuperação. Estudos tem reportado que o pico da DOMS ocorre 48 h pós-STF em homens fisicamente ativos após protocolos de repetições máximas (de 0,2 ± 0,3 a 3,4 ± 2,0; p<0.001) e repetições forçadas (de 0,2 ± 0,3 a 3,7 ± 2,9; p<0.001) (AHTIAINEN et al., 2003) e após protocolos de saltos em profundidade e exercícios para isquiotibiais (SARABON et al., 2013). Nas atletas do estudo 2, o pico da DOMS também ocorreu 48 h pós-STF (de 1,3 ± 1,4 a 2,8 ± 2,1), embora os valores tenham permanecido comparativamente baixos. Em atletas homens de futebol, a DOMS apresentou pico 48 h após um protocolo de maior intensidade (4-6 repetições por série, a 85-90% de 1RM) e 24 h após protocolo de menor intensidade (8-10 repetições por série, a 65- 70% de 1RM) (DRAGANIDIS et al., 2013), sugerindo que as respostas de DOMS variam com a intensidade. Por fim, valores pequenos de DOMS foram evidentes mesmo considerando que as atletas estavam retornando de um período de duas semanas de férias e uma sessão técnico-tática tenha sido realizada após os testes no momento 24 h pós-STF. Apesar dos novos achados em atletas de futebol feminino, o estudo 2 apresenta algumas limitações. A falta de controle em relação a alguns aspectos metodológicos, tais como a sessão técnico-tática na rotina de treinamento durante a coleta de dados consiste em uma principal limitação ao se realizar pesquisa no futebol profissional (HELGERUD et al., 2011). Outra limitação consistiu no fato da STF ter sido realizada em atletas em condições descansadas, condição essa rara em microciclos 139 competitivos, caracterizados pela fadiga induzida pelo acúmulo de jogos e sessões de treinamento. Dessa forma, estudos futuros devem investigar atletas de futebol feminino nesse contexto, após fadiga induzida por STF e por jogos durante microciclos competitivos. Por fim, para suprir a lacuna supracitada, o estudo 3 comparou o perfil de recuperação quando uma STF (protocolo para treino de potência muscular) foi realizada 24 ou 48 h após jogos de futebol feminino. A hipótese do estudo 3 era de que a condição STF48h seria a opção mais adequada para uma microciclo competitivo, considerando que em 24 h as atletas ainda estão com fadiga residual decorrente do jogo. Também era esperado que a STF proposta no presente estudo não causaria efeitos residuais por mais de 24 h, assim como demonstrado no estudo 2 e corroborando os achados de Kesoglou et al. (2008) e Draganidis et al. (2013). Contudo, tal hipótese foi refutada, e observou-se que, quando realizada no pós-jogo, uma STF apresenta um efeito residual mais prolongado. Dessa forma, apesar de não terem sido verificas diferenças significativas entre condições, maiores tamanhos do efeito foram evidentes para reduções (em relação ao pré-jogo) em medidas de desempenho de velocidade e altura do salto, além de aumento das respostas perceptivas no momento 72 h para a condição STF48h, comparado a STF24h e Controle. Como consequência, STF48h parece ser a situação menos adequada durante microciclos congestionados, devido a tendência de supressão na recuperação 72 h pós-jogo. Além disso, a ausência de carga de treinamento (Controle) promoveu a melhor recuperação no momento 72 h, e, portanto, dependendo das cargas de jogo, a prescrição de uma STF talvez seja melhor implementada 24 h pós-jogo durante microciclos competitivos. Outro importante achado, consiste que valores de TDF, força média e força pico produzidos no exercício agachamento não foram significativamente diferentes, independente do tempo pós-jogo em que foi realizada a sessão (STF24h ou STF48h). As cargas internas e externas de jogo reportadas no estudo 3, embora tenham sido menores comparados a outros estudos com futebol feminino (ANDERSSON et al., 2008), foram semelhantes entre todas as condições e resultaram em perfis de fadiga semelhantes em todas as condições. Especificamente, o desempenho no SCM e sprint estavam reduzidos até 24 h (média das tentativas no SCM), 48 h (melhor 140 desempenho no SCM) e 72 h (média e melhor tempo em 20 m de sprint). Curiosamente, o tempo médio e melhor tempo nos 10 m iniciais de sprint estavam maiores até 72 h apenas nas condições STF24h e STF48h. Como consequência, o perfil temporal de redução no desempenho físico se ajusta a tendência esperada de fadiga pós-jogo (SILVA et al., 2017); embora talvez não seja tão exacerbado como aqueles previamente demonstrados na literatura em atletas de futebol feminino, com maiores cargas de jogo, resultando em reduções no desempenho do SCM por até 69 h (ANDERSSON et al. 2008). Dada a redução na velocidade e desempenho do salto verificados no estudo 3, inserir uma STF no intervalo de 24-48 h pós-jogo estabelece um contexto ecológico para verificar o efeito e a prescrição do TF na recuperação pós-jogo durante microciclos competitivos. Os resultados do estudo 3 não revelaram diferenças no desempenho do SCM entre condições experimentais, quando uma STF é realizada 24 ou 48 h pós-jogo. Contudo, maiores tamanhos de efeito (embora ainda pequenos) foram evidentes entre pré e 72 h na condição STF48h (ES=-0.38, ES=-0.34) comparado a STF24h (ES=0.08, ES=-0.06) e Controle (ES=0.09, ES=0.05) para média e melhor SCM, respectivamente. Indiscutivelmente, o tamanho do efeito reportado aqui pode não levar a conclusão de que o TF foi um grande impedimento na recuperação pós-jogo do SCM. Corroborando essa ideia, Kesoglou et al. (2008) verificaram que a alturado salto não diferiu significativamente ao longo do tempo, após 24-48 h uma STF. Mais relevante para o futebol, o desempenho em habilidades específicas (testes de chute e passe) reduziram apenas imediatamente após STF (DRAGANIDIS et al., 2013). No entanto, ambos os estudos foram realizados em homens em condições descansados para concluir que o efeito residual do exercício dura menos que 24 h em jogadores de futebol. No estudo 3 foi verificado tamanhos de efeito negativos de pequeno a moderado com a inclusão de uma STF 48 h pós-jogo na recuperação da potência (SCM) de membros inferiores em mulheres, e, dessa forma, sugere cautela na prescrição de TF neste momento durante calendários congestionados no futebol. O desempenho no sprint é considerado importante para o sucesso em um jogo de futebol (FAUDE, KOCH & MEYER, 2012) e não foi significativamente diferente entre condições, independente do tempo que a STF foi realizada. Contudo, tamanhos do efeito grande e muito grande foram verificados em STF48h (ES<2.13) para reduções 141 na média e melhor desempenho de 10 e 20 m de sprint linear no momento 72 h. Consequentemente, esse achado adiciona evidências de que STF48h é a condição menos adequada em comparação a STF24h (ES<0.79) e Controle (ES<0.30). Quando o tempo no sprint foi investigado após protocolos de treinamento de força (60 e 80% de 1RM com perda de velocidade de 20 e 40%) em homens fisicamente ativos, foram observados tempos de 20 m de sprint mais lentos imediatamente após o exercício, mas não nas 24 ou 48 h após (PAREJA BLANCO et al., 2019). Apesar da fadiga de curto prazo reportada na velocidade (PAREJA-BLANCO et al., 2019), quando uma STF é adicionada ao contexto do pós-jogo, a redução no desempenho da velocidade dura mais tempo. Assim, considerando que durante microciclos competitivos jogos de futebol geralmente são realizados em um intervalo de 72 h, a condição STF48h é a prescrição menos favorável para uma recuperação ótima nesse contexto. Como esperado, a PCR alcançou valores pico 24 h pós-jogo para todas as condições, embora a falta de diferença significativa ofusque qualquer efeito da STF no pós-jogo. Além disso, a STF realizada 24 ou 48 h tem um efeito limitado no perfil de recuperação pós-jogo da PCR. Draganidis et al. (2013) verificaram maiores valores de PCR imediatamente e 24 h pós-STF, com o grupo de maior intensidade (4-6 repetições por série a 85-90% de 1RM) apresentando maiores valores de PCR que o grupo de menor intensidade (8-10 repetições por série a 65-70% de 1RM), indicando um efeito dependente da intensidade. Independente disso, o estímulo do jogo é, provavelmente, a principal causa de alteração na PCR (SOUGLIS et al., 2018) e a similaridade nas cargas externas de jogo entre condições da suporte a essa afirmação. Uma consideração importante para estudos com mulheres é que a PCR é maior durante o início da fase folicular (CHAIRETI et al., 2016), embora apenas uma atleta tenha relatado menstruação durante a condição Controle. Independentemente, uma STF (protocolo de potência muscular) realizada dentro de 48 h pós-jogo não afetou a recuperação da PCR. Espera-se aumento da DOMS no pós-jogo (ANDERSSON et al., 2008), e tal resultado foi verificado 24 h pós-jogo em todas as condições do estudo 3. Quando uma STF foi incluída no pós-jogo, maiores tamanhos do efeito entre pré e 72 h foram verificados para STF48h (ES=0.69) comparado a STF24h (ES=0.25) e Controle 142 (ES=-0.11); sugerindo uma pior percepção de dor após STF48h, embora os efeitos negativos tenham sido apenas moderados. Da mesma forma, embora fora do contexto de jogos, Draganidis et al. (2013) verificaram aumento da DOMS 24 h após protocolo de exercício (8-10 repetições por série a 65-70% de 1RM), enquanto Kesoglou et al. (2008) relataram maiores valores apenas imediatamente após o treinamento de força. Portanto, respostas perceptivas maiores as 72 h também sustentam que, em um microciclo competitivo, realizar uma STF 24 h antes do jogo (STF48h) é a condição menos favorável em comparação a STF24h ou nenhum treinamento adicional (Controle). Dados normativos para o exercício agachamento em plataforma de força mostraram que o intervalo entre o jogo e a sessão de treinamento não influenciou no desempenho durante o treino, uma vez que não foi encontrada diferença significativa na taxa de desenvolvimento de força, força média e pico gerados nas sessões realizadas 24 e 48 h pós-jogo, embora tamanho de efeito pequeno (ES=0.43) para TDF possa sugerir uma tendência para melhor qualidade de treino 48 h pós-jogo. Vale lembrar que os participantes foram orientados a realizar todas as ações concêntricas com a maior velocidade possível. Esses dados sugerem que, no planejamento do microciclo, quando se pensa na qualidade do treinamento de força, técnicos e preparadores físicos podem escolher qualquer um dos dois momentos para realizar o TF (24 ou 48 h pós-jogo), sem preocupações com perdas significativas do desempenho durante esse tipo de treinamento. Embora um tamanho de efeito pequeno para uma maior TDF durante STF48h possa sugerir uma melhor qualidade no treinamento dessa sessão; no contexto da recuperação pós- jogo, tamanhos de efeito muito maiores para reduções de desempenho (pré x 72 h) foram verificados nessa condição (STF48h). Dessa forma, sugere-se que profissionais do futebol considerem a realização de um treino de potência 24 h após o jogo para permitir que os atletas estejam em melhores condições de recuperação para o próximo jogo. É importante ressaltar que uma limitação do estudo 3 consiste na comparação entre diferentes jogos para as três condições experimentais, conhecido o fato da variabilidade entre jogos ser esperada (ANDERSSON et al., 2008). Contudo, todas as variáveis utilizadas para monitorar as cargas de jogo (frequência cardíaca, 143 distância total, distância percorrida em alta, moderada e baixa intensidade, número de ações e duração do jogo) não foram diferentes entre condições. Além disso, o fato dos participantes terem realizado as condições experimentais de maneira randomizada minimiza o efeito da variabilidade entre jogos. Estudos futuros devem investigar o efeito de outros protocolos de treinamento de força, como protocolos de força máxima, na recuperação pós-jogo de futebol feminino. 8 APLICAÇÕES PRÁTICAS Uma sessão de treino de potência pode ser incluída na rotina de treinamento de atletas de futebol sem preocupações com fadiga residual. Além disso, tendo em vista a baixa magnitude de fadiga gerada por esse tipo de estímulo, uma sessão de treino de potência pode ainda ser usada como parte inicial de uma sessão de treinamento, sem alterações na percepção de recuperação para um treinamento técnico-tático subsequente. Durante calendários congestionados no futebol, se as cargas de jogo não forem tão altas, sessões de treino de potência podem ser incluídas 24 h pós-jogo, garantindo uma exposição dos atletas a esse estímulo de treinamento e ainda propiciando uma recuperação mais adequada para o jogo subsequente. 144 9 CONCLUSÃO Jogos de futebol feminino induzem alterações no desempenho físico por pelo menos 48 h, enquanto a PCR e respostas perceptivas permanecem alteradas apenas 24 h após o jogo. Apesar de tais conclusões relacionadas à média do grupo, variabilidade individual permanece evidente no processo de recuperação e deve ser considerada pelos profissionais. Sessões de treinamento de força, mais especificamente protocolos de potência muscular, podem ser incluídas na rotina de treinamento de atletas de futebol feminino, tendo em vista à recuperação do desempenho físico e das respostas perceptivas de fadiga dentro de 24 h. Contudo, a realização de uma STF (treino de potência) 48 h pós-jogo, aparentemente gera efeitos negativosmaiores sobre a altura do salto, velocidade e DOMS no momento 72 h comparado à realização de uma STF 24 h pós-jogo ou da ausência de TF (Controle). Dessa forma, durante microciclos competitivos e dependendo das cargas de jogo, é sugerida a prescrição de STF dois dias antes do jogo subsequente (STF24h), a fim de proporcionar uma exposição a esse estímulo de treino e ainda garantir recuperação adequada do desempenho físico, de medidas fisiológicas e perceptivas em atletas de futebol feminino. Além disso, STF com qualidade semelhante (TDF, força média e pico) são obtidas 24 ou 48 h pós-jogo. 145 REFERÊNCIAS AHTIAINEN, J.P. et al. Acute hormonal and neuromuscular responses and recovery to forced vs. maximum repetitions multiple resistance exercises. International Journal of Sports Medicine, v. 24, n. 06, p. 410-418, 2003. ALDOUS, J.W.F. et al. 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Você está sendo convidado a participar como voluntário do estudo ―Efeito de sessões de treinamento de força na recuperação pós-jogo de atletas de futebol”. As informações abaixo contribuirão para esclarecer os seguintes aspectos: O estudo objetiva comparar o efeito de sessões de treinamento de força realizadas em diferentes momentos pós-jogo na recuperação de jogadores de futebol. A importância deste estudo é a de proporcionar aos treinadores conhecimento sobre quando realizar sessões de treinamento de força no período entre jogos. Os resultados que se desejam alcançar são os seguintes: diferentes respostas no nível de recuperação das variáveis investigadas devido a influência dos diferentes momentos em que as sessões de treinamento de força serão realizadas. Para participar deste estudo você deverá ser do sexo feminino, ser jogadora de futebol de linha filiado ao clube que irá desenvolver a parceria com o projeto de pesquisa. O estudo será realizado da seguinte maneira: Inicialmente serão realizadas medidas antropométricas de estatura, massa corporal e dobra cutânea para caracterização da amostra. As coletas serão realizadas de acordo com o calendário de competições, sendo selecionadas três partidas oficiais que deverão ocorrer aos domingos. Com o intuito de investigar o efeito de uma sessão de treinamento de força realizada após o jogo na recuperação de atletasde futebol, serão coletadas uma série de variáveis (de desempenho – por meio dos testes de salto e sprint; psicológicas – por meio de questionários de recuperação, dor muscular e percepção subjetiva de esforço; e sanguíneas – coleta de sangue do dedo por meio de uma lanceta com disparador automático para posterior análise de variáveis tais como creatina quinase, proteína C reativa e citocinas inflamatórias) nos momentos pré, 24, 48 e 72 horas após realização do jogo. A sessão de treinamento de força, por sua vez, deverá ser realizada, a cada semana, em três diferentes momentos: (1) não ser realizada em nenhum momento no período entre jogos, para caracterizar a situação controle (2) na segunda de manhã (24 horas pós-jogo) e (3) na terça feira de manha (48 horas pós-jogo). Você deverá realizar as sessões de treinamento de força nos 162 dois diferentes momentos e a situação controle, ou seja, uma situação experimental a cada semana. As coletas serão realizadas no Estádio Mário Ferreira Guimaraes, local em que já ocorre a rotina de treinamento. O tempo de coleta será de aproximadamente 2 horas por dia, dependendo da situação experimental em que você se encontrar. Os incômodos que poderá sentir com a sua participação são os seguintes: alguma dor muscular tardia devido ao exercício físico, sendo este efeito comum aos treinamentos de força e jogos de futebol e não será necessário o uso de medicamentos. Se julgar incapaz de realizar a sessão de treinamento de força você será encaminhado à avaliação médica. Os possíveis riscos à saúde física e mental são: lesões músculo-esqueléticas, que ocorrem com baixa frequência no treinamento de força a ser aplicado. Os voluntários da pesquisa, contudo, serão acompanhados durante os procedimentos por profissional de educação física que orientará de modo a minimizar a possibilidade de lesões. Caso ocorram lesões músculo-esqueléticas você será encaminhado para a equipe médica do clube ao qual pertence. Além disso, você poderá sentir algum desconforto ou dor durante a coleta de sangue para análise de variáveis bioquímicas. Esse procedimento será realizado por profissionais tecnicamente treinados e será utilizado material descartável. Os benefícios que deverá esperar com a sua participação, mesmo que não diretamente são: contribuir para o estudo do treinamento esportivo, sobretudo sobre os efeitos gerados por sessões de treinamento de força realizadas em diferentes momentos pós-jogo. Para participar deste estudo você não terá nenhum custo, também não receberá qualquer vantagem financeira. Sempre que desejar, serão fornecidos esclarecimentos sobre cada uma das etapas do estudo. A sua participação é voluntária e sobre o direito de recusa em participar, além disso, a qualquer momento, você poderá recusar a continuar participando do estudo e, também, poderá retirar este seu consentimento, sem que isso te traga qualquer penalidade ou prejuízo. Se houver necessidade, as despesas para a sua participação serão assumidas ou ressarcidas pelos pesquisadores. As informações conseguidas através da sua participação não permitirão a identificação da sua pessoa, exceto aos responsáveis pelo estudo, e a divulgação das mencionadas informações não serão liberados sem a sua permissão. 163 Finalmente, tendo compreendido perfeitamente tudo o que foi informado sobre a participação no mencionado estudo e estando consciente dos seus direitos, responsabilidades, riscos e benefícios que a sua participação implicam, você concorda em dele participar e, para isso, da O SEU CONSENTIMENTO SEM QUE PARA ISSO TENHA SIDO FORÇADO OU OBRIGADO. Endereço do(a) participante-voluntário(a) Domicílio: Bairro: CEP: Cidade: Telefone: Ponto de referência: Contato de urgência: Domicílio: Bairro: CEP: Cidade: Telefone: Ponto de referência: Endereço dos responsáveis pela pesquisa: Pesquisador responsável: Bruno Pena Couto – brunopena@yahoo.com.br Karine Naves de Oliveira Goulart (aluna de Doutorado) Instituição: UFMG / Escola de Educação Física Fisioterapia e Terapia Ocupacional / LAC - CENESP Endereço: Av. Antônio Carlos, 6627 Bairro: Pampulha. CEP. 31270-901 Cidade: Belo Horizonte / MG. Telefones p/contato: 34092326 ATENÇÃO: Para informar ocorrências irregulares ou danosas durante a sua participação no estudo, ou em caso de dúvidas sobre questões éticas, dirija-se ao: Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais: Unidade Administrativa II, 2º andar, sala 2005, Campus Pampulha Av. Antônio Carlos, 6627. Belo Horizonte / MG. CEP: 31270-901 Telefone: 3409-4592 Belo Horizonte, de de 20 . (Assinatura ou impressão datiloscópica d(o,a) voluntári(o,a) ou resposável legal - Rubricar as demais folhas) Nome e Assinatura do(s) responsável(eis) pelo estudo (Rubricar as demais páginas) 164 ANEXOS Anexo 1 165 166 167 168 Anexo 2 Title Page Ata da Defesa de Tese de Doutorado Certificate of Original Authorship Agradecimentos Resumo Abstract Lista de Publicações Inclusas na Tese (List of Papers/Publications Included) Lista de Ilustrações Lista de Tabelas Lista de Abreviatura e Siglas Sumário 1 Introdução 1.1 Objetivo geral 1.2 Objetivos específicos 1.3 Hipóteses 2 Revisão de Literatura 2.1 Caracterização do futebol 2.2 Fadiga e recuperação após jogos de futebol 2.3 Utilização do desempenho em testes físicos no monitoramento da fadiga no futebol 2.4 Dano muscular, inflamação e reparo tecidual 2.5 Dano muscular e inflamação induzidos por jogos de futebol 2.6 Respostas Perceptivas 2.7 Variabilidade entre jogos 2.8 Treinamento de força e futebol 3 Materiais e Métodos 3.1 Cuidados éticos 3.2 Sujeitos 3.3 Delineamento Experimental 3.4 Procedimentos 3.4.1 Caracterização antropométrica 3.4.2 Yo-Yo Intermittent Recovery Test 3.4.3 Teste para estimar 1RM 3.5 Procedimentos de Coleta para Variáveis de Monitoramento 3.5.1 Teste de salto com contramovimento 3.5.2 Teste de velocidade de 20 metros 3.5.3 Variáveis fisiológicas 3.5.4 Escala de Dor muscular 3.5.5 Escala de Qualidade Total de Recuperação 3.5.6 Escala de Humor Brasileira 3.5.7 Questionários 3.6 Procedimentos no dia dos jogos e monitoramento da carga de jogo 3.7 Protocolo de Treinamento de Força 3.8 Análise estatística 4 Study 1 Post-Match Performance, Physiological And Perceptual Recovery In Female Soccer Players Abstract 5 Study 2 Recovery Timeline Following Resistance Training In Professional Female Soccer Players Abstract 6 Study 3 Post-Match Resistance Training In Female Footballers; When Is The Best Time To Train? Abstract 7 Discussão 8 Aplicações Práticas 9 Conclusão Referências Apêndices Apêndice 1 Apêndice 2 Anexos Anexo 1 Anexo 2