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CORPO E MOVIMENTO - UNIDADE 1 O CORPO - SEÇÃO 1 Diana Ribeiro Tatit Maria Cecília Cerminaro Derisso CONHECIMENTO DO CORPO Apresentaremos a importância do conhecimento do corpo e uma reflexão sobre como ele pode ser representado socialmente. CONVITE AO ESTUDO Nesta unidade trataremos de algumas considerações relevantes que dizem respeito ao corpo, ao movimento e a seu espaço dentro do ambiente escolar. A necessidade de um olhar atento, crítico e reflexivo para o corpo e o movimento na escola se coloca há muito tempo dentro do contexto educacional. No cerne deste debate, a nossa atenção volta-se à seguinte indagação: estamos falando de qual concepção de corpo e movimento? Para pensarmos na prática pedagógica, precisamos ter clareza do embasamento teórico que a justifica, do contrário corremos o risco de cair em práticas mecânicas e irrefletidas, reproduzindo modelos de práticas escolares ultrapassadas. Do ponto de vista das competências previstas para a unidade, espera-se que você compreenda as concepções teóricas que sustentam o debate sobre corpo e movimento, compreendendo e reconhecendo o espaço destes na escola, com a finalidade de apresentar análises críticas entre o que é proposto pelas teorias e documentos oficiais e a prática que se efetiva no ambiente escolar. Assim, nosso ponto de partida será conhecer as definições de corpo e movimento referenciadas nos currículos oficiais. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) traz, como um de seus campos de experiência, “corpo, gestos e movimentos”, fazendo com que o corpo da criança ganhe centralidade, constituindo-se em universo privilegiado de aprendizagem, permitindo-nos, assim, refletir sobre o contexto escolar e os espaços destinados para o corpo e o movimento, construindo uma reflexão crítica acerca do lugar que ocupam na estrutura da escola nos dias de hoje. Buscaremos, a partir dessas reflexões, localizar aproximações e distanciamentos que configuram a relação entre o que postulam os referenciais oficiais e as práticas efetivadas nos contextos escolares. PRATICAR PARA APRENDER Para refletirmos sobre qualquer prática pedagógica, precisamos elucidar as concepções teóricas que a sustentam. Como bem postulado por Telma Weisz, “quando analisamos a prática pedagógica de qualquer professor vemos que, por trás de suas ações, há sempre um conjunto de ideias que as orienta. Mesmo quando ele não tem consciência dessas ideias, dessas concepções, dessas teorias, elas estão presentes” (WEISZ, 2009, p. 55). Portanto, para elaborar uma reflexão sobre o corpo e o movimento na escola, é preciso compreender seus significados e concepções, bem como a história dessas ideias; pois é só a partir da explicitação da teoria que poderemos avançar nas reflexões sobre a prática. Sendo assim, vamos aprofundar um pouco mais a questão. Segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), [...] as práticas corporais devem ser abordadas como fenômeno cultural dinâmico, diversificado, pluridimensional, singular e contraditório. Desse modo, é possível assegurar aos alunos a (re)construção de um conjunto de conhecimentos que permitam ampliar sua consciência a respeito de seus movimentos e dos recursos para o cuidado de si e dos outros e desenvolver autonomia para apropriação e utilização da cultura corporal de movimento em diversas finalidades humanas, favorecendo sua participação de forma confiante e autoral na sociedade. (BRASIL, 2017, p. 215) Mas será que nós, adultos, temos consciência dos nossos próprios limites e do nosso corpo? Afinal, o que é corpo? Se perguntarmos a uma criança o que é corpo, talvez ela responda – com a maravilhosa simplicidade característica das crianças – que é tronco, braços, pernas e cabeça. Talvez nós mesmos pudéssemos resumir em uma resposta singela – um pouco mais rebuscada, como é característica dos adultos – que se trata da parte fisiológica do ser contrapondo-se à mente. No entanto, apesar de essas definições modestas guardarem certa sabedoria instintiva e espontânea, elas nos levam a um espectro mais restrito do entendimento e das potencialidades do corpo. O aprofundamento na reflexão das representações e sentidos corporais nos possibilita a ampliação desse leque. Não há uma concepção única de corpo. A compreensão de seus significados modificou-se ao longo do tempo e varia entre as diferentes culturas. Saber disso faz com que não caiamos no engano de julgamentos ou de padrões corporais, sobretudo no que se refere às discussões sobre corpos ideais. Devemos entender que esses padrões se perpetuam em nossas práticas quando não refletimos sobre eles e quando encaramos o corpo como um tabu. Branco, negro, alto, baixo, gordo, magro, torto, esbelto, ágil, flexível, com deficiência, descoordenado, alongado, lento... Cada um com sua peculiaridade, com sua singularidade, com sua identidade. Todos com sua potencialidade, com sua expressividade. Corpo é aquilo que nos constitui materialmente. Não existe o eu e o corpo. O corpo sou eu! O corpo é o que nos dá presença e é através dele que nos relacionamos com todas as coisas que existem. Em nossa cultura – prioritariamente cognitiva e mental – nos separamos do corpo e, muitas vezes, ele passa a ser um “estranho”. Ou, quando muito, um “suporte para a cabeça”. Enxergar o corpo como uma construção cultural e validar seu potencial expressivo fará com que nós, professores, tenhamos maior unidade com nossos corpos e, por consequência, criemos condições para que as crianças também a tenham. Imagine que você leciona para uma turma de crianças entre dois e três anos de idade. Com o objetivo de permitir a essas crianças explorar seus movimentos na busca de reconhecimento de suas potencialidades e limites, você propõe uma atividade em que elas são encorajadas a pular e saltar através de diversos obstáculos. Sua coordenadora, no entanto, orienta-o com relação à atividade proposta, explicando-lhe que esta oferece perigo para as crianças e que pode lhe causar problemas caso alguma delas se machuque. Seu desafio consiste em mobilizar conhecimentos teóricos e práticos a fim de justificar à coordenadora a necessidade e a importância da atividade proposta. Nesta seção procuraremos refletir sobre o conceito de corpo e suas representações socioculturais, bem como buscar um entendimento do corpo para além de um “aparato carregador de cabeça” – como muitas vezes tem sido encarado em nossa sociedade. Vamos lá! CONCEITO-CHAVE Com base no senso comum, corpo é a parte material do ser, é a parte palpável da nossa existência; em última instância, é o que garante que nós estejamos vivos. Paradoxalmente, é também sinônimo do que fica quando a vida se ausenta. Como diria a canção: “Tá lá o corpo estendido no chão” (DE FRENTE..., 1975). Corpo também significa a parte central ou principal de um trabalho: o “corpo do texto”, por exemplo. Indica, ainda, um conjunto de pessoas que atuam juntas: o “corpo docente”. REFLITA Considerando essa variedade de entendimentos, como você definiria o que é corpo? Para aprofundarmos um pouco mais o entendimento do que vem a ser o corpo, vamos começar refletindo sobre sua etimologia: O substantivo corpo vem do latim corpus e corporis, que são da mesma família de corpulência e incorporar. Dagognet (1992:5-10) explica que corpus sempre designou o corpo morto, o cadáver em oposição à alma ou anima. No entanto, no antigo dicionário indo-iraniano teria ainda uma raiz em krp que indicaria forma, sem qualquer separação como aquela proposta pela nomeação grega que usou soma para o corpo morto e demas para corpo vivo. É daí que parece nascer a divisão que atravessou séculos e culturas separando o material e o mental, o corpo morto e o corpo vivo. Neste sentido, a noção de corpo teria de ver também com sólido, tangível, sensível e sobretudo banhado pela luz, portanto visível e com forma. Como o corpose compõe de muitos elementos acabou designando ainda tudo que está reunido como uma “corporação”. Assim, o corpo poderia ser entendido também como corpo de uma doutrina ou corpo da lógica. Já a carne ou carnal (em grego sarx e em latim caro) implicaria em keiro, do grego cortar, destacar, ”dividir a carne das bestas, os sacrifícios para refeição comum” (op. cit.). O que se percebe em todas essas nomeações é a necessidade de estabilizar algo em torno de um objeto para que este represente o que resiste ao que poderia ser desfeito – a solidez como espécie de solidariedade entre seus componentes, a coerência, a coesão e a figurabilidade ou a face própria de cada entendimento de corpo. (GREINER, 2012, p. 17, grifos do autor) Podemos pensar, então, no corpo como um conjunto – ou um sistema – em que as partes estão interligadas para que todas as ações corporais sejam realizadas. Assim, quando pensamos no corpo em movimento, por exemplo, precisamos entender que todas as suas camadas estão implicadas nessa ação: • A estrutura (óssea). • O preenchimento (muscular, gorduroso). • O invólucro (pele). ASSIMILE Para além da dimensão física, o corpo é também uma construção cultural – e sofre os efeitos de suas representações nas mais diversas sociedades. O corpo traz toda nossa memória – nele nada é esquecido. Ele carrega as marcas de nossa família, de nossa religião, de nosso sistema político, enfim, de toda nossa ideologia. A sociedade codifica o corpo e as codificações do corpo codificam a sociedade. Cada cultura e cada época investem de modo diferente sobre os corpos, construindo normas e condutas que estão ligadas ao imaginário social que as tornam possíveis. (ZOBOLI; LAMAR, 2003, p. 430) Não podemos, portanto, deixar de lado as representações socioculturais do corpo. Isso significa ponderar sobre que ideia de corpo prevalece em nosso contexto social, sobretudo se pensamos em um “corpo ideal”. EXEMPLIFICANDO Leia a seguinte matéria da Revista Veja: Como seria o corpo feminino ideal? Com o objetivo de entender os padrões de beleza nos cinco continentes, uma rede de farmácias da Grã-Bretanha pediu para 18 designers alterarem uma imagem de acordo com o padrão de beleza de seu país. [Uma] rede britânica de farmácias [...] quis entender os diferentes padrões de beleza ao redor do mundo. Para isso, criou o projeto Percepções da Perfeição (em tradução livre do inglês “Perceptions of Perfection“). O trabalho, elaborado por 18 designers de diferentes países dos cinco continentes, deveriam alterar a imagem de uma mulher com a ajuda do Photoshop, de acordo com os padrões de beleza de seu país. “As percepções de beleza e de perfeição amplamente enraizadas podem ter um impacto cultural profundo e duradouro nas mulheres. O objetivo deste projeto é entender melhor esses padrões, a maioria potencialmente irreal”, disse a empresa em um comunicado. (DA REDAÇÃO, 2015) Isabel Marques, bailarina e estudiosa da dança, relata as diversas compreensões de corpo que construiu ao longo de seu percurso, tanto como bailarina quanto como pesquisadora. O interessante é que ela foi construindo essas concepções ao mesmo tempo em que vivenciava diferentes experiências com seu próprio corpo. Em um primeiro momento, quando praticava exclusivamente o balé clássico, ela o descrevia como “corpo instrumento”. Para tanto, ela citava depoimentos e memórias de bailarinos, bem como pesquisas de alguns estudiosos que trazem “exemplos desta concepção de corpo imposta pelo balé clássico e da pressão e da tortura corporal e psicológica por que são/foram obrigadas a passar milhões de mulheres para que pudessem ‘chegar lá’, no mundo da dança” (MARQUES, 2012, p. 116). A autora cita, ainda, o filme Cisne Negro, dirigido por Darren Aronofsky, como uma contribuição cinematográfica para essa discussão. Embora não tenha vivido nada semelhante, minha paixão cega pelo balé clássico, incentivada por minhas professoras, quase me levou a tornar-me uma bailarina/pessoa dissociada de meu corpo físico enquanto corpo social. Essa visão alinha-se à concepção de corpo como instrumento da dança, como meio, “máquina” para a produção artística. O corpo nessa concepção é algo a ser controlado, adestrado e aperfeiçoado, segundo padrões técnicos que exigem do dançarino uma adaptação e submissão corporal, emocional e mental àquilo que está sendo requerido dele externamente. É o dançarino sendo visto como “material humano”, como muitas vezes escutei de alguns de meus colegas da universidade ao se referirem aos alunos e às alunas. (MARQUES, 2012, p. 116) Essa discussão avança para um debate da diferença entre possuir e ser um corpo, ou “entre um corpo que está comigo e um corpo que sou eu” (MARQUES, 2012, p. 117). Além disso, está diretamente relacionada com o tema do “corpo ideal” (no caso, para a dança clássica). No que se refere à educação, essa concepção de corpo leva ao aprimorar, controlar e vencer os limites físicos corporais; o foco é o ensino de técnicas e a alta performance – que pode ser constatado pelos inúmeros festivais e concursos de dança, nos quais o objetivo é ganhar troféus e medalhas. Após um período de distanciamento da dança, Marques relata como se deu sua percepção de outra concepção de corpo, o “corpo natural”. Regressando ao Brasil, ainda adolescente, logo busquei minha antiga academia para “entrar em forma” e continuar minha trajetória na dança, então sinônimo de balé clássico. O espelho já não respondia mais, achava-me horrível e desengonçada, meu corpo era outro (peso, forma, altura, flexibilidade). Naquela época, aconselhada pela orientadora de meu antigo colégio, descobri a expressão corporal, ou a “dança criativa”, ou o que chamam no Brasil (a meu ver erroneamente) de “método Laban”. Descobri em meu corpo o que muitos chamam de “liberdade de expressão”, “soltura”, “meu movimento natural”: podia rolar, cair, expandir, gritar, tocar os outros, sentir meu sangue correr nas veias. Descobri outro tipo de prazer ao dançar, um prazer que não estava atrelado ao masoquismo dos pés sangrando dentro das sapatilhas de ponta, mas ao contato com meu corpo físico tal qual ele era e estava. (MARQUES, 2012, p. 118) Após anos de prática do que ela chama de “modalidades criativas de dança”, percebeu que “faltava algo”. Nesse período, mudou-se para Londres para cursar o Mestrado em Dança no Laban Centre. Dessa experiência, a autora destaca que o que a marcou foi uma observação de sua orientadora, a qual afirmou que ela “precisava viver mais ‘os pés sujos e o suor do corpo’” (MARQUES, 2012, p. 120). Mas, segundo ela mesma, o entendimento dessa ideia só viria anos depois: “obviamente ela utilizara estes exemplos como metáforas, e [...] não tinha nada a ver com o imundo local de ensaio na universidade ou com o calor que eu sentia nos ensaios nos meses de verão” (MARQUES, 2012, p. 123); tratava-se da “referência a um trabalho intelectual conectado ao corpo, ao trabalho de dança que conhece o ‘corpo inteligente’” (MARQUES, 2012, p. 120). Depois do mestrado, Isabel Marques mergulhou mais no universo da educação. Durante muitos anos se dedicou à pesquisa e ao ensino do que, na época, chamava-se “dança- educação”. No entanto, paradoxalmente, foi um período de total abandono de seu próprio corpo. Só após o doutoramento, a autora se deu conta de sua própria contradição: “eu queria educar, mas não podia deixar meu corpo em segundo plano, pois ensinava justamente dança e já começava a perder a referência corporal com a minha arte” (MARQUES, 2012, p. 122). Logo tive de enfrentar na prática meus próprios preconceitos em relação ao corpo que dança e ao corpo na dança. Compreendi no corpo que minha elaboração teórica sobre a “democracia do corpo” sugerida pelos dançarinos de 1960 não bastava para aceitar meu corpo dez anos mais velho, cheio de “vícios” dos anossem trabalho específico de dança, com uma experiência artística que parecia extremamente longínqua (meu corpo não dava sinais de experiência). Durante quase um ano, só fui capaz de perceber e olhar para aquilo que não conseguia fazer; para os corpos hábeis, jovens, preparados (recém-saídos da universidade) de minhas ex-alunas, membros do nosso grupo; só conseguia administrar minhas frustrações por não ter o “corpo ideal” para voltar a dançar. (MARQUES, 2012, p. 123) A sinceridade e a profundidade com que Marques analisou suas próprias dificuldades a levaram a uma nova compreensão de seu corpo: “nesse processo, dei-me conta realmente de como meu corpo havia sido socialmente construído pelo próprio mundo da dança e que eu ainda tinha certa ‘cabeça de bailarina’ quando me relacionava com meu próprio corpo” (MARQUES, 2012, p. 123). Ela constrói, então, uma nova concepção de corpo, baseando-se em Bordo (1993 apud MARQUES, 2012): “o corpo humano [é] nele mesmo uma entidade política inscrita, sendo sua fisiologia e morfologia formados por histórias e práticas de constrição e controle”. Para concluir, Marques afirma que “nosso corpo é o amálgama, um fluxo de cruzamentos de nosso gênero, etnia, faixa etária, crença espiritual, classe social” (MARQUES, 2012, p. 124). REFLITA Todo o percurso vivenciado e refletido por Isabel Marques, em sua trajetória como bailarina e pesquisadora da dança, fez com que a autora tivesse que pensar e repensar sua relação com o corpo e seus limites e potencialidades. No entanto, a própria autora destaca as possibilidades que temos, atualmente, de modificar o corpo com cirurgias, plásticas, transplantes. “Estamos falando hoje do ‘corpo pós-humano’ na medida em que o corpo físico não é mais um limite para o ser” (MARQUES, 2012, p. 125). Que consequências essa nova realidade pode trazer para nossa compreensão de corpo? Uma vez elucidadas as necessidades de compreensão do nosso corpo, da relação que estabelecemos com este e da nossa consciência acerca de seus limites e de suas potencialidades, buscaremos, agora, refletir acerca da criança e da relação que esta estabelece com seu corpo. De acordo com a educadora Luiza Gaia (2016), “o corpo é o primeiro brinquedo da criança” (HUNGRIA, 2016, [s.p.]). O desenvolvimento da criança, desde a primeira infância, é estritamente ligado ao de seu corpo e, consequentemente, de sua corporalidade, seus limites e potencialidades. Através do corpo a criança explora o universo que a circunda, se relaciona com os outros, com os espaços, e se desenvolve, numa relação mútua de conhecimento de si própria e dos ambientes em que se situa. Sabemos que a atividade primeira da criança é o brincar, e seu corpo é, assim, seu primeiro brinquedo, visto que constitui seu instrumento de exploração do mundo. Os movimentos da criança e seu livre brincar são, assim, essenciais ao pleno desenvolvimento da criança desde a mais tenra idade. No contexto educacional é responsabilidade de escolas e educadores valorizar a espontaneidade deste livre brincar com o próprio corpo, afastando-se de concepções que ligam essa relação à indisciplina e falta de controle. POR DENTRO DA BNCC A Base Nacional Comum Curricular aponta a necessidade de tratar as práticas corporais de modo a aproximar as crianças de um universo cultural complexo, incentivando a experimentação de diversas formas de expressão na escola: Nas aulas, as práticas corporais devem ser abordadas como fenômeno cultural dinâmico, diversificado, pluridimensional, singular e contraditório. Desse modo, é possível assegurar aos alunos a (re)construção de um conjunto de conhecimentos que permitam ampliar sua consciência a respeito de seus movimentos e dos recursos para o cuidado de si e dos outros e desenvolver autonomia para apropriação e utilização da cultura corporal de movimento em diversas finalidades humanas, favorecendo sua participação de forma confiante e autoral na sociedade. É fundamental frisar que a Educação Física oferece uma série de possibilidades para enriquecer a experiência das crianças, jovens e adultos na Educação Básica, permitindo o acesso a um vasto universo cultural. Esse universo compreende saberes corporais, experiências estéticas, emotivas, lúdicas e agonistas, que se inscrevem, mas não se restringem, à racionalidade típica dos saberes científicos que, comumente, orienta as práticas pedagógicas na escola. Experimentar e analisar as diferentes formas de expressão que não se alicerçam apenas nessa racionalidade é uma das potencialidades desse componente na Educação Básica. Para além da vivência, a experiência efetiva das práticas corporais oportuniza aos alunos participar, de forma autônoma, em contextos de lazer e saúde. (BRASIL, 2017, p. 213) A valorização e incentivo à relação criança-corpo possibilita o seu pleno desenvolvimento, a consciência de todas as suas possibilidades e o reconhecimento de seus limites. Sobre o corpo, a Base Nacional Comum Curricular aponta: Com o corpo (por meio dos sentidos, gestos, movimentos impulsivos ou intencionais, coordenados ou espontâneos), as crianças, desde cedo, exploram o mundo, o espaço e os objetos do seu entorno, estabelecem relações, expressam-se, brincam e produzem conhecimentos sobre si, sobre o outro, sobre o universo social e cultural, tornando-se, progressivamente, conscientes dessa corporeidade. (BRASIL, 2017, p. 41) Segundo o documento, o trabalho com o corpo na educação infantil deve pautar-se no desenvolvimento das diferentes linguagens, como a música, a dança, o teatro e as brincadeiras de faz de conta, uma vez que, por meio destas, as crianças se comunicam e se expressam no entrelaçamento entre corpo, emoção e linguagem. PESQUISE MAIS Kátia Adair Agostinho realizou uma pesquisa etnográfica com crianças, com o objetivo de conhecer suas formas de participação na educação infantil e identificou a forma intensa e pulsante com que a criança participa com seu corpo nos diversos contextos educativos expressando seus pontos de vista. Leia o artigo O corpo como componente das formas de participação das crianças na educação infantil para saber mais. AGOSTINHO, K. A. O corpo como componente das formas de participação das crianças na educação infantil. Pág. Educ., Montevideo, v. 12, n. 1, p. 120-133, 2019. Para pensarmos no trabalho com o corpo com as crianças maiores, do Ensino Fundamental, nos basearemos no documento Direitos de Aprendizagem dos Ciclos Interdisciplinar e Autoral, da rede municipal de São Paulo, o qual atesta que: Processos de ensino e aprendizagem que realmente compreendem e trabalham com a diversidade corporal – atravessados pelo corpo próprio e sensível – dizem respeito não somente à possibilidade e direito de todos dançarem diferentes repertórios de dança, mas, sobretudo, de compreender que cada corpo, próprio, singular – híbrido, multifacetado e mutável – gera danças também singulares, “diferentes”, próprias – autorais. Propor aos estudantes que conheçam, percebam, compreendam e escolham aquilo que seus corpos dançam, isto sim, é trabalhar com as diferenças corporais e, consequentemente, com a inclusão. (SÃO PAULO, 2016, p. 62) Em consonância com as concepções teóricas apresentadas anteriormente, esses referenciais apontam para a necessidade de se criar um espaço para que as crianças compreendam a singularidade dos corpos e seu potencial expressivo, em uma perspectiva que passa longe da ideia de um corpo que deve ser moldado para se enquadrar em um ideal. FOCO NA BNCC Vimos nesta seção a importância de a criança conhecer e reconhecer seu corpo através de suas funções, gestos, movimentos e da identificação de suas potencialidades e do aprendizado sobre seus limites. A BNCC, sobre isso, nos informa: Na Educação Infantil, o corpo das crianças ganha centralidade, pois ele é o partícipe privilegiado das práticaspedagógicas de cuidado físico, orientadas para a emancipação e a liberdade, e não para a submissão. Assim, a instituição escolar precisa promover oportunidades ricas para que as crianças possam, sempre animadas pelo espírito lúdico e na interação com seus pares, explorar e vivenciar um amplo repertório de movimentos, gestos, olhares, sons e mímicas com o corpo, para descobrir variados modos de ocupação e uso do espaço com o corpo. (BRASIL, 2017, p. 41) Assim, em consonância com a BNCC, contemplamos competências referentes ao trabalho educativo comprometido com o desenvolvimento integral da criança, que toma para si seu corpo e o conhecimento deste, afastando-se de práticas escolares corporais atreladas à manutenção do controle do corpo e da disciplina. PESQUISE MAIS Pina Bausch, coreógrafa alemã, realizou um projeto no qual uma mesma coreografia foi dançada por adolescentes e idosos. Parte desse trabalho pode ser visto no documentário Sonhos em Movimento (SONHOS..., 2010). Conhecer nosso corpo, estabelecer relações saudáveis com ele, reconhecer seu potencial e suas limitações são prerrogativas para o estabelecimento de nossa consciência corporal e do modo como nos colocamos no mundo. Aprendemos nesta seção a importância dessas prerrogativas e ampliamos o conhecimento para nossa função educativa que, ao propiciar à criança a exploração do seu meio através de seu corpo, permite-lhe um desenvolvimento pleno e saudável, com a consciência de seus limites e suas potencialidades. REFERÊNCIAS AGOSTINHO, K. A. O corpo como componente das formas de participação das crianças na educação infantil. Pág. Educ., Montevideo, v. 12, n. 1, p. 120-133, 2019. Disponível em: https://bit.ly/2NZIknx . Acesso em: 30 abr. 2020. BARBOSA, M. C.; HORN, M. da G. S. Organização do espaço e do tempo na educação infantil. In: CRAIDY, C.; KAERCHER, G. (orgs.). Educação Infantil: pra que te quero? Porto Alegre: Artmed, 2001. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. 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FOCO NO MERCADO DE TRABALHO Um dos motivos para se planejar uma atividade prática corporal é refletirmos sobre os diferentes corpos. SEM MEDO DE ERRAR Compreendemos, a partir dos conceitos e conteúdos abordados nesta seção, que a criança deve ser estimulada, desde a primeiríssima infância a estabelecer uma relação de autoconhecimento com seu corpo. Este se constitui como primeiro brinquedo na infância, sendo ele o meio pelo qual esse ser em desenvolvimento se relaciona com o mundo e com os sujeitos ao seu redor. A criança brinca com o corpo e, por meio dele, conhece, experimenta e passa a compreender o mundo à sua volta. A criança brinca com o corpo quando inicia seus primeiros rolamentos, por volta dos seis meses; com cerca de um ano, quando arrisca os primeiros passos; prossegue nesse caminho de descobertas quando ensaia os novos pulos, por volta dos dois anos; e quando se encanta pelos saltos, por volta dos três anos. Isso posto, compreendemos a necessidade de estimular nas crianças essa brincadeira com seus corpos, permitindo-lhes conhecer suas potencialidades, bem como definir seus limites com relação àquilo que é seguro ou não. Diante da situação exposta, a prática pedagógica proposta por você, enquanto professor, é plausível e justificável, já que busca incentivar a exploração as potencialidades das crianças e afastar-se de uma prática de repressão e controle. A realidade em muitas escolas de educação infantil, pautadas em pensamentos que associam esse livre brincar à indisciplina ou falta de controle, leva os profissionais a limitar os movimentos das crianças sob, entre outros pretextos, os perigos que correm ao explorar os espaços a partir de seus corpos. A esse respeito, a Base Nacional Comum Curricular informa: As crianças conhecem e reconhecem as sensações e funções de seu corpo e, com seus gestos e movimentos, identificam suas potencialidades e seus limites, desenvolvendo, ao mesmo tempo, a consciênciasobre o que é seguro e o que pode ser um risco à sua integridade física. Na Educação Infantil, o corpo das crianças ganha centralidade, pois ele é o partícipe privilegiado das práticas pedagógicas de cuidado físico, orientadas para a emancipação e a liberdade, e não para a submissão. Assim, a instituição escolar precisa promover oportunidades ricas para que as crianças possam, sempre animadas pelo espírito lúdico e na interação com seus pares, explorar e vivenciar um amplo repertório de movimentos, gestos, olhares, sons e mímicas com o corpo, para descobrir variados modos de ocupação e uso do espaço com o corpo. http://veja.abril.com.br/saude/como-seria-o-corpo-feminino-ideal/ https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-32622001000100003 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-32892018000300224 https://lunetas.com.br/brincando-com-o-corpo-crianca-que-conhece-esta-sua-casa-e-uma-crianca-potente-realizadora-e-segura/ http://portal.sme.prefeitura.sp.gov.br/Portals/1/Files/32059.pdf https://www.scielo.br/pdf/ccedes/v21n53/a05v2153.pdf https://siaiap32.univali.br/seer/index.php/rc/article/view/738/589 (BRASIL, 2017, p. 41) Assim, a situação proposta por você é, deste modo e em consonância com a BNCC, repleta de ações corporais fundamentais que permitem à criança conhecer seu corpo, explorar todas as suas possibilidades e limites, visto que isso é aspecto fundamental para colocar-se no mundo. AVANÇANDO NA PRÁTICA POR TRÁS DA PRÁTICA De acordo com a Base Nacional Comum Curricular: Cada prática corporal propicia ao sujeito o acesso a uma dimensão de conhecimentos e de experiências aos quais ele não teria de outro modo. A vivência da prática é uma forma de gerar um tipo de conhecimento muito particular e insubstituível e, para que ela seja significativa, é preciso problematizar, desnaturalizar e evidenciar a multiplicidade de sentidos e significados que os grupos sociais conferem às diferentes manifestações da cultura corporal de movimento. Logo, as práticas corporais são textos culturais passíveis de leitura e produção. (BRASIL, 2017, p. 214) Tendo por base o excerto acima, retirado da BNCC, imagine a professora de uma turma de 5º ano do Ensino Fundamental na qual chega uma aluna nova que sofre de obesidade. As crianças da turma passam, então, a praticar bullying contra a menina. Diversas conversas são feitas com os alunos por parte da professora e também da gestão escolar. No entanto, os resultados não são suficientes e a menina fica cada dia mais isolada. Sabemos das consequências psicológicas dessa ação e, diante disso e da ineficácia das estratégias propostas através do diálogo, a professora da turma deve mobilizar seus conhecimentos acerca das práticas corporais com a finalidade de desenvolver uma prática pedagógica que seja efetiva junto ao grupo diante da situação. RESOLUÇÃO Tendo por base o trecho citado, que é parte integrante do documento que compõe o componente curricular Educação Física da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), pode-se verificar como ele nos indica a compreensão de uma concepção de prática corporal para além do viés do exercício físico: Há três elementos fundamentais comuns às práticas corporais: movimento corporal como elemento essencial; organização interna (de maior ou menor grau), pautada por uma lógica específica; e produto cultural vinculado com o lazer/entretenimento e/ ou o cuidado com o corpo e a saúde. (...) Cada prática corporal propicia ao sujeito o acesso a uma dimensão de conhecimentos e de experiências aos quais ele não teria de outro modo. A vivência da prática é uma forma de gerar um tipo de conhecimento muito particular e insubstituível e, para que ela seja significativa, é preciso problematizar, desnaturalizar e evidenciar a multiplicidade de sentidos e significados que os grupos sociais conferem às diferentes manifestações da cultura corporal de movimento. Logo, as práticas corporais são textos culturais passíveis de leitura e produção. Esse modo de entender a Educação Física permite articulá-la à área de Linguagens, resguardadas as singularidades de cada um dos seus componentes, conforme reafirmado nas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental de Nove Anos (Resolução CNE/CEB nº 7/2010). (BRASIL, 2017, p. 213, grifo nosso) Nesse contexto, a concepção de prática corporal, como texto, faz com que ela possa ser escrita e reescrita, lida e relida diversas vezes, considerando os aspectos inovadores e criativos dessas ações. A professora da turma, a fim de mobilizar os alunos no sentido da compreensão acerca dos diferentes corpos e do afastamento de padrões impostos, pode organizar atividades em que o corpo passa a ser, então, um instrumento de expressão, e a prática corporal, uma linguagem. Nesse sentido, os diferentes corpos podem, cada um dentro de seus limites e possibilidades, relacionar-se com outras linguagens e ter objetivos comuns, como a ampliação de repertório, o aprimoramento expressivo e a compreensão de seu âmbito sociocultural. https://conteudo.colaboraread.com.br/201701/INTERATIVAS_2_0/CORPO_E_MOVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u1s1.html#resolucao%20.item-1 A professora pode, assim, reafirmar a singularidade de cada um. Podemos citar como exemplo atividades desafiadoras tais quais circuitos – nos quais cada tipo de corpo é capaz de superar determinado obstáculo, mas não todos – ou atividades que explorem atuações, como práticas teatrais em que a exploração da expressividade permite a compreensão das singularidades. O MOVIMENTO - SEÇÃO 2 Diana Ribeiro Tatit Maria Cecília Cerminaro Derisso ASPECTOS DO MOVIMENTO Conheça alguns aspectos do movimento, que, além de ter um caráter instrumental, também é expressivo. PRATICAR PARA APRENDER Vimos na primeira seção que há muitas formas de se compreender o corpo. Refletimos também sobre a importância de lançar luz sobre as concepções que amparam nossas práticas, pois só assim podemos refletir criticamente sobre como devemos proceder em nosso trabalho educativo. Apoiando-nos na Base Nacional Comum Curricular, situamos a discussão sobre a criança e seu corpo ao trazer à tona a importância do trabalho em sala de aula com vistas a desenvolver toda potencialidade do corpo na infância. Cabe, então, agora pensarmos sobre o movimento e conhecermos suas várias concepções. Veremos que o movimento está intimamente ligado às expressões dos nossos desejos, dos nossos sentimentos e a forma como este se relaciona à aprendizagem. Por fim, conheceremos as múltiplas linguagens do movimento. Assim como vimos na seção anterior, precisamos conhecer as concepções que embasam nossas práticas. Nesse sentido, torna-se crucial compreender o movimento humano – especialmente o das crianças – em toda sua complexidade e importância. Essa perspectiva nos afasta de práticas inibidoras do movimento infantil ou de práticas que propiciem apenas movimentos repetitivos e técnicos. Em outras palavras: É muito importante que o professor perceba os diversos significados que pode ter a atividade motora para as crianças. Isso poderá contribuir para que ele possa ajudá-las a ter uma percepção adequada de seus recursos corporais, de suas possibilidades e limitações sempre em transformação, dando-lhes condições de se expressarem com liberdade e de aperfeiçoarem suas competências motoras. (BRASIL, 1998, p. 39) O movimento é uma linguagem, uma forma de expressão. Ele também pode ganhar ares artísticos ao propiciar construções mais refinadas esteticamente. Além disso, movimentar-se gera prazer para o sujeito. Exploraremos, nesta seção, alguns aspectos e concepções de movimento. Evidentemente, outras leituras poderiam ser feitas, mas o mais importante é evitar ideias simplistas ou, o que é pior, ignorar completamente o movimento, como se não fosse uma importante dimensão da atividade humana.Uma vez problematizada a questão do que é movimento e após termos conhecido algumas de suas concepções teóricas, vamos olhar para situações concretas com a finalidade de reconhecermos as dimensões do movimento em práticas cotidianas. Imaginemos a seguinte situação: um grupo de pessoas brinca de saltar sobre algumas linhas riscadas no chão, sincronizadamente, ao ritmo de uma música. O objetivo do jogo é conseguir fazer os movimentos no tempo certo da música. Qual dimensão do movimento está presente nessa situação? Nesse sentido, vale problematizar: afinal, o que é o movimento? CONCEITO-CHAVE O indivíduo age no mundo através de seu corpo, mais especificamente através do movimento. Nesse sentido, “o movimento corporal que possibilita às pessoas se comunicarem, trabalharem, aprenderem, sentirem o mundo e serem sentidos” (STRAZZACAPPA, 2001, p. 69). Se é verdade que nós somos o nosso corpo, ou seja, que não há separação entre sujeito e corpo – como refletimos na seção anterior –, então o movimento passa a ser condição para o nosso “estar no mundo” e para as relações que estabelecemos com tudo o que existe. Seguindo por esse raciocínio, necessariamente concluímos que a vida pede movimento e que, por consequência, a ausência de movimento é ausência de vitalidade. REFLITA Você conhece alguém que, por estar debilitado, foi obrigado a ficar de cama por um longo período? O que acontece com uma pessoa nessa (triste) circunstância? Para além da doença que exigiu esse repouso forçado, muitos outros sintomas começam a aparecer, como problemas de circulação, escaras e feridas, inchaço, entre outros. Situações como essa nos mostram que nosso corpo não suporta a imobilidade. Além de ser imprescindível à nossa saúde, o movimento constitui-se dimensão essencial do desenvolvimento humano, desde a infância e estendendo-se por toda nossa vida. Alinhando esta importante dimensão do desenvolvimento humano às discussões pedagógicas encontramos, na Base Nacional Comum Curricular a seguinte perspectiva: Com o corpo (por meio dos sentidos, gestos, movimentos impulsivos ou intencionais, coordenados ou espontâneos), as crianças, desde cedo, exploram o mundo, o espaço e os objetos do seu entorno, estabelecem relações, expressam- -se, brincam e produzem conhecimentos sobre si, sobre o outro, sobre o universo social e cultural, tornando-se, progressivamente, conscientes dessa corporeidade. Por meio das diferentes linguagens, como a música, a dança, o teatro, as brincadeiras de faz de conta, elas se comunicam e se expressam no entrelaçamento entre corpo, emoção e linguagem. As crianças conhecem e reconhecem as sensações e funções de seu corpo e, com seus gestos e movimentos, identificam suas potencialidades e seus limites, desenvolvendo, ao mesmo tempo, a consciência sobre o que é seguro e o que pode ser um risco à sua integridade física. (BRASIL, 2017, p. 41) ASSIMILE Precisamos entender, portanto, que o movimento: • É passível de desenvolvimento. • É expressão de emoções, necessidades e desejos. • Estabelece relações essenciais com sentimentos e aprendizagem. • É uma linguagem. Vamos, agora, aprofundar o entendimento acerca desses quatro aspectos referentes ao movimento. MOVIMENTO E DESENVOLVIMENTO Quando falamos em desenvolvimento, entendemos algo que é construído paulatinamente através de um processo composto de estágios para que o sujeito adquira competências mais complexas ou mais maduras. Várias capacidades humanas são conquistadas a partir de um processo de desenvolvimento: a linguagem, o pensamento lógico, a cognição, a moral. Isso quer dizer que tais capacidades não são conquistadas de uma hora para outra, mas são frutos de um processo desenvolvido em várias etapas. Assim também sucede com o movimento humano, isto é, o sujeito não adquire suas capacidades motoras de uma só vez; é algo que deve ser desenvolvido ao longo do tempo. Ora, partindo do pressuposto de que o desenvolvimento e a aprendizagem humanos são resultado da interação do sujeito com o meio (tendo como base a concepção sociointeracionista), podemos concluir que o ambiente e as pessoas desempenham um papel de suma importância no desenvolvimento motor da criança. Portanto, mais do que conhecer as fases desse desenvolvimento, é preciso entender que há um processo e que, sendo assim, há sempre o que aprender ou aprimorar. Isso faz com que criemos uma relação ativa com o movimento das crianças, tendo como norte o favorecimento de seu desenvolvimento motor. Nesse contexto, reconhecer que o movimento se desenvolve a partir das experiências do sujeito com o meio faz com que admitamos a importância dele desde quando é bebê. PESQUISE MAIS Não é nosso objetivo aprofundar o estudo das fases do desenvolvimento motor, mas compreender que o movimento é fruto de um processo de desenvolvimento. A seguir, passaremos por algumas habilidades que são conquistadas durante a infância. Se você tiver interesse em conhecer melhor essas etapas, indicamos a leitura do livro: Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos (GALLAHUE; OZMUN, 2005). Até aqui, conhecemos o movimento em seu caráter instrumental. Mas não podemos perder de vista seu aspecto expressivo – sobre o qual nos debruçaremos a seguir e a partir do qual deve se desenvolver nosso trabalho pedagógico. MOVIMENTO COMO LINGUAGEM Para além de seu caráter instrumental, veremos neste tópico que o movimento é muito mais do que simples deslocamento do corpo no espaço. O movimento constitui-se em uma linguagem que permite à criança expressar-se e comunicar-se por meio de seu corpo. Ao observarmos uma criança manipulando uma colher em uma brincadeira de comidinha, devemos olhar para além da sua capacidade de coordenação motora refinada: temos de enxergar, também, o grau de significado expressivo e simbólico que traz esse gesto. O mesmo vale para diversas situações de faz de conta, como embalar uma boneca como se fosse um neném, montar em um cavalinho de brinquedo, varrer com uma vassourinha, etc. São situações em que ficam evidentes as aprendizagens gestuais das crianças, através da imitação de gestos pertinentes às várias práticas sociais. De acordo com a BNCC: As atividades humanas realizam-se nas práticas sociais, mediadas por diferentes linguagens: verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e, contemporaneamente, digital. Por meio dessas práticas, as pessoas interagem consigo mesmas e com os outros, constituindo-se como sujeitos sociais. Nessas interações, estão imbricados conhecimentos, atitudes e valores culturais, morais e éticos. (BRASIL, 2017, p. 63) A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), dessa forma, aponta, dentro da área de Linguagens, a Educação Física como um de seus componentes curriculares. Nesse ponto cabe-nos destacar que o trabalho com o corpo, o movimento, com a corporalidade e a motricidade na escola não se constitui exclusividade deste componente curricular. Entendendo o corpo como manifestação de desejos, de necessidades, de sentimentos e compreendendo-o como forma de explorar o mundo e de colocar-se nele, cabe à escola e aos educadores o trabalho com o desenvolvimento de suas potencialidades em sua totalidade, para isso devem ter nas mãos diversas práticas pedagógicas. Assim, embora no Ensino Fundamental as diversas linguagens ganhem status próprios de objetos de conhecimento, não podemos perder de vista o trabalho articulado entre elas, tal qual ocorre na educação infantil. Neste sentido a BNCC nos informa: Na BNCC, a área de Linguagens é composta pelos seguintes componentes curriculares: Língua Portuguesa, Arte, Educação Física e, no Ensino Fundamental – Anos Finais, Língua Inglesa. A finalidade é possibilitar aos estudantes participar de práticas de linguagem diversificadas, que lhes permitam ampliarsuas capacidades expressivas em manifestações artísticas, corporais e linguísticas, como também seus conhecimentos sobre essas linguagens, em continuidade às experiências vividas na Educação Infantil. (...) O importante, assim, é que os estudantes se apropriem das especificidades de cada linguagem, sem perder a visão do todo no qual elas estão inseridas. Mais do que isso, é relevante que compreendam que as linguagens são dinâmicas, e que todos participam desse processo de constante transformação. (BRASIL, 2017, p. 61) Sendo assim, o movimento infantil deve ser entendido não só no que se refere ao desenvolvimento motor instrumental, mas também na ampliação de suas possibilidades expressivas, sobre as quais vamos nos debruçar nos tópicos a seguir. MOVIMENTO COMO EXPRESSÃO DE EMOÇÕES, NECESSIDADES E DESEJOS A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), como já apontamos na seção anterior, traz como um dos campos de experiência da educação infantil: “Corpo, Gestos e Movimentos”. Dentro deste campo de experiência, no documento, encontramos o seguinte objetivo de aprendizagem: movimentar as partes do corpo para exprimir corporalmente emoções, necessidades e desejos (BRASIL, 2017, Código EI01CG01 ). Vimos que o movimento infantil extrapola os limites do desenvolvimento motor, constituindo-se em uma linguagem carregada de possibilidades expressivas, as quais explicitaremos neste momento. Para Moreira (1995, p. 85): A criança é movimento em tudo o que faz, pensa e sente. O seu corpo presente é ativo em todas as situações e em todos os momentos. Ele, o corpo, dialoga todo o tempo com todos que o cercam. Desde uma brincadeira como pega-pega, até as formações em roda ou em colunas, posso notar que o corpo, por meio dos movimentos, denota sentimentos e emoções. A linguagem corporal consiste em importante forma de manifestarmos nossos sentimentos, emoções, necessidades, pensamentos e desejos. As interações sociais estabelecidas entre o indivíduo e seu meio determinam o modo como o movimento se processa e, através desses movimentos, expressamos nossas necessidades, nossos interesses e emoções, entre outros. Isto posto, entendemos a necessidade do desenvolvimento de um trabalho com o movimento de modo a propiciar à criança um desenvolvimento dos aspectos da motricidade e a ampliação de sua cultura corporal com vistas ao favorecimento de suas manifestações corporais entendidas como expressões de suas necessidades, emoções e desejos. Isso nos leva à discussão que desenvolveremos no próximo tópico, a qual busca elucidar as relações estabelecidas entre movimento, sentimento e aprendizagem. EXEMPLIFICANDO Como vimos, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), por meio do campo de experiência “Corpo, Gestos e Movimentos” traz como objetivo de aprendizagem e desenvolvimento “Movimentar as partes do corpo para exprimir corporalmente emoções, necessidades e desejos” (BRASIL, 2018, Código EI01CG01). No contexto da Educação Infantil existem inúmeras formas de explorar este objetivo e uma delas é brincar com as crianças de “mímica de sentimentos”. Nessa atividade você pode elaborar um conjunto de cartas dos sentimentos de maneira que, em cada uma, aparece uma emoção diferente. As crianças devem, uma por vez, tirar uma carta sem que as demais vejam e imitar a expressão sorteada para que seus colegas adivinhem qual é. RELAÇÕES ENTRE MOVIMENTO, SENTIMENTOS E APRENDIZAGEM As práticas pedagógicas, sobretudo na educação infantil, carregam consigo variadas concepções da utilização e finalidade do trabalho com e a partir do movimento. O movimento, nesse contexto, mantém uma relação intrínseca com os sentimentos e o desenvolvimento da aprendizagem, visto que seu incentivo tende a facilitar o pensamento e a atenção, possibilitando, assim, a aprendizagem a partir do controle e do conhecimento de seus corpos. A expressão de desejos, necessidades e emoções a partir da motricidade se dá não apenas pelas crianças muito pequenas, mas também pelas maiores. Nesse sentido, o corpo traduz-se em importante forma de expressão. No contexto escolar, devemos ter clareza acerca das relações que se estabelecem entre movimento, sentimentos e aprendizagem. Para Freire (2005, p. 11): Corpo e mente devem ser entendidos como componentes que integram um único organismo. Ambos devem ter assento na escola, não um (a mente) para aprender e o outro (o corpo) para transportar. É necessário, a cada início de ano, que o corpo da criança também seja matriculado na escola, e não seja, considerado por algumas pessoas como um ‘estorvo’, que quanto mais quieto estiver, menos atrapalhará a aprendizagem. Assim, o desenvolvimento do trabalho pedagógico precisa, necessariamente, respeitar e compreender a expressividade e a motricidade própria da infância, buscando interpretar e facilitar seu desenvolvimento, a partir do qual a criança aprende não apenas sobre seu próprio corpo e limites, mas também sobre o mundo e a cultura em que se está inserida. Segundo Miranda (2008), aprender a mover-se, envolve atividades como tentar, praticar, pensar, tomar decisões, avaliar, ousar e persistir. Para o autor, a aprendizagem através do movimento implica usar movimentos como meio, para se chegar a um fim. Esse fim não precisa ser necessariamente o aperfeiçoamento das habilidades da criança em se mover efetivamente, mas pode ser um meio pelo qual a criança aprende mais sobre si mesma, sobre seu ambiente e sobre o mundo que a cerca. FOCO NA BNCC A Base Nacional Comum Curricular propõe a exploração dos espaços, das sensações e brincadeiras como forma de descobrir possibilidades e limites corporais. Em consonância com os conteúdos trabalhados nesta seção, o documento aponta: Na Educação Infantil, o corpo das crianças ganha centralidade, pois ele é o partícipe privilegiado das práticas pedagógicas de cuidado físico, orientadas para a emancipação e a liberdade, e não para a submissão. Assim, a instituição escolar precisa promover oportunidades ricas para que as crianças possam, sempre animadas pelo espírito lúdico e na interação com seus pares, explorar e vivenciar um amplo repertório de movimentos, gestos, olhares, sons e mímicas com o corpo, para descobrir variados modos de ocupação e uso do espaço com o corpo (tais como sentar com apoio, rastejar, engatinhar, escorregar, caminhar apoiando-se em berços, mesas e cordas, saltar, escalar, equilibrar- se, correr, dar cambalhotas, alongar-se etc.). (BRASIL, 2017, p. 41) AS DIMENSÕES DO MOVIMENTO Dissemos anteriormente que o movimento está relacionado à vida. Mas, afinal, qual é a finalidade do movimento? Por que nos mexemos? Primordialmente, mexemo-nos por prazer. Qualquer um que já tenha experienciado alguma atividade física sabe bem que isso é verdade. Mas, como já mencionamos, o movimento é também uma linguagem, ou seja, movimentamo-nos para nos expressar. Essa expressão, às vezes, ganha contornos artísticos, o que gera outro tipo de prazer: o de apreciar uma obra construída esteticamente. ASSIMILE Essa reflexão nos leva a perceber que há três principais motivações ou dimensões para o movimento: prazerosa, expressiva e estética. Aprofundaremos a compreensão dessas dimensões na Unidade 2. Por ora, basta-nos reconhecer sua existência. Uma divisão semelhante foi concebida por Jacqueline Robinson, bailarina e educadora francesa (STRAZZACAPPA, 2001). Pensando nas finalidades da dança, ela elaborou o seguinte diagrama: Figura 1.1 | Diagrama-árvore da Jacqueline Robinson https://conteudo.colaboraread.com.br/201701/INTERATIVAS_2_0/CORPO_E_MOVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/assets/img/figura_1-1_u1s2.png Fonte: adaptada de Strazzacappa (2001, p. 72). A partir desse diagrama, Strazzacappa conclui que “toda dança, não importa qual a estética que lhe é inerente, surge da profundeza do ser humano, ou, como Robinson nomeou, surge da ‘magia’e adquire diversas funções a partir de três motivações principais: a expressão, o espetáculo e a recreação (ou jogo)” (STRAZZACAPPA, 2001, p. 72). Admitir essas três dimensões faz com que ampliemos o trabalho corporal na escola para muito além de exercícios técnicos ou repetitivos. Voltaremos a essa discussão na próxima seção. REFERÊNCIAS AGOSTINHO, K. A. O corpo como componente das formas de participação das crianças na educação infantil. Pág. Educ., Montevideo, v. 12, n. 1, p. 120-133, 2019. Disponível em: https://bit.ly/2NZIknx . Acesso em: 30 abr. 2020. BARBOSA, M. C.; HORN, M. da G. S. Organização do espaço e do tempo na educação infantil. In: CRAIDY, C.; KAERCHER, G. (orgs.). Educação Infantil: pra que te quero? Porto Alegre: Artmed, 2001. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. 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SEM MEDO DE ERRAR O interessante das cenas reais é que elas sempre abarcam uma complexidade maior do que os modelos teóricos exemplificam. Na descrição que apresentamos anteriormente, sobre um grupo de pessoas brincando de saltar sobre algumas linhas riscadas no chão, sincronizadamente, ao ritmo de uma música, as três dimensões aparecem concomitantemente: a adesão das pessoas ao jogo mencionado é provavelmente voluntária, uma vez que estão brincando, e a motivação certamente é o prazer que tal jogo propicia. Isto posto, verificamos aí a dimensão prazerosa do movimento. No entanto, se pudéssemos observar esse grupo de pessoas, seguramente verificaríamos que cada uma se movimenta de forma singular, comunicando mensagens distintas com seu corpo: uns podem saltar de forma leve e suave, outros podem demonstrar fadiga; alguns podem apresentar expressões taciturnas, concentradas e sérias, outros podem manifestar fisionomia neutra, alegre ou envergonhada. Aí está a dimensão expressiva do movimento. O fato de todos saltarem sincronizadamente ao som de um mesmo ritmo com certeza provoca um resultado estético de grande beleza, pois compõem juntos um movimento coreográfico. Ainda que não tenham a intenção do espetáculo, a dimensão estética é perceptível para quem assiste à brincadeira. AVANÇANDO NA PRÁTICA MOTRICIDADE E APRENDIZAGEMA professora Ana leciona em uma sala de educação infantil com crianças de seis anos de idade. Esta é a última etapa da educação infantil, visto que antecede o primeiro ano do ensino fundamental. O conteúdo curricular referente a essa etapa inclui o conhecimento de letras e números em seu contexto social. Em um dia de aula, a professora solicita que os alunos se sentem em suas cadeiras e prestem atenção à aula, na qual ela irá, dentro dos conteúdos matemáticos, apresentar o numeral 6. As crianças, que estavam dispersas pela sala, cada uma manipulando um tipo de material, demonstram insatisfação com as comandas e não conseguem se concentrar. Ao terminar a aula, a professora Ana sente-se frustrada por perceber que não alcançou seu objetivo. Considerando a idade dessas crianças, o conteúdo a ser trabalhado e as relações que a criança nessa idade estabelece com o movimento, a exploração e seu corpo, como você acredita que a professora Ana poderia obter maior sucesso no desenvolvimento da atividade? RESOLUÇÃO https://siaiap32.univali.br/seer/index.php/rc/article/view/738/589 https://conteudo.colaboraread.com.br/201701/INTERATIVAS_2_0/CORPO_E_MOVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u1s2.html#resolucao%20.item-1 Sabemos que o corpo da criança não se movimenta apenas de forma mecânica e que ele é instrumento imprescindível em suas descobertas do mundo. É a partir do corpo que a criança estabelece suas primeiras relações com o mundo, expressa suas necessidades, se comunica e se desenvolve. A professora Ana, ao encerrar uma atividade em que as crianças movimentavam-se livremente, explorando os espaços da sala de aula, desconsiderou a tendência lúdica própria às crianças dessa idade. O respeito a essa tendência é essencial para o desenvolvimento do trabalho pedagógico na educação infantil. Dessa forma, a professora poderia, a partir dos interesses de cada criança, solicitar a exploração do ambiente, solicitando-lhes, por exemplo, localizar seis peças de um jogo, seis bonecas ou seis carrinhos. Essas possibilidades de exploração dos meios em que se inserem, uma vez oferecidas às crianças, proporcionam-lhes o desenvolvimento de suas capacidades e construção de seus próprios repertórios, respeitando sua exploração de mundo a partir de seus movimentos. CORPO, MOVIMENTO E EDUCAÇÃO Diana Ribeiro Tatit Maria Cecília Cerminaro Derisso QUAIS SÃO AS SEIS PRÁTICAS CORPORAIS DEFINIDAS PELAS BNCC? As práticas corporais são brincadeiras e jogos, esportes, ginásticas, danças, lutas e práticas corporais de aventuras. PRATICAR PARA APRENDER Nas seções anteriores, refletimos sobre alguns significados do corpo e suas representações socioculturais. Também ponderamos sobre a importância do movimento para o desenvolvimento humano, entendendo que movimentar-se significa expressar-se com o corpo e que, portanto, é uma linguagem que contempla diferentes dimensões Diante da complexidade de compreensões possíveis sobre corpo e movimento, devemos problematizar: que concepções têm prevalecido nas instituições escolares? A partir dessa indagação, vale questionar também: que consequências tais concepções trazem para a prática escolar e para o desenvolvimento corporal dos alunos? Avançando nessa discussão, cabe ainda a seguinte questão: como a escola poderia compreender o corpo e o movimento em suas práticas? Para tanto, traremos as discussões acerca do corpo e movimento constantes da Base Nacional Comum Curricular referentes às etapas da educação infantil e do ensino fundamental em suas séries iniciais. Dessa forma, aprofundaremos as concepções teóricas da nossa discussão a partir do embasamento legal curricular. Ana é uma professora preocupada com o desenvolvimento corporal de seus alunos e, por isso, resolveu instituir uma mudança na rotina de sua sala: ela propôs a realização de cinco minutos de atividade física entre as aulas das diferentes disciplinas (matemática, português, história, etc.), com brincadeiras como “vivo ou morto” ou gincanas em que os alunos devem correr para pegar determinado objeto que “seu mestre mandou”. O objetivo dessas propostas, segundo Ana, é que eles gastem energia para depois se concentrarem melhor nas atividades e nas aulas. Ela afirma que esse “respiro” é muito importante, afinal “não podemos exigir que os alunos passem tanto tempo sentados e quietos, não é mesmo?”. A coordenadora da escola reconhece a “boa intenção” da professora em querer promover uma mudança em uma rotina escolar tradicionalmente pautada na restrição do movimento. No entanto, a partir de seus estudos da BNCC, aponta que a proposta não contempla a exploração do movimento em todas as suas dimensões. A partir da consideração da coordenadora de que a prática em questão não contempla o movimento como linguagem, proponha uma nova mudança na prática da professora Ana, com foco nas diferentes dimensões do movimento e nas propostas condizentes com a BNCC. Vamos juntos aprofundar nossos conhecimentos da disciplina à luz da BNCC. CONCEITO-CHAVE Imaginemos a seguinte cena: uma sala de aula onde alunos estão sentados em suas cadeiras, bem alinhados e silenciosos, olhando para a frente, escutando uma explicação da professora. Conseguiu visualizar? Agora, vamos imaginar outra situação: uma sala de aula onde alunos estão em posições diferentes: alguns estão sentados em cadeiras, outros no chão, outros em pé; há alunos, ainda, que circulam pelo espaço para buscar materiais ou participar de atividades. O ambiente não é silencioso; misturam-se vozes de alunos, que discutem em grupo alguma questão, com a da professora, que demonstra um experimento. Agora, pensemos na seguinte questão: diante dessas duas cenas descritas, em qual há mais disciplina? Certamente o senso comum nos leva a responder que a primeira cena apresenta uma sala mais disciplinada. Essa constatação, no entanto, leva a uma segunda indagação: essa disciplina é necessária? Ou é possível ter aprendizagem em uma sala de aula como a descrita na segunda cena? Historicamente, a escola voltou-se a uma compreensão de que, para fornecer uma boa qualidade de ensino, era preciso que alunos estivessem em silêncio e imóveis a fim de apreender conteúdos fornecidos e expostos pelo professor. A noção de disciplina na escola sempre foi entendida como “não movimento”. As crianças educadas e comportadas eram aquelas que simplesmente não se moviam. O modelo escolar-militar da primeira metade do século XX era aplicado desde o momento em que a criança chegava na escola. As filas por ordem de tamanho para se dirigirem às salas de aula, o levantar-se cada vez que o diretor ou supervisor de ensino entrava na sala etc. (STRAZZACAPPA, 2001, p. 70) Essa concepção tradicional de ensino já foi há bastante tempo questionada. Sabemos hoje que o aluno é ativo na construção de aprendizagens e que ter contato com um conteúdo não é, necessariamente, o suficiente para que ele seja aprendido. Mesmo que a concepção construtivista da aprendizagem já tenha sido divulgada há quase um século (CUNHA, 1996), em relação ao corpo e movimento parece que ainda prevalece uma concepção tradicionalista. Segundo Strazzacappa, “apesar da ausência destas atitudes disciplinares, a ideia do não movimento como conceito de bom comportamento prevalece. Muitas escolas aboliram as filas e os demais símbolos de respeito a diretores e professores; no entanto, foram criadas outras maneiras de se limitar o corpo” (STRAZZACAPPA, 2001, p. 70). A autora continua: Embora conscientes de que o corpo é o veículo através do qual o indivíduo se expressa, o movimento corporal humano acaba ficando, dentro da escola, restrito a momentos precisos como as aulas de educação física e o horário do recreio. Nas demais atividades em sala, a criança deve permanecer sentada em sua cadeira, em silêncio e olhando para a frente. (STRAZZACAPPA,2001, p. 69) É quase como se entendêssemos que, na hora da aula, o corpo não está presente; como se as crianças, ao entrarem na sala, deixassem o corpo pendurado junto com a mochila, pegando-o de volta quando vão para o recreio ou para a aula de educação física. Poderíamos supor que essa ideia de que o movimento atrapalha o rendimento escolar é exclusiva do ensino fundamental, no qual costuma prevalecer uma exigência maior da apreensão de conteúdos conceituais. No entanto, o que se pode observar, também na educação infantil, é um conjunto de práticas pedagógicas pautadas na falta de movimentos, ainda que em turmas de crianças pequenas. Sob a justificativa de manutenção da ordem e da disciplina, tais práticas limitam a livre movimentação das crianças desde a mais tenra idade. Não há comprovação de que determinada postura corporal favoreça a concentração e a atenção; ela dependerá das preferências do sujeito, bem como da atividade proposta. Isso comprova que concepções equivocadas de corpo e movimento têm embasado práticas proibitivas e castradoras do movimento corporal. Além dessas práticas causarem desgastes na relação professor-aluno, trazem também prejuízos ao próprio desenvolvimento infantil. Nesse embate entre professores e alunos, cria-se uma relação de chantagem em que o movimento passa a ser “moeda de troca” (STRAZZACAPPA, 2001, p. 70); isto é, o aluno que não permanece quieto é castigado pelo docente com a suspensão do momento de recreio – justamente o horário no qual o movimento corporal é permitido. “Estas atitudes evidenciam que o movimento é sinônimo de prazer e a imobilidade, de desconforto” (STRAZZACAPPA, 2001, p. 70). FORMAÇÃO DE PROFESSORES Se estamos falando de concepções que embasam práticas equivocadas, logo precisamos problematizar também a questão da formação dos professores. Afinal, é a partir da atuação dos professores e da relação que estes desenvolvem com seu próprio corpo que se estabelecerão as práticas escolares e o desenvolvimento dos alunos. É preciso levar em conta que “o corpo do professor funciona como modelo para o aluno” (STRAZZACAPPA, 2001, p. 75) e que, necessariamente, “seus corpos também educam” (STRAZZACAPPA, 2001, p. 78). O fato de o corpo e o movimento terem sido historicamente negligenciados pela educação, ou melhor, em razão de não ter se enxergado relação entre movimento corporal e práticas escolares, essa dimensão não fez parte da formação dos professores. É comum, inclusive, que questões relacionadas ao corpo sejam consideradas tabus na escola. REFLITA Se o professor se coloca distante, tanto teórica quanto praticamente, do corpo e do movimento, como poderá observar, valorizar e propiciar o desenvolvimento de seus alunos no que concerne a esse campo? Precisamos ter clareza, então, de que, quando falamos de conhecimento corporal, devemos necessariamente pensar em experiências corporais. Ou seja, para aprender movimento é necessário se movimentar! Parece um tanto óbvia essa constatação, mas, apesar disso, você provavelmente não se levantou da cadeira nenhuma vez desde que começou este curso (mas não se preocupe: atividades práticas virão!). Assim, precisamos compreender e abarcar o movimento na escola de duas formas: questionando a exigência de posturas imóveis nas práticas escolares e trazendo-o como importante componente curricular para o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos. Neste contexto, a ideia que deve prevalecer, enfim, é a de que o corpo está presente a todo momento e não deve ser negligenciado; ao contrário, o movimento corporal deve ser um aspecto importante dos programas escolares. Nesse sentido vamos, agora, conhecer o que a Base Nacional Comum Curricular traz sobre o corpo e o movimento para as etapas da educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental. O QUE A BNCC ABORDA SOBRE O CORPO E MOVIMENTO NA EDUCAÇÃO INFANTIL A Base Nacional Comum Curricular, na etapa referente à educação infantil, dispõe de cinco campos de experiências, os quais definem os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento. De acordo com o documento, “Os campos de experiências constituem um arranjo curricular que acolhe as situações e as experiências concretas da vida cotidiana das crianças e seus saberes, entrelaçando-os aos conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural” (BRASIL, 2017, p. 40). São eles: 1. O eu, o outro e o nós. 2. Corpo, gestos e movimentos. 3. Traços, sons, cores e formas. 4. Escuta, fala, pensamento e imaginação. 5. Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. Como podemos ver, corpo e movimento na educação infantil são aspectos de tamanha centralidade que constituem um campo de experiência próprio, o qual conheceremos mais profundamente neste tópico. EXEMPLIFICANDO Os campos de experiência da BNCC, conforme aponta o próprio documento, podem e devem ser trabalhados em conjunto numa mesma atividade, visto que se complementam entre si. Assim, cabe ao educador a elaboração de propostas pedagógicas criativas, abarcando diferentes campos e enfatizando as possibilidades de cada um deles, de modo a contemplar o objetivo proposto. Quando propomos à criança, por exemplo, uma brincadeira ou jogo em que deve criar gestos, movimentos, olhares e mímica junto de seu grupo, estamos explorando o campo de experiência corpo e movimento bem como o campo “o eu, o outro e o nós”, visto que, na atividade em grupo, são exploradas habilidades de convívio e relação interpessoal. O campo de experiência “corpo, gestos e movimentos” contempla os aspectos ligados à exploração de mundo, de espaços e de objetos, realizada pelas crianças através de seus corpos. Indica que elas brincam, estabelecem relações e produzem conhecimentos sobre si e sobre os outros a partir de sua corporeidade, o que as leva à consciência de seu próprio corpo, dos limites e das potencialidades dele. O documento aponta, com relação ao trabalho na educação infantil: Na Educação Infantil, o corpo das crianças ganha centralidade, pois ele é o partícipe privilegiado das práticas pedagógicas de cuidado físico, orientadas para a emancipação e a liberdade, e não para a submissão. Assim, a instituição escolar precisa promover oportunidades ricas para que as crianças possam, sempre animadas pelo espírito lúdico e na interação com seus pares, explorar e vivenciar um amplo repertório de movimentos, gestos, olhares, sons e mímicas com o corpo, para descobrir variados modos de ocupação e uso do espaço com o corpo (tais como sentar com apoio, rastejar, engatinhar, escorregar, caminhar apoiando-se em berços, mesas e cordas, saltar, escalar, equilibrar-se, correr, dar cambalhotas, alongar-se etc.). (BRASIL, 2017, p. 41) O movimento é uma linguagem capaz de expressar emoções, necessidades e desejos. Na educação infantil, através do corpo e do movimento, as crianças podem se comunicar e se expressar por meio de linguagens tais quais a dança, o teatro, as brincadeiras de faz de conta e a música. Essas vivências, de acordo com a BNCC, permitem às crianças o conhecimento e reconhecimento das “sensações e funções de seu corpo e, com seus gestos e movimentos, identificam suas potencialidades e seus limites, desenvolvendo, ao mesmo tempo, a consciência sobre o que é seguro e o que pode ser um risco à sua integridade física” (BRASIL, 2017, p. 41). FOCO NA BNCC A Base Nacional Comum Curricular indica que as aprendizagens essenciais compreendem, na educação infantil, tanto comportamentos, habilidades e conhecimentos quanto vivências que promovem aprendizagem e desenvolvimento nos diversos campos de experiências, sendo as interações e a brincadeira eixos estruturantes. Assim, apresenta os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento sequencialmente organizados em três grupos por faixa etária, que correspondem, aproximadamente, às possibilidades de aprendizageme às características do desenvolvimento das crianças, reconhecendo as especificidades dos diferentes grupos etários que constituem a educação infantil. No Quadro 1.1, retirado do documento, podemos visualizar como se dá a organização do campo de experiência corpo e movimento a fim de organizar as práticas pedagógicas na educação infantil: Quadro 1.1 | Objetivos da aprendizagem e desenvolvimento na BNCC Fonte: adaptado de Brasil (2017). OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO Bebês (zero a 1 ano e 6 meses) Crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses) Crianças pequenas (4 anos a 5 anos e 11 meses) (El01EO01) Perceber que suas ações têm efeitos nas outras crianças e nos adultos. (El02EO01) Demonstrar atitudes de cuidado e solidariedade na interação com crianças e adultos. (El03EO01) Demonstrar empatia pelos outros, percebendo que as pessoas têm diferentes sentimentos, necessidades e maneiras de pensar e agir. (El01EO02) Perceber as possibilidades e os limites de seu corpo nas brincadeiras e interações das quais participa. (El02EO02) Demonstrar imagem positiva de si e confiança em sua capacidade para enfrentar dificuldades e desafios. (El03EO02) Agir de maneira independente, com confiança em suas capacidades, reconhecendo suas conquistas e limitações. (El01EO03) Interagir com crianças da mesma faixa etária e adultos ao explorar espaços, materiais, objetos, brinquedos. (El02EO03) Compartilhar os objetos e os espaços com crianças da mesma faixa etária e adultos. (El03EO03) Ampliar as relações interpessoais, desenvolvendo atitudes de participação e cooperação (El01EO04) Comunicar necessidades, desejos e emoções, utilizando gestos, balbucios, palavras. (El02EO04) Comunicar-se com os colegas e os adultos, buscando compreendê-los e fazendo-se compreender. (El03EO04) Comunicar suas ideias e sentimentos a pessoas e grupos diversos. (El01EO05) Reconhecer seu corpo e expressar suas sensações em momentos de alimentação, higiene, brincadeira e descanso. (El02EO05) Perceber que as pessoas têm características físicas diferentes, respeitando essas diferenças. (El03EO05) Demonstrar valorização das características de seu corpo e respeitar as características dos outros (crianças e adultos) com os quais convive. Assim, finalizamos apontando a síntese de aprendizagens indicada pelo documento. No final da educação infantil, no que se refere ao campo de experiência corpo e movimento, as crianças devem ser capazes de: Reconhecer a importância de ações e situações do cotidiano que contribuem para o cuidado de sua saúde e a manutenção de ambientes saudáveis. Apresentar autonomia nas práticas de higiene, alimentação, vestir-se e no cuidado com seu bem-estar, valorizando o próprio corpo. Utilizar o corpo intencionalmente (com criatividade, controle e adequação) como instrumento de interação com o outro e com o meio. Coordenar suas habilidades manuais. (BRASIL, 2017, p. 54) O QUE A BNCC ABORDA SOBRE O CORPO E MOVIMENTO NAS SÉRIES INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL Referente às séries iniciais do ensino fundamental, a Base Nacional Comum Curricular traz, dentro da área de Linguagens o componente curricular Educação Física, o qual concentra os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento referentes ao corpo e movimento para essa etapa da educação básica. Antes de adentrarmos no componente em si, vale destacarmos o entendimento da área denominada Linguagens: As atividades humanas realizam-se nas práticas sociais, mediadas por diferentes linguagens: verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e, contemporaneamente, digital. Por meio dessas práticas, as pessoas interagem consigo mesmas e com os outros, constituindo-se como sujeitos sociais. Nessas interações, estão imbricados conhecimentos, atitudes e valores culturais, morais e éticos. Na BNCC, a área de Linguagens é composta pelos seguintes componentes curriculares: Língua Portuguesa, Arte, Educação Física e, no Ensino Fundamental – Anos Finais, Língua Inglesa. A finalidade é possibilitar aos estudantes participar de práticas de linguagem diversificadas, que lhes permitam ampliar suas capacidades expressivas em manifestações artísticas, corporais e linguísticas, como também seus conhecimentos sobre essas linguagens, em continuidade às experiências vividas na Educação Infantil. (BRASIL, 2017, p. 63) Diferentemente da forma como é trabalhada na educação infantil, na qual as linguagens eram articuladas, no ensino fundamental, elas passam a ter status próprios de objetos de conhecimento escolar. No entanto, é de fundamental importância que as práticas pedagógicas possibilitem a apropriação, por parte dos alunos, das especificidades de cada linguagem, de modo que compreendam, ainda, o todo na qual elas estão inseridas. Sobre a Educação Física nas séries iniciais do ensino fundamental, a BNCC aponta: A Educação Física é o componente curricular que tematiza as práticas corporais em suas diversas formas de codificação e significação social, entendidas como manifestações das possibilidades expressivas dos sujeitos, produzidas por diversos grupos sociais no decorrer da história. Nessa concepção, o movimento humano está sempre inserido no âmbito da cultura e não se limita a um deslocamento espaço-temporal de um segmento corporal ou de um corpo todo. Nas aulas, as práticas corporais devem ser abordadas como fenômeno cultural dinâmico, diversificado, pluridimensional, singular e contraditório. Desse modo, é possível assegurar aos alunos a (re)construção de um conjunto de conhecimentos que permitam ampliar sua consciência a respeito de seus movimentos e dos recursos para o cuidado de si e dos outros e desenvolver autonomia para apropriação e utilização da cultura corporal de movimento em diversas finalidades humanas, favorecendo sua participação de forma confiante e autoral na sociedade. (BRASIL, 2017, p. 212) A BNCC aponta que existem três elementos comuns às práticas corporais, sendo eles: 1. O movimento corporal como elemento essencial. 2. A organização interna – de maior ou menor grau – pautada por uma lógica específica. 3. O produto cultural vinculado com o lazer e entretenimento e/ou com o corpo e a saúde. Cada uma dessas práticas corporais tematizadas compõe uma das seis unidades temáticas abordadas ao longo do ensino fundamental para o objeto da Educação Física. Conheceremos a seguir essas unidades, a partir de suas definições curriculares na BNCC (BRASIL, 2017). No ensino fundamental, essa organização em unidades temáticas tem por base a compreensão de que o caráter lúdico está presente em todas as práticas corporais, ainda que essa não seja a finalidade da Educação Física na escola. De acordo com a BNCC: Ao brincar, dançar, jogar, praticar esportes, ginásticas ou atividades de aventura, para além da ludicidade, os estudantes se apropriam das lógicas intrínsecas (regras, códigos, rituais, sistemáticas de funcionamento, organização, táticas etc.) a essas manifestações, assim como trocam entre si e com a sociedade as representações e os significados que lhes são atribuídos. (BRASIL, 2017, p. 220) Dessa forma, a delimitação das habilidades referentes ao corpo e movimento dentro da BNCC privilegia as seguintes oito dimensões de conhecimento: 1. Experimentação. 2. Uso e apropriação. 3. Fruição. 4. Reflexão sobre a ação. 5. Construção de valores. 6. Análise. 7. Compreensão. 8. Protagonismo comunitário. FOCO NA BNCC Conheça as competências específicas de Educação Física para o ensino fundamental trazidas pela BNCC: 1. Compreender a origem da cultura corporal de movimento e seus vínculos com a organização da vida coletiva e individual. 2. Planejar e empregar estratégias para resolver desafiose aumentar as possibilidades de aprendizagem das práticas corporais, além de se envolver no processo de ampliação do acervo cultural nesse campo. 3. Refletir, criticamente, sobre as relações entre a realização das práticas corporais e os processos de saúde/doença, inclusive no contexto das atividades laborais. 4. Identificar a multiplicidade de padrões de desempenho, saúde, beleza e estética corporal, analisando, criticamente, os modelos disseminados na mídia e discutir posturas consumistas e preconceituosas. 5. Identificar as formas de produção dos preconceitos, compreender seus efeitos e combater posicionamentos discriminatórios em relação às práticas corporais e aos seus participantes. 6. Interpretar e recriar os valores, os sentidos e os significados atribuídos às diferentes práticas corporais, bem como aos sujeitos que delas participam. 7. Reconhecer as práticas corporais como elementos constitutivos da identidade cultural dos povos e grupos. 8. Usufruir das práticas corporais de forma autônoma para potencializar o envolvimento em contextos de lazer, ampliar as redes de sociabilidade e a promoção da saúde. 9. Reconhecer o acesso às práticas corporais como direito do cidadão, propondo e produzindo alternativas para sua realização no contexto comunitário. 10. Experimentar, desfrutar, apreciar e criar diferentes brincadeiras, jogos, danças, ginásticas, esportes, lutas e práticas corporais de aventura, valorizando o trabalho coletivo e o protagonismo. (BRASIL, 2017, p. 223) Você possui, agora, elementos para a reflexão acerca da presença do corpo e do movimento na escola, da importância de sua manifestação e do embasamento legal curricular sobre esses aspectos. A partir deles, na próxima unidade, poderemos conhecer e explorar práticas pedagógicas de valorização do corpo e do movimento na escola. REFERÊNCIAS BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: https://bit.ly/2ZMyU4d . Acesso em: 28 abril. 2020. BRASIL. Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: Presidência da República, 1996. Disponível em: https://bit.ly/3e4X4vZ . Acesso em: 28 abr. 2020. BRASIL. Lei nº 13278, de 2 de maio de 2016. Altera o § 6º do art. 26 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que fixa as diretrizes e bases da educação nacional, referente ao ensino da arte. Brasília: Presidência da República, 2016. Disponível em: https://bit.ly/2O2t2P8 . Acesso em: 29 abr. 2020. http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2016/Lei/L13278.htm BRASIL. 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Acesso em: 12 maio 2020. WEISZ, T. O diálogo entre o ensino e a aprendizagem. 2. ed. São Paulo: Ática, 2009. ZABALA, A. A prática educativa: como ensinar. Tradução de Ernani F. da F. Rosa. Porto Alegre: Artmed, 1998. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO PRÁTICA CORPORAL COMO APOIO PARA A APRENDIZAGEM Como futuro profissional, é importante refletir sobre quais práticas corporais podem ser utilizadas como apoio para a aprendizagem. SEM MEDO DE ERRAR A partir da consideração da coordenadora de que a prática da professora em questão não contempla o movimento como linguagem, podemos propor uma nova mudança na prática de Ana, com foco nas diferentes dimensões do movimento e nas propostas condizentes com a BNCC, de modo a permitir que os alunos se expressem corporalmente a qualquer momento e que a docente desenvolva propostas teóricas para que ampliem seu conhecimento estético. Nesse contexto a professora deve afastar-se de “atividades” nas quais tanto a expressão corporal como as práticas corporais possuam, para si, momentos próprios. Ao contrário, estas devem ser permitidas a qualquer momento que se faça necessário para o aluno; caso contrário, incidimos na prática da restrição do movimento. Ressalta-se o movimento como uma linguagem que, de acordo com a BNCC, é responsável pela mediação das práticas sociais presentes nas atividades humanas e, nesse contexto, as práticas corporais, em quaisquer ambientes, incluindo o escolar, pois as pessoas interagem consigo mesmas e com os outros, constituindo-se como sujeitos sociais. http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/rcnei_vol1.pdf https://www.ideiacriativa.org/2019/07/corpo-gestos-e-movimentos-objetivos-de.html http://publicacoes.fcc.org.br/ojs/index.php/cp/article/viewFile/799/810 https://www.scielo.br/pdf/ccedes/v21n53/a05v2153.pdf https://periodicos.uff.br/revistamovimento/article/view/32889 Nessas interações, estão imbricados conhecimentos, atitudes e valores culturais, morais e éticos e, dessa forma, não podem ser limitados ou tolhidos. Assim, a professora Ana pode incorporar ao seu trabalho as dimensões do movimento, que passarão a ser valorizadas tal qual uma linguagem capaz de expressar necessidades, desejos e emoções, constituindo-se como essencial ao desenvolvimento de seus alunos, de modo a considerar que corpo e mente não se separam e que o corpo da criança, em movimento, constitui-se instrumento potencializador das mais distintas aprendizagens. AVANÇANDO NA PRÁTICA CORPO, MOVIMENTO E DESAFIOS NA ESCOLA ATUAL Imagine que você lecione para uma turma de primeiro ano do ensino fundamental e que, devido a contratempos relativos a contratações, sua turma não tem tido aulas de Educação Física desde o início do ano letivo. Preocupada com a situação, você aciona a direção a fim de tentar minimizar os efeitos disso e é informada de que pode trabalhar o componente curricular. No entanto, a escola não dispõe de espaço físico adequado. Você se vê, então, diante de uma dupla dificuldade: trabalhar um componente curricular específico e sem as devidas condições. Como pode buscar solucionar essas dificuldades de modo a enriquecer as experiências de seus alunos com relação ao corpo e movimento dentro da escola? RESOLUÇÃO Em primeiro lugar devemos afirmar que o profissional habilitado para o desenvolvimento e trabalho com o objeto de conhecimento, enquanto componente curricular da Educação Física, é o professor licenciado nessa disciplina. Assim, não compete ao professor de sala regular desenvolver práticas específicas dessa área de formação. Isto posto, sabemos que a Base Nacional Comum Curricular aponta que, nos anos iniciais do ensino fundamental, devemos valorizar as situações lúdicas de aprendizagem, apontando para a necessária articulação com as experiências vivenciadas na educação infantil. Tal articulação precisa prever tanto a progressiva sistematização dessas experiências quanto o desenvolvimento, pelos alunos, de novas formas de relação com o mundo, novas possibilidades de ler e formular hipóteses sobre os fenômenos, de testá-las, de refutá-las, de elaborar conclusões, em uma atitude ativa na construção de conhecimentos.Assim, você pode buscar, a partir de seu conhecimento a respeito do corpo e do movimento na educação infantil e das aprendizagens já vivenciadas pelos alunos naquela etapa, propor uma continuidade de experiências a partir de brincadeiras, de jogos, danças e teatro por exemplo. Deve lembrar ainda que não existe um único momento para o https://conteudo.colaboraread.com.br/201701/INTERATIVAS_2_0/CORPO_E_MOVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u1s3.html#resolucao%20.item-1 desenvolvimento ou a possibilidade de práticas corporais dentro da escola, assim, a aula de educação física é mais um momento e não o único, afinal as práticas corporais devem ser contempladas a todo tempo, visto que não separamos corpo e mente de nossos alunos. CORPO E MOVIMENTO - UNIDADE 2 DIMENSÃO PRAZEROSA DO MOVIMENTO - SECÃO 1 A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR O brincar e a brincadeira são consideradas as principais atividades da infância. Entenda a relevância dessas atividades na Educação Infantil. CONVITE AO ESTUDO Olá, caro aluno! Vimos, na unidade anterior, que o movimento tem várias dimensões. Cada uma delas explora aspectos diferentes – mas igualmente importantes – do movimento. Sendo assim, todas devem ser contempladas na prática escolar para que a criança se desenvolva plenamente no que se refere ao corpo e ao movimento. Também vimos que, para que as crianças desenvolvam competências corporais, é preciso que elas aprendam com o corpo. E por que com os adultos seria diferente? De fato, não é! Isso significa que também o professor precisa experimentar essas diferentes dimensões com o próprio corpo. E é justamente isso que faremos nesta unidade: investigaremos cada uma dessas dimensões, na teoria e na prática. Vamos relembrar, então, que dimensões são essas? Bem, o movimento possui diferentes funções ou motivações: divertir, expressar e proporcionar apreciação estética. Logo, ele possui as seguintes dimensões: prazerosa, expressiva e estética. Para explorar cada uma delas, faremos o seguinte percurso: na primeira seção, vamos nos divertir com jogos e brincadeiras de correr, pular, rolar, passar por baixo, cantar, entre outras. Na segunda seção, descobriremos como o corpo pode se expressar e ampliaremos nosso repertório de movimentos para enriquecer essa linguagem. Na terceira e última seção, apreciaremos a dança, conhecendo referências de trabalhos artísticos de qualidade e também experimentaremos o processo de uma criação coreográfica. Preparado? Animado? Inspirado? Então vamos lá! PRATICAR PARA APRENDER Você já fez um exame de ressonância magnética ou já passou por alguma situação em que precisasse ficar imóvel durante um tempo? Não é extremamente incômodo? Por outro lado, você se lembra da sensação de se balançar num balanço? De andar de bicicleta? De “cair na pista” em uma festa e dançar livremente? De fazer qualquer atividade física (correr, nadar, pular no mini trampolim da academia)? No começo é bem cansativo, parece que não vamos conseguir. Mas, depois, a sensação não é de bem-estar? Mexer-se é bom, dá prazer. Ficar parado, ao contrário, não. Vamos agora voltar nossa atenção para a escola, onde tantas vezes ouvimos professores dizendo para os alunos: “fiquem quietos”; “não saiam do lugar”, ou reclamando “esse menino não para”. Por que isso acontece? É início de ano e você é um professor que acaba de conhecer seus novos alunos, com os quais irá passar o todo o ano letivo. Todos estão muito animados com a série nova que se iniciará. Observando o grupo, nas primeiras semanas de aula, você percebe que há crianças muito “duras” corporalmente, com dificuldades de se expressar através do movimento de seus corpos. Você resolve, então, propor algumas das brincadeiras vistas nesta seção. No entanto, ao enunciar a proposta para a turma, um aluno recusa-se a participar. Quais conhecimentos e estratégias metodológicas você mobiliza para o enfrentamento deste desafio? Vamos refletir juntos sobre essa dimensão prazerosa do movimento e suas implicações no ambiente escolar! CONCEITO-CHAVE BRINCAR E BRINCADEIRA NA INFÂNCIA O brincar consiste na principal atividade da criança pequena (entre 0 e 6 anos de idade). Segundo a BNCC: A interação durante o brincar caracteriza o cotidiano da infância, trazendo consigo muitas aprendizagens e potenciais para o desenvolvimento integral das crianças. Ao observar as interações e a brincadeira entre as crianças e delas com os adultos, é possível identificar, por exemplo, a expressão dos afetos, a mediação das frustrações, a resolução de conflitos e a regulação das emoções. (BRASIL, 2017, p. 37) Nesse contexto, o brincar e a brincadeira não se constituem como atividades aleatórias, mas como as principais atividades da infância, sobre as quais é preciso refletir e que devem ter espaço central nas instituições de Educação Infantil. De acordo com Kishimoto (2010), sobre a importância do brincar: Para a criança, o brincar é a atividade principal do dia-a-dia. É importante porque dá a ela o poder de tomar decisões, expressar sentimentos e valores, conhecer a si, aos outros e o mundo, de repetir ações prazerosas, de partilhar, expressar sua individualidade e identidade por meio de diferentes linguagens, de usar o corpo, os sentidos, os movimentos, de solucionar problemas e criar. Ao brincar, a criança experimenta o poder de explorar o mundo dos objetos, das pessoas, da natureza e da cultura, para compreendê-lo e expressá- lo por meio de variadas linguagens. Mas é no plano da imaginação que o brincar se destaca pela mobilização dos significados. Enfim, sua importância se relaciona com a cultura da infância, que coloca a brincadeira como ferramenta para a criança se expressar, aprender e se desenvolver. (KISHIMOTO, 2010, p. 1) POR DENTRO DA BNCC As brincadeiras são a expressão primeira do movimento em sua dimensão prazerosa. A Base Nacional Comum Curricular, ao delimitar os direitos de aprendizagem e desenvolvimento na educação infantil, a esse respeito, contempla: • Brincar cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais, seus conhecimentos, sua imaginação, sua criatividade, suas experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais (BRASIL, 2017). • Participar ativamente, com adultos e outras crianças, tanto do planejamento da gestão da escola e das atividades propostas pelo educador quanto da realização das atividades da vida cotidiana, tais como a escolha das brincadeiras, dos materiais e dos ambientes, desenvolvendo diferentes linguagens e elaborando conhecimentos, decidindo e se posicionando (BRASIL, 2017). Nesta seção teremos a oportunidade de refletir sobre brinquedos, brincadeiras e o brincar na Educação Infantil, numa perspectiva de movimento enquanto atividade prazerosa. EXEMPLIFICANDO A seleção de brinquedos envolve diversos aspectos: ser durável, atraente, adequado e apropriado a diversos usos; garantir a segurança e ampliar oportunidades para o brincar; atender à diversidade racial, não induzindo a preconceitos de gênero, classe social e etnia; não estimular a violência; incluir diversidade de materiais e tipos – brinquedos tecnológicos, industrializados, artesanais e produzidos pelas crianças, professoras e pais. Assim, é preciso considerar: • Tamanho: o brinquedo, em suas partes e no todo, precisa ser duas vezes maior e mais largo do que a mão fechada da criança (punho). • Durabilidade: o brinquedo não pode se quebrar com facilidade – vidros e garrafas plásticas são os mais perigosos. • Cordas e cordões: esses dispositivos podem enroscar-se no pescoço da criança. • Bordas cortantes ou pontas: brinquedos com essas características devem ser mantidos fora do alcance das crianças ou nãodevem ser utilizados. • Não tóxicos: brinquedos com tintas ou materiais tóxicos devem ser eliminados, pois o bebê os coloca na boca. • Não inflamável: é preciso assegurar-se de que o brinquedo não pega fogo. • Lavável, feito com materiais que podem ser limpos: essa recomendação se aplica especialmente às bonecas e brinquedos estofados. • Divertido: é importante assegurar que o brinquedo seja atraente e interessante (KISHIMOTO, 2010). VAMOS À PRÁTICA? ASSIMILE Para aprender e desenvolver-se de forma saudável, toda criança precisa exercitar o corpo com movimentos amplos tanto dentro como fora da sala. Bebês, crianças de 2 a 3 anos e pré-escolares devem ter espaços (área interna e externa) separados, seguros e adequados às suas atividades lúdicas e necessidades pessoais (KISHIMOTO, 2010, p. 10). JOGOS E BRINCADEIRAS DE PULAR Suco gelado Cabelo arrepiado Qual é a letra do seu namorado? A, B, C, D, E, F, G, H, I, J, K, L... Pular corda: uma brincadeira clássica e quase universal. As canções para acompanhar o ritmo da corda são muitas, e cada uma traz também outros desafios: “Senhoras e senhores, ponham a mão no chão. Senhoras e senhores, pulem de um pé só”. Você já tentou “entrar” com a corda batendo? E quando o ritmo dobra, no “foguinho”? E pular duas cordas ao mesmo tempo, já experimentou? Cada desafio proporciona aprendizados motores significativos e muitas gargalhadas ao tentar superá-los. Riscar o chão para sair pulando é uma brincadeira que vem dos tempos do Império Romano. A amarelinha original tinha mais de cem metros e era usada como exercício de treinamento militar. Os soldados corriam sobre a amarelinha para melhorar as habilidades com os pés. As crianças romanas, então, fizeram imitações reduzidas do campo utilizado pelos soldados. E acrescentaram numeração nos quadrados que deveriam ser pulados. Hoje as amarelinhas têm formatos de caracol, quadrado e geométricos, que lembram o corpo de um boneco. A quantidade de casas pode também variar bastante. As palavras céu e inferno podem ser escritas no começo e no final do desenho, que é marcado no chão com giz, tinta ou graveto. Mas, as crianças também escrevem palavras como mundo, sol e lua nessas áreas, geralmente de descanso. Existem variantes de amarelinha em que há áreas de descanso (local onde se pode pisar com os dois pés, por exemplo) nas laterais. Usando pedra, caco, saquinho, casca de banana ou "alguma coisa pesadinha" (como dizem as crianças), os participantes pulam amarelinha saltando (com um e dois pés) ou chutando. (AMARELINHA, 2009) EXEMPLIFICANDO Há muitas variantes da amarelinha pelo país afora. Visite o site do projeto Território do Brincar e conheça uma versão de São Gonçalo do Rio das Pedras, em Minas Gerais. NOVO, M. F.; MEIRELLES, R. Amarelinha de dias da semana. Território do brincar, [S.l.], 13 fev. 2014. Um elástico comprido e três participantes é o que basta para realizar outra brincadeira muito conhecida e praticada em todo o país: pular elástico. Na falta de três pessoas, uma delas pode ser substituída por um móvel, um poste ou uma árvore. PESQUISE MAIS Você já pulou elástico? Se não conhece essa brincadeira, dê uma olhada nas explicações do site Mapa do Brincar e assista ao lindo minidocumentário do projeto Território do Brincar (ELÁSTICO, 2009; TERRITÓRIO..., 2016). JOGOS E BRINCADEIRAS DE CORRER Não é preciso nenhum material ou preparação prévia. Basta um pouco de espaço e a brincadeira de pega-pega se institui. Não há criança que não saiba brincar. É um dos primeiros jogos experimentados na infância, muitas vezes quando as crianças ainda são bem pequenininhas. Conforme vão crescendo, vão inventando novas modalidades e o jogo vai se tornando mais complexo. Pega-pega sorvete, pega-pega vampiro, fugi-fugi, polícia e ladrão, pique- esconde, mãe da rua, entre outras. E há também variações cantadas: Rio Vermelho; Mãe Polenta; Tá pronto, seu lobo? Geralmente, a brincadeira divide os participantes em pegador e fugitivos, mas há muitos jeitos de brincar de pega-pega. Em algumas variações, é comum ter um pique, que é um lugar (um poste, por exemplo) ou uma posição (deitado no chão) na qual os participantes estarão a salvo do pegador. Há versões apresentadas pelas crianças nas quais o que muda é o jeito de escolher o pegador (também chamado de "pega"). Também existem variações referentes ao nome do pegador (conhecido por polícia, zumbi, gato, velociraptor, bruxa etc.) e do fugitivo (apelidado de ladrão, rato, galinha e outros). Outras variantes da brincadeira são: a organização da área onde se brinca, formas de salvamento (quem é pego pode ser salvo quando alguém passa por debaixo de suas pernas, por exemplo), comandos e diálogos. Nas brincadeiras de pegar, quanto mais crianças brincarem, melhor. Mas, geralmente, é preciso ter pelo menos cinco ou seis participantes. [...] Pega-pega também é chamado de pira, trisca, picula e manja, em diferentes regiões do país. E pega-pega, pique-altinho, pega-vírus, pega-zumbi, o rei e o ladrão, rio vermelho, pique-pega do Saci, polícia e ladrão, pega-pega congela, mãe da rua, pega-pega aranha, cada macaco no seu galho e pega-chiclete são algumas das variações das brincadeiras de pegar. (PEGAR, 2009) ROLAR, TREPAR, ESCALAR, PASSAR POR BAIXO DE ALGO... São muitas as possibilidades de movimento que um bom parquinho ou uma área verde permite explorar. Devemos lembrar, porém, que a ideia aqui é priorizar a dimensão prazerosa do movimento e não os objetivos de coordenação e desenvolvimento motor da área de educação física. Esse viés nos leva a um diferente modo de olhar para o movimento das crianças: brincar livremente permite uma pesquisa pessoal em relação às próprias possibilidades corporais. Em outras palavras, em vez de notar o que a criança deve ser capaz de realizar em uma determinada idade ou qual é o seu nível de desenvolvimento, olhamos para o que ela descobre de si própria e o que ela se permite arriscar, experimentar e vivenciar corporalmente – e o quanto se desenvolve em relação a ela mesma. ASSIMILE De acordo com a BNCC, no campo de experiência corpo e movimento: [...] a instituição escolar precisa promover oportunidades ricas para que as crianças possam, sempre animadas pelo espírito lúdico e na interação com seus pares, explorar e vivenciar um amplo repertório de movimentos, gestos, olhares, sons e mímicas com o corpo, para descobrir variados modos de ocupação e uso do espaço com o corpo. (BRASIL, 2017, p. 41) Dessa forma, para fazermos boas propostas no que se refere ao corpo e ao movimento na escola, devemos lançar mão da cultura lúdica infantil, oferecendo situações em que as crianças possam correr, pular, rolar, passar por baixo, escalar, etc., além de explorar o rico universo das brincadeiras cantadas. BRINCADEIRAS CANTADAS Geralmente de mãos dadas e em círculo, o grupo descreve movimentos no espaço. Cada um na roda e no conjunto que dança contribui para a pluralidade do encontro e pode perceber o próprio corpo no grupo. Quem está à minha frente pode vir a ser meu espelho, quem está ao meu lado, um parceiro. Todos giram em torno de um mesmo eixo numa situação de integração, assim os corpos se relacionam. Ao mesmo tempo, nos movimentamos em torno do nosso próprio eixo e, com isso, cada corpo pode se organizar em si próprio, deslocando-se no espaço. A roda abre e fecha… (OLIVEIRA, 2015) Quando se brinca de roda, a música dita o ritmo do movimento corporal. Levados por esse embalo sonoro, os participantes deixam de controlar o corpo racionalmente e permitem-se ser conduzidos pelo fluxo da brincadeira e da música. REFLITA A Base Nacional Comum Curricular, ao apresentar as competências gerais da Educação Básica, aponta: Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, comoLibras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo. (BRASIL, 2017, p. 8) Com base nessa competência, reflita: • Que experiências motoras você teve quando era criança? • Como elas se evidenciam no seu repertório corporal hoje? Cada brincadeira traz desafios e composições corporais diferentes. Vamos conhecer algumas delas: Mazu Transmitido por: Ione de Medeiros, Guilherme Nogueira e alunos do CP- UFMG Procedência: Belo Horizonte, MG Para dentro e para fora, mazu, mazu. Para dentro e para fora, mazu, mazu, mazu. Eu limpo essa janela, mazu, mazu. Eu limpo essa janela, mazu, mazu, mazu. Eu pego um companheiro, mazu, mazu. Eu pego um companheiro, mazu, mazu, mazu. Eu danço engraçadinho, mazu, mazu. Eu danço engraçadinho, mazu, mazu, mazu. (PANDALELÊ, 2001, [s.p.]) Todos fazem uma roda. Um brincante sai passando por dentro e por fora, fazendo um ziguezague em todos da roda, enquanto cantam "Para dentro e para fora". Quando começam a cantar "Eu limpo essa janela", o brincante que saiu faz movimentos com as mãos diante dos companheiros, imitando o que o texto pede. Na hora em que cantam "Eu pego um companheiro", ele escolhe outro brincante e, enquanto cantam "eu danço engraçadinho", ambos dançam, um de frente ao outro, no centro da roda. Ao recomeçar a música, o que saiu primeiro volta para a roda e o outro continua a brincadeira, fazendo os mesmos movimentos. Ua tatá e Aram sam Transmitido por: José Alfredo Debortoli Procedência: Belo Horizonte, MG Ua tatá ua tatá Guli, guli, guli, guli Ua tatá (3 vezes) Auê, Auê Guli, guli, guli, guli Ua tatá (2 vezes) Aram sam sam Aram sam sam Guli guli guli guli Guli guli aram sam sam Aravi aravi Guli guli guli guli Guli guli aram sam sam (PANDALELÊ, 2001, [s.p.]) Todos em roda cantam, fazendo os seguintes movimentos: na parte da letra que diz "Ua tatá, Ua tatá", cada um bate as mãos nas próprias pernas; na hora do "Guli, guli, guli, guli", coloca-se a mão direita em cima da cabeça e a mão esquerda embaixo do queixo, estalando os dedos; na hora do "Auê Auê", todos os brincantes erguem os braços balançando para os lados. Toda vez que a música voltar para o "Guli" e para o "Ua tatá", todos repetem os mesmos movimentos que foram feitos no início da brincadeira. Quando recomeçar a música, no "Ua tatá", em vez de bater nas próprias pernas, bate-se as mãos nas pernas do colega da direita, e faz-se o "guli, guli" no colega da esquerda. Ao repetir a música muda-se de lado, isto é, o "ua tatá" nas pernas do colega da esquerda e o "guli, guli" no colega da direita. O desafio é fazer ininterruptamente a brincadeira, alternando os movimentos e realizando-os o mais rápido possível junto com a música. O "Aram sam sam" brinca-se do mesmo modo que o "Ua tatá". A carrocinha Versão recolhida pelo Pandalelê Procedência: Belo Horizonte, MG A carrocinha pegou três cachorros de uma vez. A carrocinha pegou três cachorros de uma vez. Tralalá, que gente é essa? Tralalá, que gente má. Tralalá, que gente é essa? Tralalá, que gente má. (PANDALELÊ, 2001, [s.p.]) Essa brincadeira se inicia com todos os brincantes em roda. Escolhem-se três para serem os "cachorros", que vão ao centro da roda e fazem também uma pequena roda. As duas rodas começam a girar, em sentido contrário, enquanto todos cantam a música. No momento do "tralalá que gente é essa?", os "cachorros" param em frente a alguém e os dois dançam com as mãos na cintura, balançando as pernas, até terminar a estrofe. Então, os dois trocam de lugar e quem era "cachorro" vai para a roda de fora e quem foi escolhido vai para a roda de dentro, tornando-se os novos "cachorros". Inicia-se novamente a música para continuar a brincadeira. A serpente Transmitido por: Amanda Viana Machado Procedência: Minas Gerais (escotismo, SESC) (Encontrada no México e na Argentina com algumas variações de texto e de melodia) Essa é a história da serpente, que desceu do morro para procurar um pedaço do seu rabo. E você é... e você é... e você é um pedaço do meu rabão. (PANDALELÊ, 2001, [s.p.]) Todos fazem uma grande roda. Um dos brincantes sai e começa a passear pelo centro da roda, acompanhando o ritmo da música, como se fosse a “serpente”. Na parte da letra que diz "e você é... e você é... e você é um pedaço do meu rabão", esse brincante deve parar em frente a qualquer outro da roda e abrir as pernas para que o outro possa passar por debaixo delas. Depois, quem passou vai para as costas do outro, segurando na cintura da pessoa da frente, formando uma fila. Recomeça a música e quem está de frente escolhe mais uma pessoa da roda, que deverá passar por debaixo dos dois, e depois outro e mais outro são escolhidos para ir formando o rabo da serpente. Quando o rabo da serpente já estiver grande e enquanto um brincante estiver passando por debaixo das pernas, pode-se prolongar o "ão" do “rabão”, cantando assim: "do meu rabãããããão...", até ele conseguir sair na ponta final do rabo da serpente. PESQUISE MAIS Para aprender melhor essas e outras brincadeiras, assista aos vídeos do projeto Pandalelê (PALAVRA..., [s.d.]). FOCO NA BNCC Os objetivos de aprendizagem dispostos na Base Nacional Comum Curricular, no que se refere ao corpo e movimento, mais especificamente aos conteúdos desenvolvidos nesta seção, indicam, no trabalho com as diferentes idades da Educação Infantil: • Bebês (zero a um ano e seis meses): imitar gestos e movimentos de outras crianças, adultos e animais (EI01CG03) (BRASIL, 2017). • Crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses): explorar formas de deslocamento no espaço (pular, saltar, dançar), combinando movimentos e seguindo orientações (EI02CG03) (BRASIL, 2017). • Crianças pequenas (4 anos a 5 anos e 11 meses): criar movimentos, gestos, olhares e mímicas em brincadeiras, jogos e atividades artísticas como dança, teatro e música (EI03CG03) (BRASIL, 2017). Vimos, nesta seção, que a dimensão prazerosa do movimento contempla aspectos de vital importância para as crianças, sobretudo aquelas da educação infantil. Brincar, correr e pular são atividades indissociáveis da infância e devem ser o norte do trabalho pedagógico na primeira etapa da Educação Básica. O professor que vivencia essa dimensão tem maiores possibilidades de explorá-la em sua prática, portanto, movam-se! PESQUISE MAIS Para saber sobre possibilidades de brincadeiras de roda com bebês, você pode ler o artigo de Silva e Neves (2019), que discute a trajetória da brincadeira de roda em um grupo de bebês. SILVA, E. de B. T.; NEVES, V. F. A. Brincando de roda com bebês em uma instituição de Educação Infantil. Educ. rev., Curitiba, v. 35, n. 76, p. 239-258, ago. 2019. Disponível em: https://bit.ly/2FC3583. Acesso em: 20 maio 2020. REFERÊNCIAS AMARELINHA. In: MAPA do brincar. Folha de São Paulo, São Paulo, 2009. Disponível em: https://bit.ly/3haps23. Acesso em: 20 maio 2020. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: https://bit.ly/2ZMyU4d. Acesso em: 16 jun. 2020. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40602019000400239&lng=en&nrm=iso http://mapadobrincar.folha.com.br/brincadeiras/amarelinha/ http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf BRASILEIRO, L. T.; MARCASSA, L. P. Linguagens do corpo: dimensões expressivas e possibilidades educativas da ginástica e da dança. Pro-posições, Campinas, v. 19, n. 357, p. 195-207, dez. 2008. Disponível em: https://bit.ly/3aBzV4c. Acesso em: 20 maio 2020. ELÁSTICO. In: MAPAdo brincar. Folha de São Paulo, São Paulo, 2009. Disponível em: https://bit.ly/3h9scwO. Acesso em: 15 jun. 2020. KISHIMOTO, T. M. Brinquedos e brincadeiras na educação infantil. In: SEMINÁRIO NACIONAL: CURRÍCULO EM MOVIMENTO, 1., 2010, Belo Horizonte. Anais [...]. Belo Horizonte: Ministério da Educação, 2010. Disponível em: https://bit.ly/2Eeb3U2. Acesso em: 28 maio 2020. LIMA, R. R. M. de. Dança: linguagem do corpo na educação infantil. 2009. 160 f. 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TERRITÓRIO do Brincar | Série MiniDocs | Brincadeira de Elástico - Acupe, BA. [S.l: s.n.], 2016. 1 vídeo (1 min). Publicado pelo canal Território do Brincar. Disponível em: https://bit.ly/318IMr0. Acesso em: 15 jun. 2020. https://www.scielo.br/pdf/pp/v19n3/v19n3a10.pdf http://mapadobrincar.folha.com.br/brincadeiras/elastico/ http://portal.mec.gov.br/docman/dezembro-2010-pdf/7155-2-3-brinquedos-brincadeiras-tizuko-morchida/file https://repositorio.ufrn.br/jspui/handle/123456789/14365 https://territoriodobrincar.com.br/ https://www.cartacapital.com.br/educacao/brincar-de-roda/ https://www.youtube.com/playlist?list=PLUFqlRME_XOPi17r6qTc-ajxEv3X8HxMn https://novaescola.org.br/conteudo/1215/o-que-ensinar-em-educacao-fisica https://mapadobrincar.folha.com.br/brincadeiras/pegar/ http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40602019000400239&lng=en&nrm=iso https://www.scielo.br/pdf/ccedes/v21n53/a05v2153.pdf https://www.youtube.com/watch?v=twhMauppN_0&feature=youtu.be FOCO NO MERCADO DE TRABALHO RESISTÊNCIA DOS ALUNOS ÀS ATIVIDADES CORPORAIS PROPOSTAS O que fazer quando os alunos se recusam a participar das atividades? SEM MEDO DE ERRAR Essa é uma situação comum em escolas e é bastante provável que você se depare com ela ao longo da sua carreira. Quando enfrentamos resistência dos alunos àquilo que estamos propondo, precisamos, antes de mais nada, buscar compreender o porquê da recusa. Tentar impor a atividade, valendo-se de uma relação autoritária, é a opção menos proveitosa para um trabalho educativo de qualidade. Principalmente quando isso se dá em propostas corporais, é preciso ter ainda mais cuidado. Uma imposição, nesses casos, pode levar ao constrangimento do aluno ou até a uma lesão se ele for obrigado a fazer certo movimento que não deseja ou não consegue fazer. O resultado disso seria o distanciamento da área do corpo e movimento, o que é o contrário do que se pretende conquistar. Feita essa advertência, vamos pensar agora o que você, enquanto professor, pode fazer em momentos como esse. Em primeiro lugar, deve perguntar ao aluno o porquê de não desejar participar. A partir da explicitação desse motivo talvez você consiga contra-argumentar, apresentando os benefícios da prática proposta e ressaltando quão gostoso pode ser realizá-la. Pode ser que essa conversa seja suficiente para convencê-lo a mudar de ideia. Caso contrário, é interessante questionar (ou descobrir observando o aluno no dia a dia) quais são seus gostos e interesses pessoais e buscar incorporá-los nas próximas propostas. Sua prática deve apresentar propostas lúdicas, brincadeiras que despertem o gosto dos alunos pelo movimento, que se apoiem nos objetivos de aprendizagem dispostos na Base Nacional Comum Curricular e que se adequem à idade com que trabalha. Nesse sentido, a compreensão da dimensão prazerosa do movimento nos ajuda a saber claramente que a adesão a essas práticas deve ser voluntária, já que o objetivo primeiro deve ser o deleite pessoal – como ocorre com a leitura de um livro literário ou a apreciação de uma canção. AVANÇANDO NA PRÁTICA ESPAÇO E TEMPO DE BRINCAR E APRENDER Imagine que você é professora de uma turma da última fase da educação infantil composta por crianças que, ao término do ano letivo, ingressarão no primeiro ano do ensino fundamental. Preocupada com a transição entre as etapas e com o pleno desenvolvimento das crianças em todas as suas potencialidades, a coordenação da escola vem acompanhando seu trabalho com afinco e fazendo sugestões com relação a conteúdos e formas de trabalho. A coordenadora, então, solicita que você proponha momentos de aprendizagem relacionados ao letramento das crianças, os quais contemplem os aspectos lúdicos e a valorização do corpo e do movimento na educação infantil. Com base em seus conhecimentos sobre a temática e tendo por referência as orientações legais da Base Nacional Comum Curricular, proponha uma atividade que contemple a orientação de sua coordenadora pedagógica. RESOLUÇÃO Sabemos que a educação infantil, de acordo com a Base Nacional Comum Curricular, deve pautar suas atividades na ludicidade, sendo que a interação durante o brincar caracteriza o cotidiano da infância, o que traz consigo muitas aprendizagens e potenciais para o desenvolvimento integral das crianças. Entretanto, práticas pedagógicas ditas escolarizantes e “preparatórias” para o ensino fundamental são frequentes e descaracterizam a especifidade da etapa, impossibilitando às crianças o pleno desenvolvimento de seu corpo e de sua mente, obrigando-as a permanecer, no mais das vezes, sentadas e atentas a atividades impressas. A proposta feita pela coordenadora à professora solicita a esta a mobilização de seu conhecimento de modo a contemplar aspectos referentes ao letramento, respeitando a especificidade lúdica da educação infantil. Como sugestão a professora pode propor uma brincadeira de pular corda pautada na canção tradicional “suco gelado”, na qual as crianças têm contato com o alfabeto, podem fazer associações com o som de cada letra e com nomes que se iniciem com elas. Assim, os alunos desenvolvem, ao mesmo tempo, aspectos de sua corporalidade, contemplando, dessa forma, o pleno desenvolvimento das suas potencialidades em associação aos conteúdos referentes ao letramento, pressupostos da educação infantil. DIMENSÃO EXPRESSIVA DO MOVIMENTO - SEÇÃO 2 LINGUAGEM CORPORAL Como desenvolvemos essa linguagem? PRATICAR PARA APRENDERVocê deve conhecer pessoas com diferentes níveis de proficiência na comunicação oral. Não são raras as situações em que admiramos a eloquência, a grandiosidade do discurso de alguém. Isso significa que a linguagem oral é https://conteudo.colaboraread.com.br/201701/INTERATIVAS_2_0/CORPO_E_MOVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u2s1.html#resolucao%20.item-1 passível de desenvolvimento – e desenvolvimento, como já vimos, é algo que ocorre em etapas que se aprofundam ou se complexificam. Ora, o mesmo não ocorre com a língua escrita? Certo é que nem todas as pessoas são grandes escritoras e que é preciso muito empenho, tempo e construção de aprendizagens para se desenvolver como tal. E se pensarmos nas linguagens artísticas? Em quanto tempo e como se desenvolve um grande pintor ou um músico de excelência? Podemos concluir, então, que todas as linguagens são desenvolvidas. Isso quer dizer que sempre é possível aprimorar-se nelas. E a linguagem corporal? Bem, ela certamente se insere na mesma lógica: como as outras linguagens, também essa é fruto de desenvolvimento. Mas, afinal, como se desenvolve essa linguagem? Para se desenvolver na expressão corporal, é preciso ir além do que já se sabe nesse campo. Sendo assim, a partir de situações significativas que proponham desafios, supera-se os conhecimentos prévios para se construir novas aprendizagens. Ao entender o movimento como linguagem, é preciso ter em mente que sua produção não é fruto de aptidões inatas, mas de um processo que se desenvolve a partir de problematizações e trocas entre o que já se sabe e novos conhecimentos. No entanto, não basta memorizar uma série de movimentos, como se o acúmulo de informações garantisse o aprendizado. Para que, de fato, haja desenvolvimento nessa linguagem (assim como nas demais), é preciso que o sujeito construa conhecimentos e que estes passem a fazer parte de seu repertório pessoal. Essa concepção contraria o chamado princípio de aprendizagem aditiva: [...] o/a aluno/a começa aprendendo pequenas partes que reúne em conjuntos maiores; depois, constrói significados cada vez mais complexos e, finalmente, procura empregá-los nas situações cotidianas. [...] Inversamente à postulada “sequência” do simples ao complexo, preferimos um procedimento que coloca o/a aluno/a desde o primeiro momento, diante de uma tarefa complexa, global e completa, em semelhança ao que acontece nas atividades autênticas da vida social. [...] Em resumo, em lugar de propor um crescimento gradativo, o processo de ensino tem início com aproximação intencional dos alunos da manifestação da cultura corporal no contexto da prática social. (NEIRA; NUNES, 2006, p. 241) É por isso que, na sequência exposta, não se apresenta isoladamente cada articulação ou movimento previamente indicados, mas, a partir da exploração proposta, é possível posteriormente tecer uma reflexão sobre os elementos criados e vivenciados. Depois de ter vivenciado a sequência de expressão corporal, que outros movimentos e situações você poderia criar, para elaborar uma nova sequência? Vamos, agora, aprofundar nosso conhecimento acerca das possibilidades de desenvolvimento da linguagem corporal. CONCEITO-CHAVE Quando pensamos na linguagem corporal, estamos adentrando a dimensão expressiva do movimento. Na seção anterior, vimos que movimentar-se é prazeroso e agora iremos refletir sobre como o movimento pode ser uma via de expressão e comunicação. Para desenvolver-se na expressão corporal – assim como em todas as outras linguagens –, é preciso praticar, exercitar-se e construir aprendizagens significativas a partir de situações desafiadoras. Para começar, é preciso saber quais conhecimentos se tem nesse campo, pois é a partir dos conhecimentos prévios que se podem pautar os objetivos de aprendizagem e se pode elaborar as estratégias para alcançá-los. Isso vale para o trabalho de corpo e movimento com as crianças, mas vale também para o seu desenvolvimento nessa linguagem. Assim, sabendo qual é sua própria bagagem no campo da expressão corporal, você pode trilhar um percurso de aprofundamento no desenvolvimento dessa linguagem. Sempre há o que aprender, o que avançar, o que aprimorar. Até mesmo pessoas muito experientes e com grande prática corpórea se beneficiam de novos desafios, continuam se exercitando e pesquisando novas possibilidades para seguir se desenvolvendo. Somando-se ainda a exploração e a pesquisa de movimentos expressivos, verifica-se que diferentes possibilidades de movimento vão, aos poucos, formando e complexificando o vocabulário corporal individual, bem como os repertórios que a dança e a ginástica já acumularam, contribuindo para a organização e a sistematização do saber sobre as linguagens do corpo que, nesse caso, contêm um duplo caráter. Segundo Bracht (1997), um saber que se traduz por um “saber-fazer” e um “saber-sobre” esse realizar corporal, ambos proporcionados pela prática da ginástica e da dança. Queremos dizer com isso que há dimensões da aprendizagem relacionadas às linguagens corporais que somente são passíveis de serem propiciadas pela execução de gestos, pelo ato de movimentar-se e de expressar-se e que, portanto, dificilmente podem ser descritas, explicadas ou racionalizadas. É assim que, retomando Bracht (1997), podemos falar em uma tentativa de ampliação do conceito de linguagem corporal como sendo aquele que não é nem só pensamento, nem só movimento, mas “movimento-pensamento”. (BRASILEIRO; MARCASSA, 2008, p. 206) REFLITA Você se considera proficiente nessa linguagem? Por quê? Consideramos muito pertinente a ideia das autoras de “movimento- pensamento”. De fato, apesar de concordarmos que se aprende sobre o corpo com o corpo, não basta se movimentar de qualquer jeito para se desenvolver nessa linguagem. Para ficar mais claro, vamos fazer um paralelo com a linguagem oral: é evidente que se aprende a falar falando! No entanto, conhecemos diversas pessoas que não têm um grande desenvolvimento oral, ainda que tenham falado a vida toda. Isso ocorre porque, para haver aprendizagem e, logo, desenvolvimento, é preciso problematizar os conhecimentos prévios e, de certa forma, superá-los, a fim de alcançar patamares mais avançados, mais profundos. Voltando para a linguagem corporal, é preciso ir além dos movimentos e gestos corriqueiros para buscar outras formas de se expressar nessa linguagem. É por isso que: [...] a criança aprende a utilizar a dança como comunicação e expressão – para dizer de si mesma e do mundo - a partir de um trabalho intencional, sistematizado, de situações desafiadoras em torno dessa vivência, do contato com a multiplicidade de danças e dos relacionamentos estabelecidos no ato de dançar. (LIMA, 2009, p. 132) Em matéria da revista Nova Escola (PAULINA; SANTOMAURO, 2008), sobre o ensino da educação física, João Batista Freire, pesquisador da Universidade Estadual de Santa Catarina, faz um paralelo semelhante, chamando o trabalho com o movimento na escola de “alfabetização corporal”. Segundo seu depoimento para a reportagem: Existe um vocabulário motor, uma 'fala' do corpo, e é possível fazer a turma avançar apresentando novas experiências e propostas de ação". Assim, uma ampla gama de atividades deve ser proposta para os alunos ampliarem seu repertório de vivências. (PAULINA; SANTOMAURO, 2008, [s.p.]) EXEMPLIFICANDO Você vai conhecer agora uma sequência de exercícios de expressão corporal. AQUECIMENTO Sempre que nos movimentamos, é preciso aquecer o corpo. Tire seus sapatos e caminhe normalmente pelo espaço, explorando diferentes direções. • Concentre-se em seus pés. Sinta os movimentos que eles fazem para possibilitar seu deslocamento. Quais são os pontos de apoio? Como eles se alternam? Sinta como seus pés empurram o chão. • Caminhe apoiando-se apenas nos calcanhares. Note as diferençasque essa alteração causa no restante do seu corpo. • Caminhe apoiando-se apenas na meia ponta. Note as diferenças que essa alteração causa no restante do seu corpo. • Caminhe apoiando-se apenas nas bordas laterais externas dos pés. Note que diferenças essa alteração causa no restante do seu corpo. • Caminhe apoiando-se apenas nas bordas laterais internas dos pés. Note que diferenças essa alteração causa no restante do seu corpo. • Volte a caminhar normalmente. Há alguma diferença na sua pisada nesse momento? • Acelere o passo. Sinta como seu corpo reage. Varie sempre a trajetória do caminhar pelo espaço; não ande em círculos. Perceba o nível de atenção requerido para lidar com as mudanças de direção. • Acelere mais. E mais. E mais. Sinta como seu corpo reage. Chegue quase à velocidade de uma corrida. • Desacelere. Volte a caminhar em um ritmo natural. DESENVOLVIMENTO • Continue a caminhar pelo espaço, sem parar. Dedique alguns minutos para vivenciar cada uma das etapas seguintes. • Sinta como se o chão estivesse quente. Mais quente. Cada vez mais quente. Como seu corpo se comporta? • O chão está esfriando. Está cada vez mais frio. Está gelado! Como seu corpo se comporta? • O chão está mole. Mole e pegajoso. Caminhe por esse brejo lamacento. Afunde-se cada vez mais nesse pântano. • O chão voltou a ficar firme, mas agora está bambo. Balança para um lado e para o outro, como em um barco em alto-mar. Jogue com esse desequilíbrio. • O chão voltou a ficar estável, mas agora está liso, escorregadio. Deslize pelo ambiente. Descubra novas possibilidades corporais. • Volte a caminhar normalmente. Perceba as mudanças que esses exercícios provocaram no seu corpo. APROFUNDAMENTO • Ao som de uma música instrumental, movimente sua mão direita, deslocando-a pelo espaço. O restante do corpo deve, simplesmente, acompanhar a trajetória proposta pelo movimento da mão. Explore planos altos, médios e baixos. • Repita o mesmo procedimento, agora com a mão esquerda. • Desloque ambas as mãos pelo espaço. Descubra possibilidades de concatenar esses movimentos. Estabeleça relações entre os seus movimentos e a música. • Escolha, alternadamente, outras partes do corpo para guiar seus movimentos: joelho, quadril, cabeça, barriga, pé, tórax, cotovelo. Perceba a diversidade de movimentos que você pode produzir. RELAXAMENTO • Permaneça um tempo em pé. Sinta seu corpo: a sensação é a mesma do início da sequência? • Mantendo as pernas esticadas (mas não superestendidas), flexione o quadril, deixando a cabeça pender para baixo. Faça um leve balanço, para um lado e para o outro. • Desenrole o corpo lentamente, voltando a ficar em pé. • Dê uma boa espreguiçada e aproveite o bem-estar corporal que, possivelmente, essa sequência propiciou. ASSIMILE Se você teve a oportunidade de vivenciar, na prática, essa sequência, deve ter percebido o quanto as imagens ajudam a explorar diferentes movimentos com o corpo. Quando “visualizamos” essas imagens, libertamo-nos da busca pelo resultado – se está bonito, se está “correto” –, o que nos permite expressar com o corpo de forma mais espontânea e verdadeira. Você compreenderá que esse mesmo recurso de utilizar imagens para explorar o movimento é usado para trabalhar a expressão corporal com as crianças, mas de forma mais lúdica. PESQUISE MAIS Para ampliar seu repertório pessoal de movimentos, veja alguns exemplos de movimentação livre realizada por bailarinos nos vídeos Dança contemporânea – coreografia Sonho (DANÇA..., 2015) e IMPROVISAÇÃO –Expressão corporal – (Dança) (IMPROVISAÇÃO, 2015). Perceba que, apesar de serem profissionais, os movimentos não requerem habilidades físicas específicas. FOCO NA BNCC A Base Nacional Comum Curricular apresenta como um dos direitos de aprendizagem das crianças na educação infantil: “Expressar, como sujeito dialógico, criativo e sensível, suas necessidades, emoções, sentimentos, dúvidas, hipóteses, descobertas, opiniões, questionamentos, por meio de diferentes linguagens” (BRASIL, 2017, p. 38). Por ser o movimento, como vimos na Unidade 1, uma linguagem, este deve ser contemplado nas práticas educativas nessa etapa da educação, de modo a contribuir para o pleno desenvolvimento da corporalidade como forma de expressão das crianças na escola e fora dela. Finalizamos agora o estudo da dimensão expressiva do movimento. Por meio dos conteúdos estudados pudemos relacionar o conhecimento teórico a práticas possíveis de desenvolvimento dentro do contexto educacional. Na próxima seção finalizaremos o estudo das três dimensões, contemplando, assim, a dimensão estética. REFERÊNCIAS A DANÇA dos Passarinhos – A Fazenda do Zenon 1 | O Reino das Crianças. [S.l.:s.n., s.d.]. 1 vídeo (3 min). Publicado pelo canal O Reino Infantil. Disponível em: https://bit.ly/3g2yqgA. Acesso em: 26 maio 2020. BERGE, Y. Viver o seu corpo: por uma pedagogia do movimento. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: https://bit.ly/2ByXs8x. Acesso em: 25 maio 2020. BRASILEIRO, L. T.; MARCASSA, L. P. Linguagens do corpo: dimensões expressivas e possibilidades educativas da ginástica e da dança. Pro-posições, Campinas, v. 19, n. 357, p. 195-207, dez. 2008. Disponível em: https://bit.ly/3aBzV4c . Acesso em: 25 maio 2020. BREGOLATO, R. A. Cultura Corporal da Dança. 3. ed. 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TODO VECTOR. Vector de Danza. Todo vector, [S.l.], 2014b. Disponível em: https://bit.ly/2Y7yzt5. Acesso em: 16 jun. 2020. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO MOVIMENTO É LINGUAGEM Preparado para trabalhar a dimensão expressiva do movimento? SEM MEDO DE ERRAR Antes de qualquer coisa, é preciso levar em consideração os seguintes momentos: aquecimento – desenvolvimento/aprofundamento – relaxamento. Para o aquecimento, é importante que se proponha movimentos mais simples, que não demandem um alto grau de exigência física. Como o nome diz, o objetivo é aquecer a musculatura e as articulações do corpo. O caminhar é uma boa opção para esse início, por ser um movimento corriqueiro e que não apresenta grandes dificuldades para a maioria das pessoas. Balanços suaves com o corpo, para os dois lados; girar lentamente as articulações; brincadeiras de roda ou cirandas podem ser também boas opções. Na etapa do desenvolvimento, a ideia é propor imagens para que não se fique “controlando mentalmente” os movimentos. Como vimos, ao imaginarmos cenas ou situações, nos expressamos com o corpo mais livremente. É possível fantasiar diferentes cenários (adentrar uma floresta, passear pela cidade, entrar no útero materno, caminhar sobre as nuvens) ou imagens mais abstratas, como uma cor, uma emoção, um cheiro, etc. A ideia do aprofundamento é a de desprendimento das imagens para produzir o movimento com maior intencionalidade. É interessante, contudo, ter algum tipo de comando ou restrição que traga problematizações ao movimento. Por exemplo, movimentar-se apenas em determinado plano; variar os andamentos rítmicos do movimento ou, ainda, a intensidade; movimentar-se interagindo com outros indivíduos ou com algum objeto. O relaxamento deve ser, justamente, o movimento de descansar o corpo, acalmar os batimentos cardíacos, esfriar a pele, alongar a musculatura. Uma sessão de massagem, um alongamento suave ou simplesmente permanecer um tempo deitado são algumas sugestões possíveis. http://todovector.com/vector/deportes/danza/danza-31.html http://todovector.com/vector/deportes/danza/danza-39.html AVANÇANDO NA PRÁTICA CORPOS QUE FALAM Imagine que você está pleiteando uma vaga para professora de educação infantil em uma grande escola conceituada nacionalmente por suas práticas educativas. Você já foi aprovado na prova teórica e, neste momento, está diante do desafio da prova didática que lhe pede o desenvolvimento de uma aula, destinada a crianças entre 3 e 4 anos de idade, que possibilite o enriquecimento dos aprendizados delas e o desenvolvimento de novas competências de comunicação entre elas. Mobilize seus conhecimentos sobre o assunto e proponha uma sequência de atividades correspondentes à expectativa do que lhe foi solicitado. RESOLUÇÃO As crianças pequenas têm no movimento uma de suas grandes fontes de prazer e seus corpos são capazes de demonstrar, inclusive, seus estados afetivos, sendo a expressão corporal reveladora de sentimentos tais quais alegria, tristeza, timidez, medo. Diante disso, a linguagem corporal na educação infantil exerce um papel fundamental nos processos de ensino e aprendizagem. De acordo com Carmo Júnior (1995, p. 19), “quando negarmos à criança se expressar através de movimentos, quebramos uma corrente que começa em suas primeiras experiências vividas, e forçamos um aprendizado progressivo e latente”. A fim de corresponder ao desafio proposto, você deve propor atividades e situações que possam estimular as funções motoras, perceptivas e socioafetivas das crianças. O objetivo consiste em permitir que elas explorem o ambiente através de experiências concretas e indispensáveis ao desenvolvimento intelectual, tomando consciência de si próprias e do ambiente em que estão inseridas. Nesse contexto, as situações devem envolver, na faixa etária proposta, brincadeiras e jogos de correr, subir, descer, pendurar-se, tais quais circuitos. Utilização de recursos de deslocamento e de incentivo às atividades que envolvam força, velocidade, resistência e flexibilidade, tais quais provas de obstáculos. A manipulação de materiais, objetos e brinquedos que possibilitem o aperfeiçoamento de suas habilidades manuais também deve ser contemplada. Lembre-se de que as atividades devem valorizar as conquistas corporais de cada criança e devem respeitar a individualidade delas. DIMENSÃO ESTÉTICA DO MOVIMENTO - SEÇÃO 3 EXPERIÊNCIAS DIDÁTICAS COM DANÇAS Entenda a relação entre o nosso corpo e a estética de nossos movimentos. https://conteudo.colaboraread.com.br/201701/INTERATIVAS_2_0/CORPO_E_MOVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u2s2.html#resolucao%20.item-1 PRATICAR PARA APRENDER É muito provável que você já tenha visto, curtido e até mesmo compartilhado vídeos de danças em diferentes contextos. Nas redes sociais, circulam diversos desses vídeos, em contextos dos mais variados: há dançarinos de rua com destrezas impressionantes; balés com suas belezas clássicas ou contemporâneas; coreografias inusitadas, filmadas caseiramente, e mais uma infinidade de situações que nos deixam admirados e, às vezes, até emocionados diante dos movimentos apresentados. Você já se perguntou por que isso acontece? Qual efeito gera tais reações naquele que assiste? O que diferencia esses movimentos dos demais? Depois de ter conhecido importantes referências no campo da dança, você deve ter percebido que o desenho e a intencionalidade artística, por exemplo, são fatores que diferenciam a dimensão estética do movimento das demais. No campo da produção da dança como arte, o que está em jogo não é a necessidade expressiva daquele que dança, mas o resultado estético que esses movimentos produzem. Retomando agora o diagrama-árvore de Jacqueline Robinson, apresentado por Strazzacappa (2001) na unidade anterior, pode-se dizer que estamos no campo representado pelo galho, o qual a autora denominou “espetáculo”: Figura 2.11 | Diagrama-árvore Fonte: Strazzacappa (2001, p. 72). Você gostou de todas as referências dos artistas apresentados nesta unidade? Essa questão nos leva a uma discussão importante quando falamos da dimensão estética: como definir a qualidade de uma produção? Como mensurar o gosto das pessoas com relação a uma obra de arte? Isso é possível? Vamos mergulhar agora na dimensão estética do movimento, aquela que justamente nos emociona e cativa. Estão prontos? Então vamos lá!CONCEITO-CHAVE Adentramos, finalmente, a última dimensão do movimento: a dimensão estética. Estamos no terreno da dança. Antes, porém, cabe uma ressalva para “desmistificar” esse universo: entendemos dança, aqui, como movimento organizado de intenção estética. Nesse sentido, não é uma produção exclusiva dos profissionais de dança, uma vez que não é preciso ter habilidades corporais prévias para realizar uma composição esteticamente bela. Certamente há excelentes bailarinos que, ao se dedicarem com grande empenho e se profissionalizarem cada vez mais nessa área, são capazes de performances incríveis, mas a dança comporta também muitas outras possibilidades de valiosa beleza. Mencionamos, na unidade anterior, por exemplo, o trabalho da coreógrafa Pina Bausch com adolescentes e idosos. Mais adiante, conheceremos um brasileiro que realiza trabalhos semelhantes, montando espetáculos com jovens bailarinos não profissionais. EXEMPLIFICANDO Na docência de uma disciplina como esta que você cursa agora, o professor, em sua prática, certamente se depara com a seguinte situação: ao perguntar aos alunos sobre suas experiências prévias com a dança, frequentemente escuta respostas como: “sou muito desengonçado, não sirvo para isso”. Na prática isso nos mostra como a relação com o nosso corpo e com a estética de nossos movimentos precisa ser reelaborada a fim de que possamos ensinar o outro sobre este tema. Como praticar a criação estética? Assim como nas outras artes, é preciso aventurar-se, experimentar, criar. É importante também conhecer, estudar e “se alimentar”, apreciando criações de artistas da área – não esquecendo que se deve buscar um repertório multicultural e diversificado. Esse deve ser o foco do trabalho com a dança na escola. É muito comum que as escolas promovam apresentações de dança em determinados eventos festivos, mas é raro que propiciem uma reflexão mais aprofundada sobre a dimensão estética do movimento. O resultado disso é que o trabalho com a dança perde o sentido, tornando-se uma prática vazia e, às vezes, até maçante para as crianças. Antes de conhecermos alguns grupos que são importantes referências para a área, vamos refletir um pouquinho sobre como essa questão se apresenta para os profissionais da área da educação através da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e quais possibilidades de desenvolvimento do movimento em sua dimensão estética no contexto escolar. A BNCC informa que, no ensino fundamental, o componente curricular Arte está centrado nas seguintes linguagens: artes visuais, dança, música e teatro. Tais linguagens articulam saberes referentes a produtos e fenômenos artísticos e envolvem as práticas de criar, ler, produzir, construir, exteriorizar e refletir sobre formas artísticas. A sensibilidade, a intuição, o pensamento, as emoções e as subjetividades se manifestam como formas de expressão no processo de aprendizagem em Arte. Nesse contexto, sobre a dança: A Dança se constitui como prática artística pelo pensamento e sentimento do corpo, mediante a articulação dos processos cognitivos e das experiências sensíveis implicados no movimento dançado. Os processos de investigação e produção artística da dança centram- -se naquilo que ocorre no e pelo corpo, discutindo e significando relações entre corporeidade e produção estética. Ao articular os aspectos sensíveis, epistemológicos e formais do movimento dançado ao seu próprio contexto, os alunos problematizam e transformam percepções acerca do corpo e da dança, por meio de arranjos que permitem novas visões de si e do mundo. Eles têm, assim, a oportunidade de repensar dualidades e binômios (corpo versus mente, popular versus erudito, teoria versus prática), em favor de um conjunto híbrido e dinâmico de práticas. (BRASIL, 2017, p. 195) ASSIMILE Coreografia A coreografia é a escrita do movimento. Assim como o texto literário, a partitura da sinfonia ou a tela do pintor, a coreografia é o que externa a composição produzida por um grupo ou um coreógrafo. Como vimos, a dança é uma linguagem artística e, sendo assim, a coreografia é a produção textual que traduz e dá forma a essa linguagem. Para criar uma coreografia, deve-se combinar uma sequência de movimentos que todos seguirão, em um determinado ritmo marcado pela música. É o que será feito em nossa próxima aula prática. A BNCC, ao desenvolver o componente curricular referente à Educação Física, o qual tematiza as práticas corporais em suas diversas formas de codificação e significação social, entendidas como manifestações das possibilidades expressivas dos sujeitos, produzidas por diversos grupos sociais no decorrer da história, apresenta ainda as danças como uma de suas unidades temáticas. A esse respeito, o documento informa: [...] a unidade temática Danças explora o conjunto das práticas corporais caracterizadas por movimentos rítmicos, organizados em passos e evoluções específicas, muitas vezes também integradas a coreografias. As danças podem ser realizadas de forma individual, em duplas ou em grupos, sendo essas duas últimas as formas mais comuns. Diferentes de outras práticas corporais rítmico-expressivas, elas se desenvolvem em codificações particulares, historicamente constituídas, que permitem identificar movimentos e ritmos musicais peculiares associados a cada uma delas. (BRASIL, 2017, p. 218) FOCO NA BNCC Fique por dentro das habilidades destacadas pela BNCC, na unidade temática “Danças”, no componente curricular Arte, referente ao ensino fundamental, do 1º ao 5º ano: (EF15AR08) Experimentar e apreciar formas distintas de manifestações da dança presentes em diferentes contextos, cultivando a percepção, o imaginário, a capacidade de simbolizar e o repertório corporal. (EF15AR09) Estabelecer relações entre as partes do corpo e destas com o todo corporal na construção do movimento dançado. (EF15AR10) Experimentar diferentes formas de orientação no espaço (deslocamentos, planos, direções, caminhos etc.) e ritmos de movimento (lento, moderado e rápido) na construção do movimento dançado. (EF15AR11) Criar e improvisar movimentos dançados de modo individual, coletivo e colaborativo, considerando os aspectos estruturais, dinâmicos e expressivos dos elementos constitutivos do movimento, com base nos códigos de dança. (EF15AR12) Discutir, com respeito e sem preconceito, as experiências pessoais e coletivas em dança vivenciadas na escola, como fonte para a construção de vocabulários e repertórios próprios. (Brasil, 2017, p. 201) GRUPOS REFERÊNCIAS NA DANÇA GRUPO CORPO Com mais de 40 anos de existência, é a companhia de dança mais consagrada do nosso País, reconhecida também internacionalmente, não à toa: o Grupo Corpo realiza impressionantes composições coreográficas. Ao assistir um espetáculo do Corpo, tem-se a vontade de “sair dançando”, pois os bailarinos demonstram leveza e suavidade nos movimentos. Tem-se a sensação de que não há a menor dificuldade em realizar tais movimentos – e muitos deles são, de fato, muito simples. Mas, no conjunto, causam grande efeito estético. Conheça um pouco desse grupo lendo a matéria intitulada Grupo Corpo mantém caráter inovador em balés inéditos, publicada pela Folha de São Paulo (CALSAVARA, 2015, [s.p.]). A companhia mantém também um projeto social voltado à formação cultural de crianças e jovens de famílias de baixo poder aquisitivo. Conheça essa iniciativa através do vídeo institucional do chamado Corpo Cidadão, que traz ainda uma pertinente discussão sobre a importância da formação cultural e a necessidade de fortalecer essa área na educação básica (CORPO..., 2016). Esse trabalho evidencia, também, que qualquer pessoa pode dançar, tema que discutimos na Unidade 1. Assista aos vídeos Corpo Cidadão Flash Mob 2015 (CORPO..., 2015b) e Corpo Cidadão 2014 – O lugar do corpo (CORPO..., 2015a)para comprovar esse fato. Nesse último vídeo, é interessante ver o resultado de um trabalho de dança com crianças. PESQUISE MAIS Veja como o coreógrafo mineiro Rodrigo Pederneiras, residente do Grupo Corpo, uma das mais importantes companhias de dança da América Latina, construiu uma carreira sólida, contundente e se tornou conhecido dentro e fora do País como um dos expoentes da dança contemporânea. E ainda mais: veja como ele potencializou a emoção presente nas músicas por meio dos gestos de seus bailarinos, deu alma a composições esquecidas, levou o público a chorar e a sorrir de emoção (REIS, 2008). Não adianta só imaginar, é preciso ver! Passeie pelo canal do Grupo Corpo, no YouTube, e assista a trechos dos espetáculos (GRUPOCORPOOFICIAL, [s.d.]). Confira também um pouco do processo do espetáculo Dança Sinfônica, que marca os 40 anos do Grupo Corpo (#17..., 2015). Se tiver oportunidade, não perca a chance de assistir ao balé do Grupo Corpo ao vivo! IVALDO BERTAZZO Bailarino e coreógrafo, Bertazzo criou um método para a reeducação postural. Além disso, dirigiu, durante alguns anos, um projeto social com jovens da periferia de São Paulo e do Rio de Janeiro, que resultou em montagens de espetáculos como “Milágrimas” e “Samwaad”, muito reconhecidos pela crítica. Esse trabalho se assemelha, de certa forma, ao do Corpo Cidadão, reconhecendo a importância da formação artística e cultural para a criança e o jovem. Conheça um pouco mais desse profissional acessando seu site oficial que contém todas as suas ideias e peculiaridades de seu método (METODOBERTAZZO, [s.d.], [s.p.]). NATS NUS Trata-se de uma companhia de dança espanhola que, desde 1987, realiza dezenas de espetáculos adultos e infantis, nos quais o grupo explora a interação da dança com outras linguagens cênicas (objetos, mágica, texto, vídeo). Inicialmente dedicado a composições para o público adulto, a partir de 1998, com o desejo de aproximar a linguagem da dança do público infantil, Nats Nus iniciou uma série de espetáculos de dança para crianças – o que ainda hoje é uma produção pouco usual. Até 2013, a companhia criou e apresentou doze peças voltadas para os pequeninos. Nats Nus já esteve no Brasil em 2008, apresentando o espetáculo Momentari, voltado para o público infantil. PESQUISE MAIS Infelizmente só é possível assistir, no YouTube, a pequenos trechos do espetáculo Momentari, como o que se encontra no vídeo Nats Nus Momentari, disponível no canal Toni Mira (NATS NUS, [s.d.]). REFLITA Percebe-se que não basta apenas olhar, é preciso compreender o sentido que se dá ao movimento e reconhecê-lo como o movimentar do sujeito, o qual é um traço distintivo dele e que não se separa de suas dimensões estética e expressiva. Precisamos, dessa forma, discutir as possibilidades do corpo na perspectiva do diálogo entre corpo e mundo, visualizando uma possível reconstrução da ação pedagógica atenta à dimensão estética do movimento. PESQUISE MAIS Ao analisar os projetos dos cursos de Dança e Educação Física (UFBA, UNICAMP), Brasileiro (2012) identifica a dimensão estética presente. Especialmente nos cursos de dança, aparece uma ideia que pretende cumprir novas metas estéticas e isso chama a atenção, já que é comum vermos anunciadas metas sociais, culturais, educacionais, políticas etc., mas não as metas estéticas. Para compreender diferentes sentidos e significados dessa dimensão, você pode conhecer o trabalho de Lívia Tenório Brasileiro a partir da leitura do artigo Dança: sentido estético em discussão (BRASILEIRO, 2012). POR DENTRO DA BNCC A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) propõe que a abordagem das linguagens articule seis dimensões do conhecimento que, de forma indissociável e simultânea, caracterizam a singularidade da experiência artística. Tais dimensões perpassam os conhecimentos das artes visuais, da dança, da música e do teatro e as aprendizagens dos alunos em cada contexto social e cultural. Contemplando a dimensão estética, encontramos a dimensão da criação: Criação: refere-se ao fazer artístico, quando os sujeitos criam, produzem e constroem. Trata-se de uma atitude intencional e investigativa que confere materialidade estética a sentimentos, ideias, desejos e representações em processos, acontecimentos e produções artísticas individuais ou coletivas. Essa dimensão trata do apreender o que está em jogo durante o fazer artístico, processo permeado por tomadas de decisão, entraves, desafios, conflitos, negociações e inquietações. (BRASIL, 2017, p. 194) Agora você já possui elementos teóricos e práticos para contemplar o movimento em sua dimensão estética com seus futuros alunos e enriquecer sua prática pedagógica e a formação integral das crianças! REFERÊNCIAS #17 – Grupo Corpo 40 anos – Dança Sinfônica. [S.l.: s.n.], 2015. 1 vídeo (6 min). Publicado pelo canal GrupoCorpoOficial. Disponível em: https://bit.ly/347d3IK. Acesso em: 31 maio 2020. APRESENTAÇÃO Ivaldo Bertazzo. [S.l.: s.n., s.d.]. 1 vídeo (2 min). Publicado pelo canal Ivaldo Bertazzo. Disponível em: https://bit.ly/3aFVMHJ. Acesso em: 31 maio 2020. BERGE, Y. Viver o seu corpo: por uma pedagogia do movimento. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: https://bit.ly/2ZMyU4d. Acesso em: 16 jun. 2020. https://www.youtube.com/watch?v=Q-bPv7qo49M https://www.youtube.com/watch?v=TreLzH4jUz4&feature=youtu.be http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf BRASILEIRO, L. T. Dança: sentido estético em discussão. Movimento, Porto Alegre, v. 18, n. 01, p. 189-203, jan./mar. 2012. Disponível em: https://bit.ly/3g8wTps. Acesso em: 7 jul. 2020. BRASILEIRO, L. T.; MARCASSA, L. P. Linguagens do corpo: dimensões expressivas e possibilidades educativas da ginástica e da dança. Pro-posições, Campinas, v. 19, n. 357, p. 195-207, dez. 2008. Disponível em: https://bit.ly/3aBzV4c. Acesso em: 25 maio 2020. BREGOLATO, R. A. Cultura corporal da dança. 3. ed. São Paulo: Ícone, 2007. CALSAVARA, K. Grupo Corpo mantém caráter inovador em balés inéditos. 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Disponível em: https://bit.ly/3aIx1uz. Acesso em: 31 maio 2020. LIMA, R. R. M. de. Dança: linguagem do corpo na educação infantil. 2009. 160 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Centro de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2009. Disponível em: https://bit.ly/315eW6S. Acesso em: 24 maio 2020. MAR de Gente – Ivaldo Bertazzo. [S.l.: s.n., s.d.]. 1 vídeo (2 min). Publicado pelo canal TV Cultura. Disponível em: https://bit.ly/3h4HyCG. Acesso em: 31 maio 2020. MEIRELLES, R.; REEKS, D. Território do Brincar. [S.l.], 2013. Disponível em: https://bit.ly/3ha3hsS. Acesso em: 20 maio 2020. NANNI, D. Dança educação: pré-escola à universidade. 5. ed. Rio de Janeiro: Sprint, 2008. NATS NUS Momentari.[S.l.: s.n., s.d.]. 1 vídeo (8 min). Publicado pelo canal Toni Mira. Disponível em: https://bit.ly/3hejMnS. Acesso em: 31 maio 2020. NEIRA, M. G.; NUNES, M. L. F. Pedagogia da cultura corporal: crítica e alternativas. São Paulo: Phorte Editora, 2006. 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Acesso em: 20 maio 2020. PINO, A. A produção imaginária e a formação do sentido estético: reflexões úteis para uma educação humana. Revista Pro-posições, Campinas, v. 17, n. 2, p. 47-69, 2006. REIS, S. R. Rodrigo Pederneiras e o Grupo Corpo: dança universal. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008. 212p. (Coleção Aplauso). Disponível em: https://bit.ly/3h9321t. Acesso em: 31 maio 2020. SIGNIFICA – Companhia de Teatro e dança Ivaldo Bertazzo. [S.l.: s.n., s.d.]. 1 vídeo (6 min). Publicado pelo canal Miração Filmes Produtora. Disponível em: https://bit.ly/2FBn5Yq. Acesso em: 31 maio 2020. STRAZZACAPPA, M. A educação e a fábrica de corpos: a dança na escola. Caderno Cedes, Campinas, v. 21, n. 53, p. 69-83, abr. 2001. Disponível em: https://bit.ly/2CcwNi0. Acesso em: 20 maio 2020. VÁZQUEZ, A. S. Convite à estética. Tradução de Gilson Baptista Soares. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO CONSTRUÇÃO DE REPERTÓRIO É fundamental que o professor busque ampliar seu próprio repertório cultural, em relação às variadas linguagens artísticas, para oferecer aos alunos diferentes referências. SEM MEDO DE ERRAR A antropóloga Luciana Ostetto escreveu um artigo muito pertinente, no qual discute a questão do gosto (no caso da pesquisa dessa autora, a discussão é a respeito do gosto musical). Ostetto (2004) aponta que o gosto não é tão particular e que devemos questionar o ditado popular “gosto não se discute”. Isso porque “atrás de um gosto há sempre um sujeito, uma história, práticas culturais” (OSTETTO, 2004, p. 41). Completando essa ideia, a autora coloca também que é preciso “considerar que o gosto não é natural, que estamos falando de uma sociedade capitalista, uma sociedade massificada, que produz cultura de massa!” (OSTETTO, 2004, p. 46). Meditando a respeito da produção musical, Ostetto elabora uma reflexão pertinente, que podemos transpor também para o universo da dança: A massificação de “produtos culturais” é um dado inegável desta sociedade, em que os produtos colocados à venda seguem o “gosto do mercado”, mais que o “gosto popular”. Na verdade o povo, transformado em massa, é também o mercado onde serão divulgados e vendidos esses artigos, como por exemplo, os produtos da indústria do disco. E aqui há uma distinção interessante a fazer: as músicas, neste contexto, deixam de ser obras para transformarem-se em produtos. A obra, dizia um amigo meu, citando https://novaescola.org.br/conteudo/1215/o-que-ensinar-em-educacao-fisica https://aplauso.imprensaoficial.com.br/edicoes/12.0.813.463/12.0.813.463.pdf https://www.youtube.com/watch?v=ysh0gGyxDKw&feature=youtu.be https://www.scielo.br/pdf/ccedes/v21n53/a05v2153.pdf Lefebvre, vem da arte e o produto vem da indústria. Aquela, elaborada pelo artista, tem marca pessoal; esse, elaborado pelos profissionais da indústria, tem as marcas do gosto do mercado (quer dizer, do lucro!). (OSTETTO, 2004, p. 48, grifos nossos) Avançando nessa reflexão, Ostetto (2004) discute também que, antes de mais nada, é preciso garantir um repertório amplo para que o sujeito possa construir seu gosto pessoal. A autora conclui que “ninguém pode gostar do que não conhece”. E completa: “Creio que falar em gosto, sem cair no relativismo, é questionar as reais oportunidades de escolhas, dentre as inúmeras criações que compõem o patrimônio cultural da humanidade” (OSTETTO, 2004, p. 49). Por isso, o professor deve, em sua formação cultural, buscar constantemente ampliar o próprio repertório, nas várias linguagens artísticas, para poder oferecer aos alunos, também, uma gama ampla de referências. Afinal, “é tarefa da escola, da creche e da pré-escola, sim, colocar à disposição e ao conhecimento de todos os meninos e meninas, adolescentes, jovens, homens e mulheres que nela convivem e são educados, o melhor dentre tudo o que já foi produzido e criado pela humanidade” (OSTETTO, 2004, p. 56). AVANÇANDO NA PRÁTICA FESTA JUNINA NA ESCOLA: DANÇAR OU NÃO DANÇAR? Imagine que você trabalhe em uma escola de educação fundamental, nas séries iniciais, e, às vésperas do mês de junho, a coordenadora solicita às professoras que iniciem os ensaios de danças típicas com os alunos para as apresentações na festa junina. Dentre as orientações constam: elaborar uma coreografia bonita e interessante, contando com a participação de todos os alunos, a fim de que os pais se sintam contemplados e apreciem esteticamente a apresentação. Considerando os conteúdos estudados nesta seção e, de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), direcione a discussão com a coordenadora de tal modo que a atividade seja, de fato, um instrumento pedagógico que respeite as especificidades da idade dos alunos. RESOLUÇÃO Existem ainda inúmeras dúvidas quando se pensa na dança como um instrumento pedagógico. No entanto, a partir da Base Nacional Comum Curricular, ela aparece como unidade temática no componente curricular de Arte e também de Educação Física, assim, passa a figurar dentro de diversas habilidades a serem desenvolvidas na educação infantil e no ensino fundamental. A dança está comumente presente nas escolas, nas apresentações em festividades, dentre elas, a festa junina. Nesse contexto, é importante considerar que, no ambiente escolar, a dança não deve ser https://conteudo.colaboraread.com.br/201701/INTERATIVAS_2_0/CORPO_E_MOVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u2s3.html#resolucao%20.item-1 disseminada como uma prática para o espetáculo, ela precisa ser trabalhada de uma maneira lúdica, permitindo que o aluno descubra mais sobre seu próprio corpo e sobre o ambiente com o qual interage. Dessa forma, a participação não pode ser obrigatória, visto que o aluno deve sentir-se à vontade para expressar- se, por meio dessa linguagem, em público. A linguagem da qual a dança se apropria é a corporal e, por isso, sua prática promove a ampliação das habilidades associadas à inteligência corporal-sinestésica dos indivíduos, os quais devem ser respeitados em sua individualidade. Assim, na situação proposta, a dança enquanto instrumento pedagógico pode ser utilizada de modo a ampliar o conhecimento sobre a cultura, a história e as tradições de maneira geral, direcionando o processo educativo para o desenvolvimentointegral da criança, por meio do qual ela pode agir e integrar a sociedade de uma forma mais flexível, inovadora e responsável, afastando-se da concepção dominante de apresentações para apreciação pública dentro das escolas. Unidade 3 DESENVOLVIMENTO MOTOR - SEÇÃO 1 A BRINCADEIRA E O DESENVOLVIMENTO MOTOR A brincadeira promove grande avanço no desenvolvimento motor e na aprendizagem infantil. CONVITE AO ESTUDO Caro aluno, seja bem-vindo a mais uma unidade de estudos sobre os significados do corpo e do movimento. Primeiramente, vamos estudar o desenvolvimento motor da criança em seus vários estágios, buscando compreender como cada etapa da vida apresenta um tipo de motricidade específica, para que nós, professores e orientadores, possamos proporcionar melhores condições de aprendizagem às crianças. Em seguida, avançaremos com as reflexões sobre a psicomotricidade infantil, ampliando o desenvolvimento motor como resultado da relação do indivíduo com a sociedade e sua expressão enquanto agente social. Por último, estudaremos como o movimento em relação com a sociedade resulta na mobilização de um grupo social para produzir sua identidade pela cultura e pela dança popular. Para tanto, vamos começar esta unidade entendendo a importância do movimento e do corpo para qualquer indivíduo, pois o corpo é o meio pelo qual nos apresentamos no mundo e aprendemos sobre ele. Além disso, é por meio dele que temos a possibilidade de agir para transformar o nosso meio e nos relacionar com os outros indivíduos. É com os gestos e movimentos que construímos nossa singularidade e nossa identidade dentro de um grupo social, por isso o estudo do corpo proporciona a compreensão dos significados dos gestos, ou seja, seus significados socioculturais dentro de diferentes dimensões, além do papel da escola no acesso do aluno à compreensão do mundo e de si mesmo como agente produtor e produzido pelo meio. Pelo movimento é possível aprimorar e refinar as capacidades motoras das crianças, por meio de atividades que exploram os gestos rápidos e lentos, fortes e fracos, circulares ou lineares, dentre outros. Utilizando-se de práticas que intencionam o controle dos movimentos e ampliação da consciência corporal, a criança pode “progressivamente, utilizar o corpo como fonte de investigação criativa do mundo e de si mesma, de suas ideias e emoções, explorando as formas de expressão corporal presentes no seu social e em outros grupos” (ALMEIDA, 2016, p. 30). O aprendizado do movimento e da dança, além de ampliar o repertório motor e a criatividade da criança, pode ser uma fonte de autoconhecimento que dá ferramentas para o indivíduo utilizar seu próprio corpo com maior inteligência e autonomia. A percepção do movimento enquanto fonte de prazer desperta na criança sensibilidade e condições para desenvolver mais empatia e sociabilidade. Conhecer as potencialidades do corpo fomenta relações melhores e mais responsáveis consigo, com o outro e com o ambiente. PRATICAR PARA APRENDER Você já viveu a seguinte situação curiosa – que pode acontecer em uma aula de dança ou em outra atividade física qualquer: você precisa realizar um determinado movimento e, mesmo que a mente compreenda o que deve ser feito, a sensação é de que o corpo não responde como deveria? Isso é mais comum do que podemos imaginar e está relacionado ao histórico de repertório motor desenvolvido ao longo de toda a vida. Ou seja, apesar de o movimento ser voluntário e consciente, o repertório de gestos automatizados pelo cérebro é acionado para responder. A capacidade de aprender um movimento ou expressão acompanha a pessoa ao longo de toda sua vida, ou seja, mesmo na fase adulta ou na velhice é possível adquirir novos repertórios motores. Para que o indivíduo possa aprender um novo gesto, ele vai buscar em todas a suas bases sensório- motoras aprendidas pelas suas experiências, para que esse repertório possa ajudá-lo a apreender o novo movimento. Há uma relação muito estreita entre a capacidade de aprender uma nova informação, seja ela motora ou intelectual, e os repertórios de movimento preestabelecidos. Um indivíduo que ao longo da vida esteve exposto a um vasto leque motor provavelmente terá melhor capacidade de aprender novas informações. Por isso, o papel da escola e do educador é fundamental para o desenvolvimento do repertório motor infantil, no que diz respeito à qualidade e quantidade. A primeira infância é o período em que o ser humano apresenta o mais significativo avanço no que diz respeito à motricidade, e, ao final dessa fase de desenvolvimento, espera-se que a criança já tenha aprendido ações, reflexos e equilíbrio fundamentais para chegar até a vida adulta. Nessa fase da vida, em que o corpo é o principal meio de comunicação com o mundo, de reconhecimento de si e da construção da individualidade e identidade da criança em seu meio social, é fundamental que o educador esteja preparado para promover o desenvolvimento integral do seu aluno, preparando-o e dando a base necessária para toda a sua vida. Estudaremos, a seguir, a importância do brincar como ferramenta de estímulo à motricidade. Vamos refletir sobre quais elementos constituem a motricidade, além de entender qual é o desenvolvimento motor esperado para cada faixa etária, para que você possa orientar o planejamento de suas práticas. Por fim, vamos analisar as diretrizes e políticas estabelecidas para o trabalho com corpo, movimento e gestos na Educação Infantil. O ambiente da creche pode ser extremamente heterogêneo, pois crianças de diversas faixas etárias e com habilidades motoras diversas convivem e se desenvolvem conjuntamente. Em pequenas creches de bairro, que têm cerca de 20 alunos entre zero e seis anos, o pedagogo sobrepõe uma série de funções, e sempre é complexo dar conta das necessidades individuais. Imagine- se como um dos educadores de uma equipe multidisciplinar que deve dirigir uma atividade para promover o desenvolvimento motor dos alunos dessa creche. Organize uma aula pautada nessa realidade escolar, com conteúdo dentro da disciplina de corpo, gestos e movimentos. Para resolver essa situação-problema, reflita sobre qual é a importância do brincar para dar conta do amplo desenvolvimento de todos os alunos? Você proporia algum tipo de divisão em grupos? Se sim, com base em qual proposta conceitual você faria a separação? É possível desenvolver, de maneira diferente para cada grupo etário, a mesma proposta de aula? Se sim, como seria possível realizar um planejamento dessa aula? Leve em consideração a centralidade do corpo para planejar sua aula e como o movimento tem uma fundação importante para cada fase do desenvolvimento motor. Mesmo que haja diferenças, como preparar uma aula com um único fio condutor, mas respeitando as singularidades dos desenvolvimentos? Para refletir sobre a situação-problema aqui proposta, leve em consideração as discussões sobre desenvolvimento motor, bem como seus conhecimentos empíricos a respeito da realidade escolar, da desigualdade social e da diversidade de estruturas familiares. Ser educador é impregnar de sentidos cada ato cotidiano. Vamos construir juntos muitos significados para os gestos! CONCEITO-CHAVE APRENDIZAGEM MOTORA Mover-se é condição fundamental do ser humano, pois, em primeiro plano, os movimentos dão condições para que a pessoa cumpra suas necessidades básicas como comer, andar, respirar, chorar e outras. Tais gestos são memórias ancestrais que se manifestam para que seja possível sobreviver. O indivíduo aprende a importância do movimento desde seu nascimento. Por exemplo, um bebê, ao mamar e repetir a ação de sucção diversas vezes, compreenderá que esse gesto é importante para sua sobrevivência. A essa variedade de movimentos Ivaldo Bertazzo (2010) chamou de gestos fundamentais. Com o amadurecimentodos gestos fundamentais, o ser humano começa a desenvolver um repertório de movimentos mais amplo, abrindo um leque de possiblidades para outros tipos de ações. Nesse momento, o indivíduo passa a explorar o ambiente, ampliando sua percepção espacial, o que proporciona a capacidade de transformação ambiental para criar maiores e melhores condições de sobrevivência. REFLITA É possível afirmar que os movimentos e o os corpos não são somente condições de sobrevivência, mas são meios para viver. Nesse viver, as relações socais e humanas constroem signos para os gestos e para o corpo, que podem ser usados como ferramenta de comunicação e de aprendizado do mundo. O movimento produz identidade e torna o sujeito um ser social, e como tal utiliza-se do corpo como ferramenta de expressão de si mesmo, expandindo sua relação com o outro e com o ambiente. O trabalho com o movimento e com o corpo, portanto, deve trazer para o centro a multiplicidade das manifestações do ato motor com seus aspectos físicos, psíquicos, culturais e sociais. A BRINCADEIRA NO DESENVOLVIMENTO MOTOR DA PRIMEIRA INFÂNCIA O brincar está relacionado com a capacidade de desenvolver a vida social e o intelecto. A brincadeira promove grande avanço no desenvolvimento motor e na aprendizagem infantil (VYGOTSKY, 1998) e leva a criança a níveis de desenvolvimento mais elevados e complexos. Por isso, no caso da criança, a brincadeira não tem apenas caráter lúdico, ou seja, não se limita a ser uma diversão ou passatempo, mas, sobretudo, é um instrumento de desenvolvimento social e cognitivo. A criança utiliza o brincar como forma de manifestar sua intencionalidade e expressão, melhorando a comunicação com o outro e com o ambiente. Por meio da brincadeira ela aprende a elaborar suas emoções, como raiva, angústia, agressividade e ansiedade. Os jogos sensoriais, de exercício e as atividades físicas que são promovidas pelas brincadeiras auxiliam a criança a desenvolver os aspectos referentes à percepção, habilidades motoras, força e resistência e até as questões referentes à termorregulação e controle de peso. CORDAZZO, 2008, p. 38. Também pela brincadeira a criança desenvolve a linguagem e a imaginação, afinal, o faz de conta estimula a criatividade e leva a criança a construir conversas com seus personagens imaginários, o que faz com ela elabore seu vocabulário e aprenda a organizar ideias. Para crianças muito pequenas o brinquedo ainda não é uma ferramenta imaginativa, mas é um grande estímulo motor, pois desperta e proporciona a manipulação. Quando crescem um pouco mais, os estímulos externos vão sendo assimilados e os brinquedos passam a ser uma ferramenta de externalização da imaginação. Por causa da criatividade, conseguem abstrair o mundo objetivo e transformar uma tesoura em avião, por exemplo, ou uma toalha os transforma em heróis e heroínas. Por outro lado, a observação da brincadeira por parte do professor permite que o profissional conheça melhor seu aluno e promova ações para melhorar o desenvolvimento do estudante. Mas atenção: o papel do professor é explicar e auxiliar, ele não deve dirigir o modo como a brincadeira vai acontecer, pois pode acabar tolhendo os processos de criatividade e as interações entre os alunos. Cordazzo (2008, p. 46) afirma que “a intervenção do professor não deve, de forma alguma, podar a imaginação criativa da criança, mas sim orientar para que a brincadeira espontânea apareça na situação de aprendizagem”. O diagrama, a seguir, condensa os principais aspectos da brincadeira. ATORES QUE AFETAM O DESENVOLVIMENTO MOTOR O desenvolvimento motor acompanha a pessoa ao longo de toda sua vida, mas na infância esse processo é mais evidente e acentuado. Durante essa fase da vida é comum delimitar quais são os desenvolvimentos específicos para cada idade, e é importante ressaltar que o desenvolvimento infantil também é condicionado por questões individuais e culturais, nas quais a criança está inserida (VYGOTSKY, 1998). O desenvolvimento motor é o processo de mudanças no comportamento motor, implicando a maturação do sistema nervoso central, mas também a interação com o ambiente e com os estímulos oferecidos ao indivíduo durante o seu desenvolvimento. As transformações ocorrem de forma gradual e ordenada, sendo que uma alteração leva à outra. (REBELO et al., 2020, p. 76) REBELO et al., 2020, p. 76. É possível afirmar que o desenvolvimento da criança é condicionado por fatores físicos, sociais e cognitivos que se entrelaçam para proporcionar condições para o amadurecimento infantil. Condições de saúde, higiene e educação também são fatores fundamentais para trazer consequências positivas ou negativas ao desenvolvimento infantil. O sistema motor tem um caráter cumulativo (CASTRO, 2008). Isso quer dizer que, quanto mais a criança estiver em contato com situações que ampliem seu repertório motor, maior será a bagagem que carregará por toda sua vida e, por conseguinte, haverá um desenvolvimento melhor e mais amplo. De acordo com Cordazzo (2008, p. 33), “a cognição pode ser caracterizada como o processo intelectual pelo qual um indivíduo toma conhecimento do mundo”. Ela também auxilia a coletar e processar as informações aprendidas. A cognição, além de ser uma capacidade inerente ao ser humano, também é condicionada pelas atividades sociais e culturais nas quais o indivíduo está inserido. No caso de uma criança, portanto, a cognição será condicionada por conhecimentos e habilidades genéticas, bem como pelo contexto familiar e social. FASES DO DESENVOLVIMENTO MOTOR As experiências motoras são muito importantes em cada fase da vida de qualquer indivíduo, em especial da criança, isso porque, com base em tais práticas, ela poderá perceber a si mesma, o outro e o ambiente que a cerca. Pelo movimento as crianças pequenas se comunicam com o mundo, ou seja, com mímicas, contorções e choro os adultos que as cercam podem entender se sua demanda é fome, sono ou cólicas. “Assim, a primeira função do ato motor está ligada à expressão, permitindo que desejos, estados íntimos e necessidades se manifestem” (BRASIL, 1998, p. 18). A capacidade e importância do movimento motor para a comunicação com o mundo não se limita ao bebê. Ao longo de toda a vida o ser humano usa o movimento para expressar sentimentos e emoções. Daí a importância do movimento para o indivíduo. O estudo do corpo deve fazer parte do processo de aprendizagem da criança, e o professor tem papel fundamental nisso ao trabalhar as várias dimensões do movimento, trazendo as facetas motoras e expressivas do gesto, bem como entendendo as diversas fases motoras da criança para desenvolver caminhos de estimulação do aluno em cada etapa. As habilidades motoras são divididas em: • Grossa (ou global): controlada pelos grandes grupos musculares responsáveis por andar, correr e saltar. • Fina: produzida pelos pequenos grupos musculares, resultando em ações como desenhar, costurar e tocar instrumentos musicais. É importante frisar que, mesmo que haja essa divisão, todos os grupos musculares – em maior ou menor grau – são responsáveis pelos movimentos, mas essa divisão pode orientar o professor ao conteúdo pragmático que deverá desenvolver com seus alunos. […] o Desenvolvimento Motor nos primeiros anos de vida caracteriza-se pela aquisição de um amplo repertório de habilidades motoras, que possibilita à criança um domínio completo do seu corpo em diferentes posturas, locomover-se pelo meio ambiente de variadas formas (andar, correr, saltar, etc…) e manipular objetos e instrumentos diversos (receber uma bola, arremessar uma pedra, chutar, escrever, etc…). REBELO et al., 2020, p. 76. EXEMPLIFICANDO O equilíbrio é um aspecto fundamental do desenvolvimento motor e será uma busca ao longo de toda a vida de um indivíduo que suas habilidades locomotorase manipulativas sejam equilibradas. DE 0 A 1 ANO Diferentemente de outros seres da natureza, o ser humano não nasce com as capacidades motoras básicas desenvolvidas, por isso precisa da presença de um adulto para viabilizar seu desenvolvimento completo até chegar à independência e dominar o próprio corpo. Esse é um dos maiores desafios do início da vida. O controle corporal de bebê é baixo, e gradualmente os movimentos descoordenados vão se estabelecendo de cima para baixo e do centro até as extremidades. O controle da cabeça é o primeiro a se manifestar, seguido do controle dos membros superiores para, por fim, ganhar o controle dos membros inferiores. “Essas conquistas antecedem e preparam o aprendizado da locomoção, o que amplia muito a possibilidade de ação independente” (BRASIL, 1998, p. 21). Nessa idade, há grande interesse e investigação dos movimentos por parte do bebê, que repete diversas vezes o mesmo gesto para compreender os efeitos dessas ações sobre o mundo. O bebê está buscando entender quais os limites do seu próprio corpo e a sua ação sobre o ambiente, ou seja, sua capacidade de modificar o mundo exterior. Sua maior conquista, nessa fase, é a capacidade de preensão e a locomoção. Com essas duas capacidades, a criança ganha capacidade de exploração do mundo e estabelece relação com cada elemento ou objeto no espaço. O primeiro ano de vida é marcado por um acentuado desenvolvimento motor. Figura 3.3 | Desenvolvimento motor – 0 a 1 ano https://conteudo.colaboraread.com.br/201701/INTERATIVAS_2_0/CORPO_E_MOVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/assets/img/desenvolvimento-motor.jpg Fonte: adaptada de Shutterstock. Neste período de 0 a 1 ano, podemos destacar que o recém-nascido tem o sistema olfativo e auditivo desenvolvidos, mas o sistema visual ainda não o permite focar. Mas, até o primeiro mês, o reflexo de pinça com o cerrar do pulso vai se estabelecendo e pode ser estimulado. Já no segundo mês ele tem a capacidade de agarrar um brinquedo. Somente com quatro meses ele conquista a capacidade de sustentar a cabeça, e no quinto mês já consegue se manter sentado sem sustentação. Com seis meses, o bebê pode manejar melhor objetos e transferi-los de uma mão à outra. No decimo mês a criança consegue se sentar sozinha e engatinhar, tentando caminhar ao agarrar-se nos objetos. ASSIMILE Ao final do primeiro ano de vida, a habilidade de andar e a capacidade de manipular objetos permitem a criança colocar brinquedos em uma caixa, manipular massinha e rabiscar. DE 1 A 3 ANOS Nessa fase a criança ganha controle do caminhar, e a possiblidade de explorar o ambiente com as mãos livres vai levar à iniciativa do próprio indivíduo em conhecer o mundo e ampliar seu repertório motor e cognitivo por meio também da manipulação. “Pela manipulação as crianças são capazes de explorar a natureza e o efeito dos objetos” (CASTRO, 2008, p. 31). Ela mexe, explora e pesquisa em todos os lugares. https://conteudo.colaboraread.com.br/201701/INTERATIVAS_2_0/CORPO_E_MOVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/assets/img/desenvolvimento-motor.jpg ASSIMILE Essa fase é amplamente marcada pelo desenvolvimento dos movimentos estabilizadores, locomotores e manipulativos. Há um significativo ganho das habilidades motoras da criança, pois aprendem habilidades motoras grossas como andar, correr e pular, além de habilidades motoras finas, como desenhar. “De certa forma, podemos dizer que quanto mais a criança explora, mais ela se desenvolve e quanto mais ela se desenvolve motoramente, maior sua capacidade exploratória” (CASTRO, 2008, p. 31). Gestos simbólicos vão se estabelecendo por brincadeiras de faz de conta, marcando o momento de expressão do seu universo interno. Também ampliam a capacidade de abstração, e a cultura pelos gestos vai se estabelecendo ao mesmo tempo em que sua autoimagem vai sendo produzida. A criança começa a se compreender como um ser social e, portanto, institui sua identidade. Esse período é muito rico em experimentações, e a cada dia a criança apresenta uma nova descoberta. Seu repertório vai se sofisticando, ao mesmo tempo em que as diferenças individuais vão se apresentando à medida que ela evolui. Porém, ela ainda apresenta dificuldades em dominar completamente as habilidades motoras grossa e fina. DE 4 A 6 ANOS Nessa faixa etária, as habilidades motoras apresentam grande amadurecimento e as ações corporais vão se consolidando para ampliar o repertório corporal das crianças. Existem dez ações corporais decodificadas por vários autores, e elas devem ser exploradas nas aulas de corpo e movimento: saltar, cair, expandir, contrair, transferir o peso, gesticular, girar, inclinar, deslocar, torcer. Com essa idade a criança apresenta maior controle e coordenação rítmica, elemento que pode ser explorado pelo professor por meio de música e dança. PESQUISE MAIS No primeiro capítulo do livro Ensinando dança para crianças, a doutora Theresa Cone busca entender o que é a dança para as crianças, seus valores e benefícios e como esse tema deve ser abordado. Ela também traz orientações de como projetar e executar um programa de aulas dentro da disciplina de dança. Para realizar a leitura, acesse a plataforma Minha Biblioteca e busque pelo título da obra. CONE, T. P. Ensinando dança para crianças. 3. ed. Barueri: Manole, 2015. É também nesse período que o aluno apresenta maior controle mecânico e coordenação, podendo realizar curtas sequências de movimentos coreográficos, bem como ter mais autonomia na criação e desenvolvimento dos seus próprios movimentos de dança. ASSIMILE O controle corporal aumenta e a criança já constrói a capacidade de manter-se em uma posição por mais tempo e controlar suas impulsões motoras, como percebemos nos bebês. DESENVOLVIMENTO MOTOR E CORPO NA EDUCAÇÃO INFANTIL De acordo com a BNCC (2017), seis são os direitos de aprendizagem das crianças ao longo da primeira infância na escola: conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer-se, os quais deverão ser desenvolvidas por meio de interações e brincadeiras. Na Educação Infantil o corpo da criança ganha centralidade, já que ele é o principal meio de liberdade, criatividade, emancipação e comunicação. De maneira geral, a Educação Infantil, de acordo com a BNCC (2017), busca, pela disciplina de corpo, gestos e movimentos, promover autonomia das práticas rotineiras da criança como comer, vestir e se higienizar, como maneira de valorizar o próprio corpo e os cuidados com seu próprio bem-estar por meio da manutenção de sua saúde e de ambientes organizados e saudáveis. FOCO NA BNCC De acordo com a BNCC, é função da escola cultivar o espírito lúdico para conquistar as relações entre os alunos, incentivar a exploração do espaço e vivenciar amplo repertório de movimentos, gestos, olhares, sons e mímicas com o corpo. Para tanto, é importante explorar movimentos como rastejar, engatinhar, escorregar, caminhar apoiando-se em berços, mesas e cordas, saltar, escalar, equilibrar-se, correr, dar cambalhotas, alongar-se e outros. Coordenar as atividades motoras também é um dos objetivos que os professores devem perseguir na abordagem sobre o corpo com as crianças, incentivando seu desenvolvimento motor de acordo com cada etapa e considerando a individualidade do aluno. Por fim, é objetivo do professor conseguir controlar o corpo para utilizá-lo como instrumento de expressão e criatividade, entender o corpo, o movimento e o gesto como mecanismos de interação com o outro e com o meio, além de ser um meio de conhecer a si mesmo e desenvolver sua identidade. REFERÊNCIAS ALMEIDA, F. S. Que dança é essa? Uma proposta para a educação infantil. São Paulo: Summus/Pearson, 2016. BERTAZZO, I. Corpo Vivo: Reeducação do movimento. São Paulo: Edições SESC- SP, 2010. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Curricular Comum.Brasília: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: https://bit.ly/2VbXtGs. Acesso em: 20 mar. 2020. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Base Nacional Comum Curricular. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 2017. CASTRO, M. B. A influência do contexto nas habilidades motoras fundamentais de pré-escolares e escolares. 2008. 107f. Dissertação (Mestrado em Ciência do Movimento) – Escola Superior de Educação Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2008. CONE, T. P. Ensinando dança para crianças. 3. ed. Barueri: Manole, 2015. CORDAZZO, S. T. D. Influência do brincar no desempenho motor, cognitivo e social de crianças em idade escolar no Brasil e em Portugal. 2008. 205f. Tese (Doutorado em Psicologia) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2008. REBELO, M. et al. Desarrollo motor del niño: relación entre habilidades motoras globales, habilidades motoras finas y edad. Cuadernos de Psicología del Deporte, v. 20, n. 1, 75-85, jan. 2020. http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO DESENVOLVIMENTO MOTOR EM CADA GRUPO ETÁRIO Seu desafio é construir um plano de aula amplo e completo, para atender a um grupo heterogêneo, capaz de estimular a ampliação do repertório motor dos alunos. SEM MEDO DE ERRAR Na situação-problema proposta, o educador está inserido em uma situação bastante comum, que exige grande flexibilidade e habilidade para lidar com a diversidade de alunos. Em uma creche com 20 alunos em idade pré-escolar, ou seja, de zero a seis anos, em diversas situações há atividades em comum que devem ser conduzidas pelo pedagogo, apesar da diversidade de idade e da fase de desenvolvimento. Na situação-problema, você precisou se colocar nesse contexto para construir um plano de aula de corpo, gesto e movimento, levando em consideração um fio condutor único para todos os alunos, mas também considerando as diferentes fases de desenvolvimento motor. Sabemos que a brincadeira é um potente instrumento para o trabalho com crianças, pois, por meio do lúdico, a motricidade, a linguagem, a expressão e a identidade do estudo se consolidam. Por isso, é fundamental que o plano de aula possa abarcar o lúdico como ferramenta de trabalho. Sendo assim, o ideal é que o professor pense em um tema único que seja interessante para trabalho com todos, mas que guarde especificidades para cada grupo. Para tanto, é interessante dividir os alunos em três grupos, que podem ser baseados na segmentação proposta pela BNCC (Bebês de zero a um ano e sete meses, crianças bem pequenas de um ano e oito meses até três anos e onze meses e crianças pequenas de quatro anos até cinco anos e onze meses) ou pela divisão proposta aqui, com base no Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (de zero a um ano, de um a três anos e de quatro a seis anos). Tais divisões são importantes, pois cada faixa etária demanda um leque de desenvolvimento motor específico que orienta o pedagogo a conhecer as necessidades de cada grupo e, portanto, orientar práticas que promovam tais habilidades. Não há um único caminho de desenvolvimento da situação-problema, mas vamos juntos desenvolver uma proposta possível que sirva de pista para lidar com várias situações futuras. O tema da aula pode ser os diversos usos da bola, e para a divisão dos alunos, vamos utilizar a classificação do Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Para o grupo de zero a um ano, podemos utilizar bolas de borracha leves, de maneira a estimular a preensão da criança, bem como começar a incentivar o lançamento da bola. Atenção para o tamanho e higiene do objeto, pois nesta fase é comum a criança levar a bola na boca. Para o grupo de crianças de um a três anos podemos utilizar bolas de parque ou bolas suíças (são as bolas de pilates), fazendo com que elas passem a bola macia por todo o corpo. Dessa forma, podemos desenvolver a percepção de limite corporal e o reconhecimento da individualidade. Também é possível explorar o conhecimento das partes do corpo ao orientar ações pela cabeça, mão, pé, joelho e outras. Para o grupo de quatro a seis anos, podemos usar bola de futebol ou vôlei, que role e pingue bem. Nessa fase é possível perceber bom desenvolvimento motor, e o professor deve estimular as ações corporais como saltar, cair, expandir, contrair, transferir o peso, gesticular, girar, inclinar, deslocar e torcer. Para tanto, o desafio ao aluno deverá ser lançar a bola de alguma maneira, observar sua trajetória, narrar as ações que serão realizadas e, em seguida, reproduzir o movimento da bola com o próprio corpo, sempre cuidando para que o aluno não se machuque. Perceba que utilizando um instrumento – a bola – e o objetivo de desenvolvimento motor fundamental para cada grupo etário, é possível construir um plano de aula amplo e completo, que poderá ser repetido diversas vezes, estimulando a ampliação do repertório motor dos alunos. AVANÇANDO NA PRÁTICA DIRIGINDO OLHARES: UMA EXPERIÊNCIA DE COORDENAÇÃO Nesta disciplina, você já percebeu a importância de construir um olhar cuidadoso para as necessidades e singularidades de cada aluno. Vamos imaginar, agora, que você é o proprietário de uma creche e precisa orientar seus professores das diferentes necessidades que cada grupo etário apresenta e como o trabalho com os conteúdos de corpo, gestos e movimento é fundamental para o desenvolvimento infantil. Quais argumentos e esclarecimentos você passaria para seus colaboradores a respeito da importância do movimento para a expressão, identidade e motricidade do indivíduo? RESOLUÇÃO É fundamental ressaltar para os professores da creche a importância de ter um olhar cuidadoso ao aluno, que considere a singularidade de seus processos. Muitas vezes, a rotina de trabalho dentro da creche preza pelos cuidados de higiene e ordem para que a criança possa ter um ambiente são, e isso é crucial para o desenvolvimento infantil. Porém, tais cuidados não podem se sobrepor às outras necessidades também fundamentais da vida, como melhorar a motricidade, criar recursos de socialização entre os estudantes e construir ferramentas de expressão individual. Todo o processo deve acontecer concomitantemente. É responsabilidade do adulto – nesse caso, a escola e o professor – proporcionar um desenvolvimento integral, que considere os aspectos motores psíquicos, emocionais, ambientais e de higiene da criança. Dessa forma, a escola cultiva a humanização da educação. PSICOMOTRICIDADE - SEÇÃO 2 DESENVOLVIMENTO DA PSICOMOTRICIDADE Ao longo da vida, a criança deve conquistar capacidades cognitivas, afetivas e orgânicas que serão constituidoras da sua psicomotricidade. PRATICAR PARA APRENDER A psicomotricidade busca compreender a relação do corpo do indivíduo como ferramenta de relação do mundo interno e externo. Portanto, essa área do conhecimento está profundamente relacionada com a capacidade expressiva do sujeito e a sua capacidade de compreender e modificar o seu entorno. Para que a pessoa tenha a possibilidade de compreender o mundo objetiva e subjetivamente, é fundamental que ele conquiste, ao longo da sua vida, capacidades cognitivas, afetivas e orgânicas que serão constituidoras da sua psicomotricidade. https://conteudo.colaboraread.com.br/201701/INTERATIVAS_2_0/CORPO_E_MOVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u3s1.html#resolucao%20.item-1A infância é uma fase crucial para a formação adequada da psicomotricidade, em especial a primeira infância (de zero a seis anos). Nesta fase, o aprendizado sobre o mundo se dá sobretudo através do corpo, e a partir das experiências motoras a criança será capaz de constituir o seu intelecto, seu afeto, seus gestos e significâncias e sua expressão. Você, como futuro pedagogo, tem como importante função assegurar que seus alunos possam desenvolver a psicomotricidade e utilizá-la para melhor se expressarem e compreenderem o mundo. Cidadãos que entendem a potencialidade de seu corpo têm maior capacidade de se expressar, de se relacionar e de transformar o mundo. Nesta seção, estudaremos o que é psicomotricidade, quais são os conceitos e elementos que compõem essa prática, sua importância no contexto escolar e como o aluno se utiliza dela para realizar suas interações cognitivas, sensório- motoras e psíquicas. Vamos também analisar como as seis funções que compõem a psicomotricidade – coordenação motora global, equilíbrio estático e dinâmico, esquema corporal, lateralidade, orientação espacial e orientação temporal – são imprescindíveis para que o estudante aprenda a ler e escrever. Por último vamos entender a relação da psicomotricidade com o aprendizado de artes, ou seja, como a música, a dança, o teatro e as artes visuais podem auxiliar no amadurecimento da psicomotricidade infantil e, portanto, ajudar a criança a se expressar, a se mover, escrever e aprender. O ano letivo começou há aproximadamente dois meses e as avaliações dos alunos já trazem mais informações do desenvolvimento e desempenho individual. Na turma do segundo ano do ensino fundamental os alunos já foram alfabetizados, e você, como professor, tem como missão avançar na leitura e escrita das crianças. Analisando cada aluno individualmente você percebe que um novo estudante chamado Igor, que ingressou no início do ano, vem apresentando dificuldade de escrita. Por ele ter vindo de outra escola, você não tem certeza de como foi a estimulação psicomotora e o desenvolvimento da fala, leitura e escrita dessa criança de sete anos. O que você pôde identificar é que ele comumente troca as letras “b” e “d”. Apesar de Igor conhecer as letras no geral, ele apresenta dificuldades em juntá- las para formar palavras. Essas constatações preocuparam, já que Igor em breve terá oito anos, e nessa fase é esperado que a criança já tenha desenvolvido tais habilidades. Você pede uma reunião com os responsáveis de Igor para prospectar informações de como foi o processo de aprendizagem do aluno em sua antiga escola. Apesar de ainda não ter certas confirmações, partindo dos deficits de aprendizagem de Igor é possível levantar hipóteses sobre quais habilidades precisariam ser desenvolvidas para ele avançar na leitura e escrita, bem como métodos que auxiliarão Igor a fluir na alfabetização. Partindo dos conhecimentos de motricidade debatidos ao longo desta seção, bem como de seu conhecimento como futuro pedagogo, quais são os deficits de Igor e como saná-los para que o aluno possa avançar na leitura e escrita? O ser humano não é composto de mente e corpo. O ser humano é o próprio corpo. Então vamos entrar de corpo inteiro nos estudos da psicomotricidade! CONCEITO-CHAVE O QUE É PSICOMOTRICIDADE A psicomotricidade é inerente a todo ser humano, mas, apesar de toda criança apresentar possibilidade de desenvolvimento psicomotor desde o nascimento, ele não dependerá apenas dos processos orgânicos, mas também sociais. A psicomotricidade se caracteriza por lançar mão do movimento para aprender informações mais complexas, inclusive intelectuais. Há uma relação muito estreita entre a capacidade de aprender uma nova informação, seja ela motora ou intelectual, e os repertórios de movimento preestabelecidos. Um indivíduo que ao longo da vida esteve exposto a um vasto leque psicomotor provavelmente terá melhor capacidade de aprender novas informações. Por meio dos movimentos a criança se relaciona e adquire conhecimento sobre o mundo e outras informações fundamentais para o seu desenvolvimento. De acordo com Wallon (1975), o ambiente é elemento fundamental para proporcionar a ela a interconexão neural para que a psicomotricidade se desenvolva. Por isso é possível afirmar que a inteligência é também produzida por experiências motoras integradas ao conhecimento do indivíduo. No caso do recém-nascido, a insuficiência motora é evidente. O recém-nascido, na nossa espécie, é um ser ainda longe de estar concluído. As suas insuficiências motoras, perceptivas e intelectuais testemunham-no. Se ele possui já todos os neurônios, de que poderá até nunca chegar a dispor, a maior parte deles não está ainda em estado de funcionar por falta de interconexões necessárias. WALLON, 1975, p. 59. De acordo com Ambrósio (2011), seis funções compõem a psicomotricidade: • Coordenação motora global. • Equilíbrio estático e dinâmico. • Esquema corporal. • Lateralidade. • Orientação espacial. • Orientação temporal. DESENVOLVIMENTO DA PSICOMOTRICIDADE SEGUNDO PIAGET (1967) Piaget (1967) propõe em seus estudos degraus sucessivos de desenvolvimento da psicomotricidade. • Primeiro estágio sensório-motor: o primeiro estágio sensório-motor vai de zero a dois anos de idade, aproximadamente, e nesse período se dá a formação das primeiras estruturas sensório-motoras e a exploração da inteligência prática, como o engatinhar, o caminhar e a capacidade de prensa. • Segundo estágio sensório-motor: o segundo estágio vai aproximadamente dos dois até os sete anos, e a representação vai sendo produzida com a ajuda da linguagem, mas ainda foca a aprendizagem no que é real e concreto. Nesta fase, a criança é capaz de aprender uma série de ações corporais como saltar, torcer, girar, entre outros, para ampliar sua capacidade de comunicação com o mundo. • Terceiro estágio sensório-motor: a terceira fase vai dos sete aos doze anos, em que sua cognição vai avançando consideravelmente e a criança tem maior capacidade lógica. É também nesse estágio que a criança ganha as noções de quantidade, peso, volume, tempo e espaço. Por isso, nessa fase a criança é capaz de memorizar uma coreografia com movimentos mais complexos e que contenha elementos de espacialização, ritmo e diversas formar corporais. • Quarto estágio sensório-motor: o último estágio vai dos doze anos até a fase adulta. Nessa fase, “[…] o indivíduo já tem a capacidade de raciocinar em cima de hipóteses tão bem quanto sobre objetos, apresentando um raciocínio hipotético-dedutivo, permitindo-se deduzir conclusões de seus próprios pensamentos” (SANTI MARIA, 2012, p. 25). Quadro 3.1 | Fases do desenvolvimento sensório-motor de acordo com Piaget (1967) 0 a 2 anos 2 a 7 anos 7 a 12 anos A partir de 12 anos Formação das primeiras estruturas sensório- motoras. Exploração da inteligência prática. Representação de imagens. Linguagem. Aprendizagem no que é real e concreto. Melhor cognição. Capacidade lógica. Noções de quantidade, peso, volume, tempo e espaço. Raciocínio sobre hipóteses. Raciocínio sobre hipóteses. Raciocínio hipotético- dedutivo. Fonte: elaborado pela autora. FATORES QUE INFLUENCIAM O DESENVOLVIMENTO DA PSICOMOTRICIDADE É possível considerar três elementos que influenciam o desenvolvimento da psicomotricidade (FONSECA, 1991, apud AMBRÓSIO, 2011): • Fatores psicofisiológicos: estão relacionados com dificuldades de aprendizagem e condicionamento. • Fatores psicoafetivos: estão ligados com as motivações emocionais. • Fatores psicossociais: estão relacionados com imitações, oposições ou afirmações para com as estruturas sociais. “Tais fatores implicam em uma relação de identificação do sujeito com o outro, levando-o a refletir o quanto o comportamento motor não se restringe a um ato sem significado,mesmo quando automatizado” (AMBRÓSIO, 2011, p. 5). POR DENTRO DA BNCC A Educação Física no Ensino Fundamental I e II é uma disciplina altamente focada no desenvolvimento psicomotor da criança. O professor dessa área deve explorar as práticas corporais em suas codificações e significações sociais, entendendo que o movimento humano sempre está relacionado com a cultura que o constitui. Com as práticas corporais, o aluno deve ganhar instrumentos para que seja capaz de cuidar de si e dos outros, bem como desenvolver autonomia na apropriação cultural, e dessa forma ser capaz de ter uma atuação ampla na sociedade. Para saber mais, leia a sessão 4.1.3 da BNCC (2017). PSICOMOTRICIDADE E ESCOLA O desenvolvimento escolar infantil deve considerar a psicomotricidade como um caminho fundamental para que o aluno adquira capacidades motoras, intelectuais e cognitivas mais elaboradas. Por isso é fundamental que o professor proporcione aos seus alunos a possibilidade de experimentar e vivenciar novas descobertas motoras, sempre relacionando o movimento às relações com o outro e com o ambiente. Santi Maria (2012, p. 29) nos lembra que “[…] é relevante que o professor de Educação Infantil tenha conhecimento de que a criança atua no mundo por meio de movimentos e que o estímulo e experiências são importantes para o desenvolvimento corporal e maturidade socioemocional”. Requisitos fundamentais para a progressão escolar, como a coordenação motora fina, o controle corporal, o tônus muscular, a coordenação global, a lateralidade e as orientações espaço-temporais são funções amadurecidas a partir do movimento e do desenvolvimento psicomotor. Todas essas capacidades constroem um conhecimento-base que possibilita a criança conhecer, interpretar, utilizar, valorizar e aperfeiçoar a realidade. É durante a Educação Infantil que o desenvolvimento psicomotor é mais importante, tendo em vista que a ampliação da capacidade motora, junto com a compreensão desta ferramenta como interação e transformação do mundo, bem como capacitadora de compreender os códigos e representações do mundo, dão o suporte para toda a vida escolar e além do indivíduo. PESQUISE MAIS Neste artigo científico, os autores analisaram práticas pedagógicas psicomotoras em escolas de Educação Infantil, avaliando a importância da psicomotricidade para o desenvolvimento da criança. Para tanto, eles conheceram instituições e tentaram levantar as principais atividades executadas pelos professores, mesmo que a escola tivesse pouca infraestrutura ou acesso a materiais. Leia da página 132 até a 137. NEGREIROS, F.; SOUSA, C. M.; MOURA, F. K. L. G. M. Psicomotricidade e práticas pedagógicas no contexto da Educação Infantil: uma etnografia escolar. Revista Educação e Emancipação, São Luís, v. 11, n. 1, jan./abr. 2018. Ao perceber que o processo de aprendizagem é realizado com a totalidade do sujeito, ou seja, não apenas pelo intelecto, mas sobretudo pelo corpo e pelo gesto, trazemos para o centro a criança como indivíduo em sua completude, sem que hierarquizemos o intelecto em detrimento do corpo, afinal essa divisão não existe. A criança aprende por inteiro, a mente é o corpo e o corpo é a mente. O corpo surge, portanto, mais uma vez, como o componente material do ser humano, que, por isso mesmo, contém o sentido concreto de todo o comportamento sócio- histórico da humanidade. O corpo não é, assim, o caixote da alma, mas o endereço da inteligência. O ser humano habita o mundo exterior pelo seu corpo, que surge como um componente espacial e existencial, corticalmente organizado, no qual e a partir do qual o ser humano concentra e dirige todas as suas experiências e vivências. FONSECA, 2008, p. 410. ASSIMILE A escola deve ser, portanto, o local de desenvolvimento integral da criança, dando as bases corporais e cognitivas necessárias para uma experiência completa de aprendizado. O estudo do movimento e da expressão deve estimular a compreensão por parte da criança de que seu corpo é ela mesma, e não apenas um instrumento, uma ferramenta para executar atividades rotineiras. Quando a educação for pautada no respeito ao corpo, esses corpos consequentemente pedirão por educação, e não apenas adestramento. PSICOMOTRICIDADE E ALFABETIZAÇÃO O aprendizado da alfabetização envolve processos de codificação, decodificação, percepção e memória. Sobretudo, o ato de ler e escrever demanda desenvolvimento da cognição e compreensão de códigos. É importante ressaltar que a preparação da criança para tal abstração não se dá no momento em que ela pega o lápis e papel em mãos; o processo se inicia muito antes, pelo desenvolvimento psicomotor que vai usar do corpo para construir significações e simbologias, além da motricidade fina e direções fundamentais para a escrita acontecer. Para Oliveira (2010, p. 182 apud AMBRÓSIO, 2011, p. 11), “[…] a psicomotricidade contribui para o processo de alfabetização à medida que proporciona à criança as condições necessárias para um bom desempenho escolar através da livre expressão e […] deve começar antes mesmo que a criança pegue um lápis na mão”. O esquema corporal, um fator da psicomotricidade, é fundamental para estruturar a personalidade e a noção do corpo do indivíduo e para ele se reconhecer como ser social. Sem tais descobertas não é possível chegar à manipulação do lápis para escrever. A estrutura espaço-temporal, que é também desenvolvida junto com o esquema corporal, auxilia na conquista de esquemas dinâmicos e integração visomotora, que é a coordenação entre os olhos e as mãos. A lateralidade é desenvolvida por meio da psicomotricidade e do trabalho com o movimento, mas também é fundamental para a capacidade de escrita da criança. Sem a lateralidade a direção da grafia fica comprometida, e o aluno pode apresentar lentidão ao escrever e, ainda, a inversão de letras. A noção temporal é responsável por dois conceitos importantes. O primeiro é a organização de acontecimentos, ou seja, eventos que vem antes, durante e depois, com seus devidos intervalos de tempo, e o segundo é a noção rítmica. Ambas as funções são fundamentais para a escrita, que demanda organização e regularidade para acontecer. PSICOMOTRICIDADE, EXPRESSÃO E ARTE O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil – RCNEI (BRASIL,1998) alerta que para a criança o movimento não é somente mexer o corpo, mas um meio pelo qual ela se expressa e se comunica com o mundo. Por isso é fundamental lembrar que a arte promove a exploração dos movimentos, fomentando a sensibilidade e o valor expressivo dos gestos. Com a dança é possível aprimorar e refinar as capacidades motoras das crianças, por meio de atividades que exploram os gestos rápidos e lentos, fortes e fracos, circulares ou lineares, entre outros. Utilizando-se de práticas que intencionam o controle dos movimentos e ampliação da consciência corporal, a criança pode “progressivamente, utilizar o corpo como fonte de investigação criativa do mundo e de si mesma, de suas ideias e emoções, explorando as formas de expressão corporal presentes no seu social e em outros grupos” (ALMEIDA, 2016, p. 30). O aprendizado da arte, além de ampliar o repertório motor e criatividade da criança, pode ser uma fonte de autoconhecimento que dá ferramentas para o indivíduo utilizar o seu próprio corpo com maior inteligência e autonomia. A percepção do movimento enquanto fonte de prazer desperta na criança sensibilidades e condições para desenvolver mais empatia e sociabilidade. Conhecer as potencialidades do corpo fomenta relações melhores e mais responsáveis consigo, com o outro e com o ambiente. FOCO NA BNCC Essas justificativas aparecem em diversos documentos de orientação para a educação infantil, como o Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI).No BNCC (BRASIL, 2017) o campo de experiência “Corpo, gestos e movimentos” visa construir com o corpo relações da criança com a exploração do mundo, do espaço e dos objetos em seu entorno para produzir “conhecimentos sobre si, sobre o outro, sobre o universo social e cultural, tornando-se, progressivamente, conscientes dessa corporeidade.” (BRASIL, 2017, p. 36). Aprender arte é aprender outras linguagens. Com tais conhecimentos as crianças ganham mais um recurso de comunicação, ampliando a capacidade de se relacionar com o outro e com o mundo. Se o ser humano é antes de mais nada um ser social, é possível afirmar que a arte não seria uma ferramenta que ajuda a analisar o mundo, ou que a dança seria um espelho da sociedade, mas, enquanto linguagem, enquanto comunicação, a arte é a própria ação sobre o mundo, sobre a sociedade e sobre as redes de relações. Conforme afirma Marques (2012, p. 58), “[...] o corpo em movimento não é veículo de expressão, ele é a própria expressão de seres humanos que buscam e constroem sentidos o tempo todo. Como já vimos, somos nossos corpos e neles – e não com eles – nos expressamos”. A arte é composta de várias linguagens. São maneiras de o indivíduo se manifestar e se comunicar com expressões e gestos. Por isso a inclusão dessa linguagem no aprendizado escolar é uma maneira de fortalecer a presença do sujeito no mundo, assim como de ampliar sua compreensão, ação e capacidade transformadora do ambiente social. A dança, a música, o teatro e as artes visuais, enquanto disciplina escolar, desenvolvem no aluno melhor capacidade de relacionar os aspectos funcionais e expressivos do movimento (MARQUES, 2012), resultado da aquisição de um novo sistema de signos pautados nos gestos, imagens e sons e que auxiliam na produção de significações e sentimentos da criança. A ludicidade é recurso fundamental para melhor trabalhar os repertórios motores e expressivos do estudante no contexto escolar. REFLITA O aprendizado de tais signos necessariamente passa pelo mover e pelo corpo. Os signos só são realmente aprendidos quando são vividos no corpo. Com base no conhecimento do próprio corpo a criança constrói sua individualidade por meio da experimentação corporal, cria uma identidade por meio do estudo da cultura e da arte, amplia seu repertório de comunicação e linguagem para conquistar mais sensibilidade, empatia e socialização, aprende os cuidados de si pela exploração das potencialidades de movimento e entende seu papel social no mundo, percebendo como suas ações e criações podem ser veículo de transformação, e não apenas reprodução e adestramento. A educação perpassa o ensinamento de corpos transformadores do mundo e, para tanto, inventar, explorar e experenciar são condições fundamentais para construir outros pontos de vista, outras formas de estar no mundo. REFERÊNCIAS ALMEIDA, F. S. Que dança é essa? Uma proposta para a educação infantil. São Paulo: Summus/Pearson, 2016. AMBRÓSIO, M. F. S. A psicomotricidade e a alfabetização de alunos do 2º ano do ensino fundamental. 2011. 79f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2011. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Base Nacional Comum Curricular. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 2017. FONSECA, V. Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed Editora, 2009. LABAN, R. Domínio do movimento. 5. ed. Organização: Lisa Ullmann. Tradução: Anna Maria Barros De Vecchi e Maria Sílvia Mourão Netto. São Paulo: Summus, 1978. MARQUES, I. A. Interações: crianças, dança e escola. São Paulo: Blucher, 2012. NEGREIROS, F.; SOUSA, C. M.; MOURA, F. K. L. G. M. Psicomotricidade e práticas pedagógicas no contexto da Educação Infantil: uma etnografia escolar. Revista Educação e Emancipação, São Luís, v. 11, n. 1, jan./abr. 2018. Disponível em: https://bit.ly/2VcRpgN . Acesso em: 16 jun. 2020. PIAGET, J. Seis Estudos de Psicologia. 24. ed. São Paulo: Forense Universitária, 1967. SANTI MARIA, T. L. C. Desenvolvimento psicomotor de alunos na Educação Infantil. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2012. WALLON, H.-A. Psicologia e Educação da Infância. Tradução: Ana Rabaça. Lisboa: Editorial Estampa, 1975. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO DIFICULDADE DE ESCRITA Você terá a oportunidade de refletir sobre estimulação psicomotora e o desenvolvimento da fala, leitura e escrita das crianças. SEM MEDO DE ERRAR A Psicomotricidade é uma ciência que busca englobar aspectos emocionais, cognitivos e motores nas diversas etapas da vida do ser humano, e a criança que apresenta algum tipo de dificuldade de aprendizagem pode ter problemas psicomotores associados. As atividades que desenvolvem tônus, equilíbrio, estruturação espaço-temporal, esquema corporal, dominância lateral, são todas fundamentais para o processo de aprendizagem. https://bit.ly/2VcRpgN Todas as habilidades descritas são desenvolvidas a partir da exploração do corpo. Em especial na primeira infância, é através do corpo que a criança conhece e si e ao mundo e vai desenvolvendo capacidades que serão fundamentais para aprender conceitos e conteúdos também intelectuais como a leitura, a escrita, a matemática e outros. Com a busca por ordem e disciplina é possível que alguns modelos escolares controlem a exploração do ambiente por meio do corpo, impedindo o pleno desenvolvimento psicomotor da criança, necessário para sua evolução escolar. O resultado é que alguns alunos podem ter seu processo de aprendizado afetado ou atrasado por causa disso. Em nosso estudo de caso, o aluno Igor confunde e/ou troca as letras “b” e “d”, e isso está relacionado com o baixo desenvolvimento de seu esquema espaço- temporal. As duas letras são muito parecidas, só mudam o lado da “barriga”, e para perceber tal diferença é necessária orientação espacial. É pelo corpo que a criança começa a aprender as primeiras noções espaciais, entendendo o que está, por exemplo, à sua frente, atrás, em cima e abaixo. Atividades que melhorem a noção espacial, direções e lateralidade poderão instrumentalizar Igor para que ele melhore sua percepção espaço-temporal e, portanto, o reconhecimento e diferenciação das letras. Não basta Igor conhecer as letras: é importante que ele tenha uma elaboração cognitiva para perceber os sons e a sequenciação dos sons, afinal as letras são sons que sequenciados formarão palavras, e estas terão um significado. Portanto, apenas conhecer a letra não é suficiente para ler e escrever. Para que Igor desenvolva melhor esse aspecto, a musicalização pode ser uma ferramenta imprescindível, dando a essa criança mais domínio sobre os sons, a sua capacidade de construir frases sonoras e dar ritmo a elas. O ritmo é uma habilidade fundamental para a fala, a escrita e a leitura. Muitas são as atividades que podem ser desenvolvidas a partir das informações que levantamos a respeito das dificuldades de leitura e escrita de Igor. Deixamos aqui uma sugestão de cirandas e danças circulares. Essa atividade tem uma incrível potência para desenvolver ritmo – em especial se for trabalhada em grupo e de mãos dadas, pois as crianças podem se ajudar mutuamente – e melhora consideravelmente a percepção espacial, equilíbrio e lateralidade. Você tem alguma outra ideia de atividade psicomotora para auxiliar Igor em sua alfabetização? AVANÇANDO NA PRÁTICA TURMA APRESENTA COLETIVAMENTE PROBLEMAS DE ALFABETIZAÇÃO A turma do primeiro ano doensino fundamental está há alguns meses no processo de alfabetização. No segundo semestre letivo, a professora já está construindo palavras de construção silábica simples e com duas sílabas. Mas a professora responsável identificou que alguns alunos vêm apresentando grandes dificuldades de avançar na escrita, como trocar “b” e “d”, escrita malfeita apontando dificuldades visuomotoras e no desenvolvimento motor fino e a dificuldade de juntar as letras para formar as palavras. Entendemos que esse problema não é pontual, mas coletivo e, portanto, aponta um deficit anterior no desenvolvimento sensório-motor dos alunos. Como os professores dessa turma podem pensar um plano pedagógico para buscar sanar as deficiências e permitir que os alunos avancem na alfabetização? RESOLUÇÃO O processo de alfabetização da criança começa muito antes de empunhar o lápis para desenhar as primeiras vogais. Para que se chegue a esse momento, é necessário que o processo de desenvolvimento psicomotor que se deu na primeira infância tenha trazido práticas corporais suficientes para que os alunos pudessem amadurecer as habilidades fundamentais da psicomotricidade: coordenação motora global, equilíbrio estático e dinâmico, esquema corporal, lateralidade, orientação espacial e orientação temporal. Fatores sociais, cognitivos e ambientais influenciam diretamente no amadurecimento da psicomotricidade da criança. Isso quer dizer que há duas instituições fundamentais para fornecer e fomentar o amplo desenvolvimento psicomotor da criança: a escola e a família. Elas se complementam, podendo a criança ter boa estimulação em casa pelos responsáveis, na escola pelos professores ou por ambos, o que seria o ideal. Mas é comum grande parte da responsabilidade para o desenvolvimento da psicomotricidade ser depositado sobre os professores. Se a classe do primeiro ano do ensino fundamental tem apresentado um número considerável de crianças com variados problemas de alfabetização como dificuldade em leitura, troca de letras, desorganização das palavras no papel, dificuldade em juntar letras para formar palavras, isso tudo pode ser resultado de deficiência no desenvolvimento motor. https://conteudo.colaboraread.com.br/201701/INTERATIVAS_2_0/CORPO_E_MOVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u3s2.html#resolucao%20.item-1 Portanto, práticas corporais que desenvolvam ritmo, tônus muscular, espacialização, musicalidade e motricidade fina podem dar subsídios para que os alunos dessa turma amadureçam as habilidades psicomotoras e possam avançar no aprendizado da leitura e escrita. Por exemplo: associar músicas ao movimento, ciranda e outras práticas corporais que melhorem a espacialização, pintura, recorte, caligrafia, teatrinho e pequenas coreografias podem ser ótimas práticas para lidar com as dificuldades dessa turma. MOVIMENTO E CULTURA BRASILEIRA - SECÃO 3 DANÇAS POPULARES As danças populares são manifestações culturais e artísticas que fazem parte da tradição de determinado grupo. PRATICAR PARA APRENDER Cultura é tudo aquilo que é produzido e transformado pelo conhecimento humano, mas existe uma diferença entre cultura de massa e cultura popular. A cultura de massa nasce da indústria cultural para atender ao maior número de pessoas possível, ou seja, um grupo considerável de pessoas, sem distinção e fruto da época em que vivemos. Já a cultura popular leva em conta as diferenças de cada região, porque, muitas vezes, ela nasce em outro momento da nossa história, é herança de procedimentos antigos de nossos antepassados. No Brasil, existe uma diversidade enorme de festas populares por causa da mistura cultural de europeus, indígenas e africanos, que aconteceu de uma maneira singular, proporcionando a evolução de manifestações culturais endógenas. O desenvolvimento histórico também é fator fundamental para entender como elas aconteceram. A escravidão de indígenas e africanos no Brasil estimulou essas pessoas subjugadas a resistirem a partir dessas manifestações. Lentamente, as culturas foram se mesclando e sofrendo influência umas das outras; assim, os brasileiros herdaram um patrimônio cultural repleto de cantos, danças, poesia, ritmos e histórias trazidos nas lembranças de cada indivíduo. Tudo foi somado, misturado, trocado e inventado. Por isso, é possível dizer que as culturas populares não são manifestações engessadas, ao contrário, estão sempre em transformação, recriando-se e reinventando-se. As danças populares são expressões ligadas à identidade de um grupo social. São manifestações culturais e artísticas que fazem parte da tradição de um determinado grupo. Elas são produzidas como resultado de um contexto social, dos convívios e das trocas de experiências que constituem um povo. Elas produzem identidade e integração em um grupo social. Essa marca na cultura popular, neste caso, a brasileira, é também muito expressiva – dos sambas aos maracatus, dos frevos às congadas, dos batuques aos carimbós, conhece-se sobre o Brasil e sobre sua cultura popular através das danças. Elas narram uma parte expressiva dessa história que continua sendo (re)produzida ao longo dos anos com outras e novas formas de dançar, com outros e novos sentidos e significados que são (re)produzidos pelos diferentes grupos e sujeitos. BRASILEIRO, 2010, p. 138. O trabalho com educação deve buscar estar vinculado ao contexto sociocultural no qual a escola está inserida. O conteúdo proposto pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) são diretrizes que dependem da sensibilidade da direção escolar e do professor para não executar uma educação vertical ou bancária, como nos ensina Paulo Freire (1971, p. 123-132), e sim uma educação libertadora. Nesta situação-problema, você se colocará na posição de um professor do Ensino Fundamental I, que deve abordar os temas étnico-raciais e relacioná-los com o contexto do cenário que você escolherá. Desenvolva uma atividade que envolva o planejamento de atividade e apresentação final de uma manifestação cultural que faça sentido aos seus alunos e justifique sua escolha. Escolha um contexto sociocultural para sua situação-problema: • Escola dentro de uma comunidade indígena. • Escola em um assentamento quilombola. • Escola israelense e judia. Defina a disciplina na qual você é responsável e as características da sua turma (ano, número de alunos). Contextualize a sua prática, desenvolva um plano de aula para trabalhar com uma manifestação cultural brasileira e descreva a proposta de apresentação final. CONCEITO-CHAVE Mergulharemos no imenso universo das danças populares brasileiras para conhecer diversas manifestações que são patrimônios culturais imateriais do Brasil e do mundo e que representam a identidade brasileira. BUMBA MEU BOI Conta a lenda que a negra Mãe Catirina estava grávida quando teve um grande desejo de comer a língua de um boi vistoso. Seu marido, o negro Pai Francisco, tentando realizar as vontades de sua esposa, escolheu um dos bois do rebanho da fazenda onde ambos trabalhavam. O fazendeiro logo deu falta de seu boi preferido e enviou empregados para procurá-lo. Eles encontram o boi já morto e, com a ajuda de um pajé, ressuscitaram o animal. A festa do Bumba meu boi é para comemorar esse milagre e festejar a saúde do animal. O Bumba meu boi é uma festa tradicional do Maranhão. O folguedo é celebrado durante as festas juninas e reúne performances dramáticas, coreográficas e musicais. Essa cultura popular possui uma série de elementos materiais que fazem parte da manifestação cultural, como artesanato, bordados e confecção de instrumentos e indumentárias típicas (NOVELLI, 2019). O Bumba meu boi pode ser considerado uma dramatização que relaciona elementos de comédia, drama, sátira e tragédia em seu enredo e que tem como tema subentendido as relações sociais entre patrão e subalterno. REFLITA Nestalenda, é possível identificar o sincretismo cultural e religioso brasileiro, com a relação do boi com datas relacionadas à crença católica (Festa Junina, Dia de Reis e Carnaval), à ancestralidade e ressurreição da cultura africana e à figura do pajé marcando a simbologia indígena. Esse folguedo aparece também em diversas outras regiões do Brasil. Seu surgimento aconteceu por volta da primeira metade do século XIX, nas regiões Norte e Nordeste, e pode remeter às festas do ciclo do gado nos séculos XVII e XVIII (NOVELLI, 2019). No Norte, o “Bumba Boi” e “Bumbá” acontecem junto às festividades juninas e comemorações de São João e outros santos de junho. No Nordeste, a manifestação está relacionada ao ciclo natalino, com o “Boi de reis”, “Boi Suribi” e “Boi Calemba”. No Centro-Sul, o boi acontece em tempos de Carnaval, com a manifestação do “Boi Pintadinho”, “Boi Falô” e outras variantes. O boi é o personagem principal da festa. Em torno dele, vaqueiros, indígenas, cazumbás e Pai Francisco exibem belas coreografias. O animal é animado pelo chamado miolo (também conhecido como arma, tripa, rolador ou espírito do boi), o brincante que dá vida e dança a esse personagem da cultura popular. Ele é responsável por produzir movimentos leves e ágeis, o que demanda uma grande resistência física, já que a estrutura do boi é feita de madeira e é coberta de veludo, couro e outros adornos. De acordo com Iphan (2011), a musicalidade dos grupos de Bumba meu boi resulta do talento de seus compositores e, por isso, há uma grande variedade. Na voz dos mestres, a toada é cantada junto a instrumentos musicais, como: [...] bumbos, maracás, ganzás, pandeirões, V8 (pandeiros quadrados grandes), tambor-onça, chocalhos, palmas, cujubas, búzio (borá), marcações, retintas, matracas, zabumbas, pandeirinhos, banjos, clarinetes, saxofones, pistons, trombones e trompetes, entre outros. IPHAN, 2011, p. 11 Em 2011, o Bumba meu boi foi tombado como patrimônio cultural brasileiro e, em 2019, se tornou patrimônio cultural imaterial da humanidade pela UNESCO. FREVO Frevo é a efervescência do vai e vem, como também da música rápida e frenética que não deixa ninguém parado nos carnavais pernambucanos. É uma manifestação da cultura popular brasileira, que surgiu na cidade de Recife/PE, que foi nomeada, em 2007, como patrimônio cultural imaterial brasileiro e, em 2012, pela UNESCO. Esse gênero começa a se manifestar no final do século XIX a partir da mistura do maxixe, marcha, dobrado e polca. Em meados do século XIX, surgiram os primeiros grupos carnavalescos pernambucanos, dentre eles o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas, em 1889, e o CCM Lenhadores, em 1897, formado por trabalhadores que deram origem ao frevo. REFLITA De acordo com a pesquisadora Aidar (2020), no frevo se manifestou a rivalidade entre as bandas militares e os escravos recém-libertos que disputavam as músicas e a dança. “O contexto histórico em que essa expressão cultural despontou era igualmente frenético em termos políticos e sociais. Vivia- se o pós-abolicionismo, enquanto surgia uma nova classe operária.” (AIDAR, 2020, [s.p.]). Os movimentos do frevo foram adaptados dos golpes de capoeira, que disfarçava sua luta de dança para fugir da perseguição policial que sofria. Devido a isso, os movimentos do frevo foram altamente influenciados pela capoeira. Ao som da fanfarra – nome dado à orquestra de frevo –, a dança acontece com passos acrobáticos, saltos e agachamentos, marcados por muita energia, alongamento, força e criatividade. São mais de 120 passos catalogados. Os instrumentos musicais que compõem a fanfarra são o trombone, o trompete, o saxofone e a tuba, mas as sombrinhas coloridas são o elemento mais marcante dessa dança, pois, além do colorido e da alegria que elas trazem, ajudam a manter o equilíbrio durante os passos acrobáticos. É no Carnaval pernambucano que o frevo se manifesta mais fortemente. No contexto educacional, o frevo pode ser amplamente trabalhado nas escolas, para isso, podemos citar o êxito da Escola de Frevo Maestro Fernando Borges, da cidade de Recife/PE, a qual, desde 1996, recebe anualmente centenas de alunos da rede estadual e municipal para conhecer o universo cultural do frevo. De acordo com Sales (2013), o método de ensino do frevo do Grupo Guerreiros do Passo é baseado primeiramente na observação dos passistas, seguido de improvisação para que cada dançarino possa criar sua própria movimentação. A experimentação de alguns dos tantos passos tradicionais do frevo pode dar insumos para que os alunos criem seus movimentos. EXEMPLIFICANDO Alguns dos passos tradicionais do frevo que podem ser trabalhados em aula: ponta calcanhar, engana povo (ponta e ponta), ferrolho, segura senão eu caio, bailarina e tesoura. Iniciar as aulas com amplo aquecimento e mobilização das articulações que serão trabalhadas é fundamental (VICENTE; SOUZA, 2011). Articulações, como tornozelo, joelho e coxofemoral, são altamente solicitadas na prática do frevo. Além disso, ao final da aula, proporciona-se o desaquecimento do corpo. MARACATU O maracatu é uma manifestação tipicamente de Pernambuco, surgida em meados do século XVIII, que está relacionada à cultura canavieira da Zona da Mata e se espalhou por toda a região litorânea do Nordeste. Sua grande importância é manter elementos da cultura popular brasileira por meio da memória, identidade e formação da população afro-brasileira (IPHAN, 2014). Por isso, em 2014, essa manifestação se tornou patrimônio cultural imaterial do Brasil. ASSIMILE A origem do maracatu está relacionada às coroações e aos autos do Rei do Congo, uma prática implantada pelos portugueses. Os reis e rainhas eleitos seriam lideranças políticas que estariam em diálogo com o Estado Colonial, bem como para que pudessem manifestar sua religiosidade “disfarçados” de personagens (com roupas e hierarquias) portuguesas. Por isso, é possível afirmar que o maracatu é uma manifestação cultural afro-brasileira. Existem dois tipos de maracatu: • Nação (ou baque virado): o maracatu nação acontece durante o Carnaval e sai às ruas em cortejo real, acompanhado por um conjunto musical de percussão, “evocando as coroações de reis e rainhas do antigo Congo africano” (IPHAN, 2014, [s.p.]), bem como baianas, orixás e calunga (a boneca africana). Os grupos se concentram, sobretudo, nos bairros periféricos da região metropolitana de Recife e são marcados por relações comunitárias e compartilhamento de práticas (SALLATI, 2014). Os desfiles são cheios de simbologias e riquezas. Entendido como uma forma de expressão que congrega relações comunitárias, o Maracatu Nação permite o compartilhamento de práticas, memórias e fortes vínculos com o sagrado, evidenciadas por meio da relação desses grupos com os xangôs (denominação da religião dos orixás em Pernambuco) e a Jurema Sagrada (denominação da religião de características afro-ameríndias que cultua mestres e mestras, caboclos, entre outras entidades) e ainda pode remontar às antigas coroações de reis e rainhas congo. IPHAN, 2014, [s.p.]. • Rural (ou baque solto): o maracatu rural “é um resultado da fusão de manifestações populares, como cambindas, bumba-meu-boi, cavalo marinho e coroação dos reis negros” (AQUINO, 2014, [s.p.]). Acontece tanto no Carnaval como na Páscoa em toda a região da Zona da Mata e envolve dança, música e poesia. • Sua manifestação data do século XIX. Foi desenvolvido por agricultores para homenagear a luta dos trabalhadores rurais. Seu personagem principal é o caboclo de lança que dança paramentado com a roupa mais reconhecida do maracatu, segurando uma lança igualmente adornada, que representa os guerreiros. Os principais instrumentos musicais utilizados são alfaias, agogôs, caixas, ganzás, gonguês, taróis, trombones e cornetas. • SAMBA DE RODA • O pesquisadorSandroni (2010) explica o samba de roda a partir de duas diferenças com o samba carioca, amplamente conhecido. A primeira delas é que sua prática se dá essencialmente em roda, e a segunda é que o canto é marcado pelo coro coletivo, em um jogo de pergunta e resposta presente na música tradicional africana. Essa manifestação é típica da região do Recôncavo baiano, uma das primeiras regiões a receberem os escravos no Brasil para trabalhar nos engenhos de açúcar e, por essa razão, teve grande número de templos religiosos de matriz africana, insumo essencial para que a manifestação saísse dos terreiros e tomasse as ruas e festas, até que surgisse o samba de roda, por volta de 1860 (CARTA CAPITAL, 2020). Seus praticantes são chamados de sambadores e sambadeiras, os quais, em roda, dançam o miudinho, geralmente realizado pelas mulheres do grupo. Duas variantes são comuns: • Samba de chula: os cantores gritam a chula, ou seja, um tipo de poesia, e a dança só acontece após a declamação acompanhada por instrumentos e palmas. • Samba corrido: todos sambam enquanto dois solistas e o coral se revezam no canto. A dança é aprendida por observação e imitação a partir da imersão cultural e sua principal característica é a umbigada, um movimento de origem Banto, em que a dançarina convida a próxima que ocupará o centro por meio desse gesto. De acordo com o IPHAN (2014, [s.p.]), o samba de roda é “uma expressão musical, coreográfica, poética e festiva das mais importantes e significativas da cultura brasileira”. Como uma manifestação cultural afro-brasileira, está ligada ao culto de orixás e caboclos, bem como à capoeira enquanto dança. A chamada comida de azeite foi a principal influência para o samba carioca como conhecemos atualmente. O samba de roda é uma das joias da cultura brasileira, por suas qualidades intrínsecas de beleza, perfeição técnica, humor e poesia, e pelo papel proeminente que vem desempenhando nas próprias definições da identidade nacional. IPHAN, 2014, [s.p.]. Com a grande migração de baianos para a então capital Rio de Janeiro, no final do século XIX e início do século XX, a manifestação rural do samba de roda foi influenciada pela dinâmica urbana e moderna carioca até se transformar no samba como o conhecemos e ter como marco a gravação da música Pelo Telefone, de Donga, em 1917. Em 2004, tornou-se patrimônio cultural imaterial do Brasil e, em 2005, recebeu o mesmo título da UNESCO. CIRANDA As danças circulares estão presentes em diversas culturas em todo o mundo e, historicamente, estão ligadas a relações coletivas de celebração da ancestralidade, do sagrado e da natureza, sempre vinculadas à “celebração, participação, encontro e reafirmação da vida” (TEIXEIRA; SOUZA, 2010, p. 2). No Brasil, a ciranda foi uma herança portuguesa, mas “[...] enquanto em Portugal ela se consagrou como uma autêntica dança de adultos, no Brasil ela é vista ora como dança infantil ou roda cantada” (LOUREIRO; LIMA, 2012, p. 396). Por ser uma atividade em grupo, estimula a individualidade entre um coletivo e, por isso, pode ser uma potente ferramenta para trabalhar com crianças no contexto escolar, pois também constrói o papel que cada um tem para que o movimento de todo o grupo aconteça de maneira coordenada, portanto cada indivíduo tem sua importância e seu papel nesse sistema. No centro da ciranda está o mestre cirandeiro. Nas brincadeiras infantis, esse elemento pode ser uma criança, que deverá ter por um momento seu papel de comando na brincadeira, mas que, em seguida, será passado para um colega. Também é nessa posição que podem observar e serem observadas, um exercício de alteridade. O ato de dar as mãos é igualmente muito importante, pois estimula o ir junto, a coletividade e o desvincular de relações hierárquicas e rígidas, já que o círculo, necessariamente, implica mobilidade, sempre alternando a centralidade e a posição em fluxo constante. Um exemplo de dança circular são os Harkadás, danças tipicamente hebraicas que sintetizam a pluralidade cultural que atingiu os judeus junto à sua diáspora. A dança tem “o jeito de dançar em roda, de mãos e/ou braços dados, expressava o sentimento de união e vínculo entre os membros da comunidade” (DAVIDOVITSCH, 2015, p. 16). Para os israelenses, os Harkadás são um símbolo da atuação colaborativa que judeus de diversas regiões tiveram para não deixar esse traço cultural morrer e, ainda, fortalecê-lo e ampliá-lo por meio de uma rede solidária para a sobrevivência do povo judeu. Uma Harkadá simples, que pode ser trabalhada no contexto escolar, é o alef beit, ou seja, o alfabeto hebraico, sobre o qual há uma coreografia na qual as crianças devem seguir dançando e cantando. Um ótimo recurso para iniciar a alfabetização. O estudo das danças populares é importante no processo educacional dos alunos, porque permite que compreendam sua identidade ampla enquanto brasileiros e sua identidade regional ao entender o contexto cultural no qual estão inseridos. Também desperta no estudante o respeito à multiplicidade cultural ao entender que os costumes são produzidos pela interação das culturas africanas, europeias e indígenas. Por fim, as aulas de danças populares brasileiras permitem aos alunos experienciar empiricamente estudos históricos e sociais e, dessa forma, o professor pode dirigir debates críticos. FOCO NA BNCC Nesse sentido, o estudo das danças populares permite alcançar “saberes referentes a produtos e fenômenos artísticos e envolvem as práticas de criar, ler, produzir, construir, exteriorizar e refletir sobre formas artísticas” (BRASIL, 2017, p. 189). A transversalidade dessa temática também auxilia na aprendizagem de “diferentes linguagens [...] com vistas a possibilitar aos estudantes maior autonomia nas experiências e vivências artísticas (BRASIL, 2017, p. 201). Com relação aos professores, o estudo das danças populares os torna profissionais criativos, críticos e reflexivos diante do mundo que os circunda, bem como sobre os modos de se pensar os métodos de ensino. Por essa razão, o estudo regular das danças populares para além da quadrilha no São João ou alguma comemoração superficial no dia 22 de agosto – Dia do Folclore – é fundamental para não empobrecer toda a potencialidade de transversalizar o conhecimento entre várias disciplinas escolares que o estudo aprofundado das danças populares pode trazer ao aluno. REFERÊNCIAS AIDAR, L. Frevo. Toda Matéria, 2020. Disponível em: Link. Acesso em: 10 maio 2020. ANDRADA, P. C. de; SOUZA, V. L. T. de. Corpo e docência: a dança circular como promotora do desenvolvimento da consciência. 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Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei no 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Brasília, DF:Presidência da República, 10 mar. 2008. Disponível em: https://bit.ly/2E5LZ1H . Acesso em: 20 jul. 2020. BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Parecer CNE/CP no 3, de 17 de junho de 2004. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Brasília, DF: Ministério da Educação, 17 jun. 2004. Disponível em: https://bit.ly/3ePsC9w. Acesso em: 20 jul. 2020. BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Conselho Pleno. Resolução CNE/CP no 1, de 17 de junho de 2004. 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Ao contrário do que se acredita, o sincretismo cultural brasileiro não se deu pacificamente e de maneira alegre, e sim foi por meio de muita violência e repressão sofrida pelos grupos escravizados para aniquilar seus traços histórico culturais e, dessa forma, se tornarem mais facilmente controláveis. As manifestações populares, muitas vezes, foram maneiras de escapar da violência e um caminho para resistir. Esse debate deve estar claro para o professor ao fazer sua escolha entre um dos três cenários propostos. Tanto a população indígena quanto a negra afrodescendente sofreram aniquilações no Brasil, e a comunidade judia foi altamente perseguida no mundo, apesar de no Brasil não ocupar o mesmo lugar social das duas etnias citadas. Sendo assim, é importante que o professor escolha uma manifestação que permita debater a história daquele grupo, valorizando criticamente suas contribuições para a identidade brasileira. No planejamento de aula, é necessário contemplar a história daquela manifestação, suas principais influências e seu legado. Quais são os elementos (instrumentos, vestimenta, cantos, dança, comida, entre outros) que compõem tal manifestação? Permita https://maracatu.org.br/2014/12/04/patrimonio-cultural-imaterial-do-brasil-maracatu-nacao-o-maracatu-baque-solto-e-o-cavalo-marinho-expressoes-culturais-e-musicais-repletas-de-simbologia-2/ que seus alunos realizem pesquisas e entrevistem membros da comunidade que possam ajudar a compreender essa história. Leve em consideração os pontos elencados nos conteúdos da disciplina Educação Física, na BNCC (BRASIL, 2017, p. 225): • Experimentar e fruir brincadeiras e jogos populares do Brasil e do mundo, incluindo aqueles de matriz indígena e africana, e recriá-los, valorizando a importância desse patrimônio histórico cultural. • Descrever, por meio de múltiplas linguagens (corporal, oral, escrita, audiovisual), as brincadeiras e os jogos populares do Brasil e de matriz indígena e africana, explicando suas características e a importância desse patrimônio histórico cultural na preservação das diferentes culturas. • Recriar, individual e coletivamente, e experimentar, na escola e fora dela, brincadeiras e jogos populares do Brasil e do mundo, incluindo aqueles de matriz indígena e africana, e demais práticas corporais tematizadas na escola, adequando-as aos espaços públicos disponíveis. Bem como na disciplina de Artes (BRASIL, 2017, p. 197-199): • Experimentar e apreciar formas distintas de manifestações da dança presentes em diferentes contextos, cultivando a percepção, o imaginário, a capacidade de simbolizar e o repertório corporal. • Conhecer e valorizar o patrimônio cultural, material e imaterial, de culturas diversas, em especial a brasileira, incluindo-se suas matrizes indígenas, africanas e europeias, de diferentes épocas, favorecendo a construção de vocabulário e repertório relativos às diferenteslinguagens artísticas. Por fim, trazer os conhecimentos debatidos criticamente e amplamente pesquisados para a prática corporal, com o aprendizado dos cantos, poemas, produção de instrumentos musicais e treino de movimentos e corporalidades específicas da manifestação escolhida. Envolva a comunidade no processo, já que essa manifestação pode também ser de interesse coletivo, uma vez que ajuda pais e responsáveis a entenderem sua própria história. AVANÇANDO NA PRÁTICA DIRETOR DE ESCOLA PERIFÉRICA Tomando por base a primeira situação-problema, em que propusemos o estudo da cultura popular brasileira em escolas com grupos socioétnicos específicos, transporemos essa experiência para pensar a prática no contexto da escola periférica. Nesta situação, coloque-se no papel de um diretor de uma escola periférica, na qual grande parte de seus estudantes é negra e parda. Proponha um projeto transversal entre as diversas disciplinas do Ensino Fundamental II, que deve usar do estudo da cultural popular brasileira para debater a cultura afro- brasileira e sua importância na formação da identidade nacional. RESOLUÇÃO Partindo da Lei nº 10.639/2003 e Lei nº 11.645/2008, que exige o ensino da cultura afro-brasileira e indígena no contexto escolar, defina diretrizes que os professores devem seguir e abordar com seus alunos. Promova diálogos e trocas entre os professores das áreas de Artes, Educação Física, História, Português e Literatura, afinal, o tema da cultura popular brasileira pode ser altamente explorado dentro dessas disciplinas. Pense em um momento de conclusão do projeto, que pode ser em formato de apresentação de trabalho ou um sarau. Seja criativo na sua proposta. Tenha clareza da importância do papel de liderança e gestão do diretor escolar, sempre promovendo as relações de maneira horizontal e fundamentada no diálogo e na cooperação. UNIDADE 4 CORPO E MOVIMENTO NA ESCOLA INSERÇÃO DA DANÇA NO CURRÍCULO Estimula o conhecimento por meio do corpo, promove uma formação mais abrangente ao aluno, amplia a consciência da corporeidade e se torna um elo integrador da comunidade escolar. CONVITE AO ESTUDO Aprender a dançar é aprender outra linguagem. Com esse conhecimento, as pessoas ganham mais um recurso de comunicação, ampliando a capacidade de se relacionar entre si e com o mundo. Se o ser humano é antes de mais nada um ser social, é possível afirmar que a dança não é uma ferramenta que ajuda a analisar mundo, ou que é um espelho da sociedade, mas, enquanto https://conteudo.colaboraread.com.br/201701/INTERATIVAS_2_0/CORPO_E_MOVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u3s3.html#resolucao%20.item-1 linguagem e comunicação, ela é a própria ação sobre o mundo, a sociedade e as redes de relações. [...] o corpo em movimento não é veículo de expressão, ele é a própria expressão de seres humanos que buscam e constroem sentidos o tempo todo. Como já vimos, somos nossos corpos e neles – e não com eles – nos expressamos. (MARQUES, 2012, p. 58) Ser professor de corpo e movimento, no contexto da educação formal, demanda a mobilização de diversos saberes e práticas. De acordo com Batalha e Cruz (2019), o ensino da dança demanda três concepções de aprendizagem da docência: conhecimento para a prática, conhecimento na prática e conhecimento da prática. O conhecimento para a prática é todo o repertório de informações que o professor deve adquirir constantemente para ter mais sucesso nas suas práticas em sala de aula. O conhecimento na prática advém da experiência conquistada pelo professor ao longo de sua vida docente, a partir dos conhecimentos adquiridos. E o conhecimento da prática “decorre de investigação sistemática do ensino, dos alunos e do aprendizado, bem como do conteúdo, do currículo e da escola, em interação com os seus pares”. É buscando ampliar seus conhecimentos para/na/da prática que a Unidade 4, futuro pedagogo, discutirá as abordagens do corpo e movimento na escola com práticas e sugestões de como lidar com as situações corriqueiras. Seguiremos abordando a dança inclusiva no contexto escolar e como explorar os corpos singulares dos alunos com deficiência em aulas que acolhem toda a diversidade. Por fim, discutiremos os cuidados com o PRATICAR PARA APRENDER É comum que as aulas de dança e movimento no sistema escolar sejam reduzidas a lazer sem muita importância, já que o que “deveria” ser aprendido seria a ordem e a disciplina corporal. Ainda, as aulas de dança são utilizadas como “válvula de escape” para a energia das crianças, para que, dessa forma, as aulas de outras disciplinas possam transcorrer mais tranquilamente. Nessa perspectiva, o estudo do movimento e do corpo é abordado sob a ótica funcional e disciplinarizante. Para Strazzacappa (2001), essa realidade desnuda uma estrutura escolar que utiliza a imobilidade como punição ao aluno, enquanto o movimento é considerado um prêmio, por isso as aulas de dança acabam se tornando uma moeda de troca no ambiente escolar, o que nos faz repensar o modelo educacional que está sendo reproduzido. Se por um lado há grande desejo dos alunos em mover o corpo, de outro as instituições de ensino e o corpo docente, muitas vezes, desvalorizam o conhecimento do corpo, entendendo “a dança [como] um ‘luxo’ de menor importância no conjunto das disciplinas oferecidas pelo currículo” (STRAZZACAPPA, 2001, p. 74). O papel do educador é criar canais de comunicação e diálogo entre o corpo docente e a direção escolar para debater os sentidos dessa metodologia e repensar as diretrizes educacionais nas quais as aulas de dança deverão ser pautadas, negando um ensinamento apenas funcional e disciplinarizante. O estudo do movimento e da expressão deve estimular a compreensão por parte da criança que seus corpos são elas mesmas, e não apenas um instrumento, uma ferramenta para executar atividades rotineiras. Quando a educação for pautada no respeito ao corpo, esses corpos, consequentemente, pedirão por educação, e não apenas por adestramento. Com tal ressignificação, os corpos passam a explorar diversas maneiras de se expressar, mesmo dentro da funcionalidade desejada no contexto escolar (por exemplo, formar filas, organizar a fala, sentar-se adequadamente), mas sempre respeitando e incentivando a mobilidade, a criatividade e a expressão da criança. A educação perpassa pelo ensinamento de corpos transformadores do mundo e, para tanto, inventar, explorar e experenciar é condição fundamental para construir outros pontos de vistas, outras formas de estar no mundo. “Não dançamos ‘para’ ler/estar o mundo, dançando nós podemos ler e estar no mundo.” (MARQUES, 2012, p. 60). Essa é a potência da arte e da dança. Nesse sentido, a dança e a arte fazem com que o indivíduo conquiste um lugar no mundo. A dança os torna sujeitos agentes, por isso seu valor está em si mesma, em ser parte constituinte do indivíduo, e não precisa “servir” para mais nada além de ser uma condição fundamental para a vida. A dança abre as possiblidades de experiência corporal e expressiva e seu lugar não precisa ser definido somente pela funcionalidade. O professor de corpo e movimento ganha ainda mais importância nessa perspectiva, por isso discutiremos maneiras interessantes de trabalhar o tema em sala de aula. O processo de alfabetização da criança, bem como o aprendizado das formas geométricas, são ganhos cognitivos muito poderosos, uma vez que, por meio da alfabetização, a criança aprende um conjunto de novos signos e significados que a ajudará a se expressar e comunicar com o mundo. As formas geométricas constroem a perspectiva tridimensional e espacial fundamental para o movimento da dança. Levando em consideração as letras do alfabeto e as formas geométricas, desenvolva um plano de aula de corpo e movimento que explore esses dois recursos por meio do gesto e da dança. É importante queconstem os seguintes elementos: • A idade dos alunos e o contexto no qual aquela atividade será empregada. • O procedimento de aula, com o passo a passo das atividades. • Uma justificativa do porquê cada exercício foi selecionado. • Os recursos necessários para a aplicação daquela prática: tipo de música, objetos, aspectos do ambiente. Vamos sentir no corpo as novas descobertas. CONCEITO-CHAVE DESAFIO DAS AULAS DE DANÇA NA ESCOLA A escola sempre foi entendida como o lugar do desenvolvimento mental, por isso todo o contexto de desenvolvimento humano relacionado ao corpo foi se limitando no tempo de aula, bem como na faixa etária. Se na educação infantil os jogos, as brincadeiras, o movimento e o cuidado com o corpo são entendidos como parte do desenvolvimento do aluno, no ensino fundamental o estudante foi limitado ao espaço da sua carteira, tendo seus movimentos restritos e contidos. Na educação infantil, o trabalho com o corpo é, muitas vezes, entendido como lazer e deixado para a criança o aproveitar de maneira livre. No geral, essas práticas não são estruturadas com um objetivo maior de amadurecimento da psicomotricidade, da construção da identidade e da socialização da criança. Por outro lado, no ensino fundamental, a disciplina de Educação Física aborda de maneira restrita os conteúdos de dança (que deveria compor um terço dessa disciplina), e o ensino de Artes, geralmente, não dá conta de abordar conteúdos de música, teatro, artes visuais e dança. FOCO NA BNCC Para Sousa (2014), se as práticas de dança estão muitas vezes relacionadas às atividades festivas da escola, ainda assim é possível notar cada vez maior presença delas nas escolas, em especial, desde a aprovação da Lei nº 13.278, em 2016, que institui as artes visuais, a dança, a música e o teatro como componentes curriculares. Em investigação realizada pelas pesquisadoras Batalha e Cruz (2019), os professores acreditam que a inserção da dança no currículo escolar estimula o conhecimento por meio do corpo, promove uma formação mais abrangente ao aluno, amplia a consciência da corporeidade e se torna um elo integrador da comunidade escolar. Além disso, os professores percebem a potência do ensino de dança para debater sobre questões sociais e humanas, permitindo minimizar a violência, promover a coletividade e repensar as possibilidades do corpo na sociedade. Ao entender a dança como ampla área do conhecimento, que transversaliza todas as disciplinas, o professor deve lançar mão de amplo repertório de práticas que estimule a imaginação, a sensibilidade, o brincar e a expressão. A abrangência e a transversalidade que a dança possui indicam sua capacidade em permear e costurar diversos saberes, daí a centralidade e importância do professor de dança em possibilitar um projeto pedagógico mais coeso. O ambiente escolar pode ser um lugar para aprender dança com qualidade, compromisso e amplitude. DANÇA E ARTES X DANÇA E EDUCAÇÃO FÍSICA A dança também acabou sendo palco de disputas e rupturas dentro do ambiente escolar, já que essa área do conhecimento abrange as disciplinas de Artes e Educação Física. A partir da análise da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), é possível perceber que os conteúdos das duas áreas de conhecimento em momentos se aproximam e, em outros, se distanciam, mas é possível dizer que a formação do professor é foco importante para entender as diferentes abordagens. Nas aulas de educação física, a dança pode ser tratada dentro do conjunto das atividades rítmicas e expressivas; desse modo ela é considerada um conteúdo da cultura corporal do movimento, em que prevalecem aspectos voltados para a prática. Nas aulas de arte, a dança é tratada como área de conhecimento e, para além da perspectiva prática, há também uma vertente artística, em que prevalecem aspectos artísticos e estéticos, como a estesia e a fruição. (BATALHA; CRUZ, 2019, p. 1276) Em outras palavras, enquanto a disciplina de Artes estimula o reconhecimento do corpo como ferramenta de expressão, “dança como manifestação coletiva e a dança como produto cultural e apreciação estética” (SOUSA, 2014, p. 508), a Educação Física mergulha a dança em uma abordagem que se relaciona com questões socioculturais, as quais são trabalhadas a partir de repertórios específicos, como dança de rua, danças populares, dança de salão, etc. Nesse caso, as abordagens distintas da dança podem trazer complementariedade e amadurecimento corporal para o desenvolvimento identitário do aluno. Para além das diferenças, ambas as disciplinas enfrentam dificuldades em comum, as quais, de acordo com as pesquisadoras Batalha e Cruz (2019), são, principalmente, o espaço físico precário e inadequado, as turmas com elevado número de alunos para a prática da dança e a arquitetura escolar idealizada para o aluno ter aula teórica. ASSIMILE Apesar de a BNCC não explicitar quais são os conteúdos comuns aos dois PCNs, é possível inferir que, em ambas as disciplinas, as propostas de dança são pautadas em Rudolf Laban, e indicam que os fatores de movimento espaço, tempo, peso e fluência, bem como a importância das atividades lúdicas nas aulas de dança, são percebidos em ambas as áreas de conhecimento: Artes e Educação Física. Dessa forma, conheceremos alguns caminhos de abordagem pautados nas etapas de desenvolvimento psicomotor da criança e pistas para práticas em sala de aula. PRÁTICAS PARA A DANÇA NA ESCOLA – SEGUNDA INFÂNCIA O ciclo I do ensino fundamental é marcado pela alfabetização da criança, que adquire os recursos da leitura e da escrita como maneira de expressão e de interação com o mundo. Nesse mesmo período, há um aprofundamento dos estudos das figuras geométricas, auxiliando na construção dos conceitos de tamanho, volume e espaço. Esses dois elementos trazem grande transformação na maneira como a criança compreende a si e ao mundo. As abordagens podem se tornar mais complexas (não mais difíceis) com a aquisição de recursos de leitura do indivíduo e do ambiente. Nesse ciclo, é importante a retomada e o refinamento de todo o trabalho que foi realizado durante a educação infantil, uma vez que, no ensino fundamental I, busca-se ampliar a sensibilidade e compreensão do entorno, relacionando esse aprendizado à dança e permitindo à criança compreender as nuances da arte. O CORPO O aumento da complexidade da mobilidade e segmentação corporal marcam o ensino fundamental I com movimentos mais variados (DAMASIO, 2000). Por isso, algumas ações, como enrolar, desenrolar, torcer, inclinar, rolar, cair, subir e descer em espiral, podem ser adicionadas às práticas e estimuladas a ganhar variações por meio de exercícios investigativos. O professor pode exigir precisão de movimento e isolamento de partes do corpo. As ações vão se tornando mais complexas e é possível lançar mão de movimentos a partir de um determinado membro com indicações, como empurrar, afastar, escovar, deslizar, esfregar, desenhar e pontuar. EXEMPLIFICANDO Nas aulas de balé, por exemplo, essas ações podem ser construídas com os pés no solo. Ainda é bastante válido estimular a criança a explorar todos os níveis e realizar tais ações usando as mãos e produzir o movimento no solo ou usar os pés e produzir os movimentos no ar, ampliando a percepção tridimensional do espaço. Para aumentar o desafio, proponha a mudança de nível com deslocamento em um percurso definido. Para conquistar o equilíbrio, estimule as crianças ao desequilíbrio por meio de exercícios sobre um pé só. Primeiro, faça as práticas estáticas e, em seguida, em deslocamento. Experimente também o equilíbrio com uma parte do corpo fora do eixo vertical. Com essas atividades, o professor coloca os alunos em situação de desequilíbrio, para que estes possam encontrar o equilíbrio mais estável. O ESPAÇO Melhorar a capacidade de perceber ocorpo no espaço a partir do espaço próprio, espaço periférico e espaço projetado (DAMASIO, 2000). O espaço tem uma série de características que devem ser exploradas pelo professor em atividades de sala de aula. Direções: é possível propor mudanças de direção globais, ou seja, em que o corpo todo se move em uma determinada direção. O professor também pode indicar a mudança de direção a partir de uma parte do corpo, ou seja, uma parte do corpo inicia o movimento deslocado e todo o corpo responde em seguida. Por exemplo, a mão estica à frente e, em seguida, o corpo inteiro segue a mão, proporcionando um deslocamento à frente. Exercícios com oposições são propostas um pouco mais complexas que devem ser desenvolvidas com as crianças. Nelas, uma parte do corpo se direciona para um sentido e todo o corpo se move para outro, como apontar para frente e se deslocar para trás. Orientações: experimente propor variadas mudanças de direções e combinações entre dois pontos, como trajetos em diagonal, linha reta, círculo e ziguezague. Nessa fase, a criança pode inventar e memorizar uma série de sequências e combinações entre essas orientações. Forma e volume: o uso de objetos que remetem a formas geométricas e o estudo delas em três dimensões auxiliam o aprendizado de volume dos objetos. Trabalhar com esses objetos em relação ao corpo da criança faz com que ela melhore sua imagem corporal e a consciência da sua forma e volume. Com bolas grandes, bastões, tecidos e tubulares é possível criar memória de movimento (DAMASIO, 2000) e estimular a percepção da forma e volume corporal. Ritmo: estimular a habilidade de o aluno encontrar o andamento da música (pulsação das bastidas) com alguma parte do corpo, como palmear ou marcar com o pé, adiciona a capacidade de dobrar ou dividir a pulsação. Ensinar noções de ritmo é sempre um desafio, e para deixar o conteúdo acessível é sempre interessante trazer o conceito para o corpo ou utilizar um recurso visual. Tipos de movimento: no ensino fundamental, busca-se ampliar as investigações das qualidades de movimento a partir da associação e alternância dos repertórios motores. Explorar os movimentos de contraste como forte/suave, rápido/lento, movimento/pausa e suspensão/queda leva os alunos a ampliarem suas qualidades de movimento. Improviso: de acordo com Damasio (2000), a experimentação dá à criança a capacidade de aprender a partir de suas próprias descobertas, estimulando a autoconfiança e a iniciativa em futuros cidadãos autônomos. A improvisação também permite que o aluno se aproprie do conhecimento de maneira criativa e desdobre o movimento e a técnica com originalidade. No entanto, é importante ressaltar que soltar o aluno na sala sem um plano e orientações definidas não estimula a improvisação, e sim o caos e a desorganização. As orientações e os objetivos estipulados pelo professor devem ser claros e responder a um plano maior. Para Damasio (2000), é importante que, ao final de cada improvisação, uma dança seja estruturada para amadurecer o trabalho desenvolvido ao longo da aula e usá-la de instrumento para refinar a expressividade. REFLITA O bailarino e analista do movimento Hubert Godard (1994, p. 73) acredita que “o desenvolvimento motor de uma criança no despertar e na iniciação, com o objetivo de dominar uma técnica, será melhor se ela explorar o conjunto do registro gestual humano, ao invés de repetir o gesto técnico em si”. Nesse sentido, se os movimentos forem aprendidos através de uma relação afetiva com o gesto, além de ampliarem a capacidade expressiva da crianla, também faz com que ela inclua essas ferramentas como recurso de comunicação em todos os âmbitos da sua vida. Todas essas práticas devem respeitar a singularidade de cada corpo e entender que não existe uma estética padrão esperada. Ao contrário, cada corpo tem algo único a dizer, por isso elas devem ser adaptadas para os alunos com deficiência sem que o conteúdo seja facilitado ou simplificado. O professor deve desenvolver o mesmo princípio e conhecimento com todos os alunos, mesmo que os caminhos para conquistar o movimento sejam diferentes para cada um. De maneira geral, as práticas são processos que devem ser constantemente repetidos, pois, dessa forma, a criança pode revisitar esses conteúdos e amadurecer seus processos e caminhos próprios. REFERÊNCIAS BATALHA, C. S.; CRUZ, G. B. da. Ensino de dança na escola: desafios e perspectivas na visão de professores. Rev. Diálogo Educ., Curitiba, v. 19, n. 62, p. 1273-1296, jul./set. 2019. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC/SEF, 2017. DAMASIO, C. A dança para Crianças. In: ANTUNES, A. et al. Lições de Dança 2. Rio de Janeiro: UniverCidade Editora, 2000. GODARD, H. C’est le mouvement qui donne corps au geste. Marsyas, France, p. 72-76, 1994. GUIMARÃES, J. R.; BIANCHINI, H. M. Dança: um conteúdo desafiador. Caderno de Educação Física e Esporte, v. 18, n. 1, p. 55-60, 2020. LASZLO, C. M. Outros Caminhos de Dança: Técnica Klauss Vianna para adolescentes e para adolescer. São Paulo: Summus, 2018. MARQUES, I. A. Interações: crianças, dança e escola. São Paulo: Blucher, 2012. SOUSA, N. C. P. de et al. O ensino da dança na escola na ótica dos professores de Educação Física e de Arte. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, São Paulo, n. 28, p. 505-520, jul.-set. 2014. STRAZZACAPPA, M. A educação e a fábrica de corpos: a dança na escola. Cadernos Cedes, ano XXI, n. 53, p. 69-83, abr. 2001. FOCO NO MERCADO DE TRABALHO CORPO E MOVIMENTO: PLANO DE AULA Explore as letras do alfabeto e as formas geométricas como recursos em um plano de aula. SEM MEDO DE ERRAR Certamente, existe uma infinidade de atividades que podem ser realizadas a partir da proposta. Trarei, aqui, uma possível atividade que poderá ser trabalhada dentro do contexto proposto nesta situação-problema. O exercício “Letra em forma” é uma atividade que se desdobra em movimentos e danças mais complexas e que demandam maior repertório motor, equilíbrio, deslocamento e a relação com o outro. Também, explora as formas das letras, bem como pode ter uma perspectiva bidimensional ou tridimensional. Objetivo: aproveitar o momento de alfabetização das crianças do ensino fundamental I e explorar as imagens das letras “O”, “X”, “Y” e “I”. Material: quatro folhas de papel com as letras “O”, “X”, “Y” e “I” desenhadas ou impressas em cada uma delas. Estratégias: repertório motor, equilíbrio, espacialização, deslocamento e trabalho em equipe. Desenvolvimento parte 1: peça para os alunos se deitarem no chão, com espaço suficiente para não se chocarem. Explique que você mostrará placas com algumas letras e eles devem reproduzir essas letras em seu próprio corpo. Uma a uma, mostre as placas e os estimule a criar diversas formas de representar tais letras. Repita o mesmo procedimento, mas, dessa vez, com todos os alunos de pé, estimulando mais o equilíbrio. Desenvolvimento parte 2: peça aos alunos que experimentem realizar os movimentos em outros níveis e com apoios deferentes. Chame a atenção para a transição entre cada posição, de maneira que eles construam um caminho de conexão entre uma figura e outra. Desenvolvimento parte 3: em duplas, os alunos devem formar as letras de maneira complementar um ao outro, sem deixar de trabalhar o equilíbrio e a conexão entre as posições de maneira fluida. O uso do apoio em diversas posições (decúbito ventral, dorsal, lateral) melhora a percepção do centro de gravidade, da força e da musculatura. AVANÇANDO NA PRÁTICA AMPLIANDO A ESPACIALIZAÇÃO Partindo de todas as possibilidades de exploração do espaço e das ações corporais que podem ser desenvolvidas de maneira global ou segmentada nesta seção, proponha uma atividade corporal em que o aluno deverá utilizar uma parte do corpo (você determinará),com uma sequência de três ações corporais (apresente ao aluno todas as possibilidades), e escolha um dos espectros espaciais para desenvolver tal atividade. Justifique a escolha de cada elemento e descreva quais são as habilidades que o aluno terá desenvolvido ao final dessa prática. RESOLUÇÃO São muitas as possibilidades de concretização dessa atividade. Para a resolução, é importante estar atento à faixa etária dos alunos, pois cada idade demanda o desenvolvimento de certas habilidades motoras. Para crianças entre 2 e 4 anos, as ações corporais podem ser trabalhadas de maneira isolada, ou seja, não exigir a construção de uma sequência, proponha movimentos dentro de um espaço delimitado, usando demarcações no chão. Para crianças entre 4 e 7 anos, explore a conexão entre as ações corporais, produzindo uma pequena sequência de acontecimentos. Nessa idade, a criança já possui consciência rítmica, e os deslocamentos espaciais podem seguir trajetos. Acima de 7 anos, explore ações corporais mais complexas, abrangendo o uso do espaço de maneira tridimensional, ou seja, estimule também os níveis baixo, médio e alto. CORPO, MOVIMENTO E INCLUSÃO - SEÇÃO 2 DANÇA INCLUSIVA A dança inclusiva humaniza o ato de dançar e abre espaço para novos entendimentos sobre o corpo que dança. https://conteudo.colaboraread.com.br/201701/INTERATIVAS_2_0/CORPO_E_MOVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u4s1.html#resolucao%20.item-1 PRATICAR PARA APRENDER Em uma sociedade padronizada, em que a pessoa com deficiência é ignorada muitas vezes, a dança se torna uma potente ferramenta para que se coloque socialmente, conheça seu próprio corpo e entenda que há muita beleza e possibilidade em seus movimentos. O corpo é o meio pelo qual nos conectamos ao mundo, é por meio dele que aprendemos e apreendemos o mundo, e é justamente por isso que nele carregamos a memória de nossa existência, assim como ele condiciona nossa forma de existir. Portanto, o corpo vai muito além de uma casinha que moramos e que nos transporta de um lado ao outro, ele é a própria forma de viver. Por meio dele assimilamos e nos apropriamos de valores, normas e costumes sociais. A dança é a melhor manifestação do que o corpo pode, e é por esse motivo que ela celebra as diferenças corporais, oferecendo a oportunidade de ressignificar, fortalecer e divulgar valores e manifestações que perpetuam a expressão da diferença. A arte é condição civilizatória e educacional indispensável a qualquer pessoa. Os benefícios do trabalho com dança para pessoas com deficiência são conhecidos, como a melhora na autoestima, na imagem corporal e nas relações sociais. A dança desenvolve a criatividade através da autonomia de produzir seus próprios movimentos, fazendo com que o aluno de dança inclusiva seja confiante e independente. A imagem que temos de uma pessoa que dança é do corpo ereto, etéreo, perfeito e romântico, quase um ser sobre-humano que não sua, que flutua e parece se movimentar sem nenhum esforço pelo palco. Mas, a pergunta é: quem realmente se encaixa nesse estereótipo? Apenas um grupo minúsculo de pessoas que foram beneficiadas por um tipo específico de genética socialmente aceita, e esse contexto todo coloca a dança longe do alcance da maior parte das pessoas. A dança inclusiva rompe com esse discurso e humaniza o ato de dançar, abre espaço para novos entendimentos sobre o corpo que dança, mostra que outros movimentos são possíveis e que outro tipo de dança pode ser construído. O trabalho de dança inclusiva se afasta do virtuosismo tradicional de representação da dança (idealizada na bailarina de sapatilha de ponta e tutu) e convida para um olhar mais atento ao processo de construção dos movimentos e às suas possibilidades mais inusitadas. A multiplicidade e a diversidade caracterizam esta dança, com corpos híbridos nascidos da singularidade de cada um, da mistura técnica para explorar toda sua potencialidade e a possibilidade de muitos formatos estéticos. A hibridização é, hoje, o destino do corpo que dança. Então, se muitos são os corpos possíveis para a dança, que tipo de perspectiva se abre para o corpo com necessidades especiais? Para contextualizar a sua aprendizagem, imagine que você leciona para uma turma do segundo ano do ensino fundamental e, nas próximas aulas, desenvolverá junto aos alunos práticas corporais para desenvolver a percepção espacial tridimensional. Sabemos que propor diversos trajetos no chão para chegar de um ponto ao outro, bem como trajetos que partem do chão e chegam ao ar (e vice-versa), promove o desenvolvimento do espaço tridimensional. Portanto, nesta aula, haverá a necessidade de deslocamentos diversos. Um dos alunos dessa turma tem paralisia cerebral e, por isso, tem dificuldade de se locomover e utiliza de uma espécie de andador atado à cintura e que possui rodas. Descreva como você adaptaria a aula para incluir seu aluno com deficiência no aprendizado das direções espaciais e quais modificações seriam necessárias para acolher suas potencialidades corporais sem perder o foco em passar o mesmo conhecimento que visa passar aos outros alunos. Vamos juntos construir uma dança diferente e pautada na diferença. CONCEITO-CHAVE A IMPORTÂNCIA DA DANÇA PARA A PESSOA COM DEFICIÊNCIA Para a pessoa com deficiência, o ato de dançar é uma maneira de seu corpo questionar o conceito do que é normal, do que é belo e do que é possível. A pessoa reformula os parâmetros de normalidade ou anormalidade do corpo humano e mostra que a dança é para todos. Por isso, é parte da inclusão o professor promover caminhos para o mover e o expressar do aluno com deficiência. Nesse sentido, o objetivo do educador não deve ser o que o aluno pode fazer, mas como ele faz, convidando as pessoas com deficiência e sem deficiência a refletirem juntas que a dança é uma constante negociação do indivíduo com seu corpo, seu movimento e sua potência. Ela deve promover descobertas do corpo e da criação de movimentos. REFLITA O termo correto para usar é pessoas com deficiência (PCD). É fundamental que a pessoa não seja resumida à sua condição. Também, evite o termo “portador”, pois remete a uma doença. A pessoa com deficiência não é doente, a sua deficiência é parte da sua condição de vida. O mover desse corpo promove a ressignificação dos olhares e do lugar social da pessoa com deficiência, que pode usar a dança como meio de estar e se comunicar com o mundo. A singularidade do movimento desse corpo gera o esgarçamento das estruturas de representação da dança e do corpo com deficiência. A própria condição de deficiência traz a vantagem de uma certa experiência vivida no corpo, uma vida inteira de oportunidades para a observação da reação ao desvio corporal. Ela desafia as categorias de doença e saúde, quebrado e inteiro. Está no meio disso. (KING, 1993, p. 72 apud ALBRIGHT, 1997, p. 5) DANÇA INCLUSIVA E SEUS OBJETIVOS 1. CONHECER O PRÓPRIO CORPO Este é um grande tabu, mas a dança permite experimentar o corpo de uma forma incrível, reconhecendo-o como ferramenta de expressão e de afirmação de vida. Viabilizar o contato da pessoa com deficiência com a dança é empoderá-la para que amplie sua relação consigo mesma e com o mundo. 2. CRIAÇÃO E EXPRESSÃO A pessoa com deficiência amplia suas possibilidades de expressão por meio da dança. Para aqueles que têm dificuldade de falar, a dança pode ser um importante canal de comunicação com o mundo. A criação que ela permite é uma forma de encontrar seu próprio meio de expressão. 3. AUTONOMIA E INDEPENDÊNCIA A pessoa com deficiência está sob o olhar de um responsável em quase todos os momentos, e este, muitas vezes, decide onde ela irá, o que comerá, como se vestirá, etc. A dança é o escape para tudo isso, é o lugar em que ela pode decidir por si mesma, criar sozinha e desenvolver autonomia, que refletiráem âmbitos práticos de sua vida. 4. MOBILIDADE E MELHORA MOTORA Com o fortalecimento muscular, o alongamento e a ampliação de repertório motor, é possível trazer desenvolvimento motor grosso e fino à pessoa com deficiência, ampliando a funcionalidade do corpo. Também, equilíbrio, força, controle de corpo e fortalecimento dos membros superiores e inferiores. 5. SOCIALIZAÇÃO Criar uma rede de amigos com objetivos e gostos em comum, sentindo-se pertencente a um grupo social. A atividade social é fundamental para a qualidade de vida de qualquer ser humano. 6. FUNÇÃO SOCIAL Cumprir uma função social é fundamental para o bem-estar, e usar da arte para trazer uma nova função, a de bailarino, aponta significativa melhora no âmbito social. 7. MOTIVAÇÃO FAMILIAR A família deve ser igualmente cuidada e orientada, pois suas vidas também demandam uma readaptação de rotina. Fazê-los enxergar a potência da pessoa com deficiência pode gerar uma interação familiar de maior qualidade. INCLUSÃO, AUTONOMIA E INDEPENDÊNCIA Autonomia é a condição de domínio no ambiente físico e social, preservando ao máximo a privacidade e a dignidade da pessoa que a exerce. Ter maior ou menor autonomia significa que a pessoa com deficiência tem maior ou menor controle nos vários ambientes físicos e sociais que ela queira e/ou necessite frequentar para atingir seus objetivos. Processo pelo qual a sociedade se adapta para poder incluir, em seus sistemas sociais gerais, pessoas com necessidades especiais e, simultaneamente, estas se preparam para assumir seus papéis na sociedade. A inclusão social constitui, então, um processo bilateral no qual as pessoas, ainda excluídas, e a sociedade buscam, em parceria, equacionar problemas, decidir sobre soluções e efetivar a equiparação de oportunidades para todos. (SASSAKI, 1999, p. 3) Por exemplo, as rampas nas calçadas e o manejo das cadeiras de rodas possibilitam aos deficientes físicos o deslocamento mais autônomo possível no espaço físico. Independência é a faculdade de decidir sem depender de outras pessoas e está relacionada às informações que lhe estiverem disponíveis para tomar a melhor decisão. A independência pode ser pessoal, social ou econômica. A autodeterminação para decidir pode ser aprendida e/ou desenvolvida e, quanto mais cedo na vida a pessoa tiver oportunidades para fazer isso, melhor. DEFICIENTE VISUAL: UM ESTUDO DE CASO Os indivíduos cegos são donos do seu próprio corpo e devem aprender a usá-lo com autonomia, sem medo de se movimentar e se deslocar. A dança pode proporcionar isso por meio do contato com outro sujeito durante as aulas, explorando o corpo com movimentos e os espaços ao seu redor. Quando não existe a estimulação precoce, a deficiência visual acaba por comprometer a capacidade do indivíduo de se orientar e se movimentar com segurança e independência, tendo seus movimentos limitados. Os processos de assimilação, organização, reorganização e acomodação das experiências vividas pelos indivíduos cegos ocorrem de forma mais lenta do que nos indivíduos normovisuais. Tato e audição são fundamentais para elaborações mentais do indivíduo cego. Os deficientes visuais podem apresentar: • Dificuldades no equilíbrio. • Expressão corporal e facial escassas. • Problemas com coordenação motora. • Dificuldades com lateralidade e direções estabelecidas. • Problemas posturais. • Baixa iniciativa para ações motoras. Esses fatores podem afetar o desenvolvimento social, afetivo e cognitivo do deficiente visual. O tato, o tocar e o sentir são formas diferentes de ver. Utilizar a audição para poder “sentir” o ritmo musical e para perceber o movimento do corpo, assim é possível afirmar que são corpos que se comunicam. Além desse ver eu preciso enxergar, mas para enxergar eu preciso do olhar dos meus olhos? [...] Se elaboro bem as minhas sensações e emoções corporais, não preciso só dos meus olhos, mas do meu corpo para olhar, ver e enxergar. (SANTOS, 1996, p. 78) ASSIMILE Benefícios da dança: • Superações de limites. • Amplia as potencialidades motoras. • Noção da imagem corporal. • Socialização. • Realização pessoal. • Corpo ativo. • Autonomia. • Agilidade física e do pensamento. • Criatividade. • Noção tempo-espaço. • Equilíbrio e melhora da postura. • Melhora a aprendizagem. A dança inaugura outra cadeia de circuitação para o corpo. Para compreender a dança, os indivíduos cegos necessitam vivenciar experiências corporais que possibilitem o contato com o mundo e com os outros. Na ausência da visão, “tocar é uma forma diferente de ver”, isto é, utilizar a audição para “sentir” o ritmo e o tato para “perceber” o movimento e a relação com o corpo. A estabilidade postural é essencial para uma vida independente, com maior mobilidade e capacidade de preensão do ambiente. É possível observar mais estabilidade e controle postural e menor dependência em deficientes visuais que praticam dança do que naqueles que não praticam. EXEMPLIFICANDO A imagem corporal que o indivíduo cego ou com baixa visão apresenta é muitas vezes uma imagem “borrada”, e o contato que a dança proporciona facilita a percepção do movimento que o outro realiza, permitindo reconhecer o movimento do próprio corpo, melhorando a marcha, o equilíbrio, a força, a flexibilidade e o tônus muscular. PRÁTICAS PEDAGÓGICAS PARA SEREM DESENVOLVIDAS COM PESSOAS CEGAS INÍCIO DA AULA Ao entrar na sala de aula, permita que seu aluno faça o reconhecimento do local, para que possa perceber qualquer objeto que lhe pareça estranho e ter noção do espaço em que trabalhará. Não é preciso que o professor acompanhe esse processo, e sim construa a autonomia do aluno e dê o tempo necessário para o descobrimento da sala de aula. APRESENTAÇÃO Peça para que todos se coloquem em círculo, porque o uso de mãos dadas é um excelente recurso de orientação espacial e relação do corpo do aluno cego com os colegas. Proponha uma atividade em que os alunos deverão fazer uma autoapresentação com movimentos simples, os quais deverão ser descritos em voz alta para todos os colegas de sala. Após a descrição, os outros presentes realizam o movimento narrado pelo colega. ATIVIDADES Todas as atividades que forem realizadas ao longo da aula devem ser questionadas e discutidas entre os alunos – em pequenos grupos ou com todos os presentes. Esse exercício explora outras cognições que estão no processo de dançar. CONTEÚDO Quando há um ou mais alunos cegos, o professor deve repensar o modo de ensinar, não o conteúdo. Por exemplo, se o professor trabalhará movimentos de hip hop em sua aula, essa temática deve permanecer, mas as maneiras de orientar os alunos precisam ser adaptadas. A maneira de ensinar é realizada, principalmente, por meio do toque e da descrição do movimento. Usar nomenclaturas padrões auxilia a autonomia e referência do aluno. MATERIAIS Uso de materiais, como bambolê, cordas, bastões, espaguete de piscina e barbante, ajuda a delimitação e orientação espacial do aluno com deficiência visual, e isso é um elemento fundamental para as práticas com pessoas cegas, uma vez que a segurança espacial fará com ela que se concentre melhor na realização do movimento e na consciência postural. PROFESSOR O professor que possui algum aluno cego deve estar mais atento às correções dos movimentos, pois os alunos não conseguem se ver no espelho ou vídeo, o que torna a orientação do professor ainda mais importante. A correção contínua é fundamental para a melhoria da percepção, do desempenho e da postura do aluno. A dança pode ser construída a partir dos movimentos cotidianos, das atividades da vida diária e da locomoção. Um importante objetivo que o professor deve ter em mente é desenvolver autonomia em seu aluno deficiente visual. A meta é proporcionar mais qualidade de vida, possibilitando a inserçãosociocultural do indivíduo cego na comunidade como um cidadão ativo e capaz. CONSIDERAÇÕES • As aulas para cegos devem ser desenvolvidas junto aos indivíduos normovisuais, a fim de desenvolver a inclusão. • A dança deve ser pensada como movimento e expressão, condição da formação da autonomia, e não somente como terapia. • O professor precisa mostrar que o ato de aprender/fazer dança para uma pessoa cega é também um ato político, criativo e transformador. Não posso desfrutar da beleza do movimento rítmico senão numa esfera restrita ao toque de minhas mãos. Só posso imaginar vagamente a graça de uma bailarina, como Pavlova, embora conheça algo do prazer do ritmo, pois muitas vezes sinto o compasso da música vibrando através do piso. Imagino que o movimento cadenciado seja um dos espetáculos mais agradáveis do mundo. (KELLER, 2002, [s.p.]). SEIS DICAS PARA UM PROFESSOR INCLUSIVO Partindo da minha experiência como professora de dança livre inclusiva e dança de salão inclusiva, dividirei com você, aluno, seis dicas que auxiliam no papel de professor. Por maior que seja nossa experiência, retomar esses pontos é um exercício diário de desconstrução. FOCO NA BNCC De acordo com a BNCC (BRASIL, 2017), a educação tem compromisso com os alunos com deficiência e, para isso, deve reconhecer a necessidade de cada aluno e produzir práticas pedagógicas inclusivas. De forma particular, um planejamento com foco na equidade também exige um claro compromisso de reverter a situação de exclusão histórica que marginaliza grupos. [...] Igualmente, requer o compromisso com os alunos com deficiência, reconhecendo a necessidade de práticas pedagógicas inclusivas e de diferenciação curricular, conforme estabelecido na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015). (BRASIL, 2017, p. 13) Esse princípio está pautado na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), em especial, o artigo 27, que diz: A educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem. (BRASIL, 2015, [s.p.]) 1. ENTENDA A DEFICIÊNCIA DE SEU ALUNO Compreender qual é a deficiência do seu aluno dará insumos para você conduzir melhor as práticas em sala, uma vez que pode explorar os pontos fortes daquele corpo, bem como desenvolver outros pontos que demandam mais atenção. Converse com os pais e responsáveis e, se for necessário, com o profissional que o acompanha. É desejável que você realize uma pequena pesquisa para conhecer um pouco mais daquele universo, para que, então, possa propor melhores práticas. 2. PROPORCIONAR ADAPTAÇÕES NOS MOVIMENTOS SEM DEIXAR A DANÇA MAIS FÁCIL Jamais a aula para um aluno com deficiência deve ser mais fácil. Não trate seu aluno com deficiência como alguém de menor importância. Promova adaptações nos movimentos que serão realizados em sala e ensine seu aluno a construir suas próprias adaptações. Dessa forma, ele aprenderá a refletir sobre seu próprio corpo e propor soluções singulares para seu corpo singular. 3. PROMOVA A MESMA PROPOSTA DE ENSINO PARA TODOS OS ALUNOS Você deve adaptar as aulas para promover o mesmo princípio que será passado para toda a turma. Por exemplo, se a aula será sobre deslocamento linear e seu aluno possui deficiência motora, pense em como promover o mesmo conhecimento para ele, mas utilizando outras potencialidades de seu corpo. 4. APRENDA COM SEU ALUNO, VOCÊ NÃO PRECISA SABER TUDO O professor não sabe tudo, e está tudo bem. Você não precisa conhecer todos os tipos de deficiência e entender sobre cada uma delas. O mais importante é a atitude sensível e de escuta que você deve ter perante o aluno com deficiência, colocando-se disponível para descobrir junto a ele as potencialidades daquele corpo. 5. NÃO TENHA MEDO NEM PRECONCEITO O preconceito não é aceitável. A diversidade de vidas e de corpos ensina respeito e empatia, bem como promove a inserção social e afetiva da pessoa com deficiência. É comum existir o medo de machucar a pessoa com deficiência, mas pergunte a ela como se sente e se há qualquer tipo de desconforto ou dor. O diálogo aberto é sempre a melhor maneira de conduzir a aula de dança. 6. NÃO EXISTE UM ÚNICO CAMINHO POSSÍVEL Não existe receita pronta para o trabalho com o aluno com deficiência. Cabe ao professor se abrir para explorar novas possibilidades. REFERÊNCIAS ALBRIGHT, A C. 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É nesse período que a escola possui um papel fundamental de ensino e desenvolvimento de condutas de autocuidado, saúde e higiene que serão carregadas por toda a vida do indivíduo. Por isso, o convívio no ambiente escolar e a relação professor- aluno são imprescindíveis no aprendizadodo cuidado com o corpo. A educação infantil tem como principais objetivos valorizar os conhecimentos que as crianças possuem e garantir a aquisição de novos conhecimentos. Dessa forma, a criança é um ser social, portanto tem vínculos e relações com o lugar ao qual pertence e sua origem, sua linguagem e relações socioculturais, por isso o professor deve levar em consideração todo o conhecimento que está em torno dela como ponto de partida para a aquisição de novos conhecimentos, sempre valorizando a diversidade e as diferentes formas de expressão (KRAMER, 1985). A educação é um processo amplo que “engloba a transmissão de conhecimentos, cultura, valores e regras sociais” (VERISSIMO; FONSECA, 2003, p. 26), por isso para muitos educadores a função da educação infantil é não somente pedagógica mas também de cuidado, bem-estar e socialização. A concepção de cuidado e saúde não pode se resumir ao bem-estar físico, é preciso expandir a ideia de saúde para abarcar o bem-estar emocional, por isso o acolhimento, a escuta e as interações sociais também são funções que a educação infantil deve cumprir. “A creche oferece ‘o que a família não pode oferecer em virtude de suas condições de vida’: atividades diversificadas, promoção da independência, estimulação do aprendizado da convivência e proteção dos perigos da rua.” (VERÍSSIMO; FONSECA, 2003 p. 28). O cuidado também compreende ensinar os significados de “compartilhar, cooperar, respeitar acordos ou combinados, também é uma forma de promover sua auto-estima e autonomia” (VERÍSSIMO; FONSECA, 2003 p. 29), ou seja, o crescimento saudável também compreende saber lidar com dificuldades e conflitos que fazem parte da realidade, entendendo as consequências e as responsabilidades de seus atos. Ao longo desta seção, discutiremos quais são os cuidados com o corpo, a higiene, a saúde e o bem-estar que cabem à escola e qual é o papel do professor como viabilizador do cuidado e da educação da criança. Ao final, abordaremos algumas atividades lúdicas, as quais podem ser exploradas para ensinar o cuidado de si pela própria criança de maneira que ela transponha os hábitos aprendidos na escola para casa e para toda a vida. A creche é um dos principais ambientes escolares que demanda cuidados de higiene e saúde com a criança, em especial, com os bebês, os quais necessitam de muita atenção por ainda não terem desenvolvido sua autonomia de autocuidado. Muitas vezes, o professor tem como função trocar as fraldas, dar banho e alimentar. Construa um informativo detalhado para si mesmo e para os outros profissionais que ficarão responsáveis pelo cuidado da higiene corporal e bucal das crianças até dois anos de idade da creche. Lembrando que os cuidados dessa faixa etária são trocar a fralda, dar banho, lavar as mãos e escovar os dentes. Elenque quais são as principais tarefas que esse professor deve executar, a frequência, como devem ser executadas, quais cuidados tomar e dicas extras. Para construir o informativo, reflita sobre sua própria rotina de higiene e quais são os princípios fundamentais para uma boa qualidade de vida com saúde Estudar também é uma forma de saúde e cuidado, então vamos juntos. CONCEITO-CHAVE Ensinar o que são saúde e hábitos de vida saudável compreende uma força tarefa ampla de toda a comunidade escolar, pois essas informações transversalizam diversas áreas do conhecimento e podem ser extraídas de “textos literários, informativos, jornalísticos até os científicos” (BRASIL, 2000, p. 70). Dada essa característica, traz uma visão ampla do conceito de saúde para a abordagem escolar. FOCO NA BNCC A BNCC (BRASIL, 2017) compreende que educar e cuidar estão vinculados um ao outro e são aspectos indissociável do processo educativo. Por isso, além das propostas pedagógicas, a escola deve promover o autocuidado. Autocuidado é um conceito amplo, que compreende, segundo o documento: • Autonomia. • Percepções sobre si e sobre o outro. • Reconhecimento e cuidados com a saúde. • Hábitos de higiene. • Prevenção de doenças. • Boa alimentação. • Conforto. • Cuidados com a aparência. • Cuidado com a saúde física, mental, sexual e reprodutiva. • Autoestima. • Segurança de seu próprio corpo. • Respeito com o corpo do outro. • Boas práticas de relação com o meio. De modo geral, a escola e o professor devem promover o ensino e a prática de cuidados com a saúde física e emocional, partindo da diversidade entre os alunos. A oitava competência da BCNN compreende: “Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo- se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas” (BRASIL, 2017, p. 2). De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais de Saúde e Meio Ambiente, a intersecção entre educação e saúde traz para o educando a importância de buscar e melhorar constantemente práticas de proteção e recuperação à saúde. Para isso, até o final do ensino fundamental, a criança deverá ser capaz de: • Compreender que a saúde é um direito de todos e uma dimensão essencial do crescimento e desenvolvimento do ser humano; • Compreender que a condição de saúde é produzida nas relações com o meio físico, econômico e sociocultural, identificando fatores de risco à saúde pessoal e coletiva presentes no meio em que vivem; • Conhecer e utilizar formas de intervenção individual e coletiva sobre os fatores desfavoráveis à saúde, agindo com responsabilidade em relação à sua saúde e à saúde da comunidade; • Conhecer formas de acesso aos recursos da comunidade e as possibilidades de utilização dos serviços voltados para a promoção, proteção e recuperação da saúde; • Adotar hábitos de autocuidado, respeitando as possibilidades e limites do próprio corpo. (BRASIL, 2000, p. 71) Compreender a importância da saúde possui uma dimensão pessoal, ou seja, o indivíduo deve ser capaz de perceber alterações em seu corpo, em seu bem- estar físico e emocional para promover cuidados e práticas de autocuidado que protejam e evitem a perda ou a diminuição da saúde. “Isso requer sujeitos com identidade, liberdade e capacidade para regular as variações que aparecem no organismo.” (BRASIL, 2000, p. 75). Higiene, alimentação e bem-estar físico e mental são fatores fundamentais para a constituição da qualidade de vida, por isso esses pontos devem ser explorados e desenvolvidos por meio de conhecimentos científicos, práticas lúdicas e inserção de hábitos na rotina escolar. As ações educativas e preventivas da saúde da criança devem ser incorporadas e ensinadas como hábitos diários. Dentro do contexto escolar, o tema deve ser tratado de maneira multidisciplinar e transversal, de acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPS) (1996), “sendo assim, o âmbito escolar deve promover ações visando desenvolver o conhecimento de higiene e prevenção de doenças através de conhecimento prático e teórico” (PEDROTTI, 2012, p. 1). A higiene corporal e bucal é um fator fundamental para a vida saudável. A aquisição desses hábitos se dá, principalmente, durante a infância por meio de uma rotina de práticas que devem ser transpostas para a casa e, em seguida, para a vida. Portanto, tomar banho, lavar as mãos, escovar os dentes e trocar de roupa devem ser ações constantemente ensinadas e incentivadas no contexto escolar. REFLITA De acordo com o blog Trata Brasil (2018), 14,3% das crianças e dos adolescentes não têm o direito à água garantido, e 13,3 milhões desse mesmo grupo etário não têm acesso ao saneamento básico. Crianças que não possuem acesso ao sanitário e/ou à água potável em suas casas podem ser uma realidade na escola, mas isso não deve ser um impeditivo no ensino das boas práticas de higiene no contexto escolar. A alimentação adequada é outra condição na promoção e recuperação dasaúde. A desnutrição ainda é uma realidade nas casas brasileiras e, muitas vezes, a criança só terá acesso a uma refeição balanceada e de qualidade dentro da escola. Diante disso, é fundamental que a instituição se comprometa a pesquisar alimentos nutritivos e adotar um cardápio equilibrado compatível com a realidade da escola (BRASIL, 2000), bem como combater a obesidade, que aponta maus hábitos de alimentação, os quais podem ser transformados por meio da comida oferecida na escola. ASSIMILE Compreender a relação entre higiene e alimentação é um conhecimento fundamental a ser ensinado para a criança. Alimentos mal lavados, água contaminada e não possuir o hábito de lavar as mãos após usar o banheiro ou antes de comer levam a criança a adoecer. De acordo com o PCN de Saúde e Meio Ambiente (BRASIL, 2000), alguns dos principais conteúdos a serem desenvolvimentos com as crianças devem ser: • Identificação da função simplificada dos principais órgãos. • Adoção de postura física adequada. • Identificação e expressão de sensações de dor ou desconforto. • Valorização do exame de saúde periódico. • Necessidades corporais, socioculturais e emocionais da alimentação. • Valorização da alimentação adequada. • Noções gerais de higiene e reconhecimento das doenças associadas à sua falta. • Rejeição ao consumo de água não potável e procedimentos de tratamento doméstico da água. • Autonomia progressiva de hábitos de higiene. • Respeito às potencialidades e aos limites do próprio corpo e de terceiros. HÁBITOS DE HIGIENE E SAÚDE NA ESCOLA A manutenção de uma rotina de hábitos de higiene e saúde é fundamental para incutir esse conhecimento no dia a dia da criança para além do contexto escolar, por isso a escola deve realizar a lavagem das mãos várias vezes ao dia, por exemplo, antes das refeições, ao fim das atividades em área externa e após ir ao banheiro. Se necessário (e possível), manter álcool em gel e uso de toalhas descartáveis para evitar a propagação de viroses e gripes. Também, precisa promover a escovação dos dentes após a refeição, sempre separando as escovas dentais em estojos individuais com a identificação do aluno. A escola deve verificar o estado das escovas com frequência para promover a troca delas. Reservar um horário do dia escolar para dedicar à saúde e higiene é fundamental para criar o hábito de cuidado do próprio aluno em si e aos poucos permitir que ele promova seu próprio cuidado, sempre sob a supervisão do educador. O professor também deve olhar com frequência os cabelos e as unhas das crianças. [...] sabe-se que é durante a infância que a criança vai incorporando em sua vida os hábitos de higiene, pois ela está numa fase que propícia o aprendizado, onde se acredita que as modificações nos hábitos de higiene aconteçam positivamente na realidade da criança e posteriormente, quando virar adulto. (PEDROTTI, 2012, p. 3) As escolas de período integral devem ter cuidados e hábitos de higiene ainda maiores, afinal grande parte do cuidado com o bem-estar da criança estará dentro desse ambiente, portanto adaptações na frequência da escovação dos dentes, banho dentro do espaço escolar, trocas de roupa e/ou fralda, higienização das mamadeiras e outros utensílios para refeição são cuidados que precisam ser considerados nesse sistema escolar integral. O PAPEL DO PROFESSOR NA PROMOÇÃO DA SAÚDE INFANTIL Educar e cuidar são dois conceitos que andam juntos na visão de diversos professores, em especial os que trabalham na educação infantil. A pesquisadora Veríssimo (2001, p. 120) mostra, em sua tese de doutorado, que os professores entendem que essas duas funções andam juntas e que cuidar significa “atender necessidades orgânicas tais como agasalhar, alimentar, cuidar do preparo do alimento, ensinar a comer, hidratar, higienizar, deixar confortável, proporcionar segurança e bem-estar físico”. O ato de cuidar da criança não se resume apenas a questões físicas mas também à preocupação de construir conhecimentos, zelar pelo bem-estar físico e emocional e viabilizar as relações sociais daquele indivíduo para que ele constitua sua identidade e função social. A autora também afirma que, nesse modo de ver a função do professor, não cabe a ele somente ações mecânicas de limpeza e higiene, mas construir uma relação com a criança para que tais ações sejam parte do objetivo maior de educar, informar e cuidar com afeto aquele indivíduo. “Cuidar é proporcionar atenção e liberdade. Atenção é olhar para, ouvir, conversar, colocando-se na altura da criança. Liberdade é permitir que a criança desfrute o espaço da creche.” (VERÍSSIMO, 2001, p. 122). Portanto, para que haja cuidado e afeto é fundamental que haja vínculo entre o educador e a criança. Para cuidar, é preciso antes de tudo estar comprometido com o outro, com sua singularidade, ser solidário com suas necessidades, confiando em suas capacidades. Disso depende a construção de um vínculo entre quem cuida e quem é cuidado. (BRASIL, 1998, p. 75) ATIVIDADES LÚDICAS DE INCENTIVO À SAÚDE E AO CORPO A união entre o lúdico e o conhecimento científico é uma potente ferramenta para despertar o interesse nas crianças em aprender e desenvolver hábitos saudáveis, o que é importante, pois, segundo Smeltzer (2005 apud SOUZA et al., 2010, p. 41), “os hábitos e práticas de saúde são formados precocemente na vida, as crianças devem ser encorajadas a desenvolver atitudes de saúde positivas”. Em pesquisas desenvolvidas no ambiente escolar, Pedrotti (2012) promoveu atividades educativas de incentivo à higiene e aos cuidados com a saúde por meio de teatro de fantoches, os quais abordavam temas, como lavar as mãos, escovar os dentes e tomar banho. A pesquisadora também lançou mão de vídeos, músicas e outros recursos multimídias para tratar do assunto com as crianças e seguiu desenvolvendo a temática em sala de aula, com jogos da memória, quebra-cabeças e pinturas que retratavam hábitos de higiene diária e vida saudável. A utilização de músicas, jogos, teatro de fantoches dinamizam o processo ensino- aprendizagem e conferem um melhor aproveitamento do que está sendo transmitido nas atividades educativas, facilitando o processo de entendimento e a adesão de hábitos saudáveis (SOUZA et al., 2010). (PEDROTTI, 2012, p. 2) Sabemos que por meio do lúdico é possível desenvolver a psicomotricidade, a expressividade e a identidade da criança. Ludicidade não é diversão, mas uma ferramenta de aprendizado poderosa, em especial na primeira infância. Por isso, usar esse recurso se faz fundamental também para o ensino de hábitos de higiene, que, nesse caso, não está desvinculado do aprendizado geral e amplo da criança. É possível afirmar que o desenvolvimento dos hábitos de higiene, portanto, são transversais a diversos campos disciplinares. HIGIENE ORAL: UM ESTUDO DE CASO A cárie dentária é um problema grave de saúde que atinge muitas crianças. Por causa da troca de dentes, por volta dos seis anos, muitos pais e responsáveis acreditam que não é preciso higienizar e tratar os dentes decíduos das crianças, uma vez que elas os perderão e novos virão. Tal modo de pensar transforma a cárie dentária em um problema de alto nível de severidade e prevalência. De acordo com Carvalho (2013, p. 426), “a educação em saúde realizada no ambiente escolar pode favorecer o envolvimento da criança ao construir novos conhecimentos, facilitando assim a mudança de hábitos”. O ambiente escolar, portanto, se faz fundamental para modificar tal realidade da criança ao promover estratégias de informação e formação de comportamentos que promovam e mantenham a saúde. Estudos realizados por Carvalho (2013) demonstraram que atividades educativas e lúdicas realizadas no ambiente escolar diminuíram os índices de cáries nos alunos, bem como maior permanência dos dentes decíduos. “Os resultados desteprojeto confirmam que práticas educativas voltadas para a saúde bucal são capazes de mudar hábitos das crianças em idade pré-escolar.” (CARVALHO, 2013, p. 429). A promoção de saúde bucal no ambiente escolar é uma das maneiras de estimular o cuidado e a qualidade de vida em conjunto: escola, professores e estudantes, sendo que a escola e o professor são importantes agentes que ensinam cuidado com a saúde e o corpo para a criança. Carvalho (2013, p. 426) nos lembra que “atividades educativas baseadas em instrumentos lúdicos e procedimentos restauradores simples e eficazes podem promover melhorias consideráveis nos níveis de higiene oral”. BANHO: UMA PROPOSTA LÚDICA Como já discutimos nesta seção, as práticas lúdicas são fundamentais para o estabelecimento de práticas saudáveis na rotina da criança. Pensando nisso, o momento do banho pode ser transformado em diversão ao utilizar recursos diversos. A música estimula a atenção, a coordenação motora, a psicomotricidade e a memória e pode ajudar a fixar procedimentos de higiene pessoal, como tomar banho. A música Banho é bom, do compositor Hélio Ziskind, foi um grande sucesso no programa de TV Castelo Rá-Tim-Bum e pode ser encontrada facilmente em diversas mídias. Os comandos que ela tem podem dar insumos para produzir uma dança que estimula o conhecimento das partes do corpo e a higiene corporal. A produção de sabonetes também pode ser uma diversão, já que ele pode ser tingido para produzir sabonete líquido de diversas cores, incentivando seu uso para lavar as mãos ou para o banho. Essa atividade deve ser evitada com bebês que podem apresentar alergia da pigmentação do sabonete líquido. ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL: UMA PROPOSTA SUSTENTÁVEL Construir uma relação saudável com o alimento e o meio ambiente é expandir a compreensão da saúde do indivíduo com a saúde coletiva e do meio ambiente. Compreender a produção do alimento em todo o seu processo não só contribui para o cardápio equilibrado, como também pode ser uma oportunidade de debater questões sobre água potável, agrotóxicos e higienização correta dos alimentos. Construir uma ponte de afetividade com a comida é parte inerente das relações socioculturais, pois a refeição, muitas vezes, está associada à família, à amizade e à socialização. Assim como os hábitos alimentares estão correlacionados com a característica cultural de um grupo ou região. Promover uma pequena horta ou práticas de cultivo de alimento é um excelente vínculo da criança com sua comida. Um pequeno cantinho no jardim da escola pode receber mudas de hortaliças e/ou temperos que serão semeados, aguados e colhidos pelos alunos. EXEMPLIFICANDO A alface é uma hortaliça que pode ser cultivada o ano todo e faz parte da cultura alimentar de muitos brasileiros. O tomate também pode ser produzido facilmente, e as sementes retiradas do próprio alimento para o plantio. Caso a escola não possua tal espaço, o cultivo pode ser improvisado em garrafas pets de dois ou cinco litros, dispostas em uma região com bastante luz solar. Dessa forma, a criança cria uma relação afetiva com a comida e percebe que o resultado final – a refeição – é fruto de sua dedicação e seu cuidado com o alimento e, portanto, com a própria saúde. A estimulação de hábitos saudáveis envolve cuidados com higiene corporal e bucal, alimentação saudável, ampliação gradativa da autonomia de cuidado de si por parte do aluno, percepção de mal-estar e dores e práticas que promovam e recuperem a saúde. A escola tem papel fundamental na orientação, na informação e no estabelecimento de tais práticas, as quais devem ser estabelecidas desde a primeira infância, para que o indivíduo possa transpor os hábitos ao longo de toda a vida. REFERÊNCIAS BRASIL. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília, DF: MEC/SEF, 1998. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais. Bases Legais. Brasília, DF: MEC, 2000. BRASIL. Educação em Saúde: histórico, conceitos e propostas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2010. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC/SEF, 2017. CARVALHO, T. H. L. et al. Estratégias de promoção de saúde para crianças em idade pré-escolar do município de Patos-PB. Revista de Odontologia da UNESP, n. 42, p. 426-431, nov.-dez. 2013. KRAMER, S. O papel social da pré-escola. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, p. 77-81, 1985. ORGANIZACÍON PANAMERICANA DE LA SALUD. Escuelas promotoras de salud: modelo y guía para la acción. Washington, DC: OPS/OMS, 1996. 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Revista da Escola de Enfermagem da USP, n. 37, p. 25-34, 2003. https://bit.ly/3hG9snT FOCO NO MERCADO DE TRABALHO INFORMATIVO SOBRE CUIDADOS DE HIGIENE E SAÚDE Sua tarefa é construir um informativo sobre cuidados de higiene e saúde na creche. SEM MEDO DE ERRAR As funções de cuidado não são simplesmente pragmáticas, e sim parte do processo de educar e, por isso, devem ser encaradas como um momento de aprendizagem. É importante que o professor sempre converse com a criança no momento da troca de fralda, já que há toque corporal. Peça permissão e/ou avise que tocará seu corpo, sempre dizendo os procedimentos que executará. Também, promover práticas que a criança auxilie seu trabalho, como ajudar a tirar os sapatos e a roupa, quando tiver idade para isso. Durante o banho, aproveite para ensinar as partes do corpo, orientando como cada uma deve ser lavada. Não deixe de transformar esse momento em algo agradável e divertido, assim a criança sempre relacionará o momento de autocuidado e limpeza a algo positivo. Crie uma rotina para lavar as mãos sempre antes de comer e após as brincadeiras na área externa e/ou no chão. A escovação dos dentes deve começar assim que o primeiro dente nasce, e até os 12 meses ela deve ser uma prática rotineira, tendo em vista que a criança já apresenta grande parte da dentição. Lembre-se de construir uma rotina de higiene bucal sempre após as refeições e estimule o hábito com escovas coloridas e creme dental próprio para criança. Cuide do armazenamento das escovas sempre de maneira separada, para que não haja contato entre as cerdas das escovas das crianças. AVANÇANDO NA PRÁTICA BOA ALIMENTAÇÃO TAMBÉM É CUIDADO Pesquisas do Ministério da Saúde apontam que 12,9% das crianças entre 5 e 9 anos estão acima do peso, e esse cenário parece estar um pouco mais crítico em uma turma do 1º ano do ensino fundamental I. Nessa turma, 26% das crianças estão acima do peso, e é possível verificar a razão por meio dos lanches que elas levam para a escola: bolachas e biscoitos, salgadinhos de pacotinho, achocolatados, entre outros produtos industrializados. Planeje uma ação junto à turma para debater a alimentação saudável, a importância de ter uma alimentação equilibrada para a qualidade de vida hoje e ao longo da vida e a diferença entre alimentos naturais e ultraprocessados. Detalhe as ações desse planejamento e justifique cada um deles. RESOLUÇÃO Existem muitas maneiras de discutir a alimentaçãosaudável com as crianças. A informação é fundamental para que elas olhem para a comida de outras maneiras, mas é essencial transpor tal reflexão para ações concretas de mudanças de hábitos e gostos. É difícil competir com alimentos cheios de açúcar e sódio que alteram a percepção do paladar infantil, então o passo mais importante é mudar a alimentação oferecida na escola. No caso da merenda, optar por alimentos frescos produzidos pela própria comunidade é uma excelente medida, pois o produtor pode até conversar um dia com os alunos sobre produzir o próprio alimento. As sobremesas doces podem ser substituídas por frutas, e os legumes não devem ser sem sabor, por isso é importante pesquisar receitas que recebem ervas e temperos naturais e trazem mais alegria e sabor ao alimento. Caso haja cantina, devem ser negociados os tipos de alimentos que serão vendidos. Os salgados fritos podem ser substituídos por assados; os chocolates e as balas, por salada de frutas; e bolo caseiro e refrigerante, por suco natural. Não é possível falar de alimentação saudável sem envolver a família, pois muitos desses hábitos nascem em casa. Diante disso, é necessário construir uma ponte de diálogo com a família, informando a necessidade de repensar os hábitos alimentares, bem como sugerir a troca dos alimentos ultraprocessados por frutas, sanduíches e sucos naturais. A alimentação saudável deve ser um esforço coletivo de mudança de hábitos da instituição escolar e da família. https://conteudo.colaboraread.com.br/201701/INTERATIVAS_2_0/CORPO_E_MOVIMENTO/LIVRO_DIGITAL/fmt_u4s3.html#resolucao%20.item-1