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GRUPO 3 - EAGLETON, Terry. A ascensão do inglês. In: Teoria da literatura: uma introdução. Tradução: Waltensir Dutra. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006. p. 43-50. Levou muito tempo para que o inglês, matéria adequada às mulheres, aos trabalhadores e aos que desejavam impressionar os nativos, chegasse aos bastiões do poder da classe governante em Oxford e Cambridge. O inglês era um arrivista, um tema amadorístico em relação às matérias acadêmicas, dificilmente capaz de concorrer em termos de igualdade com os rigores dos Grandes ou da filosofia. E como de qualquer modo os cavalheiros ingleses liam a sua literatura nas horas de folga, que necessidade havia de submetê-la a um estudo sistemático? Violentas manobras de retaguarda foram feitas pelas duas velhas universidades contra essa matéria, desoladoramente diletante: a definição de uma disciplina acadêmica estava na possibilidade de submetê-la a um exame objetivo, e como o inglês não passava de conversa fiada sobre gosto literário, era difícil saber como torná-lo suficientemente desagradável para que se qualificasse como disciplina acadêmica propriamente dita. Poderíamos dizer, porém, que este foi um dos poucos problemas ligados ao estudo do inglês que foram eficientemente resolvidos, desde então. [...] A única maneira pela qual o inglês parecia ser capaz de justificar sua existência nas velhas universidades era apresentá-lo, sistemática e equivocadamente, como os Clássicos; mas os classicistas não estavam muito interessados em deixar que se generalizasse essa patética paródia de sua atividade. [A Primeira Guerra Mundial imperialista] também representou a vitória definitiva dos estudos ingleses em Oxford e Cambridge. Um dos antagonistas mais sérios do inglês, a filologia, estava estreitamente ligada à influência alemã, e como a Inglaterra estava em guerra com a Alemanha, foi possível depreciar a filologia clássica como uma forma do tedioso absurdo teutônico, com o qual nenhum inglês que se respeitasse gostaria de associar-se.1 A vitória da Inglaterra sobre a Alemanha significou um renascimento do orgulho nacional, uma onda de patriotismo que só podia ajudar a causa do inglês: ao mesmo tempo, porém, o trauma profundo da guerra, o seu questionamento quase intolerável de todos os pressupostos culturais até então aceitos, deu origem a uma “fome cultural”, tal como a define um comentarista contemporâneo, para a qual a poesia parecia ser a solução. É moderadora a reflexão de que devemos o estudo universitário do inglês, pelo menos parcialmente, a um massacre insensato. A Grande Guerra, com a sua carnificina da retórica da classe governante, acabou com algumas das formas mais gritantes de chauvinismo, que florescera na Inglaterra: depois de Wilfred Owen, não podia haver muitos Walter Raleighs. A literatura inglesa ascendeu ao poder às costas do nacionalismo de guerra; mas ela também representou uma busca de soluções espirituais por parte de uma classe governante inglesa, cujo senso de identidade havia sido profundamente marcado pelos horrores que suportara. A literatura seria ao mesmo tempo um consolo e uma reafirmação, um terreno familiar no qual os ingleses podiam se reagrupar para explorar e para encontrar uma alternativa ao pesadelo da história. De modo geral, os arquitetos da nova disciplina foram, em Cambridge, pessoas que podiam ser absorvidas do crime e da culpa de terem comandado operários ingleses e os levado à morte. F. R. Leavis serviu como médico na linha de frente; Queenie Dorothy Roth, posteriormente Q. D. Leavis, era mulher e, portanto, não participava dessas atividades; de qualquer modo, ainda era criança quando a guerra foi deflagrada. I. A. Richards ingressou no exército depois de diplomado, e os renomados discípulos desses pioneiros, William Epson e I. C. Knights, também eram crianças em 1914. Além disso, os campeões do inglês vinham, em sua totalidade, de uma classe social alternativa da classe que havia levado a Grã-Bretanha à guerra. F. R. Leavis era filho de um negociante de instrumentos musicais; Q. D. Roth, filha de um negociante de tecidos; e I. A. Richards era filho de um gerente de fábrica em Cheshire. O inglês seria modelado não pelos diletantes patrícios que ocupavam as cátedras de literatura nas velhas universidades, mas pelos descendentes da pequena burguesia provinciana. Membros de uma classe social que ingressava nas universidades tradicionais pela primeira vez, eles eram capazes de identificar e questionar todos os pressupostos sociais que condicionam seus julgamentos literários, o que os adeptos de Sir Arthur Quiller Couch não eram capazes de fazer. Nenhum deles sofrera as desvantagens prejudiciais de uma educação puramente literária, do tipo de Quiller Couch: F. R. Leavis passara da história para o inglês, sua discípula Q. D. Roth utilizou em seu trabalho a psicologia e a antropologia cultural, I. A. Richards era formado em ciências mentais e morais. 1 Ver Francis Mulhern, The Moment of “Scrutiny” (Londres, 1979), pp. 20-2. Ao fazer do inglês uma disciplina séria, esses homens e mulheres desmontaram os pressupostos da geração de classe superior, anterior à guerra. Nenhum movimento subsequente, no âmbito dos estudos do inglês, aproximou-se sequer da coragem e do radicalismo da posição por eles tomada. Em princípios da década de 1920, a razão pela qual o inglês deveria ser estudado era desesperadamente obscura; em princípios da década de 1930, a indagação era por que desperdiçar o tempo com qualquer outra coisa. O inglês não era apenas uma matéria que valia a pena estudar, mas também a atividade mais civilizadora, a essência espiritual da formação social. Longe de constituir um estudo amadorístico ou impressionista, o inglês era uma área na qual as questões mais fundamentais da existência humana - o que significava ser uma pessoa, empenhar-se em relações significativas com outras pessoas, viver a partir do centro vital dos valores mais essenciais - adquiriram relevo e constituíam o objeto do mais intenso escrutínio. [...] A literatura era importante não em si mesma, mas porque encerrava energias criativas que em toda a parte defendiam a moderna sociedade “comercial”. Na literatura, e talvez só na literatura, ainda havia um sentimento vital do uso criativo da linguagem, em contraste com a desvalorização filistina da linguagem e da cultura tradicional, absolutamente evidente na “sociedade de massa”. A qualidade da linguagem de uma sociedade era o índice mais revelador da qualidade de sua vida privada e social: uma sociedade que havia deixado de valorizar a literatura estava mortalmente fechada aos impulsos que haviam criado e mantido o melhor da civilização humanista. Nos costumes civilizados da Inglaterra do século XVIII, ou na sociedade “natural”, “orgânica”, agrária do século XVII, podia-se discernir uma forma de sensibilidade em relação à vida sem a qual a moderna sociedade industrial se atrofiaria e morreria. Ser um certo tipo de estudante de inglês em Cambridge, em fins da década de 1920 e princípios da década de 1930, significava estar envolvido nesse animado ataque polêmico aos vários aspectos mais banalizantes do capitalismo industrial. Era compensador saber que estudar inglês não era só uma posição de destaque, como também era o modo de vida mais importante que se poderia imaginar - aquele que contrubuía, dentro da modesta capacidade de cada um, para fazer a sociedade do século XX recuar em direção da comunidade “orgânica” da Inglaterra do século XVII., que se movia no cume mais progressista da própria civilização. Aqueles que chegavam a Cambridge esperando, com humildade, ler alguns poemas e romances eram logo desmistificados: o inglês não era apenas uma disciplina entre outras, mas a mais importante de todas. imensamente superior ao direito, à ciência, à política, filosofia ou história [...]. As principais entradas no mapa da literatura inglesa passavam por Chaucer, Shakespeare, Jonson, os Jacobitas e os Metafísicos, Bunyan, Pope, Samuel Johnson, Blake, Wordsworth, Keats, Austen, George Eliot,Hopkins, Henry James, Joseph Conrad, T. S. Eliot e D. H. Lawrence. A “literatura inglesa” era isso: Spencer, Dryden, o drama da Restauração, Defoe, Fielding, Richardson, Sterne, Shelley, Byron, Tennyson, Browning: a maioria dos romancistas vitorianos, Joyce, Woolf e a maioria dos autores depois de D. H. Lawrence, constituíam uma rede de estradas secundárias, marcadas por alguns bons “becos sem saída”. Dickens foi a princípio rejeitado e depois bem aceito; o “inglês” incluía duas mulheres e meia, considerando Emily Brontë como um caso marginal. Quase todos os seus autores eram conservadores.