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Copyright © Antônio Carlos Costa, 2016
Copyright © Editora Planeta do Brasil, 2016
Todos os direitos reservados.
Preparação: Lizete Mercadante Machado Revisão: Ana Paula Felippe e Fernanda
França Diagramação: Maurélio Barbosa | designioseditoriais.com.br
Capa: Rico Bacellar
Imagem de capa: © Getty Images Brazil / Image Source - RF Images Adaptação
para eBook: Hondana
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
 SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
http://designioseditoriais.com.br/
http://www.hondana.com.br/
C87s
Costa, Antônio Carlos
O sucesso segundo Deus / Antônio Carlos Costa . - 1. ed. - São Paulo : Planeta ,
2016.
ISBN: 978-85-422-0725-5
1. Religião. 2. Deus. 3. Sucesso. I. Título.
16-31268 CDD 200
 CDU: 2
 
2016
Todos os direitos desta edição reservados à
 EDITORA PLANETA DO BRASIL LTDA.
 Rua Padre João Manoel, 100 – 21º andar
 Edifício Horsa II – Cerqueira César
 01411-000 – São Paulo – SP
 www.planetadelivros.com.br
 atendimento@editoraplaneta.com.br
http://www.planetadelivros.com.br/
mailto:atendimento@editoraplaneta.com.br
Dedico este livro ao tetracampeão mundial de futebol
Jorginho e a sua esposa Cristina. Esse amigo e irmão
conseguiu achar espaço na sua vida para raras
combinações. Sucesso perante os homens deste século e
perante a Igreja. Popularidade neste mundo e no céu.
Fama com humildade. Performance profissional
extraordinária sem a perda da família. Amor pela
profissão com amor pela causa do evangelho. Em suma,
Jorginho e Cristina têm conseguido aquilo que os seres
humanos em geral anseiam, porém sem deixar de
conquistar aquilo que todo servo do Deus altíssimo deve
almejar: servir o Rei do universo. Estes irmãos sabem
que mais importante do que levantar a taça de
tetracampeão do mundo é um dia ouvir o único Deus
dizer: “Fostes fiel no pouco, sobre o muito te colocarei;
entra no gozo do Teu Senhor”.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
Motivos para estudarmos Josué
Visão geral do livro de Josué.
I
A VIDA VITORIOSA SEGUNDO DEUS
Ouvir a voz de Deus
Usar a esperança para avançar
Compreender que a vitória vem de Deus
Desromantizar a vida
II
A VIDA VITORIOSA SEGUNDO DEUS (2)
Assumir as responsabilidades dadas por Deus
Discernir a visão de Deus para a sua vida
Viver corajosamente
Anter-se fiel às Sagradas Escrituras
Saber quem é o seu Deus
Ter sonhos que incluam o próximo
III
É HORA DE CRUZAR O JORDÃO!
Decida cruzar o Jordão
Prepare-se para cruzar o jordão
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Crendo nas promessas
Ajustando-se espiritualmente
Ouvindo a voz de Deus
Finalmente, cruze o Jordão!
Dê o primeiro passo
Fixe os olhos em Deus
IV
O PRÍNCIPE DO EXÉRCITO DO SENHOR
Deus nos prepara para a batalha
Mostrando-nos quão próximo está daqueles que O amam
Revelando-nos Sua mão poderosa
Oferecendo-nos Sua direção
Revelando-nos Sua santidade
Dando-nos a certeza da vitória
Preparamo-nos para a batalha
Quando levantamos os olhos para contemplar Deus
Quando nos aproximamos de Deus
Quando adoramos a Deus
Quando procuramos ouvir a voz de Deus
Quando obedecemos a Deus
V
A FÉ QUE FAZ MURALHAS RUÍREM
A fé que faz muralhas ruírem
Tem como alicerce a palavra de Deus
Submete-se inteiramente à vontade revelada de Deus
É aquela que é capaz de esperar o tempo de Deus
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Harmoniza a ação do homem com a ação de Deus
Sabe que a vitória vem de Deus
VI
A DERROTA E SEUS EFEITOS
O que fazer na derrota: compreender a resposta emocional comum que o crente
costuma dar para ela
O coração do crente se derrete
A sensação é de que a direção tomada não foi a ideal
Surge o desejo de voltar atrás
Vem a sensação de que não há o que dizer
Tem-se a sensação de que algo pior está por acontecer
Buscar humildemente a face de Deus na perspectiva de ouvir sua voz
Preocupar-se com o nome de Deus
Submeter a vida a um autoexame
Arrepender-se dos pecados
Voltar a viver pela fé no Deus santo e fiel
VII
INSISTINDO NA VITÓRIA
Quando, pela fé, vencemos o medo
Quando, antes de agir, paramos para ouvir a orientação divina
Conclusão
VIII
O DEUS QUE ATENDE AOS HOMENS
O Deus que ouve o homem
Tem o universo sob seu controle
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Permite que seu povo passe por tribulações para que O conheça
Peleja por seu povo
Encoraja os seus amados
Trata seu povo com misericórdia
O homem que fala com Deus
Não se surpreende com as lutas
Não se deixa dominar pelo medo
Ora com ousadia
Vê o homem na perspectiva correta
IX
A IGREJA ENTRE OS ÍMPIOS
Josué 23
Sabendo que o mundo não pode prevalecer contra a igreja
Mantendo a fidelidade às escrituras
Evitando mistura com o mundo
Temendo o Senhor
Amando o Senhor
X
A RESPOSTA DA IGREJA À REVELAÇÃO DIVINA
Josué 24
Meditar sobre o conteúdo da revelação
Submeter-se ao conteúdo da revelação
Conhecer tanto o que Deus revelou sobre si mesmo quanto o que revelou sobre
seu povo
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INTRODUÇÃO
MOTIVOS PARA ESTUDARMOS JOSUÉ
Por que estudar o livro de Josué? Em primeiro lugar,
porque ele faz parte do conjunto de livros preferidos pelo Senhor
Jesus. Se você não entende o livro de Levítico, sente-se
moralmente sem esperança com a mensagem de
Deuteronômio e se é quase levado a uma crise de depressão
ao ler Eclesiastes, não rasgue esses livros nem desista de ler
a Palavra de Deus registrada neles e nas páginas restantes
do Antigo Testamento. Lembre-se de que o Senhor Jesus
amava esses textos. Em Mateus 4, nós O encontramos
defendendo-se dos ataques do adversário de nossa alma
citando o livro de Deuteronômio. No mesmo Evangelho, no
capítulo 5, nosso Salvador afirma que não viera para revogar
a lei e os profetas (v. 17). Ao trazer consolo para Seus
deprimidos amigos no caminho de Emaús, que usou Ele? “E
começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes o
que constava a respeito dele em todas as Escrituras” (Lc
24:27). Como afirmou John Stott, “toda a evidência
disponível confirma que Jesus deu assentimento em Sua
mente e submeteu Sua vida à autoridade escriturística do
Antigo Testamento”.1
Em segundo lugar, o livro de Josué é um testemunho
extraordinário do que Deus realizou na vida de Seu povo,
manifestando, assim, Sua glória. Vendo os feitos de Deus no
passado, podemos conhecer Seu caráter, poder e soberania.
Em Josué, de modo muito especial, somos apresentados a
Sua fidelidade. Será maravilhoso poder demonstrar isso a
você nos próximos capítulos!
Em terceiro lugar, devemos estudar esse livro porque
nos dias de hoje, em que encontramos tanta literatura de
autoajuda falando sobre sucesso, Josué nos apresenta o plano
de Deus para a vida de sucesso. Milhares frequentam
congressos que prometem revelar a chave do sucesso, mas o
que significa ser bem-sucedido segundo Deus? Como sonhar
os sonhos de Deus? Como obter vitórias em Deus para a
glória de Seu nome? Meu desejo é mostrar os princípios
revelados no livro de Josué que nos ajudarão a usar bem os
80 anos que Deus, em média, concede ao homem para viver.
Josué é, entre os livros da Bíblia, o que mais nos impulsiona,
nos leva a partir na direção de nossos sonhos e nos estimula
a encarar os obstáculos da existência humana pela
perspectiva divina. É um livro que nos dá ânimo para
atravessar nossos jordões pessoais, dar guinadas verdadeiras
e necessárias natrajetória da vida e enfrentar nossos
inimigos.
Ao contrário do que alguns afirmam categoricamente, o
tema do sucesso não é de todo antibíblico. Por outro lado,
não há dúvida de que a maneira como ele tem sido tratado
em muitos púlpitos está equivocada e beira a heresia.
Alguém já disse que em toda heresia há um elemento de
verdade; por isso, esse assunto pode ser tão facilmente
desviado da verdade bíblica. Falar em sucesso no sentido de
como alcançar metas em Deus é bíblico. Deus quer realmente
que haja sucesso na vida de Seu povo. É óbvio que isso não
significa exclusiva e propriamente enriquecimento
financeiro – uma vez que as Escrituras claramente nos
ensinam que essa espécie de prosperidade resulta da vontade
soberana de um Deus que pode decretar riqueza para um e
pobreza para outro, mesmo entre Seus melhores servos.
Referimo-nos aqui principalmente ao sucesso no campo do
ser, bem como nos planos revelados de Deus, que pode até
ter consequências no campo do ter. Foi o grande Jonathan
Edwards quem disse: “Sabedoria e diligência são os
caminhos para aqueles que são vis e desprezíveis alcançarem
riquezas e o céu”.2 Edwards quer ensinar-nos que riquezas
materiais e espirituais são alcançadas por aqueles que
aplicam ambos os princípios de vida – sabedoria e diligência
– à sua existência. Se um homem quer sair de uma vida de
miséria e pecado, terá de ser dirigido por essas virtudes.
Comentando a citação de outro modo, quem é diligente e
sábio em sua relação com a dimensão material e espiritual
da vida acaba prosperando em ambas as esferas.
É legítimo alguém querer saber o que é necessário para
que sua vida vá bem e seus dons e talentos sejam usados da
melhor maneira. É fato que a submissão a alguns princípios
da Palavra de Deus tende a nos conduzir à riqueza. Pense na
prosperidade que se deu entre tantas famílias de origem
puritana. Contam que “se o construtor da melhor ratoeira do
mundo não fosse um puritano, certamente um puritano
naquele negócio construiria uma das melhores e a venderia
pelo preço mais baixo”.3 Não costuma acontecer de quem
tem o melhor produto e o vende pelo melhor preço vender
mais e consequentemente prosperar? Falando sobre o que
certamente é a expressão mais pura da verdade bíblica, o
Calvinismo, o teólogo holandês Abraham Kuyper mostra os
impactos nas mais diferentes esferas da vida produzidos
pelos que abraçaram essa fé:
Lembre que somente pelo Calvinismo o salmo de
liberdade encontrou seu caminho da consciência
perturbada para os lábios; que ele tem conquistado e
garantido para nós nossos direitos civis constitucionais;
e que, simultaneamente a isto, saiu da Europa Ocidental
aquele poderoso movimento que promoveu o
reavivamento da ciência e da arte, abriu novas avenidas
para o comércio e negócios, embelezou a vida doméstica
e social, exaltou a classe média a posições de honra,
produziu filantropia em abundância, e mais do que tudo
isto, elevou, purificou e enobreceu a vida moral pela
seriedade puritana.4
Não quero ser a favor da teologia da prosperidade nem
da teologia da miséria. Em lugar disso, quero ter uma fé que
liberte milhares de latino-americanos da escravidão em que
se encontram, que não é apenas de natureza político-
econômica, mas resultado dos conceitos que lhes foram
impostos – razão pela qual, se há um lugar no planeta onde
a Igreja deve em especial vivenciar sua missão integral, esse
lugar é a América Latina. Nosso povo carece tanto da
proclamação do evangelho quanto do ensino cuidadoso de
suas consequências práticas para todas as áreas da presente
vida.
Julgo que uma abordagem mais bíblica da questão do
sucesso poderá ajudar milhares de pessoas, em especial nos
chamados países pobres, a sair da inércia em que se
encontram, fruto da histórica falta de igualdade de
oportunidade associada a valores que escravizam a mente,
para uma vida onde lindas obras, fruto de desenvolvimento
pessoal, possam ser realizadas para a glória de Deus.
Penso que antes de tudo precisamos conhecer um pouco
do pano de fundo do livro de Josué. Não pretendo falar sobre
ele exaustivamente, mas apenas ajudá-lo a situar-se na
história do povo de Deus a fim de que aprecie mais esse livro
transformador.
VISÃO GERAL DO LIVRO DE JOSUÉ
Apesar de o livro levar o nome de Josué, nem todos
concordam que seja o comandante de Israel seu autor.
Calvino, por exemplo, afirma: “Quanto ao autor deste livro,
é melhor suspender nosso julgamento a fazer afirmações ao
acaso. Aqueles que pensam que foi Josué porque o seu nome
aparece como título da página descansam sobre fracas e
insuficientes bases”.5 Alguns acreditam ser impossível
conhecer o autor. Uma fração significativa dos estudiosos do
Antigo Testamento, como John Gill, contudo, crê que esse
livro tenha sido, de fato, escrito por Josué. Gill acredita que o
fato de o Talmude reconhecer a autoria de Josué seja
significativo e, mesmo que não fosse este quem o escreveu,
seu autor usou o diário ou as memórias de Josué.6 Seja como
for, tal como o livro de Hebreus, apesar da dúvida quanto à
autoria, o importante é sabermos que se trata de uma obra
inspirada pelo Espírito Santo.
Josué – cujo nome significa “Jeová é salvação”, e é o
mesmo nome, em hebraico, de nosso Senhor e Salvador:
Jesus ou Yoshua – foi o homem designado por Deus para
conduzir o povo para o livramento e o descanso na terra de
Canaã. Ele provavelmente começou a comandar Israel com a
idade de 79 anos. Morreu com 110, tendo liderado, portanto,
o povo durante 31 anos. Os acontecimentos relatados pelo
livro ocorreram entre os anos de 1405 a.C. e 1375 a.C.,
período no qual ele conduziu Israel, cerca de dois milhões e
meio de pessoas, a tomar posse de Canaã.
O nome Canaã denominava, em geral, toda a terra em
que se estabeleceram os cananitas. Mais tarde, ela foi
chamada de Palestina pelos romanos. Palestina é a forma
grega da palavra Filístia, terra dos filisteus.
A terra era infestada de idolatria, completamente
degradada moralmente. El, por exemplo, era considerado o
deus supremo, um tirano cruel e de sensualidade
incontrolável. Havia também Baal, filho de El e seu sucessor.
Baal dominava o grupo cananeu como o senhor do céu, da
chuva e da vegetação. Existia ainda devoção a Anate, irmã de
Baal, uma das três deusas protetoras do sexo e da guerra.
Concomitantemente com o culto da prostituição sagrada,
praticava-se o morticínio infantil: os cananeus ofereciam os
filhos em sacrifício às divindades. Outras divindades eram
Asterote e Azera, esposas de Baal e deusas do sexo e da
guerra; Moloque e Milcon, de origem amonita, deuses da
orgia, do mesmo modo que Camus era uma divindade
nacional dos moabitas. Veja, então, o panteão cananita –
deuses de todas as espécies que refletiam, perfeitamente, o
caráter devasso e cruel daquele povo.
O objetivo do livro de Josué é preservar a história da
conquista de Canaã. Nele, vemos o cumprimento da
promessa de Deus a Abraão. A primeira promessa, a da
semente, que se cumpriu com o nascimento de Isaque, levou
25 anos para ser concretizada. A segunda, a da conquista da
terra, levou, aproximadamente, 700 anos. Eis porque esse
livro testemunha a fidelidade divina.7
I
A VIDA VITORIOSA SEGUNDO DEUS
Depois da morte de Moisés, servo do Senhor, disse o Senhor a Josué,
filho de Num, auxiliar de Moisés: “Meu servo Moisés está morto. Agora,
pois, você e todo este povo, preparem-se para atravessar o rio Jordão e
entrar na terra que eu estou para dar aos israelitas. Como prometi a
Moisés, todo lugar onde puserem os pés eu darei a vocês. Seu território
se estenderá do deserto ao Líbano, e do grande rio, o Eufrates, toda a
terra dos hititas, até o mar Grande, no oeste. Ninguém conseguirá
resistir a você, todos os dias da sua vida. Assim como estive com Moisés,
estarei com você; nunca o deixarei, nunca o abandonarei. Seja forte e
corajoso, porque você conduzirá esse povo para herdar a terra que
prometi sob juramento aos seus antepassados. Somente seja forte e
muito corajoso! Tenha o cuidado de obedecer a toda a lei que o meu servoMoisés lhe ordenou; não se desvie dela, nem para a direita nem para a
esquerda, para que você seja bem-sucedido por onde quer que andar.
Não deixe de falar as palavras deste Livro da Lei e de meditar nelas de dia
e de noite, para que você cumpra fielmente tudo o que nele está escrito.
Só então os seus caminhos prosperarão e você será bem-sucedido. Não
fui eu que lhe ordenei? Seja forte e corajoso! Não se apavore, nem se
desanime, pois o Senhor, o seu Deus, estará com você por onde você
andar”. ( Js 1:1-9 )
Ao iniciarmos a exposição do livro de Josué, é
importante destacarmos seu segundo versículo: “Meu servo
Moisés está morto. Agora, pois, você e todo este povo,
preparem-se para atravessar o rio Jordão e entrar na terra
que eu estou para dar aos israelitas”. A Palavra de Deus não
tem como propósito único falar do que o Deus Criador
realizou no passado, e, sim, com base no que Ele realizou no
passado, ajudar-nos a saber o que Ele pode fazer no
presente. Esse texto é um testemunho histórico do que Deus
fez no passado, porém, com implicações para nós hoje. Que
sentido haveria em ler as histórias bíblicas caso não fosse
assim? À luz disso, afirmo que estamos diante de um texto
que, como toda a Bíblia, pode ser aplicado a nós hoje, em
nossa vida contemporânea. Como diz o apóstolo Paulo, em
Romanos 15:4: “Pois tudo o que foi escrito no passado, foi
escrito para nos ensinar, de forma que, por meio da
perseverança e do bom ânimo procedentes das Escrituras,
mantenhamos a nossa esperança”. Ou, ainda, como lemos
de Tiago que, ao escrever sobre a importância da oração,
registrou: “Elias era humano como nós. Ele orou
fervorosamente para que não chovesse, e não choveu sobre a
terra durante três anos e meio” (5:17). É como se ele
estivesse a dizer que o homem continua o mesmo, desde
sempre, no que diz respeito às suas fraquezas, mas Deus
continua o mesmo em Sua prontidão de atender aos que
oram como Elias orou.
No primeiro capítulo de Josué, encontramos o povo de
Israel às portas de Canaã. Um Deus fiel havia conduzido Seu
povo escolhido pelo deserto e, em Sua misericórdia, estava
revelando ao Seu servo Josué que havia chegado a hora de
uma promessa antiga, feita há 700 anos, se cumprir. Esse
livro e, especialmente, esse capítulo, trata de um
acontecimento extraordinário: o dia em que o povo de Deus
venceu um grande obstáculo a fim de ter sua terra. Podemos
fazer uma aplicação desse acontecimento ao presente.
Espero que a afirmação óbvia feita acima – de que o que
Deus fez no passado tem como propósito ensinar-nos a
saber o que Ele pode fazer no presente – o leve a estender
esse ponto da história do povo de Israel à sua vida.
Assim é o andar com Deus. Chega a hora em que Ele
mesmo nos leva a compreender que é tempo de Seus planos
eternos se cumprirem em nossa vida. Há um tempo em que
o próprio Deus, por meio de Sua providência, nos revela que
represas fortíssimas estão para se romper, obstáculos
resistentes serão removidos e adversários poderosos,
derrotados. Você pode se imaginar numa situação como
essa? Pressuponha que Deus quer se dirigir a você agora
mesmo, dizendo: “O que você esperou a vida inteira está
para se realizar. Chegou a hora de cruzar o Jordão. Na Minha
soberania, não o quero mais no deserto, mas, sim,
apossando-se do que reservei a vida inteira para você, para
posse do que, cuidadosa e amorosamente, o preparei”.
O que é digno da nossa observação, nessa passagem
inicial, é que não apenas o sonho divino é revelado a Josué,
mas também as condições para sua realização. Esta é a razão
por que esse capítulo é de tamanha importância. Antes das
batalhas e conquistas, Deus apresentou ao Seu servo aquilo
que eu tomo a liberdade de chamar de Os Fundamentos da
Vida Vitoriosa Segundo Deus.
Peço que você preste bastante atenção ao que estou para
lhe dizer. Só temos uma vida, de 80 anos, em média, que
passa como um sonho. Responda comigo: o que irá nos
consolar no dia de nossa morte? Está chegando a hora em
que filhos, parentes e irmãos irão prantear nossa partida, e o
que irá nos consolar naquele dia será a lembrança, não dos
lugares que conhecemos, dos iates em que passeamos, dos
banquetes que comemos (embora tudo isso possa ser motivo
de gratidão a Deus), mas do que Deus fez por meio de nossa
vida. É isso que irá nos trazer grande alegria, expectativa de
recebimento de galardão e a plena certeza de que valeu a
pena viver.
Quais são os fundamentos de uma vida cujo sucesso seja
dessa natureza? Gostaria de, à luz do capítulo primeiro de
Josué, apresentar os fundamentos da vida vitoriosa. Não me
proponho a apresentar-lhe um guia para o enriquecimento.
Nem tenho como meta ajudá-lo a ser feliz. Meu objetivo é o
de apresentar-lhe subsídios para que você seja vitorioso em
Deus, o que significa ver se cumprirem em sua vida os alvos
do Criador para sua existência – o que, certamente, fará você
feliz.
OUVIR A VOZ DE DEUS
Toda a história de libertação, salvação, construção do
templo e tomada de posse da terra começa com Josué 1:1:
“Depois da morte de Moisés, servo do Senhor, disse o
Senhor a Josué, filho de Num, auxiliar de Moisés”.
Estive recentemente lendo um livro de Carl Sagan,
chamado O pálido ponto azul. Nos seus primeiros capítulos,
ele trata de arrasar com o orgulho humano. E penso que ele
fez um trabalho muito bem-feito. Sagan apresenta uma foto
tirada pela espaçonave Voyager One, na periferia do sistema
solar, que mostra o planeta Terra como um grão pequenino
de areia de cor azul-pálida. E diz: “Olha o que somos!”.
Fazemos parte de um sistema planetário, o sistema solar,
que, por sua vez, faz parte da galáxia Via-Láctea. Nela há
cerca de cem bilhões de estrelas, e há no universo cerca de
cem bilhões de galáxias! Ele afirma:
Tem-se dito que a astronomia é uma experiência que
forma o caráter e ensina a humildade. Talvez não exista
melhor comprovação da loucura das vaidades humanas
do que esta distante imagem do nosso mundo
minúsculo.8
Lendo esse livro de Sagan, fiquei ainda mais
maravilhado com a graça de Deus, e o primeiro versículo do
livro de Josué deixou-me em fôlego ao me levar a imaginar
que o Criador das nebulosas, de todas as estrelas e do
sistema solar foi capaz de falar com aquele frágil habitante
do “pálido ponto azul”. “Falou o Senhor a Josué.”
Tudo começou com uma revelação de Deus a Josué. Qual
é a importância disso? Não há nada que mais nos ajude a
combater as dúvidas, suportar os ataques dos adversários,
vencer as crises de desânimo e caminhar com senso de
direção do que a certeza de que Deus falou conosco,
pessoalmente.
Certo dia, encontrei-me com um amigo que me disse
que uma das tentações atuais de sua vida é crer que a raça
humana é inviável. Esse amigo, pastor, tem demonstrado
grande cansaço diante da estupidez humana. Posso
compreender sua crise. O ministério pastoral faz com que
nós, pastores, nos relacionemos de forma intensa com os
seres humanos, e isso acaba por colocar-nos em contato
estreito com o que há de pior na alma humana. Tal como
esse amigo, tenho minhas aflições ministeriais também.
Hoje, porém, em meio às lutas do ministério, é
extraordinário e reconfortador saber que ouvi uma voz. Creio
sinceramente que Deus me chamou para ser pregador do
evangelho. O que me leva a afirmar: “Ai de mim se não
pregar o evangelho!” (1 Co 9:16), não apenas porque tenho a
certeza de que Deus haverá de boicotar meus sonhos em
qualquer outra área de atuação que não seja no ministério,
mas também pela certeza de que Deus me chamou para estar
no púlpito, e é lá onde percebo que minha vida adapta-se
aos planos eternos do Criador. Pois é de lá que vejo gente
alienada de Deus passar a amá-Lo com todo o ser.
Sei que você pode estar aí a perguntar: “Como, então,
ouvir a voz de Deus?” O texto que acabamos de ler fala de
modo bastante simples sobre a experiência gloriosa de Josué.
Não revela os segredos nem nos apresenta os passos, e
deixa-nos com uma terrível curiosidade. “Falou o Senhor a
Josué.” Um homem, uma criatura, um pecador ouviu a voz
do Criador. O que é necessáriopara que nós também, como Josué,
ouçamos a voz de Deus?
Penso que esse versículo nos é apresentado com
tamanha simplicidade, sem sofisticação e apresentação de
fórmulas, para que compreendamos que há muito mistério
na experiência de ouvir a voz de Deus. Ele se dirige aos Seus
de modos diferentes. Cada alma humana é única, e a
maneira de Deus lidar com os Seus, variada; por isso, haverá
situações em que Deus se comunicará comigo de modo
diferente do que Ele usará para comunicar-se ao seu
coração. Como ilustração, podemos dizer que o que acontece
em nossa relação com os filhos acontece também em nossa
relação com Deus. Vejo dentro do meu lar que tenho de lidar
de formas diferentes com meus dois filhos. E a Bíblia deixa
claro que isso acontece quando Deus se relaciona com os
homens. José, por exemplo, marido da mãe de nosso
Salvador, recebia a orientação divina por meio de sonhos,
enquanto Samuel podia ouvir literalmente a voz de Deus.
Para a vida de Mateus e de João foi decretado que ouviriam a
voz do Salvador pessoalmente, mas Lucas ouviu a voz do
Messias mediante investigação histórica, e Paulo só ouviu
seu Redentor após a ascensão deste. Como diz Dallas
Willard,
O que nós conhecemos sobre direção e o encontro
divino-humano da Bíblia e da vida dos que foram antes
de nós mostra que as comunicações de Deus vêm a nós
de várias formas. Nós não deveríamos esperar nada
mais, pois esta variedade é apropriada para a
complexidade da personalidade humana e história
cultural.9
É um erro lermos os livros dos grandes personagens da
história do Cristianismo e procurarmos reeditar, ipsis literis,
tudo o que fizeram e experimentaram. George Müller
sustentava seu orfanato sem pedir a ajuda de ninguém.
Julgava que era a vontade de Deus para seu ministério que
não pedisse ofertas. O mesmo não foi feito pela Associação
Billy Graham. E ambos os ministérios abençoaram a vida de
milhares. A maneira como Deus operou na vida desses
homens não será necessariamente a maneira pela qual agirá
na minha ou na sua vida. A alma de cada ser humano é
singular, e o Deus-Pastor não lida com Seu povo como o
fazendeiro lida com o gado. Contudo, posso dizer, reunindo
tudo o que a Bíblia diz sobre os homens que ouviram a voz
de Deus, que, geralmente, isso acontece quando alguns
princípios são seguidos. Reconheço a estes como os mais
seguros, e toda voz interior deve submeter-se a eles.
Em primeiro lugar, para que ouçamos a voz de Deus é
necessário que, de fato, queiramos ouvi-la. Nosso coração é
especialmente enganoso nesse ponto. Quantas vezes
colocamos na boca de Deus o que Ele nunca falou! Vejo isso
com frequência no trabalho de aconselhamento pastoral,
quando algumas pessoas procuram seus pastores na
intenção de receber algum conselho, mas já saem de casa
com a resposta que querem ouvir definida.
E é fato que, muitas vezes, não queremos ouvir
ninguém, nem mesmo a voz de Deus. Uma maneira de
verificarmos como nosso coração, o qual a Bíblia chama de
enganoso, funciona é analisar aquilo que eu chamaria de
“pecado do sintoísmo”. A pessoa, por exemplo, procura o
pastor, dizendo: “Estou tomando a seguinte decisão em
minha vida...”. O pastor, por sua vez, mostra, usando a razão
e as Escrituras Sagradas, que aquela decisão é errada. Então,
o aconselhado diz: “Mas eu senti que veio de Deus!”. E,
assim, dá-se por encerrado o diálogo.
Você já ouviu isso? Esse subjetivismo, essa ausência do
uso da razão tem levado o povo de Deus a pular do pináculo
do templo. Crer, como afirma John Stott, também é pensar.
Como falta sabedoria em nós! Como somos subjetivos e até
mesmo místicos em nossas decisões! Há pessoas, por
exemplo, que só tomam decisões com base na intuição.
Tenho constatado, especialmente na área da contratação de
auxiliares, o perigo de se tomar decisões nessa base. Você
olha para o sujeito e diz para si mesmo: “Este homem é um
santo”. E, mais tarde, vem a saber que a avaliação nada
objetiva estava completamente errada. Muitas vezes, pode
ser tarde demais, e o dano causado irreversível!
Vale a pena citar Martyn Lloyd-Jones; creio que isso
pode nos ajudar enormemente a aplicar à nossa vida
princípios fundamentais para que a voz de Deus seja
discernida. Lloyd-Jones fala sobre o conceito de sabedoria. O
texto é extenso, mas, como se trata de algo tão primoroso e
pertinente à realidade de nosso país, vou apresentá-lo.
Sabedoria é a faculdade de fazer uso da inteligência e do
conhecimento e de relacionar estas capacidades com as
coisas práticas e comuns da vida. Aí está como eu vejo a
essência desta palavra. Sabedoria, é claro, é muito
semelhante a julgamento, e também estamos
familiarizados com a diferença entre posse de
conhecimento e julgamento. Não são a mesma coisa. Há
pessoas que sabem muitíssimas coisas. Têm memória
maravilhosa e podem lembrar todo tipo e espécie de
fatos, mas são incapazes de exercer julgamento.
Consequentemente, não podem equipar o seu
conhecimento, não conseguem aplicá-lo, são incapazes
de usá-lo para enfrentar problemas particulares. São
como discos de vitrola: podem repetir informações,
porém não as podem aplicar, e daí dizerem delas: “Ah,
sim, ele é muito instruído, mas incapaz de julgar;
realmente lhe falta sabedoria”.
 Quais as características do homem descrito na Bíblia
como néscio, como uma pessoa tola, insensata, não
sábia? […] Primeira característica de uma pessoa néscia
é que é geralmente governada pelos sentimentos. É o
tipo de pessoa que vota num membro do parlamento
somente porque se impressiona com a sua bela
aparência ou algo semelhante […] Outro sinal do néscio,
do insensato, é que ele é sempre governado pelo desejo:
“Tenho que ter o que quero e o que quero é justo” […]. A
pessoa néscia, insensata, sempre age e é governada por
impulsos e instintos e, naturalmente, em geral se
orgulha disso. “Não sou dos que leem bastante, pensam
e meditam, você sabe. Eu pego uma ideia e a ponho em
ação’’ […] Tenho ouvido homens desse tipo dizerem que,
quando precisam fazer uma nomeação realmente
importante em seu negócio ou em seu escritório, sempre
confiam no julgamento instintivo da esposa. Bem, pode
haver algo nisso! Mas o que estou dizendo é que se vocês
elevarem isso à condição de princípio, certamente
estarão fazendo alguma coisa realmente perigosa, sob
todos os pontos de vista e, sem dúvida, contrária ao
ensino das Escrituras.
 Com muita frequência o néscio é governado pelo zelo
[…]. O zelo e a sinceridade são maravilhosos, porém
nunca foram destinados a estar no comando, e se lhe
derem o comando, é certo que sobrevirá o desastre. Mas
existem muitos que se deixam governar pelo seu zelo.
Eles veem algo e querem fazê-lo, e assim se precipitam,
sem tomar em consideração mais nada. Presumem que,
devido ao fato de serem zelosos, só podem estar certos.
Não, vocês podem estar sinceramente errados. Eis a que
tudo isto chega: a pessoa insensata não pensa
adequadamente. Não pensa direito num assunto; em
particular não pensa adiante. Só está preocupada com o
momento particular […]. Visto que ela não olha adiante e
visto que não considera as consequências, está sempre
impaciente.
 Então o que é a sabedoria? Sábio é o homem que sempre
pensa. Não age baseado apenas no instinto, ou no
impulso, ou no desejo. Não, ele insiste em aplicar-se ao
pensamento, à razão e à meditação […] Ele é um homem
que examina completamente cada proposição com que
se defronta, ou cada situação a que é levado. É um
homem que primeiramente e acima de tudo dá atenção a
toda evidência […]
 Às vezes penso que o sinal distintivo do sábio é que ele
sempre é um bom ouvinte […]. Tendo examinado as
evidências, ele as relaciona com os princípios
fundamentais.10
Em segundo lugar, para ouvir e voz de Deus é necessário que
sejamos pessoas de oração. A oração é mais do que falar, é
ouvir. Às vezes, reformulamos nossas próprias orações à
medida que Deus vai mostrando o que corresponde, não à
satisfação de um desejo em nossa vida, mas à satisfação de
uma necessidade, e isso durante o período da súplica.
Quantas vezes confundimosdesejo com necessidade e
ficamos arrasados por não alcançar coisas sem as quais
podemos muito bem viver, enquanto, infelizmente,
negligenciamos a oração por aspectos realmente
importantes de nossa vida. É na presença de Deus que
acabamos conhecendo as reais exigências do coração, tanto o
nosso quanto o de Deus.
Como diz James Houston, “a oração não é a
hiperatividade controladora com a qual os ativistas estão
familiarizados. Pelo contrário, será um mundo alienado para
eles, no qual eles precisarão tornar-se passivos e
receptivos”.11
A verdadeira oração é pedir ao Pai que dê ao filho –
aquele que ora – aquilo que este não sabe pedir, de modo tal
que, ao orar, experimente o Pai orando em seu coração. Esta
foi a oração do arcebispo François Fènelon:
Senhor, não sei o que eu deva pedir a Ti. Só Tu sabes do
que eu preciso. Tu me conheces melhor do que eu
conheço a mim mesmo. Oh, Pai, dá ao Teu filho o que ele
mesmo não sabe pedir. Ensiname a orar. Ora em mim.12
Em terceiro lugar, penso que devemos também ouvir os
irmãos. Muitas vezes, a maneira pela qual Deus se comunica
com Seu povo é usando os irmãos. Por isso, a Bíblia diz que o
que a salva é ter muitos conselheiros (Pv 11:14). Um bom
exemplo desse princípio vem da vida do grande João Calvino;
ele somente iniciou seu extraordinário trabalho em Genebra
por causa do apelo de William Farel. Leia o relato de Calvino:
Farel, que ardia com extraordinário zelo pelo avanço do
evangelho, imediatamente empregou ao máximo toda a
energia para deter-me. E depois de ele ter percebido que
meu coração havia estabelecido dedicar-se aos estudos,
e achando que seus rogos foram em vão, disse que Deus
amaldiçoaria meu isolamento e paz para estudar que
procurava, se eu me retirasse e recusasse socorrê-lo
quando a necessidade para tal era tão urgente. Eu fiquei
tão tomado de terror que abandonei a viagem que tinha
planejado.13
Em quarto lugar, ouvimos a voz de Deus quando não nos
precipitamos em nossas decisões. Como é difícil para pessoas
com um temperamento como o meu aprender essa lição. Há
horas em que me é quase impossível esperar orar para
decidir, pois tudo parece tão certo, tão claro e tão promissor!
O duro é ter de admitir que muitas vezes essas coisas tão
certas nada mais são do que a manifestação de uma forma
antiga de o adversário de nossa alma trabalhar, que é
“mostrando a isca sem mostrar o anzol”14. Hoje, tenho
lutado para não implementar “gloriosas ideias” sem antes
orar e esperar ver como me sentirei a respeito do assunto
depois de alguns poucos dias. É como está registrado em
Provérbios 21:5: “Os planos do diligente tendem à
abundância, mas a pressa excessiva à pobreza”.
Em quinto lugar, ouvimos a voz de Deus quando vivemos em
santidade. A Bíblia diz que bem-aventurados os puros de
coração, pois verão a Deus (Mt 5:8). O pecado é o maior
obstáculo para o discernimento da vontade divina, pois ele
nos impede de orar corretamente, e o próprio Deus resiste ao
impenitente, recusando-se a atender a sua oração. Como
profetizado por Isaías: “Quando vocês estenderem as mãos
em oração, esconderei de vocês os meus olhos; mesmo que
multipliquem as suas orações, não as escutarei! As suas
mãos estão cheias de sangue!” (1:15).
Em sexto lugar, ouvimos a voz de Deus quando lemos as
Escrituras. Este é o principal meio pelo qual todas as supostas
“vozes celestiais” devem ser julgadas. Deus não oferece
nenhuma orientação ao Seu povo que seja contrária às
Escrituras Sagradas. Não vejo melhor forma de me orientar
em todas as áreas da vida do que usar a Bíblia aliada ao bom
senso. A razão e as Escrituras são nossos melhores guias.
Em sétimo lugar, ouvimos a voz de Deus quando buscamos o
silêncio. Na casa de praia do meu sogro está escrito assim na
cozinha: “O barulho é dos homens, mas o silêncio é de
Deus”. Há um quê de verdadeiro nessa afirmação. O barulho
dos homens e a agitação fazem com que nossos ouvidos se
tornem surdos à voz Daquele que está falando sempre e que
quer ser ouvido. Quanta orientação do alto haveríamos de
receber se separássemos tempo para a solitude. Como
escreveu T. S. Eliot: “Onde deve ser encontrado o mundo em
que ressoará a palavra? Aqui não, pois não há silêncio
suficiente”15.
Em oitavo lugar, também ouvimos a voz de Deus quando
praticamos os chamados exercícios espirituais. Benefícios
eternos são auferidos pela prática desses exercícios santos
àqueles que os conhecem. Poderia mencionar a prática da
meditação e da contemplação como exercícios espirituais
que caíram em desuso no meio evangélico. Como muito bem
lembrou Dallas Willard,
quais atividades Jesus praticava? Coisas tais como
solitude e silêncio, oração, viver simples e sacrificial,
estudo intenso e meditação sobre a Palavra de Deus e os
caminhos de Deus, e serviços ao próximo. Algumas
destas coisas certamente serão muito mais necessárias
para nós do que foram para Ele, por causa da nossa
maior ou diferente necessidade.16
Permita-me fazer-lhe algumas perguntas: você tem
procurado ouvir a voz de Deus? Será que você é daqueles que
decidem antes de orar e depois oram para que Deus abençoe
a decisão que tomaram sem consultá-Lo? Você crê que é
possível Deus falar aos seres humanos? Acreditamos de todo
o nosso coração que o universo não é apenas formado de
massa e energia, mas que há um Deus pessoal que nos ama e
que se comunica com Seu povo. Por isso, temos nas
Escrituras Sagradas maravilhosas promessas, como esta do
Salmo 25:12: “Ao homem que teme ao Senhor, Ele o
instruirá no caminho que deve escolher”.
Quando você considera o primeiro versículo de Josué,
sua reação deve ser diferente da que causa o livro de Carl
Sagan. Ele não considera a existência do Criador, mas nós
somos levados a pensar: como é possível que Deus, o Criador
do vasto universo, fale ao homem como falou a Josué? Sim,
Ele pode falar – e deseja falar. Então, que tal procurar nosso
Deus a fim de ouvir Sua voz? Este é o fundamento número
um da vida vitoriosa: ouvir a voz de Deus. Toda a história da
conquista de Canaã começou com esse fato maravilhoso,
descrito no primeiro versículo: “Falou Deus a Josué”.
Portanto, não tome nenhuma decisão sem antes
certificar-se de que o seu coração discerniu qual é a vontade
de Deus. Um bom sinal de que a vontade de Deus foi
percebida é, depois de os princípios acima enumerados
terem sido levados em consideração, verificar se a decisão
tomada vem acompanhada de paz. A ausência de paz é um
bom sinal de que devemos esperar um pouco mais, pois,
muito provavelmente, a vontade de Deus ainda não foi
revelada.
USAR A ESPERANÇA PARA AVANÇAR
Todos nós sabemos que sem esperança é impossível
viver. Lembro-me de uma vez ter evangelizado uma moça
que era budista. Perguntei a ela: “Qual é a esperança de
vocês?”. A sua resposta foi: “Nós não temos esperança,
fazemos as coisas sem esperar nada”. Isso decorre do
ensinamento da doutrina budista, para a qual desejar é
sofrer: o homem só alcança o Nirvana quando abre mão de
seus desejos, já que vivemos num mundo em que grande
parte dos desejos que temos, senão os principais deles,
jamais se tornarão realidade. Então, disse a ela: “Isso
significa que você tem a esperança de, vivendo sem
esperança, ter paz?”.
A esperança faz parte das chamadas virtudes teologais.
Juntamente com a fé e o amor, ela compõe o grande tripé
das virtudes cristãs. Pode ser uma das maiores forças
impulsionadoras da vida, porém pode também ser
pessimamente usada por nós, cristãos. Por que me refiro aos
cristãos? Porque o cristão crê num Deus que peleja por ele.
Também crê na soberania de Deus. Ambas as verdades têm
sido fonte de grande consolo para os crentes. Porém, muitos
as utilizam mal, chegando a conclusões que tais doutrinas
não sustentam.
Uma dessas conclusões falsas é a seguinte: já que Deus
está no controle de tudo e, em última análise tudo ocorre de
acordo com Sua soberana vontade, podemos deixar a vida
seguir o seu curso, porque o que há de ser será. Deus, porém,
em Sua soberania, adapta os meios aos fins, de maneira que,
quando Ele decreta riqueza,decreta também trabalho;
quando decreta conhecimento, decreta sede de saber;
quando decreta salvação, decreta fé, e assim por diante. Isso
nos leva à conclusão de que não podemos ser negligentes
com os meios dados por Deus para nos levarem a fins
determinados, corretos e legítimos. Se queremos que certos
alvos sejam alcançados, devemos diligentemente utilizar os
meios necessários: “As mãos preguiçosas empobrecem o
homem, porém as mãos diligentes lhe trazem riqueza” (Pv
10:4).
Infelizmente centenas daqueles que têm fé nas
promessas de Deus vivem de esperança, porém, da pior
forma possível, pois a genuína esperança de que a Bíblia fala
não nos torna uns molengas na vida. É justamente pelo fato
de Deus ser soberano que avanço na vida, confiando em Sua
capacidade de governá-la, de fazer com que Seus planos
eternos se cumpram e minha ação na história, quando
sujeita a Sua vontade, dê frutos para a eternidade. “Atire o
seu pão sobre as águas, e depois de muitos dias você tornará
a encontrá-lo.” (Ec 11:1)
É fato que existem pessoas que só vivem de sonhos e
passam sua vida inteira sem os verem realizados. É gente
que não sabe usar a esperança para avançar, pois vive no
mundo da fantasia. Isso é muito frustrante. Eu gostaria de
afirmar, com todo o temor e senso de urgência, que a vida
não é um ensaio. Muitos parecem viver como se a vida o
fosse. Eles entram em cena, desempenham seu papel de
qualquer maneira, como se o pudessem repetir quantas
vezes quiserem até tudo ficar perfeito. Só que a vida não se
repete, não tem ensaio, não tem segunda chance, não tem
recuperação. Você jamais chegará a um ponto da sua
existência no qual poderá dizer que já ensaiou o suficiente
para, enfim, passar a viver de verdade. A vida real é
composta desses momentos que desperdiçamos de várias
formas, tão facilmente, por exemplo, ao adiar decisões que
precisam ser tomadas a fim de que a existência ganhe um
novo rumo. Para o cristão, isso tem importância especial,
pois ele sabe que o que faz nesta vida contará para a
vindoura. Pense que você nunca mais terá a oportunidade de
servir a Deus na circunstância em que atualmente se
encontra. “E se alguém der mesmo que seja apenas um copo
de água fria a um destes pequeninos, porque ele é meu
discípulo, eu lhes asseguro que não perderá a sua
recompensa.” (Mt 10:42)
Veja o que eu li recentemente:
Quantos de nós podemos honestamente declarar não ter
hipotecado nossa vida a algum sonho futuro, o qual,
provavelmente, nunca se realizará. Nós vivemos a vida
dizendo a nós mesmos que assim que passarmos esta
fase ou estágio poderemos direcionar a nossa energia ao
que, realmente, queremos fazer. Devo admitir ser um
mestre na arte do “nunca, nunca”. Diariamente eu digo
a mim mesmo que assim que terminar este roteiro ou
artigo, que aí então finalmente começarei a viver. Isto eu
acredito ser uma ilusão que compartilho com a grande
maioria, e é perigoso acolher uma ilusão, pois cada um
sabe que o amanhã nunca chega. Para alguns, eu
suponho, o planejamento da vida para o futuro é uma
maneira de procrastinar. Uma fuga, por não ter a
vontade, o talento ou a coragem de tentar algo novo e
descobrir que você mesmo é um fracasso. Quantas
pessoas tenho encontrado que me falaram sobre um
livro que planejam escrever, mas nunca acharam o
tempo necessário. Muitas eu tenho encontrado. Isso é a
vida, é verdade, mas nós a tratamos como um ensaio.
Infelizmente, perdemos muitos dos seus melhores
momentos. Nós arranjamos empregos para sobreviver e
prover lar para nossa família, sempre nos convencendo
de que esse estilo é apenas um estágio temporário de
coisas, ao longo do caminho, que, realmente, queremos
viver. Então, aos 65 anos, somos, de repente,
apresentados ao relógio e a alguns netos, olhamos para
trás e concluímos que todos esses anos de espera pela
vida real acontecer, foram, de fato, a vida real.
 Com que frequência dizemos a nós mesmos: “Vou
começar a cavalgar, a jogar golfe ou velejar assim que
receber uma promoção”, e, assim que a promoção chega,
não realizamos nada disso. Não estou advogando que
alguém deve viver de modo hedonista; esta não é a
resposta. Mas é, eu espero, uma exortação a algum grau
de autorrealização. O que quer que seja que você deseja
fazer, faça agora, porque, não importa a sua idade, é
mais tarde do que você imagina.17
Querido leitor, é por essa razão que chega o momento
em que encontramos em nossa relação com Deus algo como
o que é descrito no segundo versículo de Josué. Haviam se
passado 700 anos de espera pelo cumprimento da promessa
de Deus; então, Ele se dirige ao Seu povo nestes termos.
“Moisés, meu servo, é morto, dispõe-te, agora, passa esse
Jordão, tu e todo este povo, à terra que Eu dou aos filhos de
Israel”.
Permita-me, por favor, lhe fazer perguntas que,
reconheço, são verdadeiras punhaladas no seu coração e no
meu próprio. O que você está “empurrando com a barriga”
em sua vida? O que chegou a hora de tornar-se seu? Qual é a
sua grande frustração? Você, conscientemente, poderia
justificar algumas das suas decepções com a vida
atribuindo-as ao destino? Você tem sabido usar a fé que
possui para dar guinadas significativas em sua existência?
Ou a única utilidade da fé em sua vida é consolá-lo dos
desperdícios provenientes da sua incapacidade de viver
responsavelmente?
Se há algo em sua vida que se encaixa em alguma das
situações apresentadas por essas perguntas, então, é tempo
de reconsiderá-la. As promessas que Deus lhe fez, mais cedo
ou mais tarde, Ele mesmo as cumprirá. Sua espera por esse
dia, porém, deve ser ativa, cheia de santa disposição, não
passiva. Levante-se agora e passe o Jordão!
COMPREENDER QUE A VITÓRIA VEM DE DEUS
Este é outro fundamento indispensável – com certeza,
você não irá encontrá-lo em nenhuma literatura secular de
autoajuda, pois esse tipo de livro é centrado na capacidade
do homem independentemente de Deus. Compreender que a
vitória vem de Deus – essa afirmativa nós vamos encontrar
somente na Palavra inerrante, infalível e eterna de Deus, e é
somente por meio de um relacionamento sério com Ele que
seremos conduzidos a perceber que a vitória vem Dele.
Considere o segundo versículo de Josué e veja como Deus
desejava incutir na mente de Seu povo que a vitória viria
apenas de Suas mãos: “Moisés, meu servo, é morto, dispõe-
te agora, passa esse Jordão, tu e todo este povo, à terra que
EU dou aos filhos de Israel”. No versículo 3, encontramos a
mesma ideia: “Que vo-lo tenho dado”. Também no versículo
5, Deus diz: “Assim serei contigo, não te deixarei, nem te
desampararei”, e a mesma ideia é encontrada no versículo 9:
“Porque o Senhor, teu Deus, é contigo, por onde quer que
andares”.
Parece que estou a incorrer no pecado que Spurgeon
detectou na vida de muitos pregadores. Ele criticava muito
os que vinham ao púlpito para dizer obviedades. E estou aqui
a afirmar que a vitória vem de Deus. Parece tão óbvio quanto
falar que o cavalo tem quatro patas. É o lógico, o óbvio;
entretanto, quanto disso é real para nós? Quanto lembramos
disso em meio a guerras e lutas? Sabe os sinais de que nos
esquecemos do óbvio? O fato de nos sentirmos temerosos
diante de nossos adversários e de sermos pouco agradecidos
a Deus após a vitória.
Compreender que a vitória vem de Deus torna-nos
destemidos. Deixamos de ter medo da cara feia de homens e
de demônios. Feliz é aquele que vive na força da promessa
do versículo 9: “O Senhor, teu Deus, é contigo por onde quer
que andares”! A literatura de autoajuda secular jamais
poderá incutir no coração de quem quer que seja a coragem
que a fé – não num conceito vago de Deus, mas num Deus
pessoal que se tem manifestado na história – produz.
Quando sabemos que a vitória vem de Deus, podemos dizer
aos Golias da vida: “Você vem contra mim com espada, com
lança e com dardo, mas eu vou contra você em nome do
Senhor dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem
você desafiou” (1 Sm 17:45). Você supõe que Josué encontrou
coragem para cruzar o Jordão e enfrentar os terríveis
cananeus – os gigantes da terra – combase no pensamento
positivo? O que o levou a agir com destemida coragem,
mesmo reconhecendo sua fragilidade, foi ver os obstáculos
todos da perspectiva de um Deus que faz aliança de amor
com os homens.
Este é o grande desafio do crente: aplicar o que sabe de
Deus às terríveis e surpreendentes batalhas da vida. Em
geral, pensamos que haveremos de sair do estado de
desânimo apenas orando. Orar é fundamental, mas seguimos
a um Deus que nos chama para pensar a fim de que
apliquemos tudo o que sabemos sobre Ele à vida. Poderia
apresentar um grande número de exemplos nas Escrituras
Sagradas de Deus pedindo ao Seu povo apenas para pensar.
Veja, por exemplo, a experiência do apóstolo Pedro no Mar
da Galileia: “Homem de pequena fé, por que você duvidou?”
(Mt 14:31). É o Senhor Jesus chamando Seu amado apóstolo
para duvidar da dúvida18. Tudo o que Josué em seus dias
tinha de fazer era trazer constantemente à memória o fato
de que Deus lhe garantira a vitória. Crer que a vitória vem de
Deus é fundamental para que cruzemos o Jordão.
Saber que a vitória vem de Deus também torna nosso
coração repleto de gratidão e livra-nos do perigo de sermos
derrotados depois de alcançá-la. Até nisso o cristão tem
vantagem sobre os que não conhecem a Deus, pois nenhum
prazer nessa vida supera aquele que acompanha um “Muito
obrigado, meu Senhor” cheio de lágrimas. Mas há uma
consequência ética também. Quando afirmo que a vitória
vem de Deus, isso me guarda de ser derrotado após grandes
conquistas. Sim, porque há a possibilidade de, após certos
avanços, virmos a ficar encantados conosco, permitindo
assim que o pecado que tem maior poder de nos afastar de
Deus penetre no coração: o orgulho.
DESROMANTIZAR A VIDA
Releia o segundo versículo de Josué: “Moisés, meu
servo, é morto; dispõe-te agora, passa este Jordão”. Essa
passagem nos ensina que entre nós e nossos sonhos há
sempre um Jordão. Vivemos em um mundo caído, derrotado
pelo pecado. Tudo tende a se deteriorar, exigindo constante
cuidado de nossa parte, desde os nossos dentes, passando
por uma plantação de batatas, até a felicidade no lar. Neste
mundo que se encontra debaixo do justo juízo de Deus,
sempre haveremos de realizar nossos objetivos com o suor
do rosto. Por isso, saiba que sempre haverá um Jordão entre
nós e o que Deus tem para nós. Qual a importância de esse
elemento da cosmovisão cristã estar claro para nós? Saber
que, sem lutas, não se conquista nada nessa vida que valha a
pena faz com que, em absoluta dependência de Deus, nos
preparemos para elas e não nos surpreendamos quando
irromperem diante de nós.
Conheci um pastor que viu o filho na adolescência
manifestar um quadro de esquizofrenia, que o levava a
sumir de casa e ameaçar matar-se. Esse homem, de modo
surpreendente, continuou exercendo fielmente seu
ministério, tendo, contudo, de caminhar com esse espinho
terrível a ferir-lhe a alma. Não digo que o filho seja o
espinho, mas, sim, a dor de ver uma pessoa tão amada
sofrendo horrivelmente e pouco poder fazer. Crentes
enfrentam problemas assim também, e quanto a isso não
fomos enganados por um evangelho que nos prometeu vida
livre de aflição, pois a promessa clara do Senhor que nos
chamou é de que receberemos nesta vida força e consolo
para as tribulações e provas, e não ausência de lágrimas.
Há obstáculos em nossa vida que poderíamos chamar de
nosso Jordão pessoal. Às vezes, é uma pessoa, ou uma prova
que temos de fazer, ou uma deficiência física ou emocional
que precisamos superar; às vezes, é a falta de recursos.
Enfim, há um sem-número de situações que tentam impedir
nosso caminho rumo à Canaã prometida. Vale a pena
destacar que, no versículo 2, Deus mostrou a Josué apenas o
Jordão. Deus só lhe mostrou o problema, não a solução.
Revelou a Seu servo o que ele deveria fazer, e não como
poderia fazer. Chegamos à conclusão de que Deus, quando
nos manda atravessar o Jordão, não aponta para alguma
espécie de ponte que qualquer um pode cruzar. A ponte de
Deus é a fé em Sua Palavra, a qual é suficiente para o crente,
mesmo – e principalmente – na ausência de qualquer
recurso humano.
Eis, portanto, uma gloriosa lição. Creio que todos os
missionários a conhecem, pois ela está intrinsecamente
ligada à história das missões: “À obra de Deus feita da
maneira de Deus jamais faltará a provisão de Deus”19. O
grande Hudson Taylor, o autor dessa máxima, costumava
dizer que havia três fases na maioria das grandes tarefas
empreendidas para Deus: a impossível, a difícil e a feita.20
Quando me lembro do início desencorajador do meu
ministério, fico a pensar em como tudo isso é verdadeiro. Saí
para plantar igreja sem experiência alguma, praticamente
só, ainda como seminarista, sem ter lido a Bíblia toda, sem
conhecer teologia, sem haver estudado praticamente nada
sobre plantação de igrejas. Fui para o campo missionário
acreditando que, se pregasse a Bíblia, orasse e vivesse uma
vida santa, as coisas aconteceriam. E, de fato, aconteceram,
mas com muita luta e problemas desnecessários, fruto da
minha falta de quase tudo, especialmente experiência. Meus
primeiros sermões eram insuportáveis. Se tivesse de ouvi-
los, clamaria, parodiando Caim: “É tamanho meu castigo
que não posso suportá-lo!”. Houve gente que propôs minha
saída da pequena congregação, entre outros motivos, por
não me aguentar pregando. Como eu chorava!
Todos os domingos, eu pegava a Brasília de meu pai e,
com minha namorada de 17 anos, hoje minha esposa,
dirigia-me para um templo alugado que só tinha um horário
para oferecer: 4 horas da tarde. Até então jamais ouvira de
uma igreja que iniciasse seus trabalhos nesse horário. E
assistir a cultos com um pregador sofrível às 4 horas da
tarde no Rio de Janeiro, num templo sem ar-condicionado,
requer muita graça especial! O calor é insuportável – e o
pregador também! Deus, porém, na Sua aparente
irresponsabilidade, chamara-me para iniciar uma nova
igreja num bairro difícil de ser alcançado. E ela hoje está aí,
alcançando milhares de vidas por meio de seus ministérios e
já com igrejas-filhas plantadas. Graças a Deus por Seus
milagres e pela obra impossível que foi feita!
Que linda lição nos é trazida por Charles Spurgeon,
pregador calvinista inglês que trabalhou na Inglaterra no
século XIX. Ele sempre exerceu suas múltiplas atividades
mesmo quando estava doente. Spurgeon sofria de gota e
atravessava crises terríveis de depressão. Houve época em
que sua saúde achava-se tão abalada que teve de passar a
maior parte do tempo no sul da França para se recuperar.
Sua esposa, que ficou paralítica após o nascimento dos filhos
gêmeos, também superou suas limitações físicas por meio
da persistência. Embora sem andar, ela dirigiu, da cama, um
trabalho pioneiro de distribuição de livros. Graças a isso,
talvez haja mais livros de Spurgeon nas estantes de pessoas
do mundo inteiro do que de qualquer outro pregador.
Com 20 anos, Spurgeon já conseguia atrair multidões
para o centro de Londres, para ouvirem suas mensagens.
Ele, então, decidiu construir um templo para mais de 5.500
pessoas. Chamou sua liderança e disse que, se alguém
duvidasse que Deus poderia realizar aquele plano, que saísse.
Sabe o que aconteceu? Vinte e três líderes de Spurgeon não
acreditaram no sonho e foram embora, e ele ficou apenas
com sete. Veja o Jordão de Spurgeon. Ele levou seu sonho
adiante com aqueles sete líderes, construiu o templo para
mais de 5 mil pessoas e, durante 30 anos, lotou de manhã e
à noite o Tabernáculo Metropolitano no centro de Londres21.
Irmão, sempre há um Jordão a ser atravessado! Mas o
que é o Jordão para Aquele que lançou os fundamentos da
Terra? Oh!, amigo, deixe-me falar sobre o nosso Deus:
“Quem represou o mar pondo-lhe portas, quando ele
irrompeu do ventre materno, quando o vesti de nuvens e em
densas trevas o envolvi, quando fixei os seus limites e lhe
coloquei portas e barreiras, quando eu lhe disse: Até aqui
você pode vir, além deste ponto não, aqui faço parar suas
ondas orgulhosas?” ( Jó 38:8-11). Responda-me: o que é o
Jordão para o Senhor dos oceanos?Aqui estão os fundamentos de uma vida vitoriosa. Sabe
qual o meu propósito com esta mensagem? É ver nossos
sonhos se realizando, sejam eles na área familiar, sejam no
campo profissional, nas emoções, na vida acadêmica ou em
qualquer outra área da nossa existência. Mas, sobretudo, que
caminhemos com base nesses fundamentos visando à
realização desses sonhos no Reino de Deus. Que o Espírito de
Deus use toda esta riqueza: nossos diplomas, cursos, dons,
talentos e experiência para a glória de Deus. Não há nada
mais glorioso do que o Senhor Jesus abraçar por meio de
nossos braços, falar por intermédio de nossa boca, ser visto
graças ao nosso caráter. Quem assim vive um dia haverá de
ouvir: “Venham, benditos de meu Pai! Recebam como
herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do
mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive
sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me
acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive
enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me
visitaram” (Mt 25:34-36).
II
A VIDA VITORIOSA SEGUNDO DEUS (2)
Depois da morte de Moisés, servo do Senhor, disse o Senhor a Josué,
filho de Num, auxiliar de Moisés: “Meu servo Moisés está morto. Agora,
pois, você e todo este povo, preparem-se para atravessar o rio Jordão e
entrar na terra que eu estou para dar aos israelitas. Como prometi a
Moisés, todo lugar onde puserem os pés eu darei a vocês. Seu território
se estenderá do deserto ao Líbano, e do grande rio, o Eufrates, toda a
terra dos hititas, até o mar Grande, no oeste. Ninguém conseguirá
resistir a você, todos os dias da sua vida. Assim como estive com Moisés,
estarei com você; nunca o deixarei, nunca o abandonarei. Seja forte e
corajoso, porque você conduzirá esse povo para herdar a terra que
prometi sob juramento aos seus antepassados. Somente seja forte e
muito corajoso! Tenha o cuidado de obedecer a toda a lei que o meu servo
Moisés lhe ordenou; não se desvie dela, nem para a direita nem para a
esquerda, para que você seja bem-sucedido por onde quer que andar.
Não deixe de falar as palavras deste Livro da Lei e de meditar nelas de dia
e de noite, para que você cumpra fielmente tudo o que nele está escrito.
Só então os seus caminhos prosperarão e você será bem-sucedido. Não
fui eu que lhe ordenei? Seja forte e corajoso! Não se apavore, nem se
desanime, pois o Senhor, o seu Deus, estará com você por onde você
andar”. (Js 1:1-9)
No capítulo anterior, afirmei que os nove primeiros
versículos do livro de Josué nos apresentam os fundamentos
da vida vitoriosa. Eles registram uma mensagem que foi
dada por Deus ao Seu servo Josué antes de este e o povo
cruzarem o Jordão a fim de enfrentar os inimigos que
ocupavam a terra de Canaã, a terra prometida pelo Deus da
aliança a Seu povo 700 anos antes.
Apresentei quatro fundamentos da vida vitoriosa a
serem aplicados por todos os que desejam tomar posse da
sua Canaã pessoal. Em primeiro lugar, vimos a necessidade
de ouvir a voz de Deus, pois tudo começa quando O ouvimos e
Ele nos “engravida” de um sonho. Vimos a importância de
ouvir esta voz que nos encoraja, que nos anima nas lutas,
que nos dá senso de direção.
Em segundo lugar, falamos sobre a capacidade de usar a
esperança para avançar. Mas essa deve ser uma esperança
genuína e sadia, que não nos imobiliza, mas, pelo contrário,
nos serve de estímulo para seguir em frente – essa é a
verdadeira esperança cristã. Disse, também, que aquilo que
desejamos fazer deve ser feito logo, pois, não importando
nossa idade, já é mais tarde do que muitas vezes
imaginamos.
Em terceiro lugar, falei sobre a importância de
compreender que a vitória vem de Deus. Isso nos torna
humildes – pois nunca nos consideraremos autossuficientes
– e nos faz viver desassombradamente. O último
fundamento que vimos foi que devemos desenvolver a
capacidade de desromantizar a vida. Declarei que, entre nós e
nossa Canaã, entre nós e a visão da realização de nossos
sonhos dada a nós por Deus, há sempre um Jordão para ser
vencido.
Há outros fundamentos da vida vitoriosa que podem ser
encontrados no primeiro capítulo de Josué, e vamos tratar
deles agora. Antes de mais nada, quero dizer que não estou
mudando de teologia. Nos últimos tempos, a chamada
teologia da prosperidade tem sido muitíssimo difundida nos
púlpitos do país. Mas não é disso que falo aqui nem é nisso
que creio. A prosperidade sobre a qual eu prego e na qual eu
creio é a prosperidade em Deus, que depende Dele, que nos
traz o sucesso em Deus e para a glória de Deus. Trata-se de
uma prosperidade que se relaciona, acima de tudo, ao ser, e
cuja obtenção faz com que os que estão ao redor também
sejam beneficiados e vivam melhor. Não estou, de forma
alguma, pregando uma mensagem hedonista, que visa
meramente a fortalecer nosso ego e nos ajuda a construir
uma excelente autoestima, embora uma autoestima
adequada, decorrente de um relacionamento correto com
Deus, seja desejável.
No texto que temos considerado, porém, e disto não
podemos fugir, a Palavra de Deus nos fala sobre
prosperidade e sucesso. “Então farás prosperar o teu caminho
e serás bem-sucedido.” Os princípios aqui apresentados são
uma espécie de condição indispensável para que
encontremos realização em qualquer área da vida. E a
possibilidade de, por colocá-los em prática, prosperar num
sentido mais amplo é muito real. Há as chamadas leis da
vida, as quais, quando observadas, produzem resultados
práticos. Se observarmos, por exemplo, a história das nações
prósperas, constataremos que os planos soberanos de Deus
para essas nações se cumpriram mediante a utilização de
certos princípios naturais e lógicos. Aplicando um deles,
como exemplo negativo: não é fato que um povo que não
trabalha, recusa-se a estudar, deixa para amanhã o que pode
fazer hoje, não respeita os direitos humanos, tem o tecido
social corroído pela imoralidade tende inevitavelmente a
viver na pobreza e, por fim, a exterminar-se?
Como diz David S. Landes num comentário sobre Max
Weber: “O protestantismo [...] definiu e sancionou uma ética
de comportamento cotidiano que conduzia ao sucesso nos
negócios”. Landes menciona valores calvinistas, tais como
trabalho perseverante, honestidade, seriedade, uso
parcimonioso do dinheiro e do tempo, e faz a seguinte
constatação:
Todos esses valores ajudam os negócios e a acumulação
de capital, mas Weber sublinhou que o bom calvinista
não visa às riquezas [...]. A tese de Weber é que o
protestantismo produziu um novo tipo de homem de
negócios, um diferente tipo de pessoa, que tinha por
objetivo viver e trabalhar de certo modo. Esse modo é
que era importante, e a riqueza seria, quando muito, um
subproduto.22
Bem, já apresentamos quatro fundamentos desta espécie
de vida para a qual a Bíblia nos remete. Agora, após essa
rápida introdução, quero lhe apresentar o quinto
fundamento.
ASSUMIR AS RESPONSABILIDADES DADAS POR DEUS
Aí está outro fundamento inegociável, uma condição
indispensável para quem quer ter uma vida vitoriosa. Você
deve assumir as responsabilidades dadas por Deus, mesmo
que seja tentado a crer que Ele deve ter-se enganado em
algum ponto ao escolher uma pessoa como você. Veja o
quadro da vida de Josué. O texto bíblico começa dizendo o
seguinte: “Moisés, meu servo, é morto; dispõe-te agora, passa
este Jordão, tu e todo este povo, à terra que eu dou aos filhos
de Israel”.
Você percebe o grande desafio que é posto diante
daquele líder, chamado para viver experiência
completamente nova em sua vida? Ele se via na necessidade
de substituir Moisés. Você sabe quem foi Moisés? Observe na
sua Bíblia, no livro de Deuteronômio, e veja o que é dito
sobre esse homem:
Em Israel nunca mais se levantou profeta como Moisés,
a quem o Senhor conheceu face a face, e que fez todos
aqueles sinais e maravilhas que o Senhor o tinha enviado
para fazer no Egito, contra o faraó, contra todos os seus
servos e contra toda a sua terra (34:10-11).
E a história de Josué começa desta forma: “Moisés, meu
servo, é morto; dispõe-teagora”.
Fico a imaginar as muitas dúvidas e receios que vieram
ao coração de Josué. Como seria guiar aquele povo difícil?
Embora a geração que Josué introduziu em Canaã fosse
melhor que a anterior, não há dúvida de que Deus escolheu
aquela nação para evidenciar ao mundo Sua graça. Josué
deveria atravessar o Jordão, enfrentar adversários
fortíssimos e malignos, que ofereciam os filhos em sacrifício
aos deuses, e substituir Moisés, um líder aparentemente
insubstituível, de acordo com o próprio registro da Palavra
de Deus, como lemos nos versículos acima. O que
representou para Josué receber o chamado divino em tais
circunstâncias?
Olhando para a vida de alguns dos maiores santos,
percebemos que inicialmente sempre há um senso de
inadequação, uma profunda percepção de falta de capacidade
pessoal que se estabelece. O estranho é que Deus parece se
deliciar com isso, pois a dependência da Sua graça é o que
Ele mais gosta de encontrar no coração dos que Ele escolheu
como instrumentos. Deus só enche com Sua graça vasos
vazios. Como diz John Stott, parafraseando o que o apóstolo
Paulo escreveu em 2 Coríntios 2:7-10: “Nós temos o tesouro
do evangelho em frágeis vasos de barro, a fim de que possa
ser plenamente visto que o tremendo poder que nos sustém
e converteu vocês veio de Deus e não de nós mesmos”23. E
para provar sua afirmação, menciona as fraquezas de alguns
conhecidos pregadores. Fala sobre Joseph Parker, “que
pregou durante 28 anos no City Temple, em Londres, com
autoridade dominante e difundida simpatia, mas foi
atormentado com sentimentos de inferioridade porque era
filho de um pedreiro da Nortúmbria e tinha recebido uma
fraca educação teológica”. Sobre a vida de Charles Spurgeon,
veja a reprodução do testemunho pessoal deste: “Eu sou
sujeito de depressões de espírito tão terríveis que eu espero
que nenhum de vocês jamais tenha tais extremos de tristeza
como eu tenho”.24
Se há algo que me causa grande dificuldade é quando
sou procurado por pessoas que querem ter oportunidade
para pregar. Em geral, penso, quem recebeu o chamado de
Deus para este ofício não se sente qualificado para tão santa
tarefa. Quem de fato recebeu o chamado de Deus é humilde,
sente-se esmagado pela sublimidade da vocação. Este,
então, passa a se preocupar mais com sua santificação do
que em encontrar oportunidades para pregar, para exibir seu
dom e chamamento. E, quando acontece de lhe ser permitido
falar, é o próprio Deus que se encarrega de colocá-lo no
lugar onde deve estar, uma vez que foi Ele quem o chamou.
Se este lugar é o púlpito, nenhum homem, demônio ou
problema poderá detê-lo de falar em nome de Deus.
Não devemos, porém, confundir essa humildade com
timidez. A diferença entre essas disposições é que, enquanto
a primeira faz-me duvidar de que alguém como eu possa
servir o Deus Todo-Poderoso, a segunda amarra-me,
impedindo-me de aceitar o convite Daquele que tem como
método usar as pequenas coisas da vida para envergonhar as
grandes. A verdadeira humildade pode conviver bem com a
coragem e não deve ser confundida com a timidez.
Será que Deus já não o está chamando para a realização
de algo novo que você teme realizar? Chega um momento
em nossa vida em que Deus nos surpreende pondo-nos
diante de certas responsabilidades que nos levam tanto ao
temor quanto à indagação do “por que, entre tantos, Ele
resolveu usar aquele que é da pior espécie?”. Ele faz isso
pois é o Deus de Jacó! Com certeza, tanto você como eu, se
tivéssemos de escolher entre Esaú e Jacó para ser patriarca,
escolheríamos Esaú. Mas Deus escolheu Jacó. E acrescentou
ao Seu “título” o nome daquele suplantador!
O que nos faz partir para o serviço a Deus é que Seu
chamado nos chega acompanhado de uma mensagem que
nos lembra que Ele não está à procura dos mais inteligentes,
nem dos mais fortes nem dos mais belos, mas daqueles que
se colocam integralmente em Suas mãos. Ele mesmo se
encarrega de capacitá-los.
DISCERNIR A VISÃO DE DEUS PARA A SUA VIDA
Muitos têm grande dificuldade em viver com
objetividade. Jogam-se na realização de suas tarefas sem ter
em mente aonde querem chegar. Muitas vezes esquecem-se
de que esta é a marca que está sobre a vida daquele que Deus
usa: ter metas claras.
Josué recebeu uma visão clara de Deus quanto ao seu
chamado. Deus não o estava chamando para outra coisa a
não ser para cruzar o rio Jordão e prover terra para aqueles
dois milhões e meio de pessoas recém-libertas do
sofrimento terrível do deserto. Josué compreendeu qual a
visão, a meta de Deus para sua vida: “Passa este Jordão, tu e
todo este povo, à terra que Eu dou aos filhos de Israel”.
Josué tinha absoluta clareza do que Deus queria dele. Deus
respondeu às perguntas relacionadas a quem – “todo o
povo” –, onde – “Canaã”– e quando – “agora”.
Josué sabia onde poderia e deveria literalmente colocar o
pé. Veja o que Deus lhe disse: “Todo lugar que pisar a planta
do vosso pé vo-lo tenho dado, como Eu prometi a Moisés”.
Ao mesmo tempo que Deus encoraja o Seu servo a tomar
posse daquilo que já era dele, mostra, com absoluta clareza,
por onde ele deveria andar. “Desde o deserto e do Líbano,
até ao grande rio, o rio Eufrates, toda a terra dos heteus, e
até ao Grande Mar para o poente do sol, será o vosso termo.”
Josué não deveria se dirigir à Mesopotâmia, à Índia, à China,
à Fenícia nem à Europa. Cabia a ele dirigir-se à Palestina, o
lugar onde Deus havia prometido dar vitória a Seu servo. É
importante discernir onde devemos colocar nosso pé. Deus
disse: “Todo lugar que pisar a planta do teu pé, Josué, vo-lo
tenho dado”, e o Senhor, então, descreveu a “geografia da
bênção”.
Ter uma visão de Deus é ver o invisível e torná-lo
visível, tangível, palpável. Não tenho dúvida de que é muito
mais do que você dizer: “Eu quero ser uma bênção!”. É,
antes, você dizer: “Eu quero levar os brasileiros do sertão do
Maranhão a Cristo” ou afirmar: “Meu alvo é sustentar dez
estudantes de teologia a fim de que eles se preparem
adequadamente para o ministério sagrado”. Ter uma visão é
sonhar com objetividade em Deus. Josué tinha uma imagem
clara em sua mente do que deveria fazer.
Quem caminha com base numa visão caminha com mais
objetividade. Desde os meus 20 anos, venho crendo que Deus
me chamou para o ministério de pregação da Sua Palavra.
Qual é a vantagem de eu ter essa certeza? Já me desfiz de
muita coisa boa por causa da certeza da minha vocação,
sabendo que, caso as tivesse abraçado, teriam prejudicado
profundamente minha vida ministerial. A importância de se
ter um sonho é poder caminhar de maneira focada, sabendo
que dons se deve aperfeiçoar, com quais pessoas se deve
associar, em quê investir a vida. Torna-se muito mais fácil
definir os itens da nossa agenda. Edward R. Dayton e Ted W.
Engstron apresentam as seguintes vantagens de se ter metas
claras: senso de direção e propósito, poder para viver no
presente, entusiasmo, capacidade de operar mais
eficazmente, possibilidade de avaliar o progresso, recepção
de um claro entendimento do que se espera, entre outras
coisas mais.25
Essa é a experiência de muitos que tenho encontrado ao
longo deste caminho. Eles são os mais apaixonados, são os
que vivem com maior intensidade, pois têm, conforme
costuma-se dizer, uma meta a seguir. Quem caminha com
base numa visão vive com propósito, tem motivo para
dormir e acordar, para orar e lutar, para recomeçar após
cair. Às vezes, quando penso na minha própria vida, me
pergunto: “Por que será que Deus me mantém vivo, sendo o
céu infinitamente melhor do que tudo quanto o homem pode
experimentar no solo deste planeta? Por que Deus não
arrebata logo a Sua igreja para a glória?”. É porque Ele tem
um sonho para cada um de nós! Ele não escolheu os anjos,
mas escolheu a Sua Igreja para, por meio dela, revelar Sua
graça, beleza e santidade ao mundo graças ao anúncio do
evangelho!
Espero que o que você já leu até aqui esteja gerando em
sua alma um sonho com algo que marque sua passagem pela
História, que faça muita gente ao seu redor viver melhor e
também glorifique a Deus. Imagino, porexemplo, ver
alguém que, após essa leitura, tenha o sonho de montar a
melhor escola dominical do país. Ou outro que saia da leitura
com o sonho de construir uma instituição que atenda às
necessidades das pessoas de idade avançada, que muitas
vezes estão em asilos sem receber apoio, amor ou até mesmo
a visita de algum parente. Penso, também, em alguém que,
desafiado com o que leu sobre Josué, sonhe em fazer algo
revolucionário pelos presos de nossa terra que estão
definhando na mais completa indignidade, sem perspectiva
de reintegração social, em celas apinhadas, nas quais jazem
em condição sub-humana. Pense no sonho, como levar o
evangelho para cidades brasileiras nas quais a presença da
Igreja é insignificante ou até mesmo nula.
Como receber essa visão, esse sonho de Deus? Deixe-me
dar-lhe três sugestões. Vamos começar com uma pergunta:
qual é a paixão da sua vida? O que faz o seu coração
queimar? No peito de Hudson Taylor ardia a evangelização
da China, enquanto John Knox sonhava com a Escócia, pela
qual clamava pedindo a Deus com a conhecida oração: “Dá-
me a Escócia”. Já William Wilberforce sonhava com o
término da escravidão na Inglaterra. Em 1789, ele discursou
na Casa dos Comuns sobre o tráfico de escravos nestes
termos:
Tão enorme, tão terrível, tão irremediável era sua
malignidade [da escravidão] que minha própria mente
foi completamente convencida a favor da Abolição [...].
Não importando quais fossem as consequências, eu, a
partir daquele momento, determinei que não
descansaria até que conseguisse efetivar a Abolição.26
Então, pense no que em sua cidade mais lhe causa
indignação. Que tipo de sofrimento vê em nossa terra que o
faz chorar? É a situação do idoso, do preso, do solitário, as
mortes violentas? Que causa gera compaixão em seu
coração?
Quanto a mim, posso dizer que, se Deus quisesse me
usar em alguma obra social, eu Lhe ficaria muito grato. Se
pudesse diminuir a injustiça em nossa terra, por pouco que
fosse, quão realizado me sentiria. Ver, por exemplo, o
trabalhador ganhar um pouco melhor me deixaria muito
satisfeito. No entanto, quando vejo pessoas levantando as
mãos e entregando a vida a Jesus, meu coração é tomado de
imensa alegria e confesso que não há nada que me comova
mais. Se tivesse de escolher uma única realização em minha
vida, eu pediria a Deus: “Senhor, que eu possa ver milhares
entregando a vida a Ti!”. Essa é a minha paixão. Mas qual é
a sua?
A visão de Deus para sua vida estará relacionada,
normalmente, com o que lhe pesa no coração. Que sonho em
Deus, caso não se realize até o dia de sua morte, lhe trará
grande frustração? O que você está fazendo para alcançá-lo?
Chegou a hora de tomar uma decisão! “Dispõe-te, passa esse
Jordão.” Enquanto você fica contemplando e admirando seus
dons, diplomas, talentos e saúde, existe alguém sofrendo,
carecendo de toque, libertação, palavra de salvação –
precisando de você! Até quando vamos ficar trancados
dentro de quartos escuros, reclamando da vida, acariciando a
nossa depressão, lembrando os erros do passado,
lamentando as oportunidades perdidas sem tomarmos a
decisão de fazer algo para a glória de Deus? É hora de cruzar
o Jordão!
É importante saber qual dom Deus nos deu. Muitas
vezes, ele se relaciona a um talento que já existia antes da
conversão. O Senhor pode tomar esse talento e santificá-lo
para Sua glória. Outra maneira de saber qual é a visão de
Deus para a sua vida é por meio de oração e jejum. Penso que
não há nada mais importante do que esses exercícios
espirituais. “Clame a mim e eu responderei e lhe direi coisas
grandiosas e insondáveis que você não conhece.” (Jr 33:3)
Imagine quando você estiver idoso, cercado de netos,
olhando para trás; imagine que nada tenha a dizer a não ser:
“Passei a vida trocando de carro todo ano, comi nos
melhores restaurantes, vesti as melhores roupas e, contudo,
poucos passaram a ter uma vida melhor graças a mim”. Essa
será uma velhice feliz? Será essa uma boa maneira de
encerrar a vida? Viver assim é viver de acordo com o projeto
de vida dos bichos! Fomos criados para manifestar a glória
de Deus, os sonhos de Deus. Qual é o seu sonho? Você tem
uma visão? Como você, na singularidade de sua vida, haverá
de revelar a glória de Deus?
VIVER CORAJOSAMENTE
Outro fundamento para a vida vitoriosa é a capacidade
de viver corajosamente. Veja quantas alusões há no texto de
abertura do capítulo à necessidade de o homem de Deus ter
coragem: “Ninguém te poderá resistir todos os dias da tua
vida [...] somente sê forte e mui corajoso [...] tão somente sê
forte e mui corajoso [...]. Não to mandei Eu? Sê forte e
corajoso; não temas nem te espantes”.
Ninguém conhece melhor a natureza humana do que
nosso Criador. Por saber que, por natureza, somos tendentes
ao desânimo e medo, e por conhecer as batalhas que Seus
servos têm de enfrentar quando se propõem a realizar
alguma coisa para seu Senhor, Ele mesmo os encoraja a fim
de que não cessem de avançar no propósito de expandir Seu
reino. Certamente o que Josué ouviu da parte do seu Deus foi
como fogo nos seus ossos. Foi somente após o recebimento
de tão gloriosas promessas que Josué pôde ver todos os
perigos de acordo com a perspectiva divina. O que acontece
quando vemos, de acordo com o ponto de vista de Deus, os
perigos aos quais estamos expostos no cumprimento de
nosso chamado? O primeiro resultado é que passamos a
temer somente o pecado. Diante de tão gloriosas promessas,
o crente deixa de se preocupar com seus adversários para se
concentrar na execução do chamado e na manutenção de
uma vida santa, agradável ao Senhor. O que é o Jordão para
Aquele que, do nada, fez o universo? O que são os cananeus
para Aquele que vê as nações como coisa que não é nada, que
as considera menos do que nada, como um vácuo (Is 40:14-
17)?
Sempre penso que uma das muitas glórias de ser crente
é poder pregar para a própria alma. O crente é alguém que
tem o que falar para sua própria vida. Quando em pecado,
pode dizer: “Graças ao grande amor do Senhor é que não
somos consumidos, pois as suas misericórdias são
inesgotáveis” (Lm 3:22). Quando, sob ameaça de
adversários, pode proclamar destemidamente: “O Senhor é a
minha luz e a minha salvação; de quem terei temor? O
Senhor é o meu forte refúgio; de quem terei medo?” (Sl
27:1). Quando, em perigo de vida, afirma-se em dizer:
“Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte,
não temerei perigo algum, pois tu estás comigo; a tua vara e
o teu cajado me protegem” (23:4). De igual modo, Josué, a
partir de todas as palavras de encorajamento que ouvira da
boca do próprio Deus, teria muito que dizer para si mesmo.
Bastava repeti-las com fé.
Este foi o resultado direto do que Deus comunicou à
alma de Josué. O comandante das tropas de Israel, a partir
daquele momento, tinha o que dizer tanto ao povo quanto a
si mesmo. Nos vales, nas campinas, nos montes, enquanto o
suor escorria pelo rosto, o coração disparava sob o olhar
cheio de ódio do adversário, o cansaço fazia a perna vacilar,
Josué podia trazer à memória o fato de que o seu Deus já lhe
garantira a vitória, assegurara-lhe Sua presença protetora e
confirmara-lhe Sua parceria indissolúvel. Que consolo e
encorajamento!
Sem termos coragem, por melhor que seja a visão, não
sairemos do lugar. Isso ocorre porque há obstáculos a ser
transpostos, adversários a ser derrotados e limitações a ser
superadas. Precisamos de coragem. É por isso que aquelas
pessoas que são normalmente consideradas como menos
qualificadas realizam mais do que muitos que nasceram com
muitos talentos. Enquanto estas, apesar de tudo o que
possuem e de que são capazes, temem perder, aquelas
avançam na certeza de que a única coisa que têm a perder é
a oportunidade dada por Deus de serem usadas por Ele na
História. Percebo, então, que sem fé não apenas é impossível
agradar a Deus como também é impossível servi-Lo em
meio a tantas possibilidades de derrota. Asseguro-lhe que
ninguém realiza mais do que aquele que tomou a decisão de
correr riscos por crer que, em face das promessas de umDeus tão fiel, o que se deve temer é ter medo do que os
outros vão pensar e não viver com ousadia.
É importante que você fique indignado com essa mania
de ficar mais preocupado com o que os outros vão pensar do
que com o que o próprio Deus pensa. Ele jamais ficará
desapontado com você quando o insucesso for fruto da
tentativa de honrá-Lo. Diga para si mesmo: “O quê?
Permitir que o curso da minha vida seja determinado por
meus temores e não pela fé num Deus fiel? Isso nunca!
Aceitar que a opinião de outros estabeleça o nível de risco
que vou correr na vida enquanto tenho ao meu lado um Deus
que me ensina a temer apenas a Ele? Que me revela na Sua
Palavra que viver perigosamente não é correr riscos para a
glória do Seu nome, e, sim, fugir do centro da Sua vontade?
Não aceito isso!”.
O maravilhoso na fé cristã é que ela não nos leva a negar
a realidade, como o faz a chamada literatura de autoajuda.
Esta ensina aos homens que eles não têm nada a temer, que
não há obstáculo suficientemente forte para a vida daquele
que é determinado, que basta ter pensamento positivo e
repetir algumas fórmulas e tudo se resolverá! Bem, sem
dúvida a determinação tem ajudado muitos. Mas o que fazer
quando, no uso pleno de nossa faculdade racional, chegamos
à conclusão de que a vida está cheia de adversários mais
fortes do que nós? O que fazer quando lemos algo como a
Odisseia de Homero? Ela nos mostra, conforme salienta
David Denby,
que, exatamente nas horas em que os heróis, exaustos,
querem descanso, conforto e prazer, encontram terror e
cilada. A Odisseia fala do retorno ao lar dos heróis de
guerra de Troia. Na maioria das vezes, um retorno
desastroso, já que os homens castigados pelos deuses
por causa de alguma falta ou por não renderem
homenagens a eles enfrentam mau tempo e naufrágios
e, quando finalmente chegam em casa, morrem nas
mãos de esposas traiçoeiras.27
O que é coragem? É a capacidade de enfrentarmos
perigos e desafios quando é isso que nossa consciência pede
e a vontade revelada de Deus exige. Jamais deve ser
confundida com temeridade, que é a atitude tola de correr
riscos desnecessários.
É precioso saber que, na Palavra de Deus, para cada
promessa bíblica encontramos uma razão de ser para a
esperança por ela despertada. No texto que temos
considerado, vemos o Senhor dizendo a Josué: “Ninguém te
poderá resistir todos os dias da tua vida” – mas em que
base? “Como fui com Moisés, assim serei contigo: não te
deixarei nem te desampararei.” É por isso que faz sentido a
declaração: “Sê forte e corajoso”, porque o Senhor não o
desampararia. Como adquirir essa coragem? Primeiramente,
é preciso trazer à memória o que Deus realizou no passado:
“Como fui com Moisés, assim serei contigo”. Foi esse o
tratamento psicológico que Deus operou na vida de Josué. É
como se tivesse dito a ele: “Vou fazer na tua vida o que fiz
na vida de Moisés”. Temos, portanto, em primeiro lugar,
uma base histórica para confiar. O que Deus fez na vida de
Moisés e na de Josué haverá de fazer em nossa vida também,
em meio à construção de nossos sonhos, em nome do
Senhor Jesus.
Em segundo lugar, outra coisa necessária para que a
coragem ganhe força, ganhe corpo em nosso espírito, é
saber que o Senhor é, segundo a linguagem poética do
salmista, nossa sombra à nossa direita:
Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro?
O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra.
Ele não permitirá que os teus pés vacilem; não dormitará
Aquele que te guarda.
É certo que não dormita nem dorme o guarda de Israel.
O Senhor é quem te guarda;
o Senhor é a tua sombra à tua direita.
De dia não te molestará o sol nem de noite a lua.
O Senhor o protegerá de todo o mal, protegerá a sua vida.
O Senhor protegerá a sua saída e a sua chegada, desde agora
e para sempre (Sl 121:7-8).
Assim como minha sombra me acompanha para onde
quer que eu vá, o Deus Eterno não cessa de, em Seu
inesgotável amor, seguir tanto adiante de mim como depois
de mim. Veja como esse salmo se relaciona com Josué 1:5, 9:
“Não te deixarei nem te desampararei”; “serei a tua sombra
à tua direita”. Pegar dois milhões e meio de pessoas,
atravessar com elas um rio, enfrentar os terríveis cananeus
– tudo isso seria levado a efeito com base em tais
promessas. Deus não disse apenas: “Sê forte e corajoso”,
mas prosseguiu: “O Senhor teu Deus é contigo, por onde
quer que andares”.
É por isso que eu digo que um fundamento indispensável
para se ter uma vida vitoriosa é a coragem. Porém, é
importante frisar, essa coragem deve estar alicerçada no
caráter de Deus, na fidelidade de Deus e no que Deus
realizou no passado, não em nossa própria capacidade. A
verdadeira coragem deve ter uma base adequada. Ah! Se eu
não acreditasse no que afirma, seria um hipocondríaco
crônico, um doente da alma e do espírito, um atormentado.
Mas, ao contrário, “em paz me deito e logo adormeço, pois
só tu, Senhor, me fazes viver em segurança” (Sl 4:8).
Um exemplo extraordinário de coragem encontramos na
vida de Martinho Lutero, o pai da Reforma protestante.
Imagine a cena. Um monge agostiniano, de um recanto
desconhecido da Alemanha, chega diante de uma poderosa
instituição e diz que, para ele, o papa não apenas não era o
vigário de Cristo na terra, como era o Anticristo!28 Calvino,
outro importante reformador, tinha essa mesma convicção.
Os reformadores criam que o papa servia ao diabo. Alguns
anos antes dessa declaração de Lutero, pré-reformadores
haviam sido mortos pela Igreja Romana por causa de
supostas heresias “menores”. Imagine, então, o que poderia
acontecer com quem chamasse o papa de Anticristo!
Em meio a todas essas perseguições, com pessoas
querendo dar cabo da vida de Lutero, numa época em que o
papa escrevera uma bula chamada Um javali entrou na vinha
do Senhor – ou seja, chamando Lutero de javali –, o grande
reformador alemão escreveu este maravilhoso hino:
Castelo forte é nosso Deus,
Espada e bom escudo;
Com Seu poder defende os Seus
Em todo transe agudo.
Com fúria pertinaz Persegue Satanás,
Com artimanhas tais
E astúcias tão cruéis,
Que iguais não há na Terra.
A nossa força nada faz;
Estamos, sim, perdidos;
Mas nosso Deus socorro traz
E somos protegidos.
Defende-nos Jesus,
O que venceu na cruz,
Senhor dos altos céus;
E, sendo o próprio Deus,
Triunfa na batalha.
Se nos quisessem devorar
Demônios não contados,
Não nos podiam assustar,
Nem somos derrotados.
O grande acusador
Dos servos do Senhor
Já condenado está,
Vencido cairá
Por uma só palavra.
Sim, que a Palavra ficará,
Sabemos com certeza,
E nada nos assustará
Com Cristo por defesa.
Se temos de perder
Os filhos, bens, mulher,
Embora a vida vá,
Por nós Jesus está,
E dar-nos-á Seu reino.29
Isso é coragem! Para que você tenha essa coragem, é
necessário que conheça o seu Deus. Clame a Ele por
coragem. Não apenas isso, mas pare para pensar em tudo o
que leu até aqui. Aplique tudo isso à sua vida. Como somos
prejudicados pela ideia de que a Igreja é um hospital! Nada
disso, a Igreja é um exército! Ela é composta por soldados
que receberam ordem do seu comandante para conquistar
novos territórios. Irmão, seja o que você é: você é crente. Faz
parte do povo que tem o sangue dos patriarcas, profetas,
apóstolos e reformadores nas veias. Deus está mandando
cruzar o Jordão. Não procure ponte. Cruze-o!
ANTER-SE FIEL ÀS SAGRADAS ESCRITURAS
“Não cesses de falar deste livro da lei; antes medita nele
de dia e de noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo
tudo quanto nele está escrito.” Quando chegamos a este
ponto, ficamos face a face com o caráter de Deus. Até aqui,
Deus vinha se revelando a Josué como Deus soberano,
libertador e fiel; contudo, chegamos agora a um ponto em
que um atributo de Deus ganha destaque especial: Sua
santidade. Deus se revela como um Deus santo. Josué deveria
encarar os adversários exteriores com coragem e os
interiores, os de seu coração, com temor. Não bastava Josué
ser corajoso – Deus queria que ele fosse santo.
Amigo, Deus queria ensinar ao comandante das tropas
de Israel que, sendo Ele o DeusTodo-Poderoso, não precisa
da ajuda dos seus comandados. O que quero dizer com isso?
Que Deus quer realizar Sua obra tanto na força do Seu poder
quanto na pureza do caráter do Seu povo. Tudo o que Deus
pede de nós é fidelidade. Ele não pede nossa ajuda. Deixe-
me lhe dizer que há muita gente tentando ajudar a Deus.
Gente que, por meio de acordos políticos imundos,
negociação do conteúdo do evangelho e prática do conceito
de que os fins justificam os meios, julga que está facilitando
as coisas para que possa Deus agir. Gente que pensa que,
quando o Senhor Jesus nos mandou ser prudentes como as
serpentes, estava nos ensinando a ser inescrupulosos.
Meu irmão, veja a incoerência da igreja em nossa terra.
Um pastor vai à televisão e diz: “O irmão pode jogar os seus
óculos no lixo, porque Deus irá curá-lo”. Mas na hora de
comprar uma rádio, de edificar um templo, de adquirir um
imóvel, a mesma fé não vale! É preciso fazer apelo, desafio,
sacrifício, campanha, manipular gente pobre e crédula a fim
de ofertar! O que se pede da dona Maria cozinheira não vale
para o pastor. Que Deus é esse? Que igreja é essa? Não quero
parecer bombástico, mas tenho que dizer que sou um ateu
desse deus e um apóstata dessa igreja!
Existe gente com coragem para enfrentar demônios, mas
sem coragem para ser fiel a Cristo. A ordem de Deus para
Josué significa: “Tenha coragem para enfrentar os cananeus,
mas tenha coragem para se manter fiel à Minha Palavra!”. A
segunda tarefa é, por vezes, muito mais difícil do que a
primeira! É muito mais fácil supostos demônios do que
transformar a igreja em curral eleitoral. É muito mais fácil
dizer para os demônios: “Saiam em nome de Jesus!” do que
viver humildemente com o que se ganha, sem estender a
mão para a iniquidade. Oh! Povo evangélico deste país, essa
não é a herança que recebemos daqueles que verteram
sangue pela fé! Somos frutos desse movimento
extraordinário, a Reforma Protestante, que só alcançou
sucesso porque havia coragem e santidade no coração dos
seus líderes. Que mantenhamos a mesma ousadia sem
utilizar métodos iníquos para fazer o reino de Deus avançar
nesta terra. Quando a igreja avança de qualquer maneira,
conduzida covardemente por homens que são capazes de
exigir fé dos pobrezinhos que sofrem, mas não usam da
mesma fé para construir seus templos, saiba que não é o
reino de Deus que avança e, sim, o travestido reino de
Satanás.
O que Deus espera de você é fidelidade. E o que vier em
consequência disso será resultado da bondade e misericórdia
de Deus. Para que tal ocorra, precisamos amar a Bíblia.
“Dela não te desvies, nem para a direita nem para a
esquerda, para que sejas bem-sucedido por onde quer que
andares [...]. Não cesses de falar deste livro da lei; antes
medita nele dia e noite.” É exatamente nesse ponto em que
muitos tropeçam. Eles têm dons e inteligência, carisma e
capacidade administrativa, mas não têm caráter. Não é
doloroso ver, na história de nosso país, pessoas com dons
extraordinários, com oportunidades inigualáveis, perderem
tudo, da noite para o dia, porque não se mantiveram fiéis às
Sagradas Escrituras? Quanto estrago isso produz na causa do
evangelho!
Você ama as Escrituras? Tem lido mais a Bíblia do que
livros que ensinam a administrar empresas (ou igrejas) e
fazê-las crescer ou a tornar-se rico? Sinto falta de maior
apreço pelas Escrituras entre nós, evangélicos. No Brasil,
hostes infernais continuam conseguindo amarrar uma nação
inteira numa espécie de preguiça intelectual da qual nem
mesmo os evangélicos escapam. O maior desperdício desta
nação é o desperdício de neurônios. Temos de salvar o povo
brasileiro do Brasil! Fazemos parte de um povo que prefere
ir a reuniões em que pode receber respostas rápidas e
prontas via entrega de supostas profecias a reuniões onde se
estuda com zelo e respeito a Palavra de Deus. Amigo, maior
probabilidade há de alguém que participa de Escola
Dominical viver uma vida cristã equilibrada do que alguém
que vive atrás de profecias.
Recentemente, li o seguinte relato no famoso livro Entre
os gigantes de Deus, uma visão puritana da vida, de J. I. Packer.
O autor fala de uma pregação que houve na cidade de
Deadham na Inglaterra, feita por um homem de nome John
Rogers. Ele pregou à sua igreja com um único objetivo:
apontar o pecado da negligência da leitura bíblica na vida
daquele povo. Veja o relato de uma pessoa que estava
presente àquela reunião:
Ele personificava Deus para o povo dizendo-lhes – como
se Deus estivesse falando: “Bem, tenho-vos confiado, há
tanto tempo, a Minha Bíblia. Ela jaz na casa deste ou
daquele coberta de poeira e teia de aranha e não vos
incomodais de dar-lhe ouvidos. É assim que usais a
Minha Bíblia. Bem, não tereis mais a Minha Bíblia”.
 E ele tomou a Bíblia de sua almofada, como que
estivesse se retirando, mas imediatamente virou-se para
eles e personificou o povo, caindo de joelhos, clamando e
rogando de maneira mais clemente: “Senhor, que quer
que faça conosco, não tire a Bíblia de nós; mate os
nossos filhos, queime as nossas casas, destrói os nossos
bens, mas poupa-nos a Tua Bíblia. Não tires de nós a
Tua Bíblia!”.
 
O pregador virou-se para a congregação e disse: “Bem,
Eu vos testarei um pouco mais, e aqui está a Minha
Bíblia para vós. Verei como a usareis, se a amareis mais,
se a colocareis mais em prática, vivendo de acordo com
ela”. A esta altura, conforme Thomas Goodwin, que
presenciou a cena e contou a John Owen, cujas palavras
tenho estado a citar, todo o povo que estava no templo
desmanchou-se em lágrimas e o próprio Goodwin,
quando saiu, pendurou-se por um quarto de hora no
pescoço de seu cavalo, chorando antes que tivesse força
para montar. Tão estranha era a impressão que caíra
sobre ele, bem como sobre todos os ouvintes, após terem
sido repreendidos por negligenciarem a Bíblia.30
Amigo, você que anseia por sucesso na vida tem levado
em consideração o fato de que sem Bíblia Deus não
abençoará nossos esforços? Você lamenta por conhecer a
verdade tão pouco e muito menos corajosamente aplicá-la
em sua vida e ministério? Você também se comove ao
reconhecer que tem negligenciado o estudo regular e
sistemático das Escrituras?
SABER QUEM É O SEU DEUS
Uma das maiores certezas que podemos ter quanto à
vida de Josué é a de que ele conhecia a Deus. Note que seu
conhecimento da verdade não era de segunda mão. O
versículo primeiro diz que Deus falou a Josué. Há uma
diferença infinita entre conhecer a verdade e conhecer a
Deus. É possível conhecer a verdade e não conhecer a Deus.
Os demônios conhecem a verdade e tremem, mas não
conhecem a Deus. Os fariseus conheciam a verdade, porém
não conheciam a Deus. Ninguém pode conhecer a Deus sem
antes conhecer a verdade; contudo, é possível a alguém
conhecer a verdade e não conhecer a Deus. Esse
conhecimento acerca do qual falo é interior, do coração. Há
um conhecimento puramente intelectual, de grande valor;
porém há um conhecimento do coração, essencial. Sem o
primeiro não há o segundo, mas nem todos os que têm o
primeiro têm necessariamente o segundo. O conhecimento
intelectual pode ser alcançado por qualquer um, enquanto o
do coração só é dado por revelação. “Respondeu Jesus: ‘Feliz
é você, Simão, filho de Jonas! Porque isto não lhe foi
revelado por carne ou sangue, mas por meu Pai que está nos
céus’.” (Mt 16:17). “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da
terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos e as
revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu
agrado.” (Lc 10:21) O crente não apenas conhece a Deus, mas
reconhece a Deus. Trata-se de alguém que recebeu um
sentido novo, uma capacidade de não saber apenas que Deus
existe, mas de se regozijar com isso, de não apenas dizer que
há um Criador, mas de perceber Sua beleza e amá-la. Os
demônios creem, mas somente os crentes amam.
Este é um elemento fundamental na vida do que quer ser
usado por Deus: conhecer o Deus a Quem deseja servir. É
esse conhecimento que transforma nosso serviço em culto,
que nos leva a encarar os adversários com coragem, a andarcom temor e a viver para Seu louvor. Não peça apenas que
Deus abra as portas para você. Não peça apenas poder. Não
peça apenas vitória. Peça, acima de tudo, conhecimento vivo
de Deus. Quando tomamos consciência de que sem o
conhecimento de Deus é impossível viver o tipo de vida que
propomos neste livro, bem como nada tem sentido, somos
levados a fazer a oração de Moisés em Êxodo 33:13, 15:
“Agora, se achei graça aos Teus olhos, rogo-Te que me faças
saber neste momento o Teu caminho, para que eu Te
conheça, e ache graça aos Teus olhos; e considera que esta
nação é Teu povo [...]. Se a Tua presença não vai comigo, não
nos faças subir deste local”.
Normalmente oramos pedindo o conhecimento de Deus
quando o Espírito da graça nos leva a ver a inutilidade de
nossos esforços, a insuficiência de nossa determinação e a
vacuidade de ganhar o mundo inteiro e perder o ser. Você
conhece a Deus? Você O ama? Gosta de estudar Sua Palavra?
Clama a Ele para que se revele a você?
TER SONHOS QUE INCLUAM O PRÓXIMO
O tempo todo vemos Deus incluindo pessoas nos planos
de Josué: “Tu farás este povo...”. Os planos de Josué
incluíam outros seres humanos. Aqui concluo o conceito de
sucesso que quero apresentar nestes capítulos iniciais e
desenvolver no restante do livro. Ter sucesso é viver um tipo
de vida que faz uma porção de gente viver melhor. Ter
sucesso é ser usado pelo Deus santo para ajudar os seres
humanos a alcançar o alvo de Deus para a vida deles. Ter
sucesso é se superar para ajudar outros a que, pela graça
divina, também se superem. Caso você venha a ser rico, isso
não será, por si só, sucesso; sucesso será continuar
procurando ganhar o máximo e economizar o máximo a fim
de dar o máximo aos que têm o mínimo. É abominar
qualquer noção de vitória puramente hedonista. Ter sucesso
é poder chegar ao fim fazendo um balanço das vidas que
puderam cruzar seu Jordão pessoal por meio da sua vida. Eis
aí a razão de vivermos a clamar e, ao mesmo tempo,
realizarmos tão pouco: somos egoístas demais. Tenha
sonhos que incluam os sofredores, que não almejem
prosperidade apenas para você e não façam o próximo viver
melhor. Que você abomine a ideia de enriquecer, ser mais
feliz, mais saudável sem que isso, de alguma maneira, faça
seu semelhante viver com mais dignidade.
Tudo o que vimos até aqui foi com o propósito de que as
promessas de Deus a Josué venham a se cumprir também em
nossa vida: “Para que sejais bem-sucedidos por onde quer
que andares”. A vida é curta e, diante de nós, há um mundo
em agonia, ao qual nosso Deus ama. Em Sua infinita
bondade, Deus tem-nos dado recursos extraordinários para
que Seu Reino avance e Seu nome seja glorificado. Aprender
os dez princípios que lhe apresentei nestes dois capítulos
iniciais é condição indispensável para que, de fato, você seja
bem-sucedido por onde quer que ande. Espero que esses dez
mandamentos da vida de sucesso sejam guardados por você
com santo temor. E colocados em prática imediatamente!
III
É HORA DE CRUZAR O JORDÃO!
De manhã bem cedo Josué e todos os israelitas partiram de Sitim e foram
para o Jordão, onde acamparam antes de atravessar o rio. Três dias
depois, os oficiais percorreram o acampamento, e deram esta ordem ao
povo: “Quando virem a arca da aliança do Senhor, o seu Deus, e os
sacerdotes levitas carregando a arca, saiam das suas posições e sigam-
na. Mas mantenham a distância de cerca de novecentos metros entre
vocês e a arca; não se aproximem! Desse modo saberão que caminho
seguir, pois vocês nunca passaram por lá”. Josué ordenou ao povo:
“Santifiquem-se, pois amanhã o Senhor fará maravilhas entre vocês”. E
disse aos sacerdotes: “Levantem a arca da aliança e passem à frente do
povo”. Eles a levantaram e foram na frente. E o Senhor disse a Josué:
“Hoje começarei a exaltá-lo à vista de todo Israel, para que saibam que
estarei com você como estive com Moisés.
Portanto, você é quem dará a seguinte ordem aos sacerdotes que
carregam a arca da aliança: ‘Quando chegarem às margens das águas do
Jordão, parem junto ao rio’”. Então Josué disse aos israelitas: “Venham
ouvir as palavras do Senhor, o seu Deus.
Assim saberão que o Deus vivo está no meio de vocês e que certamente
expulsará de diante de vocês os cananeus, os hititas, os heveus, os
ferezeus, os girgaseus, os amorreus e os jebuseus.
Vejam, a arca da aliança do Soberano de toda a terra atravessará o Jordão
à frente de vocês. Agora, escolham doze israelitas, um de cada tribo.
Quando os sacerdotes que carregam a arca do Senhor, o Soberano de toda
a terra, puserem os pés no Jordão, a correnteza será represada e as águas
formarão uma muralha”. Quando, pois, o povo desmontou o
acampamento para atravessar o Jordão, os sacerdotes que carregavam a
arca da aliança foram adiante. [O Jordão transborda em ambas as
margens na época da colheita.] Assim que os sacerdotes que carregavam
a arca da aliança chegarem ao Jordão e seus pés tocarem as águas, a
correnteza que descia parou de correr e formou uma muralha a grande
distância, perto de uma cidade chamada Adã, nas proximidades de
Zaretã; e as águas que desciam para o mar da Arabá, o mar Salgado,
escoaram totalmente. E assim o povo atravessou o rio em frente de
Jericó.
Os sacerdotes que carregavam a arca da aliança do Senhor ficaram
parados em terra seca no meio do Jordão, enquanto todo Israel passava,
até que toda a nação o atravessou também em terra seca. (Js 3)
Gosto de pregadores que, logo ao início de suas
mensagens, indicam claramente sobre o que pretendem
falar. É o que desejo fazer aqui, deixar claro meu objetivo
neste capítulo – que é levar você a cruzar o Jordão, ver as
águas do rio estancarem, atravessá-lo sem medo e,
finalmente, ter seus pés postos na terra da promessa. O
Jordão aqui representa qualquer grande obstáculo que se
interpõe entre você e o alvo de sua vida. Pode ser um
obstáculo que se encontra na família, na vida profissional,
no ministério cristão ou dentro de você mesmo. Atravessá-lo
pode ser sinônimo de uma mudança da leitura que você faz
dos acontecimentos da vida, de uma modificação necessária
no caráter, de uma cura para a alma, de um rompimento
com antigos hábitos destrutivos ou de um “basta!” à
indiferença espiritual.
A vida é curta demais para levarmos mais tempo vivendo
do lado de cá do Jordão. Por isso, essas atitudes firmes de
enfrentar os obstáculos que nos impedem de passar à terra,
rompendo-os pela fé, são fundamentais para que esses
poucos anos que nos restam sejam usados para a glória de
Deus. Há mudanças que se operam em nossa existência que
parecem nos introduzir numa outra espécie de vida. E temos
a impressão, quando olhamos a vida anterior ao momento
em que tais modificações ocorreram, que, de certa forma,
não vivíamos de fato.
Martyn Lloyd-Jones ilustra o que estou dizendo ao
apresentar a experiência de John Flavel:
Vejam o caso de John Flavel, o puritano de há mais de
trezentos anos. Ele era um homem piedoso e temente a
Deus, um notável expositor das Escrituras. Ele não era
apenas crente, mas tinha certeza da salvação. Contudo,
ele nos diz em seu Treatise of the Soul of Man [Tratado
Sobre a Alma do Homem] que, um dia, durante uma
viagem, ele se pôs a meditar nos “objetos da fé e
esperança”. Dentro em pouco, ele se sentiu como se
estivesse elevado ao céu. Foi tirado do mundo e do
tempo. Diz ele que até se esqueceu da esposa e dos
filhos, e que desejou ser levado imediatamente para o
céu. Foi-lhe dado um vislumbre da glória; o amor de
Deus foi derramado em seu coração de tal maneira que
ele não sabia se estava no tempo ou na eternidade. Flavel
era um puritano típico; não uma pessoa excitável,
emotiva, porém um tipo de homem tranquilo, estudioso
e dado à meditação. Mas ele diz que, em consequência
dessa experiência, “entendeu mais da luz do céu por
meio dela do que por todos os livros que já tinha lido, e
dos discursos a seu respeito”.31
Eu posso afirmar, com base no capítulo 3 de Josué, que o
mesmo tipo de milagre que o povo de Israel experimentou
invariavelmente ocorrena vida de todos os cristãos. Mais
cedo ou mais tarde, vem a hora de uma nova fase de nossa
vida começar. Hora de as promessas que Deus reservou para
mim e para você se cumprirem. Hora de alguma coisa velha
ficar para trás e algo novo ser descortinado diante de nós. Os
israelitas estavam, literalmente, deixando o deserto para
trás, cruzando o rio e entrando em Canaã. E havia muito
território a ser conquistado! Isso não se aplica a você? Pense
em sua família. É tempo de você conquistar territórios em
seu lar, talvez resgatando o coração do filho querido, com o
qual não consegue conversar mais. Ou talvez seja o
momento mais do que oportuno de você conquistar terreno
em sua vida espiritual.
Não se contente com nada menos do que a Terra
Prometida. Ao ler nas Sagradas Escrituras sobre a vida dos
homens de Deus, especialmente no Novo Testamento,
provavelmente seu comentário será: “Que experiências
maravilhosas eles tiveram! Que maravilhoso ser tomado pela
plenitude do amor de Deus e compreender a altura, a
largura, o comprimento e a profundidade desse amor! Um
dia, isso haverá de acontecer em minha vida!”. No entanto,
apesar de ter esse tímido desejo de experimentar algo igual,
você administra sua vida como quem, de fato, não está nem
um pouco interessado em ser levado até toda a plenitude de
Deus. Então, é chegado o momento de tomar a mais
importante decisão de sua vida com Deus. Assim como fez
Jacó, que se agarrou ao Anjo e disse: “Não te deixarei ir, a
não ser que me abençoes” (Gn 32:26).
Amigo, é hora de a harmonia familiar se estabelecer em
seu lar, de o perdão irromper e restaurar relacionamentos
feridos, de os momentos de alegria à roda da mesa se
tornarem realidade! Chegou a hora de sua vida profissional
desabrochar, hora de você encontrar satisfação no que faz,
de pagar as dívidas e ter recursos para viver com dignidade,
sem se sentir escravo dos credores. Chegou a hora de você
vencer antigos conflitos e pecados, hora de seu caráter se
fortalecer e se firmar, hora de começar a semear hábitos de
santidade a fim de colher um caráter santo, agradável a
Deus. É hora de o simples ato de pronunciar o nome do
nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo deixar você
profundamente comovido. É hora de adorar o Pai, o Filho e o
Espírito Santo com coração íntegro, sem nada a esconder da
Trindade santa. É hora de você cruzar o Jordão!
Pense também em outras áreas de sua vida que são
aparentemente banais ou sem importância, as quais, porém,
podem trazer-lhe um pouco de refrigério e alegria a esses
dias tão difíceis que todos vivemos debaixo do sol. O sonho
de aprender a tocar violão, de falar outra língua, não
propriamente a dos anjos, mas os importantes inglês,
francês ou espanhol. Os campos missionários estão
precisando de crentes que dominem mais de um idioma.
Muitas vezes, arrastamos uma culpa indevida por pensar que
Deus não se agrada que tenhamos certos tipos de desejos.
Vivemos uma vida tão “santa” e “arrebatada” que
pouquíssimas pessoas, ao olhar para ela, podem dizer: “Que
vida bonita e descomplicada!” e almejar viver de igual modo.
Não há pecado algum em querer desenvolver um hobby,
começar a prática de nova atividade esportiva ou fazer algo
de que se goste. C. S. Lewis revela o valor destas coisas ao
mostrar os conselhos do demônio velho para o demônio
aprendiz em seu clássico Cartas do diabo ao seu aprendiz:
Sei que ganhamos muitas almas pelo prazer. Mesmo
assim, é invenção Dele [isto é, de Deus] e não nossa. Ele
fez os prazeres: toda a nossa labuta até aqui nos levou a
produzir um único prazer. Tudo o que podemos fazer é
encorajar os humanos a experimentar os prazeres que o
inimigo produziu nos momentos, ou segundo as
maneiras, ou nos graus, que Ele proibiu [...]. Tu deverias
sempre tentar fazer o paciente abandonar as pessoas, a
comida ou os livros que realmente aprecia em favor das
“melhores” pessoas, da comida “certa” e dos livros
“importantes”.32
Perdoe-me fazer algumas perguntas que,
provavelmente, irão incomodar você interiormente. Mas é
preciso. Até quando você irá permitir que doenças
emocionais crônicas limitem sua vida? Até quando você vai
permitir que determinados vícios e maus hábitos destruam
seus dons e talentos, constituindo-se, então, em verdadeiras
feridas abertas que detêm todo o potencial que você tem de
viver para a glória de Deus? Até quando, meu amigo? Até
quando vai permitir que haja aquele clima de frieza,
indiferença e inimizade em seu lar sem tomar a atitude de
abrir o coração, pedir perdão e tratar das questões conjugais
com doçura e amor? Até quando você vai deixar que seu mau
gênio o domine ou que o espírito ácido, a língua que critica
em demasia façam com que você destrua as amizades mais
preciosas que Deus lhe concedeu? Será que não chegou a
hora de você cruzar o Jordão?
Neste capítulo, desejo falar sobre o momento de cruzar o
Jordão. Nos capítulos anteriores lhe falei sobre os
preparativos, sobre aquilo que o povo precisou ouvir e
experimentar da parte de Deus a fim de cruzar o
atemorizante rio. O contexto ali era de espera. Mas agora, no
capítulo 3 de Josué, o povo já está com os pés no rio – Israel
está partindo para dentro do rio Jordão, a fim de entrar em
Canaã. O que houve? Como foi que o milagre aconteceu?
Como o rio se abriu?
Conforme já dissemos, sempre há entre nós e as
promessas de Deus um Jordão a ser transposto. Seja qual for
o Jordão de sua vida, por causa de tudo o que aguarda você
além dele, gostaria de fazer-lhe três exortações.
DECIDA CRUZAR O JORDÃO
A exortação inicial é: tome a decisão de cruzar o Jordão,
pois essa é a primeira coisa que você precisa fazer. Lembro-
me de uma amiga psicanalista dizer-me: “Antônio, eu estou
cansada de lidar com pessoas doentes que não procuram a
cura!”. Você precisa tomar a decisão de cruzar o Jordão, de
dar uma chacoalhada em sua vida, de amanhecer diferente,
de poder dizer: “Quando o Senhor trouxe os cativos de volta
a Sião, foi como um sonho” (Sl 126:1).
Aqui, porém – e é importante que eu faça esta ressalva
–, é necessário traçarmos a linha tênue, porém definida e
clara, que separa a esperança cristã genuína daquilo que
muitos chamam de triunfalismo. Por um lado, precisamos
ter nossa esperança bem firmada na Palavra de Deus e crer
que Ele opera milagres. Por outro lado, não podemos esperar
nesta vida por aquilo que só teremos no céu. Devemos
compreender que jamais ficaremos livres de todos os
espinhos neste mundo. Contudo, a Bíblia indica que há
espinhos que podem vir a ser removidos por Deus, e, assim,
em lugar de o crente ouvir: “Minha graça te basta”, ouvir:
“Tua fé te salvou”. Spurgeon afirmou: “Gostemos ou não,
pedir é a regra do Reino”33. Richard Foster, em seu excelente
Oração refúgio da alma, ressalta uma verdade comovente:
É aqui onde devemos ver o coração de Deus, Abba. Em
um sentido importante, nada é mais especial para Ele
que a ansiedade que sentimos pela intervenção cirúrgica
que teremos amanhã, o enfado que sentimos hoje por
causa da irresponsabilidade dos filhos e o desespero que
sentimos pelo mau estado de nossos pais idosos. Estes
são assuntos de grande magnitude para Ele porque têm
grande importância para nós.34
Penso que, apesar de conhecer essas verdades sobre o
poder e o amor de Deus, muitos construíram uma torre do
lado de cá do Jordão e estão a olhar a terra da promessa com
uma enorme frustração no coração. Responda-me: isso
ocorre com você ou não?
Josué e o povo de Israel, pela direção divina, chegaram à
conclusão de que era o esperado momento de atravessarem o
Jordão, apesar de ser a época em que o rio estava mais cheio.
O Jordão resulta do degelo do monte Hermon, que fica no
norte de Israel, junto ao Líbano. O Hermon passa pelo
processo de degelo, inunda o rio Jordão, que vai descendo
pelo território de Israel até desaguar no mar da Galileia, 200
metros abaixo do nível do mar. Mais adiante, o Jordão se
afunila ao sul, retoma seu curso e vai descendo até as águas
do mar Morto, a 400 metros abaixo do nível do mar. O
degelo do monte Hermon, que ocorreu na épocaem que o
povo de Israel iria passar pelo Jordão, fez com que o rio
transbordasse. Mas não havia tempo para esperar. O rio
estava ali, mas entre o povo e o rio estava um Deus Todo-
Poderoso que não poderia deixar de cumprir Suas
promessas.
Essa cena maravilhosa permite-nos afirmar: na hora em
que as promessas divinas estão para se cumprir, geralmente
os obstáculos parecem ficar mais fortes, maiores e mais
vividamente intransponíveis do que nunca. Trata-se de um
“fenômeno” interessante que muitos cristãos têm
testemunhado. E, por causa da aparência assustadora do que
está a sua frente, muitos pensam que ali se consumará sua
completa derrota. Por isso, essa situação deve gerar em nós
a seguinte pergunta: por que Deus orientou o povo de Israel
a atravessar o rio Jordão justamente no período do degelo do
Hermon, com o rio, então, alcançando o ápice de sua força?
Afirmo, sem medo de errar, que Deus assim o fez para que
toda a glória fosse dada a Ele. E o mesmo princípio se opera
quando nós temos de atravessar o transbordante Jordão de
nossa vida!
Pense em algumas dificuldades pelas quais você passou
ou tem passado. Por que ninguém lhe estendeu a mão? Por
que o concurso foi adiado? Por que justamente naquele
momento tão importante você caiu de cama? Por que aquele
em quem você tanto confiava o traiu? Por que sempre suas
conquistas são muito suadas? Por que para os outros tudo
parece tão fácil e simples, mas, para você, é tudo tão difícil, quando
não impossível? Não se desespere: isso não ocorre só com
você. Os exemplos que eu dei – e tenho certeza de que você
se identificou com vários deles – são autobiográficos.
Então, você me pergunta: “Por que tem de ser assim?”.
A única resposta que encontro no Livro Santo de Deus é:
“Porque este é o método divino!”. Deus sempre age de
maneira que venhamos a dar a Ele toda a glória. A Bíblia e a
história da Igreja confirmam que as vitórias que não foram
fáceis de serem alcançadas encheram os servos de Deus que
as receberam de muita gratidão, pois viram que, sem sombra
de dúvida, se não fosse a mão soberana de Deus, jamais
teriam chegado aonde chegaram. E enxergar a vida dessa
óptica só é possível porque Deus trabalhou o tempo inteiro
na vida deles, fazendo com que a dependência da Sua
misericórdia ficasse claramente estampada. A Ele, pois, toda
honra, toda glória e todo louvor!
É exatamente por isso que o povo de Israel tinha de
atravessar o Jordão em meio a toda aquela dificuldade. Eis
porque você não pode fitar os olhos nas barreiras. Se seu
Jordão mais se parecer com o Amazonas, ainda assim você
pode ter certeza de que isso ocorre por causa da vontade
permissiva de Deus. Nada escapa ao controle de Deus. Na
verdade, dizer que as coisas acontecem pela vontade
permissiva de Deus, dependendo da forma como o fato é
apresentado, pode representar o ensino de uma péssima
teologia. Não cai um fio de cabelo de nossa cabeça fora do
âmbito da vontade de Deus. De fato, falar em vontade
permissiva é um eufemismo teológico, pois o que Ele
permite que aconteça inevitavelmente acontece por causa da
Sua vontade soberana. O que Deus permite é o que Ele
decretou. O que Ele decretou, assim o fez por amor.
Bem, a que conclusão chegamos com tudo o que vimos?
Inicialmente, precisamos considerar que a vida cristã é
caracterizada por travessias constantes. Sempre há uma
promessa a ser alcançada e, ao mesmo tempo, um obstáculo
a ser vencido. Podemos dizer que a providência divina nos
coloca diante de ambos, tanto diante daquilo que é bom
quanto daquilo que é aparentemente obra do maligno. Não
podemos ficar parados, melancolicamente olhando para as
promessas de Deus além das dificuldades, enquanto
permanecemos na passividade. Jamais devemos ver a crença
num Deus soberano como um estímulo para uma maneira
passiva de viver; pelo contrário, é justamente Sua soberania
que nos faz crer que nossos esforços são úteis na medida em
que se harmonizam com a vontade de Deus. Agindo Deus,
quem O impedirá? (Is 43:13).
PREPARE-SE PARA CRUZAR O JORDÃO
A segunda exortação é: prepare-se para cruzar o Jordão.
Além de toda a preparação apresentada no primeiro capítulo
de Josué, restaram ainda alguns acertos finais a serem
feitos. Nós também; depois de respirar fundo e de tomar a
decisão de atravessar o Jordão, o que devemos fazer quando,
de fato, estamos ali, encarando o obstáculo e tendo de
vencê-lo?
Crendo nas promessas
Primeiro, traga mais uma vez as promessas de Deus à
sua memória. Não dê um passo sequer sem antes meditar no
que Ele lhe prometeu. A promessa é que Deus fará
maravilhas em sua vida. Então, vá em frente, na certeza de
que não há obstáculo que possa impedir o cumprimento de
uma só promessa que Deus tenha para Seu povo. Veja o que
o texto sagrado diz:
Sucedeu, ao fim de três dias, que os oficiais passaram
pelo meio do arraial, e ordenaram ao povo, dizendo:
“Quando virdes a arca da aliança do Senhor vosso Deus,
e que os levitas sacerdotes a levam, partireis vós
também do vosso lugar, e a seguireis”.
Este chamado era para o povo seguir a arca da aliança e
partir na direção do Jordão. Veja a continuação da passagem,
nos versos 10 a 13:
Disse mais Josué: “Nisto conhecereis que o Deus vivo
está no meio de vós, e que de todo lançará de diante de
vós os cananeus, os heteus, os heveus, os ferezeus, os
girgaseus, os amorreus e os jebuseus. Eis que a arca da
aliança do Senhor de toda a terra passa o Jordão diante
de vós. Tomai, pois, agora, doze homens das tribos de
Israel, um de cada tribo; porque há de acontecer que,
assim que as plantas dos pés dos sacerdotes que levam a
arca do Senhor, o Senhor de toda a terra, pousem nas
águas do Jordão, serão elas cortadas, a saber, as que vêm
de cima, e se amontoarão”.
O povo partiu com base na Palavra do alto que viera por
intermédio de Josué. Creu de todo o coração que o que estava
sendo falado era promessa de Deus. Calvino faz um elogio à
fé do povo de Israel neste ponto da história:
Enquanto eles eram mantidos em suspense, sua fé era
outra vez passada por um sério teste; porque foi um
exemplo de rara virtude dar obediência implícita para a
ordem, e assim seguir a arca, enquanto eles estavam
obviamente desinformados quanto ao resultado. Esta, de
fato, é a especial característica da fé: não inquirir
curiosamente o que o Senhor está para fazer nem
disputar sutilmente como o que Ele declara que pode ser
feito, mas lançar todos os cuidados sobre Sua
providência, e conhecendo que o Seu poder, sobre o qual
podemos descansar, é ilimitado, para que assim
possamos levantar nossos pensamentos acima do
mundo, e abraçar pela fé o que nós não podemos
compreender pela razão.35
Devemos viver assim, baseados nas promessas de Deus.
Na promessa, por exemplo, de que se confessarmos nossos
pecados, receberemos perdão; na promessa de que, se
buscarmos a Deus, Ele se revelará a nós. Na promessa de
que, se ansiarmos pelo Espírito de Deus, nossa sede será
saciada; na promessa (muitas vezes vista como maldição) de
que aquilo que semearmos haveremos de colher, ou na
promessa de que, se resistirmos aos demônios, eles baterão
em retirada. É assim que devemos viver e cruzar o Jordão:
alicerçados na Palavra de Deus. Como ensina Bunyan em O
peregrino, ao comparar as promessas de Deus a uma chave
que é capaz de abrir qualquer cadeia. São as promessas de
Deus que nos tiram da prisão do “castelo da dúvida” e nos
livram das mãos do “gigante desespero”.36
Ajustando-se espiritualmente
Prepare-se para cruzar o Jordão crendo nas promessas e
ajustando-se espiritualmente também. Veja a instrução no
verso 5: “Disse Josué ao povo: ‘Santificai-vos porque
amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vós’”. O jovem
comandante ordena ao povo que se santifique. Por que ele
faz essa exortação? Deus não pode abençoar Seu povo
quando este não está corretamente relacionado com Ele.
Deus não abençoa quem, apesar de ser destemido, não
procura agradá-Lo. Coragem sem santidade é presunção.
Devemos nos preparar espiritualmente, também porque,
sem estarmos num correto relacionamentocom Deus,
ficamos impossibilitados até mesmo de crer no milagre.
Nossa estrutura é frágil e não somos páreo para o Jordão.
Frequentemente temos de encarar obstáculos que são,
humanamente falando, intransponíveis. O que nos faz viver
de modo corajoso, crendo na possibilidade das maiores
barreiras serem rompidas, é o Deus a Quem servimos.
Conhecê-Lo é fundamental. Como poderemos, contudo,
conhecer ao nosso Deus enquanto as lentes do nosso coração
estiverem embaçadas pelo pecado? Foi o Senhor Jesus quem
disse: “Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a
Deus” (Mt 5:8). Quem tem essa percepção crê que, de fato,
os mortos podem ressuscitar, que Golias pode ser derrotado
e que o Jordão pode ter as águas refreadas. É por isso, entre
outras coisas, que o texto diz: “Santifique-se, porque
amanhã o Senhor fará maravilhas”.
Ouvindo a voz de Deus
Prepare-se para cruzar o Jordão crendo nas promessas,
ajustando-se espiritualmente e, por fim, ouvindo a voz de
Deus: “Então disse Josué aos filhos de Israel: ‘Chegai-vos
para cá, e ouvi as palavras do Senhor vosso Deus’ ”. No verso
9, Josué chama o povo para ouvir a voz de Deus, o que
claramente indica que precisamos de Sua orientação bem
como de Sua Palavra, a qual revela Seu caráter e garante o
cumprimento das Suas promessas.
Quando a Palavra de Deus é proclamada passamos a sonhar
novamente! É ela que nos encoraja, que nos dá esperança, que
restaura nossos sonhos, que nos tira do ceticismo. A Palavra de
Deus! Os cristãos têm entendido, há dois mil anos, que não podem
abrir mão do culto público, pois é nas horas em que ouvimos a
palavra de Deus que nos sentimos guindados a uma torre mais
alta, fora do alcance de nossos adversários.
Deixe-me dar-lhe um conselho bastante simples, o qual,
porém, poderá ajudá-lo a resolver certos problemas com outra
atitude mental e novo estado de coração: sempre leia a Bíblia
antes de agir. Você perceberá que, mesmo que não venha a ler um
texto que se aplique diretamente ao seu problema, a simples
leitura da Bíblia comunicará a sua alma a serenidade necessária
para o enfrentamento das dificuldades. Não é que ela o
“enlevará”, mas trará à sua memória a certeza de que Deus é real
e este mundo é governado por Ele. Isso o predisporá a esperar
aquilo que só um homem com a mente cheia das verdades bíblicas
pode aguardar da vida.
FINALMENTE, CRUZE O JORDÃO!
Talvez você esteja pensando: “Deus está me pedindo o
impossível! Este rio vai levar meus bens mais preciosos! Não
dá para atravessá-lo com tudo o que tenho! Se eu tiver de
pedir perdão ao meu marido, vou me rebaixar... e onde ficará
minha dignidade de mulher? Se for pedir aumento ao meu
chefe, como ele reagirá? O que a minha família pensará de
mim, caso eu não passe nesse concurso público? Se eu der
essa guinada na minha vida profissional e fracassar, o que os
meus amigos vão dizer?” Esses são alguns dentre tantos
outros raciocínios que exemplificam o fato de muitas
pessoas pensarem que a travessia do Jordão vai representar
o fim de sua vida.
Mas, amigo, se ouvimos a voz de Deus, se Ele nos
orientou a cruzar o Jordão, a nós nos cabe apenas caminhar
na sua direção, na certeza inabalável de que o Senhor
proverá o modo de chegarmos a salvo do outro lado. O que
fazer, então, quando as águas do rio já molham nossos pés?
Como transpor o rio?
Dê o primeiro passo
Como cruzar o Jordão? Comece dando o primeiro passo.
A história toda da travessia começou quando alguém do povo
colocou o pé no rio. Qual é, então, o passo inicial que você
está precisando dar? Pense em tudo, em todas as áreas da
sua vida, desde o desejo de aprender a tocar violão, de falar
um novo idioma... até o de ser cheio do Espírito Santo. Qual é
o primeiro passo que precisa ser dado? Então, dê!
Posso sugerir-lhe algo mais? Talvez você nunca tenha
participado de uma destas reuniões que visam a levar
executivos a alcançar grandes metas. Há um conselho que
esses “gurus” dão e que é muito bom. Qual é o conselho? Dê
o passo inicial de acordo com a grande meta final. Isso
significa que você deve, primeiramente, estabelecer sua
meta. Depois, divida em etapas tudo o que você tem de fazer
para alcançá-la. E aí, dê o primeiro passo. Simples, não?
Lendo o livro 4 das Institutas de João Calvino, atentei
para o fato de o grande reformador destacar a importância
de, na vida espiritual, fazermos votos na presença de Deus,
votos que se relacionem a áreas de nossa vida em que somos
fracos, com o propósito de nos fortalecermos e criarmos
hábitos de santidade: “Vê alguém que é particularmente
inclinado a certo vício, de sorte que em coisas de outra sorte
tão má se não possa conter sem que de pronto descambe
para o mal, nada absurdo fará se, com voto, a si corte por
algum tempo o uso desta cousa”.37
Veja ainda a exortação de Thomas de Kempis: “Peleja
varonilmente; hábito com hábito se vence”.38 Por exemplo,
se seu problema é com o que costuma sair dos seus lábios,
estabeleça o voto de ficar pelo menos uma semana sem falar
mal de ninguém. Nem mesmo se a pessoa merecer! Faça o
voto de não se exaltar mais na frente dos outros. Se algo de
bom tiver de ser proferido sobre você, que não seja por meio
de seus próprios lábios, e, sim, dos de outros. Mais uma vez
vale a pena citar Thomas de Kempis: “Nunca desejes ser
louvado e amado singularmente; porque isto somente
pertence a Deus, que não tem igual”.39 Não use mais suas
conversas somente para falar de suas próprias realizações.
Fale menos e ouça mais. Caso contrário, você viverá a
história do homem que, numa conversa com um amigo, após
passar a maior parte do tempo falando sobre si mesmo,
virou-se para seu interlocutor e perguntou: “Bom, amigo,
chega; já falei demais sobre mim mesmo. Agora quero ouvir
você. O que pensa a meu respeito?”.
Encorajo você a sair da inércia. O primeiro passo tem um
valor incalculável pelo simples fato de ser o movimento
inicial depois de, quem sabe, anos de imobilidade. Às vezes,
o primeiro é o mais difícil de todos; porém, após sua
execução, o próximo já virá com o sabor de que algo mais
ficou para trás, que você já está se movendo, que a coisa não
é tão desesperadora ou difícil assim. E o que ocorre depois?
Meu amigo, o próprio Deus se manifesta com poder!
Olhe para a história daquela gente à beira do Jordão. Um
dia, começaram a ir para perto da ribanceira do rio. Em certo
momento, ali pararam, olharam para frente – as águas
revoltas – e para trás – o povo, mais de dois milhões de
pessoas. Será que havia algum murmurador? Será que houve
alguém que exclamou: “Isso é loucura”? Mas era preciso dar
o primeiro passo. Então, alguém colocou o pé no rio. E,
nesse exato instante, Aquele que é socorro e fortaleza,
auxílio bem presente na tribulação, se manifestou: as águas
do rio se estancaram! Por isso, dê o primeiro passo. Agora!
Fixe os olhos em Deus
“Sucedeu, ao fim de três dias, que os oficiais passaram
pelo meio do arraial, e ordenaram ao povo, dizendo: ‘Quando
virdes a arca da aliança do Senhor vosso Deus, e que os
levitas sacerdotes a levam, partireis vós também do vosso
lugar, e a seguireis’”. A orientação foi clara: “Não tirem os
olhos da arca da aliança”. Por quê? Porque não cabia ao povo
olhar para o Jordão, e, sim, olhar para o Senhor com os Seus
recursos inexauríveis, representados ali pela arca. Um
exemplo notável desse exercício espiritual encontramos na
vida do apóstolo Pedro que somente começou a afundar nas
águas do mar da Galileia quando desviou os olhos do Senhor
Jesus e os fixou na força do vento e das ondas (Mt 14:30).
O Cristianismo não consiste apenas na prática de jejum e
oração; ele exige do homem e da mulher o uso de todas as
faculdades mentais. Se há alguém neste planeta que usa a
mente, essa pessoa é o crente – aquele que conheceu o
conteúdo das Sagradas Escrituras e a ele se submeteu. Nós
encontramos Deus nos chamando para o uso da mente em
todo o Antigo e Novo Testamento. A atitude tomada pelo
povo de Israel foi basicamente mental: andar olhando para a
arca, pois ela trazia à memória de Israel a aliança divina. Àsvezes oramos, jejuamos, mas continuamos num estado
psicológico deplorável quando poderíamos estar gozando
plenamente de grande liberdade espiritual. Isso ocorreria se
tão somente mantivéssemos o olhar fixo no Senhor e em
Seus recursos insondáveis. Não posso deixar de mencionar o
que Martyn Lloyd-Jones fala sobre o papel da reflexão na
vida cristã. Ele está tratando do tema santificação, mas o que
afirma aplica-se de modo perfeito à nossa presente
consideração:
No entanto, que dizer se um crente falar da sua
fraqueza, da sua falta de poder? A resposta a isso é que,
como criatura regenerada, um ser nascido de novo, ele
tem o poder. Se o Novo Testamento nos manda fazer
uma coisa, acertadamente podemos esperar receber do
Senhor o poder para fazê-la, e, por conseguinte, não há
desculpa neste ponto. Esta questão é muito sutil,
portanto, deixem-me expô-la da seguinte maneira:
minha opinião é que, muitas vezes por orarem sobre
uma questão como esta, as pessoas, longe de resolver os
seus problemas, simplesmente os aumentam, pois oram
com espírito de temor. Dizem elas: sinto-me tão fraco,
nada posso fazer. E oram pedindo que sejam libertas
disso, em vez de atirá-lo para longe! A maneira de
solucionar este problema não é orar; é pensar e aplicar o
ensino e a doutrina do apóstolo para despojar-se do
velho homem.40
Jamais tire os olhos da arca da aliança – olhe fixamente
para o Senhor! Você está procurando a restauração no
casamento? Então, não olhe apenas o coração duro de seu
cônjuge nem os ressentimentos de seu próprio coração.
Antes, olhe para o Senhor, para Aquele que gera amor,
perdão, Aquele que nos ensina a ser gente! Você está vivendo
um período difícil em sua vida profissional, vendo-se diante
da possibilidade de ter uma alteração significativa do
orçamento da família? Se é esse o caso, não olhe apenas para
a economia do país nem para o coração duro do seu chefe –
olhe para o Senhor! Não tire os olhos Dele em circunstância
alguma! Tem você o sonho de ser usado pelo Senhor? Deseja
ver Deus usando cada célula do seu corpo para glorificar Seu
nome, mas, ao mesmo tempo, sente-se intimidado por seus
pecados, vícios, enfermidades? Olhe para Aquele que cura. O
Salmo 103 diz: “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o
que há em mim bendiga ao Seu santo nome [...]. Ele é quem
perdoa todas as tuas iniquidades; quem sara todas as tuas
enfermidades”.
Pense agora em sua vida intelectual, nos cursos que
pode fazer, os idiomas que pode dominar, os livros que pode
ler. Deus quer que a sua vida intelectual seja expandida.
Pense em seu casamento. Será que sua frustração não
resulta do fato de você esperar do cônjuge aquilo que só o
Senhor Jesus pode lhe dar? Não há homem ou mulher capaz
de saciar plenamente nossa sede de amor – só o Senhor.
Qual é a decisão que você deve tomar em relação a isso?
Pense na sua vida profissional. Há algum concurso, alguma
especialização que você possa fazer? Pense em seu
ministério. Para que Deus chamou você? Qual é o povo que
você deve atingir? Pense na sua alma: quais são os pecados
que a estão destruindo? Você perdeu o primeiro amor por
Deus? Ou será que algum dia realmente O amou? Qual é o
Jordão da sua alma? Qual é a sua dor? Qual é a amarra do
passado que faz com que você não viva o presente? É tempo
de cruzar o rio, de vencer o obstáculo, de avançar!
É importante destacar o que houve em especial com
Josué e com os sacerdotes em meio àquele milagre que
afetou tanta gente. A Josué, Deus revelou que chegara o
momento de engrandecê-lo: “Então, disse o Senhor a Josué:
‘Hoje começarei a engrandecer-te perante os olhos de todo o
Israel, para que saibam que, como fui com Moisés, assim
serei contigo’”. Sim, eis a hora de, depois de anos de espera,
Deus usar-nos de modo especial. E aqui só conta a
providência – não há nada que o homem possa fazer. É Deus
quem soberanamente decide engrandecer um servo Seu.
Quantas lições disto advêm! Às vezes, num único dia, as
coisas mudam de tal maneira em nossa vida que ficamos
assombrados. Foi o que Ele fez com Josué: a partir daquele
dia, milhares de pessoas honrariam Josué, não por ele ser
alguém especial, mas por Deus estar com ele.
Mas a experiência dos sacerdotes de Israel não fica atrás
em beleza. Nós os vemos parados, ali no meio do rio com as
águas estancadas: “Os sacerdotes que levavam a arca da
aliança do Senhor pararam firmes no meio do Jordão, e todo
Israel passou a pé enxuto, atravessando o Jordão”. Que
exemplo de fé! E que imagem bela que nos faz pensar em
Deus poder nos usar dessa forma também: deter algo que
pode destruir a vida de milhares. Quem sabe você será o
homem que destruirá o que tenta impedir que vidas sejam
salvas e alcancem o propósito de Deus? Conta-se que o ex-
sapateiro pobre inglês, que veio a ser chamado de Pai das
Missões Modernas, William Carey, quando apresentou suas
ideias de se evangelizarem os povos pagãos, ouviu de certo
ministro: “Jovem, sente-se. Quando Deus quiser converter
os pagãos, Ele o fará sem a sua ajuda ou a minha”. Veja o
relato de Ruth Thucker sobre a resposta de William Carey à
indiferença missionária dos ministros ingleses:
Mas Carey recusou calar-se. Na primavera de 1792, ele
publicou um livro de 87 páginas que teve consequências
de longo alcance e tem sido comparado às 95 teses de
Lutero em sua influência sobre a história cristã. O livro
Uma inquirição sobre a responsabilidade dos cristãos em
usarem meios para a conversão dos pagãos apresentava
muito bem a defesa das missões estrangeiras e
procurava minimizar os argumentos que dramatizavam
a impossibilidade de enviar missionários a terras
distantes. Depois de publicar o livro, Carey falou a um
grupo de ministros numa Associação Batista em
Nottingham, onde desafiou a audiência por meio de
Isaías 54:2, 3 e pronunciou sua famosa sentença:
“Espere grandes coisas de Deus; tente grandes coisas
para Deus”. No dia seguinte, em grande parte devido à
sua influência, os ministros decidiram organizar uma
nova junta de missões, que se tornou conhecida como
Sociedade Batista Missionária.41
Carey estancou o fluxo de um rio de indiferença com a
obra missionária, possibilitando, assim, a conversão de
milhares de pagãos.
Quero, para terminar, relembrar as três exortações, que
faço a mim e a você: tome a decisão de cruzar o Jordão,
prepare-se para cruzar o Jordão e passe o Jordão sem tirar os
olhos do Deus que tem uma aliança comigo e com você!
Ó amado irmão, o Espírito de Deus – com temor digo
isso – está chamando a cada um de nós para a verdadeira
vida. Não construa uma torre de observação do lado de cá do
Jordão, mas atravesse-o. Agora. Dê o primeiro passo. “A
esperança que se retarda deixa o coração doente, mas o
anseio satisfeito é árvore de vida.” (Pv 13:12)
IV
O PRÍNCIPE DO EXÉRCITO DO SENHOR
Estando Josué já perto de Jericó, olhou para cima e viu um homem de pé,
empunhando uma espada. Aproximou-se dele e perguntou-lhe: “Você é
por nós, ou por nossos inimigos?”.
“Nem uma coisa nem outra”, respondeu ele. “Venho na qualidade de
comandante do exército do Senhor.” Então Josué prostrou-se, rosto em
terra, em sinal de respeito, e lhe perguntou: “Que mensagem o meu
senhor tem para o seu servo?”.
O comandante do exército do Senhor respondeu: “Tire as sandálias dos
pés, pois o lugar em que você está é santo”. E Josué as tirou. Jericó estava
completamente fechada por causa dos israelitas. Ninguém saía nem
entrava.
Então o Senhor disse a Josué: “Saiba que entreguei nas suas mãos Jericó,
seu rei e seus homens de guerra.
Marche uma vez ao redor da cidade, com todos os homens armados. Faça
isso durante seis dias.
Sete sacerdotes levarão cada um uma trombeta de chifre de carneiro à
frente da arca. No sétimo dia, marchem todos sete vezes ao redor da
cidade, e os sacerdotes toquem as trombetas.
Quando as trombetas soarem um longo toque, todo o povo dará um forte
grito; o muro da cidade cairá e o povo atacará, cada um do lugar onde
estiver”. ( Js 5:13-15 – 6:1-5 )
Estamos agora em um momento muito importante na
história deIsrael: o povo acabou de cruzar o rio Jordão, o
deserto ficou para trás e todos estão com os pés postos na
terra da promessa – na Canaã que manava leite e mel.
Consequentemente, entramos nós também em uma nova
fase em nossas mensagens.
Uma das provas de que uma nova fase havia sido
inaugurada foi o término da queda do maná que, durante
tanto tempo, havia sustentado o povo de Deus na
peregrinação no deserto. A partir de agora, Israel passaria a
comer das novidades da terra de Canaã. O anseio de 700 anos
estava-se realizando naquele dia. O povo hebreu podia ver
diante de si o cumprimento da promessa feita por Deus a
Abraão. “Sendo assim, as lutas terminaram, certo?” Eis aí
uma grande surpresa: as lutas não terminaram. Na verdade,
frequentemente bênçãos preciosas que recebemos nos
remetem para novos conflitos. A vida é assim. Lembre-se de
que vivemos num mundo caído, que se encontra debaixo da
ira de Deus. Como muito bem nos lembra Thomas de
Kempis: “É de vantagem que passemos, de quando em
quando, por algumas aflições e contrariedades; porque
sempre fazem que o homem entre em si mesmo e reconheça
que vive no exílio e não deve colocar sua esperança em coisa
alguma deste mundo”.42 Mais adiante, no capítulo intitulado
“Da Resistência às Tentações”, declara: “Acabada uma
tribulação ou tentação, logo vem outra e sempre teremos
alguma coisa que sofrer; porque perdemos o dom da
primitiva felicidade”.43 Veremos, então, que os israelitas
tiveram de enfrentar terríveis adversários. E, agora, nesse
ponto da história, chegara a hora do confronto inicial. Qual
era a situação de Josué?
Josué estava vivendo um momento dramático do seu
ministério. Esta seria sua primeira batalha em Canaã. Havia
milhares de pessoas sob o seu comando, e o inimigo agora
não era mais o impessoal rio Jordão, mas adversários de
carne e osso, os habitantes de Jericó, o que era muito pior. O
rio Jordão ficara para trás e não havia mais retorno. Vendo o
quadro todo do ponto de vista da ação sobrenatural de Deus,
o rio havia se estabelecido num obstáculo intransponível
caso o povo desejasse retornar a fim de fugir da guerra. Só
lhe cabia avançar. Assim deve-se viver a vida cristã: uma vez
tendo posto a mão no arado não se deve voltar atrás (Lc
9:62).
Nos capítulos anteriores, eu lhe falei sobre a necessidade
de encararmos o nosso Jordão pessoal, de enfrentarmos
nossos obstáculos; disselhe que a vida não é um ensaio, são
80 anos que passam como um sonho, e não podemos
construir uma torre do lado de cá do rio somente a
contemplar a terra da promessa. Espero em Deus que você já
tenha tomado a decisão de cruzar o Jordão. Muitos há que já
cruzaram uma série de “jordões” pessoais no passado. Isso é
muito bom! Mas o problema, para alguns, é que, quando têm
de encarar os habitantes de Jericó, os cananeus com toda a
sua maldade, têm vontade de cruzar o Jordão no sentido
contrário. Muitos, por exemplo, testemunham que após a
conversão sua vida piorou e passaram a enfrentar problemas
que não existiam no passado. Não são poucos os que, como
os crentes de Tessalônica, “receberam a palavra com alegria
que vem do Espírito Santo” (1 Ts 1:6). Estes, então, ao
compreender que a conversão não é o recebimento de um
pijama para dormir, mas de uma armadura para ir à arena,
têm vontade de voltar atrás e pensam: “Ah, o Egito oferecia
mais tranquilidade e segurança... apesar da escravidão”. No
entanto, assim como Josué, nós temos de avançar. A posse
de Canaã é nosso destino.
Nosso Deus é um Deus fiel, e este é justamente o
atributo que mais se destaca no livro de Josué, como já
mencionei várias vezes. Começamos esta série de estudos
dizendo que, naqueles dias de Josué, Deus estava cumprindo
uma promessa feita há 700 anos ao Seu povo. Quanta
fidelidade! E o mesmo Deus, em Sua fidelidade, à luz de
Josué 5, não deixou de se revelar ao Seu servo num dos
momentos mais difíceis de sua jornada como líder espiritual
e comandante das tropas de Israel. Lá estava Josué
substituindo o maior profeta de Israel, tendo dois milhões e
meio de pessoas sob o seu comando e vendo-se agora na
necessidade de travar sua primeira batalha. É bem verdade
que o espantoso milagre da travessia do Jordão já acontecera
– só que agora Josué se depara com as intransponíveis
muralhas de Jericó, a cidade fortificada de uma nação
inimiga que precisava ser desalojada da terra da promessa.
Foi exatamente nesse contexto de luta e dificuldade que
Deus se revelou a Josué, trazendo encorajamento ao seu
coração, preparando-o, assim, para o conflito.
Meu desejo é lhe falar sobre o Deus que nos prepara para
a batalha. O Cristianismo não é romântico, como pensam
alguns. Há alguns pregadores que, infelizmente, apresentam
mensagens que não preparam seus ouvintes para a
verdadeira vida de fé. Por que isso ocorre? Porque são
mensagens que não falam sobre quanta dor os jordões, os
cananeus e as muralhas que temos de enfrentar ao longo da
vida podem nos causar. O Deus cristão não ensina Seu povo
apenas a amar, a ser santo e piedoso; o Deus cristão ensina
Seu povo a guerrear também. Nessa guerra, o inimigo é o
mal, o campo de batalha é o mundo e as armas da milícia são
espirituais (2 Co 10:4).
“Ele treina as minhas mãos para a batalha e os meus
braços para vergar um arco de bronze.” (Sl 18:34) Foi o que
Davi disse de sua própria experiência, e isso pode se aplicar
à força e à habilidade espirituais de que carecemos para
fazer a vontade de Deus em nossa vida. Esta é a grande
verdade que emerge do texto bíblico que estamos estudando:
Deus prepara Seu amado povo para a batalha. Estou,
evidentemente, falando de uma guerra realmente santa,
aquela em que todo cristão está envolvido. Que é um cristão?
Uma boa definição é dizer que cristão é alguém que fugiu do
cativeiro inimigo. Ele foi transportado de um reino para
outro, e agora tem de viver no território que,
temporariamente, está sob a tremenda influência de um
terrível tirano – seu antigo senhor –, mas disposto a
submeter-se somente ao seu novo Rei. Como diz Thomas
Brooks no clássico Preciosos remédios contra os ardis de
Satanás:
Satanás é bastante invejoso da nossa condição, que
vamos desfrutar de um paraíso do qual ele é lançado
fora, e fora do qual será mantido para sempre... Satanás
vigia toda oportunidade para quebrar nossa paz, ferir
nossa consciência, diminuir nossos confortos,
enfraquecer nossas graças, desprezar nossas evidências,
e extinguir nossas seguranças.44
Isso implica andar num campo minado, viver num
mundo onde há serpentes em todo lugar pelo qual
caminhamos e ter de ser cordeiro num planeta de lobos.
Penso que tudo isso implica também a necessidade de
aprendermos urgentemente a viver de fato. Sim, aprender a
viver. Pois como haveremos de sobreviver a tudo isso? Viver
num mundo onde inexoravelmente se caminha para a
velhice e a morte já não é tarefa fácil. A Bíblia, porém, revela
que há forças malignas neste mundo que trabalham para nos
levar a todo tipo de derrota e, em especial, à derrota maior: a
perda de nossa comunhão com Deus. Mais uma vez cito
Thomas Brooks:
Este mundo, este deserto, está cheio de ciladas, e todos
os trabalhos estão cheios de ciladas, e todas as diversões
estão cheias de ciladas. Em coisas civis, Satanás tem
suas ciladas para nos enredar; e em todas as coisas
espirituais, Satanás tem suas ciladas para nos pegar.
Todos os lugares estão cheios de ciladas, cidade e
campo, loja e aposento particular, mar e terra; e todas as
nossas misericórdias estão cercadas de ciladas.45
Deus, em Sua imensa compaixão, nos prepara para a
batalha, e uma das formas de preparação é dar-nos direção
por meio de Sua Palavra. Que bênção são esses registros do
Antigo Testamento! Que bênção é o livro de Provérbios! Esse
livro é um verdadeiro manual de como viver com sabedoria e
glorificar a Deus, mas não apenas isso, trata-se também de
um verdadeiro manual de como evitar problemas! Como
lemos no capítulo 2:6-8:
“Porque o Senhor dá a sabedoria, da Sua boca vem a
inteligência e o entendimento. Ele reserva a verdadeira
sabedoriapara os retos e o escudo para os que caminham na
sinceridade, guarda as veredas do juízo e conserva o
caminho dos Seus santos”.
Bom, mas vamos voltar ao ponto que estávamos
apresentando: como Deus nos prepara para a batalha? À luz
do modo como Deus preparou Josué para sua primeira
grande luta, podemos extrair os seguintes princípios.
DEUS NOS PREPARA PARA A BATALHA
Mostrando-nos quão próximo está daqueles que O amam
Lá estava Josué, aos pés de Jericó. Diz a Bíblia que,
naquele cenário desanimador, Deus, por causa de Sua
infinita misericórdia, ao contemplar as aflições, dúvidas e
temores do coração de Seu servo, revelou-se a ele. Esse fato
me traz à memória a promessa do Senhor Jesus feita em
Mateus 28, “Eis que estou convosco todos os dias até a
consumação dos séculos”, e também a gloriosa passagem
que nos fala da tribulação que os discípulos de Jesus tiveram
de enfrentar no mar da Galileia. Em meio à tempestade, o
barco em que eles estavam quase virava, mas, do monte, o
Senhor Jesus via Seus discípulos em dificuldade a remar –
não lhes era indiferente (Mc 6:48). Por isso, Deus revelou-se
ao Seu servo, pois podia contemplar o peso que estava sobre
o coração do comandante das tropas de Israel. Temos um
Deus que em nenhum momento tira os olhos de nossa vida.
Antes, Ele conhece cada estágio dela.
Você já tomou conhecimento da gloriosa verdade de que
Deus sabe o ponto em que se encontra em sua jornada
espiritual? É comovente poder responder, com base no livro
de Josué, que Deus sabe. Deus conhecia perfeitamente o
ponto em que Josué se encontrava em sua jornada e no
cumprimento da missão que lhe dera.
Como as coisas se alteram tão rapidamente em nossa
vida! E quando abrimos os olhos, estamos vivendo situações
que exigem uma maturidade maior, um novo poder ou até
mesmo novos dons. Deus, em Sua compaixão infinita, sabe o
ponto em que nos encontramos em nossa peregrinação,
quais os desafios que estão diante de nós, quais tentações
enfrentamos, as novas dúvidas que nos assaltam e os
recursos de que carecemos para que Seu nome seja
glorificado – já que nosso maior temor não é sofrer, e, sim,
não O exaltar, quer com a vida, quer com a morte. Às vezes,
o peso espiritual aumenta por força do próprio
desenvolvimento de nossa comunhão com Deus.
Paradoxalmente, em certo sentido, sofremos mais. O que
não nos incomodava no passado, hoje é um peso
insuportável. O pecado tornou-se mais repugnante e Deus,
mais digno de ser amado aos nossos olhos. Ambas as
sensações nos fazem crer que nos tornamos piores, embora
nunca tenhamos estado tão próximos do centro da vontade
de Deus.
E então, o que surge depois disso? A dor da fome e da
sede. Você tem ideia do que seja sentir essa espécie de dor?
Essa foi a forma encontrada pelo Senhor Jesus para
expressar o anseio daquele que, com um coração humilde,
lágrimas nos olhos e espírito manso, entrou no Reino de
Deus (Mt 5:1-6).
Que beleza de quadro: Josué olhando para as muralhas
de Jericó e Deus olhando para Josué! Quero impressionar
você com esta grande verdade: Deus está vendo você, meu
irmão, suas lutas, suas frustrações, suas dívidas, suas
enfermidades, seus temores, suas decepções. Deus está nos
vendo com amor! Não é bom saber que Ele nos vê?
Certamente, isso traz um componente desafiador, pois
vivemos em Sua santa presença. Portanto, grande deve ser
nosso desejo de viver em santidade. Não há nada, porém,
mais perturbadoramente consolador do que a presença
constante de Deus. O que gera um desafio moral é, ao
mesmo tempo, a maior fonte de consolo da vida. Vivemos
sob o olhar do Deus santo. Que maravilha!
Revelando-nos Sua mão poderosa
Deus fez uma revelação poderosa de Si mesmo a Josué.
Estamos aqui diante daquilo que os teólogos chamam de
teofania – uma manifestação de Deus. Contudo, a maior
parte dos comentaristas bíblicos sérios crê que, neste caso
em especial, trata-se de uma cristofania – ou seja, uma
manifestação, no Antigo Testamento, de Cristo, nosso
Senhor e Salvador, pré-encarnado – a Seu servo Josué,
revelando-se como Príncipe dos exércitos do Senhor.
Concordo com os que falam de uma cristofania, pois uma
criatura de Deus não poderia permitir a resposta que Josué
deu à revelação recebida. Ela o teria advertido do pecado da
idolatria. Penso, à luz disso, que esta passagem tem íntima
relação com a atitude do Senhor Jesus à adoração de Tomé
(Jo 20:28-29). O mesmo diante de Quem Tomé se prostraria
estava agora diante de Josué, e, justamente por esse motivo,
o Príncipe do exército do Senhor não o repreendeu, pois
fomos criados para adorá-Lo.
Josué vê o Príncipe do exército do Senhor – e o que se
destaca em sua visão? Aquilo se tornou muito significativo
para o jovem comandante. Creio que o Espírito Santo fez
com que Josué colocasse os olhos naquele quadro lindo – na
revelação real de Deus, naquilo que mais poderia trazer-lhe
consolo ao coração. Josué não faz uma descrição completa da
visão, mas apenas ressalta que Aquele diante de Quem
estava carregava nas mãos uma espada nua desembainhada.
É importante darmos atenção a esse detalhe. Josué viu a mão
de Deus portando uma espada desembainhada. Qual foi a
intenção de Deus ao fazer com que Seu servo visse o que
tinha nas mãos? O que Deus quis operar na alma de Josué
com isso?
Não tenho dúvidas de que Deus quis que Seu servo se
certificasse de que a mão soberana Dele haveria de agir de
modo invisível na batalha. Josué não batalharia sozinho. Não
era apenas a força do guerreiro que contava, mas a mão de
Deus seria estendida sobre ele e sobre todo o povo. E seria
exatamente a mão soberana de Deus que lhe daria a vitória,
a qual fora prometida 700 anos antes para Seus escolhidos.
Encontramos aqui três exércitos: o exército de Israel, o
exército de Jericó, entrincheirado dentro das muralhas, e o
exército do Deus vivo. Quem era a maioria? Por causa da
presença do exército do Senhor, nós, os cristãos, sempre
seremos a maioria. Essa é a garantia da vitória!
Você crê que uma mão invisível rege tudo o que acontece
no universo? Você crê que o braço forte de Deus age? “Todos
os povos da Terra são como nada diante dele. Ele age como
lhe agrada com os exércitos dos céus e com os habitantes da
Terra. Ninguém é capaz de resistir à sua mão nem de dizer-
lhe: ‘O que fizeste?’.” (Dn 4:35). Como muito bem afirma a
Confissão de Fé de Heidelberg:
Cremos que o bom Deus, depois de ter criado todas as
coisas, não as abandonou, nem as entregou ao acaso ou
à sorte, mas que as dirige e governa conforme Sua santa
vontade de tal maneira que neste mundo nada acontece
sem a Sua determinação [...] Esse ensino nos traz um
inexprimível consolo quando aprendemos dele que nada
acontece por acaso, mas pela determinação do nosso
bendito Pai celestial.46
Que coisa comovente! Aquela mão que portava uma
espada desembainhada era a mão do Deus Todo-Poderoso, a
garantia de vitória para a vida de Seu servo Josué e do Seu
povo.
A mão de Deus sempre está atuando na vida da Sua
Igreja. Às vezes, portando o bálsamo de que carecemos para
a cura no coração, em outras tantas ocasiões, trazendo o
alimento para nossa alma e, nas horas de batalha, uma
espada nua para o livramento de nossa vida. Por essa razão é
que temos de orar pelos que nos perseguem, pois terrível
coisa é quando a espada de Deus é desembainhada a fim de
ferir os inimigos dos Seus eleitos.
Você crê nisto? Pelos olhos da fé, você pode contemplar
Deus guerreando por você? Você percebe que não está só?
Você intercede pedindo misericórdia por aqueles que
ousaram tocar na menina dos olhos de Deus? Querido irmão,
você sabe que enquanto está lendo isso, a mão invisível está
agindo a seu favor em tudo o que lhe diz respeito? Oh!
Amigo, pense no poder dessa espada. Há alguma outra que a
ela se possa comparar no universo? Pense na mão que a
manuseia. Há alguma que seja tão hábil? Descanse, então, no
poder e na habilidade de Deus em dar vitória para Seus
eleitos.
Oferecendo-nos Sua direção
Lá estava Josué, provavelmente com dúvidas no coração,
certamente em busca de uma estratégia.Saber o que fazer,
quando estamos próximos de partir para o campo de guerra,
muitas vezes é o que mais nos inquieta. Deus, por causa de
Sua imensa bondade, deu uma direção segura para Seu
comandante. O texto diz que o Senhor se revela a ele e lhe
diz, com clareza, o que deveria fazer. Isso corresponde ao
que diz o salmo 25-12: “O homem que teme ao Senhor, Ele o
instruirá no caminho em que deve escolher”. Essa é uma
promessa de Deus para você! A promessa de um Deus que
não quer que você aprenda apenas na base da tentativa e
erro. Isso até pode ocorrer, mas seríamos poupados de muito
sofrimento e derrotas desnecessários se crêssemos que o
Deus pessoal dos cristãos é um Deus que se comunica. Sim,
nosso Deus gosta de falar. Como Deus fala? Como já
tratamos da direção divina em capítulo anterior, deixe-me
apenas acrescentar umas poucas palavras.
Primeiro, Deus fala por meio de Sua providência,
segundo a qual Ele dispõe as circunstâncias da vida de tal
modo que somos levados a crer que Ele está falando conosco.
Segundo, Deus fala por meio do senso comum. Muitas vezes,
tudo o que devemos fazer é permitir que Ele fale conosco por
meio de nossa razão. Grande parte dos cristãos que conheço
estaria vivendo uma vida muito melhor se tão somente
usasse a cabeça. Terceiro, Deus fala por intermédio das
pessoas. “Os planos fracassam por falta de conselho, mas
são bem-sucedidos quando há muitos conselheiros.” (Pv
15:22) Por isso, eu lhe digo: não caminhe sozinho. Não pense
que você é capaz de ver tudo. Não tome decisões que vão
alterar significativamente o curso da sua vida sem buscar
conselho com o povo de Deus.
Quarto, Deus fala ao nosso coração. Muitas vezes Deus
se comunica a nós retirando a paz quanto a algumas
decisões que estamos prestes a tomar. Espere a paz de Deus
se estabelecer em seu coração antes de decidir. Pode até
acontecer de você estar entre duas opções excelentes ou
ruins. Mesmo assim, a paz pode agir dizendo que, se você
tem de decidir, decida. Nessas horas é necessário orar e crer
que Sua direção pode ser constatada apenas depois de a
decisão ter sido tomada pela fé na misericórdia divina.
Quinto, Deus fala por meio de Sua palavra. Nunca Deus
haverá de lhe indicar um caminho que vá de encontro à Sua
verdade. Em suma, o ponto de partida disso tudo é saber que
Deus guia. É fundamental saber isso. Não basta apenas
aplicar raciocínio lógico à vida, embora isso seja
fundamental – é preciso ouvir atentamente a direção de
Deus.
Você crê nisto? Você sabe que tudo o que lhe diz respeito
é do interesse de Deus e que, por isso, pode contar com Sua
direção amorosa? Então, espere ouvir Sua voz. Olhe para as
cinco formas que lhe apresentei de comunicação e aplique-
as à sua vida. Não decida sem ouvi-Lo; não decida antes
para, depois, pedir a bênção Dele para aquilo que decidiu
fazer sem consultá-Lo. Deus haverá de abençoar aquilo que
lhe revelou e que, consequentemente, representa a
realização da Sua vontade soberana.
Revelando-nos Sua santidade
Vou entrar agora no ponto mais polêmico de minha
mensagem. Esta passagem do capítulo 6 de Josué tem
gerado dúvidas no coração de milhares de leitores das
Sagradas Escrituras. Por qual motivo? O motivo relaciona-se
ao fato de Josué haver recebido a ordem de entrar em Jericó e
matar a todos. Só uma família haveria de sobreviver: a da
prostituta Raabe.
Nessa passagem, encontramos o servo de Deus
recebendo a orientação divina de entrar em Jericó para matar
seres humanos que foram criados à imagem e semelhança
de Deus. No meu modo de ver, isso se tornara um fardo
sobre o coração de Josué, pois matar o próximo é algo
antinatural, vai de encontro à nossa natureza regenerada.
Fomos recriados à imagem e semelhança de Deus; portanto,
aquilo que temos de divino nos impulsiona a tratar o
próximo com dignidade, e este era o caso de Josué.
Contudo, naqueles dias, não se estava apenas cumprindo
uma promessa graciosa para o povo de Israel, mas também o
anúncio do juízo divino que cairia sobre Jericó. Muitos anos
antes, Deus havia dito que o cálice daquele povo estava
prestes a transbordar.
Veja como em Gênesis 15:15 encontramos a primeira
advertência sendo feita. “E tu irás para teus pais em paz; e
serás sepultado em ditosa velhice. Na quarta geração
tornarão para aqui” – para Canaã – “porque não se encheu
ainda a medida da iniquidade dos amorreus.” Em Levítico
18:24, encontramos mais uma alusão ao povo cananeu:
Com nenhuma destas coisas vos contamineis, porque
com todas estas coisas se contaminaram as nações que
Eu lanço fora de diante de vós. E a terra se contaminou;
e Eu visitei nela a sua iniquidade, e ela vomitou os seus
moradores. Porém vós guardareis os Meus estatutos e os
Meus juízos, e nenhuma destas abominações fareis, nem
o natural, nem o estrangeiro que peregrina entre vós;
porque todas estas abominações fizeram os homens
desta terra que nela estavam antes de vós; e a terra se
contaminou.
Josué tinha diante de si uma terrível tarefa: matar seres
humanos. Estava sendo enviado para trazer o juízo de Deus
sobre o povo de Jericó. Que aplicação isso pode ter para
nossa vida? Fico a pensar nas inúmeras vezes em que
precisamos tomar decisões na vida que trarão sofrimento ao
próximo. Creio, portanto, que Josué teve aquele tipo de
revelação para que seu coração fosse consolado. Era como se
Deus lhe estivesse a dizer: “Quem está aqui é um Deus
santo. Retira a sandália dos teus pés. Hoje te chamo para te
sujeitares à Minha palavra. O que Eu te peço para fazer se
harmoniza perfeitamente à Minha natureza santa”.
É triste, por exemplo, quando o ministro tem de pedir
para certos obreiros saírem da equipe de trabalho,
justificando sua atitude por algo assim: “Vocês não têm
mais espaço aqui porque não viveram em santidade, não se
arrependeram de seus pecados e não tomaram os passos
para a restauração e para a reconciliação. Infelizmente,
vocês não têm mais direito a pregar a Palavra nesta igreja,
porque o que fizeram é abominação”. Há situações em que o
ministro do evangelho, mesmo com razão em fazê-lo, nada
pode dizer sob pena de destruir a família e a reputação de
certos líderes e arcar com todo o ônus da decisão, vindo,
ainda, a passar por arbitrário ou sem misericórdia.
Josué estava vivendo uma situação semelhante. Ele tinha
de entrar em Jericó para revelar que Deus é santo, santo,
santo. A visão da santidade de Deus, portanto, levaria Josué a
ter certeza de que o que estava para fazer harmonizava-se
com a vontade divina. Não apenas isso, mas ele também
teria de lutar dentro dos limites estabelecidos pela palavra
de Deus. Aquela era uma guerra santa na qual os fins não
deveriam jamais justificar os meios. A tomada de Jericó
deveria ser feita exclusivamente da maneira de Deus.
Parece-me que, em nossa nação, nós, evangélicos,
temo-nos esquecido deste fato. Amigo, preciso dizer-lhe que
há coisas que acontecem em nosso meio que não são
aceitáveis sob hipótese alguma. Atos que estão se tornando
comuns e que os homens santos do passado jamais ousariam
aceitar e, muito menos, praticar. Vejo grandes iniquidades
sendo cometidas em nosso país e muitos, tão acostumados
com isso tudo, já estão quase chegando à conclusão de que é
normal o crente mentir, fraudar e defender a ideia de que os
fins justificam os meios. Pode-se, por exemplo, aceitar que
um veículo de comunicação evangélico coloque programação
suja no ar?
Você tem vivido à luz da verdade de que Deus é santo?
“Descalça as sandálias dos teus pés porque o lugar em que
estás é santo!” Infelizmente, em grande medida nós
perdemos o sentimento da reverência e do temor. Deus,
porém, ao nos preparar para a batalha, revela-se como um
Deus santo que jamais nos levará a relativizar Seus
absolutos, mesmo que para que fins santos sejam
alcançados. Tomemos cuidado quanto ao perigo de
reeditarmos em nossa vida um pecado frequentemente
encontrado ao longo da história da Igreja: o erro de, em
nome de um suposto fim justo, mascararmos nossas
maiores iniquidades. Como muito bem definiu John
MacArthur,
o amor a si mesmotambém predispõe as pessoas a
desculparem o seu pecado. Elas não gostam de se
condenar. São naturalmente preconceituosas em seu
próprio favor. Procuram bons nomes para denominar
sua tendências pecaminosas. Elas as transformam em
virtudes, ou no mínimo em tendências inocentes.
Rotulam a avareza de “prudência”, ou então chamam a
ganância de “negócio inteligente”. Quando se alegram
com a calamidade do próximo, fingem que é porque
esperam que isso trará algum bem à pessoa. Se bebem
muito, é porque sua constituição física o exige. Se
caluniam, ou falam do vizinho, afirmam ser zelosos
quanto ao pecado. Se entram numa discussão, dizem Ter
uma consciência obstinada e consideram sua discórdia
mesquinha uma questão de princípios. E, assim,
encontram bons nomes para todas as formas de mal.47
Irmão, que vergonha a Igreja ter coragem para ampliar
seu espaço na mídia, construir grandes templos e desafiar os
demônios, mas, ao mesmo tempo, não ter coragem para ser
santa. Você tem procurado se preparar para a batalha
contemplando a santidade de Deus?
Deus nos prepara para a batalha não nos tornando
espertalhões, e, sim, prudentes como as serpentes. Note,
porém, que uma coisa é ser prudente como uma serpente,
outra é tornar-se uma serpente! Deus nos prepara para
enfrentar os lobos não nos tornando iguais a eles, mas nos
ajudando a manter nossa identidade de ovelha, mesmo
quando estamos prestes a ser devorados. Enfim, Deus nos
prepara para a batalha não apenas revelando-nos Seu poder
que nos torna ousados para guerrear, mas também Sua
santidade que nos torna ousados para guerrear de forma
santa.
Dando-nos a certeza da vitória
Diz a Bíblia que Deus virou-se para Josué e lhe disse:
“Olha, entreguei na tua mão a Jericó, ao seu rei e aos seus
valentes”. Que palavra consoladora! A vitória era certa, e
cabia a Josué apenas seguir adiante, ainda confiando na
fidelidade divina. Amigo, preste atenção: você já cruzou o rio
Jordão, não é hora de querer voltar ao deserto! O Jordão que
ficou para trás agora é intransponível. Deus não irá parar
novamente as águas caso você queira atravessá-lo na
direção contrária. Mas há outra excelente notícia a ser dada:
Deus entregou Jericó nas suas mãos!
Encontro nesta passagem uma ilustração belíssima
sobre o processo de santificação. A vitória já foi dada ao
crente que anseia por ser parecido com o seu Salvador.
Quando penso nas promessas bíblicas quanto à santificação
da Igreja, sou levado a dizer que o que Deus pede de cada um
de nós é o mesmo que pediu para o paralítico: “Levante-se,
pegue a sua maca e vá para casa” (Lc 5:24). Há um poder
divino dentro de nós. O Espírito Santo já habita a “terra da
promessa” do nosso coração. Sim, porque o que a Trindade
santa decidiu é que o Pai daria um povo para Seu Filho, o
Filho assumiria a incumbência de cumprir a lei e morrer por
esse povo e o Espírito Santo aplicaria os frutos da obra de
Cristo na vida dos eleitos, tomando, assim, o coração do
crente para Deus. Tudo o que devemos fazer, portanto, é ser
o que somos.
Que péssima a ideia de que a Igreja é uma comunidade
de gente enferma que se encontra num hospital. Penso que
melhor faríamos se disséssemos que a Igreja é o exército do
Deus vivo, que a regenerou por Sua graça e enviou Seu
Espírito para o coração do Seu povo a fim de que este viva
para a glória do Seu santo nome. Viveríamos muito melhor
se, em vez de ficarmos com pena de nós mesmos, dizendo
que estamos num hospital chamado Igreja, aguardando um
dia sermos curados de nossos pecados, tomássemos
consciência do que somos e decidíssemos viver como gente
que já foi recriada por Deus, resolvendo, assim, largar
nossas muletas ou sair da nossa maca, pois o Senhor Jesus já
deu a ordem de nos colocarmos de pé. “Levanta e anda!”
Como seriamente exorta Martyn Lloyd-Jones:
Tratem de compreender o que Deus fez por você e para
vocês. Por que esse choro e essa lamúria? Por que vocês
falam tanto sobre o mundo, a carne e o diabo? Não
sabem que Aquele que está em vocês é maior do que
aquele que está no mundo? De pé! Atenção! Marchem!
Portem-se como homens! Nada mais de letargia! Nada
dessa fraqueza! Nada de gemido e lamento! Tratem de
compreender o que Deus fez por vocês e para vocês,
tratem de compreender o que vocês são e o que Deus fez
por vocês, e marchem eretos, de cabeça erguida, como
aqueles que outrora estavam na carne e que pertenciam
às trevas, mas que agora são luzeiros no mundo.48
Não nego que todos os cristãos têm de enfrentar aquilo
que a Bíblia chama de carne. Peço, contudo, que você veja o
território do seu coração como esta Canaã sobre a qual
estamos falando. A promessa já havia sido feita. O território,
de certa forma, já estava tomado. Restavam apenas os
inimigos que precisavam ser desalojados. O mesmo se dá
conosco. O que existe agora são esses inimigos
entrincheirados no campo do nosso coração que precisam
ser expulsos. A terra, todavia, já é nossa, e o Senhor está a
nos dizer: “Podem avançar, pois Jericó, com os seus reis e
seus valentes, está em suas mãos!”.
Imagine a cena! Josué sem Moisés, seu grande
companheiro e líder, olhando para as muralhas de Jericó,
certamente pensando: “O que fazer?”. Jericó estava
rigorosamente fechada, ninguém entrava nem saía. Josué
olha para aquele quadro e ouve Deus dizendo “Eu não quero
que tu faças parceria com este povo. Não quero associação
nenhuma com esta gente. Eles devem ser desalojados!”.
Cristo, por conhecer nossa natureza e saber que somos
fracos, tendentes para o mal, propensos à dúvida, revelou-se
ao Seu servo como o Príncipe do exército do Senhor, com a
espada desembainhada nas mãos, dando-lhe, assim, a
certeza da vitória. Esta é a tônica do Cristianismo: revelar ao
homem onde o pecado o deixou e para onde a graça o pode
levar. O crente é alguém que foi humilhado pela revelação de
sua perdição moral e reanimado pela revelação de sua
ressurreição espiritual. Trata-se de uma pessoa que se
prepara para a guerra sabendo que a vitória é certa.
Você crê que pode partir para dentro de Jericó? Você crê
que não deve fazer acordo com os cananeus? Tomou
conhecimento do fato de que a ordem é para destruí-los?
Qual o pecado para o qual você não deve dar trégua? Estaria
você capitulando diante de algum quadro difícil de sua vida
enquanto Deus está mandando avançar? Pense seriamente
nisso.
Deixe-me agora entrar na parte final deste capítulo.
Quero chamá-lo para ver esta passagem sob outro ângulo.
Neste texto, podemos encontrar claramente princípios que
regem a vida vitoriosa. A resposta de Josué à revelação de
Deus ensina-nos a como nos preparar para a batalha. Eu lhe
disse que temos um Deus que nos prepara para a batalha;
mas o que nos cabe fazer?
PREPARAMO-NOS PARA A BATALHA
Quando levantamos os olhos para contemplar Deus
Jamais estaremos preparados para a batalha enquanto
estivermos olhando para baixo. O texto diz: “Estando Josué
ao pé de Jericó, levantou os olhos e olhou”. Que quadro
comovente! Ele tirou os olhos das muralhas e os colocou em
Deus! Eis o segredo da vitória!
Não me canso de dizer que a fé cristã exige o uso de
nossa mente. Orar é fundamental, porém se junto com a
oração não praticamos o exercício bastante simples de
pensar, pouco proveito auferiremos da fé que professamos.
Pense na aplicação desta passagem gloriosa. Você está
vendo, literalmente, onde está o Príncipe do exército do
Senhor em sua vida? Não? Nem eu. Como poderemos, então,
tirar proveito desta porção bíblica que estamos estudando?
Só vejo uma forma, que é parando para pensar. Estamos
diante da necessidade de, em meio às jericós fortificadas da
vida, tirar os olhos das muralhas e colocá-los em Deus. Isso
porque não precisamos de uma visão literal de Deus com
uma espada desembainhada nas mãos para tomar
consciência de que o que foi real para Josué é real em nossa
vida também. Tudo de que precisamos é, pela fé, contemplar
o nosso Deus de pé com Sua espada nua desembainhada nas
mãos.
Chegou a hora de você erguer os olhos e saber que há
uma realidade paralela à realidade da Jericó fortificada.Eu
gosto demais da bendita passagem das Escrituras Sagradas
de 2 Reis 6:6-15, que diz:
Tendo-se levantado muito cedo o moço do homem de
Deus e saído, eis que tropas, cavalos e carros haviam
cercado a cidade; então o seu moço lhe disse: “Ai! Meu
senhor! Que faremos?” Ele respondeu: “Não temas;
porque mais são os que estão conosco do que os que
estão com eles”. Orou Eliseu, e disse: “Senhor, peço-te
que lhe abras os olhos para que veja”. O Senhor abriu os
olhos do moço, e ele viu que o monte estava cheio de
cavalos e carros de fogo, em redor de Eliseu.
Erga os olhos, em nome do Senhor Jesus, e tire-os das
muralhas, tire-os dos cananeus, tire-os da dor da tragédia!
Pare de olhar para baixo, mas olhe para o alto, para o Deus
Soberano que rege todas as coisas pelo poder de Sua palavra!
Olhe para Aquele que tem a espada na mão! Onde estão
postos os seus olhos agora?
No salmo 3 encontramos um belíssimo exemplo sobre o
que devemos fazer com nossos olhos:
Senhor, como tem crescido o número dos meus
adversários! São muitos os que se levantam contra mim.
[Será esta a sua experiência?] São muitos os que dizem
de mim: “Não há em Deus salvação para ele”. Porém Tu,
Senhor, és o meu escudo, és a minha glória, e O que
exaltas a minha cabeça. Com a minha voz clamo ao
Senhor, e Ele do Seu santo monte me responde. Deito-
me e pego no sono; acordo, porque o Senhor me
sustenta. Não tenho medo de milhares do povo que
tomam posição contra mim de todos os lados. Levanta-
Te, Senhor! Salva-me, Deus meu, pois feres nos queixos
a todos os meus inimigos, e aos ímpios quebras os
dentes.
A Palavra de Deus nos ensina a viver dessa maneira:
olhando para o alto, para a realidade imutável do Deus
soberano que rege o Universo pelo poder da Sua palavra.
Portanto, cabe a você preparar-se para a batalha erguendo a
cabeça e levantando os olhos.
Quando nos aproximamos de Deus
O texto deixa claro que Josué respondeu à revelação de
Deus aproximando-se Daquele que portava a espada nua
desembainhada. Veja o que diz o verso 13: “Estando Josué ao
pé de Jericó, levantou os olhos, e olhou: eis que se achava em
pé diante dele um Homem que trazia na mão uma espada
nua. Chegou-se Josué a Ele”. Até aquele momento, segundo
a Bíblia, Josué estava tão somente diante de um mistério.
“És Tu dos nossos ou dos nossos adversários?”, ao que seu
Deus lhe respondeu: “Não; sou príncipe do exército do
Senhor e acabo de chegar”.
Não são poucas as ocasiões em que vivemos situações
análogas a esta. Confundimos Deus com nossos adversários.
Diz a Bíblia que no mar da Galileia os discípulos
confundiram o Senhor Jesus com um fantasma (Mt 14-26), e
aqui Josué não sabe se estava diante de um aliado ou diante
de um adversário. Isso nos remete para a necessidade de
pedirmos a Deus discernimento espiritual a fim de que,
prontamente, diante da mais leve manifestação da Sua
presença, percebamos Sua maravilhosa companhia.
Como Josué pôde discernir que estava diante de Deus e
não diante de um adversário? Primeiro, Josué se aproximou.
Fica aqui a preciosa lição: mesmo quando estamos confusos,
a mais tímida aproximação da Sua santa presença produz em
nós benefícios incalculáveis. Em segundo lugar, Josué fez
uma pergunta. Somos uma geração que se recusa a pensar,
que não faz perguntas à vida. Lá estava Josué a perguntar:
“O que estou vendo?”. Foi somente mediante o diálogo que
Josué descobriu que estava diante do Deus de Abraão, de
Isaque e de Jacó. Isso aconteceu porque o diálogo sincero
estabeleceu a possibilidade de ouvir a voz de Deus – desse
modo, cumpriu-se com Josué o que o Bom pastor Senhor
Jesus afirmou: que Suas ovelhas ouvem Sua voz (Jo 10:27).
Note que a visão não foi suficiente para que Josué soubesse
que estava diante de Deus; foi necessário também que
ouvisse a voz do seu Criador. Chegamos assim à conclusão
de que Deus é sempre encontrado por quem O procura com
sinceridade. A nós cabe aproximar-nos Dele, fazer
perguntas, aguardar respostas para que a presença do Deus
fiel seja discernida neste mundo onde o pecado obscureceu
nossa visão do Criador. Oh! Se mais teólogos fizessem
teologia desse modo: aproximando-se do mistério com
coração sincero, fazendo perguntas honestas e esperando
respostas honestas. Como diz Charles Hodge, ao falar para
estudantes de teologia: “Lembre-se de que é apenas na luz
de Deus que você pode ver a luz. Que santidade é essencial
para o conhecimento correto das coisas divinas, e grande
segurança contra o erro. E como você pode ver que, quando
os homens perdem a vida da religião, podem vir a crer nas
mais monstruosas doutrinas”.49
Fico a pensar na importância de testarmos os espíritos e,
mediante sábia inquirição, nos certificar de que Deus, de
fato, está envolvido em nossas batalhas, recebendo desse
modo a certeza de que a nós cabe tão somente seguir
adiante.
Quando adoramos a Deus
O Senhor revelou-se ao Seu servo Josué, e este caiu por
terra e O adorou dizendo: “Que diz meu Senhor ao Seu
servo?”. Aqui vemos a essência do culto a Deus, a qual
consiste em respondermos a Sua revelação com adoração e
interesse real em saber qual é a Sua vontade.
Aí está a melhor forma de iniciarmos nossas orações:
adorando. Muitas vezes começamos com nossos problemas e
acabamos saindo da oração piores de que quando
começamos com ela. Que diferença faria se começássemos a
orar apenas considerando diante de Quem estamos e
respondendo à certeza da Presença divina com adoração.
Antes de começar a orar, pense um pouco nas seguintes
questões: Quem é este diante de Quem me aproximo? O que
Ele promete para os que O buscam? O que represento para
Ele? Que são meus adversários diante Dele?
Quando adoramos, passamos a ver nossos problemas na
perspectiva correta. Mostre-me um crente que começa sua
oração com adoração e eu lhe mostrarei um crente que não
se levantará pior do que quando se prostrou para orar.
Em tempos de aflição, devemos começar a orar como o
salmo 121. Não comece com seus problemas, mas comece
com reflexão. Procure responder à pergunta que diz respeito
ao que pode lhe dar esperança. Aqui está uma boa questão:
“De onde me virá o socorro?”. Veja a resposta que este
homem formulou:
O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a Terra.
Ele não permitirá que os teus pés vacilem, não dormitará
Aquele que te guarda. É certo que não dormitará Aquele
que te guarda. É certo que não dormita nem dorme o
guarda de Israel. O Senhor é Quem te guarda; o Senhor é
a tua sombra à tua direita. De dia não te molestará o sol
nem de noite a lua. O Senhor te guardará de todo mal;
guardará a tua alma. O Senhor guardará a tua saída e a
tua entrada, desde agora e para sempre.
Quando procuramos ouvir a voz de Deus
Eu gosto demais desta pergunta feita por Josué: “Que diz
meu Senhor ao Seu servo?”. Que pergunta extraordinária!
Josué não começou se lamentando. Não havia mais o que
lamentar. A visão já fora recebida, a palavra ouvida, a
certeza da vitória dada. Não era mais hora para falar de
problemas, mas de saber qual era a vontade de Deus. O
crente verdadeiro é alguém que já se certificou da presença
santa do Deus que porta uma espada nua desembainhada e
que, por isso, está mais preocupado em saber qual a vontade
de Deus para sua vida do que qual o tamanho da muralha
que terá de enfrentar. Aí está o segredo dessa vida
abençoada, próspera, ungida e rica: é você pegar o problema,
analisá-lo, encará-lo, dissecá-lo e dizer: “Aqui está o
problema. Agora, como vê-lo à luz das Sagradas Escrituras?
Senhor, o que Tu tens a dizer sobre esta situação?”.
O que fazer, então? Não nos concentrarmos no
problema, mas na busca da direção divina. Posso entender a
pergunta de Josué. Quem já se viu frente a frente com Deus
não tem mais nada na vida como maravilhoso. Lá estavam as
muralhas, mas o mais importante era saber a vontade do
Criador. E a resposta foi surpreendentemente espantosa,
pois não tinha nenhuma relação direta com Jericó, mas com
a santidade de Deus. “Que diz meu Senhor ao Seu servo? Sou
santo e santifico este lugar”.
Que implicação uma passagem como estatem para a
Igreja evangélica brasileira? Quantas pessoas na Igreja
evangélica brasileira estão preocupadas com estratégias de
crescimento numérico e pouco preocupadas em saber como
abrir os olhos da nação para o evangelho – abri-los a partir
da ação de um povo que não precise marchar pelas ruas para
mostrar a presença evangélica no país, mas que faz isso
trazendo os valores do Reino de modo subversivo e sem
estardalhaço. O estrondo que devemos provocar é o do
edifício da impiedade ao ruir por causa do abalo de sua
fundação, fruto do trabalho subvertedor de uma Igreja que,
por meio da pregação e do testemunho, soube trazer o reino
de Deus para uma nação.
Quando obedecemos a Deus
O texto registra que o Senhor virou-se para Josué e lhe
disse: “Descalça a sandália de teus pés, porque o lugar em
que estás é santo, e Josué assim fez”. A palavra fidelidade é a
que mais está subentendida no livro de Josué. Nele
encontramos um Deus fiel, porém encontramos um homem
fiel também. Se a fidelidade de Deus nos é apresentada de
uma maneira que nos emociona, a fidelidade de Josué a Deus
nos é apresentada de uma forma que nos desafia. A
prontidão de Josué em obedecer a Deus é o que de mais belo
aprendemos com sua vida. Mais impressionante do que sua
coragem é sua capacidade de submeter-se à vontade de
Deus. Note que a decisão imediata de tirar as sandálias foi
precedida de inúmeras decisões de cumprir toda a direção
divina, como também seguida de tantos outros gestos de
fidelidade que culminaram na mais famosa declaração que
saiu dos lábios de Josué:
“Se, porém, não lhes agrada servir ao Senhor, escolham
hoje a quem irão servir, se aos deuses que os seus
antepassados serviram além do Eufrates, ou aos deuses dos
amorreus, em cuja terra vocês estão vivendo. Mas eu e a
minha família serviremos ao Senhor” (24:15).
E você, já tirou a sandália dos pés? Já se deu conta de
que a presença de Deus santifica até mesmo o pó? Que suas
obras não são suficientes para recomendá-lo diante de
Deus? Você é humilde de espírito? Compreende que o pó do
deserto tem de ser tirado dos seus pés já que você está na
terra da promessa, na vida que o Deus santo designou-lhe
para viver? Sua obediência às exigências da santidade de
Deus é imediata?
Concluindo, aqui vemos um Deus que nos estimula a
prosseguir. Que deseja que levemos adiante as decisões que
tomamos. Cruzamos o Jordão! Entramos na vida cristã! Não
podemos voltar atrás. Casamos, fizemos uma aliança com
alguém, com quem firmamos um pacto diante do altar de
Deus. Algo ficou para trás. Alguns estão vivendo essa
realidade no campo profissional. Um Jordão já foi cruzado,
mas agora é tempo de prosseguir. O Jordão ficou para trás e
os adversários, entrincheirados, estão adiante de nós;
contudo, o Príncipe dos exércitos do Senhor está conosco.
Portanto, levantemos os olhos, aproximemo-nos Dele,
procuremos conhecer Sua vontade. Prestemos culto de
adoração a Ele, ouçamos Sua voz, obedeçamos à Sua vontade
e dirijamo-nos para Jericó, porque as muralhas haverão de
desmoronar, em nome do Príncipe do exército do Senhor!
V
A FÉ QUE FAZ MURALHAS RUÍREM
“Pela fé caíram os muros de Jericó, depois de serem rodeados durante
sete dias.” (Hb 11:30)
Que maravilhosa declaração é esta: pela fé, ruíram as muralhas de Jericó!
O capítulo 11 da carta aos Hebreus nos apresenta uma visão bastante
clara da fé bíblica e de suas consequências para nossa vida. No primeiro
versículo, o autor afirma que “a fé é a certeza de coisas que se esperam,
a convicção de fatos que se não veem”. Após a apresentação da definição,
ele passa a apresentar uma série de exemplos dessa fé que é “certeza” e
“convicção”. Entre muitos exemplos do passado, de pessoas que
realizaram proezas para a glória de Deus, encontramos a menção do
episódio de Jericó. A Bíblia afirma que foi pela fé que aquelas muralhas
caíram. Com essa menção, a Palavra de Deus quer nos ensinar que, no
acontecimento da queda das muralhas de Jericó, houve uma
extraordinária manifestação da genuína fé e nele ficaram patentes seus
efeitos. A fé verdadeira, bíblica e fruto da ação do Espírito Santo no
coração do pecador, não é algo que produz meros efeitos psicológicos no
que a possui; antes, ela deve ser aplicada à vida, possibilitando àquele
que crê destruir muralhas.
Mas como é e como ter essa fé?
Certamente há, na sua e na minha vida, muitas muralhas que precisam
desabar. Já vimos a vida comparada ao Jordão que precisa ser transposto,
ou seja, o obstáculo que precisa ser vencido. Agora, veremos a etapa da
vida que corresponde à experiência com as muralhas que, pela fé,
precisam ruir.
A FÉ QUE FAZ MURALHAS RUÍREM
Tem como alicerce a palavra de Deus
Esta é a fé bíblica: a certeza de coisas que se esperam, a
convicção de fatos que não se veem. Hoje, infelizmente,
temos ouvido muitos conceitos errôneos e distorcidos sobre
a fé. Por isso, creio que seja importante começarmos dizendo
o que a fé bíblica não é, para depois podermos definir o que é
a fé conforme encontramos nas Escrituras Sagradas.
A fé bíblica não é fé na fé. Hoje, há uma euforia popular
e científica com a fé. Muitos são os relatórios e pesquisas
que dizem que aqueles que creem são mais felizes, curam-se
mais rapidamente, vivem mais tempo. No entanto, a Bíblia
não dá base à teoria de que o simples fato de as pessoas
terem qualquer tipo de fé lhes garantirá que as coisas
inevitavelmente sairão bem. Afirmo que tal atitude perante a
vida é absurda, assim como absurda é a ideia de que, não
importando o medicamento que o paciente use para tratar
sua doença, desde que este tome alguma coisa ficará curado.
Sabemos do efeito placebo, mas é impossível sobreviver de
placebo. Não concordamos com a afirmação de que, pelo
simples fato de o homem crer em algumas coisas, elas,
inevitavelmente, acontecerão. Qualquer tipo de fé pode fazer
com que as pessoas, em certo sentido, vivam melhor. Mas
isso não é fé bíblica, a fé salvadora. A fé cristã baseia-se na
existência objetiva do Deus que se revelou ao Seu povo por
meio de Sua Palavra infalível e inspirada por Seu Espírito.
A fé bíblica não é mero sentimento. Deixe-me dar um
exemplo desse outro tipo de fé. Um crente, numa sexta-feira
à noite, “sente” a vontade de comprar um carro novo e dá,
como entrada, um cheque sem fundos, pois “sentiu” que, na
segunda-feira seguinte, o anjo do Senhor faria um depósito
em sua conta para cobrir a despesa feita. Isso é sentimento,
é imaginação, é irresponsabilidade! A fé bíblica não é mero
sentimento. Ter fé não é pular do pináculo do templo porque
“sentiu” que deveria fazer isso. Já alertamos contra o perigo
do sintoísmo. O sintoísmo é a decisão de se fazer coisas em
nome de uma fé que se baseia tão somente em sentimentos.
Cuidado com a expressão, aparentemente tão espiritual:
“Senti de Deus”! O coração do homem é enganoso e Satanás,
que sempre “veleja de acordo com o vento”50, pode estar
usando essa concepção errônea de fé para jogar você de um
alto precipício.
A fé bíblica é agir com base na Palavra de Deus. Josué e o
povo de Israel agiram assim. Isso fica evidente em Josué 6:2:
“Então disse o Senhor a Josué: ‘Olha, entreguei na tua mão a
Jericó, ao seu rei e aos seus valentes’”.
Outro exemplo notável dessa fé pode ser encontrado no
Evangelho de Lucas, capítulo 5. Nesse relato, encontramos o
carpinteiro Jesus orientando o pescador Pedro sobre como
este deveria fazer sua pescaria. Pedro havia trabalhado a
noite inteira, sem obter resultado algum. Chega o dia, o sol
nasce, e eis o Senhor Jesus na praia do mar da Galileia,
dirigindo-se a Pedro: “Lança as tuas redes de volta ao mar!”
Pedro poderia ter respondido: “Tu és carpinteiro, eu sou
pescador; quem entende deste assunto sou eu!” Mas essa
não foi sua resposta; Pedro virou-se para o Senhor Jesus e
respondeu: “Havendo trabalhado no melhor horário do dia,
nada apanhamos, mas sob a Tua palavra lançaremos as
redes”.
Calvino diz que não há fé sem a palavra de Deus. “A fé
não está firmemente fundada sobre qualquer coisa exceto na
Palavra de Deussomente, para preveni-la de ser abalada ou
derrotada por qualquer tipo de engano.”51 A fé, segundo ele,
sustentada pelas promessas, eleva-nos acima do mundo52.
Você tem agido tendo como base a Palavra de Deus? Você
sabe quais são as promessas de Deus para a sua vida? Você
tem tomado decisões baseando-se nessas promessas ou em
seus inconstantes sentimentos? A fé que derruba muralhas
tem como imutável e imprescindível alicerce a Palavra de
Deus!
Submete-se inteiramente à vontade revelada de Deus
Em Josué 6, encontramos o Senhor fazendo uma
comunicação clara e objetiva ao Seu povo: “Marche uma vez
ao redor da cidade, com todos os homens armados. Faça isso
durante seis dias” (v. 3).
A cidade, com tudo o que nela existe, será consagrada ao
Senhor para destruição. Somente a prostituta Raabe e
todos os que estão com ela em sua casa serão poupados,
pois ela escondeu os espiões que enviamos. Mas fiquem
longe das coisas consagradas, não se apossem de
nenhuma delas, para que não sejam destruídos. Do
contrário trarão destruição e desgraça ao acampamento
de Israel. Toda a prata, todo o ouro e todos os utensílios
de bronze e de ferro são sagrados e pertencem ao Senhor
e deverão ser levados para o seu tesouro (3:17-19).
Primeiro, o Senhor fez ao povo de Israel uma promessa,
quando lhe disse: “Vocês conquistarão a cidade de Jericó”. O
povo, então, agiu com base nessa promessa. Entretanto, a
palavra de Deus não se resumiu à entrega da promessa, mas
Ele também revelou ao povo uma estratégia que deveria ser
observada para que houvesse a conquista daquela cidade.
Portanto, a verdadeira fé sempre age dentro dos parâmetros
da palavra revelada de Deus. Ela age com base nas suas
promessas e não foge dos padrões absolutos estabelecidos
por Deus. É necessário tanto se ter a fé que sabe que Deus
tem poder para remover montanhas como a fé que sabe que,
por mais absurda que nossa fidelidade à Sua Palavra nos
pareça, Ele é poderoso também para, por meio dela, cumprir
Sua vontade em nossa vida. Como afirma George Macdonald:
“A fé que remove montanhas é aquela confiança em Deus
que vem da busca de nada exceto Sua vontade”.53 Em outra
sentença, o mesmo autor nos fala um pouco mais sobre esta
fé que se expressa, acima de tudo, pela obediência: “Fé em
quê? Fé no que Ele é, no que Ele fala, uma fé que não pode
ter existência exceto na obediência, uma fé que é
obediente”.54
O povo necessitava de fé. Mas de uma fé que precisava
vir acompanhada de dois ingredientes: a capacidade de crer
nas promessas e a capacidade de submeter-se à vontade de
Deus –, por mais absurda que ela parecesse aos olhos do
homem. Que encontramos em Josué 6? Eis ali o Senhor
dizendo ao povo de Israel: “Invadam Jericó!”. Muitas vezes,
essa ordem irrompe em nossa vida também. Pode haver em
algum lugar de nossa existência um inimigo entrincheirado,
que se nega terminantemente a sair; então, ouvimos o
Senhor dizer: “Esta terra é sua! Não quero que você faça um
acordo de paz com o adversário – ele precisa ser expulso!”.
E como se opera a expulsão? Pela fé. Portanto, há uma
extrema necessidade de termos esse tipo de fé. Contudo,
precisamos também ter fé para submeter-nos aos meios
estabelecidos por Deus.
Analise a situação do povo, diante das muralhas de
Jericó. Suas perguntas, provavelmente, eram: “Senhor, o que
fazer? Que tipo de arma devemos usar para destruir essas
enormes muralhas?”. A surpreendente resposta do Senhor
foi: “Organizem uma procissão. Os guerreiros vão armados
na frente, depois quero os sacerdotes tocando as trombetas
sem parar, com a arca da aliança no meio deles. E, durante
sete dias, eles darão voltas em torno da cidade de Jericó. Nos
seis primeiros dias darão uma volta, mas no sétimo darão
sete voltas. Na sétima volta, alguma coisa acontecerá”.
Amigo, pense bem: humanamente falando, faz algum
sentido uma estratégia como essa? Jamais o escritor da Carta
aos Hebreus diria que “pela fé ruíram as muralhas de Jericó”
se não houvesse a constatação de que foi pela fé que o povo
de Israel submeteu-se àquela proposta absurda,
completamente sem sentido do ponto de vista do homem.
Josué e o povo de Israel creram tanto na queda da muralha
quanto na eficácia do meio estabelecido por Deus. Não é
assim em nossa vida? Por vezes, não nos vemos em
situações difíceis, colocadas diante de nós por nosso
inimigo, que se ri de nossa impotência e “ingenuidade” em
relação às ordens de Deus? Mas será que não chegou a hora
de você submeter-se aos “absurdos” da Palavra de Deus? À
maneira absurda, por exemplo, da Palavra de Deus de
conduzir você para a felicidade, que ensina a viver
oferecendo o outro lado da face, caminhando a segunda
milha com o inimigo, chorando pelos seus pecados, sendo
humilde de espírito, vivendo em mansidão, abrindo mão de
seus direitos por causa da glória de Deus? Será que não
chegou a hora de você se submeter aos absurdos da Palavra
de Deus a fim de resolver certos problemas em sua vida?
Pense, por exemplo, na questão de seu sustento diário. Qual
é a recomendação bíblica? É a da pior matemática possível:
você dá e o que tem é multiplicado. Onde você encontra no
mundo esse tipo de coisa?
Por que Deus fez aquele pedido absurdo ao povo, das
sete voltas em torno das muralhas? Por que Deus faz pedidos
que nos parecem sem sentido? Seu objetivo único é nos
ensinar a caminhar em humildade, compreendendo que as
muralhas em nossa vida serão destruídas, não por nossa
engenhosidade, mas pelo poder do Deus que está sempre
com a espada desembainhada e nua a guerrear por aqueles
que se submetem aos Seus loucos conselhos. Concordo com
Calvino quando ele diz que um dos principais elementos que
pertencem à fé é não dar um passo exceto se a Palavra de
Deus nos mostrar o caminho.55 Ele diz mais: “É a peculiar
virtude da fé que nós devemos solicitamente ser tolos a fim
de podermos aprender a ser sábios apenas por meio da boca
de Deus”.56 Não há irmãos que são considerados ingênuos
na administração de seus negócios como resultado de seu
temor ao Senhor? Não somos nós, cristãos, considerados
pelos ímpios como pobres inocentes? (Embora, hoje, muitos
estejam querendo aprender a ganhar dinheiro por meio da
religião com pastores)?
Mais uma vez gostaria de citar George MacDonald numa
das frases mais desafiadoras que ouvi em toda a minha vida:
“A fé, em sua forma mais simples, verdadeira e poderosa, é
fazer a vontade de Deus naquela única coisa que, no
momento, se nos apresenta como dever. A fé que opera
milagres é inferior a esta”.57
Ele diria que é mais fácil crer que o Pão de Açúcar pode
ser transportado para o meio da Baía de Guanabara do que
crer que não precisamos mentir para que negócios deem
certo, do que crer que necessitamos de um harém para
sermos realizados afetivamente ou de que precisamos
esmagar pessoas para termos sucesso profissional. A fé que
opera milagres é inferior a esta. A fé verdadeira, profunda e
bíblica é aquela que faz você, naquele exato ponto em que
Deus revela Sua vontade, tomar a decisão que se harmoniza
à vontade divina revelada. Para mim, é justamente por isso
que o escritor da Carta aos Hebreus diz que, pela fé, ruíram
as muralhas de Jericó: o povo de Israel não apenas partiu
crendo na vitória, com também partiu crendo num meio
absurdo para alcançá-la, porém estabelecido por Deus.
Eu lhe pergunto, irmão e companheiro de luta: sua fé é
desse tipo? Você crê que a Cordilheira dos Andes pode, pelo
poder de Deus, ir parar no Oceano Pacífico? Eu creio que sim.
Deus é poderoso. Ele criou os céus e a Terra usando o nada
como matéria-prima; portanto, o que será para Ele mover
uma montanha? Agora, você crê que não precisa pecar para
ser feliz? Você crê que, por mais custosa que a obediência
seja, ela, por fim, haverá de levá-lo a encontrar vida plena?
Essa é a fé bíblica!
É aquela que é capaz de esperar o tempo de Deus
Por que o povo de Israel precisou de sete dias de espera?
Por que o Senhor não derrubou aquelas muralhas logo no
primeiro dia? Nesse caso específico, podemos apenas
conjecturar. Alguns até argumentamque foram sete dias de
espera para se estabelecer uma relação com os sete dias da
criação do mundo, representando, assim, a revelação de uma
nova criação de Deus. Como em sete dias (seis de trabalho e
um de descanso), a partir do nada, uma ação de Deus no
Universo criou os céus e a Terra, do mesmo modo,
começando em Canaã, a partir da destruição das muralhas
haveria a criação de um novo povo que receberia uma nova
terra.
Talvez seja isso. Mas a lição que quero extrair de tal
episódio é esta: Deus, em Sua soberania, determina o tempo
de Sua ação. A fé que derruba muralhas sabe esperar com
paciência. Deus lhes disse: “Vocês terão de esperar por sete
dias!”. Talvez você esteja pensando: “Mas os sete dias não
são estes sete anos durante os quais espero minha bênção,
pastor!”. A Bíblia afirma que tudo tem o seu tempo
determinado para acontecer.
Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada
propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de
morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se
plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de
derrubar e tempo de construir, tempo de chorar e tempo
de rir, tempo de prantear e tempo de dançar, tempo de
espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar
e tempo de se conter, tempo de procurar e tempo de
desistir, tempo de guardar e tempo de lançar fora,
tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e
tempo de falar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo
de lutar e tempo de viver em paz. (Ec 3:1-8)
Por que devemos saber esperar? Devemos saber esperar
porque Deus é soberano. Ele reina, e a nós cabe submeter-nos
inteiramente à Sua vontade soberana que, na maioria das
vezes, nos é inescrutável. Aí está uma das características da
ação de Deus na história que, muitas vezes, nos faz tropeçar,
pois Seus caminhos nos são incompreensíveis.
Sendo Deus Alguém que parece não se importar em fazer
coisas que não conseguimos entender, feliz aquele que já
tomou duas importantes decisões. A primeira é: viver com
uma fé implícita na bondade divina. Ou seja, lidar com os
fatos da vida tendo de antemão a certeza de que, aconteça o
que acontecer, Deus é bom. Ele nos provou isso cabalmente
na cruz do Calvário. A segunda decisão é a de desistir de
compreender tudo o que acontece debaixo do sol. Ninguém
está mais fadado a um esgotamento espiritual do que aquele
que resolver encontrar uma resposta específica para tudo o
que acontece. A nós nos cabe dizer: “Mesmo não florescendo
a figueira, não havendo uvas nas videiras; mesmo falhando a
safra de azeitonas, não havendo produção de alimento nas
lavouras, nem ovelhas no curral nem bois nos estábulos,
ainda assim eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus
da minha salvação” (Hc 3:17-18).
Devemos aprender a esperar porque, muitas vezes, não
estamos preparados para receber o que desejamos. Podemos
dizer também que, comumente, não estamos preparados
para a bênção, o que faz necessário um tempo de espera.
Precisamos saber esperar nossos “sete dias”, pois este será
o tempo no qual seremos preparados pelo Espírito Santo
para não destruirmos o que Deus amorosamente ao longo
dos anos tem preparado para mim e para você. Quantos
ministros estariam hoje destruídos, caso Deus os tivesse
levantado mais cedo, em face da falta de estrutura deles para
lidar com o crescimento ministerial! Por isso, a nós,
ministros do Senhor, nos cabe, nos dias dos humildes
começos, aprofundar o ministério e deixar nas mãos de Deus
o tempo em que Ele mesmo haverá de realizar antigos
sonhos e permitir-nos ter sucesso.
Devemos saber esperar porque Deus costuma usar a
espera para nossa santificação. É normalmente nesse tempo
de espera que jejuamos, oramos, nos humilhamos e
tomamos consciência de nossa absoluta dependência de
Deus. É por isso que o Salmo 27 conclui dizendo: “Espera
pelo Senhor, tem bom ânimo e fortifique-se o teu coração;
espera, pois, pelo Senhor”. Você tem sabido esperar?
Compreende que é tanto uma grande expressão de fé como
também uma prova para a fé aguardar no Senhor?
Eu tenho enorme dificuldade em esperar, especialmente
nos assuntos que dizem respeito à Igreja. Em muitas
ocasiões fico com a impressão de que o relógio de Deus anda
atrasado e, inúmeras vezes, vejo Deus me levando a
desacelerar. Que maravilha, contudo, é para nós perceber
que Deus não atendeu diversas das nossas orações no prazo
que Lhe estabelecemos. Onde estaríamos se Deus tivesse
atendido a tudo que Lhe pedimos? O tempo de espera foi
usado para nossa santificação e revelou que, se Deus nos
houvesse atendido, não teríamos tido maturidade para lidar
com a bênção tão ansiada.
Harmoniza a ação do homem com a ação de Deus
“E será que, tocando-se longamente a trombeta de
carneiro, ouvindo vós o sonido dela, todo o povo gritará com
grande grita: o muro da cidade cairá abaixo, e o povo subirá
nele, cada qual em frente de si.”
As muralhas caíram pela ação do exército invisível de
Deus; contudo, o povo de Israel teve de enfrentar o
adversário. A fé bíblica nos impulsiona para a ação, na
certeza inabalável de que, ao enfrentar o adversário, não
estaremos sozinhos. Foi isso o que o Senhor disse a Josué:
“Não to mandei Eu? Não temas nem te espantes, porque o
Senhor teu Deus é contigo por onde quer que andares”.
Deus derrubou as muralhas, mas cabia ao povo agir. Fico
a pensar se não estou escrevendo para pessoas cujas
muralhas na vida já caíram, e tudo o que precisam fazer é
passar por sobre os muros já desmoronados para enfrentar o
inimigo. Quem sabe o Senhor não está aí dizendo-lhe que
está na hora de passar por sobre os escombros para
enfrentar seus adversários, pois a vitória é certa, haja vista o
fato de o caminho já estar desimpedido?
Para a queda das muralhas o povo teve apenas de cercar
a cidade, tocar as trombetas e gritar; contudo, para derrotar
o exército adversário, teve de lutar valentemente.
Precisamos aprender a conviver com o duplo milagre de
Deus. Primeiro, o milagre que nos faz esperar somente pela
ação de Deus a fim de que Ele faça o que não podemos fazer.
Depois, precisamos do milagre que nos faz crer que, ao
enfrentar o adversário que é mais forte do que nós, Deus
haverá de nos revestir de forças.
Devemos viver na força desse tipo de fé, aprendendo a
hora em que nos cabe somente orar, isto é, ganhar usando
somente a fala. Amigo, não sei se você já viveu essa situação,
mas há horas em que parece que, se movermos uma palha,
estaremos lançando tudo por terra. Você já passou por isso?
Momentos em que não temos o que fazer. Somente esperar
as muralhas caírem. Ou seja, são as horas em que a luta é
estritamente espiritual. Contudo, precisamos harmonizar
essa verdade com a convicção de que, muitas vezes, o
milagre acontece quando estabelecemos uma parceria com
Deus. Quando percebemos que deixar de agir é covardia e
que a nós cabe apenas chamar o Senhor dos exércitos para
guerrear ao nosso lado.
Você já aprendeu a contar com o duplo milagre de Deus?
O milagre que prescinde de meios e o milagre que usa os
meios estabelecidos pelo Criador? A vida cristã requer
equilíbrio, e tudo que o adversário de nossa alma faz é tentar
nos levar para extremos. Se queremos a fé proclamada por
Hebreus 11, devemos aprender a agir pela fé quando não há
meio algum, a não ser a própria fé, e usar os recursos que a
graça disponibilizou para a obtenção da vitória.
Sabe que a vitória vem de Deus
“E sucedeu que, na sétima vez, quando os sacerdotes
tocavam as trombetas, disse Josué ao povo: ‘Gritai, porque o
Senhor vos entregou a cidade’.”
As muralhas ainda não haviam caído, e Josué já podia
dizer ao povo: “O Senhor vos entregou a cidade!”. Josué
sabia que, inevitavelmente, as muralhas ruiriam, pois Deus
sempre honra os que O honram. Este é outro elemento
fundamental da fé que derruba muralhas: saber que a vitória
vem de Deus. Josué, de antemão, já declarava a vitória, pois
“a fé é a certeza das coisas que se esperam, a convicção de
fatos que se não veem”. E isso é assim por ter como base a
Palavra do Deus.
Essa é uma fé tanto retrospectiva quanto prospectiva.Faz aquele que a possui olhar para trás, para o que Deus
falou, como também olhar para frente, para o que Deus fará.
Essa fé gera tamanha concretude da realização de certas
coisas no futuro que o homem que crê é levado a falar sobre
o futuro usando palavras no pretérito. Assim como disse
Josué: “O Senhor vos entregou a cidade” – antes de isso ter
ocorrido.
Certamente há muitas muralhas em nossa vida que
precisam cair. Pela fé, elas podem ruir tal como aconteceu
em Jericó. Pense: onde o inimigo se alojou em sua vida? Será
que você não está tentando estabelecer uma aliança com ele?
Está você já acostumado a ver a ação do inimigo no seu
casamento, em seu ministério ou na sua relação com Deus –
e você nada faz, pensando que “é assim mesmo que as
coisas são”?
A ordem foi para o povo varrer Jericó do mapa. Aquelas
muralhas deveriam cair, e ao povo cabia derrotar o
adversário. Israel não podia ter a mínima disposição de
estabelecer relação com os cananeus. Parece-me que, muitas
vezes, nos acostumamos com a presença do adversário.
Olhamos para nossa fraquezas morais, para certos hábitos
que precisam ser desarraigados de nosso coração, para a
presença de problemas que estão minando nossa vida
conjugal, e dizemos: “Preciso contentar-me, afinal, nesta
vida nada é perfeito...”. Será que não estamos precisando
tocar as trombetas em sinal de alerta? Precisamos nos armar
e gritar: “Senhor, não vou permitir que, na geografia da
bênção que reservaste para mim, o inimigo esteja ocupando
um território que não é dele!”.
Em nome do Senhor Jesus, creia que as muralhas podem
cair e o inimigo pode ser desalojado. Para isso, no entanto, é
absolutamente necessário que você tenha, como alicerce
para sua fé, a Palavra de Deus, submetendo-se inteiramente
à vontade divina nela revelada, sabendo esperar o tempo de
Deus, harmonizando sua ação com a ação de Deus e crendo
que a vitória vem Dele.
Ouço ruído de muralhas caindo?
VI
A DERROTA E SEUS EFEITOS
“Por isso os israelitas não conseguem resistir aos inimigos; fogem deles
porque se tornaram merecedores da sua destruição. Não estarei mais
com vocês, se não destruírem do meio de vocês o que foi consagrado à
destruição.” ( Js 7:12 )
Quem lê os capítulos iniciais do livro de Josué é tomado
pela esperança que só a Bíblia pode dar. Pela fé, à luz do que
vimos até agora, obstáculos podem ser vencidos, muralhas
podem ser derrubadas e inimigos, derrotados. Como
precisamos crer nessas coisas, num mundo conturbado
como o nosso! Aguardamos o céu, mas temos sonhos
legítimos, por cuja realização ansiamos, e o Antigo
Testamento foi escrito para nosso consolo, a fim de nos
estimular ao exercício da fé. Isso fica claro em Hebreus 11:30,
texto que já mencionamos: “Pela fé ruíram as muralhas de
Jericó”. O Antigo Testamento inteiro aponta para esta
realidade: o Deus verdadeiro, o Deus de Abraão, de Isaque e
de Jacó, é um Deus vivo, um Deus que ouve orações. Por isso,
pela fé, proezas podem ser feitas em Seu nome e para Sua
glória.
Contudo, o Antigo Testamento foi escrito também para
nossa advertência. O apóstolo Paulo deixa isso muito claro
na Primeira Carta aos Coríntios 10:1-11, quando diz que, se
incorrermos nas mesmas faltas em que incorreram os judeus
no passado, vamos receber o mesmo juízo que eles
receberam naqueles dias. Portanto, podemos considerar o
capítulo 7 de Josué como um texto de advertência. Ali temos
o relato da primeira derrota do povo de Israel em Canaã, e
creio que essa história foi registrada nas páginas das
Escrituras Sagradas para que sejamos por ela alertados.
O que Josué 7 tem a nos ensinar? Penso que esse capítulo
revela, antes de mais nada, a santidade de Deus. Terrível
coisa é, à luz dessa passagem, servir a um Deus santo. Por
quê? Porque o Deus santo é um Deus fiel que exige fidelidade
do Seu povo. Sendo assim, em Sua santidade, Ele não dá
qualquer garantia ao Seu povo de que este sairá incólume da
batalha quando não for fiel à aliança feita com o seu Deus.
Mas com essa verdade, encontramos também nesse
texto uma mensagem de esperança – e até nisso os filhos de
Deus têm vantagem sobre os incrédulos: por mais duras que
sejam as dores provenientes da derrota, Deus pode usá-las
para transformar a vida dos seus eleitos. Há aquilo que
poderíamos chamar de graça reprocessadora. O Deus dos
cristãos pode transformar o lixo de suas vidas em adubo
para a fé. Não foi depois de terem traído José que seus
irmãos vieram a ser por ele sustentados? Não foi do
casamento com Batseba com quem cometera adultério que
Davi teve seu filho Salomão? Não foi depois de ter negado
seu Salvador que o apóstolo Pedro descobriu quanto o
Senhor Jesus o amava de modo especial? Todos estes não
deixaram de sofrer as consequências dos seus erros: os
irmão de José, a culpa; Davi, a perda do primeiro filho,
Pedro, as lágrimas de arrependimento, mas na vida de todos
a disciplina de Deus foi seguida pela sua misericórdia que
tirou do mal o bem.
A vida de sucesso não tem como característica vencer
sempre. Não vemos nas Escrituras os servos de Deus
vencendo sempre, e as próprias passagens doutrinárias, por
causa do que falam sobre a natureza do crente, nos levam a
esperar uma vida onde derrota é algo possível. Nenhum
crente é apresentado na Bíblia como obra acabada. Na vida
do verdadeiro crente, entretanto, as derrotas não apontam
para o fim. Ele pode se levantar delas.
Saber o que fazer com as derrotas é fundamental. No
capítulo magistral intitulado “As Crises de Desânimo do
Ministro” do seu famoso livro Lições aos meus alunos, o
grande Charles Spurgeon afirma:
Mediante todos os tombos dos Seus servos, Deus é
glorificado, pois eles são levados a engrandecê-Lo
quando Ele os coloca a Seus pés, e precisamente quando
prostrados no pó, sua fé Lhe rende louvor. Falam com o
maior dulçor da Sua fidelidade e ficam firmados com a
maior solidez em Seu amor. Homens amadurecidos
assim, como são alguns idosos pregadores, dificilmente
ter-se-iam produzido se não tivessem sido esvaziados
vaso a vaso, e não tivessem sido levados a ver sua
própria vacuidade e a vaidade de todas as coisas que os
cercam.58
Você sofreu alguma derrota no casamento? Sofreu
alguma derrota no seu ministério? Está passando por uma
terrível derrota na sua vida profissional? O que fazer após a
derrota?
O QUE FAZER NA DERROTA: COMPREENDER A
RESPOSTA EMOCIONAL COMUM QUE O CRENTE
COSTUMA DAR PARA ELA
O coração do crente se derrete
“... e o coração do povo se derreteu e se tornou como
água.”
À luz do capítulo 7 de Josué, podemos dizer, sem medo
de errar, que precisamos, após a derrota, compreender a
resposta emocional comum que o crente costuma dar a ela. O
que ocorre no coração do crente após o fracasso pessoal? Seu
coração se derrete. O verso 5 diz: “E o coração do povo se
tornou como água”. A comparação feita nos ajuda a ter uma
ideia do que ocorreu: o coração, anteriormente firme e
corajoso em Deus, se tornou agora completamente
enfraquecido e cheio de medo.
Você já passou por algo semelhante? O seu coração já se
tornou como água? Pois foi exatamente essa a experiência do
povo de Israel: um completo desencorajamento. As pernas
tremeram, a mente se alvoroçou, o coração entrou em estado
de desassossego. Foi algo profundamente fragilizador. A
esposa de Spurgeon conta que a tragédia que houve no Music
Hall – quando, num tumulto, sete pessoas morreram por
causa de um falso alarme de incêndio, bem na hora do culto
– o abalou de tal maneira que ela julgou que ele jamais
pregaria de novo. Ele se recusava a ser consolado.
“Quando meu amado foi trazido para casa, aparentava
ser a ruína da sua antiga pessoa. Uma hora de agonia mental
tinha mudado completamente sua aparência e
comportamento. A noite que se seguiu foi de choro,
lamentação e indescritível tristeza.”59
Billy Graham, numa entrevista a Larry King, disse que o
escândalo de Watergate, que atingiu em cheio seu amigo, o
presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, o deixou
doente por dentro. A igreja de Jonathan Edwards certa vez
desabou, o que o levou a dizer:“A casa ficou cheia de gritos
dolorosos e choro, e não se esperava mais nada a não ser
muitas pessoas mortas e cortadas em pedaços”.60
Por que quando é derrotado, o crente, normalmente, cai
em desencorajamento? “Pelo fato de ser humano” é uma
boa resposta, mas acontece também de o crente, em derrotas
dessa natureza, atribuir a causa do fracasso a Deus e não a si
mesmo (o que não significa que este seja o caso dos
exemplos que mencionei acima). Reconhecer que falhamos
não é fácil, eu sei. Mas quando a razão do fracasso está em
nós mesmos, há a esperança do arrependimento e do voltar
a acertar. O drama se instala quando algo acontece para o
qual não há explicação ou quando Deus parece envolvido de
forma pouco misericordiosa na derrota. Não há dúvida de
que dizer que, naquela derrota, Deus foi a causa primária do
que aconteceu é fazer uma afirmação teologicamente
irretocável. Afinal, se formos procurar uma causa final para
os acontecimentos em nossa vida, encontraremos a vontade
de Deus. A situação, contudo, exigia o acréscimo de algo:
Aquele que era a causa primária da derrota sofrida agira, não
de maneira arbitrária e despótica, mas em conformidade
com Sua natureza santa. Deus não garante vitória no campo
temporal àquele que não foi vitorioso no campo moral.
A sensação é de que a direção tomada não foi a ideal
“Disse Josué: Ah! Senhor Deus, por que fizeste passar a
este povo o Jordão, para nos entregares nas mãos dos
amorreus, para nos fazerem perecer?”
Em segundo lugar, surge também a sensação de que a
direção tomada não foi a ideal. É outro sentimento que se
apodera do coração do crente depois da derrota. Quando
somos derrotados, saímos em busca de respostas, e uma das
que costumamos encontrar é que alguma decisão precipitada
deve ter sido tomada. Ou, pior, a insinuação de que Deus não
foi sábio em Seus planos. Foi essa a impressão de Josué:
“Senhor, por que passamos o Jordão?”.
Há problemas que só o crente enfrenta. Diferentemente
dos incrédulos, o crente, numa hora como essa, faz
perguntas específicas à vida. É impossível ser crente e não
ser filósofo. O crente é forçado a pensar. Lá estava Josué
derrotado. Mas não era um derrotado qualquer, comum; era
um homem que vivia na força de uma cosmovisão centrada
em Deus. Um dos pressupostos de sua vida era o de que Deus
é soberano. Sua dificuldade consistia em não encontrar
explicação, à luz do que ele sabia, à sua derrota. O crente é
alguém que frequentemente se vê forçado a querer entender
a Providência.
Tal tarefa, contudo, está acima das nossas forças. O
curso da ação de Deus na história é enigmático: “Quem
conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?”
(Rm 11:34). Olhe, por exemplo, para a ministração da Sua
justiça. Uns são julgados imediatamente e de forma clara,
enquanto outros só tomarão conhecimento do desprazer
divino no juízo final. Quem perde de vista o fato de que Deus
pune alguns pecados hoje para que O temamos, mas não
pune a todos para que não nos esqueçamos de que haverá
um juízo final, terá sérias dificuldades para entender porque
alguns homens não foram julgados por Deus ao longo da
história. Como diz J. I. Packer:
Esta confortadora pretensão (de que podemos saber o
porquê de Deus estar agindo de tal e tal maneira) se
torna parte de nós, temos a certeza de que Deus nos
capacitou para entendermos todas as suas atitudes para
conosco e para com os que nos rodeiam, e nos sentimos
seguros de que seremos capazes de ver rapidamente as
razões para tudo o que nos possa acontecer no futuro. E
então alguma coisa muito dolorosa e inexplicável
acontece e nossa alegre ilusão de participar do conselho
secreto de Deus é abalada. Nosso orgulho é ferido,
sentimos que Deus nos desprezou, e a menos que neste
ponto nos arrependamos e nos humilhemos
completamente pela nossa antiga presunção, toda a
nossa vida espiritual futura pode ser arruinada.61
Algo é básico, porém: o governo de Deus é moral. Deus
sempre age em absoluta conformidade ao Seu caráter santo.
Aí está um ponto de partida para nossa reflexão. Isso nos
leva à afirmação de que o que Deus faz na história tem
íntima relação com aquilo que Sua natureza santa O impele a
fazer. Amplie essa passagem bíblica e aplique-a a você
mesmo. Pense no que aconteceu em Israel e a relação disso
com suas dores particulares deste mundo. “Assim que um
infortúnio nos acomete, deveríamos nos submeter a um
exame da nossa vida pregressa.”
Surge o desejo de voltar atrás
“Oxalá nos contentáramos com ficarmos dalém do
Jordão.”
Em terceiro lugar, é comum, após a derrota, surgir
também o desejo de voltar atrás. Amigo leitor, você consegue
imaginar um homem como Josué fazendo essa oração depois
do milagre que deixou todo o povo – incluindo ele mesmo –
extasiado? O povo passou a pé enxuto pelo Jordão pela ação
da providência divina. E Josué, então, por causa da derrota,
sentiu desejo de que tal milagre jamais tivesse acontecido.
Esta é a consequência natural do ponto anterior, a vontade
de voltar atrás.
Talvez você seja alguém que está com vontade de voltar
atrás na vida cristã, com vontade de romper com Deus. Ou
quem sabe seja alguém que, diante das tensões familiares,
daria tudo na vida para não ter casado. Pode ser que você
seja um ministro que, de tão farto com a estupidez e
maldade humanas, gostaria de jamais haver tomado a
decisão de entrar tão de cabeça na vida dos seres humanos.
Se esta é sua reação emocional à derrota, talvez o
console saber que Josué, bem como tantos outros santos
homens de Deus, viveu a mesmíssima experiência. É próprio
da natureza humana fugir de tudo o que lhe traz sofrimento
e buscar uma zona de conforto e segurança. Isso ocorre em
todas as esferas, do que se passa em nosso mundo
inconsciente até o ministério que exercemos. Sendo assim,
evite tomar decisões em momentos de crise. Seu coração vai
dizer que o melhor é voltar, porque assim funciona a
natureza humana. Porém, saiba que você pode ter sido
derrotado apesar de estar na direção correta, e fugir é o que
vai lhe parecer racional – no entanto, fugir será tão somente
um grande retrocesso em sua vida. Nossas decisões não
devem ter como base o sofrimento que não queremos
enfrentar e do qual queremos fugir, mas sim a vontade de
Deus. Então, amigo, não abandone, por causa da dor
emocional proveniente da derrota, o que você está fazendo.
Vem a sensação de que não há o que dizer
“Ah! Senhor! O que direi?”
Costumamos também, após a derrota, ter a sensação de
que não há mais o que dizer, nem para nós mesmos nem
para ninguém. Diz o versículo 8 que Josué fez a seguinte
oração: “Ah, Senhor, o que direi?”. Nada há o que dizer,
pois, de um lado, temos a visão da fidelidade divina e, do
outro, a derrota acachapante. Em tais momentos, não se
consegue estabelecer uma conexão entre ambas. Você está
derrotado, humilhado, fracassado, e isso se choca
frontalmente com a certeza de que Deus o ama, que Ele
cumpre seus pactos.
Nessa hora, queremos ter o que dizer. Ansiamos por
poder, via pensamento linear, por meio de uma cadeia de
causa e efeito, explicar os acontecimentos. Então, surge algo
para o qual não há explicação. Em geral, não conseguimos
viver com o inexplicável quando este nos causa dor. E
queremos ter o que falar.
Que desafio dizer todos os dias para nós mesmos: “Não
sei o propósito de Deus com tudo isso, não tenho acesso a
todos os fatos da vida e sei que Ele é bom. Por isso, apesar de
toda a escuridão, sobre as rodas de uma confiança implícita
em Deus e desconfiança dos meus próprios julgamentos,
prossigo servindo-O com fidelidade e paixão”.
Olhe para a vida de Josué. Ele só fez aquela pergunta por
não conhecer todos os fatos. Não é possível que a mesma
situação esteja acontecendo com você? Certamente as
conclusões pessimistas a que chegamos têm vínculo estreito
com a decisão de encerrar o assunto sem conhecer todas as
informações. O que devemos fazer, então? Devemos começar
raciocinando a partir do que sabemos, e não do que é mera
hipótese ou até mesmo resultado de má teologia. E o que
sabemos? QueDeus é santo, sábio e cheio de amor em todos
os Seus decretos. Estas são as premissas seguras a partir das
quais devemos raciocinar.
Tem-se a sensação de que algo pior está por acontecer
“Ouvindo isto os cananeus e todos os moradores da terra
nos cercarão e desarraigarão o nosso nome da terra.”
Há também nessas horas a sensação de que algo pior
está por acontecer. Lembro-me de uma pessoa muito
próxima que, após a morte de seu cachorrinho, passou a
temer pela morte do próprio pai. Sua oração pelo bem-estar
do seu animalzinho não fora ouvida, e isso a levou a temer
que suas orações pela saúde do pai não fossem suficientes.
O texto diz que foi exatamente assim que Josué reagiu
diante de Deus: “Ouvindo isto, os cananeus e todos os
moradores da terra nos cercarão e desarraigarão o nosso
nome da terra”. A derrota produz um curto-circuito em
nosso pensamento. Deixamos de ser lógicos. Olhe para
Josué: ao mesmo tempo que atribuía à permissão divina a
passagem pelo Jordão, pensava também em termos de causa
e efeito num sistema fechado à intervenção divina. Para ele,
o fato de os cananeus saberem o que estava acontecendo se
tornara o mais importante. Ora, é de nosso conhecimento
que vivemos num universo em que há leis naturais
estabelecidas pelo próprio Deus, que vivemos num mundo de
causas e efeitos; por isso, fazemos ciência; mas sabemos
também que este sistema não está fechado, pois Deus pode
intervir sobrenaturalmente, agindo, conforme a definição da
Confissão de Westminster: “Na Sua providência ordinária,
Deus emprega meios; todavia, Ele é livre para operar sem
eles, sobre eles ou contra eles, segundo o Seu beneplácito”.62
Qual a importância, amigo, de se saber o que costuma
acontecer com o coração do crente quando este é derrotado?
Penso que só o fato de saber que outros passaram pelo
mesmo tipo de experiência já nos consola o coração. Agora,
conhecer os equívocos que costumamos cometer nas derrotas pode
nos ajudar a evitar que elas sejam seguidas por outras muito
maiores.
Não seria derrota muito maior para Josué e o povo
desistirem de tudo? Por isso é importante conhecer como a
alma do crente funciona após a derrota, a fim de sabermos
que tipo de tratamento dar a ela para evitar derrota muito
maior – a derrota de cruzarmos o Jordão no sentido
contrário, para o que não poderemos contar com um milagre
de Deus. Em lugar de o Jordão abrir-se no sentido contrário,
você vai se afogar nele. Isso aconteceu com tantos outros
que, após bênçãos incalculáveis, menosprezaram Deus ao
tomar a decisão que visava mais à segurança pessoal que à
realização da vontade do Criador, decisão que representou a
banalização de feitos extraordinários de Deus na vida deles.
Você está se sentindo assim? Com medo de o pior
acontecer? Está você a dizer: “O meu coração se derreteu e
se tornou como água?”. Deus tem algo a lhe dizer hoje, em
nome do Senhor Jesus. Como já vimos, há uma forma padrão
de se responder às derrotas; mas carecemos não apenas de
saber que erros evitar; necessitamos, antes, falar com Deus.
BUSCAR HUMILDEMENTE A FACE DE DEUS NA
PERSPECTIVA DE OUVIR SUA VOZ
“Então Josué rasgou as suas vestes, e se prostrou em
terra sobre o seu rosto perante a arca do Senhor até a
tarde, ele e os anciãos de Israel; e deitaram pó sobre as
suas cabeças.”
Após derrotas pessoais, devemos buscar humildemente a
face de Deus no anseio de ouvir Sua voz. Assim que veio a
notícia da derrota, Josué se prostrou perante a arca do
Senhor e abriu o coração na presença Dele. Josué orou. A
derrota fez Josué orar. E mesmo nisso vemos a mão de Deus
e o privilégio da vida do cristão. Na alegria, o crente tem a
Quem agradecer e, na dor, com Quem chorar. O Deus cristão
é alguém que ouve com alegria nossos salmos de gratidão e,
com compaixão, nossos salmos de lamentação.
A aflição acompanhada de medo era tamanha que, no
coração de Josué, havia uma mistura bastante grande de fé e
dúvida. Lá estava aquele gigante espiritual dizendo: “Por
que o Senhor nos fez cruzar o Jordão?”.
O nosso Deus, porém, em Sua infinita misericórdia, ouve
as orações imperfeitas que fazemos – louvado seja o Seu
nome por isso. E orar, mesmo imperfeitamente, nos
proporciona a possibilidade de ouvir a voz de Deus. Como
ocorreu com Josué. E o que ele ouviu? Josué ouviu a resposta
de Deus às suas queixas. A oração fez com que Josué
descobrisse que havia outra explicação para a derrota. Até
aquele momento, o general recém empossado estava vivendo
a experiência do abandono de Deus e, ao abrir o coração na
presença de Deus, ao se colocar na torre de vigia – usando a
expressão do profeta Habacuque –, Josué ouviu a resposta de
Deus às suas lamúrias e entendeu a causa da derrota. A
conclusão a que chegamos é que nunca estamos mais bem
preparados para pensar do que quando oramos. A oração
pode nos levar à descoberta de soluções surpreendentes para
problemas que nos afligem, conduzir-nos a uma sóbria
visão dos acontecimentos que nos cercam e a reformular o
conteúdo de nossa súplica.
Você que vem de uma derrota e sente-se profundamente
desencorajado já parou para orar? Já parou para ouvir a voz
de Deus e rever as respostas humanas que você tem dado às
suas derrotas? Será que não chegou a hora de você ouvir
conselhos como os de Thomas de Kempis, que nos ensina
que, na hora do sofrimento, não devemos sair em primeiro
lugar correndo para obter consolo do homem, mas o consolo
que vem do alto?
O homem piedoso leva, por toda parte, consigo, o seu
consolador Jesus e lhe diz: “Assisti-me, Senhor Jesus,
em todo lugar e tempo. Seja esta a minha consolação:
privar-me, voluntariamente, de toda consolação
humana. E, se me faltar também vosso conforto, sirva-
me de suprema consolação a vossa vontade, que,
justamente, me prova.”63
Você se tem colocado diante da arca da aliança a fim de
saber se está pensando corretamente, se os seus
sentimentos são razoáveis e suas decisões, expressões da
vontade de Deus para sua vida?
PREOCUPAR-SE COM O NOME DE DEUS
“Ouvindo isto, os cananeus e todos os moradores da
terra nos cercarão e desarraigarão o nosso nome da
terra; e então que farás ao Teu grande nome?”
Aqui vemos o que difere a oração do crente verdadeiro da
feita por aquele que só ora com o propósito de encontrar
alívio para suas angústias. Não há dúvida de que muita
oração é feita no mundo. Milhares de filhos de Satanás oram
também. A Bíblia nos apresenta os próprios demônios
orando, falsos crentes orando e pagãos orando. O que
caracteriza a verdadeira oração que somente os filhos de
Deus podem fazer? É fundamentalmente a preocupação com
a glória de Deus. A maior preocupação do coração de Josué
era com o grande nome de Deus.
Posso imaginar um incrédulo satirizando deste modo o
que estou afirmando: “Engraçado esse Deus cristão –
precisa de quem cuide do Seu nome. Ele não é grande o
suficiente para se defender sozinho?”. Sim, Ele é todo-
poderoso e pode, com um simples mover do Seu dedo,
mostrar que é Deus. Quando, no entanto, Seu nome está
intimamente ligado pela graça à vida de seres humanos,
cabe a estes sair, não em defesa de um Deus que precisa de
advogados, mas em busca da glorificação do Deus que os
elegeu como testemunhas Suas. Deus decidiu revelar Sua
glória aos homens por meio de um povo. Esse povo é Sua
Igreja, e quando a Igreja vive de tal maneira que Deus
mesmo pode honrá-la sem violar Sua santidade, o mundo
vem a saber que Ele é o Deus real. O trágico é quando isso
não pode acontecer, quando Deus, em Sua santidade, tem de
dar ao Seu povo, aparentemente, o mesmo tratamento que
dá aos ímpios. Digo aparentemente porque, embora a Igreja
possa ser afligida com sofrimentos até piores dos que os
enfrentados por muitos incrédulos, os açoites que recebe são
dados por um Pai amoroso e justo.
Josué ouviu imediatamente a voz de Deus quando, na
oração imperfeita que fizera, expressou o imenso amor por
Deus que havia em seu coração. Era uma oração
acompanhada de certas dúvidas, mas não de incredulidade.
Incredulidade é uma recusa a crer, enquanto a dúvida é uma
doença da fé,que acompanha a vida daquele que ama a
Deus. Havia dúvida, mas havia igualmente um coração
repleto de amor pelo Deus, e isso fez com que, no final da
sua oração, se esquecesse do povo de Israel e lembrasse do
nome Daquele a Quem tanto amava: “Senhor, que farás ao
Teu grande nome?”.
É fato que não vamos encontrar forças para sair da
angústia proveniente da derrota enquanto nossa
preocupação maior for nossa felicidade e não a glória de
Deus. O que é doloroso, o que deve ser doloroso para o
coração daquele que ama o seu Deus não é o sofrimento da
derrota, do fracasso, da perda de uma oportunidade, da
frustração num relacionamento; o crente maduro sente uma
dor muito mais profunda: “O que os incrédulos vão dizer do
nome do meu Deus? Que conceito estes, que estão
presenciando minha derrota, terão do Deus a quem eu
sirvo?”. Pergunto se você tem uma preocupação real com o
conceito de Deus que os incrédulos têm formado por
observarem sua vida. Essa é sua maior dor?
Calvino, falando sobre o zelo pela glória de Deus, faz o
seguinte comentário: “Dificilmente haverá um entre cem
que faz da manifestação da glória de Deus seu principal
fim”.64 Não se junte a esses que constituem a maioria dos
que vivem neste planeta. Na hora da dor, a principal
pergunta não é o que fazer para não sofrer mais, e, sim,
como glorificar a Deus no sofrimento. Muitos, na busca
única de alívio, vieram a se comportar como ímpios. Mas, ao
contrário destes, saia em busca da glória de Deus. Parentes,
amigos, irmãos em Cristo e anjos estão olhando para sua
vida; portanto, pare agora para pensar em como você, um
discípulo de Cristo, deve agir nesse quadro de aflição que
está enfrentando. A vida vitoriosa segundo Deus tem a
característica de não perder o ser, mesmo em face da
oposição do mundo, da carne e do Diabo.
SUBMETER A VIDA A UM AUTOEXAME
Josué submeteu o povo de Israel a um autoexame, o qual
começou com a pergunta que Deus fez. Deus não se dirige a
nós apenas com o propósito de responder as nossas
perguntas, mas também com o propósito de nos levar a
reformulá-las.
A pergunta a ser respondida não era: “Onde está o amor
de Deus?”. A questão que precisava ser respondida era outra:
“Por que estás prostrado?” Ou, em outras palavras: “Por que
estas dúvidas referentes ao Meu amor, à Minha fidelidade e
aos Meus pactos?”. Deus levou Josué inicialmente a procurar
saber o real motivo de sua prostração: a falsa ideia de que
Deus havia abandoado Seu povo. Mas, logo após, Josué
compreendeu que o motivo da derrota não estava numa
falha na fidelidade divina, e, sim, numa falha na fidelidade
humana. E, por fim, ele descobriu onde estava o pecado.
Talvez um verbo usado no versículo 1 seja a melhor
explicação sobre o que estava acontecendo naqueles dias em
Israel: “Prevaricaram os filhos de Israel”, o que significa que
os filhos de Israel foram infiéis.
A nós cabe, na derrota, submeter nossa vida a um exame
acurado e profundo. Nosso Deus é imutável, imutável em
Seu ser e em Suas perfeições; é um Deus que não pode deixar
de cumprir as promessas estabelecidas em Sua aliança. O
erro nessas horas é pararmos para examinar a fidelidade
divina e não a nossa. Pode ocorrer de, por causa da
fidelidade à Sua Palavra, Deus nos tratar de um modo
aparentemente infiel. E aí o povo de Deus passa pela pior
experiência da vida de um crente, como descrita no final do
verso 13: “Aos vossos inimigos não podereis resistir,
enquanto não eliminares do vosso meio as coisas
condenadas”, e também no final do versículo 12: “Já não
serei convosco, se não eliminardes do vosso meio a coisa
roubada”.
Deus não negocia Sua santidade por amar-nos. Por isso,
devemos submeter nossa vida a algumas perguntas.
Costumamos levantar inúmeras questões referentes ao amor
de Deus por nós, mas agora vamos indagar com respeito à
nossa fidelidade a Deus e à Sua Palavra. Responda: como
está seu casamento? Você ama aquele com quem a Bíblia diz
que formou uma só carne? Você é fiel em seu casamento?
Será que você se tornou uma pessoa intratável? Até quando
você vai continuar essa guerra fria dentro de casa? Outro dia
alguém me procurou e falou: “Não aguento mais o clima que
meu marido cria dentro de casa. Ele não briga, não discute; é
uma violência diferente, sem palavras, sem agressão física”.
Pense no uso da língua. Quantos você tem defraudado com
ela? Você tem roubado a reputação de alguém? O que você
tem dito pelas costas sobre irmãos com quem não tem
coragem de falar frente a frente? Você se encaixa no que a
Bíblia chama de iracundo? Você diz que isso se deve ao seu
sangue nordestino, italiano, português ou à franqueza
herdada da família, mas que franquezazinha especializada
em destruir almas, em esmagar a “cana quebrada” e
“apagar a torcida que fumega”! Há alguma mentira em sua
vida? Você tem revelado segredos dos outros? Palavras
obscenas têm saído de seus lábios? Você ama a Igreja? Se
ama, por que não contribui? Você tem usado seus dons no
Corpo de Cristo? A que você assiste na televisão? Você lê
literatura pornográfica? Você se compadece do necessitado?
Você é misericordioso com o perdido?
Se você tem vivido na prática desses pecados, como
ousa, então, levantar a voz aos céus e dizer que Deus não lhe
está sendo fiel? Como você ousa questionar o amor de Deus?
Por acaso, seu Deus é um Deus que é capaz de banalizar Sua
santidade por amar você? Ele deixou de ser “Santo, Santo,
Santo”? Ele estaria mais preocupado com a promoção da sua
alegria do que na transformação do seu caráter?
Considere ainda: você tem sido diligente no uso dos
meios de graça? Você participa da ceia do Senhor? Você é
assíduo nos trabalhos da Igreja? Você lê regularmente as
Escrituras Sagradas? Você ora? É um homem de oração? O
que dizer do seu temperamento? É você manso, longânimo e
misericordioso ou sua presença é um peso para a vida dos
irmãos da Igreja, colegas de trabalho, filhos e cônjuge? Será
que você é um fardo para um mundo de gente? Há amargura
em seu coração? Há pessoas a quem você não consegue
perdoar?
O que eu estou querendo fazer com todas essas
perguntas é ajudá-lo a saber o que está enterrado no seu
arraial. Qual é a expressão de incredulidade e infidelidade
em sua vida que tem levado Deus, que é o ser que mais o
ama no universo, a dizer: “Não vou estar no meio de ti”?
Veja um comentário feito sobre a vida de John Bradford:
Nosso Bradford tinha suas práticas e exercícios diários
de arrependimento. Seu modo consistia em fazer sobre
si mesmo um catálogo dos pecados mais grosseiros e
enormes que havia cometido em sua vida de ignorância,
e estendê-los diante dos olhos quando orava em privado
[...] Costumava anotar no mesmo livro tantos maus
pensamentos como lhe vinham à mente, tais como
inveja pelo bem de outros homens, ideias de ingratidão,
de não considerar Deus em suas obras, ou de dureza ou
insensibilidade de coração quando via outros comovidos
ou afetados. E assim fazia de si mesmo e para si mesmo
um livro de práticas diárias de arrependimento.65
Penso que se fôssemos sérios tal como John Bradford em
nosso desejo de nos livrar do pecado, teríamos grande
segurança em Deus, nossas crises seriam bem menos
frequentes e Ele não se veria na necessidade de se apartar
dos nossos empreendimentos a fim de nos lembrar de que é
santo.
ARREPENDER-SE DOS PECADOS
Entenda uma coisa: você foi eleito para a santidade. Se
você gerar oposição ao propósito de Deus de torná-lo santo,
estará apenas arranjando problemas para si mesmo, pois
Deus agirá em sua vida de tal maneira que Seu propósito
imutável haverá de se cumprir. Sendo assim, por meio da
providência, Ele pode levar sua profissão, sua saúde e
permitir grandes derrotas em sua vida a fim de que seu
coração seja purificado. Não atribua ao acaso os sofrimentos,
as derrotas, os infortúnios pelos quais você tem passado –
eles podem existir porque Deus está corrigindo sua vida.
Nunca encare uma derrota sem pensar na possibilidade de
Deus o estar disciplinando.
Sabemos que Deus não envia para cada pecado que
cometemos um juízo; caso contrário, nãohaveria Igreja.
Nosso Deus é paciente. Por outro lado, creio num Deus que
disciplina Seus filhos. E o texto que estamos considerando
fala sobre isso. O povo de Israel perdeu uma batalha que,
comparada à de Jericó, era ridícula, representando um
desafio bem menor, e fracassou por causa de infidelidade:
havia algo abominável para Deus enterrado no arraial.
Erramos ao pensar que um homem infeliz é alguém que
precisa apenas de consolo. Não! Multidões vivem uma vida
infeliz porque estão em pecado, é gente que tem coisa
maldita enterrada no “arraial”.
Milhares procuram psicólogos, inquirindo: “Qual é a
causa da minha tristeza? Há uma tristeza dentro de mim que
não sai”. Amigo, o Espírito Santo se entristece! Os que
trabalham na área do aconselhamento têm de levar em
consideração essa outra causa de depressão: o pecado. Há
uma depressão que é proveniente de comportamento
contrário à natureza espiritual que o Senhor Jesus criou em
nosso coração por Seu Espírito. Ele nos criou para uma vida
que só se satisfaz com santidade. Quando não vivemos em
santidade, uma tristeza se apodera de nós – e é perda de
tempo ir para o divã do psicanalista tratar desse tipo de
sofrimento. Esse problema se trata de joelhos, confessando
pecados, pedindo perdão, mudando de vida! Mais uma vez
gostaria de citar Dallas Willard: “Nós temos que aceitar o
fato de que pecado não confessado é uma espécie de peso ou
obstrução nas realidades psicológicas e físicas da vida dos
crentes”.66
Muitos indagam: como divisar o amor de Deus nessa
decepção? Onde está a sua bondade? O amor de Deus está
maravilhosa e inquestionavelmente manifestado no
Calvário, na segunda Pessoa da Trindade, em Seu Filho, que
fez expiação pelos nossos pecados. Ali eu tenho testemunho
cabal para silenciar todas as vozes de incredulidade de meu
coração. Deus é bom e me ama com amor infinito, imutável
e eterno. Eu é que sou capaz de, apesar da revelação desse
amor, esconder coisas abomináveis no arraial. Que
insanidade!
Agora chegamos à parte mais difícil da mensagem, por
ser a mais iluminadora e desafiadora, especialmente para
nós que vivemos numa sociedade relativista, que elimina a
responsabilidade humana e tem colocado Deus no banco dos
réus. A profundidade do arrependimento expressou-se na
forma do juízo que o povo de Israel trouxe sobre a casa de
Acã: todos foram mortos e consideraram o que Acã fizera
uma loucura. Por que loucura? Porque Acã não havia
compreendido que Deus é fiel. À luz de tudo que presenciara,
a ele e sua família cabia somente crer na fidelidade divina.
Saiba de uma coisa: todo pecado tem sua origem na
incredulidade, e a incredulidade torna-nos loucos.
Por que mentimos? Por que exploramos? Por que
adulteramos? Respondo sem medo de estar errado: porque
não cremos. Porque foi por falta de fé que nós caímos. Falta
de fé na Palavra de Deus, de fé em Sua fidelidade, de fé em
que Ele é suficientemente poderoso para, por meio de nossa
submissão à Sua Palavra, satisfazer os anseios do nosso
coração, trazer verdadeira alegria à nossa vida e suprir
nossas necessidades básicas. Se cremos em tudo isso, não
precisamos mentir, explorar e adulterar.
Você está disposto a arrepender-se dos seus pecados?
Talvez você precise, então, começar com a genealogia do
pecado. Observe o que ocorreu em Israel. Começou com uma
tribo, depois afunilou para uma família, até chegar a um
indivíduo. Penso que devemos fazer ao considerar nossa
própria vida. E sabe o que vamos encontrar lá no final?
Incredulidade. Porque quem crê com a fé que é própria dos
regenerados submete-se à Palavra do Senhor, por mais
absurda que ela lhe pareça.
F. B. Meyer, comentando esse texto diz: “Não devemos
permanecer muito tempo entregues ao desespero, mas pôr-
nos de pé, para descobrir a causa da nossa derrota”.67 Então,
em vez de você ficar aí prostrado, dizendo: “Como é que
Deus permite que um servo passe por tamanha
humilhação?”, levante-se e submeta sua vida ao exame da
luz de Deus. E, ao detectar a presença de algum pecado pelo
qual Deus o está disciplinando, confesse-o e volte a viver
para a glória de Deus. Amigo, não existe maior tragédia do
que esta: “Já não serei convosco”. Por esta razão é que o
pecado de Acã foi considerado loucura, um pecado que baniu
a presença de Deus do meio do Seu povo. Você está disposto
a largar hoje o pecado por compreender que é loucura
rejeitar Deus?
VOLTAR A VIVER PELA FÉ NO DEUS SANTO E FIEL
O que fazer depois da derrota? A última decisão, mas não
por isso a menos importante, é voltar a viver pela fé no Deus
santo e fiel. Lemos isso no versículo 26: “E levantaram sobre
ele um montão de pedras, que permanece até ao dia de hoje;
assim, o Senhor apagou o furor da Sua ira; pelo que aquele
lugar se chama o vale de Acor até ao dia de hoje”. Josué
devia sair daquele estado de dúvida e medo. Como? Voltando
a viver pela fé no Deus a Quem servia. Quem é esse Deus?
Um Deus santo e fiel.
Duas verdades teológicas saltam desse texto bíblico:
Deus é santo e Deus é fiel. Precisamos dessas duas verdades
a fim de viver a vida cristã. Saber que Deus é fiel nos
sustenta nas lutas; saber que Deus é santo nos livra de julgar
que podemos estabelecer qualquer tipo de relação promíscua
com Ele. Como diz Hebreus 10:30, 31: “Ora, nós conhecemos
Aquele que disse: ‘A Mim me pertence a vingança; Eu
retribuirei’. E outra vez: ‘O Senhor julgará o Seu povo.
Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo’”.
Ó, amigo, entenda uma coisa: a ira divina é Sua
hostilidade justa e pessoal contra o mal. Por isso é que
encontramos o contraste entre o primeiro capítulo de Josué,
que registra a promessa divina, e o sétimo, no qual Deus diz
que não estaria entre o Seu povo. No capítulo primeiro, Deus
disse: “Não te deixarei, nem te desampararei”. Mas no
capítulo 7 encontramos Deus dizendo: “Não serei convosco,
não vou estar no meio de vós”.
F. B. Meyer bem descreve o que está envolvido com o
fato registrado no capítulo 7: “Nossos aliados espirituais dos
lugares celestiais não podem cooperar conosco enquanto
abrigarmos o pecado. Sem Deus, a menor oposição é
demasiado grande para nós”.68 Compare a batalha de Jericó
com a batalha de Ai. Por que saíram vitoriosos em uma e na
outra foram tão vergonhosamente derrotados? Porque na
primeira o povo partiu sob a bênção de Deus, enquanto na
segunda partiu debaixo de maldição. Mas o Deus vivo é
misericordioso. Se ficamos desalentados com Sua disciplina,
bem faríamos se pensássemos no que seria de nós se Deus
não nos perdoasse.
A Bíblia diz que há solução para o problema do pecado: a
confissão. Se, por um lado, posso dizer que é possível
explicar sua derrota pessoal como resultado de algo que está
enterrado em sua vida, que você precisa desenterrar e
apresentar a Deus, por outro lado, afirmo também que, se
hoje confessar seus pecados a Deus, em nome do Senhor
Jesus, você se tornará mais alvo do que a neve. Ele vai pegar
seus pecados, lançá-los no fundo do mar e vai lhe dizer: “Eis
que estou contigo todos os dias, até a consumação dos
séculos. Não te desampararei, nem te deixarei”.
Josué 7:26: “Apagou o furor da Sua ira”. A ira de Deus,
sendo justa, cessa quando o pecado é resolvido. Neste
capítulo, constatamos que a ira de Deus só foi apagada, que
Deus só foi apaziguado e só voltou a sorrir para o povo de
Israel quando este se arrependeu dos seus pecados. E a Bíblia
diz, em João 3:16, que não há a mínima possibilidade de
Deus ser propício a nós a não ser pelo sacrifício do Seu Filho
recebido pela fé em nosso coração.
Penso que na vida das pessoas mais tementes a Deus,
Satanás costuma armar duas ciladas. A primeira é levá-las a
não fazer a obra de Deus livremente por julgar que seus
motivos não são totalmente puros; a segunda é realizar a
mesma coisa só que usando outro método: a lembrança
constante do pecado praticado no passado. Amigo, duas
decisões você e eu temos de tomar na vida: a primeira, a de
não esperar o surgimento de motivos totalmente puros para
fazermos a obra de Deus. Quem pode discernir as próprias
faltas? Quem é movido porcem por cento de pureza de
propósitos? Se fosse esperar motivos perfeitamente puros
para fazer a obra de Deus, confesso que sequer sairia de
casa. A melhor obra do maior santo é sempre marcada pela
mescla de boa intenção com vaidade. A segunda decisão que
precisamos tomar é simples: esquecer as coisas que para trás
ficaram. Vou eu criar mais motivos ainda para me lamentar
no futuro, por não servir a Deus no presente por causa de
um pecado do passado?
“Levanta-te! Por que estás prostrado sobre o teu rosto?”
Quero dizer-lhe o mesmo, em nome do Senhor Jesus. Você
foi derrotado, seu coração se derreteu e se tornou como
água; contudo o exército celestial pode voltar a servi-lo. O
Príncipe do exército do Senhor, com a espada nua, está
pronto para ajudá-lo novamente. Mas, para tal, é necessário
que você traga à memória que Deus é santo, fiel e gracioso.
VII
INSISTINDO NA VITÓRIA
E disse o Senhor a Josué: “Não tenha medo! Não se desanime! Leve todo
o exército com você e avance contra Ai. Eu entreguei nas suas mãos o rei
de Ai, seu povo, sua cidade e sua terra. Você fará com Ai e seu rei o que
fez com Jericó e seu rei; e desta vez vocês poderão se apossar dos
despojos e dos animais. Prepare uma emboscada atrás da cidade”.
Então Josué e todo o exército se prepararam para atacar a cidade de Ai.
Ele escolheu trinta mil dos seus melhores homens de guerra e os enviou
de noite ( Js 8:1-3).
No capítulo anterior, vimos a primeira derrota de Israel
na terra da promessa. Quem olhava aquela situação de fora,
tinha a impressão de que Deus fora infiel para com Israel.
Deus havia, em inúmeras ocasiões, enviado mensagens de
esperança ao Seu povo, garantindo-lhe que haveria de sair
vitorioso nas batalhas de Canaã. No capítulo 7 de Josué,
contudo, vimos como o povo sofreu terrível derrota,
resultando na morte de 36 pessoas do seu exército. Esse fato,
conforme vimos, deixou o coração de todos derretido, como
água – essa fragilização advinha da incapacidade
momentânea de compreender que o que acontecera não era
contrário à fidelidade divina; antes, a derrota se devia à
infidelidade humana. Concluímos, portanto, que se Deus não
fosse santo, teria impedido aquela derrota.
Vimos também que o Deus santo pode voltar a ser
favorável mediante o arrependimento de Seu povo. A Sua ira
pode se apagar e Ele volta a sorrir para os Seus eleitos após o
arrependimento destes. Por isso, nas vezes em que a derrota
se dá em função da infidelidade humana, uma vez tendo sido
feita a propiciação exigida por Deus, a possibilidade de
obter-se vitória na batalha onde houve derrota estabelece-se
novamente. Esta é grande mensagem do capítulo 8 do livro
de Josué: é possível sairmos vitoriosos onde um dia saímos
humilhados pelo adversário!
Você pode sair vitorioso na área em que, um dia,
fracassou. Josué 8 nos ensina que podemos voltar a insistir
na conquista da vitória naquela área em que, anteriormente,
fomos derrotados. A derrota faz parte da vida cristã. Saber
como evitá-la é um dos elementos da sabedoria cristã.
Aquele que anda com Cristo, entretanto, aprende também o
que fazer com a derrota. Em especial, aprende a transformar
a antiga derrota numa oportunidade para nova vitória. As
perguntas que eu gostaria de considerar com você são as
seguintes:
Como podemos sair vitoriosos na situação em que já
fomos derrotados?
Quando Deus, pela sua palavra, nos assegura de que
devemos insistir na vitória?
Ao ler este capítulo, quase ouço Deus dizendo: “Volta
para o campo de batalha!”. “Disse o Senhor a Josué: ‘Não
temas, não te atemorizes: toma contigo toda a gente de
guerra, e dispõe-te, sobe a Ai; olha que te entreguei nas tuas
mãos o rei de Ai, e o seu povo, e a sua cidade, e a sua terra’.”
Muitas vezes, o melhor a fazer nos negócios é deixar de
insistir em projetos que se têm revelado inviáveis. Em
muitas ocasiões no meu ministério, tive de abandonar
planos que foram elaborados com muito entusiasmo e
carinho. Nessas horas, a sabedoria nos manda tomar a
direção contrária ao caminho escolhido o mais cedo possível,
pois, quanto mais longe formos, maior será o percurso a ser
percorrido de volta – isso quando é possível voltar! Quantas
vezes perdemos dinheiro, tempo e oportunidades
maravilhosas por puro orgulho, o qual impede de reconhecer
que erramos em nosso planejamento.
Há momentos na vida, no entanto, em que Deus revela
claramente que devemos insistir em determinados alvos. Se,
por um lado, há situações em que a sabedoria nos manda
abrir mão de alguns planos, por serem impraticáveis, por
outro, a fé, fruto da revelação de Deus em Sua Palavra, nos
impulsiona a insistir na vitória, naquele exato ponto em que
fomos derrotados. Essa foi a experiência vivida pelo povo de
Israel na batalha de Ai. O povo fora derrotado, mas era a
vontade de Deus que persistisse na busca pela vitória. Buscar
aquela vitória não representava nem temeridade nem
insistência no erro.
A Bíblia nos ensina que cabia ao povo avançar, pois a
promessa já havia sido dada por Deus. Ele daria a totalidade
daquela terra a Israel, e não era da Sua vontade que o
território fosse dividido com os incrédulos. O desejo de Deus
era que o adversário fosse expulso e, exatamente por isso,
aquela derrota não deveria ser aceita. Deus, então, conduziu
o povo novamente para o campo de batalha, dizendo:
“Retornem ao campo de batalha, a fim de enfrentar o
adversário que os derrotou”. Em Sua graça, Deus fez com
que o povo partisse para a guerra novamente sem olhar para
o histórico de derrota, mas para o histórico de vitória:
“Farás a Ai e a seu rei como fizeste a Jericó e a seu rei;
somente que para vós outros saqueareis os seus despojos, e o
seu gado”. Deus estava querendo curar a memória de seu
povo. Marcas profundas haviam sido produzidas pela derrota
sofrida; para curá-las, Deus levou o povo a considerar a
vitória, não a derrota do passado. Quem sabe não é isso que
você está precisando fazer também?
Talvez você esteja considerando a derrota e não as
vitórias que Deus já lhe deu. Olhe para a área da santificação
em sua vida. Será que você só olha na direção do que ainda
não foi feito, caindo em tal desânimo que nem se considera
um cristão? Em lugar disso, perceba o quanto já avançou
com Deus! Você ainda não é o que gostaria de ser; contudo,
não é mais o que um dia já foi. Então, não veja apenas a
derrota sofrida em Ai! Lembre-se das grandes muralhas de
Jericó que, em sua vida, já foram destruídas! Não é fato que
o inimigo de nossa vida é quem nos faz ver somente o lado
negativo das coisas? Não é ele que nos faz ver, não o mel, e
sim o ferrão da abelha, não as flores do jardim, e sim as
ervas daninhas, não o que temos, mas o que não temos?
Conhece a história daquele sujeito que estava caindo do
15o. andar de um prédio e, ao passar pelo 9o., disse: “Até
aqui, tudo bem!”? É claro que não estou pedindo que você
seja um otimista desse calibre; eu estou chamando você para
considerar os fatos que indicam, mesmo em meio ao muito
que não deu certo, o quanto Deus já realizou em sua vida.
Ver os ferrões, as ervas daninhas e o que falta faz parte da
vida, mas concentrar a visão neles – de tal forma que
fiquemos prostrados, não sejamos gratos pelo que Deus já
fez e incapacitados de recobrar o fôlego para obter vitória –
não é sábio e muito menos corresponde à fé que
professamos. Como bem expressou Henri Nouwen: “As
pessoas que vieram a conhecer a alegria de Deus não negam
o infortúnio, mas escolhem não viver nele”.69
Quantas vezes precisamos ser empurrados por Deus para
o campo de batalha pelo fato de nosso coração estar cheio de
temor do inimigo? E quantas vezes precisamos partir, não
olhando para o fracasso experimentado, e sim para o êxito
obtido? Por quê? Porque após grandes frustrações somos
levados pela vida a viver somente na defensiva. A lembrança,
entretanto, dos sucessos em Deus nos revela que vale a pena
ousar.
Amigo, fuja do pecado da autoproteção. Não fique se
comportando como mercadoria frágil. Já sofreu decepções
com amigos? Pessoas já o traíram? Apesar disso, continueinsistindo no amor, continue vivendo para servir e não para
ser servido. Prefira pagar o preço da confiança nos seres
humanos que se apresentam a você como santos a viver a
vida inteira na defensiva, desconfiando de todos. Não
devemos ser ingênuos, mas não podemos deixar de investir
nos Pedros que erraram, mas se arrependeram, por causa
dos Judas que não têm jeito.
Milhares vivem na defensiva e até mesmo usam a Bíblia
de maneira errada para justificar sua desconfiança no
homem. Não entendem que quando a Palavra de Deus nos
diz que é maldito o homem que confia no homem (Jr 17), ela
está apenas nos ensinando a não depender somente da ajuda
humana para viver – ela não está semeando a desconfiança
entre os seres humanos. Existe gente, por exemplo, que, no
desejo de servir a Deus, decepcionou-se com os cristãos.
Porque foi criticado pelo pastor ou porque as coisas não
funcionaram em seu ministério conforme esperava, hoje não
consegue fazer mais nada. Então, declara: “Maldito o
homem que confia no homem”. Julga que seu erro foi
investir a vida em pessoas. Ora, jamais erramos quando
vivemos com o propósito de promover a vida de um homem.
Se saímos decepcionados, a desgraça é de quem nos traiu, e
não de nós que, pela compaixão do Espírito, nos dedicamos a
alguma causa com ardor.
Respondemos de forma infantil a tais frustrações, pois,
de modo geral, não sabemos ainda quem somos em Cristo.
Nele, somos amados por Deus. Que homem pode nos tirar
dessa posição? Não vamos permitir que nosso ego seja tão
frágil que não consigamos prosseguir sem sermos adulados.
Henri Nouwen confessou:
Há poucos minutos em minha vida em que eu não seja
tentado pela tristeza, melancolia, descrença, mau
humor, pensamentos sombrios, especulações mórbidas e
ondas de depressão. E com muita frequência deixo que
estes estados de espírito abafem a alegria da casa de
meu Pai. Mas quando em verdade acredito que de fato
regressei e que meu Pai já me vestiu com um manto,
anel e sandálias, posso retirar a máscara de tristeza do
meu coração e afugentar a mentira que acoberta o meu
verdadeiro eu. Assim posso aspirar à verdade com a
liberdade inerente ao filho de Deus.70
Saiba que Deus está assegurando que você deve voltar ao
campo de batalha porque a vitória é certa! É chegada a hora
de você lembrar-se do histórico de vitórias em sua vida!
Portanto, podemos sair vitoriosos naquela situação em que,
um dia, fomos derrotados quando Deus, por Sua Palavra, nos
assegura que devemos insistir na vitória. Cabe a nós
corajosamente partir novamente para a arena.
QUANDO, PELA FÉ, VENCEMOS O MEDO
Muitas vezes, apesar de compreender que não podemos
aceitar de modo algum a derrota, o medo nos imobiliza.
Deixe-me dar o exemplo de algo que acontece
frequentemente no casamento. Você se dirigiu ao seu
cônjuge, para pedir perdão ou para apresentar um anseio
antigo seu, visando, com isso, à melhoria de seu
relacionamento. No entanto, a coisa toda piorou. Por esse
motivo, você se recusa a voltar à batalha que precisa ser
encarada. Há algo de maligno que está ocupando a geografia
da sua bênção, e você teme ser novamente derrotado. Mais
uma vez, deixe-me citar Henri Nouwen:
Eu tenho tanto medo de não ser amado, de ser culpado,
posto de lado, superado, ignorado, perseguido e morto,
que estou constantemente criando estratégias para me
defender e consequentemente garantir o amor que acho
que preciso e mereço. Assim fazendo, me distancio da
casa de meu Pai e escolho habitar num país distante.71
O povo de Israel precisava, naqueles dias, vencer dois
traumas: o trauma da derrota infligida pelo adversário e o
trauma do justo juízo de Deus. Duas perguntas certamente
estavam presentes na mente da nação: “Será que o
adversário que nos botou para correr e matou 36 de nós pode
ser vencido? Deus voltou a sorrir para nós?”.
Diz a Escritura Sagrada que, em meio a tudo isso, Deus
enviou uma antiga mensagem a Josué. Imagine a cena:
foram 36 amigos mortos, o Anjo do Senhor com a espada
nua havia, aparentemente, desaparecido e o povo fugia da
batalha. O pensamento de todos deve ter sido este: “Será que
este adversário pode ser vencido? Faz sentido voltar a
enfrentá-lo? Não seria melhor fazer um acordo de paz,
mantendo uma relação pacífica com essa gente?”. Não é
exatamente isso que fazemos: acordo de paz com o mal, com
a infelicidade e até mesmo com o pecado?
Nesse contexto de trauma e medo, diz a Bíblia que a
palavra de Deus voltou ao comandante Josué: “Não temas
nem te atemorizes, disse o Senhor a Josué [...]. Olha que te
entreguei nas tuas mãos o rei de Ai, e o seu povo, e a sua
cidade, e a sua terra”.
Temos aqui uma gloriosa promessa feita àquele que
pecou e confessou seu pecado a Deus. Uma vez confessado o
pecado, o favor de Deus é restaurado na vida do pecador
arrependido. Você foi derrotado, detectou a real presença da
infidelidade em sua vida, havia algo enterrado no arraial;
mas você se arrependeu, procurou a genealogia do pecado,
rasgou a alma na presença de Deus e pediu Sua misericórdia.
Se você assim o fez, Deus está sorrindo para você e está a lhe
dizer: “Meu servo, não temas nem te atemorizes. Volta ao
ministério, volta para a reconstrução de teu casamento,
volta a sonhar com o sucesso de tua vida profissional, volta a
viver para a glória do Meu nome. Não temas nem te
atemorizes!”.
Em nome do Senhor Jesus, encare os seus temores e não
permita que eles determinem o curso de sua vida. O inimigo
o derrotou? O que é ele diante do Deus que já lhe assegurou a
vitória por meio de Sua Palavra? O pecado foi a causa maior
da derrota? Já o confessou? Se já o confessou, como ousa
afirmar que o seu pecado não pode ser propiciado pelo
sangue do Cordeiro?
Em Josué 8:7 vemos que o coração de Josué já havia sido
completamente restaurado: “Então saireis vós da
emboscada, e tomareis a cidade, porque o Senhor, vosso
Deus, vo-la entregará nas vossas mãos”. Louvado seja o
nome do Senhor, pois lá estava Josué no meio da batalha
tendo esta profecia de vitória nos lábios: “Deus nos entregou
os adversários em nossas mãos! O jogo vai virar!”.
Diz a Bíblia que Josué não retirou a mão de sua lança
enquanto a vitória não foi obtida. “Então disse o Senhor a
Josué: ‘Estende a lança que tens na mão, para Ai; porque a
esta darei na tua mão’. E Josué estendeu a lança, que estava
na mão, para a cidade [...] Porque Josué não retirou a mão
que estendera com a lança, até haver destruído totalmente
os moradores de Ai”.
Oh! Amigo, mantenha firme a arma que Deus colocou
em sua mão, aponte-a para o inimigo até ver a vitória. Nós
sabemos que a grande arma que temos nas mãos é a Palavra
de Deus com suas promessas. Permita que o Espírito Santo
exorcize o temor de sua alma. Você caiu? O Senhor é
poderoso para o levantar. Pecou? O sangue de Jesus pode
purificá-lo de toda a iniquidade. O inimigo o derrotou? Diga-
lhe: “Saiba que estou voltando para a arena no nome
Daquele que é meu escudo e fortaleza!”.
QUANDO, ANTES DE AGIR, PARAMOS PARA OUVIR A
ORIENTAÇÃO DIVINA
Vemos que Deus fez com que Israel voltasse à arena de
três modos. Primeiro, houve a necessidade de Deus falar a
Josué a fim de encorajá-lo: “Volte ao campo de batalha, pois
vou operar no meio de Meu povo conforme operei em
Jericó”. O referencial, no qual ele deveria pôr sua esperança,
não era mais a derrota de Ai, mas a vitória em Jericó. Em
segundo lugar, Deus dirigiu-se a Josué nestes termos: “Eu
amo Meu povo e, no Meu amor, perdoei seus pecados e
iniquidade; então, livres de qualquer espécie de temor,
voltem a enfrentar o adversário que os derrotou”. É
fundamental, porém – e esta é a terceira coisa que Deus fez
–, que, antes de voltarmos a enfrentar o adversário que uma
vez nos derrotou, paremos a fim de ouvir a orientação
divina: “Farás a Ai e a seu rei como fizeste a Jericó e a seu
rei; somente que para vós outros saqueareis os seus
despojos, e o seu gado; põe emboscada à cidade, por detrás
dela”.
Por vezes, perdemos batalhas fáceis porque julgamos
que tudo de que precisávamos era crer. Crer é fundamental,
mas quem disseque a verdadeira fé prescinde do correto
julgar que nos leva ao planejamento sábio? Precisamos não
apenas de fé, mas de sabedoria também para enfrentar o
adversário. Não basta proclamar, por exemplo, vitória no
campo profissional; é fundamental que trabalhemos duro,
sejamos pontuais, façamos as coisas com excelência e
planejemos com sabedoria. Porque vemos tantos fracassos
em famílias de crentes apesar de todas as declarações de
vitória que lhes são ensinadas? Isso acontece porque lhes
falta sabedoria. O povo de Israel recebeu da parte de Deus
tanto a fé quanto a orientação sábia e prudente. Não basta
apenas amarrar o espírito de pobreza na sua casa, dizendo:
“Vou amarrar hoje, no culto da ‘vitória’, o devorador!”. Mas,
além de “amarrar o devorador”, você é pontual? Cumpre o
que promete? Tem procurado se aperfeiçoar tanto ou mais
do que seus companheiros de trabalho? Você se prepara
antes de fazer as coisas? Gary Collins, falando sobre pessoas
verdadeiramente influentes, afirma: “Os que são
verdadeiramente influentes [...] tão pouco são como
sonhadores que vivem construindo castelos no ar, sem
realizar muito porque sua mente está tão enfocada no futuro
que não conseguem dar-se conta de suas responsabilidades
atuais”.72
O povo recebeu a orientação divina para a batalha, o que
foi fundamental para dar-lhes a vitória. Isso está
absolutamente claro no verso 2: “Farás a Ai e a seu rei como
fizeste a Jericó e a seu rei; somente que para vós outros
saqueareis os seus despojos, e o seu gado; põe emboscada à
cidade, por detrás dela”. No verso 10 lemos que Josué
multiplicou o número de valentes para a luta naquele
conflito. Se, no capítulo 7, descobrimos que três mil soldados
foram enviados para a batalha, no verso 10 descobrimos que
Josué mandou, desta vez, trinta mil soldados: “Levantou-se
Josué de madrugada, passou revista ao povo e subiram ele e
os anciãos de Israel, diante do povo contra Ai”.
Depois de tudo o que aconteceu, Josué passou o povo em
revista a fim de se certificar de que todas as coisas estavam
corretas. Deixe-me fazer uma aplicação disso. Para
realizarmos um bom culto cristão, basta orar? Não! Cabe ao
pregador preparar-se adequadamente em casa, jejuar, orar e
estudar o texto que pretende proclamar ao povo de Deus.
Cabe aos músicos ensaiarem as músicas que pretendem
tocar. Os que mexem com a aparelhagem de som devem
chegar cedo a fim de preparar os equipamentos para que,
depois, a igreja não tenha de atribuir ao diabo aquilo que foi
a irresponsabilidade humana. Refiro-me à igreja, mas isso
envolve todos os aspectos da vida. Pense na sua profissão,
no seu casamento, na administração da sua vida espiritual.
Estou cada vez mais convencido de que, para ter-se
progresso na vida espiritual, não bastar ler a Bíblia e orar.
Isso é fundamental, mas cabe a nós também – usando uma
ilustração da própria Bíblia, que diz que a vida espiritual
pode ser comparada a uma pessoa que ingressou numa
academia – exercitar o espírito, ir para o ginásio de Deus
para trabalhar os músculos do caráter, fazendo
compromissos de controle do temperamento, da língua e dos
hábitos. Como diz o apóstolo Paulo: “Mas esmurro o meu
corpo e faço dele meu escravo, para que, depois de ter
pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado” (1
Co 9:27). É Dallas Willard quem afirma: “A Bíblia também
nos informa que existem certas práticas, solitude, oração,
jejum, celebração e assim por diante, que podemos
empreender, em cooperação com a graça, para elevar o nível
de nossa vida na direção da piedade”.73
O texto que estamos estudando deve ser contrastado
com o capítulo 6 de Josué. Isso porque naquele capítulo a
estratégia montada era uma verdadeira prova para a fé:
trazia uma ordem divina, aparentemente ilógica aos olhos
dos homens. Lá estavam as enormes muralhas erigidas,
fortes, impenetráveis, o adversário bem guardado ali dentro.
O povo de Israel, sem saber o que fazer, ouve a estranha
ordem de Deus: “Organizem uma procissão, durante seis
dias deem uma volta em torno da muralha e, no sétimo dia,
deem sete voltas, tocando as trombetas”. Isso não era uma
estratégia militar, mas uma estratégia absurda – a não ser
pelo fato de ela ter sido apresentada por Deus.
Contudo, a estratégia do capítulo 8 de Josué fazia
sentido; esta, sim, era uma verdadeira estratégia de guerra.
“Ali está Ai, com todos os seus moradores orgulhosos da
vitória. A tática será diferente agora. Nada de trombeta ou
gritos. Quero que vocês dividam os soldados em dois grupos.
Um irá por detrás da cidade e o outro irá pela frente. Quando
o que irá pela frente estiver se aproximando da cidade e vir a
reação do adversário, baterá em retirada. E procure se
distanciar da cidade o suficiente para que ela fique
completamente desguarnecida. Então, o grupo que está por
detrás da cidade a invadirá.”
A Bíblia diz que esse segundo grupo pôs fogo na cidade,
e, quando os soldados voltaram os olhos para Ai e viram a
cidade em chamas, tentaram retornar para lá, e os que
estavam atrás da cidade, na emboscada, partiram de
encontro aos soldados de Ai. Estes, quando tentaram fugir
na direção contrária, viram também o outro grupo do
exército de Israel. Foram todos derrotados, vindo a morrer
doze mil pessoas nessa batalha. É interessante o número
doze mil, uma vez que doze era o número das tribos de
Israel. Isso me faz lembrar o seguinte: “Minha é a vingança;
eu retribuirei, diz o Senhor” (Rm 12:19).
A Bíblia, portanto, nos quer ensinar que Deus pode
trabalhar de ambos os modos; nossa tarefa é permanecer
tanto fiéis aos absurdos da direção divina como fiéis quando
for exigido que apenas façamos o que o bom senso nos
manda fazer. No capítulo 6, encontramos a fidelidade que
exige a submissão ao absurdo – mas note bem: ao absurdo
revelado, à palavra de Deus, não à palavra do homem. Se a
palavra de Deus o manda fazer algo, faça imediatamente,
por mais ilógico que o plano possa lhe parecer. Como afirma
Jonathan Edwards, citado por John Gerstner: “É irracional
questionar racionalmente qualquer coisa ensinada pela
revelação, uma vez que a revelação por si mesma esteja
estabelecida”.74 Se a Bíblia é, de fato, a Palavra de Deus, é
racional aceitar o que nela é aparentemente irracional.
Mas precisamos também de fidelidade para nos
submeter àquilo que o bom senso nos ordena fazer. É
interessante vermos ambas as coisas na Bíblia. Observe o
mandamento para sermos mansos: “Bem-aventurados os
humildes, pois eles receberão a terra por herança” (Mt 5:5).
Existe coisa mais contrária à natureza humana do que
sermos mansos? Abrir mão de nossos direitos? A Bíblia
afirma que aquele que assim proceder será o vitorioso. Faz
sentido essa proposta? A Bíblia diz que, se você quiser
prosperar, deverá dar seu dinheiro (isso não significa que tal
acontecerá em todos os casos). Faz sentido isso? Quanto
mais você der, mais receberá – este é o claro ensinamento
em vários textos das Santas Escrituras. As janelas do céu se
abrem para os generosos! No Sermão da Montanha (Mt 5-7),
vemos apenas conselhos absurdos nas bem-aventuranças,
contrários ao que comumente se ensina e se aprende. O
Senhor Jesus apresenta o conceito de felicidade dizendo:
“Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados.
Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra
por herança. Bem-aventurados os que têm fome e sede de
justiça, pois serão satisfeitos” (5:4-6). O filósofo alemão
Friedrich Nietzsche via com horror esse tipo de vida. O
historiador norte-americano Edward McNall Burns registra
esse horror:
Nietzsche exigia que fosse derrubada a supremacia
moral do cristianismo e do judaísmo. Ambas as religiões,
dizia ele, glorificavam as virtudes dos oprimidos.
Transformavam em virtudes atributos que deveriam ser
considerados vícios – humildade, falta de resistência,
mortificação da carne e piedade pelos fracos e
incompetentes. A entronização dessas características
impedia a eliminação dos inaptos e os preservava para
despejarem seu sangue degenerado nas veias da raça.75
A Bíblia exige fidelidade a esses aparentesabsurdos.
Aparentes, pois somente são absurdos para os que, como o
filósofo ateu alemão, vivem nas trevas de um egoísmo que
só é capaz de enxergar a importância desses valores quando
necessita que outros manifestem a seu favor essas virtudes
que condena ou quando, em face da barbárie em algum lugar
(guerra, pedofilia, estupro, sequestro etc.), é levado a crer
que só é possível o mundo dos nossos sonhos se for regido
pelos valores do Sermão da Montanha.
Agora, há mandamentos que fazem sentido. Por
exemplo: “Os planos fracassam por falta de conselho, mas
são bem-sucedidos quando há muitos conselheiros” (Pv
15:22). Isso se harmoniza com o bom senso. Ao afirmar isso,
porém, não estou dizendo que aquele que recebeu uma
mente iluminada pela graça não verá sentido no Sermão da
Montanha, mas, sim, que, do ponto de vista do não
regenerado, algumas coisas na Bíblia são sem sentido,
enquanto de outras até os ateus gostam. Como é difícil para
muitos do povo de Deus saber que caminham de ambos os
modos: em submissão aos “absurdos” e tendo de agir de
acordo com o que a razão ordena fazer. F. B. Meyer,
comentando o capítulo 8 de Josué, faz a seguinte afirmação:
“Embora estivesse certo da vitória, Josué adotou a medida
que seus conhecimentos militares sugeriam. Observemos o
lugar que o nosso planejamento deve ocupar. Não é deixar
Deus de fora, mas abrir a trilha por meio da qual o Seu
socorro possa chegar até nós”.76
Muitas vezes apresentamos na igreja um bom
planejamento, mas nos questionamos: “Onde está Deus
nisso tudo?”. Uma resposta é esta: nosso planejamento é o
caminho aberto para que Deus possa operar. A fé não
prescinde de meios sábios e prudentes. Vemos isso
claramente na vida daquele que nos ensinou a não pular do
pináculo do templo (Mt 4)!
CONCLUSÃO
Israel marchou, subindo rumo ao longo e desolado
passo; ao caminhar, podiam ver a tenda de Acã, cenário de
seu recente castigo. Agora o coração daqueles milhares
estava dócil, com toda humildade avançaram e não estavam
envergonhados.77
Ao final da peleja, o povo saiu com despojo. O despojo
que levara Israel à derrota, agora poderia ser desfrutado pelo
povo de Deus. Esse fato mostra como Deus governa todas as
coisas. Ele exige nossa fidelidade e nos disciplina a
infidelidade; no entanto, quando nos arrependemos, Ele
mesmo nos permite ter aquilo que, em outra circunstância,
nos traria o mal. E agora, aquele despojo, apresentado a
Deus como oferta, naquele exato ponto de nossa vida, se
transforma numa maneira de expressarmos nosso amor por
Ele.
Portanto, amigo, insista na vitória – você pode sair
vitorioso onde foi derrotado. Onde você foi derrotado? Num
voto feito a Deus? No seu ministério? Está endividado e
passou por humilhações profissionais que quase levaram sua
família à falência também? Onde você foi derrotado? Você já
discerniu que não foi a infidelidade divina? Já percebeu,
contudo, que você pode se reconciliar com o Deus santo, que
Ele pode voltar a sorrir para você, servo pecador
arrependido?
O povo de Israel podia dizer: “Senhor, já fomos
derrotados, não vamos insistir mais na retirada destes
inimigos”, mas o Senhor lhes diria: “Não! Voltem para lá!
Não quero que vocês capitulem nem que estabeleçam um
tratado de paz com o inimigo. Esta terra Eu a dei a vocês,
não quero que a dividam com mais ninguém!”. Isso nos
ensina que podemos sair vitoriosos onde fomos derrotados.
Para tal, precisamos insistir na vitória, por compreender que
temos uma palavra dos altos céus nos assegurando que não
devemos fugir do campo de batalha. Devemos eliminar o
temor ante o adversário que nos derrotou, mas que pode ser
destruído em nome do Senhor Jesus.
Não haveremos de partir na direção do adversário de
peito aberto; vamos primeiro montar um plano, usando a
mente, enquanto mantemos nossa lança apontada para Ai,
sem tirar nossas mãos dela, deixando-a se apegar à nossa
pele, vindo a fazer parte de nós mesmos. E é esta a arma que
nos garantirá a vitória: a Palavra de Deus com a qual
derrotaremos aquele que um dia nos humilhou.
VIII
O DEUS QUE ATENDE AOS HOMENS
O sol parou, e a lua se deteve, até a nação vingar-se dos seus inimigos,
como está escrito no Livro de Jasar. O sol parou no meio do céu e por
quase um dia inteiro não se pôs. Nunca antes nem depois houve um dia
como aquele, quando o Senhor atendeu a um homem. Sem dúvida o
Senhor lutava por Israel! ( Js 10:13-14).
Estaremos meditando a partir de agora no maior milagre
que Deus operou naqueles dias na vida do Seu povo –
milagre somente sobrepujado pela conversão da prostituta
Raabe. Mas, no que diz respeito à ação de Deus no mundo
natural, em Sua criação inanimada, creio que esse é o maior
milagre de todo o Antigo Testamento.
O contexto deste fato está em que o povo de Israel, sem a
aprovação divina, fizera uma aliança com os gibeonitas. Na
história de Israel vemos algo que se repetiria tantas vezes
com a Igreja: pessoas que dela se aproximam com o
propósito de tirar proveito de sua bênção e de seu caráter.
Como devemos ser criteriosos com as alianças que fazemos
com não cristãos! Isso é especialmente necessário quando o
objetivo relaciona-se ao que Francis Schae�er chamava de
“princípio da cobeligerância”: crentes e não crentes lutando
por uma causa comum. Por exemplo, se um ateu luta pela
democracia, devo estar a seu lado, pois se trata de uma
bandeira do Cristianismo também. Há alianças, contudo,
desnecessárias, que não têm o aval de Deus, por serem
produto do desejo do ímpio de usar o povo de Deus,
constituindo-se, por fim, em armadilha para os defensores
da causa de Cristo.
Em Josué 10 lemos que um dos reis que habitavam no
território de Canaã, ao tomar conhecimento das proezas que
Deus estava realizando a favor de Seu povo e da aliança feita
com os gibeonitas (vv. 2-3), uniu-se a outros quatro e
estabeleceram um plano de destruir Gibeom. Com isso,
somos introduzidos a mais uma batalha do povo de Israel na
terra da promessa, no território de Canaã.
No verso 3 temos a primeira menção à cidade de
Jerusalém na Bíblia. É bem verdade que ela é referida
anteriormente pelo nome de Salém, cidade de
Melquisedeque (Gn 14:18), mas aqui o nome de Jerusalém é
pela primeira vez mencionado na Bíblia. Essa cidade veio a
se tornar central nos propósitos de Deus. Terra habitada, na
época, por um povo ímpio e idólatra, a qual, porém, veio a se
tornar lugar sagrado – isso faz de Jerusalém uma
exemplificação da vida daqueles que, de morada de Satanás,
se tornaram habitação de Deus.
É interessante observar que o nome do rei de Jerusalém,
Adoni-Zedeque, significa “o Senhor é justiça”. O nome do
rei já era uma profecia, pois a suprema manifestação da
justiça de Deus haveria de acontecer em Jerusalém, na morte
de Jesus Cristo, nosso Salvador. Ali, conforme certo teólogo
disse, “o amor e a justiça de Deus se beijaram”, pois na cruz
Deus expressou Seu infinito amor pela humanidade,
enviando Seu Filho para morrer pelos pecadores, e
manifestou Sua justiça, oferecendo aos homens um perdão
justo que tem como base aquela morte em substituição
àqueles que, de fato, deveriam morrer por causa dos seus
pecados.
Em Josué 9, lemos sobre a aliança que foi feita entre o
povo de Israel e o povo de Gibeom, povo que fazia parte
daqueles cuja destruição Deus havia ordenado, em razão da
imoralidade à qual homens e mulheres estavam entregues, a
ponto de terem relação sexual com animais e oferecerem os
filhos em sacrifício ao deus Moloque. A Bíblia diz que o povo
de Israel fez uma aliança com os gibeonitas em nome do
Senhor (v. 18). Então, por causa do nome do Senhor, o povo
de Israel se viu moralmente obrigado a defender Gibeom.
Veja as implicações e as consequências das alianças que
fazemos. Penso, por exemplo, nas alianças políticas, quando
pastores aprofundam a injustiça no nosso país ao darem
apoio a políticos inescrupulosos, perdendo assim a
autoridade profética da Igreja. Quantos ministros existem
que não podem denunciar os pecados da sua cidade por
terem perdido a autonomia profética, por força da associação
comquem não presta.
Quando aqueles cinco reis se levantaram contra Gibeom,
os moradores da cidade clamaram que Josué os ajudasse. O
grande comandante israelita, então, mobilizou seu exército
inteiro: “Josué partiu de Gilgal com todo o seu exército,
inclusive com os seus melhores guerreiros” (10:7). Nesse
versículo, encontramos mais um princípio de vida: antes de
partir para qualquer batalha da vida, temos de saber a quem
vamos encarar e devemos nos armar de forma proporcional
ao tamanho da ameaça. Ilude-se quem pensa que os
verdadeiros crentes não usam o cérebro. É prudente rejeitar
participar de debate por julgar-se despreparado para
representar a Igreja. Mas há muitos que pensam ser uma
demonstração de fé ir de qualquer jeito, mesmo não estando
preparados, confiados em uma espécie de “inspiração”
instantânea de Deus. É um erro também, por exemplo, na
evangelização pessoal tentar refutar aquilo que não
entendemos. Se você não sabe nada sobre evolucionismo,
chame seu interlocutor para um campo que você conhece e
diga-lhe, com humildade, que sobre aquele tema você não
tem muito a falar. No máximo, comente que o surpreende
ouvir dizer que a evolução culminou em seres tão avançados
que chegaram à conclusão que todo o universo, com sua
complexidade e beleza, incluindo a existência do homem, é
obra do acaso. Portanto, arme-se bem antes de sair para a
guerra!
Nos versículos 10 e 11, vemos a profunda lealdade de
Deus a Israel:
O Senhor os conturbou [os exércitos dos cinco reis]
diante de Israel, e os feriu com grande matança em
Gibeom, e os foi perseguindo pelo caminho que sobe a
Bete-Horom, e os derrotou até Azeca e a Maquedá.
Sucedeu que, fugindo eles de diante de Israel, à descida
de Bete-Horom, fez o Senhor cair do céu sobre eles
grandes pedras, até Azeca, e morreram.
Que maravilha servir a um Deus leal. Tamanho amor O
levou a se envolver de tal modo na batalha que O vemos
guerreando a favor de Israel, com Israel e sem Israel.
Servimos a um Deus leal; por isso, nunca estamos sós.
Chegamos agora aos “versículos-bomba”. Veremos
como a lealdade do Criador aos que têm uma aliança com Ele
chega a algo inimaginável, especialmente quando visto à luz
dessa declaração do astrônomo norte-americano Carl Sagan:
As fotografias da Apollo da Terra inteira transmitiram às
multidões algo bem conhecido dos astrônomos; na
escala de mundos, para não falar da escala de estrela ou
galáxias, os seres humanos são insignificantes, uma
película fina de vida sobre um bloco obscuro e solitário
de rocha e metal [...]. Pode-se imaginar um observador
extraterrestre severo olhando a nossa espécie com
desprezo durante todo o tempo, enquanto tagarelávamos
animadamente: “Universo criado para nós! Somos o
centro! Tudo nos rende homenagem!”. E os
extraterrestres concluindo que “nossas pretensões são
divertidas, nossas aspirações patéticas e que este deve
ser o planeta dos idiotas”.78
O verso 14, porém, afirma que o Senhor, o Criador de
todo o universo, atendeu à voz de um homem! Deus atendeu
a uma oração ousada, feita por alguém do tipo denominado
por Sagan de ser insignificante, que mora numa “película
fina de vida, sobre um bloco obscuro e solitário de rocha e
metal”. A Bíblia afirma que esse ser disse: “Sol, pare sobre
Gibeom! E você, ó lua, sobre o vale de Aijalom” (v. 12). E a
Bíblia diz que o sol e a lua, de fato, obedeceram e se
detiveram! Eu não vejo outra forma de os seres humanos
terem consolo a não ser crendo, em contraposição ao
incrédulo astrônomo, no versículo 14 do capítulo 10 do livro
de Josué. Precisamos desesperadamente crer não apenas na
existência de Deus, mas em um Deus pessoal que ouve
nossas orações, que tem completo domínio sobre a criação e
nos ama! Como diz C. S. Lewis: “Nós confiamos não por
causa de um Deus existir, mas porque este Deus existe”.79
Em geral, pensamos que nossos problemas relacionam-
se à família, às enfermidades contra as quais temos de lutar
ou às loucuras cometidas pelos governos das nações. Sagan,
no entanto, não exagera ao afirmar o seguinte:
Centenas de pequenos mundos e pelo menos um corpo
celeste maior parecem ter se chocado com a Terra nos
últimos vinte anos. Não causaram dano, mas devemos
estar muito seguros de poder distinguir entre um
pequeno cometa ou asteroide impactante e uma explosão
nuclear atmosférica.80
Nessa mesma obra, entre outras coisas, ele estimula o
governo norte-americano a investir pesado em tecnologia
espacial para a confecção de foguetes, que sejam usados para
desviar asteroides de um possível choque com o planeta
Terra, o que, dependendo do tamanho do asteroide,
representaria a destruição de toda a vida aqui.
É por esta, entre outras muitas razões, que eu afirmo
que sem o verso 14 e o que ele significa, não é possível, de
fato, viver. Não é possível nem mesmo ir para a cama e
dormir sossegado. Eu preciso crer em um Deus que existe e
tem controle sobre Sua criação. Não posso dormir
tranquilamente com a possibilidade de um asteroide
desgovernado pelo espaço se chocar com o planeta e destruir
todos os nossos arquivos, poemas, canções e restar aquilo
que alguém já chamou de “desatenta frieza surda do
cosmos”. Como viver feliz se não há ninguém no cosmos
capaz de impedir tragédia dessa natureza?
O DEUS QUE OUVE O HOMEM
Mas a Bíblia nos ensina, em Josué 10, que Deus ouve a
oração do homem. Quero que isso fique claro para você: Deus
ouve o homem. Quem é Este que está disposto a ouvir você?
A importância da resposta a essa pergunta deve-se ao fato
de que o conceito que temos de Deus sempre determina a
qualidade de nossa oração, o tamanho de nossa fé e o nível
de paz que desfrutamos. Ampliar nosso conhecimento de
Deus é ampliar nossa possibilidade de mais profundamente
experimentarmos Seu amor.
O que queima meu coração é poder chegar em pleno
século XXI e dizer: “Há um Criador por trás da vida!”. Mas,
muito mais do que isso, é preciso dizer que esse mesmo
Criador se revelou nas Escrituras do Antigo e do Novo
Testamento e o conhecimento que nos proporcionou de Si
mesmo é suficiente para nos encorajar a viver neste mundo,
no qual nos encontramos sob ameaças que vão de um
asteroide que pode nos destruir a uma unha encravada que
pode nos levar à septicemia. Como somos frágeis! Mas a
Bíblia diz que o Senhor atendeu à voz de um homem. Quem é
Este que ouve a voz dos seres humanos?
Tem o universo sob seu controle
Deus tem o universo sob Seu controle. É a primeira
verdade teológica que encontramos em Josué 10. O Deus que
existe, que criou todas as coisas usando o nada como
matéria-prima, tem absoluto controle sobre a Sua criação.
Às vezes, em aulas de teologia, nós brincamos
levantando o falso dilema intelectual popularizado pelo
teólogo norte-americano R. C. Sproul: o Deus onipotente
poderia construir uma rocha tão grande a ponto de nem Ele
mesmo poder movê-la?81 As respostas são muito variadas:
uns dizem que sim, outros dizem que não, outros tentam
“filosofar” sobre o assunto. Na verdade, trata-se de um
falso dilema, pois o sentido da palavra onipotência, aplicada
a Deus, não é que Ele pode fazer qualquer coisa. Ele, por
exemplo, não pode fazer nada que vá de encontro ao Seu
caráter, como deixar de amar, de ouvir a oração dos santos,
de tratar com misericórdia as pessoas que O buscam; Deus
não pode mentir e também não pode fazer idiotices, como
um círculo quadrado, pois há coisas que são inerentemente
impossíveis. O sentido de onipotência na Bíblia é que Deus
tem completo domínio sobre Sua criação. Ele não poderia
construir essa rocha porque ela destruiria Sua onipotência, e
isso Ele não pode fazer. Ele não faz nada que escape ao Seu
controle. Dizer que Deus é onipotente significa dizer que Ele
tem completo domínio sobre a criação. Isso fica nítido no
capítulo que estamos estudando.
Eu me lembro do pastor Rick Wattz, professor-
assistente do Regent Colege em Vancouver, Canadá,
contando de uma “profecia” que surgiu na Austrália. (Às
vezes rimos de profecias que nos parecem absurdas, mal
percebendo que estamos rindo de nossas próprias teologias.)Rick contou que o tal profeta levantou-se em uma reunião e
disse algo mais ou menos assim: “Eis que aí vêm dias de
densas trevas. Eis que vos digo, Meus servos” (deixe-me
evangélico-abrasileirar a profecia) “que haverá clangor de
trombetas, furacões, maremotos, trovões! Até Eu estou com
medo!”. Essa profecia, que só pode ser uma piada, por sinal,
profundamente didática na sua forma absurda de falar sobre
a relação do Criador com o mundo que ele próprio criou, fala
de um Deus que perdeu tanto o controle da situação que até
Ele mesmo tem medo do fim dos tempos. O conceito bíblico
da organização do universo, entretanto, não nos apresenta
um Deus que está impotente em Seu trono, roendo as unhas,
torcendo para que tudo dê certo. O nosso Deus reina! Ele é
soberano. E o que encontramos nessa oração extraordinária
de Josué respondida pelo Deus Todo-poderoso é uma
ilustração bastante clara dessa doutrina bíblica. O nosso
Deus é soberano. Ele tem controle total sobre todo o
universo.
O profeta Isaías confirma essa doutrina: “Ergam os
olhos e olhem para as alturas. Quem criou tudo isso? Aquele
que põe em marcha cada estrela do seu exército celestial, e a
todas chama pelo nome. Tão grande é o seu poder e tão
imensa a sua força, que nenhuma delas deixa de
comparecer” (40:26).
Pense nisso: somos moradores de um planeta minúsculo
de um sistema chamado de Solar, que faz parte da galáxia
Via Láctea, que é composta por cem bilhões de sóis, que é
uma entre as cem bilhões de galáxias do universo. E a Bíblia
diz que Deus conhece cada uma dessas estrelas pelo nome –
e a nós também!
Neemias 9:6 afirma: “Só tu és o Senhor. Fizeste os céus,
e os mais altos céus, e tudo que neles há, a Terra e tudo o
que nela existe, os mares e tudo o que neles existe. Tu deste
vida a todos os seres, e os exércitos dos céus te adoram”. A
Bíblia diz que Ele é o criador e o mantenedor da vida. Ele não
criou o universo e deu corda nele, deixando-o entregue às
suas leis naturais. A Escritura Sagrada diz que essas leis
naturais são mantidas pelo Espírito Santo, que sustenta o
universo. Ele criou tudo do nada e mantém todas as coisas
pelo poder da Sua Palavra, de maneira que há um pentecoste
na Igreja, mas há um pentecoste na criação também, diário,
sem o qual o caos há muito já teria se estabelecido.
O profeta Jeremias também confirma essa doutrina:
“Assim diz o Senhor, aquele que designou o sol para brilhar
de dia, que decretou que a lua e as estrelas brilhem de noite,
que agita o mar para que as suas ondas rujam; o seu nome é
o Senhor dos Exércitos” (31:35). Aleluia! Nosso Deus é
onipotente e tem completo domínio sobre Sua criação, e esta
é a base de nossa segurança. Sabe por que nós podemos
dizer que todas as coisas cooperam para o bem dos que
amam a Deus? Porque Ele faz tudo segundo o conselho da
Sua vontade, e este mundo, portanto, não está entregue às
forças cegas.
Quando oramos, levamos em consideração a soberania
de Deus? Quando ora, você se lembra dessa verdade?
Lembra-se de que seu Deus é um Deus soberano? Que está
tudo debaixo de Seu controle e que, por isso, Ele pode
intervir e alterar até mesmo o curso dos astros? Você crê
nisso? Ele é a realidade última, que está por trás de tudo, e
tudo veio à existência pelo poder de Sua palavra. Então, o
Deus que ouve a oração do homem é Aquele que tem o
universo inteiro sob Seu controle. Sei que tudo o que acabei
de expor é bastante óbvio. Frases que costumamos repetir,
entretanto, sem passar no seu significado mais profundo.
Falar desse tipo de pensamento teológico é falar sobre o
fundamento da felicidade humana num universo que escapa
ao controle humano.
Permite que seu povo passe por tribulações para que O
conheça
O trecho de Josué que estamos estudando nos ensina
também que esse Deus permite que Seu povo passe por
tribulações para que O conheça. Em Sua soberania, Deus
pode decretar sofrimento para a vida de Seus amados. Ele
pode permitir que ímpios se armem e se unam para destruí-
los. Nos versículos 1 e 5 de Josué 10 vemos os adversários de
Israel fazendo uma aliança para destruir um aliado de Israel,
movidos, obviamente, pelo ódio ao povo de Deus. Estamos
diante de um episódio que, invariavelmente, se repete na
vida dos filhos de Deus: unção atrai perseguição, bênção
gera inveja, graça produz batalhas espirituais. Pode ter
certeza de que, quando Deus coloca a mão sobre a vida de
um servo Seu e começa a operar por meio dela, o inferno se
mobiliza.
Movidos pelo medo a Israel, aqueles reis fizeram uma
aliança para destruir um povo que, apesar de seus pecados,
estava sendo abençoado por ter sido escolhido por Deus. À
luz do que vimos, no entanto, é absolutamente impossível
que aqueles líderes estivessem tramando contra o povo de
Deus sem a permissão divina. O próprio fato de eles estarem
vivos aponta para essa verdade: era o poder de Deus que lhes
sustentava o corpo.
Sem dúvida alguma, o Deus que tem domínio sobre os
corpos celestes tem domínio sobre a vida do homem
também. Deus conhece cada estrela e cada fio de cabelo de
um eleito Seu. É justamente esse elemento em nossa
cosmovisão (a visão que o cristão tem da vida ou das
grandes verdades que regem seus pensamentos e análises do
que acontece no universo) que ajuda a Igreja de Cristo a
enfrentar o sofrimento. Que maravilha é, apesar da dor
inerente às batalhas da vida, saber que Deus está no
controle. Isso levou o grande João Calvino a falar sobre a
“incalculável felicidade da mente piedosa”82 por causa da
certeza que advém aos crentes mesmo diante dos múltiplos
perigos que os ameaçam. Ele prossegue dizendo: “Quando,
porém, essa luz da Divina Providência uma vez iluminou o
homem piedoso, já não só está aliviado e libertado de
extrema ansiedade e do temor de que era antes oprimido,
mas ainda de toda a preocupação”.83
Quem experimentou profundamente toda a oposição por
ser amado de Deus e importante para Seus propósitos na
história foi o apóstolo Paulo. Em Atos dos Apóstolos 27:23,
24, lemos o testemunho de Paulo acerca da fidelidade e da
soberania divina na sua vida: “Esta mesma noite o anjo de
Deus, de Quem eu sou e a Quem sirvo, esteve comigo,
dizendo: ‘Paulo, não temas; é preciso que compareças
perante César, e eis que Deus por Sua graça te deu todos
quantos navegam contigo’”. Era a resposta de Deus à ação
do príncipe do inferno que queria livrar o império das trevas
de uma derrota que se aproximava. O Evangelho estava
atingindo o coração do Império Romano. A chegada do
grande apóstolo a Roma representaria a solidificação de uma
igreja central para os planos de Deus em relação à
humanidade. O curso do mundo ocidental estava sendo
delineado. Por essa razão, Satanás queria que aquele barco
fosse a pique. Não se surpreenda se Satanás estiver querendo
que você naufrague também.
O Deus do profeta Isaías, no entanto, é o nosso Deus:
Assim como a chuva e a neve descem dos céus e não
voltam para ele sem regarem a terra e fazerem-na
brotar e florescer, para ela produzir semente para o
semeador e pão para o que come, assim também ocorre
com a palavra que sai da minha boca: Ela não voltará
para mim vazia, mas fará o que desejo e atingirá o
propósito para o qual a enviei (55:10-11).
Que significa isso? Isaías está dizendo que a palavra que
sai da boca de Deus sempre realiza, no tempo e no espaço,
Sua vontade soberana. Deus, de Seu trono santo, pode enviar
a palavra que desarticulará os planos de Satanás.
Em conexão a tudo o que estamos falando, há também
outra importante verdade bíblica, segundo a qual
descobrimos como Deus costuma agir por meio do
sofrimento na vida do Seu povo. Já vimos que as lutas fazem
parte dos planos soberanos de Deus e Ele tem um propósito
específico com elas. É imensamente consolador saber que,
além de nossa vida estar sob Seu controle, incluindo o nosso
sofrimento, Deus usa as batalhas da vida para que O
conheçamos melhor. Penso que algo assim tenha acontecido
naquele episódio. É como se Deus estivesse dizendo: “Eu vou
permitir que os adversários do Meu povo armem esse plano
para destruí-lo.Vou permitir que eles prosperem até certo
ponto. Sei que vai ser difícil para Meus eleitos. Eu vou ter de
encorajá-los. Vou ter de, pessoalmente, dizer que não
temam. O Meu povo vai ter de ir para a batalha, vai ter de
passar uma noite inteira acordado e, depois, se dirigir para o
campo de guerra. Mas, no final, Eu manifestarei de tal modo
Meu poder na vida de Meus escolhidos que eles vão Me
conhecer de maneira absolutamente nova e singular”. É isso
que a Bíblia nos ensina. Que bênção foi a trama daqueles
reis, pois deu oportunidade a uma nova revelação do caráter
de Deus! Como termina essa história? Termina com Josué
dizendo para a lua e o sol pararem e sua oração sendo
ouvida; com isso, temos, por toda a eternidade, uma prova
cabal dada por Deus de Seu amor por seres pecadores como
eu e você. O que o livro de Josué nos quer ensinar é que,
dentro de todo pacote de sofrimento, há um presente da
graça Divina, que a história que começa com dor pode
terminar com adoração – portanto, haverá um dia em que
daremos graças a Deus pelas batalhas travadas!
Amigo, será que você consegue ver que as lutas pelas
quais passa estão inseridas no plano específico de Deus para
sua vida? Que elas não são um acidente, um acaso? Que elas
não surgiram como que tendo escapado ao controle de Deus?
Josué 10 prova que teologia não se aprende apenas lendo a
Bíblia ou grandes obras de referência. Teologia aprende-se
na dor, na oração que é balbuciada em meio às lágrimas, na
percepção das perfeições divinas manifestadas nos atos de
Deus na história. Não há dúvida de que precisamos do
conhecimento a que podemos chamar de teórico ou
doutrinário, obtido por meio das Escrituras Sagradas. Sem as
lentes da Bíblia, não conseguimos ler a história do ponto de
vista da eternidade. Os fatos tornam-se fortuitos, sem
significado algum. Contudo, o conhecimento que nos chega
graças às intervenções de Deus em nossa vida, cuja
interpretação é dada pela Palavra, tem a característica
expressa por Jó, ao final de seu período de desesperador
sofrimento: “Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito,
mas agora os meus olhos te viram” (42:5).
Como podemos pensar ser possível conhecer a Deus por
meios diferentes daqueles experimentados pelos profetas,
autores dos salmos, apóstolos e pelos grandes santos de
Deus? Olhe para a vida deles. Por que Paulo podia dizer:
“Porque sei em quem tenho crido” (2 Tm 1:12) ou Davi
afirmar: “O Senhor é o meu pastor” (Sl 23:1) ou, ainda,
Pedro chamar Deus de “Deus de toda a graça” (1 Pe 5:10).
Oh, amigo!, estes homens não faziam teologia trancados em
escritórios ou bibliotecas empoeirados. As grandes verdades
do caráter de Deus lhes chegavam enquanto expandiam o
Reino de Deus, enfrentavam seus adversários, sofriam
injustiças e privações, oravam com fervor e experimentavam
a proteção celeste. Por que para nós haveria outro caminho?
Se não fosse a trama daqueles reis, talvez Josué jamais
viesse a saber que Deus, por Sua fidelidade, pode deter o
curso dos astros em resposta à oração de um pecador. E, à
luz disso e de toda a Bíblia, podemos dizer: como Satanás
serve a Deus! O Maligno leva pessoas a se levantarem contra
nós, cristãos, enchendo-lhes o coração de ódio e a mente
dos mais hediondos e sagazes planos, tão somente para que
o crente, sob a soberania divina que permite a perseguição,
conheça melhor seu Deus e Senhor.
Peleja por seu povo
Em terceiro lugar, respondendo à pergunta “quem é o
Deus que ouve a oração de um mortal?”, podemos afirmar
que Ele é o Deus que peleja por Seu povo. Josué 10:11 diz:
“Sucedeu que, fugindo eles de diante de Israel, à descida de
Bete-Horon, fez o Senhor cair do céu sobre eles grandes
pedras até Azeca, e morreram. Mais foram os que morreram
pela chuva de pedra do que os mortos à espada pelos filhos
de Israel”. O versículo 14 afirma claramente: “Porque Deus
pelejava pelo Seu povo”. O Deus que ouve Seu povo é capaz
de comprar as brigas do Seu povo também. Pense nisso:
Deus peleja por você.
Quem peleja por nós não tem rival. Em certo sentido, é
um grave erro teológico chamar Satanás de adversário de
Deus. Deus não tem adversário. Ele é a causa de tudo o que
existe. Toda a criação deriva Dele. Nada nem ninguém esteve
antes da criação a Lhe determinar os decretos ou a
aconselhá-Lo como agir. Jamais devemos pensar em Satanás
ou em quem quer seja agindo autonomamente no universo.
Embora todas as criaturas racionais sejam responsáveis por
suas ações, nenhuma delas é capaz de fazer o que Deus não
determinou. Veja o caso de Judas Iscariotes, por exemplo. É
dito na Bíblia que ele, responsável e conscientemente, fez
apenas o que Deus havia determinado: “Este homem [Cristo]
lhes foi entregue por propósito determinado e pré-
conhecimento de Deus; e vocês, com a ajuda de homens
perversos, o mataram, pregando-o na cruz” (At 2:23). Como
bem expressa Charles Hodge, aplicando uma lógica
irrefutável ao tema da soberania de Deus:
Grande parte das predições, promessas e ameaças da
Palavra de Deus se fundamenta na concepção desse
controle absoluto sobre os atos livres de Suas criaturas;
sem isso não poderia haver nenhum governo do mundo
e nenhuma certeza quanto ao seu resultado. A Bíblia está
repleta de orações fundamentadas nessa mesma
concepção.
Todos os cristãos creem que os corações humanos estão
na mão de Deus; que Ele opera neles tanto o querer
quanto o realizar, segundo Seu beneplácito.84
Os métodos de Deus para defender Seus eleitos são os
mais variados. Ele pode capacitar Seu povo de modo
surpreendente, fazendo com que este supere as próprias
limitações e, assim, o adversário não o possa derrotar. Deus
pode punir diretamente os inimigos da Igreja, reduzindo-os
a cinzas, ou pode usar Sua criação inanimada, como estamos
vendo na vida de Josué. Por esse motivo, apesar da
indignação natural que se apodera de nós ao vermos a
capacidade dos nossos adversários de perpetrar o mal, deles
devemos ter misericórdia. Imagine a situação daquele a
quem Deus vê como inimigo: ele não tem a quem recorrer
em todo o universo! Veja a tolice: aquele que se opõe a Deus
tem o fio pelo qual recebe a energia da vida ligado à tomada
que está nas mãos de um Ser soberano e irado.
Deus peleja por nós quando nossa causa é justa, e os que
se opõem aos intentos da Igreja se opõem aos planos de
Deus. Deus peleja por nós quando reconhecemos nossa
dependência Dele. Deus peleja por nós quando nos vê
inferiorizados perante o adversário que dispõe de mais
recursos do que nós. Deus peleja por nós quando erguemos a
voz aos céus. Oh! O que a oração de um simples mortal pode
gerar! Ela aciona o braço que move o universo! Louve a Deus
por sua fragilidade porque é ela que o levará a depender
Daquele que nunca frustra os que, esmagados pela
consciência de suas limitações, clamam ao seu Defensor
celestial para que os socorra.
Por que Deus peleja por nós? Muitas respostas poderiam
ser dadas, mas penso que o melhor seria ficarmos com o
testemunho da fidelidade divina que encontramos ao longo
de todo o livro de Josué. Sem dúvida, podemos afirmar que
Deus peleja por nós por ser fiel a Sua promessa: “O Senhor
não desamparará o seu povo; jamais abandonará a sua
herança” (Sl 94:14).
Como eu vejo Deus comprando todas as brigas do
apóstolo Paulo, pelejando por ele assim como pelejou pela
vida do povo de Israel! Certa noite o Senhor falou a Paulo em
visão: “Não tenha medo, continue falando e não fique
calado, pois estou com você, e ninguém vai lhe fazer mal ou
feri-lo, porque tenho muita gente nesta cidade” (At 18:9).
Aleluia! O Senhor estava dizendo ao apóstolo: “Olha, há
muita gente eleita nesta cidade, gente que Eu separei desde
antes da fundação do mundo para a salvação. E você é o
instrumento do milagre para elas saberem disto. Eu estou
levantando você para levar a salvação para Meus eleitos. Por
isso, ninguém vai tocar na sua vida”. Louvado seja o nome
do Senhor. Temos ainda outro exemplo no capítulo 23: na
noite seguinte o Senhor, pondo-se ao lado dele, disse:
“Coragem! Assim como você testemunhou a meu respeito
em Jerusalém,deverá testemunhar também em Roma” (v.
11).
Aprouve a Deus, em Sua soberania, permitir que este
mundo se afastasse dos Seus caminhos. Em Seu infinito
amor, Deus escolheu um povo para revelar ao mundo Sua
inescrutável graça. Por essa razão, o povo de Deus é alvo dos
constantes ataques de Satanás. Note que ele nunca cessa de
perseguir os eleitos de Deus; veja como ele tentou destruir a
vida dos patriarcas, a vida do grande rei Davi, a vida dos
apóstolos e a vida de nosso amado Salvador. Muito se pode
conjecturar sobre a razão pela qual Deus permite que Seu
povo seja tão importunado por Satanás. Uma certeza, porém,
nós temos: este ser asqueroso com todos os seus aliados
humanos “já condenado está, vencido cairá, com uma só
palavra!”85.
Você crê que, enquanto lê este livro, Deus está
guerreando por você? Você crê nisso? Amigo, esse é o sentido
do sábado. O sábado era, para o povo de Israel, um
testemunho de fé. Eles paravam de trabalhar e consagravam
aquele dia ao Senhor, na certeza inabalável de que, enquanto
estavam cultuando, Deus trabalhava por eles. Louvado seja o
nome do Senhor! Hoje estão acontecendo coisas a seu favor
cuja percepção você só terá daqui a alguns dias, meses ou
anos. Vemos isso ao longo da história da Igreja. Vemos isso,
por exemplo, na maneira como Deus honrou e ungiu a
pregação de Lutero para o enfraquecimento do papado:
Simplesmente ensinei, preguei, escrevi a Palavra de
Deus; não fiz nada. E então, enquanto eu dormia, ou
bebia cerveja de Wittenberg com meu Filipe e meu
Amsdorf, a Palavra enfraqueceu tão intensamente o
papado que nenhum príncipe ou imperador jamais fez
estrago assim. Não fiz nada. A Palavra fez tudo.86
Encoraja os seus amados
O Deus que ouve a nossa oração é um Deus que também
encoraja Seus amados. É a quarta verdade sobre Ele que
podemos depreender de Josué 10. No verso 8, diz: “E disse o
Senhor a Josué: ‘Não tenha medo desses reis; eu os entreguei
nas suas mãos. Nenhum deles conseguirá resistir a você’”.
Deus conhece nossa estrutura e sabe que somos pó (Sl
103:14); Ele sabe que tendemos ao medo e ao desânimo e,
por isso, somos carentes de Seus constantes
encorajamentos. Não há nada que mais nos encoraje do que
ouvir a voz que procede dos céus. Oh, o que esta voz pode
operar! Ela nos faz ver o invisível, cria expectativa de vitória,
nos faz recobrar os sonhos, enfim, nos põe para viver. O
Deus a Quem servimos, portanto, pode enviar uma palavra
aos astros a fim de que estes sirvam aos propósitos da
Igreja, bem como pode enviar um palavra ao coração da
Igreja para que esta não saia da sua órbita em torno de Deus.
Essa voz às vezes nos alcança quando estamos nos mais
profundos vales. Ela vem ao nosso encontro quando tudo se
torna sem sentido, quando amigos amados nos traem,
ímpios prevalecem, santos são injustamente condenados, os
anos passam e sentimos que Deus não nos usou tanto
quanto um dia anelamos. Sim, muitas vezes essa voz é nosso
único ponto de apoio. Muita vezes, a única coisa que o crente
tem é uma palavra dos céus. Uma única palavra. Mas quando
ela vem ao seu coração, uma energia indescritível é liberada
e põe o crente de pé.
Essa voz, em outras tantas ocasiões, precede batalhas
que se aproximam. Antes de o Senhor e Salvador de nossa
vida enfrentar o Getsêmani, ouviu Seu amado Pai dizer:
“Este é o meu Filho amado em quem me agrado. Ouçam-
no!” (Mt 17:5). Servos de Deus têm relatado experiências
espirituais profundas que foram seguidas de grandes lutas
espirituais. Um exemplo disso é o que nos relata Martyn
Lloyd-Jones, ao falar sobre George Whitefield:
Whitefield havia experimentado uma época de
excepcional proximidade de Cristo e estava se
regozijando nisso, mas faz uma observação no seu
diário, lembrando que de uma forma estranha tais
experiências muitas vezes eram seguidas por provações
muito duras, e ele escreve: “Sem dúvida estarei sujeito a
isto novamente”. Ele sabia, era sua experiência; é uma
lei quase inevitável na vida do homem de Deus num
mundo de pecado.87
E é justamente essa voz que nos faz não perder nem a
esperança nem a sobriedade quando estamos envolvidos em
grandes lutas. Deus entende não apenas de astronomia,
como também de psicologia. Ele conhece os astros e conhece
as almas.
Essa comunicação divina dá-se de diversas formas. A
maneira clássica é a própria Bíblia ser aplicada a nossa vida
pelo Espírito Santo. Tenho para mim que existe na vida uma
torre alta da qual podemos rir dos nossos adversários porque
suas setas não nos atingem. A Bíblia é essa torre para o
crente. Se possuir suas verdades, o crente tem, para cada
frase de desespero lançada por Satanás, uma resposta a dar.
A Bíblia chama esse exercício de “usar o escudo da fé”.
Deus fala conosco, por vezes com tamanha simplicidade,
que quase não acreditamos que um Ser tão excelso nos possa
ter falado de maneira tão pouco sofisticada. Lembro-me de
um pastor que viveu a seguinte experiência. Ele sentia certo
desconforto no coração por se julgar dado demais às
brincadeiras. Temia que sua forma alegre e bem-humorada
de viver minasse sua autoridade de ministro. Naquela
mesma semana, ele recebeu um telefonema de alguém
consciencioso, a quem estimava, cuja palavra respeitava e
que não sabia o que se passava no coração do seu amigo
pastor. Essa pessoa lhe disse o seguinte: “Uma característica
da sua vida é a alegria. Aonde você chega, traz junto a
alegria”. Aquele ministro que se sentia culpado creu que
Deus estava usando um amigo para lhe trazer à memória
que a alegria é fruto do Espírito, que um crente alegre é uma
ótima apresentação do Evangelho e que ele podia muito bem
ser santo e, ao mesmo tempo, irradiar felicidade.
Deus não apenas conhece o movimento dos planetas
como também conhece os movimentos de nosso coração. É
por isso que Ele se aproxima dos Seus servos e diz:
“Coragem!” Irmão e companheiro de lutas, Deus quer
consolar você também. Muitas vezes os amigos mais
queridos e próximos do Senhor Jesus temem tanto
desagradá-Lo que passam a maior parte do tempo pensando
que toda voz recebida e ouvida do alto vem para repreender e
revelar pecado, quando, na verdade e na maior parte das
vezes, o Deus vivo e cheio de ternura quer colocá-los, não no
banco dos réus, mas sob Suas protetoras asas.
Trata seu povo com misericórdia
O povo de Israel estava sofrendo as consequências do seu
pecado. Deus havia dito à nação para não fazer aliança com
nenhum povo da terra de Canaã. A gênese daquele combate
fora o que a Bíblia relata em Josué 9:14: “Não pediram
conselho ao Senhor”. Os israelitas não oraram para que Deus
lhes desse discernimento e orientação quanto ao que
deveriam fazer e violaram, assim, um mandamento divino.
Ouvir as orações do povo de Israel naquele conflito envolvia,
de modo especial, o fato de Deus dar-lhe um tratamento
gracioso e misericordioso, uma vez que o povo estava em
falta.
A misericórdia de Deus é o que O move a socorrer
aqueles que não podem fazer nada por si mesmos. O que
torna a misericórdia mais bela aos nossos olhos é seu caráter
imerecido. Os que dela são objetos não são dignos da
mesma, apenas carentes. É o que vemos nesse episódio. A
compaixão de Deus não se deveu a mérito algum encontrado
em Seu povo, mas Ele a exerceu porque assim o quis.
Não são poucas as ocasiões em que a batalha que
tivemos de enfrentar foi resultante de atitudes precipitadas.
Nesse ponto, frequentemente o desespero se instala, pois,
em meio às trevas do momento, não somos capazes de crer
que, ainda assim, podemos contar com a misericórdia divina
e que Deus pode nos dar vitória no conflito que nós mesmos
geramos. Conhecer esse aspecto do imenso amor divino é
mais um dos elementos indispensáveis para quem quer viver
vitoriosamente para a glória de Deus. Um Deus que só pode
nos socorrer quando o problema não se originou em nossos
próprios erros não é suficiente para nossas necessidades,
pois muitas – se não a maior parte – das lutas que
enfrentamos são fruto dos pecados que cometemos. Não
estou aqui apresentando qualquer exigência. Se Deus
permitisseque colhêssemos tudo o que semeamos, isso não
deporia contra Seu amor e justiça. Estou apenas constatando
o fato de que, sem Sua graça e misericórdia, não temos
esperança alguma face a nossa obstinação.
Essa história mostra como Deus pode transformar o lixo
de nossa vida em bênção, como a graça reprocessadora é
real. Uma escolha errada, que remeteu o povo de Israel para
um terrível conflito, mas culminou na revelação do Deus que
coordena o movimento dos astros – quanta misericórdia!
Você crê num Deus que pode transformar as consequências
do pecado em bênção? Eu não estou estimulando ninguém a
pecar. O pecado humilha, destrói nosso testemunho,
interrompe nossa comunhão com Deus e faz com que
passemos por sofrimentos desnecessários. Mas Deus é tão
misericordioso que pode, até mesmo, fazer com que, de
alguma maneira, os efeitos do pecado deem ensejo a uma
bênção gloriosa.
Respondamos à seguinte pergunta: como deve ser a vida
daquele que crê em todas estas verdades: que Deus tem
controle sobre o universo, que Ele permite que Seu povo
passe por tribulações para se revelar a ele, que peleja por Seu
povo, que encoraja Seus amados, que trata Seu povo com
misericórdia? Há muita oração no mundo. Mas como
podemos saber quem mantém uma vida de oração real?
Como é a vida de quem tem comunhão genuína com o Deus
dos cristãos?
O HOMEM QUE FALA COM DEUS
Não se surpreende com as lutas
Assim que Josué recebeu as más novas dos gibeonitas,
tratou de preparar-se imediatamente para a guerra. “Então
subiu Josué de Gilgal, ele e toda a gente de guerra com ele,
todos os valentes.” A Bíblia não registra nenhuma lamúria,
nenhuma dúvida nem mesmo nenhuma surpresa por parte
de Josué. Aparentemente, as batalhas iniciais já o haviam
preparado para o que enfrentaria em Canaã. O crente é
alguém assim, que deve viver em guarda. Embora não seja
recomendável viver sempre esperando o pior, tampouco é
recomendável tirar a armadura a fim de vestir um pijama.
Deus nunca presenteia um filho Seu com um pijama, mas,
tão logo ele nasça por meio da regeneração, recebe, num
pacote amorosamente feito, uma armadura.
Uma luta para a qual o crente deve estar sempre
preparado é a da decepção com os homens. Se há um ponto
em que minha teologia é mal aplicada é no campo da relação
com as pessoas. Minha teologia me faz afirmar que o
homem é mau: sua natureza é depravada, seu coração está
acorrentado pelo pecado e sua disposição desde o ventre
materno é maligna. Contudo, quando tenho de lidar com as
pessoas, tenho dificuldade de crer que elas sejam capazes de
fazer certas coisas. A doutrina em que creio diz que são
capazes, mas, quando as tenho diante de mim, não consigo
acreditar nisso. O que acontece? Obviamente, a Bíblia mostra
que minha teologia tem a razão. Com isso, tenho aprendido
a não me surpreender quando os homens se comportam de
forma mais baixa do que os animais irracionais.
O crente não deve se surpreender com os ataques de
Satanás, com as injustiças sociais, com as guerras, com a
estupidez das massas. A Bíblia o tem preparado para
aguardar e encarar tudo isso. Nossa ingenuidade pode
relacionar-se, por exemplo, ao campo político. Julgamos
que, se fizermos passeatas, escrevermos para os jornais e
promovermos encontros a favor da paz, as pessoas deixarão
de se comportar como animais. Mas, não; isso tem imenso
valor, faz parte do exercício da cidadania, é resposta do
coração regenerado à injustiça que representa afronta aos
céus, mas não trata do cerne do mal, a maldade presente no
coração humano. Se o coração não for lavado pelo evangelho,
jamais haverá paz duradoura. É inimaginável um mundo no
qual o Estado não exerça o monopólio do uso da força. Isso é
humilhante. Mostra que a Igreja não deve jamais dissociar a
luta pela justiça da proclamação da justiça de Deus revelada
no evangelho de Cristo – o que só pode ser feito por meio da
obra de evangelização.
Outros se esquecem de que a Igreja é um corpo misto –
temos crentes genuínos e hipócritas em seu seio. Filhos de
Deus e filhos de Satanás podem estar juntos cantando,
participando da escola dominical e tomando a Ceia. Nunca a
Bíblia disse que seria diferente. O crente não deveria se
surpreender com as decepções da religião também.
E como temos visto, há ocasiões em que os conflitos
podem até ser preditos. Amigo, se seu coração está cheio de
anelo por santificação, de sonhos por ver a causa de Cristo
avançar neste planeta e dons têm-se manifestado em sua
vida, preciso ser profeta para lhe dizer que lutas virão?
Quem conhece este Deus vive sob a maior de todas as
esperanças e o mais forte realismo. Por isso, não se
surpreenda. Esse é o motivo de o apóstolo Pedro ter exortado
os servos de Deus da seguinte forma:
Amados, não se surpreendam com o fogo que surge
entre vocês para os provar, como se algo estranho lhes
estivesse acontecendo (1 Pe 4:12).
Não se deixa dominar pelo medo
Mais uma vez, Deus exorta seu servo Josué a não temer:
“Disse o Senhor a Josué: ‘Não os temas, porque nas tuas
mãos os entreguei; nenhum deles te poderá resistir’”. O bom
de andar com Deus é que somente quem O tem por amigo
ouve esse tipo de afirmação e encorajamento. Somente os
que andam com Deus têm os ouvidos abertos para o que lhes
pode, de fato, fazer divisar a vitória. Onde mais poderíamos
obter o tipo de esperança que Josué recebeu?
Lá estava Josué, então, ouvindo seu Deus a lhe ensinar,
mais uma vez, que nas batalhas da vida não devemos
considerar apenas o poder de fogo do inimigo, mas a aliança
que o Criador tem conosco. Josué teria de encarar seus
adversários, de ver sua fúria, de mensurar seu poder de
destruição e de avaliar o tamanho da sua tropa. Isso é
legítimo e não seria humano esperar o contrário. O que
deveria ser evitado era considerar tudo isso sem considerar
Deus também. Josué precisava considerar a verdade
referente à aliança de Deus com Israel e usá-la como tranca
para fechar a porta da alma para a entrada do medo.
O desafio era o povo de Deus, com a chave da promessa
na mão, sair de um possível cativeiro de medo. O medo é um
cativeiro. Muitos se encontram em cárceres psicológicos por
não conseguir ver outra coisa na vida a não ser o que os
ameaça. A fé na promessa pode ser comparada a essa chave
– conforme já vimos na experiência do grande John Bunyan
–, que abre a porta de qualquer cárcere. É a fé na promessa
que nos desagrilhoa a mente, deixando-a livre para que
possamos pensar em tudo o que edifica e promove a vida.
Como amo passagens bíblicas como esta: “Não os
temas”! Servimos a um Deus que nos torna desassombrados.
Deus ordenou a Josué que simplesmente não considerasse o
adversário. Israel fora estimulado a olhar para os fortes e
numerosos inimigos e perguntar: “O que são eles?”. A fé
tem a característica de nos ajudar a ver nosso problema na
perspectiva correta e a não hiperdimensioná-lo.
Sendo assim, ninguém está mais fadado a viver com
medo do que aquele que não ouve a voz de Deus. Não há fé
sem a Palavra de Deus. Portanto, obviamente quem não lê a
Bíblia sai perdendo. A leitura regular da Bíblia renova a
mente e torna o solo do coração menos vulnerável ao medo.
Observe como, após uma semana de estudo regular da Bíblia,
passamos a pensar de modo novo. A Bíblia nos remete para
um mundo diferente do que nos é apresentado pelo
noticiário, um mundo onde, entre outras maravilhas, a
providência divina rege tudo o que acontece e as orações são
ouvidas.
A fé que vem pela contato com a Palavra de Deus precisa
ser aplicada aos problemas que enfrentamos. Você jamais
vencerá o medo enquanto não aplicar a verdade bíblica aos
fatos práticos de sua vida. “Onde está a sua fé?” – foi a
pergunta feita pelo Senhor Jesus aos Seus temerosos
discípulos (Lc 8:25). Havia fé no coração deles, mas, naquele
momento, essa mesma fé não se achava presente, pois não
estava sendo aplicada à situação do momento. A fé não opera
automaticamente – temos de acioná-la. E ninguém a aciona
sem pensar e agir com base nas conclusões racionais a que
chegou pela Palavra de Deus. A fé professadapor Josué, por
exemplo, além de tranquilizar seu coração, o levaria para o
campo de batalha. Note bem: o que Deus falou a Josué não
apenas fez sossegar seu coração, como também o levou para
o campo de guerra. Fé que não nos faz nos movermos não é
fé, é narcótico religioso.
Ora com ousadia
Para mim, o conteúdo da oração de Josué é um mistério:
pedir a Deus que detivesse a lua e o sol para que Seu povo
pudesse dar cabo dos adversários! A pergunta que surge é:
de onde veio esse pedido? Mais uma vez pensando em Sagan
– para quem a ideia de que a Terra é o centro do universo foi
uma das maiores expressões do orgulho humano –, imagine
o que ele teria a dizer sobre a oração de um mortal que pode
deter o curso dos astros? O mundo bíblico é completamente
distinto desse que pensadores modernos têm apresentado.
No mundo que a Bíblia revela, a criatura finita, frágil e
mortal pode falar com o Rei do universo e sua oração
interferir no curso da história.
A oração ousada é a que não vê limites para Deus, com a
exceção daqueles impostos pelo próprio caráter santo do
Criador. Essa é a oração que não vê o universo como
autônomo, mas, sim, como um balé de estrelas regido pelo
Pai da arte e do belo. É aquela que, mesmo não entendendo,
desfruta do fato de o homem, um ser tão vil e insignificante,
ser tido em tamanha estima por Deus.
Ora com ousadia, portanto, quem conhece Deus e Suas
promessas. A oração de Josué estava alicerçada em tudo
aquilo que ele experimentara e conhecia de Deus. Josué
conhecia a Deus, tinha um histórico de vitórias obtidas com
Ele e sabia que era do interesse do Criador que Israel saísse
vitorioso naquele conflito. Eu diria que Josué passou a vida
inteira naquela mentalidade que a Bíblia gera em quem
conhece seu conteúdo e nele crê – essa forma de ver todas as
coisas sem a qual é surpreendente que muitas pessoas
consigam viver –, pela qual vemos o cosmos governado
pelas mãos de Deus, os santos como preciosos para Seu
Criador, as promessas divinas tendo o aval do Deus que não
pode mentir, cujos atributos são perfeitos e de Quem os
homens dependem.
O conteúdo da oração de Josué nos mostra uma mente
não condicionada. Uma mente assim nos permite aguardar o
inalcançável. Essa mente, fruto da expansão produzida pela
verdade divina, leva o crente a esperar contra a esperança.
Você ora com ousadia? Você está aberto para essa ampla
mobilização dos céus e terra ocorrer em favor da sua
pequenina vida? Pois, conforme disse o profeta Isaías: “‘Não
tenha medo, ó verme Jacó, ó pequeno Israel, pois eu mesmo
o ajudarei’, declara o Senhor, seu Redentor, o Santo de
Israel” (41:14).
Vê o homem na perspectiva correta
O que de mais tocante percebemos nessa passagem é a
avaliação que o escritor do livro de Josué faz do episódio da
ousada oração respondida. Aturdido pelo acontecimento, ele
diz: “Não houve dia semelhante a este, nem antes nem
depois dele, tendo o Senhor assim atendido à voz dum
homem; porque o Senhor pelejava por Israel”. A oração de
um homem pode mudar o curso dos corpos celestes. Pense
nisso e nas implicações desse fato para sua vida. Se eu fosse
responder ao ceticismo e ateísmo de Carl Sagan, diria que o
homem não é só pequeno metafisicamente, mas é pequeno
moralmente também. Apesar disso – e não ignorando esse
fato –, Deus ama o homem, e, se este Lhe entregou o
coração, sua oração pode interferir até mesmo no sistema
solar.
Para crer em tudo o que foi apresentado neste capítulo,
não precisamos ser orgulhosos e afirmar que vivemos num
universo antropocêntrico. O homem não é o centro do
universo. Também sabemos que não vivemos num universo
geocêntrico ou heliocêntrico. Nenhuma criatura pode ocupar
lugar de tamanha proeminência a não ser o próprio Criador
de todas as coisas. Vivemos em um universo teocêntrico:
Deus está no centro de todas as coisas. O que existe, existe
por Ele e para Ele. Por isso, o último salmo da Bíblia conclui:
“Todo ser que respira louve ao Senhor. Aleluia!”. À raça
humana só resta curvar-se diante Dele. Oh! Como podemos
viver sem louvá-Lo? Como podemos viver sem nos
maravilhar com Sua beleza? A realidade última é pessoal.
Não estamos entregues à massa fria e escura do cosmos. Lá
onde a Voyager One está, depois de impulsionada por
foguetes e pela força gravitacional dos planetas, na periferia
do sistema solar, encontra-se presente Aquele que enche o
universo com Seu ser. E quem está lá e em todo lugar pensa,
sente, age e é Santo, Santo, Santo.
Vendo a vida desse ponto de vista, o homem é forçado a
manter-se em posição humilde perante o Criador, como
também é forçado a sobrepujar tudo aquilo que o queira
nivelar aos animais ou à criação inanimada. O texto bíblico
revela a perplexidade do seu autor ao constatar que o sol e a
lua pararam em resposta à oração de um simples homem. A
própria Bíblia reconhece que quem interferiu no curso dos
astros foi um ser insignificante. Conforme, porém, diz o
salmo 116:1, 2: “Amo o Senhor, porque Ele ouve a minha voz
e as minhas súplicas. Porque inclinou para mim os Seus
ouvidos, invocá-Lo-ei enquanto eu viver”.
Temos falado sobre a vida vitoriosa. Sem uma correta
visão sobre o homem, jamais viveremos vitoriosamente,
porque ou tropeçaremos no pecado da soberba, que nos
conduzirá às atitudes mais absurdas e cômicas, como a
construção de babéis para a perpetuação de nosso nome; ou,
então, à falsa humildade que nos impedirá de elevar-nos
pela oração acima de nós mesmos e da natureza.
“Naquele dia vocês não me perguntarão mais nada. Eu
lhes asseguro que meu Pai lhes dará tudo o que pedirem em
meu nome. Até agora vocês não pediram nada em meu
nome. Peçam e receberão, para que a alegria de vocês seja
completa.” (Jo 16:23-24)
IX
A IGREJA ENTRE OS ÍMPIOS
JOSUÉ 23
Chegamos agora num ponto totalmente novo da história
do povo de Deus em Canaã. Vitórias impressionantes,
conforme vimos, haviam sido obtidas pelo povo de Israel e a
terra já estava dividida entre as tribos; porém Israel não
destruíra todos os inimigos. Havia ainda, na terra da
promessa, os terríveis antigos habitantes de Canaã.
Josué, já perto de sua partida deste mundo, dirige-se ao
povo a fim de lhe falar especialmente sobre como deveria
viver a partir dali: “Passado muito tempo, depois que o
Senhor concedeu a Israel descanso de todos os inimigos ao
redor, Josué, agora velho, de idade muito avançada,
convocou todo o Israel, com as autoridades, os líderes, os
juízes e os oficiais, e lhes disse: ‘Estou velho, com idade
muito avançada’” (vv.1-2), e os versos restantes apresentam
o conteúdo de sua pregação.
Somos remetidos, portanto, nesta seção de Josué, ao
importante tema da relação do cristão com o mundo. Quanto
precisamos conhecer a orientação da Palavra de Deus no que
diz respeito a esse assunto! Aqui estamos nós, na terra que
Deus criou para Sua glória. Entregamos nossa vida a Ele,
passamos a fazer parte do Seu povo e vitórias obtivemos;
porém temos de viver em meio a pessoas que não amam o
nosso Deus. Temos de viver no mundo. Como proceder?
O que significa viver no mundo? Vamos considerar, em
primeiro lugar, as três diferentes definições ou significações
para mundo que encontramos na Bíblia. Em todas elas,
observaremos que estamos diante de enormes desafios. A
primeira se relaciona à ordem criada, ao mundo dos rios,
matas, mares, montes, pássaros, peixes etc. Não resta dúvida
de que viver nessa espécie de mundo constitui-se um
desafio para todos nós. Embora possamos dizer a cada dia
que desponta: “Aleluia, este é o dia que o Senhor fez.
Alegremo-nos e regozijemo-nos nele”, muitas vezes esse
mundo torna-se muito aterrador. Tal percepção fez surgir,
em não poucas culturas, o fenômeno do animismo, que nada
mais representou do que o desejo do homem de, ao
pessoalizar a natureza, tentar dominar seu poder. Como
obter favor de um raio? O caminho aparentemente mais
simples e tranquilizador é fazer uma oferenda ao “espírito”
que nele está.
O cristão é alguém que compreende a razão de a criação
ser tanto bela quanto cruel. Ele sabe que a beleza deve-se ao
Seu criadore, sua feiura, à queda moral acerca da qual o
livro de Gênesis fala. O homem afastou-se de Deus e, por
isso, atraiu sobre si e sobre a criação o juízo divino. O crente
encontra-se diante de duas batalhas: a batalha de ajustar
sua vida a este mundo caído, aprendendo a não romantizá-
lo, sabendo que, tanto dele como do incrédulo, a previsão de
uma forte tempestade deve resultar em medidas práticas de
prevenção. Pesa sobre o cristão a responsabilidade de
testemunhar a bondade de Deus em um mundo onde a
criação, que é o que é por causa do pecado, revela um lado
tão terrificante. O crente, então, sabe que a apresentação de
um Deus que seja somente amor é, aos olhos dos incrédulos,
contraditada todos os dias pelos noticiários de maremotos,
furacões, terremotos e tantas outras tragédias naturais que
parecem apontar ou para um Deus incompetente ou nada
bom. Esta apologética, que apresenta somente um aspecto
da verdade sobre Deus – a saber, que Ele é amor e, por isso,
é incapaz de se irar –, inevitavelmente remete os seres
humanos para crises sem fim, uma vez que eles vivem num
mundo em que o sofrimento decorrente dos fenômenos da
natureza carece de explicação satisfatória. Nada pior para a
defesa da fé do que uma visão parcial do Deus cristão.
Um segundo enfoque sobre o qual podemos analisar a
palavra mundo é aquele que se relaciona ao homem, à
humanidade. Quando a Bíblia fala sobre mundo, muitas
vezes está falando sobre seres humanos. E aqui nos
deparamos com mais um desafio para os homens em geral e,
em especial, para o crente. Hominem lupus hominem, o
homem é o lobo do homem. Esta é uma constatação
irrefutável e especialmente dolorosa para o regenerado, para
aquele que é capaz de sentir com mais horror a sordidez do
pecado praticado contra o semelhante. Não pretendo falar
neste capítulo sobre o mundo como natureza, mas, sim,
como humanidade, o que se constituiu um desafio para o
povo de Israel e se estabelece como uma batalha para todos
nós, crentes. Temos de lidar com nossa raça. Israel teve de
lidar com os cananeus, e nós temos de lidar com os cidadãos
da chamada sociedade pós-moderna.
O homem, que é para seu semelhante uma ameaça maior
do que as feras, produz aquilo que é chamado de cultura, que
pode ser definida como o conjunto de valores, tradições e
forma de ver a vida (cosmovisão) de um povo. Esta é a
terceira perspectiva pela qual podemos estudar a palavra
mundo. Quando falamos de mundo, falamos também desse
sistema contrário a Deus e seus absolutos, que se expressa
por meio das mais diversas manifestações culturais das
nações. Nem toda expressão cultural é pecaminosa. Mas a
Igreja sempre terá diante de si o desafio de separar o joio do
trigo cultural de cada sociedade onde esteja inserida. É sobre
isso que Josué 23 fala, e será esse o assunto deste capítulo.
Minha tese é que vida de sucesso, vitoriosa, é aquela que
é capaz de, num mundo de lobos, continuar a ser ovelha.
Aquela capaz de manter, num mundo “loboficado”, mesmo
a um alto custo, os valores que regem a vida dos que
pertencem ao rebanho do pastor Jesus Cristo.
Tomando como correta essa definição, então, surge a
pergunta: como viver no mundo? Não estou falando em
como se destacar no mundo, em como ser um lobo mais
forte. Estou falando sobre como não se deixar intoxicar por
essa atmosfera de desamor e incredulidade em relação a
Deus.
SABENDO QUE O MUNDO NÃO PODE PREVALECER
CONTRA A IGREJA
“Vocês mesmos viram tudo o que o Senhor, o seu Deus,
fez com todas essas nações por amor a vocês; foi o Senhor, o
seu Deus, que lutou por vocês. Lembrem-se de que eu
reparti por herança para as tribos de vocês toda a terra das
nações, tanto as que ainda restam como as que conquistei
entre o Jordão e o mar Grande, a oeste. O Senhor, o seu
Deus, as expulsará da presença de vocês. Ele as empurrará
de diante de vocês, e vocês se apossarão da terra delas, como
o Senhor lhes prometeu.” ( Js 23:3-5) [...] “O Senhor
expulsou de diante de vocês nações grandes e poderosas; até
hoje ninguém conseguiu resistir a vocês. Um só de vocês faz
fugir mil, pois o Senhor, o seu Deus, luta por vocês,
conforme prometeu.” ( Js 23:9-10).
Crentes de todas as nações não sabem o que fazer com o
mundo. Embora tantos estejam conscientes da necessidade
de nele penetrar, trazendo toda a riqueza da fé cristã para
sua cultura e levando seus cidadãos à entrega da vida ao
Senhor Jesus Cristo, milhares sentem-se chocados com o
que veem no mundo. Converse com qualquer pai de
adolescente e você perceberá a aflição de ver o filho ter de
crescer numa sociedade como a nossa.
O temor é o de não resistir à pressão que o mundo
exerce. Dúvidas assaltam o coração: quem pode resistir à
tamanha propaganda de valores não cristãos? O marido
crente resistirá à pressão de uma sociedade que lida com o
sexo compulsivamente? O empresário cristão conseguirá
vencer com honestidade à competição capitalista? O crente
que entrou na política haverá de governar para a glória de
Deus? O soldado convertido conseguirá se contentar com seu
soldo? O pastor resistirá às investidas do marketing religioso
que exige a diluição do conteúdo de sua mensagem para
agradar e atrair as massas?
Para muitos, caso não haja uma adequação ao mundo,
estaremos fadados à neurose ou à falência. Sim, muitos
pensam que a fidelidade às Escrituras num mundo como o
nosso ou nos neurotiza ou nos coloca de fora da briga por
qualquer espaço na vida. Porém, o que sabemos é que nosso
chamado é para sermos perfeitos, como perfeito é nosso Pai
celeste, e que a vida cristã nunca foi designada para
covardes, pois suas demandas exigem um preço muito alto.
Somente permanecem firmes os que percebem que, pior que
o preço do discipulado, é o preço do não discipulado. Estes
sabem que fora da vida cristã o que resta é o enfado. Não
temos alternativa. Colocamos a mão no arado e sabemos que
não é possível olhar para trás. A vida cristã não é fácil para
nós nestes tempos do fim e nunca foi fácil para ninguém.
Não é mais difícil do que nos dias em que a simples
afirmação “Jesus Cristo é o Senhor” representava a morte
para um discípulo.
Lembro-me de ouvir certa vez um líder evangélico falar
da moralidade das portas abertas. Segundo ele, fechamos
tantas portas em nossa ética que depois, em determinadas
horas em que a vida nos encurrala, não temos por onde sair.
Sua ideia – até onde pude entender – era que devemos
deixar sempre uma saída para o crente, de tal forma que ele
não se sinta culpado quando se vê diante de escolhas
“inevitáveis”. Fiquei a pensar... Não havia porta aberta para
o crente que, no auge da perseguição do Império Romano, ao
afirmar que Jesus Cristo era o Senhor, estava assumindo
todas as trágicas implicações disso, pois negava que César
era o senhor, o que resultava em morte. A menos que se
entenda como essa porta de saída a negação da fé...
Não é de hoje que crentes anseiam por se livrar do
mundo. Embora muito possa se falar sobre os benefícios que
advieram do monasticismo, não se pode negar o fato de que
milhares optaram pela vida monástica para fugir dos
conflitos peculiares à vida em sociedade. Acontece que, do
mesmo modo como Deus enviou Josué a uma terra de gente
ímpia, hoje Ele envia Sua Igreja ao mundo estimulando-a ao
envolvimento mais próximo com aqueles que lhe geram
repulsa por suas práticas pecaminosas. Olhe a metáfora do
sal, usada pelo Senhor Jesus: que imagem chocante a do
crente ser esfregado no mundo para a preservação deste,
assim como o sal era esfregado na carne para que esta não
apodrecesse!
Qual deve ser, então, nosso ponto de partida no
tratamento dessa questão? O que nos resta fazer? Há duas
respostas inquestionáveis: a primeira é que devemos ser
fiéis. Não há escolha. Não fica neurótico aquele que se
submete a Deus porque O ama. Se tiver de falir, amém.
Penso que a resposta já foi dada em certa ocasião do
passado: “Se formos atirados na fornalha em chamas, o
Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos
livrará das suas mãos, ó rei. Mas, se ele não nos livrar, saiba,
ó rei, que nãoprestaremos culto aos seus deuses nem
adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer” (Dn
3:17-18).
A segunda resposta para essa questão pode ser
encontrada no discurso de Josué no capítulo 23. Ele se
despede do povo frisando uma verdade indiscutível, que
podemos aplicar a nós nos seguintes termos: o mundo não é
mais forte do que a Igreja. O que esta verdade procura deixar
claro é que o problema do mundanismo não é intrínseco à
Igreja. Ou seja, não somos obrigados a receber a influência
do mundo. Ou, dizendo de outra forma, a Igreja só se torna
mundana quando não enfrenta o mundo.
A promessa do Senhor Jesus não nos diz que as portas do
inferno não vão prevalecer contra a Igreja? Não é justamente
isso que a história da Igreja de Cristo nos ensina? Veja
quanto o adversário tem feito para destruí-la. Pense no que
gregos, romanos, judeus, árabes, filósofos, comunistas,
falsos crentes têm feito para acabar com a Igreja. Contudo,
ela continua firme, porque é sustentada, não pela força do
homem, mas pelo poder de Deus.
Olhe para os possíveis desafios dos próximos anos.
Quantos adversários temos pela frente! Nenhum deles,
contudo, conseguirá impedir a Igreja de seguir seu curso
vitorioso. Aí está algo de constituição imperecível, pois,
mesmo que composta de homens, é uma instituição divina.
Deus cuida da Sua Igreja. Ele a manterá firme até o fim,
como coluna e baluarte da verdade, e, um dia, a restaurará
por completo.
Qualquer estudioso sério da história da Igreja chegará à
mesma constatação que o grande Jonathan Edwards:
A história não nos dá relato de nenhum corpo de
homens que tenha sido tão odiado, e tão maliciosamente
e insaciavelmente oprimido e perseguido [...] É um
grande argumento que a Igreja cristã e sua religião é de
Deus, que ela tem sido sustentada até hoje passando por
toda oposição e perigo [...] Outros reinos e sociedades
humanos, que apareceram dez vezes mais fortes do que
a Igreja, foram destruídos com a centésima parte de
oposição que a Igreja de Deus teve de encarar – o que
mostra que Deus tem sido seu protetor.88
Você se sente vítima do mundo? Por acaso julga que não
poderá resistir a ele? Você crê que está fadado a ser
continuamente derrotado pelas artimanhas e conceitos do
mundo? Meu amigo, se sua resposta é afirmativa, não me
surpreenderá vê-lo derrotado. Isso ocorreria em decorrência
de algo bastante interessante na fé: a fé cristã impulsiona o
crente a ser o que ele é. Já comentamos isso nos capítulos
anteriores. Muitos têm medo do triunfalismo evangélico – e
com razão; também tenho horror dele. Em geral, esse
ensinamento não prepara o crente para a luta e também não
o prepara para a derrota. Imagine a vida de um homem que
julga que, pelo simples fato de estar relacionado
corretamente com Deus (e este pode ser o caso), as coisas
correrão maravilhosa e automaticamente bem. Isso o
impulsionaria a ser prudente? Ou faria reagir com
maturidade frente às derrotas? Por outro lado, também não
é saudável uma fé que seja incapaz de enxergar onde a graça
nos colocou, uma fé tímida e que não se dá conta da
presença sobrenatural em nós, a qual nos capacita a sermos
vitoriosos nas áreas em que Deus, por Sua Palavra, já revelou
que nos quer ver vencedores.
Qual deve ser nossa resposta a tudo isso? Em primeiro
lugar, certamente parar de nos lamentar. Em vez de
contabilizar os perigos aos quais estamos expostos e as
dificuldades que normalmente enfrentamos, devemos erguer
os olhos e dar-nos conta de que nesta batalha Deus peleja
por Seu povo. É Ele mesmo Quem afirma: “Um só homem
dentre vós perseguirá a mil, pois o Senhor vosso Deus é
quem peleja por vós, como já vos prometeu”. Não é esta uma
promessa suficientemente encorajadora?
MANTENDO A FIDELIDADE ÀS ESCRITURAS
“Façam todo o esforço para obedecer e cumprir tudo o
que está escrito no Livro da Lei de Moisés, sem se
desviar, nem para a direita nem para a esquerda.” (Js
23:6)
Escrevo este livro com 40 anos. Fui trazido pela graça a
esta fé com 20 anos. Sabe o que tenho percebido nesta fase
de minha vida? Que, ao lado das ações providenciais de Deus,
o que me tem preservado das tragédias advindas sobre
muitos da minha geração tem sido o andar no caminho
estreito proposto pela Palavra de Deus. Que bênção viver sob
a luz destas verdades benditas. Oh! Sou levado a dizer como
o salmista: “Como eu amo a tua lei! Medito nela o dia
inteiro. Os teus mandamentos me tornam mais sábio que os
meus inimigos, porquanto estão sempre comigo” (Sl 119:97-
98). Amigo, pense, por um só instante, de quantos caminhos
de morte a Bíblia o livrou. Pense no consolo recebido em
inúmeras situações de angústia em que a Palavra sozinha o
reergueu. Pense na majestosa visão de Deus, do homem e da
vida que ela proporciona. Não é verdade que o simples
conteúdo deste livro já revela Sua autoria divina? Permita-
me apresentar-lhe outra pergunta: onde você estaria sem
este livro?
Josué destaca, ao final da vida, essa antiga e sempre
atual verdade que, desde o início, exercera papel
fundamental na vida dos judeus. É por demais interessante a
história desse povo. Esse era o povo da Palavra de Deus. Olhe
para as demais nações. Olhe para a Mesopotâmia, com seu
código de Hamurabi ou sua epopeia de Gilgamés. Olhe para o
esplendor do império egípcio, ou para as conquistas
intelectuais dos gregos ou para os avanços jurídicos dos
romanos. O que distingue o povo hebreu dos demais? Além
da aliança pessoal com Deus, a grande distinção era,
obviamente, o fato de essa ser a gente da Palavra. Veja os
esforços da outras nações em receber aquilo que, em parte
pela graça comum, foi dado a todas, porém jamais com o
esplendor, a graça e a majestade que do céu desceu sobre o
povo escolhido de Deus e Dele foi recebido sem esforço. Olhe
para os esforços de homens como Platão em definir o mundo
das ideias, do qual o nosso, segundo ele, é uma cópia
simples e permeada de sombras! Enquanto Platão pensava,
os céus eram abertos para Moisés e ele via as realidades
espirituais. Por isso, na dor somos consolados ao ler Moisés,
não Platão.
Por que esta ênfase sobre a Palavra? Qual o significado e
a importância do verso 6 de Josué 23? O líder de uma nação
está próximo de partir. As últimas palavras de um grande
homem são, normalmente, as mais importantes, por
trazerem a experiência de toda a vida. Qual, então, era sua
mensagem final para a nação? “Amem a Bíblia!”.
Simplesmente isto: “Amem a Palavra de Deus!”. Você
consegue imaginar algum destacado estadista hoje fazendo
esse discurso final? Porque a Palavra de Deus não tem esse
lugar de importância nas sociedades humanas, não é de se
estranhar que, apesar de todos os avanços educacionais e
sociais, vivamos num mundo tão malvado e desigual. Por
isso, a repressão tem de aumentar. Por essa razão, temos
uma raça de gigantes na ciência e pigmeus na moral. Por
esse motivo, os povos são capazes de abrir mão de um
governo democrático se mais conforto lhes for oferecido por
um ditador. Essa é a razão pela qual expectativas quanto à
vida tão mesquinhas são oferecidas a todos, o que, em certo
ponto, iguala muçulmanos e ocidentais, pois ambos
aguardam as mesmas coisas, com a diferença única que aos
primeiros é prometido que as desfrutarão apenas após a
morte.
Que levou Josué a proclamar isso no momento
derradeiro de sua vida? Em primeiro lugar, penso que ele pôs
toda essa ênfase na Palavra, porque Deus é santo. O
comandante de Israel sabia que as vitórias obtidas em todas
as batalhas foram sobrenaturais. O testemunho da santidade
de um Deus de amor não promíscuo em Ai estava vivo na
memória do grande líder. Numa terra cercada de feras
terríveis, o povo de Israel deveria temer somente a Deus.
Fidelidade à aliança deveria ser o grande alvo da nação. Era
uma questão de sobrevivência. Israel seria incapaz de resistir
aos adversários caso não se mantivesse em estrita submissão
à verdade. Deus boicotaria seus sonhos. Adversários não
menos dignos do juízo divino derrotariam Israel. Aqueles de
visão mais espiritual entre o povo, contudo, mais do quetemer as derrotas militares certamente temeriam algo muito
pior: a perda da comunhão com Aquele que dava sentido à
vida do Seu povo e era seu maior tesouro. O aspecto mais
maravilhoso de toda a história não era Canaã, mas poder, da
terra que mana leite e mel, olhar para o alto e atribuir tudo a
Deus.
Em segundo lugar, Josué relembrou a importância da
Palavra de Deus ao povo porque somente a guardando e
cumprindo é que os escolhidos de Deus evitariam a
contaminação com o mundo. A Palavra de Deus faria com
que a nação criasse anticorpos contra todo risco de
contaminação em Canaã. Esse risco a Igreja sempre corre.
Isso se deve ao fato que Deus, em Sua graça comum, faz com
que não cristãos prosperem e avancem tanto em certas áreas
da vida, que a Igreja se torna incapaz de ver o que há de
deletério no mundo. Olhe para a cultura helenista, por
exemplo. Quanto devemos a ela! Contudo, quanto a Igreja foi
prejudicada ao longo da história por relacionar-se com essa
cultura de forma acrítica. Desse envolvimento, vimos surgir
o dualismo que levou teólogos a menosprezarem o corpo em
favor das realidades espirituais, um racionalismo que fechou
o homem para as verdades suprarracionais da Bíblia e
resultaram em “certezas científicas” que colocaram o
testemunho da Igreja em descrédito, como, por exemplo, a
ideia de que a Terra é o centro do nosso sistema planetário, e
não o Sol. Essa ideia não é encontrada na Bíblia, mas nos
escritos de Aristóteles, mas foi tomada como verdade pela
“Igreja” por muitos séculos. Em nossos dias, o Vaticano teve
de pedir perdão ao mundo pelo que fez com Galileu Galilei,
ao acusá-lo de heresia.
O povo hebreu, ao chegar em Canaã, se depararia com
manifestações da graça comum mescladas com expressões
do mal. E sabemos que bem cedo Israel comprou o pacote
inteiro, vindo a adorar os deuses cananitas além de exigir
um rei tal como havia nas demais nações, o que nunca foi o
propósito de Deus, Aquele que queria ser o único rei de
Israel.
Hoje vemos muitos cristãos relacionando-se de forma
acrítica também com a cultura ocidental. Sem dúvida, a
cultura europeia venceu outras, tanto por suas virtudes
quanto por sua ganância. Suas influências estão por todos os
lados, na ciência, na política, na arte, na cultura, na
economia e em tantas outras. Sua ênfase na liberdade é
excelente. Dela fluiu para o mundo a ideia de um governo
constitucional e democrático. Acontece que sua liberdade
hoje tenta se estender a áreas em que, se não houver limites,
imperará o caos. Essa liberdade, por exemplo, chega ao
ponto de afirmar que os valores cristãos são relativos, já que
vivemos num mundo em que, segundo os que defendem o
ponto de vista secular, o homem não nasce definido.
Primeiro ele nasce, depois sai em busca da sua definição.
Defende-se, portanto, uma liberdade a partir da qual o
homem é livre para se definir como bem quiser, exceto como
ser que foi criado para o louvor da glória do seu Criador.
A Igreja está navegando nesse oceano de costumes e
ideias e, se não se permitir guiar pela bússola da Palavra, vai
terminar completamente afastada do sonho de Deus para a
vida do seu povo e misturada com os cananitas. Pode ser que
venha a ficar tão parecida com o mundo que somente o fato
de frequentar cultos dominicais a diferenciará deste.
Quero frisar que mais importante do que saber o que os
de fora pensam sobre a vida e tudo a ela relacionado é
sabermos o que a Palavra de Deus tem a nos dizer. Não
podemos organizar seminários sobre filosofia pós-moderna
quando nosso povo não conhece ainda o básico da fé cristã.
Não nego com isso a importância de conhecermos as ideias
que têm moldado o pensamento do homem moderno, mas a
Igreja não estará preparada para enfrentar os inimigos de
for a se não estiver fortalecida por dentro. Sem a Bíblia,
nossos crentes não terão subsídio algum para fazer uma
avaliação séria dos filmes, peças, obras de arte e cosmovisão,
tornando-se, assim, presa fácil dos conceitos e práticas do
mundo.
Em terceiro lugar, encontramos na pregação de Josué
essa ênfase na Bíblia, porque a fidelidade às Escrituras
preserva a Igreja daquilo que tem destruído e destruirá
definitivamente o mundo. Israel estava levando o juízo de
Deus para uma terra cujos moradores viviam de modo
diametralmente oposto aos preceitos divinos. Vimos que o
propósito de Deus ao enviar Israel também foi o de exercer
Seu julgamento sobre os habitantes de Canaã. O “cálice”
daquela gente havia transbordado. Deus os tolerou durante
anos e anos. Os anos de tolerância, portanto, foram também
o tempo durante o qual, dia após dia, aquela gente pecava e
afrontava Deus. Assim, chegou o dia em que o cálice das
maldades dos cananitas transbordou. A medida dos seus
pecados chegara ao fim.
Esse é o método de Deus lidar com o ímpio: Ele o entrega
a si mesmo. E, como o ímpio não vê o juízo de Deus se
manifestar imediatamente, pensa que Deus é um com ele ou
até mesmo que Deus não vê suas práticas iníquas. Contudo,
Deus, em Sua soberania e santidade, estabelece para cada
nação e indivíduo uma medida. A cada dia que passa, o ímpio
enche essa medida até ela transbordar. Então, vem o último
pecado, a manifestação final de indiferença aos céus, e Deus
envia Seu julgamento.
Israel deveria temer o risco de contaminação também
por essa razão. Deus não tem compromisso com crente
nominal. Quando uma igreja se comporta como os
incrédulos, Deus também a inclui em Seu juízo. E como a
quem muito foi dado muito será cobrado, o juízo sobre sua
vida será mais severo. Sim, há pecados que são mais odiosos
do que outros, e pecar contra a luz recebida é odioso aos
olhos de Deus: “Ai de você, Corazim! Ai de você, Betsaida!
Porque se os milagres que foram realizados entre vocês
tivessem sido realizados em Tiro e Sidom, há muito tempo
elas se teriam arrependido, vestindo roupas de saco e
cobrindo-se de cinzas. Mas eu lhes afirmo que no dia do
juízo haverá menor rigor para Tiro e Sidom do que para
vocês” (Mt 11:21-22). Olhe para a mesma Europa recém-
mencionada. O que dizer sobre as duas grandes guerras? Não
seriam o juízo sobre um continente que desprezou as
verdades que o tornaram grande?
Como manter-se fiel a Deus? Josué 23:6 é digno de um
sermão inteiro. Mas vamos tentar sumariar as grandes
verdades que ele nos apresenta sobre a fidelidade à Palavra
de Deus. Primeiro, trata-se de algo que envolve esforço. Não
podemos ser românticos quanto a isso. Somos instáveis,
fracos, tendentes ao mal e, se não nos esforçarmos, não
haverá vitória. Nesse campo as coisas não são obtidas pela
fé, como muitos têm ensinado. Há os que dizem que é só
olhar para Jesus ou, então, que basta buscar uma segunda
bênção espiritual e tudo estará resolvido. Mas não é assim
que o crente verdadeiro deve administrar sua vida espiritual.
Essa vida envolve luta, luta diária em que, pela fé e no poder
do Espírito Santo, o crente mobiliza todo o seu ser para ser
santo. Não há santidade sem luta. No campo da santidade,
vale a máxima americana: “No pain no gain”, ou seja,
“nenhuma dor, nenhum ganho”. É o esforço para conhecer o
conteúdo da fé, e esse conteúdo nem sempre é fácil de
aceitar ou de compreender. Há coisas difíceis na Bíblia. Ela
lida com fatos, e fatos complexos, e, na expressão de C. S.
Lewis, não podemos competir em simplicidade com aqueles
que estão a inventar religião.89 Sua aplicação é menos fácil
ainda. Lembre-se de que o Verbo teve de se fazer carne, e os
que vivem nessa busca se deparam com renúncias que a
Escritura exige, as quais somente mediante o esforço fruto
de paixão poderemos realizar.
Em segundo lugar, precisamos guardar e cumprir. Esses
são dois elementos fundamentais da espiritualidade cristã.
Guardar significa convencer-se de que ela é a Palavra de
Deus, de que encarná-la é viver a vida que o próprio Filho de
Deus viveu e expressar a beleza do caráter do Criador.
Devemos também cumpri-la, pois naquele dia não seremos
arguidos sobre o quanto de teologia conhecemos, mas sobre
o quanto praticamos. É Tomas de Kempis que diz: “Que te
aproveita discorreressabiamente sobre a Trindade se por
falta de humildade a desagradas”?90 Devemos cumpri-la
porque a principal parte de vida cristã é a obediência. Não há
evidência maior de novo nascimento do que a prática da vida
cristã. Pelo fruto se conhece a árvore.
Em terceiro lugar, devemos expressar uma submissão
integral à Bíblia. Josué disse que o povo deveria guardar e
cumprir tudo. Por vezes, a não observância dos menores
preceitos nos leva às maiores derrotas. Muitos já foram
julgados por Deus por transgressões consideradas
insignificantes, como tocar na arca, contar uma mentira ou
guardar um despojo. Quisera que todos aqueles que, em
teologia, falam de inspiração plenária vivessem na plenitude
do compromisso de manter-se fiel às Escrituras.
Em quarto lugar, aprendemos com Josué que não
devemos ser crentes propensos a elevar um lado da verdade
à condição de verdade completa. O grande líder de Israel está
falando de um desvio que pode ser para a esquerda bem
como para a direita, para um extremo ou para outro. Isso
ocorre frequentemente por causa da tendência que há em
todos nós de sermos levados a extremos. Você pode sair pela
esquerda como também pela direita. E seja qual for o lado
que escolher, estará pecando. Uns pecam de uma forma e
outros, de outra. Uns, em nome do amor, toleram na igreja o
que foi para a cama com a mulher do pai, enquanto outros,
em nome da moral, querem apedrejar a que foi apanhada em
flagrante adultério. Uns pecaram pela direita e os outros
pecaram pela esquerda. Poderíamos ir mais além e dizer que
uns pensam que ser cristão restringe-se a ser
doutrinariamente correto, enquanto outros pensam que a
porção mais importante da vida cristã são as experiências
sobrenaturais com Deus, já outros, em meio ao antagonismo
entre esses dois grupos, afirmam que o mais importante é a
prática. Mas de onde essa gente toda tirou que podemos
separar, na fé cristã, doutrina, experiência e prática?
Precisamos manifestar em nossa vida esse compromisso
autêntico com a verdade revelada. Igreja que guarda todo o
Evangelho e o aplica todo a todas as áreas da vida. Somente
assim nosso viver entre os cananeus não nos contaminará e
seremos guardados de experimentar o juízo reservado para
eles.
EVITANDO MISTURA COM O MUNDO
Não se associem com essas nações que restam no meio
de vocês. Não invoquem os nomes dos seus deuses nem
jurem por eles. Não lhes prestem culto nem se inclinem
perante eles. [...] Se, todavia, vocês se afastarem e se
aliarem aos sobreviventes dessas nações que restam no
meio de vocês, e se casarem com eles e se associarem
com eles, estejam certos de que o Senhor, o seu Deus, já
não expulsará essas nações de diante de vocês. Ao
contrário, elas se tornarão armadilhas e laços para
vocês, chicote em suas costas e espinhos em seus olhos,
até que vocês desapareçam desta boa terra que o Senhor,
o seu Deus, deu a vocês. (Js 23:7-12-13)
O compromisso com Deus levou os crentes dos dias de
Josué a assumirem o papel de instrumentos do juízo divino.
Não era uma tarefa fácil, mas, apesar de todas as batalhas
que Israel enfrentaria, Deus dava ao Seu povo o privilégio de
também servir de instrumento de revelação da santidade
divina, de defesa da Sua justiça e de glorificação de Seu
nome. Foram muitos anos tolerando um povo muito
maligno, e chegara o tempo de Deus, por meio de Josué,
destruir aqueles que inutilmente habitavam na terra de
Canaã.
Sabemos que hoje Deus não chama Seu povo para a
execução desse tipo de juízo. Apesar de, em tantas ocasiões,
a Igreja ao longo de sua história ter agido como se estivesse
em Canaã com a incumbência de matar – como aconteceu
em especial nas cruzadas –, Deus hoje convoca Seu povo
para a utilização de outras armas e com outros propósitos.
Pesa sobre nós uma grande comissão: temos o chamado de
anunciar ao mundo que, hoje, unicamente por meio do
Senhor Jesus Cristo o homem pode se reconciliar com Deus.
É óbvio, no entanto, que nossa presença acaba trazendo
morte para os que, como os cananeus, resistem a Deus.
Somos um povo que exala um perfume que representa cheiro
de morte para os que se perdem (2 Co 2:14-16). Nossa ação
evangelística traz morte de certa forma por, pelo menos,
dois motivos: primeiro, por anunciarmos uma mensagem
que lavra a sentença de quem se recusa a receber a oferta
graciosa de salvação. Quem nele crê não é condenado (Jo
3:18). Temos de deixar claro para os pecadores que não se
arrependem que perecerão. A segunda espécie de morte que
aqueles que têm contato com a Igreja experimentam é que,
caso não aceitem o convite da salvação, vão ficar piores.
Nossa mensagem pode levá-los a perceber a vacuidade da
vida e o governo moral de Deus. Como enfatizou Francis
Schae�er, “num mundo caído, precisamos estar preparados
para enfrentar o fato de que, por mais amorosamente que
preguemos o evangelho, a pessoa se sentirá miserável caso o
rejeite. É escuro lá fora”.91
O fato é que, quer no Antigo quer no Novo Testamento,
nunca foi fácil viver com os incrédulos. É, sem dúvida, um
ponto dificílimo. O mundo está aí. É impossível não ter
contato com ele, com seus conceitos, com suas influências.
Passamos boa parte de nosso tempo nele. Como não nos
associarmos a ele? Como não participar de sua morte?
Bem, inicialmente é importante frisar que a Bíblia não
condena o contato com o mundo. Ela condena, sim, a
mistura com o mundo, e ela nos diz com clareza o que é esta
mistura. Deus nos chama para mantermos nossa identidade
de povo Dele, santo e separado. Não é da Sua vontade que a
Igreja venha a se tornar uma só massa com o mundo. O que
é necessário para que isso não ocorra? Se fôssemos dar uma
resposta geral, diríamos que a presença da Igreja no mundo
deve ter este propósito: levar aos perdidos o entendimento
claro do que Deus pensa a respeito deles. Precisamos manter
a noção, conforme Agostinho tanto ressaltou, que fazemos
parte, o mundo e nós, de cidades diferentes. Somos cidadãos
de outra nação. Não há nada mais nocivo para o mundo do
que a Igreja fazê-lo pensar que tudo está bem com ele e, já
que moramos no mesmo planeta, somos um mesmo povo.
Acontece que não somos! E embora possamos encontrar
gente culta e agradável, honesta e justa fora da Igreja, nosso
envolvimento com ela deve ter como alvo o cumprimento da
Grande Comissão e do grande mandamento.
O texto da Escritura sobre o qual estamos nos
debruçando, porém, nos oferece respostas mais específicas
para a pergunta acerca de como não nos misturarmos com o
mundo. Há duas coisas claras que não devemos fazer.
Primeiro, não ter contato com seus deuses. Observe que
Josué fala claramente contra a idolatria. Não podemos adorar
o que o mundo adora. Penso que a lição prática é a seguinte:
sempre que o mundo estiver muito empolgado com algo,
vigiemos. Por sermos participantes de uma mesma espécie,
vamos, com certeza, nos regozijar com algumas das alegrias
do mundo. Tanto quanto os incrédulos, queremos
democracia, paz, justiça, segurança e assim por diante.
Como fazemos, porém, parte de nações diferentes, nem
sempre nossos anseios vão tangenciar com os do mundo. O
mundo geralmente se empolga com muita coisa que não
deve empolgar a Igreja. A Igreja deve se relacionar com as
coisas desta vida de maneira menos apaixonada e
dependente do que os ímpios. Por vezes, o problema com o
mundo não está em seus alvos, mas na forma como os
abraça e nos meios para alcançá-los. Eu diria que os
membros da Igreja de Cristo têm uma dupla vantagem sobre
o mundo quanto ao que a vida oferece. Primeiramente, ela
tem mais prazer no prazer. Por quê? Porque há Alguém no
universo a quem pode dizer “muito obrigado!”. Uma noite
enluarada para um crente é diferente do que é para o
incrédulo. Este só vê o luar, aquele sente o inexprimível. Um
diz: “Olhe no que o Big Bang deu”, enquanto o outro adora,
dizendo: “Grandes são as Tuas obras, Senhor Todo-
Poderoso”. A outra vantagem tem relação com o espírito
com que a Igreja lida com as coisas. O crente não se
impressiona facilmente. Seus olhos estão postos na glória,
ele percebeo caráter transitório do que existe, sabe que
debaixo do sol as coisas são imperfeitas e contempla o fulgor
da majestade Daquele cuja beleza ofusca o cosmos. Não ter o
coração posto de forma desmedida no mundo é não
depender para ser feliz do que é frágil e imperfeito.
Há um ponto a mais, contudo, quando pensamos na
idolatria. Esses deuses produzem aquilo que muitos chamam
de cosmovisão. Sim, aquilo que o mundo adora leva à criação
de uma forma de ver a vida da qual o crente deve fugir. Não
podemos permitir que a perspectiva do mundo domine nossa
mente.
Quais as convicções centrais que geralmente
encontramos no mundo? Os teólogos costumam falar sobre
as influências noéticas do pecado. O pecado afeta nossa
mente. O que eles dizem com razão é que, embora tenhamos
uma mente que pode ser usada de forma grandiosa para
tanta coisa na vida, pelo fato de o coração estar sob os
efeitos do pecado, a avaliação que o homem faz de si mesmo,
do mundo, da vida e de Deus está profundamente
condicionada pelo mal.
Freud se arrogava o direito de ter sido como aquele que
acordara a humanidade do seu sono. Jactava-se de haver
anunciado ao mundo que a pretensão do homem de ser visto
como um ser racional era ilusória por este ter suas decisões
conscientes absolutamente condicionadas pela
irracionalidade do seu mundo inconsciente. Mas em
Romanos 1, o apóstolo Paulo fala da possibilidade de um
homem conhecer a verdade com a mente e, ao mesmo
tempo, recusar-se a reconhecê-la, por seu desejo
inconsciente de rejeitá-la. Esta é a influência noética (a
palavra vem de nous, palavra grega que significa mente) do
pecado. A disposição maligna do coração perverte o juízo da
mente. Agora você entende porque o Senhor Jesus foi levado
a dizer: “Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a
Deus” (Mt 5:8).
A Igreja deve estar atenta a tudo isso. Conhecer o ídolo
bem como o que a adoração dele produz na cultura de um
povo é fundamental para que a Igreja não incorra no mal que
Josué tanto combate. Veja os cananeus. Tinham os seus
ídolos e os adoravam de tal modo cego que lhes sacrificavam
os filhos! Era sua cultura e sua concepção de deus. Não
podemos dissociar uma coisa da outra. Não se pode separar
idolatria e cultura.
A idolatria pode ser vista também como a atenção
desmedida a alguma coisa. Veja, por exemplo, o tema da
liberdade. Da Revolução Francesa e do Iluminismo para cá,
não sei se há um valor tão estimado pelos ocidentais como a
liberdade. De fato, parte da humanidade livrou-se de um
terrível cativeiro político, religioso e filosófico. Sendo assim,
queremos governos democráticos e constitucionais. Não se
imagina negociar o Estado de direito. Queremos também
liberdade moral intelectual. E, como expressão das duas
últimas, temos o conceito de que o homem não nasce
definido e, portanto, é livre para buscar sua definição. O que
levou a cultura dos países que abraçaram a esse ideal a
jamais definir o ser humano como alguém que só pode
encontrar seu sentido para viver numa relação viva com o
seu Criador. Ele é livre, sim, mas não para ser santo. É tudo
uma questão de escolha. Por isso, o único absoluto que
restou, por mais contraditório que seja, foi a tolerância. Não
há pecado intelectual mais odioso para a nossa geração do
que crer em absolutos morais. Ninguém é mais odiado do
que aquele que crê em verdades absolutas. Essa é a única
verdade absoluta: tudo deve ser visto como mera e arbitrária
construção social da realidade.
O Cristianismo fala muito sobre liberdade. A liberdade é
um valor cristão e devemos fomentar o direito de livre
expressão do pensamento, lutar pela democracia e livrar o
homem de tudo o que o acorrenta na alma. É fato fora de
controvérsia que a liberdade é valor inegociável para o
Cristianismo. Foi Abraham Kuyper que muito bem
reconheceu o Calvinismo como agente eficaz para a criação
de governos democráticos e baseados numa constituição por
todos reconhecida: “E, como nome político, o Calvinismo
indica aquele movimento político que garantiu a liberdade
das nações em governo constitucional; primeiro na Holanda,
então na Inglaterra e, desde o final do século XVIII, nos
Estados Unidos”.92
Mas a liberdade que o mundo quer não é a liberdade
preconizada pela fé cristã. Não adoramos a liberdade –
adoramos a Deus. Queremos liberdade, pois esta glorifica a
Deus. Queremos a liberdade de ser escravos de Deus
mediante Seu poder regenerador.
Pincei o conceito de liberdade como um dos valores
considerados supremos da cultura ocidental, mas poderia
falar também sobre tantas outras expressões do bem
transformado em ídolo que desumaniza, para as quais
devemos atentar se, de fato, não queremos nos misturar
com o mundo. “Não se amoldem ao padrão deste mundo”,
alguém já ordenou (Rm 12:2).
Josué fala de um segundo pecado que o povo de Israel
deveria evitar: o casamento com os cananeus. Este é um
tema bastante polêmico, eu sei, contudo, a Palavra de Deus é
muito clara ao dizer que cristãos devem buscar construir
família com cristãos. Por quê? A resposta é simples: não há
comunhão entre luz e trevas. Pense nisso. Pense na mente
do cristão, na mudança extraordinária que houve em sua
vida. Ele era escravo do mundo, da carne e do Diabo. Sua
vida era governada por essas três forças. Como quebrar suas
correntes? Tente por si mesmo se livrar delas. Olhe para a
extraordinária influência delas em todas as áreas da vida
humana. Após crer, o cristão tem a Palavra de Deus que lhe
dá subsídios para fazer uma avaliação crítica do mundo, tem
os frutos da regeneração que quebrou o poder soberano da
carne sobre sua vida e a promessa do proto-evangelho (Gn
3:15), de que uma raça seria inimiga de Satanás, realizada
em seu coração. Não apenas crê Nele, mas também O adora,
contemplando-o na beleza da sua santidade. O crente é
alguém que fixou o amor em Deus por haver descoberto o
quanto Ele é majestoso. Penso que uma boa definição de
cristão é a que encontramos em Romanos 2:7: o crente é
alguém que procura glória, honra e incorruptibilidade.
Esses fatos todos levaram Martyn Lloyd-Jones a dizer
que é um insulto a ideia de que o crente passou por uma
simples transformação:
Muitos há que pensam na salvação e no Cristianismo em
termos de um pouco de moralidade e decência. Que
insulto ao cristão! Como se o cristão fosse apenas um
indivíduo bondoso, agradável e inofensivo. Nada disso! O
cristão é alguém que passou por uma tremenda
transformação. Houve nele esta ação dinâmica. Ele foi
levantado, ressuscitado; ele está nos lugares celestiais.93
Agora, pense no incrédulo. Quem ele é? O que ama? O
que espera do futuro? O incrédulo é o oposto de tudo o que
vimos. É um escravo dessas forças poderosíssimas que
prendiam o crente. É alguém avesso a Deus. Quando crê em
Deus, crê sem experimentar afeição santa em seu coração.
Não são poucos os que negam o Deus cristão e que, contudo,
mantêm relação com algum conceito de divindade. Ninguém
jamais foi salvo pelo simples fato de crer na existência de
Deus. Os fariseus acreditavam em Deus tal como nos
demônios. Não é fato que os maiores facínoras da história
eram profundamente religiosos? Olhe para o rastro de
destruição deixado pela religião. O problema do ímpio
também não está em seu intelecto. Não é que ele seja tão
estúpido a ponto de olhar para o espetáculo da criação e
atribuí-lo ao acaso. O problema é que o Deus em que ele diz
crer não o fascina, não é seu supremo bem, não interfere no
rumo essencial da sua vida. Converse com quem não nasceu
de novo sobre os atributos de Deus, por exemplo, e você
perceberá por seu olhar distante e falar cheio de pieguice que
ele não se relaciona com Deus tal qual o crente.
Jamais estimularia, a quem quer que fosse, a não ter
contato com não cristãos, não os amar ou não reconhecer
suas virtudes. Não precisamos, a fim de ressaltar a perdição
do pecador, negar sua origem divina nem a imagem e a
semelhança com Deus que carrega. Mas leia o que a Bíblia
fala sobre regeneração, sobre ser nova criatura, ser
santificado, tornar-se semelhante a Cristo, e vocêperceberá
o enorme abismo que separa o crente do incrédulo.
Vamos à aplicação disso tudo. Como um cristão pode
escolher como cônjuge aquele com quem não é capaz de
conversar justamente sobre o sentido da sua vida? A
comunhão com quem não recebeu uma nova natureza
formada pelo Espírito Santo poderá ir muito longe, mas
jamais sem satisfazer o prazer mais profundo da alma que
foi tangida pelo toque da graça regeneradora. Sobre o que
conversarão? É possível orarem juntos? A conclusão a que
chegamos é que a necessidade de satisfazer à demanda
relacional, que faz parte tanto da nossa natureza humana
como da nossa natureza regenerada, só pode ser satisfeita
na Igreja. É lá onde encontrará seus melhores amigos.
TEMENDO O SENHOR
Estejam certos de que o Senhor, o seu Deus, já não
expulsará essas nações de diante de vocês. Ao contrário,
elas se tornarão armadilhas e laços para vocês, chicote
em suas costas e espinhos em seus olhos, até que vocês
desapareçam desta boa terra que o Senhor, o seu Deus,
deu a vocês. [...] Mas, assim como cada uma das boas
promessas do Senhor, do seu Deus, se cumpriu, também
o Senhor fará cumprir-se em vocês todo o mal com que
os ameaçou, até eliminá-los desta boa terra que lhes
deu. Se vocês violarem a aliança que o Senhor, o seu
Deus, lhes ordenou, e passarem a cultuar outros deuses
e a inclinar-se diante deles, a ira do Senhor se acenderá
contra vocês, e vocês logo desaparecerão da boa terra
que ele lhes deu (Js 23:13-15-16).
Aqui está um elemento indispensável para o sucesso de
nossa jornada espiritual no mundo: o temor ao Deus santo.
Perde sua identidade por deixar-se cooptar pelo mundo,
coloca-se debaixo do juízo divino.
O temor do Senhor é o receio de, por força da percepção
da Sua santidade, desagradá-Lo. Deus é separado de todo o
mal, o que o leva a exigir que quem o serve busque
conformar seu caráter ao caráter do Criador. O verdadeiro
crente odeia o pecado. Pecar o expõe à disciplina divina.
Pecar o faz voltar-se contra quem mais o ama. Quanto mais
conheço o amor de Deus por mim, mais tomo consciência de
que ele O levará a querer o melhor para mim. O melhor para
mim é participar da beleza de Deus. É ser excelente como Ele
é. Quando procuro fugir dessa fixação do amor divino em
mim, o próprio Deus traz-me de volta para Seus caminhos.
Sim, o amor de Deus me faz temê-Lo.
Ultimamente, tenho pensado nesse amor também sob a
óptica da eleição eterna. A predestinação lança meu olhar
tanto para a eternidade quanto para o passado da minha
própria vida. E o que vejo quando olho para trás? A mão
invisível do que me amou desde antes da fundação do
mundo, amorosamente dirigindo os acontecimentos da
minha vida a fim de que tudo cooperasse para minha
redenção final. Quantos livramentos! Quantas mudanças
providenciais no curso da minha história, usadas por Deus
para me atraírem para Ele. O crente recusa-se a banalizar
esse amor antigo, que o separou por um ato de pura graça
para uma salvação eterna.
O temor do Senhor levará o crente a outras atitudes:
primeiro, à certeza de que o seu pecado pode obrigar Deus a
discipliná-lo. O crente pode perder a saúde, ser perseguido,
ficar desempregado ou privado da comunhão com Deus.
Segundo, esse temor o manterá distante tanto dos grandes
quanto dos pequenos pecados. O crente sabe que há pecados
que são mais odiosos para Deus, por isso os evitará; mas
sabe também que pequenos pecados costumam endurecer
gradativa e imperceptivelmente o coração. Em terceiro lugar,
esse temor levará o crente a se preocupar mais em agradar a
Deus do que a quem quer que seja. Em quarto lugar, agirá
também sobre seu interesse pela Bíblia. Indiscutivelmente
quem teme a Deus se preocupará em conhecer, por meio de
Sua Palavra, como agradá-Lo. Finalmente, em meio a tudo o
que poderíamos falar sobre o temor ao Senhor, voltando à
advertência de Josué nestes versículos, o crente temerá
muito ser mundano.
Qual a razão de o crente temer ser mundano? Primeiro,
porque Deus já o advertiu e, segundo, porque o crente vê o
mundo como Deus o vê. O mundo, com toda a sua dor e
miséria, é uma prova empírica de que Deus está falando
seriamente quando adverte a Igreja acerca do perigo de se
viver uma vida mundana.
Quero ainda acrescentar uma coisa mais: só teme ao
Senhor aquele que vive coram Deo, ou seja, na presença de
Deus. Só teme ao Senhor aquele que sabe que está sempre na
presença de Deus e, por isso, vive na presença de Deus.
Embora estejamos sempre em Sua presença, vivemos nela
em seu sentido ético quando nos damos conta do fato de que
viver é viver coram Deo. Como muito bem ressaltou Timothy
George, citando Lutero:
O Deus vivo da Bíblia é o Deus que nos encontra em juízo
e misericórdia, o Deus que nos condena e salva. Coram
Deo significa que, enquanto estamos sempre à disposição
de Deus, Ele nunca está à nossa disposição. “Acreditar
num Deus assim”, disse Lutero, “é cair de joelhos”.94
AMANDO O SENHOR
Mas apeguem-se somente ao Senhor, ao seu Deus, como
fizeram até hoje. O Senhor expulsou de diante de vocês
nações grandes e poderosas; até hoje ninguém
conseguiu resistir a vocês. Um só de vocês faz fugir mil,
pois o Senhor, o seu Deus, luta por vocês, conforme
prometeu. Por isso dediquem-se com zelo a amar o
Senhor, o seu Deus. (Js 23:8-11)
Aqui está o elemento principal: só vencemos o mundo
quando nosso coração está dominado por amor pelo Criador.
Este é o verdadeiro sucesso. Esta é a vida vitoriosa: amar a
Deus. É cumprir o propósito para o qual fomos criados e o
principal mandamento. Em que consiste a bênção de amar a
Deus? É saber que somos amados por Ele também. O maior
sinal que pode assegurar ao homem o amor eletivo de Deus
por sua própria vida é o fato de ele amar a Deus. Só os eleitos
amam a Deus. Amar a Deus é sinal da presença da graça
especial. A graça comum, da qual toda a raça humana
compartilha, é capaz de levar um homem a ter uma boa dose
de fé na existência de Deus. Mas a fé que atua pelo amor,
que vem acompanhada de encanto e louvor, só os
verdadeiros filhos de Deus possuem. Muitos se perderão
eternamente, apesar de toda fé que possuíram. Não conheço,
porém, uma passagem bíblica que mostre um homem que
verdadeiramente amou a Deus e que veio a se perder. O amor
não salva, mas ninguém entrará no céu sem amor. A fé
salvadora, sem a qual ninguém será salvo, diferentemente
daquela que só habilita o homem a saber que Deus existe,
por suas características, inevitavelmente leva o homem a
amar a Deus. O amor é fruto imediato da fé salvadora. É da
sua natureza tanto justiçar pela graça divina, quanto
conduzir o que a possui a maravilhar-se com o amor
gracioso de Deus.
Sem esse amor, os cananeus sempre nos devorarão.
Pastores não querem ver suas igrejas tragadas pelo mundo.
O que fazem muitas vezes? Organizam seminários sobre a
pós-modernidade, aconselham pessoas a evitarem assistir a
filmes que poluirão seus corações, entre tantas outras ações
mais que tão somente visam a manter a Igreja imune ao
espírito deste século. Tudo isso tem seu lugar e, feito na
medida correta, com bom senso e sem legalismo, ajuda.
Entretanto, não estaremos preparados para viver em
sociedades não cristãs se não estivermos cheios de um santo
amor por Deus.
O amor a Deus é a única resposta que pode destruir a
lógica do pecado. Ao dialogar com o pecado, muitas vezes
dizer-lhe “não” mais se parece com dizer “não” à mão que
nos quer matar a fome. Negar-lhe satisfação é visto como
um atentado à própria alma. Uns tentam guardar-se dizendo
para si mesmos que quem peca vai para o inferno. Só que o
pecado nos convence de que o inferno de evitá-lo é pior do
que o literal. Quem já se apaixonou por uma pessoa casada
sabe do que estou falando. Que argumento lógico, racional
ou moral é capaz de superar o apelo do sonho do amor
perfeito, mesmo que pecaminoso?
Quando o pecado, porém, encontra o coração de um
amante de Deus, seu poder persuasivo se desvanece como
gelo ao sol. Esse amor torna a proposta de trair a Deus
indecorosa. Expõe toda sua feiúra. Quão feio é o pecado paraaquele que conheceu o amor de Deus! Ao se ver diante do
pecado, quem experimentou o amor de Deus e, em resposta,
passou a amá-lo também, vê com horror não corresponder à
fidelidade divina com fidelidade humana e não participar da
beleza Daquele que, ao se revelar como excelente, torna
quem O conheceu obcecado por desta beleza participar.
O temor do inferno já levou muitos a correr para a graça
a fim de receber o perdão. Mas essa graça é sábia e gulosa.
Ninguém que por ela tenha procurado a Cristo devido ao
medo da perdição eterna pára somente nisso. A graça o
levará àquele estágio que o torna cada vez mais avesso ao
pecado, como também a seguir movido na direção de Deus
por um anseio de ser cada vez mais puro. É na experiência
do amor santo pelo Criador que o homem torna-se mais
capaz de manter-se fiel a Ele e O serve, não pelo motivo
centrado no ego de fugir de uma punição final, mas pela
visão das excelências de Deus. Como vimos, Josué estimula o
povo de Israel a empenhar-se na obtenção e manutenção
desse amor. Oh! Esse certamente deveria se constituir no
principal objetivo de nossa vida. Como maravilhosamente
expressou J. C. Ryle, “ele [o cristão] dará valor às coisas,
lugares e companhias na proporção em que eles o fizerem
aproximar-se mais de Deus”95. Este deveria ser o maior
pedido em nossas orações pessoais, o grande objetivo do
estudo de teologia, a grande meta na ida a um culto cristão.
Vale a pena destacar que Josué apresenta uma base
intelectual para esse amor. Ele disse aos israelitas: “Olhem
para o passado. Vejam o quanto Deus fez!”. Era o exercício
que Israel deveria fazer como nação que todos nós devemos
fazer como indivíduos: olhar para o lado e perguntar:
“Quantos possuem esse privilégio? Ele escolheu os egípcios,
os caldeus, os fenícios, os persas ou os cananeus? A quem
Ele escolheu? E por que escolheu? Superioridade numérica
ou moral?”. A resposta já lhes havia sido dada:
Pois vocês são um povo santo para o Senhor, o seu Deus.
O Senhor, o seu Deus, os escolheu dentre todos os povos
da face da terra para ser o seu povo, o seu tesouro
pessoal. O Senhor não se afeiçoou a vocês nem os
escolheu por serem mais numerosos do que os outros
povos, pois vocês eram o menor de todos os povos. Mas
foi porque o Senhor os amou e por causa do juramento
que fez aos seus antepassados. Por isso ele os tirou com
mão poderosa e os redimiu da terra da escravidão, do
poder do faraó, rei do Egito. (Dt 7:6-8)
A grande conclusão do capítulo 23 de Josué é a seguinte:
Deus é fiel. Sendo um Deus fiel, Ele espera a mesma
fidelidade em amor por parte de Seu povo. Esta foi uma
mensagem proferida por um pastor zeloso por seu rebanho.
Como precisamos ouvi-la! Ele percebera que Deus não tiraria
os moradores da terra da promessa antes da chegada de Seu
povo. Consequentemente, o povo de Deus teria contato com
aquela gente, o que se constituiria em um enorme desafio
para pessoas que, pela primeira vez, se relacionariam com
uma sociedade profundamente pagã. Tudo o que Deus queria
era fidelidade que se expressasse em aversão àquela cultura
idólatra.
Oh! Querido irmão, olhe para trás, para a história linda
que o Senhor, nosso Deus, está escrevendo em sua vida. Não
se associe, portanto, com aquilo do que você foi retirado pela
graça divina. Siga a exortação do grande apóstolo Pedro:
“Salvem-se desta geração corrompida!” (At 2:40). Pois
como muito bem falou o discípulo amado: “O mundo e a sua
cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus
permanece para sempre” (1 Jo 2:17).
X
A RESPOSTA DA IGREJA À REVELAÇÃO
DIVINA
JOSUÉ 24
Estamos chegando ao fim do relato do livro de Josué
sobre a jornada vitoriosa do povo de Israel em Canaã. Depois
de analisar alguns dos principais acontecimentos daqueles
tempos, chegamos à conclusão de que foi um período de
glória. Ali estava uma geração melhor do que a anterior, que
morreu no deserto, e comandada por um homem excelente,
mediante os quais Deus operou grandiosamente. Quanto
Deus realizou por meio daquela gente!
Por isso, afirmo que estudar o livro de Josué é estudar
um período de glória da vida do povo de Deus e,
consequentemente, conhecer os princípios que regem a vida
de um povo vitorioso.
Pensar, contudo, que o grande privilégio do povo de
Israel foi a carreira coberta de vitórias é perder de vista a
grande mensagem deste capítulo final e, por conseguinte, de
todo o livro de Josué. Foi de fato maravilhoso ver o rio se
abrir, as muralhas ruírem, os inimigos serem derrotados, o
anjo do Senhor se manifestar, o sol parar, tomar posse de
uma terra especial e herdar as riquezas que a graça comum
havia possibilitado aos povos de Canaã. A grande bênção, no
entanto, foi poder receber, em meio a tudo aquilo, uma
gloriosa revelação de Deus.
É fato que podemos conhecer Deus de vários modos,
entre eles, pela revelação que Deus faz de si mesmo por
meio de Sua ação providencial. Como afirma A. A. Hodge,
“homens de todas as nações, épocas e graus de cultura têm
discernido as evidências da presença de Deus nas obras da
natureza e da providência”.96 A afirmação do grande teólogo
de Princeton é irretocável, embora saibamos que o ímpio não
tira nenhum proveito salvador desse tipo de revelação. O
crente, porém, não apenas pode discernir a mão invisível de
Deus nos acontecimentos da vida em geral, como também é
alvo de manifestações especiais e inconfundíveis dessa
mesma providência. O extraordinário para o povo hebreu foi
poder, em cada manifestação de Deus na história, conhecer
algo novo do ser e atributos divinos. Conforme ressalta
Hermann Bavinck:
A Escritura não argumenta sobre Deus, ela O apresenta a
nós e revela-O em todas as obras de Suas mãos. A
Escritura parece nos dizer: “Levante seus olhos e
contemple Aquele que fez todas estas coisas” [...]. Nós
não aprendemos a conhecer e glorificar Deus
independentemente de Suas obras, mas através de Suas
obras, na natureza e na graça. É por isto que as Sagradas
Escrituras nos apontam com tanta frequência os
poderosos feitos de Deus. A Escritura é ao mesmo tempo
uma descrição deles e um cântico de louvor por eles.
Exatamente porque ela quer fazer-nos conhecer o Deus
vivo e verdadeiro, ela fala em todas as suas páginas
sobre os Seus poderosos feitos.97
É justamente isso que Deus quis enfatizar por meio da
mensagem de Josué ao povo de Israel. O primeiro verso de
Josué 24 diz que ele reuniu os líderes da cada tribo em
Siquém, e chamou os anciãos de Israel, os seus cabeças, os
seus juízes, e os seus oficiais; e eles se apresentaram diante
de Deus. Então Josué disse a todo o povo:
“Assim diz o Senhor Deus de Israel: antigamente vossos
pais, Terá, pai de Abraão e de Naor, habitaram dalém do
Eufrates, e serviram a outros deuses. Eu, porém, tomei a
vosso pai Abrão dalém do rio, e o fiz percorrer toda a
terra de Canaã; também lhe multipliquei a descendência,
e lhe dei Isaque”.
O que Josué destacou? Ele destacou o fato de que o povo
de Israel era proveniente de uma raiz idólatra, mas que, pela
graça divina, fora eleito a partir de Abraão para conhecer o
único Deus verdadeiro e conhecer mais e mais, por Suas
ações providenciais, Sua salvação. É fácil observar que, a
partir do versículo 4, Josué traz à memória de todos o fato de
que uma história de revelação incomum do ser de Deus a
uma nação havia-se iniciado com Abraão.
Por que no capítulo final desse livro sobre guerras e
conquistas encontramos essa ênfase na revelação que Deus
fez de Si mesmo a Israel? Porque depois de todas as
conquistas cabia àquela gente dar uma resposta específica à
revelação que Deus fizera, uma resposta que estivesse à
altura dos enormes privilégios que cercam a vida dos que O
conhecem.
A maior vitória que um homem pode alcançar é conhecer
a Deus. Milhares de seres humanos não O conhecem.
Fazemos parte de uma raça que, apesar de nascer com o
senso da divindade no coração, sufoca esse conhecimento
inato, não permitido assim que ele venha a emergir na
consciência e ganhar o coração. É quase inacreditável que
isso seja verdade, mas este é o veredictobíblico. Paulo, na
Carta aos Romanos, ensina que a grande razão de o homem
ser inescusável diante de Deus é negar o que sabe ser
verdadeiro. Não discuto o fato de que milhares jamais
tiveram e nunca terão o conhecimento do Filho de Deus, e
estes, certamente, não serão julgados por não terem crido no
Cristo acerca de Quem nada ouviram. O que não se pode
negar, entretanto, é que ninguém deixou de receber o
testemunho do Pai: “Pois desde a criação do mundo os
atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza
divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos
por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são
indesculpáveis” (Rm 1:20). Os que não ouviram o
testemunho do Filho não serão condenados porque não
entregaram a vida a Ele, mas serão condenados por não
terem entregue a vida ao Criador de todas as coisas, cujo
testemunho é dado pela criação. R.
C. Sproul apresenta esse assunto de maneira muito clara:
Se alguém que habite uma região remota jamais ouviu
falar de Cristo, ele não será então castigado por isso.
Será entretanto castigado por rejeitar o Pai a Quem
conhece e pela desobediência à lei escrita em seu
coração. Devemos lembrar de novo que as pessoas não
são rejeitadas por aquilo que não conhecem, mas pelo
que ouviram falar.98
Não conhecer a Deus é a causa de nossa perdição. Não
pense que, ao falar sobre perdição, estou pensando apenas
em quem é banido para sempre da face de Deus. Estou me
referindo mais especificamente a uma perdição relacionada
ao tema deste livro: a de se alcançar um sucesso que não tem
peso eterno, que não vem acompanhado de cantos de
gratidão e deixa um vazio enorme no coração de quem o
alcançou. Quem será mais infeliz: aquele que viveu ansiando
pelo sucesso na vida e não o alcançou ou aquele que obteve
tudo o que um dia sonhou, mas veio a perceber que as
demandas do seu coração eram maiores, eram do tamanho
de Deus?
Nisto consiste a bênção de se alcançar a prosperidade
cristã: ela é centrada em Deus. E o povo de Israel, que
participava da bênção gloriosa de conhecer a Deus, não podia
se esquecer disso. É interessante observar um detalhe na
história daquela nação. As promessas temporais que lhe
foram feitas eram, sem margem de dúvida, de colocar
qualquer um para sonhar. Elas implicavam conquistas
dignas de serem devolvidas a Deus na forma de louvor.
Observe, contudo, que o povo de Israel nunca foi, nem
mesmo no apogeu dos reinados de Davi e Salomão, a nação
mais poderosa da história. Encontramos conquistas mais
amplas, riquezas maiores e posses territoriais mais
extensas. Considere a Macedônia, a China, Roma e, mais
próximos de nós, a Inglaterra e os Estados Unidos. Como
comparar a riqueza de Israel com o que estes povos
alcançaram? Estude história e veja o lugar que Israel ocupa
no cenário político e econômico. Tenho minhas dúvidas se os
acontecimentos do povo judeu seriam conhecidos por nós se
não fosse o Cristianismo, humanamente falando. Tente
comparar Davi com Alexandre, o Grande, com os césares,
com Carlos Magno, entre outros. Qualquer estudante de
história sabe que estes alcançaram o que Davi nem em
sonhos conseguiu.
A pergunta que essas constatações históricas exigem que
respondamos é a seguinte: por que, apesar da grandeza das
promessas, povos que não tiveram os mesmo privilégios
espirituais conquistaram mais? Ora, a resposta é clara e
envolve duas coisas: primeiro, Deus tinha para aquela gente
algo maior do que conquistas territoriais ou econômicas –
prometera-lhes o céu. Israel estava apenas antegozando
aquilo que os redimidos por Cristo haveriam de usufruir um
dia na glória. E que ninguém pense que não havia dentre o
povo hebreu quem aguardasse promessas mais excelsas.
Como diz o livro de Hebreus:
Pela fé Abraão, quando chamado, obedeceu e dirigiu-se a
um lugar que mais tarde receberia como herança,
embora não soubesse para onde estava indo. Pela fé
peregrinou na terra prometida como se estivesse em
terra estranha; viveu em tendas, bem como Isaque e
Jacó, co-herdeiros da mesma promessa. Pois ele
esperava a cidade que tem alicerces, cujo arquiteto e
edificador é Deus. (11:8-10)
Falando sobre Moisés, veja o que o escritor do mesmo
livro inspirado afirma:
Pela fé, Moisés, recém-nascido, foi escondido durante
três meses por seus pais, pois estes viram que ele não
era uma criança comum, e não temeram o decreto do rei.
Pela fé, Moisés, já adulto, recusou ser chamado filho da
filha do faraó, preferindo ser maltratado com o povo de
Deus a desfrutar os prazeres do pecado durante algum
tempo. Por amor de Cristo, considerou a desonra riqueza
maior do que os tesouros do Egito, porque contemplava
a sua recompensa. (vv. 23-26)
Em segundo lugar, e aqui voltamos ao ponto em
questão, a grande riqueza de Israel era ter o próprio Deus. O
que Deus tem de melhor a dar para Seu povo é a Si mesmo!
Foi isso que o antecessor de Josué, Moisés, foi levado a
compreender, antes de o povo entrar em Canaã; por essa
razão, orou da seguinte forma:
Então lhe disse Moisés: “Então Moisés lhe declarou: “Se
não fores conosco não nos envies. Como se saberá que eu
e o teu povo podemos contar com o teu favor, se não nos
acompanhares? Que mais poderá distinguir a mim e a
teu povo de todos os demais povos da face da terra?”.
(Êx 33:15-16)
Oh! Que mensagem essa oração tem para nossos dias!
Tantos falam em prosperidade, significando com isso poder
e prazer em profusão, mas Moisés, antes de entrar em
Canaã, fez uma oração que revela que a terra prometida, sem
a presença de Deus, é como o Egito; que uma terra que mana
leite e mel não poderá ser devidamente “saboreada” sem
Deus. Que prazer é maior do que o experimentado na
presença de Deus, para a glória de Deus e com o coração
cheio de louvor a Deus?
Deus queria que o povo de Israel soubesse que esta era a
verdadeira prosperidade: conhecer a Deus e saber responder
a esse conhecimento. Qual deve ser a resposta da Igreja à
revelação divina? Essa é a pergunta a que temos de
responder.
MEDITAR SOBRE O CONTEÚDO DA REVELAÇÃO
Do versículo 2 ao 13 de Josué 24, Espírito Santo, por
meio do líder de Israel, se dirige ao povo trazendo-lhe à
memória os grandes feitos de Deus em sua história. A
recordação da revelação que Deus fizera de Si mesmo
mediante Sua ação providencial inicia-se com: “Mas eu tirei
seu pai Abraão” (v. 3) e é concluída com: “Lhes dei uma
terra que vocês não cultivaram” (v. 13). Após relembrar os
pontos principais das manifestações de Deus na história de
Israel, Josué chegou a uma conclusão final, formulou um
argumento e pintou um quadro dos atributos de Deus.
Que tipo de Deus Israel conheceu? Esta é uma boa
pergunta, sem dúvida alguma, pois a própria Bíblia nos
ensina que não é a palavra “deus” que traz esperança ao
homem, mas a pessoa do Deus que foi revelado a Israel, o
Deus bíblico:
Por que perguntam as nações: “Onde está o Deus deles?”
O nosso Deus está nos céus, e pode fazer tudo o que lhe
agrada. Os ídolos deles, de prata e ouro, são feitos por
mãos humanas. Têm boca, mas não podem falar, olhos,
mas não podem ver; têm ouvidos, mas não podem ouvir;
nariz, mas não podem sentir cheiro; têm mãos, mas
nada podem apalpar; pés, mas não podem andar; nem
emitem som algum com a garganta. Tornem-se como
eles aqueles que os fazem e todos os que neles confiam.
Confie no Senhor, ó Israel! Ele é o seu socorro e o seu
escudo. (Sl 115:2-9)
Que maravilha! Mil vezes aleluia! Em primeiro lugar, o
Deus que Israel conheceu é livre na dispensação da Sua graça
eletiva. A história toda desse povo começa com o que é
descrito em Josué 24:3: “Mas eu tirei seu pai Abraão”. O que
a Bíblia quer nos ensinar é que, de uma raiz idólatra, Deus
deu origem ao Seu povo, sacando soberanamente, dentre
pessoas ímpias, um homem que não pôde resistir a um
plano soberano levado a efeito pela mão divina. Por que
alguém de Ur dos caldeus e de nome Abraão? Foi nesse ponto
que Israel começou a lidar com o mistério da graça livre e
soberana de Deus. Uma resposta, contudo, para o mistério
era básica: Deus não escolheu o pai do povode Deus por suas
virtudes. Havia, certamente, uma razão para a escolha, mas
esta não estava no homem, mas no Deus que soberanamente
diz: “Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia,
e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão” (Êx
33:19). Isso não significa que Deus se recusará a ter
misericórdia de quem a pede, mas indica que aquele que
suplica por essa misericórdia dá, com isso, prova de que já
foi alvo da mesma, pois só os objetos do amor eletivo de
Deus O buscam com todo o seu ser. Não havia nada em
Abraão que atraísse o amor divino, a não ser a fixação do
amor de Deus em sua vida. O magistral Charles Spurgeon
certa vez falou sobre isso:
Quando Deus me salvou, eu era o mais abjeto, o mais
perdido e arruinado membro da raça humana. Eu jazia
diante de Deus como um recém-nascido. Na verdade,
faltava-me todo e qualquer poder para ajudar a mim
mesmo. Oh, quão miserável eu me sentia e sabia ser.
 Se você tem alguma coisa que o recomende diante de
Deus, eu nunca tive coisa nenhuma. Antes, fico contente
em haver sido salvo pela graça divina, graça pura e sem
qualquer mistura.99
A Abraão Deus abençoou extraordinariamente,
mostrando-lhe a terra da promessa e multiplicando sua
descendência por meio de Isaque (Js 24:3). Israel conhecia a
história do nascimento de Isaque: fruto de uma mulher idosa
e estéril com um homem de 100 anos. O que a Bíblia tem a
dizer sobre essa história? O relato é simples e
profundamente revelador: “O Senhor foi bondoso com Sara,
como lhe dissera, e fez por ela o que prometera. Sara
engravidou e deu um filho a Abraão em sua velhice, na época
fixada por Deus em sua promessa” (Gn 21:1-2). À luz disso,
podemos deduzir duas importantes verdades: o Deus de
Josué é fiel às Suas promessas e poderoso para cumpri-las,
seja qual for a circunstância, pois exerce completo domínio
sobre Sua criação. Além disso, quem anda com este Deus
aprende a não levar em conta qualquer elemento limitador
que o impeça de crer no que Ele pode fazer em favor do Seu
amado povo.
Em Josué 24:4, mais uma vez a graça eletiva ganha
proeminência. Isaque tinha dois filhos: Esaú e Jacó. Deus
escolheu o pior deles. Escolheu o menos qualificado, do
ponto de vista moral. Por isso, o Deus dos hebreus veio a ser
chamado de Deus de Jacó. Segundo a Bíblia, é uma bem-
aventurança ter este Deus por auxílio (Sl 146:5), pois quem
Nele crê recebe a ajuda do Especialista em investir a vida em
pecadores, como você e como eu.
Dos versículos 5 ao 11 de Josué 24, Deus traz à memória
do povo o que fizera nos dias de Moisés. Que tipo de Deus foi
revelado naqueles dias? O nome Moisés tornava vivo para a
nação o fato de que nada na vida é casual. O mundo é regido
pelo Deus de Josué. Quem era Moisés? Um bebê que fora
salvo providencialmente das águas do Nilo, o que revela que,
embora muitas vezes a vida dos eleitos de Deus pareça estar
levada pelas correntes das forças cegas, Ele está no controle.
Até mesmo os cabelos de nossa cabeça estão contados! Como
diz Charles Hodge:
O Antigo Testamento é o registro do relacionamento de
Deus com o povo hebreu. A vocação de Abraão, a história
dos patriarcas, de José, da jornada dos israelitas ao
Egito, de seu livramento e peregrinação pelo deserto, de
sua conquista da terra de Canaã e toda a história
subsequente é um contínuo registro do controle de Deus
sobre todas as circunstâncias, controle descrito como
extensivo a todos os acontecimentos.100
O versículo 5 ressalta o juízo que Deus enviou sobre os
egípcios por ocasião da libertação do povo de Israel: “Então
enviei Moisés e Arão, e feri o Egito, com o que fiz no meio
dele; e depois vos tirei de lá”. As Escrituras Sagradas de fato
revelam um Deus cheio de santo amor, mas, justamente por
ser santo, mesmo em Seu amor, envia juízo sobre os
impenitentes. Israel presenciara também o fato de que Jeová
não era um simples deus tribal, mas era um Deus que agia
livremente entre os povos e não precisava pedir licença para
nenhuma suposta divindade a fim de operar redentoramente
no solo de outra nação.
Os versículos 6 e 7 falam da gloriosa libertação da
escravidão do Egito e revelam um Deus que soberanamente
liberta Seu povo – “Tirando Eu a vossos pais do Egito” –,
mas nem sempre escolhe os meios mais fáceis para isso. Na
Sua soberania, Ele permitiu que o povo de Israel se visse
entre o mar e as tropas egípcias. Mais uma gloriosa lição
Israel veio a aprender: o que hoje é um obstáculo, amanhã
pode ser instrumento de salvação, quando Deus está
guerreando por Seu amado povo. Foi aquele mesmo mar que
deu cabo dos inimigos de Israel. Foi exatamente isto que
levou o puritano Thomas Watson a exclamar: “Confie em
Deus quando as providências parecem correr de forma muito
contrária às promessas”.101
Naquele episódio, todos aprenderam que Deus é “o
nosso refúgio e a nossa fortaleza, auxílio sempre presente na
adversidade” (Sl 46:1). Quando eles clamaram, Deus
interveio imediatamente. Mas depois da libertação gloriosa,
havia ainda um deserto a ser enfrentado. “Então habitastes
no deserto por muito tempo”, onde, por causa da
desobediência, todos foram provados. O Deus de Israel
coloca Seu povo à prova, não para que O conheça, mas para
que o povo saiba o que está em seu próprio coração.
Josué 24:8 destaca mais uma vez a parceria indissolúvel
de Deus com Seu povo – a tal ponto é ela verdadeira que é
difícil saber quem de fato destruiu os inimigos: “Os quais
pelejaram contra vós outros; porém os entreguei nas vossas
mãos, e possuístes a sua terra; e os destruí diante de vós”.
Nos versos 9 e 10 descobrimos que o crente não deve
temer as maldições dos que sonham com sua destruição.
Quanta gente há temerosamente obcecada com mau olhado e
magia negra. Contra Jacó, contudo, não vale encantamento
(Nm 23:23). As maldições dos ímpios se voltam contra eles e
Deus não ouve sua oração. “Porém, Eu não quis ouvir a
Balaão.” Como também há crente amaldiçoando crente e
pastores rogando maldição sobre quem sai de suas igrejas,
vale destacar que “macumba evangélica” não vale contra os
eleitos de Deus.
A maravilha dos versos 11 e 12 do último capítulo do livro
de Josué é que ele relembra ao povo não o que Deus realizara
na vida dos seus pais, mas na vida deles próprios. Deus era o
mesmo! E o versículo 13 destaca os fatos de que o ímpio
acumula para o crente e de que Deus é poderoso para fazer
infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos:
“Dei-vos a terra em que não trabalhastes, e cidades que não
edificastes, e habitais nelas; comeis das vinhas e dos olivais
que não plantastes”. Temos de destacar isto: uma grande
característica da vida do crente é que Deus, em Sua graça,
lhe concede aquilo pelo que não labutou. Essa é marca da
salvação: “Não trabalhastes”.
Qual a importância para nós de Josué recordar tudo isso
para o povo? Primeiro, é fundamental lembrar que o crente,
por viver num mundo que o envolve em tantos conflitos,
precisa de um Deus suficientemente grande para atendê-lo
em suas necessidades. Segundo, a revelação deste Deus
mostra quão amável é o culto a Ele. O Deus de Israel é
excelente, e os eleitos são justamente aqueles que receberam
esse sentido novo que os habilita a sentir a doçura da vida
pela fé. Em terceiro lugar, há uma importância apologética
também: que Deus pode se comparar ao nosso Deus? Que
religião tem um conceito mais majestoso de Deus? Se há um
Deus, só pode ser este, o Deus de Josué, o Deus da Bíblia, o
Deus de Israel.
À luz de tudo o que vimos, podemos afirmar que o crente
deve trazer à mente com frequência essas verdades,
magnificar seu Deus, não vê-Lo pelo lado contrário da
luneta e, ao orar, apresentar-Lhe suas súplicas com
sinceridade e simplicidade. Você conhece a Deus? Você tem
procurado viver à luz desta revelação? Você crê que este Deus
é incomparável? Você percebe que não há privilégio maior do
que conhecê-Lo?
SUBMETER-SE AO CONTEÚDO DA REVELAÇÃO
Pior do que não conhecer ao Deus de Israel é não saber
viver à altura desse conhecimento. Conhecimento teológico
que não vem acompanhado de amorpor Deus e de um viver
em conformidade com o que de Sua majestade se conhece é
conhecimento teológico dos demônios.
Josué fez teologia da melhor maneira possível. Após
repassar todas as verdades consideradas acima, o grande
comandante das tropas de Israel apresentou um quadro
sobre como deve ser a vida de quem conhece a Deus. Josué
pintou o quadro, formulou um argumento e o aplicou à vida.
Fazer teologia de outro modo é uma afronta a Deus, é atrair
maldição sobre si, é brincar com Aquele que exige que
tiremos as sandálias dos pés. O encontro com Deus sempre
nos faz cair de joelhos.
A que conclusão Josué chegou após repassar a história de
Israel diante do povo? Ele concluiu que o povo escolhido
deveria viver à altura das verdades reveladas. Esta é a ênfase
da Bíblia: o verdadeiro saber desemboca na prática da
Palavra de Deus. Por isso Josué chamou o povo para viver em
harmonia com tudo o que descobriu da parte de Deus.
Em primeiro lugar, cabia ao povo temer a Deus. Como
gosto deste “Agora, pois”. Aqui nos deparamos com o
melhor método de pregação. A melhor pregação é a que
apresenta a verdade doutrinária com clareza e a aplica à
vida. Certamente sob o impacto do que acabara de rever,
Josué foi levado a considerar que, para viver à luz de tudo o
que haviam conhecido de Deus, todos deviam temer a Ele.
“Temei ao Senhor” foi sua ordem. Calvino, ao falar sobre o
temor do Senhor, levanta a seguinte questão: “O que mais é
o temor de Deus do que aquela reverência pela qual nós
mostramos que somos submissos à Sua vontade, porque Ele
é Pai e soberano?”102. Penso que Josué deva ter raciocinando
da seguinte forma: “Depois de tudo o que experimentei, vi e
aprendi de Deus em todos os anos da minha existência,
cheguei à seguinte conclusão: não existe maneira mais sábia
de se viver do que cultivando o temor de Deus no coração”.
Amigo, espanta-me ver como as pessoas conseguem
viver de outro modo. Quando olho para a história de nossa
raça com todas as suas desventuras, sou levado a temer
Aquele que, por meio delas, revela que é absolutamente
santo. Quando olho para a disciplina que exerceu sobre Seu
povo, no propósito de tornar Sua Igreja uma obra-prima que
reflita a beleza da santidade do Seu criador, eu O temo. E,
acima de tudo, devemos temê-Lo porque dura coisa é saber
que um Deus tão digno de ser amado não teve Seu amor
correspondido.
Em segundo lugar, cabia ao povo servir ao Senhor. Israel
foi chamado a servir o Senhor com integridade e fidelidade:
“E servi-O com integridade e com fidelidade”. O
conhecimento de Deus não visa a gerar um medo paralisante
cujo resultado maior seja um temor servil. O verdadeiro
conhecimento de Deus produz na alma o desejo de cultuá-
Lo. Quem O conhece de fato O conhece como Deus amável, e
quem provou da doçura desse conhecimento é levado a
adorá-Lo com os lábios e com a vida.
Em terceiro lugar, Israel devia ser fiel ao Senhor. Como o
conhecimento de Deus sempre representa o contato com o
que é verdadeiro e amável, aquele que o possui não divide o
coração com os ídolos. Josué chama a todos a abandonar os
deuses dos seus pais – “Joguem fora os deuses que os seus
antepassados adoraram” (v. 14) – e a entender que, sendo o
Deus de Israel Quem é, o culto a Ele tem de ser proveniente
de um coração puro, ou seja, um coração não dividido, um
coração que só tenha uma vontade: fazer o Deus único sorrir.
“Porém, se vos parece mau servir ao Senhor, escolhei hoje a
quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais,
que estavam dalém do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus,
em cuja terra habitais. Eu e a minha casa serviremos ao
Senhor.”
Nós que vivemos num ambiente em que tantos “deuses”
cobram nossa fidelidade, em que poucos conhecem o Deus
vivo e tão poucos O servem, sentimo-nos muitas vezes
atordoados e pressionados a seguir o curso da maioria. Não
era diferente nos dias de Josué; porém para o comandante
das tropas de Israel o assunto já estava liquidado: “Eu e
minha casa serviremos ao Senhor”. Josué compreendeu que
o Deus de Israel exige exclusividade, que somente fazia
sentido servir ao Senhor e aquilo que queria para si deveria
querer para sua família também.
Viver uma vida de sucesso é ser livre para não se
submeter à tirania da maioria. Josué podia olhar para a
idolatria dos de fora, a possível falta de fidelidade a Deus por
parte dos de dentro e, ao mesmo tempo, dizer que sua vida
não seria conduzida por qualquer outra coisa que não fosse a
verdade. Esta é uma das principais características do homem
verdadeiramente crente: ele é capaz de enxergar o que a
maioria não consegue ver. Por isso, muitas vezes
experimenta tanto solidão quanto grande oposição. O que
aconteceu com Josué se deu também com o grande teólogo
capadócio Atanásio, que é lembrado pelo dito “Athanasius
contra Mundum”, o que significa que, “mesmo que ele fosse o
único sustentador da verdade, ele estaria preparado para
defendê-la contra todos os seus oponentes”103. Isto se deu
quando quase todos seguiam Ário, o bispo herege, que
negava a Trindade e a divindade de Cristo. Veja o comentário
de C. S. Lewis sobre a vida desse homem de Deus:
Ele defendeu a doutrina trinitária, inteira e pura, quando
parecia que todo o mundo civilizado estava se afastando
do Cristianismo para a religião de Ário, para uma
daquelas religiões sintéticas “sensatas” [...] que então,
como agora, incluíam entre os seus devotos muitos
religiosos altamente cultos.104
Poderíamos citar também Martinho Lutero que, no meio
de uma escuridão espiritual pavorosa, conseguiu divisar a
graça salvadora de Deus e assim ser levado a dar ao mundo o
que veio a se tornar certamente na declaração que mais
expressa o espírito protestante e que desempenhou papel
inestimável na Reforma do século XVI:
A não ser que seja convencido pelo testemunho da
Escritura ou por argumentos evidentes (pois não
acredito nem na infalibilidade do papa nem na dos
concílios somente, visto que está claro que os mesmos
erraram muitas vezes e contradisseram a si mesmos), a
minha convicção vem das Escrituras a que me reporto, e
minha consciência está cativa da Palavra de Deus, nada
consigo nem quero retratar, porque é difícil, maléfico e
perigoso agir contra a consciência. Deus que me ajude!
Amém.105
CONHECER TANTO O QUE DEUS REVELOU SOBRE SI
MESMO QUANTO O QUE REVELOU SOBRE SEU POVO
Em sua jornada com Deus, Israel pôde conhecer tanto a
Ele quanto a si mesmo. Se queremos ser vitoriosos nesta
vida, precisamos conhecer teontologia bíblica (estudo de
Deus à luz da Bíblia) e antropologia bíblica (estudo do
homem à luz da Bíblia). Quem somos? Responder essa
pergunta é fundamental, pois, quanto mais tomamos
conhecimento do que somos, mais aprendemos a depender
de Deus. Quem é, então, o povo de Deus?
Em primeiro lugar, somos um povo absolutamente
dependente de Deus. A resposta do povo à mensagem de
Josué ressalta essa verdade. Nos versos 17 e 18 de Josué 24,
todo o povo que ouvia seu líder reconheceu os seguintes
fatos: “O Senhor é o nosso Deus; Ele é Quem nos fez subir, a
nós e a nossos pais, da terra do Egito [...] Quem fez estes
grandes sinais aos nossos olhos, e nos guardou por todo o
caminho que andamos [...] o Senhor expulsou de diante de
nós a todas estas gentes”.
O que o crente sente quanto ao fato de o universo ter
Deus como centro é o que sente quando percebe que sua vida
depende e dependerá para sempre desse mesmo Deus. Ter
no centro do universo Deus tão excelente é tudo que
queremos. Quem poderia ocupar essa posição? E por estar a
felicidade de Deus atrelada à nossa, uma vez que Ele assim o
determinou, tudo o que é de Seu interesse haverá de ser, por
toda a eternidade, de nosso interesse e vice-versa. É
maravilhoso ver Ser tão amável, que de modo tão gracioso
fixou Seu amor em nós, ser adorado por anjos, arcanjos,
querubins e homens. Mas o que falar sobre depender Dele?
Prefiro infinitamente mais estar sob os Seus cuidados do que
a mim me ser dado o direito de cuidar de minha própria
vida. Dependo de um Deus majestoso que me ama com o
mesmo amor que

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