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Copyright © Antônio Carlos Costa, 2016 Copyright © Editora Planeta do Brasil, 2016 Todos os direitos reservados. Preparação: Lizete Mercadante Machado Revisão: Ana Paula Felippe e Fernanda França Diagramação: Maurélio Barbosa | designioseditoriais.com.br Capa: Rico Bacellar Imagem de capa: © Getty Images Brazil / Image Source - RF Images Adaptação para eBook: Hondana CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ http://designioseditoriais.com.br/ http://www.hondana.com.br/ C87s Costa, Antônio Carlos O sucesso segundo Deus / Antônio Carlos Costa . - 1. ed. - São Paulo : Planeta , 2016. ISBN: 978-85-422-0725-5 1. Religião. 2. Deus. 3. Sucesso. I. Título. 16-31268 CDD 200 CDU: 2 2016 Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA PLANETA DO BRASIL LTDA. Rua Padre João Manoel, 100 – 21º andar Edifício Horsa II – Cerqueira César 01411-000 – São Paulo – SP www.planetadelivros.com.br atendimento@editoraplaneta.com.br http://www.planetadelivros.com.br/ mailto:atendimento@editoraplaneta.com.br Dedico este livro ao tetracampeão mundial de futebol Jorginho e a sua esposa Cristina. Esse amigo e irmão conseguiu achar espaço na sua vida para raras combinações. Sucesso perante os homens deste século e perante a Igreja. Popularidade neste mundo e no céu. Fama com humildade. Performance profissional extraordinária sem a perda da família. Amor pela profissão com amor pela causa do evangelho. Em suma, Jorginho e Cristina têm conseguido aquilo que os seres humanos em geral anseiam, porém sem deixar de conquistar aquilo que todo servo do Deus altíssimo deve almejar: servir o Rei do universo. Estes irmãos sabem que mais importante do que levantar a taça de tetracampeão do mundo é um dia ouvir o único Deus dizer: “Fostes fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do Teu Senhor”. SUMÁRIO INTRODUÇÃO Motivos para estudarmos Josué Visão geral do livro de Josué. I A VIDA VITORIOSA SEGUNDO DEUS Ouvir a voz de Deus Usar a esperança para avançar Compreender que a vitória vem de Deus Desromantizar a vida II A VIDA VITORIOSA SEGUNDO DEUS (2) Assumir as responsabilidades dadas por Deus Discernir a visão de Deus para a sua vida Viver corajosamente Anter-se fiel às Sagradas Escrituras Saber quem é o seu Deus Ter sonhos que incluam o próximo III É HORA DE CRUZAR O JORDÃO! Decida cruzar o Jordão Prepare-se para cruzar o jordão file:///C:/Users/PATRIC~1/AppData/Local/Temp/calibre_jvk2by/woi0se_pdf_out/text/part0006.html#sigil_toc_id_4 file:///C:/Users/PATRIC~1/AppData/Local/Temp/calibre_jvk2by/woi0se_pdf_out/text/part0006.html#sigil_toc_id_7 file:///C:/Users/PATRIC~1/AppData/Local/Temp/calibre_jvk2by/woi0se_pdf_out/text/part0007.html#sigil_toc_id_11 Crendo nas promessas Ajustando-se espiritualmente Ouvindo a voz de Deus Finalmente, cruze o Jordão! Dê o primeiro passo Fixe os olhos em Deus IV O PRÍNCIPE DO EXÉRCITO DO SENHOR Deus nos prepara para a batalha Mostrando-nos quão próximo está daqueles que O amam Revelando-nos Sua mão poderosa Oferecendo-nos Sua direção Revelando-nos Sua santidade Dando-nos a certeza da vitória Preparamo-nos para a batalha Quando levantamos os olhos para contemplar Deus Quando nos aproximamos de Deus Quando adoramos a Deus Quando procuramos ouvir a voz de Deus Quando obedecemos a Deus V A FÉ QUE FAZ MURALHAS RUÍREM A fé que faz muralhas ruírem Tem como alicerce a palavra de Deus Submete-se inteiramente à vontade revelada de Deus É aquela que é capaz de esperar o tempo de Deus file:///C:/Users/PATRIC~1/AppData/Local/Temp/calibre_jvk2by/woi0se_pdf_out/text/part0009.html#sigil_toc_id_31 Harmoniza a ação do homem com a ação de Deus Sabe que a vitória vem de Deus VI A DERROTA E SEUS EFEITOS O que fazer na derrota: compreender a resposta emocional comum que o crente costuma dar para ela O coração do crente se derrete A sensação é de que a direção tomada não foi a ideal Surge o desejo de voltar atrás Vem a sensação de que não há o que dizer Tem-se a sensação de que algo pior está por acontecer Buscar humildemente a face de Deus na perspectiva de ouvir sua voz Preocupar-se com o nome de Deus Submeter a vida a um autoexame Arrepender-se dos pecados Voltar a viver pela fé no Deus santo e fiel VII INSISTINDO NA VITÓRIA Quando, pela fé, vencemos o medo Quando, antes de agir, paramos para ouvir a orientação divina Conclusão VIII O DEUS QUE ATENDE AOS HOMENS O Deus que ouve o homem Tem o universo sob seu controle file:///C:/Users/PATRIC~1/AppData/Local/Temp/calibre_jvk2by/woi0se_pdf_out/text/part0011.html#sigil_toc_id_54 Permite que seu povo passe por tribulações para que O conheça Peleja por seu povo Encoraja os seus amados Trata seu povo com misericórdia O homem que fala com Deus Não se surpreende com as lutas Não se deixa dominar pelo medo Ora com ousadia Vê o homem na perspectiva correta IX A IGREJA ENTRE OS ÍMPIOS Josué 23 Sabendo que o mundo não pode prevalecer contra a igreja Mantendo a fidelidade às escrituras Evitando mistura com o mundo Temendo o Senhor Amando o Senhor X A RESPOSTA DA IGREJA À REVELAÇÃO DIVINA Josué 24 Meditar sobre o conteúdo da revelação Submeter-se ao conteúdo da revelação Conhecer tanto o que Deus revelou sobre si mesmo quanto o que revelou sobre seu povo file:///C:/Users/PATRIC~1/AppData/Local/Temp/calibre_jvk2by/woi0se_pdf_out/text/part0014.html#sigil_toc_id_76 file:///C:/Users/PATRIC~1/AppData/Local/Temp/calibre_jvk2by/woi0se_pdf_out/text/part0014.html#sigil_toc_id_77 file:///C:/Users/PATRIC~1/AppData/Local/Temp/calibre_jvk2by/woi0se_pdf_out/text/part0014.html#sigil_toc_id_78 INTRODUÇÃO MOTIVOS PARA ESTUDARMOS JOSUÉ Por que estudar o livro de Josué? Em primeiro lugar, porque ele faz parte do conjunto de livros preferidos pelo Senhor Jesus. Se você não entende o livro de Levítico, sente-se moralmente sem esperança com a mensagem de Deuteronômio e se é quase levado a uma crise de depressão ao ler Eclesiastes, não rasgue esses livros nem desista de ler a Palavra de Deus registrada neles e nas páginas restantes do Antigo Testamento. Lembre-se de que o Senhor Jesus amava esses textos. Em Mateus 4, nós O encontramos defendendo-se dos ataques do adversário de nossa alma citando o livro de Deuteronômio. No mesmo Evangelho, no capítulo 5, nosso Salvador afirma que não viera para revogar a lei e os profetas (v. 17). Ao trazer consolo para Seus deprimidos amigos no caminho de Emaús, que usou Ele? “E começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras” (Lc 24:27). Como afirmou John Stott, “toda a evidência disponível confirma que Jesus deu assentimento em Sua mente e submeteu Sua vida à autoridade escriturística do Antigo Testamento”.1 Em segundo lugar, o livro de Josué é um testemunho extraordinário do que Deus realizou na vida de Seu povo, manifestando, assim, Sua glória. Vendo os feitos de Deus no passado, podemos conhecer Seu caráter, poder e soberania. Em Josué, de modo muito especial, somos apresentados a Sua fidelidade. Será maravilhoso poder demonstrar isso a você nos próximos capítulos! Em terceiro lugar, devemos estudar esse livro porque nos dias de hoje, em que encontramos tanta literatura de autoajuda falando sobre sucesso, Josué nos apresenta o plano de Deus para a vida de sucesso. Milhares frequentam congressos que prometem revelar a chave do sucesso, mas o que significa ser bem-sucedido segundo Deus? Como sonhar os sonhos de Deus? Como obter vitórias em Deus para a glória de Seu nome? Meu desejo é mostrar os princípios revelados no livro de Josué que nos ajudarão a usar bem os 80 anos que Deus, em média, concede ao homem para viver. Josué é, entre os livros da Bíblia, o que mais nos impulsiona, nos leva a partir na direção de nossos sonhos e nos estimula a encarar os obstáculos da existência humana pela perspectiva divina. É um livro que nos dá ânimo para atravessar nossos jordões pessoais, dar guinadas verdadeiras e necessárias natrajetória da vida e enfrentar nossos inimigos. Ao contrário do que alguns afirmam categoricamente, o tema do sucesso não é de todo antibíblico. Por outro lado, não há dúvida de que a maneira como ele tem sido tratado em muitos púlpitos está equivocada e beira a heresia. Alguém já disse que em toda heresia há um elemento de verdade; por isso, esse assunto pode ser tão facilmente desviado da verdade bíblica. Falar em sucesso no sentido de como alcançar metas em Deus é bíblico. Deus quer realmente que haja sucesso na vida de Seu povo. É óbvio que isso não significa exclusiva e propriamente enriquecimento financeiro – uma vez que as Escrituras claramente nos ensinam que essa espécie de prosperidade resulta da vontade soberana de um Deus que pode decretar riqueza para um e pobreza para outro, mesmo entre Seus melhores servos. Referimo-nos aqui principalmente ao sucesso no campo do ser, bem como nos planos revelados de Deus, que pode até ter consequências no campo do ter. Foi o grande Jonathan Edwards quem disse: “Sabedoria e diligência são os caminhos para aqueles que são vis e desprezíveis alcançarem riquezas e o céu”.2 Edwards quer ensinar-nos que riquezas materiais e espirituais são alcançadas por aqueles que aplicam ambos os princípios de vida – sabedoria e diligência – à sua existência. Se um homem quer sair de uma vida de miséria e pecado, terá de ser dirigido por essas virtudes. Comentando a citação de outro modo, quem é diligente e sábio em sua relação com a dimensão material e espiritual da vida acaba prosperando em ambas as esferas. É legítimo alguém querer saber o que é necessário para que sua vida vá bem e seus dons e talentos sejam usados da melhor maneira. É fato que a submissão a alguns princípios da Palavra de Deus tende a nos conduzir à riqueza. Pense na prosperidade que se deu entre tantas famílias de origem puritana. Contam que “se o construtor da melhor ratoeira do mundo não fosse um puritano, certamente um puritano naquele negócio construiria uma das melhores e a venderia pelo preço mais baixo”.3 Não costuma acontecer de quem tem o melhor produto e o vende pelo melhor preço vender mais e consequentemente prosperar? Falando sobre o que certamente é a expressão mais pura da verdade bíblica, o Calvinismo, o teólogo holandês Abraham Kuyper mostra os impactos nas mais diferentes esferas da vida produzidos pelos que abraçaram essa fé: Lembre que somente pelo Calvinismo o salmo de liberdade encontrou seu caminho da consciência perturbada para os lábios; que ele tem conquistado e garantido para nós nossos direitos civis constitucionais; e que, simultaneamente a isto, saiu da Europa Ocidental aquele poderoso movimento que promoveu o reavivamento da ciência e da arte, abriu novas avenidas para o comércio e negócios, embelezou a vida doméstica e social, exaltou a classe média a posições de honra, produziu filantropia em abundância, e mais do que tudo isto, elevou, purificou e enobreceu a vida moral pela seriedade puritana.4 Não quero ser a favor da teologia da prosperidade nem da teologia da miséria. Em lugar disso, quero ter uma fé que liberte milhares de latino-americanos da escravidão em que se encontram, que não é apenas de natureza político- econômica, mas resultado dos conceitos que lhes foram impostos – razão pela qual, se há um lugar no planeta onde a Igreja deve em especial vivenciar sua missão integral, esse lugar é a América Latina. Nosso povo carece tanto da proclamação do evangelho quanto do ensino cuidadoso de suas consequências práticas para todas as áreas da presente vida. Julgo que uma abordagem mais bíblica da questão do sucesso poderá ajudar milhares de pessoas, em especial nos chamados países pobres, a sair da inércia em que se encontram, fruto da histórica falta de igualdade de oportunidade associada a valores que escravizam a mente, para uma vida onde lindas obras, fruto de desenvolvimento pessoal, possam ser realizadas para a glória de Deus. Penso que antes de tudo precisamos conhecer um pouco do pano de fundo do livro de Josué. Não pretendo falar sobre ele exaustivamente, mas apenas ajudá-lo a situar-se na história do povo de Deus a fim de que aprecie mais esse livro transformador. VISÃO GERAL DO LIVRO DE JOSUÉ Apesar de o livro levar o nome de Josué, nem todos concordam que seja o comandante de Israel seu autor. Calvino, por exemplo, afirma: “Quanto ao autor deste livro, é melhor suspender nosso julgamento a fazer afirmações ao acaso. Aqueles que pensam que foi Josué porque o seu nome aparece como título da página descansam sobre fracas e insuficientes bases”.5 Alguns acreditam ser impossível conhecer o autor. Uma fração significativa dos estudiosos do Antigo Testamento, como John Gill, contudo, crê que esse livro tenha sido, de fato, escrito por Josué. Gill acredita que o fato de o Talmude reconhecer a autoria de Josué seja significativo e, mesmo que não fosse este quem o escreveu, seu autor usou o diário ou as memórias de Josué.6 Seja como for, tal como o livro de Hebreus, apesar da dúvida quanto à autoria, o importante é sabermos que se trata de uma obra inspirada pelo Espírito Santo. Josué – cujo nome significa “Jeová é salvação”, e é o mesmo nome, em hebraico, de nosso Senhor e Salvador: Jesus ou Yoshua – foi o homem designado por Deus para conduzir o povo para o livramento e o descanso na terra de Canaã. Ele provavelmente começou a comandar Israel com a idade de 79 anos. Morreu com 110, tendo liderado, portanto, o povo durante 31 anos. Os acontecimentos relatados pelo livro ocorreram entre os anos de 1405 a.C. e 1375 a.C., período no qual ele conduziu Israel, cerca de dois milhões e meio de pessoas, a tomar posse de Canaã. O nome Canaã denominava, em geral, toda a terra em que se estabeleceram os cananitas. Mais tarde, ela foi chamada de Palestina pelos romanos. Palestina é a forma grega da palavra Filístia, terra dos filisteus. A terra era infestada de idolatria, completamente degradada moralmente. El, por exemplo, era considerado o deus supremo, um tirano cruel e de sensualidade incontrolável. Havia também Baal, filho de El e seu sucessor. Baal dominava o grupo cananeu como o senhor do céu, da chuva e da vegetação. Existia ainda devoção a Anate, irmã de Baal, uma das três deusas protetoras do sexo e da guerra. Concomitantemente com o culto da prostituição sagrada, praticava-se o morticínio infantil: os cananeus ofereciam os filhos em sacrifício às divindades. Outras divindades eram Asterote e Azera, esposas de Baal e deusas do sexo e da guerra; Moloque e Milcon, de origem amonita, deuses da orgia, do mesmo modo que Camus era uma divindade nacional dos moabitas. Veja, então, o panteão cananita – deuses de todas as espécies que refletiam, perfeitamente, o caráter devasso e cruel daquele povo. O objetivo do livro de Josué é preservar a história da conquista de Canaã. Nele, vemos o cumprimento da promessa de Deus a Abraão. A primeira promessa, a da semente, que se cumpriu com o nascimento de Isaque, levou 25 anos para ser concretizada. A segunda, a da conquista da terra, levou, aproximadamente, 700 anos. Eis porque esse livro testemunha a fidelidade divina.7 I A VIDA VITORIOSA SEGUNDO DEUS Depois da morte de Moisés, servo do Senhor, disse o Senhor a Josué, filho de Num, auxiliar de Moisés: “Meu servo Moisés está morto. Agora, pois, você e todo este povo, preparem-se para atravessar o rio Jordão e entrar na terra que eu estou para dar aos israelitas. Como prometi a Moisés, todo lugar onde puserem os pés eu darei a vocês. Seu território se estenderá do deserto ao Líbano, e do grande rio, o Eufrates, toda a terra dos hititas, até o mar Grande, no oeste. Ninguém conseguirá resistir a você, todos os dias da sua vida. Assim como estive com Moisés, estarei com você; nunca o deixarei, nunca o abandonarei. Seja forte e corajoso, porque você conduzirá esse povo para herdar a terra que prometi sob juramento aos seus antepassados. Somente seja forte e muito corajoso! Tenha o cuidado de obedecer a toda a lei que o meu servoMoisés lhe ordenou; não se desvie dela, nem para a direita nem para a esquerda, para que você seja bem-sucedido por onde quer que andar. Não deixe de falar as palavras deste Livro da Lei e de meditar nelas de dia e de noite, para que você cumpra fielmente tudo o que nele está escrito. Só então os seus caminhos prosperarão e você será bem-sucedido. Não fui eu que lhe ordenei? Seja forte e corajoso! Não se apavore, nem se desanime, pois o Senhor, o seu Deus, estará com você por onde você andar”. ( Js 1:1-9 ) Ao iniciarmos a exposição do livro de Josué, é importante destacarmos seu segundo versículo: “Meu servo Moisés está morto. Agora, pois, você e todo este povo, preparem-se para atravessar o rio Jordão e entrar na terra que eu estou para dar aos israelitas”. A Palavra de Deus não tem como propósito único falar do que o Deus Criador realizou no passado, e, sim, com base no que Ele realizou no passado, ajudar-nos a saber o que Ele pode fazer no presente. Esse texto é um testemunho histórico do que Deus fez no passado, porém, com implicações para nós hoje. Que sentido haveria em ler as histórias bíblicas caso não fosse assim? À luz disso, afirmo que estamos diante de um texto que, como toda a Bíblia, pode ser aplicado a nós hoje, em nossa vida contemporânea. Como diz o apóstolo Paulo, em Romanos 15:4: “Pois tudo o que foi escrito no passado, foi escrito para nos ensinar, de forma que, por meio da perseverança e do bom ânimo procedentes das Escrituras, mantenhamos a nossa esperança”. Ou, ainda, como lemos de Tiago que, ao escrever sobre a importância da oração, registrou: “Elias era humano como nós. Ele orou fervorosamente para que não chovesse, e não choveu sobre a terra durante três anos e meio” (5:17). É como se ele estivesse a dizer que o homem continua o mesmo, desde sempre, no que diz respeito às suas fraquezas, mas Deus continua o mesmo em Sua prontidão de atender aos que oram como Elias orou. No primeiro capítulo de Josué, encontramos o povo de Israel às portas de Canaã. Um Deus fiel havia conduzido Seu povo escolhido pelo deserto e, em Sua misericórdia, estava revelando ao Seu servo Josué que havia chegado a hora de uma promessa antiga, feita há 700 anos, se cumprir. Esse livro e, especialmente, esse capítulo, trata de um acontecimento extraordinário: o dia em que o povo de Deus venceu um grande obstáculo a fim de ter sua terra. Podemos fazer uma aplicação desse acontecimento ao presente. Espero que a afirmação óbvia feita acima – de que o que Deus fez no passado tem como propósito ensinar-nos a saber o que Ele pode fazer no presente – o leve a estender esse ponto da história do povo de Israel à sua vida. Assim é o andar com Deus. Chega a hora em que Ele mesmo nos leva a compreender que é tempo de Seus planos eternos se cumprirem em nossa vida. Há um tempo em que o próprio Deus, por meio de Sua providência, nos revela que represas fortíssimas estão para se romper, obstáculos resistentes serão removidos e adversários poderosos, derrotados. Você pode se imaginar numa situação como essa? Pressuponha que Deus quer se dirigir a você agora mesmo, dizendo: “O que você esperou a vida inteira está para se realizar. Chegou a hora de cruzar o Jordão. Na Minha soberania, não o quero mais no deserto, mas, sim, apossando-se do que reservei a vida inteira para você, para posse do que, cuidadosa e amorosamente, o preparei”. O que é digno da nossa observação, nessa passagem inicial, é que não apenas o sonho divino é revelado a Josué, mas também as condições para sua realização. Esta é a razão por que esse capítulo é de tamanha importância. Antes das batalhas e conquistas, Deus apresentou ao Seu servo aquilo que eu tomo a liberdade de chamar de Os Fundamentos da Vida Vitoriosa Segundo Deus. Peço que você preste bastante atenção ao que estou para lhe dizer. Só temos uma vida, de 80 anos, em média, que passa como um sonho. Responda comigo: o que irá nos consolar no dia de nossa morte? Está chegando a hora em que filhos, parentes e irmãos irão prantear nossa partida, e o que irá nos consolar naquele dia será a lembrança, não dos lugares que conhecemos, dos iates em que passeamos, dos banquetes que comemos (embora tudo isso possa ser motivo de gratidão a Deus), mas do que Deus fez por meio de nossa vida. É isso que irá nos trazer grande alegria, expectativa de recebimento de galardão e a plena certeza de que valeu a pena viver. Quais são os fundamentos de uma vida cujo sucesso seja dessa natureza? Gostaria de, à luz do capítulo primeiro de Josué, apresentar os fundamentos da vida vitoriosa. Não me proponho a apresentar-lhe um guia para o enriquecimento. Nem tenho como meta ajudá-lo a ser feliz. Meu objetivo é o de apresentar-lhe subsídios para que você seja vitorioso em Deus, o que significa ver se cumprirem em sua vida os alvos do Criador para sua existência – o que, certamente, fará você feliz. OUVIR A VOZ DE DEUS Toda a história de libertação, salvação, construção do templo e tomada de posse da terra começa com Josué 1:1: “Depois da morte de Moisés, servo do Senhor, disse o Senhor a Josué, filho de Num, auxiliar de Moisés”. Estive recentemente lendo um livro de Carl Sagan, chamado O pálido ponto azul. Nos seus primeiros capítulos, ele trata de arrasar com o orgulho humano. E penso que ele fez um trabalho muito bem-feito. Sagan apresenta uma foto tirada pela espaçonave Voyager One, na periferia do sistema solar, que mostra o planeta Terra como um grão pequenino de areia de cor azul-pálida. E diz: “Olha o que somos!”. Fazemos parte de um sistema planetário, o sistema solar, que, por sua vez, faz parte da galáxia Via-Láctea. Nela há cerca de cem bilhões de estrelas, e há no universo cerca de cem bilhões de galáxias! Ele afirma: Tem-se dito que a astronomia é uma experiência que forma o caráter e ensina a humildade. Talvez não exista melhor comprovação da loucura das vaidades humanas do que esta distante imagem do nosso mundo minúsculo.8 Lendo esse livro de Sagan, fiquei ainda mais maravilhado com a graça de Deus, e o primeiro versículo do livro de Josué deixou-me em fôlego ao me levar a imaginar que o Criador das nebulosas, de todas as estrelas e do sistema solar foi capaz de falar com aquele frágil habitante do “pálido ponto azul”. “Falou o Senhor a Josué.” Tudo começou com uma revelação de Deus a Josué. Qual é a importância disso? Não há nada que mais nos ajude a combater as dúvidas, suportar os ataques dos adversários, vencer as crises de desânimo e caminhar com senso de direção do que a certeza de que Deus falou conosco, pessoalmente. Certo dia, encontrei-me com um amigo que me disse que uma das tentações atuais de sua vida é crer que a raça humana é inviável. Esse amigo, pastor, tem demonstrado grande cansaço diante da estupidez humana. Posso compreender sua crise. O ministério pastoral faz com que nós, pastores, nos relacionemos de forma intensa com os seres humanos, e isso acaba por colocar-nos em contato estreito com o que há de pior na alma humana. Tal como esse amigo, tenho minhas aflições ministeriais também. Hoje, porém, em meio às lutas do ministério, é extraordinário e reconfortador saber que ouvi uma voz. Creio sinceramente que Deus me chamou para ser pregador do evangelho. O que me leva a afirmar: “Ai de mim se não pregar o evangelho!” (1 Co 9:16), não apenas porque tenho a certeza de que Deus haverá de boicotar meus sonhos em qualquer outra área de atuação que não seja no ministério, mas também pela certeza de que Deus me chamou para estar no púlpito, e é lá onde percebo que minha vida adapta-se aos planos eternos do Criador. Pois é de lá que vejo gente alienada de Deus passar a amá-Lo com todo o ser. Sei que você pode estar aí a perguntar: “Como, então, ouvir a voz de Deus?” O texto que acabamos de ler fala de modo bastante simples sobre a experiência gloriosa de Josué. Não revela os segredos nem nos apresenta os passos, e deixa-nos com uma terrível curiosidade. “Falou o Senhor a Josué.” Um homem, uma criatura, um pecador ouviu a voz do Criador. O que é necessáriopara que nós também, como Josué, ouçamos a voz de Deus? Penso que esse versículo nos é apresentado com tamanha simplicidade, sem sofisticação e apresentação de fórmulas, para que compreendamos que há muito mistério na experiência de ouvir a voz de Deus. Ele se dirige aos Seus de modos diferentes. Cada alma humana é única, e a maneira de Deus lidar com os Seus, variada; por isso, haverá situações em que Deus se comunicará comigo de modo diferente do que Ele usará para comunicar-se ao seu coração. Como ilustração, podemos dizer que o que acontece em nossa relação com os filhos acontece também em nossa relação com Deus. Vejo dentro do meu lar que tenho de lidar de formas diferentes com meus dois filhos. E a Bíblia deixa claro que isso acontece quando Deus se relaciona com os homens. José, por exemplo, marido da mãe de nosso Salvador, recebia a orientação divina por meio de sonhos, enquanto Samuel podia ouvir literalmente a voz de Deus. Para a vida de Mateus e de João foi decretado que ouviriam a voz do Salvador pessoalmente, mas Lucas ouviu a voz do Messias mediante investigação histórica, e Paulo só ouviu seu Redentor após a ascensão deste. Como diz Dallas Willard, O que nós conhecemos sobre direção e o encontro divino-humano da Bíblia e da vida dos que foram antes de nós mostra que as comunicações de Deus vêm a nós de várias formas. Nós não deveríamos esperar nada mais, pois esta variedade é apropriada para a complexidade da personalidade humana e história cultural.9 É um erro lermos os livros dos grandes personagens da história do Cristianismo e procurarmos reeditar, ipsis literis, tudo o que fizeram e experimentaram. George Müller sustentava seu orfanato sem pedir a ajuda de ninguém. Julgava que era a vontade de Deus para seu ministério que não pedisse ofertas. O mesmo não foi feito pela Associação Billy Graham. E ambos os ministérios abençoaram a vida de milhares. A maneira como Deus operou na vida desses homens não será necessariamente a maneira pela qual agirá na minha ou na sua vida. A alma de cada ser humano é singular, e o Deus-Pastor não lida com Seu povo como o fazendeiro lida com o gado. Contudo, posso dizer, reunindo tudo o que a Bíblia diz sobre os homens que ouviram a voz de Deus, que, geralmente, isso acontece quando alguns princípios são seguidos. Reconheço a estes como os mais seguros, e toda voz interior deve submeter-se a eles. Em primeiro lugar, para que ouçamos a voz de Deus é necessário que, de fato, queiramos ouvi-la. Nosso coração é especialmente enganoso nesse ponto. Quantas vezes colocamos na boca de Deus o que Ele nunca falou! Vejo isso com frequência no trabalho de aconselhamento pastoral, quando algumas pessoas procuram seus pastores na intenção de receber algum conselho, mas já saem de casa com a resposta que querem ouvir definida. E é fato que, muitas vezes, não queremos ouvir ninguém, nem mesmo a voz de Deus. Uma maneira de verificarmos como nosso coração, o qual a Bíblia chama de enganoso, funciona é analisar aquilo que eu chamaria de “pecado do sintoísmo”. A pessoa, por exemplo, procura o pastor, dizendo: “Estou tomando a seguinte decisão em minha vida...”. O pastor, por sua vez, mostra, usando a razão e as Escrituras Sagradas, que aquela decisão é errada. Então, o aconselhado diz: “Mas eu senti que veio de Deus!”. E, assim, dá-se por encerrado o diálogo. Você já ouviu isso? Esse subjetivismo, essa ausência do uso da razão tem levado o povo de Deus a pular do pináculo do templo. Crer, como afirma John Stott, também é pensar. Como falta sabedoria em nós! Como somos subjetivos e até mesmo místicos em nossas decisões! Há pessoas, por exemplo, que só tomam decisões com base na intuição. Tenho constatado, especialmente na área da contratação de auxiliares, o perigo de se tomar decisões nessa base. Você olha para o sujeito e diz para si mesmo: “Este homem é um santo”. E, mais tarde, vem a saber que a avaliação nada objetiva estava completamente errada. Muitas vezes, pode ser tarde demais, e o dano causado irreversível! Vale a pena citar Martyn Lloyd-Jones; creio que isso pode nos ajudar enormemente a aplicar à nossa vida princípios fundamentais para que a voz de Deus seja discernida. Lloyd-Jones fala sobre o conceito de sabedoria. O texto é extenso, mas, como se trata de algo tão primoroso e pertinente à realidade de nosso país, vou apresentá-lo. Sabedoria é a faculdade de fazer uso da inteligência e do conhecimento e de relacionar estas capacidades com as coisas práticas e comuns da vida. Aí está como eu vejo a essência desta palavra. Sabedoria, é claro, é muito semelhante a julgamento, e também estamos familiarizados com a diferença entre posse de conhecimento e julgamento. Não são a mesma coisa. Há pessoas que sabem muitíssimas coisas. Têm memória maravilhosa e podem lembrar todo tipo e espécie de fatos, mas são incapazes de exercer julgamento. Consequentemente, não podem equipar o seu conhecimento, não conseguem aplicá-lo, são incapazes de usá-lo para enfrentar problemas particulares. São como discos de vitrola: podem repetir informações, porém não as podem aplicar, e daí dizerem delas: “Ah, sim, ele é muito instruído, mas incapaz de julgar; realmente lhe falta sabedoria”. Quais as características do homem descrito na Bíblia como néscio, como uma pessoa tola, insensata, não sábia? […] Primeira característica de uma pessoa néscia é que é geralmente governada pelos sentimentos. É o tipo de pessoa que vota num membro do parlamento somente porque se impressiona com a sua bela aparência ou algo semelhante […] Outro sinal do néscio, do insensato, é que ele é sempre governado pelo desejo: “Tenho que ter o que quero e o que quero é justo” […]. A pessoa néscia, insensata, sempre age e é governada por impulsos e instintos e, naturalmente, em geral se orgulha disso. “Não sou dos que leem bastante, pensam e meditam, você sabe. Eu pego uma ideia e a ponho em ação’’ […] Tenho ouvido homens desse tipo dizerem que, quando precisam fazer uma nomeação realmente importante em seu negócio ou em seu escritório, sempre confiam no julgamento instintivo da esposa. Bem, pode haver algo nisso! Mas o que estou dizendo é que se vocês elevarem isso à condição de princípio, certamente estarão fazendo alguma coisa realmente perigosa, sob todos os pontos de vista e, sem dúvida, contrária ao ensino das Escrituras. Com muita frequência o néscio é governado pelo zelo […]. O zelo e a sinceridade são maravilhosos, porém nunca foram destinados a estar no comando, e se lhe derem o comando, é certo que sobrevirá o desastre. Mas existem muitos que se deixam governar pelo seu zelo. Eles veem algo e querem fazê-lo, e assim se precipitam, sem tomar em consideração mais nada. Presumem que, devido ao fato de serem zelosos, só podem estar certos. Não, vocês podem estar sinceramente errados. Eis a que tudo isto chega: a pessoa insensata não pensa adequadamente. Não pensa direito num assunto; em particular não pensa adiante. Só está preocupada com o momento particular […]. Visto que ela não olha adiante e visto que não considera as consequências, está sempre impaciente. Então o que é a sabedoria? Sábio é o homem que sempre pensa. Não age baseado apenas no instinto, ou no impulso, ou no desejo. Não, ele insiste em aplicar-se ao pensamento, à razão e à meditação […] Ele é um homem que examina completamente cada proposição com que se defronta, ou cada situação a que é levado. É um homem que primeiramente e acima de tudo dá atenção a toda evidência […] Às vezes penso que o sinal distintivo do sábio é que ele sempre é um bom ouvinte […]. Tendo examinado as evidências, ele as relaciona com os princípios fundamentais.10 Em segundo lugar, para ouvir e voz de Deus é necessário que sejamos pessoas de oração. A oração é mais do que falar, é ouvir. Às vezes, reformulamos nossas próprias orações à medida que Deus vai mostrando o que corresponde, não à satisfação de um desejo em nossa vida, mas à satisfação de uma necessidade, e isso durante o período da súplica. Quantas vezes confundimosdesejo com necessidade e ficamos arrasados por não alcançar coisas sem as quais podemos muito bem viver, enquanto, infelizmente, negligenciamos a oração por aspectos realmente importantes de nossa vida. É na presença de Deus que acabamos conhecendo as reais exigências do coração, tanto o nosso quanto o de Deus. Como diz James Houston, “a oração não é a hiperatividade controladora com a qual os ativistas estão familiarizados. Pelo contrário, será um mundo alienado para eles, no qual eles precisarão tornar-se passivos e receptivos”.11 A verdadeira oração é pedir ao Pai que dê ao filho – aquele que ora – aquilo que este não sabe pedir, de modo tal que, ao orar, experimente o Pai orando em seu coração. Esta foi a oração do arcebispo François Fènelon: Senhor, não sei o que eu deva pedir a Ti. Só Tu sabes do que eu preciso. Tu me conheces melhor do que eu conheço a mim mesmo. Oh, Pai, dá ao Teu filho o que ele mesmo não sabe pedir. Ensiname a orar. Ora em mim.12 Em terceiro lugar, penso que devemos também ouvir os irmãos. Muitas vezes, a maneira pela qual Deus se comunica com Seu povo é usando os irmãos. Por isso, a Bíblia diz que o que a salva é ter muitos conselheiros (Pv 11:14). Um bom exemplo desse princípio vem da vida do grande João Calvino; ele somente iniciou seu extraordinário trabalho em Genebra por causa do apelo de William Farel. Leia o relato de Calvino: Farel, que ardia com extraordinário zelo pelo avanço do evangelho, imediatamente empregou ao máximo toda a energia para deter-me. E depois de ele ter percebido que meu coração havia estabelecido dedicar-se aos estudos, e achando que seus rogos foram em vão, disse que Deus amaldiçoaria meu isolamento e paz para estudar que procurava, se eu me retirasse e recusasse socorrê-lo quando a necessidade para tal era tão urgente. Eu fiquei tão tomado de terror que abandonei a viagem que tinha planejado.13 Em quarto lugar, ouvimos a voz de Deus quando não nos precipitamos em nossas decisões. Como é difícil para pessoas com um temperamento como o meu aprender essa lição. Há horas em que me é quase impossível esperar orar para decidir, pois tudo parece tão certo, tão claro e tão promissor! O duro é ter de admitir que muitas vezes essas coisas tão certas nada mais são do que a manifestação de uma forma antiga de o adversário de nossa alma trabalhar, que é “mostrando a isca sem mostrar o anzol”14. Hoje, tenho lutado para não implementar “gloriosas ideias” sem antes orar e esperar ver como me sentirei a respeito do assunto depois de alguns poucos dias. É como está registrado em Provérbios 21:5: “Os planos do diligente tendem à abundância, mas a pressa excessiva à pobreza”. Em quinto lugar, ouvimos a voz de Deus quando vivemos em santidade. A Bíblia diz que bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus (Mt 5:8). O pecado é o maior obstáculo para o discernimento da vontade divina, pois ele nos impede de orar corretamente, e o próprio Deus resiste ao impenitente, recusando-se a atender a sua oração. Como profetizado por Isaías: “Quando vocês estenderem as mãos em oração, esconderei de vocês os meus olhos; mesmo que multipliquem as suas orações, não as escutarei! As suas mãos estão cheias de sangue!” (1:15). Em sexto lugar, ouvimos a voz de Deus quando lemos as Escrituras. Este é o principal meio pelo qual todas as supostas “vozes celestiais” devem ser julgadas. Deus não oferece nenhuma orientação ao Seu povo que seja contrária às Escrituras Sagradas. Não vejo melhor forma de me orientar em todas as áreas da vida do que usar a Bíblia aliada ao bom senso. A razão e as Escrituras são nossos melhores guias. Em sétimo lugar, ouvimos a voz de Deus quando buscamos o silêncio. Na casa de praia do meu sogro está escrito assim na cozinha: “O barulho é dos homens, mas o silêncio é de Deus”. Há um quê de verdadeiro nessa afirmação. O barulho dos homens e a agitação fazem com que nossos ouvidos se tornem surdos à voz Daquele que está falando sempre e que quer ser ouvido. Quanta orientação do alto haveríamos de receber se separássemos tempo para a solitude. Como escreveu T. S. Eliot: “Onde deve ser encontrado o mundo em que ressoará a palavra? Aqui não, pois não há silêncio suficiente”15. Em oitavo lugar, também ouvimos a voz de Deus quando praticamos os chamados exercícios espirituais. Benefícios eternos são auferidos pela prática desses exercícios santos àqueles que os conhecem. Poderia mencionar a prática da meditação e da contemplação como exercícios espirituais que caíram em desuso no meio evangélico. Como muito bem lembrou Dallas Willard, quais atividades Jesus praticava? Coisas tais como solitude e silêncio, oração, viver simples e sacrificial, estudo intenso e meditação sobre a Palavra de Deus e os caminhos de Deus, e serviços ao próximo. Algumas destas coisas certamente serão muito mais necessárias para nós do que foram para Ele, por causa da nossa maior ou diferente necessidade.16 Permita-me fazer-lhe algumas perguntas: você tem procurado ouvir a voz de Deus? Será que você é daqueles que decidem antes de orar e depois oram para que Deus abençoe a decisão que tomaram sem consultá-Lo? Você crê que é possível Deus falar aos seres humanos? Acreditamos de todo o nosso coração que o universo não é apenas formado de massa e energia, mas que há um Deus pessoal que nos ama e que se comunica com Seu povo. Por isso, temos nas Escrituras Sagradas maravilhosas promessas, como esta do Salmo 25:12: “Ao homem que teme ao Senhor, Ele o instruirá no caminho que deve escolher”. Quando você considera o primeiro versículo de Josué, sua reação deve ser diferente da que causa o livro de Carl Sagan. Ele não considera a existência do Criador, mas nós somos levados a pensar: como é possível que Deus, o Criador do vasto universo, fale ao homem como falou a Josué? Sim, Ele pode falar – e deseja falar. Então, que tal procurar nosso Deus a fim de ouvir Sua voz? Este é o fundamento número um da vida vitoriosa: ouvir a voz de Deus. Toda a história da conquista de Canaã começou com esse fato maravilhoso, descrito no primeiro versículo: “Falou Deus a Josué”. Portanto, não tome nenhuma decisão sem antes certificar-se de que o seu coração discerniu qual é a vontade de Deus. Um bom sinal de que a vontade de Deus foi percebida é, depois de os princípios acima enumerados terem sido levados em consideração, verificar se a decisão tomada vem acompanhada de paz. A ausência de paz é um bom sinal de que devemos esperar um pouco mais, pois, muito provavelmente, a vontade de Deus ainda não foi revelada. USAR A ESPERANÇA PARA AVANÇAR Todos nós sabemos que sem esperança é impossível viver. Lembro-me de uma vez ter evangelizado uma moça que era budista. Perguntei a ela: “Qual é a esperança de vocês?”. A sua resposta foi: “Nós não temos esperança, fazemos as coisas sem esperar nada”. Isso decorre do ensinamento da doutrina budista, para a qual desejar é sofrer: o homem só alcança o Nirvana quando abre mão de seus desejos, já que vivemos num mundo em que grande parte dos desejos que temos, senão os principais deles, jamais se tornarão realidade. Então, disse a ela: “Isso significa que você tem a esperança de, vivendo sem esperança, ter paz?”. A esperança faz parte das chamadas virtudes teologais. Juntamente com a fé e o amor, ela compõe o grande tripé das virtudes cristãs. Pode ser uma das maiores forças impulsionadoras da vida, porém pode também ser pessimamente usada por nós, cristãos. Por que me refiro aos cristãos? Porque o cristão crê num Deus que peleja por ele. Também crê na soberania de Deus. Ambas as verdades têm sido fonte de grande consolo para os crentes. Porém, muitos as utilizam mal, chegando a conclusões que tais doutrinas não sustentam. Uma dessas conclusões falsas é a seguinte: já que Deus está no controle de tudo e, em última análise tudo ocorre de acordo com Sua soberana vontade, podemos deixar a vida seguir o seu curso, porque o que há de ser será. Deus, porém, em Sua soberania, adapta os meios aos fins, de maneira que, quando Ele decreta riqueza,decreta também trabalho; quando decreta conhecimento, decreta sede de saber; quando decreta salvação, decreta fé, e assim por diante. Isso nos leva à conclusão de que não podemos ser negligentes com os meios dados por Deus para nos levarem a fins determinados, corretos e legítimos. Se queremos que certos alvos sejam alcançados, devemos diligentemente utilizar os meios necessários: “As mãos preguiçosas empobrecem o homem, porém as mãos diligentes lhe trazem riqueza” (Pv 10:4). Infelizmente centenas daqueles que têm fé nas promessas de Deus vivem de esperança, porém, da pior forma possível, pois a genuína esperança de que a Bíblia fala não nos torna uns molengas na vida. É justamente pelo fato de Deus ser soberano que avanço na vida, confiando em Sua capacidade de governá-la, de fazer com que Seus planos eternos se cumpram e minha ação na história, quando sujeita a Sua vontade, dê frutos para a eternidade. “Atire o seu pão sobre as águas, e depois de muitos dias você tornará a encontrá-lo.” (Ec 11:1) É fato que existem pessoas que só vivem de sonhos e passam sua vida inteira sem os verem realizados. É gente que não sabe usar a esperança para avançar, pois vive no mundo da fantasia. Isso é muito frustrante. Eu gostaria de afirmar, com todo o temor e senso de urgência, que a vida não é um ensaio. Muitos parecem viver como se a vida o fosse. Eles entram em cena, desempenham seu papel de qualquer maneira, como se o pudessem repetir quantas vezes quiserem até tudo ficar perfeito. Só que a vida não se repete, não tem ensaio, não tem segunda chance, não tem recuperação. Você jamais chegará a um ponto da sua existência no qual poderá dizer que já ensaiou o suficiente para, enfim, passar a viver de verdade. A vida real é composta desses momentos que desperdiçamos de várias formas, tão facilmente, por exemplo, ao adiar decisões que precisam ser tomadas a fim de que a existência ganhe um novo rumo. Para o cristão, isso tem importância especial, pois ele sabe que o que faz nesta vida contará para a vindoura. Pense que você nunca mais terá a oportunidade de servir a Deus na circunstância em que atualmente se encontra. “E se alguém der mesmo que seja apenas um copo de água fria a um destes pequeninos, porque ele é meu discípulo, eu lhes asseguro que não perderá a sua recompensa.” (Mt 10:42) Veja o que eu li recentemente: Quantos de nós podemos honestamente declarar não ter hipotecado nossa vida a algum sonho futuro, o qual, provavelmente, nunca se realizará. Nós vivemos a vida dizendo a nós mesmos que assim que passarmos esta fase ou estágio poderemos direcionar a nossa energia ao que, realmente, queremos fazer. Devo admitir ser um mestre na arte do “nunca, nunca”. Diariamente eu digo a mim mesmo que assim que terminar este roteiro ou artigo, que aí então finalmente começarei a viver. Isto eu acredito ser uma ilusão que compartilho com a grande maioria, e é perigoso acolher uma ilusão, pois cada um sabe que o amanhã nunca chega. Para alguns, eu suponho, o planejamento da vida para o futuro é uma maneira de procrastinar. Uma fuga, por não ter a vontade, o talento ou a coragem de tentar algo novo e descobrir que você mesmo é um fracasso. Quantas pessoas tenho encontrado que me falaram sobre um livro que planejam escrever, mas nunca acharam o tempo necessário. Muitas eu tenho encontrado. Isso é a vida, é verdade, mas nós a tratamos como um ensaio. Infelizmente, perdemos muitos dos seus melhores momentos. Nós arranjamos empregos para sobreviver e prover lar para nossa família, sempre nos convencendo de que esse estilo é apenas um estágio temporário de coisas, ao longo do caminho, que, realmente, queremos viver. Então, aos 65 anos, somos, de repente, apresentados ao relógio e a alguns netos, olhamos para trás e concluímos que todos esses anos de espera pela vida real acontecer, foram, de fato, a vida real. Com que frequência dizemos a nós mesmos: “Vou começar a cavalgar, a jogar golfe ou velejar assim que receber uma promoção”, e, assim que a promoção chega, não realizamos nada disso. Não estou advogando que alguém deve viver de modo hedonista; esta não é a resposta. Mas é, eu espero, uma exortação a algum grau de autorrealização. O que quer que seja que você deseja fazer, faça agora, porque, não importa a sua idade, é mais tarde do que você imagina.17 Querido leitor, é por essa razão que chega o momento em que encontramos em nossa relação com Deus algo como o que é descrito no segundo versículo de Josué. Haviam se passado 700 anos de espera pelo cumprimento da promessa de Deus; então, Ele se dirige ao Seu povo nestes termos. “Moisés, meu servo, é morto, dispõe-te, agora, passa esse Jordão, tu e todo este povo, à terra que Eu dou aos filhos de Israel”. Permita-me, por favor, lhe fazer perguntas que, reconheço, são verdadeiras punhaladas no seu coração e no meu próprio. O que você está “empurrando com a barriga” em sua vida? O que chegou a hora de tornar-se seu? Qual é a sua grande frustração? Você, conscientemente, poderia justificar algumas das suas decepções com a vida atribuindo-as ao destino? Você tem sabido usar a fé que possui para dar guinadas significativas em sua existência? Ou a única utilidade da fé em sua vida é consolá-lo dos desperdícios provenientes da sua incapacidade de viver responsavelmente? Se há algo em sua vida que se encaixa em alguma das situações apresentadas por essas perguntas, então, é tempo de reconsiderá-la. As promessas que Deus lhe fez, mais cedo ou mais tarde, Ele mesmo as cumprirá. Sua espera por esse dia, porém, deve ser ativa, cheia de santa disposição, não passiva. Levante-se agora e passe o Jordão! COMPREENDER QUE A VITÓRIA VEM DE DEUS Este é outro fundamento indispensável – com certeza, você não irá encontrá-lo em nenhuma literatura secular de autoajuda, pois esse tipo de livro é centrado na capacidade do homem independentemente de Deus. Compreender que a vitória vem de Deus – essa afirmativa nós vamos encontrar somente na Palavra inerrante, infalível e eterna de Deus, e é somente por meio de um relacionamento sério com Ele que seremos conduzidos a perceber que a vitória vem Dele. Considere o segundo versículo de Josué e veja como Deus desejava incutir na mente de Seu povo que a vitória viria apenas de Suas mãos: “Moisés, meu servo, é morto, dispõe- te agora, passa esse Jordão, tu e todo este povo, à terra que EU dou aos filhos de Israel”. No versículo 3, encontramos a mesma ideia: “Que vo-lo tenho dado”. Também no versículo 5, Deus diz: “Assim serei contigo, não te deixarei, nem te desampararei”, e a mesma ideia é encontrada no versículo 9: “Porque o Senhor, teu Deus, é contigo, por onde quer que andares”. Parece que estou a incorrer no pecado que Spurgeon detectou na vida de muitos pregadores. Ele criticava muito os que vinham ao púlpito para dizer obviedades. E estou aqui a afirmar que a vitória vem de Deus. Parece tão óbvio quanto falar que o cavalo tem quatro patas. É o lógico, o óbvio; entretanto, quanto disso é real para nós? Quanto lembramos disso em meio a guerras e lutas? Sabe os sinais de que nos esquecemos do óbvio? O fato de nos sentirmos temerosos diante de nossos adversários e de sermos pouco agradecidos a Deus após a vitória. Compreender que a vitória vem de Deus torna-nos destemidos. Deixamos de ter medo da cara feia de homens e de demônios. Feliz é aquele que vive na força da promessa do versículo 9: “O Senhor, teu Deus, é contigo por onde quer que andares”! A literatura de autoajuda secular jamais poderá incutir no coração de quem quer que seja a coragem que a fé – não num conceito vago de Deus, mas num Deus pessoal que se tem manifestado na história – produz. Quando sabemos que a vitória vem de Deus, podemos dizer aos Golias da vida: “Você vem contra mim com espada, com lança e com dardo, mas eu vou contra você em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem você desafiou” (1 Sm 17:45). Você supõe que Josué encontrou coragem para cruzar o Jordão e enfrentar os terríveis cananeus – os gigantes da terra – combase no pensamento positivo? O que o levou a agir com destemida coragem, mesmo reconhecendo sua fragilidade, foi ver os obstáculos todos da perspectiva de um Deus que faz aliança de amor com os homens. Este é o grande desafio do crente: aplicar o que sabe de Deus às terríveis e surpreendentes batalhas da vida. Em geral, pensamos que haveremos de sair do estado de desânimo apenas orando. Orar é fundamental, mas seguimos a um Deus que nos chama para pensar a fim de que apliquemos tudo o que sabemos sobre Ele à vida. Poderia apresentar um grande número de exemplos nas Escrituras Sagradas de Deus pedindo ao Seu povo apenas para pensar. Veja, por exemplo, a experiência do apóstolo Pedro no Mar da Galileia: “Homem de pequena fé, por que você duvidou?” (Mt 14:31). É o Senhor Jesus chamando Seu amado apóstolo para duvidar da dúvida18. Tudo o que Josué em seus dias tinha de fazer era trazer constantemente à memória o fato de que Deus lhe garantira a vitória. Crer que a vitória vem de Deus é fundamental para que cruzemos o Jordão. Saber que a vitória vem de Deus também torna nosso coração repleto de gratidão e livra-nos do perigo de sermos derrotados depois de alcançá-la. Até nisso o cristão tem vantagem sobre os que não conhecem a Deus, pois nenhum prazer nessa vida supera aquele que acompanha um “Muito obrigado, meu Senhor” cheio de lágrimas. Mas há uma consequência ética também. Quando afirmo que a vitória vem de Deus, isso me guarda de ser derrotado após grandes conquistas. Sim, porque há a possibilidade de, após certos avanços, virmos a ficar encantados conosco, permitindo assim que o pecado que tem maior poder de nos afastar de Deus penetre no coração: o orgulho. DESROMANTIZAR A VIDA Releia o segundo versículo de Josué: “Moisés, meu servo, é morto; dispõe-te agora, passa este Jordão”. Essa passagem nos ensina que entre nós e nossos sonhos há sempre um Jordão. Vivemos em um mundo caído, derrotado pelo pecado. Tudo tende a se deteriorar, exigindo constante cuidado de nossa parte, desde os nossos dentes, passando por uma plantação de batatas, até a felicidade no lar. Neste mundo que se encontra debaixo do justo juízo de Deus, sempre haveremos de realizar nossos objetivos com o suor do rosto. Por isso, saiba que sempre haverá um Jordão entre nós e o que Deus tem para nós. Qual a importância de esse elemento da cosmovisão cristã estar claro para nós? Saber que, sem lutas, não se conquista nada nessa vida que valha a pena faz com que, em absoluta dependência de Deus, nos preparemos para elas e não nos surpreendamos quando irromperem diante de nós. Conheci um pastor que viu o filho na adolescência manifestar um quadro de esquizofrenia, que o levava a sumir de casa e ameaçar matar-se. Esse homem, de modo surpreendente, continuou exercendo fielmente seu ministério, tendo, contudo, de caminhar com esse espinho terrível a ferir-lhe a alma. Não digo que o filho seja o espinho, mas, sim, a dor de ver uma pessoa tão amada sofrendo horrivelmente e pouco poder fazer. Crentes enfrentam problemas assim também, e quanto a isso não fomos enganados por um evangelho que nos prometeu vida livre de aflição, pois a promessa clara do Senhor que nos chamou é de que receberemos nesta vida força e consolo para as tribulações e provas, e não ausência de lágrimas. Há obstáculos em nossa vida que poderíamos chamar de nosso Jordão pessoal. Às vezes, é uma pessoa, ou uma prova que temos de fazer, ou uma deficiência física ou emocional que precisamos superar; às vezes, é a falta de recursos. Enfim, há um sem-número de situações que tentam impedir nosso caminho rumo à Canaã prometida. Vale a pena destacar que, no versículo 2, Deus mostrou a Josué apenas o Jordão. Deus só lhe mostrou o problema, não a solução. Revelou a Seu servo o que ele deveria fazer, e não como poderia fazer. Chegamos à conclusão de que Deus, quando nos manda atravessar o Jordão, não aponta para alguma espécie de ponte que qualquer um pode cruzar. A ponte de Deus é a fé em Sua Palavra, a qual é suficiente para o crente, mesmo – e principalmente – na ausência de qualquer recurso humano. Eis, portanto, uma gloriosa lição. Creio que todos os missionários a conhecem, pois ela está intrinsecamente ligada à história das missões: “À obra de Deus feita da maneira de Deus jamais faltará a provisão de Deus”19. O grande Hudson Taylor, o autor dessa máxima, costumava dizer que havia três fases na maioria das grandes tarefas empreendidas para Deus: a impossível, a difícil e a feita.20 Quando me lembro do início desencorajador do meu ministério, fico a pensar em como tudo isso é verdadeiro. Saí para plantar igreja sem experiência alguma, praticamente só, ainda como seminarista, sem ter lido a Bíblia toda, sem conhecer teologia, sem haver estudado praticamente nada sobre plantação de igrejas. Fui para o campo missionário acreditando que, se pregasse a Bíblia, orasse e vivesse uma vida santa, as coisas aconteceriam. E, de fato, aconteceram, mas com muita luta e problemas desnecessários, fruto da minha falta de quase tudo, especialmente experiência. Meus primeiros sermões eram insuportáveis. Se tivesse de ouvi- los, clamaria, parodiando Caim: “É tamanho meu castigo que não posso suportá-lo!”. Houve gente que propôs minha saída da pequena congregação, entre outros motivos, por não me aguentar pregando. Como eu chorava! Todos os domingos, eu pegava a Brasília de meu pai e, com minha namorada de 17 anos, hoje minha esposa, dirigia-me para um templo alugado que só tinha um horário para oferecer: 4 horas da tarde. Até então jamais ouvira de uma igreja que iniciasse seus trabalhos nesse horário. E assistir a cultos com um pregador sofrível às 4 horas da tarde no Rio de Janeiro, num templo sem ar-condicionado, requer muita graça especial! O calor é insuportável – e o pregador também! Deus, porém, na Sua aparente irresponsabilidade, chamara-me para iniciar uma nova igreja num bairro difícil de ser alcançado. E ela hoje está aí, alcançando milhares de vidas por meio de seus ministérios e já com igrejas-filhas plantadas. Graças a Deus por Seus milagres e pela obra impossível que foi feita! Que linda lição nos é trazida por Charles Spurgeon, pregador calvinista inglês que trabalhou na Inglaterra no século XIX. Ele sempre exerceu suas múltiplas atividades mesmo quando estava doente. Spurgeon sofria de gota e atravessava crises terríveis de depressão. Houve época em que sua saúde achava-se tão abalada que teve de passar a maior parte do tempo no sul da França para se recuperar. Sua esposa, que ficou paralítica após o nascimento dos filhos gêmeos, também superou suas limitações físicas por meio da persistência. Embora sem andar, ela dirigiu, da cama, um trabalho pioneiro de distribuição de livros. Graças a isso, talvez haja mais livros de Spurgeon nas estantes de pessoas do mundo inteiro do que de qualquer outro pregador. Com 20 anos, Spurgeon já conseguia atrair multidões para o centro de Londres, para ouvirem suas mensagens. Ele, então, decidiu construir um templo para mais de 5.500 pessoas. Chamou sua liderança e disse que, se alguém duvidasse que Deus poderia realizar aquele plano, que saísse. Sabe o que aconteceu? Vinte e três líderes de Spurgeon não acreditaram no sonho e foram embora, e ele ficou apenas com sete. Veja o Jordão de Spurgeon. Ele levou seu sonho adiante com aqueles sete líderes, construiu o templo para mais de 5 mil pessoas e, durante 30 anos, lotou de manhã e à noite o Tabernáculo Metropolitano no centro de Londres21. Irmão, sempre há um Jordão a ser atravessado! Mas o que é o Jordão para Aquele que lançou os fundamentos da Terra? Oh!, amigo, deixe-me falar sobre o nosso Deus: “Quem represou o mar pondo-lhe portas, quando ele irrompeu do ventre materno, quando o vesti de nuvens e em densas trevas o envolvi, quando fixei os seus limites e lhe coloquei portas e barreiras, quando eu lhe disse: Até aqui você pode vir, além deste ponto não, aqui faço parar suas ondas orgulhosas?” ( Jó 38:8-11). Responda-me: o que é o Jordão para o Senhor dos oceanos?Aqui estão os fundamentos de uma vida vitoriosa. Sabe qual o meu propósito com esta mensagem? É ver nossos sonhos se realizando, sejam eles na área familiar, sejam no campo profissional, nas emoções, na vida acadêmica ou em qualquer outra área da nossa existência. Mas, sobretudo, que caminhemos com base nesses fundamentos visando à realização desses sonhos no Reino de Deus. Que o Espírito de Deus use toda esta riqueza: nossos diplomas, cursos, dons, talentos e experiência para a glória de Deus. Não há nada mais glorioso do que o Senhor Jesus abraçar por meio de nossos braços, falar por intermédio de nossa boca, ser visto graças ao nosso caráter. Quem assim vive um dia haverá de ouvir: “Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram” (Mt 25:34-36). II A VIDA VITORIOSA SEGUNDO DEUS (2) Depois da morte de Moisés, servo do Senhor, disse o Senhor a Josué, filho de Num, auxiliar de Moisés: “Meu servo Moisés está morto. Agora, pois, você e todo este povo, preparem-se para atravessar o rio Jordão e entrar na terra que eu estou para dar aos israelitas. Como prometi a Moisés, todo lugar onde puserem os pés eu darei a vocês. Seu território se estenderá do deserto ao Líbano, e do grande rio, o Eufrates, toda a terra dos hititas, até o mar Grande, no oeste. Ninguém conseguirá resistir a você, todos os dias da sua vida. Assim como estive com Moisés, estarei com você; nunca o deixarei, nunca o abandonarei. Seja forte e corajoso, porque você conduzirá esse povo para herdar a terra que prometi sob juramento aos seus antepassados. Somente seja forte e muito corajoso! Tenha o cuidado de obedecer a toda a lei que o meu servo Moisés lhe ordenou; não se desvie dela, nem para a direita nem para a esquerda, para que você seja bem-sucedido por onde quer que andar. Não deixe de falar as palavras deste Livro da Lei e de meditar nelas de dia e de noite, para que você cumpra fielmente tudo o que nele está escrito. Só então os seus caminhos prosperarão e você será bem-sucedido. Não fui eu que lhe ordenei? Seja forte e corajoso! Não se apavore, nem se desanime, pois o Senhor, o seu Deus, estará com você por onde você andar”. (Js 1:1-9) No capítulo anterior, afirmei que os nove primeiros versículos do livro de Josué nos apresentam os fundamentos da vida vitoriosa. Eles registram uma mensagem que foi dada por Deus ao Seu servo Josué antes de este e o povo cruzarem o Jordão a fim de enfrentar os inimigos que ocupavam a terra de Canaã, a terra prometida pelo Deus da aliança a Seu povo 700 anos antes. Apresentei quatro fundamentos da vida vitoriosa a serem aplicados por todos os que desejam tomar posse da sua Canaã pessoal. Em primeiro lugar, vimos a necessidade de ouvir a voz de Deus, pois tudo começa quando O ouvimos e Ele nos “engravida” de um sonho. Vimos a importância de ouvir esta voz que nos encoraja, que nos anima nas lutas, que nos dá senso de direção. Em segundo lugar, falamos sobre a capacidade de usar a esperança para avançar. Mas essa deve ser uma esperança genuína e sadia, que não nos imobiliza, mas, pelo contrário, nos serve de estímulo para seguir em frente – essa é a verdadeira esperança cristã. Disse, também, que aquilo que desejamos fazer deve ser feito logo, pois, não importando nossa idade, já é mais tarde do que muitas vezes imaginamos. Em terceiro lugar, falei sobre a importância de compreender que a vitória vem de Deus. Isso nos torna humildes – pois nunca nos consideraremos autossuficientes – e nos faz viver desassombradamente. O último fundamento que vimos foi que devemos desenvolver a capacidade de desromantizar a vida. Declarei que, entre nós e nossa Canaã, entre nós e a visão da realização de nossos sonhos dada a nós por Deus, há sempre um Jordão para ser vencido. Há outros fundamentos da vida vitoriosa que podem ser encontrados no primeiro capítulo de Josué, e vamos tratar deles agora. Antes de mais nada, quero dizer que não estou mudando de teologia. Nos últimos tempos, a chamada teologia da prosperidade tem sido muitíssimo difundida nos púlpitos do país. Mas não é disso que falo aqui nem é nisso que creio. A prosperidade sobre a qual eu prego e na qual eu creio é a prosperidade em Deus, que depende Dele, que nos traz o sucesso em Deus e para a glória de Deus. Trata-se de uma prosperidade que se relaciona, acima de tudo, ao ser, e cuja obtenção faz com que os que estão ao redor também sejam beneficiados e vivam melhor. Não estou, de forma alguma, pregando uma mensagem hedonista, que visa meramente a fortalecer nosso ego e nos ajuda a construir uma excelente autoestima, embora uma autoestima adequada, decorrente de um relacionamento correto com Deus, seja desejável. No texto que temos considerado, porém, e disto não podemos fugir, a Palavra de Deus nos fala sobre prosperidade e sucesso. “Então farás prosperar o teu caminho e serás bem-sucedido.” Os princípios aqui apresentados são uma espécie de condição indispensável para que encontremos realização em qualquer área da vida. E a possibilidade de, por colocá-los em prática, prosperar num sentido mais amplo é muito real. Há as chamadas leis da vida, as quais, quando observadas, produzem resultados práticos. Se observarmos, por exemplo, a história das nações prósperas, constataremos que os planos soberanos de Deus para essas nações se cumpriram mediante a utilização de certos princípios naturais e lógicos. Aplicando um deles, como exemplo negativo: não é fato que um povo que não trabalha, recusa-se a estudar, deixa para amanhã o que pode fazer hoje, não respeita os direitos humanos, tem o tecido social corroído pela imoralidade tende inevitavelmente a viver na pobreza e, por fim, a exterminar-se? Como diz David S. Landes num comentário sobre Max Weber: “O protestantismo [...] definiu e sancionou uma ética de comportamento cotidiano que conduzia ao sucesso nos negócios”. Landes menciona valores calvinistas, tais como trabalho perseverante, honestidade, seriedade, uso parcimonioso do dinheiro e do tempo, e faz a seguinte constatação: Todos esses valores ajudam os negócios e a acumulação de capital, mas Weber sublinhou que o bom calvinista não visa às riquezas [...]. A tese de Weber é que o protestantismo produziu um novo tipo de homem de negócios, um diferente tipo de pessoa, que tinha por objetivo viver e trabalhar de certo modo. Esse modo é que era importante, e a riqueza seria, quando muito, um subproduto.22 Bem, já apresentamos quatro fundamentos desta espécie de vida para a qual a Bíblia nos remete. Agora, após essa rápida introdução, quero lhe apresentar o quinto fundamento. ASSUMIR AS RESPONSABILIDADES DADAS POR DEUS Aí está outro fundamento inegociável, uma condição indispensável para quem quer ter uma vida vitoriosa. Você deve assumir as responsabilidades dadas por Deus, mesmo que seja tentado a crer que Ele deve ter-se enganado em algum ponto ao escolher uma pessoa como você. Veja o quadro da vida de Josué. O texto bíblico começa dizendo o seguinte: “Moisés, meu servo, é morto; dispõe-te agora, passa este Jordão, tu e todo este povo, à terra que eu dou aos filhos de Israel”. Você percebe o grande desafio que é posto diante daquele líder, chamado para viver experiência completamente nova em sua vida? Ele se via na necessidade de substituir Moisés. Você sabe quem foi Moisés? Observe na sua Bíblia, no livro de Deuteronômio, e veja o que é dito sobre esse homem: Em Israel nunca mais se levantou profeta como Moisés, a quem o Senhor conheceu face a face, e que fez todos aqueles sinais e maravilhas que o Senhor o tinha enviado para fazer no Egito, contra o faraó, contra todos os seus servos e contra toda a sua terra (34:10-11). E a história de Josué começa desta forma: “Moisés, meu servo, é morto; dispõe-teagora”. Fico a imaginar as muitas dúvidas e receios que vieram ao coração de Josué. Como seria guiar aquele povo difícil? Embora a geração que Josué introduziu em Canaã fosse melhor que a anterior, não há dúvida de que Deus escolheu aquela nação para evidenciar ao mundo Sua graça. Josué deveria atravessar o Jordão, enfrentar adversários fortíssimos e malignos, que ofereciam os filhos em sacrifício aos deuses, e substituir Moisés, um líder aparentemente insubstituível, de acordo com o próprio registro da Palavra de Deus, como lemos nos versículos acima. O que representou para Josué receber o chamado divino em tais circunstâncias? Olhando para a vida de alguns dos maiores santos, percebemos que inicialmente sempre há um senso de inadequação, uma profunda percepção de falta de capacidade pessoal que se estabelece. O estranho é que Deus parece se deliciar com isso, pois a dependência da Sua graça é o que Ele mais gosta de encontrar no coração dos que Ele escolheu como instrumentos. Deus só enche com Sua graça vasos vazios. Como diz John Stott, parafraseando o que o apóstolo Paulo escreveu em 2 Coríntios 2:7-10: “Nós temos o tesouro do evangelho em frágeis vasos de barro, a fim de que possa ser plenamente visto que o tremendo poder que nos sustém e converteu vocês veio de Deus e não de nós mesmos”23. E para provar sua afirmação, menciona as fraquezas de alguns conhecidos pregadores. Fala sobre Joseph Parker, “que pregou durante 28 anos no City Temple, em Londres, com autoridade dominante e difundida simpatia, mas foi atormentado com sentimentos de inferioridade porque era filho de um pedreiro da Nortúmbria e tinha recebido uma fraca educação teológica”. Sobre a vida de Charles Spurgeon, veja a reprodução do testemunho pessoal deste: “Eu sou sujeito de depressões de espírito tão terríveis que eu espero que nenhum de vocês jamais tenha tais extremos de tristeza como eu tenho”.24 Se há algo que me causa grande dificuldade é quando sou procurado por pessoas que querem ter oportunidade para pregar. Em geral, penso, quem recebeu o chamado de Deus para este ofício não se sente qualificado para tão santa tarefa. Quem de fato recebeu o chamado de Deus é humilde, sente-se esmagado pela sublimidade da vocação. Este, então, passa a se preocupar mais com sua santificação do que em encontrar oportunidades para pregar, para exibir seu dom e chamamento. E, quando acontece de lhe ser permitido falar, é o próprio Deus que se encarrega de colocá-lo no lugar onde deve estar, uma vez que foi Ele quem o chamou. Se este lugar é o púlpito, nenhum homem, demônio ou problema poderá detê-lo de falar em nome de Deus. Não devemos, porém, confundir essa humildade com timidez. A diferença entre essas disposições é que, enquanto a primeira faz-me duvidar de que alguém como eu possa servir o Deus Todo-Poderoso, a segunda amarra-me, impedindo-me de aceitar o convite Daquele que tem como método usar as pequenas coisas da vida para envergonhar as grandes. A verdadeira humildade pode conviver bem com a coragem e não deve ser confundida com a timidez. Será que Deus já não o está chamando para a realização de algo novo que você teme realizar? Chega um momento em nossa vida em que Deus nos surpreende pondo-nos diante de certas responsabilidades que nos levam tanto ao temor quanto à indagação do “por que, entre tantos, Ele resolveu usar aquele que é da pior espécie?”. Ele faz isso pois é o Deus de Jacó! Com certeza, tanto você como eu, se tivéssemos de escolher entre Esaú e Jacó para ser patriarca, escolheríamos Esaú. Mas Deus escolheu Jacó. E acrescentou ao Seu “título” o nome daquele suplantador! O que nos faz partir para o serviço a Deus é que Seu chamado nos chega acompanhado de uma mensagem que nos lembra que Ele não está à procura dos mais inteligentes, nem dos mais fortes nem dos mais belos, mas daqueles que se colocam integralmente em Suas mãos. Ele mesmo se encarrega de capacitá-los. DISCERNIR A VISÃO DE DEUS PARA A SUA VIDA Muitos têm grande dificuldade em viver com objetividade. Jogam-se na realização de suas tarefas sem ter em mente aonde querem chegar. Muitas vezes esquecem-se de que esta é a marca que está sobre a vida daquele que Deus usa: ter metas claras. Josué recebeu uma visão clara de Deus quanto ao seu chamado. Deus não o estava chamando para outra coisa a não ser para cruzar o rio Jordão e prover terra para aqueles dois milhões e meio de pessoas recém-libertas do sofrimento terrível do deserto. Josué compreendeu qual a visão, a meta de Deus para sua vida: “Passa este Jordão, tu e todo este povo, à terra que Eu dou aos filhos de Israel”. Josué tinha absoluta clareza do que Deus queria dele. Deus respondeu às perguntas relacionadas a quem – “todo o povo” –, onde – “Canaã”– e quando – “agora”. Josué sabia onde poderia e deveria literalmente colocar o pé. Veja o que Deus lhe disse: “Todo lugar que pisar a planta do vosso pé vo-lo tenho dado, como Eu prometi a Moisés”. Ao mesmo tempo que Deus encoraja o Seu servo a tomar posse daquilo que já era dele, mostra, com absoluta clareza, por onde ele deveria andar. “Desde o deserto e do Líbano, até ao grande rio, o rio Eufrates, toda a terra dos heteus, e até ao Grande Mar para o poente do sol, será o vosso termo.” Josué não deveria se dirigir à Mesopotâmia, à Índia, à China, à Fenícia nem à Europa. Cabia a ele dirigir-se à Palestina, o lugar onde Deus havia prometido dar vitória a Seu servo. É importante discernir onde devemos colocar nosso pé. Deus disse: “Todo lugar que pisar a planta do teu pé, Josué, vo-lo tenho dado”, e o Senhor, então, descreveu a “geografia da bênção”. Ter uma visão de Deus é ver o invisível e torná-lo visível, tangível, palpável. Não tenho dúvida de que é muito mais do que você dizer: “Eu quero ser uma bênção!”. É, antes, você dizer: “Eu quero levar os brasileiros do sertão do Maranhão a Cristo” ou afirmar: “Meu alvo é sustentar dez estudantes de teologia a fim de que eles se preparem adequadamente para o ministério sagrado”. Ter uma visão é sonhar com objetividade em Deus. Josué tinha uma imagem clara em sua mente do que deveria fazer. Quem caminha com base numa visão caminha com mais objetividade. Desde os meus 20 anos, venho crendo que Deus me chamou para o ministério de pregação da Sua Palavra. Qual é a vantagem de eu ter essa certeza? Já me desfiz de muita coisa boa por causa da certeza da minha vocação, sabendo que, caso as tivesse abraçado, teriam prejudicado profundamente minha vida ministerial. A importância de se ter um sonho é poder caminhar de maneira focada, sabendo que dons se deve aperfeiçoar, com quais pessoas se deve associar, em quê investir a vida. Torna-se muito mais fácil definir os itens da nossa agenda. Edward R. Dayton e Ted W. Engstron apresentam as seguintes vantagens de se ter metas claras: senso de direção e propósito, poder para viver no presente, entusiasmo, capacidade de operar mais eficazmente, possibilidade de avaliar o progresso, recepção de um claro entendimento do que se espera, entre outras coisas mais.25 Essa é a experiência de muitos que tenho encontrado ao longo deste caminho. Eles são os mais apaixonados, são os que vivem com maior intensidade, pois têm, conforme costuma-se dizer, uma meta a seguir. Quem caminha com base numa visão vive com propósito, tem motivo para dormir e acordar, para orar e lutar, para recomeçar após cair. Às vezes, quando penso na minha própria vida, me pergunto: “Por que será que Deus me mantém vivo, sendo o céu infinitamente melhor do que tudo quanto o homem pode experimentar no solo deste planeta? Por que Deus não arrebata logo a Sua igreja para a glória?”. É porque Ele tem um sonho para cada um de nós! Ele não escolheu os anjos, mas escolheu a Sua Igreja para, por meio dela, revelar Sua graça, beleza e santidade ao mundo graças ao anúncio do evangelho! Espero que o que você já leu até aqui esteja gerando em sua alma um sonho com algo que marque sua passagem pela História, que faça muita gente ao seu redor viver melhor e também glorifique a Deus. Imagino, porexemplo, ver alguém que, após essa leitura, tenha o sonho de montar a melhor escola dominical do país. Ou outro que saia da leitura com o sonho de construir uma instituição que atenda às necessidades das pessoas de idade avançada, que muitas vezes estão em asilos sem receber apoio, amor ou até mesmo a visita de algum parente. Penso, também, em alguém que, desafiado com o que leu sobre Josué, sonhe em fazer algo revolucionário pelos presos de nossa terra que estão definhando na mais completa indignidade, sem perspectiva de reintegração social, em celas apinhadas, nas quais jazem em condição sub-humana. Pense no sonho, como levar o evangelho para cidades brasileiras nas quais a presença da Igreja é insignificante ou até mesmo nula. Como receber essa visão, esse sonho de Deus? Deixe-me dar-lhe três sugestões. Vamos começar com uma pergunta: qual é a paixão da sua vida? O que faz o seu coração queimar? No peito de Hudson Taylor ardia a evangelização da China, enquanto John Knox sonhava com a Escócia, pela qual clamava pedindo a Deus com a conhecida oração: “Dá- me a Escócia”. Já William Wilberforce sonhava com o término da escravidão na Inglaterra. Em 1789, ele discursou na Casa dos Comuns sobre o tráfico de escravos nestes termos: Tão enorme, tão terrível, tão irremediável era sua malignidade [da escravidão] que minha própria mente foi completamente convencida a favor da Abolição [...]. Não importando quais fossem as consequências, eu, a partir daquele momento, determinei que não descansaria até que conseguisse efetivar a Abolição.26 Então, pense no que em sua cidade mais lhe causa indignação. Que tipo de sofrimento vê em nossa terra que o faz chorar? É a situação do idoso, do preso, do solitário, as mortes violentas? Que causa gera compaixão em seu coração? Quanto a mim, posso dizer que, se Deus quisesse me usar em alguma obra social, eu Lhe ficaria muito grato. Se pudesse diminuir a injustiça em nossa terra, por pouco que fosse, quão realizado me sentiria. Ver, por exemplo, o trabalhador ganhar um pouco melhor me deixaria muito satisfeito. No entanto, quando vejo pessoas levantando as mãos e entregando a vida a Jesus, meu coração é tomado de imensa alegria e confesso que não há nada que me comova mais. Se tivesse de escolher uma única realização em minha vida, eu pediria a Deus: “Senhor, que eu possa ver milhares entregando a vida a Ti!”. Essa é a minha paixão. Mas qual é a sua? A visão de Deus para sua vida estará relacionada, normalmente, com o que lhe pesa no coração. Que sonho em Deus, caso não se realize até o dia de sua morte, lhe trará grande frustração? O que você está fazendo para alcançá-lo? Chegou a hora de tomar uma decisão! “Dispõe-te, passa esse Jordão.” Enquanto você fica contemplando e admirando seus dons, diplomas, talentos e saúde, existe alguém sofrendo, carecendo de toque, libertação, palavra de salvação – precisando de você! Até quando vamos ficar trancados dentro de quartos escuros, reclamando da vida, acariciando a nossa depressão, lembrando os erros do passado, lamentando as oportunidades perdidas sem tomarmos a decisão de fazer algo para a glória de Deus? É hora de cruzar o Jordão! É importante saber qual dom Deus nos deu. Muitas vezes, ele se relaciona a um talento que já existia antes da conversão. O Senhor pode tomar esse talento e santificá-lo para Sua glória. Outra maneira de saber qual é a visão de Deus para a sua vida é por meio de oração e jejum. Penso que não há nada mais importante do que esses exercícios espirituais. “Clame a mim e eu responderei e lhe direi coisas grandiosas e insondáveis que você não conhece.” (Jr 33:3) Imagine quando você estiver idoso, cercado de netos, olhando para trás; imagine que nada tenha a dizer a não ser: “Passei a vida trocando de carro todo ano, comi nos melhores restaurantes, vesti as melhores roupas e, contudo, poucos passaram a ter uma vida melhor graças a mim”. Essa será uma velhice feliz? Será essa uma boa maneira de encerrar a vida? Viver assim é viver de acordo com o projeto de vida dos bichos! Fomos criados para manifestar a glória de Deus, os sonhos de Deus. Qual é o seu sonho? Você tem uma visão? Como você, na singularidade de sua vida, haverá de revelar a glória de Deus? VIVER CORAJOSAMENTE Outro fundamento para a vida vitoriosa é a capacidade de viver corajosamente. Veja quantas alusões há no texto de abertura do capítulo à necessidade de o homem de Deus ter coragem: “Ninguém te poderá resistir todos os dias da tua vida [...] somente sê forte e mui corajoso [...] tão somente sê forte e mui corajoso [...]. Não to mandei Eu? Sê forte e corajoso; não temas nem te espantes”. Ninguém conhece melhor a natureza humana do que nosso Criador. Por saber que, por natureza, somos tendentes ao desânimo e medo, e por conhecer as batalhas que Seus servos têm de enfrentar quando se propõem a realizar alguma coisa para seu Senhor, Ele mesmo os encoraja a fim de que não cessem de avançar no propósito de expandir Seu reino. Certamente o que Josué ouviu da parte do seu Deus foi como fogo nos seus ossos. Foi somente após o recebimento de tão gloriosas promessas que Josué pôde ver todos os perigos de acordo com a perspectiva divina. O que acontece quando vemos, de acordo com o ponto de vista de Deus, os perigos aos quais estamos expostos no cumprimento de nosso chamado? O primeiro resultado é que passamos a temer somente o pecado. Diante de tão gloriosas promessas, o crente deixa de se preocupar com seus adversários para se concentrar na execução do chamado e na manutenção de uma vida santa, agradável ao Senhor. O que é o Jordão para Aquele que, do nada, fez o universo? O que são os cananeus para Aquele que vê as nações como coisa que não é nada, que as considera menos do que nada, como um vácuo (Is 40:14- 17)? Sempre penso que uma das muitas glórias de ser crente é poder pregar para a própria alma. O crente é alguém que tem o que falar para sua própria vida. Quando em pecado, pode dizer: “Graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis” (Lm 3:22). Quando, sob ameaça de adversários, pode proclamar destemidamente: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de quem terei temor? O Senhor é o meu forte refúgio; de quem terei medo?” (Sl 27:1). Quando, em perigo de vida, afirma-se em dizer: “Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte, não temerei perigo algum, pois tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me protegem” (23:4). De igual modo, Josué, a partir de todas as palavras de encorajamento que ouvira da boca do próprio Deus, teria muito que dizer para si mesmo. Bastava repeti-las com fé. Este foi o resultado direto do que Deus comunicou à alma de Josué. O comandante das tropas de Israel, a partir daquele momento, tinha o que dizer tanto ao povo quanto a si mesmo. Nos vales, nas campinas, nos montes, enquanto o suor escorria pelo rosto, o coração disparava sob o olhar cheio de ódio do adversário, o cansaço fazia a perna vacilar, Josué podia trazer à memória o fato de que o seu Deus já lhe garantira a vitória, assegurara-lhe Sua presença protetora e confirmara-lhe Sua parceria indissolúvel. Que consolo e encorajamento! Sem termos coragem, por melhor que seja a visão, não sairemos do lugar. Isso ocorre porque há obstáculos a ser transpostos, adversários a ser derrotados e limitações a ser superadas. Precisamos de coragem. É por isso que aquelas pessoas que são normalmente consideradas como menos qualificadas realizam mais do que muitos que nasceram com muitos talentos. Enquanto estas, apesar de tudo o que possuem e de que são capazes, temem perder, aquelas avançam na certeza de que a única coisa que têm a perder é a oportunidade dada por Deus de serem usadas por Ele na História. Percebo, então, que sem fé não apenas é impossível agradar a Deus como também é impossível servi-Lo em meio a tantas possibilidades de derrota. Asseguro-lhe que ninguém realiza mais do que aquele que tomou a decisão de correr riscos por crer que, em face das promessas de umDeus tão fiel, o que se deve temer é ter medo do que os outros vão pensar e não viver com ousadia. É importante que você fique indignado com essa mania de ficar mais preocupado com o que os outros vão pensar do que com o que o próprio Deus pensa. Ele jamais ficará desapontado com você quando o insucesso for fruto da tentativa de honrá-Lo. Diga para si mesmo: “O quê? Permitir que o curso da minha vida seja determinado por meus temores e não pela fé num Deus fiel? Isso nunca! Aceitar que a opinião de outros estabeleça o nível de risco que vou correr na vida enquanto tenho ao meu lado um Deus que me ensina a temer apenas a Ele? Que me revela na Sua Palavra que viver perigosamente não é correr riscos para a glória do Seu nome, e, sim, fugir do centro da Sua vontade? Não aceito isso!”. O maravilhoso na fé cristã é que ela não nos leva a negar a realidade, como o faz a chamada literatura de autoajuda. Esta ensina aos homens que eles não têm nada a temer, que não há obstáculo suficientemente forte para a vida daquele que é determinado, que basta ter pensamento positivo e repetir algumas fórmulas e tudo se resolverá! Bem, sem dúvida a determinação tem ajudado muitos. Mas o que fazer quando, no uso pleno de nossa faculdade racional, chegamos à conclusão de que a vida está cheia de adversários mais fortes do que nós? O que fazer quando lemos algo como a Odisseia de Homero? Ela nos mostra, conforme salienta David Denby, que, exatamente nas horas em que os heróis, exaustos, querem descanso, conforto e prazer, encontram terror e cilada. A Odisseia fala do retorno ao lar dos heróis de guerra de Troia. Na maioria das vezes, um retorno desastroso, já que os homens castigados pelos deuses por causa de alguma falta ou por não renderem homenagens a eles enfrentam mau tempo e naufrágios e, quando finalmente chegam em casa, morrem nas mãos de esposas traiçoeiras.27 O que é coragem? É a capacidade de enfrentarmos perigos e desafios quando é isso que nossa consciência pede e a vontade revelada de Deus exige. Jamais deve ser confundida com temeridade, que é a atitude tola de correr riscos desnecessários. É precioso saber que, na Palavra de Deus, para cada promessa bíblica encontramos uma razão de ser para a esperança por ela despertada. No texto que temos considerado, vemos o Senhor dizendo a Josué: “Ninguém te poderá resistir todos os dias da tua vida” – mas em que base? “Como fui com Moisés, assim serei contigo: não te deixarei nem te desampararei.” É por isso que faz sentido a declaração: “Sê forte e corajoso”, porque o Senhor não o desampararia. Como adquirir essa coragem? Primeiramente, é preciso trazer à memória o que Deus realizou no passado: “Como fui com Moisés, assim serei contigo”. Foi esse o tratamento psicológico que Deus operou na vida de Josué. É como se tivesse dito a ele: “Vou fazer na tua vida o que fiz na vida de Moisés”. Temos, portanto, em primeiro lugar, uma base histórica para confiar. O que Deus fez na vida de Moisés e na de Josué haverá de fazer em nossa vida também, em meio à construção de nossos sonhos, em nome do Senhor Jesus. Em segundo lugar, outra coisa necessária para que a coragem ganhe força, ganhe corpo em nosso espírito, é saber que o Senhor é, segundo a linguagem poética do salmista, nossa sombra à nossa direita: Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra. Ele não permitirá que os teus pés vacilem; não dormitará Aquele que te guarda. É certo que não dormita nem dorme o guarda de Israel. O Senhor é quem te guarda; o Senhor é a tua sombra à tua direita. De dia não te molestará o sol nem de noite a lua. O Senhor o protegerá de todo o mal, protegerá a sua vida. O Senhor protegerá a sua saída e a sua chegada, desde agora e para sempre (Sl 121:7-8). Assim como minha sombra me acompanha para onde quer que eu vá, o Deus Eterno não cessa de, em Seu inesgotável amor, seguir tanto adiante de mim como depois de mim. Veja como esse salmo se relaciona com Josué 1:5, 9: “Não te deixarei nem te desampararei”; “serei a tua sombra à tua direita”. Pegar dois milhões e meio de pessoas, atravessar com elas um rio, enfrentar os terríveis cananeus – tudo isso seria levado a efeito com base em tais promessas. Deus não disse apenas: “Sê forte e corajoso”, mas prosseguiu: “O Senhor teu Deus é contigo, por onde quer que andares”. É por isso que eu digo que um fundamento indispensável para se ter uma vida vitoriosa é a coragem. Porém, é importante frisar, essa coragem deve estar alicerçada no caráter de Deus, na fidelidade de Deus e no que Deus realizou no passado, não em nossa própria capacidade. A verdadeira coragem deve ter uma base adequada. Ah! Se eu não acreditasse no que afirma, seria um hipocondríaco crônico, um doente da alma e do espírito, um atormentado. Mas, ao contrário, “em paz me deito e logo adormeço, pois só tu, Senhor, me fazes viver em segurança” (Sl 4:8). Um exemplo extraordinário de coragem encontramos na vida de Martinho Lutero, o pai da Reforma protestante. Imagine a cena. Um monge agostiniano, de um recanto desconhecido da Alemanha, chega diante de uma poderosa instituição e diz que, para ele, o papa não apenas não era o vigário de Cristo na terra, como era o Anticristo!28 Calvino, outro importante reformador, tinha essa mesma convicção. Os reformadores criam que o papa servia ao diabo. Alguns anos antes dessa declaração de Lutero, pré-reformadores haviam sido mortos pela Igreja Romana por causa de supostas heresias “menores”. Imagine, então, o que poderia acontecer com quem chamasse o papa de Anticristo! Em meio a todas essas perseguições, com pessoas querendo dar cabo da vida de Lutero, numa época em que o papa escrevera uma bula chamada Um javali entrou na vinha do Senhor – ou seja, chamando Lutero de javali –, o grande reformador alemão escreveu este maravilhoso hino: Castelo forte é nosso Deus, Espada e bom escudo; Com Seu poder defende os Seus Em todo transe agudo. Com fúria pertinaz Persegue Satanás, Com artimanhas tais E astúcias tão cruéis, Que iguais não há na Terra. A nossa força nada faz; Estamos, sim, perdidos; Mas nosso Deus socorro traz E somos protegidos. Defende-nos Jesus, O que venceu na cruz, Senhor dos altos céus; E, sendo o próprio Deus, Triunfa na batalha. Se nos quisessem devorar Demônios não contados, Não nos podiam assustar, Nem somos derrotados. O grande acusador Dos servos do Senhor Já condenado está, Vencido cairá Por uma só palavra. Sim, que a Palavra ficará, Sabemos com certeza, E nada nos assustará Com Cristo por defesa. Se temos de perder Os filhos, bens, mulher, Embora a vida vá, Por nós Jesus está, E dar-nos-á Seu reino.29 Isso é coragem! Para que você tenha essa coragem, é necessário que conheça o seu Deus. Clame a Ele por coragem. Não apenas isso, mas pare para pensar em tudo o que leu até aqui. Aplique tudo isso à sua vida. Como somos prejudicados pela ideia de que a Igreja é um hospital! Nada disso, a Igreja é um exército! Ela é composta por soldados que receberam ordem do seu comandante para conquistar novos territórios. Irmão, seja o que você é: você é crente. Faz parte do povo que tem o sangue dos patriarcas, profetas, apóstolos e reformadores nas veias. Deus está mandando cruzar o Jordão. Não procure ponte. Cruze-o! ANTER-SE FIEL ÀS SAGRADAS ESCRITURAS “Não cesses de falar deste livro da lei; antes medita nele de dia e de noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está escrito.” Quando chegamos a este ponto, ficamos face a face com o caráter de Deus. Até aqui, Deus vinha se revelando a Josué como Deus soberano, libertador e fiel; contudo, chegamos agora a um ponto em que um atributo de Deus ganha destaque especial: Sua santidade. Deus se revela como um Deus santo. Josué deveria encarar os adversários exteriores com coragem e os interiores, os de seu coração, com temor. Não bastava Josué ser corajoso – Deus queria que ele fosse santo. Amigo, Deus queria ensinar ao comandante das tropas de Israel que, sendo Ele o DeusTodo-Poderoso, não precisa da ajuda dos seus comandados. O que quero dizer com isso? Que Deus quer realizar Sua obra tanto na força do Seu poder quanto na pureza do caráter do Seu povo. Tudo o que Deus pede de nós é fidelidade. Ele não pede nossa ajuda. Deixe- me lhe dizer que há muita gente tentando ajudar a Deus. Gente que, por meio de acordos políticos imundos, negociação do conteúdo do evangelho e prática do conceito de que os fins justificam os meios, julga que está facilitando as coisas para que possa Deus agir. Gente que pensa que, quando o Senhor Jesus nos mandou ser prudentes como as serpentes, estava nos ensinando a ser inescrupulosos. Meu irmão, veja a incoerência da igreja em nossa terra. Um pastor vai à televisão e diz: “O irmão pode jogar os seus óculos no lixo, porque Deus irá curá-lo”. Mas na hora de comprar uma rádio, de edificar um templo, de adquirir um imóvel, a mesma fé não vale! É preciso fazer apelo, desafio, sacrifício, campanha, manipular gente pobre e crédula a fim de ofertar! O que se pede da dona Maria cozinheira não vale para o pastor. Que Deus é esse? Que igreja é essa? Não quero parecer bombástico, mas tenho que dizer que sou um ateu desse deus e um apóstata dessa igreja! Existe gente com coragem para enfrentar demônios, mas sem coragem para ser fiel a Cristo. A ordem de Deus para Josué significa: “Tenha coragem para enfrentar os cananeus, mas tenha coragem para se manter fiel à Minha Palavra!”. A segunda tarefa é, por vezes, muito mais difícil do que a primeira! É muito mais fácil supostos demônios do que transformar a igreja em curral eleitoral. É muito mais fácil dizer para os demônios: “Saiam em nome de Jesus!” do que viver humildemente com o que se ganha, sem estender a mão para a iniquidade. Oh! Povo evangélico deste país, essa não é a herança que recebemos daqueles que verteram sangue pela fé! Somos frutos desse movimento extraordinário, a Reforma Protestante, que só alcançou sucesso porque havia coragem e santidade no coração dos seus líderes. Que mantenhamos a mesma ousadia sem utilizar métodos iníquos para fazer o reino de Deus avançar nesta terra. Quando a igreja avança de qualquer maneira, conduzida covardemente por homens que são capazes de exigir fé dos pobrezinhos que sofrem, mas não usam da mesma fé para construir seus templos, saiba que não é o reino de Deus que avança e, sim, o travestido reino de Satanás. O que Deus espera de você é fidelidade. E o que vier em consequência disso será resultado da bondade e misericórdia de Deus. Para que tal ocorra, precisamos amar a Bíblia. “Dela não te desvies, nem para a direita nem para a esquerda, para que sejas bem-sucedido por onde quer que andares [...]. Não cesses de falar deste livro da lei; antes medita nele dia e noite.” É exatamente nesse ponto em que muitos tropeçam. Eles têm dons e inteligência, carisma e capacidade administrativa, mas não têm caráter. Não é doloroso ver, na história de nosso país, pessoas com dons extraordinários, com oportunidades inigualáveis, perderem tudo, da noite para o dia, porque não se mantiveram fiéis às Sagradas Escrituras? Quanto estrago isso produz na causa do evangelho! Você ama as Escrituras? Tem lido mais a Bíblia do que livros que ensinam a administrar empresas (ou igrejas) e fazê-las crescer ou a tornar-se rico? Sinto falta de maior apreço pelas Escrituras entre nós, evangélicos. No Brasil, hostes infernais continuam conseguindo amarrar uma nação inteira numa espécie de preguiça intelectual da qual nem mesmo os evangélicos escapam. O maior desperdício desta nação é o desperdício de neurônios. Temos de salvar o povo brasileiro do Brasil! Fazemos parte de um povo que prefere ir a reuniões em que pode receber respostas rápidas e prontas via entrega de supostas profecias a reuniões onde se estuda com zelo e respeito a Palavra de Deus. Amigo, maior probabilidade há de alguém que participa de Escola Dominical viver uma vida cristã equilibrada do que alguém que vive atrás de profecias. Recentemente, li o seguinte relato no famoso livro Entre os gigantes de Deus, uma visão puritana da vida, de J. I. Packer. O autor fala de uma pregação que houve na cidade de Deadham na Inglaterra, feita por um homem de nome John Rogers. Ele pregou à sua igreja com um único objetivo: apontar o pecado da negligência da leitura bíblica na vida daquele povo. Veja o relato de uma pessoa que estava presente àquela reunião: Ele personificava Deus para o povo dizendo-lhes – como se Deus estivesse falando: “Bem, tenho-vos confiado, há tanto tempo, a Minha Bíblia. Ela jaz na casa deste ou daquele coberta de poeira e teia de aranha e não vos incomodais de dar-lhe ouvidos. É assim que usais a Minha Bíblia. Bem, não tereis mais a Minha Bíblia”. E ele tomou a Bíblia de sua almofada, como que estivesse se retirando, mas imediatamente virou-se para eles e personificou o povo, caindo de joelhos, clamando e rogando de maneira mais clemente: “Senhor, que quer que faça conosco, não tire a Bíblia de nós; mate os nossos filhos, queime as nossas casas, destrói os nossos bens, mas poupa-nos a Tua Bíblia. Não tires de nós a Tua Bíblia!”. O pregador virou-se para a congregação e disse: “Bem, Eu vos testarei um pouco mais, e aqui está a Minha Bíblia para vós. Verei como a usareis, se a amareis mais, se a colocareis mais em prática, vivendo de acordo com ela”. A esta altura, conforme Thomas Goodwin, que presenciou a cena e contou a John Owen, cujas palavras tenho estado a citar, todo o povo que estava no templo desmanchou-se em lágrimas e o próprio Goodwin, quando saiu, pendurou-se por um quarto de hora no pescoço de seu cavalo, chorando antes que tivesse força para montar. Tão estranha era a impressão que caíra sobre ele, bem como sobre todos os ouvintes, após terem sido repreendidos por negligenciarem a Bíblia.30 Amigo, você que anseia por sucesso na vida tem levado em consideração o fato de que sem Bíblia Deus não abençoará nossos esforços? Você lamenta por conhecer a verdade tão pouco e muito menos corajosamente aplicá-la em sua vida e ministério? Você também se comove ao reconhecer que tem negligenciado o estudo regular e sistemático das Escrituras? SABER QUEM É O SEU DEUS Uma das maiores certezas que podemos ter quanto à vida de Josué é a de que ele conhecia a Deus. Note que seu conhecimento da verdade não era de segunda mão. O versículo primeiro diz que Deus falou a Josué. Há uma diferença infinita entre conhecer a verdade e conhecer a Deus. É possível conhecer a verdade e não conhecer a Deus. Os demônios conhecem a verdade e tremem, mas não conhecem a Deus. Os fariseus conheciam a verdade, porém não conheciam a Deus. Ninguém pode conhecer a Deus sem antes conhecer a verdade; contudo, é possível a alguém conhecer a verdade e não conhecer a Deus. Esse conhecimento acerca do qual falo é interior, do coração. Há um conhecimento puramente intelectual, de grande valor; porém há um conhecimento do coração, essencial. Sem o primeiro não há o segundo, mas nem todos os que têm o primeiro têm necessariamente o segundo. O conhecimento intelectual pode ser alcançado por qualquer um, enquanto o do coração só é dado por revelação. “Respondeu Jesus: ‘Feliz é você, Simão, filho de Jonas! Porque isto não lhe foi revelado por carne ou sangue, mas por meu Pai que está nos céus’.” (Mt 16:17). “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado.” (Lc 10:21) O crente não apenas conhece a Deus, mas reconhece a Deus. Trata-se de alguém que recebeu um sentido novo, uma capacidade de não saber apenas que Deus existe, mas de se regozijar com isso, de não apenas dizer que há um Criador, mas de perceber Sua beleza e amá-la. Os demônios creem, mas somente os crentes amam. Este é um elemento fundamental na vida do que quer ser usado por Deus: conhecer o Deus a Quem deseja servir. É esse conhecimento que transforma nosso serviço em culto, que nos leva a encarar os adversários com coragem, a andarcom temor e a viver para Seu louvor. Não peça apenas que Deus abra as portas para você. Não peça apenas poder. Não peça apenas vitória. Peça, acima de tudo, conhecimento vivo de Deus. Quando tomamos consciência de que sem o conhecimento de Deus é impossível viver o tipo de vida que propomos neste livro, bem como nada tem sentido, somos levados a fazer a oração de Moisés em Êxodo 33:13, 15: “Agora, se achei graça aos Teus olhos, rogo-Te que me faças saber neste momento o Teu caminho, para que eu Te conheça, e ache graça aos Teus olhos; e considera que esta nação é Teu povo [...]. Se a Tua presença não vai comigo, não nos faças subir deste local”. Normalmente oramos pedindo o conhecimento de Deus quando o Espírito da graça nos leva a ver a inutilidade de nossos esforços, a insuficiência de nossa determinação e a vacuidade de ganhar o mundo inteiro e perder o ser. Você conhece a Deus? Você O ama? Gosta de estudar Sua Palavra? Clama a Ele para que se revele a você? TER SONHOS QUE INCLUAM O PRÓXIMO O tempo todo vemos Deus incluindo pessoas nos planos de Josué: “Tu farás este povo...”. Os planos de Josué incluíam outros seres humanos. Aqui concluo o conceito de sucesso que quero apresentar nestes capítulos iniciais e desenvolver no restante do livro. Ter sucesso é viver um tipo de vida que faz uma porção de gente viver melhor. Ter sucesso é ser usado pelo Deus santo para ajudar os seres humanos a alcançar o alvo de Deus para a vida deles. Ter sucesso é se superar para ajudar outros a que, pela graça divina, também se superem. Caso você venha a ser rico, isso não será, por si só, sucesso; sucesso será continuar procurando ganhar o máximo e economizar o máximo a fim de dar o máximo aos que têm o mínimo. É abominar qualquer noção de vitória puramente hedonista. Ter sucesso é poder chegar ao fim fazendo um balanço das vidas que puderam cruzar seu Jordão pessoal por meio da sua vida. Eis aí a razão de vivermos a clamar e, ao mesmo tempo, realizarmos tão pouco: somos egoístas demais. Tenha sonhos que incluam os sofredores, que não almejem prosperidade apenas para você e não façam o próximo viver melhor. Que você abomine a ideia de enriquecer, ser mais feliz, mais saudável sem que isso, de alguma maneira, faça seu semelhante viver com mais dignidade. Tudo o que vimos até aqui foi com o propósito de que as promessas de Deus a Josué venham a se cumprir também em nossa vida: “Para que sejais bem-sucedidos por onde quer que andares”. A vida é curta e, diante de nós, há um mundo em agonia, ao qual nosso Deus ama. Em Sua infinita bondade, Deus tem-nos dado recursos extraordinários para que Seu Reino avance e Seu nome seja glorificado. Aprender os dez princípios que lhe apresentei nestes dois capítulos iniciais é condição indispensável para que, de fato, você seja bem-sucedido por onde quer que ande. Espero que esses dez mandamentos da vida de sucesso sejam guardados por você com santo temor. E colocados em prática imediatamente! III É HORA DE CRUZAR O JORDÃO! De manhã bem cedo Josué e todos os israelitas partiram de Sitim e foram para o Jordão, onde acamparam antes de atravessar o rio. Três dias depois, os oficiais percorreram o acampamento, e deram esta ordem ao povo: “Quando virem a arca da aliança do Senhor, o seu Deus, e os sacerdotes levitas carregando a arca, saiam das suas posições e sigam- na. Mas mantenham a distância de cerca de novecentos metros entre vocês e a arca; não se aproximem! Desse modo saberão que caminho seguir, pois vocês nunca passaram por lá”. Josué ordenou ao povo: “Santifiquem-se, pois amanhã o Senhor fará maravilhas entre vocês”. E disse aos sacerdotes: “Levantem a arca da aliança e passem à frente do povo”. Eles a levantaram e foram na frente. E o Senhor disse a Josué: “Hoje começarei a exaltá-lo à vista de todo Israel, para que saibam que estarei com você como estive com Moisés. Portanto, você é quem dará a seguinte ordem aos sacerdotes que carregam a arca da aliança: ‘Quando chegarem às margens das águas do Jordão, parem junto ao rio’”. Então Josué disse aos israelitas: “Venham ouvir as palavras do Senhor, o seu Deus. Assim saberão que o Deus vivo está no meio de vocês e que certamente expulsará de diante de vocês os cananeus, os hititas, os heveus, os ferezeus, os girgaseus, os amorreus e os jebuseus. Vejam, a arca da aliança do Soberano de toda a terra atravessará o Jordão à frente de vocês. Agora, escolham doze israelitas, um de cada tribo. Quando os sacerdotes que carregam a arca do Senhor, o Soberano de toda a terra, puserem os pés no Jordão, a correnteza será represada e as águas formarão uma muralha”. Quando, pois, o povo desmontou o acampamento para atravessar o Jordão, os sacerdotes que carregavam a arca da aliança foram adiante. [O Jordão transborda em ambas as margens na época da colheita.] Assim que os sacerdotes que carregavam a arca da aliança chegarem ao Jordão e seus pés tocarem as águas, a correnteza que descia parou de correr e formou uma muralha a grande distância, perto de uma cidade chamada Adã, nas proximidades de Zaretã; e as águas que desciam para o mar da Arabá, o mar Salgado, escoaram totalmente. E assim o povo atravessou o rio em frente de Jericó. Os sacerdotes que carregavam a arca da aliança do Senhor ficaram parados em terra seca no meio do Jordão, enquanto todo Israel passava, até que toda a nação o atravessou também em terra seca. (Js 3) Gosto de pregadores que, logo ao início de suas mensagens, indicam claramente sobre o que pretendem falar. É o que desejo fazer aqui, deixar claro meu objetivo neste capítulo – que é levar você a cruzar o Jordão, ver as águas do rio estancarem, atravessá-lo sem medo e, finalmente, ter seus pés postos na terra da promessa. O Jordão aqui representa qualquer grande obstáculo que se interpõe entre você e o alvo de sua vida. Pode ser um obstáculo que se encontra na família, na vida profissional, no ministério cristão ou dentro de você mesmo. Atravessá-lo pode ser sinônimo de uma mudança da leitura que você faz dos acontecimentos da vida, de uma modificação necessária no caráter, de uma cura para a alma, de um rompimento com antigos hábitos destrutivos ou de um “basta!” à indiferença espiritual. A vida é curta demais para levarmos mais tempo vivendo do lado de cá do Jordão. Por isso, essas atitudes firmes de enfrentar os obstáculos que nos impedem de passar à terra, rompendo-os pela fé, são fundamentais para que esses poucos anos que nos restam sejam usados para a glória de Deus. Há mudanças que se operam em nossa existência que parecem nos introduzir numa outra espécie de vida. E temos a impressão, quando olhamos a vida anterior ao momento em que tais modificações ocorreram, que, de certa forma, não vivíamos de fato. Martyn Lloyd-Jones ilustra o que estou dizendo ao apresentar a experiência de John Flavel: Vejam o caso de John Flavel, o puritano de há mais de trezentos anos. Ele era um homem piedoso e temente a Deus, um notável expositor das Escrituras. Ele não era apenas crente, mas tinha certeza da salvação. Contudo, ele nos diz em seu Treatise of the Soul of Man [Tratado Sobre a Alma do Homem] que, um dia, durante uma viagem, ele se pôs a meditar nos “objetos da fé e esperança”. Dentro em pouco, ele se sentiu como se estivesse elevado ao céu. Foi tirado do mundo e do tempo. Diz ele que até se esqueceu da esposa e dos filhos, e que desejou ser levado imediatamente para o céu. Foi-lhe dado um vislumbre da glória; o amor de Deus foi derramado em seu coração de tal maneira que ele não sabia se estava no tempo ou na eternidade. Flavel era um puritano típico; não uma pessoa excitável, emotiva, porém um tipo de homem tranquilo, estudioso e dado à meditação. Mas ele diz que, em consequência dessa experiência, “entendeu mais da luz do céu por meio dela do que por todos os livros que já tinha lido, e dos discursos a seu respeito”.31 Eu posso afirmar, com base no capítulo 3 de Josué, que o mesmo tipo de milagre que o povo de Israel experimentou invariavelmente ocorrena vida de todos os cristãos. Mais cedo ou mais tarde, vem a hora de uma nova fase de nossa vida começar. Hora de as promessas que Deus reservou para mim e para você se cumprirem. Hora de alguma coisa velha ficar para trás e algo novo ser descortinado diante de nós. Os israelitas estavam, literalmente, deixando o deserto para trás, cruzando o rio e entrando em Canaã. E havia muito território a ser conquistado! Isso não se aplica a você? Pense em sua família. É tempo de você conquistar territórios em seu lar, talvez resgatando o coração do filho querido, com o qual não consegue conversar mais. Ou talvez seja o momento mais do que oportuno de você conquistar terreno em sua vida espiritual. Não se contente com nada menos do que a Terra Prometida. Ao ler nas Sagradas Escrituras sobre a vida dos homens de Deus, especialmente no Novo Testamento, provavelmente seu comentário será: “Que experiências maravilhosas eles tiveram! Que maravilhoso ser tomado pela plenitude do amor de Deus e compreender a altura, a largura, o comprimento e a profundidade desse amor! Um dia, isso haverá de acontecer em minha vida!”. No entanto, apesar de ter esse tímido desejo de experimentar algo igual, você administra sua vida como quem, de fato, não está nem um pouco interessado em ser levado até toda a plenitude de Deus. Então, é chegado o momento de tomar a mais importante decisão de sua vida com Deus. Assim como fez Jacó, que se agarrou ao Anjo e disse: “Não te deixarei ir, a não ser que me abençoes” (Gn 32:26). Amigo, é hora de a harmonia familiar se estabelecer em seu lar, de o perdão irromper e restaurar relacionamentos feridos, de os momentos de alegria à roda da mesa se tornarem realidade! Chegou a hora de sua vida profissional desabrochar, hora de você encontrar satisfação no que faz, de pagar as dívidas e ter recursos para viver com dignidade, sem se sentir escravo dos credores. Chegou a hora de você vencer antigos conflitos e pecados, hora de seu caráter se fortalecer e se firmar, hora de começar a semear hábitos de santidade a fim de colher um caráter santo, agradável a Deus. É hora de o simples ato de pronunciar o nome do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo deixar você profundamente comovido. É hora de adorar o Pai, o Filho e o Espírito Santo com coração íntegro, sem nada a esconder da Trindade santa. É hora de você cruzar o Jordão! Pense também em outras áreas de sua vida que são aparentemente banais ou sem importância, as quais, porém, podem trazer-lhe um pouco de refrigério e alegria a esses dias tão difíceis que todos vivemos debaixo do sol. O sonho de aprender a tocar violão, de falar outra língua, não propriamente a dos anjos, mas os importantes inglês, francês ou espanhol. Os campos missionários estão precisando de crentes que dominem mais de um idioma. Muitas vezes, arrastamos uma culpa indevida por pensar que Deus não se agrada que tenhamos certos tipos de desejos. Vivemos uma vida tão “santa” e “arrebatada” que pouquíssimas pessoas, ao olhar para ela, podem dizer: “Que vida bonita e descomplicada!” e almejar viver de igual modo. Não há pecado algum em querer desenvolver um hobby, começar a prática de nova atividade esportiva ou fazer algo de que se goste. C. S. Lewis revela o valor destas coisas ao mostrar os conselhos do demônio velho para o demônio aprendiz em seu clássico Cartas do diabo ao seu aprendiz: Sei que ganhamos muitas almas pelo prazer. Mesmo assim, é invenção Dele [isto é, de Deus] e não nossa. Ele fez os prazeres: toda a nossa labuta até aqui nos levou a produzir um único prazer. Tudo o que podemos fazer é encorajar os humanos a experimentar os prazeres que o inimigo produziu nos momentos, ou segundo as maneiras, ou nos graus, que Ele proibiu [...]. Tu deverias sempre tentar fazer o paciente abandonar as pessoas, a comida ou os livros que realmente aprecia em favor das “melhores” pessoas, da comida “certa” e dos livros “importantes”.32 Perdoe-me fazer algumas perguntas que, provavelmente, irão incomodar você interiormente. Mas é preciso. Até quando você irá permitir que doenças emocionais crônicas limitem sua vida? Até quando você vai permitir que determinados vícios e maus hábitos destruam seus dons e talentos, constituindo-se, então, em verdadeiras feridas abertas que detêm todo o potencial que você tem de viver para a glória de Deus? Até quando, meu amigo? Até quando vai permitir que haja aquele clima de frieza, indiferença e inimizade em seu lar sem tomar a atitude de abrir o coração, pedir perdão e tratar das questões conjugais com doçura e amor? Até quando você vai deixar que seu mau gênio o domine ou que o espírito ácido, a língua que critica em demasia façam com que você destrua as amizades mais preciosas que Deus lhe concedeu? Será que não chegou a hora de você cruzar o Jordão? Neste capítulo, desejo falar sobre o momento de cruzar o Jordão. Nos capítulos anteriores lhe falei sobre os preparativos, sobre aquilo que o povo precisou ouvir e experimentar da parte de Deus a fim de cruzar o atemorizante rio. O contexto ali era de espera. Mas agora, no capítulo 3 de Josué, o povo já está com os pés no rio – Israel está partindo para dentro do rio Jordão, a fim de entrar em Canaã. O que houve? Como foi que o milagre aconteceu? Como o rio se abriu? Conforme já dissemos, sempre há entre nós e as promessas de Deus um Jordão a ser transposto. Seja qual for o Jordão de sua vida, por causa de tudo o que aguarda você além dele, gostaria de fazer-lhe três exortações. DECIDA CRUZAR O JORDÃO A exortação inicial é: tome a decisão de cruzar o Jordão, pois essa é a primeira coisa que você precisa fazer. Lembro- me de uma amiga psicanalista dizer-me: “Antônio, eu estou cansada de lidar com pessoas doentes que não procuram a cura!”. Você precisa tomar a decisão de cruzar o Jordão, de dar uma chacoalhada em sua vida, de amanhecer diferente, de poder dizer: “Quando o Senhor trouxe os cativos de volta a Sião, foi como um sonho” (Sl 126:1). Aqui, porém – e é importante que eu faça esta ressalva –, é necessário traçarmos a linha tênue, porém definida e clara, que separa a esperança cristã genuína daquilo que muitos chamam de triunfalismo. Por um lado, precisamos ter nossa esperança bem firmada na Palavra de Deus e crer que Ele opera milagres. Por outro lado, não podemos esperar nesta vida por aquilo que só teremos no céu. Devemos compreender que jamais ficaremos livres de todos os espinhos neste mundo. Contudo, a Bíblia indica que há espinhos que podem vir a ser removidos por Deus, e, assim, em lugar de o crente ouvir: “Minha graça te basta”, ouvir: “Tua fé te salvou”. Spurgeon afirmou: “Gostemos ou não, pedir é a regra do Reino”33. Richard Foster, em seu excelente Oração refúgio da alma, ressalta uma verdade comovente: É aqui onde devemos ver o coração de Deus, Abba. Em um sentido importante, nada é mais especial para Ele que a ansiedade que sentimos pela intervenção cirúrgica que teremos amanhã, o enfado que sentimos hoje por causa da irresponsabilidade dos filhos e o desespero que sentimos pelo mau estado de nossos pais idosos. Estes são assuntos de grande magnitude para Ele porque têm grande importância para nós.34 Penso que, apesar de conhecer essas verdades sobre o poder e o amor de Deus, muitos construíram uma torre do lado de cá do Jordão e estão a olhar a terra da promessa com uma enorme frustração no coração. Responda-me: isso ocorre com você ou não? Josué e o povo de Israel, pela direção divina, chegaram à conclusão de que era o esperado momento de atravessarem o Jordão, apesar de ser a época em que o rio estava mais cheio. O Jordão resulta do degelo do monte Hermon, que fica no norte de Israel, junto ao Líbano. O Hermon passa pelo processo de degelo, inunda o rio Jordão, que vai descendo pelo território de Israel até desaguar no mar da Galileia, 200 metros abaixo do nível do mar. Mais adiante, o Jordão se afunila ao sul, retoma seu curso e vai descendo até as águas do mar Morto, a 400 metros abaixo do nível do mar. O degelo do monte Hermon, que ocorreu na épocaem que o povo de Israel iria passar pelo Jordão, fez com que o rio transbordasse. Mas não havia tempo para esperar. O rio estava ali, mas entre o povo e o rio estava um Deus Todo- Poderoso que não poderia deixar de cumprir Suas promessas. Essa cena maravilhosa permite-nos afirmar: na hora em que as promessas divinas estão para se cumprir, geralmente os obstáculos parecem ficar mais fortes, maiores e mais vividamente intransponíveis do que nunca. Trata-se de um “fenômeno” interessante que muitos cristãos têm testemunhado. E, por causa da aparência assustadora do que está a sua frente, muitos pensam que ali se consumará sua completa derrota. Por isso, essa situação deve gerar em nós a seguinte pergunta: por que Deus orientou o povo de Israel a atravessar o rio Jordão justamente no período do degelo do Hermon, com o rio, então, alcançando o ápice de sua força? Afirmo, sem medo de errar, que Deus assim o fez para que toda a glória fosse dada a Ele. E o mesmo princípio se opera quando nós temos de atravessar o transbordante Jordão de nossa vida! Pense em algumas dificuldades pelas quais você passou ou tem passado. Por que ninguém lhe estendeu a mão? Por que o concurso foi adiado? Por que justamente naquele momento tão importante você caiu de cama? Por que aquele em quem você tanto confiava o traiu? Por que sempre suas conquistas são muito suadas? Por que para os outros tudo parece tão fácil e simples, mas, para você, é tudo tão difícil, quando não impossível? Não se desespere: isso não ocorre só com você. Os exemplos que eu dei – e tenho certeza de que você se identificou com vários deles – são autobiográficos. Então, você me pergunta: “Por que tem de ser assim?”. A única resposta que encontro no Livro Santo de Deus é: “Porque este é o método divino!”. Deus sempre age de maneira que venhamos a dar a Ele toda a glória. A Bíblia e a história da Igreja confirmam que as vitórias que não foram fáceis de serem alcançadas encheram os servos de Deus que as receberam de muita gratidão, pois viram que, sem sombra de dúvida, se não fosse a mão soberana de Deus, jamais teriam chegado aonde chegaram. E enxergar a vida dessa óptica só é possível porque Deus trabalhou o tempo inteiro na vida deles, fazendo com que a dependência da Sua misericórdia ficasse claramente estampada. A Ele, pois, toda honra, toda glória e todo louvor! É exatamente por isso que o povo de Israel tinha de atravessar o Jordão em meio a toda aquela dificuldade. Eis porque você não pode fitar os olhos nas barreiras. Se seu Jordão mais se parecer com o Amazonas, ainda assim você pode ter certeza de que isso ocorre por causa da vontade permissiva de Deus. Nada escapa ao controle de Deus. Na verdade, dizer que as coisas acontecem pela vontade permissiva de Deus, dependendo da forma como o fato é apresentado, pode representar o ensino de uma péssima teologia. Não cai um fio de cabelo de nossa cabeça fora do âmbito da vontade de Deus. De fato, falar em vontade permissiva é um eufemismo teológico, pois o que Ele permite que aconteça inevitavelmente acontece por causa da Sua vontade soberana. O que Deus permite é o que Ele decretou. O que Ele decretou, assim o fez por amor. Bem, a que conclusão chegamos com tudo o que vimos? Inicialmente, precisamos considerar que a vida cristã é caracterizada por travessias constantes. Sempre há uma promessa a ser alcançada e, ao mesmo tempo, um obstáculo a ser vencido. Podemos dizer que a providência divina nos coloca diante de ambos, tanto diante daquilo que é bom quanto daquilo que é aparentemente obra do maligno. Não podemos ficar parados, melancolicamente olhando para as promessas de Deus além das dificuldades, enquanto permanecemos na passividade. Jamais devemos ver a crença num Deus soberano como um estímulo para uma maneira passiva de viver; pelo contrário, é justamente Sua soberania que nos faz crer que nossos esforços são úteis na medida em que se harmonizam com a vontade de Deus. Agindo Deus, quem O impedirá? (Is 43:13). PREPARE-SE PARA CRUZAR O JORDÃO A segunda exortação é: prepare-se para cruzar o Jordão. Além de toda a preparação apresentada no primeiro capítulo de Josué, restaram ainda alguns acertos finais a serem feitos. Nós também; depois de respirar fundo e de tomar a decisão de atravessar o Jordão, o que devemos fazer quando, de fato, estamos ali, encarando o obstáculo e tendo de vencê-lo? Crendo nas promessas Primeiro, traga mais uma vez as promessas de Deus à sua memória. Não dê um passo sequer sem antes meditar no que Ele lhe prometeu. A promessa é que Deus fará maravilhas em sua vida. Então, vá em frente, na certeza de que não há obstáculo que possa impedir o cumprimento de uma só promessa que Deus tenha para Seu povo. Veja o que o texto sagrado diz: Sucedeu, ao fim de três dias, que os oficiais passaram pelo meio do arraial, e ordenaram ao povo, dizendo: “Quando virdes a arca da aliança do Senhor vosso Deus, e que os levitas sacerdotes a levam, partireis vós também do vosso lugar, e a seguireis”. Este chamado era para o povo seguir a arca da aliança e partir na direção do Jordão. Veja a continuação da passagem, nos versos 10 a 13: Disse mais Josué: “Nisto conhecereis que o Deus vivo está no meio de vós, e que de todo lançará de diante de vós os cananeus, os heteus, os heveus, os ferezeus, os girgaseus, os amorreus e os jebuseus. Eis que a arca da aliança do Senhor de toda a terra passa o Jordão diante de vós. Tomai, pois, agora, doze homens das tribos de Israel, um de cada tribo; porque há de acontecer que, assim que as plantas dos pés dos sacerdotes que levam a arca do Senhor, o Senhor de toda a terra, pousem nas águas do Jordão, serão elas cortadas, a saber, as que vêm de cima, e se amontoarão”. O povo partiu com base na Palavra do alto que viera por intermédio de Josué. Creu de todo o coração que o que estava sendo falado era promessa de Deus. Calvino faz um elogio à fé do povo de Israel neste ponto da história: Enquanto eles eram mantidos em suspense, sua fé era outra vez passada por um sério teste; porque foi um exemplo de rara virtude dar obediência implícita para a ordem, e assim seguir a arca, enquanto eles estavam obviamente desinformados quanto ao resultado. Esta, de fato, é a especial característica da fé: não inquirir curiosamente o que o Senhor está para fazer nem disputar sutilmente como o que Ele declara que pode ser feito, mas lançar todos os cuidados sobre Sua providência, e conhecendo que o Seu poder, sobre o qual podemos descansar, é ilimitado, para que assim possamos levantar nossos pensamentos acima do mundo, e abraçar pela fé o que nós não podemos compreender pela razão.35 Devemos viver assim, baseados nas promessas de Deus. Na promessa, por exemplo, de que se confessarmos nossos pecados, receberemos perdão; na promessa de que, se buscarmos a Deus, Ele se revelará a nós. Na promessa de que, se ansiarmos pelo Espírito de Deus, nossa sede será saciada; na promessa (muitas vezes vista como maldição) de que aquilo que semearmos haveremos de colher, ou na promessa de que, se resistirmos aos demônios, eles baterão em retirada. É assim que devemos viver e cruzar o Jordão: alicerçados na Palavra de Deus. Como ensina Bunyan em O peregrino, ao comparar as promessas de Deus a uma chave que é capaz de abrir qualquer cadeia. São as promessas de Deus que nos tiram da prisão do “castelo da dúvida” e nos livram das mãos do “gigante desespero”.36 Ajustando-se espiritualmente Prepare-se para cruzar o Jordão crendo nas promessas e ajustando-se espiritualmente também. Veja a instrução no verso 5: “Disse Josué ao povo: ‘Santificai-vos porque amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vós’”. O jovem comandante ordena ao povo que se santifique. Por que ele faz essa exortação? Deus não pode abençoar Seu povo quando este não está corretamente relacionado com Ele. Deus não abençoa quem, apesar de ser destemido, não procura agradá-Lo. Coragem sem santidade é presunção. Devemos nos preparar espiritualmente, também porque, sem estarmos num correto relacionamentocom Deus, ficamos impossibilitados até mesmo de crer no milagre. Nossa estrutura é frágil e não somos páreo para o Jordão. Frequentemente temos de encarar obstáculos que são, humanamente falando, intransponíveis. O que nos faz viver de modo corajoso, crendo na possibilidade das maiores barreiras serem rompidas, é o Deus a Quem servimos. Conhecê-Lo é fundamental. Como poderemos, contudo, conhecer ao nosso Deus enquanto as lentes do nosso coração estiverem embaçadas pelo pecado? Foi o Senhor Jesus quem disse: “Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus” (Mt 5:8). Quem tem essa percepção crê que, de fato, os mortos podem ressuscitar, que Golias pode ser derrotado e que o Jordão pode ter as águas refreadas. É por isso, entre outras coisas, que o texto diz: “Santifique-se, porque amanhã o Senhor fará maravilhas”. Ouvindo a voz de Deus Prepare-se para cruzar o Jordão crendo nas promessas, ajustando-se espiritualmente e, por fim, ouvindo a voz de Deus: “Então disse Josué aos filhos de Israel: ‘Chegai-vos para cá, e ouvi as palavras do Senhor vosso Deus’ ”. No verso 9, Josué chama o povo para ouvir a voz de Deus, o que claramente indica que precisamos de Sua orientação bem como de Sua Palavra, a qual revela Seu caráter e garante o cumprimento das Suas promessas. Quando a Palavra de Deus é proclamada passamos a sonhar novamente! É ela que nos encoraja, que nos dá esperança, que restaura nossos sonhos, que nos tira do ceticismo. A Palavra de Deus! Os cristãos têm entendido, há dois mil anos, que não podem abrir mão do culto público, pois é nas horas em que ouvimos a palavra de Deus que nos sentimos guindados a uma torre mais alta, fora do alcance de nossos adversários. Deixe-me dar-lhe um conselho bastante simples, o qual, porém, poderá ajudá-lo a resolver certos problemas com outra atitude mental e novo estado de coração: sempre leia a Bíblia antes de agir. Você perceberá que, mesmo que não venha a ler um texto que se aplique diretamente ao seu problema, a simples leitura da Bíblia comunicará a sua alma a serenidade necessária para o enfrentamento das dificuldades. Não é que ela o “enlevará”, mas trará à sua memória a certeza de que Deus é real e este mundo é governado por Ele. Isso o predisporá a esperar aquilo que só um homem com a mente cheia das verdades bíblicas pode aguardar da vida. FINALMENTE, CRUZE O JORDÃO! Talvez você esteja pensando: “Deus está me pedindo o impossível! Este rio vai levar meus bens mais preciosos! Não dá para atravessá-lo com tudo o que tenho! Se eu tiver de pedir perdão ao meu marido, vou me rebaixar... e onde ficará minha dignidade de mulher? Se for pedir aumento ao meu chefe, como ele reagirá? O que a minha família pensará de mim, caso eu não passe nesse concurso público? Se eu der essa guinada na minha vida profissional e fracassar, o que os meus amigos vão dizer?” Esses são alguns dentre tantos outros raciocínios que exemplificam o fato de muitas pessoas pensarem que a travessia do Jordão vai representar o fim de sua vida. Mas, amigo, se ouvimos a voz de Deus, se Ele nos orientou a cruzar o Jordão, a nós nos cabe apenas caminhar na sua direção, na certeza inabalável de que o Senhor proverá o modo de chegarmos a salvo do outro lado. O que fazer, então, quando as águas do rio já molham nossos pés? Como transpor o rio? Dê o primeiro passo Como cruzar o Jordão? Comece dando o primeiro passo. A história toda da travessia começou quando alguém do povo colocou o pé no rio. Qual é, então, o passo inicial que você está precisando dar? Pense em tudo, em todas as áreas da sua vida, desde o desejo de aprender a tocar violão, de falar um novo idioma... até o de ser cheio do Espírito Santo. Qual é o primeiro passo que precisa ser dado? Então, dê! Posso sugerir-lhe algo mais? Talvez você nunca tenha participado de uma destas reuniões que visam a levar executivos a alcançar grandes metas. Há um conselho que esses “gurus” dão e que é muito bom. Qual é o conselho? Dê o passo inicial de acordo com a grande meta final. Isso significa que você deve, primeiramente, estabelecer sua meta. Depois, divida em etapas tudo o que você tem de fazer para alcançá-la. E aí, dê o primeiro passo. Simples, não? Lendo o livro 4 das Institutas de João Calvino, atentei para o fato de o grande reformador destacar a importância de, na vida espiritual, fazermos votos na presença de Deus, votos que se relacionem a áreas de nossa vida em que somos fracos, com o propósito de nos fortalecermos e criarmos hábitos de santidade: “Vê alguém que é particularmente inclinado a certo vício, de sorte que em coisas de outra sorte tão má se não possa conter sem que de pronto descambe para o mal, nada absurdo fará se, com voto, a si corte por algum tempo o uso desta cousa”.37 Veja ainda a exortação de Thomas de Kempis: “Peleja varonilmente; hábito com hábito se vence”.38 Por exemplo, se seu problema é com o que costuma sair dos seus lábios, estabeleça o voto de ficar pelo menos uma semana sem falar mal de ninguém. Nem mesmo se a pessoa merecer! Faça o voto de não se exaltar mais na frente dos outros. Se algo de bom tiver de ser proferido sobre você, que não seja por meio de seus próprios lábios, e, sim, dos de outros. Mais uma vez vale a pena citar Thomas de Kempis: “Nunca desejes ser louvado e amado singularmente; porque isto somente pertence a Deus, que não tem igual”.39 Não use mais suas conversas somente para falar de suas próprias realizações. Fale menos e ouça mais. Caso contrário, você viverá a história do homem que, numa conversa com um amigo, após passar a maior parte do tempo falando sobre si mesmo, virou-se para seu interlocutor e perguntou: “Bom, amigo, chega; já falei demais sobre mim mesmo. Agora quero ouvir você. O que pensa a meu respeito?”. Encorajo você a sair da inércia. O primeiro passo tem um valor incalculável pelo simples fato de ser o movimento inicial depois de, quem sabe, anos de imobilidade. Às vezes, o primeiro é o mais difícil de todos; porém, após sua execução, o próximo já virá com o sabor de que algo mais ficou para trás, que você já está se movendo, que a coisa não é tão desesperadora ou difícil assim. E o que ocorre depois? Meu amigo, o próprio Deus se manifesta com poder! Olhe para a história daquela gente à beira do Jordão. Um dia, começaram a ir para perto da ribanceira do rio. Em certo momento, ali pararam, olharam para frente – as águas revoltas – e para trás – o povo, mais de dois milhões de pessoas. Será que havia algum murmurador? Será que houve alguém que exclamou: “Isso é loucura”? Mas era preciso dar o primeiro passo. Então, alguém colocou o pé no rio. E, nesse exato instante, Aquele que é socorro e fortaleza, auxílio bem presente na tribulação, se manifestou: as águas do rio se estancaram! Por isso, dê o primeiro passo. Agora! Fixe os olhos em Deus “Sucedeu, ao fim de três dias, que os oficiais passaram pelo meio do arraial, e ordenaram ao povo, dizendo: ‘Quando virdes a arca da aliança do Senhor vosso Deus, e que os levitas sacerdotes a levam, partireis vós também do vosso lugar, e a seguireis’”. A orientação foi clara: “Não tirem os olhos da arca da aliança”. Por quê? Porque não cabia ao povo olhar para o Jordão, e, sim, olhar para o Senhor com os Seus recursos inexauríveis, representados ali pela arca. Um exemplo notável desse exercício espiritual encontramos na vida do apóstolo Pedro que somente começou a afundar nas águas do mar da Galileia quando desviou os olhos do Senhor Jesus e os fixou na força do vento e das ondas (Mt 14:30). O Cristianismo não consiste apenas na prática de jejum e oração; ele exige do homem e da mulher o uso de todas as faculdades mentais. Se há alguém neste planeta que usa a mente, essa pessoa é o crente – aquele que conheceu o conteúdo das Sagradas Escrituras e a ele se submeteu. Nós encontramos Deus nos chamando para o uso da mente em todo o Antigo e Novo Testamento. A atitude tomada pelo povo de Israel foi basicamente mental: andar olhando para a arca, pois ela trazia à memória de Israel a aliança divina. Àsvezes oramos, jejuamos, mas continuamos num estado psicológico deplorável quando poderíamos estar gozando plenamente de grande liberdade espiritual. Isso ocorreria se tão somente mantivéssemos o olhar fixo no Senhor e em Seus recursos insondáveis. Não posso deixar de mencionar o que Martyn Lloyd-Jones fala sobre o papel da reflexão na vida cristã. Ele está tratando do tema santificação, mas o que afirma aplica-se de modo perfeito à nossa presente consideração: No entanto, que dizer se um crente falar da sua fraqueza, da sua falta de poder? A resposta a isso é que, como criatura regenerada, um ser nascido de novo, ele tem o poder. Se o Novo Testamento nos manda fazer uma coisa, acertadamente podemos esperar receber do Senhor o poder para fazê-la, e, por conseguinte, não há desculpa neste ponto. Esta questão é muito sutil, portanto, deixem-me expô-la da seguinte maneira: minha opinião é que, muitas vezes por orarem sobre uma questão como esta, as pessoas, longe de resolver os seus problemas, simplesmente os aumentam, pois oram com espírito de temor. Dizem elas: sinto-me tão fraco, nada posso fazer. E oram pedindo que sejam libertas disso, em vez de atirá-lo para longe! A maneira de solucionar este problema não é orar; é pensar e aplicar o ensino e a doutrina do apóstolo para despojar-se do velho homem.40 Jamais tire os olhos da arca da aliança – olhe fixamente para o Senhor! Você está procurando a restauração no casamento? Então, não olhe apenas o coração duro de seu cônjuge nem os ressentimentos de seu próprio coração. Antes, olhe para o Senhor, para Aquele que gera amor, perdão, Aquele que nos ensina a ser gente! Você está vivendo um período difícil em sua vida profissional, vendo-se diante da possibilidade de ter uma alteração significativa do orçamento da família? Se é esse o caso, não olhe apenas para a economia do país nem para o coração duro do seu chefe – olhe para o Senhor! Não tire os olhos Dele em circunstância alguma! Tem você o sonho de ser usado pelo Senhor? Deseja ver Deus usando cada célula do seu corpo para glorificar Seu nome, mas, ao mesmo tempo, sente-se intimidado por seus pecados, vícios, enfermidades? Olhe para Aquele que cura. O Salmo 103 diz: “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que há em mim bendiga ao Seu santo nome [...]. Ele é quem perdoa todas as tuas iniquidades; quem sara todas as tuas enfermidades”. Pense agora em sua vida intelectual, nos cursos que pode fazer, os idiomas que pode dominar, os livros que pode ler. Deus quer que a sua vida intelectual seja expandida. Pense em seu casamento. Será que sua frustração não resulta do fato de você esperar do cônjuge aquilo que só o Senhor Jesus pode lhe dar? Não há homem ou mulher capaz de saciar plenamente nossa sede de amor – só o Senhor. Qual é a decisão que você deve tomar em relação a isso? Pense na sua vida profissional. Há algum concurso, alguma especialização que você possa fazer? Pense em seu ministério. Para que Deus chamou você? Qual é o povo que você deve atingir? Pense na sua alma: quais são os pecados que a estão destruindo? Você perdeu o primeiro amor por Deus? Ou será que algum dia realmente O amou? Qual é o Jordão da sua alma? Qual é a sua dor? Qual é a amarra do passado que faz com que você não viva o presente? É tempo de cruzar o rio, de vencer o obstáculo, de avançar! É importante destacar o que houve em especial com Josué e com os sacerdotes em meio àquele milagre que afetou tanta gente. A Josué, Deus revelou que chegara o momento de engrandecê-lo: “Então, disse o Senhor a Josué: ‘Hoje começarei a engrandecer-te perante os olhos de todo o Israel, para que saibam que, como fui com Moisés, assim serei contigo’”. Sim, eis a hora de, depois de anos de espera, Deus usar-nos de modo especial. E aqui só conta a providência – não há nada que o homem possa fazer. É Deus quem soberanamente decide engrandecer um servo Seu. Quantas lições disto advêm! Às vezes, num único dia, as coisas mudam de tal maneira em nossa vida que ficamos assombrados. Foi o que Ele fez com Josué: a partir daquele dia, milhares de pessoas honrariam Josué, não por ele ser alguém especial, mas por Deus estar com ele. Mas a experiência dos sacerdotes de Israel não fica atrás em beleza. Nós os vemos parados, ali no meio do rio com as águas estancadas: “Os sacerdotes que levavam a arca da aliança do Senhor pararam firmes no meio do Jordão, e todo Israel passou a pé enxuto, atravessando o Jordão”. Que exemplo de fé! E que imagem bela que nos faz pensar em Deus poder nos usar dessa forma também: deter algo que pode destruir a vida de milhares. Quem sabe você será o homem que destruirá o que tenta impedir que vidas sejam salvas e alcancem o propósito de Deus? Conta-se que o ex- sapateiro pobre inglês, que veio a ser chamado de Pai das Missões Modernas, William Carey, quando apresentou suas ideias de se evangelizarem os povos pagãos, ouviu de certo ministro: “Jovem, sente-se. Quando Deus quiser converter os pagãos, Ele o fará sem a sua ajuda ou a minha”. Veja o relato de Ruth Thucker sobre a resposta de William Carey à indiferença missionária dos ministros ingleses: Mas Carey recusou calar-se. Na primavera de 1792, ele publicou um livro de 87 páginas que teve consequências de longo alcance e tem sido comparado às 95 teses de Lutero em sua influência sobre a história cristã. O livro Uma inquirição sobre a responsabilidade dos cristãos em usarem meios para a conversão dos pagãos apresentava muito bem a defesa das missões estrangeiras e procurava minimizar os argumentos que dramatizavam a impossibilidade de enviar missionários a terras distantes. Depois de publicar o livro, Carey falou a um grupo de ministros numa Associação Batista em Nottingham, onde desafiou a audiência por meio de Isaías 54:2, 3 e pronunciou sua famosa sentença: “Espere grandes coisas de Deus; tente grandes coisas para Deus”. No dia seguinte, em grande parte devido à sua influência, os ministros decidiram organizar uma nova junta de missões, que se tornou conhecida como Sociedade Batista Missionária.41 Carey estancou o fluxo de um rio de indiferença com a obra missionária, possibilitando, assim, a conversão de milhares de pagãos. Quero, para terminar, relembrar as três exortações, que faço a mim e a você: tome a decisão de cruzar o Jordão, prepare-se para cruzar o Jordão e passe o Jordão sem tirar os olhos do Deus que tem uma aliança comigo e com você! Ó amado irmão, o Espírito de Deus – com temor digo isso – está chamando a cada um de nós para a verdadeira vida. Não construa uma torre de observação do lado de cá do Jordão, mas atravesse-o. Agora. Dê o primeiro passo. “A esperança que se retarda deixa o coração doente, mas o anseio satisfeito é árvore de vida.” (Pv 13:12) IV O PRÍNCIPE DO EXÉRCITO DO SENHOR Estando Josué já perto de Jericó, olhou para cima e viu um homem de pé, empunhando uma espada. Aproximou-se dele e perguntou-lhe: “Você é por nós, ou por nossos inimigos?”. “Nem uma coisa nem outra”, respondeu ele. “Venho na qualidade de comandante do exército do Senhor.” Então Josué prostrou-se, rosto em terra, em sinal de respeito, e lhe perguntou: “Que mensagem o meu senhor tem para o seu servo?”. O comandante do exército do Senhor respondeu: “Tire as sandálias dos pés, pois o lugar em que você está é santo”. E Josué as tirou. Jericó estava completamente fechada por causa dos israelitas. Ninguém saía nem entrava. Então o Senhor disse a Josué: “Saiba que entreguei nas suas mãos Jericó, seu rei e seus homens de guerra. Marche uma vez ao redor da cidade, com todos os homens armados. Faça isso durante seis dias. Sete sacerdotes levarão cada um uma trombeta de chifre de carneiro à frente da arca. No sétimo dia, marchem todos sete vezes ao redor da cidade, e os sacerdotes toquem as trombetas. Quando as trombetas soarem um longo toque, todo o povo dará um forte grito; o muro da cidade cairá e o povo atacará, cada um do lugar onde estiver”. ( Js 5:13-15 – 6:1-5 ) Estamos agora em um momento muito importante na história deIsrael: o povo acabou de cruzar o rio Jordão, o deserto ficou para trás e todos estão com os pés postos na terra da promessa – na Canaã que manava leite e mel. Consequentemente, entramos nós também em uma nova fase em nossas mensagens. Uma das provas de que uma nova fase havia sido inaugurada foi o término da queda do maná que, durante tanto tempo, havia sustentado o povo de Deus na peregrinação no deserto. A partir de agora, Israel passaria a comer das novidades da terra de Canaã. O anseio de 700 anos estava-se realizando naquele dia. O povo hebreu podia ver diante de si o cumprimento da promessa feita por Deus a Abraão. “Sendo assim, as lutas terminaram, certo?” Eis aí uma grande surpresa: as lutas não terminaram. Na verdade, frequentemente bênçãos preciosas que recebemos nos remetem para novos conflitos. A vida é assim. Lembre-se de que vivemos num mundo caído, que se encontra debaixo da ira de Deus. Como muito bem nos lembra Thomas de Kempis: “É de vantagem que passemos, de quando em quando, por algumas aflições e contrariedades; porque sempre fazem que o homem entre em si mesmo e reconheça que vive no exílio e não deve colocar sua esperança em coisa alguma deste mundo”.42 Mais adiante, no capítulo intitulado “Da Resistência às Tentações”, declara: “Acabada uma tribulação ou tentação, logo vem outra e sempre teremos alguma coisa que sofrer; porque perdemos o dom da primitiva felicidade”.43 Veremos, então, que os israelitas tiveram de enfrentar terríveis adversários. E, agora, nesse ponto da história, chegara a hora do confronto inicial. Qual era a situação de Josué? Josué estava vivendo um momento dramático do seu ministério. Esta seria sua primeira batalha em Canaã. Havia milhares de pessoas sob o seu comando, e o inimigo agora não era mais o impessoal rio Jordão, mas adversários de carne e osso, os habitantes de Jericó, o que era muito pior. O rio Jordão ficara para trás e não havia mais retorno. Vendo o quadro todo do ponto de vista da ação sobrenatural de Deus, o rio havia se estabelecido num obstáculo intransponível caso o povo desejasse retornar a fim de fugir da guerra. Só lhe cabia avançar. Assim deve-se viver a vida cristã: uma vez tendo posto a mão no arado não se deve voltar atrás (Lc 9:62). Nos capítulos anteriores, eu lhe falei sobre a necessidade de encararmos o nosso Jordão pessoal, de enfrentarmos nossos obstáculos; disselhe que a vida não é um ensaio, são 80 anos que passam como um sonho, e não podemos construir uma torre do lado de cá do rio somente a contemplar a terra da promessa. Espero em Deus que você já tenha tomado a decisão de cruzar o Jordão. Muitos há que já cruzaram uma série de “jordões” pessoais no passado. Isso é muito bom! Mas o problema, para alguns, é que, quando têm de encarar os habitantes de Jericó, os cananeus com toda a sua maldade, têm vontade de cruzar o Jordão no sentido contrário. Muitos, por exemplo, testemunham que após a conversão sua vida piorou e passaram a enfrentar problemas que não existiam no passado. Não são poucos os que, como os crentes de Tessalônica, “receberam a palavra com alegria que vem do Espírito Santo” (1 Ts 1:6). Estes, então, ao compreender que a conversão não é o recebimento de um pijama para dormir, mas de uma armadura para ir à arena, têm vontade de voltar atrás e pensam: “Ah, o Egito oferecia mais tranquilidade e segurança... apesar da escravidão”. No entanto, assim como Josué, nós temos de avançar. A posse de Canaã é nosso destino. Nosso Deus é um Deus fiel, e este é justamente o atributo que mais se destaca no livro de Josué, como já mencionei várias vezes. Começamos esta série de estudos dizendo que, naqueles dias de Josué, Deus estava cumprindo uma promessa feita há 700 anos ao Seu povo. Quanta fidelidade! E o mesmo Deus, em Sua fidelidade, à luz de Josué 5, não deixou de se revelar ao Seu servo num dos momentos mais difíceis de sua jornada como líder espiritual e comandante das tropas de Israel. Lá estava Josué substituindo o maior profeta de Israel, tendo dois milhões e meio de pessoas sob o seu comando e vendo-se agora na necessidade de travar sua primeira batalha. É bem verdade que o espantoso milagre da travessia do Jordão já acontecera – só que agora Josué se depara com as intransponíveis muralhas de Jericó, a cidade fortificada de uma nação inimiga que precisava ser desalojada da terra da promessa. Foi exatamente nesse contexto de luta e dificuldade que Deus se revelou a Josué, trazendo encorajamento ao seu coração, preparando-o, assim, para o conflito. Meu desejo é lhe falar sobre o Deus que nos prepara para a batalha. O Cristianismo não é romântico, como pensam alguns. Há alguns pregadores que, infelizmente, apresentam mensagens que não preparam seus ouvintes para a verdadeira vida de fé. Por que isso ocorre? Porque são mensagens que não falam sobre quanta dor os jordões, os cananeus e as muralhas que temos de enfrentar ao longo da vida podem nos causar. O Deus cristão não ensina Seu povo apenas a amar, a ser santo e piedoso; o Deus cristão ensina Seu povo a guerrear também. Nessa guerra, o inimigo é o mal, o campo de batalha é o mundo e as armas da milícia são espirituais (2 Co 10:4). “Ele treina as minhas mãos para a batalha e os meus braços para vergar um arco de bronze.” (Sl 18:34) Foi o que Davi disse de sua própria experiência, e isso pode se aplicar à força e à habilidade espirituais de que carecemos para fazer a vontade de Deus em nossa vida. Esta é a grande verdade que emerge do texto bíblico que estamos estudando: Deus prepara Seu amado povo para a batalha. Estou, evidentemente, falando de uma guerra realmente santa, aquela em que todo cristão está envolvido. Que é um cristão? Uma boa definição é dizer que cristão é alguém que fugiu do cativeiro inimigo. Ele foi transportado de um reino para outro, e agora tem de viver no território que, temporariamente, está sob a tremenda influência de um terrível tirano – seu antigo senhor –, mas disposto a submeter-se somente ao seu novo Rei. Como diz Thomas Brooks no clássico Preciosos remédios contra os ardis de Satanás: Satanás é bastante invejoso da nossa condição, que vamos desfrutar de um paraíso do qual ele é lançado fora, e fora do qual será mantido para sempre... Satanás vigia toda oportunidade para quebrar nossa paz, ferir nossa consciência, diminuir nossos confortos, enfraquecer nossas graças, desprezar nossas evidências, e extinguir nossas seguranças.44 Isso implica andar num campo minado, viver num mundo onde há serpentes em todo lugar pelo qual caminhamos e ter de ser cordeiro num planeta de lobos. Penso que tudo isso implica também a necessidade de aprendermos urgentemente a viver de fato. Sim, aprender a viver. Pois como haveremos de sobreviver a tudo isso? Viver num mundo onde inexoravelmente se caminha para a velhice e a morte já não é tarefa fácil. A Bíblia, porém, revela que há forças malignas neste mundo que trabalham para nos levar a todo tipo de derrota e, em especial, à derrota maior: a perda de nossa comunhão com Deus. Mais uma vez cito Thomas Brooks: Este mundo, este deserto, está cheio de ciladas, e todos os trabalhos estão cheios de ciladas, e todas as diversões estão cheias de ciladas. Em coisas civis, Satanás tem suas ciladas para nos enredar; e em todas as coisas espirituais, Satanás tem suas ciladas para nos pegar. Todos os lugares estão cheios de ciladas, cidade e campo, loja e aposento particular, mar e terra; e todas as nossas misericórdias estão cercadas de ciladas.45 Deus, em Sua imensa compaixão, nos prepara para a batalha, e uma das formas de preparação é dar-nos direção por meio de Sua Palavra. Que bênção são esses registros do Antigo Testamento! Que bênção é o livro de Provérbios! Esse livro é um verdadeiro manual de como viver com sabedoria e glorificar a Deus, mas não apenas isso, trata-se também de um verdadeiro manual de como evitar problemas! Como lemos no capítulo 2:6-8: “Porque o Senhor dá a sabedoria, da Sua boca vem a inteligência e o entendimento. Ele reserva a verdadeira sabedoriapara os retos e o escudo para os que caminham na sinceridade, guarda as veredas do juízo e conserva o caminho dos Seus santos”. Bom, mas vamos voltar ao ponto que estávamos apresentando: como Deus nos prepara para a batalha? À luz do modo como Deus preparou Josué para sua primeira grande luta, podemos extrair os seguintes princípios. DEUS NOS PREPARA PARA A BATALHA Mostrando-nos quão próximo está daqueles que O amam Lá estava Josué, aos pés de Jericó. Diz a Bíblia que, naquele cenário desanimador, Deus, por causa de Sua infinita misericórdia, ao contemplar as aflições, dúvidas e temores do coração de Seu servo, revelou-se a ele. Esse fato me traz à memória a promessa do Senhor Jesus feita em Mateus 28, “Eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos”, e também a gloriosa passagem que nos fala da tribulação que os discípulos de Jesus tiveram de enfrentar no mar da Galileia. Em meio à tempestade, o barco em que eles estavam quase virava, mas, do monte, o Senhor Jesus via Seus discípulos em dificuldade a remar – não lhes era indiferente (Mc 6:48). Por isso, Deus revelou-se ao Seu servo, pois podia contemplar o peso que estava sobre o coração do comandante das tropas de Israel. Temos um Deus que em nenhum momento tira os olhos de nossa vida. Antes, Ele conhece cada estágio dela. Você já tomou conhecimento da gloriosa verdade de que Deus sabe o ponto em que se encontra em sua jornada espiritual? É comovente poder responder, com base no livro de Josué, que Deus sabe. Deus conhecia perfeitamente o ponto em que Josué se encontrava em sua jornada e no cumprimento da missão que lhe dera. Como as coisas se alteram tão rapidamente em nossa vida! E quando abrimos os olhos, estamos vivendo situações que exigem uma maturidade maior, um novo poder ou até mesmo novos dons. Deus, em Sua compaixão infinita, sabe o ponto em que nos encontramos em nossa peregrinação, quais os desafios que estão diante de nós, quais tentações enfrentamos, as novas dúvidas que nos assaltam e os recursos de que carecemos para que Seu nome seja glorificado – já que nosso maior temor não é sofrer, e, sim, não O exaltar, quer com a vida, quer com a morte. Às vezes, o peso espiritual aumenta por força do próprio desenvolvimento de nossa comunhão com Deus. Paradoxalmente, em certo sentido, sofremos mais. O que não nos incomodava no passado, hoje é um peso insuportável. O pecado tornou-se mais repugnante e Deus, mais digno de ser amado aos nossos olhos. Ambas as sensações nos fazem crer que nos tornamos piores, embora nunca tenhamos estado tão próximos do centro da vontade de Deus. E então, o que surge depois disso? A dor da fome e da sede. Você tem ideia do que seja sentir essa espécie de dor? Essa foi a forma encontrada pelo Senhor Jesus para expressar o anseio daquele que, com um coração humilde, lágrimas nos olhos e espírito manso, entrou no Reino de Deus (Mt 5:1-6). Que beleza de quadro: Josué olhando para as muralhas de Jericó e Deus olhando para Josué! Quero impressionar você com esta grande verdade: Deus está vendo você, meu irmão, suas lutas, suas frustrações, suas dívidas, suas enfermidades, seus temores, suas decepções. Deus está nos vendo com amor! Não é bom saber que Ele nos vê? Certamente, isso traz um componente desafiador, pois vivemos em Sua santa presença. Portanto, grande deve ser nosso desejo de viver em santidade. Não há nada, porém, mais perturbadoramente consolador do que a presença constante de Deus. O que gera um desafio moral é, ao mesmo tempo, a maior fonte de consolo da vida. Vivemos sob o olhar do Deus santo. Que maravilha! Revelando-nos Sua mão poderosa Deus fez uma revelação poderosa de Si mesmo a Josué. Estamos aqui diante daquilo que os teólogos chamam de teofania – uma manifestação de Deus. Contudo, a maior parte dos comentaristas bíblicos sérios crê que, neste caso em especial, trata-se de uma cristofania – ou seja, uma manifestação, no Antigo Testamento, de Cristo, nosso Senhor e Salvador, pré-encarnado – a Seu servo Josué, revelando-se como Príncipe dos exércitos do Senhor. Concordo com os que falam de uma cristofania, pois uma criatura de Deus não poderia permitir a resposta que Josué deu à revelação recebida. Ela o teria advertido do pecado da idolatria. Penso, à luz disso, que esta passagem tem íntima relação com a atitude do Senhor Jesus à adoração de Tomé (Jo 20:28-29). O mesmo diante de Quem Tomé se prostraria estava agora diante de Josué, e, justamente por esse motivo, o Príncipe do exército do Senhor não o repreendeu, pois fomos criados para adorá-Lo. Josué vê o Príncipe do exército do Senhor – e o que se destaca em sua visão? Aquilo se tornou muito significativo para o jovem comandante. Creio que o Espírito Santo fez com que Josué colocasse os olhos naquele quadro lindo – na revelação real de Deus, naquilo que mais poderia trazer-lhe consolo ao coração. Josué não faz uma descrição completa da visão, mas apenas ressalta que Aquele diante de Quem estava carregava nas mãos uma espada nua desembainhada. É importante darmos atenção a esse detalhe. Josué viu a mão de Deus portando uma espada desembainhada. Qual foi a intenção de Deus ao fazer com que Seu servo visse o que tinha nas mãos? O que Deus quis operar na alma de Josué com isso? Não tenho dúvidas de que Deus quis que Seu servo se certificasse de que a mão soberana Dele haveria de agir de modo invisível na batalha. Josué não batalharia sozinho. Não era apenas a força do guerreiro que contava, mas a mão de Deus seria estendida sobre ele e sobre todo o povo. E seria exatamente a mão soberana de Deus que lhe daria a vitória, a qual fora prometida 700 anos antes para Seus escolhidos. Encontramos aqui três exércitos: o exército de Israel, o exército de Jericó, entrincheirado dentro das muralhas, e o exército do Deus vivo. Quem era a maioria? Por causa da presença do exército do Senhor, nós, os cristãos, sempre seremos a maioria. Essa é a garantia da vitória! Você crê que uma mão invisível rege tudo o que acontece no universo? Você crê que o braço forte de Deus age? “Todos os povos da Terra são como nada diante dele. Ele age como lhe agrada com os exércitos dos céus e com os habitantes da Terra. Ninguém é capaz de resistir à sua mão nem de dizer- lhe: ‘O que fizeste?’.” (Dn 4:35). Como muito bem afirma a Confissão de Fé de Heidelberg: Cremos que o bom Deus, depois de ter criado todas as coisas, não as abandonou, nem as entregou ao acaso ou à sorte, mas que as dirige e governa conforme Sua santa vontade de tal maneira que neste mundo nada acontece sem a Sua determinação [...] Esse ensino nos traz um inexprimível consolo quando aprendemos dele que nada acontece por acaso, mas pela determinação do nosso bendito Pai celestial.46 Que coisa comovente! Aquela mão que portava uma espada desembainhada era a mão do Deus Todo-Poderoso, a garantia de vitória para a vida de Seu servo Josué e do Seu povo. A mão de Deus sempre está atuando na vida da Sua Igreja. Às vezes, portando o bálsamo de que carecemos para a cura no coração, em outras tantas ocasiões, trazendo o alimento para nossa alma e, nas horas de batalha, uma espada nua para o livramento de nossa vida. Por essa razão é que temos de orar pelos que nos perseguem, pois terrível coisa é quando a espada de Deus é desembainhada a fim de ferir os inimigos dos Seus eleitos. Você crê nisto? Pelos olhos da fé, você pode contemplar Deus guerreando por você? Você percebe que não está só? Você intercede pedindo misericórdia por aqueles que ousaram tocar na menina dos olhos de Deus? Querido irmão, você sabe que enquanto está lendo isso, a mão invisível está agindo a seu favor em tudo o que lhe diz respeito? Oh! Amigo, pense no poder dessa espada. Há alguma outra que a ela se possa comparar no universo? Pense na mão que a manuseia. Há alguma que seja tão hábil? Descanse, então, no poder e na habilidade de Deus em dar vitória para Seus eleitos. Oferecendo-nos Sua direção Lá estava Josué, provavelmente com dúvidas no coração, certamente em busca de uma estratégia.Saber o que fazer, quando estamos próximos de partir para o campo de guerra, muitas vezes é o que mais nos inquieta. Deus, por causa de Sua imensa bondade, deu uma direção segura para Seu comandante. O texto diz que o Senhor se revela a ele e lhe diz, com clareza, o que deveria fazer. Isso corresponde ao que diz o salmo 25-12: “O homem que teme ao Senhor, Ele o instruirá no caminho em que deve escolher”. Essa é uma promessa de Deus para você! A promessa de um Deus que não quer que você aprenda apenas na base da tentativa e erro. Isso até pode ocorrer, mas seríamos poupados de muito sofrimento e derrotas desnecessários se crêssemos que o Deus pessoal dos cristãos é um Deus que se comunica. Sim, nosso Deus gosta de falar. Como Deus fala? Como já tratamos da direção divina em capítulo anterior, deixe-me apenas acrescentar umas poucas palavras. Primeiro, Deus fala por meio de Sua providência, segundo a qual Ele dispõe as circunstâncias da vida de tal modo que somos levados a crer que Ele está falando conosco. Segundo, Deus fala por meio do senso comum. Muitas vezes, tudo o que devemos fazer é permitir que Ele fale conosco por meio de nossa razão. Grande parte dos cristãos que conheço estaria vivendo uma vida muito melhor se tão somente usasse a cabeça. Terceiro, Deus fala por intermédio das pessoas. “Os planos fracassam por falta de conselho, mas são bem-sucedidos quando há muitos conselheiros.” (Pv 15:22) Por isso, eu lhe digo: não caminhe sozinho. Não pense que você é capaz de ver tudo. Não tome decisões que vão alterar significativamente o curso da sua vida sem buscar conselho com o povo de Deus. Quarto, Deus fala ao nosso coração. Muitas vezes Deus se comunica a nós retirando a paz quanto a algumas decisões que estamos prestes a tomar. Espere a paz de Deus se estabelecer em seu coração antes de decidir. Pode até acontecer de você estar entre duas opções excelentes ou ruins. Mesmo assim, a paz pode agir dizendo que, se você tem de decidir, decida. Nessas horas é necessário orar e crer que Sua direção pode ser constatada apenas depois de a decisão ter sido tomada pela fé na misericórdia divina. Quinto, Deus fala por meio de Sua palavra. Nunca Deus haverá de lhe indicar um caminho que vá de encontro à Sua verdade. Em suma, o ponto de partida disso tudo é saber que Deus guia. É fundamental saber isso. Não basta apenas aplicar raciocínio lógico à vida, embora isso seja fundamental – é preciso ouvir atentamente a direção de Deus. Você crê nisto? Você sabe que tudo o que lhe diz respeito é do interesse de Deus e que, por isso, pode contar com Sua direção amorosa? Então, espere ouvir Sua voz. Olhe para as cinco formas que lhe apresentei de comunicação e aplique- as à sua vida. Não decida sem ouvi-Lo; não decida antes para, depois, pedir a bênção Dele para aquilo que decidiu fazer sem consultá-Lo. Deus haverá de abençoar aquilo que lhe revelou e que, consequentemente, representa a realização da Sua vontade soberana. Revelando-nos Sua santidade Vou entrar agora no ponto mais polêmico de minha mensagem. Esta passagem do capítulo 6 de Josué tem gerado dúvidas no coração de milhares de leitores das Sagradas Escrituras. Por qual motivo? O motivo relaciona-se ao fato de Josué haver recebido a ordem de entrar em Jericó e matar a todos. Só uma família haveria de sobreviver: a da prostituta Raabe. Nessa passagem, encontramos o servo de Deus recebendo a orientação divina de entrar em Jericó para matar seres humanos que foram criados à imagem e semelhança de Deus. No meu modo de ver, isso se tornara um fardo sobre o coração de Josué, pois matar o próximo é algo antinatural, vai de encontro à nossa natureza regenerada. Fomos recriados à imagem e semelhança de Deus; portanto, aquilo que temos de divino nos impulsiona a tratar o próximo com dignidade, e este era o caso de Josué. Contudo, naqueles dias, não se estava apenas cumprindo uma promessa graciosa para o povo de Israel, mas também o anúncio do juízo divino que cairia sobre Jericó. Muitos anos antes, Deus havia dito que o cálice daquele povo estava prestes a transbordar. Veja como em Gênesis 15:15 encontramos a primeira advertência sendo feita. “E tu irás para teus pais em paz; e serás sepultado em ditosa velhice. Na quarta geração tornarão para aqui” – para Canaã – “porque não se encheu ainda a medida da iniquidade dos amorreus.” Em Levítico 18:24, encontramos mais uma alusão ao povo cananeu: Com nenhuma destas coisas vos contamineis, porque com todas estas coisas se contaminaram as nações que Eu lanço fora de diante de vós. E a terra se contaminou; e Eu visitei nela a sua iniquidade, e ela vomitou os seus moradores. Porém vós guardareis os Meus estatutos e os Meus juízos, e nenhuma destas abominações fareis, nem o natural, nem o estrangeiro que peregrina entre vós; porque todas estas abominações fizeram os homens desta terra que nela estavam antes de vós; e a terra se contaminou. Josué tinha diante de si uma terrível tarefa: matar seres humanos. Estava sendo enviado para trazer o juízo de Deus sobre o povo de Jericó. Que aplicação isso pode ter para nossa vida? Fico a pensar nas inúmeras vezes em que precisamos tomar decisões na vida que trarão sofrimento ao próximo. Creio, portanto, que Josué teve aquele tipo de revelação para que seu coração fosse consolado. Era como se Deus lhe estivesse a dizer: “Quem está aqui é um Deus santo. Retira a sandália dos teus pés. Hoje te chamo para te sujeitares à Minha palavra. O que Eu te peço para fazer se harmoniza perfeitamente à Minha natureza santa”. É triste, por exemplo, quando o ministro tem de pedir para certos obreiros saírem da equipe de trabalho, justificando sua atitude por algo assim: “Vocês não têm mais espaço aqui porque não viveram em santidade, não se arrependeram de seus pecados e não tomaram os passos para a restauração e para a reconciliação. Infelizmente, vocês não têm mais direito a pregar a Palavra nesta igreja, porque o que fizeram é abominação”. Há situações em que o ministro do evangelho, mesmo com razão em fazê-lo, nada pode dizer sob pena de destruir a família e a reputação de certos líderes e arcar com todo o ônus da decisão, vindo, ainda, a passar por arbitrário ou sem misericórdia. Josué estava vivendo uma situação semelhante. Ele tinha de entrar em Jericó para revelar que Deus é santo, santo, santo. A visão da santidade de Deus, portanto, levaria Josué a ter certeza de que o que estava para fazer harmonizava-se com a vontade divina. Não apenas isso, mas ele também teria de lutar dentro dos limites estabelecidos pela palavra de Deus. Aquela era uma guerra santa na qual os fins não deveriam jamais justificar os meios. A tomada de Jericó deveria ser feita exclusivamente da maneira de Deus. Parece-me que, em nossa nação, nós, evangélicos, temo-nos esquecido deste fato. Amigo, preciso dizer-lhe que há coisas que acontecem em nosso meio que não são aceitáveis sob hipótese alguma. Atos que estão se tornando comuns e que os homens santos do passado jamais ousariam aceitar e, muito menos, praticar. Vejo grandes iniquidades sendo cometidas em nosso país e muitos, tão acostumados com isso tudo, já estão quase chegando à conclusão de que é normal o crente mentir, fraudar e defender a ideia de que os fins justificam os meios. Pode-se, por exemplo, aceitar que um veículo de comunicação evangélico coloque programação suja no ar? Você tem vivido à luz da verdade de que Deus é santo? “Descalça as sandálias dos teus pés porque o lugar em que estás é santo!” Infelizmente, em grande medida nós perdemos o sentimento da reverência e do temor. Deus, porém, ao nos preparar para a batalha, revela-se como um Deus santo que jamais nos levará a relativizar Seus absolutos, mesmo que para que fins santos sejam alcançados. Tomemos cuidado quanto ao perigo de reeditarmos em nossa vida um pecado frequentemente encontrado ao longo da história da Igreja: o erro de, em nome de um suposto fim justo, mascararmos nossas maiores iniquidades. Como muito bem definiu John MacArthur, o amor a si mesmotambém predispõe as pessoas a desculparem o seu pecado. Elas não gostam de se condenar. São naturalmente preconceituosas em seu próprio favor. Procuram bons nomes para denominar sua tendências pecaminosas. Elas as transformam em virtudes, ou no mínimo em tendências inocentes. Rotulam a avareza de “prudência”, ou então chamam a ganância de “negócio inteligente”. Quando se alegram com a calamidade do próximo, fingem que é porque esperam que isso trará algum bem à pessoa. Se bebem muito, é porque sua constituição física o exige. Se caluniam, ou falam do vizinho, afirmam ser zelosos quanto ao pecado. Se entram numa discussão, dizem Ter uma consciência obstinada e consideram sua discórdia mesquinha uma questão de princípios. E, assim, encontram bons nomes para todas as formas de mal.47 Irmão, que vergonha a Igreja ter coragem para ampliar seu espaço na mídia, construir grandes templos e desafiar os demônios, mas, ao mesmo tempo, não ter coragem para ser santa. Você tem procurado se preparar para a batalha contemplando a santidade de Deus? Deus nos prepara para a batalha não nos tornando espertalhões, e, sim, prudentes como as serpentes. Note, porém, que uma coisa é ser prudente como uma serpente, outra é tornar-se uma serpente! Deus nos prepara para enfrentar os lobos não nos tornando iguais a eles, mas nos ajudando a manter nossa identidade de ovelha, mesmo quando estamos prestes a ser devorados. Enfim, Deus nos prepara para a batalha não apenas revelando-nos Seu poder que nos torna ousados para guerrear, mas também Sua santidade que nos torna ousados para guerrear de forma santa. Dando-nos a certeza da vitória Diz a Bíblia que Deus virou-se para Josué e lhe disse: “Olha, entreguei na tua mão a Jericó, ao seu rei e aos seus valentes”. Que palavra consoladora! A vitória era certa, e cabia a Josué apenas seguir adiante, ainda confiando na fidelidade divina. Amigo, preste atenção: você já cruzou o rio Jordão, não é hora de querer voltar ao deserto! O Jordão que ficou para trás agora é intransponível. Deus não irá parar novamente as águas caso você queira atravessá-lo na direção contrária. Mas há outra excelente notícia a ser dada: Deus entregou Jericó nas suas mãos! Encontro nesta passagem uma ilustração belíssima sobre o processo de santificação. A vitória já foi dada ao crente que anseia por ser parecido com o seu Salvador. Quando penso nas promessas bíblicas quanto à santificação da Igreja, sou levado a dizer que o que Deus pede de cada um de nós é o mesmo que pediu para o paralítico: “Levante-se, pegue a sua maca e vá para casa” (Lc 5:24). Há um poder divino dentro de nós. O Espírito Santo já habita a “terra da promessa” do nosso coração. Sim, porque o que a Trindade santa decidiu é que o Pai daria um povo para Seu Filho, o Filho assumiria a incumbência de cumprir a lei e morrer por esse povo e o Espírito Santo aplicaria os frutos da obra de Cristo na vida dos eleitos, tomando, assim, o coração do crente para Deus. Tudo o que devemos fazer, portanto, é ser o que somos. Que péssima a ideia de que a Igreja é uma comunidade de gente enferma que se encontra num hospital. Penso que melhor faríamos se disséssemos que a Igreja é o exército do Deus vivo, que a regenerou por Sua graça e enviou Seu Espírito para o coração do Seu povo a fim de que este viva para a glória do Seu santo nome. Viveríamos muito melhor se, em vez de ficarmos com pena de nós mesmos, dizendo que estamos num hospital chamado Igreja, aguardando um dia sermos curados de nossos pecados, tomássemos consciência do que somos e decidíssemos viver como gente que já foi recriada por Deus, resolvendo, assim, largar nossas muletas ou sair da nossa maca, pois o Senhor Jesus já deu a ordem de nos colocarmos de pé. “Levanta e anda!” Como seriamente exorta Martyn Lloyd-Jones: Tratem de compreender o que Deus fez por você e para vocês. Por que esse choro e essa lamúria? Por que vocês falam tanto sobre o mundo, a carne e o diabo? Não sabem que Aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo? De pé! Atenção! Marchem! Portem-se como homens! Nada mais de letargia! Nada dessa fraqueza! Nada de gemido e lamento! Tratem de compreender o que Deus fez por vocês e para vocês, tratem de compreender o que vocês são e o que Deus fez por vocês, e marchem eretos, de cabeça erguida, como aqueles que outrora estavam na carne e que pertenciam às trevas, mas que agora são luzeiros no mundo.48 Não nego que todos os cristãos têm de enfrentar aquilo que a Bíblia chama de carne. Peço, contudo, que você veja o território do seu coração como esta Canaã sobre a qual estamos falando. A promessa já havia sido feita. O território, de certa forma, já estava tomado. Restavam apenas os inimigos que precisavam ser desalojados. O mesmo se dá conosco. O que existe agora são esses inimigos entrincheirados no campo do nosso coração que precisam ser expulsos. A terra, todavia, já é nossa, e o Senhor está a nos dizer: “Podem avançar, pois Jericó, com os seus reis e seus valentes, está em suas mãos!”. Imagine a cena! Josué sem Moisés, seu grande companheiro e líder, olhando para as muralhas de Jericó, certamente pensando: “O que fazer?”. Jericó estava rigorosamente fechada, ninguém entrava nem saía. Josué olha para aquele quadro e ouve Deus dizendo “Eu não quero que tu faças parceria com este povo. Não quero associação nenhuma com esta gente. Eles devem ser desalojados!”. Cristo, por conhecer nossa natureza e saber que somos fracos, tendentes para o mal, propensos à dúvida, revelou-se ao Seu servo como o Príncipe do exército do Senhor, com a espada desembainhada nas mãos, dando-lhe, assim, a certeza da vitória. Esta é a tônica do Cristianismo: revelar ao homem onde o pecado o deixou e para onde a graça o pode levar. O crente é alguém que foi humilhado pela revelação de sua perdição moral e reanimado pela revelação de sua ressurreição espiritual. Trata-se de uma pessoa que se prepara para a guerra sabendo que a vitória é certa. Você crê que pode partir para dentro de Jericó? Você crê que não deve fazer acordo com os cananeus? Tomou conhecimento do fato de que a ordem é para destruí-los? Qual o pecado para o qual você não deve dar trégua? Estaria você capitulando diante de algum quadro difícil de sua vida enquanto Deus está mandando avançar? Pense seriamente nisso. Deixe-me agora entrar na parte final deste capítulo. Quero chamá-lo para ver esta passagem sob outro ângulo. Neste texto, podemos encontrar claramente princípios que regem a vida vitoriosa. A resposta de Josué à revelação de Deus ensina-nos a como nos preparar para a batalha. Eu lhe disse que temos um Deus que nos prepara para a batalha; mas o que nos cabe fazer? PREPARAMO-NOS PARA A BATALHA Quando levantamos os olhos para contemplar Deus Jamais estaremos preparados para a batalha enquanto estivermos olhando para baixo. O texto diz: “Estando Josué ao pé de Jericó, levantou os olhos e olhou”. Que quadro comovente! Ele tirou os olhos das muralhas e os colocou em Deus! Eis o segredo da vitória! Não me canso de dizer que a fé cristã exige o uso de nossa mente. Orar é fundamental, porém se junto com a oração não praticamos o exercício bastante simples de pensar, pouco proveito auferiremos da fé que professamos. Pense na aplicação desta passagem gloriosa. Você está vendo, literalmente, onde está o Príncipe do exército do Senhor em sua vida? Não? Nem eu. Como poderemos, então, tirar proveito desta porção bíblica que estamos estudando? Só vejo uma forma, que é parando para pensar. Estamos diante da necessidade de, em meio às jericós fortificadas da vida, tirar os olhos das muralhas e colocá-los em Deus. Isso porque não precisamos de uma visão literal de Deus com uma espada desembainhada nas mãos para tomar consciência de que o que foi real para Josué é real em nossa vida também. Tudo de que precisamos é, pela fé, contemplar o nosso Deus de pé com Sua espada nua desembainhada nas mãos. Chegou a hora de você erguer os olhos e saber que há uma realidade paralela à realidade da Jericó fortificada.Eu gosto demais da bendita passagem das Escrituras Sagradas de 2 Reis 6:6-15, que diz: Tendo-se levantado muito cedo o moço do homem de Deus e saído, eis que tropas, cavalos e carros haviam cercado a cidade; então o seu moço lhe disse: “Ai! Meu senhor! Que faremos?” Ele respondeu: “Não temas; porque mais são os que estão conosco do que os que estão com eles”. Orou Eliseu, e disse: “Senhor, peço-te que lhe abras os olhos para que veja”. O Senhor abriu os olhos do moço, e ele viu que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo, em redor de Eliseu. Erga os olhos, em nome do Senhor Jesus, e tire-os das muralhas, tire-os dos cananeus, tire-os da dor da tragédia! Pare de olhar para baixo, mas olhe para o alto, para o Deus Soberano que rege todas as coisas pelo poder de Sua palavra! Olhe para Aquele que tem a espada na mão! Onde estão postos os seus olhos agora? No salmo 3 encontramos um belíssimo exemplo sobre o que devemos fazer com nossos olhos: Senhor, como tem crescido o número dos meus adversários! São muitos os que se levantam contra mim. [Será esta a sua experiência?] São muitos os que dizem de mim: “Não há em Deus salvação para ele”. Porém Tu, Senhor, és o meu escudo, és a minha glória, e O que exaltas a minha cabeça. Com a minha voz clamo ao Senhor, e Ele do Seu santo monte me responde. Deito- me e pego no sono; acordo, porque o Senhor me sustenta. Não tenho medo de milhares do povo que tomam posição contra mim de todos os lados. Levanta- Te, Senhor! Salva-me, Deus meu, pois feres nos queixos a todos os meus inimigos, e aos ímpios quebras os dentes. A Palavra de Deus nos ensina a viver dessa maneira: olhando para o alto, para a realidade imutável do Deus soberano que rege o Universo pelo poder da Sua palavra. Portanto, cabe a você preparar-se para a batalha erguendo a cabeça e levantando os olhos. Quando nos aproximamos de Deus O texto deixa claro que Josué respondeu à revelação de Deus aproximando-se Daquele que portava a espada nua desembainhada. Veja o que diz o verso 13: “Estando Josué ao pé de Jericó, levantou os olhos, e olhou: eis que se achava em pé diante dele um Homem que trazia na mão uma espada nua. Chegou-se Josué a Ele”. Até aquele momento, segundo a Bíblia, Josué estava tão somente diante de um mistério. “És Tu dos nossos ou dos nossos adversários?”, ao que seu Deus lhe respondeu: “Não; sou príncipe do exército do Senhor e acabo de chegar”. Não são poucas as ocasiões em que vivemos situações análogas a esta. Confundimos Deus com nossos adversários. Diz a Bíblia que no mar da Galileia os discípulos confundiram o Senhor Jesus com um fantasma (Mt 14-26), e aqui Josué não sabe se estava diante de um aliado ou diante de um adversário. Isso nos remete para a necessidade de pedirmos a Deus discernimento espiritual a fim de que, prontamente, diante da mais leve manifestação da Sua presença, percebamos Sua maravilhosa companhia. Como Josué pôde discernir que estava diante de Deus e não diante de um adversário? Primeiro, Josué se aproximou. Fica aqui a preciosa lição: mesmo quando estamos confusos, a mais tímida aproximação da Sua santa presença produz em nós benefícios incalculáveis. Em segundo lugar, Josué fez uma pergunta. Somos uma geração que se recusa a pensar, que não faz perguntas à vida. Lá estava Josué a perguntar: “O que estou vendo?”. Foi somente mediante o diálogo que Josué descobriu que estava diante do Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Isso aconteceu porque o diálogo sincero estabeleceu a possibilidade de ouvir a voz de Deus – desse modo, cumpriu-se com Josué o que o Bom pastor Senhor Jesus afirmou: que Suas ovelhas ouvem Sua voz (Jo 10:27). Note que a visão não foi suficiente para que Josué soubesse que estava diante de Deus; foi necessário também que ouvisse a voz do seu Criador. Chegamos assim à conclusão de que Deus é sempre encontrado por quem O procura com sinceridade. A nós cabe aproximar-nos Dele, fazer perguntas, aguardar respostas para que a presença do Deus fiel seja discernida neste mundo onde o pecado obscureceu nossa visão do Criador. Oh! Se mais teólogos fizessem teologia desse modo: aproximando-se do mistério com coração sincero, fazendo perguntas honestas e esperando respostas honestas. Como diz Charles Hodge, ao falar para estudantes de teologia: “Lembre-se de que é apenas na luz de Deus que você pode ver a luz. Que santidade é essencial para o conhecimento correto das coisas divinas, e grande segurança contra o erro. E como você pode ver que, quando os homens perdem a vida da religião, podem vir a crer nas mais monstruosas doutrinas”.49 Fico a pensar na importância de testarmos os espíritos e, mediante sábia inquirição, nos certificar de que Deus, de fato, está envolvido em nossas batalhas, recebendo desse modo a certeza de que a nós cabe tão somente seguir adiante. Quando adoramos a Deus O Senhor revelou-se ao Seu servo Josué, e este caiu por terra e O adorou dizendo: “Que diz meu Senhor ao Seu servo?”. Aqui vemos a essência do culto a Deus, a qual consiste em respondermos a Sua revelação com adoração e interesse real em saber qual é a Sua vontade. Aí está a melhor forma de iniciarmos nossas orações: adorando. Muitas vezes começamos com nossos problemas e acabamos saindo da oração piores de que quando começamos com ela. Que diferença faria se começássemos a orar apenas considerando diante de Quem estamos e respondendo à certeza da Presença divina com adoração. Antes de começar a orar, pense um pouco nas seguintes questões: Quem é este diante de Quem me aproximo? O que Ele promete para os que O buscam? O que represento para Ele? Que são meus adversários diante Dele? Quando adoramos, passamos a ver nossos problemas na perspectiva correta. Mostre-me um crente que começa sua oração com adoração e eu lhe mostrarei um crente que não se levantará pior do que quando se prostrou para orar. Em tempos de aflição, devemos começar a orar como o salmo 121. Não comece com seus problemas, mas comece com reflexão. Procure responder à pergunta que diz respeito ao que pode lhe dar esperança. Aqui está uma boa questão: “De onde me virá o socorro?”. Veja a resposta que este homem formulou: O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a Terra. Ele não permitirá que os teus pés vacilem, não dormitará Aquele que te guarda. É certo que não dormitará Aquele que te guarda. É certo que não dormita nem dorme o guarda de Israel. O Senhor é Quem te guarda; o Senhor é a tua sombra à tua direita. De dia não te molestará o sol nem de noite a lua. O Senhor te guardará de todo mal; guardará a tua alma. O Senhor guardará a tua saída e a tua entrada, desde agora e para sempre. Quando procuramos ouvir a voz de Deus Eu gosto demais desta pergunta feita por Josué: “Que diz meu Senhor ao Seu servo?”. Que pergunta extraordinária! Josué não começou se lamentando. Não havia mais o que lamentar. A visão já fora recebida, a palavra ouvida, a certeza da vitória dada. Não era mais hora para falar de problemas, mas de saber qual era a vontade de Deus. O crente verdadeiro é alguém que já se certificou da presença santa do Deus que porta uma espada nua desembainhada e que, por isso, está mais preocupado em saber qual a vontade de Deus para sua vida do que qual o tamanho da muralha que terá de enfrentar. Aí está o segredo dessa vida abençoada, próspera, ungida e rica: é você pegar o problema, analisá-lo, encará-lo, dissecá-lo e dizer: “Aqui está o problema. Agora, como vê-lo à luz das Sagradas Escrituras? Senhor, o que Tu tens a dizer sobre esta situação?”. O que fazer, então? Não nos concentrarmos no problema, mas na busca da direção divina. Posso entender a pergunta de Josué. Quem já se viu frente a frente com Deus não tem mais nada na vida como maravilhoso. Lá estavam as muralhas, mas o mais importante era saber a vontade do Criador. E a resposta foi surpreendentemente espantosa, pois não tinha nenhuma relação direta com Jericó, mas com a santidade de Deus. “Que diz meu Senhor ao Seu servo? Sou santo e santifico este lugar”. Que implicação uma passagem como estatem para a Igreja evangélica brasileira? Quantas pessoas na Igreja evangélica brasileira estão preocupadas com estratégias de crescimento numérico e pouco preocupadas em saber como abrir os olhos da nação para o evangelho – abri-los a partir da ação de um povo que não precise marchar pelas ruas para mostrar a presença evangélica no país, mas que faz isso trazendo os valores do Reino de modo subversivo e sem estardalhaço. O estrondo que devemos provocar é o do edifício da impiedade ao ruir por causa do abalo de sua fundação, fruto do trabalho subvertedor de uma Igreja que, por meio da pregação e do testemunho, soube trazer o reino de Deus para uma nação. Quando obedecemos a Deus O texto registra que o Senhor virou-se para Josué e lhe disse: “Descalça a sandália de teus pés, porque o lugar em que estás é santo, e Josué assim fez”. A palavra fidelidade é a que mais está subentendida no livro de Josué. Nele encontramos um Deus fiel, porém encontramos um homem fiel também. Se a fidelidade de Deus nos é apresentada de uma maneira que nos emociona, a fidelidade de Josué a Deus nos é apresentada de uma forma que nos desafia. A prontidão de Josué em obedecer a Deus é o que de mais belo aprendemos com sua vida. Mais impressionante do que sua coragem é sua capacidade de submeter-se à vontade de Deus. Note que a decisão imediata de tirar as sandálias foi precedida de inúmeras decisões de cumprir toda a direção divina, como também seguida de tantos outros gestos de fidelidade que culminaram na mais famosa declaração que saiu dos lábios de Josué: “Se, porém, não lhes agrada servir ao Senhor, escolham hoje a quem irão servir, se aos deuses que os seus antepassados serviram além do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra vocês estão vivendo. Mas eu e a minha família serviremos ao Senhor” (24:15). E você, já tirou a sandália dos pés? Já se deu conta de que a presença de Deus santifica até mesmo o pó? Que suas obras não são suficientes para recomendá-lo diante de Deus? Você é humilde de espírito? Compreende que o pó do deserto tem de ser tirado dos seus pés já que você está na terra da promessa, na vida que o Deus santo designou-lhe para viver? Sua obediência às exigências da santidade de Deus é imediata? Concluindo, aqui vemos um Deus que nos estimula a prosseguir. Que deseja que levemos adiante as decisões que tomamos. Cruzamos o Jordão! Entramos na vida cristã! Não podemos voltar atrás. Casamos, fizemos uma aliança com alguém, com quem firmamos um pacto diante do altar de Deus. Algo ficou para trás. Alguns estão vivendo essa realidade no campo profissional. Um Jordão já foi cruzado, mas agora é tempo de prosseguir. O Jordão ficou para trás e os adversários, entrincheirados, estão adiante de nós; contudo, o Príncipe dos exércitos do Senhor está conosco. Portanto, levantemos os olhos, aproximemo-nos Dele, procuremos conhecer Sua vontade. Prestemos culto de adoração a Ele, ouçamos Sua voz, obedeçamos à Sua vontade e dirijamo-nos para Jericó, porque as muralhas haverão de desmoronar, em nome do Príncipe do exército do Senhor! V A FÉ QUE FAZ MURALHAS RUÍREM “Pela fé caíram os muros de Jericó, depois de serem rodeados durante sete dias.” (Hb 11:30) Que maravilhosa declaração é esta: pela fé, ruíram as muralhas de Jericó! O capítulo 11 da carta aos Hebreus nos apresenta uma visão bastante clara da fé bíblica e de suas consequências para nossa vida. No primeiro versículo, o autor afirma que “a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem”. Após a apresentação da definição, ele passa a apresentar uma série de exemplos dessa fé que é “certeza” e “convicção”. Entre muitos exemplos do passado, de pessoas que realizaram proezas para a glória de Deus, encontramos a menção do episódio de Jericó. A Bíblia afirma que foi pela fé que aquelas muralhas caíram. Com essa menção, a Palavra de Deus quer nos ensinar que, no acontecimento da queda das muralhas de Jericó, houve uma extraordinária manifestação da genuína fé e nele ficaram patentes seus efeitos. A fé verdadeira, bíblica e fruto da ação do Espírito Santo no coração do pecador, não é algo que produz meros efeitos psicológicos no que a possui; antes, ela deve ser aplicada à vida, possibilitando àquele que crê destruir muralhas. Mas como é e como ter essa fé? Certamente há, na sua e na minha vida, muitas muralhas que precisam desabar. Já vimos a vida comparada ao Jordão que precisa ser transposto, ou seja, o obstáculo que precisa ser vencido. Agora, veremos a etapa da vida que corresponde à experiência com as muralhas que, pela fé, precisam ruir. A FÉ QUE FAZ MURALHAS RUÍREM Tem como alicerce a palavra de Deus Esta é a fé bíblica: a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem. Hoje, infelizmente, temos ouvido muitos conceitos errôneos e distorcidos sobre a fé. Por isso, creio que seja importante começarmos dizendo o que a fé bíblica não é, para depois podermos definir o que é a fé conforme encontramos nas Escrituras Sagradas. A fé bíblica não é fé na fé. Hoje, há uma euforia popular e científica com a fé. Muitos são os relatórios e pesquisas que dizem que aqueles que creem são mais felizes, curam-se mais rapidamente, vivem mais tempo. No entanto, a Bíblia não dá base à teoria de que o simples fato de as pessoas terem qualquer tipo de fé lhes garantirá que as coisas inevitavelmente sairão bem. Afirmo que tal atitude perante a vida é absurda, assim como absurda é a ideia de que, não importando o medicamento que o paciente use para tratar sua doença, desde que este tome alguma coisa ficará curado. Sabemos do efeito placebo, mas é impossível sobreviver de placebo. Não concordamos com a afirmação de que, pelo simples fato de o homem crer em algumas coisas, elas, inevitavelmente, acontecerão. Qualquer tipo de fé pode fazer com que as pessoas, em certo sentido, vivam melhor. Mas isso não é fé bíblica, a fé salvadora. A fé cristã baseia-se na existência objetiva do Deus que se revelou ao Seu povo por meio de Sua Palavra infalível e inspirada por Seu Espírito. A fé bíblica não é mero sentimento. Deixe-me dar um exemplo desse outro tipo de fé. Um crente, numa sexta-feira à noite, “sente” a vontade de comprar um carro novo e dá, como entrada, um cheque sem fundos, pois “sentiu” que, na segunda-feira seguinte, o anjo do Senhor faria um depósito em sua conta para cobrir a despesa feita. Isso é sentimento, é imaginação, é irresponsabilidade! A fé bíblica não é mero sentimento. Ter fé não é pular do pináculo do templo porque “sentiu” que deveria fazer isso. Já alertamos contra o perigo do sintoísmo. O sintoísmo é a decisão de se fazer coisas em nome de uma fé que se baseia tão somente em sentimentos. Cuidado com a expressão, aparentemente tão espiritual: “Senti de Deus”! O coração do homem é enganoso e Satanás, que sempre “veleja de acordo com o vento”50, pode estar usando essa concepção errônea de fé para jogar você de um alto precipício. A fé bíblica é agir com base na Palavra de Deus. Josué e o povo de Israel agiram assim. Isso fica evidente em Josué 6:2: “Então disse o Senhor a Josué: ‘Olha, entreguei na tua mão a Jericó, ao seu rei e aos seus valentes’”. Outro exemplo notável dessa fé pode ser encontrado no Evangelho de Lucas, capítulo 5. Nesse relato, encontramos o carpinteiro Jesus orientando o pescador Pedro sobre como este deveria fazer sua pescaria. Pedro havia trabalhado a noite inteira, sem obter resultado algum. Chega o dia, o sol nasce, e eis o Senhor Jesus na praia do mar da Galileia, dirigindo-se a Pedro: “Lança as tuas redes de volta ao mar!” Pedro poderia ter respondido: “Tu és carpinteiro, eu sou pescador; quem entende deste assunto sou eu!” Mas essa não foi sua resposta; Pedro virou-se para o Senhor Jesus e respondeu: “Havendo trabalhado no melhor horário do dia, nada apanhamos, mas sob a Tua palavra lançaremos as redes”. Calvino diz que não há fé sem a palavra de Deus. “A fé não está firmemente fundada sobre qualquer coisa exceto na Palavra de Deussomente, para preveni-la de ser abalada ou derrotada por qualquer tipo de engano.”51 A fé, segundo ele, sustentada pelas promessas, eleva-nos acima do mundo52. Você tem agido tendo como base a Palavra de Deus? Você sabe quais são as promessas de Deus para a sua vida? Você tem tomado decisões baseando-se nessas promessas ou em seus inconstantes sentimentos? A fé que derruba muralhas tem como imutável e imprescindível alicerce a Palavra de Deus! Submete-se inteiramente à vontade revelada de Deus Em Josué 6, encontramos o Senhor fazendo uma comunicação clara e objetiva ao Seu povo: “Marche uma vez ao redor da cidade, com todos os homens armados. Faça isso durante seis dias” (v. 3). A cidade, com tudo o que nela existe, será consagrada ao Senhor para destruição. Somente a prostituta Raabe e todos os que estão com ela em sua casa serão poupados, pois ela escondeu os espiões que enviamos. Mas fiquem longe das coisas consagradas, não se apossem de nenhuma delas, para que não sejam destruídos. Do contrário trarão destruição e desgraça ao acampamento de Israel. Toda a prata, todo o ouro e todos os utensílios de bronze e de ferro são sagrados e pertencem ao Senhor e deverão ser levados para o seu tesouro (3:17-19). Primeiro, o Senhor fez ao povo de Israel uma promessa, quando lhe disse: “Vocês conquistarão a cidade de Jericó”. O povo, então, agiu com base nessa promessa. Entretanto, a palavra de Deus não se resumiu à entrega da promessa, mas Ele também revelou ao povo uma estratégia que deveria ser observada para que houvesse a conquista daquela cidade. Portanto, a verdadeira fé sempre age dentro dos parâmetros da palavra revelada de Deus. Ela age com base nas suas promessas e não foge dos padrões absolutos estabelecidos por Deus. É necessário tanto se ter a fé que sabe que Deus tem poder para remover montanhas como a fé que sabe que, por mais absurda que nossa fidelidade à Sua Palavra nos pareça, Ele é poderoso também para, por meio dela, cumprir Sua vontade em nossa vida. Como afirma George Macdonald: “A fé que remove montanhas é aquela confiança em Deus que vem da busca de nada exceto Sua vontade”.53 Em outra sentença, o mesmo autor nos fala um pouco mais sobre esta fé que se expressa, acima de tudo, pela obediência: “Fé em quê? Fé no que Ele é, no que Ele fala, uma fé que não pode ter existência exceto na obediência, uma fé que é obediente”.54 O povo necessitava de fé. Mas de uma fé que precisava vir acompanhada de dois ingredientes: a capacidade de crer nas promessas e a capacidade de submeter-se à vontade de Deus –, por mais absurda que ela parecesse aos olhos do homem. Que encontramos em Josué 6? Eis ali o Senhor dizendo ao povo de Israel: “Invadam Jericó!”. Muitas vezes, essa ordem irrompe em nossa vida também. Pode haver em algum lugar de nossa existência um inimigo entrincheirado, que se nega terminantemente a sair; então, ouvimos o Senhor dizer: “Esta terra é sua! Não quero que você faça um acordo de paz com o adversário – ele precisa ser expulso!”. E como se opera a expulsão? Pela fé. Portanto, há uma extrema necessidade de termos esse tipo de fé. Contudo, precisamos também ter fé para submeter-nos aos meios estabelecidos por Deus. Analise a situação do povo, diante das muralhas de Jericó. Suas perguntas, provavelmente, eram: “Senhor, o que fazer? Que tipo de arma devemos usar para destruir essas enormes muralhas?”. A surpreendente resposta do Senhor foi: “Organizem uma procissão. Os guerreiros vão armados na frente, depois quero os sacerdotes tocando as trombetas sem parar, com a arca da aliança no meio deles. E, durante sete dias, eles darão voltas em torno da cidade de Jericó. Nos seis primeiros dias darão uma volta, mas no sétimo darão sete voltas. Na sétima volta, alguma coisa acontecerá”. Amigo, pense bem: humanamente falando, faz algum sentido uma estratégia como essa? Jamais o escritor da Carta aos Hebreus diria que “pela fé ruíram as muralhas de Jericó” se não houvesse a constatação de que foi pela fé que o povo de Israel submeteu-se àquela proposta absurda, completamente sem sentido do ponto de vista do homem. Josué e o povo de Israel creram tanto na queda da muralha quanto na eficácia do meio estabelecido por Deus. Não é assim em nossa vida? Por vezes, não nos vemos em situações difíceis, colocadas diante de nós por nosso inimigo, que se ri de nossa impotência e “ingenuidade” em relação às ordens de Deus? Mas será que não chegou a hora de você submeter-se aos “absurdos” da Palavra de Deus? À maneira absurda, por exemplo, da Palavra de Deus de conduzir você para a felicidade, que ensina a viver oferecendo o outro lado da face, caminhando a segunda milha com o inimigo, chorando pelos seus pecados, sendo humilde de espírito, vivendo em mansidão, abrindo mão de seus direitos por causa da glória de Deus? Será que não chegou a hora de você se submeter aos absurdos da Palavra de Deus a fim de resolver certos problemas em sua vida? Pense, por exemplo, na questão de seu sustento diário. Qual é a recomendação bíblica? É a da pior matemática possível: você dá e o que tem é multiplicado. Onde você encontra no mundo esse tipo de coisa? Por que Deus fez aquele pedido absurdo ao povo, das sete voltas em torno das muralhas? Por que Deus faz pedidos que nos parecem sem sentido? Seu objetivo único é nos ensinar a caminhar em humildade, compreendendo que as muralhas em nossa vida serão destruídas, não por nossa engenhosidade, mas pelo poder do Deus que está sempre com a espada desembainhada e nua a guerrear por aqueles que se submetem aos Seus loucos conselhos. Concordo com Calvino quando ele diz que um dos principais elementos que pertencem à fé é não dar um passo exceto se a Palavra de Deus nos mostrar o caminho.55 Ele diz mais: “É a peculiar virtude da fé que nós devemos solicitamente ser tolos a fim de podermos aprender a ser sábios apenas por meio da boca de Deus”.56 Não há irmãos que são considerados ingênuos na administração de seus negócios como resultado de seu temor ao Senhor? Não somos nós, cristãos, considerados pelos ímpios como pobres inocentes? (Embora, hoje, muitos estejam querendo aprender a ganhar dinheiro por meio da religião com pastores)? Mais uma vez gostaria de citar George MacDonald numa das frases mais desafiadoras que ouvi em toda a minha vida: “A fé, em sua forma mais simples, verdadeira e poderosa, é fazer a vontade de Deus naquela única coisa que, no momento, se nos apresenta como dever. A fé que opera milagres é inferior a esta”.57 Ele diria que é mais fácil crer que o Pão de Açúcar pode ser transportado para o meio da Baía de Guanabara do que crer que não precisamos mentir para que negócios deem certo, do que crer que necessitamos de um harém para sermos realizados afetivamente ou de que precisamos esmagar pessoas para termos sucesso profissional. A fé que opera milagres é inferior a esta. A fé verdadeira, profunda e bíblica é aquela que faz você, naquele exato ponto em que Deus revela Sua vontade, tomar a decisão que se harmoniza à vontade divina revelada. Para mim, é justamente por isso que o escritor da Carta aos Hebreus diz que, pela fé, ruíram as muralhas de Jericó: o povo de Israel não apenas partiu crendo na vitória, com também partiu crendo num meio absurdo para alcançá-la, porém estabelecido por Deus. Eu lhe pergunto, irmão e companheiro de luta: sua fé é desse tipo? Você crê que a Cordilheira dos Andes pode, pelo poder de Deus, ir parar no Oceano Pacífico? Eu creio que sim. Deus é poderoso. Ele criou os céus e a Terra usando o nada como matéria-prima; portanto, o que será para Ele mover uma montanha? Agora, você crê que não precisa pecar para ser feliz? Você crê que, por mais custosa que a obediência seja, ela, por fim, haverá de levá-lo a encontrar vida plena? Essa é a fé bíblica! É aquela que é capaz de esperar o tempo de Deus Por que o povo de Israel precisou de sete dias de espera? Por que o Senhor não derrubou aquelas muralhas logo no primeiro dia? Nesse caso específico, podemos apenas conjecturar. Alguns até argumentamque foram sete dias de espera para se estabelecer uma relação com os sete dias da criação do mundo, representando, assim, a revelação de uma nova criação de Deus. Como em sete dias (seis de trabalho e um de descanso), a partir do nada, uma ação de Deus no Universo criou os céus e a Terra, do mesmo modo, começando em Canaã, a partir da destruição das muralhas haveria a criação de um novo povo que receberia uma nova terra. Talvez seja isso. Mas a lição que quero extrair de tal episódio é esta: Deus, em Sua soberania, determina o tempo de Sua ação. A fé que derruba muralhas sabe esperar com paciência. Deus lhes disse: “Vocês terão de esperar por sete dias!”. Talvez você esteja pensando: “Mas os sete dias não são estes sete anos durante os quais espero minha bênção, pastor!”. A Bíblia afirma que tudo tem o seu tempo determinado para acontecer. Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar, tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter, tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de lançar fora, tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz. (Ec 3:1-8) Por que devemos saber esperar? Devemos saber esperar porque Deus é soberano. Ele reina, e a nós cabe submeter-nos inteiramente à Sua vontade soberana que, na maioria das vezes, nos é inescrutável. Aí está uma das características da ação de Deus na história que, muitas vezes, nos faz tropeçar, pois Seus caminhos nos são incompreensíveis. Sendo Deus Alguém que parece não se importar em fazer coisas que não conseguimos entender, feliz aquele que já tomou duas importantes decisões. A primeira é: viver com uma fé implícita na bondade divina. Ou seja, lidar com os fatos da vida tendo de antemão a certeza de que, aconteça o que acontecer, Deus é bom. Ele nos provou isso cabalmente na cruz do Calvário. A segunda decisão é a de desistir de compreender tudo o que acontece debaixo do sol. Ninguém está mais fadado a um esgotamento espiritual do que aquele que resolver encontrar uma resposta específica para tudo o que acontece. A nós nos cabe dizer: “Mesmo não florescendo a figueira, não havendo uvas nas videiras; mesmo falhando a safra de azeitonas, não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral nem bois nos estábulos, ainda assim eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação” (Hc 3:17-18). Devemos aprender a esperar porque, muitas vezes, não estamos preparados para receber o que desejamos. Podemos dizer também que, comumente, não estamos preparados para a bênção, o que faz necessário um tempo de espera. Precisamos saber esperar nossos “sete dias”, pois este será o tempo no qual seremos preparados pelo Espírito Santo para não destruirmos o que Deus amorosamente ao longo dos anos tem preparado para mim e para você. Quantos ministros estariam hoje destruídos, caso Deus os tivesse levantado mais cedo, em face da falta de estrutura deles para lidar com o crescimento ministerial! Por isso, a nós, ministros do Senhor, nos cabe, nos dias dos humildes começos, aprofundar o ministério e deixar nas mãos de Deus o tempo em que Ele mesmo haverá de realizar antigos sonhos e permitir-nos ter sucesso. Devemos saber esperar porque Deus costuma usar a espera para nossa santificação. É normalmente nesse tempo de espera que jejuamos, oramos, nos humilhamos e tomamos consciência de nossa absoluta dependência de Deus. É por isso que o Salmo 27 conclui dizendo: “Espera pelo Senhor, tem bom ânimo e fortifique-se o teu coração; espera, pois, pelo Senhor”. Você tem sabido esperar? Compreende que é tanto uma grande expressão de fé como também uma prova para a fé aguardar no Senhor? Eu tenho enorme dificuldade em esperar, especialmente nos assuntos que dizem respeito à Igreja. Em muitas ocasiões fico com a impressão de que o relógio de Deus anda atrasado e, inúmeras vezes, vejo Deus me levando a desacelerar. Que maravilha, contudo, é para nós perceber que Deus não atendeu diversas das nossas orações no prazo que Lhe estabelecemos. Onde estaríamos se Deus tivesse atendido a tudo que Lhe pedimos? O tempo de espera foi usado para nossa santificação e revelou que, se Deus nos houvesse atendido, não teríamos tido maturidade para lidar com a bênção tão ansiada. Harmoniza a ação do homem com a ação de Deus “E será que, tocando-se longamente a trombeta de carneiro, ouvindo vós o sonido dela, todo o povo gritará com grande grita: o muro da cidade cairá abaixo, e o povo subirá nele, cada qual em frente de si.” As muralhas caíram pela ação do exército invisível de Deus; contudo, o povo de Israel teve de enfrentar o adversário. A fé bíblica nos impulsiona para a ação, na certeza inabalável de que, ao enfrentar o adversário, não estaremos sozinhos. Foi isso o que o Senhor disse a Josué: “Não to mandei Eu? Não temas nem te espantes, porque o Senhor teu Deus é contigo por onde quer que andares”. Deus derrubou as muralhas, mas cabia ao povo agir. Fico a pensar se não estou escrevendo para pessoas cujas muralhas na vida já caíram, e tudo o que precisam fazer é passar por sobre os muros já desmoronados para enfrentar o inimigo. Quem sabe o Senhor não está aí dizendo-lhe que está na hora de passar por sobre os escombros para enfrentar seus adversários, pois a vitória é certa, haja vista o fato de o caminho já estar desimpedido? Para a queda das muralhas o povo teve apenas de cercar a cidade, tocar as trombetas e gritar; contudo, para derrotar o exército adversário, teve de lutar valentemente. Precisamos aprender a conviver com o duplo milagre de Deus. Primeiro, o milagre que nos faz esperar somente pela ação de Deus a fim de que Ele faça o que não podemos fazer. Depois, precisamos do milagre que nos faz crer que, ao enfrentar o adversário que é mais forte do que nós, Deus haverá de nos revestir de forças. Devemos viver na força desse tipo de fé, aprendendo a hora em que nos cabe somente orar, isto é, ganhar usando somente a fala. Amigo, não sei se você já viveu essa situação, mas há horas em que parece que, se movermos uma palha, estaremos lançando tudo por terra. Você já passou por isso? Momentos em que não temos o que fazer. Somente esperar as muralhas caírem. Ou seja, são as horas em que a luta é estritamente espiritual. Contudo, precisamos harmonizar essa verdade com a convicção de que, muitas vezes, o milagre acontece quando estabelecemos uma parceria com Deus. Quando percebemos que deixar de agir é covardia e que a nós cabe apenas chamar o Senhor dos exércitos para guerrear ao nosso lado. Você já aprendeu a contar com o duplo milagre de Deus? O milagre que prescinde de meios e o milagre que usa os meios estabelecidos pelo Criador? A vida cristã requer equilíbrio, e tudo que o adversário de nossa alma faz é tentar nos levar para extremos. Se queremos a fé proclamada por Hebreus 11, devemos aprender a agir pela fé quando não há meio algum, a não ser a própria fé, e usar os recursos que a graça disponibilizou para a obtenção da vitória. Sabe que a vitória vem de Deus “E sucedeu que, na sétima vez, quando os sacerdotes tocavam as trombetas, disse Josué ao povo: ‘Gritai, porque o Senhor vos entregou a cidade’.” As muralhas ainda não haviam caído, e Josué já podia dizer ao povo: “O Senhor vos entregou a cidade!”. Josué sabia que, inevitavelmente, as muralhas ruiriam, pois Deus sempre honra os que O honram. Este é outro elemento fundamental da fé que derruba muralhas: saber que a vitória vem de Deus. Josué, de antemão, já declarava a vitória, pois “a fé é a certeza das coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem”. E isso é assim por ter como base a Palavra do Deus. Essa é uma fé tanto retrospectiva quanto prospectiva.Faz aquele que a possui olhar para trás, para o que Deus falou, como também olhar para frente, para o que Deus fará. Essa fé gera tamanha concretude da realização de certas coisas no futuro que o homem que crê é levado a falar sobre o futuro usando palavras no pretérito. Assim como disse Josué: “O Senhor vos entregou a cidade” – antes de isso ter ocorrido. Certamente há muitas muralhas em nossa vida que precisam cair. Pela fé, elas podem ruir tal como aconteceu em Jericó. Pense: onde o inimigo se alojou em sua vida? Será que você não está tentando estabelecer uma aliança com ele? Está você já acostumado a ver a ação do inimigo no seu casamento, em seu ministério ou na sua relação com Deus – e você nada faz, pensando que “é assim mesmo que as coisas são”? A ordem foi para o povo varrer Jericó do mapa. Aquelas muralhas deveriam cair, e ao povo cabia derrotar o adversário. Israel não podia ter a mínima disposição de estabelecer relação com os cananeus. Parece-me que, muitas vezes, nos acostumamos com a presença do adversário. Olhamos para nossa fraquezas morais, para certos hábitos que precisam ser desarraigados de nosso coração, para a presença de problemas que estão minando nossa vida conjugal, e dizemos: “Preciso contentar-me, afinal, nesta vida nada é perfeito...”. Será que não estamos precisando tocar as trombetas em sinal de alerta? Precisamos nos armar e gritar: “Senhor, não vou permitir que, na geografia da bênção que reservaste para mim, o inimigo esteja ocupando um território que não é dele!”. Em nome do Senhor Jesus, creia que as muralhas podem cair e o inimigo pode ser desalojado. Para isso, no entanto, é absolutamente necessário que você tenha, como alicerce para sua fé, a Palavra de Deus, submetendo-se inteiramente à vontade divina nela revelada, sabendo esperar o tempo de Deus, harmonizando sua ação com a ação de Deus e crendo que a vitória vem Dele. Ouço ruído de muralhas caindo? VI A DERROTA E SEUS EFEITOS “Por isso os israelitas não conseguem resistir aos inimigos; fogem deles porque se tornaram merecedores da sua destruição. Não estarei mais com vocês, se não destruírem do meio de vocês o que foi consagrado à destruição.” ( Js 7:12 ) Quem lê os capítulos iniciais do livro de Josué é tomado pela esperança que só a Bíblia pode dar. Pela fé, à luz do que vimos até agora, obstáculos podem ser vencidos, muralhas podem ser derrubadas e inimigos, derrotados. Como precisamos crer nessas coisas, num mundo conturbado como o nosso! Aguardamos o céu, mas temos sonhos legítimos, por cuja realização ansiamos, e o Antigo Testamento foi escrito para nosso consolo, a fim de nos estimular ao exercício da fé. Isso fica claro em Hebreus 11:30, texto que já mencionamos: “Pela fé ruíram as muralhas de Jericó”. O Antigo Testamento inteiro aponta para esta realidade: o Deus verdadeiro, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, é um Deus vivo, um Deus que ouve orações. Por isso, pela fé, proezas podem ser feitas em Seu nome e para Sua glória. Contudo, o Antigo Testamento foi escrito também para nossa advertência. O apóstolo Paulo deixa isso muito claro na Primeira Carta aos Coríntios 10:1-11, quando diz que, se incorrermos nas mesmas faltas em que incorreram os judeus no passado, vamos receber o mesmo juízo que eles receberam naqueles dias. Portanto, podemos considerar o capítulo 7 de Josué como um texto de advertência. Ali temos o relato da primeira derrota do povo de Israel em Canaã, e creio que essa história foi registrada nas páginas das Escrituras Sagradas para que sejamos por ela alertados. O que Josué 7 tem a nos ensinar? Penso que esse capítulo revela, antes de mais nada, a santidade de Deus. Terrível coisa é, à luz dessa passagem, servir a um Deus santo. Por quê? Porque o Deus santo é um Deus fiel que exige fidelidade do Seu povo. Sendo assim, em Sua santidade, Ele não dá qualquer garantia ao Seu povo de que este sairá incólume da batalha quando não for fiel à aliança feita com o seu Deus. Mas com essa verdade, encontramos também nesse texto uma mensagem de esperança – e até nisso os filhos de Deus têm vantagem sobre os incrédulos: por mais duras que sejam as dores provenientes da derrota, Deus pode usá-las para transformar a vida dos seus eleitos. Há aquilo que poderíamos chamar de graça reprocessadora. O Deus dos cristãos pode transformar o lixo de suas vidas em adubo para a fé. Não foi depois de terem traído José que seus irmãos vieram a ser por ele sustentados? Não foi do casamento com Batseba com quem cometera adultério que Davi teve seu filho Salomão? Não foi depois de ter negado seu Salvador que o apóstolo Pedro descobriu quanto o Senhor Jesus o amava de modo especial? Todos estes não deixaram de sofrer as consequências dos seus erros: os irmão de José, a culpa; Davi, a perda do primeiro filho, Pedro, as lágrimas de arrependimento, mas na vida de todos a disciplina de Deus foi seguida pela sua misericórdia que tirou do mal o bem. A vida de sucesso não tem como característica vencer sempre. Não vemos nas Escrituras os servos de Deus vencendo sempre, e as próprias passagens doutrinárias, por causa do que falam sobre a natureza do crente, nos levam a esperar uma vida onde derrota é algo possível. Nenhum crente é apresentado na Bíblia como obra acabada. Na vida do verdadeiro crente, entretanto, as derrotas não apontam para o fim. Ele pode se levantar delas. Saber o que fazer com as derrotas é fundamental. No capítulo magistral intitulado “As Crises de Desânimo do Ministro” do seu famoso livro Lições aos meus alunos, o grande Charles Spurgeon afirma: Mediante todos os tombos dos Seus servos, Deus é glorificado, pois eles são levados a engrandecê-Lo quando Ele os coloca a Seus pés, e precisamente quando prostrados no pó, sua fé Lhe rende louvor. Falam com o maior dulçor da Sua fidelidade e ficam firmados com a maior solidez em Seu amor. Homens amadurecidos assim, como são alguns idosos pregadores, dificilmente ter-se-iam produzido se não tivessem sido esvaziados vaso a vaso, e não tivessem sido levados a ver sua própria vacuidade e a vaidade de todas as coisas que os cercam.58 Você sofreu alguma derrota no casamento? Sofreu alguma derrota no seu ministério? Está passando por uma terrível derrota na sua vida profissional? O que fazer após a derrota? O QUE FAZER NA DERROTA: COMPREENDER A RESPOSTA EMOCIONAL COMUM QUE O CRENTE COSTUMA DAR PARA ELA O coração do crente se derrete “... e o coração do povo se derreteu e se tornou como água.” À luz do capítulo 7 de Josué, podemos dizer, sem medo de errar, que precisamos, após a derrota, compreender a resposta emocional comum que o crente costuma dar a ela. O que ocorre no coração do crente após o fracasso pessoal? Seu coração se derrete. O verso 5 diz: “E o coração do povo se tornou como água”. A comparação feita nos ajuda a ter uma ideia do que ocorreu: o coração, anteriormente firme e corajoso em Deus, se tornou agora completamente enfraquecido e cheio de medo. Você já passou por algo semelhante? O seu coração já se tornou como água? Pois foi exatamente essa a experiência do povo de Israel: um completo desencorajamento. As pernas tremeram, a mente se alvoroçou, o coração entrou em estado de desassossego. Foi algo profundamente fragilizador. A esposa de Spurgeon conta que a tragédia que houve no Music Hall – quando, num tumulto, sete pessoas morreram por causa de um falso alarme de incêndio, bem na hora do culto – o abalou de tal maneira que ela julgou que ele jamais pregaria de novo. Ele se recusava a ser consolado. “Quando meu amado foi trazido para casa, aparentava ser a ruína da sua antiga pessoa. Uma hora de agonia mental tinha mudado completamente sua aparência e comportamento. A noite que se seguiu foi de choro, lamentação e indescritível tristeza.”59 Billy Graham, numa entrevista a Larry King, disse que o escândalo de Watergate, que atingiu em cheio seu amigo, o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, o deixou doente por dentro. A igreja de Jonathan Edwards certa vez desabou, o que o levou a dizer:“A casa ficou cheia de gritos dolorosos e choro, e não se esperava mais nada a não ser muitas pessoas mortas e cortadas em pedaços”.60 Por que quando é derrotado, o crente, normalmente, cai em desencorajamento? “Pelo fato de ser humano” é uma boa resposta, mas acontece também de o crente, em derrotas dessa natureza, atribuir a causa do fracasso a Deus e não a si mesmo (o que não significa que este seja o caso dos exemplos que mencionei acima). Reconhecer que falhamos não é fácil, eu sei. Mas quando a razão do fracasso está em nós mesmos, há a esperança do arrependimento e do voltar a acertar. O drama se instala quando algo acontece para o qual não há explicação ou quando Deus parece envolvido de forma pouco misericordiosa na derrota. Não há dúvida de que dizer que, naquela derrota, Deus foi a causa primária do que aconteceu é fazer uma afirmação teologicamente irretocável. Afinal, se formos procurar uma causa final para os acontecimentos em nossa vida, encontraremos a vontade de Deus. A situação, contudo, exigia o acréscimo de algo: Aquele que era a causa primária da derrota sofrida agira, não de maneira arbitrária e despótica, mas em conformidade com Sua natureza santa. Deus não garante vitória no campo temporal àquele que não foi vitorioso no campo moral. A sensação é de que a direção tomada não foi a ideal “Disse Josué: Ah! Senhor Deus, por que fizeste passar a este povo o Jordão, para nos entregares nas mãos dos amorreus, para nos fazerem perecer?” Em segundo lugar, surge também a sensação de que a direção tomada não foi a ideal. É outro sentimento que se apodera do coração do crente depois da derrota. Quando somos derrotados, saímos em busca de respostas, e uma das que costumamos encontrar é que alguma decisão precipitada deve ter sido tomada. Ou, pior, a insinuação de que Deus não foi sábio em Seus planos. Foi essa a impressão de Josué: “Senhor, por que passamos o Jordão?”. Há problemas que só o crente enfrenta. Diferentemente dos incrédulos, o crente, numa hora como essa, faz perguntas específicas à vida. É impossível ser crente e não ser filósofo. O crente é forçado a pensar. Lá estava Josué derrotado. Mas não era um derrotado qualquer, comum; era um homem que vivia na força de uma cosmovisão centrada em Deus. Um dos pressupostos de sua vida era o de que Deus é soberano. Sua dificuldade consistia em não encontrar explicação, à luz do que ele sabia, à sua derrota. O crente é alguém que frequentemente se vê forçado a querer entender a Providência. Tal tarefa, contudo, está acima das nossas forças. O curso da ação de Deus na história é enigmático: “Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?” (Rm 11:34). Olhe, por exemplo, para a ministração da Sua justiça. Uns são julgados imediatamente e de forma clara, enquanto outros só tomarão conhecimento do desprazer divino no juízo final. Quem perde de vista o fato de que Deus pune alguns pecados hoje para que O temamos, mas não pune a todos para que não nos esqueçamos de que haverá um juízo final, terá sérias dificuldades para entender porque alguns homens não foram julgados por Deus ao longo da história. Como diz J. I. Packer: Esta confortadora pretensão (de que podemos saber o porquê de Deus estar agindo de tal e tal maneira) se torna parte de nós, temos a certeza de que Deus nos capacitou para entendermos todas as suas atitudes para conosco e para com os que nos rodeiam, e nos sentimos seguros de que seremos capazes de ver rapidamente as razões para tudo o que nos possa acontecer no futuro. E então alguma coisa muito dolorosa e inexplicável acontece e nossa alegre ilusão de participar do conselho secreto de Deus é abalada. Nosso orgulho é ferido, sentimos que Deus nos desprezou, e a menos que neste ponto nos arrependamos e nos humilhemos completamente pela nossa antiga presunção, toda a nossa vida espiritual futura pode ser arruinada.61 Algo é básico, porém: o governo de Deus é moral. Deus sempre age em absoluta conformidade ao Seu caráter santo. Aí está um ponto de partida para nossa reflexão. Isso nos leva à afirmação de que o que Deus faz na história tem íntima relação com aquilo que Sua natureza santa O impele a fazer. Amplie essa passagem bíblica e aplique-a a você mesmo. Pense no que aconteceu em Israel e a relação disso com suas dores particulares deste mundo. “Assim que um infortúnio nos acomete, deveríamos nos submeter a um exame da nossa vida pregressa.” Surge o desejo de voltar atrás “Oxalá nos contentáramos com ficarmos dalém do Jordão.” Em terceiro lugar, é comum, após a derrota, surgir também o desejo de voltar atrás. Amigo leitor, você consegue imaginar um homem como Josué fazendo essa oração depois do milagre que deixou todo o povo – incluindo ele mesmo – extasiado? O povo passou a pé enxuto pelo Jordão pela ação da providência divina. E Josué, então, por causa da derrota, sentiu desejo de que tal milagre jamais tivesse acontecido. Esta é a consequência natural do ponto anterior, a vontade de voltar atrás. Talvez você seja alguém que está com vontade de voltar atrás na vida cristã, com vontade de romper com Deus. Ou quem sabe seja alguém que, diante das tensões familiares, daria tudo na vida para não ter casado. Pode ser que você seja um ministro que, de tão farto com a estupidez e maldade humanas, gostaria de jamais haver tomado a decisão de entrar tão de cabeça na vida dos seres humanos. Se esta é sua reação emocional à derrota, talvez o console saber que Josué, bem como tantos outros santos homens de Deus, viveu a mesmíssima experiência. É próprio da natureza humana fugir de tudo o que lhe traz sofrimento e buscar uma zona de conforto e segurança. Isso ocorre em todas as esferas, do que se passa em nosso mundo inconsciente até o ministério que exercemos. Sendo assim, evite tomar decisões em momentos de crise. Seu coração vai dizer que o melhor é voltar, porque assim funciona a natureza humana. Porém, saiba que você pode ter sido derrotado apesar de estar na direção correta, e fugir é o que vai lhe parecer racional – no entanto, fugir será tão somente um grande retrocesso em sua vida. Nossas decisões não devem ter como base o sofrimento que não queremos enfrentar e do qual queremos fugir, mas sim a vontade de Deus. Então, amigo, não abandone, por causa da dor emocional proveniente da derrota, o que você está fazendo. Vem a sensação de que não há o que dizer “Ah! Senhor! O que direi?” Costumamos também, após a derrota, ter a sensação de que não há mais o que dizer, nem para nós mesmos nem para ninguém. Diz o versículo 8 que Josué fez a seguinte oração: “Ah, Senhor, o que direi?”. Nada há o que dizer, pois, de um lado, temos a visão da fidelidade divina e, do outro, a derrota acachapante. Em tais momentos, não se consegue estabelecer uma conexão entre ambas. Você está derrotado, humilhado, fracassado, e isso se choca frontalmente com a certeza de que Deus o ama, que Ele cumpre seus pactos. Nessa hora, queremos ter o que dizer. Ansiamos por poder, via pensamento linear, por meio de uma cadeia de causa e efeito, explicar os acontecimentos. Então, surge algo para o qual não há explicação. Em geral, não conseguimos viver com o inexplicável quando este nos causa dor. E queremos ter o que falar. Que desafio dizer todos os dias para nós mesmos: “Não sei o propósito de Deus com tudo isso, não tenho acesso a todos os fatos da vida e sei que Ele é bom. Por isso, apesar de toda a escuridão, sobre as rodas de uma confiança implícita em Deus e desconfiança dos meus próprios julgamentos, prossigo servindo-O com fidelidade e paixão”. Olhe para a vida de Josué. Ele só fez aquela pergunta por não conhecer todos os fatos. Não é possível que a mesma situação esteja acontecendo com você? Certamente as conclusões pessimistas a que chegamos têm vínculo estreito com a decisão de encerrar o assunto sem conhecer todas as informações. O que devemos fazer, então? Devemos começar raciocinando a partir do que sabemos, e não do que é mera hipótese ou até mesmo resultado de má teologia. E o que sabemos? QueDeus é santo, sábio e cheio de amor em todos os Seus decretos. Estas são as premissas seguras a partir das quais devemos raciocinar. Tem-se a sensação de que algo pior está por acontecer “Ouvindo isto os cananeus e todos os moradores da terra nos cercarão e desarraigarão o nosso nome da terra.” Há também nessas horas a sensação de que algo pior está por acontecer. Lembro-me de uma pessoa muito próxima que, após a morte de seu cachorrinho, passou a temer pela morte do próprio pai. Sua oração pelo bem-estar do seu animalzinho não fora ouvida, e isso a levou a temer que suas orações pela saúde do pai não fossem suficientes. O texto diz que foi exatamente assim que Josué reagiu diante de Deus: “Ouvindo isto, os cananeus e todos os moradores da terra nos cercarão e desarraigarão o nosso nome da terra”. A derrota produz um curto-circuito em nosso pensamento. Deixamos de ser lógicos. Olhe para Josué: ao mesmo tempo que atribuía à permissão divina a passagem pelo Jordão, pensava também em termos de causa e efeito num sistema fechado à intervenção divina. Para ele, o fato de os cananeus saberem o que estava acontecendo se tornara o mais importante. Ora, é de nosso conhecimento que vivemos num universo em que há leis naturais estabelecidas pelo próprio Deus, que vivemos num mundo de causas e efeitos; por isso, fazemos ciência; mas sabemos também que este sistema não está fechado, pois Deus pode intervir sobrenaturalmente, agindo, conforme a definição da Confissão de Westminster: “Na Sua providência ordinária, Deus emprega meios; todavia, Ele é livre para operar sem eles, sobre eles ou contra eles, segundo o Seu beneplácito”.62 Qual a importância, amigo, de se saber o que costuma acontecer com o coração do crente quando este é derrotado? Penso que só o fato de saber que outros passaram pelo mesmo tipo de experiência já nos consola o coração. Agora, conhecer os equívocos que costumamos cometer nas derrotas pode nos ajudar a evitar que elas sejam seguidas por outras muito maiores. Não seria derrota muito maior para Josué e o povo desistirem de tudo? Por isso é importante conhecer como a alma do crente funciona após a derrota, a fim de sabermos que tipo de tratamento dar a ela para evitar derrota muito maior – a derrota de cruzarmos o Jordão no sentido contrário, para o que não poderemos contar com um milagre de Deus. Em lugar de o Jordão abrir-se no sentido contrário, você vai se afogar nele. Isso aconteceu com tantos outros que, após bênçãos incalculáveis, menosprezaram Deus ao tomar a decisão que visava mais à segurança pessoal que à realização da vontade do Criador, decisão que representou a banalização de feitos extraordinários de Deus na vida deles. Você está se sentindo assim? Com medo de o pior acontecer? Está você a dizer: “O meu coração se derreteu e se tornou como água?”. Deus tem algo a lhe dizer hoje, em nome do Senhor Jesus. Como já vimos, há uma forma padrão de se responder às derrotas; mas carecemos não apenas de saber que erros evitar; necessitamos, antes, falar com Deus. BUSCAR HUMILDEMENTE A FACE DE DEUS NA PERSPECTIVA DE OUVIR SUA VOZ “Então Josué rasgou as suas vestes, e se prostrou em terra sobre o seu rosto perante a arca do Senhor até a tarde, ele e os anciãos de Israel; e deitaram pó sobre as suas cabeças.” Após derrotas pessoais, devemos buscar humildemente a face de Deus no anseio de ouvir Sua voz. Assim que veio a notícia da derrota, Josué se prostrou perante a arca do Senhor e abriu o coração na presença Dele. Josué orou. A derrota fez Josué orar. E mesmo nisso vemos a mão de Deus e o privilégio da vida do cristão. Na alegria, o crente tem a Quem agradecer e, na dor, com Quem chorar. O Deus cristão é alguém que ouve com alegria nossos salmos de gratidão e, com compaixão, nossos salmos de lamentação. A aflição acompanhada de medo era tamanha que, no coração de Josué, havia uma mistura bastante grande de fé e dúvida. Lá estava aquele gigante espiritual dizendo: “Por que o Senhor nos fez cruzar o Jordão?”. O nosso Deus, porém, em Sua infinita misericórdia, ouve as orações imperfeitas que fazemos – louvado seja o Seu nome por isso. E orar, mesmo imperfeitamente, nos proporciona a possibilidade de ouvir a voz de Deus. Como ocorreu com Josué. E o que ele ouviu? Josué ouviu a resposta de Deus às suas queixas. A oração fez com que Josué descobrisse que havia outra explicação para a derrota. Até aquele momento, o general recém empossado estava vivendo a experiência do abandono de Deus e, ao abrir o coração na presença de Deus, ao se colocar na torre de vigia – usando a expressão do profeta Habacuque –, Josué ouviu a resposta de Deus às suas lamúrias e entendeu a causa da derrota. A conclusão a que chegamos é que nunca estamos mais bem preparados para pensar do que quando oramos. A oração pode nos levar à descoberta de soluções surpreendentes para problemas que nos afligem, conduzir-nos a uma sóbria visão dos acontecimentos que nos cercam e a reformular o conteúdo de nossa súplica. Você que vem de uma derrota e sente-se profundamente desencorajado já parou para orar? Já parou para ouvir a voz de Deus e rever as respostas humanas que você tem dado às suas derrotas? Será que não chegou a hora de você ouvir conselhos como os de Thomas de Kempis, que nos ensina que, na hora do sofrimento, não devemos sair em primeiro lugar correndo para obter consolo do homem, mas o consolo que vem do alto? O homem piedoso leva, por toda parte, consigo, o seu consolador Jesus e lhe diz: “Assisti-me, Senhor Jesus, em todo lugar e tempo. Seja esta a minha consolação: privar-me, voluntariamente, de toda consolação humana. E, se me faltar também vosso conforto, sirva- me de suprema consolação a vossa vontade, que, justamente, me prova.”63 Você se tem colocado diante da arca da aliança a fim de saber se está pensando corretamente, se os seus sentimentos são razoáveis e suas decisões, expressões da vontade de Deus para sua vida? PREOCUPAR-SE COM O NOME DE DEUS “Ouvindo isto, os cananeus e todos os moradores da terra nos cercarão e desarraigarão o nosso nome da terra; e então que farás ao Teu grande nome?” Aqui vemos o que difere a oração do crente verdadeiro da feita por aquele que só ora com o propósito de encontrar alívio para suas angústias. Não há dúvida de que muita oração é feita no mundo. Milhares de filhos de Satanás oram também. A Bíblia nos apresenta os próprios demônios orando, falsos crentes orando e pagãos orando. O que caracteriza a verdadeira oração que somente os filhos de Deus podem fazer? É fundamentalmente a preocupação com a glória de Deus. A maior preocupação do coração de Josué era com o grande nome de Deus. Posso imaginar um incrédulo satirizando deste modo o que estou afirmando: “Engraçado esse Deus cristão – precisa de quem cuide do Seu nome. Ele não é grande o suficiente para se defender sozinho?”. Sim, Ele é todo- poderoso e pode, com um simples mover do Seu dedo, mostrar que é Deus. Quando, no entanto, Seu nome está intimamente ligado pela graça à vida de seres humanos, cabe a estes sair, não em defesa de um Deus que precisa de advogados, mas em busca da glorificação do Deus que os elegeu como testemunhas Suas. Deus decidiu revelar Sua glória aos homens por meio de um povo. Esse povo é Sua Igreja, e quando a Igreja vive de tal maneira que Deus mesmo pode honrá-la sem violar Sua santidade, o mundo vem a saber que Ele é o Deus real. O trágico é quando isso não pode acontecer, quando Deus, em Sua santidade, tem de dar ao Seu povo, aparentemente, o mesmo tratamento que dá aos ímpios. Digo aparentemente porque, embora a Igreja possa ser afligida com sofrimentos até piores dos que os enfrentados por muitos incrédulos, os açoites que recebe são dados por um Pai amoroso e justo. Josué ouviu imediatamente a voz de Deus quando, na oração imperfeita que fizera, expressou o imenso amor por Deus que havia em seu coração. Era uma oração acompanhada de certas dúvidas, mas não de incredulidade. Incredulidade é uma recusa a crer, enquanto a dúvida é uma doença da fé,que acompanha a vida daquele que ama a Deus. Havia dúvida, mas havia igualmente um coração repleto de amor pelo Deus, e isso fez com que, no final da sua oração, se esquecesse do povo de Israel e lembrasse do nome Daquele a Quem tanto amava: “Senhor, que farás ao Teu grande nome?”. É fato que não vamos encontrar forças para sair da angústia proveniente da derrota enquanto nossa preocupação maior for nossa felicidade e não a glória de Deus. O que é doloroso, o que deve ser doloroso para o coração daquele que ama o seu Deus não é o sofrimento da derrota, do fracasso, da perda de uma oportunidade, da frustração num relacionamento; o crente maduro sente uma dor muito mais profunda: “O que os incrédulos vão dizer do nome do meu Deus? Que conceito estes, que estão presenciando minha derrota, terão do Deus a quem eu sirvo?”. Pergunto se você tem uma preocupação real com o conceito de Deus que os incrédulos têm formado por observarem sua vida. Essa é sua maior dor? Calvino, falando sobre o zelo pela glória de Deus, faz o seguinte comentário: “Dificilmente haverá um entre cem que faz da manifestação da glória de Deus seu principal fim”.64 Não se junte a esses que constituem a maioria dos que vivem neste planeta. Na hora da dor, a principal pergunta não é o que fazer para não sofrer mais, e, sim, como glorificar a Deus no sofrimento. Muitos, na busca única de alívio, vieram a se comportar como ímpios. Mas, ao contrário destes, saia em busca da glória de Deus. Parentes, amigos, irmãos em Cristo e anjos estão olhando para sua vida; portanto, pare agora para pensar em como você, um discípulo de Cristo, deve agir nesse quadro de aflição que está enfrentando. A vida vitoriosa segundo Deus tem a característica de não perder o ser, mesmo em face da oposição do mundo, da carne e do Diabo. SUBMETER A VIDA A UM AUTOEXAME Josué submeteu o povo de Israel a um autoexame, o qual começou com a pergunta que Deus fez. Deus não se dirige a nós apenas com o propósito de responder as nossas perguntas, mas também com o propósito de nos levar a reformulá-las. A pergunta a ser respondida não era: “Onde está o amor de Deus?”. A questão que precisava ser respondida era outra: “Por que estás prostrado?” Ou, em outras palavras: “Por que estas dúvidas referentes ao Meu amor, à Minha fidelidade e aos Meus pactos?”. Deus levou Josué inicialmente a procurar saber o real motivo de sua prostração: a falsa ideia de que Deus havia abandoado Seu povo. Mas, logo após, Josué compreendeu que o motivo da derrota não estava numa falha na fidelidade divina, e, sim, numa falha na fidelidade humana. E, por fim, ele descobriu onde estava o pecado. Talvez um verbo usado no versículo 1 seja a melhor explicação sobre o que estava acontecendo naqueles dias em Israel: “Prevaricaram os filhos de Israel”, o que significa que os filhos de Israel foram infiéis. A nós cabe, na derrota, submeter nossa vida a um exame acurado e profundo. Nosso Deus é imutável, imutável em Seu ser e em Suas perfeições; é um Deus que não pode deixar de cumprir as promessas estabelecidas em Sua aliança. O erro nessas horas é pararmos para examinar a fidelidade divina e não a nossa. Pode ocorrer de, por causa da fidelidade à Sua Palavra, Deus nos tratar de um modo aparentemente infiel. E aí o povo de Deus passa pela pior experiência da vida de um crente, como descrita no final do verso 13: “Aos vossos inimigos não podereis resistir, enquanto não eliminares do vosso meio as coisas condenadas”, e também no final do versículo 12: “Já não serei convosco, se não eliminardes do vosso meio a coisa roubada”. Deus não negocia Sua santidade por amar-nos. Por isso, devemos submeter nossa vida a algumas perguntas. Costumamos levantar inúmeras questões referentes ao amor de Deus por nós, mas agora vamos indagar com respeito à nossa fidelidade a Deus e à Sua Palavra. Responda: como está seu casamento? Você ama aquele com quem a Bíblia diz que formou uma só carne? Você é fiel em seu casamento? Será que você se tornou uma pessoa intratável? Até quando você vai continuar essa guerra fria dentro de casa? Outro dia alguém me procurou e falou: “Não aguento mais o clima que meu marido cria dentro de casa. Ele não briga, não discute; é uma violência diferente, sem palavras, sem agressão física”. Pense no uso da língua. Quantos você tem defraudado com ela? Você tem roubado a reputação de alguém? O que você tem dito pelas costas sobre irmãos com quem não tem coragem de falar frente a frente? Você se encaixa no que a Bíblia chama de iracundo? Você diz que isso se deve ao seu sangue nordestino, italiano, português ou à franqueza herdada da família, mas que franquezazinha especializada em destruir almas, em esmagar a “cana quebrada” e “apagar a torcida que fumega”! Há alguma mentira em sua vida? Você tem revelado segredos dos outros? Palavras obscenas têm saído de seus lábios? Você ama a Igreja? Se ama, por que não contribui? Você tem usado seus dons no Corpo de Cristo? A que você assiste na televisão? Você lê literatura pornográfica? Você se compadece do necessitado? Você é misericordioso com o perdido? Se você tem vivido na prática desses pecados, como ousa, então, levantar a voz aos céus e dizer que Deus não lhe está sendo fiel? Como você ousa questionar o amor de Deus? Por acaso, seu Deus é um Deus que é capaz de banalizar Sua santidade por amar você? Ele deixou de ser “Santo, Santo, Santo”? Ele estaria mais preocupado com a promoção da sua alegria do que na transformação do seu caráter? Considere ainda: você tem sido diligente no uso dos meios de graça? Você participa da ceia do Senhor? Você é assíduo nos trabalhos da Igreja? Você lê regularmente as Escrituras Sagradas? Você ora? É um homem de oração? O que dizer do seu temperamento? É você manso, longânimo e misericordioso ou sua presença é um peso para a vida dos irmãos da Igreja, colegas de trabalho, filhos e cônjuge? Será que você é um fardo para um mundo de gente? Há amargura em seu coração? Há pessoas a quem você não consegue perdoar? O que eu estou querendo fazer com todas essas perguntas é ajudá-lo a saber o que está enterrado no seu arraial. Qual é a expressão de incredulidade e infidelidade em sua vida que tem levado Deus, que é o ser que mais o ama no universo, a dizer: “Não vou estar no meio de ti”? Veja um comentário feito sobre a vida de John Bradford: Nosso Bradford tinha suas práticas e exercícios diários de arrependimento. Seu modo consistia em fazer sobre si mesmo um catálogo dos pecados mais grosseiros e enormes que havia cometido em sua vida de ignorância, e estendê-los diante dos olhos quando orava em privado [...] Costumava anotar no mesmo livro tantos maus pensamentos como lhe vinham à mente, tais como inveja pelo bem de outros homens, ideias de ingratidão, de não considerar Deus em suas obras, ou de dureza ou insensibilidade de coração quando via outros comovidos ou afetados. E assim fazia de si mesmo e para si mesmo um livro de práticas diárias de arrependimento.65 Penso que se fôssemos sérios tal como John Bradford em nosso desejo de nos livrar do pecado, teríamos grande segurança em Deus, nossas crises seriam bem menos frequentes e Ele não se veria na necessidade de se apartar dos nossos empreendimentos a fim de nos lembrar de que é santo. ARREPENDER-SE DOS PECADOS Entenda uma coisa: você foi eleito para a santidade. Se você gerar oposição ao propósito de Deus de torná-lo santo, estará apenas arranjando problemas para si mesmo, pois Deus agirá em sua vida de tal maneira que Seu propósito imutável haverá de se cumprir. Sendo assim, por meio da providência, Ele pode levar sua profissão, sua saúde e permitir grandes derrotas em sua vida a fim de que seu coração seja purificado. Não atribua ao acaso os sofrimentos, as derrotas, os infortúnios pelos quais você tem passado – eles podem existir porque Deus está corrigindo sua vida. Nunca encare uma derrota sem pensar na possibilidade de Deus o estar disciplinando. Sabemos que Deus não envia para cada pecado que cometemos um juízo; caso contrário, nãohaveria Igreja. Nosso Deus é paciente. Por outro lado, creio num Deus que disciplina Seus filhos. E o texto que estamos considerando fala sobre isso. O povo de Israel perdeu uma batalha que, comparada à de Jericó, era ridícula, representando um desafio bem menor, e fracassou por causa de infidelidade: havia algo abominável para Deus enterrado no arraial. Erramos ao pensar que um homem infeliz é alguém que precisa apenas de consolo. Não! Multidões vivem uma vida infeliz porque estão em pecado, é gente que tem coisa maldita enterrada no “arraial”. Milhares procuram psicólogos, inquirindo: “Qual é a causa da minha tristeza? Há uma tristeza dentro de mim que não sai”. Amigo, o Espírito Santo se entristece! Os que trabalham na área do aconselhamento têm de levar em consideração essa outra causa de depressão: o pecado. Há uma depressão que é proveniente de comportamento contrário à natureza espiritual que o Senhor Jesus criou em nosso coração por Seu Espírito. Ele nos criou para uma vida que só se satisfaz com santidade. Quando não vivemos em santidade, uma tristeza se apodera de nós – e é perda de tempo ir para o divã do psicanalista tratar desse tipo de sofrimento. Esse problema se trata de joelhos, confessando pecados, pedindo perdão, mudando de vida! Mais uma vez gostaria de citar Dallas Willard: “Nós temos que aceitar o fato de que pecado não confessado é uma espécie de peso ou obstrução nas realidades psicológicas e físicas da vida dos crentes”.66 Muitos indagam: como divisar o amor de Deus nessa decepção? Onde está a sua bondade? O amor de Deus está maravilhosa e inquestionavelmente manifestado no Calvário, na segunda Pessoa da Trindade, em Seu Filho, que fez expiação pelos nossos pecados. Ali eu tenho testemunho cabal para silenciar todas as vozes de incredulidade de meu coração. Deus é bom e me ama com amor infinito, imutável e eterno. Eu é que sou capaz de, apesar da revelação desse amor, esconder coisas abomináveis no arraial. Que insanidade! Agora chegamos à parte mais difícil da mensagem, por ser a mais iluminadora e desafiadora, especialmente para nós que vivemos numa sociedade relativista, que elimina a responsabilidade humana e tem colocado Deus no banco dos réus. A profundidade do arrependimento expressou-se na forma do juízo que o povo de Israel trouxe sobre a casa de Acã: todos foram mortos e consideraram o que Acã fizera uma loucura. Por que loucura? Porque Acã não havia compreendido que Deus é fiel. À luz de tudo que presenciara, a ele e sua família cabia somente crer na fidelidade divina. Saiba de uma coisa: todo pecado tem sua origem na incredulidade, e a incredulidade torna-nos loucos. Por que mentimos? Por que exploramos? Por que adulteramos? Respondo sem medo de estar errado: porque não cremos. Porque foi por falta de fé que nós caímos. Falta de fé na Palavra de Deus, de fé em Sua fidelidade, de fé em que Ele é suficientemente poderoso para, por meio de nossa submissão à Sua Palavra, satisfazer os anseios do nosso coração, trazer verdadeira alegria à nossa vida e suprir nossas necessidades básicas. Se cremos em tudo isso, não precisamos mentir, explorar e adulterar. Você está disposto a arrepender-se dos seus pecados? Talvez você precise, então, começar com a genealogia do pecado. Observe o que ocorreu em Israel. Começou com uma tribo, depois afunilou para uma família, até chegar a um indivíduo. Penso que devemos fazer ao considerar nossa própria vida. E sabe o que vamos encontrar lá no final? Incredulidade. Porque quem crê com a fé que é própria dos regenerados submete-se à Palavra do Senhor, por mais absurda que ela lhe pareça. F. B. Meyer, comentando esse texto diz: “Não devemos permanecer muito tempo entregues ao desespero, mas pôr- nos de pé, para descobrir a causa da nossa derrota”.67 Então, em vez de você ficar aí prostrado, dizendo: “Como é que Deus permite que um servo passe por tamanha humilhação?”, levante-se e submeta sua vida ao exame da luz de Deus. E, ao detectar a presença de algum pecado pelo qual Deus o está disciplinando, confesse-o e volte a viver para a glória de Deus. Amigo, não existe maior tragédia do que esta: “Já não serei convosco”. Por esta razão é que o pecado de Acã foi considerado loucura, um pecado que baniu a presença de Deus do meio do Seu povo. Você está disposto a largar hoje o pecado por compreender que é loucura rejeitar Deus? VOLTAR A VIVER PELA FÉ NO DEUS SANTO E FIEL O que fazer depois da derrota? A última decisão, mas não por isso a menos importante, é voltar a viver pela fé no Deus santo e fiel. Lemos isso no versículo 26: “E levantaram sobre ele um montão de pedras, que permanece até ao dia de hoje; assim, o Senhor apagou o furor da Sua ira; pelo que aquele lugar se chama o vale de Acor até ao dia de hoje”. Josué devia sair daquele estado de dúvida e medo. Como? Voltando a viver pela fé no Deus a Quem servia. Quem é esse Deus? Um Deus santo e fiel. Duas verdades teológicas saltam desse texto bíblico: Deus é santo e Deus é fiel. Precisamos dessas duas verdades a fim de viver a vida cristã. Saber que Deus é fiel nos sustenta nas lutas; saber que Deus é santo nos livra de julgar que podemos estabelecer qualquer tipo de relação promíscua com Ele. Como diz Hebreus 10:30, 31: “Ora, nós conhecemos Aquele que disse: ‘A Mim me pertence a vingança; Eu retribuirei’. E outra vez: ‘O Senhor julgará o Seu povo. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo’”. Ó, amigo, entenda uma coisa: a ira divina é Sua hostilidade justa e pessoal contra o mal. Por isso é que encontramos o contraste entre o primeiro capítulo de Josué, que registra a promessa divina, e o sétimo, no qual Deus diz que não estaria entre o Seu povo. No capítulo primeiro, Deus disse: “Não te deixarei, nem te desampararei”. Mas no capítulo 7 encontramos Deus dizendo: “Não serei convosco, não vou estar no meio de vós”. F. B. Meyer bem descreve o que está envolvido com o fato registrado no capítulo 7: “Nossos aliados espirituais dos lugares celestiais não podem cooperar conosco enquanto abrigarmos o pecado. Sem Deus, a menor oposição é demasiado grande para nós”.68 Compare a batalha de Jericó com a batalha de Ai. Por que saíram vitoriosos em uma e na outra foram tão vergonhosamente derrotados? Porque na primeira o povo partiu sob a bênção de Deus, enquanto na segunda partiu debaixo de maldição. Mas o Deus vivo é misericordioso. Se ficamos desalentados com Sua disciplina, bem faríamos se pensássemos no que seria de nós se Deus não nos perdoasse. A Bíblia diz que há solução para o problema do pecado: a confissão. Se, por um lado, posso dizer que é possível explicar sua derrota pessoal como resultado de algo que está enterrado em sua vida, que você precisa desenterrar e apresentar a Deus, por outro lado, afirmo também que, se hoje confessar seus pecados a Deus, em nome do Senhor Jesus, você se tornará mais alvo do que a neve. Ele vai pegar seus pecados, lançá-los no fundo do mar e vai lhe dizer: “Eis que estou contigo todos os dias, até a consumação dos séculos. Não te desampararei, nem te deixarei”. Josué 7:26: “Apagou o furor da Sua ira”. A ira de Deus, sendo justa, cessa quando o pecado é resolvido. Neste capítulo, constatamos que a ira de Deus só foi apagada, que Deus só foi apaziguado e só voltou a sorrir para o povo de Israel quando este se arrependeu dos seus pecados. E a Bíblia diz, em João 3:16, que não há a mínima possibilidade de Deus ser propício a nós a não ser pelo sacrifício do Seu Filho recebido pela fé em nosso coração. Penso que na vida das pessoas mais tementes a Deus, Satanás costuma armar duas ciladas. A primeira é levá-las a não fazer a obra de Deus livremente por julgar que seus motivos não são totalmente puros; a segunda é realizar a mesma coisa só que usando outro método: a lembrança constante do pecado praticado no passado. Amigo, duas decisões você e eu temos de tomar na vida: a primeira, a de não esperar o surgimento de motivos totalmente puros para fazermos a obra de Deus. Quem pode discernir as próprias faltas? Quem é movido porcem por cento de pureza de propósitos? Se fosse esperar motivos perfeitamente puros para fazer a obra de Deus, confesso que sequer sairia de casa. A melhor obra do maior santo é sempre marcada pela mescla de boa intenção com vaidade. A segunda decisão que precisamos tomar é simples: esquecer as coisas que para trás ficaram. Vou eu criar mais motivos ainda para me lamentar no futuro, por não servir a Deus no presente por causa de um pecado do passado? “Levanta-te! Por que estás prostrado sobre o teu rosto?” Quero dizer-lhe o mesmo, em nome do Senhor Jesus. Você foi derrotado, seu coração se derreteu e se tornou como água; contudo o exército celestial pode voltar a servi-lo. O Príncipe do exército do Senhor, com a espada nua, está pronto para ajudá-lo novamente. Mas, para tal, é necessário que você traga à memória que Deus é santo, fiel e gracioso. VII INSISTINDO NA VITÓRIA E disse o Senhor a Josué: “Não tenha medo! Não se desanime! Leve todo o exército com você e avance contra Ai. Eu entreguei nas suas mãos o rei de Ai, seu povo, sua cidade e sua terra. Você fará com Ai e seu rei o que fez com Jericó e seu rei; e desta vez vocês poderão se apossar dos despojos e dos animais. Prepare uma emboscada atrás da cidade”. Então Josué e todo o exército se prepararam para atacar a cidade de Ai. Ele escolheu trinta mil dos seus melhores homens de guerra e os enviou de noite ( Js 8:1-3). No capítulo anterior, vimos a primeira derrota de Israel na terra da promessa. Quem olhava aquela situação de fora, tinha a impressão de que Deus fora infiel para com Israel. Deus havia, em inúmeras ocasiões, enviado mensagens de esperança ao Seu povo, garantindo-lhe que haveria de sair vitorioso nas batalhas de Canaã. No capítulo 7 de Josué, contudo, vimos como o povo sofreu terrível derrota, resultando na morte de 36 pessoas do seu exército. Esse fato, conforme vimos, deixou o coração de todos derretido, como água – essa fragilização advinha da incapacidade momentânea de compreender que o que acontecera não era contrário à fidelidade divina; antes, a derrota se devia à infidelidade humana. Concluímos, portanto, que se Deus não fosse santo, teria impedido aquela derrota. Vimos também que o Deus santo pode voltar a ser favorável mediante o arrependimento de Seu povo. A Sua ira pode se apagar e Ele volta a sorrir para os Seus eleitos após o arrependimento destes. Por isso, nas vezes em que a derrota se dá em função da infidelidade humana, uma vez tendo sido feita a propiciação exigida por Deus, a possibilidade de obter-se vitória na batalha onde houve derrota estabelece-se novamente. Esta é grande mensagem do capítulo 8 do livro de Josué: é possível sairmos vitoriosos onde um dia saímos humilhados pelo adversário! Você pode sair vitorioso na área em que, um dia, fracassou. Josué 8 nos ensina que podemos voltar a insistir na conquista da vitória naquela área em que, anteriormente, fomos derrotados. A derrota faz parte da vida cristã. Saber como evitá-la é um dos elementos da sabedoria cristã. Aquele que anda com Cristo, entretanto, aprende também o que fazer com a derrota. Em especial, aprende a transformar a antiga derrota numa oportunidade para nova vitória. As perguntas que eu gostaria de considerar com você são as seguintes: Como podemos sair vitoriosos na situação em que já fomos derrotados? Quando Deus, pela sua palavra, nos assegura de que devemos insistir na vitória? Ao ler este capítulo, quase ouço Deus dizendo: “Volta para o campo de batalha!”. “Disse o Senhor a Josué: ‘Não temas, não te atemorizes: toma contigo toda a gente de guerra, e dispõe-te, sobe a Ai; olha que te entreguei nas tuas mãos o rei de Ai, e o seu povo, e a sua cidade, e a sua terra’.” Muitas vezes, o melhor a fazer nos negócios é deixar de insistir em projetos que se têm revelado inviáveis. Em muitas ocasiões no meu ministério, tive de abandonar planos que foram elaborados com muito entusiasmo e carinho. Nessas horas, a sabedoria nos manda tomar a direção contrária ao caminho escolhido o mais cedo possível, pois, quanto mais longe formos, maior será o percurso a ser percorrido de volta – isso quando é possível voltar! Quantas vezes perdemos dinheiro, tempo e oportunidades maravilhosas por puro orgulho, o qual impede de reconhecer que erramos em nosso planejamento. Há momentos na vida, no entanto, em que Deus revela claramente que devemos insistir em determinados alvos. Se, por um lado, há situações em que a sabedoria nos manda abrir mão de alguns planos, por serem impraticáveis, por outro, a fé, fruto da revelação de Deus em Sua Palavra, nos impulsiona a insistir na vitória, naquele exato ponto em que fomos derrotados. Essa foi a experiência vivida pelo povo de Israel na batalha de Ai. O povo fora derrotado, mas era a vontade de Deus que persistisse na busca pela vitória. Buscar aquela vitória não representava nem temeridade nem insistência no erro. A Bíblia nos ensina que cabia ao povo avançar, pois a promessa já havia sido dada por Deus. Ele daria a totalidade daquela terra a Israel, e não era da Sua vontade que o território fosse dividido com os incrédulos. O desejo de Deus era que o adversário fosse expulso e, exatamente por isso, aquela derrota não deveria ser aceita. Deus, então, conduziu o povo novamente para o campo de batalha, dizendo: “Retornem ao campo de batalha, a fim de enfrentar o adversário que os derrotou”. Em Sua graça, Deus fez com que o povo partisse para a guerra novamente sem olhar para o histórico de derrota, mas para o histórico de vitória: “Farás a Ai e a seu rei como fizeste a Jericó e a seu rei; somente que para vós outros saqueareis os seus despojos, e o seu gado”. Deus estava querendo curar a memória de seu povo. Marcas profundas haviam sido produzidas pela derrota sofrida; para curá-las, Deus levou o povo a considerar a vitória, não a derrota do passado. Quem sabe não é isso que você está precisando fazer também? Talvez você esteja considerando a derrota e não as vitórias que Deus já lhe deu. Olhe para a área da santificação em sua vida. Será que você só olha na direção do que ainda não foi feito, caindo em tal desânimo que nem se considera um cristão? Em lugar disso, perceba o quanto já avançou com Deus! Você ainda não é o que gostaria de ser; contudo, não é mais o que um dia já foi. Então, não veja apenas a derrota sofrida em Ai! Lembre-se das grandes muralhas de Jericó que, em sua vida, já foram destruídas! Não é fato que o inimigo de nossa vida é quem nos faz ver somente o lado negativo das coisas? Não é ele que nos faz ver, não o mel, e sim o ferrão da abelha, não as flores do jardim, e sim as ervas daninhas, não o que temos, mas o que não temos? Conhece a história daquele sujeito que estava caindo do 15o. andar de um prédio e, ao passar pelo 9o., disse: “Até aqui, tudo bem!”? É claro que não estou pedindo que você seja um otimista desse calibre; eu estou chamando você para considerar os fatos que indicam, mesmo em meio ao muito que não deu certo, o quanto Deus já realizou em sua vida. Ver os ferrões, as ervas daninhas e o que falta faz parte da vida, mas concentrar a visão neles – de tal forma que fiquemos prostrados, não sejamos gratos pelo que Deus já fez e incapacitados de recobrar o fôlego para obter vitória – não é sábio e muito menos corresponde à fé que professamos. Como bem expressou Henri Nouwen: “As pessoas que vieram a conhecer a alegria de Deus não negam o infortúnio, mas escolhem não viver nele”.69 Quantas vezes precisamos ser empurrados por Deus para o campo de batalha pelo fato de nosso coração estar cheio de temor do inimigo? E quantas vezes precisamos partir, não olhando para o fracasso experimentado, e sim para o êxito obtido? Por quê? Porque após grandes frustrações somos levados pela vida a viver somente na defensiva. A lembrança, entretanto, dos sucessos em Deus nos revela que vale a pena ousar. Amigo, fuja do pecado da autoproteção. Não fique se comportando como mercadoria frágil. Já sofreu decepções com amigos? Pessoas já o traíram? Apesar disso, continueinsistindo no amor, continue vivendo para servir e não para ser servido. Prefira pagar o preço da confiança nos seres humanos que se apresentam a você como santos a viver a vida inteira na defensiva, desconfiando de todos. Não devemos ser ingênuos, mas não podemos deixar de investir nos Pedros que erraram, mas se arrependeram, por causa dos Judas que não têm jeito. Milhares vivem na defensiva e até mesmo usam a Bíblia de maneira errada para justificar sua desconfiança no homem. Não entendem que quando a Palavra de Deus nos diz que é maldito o homem que confia no homem (Jr 17), ela está apenas nos ensinando a não depender somente da ajuda humana para viver – ela não está semeando a desconfiança entre os seres humanos. Existe gente, por exemplo, que, no desejo de servir a Deus, decepcionou-se com os cristãos. Porque foi criticado pelo pastor ou porque as coisas não funcionaram em seu ministério conforme esperava, hoje não consegue fazer mais nada. Então, declara: “Maldito o homem que confia no homem”. Julga que seu erro foi investir a vida em pessoas. Ora, jamais erramos quando vivemos com o propósito de promover a vida de um homem. Se saímos decepcionados, a desgraça é de quem nos traiu, e não de nós que, pela compaixão do Espírito, nos dedicamos a alguma causa com ardor. Respondemos de forma infantil a tais frustrações, pois, de modo geral, não sabemos ainda quem somos em Cristo. Nele, somos amados por Deus. Que homem pode nos tirar dessa posição? Não vamos permitir que nosso ego seja tão frágil que não consigamos prosseguir sem sermos adulados. Henri Nouwen confessou: Há poucos minutos em minha vida em que eu não seja tentado pela tristeza, melancolia, descrença, mau humor, pensamentos sombrios, especulações mórbidas e ondas de depressão. E com muita frequência deixo que estes estados de espírito abafem a alegria da casa de meu Pai. Mas quando em verdade acredito que de fato regressei e que meu Pai já me vestiu com um manto, anel e sandálias, posso retirar a máscara de tristeza do meu coração e afugentar a mentira que acoberta o meu verdadeiro eu. Assim posso aspirar à verdade com a liberdade inerente ao filho de Deus.70 Saiba que Deus está assegurando que você deve voltar ao campo de batalha porque a vitória é certa! É chegada a hora de você lembrar-se do histórico de vitórias em sua vida! Portanto, podemos sair vitoriosos naquela situação em que, um dia, fomos derrotados quando Deus, por Sua Palavra, nos assegura que devemos insistir na vitória. Cabe a nós corajosamente partir novamente para a arena. QUANDO, PELA FÉ, VENCEMOS O MEDO Muitas vezes, apesar de compreender que não podemos aceitar de modo algum a derrota, o medo nos imobiliza. Deixe-me dar o exemplo de algo que acontece frequentemente no casamento. Você se dirigiu ao seu cônjuge, para pedir perdão ou para apresentar um anseio antigo seu, visando, com isso, à melhoria de seu relacionamento. No entanto, a coisa toda piorou. Por esse motivo, você se recusa a voltar à batalha que precisa ser encarada. Há algo de maligno que está ocupando a geografia da sua bênção, e você teme ser novamente derrotado. Mais uma vez, deixe-me citar Henri Nouwen: Eu tenho tanto medo de não ser amado, de ser culpado, posto de lado, superado, ignorado, perseguido e morto, que estou constantemente criando estratégias para me defender e consequentemente garantir o amor que acho que preciso e mereço. Assim fazendo, me distancio da casa de meu Pai e escolho habitar num país distante.71 O povo de Israel precisava, naqueles dias, vencer dois traumas: o trauma da derrota infligida pelo adversário e o trauma do justo juízo de Deus. Duas perguntas certamente estavam presentes na mente da nação: “Será que o adversário que nos botou para correr e matou 36 de nós pode ser vencido? Deus voltou a sorrir para nós?”. Diz a Escritura Sagrada que, em meio a tudo isso, Deus enviou uma antiga mensagem a Josué. Imagine a cena: foram 36 amigos mortos, o Anjo do Senhor com a espada nua havia, aparentemente, desaparecido e o povo fugia da batalha. O pensamento de todos deve ter sido este: “Será que este adversário pode ser vencido? Faz sentido voltar a enfrentá-lo? Não seria melhor fazer um acordo de paz, mantendo uma relação pacífica com essa gente?”. Não é exatamente isso que fazemos: acordo de paz com o mal, com a infelicidade e até mesmo com o pecado? Nesse contexto de trauma e medo, diz a Bíblia que a palavra de Deus voltou ao comandante Josué: “Não temas nem te atemorizes, disse o Senhor a Josué [...]. Olha que te entreguei nas tuas mãos o rei de Ai, e o seu povo, e a sua cidade, e a sua terra”. Temos aqui uma gloriosa promessa feita àquele que pecou e confessou seu pecado a Deus. Uma vez confessado o pecado, o favor de Deus é restaurado na vida do pecador arrependido. Você foi derrotado, detectou a real presença da infidelidade em sua vida, havia algo enterrado no arraial; mas você se arrependeu, procurou a genealogia do pecado, rasgou a alma na presença de Deus e pediu Sua misericórdia. Se você assim o fez, Deus está sorrindo para você e está a lhe dizer: “Meu servo, não temas nem te atemorizes. Volta ao ministério, volta para a reconstrução de teu casamento, volta a sonhar com o sucesso de tua vida profissional, volta a viver para a glória do Meu nome. Não temas nem te atemorizes!”. Em nome do Senhor Jesus, encare os seus temores e não permita que eles determinem o curso de sua vida. O inimigo o derrotou? O que é ele diante do Deus que já lhe assegurou a vitória por meio de Sua Palavra? O pecado foi a causa maior da derrota? Já o confessou? Se já o confessou, como ousa afirmar que o seu pecado não pode ser propiciado pelo sangue do Cordeiro? Em Josué 8:7 vemos que o coração de Josué já havia sido completamente restaurado: “Então saireis vós da emboscada, e tomareis a cidade, porque o Senhor, vosso Deus, vo-la entregará nas vossas mãos”. Louvado seja o nome do Senhor, pois lá estava Josué no meio da batalha tendo esta profecia de vitória nos lábios: “Deus nos entregou os adversários em nossas mãos! O jogo vai virar!”. Diz a Bíblia que Josué não retirou a mão de sua lança enquanto a vitória não foi obtida. “Então disse o Senhor a Josué: ‘Estende a lança que tens na mão, para Ai; porque a esta darei na tua mão’. E Josué estendeu a lança, que estava na mão, para a cidade [...] Porque Josué não retirou a mão que estendera com a lança, até haver destruído totalmente os moradores de Ai”. Oh! Amigo, mantenha firme a arma que Deus colocou em sua mão, aponte-a para o inimigo até ver a vitória. Nós sabemos que a grande arma que temos nas mãos é a Palavra de Deus com suas promessas. Permita que o Espírito Santo exorcize o temor de sua alma. Você caiu? O Senhor é poderoso para o levantar. Pecou? O sangue de Jesus pode purificá-lo de toda a iniquidade. O inimigo o derrotou? Diga- lhe: “Saiba que estou voltando para a arena no nome Daquele que é meu escudo e fortaleza!”. QUANDO, ANTES DE AGIR, PARAMOS PARA OUVIR A ORIENTAÇÃO DIVINA Vemos que Deus fez com que Israel voltasse à arena de três modos. Primeiro, houve a necessidade de Deus falar a Josué a fim de encorajá-lo: “Volte ao campo de batalha, pois vou operar no meio de Meu povo conforme operei em Jericó”. O referencial, no qual ele deveria pôr sua esperança, não era mais a derrota de Ai, mas a vitória em Jericó. Em segundo lugar, Deus dirigiu-se a Josué nestes termos: “Eu amo Meu povo e, no Meu amor, perdoei seus pecados e iniquidade; então, livres de qualquer espécie de temor, voltem a enfrentar o adversário que os derrotou”. É fundamental, porém – e esta é a terceira coisa que Deus fez –, que, antes de voltarmos a enfrentar o adversário que uma vez nos derrotou, paremos a fim de ouvir a orientação divina: “Farás a Ai e a seu rei como fizeste a Jericó e a seu rei; somente que para vós outros saqueareis os seus despojos, e o seu gado; põe emboscada à cidade, por detrás dela”. Por vezes, perdemos batalhas fáceis porque julgamos que tudo de que precisávamos era crer. Crer é fundamental, mas quem disseque a verdadeira fé prescinde do correto julgar que nos leva ao planejamento sábio? Precisamos não apenas de fé, mas de sabedoria também para enfrentar o adversário. Não basta proclamar, por exemplo, vitória no campo profissional; é fundamental que trabalhemos duro, sejamos pontuais, façamos as coisas com excelência e planejemos com sabedoria. Porque vemos tantos fracassos em famílias de crentes apesar de todas as declarações de vitória que lhes são ensinadas? Isso acontece porque lhes falta sabedoria. O povo de Israel recebeu da parte de Deus tanto a fé quanto a orientação sábia e prudente. Não basta apenas amarrar o espírito de pobreza na sua casa, dizendo: “Vou amarrar hoje, no culto da ‘vitória’, o devorador!”. Mas, além de “amarrar o devorador”, você é pontual? Cumpre o que promete? Tem procurado se aperfeiçoar tanto ou mais do que seus companheiros de trabalho? Você se prepara antes de fazer as coisas? Gary Collins, falando sobre pessoas verdadeiramente influentes, afirma: “Os que são verdadeiramente influentes [...] tão pouco são como sonhadores que vivem construindo castelos no ar, sem realizar muito porque sua mente está tão enfocada no futuro que não conseguem dar-se conta de suas responsabilidades atuais”.72 O povo recebeu a orientação divina para a batalha, o que foi fundamental para dar-lhes a vitória. Isso está absolutamente claro no verso 2: “Farás a Ai e a seu rei como fizeste a Jericó e a seu rei; somente que para vós outros saqueareis os seus despojos, e o seu gado; põe emboscada à cidade, por detrás dela”. No verso 10 lemos que Josué multiplicou o número de valentes para a luta naquele conflito. Se, no capítulo 7, descobrimos que três mil soldados foram enviados para a batalha, no verso 10 descobrimos que Josué mandou, desta vez, trinta mil soldados: “Levantou-se Josué de madrugada, passou revista ao povo e subiram ele e os anciãos de Israel, diante do povo contra Ai”. Depois de tudo o que aconteceu, Josué passou o povo em revista a fim de se certificar de que todas as coisas estavam corretas. Deixe-me fazer uma aplicação disso. Para realizarmos um bom culto cristão, basta orar? Não! Cabe ao pregador preparar-se adequadamente em casa, jejuar, orar e estudar o texto que pretende proclamar ao povo de Deus. Cabe aos músicos ensaiarem as músicas que pretendem tocar. Os que mexem com a aparelhagem de som devem chegar cedo a fim de preparar os equipamentos para que, depois, a igreja não tenha de atribuir ao diabo aquilo que foi a irresponsabilidade humana. Refiro-me à igreja, mas isso envolve todos os aspectos da vida. Pense na sua profissão, no seu casamento, na administração da sua vida espiritual. Estou cada vez mais convencido de que, para ter-se progresso na vida espiritual, não bastar ler a Bíblia e orar. Isso é fundamental, mas cabe a nós também – usando uma ilustração da própria Bíblia, que diz que a vida espiritual pode ser comparada a uma pessoa que ingressou numa academia – exercitar o espírito, ir para o ginásio de Deus para trabalhar os músculos do caráter, fazendo compromissos de controle do temperamento, da língua e dos hábitos. Como diz o apóstolo Paulo: “Mas esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo, para que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado” (1 Co 9:27). É Dallas Willard quem afirma: “A Bíblia também nos informa que existem certas práticas, solitude, oração, jejum, celebração e assim por diante, que podemos empreender, em cooperação com a graça, para elevar o nível de nossa vida na direção da piedade”.73 O texto que estamos estudando deve ser contrastado com o capítulo 6 de Josué. Isso porque naquele capítulo a estratégia montada era uma verdadeira prova para a fé: trazia uma ordem divina, aparentemente ilógica aos olhos dos homens. Lá estavam as enormes muralhas erigidas, fortes, impenetráveis, o adversário bem guardado ali dentro. O povo de Israel, sem saber o que fazer, ouve a estranha ordem de Deus: “Organizem uma procissão, durante seis dias deem uma volta em torno da muralha e, no sétimo dia, deem sete voltas, tocando as trombetas”. Isso não era uma estratégia militar, mas uma estratégia absurda – a não ser pelo fato de ela ter sido apresentada por Deus. Contudo, a estratégia do capítulo 8 de Josué fazia sentido; esta, sim, era uma verdadeira estratégia de guerra. “Ali está Ai, com todos os seus moradores orgulhosos da vitória. A tática será diferente agora. Nada de trombeta ou gritos. Quero que vocês dividam os soldados em dois grupos. Um irá por detrás da cidade e o outro irá pela frente. Quando o que irá pela frente estiver se aproximando da cidade e vir a reação do adversário, baterá em retirada. E procure se distanciar da cidade o suficiente para que ela fique completamente desguarnecida. Então, o grupo que está por detrás da cidade a invadirá.” A Bíblia diz que esse segundo grupo pôs fogo na cidade, e, quando os soldados voltaram os olhos para Ai e viram a cidade em chamas, tentaram retornar para lá, e os que estavam atrás da cidade, na emboscada, partiram de encontro aos soldados de Ai. Estes, quando tentaram fugir na direção contrária, viram também o outro grupo do exército de Israel. Foram todos derrotados, vindo a morrer doze mil pessoas nessa batalha. É interessante o número doze mil, uma vez que doze era o número das tribos de Israel. Isso me faz lembrar o seguinte: “Minha é a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor” (Rm 12:19). A Bíblia, portanto, nos quer ensinar que Deus pode trabalhar de ambos os modos; nossa tarefa é permanecer tanto fiéis aos absurdos da direção divina como fiéis quando for exigido que apenas façamos o que o bom senso nos manda fazer. No capítulo 6, encontramos a fidelidade que exige a submissão ao absurdo – mas note bem: ao absurdo revelado, à palavra de Deus, não à palavra do homem. Se a palavra de Deus o manda fazer algo, faça imediatamente, por mais ilógico que o plano possa lhe parecer. Como afirma Jonathan Edwards, citado por John Gerstner: “É irracional questionar racionalmente qualquer coisa ensinada pela revelação, uma vez que a revelação por si mesma esteja estabelecida”.74 Se a Bíblia é, de fato, a Palavra de Deus, é racional aceitar o que nela é aparentemente irracional. Mas precisamos também de fidelidade para nos submeter àquilo que o bom senso nos ordena fazer. É interessante vermos ambas as coisas na Bíblia. Observe o mandamento para sermos mansos: “Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança” (Mt 5:5). Existe coisa mais contrária à natureza humana do que sermos mansos? Abrir mão de nossos direitos? A Bíblia afirma que aquele que assim proceder será o vitorioso. Faz sentido essa proposta? A Bíblia diz que, se você quiser prosperar, deverá dar seu dinheiro (isso não significa que tal acontecerá em todos os casos). Faz sentido isso? Quanto mais você der, mais receberá – este é o claro ensinamento em vários textos das Santas Escrituras. As janelas do céu se abrem para os generosos! No Sermão da Montanha (Mt 5-7), vemos apenas conselhos absurdos nas bem-aventuranças, contrários ao que comumente se ensina e se aprende. O Senhor Jesus apresenta o conceito de felicidade dizendo: “Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados. Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos” (5:4-6). O filósofo alemão Friedrich Nietzsche via com horror esse tipo de vida. O historiador norte-americano Edward McNall Burns registra esse horror: Nietzsche exigia que fosse derrubada a supremacia moral do cristianismo e do judaísmo. Ambas as religiões, dizia ele, glorificavam as virtudes dos oprimidos. Transformavam em virtudes atributos que deveriam ser considerados vícios – humildade, falta de resistência, mortificação da carne e piedade pelos fracos e incompetentes. A entronização dessas características impedia a eliminação dos inaptos e os preservava para despejarem seu sangue degenerado nas veias da raça.75 A Bíblia exige fidelidade a esses aparentesabsurdos. Aparentes, pois somente são absurdos para os que, como o filósofo ateu alemão, vivem nas trevas de um egoísmo que só é capaz de enxergar a importância desses valores quando necessita que outros manifestem a seu favor essas virtudes que condena ou quando, em face da barbárie em algum lugar (guerra, pedofilia, estupro, sequestro etc.), é levado a crer que só é possível o mundo dos nossos sonhos se for regido pelos valores do Sermão da Montanha. Agora, há mandamentos que fazem sentido. Por exemplo: “Os planos fracassam por falta de conselho, mas são bem-sucedidos quando há muitos conselheiros” (Pv 15:22). Isso se harmoniza com o bom senso. Ao afirmar isso, porém, não estou dizendo que aquele que recebeu uma mente iluminada pela graça não verá sentido no Sermão da Montanha, mas, sim, que, do ponto de vista do não regenerado, algumas coisas na Bíblia são sem sentido, enquanto de outras até os ateus gostam. Como é difícil para muitos do povo de Deus saber que caminham de ambos os modos: em submissão aos “absurdos” e tendo de agir de acordo com o que a razão ordena fazer. F. B. Meyer, comentando o capítulo 8 de Josué, faz a seguinte afirmação: “Embora estivesse certo da vitória, Josué adotou a medida que seus conhecimentos militares sugeriam. Observemos o lugar que o nosso planejamento deve ocupar. Não é deixar Deus de fora, mas abrir a trilha por meio da qual o Seu socorro possa chegar até nós”.76 Muitas vezes apresentamos na igreja um bom planejamento, mas nos questionamos: “Onde está Deus nisso tudo?”. Uma resposta é esta: nosso planejamento é o caminho aberto para que Deus possa operar. A fé não prescinde de meios sábios e prudentes. Vemos isso claramente na vida daquele que nos ensinou a não pular do pináculo do templo (Mt 4)! CONCLUSÃO Israel marchou, subindo rumo ao longo e desolado passo; ao caminhar, podiam ver a tenda de Acã, cenário de seu recente castigo. Agora o coração daqueles milhares estava dócil, com toda humildade avançaram e não estavam envergonhados.77 Ao final da peleja, o povo saiu com despojo. O despojo que levara Israel à derrota, agora poderia ser desfrutado pelo povo de Deus. Esse fato mostra como Deus governa todas as coisas. Ele exige nossa fidelidade e nos disciplina a infidelidade; no entanto, quando nos arrependemos, Ele mesmo nos permite ter aquilo que, em outra circunstância, nos traria o mal. E agora, aquele despojo, apresentado a Deus como oferta, naquele exato ponto de nossa vida, se transforma numa maneira de expressarmos nosso amor por Ele. Portanto, amigo, insista na vitória – você pode sair vitorioso onde foi derrotado. Onde você foi derrotado? Num voto feito a Deus? No seu ministério? Está endividado e passou por humilhações profissionais que quase levaram sua família à falência também? Onde você foi derrotado? Você já discerniu que não foi a infidelidade divina? Já percebeu, contudo, que você pode se reconciliar com o Deus santo, que Ele pode voltar a sorrir para você, servo pecador arrependido? O povo de Israel podia dizer: “Senhor, já fomos derrotados, não vamos insistir mais na retirada destes inimigos”, mas o Senhor lhes diria: “Não! Voltem para lá! Não quero que vocês capitulem nem que estabeleçam um tratado de paz com o inimigo. Esta terra Eu a dei a vocês, não quero que a dividam com mais ninguém!”. Isso nos ensina que podemos sair vitoriosos onde fomos derrotados. Para tal, precisamos insistir na vitória, por compreender que temos uma palavra dos altos céus nos assegurando que não devemos fugir do campo de batalha. Devemos eliminar o temor ante o adversário que nos derrotou, mas que pode ser destruído em nome do Senhor Jesus. Não haveremos de partir na direção do adversário de peito aberto; vamos primeiro montar um plano, usando a mente, enquanto mantemos nossa lança apontada para Ai, sem tirar nossas mãos dela, deixando-a se apegar à nossa pele, vindo a fazer parte de nós mesmos. E é esta a arma que nos garantirá a vitória: a Palavra de Deus com a qual derrotaremos aquele que um dia nos humilhou. VIII O DEUS QUE ATENDE AOS HOMENS O sol parou, e a lua se deteve, até a nação vingar-se dos seus inimigos, como está escrito no Livro de Jasar. O sol parou no meio do céu e por quase um dia inteiro não se pôs. Nunca antes nem depois houve um dia como aquele, quando o Senhor atendeu a um homem. Sem dúvida o Senhor lutava por Israel! ( Js 10:13-14). Estaremos meditando a partir de agora no maior milagre que Deus operou naqueles dias na vida do Seu povo – milagre somente sobrepujado pela conversão da prostituta Raabe. Mas, no que diz respeito à ação de Deus no mundo natural, em Sua criação inanimada, creio que esse é o maior milagre de todo o Antigo Testamento. O contexto deste fato está em que o povo de Israel, sem a aprovação divina, fizera uma aliança com os gibeonitas. Na história de Israel vemos algo que se repetiria tantas vezes com a Igreja: pessoas que dela se aproximam com o propósito de tirar proveito de sua bênção e de seu caráter. Como devemos ser criteriosos com as alianças que fazemos com não cristãos! Isso é especialmente necessário quando o objetivo relaciona-se ao que Francis Schae�er chamava de “princípio da cobeligerância”: crentes e não crentes lutando por uma causa comum. Por exemplo, se um ateu luta pela democracia, devo estar a seu lado, pois se trata de uma bandeira do Cristianismo também. Há alianças, contudo, desnecessárias, que não têm o aval de Deus, por serem produto do desejo do ímpio de usar o povo de Deus, constituindo-se, por fim, em armadilha para os defensores da causa de Cristo. Em Josué 10 lemos que um dos reis que habitavam no território de Canaã, ao tomar conhecimento das proezas que Deus estava realizando a favor de Seu povo e da aliança feita com os gibeonitas (vv. 2-3), uniu-se a outros quatro e estabeleceram um plano de destruir Gibeom. Com isso, somos introduzidos a mais uma batalha do povo de Israel na terra da promessa, no território de Canaã. No verso 3 temos a primeira menção à cidade de Jerusalém na Bíblia. É bem verdade que ela é referida anteriormente pelo nome de Salém, cidade de Melquisedeque (Gn 14:18), mas aqui o nome de Jerusalém é pela primeira vez mencionado na Bíblia. Essa cidade veio a se tornar central nos propósitos de Deus. Terra habitada, na época, por um povo ímpio e idólatra, a qual, porém, veio a se tornar lugar sagrado – isso faz de Jerusalém uma exemplificação da vida daqueles que, de morada de Satanás, se tornaram habitação de Deus. É interessante observar que o nome do rei de Jerusalém, Adoni-Zedeque, significa “o Senhor é justiça”. O nome do rei já era uma profecia, pois a suprema manifestação da justiça de Deus haveria de acontecer em Jerusalém, na morte de Jesus Cristo, nosso Salvador. Ali, conforme certo teólogo disse, “o amor e a justiça de Deus se beijaram”, pois na cruz Deus expressou Seu infinito amor pela humanidade, enviando Seu Filho para morrer pelos pecadores, e manifestou Sua justiça, oferecendo aos homens um perdão justo que tem como base aquela morte em substituição àqueles que, de fato, deveriam morrer por causa dos seus pecados. Em Josué 9, lemos sobre a aliança que foi feita entre o povo de Israel e o povo de Gibeom, povo que fazia parte daqueles cuja destruição Deus havia ordenado, em razão da imoralidade à qual homens e mulheres estavam entregues, a ponto de terem relação sexual com animais e oferecerem os filhos em sacrifício ao deus Moloque. A Bíblia diz que o povo de Israel fez uma aliança com os gibeonitas em nome do Senhor (v. 18). Então, por causa do nome do Senhor, o povo de Israel se viu moralmente obrigado a defender Gibeom. Veja as implicações e as consequências das alianças que fazemos. Penso, por exemplo, nas alianças políticas, quando pastores aprofundam a injustiça no nosso país ao darem apoio a políticos inescrupulosos, perdendo assim a autoridade profética da Igreja. Quantos ministros existem que não podem denunciar os pecados da sua cidade por terem perdido a autonomia profética, por força da associação comquem não presta. Quando aqueles cinco reis se levantaram contra Gibeom, os moradores da cidade clamaram que Josué os ajudasse. O grande comandante israelita, então, mobilizou seu exército inteiro: “Josué partiu de Gilgal com todo o seu exército, inclusive com os seus melhores guerreiros” (10:7). Nesse versículo, encontramos mais um princípio de vida: antes de partir para qualquer batalha da vida, temos de saber a quem vamos encarar e devemos nos armar de forma proporcional ao tamanho da ameaça. Ilude-se quem pensa que os verdadeiros crentes não usam o cérebro. É prudente rejeitar participar de debate por julgar-se despreparado para representar a Igreja. Mas há muitos que pensam ser uma demonstração de fé ir de qualquer jeito, mesmo não estando preparados, confiados em uma espécie de “inspiração” instantânea de Deus. É um erro também, por exemplo, na evangelização pessoal tentar refutar aquilo que não entendemos. Se você não sabe nada sobre evolucionismo, chame seu interlocutor para um campo que você conhece e diga-lhe, com humildade, que sobre aquele tema você não tem muito a falar. No máximo, comente que o surpreende ouvir dizer que a evolução culminou em seres tão avançados que chegaram à conclusão que todo o universo, com sua complexidade e beleza, incluindo a existência do homem, é obra do acaso. Portanto, arme-se bem antes de sair para a guerra! Nos versículos 10 e 11, vemos a profunda lealdade de Deus a Israel: O Senhor os conturbou [os exércitos dos cinco reis] diante de Israel, e os feriu com grande matança em Gibeom, e os foi perseguindo pelo caminho que sobe a Bete-Horom, e os derrotou até Azeca e a Maquedá. Sucedeu que, fugindo eles de diante de Israel, à descida de Bete-Horom, fez o Senhor cair do céu sobre eles grandes pedras, até Azeca, e morreram. Que maravilha servir a um Deus leal. Tamanho amor O levou a se envolver de tal modo na batalha que O vemos guerreando a favor de Israel, com Israel e sem Israel. Servimos a um Deus leal; por isso, nunca estamos sós. Chegamos agora aos “versículos-bomba”. Veremos como a lealdade do Criador aos que têm uma aliança com Ele chega a algo inimaginável, especialmente quando visto à luz dessa declaração do astrônomo norte-americano Carl Sagan: As fotografias da Apollo da Terra inteira transmitiram às multidões algo bem conhecido dos astrônomos; na escala de mundos, para não falar da escala de estrela ou galáxias, os seres humanos são insignificantes, uma película fina de vida sobre um bloco obscuro e solitário de rocha e metal [...]. Pode-se imaginar um observador extraterrestre severo olhando a nossa espécie com desprezo durante todo o tempo, enquanto tagarelávamos animadamente: “Universo criado para nós! Somos o centro! Tudo nos rende homenagem!”. E os extraterrestres concluindo que “nossas pretensões são divertidas, nossas aspirações patéticas e que este deve ser o planeta dos idiotas”.78 O verso 14, porém, afirma que o Senhor, o Criador de todo o universo, atendeu à voz de um homem! Deus atendeu a uma oração ousada, feita por alguém do tipo denominado por Sagan de ser insignificante, que mora numa “película fina de vida, sobre um bloco obscuro e solitário de rocha e metal”. A Bíblia afirma que esse ser disse: “Sol, pare sobre Gibeom! E você, ó lua, sobre o vale de Aijalom” (v. 12). E a Bíblia diz que o sol e a lua, de fato, obedeceram e se detiveram! Eu não vejo outra forma de os seres humanos terem consolo a não ser crendo, em contraposição ao incrédulo astrônomo, no versículo 14 do capítulo 10 do livro de Josué. Precisamos desesperadamente crer não apenas na existência de Deus, mas em um Deus pessoal que ouve nossas orações, que tem completo domínio sobre a criação e nos ama! Como diz C. S. Lewis: “Nós confiamos não por causa de um Deus existir, mas porque este Deus existe”.79 Em geral, pensamos que nossos problemas relacionam- se à família, às enfermidades contra as quais temos de lutar ou às loucuras cometidas pelos governos das nações. Sagan, no entanto, não exagera ao afirmar o seguinte: Centenas de pequenos mundos e pelo menos um corpo celeste maior parecem ter se chocado com a Terra nos últimos vinte anos. Não causaram dano, mas devemos estar muito seguros de poder distinguir entre um pequeno cometa ou asteroide impactante e uma explosão nuclear atmosférica.80 Nessa mesma obra, entre outras coisas, ele estimula o governo norte-americano a investir pesado em tecnologia espacial para a confecção de foguetes, que sejam usados para desviar asteroides de um possível choque com o planeta Terra, o que, dependendo do tamanho do asteroide, representaria a destruição de toda a vida aqui. É por esta, entre outras muitas razões, que eu afirmo que sem o verso 14 e o que ele significa, não é possível, de fato, viver. Não é possível nem mesmo ir para a cama e dormir sossegado. Eu preciso crer em um Deus que existe e tem controle sobre Sua criação. Não posso dormir tranquilamente com a possibilidade de um asteroide desgovernado pelo espaço se chocar com o planeta e destruir todos os nossos arquivos, poemas, canções e restar aquilo que alguém já chamou de “desatenta frieza surda do cosmos”. Como viver feliz se não há ninguém no cosmos capaz de impedir tragédia dessa natureza? O DEUS QUE OUVE O HOMEM Mas a Bíblia nos ensina, em Josué 10, que Deus ouve a oração do homem. Quero que isso fique claro para você: Deus ouve o homem. Quem é Este que está disposto a ouvir você? A importância da resposta a essa pergunta deve-se ao fato de que o conceito que temos de Deus sempre determina a qualidade de nossa oração, o tamanho de nossa fé e o nível de paz que desfrutamos. Ampliar nosso conhecimento de Deus é ampliar nossa possibilidade de mais profundamente experimentarmos Seu amor. O que queima meu coração é poder chegar em pleno século XXI e dizer: “Há um Criador por trás da vida!”. Mas, muito mais do que isso, é preciso dizer que esse mesmo Criador se revelou nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento e o conhecimento que nos proporcionou de Si mesmo é suficiente para nos encorajar a viver neste mundo, no qual nos encontramos sob ameaças que vão de um asteroide que pode nos destruir a uma unha encravada que pode nos levar à septicemia. Como somos frágeis! Mas a Bíblia diz que o Senhor atendeu à voz de um homem. Quem é Este que ouve a voz dos seres humanos? Tem o universo sob seu controle Deus tem o universo sob Seu controle. É a primeira verdade teológica que encontramos em Josué 10. O Deus que existe, que criou todas as coisas usando o nada como matéria-prima, tem absoluto controle sobre a Sua criação. Às vezes, em aulas de teologia, nós brincamos levantando o falso dilema intelectual popularizado pelo teólogo norte-americano R. C. Sproul: o Deus onipotente poderia construir uma rocha tão grande a ponto de nem Ele mesmo poder movê-la?81 As respostas são muito variadas: uns dizem que sim, outros dizem que não, outros tentam “filosofar” sobre o assunto. Na verdade, trata-se de um falso dilema, pois o sentido da palavra onipotência, aplicada a Deus, não é que Ele pode fazer qualquer coisa. Ele, por exemplo, não pode fazer nada que vá de encontro ao Seu caráter, como deixar de amar, de ouvir a oração dos santos, de tratar com misericórdia as pessoas que O buscam; Deus não pode mentir e também não pode fazer idiotices, como um círculo quadrado, pois há coisas que são inerentemente impossíveis. O sentido de onipotência na Bíblia é que Deus tem completo domínio sobre Sua criação. Ele não poderia construir essa rocha porque ela destruiria Sua onipotência, e isso Ele não pode fazer. Ele não faz nada que escape ao Seu controle. Dizer que Deus é onipotente significa dizer que Ele tem completo domínio sobre a criação. Isso fica nítido no capítulo que estamos estudando. Eu me lembro do pastor Rick Wattz, professor- assistente do Regent Colege em Vancouver, Canadá, contando de uma “profecia” que surgiu na Austrália. (Às vezes rimos de profecias que nos parecem absurdas, mal percebendo que estamos rindo de nossas próprias teologias.)Rick contou que o tal profeta levantou-se em uma reunião e disse algo mais ou menos assim: “Eis que aí vêm dias de densas trevas. Eis que vos digo, Meus servos” (deixe-me evangélico-abrasileirar a profecia) “que haverá clangor de trombetas, furacões, maremotos, trovões! Até Eu estou com medo!”. Essa profecia, que só pode ser uma piada, por sinal, profundamente didática na sua forma absurda de falar sobre a relação do Criador com o mundo que ele próprio criou, fala de um Deus que perdeu tanto o controle da situação que até Ele mesmo tem medo do fim dos tempos. O conceito bíblico da organização do universo, entretanto, não nos apresenta um Deus que está impotente em Seu trono, roendo as unhas, torcendo para que tudo dê certo. O nosso Deus reina! Ele é soberano. E o que encontramos nessa oração extraordinária de Josué respondida pelo Deus Todo-poderoso é uma ilustração bastante clara dessa doutrina bíblica. O nosso Deus é soberano. Ele tem controle total sobre todo o universo. O profeta Isaías confirma essa doutrina: “Ergam os olhos e olhem para as alturas. Quem criou tudo isso? Aquele que põe em marcha cada estrela do seu exército celestial, e a todas chama pelo nome. Tão grande é o seu poder e tão imensa a sua força, que nenhuma delas deixa de comparecer” (40:26). Pense nisso: somos moradores de um planeta minúsculo de um sistema chamado de Solar, que faz parte da galáxia Via Láctea, que é composta por cem bilhões de sóis, que é uma entre as cem bilhões de galáxias do universo. E a Bíblia diz que Deus conhece cada uma dessas estrelas pelo nome – e a nós também! Neemias 9:6 afirma: “Só tu és o Senhor. Fizeste os céus, e os mais altos céus, e tudo que neles há, a Terra e tudo o que nela existe, os mares e tudo o que neles existe. Tu deste vida a todos os seres, e os exércitos dos céus te adoram”. A Bíblia diz que Ele é o criador e o mantenedor da vida. Ele não criou o universo e deu corda nele, deixando-o entregue às suas leis naturais. A Escritura Sagrada diz que essas leis naturais são mantidas pelo Espírito Santo, que sustenta o universo. Ele criou tudo do nada e mantém todas as coisas pelo poder da Sua Palavra, de maneira que há um pentecoste na Igreja, mas há um pentecoste na criação também, diário, sem o qual o caos há muito já teria se estabelecido. O profeta Jeremias também confirma essa doutrina: “Assim diz o Senhor, aquele que designou o sol para brilhar de dia, que decretou que a lua e as estrelas brilhem de noite, que agita o mar para que as suas ondas rujam; o seu nome é o Senhor dos Exércitos” (31:35). Aleluia! Nosso Deus é onipotente e tem completo domínio sobre Sua criação, e esta é a base de nossa segurança. Sabe por que nós podemos dizer que todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus? Porque Ele faz tudo segundo o conselho da Sua vontade, e este mundo, portanto, não está entregue às forças cegas. Quando oramos, levamos em consideração a soberania de Deus? Quando ora, você se lembra dessa verdade? Lembra-se de que seu Deus é um Deus soberano? Que está tudo debaixo de Seu controle e que, por isso, Ele pode intervir e alterar até mesmo o curso dos astros? Você crê nisso? Ele é a realidade última, que está por trás de tudo, e tudo veio à existência pelo poder de Sua palavra. Então, o Deus que ouve a oração do homem é Aquele que tem o universo inteiro sob Seu controle. Sei que tudo o que acabei de expor é bastante óbvio. Frases que costumamos repetir, entretanto, sem passar no seu significado mais profundo. Falar desse tipo de pensamento teológico é falar sobre o fundamento da felicidade humana num universo que escapa ao controle humano. Permite que seu povo passe por tribulações para que O conheça O trecho de Josué que estamos estudando nos ensina também que esse Deus permite que Seu povo passe por tribulações para que O conheça. Em Sua soberania, Deus pode decretar sofrimento para a vida de Seus amados. Ele pode permitir que ímpios se armem e se unam para destruí- los. Nos versículos 1 e 5 de Josué 10 vemos os adversários de Israel fazendo uma aliança para destruir um aliado de Israel, movidos, obviamente, pelo ódio ao povo de Deus. Estamos diante de um episódio que, invariavelmente, se repete na vida dos filhos de Deus: unção atrai perseguição, bênção gera inveja, graça produz batalhas espirituais. Pode ter certeza de que, quando Deus coloca a mão sobre a vida de um servo Seu e começa a operar por meio dela, o inferno se mobiliza. Movidos pelo medo a Israel, aqueles reis fizeram uma aliança para destruir um povo que, apesar de seus pecados, estava sendo abençoado por ter sido escolhido por Deus. À luz do que vimos, no entanto, é absolutamente impossível que aqueles líderes estivessem tramando contra o povo de Deus sem a permissão divina. O próprio fato de eles estarem vivos aponta para essa verdade: era o poder de Deus que lhes sustentava o corpo. Sem dúvida alguma, o Deus que tem domínio sobre os corpos celestes tem domínio sobre a vida do homem também. Deus conhece cada estrela e cada fio de cabelo de um eleito Seu. É justamente esse elemento em nossa cosmovisão (a visão que o cristão tem da vida ou das grandes verdades que regem seus pensamentos e análises do que acontece no universo) que ajuda a Igreja de Cristo a enfrentar o sofrimento. Que maravilha é, apesar da dor inerente às batalhas da vida, saber que Deus está no controle. Isso levou o grande João Calvino a falar sobre a “incalculável felicidade da mente piedosa”82 por causa da certeza que advém aos crentes mesmo diante dos múltiplos perigos que os ameaçam. Ele prossegue dizendo: “Quando, porém, essa luz da Divina Providência uma vez iluminou o homem piedoso, já não só está aliviado e libertado de extrema ansiedade e do temor de que era antes oprimido, mas ainda de toda a preocupação”.83 Quem experimentou profundamente toda a oposição por ser amado de Deus e importante para Seus propósitos na história foi o apóstolo Paulo. Em Atos dos Apóstolos 27:23, 24, lemos o testemunho de Paulo acerca da fidelidade e da soberania divina na sua vida: “Esta mesma noite o anjo de Deus, de Quem eu sou e a Quem sirvo, esteve comigo, dizendo: ‘Paulo, não temas; é preciso que compareças perante César, e eis que Deus por Sua graça te deu todos quantos navegam contigo’”. Era a resposta de Deus à ação do príncipe do inferno que queria livrar o império das trevas de uma derrota que se aproximava. O Evangelho estava atingindo o coração do Império Romano. A chegada do grande apóstolo a Roma representaria a solidificação de uma igreja central para os planos de Deus em relação à humanidade. O curso do mundo ocidental estava sendo delineado. Por essa razão, Satanás queria que aquele barco fosse a pique. Não se surpreenda se Satanás estiver querendo que você naufrague também. O Deus do profeta Isaías, no entanto, é o nosso Deus: Assim como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para ele sem regarem a terra e fazerem-na brotar e florescer, para ela produzir semente para o semeador e pão para o que come, assim também ocorre com a palavra que sai da minha boca: Ela não voltará para mim vazia, mas fará o que desejo e atingirá o propósito para o qual a enviei (55:10-11). Que significa isso? Isaías está dizendo que a palavra que sai da boca de Deus sempre realiza, no tempo e no espaço, Sua vontade soberana. Deus, de Seu trono santo, pode enviar a palavra que desarticulará os planos de Satanás. Em conexão a tudo o que estamos falando, há também outra importante verdade bíblica, segundo a qual descobrimos como Deus costuma agir por meio do sofrimento na vida do Seu povo. Já vimos que as lutas fazem parte dos planos soberanos de Deus e Ele tem um propósito específico com elas. É imensamente consolador saber que, além de nossa vida estar sob Seu controle, incluindo o nosso sofrimento, Deus usa as batalhas da vida para que O conheçamos melhor. Penso que algo assim tenha acontecido naquele episódio. É como se Deus estivesse dizendo: “Eu vou permitir que os adversários do Meu povo armem esse plano para destruí-lo.Vou permitir que eles prosperem até certo ponto. Sei que vai ser difícil para Meus eleitos. Eu vou ter de encorajá-los. Vou ter de, pessoalmente, dizer que não temam. O Meu povo vai ter de ir para a batalha, vai ter de passar uma noite inteira acordado e, depois, se dirigir para o campo de guerra. Mas, no final, Eu manifestarei de tal modo Meu poder na vida de Meus escolhidos que eles vão Me conhecer de maneira absolutamente nova e singular”. É isso que a Bíblia nos ensina. Que bênção foi a trama daqueles reis, pois deu oportunidade a uma nova revelação do caráter de Deus! Como termina essa história? Termina com Josué dizendo para a lua e o sol pararem e sua oração sendo ouvida; com isso, temos, por toda a eternidade, uma prova cabal dada por Deus de Seu amor por seres pecadores como eu e você. O que o livro de Josué nos quer ensinar é que, dentro de todo pacote de sofrimento, há um presente da graça Divina, que a história que começa com dor pode terminar com adoração – portanto, haverá um dia em que daremos graças a Deus pelas batalhas travadas! Amigo, será que você consegue ver que as lutas pelas quais passa estão inseridas no plano específico de Deus para sua vida? Que elas não são um acidente, um acaso? Que elas não surgiram como que tendo escapado ao controle de Deus? Josué 10 prova que teologia não se aprende apenas lendo a Bíblia ou grandes obras de referência. Teologia aprende-se na dor, na oração que é balbuciada em meio às lágrimas, na percepção das perfeições divinas manifestadas nos atos de Deus na história. Não há dúvida de que precisamos do conhecimento a que podemos chamar de teórico ou doutrinário, obtido por meio das Escrituras Sagradas. Sem as lentes da Bíblia, não conseguimos ler a história do ponto de vista da eternidade. Os fatos tornam-se fortuitos, sem significado algum. Contudo, o conhecimento que nos chega graças às intervenções de Deus em nossa vida, cuja interpretação é dada pela Palavra, tem a característica expressa por Jó, ao final de seu período de desesperador sofrimento: “Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram” (42:5). Como podemos pensar ser possível conhecer a Deus por meios diferentes daqueles experimentados pelos profetas, autores dos salmos, apóstolos e pelos grandes santos de Deus? Olhe para a vida deles. Por que Paulo podia dizer: “Porque sei em quem tenho crido” (2 Tm 1:12) ou Davi afirmar: “O Senhor é o meu pastor” (Sl 23:1) ou, ainda, Pedro chamar Deus de “Deus de toda a graça” (1 Pe 5:10). Oh, amigo!, estes homens não faziam teologia trancados em escritórios ou bibliotecas empoeirados. As grandes verdades do caráter de Deus lhes chegavam enquanto expandiam o Reino de Deus, enfrentavam seus adversários, sofriam injustiças e privações, oravam com fervor e experimentavam a proteção celeste. Por que para nós haveria outro caminho? Se não fosse a trama daqueles reis, talvez Josué jamais viesse a saber que Deus, por Sua fidelidade, pode deter o curso dos astros em resposta à oração de um pecador. E, à luz disso e de toda a Bíblia, podemos dizer: como Satanás serve a Deus! O Maligno leva pessoas a se levantarem contra nós, cristãos, enchendo-lhes o coração de ódio e a mente dos mais hediondos e sagazes planos, tão somente para que o crente, sob a soberania divina que permite a perseguição, conheça melhor seu Deus e Senhor. Peleja por seu povo Em terceiro lugar, respondendo à pergunta “quem é o Deus que ouve a oração de um mortal?”, podemos afirmar que Ele é o Deus que peleja por Seu povo. Josué 10:11 diz: “Sucedeu que, fugindo eles de diante de Israel, à descida de Bete-Horon, fez o Senhor cair do céu sobre eles grandes pedras até Azeca, e morreram. Mais foram os que morreram pela chuva de pedra do que os mortos à espada pelos filhos de Israel”. O versículo 14 afirma claramente: “Porque Deus pelejava pelo Seu povo”. O Deus que ouve Seu povo é capaz de comprar as brigas do Seu povo também. Pense nisso: Deus peleja por você. Quem peleja por nós não tem rival. Em certo sentido, é um grave erro teológico chamar Satanás de adversário de Deus. Deus não tem adversário. Ele é a causa de tudo o que existe. Toda a criação deriva Dele. Nada nem ninguém esteve antes da criação a Lhe determinar os decretos ou a aconselhá-Lo como agir. Jamais devemos pensar em Satanás ou em quem quer seja agindo autonomamente no universo. Embora todas as criaturas racionais sejam responsáveis por suas ações, nenhuma delas é capaz de fazer o que Deus não determinou. Veja o caso de Judas Iscariotes, por exemplo. É dito na Bíblia que ele, responsável e conscientemente, fez apenas o que Deus havia determinado: “Este homem [Cristo] lhes foi entregue por propósito determinado e pré- conhecimento de Deus; e vocês, com a ajuda de homens perversos, o mataram, pregando-o na cruz” (At 2:23). Como bem expressa Charles Hodge, aplicando uma lógica irrefutável ao tema da soberania de Deus: Grande parte das predições, promessas e ameaças da Palavra de Deus se fundamenta na concepção desse controle absoluto sobre os atos livres de Suas criaturas; sem isso não poderia haver nenhum governo do mundo e nenhuma certeza quanto ao seu resultado. A Bíblia está repleta de orações fundamentadas nessa mesma concepção. Todos os cristãos creem que os corações humanos estão na mão de Deus; que Ele opera neles tanto o querer quanto o realizar, segundo Seu beneplácito.84 Os métodos de Deus para defender Seus eleitos são os mais variados. Ele pode capacitar Seu povo de modo surpreendente, fazendo com que este supere as próprias limitações e, assim, o adversário não o possa derrotar. Deus pode punir diretamente os inimigos da Igreja, reduzindo-os a cinzas, ou pode usar Sua criação inanimada, como estamos vendo na vida de Josué. Por esse motivo, apesar da indignação natural que se apodera de nós ao vermos a capacidade dos nossos adversários de perpetrar o mal, deles devemos ter misericórdia. Imagine a situação daquele a quem Deus vê como inimigo: ele não tem a quem recorrer em todo o universo! Veja a tolice: aquele que se opõe a Deus tem o fio pelo qual recebe a energia da vida ligado à tomada que está nas mãos de um Ser soberano e irado. Deus peleja por nós quando nossa causa é justa, e os que se opõem aos intentos da Igreja se opõem aos planos de Deus. Deus peleja por nós quando reconhecemos nossa dependência Dele. Deus peleja por nós quando nos vê inferiorizados perante o adversário que dispõe de mais recursos do que nós. Deus peleja por nós quando erguemos a voz aos céus. Oh! O que a oração de um simples mortal pode gerar! Ela aciona o braço que move o universo! Louve a Deus por sua fragilidade porque é ela que o levará a depender Daquele que nunca frustra os que, esmagados pela consciência de suas limitações, clamam ao seu Defensor celestial para que os socorra. Por que Deus peleja por nós? Muitas respostas poderiam ser dadas, mas penso que o melhor seria ficarmos com o testemunho da fidelidade divina que encontramos ao longo de todo o livro de Josué. Sem dúvida, podemos afirmar que Deus peleja por nós por ser fiel a Sua promessa: “O Senhor não desamparará o seu povo; jamais abandonará a sua herança” (Sl 94:14). Como eu vejo Deus comprando todas as brigas do apóstolo Paulo, pelejando por ele assim como pelejou pela vida do povo de Israel! Certa noite o Senhor falou a Paulo em visão: “Não tenha medo, continue falando e não fique calado, pois estou com você, e ninguém vai lhe fazer mal ou feri-lo, porque tenho muita gente nesta cidade” (At 18:9). Aleluia! O Senhor estava dizendo ao apóstolo: “Olha, há muita gente eleita nesta cidade, gente que Eu separei desde antes da fundação do mundo para a salvação. E você é o instrumento do milagre para elas saberem disto. Eu estou levantando você para levar a salvação para Meus eleitos. Por isso, ninguém vai tocar na sua vida”. Louvado seja o nome do Senhor. Temos ainda outro exemplo no capítulo 23: na noite seguinte o Senhor, pondo-se ao lado dele, disse: “Coragem! Assim como você testemunhou a meu respeito em Jerusalém,deverá testemunhar também em Roma” (v. 11). Aprouve a Deus, em Sua soberania, permitir que este mundo se afastasse dos Seus caminhos. Em Seu infinito amor, Deus escolheu um povo para revelar ao mundo Sua inescrutável graça. Por essa razão, o povo de Deus é alvo dos constantes ataques de Satanás. Note que ele nunca cessa de perseguir os eleitos de Deus; veja como ele tentou destruir a vida dos patriarcas, a vida do grande rei Davi, a vida dos apóstolos e a vida de nosso amado Salvador. Muito se pode conjecturar sobre a razão pela qual Deus permite que Seu povo seja tão importunado por Satanás. Uma certeza, porém, nós temos: este ser asqueroso com todos os seus aliados humanos “já condenado está, vencido cairá, com uma só palavra!”85. Você crê que, enquanto lê este livro, Deus está guerreando por você? Você crê nisso? Amigo, esse é o sentido do sábado. O sábado era, para o povo de Israel, um testemunho de fé. Eles paravam de trabalhar e consagravam aquele dia ao Senhor, na certeza inabalável de que, enquanto estavam cultuando, Deus trabalhava por eles. Louvado seja o nome do Senhor! Hoje estão acontecendo coisas a seu favor cuja percepção você só terá daqui a alguns dias, meses ou anos. Vemos isso ao longo da história da Igreja. Vemos isso, por exemplo, na maneira como Deus honrou e ungiu a pregação de Lutero para o enfraquecimento do papado: Simplesmente ensinei, preguei, escrevi a Palavra de Deus; não fiz nada. E então, enquanto eu dormia, ou bebia cerveja de Wittenberg com meu Filipe e meu Amsdorf, a Palavra enfraqueceu tão intensamente o papado que nenhum príncipe ou imperador jamais fez estrago assim. Não fiz nada. A Palavra fez tudo.86 Encoraja os seus amados O Deus que ouve a nossa oração é um Deus que também encoraja Seus amados. É a quarta verdade sobre Ele que podemos depreender de Josué 10. No verso 8, diz: “E disse o Senhor a Josué: ‘Não tenha medo desses reis; eu os entreguei nas suas mãos. Nenhum deles conseguirá resistir a você’”. Deus conhece nossa estrutura e sabe que somos pó (Sl 103:14); Ele sabe que tendemos ao medo e ao desânimo e, por isso, somos carentes de Seus constantes encorajamentos. Não há nada que mais nos encoraje do que ouvir a voz que procede dos céus. Oh, o que esta voz pode operar! Ela nos faz ver o invisível, cria expectativa de vitória, nos faz recobrar os sonhos, enfim, nos põe para viver. O Deus a Quem servimos, portanto, pode enviar uma palavra aos astros a fim de que estes sirvam aos propósitos da Igreja, bem como pode enviar um palavra ao coração da Igreja para que esta não saia da sua órbita em torno de Deus. Essa voz às vezes nos alcança quando estamos nos mais profundos vales. Ela vem ao nosso encontro quando tudo se torna sem sentido, quando amigos amados nos traem, ímpios prevalecem, santos são injustamente condenados, os anos passam e sentimos que Deus não nos usou tanto quanto um dia anelamos. Sim, muitas vezes essa voz é nosso único ponto de apoio. Muita vezes, a única coisa que o crente tem é uma palavra dos céus. Uma única palavra. Mas quando ela vem ao seu coração, uma energia indescritível é liberada e põe o crente de pé. Essa voz, em outras tantas ocasiões, precede batalhas que se aproximam. Antes de o Senhor e Salvador de nossa vida enfrentar o Getsêmani, ouviu Seu amado Pai dizer: “Este é o meu Filho amado em quem me agrado. Ouçam- no!” (Mt 17:5). Servos de Deus têm relatado experiências espirituais profundas que foram seguidas de grandes lutas espirituais. Um exemplo disso é o que nos relata Martyn Lloyd-Jones, ao falar sobre George Whitefield: Whitefield havia experimentado uma época de excepcional proximidade de Cristo e estava se regozijando nisso, mas faz uma observação no seu diário, lembrando que de uma forma estranha tais experiências muitas vezes eram seguidas por provações muito duras, e ele escreve: “Sem dúvida estarei sujeito a isto novamente”. Ele sabia, era sua experiência; é uma lei quase inevitável na vida do homem de Deus num mundo de pecado.87 E é justamente essa voz que nos faz não perder nem a esperança nem a sobriedade quando estamos envolvidos em grandes lutas. Deus entende não apenas de astronomia, como também de psicologia. Ele conhece os astros e conhece as almas. Essa comunicação divina dá-se de diversas formas. A maneira clássica é a própria Bíblia ser aplicada a nossa vida pelo Espírito Santo. Tenho para mim que existe na vida uma torre alta da qual podemos rir dos nossos adversários porque suas setas não nos atingem. A Bíblia é essa torre para o crente. Se possuir suas verdades, o crente tem, para cada frase de desespero lançada por Satanás, uma resposta a dar. A Bíblia chama esse exercício de “usar o escudo da fé”. Deus fala conosco, por vezes com tamanha simplicidade, que quase não acreditamos que um Ser tão excelso nos possa ter falado de maneira tão pouco sofisticada. Lembro-me de um pastor que viveu a seguinte experiência. Ele sentia certo desconforto no coração por se julgar dado demais às brincadeiras. Temia que sua forma alegre e bem-humorada de viver minasse sua autoridade de ministro. Naquela mesma semana, ele recebeu um telefonema de alguém consciencioso, a quem estimava, cuja palavra respeitava e que não sabia o que se passava no coração do seu amigo pastor. Essa pessoa lhe disse o seguinte: “Uma característica da sua vida é a alegria. Aonde você chega, traz junto a alegria”. Aquele ministro que se sentia culpado creu que Deus estava usando um amigo para lhe trazer à memória que a alegria é fruto do Espírito, que um crente alegre é uma ótima apresentação do Evangelho e que ele podia muito bem ser santo e, ao mesmo tempo, irradiar felicidade. Deus não apenas conhece o movimento dos planetas como também conhece os movimentos de nosso coração. É por isso que Ele se aproxima dos Seus servos e diz: “Coragem!” Irmão e companheiro de lutas, Deus quer consolar você também. Muitas vezes os amigos mais queridos e próximos do Senhor Jesus temem tanto desagradá-Lo que passam a maior parte do tempo pensando que toda voz recebida e ouvida do alto vem para repreender e revelar pecado, quando, na verdade e na maior parte das vezes, o Deus vivo e cheio de ternura quer colocá-los, não no banco dos réus, mas sob Suas protetoras asas. Trata seu povo com misericórdia O povo de Israel estava sofrendo as consequências do seu pecado. Deus havia dito à nação para não fazer aliança com nenhum povo da terra de Canaã. A gênese daquele combate fora o que a Bíblia relata em Josué 9:14: “Não pediram conselho ao Senhor”. Os israelitas não oraram para que Deus lhes desse discernimento e orientação quanto ao que deveriam fazer e violaram, assim, um mandamento divino. Ouvir as orações do povo de Israel naquele conflito envolvia, de modo especial, o fato de Deus dar-lhe um tratamento gracioso e misericordioso, uma vez que o povo estava em falta. A misericórdia de Deus é o que O move a socorrer aqueles que não podem fazer nada por si mesmos. O que torna a misericórdia mais bela aos nossos olhos é seu caráter imerecido. Os que dela são objetos não são dignos da mesma, apenas carentes. É o que vemos nesse episódio. A compaixão de Deus não se deveu a mérito algum encontrado em Seu povo, mas Ele a exerceu porque assim o quis. Não são poucas as ocasiões em que a batalha que tivemos de enfrentar foi resultante de atitudes precipitadas. Nesse ponto, frequentemente o desespero se instala, pois, em meio às trevas do momento, não somos capazes de crer que, ainda assim, podemos contar com a misericórdia divina e que Deus pode nos dar vitória no conflito que nós mesmos geramos. Conhecer esse aspecto do imenso amor divino é mais um dos elementos indispensáveis para quem quer viver vitoriosamente para a glória de Deus. Um Deus que só pode nos socorrer quando o problema não se originou em nossos próprios erros não é suficiente para nossas necessidades, pois muitas – se não a maior parte – das lutas que enfrentamos são fruto dos pecados que cometemos. Não estou aqui apresentando qualquer exigência. Se Deus permitisseque colhêssemos tudo o que semeamos, isso não deporia contra Seu amor e justiça. Estou apenas constatando o fato de que, sem Sua graça e misericórdia, não temos esperança alguma face a nossa obstinação. Essa história mostra como Deus pode transformar o lixo de nossa vida em bênção, como a graça reprocessadora é real. Uma escolha errada, que remeteu o povo de Israel para um terrível conflito, mas culminou na revelação do Deus que coordena o movimento dos astros – quanta misericórdia! Você crê num Deus que pode transformar as consequências do pecado em bênção? Eu não estou estimulando ninguém a pecar. O pecado humilha, destrói nosso testemunho, interrompe nossa comunhão com Deus e faz com que passemos por sofrimentos desnecessários. Mas Deus é tão misericordioso que pode, até mesmo, fazer com que, de alguma maneira, os efeitos do pecado deem ensejo a uma bênção gloriosa. Respondamos à seguinte pergunta: como deve ser a vida daquele que crê em todas estas verdades: que Deus tem controle sobre o universo, que Ele permite que Seu povo passe por tribulações para se revelar a ele, que peleja por Seu povo, que encoraja Seus amados, que trata Seu povo com misericórdia? Há muita oração no mundo. Mas como podemos saber quem mantém uma vida de oração real? Como é a vida de quem tem comunhão genuína com o Deus dos cristãos? O HOMEM QUE FALA COM DEUS Não se surpreende com as lutas Assim que Josué recebeu as más novas dos gibeonitas, tratou de preparar-se imediatamente para a guerra. “Então subiu Josué de Gilgal, ele e toda a gente de guerra com ele, todos os valentes.” A Bíblia não registra nenhuma lamúria, nenhuma dúvida nem mesmo nenhuma surpresa por parte de Josué. Aparentemente, as batalhas iniciais já o haviam preparado para o que enfrentaria em Canaã. O crente é alguém assim, que deve viver em guarda. Embora não seja recomendável viver sempre esperando o pior, tampouco é recomendável tirar a armadura a fim de vestir um pijama. Deus nunca presenteia um filho Seu com um pijama, mas, tão logo ele nasça por meio da regeneração, recebe, num pacote amorosamente feito, uma armadura. Uma luta para a qual o crente deve estar sempre preparado é a da decepção com os homens. Se há um ponto em que minha teologia é mal aplicada é no campo da relação com as pessoas. Minha teologia me faz afirmar que o homem é mau: sua natureza é depravada, seu coração está acorrentado pelo pecado e sua disposição desde o ventre materno é maligna. Contudo, quando tenho de lidar com as pessoas, tenho dificuldade de crer que elas sejam capazes de fazer certas coisas. A doutrina em que creio diz que são capazes, mas, quando as tenho diante de mim, não consigo acreditar nisso. O que acontece? Obviamente, a Bíblia mostra que minha teologia tem a razão. Com isso, tenho aprendido a não me surpreender quando os homens se comportam de forma mais baixa do que os animais irracionais. O crente não deve se surpreender com os ataques de Satanás, com as injustiças sociais, com as guerras, com a estupidez das massas. A Bíblia o tem preparado para aguardar e encarar tudo isso. Nossa ingenuidade pode relacionar-se, por exemplo, ao campo político. Julgamos que, se fizermos passeatas, escrevermos para os jornais e promovermos encontros a favor da paz, as pessoas deixarão de se comportar como animais. Mas, não; isso tem imenso valor, faz parte do exercício da cidadania, é resposta do coração regenerado à injustiça que representa afronta aos céus, mas não trata do cerne do mal, a maldade presente no coração humano. Se o coração não for lavado pelo evangelho, jamais haverá paz duradoura. É inimaginável um mundo no qual o Estado não exerça o monopólio do uso da força. Isso é humilhante. Mostra que a Igreja não deve jamais dissociar a luta pela justiça da proclamação da justiça de Deus revelada no evangelho de Cristo – o que só pode ser feito por meio da obra de evangelização. Outros se esquecem de que a Igreja é um corpo misto – temos crentes genuínos e hipócritas em seu seio. Filhos de Deus e filhos de Satanás podem estar juntos cantando, participando da escola dominical e tomando a Ceia. Nunca a Bíblia disse que seria diferente. O crente não deveria se surpreender com as decepções da religião também. E como temos visto, há ocasiões em que os conflitos podem até ser preditos. Amigo, se seu coração está cheio de anelo por santificação, de sonhos por ver a causa de Cristo avançar neste planeta e dons têm-se manifestado em sua vida, preciso ser profeta para lhe dizer que lutas virão? Quem conhece este Deus vive sob a maior de todas as esperanças e o mais forte realismo. Por isso, não se surpreenda. Esse é o motivo de o apóstolo Pedro ter exortado os servos de Deus da seguinte forma: Amados, não se surpreendam com o fogo que surge entre vocês para os provar, como se algo estranho lhes estivesse acontecendo (1 Pe 4:12). Não se deixa dominar pelo medo Mais uma vez, Deus exorta seu servo Josué a não temer: “Disse o Senhor a Josué: ‘Não os temas, porque nas tuas mãos os entreguei; nenhum deles te poderá resistir’”. O bom de andar com Deus é que somente quem O tem por amigo ouve esse tipo de afirmação e encorajamento. Somente os que andam com Deus têm os ouvidos abertos para o que lhes pode, de fato, fazer divisar a vitória. Onde mais poderíamos obter o tipo de esperança que Josué recebeu? Lá estava Josué, então, ouvindo seu Deus a lhe ensinar, mais uma vez, que nas batalhas da vida não devemos considerar apenas o poder de fogo do inimigo, mas a aliança que o Criador tem conosco. Josué teria de encarar seus adversários, de ver sua fúria, de mensurar seu poder de destruição e de avaliar o tamanho da sua tropa. Isso é legítimo e não seria humano esperar o contrário. O que deveria ser evitado era considerar tudo isso sem considerar Deus também. Josué precisava considerar a verdade referente à aliança de Deus com Israel e usá-la como tranca para fechar a porta da alma para a entrada do medo. O desafio era o povo de Deus, com a chave da promessa na mão, sair de um possível cativeiro de medo. O medo é um cativeiro. Muitos se encontram em cárceres psicológicos por não conseguir ver outra coisa na vida a não ser o que os ameaça. A fé na promessa pode ser comparada a essa chave – conforme já vimos na experiência do grande John Bunyan –, que abre a porta de qualquer cárcere. É a fé na promessa que nos desagrilhoa a mente, deixando-a livre para que possamos pensar em tudo o que edifica e promove a vida. Como amo passagens bíblicas como esta: “Não os temas”! Servimos a um Deus que nos torna desassombrados. Deus ordenou a Josué que simplesmente não considerasse o adversário. Israel fora estimulado a olhar para os fortes e numerosos inimigos e perguntar: “O que são eles?”. A fé tem a característica de nos ajudar a ver nosso problema na perspectiva correta e a não hiperdimensioná-lo. Sendo assim, ninguém está mais fadado a viver com medo do que aquele que não ouve a voz de Deus. Não há fé sem a Palavra de Deus. Portanto, obviamente quem não lê a Bíblia sai perdendo. A leitura regular da Bíblia renova a mente e torna o solo do coração menos vulnerável ao medo. Observe como, após uma semana de estudo regular da Bíblia, passamos a pensar de modo novo. A Bíblia nos remete para um mundo diferente do que nos é apresentado pelo noticiário, um mundo onde, entre outras maravilhas, a providência divina rege tudo o que acontece e as orações são ouvidas. A fé que vem pela contato com a Palavra de Deus precisa ser aplicada aos problemas que enfrentamos. Você jamais vencerá o medo enquanto não aplicar a verdade bíblica aos fatos práticos de sua vida. “Onde está a sua fé?” – foi a pergunta feita pelo Senhor Jesus aos Seus temerosos discípulos (Lc 8:25). Havia fé no coração deles, mas, naquele momento, essa mesma fé não se achava presente, pois não estava sendo aplicada à situação do momento. A fé não opera automaticamente – temos de acioná-la. E ninguém a aciona sem pensar e agir com base nas conclusões racionais a que chegou pela Palavra de Deus. A fé professadapor Josué, por exemplo, além de tranquilizar seu coração, o levaria para o campo de batalha. Note bem: o que Deus falou a Josué não apenas fez sossegar seu coração, como também o levou para o campo de guerra. Fé que não nos faz nos movermos não é fé, é narcótico religioso. Ora com ousadia Para mim, o conteúdo da oração de Josué é um mistério: pedir a Deus que detivesse a lua e o sol para que Seu povo pudesse dar cabo dos adversários! A pergunta que surge é: de onde veio esse pedido? Mais uma vez pensando em Sagan – para quem a ideia de que a Terra é o centro do universo foi uma das maiores expressões do orgulho humano –, imagine o que ele teria a dizer sobre a oração de um mortal que pode deter o curso dos astros? O mundo bíblico é completamente distinto desse que pensadores modernos têm apresentado. No mundo que a Bíblia revela, a criatura finita, frágil e mortal pode falar com o Rei do universo e sua oração interferir no curso da história. A oração ousada é a que não vê limites para Deus, com a exceção daqueles impostos pelo próprio caráter santo do Criador. Essa é a oração que não vê o universo como autônomo, mas, sim, como um balé de estrelas regido pelo Pai da arte e do belo. É aquela que, mesmo não entendendo, desfruta do fato de o homem, um ser tão vil e insignificante, ser tido em tamanha estima por Deus. Ora com ousadia, portanto, quem conhece Deus e Suas promessas. A oração de Josué estava alicerçada em tudo aquilo que ele experimentara e conhecia de Deus. Josué conhecia a Deus, tinha um histórico de vitórias obtidas com Ele e sabia que era do interesse do Criador que Israel saísse vitorioso naquele conflito. Eu diria que Josué passou a vida inteira naquela mentalidade que a Bíblia gera em quem conhece seu conteúdo e nele crê – essa forma de ver todas as coisas sem a qual é surpreendente que muitas pessoas consigam viver –, pela qual vemos o cosmos governado pelas mãos de Deus, os santos como preciosos para Seu Criador, as promessas divinas tendo o aval do Deus que não pode mentir, cujos atributos são perfeitos e de Quem os homens dependem. O conteúdo da oração de Josué nos mostra uma mente não condicionada. Uma mente assim nos permite aguardar o inalcançável. Essa mente, fruto da expansão produzida pela verdade divina, leva o crente a esperar contra a esperança. Você ora com ousadia? Você está aberto para essa ampla mobilização dos céus e terra ocorrer em favor da sua pequenina vida? Pois, conforme disse o profeta Isaías: “‘Não tenha medo, ó verme Jacó, ó pequeno Israel, pois eu mesmo o ajudarei’, declara o Senhor, seu Redentor, o Santo de Israel” (41:14). Vê o homem na perspectiva correta O que de mais tocante percebemos nessa passagem é a avaliação que o escritor do livro de Josué faz do episódio da ousada oração respondida. Aturdido pelo acontecimento, ele diz: “Não houve dia semelhante a este, nem antes nem depois dele, tendo o Senhor assim atendido à voz dum homem; porque o Senhor pelejava por Israel”. A oração de um homem pode mudar o curso dos corpos celestes. Pense nisso e nas implicações desse fato para sua vida. Se eu fosse responder ao ceticismo e ateísmo de Carl Sagan, diria que o homem não é só pequeno metafisicamente, mas é pequeno moralmente também. Apesar disso – e não ignorando esse fato –, Deus ama o homem, e, se este Lhe entregou o coração, sua oração pode interferir até mesmo no sistema solar. Para crer em tudo o que foi apresentado neste capítulo, não precisamos ser orgulhosos e afirmar que vivemos num universo antropocêntrico. O homem não é o centro do universo. Também sabemos que não vivemos num universo geocêntrico ou heliocêntrico. Nenhuma criatura pode ocupar lugar de tamanha proeminência a não ser o próprio Criador de todas as coisas. Vivemos em um universo teocêntrico: Deus está no centro de todas as coisas. O que existe, existe por Ele e para Ele. Por isso, o último salmo da Bíblia conclui: “Todo ser que respira louve ao Senhor. Aleluia!”. À raça humana só resta curvar-se diante Dele. Oh! Como podemos viver sem louvá-Lo? Como podemos viver sem nos maravilhar com Sua beleza? A realidade última é pessoal. Não estamos entregues à massa fria e escura do cosmos. Lá onde a Voyager One está, depois de impulsionada por foguetes e pela força gravitacional dos planetas, na periferia do sistema solar, encontra-se presente Aquele que enche o universo com Seu ser. E quem está lá e em todo lugar pensa, sente, age e é Santo, Santo, Santo. Vendo a vida desse ponto de vista, o homem é forçado a manter-se em posição humilde perante o Criador, como também é forçado a sobrepujar tudo aquilo que o queira nivelar aos animais ou à criação inanimada. O texto bíblico revela a perplexidade do seu autor ao constatar que o sol e a lua pararam em resposta à oração de um simples homem. A própria Bíblia reconhece que quem interferiu no curso dos astros foi um ser insignificante. Conforme, porém, diz o salmo 116:1, 2: “Amo o Senhor, porque Ele ouve a minha voz e as minhas súplicas. Porque inclinou para mim os Seus ouvidos, invocá-Lo-ei enquanto eu viver”. Temos falado sobre a vida vitoriosa. Sem uma correta visão sobre o homem, jamais viveremos vitoriosamente, porque ou tropeçaremos no pecado da soberba, que nos conduzirá às atitudes mais absurdas e cômicas, como a construção de babéis para a perpetuação de nosso nome; ou, então, à falsa humildade que nos impedirá de elevar-nos pela oração acima de nós mesmos e da natureza. “Naquele dia vocês não me perguntarão mais nada. Eu lhes asseguro que meu Pai lhes dará tudo o que pedirem em meu nome. Até agora vocês não pediram nada em meu nome. Peçam e receberão, para que a alegria de vocês seja completa.” (Jo 16:23-24) IX A IGREJA ENTRE OS ÍMPIOS JOSUÉ 23 Chegamos agora num ponto totalmente novo da história do povo de Deus em Canaã. Vitórias impressionantes, conforme vimos, haviam sido obtidas pelo povo de Israel e a terra já estava dividida entre as tribos; porém Israel não destruíra todos os inimigos. Havia ainda, na terra da promessa, os terríveis antigos habitantes de Canaã. Josué, já perto de sua partida deste mundo, dirige-se ao povo a fim de lhe falar especialmente sobre como deveria viver a partir dali: “Passado muito tempo, depois que o Senhor concedeu a Israel descanso de todos os inimigos ao redor, Josué, agora velho, de idade muito avançada, convocou todo o Israel, com as autoridades, os líderes, os juízes e os oficiais, e lhes disse: ‘Estou velho, com idade muito avançada’” (vv.1-2), e os versos restantes apresentam o conteúdo de sua pregação. Somos remetidos, portanto, nesta seção de Josué, ao importante tema da relação do cristão com o mundo. Quanto precisamos conhecer a orientação da Palavra de Deus no que diz respeito a esse assunto! Aqui estamos nós, na terra que Deus criou para Sua glória. Entregamos nossa vida a Ele, passamos a fazer parte do Seu povo e vitórias obtivemos; porém temos de viver em meio a pessoas que não amam o nosso Deus. Temos de viver no mundo. Como proceder? O que significa viver no mundo? Vamos considerar, em primeiro lugar, as três diferentes definições ou significações para mundo que encontramos na Bíblia. Em todas elas, observaremos que estamos diante de enormes desafios. A primeira se relaciona à ordem criada, ao mundo dos rios, matas, mares, montes, pássaros, peixes etc. Não resta dúvida de que viver nessa espécie de mundo constitui-se um desafio para todos nós. Embora possamos dizer a cada dia que desponta: “Aleluia, este é o dia que o Senhor fez. Alegremo-nos e regozijemo-nos nele”, muitas vezes esse mundo torna-se muito aterrador. Tal percepção fez surgir, em não poucas culturas, o fenômeno do animismo, que nada mais representou do que o desejo do homem de, ao pessoalizar a natureza, tentar dominar seu poder. Como obter favor de um raio? O caminho aparentemente mais simples e tranquilizador é fazer uma oferenda ao “espírito” que nele está. O cristão é alguém que compreende a razão de a criação ser tanto bela quanto cruel. Ele sabe que a beleza deve-se ao Seu criadore, sua feiura, à queda moral acerca da qual o livro de Gênesis fala. O homem afastou-se de Deus e, por isso, atraiu sobre si e sobre a criação o juízo divino. O crente encontra-se diante de duas batalhas: a batalha de ajustar sua vida a este mundo caído, aprendendo a não romantizá- lo, sabendo que, tanto dele como do incrédulo, a previsão de uma forte tempestade deve resultar em medidas práticas de prevenção. Pesa sobre o cristão a responsabilidade de testemunhar a bondade de Deus em um mundo onde a criação, que é o que é por causa do pecado, revela um lado tão terrificante. O crente, então, sabe que a apresentação de um Deus que seja somente amor é, aos olhos dos incrédulos, contraditada todos os dias pelos noticiários de maremotos, furacões, terremotos e tantas outras tragédias naturais que parecem apontar ou para um Deus incompetente ou nada bom. Esta apologética, que apresenta somente um aspecto da verdade sobre Deus – a saber, que Ele é amor e, por isso, é incapaz de se irar –, inevitavelmente remete os seres humanos para crises sem fim, uma vez que eles vivem num mundo em que o sofrimento decorrente dos fenômenos da natureza carece de explicação satisfatória. Nada pior para a defesa da fé do que uma visão parcial do Deus cristão. Um segundo enfoque sobre o qual podemos analisar a palavra mundo é aquele que se relaciona ao homem, à humanidade. Quando a Bíblia fala sobre mundo, muitas vezes está falando sobre seres humanos. E aqui nos deparamos com mais um desafio para os homens em geral e, em especial, para o crente. Hominem lupus hominem, o homem é o lobo do homem. Esta é uma constatação irrefutável e especialmente dolorosa para o regenerado, para aquele que é capaz de sentir com mais horror a sordidez do pecado praticado contra o semelhante. Não pretendo falar neste capítulo sobre o mundo como natureza, mas, sim, como humanidade, o que se constituiu um desafio para o povo de Israel e se estabelece como uma batalha para todos nós, crentes. Temos de lidar com nossa raça. Israel teve de lidar com os cananeus, e nós temos de lidar com os cidadãos da chamada sociedade pós-moderna. O homem, que é para seu semelhante uma ameaça maior do que as feras, produz aquilo que é chamado de cultura, que pode ser definida como o conjunto de valores, tradições e forma de ver a vida (cosmovisão) de um povo. Esta é a terceira perspectiva pela qual podemos estudar a palavra mundo. Quando falamos de mundo, falamos também desse sistema contrário a Deus e seus absolutos, que se expressa por meio das mais diversas manifestações culturais das nações. Nem toda expressão cultural é pecaminosa. Mas a Igreja sempre terá diante de si o desafio de separar o joio do trigo cultural de cada sociedade onde esteja inserida. É sobre isso que Josué 23 fala, e será esse o assunto deste capítulo. Minha tese é que vida de sucesso, vitoriosa, é aquela que é capaz de, num mundo de lobos, continuar a ser ovelha. Aquela capaz de manter, num mundo “loboficado”, mesmo a um alto custo, os valores que regem a vida dos que pertencem ao rebanho do pastor Jesus Cristo. Tomando como correta essa definição, então, surge a pergunta: como viver no mundo? Não estou falando em como se destacar no mundo, em como ser um lobo mais forte. Estou falando sobre como não se deixar intoxicar por essa atmosfera de desamor e incredulidade em relação a Deus. SABENDO QUE O MUNDO NÃO PODE PREVALECER CONTRA A IGREJA “Vocês mesmos viram tudo o que o Senhor, o seu Deus, fez com todas essas nações por amor a vocês; foi o Senhor, o seu Deus, que lutou por vocês. Lembrem-se de que eu reparti por herança para as tribos de vocês toda a terra das nações, tanto as que ainda restam como as que conquistei entre o Jordão e o mar Grande, a oeste. O Senhor, o seu Deus, as expulsará da presença de vocês. Ele as empurrará de diante de vocês, e vocês se apossarão da terra delas, como o Senhor lhes prometeu.” ( Js 23:3-5) [...] “O Senhor expulsou de diante de vocês nações grandes e poderosas; até hoje ninguém conseguiu resistir a vocês. Um só de vocês faz fugir mil, pois o Senhor, o seu Deus, luta por vocês, conforme prometeu.” ( Js 23:9-10). Crentes de todas as nações não sabem o que fazer com o mundo. Embora tantos estejam conscientes da necessidade de nele penetrar, trazendo toda a riqueza da fé cristã para sua cultura e levando seus cidadãos à entrega da vida ao Senhor Jesus Cristo, milhares sentem-se chocados com o que veem no mundo. Converse com qualquer pai de adolescente e você perceberá a aflição de ver o filho ter de crescer numa sociedade como a nossa. O temor é o de não resistir à pressão que o mundo exerce. Dúvidas assaltam o coração: quem pode resistir à tamanha propaganda de valores não cristãos? O marido crente resistirá à pressão de uma sociedade que lida com o sexo compulsivamente? O empresário cristão conseguirá vencer com honestidade à competição capitalista? O crente que entrou na política haverá de governar para a glória de Deus? O soldado convertido conseguirá se contentar com seu soldo? O pastor resistirá às investidas do marketing religioso que exige a diluição do conteúdo de sua mensagem para agradar e atrair as massas? Para muitos, caso não haja uma adequação ao mundo, estaremos fadados à neurose ou à falência. Sim, muitos pensam que a fidelidade às Escrituras num mundo como o nosso ou nos neurotiza ou nos coloca de fora da briga por qualquer espaço na vida. Porém, o que sabemos é que nosso chamado é para sermos perfeitos, como perfeito é nosso Pai celeste, e que a vida cristã nunca foi designada para covardes, pois suas demandas exigem um preço muito alto. Somente permanecem firmes os que percebem que, pior que o preço do discipulado, é o preço do não discipulado. Estes sabem que fora da vida cristã o que resta é o enfado. Não temos alternativa. Colocamos a mão no arado e sabemos que não é possível olhar para trás. A vida cristã não é fácil para nós nestes tempos do fim e nunca foi fácil para ninguém. Não é mais difícil do que nos dias em que a simples afirmação “Jesus Cristo é o Senhor” representava a morte para um discípulo. Lembro-me de ouvir certa vez um líder evangélico falar da moralidade das portas abertas. Segundo ele, fechamos tantas portas em nossa ética que depois, em determinadas horas em que a vida nos encurrala, não temos por onde sair. Sua ideia – até onde pude entender – era que devemos deixar sempre uma saída para o crente, de tal forma que ele não se sinta culpado quando se vê diante de escolhas “inevitáveis”. Fiquei a pensar... Não havia porta aberta para o crente que, no auge da perseguição do Império Romano, ao afirmar que Jesus Cristo era o Senhor, estava assumindo todas as trágicas implicações disso, pois negava que César era o senhor, o que resultava em morte. A menos que se entenda como essa porta de saída a negação da fé... Não é de hoje que crentes anseiam por se livrar do mundo. Embora muito possa se falar sobre os benefícios que advieram do monasticismo, não se pode negar o fato de que milhares optaram pela vida monástica para fugir dos conflitos peculiares à vida em sociedade. Acontece que, do mesmo modo como Deus enviou Josué a uma terra de gente ímpia, hoje Ele envia Sua Igreja ao mundo estimulando-a ao envolvimento mais próximo com aqueles que lhe geram repulsa por suas práticas pecaminosas. Olhe a metáfora do sal, usada pelo Senhor Jesus: que imagem chocante a do crente ser esfregado no mundo para a preservação deste, assim como o sal era esfregado na carne para que esta não apodrecesse! Qual deve ser, então, nosso ponto de partida no tratamento dessa questão? O que nos resta fazer? Há duas respostas inquestionáveis: a primeira é que devemos ser fiéis. Não há escolha. Não fica neurótico aquele que se submete a Deus porque O ama. Se tiver de falir, amém. Penso que a resposta já foi dada em certa ocasião do passado: “Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das suas mãos, ó rei. Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que nãoprestaremos culto aos seus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer” (Dn 3:17-18). A segunda resposta para essa questão pode ser encontrada no discurso de Josué no capítulo 23. Ele se despede do povo frisando uma verdade indiscutível, que podemos aplicar a nós nos seguintes termos: o mundo não é mais forte do que a Igreja. O que esta verdade procura deixar claro é que o problema do mundanismo não é intrínseco à Igreja. Ou seja, não somos obrigados a receber a influência do mundo. Ou, dizendo de outra forma, a Igreja só se torna mundana quando não enfrenta o mundo. A promessa do Senhor Jesus não nos diz que as portas do inferno não vão prevalecer contra a Igreja? Não é justamente isso que a história da Igreja de Cristo nos ensina? Veja quanto o adversário tem feito para destruí-la. Pense no que gregos, romanos, judeus, árabes, filósofos, comunistas, falsos crentes têm feito para acabar com a Igreja. Contudo, ela continua firme, porque é sustentada, não pela força do homem, mas pelo poder de Deus. Olhe para os possíveis desafios dos próximos anos. Quantos adversários temos pela frente! Nenhum deles, contudo, conseguirá impedir a Igreja de seguir seu curso vitorioso. Aí está algo de constituição imperecível, pois, mesmo que composta de homens, é uma instituição divina. Deus cuida da Sua Igreja. Ele a manterá firme até o fim, como coluna e baluarte da verdade, e, um dia, a restaurará por completo. Qualquer estudioso sério da história da Igreja chegará à mesma constatação que o grande Jonathan Edwards: A história não nos dá relato de nenhum corpo de homens que tenha sido tão odiado, e tão maliciosamente e insaciavelmente oprimido e perseguido [...] É um grande argumento que a Igreja cristã e sua religião é de Deus, que ela tem sido sustentada até hoje passando por toda oposição e perigo [...] Outros reinos e sociedades humanos, que apareceram dez vezes mais fortes do que a Igreja, foram destruídos com a centésima parte de oposição que a Igreja de Deus teve de encarar – o que mostra que Deus tem sido seu protetor.88 Você se sente vítima do mundo? Por acaso julga que não poderá resistir a ele? Você crê que está fadado a ser continuamente derrotado pelas artimanhas e conceitos do mundo? Meu amigo, se sua resposta é afirmativa, não me surpreenderá vê-lo derrotado. Isso ocorreria em decorrência de algo bastante interessante na fé: a fé cristã impulsiona o crente a ser o que ele é. Já comentamos isso nos capítulos anteriores. Muitos têm medo do triunfalismo evangélico – e com razão; também tenho horror dele. Em geral, esse ensinamento não prepara o crente para a luta e também não o prepara para a derrota. Imagine a vida de um homem que julga que, pelo simples fato de estar relacionado corretamente com Deus (e este pode ser o caso), as coisas correrão maravilhosa e automaticamente bem. Isso o impulsionaria a ser prudente? Ou faria reagir com maturidade frente às derrotas? Por outro lado, também não é saudável uma fé que seja incapaz de enxergar onde a graça nos colocou, uma fé tímida e que não se dá conta da presença sobrenatural em nós, a qual nos capacita a sermos vitoriosos nas áreas em que Deus, por Sua Palavra, já revelou que nos quer ver vencedores. Qual deve ser nossa resposta a tudo isso? Em primeiro lugar, certamente parar de nos lamentar. Em vez de contabilizar os perigos aos quais estamos expostos e as dificuldades que normalmente enfrentamos, devemos erguer os olhos e dar-nos conta de que nesta batalha Deus peleja por Seu povo. É Ele mesmo Quem afirma: “Um só homem dentre vós perseguirá a mil, pois o Senhor vosso Deus é quem peleja por vós, como já vos prometeu”. Não é esta uma promessa suficientemente encorajadora? MANTENDO A FIDELIDADE ÀS ESCRITURAS “Façam todo o esforço para obedecer e cumprir tudo o que está escrito no Livro da Lei de Moisés, sem se desviar, nem para a direita nem para a esquerda.” (Js 23:6) Escrevo este livro com 40 anos. Fui trazido pela graça a esta fé com 20 anos. Sabe o que tenho percebido nesta fase de minha vida? Que, ao lado das ações providenciais de Deus, o que me tem preservado das tragédias advindas sobre muitos da minha geração tem sido o andar no caminho estreito proposto pela Palavra de Deus. Que bênção viver sob a luz destas verdades benditas. Oh! Sou levado a dizer como o salmista: “Como eu amo a tua lei! Medito nela o dia inteiro. Os teus mandamentos me tornam mais sábio que os meus inimigos, porquanto estão sempre comigo” (Sl 119:97- 98). Amigo, pense, por um só instante, de quantos caminhos de morte a Bíblia o livrou. Pense no consolo recebido em inúmeras situações de angústia em que a Palavra sozinha o reergueu. Pense na majestosa visão de Deus, do homem e da vida que ela proporciona. Não é verdade que o simples conteúdo deste livro já revela Sua autoria divina? Permita- me apresentar-lhe outra pergunta: onde você estaria sem este livro? Josué destaca, ao final da vida, essa antiga e sempre atual verdade que, desde o início, exercera papel fundamental na vida dos judeus. É por demais interessante a história desse povo. Esse era o povo da Palavra de Deus. Olhe para as demais nações. Olhe para a Mesopotâmia, com seu código de Hamurabi ou sua epopeia de Gilgamés. Olhe para o esplendor do império egípcio, ou para as conquistas intelectuais dos gregos ou para os avanços jurídicos dos romanos. O que distingue o povo hebreu dos demais? Além da aliança pessoal com Deus, a grande distinção era, obviamente, o fato de essa ser a gente da Palavra. Veja os esforços da outras nações em receber aquilo que, em parte pela graça comum, foi dado a todas, porém jamais com o esplendor, a graça e a majestade que do céu desceu sobre o povo escolhido de Deus e Dele foi recebido sem esforço. Olhe para os esforços de homens como Platão em definir o mundo das ideias, do qual o nosso, segundo ele, é uma cópia simples e permeada de sombras! Enquanto Platão pensava, os céus eram abertos para Moisés e ele via as realidades espirituais. Por isso, na dor somos consolados ao ler Moisés, não Platão. Por que esta ênfase sobre a Palavra? Qual o significado e a importância do verso 6 de Josué 23? O líder de uma nação está próximo de partir. As últimas palavras de um grande homem são, normalmente, as mais importantes, por trazerem a experiência de toda a vida. Qual, então, era sua mensagem final para a nação? “Amem a Bíblia!”. Simplesmente isto: “Amem a Palavra de Deus!”. Você consegue imaginar algum destacado estadista hoje fazendo esse discurso final? Porque a Palavra de Deus não tem esse lugar de importância nas sociedades humanas, não é de se estranhar que, apesar de todos os avanços educacionais e sociais, vivamos num mundo tão malvado e desigual. Por isso, a repressão tem de aumentar. Por essa razão, temos uma raça de gigantes na ciência e pigmeus na moral. Por esse motivo, os povos são capazes de abrir mão de um governo democrático se mais conforto lhes for oferecido por um ditador. Essa é a razão pela qual expectativas quanto à vida tão mesquinhas são oferecidas a todos, o que, em certo ponto, iguala muçulmanos e ocidentais, pois ambos aguardam as mesmas coisas, com a diferença única que aos primeiros é prometido que as desfrutarão apenas após a morte. Que levou Josué a proclamar isso no momento derradeiro de sua vida? Em primeiro lugar, penso que ele pôs toda essa ênfase na Palavra, porque Deus é santo. O comandante de Israel sabia que as vitórias obtidas em todas as batalhas foram sobrenaturais. O testemunho da santidade de um Deus de amor não promíscuo em Ai estava vivo na memória do grande líder. Numa terra cercada de feras terríveis, o povo de Israel deveria temer somente a Deus. Fidelidade à aliança deveria ser o grande alvo da nação. Era uma questão de sobrevivência. Israel seria incapaz de resistir aos adversários caso não se mantivesse em estrita submissão à verdade. Deus boicotaria seus sonhos. Adversários não menos dignos do juízo divino derrotariam Israel. Aqueles de visão mais espiritual entre o povo, contudo, mais do quetemer as derrotas militares certamente temeriam algo muito pior: a perda da comunhão com Aquele que dava sentido à vida do Seu povo e era seu maior tesouro. O aspecto mais maravilhoso de toda a história não era Canaã, mas poder, da terra que mana leite e mel, olhar para o alto e atribuir tudo a Deus. Em segundo lugar, Josué relembrou a importância da Palavra de Deus ao povo porque somente a guardando e cumprindo é que os escolhidos de Deus evitariam a contaminação com o mundo. A Palavra de Deus faria com que a nação criasse anticorpos contra todo risco de contaminação em Canaã. Esse risco a Igreja sempre corre. Isso se deve ao fato que Deus, em Sua graça comum, faz com que não cristãos prosperem e avancem tanto em certas áreas da vida, que a Igreja se torna incapaz de ver o que há de deletério no mundo. Olhe para a cultura helenista, por exemplo. Quanto devemos a ela! Contudo, quanto a Igreja foi prejudicada ao longo da história por relacionar-se com essa cultura de forma acrítica. Desse envolvimento, vimos surgir o dualismo que levou teólogos a menosprezarem o corpo em favor das realidades espirituais, um racionalismo que fechou o homem para as verdades suprarracionais da Bíblia e resultaram em “certezas científicas” que colocaram o testemunho da Igreja em descrédito, como, por exemplo, a ideia de que a Terra é o centro do nosso sistema planetário, e não o Sol. Essa ideia não é encontrada na Bíblia, mas nos escritos de Aristóteles, mas foi tomada como verdade pela “Igreja” por muitos séculos. Em nossos dias, o Vaticano teve de pedir perdão ao mundo pelo que fez com Galileu Galilei, ao acusá-lo de heresia. O povo hebreu, ao chegar em Canaã, se depararia com manifestações da graça comum mescladas com expressões do mal. E sabemos que bem cedo Israel comprou o pacote inteiro, vindo a adorar os deuses cananitas além de exigir um rei tal como havia nas demais nações, o que nunca foi o propósito de Deus, Aquele que queria ser o único rei de Israel. Hoje vemos muitos cristãos relacionando-se de forma acrítica também com a cultura ocidental. Sem dúvida, a cultura europeia venceu outras, tanto por suas virtudes quanto por sua ganância. Suas influências estão por todos os lados, na ciência, na política, na arte, na cultura, na economia e em tantas outras. Sua ênfase na liberdade é excelente. Dela fluiu para o mundo a ideia de um governo constitucional e democrático. Acontece que sua liberdade hoje tenta se estender a áreas em que, se não houver limites, imperará o caos. Essa liberdade, por exemplo, chega ao ponto de afirmar que os valores cristãos são relativos, já que vivemos num mundo em que, segundo os que defendem o ponto de vista secular, o homem não nasce definido. Primeiro ele nasce, depois sai em busca da sua definição. Defende-se, portanto, uma liberdade a partir da qual o homem é livre para se definir como bem quiser, exceto como ser que foi criado para o louvor da glória do seu Criador. A Igreja está navegando nesse oceano de costumes e ideias e, se não se permitir guiar pela bússola da Palavra, vai terminar completamente afastada do sonho de Deus para a vida do seu povo e misturada com os cananitas. Pode ser que venha a ficar tão parecida com o mundo que somente o fato de frequentar cultos dominicais a diferenciará deste. Quero frisar que mais importante do que saber o que os de fora pensam sobre a vida e tudo a ela relacionado é sabermos o que a Palavra de Deus tem a nos dizer. Não podemos organizar seminários sobre filosofia pós-moderna quando nosso povo não conhece ainda o básico da fé cristã. Não nego com isso a importância de conhecermos as ideias que têm moldado o pensamento do homem moderno, mas a Igreja não estará preparada para enfrentar os inimigos de for a se não estiver fortalecida por dentro. Sem a Bíblia, nossos crentes não terão subsídio algum para fazer uma avaliação séria dos filmes, peças, obras de arte e cosmovisão, tornando-se, assim, presa fácil dos conceitos e práticas do mundo. Em terceiro lugar, encontramos na pregação de Josué essa ênfase na Bíblia, porque a fidelidade às Escrituras preserva a Igreja daquilo que tem destruído e destruirá definitivamente o mundo. Israel estava levando o juízo de Deus para uma terra cujos moradores viviam de modo diametralmente oposto aos preceitos divinos. Vimos que o propósito de Deus ao enviar Israel também foi o de exercer Seu julgamento sobre os habitantes de Canaã. O “cálice” daquela gente havia transbordado. Deus os tolerou durante anos e anos. Os anos de tolerância, portanto, foram também o tempo durante o qual, dia após dia, aquela gente pecava e afrontava Deus. Assim, chegou o dia em que o cálice das maldades dos cananitas transbordou. A medida dos seus pecados chegara ao fim. Esse é o método de Deus lidar com o ímpio: Ele o entrega a si mesmo. E, como o ímpio não vê o juízo de Deus se manifestar imediatamente, pensa que Deus é um com ele ou até mesmo que Deus não vê suas práticas iníquas. Contudo, Deus, em Sua soberania e santidade, estabelece para cada nação e indivíduo uma medida. A cada dia que passa, o ímpio enche essa medida até ela transbordar. Então, vem o último pecado, a manifestação final de indiferença aos céus, e Deus envia Seu julgamento. Israel deveria temer o risco de contaminação também por essa razão. Deus não tem compromisso com crente nominal. Quando uma igreja se comporta como os incrédulos, Deus também a inclui em Seu juízo. E como a quem muito foi dado muito será cobrado, o juízo sobre sua vida será mais severo. Sim, há pecados que são mais odiosos do que outros, e pecar contra a luz recebida é odioso aos olhos de Deus: “Ai de você, Corazim! Ai de você, Betsaida! Porque se os milagres que foram realizados entre vocês tivessem sido realizados em Tiro e Sidom, há muito tempo elas se teriam arrependido, vestindo roupas de saco e cobrindo-se de cinzas. Mas eu lhes afirmo que no dia do juízo haverá menor rigor para Tiro e Sidom do que para vocês” (Mt 11:21-22). Olhe para a mesma Europa recém- mencionada. O que dizer sobre as duas grandes guerras? Não seriam o juízo sobre um continente que desprezou as verdades que o tornaram grande? Como manter-se fiel a Deus? Josué 23:6 é digno de um sermão inteiro. Mas vamos tentar sumariar as grandes verdades que ele nos apresenta sobre a fidelidade à Palavra de Deus. Primeiro, trata-se de algo que envolve esforço. Não podemos ser românticos quanto a isso. Somos instáveis, fracos, tendentes ao mal e, se não nos esforçarmos, não haverá vitória. Nesse campo as coisas não são obtidas pela fé, como muitos têm ensinado. Há os que dizem que é só olhar para Jesus ou, então, que basta buscar uma segunda bênção espiritual e tudo estará resolvido. Mas não é assim que o crente verdadeiro deve administrar sua vida espiritual. Essa vida envolve luta, luta diária em que, pela fé e no poder do Espírito Santo, o crente mobiliza todo o seu ser para ser santo. Não há santidade sem luta. No campo da santidade, vale a máxima americana: “No pain no gain”, ou seja, “nenhuma dor, nenhum ganho”. É o esforço para conhecer o conteúdo da fé, e esse conteúdo nem sempre é fácil de aceitar ou de compreender. Há coisas difíceis na Bíblia. Ela lida com fatos, e fatos complexos, e, na expressão de C. S. Lewis, não podemos competir em simplicidade com aqueles que estão a inventar religião.89 Sua aplicação é menos fácil ainda. Lembre-se de que o Verbo teve de se fazer carne, e os que vivem nessa busca se deparam com renúncias que a Escritura exige, as quais somente mediante o esforço fruto de paixão poderemos realizar. Em segundo lugar, precisamos guardar e cumprir. Esses são dois elementos fundamentais da espiritualidade cristã. Guardar significa convencer-se de que ela é a Palavra de Deus, de que encarná-la é viver a vida que o próprio Filho de Deus viveu e expressar a beleza do caráter do Criador. Devemos também cumpri-la, pois naquele dia não seremos arguidos sobre o quanto de teologia conhecemos, mas sobre o quanto praticamos. É Tomas de Kempis que diz: “Que te aproveita discorreressabiamente sobre a Trindade se por falta de humildade a desagradas”?90 Devemos cumpri-la porque a principal parte de vida cristã é a obediência. Não há evidência maior de novo nascimento do que a prática da vida cristã. Pelo fruto se conhece a árvore. Em terceiro lugar, devemos expressar uma submissão integral à Bíblia. Josué disse que o povo deveria guardar e cumprir tudo. Por vezes, a não observância dos menores preceitos nos leva às maiores derrotas. Muitos já foram julgados por Deus por transgressões consideradas insignificantes, como tocar na arca, contar uma mentira ou guardar um despojo. Quisera que todos aqueles que, em teologia, falam de inspiração plenária vivessem na plenitude do compromisso de manter-se fiel às Escrituras. Em quarto lugar, aprendemos com Josué que não devemos ser crentes propensos a elevar um lado da verdade à condição de verdade completa. O grande líder de Israel está falando de um desvio que pode ser para a esquerda bem como para a direita, para um extremo ou para outro. Isso ocorre frequentemente por causa da tendência que há em todos nós de sermos levados a extremos. Você pode sair pela esquerda como também pela direita. E seja qual for o lado que escolher, estará pecando. Uns pecam de uma forma e outros, de outra. Uns, em nome do amor, toleram na igreja o que foi para a cama com a mulher do pai, enquanto outros, em nome da moral, querem apedrejar a que foi apanhada em flagrante adultério. Uns pecaram pela direita e os outros pecaram pela esquerda. Poderíamos ir mais além e dizer que uns pensam que ser cristão restringe-se a ser doutrinariamente correto, enquanto outros pensam que a porção mais importante da vida cristã são as experiências sobrenaturais com Deus, já outros, em meio ao antagonismo entre esses dois grupos, afirmam que o mais importante é a prática. Mas de onde essa gente toda tirou que podemos separar, na fé cristã, doutrina, experiência e prática? Precisamos manifestar em nossa vida esse compromisso autêntico com a verdade revelada. Igreja que guarda todo o Evangelho e o aplica todo a todas as áreas da vida. Somente assim nosso viver entre os cananeus não nos contaminará e seremos guardados de experimentar o juízo reservado para eles. EVITANDO MISTURA COM O MUNDO Não se associem com essas nações que restam no meio de vocês. Não invoquem os nomes dos seus deuses nem jurem por eles. Não lhes prestem culto nem se inclinem perante eles. [...] Se, todavia, vocês se afastarem e se aliarem aos sobreviventes dessas nações que restam no meio de vocês, e se casarem com eles e se associarem com eles, estejam certos de que o Senhor, o seu Deus, já não expulsará essas nações de diante de vocês. Ao contrário, elas se tornarão armadilhas e laços para vocês, chicote em suas costas e espinhos em seus olhos, até que vocês desapareçam desta boa terra que o Senhor, o seu Deus, deu a vocês. (Js 23:7-12-13) O compromisso com Deus levou os crentes dos dias de Josué a assumirem o papel de instrumentos do juízo divino. Não era uma tarefa fácil, mas, apesar de todas as batalhas que Israel enfrentaria, Deus dava ao Seu povo o privilégio de também servir de instrumento de revelação da santidade divina, de defesa da Sua justiça e de glorificação de Seu nome. Foram muitos anos tolerando um povo muito maligno, e chegara o tempo de Deus, por meio de Josué, destruir aqueles que inutilmente habitavam na terra de Canaã. Sabemos que hoje Deus não chama Seu povo para a execução desse tipo de juízo. Apesar de, em tantas ocasiões, a Igreja ao longo de sua história ter agido como se estivesse em Canaã com a incumbência de matar – como aconteceu em especial nas cruzadas –, Deus hoje convoca Seu povo para a utilização de outras armas e com outros propósitos. Pesa sobre nós uma grande comissão: temos o chamado de anunciar ao mundo que, hoje, unicamente por meio do Senhor Jesus Cristo o homem pode se reconciliar com Deus. É óbvio, no entanto, que nossa presença acaba trazendo morte para os que, como os cananeus, resistem a Deus. Somos um povo que exala um perfume que representa cheiro de morte para os que se perdem (2 Co 2:14-16). Nossa ação evangelística traz morte de certa forma por, pelo menos, dois motivos: primeiro, por anunciarmos uma mensagem que lavra a sentença de quem se recusa a receber a oferta graciosa de salvação. Quem nele crê não é condenado (Jo 3:18). Temos de deixar claro para os pecadores que não se arrependem que perecerão. A segunda espécie de morte que aqueles que têm contato com a Igreja experimentam é que, caso não aceitem o convite da salvação, vão ficar piores. Nossa mensagem pode levá-los a perceber a vacuidade da vida e o governo moral de Deus. Como enfatizou Francis Schae�er, “num mundo caído, precisamos estar preparados para enfrentar o fato de que, por mais amorosamente que preguemos o evangelho, a pessoa se sentirá miserável caso o rejeite. É escuro lá fora”.91 O fato é que, quer no Antigo quer no Novo Testamento, nunca foi fácil viver com os incrédulos. É, sem dúvida, um ponto dificílimo. O mundo está aí. É impossível não ter contato com ele, com seus conceitos, com suas influências. Passamos boa parte de nosso tempo nele. Como não nos associarmos a ele? Como não participar de sua morte? Bem, inicialmente é importante frisar que a Bíblia não condena o contato com o mundo. Ela condena, sim, a mistura com o mundo, e ela nos diz com clareza o que é esta mistura. Deus nos chama para mantermos nossa identidade de povo Dele, santo e separado. Não é da Sua vontade que a Igreja venha a se tornar uma só massa com o mundo. O que é necessário para que isso não ocorra? Se fôssemos dar uma resposta geral, diríamos que a presença da Igreja no mundo deve ter este propósito: levar aos perdidos o entendimento claro do que Deus pensa a respeito deles. Precisamos manter a noção, conforme Agostinho tanto ressaltou, que fazemos parte, o mundo e nós, de cidades diferentes. Somos cidadãos de outra nação. Não há nada mais nocivo para o mundo do que a Igreja fazê-lo pensar que tudo está bem com ele e, já que moramos no mesmo planeta, somos um mesmo povo. Acontece que não somos! E embora possamos encontrar gente culta e agradável, honesta e justa fora da Igreja, nosso envolvimento com ela deve ter como alvo o cumprimento da Grande Comissão e do grande mandamento. O texto da Escritura sobre o qual estamos nos debruçando, porém, nos oferece respostas mais específicas para a pergunta acerca de como não nos misturarmos com o mundo. Há duas coisas claras que não devemos fazer. Primeiro, não ter contato com seus deuses. Observe que Josué fala claramente contra a idolatria. Não podemos adorar o que o mundo adora. Penso que a lição prática é a seguinte: sempre que o mundo estiver muito empolgado com algo, vigiemos. Por sermos participantes de uma mesma espécie, vamos, com certeza, nos regozijar com algumas das alegrias do mundo. Tanto quanto os incrédulos, queremos democracia, paz, justiça, segurança e assim por diante. Como fazemos, porém, parte de nações diferentes, nem sempre nossos anseios vão tangenciar com os do mundo. O mundo geralmente se empolga com muita coisa que não deve empolgar a Igreja. A Igreja deve se relacionar com as coisas desta vida de maneira menos apaixonada e dependente do que os ímpios. Por vezes, o problema com o mundo não está em seus alvos, mas na forma como os abraça e nos meios para alcançá-los. Eu diria que os membros da Igreja de Cristo têm uma dupla vantagem sobre o mundo quanto ao que a vida oferece. Primeiramente, ela tem mais prazer no prazer. Por quê? Porque há Alguém no universo a quem pode dizer “muito obrigado!”. Uma noite enluarada para um crente é diferente do que é para o incrédulo. Este só vê o luar, aquele sente o inexprimível. Um diz: “Olhe no que o Big Bang deu”, enquanto o outro adora, dizendo: “Grandes são as Tuas obras, Senhor Todo- Poderoso”. A outra vantagem tem relação com o espírito com que a Igreja lida com as coisas. O crente não se impressiona facilmente. Seus olhos estão postos na glória, ele percebeo caráter transitório do que existe, sabe que debaixo do sol as coisas são imperfeitas e contempla o fulgor da majestade Daquele cuja beleza ofusca o cosmos. Não ter o coração posto de forma desmedida no mundo é não depender para ser feliz do que é frágil e imperfeito. Há um ponto a mais, contudo, quando pensamos na idolatria. Esses deuses produzem aquilo que muitos chamam de cosmovisão. Sim, aquilo que o mundo adora leva à criação de uma forma de ver a vida da qual o crente deve fugir. Não podemos permitir que a perspectiva do mundo domine nossa mente. Quais as convicções centrais que geralmente encontramos no mundo? Os teólogos costumam falar sobre as influências noéticas do pecado. O pecado afeta nossa mente. O que eles dizem com razão é que, embora tenhamos uma mente que pode ser usada de forma grandiosa para tanta coisa na vida, pelo fato de o coração estar sob os efeitos do pecado, a avaliação que o homem faz de si mesmo, do mundo, da vida e de Deus está profundamente condicionada pelo mal. Freud se arrogava o direito de ter sido como aquele que acordara a humanidade do seu sono. Jactava-se de haver anunciado ao mundo que a pretensão do homem de ser visto como um ser racional era ilusória por este ter suas decisões conscientes absolutamente condicionadas pela irracionalidade do seu mundo inconsciente. Mas em Romanos 1, o apóstolo Paulo fala da possibilidade de um homem conhecer a verdade com a mente e, ao mesmo tempo, recusar-se a reconhecê-la, por seu desejo inconsciente de rejeitá-la. Esta é a influência noética (a palavra vem de nous, palavra grega que significa mente) do pecado. A disposição maligna do coração perverte o juízo da mente. Agora você entende porque o Senhor Jesus foi levado a dizer: “Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus” (Mt 5:8). A Igreja deve estar atenta a tudo isso. Conhecer o ídolo bem como o que a adoração dele produz na cultura de um povo é fundamental para que a Igreja não incorra no mal que Josué tanto combate. Veja os cananeus. Tinham os seus ídolos e os adoravam de tal modo cego que lhes sacrificavam os filhos! Era sua cultura e sua concepção de deus. Não podemos dissociar uma coisa da outra. Não se pode separar idolatria e cultura. A idolatria pode ser vista também como a atenção desmedida a alguma coisa. Veja, por exemplo, o tema da liberdade. Da Revolução Francesa e do Iluminismo para cá, não sei se há um valor tão estimado pelos ocidentais como a liberdade. De fato, parte da humanidade livrou-se de um terrível cativeiro político, religioso e filosófico. Sendo assim, queremos governos democráticos e constitucionais. Não se imagina negociar o Estado de direito. Queremos também liberdade moral intelectual. E, como expressão das duas últimas, temos o conceito de que o homem não nasce definido e, portanto, é livre para buscar sua definição. O que levou a cultura dos países que abraçaram a esse ideal a jamais definir o ser humano como alguém que só pode encontrar seu sentido para viver numa relação viva com o seu Criador. Ele é livre, sim, mas não para ser santo. É tudo uma questão de escolha. Por isso, o único absoluto que restou, por mais contraditório que seja, foi a tolerância. Não há pecado intelectual mais odioso para a nossa geração do que crer em absolutos morais. Ninguém é mais odiado do que aquele que crê em verdades absolutas. Essa é a única verdade absoluta: tudo deve ser visto como mera e arbitrária construção social da realidade. O Cristianismo fala muito sobre liberdade. A liberdade é um valor cristão e devemos fomentar o direito de livre expressão do pensamento, lutar pela democracia e livrar o homem de tudo o que o acorrenta na alma. É fato fora de controvérsia que a liberdade é valor inegociável para o Cristianismo. Foi Abraham Kuyper que muito bem reconheceu o Calvinismo como agente eficaz para a criação de governos democráticos e baseados numa constituição por todos reconhecida: “E, como nome político, o Calvinismo indica aquele movimento político que garantiu a liberdade das nações em governo constitucional; primeiro na Holanda, então na Inglaterra e, desde o final do século XVIII, nos Estados Unidos”.92 Mas a liberdade que o mundo quer não é a liberdade preconizada pela fé cristã. Não adoramos a liberdade – adoramos a Deus. Queremos liberdade, pois esta glorifica a Deus. Queremos a liberdade de ser escravos de Deus mediante Seu poder regenerador. Pincei o conceito de liberdade como um dos valores considerados supremos da cultura ocidental, mas poderia falar também sobre tantas outras expressões do bem transformado em ídolo que desumaniza, para as quais devemos atentar se, de fato, não queremos nos misturar com o mundo. “Não se amoldem ao padrão deste mundo”, alguém já ordenou (Rm 12:2). Josué fala de um segundo pecado que o povo de Israel deveria evitar: o casamento com os cananeus. Este é um tema bastante polêmico, eu sei, contudo, a Palavra de Deus é muito clara ao dizer que cristãos devem buscar construir família com cristãos. Por quê? A resposta é simples: não há comunhão entre luz e trevas. Pense nisso. Pense na mente do cristão, na mudança extraordinária que houve em sua vida. Ele era escravo do mundo, da carne e do Diabo. Sua vida era governada por essas três forças. Como quebrar suas correntes? Tente por si mesmo se livrar delas. Olhe para a extraordinária influência delas em todas as áreas da vida humana. Após crer, o cristão tem a Palavra de Deus que lhe dá subsídios para fazer uma avaliação crítica do mundo, tem os frutos da regeneração que quebrou o poder soberano da carne sobre sua vida e a promessa do proto-evangelho (Gn 3:15), de que uma raça seria inimiga de Satanás, realizada em seu coração. Não apenas crê Nele, mas também O adora, contemplando-o na beleza da sua santidade. O crente é alguém que fixou o amor em Deus por haver descoberto o quanto Ele é majestoso. Penso que uma boa definição de cristão é a que encontramos em Romanos 2:7: o crente é alguém que procura glória, honra e incorruptibilidade. Esses fatos todos levaram Martyn Lloyd-Jones a dizer que é um insulto a ideia de que o crente passou por uma simples transformação: Muitos há que pensam na salvação e no Cristianismo em termos de um pouco de moralidade e decência. Que insulto ao cristão! Como se o cristão fosse apenas um indivíduo bondoso, agradável e inofensivo. Nada disso! O cristão é alguém que passou por uma tremenda transformação. Houve nele esta ação dinâmica. Ele foi levantado, ressuscitado; ele está nos lugares celestiais.93 Agora, pense no incrédulo. Quem ele é? O que ama? O que espera do futuro? O incrédulo é o oposto de tudo o que vimos. É um escravo dessas forças poderosíssimas que prendiam o crente. É alguém avesso a Deus. Quando crê em Deus, crê sem experimentar afeição santa em seu coração. Não são poucos os que negam o Deus cristão e que, contudo, mantêm relação com algum conceito de divindade. Ninguém jamais foi salvo pelo simples fato de crer na existência de Deus. Os fariseus acreditavam em Deus tal como nos demônios. Não é fato que os maiores facínoras da história eram profundamente religiosos? Olhe para o rastro de destruição deixado pela religião. O problema do ímpio também não está em seu intelecto. Não é que ele seja tão estúpido a ponto de olhar para o espetáculo da criação e atribuí-lo ao acaso. O problema é que o Deus em que ele diz crer não o fascina, não é seu supremo bem, não interfere no rumo essencial da sua vida. Converse com quem não nasceu de novo sobre os atributos de Deus, por exemplo, e você perceberá por seu olhar distante e falar cheio de pieguice que ele não se relaciona com Deus tal qual o crente. Jamais estimularia, a quem quer que fosse, a não ter contato com não cristãos, não os amar ou não reconhecer suas virtudes. Não precisamos, a fim de ressaltar a perdição do pecador, negar sua origem divina nem a imagem e a semelhança com Deus que carrega. Mas leia o que a Bíblia fala sobre regeneração, sobre ser nova criatura, ser santificado, tornar-se semelhante a Cristo, e vocêperceberá o enorme abismo que separa o crente do incrédulo. Vamos à aplicação disso tudo. Como um cristão pode escolher como cônjuge aquele com quem não é capaz de conversar justamente sobre o sentido da sua vida? A comunhão com quem não recebeu uma nova natureza formada pelo Espírito Santo poderá ir muito longe, mas jamais sem satisfazer o prazer mais profundo da alma que foi tangida pelo toque da graça regeneradora. Sobre o que conversarão? É possível orarem juntos? A conclusão a que chegamos é que a necessidade de satisfazer à demanda relacional, que faz parte tanto da nossa natureza humana como da nossa natureza regenerada, só pode ser satisfeita na Igreja. É lá onde encontrará seus melhores amigos. TEMENDO O SENHOR Estejam certos de que o Senhor, o seu Deus, já não expulsará essas nações de diante de vocês. Ao contrário, elas se tornarão armadilhas e laços para vocês, chicote em suas costas e espinhos em seus olhos, até que vocês desapareçam desta boa terra que o Senhor, o seu Deus, deu a vocês. [...] Mas, assim como cada uma das boas promessas do Senhor, do seu Deus, se cumpriu, também o Senhor fará cumprir-se em vocês todo o mal com que os ameaçou, até eliminá-los desta boa terra que lhes deu. Se vocês violarem a aliança que o Senhor, o seu Deus, lhes ordenou, e passarem a cultuar outros deuses e a inclinar-se diante deles, a ira do Senhor se acenderá contra vocês, e vocês logo desaparecerão da boa terra que ele lhes deu (Js 23:13-15-16). Aqui está um elemento indispensável para o sucesso de nossa jornada espiritual no mundo: o temor ao Deus santo. Perde sua identidade por deixar-se cooptar pelo mundo, coloca-se debaixo do juízo divino. O temor do Senhor é o receio de, por força da percepção da Sua santidade, desagradá-Lo. Deus é separado de todo o mal, o que o leva a exigir que quem o serve busque conformar seu caráter ao caráter do Criador. O verdadeiro crente odeia o pecado. Pecar o expõe à disciplina divina. Pecar o faz voltar-se contra quem mais o ama. Quanto mais conheço o amor de Deus por mim, mais tomo consciência de que ele O levará a querer o melhor para mim. O melhor para mim é participar da beleza de Deus. É ser excelente como Ele é. Quando procuro fugir dessa fixação do amor divino em mim, o próprio Deus traz-me de volta para Seus caminhos. Sim, o amor de Deus me faz temê-Lo. Ultimamente, tenho pensado nesse amor também sob a óptica da eleição eterna. A predestinação lança meu olhar tanto para a eternidade quanto para o passado da minha própria vida. E o que vejo quando olho para trás? A mão invisível do que me amou desde antes da fundação do mundo, amorosamente dirigindo os acontecimentos da minha vida a fim de que tudo cooperasse para minha redenção final. Quantos livramentos! Quantas mudanças providenciais no curso da minha história, usadas por Deus para me atraírem para Ele. O crente recusa-se a banalizar esse amor antigo, que o separou por um ato de pura graça para uma salvação eterna. O temor do Senhor levará o crente a outras atitudes: primeiro, à certeza de que o seu pecado pode obrigar Deus a discipliná-lo. O crente pode perder a saúde, ser perseguido, ficar desempregado ou privado da comunhão com Deus. Segundo, esse temor o manterá distante tanto dos grandes quanto dos pequenos pecados. O crente sabe que há pecados que são mais odiosos para Deus, por isso os evitará; mas sabe também que pequenos pecados costumam endurecer gradativa e imperceptivelmente o coração. Em terceiro lugar, esse temor levará o crente a se preocupar mais em agradar a Deus do que a quem quer que seja. Em quarto lugar, agirá também sobre seu interesse pela Bíblia. Indiscutivelmente quem teme a Deus se preocupará em conhecer, por meio de Sua Palavra, como agradá-Lo. Finalmente, em meio a tudo o que poderíamos falar sobre o temor ao Senhor, voltando à advertência de Josué nestes versículos, o crente temerá muito ser mundano. Qual a razão de o crente temer ser mundano? Primeiro, porque Deus já o advertiu e, segundo, porque o crente vê o mundo como Deus o vê. O mundo, com toda a sua dor e miséria, é uma prova empírica de que Deus está falando seriamente quando adverte a Igreja acerca do perigo de se viver uma vida mundana. Quero ainda acrescentar uma coisa mais: só teme ao Senhor aquele que vive coram Deo, ou seja, na presença de Deus. Só teme ao Senhor aquele que sabe que está sempre na presença de Deus e, por isso, vive na presença de Deus. Embora estejamos sempre em Sua presença, vivemos nela em seu sentido ético quando nos damos conta do fato de que viver é viver coram Deo. Como muito bem ressaltou Timothy George, citando Lutero: O Deus vivo da Bíblia é o Deus que nos encontra em juízo e misericórdia, o Deus que nos condena e salva. Coram Deo significa que, enquanto estamos sempre à disposição de Deus, Ele nunca está à nossa disposição. “Acreditar num Deus assim”, disse Lutero, “é cair de joelhos”.94 AMANDO O SENHOR Mas apeguem-se somente ao Senhor, ao seu Deus, como fizeram até hoje. O Senhor expulsou de diante de vocês nações grandes e poderosas; até hoje ninguém conseguiu resistir a vocês. Um só de vocês faz fugir mil, pois o Senhor, o seu Deus, luta por vocês, conforme prometeu. Por isso dediquem-se com zelo a amar o Senhor, o seu Deus. (Js 23:8-11) Aqui está o elemento principal: só vencemos o mundo quando nosso coração está dominado por amor pelo Criador. Este é o verdadeiro sucesso. Esta é a vida vitoriosa: amar a Deus. É cumprir o propósito para o qual fomos criados e o principal mandamento. Em que consiste a bênção de amar a Deus? É saber que somos amados por Ele também. O maior sinal que pode assegurar ao homem o amor eletivo de Deus por sua própria vida é o fato de ele amar a Deus. Só os eleitos amam a Deus. Amar a Deus é sinal da presença da graça especial. A graça comum, da qual toda a raça humana compartilha, é capaz de levar um homem a ter uma boa dose de fé na existência de Deus. Mas a fé que atua pelo amor, que vem acompanhada de encanto e louvor, só os verdadeiros filhos de Deus possuem. Muitos se perderão eternamente, apesar de toda fé que possuíram. Não conheço, porém, uma passagem bíblica que mostre um homem que verdadeiramente amou a Deus e que veio a se perder. O amor não salva, mas ninguém entrará no céu sem amor. A fé salvadora, sem a qual ninguém será salvo, diferentemente daquela que só habilita o homem a saber que Deus existe, por suas características, inevitavelmente leva o homem a amar a Deus. O amor é fruto imediato da fé salvadora. É da sua natureza tanto justiçar pela graça divina, quanto conduzir o que a possui a maravilhar-se com o amor gracioso de Deus. Sem esse amor, os cananeus sempre nos devorarão. Pastores não querem ver suas igrejas tragadas pelo mundo. O que fazem muitas vezes? Organizam seminários sobre a pós-modernidade, aconselham pessoas a evitarem assistir a filmes que poluirão seus corações, entre tantas outras ações mais que tão somente visam a manter a Igreja imune ao espírito deste século. Tudo isso tem seu lugar e, feito na medida correta, com bom senso e sem legalismo, ajuda. Entretanto, não estaremos preparados para viver em sociedades não cristãs se não estivermos cheios de um santo amor por Deus. O amor a Deus é a única resposta que pode destruir a lógica do pecado. Ao dialogar com o pecado, muitas vezes dizer-lhe “não” mais se parece com dizer “não” à mão que nos quer matar a fome. Negar-lhe satisfação é visto como um atentado à própria alma. Uns tentam guardar-se dizendo para si mesmos que quem peca vai para o inferno. Só que o pecado nos convence de que o inferno de evitá-lo é pior do que o literal. Quem já se apaixonou por uma pessoa casada sabe do que estou falando. Que argumento lógico, racional ou moral é capaz de superar o apelo do sonho do amor perfeito, mesmo que pecaminoso? Quando o pecado, porém, encontra o coração de um amante de Deus, seu poder persuasivo se desvanece como gelo ao sol. Esse amor torna a proposta de trair a Deus indecorosa. Expõe toda sua feiúra. Quão feio é o pecado paraaquele que conheceu o amor de Deus! Ao se ver diante do pecado, quem experimentou o amor de Deus e, em resposta, passou a amá-lo também, vê com horror não corresponder à fidelidade divina com fidelidade humana e não participar da beleza Daquele que, ao se revelar como excelente, torna quem O conheceu obcecado por desta beleza participar. O temor do inferno já levou muitos a correr para a graça a fim de receber o perdão. Mas essa graça é sábia e gulosa. Ninguém que por ela tenha procurado a Cristo devido ao medo da perdição eterna pára somente nisso. A graça o levará àquele estágio que o torna cada vez mais avesso ao pecado, como também a seguir movido na direção de Deus por um anseio de ser cada vez mais puro. É na experiência do amor santo pelo Criador que o homem torna-se mais capaz de manter-se fiel a Ele e O serve, não pelo motivo centrado no ego de fugir de uma punição final, mas pela visão das excelências de Deus. Como vimos, Josué estimula o povo de Israel a empenhar-se na obtenção e manutenção desse amor. Oh! Esse certamente deveria se constituir no principal objetivo de nossa vida. Como maravilhosamente expressou J. C. Ryle, “ele [o cristão] dará valor às coisas, lugares e companhias na proporção em que eles o fizerem aproximar-se mais de Deus”95. Este deveria ser o maior pedido em nossas orações pessoais, o grande objetivo do estudo de teologia, a grande meta na ida a um culto cristão. Vale a pena destacar que Josué apresenta uma base intelectual para esse amor. Ele disse aos israelitas: “Olhem para o passado. Vejam o quanto Deus fez!”. Era o exercício que Israel deveria fazer como nação que todos nós devemos fazer como indivíduos: olhar para o lado e perguntar: “Quantos possuem esse privilégio? Ele escolheu os egípcios, os caldeus, os fenícios, os persas ou os cananeus? A quem Ele escolheu? E por que escolheu? Superioridade numérica ou moral?”. A resposta já lhes havia sido dada: Pois vocês são um povo santo para o Senhor, o seu Deus. O Senhor, o seu Deus, os escolheu dentre todos os povos da face da terra para ser o seu povo, o seu tesouro pessoal. O Senhor não se afeiçoou a vocês nem os escolheu por serem mais numerosos do que os outros povos, pois vocês eram o menor de todos os povos. Mas foi porque o Senhor os amou e por causa do juramento que fez aos seus antepassados. Por isso ele os tirou com mão poderosa e os redimiu da terra da escravidão, do poder do faraó, rei do Egito. (Dt 7:6-8) A grande conclusão do capítulo 23 de Josué é a seguinte: Deus é fiel. Sendo um Deus fiel, Ele espera a mesma fidelidade em amor por parte de Seu povo. Esta foi uma mensagem proferida por um pastor zeloso por seu rebanho. Como precisamos ouvi-la! Ele percebera que Deus não tiraria os moradores da terra da promessa antes da chegada de Seu povo. Consequentemente, o povo de Deus teria contato com aquela gente, o que se constituiria em um enorme desafio para pessoas que, pela primeira vez, se relacionariam com uma sociedade profundamente pagã. Tudo o que Deus queria era fidelidade que se expressasse em aversão àquela cultura idólatra. Oh! Querido irmão, olhe para trás, para a história linda que o Senhor, nosso Deus, está escrevendo em sua vida. Não se associe, portanto, com aquilo do que você foi retirado pela graça divina. Siga a exortação do grande apóstolo Pedro: “Salvem-se desta geração corrompida!” (At 2:40). Pois como muito bem falou o discípulo amado: “O mundo e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” (1 Jo 2:17). X A RESPOSTA DA IGREJA À REVELAÇÃO DIVINA JOSUÉ 24 Estamos chegando ao fim do relato do livro de Josué sobre a jornada vitoriosa do povo de Israel em Canaã. Depois de analisar alguns dos principais acontecimentos daqueles tempos, chegamos à conclusão de que foi um período de glória. Ali estava uma geração melhor do que a anterior, que morreu no deserto, e comandada por um homem excelente, mediante os quais Deus operou grandiosamente. Quanto Deus realizou por meio daquela gente! Por isso, afirmo que estudar o livro de Josué é estudar um período de glória da vida do povo de Deus e, consequentemente, conhecer os princípios que regem a vida de um povo vitorioso. Pensar, contudo, que o grande privilégio do povo de Israel foi a carreira coberta de vitórias é perder de vista a grande mensagem deste capítulo final e, por conseguinte, de todo o livro de Josué. Foi de fato maravilhoso ver o rio se abrir, as muralhas ruírem, os inimigos serem derrotados, o anjo do Senhor se manifestar, o sol parar, tomar posse de uma terra especial e herdar as riquezas que a graça comum havia possibilitado aos povos de Canaã. A grande bênção, no entanto, foi poder receber, em meio a tudo aquilo, uma gloriosa revelação de Deus. É fato que podemos conhecer Deus de vários modos, entre eles, pela revelação que Deus faz de si mesmo por meio de Sua ação providencial. Como afirma A. A. Hodge, “homens de todas as nações, épocas e graus de cultura têm discernido as evidências da presença de Deus nas obras da natureza e da providência”.96 A afirmação do grande teólogo de Princeton é irretocável, embora saibamos que o ímpio não tira nenhum proveito salvador desse tipo de revelação. O crente, porém, não apenas pode discernir a mão invisível de Deus nos acontecimentos da vida em geral, como também é alvo de manifestações especiais e inconfundíveis dessa mesma providência. O extraordinário para o povo hebreu foi poder, em cada manifestação de Deus na história, conhecer algo novo do ser e atributos divinos. Conforme ressalta Hermann Bavinck: A Escritura não argumenta sobre Deus, ela O apresenta a nós e revela-O em todas as obras de Suas mãos. A Escritura parece nos dizer: “Levante seus olhos e contemple Aquele que fez todas estas coisas” [...]. Nós não aprendemos a conhecer e glorificar Deus independentemente de Suas obras, mas através de Suas obras, na natureza e na graça. É por isto que as Sagradas Escrituras nos apontam com tanta frequência os poderosos feitos de Deus. A Escritura é ao mesmo tempo uma descrição deles e um cântico de louvor por eles. Exatamente porque ela quer fazer-nos conhecer o Deus vivo e verdadeiro, ela fala em todas as suas páginas sobre os Seus poderosos feitos.97 É justamente isso que Deus quis enfatizar por meio da mensagem de Josué ao povo de Israel. O primeiro verso de Josué 24 diz que ele reuniu os líderes da cada tribo em Siquém, e chamou os anciãos de Israel, os seus cabeças, os seus juízes, e os seus oficiais; e eles se apresentaram diante de Deus. Então Josué disse a todo o povo: “Assim diz o Senhor Deus de Israel: antigamente vossos pais, Terá, pai de Abraão e de Naor, habitaram dalém do Eufrates, e serviram a outros deuses. Eu, porém, tomei a vosso pai Abrão dalém do rio, e o fiz percorrer toda a terra de Canaã; também lhe multipliquei a descendência, e lhe dei Isaque”. O que Josué destacou? Ele destacou o fato de que o povo de Israel era proveniente de uma raiz idólatra, mas que, pela graça divina, fora eleito a partir de Abraão para conhecer o único Deus verdadeiro e conhecer mais e mais, por Suas ações providenciais, Sua salvação. É fácil observar que, a partir do versículo 4, Josué traz à memória de todos o fato de que uma história de revelação incomum do ser de Deus a uma nação havia-se iniciado com Abraão. Por que no capítulo final desse livro sobre guerras e conquistas encontramos essa ênfase na revelação que Deus fez de Si mesmo a Israel? Porque depois de todas as conquistas cabia àquela gente dar uma resposta específica à revelação que Deus fizera, uma resposta que estivesse à altura dos enormes privilégios que cercam a vida dos que O conhecem. A maior vitória que um homem pode alcançar é conhecer a Deus. Milhares de seres humanos não O conhecem. Fazemos parte de uma raça que, apesar de nascer com o senso da divindade no coração, sufoca esse conhecimento inato, não permitido assim que ele venha a emergir na consciência e ganhar o coração. É quase inacreditável que isso seja verdade, mas este é o veredictobíblico. Paulo, na Carta aos Romanos, ensina que a grande razão de o homem ser inescusável diante de Deus é negar o que sabe ser verdadeiro. Não discuto o fato de que milhares jamais tiveram e nunca terão o conhecimento do Filho de Deus, e estes, certamente, não serão julgados por não terem crido no Cristo acerca de Quem nada ouviram. O que não se pode negar, entretanto, é que ninguém deixou de receber o testemunho do Pai: “Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis” (Rm 1:20). Os que não ouviram o testemunho do Filho não serão condenados porque não entregaram a vida a Ele, mas serão condenados por não terem entregue a vida ao Criador de todas as coisas, cujo testemunho é dado pela criação. R. C. Sproul apresenta esse assunto de maneira muito clara: Se alguém que habite uma região remota jamais ouviu falar de Cristo, ele não será então castigado por isso. Será entretanto castigado por rejeitar o Pai a Quem conhece e pela desobediência à lei escrita em seu coração. Devemos lembrar de novo que as pessoas não são rejeitadas por aquilo que não conhecem, mas pelo que ouviram falar.98 Não conhecer a Deus é a causa de nossa perdição. Não pense que, ao falar sobre perdição, estou pensando apenas em quem é banido para sempre da face de Deus. Estou me referindo mais especificamente a uma perdição relacionada ao tema deste livro: a de se alcançar um sucesso que não tem peso eterno, que não vem acompanhado de cantos de gratidão e deixa um vazio enorme no coração de quem o alcançou. Quem será mais infeliz: aquele que viveu ansiando pelo sucesso na vida e não o alcançou ou aquele que obteve tudo o que um dia sonhou, mas veio a perceber que as demandas do seu coração eram maiores, eram do tamanho de Deus? Nisto consiste a bênção de se alcançar a prosperidade cristã: ela é centrada em Deus. E o povo de Israel, que participava da bênção gloriosa de conhecer a Deus, não podia se esquecer disso. É interessante observar um detalhe na história daquela nação. As promessas temporais que lhe foram feitas eram, sem margem de dúvida, de colocar qualquer um para sonhar. Elas implicavam conquistas dignas de serem devolvidas a Deus na forma de louvor. Observe, contudo, que o povo de Israel nunca foi, nem mesmo no apogeu dos reinados de Davi e Salomão, a nação mais poderosa da história. Encontramos conquistas mais amplas, riquezas maiores e posses territoriais mais extensas. Considere a Macedônia, a China, Roma e, mais próximos de nós, a Inglaterra e os Estados Unidos. Como comparar a riqueza de Israel com o que estes povos alcançaram? Estude história e veja o lugar que Israel ocupa no cenário político e econômico. Tenho minhas dúvidas se os acontecimentos do povo judeu seriam conhecidos por nós se não fosse o Cristianismo, humanamente falando. Tente comparar Davi com Alexandre, o Grande, com os césares, com Carlos Magno, entre outros. Qualquer estudante de história sabe que estes alcançaram o que Davi nem em sonhos conseguiu. A pergunta que essas constatações históricas exigem que respondamos é a seguinte: por que, apesar da grandeza das promessas, povos que não tiveram os mesmo privilégios espirituais conquistaram mais? Ora, a resposta é clara e envolve duas coisas: primeiro, Deus tinha para aquela gente algo maior do que conquistas territoriais ou econômicas – prometera-lhes o céu. Israel estava apenas antegozando aquilo que os redimidos por Cristo haveriam de usufruir um dia na glória. E que ninguém pense que não havia dentre o povo hebreu quem aguardasse promessas mais excelsas. Como diz o livro de Hebreus: Pela fé Abraão, quando chamado, obedeceu e dirigiu-se a um lugar que mais tarde receberia como herança, embora não soubesse para onde estava indo. Pela fé peregrinou na terra prometida como se estivesse em terra estranha; viveu em tendas, bem como Isaque e Jacó, co-herdeiros da mesma promessa. Pois ele esperava a cidade que tem alicerces, cujo arquiteto e edificador é Deus. (11:8-10) Falando sobre Moisés, veja o que o escritor do mesmo livro inspirado afirma: Pela fé, Moisés, recém-nascido, foi escondido durante três meses por seus pais, pois estes viram que ele não era uma criança comum, e não temeram o decreto do rei. Pela fé, Moisés, já adulto, recusou ser chamado filho da filha do faraó, preferindo ser maltratado com o povo de Deus a desfrutar os prazeres do pecado durante algum tempo. Por amor de Cristo, considerou a desonra riqueza maior do que os tesouros do Egito, porque contemplava a sua recompensa. (vv. 23-26) Em segundo lugar, e aqui voltamos ao ponto em questão, a grande riqueza de Israel era ter o próprio Deus. O que Deus tem de melhor a dar para Seu povo é a Si mesmo! Foi isso que o antecessor de Josué, Moisés, foi levado a compreender, antes de o povo entrar em Canaã; por essa razão, orou da seguinte forma: Então lhe disse Moisés: “Então Moisés lhe declarou: “Se não fores conosco não nos envies. Como se saberá que eu e o teu povo podemos contar com o teu favor, se não nos acompanhares? Que mais poderá distinguir a mim e a teu povo de todos os demais povos da face da terra?”. (Êx 33:15-16) Oh! Que mensagem essa oração tem para nossos dias! Tantos falam em prosperidade, significando com isso poder e prazer em profusão, mas Moisés, antes de entrar em Canaã, fez uma oração que revela que a terra prometida, sem a presença de Deus, é como o Egito; que uma terra que mana leite e mel não poderá ser devidamente “saboreada” sem Deus. Que prazer é maior do que o experimentado na presença de Deus, para a glória de Deus e com o coração cheio de louvor a Deus? Deus queria que o povo de Israel soubesse que esta era a verdadeira prosperidade: conhecer a Deus e saber responder a esse conhecimento. Qual deve ser a resposta da Igreja à revelação divina? Essa é a pergunta a que temos de responder. MEDITAR SOBRE O CONTEÚDO DA REVELAÇÃO Do versículo 2 ao 13 de Josué 24, Espírito Santo, por meio do líder de Israel, se dirige ao povo trazendo-lhe à memória os grandes feitos de Deus em sua história. A recordação da revelação que Deus fizera de Si mesmo mediante Sua ação providencial inicia-se com: “Mas eu tirei seu pai Abraão” (v. 3) e é concluída com: “Lhes dei uma terra que vocês não cultivaram” (v. 13). Após relembrar os pontos principais das manifestações de Deus na história de Israel, Josué chegou a uma conclusão final, formulou um argumento e pintou um quadro dos atributos de Deus. Que tipo de Deus Israel conheceu? Esta é uma boa pergunta, sem dúvida alguma, pois a própria Bíblia nos ensina que não é a palavra “deus” que traz esperança ao homem, mas a pessoa do Deus que foi revelado a Israel, o Deus bíblico: Por que perguntam as nações: “Onde está o Deus deles?” O nosso Deus está nos céus, e pode fazer tudo o que lhe agrada. Os ídolos deles, de prata e ouro, são feitos por mãos humanas. Têm boca, mas não podem falar, olhos, mas não podem ver; têm ouvidos, mas não podem ouvir; nariz, mas não podem sentir cheiro; têm mãos, mas nada podem apalpar; pés, mas não podem andar; nem emitem som algum com a garganta. Tornem-se como eles aqueles que os fazem e todos os que neles confiam. Confie no Senhor, ó Israel! Ele é o seu socorro e o seu escudo. (Sl 115:2-9) Que maravilha! Mil vezes aleluia! Em primeiro lugar, o Deus que Israel conheceu é livre na dispensação da Sua graça eletiva. A história toda desse povo começa com o que é descrito em Josué 24:3: “Mas eu tirei seu pai Abraão”. O que a Bíblia quer nos ensinar é que, de uma raiz idólatra, Deus deu origem ao Seu povo, sacando soberanamente, dentre pessoas ímpias, um homem que não pôde resistir a um plano soberano levado a efeito pela mão divina. Por que alguém de Ur dos caldeus e de nome Abraão? Foi nesse ponto que Israel começou a lidar com o mistério da graça livre e soberana de Deus. Uma resposta, contudo, para o mistério era básica: Deus não escolheu o pai do povode Deus por suas virtudes. Havia, certamente, uma razão para a escolha, mas esta não estava no homem, mas no Deus que soberanamente diz: “Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia, e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão” (Êx 33:19). Isso não significa que Deus se recusará a ter misericórdia de quem a pede, mas indica que aquele que suplica por essa misericórdia dá, com isso, prova de que já foi alvo da mesma, pois só os objetos do amor eletivo de Deus O buscam com todo o seu ser. Não havia nada em Abraão que atraísse o amor divino, a não ser a fixação do amor de Deus em sua vida. O magistral Charles Spurgeon certa vez falou sobre isso: Quando Deus me salvou, eu era o mais abjeto, o mais perdido e arruinado membro da raça humana. Eu jazia diante de Deus como um recém-nascido. Na verdade, faltava-me todo e qualquer poder para ajudar a mim mesmo. Oh, quão miserável eu me sentia e sabia ser. Se você tem alguma coisa que o recomende diante de Deus, eu nunca tive coisa nenhuma. Antes, fico contente em haver sido salvo pela graça divina, graça pura e sem qualquer mistura.99 A Abraão Deus abençoou extraordinariamente, mostrando-lhe a terra da promessa e multiplicando sua descendência por meio de Isaque (Js 24:3). Israel conhecia a história do nascimento de Isaque: fruto de uma mulher idosa e estéril com um homem de 100 anos. O que a Bíblia tem a dizer sobre essa história? O relato é simples e profundamente revelador: “O Senhor foi bondoso com Sara, como lhe dissera, e fez por ela o que prometera. Sara engravidou e deu um filho a Abraão em sua velhice, na época fixada por Deus em sua promessa” (Gn 21:1-2). À luz disso, podemos deduzir duas importantes verdades: o Deus de Josué é fiel às Suas promessas e poderoso para cumpri-las, seja qual for a circunstância, pois exerce completo domínio sobre Sua criação. Além disso, quem anda com este Deus aprende a não levar em conta qualquer elemento limitador que o impeça de crer no que Ele pode fazer em favor do Seu amado povo. Em Josué 24:4, mais uma vez a graça eletiva ganha proeminência. Isaque tinha dois filhos: Esaú e Jacó. Deus escolheu o pior deles. Escolheu o menos qualificado, do ponto de vista moral. Por isso, o Deus dos hebreus veio a ser chamado de Deus de Jacó. Segundo a Bíblia, é uma bem- aventurança ter este Deus por auxílio (Sl 146:5), pois quem Nele crê recebe a ajuda do Especialista em investir a vida em pecadores, como você e como eu. Dos versículos 5 ao 11 de Josué 24, Deus traz à memória do povo o que fizera nos dias de Moisés. Que tipo de Deus foi revelado naqueles dias? O nome Moisés tornava vivo para a nação o fato de que nada na vida é casual. O mundo é regido pelo Deus de Josué. Quem era Moisés? Um bebê que fora salvo providencialmente das águas do Nilo, o que revela que, embora muitas vezes a vida dos eleitos de Deus pareça estar levada pelas correntes das forças cegas, Ele está no controle. Até mesmo os cabelos de nossa cabeça estão contados! Como diz Charles Hodge: O Antigo Testamento é o registro do relacionamento de Deus com o povo hebreu. A vocação de Abraão, a história dos patriarcas, de José, da jornada dos israelitas ao Egito, de seu livramento e peregrinação pelo deserto, de sua conquista da terra de Canaã e toda a história subsequente é um contínuo registro do controle de Deus sobre todas as circunstâncias, controle descrito como extensivo a todos os acontecimentos.100 O versículo 5 ressalta o juízo que Deus enviou sobre os egípcios por ocasião da libertação do povo de Israel: “Então enviei Moisés e Arão, e feri o Egito, com o que fiz no meio dele; e depois vos tirei de lá”. As Escrituras Sagradas de fato revelam um Deus cheio de santo amor, mas, justamente por ser santo, mesmo em Seu amor, envia juízo sobre os impenitentes. Israel presenciara também o fato de que Jeová não era um simples deus tribal, mas era um Deus que agia livremente entre os povos e não precisava pedir licença para nenhuma suposta divindade a fim de operar redentoramente no solo de outra nação. Os versículos 6 e 7 falam da gloriosa libertação da escravidão do Egito e revelam um Deus que soberanamente liberta Seu povo – “Tirando Eu a vossos pais do Egito” –, mas nem sempre escolhe os meios mais fáceis para isso. Na Sua soberania, Ele permitiu que o povo de Israel se visse entre o mar e as tropas egípcias. Mais uma gloriosa lição Israel veio a aprender: o que hoje é um obstáculo, amanhã pode ser instrumento de salvação, quando Deus está guerreando por Seu amado povo. Foi aquele mesmo mar que deu cabo dos inimigos de Israel. Foi exatamente isto que levou o puritano Thomas Watson a exclamar: “Confie em Deus quando as providências parecem correr de forma muito contrária às promessas”.101 Naquele episódio, todos aprenderam que Deus é “o nosso refúgio e a nossa fortaleza, auxílio sempre presente na adversidade” (Sl 46:1). Quando eles clamaram, Deus interveio imediatamente. Mas depois da libertação gloriosa, havia ainda um deserto a ser enfrentado. “Então habitastes no deserto por muito tempo”, onde, por causa da desobediência, todos foram provados. O Deus de Israel coloca Seu povo à prova, não para que O conheça, mas para que o povo saiba o que está em seu próprio coração. Josué 24:8 destaca mais uma vez a parceria indissolúvel de Deus com Seu povo – a tal ponto é ela verdadeira que é difícil saber quem de fato destruiu os inimigos: “Os quais pelejaram contra vós outros; porém os entreguei nas vossas mãos, e possuístes a sua terra; e os destruí diante de vós”. Nos versos 9 e 10 descobrimos que o crente não deve temer as maldições dos que sonham com sua destruição. Quanta gente há temerosamente obcecada com mau olhado e magia negra. Contra Jacó, contudo, não vale encantamento (Nm 23:23). As maldições dos ímpios se voltam contra eles e Deus não ouve sua oração. “Porém, Eu não quis ouvir a Balaão.” Como também há crente amaldiçoando crente e pastores rogando maldição sobre quem sai de suas igrejas, vale destacar que “macumba evangélica” não vale contra os eleitos de Deus. A maravilha dos versos 11 e 12 do último capítulo do livro de Josué é que ele relembra ao povo não o que Deus realizara na vida dos seus pais, mas na vida deles próprios. Deus era o mesmo! E o versículo 13 destaca os fatos de que o ímpio acumula para o crente e de que Deus é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos: “Dei-vos a terra em que não trabalhastes, e cidades que não edificastes, e habitais nelas; comeis das vinhas e dos olivais que não plantastes”. Temos de destacar isto: uma grande característica da vida do crente é que Deus, em Sua graça, lhe concede aquilo pelo que não labutou. Essa é marca da salvação: “Não trabalhastes”. Qual a importância para nós de Josué recordar tudo isso para o povo? Primeiro, é fundamental lembrar que o crente, por viver num mundo que o envolve em tantos conflitos, precisa de um Deus suficientemente grande para atendê-lo em suas necessidades. Segundo, a revelação deste Deus mostra quão amável é o culto a Ele. O Deus de Israel é excelente, e os eleitos são justamente aqueles que receberam esse sentido novo que os habilita a sentir a doçura da vida pela fé. Em terceiro lugar, há uma importância apologética também: que Deus pode se comparar ao nosso Deus? Que religião tem um conceito mais majestoso de Deus? Se há um Deus, só pode ser este, o Deus de Josué, o Deus da Bíblia, o Deus de Israel. À luz de tudo o que vimos, podemos afirmar que o crente deve trazer à mente com frequência essas verdades, magnificar seu Deus, não vê-Lo pelo lado contrário da luneta e, ao orar, apresentar-Lhe suas súplicas com sinceridade e simplicidade. Você conhece a Deus? Você tem procurado viver à luz desta revelação? Você crê que este Deus é incomparável? Você percebe que não há privilégio maior do que conhecê-Lo? SUBMETER-SE AO CONTEÚDO DA REVELAÇÃO Pior do que não conhecer ao Deus de Israel é não saber viver à altura desse conhecimento. Conhecimento teológico que não vem acompanhado de amorpor Deus e de um viver em conformidade com o que de Sua majestade se conhece é conhecimento teológico dos demônios. Josué fez teologia da melhor maneira possível. Após repassar todas as verdades consideradas acima, o grande comandante das tropas de Israel apresentou um quadro sobre como deve ser a vida de quem conhece a Deus. Josué pintou o quadro, formulou um argumento e o aplicou à vida. Fazer teologia de outro modo é uma afronta a Deus, é atrair maldição sobre si, é brincar com Aquele que exige que tiremos as sandálias dos pés. O encontro com Deus sempre nos faz cair de joelhos. A que conclusão Josué chegou após repassar a história de Israel diante do povo? Ele concluiu que o povo escolhido deveria viver à altura das verdades reveladas. Esta é a ênfase da Bíblia: o verdadeiro saber desemboca na prática da Palavra de Deus. Por isso Josué chamou o povo para viver em harmonia com tudo o que descobriu da parte de Deus. Em primeiro lugar, cabia ao povo temer a Deus. Como gosto deste “Agora, pois”. Aqui nos deparamos com o melhor método de pregação. A melhor pregação é a que apresenta a verdade doutrinária com clareza e a aplica à vida. Certamente sob o impacto do que acabara de rever, Josué foi levado a considerar que, para viver à luz de tudo o que haviam conhecido de Deus, todos deviam temer a Ele. “Temei ao Senhor” foi sua ordem. Calvino, ao falar sobre o temor do Senhor, levanta a seguinte questão: “O que mais é o temor de Deus do que aquela reverência pela qual nós mostramos que somos submissos à Sua vontade, porque Ele é Pai e soberano?”102. Penso que Josué deva ter raciocinando da seguinte forma: “Depois de tudo o que experimentei, vi e aprendi de Deus em todos os anos da minha existência, cheguei à seguinte conclusão: não existe maneira mais sábia de se viver do que cultivando o temor de Deus no coração”. Amigo, espanta-me ver como as pessoas conseguem viver de outro modo. Quando olho para a história de nossa raça com todas as suas desventuras, sou levado a temer Aquele que, por meio delas, revela que é absolutamente santo. Quando olho para a disciplina que exerceu sobre Seu povo, no propósito de tornar Sua Igreja uma obra-prima que reflita a beleza da santidade do Seu criador, eu O temo. E, acima de tudo, devemos temê-Lo porque dura coisa é saber que um Deus tão digno de ser amado não teve Seu amor correspondido. Em segundo lugar, cabia ao povo servir ao Senhor. Israel foi chamado a servir o Senhor com integridade e fidelidade: “E servi-O com integridade e com fidelidade”. O conhecimento de Deus não visa a gerar um medo paralisante cujo resultado maior seja um temor servil. O verdadeiro conhecimento de Deus produz na alma o desejo de cultuá- Lo. Quem O conhece de fato O conhece como Deus amável, e quem provou da doçura desse conhecimento é levado a adorá-Lo com os lábios e com a vida. Em terceiro lugar, Israel devia ser fiel ao Senhor. Como o conhecimento de Deus sempre representa o contato com o que é verdadeiro e amável, aquele que o possui não divide o coração com os ídolos. Josué chama a todos a abandonar os deuses dos seus pais – “Joguem fora os deuses que os seus antepassados adoraram” (v. 14) – e a entender que, sendo o Deus de Israel Quem é, o culto a Ele tem de ser proveniente de um coração puro, ou seja, um coração não dividido, um coração que só tenha uma vontade: fazer o Deus único sorrir. “Porém, se vos parece mau servir ao Senhor, escolhei hoje a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais, que estavam dalém do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais. Eu e a minha casa serviremos ao Senhor.” Nós que vivemos num ambiente em que tantos “deuses” cobram nossa fidelidade, em que poucos conhecem o Deus vivo e tão poucos O servem, sentimo-nos muitas vezes atordoados e pressionados a seguir o curso da maioria. Não era diferente nos dias de Josué; porém para o comandante das tropas de Israel o assunto já estava liquidado: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor”. Josué compreendeu que o Deus de Israel exige exclusividade, que somente fazia sentido servir ao Senhor e aquilo que queria para si deveria querer para sua família também. Viver uma vida de sucesso é ser livre para não se submeter à tirania da maioria. Josué podia olhar para a idolatria dos de fora, a possível falta de fidelidade a Deus por parte dos de dentro e, ao mesmo tempo, dizer que sua vida não seria conduzida por qualquer outra coisa que não fosse a verdade. Esta é uma das principais características do homem verdadeiramente crente: ele é capaz de enxergar o que a maioria não consegue ver. Por isso, muitas vezes experimenta tanto solidão quanto grande oposição. O que aconteceu com Josué se deu também com o grande teólogo capadócio Atanásio, que é lembrado pelo dito “Athanasius contra Mundum”, o que significa que, “mesmo que ele fosse o único sustentador da verdade, ele estaria preparado para defendê-la contra todos os seus oponentes”103. Isto se deu quando quase todos seguiam Ário, o bispo herege, que negava a Trindade e a divindade de Cristo. Veja o comentário de C. S. Lewis sobre a vida desse homem de Deus: Ele defendeu a doutrina trinitária, inteira e pura, quando parecia que todo o mundo civilizado estava se afastando do Cristianismo para a religião de Ário, para uma daquelas religiões sintéticas “sensatas” [...] que então, como agora, incluíam entre os seus devotos muitos religiosos altamente cultos.104 Poderíamos citar também Martinho Lutero que, no meio de uma escuridão espiritual pavorosa, conseguiu divisar a graça salvadora de Deus e assim ser levado a dar ao mundo o que veio a se tornar certamente na declaração que mais expressa o espírito protestante e que desempenhou papel inestimável na Reforma do século XVI: A não ser que seja convencido pelo testemunho da Escritura ou por argumentos evidentes (pois não acredito nem na infalibilidade do papa nem na dos concílios somente, visto que está claro que os mesmos erraram muitas vezes e contradisseram a si mesmos), a minha convicção vem das Escrituras a que me reporto, e minha consciência está cativa da Palavra de Deus, nada consigo nem quero retratar, porque é difícil, maléfico e perigoso agir contra a consciência. Deus que me ajude! Amém.105 CONHECER TANTO O QUE DEUS REVELOU SOBRE SI MESMO QUANTO O QUE REVELOU SOBRE SEU POVO Em sua jornada com Deus, Israel pôde conhecer tanto a Ele quanto a si mesmo. Se queremos ser vitoriosos nesta vida, precisamos conhecer teontologia bíblica (estudo de Deus à luz da Bíblia) e antropologia bíblica (estudo do homem à luz da Bíblia). Quem somos? Responder essa pergunta é fundamental, pois, quanto mais tomamos conhecimento do que somos, mais aprendemos a depender de Deus. Quem é, então, o povo de Deus? Em primeiro lugar, somos um povo absolutamente dependente de Deus. A resposta do povo à mensagem de Josué ressalta essa verdade. Nos versos 17 e 18 de Josué 24, todo o povo que ouvia seu líder reconheceu os seguintes fatos: “O Senhor é o nosso Deus; Ele é Quem nos fez subir, a nós e a nossos pais, da terra do Egito [...] Quem fez estes grandes sinais aos nossos olhos, e nos guardou por todo o caminho que andamos [...] o Senhor expulsou de diante de nós a todas estas gentes”. O que o crente sente quanto ao fato de o universo ter Deus como centro é o que sente quando percebe que sua vida depende e dependerá para sempre desse mesmo Deus. Ter no centro do universo Deus tão excelente é tudo que queremos. Quem poderia ocupar essa posição? E por estar a felicidade de Deus atrelada à nossa, uma vez que Ele assim o determinou, tudo o que é de Seu interesse haverá de ser, por toda a eternidade, de nosso interesse e vice-versa. É maravilhoso ver Ser tão amável, que de modo tão gracioso fixou Seu amor em nós, ser adorado por anjos, arcanjos, querubins e homens. Mas o que falar sobre depender Dele? Prefiro infinitamente mais estar sob os Seus cuidados do que a mim me ser dado o direito de cuidar de minha própria vida. Dependo de um Deus majestoso que me ama com o mesmo amor que