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Prévia do material em texto

Mesmo quando Israel, num gesto ousado, oferece aos palestinos o
estabelecimento de um Estado em troca de uma paz duradoura, intelectuais
e ativistas políticos atacam Israel, acusando-o de ser uma potência
imperialista, que oprime os palestinos.
Nos campi mais notáveis dos Estados Unidos e de todo o mundo circulam
petições contra Israel e boicotando os  judeus  israelenses,
independentemente de suas posições individuais.
Os oponentes mordazes de Israel acusam essa democracia de praticar
abusos sem precedentes contra os direitos humanos, enquanto os outros se
calam.
Neste livro arrebatador, fazendo uso de argumentos muito bem
fundamentados, Alan Dershowitz redime a história e deixa claro que Israel,
ainda que imperfeito, é um posto avançado de democracia e liberdade no
Oriente Médio.
Dershowitz prova que Israel foi criado sob os auspícios das Nações Unidas
e que foram os árabes, e não os israelenses, que deram início ao ciclo de
violência que persiste até nossos dias.
Demonstra que as ações israelenses na faixa de Gaza e na margem ocidental
não são movidas por ambições territoriais, e sim porque Israel está sendo
atacado. E ele mostra como os críticos de Israel minimizam a importância
do terrorismo, dos abusos contra os direitos humanos e das ideologias
antidemocráticas de outros regimes da região, empregando intolerância e
anti-semitismo velado em lugar de análises objetivas.
Em defesa de Israel mostra enfim todo o talento do brilhante advogado
empenhado em provar, mais uma vez, a inocência de um réu que a opinião
pública é quase unânime em condenar.
NOTA:
Livro digitalizado na íntegra.
Boa leitura a todos e todas! jocabilis@yahoo.com.br
Alan Dershowitz
EM DEFESA DE
ISRAEL
uma visão mais ampla dos conflitos no Oriente
Médio
tradução: Mario R. Krausz
Nobel
Publicado originalmente sob o título The case for Israel com a autorização
de John Wiley & Sons, Inc.
©2003 Alan Dershowitz
©2003 Peter Maass - Excertos páginas 195-196 usadas com permissão:
“Good Kills", Peter Maass. New \ork Times, 20/4/2003.
© 2002 Utilização dos mapas autorizada por: Atlas Arab-lsrael Conflict, 7
edição, Sr Martin Gilbert. Publicado por Routledge.
Direitos desta edição reservados à AMPUB Comercial Ltda.
(Nobel é um selo editorial da AMPUB Comercial Ltda.)
Rua Pedroso Alvarenga, 1046-9 andar-04531-004-São Paulo-SP Fone:
(011) 3706-1466 - Fax: (011) 3706-1462 
www.editoranobel.com.br
E-mail: ednobel@editoranobel.com.br
Coordenador da edição: Maria Elisa Bifano 
Tradução: Mario R Krausz 
Preparação de texto: Clemente Raphael Mahl 
Revisão: Denise Katchuian Dognini, Ana Maria Herrera 
Capa: Vivian Valli 
Composição: Heloisa Moutinho Avilez 
Impressão: PROL Editora Gráfica Ltda.
Publicado em 2005
Dershowitz, Alan
Em defesa de Israel / Alan Dershowitz ; tradução Mario R. Krausz -São
Fãulo : Nobel, 2004
Título original : The case for Israel ISBN: 85-213-1287-3
1. Conflitos Israel - Árabes 2. Israel 3. História 4. lideus -Colonização -
Fãlestina-Jüdeus-Fãlestina-História 5. Refugiados Judeus-Pálestina-História
6. Sonismo I.Título.
CDD-956.94
04-3409
índices para catálogo sistemático:
1. Israel : História 956.94
2. Palestina: História 956.94
É PROIBIDA A REPRODUÇÃO
Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida, copiada, transcrita ou
mesmo transmitida por meios eletrônicos ou gravações, sem permissão, por
escrito, do editor. Os infratores serão punidos pela Lei n 9.610/98.
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
 
Dedico respeitosamente este livro ao querido amigo que tenho há
aproximadamente 40 anos, professor Aharon Barak, presidente da Suprema
Corte de Israel, cujas decisões judiciais esclarecem a posição de Israel e o
código da lei melhor do que qualquer livro poderia fazê-lo.
AGRADECIMENTOS
Trabalhei neste livro desde 1967, quando comecei a defender a questão de
Israel nos campi universitários, na mídia e nos meus artigos. Nesse período
tive a assistência -frequentemente uma assistência crítica - de um número
demasiadamente grande de colegas, aos quais gostaria de agradecer. Entre
aqueles que merecem uma menção especial estão o professor Irwin Cotler,
atualmente membro do Parlamento canadense, com quem trabalhei em
tantas causas e projetos; os juizes Aharon Barak e Yitzak Zamir, que tanto
me ensinaram; o professor George Fletcher, que me ensina pelo argumento
e pelo desafio; o professor Amnon Rubinstein, com cujos artigos quase
sempre concordo; Israel Ringel, que gentilmente corrige os meus enfoques
erróneos sobre Israel, e numerosos estudantes que me mantêm atualizado
sobre assuntos correntes.
Ao escrever este livro aproveitei muito a assistência em pesquisa de Owen
Alterman, Mara Zusman, Eric Citron, Holly Beth Billington, Natalie
Hershlag e Ayelet Weiss. Minha assistente, Jane Wagner; minha agente,
Helen Rees; minha editora, Hana Lane e minha assistente temporária,
Robin Yeo, deram um suporte inestimável.
Agradeço aos meus amigos Bernard Beck, Jeffrey Epstein, Steve Kosslyn,
Alan Rothfeld e Michael e Jackie Halbreich os comentários pertinentes
sobre o manuscrito.
Minha esposa, Carolyn, e minha filha, Ella, inspiraram-me, debateram
comigo e encorajaram-me. Meus filhos, Elon e Jamin, meu sobrinho Adam,
minhas sobrinhas Rana e Hannah, meu irmão Nathan e minha cunhada
Marilyn fizeram sugestões úteis, as quais sinceramente agradeço.
Agradeço ao povo de Israel, que se sacrificou tanto em seus esforços
históricos na procura por paz, prosperidade e democracia diante de tanta
inimizade e violência. Finalmente, agradeço aos construtores da paz, que a
defenderam, e aos que a procuram, de ambos os lados desse conflito,
especialmente àqueles que deram suas vidas para que outros pudessem
viver em paz e segurança.
INTRODUÇÃO
A nação judaica de Israel é acusada pela justiça internacional. As
incriminações incluem a de ser um Estado criminoso e violador dos direitos
humanos, uma imagem especular do nazismo e de ser a barreira mais
intransigente para a paz no Oriente Médio. Pelo mundo todo, das comissões
da ONU aos campi das universidades, Israel é discriminado com
condenações, despojamentos, boicotes e demonizações. Seus líderes são
ameaçados de processos como criminosos de guerra. Seus amigos são
acusados de dupla lealdade e provincianismo.
Chegou a hora de uma defesa proativa de Israel ser apresentada na corte da
opinião pública. Neste livro apresento tal defesa - não de qualquer política
ou ação israelense, mas do direito básico de Israel à existência. De proteger
seus cidadãos do terrorismo e de defender suas fronteiras de inimigos
hostis. Mostro que Israel há muito tempo deseja aceitar a existência de dois
Estados, propostos no "mapa da estrada" para a paz, e que foi a liderança
árabe que persistentemente se recusou a aceitar qualquer Estado judeu - não
importa quão pequeno - nas regiões palestinas com maioria judaica.
Também procuro apresentar um quadro realista de Israel, com seus defeitos,
como uma democracia multiétnica florescente, em muitos aspectos parecida
com os Estados Unidos, que oferece a todos os seus cidadãos-judeus,
muçulmanos e cristãos - oportunidades e condições de vida muito melhores
do que as oferecidas por qualquer nação árabe ou muçulmana. Acima de
tudo, afirmo que todos que escolhem Israel como único alvo de uma crítica,
que não é dirigida contra países com registros muito piores de violações de
direitos humanos, são eles próprios culpados de intolerância internacional.
Essa é uma acusação séria e eu a comprovo. Permitam-me esclarecer que eu
não estou acusando todos os críticos de Israel de anti-semitismo. Eu mesmo
tenho criticado políticas específicas e ações de Israel ao longo dos anos,
como fizeram quase todos os que apoiam Israel, praticamente todo cidadão
israelense, e muitos judeus americanos. Mas também critico outros países,
inclusive o meu, bem como nações da Europa, Ásia e Oriente Médio. Na
medida em que a crítica é comparativa, contextual e justa, ela deve ser
encorajada e não inibida. Mas, quando a nação judaica é a única a sercriticada por erros que são muito mais graves em outras nações, essa crítica
atravessa a linha entre o certo e o errado, e vai do aceitável ao anti-semita.
Thomas Friedman, do New York Times, acertou quando disse que "criticar
Israel não é anti-semitismo, e afirmar isso é mau. Mas condenar Israel por
infâmia e sanção internacional - desproporcionalmente em relação a
qualquer outra parte no Oriente Médio - é anti-semitismo e não admiti-lo é
desonestidade".1 Uma boa definição usual de anti-semitismo é tomar uma
característica ou uma ação largamente difundida, se não universal, e culpar
apenas os judeus por ela. Foi isso que Hitler e Stalin fizeram e foi o que o
antigo presidente da Universidade de Harvard A. Lawrence Lowell fez nos
anos 1920 ao tentar limitar o número de judeus a serem admitidos em
Harvard porque "os judeus trapaceiam". Quando um aluno de destaque fez
objeção a isso, argumentando que não-judeus também trapaceiam, Lowell
respondeu: "Você está mudando de assunto; eu estou falando sobre judeus".
Da mesma maneira, quando aqueles que escolhem apenas a nação judaica
para fazer crítica são questionados por que não criticam também os
inimigos de Israel, eles respondem: "Você está mudando de assunto;
estamos falando de Israel".
Este livro prova não apenas que o Estado de Israel é inocente das acusações
contra ele levantadas, mas que nenhuma nação na história que tenha
enfrentado desafios semelhantes segue padrões mais elevados de direitos
humanos, é mais sensível à segurança de civis inocentes, esforça-se mais
para seguir as leis ou tem estado mais disposta a assumir riscos pela paz.
Esta é uma reivindicação audaz e eu a apoio com fatos e números, alguns
dos quais vão surpreender aqueles que recebem informações de fontes
tendenciosas. Por exemplo, Israel é a única nação no mundo cujo sistema
judiciário reforça ativamente a lei contra seus militares, mesmo em tempo
de guerra.2 É o único país na história moderna a devolver território
disputado, capturado numa guerra defensiva e crucial para sua própria
defesa, em troca da paz. E Israel matou menos civis inocentes, em
comparação ao número dos seus civis mortos, do que qualquer país
comprometido com uma guerra similar. Desafio os acusadores de Israel a
apresentar dados em apoio à sua afirmação de que, como foi dito por um
acusador, Israel "é o exemplo primeiro dos violadores de direitos humanos
no mundo".3 Não serão capazes de fazê-lo.
Quando o melhor é acusado de ser o pior, o foco deve mudar para os
acusadores que, eu afirmo, podem ser culpados de intolerância, hipocrisia
ou, no mínimo, de uma ignorância abismal. São eles que devem estar no
banco dos réus da história, junto com outros que também escolheram o
povo judeu, sua religião, sua cultura ou a nação judaica para uma
condenação sem igual e imerecida.
A premissa deste livro é que uma solução de dois Estados para as
reivindicações palestinas e israelenses é, ao mesmo tempo, inevitável e
desejável. A forma final precisa dessa solução é, naturalmente, objeto de
muita disputa - como prova o fracasso das negociações de Camp David e
Taba em 2000-2001 para alcançar uma solução aceitável por ambas as
partes e pelas disputas em torno do "mapa da estrada" de 2003. Existem, na
verdade, apenas quatro alternativas possíveis para um Estado judeu e um
Estado palestino viverem em paz, lado a lado.
A primeira é a solução preferida dos palestinos, defendida pelo Hamas e
outros, que rejeitam o direito de Israel existir (geralmente denominados de
recusantes): especificamente exigem a destruição de Israel e a eliminação
total de um Estado judeu em qualquer parte do Oriente Médio. A segunda
alternativa é preferida por um pequeno número de fundamentalistas judeus
e expansionistas: a anexação permanente da margem oeste e da faixa de
Gaza e a expulsão ou integração dos milhões de árabes que atualmente
habitam essas áreas. A terceira alternativa já foi a preferida dos palestinos,
mas eles não mais a aceitam: algum tipo de federação entre a margem oeste
e um outro Estado árabe (isto é, a Síria ou a Jordânia). A quarta, que sempre
tem sido um pretexto para tornar Israel um Estado palestino de fato, é a
criação de um único Estado binacional. Nenhuma dessas alternativas é
aceitável atualmente. Uma resolução que reconheça o direito de
autodeterminação por israelenses e palestinos é o único caminho razoável
para a paz, apesar de não estar livre de riscos.
A solução de dois Estados também parece ser um dos poucos pontos de
consenso para o conflito árabe-palestino-israelense que, de outra forma, é
um dilema insolúvel. Qualquer consideração razoável de como resolver
pacificamente essa disputa prolongada deve começar a partir desse
consenso. A maior parte do mundo atualmente advoga uma solução de dois
Estados, incluindo a grande maioria dos norte-americanos. Uma maioria
expressiva de israelenses, há muito, já aceitou esse compromisso. E hoje a
posição oficial da Autoridade Palestina e dos governos do Egito, da
Jordânia, da Arábia Saudita e do Marrocos. Apenas os extremistas entre os
israelenses e palestinos, bem como os Estados recusantes da Síria, do Irã e
da Líbia, desejam que todo território do que atualmente é Israel, a margem
oeste e a faixa de Gaza sejam permanentemente controlados apenas por
Israel ou apenas pelos palestinos.
Alguns opositores acadêmicos de Israel, como Noam Chomsky e Edward
Said, também rejeitam a solução de dois Estados. Chomsky afirmou: "Não
creio que seja uma boa ideia", apesar de reconhecer que possa ser "a melhor
das várias ideias ruins que andam por aí". Há muito, Chomsky tem
preferido, e aparentemente ainda prefere, um Estado único binacional
baseado nos modelos do Líbano e da lugoslávia.4 O fato de ambos esses
modelos terem falhado lamentavelmente e terminado em sangrento
fratricídio é ignorado por Chomsky, para quem a teoria é mais importante
do que a experiência. Said opõe-se firmemente a qualquer solução que
deixe Israel existir como um Estado judeu: "Não creio numa solução de
dois Estados. Creio numa solução de um Estado".5 Como Chomsky, ele é a
favor de um Estado secular binacional - uma solução elitista e impraticável
que teria de ser imposta a ambos os lados, uma vez que virtualmente
nenhum israelense ou palestino iria aceitá-la (exceto como trama para
destruir a outra nação).
Com certeza, os resultados de pesquisas em favor de uma solução de dois
Estados variam com o tempo, especialmente de acordo com as
circunstâncias. Em períodos de conflito violento, mais israelenses e mais
palestinos rejeitam o compromisso, mas a maioria das pessoas razoáveis
percebe que, apesar do que indivíduos possam teoricamente esperar ou
mesmo reivindicar como direito divino, a realidade é que nem israelenses
nem palestinos sairão ou aceitarão a solução de um só Estado.
Consequentemente, a inevitabilidade - e correção - de algum tipo de
compromisso de dois Estados é um começo útil para qualquer discussão que
busque uma solução construtiva desse conflito perigoso e doloroso.
Um ponto de partida concordante é essencial porque cada parte dessa longa
disputa inicia a narrativa de sua reivindicação relativa ao território em um
ponto diferente da história. Isso não deveria ser surpreendente, uma vez que
nações e povos em conflito geralmente escolhem como início de sua
narrativa nacional o ponto que melhor serve para apoiar suas reivindicações
e queixas. Quando os colonizadores americanos procuraram obter a
separação da Inglaterra, sua Declaração de Independência deu início à
narrativa com uma história de "repetidas injustiças e usurpações" cometidas
pelo "rei de então", tais como "taxação sem a nossa concordância" e
"alojamento de muitas tropas armadas entre nós". Aqueles que se opuseram
à separação começaram sua narrativa com os erros dos habitantes da
colônia, como sua recusa em pagar determinados impostos e as provocações
aos soldados ingleses. De modo similar, a Declaração de Independência de
Israel começa sua narrativa com a terra de Israel sendo "o local de
nascimento do povo judeu", onde"eles pela primeira vez alcançaram a
cidadania... e legaram ao mundo o eterno Livro dos Livros". A genuína
carta da Constituição palestina começa com a "ocupação sionista" e rejeita
qualquer "reivindicação de ligações históricas ou espirituais entre os judeus
e a Palestina", a divisão da Palestina pela ONU e o "estabelecimento do
Estado de Israel".
Qualquer tentativa de desvendar as controvérsias históricas de disputas
complexas e, em última análise, não comprováveis dos extremistas
israelenses e árabes somente conduz a argumentos não-realistas de ambos
os lados. Evidentemente é necessário ter alguma descrição da história -
antiga ou moderna - dessa terra e de sua demografia em constante mutação,
nem que seja para começar a entender como pessoas razoáveis podem
chegar a conclusões tão opostas a partir dos mesmos fatos básicos. A
realidade, é claro, é de que há concordância em apenas parte dos fatos.
Muito é defendido e considerado a verdade absoluta por alguns, enquanto
outros creem exatamente no contrário.
Essa disparidade tão acentuada de percepção resulta de vários fatores. Às
vezes é uma questão de interpretação de algum acontecimento. Por
exemplo, quando chegarmos ao capítulo 12, veremos que ninguém nega o
fato de que centenas de milhares de árabes que viviam onde hoje é Israel
não vivem mais lá. Apesar de haver disputa sobre o número preciso, a
maior discordância é se todos, a maioria, alguns ou nenhum desses
refugiados foi expulso de Israel. Se cada um partiu porque os líderes árabes
lhe deram a ordem ou se houve alguma combinação desses e de outros
fatores. Também há discordância sobre quanto tempo esses refugiados
realmente viveram nos lugares depois abandonados, uma vez que a ONU
definiu um refugiado palestino - ao contrário de qualquer outro refugiado na
história - como qualquer um que tenha vivido no território que se tornou
Israel durante apenas dois anos antes de partir.
Pelo fato de ser impossível reconstruir a dinâmica precisa e as condições
que acompanharam a guerra de 1948, deflagrada pelos Estados árabes
contra Israel, a única conclusão sobre a qual se pode ter absoluta certeza é
que jamais alguém saberá - ou convencerá seus opositores - se a maioria
dos árabes que abandonou Israel foi expulsa, abandonada ou sofreu alguma
combinação de fatores que a levou de um lugar para outro. Recentemente,
Israel abriu muitos dos seus arquivos históricos para os estudiosos, e novas
informações conduziram a compreensões e interpretações mais amplas, mas
não terminaram - e jamais terminarão - com as discordâncias.6 De modo
similar, a maioria dos 850 mil judeus sefardis que viviam nos países árabes
antes de 1948 foram para Israel, porque foram forçados a sair, abandonados
ou experimentaram algum tipo de temor, tiveram alguma oportunidade ou
foram em busca de um ideal religioso. Novamente, o movimento dinâmico
e preciso da história jamais será conhecido, especialmente porque os países
árabes dos quais saíram não mantêm registros e arquivos históricos ou
recusam-se a fornecê-los.
Cada lado faz jus à narrativa que lhe é conveniente, embora reconheça que
outros possam interpretar os fatos de modo algo diferente. Algumas vezes a
disputa é mais sobre a definição de termos do que sobre a interpretação dos
fatos. Por exemplo, os árabes frequentemente argumentam que Israel
recebeu 54% do território da Palestina apesar de apenas 35% dos residentes
serem judeus.7 Os israelenses, por outro lado, argumentam que os judeus
eram uma clara maioria nas regiões da terra alocada a Israel quando a ONU
fez a partição do território em disputa. Como se vê, as definições precisas
podem algumas vezes estreitar as disparidades.
Um outro ponto de partida deve incluir algum tipo de lei de caducidade para
ressentimentos antigos. Assim como a questão a favor de Israel não pode
mais basear-se exclusivamente sobre a expulsão dos judeus da terra de
Israel no primeiro século, também a questão dos árabes não pode se basear
com segurança em acontecimentos que supostamente ocorreram há mais de
um século. Uma razão para uma lei de caducidade é o reconhecimento de
que, à medida que o tempo passa, se torna cada vez mais difícil reconstruir
o passado com algum grau de precisão e as memórias políticas endurecem e
substituem os fatos. Como já foi dito, "há fatos e há fatos verdadeiros".
Com relação aos acontecimentos que precederam a primeira Aliyah em
1882 (a imigração inicial de refugiados judeus europeus para a Palestina),
existem mais memórias políticas e religiosas do que fatos reais. Sabemos
que sempre houve uma presença judaica em Israel, principalmente nas
cidades santas de Jerusalém, Hebron e Safed, e que sempre houve uma
pluralidade ou maioria em Jerusalém por séculos. Sabemos que judeus
europeus começaram a se mudar para onde hoje é Israel em números
significativos durante a década de 1880 - só pouco depois da época em que
australianos descendentes de ingleses começaram a deslocar os aborígines
australianos, e americanos descendentes de europeus começaram a se
mudar para alguns territórios ocidentais, originalmente habitados por
americanos nativos.
Os judeus da primeira Aliyah não deslocaram os residentes locais por
conquista ou por intimidação, como fizeram os americanos e australianos.
Legal e abertamente compraram terras - boa parte das quais considerada
não-cultivável - de proprietários ausentes. Ninguém que aceite a Austrália
como sendo legitimamente uma nação cristã de língua inglesa, ou a
América ocidental como parte dos Estados Unidos, pode questionar a
legitimidade da presença judaica onde hoje é Israel, de 18 80 até o presente.
Mesmo antes da divisão feita pela ONU, em 1947, tratados e leis
internacionais reconheceram que a comunidade judaica existia na Palestina
como questão "de direito", e qualquer discussão racional do conflito deve
ter como premissa que o "conflito fundamental" é de "direito com direito".
Tais conflitos são frequentemente os mais difíceis de resolver, já que cada
lado deve ser persuadido a comprometer-se com o que acredita ser uma
absoluta questão de direito. A tarefa torna-se ainda mais desalentadora
quando há alguns de cada lado que veem a sua reivindicação com base num
mandato divino.
Início a questão a favor de Israel por uma breve revisão da história do
conflito entre árabes, muçulmanos e judeus e depois entre árabes,
palestinos, muçulmanos e israelenses, com ênfase na recusa dos líderes
palestinos em aceitar uma solução de dois Estados (ou duas pátrias) em
1917, 1937, 1948 e 2000. Focalizo os esforços pragmáticos de Israel para
viver em paz dentro de fronteiras seguras, apesar dos repetidos esforços dos
líderes árabes para destruir o Estado judeu. Saliento os erros de Israel, mas
argumento que foram geralmente cometidos num esforço bem-intencionado
(apesar de algumas vezes mal orientado) de defender a sua população civil.
Finalmente, argumento que Israel procurou cumprir a lei basicamente em
todas as suas atividades.
Apesar da minha forte crença de que deve haver uma lei de caducidade para
ressentimentos, levantar a causa a favor de Israel requer uma breve viagem
ao passado relativamente recente. Isso é necessário porque a causa contra
Israel, nos dias atuais sendo levantada em campi universitários, na mídia e
no mundo todo, baseia-se em distorções propositais dos registros históricos,
a começar com a chegada dos primeiros europeus à Palestina, no final do
século XIX, e continuando com a divisão feita pela ONU, o
estabelecimento do Estado judeu, as guerras entre Estados árabes e Israel,
culminando no atual terrorismo e nas reações diante dele. Os registros
históricos devem ser bem estabelecidos para evitar a advertência do filósofo
Santayana de que aqueles que não lembram o passado estão condenados a
repeti-lo.
Cada capítulo deste livro começa com a acusação apresentada contra Israel,
citando fontes específicas. Respondo à acusação com fatos reais embasados
em provas aceitáveis. Ao apresentar os fatos geralmente não me baseio em
fontes pró-Israel, mas principalmente em fontesobjetivas e, algumas vezes,
para enfatizar algum ponto, em fontes anti-Israel.
Provo, sem sombra de dúvida, que as ações de Israel têm sido julgadas por
um duplo padrão pernicioso: que mesmo quando Israel foi o melhor entre
os melhores do mundo, tem sido muitas vezes acusado de ser o pior entre os
piores. Também provo que esse duplo padrão não tem sido apenas injusto
com o Estado judeu, mas tem prejudicado o código da lei, ferido a
credibilidade de organizações internacionais como a ONU e encorajado
terroristas palestinos a cometer atos de violência para provocar reações
exageradas de Israel e assegurar a condenação unilateral de Israel pela
comunidade internacional.
Na conclusão do livro, argumento que é impossível entender o conflito no
Oriente Médio sem aceitar a realidade de que, desde o início, a estratégia da
liderança árabe tem sido a eliminação da existência de qualquer Estado
judeu e mesmo de uma substancial população judaica onde hoje se situa
Israel. Mesmo o professor Edward Said, o mais destacado defensor
acadêmico dos palestinos, reconhece que "o nacionalismo palestino foi
integralmente baseado na expulsão dos israelenses [querendo dizer judeus]
"8. Esse é um fato simples, não sujeito a um questionamento razoável. As
provas verbais e escritas vindas de líderes árabes e palestinos são
esmagadoras. Várias táticas têm sido usadas para esse fim, inclusive a
mentirosa reescrita da história da imigração de refugiados judeus para a
Palestina e a história demográfica dos árabes na região. Outras táticas têm
incluído o ataque a civis judeus vulneráveis a partir da década de 1920, o
suporte palestino a Hitler e ao genocídio nazista nos anos 1930 e 1940 e a
oposição violenta à solução de dois Estados proposta pela Comissão Peei,
em 1937, e depois pela ONU, em 1948. Ainda uma outra tática foi a criação
e posterior exacerbação e exploração da crise dos refugiados.
Para alguns, a simples ideia de um Estado palestino ao lado de um Estado
judeu tem sido uma tática em si - um primeiro passo - para a eliminação de
Israel. Entre 1880 e 1967, na verdade, nenhum porta-voz árabe ou palestino
falou a favor de um Estado palestino. Em vez disso, queriam que a área
chamada pelos romanos de Palestina fosse incorporada à Síria ou à
Jordânia. Como Auni Bey Abdul-Hati, um proeminente líder palestino,
disse à Comissão Peei em 1937, "não existe tal país... Palestina é um termo
que os sionistas inventaram... nosso país foi, durante séculos, parte da
Síria". Portanto, os palestinos rejeitaram a pátria independente proposta
pela Comissão Peel porque também traria consigo uma pequena pátria
judaica. O objetivo sempre permaneceu o mesmo: eliminar o Estado judeu e
transferir a maioria dos judeus para fora da área.
Os realistas árabes agora reconhecem que esse objetivo é inatingível - pelo
menos em um futuro previsível. A esperança é que o pragmatismo
predomine sobre o fundamentalismo e que o povo palestino e seus líderes
finalmente cheguem a compreender que a causa a favor de um Estado
palestino é fortalecida pela aceitação de um Estado judeu. Quando os
palestinos desejarem seu próprio Estado mais do que desejam a destruição
do Estado judeu, a maioria dos israelenses receberá pacificamente o Estado
palestino como bom vizinho. O acordo que deverá seguir o "mapa da
estrada" e os apertos de mão, bem como promessas trocadas em Acaba, em
4 de junho de 2003, representam alguma esperança de que a solução de dois
Estados - há tempos aceita por Israel - se torne finalmente uma realidade.
Acolho a discussão vigorosa sobre a questão a favor de Israel que defendo
neste livro. De fato, espero gerar um debate honesto e contextuai sobre um
assunto que se tem polarizado por argumentos extremistas. Certamente
haverá discordâncias sobre as conclusões a que chego e as inferências que
faço dos fatos históricos. Mas não pode haver discordância razoável sobre
os fatos básicos: os judeus europeus que se juntaram aos seus primos
sefardis onde hoje é Israel, no final do século XIX, tinham um direito
absoluto de procurar refúgio na terra de seus ancestrais; estabeleceram com
o suor do rosto uma pátria judaica em partes da Palestina que justamente
compraram de proprietários ausentes; deslocaram bem poucos felás (árabes
que trabalhavam a terra) locais; aceitaram propostas baseadas na lei
internacional para uma pátria judaica repartida em áreas com maioria
judaica; e, pelo menos até recentemente, quase todos os líderes palestinos e
árabes categoricamente rejeitaram qualquer solução que incluísse um
Estado judeu ou a autodeterminação judaica. Esses fatos indiscutíveis
estabeleceram as bases do conflito que acompanhou o estabelecimento de
Israel e que continua até hoje. É importante apresentar esses fatos históricos
como parte da atual questão a favor de Israel porque essa distorção ou
omissão fundamental na história dolorosa é um elemento da questão muitas
vezes levantada contra o Estado judeu.
Decidi escrever este livro depois de acompanhar de perto as negociações de
paz de Camp David e Taba, de 2000-2001, e depois de ver como tantas
pessoas no mundo se voltaram contra Israel quando as negociações
falharam e os palestinos retornaram ao terrorismo. Eu estava lecionando na
Universidade de Haifa, em Israel, durante o verão de 2000, e pude observar
em primeira mão o entusiasmo e a expectativa com os quais tantos
israelenses aguardavam o resultado do processo de paz iniciado com os
acordos de Oslo em 1993 e que parecia estar a caminho da aceitação de
uma resolução de dois Estados, com Israel e Palestina finalmente
convivendo pacificamente depois de tantos anos de violento conflito.
À medida que o processo se encaminhava para a resolução, o primeiro-
ministro israelense Ehud Barak surpreendeu o mundo ao oferecer aos
palestinos praticamente tudo que demandavam, inclusive um Estado com
sua capital em Jerusalém, o controle do Monte do Templo, a devolução de
aproximadamente 95% da margem ocidental e toda a faixa de Gaza e um
pacote de compensação de 30 bilhões de dólares para os refugiados de
1948. Como poderia Yasser Arafat rejeitar essa oferta histórica? O príncipe
Bandar, da Arábia Saudita, que estava servindo de intermediário entre as
partes, exortou Arafat a "aceitar este negócio". Você poderia alguma vez
conseguir "um negócio melhor"?, perguntou. Você preferiria negociar com
Sharon? Como Arafat vacilou, Bandar advertiu-o: "Espero que o senhor se
lembre do que eu lhe disse. Se perdermos esta oportunidade será um
crime".9
Observei com horror como Arafat cometeu esse crime, rejeitando a oferta
de Barak e abandonando as negociações de paz sem nem mesmo fazer uma
contraproposta. Mais tarde o príncipe Bandar iria caracterizar a decisão de
Arafat como "um crime contra os palestinos - de fato, contra toda a região".
Considerou Arafat pessoalmente responsável por todas as mortes
resultantes dos conflitos entre israelenses e palestinos.10 O presidente
Clinton também colocou toda a culpa pelo fim do processo sobre Arafat,
como o fizeram quase todos que participaram das negociações. Mesmo
alguns europeus ficaram furiosos com Arafat por abandonar essa oferta
generosa. Finalmente, parecia que a opinião pública mundial estava
abandonando os palestinos, que haviam novamente rejeitado a solução de
dois Estados, e voltando-se para os israelenses, que haviam feito uma
proposta para a saída do impasse violento.
Mas em poucos meses a opinião pública internacional novamente mudou a
favor dos palestinos e contra Israel, desta vez com uma vingança.
Repentinamente Israel era o pária, o vilão, o agressor e o destruidor da paz.
Em campi universitários ao redor do mundo era Israel - o país que tinha
acabado de oferecer tanto - o único objeto das petições de despojamento e
boicote. Como tantas pessoas inteligentes puderam esquecer tão depressa
quem era culpado pelo fim do processo de paz? Como o mundo podia tão
depressa transformar Arafat, o vilão de Camp David, num herói e Israel,
que heroicamente tinha oferecido tanto, num vilão? O que aconteceu nesse
breve períodopara produzir uma mudança tão dramática na opinião
pública?
Fiquei sabendo que o que aconteceu foi precisamente aquilo que o príncipe
Bandar havia predito a Arafat que aconteceria se rejeitasse a proposta de
paz de Barak: "Você tem apenas duas alternativas. Ou você aceita esta
proposta ou haverá guerra". Arafat escolheu ir à guerra. De acordo com seu
próprio ministro das Comunicações, "a Autoridade Palestina começou a
preparar-se para o início da atual revolta nacionalista dos palestinos a partir
do retorno das negociações de Camp David, a pedido do presidente Yasser
Arafat".11
A desculpa para a escalada das explosões suicidas foi a visita de Ariel
Sharon ao Monte do Templo. Mas, como o ministro das Comunicações
alardeou, "Arafat... havia previsto o início da intifada como um passo
complementar à resistência palestina nas negociações, e não como um
protesto específico contra a visita de Sharon ao Al-Haram Al- Sharif [o
Monte do Templo]". De fato, a escalada do terrorismo havia começado
alguns dias antes da visita de Sharon, como parte "das instruções da
Autoridade Palestina" às "forças políticas e facções para conduzir todos os
elementos da intifada". Em outras palavras, em vez de mostrar "firmeza nas
negociações" fazendo contrapropostas à generosa oferta de Barak, Arafat
decidiu fazer a sua contraproposta na forma de explosões suicidas e
aumento da violência. O príncipe Bandar acusou Arafat de responsável pelo
banho de sangue resultante: "Ainda não me recuperei... da magnitude da
oportunidade perdida", declarou ele a um repórter. "Mil e seiscentos
palestinos mortos até agora. E setecentos israelenses mortos. No meu
julgamento, nenhuma dessas mortes de israelenses e palestinos é
justificada".12
Então, de que maneira este homem, responsável por essas mortes evitáveis,
que escolheu rejeitar a proposta de paz de Barak e instruiu seus
subordinados a reiniciar a violenta intifada como um "estágio
complementar" às negociações, conseguiu mudar a opinião pública mundial
tão depressa em favor dos palestinos e contra Israel? Essa pergunta
desalentadora necessitava de uma resposta, e foi a resposta assustadora que
me levou a escrever este livro.
A resposta vem em duas partes. A primeira é bastante óbvia: Arafat jogou a
comprovada carta do terrorismo, que funcionou para ele tantas vezes
através de sua longa e tortuosa carreira como terrorista diplomata. Ao fazer
de alvo civis israelenses - crianças ou ônibus escolares, mulheres grávidas
em shopping centers, adolescentes numa discoteca, famílias num jantar de
Pessach, estudantes universitários numa cafeteria -, Arafat sabia que podia
fazer com que Israel tivesse uma reação exacerbada, primeiro elegendo um
primeiro- ministro mais sagaz para substituir o manso Ehud Barak, depois
instigando os militares a tomar atitudes que inevitavelmente resultariam na
morte de civis palestinos. Funcionou perfeitamente, como no passado. De
repente, o mundo estava vendo imagens perturbadoras de soldados
israelenses atirando em multidões, parando mulheres em pontos de controle
e matando civis. Arafat havia "dominado" uma "dura aritmética da dor",
como foi dito por um diplomata: "As perdas palestinas contam a seu favor e
as perdas israelenses também. A não- violência não compensa".13
Para muitos, a simples aritmética era suficiente: mais palestinos do que
israelenses estavam mortos, e só esse fato já provava que Israel era o vilão.
Era ignorado o fato de que, apesar de "apenas" 800 israelenses terem sido
mortos (até junho de 2003), os terroristas palestinos haviam tentado matar
milhares mais e não haviam conseguido só porque as autoridades
israelenses haviam frustrado "aproximadamente 80% das tentativas" de
ataques terroristas.14 Também foi ignorado o fato de que entre os
aproximadamente dois mil palestinos mortos havia centenas de homens-
bomba, fabricantes de bombas, atiradores de bombas, comandantes
terroristas e mesmo supostos colaboradores mortos por outros palestinos.
Quando se contam apenas os civis inocentes, morreram significativamente
mais israelenses do que palestinos.15 De fato, Israel matou menos civis
palestinos inocentes durante as décadas que tem combatido o terrorismo do
que qualquer outra nação na história diante de tal violência, e essas mortes
trágicas foram consequências não- intencionais do combate ao terrorismo,
mais do que o objeto da violência.
Por que então tantas pessoas na comunidade internacional - diplomatas,
homens de mídia, estudantes, políticos, líderes religiosos - caíram na trama
transparente e imoral de Arafat? Por que não culpavam Arafat pela escalada
da violência, como fizeram o príncipe Bandar e outros? Por que culpavam
Israel tão apressadamente? Por que líderes morais e religiosos, que
geralmente traçam uma clara distinção entre aqueles que propositalmente
alvejam civis inocentes e aqueles que inadvertidamente matam civis, num
esforço de proteger seus próprios civis, eram incapazes de fazer essa
importante distinção quando se tratava de Israel? Por que não
compreenderam como a liderança palestina estava manipulando e
explorando a aritmética da morte? Por que não podiam ver além da
contagem de corpos e focalizar o correto cálculo moral: quantas pessoas
inocentes foram deliberadamente transformadas em alvos e mortas de cada
lado?
Procurando responder a essas perguntas perturbadoras, tornou-se claro para
mim que forças obscuras estavam em jogo. A mudança dramática e quase
total nas percepções do público num período tão curto de tempo não podia
ser explicada com base exclusiva em princípios da lógica, moralidade,
justiça - mesmo política. As respostas estavam, pelo menos em parte, no
fato de Israel ser o Estado judeu e o "judeu" entre os Estados do mundo.
Uma total compreensão das reações bizarras do mundo à generosa proposta
israelense de paz e a violenta resposta palestina requer o reconhecimento da
longa e difícil história mundial no julgamento do povo judeu por padrões
diferentes e muito mais exigentes.
O mesmo ocorre com a nação judaica. Pouco após o seu estabelecimento
como primeiro Estado judaico moderno do mundo, Israel tem sido avaliado
segundo um duplo padrão de julgamento e crítica de suas ações ao
defender-se contra ameaças à sua própria existência e à sua população civil.
Este livro é sobre este duplo padrão - a sua injustiça em relação a Israel e,
mais importante, seu pernicioso efeito ao encorajar o terrorismo palestino e
outros.
Se o tom deste livro algumas vezes pode parecer contencioso, é porque as
acusações atuais contra Israel frequentemente são estridentes,
intransigentes, unilaterais e exageradas: "tipo nazista", "genocida",
"exemplo clássico de violadores de direitos humanos no mundo", e assim
por diante. Essas falsas acusações devem ser respondidas direta e
verdadeiramente antes de se poder restaurar um tom de compromisso e
reconhecimento mútuo de erros, e os assuntos serem debatidos nos seus
méritos e deméritos frequentemente complexos. Mas, com demasiada
frequência, o debate atual, especialmente nos campi universitários, é
caracterizado por acusações contenciosas e unilaterais feitas por aqueles
que desejam demonizar Israel. São frequentemente respondidas pelo
reconhecimento bastante mais franco de erros por defensores de Israel e um
tom de desculpa que muitas vezes serve aos acusadores.
O avanço em direção à paz somente virá quando ambos os lados quiserem
reconhecer seus próprios erros e culpas e ir além das acusações do passado
para um futuro de compromisso mútuo. Uma atmosfera favorável a tal
compromisso não será alcançada se o ar não for purificado das acusações
falsas, exageradas e unilaterais que agora poluem a discussão em tantas
colocações. A finalidade deste livro é ajudar a purificar o ar, fornecendo
defesas diretas e verdadeiras a falsas acusações. O tom dessas defesas,
algumas vezes, necessariamente espelha o tom das acusações. A principal
característica dos meus escritos, discursos e aulas durante anos sempre foi
ser direto e não criar intrigas ou preocupar-me em ofender aqueles que, combase em suas ações intolerantes e falsas acusações, merecem ser ofendidos.
Procuro seguir esse caminho neste livro.
Uma vez purificado o ar dos poluentes da intolerância e da falsidade, um
debate mais diferenciado pode ser iniciado sobre políticas especificamente
israelenses - bem como sobre políticas especificamente palestinas. Este
livro não é parte desse debate, apesar de eu ter minhas próprias opiniões
sobre muitas dessas questões. Enquanto Israel for particular e falsamente
acusado de ser o principal infrator, a primeira obrigação daqueles
comprometidos com a verdade e a justiça é refutar essas acusações - de
modo firme e inequívoco.
Frequentemente, perguntam-me como, na qualidade de civil defensor do
livre- arbítrio e liberal, posso apoiar Israel. A implicação por trás da
pergunta é que devo estar comprometendo meus princípios ao apoiar um
regime tão "repressivo". A verdade é que apoio Israel precisamente porque
sou um civil defensor do livre-arbítrio e liberal. Também critico Israel
sempre que suas políticas violam o rigor da lei. Tampouco procuro defender
ações chocantes de Israel ou de seus aliados, tais como as matanças de 1948
por tropas irregulares de civis em Deir Yassin, o massacre falangista de
palestinos em 1982 no campo de refugiados de Sabra e Shatila ou os
assassinatos em massa de muçulmanos orando por Baruch Goldstein em
1994. Como em qualquer outra democracia, Israel e seus líderes deveriam
ser criticados sempre que suas ações deixem de atingir padrões aceitáveis,
mas o criticismo deveria ser proporcional, comparativo e contextuai, como
deveria ser também em relação a outras nações.
Defendo a causa de Israel com base em considerações liberais e de defesa
da liberdade civil, apesar de acreditar que os conservadores também
deveriam apoiar o Estado judeu com base em valores conservadores. Não
peço a ninguém que faça concessões a seus princípios. Antes, o meu pedido
é que todas as pessoas de boa vontade simplesmente apliquem ao Estado
judeu de Israel os mesmos princípios de moralidade e justiça que aplicam a
outros Estados e povos. Se aplicassem um só padrão de justiça, a causa a
favor de Israel se resolveria por si. Mas, como tantas pessoas insistem em
ser mais exigentes em relação a Israel, eu agora defendo a causa segundo a
qual, num julgamento por qualquer padrão racional, Israel merece o apoio -
embora, certamente, não o apoio sem crítica - de todas as pessoas de boa
vontade que atribuem valor à paz, à justiça, à honestidade e à
autodeterminação. 
NOTAS
1. Thomas Friedman, "Campus hypocrisy", New Work Times, 1.6 de
outubro de 2002.
2. V. capítulo 28.
3. V. capítulo 28.
4. A preferência de Chomsky por um modelo federal "ao longo das linhas
da Iugoslávia" é articulada em Middle east Ulusions (Oxford, Rowman &
Littlefield, 2003), pp. 105-106. A sua defesa do Líbano como um modelo
vem de um debate comigo em 1970.
5. Atlantic unbound (publicação on-line no Atlantic Monthly). Entrevista
de Said por Harry Bloom, 22 de setembro de 1999,
www.theatlantic.com/unbound/interviews/ba990922.htm.
6. V. Benny Morris, Righteous victims (Nova York: Vintage Books,
2001), p. XIV.
7. V. capítulo 9.
8. Atlantic unbound, 22 de setembro de 1999.
9. V. capítulo 17.
10. V. capítulo 17.
11. V. capítulos 16 e 17.
12. V. capítulo 17.
13. James Bennet, "Arafat's edge: violence and time on his side", New
York Times, 18 de março de 2002.
14. Bruce Hoffman, “'The logico f suicide terrorismo”, Atlantic Monthly,
junho de 2003, p. 45.
15. V. capítulo 18.
Israel é um Estado colonial e
imperialista
A ACUSAÇÃO
Israel é um Estado colonial, imperialista, colonizador, com um regime
comparável ao apartheid da África do Sul.
OS ACUSADORES
"[Um Estado judeu na Palestina] somente poderia emergir como filho
bastardo de potências imperialistas e só poderia chegar a existir pelo
deslocamento da maioria da população palestina, incorporando-a num
regime de apartheid ou por meio de alguma combinação de ambos. Além
disso, uma vez criado, Israel só poderia sobreviver como Estado militarista,
expansionista e hegemônico, constantemente em guerra com seus vizinhos."
(M. Shahid Alam, professor de economia na Northeastern University.)1
"A Palestina ocupada [que inclui todo Israel] deve ser descolonizada,
'desracializada' e devolvida ao povo palestino como único Estado soberano.
Em linguagem clara, o Estado sionista precisa ser desmontado." (Imam
Achmed Cassiem, presidente nacional da Islamic Unity Conviction, África
do Sul.)2
A REALIDADE
Israel é um Estado composto principalmente de refugiados e seus
descendentes, exercendo seu direito à autodeterminação. A partir da década
de 1880, os judeus que se mudaram para onde hoje é Israel eram refugiados
escapando do anti-semitismo opressivo da Europa colonial e dos Estados
muçulmanos do Oriente Médio e do Norte da África. Ao contrário de
colonizadores servindo aos objetivos expansionistas. Comerciais e militares
de nações imperialistas como Grã-Bretanha, Franca, Holanda e Espanha, os
refugiados judeus estavam saindo dos países que os tinham oprimido
durante séculos. Esses refugiados judeus se comparavam mais aos
colonizadores dos Estados Unidos que haviam saído da Inglaterra devido à
opressão religiosa (ou aos outros europeus que mais tarde emigraram para a
América) do que aos imperialistas Ingleses dos séculos XVIII e XIX que
colonizaram a Índia, aos franceses que colonizaram o norte da África e aos
expansionistas holandeses que colonizaram a Indonésia.
A PROVA
Aqueles que, de modo absurdo, afirmam que os refugiados judeus que
emigraram para a Palestina nas últimas décadas do século XIX eram
"instrumentos" do imperialismo europeu devem responder à seguinte
pergunta: para quem esses socialistas e idealistas estavam trabalhando?
Estavam plantando a bandeira do odiado czar da Rússia ou dos regimes
anti-semitas da Polônia ou da Lituânia? Esses refugiados não queriam ter
nada a ver com os países dos quais fugiram para evitar pogroms (massacres
organizados) e discriminação religiosa. Chegaram à Palestina sem nenhuma
arma do imperialismo. Traziam consigo poucas armas ou outros meios de
conquista. Suas ferramentas eram os ancinhos e as enxadas. A terra que
cultivavam não foi tirada dos seus legítimos donos pela força ou confiscada
por lei colonial. Foi comprada, primeiramente de proprietários ausentes e
especuladores imobiliários, a preços justos ou, muitas vezes, a preços
exorbitantes.
Como Martin Buber, um defensor dos direitos dos palestinos, observou em
1919: "Nossos colonizadores não vêm para cá como os colonizadores do
Ocidente, para terem nativos trabalhando por eles; eles mesmos debruçam
os ombros sobre o arado e gastam sua energia e seu sangue para tornarem a
terra fértil".3 Tampouco a terra que procuravam cultivar era rica em
recursos naturais, tais como petróleo ou ouro, ou posicionada
estrategicamente como rota comercial. Era um pedaço de terra destituída de
valor material num fim de mundo cuja importância para os judeus era de
caráter religioso, histórico e familiar.
Certamente esses trabalhadores judeus não eram os imperialistas típicos que
você poderia imaginar. Eram refugiados de regimes opressivos que
procuravam uma nova vida num lugar em que seus ancestrais tinham-se
estabelecido havia muito tempo e do qual a maioria foi expulsa. Além
disso, como documentado pelo historiador britânico Paul Johnson, as
potências colonialistas fizeram todo o possível para impedir o
estabelecimento de uma pátria judaica: "Em todos os lugares do Ocidente
os Ministérios do Exterior, da Defesa e as grandes empresas estavam contra
os sionistas"4 Os refugiados judeus que foram morar na Palestina tiveram
de superar o imperialismo turco, britânico e pan-árabe para poder alcançar a
autodeterminação.
Para provar sem deixar sombra de dúvida, que Israel não é e nunca foi um
Estado imperialista ou colonizador é necessário contar de novo,
resumidamente, a história inicial dos refugiados judeus da Europa que se
juntaram à maioria sefardi que vivia na Palestina haviagerações. A
primeira onda de imigração (ou, como era chamada, "Aliyah") começou em
1882 e terminou em 1903, e não era diferente, em muitos aspectos, da
primeira imigração em larga escala de judeus da Europa oriental para a
América, aproximadamente na mesma época. Era uma época de emigração
e imigração maciças através do mundo, especialmente das congestionadas
cidades e vilas européias. Grandes mudanças de população ocorreram, com
pessoas estabelecendo-se em lugares distantes de suas cidades natais.
Famílias irlandesas, italianas, gregas, alemãs, polonesas e judaicas, bem
como chinesas, japonesas e caribenhas, procuraram uma vida melhor nos
Estados Unidos, Canadá, América do Sul, Austrália e outros lugares, onde
podiam trabalhar com as mãos e desenvolver a mente.
Aproximadamente 10 mil judeus da Europa oriental emigraram para a
Palestina, e quase um milhão de judeus foram para os Estados Unidos.5 A
maioria dos judeus da primeira Alyah não tinha nenhuma esperança realista
de estabelecer uma nação judaica na Palestina. Apesar de alguns
intelectuais judeus, como Leo Pinsker, terem defendido a "auto-
emancipação" já em 1882, não havia nenhum movimento político a favor de
um Estado judeu até quase o fim da primeira Aliyah em 1897, quando
Theodore Herzl organizou o primeiro congresso sionista em Basileia, na
Suíça.
Os judeus da primeira Aliyah editaram um manifesto em 1882, no qual
explicitamente se referiam à recente onda de pogroms e aos mais distantes
autos-de-fé que haviam ameaçado destruir o judaísmo europeu. Não
desejavam necessariamente um Estado, mas "um lar em nosso país", talvez
"um Estado dentro de um Estado maior", onde pudessem ter seus "direitos
civis e políticos" e também pudessem "ajudar nosso irmão Ismael em
períodos de necessidade".
Assim como os judeus que procuraram refúgio na América, a maioria dos
judeus que primeiro retornou ao Sião estava simplesmente procurando um
lugar para viver em paz, sem discriminação e sem ameaças físicas à sua
sobrevivência. Certamente tinham esse direito. A Palestina, terra de seus
antepassados, parecia ser um Lugar apropriado por várias razões
importantes, incluindo a de que sempre houve uma presença judaica
significativa na região.
Os historiadores acreditam que os hebreus chegaram ao atual Israel em
algum momento no segundo milênio a.C. Sob Josué e, posteriormente, sob
o rei Davi e seus sucessores, existiam reinados hebreus independentes.
"Durante mais de 1.600 anos os judeus constituíam a principal população da
[como posteriormente chamada pelos romanos] Palestina" de acordo com o
historiador Martin Gilbert.6 Depois da conquista pelos babilônios, persas e
gregos, um reinado judeu independente renasceu em 168 a.C., mas Roma
tomou o controle efetivo no século seguinte. Os romanos suprimiram as
revoltas judaicas em 70 d.C. e em 135 d.C., e a Judéia mudou de nome para
Palestina para ser desjudaizada: os romanos a renomearam em virtude dos
anteriores habitantes da costa, os filisteus.7 A partir daí, apesar dos
repetidos esforços dos romanos, cruzados e alguns muçulmanos para liberar
a Palestina dos judeus, milhares de judeus conseguiram manter-se em suas
cidades sagradas, especialmente Jerusalém, Safed, Tiberíades e Hebron.
Havia também comunidades Judaicas em Gaza, Rafah, Ascalon, Cesaréia,
Jafa, Acre e Jericó.
Entre os judeus que viviam em Jericó durante o século VII havia refugiados
do sangrento massacre de duas tribos árabes judaicas por Maomé. Os
judeus de Khaibar tinham vivido pacificamente entre seus vizinhos árabes
até que o profeta Maomé "desferiu atrocidades desumanas sobre seu
inimigo derrotado", massacrando homens, mulheres e crianças judias. Os
judeus de Khaibar "orgulhavam-se da pureza de sua vida familiar: agora
suas mulheres e filhas [as que escaparam da execução] foram distribuídas e
levadas pelos conquistadores".8 Aqueles judeus que conseguiram escapar
da espada do profeta foram proibidos de permanecer na península Arábica,
de acordo com as ordens do profeta: "Jamais podem existir duas religiões
na Arábia".9 Muitos estabeleceram-se na Palestina, juntando-se a
refugiados judeus da opressão cristã pós-romana.
Os cruzados massacraram milhares de judeus junto com muçulmanos no
século XI, e pouco tempo depois judeus da França, da Inglaterra e, mais
tarde, da Espanha, da Lituânia, de Portugal, da Sicília, da Sardenha, de
Rodes e de Nápoles estabeleceram centros de estudo judaico e comércio, A
partir dessa época a Palestina jamais deixou de ter uma presença judaica
significativa e bem documentada. Quando os turcos otomanos ocuparam a
Palestina em 1516, apenas na região de Safed viviam aproximadamente 10
mil judeus. No século XVI, de acordo com relatos britânicos, "algo como
15 mil judeus" viviam em Safed, que era um "centro de estudos
rabínicos",10 Muito mais judeus viviam em Jerusalém, Hebron, Acre e
outros lugares. Jerusalém, de fato, tem tido uma maioria judaica desde
quando os primeiros levantamentos populacionais foram leitos no século
XIX. De acordo com o cônsul britânico em Jerusalém, os muçulmanos "mal
superavam um quarto da população total".11 Jerusalém era uma cidade
predominantemente judaica bem antes da primeira Aliyah. Em meados do
século XIX - trinta anos antes da primeira Aliyah de judeus europeus - os
judeus também tinham uma presença significativa, frequentemente uma
pluralidade ou uma maioria, em Safed, Tiberíades e várias outras cidades e
aldeias.12 Tel Aviv foi uma cidade predominantemente judaica desde a sua
fundação por judeus europeus sobre dunas de areia em 1909.
A Palestina manteve-se como centro de aprendizado judaico, religiosidade e
misticismo ao longo das épocas. Os judeus europeus contribuíram para as
instituições religiosas na Palestina e oravam diariamente por um retorno ao
Sião (que, originalmente, era um termo mais religioso do que político; daí a
sua frequente menção em fontes cristãs). Apesar de a maioria dos judeus da
primeira Aliyah ter sido secular até o âmago - a saudade do Sião
transcendeu a teologia e foi um aspecto importante da história judaica. Os
judeus que viviam fora da Palestina eram tidos como em diáspora ou
exilados. O povo judeu jamais abandonou sua reivindicação de retornar à
terra da qual tantos de seus ancestrais foram expulsos.
Bem antes dos primeiros sionistas europeus terem chegado à Palestina,
pogroms de inspiração religiosa e outras formas de violência vitimaram
judeus locais, cujos ancestrais haviam chamado a Palestina de lar durante
séculos. Durante a ocupação egípcia da Palestina na década de 1830, os
judeus que lá viviam foram perseguidos impiedosamente por fanáticos
muçulmanos simplesmente por intolerância religiosa. Em 1834, lares judeus
em Jerusalém "foram saqueados e suas mulheres violentadas".11 Mais
tarde, naquele mesmo ano, judeus em Hebron foram massacrados. O cônsul
britânico William Young, num relatório ao Foreign Office - 40 anos antes
da primeira Aliyah -, pintou um quadro claro e desalentador sobre a vida
dos judeus em Jerusalém em 1839:
Considero meu dever informá-lo de que foi feita esta semana uma
proclamação pelo administrador do bairro judeu para não permitir a
nenhum judeu orar em sua casa sob a pena de ser severamente punido -
aqueles que quiserem rezar devem ir à sinagoga...
Também houve uma punição de um judeu e de uma judia - mais revoltante à
natureza humana, que, acredito, seja meu dever relatar. No cometo daquela
semana uma casa no bairro judeu foi invadida tendo sido cometido um
roubo - a casa estava em quarentena - e o guarda, que era um judeu, foi
levado ao administrador - e negou conhecer o ladrão ou as circunstâncias.
Para fazê-lo confessar foi deitado e chicoteado e, em seguida, aprisionado.
No dia seguinte foi levado novamente diante do administrador quando
continuou a Insistir na sua inocência. Foi então queimado na face com um
ferro quente e em várias partes do corpo - acoitado nas partes inferiores de
seu corpo - a ponto de a carne ficar pendurada aos pedaços. No dia
seguinte a pobre criatura morreu. Era um jovem judeu de Salônica,com
aproximadamente 28 anos de idade, que estava aqui havia pouco tempo,
tendo procurado emprego comigo uma semana antes.
Um jovem - judeu - com passaporte francês também era suspeito - ele
fugiu. Sabia-se que o seu caráter era indiferente. Sua mãe, uma mulher
idosa, foi presa sob suspeita de esconder seu filho - foi amarrada e
espancada da maneira mais brutal...
Devo dizer que sinto e estou surpreso que o administrador tenha agido de
maneira tão selvagem - porque, certamente, pelo que vi dele, eu o teria
considerado superior a uma tal brutalidade -, mas o jovem era um judeu -
sem amigos ou proteção - e servia bem para mostrar que não é sem razão
que o pobre judeu mesmo no século XIX, vive de um dia para o outro em
terror pela sua vida.14
O judeu também não podia procurar desagravo, como o relatório observa:
Como o cão miserável sem dono, ele recebe pontapés de um por atravessar
o seu caminho e, algemado por outro porque grita, tem medo de procurar
desagravo porque isso poderia piorar sua situação: ele acha melhor
suportar do que viver na expectativa de que sua queixa acabe por voltar-se
contra ele.15
Vários anos depois o mesmo cônsul atribuiu a condição do judeu em
Jerusalém ao "ódio cego e ao preconceito ignorante de um populacho
fanático", associados com a impossibilidade de a comunidade judaica,
atingida pela pobreza, defender-se física ou politicamente.16. Isso foi meio
século antes do advento do sionismo moderno e da chegada dos judeus
europeus. Era uma pura intolerância religiosa dirigida contra uma
população nativa que vivia na Palestina havia séculos e tinha o mesmo
direito do estar lá e de ser tratada com justiça como qualquer árabe ou
muçulmano.
Como veremos, só depois de os judeus europeus terem começado a unir-se
com seus primos sefardis na Palestina, que refugiados judeus puderam
preparar algum tipo de defesa contra a violência de inspiração religiosa que
tornava tão difícil a vida na região. Certamente os judeus nativos da
Palestina, que tinham, no mínimo, tanto direito de estar lá como qualquer
muçulmano ou cristão, faziam jus à proteção contra a discriminação
religiosa e maus-tratos, e seus correligionários europeus tinham o direito de
oferecer-lhes essa proteção peia introdução de instituições de autodefesa.
Apesar de os judeus que emigraram da Europa oriental para a Palestina
serem semelhantes em muitos aspectos aos judeus que foram para a
América - no sentido de que ambos os grupos eram refugiadas do anti-
semitismo europeu e procuravam vida nova num lugar livre de antigos
preconceitos - diferiam no fato de que alguns que foram para Israel tinham
motivos ideológicos para sua escolha de um novo lar, enquanto aqueles que
foram para a América escolheram a “Golden Medina” {nação dourada},
principalmente com base em considerações práticas (tais como
oportunidades econômicas, liberdade política, igualdade religiosa e
unificação familiar).
Os judeus americanos mudaram para vizinhanças judaicas, estabeleceram
instituições comunitárias judaicas e continuaram a falar ídiche enquanto
seus filhos dominavam o inglês. Apesar de terem sofrido discriminações e
terem sido explorados, como outros grupos de imigrantes, com o tempo
assimilaram-se econômica, política e mesmo socialmente à maioria.
Os judeus da primeira Aliyah encontraram uma realidade muito diferente na
Palestina dos fins do século XIX. Também estabeleceram as suas
comunidades, organizaram suas instituições comunitárias e reviveram a
antiga língua hebraica. Mas a assimilação, mesmo pura aqueles judeus ou
árabes que a desejavam, não era viável. Grupos organizados de árabes
atacavam colônias judaicas desprotegidas e desarmadas e eram feitos
esforços para impedir mais judeus europeus de procurar asilo na Palestina.
Apesar de alguns líderes árabes terem recebido bem os refugiados judeus e
os terem visto como potencial fonte de emprego para árabes locais, muitos
queriam desencorajar qualquer imigração de não- muçulmanos ou não-
árabes. Ao contrário da América, onde os imigrantes judeus podiam
eventualmente viver e trabalhar ao lado de americanos não-judeus, na
Palestina os refugiados judeus tinham de viver em comunidades separadas e
cultivar suas próprias terras. Como foi concluído mais tarde pela Comissão
Peel, a assimilação não era viável por causa do preconceito antijudaico
estimulado pelos líderes muçulmanos. A fase inicial do yishuv ("retorno"
ou "comunidade") foi, assim, mais uma imigração de refugiados do que um
movimento político determinado ou movimento nacionalista, apesar de as
sementes do sionismo político terem certamente sido plantadas durante a
primeira Aliyah (e talvez mesmo antes) por aqueles cuja decisão era
motivada, pelo menos em parte, por um desejo de retornar ao Sião. Mais ou
menos na época em que a primeira onda de refugiados judeus da Europa
estava emigrando para a Palestina outras ondas de refugiados judeus de
países e regiões muçulmanos, como Iêmen, Iraque, Turquia e norte da
África também começavam a chegar à Palestina. Esses judeus árabes não
tinham noção de sionismo político. Estavam simplesmente voltando para
casa a fim de escapar das perseguições, tendo chegado ao seu conhecimento
que o Império Otomano estava permitindo (ou fechando os olhos para) uma
certa imigração judaica para a Palestina.
Com base na história real dos refugiados judeus que emigraram para a
Palestina, o argumento de que Israel é um Estado colonizador ou
imperialista é tão artificial que simplesmente serve para ilustrar como a
linguagem é propositalmente distorcida a serviço de uma agenda facciosa. 
NOTAS
1. "What went wrong?" Al-Ahram Weekly (Egito) 12-18 de dezembro de
2002. Todas as citações a Al-Ahram Weekly disponíveis em
http://weekIy.ahram.ora.ea.
2. Radio 786, 23 de maio de 20O2.
3. Buber a Gandhi, citado em Arthur Hertzberg, The zionist idea. Jewlsh,
(Philadelphia: Jewish Publication Society, 1997), p. 464.
4. Paul Johnson, Modern times: the worldfrom the twenties to the
nineties (Nova York, Harper & Row, 1983), p. 485.
5. Os 10 mil judeus que procuraram refúgio na Palestina constituíam
aproximadamente 2% da população existente. O milhão de judeus que
procurou refúgio na América constituía aproximadamente 2% da população
existente.
6. Martin Gilbert, The routledge atlas of the arab-israeli conflict, 7. ed.
(Londres: Routledge Taylor Francis Group, 2002), p. 1.
7. Clayton Miles Lehmann, "Palestine",
http://www.usd.edu/erp/Palestine/history/htm.
8. Yitzchak Ben-Zvi, The exiledand redeemed (Philadelphia: Jewish
Publication Society, 1961), pp. 44-45.
9. Sheikh Abd Allah Al Meshad, "Jews' Attitudes touward Islam and
Muslims in the first islamic ERE", citado em D. F. Green, ed., Arab
theologians on jews and Israel (Genebra: Editions de I'Avenir, 1976).
10. Palestine Royal Commission Report (Peel Report) (Londres: His
Majesty's Stationary Office, 1937). pp. 1 1-12.
11. James Finn para Earl of Clarendon, 1° de janeiro de 1858.
12. James Finn para o Viscount Palmerston, 7 de novembro de 1851.
13. Jacob de Haas, History of Palestine (Nova York: Macmillan, 1934), p.
393.
14. Wm. T. Young ao Coronel Patrick Campbell, 25 de maio de 1839.
15. Wm. T. Young ao Visconde Palmerston, 25 de maio de 1839.
16. Wm. T. Young ao Visconde Canning, 13 de janeiro de 1842.
 
 
Os judeus europeus deslocaram os
palestinos
A ACUSAÇÃO
Os judeus europeus que chegaram à Palestina deslocaram os palestinos que
estavam vivendo lá há séculos.
OS ACUSADORES
"Os judeus roubaram a nossa terra. Que mais podemos fazer, apenas ir
embora?" (Mohammad Abu Laila, professor de religião comparativa na
Universidade AI-Azhar, no Cairo, no contexto da defesa de homens-bomba
como "mártires.")1
"Os judeus odeiam os árabes. Eles odeiam os palestinos porque os judeus
roubaram a terra dos árabes e a Palestina. Um ladrão odeia o dono do
direito." (“O presidente do Iraque afirma que o bombardeio de TelAviv 'foi
fantástico'; o Gabinete endossa a suspensão da exportação de petróleo",
publicado em 4 de junho de 2001.)
"Os sionistas...conceberam seu plano para um estado colonizador na
Palestina na medida em que executavam esse plano sustentado pelas forças
imperialistas - com guerras, massacres e limpeza étnica - e, mais tarde, na
medida em que persistiram nos seus planos de privar os palestinos dos
últimos fragmentos dos seus direitos e herança cujas raízes cananéias eram
mais antigas do que Isaías, Ezequiel, Davi e Moisés." (M. Shahid Alam)2
"Agora, nesse sentido, quero dizer que os palestinos são o povo nativo da
Palestina, São os descendentes das tribos semitas que chegaram ao território
palestino e o habitaram há milhares e milhares de anos, certamente bem
antes de Abraão ter posto o pé em território palestino. [...] E digo que nós,
palestinos, somos os descendentes e o povo nativo da Palestina, [...] Agora
admitimos que os judeus, os israelenses, têm relações históricas com a
Palestina, apesar de essas relações não serem tão antigas e não tão
fundamentais como as nossas, sendo nós o povo nativo" (Haider Abdel
Shafi, então líder da delegação palestina à conferência de paz, atualmente
ativista independente)3
"Assim, existem dois grupos nacionais que reclamam autodeterminação
nacional. Um grupo é a população nativa, ou o que dela sobrou - boa parte
foi expulsa ou fugiu. O outro grupo são os colonizadores judeus que vieram
da Europa, mais tarde de outras partes do Oriente Médio e de alguns outros
lugares. Assim, há dois grupos, a população nativa e os imigrantes e seus
descendentes." (Noam Chomsky)4
A REALIDADE
A Palestina para a qual os judeus europeus da primeira Aliyah emigraram
era bem pouco povoada, e a terra para a qual os judeus mudaram foi, de
fato, comprada principalmente de proprietários ausentes e de especuladores
imobiliários.
Além de a Palestina ser um lugar apropriado para refugiados judeus devido
à próxima conexão com sua história e ideologia, também era vista como
adequada pela demografia da terra para a qual estavam se mudando ou, nas
suas palavras, retornando.
Mark Twain, que visitou a Palestina em 1867, fez a seguinte descrição:
Não há mais cenas agitadas... no vale de [de Jezrael]. Não há sequer uma
aldeia solitária ao longo de sua extensão - nem em trinta milhas em
qualquer direção. Há dois ou três pequenos aglomerados de tendas de
beduínos, mas nenhuma habitação permanente. Pode-se cavalgar dez
milhas por aqui sem ver dez seres humanos... Vir à Galiléia por isso... esses
desertos despovoados, esses montes enferrujados de aridez, que nunca,
nunca, nunca sacodem o brilho de seus contornos ásperos e esmaecem e
desmaiam numa perspectiva vaga; aquela melancólica ruína de
Cafarnaum: esta aldeia insípida de Tiberíades, dormitando sob as suas seis
palmeiras fúnebres... Alcançamos Tabor em segurança... Jamais vimos um
ser humano no caminho todo.
Nazaré está abandonada... Jericó, a amaldiçoada, está se desfazendo em
ruínas, exatamente como o milagre de Josué a deixou há mais de três mil
anos; Belém e Betânia, na sua pobreza e humilhação, nada têm para nos
lembrar de que uma vez tiveram a honra da presença do Salvador, o lugar
abençoado onde os pastores cuidavam de seus rebanhos durante a noite e
onde os anjos cantavam "paz na terra entre os homens de boa vontade",
estão sem qualquer presença humana...
Betsaida e Corazin desapareceram da face da terra e os "lugares desertos"
ao seu redor, onde milhares de homens ouviram uma vez a voz do Salvador
e comeram o pão milagroso, dormem no silêncio de uma solidão habitada
apenas por aves de rapina e raposas esquivas.5
Outros viajantes registraram relatos semelhantes da Palestina antes da
chegada dos judeus da primeira Aliyah, que começaram um processo de
revitalização da terra e aumento da sua população pela criação de empregos
e de uma infra-estrutura.
A PROVA
Existiram duas mitologias que competiram entre si na Palestina por volta de
1880. A mitologia judaica extremista, há muito abandonada, dizia que a
Palestina era uma "terra sem gente para uma gente sem terra". (Esta frase
foi na verdade criada pelo lorde britânico Shaftesbury nas suas memórias de
1884.) A mitologia palestina extremista, que se tem consolidado ao longo
do tempo, é que em l880 havia um povo palestino; alguns se dizem mesmo
uma nação palestina que foi deslocada pela invasão sionista.
A verdade, como sempre, está em algum lugar no meio. A Palestina
certamente não era uma terra sem gente. É impossível reconstruir a
demografia da área com algum grau de precisão, uma vez que dados dos
censos para esse período não são confiáveis e a maioria das tentativas de
reconstrução - tanto por fontes palestinas como israelenses - parece ter um
cunho político. Mas estimativas pouco precisas são possíveis. A população
inteira da Palestina (definida, para este fim, como o atual Israel, a margem
ocidental e a faixa de Gaza) devia ser de cerca de meio milhão na época da
primeira Aliyah no começo da década de 1880. Essa mesma região
atualmente tem uma população de mais de 10 milhões e é capaz de manter
uma população bem maior. A região que então foi dividida num Estado
judeu pela ONU, em 1947, tinha apenas uma fração desse número, com
estimativas variando entre 100 mil e 150 mil. Como entidade geográfica, a
Palestina tinha fronteiras incertas e em constante mudança. Não era uma
entidade política em qualquer sentido significativo. Sob o regime otomano,
que prevaleceu entre 1516 e 1918, a Palestina estava dividida em várias
partes territoriais denominadas de samjaks. Esses samjaks faziam parte de
unidades administrativas chamadas de vilayets. A maior parte da Palestina
pertencia ao vilayet da Síria e era governada de Damasco por um paxá,
explicando, assim, por que geralmente se fazia referencia à Palestina como
Síria meridional. Depois de uma ocupação de dez anos pelo Egito nos anos
de 1830, a Palestina foi dividida no vilayet de Beirute, que cobria o Líbano
e a parte norte da Palestina (até onde hoje se situa Tel Aviv), e o samjak
independente de Jerusalém, que cobria aproximadamente de Jafa até
Jerusalém e ao sul até Gaza e Beersheva. Assim, não está claro o que
significaria dizer que os palestinos eram o povo que originalmente habitava
a "nação" da Palestina.
Além disso, proprietários ausentes detinham boa parte da terra que acabou
sendo dividida em Israel. De acordo com registros de compras de terra,
muitos viviam em Beirute ou Damasco e alguns eram coletores de impostos
e mercadores vivendo em outros lugares. Esses proprietários eram
especuladores imobiliários de países estrangeiros que não tinham vínculo
com a terra e que, frequentemente, exploravam os trabalhadores locais ou
felás. Como refugiados em outros países, os refugiados judeus na Palestina
compraram terras, boa parte das quais não aráveis. Os propagandistas
palestinos exageraram muito quanto ao número de famílias árabes
realmente deslocadas pelas compras judaicas de terras. Benny Morris é um
historiador israelense cujos escritos tem sido criticados por alguns por sua
"unilateralidade... contra Israel"6 e ele é frequentemente citado por Noam
Chomsky. Edward Said c outros críticos de Israel, bem como entre os
"novos historiadores" que não apresentam a "linha sionista". Said
caracterizou Morris e outros "historiadores revisionistas" como tendo "um
desejo genuíno de entender o passado"; e o que dizem a esse respeito é
"sem desejo de mentir ou esconder o passado" - alto elogio de alguém tão
asperamente crítico do sionismo. Morris tem sido elogiado pelo New York
Times Book Review por ter escrito "o relato mais sofisticado e matizado do
conflito sionista-arabe".7 Ele resume os registros históricos como segue:
"Os historiadores concluíram que apenas 'alguns milhares de famílias'
foram deslocados em seguida às vendas de terra aos judeus entre a década
de 1880 e o finai da década de 1930".8 Isso é uma fração do número de
pessoas deslocadas pela construção egípcia do dique de Asuan, do
deslocamento iraquiano dos árabes do pântano e outros movimentos
forçados por governos ou companheiros árabes.
Mesmo anos mais tarde, quando as compras de terraspor judeus estavam
aumentando, enricou-se que "a quantidade de terra árabe oferecida para a
venda excedia muito a capacidade judaica de comprar".9 Uma análise
profissional das compras de terras entre 1880 e 1948 definiu que três
quartos dos lotes comprados por judeus eram de megaproprietários e não
dos que trabalhavam o solo.10 Mesmo uma escritora tão pró-palestinos
como a professora Rachel Khalidi reconhece que houve consideráveis
vendas de terra pelos "proprietários ausentes (tanto palestinos como não-
palestinos)".11 David Ben-Gurion, antigo primeiro-ministro, instruiu os
refugiados judeus a nunca comprar terras pertencentes aos "felás locais ou
cultivadas por eles".12 Desafio qualquer um, levantando a questão contra
Israel, a apresentar qualquer dado objetivo - desde relatórios dos censos,
registros de vendas de terras ou relatórios demográficos - que contradiga
essa realidade histórica. Ninguém conseguirá fazê-lo. Mesmo assim, a falsa
reivindicação de que judeus roubaram a terra de felás árabes locais continua
a ser feita. Uma reivindicação relacionada, e igualmente falsa, é que os
poucos felás que foram deslocados eram todos árabes da localidade que
tinham vivido e trabalhado a terra "ininterruptamente por 1.300 anos"13 -
que eles eram os descendentes de árabes nativos "cujas raízes cananéias
eram mais antigas do que de Isaías, Ezequiel, Davi e Moisés".14
Ha considerável controvérsia sobre a etnicidade do povo que trabalhava a
terra que acabou se tornando Israel. Muitos gregos que fugiram do domínio
muçulmano na sua pátria haviam mudado para a Palestina. Em meados do
século XVIII o porto bíblico de Jafa, de onde Jonas iniciou a sua profética
viagem, tinha se tornado uma cidade povoada por turcos, árabes, gregos,
armênios e outros. Um historiador cristão relatou que várias aldeias ao
longo da Palestina "são povoadas totalmente por colonizadores de outras
partes do Império Turco no século XIX. Há aldeias de bósnios, drusos,
circassianos (da região do Cáucaso) e egípcios"15 A edição de 1911 da
Encydopaedia Britannica descreveu a população da Palestina como
compreendendo grupos "étnicos" muito diferentes, "falando não menos do
que 50 línguas". Portanto, era desencorajador "escrever concisamente"
sobre a "etnografia da Palestina", especialmente após o influxo de
população do Egito "que ainda persiste nas aldeias". Além de árabes e
judeus, os outros grupos étnicos na Palestina em fins do século XIX e no
começo do século XX incluíam curdos, templários alemães, persas,
sudaneses, argelinos, samaritanos, tártaros, geórgios e muitas pessoas de
etnias mistas. Como um erudito, escrevendo em 1984, resumiu a situação:
"Os poucos árabes que viviam na Palestina há cem anos, quando começou a
colonização judaica, eram um pequeno grupo remanescente de uma
população volátil, que havia estado num fluxo constante, como resultado de
intermináveis conflitos entre tribos e déspotas locais. A malária e outras
doenças haviam imposto um pesado tributo aos habitantes".16
Antes da chegada dos judeus europeus no começo da década de 1880, o
número de árabes, especialmente na parte da Palestina que deveria dar
origem ao Estado judeu, era pequeno e até decrescia. Um comunicado de
1857 do cônsul britânico em Jerusalém informava que "o país está num
considerável vácuo sem habitantes e, portanto, a sua maior necessidade é
um corpo populacional".17 Nota-se também que, apesar dos árabes terem a
tendência de partir e não voltar, a população judaica era mais estável:
'Temos judeus que viajaram para os Estados Unidos e para a Austrália" e
"em vez de ficarem lá, voltam para cá".18 Quatro anos mais tarde foi
relatado que "a perda de população está avançando mesmo agora”19 E,
quatro anos depois disso, percebeu-se que em certas partes do país "a terra
está deixando de ser cultivada e vilarejos inteiros estão rapidamente
desaparecendo... e a população fixa sendo extirpada".20
Outros historiadores, demógrafos e viajantes descreveram a população
árabe como “decrescente",21 e o país como "pouco povoado”22
"desocupado",23 "desabitado"24 e "agora quase abandonado". A planície
de Sharon, que os judeus da primeira Aliyah posteriormente cultivaram, era
descrita pelo reverendo Samuel Manning, em 1874, como "uma terra sem
habitantes"' que "poderia suportar uma imensa população".25
Além disso, as condições de vida local antes da chegada dos refugiados
europeus era pouco invejável. Apenas uma pequena proporção da
população sabia ler ou escrever.26 Os cuidados com a saúde eram
abomináveis,27 a mortalidade infantil alta, a expectativa de vida curta e a
água escassa.28 Tudo isso iria melhorar de forma considerável depois da
chegada dos judeus europeus.
Não surpreendentemente, a pequena e decrescente população árabe-
muçulmana da área também era transitória e migratória, em contraste com a
população judaica, menor, porém mais estável. O mito de uma população
palestino-árabe-muçulmana estável e estabelecida, que havia vivido nas
pequenas cidades e trabalhado a terra durante séculos, apenas para ser
usurpada pelos invasores sionistas, é simplesmente inconsistente com os
dados demográficos colhidos e registrados não pelos judeus ou sionistas,
mas pelas próprias autoridades locais. J. L. Burkhardt relatou que já na
segunda década do século XIX "poucos indivíduos... morrem na mesma
aldeia em que nasceram. Famílias estão continuamente mudando de um
lugar para outro... em alguns anos... mudam para algum outro lugar, do qual
ouviram falar que seus irmãos são mais bem tratados".29
Em meados da década de 1890 - apenas uma dezena de anos depois do
início da primeira Aliyah - os judeus estavam se tornando uma parte
importante da mescla étnica e religiosa da Palestina, especialmente na área
mais tarde destinada pela ONU a um Estado judeu em 1947. Na época da
divisão havia uma clara maioria judaica nessa área30 ( 538 mil judeus e 397
mil árabes). De acordo com alguns relatórios discutidos - nos quais não me
baseio para o meu argumento -, já nos meados da década de l890 haveria
uma pluralidade de judeus em partes da Palestina que se tornaram o centro
da área judaica sob a divisão da ONU.31 Sem qualquer dúvida, já havia
uma significativa presença nessa área antes do início do século XX.
Alguns muçulmanos - os números não são seguros - haviam sido atraídos às
novas áreas de colonização judaica pelos empregos que se tornaram
disponíveis pela imigração judaica e pelo cultivo da terra. Um estudo da
colonização judaica em Rishon L'Tzion, primeiramente estabelecida em
1882, mostrou que as 40 famílias judaicas que lá se mudaram atraíram
"mais de 400 famílias árabes", muitas das quais eram beduínas e egípcias.
Essas famílias mudaram para áreas em torno da colônia judaica e formaram
um novo vilarejo árabe no lugar "de uma ruína abandonada".32 O relatório
observou um modelo similar com relação a outras colônias e vilarejos.
Apesar de ser impossível reconstruir com algum grau de confiança o
número preciso de árabes-muçulmanos-palestinos que viviam por gerações
na região que acabou se tornando a área judaica após a divisão, o número é
muito inferior ao proclamado pelos polemistas palestinos. De acordo com
um historiador, "no mínimo 25% dos [muçulmanos que viviam na Palestina
toda em 1882] eram recém-chegados ou descendentes daqueles que
chegaram após [a conquista egípcia de 1831]".33 Além do influxo egípcio
havia uma considerável imigração de turcos, gregos e argelinos. Além
disso, muitos dos muçulmanos palestinos que foram atraídos à Palestina
ocidental entre 1882 e 1893 vieram da Palestina oriental (as margens oeste e
leste do Jordão). Juntando esses dados, chegamos à inevitável conclusão de
que o número de palestinos com profundas raízes nas áreas de colonização
judaica - apesar da impossibilidade de sua avaliação precisa - constitui uma
pequena fração do mais de um milhão de árabes palestinos que agora vivem
em Israel.
O número de muçulmanos que viviam nas áreas judaicas cresceu de forma
dramática depois de as colonizações judaicas florescerem, não só porquemuitos árabes eram atraídos para as áreas recém-colonizadas e para a terra
recém-cultivada, mas também porque a presença judaica melhorava os
cuidados com a saúde, diminuía a mortalidade infantil e aumentava a
expectativa de vida. Um oficial britânico relatou em 1937, que "o
crescimento no [número de felás árabes] devia- se principalmente aos
serviços de saúde, combatendo a malária, reduzindo a mortalidade infantil,
melhorando o abastecimento de água e o saneamento".34 Essas melhorias
começaram com hospitais modernos e sistemas de fornecimento de água e
saneamento introduzidos na Palestina pelos refugiados judeus da Europa.
Devido à ausência de um censo preciso ou de registros sobre terras,
ninguém jamais poderá reconstruir, com algum grau de segurança, a
demografia precisa da área que foi designada ao Estado judeu pela divisão
por parte da ONU, de 1947, na época em que os refugiados judeus da
Europa começaram a chegar lá. Mas vai além da disputa razoável - com
base em números de censos, relatórios autorizados, relatos de testemunhas
oculares e simples aritmética - que o mito do deslocamento de uma
população muçulmana grande, estável e estabelecida, que estava vivendo
naquela parte da Palestina havia séculos, pelos refugiados judeus da Europa
é demonstravelmente falso. Mesmo muitos intelectuais árabes reconhecem
a natureza mítica dessa reivindicação. Como o líder palestino Musa Alami
disse em 1948, "o povo tem muita necessidade de um mito para preencher a
sua consciência e imaginação".35 O rei Abdullah, da Jordânia, também
reconheceu que a história do deslocamento de palestinos era uma ficção, ao
reconhecer que "os árabes são tão pródigos na venda de suas terras como
são pródigos... ao chorar [por causa disso]”.36
NOTAS
Kenneth R. Timmerman, "Top egyptian cleric justifies terrorism", Insighton
the News, 26 de novembro de 2002.
1. "A colonizing project built on lies", Counter Punch
(www.counterpunch.org). 18 de abril de 2002.
2. Discurso de almoço no Center for Policy Analysis on Palestine, State
Department briefing, Federal News Service, 17 de janeiro de 1992.
3. Entrevista com David Barsamian da Radio Alternative, "Israel, the
Holocaust, and anti-semites", 24 de outubro de 1986, em Noam Chomsky,
Chronicles of dissent (Monroe, Me.: Common Courage Press, 1992).
4. Mark Twain, The innocents abroad (Nova York: Oxford University
Press, 1996), pp. 349, 366, 441 e 442.
5. Efraim Karsh, Fabricating Israeli History; the "New Historians"
(Londres: Frank Cass, 1997), pp 4-6.
6. Ethan Bronner, Book Review, The New York Times, 14 de novembro
de 1999. Desde que Arafat abandonou as ofertas de paz de Barak e Clinton
em Camp David e Taba em 2000-2001, Morris tem escrito de maneira mais
crítica a respeito dos palestinos, apesar de ainda criticar muitas políticas
israelenses, bem como ações e decisões. V. Benny Morris, "The rejection",
New Republic, 21-28 de abril de 2003.
7. Morris, p. 123.
8. Citado em Morris, p. 111.
9. Abraham Granott, The land system in Palestine: history and structure
(Londres: Eyrev & Spottiswoode, 1952), p. 278.
10. Edward Said e Christopher Hitchens, eds., Blaming the victims
(Londres: Verso, 2001).
11. Shabtai Teveth, David Ben Gurion and the Palestinian Arabs (Nova
York: Oxford University Press, 1985), p. 32.
12. Jamal Husseini, 9 de fevereiro de 1939, citado em Arieh Avneri, The
claim of Dispossession (New Brunswick: Transaction Books, 1984), p. 11.
13. M. Shahid Alam, “A colonizing built on lies”, Counterpunch,
www.counterpunch.org., 18 de abril de 2002.
14. James Parkes, Whose land? A history of the peoples of Palestine
(Nova York: Taplinger,1971), p. 212.
15. Avneri, p. 11.
16. James Finn para Earl of Clarendon, 15 de setembro de 1857.
17. Ibid.
18. J. B. Forsyth, A few months on the East (Quebec: J. Lovell, 1861), p.
188.
19. H. B. Tristram, The Land of Israel: A Journal of travels in Palestine
(Londres: Society for Promoting Christian Knowledge, 1865), p.
490.Samuel Bartlett, From Egypt to Palestine (Nova York: Harper. 1879),
p- 409, Citado em Fred Gottheil, "The population of Palestine, Circa 1875",
Middle Eastern Studies, vol. 15, n° 3, outubro de 1979.
20. Edward Wilson. In Scripture lands (Nova York: C, Scribner's, 1890), p.
316. Citado em
Gottuheil.
21. W. Allen, The Deadsea: A new route to India (Londres: 1855), p. 113.
Citado em Gottheil.
22. William Thonsom, The land and the book (Nova York: Harper Bros.,
1871), p, 466. Citado em Gottheil.
23. Reverend Samuel Manning, Those holy fields (Londres: The Religious
Tract Society, I874), pp. l4-17.
24. Roderic H. Davison, Reform in the Ottoman Empire (Princeton
University Press, 1963), p. 69, citando um escritor muçulmano, em 1868.
25. Morris, p. 6.
26. Ibid.
27. John Lewis Burkhardt, Travels in Syria and the Holy Land (Nova
York: AMS Press, 1983), p. 299.
28. V. capítulo 9.
29. A pesquisa do geógrafo francês Vital Cuinet serviu de base para esta
conclusão. V. Joan Peters, From time immemorial (Chicago: JKAP
Publications, 1984). As conclusões e dados de Peters foram questionados.
V. Said e Hitchens, p. 33. Não me baseio neles de forma alguma neste livro.
30. A. Dmyanow, Ketavim LetoldotHibbatZyyon Ve-YishshuvErez
Yisra'el (Escritos sobre a História de Hibbat Ziyyon e a colonização da terra
de Israel) (Odessa, Tel Aviv, 1919, 1925, 1932), vol. 3, pp. 66-67.
31. Ernst Frankenstein, Justice for my people (Londres: Nicholson &
Watson, 1943), p. 127.
32. Report by His Britannic Majesty's Government to the Council of the
League of Nations on the Administration of Palestine and Trans-Jordan for
the year 1937, Colonial n° 146, pp. 223-224.
33. Citado em Peters, p. 11.
34. Rei Abdullah da Jordânia, My memoirs completed, Harold W.
Glidden, trad. (Londres: Longman, 1978), pp. 88-89.
O movimento sionista foi uma
trama para colonizar toda a
Palestina
A ACUSAÇÃO
Mesmo se a primeira Aliyah puder ser caracterizada como uma imigração
de refugiados que apenas estavam procurando um lar na Palestina, a
segunda Aliyah foi o início de uma trama sionista imperialista para
colonizar a Palestina toda.
OS ACUSADORES
"A minha premissa é que Israel se desenvolveu como organização social a
partir da tese sionista de que a colonização da Palestina deveria ser feita
para e por judeus e pela retirada dos palestinos; que na sua ideia consciente
e declarada sobre a Palestina o sionismo primeiro tentou minimizar, depois
eliminar e, mais tarde, tendo tudo falhado, subjugar os nativos como
garantia de que Israel não se tornasse simplesmente o Estado de seus
cidadãos (naturalmente incluindo os árabes), mas o Estado de todo povo
judeu, com uma espécie de soberania sobre terra e povos que não possuíam
ou possuem um outro Estado." (Edward Said)1
"[Os 60 mil judeus que viviam na Palestina no fim da segunda Aliyah] eram
em sua maioria anti-sionistas e seus descendentes ainda concordam [com
este ponto de vista" (Noam Chomsky).]2
A REALIDADE
A segunda Aliyah, apesar de fortemente inspirada pela ideologia sionista,
também foi uma imigração ocasionada pela perseguição e contemplava
cooperação com muçulmanos da localidade para criar melhores condições
de vida para todos os residentes da Palestina.
A PROVA
A segunda Aliyah (1904-1914) foi mais uma imigração de refugiados
procurando asilo em decorrência de perseguições. O historiador Benny
Morris escreve: "Os pogroms [russos] de 1903-1906 foram um
desencadeador importante da segunda Aliyah". Essas ondas de violência de
inspiração governamental eram ainda "piores do que aquelas da década de
1880".4 O primeiro pogrom do século XX, na Páscoa de 1903, em
Kishinev, resultou no assassinato de 49 judeus, em ferimentos de centenas
de pessoas e na destruição de 1.500 casas, lojas e instituições de judeus.
Centenas de pogroms se seguiram em toda a colônia do Pale, matando e
ferindo milhares de homens, mulheres e crianças judeus, que não podiam
defender-se sem estimular ainda mais revide. A única opção era tornarem-
se refugiados. Centenas de milhares emigraram para a Américado Norte e
Europa ocidental. Dezenas de milhares procuraram refúgio na Palestina.
Muitos eram sionistas ardentes, seguindo o sonho de Herzl de uma pátria
judaica. Outros eram simplesmente refugiados, dispostos a suportar as
agruras de uma terra que esperavam transformar num paraíso socialista.
A segunda Aliyah, à semelhança da onda de refugiados que foi para a
América do Norte no mesmo período, incluiu muitas pessoas das classes
trabalhadoras que formaram sindicatos e partidos de trabalhadores. Também
estabeleceram uma imprensa hebraica e uma organização de autodefesa
para proteger os judeus da violência árabe que havia vitimado os refugiados
anteriores.
Em 1905, o escritor árabe Najib Azouri publicou uma arenga antijudaica
que repercutiu pela Palestina toda. Advertia sobre uma conspiração secreta
judaica de estabelecer um Estado sionista “desde o Monte Herman ao
deserto árabe e o Canal de Suez".5 O jovem David Ben-Gurion ficou
preocupado com "os seguidores de Azouri" que estavam “plantando
sementes de ódio aos judeus em todos os níveis da sociedade árabe".6
Muitos, mas, não todos os refugiados judeus, procuraram estabelecer boas
relações com seus vizinhos árabes. Uma das principais publicações de um
sionista que vivia em Israel foi um pequeno livro escrito por Yitzhak
Epstein intitulado A questão escondida [The hidden question], que
propunha dar acesso a árabes da localidade a hospitais, escolas e bibliotecas
judaicas.7 Outros estimulavam os refugiados judeus a aprender árabe e a
abster-se de comprar quaisquer terras que incluíssem vilarejos árabes ou
lugares santos.8 Mas os conflitos persistiam à medida que o número de
refugiados aumentava. Em 1913, uma personalidade da liderança árabe
publicou um poema com os seguintes versos:
Judeus, filhos do ouro tilintantes, com sua falsidade:
Não seremos enganados para negociar em nosso país!
... Os judeus, o mais fraco de todos os povos e o menos importante deles,
Estão regateando conosco e disputando a nossa terra;
Como podemos continuar sem ação?
Apesar dessas provocações e da contínua violência de inspiração religiosa
contra os judeus refugiados, os esforços continuaram no sentido de alcançar
alguma reaproximação. No começo de 1914 o líder sionista Nachum
Sokolov deu uma entrevista a um jornal do Cairo conclamando os árabes a
ver os refugiados judeus como irmãos semitas "voltando ao lar", que
poderiam ajudá-los a prosperar juntos. Diálogos árabe-judaicos foram
planejados para o verão de 1914, mas o início da Primeira Guerra Mundial,
que teria enormes consequências para judeus e árabes da Palestina, deixou
em suspendo tais esforços de cooperação. 
NOTAS
1. The Question of Palestine (Nova York: Vintage Books, 1992 ed.), p.
84.
2. Palestra, Universidade de Harvard, 25 de novembro de 2002
(videotape).
3. Morris, p. 25,
4. Ibid.
5 Ibid., p. 57.
6. Ibid.
7. Ibid.
8. Ibid., pp. 57-59.
 
A Declaração Balfour foi uma lei
internacional obrigatória?
A ACUSAÇÃO
A Declaração Balfour, que promulgava o estabelecimento de "um lar
judaico na Palestina" não tem efeito legal, uma vez que expressava
meramente a opinião do governo inglês.
OS ACUSADORES
"A Declaração Balfour foi feita: a) por uma potência europeia, b) a respeito
de um território não-europeu, c) em flagrante desconsideração tanto da
presença como dos anseios da maioria nativa residente naquele território e
d) configurou-se como uma promessa sobre esse mesmo território a um
outro grupo estrangeiro, de modo que esse grupo estrangeiro pudesse
literalmente fazer desse território um lar nacional para o povo judaico... as
afirmações de Balfour na declaração admitem o direito mais alto de uma
potência colonial de dispor de um território como lhe convém." (Edward
Saidn)1
"Em 1917, a Declaração Balfour prometeu um lar nacional ao povo judeu.
Sob a lei internacional a declaração era nula e vã uma vez que a Palestina
não pertencia à Grã- Bretanha - de acordo com o pacto da Liga das Nações
ela pertencia à Turquia." (Faisal Bodi, jornalista inglês.)2
A REALIDADE
Um lar judeu de facto já existia em partes da Palestina, e seu
reconhecimento pela Declaração Balfour tornou-se um assunto de lei
internacional obrigatória quando a Liga das Nações fez dela parte do seu
mandato.
A PROVA
No começo da Primeira Guerra Mundial o número de judeus que viviam na
região da Palestina, que se tornaria Israel, oscilava entre 80 mil e 90 mil.
Mesmo antes da Declaração Balfour, de 1917, havia um lar nacional judeu
de facto na Palestina, consistindo em várias dezenas de moshavim e
kibbutzim a oeste e noroeste da Palestina, e cidades judaicas como Tel Aviv,
Jerusalém e Safed. Os judeus refugiados na Palestina haviam estabelecido
essa pátria desde os seus fundamentos, sem a assistência de nenhuma
potência colonialista ou imperialista. Haviam confiado em seu próprio
trabalho duro na construção de uma infra- estrutura e no cultivo da terra que
haviam legalmente comprado.
A Primeira Guerra Mundial colocou os ingleses (entre outros) contra a
Alemanha e o Império Otomano (entre outros). Os Estados Unidos entraram
na guerra ao lado dos ingleses em 1917, e o presidente Woodrow Wilson
declarou que o princípio de autodeterminação deveria governar qualquer
reorganização de territórios, antes controlados pelo Império Otomano, após
a guerra. O apoio à autodeterminação judaica naquelas regiões da Palestina
em que os judeus eram a maioria era visto por muitos como parte da
autodeterminação de Wilson.3
Afinal, jamais havia existido um Estado palestino nessa área. Um lar
judaico não seria encravado num Estado palestino preexistente. Pelo
contrário, uma decisão teria de ser tomada sobre como alocar uma área de
45 mil milhas quadradas de terra que havia sido tomada do Império
Otomano e que era populada por árabes, judeus e outros. Havia quatro
alternativas básicas: (1) dar toda a terra, mesmo aquela na qual os judeus
eram a maioria, a algum novo Estado árabe; (2) dar toda a terra, mesmo a
parte na qual os árabes eram a maioria, aos judeus; (3) entregar toda a terra
à síria, para ser governada a partir de Damasco; ou (4) dividir a terra
justamente entre árabes e judeus de modo que cada um pudesse criar um lar
nacional com base na autodeterminação. A última dessas opções foi
selecionada e tomou-se a decisão de alocar uma porção da terra ao grupo
que lá vivia, trabalhava a terra e construiu a infra-estrutura. O que poderia
ser mais justo e mais apropriado ao espírito da autodeterminação?
Winston Churchil, "um eterno sionista", havia há tempo favorecido a
autodeterminação judaica na Palestina. Já em 1908 ele viu o
estabelecimento "de um Estado judeu forte" como "um passo importante em
direção a uma disposição harmonizadora entre seu povo".4 Quando a Grã-
Bretanha finalmente estava em posição de ajudar a tornar realidade tal
"disposição harmonizadora", Churchill foi até mais explícito:
É claramente correio que os judeus espalhados devam ter um centro
nacional, um lar nacional e devam ser reunidos, e onde senão na Palestina,
à qual estão íntima e profundamente ligados há mais de 3.000 anos?
Achamos que será bom para o mundo, bom para os judeus, bom para o
Império Britânico, mas também para os árabes que vivem na Palestina...
Eles compartilharão dos beneficies e progressos do sionismo.5
Portanto, não deveria ser surpreendente que uma vez que o governo
britânico havia planejado a vitória sobre o Império Otomano, ele
divulgasse, por meio de uma carta do ministro do Exterior, lorde Arthur
Balfour, que "o governo de Sua Majestade vê favoravelmente o
estabelecimento, na Palestina, de um lar nacional para o povo judeu".
Também anunciou que tal lar "não deveria prejudicar os direitos civis e
religiosos das comunidades não judaicas existentes na Palestina".6
Ironicamente, uma das principais objeções que muitos árabes faziam à
Declaração Balfour era que parecia considerar a Palestina como uma
entidade separada em vez de parte da Síria. Como o Relatório da Comissão
Peel observou mais tarde, "os árabes sempre consideraram a Palestinacomo
incluída na Síria". A última coisa que desejavam era uma Palestina separada
porque perceberam que a separação da Palestina significava uma Palestina
que, sob a Declaração Balfour, poderia incluir um pequeno lar para a sua
população essencialmente judaica.
O ministro do Exterior francês tinha divulgado uma afirmação similar à
Declaração Balfour vários meses antes, descrevendo "como ato de justiça e
de reparação" o "renascimento da nacionalidade judaica na terra da qual o
povo de Israel foi expulso há tantos séculos".7
O texto da Declaração Balfour havia sido submetido ao presidente Wilson e
previamente aprovado por ele. Os governos francês e italiano também a
aprovaram subsequentemente. Em 1919 o presidente Wilson afirmou:
"Estou persuadido de que as nações aliadas, com a total participação do
nosso governo e do nosso povo, concordam que na Palestina devem ser
fincados os alicerces de uma comunidade judaica".8 Em 1922 o Congresso
norte-americano aprovou uma resolução declarando que "um lar nacional
para o povo judeu" fosse estabelecido na Palestina. Winston Churchil
também confirmou que o governo britânico "contemplava o eventual
estabelecimento de um Estado judeu"9 e observou que a essência da
Declaração Balfour havia sido reafirmada em vários tratados multinacionais
consistentes, bem como no mandato da própria Liga das Nações e "não é
suscetível de mudança". Depois, tornou-se uma questão de lei internacional
obrigatória.
Churchill também reconheceu que um lar judeu na Palestina já existia na
base, sem qualquer ajuda dos britânicos:
Durante as duas ou três últimas gerações os judeus recriaram uma
comunidade na Palestina, agora com 80 mil pessoas, das quais
aproximadamente um quarto são fazendeiros ou trabalhadores da terra.
Essa comunidade tem seus próprios órgãos políticos: uma assembleia
eleita para a direção de seus problemas domésticos; conselhos eleitos nas
cidades; e uma organização para o controle de suas escolas. Tem seu
rabino-chefe, eleito, e um conselho Rabínico para a direção dos assuntos
religiosos. Seu comércio é feito em hebraico como língua vernácula e uma
editora hebraica atende às suas necessidades. Tem sua vida intelectual
característica e mostra uma considerável atividade econômica. Então, essa
comunidade, com sua população urbana e rural e suas organizações
políticas, religiosas e sociais, sua língua própria, seus próprios costumes,
sua vida própria, tem, de fato, características "nacionais". Quando se
pergunta o que significa o desenvolvimento de um Estado nacional judaico
na Palestina, pode-se responder que não é a imposição de uma
nacionalidade judaica sobre os habitantes da Palestina como um todo, mas
o adicional desenvolvimento da comunidade judaica existente, com a
assistência de judeus de outras partes do mundo, para que se torne o centro
pelo qual o povo judeu como um todo possa interessar-se e orgulhar-se, em
termos de religião e de raça. Mas, para que esta comunidade tenha a
melhor perspectiva de pleno desenvolvimento e forneça plena oportunidade
ao povo judeu de mostrar sua capacidade, é necessário saber que está na
Palestina de pleno direito e não por tolerância. Essa é a razão por que é
necessário que a existência de um lar nacional judaico na Palestina seja
garantida internacionalmente e que seja reconhecida formalmente para
repousar sobre a antiga ligação histórica.
Essa, pois, é a interpretação que o governo de Sua Majestade dá à
Declaração de 1917 e, assim entendida, o ministro de Estado é de opinião
que não contém ou implica algo que possa alarmar a população árabe da
Palestina ou desapontar os judeus.10
A legislação internacional reconheceu que a comunidade judaica estava "na
Palestina de direito" e que o esforço para "facilitar o estabelecimento do lar
nacional judaico [pelo aumento da imigração judaica] era uma obrigação
internacional sobre o mandatatário".11 As sementes políticas e legais
estavam assim semeadas para uma solução de dois (ou três) Estados para o
"problema palestino". Isso era um perfeito exemplo de autodeterminação
em ação.
Os judeus da Palestina certamente mereceram a Declaração Balfour pelo
seu suor e sangue. Secaram os pântanos de Hula, infestados de malária, e
plantaram pomares de laranjeiras em seu lugar, empregando milhares de
árabes e judeus. A Legião Judaica lutou ao lado do exército britânico para
derrotar o exército otomano e recebeu de braços abertos a tomada de
Jerusalém pelo general Edward Allenby. Em contrapartida, a maioria dos
árabes palestinos, bem como a maioria dos árabes em geral, lutou do lado
do perdedor Império Otomano. Como Lloyd George, o primeiro-ministro
britânico, observou: "A maioria das raças árabes lutou durante a guerra ao
lado dos opressores turcos... os árabes palestinos [em particular] lutaram
pelo domínio turco".12 Foram os palestinos que se colocaram ao lado do
colonialista e imperialista império turco contra aqueles que favoreciam a
autodeterminação. Apesar de terem escolhido o lado - o que fizeram
novamente na Segunda Guerra Mundial -, os árabes emergiram da derrota
turca com ganhos significativos. Acima de tudo conseguiram 80% da
Palestina, separados como um Estado exclusivamente árabe, sem permissão
para o estabelecimento de colônias judaicas. Essa grande parte da Palestina
oriental foi chamada de Transjordânia.
Assim, o primeiro Estado estabelecido na Palestina foi um emirado com
grande maioria palestina. Abdullah, o irmão do novo governante do vizinho
Iraque, seria o seu governador. Muitos judeus que viviam na região que se
transformou na Jordânia - alguns dos quais estavam lá havia gerações -
foram forçados a sair por causa de surtos esporádicos de violência e, por lei,
os poucos judeus remanescentes foram proibidos de viver na
Transjordânia.13 O recém-formado reino da Transjordânia consistia em um
vasto território com uma minúscula população total de 320 mil pessoas,
muitas das quais eram beduínos nômades.14 A população da Transjordânia
era muito menor do que a da Palestina, mas não havia permissão para
judeus morarem lá.
O restante um quinto da Palestina agora podia ser repartido ou dividido
entre seus residentes árabes e judeus. Pelo menos, essa era a teoria. Mas a
oposição árabe a qualquer lar judeu em qualquer parte da Palestina - a
qualquer autodeterminação judaica em áreas nas quais judeus eram uma
maioria, associada à autodeterminação árabe em áreas nas quais estes eram
maioria - tornou-se cada vez mais violenta depois da Primeira Guerra
Mundial e da Declaração Balfour. A última coisa que a maioria dos líderes
árabes desejava era uma mútua autodeterminação. Estavam satisfeitos com
a decisão imperialista de criar um emirado hashimita na Transjordânia, e
teriam estado igualmente satisfeitos com uma decisão imperialista de
entregar toda a Palestina ao governo de um paxá sírio distante - qualquer
coisa para impedir a criação de um lar judaico, mesmo numa pequena
porção do que havia sobrado da Palestina!
A oposição não era só contra um lar judaico. Cada vez mais, os líderes
árabes começaram a exigir a eliminação de uma presença judaica na
Palestina. O objetivo era tornar a Palestina tão livre de judeus como havia
se tornado a Transjordânia. Como Aref Pasha Dajana, um notável de
Jerusalém, colocou de forma clara, "é impossível para nós chegarmos a um
entendimento com [os judeus] ou mesmo viver com eles... Em todos os
países onde estão atualmente, não são desejados... porque sempre tiram o
sangue de todos. Se a Liga das Nações não ouvir o apelo dos árabes, este
país vai tornar-se um rio de sangue".15 A sua predição tornou-se realidade à
medida que os árabes recorreram cada vez mais ao derramamento de
sangue.
Alguns líderes árabes moderados reconheceram os benefícios da
autodeterminação judaica na Palestina. O emir Faiçal, filho de Hussein,
autoridade suprema de Meca, que representou o reino árabe de Hedfjaz,
assinou um acordo em 1919 com Chaim Weizmann, que representava a
organização sionista. Esse acordo previa a tomada de todas as medidas
necessárias para "encorajare estimular a imigração de judeus para a
Palestina em grande escala [para alcançar] uma colonização mais densa e
cultura intensiva da terra" desde que "o lavrador árabe e fazendeiros
arrendatários tenham seus direitos protegidos e tenham assistência para o
seu desenvolvimento econômico".16 Numa carta consecutiva ao professor
Felix Frankfurter, Faiçal fez as seguintes declarações:
Achamos que árabes e judeus são primos na raça, tendo sofrido opressões
similares nas mãos de potências mais fortes do que eles, e, por uma feliz
coincidência, foram capazes e tomar o primeiro passo para, juntos,
atingirmos seus ideais nacionais...
Nós, árabes, especialmente os que receberam educação, vemos o
movimento sionista com a maior simpatia. A nossa delegação aqui em
Paris está totalmente ciente das propostas apresentadas ontem pela
Organização Sionista à Conferência de Paz e as vemos como moderadas e
corretas. Faremos o melhor possível, no que nos diz respeito, para que
tenham sucesso: desejaremos aos judeus calorosas boas-vindas... Estamos
trabalhando juntos para um Oriente Próximo reformado e revisto e os
nossos dois movimentos completam-se um ao outro. O movimento judeu é
nacional e não imperialista. O nosso movimento é nacional e não
imperialista e há lugar na Síria para ambos. Na verdade, penso que
nenhum pode ser um sucesso sem o outro.17
Infelizmente, essa visão de longo alcance foi bloqueada pela intolerância
virulenta e antijudaica do homem escolhido para tornar-se o líder da
comunidade muçulmana da Palestina.
NOTAS
1. The Question of Palestine (Nova York: Vintage Books, 1992 ed.), pp.
15-16.
2. "Why We're on the side of justice", Sunday Mail (Austrália), 7 de abril
de 2002.
3. Morris, p. 71.
4. Ibid., p. 72.
5. Ibid.
6. Ibid., p. 75.
7. Ibid., p. 74.
8. Peel Report, p. 24.
10. Ibid., p.33.
11. Ibid., p. 41.
12. Citado em Morris, p. 82.
13. Lei de Nacionalidade Jordaniana, Art. 3 (3) da Lei n° 6; e Official
Gazette, n° 1171, 16 de fevereiro de 1954.
14. Peel Report, p. 308.
15. Citado em Morris, p. 91.
16. Walter Laqueur e Barry Rubin, The Israel-Arab Reader, 6. ed. (Nova
York: Penguin, 2001), p. 19.
17. Ibid.
 
Os judeus estavam relutantes em
dividir a Palestina?
A ACUSAÇÃO
Enquanto os árabes estavam dispostos a dividir a Palestina com os judeus,
estes queriam o país todo para si.
OS ACUSADORES
"Desde o início do planejamento sionista sério para a Palestina... podemos
notar a crescente prevalência da idéia de que Israel seria construído sobre as
ruínas da Palestina árabe." (Edward Said)1
"[Um] território antes cheio de árabes emergiu de uma guerra a)
essencialmente esvaziado dos seus residentes originais e b) tornado
impossível para o retorno dos palestinos. Tanto os preparativos ideológicos
como organizacionais para o esforço sionista de conquistar a Palestina, bem
como a estratégia militar adotada, previam a posse do território e a sua
ocupação com novos habitantes." (Edward Said)2
A REALIDADE
O objetivo da liderança árabe não era apenas impedir o estabelecimento de
um Estado judeu em qualquer parte da Palestina, mas transferir os judeus da
Palestina para fora do seu lar histórico e de esvaziá-la inteiramente de
judeus. Líderes judeus, por outro lado, estavam dispostos a cumprir
dolorosos compromissos desde que pudessem ter um lar judaico naquelas
áreas da Palestina onde eram uma maioria.
A PROVA
Pouco tempo depois de a Declaração Balfour ter-se tornado uma lei
internacional obrigatória, vários pogroms organizados foram dirigidos
contra os refugiados judeus. Um educador árabe, cristão, descreveu o que
observou em Jerusalém ocidental e no bairro judeu da cidade velha, que
havia sido judeu por séculos:
[Um] motim irrompeu, as pessoas começaram a correr, e pedras foram
arremessadas contra os judeus. As lojas foram fechadas e ouviram-se
gritos... Eu vi um soldado sionista [isto é, judeu-britânico] coberto de pó e
de sangue. [...] Depois, eu vi um hebronita aproximar-se de um engraxate
judeu escondido atrás de um saco em um dos cantos [da cidade velha]
perto do portão de Jafa, tomar a sua caixa e espancá-lo [o engraxate] na
cabeça. Ele gritou e começou a correr, a cabeça sangrando, e o hebronita o
deixou e voltou ao fluxo do transito... O motim alcançou seu ponto
culminante. Todos gritavam: “A religião de Maomé nasceu com a
espada"... Imediatamente fui ao jardim municipal... a minha alma está
enojada e deprimida pela loucura da humanidade.3
Pouco tempo depois, mulheres judias foram violentadas e sinagogas
destruídas num pogrom organizado por um grupo nacionalista denominado
de Al-Nadi Al-Arabi.4 Um levantamento britânico concluiu: "Todas as
provas indicam que esses ataques foram covardes e traiçoeiros,
principalmente contra homens idosos, mulheres e crianças - frequentemente
pelas costas".5
Outros ataques contra refugiados judeus ocorreram em Jafa, onde treze
judeus foram assassinados. Alguns dias mais tarde, mais seis foram
assassinados numa plantação de laranjas. Pouco tempo depois, centenas de
árabes palestinos de Tulkarem atacaram um moshav judeu em Hadera.
Ataques contra civis indefesos por terroristas palestinos estavam se
tornando a norma.
Numa tentativa de controlar essa violência, os britânicos indicaram Haj
Anin al- Husseini, grão-mufti de Jerusalém, como líder espiritual político
dos muçulmanos na Palestina.6 A esperança era de que, pela centralização
do poder religioso e político em uma pessoa que os britânicos acreditavam
poder controlar, eles pudessem limitar os ímpetos da multidão. Mas
escolheram o homem errado. Husseini era um anti-semita virulento,7 cujo
ódio contra os judeus era ao mesmo tempo religioso e racial. Com o tempo
iria tornar-se um aliado próximo e conselheiro de Adolf Hitler e um
defensor ativo da "solução final" - o assassinato em massa do judaísmo na
Europa. Em 1940 ele pediu às potências do Eixo a solução do problema
judeu na Palestina de acordo com os "interesses raciais dos árabes e por
vias semelhantes às usadas para resolver a questão judaica na Alemanha".8
Ele insistiu com Hitler que estendesse a solução final aos refugiados judeus
que haviam alcançado a Palestina e aconselhou-o, em 1943 - quando o que
estava acontecendo nos campos de extermínio na Polônia era bem
conhecido -, a enviar os judeus para a "Polônia para assim proteger-se da
sua ameaça".9
O ódio racista de Husseini pelos judeus manifestou-se cedo na sua longa
carreira como grão-mufti. Ele instigou motins e pregou incitamentos
antijudaicos, "Itbah al-Yahud" (matem os judeus) era a mensagem, junto
com "Nashrab dam al-Yahud" (beberemos o sangue dos judeus). O
resultado foi um aumento da violência antijudaica. Apesar de ter havido
ataques antes, especialmente ao longo de 1920, agora esses ataques tinham
a benção formal do líder oficial dos muçulmanos palestinos.
O grão-mufti também apoiou a falta de disposição do seu povo em aceitar
um compromisso. Antes da sua ascendência à liderança dos muçulmanos
palestinos haviam existido rumores segundo os quais os árabes se
comprometeram com a divisão de autoridade sobre a terra e seu povo. Por
exemplo, um jornal árabe tinha escrito que as conhecidas "energias" e
"trabalhos" do povo judeu "iriam melhorar e desenvolver o país para
benefício dos seus habitantes árabes".10 Mesmo alguns críticos da
Declaração Balfour, como um grupo de cem dignitários árabes que haviam
feito uma petição à Grã-Bretanha em 1918, escreveram que "sempre
simpatizaram profundamente com os judeus perseguidos e suas dificuldades
em outros países", mas recusavam-se a ser governados por esses judeus,
sugerindo assim que alguma forma de mútua autodeterminação numa
Palestina equitativamente dividida poderia ser viável.11
Toda esta conversa terminaria logo com a indicação de Husseini como grão-
mufti. O que de outro modo poderia ter sido uma disputa política, sujeita a
uma solução política de compromisso, tornara-se uma proibição religiosa
absoluta que não podia fazer parte de qualquer compromisso: de acordo
com o grão-mufti de Jerusalém, se apenasuma polegada da Palestina fosse
controlada pelos judeus, isso representaria uma violação à lei islâmica, A
autodeterminação judaica em áreas com maioria judaica - cidades e
colônias judaicas e raízes históricas judaicas – era proibida pela lei
islâmica, de acordo com Husseini, e todo muçulmano deveria estar
preparado para travar uma guerra santa a fim de impedir que isso
acontecesse. Assim que a solução de dois (ou três) Estados baseada na
autodeterminação e na aceitação internacional dos princípios da Declaração
Balfour parecia ser promissora, ela foi descartada por Husseini. De acordo
com o grão-mufti a única solução era ou a expulsão violenta dos judeus ou
a permanência de um pequeno número de judeus numa terra muçulmana
como dimmi - não-cidadãos de segunda classe, sujeitos ao controle absoluto
dos muçulmanos.12 Ele deixou muito claro que, se os muçulmanos alguma
vez controlassem toda a Palestina, todos os judeus seriam expulsos.13
Havia, é claro, judeus que desejavam o controle da Palestina toda - ou, pelo
menos, dos 20% que sobraram depois de a Transjordânia ter sido criada
como um Estado árabe a partir do que era a Palestina original. Mas o
compromisso sempre foi tido como uma necessidade pragmática pela
maioria dos sionistas e sua liderança. A realidade de uma pátria judaica com
uma população judaica em sua maioria era muito mais importante do que o
tamanho dessa pátria. De fato, a autodeterminação era realista apenas
naquelas partes da Palestina que já eram judaicas em virtude da demografia
e da presença de instituições judaicas. Os refugiados judeus da Europa,
junto com os judeus sefardis e seus descendentes, estavam criando um lar
judaico apenas em algumas áreas da Palestina, tornando inevitável um
compromisso territorial e deixando espaço para um outro Estado palestino
na margem ocidental do Jordão.
No crescente confronto entre os judeus da Palestina, liderados pelo
pragmático socialista David Ben-Gurion, e os muçulmanos da Palestina,
liderados pelo intransigente inimigo dos judeus Haj Amin al-Husseini, não
se procurava determinar se os judeus ou os muçulmanos controlariam o que
havia sobrado da Palestina depois de a Transjordânia ter sido transformada
num emirado exclusivamente árabe. Pelo contrário, procurava-se
determinar - com uma visão realista - se o restante da Palestina deveria ser
dado exclusivamente aos muçulmanos da Palestina ou se deveria ser
justamente dividido entre os judeus e muçulmanos da Palestina, já que cada
um deles efetivamente controlava certas áreas. Apresentada de outro modo,
a questão era se o princípio de Wilson de autodeterminação permitiria a
cada grupo controlar seu próprio povo e seu próprio destino. Para essa
questão o grão-mufti tinha uma resposta simples não para os judeus; sim
para os muçulmanos.
A abordagem do grão-mufti em relação aos judeus da Palestina - destruí-los
pela força, atemorizá-los pela violência dirigida contra os seus civis mais
vulneráveis para que partissem, ou transferi-los por força de lei - culminou
no massacre de Hebron de 1929. Os judeus de Hebron não eram todos
sionistas nem refugiados europeus. Muitos eram sefardis religiosos, judeus
que viviam em Hebron por causa de seu significado bíblico como lugar de
nascimento do judaísmo e dos vários seminários judaicos e antigas
sinagogas que existiam naquela cidade santa.
O massacre de Hebron foi o ponto culminante de uma série de massacres de
inspiração religiosa, deliberadamente provocados pelo grão-mufti. Em
outubro de 1928, ele organizou uma série de provocações contra os judeus
que oravam no muro ocidental, o lugar mais sagrado do judaísmo por,
acredita-se, ser a única reminiscência do Segundo Templo. O mufti ordenou
nova construção "próxima e sobre o muro" com tijolos que muitas vezes
caíam sobre judeus rezando, a travessia de mulas "pelas suas áreas de
oração, frequentemente deixando excrementos", e o aumento do número
dos muezins (religiosos islâmicos encarregados de convocar o povo)
durante as orações judaicas.14 Os judeus protestaram e as tensões
permaneceram graves durante meses. Em agosto de 1929 folhetos
preparados pelo mufti mandaram os muçulmanos atacar os judeus. Um
desses folhetos dizia que os judeus haviam "violado a honra do Islã"15 e
"haviam violentado as mulheres e assassinado viúvas e bebês". Era um
libelo de sangue proclamando uma guerra santa contra os judeus. Uma
multidão bem organizada queimou livros de oração judaicos no muro
ocidental e destruiu notas de súplica deixadas nos vãos do muro. Isso foi
seguido por ataques aos judeus e o incêndio de suas lojas, com a
participação dos policiais árabes.
Em 23 de agosto, Hebron foi atacada. Estudantes de uma ieshivá
(estabelecimento de ensino superior hebraico), desarmados, foram
assassinados, lares judaicos foram atacados e seus ocupantes massacrados.
Sessenta judeus foram mortos e o restante foi expulso da cidade. As
sinagogas foram profanadas. Pela primeira vez, em séculos, Hebron ficou
sem judeus. A política do grão-mufti de limpeza étnica dos habitantes
judeus estava sendo implementada com vingança. O chefe de polícia
britânico de Hebron posteriormente deu o seguinte testemunho:
Ao ouvir os gritos num quarto, subi por uma espécie de passagem em um
túnel e vi um árabe cortando a cabeça de uma criança com uma espada.
Ele já a havia atingido e estava cortando novamente e, ao ver-me, tentou
atingir-me, mas errou: estava praticamente na boca do meu rifle. Eu o
atingi na virilha. Atrás dele estava uma mulher judia coberta de sangue
com um homem que reconheci como um policial [árabe] chamado Issa
Sheril, de Jafa... Estava de pé sobre a mulher com um punhal na mão. Ao
ver-me, fugiu para um quarto vizinho e tentou trancar-me - gritando em
árabe: "Senhor, eu sou um policial". Eu entrei no quarto e atirei nele.16
Os motins logo chegaram a Safed, onde 45 judeus foram assassinados e
outros seriamente feridos.17 Outros assassinatos aconteceram nas áreas
judaicas da Palestina. Antes de o derramamento de sangue orquestrado
terminar, 133 judeus haviam sido assassinados e 339 ficaram feridos.18
Os britânicos condenaram "as atrocidades cometidas por grupos de
malfeitores cruéis e sanguinários". Levantaram a voz contra "assassinatos
perpetrados contra indefesos membros da população judaica...
acompanhados, como em Hebron, por atos de indescritível selvageria".19
Atribuíram os assassinatos à "animosidade racial por parte dos árabes".20
Ao tentar defender-se da acusação de ter incitado os pogroms, o grão-mufti
culpou as vítimas. Citando os Protocolos dos sábios de Sião (uma notória
invenção czarista há muito usada pelos anti-semitas), Husseini afirmou que
foram os judeus que atacaram os muçulmanos.
Os britânicos sabiam que a violência premeditada era inspirada pelo mufti
para enviar uma mensagem clara de que se os britânicos não restringissem a
imigração haveria mais violência. Mas, em vez de responder à violência
muçulmana agindo contra seus perpetradores, os britânicos puniram as suas
vítimas dando ao mufti precisamente o que este procurava: uma redução da
imigração judaica e um pronunciamento pelo alto- comissário britânico de
que a Declaração Balfour era um erro colossal".21 Não seria a última vez
que os britânicos iriam recompensar a violência terrorista calculada,
dirigida contra civis judeus desarmados. De fato, era uma atitude que viria a
ser adotada com frequência: quase todas as vezes que a comunidade judaica
fazia algum progresso o mufti jogava a carta do terrorismo e assassinava
judeus inocentes. Isso iria persuadir os britânicos de que os árabes eram
"irracionais" e que suas reivindicações deveriam ser atendidas. (Como
veremos mais adiante, Yasser Arafat, um parente de Husseini, iria repetir
essa atitude com relação ao terrorismo e o mundo iria repetir a sua reação,
recompensando-o e, assim, fomentando-o). Esperava-se menos dos árabes
"irracionais" do que dos judeus "civilizados". (Esse tipo de racismo baseado
em um duplo padrão - racismo contra, mas em última análise favorável aos
árabes - tem recrudescidonos últimos tempos.)
O grão-mufti caracterizou o assassinato de mulheres, crianças e estudantes
judeus em Hebron como o começo de uma revolta que continuou pela
década de 1930 com recompensas ainda maiores por parte dos britânicos. A
restrição da imigração judaica para a Palestina não poderia ter vindo num
momento pior para os judeus, já que Adolf Hitler logo se tornaria o Führer
da Alemanha, com um programa de libertar a Europa dos judeus, seja pela
emigração, seja pelo genocídio.
NOTAS
1. The question of Palestine, pp. 12-13.
2. Ibid., p. 101.
3. Morris, p. 95.
4. Ibid., p. 96.
5. Citado em Morris, p. 96.
6. Morris, p. 100.
7. Eu uso anti-semitismo no seu significado original como ódio aos
judeus em particular, não semitas em geral.
8. Citado em Peters, p. 37.
9. Carta de Husseini ao ministro de Assuntos Exteriores da Hungria, 28
de junho de 1943.
10. Morris, p. 76.
11. Ibid., p. 76.
12. V. testemunho citado no Peel Report, p. 141.
13. Ibid.
14. Morris, p. 112.
15. Ibid., p. 113.
16. Ibid., p. 114.
17. Peel Report, p. 68.
18. Morris, p. 11. Como se para sugerir alguma equivalência moral,
Morris relata que 116 árabes foram mortos. Mas em sua maioria eram
perpetradores armados, mortos pela polícia, não civis inocentes
desarmados; v. Peel Report, p. 68.
19. Morris, citando Sir John Chancellor, p. 116.
20. Peel Report, p. 68.
21. Independentemente do que o alto comissário, que era um declarado
anti-sionista, possa ter pensado da Declaração Balfour, nessa época era lei
Internacional obrigatória, que não podia ser abolida unilateralmente pelos
britânicos, apesar de terem começado a fazê-lo.
Os judeus sempre rejeitaram a
solução de dois Estados?
A ACUSAÇÃO
Os judeus sempre rejeitaram a solução de dois Estados, ao passo que os
árabes a aceitaram.
OS ACUSADORES
“Acima de tudo, os palestinos não acreditavam, e estavam certos em não
acreditar, que Ben-Gurion e as outras lideranças sionistas estariam
satisfeitos ou manteriam compromisso. Em outras palavras, eles temiam,
que a 'aceitação' sionista do plano da ONU era falsa, que os líderes sionistas
eram inflexíveis no desejo de expandir um Estado judeu para incluir toda a
Palestina bíblica e que simplesmente usariam um compromisso de divisão
como base a partir da qual se expandiriam no futuro." (Jerome Slater,
pesquisador de ciência política em SUNY - Buffalo.)1
"Só precisamos lembrar o mundo real no qual a OLP tem solicitado
negociações e um acordo pacífico com Israel durante muitos anos, enquanto
os Estados Unidos e Israel nunca responderam 'com quaisquer pessoas
dispostas a fazer a paz', assim como não querem hoje." (Noam Chomsky)2
"Se você usar o termo [recusante] num sentido não-racista, concluímos no
mesmo instante que os Estados Unidos lideram a frente de recusa/de
rejeição, e o têm feito há muitos anos, e que ambos os grupos políticos em
Israel... são recusantes estritos, e que isso foi completamente incontroverso
até meados da década de 1990... e acho que ainda é assim no presente."
(Noam Chomsky)3
A REALIDADE
Assim que a divisão em dois Estados foi proposta, os judeus a aceitaram e
os árabes a rejeitaram.
A PROVA
Em 1937 - no meio da revolta terrorista inspirada pelo grão-mufti - os
britânicos publicaram o Relatório da Comissão Peel com base nas suas
investigações sobre "as causas dos distúrbios". Não deixava lugar a dúvidas
sobre quem era culpado: "Um lado colocou-se, não pela primeira vez, em
erro por recorrer à força, enquanto o outro pacientemente cumpria a lei".4 A
comissão verificou que a violência assassina contra civis que havia
começado na década de 1920 tinha sido deliberadamente ordenada pelo
mufti e a Alta Comissão Árabe.5 Também confirmou que os judeus que
haviam ido à Palestina eram refugiados, denominando o sionismo como
"uma doutrina de escape" da perseguição sofrida pelos judeus da diáspora.
No sentido mais amplo, e comissão via o problema como
"fundamentalmente um conflito entre o certo e o certo", arraigado
profundamente no passado. Depois de rever as reivindicações históricas dos
judeus e dos árabes, a comissão concluiu que ambas eram constrangedoras.
Voltando ao presente, a Comissão Peel descobriu que a "simpatia dos árabes
palestinos por seus parentes na Síria tinha sido claramente demonstrada...
Ambos os povos aderiam ao princípio de que a Palestina era parte da Síria e
nunca deveria ter sido separada dela".6 Também concluiu que seria
"totalmente irreal esperar" que os judeus aceitassem um status de minoria
num Estado muçulmano,7 especialmente porque haviam essencialmente
criado um lar judeu, com jornais hebraicos, escolas e universidades
hebraicas, um sistema hospitalar judaico, um ativo sistema político e
sindical e todos os outros atributos de um Estado. As regiões judaicas da
Palestina eram mais semelhantes a um Estado em funcionamento do que as
áreas árabes. Tel Aviv era uma metrópole judaica com uma população
superior a 150 mil. Jerusalém ocidental tinha uma população de 76 mil,
muito maior do que a população muçulmana. Haifa, com sua população de
100 mil, era metade judia e muito do comércio em seu porto é "judaico".
Governos democráticos locais, bem como uma agência nacional, tinham
quase vinte partidos. A democracia havia chegado à Palestina, pelo menos
nas regiões judaicas. Assim também a arte e a cultura:
A cada ano que passa, o contraste entre a comunidade moderna
intensamente democrática e altamente organizada e o antiquado mundo
árabe ao redor acentua-se cada vez mais e em nenhum campo mais
evidentemente do que no aspecto cultural. A produção literária do Lar
Nacional está fora de qualquer proporção relativa ao seu tamanho.
Traduções hebraicas das obras de Aristóteles, Descartes, Leibnitz, Fichte,
Kant, Bergson, Einstein e outros filósofos, e de Shakespeare, Goethe,
Heine, Byron, Dickens, dos grandes novelistas russos e de muitos escritores
modernos têm sido publicadas. Na literatura criativa as obras de Bialik,
que morreu em 1935, têm sido a realização maior na poesia hebraica e as
de Nahum Sokolov, que morreu em 1936, na prosa hebraica. Várias novelas
hebraicas têm sido escritas, refletindo a influência da vida no Lar Nacional
sobre a mente judaica. A imprensa hebraica cresceu para quatro diários e
dez revistas semanais. Dos primeiros o Há'aretz e o Davar são os mais
influentes e mantêm um alto padrão literário. Dois periódicos estão
exclusivamente voltados à literatura e um à arte dramática. Mas, talvez, o
aspecto mais relevante da cultura do Lar Nacional é o seu amor pela
música. Foi durante nossa estada na Palestina que o Signor Toscanini
dirigiu a Orquestra Sinfônica da Palestina, composta de cerca de 70 judeus
palestinos, em seis concertos, principalmente dedicados às obras de
Brahms e Beethoven. Em cada ocasião todos os lugares estavam ocupados
e é digno de nota que um concerto estava reservado para 3 mil
trabalhadores a preços muito baixos e que outros 3 mil participaram do
ensaio final da orquestra. Em resumo, a conquista cultural desta pequena
comunidade de 400 mil pessoas é um dos feitos mais notáveis do Lar
Nacional.8
Em 1937 a Comissão Peel recomendou um plano de divisão para resolver o
que se caracterizou como um "conflito irregressível... entre duas
comunidades nacionais dentro das estreitas fronteiras de um pequeno
país".9 Devido à hostilidade geral e ao ódio dos muçulmanos aos judeus, "a
assimilação nacional entre árabes e judeus está... descartada".10 Tampouco
se poderia esperar dos judeus que aceitassem o governo muçulmano, uma
vez que o grão-mufti deixou claro que a maioria dos judeus seria expulsa da
Palestina se os muçulmanos ganhassem o controle total.11 A Comissão Peel
concluiu que a divisão era a única solução justa:
Declaradamente o problema não pode ser resolvido dando-se aos árabes
ou aos judeus o que eles desejam. A resposta à pergunta "Qual deles,
afinal, governará a Palestina" certamente deverá ser: "Nenhum". Não
acreditamos que qualquer estadista justo poderia supor, agora que a
esperança de harmonia entre as raças se mostrouinatingível, que a Grã-
Bretanha devesse entregar 400 mil judeus aos árabes, ou que, se os judeus
se tornassem uma maioria, um milhão e tanto de árabes deveriam ser
entregues ao seu domínio. Mas, enquanto nenhuma das raças pode
governar justamente a Palestina, não vemos razão por que, se fosse
praticável, cada raça não devesse governar uma parte.
Sem dúvida a idéia da partição como solução do problema ocorreu
frequentemente aos que o estudaram, apenas para ser descartada. Existem
muitos que instintivamente não desejariam retalhar a Terra Santa. A
separação da Jordânia da Palestina histórica, teriam pensado, já era
bastante ruim. Nesse ponto iríamos sugerir que há pouco valor moral em
manter a unidade política da Palestina ao preço de um ódio permanente, de
luta e derramamento de sangue e que há pouco dano moral em traçar uma
linha política através da Palestina se a paz e a boa vontade entre os povos
de cada lado puderem, com isso, ser atingidas a longo prazo... A partição
parece oferecer ao menos uma chance de paz final. Não podemos vê-la em
nenhum outro plano.12
O plano da Comissão Peel propunha um lar judaico em áreas nas quais
havia uma nítida maioria judaica, divididas em duas partes não contíguas, A
porção norte ia de Tel Aviv à atual fronteira com o Líbano. Consistia
principalmente em uma faixa de terra de 10 milhas de largura, do
Mediterrâneo para leste, até o fim da planície do litoral, depois uma área
algo mais larga de Haifa até o mar da Galiléia. Uma porção meridional,
desconcertada da setentrional por uma área sob controle britânico, que
incluía Jerusalém, com a sua maioria de população judaica, estendia-se do
sul de Jafa ao norte de Gaza.
A área árabe proposta era, por outro lado, inteiramente contígua e
compreendia todo o Negev, a margem ocidental e a faixa de Gaza. Era
várias vezes maior do que a proposta para o lar judeu. A população da área
judaica proposta teria 300 mil judeus e 190 mil árabes. Mais de 75 mil
judeus viviam em Jerusalém, que teria ficado sob controle britânico.
A comissão sugeriu que ao longo do tempo poderia haver trocas de terra e
de população:
Os judeus poderão querer dispor de algumas ou de todas as terras que
agora lhes pertencem e que se encontram dentro das fronteiras do Estado
árabe, e seus ocupantes poderão desejar mudar para o Estado judeu...
Os árabes... poderão, igualmente, querer vender a terra de que são
proprietários dentro das fronteiras do Estado judeu [e mudar para o Estado
árabe].13
A comissão resumiu as vantagens da partição para ambos os lados:
As vantagens da partição para os árabes dentro das linhas que propusemos
podem ser resumidas como segue:
I. Eles obtêm sua independência nacional e podem cooperar em pé de
igualdade com os árabes dos países vizinhos na causa da unidade árabe e
do progresso.
II. Eles finalmente ficam livres do medo de serem "engolidos" pelos
judeus e da possibilidade de sujeição ao domínio judeu.
III. Em particular, a limitação final do Lar Nacional Judeu dentro de
fronteiras fixas e a decretação de um novo mandato para a proteção dos
lugares santos, solenemente garantida pela Liga das Nações, remove toda a
ansiedade sobre a possibilidade de esses lugares caírem sob o controle
judaico.
IV. Como compensação aos árabes pela perda do território que
consideram seu, o Estado árabe receberá uma subvenção do Estado judeu.
Também obterá um subsídio de dois milhões de libras do tesouro da Grã-
Bretanha, tendo em vista o atraso da Transjordânia; e, se um acordo puder
ser feito pela troca de terras e de população, um subsídio adicional será
feito para a conversão, até onde seja possível, de terra não cultivável no
Estado árabe em terra produtiva da qual lucrarão os agricultores e o
Estado.
As vantagens da partição para os judeus podem ser resumidas como segue:
I. A partição assegura o estabelecimento de um Lar Nacional Judaico e
elimina a possibilidade de estar sujeito ao domínio árabe no futuro.
II. A partição habilita os judeus no sentido mais amplo a considerarem
seu o Lar Nacional: porque o converte num Estado judeu. Seus cidadãos
poderão admitir tantos judeus quantos considerarem que podem ser
absorvidos. Alcançarão o objetivo primário do sionismo - uma nação
judaica plantada na Palestina, dando aos seus cidadãos o mesmo status no
mundo como outras nações dão aos seus. Finalmente, deixarão de viver
uma "vida de minoria".14
Finalmente, a comissão aludiu a como a partição iria ajudar a salvar os
judeus do nazismo na Europa:
Tanto para árabes como para judeus a partição oferece uma perspectiva - e
não vemos tal perspectiva em qualquer outra política - de obter o
inestimável benefício da paz. Certamente vale algum sacrifício de ambos os
lados se a disputa, à qual o mandato deu início, pudesse ser encerrada com
seu término. Não é um feudo natural ou antigo. Um hábil expoente da
questão árabe nos contou que os árabes ao longo de sua história não só
estiveram livres de sentimentos antijudaicos, mas também mostraram que o
espírito de compromisso está profundamente arraigado em sua vida. E
continuou para exprimir sua simpatia com o destino dos judeus na Europa.
"Não há nenhuma pessoa decente", disse, "que não desejaria fazer tudo
humanamente possível para aliviar o sofrimento dessas pessoas" desde que
"não fosse à custa de infligir um sofrimento correspondente a um outro
povo". Considerando o que a possibilidade de encontrar um refúgio na
Palestina significa para muitos milhares de judeus em sofrimento, não
podemos acreditar que a "aflição" ocasionada pela partição, por maior que
fosse, seria maior do que a generosidade árabe pudesse suportar. E nisso,
como em tantas outras coisas ligadas à Palestina, não são apenas os povos
desse país que devem sem considerados. O problema judeu não é o menor
dos muitos problemas que estão perturbando as relações internacionais
neste momento crítico e obstruindo o caminho para a paz e a prosperidade.
Se os árabes, com algum sacrifício, pudessem ajudar a solucionar esse
problema, seriam dignos da gratidão não apenas dos judeus, mas de todo o
mundo ocidental.15
Os judeus aceitaram com relutância o plano Peel de partição enquanto os
árabes o rejeitaram categoricamente, exigindo que a Palestina toda fosse
colocada sob o controle árabe e que a maioria da população judaica da
Palestina fosse "transferida" para fora do país, porque "este país [não pode]
assimilar os judeus agora nele residentes".16 A Comissão Peel
implicitamente reconheceu que não era tanto pelos árabes quererem a
autodeterminação, mas por não desejarem que os judeus tivessem
autodeterminação ou soberania sobre a terra que eles próprios tinham
cultivado e na qual eram uma maioria. Afinal, os palestinos queriam ser
parte da Síria e governados por um monarca distante. Simplesmente não
podiam conformar-se com a realidade de que os judeus da Palestina haviam
criado para si uma pátria democrática de acordo com o mandato da Liga das
Nações e de acordo com uma legislação internacional. Mesmo se a recusa
da proposta Peel não resultasse num Estado para os palestinos, isso era
preferível a permitir um pequeno e não- contíguo Estado para os judeus.
Quando os britânicos marcaram um encontro entre as partes "os árabes não
se sentariam na mesma sala que os judeus".17 Além disso, responderam ao
Plano Peel com violência maciça contra os civis judeus, bem como contra a
polícia britânica e servidores civis.
O impasse, resultante da rejeição árabe de "todas as tentativas de ceder
qualquer parte da Palestina à soberania judaica,"18 associada à violência
árabe, levou diretamente à decisão britânica de diminuir o fluxo de
refugiados judeus para a Palestina, apesar do reconhecimento no Relatório
da Comissão Peel de que “os judeus entram na Palestina por direito e não
por tolerância" e que “a imigração judaica não é meramente sancionada,
mas requerida por solenes acordos internacionais".19 O Livro Branco da
Grã-Bretanha de 1939 limitava a imigração judaica a 75 mil durante os
cinco anos seguintes. A Grã-Bretanha tinha se tornado a barreiraà
independência e condição de Estado para a comunidade judaica na
Palestina. Os objetivos imperialistas da Grã-Bretanha agora favoreciam os
árabes em detrimento dos judeus.
Como expôs Michael Oren, "apesar de os britânicos terem continuamente
abandonado o seu apoio a um Lar Nacional Judaico, o lar já era um fato:
um Estado incipiente e em fase de crescimento rápido".20 Mas era um
Estado que estava sendo impedido pela Grã-Bretanha, a pedido dos árabes,
de abrir seus portões àqueles refugiados que mais necessitavam. Isso
coincidiu com o início do Holocausto, no qual seis milhões de judeus foram
assassinados. Se os árabes tivessem aceito a solução de dois Estados
recomendada pela Comissão Peel em vez de responder com violência,
centenas de milhares - talvez um milhão, ou mais - de judeus europeus
poderiam ter sido salvos, já que o programa nazista, até 1941, desejava que
os judeus fossem expulsos da Europa, mas não necessariamente
assassinados. A “solução final" tornou-se a opção para os nazistas só
quando ficou claro que não havia lugar para onde os judeus europeus
pudessem ir, exceto para as câmaras de gás e campos de extermínio.
NOTAS
1. "Can zionism be reconciled with justice for the palestinians?" Tikkun,
julho-agosto de 2000.
2. "Middel East diplomacy: continuities and change", Zmagazine,
dezembro 1991, disponível em www.zmag.org/chomsky (última vez
visitado em 17 de março de 2003).
3. Palestra na Universidade de Harvard, 2 5 de novembro de 2002.
4. Peel Report, p. 2.
5. Ibid., pp. 106-107.
6. Ibid., p. 59.
7. Ibid., p.61.
8. Ibid., p. 116-117.
9. Ibid., p. 370.
10. Ibid., p. 371.
11. Ibid., p. 141.
12. Ibid., pp. 375-376.
13. Ibid., p. 389.
14. Ibid., pp. 394-395.
15. Ibid., p. 395.
16. Ibid., p. 141, pergunta ao grão-mufti e sua resposta.
17. Ian Bickerton e Carla Klausner, A concise history of the arab-israeli
conflict (Upper Saddle River, N.J.: Prentice HalI, 2002), p. 56.
18. Ibid.
19. Peel Report, p. 147.
20. Michael Oren, Six days of war (Oxford: Oxford University Pres,
2002), p. 93.
 
Os judeus tiraram partido do
Holocausto?
A ACUSAÇÃO
Os judeus tiraram partido do Holocausto para angariar a simpatia em favor
de um Estado judaico à custa dos palestinos, que não têm nenhuma
responsabilidade pelo genocídio de Hitler contra os judeus.
OS ACUSADORES
"O Holocausto mostrou ser uma arma ideológica indispensável. Através do
seu desenvolvimento, uma das mais fantásticas potências militares, com um
registro horrendo em direitos humanos, colocou-se como Estado 'Vítima' e
o grupo étnico mais bem-sucedido nos Estados Unidos também adquiriu um
status de vítima. Dividendos consideráveis resultam desse capcioso estado
de vítima - em particular, imunidade às críticas, por mais que justificadas."
(Norman Finkelstein)1
"O que deixa muitos palestinos e árabes EXTREMAMENTE IRADOS é
que as memórias do Holocausto estão sendo exploradas para apontar os
palestinos como nazistas. Tal comparação perigosa e táticas de propaganda
são desde cedo continuamente transmitidas para muitas crianças israelenses
e judias, especialmente após uma visita ao museu do Holocausto, em Yad
Vashem. É preciso enfatizar que muitas fotos em tamanho real de al-Hajj-
Amin ao lado de Hitler estão expostas em Yad Vashem, a oeste de
Jerusalém, não longe de Deir Yassin. É uma hipocrisia responsabilizar os
palestinos pela 'malfadada' escolha de al-Hajj Amin, enquanto israelenses e
judeus fecham os olhos para as escolhas que alguns dos seus líderes fizeram
durante a Segunda Guerra Mundial." (www.PaIestineRemembered.com em
resposta à "Propaganda sionista israelense" de que Hajj Amin al-Husseini
colaborou com os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.)
A REALIDADE
A liderança palestina, com aquiescência da maioria dos árabes palestinos,
apoiou ativamente e ajudou o Holocausto e a Alemanha nazista c carrega
uma culpa moral, política e mesmo legal pelo assassinato de muitos judeus.
A PROVA
Pouco depois de Hitler assumir o poder, o grão-mufti decidiu igualar-se a
ele. Informou o cônsul alemão em Jerusalém de que "os muçulmanos dentro
e fora da Palestina saudavam o novo regime da Alemanha e esperavam que
o sistema de governo fascista antidemocrático se estendesse a outros
países".2 No esforço de instalá-lo em seu próprio país, Husseini organizou
os "jovens nazistas" com base na "juventude hitlerista".3 A suástica tornou-
se um símbolo bem recebido entre muitos palestinos.
O meado e o final da década de 1930 foram marcados por esforços árabes
para impedir a imigração e empenhos judaicos para salvar tantos judeus
quanto possível da Europa de Hitler. Esses anos também foram maçados
pela escalada da violência muçulmana orquestrada por Husseini e outros
líderes muçulmanos. Em 1936 o terrorismo árabe tomou ama nova
dimensão. No começo, os alvos eram civis judeus, indefesos em hospitais,
cinemas, casas e lojas. Isso foi seguido por greves e fechamento de lojas,
depois pelo bombardeio de escritórios britânicos. O regime nazista na
Alemanha e os fascistas italianos apoiaram a violência, enviando milhões
de dólares ao mufti.4
A SS sob a liderança de Heinrich Himmler, deu tanto apoio financeiro como
logístico aos pogroms anti-semitas na Palestina. Adolf Eichmann visitou
Husseini na Palestina e subsequentemente manteve contato regular com ele.
O apoio era mútuo, como um comentarista árabe observou: “Sentindo o
impacto da pressão e da influência judaicas, os árabes simpatizaram com os
nazistas e fascistas na sua agonia e provações nas mãos de intrigas judaicas
e da pressão financeira internacional".5 A resposta britânica inicial foi a
pacificação na forma de redução da quota de imigração judaica. Na
verdade, responderam pela força, explodindo casas como punição e
repressão, Em Jafa destruíram sistematicamente parles da cidade velha,
explodindo 220 casas.6
Os palestinos e seus aliados árabes eram tudo, menos neutros perante o
destino do judaísmo europeu. O líder oficial dos palestinos, Hajj Amin al-
Husseini, grão-mufti de Jerusalém, que formou uma aliança com os nazistas
e na verdade passou os anos de guerra em Berlim, com Hitler servindo de
consultor sobre a questão judaica, foi levado para uma visita a Auschwitz
por Himmler e expressou seu apoio ao assassinato em massa dos judeus
europeus. Ele também procurou “resolver os problemas do elemento
judaico na Palestina e em outros países árabes" empregando "o mesmo
método" que "nos países do Eixo". Não ficaria satisfeito com os residentes
judeus da Palestina - muitos dos quais eram descendentes dos judeus sefardi
que estavam vivendo lá por centenas, mesmo milhares de anos -
permanecendo como uma minoria num Estado muçulmano. À semelhança
de Hitler, ele queria ver-se livre "do último judeu". Como Husseini escreveu
em suas memórias:
Uma condição fundamental para a cooperação com a Alemanha estava
livre para erradicar cada judeu da Palestina e do mundo árabe. Solicitei a
Hitler uma ação explícita que nos ajudasse a resolver o problema judaico
da maneira adequada às nossas aspirações nacionais e raciais e de acordo
com os métodos científicos inovados na Alemanha para lidar com seus
Judeus. A resposta que recebi foi: "Os judeus são seus".7
O mufti aparentemente estava planejando voltar à Palestina no caso de uma
vitória alemã e construir um campo de extermínio seguindo o modelo de
Auschwitz, perto de Nablus. Husseini incitou os seus seguidores pró-
nazistas com as palavras: "Levantem-se, ó filhos da Arábia. Lutem pelos
seus sagrados direitos. Matem os judeus onde os encontrarem. O seu sangue
derramado agrada a Alá, à nossa história e religião. Isso salvará a nossa
honra". Em 1944, uma unidade de comando árabe-alemã sob as ordens de
Husseini foi lançada de paraquedas na Palestina num esforço para
envenenar os poços de Tel Aviv.
Husseini também ajudou a inspirar um golpe pró-nazista no Iraque e a
organizar milhares de muçulmanos nos Bálcãs em unidades militares
conhecidas como divisões Handselar, que praticaram atrocidades contra os
judeus iugoslavos, sérviose ciganos. Depois de um encontro com Hitler ele
registrou o seguinte em seu diário:
O mufti: "Os árabes eram amigos naturais da Alemanha... Estavam,
portanto, preparados para cooperar com a Alemanha, de todo o coração, e
estavam prontos para participar numa guerra, não só negativamente, pela
execução de atos de sabotagem e instigação de revoluções, mas também
positivamente, pela formação de uma Legião Árabe. Nessa luta, os árabes
estavam empenhando-se pela independência e unidade da Palestina, Síria e
Iraque". Hitler: "A Alemanha estava decidida, passo a passo, a solicitar a
uma nação européia depois da outra que resolvesse o seu problema com os
judeus e, no momento adequado, dirigir um apelo similar também a nações
não-européias. O objetivo da Alemanha seria, então, somente a destruição
do elemento judaico vivendo na esfera árabe sob a proteção da potência
britânica. No momento em que as divisões de tanques alemães e suas
esquadrilhas aéreas aparecessem ao sul do Cáucaso, o apelo do público
feito pelo grão-mufti poderia espalhar-se pelo mundo árabe".8
É justo concluir que o líder oficial dos muçulmanos na Palestina, Haj Amin
al-Husseini, era um completo criminoso de guerra nazista e como tal foi
acusado em Nurembergue. Depois da guerra foi procurado pela Iugoslávia e
pela Grã-Bretanha, escapando para o Egito onde recebeu asilo e ajudou a
organizar muitos ex-nazistas e simpatizantes do nazismo contra Israel.
Também é justo dizer que as simpatias e o apoio pró-nazistas de Husseini
eram difundidos entre os seus seguidores palestinos, que o viam como herói
mesmo depois da guerra e da divulgação do seu papel nas atrocidades
nautas. De acordo com o seu biógrafo, "a popularidade de Haj Amin entre
os árabes palestinos e dentro dos Estados árabes na realidade aumentou
mais do que nunca durante o seu período com os nazistas" porque "boa
parte do mundo árabe compartilhava essa simpatia com a Alemanha nazista
durante a Segunda Guerra Mundial". Não foi meramente um ódio pelo
sionismo que animou esse apoio à ideologia nazista. O ódio do grão-mufti
pelos judeus "era insondável e ele o manifestou totalmente durante o seu
período de atividade ao lado dos nazistas (outubro de 1941 a maio de
1945)". Os seus discursos na Rádio Berlim eram profundamente anti-
semitas: "Matem os judeus onde os encontrarem - isso agrada a Deus, à
história e à religião". Em 1948 o Conselho Nacional Palestino elegeu
Husseini como seu presidente, apesar de ser procurado corno criminoso de
guerra vivendo em exílio no Egito.9 De fato, Husseini ainda é reverenciado
hoje por alguns palestinos como herói nacional, enquanto outros se
esforçam para apagá-lo da história palestina. Yasser Arafat cabe
perfeitamente na primeira categoria. Numa entrevista concedida em 2002 e
reproduzida no diário palestino Al-Quds em 2 de agosto de 2002, o
presidente da Autoridade Palestina classifica Haj Amin al-Husseini de
"nosso herói", referindo-se ao povo palestino. Arafat também se gabou de
ser "um de suas tropas", mesmo sabendo que ele era considerado "um
aliado dos nazistas".10 (Se um alemão atualmente chamasse Hitler de
"nosso herói" seria apropriadamente rotulado de neonazista!) Mesmo o
professor Edward Said acredita que "Hajj Amin al-Husseini representou o
consenso nacional árabe palestino, tinha o apoio dos partidos políticos
palestinos e era reconhecido de algum modo pelos governos árabes como a
voz do povo palestino".11 Ele era "o líder nacional da Palestina"12 quando
fez a sua aliança com Hitler e desempenhou um papel ativo no Holocausto.
Apesar de não ser justo considerar o povo palestino responsável pelo
assassinato dos judeus da Europa, a sua liderança oficial estava certamente
longe de ser inocente em relação ao Holocausto. Apoiou ativamente a
solução final de Hitler, bem como a vitória nazista sobre os americanos e
seus aliados. O grão-mufti de Jerusalém foi pessoalmente responsável pela
chacina de milhares de judeus em campos de concentração. Quando soube
que o governo húngaro estava planejando permitir que milhares de crianças
escapassem dos nazistas, ele interveio com Eichmann e exigiu a reversão do
plano. O plano foi revertido e as crianças foram enviadas aos campos de
morte.13 O mufti também apoiou militarmente os nazistas, oferecendo a
sua Legião Árabe para lutar contra os aliados, de modo a opor-se à Brigada
Judaica, que estava lutando ao lado dos aliados.14
À luz da estreita associação entre a liderança palestina e o nazismo ao longo
das décadas de 1930 e 1940 é irônico que muitos grupos pró-palestinos
tenham escolhido a suástica como o símbolo para atacar Israel. Assim como
os nazistas chamavam os judeus de comunistas e Stalin chamava os judeus
de fascistas, muitos palestinos e seus partidários - ambos na extrema direita
e na extrema esquerda - agora usam a palavra "nazista" para caracterizar
Israel, os judeus e o sionismo. Os judeus sempre se encontraram entre o
preto e o vermelho, como foi dito por um estudioso. Estão de volta à
posição desconfortável na medida em que a extrema esquerda e a extrema
direita procuram demonizar o Estado judaico pela falsa comparação com
uma ideologia que praticou o genocídio contra o povo judeu - um genocídio
amplamente apoiado e auxiliado por líderes palestinos.
O chefe de polícia palestino Ghazi Jabali comparou o primeiro-ministro de
Israel, o socialista Ben-Gurion, ao monstro perverso contra o qual lutava:
"Não há diferença entre Hitler e Ben-Gurion".15 Nos campi universitários
de hoje, pode-se frequentemente ouvir o primeiro-ministro de Israel ser
comparado a Hitler, de acordo com a seguinte cantilena: "Sharon e Hitler - a
mesma coisa - a única diferença está no nome".
Ninguém compara, por exemplo, Sharon com Pinochet ou mesmo Stalin. É
sempre Hitler e o nazismo. Cartazes justapondo a estrela de Davi e a
suástica são comuns. Esses cartazes estão usando deliberadamente o
"turnspeak" de George Orwell por tentar associar a estrela de Davi com a
suástica, sabendo o quanto a suástica ofende os judeus.
Alguns grupos judeus entraram em contato comigo nos últimos anos e
solicitaram que eu tentasse banir o uso da suástica em ataques contra Israel.
Como me oponho à censura, sempre os incentivei a usar a tentativa
palestina de comparar Israel com o nazismo como uma oportunidade
educacional de lembrar o mundo do amplo apoio palestino a favor do
nazismo e do fato de que criminosos de guerra nazistas receberam asilo no
Egito e ajudaram o governo egípcio nos seus ataques contra alvos civis
israelenses. Se os apoiadores palestinos insistirem no uso da suástica
certamente não poderão queixar-se quando esse símbolo se virar contra eles
para lembrar o mundo de fatos históricos indiscutíveis com relação ao papel
do seu reverenciado líder no apoio ao genocídio de Hitler contra os judeus e
a fracassada tentativa de Hitler de levar o Holocausto à Palestina. O sócio
de Hitler no genocídio é agora o "herói" do presidente da Autoridade
Palestina enquanto seu primeiro- ministro uma vez tentou "provar" que o
Holocausto de Hitler contra os judeus jamais ocorreu. Essa é a realidade e
nenhuma tentativa de transformar vítimas em perpetradores ou os vilões em
heróis vai mudar a história.
Geralmente aqueles que apoiam o lado perdedor numa guerra -
especialmente um lado tão flagrantemente mau como o dos nazistas - não se
beneficiam da reconstrução do pós-guerra que inevitavelmente segue à
rendição do lado perdedor. A maioria dos muçulmanos palestinos estava do
lado perdedor na Primeira Guerra Mundial ao passo que os judeus da
Palestina estavam do lado vitorioso. O apoio dos judeus aos britânicos na
Primeira Guerra Mundial, que incluiu combater ao lado das forças
britânicas, ajudou-os a merecer a Declaração Balfour em 1917. O apoio dos
judeus - incluindo o apoio militar de milhares de judeus palestinos - aos
aliados durante a Segunda Guerra Mundial ajudou-os a merecer a partição
da ONU em 1947. Churchill acreditava que "nada era devido aos árabes
num acordo de pós-guerra" por causa do seu amplo apoio ao nazismo.
WinstonChurchill havia caracterizado o líder dos palestinos como "o
inimigo mortal".16
Na opinião de muitas pessoas decentes, os palestinos e o amplo apoio árabe
dado aos nazistas não deveria lhes dar o direito de terem algo a dizer dos
rearranjos do pós-guerra, assim como os alemães dos Sudetos perderam o
direito de opinar sobre a sua transferência dos Sudetos na fronteira com a
Tchecoslováquia, onde haviam vivido por séculos, para as novas e menores
fronteiras da Alemanha. Como Winston Churchill disse, "é claro que deve
haver uma transferência", apesar das objeções daqueles que são transferidos
e suas próprias preocupações com as implicações humanitárias.17
Em 1947 foi oferecido aos palestinos quase o mesmo acordo que haviam
rejeitado em 1937 (com exceção do deserto do Negev), apesar da maior
necessidade de um lugar para centenas de milhares de refugiados judeus dos
campos de extermínio da Europa. Ao tempo do plano de partição da ONU,
250 mil judeus refugiados estavam vivendo em deploráveis campos de
prisioneiros no próprio país que havia assassinado seus pais, filhos e
irmãos. Não podiam retornar à Polônia porque os poloneses continuavam a
assassinar os judeus mesmo depois de os nazistas terem sido derrotados, e a
última coisa que os líderes comunistas da Polônia desejavam era um influxo
de refugiados judeus. Tampouco podia se esperar que ficassem na
Alemanha, onde estavam localizados os campos de refugiados naquele
tempo.
A imigração para um lar judeu na Palestina dividida era a única solução
viável para o problema dos refugiados. Também havia um crescente
problema com relação aos países árabes que tinham significativas
populações judaicas. Os judeus nos países muçulmanos sempre foram
tratados como cidadãos de segunda classe (na melhor das hipóteses) e como
alvos apropriados de violência em massa (na pior das hipóteses). Apesar de
os judeus do Islã jamais terem sofrido algo como o Holocausto, havia muito
eram vítimas de pogroms e discriminação religiosa.
Alguns governos islâmicos tinham um sistema semelhante ao apartheid sob
o qual os dhimmis - uma categoria religiosa que inclui judeus e cristãos -
eram, por lei e pela teologia, considerados inferiores e sujeitos a regras
separadas, mas desiguais. Os dhimmis eram, e em alguns lugares ainda são,
excluídos dos empregos públicos, forçados a usar uma vestimenta distintiva
e sujeitos a restrições sobre a construção e manutenção de sinagogas e
igrejas. É verdade que aos dhimmis é permitido praticar sua religião e
manter sua cultura, mas só se pagarem um jizya especial, ou imposto per
capita, não requerido aos muçulmanos. Os dhimmis pagam o imposto em
troca de proteção do Estado. Como tais, eles se encontram fora da
comunidade política. Então não é que os dhimmis sejam cidadãos de
segunda classe - essencialmente, os dhimmis não são cidadãos. Mesmo se
determinados regimes muçulmanos os tratam de forma tolerável, ainda
vivem sob o capricho do governo como estrangeiros marcados.
Em seguida ao Holocausto e, principalmente, ao amplo apoio em seu favor
dos muçulmanos e árabes, tornou-se claro que não se podia esperar que os
judeus continuassem a viver como uma inferior minoria dhimmi sujeita à
proteção caprichosa de uma maioria discriminatória. Os judeus do Islã eram
refugiados em ritmo de espera. Estavam esperando por um lugar para se
mudarem - um lugar onde pudessem viver como iguais, sem considerar sua
religião ou etnia. Israel era esse lugar e, pouco após o seu estabelecimento,
aproximadamente 850 mil judeus sefardis e orientais foram obrigados a sair,
ou "escolheram" sair de lugares no mundo árabe que eles e seus ancestrais
haviam habitado por milhares de anos. Como veremos no capítulo 12, a
situação daqueles judeus sefardis que abandonaram seus antigos lares por
medo, coerção ou falta de disposição para viverem como uma minoria
perseguida era, de muitos modos, comparável à situação dos refugiados
árabes que saíram de Israel em seguida aos maciços ataques árabes contra o
recém-declarado Estado judeu.
Argumenta-se algumas vezes que, apesar de os sobreviventes judeus do
Holocausto, que se tornaram refugiados no fim da guerra, terem direito a
um lar em algum lugar, esse lar não deveria vir à custa dos árabes em geral
e dos palestinos em particular. Argumenta-se que o Holocausto foi culpa
dos alemães e de países incluindo os Estados Unidos, que se recusaram a
aceitar os refugiados judeus da Alemanha, da Polônia e da Áustria. Como o
presidente do Irã, Khatami, declarou em 2001: ''Se os nazistas e fascistas no
Ocidente cometeram crimes contra os judeus, por que deveriam os
palestinos pagar o preço agora? Aqueles [ocidentais] que cometeram os
crimes deveriam pagar o preço".18
Esse argumento é falho pelo menos por duas razões. Primeiro, o Estado de
Israel não chegou a existir à custa seja dos árabes ou dos palestinos. A área
destinada ao Estado judeu tinha uma maioria judaica, tinha direito à
autodeterminação diante dos britânicos (e aos otomanos antes deles). A
terra em questão não era nem árabe nem palestina. Tinha passado de um
império para outro e a hora da autodeterminação dos dois grupos que
viviam em diferentes partes havia chegado. Histórica, demográfica,
econômica e legalmente era simultaneamente uma terra judaica e árabe. (O
último Estado independente a existir na Palestina foi o Estado judeu que foi
destruído pelos romanos em 70 d.C.)
Segundo, o argumento fecha os olhos à realidade de que alguns líderes
árabes e palestinos tinham significativa responsabilidade pelo Holocausto.
Eles o apoiaram, ajudaram, usaram-no em seu benefício e esperavam ter
benefícios dele. Além disso, foi como resultado direto da pressão árabe e
palestina que os portões de imigração para a Palestina foram fechados aos
judeus durante os anos cruciais quando centenas de milhares de judeus,
talvez até mais, poderiam ter sido salvos se lhes tivesse sido permitido
entrar na Palestina - mesmo na pequena parte da Palestina proposta como
lar judeu pela Comissão Peel em 1937.
Os árabes e palestinos tinham suficiente culpa pelo Holocausto e por
apoiarem o lado errado durante a Segunda Guerra Mundial para justificar a
sua contribuição, como parte do lado perdedor, no rearranjo do território e
da demografia que inevitavelmente segue um conflito mundial cataclísmico.
Assim como os alemães dos Sudetos carregaram parte da culpa por estarem
do lado errado, assim também os árabes e palestinos foram solicitados pelas
Nações Unidas, com justiça, a contribuir para uma resolução do problema
dos refugiados pós-guerra. Além disso, tudo que as Nações Unidas fizeram
dividindo a Palestina foi conceder à maioria judaica, na terra alocada ao
Estado judeu, o direito à autodeterminação - um direito que há muito era
valorizado por apoiadores dos direitos humanos e das liberdades civis, e um
direito reivindicado atualmente pelos palestinos na margem oeste e na faixa
de Gaza.
As nações árabes e muçulmanas eram totalmente responsáveis pelo status
de segunda classe (ou pior) que os seus líderes políticos e religiosos haviam
imposto às suas minorias judaicas durante séculos. O mito do tratamento
benigno pelo mundo árabe e muçulmano das suas minorias judaicas foi
destruído pelos eruditos modernos. Os judeus eram vítimas de um sistema
semelhante ao apartheid, comparável em muitos aspectos ao infligido aos
negros sul-africanos pelo governo da África do Sul antes de Mandela. Além
da discriminação legal e teológica - os requisitos de usar roupas distintivas,
de não possuir armas defensivas e de pagar um imposto especial -, eles
estavam sujeitos a pogroms periódicos e libelos de sangue, como em
Damasco em 1840. De acordo com Morris também havia massacres em
Tetua, no Marrocos, em 1790; em Mashhad e Barfurush, Pérsia, em 1839 e
1867 respectivamente; e em Bagdá, em 1828. O bairro judeu de Fez (no
Marrocos) foi quase destruído em 1912 por uma turba muçulmana; e turbas
pró-nazistas massacraram dezenas de judeus em Bagdá, em 1941.
Repetidamente em várias partes do mundo islâmico as comunidades
judaicas - aocontrário das disposições dos dhimma - recebiam a escolha
entre conversão ou morte. Geralmente, mas nem sempre, os incidentes de
violência em massa ocorreram nas extremidades vulneráveis do império
muçulmano, mais do que no seu núcleo mais auto-confiante. Mas a atitude
subjacente de que os judeus eram infiéis e opositores do Islã, e
necessariamente inferiores aos olhos de Deus, prevaleceu através das terras
muçulmanas pelos séculos.19
Menos letal, mas bastante degradante era uma outra prática amplamente
difundida: Uma medida e símbolo da degradação judaica era o fenômeno
comum - chegando a certos lugares, como no Iêmen e no Marrocos, a um
costume local - de apedrejamento dos judeus por crianças muçulmanas. Um
viajante do século XIX escreveu: "Vi um menino de seis anos, com uma
turma de menininhos gordinhos de apenas três ou quatro, ensinando-(os) a
atirar pedras num judeu, e um garotinho andar bamboleando na direção do
homem com a maior frieza e literalmente cuspir na sua roupa. A tudo isso o
judeu é obrigado a submeter-se: seria mais do que à sua vida poderia valer,
bater num muçulmano''.20
Um historiador resumiu o tratamento histórico infligido aos judeus pelos
muçulmanos como "tolerância desdenhosa".21 Eram tratados como uma
"raça inferior".22 O fato de não haver inquisições ou holocaustos apenas
mostra que as coisas estavam ainda piores na Europa cristã. Tanto os
cristãos da Europa como os muçulmanos das nações árabes tratavam a sua
minoria judaica de forma tão horrível que a necessidade de autogoverno
judaico, num Estado judeu com uma maioria judaica, onde os judeus
pudessem ser tratados como iguais e defender-se das perseguições, tornou-
se evidente para a maioria do mundo no final da Segunda Guerra Mundial.
Se há males que vêm para o bem, como argumentei extensamente em outro
lugar,23 então os males impostos à minoria judaica residente em Estados
muçulmanos e cristãos demonstraram ao mundo que o povo judeu tinha o
direito à autodeterminação num lugar em que os judeus eram maioria.
Gomo Winston Churchill havia observado corretamente um quarto de
século antes, um tal estado já existia de fato e de direito naquelas áreas da
Palestina com maioria judaica, instituições judaicas políticas, econômicas e
culturais e um exército judeu que havia lutado ao lado dos vencedores da
Primeira Guerra Mundial - e subsequentemente na Segunda Guerra
Mundial. Tudo que as Nações Unidas fizeram foi reconhecer a realidade da
autodeterminação judaica em áreas a que tinham todo direito - reconhecido
por leis internacionais, tratados, pela Liga das Nações e uma maioria nas
Nações Unidas - a viver e cultivar terras que haviam legalmente comprado
de proprietários ausentes. Como o London Times escreveu em editorial à
época, "é difícil ver como o mundo árabe, e menos ainda os árabes da
Palestina, sofrerão com o mero reconhecimento de um fato consumado - a
presença na Palestina de uma comunidade judaica compacta, bem
organizada e virtualmente autônoma".24
Mesmo para aqueles que rejeitam qualquer participação dos palestinos e
árabes na condição dos refugiados judeus do nazismo e do apartheid
islâmico - uma posição insustentável à luz do amplo apoio palestino aos
nazistas -, a razão para alguma ação positiva em favor de um povo que
sofreu tão dolorosamente nas mãos de outros é poderosa. Aqueles de nós
que apoiam uma ação positiva com relação aos afro-americanos o fazem,
pelo menos em parte, numa teoria de reparação pelos erros do passado.
Apesar de nossos próprios antepassados não poderem ter responsabilidade
alguma pela escravidão, pois nem estavam no país, todos devemos estar
dispostos a compartilhar alguns dos ônus da reparação. Aos nossos filhos e
netos poderão ser negados lugares nas universidades ou empregos de sua
primeira escolha porque esses lugares estão alocados aos descendentes de
escravos e de outras minorias. Certamente aqueles que se beneficiaram
diretamente da escravidão têm uma obrigação especial de fazer reparações
assim como aqueles que se beneficiaram do Holocausto têm uma
responsabilidade especial perante os que luram suas vítimas.
Mas, num sentido mais amplo, o mundo todo deve às vítimas da escravidão,
do Holocausto e de outros genocídios impostos pela humanidade uma
forma de ação positiva. Mesmo a Comissão Peel parecia reconhecer um
componente de ação positiva na sua decisão de reconhecer a existência de
um Lar Nacional judeu:
É impossível, acreditamos, para qualquer observador sem preconceitos ver
o Lar Nacional e não lhe desejar sucesso. Tem muito significado para o
alívio de sofrimento imerecido. Demonstra muita energia, iniciativa e
devoção a uma causa comum. Na medida em que a Grã- Bretanha ajudou
na sua criação, afirmaríamos, com lorde Balfour, que nessa medida,
evidentemente, o cristianismo mostrou-se "não esquecido de todos os males
que fez".21
O mundo muçulmano também deveria reconhecer todos os males que fez
aos judeus que historicamente tratou como não-cidadãos de segunda classe
(dhimmí).
Mesmo para aqueles que em 1947 não acreditavam que a partição da
Palestina fosse justa para com os palestinos, quando a partição é vista como
uma forma de ação internacional positiva, ela parece mais do que justa.
Para aqueles que apoiam uma ação positiva com base na necessidade de
diversidade, um Estado judeu certamente acrescenta considerável
diversidade a um mundo com mais de quarenta Estados muçulmanos e
numerosos Estudos cristãos, hindus e budistas. Apesar de já existir um
Estado com maioria palestina na Jordânia, um novo Estado palestino na
margem ocidental e em Gaza, governado por palestinos, também
acrescentaria um elemento de diversidade.
NOTAS
1. Norman G. Finkelstein, The Holocaust industry: reflections of the
exploitation of jewish suffering (Londres: Verso, 2001).
2. Citado em Morris, p. 125.
3. Morris, p. 124.
4. Ibid., p. 137.
5. Citado em Morris, p. 137.
6. Morris, pp. 130, 134.
7. Sarah Honig. "Fiendish hypocrisy II: The man from Klopstock St.",
Jerusalem Post, 6 de abril de 2001.
8. Alemanha, Auswartiges Amt, Documents on German Foreign Policy,
1918-1945, from the Archives of the German Foreign Ministry, series D.
vol XIII, n° 515 (Washington, D.C.: U.S. Government Printing Office,
1949), pp. 881-885. Citado em
www.psych.upenn.edu/~fjgil/muftihitler.htm.
9. V. Zvi Elpeleg, Thegrand-mufti (Londres: Frank Cass, 1993), p. 100.
10. Itamar Marcus, "Nazi Alley, Hajj Amen al-Husseini Is Arafat's 'Hero',
"Palestinian Media Watch, www.pmw.ora.il/new/bulletins-050802.html.
11. Said e Hitchens, p. 248.
12. Ibid.
13. Morris, p. 166.
14. Ibid., p. 165.
15. Jornal da AP, Al-Hayat Al-Jadeeda, 1° de setembro de 1997.
16. Elpeleg, p. 164.
17. Martin Gilbert, Winston S. Churchill, vol. II (Londres: Heinemann,
1966), pp. 90, 154.
18. "'Dialogue of civilizations seeks international democracy', States
President Khatami, Tehran, 27 de fevereiro de 2001", do website do
International Centre for Dialogue among Civilizations,
www.dialoguecentre.org/news detail 2.htm.
19. Morris, p. 11.
20. Ibid.
21. Elie Kedourie, citado em Morris, p. 9.
22. Morris, p. 39.
23. Alan Dershowitz, Shouting fire: civil liberties in a turbulent age
(Boston: Littel, Brown, 2002), pp. 33-48.
24. London Times, 1° de dezembro de 1947.
25. PeelReport, p. 124.
A divisão da Palestina pela ONU
foi injusta para com os palestinos?
A ACUSAÇÃO
O plano de partição da ONU de 1947 foi injusto para com os palestinos.
OS ACUSADORES
Shavit: "Você teria aceito o plano de partição de 1947?"
Said: "Instintivamente digo não. Era um plano injusto baseado na minoria
recebendo direitos iguais aos da maioria. Talvez não devêssemos ter ficado
lá. Talvez devêssemos ter apresentado um plano nosso. Mas posso entender
que, na época, o plano de partição seria inaceitável para os palestinos."
(Edward Said) 1
"Em 1947 a ONU propôs uma solução que foi aceita por apenas um lado, o
lado judeu. E, na história das Nações Unidas, geralmente quando não se tem
um acordo de ambos os lados não se executa tal solução. Aí a históriacomeçou a ficar difícil. O fato é que se impinge a solução a uma maioria do
povo vivendo na Palestina que se opunha a essa solução; portanto, não é
surpresa que eles se opuseram mesmo pela força."
"... Mas nem sequer temos o direito de dizer que estavam errados em
recusar a partição. Eles viam o sionismo como um movimento colonialista.
E há bem poucas razões para não entender esse ponto de vista.
Imagine só o movimento nacional argelino concordando, na década de
1950, em dividir a Argélia em dois Estados, entre si e os colonizadores
brancos ('les pieds-noirs')! Quem teria dito à liderança argelina não percam
esta oportunidade histórica?'!" (Ilan Pappe, professor de ciência política na
universidade de Haifa)2
A REALIDADE
O plano da ONU era justo para ambos os lados e era um reflexo da mútua
autodeterminação, tanto para árabes como para judeus, e é agora o consenso
da opinião mundial.
A PROVA
Como a ONU concluiu quando dividiu a Palestina em 1947, é impossível
basear qualquer solução dos problemas nas alegadas "origens históricas do
conflito" ou nos "acertos e erros" apresentados de ambos os lados. A
"premissa básica" da partição era de que "as reivindicações da Palestina por
parte de árabes e judeus, ambas válidas, são irreconciliáveis". É útil fazer
referência às conclusões da ONU, já que formam a base para o atual
consenso internacional com relação à solução de dois Estados no caso do
conflito palestino-israelense:
1 A premissa básica da proposta de partição é que as reivindicações de
árabes e judeus pela Palestina, ambas possuindo validade, são
irreconciliáveis e que, entre todas as soluções apresentadas, a partição
fornecerá o acordo mais realista e praticável, e é a que tem mais
probabilidade de estabelecer uma base de trabalho para satisfazer, em parte,
às reivindicações e aspirações nacionais de ambas as partes.
2 É um fato que ambos os povos têm suas raízes históricas na Palestina e
que ambos fazem contribuições vitais à vida econômica e cultural do país.
A solução da partição leva em conta essas considerações.
3 O conflito básico na Palestina é um choque entre dois nacionalismos
intensos. Independentemente das origens históricas do conflito, dos erros e
acertos das promessas e contrapromessas e da intervenção internacional
incidente ao mandato, há atualmente na Palestina cerca de 650 mil judeus e
l milhão e 200 mil árabes que são diferentes no seu modo de vida e, por
enquanto, separados por interesses políticos que tornam difícil uma
cooperação política plena e eficaz.
4. Apenas por meio da partição essas aspirações nacionais conflitantes
podem encontrar uma expressão substancial e qualificar ambos os povos a
tomar seus lugares como nações independentes na comunidade
internacional e nas Nações Unidas.
Como mencionado anteriormente, a solução de dois Estados é também a
premissa deste livro. Rejeito - como fez a Comissão Peel em 1937, como
fizeram as Nações Unidas em 1947, como fez Ehud Barak em 2000 e a
maior parte do mundo faz agora - as reivindicações extremistas de ambos os
lados: rejeito a reivindicação extremista judaica de que "todo Grande Israel"
deveria ser um Estado judeu e rejeito a reivindicação extremista árabe de
que o Estado judeu, mesmo que "tivesse o tamanho de um selo do correio...
não tem direito de existir".3
O atual consenso mundial apoia esta premissa: de que deveria haver dois
Estados, um judeu e um palestino, existindo lado a lado. Não há consenso
quanto ao tamanho relativo e quanto às fronteiras precisas entre os dois
Estados, Mas o princípio de uma solução de dois Estados é até mais aceito
hoje do que era em 1947, já que a maioria dos Estados árabes e a
Autoridade Palestina parecem aceitá-lo ao menos quando falam a terceiros.
Aqueles que atualmente a rejeitam incluem uma pequena minoria de
israelenses e judeus americanos à margem da sociedade israelense e
judaica; os grupos terroristas palestinos, tais como Hamas, Hezbollah, Jihad
Islâmico e a Frente Popular para Libertação da Palestina, bem como os
Estados da Síria, Ira e Líbia. (Em fevereiro de 2003 Tariq Aziz, o antigo
vice-primeiro- ministro, recusou-se a admitir uma pergunta de um jornalista
israelense numa entrevista aberta de imprensa em Roma.) Pelo fato de a
solução de dois Estados ser a melhor esperança para a paz, a sua aceitação
por Israel, primeira em 1937 e depois em 1948, associada à categórica e
violenta rejeição dos Estados árabes, dos palestinos e virtualmente de todos
os líderes muçulmanos - primeiro em 1937 e novamente em 1948 - é um
componente central na questão a favor de Israel. Deve ser respondida por
qualquer um que esteja procurando apresentar a questão contra Israel.
A decisão de dividir a Palestina - ao menos a parte ainda não a locada a um
emirado exclusivamente árabe, renomeada Transjordânia e depois Jordânia
- em Estado judeu e árabe não foi um reflexo do colonialismo desacreditado
ou do imperialismo do passado. Antes, estava entre os primeiros exemplos
da nova autodeterminação que o presidente Woodrow Wilson e muitos
outros progressistas advogavam. Desde a divisão da Palestina pela ONU em
unidades políticas judaica e árabe, muitos novos Estados emergiram como
resultado da autodeterminação, incluindo vários Estados islâmicos. Alguns,
como o Paquistão, resultaram de partições. Mas a autodeterminação da
maioria judaica naquelas áreas da Palestina destinadas ao Estado judeu é - a
única entre os novos Estados criados - caracterizada por alguns inimigos de
Israel como colonialismo e imperialismo.4 Isso não passa de argumentação
por slogans, apesar de nem o nome nem o slogan caberem nos fatos da
história.
O estabelecimento da Jordânia e a escolha do seu líder hashimita pelo
governo britânico em 1923 foi um ato de imperialismo e colonialismo. A
sua exclusão formal de todos os judeus foi um ato de flagrante racismo.
Mas essas caracterizações são raramente ouvidas com relação à ilegítima
certidão de nascimento daquela nação. A reivindicação judaica para
governar a área da Palestina que lhe foi alocada pela ONU é certamente
mais consistente com relação à autodeterminação do que as reivindicações
hashimitas de governar a maioria da população palestina da Jordânia. Mas
os criadores de slogans apontam a sua retórica mal dirigida apenas contra o
Estado judeu. O ônus recai sobre eles para explicarem por quê.
NOTAS
1. Numa entrevista no Ha'aretz com o jornalista Ari Shavit, "My right of
return", 18 de agosto de 2000.
2. Numa entrevista com o jornalista belga Baudoin Loos, 'An interview
of Ilan Pappe", Le Soir (Bélgica), 29 de novembro de 1999.
3. Faisal Bodi, "Israel surely has no right to exist", Theguardian, 3 de
janeiro de 2001. Essa opinião também é partilhada na Aliança Nacional
Palestina de 1968.
4. V. capítulo 1.
 
Os judeus eram uma minoria no
território que se tornou Israel?
A ACUSAÇAO
O Estado judeu foi estabelecido na Palestina apesar do fato de os judeus
constituírem apenas uma minoria do total da população palestina.
OS ACUSADORES
"Os americanos recebem a maior parte da informação referente ao conflito
israelense-palestino da mídia corporativa dominante, controlada,
manipulada politicamente. Poucos têm a oportunidade de examinar a
realidade da história que resultou nas tensões que existem no Oriente
Médio. Poucos sabem que palestinos são, de todos os modos legítimos, a
população nativa da área; que a terra agora ocupada pelos israelenses era
propriedade dos palestinos; que 98% da população era árabe em 1870 e
apenas 2% judaica; que em 1940 os palestinos representavam 69% da
população, mesmo quando os judeus se aglomeravam na área, vindos da
Europa, numa tentativa de escapar dos nazistas; que em 1946, o ano em que
a ONU criou Israel sem a aprovação da população nativa, os palestinos
representavam 65% e os israelenses menos de 35% dos 1.845.000 que
viviam lá." (William A. Cook, professor inglês na Universidade de La
Verne, Califórnia.)1
"Em 1947 havia 600 mil judeus e l milhão e 300 mil árabes palestinos.
Assim, quando a ONU dividiu a Palestina, os judeuseram uma minoria
(31% da população). Essa divisão, promovida pelas principais potências
imperialistas - com apoio de Stalin - deu 54% da terra fértil ao movimento
sionista." (Cecília Toledo, jornalista brasileira)2
"Vale notar que, mesmo após cinco décadas de limpeza étnica, ocupação e
desalojamento, a relação demográfica entre palestinos (8,2 milhões) e
judeus israelenses (4,5 a 5 milhões) ainda é a mesma que era em dezembro
de 1947, que era (e ainda é) de 2 para 1 em favor ao povo palestino.
Entretanto, para Israel manter o seu "Estado judeu" democrático, e
sobretudo o seu "caráter judaico", optou por remover etnicamente 80% do
povo palestino de suas casas, fazendas, negócios, barcos, bancos... etc."
(www.PaIestineRemembered.com em resposta à "propaganda dos sionistas
israelenses [sic]" de que "os árabes rejeitaram a partição da Palestina em
1947 pela ONU e, consequentemente, atacaram o Estado judeu e perderam
a guerra de 1948.")
A REALIDADE
Os judeus eram uma significativa maioria naquelas áreas da Palestina
destinadas pela ONU à formação de um Estado judeu.
A PROVA
Os advogados às vezes fazem um jogo com a demografia para apoiar as
suas conclusões. Ao estimar a população árabe da Palestina na época da
partição de 1947 pela ONU, advogados da causa árabe algumas vezes
incluem a população do que hoje é a Jordânia, bem como do que hoje é a
margem oeste e Gaza. Ao determinar a imparcialidade do plano de partição
da ONU de 1947, quando a ONU dividiu a Palestina, a população palestina
relevante da área é aquela atribuída ao Estado judeu em 1947.3 Mesmo
considerando essa população, as estimativas variam, mas a estimativa
oficial da ONU era que a terra atribuída ao Estado judeu continha
aproximadamente 538 mil judeus e 397 mil árabes (um número que incluía
cristãos, beduínos, druzos e outros).
Ninguém duvida de que, se tivesse havido um referendum sobre a
Autodeterminação e separação, os residentes da área destinada pela ONU
ao Estado judeu teriam votado em sua grande maioria a favor do que a
ONU decretara. Em termos de divisão da terra, o Estado judeu teria
recebido mais do que os árabes, apenas se considerarmos a totalidade do
deserto do Negev, que era considerado não habitável e não-cultivável. Se o
Negev for excluído ou substancialmente descontado, a terra disponível,
alocada aos árabes, era maior do que aquela alocada aos judeus. Além
disso, muito da terra alocada ao Estado judeu era originalmente um pântano
e um deserto que tinha de ser irrigado e tornado fértil pelo trabalho e pelo
investimento judeus. A terra alocada aos árabes também era contígua e
próxima à Transjordânia, cuja população sempre foi predominantemente
palestina, apesar de uma monarquia hashimita ter sido imposta à população
pela Grã-Bretanha.
A terra alocada aos judeus não incluía Jerusalém ocidental, que tinha uma
maioria judaica, ou Hebron, duas das cidades mais sagradas e históricas do
judaísmo. Jerusalém, com uma população de 100 mil habitantes deveria ser
internacionalizada, mas isolada das áreas judaicas. Hebron deveria ser parte
do setor árabe, sem presença judaica, apesar do fato de os judeus terem
vivido lá por milhares de anos até que os massacres palestinos de mulheres,
crianças e idosos judeus expulsaram a população judaica em 1929 e
novamente em 1936.
Pelo fato de a terra em que os judeus deveriam viver estar dividida em áreas
não- contíguas e separadas por terra árabe, seria difícil defendê-la ante a
ameaça de um ataque árabe. Além de Jerusalém, também Safed estava
isolada. Mesmo Tel Aviv poderia ser facilmente isolada por forças inimigas
na estreita linha de cintura da área judaica, que media aproximadamente 9
milhas entre a área árabe e o Mediterrâneo.
Mesmo assim, Israel rapidamente aceitou a partição da ONU e logo
proclamou-se um Estado soberano. Os árabes rejeitaram a partição e
atacaram o novo Estado pelo ar e por terra. O que sobrou do proposto
Estado palestino depois de Israel ter repelido esses ataques foi rapidamente
engolido pela Jordânia e pelo Egito.
Se os árabes tivessem aceito a partição da ONU, teria havido um grande e
contíguo Estado palestino ao lado de um Estado judeu. A solução de dois
Estados, que é atualmente o consenso internacional, teria sido alcançada
sem derramamento de sangue. Certamente quem agora aceita a solução de
dois Estados deve atribuir a culpa por esta não ter sido implementada em
1947 (ou mesmo antes, em 1937) aos líderes árabes e palestinos que
rejeitaram um Estado palestino quando este lhes foi oferecido. (Como
veremos nos capítulos 16 e 17, um Estado palestino, com capital em
Jerusalém, foi novamente oferecido em Camp David e em Taba, em 2000, e
novamente rejeitado pelos palestinos, que não responderam à oferta
apresentando uma contraproposta, mas aumentando os atentados suicidas
contra civis israelenses.)
NOTAS
1. "A World-Wide Intifada? Why?" Counterpunch,
www.counterpunch.ora/cook1207.html (visitado pela última vez em 6 de
abril de 2003).
2. "Israel: Five decades of pillage and ethnic cleansing", Marxism Alive
Website, www.marxismalive.org/israelfive3.html (visitado pela última vez
em 6 de abril de 2003).
3. O mesmo seria verdadeiro a respeito da proposta da Comissão Peel.
Norman G. Finkelstein, um polemista anti-sionista, argumenta que "as
únicas comparações demográficas apropriadas são entre as populações
árabe e judaica na Palestina toda e, discutivelmente, entre as populações
árabe e judaica na região da Palestina que mais tarde se tornou Israel" (a
ênfase é nossa). Said e Hitchens p. 65. Isso é falso. A fim de verificar a
justiça da partição da ONU em 1947, a comparação relevante é entre as
populações judaica e árabe na área alocada ao Estado judeu por essa
partição. O fato de Israel ter ganho mais território depois de ter sido atacado
pelos exércitos árabes e guerreiros palestinos não é relevante à justiça do
plano de partição original. 
 
A vitimação dos palestinos por
Israel foi a principal causa do
conflito árabe-israelense?
A ACUSAÇÃO
Israel é a causa do conflito árabe-israelense.
OS ACUSADORES
"Não há simetria nesse conflito. Isso deve ser dito. Eu sinceramente
acredito. Há um lado culpado e há vítimas. Os palestinos são as vítimas"
(Edward Said)1
A REALIDADE
A rejeição árabe ao direito de existência de Israel tem sido há tempos a
causa do problema.
A PROVA
A repetida rejeição pelo grão-mufti, pela Organização de Libertação da
Palestina, pelo mundo árabe e pelo povo palestino da solução de dois
Estados (ou Lar Nacional) de 1937, quando foi oficialmente proposta pela
primeira vez, até recentemente, é a raiz do conflito. A razão para a rejeição
tem sido que a maioria dos líderes árabes e muçulmanos se preocupava
mais em negar aos judeus o direito de autodeterminação naquelas áreas da
Palestina onde eram uma maioria do que em exercer seu próprio direito à
autodeterminação nas áreas de maioria muçulmana. Essa triste realidade é
demonstrada pelas palavras de tantos líderes palestinos e árabes ao longo de
muito tempo. Essa realidade vai além de uma disputa razoável. Quando a
Comissão Peel questionou o grão-mufti, em 1937, ele não só se recusou a
aceitar qualquer governo judaico autônomo, "poder político" ou
"privilégio", mas categoricamente se recusou a "dar garantias para a
segurança da população judaica no caso de um Estado árabe palestino". Isso
tornava certo, evidentemente, que não haveria Estado palestino ou divisão
federal. Depois de o grão-mufti concluir seu depoimento, o comitê "notou
com ironia":
Não estamos questionando a sinceridade ou a humanidade das intenções
do mufti e as de seus colegas, mas não podemos esquecer o que aconteceu
recentemente, apesar das provisões dos tratados e garantias explícitas, à
minoria assíria no Iraque; nem podemos esquecer que o ódio dos políticos
árabes pelo Lar Nacional jamais foi escondido e que agora permeou a
população árabe como um todo.2
Pouco mudou ao longo dos anos. A rádio oficial da Autoridade Palestina
transmitiu um sermão em 30 de abril de 1999, no qual foi dito o seguinte:A terra da Palestina muçulmana é uma unidade que não pode ser dividida.
Não há diferença entre Haifa e Shechem (Nablus), entre Lod e Ramallah e
entre Jerusalém e Nazaré... a terra da Palestina é terra waqf sagrada para
o benefício de todos os muçulmanos, a leste e oeste. Ninguém tem o direito
de dividi-la ou de entregar qualquer parte. A libertação da Palestina é
obrigatória para todas as nações islâmicas e não apenas para a nação
palestina.3
E, em 2002, o juiz superior do Muslim Trust em Jerusalém, indicado por
Yasser Arafat, disse o seguinte: "Toda a Palestina é terra islâmica... Os
judeus a usurparam... Não pode haver compromisso em terra islâmica".4
Uma fatwa proíbe mesmo a venda de qualquer terra palestina aos judeus,
declarando-a como sendo "um ato de apostasia e rejeição do Islã". E é
proibido, de acordo com alguns estudiosos islâmicos, aos judeus governar
muçulmanos ou terra muçulmana.5
Em anos recentes as principais lideranças palestinas finalmente disseram -
embora com certa ambiguidade e retrocesso - que aceitam a existência de
Israel desde que retorne às fronteiras que os palestinos haviam previamente
rejeitado pela violência. Mas muitos outros líderes árabes e palestinos ainda
rejeitam a solução de dois Estados. Estes incluem não apenas os Estados
que a rejeitam (tais como Síria, Irã e Líbia) e as organizações palestinas
(tais como Hamas, Hezbollah e Jihad Islâmico), mas também importantes
vozes dominantes que pretendem falar pelos palestinos. Essas vozes
incluem o professor Edward Said, da Universidade de Columbia, que tentou
colocar a sua rejeição categórica à existência de Israel em termos
"politicamente aceitáveis" para secularistas:
O único caminho razoável... é recomendar que os palestinos e os que os
apoiam renovem a luta contra o princípio fundamental que relega "não-
judeus" à subserviência na terra da Palestina histórica... Somente se a
inerente contradição entre o que, de fato, é um exclusivismo teocrático e
étnico por um lado e a genuína democracia do outro for enfrentada, pode
haver alguma esperança de reconciliação e paz em Israel/Palestina.6
O que Said deixa de mencionar é que cada Estado muçulmano e árabe,
incluindo a Autoridade Palestina, relega os judeus a uma posição muito
inferior àquela de não-judeus no dominantemente secular Israel. Said
também sugere que a alternativa para Israel seria uma "genuína
democracia", sem reconhecer que nenhum Estado árabe ou islâmico,
incluindo a Autoridade Palestina, chega perto de ser tão democrático quanto
Israel. Apesar de Israel ser de longe o Estado menos teocrático e mais
democrático no Oriente Médio - tanto por lei como pela prática -, Said
considera Israel particularmente condenável, como se fosse o único Estado
na região a elevar uma religião acima de uma outra. O ônus da explicação
por esse duplo padrão de julgamento recai apenas sobre ele.
Recentes levantamentos de opinião pública realizados por organizações de
pesquisa de opinião palestinas também mostraram que uma maioria de
palestinos não aceita a solução de dois Estudos. Numa pesquisa, 87% eram
a favor da "libertação total da Palestina".7 Mesmo Yasser Arafat - que
durante muito tempo rejeitou a solução de dois Estados, depois parecia
aceitá-la - tem sido ambíguo. Depois de assinar os acordos de Oslo, que
contemplavam uma eventual solução de dois Estados, Arafat foi
surpreendido fazendo a seguinte declaração a líderes árabes no Grand Hotel
de Estocolmo:
Nós da OLP concentraremos agora todos os nossos esforços para dividir
Israel psicologicamente em dois campos... Dentro de cinco anos teremos 6
a 7 milhões de árabes vivendo na margem ocidental e em Jerusalém. Todos
os árabes palestinos serão bem-vindos por nós. Se os judeus podem
importar todo tipo de etíopes, russos, uzbeques e ucranianos como judeus,
nós podemos importar todos os tipos de árabes... [A OLP planeja] eliminar
o Estado de Israel e estabelecer um Estado puramente palestino.
Tornaremos a vida impossível para os judeus através de guerra psicológica
e explosão populacional; os judeus não vão querer viver no meio de
árabes.8
Isso era plenamente compatível com as opiniões expressas antes por Abu
Iyad, um dos principais assessores de Arafat: "De acordo com o plano
Phased, estabeleceremos um Estado palestino em qualquer parte da
Palestina da qual o inimigo se retirar. O Estado palestino será um passo em
nossa prolongada luta pela libertação da Palestina em todos os seus
territórios".9
Quaisquer que sejam as opiniões atuais de palestinos e árabes, não se
discute que até recentemente a rejeição da solução de dois Estados era
virtualmente unânime entre palestinos e árabes. Nem se discute que essa
rejeição, durante tantos anos e tantas oportunidades de compromisso
perdidas, contribuiu muito para o derramamento de sangue. 
NOTAS
1. Entrevista no Há'aretz com Ari Shavit, "My right to return", 18 de
agosto de 2000.
2. Elpeleg, pp. 45-46.
3. Discussão irradiada pela rádio da Autoridade Palestina em 30 de abril
de 1999; liberada em relatório do escritório do primeiro-ministro de Israel e
citado no Boston Globe, 30 de junho de 2002.
4. Citado por Nissim Ratzlav-Katz, "*Joseph's inheritance", National
Review, 8 de agosto de 2002; e Charles A. Radin "Sacred sites caught in
historie conflict", Boston Globe, 30 de junho de 2002.
5. V. capítulo 16.
6. "Fifty years of dispossession", Al Ahram Weekly, 7 a l 3 de maio de
1998.
7. New York Times, 18 de maio de 2002.
8. Como citado por Yedidya Atlas, "Arafat's secret agenda is to wear
Israelis out", Insight on the News, 1° de abril de 1996, p. 16. O incidente foi
originalmente noticiado pelo diário norueguês Dagen e amplamente citado
depois.
9. Como citado pelo senador Warren Rudman, numa audiência do
Subcomitê de Comercio, Justiça, Estado e Judiciário do Comitê de Verbas
do Senado em 13 de abril de 1989. 
 
A guerra da independência de
Israel foi uma agressão
expansionista?
A ACUSAÇÃO
A guerra da independência de Israel foi uma agressão expansionista
iniciada por Israel.
OS ACUSADORES
"Para mostrar Israel como vítima, a narrativa sionista alega que exércitos
árabes do Egito, da Síria e da Jordânia atacaram Israel no dia seguinte à sua
criação, em 14 de maio de 1949 [sic]."
"Os árabes estavam atacando um Estado estabelecido com um direito
histórico, moral e legal sobre a Palestina ou estavam apenas defendendo-se
- defendendo suas terras, seus lares, seus direitos históricos - contra uma
ocupação estrangeira apoiada sucessivamente por duas potências
imperialistas, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos?"
"Em 1948 os árabes fizeram o que, não duvido, os americanos teriam feito:
defenderam-se contra uma invasão estrangeira." (M. Shahid Alam)1
A REALIDADE
Israel defendeu-se contra uma guerra de extermínio genocida.
A PROVA
Assim que Israel declarou a sua independência, o Egito, a Jordânia, a Síria,
o Iraque e o Líbano o atacaram, com ajuda da Arábia Saudita, do Iêmen e
da Líbia, Exércitos árabes, com a ajuda de terroristas palestinos, estavam
determinados a destruir o novo Estado judaico e exterminar a sua
população.
O primeiro ataque contra Israel veio pelo ar. A força aérea egípcia
bombardeou o maior centro civil israelense, a cidade de Tel Aviv. Um
relatório da Associated Press, de 17 de maio de 1948, descrevia o ataque:
"Aviões árabes atingem Tel Aviv, Tiberíades; invasores atacando postos
avançados judeus". Na verdade, como em cada ataque árabe anterior contra
os judeus, desde que os primeiros refugiados chegaram à Palestina - e
mesmo antes -, os alvos eram civis inocentes. "Despachos das capitais
árabes disseram que os exércitos de invasão de cinco nações árabes
atacavam as colônias judaicas na Palestina com aviões e artilharia."
O artigo continuava descrevendo o bombardeio de lares de civis judeus.
"Um colonizador judeu que chegou a Haifa forneceu este relato da luta na
área da Galiléia: aviões inimigos atacaram Ashdot Yaacov, Afikim e Ein
Geg, bem como Tiberíades. Ein Geg foi bombardeada dos morros além do
Jordão." A Haganah [defesa],o exército dos cidadãos israelenses,
"reivindicou ter matado 200 soldados inimigos em Malikya, na fronteira
libanesa, dentro do Estado judeu".2
Os ataques aéreos egípcios persistiram e civis foram mortos, especialmente
num ataque aéreo que tinha como alvo a estação central de ônibus em Tel
Aviv. Esforços também foram feitos para bombardear a cidade por terra. A
inexperiente força aérea israelense respondeu alvejando instalações
militares dentro e ao redor de Ama e Damasco, sem matar civis.
O modelo das lutas passadas e futuras estava assim estabelecido: os árabes
alvejariam áreas civis - cidades, vilarejos, kibutzim e moshavim -
procurando matar tantas crianças, mulheres, idosos e outros civis
desarmados quanto possível ao passo que os israelenses responderiam
alvejando soldados, equipamento militar e outros alvos legais. Os ataques
militares que tem civis como alvo violam a lei internacional e a lei da
guerra, mas esses sempre têm sido e continuam sendo os alvos escolhidos
não apenas por terroristas árabes e guerrilhas, mas também pelos exércitos
constituídos da Jordânia, do Egito, da Síria e do Iraque. Esse é
simplesmente um fato histórico, e nenhum historiador militar razoável
tentou negá-lo.
Como veremos nos capítulos 13 e 20, as tropas regulares de Israel não
responderam alvejando centros populacionais árabes, como Amã, Damasco
e Cairo, apesar de essas cidades terem estado bem ao alcance da força aérea
de Israel. O exército de Israel como qualquer outro exército no mundo,
matou civis ao atacar alvos militares, especialmente porque os exércitos
árabes e grupos terroristas muitas vezes escondem e protegem seus alvos
militares por deliberadamente os cercarem de escudos civis. Por outro lado,
Israel tem suas bases militares isoladas tanto quanto possível dos seus
centros de população civil. Existe, evidentemente, uma enorme diferença
em moralidade, bem como na lei entre alvejar expressamente civis, como os
árabes têm feito há tempo, e atingir civis colateralmente, que se encontram
próximos a alvos militares apropriados que oferecem um perigo contínuo. O
primeiro é um crime contra a humanidade, absolutamente proibido pela lei
internacional. O segundo é permissível sob as leis da guerra desde que a
resposta seja proporcional e razoável e esforços sejam feitos no sentido de
minimizar as inevitáveis perdas de civis.
A guerra da independência de Israel foi iniciada pelos árabes, cujo objetivo
expresso era o genocídio. "Assassinem os judeus" e "Joguem os judeus ao
mar" eram os gritos de guerra dos exércitos invasores. O exército árabe de
libertação era comandado por Fawzi al- Qawuqji, que havia passado os
anos de guerra na Alemanha, irradiando a mensagem nazista para o mundo
árabe. Outros antigos defensores do nazismo também participaram dessa
guerra de extermínio contra os judeus, muitos dos quais eram sobreviventes
do Holocausto, Os meios iniciais escolhidos eram alvejar os civis por meio
de "grandes ataques terroristas urbanos, provavelmente preparados com a
aprovação pessoal de Husseini".3 Os exércitos árabes também massacraram
civis mesmo depois de esses se renderem. Eles repetida e deliberadamente
atiraram bombas sobre centros de população civil, longe de qualquer
legítimo alvo militar. O "principal fabricante de bombas de Husseini, Fawzi
iil-Katab, havia aprendido seu ofício num curso da SS na Alemanha
nazista".4 O objetivo era terminar o trabalho que Hitler havia iniciado:
"Esta será uma guerra de extermínio".5 Mas o professor Edward Said
insiste em chamar o ataque de 1947-1948 contra Israel de "a guerra
palestina bicomunal!"7
Com grande custo em vidas humanas - Israel perdeu 1% da sua população
total -, o despreparado exército de Israel derrotou os exércitos árabes
invasores e os atacantes palestinos. Ganharam em grande parte porque,
como Morris argumenta, seus valores eram muito mais fortes. Eles tinham o
"estímulo que aumenta a disposição moral" de lutar pelo seu próprio lar e
seus campos (em muitos casos literalmente] e na defesa dos seus entes
queridos. Além disso, como durante a primeira metade "civil" da guerra, os
judeus sentiam que enfrentariam uma matança se fossem derrotados. Com a
memória do Holocausto ainda viva em suas mentes, as tropas da Haganah
estavam imbuídas de ilimitada motivação.7
Por outro lado, os soldados árabes estavam envolvidos numa guerra
agressiva, longe de casa, e por uma "causa algo abstrata"8
Ao derrotar os exércitos árabes, Israel conquistou mais terra do que lhe
havia sido concedida pela partição da ONU. Grande parte da terra recém-
conquistada tinha uma significativa população judaica e também colônias,
como na Galiléia ocidental. Essa terra tinha de ser conquistada para garantir
a segurança dos seus residentes civis judeus. Os egípcios e Jordanianos
também conquistaram terra, mas pela simples razão de aumentar o seu
território e de controlar seus residentes palestinos. De fato, ao final da
guerra, de acordo com Morris, o "plano de guerra árabe mudou... para uma
tomada de terra visando as áreas árabes do país. Os "planos" árabes em
andamento deixaram de atribuir o que quer que fosse aos palestinos ou de
considerar suas aspirações políticas".9
Uma parte importante do plano árabe era completar a "marginalização" dos
palestinos.10 Os jordanianos queriam a margem ocidental e os egípcios
queriam a faixa de Gaza. Ninguém queria um Estado palestino
independente. Ninguém pode culpar Israel pela decisão egípcia e jordaniana
de ocupar terras alocadas aos palestinos para um Estado e por negar aos
palestinos o direito à autodeterminação nessas terras. Esses são fatos
históricos incontroversos não sujeitos a uma discussão razoável, mas
omitidos pelas pseudo-histórias pró-palestinos do período. A ocupação da
Palestina pela Jordânia e pelo Egito jamais foi condenada pela ONU nem
foi alvo de expressão de preocupação dos grupos de direitos humanos. De
fato, nem os palestinos fizeram grandes protestos. 
NOTAS
1. "Zionist theses and anti-theses", THE Palestine Chronicle, 27 de
novembro de 2002; www.palestinechronicle.com/article.php?
story=2002112719193028 (visitado pela última vês em 7 de abril de 2003).
2. Relatório da Associated Press publicado no The Morning Call
Allentown. Pa., em 17 de maio de 1948.
3. Morris, p. 201.
4. Ibid.
5. Ibid., p.219.
6. Said e Hitchens, p. 266.
7. Morris, p. 233.
8. Ibid.
9. Ibid., p. 221.
10. Ibid., pp. 221-222.
 
Israel criou o problema dos
refugiados árabes?
A ACUSAÇAO
Israel criou o problema dos refugiados árabes.
OS ACUSADORES
"O Estado de Israel foi estabelecido como um projeto colonial patrocinado
por várias potências coloniais, por diferentes motivos. Por não ser possível
estabelecer um Estado judeu na Palestina sem expulsar a população nativa,
que constituía a maioria da população, a guerra de 1948 ensejou uma
cobertura para a sua ampla e sistemática expulsão." (Azmi Bishara, membro
do Knesset de Israel,)1
Shavit: "E, em 1948, a responsabilidade moral pela tragédia palestina
daquele ano recai apenas sobre os judeus? Os árabes não têm também parte
da culpa?"
Said: "A guerra de 1948 foi uma guerra de desalojamento. Naquele ano
aconteceu a destruição da sociedade palestina, a substituição dessa
sociedade por uma outra, e a expulsão daqueles que eram considerados
indesejáveis - os que estavam no caminho. Para mim é difícil dizer que toda
a responsabilidade está de um lado. Mas a parte do leão na responsabilidade
pelo despovoamento de cidades e sua destruição definitivamente está com
os judeus sionistas. Yitzhak Rabin expulsou os 50 mil habitantes de Ramia
e Lydda, de modo que, para mim, é difícil ver outro como responsável por
isso. Os palestinos só eram responsáveis por estar lá". (Edward Said)2
"Os israelenses fizeram uma 'limpeza étnica' durante a guerra de 1947-
1948. 'Ninguém acredita' na pretensão sionista de que líderes árabes
'disseram aos palestinos para sair... Ninguém mais nem afirma isso'. Benny
Morris mostrou que a população árabe 'foi expulsa' pelos israelenses."
(Noam Chomsky)3
AREALIDADE
O problema foi criado por uma guerra iniciada pelos árabes.
A PROVA
A guerra agressiva desfechada contra Israel em 1947 e 1948 pelos exércitos
palestinos e árabes não só tirou terra dos palestinos, mas também criou o
primeiro problema dos refugiados. Enquanto os exércitos árabes
procuravam matar civis judeus e, de fato, massacraram muitos que tentaram
fugir o exército de Israel permitiu que civis árabes fugissem para áreas
controladas pelos árabes. Por exemplo, quando o Sexto Batalhão da Legião
Árabe conquistou Kfar Etzion, eles não deixaram nenhum refugiado judeu.
Os habitantes renderam-se e caminharam, com mãos ao alto, para o centro
da vila. Morris relata que os soldados árabes simplesmente os
"dizimaram".4 Os soldados massacraram 120 judeus; 21 deles eram
mulheres. Isso fazia parte de uma política árabe geral: "Judeus tomados
como prisioneiros durante as batalhas geralmente eram executados ou
frequentemente mutilados pelos seus apreensores".5 É precisamente porque
o exército de Israel, ao contrário dos árabes, não matou civis
deliberadamente, que surgiu o problema dos refugiados.6
Vários problemas distintos, apesar de sobrepostos, de refugiados foram
criados pelo ataque árabe sobre Israel em 1947 e 1948. O primeiro foi
criado entre dezembro de 1947 e março de 1948, durante os ataques dos
palestinos nos meses antes da invasão dos exércitos pan-árabes. De acordo
com Benny Morris, historiador bastante crítico em relação a Israel e aos
sionistas e especialista no problema dos refugiados, "os Yishuv [os judeus
da Palestina que em breve iriam tornar-se israelenses] estavam na defensiva
e os árabes das classes alta e média fugiram - algo como 75 mil". Morris
descreveu como as famílias que tinham meios para mudar para o Cairo,
Amã ou Beirute o fizeram, esperando retornar como haviam feito depois da
violência do fim da década de 1930. Entre aqueles que saíram estavam
"muitos dos líderes políticos e/ou suas famílias... incluindo a maioria dos
membros do Comissariado Árabe e do Comitê Nacional de Haifa". Estes
notáveis, de acordo com Morris, "poderiam ter temido uma Palestina
governada por Husseini" tanto quanto estavam preocupados com o domínio
judaico.
Morris destacou que o conflito árabe-judaico era apenas parte de "um
colapso mais amplo da lei e da ordem na Palestina depois da resolução de
partição da ONU". Os serviços públicos entraram em colapso depois da
saída dos britânicos e sua substituição por "tropas irregulares árabes que
extorquiam dinheiro de famílias prósperas e ocasionalmente maltratavam
pessoas nas ruas".7
O segundo problema dos refugiados começou quando a Haganah, o exército
judeu oficial de defesa, começou a ganhar a ofensiva entre abril e junho de
1948. Uma vez capturadas Haifa e Jafa pelos israelenses, começou um
efeito dominó, com a fuga das cidades levando à fuga das aldeias
circunvizinhas, o que, por sua vez, levou à fuga de outras aldeias.
Ao contrário da caracterização de Noam Chomsky sobre as conclusões de
Morris - Chomsky afirma que Morris não acredita que quaisquer líderes
árabes "tenham dito aos palestinos para sair" -, Morris na verdade afirma
que:
Em algumas áreas os comandantes árabes ordenaram aos habitantes das
aldeias que evacuassem a área, para deixarem-na livre para fins militares
ou para impedir a rendição. Mais de meia dúzia de aldeias - ao norte de
Jerusalém e na baixa Galiléia - foram abandonadas durante esses meses
como resultado de tais ordens. Em outros lugares, a leste de Jerusalém e
em muitas aldeias pelo país, os comandantes [árabes] ordenaram que
mulheres, idosos e crianças fossem mandados embora, que saíssem do
caminho. De fato a preparação psicológica para a remoção dos
dependentes do campo de batalha havia começado em 1946-1947, quando
o Alto Comissariado Árabe e a Liga Árabe tinham endossado
periodicamente tal movimento ao contemplarem a guerra futura na
Palestina.8
Morris estima que entre dois e três mil árabes fugiram de seus lares durante
essa fase da luta iniciada por seus líderes.
Novamente, ao contrário da caracterização de Chomsky, do ponto de vista
de Morris, durante a primeira fase "não havia política sionista para expulsar
os árabes ou intimidá-los a fugir", apesar de alguns certamente terem ficado
felizes de vê-los partir. Durante o segundo estágio também "não havia uma
política abrangente de expulsão",9 mas as ações militares da Haganah
certamente contribuíram para a fuga. Tal fuga dos campos de batalha ocorre
na maioria das guerras, quando o lado vencedor o permite, em vez de
procurar matar aqueles que tentam fugir, como fizeram os árabes. Há pouca
dúvida de que se os exércitos árabes tivessem capturado cidades judaicas
não teriam permitido aos civis fugir para outras cidades judias. Eles os
teriam massacrado para impedir a criação de um problema de refugiados
judeus no Estado árabe que esperavam resultasse de uma vitória árabe.
O grão-mufti declarou uma "guerra santa" e deu ordem a seus "irmãos
muçulmanos" para "assassinar os judeus, assassiná-los todos".10 Não
deveria haver sobreviventes nem refugiados. A posição do grão-mufti
sempre tinha sido de que uma Palestina Árabe não podia absorver nem
mesmo 400 mil judeus.11 Em 1948 a população judaica passava de 600 mil.
O extermínio, não a criação de uma difícil população de refugiados, era o
objetivo do ataque árabe contra populações civis judaicas. Como o
secretário-geral da Liga Árabe, Abd al-Ahlman Azzah Pasha disse
claramente: "Esta será uma guerra de extermínio e de massacres
monumentais, da qual se falará como dos massacres mongóis e das
cruzadas". O porta-voz do grão-mufti, Ahmad Shukeiry clamou pela
"eliminação do Estado judeu" com relação aos objetivos do ataque árabe.
Não se falava, nem havia planejamento, sobre uma grande população de
refugiados judaicos no caso de uma vitória árabe. "Não importa quantos
[judeus] existem. Nós os jogaremos no mar", proclamou o secretário-geral
da Liga Árabe.12 Os judeus entenderam perfeitamente que "estariam diante
de uma matança, caso fossem derrotados".13
Israel, por outro lado, estava preparado para dar plena cidadania a qualquer
número de árabes remanescentes no Estado judeu. Apesar de muitos judeus
certamente preferirem uma minoria árabe mais reduzida, as organizações
Judaicas oficiais não tomaram atitudes para assegurar uma redução geral da
população árabe, apesar de os comandantes militares israelenses terem
ordenado a evacuação de várias aldeias hostis que haviam servido de base
para unidades árabes irregulares, que estavam impedindo o acesso à estrada
principal para Jerusalém e que "eram uma permanente ameaça tanto para as
comunicações Norte-Sul como Leste-Oeste (Tel Aviv-Jerusalém)"14
Apesar de não ser a política da Haganah incentivar a fuga de árabes locais,
isso certamente parece ter sido a política do Irgun (ou Etzel), a ala
paramilitar do movimento revisionista liderado por Menachem Begin, e do
Lechi (ou grupo Stern), liderado por Yitzhak Shamir. Em 9 de abril de
1948, unidades paramilitares lutaram numa difícil batalha peio controle de
Deir Yassin, uma importante aldeia árabe no caminho para Jerusalém. A
batalha foi feroz, com as forças do Etzel e do Lechi perdendo mais de um
quarto de seus combatentes. Os combatentes judeus estavam bloqueados
pelo fogo de atiradores de elite e jogaram granadas pelas janelas de muitas
casas. A maioria dos habitantes fugiu. Um carro blindado do Etzel com
alto-falantes exigiu que os civis remanescentes depusessem as suas armas e
deixassem as suas casas. Morris relata que "o carro ficou atolado numa
valeta"15 e que a mensagem não foi ouvida. A luta continuou e, quando
terminou, 100 a 110 árabes estavam mortos.16
Muitos dos mortos eram mulheres, porque os guerreiros árabes vestiam-se
de mulheres e atiravam nos israelenses que haviam "se rendido"17 - uma
tática empregada por alguns iraquianos em 2003. Algumas crianças e
alguns idosos também foram mortos. Apesar de ter havido, e continuar
havendo, uma considerável disputa em torno das circunstâncias dessas
mortes, o acontecimentofoi chamado de massacre e, à medida que a notícia
se espalhava, contribuiu para a fuga dos árabes das aldeias circunvizinhas.
"Cada um tinha um interesse" em divulgar e exagerar o número de pessoas
mortas e a brutalidade das matanças. O lado árabe queria desabonar os
judeus argumentando - com bastante hipocrisia à luz de sua própria política
de deliberada mente massacrar civis ao longo das décadas - que os judeus
eram piores do que eles. Os britânicos também queriam desabonar os
judeus. Etzel e Lechi queriam "provocar o terror e amedrontar os árabes
para que fugissem". E a Haganah queria "manchar" o Etzel e o Lechi.18
A Haganah e a Agência Judaica - os órgãos oficiais do futuro Estado -
imediatamente condenaram o massacre e os que haviam participado dele.
Uma nota formal de desculpas e explicações foi enviada ao rei Abdullah.
De fato, o massacre de Deir Yassin certamente contribuiu para a
controvertida decisão de Ben-Gurion - o primeiro primeiro-ministro de
Israel - de desarmar, pela força, esses grupos paramilitares em junho de
1948. Mas o efeito de Deir Yassin e da publicidade em torno disso foi
certamente o de provocar mais fugas dos árabes.
Alguns líderes palestinos na realidade fizeram circular falsos boatos de que
mulheres haviam sido violentadas. Quando confrontado com a realidade de
que isso não havia acontecido, Hussein Khalidi, um líder palestino, disse:
"Temos que dizer isto, de modo que os exércitos árabes venham para nos
libertar dos judeus".19 Hazam Nusseibi, que, na época, era um jornalista,
declarou à BBC anos depois que a deliberada invenção das acusações de
estupro "foi o nosso maior erro... tão logo ouviram que mulheres haviam
sido violentadas em Deir Yassin, os palestinos fugiram aterrorizados".20
Deir Yassin destaca-se na história do conflito árabe-judaico na Palestina
precisamente porque era tão fora do comum e não característico dos judeus.
Nenhum massacre árabe de judeus tem esse status porque são numerosos
demais para serem listados. Mas cada criança árabe na escola e cada
divulgador sabe e fala de Deir Yassim, enquanto poucos mencionam
Hebron, Kfar Etzion, o hospital Hadassah, Safed e os muitos outros futuros
massacres árabes bem planejados contra os judeus, exceto quando
extremistas orgulhosamente os assumem como mérito próprio.
Os árabes vingaram a agressão sofrida pelo massacre de Deir Yassin, não
atacando os responsáveis por tê-lo praticado - alvos militares do Etzel ou do
Lechi -, mas cometendo deliberadamente um massacre muito mais
premeditado por sua conta. Num bem planejado ataque, quatro dias depois
de Deir Yassin, as forças árabes fizeram uma emboscada contra um
comboio civil de médicos, enfermeiras, professores de escola de medicina e
pacientes que se dirigia ao hospital Hadassah para tratar dos doentes,
assassinando setenta deles. Para assegurar-se de que não havia
sobreviventes, os atacantes árabes cobriram os ônibus e carros do pessoal
médico com gasolina "incendiando-as".21
Não foram oferecidas desculpas ou explicações por esse massacre
cuidadosamente planejado de não-combatentes médicos. As forças de Israel
não se vingaram pelo massacre de Hadassah alvejando civis árabes. Saíram
atrás daqueles assassinos armados que perpetraram o ataque. Deir Yassin
permaneceu uma mancha isolada, apesar de trágica e imperdoável, das
ações paramilitares israelenses na defesa de sua população civil22 enquanto
o alvejamento deliberado de civis permaneceu - e ainda permanece - como
política dos grupos terroristas palestinos, bem como de muitos governos
árabes.
Uma outra fase do problema dos refugiados árabes aconteceu quando a
Haganah ganhou a batalha de Haifa em fins de abril de 1948. De acordo
com Morris; "Os líderes árabes, preferindo não render-se, anunciaram que
eles e a sua comunidade pretendiam evacuar a cidade, apesar de um pedido
do prefeito judeu para que ficassem".23 De modo similar, em Jafa, a feroz
luta com muitas perdas judaicas causou pânico entre a população árabe da
cidade e muitos fugiram. Morris escreve que "o comportamento dos
militares árabes de Jafa também contribuiu: eles saquearam as casas vazias
e ocasionalmente roubaram e abusaram dos habitantes remanescentes".
Quando visitou Jafa depois da luta ter arrefecido, David Ben-Gurion
escreveu no seu diário "Eu não consegui entender. Por que os habitantes...
saíram?"24
Evidentemente Jafa permaneceu uma cidade árabe e, atualmente, a sua
população inclui milhares de árabes. Haifa permaneceu uma cidade mista,
cuja população atual também inclui milhares de árabes. Algumas outras
cidades e aldeias das quais os árabes fugiram permanecem mistas
atualmente, enquanto outras não viram um retorno da população árabe.
Morris, que é um crítico feroz da história tradicional de Israel com relação
ao assunto dos refugiados, resume o problema causado pelo ataque
palestino e pan-árabe: "O problema dos refugiados palestinos nasceu da
guerra, não foi planejado... A liderança árabe dentro e fora da Palestina
provavelmente ajudou a precipitar o êxodo... Não há evidência de uma mão
dirigente ou de um controle central".25 Morris afirma que durante os
primeiros meses a fuga das classes média e alta das aldeias despertou pouco
interesse árabe".26
Parecia uma repetição do êxodo que havia tido lugar nos motins dos fins da
década de 1930 e os Husseinis "provavelmente estavam felizes porque
muitas dessas famílias ricas, ligadas à oposição, estavam partindo".27
Morris salienta que "nenhum governo árabe fechou suas fronteiras ou de
alguma outra forma tentou deter o êxodo".28 Finalmente, Morris nota que
esses refugiados seriam utilizados durante os anos seguintes pelos Estados
árabes como um importante penhor político e de propaganda contra Israel.
A memória ou memória vicária de 1948 e das décadas subsequentes de
humilhação e privação nos campos de refugiados afinal transformaria
gerações de palestinos em terroristas ativos ou em potencial e o "problema
palestino" em um dos mais intratáveis do mundo.29
Nos seus discursos públicos Noam Chomsky descaracteriza as conclusões
de Morris dizendo às suas audiências que Morris não alega - de fato,
Chomsky diz que, atualmente, ninguém alega - que os líderes árabes
contribuíram para a fuga dos palestinos. Ele afirma (erradamente) que
Morris coloca toda a culpa em Israel, que jamais "houve tais chamados"
pelos líderes árabes e que essa história era "propaganda sionista" que foi
"abandonada há quase 15 anos" e "na qual ninguém acredita".30 A verdade,
evidentemente, é que Morris realmente conclui que alguns "comandantes
árabes ordenaram a evacuação das aldeias" e que a Liga Árabe
"periodicamente havia endossado esse movimento".
Morris, e outros historiadores como Chomsky, considera a responsabilidade
da criação do problema dos refugiados de ambos os lados e conclui que
nenhum lado deliberadamente o causou "intencionalmente", mas que "a
liderança árabe dentro e fora da Palestina ajudou a precipitar o êxodo" -
uma conclusão, assegura Chomsky à sua audiência, "na qual ninguém
acredita", especialmente Morris. É sempre importante verificar as fontes
citadas por Chomsky, especialmente quando discute sobre Israel.
Nas suas memórias de 1972, o antigo primeiro-ministro da Síria, Khalid al-
Azim, pôs toda a culpa pelo problema dos refugiados sobre os árabes:
Desde 1948 somos nós que exigimos o retorno dos refugiados... enquanto
fomos nós que os fizemos sair... Trouxemos a desgraça sobre... refugiados
árabes por convidá-los e fazendo pressão sobre eles para saírem...
Transformamo-los em miseráveis... Acostumamo-los a esmolar...
Participamos na redução de seu nível moral e social... Depois exploramo-
los na execução de crimes de assassinato, incêndios e de arremesso de
bombas sobre... homens, mulheres e crianças - tudo isso a serviço de fins
políticos.31
Mesmo Mahmoud Abbas (Abu Mazen), o primeiro-ministro da Autoridade
Palestina, acusou os exércitos árabes de terem abandonado os palestinos
depois de os "terem forçado a emigrar e a deixar sua pátria e os jogaram em
prisões similares a guetosnos quais os judeus costumavam viver".32
Outras fontes simpatizantes da causa árabe concordam. Em 1980 o Comité
Nacional Árabe, em Haifa, escreveu um memorando aos Estados árabes que
incluía o seguinte: "A remoção dos habitantes árabes... foi voluntária e foi
executada a nosso pedido. A delegação árabe orgulhosamente solicitou a
evacuação dos árabes e sua remoção para os países árabes vizinhos...
Estamos muito contentes em poder afirmar que os árabes guardaram a sua
honra e as tradições com orgulho e grandeza".33 E um relatório de pesquisa
feita pelo Instituto para Estudos Palestinos, subvencionado pelos árabes,
concluiu que a maioria dos refugiados árabes não foi expulsa e que 68%
deles "saíram sem ver um soldado israelense".34 No mínimo, o problema é
demasiadamente complexo e multifacetado para permitir apontar apenas
para uma direção.
Existe alguma disputa sobre o número total de árabes que deixaram as suas
cidades, aldeias e vilarejos como resultado dos ataques palestinos e árabes
sobre os judeus. Há ainda maior discordância sobre a proporção dos que
partiram por sua vontade, foram expulsos, ou ouviram dos árabes que
deveriam partir. Também há considerável discordância sobre quanto tempo
muitos desses refugiados realmente tinham vivido nas áreas das quais
saíram. E há pouca concordância sobre quantos árabes, que atualmente se
denominam refugiados da guerra de 1947-1948, realmente pertencem a essa
categoria.
A maioria dos estudiosos tem calculado o número total de refugiados árabes
dos ataques palestino-árabes de 1947-1948 entre 472 mil e 750 mil. O
mediador da ONU na Palestina calculou apenas 472 mil, dos quais 360 mil
necessitaram de ajuda.35 A contagem oficial de Israel foi de 520 mil.
Morris considera 700 mil. Os palestinos chegaram ao total de 900 mil.
Qualquer que seja o número real, é impossível subdividir esse número total
em voluntários, obrigados ou alguma combinação de fatores. Como Morris
conclui: "A criação do problema era quase inevitável, dada a mistura
geográfica das populações, a história da hostilidade árabe-judaica desde
1917, a rejeição, por ambos os lados, de uma solução binacional [diferente
de uma solução de dois Estados] e a profundidade da animosidade árabe aos
judeus e receios de cair sob o governo judaico".36 Dito de outro modo, a
última coisa que muitos árabes desejavam era permanecer como cidadãos
de minoria no Estado judeu de Israel nas aldeias e nos lares que haviam
abandonado.
O reivindicado direito ao retorno jamais contemplou o seu retorno como
grupo de minoria, com base em qualquer desejo pessoal de viver numa
determinada cidade ou casa no Estado de Israel. O direito ao retorno sempre
contemplou o regresso como grupo majoritário de modo a eliminar o Estado
judeu e viver num Estado muçulmano. Em 4 de agosto de 1948, Emile
Ghoury, secretário do Alto Comissariado Árabe, declarou ao Beirut
Telegraph que "é inconcebível que os refugiados devessem ser mandados de
volta aos seus lares enquanto esses estão ocupados pelos judeus... serviria
de primeiro passo na direção do seu reconhecimento de Israel".37 Pouco
tempo depois, o ministro do Exterior egípcio reconheceu que "é bem sabido
e entendido que os árabes, ao exigirem o retorno dos refugiados a Palestina,
consideram o seu retorno como donos de sua pátria e não como escravos.
Mais explicitamente: eles pretendem aniquilar o Estado de Israel".38 Em
outras palavras, os refugiados não eram fundamentalmente uma
preocupação humanitária, mas uma tática política desenvolvida para
produzir a pretendida destruição de Israel. Certamente ninguém esperaria
que Israel facilitasse seu próprio politicídio.
Quanto ao tempo em que esses refugiados realmente viveram nas aldeias e
cidades que abandonaram, o próprio Morris documenta que como resultado
de "processos econômicos e sociais que haviam iniciado em meados do
século XIX [bem antes da primeira Aliyah] grandes partes da população
rural [haviam] ficado sem terra" antes dos acontecimentos de 1947-1948:39
Consequentemente, havia uma constante e crescente mudança populacional
do interior para barracos e favelas urbanos; em algum grau isso levou a uma
separação física e psicológica da terra. [Eles também] perderam seus meios
de sustento. Para alguns o exílio pode ter vindo como uma opção atraente,
pelo menos até que a Palestina se acalmasse.40
A ONU, reconhecendo que muitos dos refugiados não haviam vivido muito
tempo nas aldeias que abandonaram, tomou uma invulgar decisão de mudar
a definição de refugiado - apenas com a finalidade de definir quem é um
refugiado árabe de Israel - para incluir qualquer árabe que tivesse vivido em
Israel por dois anos antes de partir.41 Além disso, um árabe era considerado
refugiado se ele se mudasse a apenas algumas milhas de uma parte da
Palestina para outra - mesmo se ele retornasse à aldeia em que havia vivido
antes e na qual a sua família ainda vivia, saindo de uma aldeia para a qual
se mudara apenas dois anos antes. De fato, um número significativo de
refugiados palestinos simplesmente mudou de uma parte da Palestina para
outra. Alguns preferiram viver numa área controlada pelos árabes e não
pelos judeus, assim como os judeus que haviam vivido em cidades que
caíram sob controle árabe escolheram mudar para o lado israelense da
partição. Os judeus que se mudaram a algumas milhas (mesmo aqueles que
não tinham escolha) não eram chamados de refugiados, mas os árabes que
se mudaram a mesma distância eram chamados assim. Foi a definição de
refugiado mais incomum na história.
Ao contrário de todos os outros refugiados no mundo, os refugiados
palestinos são tratados por uma agência especifica da ONU, com uma
definição diferenciada e uma missão separada. Se a definição padrão de
refugiado (que se aplica a todos os outros grupos de refugiados) fosse
aplicada aos palestinos, o número de refugiados palestinos cairia
assustadoramente.
O Alto Comissariado para Refugiados da ONU (UNHCR), a agência geral
para refugiados que serve outros grupos que não os palestinos, inclui na sua
definição de refugiado alguém que (1) sai por "um receio bem-
fundamentado de ser perseguido", (2) está "fora do país de [sua]
nacionalidade" e (3) "não tem condições... ou não deseja beneficiar-se da
proteção daquele país". Mas a Agencia de Socorro e Trabalhos da ONU
(UNRWA), a agência específica para refugiados palestinos, aplica um
conjunto de diretrizes muito mais amplo. Define palestinos como
refugiados, independentemente de saber se saíram devido a "um bem-
fundamentado receio de perseguição" e independentemente do país em que
vivem. Especificamente a UNRWA define um refugiado palestino como
alguém (1) "cujo lugar normal de residência era a Palestina entre junho de
1946 e maio de 1948" e (2) "que perdeu tanto seus lares como seus meios
de subsistência em resultado do conflito árabe- israelense de 1948"
(independentemente do motivo da saída). Além disso, a UNRWA define
como refugiados todos os descendentes dos que satisfazem esses dois
critérios.42 Além disso, a UNHCR e a UNRWA têm missões diferentes. A
UNHCR deve encontrar lures permanentes para refugiados. O mandato da
UNRWA não se preocupa com soluções permanentes e é planejada apenas
para manter e apoiar os palestinos dentro dos campos de refugiados, onde
muitos se encontram hoje. Com sua ampla definição de refugiado e uma
missão voltada para a dependência, a contagem de refugiados da UNRWA
subiu de menos de um milhão em 1950 para mais de 4 milhões (incluídos
os números até hoje).43
Esse enfoque da questão dos refugiados foi planejado para impedir sua
solução e para permitir que se inflamasse e mesmo fosse exacerbada. O
problema dos refugiados árabes poderia ter sido facilmente solucionado
entre 1948 e 1967 quando a Jordânia controlava e havia anexado a margem
ocidental, que era uma área sub-habitada e subcultivada, Mas, em vez de
integrar os refugiados numa sociedade religiosa, linguística e culturalmente
idêntica, eles foram segregados em guetos chamados de campos de
refugiados e submetidos a viver das esmolasda ONU, enquanto recebiam
propaganda sobre o seu glorioso retorno à aldeia do outro lado da estrada,
que havia sido o seu lar por apenas dois anos.
Mais ou menos na mesma época em que entre 472 mil e 750 mil árabes se
tornaram refugiados de Israel, dezenas de milhões de outros refugiados
haviam sido "criados" como resultado da Segunda Guerra Mundial. Em
praticamente todos esses casos, os refugiados foram deslocados de lugares
nos quais eles e seus antepassados haviam vivido por décadas, algumas
vezes séculos - certamente mais do que os dois anos requeridos para serem
considerados refugiados palestinos. Por exemplo, os alemães sudetos, que
foram removidos em massa para fora das fronteiras da Checoslováquia,
haviam vivido lá por centenas de anos. Os judeus da Europa - o que sobrou
deles depois do Holocausto - haviam vivido na Polónia, Alemanha,
Checoslováquia, Hungria e União Soviética por centenas de anos.
Como resultado de terem vivido no que se tornou Israel por apenas dois
anos, milhares e milhares de árabes e seus descendentes foram mantidos em
campos de refugiados por mais de meio século para serem usados como
trunfos políticos num esforço de demonizar e destruir Israel. Durante esse
mesmo período muitos outros problemas de refugiados no mundo foram
solucionados pelas nações anfitriãs, aceitando e integrando a população
refugiada na sua. Trocas de população aconteceram entre várias nações -
inclusive Índia e Paquistão, Grécia e Turquia - sem a necessidade de
construir campos permanentes de refugiados. Apesar de essas mudanças
não terem sido sem dificuldade, e algumas permanecem controversas,
nenhuma criou o tipo de problemas permanentes causados pela falta de
vontade dos Estados árabes de integrarem a população árabe palestina.
Entre 1948 e 1967 dezenas de milhões de outros refugiados tornaram-se
membros produtivos das suas novas sociedades. Mas, durante os quase
vinte anos que o Egito e a Jordânia controlaram a faixa de Gaza e a margem
ocidental, a população de refugiados palestinos permaneceu em campos,
crescendo em número e desespero. Mesmo o rei Hussein, da Jordânia, que
poderia ter ajudado a solucionar o problema dos refugiados, reconheceu que
as nações árabes têm usado os refugiados palestinos como penhor desde o
começo do conflito: "Desde 1948 os líderes árabes... têm usado o povo
palestino para fins políticos egoístas. Isto é... criminoso".44
O outro problema importante de refugiados que afetou o Oriente Médio foi
a criação de centenas de milhares de judeus refugiados de países árabes e
muçulmanos nos quais haviam vivido por centenas e, algumas vezes, por
milhares de anos, mesmo antes da chegada do Islã. Maomé e seus
contemporâneos criaram um problema de refugiados quando expulsaram os
judeus da Arábia. Ainda, depois da criação do Estado judeu, a situação dos
judeus em muitos países árabes e muçulmanos tornou-se tão cheia de riscos
que muitos sentiram não ter escolha senão partir. Nos anos seguintes à
criação do Estado de Israel, cerca de 850 mil dos assim chamados judeus
árabes tornaram-se refugiados das terras onde haviam nascido. O número de
refugiados judeus dos países árabes foi ligeiramente mais alto do que o
número de refugiados árabes de Israel.
Houve uma "troca de populações", e os refugiados judeus foram forçados a
abandonar muito mais propriedade e riqueza do que os refugiados
palestinos deixaram. O patrimônio abandonado incluía casas grandes,
comércio e dinheiro. A diferença é que Israel trabalhou muito (apesar de,
nem sempre, com sucesso completo) para integrar a sua população de
refugiados na sociedade mais ampla enquanto os árabes deliberadamente
estimularam os seus refugiados a marginalizar-se, por manter tantos deles
em campos, onde muitos ainda estão, e recusar-se a integrá-los às suas
populações mais homogêneas. Isso foi feito apenas para tentar criar dúvidas
sobre a legitimidade de Israel, apesar da necessidade desesperada em alguns
países árabes subpovoados, como Síria e Jordânia, de mais trabalhadores
para servirem às necessidades econômicas intensivas de mão-de-obra
dessas nações. Mesmo depois de a Autoridade Palestina ter assumido o
controle das principais cidades da margem ocidental e de Gaza, em seguida
à implantação inicial dos acordos de Oslo II, em 1995, nenhum esforço
sério foi feito para tirar os refugiados dos campos e integrá-los na sociedade
palestina. Permanecem penhores num esforço de inundar Israel com uma
população hostil, destinada a destruir as suas características como Listado
judeu.
Existem aqueles que argumentam que os refugiados palestinos eram
diferentes dos refugiados judeus num outro aspecto: enquanto os palestinos
foram forçados a fugir de seus lares, os judeus escolheram sair de suas
antigas pátrias. Já vimos que as razões pelas quais os palestinos saíram são
complexas e não atribuíveis a um motivo tão simples e particular. Uma
breve revisão da fuga dos judeus de países árabes e muçulmanos demonstra
uma complexidade comparável e mostra que os dois problemas de
refugiados, apesar de muito diferentes nas suas soluções, eram bastante
similares nas suas causas. Um historiador resumiu a situação como segue:
Nos anos que conduziram ao estabelecimento de Israel, os judeus em
muitas partes do mundo árabe e muçulmano enfrentaram crescentes
ameaças quanto à sua segurança. Em novembro de 1945, o chefe da
comunidade judaica de Trípoli (capital da Líbia] descreveu a cena do
seguinte modo: "Os árabes atacaram os judeus em obediência a ordens
misteriosas. A sua explosão de violência bestial não tem motivo plausível.
Durante 50 horas caçaram homens, atacaram casas e lojas, mataram
homens, mulheres, idosos e crianças, torturaram horrivelmente e
mutilaram judeus isolados no interior... Para executar o massacre, os
atacantes usaram várias armas: facas, adagas, paus, barras de ferro,
revólveres e mesmo granadas de mão".45
Quando a guerra da independência começou em 1947, a violência
aumentou. Em Alepo 300 casas e 11 sinagogas foram destruídas num
pogrom, e 82 Judeus foram mortos em Aden. Motins no Iraque e no Egito
forçaram os judeus a sair desses países. Os judeus do mundo árabe foram
forçados a sair por medo de violência política extravasada para as ruas.
Nesse caso, era incentivada por incitação oficial do governo, como no
Iraque, onde o sionismo podia ser punido pela morte.46
Sabri Jiryis, um antigo advogado árabe-israelense que saiu de Israel e
tornou-se membro do Conselho Nacional Palestino, reconheceu que "os
judeus dos Estados árabes foram expulsos de seus antigos lares [e]
vergonhosamente deportados depois de terem sua propriedade confiscada...
o que aconteceu foi... uma troca de população e de propriedade e cada lado
deve arcar com as consequências... os Estados árabes... devem acomodar os
palestinos em seu próprio meio e resolver os seus problemas".47 Eles
deliberadamente agravaram os problemas.
É importante lembrar que Israel não foi o único país que ganhou território
como resultado do fracassado ataque árabe. A Jordânia ocupou - na
verdade, anexou - toda a margem ocidental enquanto o Egito ocupou a faixa
de Gaza. Não havia resoluções exigindo um fim a essas ocupações, apesar
de muitas vezes terem sido repressivas e brutais. Um observador descreveu
Gaza como "de fato, um grande campo egípcio de prisioneiros".48 Os
palestinos não pareciam incomodar-se com o fato de sua terra, aldeias e
cidades serem ocupadas conquanto não fossem ocupadas por judeus. Nem
havia queixas de alguns palestinos-especialmente cristãos - tornarem-se
refugiados das ocupações pela Jordânia e pelo Egito.49 A questão dos
refugiados de 1947-1948 foi deliberadamente deixada sem solução pelos
árabes como tática para destruir o novo Estado judeu.
Para entender como seria diferente o conflito árabe-israelense se o mundo
árabe, incluindo os palestinos muçulmanos, tivesse aceito a solução de dois
Estados quando foi proposta (ou mesmo nos anos seguintes), devemos
brevemente voltar ao Relatório da Comissão Peel. Se os árabes tivessem
aceito a proposta de partiçãoda Comissão Peei, teria havido um Estado
palestino (além da Transjordânia) na maior parte do que restou da Palestina
depois da partição da Transjordânia. A absoluta maioria dos árabes e
muçulmanos na Palestina teria vivido sob controle palestino e a minoria
árabe que vivia na terra alocada ao Estado judeu teria tido a escolha de
mudar para o Estado palestino ou de permanecer como parte da minoria
árabe no Estado judeu. O mesmo teria sido verdade para os judeus que
viviam no Estado árabe.
O Estado judeu estaria aberto à imigração e poderia ter salvo centenas de
milhares, talvez mais, de judeus europeus do Holocausto. Apesar de a área
alocada ao Estado judeu pela Comissão Peel ser pequena em comparação à
alocada ao Estudo árabe (e comparavelmente menor mesmo se fosse
incluída a Transjordânia), era suficientemente grande para absorver milhões
de refugiados, como comprova o fato de milhões de pessoas viverem nessa
área atualmente.
Não teria havido um problema de refugiados árabes se os Estados árabes
tivessem aceito a subsequente partição por parte da ONU. Mas em lugar
disso, tendo rejeitado a autodeterminação judaica em 1937, o mundo árabe
rejeitou-a novamente em 1948 e atacou Israel num esforço para destruir o
novo Estado judeu, exterminar a sua população e "jogar os judeus no mar".
Depois, novamente em 1967, ameaçou Israel com destruição e
aniquilamento.
NOTAS
1. "Caliing a spade a spade", Al Ahram Weekly, 6-12 de setembro de
2001.
2. Numa entrevista no Ha'aretz com Ari Shavit, "My right to return". 18
de agosto de 2000.
3. Palestra, Universidade de Harvard, 25 de novembro de 2002.
4. Morris, p. 214.
5. Ibid., p. 204.
6. Como veremos, os raros casos em que civis árabes foram alvejados
foram perpetrados não pelo exército de Israel, mas por tropas irregulares e
grupos paramilitares que estavam sem trabalho desde que o exército de
Israel assumiu o controle da defesa de Israel.
7. Morris, p. 255.
8. lbid., p. 256.
9. Ibid.
10. Larry Collins e Dominique Lapierre, O Jerusalem (Nova York: Simon
& Schuster, 1972), p. 400.
11. Peel Report, p. 141.
12. Morris, p. 219.
13. Ibid., p. 233.
14. Martin Gilbert, Israel: A history (Nova York: William Morrow and
Co., 1998), p. 216.
15. Morris, p. 208.
16. Ibid., p. 209. Os primeiros relatórios consideraram o elevado número
de 254 mortos, mas verificou-se que esse número era um exagero.
17. V. Uri Milstein, History of Israeli War of Independence, vol. IV, ed.
por Alan Sacks (Lanham. Md.: University Press of America, 1996), p. 262.
18. Morris, p. 209.
19. Relatório da BBC, Israel and the Arabs: The 50 Year Conflict.
20. Ibid.
21. Morris, p. 209.
22. Houve outros episódios envolvendo indivíduos e grupos paramilitares
nos quais houve alegações de massacre, mas nenhum na escala e seriedade
de Deir Yassin.
23. Morris, p. 211.
24. Ibid., p. 212.
25. Benny Morris, The birth of the palestinian refugee problem (The Birth)
(Cambridge: Cambridge University Press, 1988), pp. 286-289.
26. Ibid., p. 289.
27. Ibid.
28. Ibid., p. 290.
29. Ibid., p. 296.
30. Palestra, Universidade de Harvard, 25 de novembro de 2002.
31. Citado em Peters, p. 16.
32. "Abu Mazen charges that the arab states are the cause of the
palestinian refugee problem", Wall Street Journal, 5 de junho de 2003.
33. Peter Dodd, River without bridges (Beirute: Institute for Palestine
Studies, 1969), p. 43: como citado em Peters, p. 445, n° 21.
34. Citado em Peters, p. 13.
35. Assembléia Geral, relatórios oficiais: 3â Sessão, suplemento n° 11
(A/648), Paris, 1948, p. 47.
36. Morris, p. 253.
37. Citado em Peters, p. l 3.
38. Citado em Peters, p. 22.
39. Morris, p. 253.
40.Ibid.
41. Ruth Lapidoth, "Legal aspects of the palestinian refugee queslion",
Jerusalém Center for Public Affairs, n° 485, 24 Elul 5762,
vww.jcpa.org/il/vp485.htm
42. V. www.unhcr.ch (Office of the High Commissioner for Human
Rights) e www.un.org.unrwa/index.htmI (United Nations Relief and Works
Agency).
43. Erik Schecter, "Divided responsibilities: The U.N. and the refugees",
The Jerusalem Report, 29 de janeiro de 2002: UNHCR, "Who is a
refugee?", disponível em www.unhcr.org (visitado pela última vez em 13 de
março de 2003), citando a Convenção Relativa ao Status dos Refugiados, de
1951: UNWRA, "Who is a palestinian refugee?", disponível em
www.um.org/unwra/refugees/pl.htm (visitado pela última vez em l 3 de
março de 2003).
44. Entrevista do rei Hussein, da Jordânia, à Associated Press, janeiro de
1960; citado em Peters, p. 23.
45. David G. Littman, "The forgotten refugees", National Review, 3 de
dezembro de 2002.
46. Howard Sachar, A history of Israel (Nova York: Knopf, 1967), pp.
398-401.
47. Citado em Peters, pp. 29-30.
48. Daniel Doron, "Palestinian lies and western complicity", National
Review, 4 de agosto de 2002.
49. Bernard Caplan, "Muslims also targeted Jerusalem's christians",
Richmond Post- Dispatch, 29 de junho de 1997.
 
Israel desencadeou a Guerra dos
Seis Dias?
A ACUSAÇÃO
Israel desencadeou a Guerra dos Seis Dias.
OS ACUSADORES
"Em 1967, Israel começou as Guerra dos Seis Dias desfechando um ataque
aéreo sobre Egito, Jordânia, Síria e Iraque. Israel ocupou Jerusalém oriental,
a margem oeste e Gaza e 1,5 milhão de árabes, a maioria palestinos, caíram
sob a ocupação israelense. Mais de 300 mil palestinos foram forçados a
fugir. Israel ainda ocupa os territórios." (Eva Bjoreng, secretária-geral da
Ajuda Norueguesa ao Povo, e Steinar Sorlie, secretário-geral do Conselho
Norueguês de Refugiados.)1
A Realidade
Apesar de Israel ter dado o primeiro tiro contra o Egito - mas não contra a
Jordânia - a guerra foi iniciada pela decisão do Egito de fechar o Golfo de
Acaba à navegação israelense e de ordenar a remoção das tropas da ONU
do Sinai. 
A PROVA
Apesar de Israel ter dado os primeiro tiros, quase todos reconhecem que
Egito, Síria e Jordânia começaram a guerra. A ilegal decisão egípcia de
fechar os estreitos de Tiran pela força militar foi reconhecida pela
comunidade internacional como um ato de guerra. Como o presidente
egípcio Nasser se gabou, "sabíamos que o fechamento do Golfo de Acaba
significava guerra com Israel... o objetivo era a destruição de Israel".2 O
comandante egípcio de Sharm al-Shekh, o ponto de entrada aos estreitos
dos quais os egípcios advertiram que podiam atirar sobre qualquer navio
israelense que tentasse passar no caminho de Eilat reconheceu que "o
fechamento dos estreitos era uma declaração de guerra".3 Entretanto, de
acordo com Nasser, a guerra não dizia respeito aos estratos de Tiran, mas ao
direito de Israel a "existir".4 Tampouco era considerada a rendição de
Israel. Essa guerra, como a de 1948, estava planejada para ser uma guerra
de extermínio.
A Rádio Damasco instigou os seus ouvintes: "Massas árabes, este é o seu
dia. Corram ao campo de batalha... Deixem que eles percebam que
enforcaremos o último soldado imperialista com as entranhas do último
sionista".5 Hafiz al-Assad ordenou seus soldados sírios que "atacassem as
colônias do inimigo [civil], as transformassem em pó e pavimentassem as
estradas árabes com os crânios dos judeus. Que atacassem sem piedade".6
Ele caracterizou o ataque a Israel, que estava por vir, como uma "batalha de
aniquilação". As vozes dos árabes no Cairo exortavam para assegurar que
"Israel seja liquidado".7 O primeiro-ministro do Iraque previu que
"praticamente não haverá sobreviventes judeus".8 Cairo estava cheia de
cartazes anti-semitas "mostrando soldados árabes atirando, esmagando e
mutilando judeus barbudos, de narizes aduncos".9
Isso não era apenas retórica. Os exércitos árabes estavam aglomerando-se
ao longo da fronteira de Israel, prontos para atacar. Os planos de guerra
egípcios incluíam o massacre da população civil de Tel Aviv. Os planos
palestinos incluíam a destruição de Israel "e seus habitantes". O serviço de
espionagem de Israel relatou que o invasor exército egípcio estava equipado
com "cartuchos de gás venenoso".10 A única questão era se os exércitos
árabes conseguiriam aplicar o primeiro golpemilitar. Como o primeiro-
ministro Levi Eshkol declarou ao seu gabinete em 21 de maio de 1967, "os
egípcios planejam fechar os estreitos ou bombardear o reator atômico em
Dimona. Em seguida, um ataque geral. Seguiria-se uma guerra na qual os
primeiros cinco minutos seriam decisivos. A questão é quem iria atacar
primeiro os campos de aviação do outro".11
Depois de esgotar todas as opções diplomáticas12 e ficar sabendo que o
Egito estava preparando um ataque iminente e havia feito voos de
reconhecimento sobre o território israelense, a força aérea israelense atacou
os aeroportos egípcios, sírios e iraquianos na manhã de 5 de junho de 1967.
Teria qualquer nação razoável agido diferentemente se colocada diante de
ameaças de aniquilação comparáveis?
Israel não atacou a Jordânia esperando que esta ficasse fora da guerra,
apesar do seu tratado com o Egito. Israel enviou várias mensagens ao rei
Hussein prometendo não atacar a Jordânia a não ser que fosse atacado
primeiro. Israel deixou claro que não tinha ambições na margem ocidental,
nem mesmo no bairro judeu de Jerusalém, com o seu muro ocidental. Foi a
Legião Árabe que iniciou as hostilidades entre Jordânia e Israel.13
A Jordânia ignorou as repetidas aberturas pacíficas de Israel e começou a
bombardear os centros de população civil judaica nas principais cidades de
Israel e ao seu redor e subúrbios. Seis mil morteiros foram disparados sobre
áreas residenciais judaicas, ferindo mil civis, muitos deles gravemente.
Vinte civis foram mortos e 900 edificações danificadas. Canhões alvejaram
os subúrbios de Tel Aviv e aviões jordanianos juntaram-se aos MIGs sírios
e iraquianos no bombardeio de centros de população civil nas cidades, vilas,
kibutzim e moshavim. A Rádio Damasco orgulhosamente noticiou que: "A
força aérea síria começou a bombardear cidades israelenses".14 Era uma
repetição de 1948, em que os exércitos árabes deliberada e ilegalmente
alvejaram os centros de população civil israelense, enquanto o exército de
Israel atacavam legítimos alvos militares.
Apesar do ataque jordaniano voluntário contra civis israelenses, o exército
de Israel não respondeu, esperando que os jordanianos limitassem suas
ações militares a algumas salvas de artilharia, mas, depois que a Jordânia
enviou a sua força aérea para bombardear as vizinhanças residenciais de
Netânia, Kfar Sirkin e Kfar Saba, as forças aéreas israelenses finalmente
atacaram aeroportos militares jordanianos. Os israelenses depois aceitaram
um cessar-fogo, proposto pelo principal observador da ONU, mas os
jordanianos continuaram a lutar. Só então Israel conquistou a margem
ocidental e a Cidade Velha de Jerusalém - claramente numa guerra
defensiva contra a Jordânia, iniciada pela Jordânia depois de Israel ter
deixado claro que não desejava um conflito militar com o reinado
hashimita.
A Guerra dos Seis Dias criou ainda um outro problema de refugiados, este
muito mais fácil de resolver no contexto de uma solução de dois Estados.
Os 200 mil a 250 mil refugiados que saíram de Gaza e da margem ocidental
em seguida à ocupação israelense dessas áreas certamente terão um direito
de retorno àquelas áreas uma vez estabelecido um Estado palestino. (Será
interessante ver quantos efetivamente exercem esse direito, já que o
exercício desse direito - ao contrário do alegado direito de retorno a Israel -
não terá maior efeito político ou demográfico sobre o Estado judeu.) A
maioria dos refugiados saíram por sua própria vontade. Sobre a história
definitiva da guerra de 1967, Michael Oren afirma: "Poucos israelenses
tiveram contato com civis, a maioria dos quais havia fugido com o comando
sírio, bem antes dos ataques",15
De modo geral as perdas entre civis "foram notavelmente baixas" durante a
Guerra dos Seis Dias porque Israel se certificou de que a maior parte da luta
"ocorresse longe dos principais centros populacionais" de acordo com Oren.
De fato, a maioria das perdas civis foi infligida por turbas árabes sobre civis
judeus inocentes em cidades árabes não envolvidas nos combates. Oren
resume a situação:
Com as notícias da vitória de Israel, turbas atacaram vizinhanças judaicas
no Egito, no Iêmen, no Líbano, na Tunísia e no Marrocos, queimando
sinagogas e atacando residentes. Um pogrom em Trípoli, na Líbia, deixou
18 judeus mortos e 25 feridos; os sobreviventes foram conduzidos a centros
de detenção. Dos 4 mil judeus do Egito, 800 foram presos, inclusive os
principais rabinos do Cairo e de Alexandria, e sua função foi proibida pelo
governo. As antigas comunidades de Damasco e Bagdá foram colocadas
sob prisão domiciliar, seus líderes aprisionados e multados. Um total de 7
mil judeus expulsos, muitos com apenas uma bolsa.16
Esse problema de refugiados jamais foi considerado pela comunidade
internacional. As outras perdas civis, como vimos, foram, infligidas a
residentes judeus das cidades e vilas que foram alvo de abusos e morteiros
árabes. O pequeno número de baixas civis árabes foi menor do que em
qualquer guerra comparável na história moderna - um fato nunca
mencionado por aqueles que acusam Israel de genocídio ou de matança
indiscriminada de civis. O maior impacto da Guerra dos Seis Dias foi a
ocupação em si.
NOTAS
1. "International commnity bargains with rights of palestinians",
Aftenposten (Diário norueguês) colocado no site da e-revista Spectre,
www.spectrezine.org/war/Palestine (visitado peta última vez em 6 de abril
de 2003).
2. Oren, p. 93
3. Ibid., p. 84.
4. Morris, p. 306.
5. Ibid., p. 310.
6. Citado em Oren, p. 253.
7. Morris, p. 310.
9. Oren, p. 92.
10. Ibid., p. 63.
11. Ibid., p. 82.
12. Ibid., p. 99.
13. Ibid., pp. 186-187.
14. Ibid., p. 186.
15. Ibid., p. 306.
16. Ibid., pp. 306-307. 
 
A ocupação por Israel foi
injustificada?
A ACUSAÇAO
A ocupação israelense da margem ocidental da faixa de Gaza e das Colinas
de Golan em seguida à sua vitória na Guerra dos Seis Dias não tem
nenhuma justificativa.
OS ACUSADORES
"Há dois fatos cristalinos que não podem ser obscurecidos por propaganda e
preconceito: em 1948 Israel limpou etnicamente a Palestina para abrir
espaço para si e, como resultado, apoderou-se de 78% da Palestina
mandatária; e em 1967, Israel impôs uma ocupação brutal e desumana sobre
os restantes 22% da terra, da margem oeste e da faixa de Gaza." (Ilan
Pappe)1
"A maioria das matanças recentes e a destruição [com referência à violência
resultante da segunda intifada] tiveram lugar na margem ocidental e em
Gaza, territórios conquistados (junto com Jerusalém oriental) por Israel na
guerra de 1967. A resolução 242 da ONU - a favor da qual votaram os
Estados Unidos - defende que a contínua ocupação desses territórios é
ilegal. Essa resolução proclama a inadmissibilidade de aquisição de
território através da guerra."
"Mas Israel recusa-se a pôr fim à ocupação." (Max Elbaum e Hany Khalil,
escritores colaboradores no War Times, uma publicação "de oposição à
guerra contra o terrorismo".)2
A REALIDADE
Israel estava disposto a negociar terras conquistadas numa guerra defensiva
pela paz, como fez com os egípcios e jordanianos, mas os palestinos e os
sírios não mostraram o desejo de oferecer a paz em troca de terra, como
requerido pela Resolução 242 do Conselho de Segurança.
A PROVA
Quase imediatamente depois de derrotar os exércitos árabes que tinham
jurado e planejado aniquilar Israel, o governo israelense concordou em
obedecer à Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU que, pela
primeira vez na sua história, ordenou que uma nação devolvesse territórios
legalmente conquistados numa guerra defensiva. Mas ordenou isso apenas
como parte de um acordo geral de paz, reconhecendo o direito de Israel de
"viver em segurança". Isto é o que a Resolução 242 previa:
[O Conselho de Segurança] (1) Afirma que o cumprimento dos princípios
estatutários requer o estabelecimento de uma paz justa e duradoura no
Oriente Médio, que deveria incluir a aplicação de ambos os princípios
seguintes: (I) Retirada das forças armadas de Israel de territórios
ocupados no recente conflito;(II) Fim de todas as reivindicações ou
estados de beligerância e reconhecimento da soberania, integridade
territorial e independência política de cada Estado na área e seu direito de
viver em paz dentro de fronteiras seguras e reconhecidas, livre de ameaças
ou atos de força (a ênfase é nossa).3
Note que a resolução não exige a retirada de Israel de todos os territórios,
apenas "de territórios", contemplando, assim, alguns ajustes territoriais
como os propostos por Israel em Camp David e em Taba, no ano 2000. (Eu
desempenhei um papel muito pequeno e informal de consultor do
embaixador dos Estados Unidos Arthur Goldberg, que teve um papel
importante na negociação da Resolução.) A eliminação do artigo definido
os era um compromisso explícito preparado pelos Estados Unidos para
permitir a Israel a retenção de territórios necessários para garantir fronteiras
seguras.
Israel imediatamente aceitou os princípios da Resolução 242. De acordo
com Morris, "o governo israelense esperava converter a sua extraordinária
vitória militar numa realização política; os territórios conquistados
poderiam ser trocados pela paz".4 Moshe Dayan, que então era o ministro
da Defesa, foi citado como tendo afirmado que "estava esperando um
telefonema do rei Hussein" para discutir uma negociação de terras em troca
da paz.5 O telefonema não veio até muitos anos depois, quando Hussein
havia renunciado a toda reivindicação na margem oeste em favor da
Organização para a Libertação da Palestina. Em 19 de junho de 1967 o
gabinete israelense decidiu que Israel "entregaria o Sinai e Golan em troca
da paz" juntamente com o Egito e a Síria, escreve Morris.6 "Em poucos
dias, tanto o Egito como a Síria tinham rejeitado a abertura."7
Como veremos, Israel implementou, de fato, os princípios operativos da
Resolução 242 devolvendo a seguir todo o território conquistado, desejado
pelo Egito, quando este terminou todas as suas reivindicações de
beligerância contra Israel. Israel também devolveu terras reclamadas pela
Jordânia como parte do acordo de paz com o reinado hashimita. Finalmente,
propôs devolver à Autoridade Palestina quase todo território restante
conquistado da Jordânia cm troca da paz, mas os palestinos rejeitaram essa
oferta feita em Camp David e Taba, recentemente, em 2000 e, por seu
turno, apelaram para um crescente terrorismo.
Os principais Estados árabes, junto com a liderança palestina, por outro
lado, categoricamente rejeitaram os princípios da Resolução 242, em 1967,
porque esta requeria a paz com Israel, o que eles obstinadamente se
recusavam a fazer. Numa reunião de cúpula em Cartum, os líderes árabes
publicaram a sua notória declaração "dos três nãos": "Não à paz com Israel,
não às negociações com Israel, não ao reconhecimento de Israel". Os
palestinos responderam à oferta de paz de Israel baseada na sua aceitação
da Resolução 242 com a adoção da Constituição Nacional Palestina, que
expressamente recusava a Israel o direito de existir e comprometia-se a
continuar a "luta armada" como único meio de libertar a Palestina toda.
Determinava que a Palestina incluiria todo Israel (bem como,
aparentemente, toda a Jordânia): "A Palestina, com as fronteiras que tinha
durante o mandato britânico, é uma unidade territorial indivisível". Num
desafio à ONU, a Constituição Palestina declarava a "partição da Palestina
pela ONU em 1947 e o estabelecimento do Estado de Israel totalmente
ilegais", porque eram "contrários ao desejo do povo palestino". E rejeitava
"todas as soluções que são substitutas da total libertação da Palestina" pela
luta armada, declarando o sionismo e Israel racistas, colonialistas e
fascistas.
Qualquer possibilidade de uma resolução de dois Estados - ao longo das
linhas propostas pela Comissão Peel em 1937, e pela ONU, em 1947, e
imediatamente aceita por Israel - era assim categoricamente rejeitada pelos
palestinos, que exigiam total controle da Palestina inteira, apesar de estarem
do lado perdedor de quatro guerras de agressão (a Primeira e a Segunda
Guerras Mundiais, a guerra de 1947-1948 contra Israel e a Guerra dos Seis
Dias). Aba Eban, o ministro do Exterior de Israel, observou que essa foi "a
primeira guerra na história que terminou com os vitoriosos servindo à paz e
os derrotados requerendo um rendimento incondicional".8 De fato, os
palestinos estavam exigindo mais do que o rendimento de Israel como
nação.
A Constituição Palestina também exigia a transferência para fora da
Palestina de todos os judeus, exceto aqueles "que haviam normalmente
residido na Palestina até o começo da invasão sionista". Aos olhos dos
palestinos, desde que a invasão sionista havia começado, muitos anos antes
- mais recentemente, em 1917, e anteriormente, em 1882 -, esse
procedimento iria requerer a transferência de milhões de judeus cujos pais e
avós haviam vivido, no que agora era Israel, por gerações e, em muitos
casos, por um período muito mais longo do que os palestinos que os
deslocariam.
Desde que a Jordânia, da qual Israel havia conquistado a margem ocidental
numa guerra defensiva, subsequentemente renunciou a todas as
reivindicações territoriais a favor da Autoridade Palestina, e como esta
rejeitava a paz em troca da margem ocidental (em contraste com a Palestina
toda, inclusive Israel) a Constituição Palestina criava um impasse. Não
havia entidade para a qual Israel pudesse devolver a margem ocidental
atendendo à Resolução 242, mesmo que quisesse, enquanto os palestinos se
recusassem a cumprir com o Princípio II da Resolução 242, que requeria o
fim de todas as reivindicações ou estados de beligerância" e
reconhecimento do direito de Israel à "soberania, integridade territorial e
independência política", junto com a maioria das nações árabes, os
palestinos rejeitaram a Resolução 242, enquanto Israel a aceitava, como
havia aceito o Relatório da Comissão Peel e a partição da ONU.
Novamente, os palestinos e árabes rejeitaram a solução de dois Estados,
enquanto Israel revelava a concordância em dar passos que teriam
conduzido a essa solução. Apesar dessa realidade histórica, intelectuais
anti-Israel, como Noam Chomsky, desorientaram os estudantes dizendo-
lhes que Israel e os Estados Unidos são Estados que sempre se opuseram a
esse compromisso político, enquanto os Estados árabes e a OLP o haviam
aceito.9
Havia, é claro, ações unilaterais que o governo de Israel poderia ter tomado,
e na minha opinião deveria ter tomado, em seguida a vitória na Guerra dos
Seis Dias e à conquista da margem ocidental e da faixa de Gaza, apesar de
tal ação unilateral não ser, de forma alguma, requerida pela Resolução 242 a
não ser que acompanhada pela paz e pelo reconhecimento dos Estados
árabes. (Eu adio qualquer discussão do Sinai neste ponto porque Israel
finalmente devolveu o território ao Egito em troca da paz.) Israel poderia, e
deveria, ter implementado o assim chamado Plano Alon ou alguma variante
dele. O Plano Alon, proposto pelo general israelense Yigal Alon, que então
era ministro do Trabalho e um importante assessor do primeiro-ministro,
contemplava a retirada de Israel dos centros populacionais da margem
ocidental e de todos os outros territórios conquistados, exceto algumas áreas
despovoadas que eram consideradas necessárias para assegurar a
"integridade territorial" de Israel dentro de fronteiras "seguras", como
contemplado pela Resolução 242. O Plano de Alon, ao contrário da
Resolução 242, fazia uma importante distinção entre ocupar territórios e
ocupar populações.
A resolução do Conselho de Segurança focalizava exclusivamente
territórios e não pessoas. Mas a margem ocidental compreende cidades,
aldeias e vilas, bem como vastas áreas de terra despovoada. O Plano Alon
teria implementado um "compromisso territorial" sob o qual Israel "reteria
uma faixa de 6 a 7 milhas ao longo da margem ocidental do rio Jordão"
como "cinturão de segurança". Também teria feito mais alguns pequenos
ajustes de fronteira na estrada para Jerusalém de modo a não retornar ao que
Abba Eban, um grande pacifista, chamou de "linhas de Auschwitz",que
expunham a população dos centros de Israel a graves riscos.
Apesar de em 1967 Israel não ter tido parceiros para a paz dispostos a dá-la
em troca de um território, teria sido mais sábio, no meu ponto de vista, se
Israel tivesse se retirado, unilateralmente se necessário, dos centros
populacionais palestinos, tais como Nablus, Ramallah, Jericó, Hebron,
Jenin, Belém e Tulkarm, mantendo controle sobre áreas de segurança bem
pouco povoadas. Se Israel tivesse seguido esse caminho, seus soldados não
teriam se transformado num exército de ocupação de pessoas. Os árabes
ainda se queixariam de que a sua terra estava sendo ocupada, mas a
Resolução 242 contemplava ajustes territoriais desenvolvidos para alcançar
fronteiras seguras "livres das ameaças de atos de guerra". Além disso, os
árabes teriam se queixado de que a sua terra estava sendo ocupada ainda
que Israel tivesse devolvido cada centímetro de território conquistado na
guerra de 1967, enquanto Israel continuasse a ocupar a cidade judaica de
Tel Aviv ou qualquer outra área que havia sido da Palestina ou da Síria
meridional sob o mandato britânico.
Em vez de retirar-se unilateralmente dos centros populacionais palestinos,
Israel manteve controle sobre toda a margem ocidental, tratando-a como
peça de barganha para a paz com a Jordânia. Mas a Jordânia não tinha
interesse em conseguir a paz em troca de um retorno à margem ocidental,
talvez porque não quisesse reassumir o controle sobre mais de 600 mil
palestinos, que poderiam desestabilizar um cambaleante regime hashimita,
que já tinha uma maioria populacional palestina na própria Jordânia.
Qualquer que fosse a razão, Israel assumiu o controle dos centros
populacionais palestinos durante 28 anos - de junho de 1967 à dezembro de
1995 -, quando entregou essas cidades à Autoridade Palestina, de acordo
com o Tratado de Oslo II.
A ocupação durante 28 anos desses centros populacionais contribuiu para
muitos dos fatores que agora tornam mais difícil alcançar a paz. Entretanto,
não há garantia de que se os centros populacionais palestinos não tivessem
sido ocupados por Israel, a paz teria sido alcançada, já que o fim da
ocupação desses centros entre 1995 e 2001 não aproximou a região da paz.
Nem havia paz entre 1948 e 1967 - um período durante o qual não havia
ocupação Israelense.
A ocupação certamente contribuiu para um aumento no número e na
letalidade dos ataques terroristas pelos palestinos, apesar de o terrorismo ter
sido geral desde a década de 1920, e a OLP, envolvida com o terrorismo
como meio de libertar toda a Palestina, ter sido estabelecida desde o início
da ocupação. 
NOTAS
1. Numa carta, defendendo o documentário antiisraelense do jornalista
britânico John Pilger, "Carta: Fautless Film", The Independent (Grã-
Bretanha), 23 de setembro de 2002.
2. "War on terrorism or iIlegal occupation?" War Times Newspaper.
www.war-times.ora/pdf/palestine02045.pdf (visitado pela última vez em 8
de abril de 2003).
3. U. N. Security Council, Resolution 242, 22 de novembro de 1967.
4. Morris, p. 330.
5. Ibid.
6. Ibid.
7. Ibid.
8. Abba Eban, Abba Eban (Nova York: Random House, 1977), p. 446.
9. Palestra, Universidade de Harvard, 25 de novembro de 2002. 
 
A guerra de Yom Kippur foi culpa
de Israel?
A ACUSAÇÃO
A guerra de Yom Kippur foi culpa de Israel.
OS ACUSADORES
"A responsabilidade pela nova explosão militar no Oriente Médio é
totalmente dos líderes de Tel Aviv... Israel continua sua agressão, iniciada
em 1967, contra os países árabes." (Secretário-geral soviético Leonid I.
Brezhnev, outubro de 1973.)1
"Nossa vitória na guerra destroçou para sempre a ilusão de nossos vizinhos
com relação à sua bravura militar invencível. Nós nos mostramos como
seus iguais, intelectual e praticamente. Os direitos e deveres dos árabes, e
do árabe individualmente, não podiam continuar a ser objeto de escárnio e
do ridículo. A guerra de outubro marcou o fim da teoria racista da inerente
superioridade do povo israelense." (Osama EI-Baz, conselheiro egípcio de
segurança nacional.)2
A Realidade
O ataque voluntário contra Israel foi injustificado e violou os estatutos da
ONU. 
A PROVA
Em outubro de 1973, o Egito e a Síria desfecharam ataques-surpresa contra
Israel no Yom Kippur, o dia mais sagrado do ano judaico. Os ataques
também aconteceram no Ramadã, um período em que líderes muçulmanos
frequentemente proclamam que um ataque a eles violaria princípios
religiosos e mostraria desrespeito pelo Islã. Ninguém duvida de que
egípcios e sírios, que causaram consideráveis baixas a Israel, começaram a
guerra de Yom Kippur. O seu objetivo era recuperar a terra perdida para
Israel na Guerra dos Seis Dias - guerra que os egípcios começaram, apesar
de Israel ter dado o primeiro tiro. Ao final, os egípcios conseguiram esse
objetivo e recuperaram todo o Sinai depois de terem feito uma paz fria com
Israel. Os sírios falharam no seu esforço de recuperar as Colinas de Golan
porque se recusaram a fazer qualquer acordo de paz com Israel.
Israel aprendeu algumas lições importantes da guerra de Yom Kippur.
Primeiro, e principalmente, descobriu como era vulnerável a um ataque-
surpresa, mesmo com fronteiras expandidas. Em preparação ao ataque, o
Egito tinha obtido grandes quantidades de mísseis Scud, que "podiam
atingir os centros populacionais de Israel".3 Novamente, o objetivo árabe
era matar tantos civis quanto possível, apesar do fato de que o ataque
deliberado a alvos civis é um crime de guerra e uma violação da lei
internacional. O ataque inicial egípcio incluiu uma tentativa de jogar
bombas sobre Tel Aviv, que foi impedida pelos interceptadores da força
aérea israelense.4
O ataque sírio também tinha como alvo colônias civis israelenses, e as
forças sírias de tanques quase conseguiram romper a tênue linha de defesa
de Israel que protegia os seus centros populacionais do norte. Como o
comandante da unidade responsável pela defesa das cidades e aldeias ao
norte de Israel mais tarde contou à Comissão Agranat, que foi estabelecida
para investigar o quase desastre, ''o sentimento era de que iria haver um
holocausto".5 Todos sabiam o que os soldados sírios fariam aos civis
capturados, já que previamente haviam assassinado e mutilado israelenses
também capturados.
Na frente egípcia também havia um genuíno receio de um genocídio.
Moshe Dayan, ministro da Defesa de Israel, enviou uma mensagem ao
comandante da força aérea de que "o terceiro templo" - seu código para
significar o Estado de Israel - "está em perigo". Dayan sugeriu mobilizar
estudantes dos colégios e pessoas bastante idosas para serviços de reserva.6
Novamente foi levado ao conhecimento de Israel que seus inimigos árabes
podiam perder guerra após guerra sem riscos para a sua existência e sem
perigo para a sua população civil. Mas, se Israel perdesse apenas uma
guerra, isso poderia significar o fim do Estado judeu, um massacre da sua
população civil e a transferência dos refugiados sobreviventes para fora do
país. Talvez tenha sido essa realidade que motivou os soldados israelenses a
lutar tão ferozmente na defesa do seu país. O que Morris disse sobre as
motivações e incentivos dos guerreiros israelenses durante a guerra da
independência era igualmente verdadeiro durante a guerra do Yom Kippur:
estavam lutando "pela defesa dos [seus] entes queridos" que corriam o risco
de massacre se fossem derrotados".7
Israel afinal sobreviveu à guerra, mas com enormes perdas.
Surpreendentemente, os egípcios e sírios, apesar de sua derrota,
consideraram e ainda consideram a guerra do Ramadã (a mesma que os
israelenses chamam de guerra do Yom Kippur) como uma vitória. Num
discurso em 16 de outubro de 1973, o presidente egípcio Anuar Sadat disse
ao seu povo: "As forças armadas egípcias alcançaram um milagre sob
qualquer padrão militar... Essas forças tomaram a iniciativa, surpreenderam
o inimigo e fizeram com que perdesse o equilíbrio". O Egito "restaurou a
sua honra".8 De modo similar, o presidente Hafiz al-Assad disse ao seu
povo que a Síria havia "transformado a agressãode Israel desde 6 de
outubro, numa retinida das forças Inimigas e infligido perdas ao inimigo
que profundamente chocaram a entidade sionista". Ele disse ao povo sírio
como "as ferozes batalhas empreendidas por nossas forças restauraram a
autoconfiança do cidadão árabe".9 Até hoje a vitória árabe é celebrada no
Egito e na Síria, apesar da realidade de seus exércitos terem sido salvos por
um cessar-fogo imposto sobre Israel pelos Estados Unidos e pela União
Soviética.
Morris descreveu os motivos de Sadat e Assad para atacarem Israel:
Tanto para Sadat como para Assad, a guerra prometia importantes lucros,
a começar com a restauração do orgulho árabe. (Depois da guerra, os
cronistas árabes ale falariam do "renascimento'' do "homem egípcio".) A
simples ousadia de ir à guerra contra as invencíveis forças de defesa de
Israel seria vista como profundamente corajosa; limpar a vergonha de
1967, de fato a vergonha da história árabe desde 1948, traria a ambos os
regimes recompensas em termos de popularidade, legitimidade e
longevidade, bem como grandes contribuições aos reinados do petróleo.10
Israel aprendeu uma outra lição importante dessa disparidade em definir a
vitória na guerra: qualquer líder árabe que pode infligir sérios danos à Israel
é motivado a fazê-lo, mesmo se sua nação perder a guerra. Essa é a triste
realidade por uma série de razões, Primeiro, os riscos são muito menores
para os países árabes que perdem guerras contra Israel. Podem perder
algum território (que podem recuperar em troca do oferecimento de paz) e
alguns soldados, mas a existência de sua nação e as vidas dos seus civis não
estão em risco. Segundo, qualquer líder árabe que tem a mínima
possibilidade de derrotar Israel será louvado e recompensado por tentar e,
talvez, condenado, ou mesmo derrubado, por não tentar. Por isso é tão
importante para a preservação da paz que Israel permaneça qualitativamente
mais forte militarmente do que todos os exércitos árabes combinados ao seu
redor. Se essa superioridade militar fosse algum dia perdida, é quase certo
que Israel seria novamente atacado. É por isso que Nelson Mandela estava
errado ao sugerir qualquer analogia entre o programa nuclear defensivo de
Israel e os esforços do Iraque em desenvolver armas de destruição em
massa para uso agressivo. Isto é o que Mandela disse: "Mas o que sabemos
é que Israel tem armas de destruição em massa. Ninguém fala sobre isso.
Por que deveria haver um padrão para um país, especialmente porque é
negro, e um diferente para outro país, Israel, porque é branco?".11
Israel tem armas nucleares desde os anos de 1960. Jamais as usou, mesmo
na guerra de Yom Kippur. Já se falou da capacidade nuclear de Israel que,
provavelmente, jamais será usada porque só poderia ser usada cedo ou tarde
demais: se Israel alguma vez utilizasse armas nucleares para prevenir um
desastre, seria condenado universalmente. Se esperasse para usá-las até
depois do desastre, seria tarde demais. O arsenal nuclear de Israel é a última
dissuasão contra um regime radical que poderia querer produzir Armagedon
(que, literalmente, é uma pequena aldeia em Israel chamada Meggido). O
perigo é que pode haver alguns líderes radicais islâmicos, mais voltados
para o próximo mundo do que para este, que poderão não ser dissuadidos
pela perspectiva de uma mútua devastação nuclear.
Sadat alcançou ambos os seus objetivos ao atacar Israel no Yom Kippur de
1973. Além de restaurar a honra egípcia, ele também reconquistou todo o
Sinai para o controle egípcio. Assim que Sadat, corajosamente, demonstrou
uma disposição de fazer a paz com Israel em troca do Sinai, o governo
israelense, então sob controle do beligerante partido Likud e seu duro líder
Menachem Begin, removeu os colonizadores judeus no Sinai e devolveu-o,
com os campos de petróleo e o que mais havia, ao Egito. A decisão de fazer
a paz, mesmo uma paz fria, em troca do estratégico e mineralmente rico
Sinai pode ter custado a vida a Sadat - assim como a decisão do rei
Abdullah, da Jordânia, de levar em conta a paz com Israel lhe custou a vida
um quarto de século antes. Mas pavimentou o caminho para o rei Hussein,
da Jordânia, neto de Abdullah, estabelecer a paz com Israel.
Como a Jordânia havia renunciado a todas as reivindicações na margem
oeste em favor da Autoridade Palestina, não havia terra que Israel pudesse
dar em troca da paz. (De fato, Israel devolveu uma pequena faixa de
aproximadamente 300 km2 em Arava.) Se a Jordânia tivesse desejado um
retorno ao status quo antes da guerra de 1967, é provável que Israel teria
aceito, talvez com alguns pequenos remanejamentos territoriais. Mas a
última coisa que a Jordânia queria em 1994 era assumir a responsabilidade
pelos milhões de palestinos que viviam na margem ocidental, especialmente
depois da abortada guerra civil palestina dirigida pela OLP contra o rei
Hussein em 1970.
Israel repetidamente tentou fundamentar a paz com a Síria em troca do
território conquistado durante a Guerra dos Seis Dias, como relata Morris:
"Em agosto de 1993, um grande avanço foi alcançado quando Rabin
entregou ao Secretário de Estado Christopher seus 'hipotéticos' acordos para
a retirada de Israel do conjunto das Colinas de Golan se a Síria respondesse
com adequados arranjos de segurança e medidas para a normalização das
relações. Entretanto, os sírios deixaram de responder com semelhante
abertura".12
NOTAS
1. Laqueur e Rubin, p. 143.
2. "The spirit of october", Al-Ahram Weekly (Egito), 8-14 de outubro de
1998.
3. Morris, p. 390.
4. Ibid., p. 413.
5. Citado em Morris, p. 406.
6. Morris, p. 419.
7. Ibid., p. 223.
8. Citado em Laqueur e Rubin, p. 148.
9. Ibid., p. 143.
10. Morris, p. 387.
11. Tom Masland, "Nelson Mandela: The USA is a threat to world peace",
Newsweek, 10 de setembro de 2002.
12. Morris, p. 632. 
 
Israel tem feito sérios esforços pela
paz?
A ACUSAÇAO
Nos últimos anos, Israel não tem feito esforços sérios pela paz com os
palestinos.
OS ACUSADORES
"Agora tornou-se claro que, pelo fato de o público ocidental ser tão mal
informado, as autoridades públicas israelenses podem dizer qualquer coisa,
inclusive mentiras deslavadas. Na semana passada, um importante debate
na televisão, nos Estados Unidos, entre o ministro da Autoridade Palestina
Nabil Shaath e o locutor do Knesset Avraham Burg confirmou este triste
fato... Burg estava sentado lá e descaradamente fabricou uma falsidade
depois da outra - que, como democrata e amante da paz, estava preocupado
que não houvesse um campo real de paz palestino; que Israel está tentando
com afinco manter-se calmo enquanto os terroristas palestinos (encorajados
pela Autoridade) ameaçavam sua filha com brutal assassinato: que Israel
sempre desejou a paz:... e assim por diante. Tudo destacando, no estilo da
propaganda clássica (de que repetir mentiras de maneira enfática é acreditar
nelas), que Israel é vitimado pelos palestinos, que deseja a paz e que está
esperando que os palestinos acompanhem sua magnanimidade e controle."
(Edward Said)1
"Quanto mais os Estados Unidos e Israel rejeitarem um acordo político,
tanto pior será." (Noam Chomsky)2
A REALIDADE
Israel ofereceu aos palestinos todas as oportunidades razoáveis de fazer a
paz, mas os palestinos rejeitaram tais ofertas, mais recentemente em Camp
David e Taba em 2000-2001.
A PROVA
Israel conseguiu fazer algum progresso duvidoso nas conferências de paz
com os palestinos, a partir do início da década de 1990. Mesmo antes dessa
época, um número de membros mais velhos da Fatah estava pregando a
solução de "dois Estados", mas esses indivíduos haviam sido vítimas de
assassinatos - o que George Bernard Shaw, certa vez, caracterizou como "a
última forma de censura" - nas mãos de outros palestinos. Desde a sua
fundação em 1964 (e mesmo antes), a OLP (e seus predecessores) havia
rejeitado a solução de dois Estados em favor do terrorismo, da destruição de
Israel e da expulsão da população judaica.
O terrorismo palestino foi, entretanto, bastante bem-sucedido ao levar as
queixas dos palestinos nocentro da atenção do mundo. Apesar de a
exigência palestina da destruição de Israel e da expulsão da sua população
judaica - como articulado nos seus estatutos - ser muito menos
constrangedora de uma perspectiva moral do que as razões de queixas de
outros povos sem Estado e ocupados, como os tibetanos, os curdos e os
bascos, o fato de a OLP recorrer ao terrorismo global fez com que as
reivindicações palestinas suplantassem as reivindicações mais
constrangedoras de outros.
Entre 1968 e 1990 os terroristas palestinos assassinaram milhares de civis
inocentes, inclusive viajantes internacionais, judeus em oração em
sinagogas no coração da Europa, atletas olímpicos, crianças de jardim-de-
infância, diplomatas e peregrinos cristãos. Explodiram aviões, colocaram
bombas em shopping centers, atiraram granadas de mão sobre crianças,
enviaram cartas-bomba a pessoas do mundo dos negócios e sequestraram
um navio de cruzeiro, atirando até mesmo um passageiro deficiente físico
ao mar. Apesar de todas essas ações constituírem crimes de guerra e
violações da lei internacional, a comunidade internacional - e especialmente
a ONU - tem repetidamente recompensado o terrorismo palestino dando à
OLP um reconhecimento muito maior do que aquele dado a outros grupos
sem Estado que não recorreram ao terrorismo global.
Como o quadro que aparece no meu livro Why terrorism works demonstra
vivamente, quanto mais cruéis, ilegais e letais se tornaram os ataques dos
terroristas palestinos contra civis, tanto mais reconhecimento diplomático
receberam da ONU que escolheu a OLP, entre todas as outras
representações de grupos sem Estado, como observadora especial e deu-lhe
privilégios diplomáticos. Isso foi feito na época em que a OLP rejeitou a
partição da Palestina pela ONU, rejeitou a existência de Israel como
membro da ONU rejeitou a Resolução 242 do Conselho de Segurança e
exigiu controle de toda a Palestina e a expulsão da maioria dos judeus. Não
surpreende que a OLP tivesse mantido a essência de sua confiança no
terrorismo como caminho para alcançar as suas exigências. O terrorismo
estava trabalhando para isso não apenas na ONU, mas também em capitais
europeias e outras, no Vaticano, e entre alguns acadêmicos e formadores de
opinião pública em muitas partes do mundo.
Mas isso não estava funcionando para os palestinos com relação a Israel ou
aos Estados Unidos. O terrorismo só fortaleceu a decisão dessas duas
democracias de não recompensar o assassinato de civis inocentes e
encorajar mais ainda a recorrência a essa tática imoral e ilegal. Apesar de
suas vitórias diplomáticas na ONU e em outros lugares, os palestinos não
estavam mais próximos da cidadania ou do fim da ocupação. Quando
muito, Israel estava permitindo mais colônias na margem oeste e
justificando-as por razões de segurança, embora a realidade era que a
maioria tinha pouco a ver com segurança. De fato, do ponto de vista da
maioria de israelenses, muitas das colônias tinham um efeito adverso sobre
a segurança de Israel.
A situação, para ambos, israelenses e palestinos, estava se tornando
progressivamente pior, especialmente depois da primeira intifada ter
começado em fins da década de 1980, resultando em maior violência contra
israelenses e maiores restrições aos palestinos. O fundamentalismo islâmico
estava crescendo e o Hamas - que era mais inflexível no seu fervor
fundamentalista, porém menos corrupto do que a OLP - estava aumentando
a sua influência entre os muçulmanos palestinos. O seu estatuto, adotado
em agosto de 1988, é até mais extremista e declaradamente anti-semita do
que o estatuto da OLP. Exige a "reinstituição do Estado muçulmano" em
"cada centímetro" da Palestina e o erguimento da "bandeira de Alá" sobre
toda a Palestina, que é descrita como "Waqf islâmico". Proclama que
qualquer acordo, mesmo se todo dirigente árabe e palestino o aceitasse,
seria uma violação da lei islâmica. Todas as iniciativas de paz ou "assim
chamadas soluções pacíficas são contrárias às crenças do Movimento de
Resistência Islâmica". E "renunciar a qualquer parte da Palestina significa
renunciar à parte da religião". Proclama que não se pode confiar nem em
judeus nem em cristãos, caracterizados coletivamente como "infiéis", e
declara que "não há solução para o problema palestino a não ser pela jihad
[guerra santa muçulmana].
Os estatutos tornam-se aberta e cruamente anti-semitas ao descrever o
"nazismo dos judeus" e reivindicar que "Israel, em virtude de ser judeu e ter
uma população judaica, maculou o islã e os muçulmanos". Falsamente
afirmam que "quando os judeus ocuparam a sagrada Jerusalém em 1967,
gritaram com alegria Maomé está morto, ele deixou as filhas para trás'"
significando que os judeus querem violentar mulheres e meninas
muçulmanas. Depois invocam a criação czarista anti-semita Os protocolos
dos sábios de Sião e argumentam que a sua "[conduta] presente é a melhor
prova do que lá está escrito [nos Protocolos]".
Os estatutos do Hamas também culpam os judeus pelas revoluções Francesa
e Russa, pelas duas guerras mundiais e pela criação da ONU "para governar
o mundo".3 Chamando a chegada dos judeus refugiados à Palestina de "esta
desprezível invasão nazi-tártara", os estatutos - num arroubo de
irracionalidade, excedendo mesmo a que veio anteriormente - joga parte da
culpa sobre os "maçons, clubes Rotary e Lions [e outras] organizações
secretas [que] agem a favor dos interesses do sionismo e sob suas ordens e
procuram destruir sociedades" e "distribuir drogas e tóxicos de todos os
tipos para facilitar seu controle e expansão". Os estatutos terminam
exigindo que todos os muçulmanos resistam a essa nova cruzada dos
"judeus, os mercadores da guerra", como resistiram às cruzadas cristãs.
Descrevendo o judaísmo como "uma fé falsa e falsificada", confiantemente
os estatutos preveem uma vitória sobre os "sionistas nazistas".4
Os estatutos do Hamas condenaram o Egito por fazer a paz com Israel e
condenaram a OLP por "adotar pensamento secular" e advogar soluções
seculares. Apenas um Estado puramente islâmico, sem judeus, e com todos
os cristãos árabes numa posição subordinada, seria aceitável pelo Hamas.
Alguns meses mais tarde, um panfleto da Fraternidade Muçulmana
caracterizou os judeus como "A mais suja e vil de todas as raças" e
impressos chamaram os "judeus de irmãos dos macacos, assassinos dos
profetas".5 Esse tipo de retórica racista também permeia os currículos
escolares em toda a margem ocidental e em Gaza. Uma prova de colégio
colocou a seguinte questão: "Explique as razões que fizeram os europeus
perseguir os judeus". A resposta, corno encontrada no texto do livro escolar,
inclui os "fatos de que os judeus são "autocentrados", que a sua Torá
promove "o fanatismo religioso e racial [e] o dolo em relação a outras
nações" que têm "crenças anticristãs" e causam "massacres", que controlam
a "economia", que se sentem "superiores", que são "loucos por dinheiro" e
que crucificaram Jesus. O texto também diz aos estudantes para não se
compadecerem dos judeus porque "a perseguição [é] desejada pelos judeus"
para que possa ser "explorada para a realização de lucro... material" e para
ajudar a "sionizar" os judeus do mundo.6
De forma não surpreendente a intifada assumiu um tom abertamente anti-
semita, como demonstrado pelas arengas semanais das sextas-feiras, em
defesa da violência, irradiadas pela mídia da Autoridade Palestina.7
Também dirigiu extrema violência contra os palestinos que supostamente
estariam colaborando com Israel. Morris escreve: "No fim de 1989,
aproximadamente noventa árabes que tinham dado informações aos
israelenses ou os tinham ajudado vendendo terras, foram mortos e muitos
torturados de maneira bárbara antes de serem executados".8 Ao final da
intifada, em 1993, quase 400 palestinos tinham sido assassinados por outros
palestinos - quase tantos quantos foram mortos pelas forças de defesa de
Israel.9 Numa incrível demonstração de afronta, alguns porta-vozes
palestinos contaram esses assassinatos ao fornecerem dados à mídia com
uma lista de palestinosmortos durante a intifada!10
A intifada provavelmente conduziu tanto o governo de Israel como a OLP
(que estava perdendo o controle sobre os grupos palestinos de rua para os
grupos mais radicais islâmicos) a algum tipo de aproximação. Os Estados
Unidos estavam cuidadosamente fazendo esforços nesse sentido por vários
dias, assim como alguns pacifistas israelenses.
Quando o processo de paz de Oslo começou, no início da década de 1990,
Israel estava disposto a aceitar a Autoridade Palestina como um parceiro de
negociação igual desde que esta aceitasse o direito de existência de Israel.
Nunca antes na história, o lado vencedor de guerras defensivas tinha estado
disposto a negociar com o lado perdedor, que havia começado as guerras,
sendo tratado como igual. Considerar aqueles que haviam iniciado guerras
agressivas, e que as haviam perdido, como parceiros iguais de negociação é
encorajar a deflagração de guerras como um acessório à negociação. Deve
haver um preço a pagar por começar e perder guerras. Esse preço inclui um
status diminuído nas negociações de paz do pós-guerra.
Se um povo tem a liberdade de iniciar uma guerra, exigir a paz, quando
perde, e depois esperar ser tratado na mesa de negociação como
moralmente igual àqueles a quem atacaram, haverá pouco desestímulo à
agressão. Por que não iniciar uma guerra? Se isso falhar, iniciem-se
negociações, insistindo na paridade como condição para não iniciar uma
guerra novamente. Depois da derrota da Alemanha e do Japão na Segunda
Guerra Mundial, imaginemos como o mundo teria reagido se alguns
alemães e japoneses tivessem utilizado o terrorismo contra as potências
vitoriosas, depois exigido um status igual como negociadores nas
negociações do pós-guerra.
Tratar os palestinos como parceiros iguais de negociação implica o risco de
enviar uma mensagem errada sobre a guerra agressiva. Os palestinos
deveriam ser tratados como agressores que perderam. Deveriam ser tratados
com honestidade, mas sem reivindicações morais sobre uma parceria em
igualdade de condições no processo de negociação. Desentendimentos
sobre segurança deveriam ser resolvidos desfavorecendo aqueles que
começaram as guerras e favorecendo aqueles que se defenderam, com
sucesso, contra a agressão. Disputas sobre o controle dos lugares sagrados
também deveriam ser resolvidas desfavorecendo aqueles que se apoderaram
desses lugares, como os árabes fizeram em 1948, negando acesso àqueles
de quem as áreas foram tomadas. Os agressores deveriam ser obrigados a
absorver refugiados criados pela sua agressão.
No fim, entretanto, devem ser alcançados compromissos para assegurar a
paz, os quais nem sempre podem ser baseados em simples princípios. Mas,
ao menos, o princípio compromissado deveria ficar claro, e esse princípio é
que ninguém deveria beneficiar-se por ter iniciado uma guerra agressiva e
ter perdido. A principal razão pela qual os palestinos receberam o mesmo
status nessas negociações foi que a maioria dos israelenses queriam a paz
mais desesperadamente do que a maioria dos palestinos. As pesquisas de
opinião pública demonstram claramente essa realidade. A maioria das
pesquisas mostra que uma grande parte de israelenses deseja paz e pode
ceder muito num esforço para assegurá-la,11 enquanto 87% dos palestinos
querem a continuação do terrorismo até que toda a Palestina esteja
libertada.12 Assim, Israel está há tempos preparado para dar mais, na
esperança de alcançar uma paz duradoura e segura.
Essa atitude é certamente elogiável, mas há questões até maiores em jogo
do que a paz no Oriente Médio. Outras nações e povos não devem ser
encorajados a perseguir a trilha agressiva da guerra e do terrorismo que
conduziu os palestinos a receber um status de igualdade no processo de
negociação. Se os palestinos conseguirem tudo o que têm procurado nessa
trilha será apenas uma questão de tempo antes de outras nações e povos que
se julguem lesados perseguirem a guerra agressiva e o terrorismo como
primeira opção. O mundo será um lugar muito mais violento e perigoso se
essa for a lição das negociações entre israelenses e palestinos. Thomas
Friedman, do New York Times, advertiu que se o terrorismo for
recompensado no Oriente Médio "acabará chegando perto de você".13
O resultado final dessas negociações tem sido um contínuo processo de
começar e parar e recomeçar e parar novamente com muita esperança
seguida por muito desapontamento quanto à solução do conflito palestino-
israelense e, talvez até mesmo, do conflito árabe-israelense. O processo de
paz de Oslo finalmente conduziu a um fim a ocupação israelense de
cidades, vilas e aldeias palestinas (com poucas exceções). Em 25 de
setembro de 1995, Israel e a Autoridade Palestina assinaram um acordo
segundo o qual as tropas de Israel deveriam retirar-se da maioria das áreas
populadas da margem ocidental e de Gaza.14 A polícia da Autoridade
Palestina, em número de 30 mil, assumiu o controle desses centros
populacionais palestinos. Apesar de Israel ainda manter controle de áreas
substanciais da margem ocidental, onde há poucos ou nenhum residente
palestino, a ocupação de centros populacionais palestinos terminou
substancialmente em 1995. Havia durado 28 anos. Israel não reocupou
nenhum desses centros populacionais até 2001, aproximadamente um ano
depois de uma onda de ataques suicidas ter começado, e, mesmo então,
apenas reocupou, temporariamente, aqueles lugares que estavam sendo
usados como base para ataques terroristas. Jericó, por exemplo, não foi
reocupada, já que não havia servido de base para o terrorismo.
Durante os quase seis anos de controle palestino sobre os seus centros
populacionais, algum progresso foi feito no sentido de resolver assuntos
pendentes. A OLP, embora não o Hamas e outros grupos radicais islâmicos,
parecia mover-se no sentido de aceitar uma solução de dois Estados para o
conflito palestino-israelense.
No começo do verão de 2000 parecia que a paz poderia estar próxima. O
terrorismo havia diminuído um pouco em relação aos vários anos anteriores
e um governo pacifista de Israel, liderado por Ehud Barak, estava
procurando ativamente pela paz. Bill Clinton, no último ano do seu
mandato, estava determinado a deixar um legado de paz no Oriente Médio.
Os israelenses e a OLP concordaram em reunir-se a partir de 11 de julho de
2000, sob os auspícios dos Estados Unidos. Ao longo dessas reuniões, que
duraram até janeiro de 2001, Barak surpreendeu o mundo oferecendo aos
palestinos quase todo o território que estavam desejando. Quando as
negociações terminaram, Barak havia aceito a proposta ainda mais generosa
de Clinton e estava oferecendo aos palestinos "entre 94% e 96% da margem
ocidental" e toda a faixa de Gaza.15 Em troca dos 4% ou 6% que ficariam
em mãos israelenses por questões de segurança, Israel cederia 1% a 3% de
sua terra aos palestinos. Isso teria atendido plenamente a Resolução 242 do
Conselho de Segurança, que determinava a devolução de "territórios", não
todos os territórios, conquistados na guerra defensiva de Israel com a
Jordânia. Poucas pessoas, se é que alguma, permaneceriam sob a ocupação
israelense.
Além disso, Barak ofereceu aos palestinos um Estado com a parte árabe de
Jerusalém como sua capital e completo controle sobre Jerusalém oriental e a
parte árabe da Cidade Velha, bem como todo o Monte do Templo, apesar de
seu significado histórico e religioso para os judeus. Israel manteria o
controle sobre o muro ocidental, que não tem significado para os
muçulmanos.
Sobre a questão dos refugiados, Israel "reconheceria o sofrimento moral e
material causado ao povo palestino como resultado da guerra de 1948 e a
necessidade de dar assistência à comunidade internacional para enfrentar o
problema".16 Israel aceitaria alguns dos refugiados por motivos
humanitários e de unificação de famílias, mas a maioria viveria no Estado
palestino; 30 bilhões de dólares em compensação seriam acordados para
aqueles que não mudassem para Israel. Nenhuma compensação foi
oferecida pelos refugiados judeus dos Estados árabes em seguidaàs guerras
de 1948 e 1967. No que se referia as colônias judaicas. Barak concordou
com a "eliminação da maioria das colônias e a concentração da maior parte
dos colonos dentro" da pequena porcentagem da margem ocidental a ser
anexada por Israel.17
Yasser Arafat rejeitou a proposta de Barak, deixando claro que jamais
entregaria o direito de mais de 4 milhões de palestinos de retornarem a
Israel em vez de viverem no Estado palestino com uma compensação. Isso
tornaria Israel, evidentemente, mais um outro Estado palestino, além da
Jordânia e do novo Estado da margem ocidental e da faixa de Gaza. O
problema dos refugiados palestinos foi sempre uma manobra feita para
tornar Israel um Estado palestino, e a rejeição de Arafat da generosa oferta
de Barak demonstrou isso com pouca ambiguidade.
É bem natural que a maioria dos palestinos preferisse viver num Estado
palestino, sob controle palestino, a viver em um Estado judeu sob controle
israelense - isso é certamente o que os palestinos têm exigido durante anos.
Mas, se o objetivo é inundar Israel com milhões de árabes para torna-lo
mais um Estado palestino, muitos refugiados poderiam decidir - ou serem
persuadidos a - fazer o seu dever e mudar para Israel, se tivessem escolha.
O jornal pacifista israelense Há'aretz escreveu o seguinte editorial, depois
de Barak ter feito a sua oferta:
Os palestinos não podiam querer um momento mais adequado para
conseguir o melhor tratado de paz possível do que exatamente agora. Mas
eles querem mais... Acima de tudo querem o direito de retorno para serem
reconhecidos e plenamente atendidos. O problema dos refugiados
palestinos não foi causado por Israel; foi causado pelos Estados árabes,
que tentaram, repetidas vezes, usar a força bruta para nos eliminar do
mapa...
O cumprimento do direito do retorno significaria o fim de Israel como um
Estado judeu, e assim Israel jamais concordará com essa exigência.
Se os palestinos incluíram a cláusula sobre o direito do retorno como uma
manobra, unicamente para destacar a sua posição na negociação, eles
seriam sensatos em retirá-la precisamente agora - porque o tempo está
acabando.
Mesmo o mais paciente pretendente desiste de tentar conquistar uma
virgem difícil de ser conseguida. Arafat perdeu a sua virgindade há muito
tempo, e estamos fartos de seu jogo e de suas tentativas de ameaça...
Se desistirem de agarrar essas ofertas agora, em vez de Barak receberão
Sharon.18
Alguns líderes palestinos queixaram-se de que a terra oferecida não era toda
contígua. A faixa de Gaza, por exemplo, é separada da margem ocidental.
Israel ofereceu algumas pontes terrestres e arranjos de locação permanente,
mas os palestinos exigiam contiguidade. Deve-se lembrar que a terra
oferecida a Israel em 1937 pela Comissão Peel e pela ONU em 1947
também era não-contígua. Mesmo assim, Israel aceitou essas ofertas.
Além disso, alguns dos principais grupos terroristas, tais como o Hamas, o
Jihad islâmico e o Hezbollah, opõem-se à existência de Israel e rejeitam a
criação de um Estado palestino na margem ocidental e em Gaza. Juraram
continuar o terrorismo contra os judeus de Israel até que toda Palestina seja
libertada e nenhum centímetro dela esteja sob controle judeu. Para eles, a
mera contiguidade é irrelevante. Eles querem tudo.
O real motivo por que Arafat rejeitou a oferta de Barak é que ele tinha
medo de fazer a paz com Israel, independentemente do que Israel
oferecesse, exceto deixar de existir. Ele sabia que os grupos radicais
islâmicos, representando um crescente número de palestinos, rejeitam a
solução de dois Estados e considerariam qualquer um que a aceitasse como
traidor, merecendo a morte que foi o fim de tantos outros - de Abdullah a
Sadat e de palestinos moderados - que haviam previamente aceito o direito
de Israel de existir. Era mais seguro para Arafat encontrar desculpas para
não aceitar a oferta de paz do que provocar a inimizade, possivelmente
mortal, daqueles que rejeitam o direito de Israel de existir.
Existem alguns que põem a culpa da renovação do terrorismo que se seguiu
à rejeição de Arafat à oferta de paz israelense sobre a decisão de Ariel
Sharon - antes de tornar-se primeiro-ministro - de visitar o Monte do
Templo, em 28 de setembro de 2000. Mas as provas mostram claramente
que a violência havia sido cuidadosamente planejada bem antes da visita de
Sharon. Como o ministro das Comunicações da Autoridade Palestina
ingenuamente reconheceu:
A Autoridade Palestina havia começado a preparar o início da atual
intifada desde o regresso das negociações de Camp David, a pedido do
presidente Yasser Arafat, que previu o início da intifada como um passo
complementar à firmeza palestina nas negociações, e não como protesto
específico contra a visita de [Ariel] Sharon ao Al-Haram Al-Qudsi [o
Monte do Templo]... A intifada não foi surpresa para a liderança Palestina.
A liderança havia investido todos os seus esforços em canais políticos e
diplomáticos para consertar as falhas nas negociações e no processo de
paz, mas sem resultado. Encontrou a teimosia israelense e contínua
negação dos direitos dos [Palestinos]... A Autoridade Palestina instruiu as
forças políticas e facções para conduzirem todos os materiais da
intifada.19
A Comissão Mitchell, dirigida pelo ex-líder da maioria no Senado George
Mitchell - ele mesmo um descendente de cristãos libaneses - chegou a uma
conclusão similar: "A visita de Sharon não causou a intifada de Al-Aksa".
De fato, não houve mortes e poucos palestinos foram feridos no dia da
visita de Sharon, apesar de 28 policiais israelenses terem sido feridos com
pedras. As mortes e ferimentos chegaram pouco depois de um ataque
orquestrado de palestinos contra judeus rezando no muro ocidental.
A visita de Ariel Sharon ao Monte do Templo foi negociada
antecipadamente com líderes palestinos. Mesmo assim, no meu ponto de
vista, foi uma provocação errada que proporcionou uma desculpa - mesmo
um estopim - para a violência, mas a arma já havia sido carregada em
antecipação a uma inevitável provocação de algum tipo.
Uma verdadeira paz no Oriente Médio deve ser capaz de suportar o tipo de
provocação verbal, simbólica, representada pela visita de Ariel Sharon ao
Monte do Templo. Qualquer paz duradoura deveria esperar por esse tipo de
provocação de ambos os lados. O que não pode ser tolerado são respostas
violentas a essas provocações, especialmente se a violência for orquestrada
ou mesmo aceita nos níveis mais altos. Essa é uma lição importante que foi
mal-entendida durante os sangrentos dias que se seguiram à visita de
Sharon.
Os israelenses são provocados diariamente por palavras e ações, desde o
ensino da negação do Holocausto e do antijudaísmo em escolas palestinas
dirigidas pelo Estado até uma visita provocativa no muro ocidental por
legisladores árabes. A resposta apropriada à provocação verbal e simbólica
é o protesto político, incluindo demonstrações e talvez mesmo interrupções
de trabalho. Mas atirar pedras e bombas e dar tiros são atos totalmente
inaceitáveis e não deveriam ser encorajados pela comunidade internacional.
Mas o mundo, inclusive muita gente na mídia, no meio acadêmico e mesmo
na diplomacia, parece aceitar a violência palestina como cultural. Por outro
lado, algo diferente é esperado dos israelenses. Isso é relativismo cultural
que se aproxima do racismo. Esperar menos dos palestinos,
independentemente de suas queixas, é diminuir sua benevolência humana.
O fato é que vão ocorrer provocações, especialmente numa democracia em
que Sharon como qualquer cidadão israelense, tem o direito de visitar um
lugar aberto ao público que é santo, tanto para judeus como para
muçulmanos. A atitude mental dos palestinos precisa mudar para que a paz
se torne realidade. Eles precisam aprender que a proporcionalidade, que
acertadamente exigem dos militares israelenses, também deve ser exigida
deles pelos seus líderes. Provocações verbais e simbólicas fazem parte de
uma democracia. Sharon, no seu próprio modo inábil, levantou um ponto
relevante: quando a CidadeVelha de Jerusalém era controlada pelo governo
jordaniano e pelos imames palestinos, nenhum judeu podia visitar o Monte
do Templo ou rezar no muro ocidental. Depois que Israel se defendeu do
ataque jordaniano durante a Guerra dos Seis Dias e conquistou Jerusalém,
os lugares santos foram abertos para todos.
Sharon procurou demonstrar que, se o Monte do Templo fosse devolvido ao
controle palestino, ele e outros judeus não seriam bem-vindos. Pode ter
havido melhores caminhos para salientar esse ponto, mas numa democracia
os governos não podem, em geral, restringir a maneira pela qual pontos
políticos são conquistados, desde que a maneira não seja violenta. Permitir
a oposição de um atirador de pedras é minar a liberdade de expressão. Se o
governo de Israel tivesse impedido Sharon de entrar no Monte do Templo,
isso também teria enfraquecido o processo de paz por dar munição à
extrema direita israelense.
Quando os dois lados voltarem à mesa de negociação, deverão levar em
consideração a probabilidade - de fato, a inevitabilidade - de que
provocações similares ou mesmo piores vão ocorrer em ambos os lados.
Nenhum provocador, seja simbolicamente como Sharon, seja um terrorista
violento de qualquer lado, deveria ser capaz de pôr fim ao processo de paz.
Serão necessárias mentes sábias e corações abertos para construir uma paz
resistente a provocações. A paz egípcio-israelense, bem como a paz
jordaniano-israelense, tem sido capaz de suportar ataques terroristas de
indivíduos egípcios e jordanianos contra cidadãos israelenses, inclusive
crianças. Os palestinos precisam aprender a suportar provocações verbais e
simbólicas, assim como os israelenses precisam aprender a responder à
violência de modo que minimize ferimentos e ataques. Já no outono de
2000, os palestinos decidiram usar a visita de Sharon como uma desculpa
para acelerar o terrorismo. Como veremos em detalhe no próximo capítulo,
a eclosão de terrorismo que se seguiu à rejeição da oferta de Barak por
Arafat foi cuidadosamente "planejada de antemão",20 porque Arafat sabia
que, jogando a sua cartada suja terrorista, ele podia novamente influenciar a
opinião pública e a diplomática a seu favor. Quando Arafat se distanciou da
generosa oferta de Barak, a comunidade internacional inicialmente se
voltou contra ele, a favor de Israel. Mas depois da bem planejada retomada
do terrorismo contra civis israelenses e da totalmente previsível reação de
Israel contra o assassinato de jovens e famílias em pizzarias, discotecas e
jantares de Pessach, boa parte da opinião pública novamente se voltou
contra Israel.
Entendendo essa dinâmica, alguns palestinos "quase deram boas-vindas aos
ataques israelenses", de acordo com o New York Times.21 Fazia parte da
sua estratégia para recuperar apoio internacional. Como um diplomata
declarou ao New York Times, "os palestinos dominaram uma dura
aritmética da dor... as perdas palestinas contam a seu favor e as perdas
israelenses também. A não-violência não compensa".22 Terrorismo é uma
tática escolhida por líderes de elite porque funciona, não porque seja uma
reação desesperada à opressão. Thomas Friedman, do New York Times,
observa:
O mundo precisa entender que os palestinos não escolheram homens-
bomba por "desespero" resultante da ocupação israelense. Isso é uma
grande mentira. Por quê? Para começar, muitas outras pessoas no mundo
estão desesperadas, mas não andam por aí amarrando dinamite ao seu
corpo. Mais importante, o presidente Clinton ofereceu aos palestinos um
plano de paz que poderia ter posto fim à sua ocupação "desesperada", e
Yasser Arafat ignorou-a.23
Um levantamento de uma pesquisa sobre quem se transforma num homem-
bomba mostra a mentira da afirmação de que o terrorismo é a consequência
inevitável da falta de esperança, pobreza e de privação dos direitos civis.
"Tão lógico quanto possa parecer o argumento de que pobreza gera
terrorismo, diversos estudos mostram que os atacantes suicidas e os que os
apoiam raramente são ignorantes ou empobrecidos". Muitos foram
educados "em circunstâncias relativamente prosperas e frequentaram a
universidade". Um estudo com cerca de 250 aspirantes palestinos a
homens-bomba mostrou que "nenhum era inculto, desesperadamente pobre,
de mente pouco desenvolvida ou deprimido". Outros estudos descobriram
que esses assassinos em massa "não eram ignorantes, desamparados ou
privados dos direitos civis". Tinham "trabalhos normais, respeitáveis" e
pareciam "ser membros totalmente normais de suas famílias". Eles não
"exprimem falta de esperança ou um senso de nada a perder".24
O desespero pode explicar como tem sido fácil para os líderes de elite
persuadir jovens impressionáveis a tornar-se homens-bomba, mas só o
desespero não é a explicação completa mesmo para aquela forma de abuso
de crianças palestinas. As glorificações do homem-bomba, associadas com
a desumanização da sua vítima, são fatores contributivos essenciais para o
motivo de crianças estarem dispostas a autodestruir-se. Um exemplo da
glorificação política do bombardeio suicida é a afirmação feita pela esposa
de Yasser Arafat, que vive em luxo com sua filha em Paris. Embora longe
de estar desesperada, ela disse que "odeia" Israel e, se tivesse um filho, não
haveria "maior honra" para ele do que tornar-se um homem-bomba que
matasse judeus. Ela não disse se queria que sua filha se tornasse uma
mártir.25
Líderes religiosos e políticos islâmicos tornam mais fácil para esses
assassinos suicidas envolver-se no assassinato em massa de civis por
desumanizar israelenses e judeus nas suas escolas, mesquitas e na mídia.
Como Charles Krauthammer escreveu no Washington Post, "Arafat criou
uma geração inteira educada no ódio aos judeus-nazis'". Essa doutrinação
inclui "a mais grosseira instigação ao assassinato, como neste discurso de
Ahmad Abu Halabiya, indicado e subvencionado por Arafat, transmitido ao
vivo na televisão oficial da Autoridade Palestina no começo da intifada. O
tema: 'os judeus'". (Nota: não os israelenses, mas os judeus): "Eles precisam
ser massacrados e mortos, como Alá todo- poderoso disse: 'Lutem contra
eles: Alá vai torturá-los nas suas mãos'... Não tenham piedade dos judeus,
não importa onde estejam, em qualquer país. Lutem contra eles onde
estiverem. Onde os encontrarem, matem-nos".26
Os educadores palestinos também incitam seus estudantes a assassinar por
uma retórica racista. Uma cerimônia de final de ano para 1.650 alunos de
jardim-de-infância realizada pelo Hamas "incluiu uma encenação de
crianças que encorajavam o assassinato de judeus como um mandamento
religioso".27 Essa combinação de mensagens religiosas, políticas e da
mídia ajuda a explicar por que, entre os muitos povos desesperados da terra,
apenas as crianças palestinas fazem fila para cometer suicídio e
homicídio.28
Pode parecer irônico que, logo depois de Israel oferecer aos palestinos
quase tudo que eles e a comunidade internacional queriam - um Estado
palestino com a Jerusalém árabe como sua capital, devolução de toda a
faixa de Gaza e de quase toda a margem ocidental, uma resolução justa e
prática do problema dos refugiados e um fim das colonizações judaicas -,
(Israel) é agora um pária da comunidade internacional, da opinião pública
europeia e de grandes facções da esquerda americana, acadêmica e
religiosa. Israel tornou-se o objeto de espoliação e de campanhas de boicote
e outros esforços de demonização, enquanto os palestinos - que rejeitaram a
oferta de paz e responderam com o assassinato sistemático e deliberado de
civis israelenses - tenham se tornado os queridinhos dos mesmos grupos.
Mas não é uma ironia. É o resultado de cálculos deliberados feitos pelos
líderes palestinos que compreendem como é fácil provocar democracias a
reagirem pelo assassinato dos seus civis mais vulneráveis. França,
Inglaterra, Rússia, Estados Unidos e Canadá foram provocados de maneira
similar, mas apenas Israel tem sido tão injustamente condenado pelos seus
esforços, totalmente compreensíveis, mesmo que algumas vezes
desproporcionais, para protegera sua população civil do terrorismo. A
liderança palestina bem entende a avidez de muitos grupos de criticar, por
vários motivos, o Estado judeu pelas ações que não produzem um
criticismo equivalente quando praticadas por outras nações ou grupos. As
razões para esse duplo padrão de julgamento residem profundamente na
psique e na história dos críticos seletivos, mas o duplo padrão é inegável e
demonstrável. Isso é também avidamente explorado pelos palestinos.
A tragédia é que, por aplicarem esse duplo padrão, aqueles que são severos
demais com relação a Israel, ao passo que são tão condescendentes com
relação aos palestinos, na realidade, encorajam os palestinos a optar pelo
terrorismo em vez de adotar um compromisso de paz. Eles também são um
pouco cúmplices da confiança palestina no terrorismo - e das mortes daí
resultantes.
NOTAS
I. "Israel sharpens its axe", Counter Punch, 13 de julho de 2001.
www.counter-Dunch.ora/saidaxe.html (visitado pela última vez em 5 de
abril de 2003).
2 . Palestra na Universidade de Harvard, 2 5 de novembro de 2002.
3. Morris, p. 578.
4. Laqueur e Rubin, pp. 341-348.
5. Morris, pp. 578-579.
6. Report Jews, Israel and peace in palestinian school textbooks,
www.edume.org/reports/7/l.htm.
7. V. Itamar Marcus, "Palestine Media Watch Report # 37", 2 de julho de
2001 , disponível em www.pmw.org.il/report-3 7.html.
8. Morris, p. 581.
9. Ibid., p. 596.
10. "Em 1991 os israelenses mataram menos palestinos -
aproximadamente 100 - do que os palestinos - aproximadamente 150." V.
Morris, p. 612.
II. Ephraim Yaar e Tamar Hemrann, "Peace Index: most Israelis support
attack on Iraq", Ha'aretz, 6 de março de 2003.
12. Thomas Friedman, New York Times, 18 de março de 2002.
13. Serge Schmemann, "Mideast Turmoil: The talks", New York Times, 18
de março de 2002.
14. Thomas Friedman, "The hard truth", New York Times, 3 de abril de
2002.
15. "Clinton Minutes", Ha'aretz, 31 de dezembro de 2000.
16. Ibid.
17. Benny Morris, "Camp David and After: an exchange. (1) An interview
with Ehud Barak", New York Review of Books, 13 de junho de 2002.
18. Laqueur e Rubin, pp. 565-567.
19. Alan Dershowitz, Why terrorism works (New Haven, Conn.: Yale
University Press, 2002), p. 79. Khaled Abu Toameh, "How the war began",
Jerusalem Post, 20 de setembro de 2002.
21. Joel Brinkley, 4 de abril de 2002.
22. Citado em Why terrorism works, p. 82.
23. The New York Times, citado em Why terrorism works, pp. 79-80.
24. Scott Atran, "Who wants to be a martyr", The New York Times, 5 de
maio de 2003, p. A27.
25. Why terrorism works, p. 80.
26. Ibid., p. 81.
27. Ibid.
28. Ibid. 
 
Arafat tinha razão ao recusar a
proposta de paz de Barak e
Clinton?
A ACUSAÇÃO
Arafat estava certo em recusar as propostas de Barak e Clinton, em 2000-
2001, e a culpa pelo fracasso das conversações de paz cabe ou totalmente
aos israelenses ou é compartilhada por Barak e Arafat.
OS ACUSADORES
"Às vésperas do colapso da conferência de cúpula de Camp David, em
julho de 2000, a culpa foi instantaneamente atribuída ao presidente
palestino, acusado de deliberada sabotagem do processo de paz ao repudiar
a 'generosa oferta' de Ehud Barak, por apoiar indiretamente a liquidação do
Estado judeu e, depois, por lançar um violento levante com essa finalidade.
Ele tem sido insultado como um terrorista não arrependido e um mentiroso
inveterado, que não mais conseguia ocultar os seus verdadeiros objetivos.
Até mesmo o presidente dos Estados Unidos e muitos autoproclamados
defensores do campo de paz israelense - nutrindo um profundo sentimento
de confiança traída - juntaram-se a orgia de difamação." (Tony Klug, antigo
chefe do desenvolvimento internacional da Anistia Internacional.)1
"O governo israelense cancelou as negociações de Taba." (Noam
Chomsky)2 
A Realidade
Não apenas os presidentes Clinton e George W. Bush colocaram toda a
culpa sobre Arafat, mas também o fizeram muitos dos seus conselheiros
mais próximos. E agora, mesmo o príncipe Bandar, da Arábia Saudita, que
desempenhou um papel central nos bastidores das negociações, chamou a
rejeição de Arafat diante da oferta de Barak de "um crime contra os
palestinos - de fato, contra toda a região". A avaliação do príncipe Bandar,
quanto à rejeição de Arafat da proposta de paz e do amplo apoio aos
palestinos daí resultante, fornece um estudo de caso de como o uso do
terrorismo por Arafat é estimulado pelo duplo padrão, segundo o qual Israel
é culpado por oferecer paz e os palestinos são recompensados por rejeitá-la.
A Prova
Na verdade, todos que desempenharam algum papel no processo de paz de
Camp David e de Taba agora põem toda a culpa pelo seu fracasso na
decisão de Arafat de recusar a oferta de Barak. O presidente Clinton, que
estava furioso com Arafat e o chamou de mentiroso, culpou-o totalmente
pelo fracasso. Dennis Ross, que era o principal negociador americano, disse
que Arafat não queria aceitar nenhuma proposta de paz porque, para ele,
"terminar o conflito é terminar consigo mesmo".3 A melhor prova do
argumento de Ross é que Arafat nem sequer ofereceu uma contraproposta à
oferta de Israel. Ele simplesmente a rejeitou e ordenou preparativos para um
renovado terrorismo. O presidente Bush, de acordo com o New York Times,
também "põe toda a culpa pelo aumento da violência em Arafat".4
Mesmo alguns dos mais confiáveis assessores de Arafat e antigos
colaboradores estão agora lamentando a decisão e, mesmo Arafat deixou
transparecer que se a mesma oferta fosse feita agora ele poderia aceitá-la -
depois de aproximadamente 3 mil mortes perfeitamente evitáveis. É claro
que ninguém em Washington ou em Israel leva as promessas de Arafat a
sério, depois de ter mentido tanto ao presidente Clinton, em Camp David
como ao presidente George Bush, quando negou saber sobre o embarque de
armas iranianas destinadas ao uso dos terroristas palestinos, apesar de uma
admissão pelo capitão do navio de que as suas ordens vinham diretamente
de Arafat.5 Tampouco os membros mais pacifistas do campo de paz
israelense confiam em Arafat, muitos dos quais se sentem absolutamente
traídos pela sua recusa de uma oferta que eles pressionaram Barak a fazer e
a qual, conforme lhe asseguravam, Arafat aceitaria. Culpam Arafat pela
derrota eleitoral de Barak diante de Sharon em seguida à rejeição do que
muitos israelenses consideram atualmente como uma oferta ingênua e
generosa demais. Se Arafat não quis aceitar aquela oferta, eles acreditam
que não vai querer aceitar nenhuma oferta de paz que permita Israel existir.
Numa notável série de entrevistas conduzidas por Elsa Walsh para o New
York Times, o príncipe Bandar, da Arábia Saudita, revelou publicamente o
seu papel nos bastidores do processo de paz e o que disse a Arafat. As
revelações de Bandar ultrapassam tudo o que já foi previamente revelado
por uma fonte interna às negociações e fornecem a melhor prova disponível
de como Arafat joga a carta do terrorismo para mudar a opinião pública,
não apenas no mundo árabe e muçulmano, mas no mundo em geral.
Bandar, que foi um diplomata da Arábia Saudita em Washington durante 20
anos, é um membro de alto escalão da família real, serviu de intermediário
decisivo entre Arafat e a administração Clinton. Ele, como quase todo
mundo, ficou surpreso com a "extraordinária" oferta de Barak, que dava ao
Estado palestino "cerca de 97% dos territórios ocupados",6 a Cidade Velha
de Jerusalém, exceto as partes judaicas e armênias, e 30 bilhões de dólares
em compensação pelos refugiados. Arafat solicitou a ajuda de Bandar nas
negociações com o príncipe Abdullah, o monarca em exercício da Arábia
Saudita. Bandar concordou, mas disse a Abdullah que "não há muito que eu
possa fazer, a não ser que Arafat esteja disposto a entender que é isso
mesmo". Uma melhor oferta de Israel não era possível.
Em 2 de janeiro de 2001 - algumas semanas antes do final do mandato de
Clinton -, Bandar recebeu Arafat na Base da Força Aérea de Andrews,
examinou a proposta de Barak e perguntou a Arafat se ele poderia conseguir
um "acordomelhor". Bandar também lhe perguntou diretamente se ele
preferia negociar com Sharon em vez de Barak. Arafat disse que sim, desde
que "os negociadores de Barak sejam pacifistas". Bandar então reavaliou a
história das oportunidades perdidas com Arafat: "Desde 1948, cada vez que
temos algo sobre a mesa dizemos não. Em seguida, dizemos sim. Quando
dizemos sim, o assunto já não está mais em pauta. Depois temos de
negociar com algo menor. Não é hora de dizermos sim?". Bandar enfatizou
que os árabes sempre haviam dito aos americanos que, se "vocês
conseguirem uma boa negociação em relação a Jerusalém, nós também
vamos em frente". Bandar expôs as opções a Arafat: "Ou você aceita este
acordo ou partimos para a guerra. Se você aceitar este acordo, todos
disporemos a nossa influência a seu favor. Se você não o aceitar, você pensa
que alguém irá à guerra por sua causa?".
Pouco tempo depois, Bandar advertiu severamente Arafat: "Eu espero que o
senhor se lembre do que eu lhe disse. Se perdermos esta oportunidade não
será uma tragédia, será um crime". Apesar das promessas de Arafat de que
aceitaria a oferta se a Arábia Saudita e o Egito lhe dessem cobertura, e
apesar das garantias egípcias e da Arábia Saudita e das ameaças de Bandar,
Arafat rejeitou o acordo e voltou para casa sem oferecer nenhuma
contraproposta ou retificação. Como as negociações se realizaram com
hesitação, Arafat ordenou aos seus líderes terroristas que desencadeassem a
violência. Ele tinha um plano de como transformar um desastre de relações
públicas e um crime contra o povo palestino num sucesso de relações
públicas. Era um plano já experimentado e verdadeiro; funcionou até
melhor dessa vez do que no passado.
Mas, voltando ao príncipe Bandar, ele estava bem furioso com Arafat,
porque este lhe havia mentido, embora não estivesse surpreso, como relata
Walsh: "Bandar disse aos seus colaboradores que todos no mundo árabe
sabiam que Arafat não era verdadeiro". Pessoalmente, Bandar atribuiu toda
a culpa a Arafat. "Clinton, o canalha, realmente tentou o melhor possível",
disse Bandar a Walsh, oficialmente. Os seus comentários mais críticos com
relação a Arafat foram, aparentemente, feitos em off, como novamente
relatado por Walsh:
Bandar acreditou que a recusa de Arafat do acordo de janeiro de 2001 foi
um erro trágico - na verdade, um crime. Mas dizer isso em público seria
ruim para a causa palestina...
Bandar estava particularmente furioso com Arafat porque, se ele defendesse
publicamente o relatório de Barak, poderia parecer um apologista de Barak
e de Israel. "Eu estava lá, eu fui testemunha, eu não posso mentir", ele
disse, confidencialmente.8
Mas ele estava disposto a fazer as seguintes afirmações de condenação de
maneira aberta:
"Eu ainda não me recuperei, para dizer a verdade intimamente, da
magnitude da oportunidade perdida em janeiro", declarou-me Bandar na
sua casa em McLean, Virgínia. "Mil e seiscentos palestinos mortos até
agora. E setecentos israelenses mortos. Para mim, nenhuma única vida
perdida desses israelenses e palestinos se justifica."9
Mas esse não é o fim da história. Agora voltamos ao grandioso plano de
Arafat para recuperar o apoio de Bandar, dos países árabes e da maioria do
resto do mundo. O plano era simples: começar assassinando judeus em
oração, adolescentes israelenses em pizzarias e discotecas, mulheres
grávidas em shopping centers, trabalhadores fazendo uma pausa para comer
falafel e universitários tomando refrigerantes num bar para estudantes. Você
pode contar com uma reação exagerada de Israel, especialmente depois de
ter ajudado a eleger um general embusteiro como primeiro-ministro, que
prometeu ser duro contra o terrorismo. Mesmo se não houver uma grande
reação, certamente haverá alguma que você poderá caracterizar como
exagerada. Mesmo uma reação branda ao terrorismo vai produzir algumas
vítimas civis, especialmente se você tiver o cuidado de localizar as suas
fábricas de bombas ao lado de jardins-de-infância e usar mulheres
(incluindo as grávidas) e crianças como escudos humanos, atiradores de
bombas e pedras, e mesmo homens-bomba.
O plano funcionou, mesmo com Bandar, que sabia exatamente o que Arafat
estava fazendo. Walsh descreve que o príncipe estava assistindo à televisão
e viu um soldado israelense empurrando uma mulher palestina. O príncipe
telefonou a Bandar: "É isso aí. Esses canalhas! Até mulheres - eles estão
pisando em cima delas".10
Bandar descreveu a raiva do príncipe, especialmente pela prática israelense
de destruir casas dos membros das famílias de terroristas. "Pensamos como
o povo americano veria o presidente dos Estados Unidos ordenando que
todas as casas da família McVeigh fossem destruídas ou suas fazendas
incendiadas", disse, referindo-se a quem bombardeou o edifício em
Oklahoma, Timothy McVeigh.11
Abdullah deixou de mencionar que a família de McVeigh não elogiou as
ações de seu filho. Nem o ajudou e o estimulou a tornar-se um mártir. Além
disso, ele não fazia parte de um trabalho constante que continua a
aterrorizar civis.
Como resultado da resposta de Israel ao calculado terrorismo palestino,
Abdullah ordenou a Bandar que encontrasse com o presidente Bush. Num
desses encontros, Bandar mostrou a Bush fotografias de crianças palestinas
mortas. Ele não mostrou a Bush fotografias das bem mais numerosas
crianças judias que foram deliberadamente mortas por terroristas palestinos,
ao contrário das crianças palestinas (algumas delas terroristas suicidas), que
foram acidentalmente mortas por soldados israelenses. Mas uma fotografia
de uma criança morta certamente provoca compaixão, e, como Walsh relata,
"os olhos de Bush pareciam dizer que ele estava bem informado".
Imagens unilaterais similares estavam sendo transmitidas pela televisão
para as ruas árabes e muçulmanas, criando enorme solidariedade aos
palestinos e ódio aos israelenses, o que era precisamente o objetivo do
plano de Arafat. O terrorismo funciona melhor na rua árabe do que as
negociações, especialmente se produz o desejado duplo benefício: o
"corajoso martírio dos homens-bomba que matam odiados israelenses,
seguido pela reação israelense, que gera novos mártires palestinos. O efeito
na rua árabe rapidamente traduziu- se em pressão sobre governos árabes, o
que, por sua vez, exerceu pressão sobre os Estados Unidos. Nesse caso,
Bandar pressionou os americanos a controlar os israelenses "mesmo que
não confiassem em Arafat".
Isso não foi útil para Bush no mundo árabe. Ele parecia estar a ponto de pôr
toda a culpa em Arafat. Em maio, o príncipe da coroa, Abdullah,
publicamente recusou um convite para ir à Casa Branca. "Queremos que
eles vejam a realidade e considerem a sua consciência", declarou a um
repórter do Financial Times. "Eles não veem o que está acontecendo às
crianças palestinas, às mulheres, aos idosos - a humilhação, a fome?"12
O resultado de toda essa pressão foi uma declaração dada pelo presidente
Bush em favor do Estado palestino - a primeira vez que um presidente dos
Estados Unidos oficialmente endossa essa saída. Eu, pessoalmente, sou a
favor da criação de um Estado palestino como resultado dos esforços para
pôr fim ao terrorismo, não como uma recompensa por ter aumentado o
terrorismo usando uma tática cuidadosamente calculada para alcançar a
condição de Estado. O ponto real é como Arafat manipula a opinião pública
abrindo e fechando a torneira do terrorismo. Mesmo aqueles que sabem
intelectualmente o que Arafat está fazendo - como o príncipe Bandar - e que
ele é totalmente culpado pelo colapso do processo de paz, agora estão
emocionalmente compelidos a apoiar as "vítimas" da reação exagerada de
Israel ao terrorismo, apesar de o terrorismo ter calculado para causar essa
reação e a resposta emocional do mundo a ele. O terrorismo funciona, e
Arafat explora essa realidade.
A liderança palestina cometeu um erro trágico ao rejeitar a oferta paz de
Barak e Clinton, em 2001-2002. Mas a maioria dos palestinos culpa Israel
pelos erros do seu próprio líder. Isso é parte de um longo modelo, como
descritopeio historiador Benny Morris num artigo de abril de 2003:
Uma das características do movimento mundial palestino tem sido a visão
dos próprios palestinos como eternas vítimas dos outros - otomanos, turcos,
oficiais britânicos, sionistas, americanos - e de jamais reconhecer que eles
são, pelo menos em grande parte, vítimas dos seus próprios erros e
iniquidades. De acordo com a "Weltanschauung" [cosmovisão] palestina
eles nunca cometem erros; as suas desgraças são sempre culpa dos outros.
O inevitável corolário dessa recusa em reconhecer sua própria atuação tem
sido um perpétuo lamento - este, eu temo, é o termo apropriado - ao mundo
exterior para salvá-los daquilo que, geralmente, é a sua própria culpa.13
NOTAS
1. "The infernal scapegoat", 25 de setembro de 2001,
www.mideastweb.org/infernalscapeagoat.html.
2. Palestra, Universidade de Harvard, 25 de novembro de 2002.
3. M. Kondracke, "Powell should tell Arafat: 'It's now or never'", Roll
Call, 11 de abril de 2002.
4. Elsa Walsh, "The prince", The New Yorker, 24 de março de 2003, p.
61.
5. James Bennet, "Skipper ties cargo to Arafat's group", The New York
Times, 7 de janeiro de 2002.
6. A citação é a descrição de Walsh do que foi mostrado a Bandar pelos
negociadores americanos.
7. The New Yorker, 24 de março de 2003, p. 55.
8. Ibid., pp. 49, 58.
9. Ibid., 49.
10. Ibid.
11. Ibid., p. 59.
12. Ibid., p. 57.
13. Benny Morris, "Rejection", The New Republic, 21-28 de abril de
2003, p. 37. 
 
Por que morreram mais palestinos
do que israelenses?
A ACUSAÇAO
O fato de mais palestinos do que israelenses terem sido mortos durante o
recente agravamento de terrorismo (de setembro de 2000 até agora) prova
que a reação de Israel é pior do que o terrorismo palestino.
OS ACUSADORES
"Eu não posso acreditar que, como clérigo, você não esteja alarmado com o
uso de helicópteros de ataque americanos, bombardeiros, tanques atacando
a polícia de defesa palestina com pistolas, com jovens homens-bomba. Você
sabe que talvez mais palestinos do que israelenses morreram por causa
disso. Você não está atemorizado como clérigo, com o uso de armas
americanas para matar tantos civis?" (Bob Novak, comentarista político.)1
"Abbas Hamideh disse que estava perturbado com os relatos da mídia que
mostram os israelenses como vítimas quando mais palestinos morreram
desde que a segunda intifada começou, em setembro de 2000." (Ernie
Garcla, jornalista.)2
A REALIDADE
Há várias razões importantes que demonstram como essa comparação é
enganosa. Essas razões incluem o fato de os palestinos contarem os
homens-bomba como vítimas e ignorarem o grande número de ataques
terroristas frustrados e evitados contra os israelenses.
A PROVA
Os palestinos propositadamente tentaram matar muito mais israelenses do
que de fato conseguiram, ao passo que as mortes atribuíveis a Israel foram
em sua maioria causadas acidentalmente ou num esforço legítimo para
tentar deter o terrorismo. Por exemplo, durante os primeiros dois meses de
2003 não houve ataques terroristas bem- sucedidos contra civis israelenses.
Isso não ocorreu porque os terroristas palestinos não tivessem feito esforços
consideráveis para cometer atos letais de terrorismo. As autoridades
israelenses impediram centenas de tentativas de ataques terroristas apenas
nesse período. Uma tentativa de ataque terrorista carrega a mesma
culpabilidade moral que um ataque bem-sucedido. Se cada uma dessas
tentativas de ataques bem planejados tivesse tido êxito, talvez tantos
milhares de cidadãos israelenses teriam sido mortos nesses dois meses de
"calma" e dezenas de milhares mais, desde que os ataques suicidas
recomeçaram em 2000.
Num único ataque planejado - o frustrado bombardeio da Shalom Towers (a
torre israelense equivalente ao World Trade Center) - centenas de civis
poderiam ter sido mortos. Num outro, o frustrado ataque das instalações de
gás e combustível Pi Gilot em Tel Aviv, milhares mais poderiam ter sido
mortos. Entre setembro de 2000 e agosto de 2002 "aproximadamente 14 mil
ataques foram feitos contra a vida, pessoa e propriedade de inocentes
cidadãos israelenses residentes, os idosos, as crianças e as mulheres".3
Desde então muitos ataques ocorreram. Milhares mais foram frustrados ou
impedidos.4 Uma estimativa conservadora do número de israelenses que
poderiam ter sido mortos se todos ou a maioria desses atentados tivessem
tido êxito é, pelo menos, dez vezes maior do que os mais de 800 que foram
efetivamente mortos.
O número de cidadãos israelenses mortos, em comparação com o número
de cidadãos palestinos mortos, também reflete diferentes prioridades na
alocação de cuidados médicos aos feridos. Israel tem alocado recursos
substanciais ao atendimento médico em ataques terroristas. Desenvolveu
uma especialidade médica de tratamento das vítimas dos ataques terroristas
e tem conseguido transformar centenas de resultados que, de outra forma,
teriam sido fatais em casos de ferimentos muito graves, muitas vezes
permanentes, mas não mortais. O número de israelenses seriamente feridos,
com deficiências permanentes, está na casa dos milhares Muitas dessas
vítimas teriam morrido se o atendimento médico israelense não tivesse sido
tão extraordinário.
O New York Times informou que: "As pesquisas publicadas neste ano
[dezembro de 2002] sugerem que o fator mais significativo de manter baixa
a taxa de homicídios significa... ambulâncias mais rápidas e melhores
cuidados na sala de emergência".5 A pesquisa concluiu que: "A taxa de
mortalidade está caindo em 70%. Assaltantes "não são menos mortíferos -
apenas está ficando mais difícil matar". O mesmo é verdade para os
terroristas palestinos: eles não são menos mortíferos - está apenas mais
difícil para eles matar israelenses devido ao excelente atendimento médico.
A resposta médica de Israel ao terrorismo deve ser comparada com a
resposta palestina. A Autoridade Palestina decidiu não mais transferir
palestinos feridos a hospitais israelenses, apesar do fato de hospitais
israelenses serem completamente apolíticos no seu tratamento dos
pacientes, fazendo a sua triagem com base na gravidade dos seus ferimentos
e não na necessidade de saber em que lado do conflito eles estão.6 O
ministro da Saúde de Israel "várias vezes ofereceu tratar todos os palestinos
feridos na atual Intifada em hospitais de Israel e a custa de Israel". O
ministro destacou que "as instalações palestinas não tem condições de tratar
muitos dos feridos. Os palestinos rejeitaram a oferta, de acordo com o
ministro da Saúde, "porque eles preferem que não saibamos a verdade sobre
o número de seus feridos".7 Quaisquer que sejam as razões, a realidade é
que significativamente menos palestinos teriam morrido dos seus
ferimentos se os seus líderes tivessem permitido que fossem tratados pelos
excelentes especialistas em pronto-atendimento de Israel e não por médicos
muitas vezes incompetentes e hospitais palestinos inadequados.
Já em 1994, quando havia muito menos violência, administradores de
hospitais palestinos deixaram "quatro palestinos feridos [morrerem] por
falta de sangue, enquanto estavam sendo mandados de Hebron para o
Hospital Mohassed em Jerusalém numa ambulância. Isso ocorreu enquanto
[Israel] ofereceu helicópteros para transportar os feridos a hospitais
israelenses para cuidado médico gratuito". Um juiz da Suprema Corte,
indicado para investigar esta tragédia, ficou furioso com os administradores
palestinos, declarando que ele não "entende a idéia de se recusar a ajuda
médica com base em motivos políticos".8 A recusa de palestinos de levar os
seus feridos ao melhor centro médico tem contribuído para um número de
mortes palestinas que seriam evitáveis.
Além disso, apesar da enorme riqueza pessoal desses palestinos por meio de
corrupção - a fortuna pessoal de Arafat, de acordo com a revista Forbes,
passa de 300 milhões de dólares -, bem pouco dinheiro tem sido alocado na
melhoria do primitivo sistema de medicina de emergência da Autoridade
Palestina. Isso também tem contribuído para o número de mortes quepoderiam ter sido evitadas
Alguns porta-vozes palestinos contam entre os palestinos mortos os
seguires: os próprios homens-bomba; combatentes dos líderes de grupos
terroristas, incluindo aqueles como o engenheiro que tinha responsabilidade
operacional pela fabricação de bombas; terroristas mortos em autodefesa ao
colocarem ou atirarem bombas; fabricantes de bombas (e seus vizinhos) que
morreram quando as bombas que estavam fabricando explodiram
acidentalmente; colaboradores que foram mortos por outros palestinos;
mesmo pessoas que morreram como resultado da absurda e perigosa pratica
de atirar munição ao ar em funerais e protestos palestinos. A ideia de que
qualquer um contraria os homens-bomba e outros terroristas que morreram
como vítimas em comparação com os civis inocentes que eram seus alvos é
tão absurda e imoral que desafia qualquer explicação sobre como a mídia
pode apresentar esses números como baixas comparativas com a cara limpa.
Mas muitos jornais e relatos de televisão e rádio continuam a fornecer esses
números comparativos assimétricos e tendenciosos.
Os palestinos também contam pessoas inocentes surpreendidas em fogo
cruzado entre combatentes palestinos e israelenses, mesmo em situações em
que não se pode saber qual lado disparou o tiro fatal. Por exemplo, a criança
que foi filmada pela televisão francesa nos braços de seu pai pode muito
bem ter sido atingida por atiradores palestinos, de acordo com um relatório
investigativo da televisão alemã, que comparou o ângulo das balas com a
localização dos atiradores palestinos e Israelenses. "As amplas provas
indicam, com alta probabilidade, que os israelenses não fizeram isso."9
Além disso, porta-vozes palestinos claramente exageram no número de
vítimas, como fizeram em seguida à luta em Jenin, em 2002. Inicialmente
os palestinos sustentavam que Israel havia "massacrado" 3 mil civis. Depois
reduziram este número para 500. O secretário-geral da ONU verificou que o
número de palestinos mortos foi de 52, muitos dos quais eram combatentes
armados. Não há provas de que soldados israelenses deliberadamente
tenham matado um único civil apesar do fato de que combatentes armados,
atirando entre civis em Jenin, e escondendo-se em casas de civis, tenham
matado 23 soldados israelenses. Esse deliberado exagero é bem típico,
mesmo entre acadêmicos palestinos. O professor Edward Said escreveu que
"centenas de milhares [foram] mortos... por Israel com apoio norte-
americano".10 Isso é simplesmente uma mentira. Um crítico mais polido
chamou isso de "uma reivindicação absurda".11
Mesmo com todas essas distorções e exageros, o real número de civis
palestinos inocentes, mortos por israelenses, é consideravelmente menor do
que o número de israelenses inocentes mortos por palestinos. A vasta
maioria de palestinos que foi morta estava diretamente envolvida em
atividade terrorista. Aqueles que não estavam diretamente envolvidos foram
mortos acidentalmente no curso de ações militares legítimas contra
terroristas De acordo com uma análise interna das Forças de Defesa
Israelenses, como informado no Boston Globe, em abril de 2003. "18% dos
quase 2 mil palestinos mortos por forças de Israel desde que o levante
começou em setembro de 2000, eram civis sem ligações com atos de
terror".12 Isso representa aproximadamente 360 civis inocentes mortos em
ações de legítima autodefesa.
No meu ponto de vista, esse número e esse percentual são muito altos e
Israel deve carregar alguma responsabilidade pelos palestinos mortos e
feridos. Mas a responsabilidade moral de Israel por essas baixas acidentais,
apesar de muitas vezes previsíveis, de nenhum modo se compara com a
responsabilidade dos terroristas palestinos que alvejaram deliberadamente
cada vítima civil israelense. Das mais de 800 mortes israelenses,
aproximadamente 567 foram de civis inocentes, muitos dos quais crianças,
mulheres e idosos.13 Cada uma dessas mortes é um assassinato de primeiro
grau. Comparar a morte acidental de civis durante a legítima autodefesa
contra o terrorismo com o assassinato intencional de civis inocentes é como
comparar o remédio com o veneno. Ambos podem resultar em morte; mas
com o primeiro é um efeito colateral trágico, apesar de algumas vezes
previsível, enquanto o segundo é o eleito diretamente pretendido.
O número de mulheres israelenses e crianças mortas e feridas é bem maior
do que o de mulheres palestinas e crianças mortas e feridas - simplesmente
três vezes mais, de acordo com um estudo.14 Uma proeminente escritora
feminista observou:
Do lado Israelense, 80% dos mortos eram não-combatentes, a maioria dos
quais eram mulheres e meninas. As vítimas israelenses femininas foram em
número multo maior do que as vítimas femininas palestinas numa proporão
de 3:1 ou 4:1. (Até agora não ouvi queixas de feministas sobre isso; vocês
ouviram?) As mulheres e meninas israelenses constituíram quase 40% dos
não-combatentes israelenses mortos por palestinos. Das mortes palestinas,
mais de 95% eram de homens. Em outras palavras, os palestinos
propositalmente foram atrás de mulheres, crianças e outros civis
desarmados e os israelenses lutaram contra soldados homens, armados,
que os estavam atacando.15
Mesmo quando os homens - que mais provavelmente são combatentes - são
incluídos, o número de israelenses inocentes mortos e feridos excede o
número de palestinos inocentes mortos e feridos, e as razões deveriam ser
óbvias a qualquer um que se dê ao trabalho de pensar nisso mesmo por um
instante.
Os terroristas tentam tudo que é possível para maximizar as mortes, e diz-se
que, mesmo algumas vezes, embebem os pregos que usam nas suas bombas
antipessoais com veneno de rato para impedir a coagulação do sangue.
Recentemente, médicos israelenses expressaram a preocupação de que o
sangue de alguns homens-bomba, que se espalha por toda a cena e é tocado
por pessoal médico, bem como seus ossos, que penetram no corpo de suas
vítimas, possa conter vírus da hepatite ou da Aids, levantando o temor de
que líderes terroristas poderiam estar transformando homens-bomba em
portadores de armas biológicas, seja aplicando injeções, seja selecionando
homens-bomba portadores. Um primeiro caso desse tipo foi documentado
na edição de julho de 2002 do Israel Medicai Association Journal. Médicos
no Hillel Yaffe Medicai Center, em Hadera, extraíram fragmentos ósseos do
pescoço, peito e virilha de uma mulher que havia sido vítima de um ataque
suicida. Os fragmentos ósseos foram enviados ao Instituto de Medicina
Forense em Tel Aviv, e foi encontrado o vírus de hepatite B.16 Os autores
da revista médica disseram: "Fragmentos de ossos humanos, que agem
como corpos estranhos e são de origem biológica infectada, são um novo
conceito em ferimentos por explosão".17 Os médicos "levantaram a
hipótese de que homens-bomba podem carregar um número de doenças
infecciosas, incluindo tipos de hepatite, HIV, sífilis, dengue, doença de
Creutzfeld-Jacob ou malária".18 A teoria virou prática quando as vítimas da
explosão na cafeteria da Universidade Hebraica tiveram de receber doses
maciças de antibióticos porque "os médicos israelenses descobriram que
muitos dos homens-bomba estão infectados com doenças que vão da
hepatite ao HIV".19
Resta constatar se isso foi uma situação isolada ou uma revoltante escalada
na metodologia do terrorismo. No meio tempo, os hospitais israelenses
devem estar preparados para o pior cenário. As revistas médicas israelenses
estão discutindo esses problemas. De fato, toda a edição de julho de 2002
do Jornal da Associação Médica de Israel foi dedicada ao assunto "Terror e
medicina". Os primeiros a tomar medidas foram equipados com kits de
teste, vacinas e antibióticos para confrontar essa nova ameaça em potencial.
E não será fácil, porque "kits de teste são feitos para sangue. É muito difícil
testar ossos, especialmente no caso de um vírus frágil como o HIV".20
Além disso, o novo perigo requer a remoção cirúrgica de ossos que de outra
forma, ficariam no corpo da vítima. Os terroristas têm sucesso sempre que
tornammais difícil o trabalho daqueles que tentam salvar vidas. Segundo
esse padrão, as novas ameaças feitas por homens-bomba infectados
representam uma vitória do terrorismo.
Num claro contraste ao modus operandi dos terroristas palestinos - matar
tantos judeus inocentes quanto for possível, usando qualquer meio
disponível - os civis palestinos inocentes que foram mortos pelos
israelenses não eram os alvos pretendidos dos esforços israelenses de
contra-terrorismo. Israel procura usar balas de borracha e outras armas
feitas para reduzir as fatalidades e aponta para as pernas sempre que
possível. Quando os israelenses acidentalmente matam um civil, há críticas
internas, comissões de inquérito e algumas vezes, até punição.21 Quando os
terroristas palestinos assassinam crianças escolares israelenses há um
festejo generalizado e elogios aos matadores. Israel não tem nada a ganhar e
tudo a perder matando palestinos inocentes. O oposto é verdade para os
terroristas palestinos que deliberadamente alvejam os civis israelenses mais
inocentes.
Por esconder-se intencionalmente e operar a partir de centros de população
civil, como campos de refugiados, os terroristas palestinos usam seus
próprios civis como escudos. É uma violação da lei internacional usar civis
como escudos, e segundo a lei internacional um civil que é morto enquanto
é usado como escudo é contado como uma vítima alvejada por aqueles que
o estavam usando como escudo, não por aqueles que legitimamente,
estavam tentando atacar um alvo militar apropriado, como um terrorista
armado. Reproduzindo o que um diplomata declarou ao New York Times
"os palestinos dominaram uma dura aritmética da dor... As perdas palestinas
contam a seu favor, e as perdas israelenses também".22
O líder do Hamas, Ismail Haniya, declarou ao Washington Post que: "Os
palestinos estão afugentando os israelenses agora porque encontraram seu
ponto fraco: os judeus amam a vida mais do que outros povos e preferem
não morrer. Assim, os homens-bomba são ideais para lidar com eles" Essa
visão sobre a vida e a morte pode ser "realmente doente" como Thomas
Friedman caracterizou.23 Mas é parte da aritmética terrorista palestina.
Aqueles que argumentam que Israel deveria ser condenado porque mais
palestinos do que israelenses foram mortos, de fato, encorajam esse cruel
cálculo da morte.
Ninguém afirma que "árabes e muçulmanos são portadores dos genes do
terrorismo", como Edward Said acusa os advogados pró-Israel de acreditar
nisso.24 O geneticamente homem inócuo de Said não deveria, entretanto,
cegar-nos diante da triste realidade de que muito da liderança palestina -
tanto política como religiosa - adotou o terrorismo como um primeiro
recurso e o glorifica como parte de sua cultura e religião. Eles são
responsáveis pela sua proliferação.
Os líderes palestinos também são responsáveis pelo grande número de
crianças e jovens adultos palestinos mortos e feridos pelo fogo israelense.
Foram os líderes palestinos que mudaram as regras de combate por
deliberadamente usarem crianças e jovens adultos como armas agressivas.
Esses jovens - alguns com apenas 11 anos - foram recrutados como
homens-bomba, atiradores de bombas e de pedras. Salah Shehadeh, um
líder do Hamas em Gaza, disse numa entrevista, em 26 de maio de 2002,
que as crianças estavam sendo recrutadas num ramo especial do Hamas.
Numa entrevista à televisão Aljazirah, um proeminente professor
muçulmano defendeu o uso do que insensivelmente chamou de "crianças-
bomba".25
Uma pesquisa feita pela Universidade Islâmica entre mil jovens de 9 a 16
anos mostrou que 49% disseram haver participado em violência anti-Israel
e 73% expressaram o desejo de morrer como mártires. Não
surpreendentemente, algumas crianças explodiram no processo de detonar
ou colocar bombas. Soldados israelenses ou civis que eram alvo dos jovens
terroristas atiraram em outros como autodefesa. Por exemplo, o New York
Times, de 8 de março de 2003, relatou que "jovens atiraram pedras e
bombas incendiárias sobre tropas durante o dia todo. Num certo momento
os soldados atingiram um jovem que havia atirado uma bomba incendiária",
de acordo com oficiais num hospital árabe de Gaza.26 Outros exemplos
incluem os seguintes:
• Em 6 de julho de 2002 dois meninos de 11anos foram surpreendidos
tentando colocar uma bomba perto de um posto militar israelense e um
deles disse que esperava tornar-se um mártir.
• Em 23 de abril de 2002 três estudantes, com idade de 12, 13 e 14 anos
foram mortos quando tentavam infiltrar-se na aldeia de Nitzarim para
desencadear um ataque suicida. Cada um deixou um testamento,
enfatizando seu desejo de morrer como mártires. Os três jovens mortos são
agora tidos como exemplos de mártires.
• Um menino de 14 anos foi morto quando tentava entrar num posto
militar israelense carregando duas bombas.
• Um menino de 16 anos foi morto quando atirava uma granada de mão
sobre soldados israelenses.
• Uma menina de 15 anos foi presa depois de confessar que seu tio, um
ativista do Tanzim, em Belém, a havia recrutado para tornar-se uma mulher
suicida e ela havia concordado em recrutar mais meninas da sua escola.
• Em 11 de março de 2002, um menino de 16 anos realizou um ataque
suicida num posto do Magen David Adom (a Cruz Vermelha israelense)
matando seis civis israelenses e a si próprio.
• Um estudante de ginásio de 16 anos foi preso a caminho de executar
um ataque suicida num ônibus lotado, depois de ter anunciado para toda a
sua classe que ele não retornaria porque ia tornar-se um mártir.
Mesmo assim, apesar desses casos bem documentados, um porta-voz da
Anistia Internacional disse numa reunião da Comissão de Direitos Humanos
da ONU, em 2003, que “segundo o meu conhecimento, jamais houve um
menor palestino envolvido num ataque suicida”.27 Essa pessoa deveria
dizer isso às famílias dos seis israelenses assassinados pelo menino
palestino suicida, de 16 anos, no posto da Cruz Vermelha israelense!
A filósofa da Universidade de Chicago Jean Bethke Elshtain, no seu livro
Just war against terror, compara os líderes terroristas islâmicos, que
proclamam que “os jovens islamitas amam a morte”, aos líderes nazistas
que mandaram “5 mil crianças com idades entre 8 e 17 anos” para a morte,
quase certa, nos últimos dias do sítio a Berlim:
Apenas 500 sobreviveram. O que era surpreendente para os observadores
foi a determinação dessas crianças de “fazer o seu dever até estarem
literalmente prontas para cair. Elas haviam sido alimentadas com lendas de
heroísmo desde que podiam se lembrar. Para elas o chamado para o
'derradeiro sacrifício' não era uma frase vazia”.28
Ninguém culpou as tropas aliadas por matar crianças armadas que estavam
tentando impedi-las de conquistar Berlim e terminar a guerra. Citando a
obra dos teólogos H. Richard Niebuhr e Paulo Tillich, Elshtain ofereceu a
seguinte análise:
Uma disposição para sacrificar crianças é um sinal de uma cultura da
morte. Isso nos lembra não apenas da tendência para a morte, enaltecida
por Bin Laden e exaltada pelos radicais islâmicos em toda parte, mas
especificamente de como milhares de crianças iranianas foram atiradas ao
horror da guerra de oito anos entre Irã e Iraque, de 1980 a 1988.
Essas crianças foram dizimadas: enviadas como caça-minas humanas,
eram mortas diretamente ou ficavam sem as pernas e marcadas de
cicatrizes. Mas as famílias falavam da honra de serem pais de tais mártires.
Compare-se esse hediondo desejo de sacrificar crianças com o treinamento
ético de soldados adultos a lutarem de modo a preservar tantas vidas
quanto possível, tanto deles próprios como dos não-combatentes.29
Quanto mais os líderes palestinos quebram o tabu contra o uso de jovens
como terroristas, tanto mais jovens serão feridos e mortos. Tal deliberado
mau uso de crianças é uma forma extrema de abuso, e é unicamente culpa
dos que abusam, não daqueles que legitimamente se defendem de bombas
incendiárias e de homens-bomba que podem ser jovens. Como Golda Meir,
ex-primeira-ministra de Israel, disse uma vez: “Talvez possamos desculpá-los por matarem as nossas crianças, mas jamais poderemos perdoar-lhes por
nos forçarem a matar as crianças deles".
O mesmo é verdade quanto às mulheres palestinas, mesmo as grávidas, que
agora têm sido recrutadas para se tornarem mulheres-bomba. As mulheres
realizaram mais de vinte ataques suicidas desde 2001. Algumas delas foram
recrutadas pelo uso de chantagem emocional e cultural. Por exemplo,
agentes terroristas intencionalmente seduziram Andalib Suleiman, uma
mulher de 21 anos, de Belém. Quando ela ficou grávida foi-lhe dito que a
única maneira de evitar a vergonha era morrer como mártir. Ela então
concordou em explodir-se num shopping center de Jerusalém, matando seis
civis, incluindo dois operários da China. Um exemplo similar é Ayat al-
Ahras, uma mulher de 18 anos, de Dehaisi, que se explodiu num
supermercado, matando dois civis, depois de ter sido seduzida e ter
engravidado.
Esse método de aborto terrorista é um desprezível exemplo da criação de
vida nova para gerar a morte. Há outros exemplos de jovens mulheres
violentadas para se tornarem mulheres envergonhadas, cujo único meio de
restaurar a honra da família é morrer como mártires. Em um caso, a família
ficou sabendo da tentativa de ativistas do Tanzim de chantagear sua filha e a
transferiu para fora de Belém. Ela agora vive escondida.30 O Hamas
conseguiu um regulamento religioso legal sobre o que é permitido a uma
mulher-bomba vestir quando entra no negócio de matar civis judeus:
Pergunta: “As mulheres-bomba em via de executar uma operação devem
vestir-se de acordo com a Sharia [lei religiosa muçulmana] sabendo que se
a operação for numa área israelense... a mulher ficará exposta?"
Resposta: “A questão da hijab [cobertura da cabeça da mulher| não está
aberta à discussão. Isso é um mandamento e uma obrigação que uma
guerreira jihad não pode deixar de cumprir. Um segundo ponto é que, nas
nossas ruas e cidades ocupadas pelos judeus [Israel todo é considerado
'ocupado'|, as nossas irmãs podem vestir suas roupas de Sharia mesmo com
véu sobre seus rostos e usando luvas. O terceiro ponto, e este é muito
significativo, é que nossas irmãs, as guerreiras jihad, podem enganar os
judeus usando roupas do tipo usado pelas assim chamadas mulheres
religiosas judias, aceitável de acordo com a Sharia. Avante o comboio
Shahid [morte por Alá]!”31
Um regulamento recente de “um clérigo influente com sede em Qatar” diz
que uma mulher palestina “pode alcançar o paraíso por meio de ataques
suicidas” e que ela poderia remover seus véus e andar sem dama de
companhia para matar judeus, porque ela está indo para “morrer pela causa
do Alá e não para mostrar a sua beleza”.32
Regras de combate apropriadas requerem uma resposta para todos os
envolvidos numa atividade possivelmente letal contra as forças armadas ou
civis de uma nação. Uma boa analogia é o recente recrutamento de crianças
por traficantes internacionais para transportar dentro de seus corpos,
engolindo preservativos cheios de heroína e cocaína. Como resultado dessa
mudança na idade dos transportadores de drogas, as autoridades das
alfândegas tiveram de começar a revistar crianças, dando origem a algumas
queixas.
Mas a culpa está naqueles que decidiram usar crianças como
transportadores de explosivos mortais. Um homem-bomba de 13 anos é tão
perigoso como um de 25 e Israel tem o mesmo direito de autodefesa contra
ambos. O único meio de terminar a matança de jovens e mulheres por
soldados israelenses e pela polícia é os palestinos pararem de usá-los como
terroristas. Mas isso é improvável porque os líderes terroristas fizeram um
cálculo cruel: a causa deles beneficia-se cada vez que um soldado israelense
mata uma criança ou mulher palestina. Eles mesmos chegaram a ponto de
colocar as suas fábricas de bombas ao lado de jardins-de-infância e escolas
primárias, de modo que, se Israel atacasse essas fábricas, as crianças seriam
mortas. A localização dessas fábricas perigosas também expõe as crianças
ao risco de uma morte acidental.33
Os Estados Unidos também tiveram de mudar as suas regras de combate
depois que os iraquianos usaram uma mulher aparentemente grávida como
terrorista. Os soldados americanos tiveram de começar a revistar as
mulheres de forma mais intrusiva e ocasionalmente atirar em carros que não
paravam nos postos de controle. Esses são os custos trágicos, mas
inevitáveis, de proteger pessoas contra o terrorismo, especialmente quando
mulheres e crianças são usadas como bombas humanas.
Aquelas pessoas bem-intencionadas que, em altos brados, criticam Israel
cada vez que uma criança palestina é morta por soldados israelenses em
autodefesa, na realidade, na verdade encorajam o recrutamento de mais
crianças como terroristas - e vítimas. A propaganda palestina entende e
explora a realidade de que pessoas decentes ficam chocadas com a morte de
uma criança e, muitas vezes, colocam a culpa no lado que deu o tiro fatal,
em vez de culpar o lado que deliberadamente colocou a criança no caminho
do perigo.
A propaganda palestina também entende que recebe mais benefícios de
palestinos mortos por Israel (mesmo em autodefesa) do que de palestinos
mortos por árabes (mesmo a sangue-frio). Thomas Friedman do New York
Times expressou isso desta forma:
Por que quando hindus matam centenas de muçulmanos isso gera uma
manchete abafada na mídia árabe, mas, quando Israel mata uma dúzia de
muçulmanos, numa guerra em que muçulmanos também estão matando
judeus, isso inflama todo o mundo árabe.
... Esse é um problema sério. Nas últimas semanas sempre que muçulmanos
árabes falavam comigo sobre a dor de verem palestinos maltratados por
israelenses nas suas telas de televisão todas as noites, eu também
perguntava: “Por que vocês ficam sofrendo tanto quando israelenses
maltratam palestinos, mas não dizem uma palavra sequer sobre a
brutalidade com a qual Saddam Hussein apagou duas gerações de
iraquianos, por assassinatos, medo e gás venenoso? Não recebi boas
respostas”.34
Apesar de muito mais árabes e palestinos terem sido mortos por
companheiros árabes do que por israelenses, as queixas mais fortes e mais
concretas levantam-se quando um palestino é morto por um judeu. Isso,
também é um tipo de racismo.
Existem muitas queixas também quando americanos matam civis árabes,
como foi feito no Afeganistão e no Iraque, mas os estridentes brados de
“genocídio", “táticas nazistas" e "holocausto” são geralmente reservados a
Israel. Em 10 de junho de 2003 a Associated Press publicou suas
averiguações da investigação de cinco semanas sobre o número de civis
iraquianos mortos durante as recentes lutas. Depois de examinar registros
de hospitais e outros, concluiu que “pelo menos 3.240 civis haviam morrido
no país todo, incluindo 1.896 em Bagdá”. O relatório enfatiza que a
“contagem ainda é parcial e o número completo - se chegar a ser computado
- com certeza será significativamente maior”.35
A razão pela qual esses números são tão altos para uma guerra tão curta é
que os soldados iraquianos - como os terroristas palestinos - vestiram-se de
mulheres, esconderam-se entre os civis e mesmo dentro de ambulâncias,
tornando difícil, assim, a distinção entre combatentes e não- combatentes.
Muitos dos civis iraquianos tinham sido vítimas do regime brutal de
Saddam Hussein e não estavam, de forma alguma, apoiando o seu exército.
Muitas das vítimas civis entre os palestinos que foram mortos por tropas
israelenses eram, sim, cúmplices e apoiavam os terroristas. Mas as críticas
dirigidas contra as tropas americanas não chegam perto do nível de crítica
dirigida contra soldados israelenses.
A contagem de corpos, por si só, não determina a moralidade ou legalidade
de uma operação militar. Mas opositores de Israel tendem a focalizar o
“fato” enganoso de que mais palestinos do que israelenses foram mortos. 
NOTAS
1. No Crossfire da CNN, 4 de abril de 2002, em resposta aos comentários
feitos pelo Rev. Jerry Falwell.
2. “Mideast peace visions shared”, The Journal News (Westchester
County, N.Y.), 4 de março de 2002, citando Abbas Hamideh,co-presidente
do setor Nova York-New Jersey do Al- Awda Palestine Right to Return
Coalition.
3. Ajuri v. I.D.F. Commander, HCJ (Corte Suprema de Israel) 7015/02, 3
de setembro de 2002.
4. Bruce Hoffman, “The logic of suicide terrorism”, Atlantic Monthly,
junho de 2003, p. 45.
5. “The ambulance-homicide theory”, New York Times Magazine, 15 de
dezembro de 2002, p. 66.
6. Jerusalem Post, 18 de abril de 2002.
7. Jerusalem Post, 22 de maio de 2001.
8. Chicago Tribune, 5 de abril de 1994.
9. Ellis Shuman, TV alemã, “Mohammed A-Dura likely killed by
palestinian gunfire”. V. também James Fallows, “Who shot Mohammed Al-
Dura”, Atlantic Monthly, junho de 2003, p. 49.
10. Citado em Jean Elshtain, Just war against terror (Nova York: Basic
Books. 2003), p. 87.
11. Ibid.
12. David F. Green, “Fighting by the book”, Boston Globe, 20 de abril de
2003.
13. Ibid. IDF Update, 23 de junho de 2003.
14. Dan Radlauer, ICT Associate, “The Al-Aqsa Intifada': An Engineered
Tragedy”, 20 de junho de 2002 (updated 7 de janeiro de 2003),
www.ict.or.il: “Em termos absolutos, apesar de no total mais palestinos do
que israelenses terem sido mortos, as fatalidades com mulheres israelenses
são muito mais numerosas do que as fatalidades com mulheres palestinas.
Se incluirmos todos os relatórios confiáveis sobre mulheres e meninas
mortas no conflito, a relação é de 219 mulheres israelenses para 92
palestinas - uma relação de quase 2,5 para 1. Se restringirmos a comparação
a mulheres israelenses não-combatentes mortas pelos palestinos e mulheres
palestinas não- combatentes mortas por Israel, a diferença é ainda mais
dramática: 69 palestinas contra 214 israelenses, uma relação de três para
um”.
15. Phyllis Chesler, The new anti-semitism (John Wiley & Sons, advance
proof), p. 117.
16. Karen Birchard, “Hep B case makes suicide bombers an infection
risk”, Medicai Post, MacLean Hunter Ltd., 10 de setembro de 2002.
17. Ibid.
19. Michael Ledeen, “Hebrew U survivor: An interview with Eliad
Moreh”, National Review online, 6 de agosto de 2002.
20. “Hepatitis spread via suicide bombers”, The Straits Times (Cingapura),
26 de julho de 2002.
21. “Israeli soldier given 49 days in jail for killing Palestinian boy”,
Deutsche Presse Agentur, 25 de fevereiro de 2001.
22. James Bennet, “Arafat's Edge: violence, and time, on his side”, New
York Times, 31 de março de 2002.
23. Thomas Friedman, “Suicidai lies”, New York Times, 31 de março de
2002.
24. Said and Hitchens, p. 159.
25. “Hate goes high tech”, Frontline Magazine, inverno de 2003, p. 5.
26. “Israel kills a top Hamas leader”, New York Times, 8 de março de
2003.
27. Anne Bayefsky, “Human rights groups have less than noble agendas”,
Chicago Sun Times, 6 de abril de 2003. Esta afirmação é notável,
considerando a documentação disponível para o público - incluindo nomes
específicos e datas—dos muitos atos terroristas cometidos pelos
adolescentes e crianças palestinas. V. Jeremy Cooke. “School trains suicide
bombers”, BBC News, 18 de julho de 2001: Justus Reed Weiner,
“Palestinian children and the cult of martyrdom”, Harvard Israel Review,
verão de 2003; “Participation of children and teenagers in terrorist activity
during the Al-Aqsa' Intifada”, www.mfa.aov.il.
28. Elshtain, p. 104. citando Gerhardt Rempel, Hitler's children (Chapel
Hill University of North Carolina Press, 1989), pp. 233k, 241.
29. Elshtain, p. 104.
30. Israeli Security Forces. “Blackmailing young women into suicide
terrorism”, Israeli Ministry of Foreign Affairs Report, 12 de fevereiro de
2002, www.mfa.aov.il/mfa/ao.asp?MFAH0n2a0.
31. Itamar Marcus, Bulletin e-mail for Palestinian midia watch, 2 de
dezembro de 2002.
32. James Bennet, “The mideast turmoil: killer of 3; How 2 took the path
of suicide bombers”, New York Times, 30 de maio de 2003.
33. Declarações de Slaim Haga, um ativo membro do Hamas, e Ahmed
Moughrabi, um ativo do Tanzim, 27 de maio de 2002.
34. Thomas L. Friedman, “The core of Muslim rage”, New York Times, 6
de março de 2002, citado em Why terrorism works, pp. 89-90.
35. Atlanta Journal Constitution,
www.ajc.com/news/content/news0603/1Oiraadead.html. visitado pela
última vez em 11 de junho de 2003.
 
Israel tortura palestinos?
A ACUSAÇAO
A lei de Israel autoriza a tortura de prisioneiros palestinos e as autoridades
israelenses aplicam a tortura constantemente.
OS ACUSADORES
“É um fato bem documentado e facilmente verificável que a lei de Israel
oficialmente autoriza a tortura de prisioneiros.” (John Ihnat, Comitê
Coordenador Norte-Americano para ONGs sobre a questão da Palestina,
num pronunciamento publicado em 2001, quase dois anos depois de a
Suprema Corte de Israel oficialmente ter banido todas as formas de pressão
física.)1
A Realidade
Israel é o único país do mundo cujo judiciário encarou a difícil questão, se
alguma vez se justifica aplicar tortura, numa forma não letal - como as
táticas atualmente usadas pelos Estados Unidos com prisioneiros da al-
Qaeda - para obter informação considerada necessária, como para impedir
uma bomba-relógio de matar dúzias de civis. Em 6 de setembro de 1999, a
Suprema Corte de Israel decidiu não apenas que a tortura é absolutamente
proibida, como também os tipos de pressão física atualmente usados pelos
Estados Unidos - demover do sono, posições desconfortáveis forçadas,
música alta, solavancos, capuz sobre a cabeça - são proibidos pela lei
israelense, mesmo nos casos em que a pressão é usada não para obter uma
confissão, mas para obter informação que poderia impedir um iminente
ataque terrorista. Antes dessa decisão, os serviços de segurança de Israel
utilizaram algumas vezes medidas físicas semelhantes às utilizadas
atualmente pelas autoridades dos Estados Unidos contra suspeitos
terroristas.
Isso contrasta fortemente com a situação no Egito, na Jordânia, no
Marrocos, na Arábia Saudita, nas Filipinas e em outros países muçulmanos,
onde a tortura - incluindo a tortura letal de prisioneiros políticos - é comum
e aprovada nos níveis mais altos de governo. Também contrasta fortemente
com a situação nos Estados Unidos, onde novas formas de tortura, que
incluem componentes físicos e psicológicos, são praticadas e não estão
facilmente sujeitas a revisão judicial. De fato, a questão dominante nas
cortes americanas parece considerar a tortura não-letal como razoável e
necessária quando a sua finalidade não é obter uma confissão para uso num
processo, mas obter informação para salvar uma única vida.2
Um debate sobre esse difícil problema está atualmente em andamento na
Alemanha depois da ameaça de usar tortura num sequestrador num esforço
de salvar a vida da sua vítima.3 Outros países, como a França, publicamente
condenam todas as formas de tortura enquanto toleram em silêncio algumas
das suas piores formas. A Inglaterra utilizou táticas semelhantes às usadas
por Israel - posições desconfortáveis, música alta, capuzes, etc. - ao
interrogar suspeitos terroristas na Irlanda do Norte. Mas apenas Israel tem
sido tão repetida e maldosamente condenado por uma prática que sua lei
atual nem sequer permite.
A PROVA
A questão da tortura, talvez melhor do que qualquer outra, ilustra o duplo
padrão hipócrita aplicado contra Israel. O desempenho de Israel no
problema da tortura é muito melhor do que o de qualquer nação do Oriente
Médio ou muçulmana, e melhor do que o da maioria das democracias,
incluindo os Estados Unidos, a França e a Alemanha, mas apenas Israel é
repetidamente condenado por aplicar tortura. Por exemplo, um dos quatro
itens que compreendem a porção de queixa e de demanda da petição de
destituição que está atualmente circulando nos campi universitários inclui o
seguinte: “Também convocamos as [universidades] a abandonar Israel [até]
que Israel cumpra o Relatório do Comitê da ONU de 2001, contra a Tortura,
que recomenda que Israel dê um fim ao uso da tortura”. Essa petição
começou a circular em 2002, três anos depois de a Suprema Corte de Israel
ter apresentado a sua decisão proibindo o uso de pressões físicas, ainda
menos doque a maioria dos países, incluindo os Estados Unidos, considera
como tortura. As técnicas de interrogatório explicitamente proibidas pela
Suprema Corte de Israel incluem o que segue:
1. Fazer o suspeito “agachar-se... na ponta dos pés por cinco minutos”.
2. Fazer o suspeito sentar-se, algemado a uma cadeira baixa na
desconfortável “posição de Shabach” (“o suspeito é algemado com [uma
mão] colocada dentro do vão entre o assento da cadeira e o encosto,
enquanto a outra é amarrada atrás dele, contra o encosto”).
3. Cobrir a cabeça do suspeito com “um saco com ar”.
4. Tocar “música extremamente alta”.
Vale a pena ler a decisão do professor Aharon Barak. presidente da Corte
Suprema de Israel, que inclui o seguinte:
Os fatos apresentados diante desta Corte revelam que 121 pessoas
morreram em ataques terroristas entre 1/1/1996 e 14/5/1998. Setecentas e
sete pessoas foram feridas. Um grande número dos mortos e feridos foram
vítimas de dolorosos bombardeios suicidas no coração das cidades de
Israel. Muitos ataques - incluindo homens-bomba, tentativas de explodir
carros-bomba, sequestro de cidadãos e de soldados, tentativas de sequestro
de ônibus, colocação de explosivos, etc. - foram impedidos devido às
medidas tomadas pelas autoridades responsáveis por combater as
atividades terroristas hostis acima descritas numa base diária.4
[A decisão prossegue para proibir todas as formas de pressão física e
depois resume o seu julgamento como segue:]
Essa decisão inicia-se com uma descrição da difícil realidade em que Israel
se encontra do ponto de vista de segurança. Vamos concluir este
julgamento dirigindo-nos novamente a esta dura realidade. Estamos cientes
de que esta decisão não facilita lidar com a realidade. Este é o destino da
democracia, nem todos os meios são aceitáveis para ela, nem todas as
práticas empregadas pelos seus inimigos são convenientes diante dela.
Apesar de uma democracia muitas vezes precisar lutar com uma mão atada
às costas, ela, ainda assim, tem a mão mais forte. Preservar a lei e o
reconhecimento da liberdade individual constitui um importante
componente no seu entendimento de segurança. No final do dia, esses
fortalecem o espírito e o vigor da democracia, possibilitando-lhes superar
suas dificuldades. 
Em consequência, fica decidido que a ordem ainda não absoluta, torna-se
absoluta, assim como declaramos que o GSS não tem autoridade para
“sacudir” um homem, mantê-lo na posição de “Shabach”... forçá-lo a
“agachar-se como sapo” e privá-lo do sono, numa forma diferente da que é
inerentemente requerida pelo interrogatório. De modo similar, declaramos
que a defesa da “necessidade”, encontrada na Lei Penal, não pode servir
de base de autoridade para o uso dessas práticas de interrogatório, ou
para a existência de diretivas pertencentes aos investigadores do GSS, que
lhes permitam utilizar práticas de interrogatório desse tipo.5
Não sei de nenhuma decisão de Corte Suprema reconhecendo que as
restrições impostas a interrogatórios quase com certeza custarão as vidas
dos seus civis, e ainda assim proibindo o uso de táticas eficazes, mas
desumanas.
À luz dessa decisão corajosa parece ironia dizer que, em maio de 1999, a
seção holandesa da Anistia Internacional publicamente se opôs à entrega de
um prêmio de direitos humanos ao autor dessa, e de muitas outras leis sobre
direitos humanos, e apoiou as reivindicações palestinas com base nas quais
“as decisões da Suprema Corte de Israel com relação a direitos humanos...
têm sido devastadoras”. A Anistia Internacional declarou expressamente
que “Israel é o único país do mundo que efetivamente legalizou a tortura”.6
Não deveria surpreender que tantos advogados dos direitos humanos
perderam a fé na objetividade da Anistia Internacional quando se trata de
fazer relatos sobre Israel.
Compare-se a decisão da Suprema Corte de Israel com uma decisão da
Corte de Apelações dos Estados Unidos para o 11° Circuito em um caso
envolvendo dois sequestradores que estavam mantendo uma vítima adulta
para obter o resgate. Um dos sequestradores chegou à casa da família da
vítima para receber o resgate e foi preso pela polícia, que exigiu que
dissesse onde estavam o seu parceiro e a vítima. Quando se recusou, a
polícia “estrangulou” o suspeito e torceu seu braço “até que revelasse onde
[a vítima] estava sendo mantida”. Um juiz caracterizou a ação da polícia
como “técnicas de tortura”. Mesmo assim, a Corte de Apelações aprovou as
ações como necessárias para “um grupo de policiais preocupados, que agia
de modo razoável para obter informações de que necessitava para poder
proteger um outro indivíduo contra danos corporais ou morte”.7 A Corte
Suprema de Israel não teria aprovado essa ação da polícia, quer num caso
criminal comum, quer numa situação de prevenção terrorista.
A prática que foi declarada ilegal pela Suprema Corte de Israel era similar,
tanto em espécie como em grau, àquela usada pelos Estados Unidos após o
11 de setembro de 2001.
Em 9 de março de 2003 o New York Times fez uma reportagem sobre o
modelo que estava sendo seguido pelos investigadores americanos. Ele
inclui o fato de forçar os presos a ficar em pé, nus, com “suas mãos
acorrentadas no alto e com os pés algemados”. Suas cabeças são cobertas
com “capuzes pretos”; são forçados “a ficar em pé ou ajoelhados em
posições desconfortáveis num frio ou calor extremo” que pode rapidamente
variar de “100 a 10 graus”. Os presos são impedidos de dormir, “bem pouco
alimentados”, expostos a sons e luzes desorientadores e, de acordo com
algumas fontes, “eles apanham e são maltratados”. Em um caso,
envolvendo um agente de alto escalão da al-Qaeda, “analgésicos eram
negados ao sr. [Abu] Zubaydah, que havia recebido vários tiros durante a
sua captura”.8
Um oficial de inteligência ocidental descreveu essas táticas como “não
exatamente torturas, mas quase tão perto quanto se pode chegar”. Houve
pelo menos duas mortes e dezessete tentativas de suicídio atribuídas a essas
táticas de interrogatório. Quando Israel empregou táticas similares, apesar
de menos extremas, foram universalmente caracterizadas como tortura sem
mesmo ser salientado o fato de que não eram letais e não infligiam dor
contínua.9 Isto é o que o Comitê contra a Tortura, da ONU, concluiu em
1997:
Hoje o Comitê contra a Tortura concluiu a sua décima oitava sessão - uma
série de reuniões durante duas semanas, marcada, entre outras coisas, por
um caloroso debate com Israel, aprovado pelo governo, sobre o uso do que
chamou de “moderada pressão física” durante interrogatórios para extrair
informações que pudessem frustrar ataques terroristas. Nesta manhã o
Comitê declarou, em conclusão oficial, que tais métodos de interrogatório
aparentemente incluíam encarceramento em condições muito dolorosas;
detenção sob condições especiais; música muito alta por longos períodos;
privação do sono por longos períodos; ameaças de morte; espancamento
violento; e uso de jatos de ar frio. Na opinião do Comitê, tais métodos
constituem tortura, como definido pelo Artigo 1 da Convenção contra a
Tortura, especialmente quando usados em conjunto, o que, dizem, parecia
ser prática comum.
Pediu, entre outras coisas, que Israel “deixasse de usar imediatamente”
esses e quaisquer outros procedimentos de interrogatórios que violassem a
Convenção e enfatizou que nenhuma circunstância - mesmo "o terrível
dilema do terrorismo”, que reconhecia estar sendo enfrentado por Israel -
poderia justificar a tortura.
... Membros de uma delegação do governo, depondo diante do Comitê,
afirmam que tais métodos ajudaram a impedir cerca de 90% de ataques
terroristas planejados durante os dois últimos anos e salvaram muitas vidas
de civis, num caso recente, possibilitando a membros do Serviço Geral de
Segurança do país a localização de uma bomba. A delegação negou
repetidamente que os procedimentos significavam tortura.10
Se os procedimentos antes praticados por Israel e atualmente seguidos pelos
Estados Unidos constituíram ou não tortura, o fato é que a Suprema Corte
de Israel agoraconsidera-os ilegais.
Oficiais de inteligência “também reconheceram que alguns suspeitos foram
entregues [pelos Estados Unidos] aos serviços de segurança em países os
quais se sabe usam tortura”.11 Esses países incluem Egito, Jordânia,
Filipinas, Arábia Saudita e Marrocos. A entrega de presos a países para que
sejam torturados é uma plena violação da Convenção Internacional contra a
Tortura, de 1984, da qual nós, e os países aos quais estamos enviando
presos, somos signatários.
Um porta-voz do governo egípcio “culpou oficiais desonestos” por qualquer
abuso no seu país e disse que “não havia uma política sistemática de
tortura”. Continuou argumentando que “qualquer terrorista vai reclamar de
tortura - isso é o mais fácil. Reclamações de torturas são universais.
Organizações de direitos humanos justificam a sua existência graças a essas
queixas”. O porta-voz continuou, gabando-se de que o Egito havia
“estabelecido o modelo” para iniciativas antiterroristas e os Estados Unidos
aparentemente estão “imitando o modelo egípcio”.12 Quando Israel
também argumentou que queixas de tortura feitas por alguns detidos que
deram informações podem ser por questões de autodefesa e até exageradas,
autoridades egípcias e outras insistiram que os detidos mereciam
credibilidade.
O Wall Street Journal noticiou que um oficial de inteligência norte-
americano disse que detidos que tinham informações importantes podiam
ser tratados asperamente:
Entre as técnicas: fazer os presos usar capuzes, forçá-los a ficar em pé em
posições “estressantes e dolorosas” por longo período e sujeitá-los a
sessões de interrogatório de até 20 horas.
Oficiais norte-americanos que acompanham interrogatórios de elementos
da al-Qaeda capturados em Bagram e na Base Naval da Baía de
Guantânamo, em Cuba, podem até autorizar “tapas no rosto”, disse um
oficial de inteligência. “Há os da al-Qaeda que necessitam de um estímulo
extra", disse o oficial.
“Há uma razão pela qual [o sr. Mohammed] não estará perto de um lugar
onde ele terá os direitos de Miranda ou o seu equivalente”, diz o executor
principal da lei federal. “Ele não estará num lugar como a Espanha, a
Alemanha ou a França. Nós não estamos nos aproveitando disso para
processá-lo. Isso é para a inteligência. Só Deus sabe o que vão fazer com
ele. Procuramos outro país que nos deixará dar umas coronhadas nesse
cara.” [...]
As autoridades americanas têm um incentivo adicional para fazer o sr.
Mohammed falar, se ele compartilhar mesmo do compromisso suicida dos
sequestradores de 11 de setembro: “Os americanos têm acesso a duas das
suas crianças que frequentam a escola primária”, diz o oficial. “As
crianças foram capturadas numa incursão de setembro que acobertava um
dos principais companheiros do sr. Mohammed, Ramzi Binalshibh”.13
Não há dúvida de que essas táticas seriam proibidas pela Corte Suprema de
Israel, mas a Corte de Apelações dos Estados Unidos do Distrito de
Columbia, recentemente, estabeleceu que cortes americanas não têm poder
nem mesmo para rever as condições impostas sobre detidos em
Guantânamo ou outros centros de interrogatório fora dos Estados Unidos.14
Contudo nos campi universitários pelo mundo afora nenhuma palavra de
crítica é ouvida sobre o frequente uso da tortura por quaisquer países,
exceto Israel. Com certeza não há críticas sobre países muçulmanos e
outros que torturam dissidentes políticos de maneira habitual, enfrentando
muito menos ameaças do que Israel. Esse duplo padrão de procedimento
começou nas Nações Unidas, onde, durante muito mais tempo, atenção e
condenação têm sido dirigidas contra o antigo uso de pressão física, embora
não letal de Israel, para extrair informações que salvam vidas, procedimento
habitualmente também empregado por muitos regimes, inclusive a
Autoridade Palestina, contra opositores políticos, dissidentes e
colaboradores. Aqueles que acusam apenas Israel de usar a tortura, sem
condenar as práticas muito mais brutais e menos justificáveis de outras
nações do Oriente Médio, têm o dever de justificar o seu duplo padrão de
procedimento, tão evidente.
NOTAS
1. “Uninteresting terrorism and insignificant oppressions”, All Things
New, www.scmcanada.ora/atn/atn95/atn952 p.19.html.
2. Leon v. Wainwright, 734F.2d 770, 772-773 (lllhCir. 1984), citado em
Why terrorism works, p. 125. V. também Chavez v. Martinez (slip opinion,
U.S. Supreme Court, N° 01-1444). Em 27 de maio de 2003 a Corte
Suprema dos Estados Unidos, numa decisão muito dividida, determinou que
o ato de torturar um suspeito para obter uma declaração não é, em si, uma
violação do privilégio à auto-incriminação concedida pela 5â Emenda, a
não ser que a declaração seja depois admitida contra o suspeito num caso
criminal. O ato de torturar pode, entretanto, constituir uma violação do
processo em casos extremos.
3. Richard Bernstein, “Kidnapping has germans debating police torture”,
New York Times, 10 de abril de 2003.
4. Public Committee against Torture v. State of Israel, HCJ (Suprema
Corte de Israel) 5100/94, 15 de julho de 1999.
5. Ibid.
6. Adri Kemps (director, Dutch Section of Amnesty International) ao Dr.
Mário Soares, em protesto contra a concessão do prêmio “Justicia en el
Mundo” a Aharon Barak.
7. Leon v. Wainwright, 734 F.2d at 772-773.
8. Raymond Bonner, et al., “Questioning terror suspects in a dark and
surreal world”. New York Times, 9 de março de 2003.
9. Uma pessoa morreu depois de ter apanhado, mas uma investigação
independente atribuiu a sua morte a uma condição médica preexistente da
qual não se tinha conhecimento. V. Public Committee against Torture, HCJ
(Suprema Corte de Israel) 5100/94.
10. “Committee against Tortre Concludes Eighteenth Session Geneva. 28
de abril a 9 de maio”, 1997. Press release da ONU HR/4326.
11. Raymond Bonner, New York Times, 9 de março de 2003.
12. Ibid.
13. Jess Bravin e Gary Fielfs, “How do interrogators make terrorists talk”,
Wall Street Journal, 3 de março de 2003.
14. Al Odah v. United States, 321 F.3d 1134 (2003). 
 
Israel tem cometido genocídio
contra civis palestinos?
A ACUSAÇAO
Israel é culpado pelo genocídio contra palestinos e árabes.
OS ACUSADORES
“Gostaria de sugerir publicamente aqui em Gaza, Palestina - onde começou
a intifada que completa hoje dez anos que o Governo Provisório do Estado
da Palestina e seu presidente adotem procedimentos legais contra Israel
diante da Corte Internacional de Justiça (ICJ), em Haia (a assim chamada
Corte Mundial), por violação da Convenção para a Prevenção e Repressão
do Crime de Genocídio, de 1948. Tenho certeza de que todos podemos
concordar que Israel de fato perpetrou o crime internacional de genocídio
contra o povo palestino. O objetivo do processo seria demonstrar esse
inegável fato ao mundo todo. Esses trabalhos da Corte Mundial vão provar
ao mundo e à história que aquilo que os nazistas fizeram aos judeus há uma
geração, perante a lei, é semelhante ao que os israelenses estão fazendo
atualmente com o povo palestino: genocídio... Certamente, a Palestina tem
uma reivindicação justa de que Israel e seus predecessores legais - as
Agências e Forças sionistas - cometeram genocídio contra o povo palestino,
que de fato começou em 1948 e continua aceleradamente até hoje, em
violação dos Artigos II (a), (b) e (c), entre outros, da Convenção sobre
Genocídio.”
“Pelo menos durante os últimos cinquenta anos, o governo israelense e seus
predecessores legais - as Agências e Forças sionistas - têm implacavelmente
implantado uma sistemática e compreensiva campanha militar, política e
econômica com o objetivo de destruir em parte substancial o grupo
nacional, étnico e racial conhecido como povo palestino. Essa campanha
sionista/israelense consiste na matança de membros do povo palestino em
violação do Artigo II (a) da Convenção sobre Genocídio.” (Francis Boyle,
professor de Direito Internacional na Universidade de Illinois, apresentado
em Gaza, em 13 de dezembro de 199 7, em honra ao décimo aniversário da
primeira intifada.)1
A REALIDADE
Todas as nações devem ser julgadasem comparação com outras nações
enfrentando ameaças parecidas. O contexto é essencial para qualquer
avaliação justa do comportamento de uma nação. Julgada dessa maneira, a
ação de Israel na sua guerra contra o terrorismo e ataque externo recebe
notas relativamente altas. De fato, nenhuma outra nação enfrentando
ameaças comparáveis, tanto externas como internas, foi mais protetora de
civis inimigos, mais disposta a assumir riscos pela paz e mais dedicada à
lei.
A PROVA
Por três quartos de século a guerra árabe-israelense tem sido entre nações
árabes, dedicadas à agressão genocida contra civis, de um lado e o Estado
judeu, determinado a proteger sua população civil por tomar ações
defensivas dirigidas contra alvos militares, de outro. Essa guerra, na qual o
lado árabe tem consistente, ilegal e agressivamente alvejado civis, e o lado
israelense tem consistente, legal e defensivamente respondido ao ataque a
alvos militares, começou em 1929 com o bem planejado e cuidadosamente
coordenado massacre de sessenta crianças, mulheres e idosos judeus, e
outros civis desarmados, residentes da cidade bíblica de Hebron, onde os
judeus tinham vivido pacifica e continuamente desde tempos imemoriais.
As vítimas desse crime contra a humanidade incluíam muitos judeus que
não eram sionistas ou colonos. O massacre de 1929 foi um precursor de
massacres de civis ainda por vir - como a Kristallnacht nove anos depois,
que pressagiou o Holocausto. Também foi a primeira amostra de “limpeza
étnica” na Palestina, já que todos os judeus de Hebron foram assassinados
ou expulsos de uma cidade na qual haviam vivido durante milênios.
Antes do estabelecimento do Estado de Israel, grupos dissidentes - não sob
controle da Agência Judaica (o governo pré-Israel) ou da Haganah (o
exército oficial pré-Israel) - bombardearam o quartel-geral do governo
colonial britânico, localizado numa ala do Hotel King David, matando 91
pessoas, muitas das quais eram judeus ou oficiais coloniais britânicos. A
Irgun [organização militarizada judaica, existente na Palestina desde 1937]
declarou que advertências haviam sido feitas antes da explosão do King
David. Grupos dissidentes também mataram civis em Deir Yassin (v.
Capítulo 12) e em alguns outros lugares, mas esses abusos foram
firmemente condenados pela Agência Judaica. Assim que Israel se
transformou em Estado, seu primeiro-ministro, David Ben-Gurion,
desarmou esses grupos dissidentes pela força, chegando a afundar um navio
carregado de armas compradas pela Irgun. Dezesseis judeus foram mortos
pelas forças da Haganah durante a batalha pelo Altalana. Não foram
cometidos novos atos de terrorismo, pela Irgun ou pela Lechi. Ben-Gurion
também desmontou o Palmach - a força-comando permanentemente
mobilizada, leal ao próprio partido de Ben-Gurion - e o integrou às Forças
de Defesa de Israel, que estavam e permanecem sob controle civil.
Entre 1948 e 1967, os fedayin palestinos [combatentes da guerrilha
palestina], subvencionados pelo Egito e pela Síria, assassinaram civis
israelenses em centenas de incursões através das fronteiras. Esses
assassinatos ocorreram antes de Israel ter ocupado qualquer terra palestina
ou construído quaisquer colônias fora da área que controlava, de acordo
com as partições da ONU e o cessar-fogo que se seguiu ao ataque de 1948
contra o recém-estabelecido Estado judeu.
Na guerra de 1967, todo o exército árabe - incluindo os exércitos egípcio,
sírio, palestino, jordaniano e iraquiano - alvejou os centros de população
civil israelense numa violação das leis de guerra. Como documentado
previamente, a artilharia síria e aviões MIG abriram fogo sobre cidades
israelenses, kibutzim e moshavim, incluindo Degania. A Jordânia atirou 6
mil morteiros sobre Jerusalém ocidental e os subúrbios de Tel Aviv,
enquanto caças Hawker despejaram bombas sobre Netânia, Kefar Sirkin e
Kefar Sava. Aviões iraquianos bombardearam Nahalal, Afula e
comunidades civis no Vale de Jezreel.
A Rádio Damasco alardeou que a força aérea síria estava bombardeando
cidades israelenses. As forças jordanianas foram instruídas a “destruir todos
os prédios e matar todos os presentes”, incluindo civis, se conquistassem
partes de Jerusalém. Os planos de batalha palestinos incluíam a destruição
de Israel e seus habitantes. Os planos de batalha egípcios incluíam o
massacre da população civil de Tel Aviv como primeiro passo para “a
destruição de Israel”. Cartazes no Cairo mostravam “soldados árabes
alvejando, esmagando, estrangulando e esquartejando judeus barbudos com
narizes aduncos".2 Como disse Nasser, “se a guerra vier, será total e o
objetivo será a destruição de Israel”.3
Ao contrário, Israel não alvejou civis inocentes, apesar de certamente ter
essa capacidade, com relação ao bombardeio dos seus centros de população
civil. Israel ameaçou bombardear Amã e Damasco, durante a guerra de
1967, se as forças da Jordânia e da Síria persistissem no bombardeio de
cidades israelenses, mas não chegou a fazê-lo. Bombardeou bases aéreas,
comboios de tanques e outros legítimos alvos militares, apesar de o inimigo
alvejar civis israelenses durante a curta guerra. No relato definitivo de Oren
sobre a guerra de 1967, ele concluiu que o número de vítimas entre civis
árabes era “surpreendentemente baixo” porque as ações militares de Israel
eram conduzidas “longe dos principais centros populacionais”.4
Desde o fim da guerra de 1967, todo foco da agressão palestina tem sido os
civis, tanto dentro de Israel como no mundo todo. O terrorismo global
começou em 1968, não como último recurso contra uma longa ocupação,
mas como primeiro recurso - na verdade como uma continuação de uma
tática ilegal e imoral continuamente usada pelos árabes contra os judeus
desde o começo do conflito. O alvejamento de civis não era resultado da
ocupação. Ao contrário, a ocupação era o resultado - pelo menos em parte -
de uma longa história árabe de massacre de civis.
Se a ocupação justificasse o terrorismo, então a Ku Klux Klan e os Night
Riders pós- guerra civil, que aterrorizaram negros durante a Reconstrução -
que incluía a ocupação militar da derrotada Confederação - seriam vistos
como defensores da liberdade. Mas esses grupos terroristas foram
relegados, bem merecidamente, à lata de lixo da história e são glorificados
apenas em filmes racistas como Birth of a Nation. Muitos dos que marcham
em apoio aos terroristas palestinos ficariam ultrajados se Birth of a Nation
fosse mostrado num campus universitário, ou se a Klan fosse convidada a
recrutar membros, apesar da realidade de que terroristas palestinos
lincharam e aniquilaram mais pessoas - incluindo centenas de pessoas
negras 5 - do que a Klan conseguiu matar no seu reinado de um século de
terror. Aqueles que elogiaram e apoiaram os assassinos que dinamitaram a
igreja negra onde quatro meninas foram mortas são vistos agora como
monstros. Entretanto, aqueles, como o poeta Tom Paulin, que elogiam e
apóiam terroristas que assassinam judeus são convidados a falar em campi
universitários como visitas honradas.
Com certeza, civis palestinos morreram na guerra de 73 anos, mas o seu
número é ínfimo em comparação com o número de palestinos e árabes
mortos pela Jordânia, Síria, Iraque e Irã durante o mesmo período. Mesmo
comparando perdas de civis israelenses inocentes com perdas civis
palestinas, verifica-se que Israel tem agido com moderação. E isso não leva
em conta a realidade de que muitos dos chamados civis palestinos não eram
acolhedores e apoiadores de terroristas tão inocentes.
Além disso, as mortes palestinas ocorreram principalmente porque os
terroristas se escondiam entre seus próprios civis, como no Líbano,
enquanto as mortes israelenses resultaram do alvejamento específico de
civis inocentes. Quando Israel acidentalmente matou palestinos num
legítimo esforço para prevenir o terrorismo, o fato foi sinceramente
lamentado. O assassinato de israelenses inocentes, por outro lado, tem
gerado comemorações entre os palestinos.
Em 1994, Baruch Goldstein, um médico judeu demente de Hebron,
metralhou29 muçulmanos, em oração. Sua família afirmou que os
repetidos ataques contra judeus o fizeram perder a cabeça. É interessante
que as mesmas pessoas que sempre afirmaram que os homens-bomba - e
aqueles que os enviam - eram resultado da repressão israelense à prática de
seus atos assassinos rapidamente rejeitaram essa afirmação, quando feita
por uma família judaica. De qualquer forma, o ataque terrorista individual
de Goldstein contra civis palestinos foi fortemente condenado pelo governo
israelense e pela absoluta maioria de israelenses e judeus pelo mundo. Isso
contrasta exatamente com a reação palestina aos seus "mártires” que
assassinam israelenses e judeus inocentes. Essas pessoas são elogiadas e
suas famílias são recompensadas pelos seus bem planejados crimes.
Em abril de 2002, após centenas de ataques suicidas que culminaram no
massacre do jantar de Pessach de 29 mulheres, crianças e homens em
oração, o exército de Israel entrou no campo de refugiados de Jenin, que se
transformou numa fábrica de bombas e num centro terrorista. Em vez de
bombardear o campo terrorista, como os Estados Unidos fizeram no
Afeganistão e a Rússia fez na Tchetchênia, com pouco risco para seus
próprios soldados, os homens de infantaria israelenses entraram no campo,
indo de casa em casa à procura de terroristas e equipamentos para fabricar
bombas, que efetivamente encontraram. Vinte e três soldados israelenses e
52 palestinos, muitos dos quais eram combatentes, foram mortos. Isso agora
é chamado de massacre pelos propagandistas palestinos. De acordo com os
padrões israelenses as mortes de 52 palestinos, alguns dos quais não eram
combatentes, foram um desvio da norma, apesar de terem posto seus
próprios soldados em risco para minimizar o número de vítimas civis
palestinas. Mas, de acordo com os padrões palestinos terroristas, a morte de
alguns não-combatentes é apenas um outro dia comum para o seu
terrorismo! Contudo, o brado palestino, hipócrita, contra o massacre em
Jenin persiste, e é apoiado pelo chefe da Agência para Refugiados da ONU
(UNRWA), Peter Hanson, um velho apologista do terrorismo e seu
facilitador. Ele caracterizou as ações de Israel em Jenin como “uma
catástrofe com relação aos direitos humanos que tem poucos paralelos na
história recente”.
Não só Jenin não foi um massacre ou uma catástrofe sem paralelo, mas é
considerado por muitos um modelo de como conduzir guerra urbana contra
terroristas escondidos entre civis. Um artigo do New York Times, de l2 de
abril de 2003, noticiou que o exército americano estudou a experiência de
Israel “no combate direto”.
Oficiais do exército americano disseram que estavam particularmente
interessados em como o exército de Israel fez rondas de tanques
especialmente armados para fazer buracos através de paredes, sem derrubar
os prédios, durante as lutas no ano passado, no campo de refugiados de
Jenin. Em Jenin, Israel também usou tratores e mísseis teleguiados atirados
de helicópteros para subjugar cerca de 200 atiradores escondidos dentro do
campo.6
O artigo do Times citou o historiador militar israelense Martin van Creveld,
afirmando que, quando ele visitou um campo militar americano, os
fuzileiros navais estavam “interessados no que seria combater uma guerra
de guerrilha, especialmente em uma campanha urbana como a que
estávamos conduzindo em Jenin”.
O professor van Creveld concentrou-se nos tanques, helicópteros e “nos
problemas morais e éticos que certamente viriam” pelo fato de lutar entre
não-combatentes.7
Um editorial no New York Times, de 3 de abril de 2003, insistia com os
comandantes americanos para “olharem de perto a lição duramente
aprendida da experiência de Israel no combate urbano” porque passava “um
bom modelo de táticas militares”.
O artigo continuava dizendo:
Vinte e nove soldados israelenses foram mortos nessas batalhas; porém,
apenas seis deles na batalha pelo campo de refugiados de Jenin. Apesar do
número de mortes palestinas ser, evidentemente, fortemente debatido, a
estimativa israelense é de 132 mortos em Nablus e Jenin. Em comparação
com o número de vítimas de combates urbanos nos anos recentes - tais
como as lutas na Tchetchênia, onde o exército russo perdeu pelo menos
1.500 soldados durante seu primeiro assalto a Grozni -, esses números são
surpreendentemente baixos.8
Uma notícia de capa, na edição de junho de 2003, da revista Atlantic
Monthiy escrita por um destacado especialista em terrorismo da Rand
Corporation também focalizou as “lições” que a América precisa aprender
de como Israel trata o terrorismo.
Um artigo na seção “Ideas” do Boston Globe analisou o treinamento ético
recebido por soldados israelenses e concluiu: “O exército de defesa de
Israel oferece um exemplo a nós e a outras forças de coalizão”.9 Descrevia
o conceito israelense de “pureza de armas”, que “requer que os soldados
ponham em risco suas próprias vidas para evitar ferir não-combatentes”.
Também os obriga a responder apenas com “força proporcional”. O código
de ética das Forças de Defesa de Israel, que está “incorporado ao
treinamento de todos os soldados israelenses”, foi compilado “com a
assistência de alguns dos principais filósofos morais do país” e “encontra
amplo apoio entre cidadãos de outra forma divididos”. Requer que cada
soldado atue “a partir do reconhecimento do valor supremo da vida
humana” e determina-lhes “fazer tudo em [seu] poder para evitar causar
danos à vida, aos corpos, à dignidade e propriedade de [não-combatentes], e
abster-se de cumprir ordens flagrantemente ilegais”.
Um dos membros da equipe que preparou o código é um conhecido
advogado da paz, o professor Moshe Halbertal, que apoia a retirada
unilateral dos territórios. Ele reconhece que a estratégia dos palestinos na
recente intifada tem sido “apagar a distinção entre combatentes e não-
combatentes de ambos os lados” por alvejarem civis israelenses e fazerem
com que os terroristas palestinos se misturem à população civil. Mesmo
assim, ele vê o desafio para Israel em dirigir suas medidas defensivas
“contra aqueles que instigam”10 - um desafio desencorajador com uma
população palestina que contém milhares e milhares de instigadores,
facilitadores, estimuladores e apoiadores.
Israel tem enfrentado esse desafio melhor do que qualquer nação que tenha
encontrado perigos comparáveis. De acordo com números das Forças de
Defesa de Israel, levantados entre setembro de 2000 e março de 2003, “18%
dos quase 2 mil palestinos mortos por forças de Israel... eram civis sem
ligação com atos de terror”. Essa é uma proporção consideravelmente
menor de mortes de civis do que as alcançadas por outros exércitos. O
professor Michael Walzer, da Universidade de Princeton, um forte crítico da
ocupação israelense e autor do clássico de 1977 Just and unjust wars notou
que nas batalhas, o exército de Israel normalmente admitiu riscos para os
seus próprios homens para reduzir os riscos que eles apresentavam à
população civil. O contraste com o modo como os russos lutaram em
Grozni, para tomar o exemplo mais recente de guerra urbana em grande
escala, é surpreendente, e a marca crucial desse contraste é o número muito
pequeno de vítimas civis nas cidades palestinas apesar da violência do
combate.11
Essa situação também se compara favoravelmente com o modo como nós
algumas vezes lutamos no Iraque, como em breve veremos.
Três histórias ilustram o compromisso de Israel com a proporcionalidade e
para evitar vítimas civis desnecessárias. A primeira envolve um ataque
israelense dirigido contra Salah Shehadeh, um proeminente comandante do
Hamas, responsável por centenas de bombardeios terroristas. Em várias
ocasiões o exército deixou passar a oportunidade de atacá-lo “porque estava
com sua mulher ou filhos. Cada vez que a vida de Shehadeh era poupada
ele ordenava mais ataques suicidas contra Israel”. Em outras palavras, Israel
estava preparado para arriscar as vidas de seus próprios civis para poupar as
vidas de civis palestinos, incluindo a mulher de um importante terrorista.
A segunda história foi relatadapelo chefe do Estado Maior das Forças de
Defesa de Israel, Moshe Ya'alon. Ela envolve um oficial de inteligência que
impediu a força aérea de atacar um alvo palestino que retinha informações
necessárias. O oficial havia acreditado, erradamente, que a operação poria
civis em risco. “Do ponto de vista moral, ele merece um louvor”, comentou
Ya'alon. “Do ponto de vista operacional, ele merecia ser afastado do seu
posto.” O chefe do Estado Maior acrescentou que tinha orgulho de ter
“oficiais que levam tão a sério a sua responsabilidade moral”.
A terceira história envolve um oficial de infantaria chamado Ze'ev, que
descreveu uma área vigiada por dois meses, em uma aldeia palestina na
margem ocidental. “Todas as noites vinham tiros da aldeia, tiros de armas
pesadas. Quando você vê uma pessoa com uma arma, não há dúvida sobre o
que deve fazer. Mas, quando você vê não três ou quatro, mas 40 pessoas,
com um rifle, que se movem de um lugar para outro, você precisa escolher
os seus alvos com cuidado.”
Ze'ev relata um incidente no qual um companheiro tinha autorização do seu
comandante para atirar num combatente abaixo dos joelhos - para ferir, não
para matar. O soldado atirou duas vezes, a segunda vez depois de o inimigo
ter caído, e terminou por matar um menino com um rifle.
O soldado, de acordo com Ze'ev foi “mandado para a cadeia e expulso de
sua unidade” - uma afirmação que não podia ser corroborada livremente
porque apenas os primeiros nomes foram citados. Pode ser confirmado que
as violações do código têm sido investigadas e mesmo processadas, apesar
de não em grandes números. De acordo com o relatório do Boston Globe,
Ze’ev diz que comportar-se com reserva sob fogo “não é uma missão
impossível”. Ele acrescenta: “Se você tem algum senso de comportamento
moral, e pensa por um segundo, não deveria haver nenhum problema em
aderir às coisas que estão no código”.
Mas nem todos nas Forças de Defesa de Israel pensam que é tão simples.
Elazar Stern, um general de brigada e chefe do Corpo Educacional das
Forças de Defesa de Israel, está ciente das ambiguidades morais inerentes
ao trabalho de um soldado. “Uma parte do que a nação exige de nós”, diz
ele, “é o desejo de ver as nossas cabeças virarem no travesseiro várias vezes
durante a noite. E, se tiver sorte, no final você saberá que fez a coisa
certa”.12
Esse tipo de agitação é típico dos soldados israelenses que devem tomar
decisões de vida ou morte limitados por um rígido código de conduta. Suas
decisões não são sempre as mais certas; erros inevitavelmente acontecem na
neblina da guerra, especialmente quando terroristas se escondem
deliberadamente por trás de civis para provocar erros que acrescentam à
contagem de corpos - uma contagem fundamental à sua cruel aritmética da
morte. Apesar de soldados israelenses cometerem erros e reagirem
exageradamente como soldados de qualquer exército, existe um código
ético, e contra o qual as suas ações podem ser julgadas. Os terroristas
palestinos não têm semelhantes restrições. As suas ordens são matar e ferir
tantos civis inocentes quantos puderem, e eles o fazem com zelo e há a
promessa de uma recompensa celeste para cada criança e mulher judia
assassinadas.
Os Estados Unidos também têm um código, mas é muito mais genérico do
que o de Israel, enfatizando a honra e a tradição. Os soldados americanos
têm cartões de “regras de combate” que os instruem a poupar alvos civis, a
não ser que estes devam ser atacados, em uma situação de autodefesa.13
Assim como ocorre com os soldados israelenses, esses códigos e cartões
não resolvem as decisões de vida ou morte que precisam ser tomadas no
meio do combate. Um relatório dramático e comovente do campo de
batalha da guerra do Iraque, feito por Peter Maas no New York Times
Magazine, de 20 de abril de 2003, descreve uma situação enfrentada pelos
fuzileiros navais americanos que foi semelhante àquelas frequentemente
vividas pelos soldados israelenses. Dois fuzileiros navais americanos
tinham sido atingidos por iraquianos que atiravam de caminhões em
movimento. O comandante americano deu as instruções às suas forças para
dar tiros de advertência a quaisquer veículos que se aproximassem algumas
centenas de metros da estrada acima. À medida que meia dúzia de veículos
se aproximavam, alguns tiros foram dados para o chão, na frente dos carros;
outros foram dados, com grande precisão, nos pneus ou nos blocos dos
motores...
Alguns dos veículos, porém, não ficaram completamente inutilizados pelos
atiradores e continuaram a avançar. Quando isso aconteceu, os fuzileiros
crivaram os veículos de balas até pararem. [...]
Só mais tarde ficou claro que os veículos estavam repletos de civis
iraquianos. Esses iraquianos aparentemente tentavam escapar das bombas
americanas que estavam caindo atrás deles, mais abaixo na estrada, e
escapar da própria Bagdá. A estrada em que se achavam é uma das
principais artérias rodoviárias que conduz para fora da cidade. Os civis
provavelmente não conseguiam ver os fuzileiros, que estavam usando
uniformes com camuflagem e haviam assumido posições no solo e sobre os
tetos de difícil identificação para combatentes que se aproximassem... Em
meio ao caos, os civis estavam se dirigindo para a direção de um batalhão
de fuzileiros navais que tinham acabado de perder dois dos seus em
combate naquela manhã e que tinham sido avisados que homens-bomba
estavam a caminho deles.
Os civis foram mortos, um após outro. A várias centenas de metros das
posições avançadas dos fuzileiros navais uma minivan azul foi atingida; três
pessoas foram mortas. Um homem idoso, andando com uma bengala na
beira da estrada recebeu tiros e morreu também. Ao longo de um trecho de
600 metros, quase meia dúzia de veículos foram parados por tiros. Quando
os tiros cessaram, havia quase uma dúzia de corpos. Dois deles não usavam
roupas militares e aparentemente não portavam armas.
Um líder de esquadrão, depois de o fogo ter cessado, gritou: “Os meus
homens não mostraram dó. Extraordinário”.
Contei pelo menos seis veículos alvejados por tiros. A maioria continha
corpos ou havia corpos nas proximidades. A van azul, uma Kia, tinha mais
de 20 buracos de bala no seu para-brisa. Dois corpos estavam caídos no
banco dianteiro; eram homens com roupas civis e não tinham armas
visíveis. No banco traseiro uma mulher, com a cabeça envolvida por um
chador preto jazia no chão, morta. Não havia carga visível na van - não
havia nem malas nem bombas.
Um jornalista se aproximou e disse que não se deveria ter atirado nos
civis...
“Como você pode dizer quem é quem?”, disse o cabo Ventura. Ele falava
asperamente, como se tentasse conter a sua fúria. “Você encontra um
soldado com uma AK-47 num carro e civis no carro seguinte. Como se pode
saber? Não se pode saber”.
Ele fez uma pausa. Depois continuou, ainda nervoso com a insinuação de
que as mortes não eram justas.
“Uma dessas vans pegou nosso tanque. Carro-bomba. Quando lhes
dissemos que tinham de parar, eles deviam parar”, disse, referindo-se aos
civis. “Temos de nos preocupar com nossa segurança. Jogamos panfletos
sobre esse pessoal há semanas e semanas e lhes dissemos para abandonar
a cidade. Você não pode culpar os fuzileiros navais pelo que aconteceu. E
difícil. O que você está fazendo dentro de um táxi no meio da zona de
guerra?”
“A metade deles parecia civis”, continuou. Ele estava se referindo a forças
irregulares. “Quero dizer, eu entendo, e isso parte o meu coração, mas não
se pode saber quem é quem. Fizemos mais do que o suficiente para ajudar
esse pessoal. Eu não me lembro de alguma vez ter lido sobre uma guerra na
qual pessoas inocentes não tivessem morrido. Não há nada que possamos
fazer...”
Os carros destruídos estavam a algumas centenas de metros das posições
dos fuzileiros navais que haviam atirado neles. Os fuzileiros poderiam ter
esperado um pouco mais antes de atirar e, se o tivessem feito, talvez os
carros tivessem parado, ou talvez os fuzileiros tivessem imaginado que nos
carros havia civis desorientados. O atirador de tocaia sabia

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