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Copyright © 2023 Aliança Publicações
Todos os direitos reservados à editora. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida, arquivada em qualquer sistema de
armazenamento, ou transmitida de qualquer forma ou por quaisquer meios (eletrônicos, mecânicos, reprográficos, auditivos).
Excetuam-se breves citações.
A não ser quando indicado ao lado, todas as citações das escrituras são da Almeida Revista e Atualizada (ARA).
EDITORIAL
Editorial
Sobre a série “Pequenos Clássicos Reformados”
Quando começamos a ler nossos pais puritanos e antigos presbiterianos é comum nos
depararmos com verdadeiras pérolas em tamanho reduzido, geralmente em formato de sermões
ou cartas. Encontramos muito desses estilos literários principalmente porque a geração passada
foi “sermônica” e pastoral por natureza. As grandiosas e complexas maravilhas doutrinárias se
tornavam pregações úteis e cheias de aplicações nas mãos dos nossos pais para o coração da
Igreja.
O tamanho reduzido dessas obras preenche de forma plena o tempo de nos dedicarmos ao
alimento espiritual que, muitas vezes, é tão curto em nossas rotinas. Como uma refeição
pequena, ela se encaixa nas mais diversas situações: seja como um aperitivo para começar bem o
dia, uma sobremesa depois de uma devocional, ou até mesmo um prato de entrada antes do culto
ao Senhor. Também é adequada para ser digerida tanto nos dias apressados, quanto nos longos
dias de férias, na praia ou no interior, no conforto do lar ou num parque.
Mas não se engane: o tamanho reduzido não é proporcional ao grandioso valor contido nos
textos dessa série. Como sabemos, nossos pais na fé eram especialistas em colocar grande
quantidade de ouro em pequenos reservatórios. Nesses livretos o leitor não encontrará uma sopa
aguada, mas alimento sólido, nutritivo e delicioso. Recentemente, ouvi de um pastor querido que
ler uma página de uma obra dos nossos pais puritanos e presbiterianos era o suficiente para fazê-
lo meditar por horas. O pouco tempo necessário para ler esses livros podem se transformar em
dias de oração, autoexame, meditação e alegrias.
Falei tanto de comida que espero ter deixado o leitor com fome de ler essas obras! Nossa
oração é para que elas sejam uma bênção nas mãos do nosso querido povo de língua portuguesa.
Do seu irmão em Cristo e editor da Aliança Publicações,
Vitor Cortial
PALAVRAS INTRODUTÓRIAS
Palavras Introdutórias
Reverendo Thomas Brooks
Amados, estou aqui neste momento para dar uma palavra aos vivos; não pretendo falar
nada aos mortos. Leiam comigo este maravilhoso texto das Sagradas Escrituras: “Melhor é a boa
fama do que o unguento precioso, e o dia da morte, melhor do que o dia do nascimento”
(Eclesiastes 7:1).
Os gregos dizem que “o começo da vida de um homem é o começo da sua miséria”. “O
homem, nascido de mulher, vive breve tempo, cheio de inquietação” (Jó 14:1). A palavra para
“nascido”, aqui, também pode significar gerado ou concebido. O ponto do texto é que, no
momento em que o homem é aquecido no confortável ventre de sua mãe, ele já é miserável. A
primeira coisa que ele faz ao nascer é chorar. Antes mesmo de poder falar, ele profetiza suas
futuras desgraças com lágrimas. Isso fez com que Salomão preferisse o seu caixão à sua coroa, o
dia da sua morte ao dia da sua coroação.
Sem mais delongas, a observação que quero fazer é esta: que o último dia de um Cristão é o
seu melhor dia! O dia da sua morte é melhor do que o seu aniversário! Quão doce é para o crente
meditar nestas verdades.
CAPÍTULO 1
Capítulo 1
Por que o dia da morte é o melhor dia do cristão? 
Por quais motivos esse é o melhor dia dos cristãos?
Primeiro, a morte é apenas uma mudança de um lugar para outro. Quando o cristão morre,
ele muda da Terra para o Céu; do deserto para Canaã; do Egito para a terra de Gósen; de um
monturo para um palácio.
As Escrituras dizem sobre Judas que ele “foi para o seu próprio lugar” (Atos 1:25). Um
descrente ainda não está no seu devido lugar – o inferno é o seu lugar. Assim também, o crente,
quando morre, vai para o seu lugar. O Céu, no colo de Cristo, é o seu lugar. O crente não está
hoje no seu devido lugar. “Entretanto, estamos em plena confiança, preferindo deixar o corpo e
habitar com o Senhor” (2 Coríntios 5:8). Sua alma está constantemente em guerra nesta terra,
mas ele não pode descansar até que descanse no colo de Cristo. Paulo entendeu isso muito bem
quando disse: “Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com
Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Filipenses 1:23). “Alegremente, eu puxaria a
âncora, içaria a vela e iria para casa,” disse o apóstolo.
Por conta disso, muitas almas preciosas gemem por livramento. “E, por isso, neste
tabernáculo, gememos, aspirando por sermos revestidos da nossa habitação celestial” (2
Coríntios 5:2). Por que isso? “Enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor” (v.6). Nós não
estamos no nosso lugar devido e, portanto, gememos ansiosos para chegar em casa — isto é,
estar no Céu, no colo do nosso Senhor Jesus Cristo, que é o nosso lugar apropriado, a mais
desejada morada.
Segundo, a morte é uma mudança de companhia. Neste mundo, o homem mais piedoso
deve viver ao lado do maldoso e conversar com o ímpio. Essa verdade foi uma agonia para o
espírito do rei Davi – ele disse: “Ai de mim, que sou peregrino em Meseque e habito nas tendas
de Quedar!”
Ouvi dizer que um homem pio, no seu leito de morte, clamou, “Ó, Senhor! Não me deixe
ir para o inferno, onde está o homem mal, pois tu bem sabes que nunca gostei da companhia
deles enquanto em vida!” Jeremias, também, exclamou: “Prouvera a Deus eu tivesse no deserto
uma estalagem de caminhantes! Então, deixaria o meu povo e me apartaria dele, porque todos
eles são adúlteros, são um bando de traidores!” (Jeremias 9:2). É isso que irritou e fez chorar a
alma justa de Ló: “e livrou o justo Ló, afligido pelo procedimento libertino daqueles
insubordinados (porque este justo, pelo que via e ouvia quando habitava entre eles, atormentava
a sua alma justa, cada dia, por causa das obras iníquas daqueles)” (2 Pedro 2:7-8).
Ó, mas a morte é uma mudança de companhia. Um homem santo só faz mudar de
companhia, ficando longe dos caluniadores vis e se achegando à companhia dos anjos; saindo da
companhia de cristãos fracos para homens que foram feitos perfeitos em Cristo. Que lugar
maravilhoso! “Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial,
e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembleia e igreja dos primogênitos arrolados nos
céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados, e a Jesus, o Mediador da
nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel”
(Hebreus 12:22-24). Aqui está uma verdadeira mudança: a morte muda o seu lugar e a sua
companhia. E se isso for devidamente pesado em balança, é necessário se afirmar que o último
dia do crente é o melhor dia da sua vida.
Terceiro, a morte é uma mudança de emprego. A alma de um crente, quando morre,
muda de função em seu trabalho. Digo isso porque o trabalho de um cristão neste mundo inclui
orar, gemer, suspirar, lutar e guerrear. Além disso, vemos nas Escrituras que os santos
escolhidos, aqueles que têm a mais alta consideração por Deus, assim passaram seus dias. Todos
dedicaram seu tempo a orar, gemer, lutar, guerrear: “porque a nossa luta não é contra o sangue e
a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso,
contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Efésios 6:12).
Probo, um valente imperador romano, tinha por lema: “Sem luta, sem pagamento!” Da
mesma forma, exorto: “Sem luta, sem coroa; sem luta, sem paraíso”. A vida do crente é, de fato,
um verdadeiro campo de batalha. Ele enfrenta os mesmos inimigos que expulsaram Adão do
paraíso, o homem mais inocente de todos; que derrubaram Moisés, o homem mais manso da
terra; que atormentaram Jó, o homem mais paciente do mundo; e com os quais Josué, o mais
corajoso de todos,teve de lidar; que atacaram Paulo, o maior dos Apóstolos.
A vida cristã é uma guerra constante. Jó disse: “Todos os dias da minha luta esperaria, até
que eu fosse substituído” (Jó 14:14). Em outras palavras: “Eu ainda estou em luta”, disse Jó,
“contra as luxúrias e corrupções interiores, contra demônios e homens”. Também Paulo nos
revela, em sua carta a Timóteo: “Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor,
reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua
vinda” (2 Timóteo 4:8).
A morte é uma mudança de emprego. Ela nos libera do nosso árduo serviço, das ocupações
que nos fazem gemer, lutar e guerrear, por um deleitoso coro de Aleluias ao Todo-Poderoso nas
alturas! Não mais orações, mas louvores; não mais lutas e guerras, mas danças e cantigas de
triunfo! Pode a alma de um crente olhar para essa gloriosa mudança e não afirmar que o dia da
morte de um crente é melhor do que o dia do seu nascimento? O manto da morte seca todas as
lágrimas dos olhos dos cristãos (Apocalipse 7:9).
Quarto, a morte é uma mudança de prazeres, assim como uma mudança de emprego.
Considerem comigo estes três aspectos consideráveis:
(I) A morte representa uma mudança de um prazer escurecido que temos nesta terra para
um prazer mais claro e doce em Deus. Afirma-se que o crente mais devoto que já pisou nesta
terra, apesar de ver e ter muito prazer em Deus, não teve a oportunidade de experimentar um
prazer tão claro e doce; ao contrário, todos os seus deleites eram de certa forma obscurecidos.
O apóstolo Paulo, um homem que encontrava seu prazer em Deus, ainda assim, enquanto
na carne, via-O através de um vidro escuro: “Porque, agora, vemos como em espelho,
obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como
também sou conhecido” (1 Coríntios 13:12).
Deus disse a Moisés que ele não poderia ver Sua face e viver. A realidade é que Deus nos
permite apenas vislumbres de Sua glória, pois as revelações espirituais de Sua majestade são
demasiado gloriosas e grandiosas para nossos olhos e entendimento.
Nossa compreensão de Deus é, por natureza, limitada. Plutarco relata a Eudoxo que ele
estaria disposto a ser queimado pelo sol se isso lhe desse a oportunidade de aproximar-se o
suficiente para compreender a natureza da estrela. Este deveria ser o anseio no coração dos
crentes: “Senhor, permita-nos que nos queimemos, se assim pudermos ver-te em todas as Tuas
manifestações gloriosas; não nos importamos em ser pobres ou qualquer outra coisa, desde que
possamos desfrutar de Ti mais claramente”. Crisóstomo professava que a falta de deleite em
Deus seria um inferno muito mais doloroso do que qualquer punição. Pergunte àqueles que
vivem no pleno prazer de Deus: “Qual é o seu maior fardo?” Eles responderão: “Nosso maior
fardo é que nossa percepção de Deus não é tão clara a ponto de não podermos ver o Amado de
nossas almas face a face!” Ah, nos céus, o crente terá uma visão clara de Deus! Não há nuvens
nem névoas no paraíso!
(II) É crucial compreender que a morte marca uma transição do nosso prazer imperfeito e
incompleto em Deus para um prazer mais completo e perfeito nEle. Assim como um crente não
tem uma visão clara de Deus aqui, ele também não desfruta de um prazer perfeito nEle. Em Jó
26:14, percebemos quão limitada é a porção que conhecemos sobre Ele e quão diminuta é a
fração que nosso entendimento pode abarcar! Agostinho expressou essa realidade
magnificamente ao dizer: "As coisas gloriosas do céu são tantas que superam em número; são tão
preciosas que superam em valor; são tão imensas que superam em medida!" Bernardo comentou:
"Por Cristo estar com Paulo, o apóstolo sentia uma grande segurança; por Paulo estar com Cristo,
era sua verdadeira alegria!" Crisóstomo observou: "Se fosse possível que todos os sofrimentos de
todos os santos fossem colocados sobre um único homem, isso ainda não se equipararia à glória
do Céu!" Tal é a magnificência e a plenitude da glória celestial. O lema dos santos é
"Avancemos, então! Prossigamos!"
Assim, em 1 Coríntios 13:12, o apóstolo Paulo declara: "Porque, agora, vemos como em
espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei
como também sou conhecido." Em outras palavras, a alma, enquanto neste mundo, diz: "Eu
desfruto um pouco de Deus, e isso jamais me faltará. Mas, ainda assim, meu prazer não é
completo." Se você perguntar, "Alma, por que esperas em Deus nesta ou naquela prática?", ela
responderá: "Para que possamos desfrutar de Deus mais plenamente no futuro. Ó, que eu possa
ser inundada pelo Espírito de Deus!"
Não há lamentos no céu, pois não há carências. Ó, quando a morte der seu golpe final,
ocorrerá a troca da Terra pelo Céu; do gozo imperfeito para o deleite perfeito; então, a alma se
encherá de alegria em Deus e nenhum espaço ficará vazio — todos estarão cheios de Deus. No
mundo atual, recebemos graça, mas nos céus, receberemos glória. Deus reserva o melhor vinho
para o final; o melhor de Deus, Cristo, e do paraíso está além deste mundo. Aqui, temos apenas
um vislumbre da saborosa bebida celestial; a plenitude está guardada para o estado de glória.
Aquele que mais vê Deus neste mundo, vê apenas Suas costas; Sua face é a joia de esplendor e
glória que nenhum olho pode ver, exceto o do corpo glorificado em Cristo.
Os cristãos mais devotos conseguem apenas vislumbres de Deus; seus corações são como
o vaso da viúva, capazes de receber apenas um pouco de óleo. O pecado, o mundo e as criaturas
ocupam tanto espaço em nossos melhores corações que Deus se dá a si mesmo
homeopaticamente, como um pai que dá doces a seus filhos. Mas, nos céus, Deus se revelará
completamente à alma! A graça será então absorvida pela glória.
(III) A morte é uma transformação de um prazer em Deus flutuante e inconstante para um
gozo constante e permanente. Aqui na Terra, o deleite dos santos em Deus é marcado pela
inconstância. Em um dia, nos regozijamos em Deus; em outro, nossas almas se sentam e
começam a lamentar-se em angústia de espírito. "Aquele que conforta minha alma está longe",
lamentamos, “nosso sol se pôs”; o que pode compensar a ausência desse sol? Assim como
nenhuma luz de vela, estrela ou tocha pode substituir a luz do sol, quando o Sol da Justiça
esconde Sua face, nenhum esforço terreno pode preencher esse vazio.
Pela morte, os santos tornam-se imutáveis e constantes na eternidade. O que será dessa
vida — ou melhor, o que não será — já que o maior bem se encontra na vida eterna? Lá há luz
sem limites, música ininterrupta, fragrância que não se dissipa, um banquete que nunca se esgota,
bênçãos concedidas eternamente, em um reino que jamais passará.
Davi, em alguns momentos, podia afirmar que Deus era sua porção, sua salvação e sua
fortaleza, e tudo mais; contudo, ainda clamava: "Por que estás abatida, ó minha alma? Por que
tão perturbada dentro de mim?" Em uma passagem das Escrituras, ele disse: "Eu nunca serei
abalado" (Salmos 30:6); no entanto, logo a seguir, lamenta: "Apenas voltaste Teu rosto, fiquei
perturbado" (v. 7). E esse é o estado de um crente neste mundo. Mas, no céu, nenhuma nuvem
surgirá entre o Senhor e o coração do cristão. Deus não terá dias de sorrisos seguidos por dias de
desaprovação; um dia acolhendo uma alma em Seus braços, e no outro, colocando-a sob Seus
pés. Esse é o modo como Ele trata Seu povo aqui. Mas, no céu, há apenas beijos e abraços, nada
além do gozo perpétuo de Deus.
Quando Deus leva uma alma para Si, nunca mais haverá noite para ela, nunca mais
escuridão para a alma. Todas as lágrimas serão enxutas. Que doce promessa é essa em 1
Tessalonicenses 4.17-18: "E assim estaremos para sempre com o Senhor. Portanto, encorajem-se
uns aos outros com estas palavras". Existem anjos e arcanjos no céu. Sim, mas o céu não se
resume a eles; Cristo é o diamante mais brilhante no anel da glória! Ver a Cristo e estar para
sempre com Ele é o próprio céu e a felicidade em si. Agora, Ó, que gloriosa mudança é essa!
Parece-me que estascoisas nos fazem ansiar ardorosamente pelo nosso dia da morte e considerar
a vida presente como uma prolongada morte.
Quinto, a morte é uma transformação que coloca fim a todas as mudanças. O que é a vida
de um homem senão uma sequência de mudanças? A morte marca o término de todas as
alterações externas. Aqui na Terra, passamos constantemente da alegria para a tristeza, da saúde
para a doença, da força para a fraqueza, da honra para a desonra, da abundância para a pobreza,
da beleza para a deformidade, de amigos para inimigos, da prata para o bronze, do ouro para o
cobre. Agora, um homem encontra conforto em um sorriso, e em um instante, encontra-se à beira
da morte; e assim sucessivamente. Todos os momentos são tão efêmeros quanto uma corrente
veloz, um navio que passa, um pássaro em voo, uma flecha disparada, uma criatura fugaz. O
próprio homem — amante dos confortos externos — o que é ele senão uma mera ilusão? Um
sonho dentro de um sonho, uma sombra, uma bolha, um relâmpago, um sopro. A morte encerra
todas essas alterações externas: não mais haverá doenças, dores, necessidades, entre tantas outras
aflições.
E então, a morte também põe fim a todas as mudanças internas. Agora, o Senhor pode
sorrir para a alma, e em outro momento, mostrar-se severo por causa dos muitos pecados. Agora,
Deus oferece assistência para vencer o pecado, antes que o homem seja por ele dominado;
depois, ele é fortalecido contra a tentação, e em um breve período, cai. Jó foi um herói em meio
às tempestades e falou como um anjo, mas quando seu corpo foi afligido, e as flechas do Todo-
Poderoso o atingiram, seu dia se transformou em noite, e seu regozijo em luto; poderia se pensar
que ele fosse a própria encarnação do mal, por suas lamentações. Mas a morte põe fim tanto às
mudanças internas quanto às externas. A alma não mais será tentada, não pecará, nem será
frustrada. Agora, pelos aspectos apresentados, pode-se afirmar que o dia da morte de um cristão
é o melhor dia de sua vida.
A morte é como outro Moisés: liberta os crentes da escravidão e da labuta no Egito e os
conduz para além do Jordão. É um dia, ou um ano de jubileu, para um espírito agraciado — o
ano em que ele é libertado de todos os opressores cruéis que por tanto tempo o fizeram gemer.
Os deuses das nações viam a morte como o summum bonum do homem, seu maior bem;
consequentemente, quando um homem construiu e dedicou o templo em Delfos, pediu a Apolo
sua recompensa, desejando o que fosse melhor para um homem. O oráculo lhe disse que deveria
retornar para casa e, dentro de três dias, receberia a recompensa esperada — e em três dias, ele
morreu. Assim, até os próprios pagãos reconhecem a verdade de que o dia da morte de um
homem é o melhor dia de sua vida.
Sexto, a morte é uma transformação que conduz a alma a um descanso eterno. Morrer é
levar a alma para a cama — rumo a um estado de repouso eterno. A morte oferece um alívio dos
problemas de nossos trabalhos, aflições, perseguições, tentações, apostasias, pecados e tristezas
(Gênesis 8:8). Esta é a última razão que exploro sobre o último dia do crente ser o seu melhor
dia. Enquanto permanecemos neste mundo, a alma está em constante agitação. Mesmo o homem
mais piedoso — aquele que desfruta do mais claro e profundo prazer em Deus — muitas vezes
se assemelha à pomba de Noé, que não encontrou descanso para seus pés: falta-lhe alguma
misericórdia temporal ou espiritual, e assim será até que sua alma seja acolhida nas eternas
alegrias de Deus! A morte leva o homem a um descanso inalterável.
O apóstolo João descreve de forma sublime: “Bem-aventurados os mortos que desde agora
morrem no Senhor” (Apocalipse 14:13). Por quê? Ele completa: “Para que descansem das suas
fadigas”. Ó, ele diz, grave essas palavras como algo de grande valor e significado: “Bem-
aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor”! A morte leva a alma a um descanso
inalterável.
“O justo perece, e ninguém leva a sério; os homens piedosos são levados embora, sem que
ninguém perceba que o justo é poupado do mal. Entram na paz; descansam em suas camas, todos
os que andam na sua retidão” (Isaías 57:1-2).
Ah, a morte é uma transformação que leva a alma a um descanso imutável; ela conduz
nossa alma para a cama: é hora de dormir. Isso fez Paulo ansiar por “partir e estar com Cristo” e
os crentes de Corinto gemerem por libertação. Laurence Saunders, ao beijar a estaca, disse: bem-
vindo seja o madeiro de Cristo, bem-vinda seja a vida eterna. Faninus, um mártir italiano, beijou
o homem que lhe trouxe a notícia de sua execução. Foi notável o que disse o abençoado Cooper:
“Há muitos dias tenho buscado a morte com lágrimas; não por impaciência ou desespero”, disse
ele, “mas porque estou exausto do pecado e temeroso de pecar novamente”. Veja como os
mártires abraçaram à estaca, saudaram cada mensageiro da morte que lhes foi enviado, e
aplaudiram em meio às chamas de sua execução.
A morte é o dia de coroação do crente, o dia de seu casamento. É um descanso do pecado,
da tristeza, das aflições e das tentações. A morte de um crente é sua entrada no seio de Abraão,
no paraíso, na “Nova Jerusalém”, na alegria de seu Senhor.
Isto conclui a parte doutrinária. É evidente, por essas seis razões, que o dia da morte do
cristão é o melhor dia de sua vida, e seu dia de morte é melhor do que o dia de seu nascimento.
CAPÍTULO 2
Capítulo 2
Não tema e nem chore imoderadamente 
Como aplicar essa verdade em nossas vidas?
Eu poderia, por muitos outros argumentos, demonstrar essa verdade para você, mas creio
que as razões que escrevi lhe são suficientes. Eu escolhi me limitar a esses porque não acho que
seria bom mantê-lo por mais tempo longe da aplicação do ponto — sendo a vida de todo o
ensinamento a sua prática.
Primeira aplicação
Nunca chorem imoderadamente pela morte de qualquer crente; deixem-os estar mais
excelentes e úteis do que qualquer outro vivo. A morte não é a morte do homem, mas a morte de
seu pecado. A morte é para os crentes é o maior ganho; e o choro imoderado fala muito do nosso
egoísmo quando ficamos mais consumidos pelo ganho e pelo benefício que os nossos queridos
trazem às nossas vidas, do que com a felicidade e a glória que eles desfrutam em decorrência da
morte. Nos tempos primitivos, quando Deus dava uma sentença de morte sobre os seus mais
amados santos, os Cristãos se comportavam de uma maneira mais elevada, doce e nobre do que
hoje em dia.
Lembre-se disso: a morte faz em apenas um instante o que nenhuma graça, obrigação, nem
qualquer ordenança poderia fazer por um homem durante toda a sua vida! A morte liberta o
homem dessas doenças, corrupções, tentações de uma forma que nenhum dever, graça ou
ordenanças poderiam. Quando Abraão veio prantear pela sua falecida esposa, Sara, ele se
lamentou moderadamente, porque o dia da morte dela era o melhor dia da sua vida. Quando
Lutero, o famoso instrumento de Deus, enterrou sua filha, não foi visto derramando uma lágrima.
Assim também o Sr. Whately, que era famoso em seu tempo, enquanto pregava no funeral do seu
próprio filho o sermão sobre este assunto, “A vontade do Senhor seja feita”, ele e a sua esposa
tiveram a força de colocar o seu próprio filho no túmulo. O povo na Trácia chora e muito se
lamenta no nascimento dos seus filhos, por causa das dores e tribulações que eles vão enfrentar
ao longo da vida; e se alegra muito e regozija com a morte deles, porque a morte é o fim de todos
os seus sofrimentos.
A morte não é tão ruim quanto alguns a pintam. Um escritor pagão certa vez disse que
toda a vida de um homem deve ser nada mais do que uma meditação sobre a morte (veja
Deuteronômio 32:29). Alexandre, o Grande, perguntou a um filósofo indiano quanto tempo um
homem deve viver; o filósofo respondeu: “até que ele ache que é melhor morrer do que viver”.
Este é o primeiro uso: não devemos chorar imoderadamente por nenhuma morte de um Cristão
verdadeiro.
Não tema a morte. Acalme os seus espíritos; não fale da morte como aquele príncipe
ímpio um dia disse ao profeta: “Já me achaste, inimigomeu?” (1 Reis 21:20). Ao contrário, meu
amigo, anseie por isso — não para ser livre dos problemas, mas para que a alma possa ser
tomada por uma mais clara e plena alegria de Deus. O dia da sua morte é o melhor dia da sua
vida! O bondoso Jacó morreu com um espírito doce e composto; ele convocou os seus filhos,
abençoou-os e os beijou, juntou seus pés na cama e morreu. Moisés, naquela manhã em que o
mensageiro chegou e lhe disse que ele deveria morrer, subiu ao monte, viu a terra de Canaã à
distância, e então morreu em paz. José construiu seu sepulcro em seu próprio jardim. Alguns
filósofos tinham seus túmulos sempre abertos diante da sua porta, para que, ao sair e ao entrar,
eles pudessem sempre pensar na morte, pois achavam difícil encontrar conforto nesta vida —
cruzes frequentes, prazeres momentâneos e dores permanentes.
Crentes, o dia da sua morte é o seu melhor dia. Ah, então, não tenha medo da morte!
Espero que você perca a sua aversão a morrer. Lembre-se de que não se trata de um assunto
insignificante. Há muito desprestígio trazido a Deus por crentes que estão relutantes a morrer.
Você fala muito de Deus, do céu e da glória; mas, quando chega a hora de ir compartilhar dessa
glória, você recua e diz, “poupe-me por um pouco mais de tempo, Senhor!” Não é esta uma
vergonha para o Deus da glória?
Para que esse conselho encontre morada no seu coração, lembre-se destas cinco verdades:
(I) A morte de Cristo é uma morte meritória. É possível que um cristão medite sobre a
morte de Cristo como o mérito para obter paz com Deus, perdão de pecados, justificação e
glorificação, e ainda assim tenha medo de morrer? A morte de Cristo é maravilhosamente
meritória, e nós ainda estamos relutantes em partir?
(II) A morte não é uma espada na mão do nosso Pai? É verdade que uma espada nas mãos
de um louco ou empunhada por um inimigo pode fazer alguém tremer — mas quando a espada
está nas mãos do pai, a criança não teme. Tenha certeza de que a morte é uma espada, mas por
que a criança teme quando ela está na mão do seu pai, o qual irá lidar com isso de modo que seus
filhos não sejam machucados nem lesionados por essa arma?
(III) Lembre-se de que a morte de Cristo é uma morte que vence a morte. O medo da
morte é pior do que as dores da morte, porque isso é o que nos mata constantemente, e a própria
morte só pode nos matar uma única vez. “Aquele que teme a morte está relutante em ir para
Cristo”, disse Cipriano. Ele mesmo completou: “Eu não temo morrer, mas tenho medo de ser
condenado”. Lutero, referindo-se ao sangue de Cristo, diz, “Que uma pequena gota é mais
valiosa do que o céu e a Terra”. Se as almas debaixo do altar choram — até quando, Senhor? —,
se anseiam pelo dia do juízo, por que não ansiamos pelo dia da morte, já que o dia da nossa
morte é como a véspera do grandioso dia final do Senhor? Zeno disse, “eu não tenho medo da
minha velhice”.
Cristo destruiu o aguilhão da morte, portanto ela não poderá mais nos machucar. A morte é
uma morte que santificou e adocicou a morte. Ele, por sua morte, santificou e adocicou a morte
para nós.
(IV) A morte é uma queda que veio de uma queda. Morrer é não mais ser infeliz, se
considerarmos a morte corretamente. “Ó”, diz alguém, “que eu não veja a morte como ela era,
mas como, ó Senhor, a transformaste em Cristo!” A morte é o maior monarca e o mais antigo rei
do mundo. “A morte reinou desde Adão até Moisés,” disse Paulo. Ó! Mas o Senhor Jesus
desarmou e triunfou sobre a morte. Ele tirou o seu aguilhão para que não nos faça mal, nos
deixando brincar com ela e colocá-la em nosso coração, assim como podemos fazer com uma
cobra que teve suas presas retiradas. O apóstolo, considerando tudo o que foi exposto, desafia a
morte, mostra-se mais corajoso que ela e, por fim, a lança num poço, “Ó, morte, onde está a sua
vitória? Onde, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e o poder do pecado é a
lei. Mas, graças a Deus! Ele nos dá vitória no nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Coríntios 15.55-57).
(V) Não deixou Cristo, de bom grado, a companhia do Pai para o seu bem? Não morreu
Ele voluntariamente por você? Nosso Cristo alegou que as Suas vestes eram boas demais para
que fossem despidas, a Sua coroa tão sublime para ser deixada de lado, ou Ele se achou
demasiado nobre para sofrer pelo Seu povo? Não! Ele prontamente deixa o conforto do Pai,
deixa a Sua coroa, se despe das Suas vestes, e sofre uma maldita, cruel e ignominiosa morte. Ah,
almas, vocês devem raciocinar, portanto, “Cristo morreu por mim, para que eu pudesse viver
com Ele? Eu não irei, então, desejar viver demasiadamente distante dEle”. Todos os homens vão
ao encontro das pessoas que amam ansiosamente; e devo estar indisposto a morrer, sendo através
da morte que tenho a possibilidade de ver Aquele que minha alma ama? Deve Cristo deixar de
lado toda a Sua glória e esplendor, e se casar com uma pobre alma que não tinha herança nem
beleza; e essa alma, ainda assim, não ter vontade de ir para casa ver um tão gracioso marido? Ó,
pensem nisso, almas que estão indispostas a morrer!
A vida presente não é a vida, mas o caminho para a vida; para que, quando deixamos de
ser homens, nós comecemos a ser como anjos. Eles são apenas criaturas de natureza inferior, que
estão satisfeitas com o presente. O homem é uma criatura do futuro. O olho da sua alma olha
para frente. O trabalhador apressa-se do seu trabalho para a sua cama; o marinheiro trabalha duro
para chegar ao porto; o viajante fica feliz ao se achar perto da sua casa; portanto, assim devem os
santos proceder quando eles chegarem perto da morte, porque eles estão se achegando ao céu,
que é a sua verdadeira e eterna casa!
(VI) Você não se encontra completo em Cristo? “Um só Cristo basta para você, em vez de
todas as coisas, porque nEle estão todas as coisas boas que podem ser encontradas” (Agostinho).
Por que deve um crente ter medo de morrer, se ele está completo diante de Deus, na justiça do
Senhor Jesus? Caso fosse o nosso dever aparecer diante do trono com a nossa própria justiça,
com nossas próprias obras, seria realmente terrível pensar em morrer — mas um crente não é
completo em si mesmo, e sim, nEle. “E nele estais completos” (Colossenses 2:10). Em
Apocalipse (14:4-5), o apóstolo relata que os eleitos serão “os que foram redimidos dentre os
homens, primícias para Deus e para o Cordeiro; e não se achou mentira na sua boca; eles não têm
mácula”. No livro de Cântico dos Cânticos (4:7), encontramos: “Tu és toda formosa, querida
minha, e em ti não há defeito”.
Um crente, quando morre, aparece diante do trono de Deus vestido com a justiça de Cristo.
Todas as manchas e imperfeições da alma são cobertas com a justiça de Cristo, que é imaculada,
sem manchas, e incomparavelmente justa. A esposa de Cristo possui uma beleza perfeita; ela é
gloriosa, tanto por dentro quanto por fora, é imaculada e irrepreensível, e a mais formosa entre as
mulheres. Ela precisa ser isso tudo para que possa ser um par adequado para Cristo, que é o mais
justo dentre todos os filhos dos homens (Salmo 45:2). Os santos são como aquela árvore do
paraíso (Gênesis 3) — justos aos olhos de Deus, e agradáveis ao Seu paladar. Os santos são
como Absalão, em quem não se pôde encontrar defeito algum, da cabeça aos pés. Pense nessas
coisas para adoçar as suas últimas horas e fazer você desejar estar nos braços de Cristo.
(VII) Considere que o dia da morte dos santos é o dia de receber o salário do Senhor. Cada
oração deverá, então, ter a sua resposta; todas as fomes e sedes devem ser saciadas e satisfeitas;
cada suspiro, gemido e lágrima que foram derramados pelos olhos dos santos devem ser
recompensados. É a morte, a qual é vida, que une o homem moribundo a Cristo! É a vida, a qual
é morte, que separa o homem de Cristo. Em seguida, eles serão recompensados por todos os
serviços públicos, todos os serviços à família, e etc. Em seguida, uma coroa será posta sobre as
suas cabeças, gloriosas vestes colocadas sobre as suas costas e cetros de ouro nas suas mãos;
sendo o seu último dia, o diado seu pagamento, você deve ouvir o Senhor dizer-lhe: “Muito
bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu
senhor” (Mateus 25:21). Nesse dia, os santos perceberão que Deus não é como Antíoco, que
prometeu muitas vezes, mas raramente cumpriu. Não! Quando chegarmos ao céu, Deus vai
cumprir todas aquelas promessas gloriosas e majestosas que fez ao Seu povo, especialmente as
que foram mencionadas (em Apocalipse 2.10, 3.4, 12, 22, e 7.16-17). Agora, Deus converterá o
seu bronze em ouro, seu ferro em prata, sua miséria em felicidade, sua pobreza em riqueza, sua
desonra em honra, sua escravidão em liberdade, a terra em céu, sua coroa mortal em uma coroa
imortal!
(VIII) Considere que a jornada para a glória é através de dores e a jornada para a vida é
através da morte. Neste mundo somos todos Benoni, filhos da tristeza. O caminho para o céu é
através da cruz e do choro. A semana da paixão de Cristo foi antes da sua ascensão; ninguém
chega ao paraíso a não ser por um Serafim em chamas; ninguém sai do Egito sem passar pelo
Mar Vermelho; os filhos de Israel chegaram a Jerusalém passando pelo vale das lágrimas e
atravessaram o Rio Jordão antes de chegarem às doces águas de Siloé. Um homem facilmente
engolirá uma pílula amarga para melhorar de uma doença. O médico nos ajuda com medicações
dolorosas e nós ainda pagamos por isso. Não há passagem para o paraíso senão pela espada
flamejante do anjo da morte! Não há chegada à cidade gloriosa a não ser por essa difícil, escura e
suja trilha da morte. Isso deve fazer você abraçar a morte não como um infortúnio, mas como
uma amiga; não como uma estranha, mas como uma convidada que você ansiosamente esperou.
Devemos dar mais boas-vindas à morte do que ao nascimento. A morte para o crente é o portão
dos céus, o portão para a vida. Ela nos leva para fora do deserto, em direção a Canaã; tira-nos de
um mar turbulento e nos coloca num mar de calmaria (João 14:1-3). Todo homem está ansioso
por ir para sua casa, ainda que o caminho para isso o leve por cantos escuros, sujos e perigosos.
Não estariam os crentes também ansiosos para ir para a casa deles, mesmo com uma entrada tão
sombria na gloriosa, iluminada e eterna mansão que Cristo preparou para eles? Certamente sim!
(IX) Considere comigo que, enquanto estivermos neste mundo, nossos corpos fracos e
imperfeitos lançam cadeias, grilhões, restrições, obstáculos e impedimentos sobre a alma,
fazendo com que ela seja incapaz de realizar muitas das boas e nobres obras. No céu, a alma
pode trabalhar num ambiente mais claro e compreender melhor, discursar mais sabiamente,
alegrar-se mais, amar mais nobremente, desejar mais puramente e ter mais esperança do que
aqui. A alma é agora encarnada em um corpo e, enquanto ela está neste corpo de barro, não pode
agir como naturalmente faria. É como um pássaro engaiolado, cuja natureza é voar alto para o
lugar de onde veio. Quando a alma abre as asas para alçar voo até o céu, o corpo, como um peso
pesado, puxa-a para baixo, fazendo-a voltar para a terra. Neste estado, a alma não pode olhar
com seus olhos, pois seria infectada; nem ouvir com seus ouvidos, pois seria distraída; nem
cheirar com seu nariz sem que entre alguma corrupção; nem utilizar sua língua para saborear sem
ser seduzida; e nem tocar com suas mãos sem ser profanada. Cada sentido e cada membro está
completamente pronto para cair em todas as ocasiões e tentações, para trair a alma, o que deve
nos fazer dispostos a morrer e ansiosos pelo dia em que nossos corpos serão glorificados. Os
Gregos chamam o corpo de cadeia da alma, sepulcro da alma. Ah, crentes! Será breve antes que
seus corpos, que são agora como um quadro fora da moldura ou uma casa em manutenção, que
são aqui deformados e doentes, se tornem ágeis e rápidos, perfeitos em todos os seus
movimentos. Quanto à clareza e brilho, nossos corpos serão como o corpo de Cristo quando foi
transfigurado (Mateus 17:2); eles serão amáveis e bonitos, serão imutáveis e imortais. Aqui
nossos corpos ainda estão morrendo. É mais adequado perguntar quando será o fim da morte, do
que perguntar quando vamos morrer. A morte é um verme que está sempre sugando a raiz das
nossas vidas, o que deve tornar aquele momento da morte final mais desejável do que a vida.
(X) Encontre muito descanso na disponibilidade e na boa vontade de outros santos para
morrer. O bom e velho Simeão, depois de ter posto Cristo no seu coração e tê-lo segurado em
seus braços, cantou: “Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra;
porque os meus olhos já viram a tua salvação” (Lucas 2:28-30). Eu vivi o suficiente, e agora
posso ir para a minha verdadeira vida; eu ansiava muito, agora tenho o meu amor em meu peito;
eu já vi o suficiente, agora tenho a minha visão; já servi o suficiente, agora tenho minha
recompensa; eu já me entristeci o suficiente, agora tenho a minha alegria. Assim, também, os
crentes de Corinto (2 Coríntios 5:4, 8) gemeram com veemência para estarem na sua casa
celeste; eles gemeram para que a mortalidade fosse engolida pela vida de verdade, “preferindo
deixar o corpo e habitar com o Senhor”. De igual modo, Paulo deseja intensamente “partir e estar
com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Filipenses 1:23). Pedro, também, relata que
eles estavam “esperando e apressando a vinda do Dia de Deus” (2 Pedro 3:12). É dito que eles
estão apressando o Dia de Deus, pois assim desejavam sinceramente e se preparavam para tal.
Por conseguinte, as almas no altar clamam: “até quando, Senhor? Até quando?” (Apocalipse 6:9-
10). Temos, do mesmo modo, o exemplo de uma nobre senhora, quando alguém leu para ela:
“eis que passou o inverno, cessou a chuva e se foi”; “sim”, respondeu ela, “chegou o tempo de
cantarem as aves” (Cantares 2:11-12), e então ela foi cantando até o céu. Igualmente o Sr. Jewel
disse: “agora, Senhor, deixa teu servo partir em paz, acabar com todos os atrasos; Senhor, recebe
o meu espírito”. Depois, ele disse “eu não vivi tanto a ponto de ter vergonha de viver mais; não
tenho medo de morrer, porque tenho um misericordioso Senhor. Uma coroa de justiça é
reservada para mim; Cristo é minha justiça”. Outra pessoa, estando já no fim da sua vida, falou
aos seus amigos que estavam tentando consolá-lo, “eu tenho consolo e afetos dos quais vocês
não fazem ideia”. Outro exemplo maravilhoso foi o do Sr. Pearing, que um pouco antes da sua
morte, disse: “eu encontro e sinto tanta alegria no meu interior e conforto para minha alma que,
se eu pudesse escolher entre morrer e viver, eu escolheria mil vezes a morte, se for de
consonância com a santa vontade de Deus”. Um dia, disse Agostinho: “Deixe todos os demônios
do inferno assaltar-me, lacerar o meu corpo; deixe que eles oprimam com sofrimentos a minha
mente; deixe que as dores consumam minha carne, que eu esteja todo desgastado; que o calor me
queime ou que o frio me congele. Deixe todas essas coisas, e o que mais tiver de vir,
acontecerem a mim, contanto que me levem a desfrutar do meu Salvador”. Por conseguinte, Mr.
Bolton, deitando-se no seu leito de morte, disse, “Eu estou, pelas maravilhosas misericórdias
divinas, tão cheio de conforto quanto meu coração pode suportar e não sinto nada que não seja
Cristo, o desejado do meu coração”. Ah, amigos Cristãos! Se a suprema vontade dos santos em
morrer não fizer você disposto a isso, o que mais faria?
(XI) Por último, considere esta verdade: que o Senhor não vai deixar você e, sim, estará
contigo na hora da sua morte. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal
nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam”, disse o Salmista
(23:4). Assim como o apóstolo disse, “Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as
coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te
abandonarei” (Hebreus 13:5). Há cinco negativos em grego que asseguram ao povo de Deus que
Ele nunca vai abandoná-los; essa preciosa promessa foi renovada cinco vezes nas Escrituras. Quenós possamos extrair muito conforto dela, da mesma forma que buscamos extrair até a última
gota do mel de uma colmeia. Apesar de parecer que Deus te abandonou, você pode estar
confiante de que Ele nunca vai abandoná-lo. Por que, então, o homem tem medo da morte, se
pode estar sempre confiante da presença do Senhor da vida? Maximiliano, o Imperador, ficou tão
encantado com essa frase, “Se Deus está conosco, quem será contra nós?”, que fez com que ela
fosse escrita nas paredes da maioria das salas do seu palácio.
CAPÍTULO 3
Argumento 3
Preparativos para o dia da morte 
Segunda aplicação
O próximo uso exposto tem como objetivo tirar você de tudo e o preparar para o dia da sua
morte. Ah, Cristãos! O que é toda a sua vida senão um tempo para se preparar para a hora da
morte? Qual é o seu grande afazer neste mundo, senão se preparar e se ajustar para o mundo
eterno? Foi um triste discurso de César Bórgia que, em seu leito de morte, disse: “Quando eu
vivia, me preparava para tudo, menos para a morte! Agora, eu vou partir, e eu estou
despreparado para ela”.
Ah, Cristão! Você precisa todos os dias orar com Moisés, “Ensina-nos a contar os nossos
dias, para que alcancemos um coração sábio” (Salmos 90:12). A seguir, você deve escutar o
conselho do profeta Jeremias, “dai glória ao SENHOR, vosso Deus, antes que ele faça vir as
trevas, e antes que tropecem vossos pés nos montes tenebrosos; antes que, esperando vós luz, ele
a transforme em sombra de morte e a reduza à escuridão” (Jeremias 13:16).
A velhice é uma montanha escura que torna um caminho amplo num caminho estreito, de
um caminho reto uma vereda montanhosa. É sabedoria celestial considerar o nosso fim: “Oh, se
fossem sábios! Então, entenderiam isto e atentariam para o seu fim” (Deuterônomio 32:29).
Jerusalém pagou caro por esquecer sobre o seu fim. Sua imundícia estava nas suas saias, porque
ela não se lembrou do seu último fim; e foi destruída terrivelmente, por isso:
(I) Quem não se prepara para seu último dia corre o risco de perder sua alma imortal.
Embora nunca seja tarde demais, o arrependimento tardio raramente é verdadeiro. “Aquele que
não está pronto para se arrepender hoje, estará ainda menos pronto amanhã; o seu entendimento
será mais escuro, o seu coração mais endurecido, a sua vontade mais perversa, seus afetos mais
desregulados, sua consciência mais entorpecida”. Bede conta uma história de certo grande
homem que, durante um tempo de doença, foi admoestado e chamado ao arrependimento. Ele
respondeu: “Não seria um devido arrependimento se eu o fizesse agora, pois, se eu me recuperar,
meus companheiros vão rir de mim”. Ficando cada vez mais doente, então, ele lhes disse que era
tarde demais para se arrepender, “Pois agora”, disse ele, “já sou julgado e condenado". É a maior
sabedoria do mundo se dispor a fazer o que um homem faria no seu leito de morte todos os dias
da vida, e ter medo diário de viver em um estado em que o homem prestes a morrer teria medo
de partir e não ser acolhido pelo seu Criador. Ah, as almas! Você está com medo de morrer em
tais e tais pecados? Por que não teria medo de viver neles também?
(II) Novamente, a certeza da morte deve fazer com que você se prepare para ela. Quando
afirmamos que algo é uma verdade indubitável, usamos a expressão: “tão certo como a morte”.
“E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo”,
como disse o Apóstolo Paulo (Hebreus 9:27).
“morrerem uma só vez” implica duas coisas:
[1.] a certeza; e
[2.] a singularidade dessa verdade.
“Que homem vivo que não irá experienciar a morte?” disse o Salmista. Isso é, nenhum
homem deixará de passar pela morte. No livro de Jó, o túmulo é chamado de “a casa destinada a
todo ser vivente”. O sábio chama a morte de “nosso esperado lar”, onde os homens devem
habitar por um longo tempo, até a ressurreição. Viver sem medo da morte é morrer vivendo!
Trabalhar para não morrer é trabalhar em vão! A morte tem um lema, “eu não me rendo a
ninguém!” Está decretado que todos devem morrer. Todo dia da morte de um homem é o dia do
seu juízo. Os Judeus têm um ditado: “No cemitério podem ser vistas caveiras de todos os
tamanhos”. Ou seja, a morte vem aos jovens, bem como aos velhos; a sorte caiu sobre todos, e,
portanto, todos devem morrer. Todos os homens são feitos de um determinado molde e de uma
determinada matéria, mas todos compartilham de algumas mesmas características: “és pó, e ao
pó retornarás” (Gênesis 3:19); “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3:23); e,
por conseguinte, a morte é o destino de todos. (III) A incerteza da hora da sua morte deve fazer
com que você esteja constantemente preparado para ela. Nenhum homem sabe quando morrerá,
nem que tipo de morte terá — se uma natural ou uma violenta. Augusto morreu em um elogio,
Tibério morreu em um engano, Galba morreu com uma palavra, Vespasiano morreu com um
dito! Zeuxes morreu de rir com a imagem de uma mulher de idade que ele havia desenhado com
as suas próprias mãos! Sófocles foi sufocado com um caroço de uva! Diodoro, o lógico, morreu
de vergonha por ele não conseguir responder a uma pergunta simples proposta na mesa de jantar.
Joannes Masius pregando sobre a ressurreição da mulher do filho de Naomi dos mortos, dentro
de três horas, morreu! Félix, Conde de Wurtemberg, sentado na ceia com muitos de seus amigos,
envolveu-se em uma discussão sobre Lutero e o recebimento da sua doutrina pelo povo,
mediante a qual o Conde jurou com um grande juramento: “antes de morrer, eu vou cavalgar
animosamente no sangue de Luteranos”; mas, na mesma noite, Deus estendeu a Sua mão contra
ele, que sufocou até a morte no seu próprio sangue. Bibulus, um general Romano, enquanto
andava triunfante em toda a sua glória, foi atingido por uma telha que caiu de uma casa na rua, e
morreu.
(IV) Considere, em último lugar, que morrer é algo solene. A morte é uma solene
separação temporária de dois amigos próximos — a alma e o corpo. Lembre-se, todos os outros
preparativos não têm propósito algum se um homem não está preparado para morrer. O que se
aproveitará se um homem preparar isso ou aquilo para os seus filhos, parentes, amigos, quando
ele não fez os preparativos para a sua alma, para seu bem-estar eterno? Enquanto a morte deixa
você, o julgamento te encontrará! Enquanto o julgamento se aproxima, que a eternidade o
abrace! Se a morte o tomar antes do esperado e pegar você despreparado, será algo terrível;
certamente deixará os seus rostos pálidos de medo, seus pensamentos perturbados, seus lombos
tremerem, seus joelhos se chocarem um contra o outro. Aquele que faz provisões para si mesmo
e para os seus amigos, mas negligencia a alma, é como aquele que prepara as coisas para os seus
escravos, mas negligencia a sua esposa. Ó, quão grande é o inferno de horrores e de terrores que
assola aqueles que deixaram para se preparar de última hora! Portanto, se você ama a sua alma, e
se você quer ser feliz na morte e eternamente bendito após ela, prepare-se para morrer! “Quando
eu era jovem”, disse Sêneca, o filósofo, “eu estudei a arte de viver bem; quando a idade veio
sobre mim, eu, então, estudei a arte de morrer bem”. Cuide para que você não se baseie em nada
que não seja Cristo! Ore para que você tenha um interesse real em Cristo; atente para que você
mortifique diariamente o pecado, o mundo, e a sua justiça própria. Certifique-se de que sua
consciência seja sempre desperta, gentil e vigilante. Garanta que Cristo seja o seu Senhor e
Mestre. Certifique-se de que todas as contas estejam pagas e acertadas entre o Senhor e a sua
alma. Zele para que você dê frutos, seja fiel e vigilante: então, o dia da sua morte será como o dia
da colheita para o fazendeiro, como o dia da libertação para um prisioneiro, como o dia de
coroação de um rei, e como o dia de casamento para uma noiva. O dia da sua morte será o dia de
triunfo e de júbilos, dia de liberdade e de consolação, dia de descanso e satisfação! E, então, o
Senhor Jesus será como mel na boca, um aroma agradável nas narinas,música aos ouvidos e
júbilo no coração.
Terceira aplicação
A última coisa que quero elencar é esta: se o último dia do Cristão é o melhor dia da sua
vida, então, pela regra do contrário, o último dia do homem mal é o pior dos seus dias, pois
haverá o julgamento dos pecados cometidos em vida. Um grande homem outrora escreveu no
seu leito de morte: “Esperança e fortuna, adeus”. A morte trará fim para todos os benefícios e
confortos que agora você desfruta. O descrente pode dizer no dia da sua morte: “Honras, amigos,
prazeres, riquezas, créditos, e todas essas coisas — adeus para sempre! Eu nunca mais terei um
momento feliz! Eu nunca me casarei novamente! Meu sol está se pondo, meus óculos estão
perdidos, minhas esperanças desaparecidas, meu coração se desfaz; todas as ofertas de graça são
passado, o Espírito nunca mais lutará comigo, a livre graça nunca mais me tocará, a serpente de
bronze não mais será uma opção! A morte será uma entrada para o julgamento, sim, para uma
eternidade de miséria! Jacob, o Imperador, e Louis XI da França, ordenaram a todos os seus
servos que nunca mencionassem a amarga palavra ‘morte’ quando os visitassem doentes, tão
terríveis eram os pensamentos de morte para eles. O que a voz de Deus era para Adão quando ele
comeu do fruto proibido; o que a vinda do dilúvio era para os homens profanos do velho mundo;
o que eram as águas do Mar Vermelho para Faraó e o seu exército; o que era o fogo do céu para
os capitães que foram atrás de Elias; o que era a fornalha em chamas para Sadraque, Mesaque e
Abede-Nego — assim será o dia da morte para com as almas profanas e ímpias. Ah, pecadores!
Minhas orações sobre vocês é que o Senhor os acorde e os desperte. Que Ele faça nascer uma luz
em sua alma para que você veja onde ela está, e o que você é. Então, que Deus lhe conceda alívio
do seu pecado através do arrependimento, e um interesse verdadeiro salvífico na figura dEle, a
fim de que para si: o viver seja Cristo, e o morrer seja lucro (Filipenses 1:21); para que, na morte
e na ressurreição, Cristo seja uma bênção para a sua alma! Rogo que sua morte seja o funeral dos
seus pecados, dos seus sofrimentos e também a sua entrada no gozo, alegria e felicidade eterna
— que se encontra nas mãos do nosso Deus.
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	Editorial
	Palavras Introdutórias
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	Capítulo 2
	Capítulo 3

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