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Copyright © 2023 Aliança Publicações Todos os direitos reservados à editora. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida, arquivada em qualquer sistema de armazenamento, ou transmitida de qualquer forma ou por quaisquer meios (eletrônicos, mecânicos, reprográficos, auditivos). Excetuam-se breves citações. A não ser quando indicado ao lado, todas as citações das escrituras são da Almeida Revista e Atualizada (ARA). EDITORIAL Editorial Sobre a série “Pequenos Clássicos Reformados” Quando começamos a ler nossos pais puritanos e antigos presbiterianos é comum nos depararmos com verdadeiras pérolas em tamanho reduzido, geralmente em formato de sermões ou cartas. Encontramos muito desses estilos literários principalmente porque a geração passada foi “sermônica” e pastoral por natureza. As grandiosas e complexas maravilhas doutrinárias se tornavam pregações úteis e cheias de aplicações nas mãos dos nossos pais para o coração da Igreja. O tamanho reduzido dessas obras preenche de forma plena o tempo de nos dedicarmos ao alimento espiritual que, muitas vezes, é tão curto em nossas rotinas. Como uma refeição pequena, ela se encaixa nas mais diversas situações: seja como um aperitivo para começar bem o dia, uma sobremesa depois de uma devocional, ou até mesmo um prato de entrada antes do culto ao Senhor. Também é adequada para ser digerida tanto nos dias apressados, quanto nos longos dias de férias, na praia ou no interior, no conforto do lar ou num parque. Mas não se engane: o tamanho reduzido não é proporcional ao grandioso valor contido nos textos dessa série. Como sabemos, nossos pais na fé eram especialistas em colocar grande quantidade de ouro em pequenos reservatórios. Nesses livretos o leitor não encontrará uma sopa aguada, mas alimento sólido, nutritivo e delicioso. Recentemente, ouvi de um pastor querido que ler uma página de uma obra dos nossos pais puritanos e presbiterianos era o suficiente para fazê- lo meditar por horas. O pouco tempo necessário para ler esses livros podem se transformar em dias de oração, autoexame, meditação e alegrias. Falei tanto de comida que espero ter deixado o leitor com fome de ler essas obras! Nossa oração é para que elas sejam uma bênção nas mãos do nosso querido povo de língua portuguesa. Do seu irmão em Cristo e editor da Aliança Publicações, Vitor Cortial PALAVRAS INTRODUTÓRIAS Palavras Introdutórias Reverendo Thomas Brooks Amados, estou aqui neste momento para dar uma palavra aos vivos; não pretendo falar nada aos mortos. Leiam comigo este maravilhoso texto das Sagradas Escrituras: “Melhor é a boa fama do que o unguento precioso, e o dia da morte, melhor do que o dia do nascimento” (Eclesiastes 7:1). Os gregos dizem que “o começo da vida de um homem é o começo da sua miséria”. “O homem, nascido de mulher, vive breve tempo, cheio de inquietação” (Jó 14:1). A palavra para “nascido”, aqui, também pode significar gerado ou concebido. O ponto do texto é que, no momento em que o homem é aquecido no confortável ventre de sua mãe, ele já é miserável. A primeira coisa que ele faz ao nascer é chorar. Antes mesmo de poder falar, ele profetiza suas futuras desgraças com lágrimas. Isso fez com que Salomão preferisse o seu caixão à sua coroa, o dia da sua morte ao dia da sua coroação. Sem mais delongas, a observação que quero fazer é esta: que o último dia de um Cristão é o seu melhor dia! O dia da sua morte é melhor do que o seu aniversário! Quão doce é para o crente meditar nestas verdades. CAPÍTULO 1 Capítulo 1 Por que o dia da morte é o melhor dia do cristão? Por quais motivos esse é o melhor dia dos cristãos? Primeiro, a morte é apenas uma mudança de um lugar para outro. Quando o cristão morre, ele muda da Terra para o Céu; do deserto para Canaã; do Egito para a terra de Gósen; de um monturo para um palácio. As Escrituras dizem sobre Judas que ele “foi para o seu próprio lugar” (Atos 1:25). Um descrente ainda não está no seu devido lugar – o inferno é o seu lugar. Assim também, o crente, quando morre, vai para o seu lugar. O Céu, no colo de Cristo, é o seu lugar. O crente não está hoje no seu devido lugar. “Entretanto, estamos em plena confiança, preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor” (2 Coríntios 5:8). Sua alma está constantemente em guerra nesta terra, mas ele não pode descansar até que descanse no colo de Cristo. Paulo entendeu isso muito bem quando disse: “Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Filipenses 1:23). “Alegremente, eu puxaria a âncora, içaria a vela e iria para casa,” disse o apóstolo. Por conta disso, muitas almas preciosas gemem por livramento. “E, por isso, neste tabernáculo, gememos, aspirando por sermos revestidos da nossa habitação celestial” (2 Coríntios 5:2). Por que isso? “Enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor” (v.6). Nós não estamos no nosso lugar devido e, portanto, gememos ansiosos para chegar em casa — isto é, estar no Céu, no colo do nosso Senhor Jesus Cristo, que é o nosso lugar apropriado, a mais desejada morada. Segundo, a morte é uma mudança de companhia. Neste mundo, o homem mais piedoso deve viver ao lado do maldoso e conversar com o ímpio. Essa verdade foi uma agonia para o espírito do rei Davi – ele disse: “Ai de mim, que sou peregrino em Meseque e habito nas tendas de Quedar!” Ouvi dizer que um homem pio, no seu leito de morte, clamou, “Ó, Senhor! Não me deixe ir para o inferno, onde está o homem mal, pois tu bem sabes que nunca gostei da companhia deles enquanto em vida!” Jeremias, também, exclamou: “Prouvera a Deus eu tivesse no deserto uma estalagem de caminhantes! Então, deixaria o meu povo e me apartaria dele, porque todos eles são adúlteros, são um bando de traidores!” (Jeremias 9:2). É isso que irritou e fez chorar a alma justa de Ló: “e livrou o justo Ló, afligido pelo procedimento libertino daqueles insubordinados (porque este justo, pelo que via e ouvia quando habitava entre eles, atormentava a sua alma justa, cada dia, por causa das obras iníquas daqueles)” (2 Pedro 2:7-8). Ó, mas a morte é uma mudança de companhia. Um homem santo só faz mudar de companhia, ficando longe dos caluniadores vis e se achegando à companhia dos anjos; saindo da companhia de cristãos fracos para homens que foram feitos perfeitos em Cristo. Que lugar maravilhoso! “Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembleia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados, e a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel” (Hebreus 12:22-24). Aqui está uma verdadeira mudança: a morte muda o seu lugar e a sua companhia. E se isso for devidamente pesado em balança, é necessário se afirmar que o último dia do crente é o melhor dia da sua vida. Terceiro, a morte é uma mudança de emprego. A alma de um crente, quando morre, muda de função em seu trabalho. Digo isso porque o trabalho de um cristão neste mundo inclui orar, gemer, suspirar, lutar e guerrear. Além disso, vemos nas Escrituras que os santos escolhidos, aqueles que têm a mais alta consideração por Deus, assim passaram seus dias. Todos dedicaram seu tempo a orar, gemer, lutar, guerrear: “porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Efésios 6:12). Probo, um valente imperador romano, tinha por lema: “Sem luta, sem pagamento!” Da mesma forma, exorto: “Sem luta, sem coroa; sem luta, sem paraíso”. A vida do crente é, de fato, um verdadeiro campo de batalha. Ele enfrenta os mesmos inimigos que expulsaram Adão do paraíso, o homem mais inocente de todos; que derrubaram Moisés, o homem mais manso da terra; que atormentaram Jó, o homem mais paciente do mundo; e com os quais Josué, o mais corajoso de todos,teve de lidar; que atacaram Paulo, o maior dos Apóstolos. A vida cristã é uma guerra constante. Jó disse: “Todos os dias da minha luta esperaria, até que eu fosse substituído” (Jó 14:14). Em outras palavras: “Eu ainda estou em luta”, disse Jó, “contra as luxúrias e corrupções interiores, contra demônios e homens”. Também Paulo nos revela, em sua carta a Timóteo: “Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda” (2 Timóteo 4:8). A morte é uma mudança de emprego. Ela nos libera do nosso árduo serviço, das ocupações que nos fazem gemer, lutar e guerrear, por um deleitoso coro de Aleluias ao Todo-Poderoso nas alturas! Não mais orações, mas louvores; não mais lutas e guerras, mas danças e cantigas de triunfo! Pode a alma de um crente olhar para essa gloriosa mudança e não afirmar que o dia da morte de um crente é melhor do que o dia do seu nascimento? O manto da morte seca todas as lágrimas dos olhos dos cristãos (Apocalipse 7:9). Quarto, a morte é uma mudança de prazeres, assim como uma mudança de emprego. Considerem comigo estes três aspectos consideráveis: (I) A morte representa uma mudança de um prazer escurecido que temos nesta terra para um prazer mais claro e doce em Deus. Afirma-se que o crente mais devoto que já pisou nesta terra, apesar de ver e ter muito prazer em Deus, não teve a oportunidade de experimentar um prazer tão claro e doce; ao contrário, todos os seus deleites eram de certa forma obscurecidos. O apóstolo Paulo, um homem que encontrava seu prazer em Deus, ainda assim, enquanto na carne, via-O através de um vidro escuro: “Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido” (1 Coríntios 13:12). Deus disse a Moisés que ele não poderia ver Sua face e viver. A realidade é que Deus nos permite apenas vislumbres de Sua glória, pois as revelações espirituais de Sua majestade são demasiado gloriosas e grandiosas para nossos olhos e entendimento. Nossa compreensão de Deus é, por natureza, limitada. Plutarco relata a Eudoxo que ele estaria disposto a ser queimado pelo sol se isso lhe desse a oportunidade de aproximar-se o suficiente para compreender a natureza da estrela. Este deveria ser o anseio no coração dos crentes: “Senhor, permita-nos que nos queimemos, se assim pudermos ver-te em todas as Tuas manifestações gloriosas; não nos importamos em ser pobres ou qualquer outra coisa, desde que possamos desfrutar de Ti mais claramente”. Crisóstomo professava que a falta de deleite em Deus seria um inferno muito mais doloroso do que qualquer punição. Pergunte àqueles que vivem no pleno prazer de Deus: “Qual é o seu maior fardo?” Eles responderão: “Nosso maior fardo é que nossa percepção de Deus não é tão clara a ponto de não podermos ver o Amado de nossas almas face a face!” Ah, nos céus, o crente terá uma visão clara de Deus! Não há nuvens nem névoas no paraíso! (II) É crucial compreender que a morte marca uma transição do nosso prazer imperfeito e incompleto em Deus para um prazer mais completo e perfeito nEle. Assim como um crente não tem uma visão clara de Deus aqui, ele também não desfruta de um prazer perfeito nEle. Em Jó 26:14, percebemos quão limitada é a porção que conhecemos sobre Ele e quão diminuta é a fração que nosso entendimento pode abarcar! Agostinho expressou essa realidade magnificamente ao dizer: "As coisas gloriosas do céu são tantas que superam em número; são tão preciosas que superam em valor; são tão imensas que superam em medida!" Bernardo comentou: "Por Cristo estar com Paulo, o apóstolo sentia uma grande segurança; por Paulo estar com Cristo, era sua verdadeira alegria!" Crisóstomo observou: "Se fosse possível que todos os sofrimentos de todos os santos fossem colocados sobre um único homem, isso ainda não se equipararia à glória do Céu!" Tal é a magnificência e a plenitude da glória celestial. O lema dos santos é "Avancemos, então! Prossigamos!" Assim, em 1 Coríntios 13:12, o apóstolo Paulo declara: "Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido." Em outras palavras, a alma, enquanto neste mundo, diz: "Eu desfruto um pouco de Deus, e isso jamais me faltará. Mas, ainda assim, meu prazer não é completo." Se você perguntar, "Alma, por que esperas em Deus nesta ou naquela prática?", ela responderá: "Para que possamos desfrutar de Deus mais plenamente no futuro. Ó, que eu possa ser inundada pelo Espírito de Deus!" Não há lamentos no céu, pois não há carências. Ó, quando a morte der seu golpe final, ocorrerá a troca da Terra pelo Céu; do gozo imperfeito para o deleite perfeito; então, a alma se encherá de alegria em Deus e nenhum espaço ficará vazio — todos estarão cheios de Deus. No mundo atual, recebemos graça, mas nos céus, receberemos glória. Deus reserva o melhor vinho para o final; o melhor de Deus, Cristo, e do paraíso está além deste mundo. Aqui, temos apenas um vislumbre da saborosa bebida celestial; a plenitude está guardada para o estado de glória. Aquele que mais vê Deus neste mundo, vê apenas Suas costas; Sua face é a joia de esplendor e glória que nenhum olho pode ver, exceto o do corpo glorificado em Cristo. Os cristãos mais devotos conseguem apenas vislumbres de Deus; seus corações são como o vaso da viúva, capazes de receber apenas um pouco de óleo. O pecado, o mundo e as criaturas ocupam tanto espaço em nossos melhores corações que Deus se dá a si mesmo homeopaticamente, como um pai que dá doces a seus filhos. Mas, nos céus, Deus se revelará completamente à alma! A graça será então absorvida pela glória. (III) A morte é uma transformação de um prazer em Deus flutuante e inconstante para um gozo constante e permanente. Aqui na Terra, o deleite dos santos em Deus é marcado pela inconstância. Em um dia, nos regozijamos em Deus; em outro, nossas almas se sentam e começam a lamentar-se em angústia de espírito. "Aquele que conforta minha alma está longe", lamentamos, “nosso sol se pôs”; o que pode compensar a ausência desse sol? Assim como nenhuma luz de vela, estrela ou tocha pode substituir a luz do sol, quando o Sol da Justiça esconde Sua face, nenhum esforço terreno pode preencher esse vazio. Pela morte, os santos tornam-se imutáveis e constantes na eternidade. O que será dessa vida — ou melhor, o que não será — já que o maior bem se encontra na vida eterna? Lá há luz sem limites, música ininterrupta, fragrância que não se dissipa, um banquete que nunca se esgota, bênçãos concedidas eternamente, em um reino que jamais passará. Davi, em alguns momentos, podia afirmar que Deus era sua porção, sua salvação e sua fortaleza, e tudo mais; contudo, ainda clamava: "Por que estás abatida, ó minha alma? Por que tão perturbada dentro de mim?" Em uma passagem das Escrituras, ele disse: "Eu nunca serei abalado" (Salmos 30:6); no entanto, logo a seguir, lamenta: "Apenas voltaste Teu rosto, fiquei perturbado" (v. 7). E esse é o estado de um crente neste mundo. Mas, no céu, nenhuma nuvem surgirá entre o Senhor e o coração do cristão. Deus não terá dias de sorrisos seguidos por dias de desaprovação; um dia acolhendo uma alma em Seus braços, e no outro, colocando-a sob Seus pés. Esse é o modo como Ele trata Seu povo aqui. Mas, no céu, há apenas beijos e abraços, nada além do gozo perpétuo de Deus. Quando Deus leva uma alma para Si, nunca mais haverá noite para ela, nunca mais escuridão para a alma. Todas as lágrimas serão enxutas. Que doce promessa é essa em 1 Tessalonicenses 4.17-18: "E assim estaremos para sempre com o Senhor. Portanto, encorajem-se uns aos outros com estas palavras". Existem anjos e arcanjos no céu. Sim, mas o céu não se resume a eles; Cristo é o diamante mais brilhante no anel da glória! Ver a Cristo e estar para sempre com Ele é o próprio céu e a felicidade em si. Agora, Ó, que gloriosa mudança é essa! Parece-me que estascoisas nos fazem ansiar ardorosamente pelo nosso dia da morte e considerar a vida presente como uma prolongada morte. Quinto, a morte é uma transformação que coloca fim a todas as mudanças. O que é a vida de um homem senão uma sequência de mudanças? A morte marca o término de todas as alterações externas. Aqui na Terra, passamos constantemente da alegria para a tristeza, da saúde para a doença, da força para a fraqueza, da honra para a desonra, da abundância para a pobreza, da beleza para a deformidade, de amigos para inimigos, da prata para o bronze, do ouro para o cobre. Agora, um homem encontra conforto em um sorriso, e em um instante, encontra-se à beira da morte; e assim sucessivamente. Todos os momentos são tão efêmeros quanto uma corrente veloz, um navio que passa, um pássaro em voo, uma flecha disparada, uma criatura fugaz. O próprio homem — amante dos confortos externos — o que é ele senão uma mera ilusão? Um sonho dentro de um sonho, uma sombra, uma bolha, um relâmpago, um sopro. A morte encerra todas essas alterações externas: não mais haverá doenças, dores, necessidades, entre tantas outras aflições. E então, a morte também põe fim a todas as mudanças internas. Agora, o Senhor pode sorrir para a alma, e em outro momento, mostrar-se severo por causa dos muitos pecados. Agora, Deus oferece assistência para vencer o pecado, antes que o homem seja por ele dominado; depois, ele é fortalecido contra a tentação, e em um breve período, cai. Jó foi um herói em meio às tempestades e falou como um anjo, mas quando seu corpo foi afligido, e as flechas do Todo- Poderoso o atingiram, seu dia se transformou em noite, e seu regozijo em luto; poderia se pensar que ele fosse a própria encarnação do mal, por suas lamentações. Mas a morte põe fim tanto às mudanças internas quanto às externas. A alma não mais será tentada, não pecará, nem será frustrada. Agora, pelos aspectos apresentados, pode-se afirmar que o dia da morte de um cristão é o melhor dia de sua vida. A morte é como outro Moisés: liberta os crentes da escravidão e da labuta no Egito e os conduz para além do Jordão. É um dia, ou um ano de jubileu, para um espírito agraciado — o ano em que ele é libertado de todos os opressores cruéis que por tanto tempo o fizeram gemer. Os deuses das nações viam a morte como o summum bonum do homem, seu maior bem; consequentemente, quando um homem construiu e dedicou o templo em Delfos, pediu a Apolo sua recompensa, desejando o que fosse melhor para um homem. O oráculo lhe disse que deveria retornar para casa e, dentro de três dias, receberia a recompensa esperada — e em três dias, ele morreu. Assim, até os próprios pagãos reconhecem a verdade de que o dia da morte de um homem é o melhor dia de sua vida. Sexto, a morte é uma transformação que conduz a alma a um descanso eterno. Morrer é levar a alma para a cama — rumo a um estado de repouso eterno. A morte oferece um alívio dos problemas de nossos trabalhos, aflições, perseguições, tentações, apostasias, pecados e tristezas (Gênesis 8:8). Esta é a última razão que exploro sobre o último dia do crente ser o seu melhor dia. Enquanto permanecemos neste mundo, a alma está em constante agitação. Mesmo o homem mais piedoso — aquele que desfruta do mais claro e profundo prazer em Deus — muitas vezes se assemelha à pomba de Noé, que não encontrou descanso para seus pés: falta-lhe alguma misericórdia temporal ou espiritual, e assim será até que sua alma seja acolhida nas eternas alegrias de Deus! A morte leva o homem a um descanso inalterável. O apóstolo João descreve de forma sublime: “Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor” (Apocalipse 14:13). Por quê? Ele completa: “Para que descansem das suas fadigas”. Ó, ele diz, grave essas palavras como algo de grande valor e significado: “Bem- aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor”! A morte leva a alma a um descanso inalterável. “O justo perece, e ninguém leva a sério; os homens piedosos são levados embora, sem que ninguém perceba que o justo é poupado do mal. Entram na paz; descansam em suas camas, todos os que andam na sua retidão” (Isaías 57:1-2). Ah, a morte é uma transformação que leva a alma a um descanso imutável; ela conduz nossa alma para a cama: é hora de dormir. Isso fez Paulo ansiar por “partir e estar com Cristo” e os crentes de Corinto gemerem por libertação. Laurence Saunders, ao beijar a estaca, disse: bem- vindo seja o madeiro de Cristo, bem-vinda seja a vida eterna. Faninus, um mártir italiano, beijou o homem que lhe trouxe a notícia de sua execução. Foi notável o que disse o abençoado Cooper: “Há muitos dias tenho buscado a morte com lágrimas; não por impaciência ou desespero”, disse ele, “mas porque estou exausto do pecado e temeroso de pecar novamente”. Veja como os mártires abraçaram à estaca, saudaram cada mensageiro da morte que lhes foi enviado, e aplaudiram em meio às chamas de sua execução. A morte é o dia de coroação do crente, o dia de seu casamento. É um descanso do pecado, da tristeza, das aflições e das tentações. A morte de um crente é sua entrada no seio de Abraão, no paraíso, na “Nova Jerusalém”, na alegria de seu Senhor. Isto conclui a parte doutrinária. É evidente, por essas seis razões, que o dia da morte do cristão é o melhor dia de sua vida, e seu dia de morte é melhor do que o dia de seu nascimento. CAPÍTULO 2 Capítulo 2 Não tema e nem chore imoderadamente Como aplicar essa verdade em nossas vidas? Eu poderia, por muitos outros argumentos, demonstrar essa verdade para você, mas creio que as razões que escrevi lhe são suficientes. Eu escolhi me limitar a esses porque não acho que seria bom mantê-lo por mais tempo longe da aplicação do ponto — sendo a vida de todo o ensinamento a sua prática. Primeira aplicação Nunca chorem imoderadamente pela morte de qualquer crente; deixem-os estar mais excelentes e úteis do que qualquer outro vivo. A morte não é a morte do homem, mas a morte de seu pecado. A morte é para os crentes é o maior ganho; e o choro imoderado fala muito do nosso egoísmo quando ficamos mais consumidos pelo ganho e pelo benefício que os nossos queridos trazem às nossas vidas, do que com a felicidade e a glória que eles desfrutam em decorrência da morte. Nos tempos primitivos, quando Deus dava uma sentença de morte sobre os seus mais amados santos, os Cristãos se comportavam de uma maneira mais elevada, doce e nobre do que hoje em dia. Lembre-se disso: a morte faz em apenas um instante o que nenhuma graça, obrigação, nem qualquer ordenança poderia fazer por um homem durante toda a sua vida! A morte liberta o homem dessas doenças, corrupções, tentações de uma forma que nenhum dever, graça ou ordenanças poderiam. Quando Abraão veio prantear pela sua falecida esposa, Sara, ele se lamentou moderadamente, porque o dia da morte dela era o melhor dia da sua vida. Quando Lutero, o famoso instrumento de Deus, enterrou sua filha, não foi visto derramando uma lágrima. Assim também o Sr. Whately, que era famoso em seu tempo, enquanto pregava no funeral do seu próprio filho o sermão sobre este assunto, “A vontade do Senhor seja feita”, ele e a sua esposa tiveram a força de colocar o seu próprio filho no túmulo. O povo na Trácia chora e muito se lamenta no nascimento dos seus filhos, por causa das dores e tribulações que eles vão enfrentar ao longo da vida; e se alegra muito e regozija com a morte deles, porque a morte é o fim de todos os seus sofrimentos. A morte não é tão ruim quanto alguns a pintam. Um escritor pagão certa vez disse que toda a vida de um homem deve ser nada mais do que uma meditação sobre a morte (veja Deuteronômio 32:29). Alexandre, o Grande, perguntou a um filósofo indiano quanto tempo um homem deve viver; o filósofo respondeu: “até que ele ache que é melhor morrer do que viver”. Este é o primeiro uso: não devemos chorar imoderadamente por nenhuma morte de um Cristão verdadeiro. Não tema a morte. Acalme os seus espíritos; não fale da morte como aquele príncipe ímpio um dia disse ao profeta: “Já me achaste, inimigomeu?” (1 Reis 21:20). Ao contrário, meu amigo, anseie por isso — não para ser livre dos problemas, mas para que a alma possa ser tomada por uma mais clara e plena alegria de Deus. O dia da sua morte é o melhor dia da sua vida! O bondoso Jacó morreu com um espírito doce e composto; ele convocou os seus filhos, abençoou-os e os beijou, juntou seus pés na cama e morreu. Moisés, naquela manhã em que o mensageiro chegou e lhe disse que ele deveria morrer, subiu ao monte, viu a terra de Canaã à distância, e então morreu em paz. José construiu seu sepulcro em seu próprio jardim. Alguns filósofos tinham seus túmulos sempre abertos diante da sua porta, para que, ao sair e ao entrar, eles pudessem sempre pensar na morte, pois achavam difícil encontrar conforto nesta vida — cruzes frequentes, prazeres momentâneos e dores permanentes. Crentes, o dia da sua morte é o seu melhor dia. Ah, então, não tenha medo da morte! Espero que você perca a sua aversão a morrer. Lembre-se de que não se trata de um assunto insignificante. Há muito desprestígio trazido a Deus por crentes que estão relutantes a morrer. Você fala muito de Deus, do céu e da glória; mas, quando chega a hora de ir compartilhar dessa glória, você recua e diz, “poupe-me por um pouco mais de tempo, Senhor!” Não é esta uma vergonha para o Deus da glória? Para que esse conselho encontre morada no seu coração, lembre-se destas cinco verdades: (I) A morte de Cristo é uma morte meritória. É possível que um cristão medite sobre a morte de Cristo como o mérito para obter paz com Deus, perdão de pecados, justificação e glorificação, e ainda assim tenha medo de morrer? A morte de Cristo é maravilhosamente meritória, e nós ainda estamos relutantes em partir? (II) A morte não é uma espada na mão do nosso Pai? É verdade que uma espada nas mãos de um louco ou empunhada por um inimigo pode fazer alguém tremer — mas quando a espada está nas mãos do pai, a criança não teme. Tenha certeza de que a morte é uma espada, mas por que a criança teme quando ela está na mão do seu pai, o qual irá lidar com isso de modo que seus filhos não sejam machucados nem lesionados por essa arma? (III) Lembre-se de que a morte de Cristo é uma morte que vence a morte. O medo da morte é pior do que as dores da morte, porque isso é o que nos mata constantemente, e a própria morte só pode nos matar uma única vez. “Aquele que teme a morte está relutante em ir para Cristo”, disse Cipriano. Ele mesmo completou: “Eu não temo morrer, mas tenho medo de ser condenado”. Lutero, referindo-se ao sangue de Cristo, diz, “Que uma pequena gota é mais valiosa do que o céu e a Terra”. Se as almas debaixo do altar choram — até quando, Senhor? —, se anseiam pelo dia do juízo, por que não ansiamos pelo dia da morte, já que o dia da nossa morte é como a véspera do grandioso dia final do Senhor? Zeno disse, “eu não tenho medo da minha velhice”. Cristo destruiu o aguilhão da morte, portanto ela não poderá mais nos machucar. A morte é uma morte que santificou e adocicou a morte. Ele, por sua morte, santificou e adocicou a morte para nós. (IV) A morte é uma queda que veio de uma queda. Morrer é não mais ser infeliz, se considerarmos a morte corretamente. “Ó”, diz alguém, “que eu não veja a morte como ela era, mas como, ó Senhor, a transformaste em Cristo!” A morte é o maior monarca e o mais antigo rei do mundo. “A morte reinou desde Adão até Moisés,” disse Paulo. Ó! Mas o Senhor Jesus desarmou e triunfou sobre a morte. Ele tirou o seu aguilhão para que não nos faça mal, nos deixando brincar com ela e colocá-la em nosso coração, assim como podemos fazer com uma cobra que teve suas presas retiradas. O apóstolo, considerando tudo o que foi exposto, desafia a morte, mostra-se mais corajoso que ela e, por fim, a lança num poço, “Ó, morte, onde está a sua vitória? Onde, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e o poder do pecado é a lei. Mas, graças a Deus! Ele nos dá vitória no nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Coríntios 15.55-57). (V) Não deixou Cristo, de bom grado, a companhia do Pai para o seu bem? Não morreu Ele voluntariamente por você? Nosso Cristo alegou que as Suas vestes eram boas demais para que fossem despidas, a Sua coroa tão sublime para ser deixada de lado, ou Ele se achou demasiado nobre para sofrer pelo Seu povo? Não! Ele prontamente deixa o conforto do Pai, deixa a Sua coroa, se despe das Suas vestes, e sofre uma maldita, cruel e ignominiosa morte. Ah, almas, vocês devem raciocinar, portanto, “Cristo morreu por mim, para que eu pudesse viver com Ele? Eu não irei, então, desejar viver demasiadamente distante dEle”. Todos os homens vão ao encontro das pessoas que amam ansiosamente; e devo estar indisposto a morrer, sendo através da morte que tenho a possibilidade de ver Aquele que minha alma ama? Deve Cristo deixar de lado toda a Sua glória e esplendor, e se casar com uma pobre alma que não tinha herança nem beleza; e essa alma, ainda assim, não ter vontade de ir para casa ver um tão gracioso marido? Ó, pensem nisso, almas que estão indispostas a morrer! A vida presente não é a vida, mas o caminho para a vida; para que, quando deixamos de ser homens, nós comecemos a ser como anjos. Eles são apenas criaturas de natureza inferior, que estão satisfeitas com o presente. O homem é uma criatura do futuro. O olho da sua alma olha para frente. O trabalhador apressa-se do seu trabalho para a sua cama; o marinheiro trabalha duro para chegar ao porto; o viajante fica feliz ao se achar perto da sua casa; portanto, assim devem os santos proceder quando eles chegarem perto da morte, porque eles estão se achegando ao céu, que é a sua verdadeira e eterna casa! (VI) Você não se encontra completo em Cristo? “Um só Cristo basta para você, em vez de todas as coisas, porque nEle estão todas as coisas boas que podem ser encontradas” (Agostinho). Por que deve um crente ter medo de morrer, se ele está completo diante de Deus, na justiça do Senhor Jesus? Caso fosse o nosso dever aparecer diante do trono com a nossa própria justiça, com nossas próprias obras, seria realmente terrível pensar em morrer — mas um crente não é completo em si mesmo, e sim, nEle. “E nele estais completos” (Colossenses 2:10). Em Apocalipse (14:4-5), o apóstolo relata que os eleitos serão “os que foram redimidos dentre os homens, primícias para Deus e para o Cordeiro; e não se achou mentira na sua boca; eles não têm mácula”. No livro de Cântico dos Cânticos (4:7), encontramos: “Tu és toda formosa, querida minha, e em ti não há defeito”. Um crente, quando morre, aparece diante do trono de Deus vestido com a justiça de Cristo. Todas as manchas e imperfeições da alma são cobertas com a justiça de Cristo, que é imaculada, sem manchas, e incomparavelmente justa. A esposa de Cristo possui uma beleza perfeita; ela é gloriosa, tanto por dentro quanto por fora, é imaculada e irrepreensível, e a mais formosa entre as mulheres. Ela precisa ser isso tudo para que possa ser um par adequado para Cristo, que é o mais justo dentre todos os filhos dos homens (Salmo 45:2). Os santos são como aquela árvore do paraíso (Gênesis 3) — justos aos olhos de Deus, e agradáveis ao Seu paladar. Os santos são como Absalão, em quem não se pôde encontrar defeito algum, da cabeça aos pés. Pense nessas coisas para adoçar as suas últimas horas e fazer você desejar estar nos braços de Cristo. (VII) Considere que o dia da morte dos santos é o dia de receber o salário do Senhor. Cada oração deverá, então, ter a sua resposta; todas as fomes e sedes devem ser saciadas e satisfeitas; cada suspiro, gemido e lágrima que foram derramados pelos olhos dos santos devem ser recompensados. É a morte, a qual é vida, que une o homem moribundo a Cristo! É a vida, a qual é morte, que separa o homem de Cristo. Em seguida, eles serão recompensados por todos os serviços públicos, todos os serviços à família, e etc. Em seguida, uma coroa será posta sobre as suas cabeças, gloriosas vestes colocadas sobre as suas costas e cetros de ouro nas suas mãos; sendo o seu último dia, o diado seu pagamento, você deve ouvir o Senhor dizer-lhe: “Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor” (Mateus 25:21). Nesse dia, os santos perceberão que Deus não é como Antíoco, que prometeu muitas vezes, mas raramente cumpriu. Não! Quando chegarmos ao céu, Deus vai cumprir todas aquelas promessas gloriosas e majestosas que fez ao Seu povo, especialmente as que foram mencionadas (em Apocalipse 2.10, 3.4, 12, 22, e 7.16-17). Agora, Deus converterá o seu bronze em ouro, seu ferro em prata, sua miséria em felicidade, sua pobreza em riqueza, sua desonra em honra, sua escravidão em liberdade, a terra em céu, sua coroa mortal em uma coroa imortal! (VIII) Considere que a jornada para a glória é através de dores e a jornada para a vida é através da morte. Neste mundo somos todos Benoni, filhos da tristeza. O caminho para o céu é através da cruz e do choro. A semana da paixão de Cristo foi antes da sua ascensão; ninguém chega ao paraíso a não ser por um Serafim em chamas; ninguém sai do Egito sem passar pelo Mar Vermelho; os filhos de Israel chegaram a Jerusalém passando pelo vale das lágrimas e atravessaram o Rio Jordão antes de chegarem às doces águas de Siloé. Um homem facilmente engolirá uma pílula amarga para melhorar de uma doença. O médico nos ajuda com medicações dolorosas e nós ainda pagamos por isso. Não há passagem para o paraíso senão pela espada flamejante do anjo da morte! Não há chegada à cidade gloriosa a não ser por essa difícil, escura e suja trilha da morte. Isso deve fazer você abraçar a morte não como um infortúnio, mas como uma amiga; não como uma estranha, mas como uma convidada que você ansiosamente esperou. Devemos dar mais boas-vindas à morte do que ao nascimento. A morte para o crente é o portão dos céus, o portão para a vida. Ela nos leva para fora do deserto, em direção a Canaã; tira-nos de um mar turbulento e nos coloca num mar de calmaria (João 14:1-3). Todo homem está ansioso por ir para sua casa, ainda que o caminho para isso o leve por cantos escuros, sujos e perigosos. Não estariam os crentes também ansiosos para ir para a casa deles, mesmo com uma entrada tão sombria na gloriosa, iluminada e eterna mansão que Cristo preparou para eles? Certamente sim! (IX) Considere comigo que, enquanto estivermos neste mundo, nossos corpos fracos e imperfeitos lançam cadeias, grilhões, restrições, obstáculos e impedimentos sobre a alma, fazendo com que ela seja incapaz de realizar muitas das boas e nobres obras. No céu, a alma pode trabalhar num ambiente mais claro e compreender melhor, discursar mais sabiamente, alegrar-se mais, amar mais nobremente, desejar mais puramente e ter mais esperança do que aqui. A alma é agora encarnada em um corpo e, enquanto ela está neste corpo de barro, não pode agir como naturalmente faria. É como um pássaro engaiolado, cuja natureza é voar alto para o lugar de onde veio. Quando a alma abre as asas para alçar voo até o céu, o corpo, como um peso pesado, puxa-a para baixo, fazendo-a voltar para a terra. Neste estado, a alma não pode olhar com seus olhos, pois seria infectada; nem ouvir com seus ouvidos, pois seria distraída; nem cheirar com seu nariz sem que entre alguma corrupção; nem utilizar sua língua para saborear sem ser seduzida; e nem tocar com suas mãos sem ser profanada. Cada sentido e cada membro está completamente pronto para cair em todas as ocasiões e tentações, para trair a alma, o que deve nos fazer dispostos a morrer e ansiosos pelo dia em que nossos corpos serão glorificados. Os Gregos chamam o corpo de cadeia da alma, sepulcro da alma. Ah, crentes! Será breve antes que seus corpos, que são agora como um quadro fora da moldura ou uma casa em manutenção, que são aqui deformados e doentes, se tornem ágeis e rápidos, perfeitos em todos os seus movimentos. Quanto à clareza e brilho, nossos corpos serão como o corpo de Cristo quando foi transfigurado (Mateus 17:2); eles serão amáveis e bonitos, serão imutáveis e imortais. Aqui nossos corpos ainda estão morrendo. É mais adequado perguntar quando será o fim da morte, do que perguntar quando vamos morrer. A morte é um verme que está sempre sugando a raiz das nossas vidas, o que deve tornar aquele momento da morte final mais desejável do que a vida. (X) Encontre muito descanso na disponibilidade e na boa vontade de outros santos para morrer. O bom e velho Simeão, depois de ter posto Cristo no seu coração e tê-lo segurado em seus braços, cantou: “Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra; porque os meus olhos já viram a tua salvação” (Lucas 2:28-30). Eu vivi o suficiente, e agora posso ir para a minha verdadeira vida; eu ansiava muito, agora tenho o meu amor em meu peito; eu já vi o suficiente, agora tenho a minha visão; já servi o suficiente, agora tenho minha recompensa; eu já me entristeci o suficiente, agora tenho a minha alegria. Assim, também, os crentes de Corinto (2 Coríntios 5:4, 8) gemeram com veemência para estarem na sua casa celeste; eles gemeram para que a mortalidade fosse engolida pela vida de verdade, “preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor”. De igual modo, Paulo deseja intensamente “partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Filipenses 1:23). Pedro, também, relata que eles estavam “esperando e apressando a vinda do Dia de Deus” (2 Pedro 3:12). É dito que eles estão apressando o Dia de Deus, pois assim desejavam sinceramente e se preparavam para tal. Por conseguinte, as almas no altar clamam: “até quando, Senhor? Até quando?” (Apocalipse 6:9- 10). Temos, do mesmo modo, o exemplo de uma nobre senhora, quando alguém leu para ela: “eis que passou o inverno, cessou a chuva e se foi”; “sim”, respondeu ela, “chegou o tempo de cantarem as aves” (Cantares 2:11-12), e então ela foi cantando até o céu. Igualmente o Sr. Jewel disse: “agora, Senhor, deixa teu servo partir em paz, acabar com todos os atrasos; Senhor, recebe o meu espírito”. Depois, ele disse “eu não vivi tanto a ponto de ter vergonha de viver mais; não tenho medo de morrer, porque tenho um misericordioso Senhor. Uma coroa de justiça é reservada para mim; Cristo é minha justiça”. Outra pessoa, estando já no fim da sua vida, falou aos seus amigos que estavam tentando consolá-lo, “eu tenho consolo e afetos dos quais vocês não fazem ideia”. Outro exemplo maravilhoso foi o do Sr. Pearing, que um pouco antes da sua morte, disse: “eu encontro e sinto tanta alegria no meu interior e conforto para minha alma que, se eu pudesse escolher entre morrer e viver, eu escolheria mil vezes a morte, se for de consonância com a santa vontade de Deus”. Um dia, disse Agostinho: “Deixe todos os demônios do inferno assaltar-me, lacerar o meu corpo; deixe que eles oprimam com sofrimentos a minha mente; deixe que as dores consumam minha carne, que eu esteja todo desgastado; que o calor me queime ou que o frio me congele. Deixe todas essas coisas, e o que mais tiver de vir, acontecerem a mim, contanto que me levem a desfrutar do meu Salvador”. Por conseguinte, Mr. Bolton, deitando-se no seu leito de morte, disse, “Eu estou, pelas maravilhosas misericórdias divinas, tão cheio de conforto quanto meu coração pode suportar e não sinto nada que não seja Cristo, o desejado do meu coração”. Ah, amigos Cristãos! Se a suprema vontade dos santos em morrer não fizer você disposto a isso, o que mais faria? (XI) Por último, considere esta verdade: que o Senhor não vai deixar você e, sim, estará contigo na hora da sua morte. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam”, disse o Salmista (23:4). Assim como o apóstolo disse, “Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei” (Hebreus 13:5). Há cinco negativos em grego que asseguram ao povo de Deus que Ele nunca vai abandoná-los; essa preciosa promessa foi renovada cinco vezes nas Escrituras. Quenós possamos extrair muito conforto dela, da mesma forma que buscamos extrair até a última gota do mel de uma colmeia. Apesar de parecer que Deus te abandonou, você pode estar confiante de que Ele nunca vai abandoná-lo. Por que, então, o homem tem medo da morte, se pode estar sempre confiante da presença do Senhor da vida? Maximiliano, o Imperador, ficou tão encantado com essa frase, “Se Deus está conosco, quem será contra nós?”, que fez com que ela fosse escrita nas paredes da maioria das salas do seu palácio. CAPÍTULO 3 Argumento 3 Preparativos para o dia da morte Segunda aplicação O próximo uso exposto tem como objetivo tirar você de tudo e o preparar para o dia da sua morte. Ah, Cristãos! O que é toda a sua vida senão um tempo para se preparar para a hora da morte? Qual é o seu grande afazer neste mundo, senão se preparar e se ajustar para o mundo eterno? Foi um triste discurso de César Bórgia que, em seu leito de morte, disse: “Quando eu vivia, me preparava para tudo, menos para a morte! Agora, eu vou partir, e eu estou despreparado para ela”. Ah, Cristão! Você precisa todos os dias orar com Moisés, “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos um coração sábio” (Salmos 90:12). A seguir, você deve escutar o conselho do profeta Jeremias, “dai glória ao SENHOR, vosso Deus, antes que ele faça vir as trevas, e antes que tropecem vossos pés nos montes tenebrosos; antes que, esperando vós luz, ele a transforme em sombra de morte e a reduza à escuridão” (Jeremias 13:16). A velhice é uma montanha escura que torna um caminho amplo num caminho estreito, de um caminho reto uma vereda montanhosa. É sabedoria celestial considerar o nosso fim: “Oh, se fossem sábios! Então, entenderiam isto e atentariam para o seu fim” (Deuterônomio 32:29). Jerusalém pagou caro por esquecer sobre o seu fim. Sua imundícia estava nas suas saias, porque ela não se lembrou do seu último fim; e foi destruída terrivelmente, por isso: (I) Quem não se prepara para seu último dia corre o risco de perder sua alma imortal. Embora nunca seja tarde demais, o arrependimento tardio raramente é verdadeiro. “Aquele que não está pronto para se arrepender hoje, estará ainda menos pronto amanhã; o seu entendimento será mais escuro, o seu coração mais endurecido, a sua vontade mais perversa, seus afetos mais desregulados, sua consciência mais entorpecida”. Bede conta uma história de certo grande homem que, durante um tempo de doença, foi admoestado e chamado ao arrependimento. Ele respondeu: “Não seria um devido arrependimento se eu o fizesse agora, pois, se eu me recuperar, meus companheiros vão rir de mim”. Ficando cada vez mais doente, então, ele lhes disse que era tarde demais para se arrepender, “Pois agora”, disse ele, “já sou julgado e condenado". É a maior sabedoria do mundo se dispor a fazer o que um homem faria no seu leito de morte todos os dias da vida, e ter medo diário de viver em um estado em que o homem prestes a morrer teria medo de partir e não ser acolhido pelo seu Criador. Ah, as almas! Você está com medo de morrer em tais e tais pecados? Por que não teria medo de viver neles também? (II) Novamente, a certeza da morte deve fazer com que você se prepare para ela. Quando afirmamos que algo é uma verdade indubitável, usamos a expressão: “tão certo como a morte”. “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo”, como disse o Apóstolo Paulo (Hebreus 9:27). “morrerem uma só vez” implica duas coisas: [1.] a certeza; e [2.] a singularidade dessa verdade. “Que homem vivo que não irá experienciar a morte?” disse o Salmista. Isso é, nenhum homem deixará de passar pela morte. No livro de Jó, o túmulo é chamado de “a casa destinada a todo ser vivente”. O sábio chama a morte de “nosso esperado lar”, onde os homens devem habitar por um longo tempo, até a ressurreição. Viver sem medo da morte é morrer vivendo! Trabalhar para não morrer é trabalhar em vão! A morte tem um lema, “eu não me rendo a ninguém!” Está decretado que todos devem morrer. Todo dia da morte de um homem é o dia do seu juízo. Os Judeus têm um ditado: “No cemitério podem ser vistas caveiras de todos os tamanhos”. Ou seja, a morte vem aos jovens, bem como aos velhos; a sorte caiu sobre todos, e, portanto, todos devem morrer. Todos os homens são feitos de um determinado molde e de uma determinada matéria, mas todos compartilham de algumas mesmas características: “és pó, e ao pó retornarás” (Gênesis 3:19); “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3:23); e, por conseguinte, a morte é o destino de todos. (III) A incerteza da hora da sua morte deve fazer com que você esteja constantemente preparado para ela. Nenhum homem sabe quando morrerá, nem que tipo de morte terá — se uma natural ou uma violenta. Augusto morreu em um elogio, Tibério morreu em um engano, Galba morreu com uma palavra, Vespasiano morreu com um dito! Zeuxes morreu de rir com a imagem de uma mulher de idade que ele havia desenhado com as suas próprias mãos! Sófocles foi sufocado com um caroço de uva! Diodoro, o lógico, morreu de vergonha por ele não conseguir responder a uma pergunta simples proposta na mesa de jantar. Joannes Masius pregando sobre a ressurreição da mulher do filho de Naomi dos mortos, dentro de três horas, morreu! Félix, Conde de Wurtemberg, sentado na ceia com muitos de seus amigos, envolveu-se em uma discussão sobre Lutero e o recebimento da sua doutrina pelo povo, mediante a qual o Conde jurou com um grande juramento: “antes de morrer, eu vou cavalgar animosamente no sangue de Luteranos”; mas, na mesma noite, Deus estendeu a Sua mão contra ele, que sufocou até a morte no seu próprio sangue. Bibulus, um general Romano, enquanto andava triunfante em toda a sua glória, foi atingido por uma telha que caiu de uma casa na rua, e morreu. (IV) Considere, em último lugar, que morrer é algo solene. A morte é uma solene separação temporária de dois amigos próximos — a alma e o corpo. Lembre-se, todos os outros preparativos não têm propósito algum se um homem não está preparado para morrer. O que se aproveitará se um homem preparar isso ou aquilo para os seus filhos, parentes, amigos, quando ele não fez os preparativos para a sua alma, para seu bem-estar eterno? Enquanto a morte deixa você, o julgamento te encontrará! Enquanto o julgamento se aproxima, que a eternidade o abrace! Se a morte o tomar antes do esperado e pegar você despreparado, será algo terrível; certamente deixará os seus rostos pálidos de medo, seus pensamentos perturbados, seus lombos tremerem, seus joelhos se chocarem um contra o outro. Aquele que faz provisões para si mesmo e para os seus amigos, mas negligencia a alma, é como aquele que prepara as coisas para os seus escravos, mas negligencia a sua esposa. Ó, quão grande é o inferno de horrores e de terrores que assola aqueles que deixaram para se preparar de última hora! Portanto, se você ama a sua alma, e se você quer ser feliz na morte e eternamente bendito após ela, prepare-se para morrer! “Quando eu era jovem”, disse Sêneca, o filósofo, “eu estudei a arte de viver bem; quando a idade veio sobre mim, eu, então, estudei a arte de morrer bem”. Cuide para que você não se baseie em nada que não seja Cristo! Ore para que você tenha um interesse real em Cristo; atente para que você mortifique diariamente o pecado, o mundo, e a sua justiça própria. Certifique-se de que sua consciência seja sempre desperta, gentil e vigilante. Garanta que Cristo seja o seu Senhor e Mestre. Certifique-se de que todas as contas estejam pagas e acertadas entre o Senhor e a sua alma. Zele para que você dê frutos, seja fiel e vigilante: então, o dia da sua morte será como o dia da colheita para o fazendeiro, como o dia da libertação para um prisioneiro, como o dia de coroação de um rei, e como o dia de casamento para uma noiva. O dia da sua morte será o dia de triunfo e de júbilos, dia de liberdade e de consolação, dia de descanso e satisfação! E, então, o Senhor Jesus será como mel na boca, um aroma agradável nas narinas,música aos ouvidos e júbilo no coração. Terceira aplicação A última coisa que quero elencar é esta: se o último dia do Cristão é o melhor dia da sua vida, então, pela regra do contrário, o último dia do homem mal é o pior dos seus dias, pois haverá o julgamento dos pecados cometidos em vida. Um grande homem outrora escreveu no seu leito de morte: “Esperança e fortuna, adeus”. A morte trará fim para todos os benefícios e confortos que agora você desfruta. O descrente pode dizer no dia da sua morte: “Honras, amigos, prazeres, riquezas, créditos, e todas essas coisas — adeus para sempre! Eu nunca mais terei um momento feliz! Eu nunca me casarei novamente! Meu sol está se pondo, meus óculos estão perdidos, minhas esperanças desaparecidas, meu coração se desfaz; todas as ofertas de graça são passado, o Espírito nunca mais lutará comigo, a livre graça nunca mais me tocará, a serpente de bronze não mais será uma opção! A morte será uma entrada para o julgamento, sim, para uma eternidade de miséria! Jacob, o Imperador, e Louis XI da França, ordenaram a todos os seus servos que nunca mencionassem a amarga palavra ‘morte’ quando os visitassem doentes, tão terríveis eram os pensamentos de morte para eles. O que a voz de Deus era para Adão quando ele comeu do fruto proibido; o que a vinda do dilúvio era para os homens profanos do velho mundo; o que eram as águas do Mar Vermelho para Faraó e o seu exército; o que era o fogo do céu para os capitães que foram atrás de Elias; o que era a fornalha em chamas para Sadraque, Mesaque e Abede-Nego — assim será o dia da morte para com as almas profanas e ímpias. Ah, pecadores! Minhas orações sobre vocês é que o Senhor os acorde e os desperte. Que Ele faça nascer uma luz em sua alma para que você veja onde ela está, e o que você é. Então, que Deus lhe conceda alívio do seu pecado através do arrependimento, e um interesse verdadeiro salvífico na figura dEle, a fim de que para si: o viver seja Cristo, e o morrer seja lucro (Filipenses 1:21); para que, na morte e na ressurreição, Cristo seja uma bênção para a sua alma! Rogo que sua morte seja o funeral dos seus pecados, dos seus sofrimentos e também a sua entrada no gozo, alegria e felicidade eterna — que se encontra nas mãos do nosso Deus. Copyright Editorial Palavras Introdutórias Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3