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© 2016 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei n. 9.610, de 19/02/1998. Nenhuma parte deste livro, sem autorização prévia por escrito da editora, poderá ser reproduzida ou transmitida sejam quais forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros. MEDICAL EMERGENCIES IN THE DENTAL OFFICE, SEVENTH EDITION Copyright © 2015 by Mosby, an imprint of Elsevier Inc. Copyright © 2007, 2000, 1993, 1987, 1982, 1978 by Mosby, Inc., an affiliate of Elsevier Inc. This translation of Medical Emergencies in the Dental Office, by Stanley F. Malamed, was undertaken by Elsevier Editora Ltda and is published by arrangement with Elsevier Inc. Esta tradução de Medical Emergencies in the Dental Office, de Stanley F. Malamed, foi produzida por Elsevier Editora Ltda e publicada em conjunto com Elsevier Inc. Capa: Mello e Mayer Design Editoração Eletrônica: WM Design Produção de ePub: SBNigri Artes e Textos Ltda. Elsevier Editora Ltda. Conhecimento sem Fronteiras Rua Sete de Setembro, 111 – 16o andar 20050-006 – Centro – Rio de Janeiro – RJ – Brasil Rua Quintana, 753 – 8o andar 04569-011 – Brooklin – São Paulo – SP – Brasil Serviço de Atendimento ao Cliente 0800-0265340 sac@elsevier.com.br ISBN: 978-85-352-8387-7 ISBN versão eletrônica: 978-85-352-8542-0 ISBN da Edição original: 978-0-323-17122-9 Consulte nosso catálogo completo, os últimos lançamentos e os serviços exclusivos no site www.elsevier.com.br Nota: Como as novas pesquisas e a experiência ampliam o nosso conhecimento, pode haver necessidade de alteração dos métodos de pesquisa, das práticas profissionais ou do tratamento médico. Tanto médicos quanto pesquisadores devem sempre basear- se em sua própria experiência e conhecimento para avaliar e empregar quaisquer informações, métodos, substâncias ou experimentos descritos neste texto. Ao utilizar qualquer informação ou método, devem ser criteriosos com relação a sua própria segurança ou à segurança de outras pessoas, incluindo aquelas sobre as quais tenham responsabilidade profissional. Com relação a qualquer fármaco ou produto farmacêutico especificado, aconselha-se o leitor a cercar-se da mais atual informação fornecida (i) a respeito dos procedimentos descritos, ou (ii) pelo fabricante de cada produto a ser administrado, de modo a certificar-se sobre a dose recomendada ou a fórmula, o método e a duração da administração, e as contraindicações. É responsabilidade do médico, com base em sua experiência pessoal e no conhecimento de seus pacientes, determinar as posologias e o melhor tratamento para cada paciente individualmente, e adotar todas as precauções de segurança apropriadas. Para todos os efeitos legais, nem a Editora, nem autores, nem editores, nem tradutores, nem revisores ou colaboradores assumem qualquer responsabilidade por qualquer efeito danoso e/ou malefício a pessoas ou propriedades envolvendo http://www.elsevier.com.br responsabilidade, negligência etc. de produtos ou advindos de qualquer uso ou emprego de quaisquer métodos, produtos, instruções ou ideias contidos no material aqui publicado. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ M236e 7. ed. Malamed, Stanley F. Emergências médicas em odontologia / Stanley F. Malamed ; tradução Renata Rezende. - 7. ed. - Rio de Janeiro : Elsevier, 2016. il. ; 28 cm. Tradução de: Medical emergencies in the dental office Apêndice Inclui bibliografia e índice ISBN 978-85-352-8387-7 1. Odontologia. 2. Emergências odontológicas. I. Rezende, Renata. II. T ítulo. 16-30635 CDD: 617.6 CDU: 616.314 22/02/2016 23/02/2016 Para minha mãe e meu pai, que tornaram tudo possível, para minha esposa, Beverly, e meus filhos, Heather, Jennifer e Jeremy, e para meus netos, Matthew, Rachel, Gabriella, Ashley, Rebecca, Elijah e Ethan, que fazem tudo valer a pena, eu dedico esta sétima edição. TRADUÇÃO E REVISÃO CIENTÍFICA Dra. Renata Mello Dias Rezende (Tradução, revisão científica e adaptação dos capítulos 1 a 31 e Apêndice; revisão científica do Índice) Cirurgiã-dentista Paramédica pela Chattahoochee Technical College Graduanda de Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Silvia Mariângela Spada (Tradução do Índice) Professora pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP Certificada em Tradução por Curso Extracurricular de Prática de Tradução da USP Agradecemos a colaboração do Dr. Eduardo Claudio de Chaves e Mello Dias. PREFÁCIO À SEXTA EDIÇÃO Estou muito feliz por ter sido convidado a oferecer o prefácio à sexta edição do livro Emergências Médicas em Odontologia. Ao lembrar da publicação original de 1978, qualquer um fica impressionado com o conhecimento e o talento criativo dos “titãs do ensino” – Dr. Frank McCarthy (“Cap”) e Dr. Stanley Malamed. Eles enxergaram a necessidade e desenvolveram formas lógicas básicas de avaliar o estado físico do paciente quando o mesmo se apresenta para tratamento odontológico. A graduação em odontologia muitas vezes se encontra limitada no que diz respeito à preocupação em oferecer o que há de melhor ao paciente, uma vez que luta para ensinar o que se encontra nos manuais de técnicas e procedimentos. Entretanto, nós sabemos que “a boca é realmente uma parte do corpo” e nossa atenção envolve o indivíduo como um todo, por completo, especialmente aqueles comprometidos por patologias sistêmicas de base. Ainda que uma ponte ou implante possa cair ou falhar, eles são reparáveis. Quando um paciente desenvolve um acidente vascular encefálico secundário a uma crise hipertensiva não suspeitada ou quando aspira um pedaço de material de moldagem que acaba por bloquear a respiração, estamos diante de uma tragédia em potencial. Aprender como avaliar o estado físico e emocional de cada paciente nos fornece uma proteção contra desastres. Eu sempre acreditei que o currículo de graduação em odontologia deveria incluir um melhor conhecimento em fisiopatologia para fornecer uma base mais sólida para a prática. A profissão odontológica avançou na prática de registro de pressão arterial quase que rotineiramente, principalmente no atendimento a novos pacientes e na busca de qualificação em suporte básico de vida (BLS) e suporte avançado de vida em cardiologia (ACLS). Além disso, aparelhos de monitoramento são agora obrigatórios na maioria dos estados americanos, para aqueles dentistas que utilizam agentes sedativos e anestésicos. É impressionante ver o quanto esses conhecimentos se modificaram ao longo do tempo; importantes algoritmos, os quais eram vistos como “divinos”, já foram descartados, à medida que mais conhecimento foi sendo adquirido. A sexta edição deste livro retrata essas melhorias. Tais mudanças nos obrigam a manter nossos estudos atualizados, no que diz respeito ao nosso conhecimento e prática. Algumas tragédias são inevitáveis quando lidamos com pacientes, mas, ao tomarmos ciência de como e quando antecipar e tratar as emergências médicas, reduzimos a probabilidade de que uma tragédia aconteça. Os gastos para treinar os profissionais de saúde e o público leigo no reconhecimento e no tratamento das emergências é enorme, mas a realização de uma reanimação com sucesso, salvando a vida de um ente querido, vale todos os gastos.Norman Trieger, DMD, MD* Chairman Emeritus and Professor Department of Dentistry Albert Einstein College of Medicine/Montefiore Medical Center Bronx, New York *Falecido PREFÁCIO À SÉTIMA EDIÇÃO Em dezembro de 1975, comecei a escrever Emergências Médicas em Odontologia. Aquela primeira edição foi publicada em abril de 1978. Conforme escrevi no prefácio para a primeira edição, meu principal objetivo no livro era, assim como ainda é hoje, estimular membros da minha profissão – cirurgiões-dentistas, higienistas, assistentes de consultório odontológico e todos os outros membros da equipe – a melhorar e manter seus conhecimentos na prevenção das emergências médicas e no reconhecimento e tratamento dessas situações de emergência, as quaisinevitavelmente podem ocorrer. Esse objetivo está ainda mais enraizado na minha mente nessa sétima edição do Emergências, escrita em 2014. Aproximadamente 75% das emergências médicas observadas no consultório odontológico podem ser prevenidas através da implementação de um sistema de avaliação do paciente, controle e modificação no plano de tratamento. Mesmo que a maioria das emergências médicas possa ser prevenida, episódios com potencial risco de morte ainda ocorrem. Eu constantemente recebo e-mails e ligações telefônicas a respeito desses incidentes. Já conheci diversos dentistas e outros profissionais do ramo odontológico que enfrentaram reais situações com potencial risco de morte. Quase todos esses casos aconteceram no consultório odontológico. Entretanto, um considerável número ocorreu fora do consultório: em passeios familiares, durante viagens, em restaurantes ou dentro de casa. Existe uma significativa necessidade de aumento de conhecimento pelos profissionais da área da odontologia, no que diz respeito às emergências médicas. Ainda que a maioria dos estados e províncias da América do Norte exija “certificação” em suporte básico de vida* (reanimação cardiopulmonar [RCP]) para que os cirurgiões-dentistas mantenham suas licenças, nem todos os estados e províncias ressaltam tal exigência. O porquê de não ressaltarem essa exigência não é compreendido por mim. Como alguém que se comprometeu, a longo prazo, em ensinar suporte básico de vida (SBV), suporte avançado de vida em pediatria (SAVP), e suporte avançado de vida em cardiologia (SAVC), eu enxergo um imenso valor no treinamento de todos os adultos em procedimentos simples, coletivamente conhecidos como suporte básico de vida. Sociedades odontológicas locais e estaduais, bem como grupos especializados, deveriam continuar a fornecer cursos de SBV ou iniciar o fornecimento dos mesmos, assim que possível. Houve progresso, mas ainda há muito que ser feito. A consciência dentro da nossa profissão tem sido expandida, temos observado realizações louváveis. A American Dental Association inaugurou um programa de controle das vias aéreas, o “Managing Sedation Complications”. Quatorze estados americanos exigiram a presença de um DEA (desfibrilador externo automático) nos consultórios odontológicos. Ainda devido à verdadeira natureza do problema, o que nós na odontologia necessitamos é da manutenção de um alto nível de treinamento em prevenção, reconhecimento e tratamento das emergências médicas. Para tal, precisamos participar de programas de conhecimento estabelecidos por indivíduos da área de saúde, para satisfazer as nossas necessidades nos consultórios odontológicos. Tais programas devem incluir o comparecimento anual em educação continuada em medicina de emergência; acesso a informações atualizadas nesse assunto (pela internet, artigos científicos e livros-texto); programas de “recertificação” anual ou semianual em suporte básico de vida, SAVP ou SAVC; sessões práticas obrigatórias dentro dos consultórios odontológicos sobre procedimentos de emergência para toda a equipe. Tais programas são discutidos mais detalhadamente no Capítulo 3. O objetivo principal no preparo do consultório odontológico frente às emergências médicas deve fazer com que você, leitor, se coloque em uma posição de vítima de uma séria complicação médica no seu consultório odontológico, para que você tenha confiança suficiente de que a sua equipe saberá reagir pronta e eficientemente no reconhecimento e tratamento de tal condição. A medicina de emergência é uma especialidade médica em rápida evolução e, devido a isso, muitas mudanças têm sido realizadas desde a publicação da primeira edição deste livro. O meu objetivo agora, que já era meu objetivo antes, é permitir que o leitor consiga controlar uma situação de emergência de maneira eficaz e sem complicações. Tratamentos e medicamentos alternativos que também têm se mostrado eficazes têm sido defendidos por outros autores. O meu objetivo, assim como o de outros, é simplesmente permitir que você seja capaz de manter a vítima viva até que ela se recupere ou até que a assistência médica de emergência se torne disponível e assuma o atendimento... contanto que sejam melhores do que você no controle da situação de emergência. O material nesta sétima edição foi revisado e atualizado. Em outubro de 2010 a American Heart Association e o International Liaison Committee on Resuscitation (ILCOR) publicaram diretrizes revisadas para SBV, SAVC e SAVP. Mudanças significativas, tanto na filosofia quanto nas técnicas de reanimação, foram recomendadas e, por isso, incluídas nas seções apropriadas dessa sétima edição: Capítulo 5 (Perda de Consciência: Considerações Gerais), Capítulo 11 (Obstrução das Vias Aéreas por Corpo Estranho), Capítulo 26 (Dor Torácica: Considerações Gerais), Capítulo 30 (Parada Cardiorrespiratória) e Capítulo 31 (Considerações Pediátricas). O formato básico deste texto – reconhecimento e tratamento baseados nos sinais e sintomas clínicos em vez de uma abordagem orientada por sistemas – tem sido bem recebido e continua na sétima edição. Foi dada ênfase ao novo algoritmo para o tratamento de todas as emergências médicas: P... posição, C... circulação, A... vias aéreas, B... respiração e D... tratamento definitivo. O tratamento das emergências médicas não é, e não deve ser, complicado. Ao enfatizar esse conceito através deste livro, pretende-se fazer com que tais procedimentos, de alguma maneira, se mostrem mais fáceis, de modo que toda a equipe do consultório odontológico seja capaz de alcançar a importância dos passos básicos para salvar uma vida (P, C, A, B, D). Stanley F. Malamed, DDS Los Angeles, California, Agosto de 2014 *“A American Heart Association não ‘certifica’ competências em qualquer nível de ‘suporte de vida’. Os cartões fornecidos após o término dos cursos SBV, SAVC ou SAVP declaram que “o indivíduo acima completou com sucesso as avaliações práticas e cognitivas de acordo com o currículo dos programas de SBV (ou SAVC ou SAVP) da American Heart Association.” AGRADECIMENTOS Assim como nas edições anteriores desse livro, eu tive a sorte de me associar a um número de pessoas que ajudaram o trabalho de revisão – com toda a seriedade – a ser bastante agradável. Percebo, com as edições anteriores, que é impossível mencionar cada uma das pessoas envolvidas na produção desses livros. Entretanto, devo mencionar diversas pessoas sem as quais esse volume não teria sido concluído: Dra. Amanda Okundaye e Dr. Kenneth Reed, que participaram como modelos fotográficos e toleraram todos os tipos de injustiças e indignidades em nome da ciência e da educação, assim como Sr. Illo Apelby e Matthew Boyd. O Sr. Derek Delahunt, Sr. Ken Rosenblood e Srª. Rose Dodson também auxiliaram nas fotografias e nas informações necessárias para melhorar este volume. O Sr. Derek Delahunt, o Sr. Ken Rosenblood e a Sra. Rose Dodson também ajudaram com as fotografias e com informações necessárias para melhorar esse volume. Um “Obrigado” especial é direcionado ao meu editor da Elsevier, Sr. Brian Loehr, com quem interagi quase que diariamente durante o preparo deste livro. Eu trabalhei com muitos editores ao longo dos anos, nas diversas edições dos meus três livros- texto, e reconheço que o Brian foi o mais agradável dos meus “carrascos”. A leitura das edições anteriores e as sugestões a respeito de novos itens para inclusão em futuras edições têm se mostrado de inestimável valor. Eu verdadeiramente aprecio, e mais ainda, solicito, futuros comentários provenientes de meus leitores. Stanley F. Malamed, DDS SUMÁRIO PARTE 1 - PREVENÇÃO 1 Introdução Morbidade Morte Fatores de Risco Número aumentado de pacientes mais velhos Avanços médicos Consultas longas Consumo aumentado de medicamentos Classificação das Situações de Emergência com Potencial Risco de Morte Divisão das Emergências Médicas Específicas Referências 2 Prevenção Objetivos da Avaliação Avaliação Física Questionário de história médica Exame físico Sinaisvitais Inspeção visual Procedimentos adicionais na avaliação Diálogo com o paciente Reconhecimento do Medo do Tratamento Odontológico e da Ansiedade Exame psicológico Determinação do risco médico Consulta médica Protocolo de diminuição do estresse Referências 3 Preparação Informação Geral Necessidade geográfica para o treinamento emergencial Equipe do consultório Medicamentos e equipamento de emergência Kits de emergência comerciais e caseiros Kits de Medicamentos de Emergência Componentes do kit de emergência Administração de medicamentos injetáveis Módulo 1: Medicamentos de Emergência Críticos (Essenciais) e Equipamentos Medicamentos injetáveis críticos Medicamentos críticos não injetáveis Módulo 2: Medicamentos e Equipamentos de Emergência Secundários (Não Críticos) Medicamentos injetáveis secundários Medicamentos não injetáveis Equipamento de emergência secundário Módulo 3: Suporte Avançado de Vida em Cardiologia (ACLS) Medicamentos essenciais no ACLS Módulo 4: Medicamentos Antídotos Medicamentos antídotos Organização do Kit de Emergência Referências APÊNDICE: Administração Parenteral dos Medicamentos Administração de medicamentos intramusculares (IM) Administração de medicamentos intravenosos (IV) 4 Considerações Legais Crises Modernas sobre o Seguro de Responsabilidade Teorias sobre a Responsabilidade Violação do estatuto Lei do contrato Lei criminal Responsabilidade civil Ônus Infração Causalidade Dano Bom senso Consentimento Estatuto das limitações Situações Emergenciais Padrão de tratamento nas emergências Consentimento durante as emergências Definindo a emergência Resgates emergenciais – o estatuto do bom samaritano Relacionamento profissional-paciente em emergência Previsibilidade Limitando a Responsabilidade para Emergências Prevenção e preparação Decisões ruins Respondeat superior Padrões da comunidade Relações profissionais Coleguismo Aspectos filosóficos do tratamento das emergências Referências PARTE 2 - PERDA DA CONSCIÊNCIA 5 Perda da Consciência: Considerações Gerais Fatores Predisponentes Prevenção Manifestações Clínicas Fisiopatologia Circulação cerebral inadequada Privação de oxigênio Mudanças metabólicas gerais ou locais Ações no sistema nervoso central Mecanismos psíquicos Tratamento Reconhecimento da perda de consciência Tratamento do paciente inconsciente Referências 6 Síncope Vasodepressora Fatores Predisponentes Prevenção Posicionamento Alívio da ansiedade Considerações na terapia odontológica Manifestações Clínicas Pré-síncope Síncope Pós-síncope (recuperação) Fisiopatologia Pré-síncope Síncope Recuperação Tratamento Pré-síncope Síncope Recuperação tardia Pós-síncope ADENDO relato de caso – síncope vasodepressora Referências 7 Hipotensão Postural Fatores Predisponentes Administração e ingestão de medicamentos Decúbito e convalescença prolongados Reflexo postural inadequado Gravidez Idade Defeitos venosos nas pernas Recuperação após simpatectomia para hipertensão Doença de Addison Exaustão física e fome prolongada Hipotensão postural crônica (síndrome de Shy-Drager) Prevenção Exame físico Considerações no tratamento odontológico Manifestações Clínicas Fisiopatologia Mecanismos regulatórios normais Hipotensão postural Tratamento Referências 8 Insuficiência Adrenal Aguda Fatores Predisponentes Prevenção Considerações sobre o Tratamento Odontológico Cobertura glicocorticosteroide Manifestações Clínicas Fisiopatologia Função adrenal normal Insuficiência adrenal Tratamento Paciente consciente Paciente inconsciente Referências 9 Estado de Inconsciência: Diagnóstico Diferencial Idade do Paciente Circunstâncias Associadas à Perda de Consciência Posição do Paciente Sinais e Sintomas da Pré-síncope Nenhum sinal clínico Palidez e pele fria e pegajosa Formigamento e dormência nas extremidades Dor de cabeça Dor no peito Odor na respiração Movimentos do tipo tônico-clônico e incontinência Frequência cardíaca e pressão arterial Duração do estado de inconsciência e recuperação PARTE 3 - DIFICULDADE RESPIRATÓRIA 10 Dificuldade Respiratória: Considerações Gerais Fatores Predisponentes Prevenção Manifestações Clínicas Fisiopatologia Manejo Referências 11 Obstrução das Vias Aéreas por Corpo Estranho Incidência Prevenção Dique de borracha Anteparo com gaze Posição da cadeira Assistente odontológica e sucção Fórceps de intubação de Magill Fórceps de língua Ligadura Manejo Reconhecimento da obstrução das vias aéreas Manobras básicas das vias aéreas Estabelecimento de uma via respiratória de emergência Procedimentos invasivos: traqueostomia e cricotireoidostomia Referências 12 Hiperventilação Fatores Predisponentes Prevenção Questionário sobre o histórico médico Avaliação física Sinais vitais Considerações sobre a terapia odontológica Manifestações Clínicas Sinais e sintomas Efeitos nos sinais vitais Fisiopatologia Tratamento Referências 13 Asma Fatores Predisponentes Asma extrínseca Asma intrínseca Asma mista Status asmaticus Prevenção Diálogo médico (Anamnese) Considerações para o atendimento odontológico Manifestações Clínicas Progressão clínica usual Status asmaticus Fisiopatologia Controle neural das vias aéreas Inflamação das vias aéreas Respostas imunológicas Broncospasmo Edema da parede brônquica e hipersecreção das glândulas mucosas Respiração Tratamento Crise aguda de asma (broncospasmo) Broncospasmo grave Referências 14 Insuficiência Cardíaca e Edema Agudo de Pulmão Fatores Predisponentes Prevenção Diálogo com o paciente (anamnese) Avaliação física Considerações no tratamento odontológico Manifestações Clínicas Insuficiência ventricular esquerda Insuficiência ventricular direita Edema agudo de pulmão Fisiopatologia Função do ventrículo esquerdo normal Insuficiência cardíaca Tratamento Referências 15 Dificuldade Respiratória: Diagnóstico Diferencial História Médica Idade Gênero Circunstâncias Relacionadas Sintomas Clínicos entre Episódios Agudos Posição Sons Anexos Sintomas Associados a Dificuldades Respiratórias Edema Periférico e Cianose Parestesia das Extremidades Uso de Musculatura Respiratória Acessória Dor Torácica Pressão Arterial e Frequência Cardíaca Duração da Dificuldade Respiratória PARTE 4 - ALTERAÇÃO DO NÍVEL DE CONSCIÊNCIA 16 Alteração do Nível de Consciência: Considerações Gerais Fatores Predisponentes Prevenção Manifestações Clínicas Fisiopatologia Tratamento Referências 17 Diabetes Melito: Hiperglicemia e Hipoglicemia Complicações Agudas Complicações Crônicas Fatores Predisponentes Classificação da Diabetes Diabetes melito tipo 1 Diabetes melito tipo 2 Diabetes melito gestacional Tolerância à glicose diminuída/tolerância à glicose diminuída em jejum Hiperglicemia Hipoglicemia Controle da Diabetes Tratamento da diabetes melito tipo 1 Tratamento da diabetes melito tipo 2 Prevenção Diálogo da história médica: Exame físico Considerações sobre o tratamento odontológico Manifestações Clínicas Hiperglicemia Hipoglicemia Fisiopatologia Insulina e glicose sanguínea Hiperglicemia, cetose e acidose Hipoglicemia Tratamento Hiperglicemia Hipoglicemia Referências 18 Disfunção da Glândula Tireoide Fatores Predisponentes Hipotireoidismo Tireotoxicose Prevenção Diálogo da história médica Exame físico Considerações de tratamento odontológico Manifestações Clínicas Hipotireoidismo Tireotoxicose Fisiopatologia Hipotireodismo Tireotoxicose Tratamento Hipotireoidismo Tireotoxicose Referências 19 Acidente Vascular Encefálico Classificação Infarto lacunar Infarto cerebral Ataque isquêmico transitório (AIT) AVE hemorrágico: hemorragia intracerebral e hemorragia subaracnóidea Fatores Predisponentes Diabetes melito Desordens do ritmo cardíaco História familiar e genética Tabagismo Ausência de atividade física Prevenção Diálogo da história Exame físico Sinais vitais Apreensão Considerações de terapia odontológica Manifestações Clínicas Ataques isquêmicos transitórios Infarto cerebral Embolia cerebral Hemorragia cerebral Fisiopatologia Isquemia cerebrovascular e infarto AVE hemorrágico TratamentoAcidente vascular encefálico e ataque isquêmico transitório Paciente consciente com resolução de sinais e sintomas: ataque isquêmico transiente Paciente consciente com sinais e sintomas persistentes: acidente vascular encefálico Referências 20 Alteração do Nível de Consciência: Diagnóstico Diferencial História Médica Idade Gênero Circunstâncias Relacionadas Início dos Sinais e Sintomas Presença de Sintomas entre os Episódios Agudos Perda de Consciência Sinais e Sintomas Aparência da pele (rosto) Ansiedade óbvia Parestesia Dor de cabeça Aparência “embriagada” Mau hálito Sinais Vitais Respiração Pressão arterial Frequência cardíaca Resumo PARTE 5 - CONVULSÕES 21 Convulsões Tipos de Desordens Convulsivas Convulsões parciais Convulsões generalizadas Causas Fatores Predisponentes Prevenção Causas não epiléticas Causas epiléticas Diálogo da história médica Exame físico Implicações psicológicas de epilepsia Considerações no tratamento odontológico Manifestações Clínicas Convulsões parciais Convulsão de ausência (pequeno mal) Convulsão tônico-clônica Condição convulsiva tônico-clônica (grande mal) Fisiopatologia Tratamento Crises de ausência e convulsões parciais Convulsões tônico-clônicas (grande mal) Diagnóstico Diferencial Referências PARTE 6 - EMERGÊNCIAS RELACIONADAS AO USO DE MEDICAMENTOS 22 Emergências Relacionadas ao Uso de Medicamentos: Considerações Gerais Prevenção Cuidados com a administração de medicamentos Classificação Reação de overdose Alergia Idiossincrasia Emergências Relacionadas a Medicamentos Uso de medicamentos na odontologia Referências 23 Reação de Sobredosagem dos Medicamentos Reações de Overdose aos Anestésicos Locais Fatores predisponentes Prevenção Manifestações clínicas Fisiopatologia Conduta Reação de Overdose pela Adrenalina (Vasoconstritor) Fatores precipitantes e prevenção Manifestações clínicas e fisiopatologia Conduta Reações de Overdose aos Depressores do Sistema Nervoso Fatores predisponentes e prevenção Manifestações clínicas Controle Resumo Referências 24 Alergia Fatores Predisponentes Antibióticos Analgésicos Ansiolíticos Anestésicos locais Outros agentes Prevenção Diálogo da história médica Consulta com o médico Testes de alergia no consultório odontológico Modificações no tratamento odontológico Tratamento Alergia alegada em relação aos anestésicos locais Alergia ao anestésico local confirmada Manifestações Clínicas Início Reações cutâneas Reações respiratórias Anafilaxia generalizada Fisiopatologia Antígenos, haptenos e alérgenos Anticorpos (imunoglobulinas) Mecanismo de defesa do organismo Reação alérgica tipo I – anafilaxia Sinais e sintomas respiratórios Sinais e sintomas cardiovasculares Sinais e sintomas gastrintestinais Urticária, rinite e conjuntivite Tratamento Reações cutâneas Reações respiratórias Adrenalina e alergia Reação anafilática generalizada Edema da laringe Referências 25 Emergências Relacionadas com Medicamentos: Diagnóstico Diferencial História Médica Idade Gênero Posição Início dos Sinais e Sintomas Exposição Prévia ao Medicamento Dose do Medicamento Administrado Incidência Global de Ocorrência Sinais e Sintomas Duração da reação Mudanças na aparência da pele Aparência de nervosismo Perda de consciência Presença de convulsões Sintomas respiratórios Sinais Vitais Frequência cardíaca Pressão arterial Resumo Referências PARTE 7 - DOR TORÁCICA 26 Dor Torácica: Considerações Gerais Fatores Predisponentes Fatores de risco para doença aterosclerótica Prevenção Manifestações Clínicas Fisiopatologia Aterosclerose Localização Dor no peito Tratamento Referências 27 Angina Pectoris Fatores Predisponentes Prevenção Diálogo da história médica Exame físico Angina pectoris instável Considerações sobre a Terapia Odontológica Duração da consulta odontológica Oxigênio suplementar Controle da dor durante o tratamento Sedação Considerações adicionais Manifestações Clínicas Sinais e sintomas Exame físico Complicações Prognóstico Fisiopatologia Tratamento Paciente com histórico de angina de peito Nenhum histórico de dor no peito Referências 28 Infarto Agudo do Miocárdio Fatores Predisponentes Localização e extensão do infarto Prevenção Diálogo da história médica Exame físico Considerações da Terapia Odontológica Redução do estresse Oxigênio suplementar Sedação Controle da dor Duração do tratamento Seis meses após o infarto do miocárdio Consulta médica Terapia anticoagulante ou antiplaquetária Manifestações Clínicas Dor Outros sinais e sintomas clínicos Achados físicos Complicações agudas Fisiopatologia Tratamento Tratamento intra-hospitalar imediato Referências 29 Dor Torácica: Diagnóstico Diferencial Dor Torácica de Origem Não Cardíaca Dor Torácica de Origem Cardíaca História médica Idade Gênero Circunstâncias relacionadas Sinais e sintomas clínicos Sinais vitais Resumo Referências PARTE 8 - PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA 30 Parada Cardiorrespiratória Sobrevivência da Parada Cardiorrespiratória Parada cardiorrespiratória testemunhada versus a não testemunhada Ritmo inicial RCP feita por leigos Tempo de resposta Cadeia da Sobrevivência Primeiro elo: acesso precoce Segundo elo: SBV precoce (RCP) Terceiro elo: desfibrilação precoce Quarto elo: SAVC precoce Quinto elo: cuidados integrados pós-RCP O Consultório Odontológico Parada Cardiorrespiratória Parada pulmonar (respiratória) Parada cardíaca Suporte Básico de Vida (RCP) Abordagem da equipe Suporte básico de vida Parada cardiorrespiratória no consultório odontológico Sequência de RCP – vítima adulta Especificidades sobre a RCP – ativando o serviço médico de emergências Especificidades da RCP – circulação Especificações da RCP – desfibrilação Iniciando e interrompendo o SBV Transporte da vítima Referências 31 Considerações Pediátricas Preparo Suporte básico de vida Equipe de emergência do consultório odontológico Acesso ao serviço médico de emergência Medicamentos e equipamentos de emergência Tratamento Básico Posição Circulação Vias aéreas e respiração Cuidado definitivo Emergências Específicas Broncospasmo (ataque agudo de asma) Convulsão tônico-clônica generalizada (Crise Grande Mal) Sobredosagem de sedação Sobredosagem do anestésico local Parada respiratória Parada cardiorrespiratória Referências Apêndice Índice PREVENÇÃO PARTE 1 1 Introdução 2 Prevenção 3 Preparação 4 Considerações Legais CAPÍTULO 1 Introdução As emergências médicas potencialmente fatais, capazes de pôr a vida do paciente em risco, podem ocorrer – e de fato ocorrem – na prática odontológica. Tais emergências podem acontecer com qualquer um – paciente, cirurgião-dentista, membro da equipe do consultório odontológico, ou com a pessoa que simplesmente está acompanhando o paciente. Ainda que a ocorrência destas emergências potencialmente fatais nos consultórios odontológicos não seja frequente, muitos fatores podem aumentar a probabilidade de que tais incidentes ocorram. Estes fatores incluem: (1) o número cada vez maior de pessoas idosas buscando tratamento odontológico, (2) os avanços terapêuticos nas profissões médica e farmacológica, (3) a tendência maior para consultas odontológicas mais longas e demoradas e (4) o uso e administração cada vez maior de medicamentos na odontologia. Felizmente, existem outros fatores que minimizam o desenvolvimento dessas situações de emergência potencialmente fatais no consultório odontológico. Estes fatores incluem uma avaliação física de cada paciente antes do tratamento, que consiste em um questionário com a história médica, no diálogo com o paciente sobre seu histórico médico e exame físico, além de possíveis modificações no tratamento odontológico para minimizar os riscos médicos. Morbidade Apesar dos protocolos mais meticulosos, que são estabelecidos para impedir o desenvolvimento de situações que põem em risco a saúde e vida do paciente, as emergências médicas ainda podem ocorrer. Considere, por exemplo, artigos de jornais descrevendo mortes repentinas e inesperadas de atletas jovens e bem condicionados.1,2 Tais emergências podem acontecer em qualquer ambiente. A ocorrência de tragédias desta magnitude dentro do consultório odontológico não é um evento surpreendente, dado o estresse que muitos pacientes associam ao tratamento odontológico. Numa pesquisa sobre emergências médicas ocorrendo dentro de consultórios odontológicos na Escócia, foram relatadas quatro mortes com pessoas que sofreram parada cardiorrespiratória, listadas como acompanhantes, isto é, indivíduos não agendados para o tratamento odontológico no consultório, no dia em que morreram.3 Este texto estuda as situações emergenciais que se desenvolvem na prática odontológica. Entretanto, os cirurgiões-dentistas primeiro devem entender que nenhuma emergência médica é exclusiva da odontologia. Por exemplo, até mesmo uma overdose de anestésico local pode ser encontrada fora do ambiente odontológico, tal qual uma overdose de cocaína. TABELA 1-1 Emergências na clínica odontológica particular Situação de emergência Número relatado Síncope 15.407 Reação alérgica leve 2.583 Angina pectoris 2.552 Hipotensão postural 2.475 Convulsões 1.595 Ataque asmático (hipoglicemia) 1.392 Hiperventilação 1.326 “Reação à adrenalina” 913 Choque insulínico (hipoglicemia) 890 Parada cardiorrespiratória 331 Reação anafilática 304 Infarto do miocárdio 289 Overdose de anestésico local 204 Edema pulmonar agudo (insuficiência cardíaca) 141 Coma diabético 109 Acidente vascular encefálico 68 Insuficiência adrenal 25 Crise tireotóxica 4 TOTAL 30.608 n = 4.309 cirurgiões-dentistas entrevistados. Dados combinados de Fast TB, Martin MD, Ellis TM: Emergency preparedness: a survey of dental practitioners. J Am Dent Assoc 112:499-501, 1986; e Malamed SF: Managing medical emergencies. J Am Dent Assoc 124:40-53, 1993. TABELA 1-2 Emergências na University of Southern California School of Dentistry (1973-junho 2012) Situação de emergência Número relatado TIPO Síncope 65 Hiperventilação 54 Convulsão 53 Hipotensão postural 30 Hipoglicemia 29 Reação alérgica leve 18 Angina pectoris 18 Ataque agudo de asma 13 Infarto agudo do miocárdio 1 Parada cardiorrespiratória 1 VÍTIMA Paciente (durante o tratamento) 185 Paciente (antes ou depois do tratamento) 56 Equipe odontológica 27 Outras pessoas (expectadores, acompanhantes, pais, cônjuges) 14 A Tabela 1-1 apresenta os achados combinados de dois levantamentos desenvolvidos nos Estados Unidos, um feito por Fast, Martin e Ellis4 em 1985, e o outro por Malamed5 em 1992. Um total de 4.309 entrevistados de todos os 50 estados dos Estados Unidos e 7 províncias canadenses relataram 30.608 emergências durante o período de 10 anos. Dos 4.309 entrevistados, 96,6% responderam positivamente à seguinte questão: “Nos últimos 10 anos, houve alguma emergência médica ocorrida no seu consultório odontológico?” (Os cirurgiões-dentistas utilizaram suas próprias definições para situações de emergência). Cerca de 50% de todas estas emergências (15.407) foram listadas como síncope (p. ex., desmaio), uma ocorrência geralmente benigna. (Cuidado com a palavra benigna em qualquer descrição de emergência. Quando tratada inadequadamente, qualquer emergência – mesmo um simples desmaio – pode se tornar uma catástrofe. O leitor deve se referir ao adendo no Capítulo 6 para ter um exemplo dessa situação). Por outro lado, uma proporção considerável (25,35%) das emergências relatadas foi cardiovascular (3.381), relacionada ao sistema nervoso central (1.663) e respiratório (2.718), todas sendo potencialmente fatais e ameaçadoras da vida. TABELA 1-3 Emergências médicas ocorridas em uma faculdade de odontologia nos Estados Unidos (2000-2008) Tipo de emergência (suspeitada ou confirmada) Número de eventos relacionados com pacientes odontológicos Número de eventos relacionados com não pacientes Situação cardiovascular 15 6 Síncope 12 3 Complicação anestésica 9 0 Complicação diabética / hipoglicêmica 9 0 Objeto aspirado / deglutido 4 0 Reação alérgica 3 1 Ansiedade 3 Tonteira / perda de consciência, sem etiologia óbvia 3 2 Situação relacionada a medicamentos 2 1 Queda 2 1 Convulsão 2 0 Enfisema subcutâneo 2 0 Abuso de substância 1 1 Complicação de doença conhecida entre empregados n/a 2 TOTAL 67 17 Dados obtidos por Anders PL, Neiders ME: The nature and frequency of medical emergencies among patients in a dental school setting,. J Dent Educ 74:392-396,2010. TABELA 1-4 Incidência de emergências médicas durante todo o tempo de profissão de cirurgiões-dentistas australianos* Emergência Número de eventos Reação adversa à anestesia local (AL) 1.753† Convulsão tônico-clônica 381 Angina 252 Choque insulínico 88 Asma grave 160 Todas as ressuscitações 35 Reanimação cardiopulmonar 20 Ventilação artificial‡ 15 Infarto do miocárdio 19 Acidente vascular encefálico 12 *Um período de 40 anos foi utilizado para representar o tempo de carreira profissional nestes cálculos. †Quadro extrapolado com base numa subamostra de 661 respostas (82% do total). ‡Incluindo a respiração com ar expirado (RAE) e o uso de reanimação. De Chapman PJ: Medical emergencies in dental practice and choice of emergency drugs and equipment: a survey of Australian dentists. Austral Dent J 42;103-108, 1997. A Tabela 1-2 sumariza as situações de emergências médicas ocorridas na University of Southern California School of DentistryUniversity of Southern California School of Dentistry (USC), de 1973 até meados de 2012. Embora a maioria das situações de emergência tenha ocorrido enquanto o paciente se encontrava sob tratamento, outras se desenvolvem enquanto o paciente não se encontrava na cadeira odontológica. Alguns pacientes experimentaram episódios de hipotensão ortostática (postural) no banheiro, diversos sofreram convulsões epilépticas na sala de espera e um deles sofreu uma convulsão logo na entrada da clínica odontológica. Um adulto acompanhante de um paciente desenvolveu uma reação alérgica cutânea após ingerir ácido acetilsalicílico para tratar sua dor de cabeça.6 Em outras duas circunstâncias, um estudante de graduação, vendo fotos de lesões bucomaxilofaciais agudas numa sala de conferências, e um cirurgião-dentista, tratando um paciente, sofreram episódios de síncope vasodepressora. Tais exemplos ressaltam a necessidade dos profissionais da odontologia em estarem preparados para a ocorrência de emergências médicas. A Tabela 1-3 resume as emergências médicas que ocorreram em outra faculdade de odontologia nos Estados Unidos, durante um período de 8,5 anos. Destes casos, 20% (17 de 84) das situações ocorreram com pessoas que no momento não se encontravam como pacientes (p. ex., membros da universidade, estudantes, acompanhantes de pacientes).7 As Tabelas 1-4 a 1-9 apresentam os resultados de levantamentos similares feitos na Austrália,8 Nova Zelândia,9 Reino Unido,3, 10 Fiji11 e Brasil,12 os quais buscaram determinar a incidência de emergências médicas na prática odontológica. Embora qualquer emergência médica possa se desenvolver no consultório odontológico, algumas são mais frequentes que outras. Muitas destas situações estão relacionadas com o estresse (p. ex., dor, medo e ansiedade) ou envolvem condições preexistentes que se tornam exacerbadas quando os pacientes são colocados em ambientes estressantes. Situações induzidas pelo estresse incluem a síncope vasodepressora e a hiperventilação, enquanto condições médicas preexistentes que podem ser exacerbadas pelo estresse incluem a maioria das emergências cardiovasculares agudas, broncoespasmo (asma) e convulsões. O tratamento efetivo da dor e da ansiedade no consultório odontológico é essencial na prevenção e minimização dessas situações potencialmente catastróficas. TABELA 1-5 Incidência de emergências médicas durante o tempo de profissão – cirurgiões-dentistas da Nova Zelândia* Evento de emergência Número de dentistas relatando o episódio, período de 10 anos (%) Número médio de eventos por dentista (variação) Desmaios – 2,8 (1–15) Hiperventilação – 2,9 (1–30) Angina 29 (14,6) 1,7(1–5) Depressão circulatória 22 (11,1) 1,9 (1–10) Infarto do miocárdio 5 (2,5) 1 Acidente cardiovascular 5 (2,5) 1 Depressão respiratória 34 (17,2) 6,1 (1–40) Obstrução respiratória 3 (1,5) 1,3 (1–2) Asma grave 15 (7,6) 2,1 (1–8) Epilepsia (Grande Mal) 45 (22,7) 1,5 (1–3) Status epilético 7 (3,5) 1,1 (1–2) Reação alérgica ao medicamento 60 (30,3) 2,7 (1–10) Anafilaxia 7 (3,5) 1,1 (1–2) Hipoglicemia 41 (20,7) 3,1 (1–30) Corpo estranho engolido ou inalado 41 (20,7) 1,7 (1–5) Overdose anestésica 10 (5,1) 1,4 (1–2) Interação medicamentosa 11 (5,6) 2 (1–6) Outras emergências 18 (9,1) 2,4 (1–10) *199 entrevistados no levantamento. De Broadbent JM, Thompson WM: The readiness of New Zealand general dental practitioners for medical emergencies. N Z Dent J 97;82-86, 2001. TABELA 1-6 Número de eventos emergenciais não associados com anestesia geral (AG) e sua frequência* Inglaterra e País de Gales (N = 701) Escócia (N = 328) Evento Número Número Convulsões 417 282 Objeto deglutido 230 139 Eventos asmáticos 198 88 Eventos diabéticos 155 72 Angina pectoris 148 89 Reações medicamentosas 135 45 Outros eventos 37 12 Parada cardiorrespiratória 20 17 Infarto do miocárdio 17 8 Acidente vascular encefálico 14 4 Objeto inalado 9 4 *Expresso em 40 anos de prática, relatado pelos entrevistados na Inglaterra e País de Gales e na Escócia quando começaram a carreira no Serviço de Clínica Geral. De Atherton GJ, MCcaul JA, Williams SA: Medical emergencies in general dental practice in Great Britain. Part 1: their prevalence over a 10-year period. Br Dent J 186:72-79, 1999. TABELA 1-7 Emergências médicas ocorrendo entre cirurgiões-dentistas na Inglaterra, em um período de 12 meses Situação de emergência Porcentagem de cirurgiões-dentistas relatando a emergência Número de casos relatados Síncope vasovagal 63 596 Angina pectoris 12 53 Hipoglicemia 10 54 Convulsão, epilepsia 10 42 Obstrução de vias aéreas por corpo estranho 5 27 Asma 5 20 Parada cardiorrespiratória 0,3 1 Dados obtidos de Jevon P: Updated guidance on medical emergencies and resuscitation in the dental practice, Br Dent J 212:41– 43, 2012. TABELA 1-8 Emergências médicas ocorrendo entre cirurgiões-dentistas em Fiji, em 2004 Situação de emergência Porcentagem do total Desmaio 27,9 Hipotensão ortostática 23,5 Hipoglicemia 19,5 Convulsão 11,1 Asma 8 Dados obtidos de Morse Z, Murthi VK: Medical emergencies in dental practice in the Fiji Islands, Pacific Health Dialog 11:55–58, 2004. Reações adversas relacionadas ao uso de medicamentos constituem outra categoria de situações de emergências com potenciais riscos, que ocorrem com mais frequência do que pensam os cirurgiões-dentistas. As mais frequentes estão associadas aos anestésicos locais, que são o tipo de que são o tipo de fármaco mais importante e utilizado na prática odontológica. Reações psicogênicas, overdose medicamentosa e reações alérgicas são apenas alguns dos problemas associados com a administração dos anestésicos locais. A maioria das emergências “relacionadas com os medicamentos” está na verdade relacionada ao estresse (psicogênica); entretanto, outras reações (sobredosagem, reação alérgica) representam respostas aos medicamentos em si. A maior parte das reações adversas ao uso de medicamentos pode ser prevenida. Desta forma, o profundo conhecimento farmacológico a respeito da substância e da sua administração adequada é crítico na prevenção das complicações relacionadas ao uso de medicamentos. TABELA 1-9 Emergências médicas ocorrendo entre cirurgiões-dentistas no Brasil, em 2004 Situação de emergência Porcentagem de cirurgiões-dentistas relatando a emergência Número de casos relatados Lipotimia 54,20 785 Hipotensão ortostática 44,37 891 Reação alérgica moderada 16,86 183 Crise hipertensiva 15,06 255 Asma 15,06 65 Síncope 12,65 85 Angina pectoris 6,82 73 Convulsão, epilepsia 6,22 24 Hipoglicemia 5,62 52 Crise de hiperventilação 5,22 215 Obstrução de vias aéreas por corpo estranho 2,2 34 Acidente cerebrovascular 0,8 5 Anafilaxia 0,4 2 Infarto do miocárdio 0,2 1 Parada cardiorrespiratória 0,2 1 Colapso inespecífico 1,6 9 Dados obtidos de Arsati F, Montalli VA, Florio FM, et al.: Brazilian dentists’ attitudes about medical emergencies during dental treatment, J Dent Educ 74:661–666, 2010. TABELA 1-10 Tratamento realizado no momento da complicação Tratamento Porcentagem do total Na sala de espera 1,5 Durante ou logo depois da anestesia local 54,9 Durante o tratamento 2 Após o tratamento (no consultório) 15,2 Após a saída do consultório 5,5 Dados de Matsuura H: Analysis of systemic complications and deaths during treatment in Japan. Anesth Prog 36:219-228, 1990. Matsuura13 avaliou situações de emergências médicas em consultórios odontológicos no Japão (Tabelas 1-10 e 1-11). Apenas 1,5% das situações emergenciais ocorreram na sala de espera. A maior porcentagem das situações de emergência, 54,9%, ocorreu durante a administração do anestésico local, o qual de acordo com os pacientes e com os cirurgiões-dentistas é o procedimento mais estressante realizado no consultório odontológico. Cerca de 22% destas emergências se desenvolveram durante o tratamento odontológico, enquanto 15% ocorreram no consultório odontológico após o término do atendimento. A maior parte dessas emergências foi representada pela hipotensão ortostática (postural) ou síncope vasodepressora. TABELA 1-11 Tratamento realizado no momento da complicação Tratamento Porcentagem do total Extração dentária 38,9 Extirpação pulpar 26,9 Desconhecido 12,3 Outro tratamento 9 Preparo 7,3 Restauração 2,3 Incisão 1,7 Apicectomia 0,7 Remoção das restaurações 0,7 Plastia alveolar 0,3 Dados de Matsuura H: Analysis of systemic complications and deaths during treatment in Japan. Anesth Prog 36:219-228, 1990. Uma pesquisa com 1.029 cirurgiões-dentistas na Inglaterra, no País de Gales e na Escócia demonstrou que a maioria das emergências (36,7%) ocorreu durante o tratamento odontológico; 23,1% ocorreram antes do início do tratamento; 20,1%, após a administração do anestésico local; e 16,4%, após a finalização do procedimento odontológico.3 Aproximadamente 3% dos eventos na Inglaterra e no País de Gales e 2,2% destes ocorridos na Escócia afetaram pessoas que não estavam em tratamento odontológico. Este grupo era composto por acompanhantes de pacientes, pessoas que passavam pelo consultório e cinco membros da equipe odontológica, incluindo um dentista e um técnico.3 A natureza do tratamento odontológico administrado no momento da emergência vem sendo esclarecedora. No artigo de Matsuura, mais de 65% dos casos foram observados durante dois tipos de tratamento odontológico – extração dentária (38,9%) e extirpação pulpar (26,9%).13 No artigo britânico, 52,2% dos eventos ocorreram durante tratamentos odontológicos conservadores e 23,5% ocorreram durante cirurgia dentoalveolar.3 Todos os tipos de tratamentos foram relacionados com essas condições médicas, incluindo 1,1% das emergências ocorrendo durante o tratamento ortodôntico.3 Embora informações sobre as causas específicas dos problemas nem sempre estejam disponíveis, estas emergências ocorreram muito provavelmente no momento em que o paciente experimentou dor repentina e inesperada. Em um dos casos no qual a causa é conhecida, um anestésico local foi administrado a um paciente relatando sensibilidade dolorosa dentária (molar inferior) e o controle da dor foi obtido (lábios e língua com parestesia). Após o tratamento começar, o paciente experimentou um espasmo de dor intensa e inesperada, à medida que a broca se aproximava da câmara pulpar. Numa situação similar, acreditou-se que o controle da dor fora obtido, mas o paciente sentiu dor intensa no momento do começo da extração dentária. Em ambos os casos, a dor repentina e inesperada desencadeou a liberação de catecolaminas endógenas, tais como adrenalina e noradrenalina, as quais levaram ao desencadeamento de uma emergência. Assim, a importância do controle da dor na clínicapara um tratamento odontológico seguro não pode ser descartada. Morte A maioria das situações de emergência que ocorrem no consultório odontológico é definida como sendo capaz de gerar um potencial risco de morte. Ainda assim, somente em raras ocasiões o paciente realmente morre no consultório odontológico (Fig. 1-1). Numa pesquisa feita pela American Dental Association, em 1962, contando com quase 4.000 cirurgiões-dentistas, 45 mortes nos consultórios odontológicos foram relatadas.14 Adicionalmente, 7 dessas mortes ocorreram na sala de espera, antes mesmo que os pacientes pudessem ser tratados. Numa pesquisa com os cirurgiões-dentistas do Texas, Bell15 relatou 8 mortes nos consultórios odontológicos, com 6 delas ocorrendo em consultórios de clínicos gerais e 2 em consultórios de cirurgiões orais; 1 morte ocorreu na sala de espera antes do início do tratamento. Apenas 2 mortes foram associadas com a administração de anestesia geral. Em 1985, Adelman16 documentou 3 mortes resultantes de aspiração de dispositivos odontológicos. Em 1989, Lytle17 relatou 8 mortes associadas à administração de anestesia geral durante um período de 20 anos (1 morte a cada 673.000 procedimentos utilizando anestesia geral) e Robinson18 relatou 8 mortes relacionadas ao uso de anestésicos. Na verdade, qualquer uma das emergências mencionadas na seção anterior poderia potencialmente dobrar ou triplicar estes números. A falha em reconhecer e tratar adequadamente os sinais e sintomas clínicos associados com a situação de emergência pode transformar uma situação relativamente inócua em uma tragédia no consultório. FIGURA 1-1 Tanto o cirurgião-dentista quanto o paciente sofreram ataques cardíacos. TABELA 1-12 Circunstâncias das mortes ocorridas no levantamento Evento (número) Local Estágio do tratamento Procedimento INGLATERRA E PAÍS DE GALES Parada cardiorrespiratória (1) Sala de espera Antes Próteses totais Parada cardiorrespiratória (1) Cirurgia Durante Próteses totais Parada cardiorrespiratória (1) Sala de espera Antes Raspagem Parada cardiorrespiratoria (1) Sala de espera Antes Não declarado Acidente vascular encefálico (1) Sala de espera Antes Nenhum Acidente vascular encefálico (1) Cirurgia Durante Raspagem Infarto do miocárdio (2) Sala de espera Antes Não declarado Infarto do miocárdio (1) Pós- operatório Antes Nenhum ESCÓCIA Parada cardiorrespiratória (1) Sala de espera Antes Moldagem Parada cardiorrespiratória (1) Sala de espera Antes Nenhum Parada cardiorrespiratória (1) Sala de espera Antes Não declarado Parada cardiorrespiratória (3) Sala de espera Depois Não declarado Infarto do miocárdio (1) Acompanhante De Atherton GJ, McCaul JA, Williams AS: Medical emergencies in general dental practice in Great Britain. Part 1: their prevalence over a 10-year period. Br Dent J 186:72-79, 1999. Chapman, em 1997, ao pesquisar sobre o preparo em emergências e as experiências de 811 cirurgiões-dentistas australianos, observou que 20 emergências com reanimações cardiopulmonares (RCPs) foram relatadas e 75% desses pacientes sobreviveram.8 Cinco pacientes morreram. Ele relatou 4 casos de anafilaxia, 3 dos quais desenvolveram parada cardiorrespiratória, com todos os pacientes sobrevivendo. Em um artigo britânico produzido em 1999, 10 mortes foram relatadas na Inglaterra e País de Gales e 10 foram relatadas na Escócia.3 A Tabela 1-12 resume estes estudos. Catorze dessas situações de emergências foram listadas como parada cardiorrespiratória, 4 como infarto do miocárdio e 2 como acidente vascular encefálico.3 Quatro dessas mortes listadas na Escócia ocorreram com pessoas que passavam pelo consultório e não com pacientes. Considerando esse fato, essas fatalidades foram resultado de 0,7% das emergências ocorridas na Inglaterra, no País de Gales e na Escócia.3 Em outro levantamento feito na Nova Zelândia com 199 cirurgiões-dentistas, 2 mortes por parada cardiorrespiratória após um infarto agudo do miocárdio foram relatadas num período de 10 anos de estudo.9 Uma parada cardiorrespiratória primária foi relatada em um paciente submetido à anestesia geral. O paciente foi reanimado com sucesso.9 Um caso de parada cardiorrespiratória foi relatado no estudo feito na Inglaterra em 2012, com 300 cirugiões-dentistas,10 bem como 1 morte foi relatada em um estudo com 498 cirurgiões-dentistas brasileiros.12 A adequada avaliação física antes do tratamento odontológico, associada ao uso apropriado das muitas técnicas para o controle da dor e da ansiedade, podem prevenir muitas dessas emergências e mortes. O autor desse livro acredita seguramente que todos os participantes dentro da área odontológica devem objetivar a prevenção vigorosamente. O Capítulo 2 deste livro é dedicado a este objetivo, bem como outros excelentes livros-texto encontrados atualmente no mercado.19 Infelizmente, mesmo as precauções e os preparos mais rígidos nem sempre podem impedir que a morte aconteça. Todo ano nos Estados Unidos, 10% de todas as mortes não acidentais ocorrem repentina e inesperadamente em pessoas relativamente jovens que acreditavam serem portadoras de boas condições de saúde – ressaltando o termo “parada cardiorrespiratória repentina a inesperada”. A causa da morte mais comum é uma arritmia cardíaca fatal, geralmente a fibrilação ventricular. Medidas preventivas não podem eliminar completamente a possibilidade deste acontecimento e exatamente por isso nós, cirurgiões-dentistas, devemos estar preparados. Resultados bem sucedidos em relação à reanimação do paciente são possíveis quando a “equipe odontológica” age rapidamente para reconhecer e tratar a situação de emergência. A taxa de sobrevivência nos casos de “emergências com reanimação cardiopulmonar” na Austrália foi de 75%; adicionalmente, outros 3 pacientes com parada cardiorrespiratória secundária ao choque anafilático sobreviveram.8 TABELA 1-13 Expectativa de vida ao nascer, em anos, nos Estados Unidos Todas as etnias* Brancos Negros† Ano Homem Mulher Homem Mulher Homem Mulher 2009 76 80,9 76,4 81,2 71,1 77,6 2005 74,9 79,9 75,4 80,4 69,3 76,1 2000 74,1 79,3 74,7 79,9 68,2 75,1 1990 71,8 78,8 72,7 79,4 64,5 73,6 1980 70,9 77,4 70,7 78,1 63,8 72,5 1970 67,1 74,7 68,0 76,6 60 68,3 1960 66,6 73,1 67,4 74,1 61,1† 66,3† 1950 65,6 71,1 66,5 72,2 59,1† 62,9† 1940 60,8 65,2 62,1 66,6 51,5† 54,9† 1930 58,1 61,6 59,7 63,5 47,3† 49,2† 1920 53,6 54,6 54,4 55,6 45,5† 45,2† 1910 48,4 51,8 48,6 52 33,8† 37,5† 1900 46,3 48,3 46,6 48,7 32,5† 33,5† *As estatísticas a respeito da população hispânica estão incluídas em “Todas as etnias”, mas não estão disponíveis em relação às idades específicas como estão em “Brancos” e “Negros” †Anteriormente a 1970, as estatísticas sobre a população negra não estavam disponíveis. Dados obtidos a partir do U.S. Department od Health & Human Services Centers for Disease Control ans Prevention: National vital statistics reports 62, No. 7, Hyattsville, MD, January 6, 2014. FIGURA 1-2 O segmento que cresce mais rápido na população dos Estados Unidos é o de 65 anos ou mais em função do grande número de bebês nascidos após a Segunda Guerra Mundial. Entretanto, nem todas as mortes ocorrem dentro dos consultórios odontológicos. O estresse associado ao tratamento dentário pode desencadear eventos que resultam em óbito mesmo dias depois de o tratamento odontológico ter sido efetuado. Em um levantamento feito pela Southern California Society of Oral and Maxillofacial Surgeons, 10 incidentes desta natureza foram relatados.17 De especial interesse, foram 3 mortes secundárias ao infarto agudo do miocárdio e 1 morte secundária ao acidente vascular encefálico. Outra morte estava relacionada à reação alérgica ao hidrocloreto de propoxifeno, o qual o cirurgião-dentista havia prescrito para o alívio da dor pós-operatória do paciente. No estudo de Matsuura feito no Japão, 5,5% de todas as emergências médicas ocorreram “depois de o paciente ter deixado o consultório odontológico”.13 Fatores de Risco Número aumentado de pacientes mais velhos A expectativade vida das pessoas nascidas nos Estados Unidos tem aumentado progressivamente. Em 1900, a expectativa de vida para um caucasiano era de 46,6 anos; para uma caucasiana, de 48,7 anos. Em 2009, estes números foram 76,4 para caucasianos, 81,2 para caucasianas, 71,1 para negros e 77,6 para negras (Tabela 1-13).20 Os bebês que nasceram após a Segunda Guerra Mundial se tornaram o segmento de idosos (65 anos ou mais) que cresceu mais rapidamente na população norte-americana (Fig. 1-2), e esta população mais idosa está buscando tratamento odontológico. Em 2010 (ano mais recente para qual dados estatísticos se encontram disponíveis), 40,4 milhões de norte-americanos se encontravam com a idade de 65 anos ou mais, representando 13,1% da população total dos Estados Unidos, ou ainda 1 em cada 8 estadunidenses.21 O número de americanos mais velhos aumentou em 5,4 milhões de pessoas, ou 15,3% desde 2000, quando comparado com um aumento de 8,7% de pessoas abaixo de 65 anos de idade. Entretanto, a quantidade de norte- americanos com idades entre 45 e 64 anos – os quais alcançarão a idade de 65 anos dentro das próximas duas décadas – aumentou em 31% durante este mesmo período.21 Em 2010, o grupo de pessoas que se enquadrava entre 65 a 74 anos de idade (20,8 milhões) era 10 vezes maior do que em 1990. Em contraste, o grupo de pessoas com idades entre 75 a 84 anos (13,1 milhões) era 17 vezes maior, enquanto o grupo de cidadãos com mais de 85 anos (5,5 milhões) era 45 vezes maior.21 TABELA 1-14 Dez principais causas de morte por grupos de idade nos Estados Unidos, em 2010 Grupos de idade Posição <1 1–4 5–9 10–14 15–24 25–34 35–44 45–54 1 Anomalias congênitas Injúria não intencional Injúria não intencional Injúria não intencional Injúria não intencional Injúria não intencional Injúria não intencional Neoplasias malignas 5107 1394 758 885 12.341 14.573 14.792 50.211 2 Gestação pré- termo 4148 Anomalias congênitas 507 Neoplasias malignas 439 Neoplasias malignas 477 Homicídio 4.678 Suicídio 5.735 Neoplasias malignas 11.809 Doença cardíaca 36.729 3 Síndrome da morte súbita do lactente 2.063 Homicídios 385 Anomalias congênitas 163 Suicídio 267 Suicídio 4.600 Homicídio 4.258 Doença cardíaca 10.594 Injúria intencional 19.667 4 Complicações maternas na gravidez 1.561 Neoplasias malignas 346 Homicídios 111 Homicídios 150 Neoplasias malignas 1.604 Neoplasias malignas 3.619 Suicídio 6.571 Suicídio 8.799 5 Injúria não intencional 1.110 Doenças cardíacas 159 Doenças cardíacas 68 Anomalia congênita 135 Doenças cardíacas 1.028 Doenças cardíacas 3.222 Homicídio 2.473 Doença hepática 8.651 6 Anormalidades de placenta, cordão umbilical e membranas 1.030 Influenza e pneumonia 91 Doença respiratória baixa crônica 60 Doenças cardíacas 117 Anomalia congênita 412 HIV 741 Doença hepática 2.423 Doença cerebrovascular 5.910 7 Sepse bacteriana 583 Septicemia 62 Doença cerebrovascular 47 Doença respiratória baixa crônica 73 Doença cerebrovascular 190 Diabetes melito 606 Doença cerebrovascular 1.904 Diabetes melito 5.610 8 Dificuldade respiratória 514 Neoplasias benignas 59 Neoplasia benigna 37 Neoplasia benigna 45 Influenza e pneumonia 181 Doença cerebrovascular 517 HIV 1.898 Doença respiratória baixa crônica 4.452 9 Doenças do sistema circulatório 507 Período perinatal 52 Influenza e pneumonia 37 Doença cerebrovascular 43 Diabetes melito 165 Doença hepática 487 Diabetes melito 1.789 HIV 3.123 10 Enterocolite necrotizante 472 Doença respiratória baixa crônica 51 Septicemia 32 Septicemia 35 Complicações da gravidez 163 Anomalias congênitas 397 Influenza e pneumonia 773 Hepatite viral 2.376 Dados obtidos em National Vital Statistics System, National Center for Health Statistics, CDC. Embora muitos pacientes mais idosos aparentem se encontrar em bom estado de saúde, o cirurgião-dentista deve sempre procurar por doenças subclínicas significativas. Todos os sistemas principais do corpo (cardiovascular, hepático, renal, pulmonar, endócrino e nervoso central) devem ser avaliados em pacientes idosos, sendo o sistema cardiovascular o que merece especial atenção. A função e a eficiência cardiovasculares diminuem como parte do processo normal de envelhecimento. Em alguns casos, uma eficiência diminuída se manifesta em si como insuficiência cardíaca ou angina pectoris, mas os sinais aparentes nem sempre estão presentes. Quando submetido ao estresse (dor, medo, ansiedade, umidade elevada, extremos de frio ou calor), o sistema cardiovascular de uma pessoa idosa pode não ser capaz de atender às demandas corporais para aumento de oxigênio e nutrientes, déficit este que pode causar uma descompensação que pode gerar complicações cardiovasculares agudas tais quais arritmias potencialmente fatais e dor do tipo angina. QUADRO 1-1 Modificações nos pacientes geriátricos SISTEMA NERVOSO CENTRAL Número reduzido de células cerebrais Arteriosclerose cerebral Acidente vascular encefálico Memória diminuída Modificações emocionais Parkinsonismo SISTEMA CARDIOVASCULAR Doença da artéria coronária Angina pectoris Infarto do miocárdio Arritmias cardíacas Contratilidade diminuída Pressão sanguínea elevada Doença renovascular Doença cerebrovascular Doença cardíaca SISTEMA RESPIRATÓRIO Enfisema senil Modificações artríticas no tórax Problemas pulmonares relacionados aos poluentes Fibrose intersticial SISTEMA GENITOURINÁRIO Fluxo sanguíneo renal diminuído Número reduzido de glomérulos em funcionamento Reabsorção tubular reduzida Hipertrofia prostática benigna SISTEMA ENDÓCRINO Resposta reduzida ao estresse Diabetes melito tipo 2 (início na fase adulta) Modificado de Lichtiger M, Moya F; Curr Rev Nurse Anesth 1;1, 1978. Atualmente a doença cardiovascular é a causa principal de óbitos em pessoas acima dos 65 anos nos Estados Unidos (Tabela 1-14).22 Situações que podem ser completamente inócuas na juventude podem se tornar bastante danosas 20 anos depois. Esta incapacidade relativa dos mais idosos em tolerar o estresse foi demonstrada em um levantamento sobre os efeitos da idade em motoristas de carro fatalmente acidentados. Baker e Spitz23 verificaram que a proporção de motoristas com 60 anos de idade ou mais era cinco vezes maior entre os motoristas que morreram do que entre os motoristas mais jovens que sobreviveram aos acidentes automobilísticos. Muitos motoristas com 60 anos ou mais morreram após acidentes que se mostraram não fatais aos motoristas mais jovens. A correlação entre idade e tempo de sobrevivência sugere que, enquanto os motoristas mais jovens se recuperam das injúrias, muitos motoristas mais velhos morrem por causa de complicações. O processo de envelhecimento envolve tanto mudanças fisiológicas como patológicas que podem alterar significativamente a capacidade do paciente em se adaptar com sucesso ao estresse. O Quadro 1-1 lista as mudanças que os pacientes mais idosos frequentemente encontram. A diminuição na elasticidade tecidual é a mudança fisiológica principal, com efeito significativo em todos os órgãos do corpo. Por exemplo, num indivíduo de 75 anos de idade, o fluxo sanguíneo cerebral é de apenas 80% do que era aos 30 anos, o débito cardíaco cai para 65%, com a função renal diminuindo para 45%. As mudanças no fluxo sanguíneo renal podem afetar as ações de certos medicamentos, especialmente aqueles que dependem da excreção urinária para remoção do medicamento e dos seus metabólitos do corpo. Penicilina, tetraciclina e digoxina, por exemplo, exibem tempo de eliminação e meia-vida aumentada em pacientes idosos. TABELA 1-15 Mudanças pulmonares nos pacientes com 65 anos ou mais Função Porcentagem comparada com a capacidade na idade 30 anos Capacidade pulmonar total 100 Capacidade vital 58 Captação de O2 durante o exercício 50 Capacidade respiratória máxima 55 De Lichtiger M, Moya F: Curr Rev Nurse Anesth 1;1, 1978. QUADRO 1-2 Fatores aumentando o risco durante o tratamento odontológico Número aumentado depacientes mais velhos Avanços médicos Terapia medicamentosa Número aumentado de procedimentos cirúrgicos (p. ex., implantes) Consultas mais demoradas Uso aumentado de medicamentos Anestésicos locais Sedativos Analgésicos Antibióticos Modificado de Lichtiger M, Moya F; Curr Rev Nurse Anesth 1;1, 1978. A elasticidade tecidual diminuída também afeta os pulmões. A complacência pulmonar diminui com a idade e pode progredir para o enfisema pulmonar senil. A exposição de longo prazo a tabaco, poeira e poluentes pode diminuir a função respiratória em pacientes mais velhos, produzindo desordens como a asma e a bronquite crônica. A função pulmonar no paciente idoso está consideravelmente reduzida quando comparada ao paciente mais jovem (Tabela 1-15).24 Entretanto, durante as últimas três décadas, os cirurgiões-dentistas começaram a tratar um número maior de pacientes acima dos 60 anos que ainda possuem grande parte da sua dentição natural. Estes pacientes necessitam de todo o tipo de tratamento odontológico – periodontia, endodontia, coroas, próteses, trabalho restaurador, implantes e cirurgia oral. Em função da idade e da possibilidade da existência de incapacidades físicas preexistentes, muitos destes pacientes têm menor capacidade de lidar com o estresse normalmente associado ao tratamento odontológico. Esta tolerância reduzida ao estresse deve alertar o cirurgião-dentista de que os pacientes mais idosos estão em maior risco durante o tratamento odontológico, mesmo que seja na ausência de doença clinicamente evidente (Quadro 1-2). Adicionalmente, o cirurgião-dentista deve tomar todos os passos para minimizar esses riscos (veja os protocolos de redução do estresse25 no Cap. 2). Avanços médicos Com a idade, a incidência de doenças aumenta. Pacientes diabéticos e pacientes com doenças cardiovasculares (insuficiência cardíaca, arteriosclerose) possuem maior expectativa de vida hoje do que 25 ou 35 anos atrás. Muitos pacientes antes confinados aos seus lares ou que necessitavam de cadeiras de rodas e que eram incapazes de trabalhar e provavelmente de comparecer ao consultório odontológico vivem agora sua vidas praticamente normais em função de avanços nas terapias medicamentosas e nas técnicas cirúrgicas. O tratamento com radiação e a quimioterapia permitem que muitos pacientes com câncer vivam mais. Procedimentos cirúrgicos, como o bypass da artéria coronária e a cirurgia de enxerto e substituição de válvula cardíaca, se tornaram comuns, permitindo que pacientes previamente incapacitados tenham atualmente estilos de vida ativos. Transplantes de órgãos unitários ou múltiplos possuem maior taxa de sucesso e são realizados com maior frequência do que nos últimos anos. Terapias medicamentosas mais novas e efetivas estão disponíveis para o tratamento de desordens crônicas tais como pressão sanguínea elevada, diabetes e infecção pelo vírus da imunodeficiência humana. Estes avanços médicos são realmente significativos. Eles também significam que os cirurgiões-dentistas devem saber lidar bem com as necessidades bucais desses pacientes com riscos potenciais, muitos dos quais possuem desordens crônicas que são meramente controladas ou tratadas, não curadas. McCarthy chamou estas pessoas de “feridos ambulantes, com emergências médicas procurando um lugar para acontecer”.26 Consultas longas Nos últimos anos muitos cirurgiões-dentistas têm aumentado o tempo de suas consultas. Embora consultas com menos de 60 minutos ainda sejam bastante comuns, muitos dentistas agora agendam consultas de 1 a 3 horas de duração.27 O tratamento odontológico pode ser estressante para o paciente, para o cirurgião-dentista e para os membros da equipe e consultas demoradas naturalmente criam mais estresse. Pacientes com comprometimento sistêmico têm maior chance de reagir adversamente sob estas condições do que os indivíduos saudáveis, mas mesmo os pacientes mais saudáveis podem sofrer com o estresse, o que pode criar complicações não previstas. A redução do estresse se tornou um conceito importante na prevenção das emergências médicas no consultório odontológico. Consumo aumentado de medicamentos O uso de medicamentos desempenha um papel importante na prática odontológica contemporânea. Medicamentos para prevenção da dor, controle do medo e da ansiedade e para o tratamento das infecções são componentes importantes do armamentário de qualquer cirurgião-dentista. Entretanto, todos os medicamentos exercem múltiplas ações: nenhum medicamento é completamente isento de riscos. O conhecimento das ações farmacológicas do medicamento e a técnica adequada de administração do mesmo diminuirão muito a ocorrência de emergências médicas medicamentosas. Adicionalmente, muitos cirurgiões-dentistas trabalham com pacientes que previamente utilizavam medicamentos não receitados por seus dentistas ou médicos. Halpern28 verificou que 18% de todos os seus pacientes faziam uso de algum tipo de medicamento. Esta incidência aumentou ainda mais com a idade; 41% dos pacientes acima dos 60 anos utilizavam um ou mais medicamentos regularmente. Os cirurgiões-dentistas devem tomar o cuidado especial de antecipar e reconhecer complicações relacionadas às ações farmacológicas dos medicamentos ou as complexas interações entre os medicamentos mais comumente utilizados na odontologia, com os demais medicamentos. Por exemplo, a hipotensão ortostática está comumente associada com muitos medicamentos utilizados no tratamento da pressão arterial elevada. Outros exemplos incluem as interações potencialmente significativas entre os inibidores do sistema monoamino oxidase e os opioides (p. ex., meperidina e fentanil) ou entre adrenalina e bloqueadores beta-adrenérgicos não cardioespecíficos. Diversos pacientes, tanto homens quanto mulheres, fazendo uso de inibidores da fosfodiesterase (p. ex., ViagraTM, CialisTM, LevitraTM), apresentam riscos significativamente aumentados para hipotensão no decorrer de um episódio de infarto agudo do miocárdio, durante o qual se requer a utilização de um vasodilatador coronariano, tal qual a nitroglicerina.29 Este texto visa, em parte, a aumentar a conscientização do cirurgião-dentista para os pacientes de alto risco, de modo que modificações apropriadas possam ser incorporadas ao tratamento odontológico planejado. Um segundo objetivo é aumentar o reconhecimento imediato e o tratamento efetivo de tais situações, as quais continuarão a ocorrer apesar dos protocolos de prevenção mais exigentes. QUADRO 1-3 Classificação conforme os sistemas DOENÇAS INFECCIOSAS Sistema imune Alergias Edema angioneurótico Dermatite de contato Anafilaxia PELE E ANEXOS OLHOS NARIZ, OUVIDO E GARGANTA TRATO RESPIRATÓRIO Asma Hiperventilação SISTEMA CARDIOVASCULAR Doença cardíaca arteriosclerótica Angina pectoris Infarto do miocárdio Insuficiência cardíaca SANGUE TRATO GASTRINTESTINAL E FÍGADO OBSTETRÍCIA E GINECOLOGIA SISTEMA NERVOSO Perda da consciência Síncope vasodepressora Hipotensão ortostática Desordens convulsivas Epilepsia Reações de overdose aos medicamentos Acidente vascular encefálico Doenças endócrinas Diabetes melito Hiperglicemia Hipoglicemia Glândula tireoide Hipertireoidismo Hipotireoidismo Glândula adrenal Insuficiência adrenal aguda Goldberger30 escreveu: “Quando você se prepara para uma emergência, a emergência deixa de existir”. O objetivo final no tratamento de qualquer emergência é a preservação da vida. Este objetivo primário é a costura que une cada seção deste livro-texto. Classificação das Situações de Emergência com Potencial Risco de Morte Diversos métodos estão disponíveis para classificar as emergências médicas. A abordagem tradicional tem sido a classificação orientada pelos sistemas, a qual lista os principais sistemas do organismo e discute as situações de emergência com potencial risco de morte associado às mesmas (Quadro 1-3). TABELA 1-16 Classificação conforme o sistema cardíaco Não cardiovascular Cardiovascular Relacionada com o estresse Síncope vasodepressora Hiperventilação Convulsão Insuficiênciaadrenal aguda Crise tireotóxica Asma (broncoespasmo) Angina pectoris Infarto agudo do miocárdio Insuficiência cardíaca aguda (edema pulmonar) Isquemia cerebral e infarto Parada cardiorrespiratória repentina Não relacionada com o estresse Hipotensão ortostática (postural) Reação de overdose (tóxica) Hipoglicemia Hiperglicemia Alergia Infarto agudo do miocárdio Parada cardiorrespiratória repentina Embora uma classificação através dos sistemas seja considerada adequada para propósitos educacionais, do ponto de vista clínico, ela ainda é incompleta. Um segundo método de classificação divide as situações emergenciais em duas categorias amplas – emergências cardiovasculares e emergências não cardiovasculares, as quais podem ser divididas ainda mais em emergências relacionadas e não relacionadas ao estresse. Este sistema oferece uma divisão bastante abrangente das emergências com potencial risco de morte, muito útil aos cirurgiões-dentistas. A combinação dos sistemas fornece duas divisões para se trabalhar – cardiovascular vs. não cardiovascular e relacionadas com o estresse vs. não relacionadas com o estresse (Tabela 1-16). Esta classificação pode auxiliar o cirurgião-dentista no preparo de um protocolo de tratamento exequível para a prevenção de tais situações de emergência. O risco de desenvolvimento de uma emergência relacionada ao estresse pode ser reduzido através da incorporação, no tratamento odontológico, de diversas medidas redutoras de estresse. Tais ações incluem o uso de técnicas sedativas, controle efetivo da dor e limitações na duração das consultas odontológicas. O protocolo para redução do estresse é descrito no Capítulo 2. QUADRO 1-4 Emergências médicas comuns no consultório odontológico PERDA DE CONSCIÊNCIA Síncope vasodepressora Hipotensão ortostática Insuficiência adrenal aguda DIFICULDADE RESPIRATÓRIA Obstrução das vias aéreas Hiperventilação Asma (broncoespasmo) Insuficiência cardíaca e edema pulmonar agudo ALTERAÇÃO DE CONSCIÊNCIA Diabetes melito: hiperglicemia e hipoglicemia Disfunção da glândula tireoide (hipertireoidismo e hipotireoidismo) Acidente vascular encefálico CONVULSÕES EMERGÊNCIAS RELACIONADAS COM OS MEDICAMENTOS Reações de overdose aos medicamentos Alergia DOR TORÁCICA Angina pectoris Infarto agudo do miocárdio PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA REPENTINA Embora o sistema de emergência cardiovascular seja efetivo na prevenção de emergências médicas, os cirurgiões-dentistas necessitam de um método que os ajude a reconhecer e tratar mais facilmente tais situações. Desta maneira, devemos abandonar classificações baseadas nos órgãos dos sistemas. Na maioria das situações clínicas reais, os cirurgiões-dentistas frequentemente não possuem ciência das condições patológicas preexistentes dos pacientes. Os dentistas precisam reconhecer e iniciar o tratamento dessas situações de emergência potencialmente fatais, tendo apenas os sinais e sintomas clínicos mais óbvios como indicadores. Por este motivo, uma classificação das emergências médicas, com base nos sinais e sintomas clínicos, se mostra útil desde a primeira publicação deste livro em 1978. Em primeira instância, o cirurgião-dentista irá basear o tratamento inicial da maioria das emergências médicas nestas dicas clínicas até que um diagnóstico mais definitivo seja obtido. Sinas e sintomas vistos comumente incluem alterações do nível de consciência (inconsciência, problemas ou alterações no nível de consciência), dificuldade respiratória, convulsões, emergências medicamentosas e dor torácica. Em cada situação, um resultado bem sucedido dependerá da adesão do cirurgião-dentista ao protocolo de tratamento estabelecido. Uma vez que estas etapas tenham sido seguidas com sucesso, etapas adicionais (secundárias) podem direcionar o cirurgião-dentista para um diagnóstico mais definido, o qual pode por sua vez auxiliar na correção do problema. Este texto está ajustado para o uso de protocolos definidos e etapas de tratamento. Cada seção principal é dedicada a um sintoma comum complexo. Cada seção contém uma lista das manifestações mais comuns daquele sintoma complexo. Os procedimentos básicos são discutidos e seguidos com uma revisão detalhada das emergências mais comuns dentro da categoria. Cada seção termina com um diagnóstico diferencial (Quadro 1-4). Estas classificações são concebidas para colocar cada situação de emergência potencialmente fatal na categoria que representa de forma mais apropriada a manifestação clínica mais comum do problema em si. Diversas situações também poderiam ser incluídas numa classificação diferente daquela em que foram incluídas. Por exemplo, o infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular encefálico são possíveis causas da perda de consciência, mas discussões mais amplas destas emergências são encontradas nas manifestações mais comumente estabelecidas em relação às mesmas – dor torácica para o infarto agudo do miocárdio e alteração do nível da consciência para o acidente vascular encefálico. Divisão das Emergências Médicas Específicas Na discussão de cada uma das situações de emergência, diversos fatores serão apresentados. Estão incluídos os seguintes tópicos com seus respectivos objetivos: 1. Considerações gerais: Uma seção introdutória apresenta a informação geral sobre a situação de emergência. Definições e sinônimos estão incluídos quando relevantes. 2. Fatores predisponentes: A discussão envolve a incidência e causa da desordem e aqueles fatores que podem predispor um paciente a experimentar uma situação potencialmente ameaçadora da vida. 3. Prevenção: Esta seção é construída sobre as seções anteriores para minimizar a ocorrência de uma exacerbação aguda da desordem. O questionário de história médica, os sinais vitais e o diálogo com o paciente (anamnese) são utilizados para determinar uma categoria de risco para cada paciente, baseado no sistema desenvolvido pela American Society of Anesthesiologists (ASA).31 Sugestões para modificações específicas no tratamento odontológico completam a discussão. 4. Manifestações clínicas: Esta seção envolve os sinais e sintomas clinicamente evidentes que antecipam o reconhecimento da desordem. 5. Fisiopatologia: A discussão se baseia no processo patológico subjacente aos sinais e sintomas clínicos. Um entendimento mais completo da causa do problema pode permitir que o cirurgião-dentista trate da situação com mais facilidade. 6. Tratamento: O tratamento passo a passo dos sinais e sintomas clínicos é o objetivo desta seção. 7. Diagnóstico diferencial: Cada seção é finalizada com um capítulo que auxilia o cirurgião-dentista a identificar a provável causa da emergência no paciente. REFERÊNCIAS 1. Asif IM, Rao AL, Drezner JA: Sudden cardiac death in young athletes: what is the role of screening? Curr Opin Cardiol 28:55–62, 2013. 2. Harmon KG, Asif IM, Klossner D, Drezner JA: Incidence of sudden cardiac death in National Collegiate Athletic Association athletes, Circulation 123:1594–1600, 2011. 3. Atherton GJ, McCaul JA, Williams SA: Medical emergencies in general dental practice in Great Britain. Part 1: their prevalence over a 10-year period, Br Dent J 186:72–79, 1999. 4. 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CAPÍTULO 2 Prevenção McCarthy afirmou que o uso de um sistema completo de avaliação física para todos os pacientes odontológicos seria capaz de prevenir cerca de 90% de todas as situações potencialmente ameaçadoras da vida.1 Os 10% restantes poderiam ocorrer, apesar de todos esses esforços preventivos. Goldberger2 escreveu: “Quando você se prepara para uma emergência, a emergência deixa de existir”, o que se prova correto à medida que o preparo adequado para lidar com uma situação de emergência diminui a possibilidade de ela resultar em morbidade significativa ou morte. O conhecimento prévio da condição física do paciente permite ao cirurgião-dentista incorporar modificações no plano de tratamento odontológico. Em outras palavras, “ser prevenido é estar preparado”. Este capítulo fornece uma discussão detalhada dos componentes mais importantes da avaliação física, a qual, quando utilizada adequadamente, pode levar a uma redução significativa na ocorrência de emergências médicas agudas. (Este capítulo será referenciado com frequência ao longo de todo o texto). Objetivos da Avaliação Esta seção descreve um sistema de avaliação física abrangente, porém de fácil aplicação. As etapas descritas permitem ao cirurgião-dentista verificar com precisão o risco potencial (risco de uma situação potencialmente ameaçadora da vida [p. ex., emergência médica] se desenvolver durante o tratamento do paciente) antes do início ou durante o tratamento odontológico. O Quadro 2-1 e a lista seguinte apresentam os objetivos que cada cirurgião-dentista deve perseguir: 1. Determinar a capacidade do paciente em tolerar fisicamente o estresse envolvido no tratamento planejado. 2. Determinar a capacidade do paciente em tolerar psicologicamente o estresse envolvido no tratamento planejado. 3. Determinar se as modificações no plano de tratamento são necessárias para permitir ao paciente tolerar melhor o estresse envolvido no tratamento planejado. 4. Determinar se o uso da sedação é justificado: a. Determinar qual técnica de sedação é a mais apropriada. b. Determinar se existem contraindicações a quaisquer medicamentos a serem utilizados no tratamento planejado. Os dois primeiros objetivos envolvem a capacidade do paciente em tolerar o estresse envolvido no tratamento planejado. Esse estresse pode ser tanto fisiológico quanto psicológico. Muitos, se não a maioria dos pacientes com condições médicas preexistentes, são menos capazes de tolerar os níveis usuais de estresse associados ao tratamento odontológico. Esses pacientes têm maior chance de exacerbações agudas de suas condições médicas preexistentes quando expostos ao estresse. Exemplos dessas condições preexistentes incluem angina pectoris, epilepsia, asma e anemia falciforme. Embora a maioria dos pacientes seja capaz de tolerar o tratamento odontológico, o cirurgião-dentista deve determinar, antes de o tratamento começar, (1) o problema potencial, (2) o nível de severidade do problema e (3) o efeito potencial no tratamento odontológico planejado. O estresse excessivo pode também ser deletério à pessoa que não possui comprometimento sistêmico.3 Medo, ansiedade e dor – especialmente a dor repentina e inesperada – podem gerar mudanças agudas na homeostasia corporal. Muitos pacientes odontológicos experimentam emergências médicas relacionadas ao medo (psicogênicas), as quais incluem a hiperventilação e a síncope vasodepressora (desmaio). O terceiro objetivo na avaliação física é determinar se o tratamento odontológico planejado requer modificações para permitir que o paciente tolere melhor o estresse. Em alguns casos, um paciente saudável pode tolerar o tratamento fisicamente, mas é incapaz de fazê-lo psicologicamente. QUADRO 2-1 Objetivos da avaliação física 1. Determinar a capacidade do paciente em tolerar fisicamente o estresse envolvido no tratamento odontológico planejado. 2. Determinar a capacidade do paciente em tolerar psicologicamente o estresse envolvido no tratamento odontológico planejado. 3. Determinar se modificações no plano de tratamento odontológico são necessárias para permitir que o paciente tolere melhor o estresse envolvido no tratamento planejado. 4. Determinar se o uso da psicossedação é justificado: a. Determinar qual técnica de sedação é a mais apropriada. b. Determinar se há contraindicações para quaisquer dos medicamentos a serem usados no tratamento planejado. O paciente com comprometimento médico também se beneficia com as modificações no plano de tratamento que visem a minimizar o estresse. Os cirurgiões-dentistas devem sempre se lembrar de que pacientes com comprometimento sistêmico (como tantos outros pacientes que não tenham comprometimento sistêmico) constantemente temem o tratamento odontológico, o que pode aumentar o risco de uma emergência médica quando combinado à tolerância reduzida para o estresse. Protocolos para redução do estresse, os quais são discutidos mais tarde neste capítulo, auxiliam o cirurgião-dentista a minimizar o estresse provocado pelo tratamento odontológico (p. ex., intraoperatório, pré-operatório). Quando o paciente precisar de ajuda para lidar com o tratamento odontológico, o cirurgião-dentista pode considerar o uso de sedação.Determinar a necessidade dessas técnicas, selecionando a mais apropriada e escolhendo o(s) medicamento(s) mais apropriado(s) para o paciente, faz parte do objetivo final da avaliação física. Avaliação Física O termo avaliação física descreve as etapas envolvidas no preenchimento dos objetivos já mencionados. A avaliação física na odontologia consiste – minimamente – no questionário de história médica, exame físico e diálogo com o paciente (anamnese). Munido dessas informações, o cirurgião-dentista pode melhor (1) determinar a condição física e psicológica do paciente, permitindo ao dentista (2) atribuir uma classificação do fator de risco do paciente; (3) buscar consulta médica; e (4) instituir modificações apropriadas no tratamento. Questionário de história médica O uso de um questionário de história médica, escrito e preenchido pelo paciente, é uma necessidade moral e legal nas profissões de saúde. Além disso, um questionário de história médica fornece ao cirurgião-dentista informações valiosas sobre a condição física e psicológica do paciente. Muitas versões desses questionários de história médica estão disponíveis. Entretanto, existem dois tipos básicos: um formulário resumido da história médica e um formulário mais completo. O formulário reduzido, com geralmente uma página, fornece informação básica sobre a história médica do paciente e idealmente é adequado para o cirurgião-dentista que possua experiência clínica considerável em avaliação física. Para usar o formulário reduzido efetivamente, o cirurgião-dentista deve ter um entendimento completo do diálogo com o paciente, necessário para auxiliar na determinação da avaliação do risco. O dentista também deve ser experiente no uso e na interpretação das técnicas de avaliação física. Infelizmente, muitos profissionais utilizam esse formulário reduzido ou uma modificação deste, em primeiro lugar, como forma de conveniência para seus pacientes. O formulário completo, geralmente com duas ou três páginas, fornece um sumário detalhado da condição física passada e atual do paciente. Ele é utilizado com frequência nos estabelecimentos de ensino, e para tal é o ideal. Qualquer questionário de história médica pode se mostrar extremamente valioso ou totalmente dispensável. O valor final do questionário reside na capacidade do cirurgião-dentista em interpretar o significado das respostas e de obter a informação adicional pelo exame físico e diálogo com o paciente. O questionário de história médica reduzido, desenvolvido pela University of the Pacific School of Dentistry em conjunto com o MetLife Dental, é aqui apresentado como protótipo (Fig. 2-1). A Figura 2-2 é um exemplo do questionário de história médica utilizado na pediatria. Esse questionário de saúde já foi traduzido em 40 idiomas diferentes, abrangendo as línguas faladas por 95% da população deste planeta. O custo da tradução foi coberto por diversas organizações, incluindo a California Dental Association, mas em maior grau a MetLife Dental. O histórico de saúde (Fig. 2-1), traduções do histórico de saúde (Fig. 2-3), folha de entrevistas (Fig. 2-4) e o formulário de consulta médica (Fig. 2-5) podem ser encontrados no website da University of the Pacific’s, www.dental.pacific.edu, na área Dental Professionals e em seguida ao clicar em Health History Forms. Os protocolos para tratamento de pacientes sistemicamente complexos podem ser encontrados no mesmo website na área Pacific Dental Management Protocols. As traduções do formulário de história médica podem ser encontradas em www.metdental.com na área Resource Center e depois em Multi-Language Medical Health History Forms Available. FIGURA 2-1 Questionário de avaliação de histórico de saúde sistêmica desenvolvido pela University of the Pacific’s. (Reimpresso com permissão da University of the Pacific Dental School, São Francisco, Califórnia.) FIGURA 2-2 Questionário de avaliação de histórico de saúde pediátrica desenvolvido pela University of Iowa. (Reimpresso com permissão da University of Iowa College of Dentistry, Iowa, IA). FIGURA 2-3 Formulário de história médica em Espanhol, da University of the Pacific’s (UOP). Este formulário está disponível em 40 idiomas no website da UOP em www.metdental.com. (Reimpresso com permissão da University of the Pacific Dental School, São Francisco, Califórnia). FIGURA 2-4 Formulário de entrevista da University of the Pacific’s. (Reimpresso com permissão da University of the Pacific Dental School, São Francisco, Califórnia). FIGURA 2-5 Formulário de consulta da University of the Pacific’s. (Reimpresso com permissão da University of the Pacific Dental School São Francisco, Califórnia.). O histórico de saúde também foi traduzido, mantendo-se a mesma sequência numérica das questões. Assim, um cirurgião- dentista, que fala a língua inglesa e trata de um paciente que não fala, pode pedir ao mesmo para preencher o seu histórico de saúde em seu próprio idioma. O cirurgião-dentista então compara o histórico médico em inglês com o histórico traduzido, examinando a tradução quanto às respostas “sim”. Quando um “sim” for encontrado, o dentista pode ver o número da questão e compará-la com o mesmo número no formulário em inglês. Por exemplo, o dentista saberia que o “sim” à questão 34 na versão que não se encontra em inglês é o mesmo “sim” da questão 34 (a respeito da pressão sanguínea) na versão em inglês. Da mesma forma, um cirurgião-dentista que fala coreano também usaria o questionário multicultural com um paciente que fala inglês, tendo a mesma informação com referência cruzada. Um cirurgião-dentista que fala espanhol poderia usar este questionário com um paciente que fale francês. Com esta sequência uniforme, essas traduções podem ajudar pacientes e dentistas de todo o mundo. O histórico de saúde é dividido em seções relacionadas aos sinais e sintomas (“Você já vivenciou?”), doenças diagnosticadas (“Você tem ou já teve?”), tratamentos médicos (incluindo medicamentos e outros componentes fisiologicamente ativos) e diversas outras questões. Embora tanto os questionários resumidos sobre a história médica como os mais completos, sejam valiosos na determinação da condição física do paciente, uma crítica sobre a maioria dos questionários atualmente disponíveis é a ausência de questões sobre os sentimentos dos pacientes em relação à odontologia. Recomenda-se que uma ou mais questões relacionadas ao assunto sejam incluídas: (1) Você se sente muito nervoso em relação ao tratamento odontológico? (2) Você já teve uma experiência ruim no consultório odontológico? O questionário de história médica da University of the Pacific’s contém esse tipo de pergunta (Questão Nº 5): Questionário de História Médica da University of the Pacific’s A seguir o questionário de história médica da University of the Pacific’s comentado. QUESTIONÁRIO DE HISTÓRIA MÉDICA 1. A sua saúde geral é boa? Comentário: uma pergunta genérica buscando a impressão geral que o paciente tem sobre a sua saúde. Estudos têm demonstrado que uma resposta “sim” à essa pergunta não necessariamente está correlacionada com a saúde atual do paciente.6 2. Houve alguma mudança na sua saúde no último ano? 3. Você já foi hospitalizado ou teve alguma doença séria nos últimos 3 anos? Em caso positivo, por quê? 4. Você está sob tratamento médico agora? Qual o motivo? Qual a data do último exame médico? Qual a data do último exame odontológico? Comentário: As questões 2, 3 e 4 buscam informações sobre mudanças recentes na condição física do paciente. Em todos os casos de resposta positiva, um relato profundo pelo paciente deve ocorrer, determinando a natureza precisa da mudança no estado de saúde, tipo de procedimento cirúrgico ou doença, bem como os nomes de quaisquer medicamentos que o paciente possa estar usando para tratar no problema. 5. Você já teve problemas com algum tratamento odontológico prévio? Comentário: Eu percebo que muitos adultos ficam relutantes em admitir verbalmente ao dentista, higienista, ou assistente, seus temores sobreo tratamento odontológico, por medo de serem rotulados de “crianças”. Isto é especialmente verdadeiro com homens jovens, no final da adolescência ou no começo da 2ª década de vida; eles tentam “encarar como homens” ou “aceitar uma situação difícil porque não há nada a ser feito” em vez de admitir seus temores. Com frequência, tal comportamento viril resulta em um episódio de síncope vasodepressora. Enquanto muitos desses pacientes não oferecem admissões verbais sobre seus temores, eu tenho visto que estes mesmos pacientes podem fornecer essa informação por escrito. (Maneiras adicionais de um cirurgião-dentista determinar a ansiedade do paciente serão discutidas mais tarde neste capítulo). 6. Você está com dor agora? Comentário: O principal motivo desta questão se relaciona à odontologia. Seu objetivo é determinar o que motivou o paciente à busca do tratamento odontológico. Se dor ou desconforto estiverem presentes, o cirurgião-dentista pode precisar tratar o paciente imediatamente ou emergencialmente, enquanto numa situação mais normal o tratamento pode ser postergado até visitas futuras. Você já Vivenciou: 7. Dor torácica (angina) Comentário: Um histórico de angina (definida, em parte, como dor torácica desencadeada pelo esforço e aliviada pelo repouso) geralmente indica a presença de um grau significativo de doença da artéria coronária com isquemia do miocárdio. O fator de risco para o paciente típico com angina estável é classe 3 na American Society of Anesthesiologists (ASA), o chamado Physical Status Classification System.* A redução do estresse é extremamente recomendada para estes pacientes. Pacientes com angina instável ou de início recente representam riscos ASA classe 4. *A avaliação física da ASA será apresentada e discutida em detalhes mais adiante neste capítulo. 8. Tornozelos inchados? Comentário: tornozelos inchados (edema depressível ou edema dependente, ou sinal do cacifo) indicam possível insuficiência cardíaca (IC). Entretanto, veias varicosas, gravidez e disfunção renal são outras causas do edema nos tornozelos. Pessoas saudáveis que ficam em pé por muito tempo (p. ex., policiais e membros da equipe odontológica) também podem desenvolver edema nos tornozelos. 9. Dificuldade respiratória? Comentário: Embora o paciente possa responder negativamente às questões específicas (Questões 29 a 35) na seção III (adiante) sobre a presença de diversas desordens cardíacas e pulmonares (p. ex., angina pectoris, insuficiência cardíaca, enfisema pulmonar), sinais e sintomas clínicos de doença cardíaca ou pulmonar podem estar evidentes. Uma resposta positiva a essa questão nem sempre indica que o paciente tem tal doença. Para determinar com mais precisão a condição do paciente antes do tratamento odontológico, uma avaliação posterior é sugerida. 10. Perda recente de peso, febre, suores noturnos? Comentário: a questão se refere principalmente a ganho ou perda inesperada de peso, e não à dieta intencional. Mudanças inesperadas no peso indicam insuficiência cardíaca, hipotireoidismo (aumento de peso), hipertireoidismo, carcinoma generalizado, diabetes melito não controlado (perda de peso), ou muitas outras desordens. A presença de febre e suores noturnos deve ser pesquisada, a fim de determinar se esses sintomas são inocentes ou talvez pistas para a presença de um problema mais significativo, como tuberculose. 11. Tosse persistente, tosse com sangue? Comentário: uma resposta positiva a essa questão exige um diálogo profundo para determinação da causa da tosse persistente ou da hemoptise (esputo tingido de sangue). As causas mais comuns da hemoptise são bronquite/bronquiectasia, neoplasias e tuberculose. Uma tosse crônica pode indicar tuberculose ativa ou outras desordens respiratórias crônicas, como a bronquite crônica. Tosse associada à infecção do trato respiratório superior confere uma classificação ASA 2 ao paciente, enquanto uma bronquite crônica num paciente que fumou mais de um maço de cigarros diariamente pode indicar doença pulmonar crônica e conferir uma classificação de risco ASA 3 ao mesmo. O cirurgião-dentista deve pesar os riscos cuidadosamente antes de administrar depressores do sistema nervoso central (SNC) – especialmente os opioides e barbitúricos, os quais deprimem o sistema respiratório mais do que os outros (p. ex., benzodiazepínicos) – em pacientes que exibem sinais de reserva respiratória diminuída (ASA 3 e 4). 12. Problemas de sangramento, a pele fica facilmente roxa? Comentário: discrasias sanguíneas como a hemofilia estão associadas a sangramento prolongado ou equimoses frequentes. Tais situações podem exigir modificações de certas formas de terapia odontológica (p. ex., cirurgia e administração de anestésicos locais) e assim devem ser apresentadas ao cirurgião-dentista antes de o tratamento começar. Modificações no plano de tratamento odontológico podem ser necessárias quando o risco de sangramento excessivo provavelmente estiver presente. 13. Problemas sinusais? Comentário: Problemas sinusais podem indicar presença de alergia (ASA 2), a qual deve ser relatada no histórico do paciente; ou infecção do trato respiratório superior (ASA 2), como num resfriado comum. O paciente pode experimentar algum desconforto respiratório quando colocado na posição supina; esse desconforto também pode estar presente quando o lençol de borracha é utilizado. Modificações específicas no tratamento – postergar o tratamento até que o paciente possa respirar mais confortavelmente, limitar o grau de reclinação na cadeira e cancelar o uso do lençol de borracha – são atitudes aconselháveis. 14. Dificuldade de deglutição? Comentário: A disfagia, ou dificuldade para deglutição, pode ter muitas causas. Antes de começar qualquer tratamento odontológico, o cirurgião-dentista deve buscar determinar a etiologia e severidade dos sintomas do paciente. 15. Diarreia, constipação, sangue nas fezes? Comentário: Avaliação é necessária para determinar se problemas gastrintestinais estão presentes, muitos dos quais requerem que o paciente seja medicado. As causas para sangue nas fezes podem variar de eventos benignos autolimitantes a doenças seriamente ameaçadoras. Algumas causas comuns incluem fissuras anais, medicamentos que contêm aspirina, discrasias sanguíneas, varizes esofágicas, trauma por corpo estranho, hemorroidas, neoplasias, uso de esteroides orais, presença de pólipos intestinais e trombocitopenia. 16. Vômito frequente, náusea? Comentário: Diversas causas podem levar a náusea e vômito. Medicamentos, entretanto, estão entre as causas mais comuns de náusea e vômito.7 Opioides, digitálicos, levodopa e muitos medicamentos anticancerígenos atuam na zona de disparo do quimiorreceptor da área postrema e induzem o vômito. Medicamentos que frequentemente induzem a náusea incluem anti-inflamatórios não esteroidais, eritromicina, antiarrítmicos cardíacos, medicamentos anti-hipertensivos, diuréticos, antidiabéticos orais, contraceptivos orais e muitos gastrintestinais, como a sulfasalazina.7 Infecções gastrintestinais e sistêmicas, virais e bacterianas, provavelmente estão entre a segunda causa mais comum de náusea e vômito. 17. Dificuldade de urinar, sangue na urina? Comentário: A hematúria, presença de sangue na urina, requer avaliação para determinar a causa, potencialmente indicativa de infecção ou obstrução do trato urinário. 18. Tonturas? Comentário: Uma resposta positiva pode indicar hipotensão postural (ortostática) crônica, hipotensão sintomática, anemia ou ataque isquêmico transitório (AIT), uma forma de acidente vascular encefálico temporário. Além disso, pacientes com certos tipos de convulsões, podem se referir aos desmaios ou ataques de tontura. O cirurgião-dentista deve fazer uma avaliação posterior, incluindo a consulta com o médico do paciente. Um ataque isquêmico transitório representa um risco ASA 3, enquanto a hipotensão postural crônica normalmente representa um risco ASA 2 ou 3. 19. Tilintar nos ouvidos? Comentário: O tinnitus ou tinido (sensação auditiva na ausênciade som real em um ou ambos os ouvidos, como uma campainha, buzina, assovio ou clique) é um efeito adverso comum de certos medicamentos, incluindo salicilatos, indometacina, propranolol, levodopa, aminofilina e cafeína. Também pode ser visto em esclerose múltipla, tumor e infarto isquêmico. 20. Dores de cabeça? Comentário: A presença de dor de cabeça deve ser avaliada para determinar a causa. Causas comuns incluem dores de cabeça crônicas, cefaleia em salvas, enxaquecas e cefaleia tensional. Se necessário, a consulta com o médico do paciente é justificada. O medicamento ou medicamentos que o paciente possa estar utilizando para tratar os sintomas deve(m) ser determinado(s), porque muitos destes agentes podem influenciar o processo de coagulação do sangue. 21. Ataques de desmaio? Comentário: Veja o comentário para a questão 18. 22. Visão borrada ou turva? Comentário: Uma visão borrada é um achado comum no envelhecimento do paciente. As causas principais de visão borrada e cegueira incluem glaucoma, retinopatia diabética e degeneração macular. A visão dupla, ou diplopia, geralmente resulta do descompasso do músculo extraocular, sendo que a causa precisa deve ser determinada. Causas comuns incluem o dano ao terceiro, quarto e sexto pares de nervos cranianos, secundário a miastenia gravis, distúrbios vasculares e tumores intracranianos. 23. Convulsões? Comentário: Convulsões são emergências médicas bastante comuns na odontologia. O candidato mais provável para ter uma convulsão durante o tratamento odontológico é o paciente epilético. Mesmo pacientes epiléticos cuja condição se mantém bem controlada com medicamentos anticonvulsivantes podem desenvolver convulsões em situações estressantes, como as que podem ocorrer no consultório odontológico. O cirurgião-dentista deve determinar o tipo de convulsão, a frequência de ocorrência e o medicamento ou medicamentos utilizados para impedir a convulsão, antes do início do tratamento odontológico. A modificação no plano de tratamento utilizando os protocolos para redução do estresse (discutido no final deste capítulo) é sempre desejável para pacientes com histórico conhecido de convulsão. Pacientes epiléticos com convulsões sob controle (convulsões infrequentes) são risco ASA 2; aqueles com ocorrência mais frequente representam riscos ASA 3 ou 4. 24. Sede excessiva? Comentário: A polidipsia, ou sede excessiva, é encontrada em diabetes melito, diabetes insípida e hiperparatireoidismo. 25. Micção frequente? Comentário: A poliúria, ou micção frequente, pode ser benigna (muito consumo de líquido) ou sintoma de diabetes melito, diabetes insípida, síndrome de Cushing ou hiperparatireoidismo. 26. Secura bucal? Comentário: O medo é uma causa comum de sensação de boca seca, especialmente no consultório odontológico. Existem outras causas de xerostomia, incluindo síndrome de Sjögren e radioterapia na cavidade oral. 27. Icterícia? Comentário: A icterícia (pele, esclera ocular e membranas mucosas amarelas) ocorre pela deposição da bile em função do excesso de bilirrubina no sangue (hiperbilirrubinemia). É causada frequentemente por obstrução dos ductos biliares, destruição excessiva das hemácias (hemólise) ou distúrbio no funcionamento das células hepáticas. A icterícia é um sinal que pode indicar um problema benigno, como uma pedra na vesícula, obstruindo o ducto biliar comum, ou indicar um carcinoma pancreático, envolvendo a abertura do ducto biliar comum no duodeno. 28. Dores/rigidez das articulações? Comentário: Um histórico de dor/rigidez nas articulações (artrite) pode estar associado com o uso em longo prazo de salicilatos (aspirina) ou outros anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), alguns dos quais podendo alterar o processo de coagulação sanguínea. Pacientes com artrite que utilizam corticosteroides há muito tempo podem ter o risco aumentado de insuficiência adrenal aguda, especialmente aqueles pacientes que pararam o uso recentemente. Esses pacientes podem precisar reinstituir a terapia de corticosteroides ou podem necessitar de uma modificação (aumento) nas doses durante o tratamento odontológico, de tal forma que o corpo responderá melhor a qualquer estresse adicional que possa estar associado com o tratamento. Devido à possível dificuldade de posicionar o paciente confortavelmente, modificações talvez se mostrem necessárias ao posicionar o paciente com problemas articulares. A maioria dos pacientes que fazem uso dos corticosteroides é classificada como risco ASA 2 ou 3, dependendo do motivo pelo qual o paciente usa tais medicamentos e do grau de deficiência presente. Pacientes com grandes deficiências causadas pela artrite são considerados de ASA 3. Você Tem ou Já Teve? 29. Doença cardíaca? Comentário: Esta questão tenta detectar a presença de qualquer tipo de doença cardíaca. Na presença de um “sim”, o cirurgião-dentista deve buscar uma informação mais específica/detalhada sobre a natureza e severidade do problema, assim como uma lista de quaisquer medicamentos de que o paciente faça uso para tratar esta condição. 30. Ataque cardíaco, anormalidades no coração? Comentário: Ataque cardíaco é o termo leigo para infarto agudo do miocárdio (IM). O cirurgião-dentista deve determinar o tempo que se passou desde o infarto do miocárdio, sua severidade e o grau de dano residual ao músculo cardíaco, a fim de decidir se modificações no plano de tratamento são necessárias. Na maioria das vezes, o tratamento odontológico eletivo deve ser postergado em 6 meses após a ocorrência do infarto.8 A maioria dos pacientes pós-infarto do miocárdio são considerados risco ASA 3; entretanto, um paciente que tenha sofrido um infarto há menos de 6 meses do momento do tratamento odontológico planejado deve ser considerado risco ASA 4. Quando o dano residual ao miocárdio for pequeno ou inexistente, o paciente pode ser considerado risco ASA 2, após 6 meses. Insuficiência cardíaca (IC): o grau de insuficiência cardíaca (fraqueza da “bomba”) deve ser examinado através do diálogo com o paciente (anamnese). Quando o paciente possuir uma condição mais séria, como uma insuficiência cardíaca congestiva (ICC) ou dispneia (respiração trabalhosa) em repouso, modificações específicas no plano de tratamento são recomendadas. Nesta situação, o cirurgião-dentista deve considerar se o paciente necessita de suprimento de O2 durante o tratamento odontológico. Enquanto a maioria dos pacientes com insuficiência cardíaca é classificada como ASA 2 (leve insuficiência cardíaca sem incapacitação) ou ASA 3 (incapacitação ocorrendo durante exercício ou estresse), a presença de dispneia em repouso significa risco ASA 4. Lesões cardíacas congênitas: Um diálogo mais completo com paciente é necessário para determinar a natureza da lesão e o grau de incapacitação que esta produz. Pacientes com tais lesões podem representar os riscos ASA 2, 3 ou 4. O cirurgião- dentista pode recomendar uma consulta com o médico, especialmente nos pacientes pediátricos, para julgar a severidade da lesão. Alguns tratamentos odontológicos podem necessitar profilaxia antibiótica. 31. Sopros cardíacos? Comentário: Sopros cardíacos são comuns, mas nem todos os sopros são clinicamente significativos. O cirurgião-dentista deve determinar se um sopro é funcional (não patogênico ou ASA 2) ou se os sinais e sintomas clínicos de uma estenose ou regurgitação de válvula estão presentes (ASA 3 ou 4) e se a profilaxia antibiótica é justificada. O sintoma clínico fundamental de um sopro cardíaco significativo (orgânico) é a fadiga fácil. 32. Febre reumática? Comentário: Uma história de febre reumática deve incitar o cirurgião-dentista a fazer perguntas mais aprofundadas ao paciente sobre a presença de doença cardíaca reumática. Se a doença cardíaca reumática estiver presente, a profilaxia antibiótica pode minimizar o risco de o paciente desenvolver endocardite bacteriana subaguda. Dependendo da severidade da doença e da presença de incapacitação, pacientes com doença cardíaca reumática podem ser risco ASA 2, 3 ou 4. Modificaçõesadicionais no plano de tratamento odontológico podem ser recomendadas. 33. “Derrame”, enrijecimento das artérias? Comentário: O cirurgião-dentista deve dar uma atenção especial ao acidente vascular encefálico (AVE), vulgarmente conhecido como “derrame” ou “ataque cerebral” (termo algumas vezes utilizado para o público geral e profissionais de saúde ressaltando a urgência necessária de tratamento imediato da vítima de AVE). Um paciente que tenha sofrido um acidente vascular encefálico tem risco aumentado de sofrer outro AVE ou convulsão caso ocorra uma hipóxia. Se o cirurgião-dentista utilizar sedação no tratamento desse paciente, apenas níveis leves, como os utilizados na sedação por inalação ou sedação consciente, são recomendados. O cirurgião-dentista deve ficar atento à presença de isquemia cerebral transitória, uma precursora do AVE; isto representa um risco ASA 3. O paciente pós-acidente vascular encefálico tem um risco ASA 4 dentro dos 6 meses após AVE, tornando-se um paciente de risco ASA 3 passados 6 meses após o incidente (se a recuperação ocorrer sem intercorrências). Em raras ocasiões o paciente pós-AVE pode se tornar um com risco ASA 2. 34. Pressão sanguínea elevada? Comentário: A pressão sanguínea elevada é vista com frequência no tratamento odontológico, principalmente em função do estresse que muitos pacientes possuem no momento da consulta com o dentista (“síndrome do jaleco branco”). Nos pacientes com histórico de pressão arterial elevada, o cirurgião-dentista deve determinar os medicamentos que o paciente esteja tomando, os potenciais efeitos adversos desses medicamentos e quaisquer possíveis interações com outros medicamentos. As orientações para avaliação clínica do risco (classificações ASA) com base nos valores de pressão arterial para adultos são apresentadas no final deste capítulo. 35. Asma, tuberculose, enfisema ou outra doença pulmonar? Comentário: Determinar a natureza e severidade dos problemas respiratórios é parte essencial da avaliação do paciente. Muitos problemas agudos no ambiente odontológico estão relacionados ao estresse, aumentando a carga de trabalho do sistema cardiovascular e as necessidades de oxigênio de muitos tecidos e órgãos do corpo. A presença de doença respiratória severa pode influenciar significativamente o tratamento odontológico planejado. A asma (broncoespasmo, hiperreatividade das vias aéreas) é marcada pela obstrução parcial da via aérea inferior. O cirurgião-dentista deve determinar a natureza da asma (intrínseca [alérgica] ou extrínseca [não alérgica]), a frequência dos episódios agudos, os fatores precipitantes, o método de tratamento dos episódios agudos e os medicamentos que o paciente possa estar tomando, para minimizar a ocorrência desses episódios repentinos. O estresse é um fator precipitante comum em ataques asmáticos agudos. O paciente asmático bem controlado representa risco ASA 2, enquanto o paciente bem controlado, mas com asma induzida pelo estresse, representa um risco ASA 3. Pacientes cujos episódios agudos são frequentes ou difíceis de cessar (requerendo hospitalização) são riscos ASA 3 ou 4. Frente a um histórico de tuberculose, o cirurgião-dentista deve primeiro determinar se a doença está ativa ou inativa. (A tuberculose inativa representa risco ASA 2). Uma consulta médica e uma modificação no plano de tratamento odontológico são recomendadas, quando tal informação não for facilmente determinada. A sedação por inalação com óxido nitroso e O2 não é recomendada em pacientes com tuberculose ativa (ASA 3 ou 4), devido à probabilidade de os aparatos de borracha (reservatório e do condutor) se tornarem contaminados e à dificuldade de esterilização dos mesmos. Equipamentos descartáveis de borracha para sedação por inalação estão disponíveis para cirurgiões-dentistas que atendem pacientes portadores de tuberculose e outras doenças respiratórias infecciosas com frequência. O enfisema pulmonar é uma forma de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), também conhecida como doença crônica obstrutiva dos pulmões. O paciente com enfisema se depara com uma reserva respiratória diminuída quando as células do corpo necessitam de O2 extra durante o estresse. A terapia com oxigênio extra durante o tratamento odontológico é recomendada nos casos severos de enfisema pulmonar; entretanto, o paciente com enfisema grave (ASA 3, 4) não deve receber mais do que 3 litros de O2 por minuto.12 Esta restrição no fluxo ajuda a garantir que o cirurgião-dentista não elimine o estímulo hipóxico (drive) do paciente, o qual é o estímulo primário do paciente com enfisema para a respiração. O paciente portador de enfisema pulmonar é ASA 2, 3 ou 4, dependendo do grau de incapacidade que ele possua. 36. Hepatite, outra doença hepática? Comentário: Estas doenças ou problemas são transmissíveis (hepatite A e B) ou indicam a presença de disfunção hepática. Um histórico de transfusão sanguínea ou de uso de fármacos no passado ou presente deve alertar o cirurgião-dentista para um provável aumento do risco de disfunção hepática (a disfunção hepática é um diagnóstico comum em pacientes que abusam de fármacos parenterais). A hepatite C representa mais de 90% dos casos de hepatite pós-transfusão, mas apenas 4% das causas de hepatite C são atribuídas às transfusões sanguíneas; até 50% dos casos estão relacionados ao uso de fármacos intravenosos. O período de incubação da hepatite C é de 6 a 7 semanas. A doença clínica é leve, geralmente assintomática e caracterizada por uma taxa elevada (> 50%) de hepatite crônica.13 37. Problemas estomacais, úlceras? Comentário: A presença de úlceras estomacais ou intestinais pode indicar ansiedade crônica ou aguda e o possível uso de medicamentos, tais como tranquilizantes, inibidores de H1 e antiácidos. O conhecimento sobre quais medicamentos estão sendo utilizados pelo paciente é importante, antes de outros medicamentos serem ministrados no consultório. Diversos inibidores de H1 agora são vendidos sem receita (p. ex., difenidramina, prometazina, hidroxizina). Já que muitos pacientes não os consideram como “medicamentos verdadeiros”, o cirurgião-dentista deve questionar especificamente o paciente sobre seu uso. A presença de úlceras não representa em si um risco aumentado no tratamento odontológico. Na ausência de problemas médicos adicionais, o paciente pode ser considerado sendo risco ASA 1 ou 2. 38. Alergias a: medicamentos, alimentos, látex? Comentário: O cirurgião-dentista deve avaliar a presença de alergias no paciente antes de administrar qualquer tratamento odontológico ou medicamento. A importância desta pergunta e da sua avaliação completa não pode ser subestimada. Um relato completo e vigoroso feito pelo paciente deve ser realizado antes de qualquer tratamento odontológico, especialmente quando um histórico presumido ou documentado de alergia medicamentosa estiver presente. Reações adversas aos medicamentos não são incomuns, mas quase todas são rotuladas erroneamente pelo paciente e, em algumas ocasiões, pelo cirurgião-dentista, como sendo reações alérgicas. Entretanto, apesar da grande frequência com que as alergias são relatadas, reações medicamentosas verdadeiramente documentadas e reproduzidas são relativamente raras. O cirurgião- dentista deve avaliar completamente todas as reações adversas aos medicamentos, especialmente quando planeja administrar ou prescrever medicamentos muito parecidos para o paciente durante o tratamento odontológico (Caps. 22 a 25). Duas perguntas que devem ser feitas para cada alergia alegada pelo paciente são: (1) Descreva sua reação alérgica e (2) Como foi tratada? A presença de alergia por si só representa risco ASA 2. Nenhuma situação emergencial é tão assustadora para o cirurgião- dentista quanto a reação alérgica aguda e sistêmica, conhecida como anafilaxia, ou choque anafilático. A prevenção desta situação potencialmente fatal é ainda mais gratificante do que o tratamento da anafilaxia quando a mesma se desenvolve. 39. Histórico familiar de diabetes, problemas cardíacos,tumores? Comentário: O conhecimento do histórico familiar pode ajudar na determinação da presença de muitas desordens que possuem algum componente hereditário. 40. AIDS? Comentário: Pacientes positivos para o vírus da imunodeficiência humana (HIV) provêm de qualquer parte população. As técnicas convencionais de proteção devem ser utilizadas para minimizar os riscos de infecção cruzada, tanto para o paciente como para os membros da equipe de saúde. Pacientes HIV-positivos são considerados ASA 2, 3, 4 e 5, dependendo do progresso da infecção. 41. Tumores, câncer? Comentário: A presença da existência prévia de câncer de cabeça e pescoço pode necessitar de modificações específicas na terapia odontológica. Tecidos irradiados possuem resistência reduzida à infecção, vascularização diminuída e capacidade de cicatrização reduzida. Entretanto, não existe nenhuma contraindicação específica para a administração de medicamentos no tratamento da dor ou da ansiedade nestes pacientes. Muitas pessoas com câncer também podem estar recebendo depressores do sistema nervoso central (SNC) em longo prazo, tais como medicamentos ansiolíticos, hipnóticos e opioides. A consulta com o oncologista do paciente é recomendada antes do tratamento odontológico. Um histórico passado/atual de câncer não necessariamente aumenta o risco ASA. Contudo, pacientes caquéticos ou hospitalizados ou em condição física reduzida podem representar riscos ASA 4 ou 5. 42. Artrite, reumatismo? Comentário: Veja o comentário para a questão 28. 43. Doenças oculares? Comentário: Para pacientes com glaucoma, a necessidade de administrar um medicamento que diminua as secreções da glândula salivar necessita ser questionada. Anticolinérgicos, tais como atropina, escopolamina e glicopirolato, estão contraindicados em pacientes com glaucoma de ângulo fechado, já que podem produzir um aumento na pressão intraocular. Pacientes com glaucoma têm risco ASA 2. 44. Doença de pele? Comentário: A pele é uma cobertura protetora elástica e autorregenerativa. A pele também representa nossa principal apresentação física para o mundo e assim apresenta uma miríade de sinais e sintomas clínicos de doenças, tais como alergia, problemas cardíacos, respiratórios, hepáticos e endócrinos.14 45. Anemia? Comentário: A anemia é uma malignidade adulta relativamente comum, especialmente entre as mulheres adultas jovens (anemia ferropriva). O cirurgião-dentista deve determinar o tipo de anemia presente. A capacidade do sangue em transportar ou liberar O2 para outras células se encontra diminuída em pacientes anêmicos. Esta diminuição se torna significativa nos procedimentos nos quais a hipóxia pode ser provável de acontecer. Embora rara, a hipóxia é mais provável de surgir com uso de sedação intramuscular (IM), intranasal (IN) e intravenosa (IV) mais profunda (abaixo dos níveis de sedação moderada), nos casos em que a administração concomitante de O2 não é feita. Isso pode se tornar uma situação mais séria se o paciente estiver anêmico. Os fatores de risco ASA variam de 2 a 4, dependendo da severidade do déficit de O2. A anemia falciforme é vista exclusivamente em pacientes negros. Períodos de estresse ou deficiência de O2 (hipóxia) podem precipitar uma crise de anemia falciforme. A administração de O2 extra no tratamento é fortemente recomendada para pacientes com este tipo de anemia. Pessoas com traços falciformes apresentam risco ASA 2, enquanto aquelas com a doença anemia falciforme representam riscos 2 ou 3. Além disso, a metemoglobinemia congênita ou idiopática, embora rara, é uma contraindicação relativa à administração de prilocaína local anestésica.15 46. Doença venérea (sífilis ou gonorreia)? 47. Herpes? Comentário: No tratamento de pacientes com doenças sexualmente transmissíveis, cirurgiões-dentistas e membros da equipe odontológica possuem o risco de infecção. Na presença de lesões orais, o tratamento odontológico eletivo deve ser postergado. Técnicas convencionais de proteção, luvas de procedimento, óculos e máscaras fornecem um grau (mas não total) de proteção. Esses pacientes geralmente representam riscos ASA 2 e 3, mas podem ser 4 e 5 em situações extremas. 48. Doenças nos rins ou bexiga? Comentário: O cirurgião-dentista deve avaliar a natureza da desordem renal. As modificações no plano de tratamento odontológico, incluindo a profilaxia antibiótica, podem ser apropriadas para diversas formas crônicas de doença renal. Pacientes funcionalmente anéfricos são risco ASA 3 ou 4, enquanto pacientes com a maioria das outras formas de disfunção renal são riscos ASA 2 ou 3. O Quadro 2-2 mostra um exemplo de carta de encaminhamento, feita pelo cirurgião-dentista, a respeito de um paciente em hemodiálise em longo prazo devido à doença renal crônica (Fig. 2-6). 49. Doença da tireoide ou da adrenal? Comentário: A presença clínica de disfunção na glândula tireoide ou adrenal – tanto a hiper quanto a hipofunção – deve instigar o cirurgião-dentista a ter cautela na administração de certos grupos de medicamentos (p. ex., adrenalina aos pacientes com hipertireoidismo e depressores do SNC em pacientes com hipotireoidismo). Na maioria dos casos, entretanto, o paciente já se consultou com seu médico e já passou pelo tratamento para a desordem na tireoide, antes do momento da consulta odontológica. Neste caso, o paciente está no estado eutireóideo (níveis normais sanguíneos de hormônios da tireoide), devido à intervenção cirúrgica, irradiação ou terapia medicamentosa. O estado eutireóideo representa risco ASA 2, enquanto pacientes apresentando sinais e sintomas clínicos de hipertireoidismo ou hipotireoidismo representam risco ASA 3 ou, em casos raros, ASA 4. Pacientes com hipofunção do córtex adrenal possuem doença de Addison e recebem tratamento diário com doses de glicocorticosteroides. Em situações estressantes, seu organismo pode ser incapaz de responder adequadamente, levando à perda da consciência. A hipersecreção de cortisona, ou síndrome de Cushing, raramente resulta numa situação mortal. Quadro 2-2 Carta de encaminhamento Prezado Doutor, O paciente referido nesta carta está sob tratamento de hemodiálise há bastante tempo, em função de doença renal crônica. No tratamento odontológico deste paciente, favor observar as seguintes precauções: 1. O tratamento odontológico é mais seguro quando feito 1 dia depois da última diálise ou pelo menos 8 horas daí em diante. A heparina residual pode dificultar a hemostasia. (Alguns pacientes fazem uso de anticoagulante há longo prazo.) 2. Estamos preocupados sobre a disseminação bacteriana de shunts arteriovenosos e válvulas cardíacas. Nós recomendamos a profilaxia antibiótica antes e depois do tratamento odontológico. A seleção e a dosagem antibiótica podem ser traiçoeiras na insuficiência renal. Nós recomendamos 3 g de amoxicilina, 1 hora antes do procedimento, e 1,5 g, 6 horas após. Para pacientes com alergia à penicilina, 1 g de eritromicina, 1 hora antes do procedimento, e 500mg, 6 horas depois, são recomendados. Sinceramente, Cortesia de Kaiser Permanente Medical Center, Los Angeles, Califórnia. FIGURA 2-6 Paciente em diálise renal. 50. Diabetes? Comentário: Uma resposta positiva a esta pergunta requer mais investigação para determinar tipo, severidade e grau de controle da condição diabética. Um paciente com diabetes melito tipo 1 (diabetes melito insulinodependente) ou tipo 2 (diabetes melito não-insulinodependente) raramente possui risco elevado no tratamento odontológico ou em relação aos medicamentos comumente administrados (p. ex., anestésicos locais, adrenalina, antibióticos, depressores do SNC). Pacientes com diabetes tipo 2 geralmente são risco ASA 2; aqueles com diabetes tipo 1 bem controlados são risco ASA 3, enquanto aqueles com diabetes tipo 1 pobremente controlados são risco ASA 3 ou 4. As maiores preocupações no tratamento odontológico se relacionam aos possíveis efeitos do tratamento odontológico em relação a alimentação e desenvolvimento de hipoglicemia (nível de açúcar baixo no sangue). Pacientesque deixam o consultório ainda com anestesia dentária residual, especialmente na mandíbula, quando a língua e o lábio ainda se encontram dormentes, geralmente não se alimentam até essa sensação passar, um período que pode durar entre 3 e 5 horas (lidocaína, mepivacaína, articaína, prilocaína com vasoconstritor) ou mais (bupivacaína com vasoconstritor). A administração, ao final do tratamento odontológico traumático, de um agente que reverta o quadro de anestesia local – mesilato de fentolamina (OraverseR) – poderá reduzir significativamente o efeito prolongado da anestesia local.16, 17 Pacientes diabéticos precisam modificar as doses de insulina se não mantêm hábitos normais de alimentação. 51. Tratamento psiquiátrico? Comentário: O cirurgião-dentista deve estar ciente de qualquer nervosismo (em geral ou especificamente relacionado à odontologia) ou histórico de tratamento psiquiátrico, antes de tratar o paciente. Tais pacientes podem estar recebendo diversos medicamentos para suas desordens, os quais podem interagir com os medicamentos que o dentista prescreve para controlar a dor e ansiedade (Tabela 2-1). A consulta com o médico deve ser considerada em tais casos. Pacientes extremamente medrosos representam risco ASA 2, enquanto pacientes recebendo tratamento psiquiátrico e medicamentos representam riscos ASA 2 ou 3. 52. Tratamentos com irradiação? 53. Quimioterapia? Comentário: Terapias para o câncer. Veja o comentário para a questão 41. 54. Válvula cardíaca protética? Comentário: Pacientes com válvulas cardíacas artificiais não são mais incomuns. A preocupação principal do cirurgião- dentista deve ser determinar o regime antibiótico apropriado. Os protocolos profiláticos antibióticos11 listam estas necessidades. O dentista deve conversar com o médico do paciente (p. ex., cardiologista ou cirurgião cardiotorácico) antes de iniciar o tratamento odontológico. Pacientes com válvulas cardíacas protéticas geralmente representam riscos ASA 2 ou 3. 55. Prótese articular artificial? Comentário: Aproximadamente 200.000 artroplastias de quadril e 400.000 artroplastias de joelho foram feitas nos Estados Unidos, em 200318. Esse número está projetado para aumentar ainda mais, para 380.000 artroplastias de quadril e 1.500.000 artroplastias de joelho, em 2020. Infecções de implantes ortopédicos têm taxas que variam entre 0,3% e 8,3%.18 Um painel de especialistas em odontologia, cirurgia ortopédica e doenças infecciosas, reunido pela American Dental Association (ADA) e da American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS), revisou profundamente os dados disponíveis, para determinar a necessidade de profilaxia antibiótica, a fim de prevenir as infecções hematogênicas de prótese articulares em pacientes odontológicos que passaram por procedimentos de artroplastias articulares totais. As recomendações feitas por essas instituições (AAOS/ADA Clinical Practice Guideline) estão apresentadas no Quadro 2-3.18 56. Hospitalização? 57. Transfusões sanguíneas? 58. Cirurgias? Comentário: A causa da hospitalização deve ser determinada, bem como a duração da estada no hospital e quaisquer medicamentos prescritos de que o paciente ainda possa estar fazendo uso. É necessário determinar a razão para transfusão sanguínea (p. ex., sangramento prolongado, acidente, tipo de cirurgia), bem como determinar natureza (eletiva, emergencial) e tipo de cirurgia (p. ex., cosmética, gastrintestinal, cardíaca), além da condição física do paciente no momento da consulta odontológica. Quadro 2-3 Recomendações de AAOS/ADA clinical practice guidelines Recomendação 1: O cirurgião-dentista deve considerar descontinuar a prática rotineira de prescrever profilaxia antibiótica para pacientes com prótese de joelho e quadril que irão ser submetidos a tratamento odontológico. Recomendação 2: Nós somos incapazes de recomendar a favor ou contra o uso de antimicrobianos tópicos orais para pacientes com uso de próteses articulares, ou outros implantes ortopédicos, que serão submetidos ao tratamento odontológico. Recomendação 3: Na ausência de evidências confiáveis que correlacionem a má higiene oral com a infecção da prótese articular, é opinião do grupo de trabalho que os pacientes com próteses articulares ou outro implante ortopédico devam manter uma higiene oral apropriada. Por American Dental Association, American Academy of Orthopedic Surgeons: Antibiotic prophylaxis for dental patients with total joint replacements, JADA 134:895–898, 2003. 59. Marca-passo? Comentário: Os marca-passos cardíacos são implantados embaixo da pele, na região superior do tórax ou no abdome com os fios se estendendo ao miocárdio (Fig. 2-7). A indicação mais frequente para o uso do marca-passo é a presença de uma arritmia clinicamente significativa. Os marca-passos de frequência fixa fornecem uma contínua frequência cardíaca regular, independente do ritmo próprio do coração, enquanto o marca-passo mais comumente utilizado é ativado apenas quando o ritmo cardíaco atinge uma variação predeterminadamente anormal. Embora exista pouca indicação para o uso de antibióticos nestes pacientes, a consulta com o médico é sugerida, antes do tratamento odontológico, para se obterem recomendações específicas. O paciente com marca-passo é um paciente de risco ASA 2 ou 3 no tratamento odontológico. Nos últimos anos, pessoas com risco significativo de morte repentina e inesperada (p. ex., parada cardiorrespiratória), em função de instabilidade elétrica do miocárdio (p. ex., fibrilação ventricular), têm recebido cardioversores/desfibriladores implantáveis abaixo da pele do tórax (Fig. 2-8). A consulta médica é muito recomendada para estes pacientes, os quais apresentam risco ASA 3 ou 4 (devido ao grau mais acentuado de instabilidade cardíaca). FIGURA 2-7 Fotografia de um marca-passo. (Retirado de Forbes CD, Jackson WF: Color atlas and text of clinical medicine, ed 3, Edinburgh, Elsevier Ltd, 2004.) FIGURA 2-8 Cardioversor/desfibrilador implantável. (Retirado de Forbes CD, Jackson WF: Color atlas and text of clinical medicine, ed 3, Edinburgh, Elsevier Ltd, 2004.) 60. Lentes de contato? Comentário: Lentes de contato são constantemente utilizadas por pessoas que apresentem distúrbios de visão. As considerações odontológicas para esses pacientes incluem a remoção das lentes durante o uso de sedação consciente nas técnicas oral, IM, IN, IV e inalatória. Pacientes sedados podem não fechar seus olhos com a mesma frequência que pacientes não sedados, aumentando assim a probabilidade de irritação da esclera e da córnea ocular. Você está fazendo uso de: 61. Drogas recreacionais? Comentário: Embora alguns pacientes possam não admitir o uso de drogas recreacionais, é importante perguntar. Isto se torna ainda mais importante quando o cirurgião-dentista considera o uso de depressores do SNC para sedação e anestesia local com ou sem vasoconstritor, tal qual a adrenalina. 62. Drogas, medicamentos, remédios sem receita (incluindo a aspirina), remédios homeopáticos? Comentário: Já que muitos pacientes fazem uma distinção entre “droga” e “medicamento”, os questionários devem usar ambos os termos para determinar quais medicamentos (substâncias farmaceuticamente ativas) o paciente está utilizando. Infelizmente, no mundo de hoje, o termo “droga” geralmente conota o uso ilícito de medicamentos (p. ex., heroína, cocaína). Nas mentes de muitos pacientes, pessoas “usam” drogas, mas “tomam” medicamentos para tratar condições sistêmicas. Muitos remédios naturais contêm substâncias ativas, algumas das quais podem interagir com medicamentos comumente utilizados na odontologia.19, 20 O cirurgião-dentista deve estar ciente de todos os medicamentos e fármacos de que os pacientes possam estar fazendo uso, para controlar e tratar suas desordens médicas. Frequentemente, os pacientes tomam medicamentos sem entender o tipo de desordem que esse medicamento se dispõe a tratar; muitos nem sequer sabem o nome dos remédios que estão tomando. Torna-se importante, portanto, que os cirurgiões-dentistas tenhamum ou mais meios de identificar estas medicações e determinar suas indicações, efeitos adversos e interações medicamentosas. Muitas fontes excelentes estão disponíveis, incluindo serviços on-line como o Clinical Key (www.clinicalkey.com) e o Epocrates (www.epocrates.com). O Physicians’ Desk Reference (PDR),21 tanto em papel quanto on-line, oferece um quadro que ajuda na identificação dos medicamentos mais comumente prescritos. O PDR também oferece o Physicians Desk Reference para medicamentos naturais.22 O ADA Guide to Dental Therapeutics também é uma referência valiosa frente aos medicamentos comumente prescritos na odontologia e aos medicamentos mais prescritos pelos médicos. O livro ressalta as complicações potenciais e interações medicamentosas. No Brasil, o Dicionário de Especialidades Farmacêuticas (DEF) é constantemente utilizado para este fim, sendo de grande valia para os medicamentos prescritos tanto para a odontologia como para a medicina.23 O conhecimento dos medicamentos e drogas de que os pacientes possam estar fazendo uso permite ao cirurgião-dentista identificar desordens médicas, possíveis efeitos adversos – alguns dos quais podem ter importância no tratamento odontológico (p. ex., hipotensão postural) – e possíveis interações entre estes medicamentos e aqueles administrados durante o tratamento odontológico (Tabela 2-1). 63. Tabaco de qualquer espécie? 64. Álcool? Comentário: O uso em longo prazo de tabaco ou álcool pode gerar problemas potencialmente ameaçadores da vida, incluindo neoplasias, disfunção hepática, e, nas mulheres, complicações durante a gravidez. Pacientes que fumam ou que tenham fumado tabaco devem ser considerados como risco ASA 2. Mulheres apenas: 65. Você está/poderia estar grávida/amamentando? 66. Fazendo uso de contraceptivos? Comentário: A gravidez representa uma contraindicação relativa ao tratamento odontológico extenso e eletivo, especialmente durante o primeiro trimestre. A consulta com o obstetra/ginecologista da paciente é recomendada antes do início de qualquer tratamento odontológico. Embora a administração de anestesia local com ou sem adrenalina seja permitida durante a gravidez*, o cirurgião-dentista deve avaliar os riscos e benefícios do uso da maioria dos medicamentos sedativos. Das técnicas de sedação disponíveis, a sedação por inalação do óxido nitroso e O2 é recomendada. O uso das vias orais IM ou IV não está contraindicado, mas deve ser reservado para pacientes dentre os quais outras técnicas não se aplicam. Todos os pacientes: 67. Você tem/já teve quaisquer outras doenças ou problemas médicos NÃO listados neste formulário? Comentário: O paciente é encorajado a comentar sobre questões específicas não mencionadas anteriormente. Exemplos de desordens possivelmente significativas incluem a porfiria intermitente aguda, metemoglobinemia, colinesterase plasmática atípica e hipertermia maligna. Dentro dos meus conhecimentos, respondi cada questão de modo completo e preciso. Eu informarei o meu cirurgião- dentista sobre qualquer mudança em minha saúde e/ou medicação. Comentário: Esta afirmação final é importante do ponto de vista médico-legal porque, embora casos de mentira proposital sejam raros, elas ocorrem. Esta afirmação deve ser acompanhada pela data na qual o histórico de saúde foi colhido e a assinatura do paciente (ou do parente responsável ou do guardião se o paciente for menor ou não legalmente competente) e a do cirurgião-dentista que revisou a história. Por efeito, isto se torna um contrato, obrigando o paciente, responsável ou guardião a relatar quaisquer mudanças na saúde ou medicação do paciente. Brady e Martinoff6 demonstraram que a análise da saúde pessoal do paciente frequentemente é muito otimista e que as questões pertinentes muitas vezes não são imediatamente relatadas. *Categorias de risco da Food and Drug Administration (FDA) durante a gravidez em relação aos anestésicos locais: B- lidocaína, prilocaína; C- articaína, bupivacaína, mepivacaína, epinefrina. QUESTIONÁRIO DE HISTÓRIA MÉDICA O questionário de história médica deve ser atualizado regularmente, aproximadamente a cada 3-6 meses ou depois de qualquer lapso prolongado no tratamento. Na maioria dos casos, nem todo o questionário precisa ser refeito. O cirurgião- dentista precisa perguntar apenas as seguintes questões: 1. Você notou alguma mudança na sua saúde geral desde a última consulta odontológica? 2. Você está no momento sob tratamento médico? Se sim, qual condição está sendo tratada? 3. Você está, no momento, fazendo uso de algum medicamento, droga ou remédio que não precise de receita médica? Se qualquer uma destas perguntas desencadear uma resposta positiva, deve ser feito um relato detalhado pelo paciente. Por exemplo, o paciente pode responder que não houve mudança na sua saúde geral, mas desejar notificar ao cirurgião- dentista uma mudança menor na sua condição de saúde, como, por exemplo, o final de uma gravidez ou o diagnóstico recente de diabetes tipo 2 ou asma. Em qualquer uma dessas situações, um registro por escrito da atualização do histórico médico deve ser anexado ao prontuário do paciente ou ao formulário de saúde. Quando a condição de saúde do paciente apresentar mudanças de maneira significativa desde o preenchimento do último histórico médico, todo o histórico deve ser refeito (p. ex., se o paciente foi diagnosticado recentemente com doença cardiovascular e seu tratamento requerer uma variedade de medicamentos que não tenham sido previamente prescritos). TabEla 2-1 Interações medicamentosas em odontologia Medicamento odontológico Interação medicamentosa Consideração Ação Anestésicos locais (ALs) Cimetidina, bloqueadores beta- adrenérgicos (propranolol) Metabolismo hepático do AL amida pode ser deprimido Use os ALs cuidadosamente, especialmente em doses repetidas Antiarrítmicos (mexiletina, tocainida) Aditivos para o SNC, depressão do SNC Use os ALs cuidadosamente – mantenha a dosagem o mais baixa possível para atingir a anestesia Depressores do SNC: álcool, antidepressivos, anti-histamínicos, benzodiazepínicos, antipsicóticos, anti-hipertensivos de ação central, relaxantes musculares, outros ALs, opioides Possivelmente aditivos ou supra-aditivos do SNC, depressão respiratória Considere limitar a dose máxima dos ALs, especialmente com opioides Inibidores da colinesterase: Medicamentos antimiastênicos antiglaucomas A dosagem do medicamento antimiastênico requer ajuste porque o AL inibe a transmissão neuromuscular Consulta com o médico Vasconstritores Adrenalina Bloqueadores alfa-adrenérgicos (fenoxibenzamina, prazosin) Possível resposta hipotensiva após dose elevada de adrenalina Use o vasoconstritor com cautela – menor dose possível Antipsicóticos (haloperidol, entacapona) Inibidores da metiltransferase catecolamina-O (tolcapona, entacapona) Pode potencializar as ações sistêmicas dos vasoconstritores Use o vasoconstritor com cautela – menor dose possível Estimulantes do SNC (anfetamina, metilfenidato); derivados de ergotamina (diidroergotamina, metisergida) ↑ efeito do estimulante ou vasoconstritor pode ocorrer Use o vasoconstritor com cautela – menor dose possível Cocaína ↑ efeitos dos vasoconstritores; pode resultar em parada cardiorrespiratória Evite o uso de vasoconstritor em paciente sob influência de cocaína Glicosídeos digitálicos (digoxina, digitoxina) ↑ risco de disritmias cardíacas Consulta com o médico Levodopa, hormônios da tireoide (levotiroxina, liotironina) Doses elevadas de ambos (além das doses de manutenção) podem ↑ risco de toxicidade cardíaca Use o vasoconstritor com cautela – menor dose possível Antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, doxepin, imipramina) Pode potencializar o efeito sistêmico do vasoconstritor Evite levonordefrina ou noradrenalina; use adrenalina cautelosamente – menor dose possível Beta-bloqueadores não seletivos (propranolol, nadolol) Pode gerar respostas hipertensivas, especialmente no caso da adrenalina Monitore a pressão sanguínea arterial apósinjeção inicial de AL Benzodiazepínicos, Zolpidem, Zalepon Álcool ou depressores do SNC O uso concomitante pode ↑ efeitos depressores de ambos os agentes Observe o ↑ resposta à depressão do SNC; ↓ dose de BDZ se necessário resposta do benzodiazepínico Clorpromazina Com zolpidem, zaleplon: Uso concomitante pode prolongar a eliminação da meia-vida da clorpromazina Monitoramento para caso de potencialização da resposta Cimetidina Pode potencializar certas ações dos benzodiazepínicos, especialmente a sedação Monitorar para resposta aumentada do benzodiazepínico Disulfiram Pode aumentar a ação depressiva no SNC de certos benzodiazepínicos Monitorar para resposta aumentada do benzodiazepínico Eritromicina, claritromicina, troleandomicina Pode ↓ metabolismo de certos benzodiazepínicos, ↑ efeito depressivo no SNC Monitorar para resposta aumentada do benzodiazepínico Imipramina Com zolpidem, zaleplon: Uso concomitante pode ↑ sonolência e risco de amnésia anterógrada; pode também ↓ concentrações de pico da imipramina Contraceptivos orais Pode inibir o metabolismo do benzodiazepínico que sofre oxidação Monitorar para resposta aumentada do benzodiazepínico Teofilinas Pode antagonizar efeitos sedativos do benzodiazepínico Monitorar para resposta ↓ do benzodiazepínico Barbitúricos Paracetamol Risco de ↑ hepatotoxicidade pode existir com dose elevada ou crônica dos barbitúricos Monitorar enzimas hepáticas Evitar uso prolongado de dosagem elevada Álcool Uso concomitante pode ↑ efeitos depressivos no SNC de qualquer um dos dois agentes Monitorar paciente para ↑ efeitos depressivos no SNC Anticoagulantes Pode ↑ metabolismo dos anticoagulantes, resultando numa ↓ de resposta Terapia com barbitúricos não deve ser iniciada ou interrompida sem considerar a possibilidade de reajuste da dose anticoagulante Contraceptivos orais Confiabilidade pode diminuir em função do metabolismo acelerado do estrogênio causado pela indução das enzimas hepáticas pelos barbitúricos Sugerir forma alternativa de controle populacional Doxiciclina Fenobarbital ↓ níveis séricos e a meia-vida da doxiciclina A dose da doxiciclina pode precisar ser aumentada I-MAO I-MAO pode potencializar os efeitos sedativos dos barbitúricos Considere dose reduzida de barbitúrico Metronidazol A efetividade antimicrobiana do metronidazol pode ser reduzida A dose de metronidazol pode precisar ser aumentada Narcóticos Pode ↑ toxicidade da meperidina e ↓ efeito da metadona Monitorar efeito excessivo da meperidina; dosagem da metadona pode precisar ser aumentada Teofilina Barbitúricos ↓ níveis de teofilina possivelmente resultando em ↓ dos efeitos Clinical Key Ácido valproico Uso concomitante pode ↓ metabolismo dos barbitúricos resultando em ↑ das concentrações plasmáticas Monitorar efeito excessivo do fenobarbital Opioides (usados para sedação consciente) Benzodiazepínicos ↑ depressão respiratória ↑ tempo de recuperação ↑ risco de hipotensão Doses tituladas e monitoração para sedação excessiva Cimetidina Ações dos opioides podem ser potencializadas resultando em toxicidade Se ocorrer depressão significante do SNC, retirar o medicamento; se justificado, administrar um antagonista do opioide, como a naloxona Depressores do SNC ↑ depressão no SNC Monitorar excesso de sedação Diuréticos/anti-hipertensivos ↑ efeitos hipotensivos Monitorar PA Inibidores da MAO Com meperidina: agitação, convulsões, febre, coma, apneia, morte Evitar esta combinação Fenotiazinas ↑ ou ↓ efeitos dos analgésicos opioides. Hipotensão pode ocorrer quando a fenotiazina é administrada com a meperidina Evitar o uso concomitante de meperidina e fenotiazinas Hidrato de cloral Depressores do SNC Uso concomitante pode ↑ efeitos depressivos no SNC de qualquer um dos medicamentos Monitorar excesso de depressão do SNC Anticoagulantes, cumarina ou derivados da indandiona Desacoplamento entre anticoagulantes e as proteínas do plasma ↑ o efeito anticoagulante Evitar o uso Catecolamina Doses elevadas de hidrato de cloral podem sensibilizar o miocárdio à catecolamina Evitar tratar overdose de hidrato de cloral com catecolamina Opioides convencionais (usados para controle da dor pós-operatória) Medicamentos agonista-antagonista (nalbufina, butorfanol, pentazocina) Pode gerar síndrome da abstinência ou perda da analgesia com hipertensão, taquicardia Nunca prescrever opioides agonistas-antagonistas com opioides agonistas convencionais Álcool Efeitos adversos sedativos Aconselhar os pacientes a nunca ingerir álcool com opioides Anfetaminas Com meperidina; hipotensão, colapso respiratório Não prescrever meperidina para um paciente que faz uso de anfetaminas Anticolinérgicos Constipação Prescrever opioides somente por curto período de tempo; considere consulta com o médico Antidiarreicos Constipação Prescrever opioides somente por curto período de tempo; considere consulta com o médico Anti-hipertensivos e vasodilatadores Potencialização dos efeitos hipotensivos Aconselhar os pacientes a relatar ao cirurgião-dentista se ocorrer hipotensão ou vertigem Barbitúricos Efeitos colaterais sedativos Alertar o paciente para possíveis efeitos aditivos e notificar o cirurgião-dentista caso não tolerados Depressores do SNC Efeitos sedativos adversos Alertar o paciente para possíveis efeitos adversos aditivos e notificar o cirurgião-dentista caso não bem tolerado Hidroxizina Efeitos sedativos adversos Alertar o paciente para possíveis efeitos adversos aditivos e notificar o cirurgião-dentista caso não bem tolerado Hipnóticos (sedativos) Efeitos sedativos adversos Alertar o paciente para possíveis efeitos adversos aditivos e notificar o cirurgião-dentista caso não bem tolerado Inibidores da MAO Com meperidina: hipertensão severa Evitar prescrever meperidina para pacientes que tomam inibidores da MAO; prescrever opioides por curtos períodos de tempo; considerar consultar o médico Metoclopramida Pode antagonizar Metoclopramida Outros opioides Efeitos sedativos diversos Evite prescrever 2 opioides de uma só vez, a menos para dor crônica AINE Álcool ↑ risco de ulceração Aconselhar o paciente para evitar, se possível Anticoagulantes orais ↑ risco de sangramento Aconselhar o paciente de que o uso concomitante está contraindicado Anti-hipertensivos Efeito ↓ pelos AINEs Monitorar a PA Aspirina ↑ do risco de ulceração e sangramento Aconselhar o paciente de que o uso concomitante é contraindicado AINEs que não a aspirina ↑ do risco de ulceração e sangramento Evitar esta combinação Corticosteroides ↑ do risco de sangramento Evitar combinação, se possível Ciclosporina Pode causar nefrotoxicidade Evitar combinação, se possível Digitálicos ↑ níveis de digitalis Evitar combinação, se possível Diuréticos (especialmente o triantereno) Efeitos ↓ pelos AINEs Monitorar PA/retenção excessiva de fluido Heparina ↑ risco de sangramento Aconselhar o paciente de que o uso concomitante é contraindicado Hipoglicêmicos orais Efeitos ↑ pelos AINEs Aconselhar o paciente para monitorar cuidadosamente a glicose sanguínea Lítio Concentração ↑ pelos AINEs Contraindicado, salvo aprovação pelo médico, evitar uso concomitante Suplementos de potássio ↑ do risco de ulceração Evitar combinação, se possível Ácido valproico ↑ do risco de ulceração e sangramento Evitar combinação, se possível Penicilinas e cefalosporinas Alopurinol Uso concomitante com ampicilina, amoxicilina ou amoxicilina com ácido clavulânico ↑ incidência de pruridos Monitorar sinais de prurido e necessidade de trocar por outro antibiótico Contraceptivos orais combinados com estrogênio e progestina Relatos esporádicos de ↓ da efetividade do contraceptivo, resultando em gravidez inexplicável A paciente deve ser avisada sobre a possível ↓ na efetividade e encorajada ao uso de outros métodos de controle de natalidade enquanto toma estas penicilinas Probenecida Pode ↓ secreção tubular renal da penicilina e cefalosporinas resultando em ↑ e níveis sanguíneos prolongados dos antibióticos Monitorar paciente paranecessidade no ajuste da dose do antibiótico Macrolídeos Alfentanil Depressão respiratória prolongada ou potencializada com uso concomitante da eritromicina O uso crônico pré-operatório e pós- operatório da eritromicina está contraindicado Carbamazepina ↑ do risco de ataxia, vertigem, sonolência e confusão com uso concomitante da eritromicina ou claritromicina Se usado ao mesmo tempo, deve ser feito com grande cautela Ciclosporina ↑ da imunossupressão e nefrotoxicidade com uso concomitante da eritromicina ou claritromicina Uso concomitante destes medicamentos está contraindicado Digoxina A eritromicina pode levar ao ↑ dos níveis de digoxina no sangue levando a toxicidade pelo digitálico com disritmias cardíacas resultantes Claritromicina também está relatada com aumento dos níveis de digoxina Uso concomitante destes medicamentos está contraindicado Felodipina ↑ risco de hipotensão, taquicardia e edema com uso simultâneo da eritromicina. Uso concomitante destes medicamentos está contraindicado Lovastatina Dor muscular e lise musculoesquelética com uso concomitante da eritromicina Uso concomitante destes medicamentos está contraindicado Contraceptivos orais com estrogênio e progestina Relatos esporádicos de ↓ da efetividade do contraceptivo oral, resultando em gravidez inexplicável A paciente deve ser avisada sob a possível ↓ na efetividade e encorajada ao uso de outros métodos de controle de natalidade enquanto toma estes macrolídeos Teofilina ↑ do risco de taquicardia, disritmias cardíacas, tremores e convulsões relatadas com o uso concomitante de eritromicina ou claritromicina Uso concomitante destes medicamentos está contraindicado Triazolam ou midazolam ↑ acentuado dos níveis sanguíneos de ambos os benzodiazepínicos gerando ↑ de profundidade de sedação e duração relatada com uso concomitante da eritromicina O uso concomitante destes medicamentos está contraindicado Varfarina A eritromicina e claritromicina ↓ o metabolismo da varfarina e podem ↑ significativamente os tempos de protrombina e/ou de INR e ↑ o risco de sangramento sério nos pacientes que recebem terapia anticoagulante Ajustagens na dosagem de varfarina podem ser necessárias durante e após a terapia e os tempos de protrombina e/ou de INR devem ser monitorados atentamente Tetraciclinas Combinações contendo qualquer um dos seguintes medicamentos: antiácidos, cálcio, magnésio, alumínio, suplementos de ferro, bicarbonato de sódio As moléculas de tetraciclina quelam os cátions divalentes e trivalentes, dificultando a absorção Claritromicina também está relatada com aumento dos níveis sanguíneos de digoxina Aconselhar os pacientes para não tomarem estes medicamentos dentro de 1-3h da tetraciclina oral Digoxina As tetraciclinas podem ↑ os níveis sanguíneos de digoxina, gerando toxicidade pelos digitálicos, resultando em arritmia cardíaca O uso concomitante destes medicamentos está contraindicado Contraceptivos orais, estrogênio e progestina combinados Relatos de ↓ da efetividade dos contraceptivos orais em mulheres que tomam tetraciclinas, resultando em gravidez não planejada A paciente deve ser avisada sob a possível ↓ na efetividade e encorajada ao uso de outros métodos de controle de natalidade enquanto toma tetraciclinas Varfarina A tetraciclina pode ↓ o metabolismo da varfarina e pode ↑ significativamente os tempos de protrombina e INR e ↑ o risco de sangramento sério em paciente com terapia anticoagulação Ajustes na dosagem de varfarina podem ser necessários durante e depois da terapia, e os tempos de protrombina e INR devem ser monitorados rigidamente Clindamicina Antidiarreicos O uso concomitante de clindamicina e antidiarreicos contendo caolin ou atapulgita pode retardar a absorção da clindamicina via oral Se o uso concomitante destes medicamentos for necessário, cautela e monitoração cuidadosa da respiração estão indicadas Analgésicos narcóticos O uso concomitante da clindamicina pode levar a ↑ ou depressão respiratória ou apneia prolongada O uso concomitante está contraindicado; de outro modo, os pacientes devem tomar antidiarreicos absorvíveis não menos do que 2 horas antes ou 3-4 horas depois da clindamicina oral Agentes bloqueadores neuromusculares O uso concomitante da clindamicina pode potencializar o bloqueio neuromuscular, resultando em fraqueza dos músculos esqueléticos e depressão respiratória ou apneia Evitar o uso concomitante; se necessário, monitorar cuidadosamente o paciente para fraqueza muscular ou depressão respiratória Metronidazol Álcool Anticoagulantes Cimetidina, fenobarbital, fenitoína Dissulfiram A combinação pode produzir um efeito dissulfiram, levando a dermatite facial, dor de cabeça, palpitações e náusea A cumarina ou anticoagulantes derivados da indandiona podem ser potencializados pelo metronidazol resultando em ↑ dos O uso concomitante está contraindicado, e uso deve ser postergado pelo menos 1 dia após a ingestão de álcool Ajustes nos anticoagulantes podem ser necessários em consulta com o tempos de protrombina e INR As taxas de clearance hepático podem ser afetadas pelo uso concomitante do metronidazol Em pacientes alcoólicos, reações psicóticas têm sido relatadas em uso concomitante dentro de 2 semanas do uso do dissulfiram médico O uso concomitante destes medicamentos é contraindicado O uso concomitante destes medicamentos é contraindicado Ciprofloxacina Aminofilina, oxtrifilina ou teofilina O uso concomitante destes medicamentos e ciprofloxacina pode resultar em ↑ do risco de toxicidade relacionada à teofilina com sérias reações ameaçadoras da vida O uso concomitante destes medicamentos é contraindicado Antiácidos contendo alumínio, cálcio ou magnésio; laxantes contendo magnésio A absorção da ciprofloxacina pode ficar ↓ pela quelação por estes medicamentos O uso concomitante destes medicamentos é contraindicado Cafeína O uso concomitante de cafeína e ciprofloxacina pode ↓ o metabolismo da cafeína, resultando em estimulação do SNC O uso concomitante destes medicamentos é contraindicado Ciclosporina O uso concomitante de ciprofloxacina tem sido relatado com um ↑ na creatinina do soro e nas concentrações séricas de ciclosporina As concentrações de ciclosporina devem ser monitoradas e os ajustes nas dosagens podem ser necessários Vitamina ou suplementos minerais contendo sulfato de ferro ou zinco Absorção da ciprofloxacina pode ficar ↓ pela quelação por estes agentes O uso concomitante destes medicamentos é contraindicado Varfarina O uso concomitante de varfarina e ciprofloxacina ↑ o efeito anticoagulante da varfarina, ↑ o risco de sangramento Os tempos de protrombina e INR dos pacientes recebendo varfarina e ciprofloxacina devem ser cuidadosamente monitorados Trimetoprima e sulfametoxazol Cumarina ou anticoagulantes derivados da indanediona O uso concomitante pode prolongar os tempos de protrombina e INR e levar ao sangramento Os tempos de protrombina e INR dos pacientes que tomam concomitantemente estes medicamentos devem ser monitorados cuidadosamente Anticonvulsivantes hidantoína O uso concomitante pode gerar níveis séricos elevados de fenitoína O uso concomitante destes medicamentos é contraindicado Diuréticos da tiazida Pacientes idosos tomando tiazida têm ↑ risco de trombocitopenia se estes medicamentos são tomados concomitantemente Se estes medicamentos são tomados concomitantemente, as contagens plaquetárias e os sinais clínicos em púrpura devem ser monitorados cuidadosamente SCV = sistema cardiovascular; SNC, sistema nervoso central; PA: pressão arterial; BDZ, benzodiazepínicos; HC: hidrato de cloral; INR: proporção de normalização internacional. Interações medicamentosas de grande significado clínico estão em itálico e negrito para maior ênfase. De Ciancio SG: ADA guide to dental therapeutics, 3rd ed, Chicago, American Dental Association, Chicago, 2003. Copyright © 2003 American Dental Association. Todos os direitos reservados. Retirado em 2007 com permissão. Na realidade, a maioria das pessoas não passa pormudanças significativas na sua condição sistêmica de saúde regularmente. Assim, um questionário de saúde pode permanecer atual por muitos anos e a capacidade de demonstrar que o histórico médico do paciente foi atualizado regularmente se torna fundamental. O questionário de história médica deve ser preenchido com caneta. Quando necessário, o cirurgião-dentista faz uma correção ou remoção de alguma informação, passando uma linha sobre o escrito original, sem obliterá-lo. Qualquer modificação a ser feita é então adicionada junto com sua data. O cirurgião-dentista deve colocar sua rubrica na mudança. Uma anotação por escrito deve ser colocada no prontuário, sempre que o paciente revelar informações significativas no seu histórico. Como exemplo, quando um paciente responde afirmativamente à questão sobre ter tido um infarto do miocárdio, o cirurgião-dentista deve fazer uma especificação ao lado da informação, do tipo “junho de 2010” (ano em que ocorreu o infarto do miocárdio). Exame físico Mesmo sendo o completo questionário de história médica de tamanha importância na verificação geral da saúde física e psicológica do paciente, o mesmo possui limitações. Para que o questionário de histórico de saúde seja válido, os pacientes devem (1) estar cientes da sua condição de saúde e de quaisquer condições sistêmicas existentes e (2) estar dispostos a compartilhar esta informação com o cirurgião-dentista. A maioria dos pacientes não omite conscientemente informações importantes sobre a sua condição médica. Entretanto, tais omissões têm sido observadas. Por exemplo, um paciente que procura tratamento para um dente com inflamação aguda pode decidir esconder do seu dentista o fato de ter sofrido um infarto do miocárdio 2 meses antes, porque sabe que fornecendo esta informação provavelmente levará a uma não continuidade no seu tratamento odontológico.24 A causa mais provável de omissão não intencional de informação é o paciente não estar ciente da existência do problema. Muitas pessoas “saudáveis” não visitam seus médicos para exames regulares. Na verdade, informações recentes sugerem que visitas médicas anuais são descontinuadas em pacientes saudáveis com menos de 40 anos de idade, uma vez que o exame físico anual não se mostra tão valioso em auxiliar na medicina preventiva quanto os pesquisadores acreditavam.25 A maioria das pessoas simplesmente não visita seus médicos regularmente, fazendo-o apenas quando se sentem doentes. Assim, tanto o paciente quanto o cirurgião-dentista podem não estar cientes de uma desordem sistêmica existente. Simplesmente pelo fato de a pessoa se sentir bem não significa que ela necessariamente se encontra em boa saúde. Muitas desordens podem se apresentar em estados subclínicos por meses ou anos sem apresentar sinais ou sintomas clínicos evidentes. Quando tais sinais e sintomas, como dificuldade respiratória ou fadiga, ocorrem, muitos pacientes os confundem com problemas mais benignos. As primeiras perguntas existentes na maioria dos questionários de saúde estabelecem o tempo desde a última consulta médica do paciente até o momento. O cirurgião-dentista pode precisar o valor das respostas sobre as doenças específicas nas seções III e IV. Quanto mais recente o último exame físico do paciente, mais valiosas são as respostas para o histórico médico. Em função destes problemas, os questionários de saúde nem sempre são confiáveis. O dentista deve buscar fontes adicionais de informação sobre a condição física do paciente. O exame físico fornece muitas dessas informações. Tal exame físico na odontologia consiste nos seguintes passos: ■ Monitoração dos sinais vitais ■ Inspeção visual do paciente ■ Testes funcionais, quando indicado ■ Ausculta, monitoramento (via eletrocardiograma) e testes laboratoriais cardíacos e pulmonares, quando indicados A avaliação física mínima dos pacientes deve consistir na mensuração dos sinais vitais e inspeção visual do paciente. O valor principal desse exame é fornecer ao cirurgião-dentista informações importantes sobre a condição física do paciente, enquanto o questionário de saúde fornece a informação do histórico médico do mesmo. De maneira ideal, o exame físico deve ser completado na consulta inicial, antes do início real do tratamento odontológico. Os sinais vitais obtidos nesta consulta preliminar, conhecidos como sinais vitais basais, possuem duas funções. Primeiro, eles ajudam na determinação da capacidade do paciente em tolerar o estresse envolvido no tratamento odontológico planejado. Segundo, tais sinais vitais basais são utilizados como padrão durante o tratamento de situações emergenciais em comparação com os sinais vitais obtidos durante a emergência. Sinais vitais Os sinais vitais são: 1. Pressão sanguínea 2. Frequência e ritmo cardíaco (pulso) 3. Frequência respiratória 4. Temperatura 5. Altura 6. Peso 7. Índice de massa corporal (IMC) Os sinais vitais basais devem ser obtidos antes do começo do tratamento odontológico. Embora uma escandalosa criança de 3 anos de idade e um problemático adulto difícil de tratar possam apresentar dificuldades, o cirurgião-dentista deve fazer todos os esforços para registrar os sinais vitais basais para cada paciente. A pressão sanguínea arterial e a frequência e o ritmo cardíacos devem ser registrados sempre que possível. A frequência respiratória também deve ser avaliada, mas geralmente deve ser obtida sem que o paciente perceba. O registro da temperatura pode ser parte da avaliação de rotina, mas geralmente é feito em situações nas quais sua aferição se torna necessária (p. ex., quando uma infecção está presente ou o paciente aparenta estar febril). O peso é muito importante quando sedação parenteral (IM ou IN) ou enteral (oral) está para ser utilizada. O índice de massa corporal fornece uma medida numérica simples sobre o grau de magreza ou obesidade de um indivíduo, facilitando a obtenção de informações para que o cirurgião-dentista possa aconselhar objetivamente seu paciente quanto ao fato de o mesmo se encontrar abaixo ou acima do peso. Obesidade moderada (IMC entre 30-35), obesidade severa (IMC entre 35-40) e obesidade mórbida (IMC acima de 40) expõem o paciente a riscos mais elevados de problemas médicos crônicos e agudos, incluindo desordens cardíacas e respiratórias. As informações seguintes fornecem técnicas para registro e interpretação dos sinais vitais. Pressão sanguínea arterial A técnica a seguir é recomendada para a determinação precisa da pressão sanguínea arterial.26 Um estetoscópio e um esfigmomanômetro com braçadeira são necessários, sendo considerados equipamentos básicos (Fig. 2-9). O manômetro aneroide é calibrado para mostrar os resultados em milímetros de mercúrio (mmHg), sendo bastante preciso quando bem conservado. Um manuseio grosseiro do aneroide pode gerar leituras errôneas. O manômetro aneroide deve ser recalibrado regularmente, pelo menos uma vez ao ano, contra uma coluna de mercúrio. FIGURA 2-9 Braçadeira e estetoscópio para aferição de pressão sanguínea arterial. (Cortesia da Sedation Resource, Lone Oak, Texas, www.sedationresource.com.) Os dispositivos automáticos para monitoração da pressão sanguínea são, atualmente, bastante utilizados, tanto para monitoração caseira quanto para o uso de profissionais de saúde. Os mais antigos destes aparelhos não tinham precisão, sensibilidade e confiabilidade; entretanto, os dispositivos novos agora possuem todas as três qualidades. O custo desses dispositivos, nos Estados Unidos, varia entre 100 (Fig. 2-10) a até mesmo alguns milhares de dólares (Fig. 2-11). No Brasil os preços também são bem variados, dependendo da marca e do modelo. FIGURA 2-10 Braçadeira para registro automático da pressão arterial. (Cortesia da Sedation Resource, Lone Oak, Texas, www.sedationresource.com.) FIGURA 2-11 Monitor usado na sala de cirurgia, incluindo a pressão sanguínea. (Cortesia da CritiCare Systems, Inc., Waukesha, Wisconsin.) Para o monitoramento pré-operatório de rotina da pressão arterial, o paciente deve estar sentadoem posição ereta. O braço do paciente deve repousar ao nível do coração, relaxado, levemente flexionado, e sustentado por uma superfície firme. O paciente deve repousar por pelo menos 5 minutos antes de a pressão arterial ser registrada. Isso permite que indivíduo relaxe de tal forma que a pressão sanguínea registrada esteja mais próxima da leitura basal. Durante este momento, o cirurgião-dentista pode realizar outros procedimentos não invasivos, como uma revisão do questionário de história médica. FIGURA 2-12 Colocação adequada da braçadeira (esfigmomanômetro). (Redesenhado de Burch GE, DePasquale NP: Primer of clinical measurement of blood pressure. St. Louis, Mosby, 1962.) Antes de ser posicionada no braço do paciente, a braçadeira deve ser esvaziada. A braçadeira deve ser colocada em volta do braço, uniforme e igualmente, ao redor do mesmo, com o centro da porção inflável sobre a artéria braquial e o tubo de borracha ao longo da porção medial do braço. A margem inferior da braçadeira deve ficar aproximadamente 1 polegada (2,5 cm) acima da fossa antecubital. Sabe-se que a braçadeira está muito apertada quando 2 dedos não podem ser colocados sob a margem inferior da mesma. Uma braçadeira apertada diminui o retorno venoso do braço, resultando em medições erradas (pressão diastólica elevada). Já quando a braçadeira está muito larga (um problema bem mais frequente) a mesma pode ser removida do braço com uma simples puxada. Uma leve resistência deve ser sentida quando a braçadeira está colocada adequadamente (Fig. 2-12). FIGURA 2-13 Localização das artérias braquial e radial. A artéria braquial está localizada na metade medial da fossa antecubital, enquanto a artéria radial está na região volar lateral do punho. O pulso radial no punho deve ser palpado enquanto a pressão na braçadeira é aumentada rapidamente até 30mmHg acima do ponto onde o pulso radial desaparece. A braçadeira deve então ser desinflada lentamente numa taxa de 2-3 mmHg por segundo até que o pulso radial reapareça. Isto é chamado de pressão sistólica pelo método palpatório. A pressão na braçadeira é então liberada completamente. A determinação real da pressão sanguínea arterial pelo método auscultatório é mais precisa e requer a palpação da artéria braquial, a qual está localizada na região medial da fossa antecubital (Fig. 2-13). As olivas auriculares do estetoscópio devem estar voltadas para frente, quando colocadas nos ouvidos de quem ausculta. O diafragma do estetoscópio deve ser posicionado firmemente na região medial da fossa antecubital, sobre a artéria braquial. Para reduzir o ruído, o estetoscópio não deve tocar a braçadeira ou o tubo de borracha. A braçadeira deve ser inflada rapidamente, 30 mmHg acima da pressão sistólica palpatória confirmada. A pressão na braçadeira deve ser liberada gradualmente (2-3 mmHg por segundo) até que o primeiro som seja ouvido através do estetoscópio. Um som leve vai sendo escutado à medida que a pressão diminui. A pressão durante a qual o primeiro som é auscultado é a pressão sanguínea sistólica. À medida que a braçadeira vai sendo esvaziada, o som auscultado vai passando por mudanças na qualidade e na intensidade (Fig. 2-14). À medida que a pressão na braçadeira se aproxima da pressão diastólica, os sons se tornam surdos e abafados, e em seguida desaparecem. A pressão sanguínea diastólica pode ser mais bem determinada no momento em que os sons cessam completamente. Em algumas situações, entretanto, os sons não desaparecem por completo. Nesses casos, o momento em que os sons se tornam abafados serve como registro da pressão arterial diastólica. A braçadeira deve ser esvaziada lentamente até 10 mmHg abaixo do ponto de desaparecimento do som e então esvaziada totalmente. FIGURA 2-14 Sons de Korotkoff. A pressão arterial sistólica é registrada durante a primeira fase e a pressão arterial diastólica é registrada no ponto onde o som desaparece (quinta fase). (Modificado de Burch GE, DePasquale NP. Primer of clinical measurement of blood pressure, St Louis, Mosby, 1962.) FIGURA 2-15 Determinação do tamanho adequado da braçadeira para avaliação da pressão sanguínea. (Modificado de Burch GE, DePasquale NP. Primer of clinical measurement of blood pressure, St Louis, Mosby, 1962.) Se registros adicionais se tornam necessários, pelo menos um intervalo de 15 segundos deve ser dado antes de a braçadeira ser inflada novamente. Este período permite que o sangue preso no braço flua para outras partes, fornecendo uma leitura mais precisa. A pressão sanguínea é registrada no prontuário do paciente ou no formulário de registro de sedação e anestesia, sob a forma de uma fração – 130/90 D (braço direito) ou E (braço esquerdo) dependendo do braço utilizado para a obtenção da leitura. O conhecimento dos erros envolvidos na leitura da pressão sanguínea arterial diminui a probabilidade de consulta médica desnecessária, que pode sobrecarregar o paciente financeiramente e fazer com que os pacientes percam a fé no seu cirurgião- dentista. Alguns erros relativamente comuns associados ao registro da pressão sanguínea arterial incluem os seguintes: ■ Posicionamento frouxo da braçadeira, fornecendo leituras falsamente elevadas, o que provavelmente se encontra entre os erros mais comuns. ■ Uso de um tamanho errado de braçadeira, o que pode resultar em leituras errôneas. Uma braçadeira normal para adultos colocada no braço de um paciente obeso produz leituras falsamente elevadas. A mesma braçadeira aplicada no braço de uma criança ou adulto magro produz leituras falsamente diminuídas. As braçadeiras dos esfigmomanômetros estão disponíveis em diversos tamanhos. A largura da braçadeira deve ser aproximadamente 20% maior do que o diâmetro da extremidade onde a pressão sanguínea arterial está sendo registrada (Fig. 2-15). Os cirurgiões-dentistas devem possuir uma braçadeira pediátrica e uma braçadeira para adultos obesos, além da braçadeira para adulto normal. ■ Um hiato auscultatório pode ocorrer. Este intervalo representa a perda de som entre as pressões sistólica e diastólica, com o som reaparecendo num nível mais abaixo (Fig. 2-16). Por exemplo, o som sistólico é observado em 230 mmHg; entretanto, o som desaparece em 198 mmHg, reaparecendo quase aos 160 mmHg. Após isso o som desaparece completamente em 90 mmHg. Se a pessoa que mede a pressão sanguínea não palpou (estimou) a pressão sanguínea sistólica antes da auscultação, a braçadeira pode acabar sendo inflada até alguma pressão arbitrária, como 165 mmHg. Nesta pressão, nenhum som será ouvido porque esse valor se encontra dentro do hiato auscultatório. Sons são notados primeiramente em 160 mmHg e desaparecem aos 90 mmHg, níveis encontrados dentro dos limites de tratamento odontológico para adultos (Tabela 2-2). Na realidade, entretanto, a pressão sanguínea arterial deste paciente é 230/90 mmHg, uma pressão arterial muito elevada e que representa um risco maior (Asa 4) para o paciente durante o tratamento odontológico. Embora o hiato auscultatório não ocorra com muita frequência, a possibilidade de erro pode ser eliminada pelo uso da técnica da palpação. O pulso é palpável durante esse intervalo, mesmo quando o som desaparece. Ainda que o hiato auscultatório não tenha um significado patológico, ele é mais frequentemente encontrado em pacientes com pressão sanguínea elevada. FIGURA 2-16 Sons de Korotkoff, ilustrando um hiato auscultatório. O som é ouvido em 230 mmHg, desaparece aos 198 mmHg, e reaparece aos 160 mmHg. O som desaparece completamente (quinta fase) aos 90 mmHg. (Burch GE, DePasquale NP. Primer of clinical measurement of blood pressure, St Louis, Mosby, 1962.) ■ O paciente pode estar ansioso. A ansiedade pode causar elevações transitórias na pressão sanguínea arterial, especialmente na pressão arterial sistólica secundária à liberação de catecolaminas endógenas. Essa elevação é ainda mais provável no paciente agendado para sedação como parte do tratamento para seus temores odontológicos. Assim, os sinais vitais basais devem ser mensuradosdurante uma consulta, antes do início do tratamento odontológico e talvez na primeira consulta, quando a mensuração dos sinais vitais deve estar mais próxima do estado “normal” do paciente. ■ A pressão sanguínea arterial é baseada nos sons de Korotkoff, os quais são produzidos pela passagem do sangue pelas artérias obstruídas, parcialmente obstruídas ou desobstruídas (Fig. 2-14). Observar a coluna de mercúrio ou agulha do manômetro aneroide durante as pulsações leva ao registro de pressões arteriais sistólicas falsamente elevadas. Estas pulsações são observadas aproximadamente 10 a 15 mmHg antes de o início dos sons de Korotkoff serem ouvidos. ■ O uso do braço esquerdo ou direito produz diferenças no registro da pressão sanguínea arterial. Uma diferença de 5 a 10 mmHg existe entre os braços, com o braço esquerdo produzindo medidas levemente mais elevadas. Orientações para avaliação clínica. O sistema de avaliação física da Ostrow School of Dentistry da University of Southern California (USC) é baseado no sistema de classificação da condição física feito pela ASA, o qual classifica os pacientes em seis categorias de risco com base na história médica e avaliação física dos mesmos. A Tabela 2-2 apresenta as medidas de pressão sanguínea arterial segundo as classificações ASA. Pacientes adultos com pressão sanguínea arterial na faixa ASA 1 (< 140/< 90 mmHg) devem ter suas pressões arteriais registradas a cada 6 meses, a menos que procedimentos odontológicos específicos demandem monitoramento mais frequente. As vias medicamentosas enteral, parenteral ou inalatória requerem um registro mais frequente dos sinais vitais. De forma ideal, a administração de anestesia local deve ser precedida pelo monitoramento da pressão sanguínea arterial. Pacientes cuja pressão arterial os coloque dentro das categorias ASA 2, 3 e 4 devem ser monitorados com maior frequência. Pacientes diagnosticados com pressão arterial elevada devem ter sua pressão arterial monitorada a cada consulta odontológica, para verificar se a pressão sanguínea se mantém adequadamente controlada. Quando estas recomendações são seguidas, o monitoramento de rotina da pressão sanguínea arterial em todos os pacientes pode minimizar a ocorrência de complicações agudas associadas à pressão sanguínea elevada (p. ex., acidente vascular encefálico e dor de origem coronariana). Quando as técnicas de sedação enteral, parenteral, inalatória, ou ainda a anestesia geral, são utilizadas, existe uma necessidade ainda maior para o registro dos sinais vitais basais e pré-operatórios. A comparação dos sinais vitais basais e pós-operatórios ajuda o cirurgião-dentista a observar a recuperação do paciente frente aos efeitos dos depressores do SNC e a determinar o momento para dar alta. Além disso, outra razão para o monitoramento de rotina da pressão sanguínea arterial que deve ser enfatizada relaciona-se ao tratamento das emergências médicas. Após a avaliação e o tratamento de cada emergência médica serem finalizados, certas etapas específicas podem ser necessárias para o tratamento definitivo. Entre as mesmas está o monitoramento dos sinais vitais, especialmente da pressão sanguínea arterial. A pressão sanguínea registrada durante a ocorrência da emergência é um indicador importante da condição do sistema cardiovascular. Entretanto, a menos que a pressão arterial basal tenha sido registrada previamente (não emergencial), a medida obtida durante a emergência possui um significado menor. Obviamente, qualquer medida de pressão arterial é melhor do que nenhuma. Uma leitura de 80/50 mmHg numa emergência é menos terrível se a pressão sanguínea arterial pré-operatória for de 110/70 mmHg, do que se for 190/110 mmHg. Em todas as situações, a ausência de uma pressão sanguínea registrável indica a necessidade de reanimação cardiovascular. TABELA 2-2 Orientações para interpretação da pressão sanguínea em adultos Pressão arterial sanguínea (mmHg) Classificação ASA Considerações sobre a terapia odontológica <140 e <90 1 1. Observe tratamento odontológico de rotina 2. Verifique a cada 6 meses 140 a 159 e/ou 90 a 94 2 1. Verifique novamente a pressão arterial antes do tratamento odontológico por 3 consultas consecutivas; se todas as medidas excederem as orientações, a consulta médica é recomendada 2. Observe o tratamento odontológico de rotina 3. Implante protocolo para redução do estresse como indicado 160 a 199 e/ou 95 a 114 3 1. Verifique a pressão sanguínea em 5 minutos 2. Se ainda estiver elevada, realize consulta médica antes de começar o tratamento odontológico 3. Observe terapia odontológica de rotina 4. Implante protocolo de redução do estresse >200 e/ou >115 4 1. Verifique a pressão sanguínea em 5 minutos 2. Se ainda estiver elevada, realize consulta médica imediata 3. Não realize o tratamento odontológico, de rotina ou de emergência,* até que a pressão elevada seja corrigida 4. Realize tratamento odontológico de emergência com medicamentos (analgésicos, antibióticos) 5. Encaminhe ao hospital se a terapia odontológica imediata estiver indicada *Quando a pressão sanguínea do paciente estiver levemente acima do limiar para a categoria IV e quando houver ansiedade, o uso da sedação por inalação pode diminuir a pressão sanguínea (pela eliminação do estresse) abaixo dos 200/115. O paciente deve ser avisado de que, se óxido nitroso e oxigênio forem bem sucedidos na diminuição da pressão abaixo deste nível, o tratamento planejado pode ser feito. Entretanto, se a pressão sanguínea permanecer elevada, o procedimento deve ser postergado até que a pressão se abaixe numa faixa mais aceitável. Os valores normais de pressão sanguínea arterial em pacientes jovens são menores do que nos adultos. A Tabela 2-3 apresenta as variações normais de pressão sanguínea arterial para bebês e crianças. Frequência e ritmo cardíacos A frequência (pulso) e o ritmo cardíacos podem ser mensurados através da palpação de qualquer artéria imediatamente acessível. As mais utilizadas para medidas de rotina (não emergenciais) incluem a artéria braquial, localizada na região medial da fossa antecubital, e a artéria radial, localizada nas regiões radial e volar do punho. Outras artérias, como a carótida e a femoral, também podem ser utilizadas, mas raramente em situações de rotina porque não são tão acessíveis. Em situações de emergência, a artéria carótida deve ser palpada em vez das outras, porque é ela que libera sangue oxigenado para o cérebro. A palpação imediata e precisa desta artéria é essencial em situações de emergências. (O método para a localização da artéria carótida [no pescoço] é revisado no Capítulo 5). Quando se palpa o pulso, o cirurgião-dentista deve pressionar as porções distais dos dedos indicador e médio sobre a pele do paciente, leve o suficiente para sentir a pulsação, mas não tão firmemente a ponto de ocluir a artéria. O polegar não deve ser utilizado para monitorar o pulso porque contém sua própria artéria que pulsa. Situações têm surgido nas quais o batimento cardíaco mensurado tem sido o do dentista, e não o da vítima. Além disso, no bebê, a região precordial não é mais recomendada como local para determinar a presença de um batimento cardíaco efetivo.27, 28 A artéria braquial na região superior do braço é o sítio preferido para tal (Fig. 2-13).28 TABELA 2-3 Medidas normais para a pressão sanguínea em pediatria* Idade (anos) Média da sistólica ± 2 DP (mmHg) Média da diastólica ± 2 DP (mmHg) Recém-nascido 80 ± 16 46 ± 16 6 meses – 1 ano 89 ± 29 60 ± 10† 1 96 ± 30 66 ± 25† 2 99 ± 25 64 ± 25† 3 100 ± 25 67 ± 23† 4 99 ± 20 65 ± 20† 5–6 94 ± 14 55 ± 9 6–7 100 ± 15 56 ± 8 7–8 102 ± 15 56 ± 8 8–9 105 ± 16 57 ± 9 9–10 107 ± 16 57 ± 9 10–11 111 ± 17 58 ± 10 11–12 113 ± 18 59 ± 10 12–13 115 ± 19 59 ± 10 13–14 118 ± 19 60 ± 10 DP = desvio padrão *Modificado dos dados na literatura; os números foram arredondados até a casa decimal mais próxima †Neste estudo, o ponto de abafamento foi tirado como pressão diastólica. De Nadas AS, Fyler AC. Pediatriccardiology, ed 3, Philadelphia, WB Saunders, 1972. Orientações para avaliação clínica. Os três fatores abaixo devem ser examinados quando a frequência e o ritmo cardíacos são monitorados: FIGURA 2-17 Ritmo sinusal normal. (Berne RM, Levy MN: Physiology, ed 4, St Louis, Mosby, 1998.) 1. Frequência cardíaca (registrada como o número de batimentos por minuto) 2. Ritmo cardíaco (regular ou irregular) 3. Qualidade da pulsação (vazio, forte, cheio ou fraco) A frequência cardíaca deve ser avaliada por no mínimo 30 segundos, idealmente por 1 minuto. A frequência cardíaca normal em repouso num adulto varia entre 60 e 110 batimentos por minuto. Esta taxa é frequentemente mais baixa em atletas bem condicionados e elevada em pacientes apreensivos. Entretanto, processos patológicos clinicamente significativos também podem produzir batimentos cardíacos lentos (< 60 bpm = bradicardia) ou rápidos (> 110 bpm = taquicardia). Qualquer frequência cardíaca no adulto, abaixo dos 60 e acima dos 110 batimentos por minuto, deve ser avaliada. Quando não existe causa óbvia para o desvio nesta frequência (p. ex., um histórico de participação em práticas esportivas de esforço ou presença de ansiedade), a consulta médica deve ser considerada. O coração normal mantém um ritmo relativamente regular, conhecido como ritmo sinusal normal (Fig. 2-17). Contrações ventriculares prematuras ocasionais (extrassístoles) são tão comuns que não são necessariamente consideradas anormais (Fig. 2-18). O fumo, fadiga, estresse, diversos medicamentos (como a adrenalina), e o uso de álcool também podem produzir extrassístoles. Entretanto, quando essas extrassístoles estão presentes numa taxa de cinco ou mais por minuto, num paciente com outros fatores de risco para doença cardíaca coronariana, uma consulta médica deve ser considerada. Quando o pulso é palpado, as extrassístoles são detectadas clinicamente como quebras numa frequência cardíaca geralmente regular onde uma pausa mais longa do que o normal (p. ex., “meu coração escapou uma batida”) é observada e seguida por resolução ao ritmo normal. Na realidade, a extrassístole representa a contração dos ventrículos (especificamente o ventrículo esquerdo), antes que haja uma quantidade de sangue suficiente nas câmaras para produzir uma onda de pulso na artéria periférica. Extrassístoles patológicas frequentes (mais do que cinco por minuto num paciente com outros fatores de risco para doença cardiovascular) indicam irritabilidade do miocárdio e podem prever arritmias graves,* como a fibrilação ventricular (Fig. 2-19). De fato, pacientes com extrassístoles frequentes são considerados candidatos potenciais aos cardioversores/desfibriladores implantáveis. *“Os termos disritmia e arritmia normalmente são usados sem distinção para descrever irregularidades no ritmo cardíaco. Na realidade, o termo disritmia é mais correto porque o prefixo dys grego significa “mal, difícil, doloroso”; portanto, disritmia é um ritmo anormal ou alterado. Já o prefixo grego a significa “sem” ou “não” (p. ex., “na ausência de”). Logo, arritmia descreve a ausência de ritmo, ou assistolia (uma “linha reta” no eletrocardiograma).”29 FIGURA 2-18 O segundo complexo mostra contrações ventriculares prematuras (extrassístole). (Zalis EG, Conover MH: Understanding electrocardiography: physiological and interpretive concepts, St Louis, Mosby, 1972.) Um segundo distúrbio significativo no pulso é o pulsus alternans (pulso alternante). O pulso alternante não é verdadeiramente uma arritmia, mas uma frequência cardíaca regular é caracterizada pelo pulso no qual batimentos fortes e fracos se alternam. Uma força contrátil alternada de um ventrículo esquerdo doente produz esse distúrbio. O pulso alternante é observado com frequência em pacientes com insuficiência ventricular esquerda, pressão sanguínea arterial severamente elevada e doença cardíaca coronariana. Quando o pulsus alternans se encontra presente, a consulta médica para esse paciente deve ser indicada. O diagnóstico preciso de uma arritmia cardíaca através da palpação apenas da artéria é difícil, se não impossível. Entretanto, a consulta com o médico e possíveis exames (p. ex., eletrocardiografia, monitoramento com Holter) ajudam a determinar a natureza da arritmia e seu significado no tratamento odontológico planejado. A qualidade do pulso é comumente descrita como “cheio”, “vazio”, “forte” ou “fraco”. Estes adjetivos relacionam-se à “sensação” do pulso e são usados para descrever condições distintas. Por exemplo, um paciente com pressão sanguínea arterial muito elevada pode exibir um pulso “forte e cheio”, enquanto o pulso de um paciente com hipotensão e sinais de choque pode ser descrito como “fraco e vazio”. A Tabela 2-4 demonstra a taxa normal de frequência cardíaca em crianças, as quais são mais rápidas do que nos adultos. TABELA 2-4 Taxa de frequência cardíaca média em crianças Idade (anos) Frequência respiratória (irpm) Frequência cardíaca (bpm) < 1 30–60 100–160 1–2 24–40 90–150 2–5 22–34 80–140 6–12 18–30 70–120 >12 12–16 60–100 Limites inferiores de pressão arterial sistólica 0–28 dias: 60 mmHg 1–12 meses: 70 mmHg 1–10 anos: 70 mmHg +(2x a idade em anos) De Marx J, Hockberger R, Walls R: Rosen’s emergency medicine: concepts and clinical practice, ed 8, St. Louis, Saunders, 2014. Frequência respiratória A frequência respiratória deve ser imperceptivelmente examinada. Pacientes cientes de que sua respiração está sendo observada geralmente não respiram normalmente. Por este motivo, a respiração deve ser monitorada imediatamente após a frequência cardíaca ter sido mensurada. A pessoa que registra os sinais vitais deve manter seus dedos no pulso radial ou braquial do paciente, depois de ter acessado a frequência cardíaca, contando as respirações através da observação da elevação e depressão do tórax do paciente, por no mínimo 30 segundos (idealmente 1 minuto). FIGURA 2-19 Fibrilação ventricular. (McSwain NE: The basic EMT: comprehensive hospital care, ed 2, St Louis, Mosby, 2003.) Orientações para avaliação clínica. A frequência respiratória normal adulta fica entre 16 e 18 respirações por minuto. A bradipneia (frequência respiratória baixa) pode ser produzida pela administração de opioides, enquanto a taquipneia (frequência respiratória elevada) é vista em casos de febre e alcalose. A mudança mais comumente notada em relação à respiração, na odontologia, é a hiperventilação, um aumento anormal tanto na frequência como na profundidade da respiração, a qual quase sempre é uma manifestação da ansiedade. A hiperventilação também é vista em pacientes com acidose diabética. O estresse psicológico extremo é a razão mais comum para a ocorrência de hiperventilação em ambientes odontológicos. Qualquer variação significativa na frequência ou profundidade da respiração deve ser completamente avaliada antes do início do tratamento odontológico. A ausência de ventilação espontânea é sempre anormal e uma indicação para ventilação artificial (ventilação de resgate). A Tabela 2-5 apresenta a faixa normal de frequência respiratória nas diversas faixas etárias. A pressão sanguínea arterial, a frequência e o ritmo cardíacos, e a frequência respiratória fornecem informações sobre a condição do sistema cardiorrespiratório do paciente. Essas medidas devem ser registradas como parte integral da avaliação física de rotina para todos os pacientes. O registro dos sinais vitais remanescentes – temperatura, altura e peso – é recomendável, porém opcional. Entretanto, nos casos em que medicamentos parenterais (p. ex., depressores do SNC, anestésicos locais) serão administrados, especialmente em pacientes mais jovens e de baixo peso, o registro do peso do paciente se torna de considerável importância. Temperatura A temperatura deve ser monitorada oralmente, se possível. O termômetro, esterilizado e já com a temperatura reduzida, deve ser colocado sob a língua do paciente, o qual não deve ter ingerido, fumado ou bebido qualquer coisa nos 10 minutos que precedem o registro. O termômetrodeve permanecer na boca do paciente, fechada, por 2 minutos antes de sua remoção. No Brasil, a medição da temperatura via axilar é mais comumente utilizada, tornando-se, assim, clinicamente aceitável. É importante lembrar, entretanto, que para tal o paciente não deve ter feito qualquer tipo de exercício nos 15 minutos que antecedem a medição, para não interferir com a temperatura real. Termômetros descartáveis e termômetros digitais (Fig. 2-20) se tornaram mais populares e comuns nos dias de hoje. Orientações para avaliação clínica. A temperatura oral normal de 37ºC (98,2ºF) é meramente uma média. A faixa normal verdadeira varia de 36,1 a 37,5ºC (97 a 99,6ºF). A temperatura corporal varia levemente, entre 0,25 a 1,1ºC (0,5 a 2,0ºF) durante o dia; a temperatura é mais baixa no começo da manhã e mais alta no final da tarde. A febre representa um aumento na temperatura além dos 37,5ºC (99,6ºF). Temperaturas acima dos 38,3ºC (101ºF) geralmente indicam a presença de processo patológico ativo. A causa da febre deve ser determinada antes de o procedimento odontológico começar. Se a febre estiver relacionada à infecção odontológica, o tratamento imediato e a terapia antibiótica e antipirética estão indicados. Se a temperatura do paciente for 40ºC (104ºF) ou mais, a consulta médica deve ser indicada. Caso haja temperatura significativamente elevada (40ºC ou mais), o tratamento odontológico eletivo está contraindicado e limitado à administração de medicamentos (antibióticos e antipiréticos), porque o paciente se torna menos capaz de tolerar o estresse adicional, associado ao tratamento odontológico, do que ele seria em situação normal. TABELA 2-5 Sinais vitais das variadas idades Idade Frequência cardíaca (bpm) Pressão arterial (mmHg) Frequência respiratória (irpm) Prematura 120–170* 55–75/35–45† 40–70† 0–3 meses 100–150* 65–85 35–55 3–6 meses 90–120 70–90/50–65 30–45 6–12 meses 80–120 80–100/55–65 25–40 1–3 anos 70–110 90–105/55–70 20–30 3–6 anos 65–110 95–110/60–75 20–25 6–12 anos 60–95 100–120/60–75 14–22 12 anos* 55–85 110–135/65–85 12–18 *Dieckmann R, Brownstein D, Gausche-Hill M, editors: Pediatric education for prehospital professionals, Sudbury, MA, Jones & Bartlett, American Academy of Pediatrics, 2000, pp. 43–45. †American Heart Association ECC Guidelines, 2000. Por Kliegman RM, Stanton B MD, St. Geme J, et al.: Nelson textbook of pediatrics, ed 19, St. Louis, Saunders, 2012. Altura e peso Os pacientes devem ser questionados quanto a sua altura e peso, duas mensurações variáveis. Diversas companhias de seguros desenvolveram tabelas para peso e altura normais disponíveis nos consultórios médicos. Orientações para a avaliação clínica. Pacientes nos dois extremos de uma curva de distribuição normal de peso e altura devem ser examinados cuidadosamente. Uma obesidade acentuada ou baixo peso extremo podem indicar a presença de um processo patológico ativo. Pacientes com diversas desordens endócrinas, como a síndrome de Cushing, podem se encontrar obesos; aqueles com tuberculose pulmonar, malignidade, estágios terminais de AIDS e hipertireoidismo podem estar em baixo peso extremo. Em todas as circunstâncias de obesidade acentuada ou baixo peso extremo, a consulta médica antes do início do tratamento é recomendada. Pessoas muito altas são conhecidas como gigantes, enquanto pessoas muito mais baixas do que o normal são conhecidas como anões. Em ambos os casos, uma disfunção de glândula endócrina pode estar presente. A consulta médica relativa ao tratamento odontológico planejado geralmente é desnecessária. FIGURA 2-20 Termômetro digital. (Cortesia da Sedation Resource, Lone Oak, Texas, www.sedationresource.com.) Índice de massa corporal (IMC) O IMC é um número calculado a partir do peso e da altura do paciente. Esse número é um indicador bastante confiável da quantidade de gordura corporal para a maioria dos indivíduos e pode ser utilizado primariamente como um método de rastreio para as categorias de peso que podem estar associadas com problemas de saúde30. O IMC não mede a quantidade de gordura diretamente, mas estudos têm demonstrado que o IMC se correlaciona com as medidas diretas de gordura corporal, tais como a escala de ponderação ou absortometria de raios X de dupla energia (AXDE).31, 32 O IMC deve ser utilizado como uma ferramenta de triagem, e não como uma ferramenta de diagnóstico, a fim de se identificarem possíveis problemas de peso, tanto para crianças, como para adultos. Se o IMC indicar um sobrepeso excessivo, o profissional de saúde deve providenciar avaliações adicionais – como medidas diretas de gordura corporal, avaliações de atividades físicas e de dietas e história familiar – a fim de determinar se o excesso de peso representa algum risco na saúde do paciente. Quadro 2-4 Comorbidades associadas com sobrepeso e obesidade em adultos33 Pressão arterial elevada Dislipidemia (p. ex., colesterol LDL elevado, baixa HDL) Diabetes melito tipo 2 Doença arterial coronariana Apneia do sono e problemas respiratórios Acidente vascular encefálico Doença de vesícula biliar Osteoartrite Alguns tipos de câncer (endometrial, mama e cólon) Indivíduos com sobrepeso e obesos possuem riscos aumentados para muitas doenças (comorbidades) e problemas de saúde33 (Quadro 2-4). As variações no IMC são baseadas na relação entre o peso do indivíduo em muitas doenças e morte.34 O IMC é calculado da mesma maneira, tanto para crianças como para adultos, sendo baseado nas seguintes fórmulas: O cálculo do IMC através do sistema internacional de medidas é: Peso (kg) 4 [altura (m)]2 Utilizando-se libras e polegadas, a fórmula para o cálculo do IMC é: Peso (lb) 4 [altura (in)]2 3 703 Por exemplo: um paciente pesa 70 kg e possui 1,70 m de altura. O cálculo será: 70 4 (1,7)2 = 24,22 Por exemplo: um paciente pesa 154 lb, com 5’6’’ (66’’) de altura. O cálculo será: 154 4 (66)2 3 703 = 24,85 Interpretação do IMC. Tanto para homens como para mulheres adultas (idade acima de 20 anos), os pesos considerados padrões se encontram na Tabela 2-6. Um calculador de IMC é apresentado na Tabela 2-7. TABELA 2-6 Interpretação do IMC de adultos (idade de 20 anos ou mais) IMC Status de peso Abaixo de 18,5 Abaixo do peso 18,5–24,9 Normal 25–29,9 Acima do peso 30–39,9 Obesidade 40–49,9 Obesidade mórbida Acima de 50 Obesidade supermórbida TABELA 2-7 Calculador de IMC Peso Altura 45 50 54 59 64 68 73 77 82 86 91 95 100 1,52 19,48 21,64 23,37 25,54 28,13 29,43 31,60 33,33 35,49 37,22 39,39 41,12 43,28 1,55 18,73 20,81 22,48 24,56 26,64 28,30 30,39 32,05 34,13 35,80 37,88 39,54 41,62 1,57 18,26 20,28 21,91 23,94 25,96 27,61 29,62 31,24 33,27 34,89 36,92 38,54 40,57 1,60 17,58 19,53 21,09 23,05 25,00 26,56 28,52 30,08 32,03 33,59 35,55 37,11 39,06 1,63 16,94 18,82 20,32 22,21 24,09 25,59 27,48 28,98 30,86 32,37 34,25 35,76 37,64 1,65 16,53 18,37 19,83 21,67 23,51 24,98 26,81 28,28 30,12 31,59 33,43 34,89 36,73 1,68 15,94 17,72 19,13 20,90 22,68 24,09 25,86 27,28 29,05 30,47 32,24 33,66 35,43 1,70 15,57 17,30 18,69 20,42 22,15 23,53 25,26 26,64 28,37 29,76 31,49 32,87 34,64 1,73 14,21 16,70 18,04 19,71 21,38 22,72 24,39 25,73 27,40 28,73 30,41 31,74 33,41 1,75 14,69 16,33 17,63 19,27 20,90 22,20 23,84 25,14 26,78 28,08 29,71 31,02 32,65 1,78 14,20 15,78 17,04 18,62 20,20 21,46 23,04 24,30 25,88 27,14 28,72 29,98 31,56 1,80 13,89 15,43 16,67 18,21 19,75 20,99 22,53 23,77 25,31 26,54 28,09 29,32 30,84 1,83 13,44 14,93 16,12 17,62 19,11 20,31 21,80 22,99 24,49 25,68 27,17 28,37 29,86 1,85 13,15 14,61 15,78 17,24 18,70 19,87 21,33 22,50 23,96 25,13 26,59 27,76 29,22 1,88 12,73 14,15 15,28 16,69 18,11 19,24 20,65 21,79 23,20 24,33 25,75 26,88 28,29 1,90 12,47 13,85 14,96 16,34 17,73 18,84 20,22 21,33 22,71 23,82 25,21 26,32 27,70 1,93 12,08 13,42 14,50 15,84 17,18 18,26 19,60 20,67 22,01 23,09 24,43 25,50 26,85 Modificado de www.health.harvard.edu/topic/BMI-Calculator. Acesso em 29 de outubro de 2013. É estimado que entre 5 e 11 milhões de norte-americanos se encontram na faixa de obesidademórbida – cerca de 1 em cada 20 pessoas.35 A correlação entre IMC e gordura corporal é bastante forte; entretanto, essa correlação varia entre os gêneros masculino e feminino, etnia e idade.36, 37 Com um mesmo valor de IMC, as mulheres tendem a possuir mais gordura corporal que os homens; indivíduos mais velhos tendem a possuir mais gordura corporal que os jovens; e atletas altamente treinados podem ter altos IMCs devido a uma quantidade elevada de músculos em vez de gordura.37 O IMC é bastante útil na odontologia para uma avaliação da determinação do potencial risco do paciente, frente a possibilidade do desenvolvimento de uma emergência médica aguda. Indivíduos com valores de IMC entre 30 e 39,9 (obeso) devem ser considerados de risco ASA 2, enquanto os pacientes com valores de IMC de 40 ou mais devem ser considerados risco ASA 3 ou 4 após a avaliação da seu histórico médico para determinar a presença e a severidade das comorbidades associadas com a obesidade (Quadro 2-4). Inspeção visual A inspeção visual do paciente pode fornecer ao cirurgião-dentista informações adicionais sobre a condição física e o grau de ansiedade do indivíduo. A observação da postura, do movimento corporal, da fala e da pele do paciente pode ajudar o dentista na detecção de desordens que previamente passaram despercebidas. Pessoas com insuficiência cardíaca ou desordens pulmonares crônicas geralmente sentam mais verticalmente na cadeira odontológica do que outros pacientes, em função da ortopneia grave que esses indivíduos desenvolvem (p. ex., ortopneia de três ou quatro travesseiros). Pacientes com artrite, apresentando rigidez cervical, podem necessitar girar todo o tronco ao se virarem para o cirurgião-dentista ou quando forem olhar um objeto ao seu lado. O reconhecimento destes fatores permite ao cirurgião-dentista determinar melhor as necessidades de modificações no tratamento. Ainda, movimentos corporais involuntários em pacientes conscientes podem indicar desordens significativas. O tremor pode ser observado em desordens como fadiga, esclerose múltipla, Parkinson e hipertireoidismo, assim como histeria e na tensão nervosa (sendo a última mais proeminente nos consultórios odontológicos). A característica da fala do paciente também pode ser significante. Um acidente vascular encefálico (AVE) pode gerar paralisia muscular, dificultando a fala. Pacientes epiléticos que recebem antiepiléticos há longo prazo podem demonstrar uma fala mais lenta, arrastada. A ansiedade em relação ao tratamento odontológico também pode ser detectada na fala. Respostas rápidas às questões ou timbres de voz nervosos podem indicar ansiedade e uma possível necessidade para sedação durante o tratamento odontológico. Outras possíveis desordens podem ser detectadas pela presença de odores específicos e não odontológicos no hálito do paciente. Pacientes com acidose e cetose diabética geralmente possuem um odor doce de acetona no hálito, enquanto pacientes urêmicos geralmente emitem um cheiro de amônia. O odor mais provavelmente detectado no consultório odontológico é o do álcool, devendo alertar o dentista para uma ansiedade aumentada ou vícios. A textura e a cor da pele do paciente são outras fontes importantes de informação. O cirurgião-dentista pode observar muitas coisas saudando os pacientes com um aperto de mão. A pele de uma pessoa muito apreensiva é fria e molhada; já a do paciente com hipertireoidismo é morna e molhada; a do paciente com acidose diabética é morna e seca. A cor da pele do paciente também é significativa. Palidez (perda de cor) pode indicar anemia ou ansiedade aumentada (isto é, pré-síncope). Cianose indica oxigenação inadequada e pode ser encontrada na presença de insuficiência cardíaca, doença pulmonar crônica, metemoglobinemia ou policitemia. A cianose é mais perceptível no leito das unhas e membranas mucosas (lábios). Uma pele avermelhada pode sugerir apreensão, hipertireoidismo ou temperatura elevada, enquanto a presença de um aspecto amarelado (icterícia) pode indicar doença hepática passada ou presente. Entretanto, cada uma destas observações também pode indicar uma explicação benigna que sempre deve ser considerada. Fatores adicionais revelados pelo exame visual incluem (1) a presença de veias jugulares proeminentes em um paciente sentado em posição ereta, uma indicação de possível insuficiência ventricular direita (ou de um colarinho muito apertado na camisa); (2) dedos em baqueta de tambor, podendo indicar doença cardiopulmonar crônica; (3) inchaço nos tornozelos, visto nos casos de insuficiência ventricular direita, veias varicosas, doença renal e ocasionalmente gravidez a termo; e (4) exoftalmia, que pode indicar hipertireoidismo. (Cada achado é discutido com mais detalhes na seção de prevenção dentro dos capítulos específicos.) Para uma discussão mais abrangente da arte da observação e sua importância no diagnóstico médico, o leitor deve consultar fontes adicionais.14, 38 Procedimentos adicionais na avaliação Após finalizar o preenchimento do questionário de história médica, o registro dos sinais vitais e o exame físico, uma avaliação mais profunda das desordens médicas específicas deve ser realizada. Este exame físico pode incluir a ausculta do coração e dos pulmões, o teste dos níveis de glicose sanguínea, o exame da retina, os testes de função da condição cardiorrespiratória (p. ex., teste da apneia), o exame eletrocardiográfico e a bioquímica sanguínea. Atualmente, muitos testes são utilizados no consultório odontológico, embora de maneira infrequente. A explicação e a avaliação de muitos destes testes estão além do escopo deste texto, mas testes específicos (p. ex., glicose sanguínea e função cardiopulmonar) são indicados em capítulos posteriores na discussão do tratamento das situações médicas emergenciais. Diálogo com o paciente Depois de reunir as informações previamente discutidas sobre a condição física do paciente, o cirurgião-dentista deve em seguida determinar qual significado, se existente, destas desordens, em relação ao tratamento odontológico planejado. (Por “significado” este texto quer dizer o risco de o problema sistêmico preexistente do paciente ser exacerbado durante ou imediatamente após o tratamento odontológico). Esta discussão é conhecida como diálogo com o paciente (anamnese), durante o qual o cirurgião-dentista deve utilizar todos os seus conhecimentos disponíveis sobre os processos patológicos para verificar o grau de risco do paciente. (O diálogo com o paciente é enfatizado em cada capítulo, na discussão da prevenção de situações emergenciais específicas.) Por exemplo, em resposta positiva na seção III para a presença de diabetes melito, as seguintes questões devem ser incluídas no diálogo com o paciente: História do diálogo Em qual idade você desenvolveu a diabetes? Comentário: Esta questão é desenvolvida para ajudar a determinar se a doença manifestou-se enquanto o paciente era criança ou adulto. O diabetes que se desenvolve durante a infância (previamente conhecido como diabetes juvenil) é conhecida como Tipo 1 ou diabetes melito insulinodependente, enquanto a diabetes do adulto provavelmente é Tipo 2 ou diabetes melito não insulinodependente. Como você controla seus níveis sanguíneos de glicose? Comentário: A resposta deve fornecer informação suficiente para determinar se o diabetes é tipo 1 ou tipo 2. Pacientes com diabetes tipo 1 têm maior chance para o desenvolvimento de complicações agudas associadas ao diabetes, especialmente hipoglicemia. Com qual frequência você monitora o açúcar no sangue e quais são as leituras? (monitoração do grau de controle que o paciente mantém sobre a doença). Você já foi hospitalizado pela sua condição diabética? Por quê? Comentário: Uma história de hospitalização para glicose baixa no sangue (hipoglicemia) pode alertar o cirurgião-dentista para procurar assistência externa mais rapidamente, no caso de um problema com o paciente durante o tratamento odontológico. Além disso, a hospitalização em função das complicações crônicasdo diabetes deve fazer com que o cirurgião-dentista busque sinais e sintomas de doença no sistema cardiovascular. O modelo seguinte de diálogo com o paciente deve ser iniciado no caso de uma resposta positiva para a Seção II – Angina pectoris: História do diálogo O que precipita a sua angina? Qual a frequência de episódios de angina? Quanto duram seus episódios de angina? Descreva um ataque típico de angina. Como o uso de medicamentos vasodilatadores (p. ex., nitroglicerina) afeta o seu episódio de angina? Tem havido alguma mudança na frequência, intensidade ou radiação da dor nas últimas semanas? (Estas questões, em conjunto com as possíveis respostas do paciente, são discutidas em maior detalhe no Capítulo 27.) Reconhecimento do Medo do Tratamento Odontológico e da Ansiedade Até esse momento, o objetivo principal na avaliação de um paciente tem sido determinar a capacidade física do mesmo em lidar com o estresse no tratamento odontológico planejado. Poucas questões são direcionadas para a opinião psicológica do paciente sobre a odontologia e o tratamento planejado em particular. O questionário tradicional de história médica (formulário completo) faz perguntas como “Você já passou por desmaios ou convulsões?” e “Você já teve algum problema sério associado com qualquer tratamento odontológico prévio?” A maioria dos formulários resumidos ignora questões sobre a ansiedade. A ansiedade aumentada e o temor frente ao tratamento odontológico podem gerar uma exacerbação aguda dos problemas médicos prévios, como angina pectoris, convulsões e asma, assim como outros problemas relacionados ao estresse, como a hiperventilação e síncope vasodepressora. Um dos objetivos na avaliação do paciente é determinar se o mesmo é psicologicamente capaz de tolerar o estresse associado com o tratamento odontológico planejado. Três métodos estão disponíveis para permitir ao cirurgião-dentista reconhecer a presença de ansiedade. O primeiro é o questionário de história médica; segundo, o questionário de ansiedade; e o terceiro, a arte da observação. Exame psicológico Questionário de história médica No começo deste capítulo foi discutida a inclusão, no questionário de história médica, de uma ou mais perguntas relacionadas às atitudes do paciente no ambiente odontológico. Profissionais da Ostrow School of Dentistry da USC, nos Estados Unidos, têm verificado que pacientes que não admitem verbalmente seus temores geralmente o fazem de forma escrita, através do questionário. Uma resposta afirmativa a qualquer pergunta relacionada às experiências odontológicas negativas passadas deve alertar o cirurgião-dentista a iniciar uma investigação mais profunda no diálogo com o paciente para determinar a causa ou as causas destes temores. Quadro 2-5 Questionário para verificar a ansiedade 1. Se você tiver que ir ao dentista amanhã, como se sentiria sobre isto? a. Eu interpretaria como uma experiência agradável b. Eu não me importaria c. Eu me sentiria muito desconfortável d. Estaria com medo de que fosse desagradável e doloroso e. Eu temeria o que o dentista pudesse fazer 2. Quando você está esperando no consultório odontológico para ser atendido, como se sente? a. Relaxado b. Um pouco desconfortável c. Tenso d. Ansioso e. Tão ansioso que fico suado ou quase fisicamente doente 3. Quando você está na cadeira do dentista, esperando que a broca seja usada, como se sente? a. Relaxado b. Um pouco desconfortável c. Tenso d. Ansioso e. Tão ansioso que fico suado ou quase fisicamente doente 4. Você está na cadeira do cirurgião-dentista esperando pela limpeza dos seus dentes. Enquanto você espera que ele apanhe os instrumentos de raspagem ao redor da gengiva, como se sente? a. Relaxado b. Um pouco desconfortável c. Tenso d. Ansioso e. Tão ansioso que fico suado ou quase fisicamente doente 5. Em geral, você se sente desconfortável ou nervoso sobre a possibilidade de tratamento odontológico? a. Sim b. Não Retirado de Corah NL: Development of a dental anxiety scale. J Dent Res 48:596, 1969. Questionário para análise da ansiedade no ambiente odontológico Uma ajuda adicional no reconhecimento da ansiedade é o questionário de ansiedade em relação ao tratamento odontológico (Quadro 2-5) desenvolvido pelo Dr. Norman Corah.39 Usado por mais de 30 anos na Ostrow School of Dentistry da USC, este questionário tem se mostrado bastante confiável no reconhecimento da ansiedade. Respostas às questões individuais são classificadas de 1 a 5 (com a letra “a” sendo associada à pontuação 1 e a letra “e” sendo associada à pontuação 5). A pontuação máxima possível é 20. Pontuações iguais ou acima de 8 estão associadas aos níveis elevados de ansiedade e devem ser manejadas pelo cirurgião-dentista antes de o tratamento odontológico começar. Observação Na ausência destas perguntas no questionário de história médica escrita ou na ausência de uma resposta afirmativa a estas questões, uma observação cuidadosa do paciente pode permitir ao cirurgião-dentista e a membros da equipe reconhecer pacientes mais ansiosos. Alguns pacientes podem admitir para o cirurgião-dentista e os membros da equipe que estão muito apreensivos; entretanto, a maioria dos pacientes adultos apreensivos – homens em particular – faz o possível para esconder seus temores. Estes pacientes geralmente acreditam que seus temores frente ao tratamento odontológico são irracionais e infantis. Não falam ao cirurgião-dentista a respeito de seus temores porque têm medo de serem rotulados como “crianças”. Em função desta atitude muito comum, os membros da equipe odontológica devem ser treinados para buscar e reconhecer sinais e sintomas clínicos associados ao paciente com ansiedade aumentada. Ao mesmo tempo em que existem diversos níveis de ansiedade, a fim de facilitar esta discussão, apenas dois são apresentados: grave (neurótico) e moderado (mais “comum”). Pacientes com ansiedade grave geralmente não medem esforços para esconder o fato do cirurgião-dentista ou membros da equipe. Na verdade, estes pacientes fazem qualquer coisa ao seu alcance para evitar o tratamento odontológico. Estima-se que entre 6 e 14% (14 milhões e 34 milhões) de norte-americanos evitam ativamente o tratamento odontológico em função dos seus medos e outros 20 a 30% detestam o tratamento odontológico o suficiente para torná-lo apenas visitas ocasionais.40 Tais pacientes constituem o grupo de ansiedade grave. Quando no consultório odontológico, estes pacientes podem ser reconhecidos pelos seguintes sinais: ■ Pressão arterial e frequência cardíaca aumentadas ■ Tremores ■ Suor excessivo ■ Pupilas dilatadas Pacientes com ansiedade grave geralmente aparecem no consultório odontológico apenas quando possuem uma infecção ou dor de dente grave. Tais pacientes geralmente dizem que tiveram este problema por algum tempo e tentaram todos os remédios (comprimidos para dor). A razão para finalmente procurarem o consultório odontológico é que permaneceram incapazes de dormir nas últimas noites, devido a uma intensa dor, a qual nenhum medicamento encontrado em casa foi capaz de aliviar. Tais pacientes chegam ao consultório devido a um desconforto extremo. Suas expectativas é a de que o dente terá que ser removido. O medo da dor agora se tornou a dor do medo. Estes pacientes com frequência se apresentam com problemas, no que se refere ao comportamento. Embora desejem ter seus problemas odontológicos aliviados, seus temores impossibilitam-no de tolerar o procedimento, quando chega o momento de o tratamento começar. Além disso, o cirurgião-dentista sempre se defronta com o momento desagradável de ter que ou extrair um dente com inflamação aguda, ou extirpar a polpa de um dente com sensibilidade aguda, duas situações nas quais a obtenção do controle clínico da dor nesses pacientes tem se mostrado uma tarefa desafiadora. Por causa destes fatores, pacientes severamente ansiosos são candidatos tanto ao uso de sedação via IV, como ao uso da anestesia geral. A sedação IM, IN ou inalatória, quando utilizada como recomendado, possuipequena probabilidade de sucesso nesta população de pacientes com medo extremamente elevado, principalmente em função da efetividade limitada ou das restrições de uso. Crianças com ansiedade grave são candidatas frequentes, tanto para o uso de sedação IM ou IV (sedação profunda), como para o uso da anestesia geral, nos Estados Unidos da América. No Brasil não é permitido ao cirurgião-dentista fazer uso de sedação através das vias IM ou IV, ou ainda empregar anestesia geral. Quando esta se tornar necessária, a mesma deve ser empregada pelo médico anestesiologista, em ambiente hospitalar. Fica restrito ao cirurgião- dentista o emprego de sedação oral e inalatória, desde que comprovadamente capacitado para tal. Então, assumindo-se que pacientes adultos podem tentar esconder seus medos, o cirurgião-dentista e os membros da equipe devem observar algumas pistas antes e durante o tratamento odontológico. A equipe de entrada, como a recepcionista, pode prestar mais atenção na conversa entre os pacientes. Os pacientes também podem formular perguntas significantes à recepcionista como “o dentista é gentil?”, “o dentista usa injeção pra não sentir dor?” ou se “o dentista usa gás”? A recepcionista sempre deve informar o cirurgião-dentista imediatamente quando o paciente faz qualquer comentário que possa indicar um nível maior de preocupação por parte dele, em relação ao tratamento. Todo o pessoal da equipe também deve prestar atenção aos sinais de ansiedade aumentada. Saudar o paciente com um aperto de mão pode ajudar na detecção dos sinais de ansiedade, como palmas das mãos frias e suadas, principalmente em um consultório que não esteja particularmente gelado. Discutir com o paciente sobre suas experiências odontológicas prévias pode expor o seu nível de ansiedade. Um paciente com histórico apenas de tratamentos de emergência (extrações ou incisão para drenagem) ou que cancela ou não comparece às consultas subsequentes pode ser um paciente com altos índices de medos. O mesmo se aplica aos pacientes com histórico de múltiplas consultas canceladas. O cirurgião-dentista deve examinar este histórico com o paciente, a fim de determinar a razão deste padrão de tratamento (ou não tratamento). Quando o paciente estiver sentado na cadeira de atendimento, o cirurgião-dentista e os membros da equipe devem observá- lo e ouvi-lo com bastante atenção. Pacientes apreensivos ficam alertas ou “de guarda” em todos os momentos. Eles sentam na beirada da cadeira, os olhos ficam rondando a sala, concentrando-se em tudo. Têm medo de serem surpreendidos e sua postura parece artificialmente rígida, com braços e pernas tensos. Podem brincar nervosamente com o lenço ou papel-toalha, ocasionalmente não cientes de tais ações, talvez exibindo a “síndrome da interfalange branca”, na qual as falanges ficam brancas devido ao aperto severo do braço da cadeira odontológica. O paciente pode exclamar “Nossa, está quente aqui!” para explicar qualquer diaforese (sudorese) das palmas ou da fronte. O paciente moderadamente apreensivo geralmente está muito disposto em cooperar com o cirurgião-dentista. Suas ações são feitas rapidamente, geralmente sem pensar. Esses pacientes geralmente respondem as perguntas do cirurgião-dentista de forma rápida, muitas vezes até rápida demais. O Quadro 2-6 resume os sinais clínicos de ansiedade moderada. Uma vez reconhecida a ansiedade, quer seja através do questionário ou da observação, ou de ambos, o paciente deve ser confrontado. Uma abordagem direta é surpreendentemente bem sucedida. O cirurgião-dentista pode dizer: “Sr. Fulano, eu vejo pela sua ficha que o senhor teve muitas experiências desagradáveis no consultório odontológico. O senhor poderia descrevê-las para mim?” Depois de perceber a ansiedade, o cirurgião-dentista pode dizer: “Sr. Fulano, você parece um pouco nervoso hoje. Algo o incomoda?” Na minha experiência, os pacientes geralmente esquecem suas pretensões de fingirem estar calmos quando percebem que o dentista está ciente dos seus temores. Eles dizem com frequência: “Doutor, não achei que o senhor fosse perceber.” Agora que os temores estão tratados abertamente, o cirurgião-dentista deve determinar a causa (p. ex., anestesias ou brocas). Quando a fonte do medo do paciente se torna conhecida, o protocolo de redução do estresse deve ser utilizado para minimizar a probabilidade de isso se tornar um problema durante o tratamento. Um paciente moderadamente ansioso geralmente pode ser tratado. Na maioria dos casos, mínima ou moderada sedação consciente pode tratar com segurança estes problemas. Essa mínima ou moderada sedação consciente pode envolver o uso de um fármaco (farmacossedação) ou não (iatrossedação). A anestesia geral raramente é necessária no tratamento efetivo do paciente odontológico com medo moderado. Quadro 2-6 Sinais clínicos de ansiedade moderada NA RECEPÇÃO Perguntas à recepcionista sobre injeções e uso de sedação Conversas tensas com outros pacientes na sala de espera Histórico apenas de emergência odontológica Histórico de consultas canceladas para tratamento não emergencial Palmas das mãos frias e suadas NO CONSULTÓRIO Postura rígida artificial Brinca de forma tensa com o lenço ou papel toalha Síndrome da falange branca Transpiração na fronte e nas mãos Disposição excessiva em cooperar com o dentista Respostas rápidas Determinação do risco médico Após a finalização do exame físico e odontológico e da decisão sobre o plano de tratamento, o cirurgião-dentista deve revisar todas as informações e responder as seguintes questões: ■ Este paciente será capaz, tanto física como psicologicamente, de tolerar com segurança relativa o estresse envolvido no plano de tratamento odontológico proposto? ■ O paciente possui um risco maior (de morbidade ou mortalidade) do que o usual durante o tratamento planejado? ■ Se o paciente apresenta risco aumentado, quais modificações no plano de tratamento, se necessárias, podem ser utilizadas para minimizar o risco no tratamento proposto? ■ O risco é muito elevado para o paciente ser tratado no meu consultório odontológico? O sistema de avaliação física da Ostrow School of Dentistry da USC foi desenvolvido para auxiliar o cirurgião-dentista no exame do risco do paciente, frente ao tratamento odontológico. O sistema é desenvolvido para classificar cada paciente numa categoria de risco de tal forma que o tratamento odontológico seja fornecido com maior conforto e segurança. O sistema é baseado no Sistema de Classificação da Condição Física ASA. Sistema de classificação da condição física ASA Em 1963 a American Society of Anesthesiologists (ASA) adotou o que agora é chamado ASA Physical Status Classification System (Sistema de Classificação da Condição Física ASA).41 Essa classificação é um método no qual se pode estimar o risco médico do paciente agendado para “anestesia” frente ao procedimento cirúrgico. O sistema foi desenvolvido, em princípio, para pacientes que recebessem anestesia geral, mas desde sua introdução tem sido utilizado em todos os pacientes cirúrgicos, independente da técnica anestésica (anestesia geral, regional ou sedação consciente mínima ou moderada). Esse sistema tem se mantido essencialmente sem modificações e está em uso contínuo desde a sua introdução, mostrando-se um método valioso na determinação do risco cirúrgico e anestésico antes dos procedimentos médicos e odontológicos.42, 43 O sistema de classificação é definido pela ASA e se divide em: ASA 1: Paciente normal, saudável, sem doença sistêmica. ASA 2: Paciente com doença sistêmica leve. ASA 3: Paciente com doença sistêmica grave ASA 4: Paciente com doença sistêmica incapacitante, sendo uma ameaça constante à vida. ASA 5: Paciente moribundo sem expectativa de sobreviver sem cirurgia. ASA 6: Paciente declarado com morte encefálica, cujos órgãos serão removidos para fins de doação. ASA E: Operação de emergência de qualquer variedade, com o E precedendo o número para indicar a condição física do paciente (p. ex., ASA E-3). Quando o sistema ASA foi adotadopara uso odontológico ambulatorial, a classificação ASA 5 foi eliminada.45, 46 Um esforço tem sido feito para correlacionar as outras quatro classificações com possíveis modificações nos procedimentos odontológicos. A Figura 2-4 ilustra a ficha de avaliação da University of the Pacific’s, na qual um resumo da condição física e odontológica do paciente é apresentado. Cada classificação é revisada e os exemplos clínicos estão listados. ASA 1. Pacientes ASA 1 são considerados normais e saudáveis. A revisão do histórico médico, avaliação física e todos os parâmetros de avaliação não indicam quaisquer anomalias. Os órgãos e sistemas principais – coração, pulmões, fígado, rins e SNC – parecem estar em boa forma. Pacientes ASA 1 são capazes de subir um lance de escadas ou andar dois quarteirões sem desconforto (dificuldade respiratória, fadiga fácil e dor torácica são sinais de desconforto). Fisiologicamente, pacientes ASA 1 devem ser capazes de tolerar qualquer estresse associado ao tratamento odontológico sem risco adicional de complicações sérias. Psicologicamente, esses pacientes possuem pouca ou nenhuma dificuldade em lidar com o plano de tratamento. Pacientes saudáveis com pouca ou nenhuma ansiedade no consultório odontológico são considerados ASA 1 representando “sinal verde” para o tratamento. Modificações no plano de tratamento geralmente não são necessárias neste tipo de paciente. ASA 2. Um paciente ASA 2 possui uma doença sistêmica leve ou é um paciente saudável (ASA 1) que demonstra ansiedade e medo extremo no consultório odontológico. Pacientes ASA 2 são capazes de subir um lance de escadas ou andar dois quarteirões, antes que o desconforto ocasione sua interrupção. Pacientes ASA 2 geralmente são menos tolerantes ao estresse do que os pacientes ASA 1; entretanto, ainda representam risco mínimo durante o tratamento odontológico. O tratamento odontológico de rotina (eletivo) é permitido, contanto que seja pelo menos considerada a modificação no tratamento, ou seja, levado em consideração o histórico médico do paciente. Exemplos de tais considerações ou modificações incluem o uso de antibióticos profiláticos ou técnicas sedativas, limitações na duração do tratamento e possível consulta médica. Uma classificação ASA 2 deve servir como “sinal amarelo”, um aviso para que o cirurgião-dentista proceda com o tratamento odontológico, porém com cautela. O tratamento odontológico eletivo é justificado em função do aumento mínimo do risco ao paciente durante o atendimento. Modificações no plano de tratamento também devem ser consideradas. Exemplos de condições/pacientes ASA 2 incluem: ■ Diabetes Tipo 2 (bem controlado) ■ Epilepsia (bem controlada) ■ Asma (bem controlada) ■ Hipertireoidismo ou hipotireoidismo (bem controlados), nos quais os pacientes estão sob cuidado médico e atualmente têm função normal da tireoide (considerados eutireóideos) ■ Pacientes ASA 1 com infecções no trato respiratório superior ■ Paciente grávida saudável (ASA 1) ■ Pacientes saudáveis, porém com alergias, especialmente a medicamentos ■ Pacientes saudáveis com temores odontológicos extremos ■ Adultos com pressão sanguínea sistólica entre 140 e 159mmHg e/ou diastólica entre 90 a 94 mmHg. Geralmente, o paciente ASA 2 é capaz de realizar suas atividades normais, sem experimentar desconforto (p. ex., fadiga fácil, dispneia ou dor precordial). ASA 3. Pacientes ASA 3 possuem uma doença sistêmica grave que limita sua atividade, mas não os torna incapazes. Em repouso, os pacientes ASA 3 não exibem sinais ou sintomas de desconforto e podem viver normalmente; entretanto, tal desconforto é exibido quando esses pacientes se deparam com um estresse fisiológico ou psicológico. Por exemplo, um paciente que tenha medo do tratamento odontológico e que possui angina pectoris pode estar normal (sem dor torácica) na recepção, mas a dor surge quando é colocado na cadeira odontológica. Pacientes ASA 3 são capazes de subir um lance de escadas ou dois quarteirões, mas terão que parar pelo menos uma vez para descansar enquanto caminham. Tais quais os pacientes ASA 2, estes são pacientes “sinal amarelo” (proceda com cautela). O tratamento odontológico eletivo não está contraindicado, mas o risco destes pacientes durante o tratamento odontológico se torna aumentado. Uma consideração séria deve ser feita para a possível modificação no plano de tratamento. Exemplos de condições/pacientes ASA 3 incluem: ■ Angina pectoris (estável). ■ Condição pós-infarto do miocárdio: mais de 6 meses antes da consulta odontológica e sem sinais ou sintomas residuais significativos. ■ Condição pós-infarto do miocárdio: menos de 6 meses antes da consulta odontológica, na qual o grau de dano ao miocárdio é mínimo (requer consulta médica para avaliação) e sem sinais e sintomas residuais significativos. ■ Condição pós-AVE: mais de 6 meses antes da consulta odontológica e sem sinais ou sintomas residuais. ■ Diabetes tipo 1 (bem controlado). ■ Insuficiência cardíaca (IC) com ortopneia e edema do tornozelo presentes. ■ Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC): enfisema ou bronquite crônica. ■ Asma induzida pelo exercício. ■ Epilepsia (menos bem controlada). ■ Hipertireoidismo ou hipotireoidismo (paciente está sintomático). ■ Paciente funcionalmente anéfrico (paciente em diálise renal). ■ Adultos com pressões sanguíneas sistólica entre 160 e 199 mmHg e diastólica entre 95 a 114 mmHg. ■ IMC de 40 ou mais (podendo ser ASA 3 ou 4 dependendo da presença e da severidade das comorbidades). Pacientes ASA 3 geralmente podem realizar suas atividades normais sem experimentarem desconforto (p. ex., fadiga fácil, dispneia ou dor precordial), mas necessitarão parar e descansar durante a atividade, caso sintam desconforto. ASA 4. Pacientes ASA 4 possuem uma doença sistêmica incapacitante, a qual é uma ameaça constante a suas vidas. Possuem problemas médicos graves que são mais significativos à saúde do que o tratamento odontológico eletivo planejado. Sempre que possível, o tratamento odontológico eletivo deve ser postergado até que a condição médica do paciente tenha melhorado pelo menos para a classificação ASA 3. Pacientes ASA 4 são incapazes de subir um lance de escada ou andar dois quarteirões planos. O desconforto está presente mesmo em repouso. Estes pacientes apresentam-se no consultório odontológico exibindo sinais e sintomas de sua doença. Uma classificação ASA 4 significa “sinal vermelho”, um aviso de que o risco envolvido no tratamento odontológico é muito grande para se permitir tratamento eletivo. O tratamento das emergências odontológicas, tais como dor ou infecção, deve ser o mais conservador possível, até que a condição física do paciente melhore. Sempre que possível, o tratamento odontológico deve ser não-invasivo, consistindo na prescrição de medicamentos, como analgésicos para dor e antibióticos para infecção. Em situações nas quais a intervenção imediata é julgada necessária (p. ex., incisão e drenagem, extração, extirpação pulpar), o paciente deve ser tratado em ambiente hospitalar, sempre que possível, ou em uma clínica odontológica que seja equipada o suficiente para o reconhecimento e tratamento de situações de emergência que possam acontecer. Embora pacientes hospitalizados ainda sejam de risco, a chance de sobrevivência pode ser maior no caso do surgimento de uma emergência médica aguda. Exemplos de condições ASA 4 incluem: ■ Angina pectoris instável (angina pré-infarto). ■ Infarto do miocárdio: nos últimos 6 meses. ■ AVE: nos últimos 6 meses. ■ Pressão sanguínea arterial no adulto acima dos 200 mmHg ou 115 mmHg. ■ Insuficiência cardíaca grave ou DPOC (necessitando de O2 suplementar) ou confinamento à cadeira de rodas. ■ Epilepsia não controlada (com história de hospitalização). ■ Diabetes tipo 1 descontrolado (com história de hospitalização). ■ IMC de 40 ou mais (podendo ser ASA 3 ou 4 dependendo da presença e da severidade das comorbidades). ASA 5. Pacientes ASA 5 são moribundos e não é esperado que sobrevivam por mais do que 24 horas sem cirurgiaplanejada. Pacientes ASA 5 quase sempre estão hospitalizados (significa que estão no hospital, casa de repouso, ou instituições para pacientes terminais), sendo estes pacientes terminalmente doentes. Podem ser referidos como ONR (ordem de não reanimação) ou pacientes “sem código”. Nos Estados Unidos, nestes casos, os esforços de reanimação não são instituídos se o paciente sofre uma parada respiratória ou cardiorrespiratória. O tratamento odontológico eletivo, nesses casos, está contraindicado; entretanto o tratamento emergencial no âmbito do tratamento paliativo (isto é, alívio da dor) pode ser necessário. Uma classificação ASA 5 é um “sinal vermelho” para tratamento odontológico. Exemplos de condições ASA 5 incluem: ■ Doença hepática terminal. ■ Câncer terminal. ■ Doença infecciosa terminal. ■ Doença cardiovascular terminal. ■ Doença respiratória terminal. O sistema de classificação ASA não é apenas um meio útil para se determinar o risco envolvido no tratamento; ele também é fácil de ser usado. O uso da classificação ASA é muito fácil quando o paciente se encontra saudável (ASA 1) ou muito debilitado (ASA 4) ou possui um único problema sistêmico isolado, tais quais os exemplos prévios mencionados em cada categoria. Entretanto, muitos pacientes são afligidos por múltiplas desordens, de modo que a classificação pelo sistema ASA se torna bem mais difícil. Em uma situação como esta, o cirurgião-dentista deve pesar o significado de cada doença e escolher uma categoria apropriada. A maior parte das discussões entre as categorias surge quando se deve decidir se um paciente representa ASA 2 ou ASA 3. Embora discussões acaloradas possam surgir, o cirurgião-dentista deve (1) reconhecer que existe um grau de risco aumentado, envolvido no tratamento deste paciente (que não seja ASA 1), mas que (2) o paciente permanece tratável (ele não é ASA 4) e que (3) modificações no plano de tratamento odontológico devem ser consideradas. A classificação ASA não pretende ser inflexível; ao contrário, ela deve ter um valor relativo, com base no julgamento e exame clínico final feito pelo cirurgião-dentista, baseado nos dados disponíveis. Quando o dentista for incapaz de determinar o significado clínico de uma ou mais doenças, a consulta com o médico ou outro colega da área de saúde é recomendada. Em todos os casos, entretanto, o cirurgião-dentista é quem deve decidir se deve tratar ou postergar o tratamento. A responsabilidade final pela saúde e segurança do paciente fica depositada totalmente nas mãos do dentista que conduz o tratamento. Pacientes ASA 1, 2 e 3 são candidatos tanto para o tratamento odontológico eletivo quanto para o tratamento de emergência. O grau de risco apresentado por estes pacientes aumenta com cada categoria sucessiva, assim como as indicações para modificações no plano de tratamento. Consulta médica Diversas etapas estão envolvidas numa consulta médica típica (Quadro 2-7). A consulta médica não deve ser feita até que a avaliação odontológica e física seja completada. O cirurgião-dentista deve estar preparado para discutir amplamente com o médico do paciente sobre o plano de tratamento odontológico proposto e quaisquer problemas antecipados. Uma das considerações mais importantes na consulta médica é a determinação da capacidade do paciente em tolerar com segurança relativa o estresse envolvido no tratamento odontológico proposto. O aconselhamento proveniente do médico do paciente deve ser cuidadosamente considerado. Sempre que houver dúvida após a consulta, uma segunda opinião, talvez de um especialista na área, deve ser buscada. A Figura 2-5 é um exemplo de formulário para pedido de consulta médica. Após receber o aconselhamento médico, o cirurgião-dentista deve considerar a implantação de certas atitudes que visem a minimizar qualquer risco potencial ao paciente. O cirurgião-dentista em si tem a responsabilidade final pelo plano de tratamento odontológico e pelos riscos do atendimento. Os riscos não podem ser compartilhados com o médico do paciente. Na maioria dos casos, a consulta com o médico altera muito pouco ou em nada o plano de tratamento odontológico. Modificações específicas no plano de tratamento representam etapas muito importantes que o dentista deve conduzir para diminuir o risco ao paciente. (Modificações específicas são discutidas na seção seguinte.) QUADRO 2-7 Consulta com o médico • Obtenha as histórias médica e odontológica do paciente. • Complete o exame físico, incluindo tanto o exame geral quanto intraoral. • Forneça um plano de tratamento inicial baseado nas necessidades orais do paciente. • Faça uma verificação geral sistêmica (escolha a categoria de condição física do paciente). • Consulte o médico do paciente, quando apropriado, pelo telefone: • Recepcionista do médico o Apresente-se e dê o nome do paciente. o Peça para falar com o médico. • Com o médico: o Apresente-se. o Dê o nome do paciente e o motivo da consulta odontológica. o Relate rapidamente a condição geral do paciente. o Peça informação adicional sobre o paciente. o Apresente seu plano de tratamento resumidamente, incluindo os medicamentos a serem usados e o grau de estresse antecipado. o Discuta quaisquer problemas. • Após a consulta: • Escreva um relatório completo da conversa e obtenha um relato escrito do médico se possível. Modificado com permissão de WH Davis, DDS, Bellflower, Califórnia. Neste momento da avaliação pré-tratamento, todo o histórico médico relevante e a avaliação física foram revisadas e a classificação física do risco atribuída. A maioria dos pacientes é classificada como sendo ASA 1 ou 2, alguns como ASA 3, e apenas uma pequena porcentagem como ASA 4. As porcentagens em cada categoria mudam de acordo com o aumento da idade dos pacientes. Num estudo sobre as histórias de saúde e classificações ASA de 4087 pacientes odontológicos na Holanda, as porcentagens de pacientes ASA 1 e 2 diminuíram, enquanto as porcentagens de pacientes ASA 3 e 4 aumentaram, à medida que as idades dos pacientes aumentavam. Os pacientes completaram questionários sobre o risco e as classificações foram determinadas, para ASA 1 como sendo de 63,3%; ASA 2, 25,7%; ASA 3, 8,9%; e ASA 4, 2,1%.47 Numa revisão de 29.424 históricos médicos de pacientes odontológicos na Holanda, Smeets et al. encontraram um aumento na porcentagem de pacientes com comprometimento sistêmico, de acordo com o aumento nas idades.48 Na faixa etária dos 65 aos 74 anos, 23,9% dos pacientes eram ASA 3 ou ASA 4; e a porcentagem aumentou para 34,9% em pacientes com 75 anos de idade ou mais. A maioria dos procedimentos odontológicos pode ser estressante para os pacientes. O estresse pode ser tanto fisiológico (dor ou exercício estressante) quanto psicológico (ansiedade ou medo). Em ambos os casos, o corpo responde ao estresse com uma liberação aumentada de catecolaminas (adrenalina ou noradrenalina) pela medula da glândula adrenal e outros sítios de armazenamento tecidual no sistema cardiovascular. Isto resulta em um aumento do trabalho cardiovascular (aumento da frequência cardíaca, da força de contração do miocárdio e da necessidade de O2 pelo músculo cardíaco). Embora pacientes ASA 1 sejam capazes de tolerar tais mudanças na atividade cardiovascular, pacientes ASA 2, 3 e 4, com problemas cardiovasculares, são cada vez mais menos capazes de tolerar esse processo com segurança. Por exemplo, pacientes com angina podem responder ao estresse aumentado com episódios de dor precordial e diversas arritmias podem se desenvolver. Pacientes com insuficiência cardíaca podem desenvolver edema agudo de pulmão. Mesmo pacientes com desordens não cardíacas podem responder adversamente quando encontram níveis aumentados de estresse. Por exemplo, pacientes com asma podem desenvolver episódios agudos de dificuldade respiratória (broncoespasmo) e pacientes epiléticos podem sofrer convulsões. Níveis incomuns de estresse em pacientes ASA 1 podem ser responsáveis por diversas situações de emergência psicogenicamente induzidas, tais como a hiperventilaçãoou a síncope vasodepressora. Entrevistas com pacientes que temem o tratamento odontológico demonstram que muitos começam a sofrer um dia ou dois antes da consulta. Eles podem ter problemas para dormir na noite anterior à consulta, chegando ao consultório odontológico com fadiga e com menor chance de tolerar o estresse. O risco apresentado por estes pacientes durante o tratamento odontológico está aumentado. Protocolo de diminuição do estresse O protocolo de redução do estresse49 listado no Quadro 2-8 inclui duas séries de procedimentos que, quanto utilizados individualmente ou em conjunto, minimizam o estresse relacionado ao tratamento odontológico, diminuindo o grau de risco ao qual o paciente é exposto. Este protocolo é desenvolvido baseado na crença de que a prevenção ou a redução do estresse deve começar antes da consulta odontológica, continuar durante o tratamento e seguir pelo período pós-operatório, se necessário. QUADRO 2-8 Protocolos para redução do estresse PACIENTE NORMAL, SAUDÁVEL, ANSIOSO (ASA 1) Reconheça o nível de ansiedade do paciente. Faça pré-medicação na noite anterior à consulta odontológica, quando necessário. Pré-medique imediatamente antes da consulta odontológica, quando necessário. Marque a consulta para o período da manhã. Minimize o tempo de espera do paciente. Considere a sedação durante a terapia. Administre controle para dor adequado na terapia. A duração da consulta é variada. Acompanhe a dor e ansiedade pós-operatória. Telefone mais tarde para o paciente muito ansioso ou temeroso no mesmo dia do tratamento. PACIENTE COM RISCO MÉDICO (ASA 2, 3, 4) Reconheça o grau de risco médico do paciente. Faça a consulta com o médico antes da terapia odontológica, quando necessário. Marque a consulta do paciente para o período da manhã. Monitore e registre os sinais vitais pré-operatórios e pós-operatórios. Considere a sedação na terapia. Administre controle para dor adequado durante tratamento. A duração da consulta é variada; não exceda os limites de tolerância do paciente. Acompanhe a dor e ansiedade pós-operatória. Telefone mais tarde para o paciente de alto risco médico no mesmo dia do tratamento. Marque a consulta dos pacientes muito ansiosos ou temerosos, risco médico moderado a elevado, para os primeiros dias da semana (segunda a quarta na maioria dos países; sábado ou domingo a segunda em muitos países do Oriente Médio) quando o consultório está aberto para emergências e o dentista está disponível. TabEla 2-8 Sedativos-hipnóticos orais Dosagem recomendada Medicamento Nome comercial (Estados Unidos) Adultos Crianças Alprazolam Niravam, Xanax 4 mg/dia NE Diazepam Valium 2–10 mg NE Flurazepam Dalmane 15–30 mg NE Midazolam Versed 5-10 mg* ≥6 meses NE Oxazepam Serax 10–30 mg ≥6 meses 0,25-0,5 mg/kg, 30-45 min antes da cirurgia Triazolam Halcion 125–250 μg NE Eszopiclone Lunesta 2–3 mg NE Zaleplon Sonata 5–10 mg NE Zolpidem Ambien 10 mg NE NE, não estabelecido Dados retirados de ADA Guide for dental therapeutics, ed 3, Chicago. ADA Publishing, 2003, e do www.epocrates.com *Nota da Revisão Científica: Raramente utilizado, nos Estados Unidos; dose comumente utilizada na odontologia, no Brasil. Reconhecimento do risco médico e ansiedade O reconhecimento da presença de risco médico aumentado ou ansiedade e medo relacionados à odontologia representa o ponto de partida para tratamento do estresse. A verificação do risco médico é determinada cuidadosamente pela aderência estrita às medidas previamente descritas neste capítulo, incluindo o questionário de história médica, exame físico e diálogo com o paciente. O reconhecimento da ansiedade geralmente é mais difícil. Como já discutido anteriormente, a observação visual e a comunicação verbal com o paciente podem fornecer ao cirurgião-dentista pistas importantes para a percepção da ansiedade frente ao tratamento odontológico. Consulta médica A consulta médica com o médico do paciente deve ser considerada em situações nas quais o cirurgião-dentista não tem certeza do grau de risco do paciente. A consulta médica não é necessária, nem recomendada, para todos os pacientes com problemas médicos. Entretanto, a consulta deve ser realizada quando o dentista não tiver certeza sobre a natureza da desordem do paciente ou das possíveis interações entre o problema de saúde e o tratamento odontológico planejado. O cirurgião-dentista deve sempre lembrar que a consulta é meramente um pedido de informação adicional para ajudar na determinação do grau de risco presente e das possíveis modificações na terapia que possam estar indicadas. A responsabilidade final do tratamento e a segurança do paciente repousam no cirurgião-dentista que o trata. Pré-medicação Muitos pacientes ansiosos falam que o medo frente ao tratamento odontológico é tão grande que os mesmos são incapazes de ter uma boa noite de sono antes da consulta agendada. Estes pacientes já chegam fatigados ao consultório odontológico no dia da consulta e menos capazes de tolerar o estresse adicional durante o tratamento. Se tais pacientes também possuem algum comprometimento sistêmico, o risco de exacerbação aguda de seu problema de saúde aumenta. No paciente ASA 1, tal estresse adicional pode provocar uma resposta psicogenicamente induzida. A fadiga aumentada leva à diminuição do limiar de dor. Este paciente tem maior chance de interpretar o que geralmente não é percebido como sintoma doloroso por um paciente bem descansado como sendo doloroso. O cirurgião-dentista deve determinar se a ansiedade aumentada desse paciente interfere em seu sono. A administração oral de sedativos é uma técnica útil que o dentista pode utilizar para o paciente alcançar um sono tranquilo. O cirurgião-dentista pode prescrever um medicamento ansiolítico ou sedativo-hipnótico, tal como triazolam, flurazepam, zolpidem, ou zaleplon, 1 hora antes de dormir. O uso adequado destes medicamentos é uma maneira excelente para diminuir o estresse pré-operatório. Outros medicamentos, como diazepam, oxazepam, hidroxizina e prometazina têm se mostrado efetivos em adultos e crianças. No Brasil, os mais utilizados são os benzodiazepínicos diazepam, lorazepan, alprazolam e midazolam. O uso dos barbitúricos, como o secobarbital, pentobarbital e hexobarbital, não é recomendado. O hidrato de cloral foi retirado do mercado norte- americano em 2012.50 As dosagens recomendadas para estes hipnótico-sedativos orais se encontram na Tabela 2-8.* *Para uma discussão mais aprofundada do uso destes medicamentos hipnótico-sedativos administrados por via oral, ao leitor é recomendado o livro Malamed SF: Sedation: a guide to patient management. ed 5. St Louis: Mosby, 2010. À medida que a consulta odontológica se aproxima, o nível de ansiedade do paciente aumenta. A administração oral de depressores do SNC, 1 hora antes da consulta, deve diminuir o nível de ansiedade do paciente de tal forma que a lembrança da consulta não seja mais amedrontadora. (A maioria dos depressores do SNC é administrada 1 hora antes do horário agendado para permitir que o nível sanguíneo terapêutico do medicamento seja alcançado.) Recomenda-se que depressores do SNC orais sejam administrados dentro do consultório odontológico, para se evitarem os erros de dosagem. Entretanto, quando o cirurgião-dentista prescrever este tipo de medicamento para ser tomado pelo paciente em casa (porque sente que o medo intenso pode impedir que o paciente venha ao consultório), o mesmo deve avisar ao paciente para não dirigir veículos automotivos ou operar máquinas potencialmente perigosas. Esta advertência DEVE ser documentada na ficha do paciente. Agendamento da consulta Pacientes temorosos ou com comprometimento sistêmico (incluindo as crianças) são mais capazes de tolerar o estresse quando estão descansados. O momento mais adequado para agendar consultas com estes tipos de pacientes geralmente é no começo da manhã. Quando pacientes ansiosos possuem uma consulta no período da tarde, eles devem lidar (mentalmente) com o fantasma da consulta odontológica, arruinandotodo o seu dia, fornecendo mais tempo para que os mesmos se preocupem. Os pacientes se tornam mais medrosos, o que aumenta a probabilidade de que reações psicogênicas adversas aconteçam. Uma consulta logo cedo pela manhã permite que tais pacientes lidem com essa situação de uma vez e então continuem suas tarefas diárias, sem o fardo da ansiedade frente ao tratamento odontológico. Pacientes com comprometimento médico enfrentam uma situação similar. Conforme a fadiga se instala durante o dia, tais pacientes se tornam incrivelmente menos capazes de tolerar aumentos no estresse. Antes da consulta no final da tarde, pacientes com comprometimento sistêmico podem ter passado muitas horas trabalhando ou dirigindo no trânsito, tornando-os menos capazes de tolerar o estresse adicional proveniente do tratamento odontológico. Uma consulta mais cedo concede, tanto ao paciente quanto ao cirurgião-dentista, algum grau de flexibilidade durante o tratamento. O cirurgião-dentista também deve considerar o agendamento do tratamento de pacientes com ansiedade moderada a elevada logo no início da semana. Nesse caso, se complicações pós-operatórias surgirem, o paciente pode entrar em contato com o dentista e ser visto imediatamente. Adicionalmente, o cirurgião-dentista deve tornar rotina o fato de telefonar para tais pacientes no final do mesmo dia do tratamento odontológico, a fim de verificar o estado do paciente. Os pacientes apreciam muito tal contato pessoal, o que também ajuda na minimização ou prevenção de muitas complicações pós-tratamento odontológico. Minimizando o tempo de espera O paciente temeroso não deve ter que esperar por muito tempo na sala de espera do consultório odontológico, antes de o tratamento começar. A antecipação do procedimento geralmente pode induzir a mais medo do que o procedimento em si.51 Sentar e esperar permite que os pacientes assustados percebam os odores do consultório, escutem os sons e fantasiem sobre “coisas terríveis” que vão acontecer com os mesmo quando estiverem na cadeira do dentista. Casos de séria morbidade e morte ocorreram nas salas de espera antes de o tratamento começar.52 Minimizar o tempo de espera é ainda mais importante para um paciente apreensivo e com comprometimento sistêmico. Sinais vitais (pré e pós-operatórios) Antes de começar qualquer tratamento em um paciente com comprometimento sistêmico, o cirurgião-dentista deve monitorar e registrar de rotina os sinais vitais pré- -operatórios. (Um funcionário auxiliar treinado pode monitorar e registrar os sinais vitais). Tais sinais vitais registrados devem incluir pressão sanguínea arterial, frequência e ritmos cardíacos e frequência respiratória. A comparação destes sinais com os registrados numa consulta prévia pode indicar a condição física do paciente em qualquer consulta. Embora os registros dos sinais vitais sejam muito relevantes em pacientes com doença cardiovascular, os mesmos devem ser avaliados e registrados em todos os pacientes com comprometimento médico (todos ASA 3 e em certos ASA 2). Os sinais vitais pós-operatórios também devem ser monitorados e registrados nestes mesmos pacientes regularmente. Sedação durante o tratamento Se a redução adicional do estresse for necessária durante o tratamento odontológico, qualquer técnica de sedação ou anestesia geral pode ser utilizada. Técnicas sem uso de medicamentos incluem a iatrossedação e a hipnose, enquanto as técnicas mais utilizadas incluem a sedação oral, inalatória, IM e IV. O objetivo primário de todas estas técnicas é o mesmo – diminuir ou eliminar o estresse num paciente consciente. Quando técnicas apropriadas são utilizadas adequadamente, esse objetivo geralmente é alcançado sem qualquer risco adicional ao paciente. (O uso destas técnicas em diversos problemas médicos será discutido em capítulos subsequentes.) Controle adequado da dor no tratamento O controle adequado da dor é essencial na redução do estresse. Isto é especialmente importante no caso do paciente com comprometimento médico. Por exemplo, pacientes com doença cardíaca ou vascular significativa podem ser afetados adversamente pela liberação de catecolaminas endógenas; tais pacientes quase sempre justificam a inclusão de um vasoconstritor no anestésico local utilizado. Entretanto, o cirurgião-dentista deve sempre utilizar e administrar estes medicamentos com critério. Sem o controle adequado da dor, a sedação e redução do estresse são impossíveis de serem obtidas. Duração do tratamento odontológico O tempo de duração do tratamento é significativo tanto no paciente com comprometimento médico quanto no paciente apreensivo. A menos que a condição física do paciente exija consultas curtas, o cirurgião-dentista deve considerar os desejos do paciente e decidir sobre a duração apropriada. Em muitos casos, pacientes temerosos (ASA 1 ou 2) podem desejar ter o menor número possível de consultas, independente da duração; tais pacientes podem preferir realizar o tratamento odontológico com consultas de 3 horas ou mais. Entretanto, tentar satisfazer o desejo destes pacientes com consultas mais demoradas é desaconselhável quando o cirurgião- dentista acredita que uma consulta mais curta seja justificada. Por exemplo, casos de morbidade séria e morte ocorreram quando dentistas atenderam aos desejos dos pacientes para completar o tratamento de suas crianças numa única consulta longa, em vez de em número maior de consultas mais curtas.53, 54 Diferentemente do paciente ASA 1 temeroso, pacientes com comprometimento médico não devem ser submetidos a consultas longas. Para muitas pessoas, ficar sentado numa cadeira odontológica por mais de 1 hora é muito estressante. Mesmo um “bom” paciente ASA 1 pode ter dificuldade em tolerar procedimentos odontológicos de 2, 3 horas ou mais. Permitir que um paciente de alto risco se submeta a um período extenso de tratamento aumenta desnecessariamente o risco. Consultas odontológicas para pacientes com comprometimento sistêmico devem ser mais curtas, nunca excedendo o limite de tolerância do paciente. Sinais de que o limite foi excedido incluem fadiga, irritação, sudorese e desconforto. O modo mais prudente de tratar o paciente neste momento é finalizar o procedimento da melhor maneira possível e agendá-lo para uma consulta futura. Controle pós-operatório da dor e ansiedade O controle pós-operatório da dor e ansiedade é tão importante quando o controle pré-operatório e intraoperatório. O controle pós-operatório é ainda mais relevante no caso do paciente que é submetido a um procedimento potencialmente traumático, tal como o tratamento endodôntico, cirúrgico ou periodontal, reconstrução oral extensa ou procedimentos restauradores. O cirurgião-dentista deve considerar complicações potenciais que possam surgir nas primeiras 24 horas depois da consulta, discuti-las com o paciente e tomar as providências para auxiliar o paciente na prevenção e no tratamento dessas situações. Estas providências podem incluir: ■ Estar disponível pelo telefone 24 horas por dia. ■ Monitorar o controle da dor e prescrever medicação analgésica quando necessário. ■ Prescrever antibióticos se houver possibilidade de infecção. ■ Prescrever medicamentos ansiolíticos se o paciente necessitar. ■ Prescrever relaxantes musculares após terapia prolongada ou injeções múltiplas numa área (como o bloqueio do nervo alveolar inferior). A disponibilidade do cirurgião-dentista 24 horas pelo telefone se tornou o padrão de tratamento para o profissional de saúde. Através do uso de telefones celulares, pagers e serviços imediatos de resposta, o paciente realmente espera ser capaz de contatar o cirurgião-dentista, sempre que necessário. Diversos estudos têm demonstrado que os pacientes consideram a dor inesperada mais desconfortável do que a dor antecipada.55 Se a dor pós-operatória é uma possibilidade, o cirurgião-dentista deve informar o paciente e prescrever medicação analgésica. Se o paciente experimenta dor pós-operatória sem ter sido avisado da possibilidade, ele imediatamente pensa que algosaiu errado. Entretanto, se o dentista discute previamente sobre a possibilidade de dor pós-tratamento e se essa dor nunca se materializa, o paciente permanece relaxado e confiante nas capacidades do cirurgião-dentista. FIGURA 2-21 Como modificação na terapia odontológica para o paciente com comprometimento sistêmico, o cirurgião- dentista pode administrar oxigênio suplementar através de cânula nasal e umidificador. Além das modificações gerais desenvolvidas para reduzir o nível de estresse do paciente, o cirurgião-dentista pode considerar modificações específicas no tratamento para pacientes com comprometimento médico. Tanto as modificações específicas quanto gerais, no plano de tratamento, devem constar no registro permanente do paciente (Fig. 2-4). Exemplos de modificações específicas na terapia incluem: ■ Oxigênio umidificado pode ser administrado pela cânula nasal, num fluxo de 3-4 L por minuto (Fig. 2-21). Esta etapa deve ser considerada para pacientes com insuficiência cardíaca ou DPOC, considerados de risco ASA 3. ■ A posição do paciente durante o tratamento pode necessitar de modificação. Alguns pacientes são incapazes de tolerar a posição supina ou semi-supina e necessitar de uma posição mais vertical. Pacientes com graus significativos de ortopneia (três ou quatro travesseiros) podem ser incapazes de respirar confortavelmente numa posição supina. ■ O cirurgião-dentista pode não optar pelo uso do lençol de borracha quando tratar pacientes com alergia ao látex ou certas doenças cardiovasculares ou respiratórias. Se o lençol de borracha não puder ser utilizado, o dentista deve alertar o paciente sobre o risco de engolir ou aspirar um corpo estranho (p. ex., um instrumento odontológico) e fazer registro disso na ficha do paciente. Os protocolos para redução do estresse e modificações específicas no tratamento melhoram a terapia odontológica do paciente antes, durante e depois. Estes protocolos possibilitam o gerenciamento das necessidades odontológicas de muitos pacientes temerosos e com comprometimento médico gerando complicações mínimas. REFERÊNCIAS 1. McCarthy FM: Sudden, unexpected death in the dental office, J Am Dent Assoc 83:1091–1092, 1971. 2. Goldberger E: Treatment of cardiac emergencies, ed 5, St. Louis, Mosby, 1990. 3. Montebugnoli L, Servidio D, Miaton RA, et al.: Heart rate variability: a sensitive parameter for detecting abnormal cardiocirculatory changes during a stressful dental procedure, J Am Dent Assoc 135:1718–1723, 2004. 4. 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Se nem todos os membros da equipe estiverem preparados, as poucas, porém sérias emergências que o cirurgião-dentista encontra ao longo da sua carreira, podem resultar em tragédia. Informação Geral Orientações têm sido estabelecidas para ajudar os cirurgiões-dentistas e membros da equipe a se prepararem adequadamente para um tratamento efetivo e imediato das situações de emergência potencialmente fatais. A maior parte desses protocolos foi desenvolvida pelos conselhos estaduais de banca examinadora odontológica, em conjunto com a certificação dos cirurgiões- dentistas que desejam utilizar técnicas de sedação parenteral, tais como a sedação intramuscular (IM) ou intravenosa (IV), ou ainda a anestesia geral em seus consultórios.1 Protocolos para o preparo em emergências médicas estão incluídas em todas essas regulamentações.2 Grupos especiais, como a American Association of Oral & Maxillofacial Surgeons,3 a American Academy of Pediatric Dentistry,4 além da American Association of Periodontists5, desenvolveram diretrizes para seus membros. A American Association of Dental Schools desenvolveu orientações curriculares para o ensino da anestesia e do controle da dor, as quais incluem recomendações para o preparo em situações de emergências .6 Aqueles afetados primariamente por essas diretrizes são os cirurgiões-dentistas, que receberam educação avançada e graus de treinamento em diversas técnicas de administração de medicamentos depressores do SNC. Estas diretrizes oferecem listas de pessoal, equipamento e medicamentos emergenciais recomendados para o tratamento seguro e efetivo das situações de emergências médicas. Muitas destas diretrizes também trazem protocolos para o tratamento de situações específicas.3 Infelizmente, não existem orientações para a grande maioria dos cirurgiões-dentistas que não receberam treinamento específico na administração de medicamentos ou que não pertençam às sociedades específicas. Ainda, o nível de treinamento em medicina de emergência que a maioria dos profissionais recebe varia consideravelmente. Somente alguns cirurgiões- dentistas e médicos são especialistas em medicina de emergência, enquanto a maioria possui não mais do que o conhecimento básico do tratamento de emergência. Em 2010, o estado de Massachusetts tornou obrigatório que todos os cirurgiões- dentistas que praticassem a odontologia no estado mantivessem um kit “básico”, com medicamentos e equipamentos de emergência, no consultório odontológico7 (Tabela 3-1). Independentemente do nível de treinamento em medicina de emergência, os membros da equipe odontológica devem estar igualmente preparados para tratar destas situações. Sempre se espera que o cirurgião-dentista inicie o tratamento emergencial e seja capaz de sustentar a vida do paciente por meio da aplicação das etapas do suporte básico de vida (SBV, ou BLS em inglês – também conhecido como reanimação cardiopulmonar [RCP]): P (posicionamento), C (circulação), A (vias aéreas), B (respiração). O manejo de D (tratamento definitivo), que inclui o diagnóstico e a administração de medicamentos, além do emprego do desfibrilador, está previsto dentro do nível de treinamento de cada cirurgião-dentista. Necessidade geográfica para o treinamento emergencial Alguns cirurgiões-dentistas irão se encontrar em situações especiais, as quais requerem um treinamento mais significativo do que o nível básico recomendado neste texto. Em algumas partes do mundo, incluindo áreas do Brasil, Estados Unidos e Canadá, ainda existem áreas pouco ocupadas, onde o tratamento médico – quer seja de rotina ou de emergência – não está imediatamente disponível. Nas minhas viagens, eu tenho encontrado dentistas, auxiliares e higienistas de áreas rurais de Montana, Dakota do Norte, Nevada oriental, Arizona, Novo México, Alasca e Canadá, que por si próprios lidam com todos os tratamentos de urgência em áreas geográficas extensas. Muitos destes profissionais declaram que eles são os principais prestadores de cuidados nas emergências médicas, uma vez que o serviço de ambulância mais próximo fica a mais de 1 hora de distância. Muitos destes profissionais são treinados em suporte avançado de vida em cardiologia (SAVC, ou ACLS em inglês) e certificados em suporte avançado de vida no trauma (SAVT, ou ATLS em inglês), enquanto outros possuem graus variados de treinamento, como técnicos em emergências médicas (EMTs) e paramédicos. Morrow sugere níveis apropriados de treinamento em situações de emergência para estes profissionais e recomenda que os mesmos tenham acesso imediato aos kits de emergência, sendo que o conteúdo desses kits fica baseado na distância entre o consultório odontológico e a unidade de emergência mais próxima.8 Quanto maior a distância e o tempo necessário de viagem, mais treinamento e acesso aos medicamentos de emergência estes cirurgiões-dentistas devem possuir. TABELA 3-1 Sumário dos itens requeridos em Massachusetts Equipamentos e suprimentos exigidos durante a administração de anestesia local Medicamentos requeridos* Fonte alternativa de luz para casos de queda de eletricidade Ácido acetilsalicílico (forma rapidamenteabsorvível) Desfibrilador externo automático (DEA) Sachês de amônia Máscaras para RCP (tamanhos pediátrico e adulto) Anti-histamínico Seringas descartáveis (diferentes tamanhos) Anti-hipoglicemiante Máscaras faciais descartáveis para adultos e crianças ou máscara de pressão positiva com oxigênio suplementar Broncodilatador Oxigênio (cilindro portátil tipo E) e máscaras tamanho pediátrico e adulto com capacidade para fornecer ventilação com pressão positiva (incluindo o dispositivo bolsa-válvula- máscara) Seringa pré-dosada de adrenalina (adulto e infantil) Esfigmomanômetro e estetoscópio para pacientes adultos e pediátricos 2 ampolas de adrenalina Aparelho de sucção Oxigênio Qualquer outro equipamento pode ser exigido pelo Conselho Vasodilatador Qualquer outro medicamento ou categoria de medicamento pode ser exigido pelo Conselho *Os medicamentos e/ou as categorias de medicamentos devem ser providenciados e mantidos de acordo com os protocolos da AHA/ACLS (234 CMR 6.02) ou determinado pelo Conselho. Todos os medicamentos devem ser atualizados e dentro do prazo de validade. Equipe do consultório Já que o cirurgião-dentista não pode estar com os pacientes desde o momento em que entram pela porta e até o momento em que saem do consultório, todos os membros da equipe devem estar preparados para tratar problemas e emergências que podem surgir na ausência do dentista. O preparo de todos os membros da equipe e do consultório odontológico para as emergências médicas deve incluir os seguintes requisitos mínimos:9 1. Treinamento da equipe, incluindo instrução de suporte básico de vida para o profissional de saúde, para todos os membros do consultório odontológico, reconhecimento e tratamento das situações de emergência específicas, reconhecimento dos “gatilhos” que levam à ocorrência da emergência médica. 2. Preparo do consultório, incluindo a afixação de números de emergência importantes em quadros além do estoque dos medicamentos e equipamentos de emergência. Treinamento Indiscutivelmente, a etapa mais importante no preparo para as emergências médicas no consultório odontológico é o treinamento de toda a equipe, incluindo os empregados que não ficam na sala de atendimento (recepcionistas e técnicos de laboratório), para o reconhecimento e tratamento das situações de emergências médicas. Este treinamento deve incluir um curso anual de reciclagem em medicina de emergência, com todas as condições possíveis incluídas, como convulsões, dor torácica e dificuldade respiratória, em vez de uma simples recertificação em suporte básico de vida. Os cursos de educação continuada em preparo e tratamento das emergências são apresentados na maioria dos encontros odontológicos e por meio da maioria das sociedades odontológicas locais. Suporte básico de vida O treinamento já mencionado deve incluir o entendimento e a capacidade de realizar o suporte básico de vida (SBV). Um entendimento do SBV inclui conhecimento detalhado do protocolo P→C→A→B→D.* Toda a equipe odontológica deve obter a certificação de SBV para profissionais de saúde (American Heart Association [AHA]; www.heart.org/bls) ou primeiros socorros, RCP, desfibrilador externo automático (DEA) para profissionais de saúde (American Red Cross; www.redcross.org/CPR-Training) pelo menos uma vez por ano. A obrigatoriedade do treinamento em suporte básico de vida deveria ser incluída no currículo de cada membro da equipe odontológica. *P → C → A → B → D. P = posicionamento; C = circulação; A = vias aéreas; B = ventilação; D = tratamento definitivo. A capacidade de todos os membros do consultório odontológico em administrar o suporte básico de vida é a etapa mais importante no preparo para o tratamento das situações de emergência. O tratamento inicial de todas as situações médicas de emergência implica o uso dos passos do SBV. (Componentes específicos do SBV são discutidos em detalhes nos Caps. 5, 30 e 31.) Muitas, se não a maioria, das situações de emergência no consultório odontológico são rapidamente controladas pelo uso apenas destas etapas. A terapia medicamentosa sempre é relegada ao segundo momento. Desfibrilação Estatísticas interessantes da American Heart Association e outras fontes10, 11 têm mostrado que o SBV (P → C → A → B → D) em si não fornece uma chance significativa de sobrevivência ao paciente que sofreu parada cardiorrespiratória fora do ambiente hospitalar. As taxas de sobrevivência são menores do que 5% quando o P→ C → A → B→ D é iniciado imediatamente, mas D (desfibrilação) é postergada por mais de 10 minutos.12 Uma taxa de sobrevivência menor do que 5% pode parecer desanimadora, mas contrasta significativamente com a taxa de 0% quando o protocolo do suporte básico de vida não é realizado. Por outro lado, taxas de sobrevivência para pacientes com parada cardiorrespiratória fora do hospital atingiram ٤3٪ em Seattle, Washington, quando a implantação rápida do SBV foi combinada imediatamente (menos de 8 minutos) com a desfibrilação.13 Estudos em Las Vegas, Nevada, têm demonstrado taxas de sobrevivência para paradas cardiorrespiratórias, no andar referente ao cassino, de 78%.14 Alguns profissionais da medicina e odontologia têm usado estes dados para argumentar contra a necessidade de certificação em RCP antes de os mesmos terem licença para atuar. Este argumento é falho por dois motivos: 1. A reanimação cardiopulmonar (SBV) não é utilizada exclusivamente em situações de parada cardiorrespiratória.* Na verdade, a maioria dos profissionais de saúde que trabalham fora do ambiente hospitalar talvez jamais precise usar todas as etapas necessárias do SBV quanto precisaria numa parada cardiorrespiratória. Entretanto, todos os profissionais de saúde, inclusive os cirurgiões-dentistas, poderão ser chamados muitas vezes para manter uma via aérea (A) e, em ocasiões menos comuns, manter a respiração do paciente (A e B) no tratamento das emergências médicas que não sejam paradas cardiorrespiratórias. *(É preferível chamar a técnica de suporte básico de vida [SBV] e não reanimação cardiopulmonar [RCP]. O termo RCP traz imagens de um paciente sofrendo parada cardiorrespiratória, durante a qual as compressões torácicas estão sendo realizadas. Na realidade, a abertura das vias áreas e a ventilação são, sem dúvida, os componentes mais realizados no SBV. Houve uma tentativa de mudar o nome RCP para RCPC [ressuscitação cardiopulmonar cerebral], um termo que descreve mais o objetivo primário do SBV – a sobrevivência do paciente, associada à manutenção do funcionamento normal do cérebro). 2. Nos Estados Unidos, os cirurgiões-dentistas representam um dos poucos grupos de profissionais de saúde que podem aprender a administrar o suporte avançado de vida em cardiologia (SAVC, ou ACLS em inglês). Infelizmente no Brasil isso não é possível. Embora o autor não recomende que todos os cirurgiões-dentistas e médicos tenham a obrigatoriedade de fazerem o SAVC (existem alguns grupos, entretanto, nos quais o treinamento deve ser solicitado, como descrito resumidamente), é fato que o mesmo não será efetivo na ausência de SBV. Aqueles dentistas que trabalham em áreas remotas do país, onde o equipamento de emergência não está imediatamente disponível, deveriam considerar o treinamento em SAVC. O treinamento em SAVC envolve as seguintes áreas: 1. Adjuntos para controle das vias áreas e ventilação (incluindo a entubação) 2. Monitoramento do paciente e reconhecimento das arritmias cardíacas 3. Desfibrilação e cardioversão sincronizada 4. Farmacologia cardiovascular 5. Manutenção do equilíbrio acidobásico 6. Punção venosa 7. Reanimação em crianças, incluindo recém-nascidos Embora nem todos os cirurgiões-dentistas precisem conhecer estes procedimentos, eles são indispensáveis em situações de emergência. Os programas de suporte avançado de vida em cardiologia são fornecidos por hospitais sob o patrocínio da American Heart Association (AHA). Tal treinamento é muito valioso para aqueles que utilizam sedação parenteral ou anestesia geral nos seus pacientes. Para o odontopediatra,ou qualquer cirurgião-dentista que trate um número significativo de pacientes pediátricos (com até 30 kg de peso), o treinamento em suporte de vida avançado em pediatria (PALS) deve ser recomendado. Muitas mudanças ainda precisam ser feitas no Brasil para que se tenha o entendimento da importância de tais cursos para o cirurgião-dentista e para que o mesmo ganhe a permissão de frequentar cursos que atualmente são direcionados, principalmente, a médicos, como o SAVC. Manejo da equipe Quando os membros da equipe do consultório estão treinados para reconhecer e gerenciar as situações de emergências médicas, cada pessoa é capaz de manter sozinha a vida da vítima ou, muito mais provavelmente, como um membro de uma equipe de emergência treinada. Embora o tratamento da maior parte das emergências seja possível apenas com um único socorrista, os esforços combinados de diversos indivíduos treinados geralmente são mais eficientes. Já que a maioria dos consultórios odontológicos possui mais de um membro da equipe presente durante as horas de trabalho (quando ocorre a maioria das emergências), uma abordagem em equipe se torna possível. A equipe de emergência deve consistir de, no mínimo, dois ou três membros, cada um com um papel pré-definido no tratamento da emergência. O cirurgião-dentista geralmente lidera a equipe e dirige as ações dos outros membros. O papel de cada membro da equipe é claramente definido em um artigo publicado por Haas, no Journal of the American Dental Association, em 2011.15 O membro número 1 é a primeira pessoa a se aproximar da vítima quando ocorre uma emergência. Sua tarefa é iniciar o SBV (P→C→A→B→D) após ter examinado o paciente. Esta pessoa também ativa o sistema de emergência do consultório pedindo (gritando) por ajuda, alertando os membros da equipe sobre a necessidade de auxílio (similar ao “código azul” em um hospital). O membro 1 deve permanecer com a vítima durante toda a emergência, a menos que outro membro da equipe o substitua. Tarefas do membro número 1 ■ Fornecer SBV como indicado ■ Permanecer com a vítima ■ Alertar os demais membros da equipe O membro número 2, ouvindo o pedido de auxílio, deve pegar o kit de emergência, o DEA e o sistema portátil de oxigênio (O2), trazendo-os para o local da emergência. O sistema de liberação de oxigênio, o kit de medicamentos e o DEA devem ser guardados juntos, num local facilmente acessível. Tarefas do membro número 2 ■ Trazer o kit de emergência (medicamentos, O2 e DEA) ao local da emergência ■ Verificar o O2 diariamente ■ Verificar o kit de emergência semanalmente ■ Verificar o DEA semanalmente O membro número 3 age como um assistente circulante. Este membro, na verdade, pode ser mais do que uma pessoa, já que estas tarefas podem ser delegadas. Por exemplo, uma auxiliar de consultório dentário que trabalha com o cirurgião- dentista pode ter esta função se o paciente atendido for a vítima da emergência. Em outra situação, o membro 3 pode ser a pessoa mais próxima, a qual surge para ajudar o membro número 1. As funções primárias do membro número 3 incluem auxiliar o membro número 1 com o SBV, se necessário, monitorar os sinais vitais (pressão sanguínea arterial, frequência e ritmo cardíacos, respiração) e fornecer toda e qualquer assistência necessária. Por exemplo, o membro número 3 pode preparar os medicamentos de emergência para a administração, ocasionalmente administrar os medicamentos, posicionar a vítima, afrouxar o colarinho ou o cinto, ativar os serviços de emergência médica, ou ainda realizar todas essas tarefas. O membro número 3 também pode manter o registro cronológico escrito de todos os eventos, incluindo os sinais vitais, a administração de medicamentos e a resposta do paciente ao tratamento. Num consultório odontológico amplo, o membro número 3 pode ser enviado para a entrada principal, a fim de receber o socorro médico especializado e levá-los até a vítima. Tarefas do membro número 3 ■ Auxiliar com SBV ■ Monitorar os sinais vitais ■ Preparar os medicamentos de emergência para administração ■ Ativar os serviços de emergência médica ■ Auxiliar quando necessário ■ Manter os registros escritos ■ Encontrar os socorristas na entrada do edifício e escoltá-los até o consultório Todo o pessoal da equipe do consultório odontológico deve ser capaz de atuar nas situações de emergência. Mais ainda, todos os membros da equipe devem ser capazes de realizar as tarefas de qualquer outro membro. Dessa maneira, a prática se torna de fundamental importância. Os cirurgiões-dentistas não têm que assumir o papel do membro número 1 – a pessoa que realmente realiza o tratamento de emergência. Todas as tarefas podem ser delegadas durante as situações de emergência, contanto que as pessoas que recebem essas funções estejam bem treinadas. Se os cirurgiões-dentistas sentirem que estão mais preparados para conduzirem essa tarefa, por qualquer motivo que seja, então devem fazê-la. Entretanto, é o dentista que tem a responsabilidade final pelo gerenciamento e resultado de toda a situação de emergência. Sessões de prática de emergências Se emergências médicas ocorressem regularmente na odontologia, as sessões de prática em situações de emergência seriam menos necessárias, pois os membros da equipe receberiam seu treinamento sob condições reais de emergência. Felizmente, as situações de emergências potencialmente ameaçadoras da vida não ocorrem com frequência. Assim, os membros da equipe rapidamente se tornam “enferrujados”, porque não recebem oportunidades maiores para praticar seus conhecimentos. Cursos anuais de reciclagem são indispensáveis na manutenção de uma equipe de emergência funcional. Entretanto, a capacidade de a equipe atuar de forma eficaz no consultório é ainda mais importante. Treinos periódicos dentro do consultório odontológico ajudam a manter a eficácia da equipe na ausência de uma emergência médica verdadeira. Todos os membros da equipe devem responder exatamente como responderiam sob condições emergenciais reais. Alguns cirurgiões- dentistas adquirem manequins e mantêm sessões constantes de treinamento, durante as quais todos os membros da equipe podem exercitar suas habilidades em SBV. Adicionalmente, programas instrutivos podem fornecer exemplos visuais de atendimento de emergência adequado no consultório odontológico, incluindo demonstrações sobre o preparo e administração de medicamentos.16 O exemplo a seguir é uma situação de emergência que pode ser utilizada como cenário de treinamento no consultório odontológico: o cirurgião-dentista prepara um anestésico local para ser administrado no paciente. À medida que a seringa é introduzida na boca do paciente, o mesmo perde a consciência. O cirurgião-dentista (membro 1) chama os outros membros da equipe, utilizando uma palavra código ou outro dispositivo de comunicação, como uma luz ou alarme. O membro 2, um assistente que está trabalhando na cadeira ao lado, apanha o cilindro de O2 de emergência, o kit de medicamentos e o DEA, trazendo-os para o local, enquanto o membro 3, assistente de consultório, auxilia o dentista e a vítima. O membro 1 inicia o SBV, posicionando o paciente e mantendo a via aérea pérvia (inclinação da cabeça e elevação do mento). FIGURA 3-1 Registro de tratamento de emergência do Institute of Medical Emergency Preparedness. (Reimpresso com permissão, Institute of Medical Emergency Preparedness, Hattlesburg, Mississippi.) O membro 3 monitora os sinais vitais da vítima por meio da palpação da artéria carótida, braquial ou radial, a fim de aferir a frequência cardíaca. Sob a supervisão do cirurgião-dentista, o membro 2 prepara o O2 para possível uso e localiza os sachês de sais aromáticos de amônia. Se possível, o membro 3 (ou outro membro da equipe, se disponível) vai registrar, em ordem cronológica, os sinais vitais e os tratamentos que vão sendo realizados durante a emergência (Fig. 3-1). Se a vítima não recuperar a consciência num período razoavelmente curto de tempo, o membro 2 ou 3 é solicitado a ativar o sistema de serviço deemergência da cidade, encontrar o pessoal do atendimento profissional de emergência e acompanhá-los até o consultório. Se for necessário administrar medicamentos de emergência, o cirurgião-dentista, se possível, deve se encarregar disto. Entretanto, quando isto não for possível, o dentista deve encarregar outro membro da equipe para administrar os medicamentos, contanto que seja sob sua supervisão. Nos capítulos subsequentes, os membros da equipe odontológica receberão orientações para prevenção, reconhecimento e tratamento das situações de emergências médicas. Entretanto, equipes de emergência são efetivas apenas se os membros da equipe praticam e treinam regularmente. O Quadro 3-1 fornece um resumo das recomendações de cada um dos três membros da equipe odontológica durante um atendimento de emergência. Preparo do consultório: assistência médica de emergência Os membros da equipe do consultório odontológico devem estar cientes de quem chamar e quando chamar, quando uma emergência médica se desenvolve. A quem chamar. Embora a maioria das emergências no consultório odontológico seja tratada eficientemente pela própria equipe, algumas dessas emergências podem necessitar de auxílio adicional. O cirurgião-dentista deve estar preparado para essa necessidade, antes mesmo de a emergência ocorrer. Certos números de telefone de emergência devem estar disponíveis, estando próximo dos telefones do consultório e programados no sistema de “discagem rápida”. O dentista pode desejar incluir os números do sistema de assistência médica emergencial local (9-1-1 nos Estados Unidos e Canadá; 1-9-3 para o Corpo de Bombeiros e 1-9-2 para SAMU, no Brasil; 9-9-9 no Reino Unido; e 1-1-1 na Nova Zelândia), de um médico ou cirurgião- dentista próximo ao consultório e que possua treinamento em emergências, um serviço ambulatorial ou de um hospital com emergência próximo. QUADRO 3-1 Equipe de emergência do consultório odontológico OBRIGAÇÕES DO MEMBRO DA EQUIPE # 1 • Providenciar suporte básico de vida conforme necessidade • Permanecer com a vítima • Alertar os demais membros da equipe OBRIGAÇÕES DO MEMBRO DA EQUIPE # 2 • Trazer o kit de emergência, O2, e DEA para o local de emergência • Checar o O2 diariamente • Checar o kit de emergência semanalmente • Checar o DEA semanalmente OBRIGAÇÕES DO MEMBRO DA EQUIPE # 3 • Auxiliar com o suporte básico de vida • Monitorar sinais vitais • Preparar os medicamentos de emergência para administração • Ativar o sistema de emergências médicas • Auxiliar quando necessário • Anotar os registros • Encontrar a equipe de emergências médicas na portaria do prédio e escoltá-los ao local de emergência Quase todas as áreas nos Estados Unidos, e um número cada vez maior de países no mundo inteiro, instituíram números universais de emergência para acelerar a ativação da equipe de incêndio, polícia e emergência. Embora existam diversos graus de sofisticação para esses serviços, o número geralmente conecta a pessoa que faz a ligação telefônica ao operador, que tria a emergência e ativa a equipe responsável (incêndio, polícia e emergência médica). Quando a assistência médica de emergência se faz necessária no consultório, o serviço de emergência médica comunitário (9-1-1 nos Estados Unidos) é a fonte preferida de ajuda imediata. Os tempos de resposta nos Estados Unidos não ultrapassam os 9 minutos para centros urbanos e cerca de 15 minutos para áreas rurais.17 No Brasil, infelizmente, ainda não existe um número universal para fazer a triagem da situação de emergência, via telefone, e encaminhar a chamada ao centro de atendimento de polícia, incêndio ou emergências médicas. Portanto, ao necessitar o serviço da polícia, o número 1-9-0 deve ser acionado pela pessoa que faz a ligação. Ao desejar a chegada do Corpo de Bombeiros, o número acionado deve ser 1-9-3, e, para a assistência do SAMU, o número acionado deve ser o 1-9-2. QUADRO 3-2 Informações a serem fornecidas ao operador de telefone do serviço de emergências médicas (192 ou 193) 1. Localização da ocorrência (com nomes de cruzamentos, rodovias e número do edifício, se possível) 2. Número de telefone de onde a chamada está sendo efetuada 3. O que aconteceu – infarto agudo do miocárdio, acidente automotivo etc. 4. Quantas pessoas necessitam de ajuda 5. Condição da(s) vítima(s) 6. Qual tipo de ajuda está sendo providenciada para a vítima (p. ex., “RCP em progresso” ou “estamos utilizando o DEA”) 7. Qualquer outra informação requerida Para se certificar de que o operador do telefone não tenha mais nenhuma pergunta, a pessoa que efetua a ligação somente deve desligar o telefone quando instruído para fazê-lo pelo operador do outro lado da linha. O membro da equipe que solicita o serviço de emergências médicas local deve tentar permanecer calmo e fornecer ao operador da ligação toda a informação solicitada. O operador vai questionar sobre a natureza da emergência em termos gerais (p. ex., se o paciente está consciente ou não, se tem dor no peito ou convulsões etc.) e o endereço do consultório odontológico.* O Quadro 3-2 sumariza um diálogo “típico” com o operador do serviço de atendimento 911 nos Estados Unidos. O endereço do consultório odontológico deve estar colado ao lado de cada telefone. Se o consultório fica localizado em um prédio comercial amplo, um membro da equipe do consultório odontológico deve esperar próximo à entrada do prédio, com o elevador disponível para a equipe médica de emergência, além de acompanhá-los até o local onde a emergência está se desenvolvendo. *Sistemas mais avançados de atendimento médico de emergência fornecem a localização exata da chamada, se a ligação durar um período mínimo (p. ex., 15 segundos). Entretanto, erros de localização têm ocorrido, principalmente nos casos em que o indivíduo tenha mudado de endereço mas não tenha mudado de número de telefone. Quem está fazendo a chamada deve confirmar o endereço ao efetuar a ligação. O cirurgião-dentista também pode requisitar a ajuda de um profissional médico ou odontológico bem treinado no preparo para emergência. Isto deve estar bem organizado antes de a ajuda se tornar de fato necessária e o dentista deve ter a certeza de que este profissional vai estar disponível no período de funcionamento do consultório. De acordo com minha experiência, os melhores indivíduos treinados nesta área são os médicos emergencistas (intensivistas), anestesiologistas, cirurgiões (médicos) e os cirurgiões bucomaxilofaciais (odontológicos). Infelizmente, especialistas em medicina de emergência e anestesiologistas trabalham, na maioria das vezes, dentro do hospital e não estão prontamente disponíveis para assistência externa caso o cirurgião-dentista necessite. Entretanto, a maioria dos cirurgiões médicos e odontológicos trabalham em clínicas particulares na comunidade, assim podem estar disponíveis. Um acordo prévio com estes indivíduos pode ajudar na prevenção de confusões e no aumento da utilidade em situações de emergência. Muitos serviços de ambulâncias requerem que a equipe seja treinada como técnicos em emergências médicas (TEM). Estes indivíduos podem auxiliar o cirurgião-dentista na ausência de ajuda adicional de um médico. O nível de assistência disponível neste caso varia entre o SBV e o SAVC. FIGURA 3-2 A, Selo de garantia de qualidade de tratamento das emergências cardíacas, fornecido pela AHA. B, Selo para emergências pediátricas. Cada vez mais, os “primeiros a chegar” na cena da emergência médica (bombeiros, policiais e motoristas de ambulâncias) são treinados em SBV, incluindo a desfibrilação. A localização de um hospital próximo ao consultório odontológico deve ser determinada. Este estabelecimento deve ter um serviço disponível 24 horas, com pessoal altamente treinado. Além disso, todos os membros da equipe devem ter determinado o departamento hospital médico emergencial totalmente equipado e mais próximo ao local de residência. A American Heart Association avalia periodicamente os departamentos de emergência nos Estados Unidos e concede símbolosque ficam dispostos na parte externa dos departamentos, quando os mesmos atingem os requisitos essenciais (Fig. 3-2). Avaliações são realizadas nos departamentos de emergência médica adulta e pediátrica. A quem chamar ■ Serviços de Emergências Médicas (9-1-1, nos Estados Unidos; 1-9-3 e 1-9-2, no Brasil) ■ Médico ou cirurgião-dentista mais próximo e bem treinado em emergências médicas ■ Serviço de ambulância ■ Hospital de referência e bem equipado que esteja mais próximo Um ponto a ser ressaltado é que, numa situação de emergência, o número de telefone a ser ligado na maior parte dos Estados Unidos é 9-1-1 (nove-um-um) e não 9-11 (nove-onze). Isso porque nos momentos de pânico, as pessoas que fazem a ligação podem se confundir e ser incapazes de localizar o 11 (onze) no teclado. O mesmo serve para o Brasil. Sempre que se delega alguém para fazer a ligação para o serviço de emergências médicas, deve-se instruir a pessoa quanto ao número. Não dizer somente: “Ligue para os bombeiros”, mas sim “Ligue para os bombeiros no número 1-9-3”. Isto é ainda mais importante quando a pessoa que faz a chamada é uma criança. Além disso, é importante frisar que nem todas as pessoas ao redor serão, necessariamente, bem instruídas, principalmente quando a emergência ocorre fora do consultório odontológico, na rua, por exemplo. Em um grande número de incidentes registrados, nos Estados Unidos, tal problema levou ao atraso (ou não chegada) da equipe de atendimento do Serviço de Emergências Médicas e acarretou a morte da vítima. Quando chamar. O membro designado para chamar o Serviço de Emergências Médicas deve fazê-lo tão logo o indivíduo responsável pela saúde do paciente decida que essa atitude seja necessária. Nunca hesite em buscar ajuda se houver dúvida sobre a natureza da situação ou sobre o seu tratamento. Quanto mais cedo a ajuda, melhor. Medicamentos e equipamento de emergência Os medicamentos e o equipamento de emergência devem estar disponíveis em todos os consultórios odontológicos. Em um levantamento com 2.704 dentistas nos Estados Unidos e Canadá, 84% possuíam medicamentos de emergência e equipamentos disponíveis.18 Embora a maioria das situações de emergência não exija a administração de medicamentos, em muitas ocasiões eles podem salvar vidas. Por exemplo, na reação anafilática (alergia sistêmica aguda), a administração de adrenalina é crítica para sobrevivência do paciente. Na maioria das outras situações de emergência, entretanto, a administração medicamentosa será secundária no tratamento geral no suporte básico de vida. Kits de emergência comerciais e caseiros Diversos kits de emergência estão disponíveis comercialmente para venda aos profissionais de medicina e odontologia. Embora alguns kits específicos sejam bem concebidos, outros contêm medicamentos e equipamento de valor duvidoso para um consultório médico ou odontológico típico. Estes kits geralmente são desenhados por um fabricante, em colaboração com especialistas na área de emergências médicas. Os medicamentos e equipamentos que estes kits incluem geralmente refletem a experiência dos especialistas, e não o nível de treinamento dos cirurgiões-dentistas para os quais estes equipamentos foram desenhados. O Council on Dental Therapeutics of the American Dental Association apresentou relatórios sobre os kits de emergência médica em 1973, 1998 e 2002.20-22 As seguintes declarações foram feitas no relatório de 2002: Ainda, todos os consultórios odontológicos deveriam manter pelo menos os equipamentos e medicamentos básicos recomendados para emergência. O conteúdo e desenho destes kits devem ser baseados em treinamento e necessidades individuais de cada profissional. Kits de emergência específicos estão disponíveis, mas nenhum destes kits é compatível com as necessidades dos diferentes tipos de profissionais. O Council on Scientific Affairs não recomenda qualquer kit emergencial médico específico: ele recomenda que os cirurgiões-dentistas, após considerarem treinamento e suas necessidades específicas, montem seus próprios kits individuais se os kits específicos não preencherem as suas necessidades.22 O Guidelines for the Use of Conscious Sedation, Deep Sedation and General Anesthesia for Dentists da ADA define claramente o treinamento, equipamento e medicamento de emergência necessários ao tratamento seguro das emergências relacionadas às vias de administração oral, intramuscular, intranasal e intravenosa.1 Organizações odontológicas locais possuem recomendações similares, e muitas bancas examinadoras na odontologia (Boards of Dental Examiners), nos Estados Unidos, também possuem listas de medicamentos e equipamentos de emergência necessários a serem adquiridos pelos dentistas1-5. Cirurgiões-dentistas que utilizam estas técnicas devem consultar suas leis estaduais sobre os equipamentos e medicamentos específicos. Em 2010, Massachusetts, nos Estados Unidos, se tornou o primeiro estado a obrigar todos os cirurgiões-dentistas licenciados a possuírem, em seus consultórios odontológicos, um kit de medicamentos e equipamentos de emergência7 (Tabela 3-1). Na concepção de um kit de medicamentos e equipamentos de emergência, o Council sugere que os seguintes medicamentos, no mínimo, sejam incluídos: adrenalina 1:1.000 (injetável), bloqueador histamínico (injetável), oxigênio com administração de pressão positiva, nitroglicerina (tablete sublingual ou aerossol), broncodilatador (inalador para asmáticos), açúcar e aspirina. Outros medicamentos podem ser incluídos à medida que o treinamento do cirurgião-dentista aumente. É muito importante que o dentista tenha conhecimento sobre as indicações, contraindicações, dosagens e métodos de aplicação de todos os itens incluídos no kit de emergência. Os cirurgiões-dentistas devem exercitar a manutenção contínua do kit por meio da reposição dos medicamentos que estão para ultrapassar o prazo de validade, antes da sua data de vencimento. Ainda que as 44 bancas examinadoras nos Estados Unidos exijam que seus cirurgiões-dentistas sejam treinados em suporte básico de vida a cada 2 anos, apenas 14 estados (Flórida [o primeiro a tornar essa prática mandatória – em 2006], Colorado, Arkansas, Georgia, Louisiana, Massachusetts, Michigan, Maryland, Mississippi, Nova Iorque, Tennessee, Carolina do Norte, West Virginia e Wisconsin) exigem que um DEA esteja disponível no consultório odontológico. Existem muitos consultórios odontológicos localizados em regiões onde os serviços de emergência médica, com equipe bem treinada em desfibrilação e com equipamento de atendimento em emergência, não estão disponíveis em tempo razoável (menos de 10 minutos); nesses locais, considerando a importância da desfibrilação na sobrevivência de um paciente em parada cardiorrespiratória (Cap. 30), o cirurgião-dentista pode considerar adquirir um desfibrilador externo automático, ou DEA, para o seu consultório odontológico. As Figuras 3-3 a 3-6 ilustram uma variedade de kits de emergência comerciais. O kit de emergência considerado o mais prático é aquele que o cirurgião-dentista monta pessoalmente, refletindo as necessidades e capacidades do mesmo. Na minha experiência, kits de medicamentos de emergência comerciais são colocados rapidamente nas cabines de armazena mento do consultório, onde permanecem intactos até que surja uma emergência. O cirurgião-dentista e os membros da equipe passam pouco tempo (se é que passam algum) familiarizando-se com os conteúdos do kit ou com os as indicações de uso dos medicamentos. Ainda pior, o cirurgião-dentista pode tentar usar os medicamentos do kit sem estar familiarizado com os mesmos ou com a natur eza do problema do paciente. O kit de emergência rapidamente se torna um artifício de segurança que fornece pouca segurança. De posse de um kit individualizado, preparado pelo cirurgião-dentista, o mesmo se familiariza com todos os medicamentos e equipamentos disponíveis. Este conhecimento detalhado beneficia tanto o cirurgião-dentista quanto o paciente numa situação de emergência. FIGURA 3-3 BanyanStat Kit 1000HD. (Cortesia da Banyan International Corporation, Abilene, Texas.) FIGURA 3-4 Banyan Stat Kit Z-1000. (Cortesia da Banyan International Corporation, Abilene, Texas.) FIGURA 3-5 Healthfirst SM-Z. (Cortesia da Healthfirst Corporation, Edmonds, Washington.) FIGURA 3-6 Healthfirst SM-7. (Cortesia da Healthfirst Corporation, Edmonds, Washington.) FIGURA 3-7 Medicamentos autoinjetáveis (CLAM: Compact Layout Auto-Injectable Medications). Kit de medicamentos de emergência pré-dosados e pré-medidos, designado para caber dentro da bolsa do DEA. (Com permissão de: Core Medical Systems. New York, NY. Tel: 212.873.0105, www.CLAMmedical.com.) Cada cirurgião-dentista deve selecionar os itens a serem introduzidos no kit de emergência, com base no seu treinamento em emergências médicas, na importância do medicamento para uma resolução bem-sucedida da situação e, em alguns casos, conforme as leis para equipamentos e medicamentos obrigatórios. Este último requisito é geralmente encontrado nas especialidades, como a anestesiologia ou sedação parenteral,2 cirurgia oral e maxilofacial,3 pediatria,4 periodontia,5 e ainda no estado de Massachusetts.7 Kits de Medicamentos de Emergência O kit de emergência médica no consultório não precisa, e mais ainda, não deve ser complicado. Ele deve ser tão simples quanto possível. O conceito “KISS” (Keep It Simple, Stupid) é importante neste momento: “Mantenha isto simples, seu estúpido”. A declaração de Pallasch de que a “complexidade num momento de adversidade leva ao caos” é tão verdadeira hoje quanto na época de sua escrita, em 1976.24 O cirurgião-dentista deve se lembrar de três coisas no preparo e uso dos kits de emergência: 1. A administração medicamentosa não é necessária para o tratamento imediato das emergências médicas (o SBV é utilizado sempre, quando necessário, em primeiro lugar). 2. O tratamento primário de todas as emergências médicas envolve o SBV. 3. Quando estiver na dúvida, não use medicamentos (haverá uma exceção bastante específica a esse quesito em caso de choque anafilático [Cap. 24]). O kit de emergência descrito nas seções seguintes é uma coletânea organizada e simples de medicamentos e equipamentos, altamente efetivos no tratamento das situações de emergência potencialmente fatais que ocorrem nos consultórios odontológicos. Entretanto, o tratamento adequado de um paciente em quase todas as situações de emergência não requer nenhuma administração de medicamentos. Primeiro e antes de tudo, o tratamento das situações de emergência envolve os passos do SBV (P→C→A→B→D). Somente depois da administração destes passos é que o cirurgião-dentista deve considerar o uso de medicamentos. Mesmo no caso de um choque anafilático agudo, durante o qual o paciente experimenta dificuldade respiratória imediata, colapso circulatório, ou ambos, o SBV permanece sendo a resposta imediata, seguido o mais rápido possível da administração de adrenalina. O tratamento de todas as situações de emergência segue o protocolo P→C→A→B→D (tratamento definitivo: diagnóstico, medicamentos e desfibrilação). Componentes do kit de emergência As orientações a seguir foram concebidas para ajudar no desenvolvimento de um kit de emergência que seja útil para o consultório odontológico. Categorias terapêuticas para inclusão nesse kit estão listadas, sugestões são oferecidas para medicamentos específicos em cada grupo e os critérios de seleção para cada medicamento são mencionados e explicados. Os cirurgiões-dentistas devem considerar a inclusão de itens de cada categoria terapêutica no kit de emergência; entretanto, os dentistas devem selecionar apenas aquelas categorias ou medicamentos com os quais estejam familiarizados e que sejam capazes de utilizar de forma segura. Os medicamentos preferidos estão listados, com alternativas sugeridas em muitas circunstâncias. Todos os cirurgiões-dentistas devem avaliar cuidadosamente cada item incluído no kit de emergência. Se o dentista possui alguma dúvida sobre uma determinada categoria ou determinado agente, a consulta com um médico (preferivelmente um especialista em medicina de emergência) ou farmacêutico é recomendada – mas, acima de tudo, é importante determinar o motivo para sugerir certo medicamento ou categoria de medicamento em relação aos outros. Todos os medicamentos vêm acompanhados de uma bula. Os cirurgiões-dentistas devem guardar esta folha de informação para cada medicamento incluído no seu kit, lê-la, e anotar informações importantes sobre o medicamento, incluindo suas indicações, dosagens utilizadas (pediátrica, adulto e geriátrica), reações adversas e datas de validade. Muitos dentistas transferem esta informação para um cartão de anotações de referência rápida. Os medicamentos e equipamentos de emergência descritos nas seções seguintes são apresentados em quatro níveis ou módulos. As informações de cada módulo são baseadas no nível de treinamento e experiência do cirurgião-dentista em emergências médicas: ■ Módulo 1: kit básico de emergência (medicamentos críticos e equipamentos) ■ Módulo 2: medicamentos não críticos e equipamentos ■ Módulo 3: medicamentos para SAVC (ACLS) ■ Módulo 4: medicamentos que funcionam como antídotos. Duas categorias são descritas para cada módulo – injetáveis e não injetáveis, assim como o equipamento de emergência. Os cirurgiões-dentistas devem lembrar sempre que as categorias de medicamentos e equipamentos incluídos no kit devem ser compatíveis com o nível de treinamento do pessoal da equipe que os utiliza. Kits de emergência devem ser simples, mas efetivos. Uma discussão completa de quando e como cada item deve ser usado pode ser encontrada nas seções do livro que detalham o tratamento de emergências específicas. Os medicamentos e equipamentos no kit de emergência devem ser concebidos para uso em pacientes de qualquer idade (pediátrico, adulto e geriátrico). Os cirurgiões-dentistas devem estar cientes da distinção nas doses terapêuticas entre pacientes de diversas idades; doses pediátricas (e em muitos casos, geriátricas) são menores do que doses em adultos. Doses específicas não são enfatizadas neste capítulo, mas são apresentadas em discussões individuais sobre tratamento das emergências médicas. A maioria dos medicamentos de emergência injetáveis é preparada numa ampola ou tubo de 1 mL. O número de miligramas de medicamento presente em 1 mL de solução varia de medicamento para medicamento. Por exemplo, para o diazepam, a quantidade é de 5 mg/mL; para a difenidramina, este valor é de 50 mg/mL; e para a efedrina, de 10 mg/mL. A forma 1mL de medicamento é conhecida como dose terapêutica, ou dose unitária. Assim, uma solução de 1 mL é a dose comum de medicamento administrado num paciente adulto em uma situação de emergência. Para diferenciar um paciente adulto de um paciente pediátrico, a massa corporal é comumente utilizada. Pacientes pesando acima de 30 kg (66 lb) recebem uma dose de “adulto”, enquanto aqueles paciente pesando entre 15 kg e 30 kg recebem doses pediátricas, em casos de emergências. Para bebês (abaixo de 15 kg de peso ou abaixo de 1 ano de idade), a dose terapêutica é geralmente 0,25 mL, ou ainda um quarto da dose de adulto (Tabela 3-2). No caso da adrenalina – considerada pelo autor como o medicamento mais importante do kit de emergência – é a maior exceção à regra da dosagem. Embora 1mL de solução de adrenalina (1:1.000) seja considerado a dose terapêutica adulta, uma dose inicial menor – 0,3 mL – é recomendada, com a administração de doses subsequentes, baseadas na resposta do paciente. As doses iniciais pediátrica e em bebês são reduzidas de acordo (0,1٥ mL e 0,075 mL da solução de adrenalina 1:1.000). Existem seringas autoinjetáveis disponíveis nas doses de 0,3 mL (adultos, 30 kg ou acima) e 0,15 mg (pediátrico, 15-30 kg). Medicamentos não injetáveis geralmente são preparados de tal forma que um comprimido ou dosagem de aerossol seja a dose adulta terapêutica. Muitos medicamentos não injetáveis também são preparados em formas pediátricas, parasimplificar a aplicação. Uma vez que tanto adultos como crianças frequentam os consultórios odontológicos, o cirurgião-dentista que trate de pacientes entre 15-30 kg deve considerar a inclusão de ambas as formas medicamentosas no kit de emergência médica. Outros itens do equipamento de emergência devem estar disponíveis nas formas pediátrica e adulta. Estes incluem máscaras faciais e cânulas orofaríngeas e nasofaríngeas (se justificadas pelo treinamento). Na verdade, o odontopediatra (e o clínico geral que trata de crianças < 30 kg) deve ter uma variedade maior de equipamentos na forma pediátrica e adulta. TABELA 3-2 Dosagens dos medicamentos injetáveis Peso corporal Volume de solução (mL) Adrenalina (1:1.000mL) Bebê <15 kg ou <1 ano de idade 0,25 0,075 Criança <30 kg 0,5 0,15 Adulto 30 kg ou mais 1,0 0,3 Administração de medicamentos injetáveis Para que um medicamento exerça seu efeito terapêutico, um nível sanguíneo terapêutico deve ser atingido no órgão--alvo (p. ex., no cérebro, para os anticonvulsivantes, e no coração, para os antiarrítmicos) ou no sistema-alvo (p. ex., pele). Em outras palavras, uma porção suficiente do medicamento deve cair na corrente sanguínea e ser transportada para o local do organismo, onde exerce suas ações clínicas. Assim, a via ideal de administração de medicamentos, durante uma emergência médica, é a IV; o início da ação por essa via é de aproximadamente 20 a 30 segundos, e o efeito do medicamento é o mais confiável de todas as vias de administração. Infelizmente, a menos que o cirurgião-dentista tenha estabelecido uma via de acesso intravenosa no paciente, antes da emergência, a maioria dos dentistas considera a punção venosa difícil ou quase impossível durante a emergência. Se o dentista não estiver confortável com a punção da veia, uma via alternativa de administração deve ser utilizada. Medicamentos de emergência podem ser administrados pela via intramuscular (IM) em diversos locais, sendo, na maioria das vezes, a região anterolateral da coxa (vasto lateral) a região preferida. Outros locais para essa via incluem a região média do deltoide, na região superior do braço, e o quadrante externo superior da região glútea. Medicamentos administrados pela via IM têm início da ação em aproximadamente 10 minutos na presença de uma perfusão tecidual normal. Isto poderá ser mais lento na presença de uma pressão sanguínea arterial diminuída (hipotensão). Dos três sítios tradicionais para injeção IM, o músculo vasto lateral fornece a captação mais rápida da maioria dos medicamentos (em função de sua maior perfusão tecidual) e assim é o sítio de escolha. O vasto lateral é considerado o melhor local de escolha, também em função de sua acessibilidade e segurança anatômica25. O deltoide é considerado o segundo local de escolha utilizado por essa via de administração de medicamentos. Num paciente pediátrico pequeno (15-30 kg), o vasto lateral é o local preferido de injeção IM. Os medicamentos de emergência não devem ser administrados na região glútea devido ao fato de essa região não possuir a mesma vascularização existente nos outros locais. Diversas considerações anatômicas, especialmente em pacientes pediátricos, também acompanham a administração medicamentosa na região glútea. A bula que acompanha a seringa autoinjetável de adrenalina (Epi-Pen) diz que “a seringa autoinjetável Epi-Pen deve apenas ser utilizada na região anterolateral da coxa”. FIGURA 3-8 A, Localização da região lateral do músculo vasto lateral na coxa, local preferido para administração IM de medicamentos em bebês e crianças. B, Corte transversal do local de injeção no músculo vasto lateral, ilustrando o local de estruturas anatômicas significativas. (Do livro Malamed S: Sedation, ed 5, St. Louis, Mosby, 2010.) FIGURA 3-9 Região de injeção na porção média do músculo deltoide, no terço superior do braço. (Do livro Malamed S: Sedation, ed 5, St. Louis, Mosby, 2010.) Um local extra que constantemente é mencionado pelos cirurgiões-dentistas (e somente por eles) é o soalho da boca. A injeção sublingual de flumazenil tem se mostrado com um início de ação somente um pouco mais rápido do que a administração via IM, feita no músculo deltoide27. A injeção sublingual não se encontra nas bulas dos medicamentos e, portanto, não pode ser recomendada. As etapas do SBV devem continuar, quando necessário, enquanto a equipe de emergência aguarda o início da ação do medicamento. Entretanto, na ausência de circulação efetiva, nem os medicamentos IV e tampouco os IM serão efetivos. Nesta situação (como em todas as situações de emergência), a administração de medicamentos se torna secundária ao SBV. Em situações nas quais o acesso IV é impossível, mas o paciente tenha sido intubado com sucesso, a administração de certos medicamentos (adrenalina, lidocaína, atropina, naxolona e flumazenil) no tubo endotraqueal fornece um início rápido de ação, à medida que o medicamento é absorvido pela rede vascular pulmonar com boa perfusão (Quadro 3-3). Administração medicamentosa parenteral Nos Estados Unidos, quase todos os medicamentos injetáveis de emergência podem ser comprados em seringas pré-dosadas. Eu acredito intensamente que estes medicamentos não deveriam estar disponíveis em formas pré-dosadas, no consultório odontológico, porque estas seringas são muito fáceis de serem administradas. Em quase todas as emergências, não existe a necessidade urgente de administrar qualquer medicamento para a vítima, a não ser o O2. O único medicamento que deveria ser encontrado em seringas pré-dosadas no consultório odontológico é a adrenalina, uma vez que existe a necessidade de administração, o mais rápido possível, na presença ou suspeita de choque anafilático. Tendo apenas a adrenalina na forma de seringa pré-dosada no consultório, o cirurgião-dentista e os membros da equipe correriam menos risco de se confundirem quanto a qual medicamento utilizar nessa situação. Os medicamentos utilizados no suporte avançado de vida em cardiologia (ACLS) geralmente estão disponíveis em seringas pré-dosadas, mas os mesmos devem ser armazenados em local diferente dos medicamentos utilizados para o suporte “básico” de vida. O tempo necessário para preparar os medicamentos em seringas poderia ser utilizado de forma melhor no desempenho do SBV (P→C→A→B→D). O apêndice no final deste capítulo revisa a administração medicamentosa parenteral. QUADRO 3-3 Via de administração classificada pelo início da ação (mais rápida à mais lenta) 1. Endotraqueal (ET) (quando disponível): adrenalina, lidocaína, atropina, naloxona e flumazenil apenas 2. Intravenosa (IV) 3. Intranasal (IN): midazolam 4. Intramuscular (IM) a. Vasto lateral b. Porção mediana do deltoide c. Região glútea 5. Sublingual ou intralingual Nos consultórios odontológicos nos quais o cirurgião-dentista é bem treinado para a administração do uso de medicamentos de emergência e possui uma equipe bem treinada, seringas pré-dosadas e identificadas podem ser mais apropriadas. Esta situação é mais provável quando o dentista foi treinado em técnicas de anestesia geral ou, em certos casos, para a sedação parenteral moderada. Módulo 1: Medicamentos de Emergência Críticos (Essenciais) e Equipamentos O que deveria ser incluído no kit de emergência mínimo num consultório médico ou odontológico? Como sempre, o treinamento em SBV é o aspecto mais significativo e a primeira técnica de gerenciamento que deve ser utilizada em todas as emergências. Entretanto, diversos medicamentos injetáveis e não injetáveis, além de itens de equipamentos, também devem ser considerados absolutamente essenciais para inclusão no kit de emergência do consultório odontológico (Tabela 3-3). Medicamentos injetáveis críticos As duas categorias seguintes de medicamentos injetáveis são consideradas essenciais no kit de emergência: 1. Adrenalina 2. Anti-histamínico Ambos os medicamentos são utilizados no tratamento de uma reação anafilática, uma reação alérgica aguda e multissistêmica, potencialmente ameaçadora da vida,e uma das situações de emergência mais temidas quando vivenciadas pelo profissional de saúde. Injetáveis primários: medicamentos para a reação alérgica aguda (choque anafilático) Medicamento de escolha: Adrenalina Classe de medicamentos: Catecolamina Medicamento alternativo: Nenhum Nome comercial: Ana-Guard®, EpiPen®, EpiPen Jr. ® A adrenalina, na opinião do autor, é o medicamento mais importante em emergência médica. A adrenalina é o medicamento de escolha no tratamento de uma reação alérgica aguda (potencialmente fatal), chamada de choque anafilático. Esse medicamento é valioso no tratamento das manifestações, tanto respiratórias como cardiovasculares, das reações alérgicas agudas, além de causar um grau de vasoconstrição que pode ser bastante útil na presença de edema. As propriedades desejáveis da adrenalina incluem (1) início rápido de ação; (2) ação potente como dilatadora da musculatura brônquica lisa (propriedades β2); (3) propriedades anti-histamínicas; (4) ação vasopressora; e (5) efeitos cardíacos, que incluem aumento na frequência cardíaca (21%), aumento da pressão arterial sistólica (5%), diminuição da pressão arterial diastólica (14%), aumento do débito cardíaco (51%), aumento do fluxo sanguíneo coronário. Ações indesejáveis incluem a tendência da adrenalina em predispor o coração às arritmias e sua duração relativamente curta de ação. Indicações terapêuticas. Uma concentração 1:1.000 de adrenalina (para pacientes com 30 kg ou mais) ou 1:2.000 (para pacientes com menos de 30 kg) deve ser usada para tratar casos de reação alérgica aguda (choque anafilático, Cap. 24) e broncospasmo (crise asmática aguda; “medicamentos não injetáveis” adiante e o Cap. 13). Uma concentração de 1:10.000 é recomendada nos casos de parada cardiorrespiratória (suporte avançado de vida em cardiologia – ACLS, Cap. 30). Efeitos adversos, contraindicações e precauções. Taquiarritmias, tanto supraventricular quanto ventricular, podem se desenvolver. A adrenalina deve ser administrada com cautela em mulheres grávidas porque diminui o fluxo sanguíneo placentário e pode induzir ao parto prematuro. Quando utilizada, todos os sinais vitais devem ser monitorados com frequência. No consultório odontológico, a adrenalina será utilizada em situações consideradas fatalmente ameaçadoras da vida, como no choque anafilático e (possivelmente, dependendo do grau de treinamento) na parada cardiorrespiratória. Em tais situações, as vantagens da adrenalina claramente superam os riscos. Não existe contraindicação do uso da adrenalina em tais situações.28, 29 A adrenalina é fotossensível e, por isso, deve ser armazenada em locais apropriados. Guarde-a em temperatura ambiente (20o-25oC) com variações permitidas dentro da faixa de 15o-30oC. A adrenalina não deve ser refrigerada e as ampolas e seringas com o medicamento devem sempre ser protegidas do congelamento. A solução deve sempre ser averiguada quanto a qualquer descoloração ou precipitação. Se a solução se descolorir (tornando-se pálida, amarelada, esbranquiçada ou acastanhada) ou ainda contiver algum precipitado, a ampola ou seringa deve ser substituída imediatamente.26 TABELA 3-3 Módulo um – medicamentos emergenciais críticos (essenciais) Categoria Nome genérico Nome comercial Alternativa Quantidade Disponibilidade INJETÁVEL Alergia – anafilaxia Adrenalina Adrenalina Nenhum 1 seringa pré-dosada + 3 ampolas de 1 ml 1:1.000 (1 mg/mL) Alergia – bloqueador da histamina Difenidramina Benadryl Clorfeniramina (Chor- Trimeton) 3 ampolas de 1 mL 50 mg/mL NÃO INJETÁVEL Oxigênio Oxigênio Oxigênio 1 cilindro E Vasodilatador Nitroglicerina Aerossol de nitroglicerina NitroStat sublingual Aerossol pré-dosado 0,4 mg/dose Broncodilatador Albuterol Proventil, Ventolin, Proair, respirol, Volmax Metaproterenol 1 inalador aerossol pré- dosado 1 dose do inalador aerossol Anti-hipoglicêmico Açúcar Suco de laranja, refrigerante não dietético Insta-Glucose gel 1 garrafa Inibidor da agregação plaquetária Aspirina Vários Clopidogrel (Plavix) 2 pacotes de aspirina em pó 325 mg/dose Equipamento Recomendado Alternativa Quantidade Sistema de liberação de oxigênio Pressão positiva e válvula de demanda Sistema de liberação de O2 com dispositivo bolsa-válvula-máscara Mínima: 1 adulto tamanho grande; 1 criança Máscara de bolso 1 por funcionário Desfibrilador externo automático (DEA) Muitos 1 DEA Seringas para administração de medicamentos Seringas plásticas descartáveis com agulhas 3 seringas de 2mL com agulhas para uso parenteral Sucção e tipos de sugadores Sucção de alta potência Sistema de sucção manual Sistema de sucção do consultório Pontas aspiradoras de largo diâmetro e extremidade romba Mínimo de 2 Garrotes Garrote de borracha ou velcro; tubo de borracha Esfigmomanômetro 3 garrotes e 1 esfigmomanômetro Pinças de entubação de Magill Pinça de entubação de Magill 1 pinça pediátrica de entubação Magill FigurA 3-10 A, Adrenalina, ampola de 1 mL. B, EpiPen e EpiPen Junior. C, Auvi-Q. (B Cortesia de Mylan Specialty. C, Cortesia de Sanofi-Aventis. http://www.auvi-q.com/.) Disponibilidade. A adrenalina para administração parenteral é fornecida tanto na concentração 1:1.000 (1g [1.000mg]/L), na qual cada mililitro contém 1mg de adrenalina (Fig. 3-10, A), como na concentração 1:10.000. A concentração 1:1.000 é utilizada nas vias IM e subcutânea apenas, enquanto a 1:10.000 é usada para administração IV. No choque anafilático, a dose de 0,3 a 0,5 mg para um paciente pesando 30 kg ou mais, ou de 0,15 mg para um paciente com menos de 30 kg, é recomendada. No consultório odontológico é preferível o uso de seringas autoinjetoras pré-dosadas. Nos Estados Unidos, elas frequentemente são encontradas com pacientes que possuem alergias graves pois permitem uma rápida injeção do medicamento em caso de situações potencialmente ameaçadoras. Exemplos de seringas pré-dosadas autoinjetáveis são Epi-Pen, Epi-Pen Junior (Fig. 3-10, B), Auvi-Q, e Auvi-Q pediátrica (Fig. 3-10, C). Nos Estados Unidos, a adrenalina autoinjetável genérica também está disponível. Infelizmente, a marca Twinject foi retirada do mercado nos Estados Unidos. Espera-se que ela volte a ser comercializada, talvez em uma versão genérica, em um futuro não distante. Em função da duração curta de ação e porque a dose administrada é relativamente baixa (0,3 mg, para paciente com 30 kg ou mais e 0,15 mg para pacientes abaixo de 30 kg), diversas administrações são frequentemente necessárias no tratamento da fase aguda do choque anafilático30. A ampola pré-dosada autoinjetável é preferida porque permite que o cirurgião-dentista, ou outros membros da equipe, injetem somente a dose correta de adrenalina (0,3 mg ou 0,15 mg). Uma overdose de adrenalina pode produzir complicações significativas.31, 32 A bula da adrenalina informa que “a overdose ou injeção intravenosa inadvertida de adrenalina pode causar hemorragia cerebrovascular, em função do aumento agudo na pressão sanguínea arterial.”33 Dosagem. Embora 1 mg de adrenalina (ampola de 1 mL com adrenalina 1:1.000) seja considerado a dose terapêutica adulta na reação anafilática, a adrenalina é administrada via IM ou subcutânea, numa dose de 0,3 mL a 0,5 mL de solução, com doses adicionais administradas quando necessário. Isso quebra com a tradição de 1 mL ser a dose terapêutica utilizada para adultos nas emergências médicas. Isto surge do fato de que, embora 1 mg de adrenalina seja a dose terapêutica usual para a anafilaxia, esta dose pode ser excessiva em alguns pacientes. Uma pessoa com doença cardiovascular significativa (ASA 4) – condição de pós-infarto do miocárdio recente, pressão sanguínea arterial significativamente elevada ou pós-acidente vascular encefálico recente) que sofra uma reação anafilática à picada de inseto e que receba 1 mL de adrenalina 1:1.000 – provavelmente não morre da reação alérgica. Entretanto, a possibilidade de esta mesma adrenalina gerar complicações sérias no sistema cardiovascular é aumentada (aumenta a carga de trabalho cardíaco e/ouo risco para o desenvolvimento de arritmias cardíacas). Infelizmente, no que se apresenta como uma situação de quase pânico (reação anafilática), o cirurgião- dentista pode acabar administrando uma dose bem mais elevada de adrenalina. As seringas pré-dosadas autoinjetáveis tornam a possibilidade de administração de doses que não sejam as pré-determinadas impossível (Fig. 3-10, B e C). Sugestão para o kit de emergência. Cada kit deve ter duas seringas pré-dosadas autoinjetoras de adrenalina 1:1.000 (0,3 mg de adrenalina por dose) para pacientes com 30 kg de peso ou mais, quando possível a aquisição, além de três ou quatro ampolas de adrenalina 1:1.000 para tratar a anafilaxia pela via IM ou subcutânea. Quando não for possível a obtenção da seringa pré-dosada, o kit deve constar somente das ampolas de adrenalina 1:1.000 para o tratamento da reação anafilática. Quando o cirurgião-dentista trata pacientes com peso entre 15-30 kg, duas seringas da formulação pediátrica devem estar presentes no kit de emergência (1:2.000 ou 0,15 mg/dose). Injetável primário: medicamento para reação alérgica Medicamento de escolha. Difenidramina Classe medicamentosa. Bloqueador da histamina (anti-histamínico não seletivo) Nome comercial: Benadryl® Medicamento alternativo. Clorfenamina Bloqueadores da histamina, comumente chamados de anti-histamínicos, são bastante valiosos no tratamento de respostas alérgicas mais tardias e no tratamento definitivo da reação alérgica aguda (administrado após a adrenalina ter resolvido a fase potencialmente fatal da reação alérgica). Os bloqueadores da histamina são antagonistas competitivos da histamina; eles não impedem a liberação de histamina em resposta à injúria, medicamentos ou antígenos, mas impedem o acesso da histamina ao seu sítio receptor na célula, bloqueando a resposta da célula efetora para histamina. Assim, os bloqueadores da histamina são mais potentes na prevenção das ações da histamina do que na reversibilidade de suas ações, uma vez ocorridas. Uma ação interessante de muitos bloqueadores da histamina é que também são anestésicos locais potentes, especialmente a difenidramina e a tripelenamina.34-36 O bloqueador de histamina também pode causar algum grau de depressão do SNC (sedação ou sonolência), o qual pode ser considerado como uma característica indesejável, proibindo que o paciente que esteja recebendo o medicamento possa dirigir um veículo automotivo ou qualquer máquina perigosa após ser liberado do consultório odontológico. A clorfenamina produz sedação menos frequentemente que a difenidramina, um fato que deve ser considerado durante a seleção do bloqueador de histamina a ser inserido no kit de emergência. Indicações terapêuticas. Os bloqueadores da histamina são recomendados no tratamento das reações alérgicas tardias (envolvendo apenas a pele) e no tratamento definitivo das reações alérgicas agudas (reação anafilática). Efeitos adversos, contraindicações e precauções. Os efeitos adversos dos bloqueadores da histamina incluem depressão do SNC, diminuição na pressão arterial e espessamento das secreções brônquicas, resultante da ação de secagem do medicamento. Em função deste efeito, os bloqueadores da histamina são contraindicados no tratamento dos episódios agudos de asma. Disponibilidade. A difenidramina está disponível em 10 mg/mL em frascos multidoses de 10 e 30 mL, em 50 mg/mL em ampolas de 1 mL e em frascos multidoses de 10 mL, e em seringas pré-dosadas de 1 mL. Sugestão para o kit de emergência. O kit de emergência deve conter um mínimo de duas ampolas de 1 mL de difenidramina (50 mg/mL) ou de clorfenamina (10 mg/mL). Seringas pré-dosadas de bloqueadores de histamina não são recomendadas, uma vez que tais medicamentos nunca são urgentes quanto a sua administração. Ter seringas pré-dosadas de apenas um tipo de medicamento (adrenalina) no kit de emergência torna mais fácil a seleção do fármaco apropriado no caso de uma reação anafilática se desenvolver. Medicamentos críticos não injetáveis Os cinco medicamentos não injetáveis abaixo também são considerados críticos: 1. Oxigênio 2. Vasodilatador 3. Broncodilatador 4. Anti-hipoglicêmico 5. Aspirina Não injetável primário: oxigênio (O2) Medicamento de escolha. Oxigênio Classe medicamentosa. Nenhuma Medicamento alternativo. Nenhum. Nome comercial. Nenhum. Indiscutivelmente, o medicamento mais útil em todo o kit de emergência é o O2, fornecido numa variedade de tamanhos de cilindros de gás comprimido. O cilindro recomendado é o tipo “E”, portátil (Fig. 3-11). Nas situações de emergência, um cilindro “E” fornece O2 por aproximadamente 30 minutos (se o paciente estiver apneico). Cilindros maiores (H) fornecem bem mais O2, mas são menos portáteis; cilindros menores (A ao D) contêm pouco O2 para serem clinicamente efetivos em uma situação que não seja extremamente curta. O O2 produzido por meio da reação química em pequenos canos não é adequado ao kit de emergência. Um cilindro E de O2 é portátil e deve estar disponível nos consultórios, mesmo quando houver centrais de óxido nitroso e O2 disponíveis. Devido ao fato de que as emergências ocorrem em áreas do consultório que não sejam somente na cadeira odontológica, o sistema de liberação de O2 deve ser portátil. FIGURA 3-11 Cilindro de O2 tamanho E. (A, Retirado de McSwain N: The basic EMT: comprehensive prehospital care, ed 2, St Louis, Mosby, 2003.) Indicações terapêuticas. A administração de O2 está indicada em todas as situações de emergência nas quais a dificuldade respiratória for evidente. Na verdade, o O2 nunca deve ser negligenciado em um paciente durante uma emergência médica. A administração de oxigênio pode até não deixar o paciente melhor, mas tampouco o deixará pior.* *Ainda que a administração de O2 não seja indicada para o tratamento de pacientes com hiperventilação, a sua administração não irá causar qualquer efeito adverso significativo. Efeitos colaterais, contraindicações e precauções. Nenhuma com o uso emergencial do O2, embora sua administração não esteja indicada no tratamento da hiperventilação. Disponibilidade. Cilindros de gás comprimido existem em diversos tamanhos. A portabilidade de um cilindro de O2 é desejada. Sugestão para o kit de emergência. Um cilindro tipo E é o requisito mínimo para o kit de emergência. Não injetável primário: vasodilatador Medicamento de escolha. Nitroglicerina Classe de medicamentos. Vasodilatador. Medicamento alternativo: nitrito de amila Vasodilatadores são utilizados no tratamento imediato da dor torácica, a qual pode ocorrer na angina pectoris ou infarto agudo do miocárdio. Duas variedades de vasodilatadores estão disponíveis: (1) nitroglicerina nas versões em comprimidos e aerossol (Fig. 3-12) e (2) um inalante, o nitrito de amila. Um paciente com história de angina pectoris geralmente carrega consigo um suprimento de vasodilatador coronariano. FIGURA 3-12 A, Aerossol de nitroglicerina. B, Comprimidos de Nitrosta®. Os comprimidos permanecem a forma mais usada do medicamento por esses pacientes, mas a maioria acaba preferindo o aerossol translingual, a partir do momento em que eles experimentam essa outra forma de administração. Durante o tratamento odontológico, uma fonte de nitrato deve estar facilmente disponível. Quando exposto ao ar, o comprimido de nitroglicerina começa a degradar (por meio da evaporação).37, 38 Estudos têm demonstrado que a volatilidade da forma de comprimido deste medicamento é pequena (em média 12 semanas) quando o frasco não está devidamente selado ou quando o comprimido é armazenado em “porta-comprimidos”. Nesses casos, o ingrediente ativo nitroglicerina volatiliza, restando no comprimido somente ingredientes inertes.37 Isso não é um grande problema para um paciente com angina que faça uso de apenas uma quantidade do frasco de nitroglicerina. Entretanto, a maioria dos pacientes com angina possuem vários frascos abertos disponíveis do medicamento – no carro, bolso, escritório e em casa. O cirurgião-dentista não deve utilizar o medicamento do paciente se tiverdúvidas sobre quando o frasco tenha sido aberto. A deteriorização da nitroglicerina corre ainda mais risco de ocorrer dentro do kit de emergência do consultório odontológico, uma vez que a mesma (felizmente) é utilizada apenas raramente. O comprimido de nitroglicerina colocado na região sublingual comumente produz um gosto amargo e uma sensação de ardência. Se o gosto amargo estiver ausente, o cirurgião-dentista deve suspeitar de que o medicamento tenha se tornado ineficaz. Um aerossol translingual de nitroglicerina foi introduzido nos Estados Unidos, em 1986, e tem um prazo de validade significativamente maior (e, consequentemente, infelizmente, um preço mais elevado) do que os comprimidos sublinguais, mesmo depois de ter sido aberto e utilizado repetidas vezes. Por isso, esse aerossol tem sido sugerido para a inclusão no kit de emergência.39 O nitrito de amila, outro vasodilator, está disponível nos Estados Unidos na forma de inalante. Este medicamento é fornecido como um sachê amarelo ou cinza, com marcações amarelas em doses de 0,3 mL. Quando apertado entre os dedos e posicionado abaixo das narinas do paciente, este medicamento produz uma vasodilatação profunda, em cerca de 10 segundos. A duração da ação do nitrito de amila é menor do que da nitroglicerina, mas o seu prazo de validade é consideravelmente maior. Efeitos adversos ocorrem com qualquer tipo de vasodilatador. Indicações terapêuticas. Para a dor torácica, os vasodilatadores são usados como auxiliares no diagnóstico diferencial e no tratamento definitivo da angina pectoris (Cap. 27), no tratamento precoce do infarto agudo do miocárdio (Cap. 28) e no tratamento dos episódios de hipertensão aguda. Efeitos colaterais, contraindicações e precauções. Os efeitos colaterais da nitroglicerina incluem dor de cabeça transitória e pulsante; rubor facial e certo grau de hipotensão, especialmente se o paciente estiver em posição ereta. Em função de suas ações hipotensivas leves, a nitroglicerina está contraindicada em pacientes com dor precordial que estejam exibindo sinais e sintomas clínicos de hipotensão. A nitroglicerina pode ser utilizada de forma bastante eficaz no tratamento de pacientes com episódios hipertensivos agudos. Uma vez que os comprimidos de nitroglicerina são instáveis (têm um prazo de validade curto quando expostos ao ar), devem ser substituídos a cada 12 semanas após o seu uso inicial. Os efeitos adversos do nitrito de amila são similares aos da nitroglicerina, porém mais intensos. Tais efeitos incluem rubor facial, sensação de coração batendo forte, tonteira, cefaleia intensa e hipotensão. O nitrito de amila não deve ser administrado com o paciente sentado em posição vertical, uma vez que mudanças posturais importantes podem acontecer. A introdução do sildenafil (Viagra®), tadalafil (Cialis®) e vardenafil (Levitra®) para tratar a disfunção erétil criou outra interação medicamentosa importante. A combinação destes medicamentos com os nitratos pode aumentar o risco de hipotensão grave, taquicardia e colapso cardiovascular, representando um efeito sinérgico. Há relatos de homens e mulheres que receberam nitroglicerina para o tratamento de doença cardíaca isquêmica e que morreram após a utilização destes medicamentos.40-42 Disponibilidade. A nitroglicerina está disponível nas seguintes formas: doses de 0,3, 0,4 e 0,6 mg em comprimidos sublinguais; doses de 0,4 e 0,8 mg no caso de aerossol translingual. O nitrito de amila é encontrado em doses de 0,3 mL em vaporizadores amarelos. Sugestão para o kit de emergência. Os kits devem conter um aerossol ou comprimidos sublinguais de nitroglicerina, ou um frasco de nitroglicerina translingual (0,4 mg). Não injetável primário: broncodilatador Medicamento de escolha. Albutamol, salbutamol (nome genérico do albuterol fora da América do Norte) Nome comercial: Proventil®, Ventolin®, Proair®, Respirol®, Volmax® Classe medicamentosa. Broncodilatador (agonista do receptor b2-adrenérgico de ação curta) Medicamento alternativo. Metaproterenol. Pacientes asmáticos e com reações alérgicas manifestadas primariamente pela dificuldade respiratória requerem o uso de broncodilatadores. Embora a adrenalina permaneça sendo o medicamento de escolha no tratamento do broncospasmo, seus efeitos variados em outros sistemas, que não o respiratório, resultaram na introdução de medicamentos específicos, conhecidos como agonistas de receptores b2-adrenérgicos. Estes medicamentos, dos quais o albuterol é um exemplo, possuem propriedades específicas de relaxamento da musculatura lisa dos brônquios (b2) com pouca ou nenhuma ação estimulatória nos sistemas cardiovascular e gastrintestinal (b1) (Fig. 3-13, A). No ambiente odontológico, no qual o cirurgião-dentista pode não estar ciente da verdadeira condição cardiovascular do paciente, os agonistas b2 parecem mais atrativos para o tratamento dos episódios asmáticos agudos do que os medicamentos com propriedades agonistas b1 e b2, como a adrenalina e o isoproterenol. Da mesma forma que ocorre com os pacientes com angina, a maioria dos pacientes asmáticos carrega consigo sua medicação, considerada uma “medicação de resgate “ (neste caso, um broncodilatador), a todo tempo. Em quase todas as situações, o broncodilatador é um inalante que dispensa uma dose calibrada, fixa, inalada pelo paciente. A inalação permite que o medicamento atinja a mucosa brônquica, onde age diretamente na musculatura brônquica lisa. Muitos pacientes, principalmente crianças, utilizam um “espaçador” para ajudar a maximizar a eficácia do broncodilatador (Fig. 3-13, B). FIGURA 3-13 A, Broncodilatador. B, Espaçador. (A, Retirado de McSwain N: The basic EMT: comprehensive prehospital care, ed 2, St Louis, Mosby, 2003.) Antes de o tratamento odontológico começar, os pacientes asmáticos com risco elevado de broncospasmo (pacientes com fobia ao tratamento odontológico ou história de status asmaticus frequente) devem deixar seus vasodilatadores disponíveis. Os broncodilatadores devem ser administrados precisamente como indicados. Uma ou duas inalações a cada 4-6 horas é a dose recomendada para o albuterol. A nebulização com adrenalina (p. ex., Primatene Mist) foi removida do mercado norte- americano em 2011.43 Indicações terapêuticas. Os broncodilatadores são utilizados para tratar o broncospasmo (episódios asmáticos agudos) (Cap. 13) e as reações alérgicas nas quais o broncospasmo é um componente (Cap. 24). Efeitos colaterais, contraindicações e precauções. O albuterol, assim como outros b2-agonistas, pode ter efeitos cardíacos clinicamente significativos em alguns pacientes. Essa resposta é menos provável de ocorrer com o albuterol do que com outros broncodilatadores, e por isso ele é selecionado para o kit de emergência. O metaproterenol, a adrenalina e o isoproterenol têm maior chance de produzir efeitos colaterais cardiovasculares, incluindo taquicardia e arritmias ventriculares. A administração do isoproterenol está contraindicada em pacientes com taquiarrritmias preexistentes pelo uso prévio do medicamento (Cap. 13). Disponibilidade. O albuterol inalatório (Ventolin, Proventil), metaproterenol inalatório (Alupent) Sugestão para o kit de emergência. Um albuterol inalável graduado. Considere a inclusão de um espaçador se vários pacientes pediátricos e adultos forem tratados. Não injetável primário: anti-hipoglicêmico Medicamento de escolha. Suco de laranja Classe medicamentosa. Anti-hipoglicêmico Medicamento alternativo. Gel de glicose (Insta- GlucoseTM) Os anti-hipoglicêmicos são úteis no tratamento das reações hipoglicêmicas em pacientes com diabetes melito ou pacientes não diabéticos com hipoglicemia (nível de açúcar reduzido no sangue). O paciente diabético geralmente carrega sua própria fonte de açúcar, como uma barra de doces, o tempo todo. O consultório odontológico também deve ter tais itens disponíveis para uso no paciente hipoglicêmico consciente. Para tratamento do paciente hipoglicêmico inconsciente, veja a discussão sobre medicamentos injetáveis secundários nestecapítulo. A administração de qualquer líquido ou substância que liquidifique em temperatura corporal é contraindicada no paciente inconsciente Indicações terapêuticas. Condições hipoglicêmicas secundárias ao diabetes melito ou hipoglicemia em jejum no paciente consciente (Cap. 17). Efeitos colaterais, contraindicações e precauções. Carboidratos orais líquidos ou viscosos não devem ser administrados ao paciente que não possui reflexo de vômito ativo ou que não seja capaz de ingeri-los sem assistência. A administração parenteral dos anti-hipoglicêmicos é recomendada nestas situações. Não existem efeitos colaterais quando os carboidratos orais são administrados como indicado. Disponibilidade. Os anti-hipoglicêmicos vêm numa variedade de formas, incluindo Glucola, Gluco-Stat, Insta-Glucose, bebidas à base de cola não dietéticas, sucos de frutas, açúcar granulado e cobertura para sorvete (Fig. 3-14). Sugestão para o kit de emergência. Qualquer uma das fontes mencionadas acima pode ser incluída no kit de emergência. Não injetável primário: antiplaquetário Medicamento de escolha. Ácido acetilsalicílico (aspirina). Classe medicamentosa. Antiplaquetário. Medicamento alternativo. Clopidogrel (PlavixTM) O ácido acetilsalicílico (aspirina) se tornou um medicamento antitrombótico recomendado na fase pré-hospitalar, em casos de suspeita de infarto do miocárdio. FIGURA 3-14 Géis de glicose para uso oral. (Retirado de McSwain N: The basic EMT: comprehensive prehospital care, ed 2, St Louis, Mosby, 2003.) Considerado como o medicamento antiplaquetário padrão, este fármaco representa o tratamento disponível, com maior custo-benefício, para pacientes com síndrome coronariana isquêmica aguda. O ácido acetilsalicílico acetila irreversivelmente a ciclo-oxigenase das plaquetas, removendo toda a atividade da ciclo-oxigenase durante o tempo de vida da plaqueta (8 a 10 dias).44 Ele interrompe a produção do pró-agregante tromboxana A2, sendo também um agente antitrombótico indireto. O ácido acetilsalicílico também possui efeitos não plaquetários importantes, porque da mesma forma inativa a ciclo-oxigenase no endotélio vascular e assim diminui a formação do antiagregante prostaciclina.45 O Segundo Estudo Internacional para Sobrevivência do Infarto (ISIS-2) fornece a maior evidência de que o ácido acetilsalicílico independente reduz as taxas de mortalidade em pacientes com infarto agudo do miocárdio, sem a necessidade de terapia trombolítica adicional (cerca de 23% de redução), sendo também sinérgica quando utilizada em conjunto com a terapia trombolítica (42% de redução na mortalidade).46, 47 A administração deste medicamento é recomendada para todos os pacientes com suspeita de infarto agudo do miocárdio ou angina instável.44, 45 As doses convencionais variam entre 160-324 mg, via oral. Efeitos colaterais mínimos são observados, principalmente nas doses de 160 mg. Indicações terapêuticas. O ácido acetilsalicílico (aspirina) é recomendado no tratamento de pacientes com suspeita de infarto do miocárdio ou angina instável. Efeitos colaterais, contraindicações e precauções. Contraindicações definitivas ao uso do ácido acetilsalicílico (aspirina) incluem o uso em um paciente que esteja em um quadro de hemorragia severa ou potencialmente fatal; uma predisposição significativa à tal hemorragia, como uma úlcera péptica que tenha sangrado recentemente; ou história de alergia ao medicamento. Disponibilidade. A aspirina se encontra disponível em comprimidos de 65, 81, 162 e 325 mg, sob muitos nomes comerciais. A aspirina em formulação de pó se encontra disponível e é preferível devido ao seu início de ação rápido. Sugestão para o kit de emergência. O kit de emergência deve incluir comprimidos mastigáveis ou pó de aspirina (325 mg) (Fig. 3-15). Equipamento crítico de emergência Os itens críticos do equipamento de emergência incluem: 1. Sistema de liberação de O2 2. Desfibrilador externo automático 3. Seringas 4. Aparelho de sucção e pontas de aspiração 5. Garrotes 6. Pinça de entubação de Magill O fato de existirem diversos itens disponíveis no kit de emergências não equipa melhor o consultório odontológico ou prepara melhor os membros da equipe para o tratamento das situações emergenciais. O pessoal que se espera usar os equipamentos e medicamentos deve estar bem treinado para o seu uso. Infelizmente, muitos itens do kit de emergência, encontrados em consultórios médicos e odontológicos, podem ser considerados sem utilidade e até mesmo perigosos se utilizados inadequadamente ou na situação errada. O treinamento para uso adequado dos equipamentos, como por exemplo o laringoscópio e a cânula orofaríngea, pode ser realizado melhor durante o tratamento de pacientes sob anestesia geral, uma situação que não é realmente disponível à maioria das equipes odontológicas. Muitos itens listados nesta seção são recomendados apenas para indivíduos adequadamente treinados. Todos os itens emergenciais classificados como secundários e, infelizmente, os muitos que são classificados como primários (como o sistema de liberação de oxigênio), requerem treinamento para serem usados com segurança. Embora todos os cirurgiões-dentistas devam ser treinados quanto ao uso do sistema de O2, é difícil encontrar cursos nos quais esta técnica é ministrada. Nos Estados Unidos, a American Dental Association (Sociedade Americana de Odontologia) e a American Dental Society of Anesthesiology (Sociedade Americana Odontológica de Anestesiologia) possuem um programa de simulador humano (SIMMAN) que fornece treinamento prático em como manejar vias aéreas e pessoas inconscientes. ■ American Dental Association, www.ada.org ■ American Dental Society of Anethesiology, www.adsahome.org A equipe do consultório odontológico deve usar apenas os itens do kit de emergências com os quais está familiarizada e treinada adequadamente. A utilidade dos itens descritos aqui varia com o treinamento da equipe. Toda a equipe odontológica deve ser proficiente no uso dos itens primários de equipamento. FIGURA 3-15 Aspirina em pó. (Cortesia de Urgent Rx. www.urgentrx.com.) FIGURA 3-16 Bolsa-válvula-máscara autoinflável. Sistema de liberação de O2 A Tabela 3-4 compara diversos métodos de ventilação. Pressão positiva. Um sistema de O2 adaptável ao cilindro E permite que o oxigênio seja liberado com pressão positiva para o paciente. Exemplos deste dispositivo incluem a bolsa-válvula-máscara autoinflável (Fig. 3-16) e a bolsa de reservatórios presente em vários sistemas de sedação inalatória. Estes dispositivos devem ser ajustados em uma máscara facial transparente, permitindo a liberação eficiente de 100% de O2, enquanto permitem ao socorrista inspecionar visualmente a boca da vítima para averiguar a presença de material estranho (vômito, sangue, saliva e água). As máscaras faciais devem estar disponíveis em tamanhos para crianças, adulto-pequeno e adulto-grande. Outro dispositivo é a válvula de demanda de pressão positiva (Fig. 3-17). As recomendações para o uso de ventilação com pressão positiva têm diminuído devido a grande possibilidade de ventilação excessiva, levando à distensão abdominal, a qual aumenta o risco de vômitos e aspiração do conteúdo ácido do estômago.48 TABELA 3-4 Comparação entre os métodos de ventilação Técnica Porcentagem de oxigênio liberado Boca-boca 16 Boca-máscara 16 Bolsa-válvula-máscara 21 Bolsa-válvula-máscara + O2 complementar >21 a <100 Pressão positiva O2 100 Dispositivo bolsa-válvula-máscara. Um dispositivo portátil inflável, a bolsa-válvula-máscara, (vulgarmente conhecida no Brasil como “ambu” [ressuscitador manual pulmonar]; Fig. 3-16), é um dispositivo simples que pode ser facilmente transportado para qualquer lugar dentro do consultório. Esta é uma característica importante, já que nem todas as emergências convenientemente se desenvolvem na sala de atendimento e pode ser necessário reanimar uma pessoa em outras áreas, como na sala de espera ou no banheiro. Uma fonte de oxigênio, seja do ar ambiente ou enriquecido com O2 (> 21%, < 100%),ligada ao tubo de liberação de oxigênio, deve estar disponível nestas áreas. Com ambos os dispositivos, o socorrista deve ser capaz de manter um selamento hermético da máscara e uma via aérea patente com uma das mãos, enquanto usa a outra para comprimir o dispositivo e ventilar a vítima (Fig. 3-18). O uso da bolsa-válvula-máscara é preferível em relação ao uso do dispositivo de pressão positiva, como mencionado anteriormente, devido ao risco de superinsuflação e suas consequências, o que pode ser minimizado. Máscara de bolso. A máscara de bolso é uma máscara facial transparente, idêntica na forma e na aplicação da máscara para pressão positiva e dos dispositivos bolsa-válvula-máscara (Fig. 3-19). Entretanto, diferentemente destes dispositivos, o socorrista deve aplicar ventilação com ar exalado (16% de O2) na entrada do topo da máscara, para ventilar a vítima. O ar exalado é liberado passivamente pela válvula de sentido único, localizada na lateral da máscara. Desta forma, o socorrista não respira o ar exalado da vítima. A máscara de bolso também está disponível contendo uma entrada de oxigênio suplementar, permitindo a ligação da máscara com um tubo de O2, ventilando oxigênio enriquecido. FIGURA 3-17 Válvula de demanda com pressão positiva. (Cortesia da Sedation Resource, Lone Oak, Texas. www.sedationresource.com) Sendo pequena o suficiente para caber em um bolso ou bolsa, a máscara de bolso permite ao socorrista fornecer ventilação tipo máscara-boca para a vítima apneica, em vez de uma ventilação boca-boca. A máscara de bolso também ajuda os indivíduos a superarem o fator “eca”, referindo-se ao fato de uma porcentagem significativa das vítimas que necessitam de ventilação artificial regurgitar, apresentando-se com a faringe e a cavidade oral preenchidas por vômito (“eca”). FIGURA 3-18 Posicionamento correto da máscara de bolso na face. A, Os dedos da mão mantêm o correto posicionamento da máscara por meio das letras “C” e “E”. B, Manutenção da via aérea com uma das mãos. C, Manutenção da via aérea com duas mãos. O socorrista também pode utilizar a máscara de bolso para ventilar um paciente pediátrico, simplesmente invertendo a posição da máscara, mantendo a parte estreita do nariz da máscara na ponta do mento e o lado mais largo da máscara na ponta do nariz da criança (Fig. 3-20). Em função da preocupação dos profissionais de saúde em relação à transmissão dos vírus da hepatite e HIV por meio do contato físico direto com os fluidos corporais, a máscara de bolso (ou qualquer outra máscara ou “barreira”) é uma escolha ideal que dá ao socorrista um suporte psicológico positivo. Adicionalmente, o custo baixo da máscara (nos Estados Unidos entre U$ 13 e U$ 15 [máscara de bolso Laerdal, agosto de 2014]) é outro motivo para que todo o pessoal da equipe do consultório odontológico tenha sua própria máscara de bolso. FIGURA 3-19 Máscara de bolso. FIGURA 3-20 Máscara de bolso invertida para selar apropriadamente a via aérea de criança pequena ou bebê. Sugestão para o kit de emergência. Um cilindro portátil de O2 (cilindro E) com um dispositivo autoinflável tipo bolsa- válvula-máscara e uma máscara de bolso para cada membro da equipe. Diversos tamanhos – infantil, adulto pequeno e adulto grande – de máscaras faciais transparentes também devem estar disponíveis; as diferentes especialidades devem estocar tamanhos adicionais destas máscaras. NOTA: O treinamento avançado é necessário para o uso efetivo e seguro das máscaras para ventilação. Desfibrilador externo automático Embora seja rara no ambiente odontológico, a parada cardiorrespiratória repentina ocorre. A reanimação bem-sucedida depende de muitos fatores conhecidos coletivamente como “corrente da sobrevivência”49 (Cap. 30). A corrente da sobrevivência no adulto possui cinco elos: (1) reconhecimento imediato da parada cardiorrespiratória e ativação do Serviço de Emergências Médicas (1-9-3 ou 1-9-2); (2) suporte básico de vida (SBV) precoce; (3) desfibrilação precoce; (٤) suporte avançado de vida em cardiologia (SAVC) precoce; (5) cuidados integrados pós-parada cardiorrespiratória. O componente mais importante na corrente da sobrevivência é o tempo decorrido entre o colapso da vítima e a desfibrilação.50-52 Quanto mais curto for este período, maior a chance de a reanimação ser bem-sucedida. A probabilidade de uma reanimação ser bem-sucedida, para uma parada cardiorrespiratória repentina que ocorra fora do ambiente hospitalar, diminui de 7 a 10% por minuto, mesmo quando o suporte básico de vida é utilizado efetivamente.53 A desfibrilação precoce (choque liberado dentro de 5 minutos após a chamada da equipe do serviço de emergências médicas) é prioridade máxima no tratamento de emergência.54 Infelizmente, este objetivo raramente é alcançado. Grandes cidades como Nova York, Los Angeles e Chicago possuem tempo de chegada da equipe de emergências médicas de 11,4 e 16 minutos, respectivamente, com uma consequente taxa de sobrevivência (e alta do hospital) depressivamente baixa em relação aos casos de parada cardiorrespiratória fora do ambiente hospitalar (Nova York 2%, Los Angeles 1,4% e Chicago 1%).55 Nas situações em que o desfibrilador externo automático se encontra disponível rapidamente, as taxas de sobrevivência e de alta hospitalar são significativamente maiores. Seattle e Washington apresentam uma taxa de sobrevivência de 46%, enquanto Boston e Massachusetts, de 40%.56, 57 Os desfibriladores externos automáticos são dispositivos simples, porém computadores sofisticados e operados por baterias têm demonstrado serem confiáveis e de fácil operação. Os DEAs são computadores que reconhecem as duas arritmias cardíacas, fibrilação ventricular (FV) e taquicardia ventricular sem pulso (TV), que podem ser tratadas efetivamente pela desfibrilação (Fig. 3-21). As orientações do DEA aconselham o socorrista quando o choque é (ou não é) indicado. Entretanto, o aparelho não vai liberar o choque sem que o socorrista ative a unidade (apertando o botão “Choque”). O DEA registra e analisa o sinal eletrocardiográfico (ECG) para determinar se o mesmo é consistente com FV/TV.58 O DEA então aconselha verbalmente o choque se um sinal de ECG consistente com estes ritmos for detectado. A precisão destes dispositivos na análise do ritmo é extremamente elevada.59 O Capítulo 30 discute os DEAs com detalhes. FIGURA 3-21 Arritmias “chocáveis” na eletrocardiografia. A, Taquicardia ventricular. B, Fibrilação ventricular grosseira. C, Fibrilação ventricular fina. (A, Retirado de Chapleau W, Pons P: Emergency medical technician, St. Louis, Mosby/JEMS, 2007; B e C, Retirados de McSwain N: The basic EMT: comprehensive prehospital care, ed 2, St. Louis, Mosby, 2003.) A certificação em suporte básico de vida (RCP) é obrigatória para o licenciamento em odontologia em muitos estados e províncias dos Estados Unidos. “O SBV para profissionais de saúde”, agora definido pela American Heart Association (Associação Americana de Cardiologia), inclui a desfibrilação (P→C→A→B→D). Os novos protocolos para o suporte básico de vida, definidos pela American Heart Association, são discutidos nos Capítulos ٥ e 30.49 Todas as jurisdições que requerem SBV para licenciatura em odontologia devem obrigar a disponibilidade de um DEA no local preenchendo os requisitos de SBV para os profissionais de saúde. Desde 28 de fevereiro de 2006, o Comitê de Odontologia da Flórida obrigou a disponibilidade de um DEA fixo em cada consultório odontológico local.60 Desde abril de 2014, 14 estados americanos tornaram mandatória a presença de um DEA nos consultórios odontológicos. A American Dental Association (Associação Americana de Odontologia) recomenda “que cirurgiões-dentistas considerem a compra de um DEA para seus consultórios odontológicos nos quais os serviços de emergência médica com equipamento e pessoal para desfibrilação não estejam disponíveis em tempo razoável”. Desde junho de 2005, seis DEAs participam do programa Selo de Aceitação da ADA.61 Infelizmente, o Brasil se encontra bastanteatrasado em relação a este conceito. Em setembro de 2004, a FDA aprovou a liberação de DEAs para venda para qualquer indivíduo.62 Muitos DEAs estão disponíveis para compra nos EUA (Fig. 3-22). Recomenda-se que o cirurgião-dentista que esteja interessado na compra desse aparelho faça uma pesquisa sobre estes dispositivos. Existe um website específico que compara e vende diversos DEAs, www.aedsuperstore.com. FIGURA 3-22 DEA. (Cortesia de Philips Medical Systems, Andover, MA. IN Ignatavicius D, Workman ML: Medical-Surgical Nursing, 6th edition, St. Louis, 2010.) FIGURA 3-23 Seringas plásticas descartáveis (2 mL). (Cortesia da Sedation Resource, Lone Oak, Texas. www.sedationresource.com.) Sugestão para o kit de emergência. Um DEA. Seringas Seringas plásticas descartáveis equipadas com agulhas calibre 18 ou 21 são usadas para administração parenteral dos medicamentos. Embora muitos tamanhos estejam disponíveis, a seringa de 2mL é adequada para a aplicação dos medicamentos de emergência (Fig. 3-23). FIGURA 3-24 Sistema de aspiração não elétrico (Ambu Rescue Pump). (Cortesia de Ambu). FIGURA 3-26 Garrotes sortidos. Sugestão para o kit de emergência. Duas a quatro seringas descartáveis de 2mL com agulhas calibre 18 ou 21. NOTA: Antes de o medicamento ser colocado na seringa descartável, a agulha deve ser apertada, verificando se não há vazamento, girando-a no sentido horário. Sugador e dispositivo de aspiração Um forte sistema de sucção e diversas pontas suctoras de largo diâmetro são itens essenciais do equipamento de emergência. O sugador descartável de saliva, comumente encontrado nos consultórios odontológicos, é totalmente inadequado em situações onde qualquer outra coisa que não seja o mais fino objeto precise ser retirado da boca do paciente. Considerações devem ser estabelecidas quanto ao aspirador não elétrico, utilizados nas situações em que ocorre perda de eletricidade no ambiente (Fig. 3-24). FIGURA 3-25 Ponta de aspiração. FIGURA 3-27 Pinça de entubação de Magill. (Cortesia da Sedation Resource, Lone Oak, Texas. www.sedationresource.com.) As pontas aspiradoras devem ser arredondadas para garantir que haja pouco risco de sangramento, caso seja necessária a sucção da orofaringe. Aspiradores plásticos e pontas sugadoras para as tonsilas são bastante adequadas para este propósito (Fig. 3-25). Sugestão para o kit de emergência. No mínimo dois aspiradores plásticos ou suctores de tonsilas devem estar disponíveis no kit. Um dispositivo de sucção não elétrico também deve ser considerado. Garrote Um garrote será necessário caso medicamentos IV sejam administrados. Adicionalmente, três garrotes são necessários para realizar uma flebotomia sem hemorragia no tratamento do edema pulmonar agudo (Cap. 14). Um esfigmomanômetro pode ser utilizado como garrote, assim como um cano simples de borracha (Fig. 3-26). Sugestão para o kit de emergência. Três garrotes e um esfigmomanômetro devem ser incluídos em cada kit. Pinça de entubação de Magill Os fórceps ou pinças de entubação de Magill são pinças de ponta romba e anguladas para a direita, desenhadas para auxiliar na colocação de um tubo endotraqueal durante a entubação nasal (Fig. 3-27). Este desenho permite à pinça prender objetos na intimidade da orofaringe, como o tubo endotraqueal ou corpos estranhos. Relatos publicados têm descrito a ocorrência de ingestão ou aspiração de itens odontológicos, como coroas e limas endodônticas.63, 67 Antes de serem “engolidos”, estes itens se posicionam na porção posterior da cavidade oral do paciente. Geralmente não existe nenhum instrumento imediatamente disponível na bandeja que possa ser facilmente utilizado para recuperar tais objetos. Os fórceps ou pinças de entubação de Magill são desenhados para realizar esta função e são altamente recomendados para inclusão no kit de emergência. Sugestão para o kit de emergência. Uma pinça de entubação Magill tamanho pediátrico. Módulo 2: Medicamentos e Equipamentos de Emergência Secundários (Não Críticos) Os medicamentos e equipamentos incluídos neste módulo, embora importantes e valiosos no tratamento das emergências médicas, não são considerados tão críticos quanto os do kit básico de emergência. Apenas cirurgiões-dentistas treinados no uso destes medicamentos devem considerar a inclusão dos mesmos no kit do consultório. Nos Estados Unidos, dentistas que administram sedação oral e parenteral podem ser requisitados pelo estado em que trabalham ou organização especializada para manter muitos destes medicamentos no kit de emergência. Medicamentos injetáveis secundários Sete categorias de medicamentos estão incluídas neste nível (Tabela 3-5): 1. Anticonvulsivantes 2. Analgésicos 3. Vasopressores 4. Anti-hipoglicêmicos 5. Corticosteroides 6. Anti-hipertensivos 7. Anticolinérgicos Injetáveis secundários: anticonvulsivantes Medicamento de escolha. Midazolam Classe medicamentosa. Benzodiazepínico Medicamento alternativo. Diazepam Convulsões podem ocorrer no consultório odontológico sob diversas circunstâncias, incluindo as convulsões epilépticas, reações de overdose aos anestésicos locais, obstrução de vias aéreas em um paciente inconsciente, hipoglicemia e convulsões febris. Apenas raramente o uso de um anticonvulsivante será necessário para finalizar o quadro convulsivo. Um anticonvulsivante deve ser considerado para inclusão no kit de emergências, de forma que esteja imediatamente disponível, se necessário. A escolha de um anticonvulsivante se tornou mais simples desde a introdução dos benzodiazepínicos. TABELA 3-5 Módulo dois – medicamentos secundários (não críticos) e equipamentos Nome Categoria Nome genérico comercial Alternativa Quantidade Disponibilidade INJETÁVEL Anticonvulsivante Midazolam Midazolam Diazepam 1 frasco de 5 mL ou de 10 mL 5 mg/mL Analgésico Sulfato de morfina Genérico N2O-O2 3 ampolas de 1 mL 10 mg/mL Vasopressor Efedrina Genérico 3 ampolas de 1 mL 50 mg/mL Anti-hipoglicêmico Dextrose 50% Glucagon 1 frasco Ampola de 50 mL Corticosteroide Hidrocortisona succionato de sódio Solu-Cortef Dexametasona 2 tubos mix de 2 mL 50 mg/mL Anti-hipertensivo Esmolol Brevibloc Labetalol 2 frascos de 100 mg/mL 100 mg/mL Anticolinérgico Atropina Genérico Escopolamina 3 ampolas de 1 mL 0,5 mg/mL NÃO INJETÁVEL Estimulante respiratório Amônia aromática Genérico 2 caixas 0,3 mL/sachê Anti-hipertensivo Hidralazina Nitroglicerina 1 caixa Comprimidos de 25 mg Até aproximadamente os anos 60, os barbitúricos eram os medicamentos de escolha no tratamento das convulsões agudas. Com sua introdução em 1960, o diazepam se tornou o anticonvulsivante preferido. Uma vez que as convulsões são caracterizadas pela estimulação dos sistemas nervoso central, respiratório e cardiovascular, seguidas de um período de depressão dos mesmos sistemas, medicamentos que deprimam estes dois últimos sistemas em doses anticonvulsivantes terapêuticas têm maior chance de produzir complicações pós-convulsões. Quando os barbitúricos são administrados para cessar uma convulsão, a depressão pós-convulsão é mais profunda e prolongada devido às ações farmacológicas dos barbitúricos. Os barbitúricos deprimem o centro respiratório no mesmo nível em que deprimem o sistema nervoso central, causando o fim da convulsão. Quando a convulsão é intensa, o período pós-ictal de depressão subjacente geralmente é profundo, deixando o paciente com a respiração comprometida e um período de hipotensão. Quando os barbitúricos são utilizados para cessar as convulsões, a depressão subjacente será intensificada, aumentando a possibilidade de gerar parada respiratória (apneia) e uma profunda depressão ou colapso cardiovascular. Se o cirurgião-dentista não reconhecer e gerenciar essa situação rápida e corretamente, pode haver mais riscos para o paciente após a convulsão do que durante. Diferentemente dos barbitúricos, os benzodiazepínicos geralmente cessam a convulsão sem causar depressão significativa dos sistemas respiratório e cardiovascular. Por muitos anos, o diazepam foi o medicamento anticonvulsivantede escolha em função de sua habilidade de cessar as convulsões sem produzir uma depressão pós-ictal profunda. Entretanto, devido à sua baixa solubilidade em água, seu uso foi limitado para administração IV. É totalmente improvável que um cirurgião-dentista ou médico não proficiente em punção venosa seja capaz de iniciar um acesso venoso em um paciente durante uma convulsão tônico-clônica. Quando isto for possível, o diazepam é o medicamento de escolha. Com a introdução do midazolam, um benzodiazepínico hidrossolúvel que é efetivo como anticonvulsivante nas vias IV, IM e intranasal (IN) tornou-se disponível. Embora a administração IV ainda seja preferida, as vias IM e IN agora estão disponíveis (Fig. 3-28). O midazolam IM ou IN fornece ação clínica dentro de 10 a 15 minutos. (O tempo de início da ação depende da pressão sanguínea arterial e perfusão tecidual.68-70) Indicações terapêuticas. O midazolam é utilizado para tratar convulsões prolongadas (discussão de status epilepticus no Cap. 21), convulsões induzidas por anestésicos locais (Cap. 23), hiperventilação (discussão da sedação no Cap. 12) e crise tireotóxica (veja a discussão da sedação no Cap. 18). FIGURA 3-28 Midazolam injetável, 5 mg/mL. Efeitos colaterais, contraindicações e precauções. O maior efeito adverso clínico observado com uso dos benzodiazepínicos utilizados como anticonvulsivantes é a depressão respiratória ou parada respiratória. Entretanto, com uma titulação cuidadosa durante sua administração, este efeito tem menor chance de ocorrer. Comparado com o efeito dos barbitúricos, a depressão respiratória induzida pelos benzodiazepínicos é consideravelmente branda. Disponibilidade. O midazolan injetável está disponível em doses de 5 mg/mL em frascos contendo 1, 2, 5 ou 10 mL e em seringas pré-dosadas de 2 mL, além de ser encontrado na dose de 1 mg/mL em frascos de 2, 5 e 10 mL. O nome comercial mais conhecido nos Estados Unidos é o Versed, entretanto, o mesmo foi retirado do mercado. O diazepam está disponível na dose de 5 mg/mL em ampolas de 2 mL e frascos de 10 mL, além de seringas pré-dosadas de 2 mL. Sugestão para o kit de emergência. Um frasco de 5 mL de midazolam (5 mg/mL) (Fig. 3-28). Injetável secundário: analgésico Medicamento de escolha: Sulfato de morfina Nome comercial: Nenhum Classe de medicamento: Agonista opioide Medicamento alternativo: Óxido nitroso e O2 (N2O 2 O2) Os analgésicos são utilizados em situações de emergência nas quais dor aguda e ansiedade estejam presentes. Na maior parte das vezes, a dor e a ansiedade aumentam a carga exercida pelo miocárdio (o qual aumenta ainda mais a demanda do miocárdio por oxigênio), o que pode se tornar prejudicial para o paciente. Duas dessas circunstâncias incluem o infarto agudo do miocárdio (IAM) e a insuficiência cardíaca (IC). O medicamento analgésico de escolha é o agonista opioide sulfato de morfina. A dupla óxido nitroso – oxigênio é aceita, e no consultório odontológico se torna uma alternativa rapidamente viável. Indicações terapêuticas: Dor prolongada e intensa ou ansiedade; infarto agudo do miocárdio (Cap. 28); e insuficiência cardíaca congestiva (Cap. 14). Efeitos adversos, contraindicações e precauções: Os agonistas opioides são potentes depressores do sistema nervoso central e do sistema respiratório. A vigilância completa dos sinais vitais é obrigatória sempre que esses medicamentos estiverem sendo utilizados. O uso de agonistas opioides é contraindicado em vítimas de traumas e injúrias múltiplas; esse tipo de medicamente deve ser utilizado com cautela em um paciente que apresente comprometimento da função respiratória. (A naloxona pode ser administrada para reverter as ações de depressão respiratória causadas pelos agonistas opioides, além de reverter as ações de analgesia e de outras propriedades desses fármacos [Módulo Quatro: Medicamentos antídotos].) Se opioides estiverem disponíveis no kit de emergência do consultório odontológico, o antagonista opioide também deve estar disponível. Os opioides analgésicos devem ser administrados pela via IV para pacientes com suspeita de estarem sofrendo um infarto agudo do miocárdio. Opioides não devem ser incluídos no kit de medicamentos de emergência, a não ser que o cirurgião-dentista e os membros da equipe sejam treinados tanto em administração de medicamentos por via IV quanto em suporte avançado de vida em cardiologia (ACLS) Disponibilidade: Sulfato de morfina está disponível nas doses de 8, 10 e 15 mg/mL (em ampolas de 2 mL e em frascos de 20 mL). Sugestão para o kit de emergência: Os kits de emergência devem conter sulfato de morfina 10 mg/mL (duas ampolas de 2 mL). Nota: Nos últimos anos, o serviço de emergências médicas em diversos países tem administrado uma mistura de óxido nitroso (N2O) e oxigênio (O2) em vez de analgésicos opioides para o controle da dor associada ao infarto agudo do miocárdio.71 As concentrações de N2O podem variar entre 35-50%. Dentro desses níveis, uma mistura de 35-50% de N2O e 50-60% de O2 diminui a dor, promove sedação e fornece ao paciente duas a três vezes mais O2 do que o encontrado no ambiente (Cap. 28). Quando disponível no ambiente odontológico, N2O – O2 pode ser utilizado no lugar dos analgésicos opioides. Isso é ainda mais importante quando o acesso venoso não se encontra disponível. Na ausência de óxido nitroso, ou quando o acesso venoso se encontra disponível, um analgésico opioide deve ser considerado para inclusão no kit de emergência. Injetável secundário: vasopressor Medicamento de escolha. Efedrina. Nome comercial. Nenhum. Classe medicamentosa. Vasopressor. Medicamento alternativo. Nenhum. Ainda que um potente vasopressor – a adrenalina – já esteja disponibilizada no kit de emergência, a maior parte das emergências que exigem a administração de um vasopressor no consultório odontológico não requerem o uso da adrenalina. A adrenalina é utilizada primariamente para o tratamento de reações alérgicas agudas e é raramente indicada no controle de hipotensão leve e moderada. Além do aumento na pressão arterial que a adrenalina provoca, esse medicamento aumenta a carga produzida pelo miocárdio por meio do seu efeito na frequência cardíaca e na força de contração; também aumenta a irritabilidade do músculo cardíaco, predispondo o coração a arritmias. Na maior parte das situações clínicas listadas abaixo (Indicações Terapêuticas), a pressão arterial sistólica da vítima baixa para cerca de 60 a 80 mmHg e não retorna para os níveis adequados dentro de um período apropriado. Algum medicamento deve estar disponível para elevar a pressão arterial em 30 a 40 mmHg durante um período sustentado, possibilitando que o corpo retorne a um estado normalmente funcional. Mais ainda, em diversas ocasiões, o estado cardiovascular do paciente é desconhecido, a não ser que uma monitorização eletrocardiográfica seja utilizada. Por essa razão é desejável que se tenha disponível um vasopressor que produza um aumento moderado na pressão arterial, sem que cause ao mesmo tempo um aumento indevido na carga de trabalho do miocárdio. A efedrina libera noradrenalina endógena dos seus locais de armazenamento. Isso representa um efeito simpaticomimético indireto. A noradrenalina, por sua vez, estimula vários receptores α- e β-adrenérgicos. A efedrina também estimula os receptores β diretamente, particularmente na musculatura lisa brônquica. Os efeitos β-adrenérgicos resultam da produção de monofosfato de adenosina cíclico (AMPc) por meio da ativação da enzima adenilatociclase. Os efeitos α-adrenérgicos aparentam ser resultados da inibição da adenilatociclase. Uma vez que os sítios de armazenamento da noradrenalina podem estar deficientes em noradrenalina, a taquifilaxia pode se desenvolver em relação aos efeitos constritor e cardíaco da efedrina. Tal qual outros agentes simpaticomiméticos, os efeitos fisiológicos da efedrina são bastante variáveis e algumas vezes dependem da dosagem utilizada. A efedrina relaxa a musculatura lisa nos brônquios por meio da estimulação dos receptores b2-adrenérgicos,aliviando o broncospasmo leve, melhorando a troca gasosa e aumentando a capacidade vital. Quando doses únicas e baixas são administradas, a estimulação de receptores b1-adrenérgicos no coração resulta em efeitos inotrópicos positivos, os quais são os principais responsáveis pelo resultado pressor do medicamento. Ainda que a efedrina exerça um efeito cronotrópico positivo no nó sinoatrial, esse efeito pode ser revertido por meio de uma resposta vagal compensatória ao aumento da pressão arterial. Consequentemente, tanto taquicardia como bradicardia sinusais podem ser encontradas. Alguns pacientes não apresentam modificações na frequência cardíaca. Arritmias podem ocorrer após a administração de altas doses. Os efeitos da efedrina no fluxo das artérias coronárias podem ser dose-dependentes, mas de maneira geral a efedrina aumenta o fluxo das artérias coronárias. Esse aumento no fluxo sanguíneo pode ser decorrente da dilatação das artérias coronárias ou do aumento na pressão arterial. Na periferia, a efedrina pode produzir tanto vasodilatação, mediante a estimulação dos receptores b2-adrenérgicos, quanto vasoconstricção, como resultado da estimulação de receptores a1-adrenérgicos. A constrição das arteríolas na pele, membranas mucosas e vísceras ocorre após a administração de efedrina, enquanto a vasodilatação ocorre na musculatura lisa. Constrição ou dilatação dos vasos sanguíneos pulmonares ou cerebrais podem ocorrer. Os efeitos pressores da efedrina são mais lentos, mas duram mais tempo do que os da adrenalina ou noradrenalina.72 Indicações terapêuticas: Vasopressores são utilizados para gerenciar hipotensão clinicamente significativa. São possíveis usos: ■ Reações de síncope (Parte Dois) ■ Reações de overdose (Cap. 23) ■ Estados pós-convulsão (Cap. 21) ■ Insuficiência adrenal aguda (Cap. 8) ■ Alergia (Cap. 24) Efeitos adversos, contraindicações e precauções. A administração parenteral da maioria dos vasopressores é contraindicada em pacientes com pressão arterial elevada ou taquicardia ventricular. O medicamento deve ser utilizado com extrema cautela em pacientes com hipertireoidismo, bradicardia, bloqueios cardíacos, doença do miocárdio ou aterosclerose grave. Disponibilidade. A efedrina está disponível em 50 mg/mL (ampolas de 1 mL). Sugestão para o kit de emergência. Efedrina, 50 mg/mL (ampolas de 1 mL). NOTA: Os vasopressores são utilizados apenas, e infrequentemente, para tratamento de estados hipotensivos. Outros usos não farmacológicos estão disponíveis para a elevação da pressão arterial, tal qual o posicionamento do paciente em posição supina com os pés elevados (fornecendo o equivalente a administração de 2 litros de fluidos via IV) ou a administração de fluidos por via IV (D5W, lactato de Ringer) Injetável secundário: anti-hipoglicêmico. Medicamento de escolha. Dextrose, solução a 50%. Nome comercial. Nenhum. Classe medicamentosa. Anti-hipoglicêmicos. Medicamento alternativo. Glucagon. No tratamento do nível baixo de açúcar no sangue (hipoglicemia), o modo de tratar depende imensamente do nível de consciência do paciente. No paciente consciente, a administração de carboidratos orais é preferida, mas, quando o paciente se encontra inconsciente ou severamente desorientado, 30mL de uma solução de dextrose 50% devem ser administrados IV. Quando esta via de administração não estiver disponível, o glucagon pode ser administrado pela via IM. O glucagon, normalmente produzido pelo pâncreas, aumenta o nível de glicose sanguínea por meio da mobilização do glicogênio hepático, convertendo-o em glicose. O glucagon é efetivo somente quando o glicogênio hepático está disponível; não é efetivo no tratamento da fome crônica ou da condição hipoglicêmica crônica. Tão logo o paciente evidencie uma resposta (recupera a consciência e é capaz de deglutir), carboidratos orais devem ser administrados. Indicações terapêuticas. Anti-hipoglicemiantes são utilizados no tratamento da hipoglicemia (Cap. 17) e como meio diagnóstico na perda da consciência ou convulsão de origem desconhecida (Cap. 9). Efeitos colaterais, contraindicações e precauções. Uma solução de dextrose a 50%, a qual deve ser administrada somente pela via IV, pode produzir necrose tecidual se ocorrer infiltração extravascular. Não existe contraindicação específica ao uso da dextrose a 50%. A administração de um bólus de dextrose a 50% num paciente hiperglicêmico não eleva significativamente os níveis de glicose no sangue. O glucagon administrado pela via IV ou IM está contraindicado em pacientes com estados de privação alimentar ou hipoglicemia crônica. Disponibilidade. A dextrose a 50% está disponível em ampolas de 30 mL, enquanto o glucagon está disponível em unidades de 1 mg (uma unidade de pó seco), com 1 mL de diluente, e em 10 mg de pó seco, com 10 mL de diluente. Sugestão para o kit de emergência. Dextrose a 50% (um ou dois frascos), se a via IV estiver disponível em pacientes pesando 30 kg ou mais (dextrose a 25% deve ser utilizada em pacientes pesando menos de 30 kg); ou 1 mg/mL (duas ou três ampolas de 1 mL) de glucagon para administração IV ou IM. Injetável secundário: corticosteroide Medicamento de escolha. Hidrocortisona Nome comercial: Solu-Cortef® Classe medicamentosa. Glicocorticosteroide adrenal Medicamento alternativo. Nenhum. Os corticosteroides são indicados para o tratamento das reações alérgicas agudas, mas somente depois que o socorrista estiver com a fase aguda, potencialmente fatal, sob controle, por meio do uso da adrenalina, do suporte básico de vida e de bloqueadores da histamina. Os corticosteroides são valiosos para prevenção de episódios anafiláticos recorrentes. Eles também são utilizados para tratar a insuficiência adrenal crônica. O início da ação dos corticosteroides é lento, mesmo quando administrados pela via IV.73 Já que a efetividade máxima pode não ocorrer em até 60 minutos após administração IV, muitos médicos e pesquisadores questionam a efetividade destes medicamentos no tratamento das reações alérgicas, em pacientes com glândulas adrenais normofuncionantes. Os efeitos antialérgicos dos corticosteroides provavelmente são manifestações simples da ação anti-inflamatória não específica dos glicorticoides da glândula adrenal (hidrocortisona e cortisona). O uso da dexametasona (Decadron) e metilprednisolona succinato de sódio (Solu-Medrol) está contraindicado em pacientes com insuficiência adrenal aguda. Assim, o succinato sódico de hidrocortisona é o corticosteroide de escolha para o kit de emergência odontológica. Os corticosteroides são considerados medicamentos de segunda linha em função do início lento de ação. Indicações terapêuticas. Corticosteroides são utilizados no tratamento definitivo da alergia aguda (Cap. 24) e no tratamento da insuficiência adrenal aguda (Cap. 8). Efeitos colaterais, contraindicações e precauções. Não existem contraindicações à administração de corticosteroides no tratamento das emergências médicas potencialmente fatais. Quando o corticosteroide é administrado para o tratamento não emergencial (prevenção do edema durante cirurgia ou prurido), vários fatores devem ser considerados, como a presença de uma infecção preexistente, úlcera péptica ou hiperglicemia. Disponibilidade. O succinato sódico de hidrocortisona (Solu-Cortef) está disponível em frascos de 50 mg/mL (frascos de 2 mL). Sugestão para o kit de emergência. Succinato sódico de hidrocortisona (um frasco de 2 mL). Injetável secundário: anti-hipertensivo Medicamento de escolha: Esmolol Nome comercial: Brevibloc® Classe medicamentosa: Betabloqueador Medicamento alternativo: Labetalol (Normodyne, Trandate) A necessidade de administração de medicamentos para o controle de uma crise hipertensiva (pressão arterial perigosamente elevada) é extremamente incomum. Primeiro, a incidência de pressão arterial elevada extremamente aguda é rara; segundo, existem outras maneiras, que não sejam a administração parenteral de medicamentos anti-hipertensivos, de reduzir a pressão arterial do paciente. De fato, em entrevistascom centenas de cirurgiões-dentistas que administravam sedação parenteral e anestesia geral regularmente, eu não encontrei nenhuma pessoa que tenha tido a necessidade de administrar algum medicamento para diminuir uma pressão arterial extremamente elevada. Medicamentos administrados por via oral, tais como nifedipina e nitroglicerina, podem ser administrados na maior parte das situações a fim de gerar uma ligeira queda na pressão arterial do paciente. A inclusão de um medicamento anti-hipertensivo no kit de emergência ocorre, nos Estados Unidos, de acordo com os requerimentos estaduais para licenciamento em anestesia geral (e em alguns estados para o licenciamento em sedação parenteral). O esmolol é um medicamento bloqueador do receptor adrenérgico b1-seletivo, com uma duração de ação muito curta (tempo de meia-vida [IV] de aproximadamente 9 minutos). Esse medicamento é indicado como um antiarrítmico em pacientes apresentando taquicardia supraventricular paroxística e para o tratamento de taquicardia e hipertensão intraoperatória e pós- operatória. Quando utilizado para o tratamento da taquicardia supraventricular paroxística, o esmolol causa uma queda significativa na pressão arterial em cerca de 20 a 50% dos pacientes. Uma hipotensão significativa (< 90 mmHg sistólica ou < 50 mmHg diastólica) foi encontrada em 12% desses pacientes (principalmente diaforese ou tontura).74, 75 Devido a curta duração do esmolol (aproximadamente 30 minutos via IV), esse efeito hipotensivo tem uma curta duração.74 Um medicamento alternativo é o labetolol, pois ele bloqueia os receptores b1-adrenérgicos no coração, os receptores b2 nos brônquios e musculatura lisa vascular, e os receptores a1 na musculatura lisa vascular. Após a administração IV, a relação entre o bloqueio α:β é de 1:17. O labetalol produz uma queda na pressão arterial dose-dependente, sem taquicardia reflexa e sem uma redução significativa na frequência cardíaca (provavelmente mediante a mistura entre os bloqueios dos receptores α e β). Devido a sua ação como α-bloqueador, a redução na pressão arterial é maior quando o paciente se encontra de pé do que quando o paciente se encontra na posição supina, na qual sinais de hipotensão postural podem se desenvolver. Administrado por meio da via IV, as ações hipotensivas ocorrem dentro de 2 a 5 minutos. O pico do efeito ocorre dentro de 5 a 15 minutos, com a duração de ação usualmente dentro de 2 a 4 horas. Quando administrado em pacientes (que se encontram em posição supina) para o tratamento de hipertensão grave, uma dose inicial IV de 0,25 mg/kg de peso corporal (17,5 mg para um paciente de 70 kg) reduz a pressão arterial em uma média de 11/7 mmHg. 76 Indicações terapêuticas: episódios agudos hipertensivos Efeitos adversos, contraindicações e precauções. O esmolol é contraindicado em pacientes com bradicardia sinusal, bloqueio cardíaco mais grave do que o bloqueio atrioventricular (BAV) de 1o grau, choque cardiogênico ou insuficiência cardíaca. Uma hipotensão potencialmente significativa pode se desenvolver com qualquer dose de esmolol, mas é mais provável de ser encontrada quando relacionada a uma dose acima de 200 µg/kg por minuto. Pacientes recebendo esmolol devem ser monitorados de perto. Em pacientes com insuficiência cardíaca congestiva, o esmolol quando administrado em altas doses pode precipitar uma insuficiência cardíaca ainda mais grave. Em ambas as situações, hipotensão e insuficiência cardíaca, a descontinuação na terapia com esmolol leva a uma reversão do quadro clínico dentro de 30 minutos. A injeção extravascular de esmolol, numa concentração de 20 mg/mL, pode levar a reações locais sérias e necrose tecidual. Essa complicação é menos comumente encontrada no caso de uma solução com concentração de 10 mg/mL.74 O labetalol é contraindicado em paciente com asma, sendo esta a primeira razão pela qual esse medicamento não é indicado para ser o anti-hipertensivo de escolha. Uma vez que esses fármacos deprimem a condução por meio do nó AV, os betabloqueadores são contraindicados em pacientes com bradicardia grave ou BAV avançado, a menos que um marca-passo funcionante esteja implantado. O labetalol também é contraindicado em pacientes em choque cardiogênico ou insuficiência cardíaca congestiva descompensada, especialmente naqueles pacientes com comprometimento grave do ventrículo esquerdo, e não deve ser utilizado em pacientes com síndrome sinoatrial ou edema agudo de pulmão, uma vez que os efeitos inotrópicos negativos desses medicamentos podem deprimir ainda mais o débito cardíaco. Essas situações são improváveis de serem encontradas em um paciente típico do consultório odontológico. De modo geral, a monoterapia com betabloqueadores deve ser utilizada com precaução em pacientes com angina vasospástica (angina de Prinzmetal), devido ao risco de hipertensão secundária à estimulação do receptor α-adrenérgico. De acordo com o fabricante, o labetalol é contraindicado em condições associadas com hipotensão grave ou prolongada. Para o tratamento de pacientes com infarto do miocárdio, os betabloqueadores geralmente são indicados em pacientes apresentando hipotensão (pressão arterial sistólica < 100 mmHg).76 Disponibilidade. O esmolol está disponível em doses de 2,5 g em uma ampola de 10 mL, as quais são diluídas a uma concentração de 10 mg/mL, e em uma solução de 100 mg/mL, a qual também é diluída a 10 mg/mL antes da sua administração. Sugestão para o kit de emergência: Duas ampolas de 100 mg/mL com diluente. Injetável secundário: agente bloqueador parassimpático Medicamento de escolha: Atropina Classe de medicamento: Anticolinérgico Medicamento alternativo: Nenhum Nome comercial: Nenhum A atropina é um medicamento bloqueador parassimpático, recomendado para o gerenciamento da bradicardia sintomática (frequência cardíaca no adulto < 60 bpm). Ao aumentar a descarga vinda do nó sinoatrial (nó SA), a atropina provoca taquicardia (frequência cardíaca no adulto > 110bpm). A atropina é benéfica em situações nas quais o coração do paciente se encontra com um excesso de atividade parassimpática. Pacientes extremamente medrosos são pré-dispostos a desenvolverem essa resposta. Devido a estimulação, o nervo vago diminui a atividade do nó sinoatrial, diminuindo a frequência cardíaca. Quando a frequência cardíaca se torna excessivamente baixa, o fluxo sanguíneo cerebral fica diminuído e os sinais e sintomas de isquemia cerebral se desenvolvem. Por meio do bloqueio desse efeito vagal, a atropina mantém o débito cardíaco e a circulação cerebral adequados. A atropina também é um componente essencial do suporte avançado de vida em cardiologia (ACLS), a qual é utilizada para controlar hemodinamicamente bradiarritmias significativas (bloqueio atrioventricular significativo e assistolia). Efeitos adversos, contraindicações e precauções. Altas doses de atropina (2 mg ou mais) podem produzir sinais e sintomas clínicos de overdose, os quais incluem pele seca e quente; visão turva e miopia; xerostomia (sensação de boca seca e de garganta seca); desorientação e alucinações. A administração de atropina é contraindicada em pacientes com glaucoma ou hipertrofia prostática. Entretanto, em situações potencialmente fatais, os benefícios da administração da atropina prevalecem sobre os possíveis riscos. A atropina pode aumentar o grau de obstrução parcial urinária associada ao prostatismo; o fármaco também é contraindicado em pacientes idosos com glaucoma de ângulo estreito. Disponibilidade. A atropina se encontra disponível em frascos de 1 mL, contendo 0,5 mg/mL, e em seringas pré-dosadas de 10 mL, contendo 1 mg/mL. Sugestão para o kit de emergência. Duas ou três ampolas de 0,5 mg/mL (para administração IM) ou duas seringas de 10 mL com 1 mg do fármaco por seringa (para administração IV). Medicamentos não injetáveis Dois medicamentos não injetáveis são considerados nesse nível: 1. Estimulante respiratório 2. Anti-hipertensivo Não injetável secundário: estimulante respiratório Medicamento de escolha. Amônia aromática Classemedicamentosa. Estimulante respiratório Nome comercial. Nenhum Medicamento alternativo: Nenhum A amônia aromática é o agente de escolha para inclusão no kit de emergência como estimulante respiratório. Encontra-se disponível em um sachê cinza-prateado, o qual deve ser comprimido e colocado sob o nariz da vítima, até que a estimulação respiratória seja afetada (Fig. 3-29). A amônia aromática possui um odor nocivo que irrita a membrana mucosa do trato respiratório superior, estimulando os centros respiratório e vasomotor da medula. Esta ação, por sua vez, aumenta a frequência respiratória e a pressão sanguínea arterial. O movimento dos braços e pernas geralmente ocorre em resposta à inalação da amônia; estes movimentos aumentam ainda mais o fluxo sanguíneo e a pressão arterial, especialmente no paciente posicionado adequadamente (posição supina com os pés ligeiramente elevados). Indicações terapêuticas. A amônia aromática é utilizada para tratar a síncope vasodepressora, assim como depressão respiratória não induzida por analgésicos opioides (Cap. 6). FIGURA 3-29 A, Sachê de amônia, usado (acima), não usado (abaixo). B, Amônia macerada e mantida sob o nariz. FIGURA 3-30 Amônia fixada na parede ou próxima do kit. Efeitos colaterais, contraindicações e precauções. A amônia deve ser utilizada com cautela em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica ou asma; seus efeitos irritantes nas membranas mucosas do trato respiratório superior podem precipitar o broncospasmo. Disponibilidade. Sachês cinza-prateados contendo 0,3 mL de amônia aromática. Sugestão para o kit de emergência. Uma ou duas caixas de sachês. NOTA: Depois do O2, a amônia aromática pode ser o medicamento mais usado no kit de emergência. Mantenha um ou dois sachês ao alcance das mãos no consultório, e assim, quando for necessário, não perca tempo procurando-os (Fig. 3-30). Os sachês devem estar disponíveis de tal forma que sejam localizados sem que o cirurgião-dentista ou membros da equipe tenham que deixar o paciente para buscá-los. Adicionalmente, diversos sachês devem estar disponíveis no kit de emergência para uso em outras áreas do consultório. Não injetável secundário: anti-hipertensivo Medicamento de escolha. Hidralazina Nome comercial. Apenas genérico Classe de medicamento. Anti-hipertensivo Medicamento alternativo. Nitroglicerina Dois medicamentos que atuam no controle de aumentos agudos na pressão arterial – esmolol para administração parenteral e nitroglicerina para administração sublingual ou translingual – foram previamente discutidos nesse livro. A necessidade de um outro medicamento anti-hipertensivo é mínima, principalmente devido ao fato de que a necessidade para a administração de um anti-hipertensivo, no consultório odontológico, por si só já é extremamente reduzida. A hidralazina, utilizada no controle da pressão arterial elevada, é um vasodilatador periférico que causa relaxamento da musculatura lisa arteriolar por meio de seus efeitos diretos. A hidralazina foi historicamente utilizada como o agente de primeira linha no tratamento de emergências e urgências hipertensivas; entretanto, devido às quedas não previsíveis na pressão arterial, e uma duração no seu tempo de ação prolongada (12 horas ou mais), além de seus efeitos adversos, sua indicação como medicamento de primeira linha foi substituída por anti-hipertensivos mais novos e mais previsíveis.77, 78 Os efeitos vasodilatadores da hidralazina resultam em diminuição da pressão arterial (diastólica mais do que a sistólica) e resistência vascular periférica. Adicionalmente, o reflexo autônomo induzido pela hidralazina aumenta a frequência cardíaca, o débito sistólico, o débito cardíaco e a fração de ejeção do ventrículo esquerdo. A dilatação preferencial das arteríolas, quando comparada com a das veias, minimiza a hipotensão postural e promove um aumento no débito cardíaco, ainda que os efeitos hipotensivos da hidralazina sejam diminuídos de alguma forma por esse aumento no débito cardíaco.79 Mesmo que a hidralazina seja 90% absorvida por via oral, a biodisponibilidade sistêmica é consideravelmente pequena após administração por essa via, quando comparada com a administração pela via intramuscular ou intravenosa, devido ao metabolismo de primeira passagem. Ainda que a presença de alimentos no intestino aumente a absorção da hidralazina, a redução dos seus níveis sanguíneos, associada com a presença de alimentos, reduz os efeitos anti-hipertensivos desse medicamento, possivelmente devido a um aumento da conversão intravascular do fármaco a hidrazona do ácido pirúvico da hidralazina. Por essa razão, tem sido sugerido que os pacientes que fazem uso desse medicamento o façam em um horário prestabelecido em relação às refeições. Efeitos hipotensivos ocorrem dentro de 20 a 30 minutos após a dose oral. Os efeitos anti-hipertensivos de uma dose oral de hidralazina duram cerca de 2 a 4 horas. Indicações terapêuticas. Urgências hipertensivas. Inicialmente, são administrados 10 mg por via oral, 4 vezes ao dia, durante os primeiros 2 a 4 dias, aumentando a dose para 25 mg, por via oral, 4 vezes ao dia, para o equilíbrio da primeira semana. Para a segunda semana e semanas subsequentes, a dose deve ser aumentada para 50 mg, por via oral, 4 vezes ao dia. A dose deve ser titulada para a menor dose efetiva, para o controle da pressão arterial. Ainda que a dose inicial de 10 mg seja recomendada, devido ao significativo efeito de primeira passagem da hidralazina, doses iniciais de 25 mg normalmente são seguras. A dose máxima recomendada é de 300 mg/dia por via oral. 80, 81 Efeitos adversos, contraindicações e precauções. A administração de hidralazina é contraindicada em pacientes portadores de doença reumática da válvula mitral. É indicado cuidado na presença de doença cardiovascular, doença cerebrovascular e deficiência renal grave. Disponibilidade. A hidralazina está disponível em tabletes de 10, 25, 50 e 100 mg. Sugestão para o kit de emergência. Um frasco com tabletes de 25 mg. Equipamento de emergência secundário Os itens descritos nesta seção são adjuntos às técnicas básicas de manutenção das vias áreas apresentadas na seção do equipamento primário deste capítulo e no Capítulo 5. Estes itens são recomendados apenas para pessoas que receberam treinamento avançado, sendo necessário ao uso seguro e eficiente desses equipamentos. O controle da via aérea usando um dispositivo invasivo é fundamental no suporte avançado de vida em cardiologia (ACLS). Determinar rapidamente se o tubo traqueal está no esôfago ou na traqueia deve ser um dos pontos fundamentais do treinamento e uso clínico das técnicas invasivas para vias aéreas. Esta habilidade-chave é necessária para o uso efetivo e seguro destes dispositivos. O treinamento, a frequência de uso e o monitoramento do sucesso e das complicações influenciam o impacto longitudinal de qualquer dispositivo, mais do que a escolha do dispositivo específico.82 Estes dispositivos não foram desenvolvidos como substitutos para as técnicas básicas no gerenciamento das vias aéreas. Os itens de equipamento secundário de emergência incluem: 1. Cânulas orofaríngeas ou nasofaríngeas 2. Máscaras laríngeas 3. Laringoscópio e tubos endotraqueais 4. Bisturi ou agulha de cricotireoidostomia Cânulas orofaríngeas ou nasofaríngeas Cânulas orofaríngeas (Fig. 3-31) ou nasofaríngeas (Fig. 3-32) plásticas ou de borracha são utilizadas para auxiliar na manutenção da via aérea patente no paciente inconsciente (Fig. 3-33). Estes dispositivos, os quais deslocam a base da língua da parede posterior da faringe, são recomendados pela Associação Americana de Cardiologia (American Heart Association), apenas quando os métodos manuais de manutenção de vias aéreas não são efetivos.82 Pacientes que não estão profundamente inconscientes podem tolerar melhor a cânula nasofaríngea, enquanto a cânula orofaríngea induz reflexo de vômito, regurgitação ou vômito em pacientes que não estão profundamente inconscientes. Então, é sugerida a inclusão de cânulas nasofaríngeas