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1 2 ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico INTERPRETAÇÃO CLÍNICA DE EXAMES LABORATORIAIS VOLUME I Vitae Editora Anápolis (GO), 2022 3 E-book transcrito a partir da aula do Professor Alipio Carmo Professor no Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico. Graduação em Farmácia e Bioquímica pela Universidade Paulista (1995) e mestrado em Ciências Biológicas (Biologia Molecular) pela Universidade Federal de São Paulo (1999). Professor do Curso de Farmácia e de Pós-Graduação em Farmácia Clínica, Farmácia Clínica Hospitalar e análises clínicas. Tem experiência na área de Farmácia, atuando principalmente nos seguintes temas: farmacologia, farmacoterapia, análises clínicas e toxicológicas. Trabalhou em drogarias, hospitais, laboratórios e centros de pesquisa clínica e experimental. EXPEDIENTE: Autor: ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico Revisão Técnica: Farmacêutica Me. Juliana Cardoso Produção: Vitae Editora Edição: Egle Leonardi e Jemima Bispo Colaboraram nesta edição: Erika Di Pardi e Janaina Araújo Diagramação: Cynara Miralha 4 INTERPRETAÇÃO CLÍNICA DE EXAMES LABORATORIAIS APRESENTAÇÃO Os resultados dos exames laboratoriais clínicos são um parâmetro muito importante para procedimentos como diagnóstico, monitoramento e triagem. 70-80% das decisões de diagnóstico são baseadas em resultados laboratoriais e, cada vez mais, são solicitadas análises laboratoriais. Assim, muitos dados são fornecidos sendo fundamental, para o cuidado e a segurança do paciente, que os profissionais da saúde estejam familiarizados com os testes e com a interpretação dos resultados. A importância de compreender os princípios para selecionar e solicitar testes laboratoriais mais racionais para um paciente específico aumenta na era atual e necessita de cuidados gerenciados. A dedução de hipóteses envolve o estabelecimento de um diagnóstico diferencial com base na história do paciente, incluindo seus históricos familiar, social e medicamentoso, além de achados do exame físico, seguidos pela seleção de exames laboratoriais, que são mais prováveis de confirmar um diagnóstico ou uma melhora no acompanhamento farmaco- terapêutico. OBJETIVOS DA DISCIPLINA Capacitar estudantes e profissionais da área de saúde quanto à utilização dos exames laboratoriais como ferramenta clínica no diagnóstico e monitoramento das principais patologias, a partir de correlações clínicas e terapêuticas. O exame laboratorial é um conjunto de informações utilizado pelo médico para o diagnóstico. Os profissionais de saúde devem ter o entendimento de como esse exame funciona, como podem analisar o dado para o acompa- nhamento na clínica, seja no balcão de uma farmácia, no dia a dia de uma farmácia hospitalar, no consultório farmacêutico etc. É necessário compreender que os exames laboratoriais fazem parte do acompanhamento clínico e farmacoterapêutico do paciente. CONTEÚDO PROGRAMÁTICO • Introdução; • Interpretação clínica de marcadores bioquímicos; • Interpretação clínica do exame de urina; • Interpretação clínica do hemograma; • Interpretação clínica do coagulograma; • Interpretação clínica de exames microbiológicos/sorológicos, associando doenças infectocontagiosas. 5 INTRODUÇÃO A interpretação de exames laboratoriais é uma atividade de grande importância no exercício clínico, uma vez que é comum a conclusão diagnóstica após a leitura e correta interpretação de exames laboratoriais. O exercício clínico de décadas atrás era baseado na anamnese do paciente, envolvendo seu histórico naquele momento. Caso o médico não fechasse seu diag- nóstico naquela ocasião, formulava-se uma ou mais hipóteses de diagnóstico e solicitava-se exames para confirmar uma delas. Assim, a correta interpretação dos exames laboratoriais já ocupava uma posição de destaque no diagnóstico preciso. É necessário compreender o que é um exame laboratorial e de onde surgiu. No passado, os médicos faziam o diagnóstico por meio da anamnese, exame físico e histórico da situação do paciente. Com o avanço da tecnologia na área da medicina, os exames laboratoriais foram introduzidos. Eles trazem informações de como está o paciente em relação à sua atividade metabólica e células do corpo. Todo esse processo ocupa um grande destaque na sociedade, atualmente, pois, para fazer o diagnóstico correto, faz-se uma junção da anamnese, exame físico e diagnóstico laboratorial. Sabe-se que o exame laboratorial fornece informações muito importantes para o diagnóstico do paciente e acompanhamento farmacoterapêutico, mas não é superior à clínica do paciente. Essa é uma situação que os profissionais devem ter em mente. AS TRÊS FASES DOS EXAMES LABORATORIAIS Antes de abordar sobre os exames laboratoriais, é importante compreender que eles passam por três fases para que se chegue ao laudo final: • Fase pré-analítica: diz respeito às etapas iniciais que antecedem a análise laboratorial: indicação do exame, escrita da receita, preparo do paciente, procedimentos de coleta, acondicionamento do material colhido, transporte e preparo da amostra. Atualmente, sabe-se que, aproximadamente, 60% dos erros de laboratório estão associados à fase pré-analítica. Exemplo: o paciente não fez o jejum corretamente, utilizou bebida alcoólica no dia anterior ao exame, o qual pode ser comprometido com o uso de álcool ou uso de medicação. Todas essas informações devem ser bem coletadas pela recepção de quem vai iniciar o processo do exame, para evitar, futuramente, um erro causado na fase pré-analítica. Por isso, deve-se investigar: será que o paciente fez jejum? Ele está dentro dos critérios para a coleta do exame? Está no horário correto para realizar o exame? Como estão as condições de saúde no dia do exame? Ele está muito estressado ou nervoso? Essas questões podem comprometer o exame. Todos esses dados devem ser registrados quando a coleta for realizada. • Fase analítica: segunda fase dos exames laboratoriais, como o próprio nome sugere, é dedicada à análise do material coletado. Exemplo: foi realizada a coleta de um exame para a dosagem de glicose (glicemia - quantidade de glicose circulante no sangue do paciente). Trata-se de um processo técnico de análise do material. • Fase pós-analítica: última etapa dos exames laboratoriais, inclui a verificação das análises realizadas na fase analítica, associado aos dados pré-analíticos, o envio dos resultados ao profissional de saúde e, por fim, a tomada de decisão em relação ao exame realizado. 6 A partir da realização e finalização do exame, ele está pronto para ser encaminhado ao médico. Atualmente, sabe-se que os profissionais que exercem essa função de finalização do laudo são bem remunerados, porque precisam ter um conhecimento de todo o processo do exame, uma vez que assina o exame, passando os dados para o médico, para que ele, ou outro profissional da saúde, como o farmacêutico, possa concluir. No caso do médico, conclui-se o diagnóstico e no caso dos farmacêuticos, o acompanhamento farmacoterapêutico. Exemplo: o paciente tinha uma glicose muito alta, o médico fez seu diagnóstico, descobrindo que o indivíduo é diabético. O paciente deve começar a usar hipoglicemiantes orais ou insulina (dependendo da situação) e, a partir daí, o farmacêutico deve acompanhá-lo. Por isso, é necessário saber como esse exame é feito e como o resultado é obtido, para que o profissional informe e acompanhe o paciente, verificando se a medicação está correta, na dose certa, junto à equipe multidisciplinar. Normalmente, o farmacêutico trabalha dessa forma. Exemplo: o paciente está usando anticoagulante oral. Será que esse medicamento está funcionando? Essa é uma pergunta a ser feita. É necessário chegar ao resultado para o acompanhamento farmacotera- pêutico. Por isso, deve-se compreender o exame e o que o dado significa. INTERVALOS DE REFERÊNCIA • No âmbito do diagnóstico in vitro, o termo “valor dereferência” tem sido substituído pela expressão “intervalo de referência”. Os intervalos devem ser usados apenas como orien- tação para o dado do exame, sendo recomendado que cada laboratório estabeleça sua faixa de valores de referência para a população atendida. Muitas vezes, o paciente está dentro do intervalo de referência, mas a clínica informa que tem algo errado relacionado ao exame, mesmo ele estando dentro do intervalo de referência. Exemplo: o paciente fez um exame para a dosagem dos hormônios da tireoide, mas não tem o hipotireoidismo ainda. O indivíduo faz o exame laboratorial, o resultado está dentro do intervalo de referência, mas no limite inferior, por exemplo, ele tem os sintomas do hipotireoidismo. Por isso, é comum o médico fazer um teste farmacológico, introduzindo nele uma dose baixa do hormônio. Depois, passa a acompanhar, por meio do exame, como isso se comporta e como pode melhorar a clínica do paciente. Em casos como esse, é muito comum o indivíduo comprar o hormônio (levotiroxina), mas quando o farmacêutico analisa os exames, percebe que está dentro dos intervalos referência, podendo questionar o paciente se ele já costuma tomar o medicamento. Ele pode responder que está utilizando o fármaco pela primeira vez e o farmacêutico pode estranhar e questionar: se está dentro do valor de referência, por que o médico está indicando o uso do medicamento? Nesse caso, provavelmente, a clínica do paciente está relacionada ao hipotireoidismo, ou seja, a quantidade de hormônio que está circulando fisiologicamente não é o suficiente para suas necessidades básicas de sobrevivência. Sendo assim, o médico introduz um pouco de medicamento, chamado de “teste farmacológico”, para ver se o estado clínico do paciente melhora. • Laudos: Qual intervalo de referência? De qual local é possível extrair essa informação? Os resultados devem ser expressos em sistema internacional, verificados junto à Organização Mundial de Saúde, como suas determinações, em relação aos valores de referência e às sociedades brasileiras ou internacionais, relacionadas ao grupo de patologia. Exemplo: 7 quando se trata de diabetes, há a Sociedade Brasileira de Diabetes. Nesse caso, deve-se verificar o que a sociedade preconiza em relação aos valores de referência da glicose. O paciente fez exame de próstata (PSA). Assim, qual o valor de referência estabelecido pela Sociedade Brasileira de Urologia? É necessário fazer um apanhado dessas informações porque a Agência Nacional de Vigilância Sanitária determina que todos os exames de laboratórios devem conter uma metodologia com a qual foi realizado, assim como o valor de referência. O órgão regulador obriga a colocação do valor de referência, mas não preconiza que o profissional siga deter- minados parâmetros. A agência dá essa liberdade para que os atuantes na área possam atualizar o dado laboratorial em relação aos valores usados para intervalos de referência, pois esse processo é muito dinâmico. Há 20 anos, o valor de glicose girava em torno de 70 a 110. Porém, havia pacientes com dosagem de glicose de 60 miligramas que estavam dentro do intervalo de referência, estando clinicamente estável. Mas, também havia pacientes com 106 miligramas considerados diabéticos. Por isso, a Sociedade Brasileira de Metabologia, Endocrinologia e Diabetes se reuniram, junto a outras comunidades internacionais, e suge- riram um novo intervalo de referência, o qual passou a ser de 60 a 99 miligramas. Pode-se mudar esses valores gradativamente. Por que os intervalos de referência são necessários? Para interpretar os dados correta- mente ou resultados obtidos. É necessário ter um valor estabelecido para se basear em um grupo de pessoas. Por isso, os dados são considerados de região para região, em todo o mundo. Portanto, não se pode comparar os dados de certas doenças em relação à comunidade japonesa, africana ou americana, pois o clima é diferente, assim como as doenças, os processos, alimentação etc. Todas essas questão são avaliadas pelas sociedades, possibilitando um resultado confiável associado ao intervalo de referência ou um dado controle do laboratório, pois em alguns exames não há valores de referência, mas há um controle que se torna um intervalo de referência. EXAMES BIOQUÍMICOS Muitas vezes, um exame isolado não tem um significado clínico, mas outros sim. A glicemia é um dado do metabolismo do paciente, sendo possível quantificar a glicose circulante no sangue dele. O resultado é liberado e comparado com o intervalo de referência. Nesse caso, a interpretação pode sair errada porque se trata de um dado isolado e não se sabe se o resultado é um perfil do paciente ou um momento que ele está vivendo. Por isso, o exame deve ser comparativo, ou seja, é necessário comparar um dado com outro, analisando várias funções. Exemplo: o colesterol sozinho não faz uma inferência diagnóstica e não fornecerá um dado que possa ser analisado, mas, diante de associações com outros parâmetros bioquímicos, é possível inferir um diagnóstico, uma alteração metabólica, um funcionamento do medicamento, se está funcionando corretamente e se a farmacodinâmica está correta no perfil do paciente. O marcador hepático não possui valor clínico sozinho. Há vários exames que, sozinhos, dão um diagnóstico, mas certos dados são uma junção de informações para que se possa inferir uma patologia ou tratamento. Diante disso, é necessário trabalhar sobre um perfil. Quais exames necessários para fazer um diagnóstico? A forma mais correta de trabalhar com os exames laboratoriais é juntando informações. 8 Perfil: • Glicêmico; • Renal; • Lipídico; • Hepático; • Pancreático; • Cardíaco; • Muscular; • Eletrolítico. No caso do perfil eletrolítico, o sódio sozinho não fornece uma informação, mas deve-se associá-lo a outros sais do corpo para chegar no diagnóstico do paciente. Exemplo: descon- fia-se que um paciente seja diabético, mas somente por meio de exames é possível fazer esse diagnóstico. Há uma gama de exames, contudo, alguns são mais assertivos do que outros. PERFIL GLICÊMICO • Dosagem de glicemia: os níveis de glicose circulando no sangue do paciente dizem como a glicose do paciente está em determinado momento. É feita uma análise do momento presente de como estão os níveis de glicose no paciente. O diagnóstico parte do princípio de que é necessário ter vários dados e responder a várias perguntas. • Dosagem de hemoglobina glicada; • Dosagem de insulina; • Dosagem de frutosamina; • Dosagem de peptídeo C. Esses são exames que podem ajudar em várias situações em um quadro do paciente. Depois, há outros exames, como: • Sistema de monitorização contínua de glicose (CGMS) ou holter de glicose - deve-se acompanhar o paciente durante 24 horas, coletando sua glicemia de tempos em tempos ou uma dosagem de glicose. • Pesquisa de anticorpo anti-insulina - se o paciente criou resistência à insulina, há pesquisas de doenças autoimunes relacionadas ao diabetes. • Pesquisa de anticorpo anti-descarboxilase do ácido glutâmico (anti-GAD). • Pesquisa de anticorpo anti-tirosino quinase 512 (anti-ICA-512). 9 • Dosagem de leptina. • Teste de triagem com glicose oral para diagnóstico de diabetes gestacional - dosagem de glicose por meio de uma ingestão oral de uma carga de glicose (curva glicêmica). • Curva glicêmica para diagnóstico de diabetes mellitus gestacional. • Teste de tolerância à glicose oral para dosagem de insulina e glicose. • Teste de tolerância à glicose endovenosa - verificando como o organismo responde, monitorando o comportamento da glicose no organismo, sobre sua excreção renal. • Teste de estímulo com glucagon para dosagem de peptídeo C. • Teste de estímulo com Sustacal® para dosagem de peptídeo C - verifica o funcionamento do pâncreas. Há uma gama de exames. Alguns deles são padrões, podendo ser utilizados na rotina. Porém, outros são muito específicos, sendo realizados para o acompanhamentode alguma patologia ou estados fisiológicos em que o paciente necessita de acompanhamento, um diagnóstico melhor ou resposta melhor. Associar exames e informações, fazer uma boa anamnese, seja pelo médico ou farmacêutico, é necessário para extrair informações do paciente e acompanhar melhor seu diagnóstico e tratamento. Muitas vezes, o indivíduo inicia o tratamento e não tem uma boa resposta medicamentosa. De tempo em tempo, deve-se atualizar todo esse processo. O exame laboratorial ajuda não só no diagnóstico, mas no acompanhamento farmacoterapêutico. Exemplo: o farmacêutico pergunta ao paciente: “Qual medicamento o senhor está usando?” Ele responde: “Metformina”. Diante disso, questiona-se: A glicemia do indivíduo está baixando? Em qual momento do dia a glicose está alta? Deve-se compreender em que horário o paciente toma o medicamento e se está fazendo o uso corretamente. O profissional terá várias respostas em relação a isso. A associação dos exames se torna um dado muito importante para o diagnóstico farmacoterapêutico do paciente. GLICEMIA Avalia o metabolismo dos carboidratos. É um dos exames mais solicitados. Faz parte de uma rotina laboratorial, de um pedido médico. Na clínica do dia a dia, o médico tem o hábito de solicitar uma glicemia. Há dois tipos: ● Glicemia de jejum: avalia os níveis glicêmicos 24 horas anteriores, sendo um exame pontual. Exemplo: hoje, o paciente está com glicemia de cinco em cinco e não se sabe se ele 10 é diabético, mas é necessário que haja mais dados para se obter essa informação. Inde- pendentemente da quantidade de vezes que ele fez esse exame, se há um valor muito alto, o diagnóstico é de diabetes, mas o farmacêutico não pode dar o diagnóstico, pois é função do médico. Se, no dia a dia, for feita uma dosagem da glicose, ou análise por meio de testes rápidos (em laboratórios, na forma de glicemia capilar digital etc.) e for detectado que a glicemia está alta, o correto é encaminhar o paciente para o médico, para que ele faça o diagnóstico e, depois, o indivíduo retorna para o farmacêutico, para utilização de medicação e acompa- nhamento farmacoterapêutico. ● Glicemia TOTG (teste de tolerância oral à glicose) /pós-prandial: avalia os níveis glicêmicos após sobrecarga. O profissional pode dar uma solução à base de carboidrato para o paciente ingerir em jejum e, a partir daí, realizar uma dosagem da glicemia após um período, variando entre uma, duas horas ou 30 minutos, dependendo do critério médico ou após uma grande refeição. Alguns médicos solicitam o chamado “pós-prandial”: o paciente vai ao laboratório pela manhã, faz a coleta de glicose em jejum e, depois, vai para casa ou para sua rotina. Exemplo: o paciente almoçou 12 horas e às 14h ele estará no laboratório novamente para coletar a glicemia, para que se possa simular o que acontece no organismo após uma ingestão de alimento. Com 8 ou 12 horas de jejum, sabe-se como está a glicemia dele. Agora, após a alimentação, o que aconteceu? Qual a dosagem? Após a alimentação, a glicemia pode cair, mesmo que o mais comum seja que a glicose aumente com a ingestão de alimentos. Nesse caso, a glicose pode cair porque, provavelmente, o indivíduo tem um componente de glicemia. Diante disso, deve-se buscar outra informação em outro exame para verificar essa atividade metabólica, pois, até então, o médico ou o farmacêutico podem desconfiar de diabetes ou uma hiperglicemia, mas o paciente apresenta hipoglicemia, com diversos sintomas. Os exames trazem essas informações. Diante desses dados, o médico verifica o que foi ativado, em que momento foi ativado, como está a homeostase da glicemia, se está em desequilíbrio, aumentada, diminuída. Será que o pâncreas está funcionando? Será que o fígado consegue armazenar? Pode-se retirar vários dados dessa informação, seja da glicemia em jejum ou um teste oral de glicose ou glicemia pós-prandial. O que avaliar? Às vezes, o paciente não sabia que tinha glicemia alta, mas fez o exame por estar com dificuldade de urinar, o que sugere uma infecção. Ele foi até o médico e foi feita uma dosagem de glicose na urina (glicosúria) e a glicose foi detectada na urina. Isso significa que o limiar renal de reabsorção foi ultrapassado. Deve-se ter todos os dados do metabolismo de carboidrato do corpo do paciente para inferir se ele é um diabético ou se tem um problema local no rim. É necessário verificar todos os dados, como aumento e diminuição da glicemia e descobrir por que está acontecendo esse desequilíbrio. Atualmente, alguns pacientes fazem cirurgia bariátrica, com um desvio do esôfago até a primeira porção do intestino. A absorção de carboidrato fica comprometida porque o paciente tem picos de glicemia após a ingestão de certos alimentos. Tudo isso pode ser avaliado. Geralmente, o dado deve ser analisado em um conjunto fisiológico/patológico do paciente. 11 VALORES DE REFERÊNCIA DE GLICEMIA Pacientes normoglicêmicos Glicemia de jejum :<100mg/dL TOTG 2h:<140mg/dL. Pacientes com tolerância diminuída à glicose (Pré-Diabético - apesar de esse termo não se muito correto) Glicemia de jejum: 100mg/dL-125 mg/dL TOTG 2h: 140mg/dL - 199 mg/dL Serão necessários mais dados para compreender se o paciente está caminhando para uma diabetes ou se os resultados foram pontuais. Pacientes hiperglicêmicos Glicemia de jejum: >125 mg/dL TOTG 2h: >199 mg/dL Após esses valores, a chance de o indivíduo estar com diabetes é muito grande. Pacientes hipoglicêmicos São aqueles com baixa concentração de glicose circulando no organismo. Glicemia de jejum: ≤45mg/dL TOTG após 5h: ≤50mg/dL A partir daí, o médico fará o diagnóstico, enquanto o farmacêutico tem a função de entender o exame e fazer o acompanhamento após o uso de medicação ou com uma nutricionista que elaborou uma dieta. É possível acompanhar esse processo multiprofissionalmente. É importan- te compreender que os farmacêuticos são parte de uma equipe multidisciplinar, que contém o profissional que faz o diagnóstico, que propõe uma dieta e o que acompanha a farmacoterapia e o estado geral do indivíduo. No caso do médico, o paciente vai para o diagnóstico, seguido de um acompanhamento em meses subsequentes. No caso do nutricionista, também envolve esse critério. Quando se trata de farmacêutico, a frequência do paciente é maior na farmácia, para retirar medicamentos, comprá-los e receber demais informações. Por isso, esse profissional pode oferecer o serviço de forma diferente, em relação à farmacoterapia ou acompanhamento farmacoterapêutico a pedido de exames. 12 DIAGNÓSTICO Diante de uma suspeita de diabetes, há critérios que compõem o seguinte fluxograma: Guia de Referência, 2016. Verifica-se os valores da glicemia casual. Se for acima de 200 mg/dL, provavelmente, o paciente é diabético. Se a glicemia de jejum estiver alterada, também há suspeitas de diabetes. É necessário fazer um teste de tolerância oral à glicose? Provavelmente, sim. Nesse caso, observa-se como o paciente responde ao teste. Dependendo do valor, o médico não pedirá o teste, pois ele pode expor o paciente ao risco. Por isso, deve-se compreender como o processo funciona e, a partir disso, avaliar todo o risco para o paciente. No fluxograma, observa-se que é possível associar outros exames, como hemoglobina glicada (tomazina). Se der determinado resultado, haverá um diagnóstico. Em caso negativo, deve-se continuar a investigação. Na farmacoterapia, funciona da mesma forma. Para ter um diagnóstico, questiona-se: O medicamento está funcionando? A glicose em jejum e casual do paciente estão reduzidas? Se sim, o fármaco funciona e está na dose certa. Se não, o medicamento não está funcionando ou as doses não estão corretas. Nesse caso, verifica-se os hábitos alimentares do paciente e tudo o que ele faz, para que seja possível chegar a uma conclusão do estudo que está sendo feito sobre o uso do medicamento. 13 HIPERGLICEMIA (DIABETES) Outros tipos específicosde DM: a) Defeitos genéticos - predisposição genética para diabetes, uma vez que a família pode desenvolver a doença; b) Pancreatopatias - doenças relacionadas ao pâncreas; c) Endocrinopatias - problemas hormonais; d) Drogas ou agentes químicos - medicação; e) Síndromes genéticas, outros. Diabetes gestacional: ao engravidar, algumas mulheres desenvolvem esse problema. Após o nascimento da criança, a pessoa não terá mais diabetes. Há mulheres que, após 15 anos de histerectomia, desenvolvem diabetes. Nesse caso, trata-se de um critério da endocrinopatia. Diante das situações, deve-se fazer um histórico do paciente para entender por que ele se encontra com diabetes. Exemplo: por que o paciente tem síndrome genética? A mãe, o pai, o avô ou a irmã eram diabéticos? Se sim, a chance de o indivíduo ser diabético é grande. Por isso, a história familiar também é muito importante quando se faz uma anamnese. DIAGNÓSTICO DE HIPERGLICEMIA Ao tentar fazer o diagnóstico da doença, recomenda-se que o médico ou profissional responsável realize, em pacientes adultos: • Glicemia de jejum > 125 mg/dL, confirmada em duas ocasiões diferentes. Dependendo do valor da glicemia de jejum, deve-se fazer o exame em dois momentos. Exemplo: o resultado foi 110ml/dL hoje, mas o teste seria repetido daqui a um ou dois meses, sendo necessário verificar novamente o valor da glicose ou associar outros exames. • Glicemia plasmática casual > 199mg/dL: • TOTG 2h > 199mg/dL. Para pacientes grávidas: • Glicemia de jejum > 125 mg/dL; •TOTG 2h ≥ 140 mg/dL, para entender o que está acontecendo com o metabolismo da mãe e do bebê, evitando um comprometimento da gravidez devido a altos níveis de glicose. 14 HIPOGLICEMIA (REDUÇÃO DOS NÍVEIS DE GLICOSE NA CIRCULAÇÃO) 1. Insulinoma - tumor que gera uma produção excessiva de insulina, causando um problema pancreático sério, dificultando um diagnóstico, sendo necessário ultrassom e outros exames complementares; 2. Superdosagem de insulina no diabético - uso excessivo de hipoglicemiantes orais; 3. Alterações hormonais (GH – hormônio do crescimento – e Cortisol) - seja por produções fisiológicas ou em casos de pacientes que fazem uso desse hormônio, causando uma situação mais complicada quando se faz uso sem acompanhamento médico; 4. Privação prolongada de carboidratos - pacientes que fazem dietas, como ‘dieta do extermínio do carboidrato’ ou fazendo uso de pouco carboidrato; 5. Neoplasias abdominais; 6. Alcoolismo; 7. Alimentar (cirurgia gástrica) - restrição alimentar chamada de 'hipoglicemia alimentar’ após uma cirurgia bariátrica, por exemplo, envolvendo a colocação de um balão no estômago; 8. Diabética (DM subclínico/inicial tipo II) - o organismo está desestruturado metabolicamente; 9. Funcional ou ‘síndrome pós-prandial idiopática’ - após a alimentação, há uma hipoglicemia. Não se sabe ao certo qual sua origem e não há uma decisão que revele o motivo pelo qual essa situação ocorre. Nesse caso, o médico deve investigar e o farmacêutico deve acompanhar o paciente para ver como ele reage em relação a isso. DIAGNÓSTICO DE HIPOGLICEMIA Tríade de Whipple: Glicose < 45 mg/dL; Sintomas hipoglicêmicos; Reversibilidade dos sintomas após administração de glicose - o paciente está com sin- tomas e o profissional reverte a glicose; TOTG 5h: <50 mg/dL, realizado de forma estendida. Esses são exames básicos realizados em função da hipoglicemia. 15 Hb GLICADA Atualmente, utiliza-se outros marcadores, como a hemoglobina glicada. É muito útil não só no diagnóstico, mas para acompanhamento clínico do diabético. Hoje, é mais utilizada para acompanhamento do que para diagnóstico. Exemplo: em casos de diabetes com hemoglobina glicada aumentada, nos últimos 90 dias, aproximadamente, o paciente teve pico de glicose. O intervalo de referência para diabetes e HbA1c seria de ≥ 6,5% a ser confirmada em outra coleta. Atualmente, as sociedades mundiais da área de diabetes recomendam que indivíduos com alto risco para o desenvolvimento de diabetes/HbA1c estejam entre 5,7 e 6,4%. Há picos de glicemia após a alimentação, após a ingestão de carboidratos e após estresse. Ao entrar na hemácia, a glicose se metaboliza com a hemoglobina, que pode ser dosada. Os indivíduos afrodescendentes apresentam níveis mais elevados de HbA1c do que os caucasoides para valores iguais de glicemia em todas as categorias: tolerância normal à glicose, pré-diabetes e DM. Pode nem indicar uma diabetes, mas pode se tratar de uma situação casual em relação a uma população específica. Pode-se concluir que a hemoglobina glicada avalia o controle metabólico dos níveis glicêmicos até dois meses anteriores ao teste. Vale salientar que, se o paciente for anêmico, o exame pode ficar comprometido, pois a anemia reduz o tempo de meia-vida das hemácias, levando à sua destruição mais rápido. VR: 5,0 a 6%. INTERPRETAÇÃO CLÍNICA • Glicose aumentada x HbG N (Hemoglobina glicada normal): bom controle nos últimos dois meses; • Glicose Normal x HbG aumentada: controle inadequado nos últimos dois meses. Trata-se de um bom marcador em relação à atividade do paciente, como a dieta, se ele faz uso correto da medicação ou se está fazendo a dieta proposta pelo médico, farmacêutico ou nutricionista. FATORES INTERFERENTES DOS EXAMES DE HBG • Anticoagulantes - interferem no exame, assim com o uso de anti-inflamatórios por um longo tempo; • Interferentes na amostra; • Hemoglobinopatias - doenças genéticas relacionadas podem interferir no exame; 16 • Anemias; • Análise (erros laboratoriais) - o exame deve ser feito em uma temperatura ideal. No Brasil, por causa da variação térmica, os laboratórios devem ter um local com uma temperatura constante para fazer esses exames e suas respectivas conversões de temperatura versus a quantidade de analito de hemoglobina glicada. FRUTOSAMINA • Muito útil para acompanhamento clínico do diabético, associado ou não ao exame de HbG - no caso da hemoglobina glicada, avalia-se o que houve nos últimos 60 a 90 dias. Como a frutosamina é uma glicose associada a uma proteína, ela será degradada em torno de duas a três semanas. Por isso, a frutosamina é um marcador importante durante esse período. • Avalia o controle metabólico dos níveis glicêmicos duas a três semanas anteriores ao teste. VR: 205 a 285 mol/L. É necessário acompanhar o paciente, se a dieta estiver sendo bem-feita, se ele tiver controle da glicemia, fazendo uso da medicação de forma adequada, bem como a dieta e todos os acompanhamentos necessários para o diabético ou o paciente portador desse distúrbio metabólico, relacionado ao metabolismo de carboidratos. PEPTÍDEO C É outro marcador utilizado nesse processo. Muitas vezes, há uma dificuldade em entender por que o paciente não produz insulina e, se produz, não produz em quantidade suficiente. Dosar a insulina é um marcador importante, mas se o paciente associa a produção de insulina à injeção periódica de insulina, a insulina basal fica comprometida. O peptídeo C é usado para monitorar a produção de insulina e para ajudar a determinar a causa de níveis baixos de glicose no sangue (hipoglicemia). Exemplo: o paciente é diabético, mas será que ele precisa usar insulina ou pode usar um hipoglicemiante? Para descobrir, verifica-se o peptídeo C. Se ele estiver normal, significa que o pâncreas está produzindo insulina. Diante disso, observa-se qual o mecanismo existente em relação à produção da insulina, bem como o que está acontecendo e qual metabolismo está errado. Provavelmente, não se trata de insulina, mas de outro metabolismo, resistência à insulina, intolerância à glicose etc. O profissional começa a entender outros processos. No caso de uma hipoglicemia, o que está acontecendo com o paciente? Isso não significa que o indivíduo não se alimenta o suficiente ou que sua glicose está baixa, mas ele tem tanta insulina circulando que ela leva muita glicose para dentro dacélula e deixa pouca glicose circulando. 17 O exame não é pedido para diagnosticar diabetes mas, quando uma pessoa tem um diag- nóstico recente de diabetes, ele pode ser pedido de forma isolada ou com a dosagem de insulina para determinar a quantidade de insulina que o pâncreas da pessoa ainda produz. Associar esse exame não é obrigatório. Atualmente, o custo operacional desse exame é alto, mas tem sido utilizado com mais frequência, pois os médicos têm solicitado o acompanha- mento do paciente. Isso também vale para os farmacêuticos compreenderem se o paciente tem ou não necessidade de insulina, se o pâncreas está produzindo ou se será necessário recomendar que o indivíduo use um estimulante para o pâncreas produzir mais insulina. Em várias situações, o peptídeo C pode ser utilizado para um diagnóstico melhor. HOMA As sociedades mundiais fizeram um modelo matemático de avaliação da homeostase para resistência à insulina (Homeostasis Model Assessment – HOMA-IR): • HOMA-IR = [(glicemia em mmol/L) x (insulinemia em µU/mL)] / 22,5 Ou • HOMA-IR = [(glicemia em mg/dL) x (insulinemia em µU/mL)] / 405 A partir do valor obtido, é possível determinar se o paciente tem ou não uma resistência à insulina. Atualmente, muitos médicos solicitam a glicemia de jejum e a insulinemia para fazer esse cálculo matemático, verificando como está a homeostase da insulina no organismo o indivíduo. ALTERAÇÕES DAS FUNÇÕES METABÓLICAS – DIABETES MELLITUS Diabetes Mellitus (DM) • Doenças metabólicas heterogêneas – defeitos na secreção ou ação de insulina – hiperglicemia. • DM Tipo 1: •Destruição das células beta pancreáticas – 5 a 10% dos casos. • DM-1A: •Destruição das células beta pancreáticas por autoanticorpos, relacionando a diabete a doenças autoimunes. • DM-1B: • Minoria dos casos de DM1 – idiopática (ocorre naturalmente) – ausência de autoan- ticorpos, graus variáveis de deficiência de insulina e faixa etária variável. Não se sabe por que o paciente desenvolveu diabetes, mas não foi verificada a presença de autoanticorpos, então não se trata de doença autoimune. 18 Diabetes Mellitus Tipo 2 (mais comuns) • 90 a 95% dos casos de DM; • Defeitos na ação e secreção da insulina e na regulação da produção hepática de glicose para homeostase do processo do corpo; • Fatores de risco: sedentarismo, dietas ricas em lipídios e carboidratos, envelhecimento da população e sobrepeso ou obesidade. Tudo isso ocasiona distúrbios metabólicos, alterações metabólicas e, consequentemente, o aparecimento de diabetes mellitus. Diabetes Mellitus gestacional • 7% das gestações – ↑ morbidade e mortalidade perinatais; • Intolerância à glicose – resistência à insulina/diminuição da função das células beta do pâncreas; • Acompanhamento pós-parto – quatro a seis semanas após o parto, para verificar se elas não viraram diabéticas após a gestação. Em torno de 60% dos casos, a diabetes é revertida para normoglicemia e, em outras situações, a mulher fica diabética; • Reversão para a tolerância normal à glicose/Risco de 10 a 63% – DM2. A diabetes do tipo II é altamente controlável. SISTEMA DE MONITORIZAÇÃO CONTÍNUA DE GLICOSE (CGMS) Recomenda-se que os farmacêuticos orientem os pacientes sobre a monitorização contínua de glicose (Holter de glicose). No dia a dia, os farmacêuticos devem pedir aos pacientes, principalmente diabéticos ou com hipoglicemia, para avaliarem, durante 24 horas, como está a glicemia ao acordar e no meio da manhã. Exemplo: verifica-se a glicemia às 7h da manhã e depois, às 10h. Em seguida, verifica-se no período pré-almoço, duas horas após o almoço, no meio da tarde, à noite, antes e depois da janta, antes de dormir e, às vezes, até de madrugada, para observar se há alguma alteração importante. Durante a madrugada, o nível de dopamina do paciente pode estar baixo, o cortisol pode estar alto, não há uma boa noite de sono etc. Tudo isso compromete a glicemia. Há vários modelos de utilização dos aparelhos portáteis para dosagem de glicemia, como implantação do cateter na pele, por meio do qual o paciente pode monitorar várias vezes ao dia, sem precisar de perfuração com agulha, fazer uso de chip para utilizar no celular, via Bluetooth ou Wifi, enviando a informação para o celular do profissional ou do próprio paciente e, depois, fazendo um relatório do que aconteceu, para que se possa monitorar esse processo: 19 Em qual momento a glicemia mais aumenta? Quando a glicemia cai? Em que hora do dia isso acontece e por quê? Pode-se fazer uma agenda do que aconteceu ou uma retrospectiva das últimas 24 horas, verificando o que ocorreu durante esse período e se houve alteração da glicemia do paciente. Isso ajuda a estabelecer os horários de uso de certos medicamentos, principalmente, hipoglicemiantes ou de introdução de alimentos em certos horários, caso venham a ser hipoglicêmicos. Por isso, muitas vezes, utiliza-se essa tecnologia.