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105 Leia, a seguir, o trecho de uma história de João Grilo, personagem do folclore brasileiro e português, contada pelo pernambucano João Ferreira de Lima (1902-1972). Proezas de João Grilo (1) João Grilo foi cristão que nasceu antes do dia criou-se sem formosura mas tinha sabedoria e morreu depois da hora pelas artes que fazia E nasceu de sete meses chorou no bucho da mãe quando ela mostrou um gato ele gritou não me arranha não jogue neste animal que talvez você não ganhe Na noite em que João nasceu houve um eclipse na lua denotou grande vulcão que ainda hoje continua naquela noite correu um lobisomem na rua Porém o Grilo criou-se pequeno, magro e sambudo as pernas tortas e finas a boca grande e beiçudo no sítio onde morava dava notícia de tudo (2) João perdeu o pai com 7 anos de idade morava perto dum sitio ia pescar toda tarde um dia fez uma cena que admirou a cidade O rio estava de nado vinha um vaqueiro de fora perguntou dará passagem João Grilo disse ainda agora o gadinho do meu pai passou com o lombo de fora O vaqueiro bota o cavalo com uma braça deu nado foi sair muito embaixo quase morria afogado voltou a desse ao menino você é um dia desgraçado João Grilo foi ver o gado para provar aquela ato vinha trazendo na frente um bom rebanho de patos os patos passaram na água João provou que era exato LIMA, João Ferreira de. Proezas de João Grilo. Edição do próprio autor. 12 Considerando o significado da palavra proeza, responda: a. O que podemos pressupor sobre a história de João Grilo? b. Inicialmente, a história escrita por João Ferreira de Lima em 1932 recebeu o nome de “Palhaçadas de João Grilo”. De que maneira isso mudaria a interpretação que se faz do título? 13 Na primeira estrofe, o eu lírico apresenta dois importantes eventos na vida de João Grilo que se opõem. Quais são eles? 14 A antítese é uma figura de linguagem em que dois elementos con- trastam entre si. Normalmente, ao utilizá-la, deseja-se evidenciar uma construção de opostos, mostrando a força das duas partes. O que se quis destacar sobre a vida de João Grilo ao usar essas antíteses? 15 Como o eu lírico caracteriza João Grilo? 12. a) É possível pressupor que a história vai narrar as façanhas ou realizações da vida de João Grilo. b) A palavra “palhaçadas” indica algo cômico, como se João Grilo fizesse coisas engraçadas; já “proeza” engloba outras ações, muitas vezes risíveis ou condenáveis por outros. Verifique se os estudantes perceberam a diferença entre os dois vocábulos a partir da definição de proeza. Mostre a questão valorativa de cada palavra.Os eventos são nascer e morrer, marcados pelos versos “que nasceu antes do dia” e “e morreu depois da hora”. As antíteses “nasceu antes do dia” e “morreu depois da hora” são usadas para reforçar que João Grilo fez proezas até ao nascer e, considerando a quantidade de aventuras e travessuras que fez em vida, teria morrido tarde. João nasceu de 7 meses, sabido, apesar de pequeno e magro; é descrito como alguém bastante esperto, sendo essa uma de suas proezas. Capa do cordel Proezas de Jo‹o Grilo, de João Ferreira de Lima. proezas: atos admiráveis, difíceis de realizar; façanhas. R e p ro d u • ‹ o /C o le • ‹ o p a rt ic u la r V4_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_Cap3_086a119_LA.indd 105V4_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_Cap3_086a119_LA.indd 105 16/09/2020 17:2416/09/2020 17:24 106 16 Releia as quatro últimas estrofes: temos ali uma das ações de João Grilo, que fez com que a cidade toda ficasse admirada. Qual foi essa proeza? 17 A história de João Grilo mistura causos (peripécias) do personagem e certas anedotas (breve relato cujo objetivo é motivar o riso) para causar o riso de quem recebe a narrativa. É possível reconhecer isso no trecho lido? Justifique sua resposta. João Grilo se tornou personagem do paraibano Ariano Suassuna (1927-2014), no livro O Auto da Compadecida, de 1955. Além desse personagem, Suassuna retoma outros cordéis de Leandro Gomes de Barro (1865-1918) para compor seu auto. Importante notar que o personagem João Grilo chegou ao Brasil pelo folclore português, mas, nas histórias lusitanas, ele é retratado como tolo; já aqui ele se transforma e ganha a astúcia e a sabedoria do povo nordestino. Características do cordel Segundo a antropóloga Ruth Terra, o marco inicial do cordel no Brasil data de 1893, com a pu- blicação dos primeiros poemas do paraibano Leandro Gomes de Barros. É importante lembrar que, antes de registrados nos folhetos, os versos nasciam primeiro oral- mente e depois eram impressos no papel. Os cordelistas, para chamar a atenção de compradores, contavam as histórias que ali estavam registradas. A chamada literatura de cordel é amplamente cultivada no Nordeste brasileiro, sendo uma forma viva de comunicação. Segundo o estudioso Câmara Cascudo, alguns fatores relacionados à formação social da região contribuíram para que essa literatura continuasse viva. Entre esses fatores estão a formação dos cangaceiros, a penúria causada pela seca, a luta entre famílias, as manifestações mes- siânicas, a organização patriarcal. Isso tudo contribuiu para o surgimento de grupos de cantadores, cujo trabalho apresentava a memória coletiva desse lugar, trazendo a construção de pensamento coletivo que alimentou várias histórias e cantares. Os folhetos de cordel foram meios importantes de difusão cultural e de fatos cotidianos, tendo quase a função de um jornal. O cordel segue uma regra fixa para que métrica e rima juntas auxi- liem na memorização do texto e na marcação do ritmo. A métrica mais utilizada é chamada de “sextilha”, composta de seis versos de sete síla- bas. Além dessa, há as septilhas (sete versos de sete sílabas), as décimas (dez versos de sete sílabas) e as métricas conhecidas como “martelo agalopado” (dez versos de dez sílabas) e “galope à beira-mar” (dez ver- sos de onze sílabas). Reveja uma estrofe do texto Proezas de João Grilo. Note que há a elisão nos encontros vocálicos intervocabulares, mostrando o ritmo de cada verso. 1 2 3 4 5 6 7 O/rio/es/ta/va/de/na/do 1 2 3 4 5 6 7 vi/nha um/va/quei/ro /de/fo/ra 1 2 3 4 5 6 7 per/gun/tou/da/rá/pa/ssa/gem 1 2 3 4 5 6 7 João/Gri/lo/di/sse ain/da a/go/ra 1 2 3 4 5 6 7 o/ga/di/nho/do/meu/pai 1 2 3 4 5 6 7 pa/sso/u o /lom/bo/de/fo/ra Hoje o cordel ocupa diversos espaços, inclusive nas redes sociais. As letras mudaram, mas as rimas e a oralidade estão marcadas nos textos produzidos por esses poetas digitais. João diz ao vaqueiro de fora que o rio não era fundo e que ele poderia atravessá-lo, contando que mesmo o gado do pai havia acabado de passar lá. Mas o vaqueiro quase morre afogado ao tentar atravessar o rio. É possível reconhecer isso no momento em João Grilo busca provar ao vaqueiro que não havia mentido sobre o rio e passa um “rebanho de patos”, mostrando que ele “era exato” no que dizia. Peça aos estudantes que leiam os versos em voz alta, pontuando que, nas elisões, devem perceber que há ali apenas uma sílaba, pautada no ritmo da fala ou da cantoria. NÃO ESCREVA NESTE LIVRO. O Auto da Compadecida, dirigido por Guel Arraes (Brasil: Lereby Produções e Globo Filmes, 2000, 104 min). Assista ao filme, adaptação da obra literária de Ariano Suassuna, que conta as proezas dos personagens João Grilo e Chicó em um vilarejo no sertão da Paraíba. FICA A DICA métrica: ou versificação, é a contagem de sílabas dos versos. V4_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_Cap3_086a119_LA.indd 106V4_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_Cap3_086a119_LA.indd 106 16/09/2020 17:2416/09/2020 17:24