Prévia do material em texto
Organização Carine Teles Sangaleti Miyahara Capa e Diagramação Cristiano Walter de Farias Autores Alessandra Cristina de Paula Faria Zampier Aline Padilha Mattei Amanda de Paula Grad Bruna Zarpellon Calíope Pilger Carine Teles Sangaleti Miyahara Catiuscie Cabreira da Silva Tortorella Cristiano Walter de Farias Dannyele Cristina da Silva Eliane Rosso Fernanda Eloy Schmeider Francine Meira da Cruz Gabriele de Vargas Janete Dalmar dos Santos Hupfer Jessica Rodrigues dos Passos Kelly Holanda Prezotto Laryssa de Col Dalazoana Baier Leticia Gramazio Soares Lucas de Oliveira Araújo Maicon Henrique Lentsck Maria Regiane Trincaus Mariana Abe Vicente Cavagnari Pollyanna Bahls de Souza Saionara Zakrzevski Stoy Silvana Maria Sasso Soriane Loures Tatiana da Silva Melo Malaquias Tatiane Baratieri Vanessa Nerone Vera Lúcia Borges Ferreira FERIDAS crônicas: guia prático [e-book interativo] / Organizado por Carine Teles Sangaleti Miyahara. – – Guarapuava: Ed. da Unicentro, 2021. 231 p. ISBN 978-65-5597-016-6 Bibliografia 1. Enfermagem. 2. Feridas. 3. Feridas crônicas. I. Título. CDD 610.73 Catalogação na Publicação Rede de Bibliotecas UNICENTRO Editora UNICENTRO Rua Salvatore Renna, 875, Santa Cruz 85015-430 - Guarapuava - PR Fone: (42) 3621-1019 editora@unicentro.br - www.unicentro.br/editora F356 Denise Gabriel Witzel Renata Daletese Beatriz Anselmo Olinto Suelem Andressa de Oliveira Lopes Cristiano Walter Farias Carine Teles Sangaleti Miyahara Direção Coordenação de Apoio à Divisão de Editoração Assessoria técnica Capa Revisão Final http://www.unicentro.br/editora SUMÁRIO Módulo 1 - Def inições e Guias para Avaliação Capítulo 1 - Feridas Crônicas......................................................................................13 Capítulo 2 - As Fases da Cicatrização....................................................................18 Capítulo 3 - Avaliação Global da Pessoa com Ferida Crônica.................30 Capítulo 4 - Avaliação das Condições Sociais.................................................64 Capítulo 5 - Avaliação e Manejo da Dor...............................................................76 Capítulo 6 - Classif icação das Feridas Crônicas..............................................91 Módulo 2 - Técnicas, Procedimentos e Produtos Capítulo 1 - Preparo do Leito da Ferida.............................................................113 Capítulo 2 - Técnica de Limpeza............................................................................117 Capítulo 3 - Desbridamento....................................................................................128 Capítulo 4 - Contra-Indicações.............................................................................142 Capítulo 5 - Malhas não Aderentes e Gaze......................................................149 Capítulo 6 - Pomadas e Hidrogéis........................................................................153 Capítulo 7 - Fibras e Hidrof ibras...........................................................................169 Capítulo 8 - Espumas e Hidrocolóides..............................................................175 Capítulo 9 - Bota de Unna e Terapias Compressivas.................................181 Capítulo 10 - Outros Produtos.................................................................................186 Capítulo 11 - A Fitoterapia no Tratamento de Feridas..............................198 Módulo 3 - Aspectos Legais Capítulo 1 - O Papel do Enfermeiro.....................................................................210 Capítulo 2 - Controle de Contaminação............................................................220 FIGURAS Módulo 1 1.1 - A Avaliação do Portador de Ferida a Partir da T.I.M.E 1.2 - Ferida em Fase Inflamatória 1.3 - Ferida em Fase Proliferativa 1.4 - Fase de Maturação 1.5 - Hiperqueratose ao Redor de Mal Perfurante Plantar 1.6 - Fluxograma da Cicatrização - Ferida Aguda e Crônica 1.7 - Tecido de Granulação 1.8 - Tecido de Epitelização 1.9 - Esfacelo Fibrinoso 1.10 - Necrose de Liquefação 1.11 - Necrose de Coagulação 1.12 - Eczema de Estase 1.13 - Dermatite Ocre 1.14 - Lipodermatoesclerose em Tornozelo 1.15 - Bordas Maceradas 1.16 - Exsudato Seroso 1.17 - Exsudato Serosanguinolento 1.18 - Exsudato Fibrinoso 1.19 - Exsudato Purulento 1.20 - Exsudato Seropurulento 1.21 - Exsudato Hemopurulento 1.22 - Exsudato Sanguinolento/Hemorrágico 1.23 - Ilustração Topográf ica para Identif icação de Feridas 1.24 - Algoritmo para orientar o encaminhamento de pessoas com feridas para o nutricionista 1.25 - Exemplo de Instrumento de Avaliação Social (Frente) 1.26 - Exemplo de Instrumento de Avaliação Social (Verso) 1.27 - Classif icação da Dor 1.28 - Sintomas Clínicos Relacionados à Presença de Dor (Dor Orgânica) 1.29 - Padrões Mínimos Necessários para a Avaliação da Dor 1.30 - Ferida Venosa 1.31 - Ferida Arterial 1.32 - Índice Tornolezelo Braquial (ITB) 1.33 - Ferida por Neuropatia Sensitiva 1.34 - Pé Diabético 1.35 - LPP de Estágio 1 1.36 - LPP de Estágio 2 1.37 - LPP de Estágio 3 1.38 - LPP de Estágio 4 1.39 - LPP Não Classif icável 1.40 - LPP em Região Sacral 1.41 - Úlcera de Martorell Módulo 2 2.1 - Preparo da Maca 2.2 - Preparo do Carrinho 2.3 - Posicionamento do Paciente 2.4 - Abertura do Campo Estéril 2.5 - Abertura da Agulha 2.6 - Abertura da Seringa 2.7 - Retirada do Curativo 2.8 - Técnica de Irrigação 2.9 - Técnica de Irrigação com Seringa 2.10 - Limpeza das Bordas 2.11 - Limpeza da Pele 2.12 - Aplicação de Cobertura 2.13 - PHMB em Gel 2.14 - Malha Não Aderente 2.15 - Malha Não Aderente com Matriz Cicatrizante TLC-AG 2.16 - Malha Não Aderente Impregnada com Prata 2.17 - Gaze 2.18 - Papaína em pó a 100% 2.19 - Pomada Hidrogel 2.20 - Pomada de Cadexómero de iodo 2.21 - Fibra Poliabsorvente com Matriz Cicatrizante TLC-AG 2.22 - Hidrof ibras 2.23 - Alginato de Cálcio 2.24 - Placas de Hidrocolóide 2.25 - Placas de Espuma 2.26 - Colocação da Bota de Unna 2.27 - Bota de Unna 2.28 - AGE 2.29 - Cobertura com Carvão Ativado 2.30 - Filme Transparente Não Estéril 2.31 - Aloe barbadensis Miller 2.32 - Calendula off icinalis L. QUADROS Módulo 1 1.1 - Inflamação Aguda X Inflamação Crônica 1.2 - Fatores de Risco de Infecção em Feridas 1.3 - Sinais Locais e Sistêmicos de infecção 1.4 - Mensuração do Exsudato em Feridas 1.5 - Nutrientes, Fontes Alimentares e seus Mecanismos Potenciais 1.6 - Escalas para a Avaliação de Parâmetros da Condição Social Durante Tratamento de Feridas Crônicas 1.7 - Escalas de Avaliação Multifuncional da Dor 1.8 - Tipos de Feridas e suas Etiologias Módulo 2 2.1 - Diluições da Papaína em Pó em Solução Fisiológica ou Água Estéril 2.2 - Produtos e Terapias Inovadoras APRESENTAÇÃO Nos dias atuais existem diversos manuais, disponíveis para consulta, voltados ao atendimento de pessoas com feridas. O diferencial deste Guia, apresentado na forma de ebook, é que seu principal objetivo é conversar com o prof issional de saúde de modo que possa orientar, de forma prática e cientif icamente embasada, o atendimento ao portador de Ferida Crônica. Todo conteúdo aqui apresentado tem relevância para guiar o atendimento, por isso este e-book busca ser interativo, levando o leitor a seguir uma sequência coerente durante todos os atendimentos, durante discussões de casos ou em momentos de estudo. Os organizadores têm vasta experiência no cuidado de feridas crônicas e, por isso buscaram elaborar os textos destacando pontos relevantes para a prática cotidiana, respondendo questionamentos que f requentemente ouvimos e ainda, esclarecendo equívocos que se perpetuam no cuidado de feridas. A vasta experiência citada não é apenas empírica, não se baseia na repetição de atos e procedimentos, é uma experiência construída com base em pesquisa, numa prática cotidiana qualif icada, que se inova constantemente e, numa prática questionadora, que busca confrontar as bulas de produtos, os diagnósticos não esclarecidos, as situaçõessociais caóticas, a falta de recursos f inanceiros ou o mau emprego destes, que é realidade em diversos serviços de saúde. Nosso empenho é materializado no atendimento de portadores de feridas crônicas, no Serviço de Reabilitação Física e Projeto Feridas da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro/Guarapuava-Paraná). São projetos de extensão universitária destinados à prestação de serviços para a comunidade, e são pactuados com os serviços de saúde da região centro-oeste do Paraná. Esse projeto possibilita ainda o ensino e a pesquisa na área. Esperamos que nossa experiência estimule a renovação e qualif icação do cuidado nessa área de interesse. 1 Módulo 1 Definições e Guias Para Avaliação 13 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO CAPÍTULO 1 FERIDAS CRÔNICAS Maria Regiane Trincaus Maicon Henrique Lentsck Definição Ferida crônica é uma lesão que não cicatriza no período esperado, ou seja, entre 30 e 90 dias, e cujas características do processo de cicatrização estão alteradas. Desta forma, considera-se uma ferida crônica aquela lesão que não cicatriza em até 90 dias, se estagna num período da cicatrização e não evolui. Geralmente, é a fase inflamatória que se prolonga e às vezes perpetua, de forma a manter a lesão aberta. A compreensão sobre esse fenômeno é muito complexa, e, por isso, o atendimento ao portador da lesão crônica também é. São inúmeras as causas que fazem com que uma ferida não cicatrize, mas pode-se afirmar que as principais são aquelas que muitas vezes não damos atenção, como por exemplo, não tratar a causa da ferida, não eliminar tecidos desvitalizados, não manter a umidade ideal no leito da ferida e não identificar e tratar as causas da inflamação. Nas sessões seguintes será oferecido o suporte para o atendimento integral do portador de ferida crônica, com enfoque nos fatores que causam a dificuldade de cicatrização. Lembre-se: O tratamento de uma pessoa com ferida requer muito conhecimento, mas também iniciativa. Não basta buscar o conhecimento sem colocá-lo em prática; da mesma forma, não adianta manter práticas antigas, sem o suporte do conhecimento cientifíco, que constantemente se renova e se aprimora. O conhecimento é apenas o princípio da nossa atuação nessa vasta temática que abrange as feridas crônicas. Ser um profissional competente nessa área envolve também ter atitudes e habilidades, além do conhecimento. 14 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Gerenciamento do cuidado de pessoas com feridas crônicas Promover o tratamento de feridas crônicas, buscando o melhor resultado clínico, que é o fechamento rápido da ferida, sem recidivas, a melhora da qualidade de vida e redução dos custos¹, são os objetivos perseguidos por todos os prof issionais de saúde que atuam nessa área. As feridas crônicas afetam milhões de pessoas em todo o mundo.² A prevalência desse agravo na população pode ser considerada uma “epidemia silenciosa” ³, o que muitas vezes resulta em planejamento inadequado e baixa implementação de estratégias de prevenção, tratamento e gerenciamento do problema.4 Apesar de desaf iante, o gerenciamento do cuidado de pessoas com feridas crônicas não precisa ser uma tarefa assustadora, se alguns princípios básicos se tornarem rotina. Chegar a resultados favoráveis requer uma abordagem sistemática com uma avaliação minuciosa da pessoa e da ferida, capaz de orientar o tratamento subsequente.¹ Considerando a complexidade do quadro que culmina numa ferida crônica, recomenda-se uma ação interprof issional no gerenciamento do cuidado, pois a ação de um único prof issional não será efetiva.5 Para o tratamento bem-sucedido exige-se o conhecimento detalhado dos componentes moleculares e celulares presentes no leito de cada ferida. Partindo dessa premissa, que é praticamente impossível de ser atingida no nosso cotidiano, atualmente as feridas crônicas são tratadas utilizando uma abordagem com múltiplos passos, que se baseiam no conhecimento do processo de cicatrização. Essa abordagem é difundida amplamente pela sigla em inglês TIME6, que signif ica tecido, infecção/inflamação, equilíbrio da umidade e estímulo à epitelização da ferida.²,6 Entende-se que a TIME pode ser uma ferramenta para o gerenciamento do processo de cicatrização de feridas crônicas, olhando do leito para o todo.7 15 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO A letra T enfoca os tipos de tecido. Se tiver no leito da ferida necrose, esfacelo ou corpos estranhos, isso aumentará a inflamação, favorecerá a infecção e impedirá a cicatrização. Logo, esses tecidos devem ser removidos. A letra I se refere à presença de inflamação e infecção. Existem inúmeras condições que causam inflamação e favorecem a infeção. A colonização crítica e a formação do biofilme é uma delas. A letra M nos orienta a manter o equilíbrio na umidade. Se houver maceração nas bordas da ferida isso indica excesso de umidade, e se houver ressecamento das bordas e do leito isso indica falta de umidade. Se a borda da ferida não evolui, e também não há formação de ilhas epiteliais, percebe-se que a ferida está com a epitelização prejudicada. Buscar o alinhamento das bordas com o leito da ferida é o foco da letra E da TIME. T I M E O que essa sigla quer dizer ? Significa que a qualidade do tecido no leito da ferida, a proporção da inflamação, presença de infecção, equilíbrio da umidade no leito e as condições para favorecer a epitelização são aspectos que guiam o atendimento. E estes, por sua vez, se relacionam com as condições gerais da pessoa, ou seja, com doenças associadas, o estado nutricional, a exposição a situações que causam estresse, condições físicas, hábitos de vida e até com os procedimentos que são empregados no tratamento das feridas. 16 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Assim, guiando-se pela TIME, é possível avaliar todos os aspectos que interferem no processo de cicatrização e mantêm uma ferida aberta (crônica). A figura abaixo pode ajudar nessa visão ampla de um processo integrado de avaliação. Figura 1.1 - A avaliação do portador de ferida a partir da T.I.M.E Avaliação Global da Pessoa com Ferida Crônica Avaliaçao da ferida T.I.M.E Avaliação das necessidades Condição social e rede de suporte (familiar, serviços de saúde, seguridade social) O que já buscou e fez para tratar a ferida Aspectos psicológicos/saúde mental Histórico de doenças/doenças atuais Controle de doenças associadas a lesões como diabetes, hipertensão, distúrbios vasculares, anemias , hanseníase, distúrbios nutricionais Uso de medicamentos psicossociais , , Histórico de doenças/ doenças atuais Controle de doenças associadas a lesões, como diabetes, hipertensão, distúrbios vasculares, anemias, hanseníase, distúrbios nutricionais Uso de medicamentos Tabagismo e etilismo 17 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Os itens deste esquema serão desenvolvidos nos próximos capítulos, e a primeira questão abordada são as fases da cicatrização, pois elas nos ajudam a compreender o fenômeno da cicatrização normal, numa ferida aguda, e o prejudicado, alterado, de uma ferida crônica. Referências FRYKBERG, R. G.; BANKS, J. Challenges in the Treatment of Chronic Wounds. Adv Wound Care (New Rochelle). v.4, n.9, p.560-582. 2015. MCCALLON, S. K.; WEIR, D.; LANTIS, J. C. 2nd. Optimizing Wound Bed Preparation With Collagenase Enzymatic Debridement. J Am Coll Clin Wound Spec. v.6, n.1, p.14-23. 2015. MARTINENGO, L.; OLSSON, M.; BAJPAI, R.; SOLJAK, M.; UPTON, Z.; SCHMIDTCHEN, A.; CAR, J.; JÄRBRINK, K. Prevalence of chronic wounds in the general population: systematic review and meta-analysis of observational studies. Ann Epidemiol. n.29, p.8-15. 2019. JÄRBRINK, K. N. G.; SÖNNERGREN, H. et al. Prevalence and incidence of chronic wounds and related complications: a protocol for a systematic review. Syst Rev. v.5, n.1, p.152. 2016. UBBINK,D.T.; SANTEMA, T. B.; STOEKENBROEK, R. M. Systemic wound care: a meta-review of cochrane systematic reviews. Surg Technol Int. v.24, p.99-111. 2014. FALANGA, V. Wound bed preparation: science applied to practice. Position Document. Londres: Medical Education Partnership. 2014. LEAPER, D. J.; SCHULTZ, G.; CARVILLE, K.; FLETCHER, J.; SWANSON, T.; DRAKE, R. Extending the TIME concept: what have we learned in the past 10 years? Int Wound J. v.9, p.1–19. 2014. 1 2 3 4 5 6 7 18 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO CAPÍTULO 2 AS FASES DA CICATRIZAÇÃO Carine Teles Sangaleti Bruna Zarpellon Definição Toda vez que a integridade da pele é rompida e se forma uma ferida, essa lesão será cicatrizada graças a um processo dinâmico que pode ser dividido em três fases – a inflamatória, a proliferativa e a fase de maturação. 1 Essas três fases ocorrem num determinado período de tempo, que varia de acordo com as características da lesão e das condições da pessoa. Todo livro didático e manual sobre feridas apresentam essas fases, no entanto, na prática cotidiana pouca atenção é dada a essas informações, e não deveria ser assim. Essas três fases, que ainda apresentam subdivisões, guiam a avaliação do prof issional de saúde sobre o que está ocorrendo na lesão, ou seja, o conhecimento dessas fases torna possível reconhecer se o processo de cicatrização está ocorrendo de forma adequada, ou se há algum problema. Além disso, ao compreendermos as características teciduais e circulatórias de cada fase, podemos realizar intervenções corretas e, ainda, escolhermos o produto de curativo adequado a cada fase. No caso das feridas crônicas, o que dif iculta a aplicação dessa divisão é que as fases de cicatrização ou se sobrepõem, ou estagnam, como já foi abordado na apresentação deste manual. É comum uma ferida crônica f icar estagnada na fase inflamatória, mesmo após ter transcorrido o período considerado normal para inflamação. Assim, o reconhecimento das fases do processo de cicatrização ajuda a compreender não apenas o que está ocorrendo na ferida, mas no organismo como um todo da pessoa com ferida. 19 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Por que a fase inflamatória está durando mais que o esperado? Por que a exsudação está aumentando? O que está atrasando a fase de proliferação? Por que o tecido de granulação não parece saudável? Por que a maturação não se inicia? Estas e muitas outras perguntas podem ser respondidas se entendermos as fases do processo de cicatrização, que nas feridas crônicas se caracteriza como um processo prejudicado. Fase de Hemostasia e Inflamatória: Muitas vezes descrita nos livros apenas como inflamatória ou exsudativa, a primeira fase de cicatrização de uma ferida se inicia com a interrupção do sangramento, seja este induzido por cirurgia, causado por um ferimento ou causado pelo rompimento da integridade da pele devido a um processo patológico crônico, como ocorre na insuf iciência venosa. A hemostasia pode ser compreendida em três etapas: 2 Contração imediata dos vasos sanguineos, mediada por inervação Adesão plaquetária - formação de tampão plaquetário e liberação de fatores de coagulação Coagulação e a hemostasia Esse processo é complexo e envolve diversos componentes sanguíneos, proteínas da cascata da coagulação e células do sistema imunológico. Para a prática cotidiana, a informação mais importante desta primeira etapa da cicatrização é: 1 2 3 20 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Após a hemostasia há o início da inflamação. Tanto os f ragmentos celulares da lesão quanto as plaquetas envolvidas no processo de hemostasia dão início à resposta inflamatória. As plaquetas liberam fatores de crescimento, como o fator de crescimento derivado de plaquetas (do inglês Platelet- Derived Growth Factor– PDGF) e os fatores de crescimento transformantes alfa 1, 2 e beta (Transforming Growth Factor -TGF-α1 e TGF-α2, TGFβ), que atraem células inflamatórias como leucócitos, neutróf ilos e macrófagos para o local da lesão. Além dessa atração, os fatores de crescimento modulam o processo de cicatrização por propiciarem a diferenciação celular, a ativação e proliferação dos f ibroblastos e a angiogênese. As plaquetas também liberam citocinas e outros agentes indutores da reparação celular ou de apoptose. 5,1 Lembrando que como os leucócitos são células fagocíticas, eles liberam espécies reativas de oxigênio e proteases que limpam a ferida de corpos estranhos e microrganismos. A combinação da vasodilatação, promovida por esses fatores indutores da inflamação, e o aumento consequente da permeabilidade vascular dá origem aos sinais característicos da inflamação da ferida: rubor, calor, edema e dor (Figura 1.2). Numa ferida aguda a resolução da fase inflamatória é acompanhada de apoptose de células inflamatórias, que ocorre gradualmente dentro de alguns dias após a ocorrência da ferida. O mecanismo para a resolução da inflamação é atualmente desconhecido. No entanto, estudos sugerem que citocinas anti-inflamatórias, como TGF-α1, Se a primeira etapa da cicatrização é a hemostasia, não há sangramento normal em feridas. Esfregar o leito de uma ferida até provocar seu sangramento é prática totalmente inadequada e contra o processo normal de cicatrização. A falha da hemostasia, caracterizada por sangramentos persistentes ou espontâneos, indica, por exemplo, distúrbios de coagulação, infecção ou neoplasia em feridas crônicas. 21 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO interleucina 1, lipídios bioativos, como as prostaglandinas e lipoxinas e células do sistema imunológico, com perf il anti-inflamatório, participam desse processo.5, 4 Assim, para a prática cotidiana, o conhecimento da fase inflamatória numa ferida aguda deve deixar claro que: No caso das feridas crônicas , que já passaram pelo período considerado normal de inflamação, observa-se f requentemente a presença de uma prolongada e excessiva fase inflamatória e, consequentemente da exsudação [Conf ira a página 41 sobre Avaliação do Exsudato] . Essa inflamação pode ser ocasionada pela manutenção, no leito da ferida ou nos tecidos adjacentes, de corpos estranhos como a necrose [Conf ira os Tipos de Necrose na Página 33] ; restos de gaze, hemácias extravasadas para o espaço extravascular [Dermatite Ocre, Conf ira a página 38] . A inflamação também pode se manter devido à contínua injúria tecidual por isquemia, como ocorre nas feridas arteriais; Figura 1.2 - Ferida em Fase Inflamatória A inflamação é um processo normal e necessário para o processo de cicatrização da ferida. A inflamação propicia a exsudação, logo é esperado que nessa fase a ferida exsude mais. Se a inflamação é normal, sua ausência pode indicar a presença de um quadro patológico como um estado de imunoincompetência, anemias, distúrbios nutricionais entre outros. Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. (2019) 22 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO A inflamação na ferida crônica demonstra que há a permanência de um fator de injúria no leito da ferida ou nos tecidos adjacentes à lesão ou, ainda, há a presença do biofilme. A inflamação deve ser interrompida pela eliminação do seu fator causal, caso contrário manterá a exsudação abundante, provocará destruição e substituição tecidual, perda da função e, consequentemente, a ferida aumentará e permanecerá aberta. também por toxicidade de produtos de curativo inadequados, como a Iodopovidona e a água oxigenada; por f issuras na pele adjacente à ferida, ocasionadas por ressecamento por uso de sabões ou; perda do turgor cutâneo por distúrbios nutricionais, hormonais ou uso de corticóides. Além dos fatores citados acima, comunidades microbianas complexas formadas por bactérias e fungos, comuns nas úlceras crônicas, são capazes de sintetizar e secretar uma matriz protetora denominada de biof ilme, que prolonga a inflamação. O biof ilme se f ixa firmemente ao leito da ferida e promove o aumento da produção de proteases, especialmente metaloproteinases, que degradam a matriz extracelular e os fatores de crescimento que deveriam agir no leito e promover a cicatrização. A melhor estratégia de lidar com o biof ilme é evitar seu desenvolvimento. Ele pode se formar devido à limpeza inadequada do leito da lesão [Confira o capítulo sobre limpeza da ferida na página 118], pelo uso de antibióticos tópicos que são contra-indicados [ver capítulo sobre produtos contra- indicados] e pelo tratamento inadequado de infecções na ferida. Uma vez formado, o biof ilme não é penetrado por limpeza tradicional, nem tampouco pela maioria dos produtos tópicos de tratamento das feridas. A polihexanida é uma das escassas alternativas indicadas para limpeza ef icaz e segura para evitar e eliminar o bioflime. Assim, para a prática cotidiana, o conhecimento sobre a inflamação na ferida crônica indica: 23 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Fase Proliferativa: É facilmente reconhecida, pois é marcada pelo surgimento do tecido de granulação (tecido vermelho, brilhante e granuloso) e a produção de colágeno pelos f ibroblastos. É uma fase totalmente dependente da fase inflamatória, pois são as células recrutadas durante a inflamação que liberam os fatores de crescimento e diferenciação celular, necessários à fase proliferativa. As células epidérmicas e dérmicas atuam de forma autocrina, paracrina e justacrina para induzir e manter a proliferação celular, ao iniciar a migração celular. Estes eventos são necessários para a formação de tecido de granulação e posterior epitelização. À medida que as células dérmicas e epidérmicas migram e proliferam dentro do leito da ferida, existe um requisito de fornecimento de sangue adequado para que ocorra troca de nutrientes, gás e metabólitos. Portanto, para essa fase progredir normalmente, uma resposta angiogênica robusta deve ser iniciada e sustentada. Por isso o tecido de granulação apresenta a coloração vermelho viva, tem um aspecto edematoso e é caracterizado pela presença de muitos espaços vazios, pois os vasos neoformados são ainda imaturos, tanto que, ao ser observado de perto, parece ter grânulos. Assim, esse tecido também é muito exsudativo e sangra com facilidade, devido à sua f ragilidade.4 Fatores pró-angiogênicos como o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), o fator de crescimento de f ibroblastos 2 (FGF-2) e PDGF, lançados inicialmente por plaquetas e depois por células do leito da ferida, são os mediadores centrais da indução angiogênica induzida por feridas. Mais recentemente, revelou-se que as células progenitoras endoteliais (Endothelial progenitor cells-EPCs) também são necessárias para revascularização de feridas.5 24 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO A mobilização de células progenitoras endoteliais é mediada pelo óxido nítrico, VEGF, Metaloproteinases de matriz (MMP) e pelo fator de crescimento semelhante à insulina (IGF). Numa ferida aguda e não complexa essa fase pode durar semanas. A f ragilidade e a intensa atividade de proliferação celular, características da fase proliferativa (Figura 1.3), requerem condições ideais de umidade e temperatura. O leito seco dif iculta ou mesmo impede a migração celular e a formação dos vasos novos.7, 8 Se a temperatura do leito da lesão não estiver semelhante à temperatura corporal, as células envolvidas com esse processo de cicatrização levarão mais tempo para promover a cicatrização [Confira o capítulo sobre limpeza da ferida na página 118]. Usar coberturas que ressecam o leito, ou remover coberturas de forma brusca, podem lesar o tecido de granulação. Figura 1.3 - Ferida em Fase Proliferativa Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. É importante destacar que no processo de reparação o leito da ferida é preenchido inicialmente por fibrina e fibronectina e, à medida que os fibroblastos se tornam ativos, sintetizam novas moléculas de colágeno, elastina e proteoglicanos. A fibrina, que é uma proteína com aparência esbranquiçada no leito da ferida, é a base inicial do tecido de granulação. Técnicas equivocadas de limpeza da ferida podem removê-la e, assim, prejudicar a cicatrização. 25 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Aqui temos outra informação importante: Nas feridas crônicas a fase proliferativa é retardada e inef iciente devido à persistência da inflamação, que promove a produção intensa de exsudato rico em f ibrina e colágeno, que se depositam no leito e impedem a formação de outros tecidos. A excessiva produção de f ibrina é nítida nas feridas crônicas, formando muitas vezes depósitos desta proteína e outros restos celulares nas bordas da lesão, o esfacelo [ver página 32]. A excessiva fase inflamatória impede a liberação e a ação dos fatores de crescimento necessários à fase proliferativa, por isso não há renovação dos f ibroblastos, e estes se tornam senelescentes. Além disso, o equilíbrio normal entre gênese de novas células e apoptose é rompido, havendo então o aumento da morte celular e aumento do esfacelo e até de necrose no leito da ferida.9, 10 Dessa forma, não se observa um tecido de granulação exuberante e os produtos de curativo não surtem o efeito esperado na promoção da cicatrização. Eliminar as causas da inflamação e promover as condições ideiais f isiológicas no leito da ferida são fundamentais para que haja evolução. Para a prática cotidiana, deve-se favorecer a fase proliferativa nas feridas crônicas da seguinte forma: A manutenção da umidade e de temperatura igual a temperatura corporal são fundamentais para promover a cicatrização. Deixar feridas abertas e secas, usar soluções de limpeza frias, podem retardar a cicatrização. Eliminar a causa da inflamação analisando-se atentamente as condições nutricionais, usos de medicações, doenças de base, técnicas de curativo, produtos tópicos contra-indicados. É necessário ainda manter o leito na temperatura corporal, úmido e limpo, evitando o depósito do exsudato. Estas condições devem orientar o cuidado prestado e o produto de curativo a ser utilizado. 26 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Fase de Remodelação: Também denominada como fase de maturação, é marcada pela contração dos tecidos neoformados e assim, remodelação da cicatriz. Isso se deve à diminuição da vascularização e dos f ibroblastos; aumento da força tensil da pele e reordenação das f ibras de colágeno (Figura 1.4). Em uma ferida aguda esta fase tem início em torno da terceira semana após o início da lesão, podendo se estender por até dois anos. Na ferida crônica o processo de remodelação pode culminar no espessamento anormal da camada externa da pele por aumento da produção de queratina. Essa condição é denominada hiperqueratose, comum em feridas de origem venosa e neuropáticas, como as feridas decorrentes de diabetes e hanseníase. A formação de rachaduras entre as camadas hiperqueratósicas pode causar inflamação e prurido10, e permitem que bactérias e fungos entrem nas camadas inferiores da pele. Se não for controlada, isso pode levar à celulite.12,13 Ao somar a excessiva inflamação, a falha na fase proliferativa e a hiperqueratose, tem-se o cliclo patológico que impede a cicatrização completa de feridas crônicas (Figura 1.5) Figura 1.4 - Fase de Maturação Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. 27 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO A figura a seguir sintetiza as diferenças entre os processos de cicatrização aguda e crônica e os fatores que explicam o que dificulta a cicatrização nas feridas crônicas. Figura 1.5 - Hiperqueratose ao Redor de Mal Perfurante Plantar Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. 28 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Fo n te : Th e W ou n d C ar e E xp er ts (W C E ) - A d ap ta d o Fi g u ra 1 .6 - F lu xo g ra m a d a C icat ri za çã o - Fe ri d a A g u d a e C rô n ic a In jú ri a te ci d u al � co m s an g ra m en to e fo rm aç ão d e co ág u lo D es tr u iç ão d o C oá g u lo lib er aç ão d e m ú lt ip lo s fa to re s d e cr es ci m en to P ro d u çã o d e h is ta m in a Fe ri d as A rt er ia is Fe ri d as V en os as Fe ri d as N eu ro p át ic as In fe cç ão d e b ai xo g ra u (C ol on iz aç ão ) A u m en to d a d or Q u e b ra n d o o C ic lo d a F e ri d a C rô n ic a 5 P a ss o s p a ra Q u e b ra r o C ic lo d a F e ri d a C rô n ic a 1. T ra ta r a I sq u e m ia / H ip ó xi a 2 . D e b ri d a m e n to A g re ss iv o 3. T ra ta r e p re ve n ir i n fe cç õ e s 4 . C o n tr o le d o E d e m a 5. A tu a r n o s fa to re s d e r is co A u m en to d os n ív ei s d e h ip óx ia / is q u em ia c om le sã o p or r ep er fu sã o M et al op ro te in as es d a m at ri z au m en ta m d e 50 à 7 5 ve ze s R ed u çã o d a fo rm aç ão , d e co lá g en o, f at or es d e cr es ci m en to e sí ti os d e lig aç ão c el u la re s In ib id or es te ci d u ai s d a m et al op ro te in as e ca em p ar a ze ro C el u la s n ão re sp on si va s e/ ou se n es ce n te s Le sã o p or P re ss ão Fe ri d a C rô n ic a se E st ab el ec e A lt er aç ão n a fa se d e h em os ta si a d a ci ca tr iz aç ão In jú ri a te ci cu al p or is q u em ia e le sã o p or re p er fu sã o is q u êm ic a E st ág io d e p ré -u lc er aç ão d ev id o a m an u te n çã o d e u m fa to r d e le sã o e/ ou p re ss ão /c is al h am en to p ro lo n g ad o Fa to re s d e R is co 1. D ia b et es M el lit u s 2. A n or m al id ad es V as cu la re s 3. In fe cç ão 4 . O u tr as D oe n ça s Si st êm ic as 5. T ab ag is m o 6. D es n u tr iç ão 7. C om p ro m et im en to d a m ob ili d ad e 8. H is tó ri co d e R ad io te ra p ia 9. H is tó ri co d e te ra p ia c om E st er ói d es 10 . H is tó ri co d e Q u im io te ra p ia 11 . Id ad e 12 . O b es id ad e 13 . E tc ... V as od ila ta çã o Fa se H em os tá ti ca 1º 2 4 H or as d o 1º a o 6º d ia ap ós a le sã o Fa se P ro lif er at iv a d o 4º a o 20 º d ia ap ós a le sã o Fa se d e M at u ra çã o d o 3º a o 10 0 º+ d ia ap ós a le sã o Li m p ez a d a f er id a, e q u ilí b ri o d a co n ce n tr aç ão m ic ro b ia n a Fe ch am en to d a fe ri d a Fe ri d a C u ra d a M at u ra çã o co m re al in h am en to d e co lá g en o p ar a au m en ta r a fo rç a te n si l M ac ró fa g os R ec ru ta m en to c el u la r e at iv aç ão d e m ac ró fa g os co m lib er aç ão d e fa to re s d e cr es ci m en to e c it oc in as M ac ró fa g os m an té m a li b er aç ão d e fa to re s d e cr es ci m en to , r es u lt an d o em s ín te se d e co lá g en o, c re sc im en to d e n ov os v as os s an g u ín eo s, c on tr aç ão d as b or d as d a fe ri d a, fo rm aç ão d e te ci d o d e g ra n u la çã o e ep it el iz aç ão fe r id a a g u d a fe r id a C r ô n ic a C a sc a ta d e c ic a tr iz a ç ã o a g u da e c r Ô n ic a 29 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Referências WEYRICH, A. S; ZIMMERMAN, G. A. Platelets: signaling cells in the immune continuum. Trends. Immunol., v.25, n.9, p.489-495. 2004. DEMIDOVA-RICE, T. N; HAMBLIN, M. R.; HERMAN, I. M. Acute and impaired wound healing: pathophysiology and current methods for drug delivery, part 1: normal and chronic wounds: biology, causes, and approaches to care. EMING, S. A; KRIEG, T.; DAVIDSON, J. M. Inflammation in wound repair: molecular and cellular mechanisms. J. Invest. Dermatol. v.127, n.3, p.514-525. 2007. BALBINO, C. A.; PEREIRA, L. M.; CURI, R. Mecanismos envolvidos na cicatrização: uma revisão. Rev. Bras. Cienc. Farm. [online]. v.41, n.1, p.27-51. 2005. LIU, Z. J.; VELAZQUEZ, O. C. Hyperoxia, endothelial progenitor cell mobilization, and diabetic wound healing. Antioxid Redox Signal. v.10, p.1869–1882. 2008. LEONE, A. M.; VALGIMIGLI. M. et al. From bone marrow to the arterial wall: the ongoing tale of endothelial progenitor cells. Eur. Heart J. v.30, n.8, p.890–899. 2009. MACFIE, C. C. et al Effects of warming on healing. Journal of Wound Care; v.14, n.3, p.133-135. 2005. MCGUINNESS, W. et al Influence of dressing changes on wound temperature. Journal of Wound Care; v.13, n.9, p.383-385. 2004. ENOCH, S.; HARDING, K. Wound bed preparation: The science behind the removal of barriers to healing. Wounds. v.15, n.7, p.213–229. 2003. FRYKBERG, R. G.; BANKS, J. Challenges in the Treatment of Chronic Wounds. Adv. Wound Care (New Rochelle). v.14, n.9, p.560-582. 2015. Management of hyperkeratosis of the lower limb: Consensus recommendations. London: Wounds UK, v.11, n.4. 2015. Wounds International Optimising wellbeing in people living with a wound. An international consensus. London: Wounds International. 2012. All Wales Tissue Viability Nurse Forum (AWTVNF). All Wales guidance for the management of hyperkeratosis of the lower limb. London: Wounds UK. 2014. 1 2 3 4 9 5 10 6 11 7 12 8 13 30 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO CAPÍTULO 3 AVALIAÇÃO GLOBAL DA PESSOA COM FERIDA CRÔNICA Carine Teles Sangaleti Catiuscie Cabreira da Silva Tortorella Dannyele Cristina da Silva Mariana Abe Vicente Cavagnari Tatiane BaratieriDefinição Antes de realizar o curativo em si, é necessário que se realize uma avaliação completa da pessoa que tem a ferida, na busca de informações que possam esclarecer a causa da ferida e os motivos que retardam o processo de cicatrização. Como destacado anteriormente, devemos nos guiar pela ferramenta TIME. Assim, toda informação coletada deve ser relacionada às caraterísticas do leito da lesão, pois o leito expressa as consequências de doenças, de más condutas de tratamento, de processos infecciosos, de carências alimentares e até a falta de cuidado. Assim, é fundamental, que na primeira avaliação sejam realizadas as seguintes etapas: Avaliação das necessidades de saúde, em todas as suas dimensões, inclusive social, como, por exemplo, avaliação da disponibilidade da rede de suporte em saúde, disponibilidade de recursos materiais e de consumo. A avaliação social é muito relevante no tratamento de uma pessoa com ferida, especialmente em países com grandes desigualdades como o Brasil. Os protocolos internacionais que frequentemente são usados como exemplo para nossa prática, não destacam esse contexto social. Recentemente, um consenso britânico destacou a importância de se incluir fatores sociais na avaliação e propôs a mudança do nome da ferramenta TIME para TIMERS, incluindo o social nessa ferramenta. 1 31 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO No Brasil já estamos habituados, há muitos anos, a considerar as condições sociais para implantar as ações de cuidado das pessoas com feridas. Assim, dada a importância do tema, vamos destacar um capítulo destinado a instrumentalizar a Avaliação Social. Lembre-se: Nunca esqueça de envolver a pessoa que recebe o cuidado, os cuidadores e familiares. Se a pessoa que apresenta uma ferida crônica não tem cuidador e nem familiares disponíveis para o apoio, então uma das necessidades identificadas nesse item é a de compor uma rede de apoio Avaliação clínica: Exame f ísicogeral, história familiar de doenças, avaliação de patologias atuais e pregressas, de resultados de exames laboratoriais ou a necessidades dos mesmos, avaliar o uso de medicamentos, prescritos e não prescritos, interações medicamentosas, polifarmácia, avaliação antropométrica, avaliação nutricional geral, análise dos pulsos periféricos, avaliação neurológica, com enfoque na detecção de neuropatias e da capacidade para o autocuidado. 2 Para que investigar tudo isso? Para identificar fatores que podem explicar a etiologia da lesão e os motivos da dificuldade de cicatrização da mesma. 32 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Avaliação da ferida: devemos avaliar usando a TIME, ou seja, com enfoque nos tipos de tecido no leito, presença de fatores no leito e na pele ao redor que indiquem inflamação e infecção, avaliação do grau de umidade, tipo e grau de exsudação e de fatores que comprometem a epitelização. Lembre-se: a TIME nos leva ao TODO. O diagrama abaixo apresenta os principais tópicos que devem ser abordados e registrados na avaliação da ferida: 3 Avaliação dos tipos de tecido: Segundo a ferramenta TIME, a avaliação dos tipos de tecidos no leito da ferida (sigla T) é fundamental para o preparo do mesmo. Todo tecido desvitalizado deve ser removido, e todo tecido viável, necessário à cicatrização, deve ser cuidadosamente manejado. [conforme o capítulo 1 do módulo 2 – preparo do leito da ferida.] Assim, abaixo estão destacadas as def inições e características dos tipos de tecido que o leito da ferida pode apresentar: A avaliação da ferida deve conter Tipo de tecido no leito da lesão Sinais de inflamação e/ou infecção Características de pele ao redor Investigação de outros fatores (locais e sistêmicos) Mensuração da lesão A avaliação da ferida deve conter Tipo e quantidade de exsudato Localização da lesão 33 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Tecido de Granulação Tecido conjuntivo que se forma na fase proliferativa da cicatrização. É vital a cicatrização. O tecido de granulação saudável é rosado ou vermelho vivo e é umido. O tecido de granulação não saudável é descorado ou vermelho escuro e sangra com facilidade. Isso pode indicar isquemia e a presença de infecção local. Tecido de Epitelização Novo epitélio que deve surgir após a granulação, na fase proliferativa. A epitelização tem cor rosa-claro brilhante (pele fina), e as células epiteliais proliferam das bordas da lesão para o centro. Nas feridas crônicas é comum surgirem ilhas de epitelização. Esfacelo Fibrinoso Tecido desvitalizado de coloração que varia de esbranquiçada ou amarelada. É composto por fibrina, elastina, colágeno, leucócitos intactos, fragmentos celulares, exsudato e grandes quantidades de DNA. Pode ter a presença de microrganismos. O esfacelo pode estar firme ou frouxamente aderido no leito e nas bordas da ferida. Chamamos esse esfacelo de excesso de fibrina. Fonte: Ambulatório de Feridas da UNICENTRO. Figura 1.7 - Tecido de Granulação Figura 1.8 - Tecido de Epitelização Fonte: Ambulatório de Feridas da UNICENTRO. Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. Figura 1.9 - Esfacelo Fibrinoso 34 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Necrose de liquefação ou esfacelo mucóide Tecido delgado de coloração amarelada inviável. É resultado da morte celular devido a ação de uma agente de lesão, especialmente à colonização microbiana. Representa um importante fator de risco para contaminação e proliferação bacteriana, e amplia a resposta inflamatória, por isso prejudica a cicatrização. Necrose de coagulação Trata-se do tecido morto, inviável, no qual as células se convertem em uma placa opaca de coloração negra. É um tipo de necrose comum em processos isquêmicos, como os causados por pressão contínua e ressecamento, por exemplo. Essa necrose também amplia a inflamação, favorece a proliferação microbiana e impede a cicatrização. A cobertura total de uma ferida por necrose de coagulação recebe o nome de escara. Sinais de inflamação e de infecção: A inflamação é marca característica e determinante de uma lesão crônica. A inflamação constante, ocasionada pela manutenção de um fator agressor, seja ele biológico (biof ilme, má vascularização, doenças crônicas, medicamentos, estresse, necrose), Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. Figura 1.10 - Necrose de Liquefação Figura 1.11 - Necrose de Coagulação 35 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO mecânico (traumas), químico (produtos inadequados para curativo, alteração de pH) ou f ísico (pressão, temperaturas inadequadas) é o que explica em grande parte a não cicatrização da ferida. Por isso, a avaliação da inflamação é um dos itens destacados na ferramenta TIME. Saber avaliar os sinais de inflamação e de infeccção na ferida é fundamental para guiar o tratamento, para evitar encaminhamentos desnecessários e para promover o uso racional de antibióticos. A presença de uma ferida por si só aumenta o risco de invasão local e sistêmica por microrganismos, por isso, antes de avaliar os sinais de infecção é importante f icar atendo às condições que aumentam seu risco, que são: Sinais de Inflamação Aguda Eritema ou Rubor Progressiva Destruição e Fibrose Tecidual Edema Edema Persistente Calor Local Lipodermatoesclerose e Hiperqueratose Dor Dor na Lesão, Insensibilidade na Região Peri-lesão Exsudato Limpo ou Seroso Fontes: ZHAO, R. et al.2016; Wounds UK, 2015. Exsudato Fibrinoso Duração de até 20 Dias Dura Mais de 4 Meses Sinais de Inflamação Crônica Importante: Apesar da ferida crônica apresentar constante inflamação (inflamação crônica), também pode ocorrer inflamação aguda, caso a ferida apresente infecção ou sofra um dano agudo (novo dano). Quadro 1.1 - Inflamação Aguda X Inflamação Crônica 36 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Sinais locais de infecção Exacerbação dos sinais inflamatórios agudos (atenção ao sinal do aumento do edema nas bordas da lesão) Febre, taquicardia, leucocitúria, hiperglicemia Aumento da extensão da lesão Mudança no odor, exacerbação do odor Tecido de granulação friável Descoloração da lesão . . . Insensibilidade na ferida, mas dor intensa ao redor, devido edema (aumento da dor) Aumento da extensão do eritema, para além das bordas da lesão Sinais sistêmicos de infecção Considerados os fatores de risco, no quadro abaixo estão apresentados os sinais de infecção em feridas: Comorbidades Sistêmicas Condições psicossociais Hospitalização, pobreza, más condições de higiene, hábitos de vida não saudáveis como tabagismo. Corticóides, imunossupressores e agentes citotóxicos. Hipóxia tecidual por insuficiência arterial ou venosa, presença de necrose no leito da ferida, extensão e profundidade (quanto maior, maior o risco), localizações potencialmente contaminadas (região anal, pés). Diabetes, obesidade, estados de imunocomprometimento, desnutrição, anemias, insuficiência renal, doenças cardíacas, arteriopatia periférica, neoplasias malignas, artrite reumatóide. Na área da ferida Medicamentos Quadro 1.3 - Sinais Locais e Sistêmicos de infecção Quadro 1.2 - Fatores de Risco de Infecção em Feridas 37 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Parada repentina da evolução no processo de cicatrização e aumento da extensão da ferida Aumento na exsudação serosa ou presença de exsudato purulento Gânglios linfáticos palpáveis, próximos à lesão Crepitação, endurecimento e descoloração que se expandem para além das bordas da ferida . . . Endurecimento da pele e tecidos subcutâneos ao redor de uma ferida, devido à inflamação exacerbada. Mal-estar ou outra deterioração inespecífica na condição geral da pessoa com ferida Fontes: World Union of Wound Healing Societies (WUWHS), 2008. Importante: A presença de necrose NÃO é sinônimo de infecção na ferida,por isso a avaliação criteriosa é fundamental para evitar o uso desnecessário de antibióticos. Condições da pele ao redor: Demonstram a presença de processos inflamatórios, como é o caso da dermatite ocre e lipodermatoesclerose; problemas circulatórios como é o caso da palidez, edema, hematomas, perda de pêlos e também a dermatite ocre. Evidenciam ainda a manutenção do atrito como na hiperqueratose; demonstram uso inadequado de produtos, como exemplo a maceração, se a cobertura escolhida foi pouco absorvente, e ainda evidencia processos infecciosos. 38 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Abaixo serão abordadas as alterações mais prevalentes na área ao redor das feridas: Edema Sua avaliação auxilia na definição da etiologia da ferida crônica, pois pode indicar problemas vasculares, insuficiência cardíaca, alteração da função renal, déficit nutricional e quadro reacional a alguns produtos, medicamentos e alimentos. A redução do edema é importante para recuperação da pele ao redor, para melhora do padrão circulatório ao redor da lesão e, consequentemente o grau de nutrição e oxigenação da ferida, impactando na cicatrização. A diminuição do edema muitas vezes sugere melhora no padrão inflamatório e de remissão de processos infecciosos. a O edema evidencia uma condição clínica que deve ser tratada para que a ferida cicatrize, ou seja, é necessário tratar a causa do edema e não apenas orientar a elevação dos membros inferiores e repouso, como se toda causa de edema fosse a estase venose e linfática. Por exemplo: Edema consequente de alteração cardíaca contraindica terapia compressiva, mesmo que a ferida seja venosa. Como mensurar e registrar o edema? É possivel mensurar o edema por meio da escala de cruzes (de + a ++++ cruzes).3 Esse sistema requer que o seguimento do portador de ferida seja realizado pelo mesmo profissional, uma vez que incorpora um aspecto subjetivo na avaliação. 39 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Hematomas/eczemas/eritemas: Podem indicar pressão/impacto constante na região da lesão, estase venosa, alergias, distúrbios de coagulação, processos inflamatórios e infecciosos. Deve-se investigar a causa da alteração a f im de intervir. Eczema de estase: Comum nas feridas crônicas de origem venosa, é decorrente da estase venosa por insuficiência valvular ou tromboflebites. Se não for bem identif icado, pode levar a diagnósticos equivocados e uso de antibioticoterapia. Apresenta como sinais prodrômicos associados o edema e a dermatite ocre, com ou sem prurido. O eczema geralmente surge no terço inferior da perna. É um sinal importante para identif icação de ferida venosa.4 [Para saber mais sobre a ferida venosa consulte a página 92] Dermatite ocre: É uma dermatite de estase, comum na insuficiência venosa e que representa uma inflamação na pele e tecidos adjacentes. Essa inflamação ocorre devido à ruptura de pequenos vasos superf iciais, ou mesmo à dilatação de vasos ocasionada por pressão venosa excessiva, que faz com que componentes do sangue sejam liberados no espaço extra-vascular. Nesse local, tais componentes são considerados corpos estranhos, levando à resposta inflamatória de defesa. A degradação das células sanguíneas leva à formação de pigmento ferroso que impregna na pele e confere a cor ocre (ferrugem). A dermatite ocre apresenta- se na forma de petéquias ou equimoses de cor acastanhada e aparece nas pernas (terço inferior) e região perimaleolar, assumindo comumente o formato de bota. A dermatite ocre também b c d Fonte: https://www.mdsaude. com/dermatologia/eczema/ Figura 1.12 - Eczema de Estase https://www.mdsaude.com/dermatologia/eczema/ https://www.mdsaude.com/dermatologia/eczema/ 40 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO e f pode ocorrer em adultos e idosos que permanecem em pé por muito tempo, ou em outras condições que causam estase venosa como varizes, obesidade, atrof ias musculares por envelhecimento, desuso, desnutrição, artrites, deformidades ósseas e pés planos. Todas essas condições aumentam a pressão hidrostática e dif icultam o retorno venoso. Se não tratada a causa da dermatite ocre, a inflamação contínua pode levar à formação de ferida.5 Perda de pelos: A maior causa de perda de pelos é a dificuldade de circulação sanguínea, tanto arterial quanto venosa. Geralmente essa perda de pelos na pele ao redor da lesão está acompanhanda de outros sinais clínicos, como alterações da coloração e espessura da pele. Áreas com redução de pelo e suor são sinas de hanseníase. Lipodermatoesclerose: Também conhecida como hipodermite esclerodermiforme ou paniculite esclerosante, é um termo dado a um quadro de endurecimento da pele e tecido subcutâneo, progressivo, associado a um processo inflamatório, com evolução para fibrose local. Acomete membros inferiores, principalmente o terço distal das pernas. Está frequentemente associada à insuficiência venosa crônica, isquemia arterial e tromboflebite.4 Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. Figura 1.13 - Dermatite Ocre Figura 1.14 - Lipodermatoesclerose em Tornozelo 41 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Esse endurecimento demonstra a substituição e perda da função do tecido original. Além disso, nas áreas próximas ao tornozelo pode ocasionar anquilose. Anquilose é a rigidez completa ou parcial da articulação, que pode ocorrer devido ao f ibrosamento das estruturas circundantes.9 A anquilose reduz a mobilidade da panturrilha e, assim piora o retorno venoso, além de favorecer quedas devido à dif iculdade de movimentação articular. Maceração: Processo de amolecimento com formação de dobras na pele, ao redor da lesão, que ocorre quando há excesso de umidade. O controle da umidade, por meio, do uso de coberturas adequadas e trocas frequentes (conforme necessidade – quando saturar a cobertura), é fundamental para evitar maceração. Ressecamento e descamação: Sinais de perda de umidade da pele que causam sintomas como desconforto, prurido, sensação de repuxamento e até dor. Indicam poblemas circulatórios, processos alérgicos e inflamatórios, déf icits nutricionais e de hidratação sistêmica ou local. O ressecamento pode indicar ainda a perda da função das glândulas sudoríparas e sebáceas, como ocorre na hanseníase. A pele ressecada ou descamativa dif iculta a cicatrização e propicia a abertura de novas feridas. Hiperqueratose: É um espessamento anormal da camada externa da pele (estrato córneo da epiderme), associado à proliferação g h i Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. Figura 1.15 - Bordas Maceradas 42 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO excessiva de células produtoras de queratina. É comumente observada em pessoas que apresentam linfedema, insuficiência venosa crônica e alterações neuropáticas que causam inflamação contínua. O espessamento anormal da pele ocorre na tentativa de responder a um processo de lesão contínuo causado por pressão, cisalhamento, fricção, má nutrição vascular e drenagem linfática prejudicada. A hiperqueratose também é observada em condições de anidrose, como ocorre na hanseníase e diabetes mellitus. Também pode ocorrer devido à falta de limpeza da pele em pontos de pressão ou bordas de feridas, pois os restos celulares acumulados podem causar pressão, que é um fator de lesão, e com isso levar ao desenvolvimento da hiperqueratose. Avaliação do Exsudato: A produção de exsudato é uma parte natural do processo de cicatrização de feridas. É gerado como parte da resposta inflamatória inicial e durante o estágio proliferativo de cura, e é um componente essencial do processo de reparação. Geralmente, ocorre uma alta produção de exsudato na ferida após lesão inicial, diminui ao longo do tempo e varia dependendo da etiologia da ferida. Em uma ferida crônica, os exsudatos serão produzidos de forma contínua. 8,9O exsudato cria um ambiente úmido ideal para a cicatrização, mas o aumento no volume e viscosidade está associado a um aumento da carga biológica e da contagem de células brancas, o que prejudicará a cicatrização. Tais problemas podem apresentar-se como maceração da pele ao redor da ferida, bem como um risco aumentado de infecção. A seguir estão apresentados os tipos e características de exsudato: 8 43 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Seroso Serosanguinolento Fibrinoso Purulento Características: Claro e aquoso. Aspectos: Esperado durante todo processo de cicatrização. O aumento na quantidade pode ser associado aos sinais de infecção. Em excesso durante todo o processo é necessário investigar ICC, desnutrição e, a depender da localização, fístulas. Características: Claro com pontos avermelhados/roseados e aquoso e/ou viscoso. Aspectos: Normal na fase inflamatória e proliferativa. Pode ser decorrente da remoção traumática de uma cobertura ou erro de desbridamento. Trauma no tecido de granulação. Características: Claro com pontos gelatinosos e aquoso e/ ou fino. Aspectos: Tem a presença de fibrinas. Indicativo de inflamação e pode ser associado a infecção Características: Leitoso de coloração amarelada, amarronzada ou às vezes esverdeada. Geralmente espesso. Aspectos: Composto pode neutrófilos, células inflamatórias e patógenos e frequentemente incluí necrose liquefeita. Indicativo de infecção. A coloração verde pode ser indicativoa de processo infeccioso, mas é preciso relacionar esse tipo de exsudato a outros sinais de infecção. Figura 1.16 Exsudato Seroso Figura 1.18 Exsudato Fibrinoso Figura 1.17 Exsudato Serosanguinolento Figura 1.19 Exsudato Purulento 44 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Na avaliação da quantidade do exsudato é fundamental acompanhar a evolução da lesão. Como destacado anteriormente, mudanças na quantidade do exsudato podem indicar evolução ou involução da ferida. Para a mensuração pode-se usar o sistema de cruzes, conforme quadro a seguir: 8 Seropurulento Hemopurulento Sanguinolento ou Hemorrágico Características: Leitoso de coloração amarelada, Geralmente fino Aspectos: Composto pode exsudato seroso com presença de pus. Pode ser sinal de infecção. Pode estar relacionado com a liquefação de necrose tecidual. Características: Leitoso de coloração avermelhada. Espesso. Aspectos: Composto pode exsudato sanguinolento na presença de pus. É sinal de infecção estabelecida. Características: De coloração avermelhada. Geralmente espesso, mas pode ser fino. Aspectos: Composto por glóbulos vermelhos, indicativo de rompimento de capilares ou trauma na ferida. Pode indicar uma infecção bacteriana Figura 1.20 Exsudato Seropurulento Figura 1.22 Exsudato Sanguinolento/ Hemorrágico Figura 1.21 Exsudato Hemopurulento 45 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Por se tratar de uma medida subjetiva, é preciso que a equipe esteja familiarizada com as medidas utilizadas. Para minimizar a subjetividade e diminuir a imprecisão, recomenda-se que a pessoa com a ferida seja atendida sempre pelo mesmo prof issional; quando isso não for possível, o diálogo constante, o registro e discussão dos casos entre os prof issionais é fundamental. Importante: A ferida vai exsudar até fechar e fatores como a intensidade da inflamação, presença de infecção, tamanho e profundidade (quantidade relativa ao tamanho) e etiologia da ferida influenciam no volume da exsudação. Na avaliação ambulatorial é importante perguntar qual foi a frequência da troca dos produtos para cobertura feita em casa. Localização da ferida: A localização da ferida pode variar dependendo da etiologia da lesão, logo essa informação auxilia muito o tratamento. A localização da lesão fornece importante informação sobre sua provável causa, ou seja, se é venosa, arterial, neuropática, hipertensiva ou lesão por pressão.10 Para o registro sugere-se uso de ilustrações topográficas que favoreçam a identif icação facilitada da localização da ferida, como segue: Cruzes + LeveSecreção ocupa menos da metade da gaze Secreção ocupa mais da metade da gaze Secreção ocupa toda a gaze ++ +++ Moderado Intenso QuantidadeQuantidade Quadro 1.4 - Mensuração do Exudato em Feridas 46 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Mensuração da ferida: A mensuração da ferida viabiliza o acompanhamento do processo de evolução do processo de cicatrização. Essa medida é o principal indicador de resultado do tratamento de pessoas com feridas, e pode ser realizada das seguintes formas: Mensuração simples: Com uma régua, medir em centímetros a região de maior comprimento, e depois a largura, com a régua em 90° ao comprimento aferido. A profundidade da ferida pode ser verif icada com uma pinça ou sonda uretral f ina, que deve ser inserida no ponto mais profundo da ferida. A precisão desse tipo de mensuração pode ser prejudicada se for realizada por várias pessoas, ou se existir tecido necrosado ou desvitalizado. O tamanho real da ferida só será evidente após o desbridamento.12 Figura 1.23 - Ilustração topográfica para identificação de feridas Ilustração: Cristiano Walter 47 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Decalque: Consiste em traçar a forma da ferida em material transparente. O mais utilizado é o papel de acetato. Esta mensuração não dá informações sobre a profundidade e aparência da ferida. A área pode ser calculada colocando-se o decalque por cima de um papel quadriculado e contando-se o número de quadrados inteiros.12 Fotografia: Proporciona uma evidência visual da aparência de uma ferida, no entanto, não detecta a profundidade da mesma. Esse método exige a repetição do procedimento, em intervalos regulares, sob o mesmo ângulo, luminosidade e distância focal constante, para permitir comparações futuras. O inconveniente deste método é que nem todos os prof issionais têm treinamento e acesso a uma boa câmera.12 Sistemas computadorizados de medição: Existem vários dispositivos/aplicativos para celulares/aparelhos planejados especialmente para calcular as dimensões das feridas. Com o avanço desta tecnologia, sistemas como este estão se tornando cada vez mais acessiveis e completos.12 Fatores que interferem na cicatrização: A análise das características do leito da ferida (usando a ferramenta TIME) guia a investigação sobre possíveis fatores, locais e sistêmicos, que explicam o que foi observado no leito e, consequentemente, o que interfere no processo de cicatrização. Assim, a seguir são 48 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO apresentados os principais fatores, locais e sistêmicos, que influenciam nesse processo. Doenças Sistêmicas: Alguns agravos crônicos podem comprometer as etapas de cicatrização e as mais importantes são: doença vascular periférica venosa e arterial, doenças coronarianas, hipertensão venosa, anemia, distúrbios de coagulação, doenças respiratórias, neuropatias e doenças imunossupressoras. A cicatrização depende do controle destas doenças. Os exames laboratoriais podem auxiliar o prof issional de saúde a fornecer o melhor plano de cuidado. Uso de Medicamentos Sistêmicos: Fármacos antiplaquetários, anticoagulantes ou que inibem a inflamação (corticoides, imunossupressores) podem reduzir a cicatrização de feridas, pois interferem na resposta imunológica normal à lesão. Também podem interferir na síntese protéica, redução na produção de colágeno, aumento na atividade da colagenase, tornando o tecido mais f rágil. Apesar de a ferida crônica apresentar uma inflamação persistente e que deve ser controlada, não é indicado o uso de anti-inflamatórios sistêmicos comuns. A inflamação deve ser controlada eliminando seu fator causal. Restrição da Mobilidade: A imobilidade pode causar tensão no tecido e reduzir o grau de oxigenação. Tabagismo: A nicotina reduz a força de tração e a deposição de colágeno tipo III, prejudicaa angiogênese e a ação dos miofibroblastos. 49 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO O fumo ainda reduz a quantidade de hemoglobina funcional, o que dif iculta o aporte de oxigênio para as células. Estresse: O estresse está associado ao aumento da produção de cortisol, com consequente desregulação de processos relacionados à cicatrização. Consumo de Álcool: O consumo de álcool contribui para o processo de inflamação crônica e favorece os déficits nutricionais e hipovitaminoses. Atividade Ocupacional: Ficar muito tempo em pé ou realizar atividades que propiciam a contaminação pode retardar a cicatrização. O repouso é recomendado para a redução da estase venosa e da hipertensão venosa e consequentemente do edema [se ainda tem dúvidas sobre causas de edema, volte à página 38]. Pessoas com feridas ou que apresentam o risco de desenvolvê-las devem ser orientadas quanto ao uso de equipamentos de proteção, calçados adequados e uniformes, para evitar a contaminação da ferida ou novos ferimentos. Mais que orientar, o prof isisonal de saúde deve favorecer o acesso a esses equipamentos. Aderência ao Tratamento: A não adesão ao tratamento de feridas crônicas pode ter origem intencional ou não intencional. A causa da não aderência deve ser amplamente avaliada por uma equipe multiprof issional, visando favorecer o tratamento e a qualidade de vida da pessoa com ferida. 50 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Idade: Pacientes idosos podem ter baixa hidratação e ingestão nutricional, além de alterações nos sistemas circulatório e respiratório que podem prejudicar na cicatrização de feridas. Há sinais de involução da pele a partir dos 40 anos. Com o envelhecimento a epiderme torna-se mais f ina e a quantidade de f ibroblastos reduz. Há diminuição da elasticidade devido à modif icação das f ibras de colágeno e perda de água, o que altera a velocidade da cicatrização. Ocorre alteração do estado imunológico e os linfócitos pouco respondem aos estímulos blastogênicos. Estado Nutricional: A def iciência nutricional pode dif icultar a cicatrização devido à depressão do sistema imune, com prolongamento da fase inflamatória e redução da síntese e proliferação f ibroblástica, colágeno, proteoglicanos e angiogênese. Algumas def iciências são importantes, como a carência de proteínas e de vitamina C, que atuam na síntese de colágeno. A vitamina B aumenta o número de f ibroblastos. O zinco é um cofator envolvido no crescimento celular e na síntese proteica. Até mesmo na presença de obesidade poderá ocorrer def iciência de nutrientes importantes. A avaliação nutricional deverá ser contínua e os níveis de albumina e pré-albumina, contagem total de linfócitos e níveis de transferrina são marcadores da desnutrição e devem ser avaliados e monitorados regularmente. 51 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO No quadro abaixo estão apresentados alimentos que auxiliam no processo de cicatrização: AlimentoNutriente Função Carnes vermelhas e de f rango, ovos, leite e derivados (iogurte, queijo), soja, ervilha, grão de bico, lentilha, pasta de amendoim e amêndoas Frutos amarelos (laranja, cenoura, manga, caqui), abacate, cenoura, damasco seco, óleos de f ígado de peixes, derivados do leite, folhas de cor verde-escura Laranja, tangerina poncã, acerola, caju, goiaba, mamão, morango, kiwi, tomate, brócolis, couve, couve-flor, repolho (branco e roxo), espinafre Beterraba, couve, milho, espinafre, repolho, grão de bico, soja, lentilha, queijo, peixes, ovos, carne de vaca, leite integral, iogurte Fígado, carne bovina e de porco, cereais integrais, batatas, couve, brócolis, leite, ovos, ervilha, oleaginosas Proteínas Síntese dos tecidos, adequar a resposta inflamatória Aumenta a síntese e diminui a degradação proteica, inibe a decomposição de proteína Melhora a imunidade, síntese de colágeno, melhora do processo cicatricial Cofatores para o colágeno Coagulação sanguínea Ação antioxidante, auxilia a angiogênese, melhora a imunidade e favorece a síntese de colágeno e de novos tecidos Ação antioxidante, reparo e regeneração tecidual, estabilização da membrana celular Evitar a hipocalcemia para pacientes em tratamento com curativos de nitrato de prata ou acamados Óleo de girassol, milho e soja, vegetais verde-escuros e sementes oleaginosas Carne de porco, couve-flor e espinafre, óleos vegetais, hortaliças Leite integral, requeijão, queijo, ricota, iogurtes, brócolis, gergelim Glutamina Vitamina A Vitamina E Vitamina K Cálcio Vitamina C Vitaminas do Complexo B Quadro 1.5 - Nutrientes, fontes alimentares e seus mecanismos potenciais nas feridas . . . 52 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Carne bovina, f ígado, ovos, f rutas secas (ameixa) cereais integrais enriquecidos, melaço e beterraba Fígado, castanha de caju, leguminosas, banana, uva, tomate e carnes vermelhas Óleo de girassol, milho, soja, linhaça, gergelim, peixes (sardinha, atum, tainha, salmão), nozes, castanha do Pará, castanha de caju Leite integral, cereais integrais, ovos, f ígado, miúdos e carnes vermelhas, camarão, nozes, castanhas, ervilha Castanha do Brasil, carnes vermelhas, f rango, peixes e ovos, leite e derivados, alho, repolho, cebola, couve-flor, brócolis, cogumelos Ferro Otimizar a perfusão celular Cofator enzimático do metabolismo energético, essencial no processo de divisão celular, síntese de DNA, RNA e proteínas que auxiliam no processo cicatricial Angiogênese, fortalecimento da cicatriz por meio da polimerização do colágeno Ação antioxidante, protege da peroxidação Modulador da inflamação e promoção da cicatrização Zinco Cobre Selênio Autoria: Tortorella, Catiuscie Cabreira da Silva & Cavagnari, Mariana Abe Vicente; 2020. Ácidos graxos essenciais (ômega 3- ômega 6) . . . AGE: ácidos graxos essenciais; DNA: ácido desoxirribonucleico; RNA: ácido ribonucleico Para orientar a avaliação do estado nutricional e subsidiar o encaminhamento correto ao nutricionista, indicamos o uso do algoritmo a seguir: 53 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Fi g u ra 1 .2 4 - A lg or it m o p ar a or ie n ta r o en ca m in h am en to d e p es so as c om fe ri d as p ar a o n u tr ic io n is ta A u to ri a: A d ap ta d o To rt or el la , C at iu sc ie C ab re ir a d a Si lv a & C av ag n ar i, M ar ia A b e V ic en te , 2 0 20 . 54 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Importante: PANCS - Plantas alimentícias não convencionais. O termo, criado por Valdely Ferreira Kinupp em 2008, refere-se às plantas que possuem alguma porção comestível. São plantas nativas ou exóticas, cultivadas ou de origem espontânea, mas que não se encontram em nossos pratos e refeições cotidianos. São flores, tubérculos, folhas, caules, sementes, entre outros. São exemplos de Pancs: almeirão do campo, begônia, capuchinha, caruru, dente-de-leão, inhame e mastruz. Para mais informações, clique nos botões abaixo: Embrapa UFRGS Além das condições que afetam todo o organismo de uma pessoa com ferida (os fatores sistêmicos), fatores no local da lesão também causam grande interferência no processo de cicatrização e precisam ser tratados. São eles: Técnica de Curativo e produtos tópicos inadequados: Uma técnica de curativo inapropriada e a escolha inadequada de um produto de corbertura pode aumentar a ferida ou impedir sua cicatrização. A disponibilidade de produtos e a avaliação de benef ícios e custos são aspectos que devem ser considerados durante a escolha do produto para o curativo. O uso indiscriminado de produtos tópicos como antibióticos, antifúngicos e antissépticos prejudica o processo cicatricial. O prof issional deve conhecer a f inalidade do produto antes de indicá-lo ou fazer uso [veja o capítulo de produtos contraindicados]. https://www.embrapa.br/documents/1355126/2250572/ed22.pdf/59c6768c-62da-72a3-84c7-1d996101f1b6https://www.ufrgs.br/viveiroscomunitarios/wp-content/uploads/2015/11/Cartilha-15.11-online.pdf 55 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Corpos Estranhos: A presença de corpos estranhos pode ampliar a inflamação e por isso prejudicar a cicatrização. Presença de Necrose ou Tecido Desvitalizado: Aumentam a inflamação, a carga bacteriana e reduzem a progressão de tecidos viáveis [ler em limpeza e desbridamento]. Infecção e Inflamação: Durante o processo de infeçção há produção intensa de exsudato rico em f ibrina e colágeno, que se depositam no leito e impedem a formação de outros tecidos (leia novamente sobre a avaliação da ferida). Grau de Tensão (pressão): Impede a oxigenação local [veja a página 101 sobre de LPP]. Grau de Oxigenação: Doenças ou condições que alteram o fluxo sanguíneo normal podem afetar a distribuição de oxigênio e dos nutrientes. Doenças sistêmicas afetam localmente o fluxo sanguíneo, reduzindo a oxigenação. Da mesma forma, pressão contínua no local da lesão diminui a oxigenação. Cuidado com curativos compressivos, coxins e outros dispositivos que possam reduzir a perfusão periférica e o grau de oxigenação. A presença de biof ilme também compromete a tensão de oxigênio no leito da ferida [leia mais sobre o biof ilme no capítulo sobre o preparo do leito da ferida]. 56 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO A diminuição do número de hemácias acarreta em anemia, que interfere no processo de reparação tecidual. Exames laboratoriais necessários para a avaliação da pessoa com ferida crônica: Não é raro receber uma pessoa com ferida que não conhece seu histórico de saúde, nem mesmo a história familiar de doenças. Na prática cotidiana é comum que a presença de uma ferida seja o motivo da busca de um serviço de saúde. Sendo assim, para avaliar adequadamente a ferida e investigar suas causas, alguns exames laboratoriais podem contribuir para diagnosticar doenças e distúrbios que explicam a causa da ferida. Além disso, os exames laboratoriais podem ser utilizados como um parâmetro para o acompanhamento e controle metabólico. No quadro abaixo destacamos os principais exames, com relevância clínica, para o atendimento de uma pessoa com ferida crônica: Hemograma Hemácias................................................................................ 4,0 a 5,5 x106/mm3 Hemoglobina....................................................................................... 12 a 17,4 gℓ Volume Corpuscular Médio.............................................................. 36 a 52% Hemoglobina Corpuscular Média............................................... 84 a 96 fℓ Concentração de Hemog. Corpuscular Média............... 32 a 36 g/dℓ Plaquetas............................................................................ 140 a 400 x103/mm3 Leucócitos ........................................................................... 4,5 a 10,5 x103/mm3 57 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Os níveis de glicose estão intimamente relacionados com o processo retardado de cicatrização, especialmente em diabéticos. Pessoas com diabetes podem permanecer na fase inflamatória, o que dif iculta a deposição de matriz extracelular e remodelamento da ferida. Outro fator relacionado é predisposição em desenvolver aterosclerose, que contribui para alterações microvasculares, causando diminuição no fluxo sanguíneo e fornecimento insuf iciente de oxigênio. A hemoglobina é responsável pelo carreamento de oxigênio, quando def iciente ocorre uma diminuição dos níveis moleculares de oxigênio entregue aos tecidos, contribuindo para o retardo da cicatrização. A oxigenação def iciente na lesão ou nos tecidos adjacentes aumenta o risco de infecção. As plaquetas são responsáveis pela formação do tampão hemostático, do qual são secretados os fatores de crescimento, como o derivado de plaquetas (PDGF), o de crescimento transformante beta (TGF-beta), o de crescimento epidérmico (EGF), o de crescimento transformante alfa (TGF-α) e o fator de crescimento de células endoteliais (VEGF), além de glicoproteínas adesivas como a f ibronectina e trombospondina, que são importantes constituintes da matriz extracelular provisória. Em feridas crônicas, alterações nos níveis das plaquetas referem-se a distúrbios hemorrágicos. Leucocitose pode impedir a cicatrização por hipóxia, visto que os leucócitos podem consumir o oxigênio necessário. Além disso, leucocitose indica inflamação contínua, levando à deterioração progressiva dos tecidos pela liberação de enzimas proteolíticas e espécies reativas de oxigênio prejudicando o tecido. Glicemia de jejum Glicose plasmática em jejum (GPJ)........................................≤ 100 mg/dℓ 58 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Outro ponto que vale ressaltar é que pessoas com diabetes têm uma maior propensão em desenvolver infecções. A albumina sérica é um componente protêico, tido como um dos principais antioxidantes do organimo. Foi demonstrado que esta proteína sof re modif icações por ação de espécies reativas de oxigênio, por ser facilmente oxidada, retirada da circulação e degradada. A albumina foi identif icada como a proteína mais proeminente oxidada no fluido da ferida aguda e crônica. A exposição às espécies reativas de oxigênio contribui para a redução da albumina sérica e local, correlacionando com o retardo na progressão da ferida crônica. Albumina sérica Cultura da Biópsia ou Swab da lesão Albumina sérica............................................................................. 3,9 a 5,0 g/dℓ Bactérias gram-positivas mais comuns Staphylococcus Aureus (incluindo MRSA) Staphylococcus Coagulase negativa Enterococcus spp. (incluindo as resistentes avancomicina) Bactérias gram-positiva anaeróbica mais comuns Peptostreptococcus spp. Clostridium spp Bactérias gram-negativas mais comuns Pseudomonas Aeruginosa Escherichia Coli Klebsiella Pneumoniae Serratia Marcescens 59 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Enterobacter spp. Proteus spp. Acinetobacter spp. Bactérias gram-negativa anaeróbicas mais comuns Bacteroides spp. Prevotella spp. Uma variedade de microrganismos compõe a microbiota da pele. As mais comuns de serem encontradas são: Micrococcus spp., Coryneforms (diphtheroids), Staphylococcus Epidermidis, Othercoagulase-Negative Staphylococci, Alpha Haemolytic Streptococci, e Propionibacterium spp. Em uma ferida, onde a barreira natural está rompida, estes e outros microrganismos podem penetrar, causando dano e interrompendo o processo de cicatrização. A formação de biof ilme, caracterizado por uma comunidade de microrganismos agregados, envoltos em matriz extracelular no leito da ferida, coopera metabolicamente para degradação de substratos e até trocas de material genético. Esta organização traz alguns benefícios aos microrganismos permitindo sua agregação, retenção de água, criação de uma barreira protetora, fonte de nutrientes, entre outros. O biof ilme é um dos fatores mais importantes no processo de cronif icação de uma ferida [leia como evitar e tratar o biofilme na página 113]. A osteomielite é a principal alteração relacionada às feridas crônicas, sendo aguda ou crônica, def inida pela predominância de leucócitos polimorfonucleares no tecido ósseo, evidenciando a reabsorção óssea de bordas e detrito ósseo. Na osteomielite crônica ocorre f ibrose ao redor do tecido desvitalizado. Por sua relevância e prevalência em feridas crônicas, a osteomilielite deve ser investigada com radiograf ia, tomograf ia, ressonância e cintilograf ia óssea. Exame de imagem 60 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Os diferentes estágios do processo de cicatrização são acompanhados de diferentes composições no exsudato. Tais composições modif icam o pH e metabólitos, servindo como biomarcadores para este processo. Este marcador vai depender do estadiamento da ferida. Assim, durante o processo de granulação o pHvaria de 4 a 6, e num processo de cicatrização prejudicado o pH varia de 7 a 8. Já foram desenvolvidos alguns sensores bioquímicos que detectam a mudança do pH no leito. PHmetria pH.................................................Durante a cicatrização oscila entre 4 e 6 61 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Referências ZHAO, R. et al. Inflammation in chronic wounds. International Journal of Molecular Sciences, v. 17, n. 12, p. 1–14. 2016. World Union of Wound Healing Societies (WUWHS). Principles of best practice: Wound infection in clinical practice. An international consensus. London: MEP Ltd, 2008. BARROS, A. L. B. Anamnese e Exame Físico - Avaliação Diagnóstica de Enfermagem No Adulto. 3. Ed. Artmed. 2015. BARCELOS, A. C. F.; et al. Manifestações Dermatológicas da Insuficiência Venosa Crônica. Cadernos Brasileiros de Medicina, v. 27, n. 3. 2014. ABBADE, L. P.; LASTÓRIA, S.; ROLLO, H. A. Venous ulcer: clinical characteristics and risk factors. Int. J. Dermatol., v.50, n.4, p.405‐411. 2011. PHILLIPS, T. J.; Dover J. S. Leg ulcers. J. Am. Acad. Dermatol., v.25, p.965-987. 1991. TIMI, J. R.; BELCZAK, S. Q.; FUTIGAMI, A. Y.; PRADELLA, F. M. A anquilose tíbio- társica e sua importância na insuficiência venosa crônica. J. Vasc. Bras. v.8, n.3, p.2014-2018. 2009. TICKLE, J. Wound exudate: a survey of current understanding and clinical competency. British Journal of Nursing, v.25, n. 2. 2016. HASATSRI, S.; ARAMWIT, P. Wound exudate: a survey of current understanding and clinical competency. Dermatol. Surg., v.43, p.342–350. 2017. MOORE, K. Using wound area measurement to predict and monitor response to treatment of chronic wounds. Journal of Wound Care, v. 14, n. 5. 2013. BRASIL. Manual de condutas para feridas neurotróficas e traumáticas. Brasília: 2002. FISCHBACH, F.; DUNNING, M. B. Exames Laboratorias e Diagnósticos em Enfermagem. 9° edição ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016. GREENHALGH, D. G. Wound healing and diabetes mellitus. Clinics in Plastic Surgery, v. 30, n. 1, p. 37–45, 2003. JAMES, G. A. et al. Microsensor and transcriptomic signatures of oxygen depletion in biofilms associated with chronic wounds. Wound Repair and Regeneration, v. 24, n. 2, p. 373–383, 2016. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 62 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO JANKOWSKA, D. A. et al. Simultaneous detection of pH value and glucose concentrations for wound monitoring applications. Biosensors and Bioelectronics, v. 87, p. 312–319, 2017. JONES, V. E. Essential Microbiology for wound care. New York: Oxford University Press, 2016. MENTER, D. G. et al. Platelet “First responders” in wound response, cancer and metastasis. Cancer Metastasis Rev., v. 176, n. 12, p. 139–148, 2017. MOSELEY, R. et al. Comparison of oxidative stress biomarker profiles between acute and chronic wound environments. Wound repair and regeneration, v. 12, p. 419–429, 2004. ATKIN, L. et al. Implementing TIMERS: the race against hard-to-heal wounds. J. Wound Care; v.28, n.3, p.S1–S49. 2019. TURI, G. K. et al. Major histopathologic diagnoses of chronic wound. Advances in Skin & Wound Care, v. 29, n. 8, p. 376–382, 2016. COZZOLINO, S. M. F. C. Bases fisiológicas da nutrição nas diferentes fases da vida, na saúde e na doença. Barueri, SP: Manole, 2013. ESCOTT-STUMP, S. Nutrição relacionado ao diagnóstico e tratamento. 6. Ed. – Barueri, SP: Manole, 2011. CAMPOS, A. C.; GROTH, A. K.; BRANCO, A. B. Assessment and nutritional aspects of wound healing. Curr. Opin. Clin. Nutr. Metab. Care. v. 11, n. 3, p.281-288. 2008. EGLSEER, D.; HÖDL, M.; LOHRMANN, C. Nutritional management of older hospitalised patients with pressure injuries. Int. Wound. J. v. 16, n. 1, p.226-232. 2019. ELIA, M. Screening for malnutrition: a multidisciplinary responsibility. Development and use of the ‘Malnutrition Universal Screening Tool’ (MUST) for adults. Malnutrition Advisory Group, a Standing Committee of BAPEN. Redditch: BAPEN. 2003. ILIZAKA, S.; OKUWA, M.; SUGAMA, J.; SANADA, H. The impact of malnutrition and nutrition-related factors on the development and severity of pressure ulcers in older patients receiving home care. Clin. Nutr. v. 29, n. 1, p.47-53. 2010. GRAY, M. Does oral supplementation whit vitaminas A or E promotehealing of cronic wounds? J. Wound. Ostomy. Continence. Nurs. v. 30, n.6, p.290-294, 2003. 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 63 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO PORTO DA ROCHA, R. et al. Effects of a vitamin pool (vitamins A, E and C) on the tissue necrosis process: experimental study on rats. Aesthetic Plast Surg Today. v. 34, n.9, p.747-751. 2004. MAYES, T.; GOTTSCHLICH, M. M. Burns and wound healing. In: MATARESE, L. E; GOTTSCHLICH, M.M, editor. Contemporary nutrition support pratice – clinical guide. New York: Saunders, p.595-615. 1988. RUBERG, R. L. Role of nutrition in wound healing, Symposium on Wound Management Surg Clin North Am. v.64, p.705-14. 1984. COZZOLINO, S. M. F. C. Bases fisiológicas da nutrição nas diferentes fases da vida, na saúde e na doença. Barueri, SP: Manole, 2013. JECHKE, M. G. et al. Nutritional intervention high in vitamins, protein, amino acids, and ômega-3 fatty acids improves portein metabolismo during the hypermetabolic state after termal injury. Arch Surg, p. 1136-1301, 2001. 28 29 30 31 32 64 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Amanda de Paula Grad Francine Meira da Cruz Vera Lúcia Borges Ferreira Introdução A presença de feridas crônicas leva a alterações biopsicossociais mais notórias na aparência f ísica e no convívio social. A forma como essas mudanças serão encaradas pela pessoa com feridas, familiares e amigos dependerá da capacidade de adaptação dos envolvidos, do ritmo com que essas alterações ocorrem e dos serviços de apoio disponíveis. O mundo moderno estabelece padrões a serem seguidos e não estar dentro dos padrões muitas vezes implica em discriminação, preconceito e isolamento social. A presença constante de qualquer tipo de lesão torna o indivíduo mais vulnerável a situações como restrições nas atividades de vida diária e de lazer, depressão, desemprego, subemprego e abandono. Conviver com uma ferida crônica implica em efeitos negativos nos projetos pessoais e sentimentos como tristeza, raiva, vergonha, ansiedade, desânimo e muitos outros, que podem se intensif icar gradativamente.1 Além disso, sabemos que para uma ferida cicatrizar e não voltar a abrir é necessário ter acesso à alimentação saudável, condições de higiene, acesso aos recursos para o curativo, condições de trabalho que favoreçam o autocuidado e mais, condições de tempo pessoal para participar do processo de cuidado. O que é isso? Conseguir participar do plano de cuidado, ter autonomia para sugerir, lutar por direitos e se relacionar efetivamente com a rede de serviços de saúde. CAPÍTULO 4 AVALIAÇÃO DAS CONDIÇÕES SOCIAIS 65 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Idade, Etnia e Sexo Para que avaliar? Apesar de serem dados demográficos, apresentam inúmeras implicações sociais como, por exemplo, vulnerabilidade à violência, preconceito e racismo. O que pode acarretar? Além dos aspectos f isiopatológicos referentes a um maior risco de desenvover determinadas doenças e atrasos no processo de cicatrização, os aspectos sociais relacionados à idade, etnia e sexo podem aumentar o nível de estresse, aumentar os transtornos psicológicos, alterar o estado mental, prejudicar a adesão ao tratamento, impossibilitar o autocuidado. Como a equipe de saúde deve agir? Ao avaliar a pessoa idosa, em especial do sexo feminino, verif ique o grau de autonomia e investigue a presença de sinais indicativos de situações de violência. Analise a equidade no atendimento e toda a atenção recebida na rede de suporte social, ou seja, serviços de saúde, assistência social, jurídica e comunitária com enfoque na etnia. A identificação de todos esses fatores compõe o que se conhece como condições sociais e rede socioassistencial para suporte, sendo fundamentais para favorecer o processo de cuidar de uma pessoa com ferida crônica.2 Abaixo estão descritos quais fatores devem ser abordados na avaliação social e a relação dos mesmos no processo de cicatrização das feridas:3,4,5,6 66 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Escolaridade Para que avaliar? Analisar o grau de dif iculdade no entendimento das orientações e promover a autonomia. O que pode acarretar? O não entendimento das orientações realizadas durante o atendimento e a dif iculdade de participar do processo de cuidar. Como a equipe de saúde deve agir? Auxiliar na capacidade de compreensão do tratamento que está sendo empregado, amenizando a angústia e o sofrimento. Ocupação Para que avaliar? Avaliar o tipo de atividade trabalhista ou laboral, formal e informal. Atividade doméstica e domiciliar. O que pode acarretar? Determinadas atividades trabalhistas e laborais dif icultam o autocuidado, favorecem a contaminação da lesão e até mesmo o surgimento de novas lesões. Como a equipe de saúde deve agir? A equipe de saúde deve fornecer orientações adequadas e adaptadas à realidade trabalhista e laboral; deve favorecer o acesso ao direito previdenciário, quando adequado; deve favorecer a capacitação com vistas à prevenção de novas lesões. 67 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Aspectos Culturais e Religiosos Para que avaliar? Promove uma rede de apoio ao enfrentamento da situação em que se encontra. O que pode acarretar? Algumas normas podem prejudicar a adesão ao tratamento. Como a equipe de saúde deve agir? Promover apoio e segurança, respeitar os costumes e tradições religiosas e espirituais de modo a favorecer o autocuidado e a melhora do processo de cicatrização. Situação Econômica da Família Para que avaliar? Determinante das condições de moradia, nutricionais, do acesso a recursos indispensáveis ao tratamento. Avaliar a necessidade de encaminhamentos para dar início ao recebimento de benefício, prestação continuada ou outras formas de suporte previdenciário. O que pode acarretar? A precariedade econômica, a pobreza, impede o restabelecimento do estado vital, logo não favorece a cicatrização. Dificulta ou mesmo impossibilita a aquisição de medidas de autocuidado e a adesão ao tratamento. Favorece a baixa autoestima e demais alterações do estado mental. 68 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Como a equipe de saúde deve agir? Auxiliar na aquisição de insumos necessários para sobrevivência, como, por exemplo, alimentação, suplementos alimentares, moradia, produtos de higiene corporal e doméstica; Possibilitar acesso à rede de suporte social e inserir a pessoa com ferida nesse processo de forma ativa; Viabilizar o acesso a direitos previdenciários. Habitação Para que avaliar? Observar as condições de moradia e se há presença de saneamento básico. O que pode acarretar? Viver em local sem condições sanitárias pode agravar ou favorecer a contaminação da lesão e, assim, infecções de repetição. Como a equipe de saúde deve agir? Melhoria do bem-estar do individuo; Estabelecer contato com a Secretaria Municipal de Habitação e Urbanismo e demais órgãos responsáveis; Avaliar a adequação de abrigamento em instituições de longa permanência e promover, se necessário, o encaminhamento a órgãos competentes. 69 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Convívio Social Para que avaliar? Observar se apresenta f ragilização de vínculos nas relações familiares e na comunidade. O que pode acarretar? Não apresentar apoio para o enfrentamento do processo saúde- doença, além do isolamento social. Como a equipe de saúde deve agir? Promover o suporte efetivo de familiares e da rede de suporte social como amigos, igreja, grupos de convívio – suporte ao tratamento; Promover reuniões com cuidadores. Conhecer e acionar o grupo de cuidadores informais. Prestar o apoio nas diversas áreas da rede sociojurídica familiar ou governamental. Hábitos de Lazer Para que avaliar? A doença crônica provoca mudanças na rotina do indivíduo e seus familiares. O que pode acarretar? Abandono de hábitos que geralmente proporcionavam sensação de bem-estar. Como a equipe de saúde deve agir? Proporcionar novos hábitos, melhorando a qualidade de vida. 70 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Considerando que o nível de adesão em qualquer tratamento de uma condição crônica é influenciada por todos esses fatores, é importante que o profissional de saúde tenha disponível instrumentos que permitam avaliar o impacto desses fatores na saúde de cada indivíduo, a fim de prestar uma assistência de qualidade e resolutiva. Existem escalas e questionários que podem guiar sua avaliação de aspectos diretamente relacionados à condição social, como autoestima, participação social, risco familiar e grau de incapacidade e consciência de risco (Quadro 1.6). Autoestima/Autocuidado Para que avaliar? Verif icar o grau do cuidado que a pessoa com ferida exerce. O que pode acarretar? Pode apresentar baixa adesão ao tratamento, em decorrência do déf icit de autocuidado, e isolamento por não aceitar as mudanças f ísicas desenvolvidas pela ferida e condições que favoreceram sua cronif icação. Como a equipe de saúde deve agir? Auxílio ao tratamento, observação de sinais depressivos, reflexão de que não precisamos nos encaixar nos “padrões exigidos” pela sociedade. 71 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO EspecificaçõesEscala Autor Avalia o autoconceito das pessoas, com enfoqu no grau de autovalorização e satisfação consigo mesmo. Uma pontuação inferior a 15 denota baixa autoestima, de 15 a 25 demonstra uma autoestima saudável e a partir de 25 denota uma pessoa equilibrada. Avalia o nível de comprometimento da vida social resultante da doença pré-existente como neuropatias periféricas, hanseníase e diabetes. A escala apresenta 18 itens,com escore de 0 a 90. Estima-se que o ponto de corte seja de 12, pessoas acima de 12 até 22 pontos apresentam restrição leve, 23 a 32 pontos restrição moderada, 33 a 52 pontos restrição alta, 53 a 90 restrição extrema. É uma escala que avalia e monitora o grau de limitação e a consciência dos riscos pelo indivíduo afetado pela hanseníase. Apresenta 20 itens com escore f inal de 10 a 80 pontos. Pontuação até 25 indica que o individo apresenta baixa ou pouca dif iculdade nas atividades de vida diárias (AVDs); de 25 a 39 pontos leve dif iculdade; 40 a 49 pontos dif iculdade moderada; 50 a 59 severa limitação, e de 60 a 80 pontos limitação extrema às AVDs. Avalia o risco familiar determinando seu risco social e de saúde, focando o adoecimento de cada núcleo familiar. Classif icação das famílias: Risco 1 (leve), Risco 2 (moderado) ou Risco 3 (grave). Escala de Autoestima de Rosemberg Escala de Participação Social Escala de Risco Familiar Coelho-Savassi Escala Salsa e Grau de Incapacidade Screening of Activity Limitation and Safety Awareness Morris Rosenberg Leonardo C. Monteiro Savassi Flávio L. Gonçalves Coelho Acesse Aqui Acesse Aqui Acesse Aqui Acesse Aqui Quadro 1.6 - Escalas para a Avaliação de Parâmetros da Condição Social Durante Tratamento de Feridas Crônicas Importante: Use as informações deste capítulo para elaborar um instrumento (ficha, roteiro) de avaliação das condições sociais da pessoa com ferida crônica no seu serviço. https://www.academia.edu/17283663/Adapta%C3%A7%C3%A3o_brasileira_da_escala_de_auto_estima_de_Rosenberg https://central3.to.gov.br/arquivo/344573/ http://www.saude.sp.gov.br/resources/humanizacao/homepage/acesso-rapido/formacao-tecnica-em-acolhimento-na-atencao-basica/escala_de_coelho.pdf http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2017/novembro/22/Guia-Pratico-de-Hanseniase-WEB.pdf 72 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Figura 1.25 - Exemplode Instrumento de Avaliação Social (Frente) 73 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Figura 1.26 - Exemplo de Instrumento de Avaliação Social (Verso) 74 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Importante: A avaliação da Qualidade de Vida da pessoa com ferida é um dos aspectos socioafetivos mais relevantes a serem investigados na avaliação social, pois incorpora vários domínios como o físico (dor, fadiga, capacidades e limitações), psicológico (percepção do estado de saúde, depressão, autoestima, ansiedade e imagem corporal), relações sociais (apoio familiar e social, limitações impostas pela sociedade e as relações interpessoais), nível de independência (mobilidade, atividades cotidianas, capacidade para o trabalho) e noções sobre o bem-estar (corporal, emocional, saúde mental e vitalidade). Existe uma escala nacional para avaliação da Qualidade de Vida, específica para quem tem ferida crônica. Sugerimos enfaticamente que essa escala seja incorporada na rotina dos serviços para subsidiar a atenção de qualidade. Acesse Aqui https://www.scielo.br/pdf/reeusp/v43nspe/en_a15v43ns.pdf 75 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Referências WAIDMAN M. A. P. et al. O Cotidiano do indivíduo com ferida crônica e sua saúde mental. Texto Contexto Enferm, Florianópolis, v.20, n.4, p.691-699. 2011. CUNHA, A. C. S. R. Censo de deficiência e incapacidades f ísicas por hanseníase e monitoramento pela escala salsa do plano de autocuidado para prevenção de incapacidadede pacientes atendidos em um centro de referencia nacional do Brasil. 2012. SAVASSI, L. C. M. et al. Sistematização de um instrumento de estratificação de risco familiar: Escala de risco familiar de Coelho-Savassi. J. ManagPrim Health Care. v.3, n.2, p.179-185. 2012. AZEREDO, C. M. et al. Avaliação das condições de habitação e saneamento: a importância da visita domiciliar no contexto do Programa de Saúde da Família. Ciênc. saúde coletiva. v.12 n.3. 2007. GONÇALVES, T. R. Avaliação de apoio social em estudos brasileiros: aspectos conceituais e instrumentos. 2011. YAMADA B. F. A.; SANTOS, V. L. C. G. Development and validation of Ferrans & Powers Quality of Life Index: wound version. Rev Esc Enferm USP [Internet]. v.43, p.1103-1111. 2009. 1 2 3 4 5 6 76 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Fernanda Eloy Schmeider Dannyele Cristina da Silva Introdução A dor em pacientes com feridas crônicas é um dos sinais que devem ser investigados e tratados de forma adequada, uma vez que é de grande relevância para a qualidade de vida. De acordo com a Associação Internacional de Estudos sobre a Dor (International Association for the Study of Pain - IASP) a dor é conceituada como “uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a dano tecidual real ou potencial, ou descrita em termos de tal dano”.1 Nesse sentido, nas pessoas que apresentam lesões crônicas, a dor é uma experiência que pode ser detectada em muitos casos, uma vez que o rompimento dos tecidos, alterando a sua conformidade, ocasionará estímulos nocivos que serão transmitidos ao sistema nervoso central, acionando dessa forma os mecanismos de dor. Vários fatores podem influenciar a sensação dolorosa mais intensa, como a “etiologia da ferida, a presença de infecção, a troca de curativos, entre outras causas”.1 Sabe-se que conforme a etiologia da ferida a dor será mais intensa, é o que geralmente ocorre nas feridas isquêmicas arteriais e hipertensivas, nas feridas ocasionadas pela doença falciforme, nas lesões oncológicas, nas traumáticas e nas infectadas de qualquer etiologia. Quando a piora da dor ocorre de maneira inexplicável pode ser sinal de infecção ou colonização crítica.7 CAPÍTULO 5 AVALIAÇÃO E MANEJO DA DOR NO TRATAMENTO DAS FERIDAS CRÔNICAS 77 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Aguda Nociceptiva Contínua Sem Dor Dor Leve Dor Moderada Dor Intensa Breakthrough (Intermitente) Neuropática Mista Psicogênica Crônica Oncológica Outras situações de piora da dor podem estar associadas com a exsudação excessiva ou com coberturas que extravasam na pele ao redor da lesão, ocasionando dermatites na região. Complicações como a miíase também podem agravar o quadro de dor, dando uma sensação de que algo está “roendo ou comendo a ferida”.2 Nesse contexto, é importante realizar a classif icação da dor e a f igura abaixo apresenta como: Tempo Origem Padrão Intensidade Figura 1.27 - Classificação da Dor 78 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Com base na f igura podemos observar que, em relação à duração, a dor pode ser aguda quando se manifesta por período relativamente curto, prolongando-se de minutos a algumas semanas, geralmente de no máximo um mês. A dor aguda deve ser utilizada como alerta para uma possível necessidade de atendimento, uma vez que leva a alterações neurovegetativas como taquicardia, diminuição da oferta de oxigênio aos tecidos, aumento da pressão arterial, ansiedade, medo, dentre outras alterações, que ampliam a dor. Como consequência ocorrerá a diminuição do sono, do apetite, dif iculdade para deambular, além de riscos aumentados para processos tromboembólicos e infecciosos.2,3 Veja bem, a presença de infecção e distúrbios tromboembólicos são causas de dor aguda, mas outros fatores que levam à dor aguda, como trauma ou hipertensão arterial descompensada, podem causar dano tecidual e favorecer a infecção e o surgimento de distúrbios circulatórios locais, aumentando assim a dor. Já a crônica tem duração prolongada, estendendo-se de meses a anos, ou seja, por um período superior a um mês, ou persiste além do esperado para a doença ou injúria. A dor crônica é considerada um problema de saúde pública, pois pode incapacitar o indivíduo, levando ao absenteísmo do trabalho e à elevação dos custos para o sistema de saúde.2,8,10 A dor pode ser ainda classif icada em relação ao tempo como contínua, em que varia de intensidade, porém é constante, ou recorrente (tipo breakthrough) que se apresenta em períodos curtos que se repetem ao longo do dia – que vai e volta.4,5 Com relação à f isiopatogênese a dor pode ser classif icada em orgânica, com subclassif icações: nociceptiva, quando o sinal elétrico é transmitido ao sistema nervoso central; neuropática, quando atinge 79 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO o sistema somatossensorial; mista, quando ocorre a combinação das duas respostas anteriores; e psicogênica, quando relacionada a fatores psicológicos, localizada em nível cortical.6 É importante diferenciar a dor f isiopatológica (nociceptiva, neuropática ou mista) da psicogênica. E, sem pré -conceitos sobre que tipo de dor merece ou não a atenção prof issional, toda queixa de dor deve ser investigada e sua causa tratada. Uma condição orgânica não tratada, que cause dor e seja erroneamente classif icada como dor psicogênica, pode evoluir com piora e causar até a morte. Por outro lado, se a dor psicogênica for erroneamente associada a um quadro orgânico, a pessoa pode ser encaminhada a serviços e tratamentos desnecessários e a causa da dor não atendida. Alguns fatores podem auxiliar na identif icação da dor psicogênica, dentre os quais podemos citar: Não há achados f ísicos anormais subjacentes ou eles não guardam proporção com a intensidade das queixas. Não há, por exemplo, sinais de infecção, nem aumento da inflamação, não houve trauma, pressão e outras explicações para o relato da dor. As manifestações não são limitadas à área afetada, são amplamente distribuídas, com intensidades variadas. Pouca def inição quanto ao início e locais de manifestação da dor. Às vezes o portador de feridas relata que não sabe onde dói, dói tudo. São queixas imprecisas e com relato mais ostensivamente apresentado, com certo grau de dramaticidade. 1 2 3 80 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Altera-se mais comumente com variações de vivências emocionais e, por isso,pioram quando a pessoa com ferida passa por acontecimentos infelizes e estressantes. 1 4 Por f im, em relação à classif icação quanto à localização, divide-se em somática ou visceral. Na somática os estímulos originam-se da periferia do corpo ou de tecidos de suporte tais como musculares, fáscias, tendões e ligamentos. Na dor visceral a origem encontra-se na “tensão ou estiramento da parede das vísceras ocas ou da cápsula das vísceras parenquimatosas e pela tração ou estiramento peritoneal”. Essa dor pode se originar em estruturas distantes ou ser decorrente de lesões sistêmicas. 1,6 Deve-se também classif icar a intensidade da dor e para isso é preciso considerar o relato de quem a tem, pois a dor se manifesta em intensidades diferentes nas pessoas, cada um tem seu limiar e, por isso, não há um instrumento f ísico para mensurá-la. Percebe-se que a dor varia de um individuo para o outro influenciada por fatores neurof isiológicos e hormonais, mas também é afetada em sua magnitude pelas estratégias de enfrentamento situacionais, psicológicas e culturais.7 Existem algumas ferramentas que podem auxiliar na mensuração da dor sentida pelo paciente.7 Veja abaixo: Escala Numérica O indivíduo deve indicar a intensidade da sua dor em uma escala de 0 a 10, em que 0 indica “sem dor” e 10 “pior dor imaginável”. Essa escala deve ser utilizada na consulta inicial e durante todo o tratamento. A interpretação numérica sugerida é: 0 = sem dor; 1-3 = dor leve; 4-6 = dor moderada e 7-10 = dor intensa. 81 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Escala Visual Analógica (EVA) Nas extremidades de uma linha horizontal há os descritores “Sem dor” e “Pior dor imaginável”. O indivíduo pode se guiar pela linhas ou pelas cores para classif icar a intensidade de sua dor. Utiliza-se geralmente uma régua de 0 a 10 cm e não devem constar números nesse intervalo. Escala de Descritores Verbais Nessa escala pode-se solicitar à pessoa com ferida que informe o signif icado de sua dor, fornecendo-lhe cinco descritores como opções. Escala com descritores visuais Conhecidas como Escala Facial de Dor ou Escala de Faces de Wong-Baker, são compostas por em torno de 6 a 8 expressões faciais que indicam a intensidade da sua dor. Podem ser numeradas, sendo mais utilizadas para crianças. O prof issional de saúde também pode avaliar a intensidade e impacto da dor observando-se a presença de sintomas orgânicos comuns àqueles que sof rem com a mesma, são eles: 2 3 4 82 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Dor Orgânica Perda de sono Taquicardia Posição Antálgica Redução da Mobilidade e Atrofias Sudorese A avaliação da ferida deve conter Dificuldade de Concentração Cansaço e Alteração de Humor Fácies de Dor Figura 1.28 - Sintomas Clínicos Relacionados à Presença de Dor (Dor Orgânica) Quadro 1.7 - Escalas de Avaliação Multifuncional da Dor Importante: alguns destes sinais podem estar ausentes em pessoas com dor crônica. Existem ainda várias escalas multidimensionais que podem ser aplicadas conforme a necessidade dos casos no cotidiano das práticas. Tais escalas avaliarão, além da intensidade da dor os demais aspectos que fazem parte desse sinal. Pode-se citar o Inventário Inicial de Avaliação da Dor, o Inventário Breve de Dor, o Diagrama Corporal de Localização e Distribuição Espacial da Dor, a Escala de LANSS e o Questionário McGill de Dor, sendo esse último um dos mais utilizados por ser f idedigno, válido, sensitivo e preciso.7,8 Escalas de Avaliação Multifuncional da Dor Questionário McGill avalia as qualidades sensoriais, afetivas, temporais e miscelânea da dor. Apresenta em seu escopo uma avaliação da distribuição espacial e da intensidade da dor (“sem dor” até “cruciante”). Escala LANSS um instrumento capaz de distinguir com boa confiabilidade uma dor de predomínio nociceptivo, neuropático ou misto. Acesse Aqui Acesse Aqui https://www.scielo.br/pdf/reeusp/v30n3/v30n3a09.pdf http://www.as.saude.ms.gov.br/wp-content/uploads/2016/04/Escala-de-dor-LANNS-E-EVA.pdf 83 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Figura 1.29 - Padrões Mínimos Necessários para a Avaliação da Dor Fonte: LOPES; SILVA; YAMADA (2016). Além desses, tem-se escalas que podem ser utilizadas em pacientes com dif iculdade de comunicação, em que se observam características comportamentais e f isiológicas. Aqui pode-se citar a Escala Comportamental de Dor e a Escala de Avaliação de Dor em Demência Avançada – PAINAD, adaptada para a utilização no Brasil.2 A documentação da avaliação da dor é fundamental para a prescrição terapêutica e avaliação do resultado do tratamento destinado à pessoa com ferida. A história clínica deve ser detalhada, com informações precisas relacionadas com possíveis mecanismos explicativos da dor, sejam eles orgânicos ou psigogênicos. Essas informações devem ser claras, seguindo um padrão mínimo (Figura 1.29).9 Quando iniciou a dor? De que forma apareceu? H IS T Ó R IA D A D O R A dor é contínua? Ou intermitente? Qual o período do dia que ela piora? Como é sua dor? Qual a intensidade e o local? Que fatores aliviam e quais pioram a dor? 84 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Tratamento / Manejo da Dor Após classif icar e avaliar as características da dor, bem como quantif icar a sua intensidade e analisar sua etiologia, o prof issional de saúde deve intervir de forma a eliminar ou reduzir esse sinal, que se mostra tão prejudicial para a qualidade de vida das pessoas com lesão crônica. Nesse sentido o controle da dor deve ser realizado antes, durante e após a realização do curativo, uma vez que a dor pode ser mais intensa durante o procedimento. Logo, é necessária a manipulação cuidadosa da lesão e das estruturas adjacentes para evitar a sensação de dor. Acolher a insegurança da pessoa que tem ferida, seu medo antes da manipulação da lesão, garantindo que serão tomadas todas as medidas necessárias para evitar a dor, também é fundamental. Também é possível orientar o uso de analgésico, conforme prescrição, cerca de meia hora antes do procedimento. Pode-se também agendar conforme o horário do efeito de ansiolíticos, para aqueles que possuem essa prescrição.8 O tratamento da dor pode ser mais ef icaz quando são associadas medidas farmacológicas e não farmacológicas. Sendo assim, o tratamento deve ser realizado de forma global a não apenas tratar a dor no local da lesão, mas envolver abordagens psicológicas e sociais.10 Uma das medidas é utilizar coberturas que proporcionem conforto e que possam ser trocadas em intervalos maiores. Além disso, garantir a autonomia da pessoa com ferida para que a mesma comunique a necessidade de modif icação de condutas que possam causar dor.8 Outros cuidados importantes referentes ao procedimento é não realizar a f ricção no leito da lesão com gazes, não retirar a cobertura anterior de forma abrupta sem umedecê-la adequadamente com solução aquecida, evitar utilizar coberturas aderentes ao leito e não manter por muito tempo a ferida exposta, pois causa ressecamento das estruturas nervosas, consequentemente essas ações levarão à exacerbação da dor.8 85 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Medidas Não Farmacológicas Existem inúmeras medidas não farmacológicas para o controle da dor, tais como: Acupuntura Estimulação de pontos pré-determinados do corpo com agulhas esterilizadas. A acupuntura pode estimular o cérebro a produzir endorf inas. As endorf inas, produzidas naturalmente no cérebro, bloqueiam as sensações de dor e reduzem a inflamação. Deve ser realizada por acupunturista certif icado. Massagens Terapêuticas Promovem o relaxamento, pois através da manipulação, pressão, f ricção ou movimentos de deslizamento dos tecidos ativa a circulação local, levando à sensação de relaxamento e de alívio da dor. As técnicas que se destacam são a massagem sueca, a desportiva e shiatsu , que envolvem mais pressão e, o reikique envolve a passagem, levemente, das mãos sobre o corpo. Além destas, há a Reflexologia, que consiste em massagear pés, mãos ou couro cabeludo, em pessoas debilitadas. A massagem pode ser realizada em áreas próximas à lesão ou em outros locais do corpo como forma de proporcionar o conforto ao individuo, diminuir os níveis de cortisol e adrenalina, melhorar a circulação sanguínea e linfática, além de proporcionar sensações agradáveis. Terapia Mente e Corpo São realizados exercícios f ísicos e mentais focados na postura e meditação, que proporcionam tranquilidade para a mente, ao corpo e ao espírito, além de relaxar e estimular o fluxo sanguíneo. 86 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Musicoterapia Vem sendo utilizada no tratamento complementar da dor crônica, de maneira comprovadamente ef icaz e de baixo custo. É utilizada como estratégia de enfrentamento da dor como uma terapia cognitiva comportamental, mas também é capaz de propiciar o auto conhecimento levando a descobertas das causas dos sof rimentos que geraram a dor. Com isso a musicoterapia propicia a elaboração destes conflitos psíquicos de forma simbólica por meio de “experiências musicais”. As sensações agradáveis podem levar à produção de endorf inas que amenizam a dor.11 Atividade ou Exercício Físico A atividade f ísica regular e orientada, nas suas mais diversas formas como caminhada, natação, musculação, exercícios funcionais, dança, entre outros, melhoram o fluxo sanguíneo, a perfusão tecidual, estimula a liberação de fatores relaxantes derivados do endotélio vascular, reduz a produção de espécies reativas do oxigênio, ou seja, diminui o estresse oxidativo e a dor. Plantas Medicinais e Fitoterapia Na forma de gel, pasta, chás e infusões podem ter ação antinflamatória e analgésica. Acesse a Resolução RDC no 10, de 9 de março de 2010, Ministério da Saúde. Abordagem Acolhedora Atitude dos prof issionais durante a sua intervenção de forma calma, transmitindo conf iança e apoiando a pessoa com ferida e seus cuidadores para o tratamento. Essa postura dos prof issionais da saúde aliviará a ansiedade e trará como resultado o alívio da dor. http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2010/res0010_09_03_2010.html 87 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Terapia com Calor Local ou Frio Quente: Consiste na aplicação de fontes de calor à superf ície do corpo ou aos tecidos profundos. As bolsas quentes, calor por infravermelho, os banhos de paraf ina (cera quente) e hidroterapia (água morna em movimento) são fontes de calor superf icial. O calor pode ser gerado nos tecidos profundos por ondas de som de alta f requência (ultrassom). Frio: A aplicação de f rio pode ajudar a anestesiar tecidos e aliviar espasmos musculares, dor decorrente de lesões e dor decorrente da inflamação aguda. O f rio pode ser aplicado com o uso de uma bolsa de gelo, uma bolsa f ria ou líquidos (como cloreto de etila) que resf riam por evaporação. O terapeuta limita o tempo e a quantidade de exposição ao f rio para evitar danos aos tecidos e redução da temperatura corporal (provocando hipotermia). O f rio não deve ser aplicado aos tecidos com um fornecimento de sangue reduzido (por exemplo, quando as artérias são estenosadas por doença arterial periférica). Outras Medidas Não Farmacológicas Deve-se também utilizar outras formas de intervenção conforme avaliação e indicação para cada caso, tais como a elevação do membro afetado, aquecer o ambiente em estações frias, aquecer as soluções para a limpeza da lesão, remover com cuidado as coberturas, dar preferência para coberturas menos aderentes com uma frequência menor de trocas e manter o cuidado adequado dos tecidos perilesionais. 10 Medidas Farmacológicas Essas medidas se dividem em locais e sistêmicas, com o objetivo de reduzir a dor persistente ou intermitente, sendo os medicamentos sistêmicos mais utilizados do que os tópicos.10 88 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO No tratamento local da dor, a analgesia ocorre com a aplicação de substâncias tópicas nas áreas próximas à lesão, com efeito no tecido alvo e com baixa concentração sérica. Dessa forma, se comparado com o tratamento sistêmico, possui baixos efeitos colaterais. Podem-se citar como exemplos os anestésicos locais, os AINES (anti-inflamatórios não esteróides) e a capsaicina.10 A aplicação dessas formulações é realizada na pele próxima do leito da lesão através de adesivos como patch de lidocaína, Eutectic Mixture of Local Anesthetics (EMLA) e capsaicina creme (analgésico tópico).10 Já no tratamento sistêmico, as opções se dividem em fármacos opioides e não-opioides. Os utilizados para tratamento de dor leve são os não- opioides, sendo os AINES mais conhecidos mundialmente, pois possuem efeito analgésico, anti-inflamatório e antipirético por inibição da síntese de prostaglandinas. Tem-se como exemplos de medicamentos não-opioides o paracetamol, a dipirona e o ibuprofeno.2 Na dor intensa os fármacos opioides são as drogas de escolha, tem-se como exemplos a morf ina, fentanil, oxicodona e tramadol. Esses agem de forma sistêmica, mas também aliviam a dor no local da lesão, por isso sua ampla utilização na prática clínica.10 O tratamento com medicamentos opioides requer acompanhamento rigoroso para que ocorra uma administração segura, uma vez que podem ocorrer efeitos colaterais ou dependência dessas drogas, levando a consequências comportamentais e f ísicas.11 89 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Atenção: O uso de AINE, como o ibuprofeno, retarda o processo de cicatrização e pode causar lesão renal e gástrica. Evite o uso indiscriminado. Acesse: Portaria nº 1083, de 02 de outubro de 2012 - Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas da dor crônica: Acesse Aqui http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2014/abril/02/pcdt-dor-cronica-2012.pdf 90 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Referências MERSKEY, H; BOGDUK, N. Classification of chronic pain: descriptions of chronic pain syndromes and definitions of pain terms. Seattle: IASP Press, 1994. OLIVEIRA, R. G. Blackbook – Enfermagem. Belo Horizonte: Blackbook, 2016. SOUZA, E.; BOPSIN, P. S.; SILVA, S. G. O. Manejo da dor no tratamento de lesões cutâneas. In: TRISTÃO, F. S.; PADILHA, M. A. S. Prevenção e tratamento de lesões cutâneas: perspectivas para o cuidado. Porto Alegre: Moriá. p. 367-389. 2018. ZAKKA, T. M.; TEIXEIRA, M. J.; YENG, L. T. Dor visceral abdominal: aspectos clínicos. Rev. dor, São Paulo, v. 14, n. 4, p. 311-314, 2013. LOPES, J. L.; SILVA, M. A. S.; YAMADA, L. A. P. Avaliação da dor. In: BARROS, A. L. B. L. Anamnese e Exame Físico: avaliação diagnóstica de enfermagem no adulto. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, p. 405-430. 2016. FRUTUOSO, J. T.; CRUZ, R. M. Relato verbal na avaliação psicológica da dor. Rev. Avaliação Psicológica. v. 3, n. 2, p. 107-114, 2004 OLIVEIRA, P. F. T. et al. Avaliação da dor durante a troca de curativo de úlceras de perna. Texto contexto - enferm., Florianópolis, v. 21, n. 4, p.862-869, Dez. 2012. ARAUJO, L. C.; ROMERO, B. Dor: avaliação do 5º sinal vital. Uma reflexão teórica. Rev. dor, São Paulo, v. 16, n. 4, p. 291-296, 2015. PORTO, C. C. Semiologia Médica. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014. BRASIL. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica. Portaria Nº 1083, Brasil: Ministério da Saúde, 2012. CASSILETH, B.; GUBILI, J. Terapêuticas Complementares para a Gestão da Dor. In: KOPF, A.; PATEL, N. B. Guia para o Tratamento da Dor em Contextos de Poucos Recursos. p. 57-63, IASP, 2010. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 11 10 91 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Carine Teles Sangaleti Kelly Holanda Prezotto Lucas de Oliveira Araújo Maria Regiane Trincaus Definição Conhecer o fator causal da lesão é fundamental para selecionar a estratégia de tratamento da ferida. Sem agir nesse fator, a ferida não cicatriza. É importante destacarque, independente da causa de uma ferida, é possível que o processo de cicatrização seja prejudicado e a ferida se torne crônica [rever capítulo sobre fases da cicatrização], mesmo as feridas cirúrgicas e as traumáticas.1 No entanto, as feridas crônicas mais comuns são as de membros inferiores e as lesões por pressão. Sendo asssim, apresentaremos a seguir os tipos mais comuns, segundo sua etiologia. CAPÍTULO 6 CLASSIFICAÇÃO DOS PRINCIPAIS TIPOS DE FERIDAS CRÔNICAS Tipo de ferida Venosa Hipertensiva Hipertensão venosa Hipertensão arterial Arterial Lesão por pressão Neuropática Aterosclerose (estenose ou obstrução arterial) Isquemia, pressão intensa e/ou prolongada Neuropatia diabética, hansênica, polineurites, alcoólica Etiologia Quadro 1.8 - Tipos de Feridas e suas Etiologias 92 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Ferida Venosa É uma lesão ulcerada na pele da perna ou do pé, que ocorre em uma área afetada por hipertensão venosa1, que não cicatriza espontaneamente.2 É um tipo de ferida com frequente evolução crônica e alta possibilidade de recidiva.3 Processo Patológico A hipertensão venosa, geralmente associada à insuf iciência venosa nas pernas, causa uma alteração nos capilares permitindo que o f ibrinogênio extravase para os tecidos. Ocorre também o depósito de f ibrina nos capilares, o que diminui a difusão do oxigênio e de outros nutrientes para a pele. Soma-se a isso o acúmulo de leucócitos que obstruem os capilares, contribuindo para uma isquemia local4 e uma intensa atividade inflamatória nas áreas em que há extravasamento de células sanguíneas no interstício vascular. A inflamação mantida, devido à permanência do estado de estase venosa, promoverá a destruição celular e favorecerá a abertura da ferida. Localização Geralmente localizada no terço inferior, da face interna, da perna nas proximidades da região maleolar.3 Fatores de Risco São fatores de risco para feridas venosas:5 • Idade acima de 55 anos, devido à perda de massa muscular na panturrilha; • História familiar de Insuf iciência Venosa Crônica; • Índice de massa corporal elevado, pois dif iculta o retorno venoso; 93 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO • História de embolia pulmonar; • História de trombose venosa superf icial/profunda; • Extremidades inferiores com pequena massa muscular ou doenças das articulações como anquilose do tornozelo; • Número de gestações; • Histórico familiar de úlceras no tornozelo; • Inatividade f ísica; • História de ferida venosa; • Lipodermatosclerose grave; Manifestações Clínicas Pessoas com feridas venosas apresentam, além dos sinais de insuficiência venosa crônica, lesões com características específ icas que são descritas a seguir: Sinais e Sintomas de Insuficiência Venosa Crônica: Dor, queimação, câimbras musculares, inchaço, sensação de peso ou de latejamento, prurido cutâneo, dermatite ocre, eczema de estase, pernas inquietas, cansaço das pernas e fadiga.4 Geralmente os sintomas são acentuados durante o dia e nos períodos em ortostase, com melhora pela elevação dos membros, com a ativação da musculatura da panturrilha e uso de meias de compressão.5,6 Características clínicas das lesões e pele ao redor: Bordas irregulares, planas ou pouco levantadas, leito superf icial com presença de granulação, esfacelo f ibrinoso, área perilesional apresentando dermatite ocre, lipodermatoesclerose e atrof ia branca (cicatrizes atróf icas esbranquiçadas).7 1 2 94 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Exames Complementares Além da avaliação clínica, alguns exames são fundamentais para o diagnóstico e avaliação da insuf iciência venosa. Entre eles destacam- se a ultrassonagraf ia com doppler, arterial e venoso, para descartar doença arterial associada à insuf iciência venosa. A angiotomograf ia e angioressonância venosa também podem ser indicadas em casos complexos.3 Importante: - As úlceras na perna são geralmente secundárias ao refluxo ou obstrução venosa, mas 20% das pessoas com úlceras nas pernas têm doença arterial, com ou sem distúrbios venosos. 8 - O tratamento de curativo de uma ferida venosa deve agir sobre o fator causal, logo as terapias compressivas ou contensivas são as mais indicadas, associadas ao fortalecimento da musculatura da panturrilha e melhora do padrão global de mobilidade. Fonte: Ambulatório de Feridas da UNICENTRO Figura 1.30 - Ferida Venosa 95 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Ferida Isquêmica Arterial Lesão ulcerativa decorrente do estreitamento progressivo do lúmen do vaso arterial, devido à doença aterosclerótica que leva à obstrução gradual do fluxo sanguíneo. Assim, a ferida arterial aparece em decorrência do déf icit de suprimento sanguíneo local, que leva à isquemia e necrose dos tecidos. Esse tipo de ferida representa 10 a 25% dos casos de feridas. Como seu tratamento é demorado, f requentemente se tornam feridas crônicas.9,10 Fatores de Risco Os fatores de risco incluem a idade acima de 45 anos, tabagismo, diabetes mellitus, hipertensão arterial, hiperlipidemia, hipercolesterolemia, história familiar de doença aterosclerótica precoce, sedentarismo. Manifestações Clínicas Claudicação intermitente (dor na panturrilha ou coxa durante a deambulação que piora progressivamente com o caminhar e melhora com poucos minutos de repouso); Borda demarcada e oculta; não há presença de tecido de granulação viável, leito pálido e/ou necrótico; pouca ou nenhuma exsudação; edema discreto; Melhora da dor com o membro abaixado; Membro empalidece ao ser elevado e f ica enrubescido ao ser posto abaixo; • • • • 96 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO teste de perfusão periférica lentif icado, mais que 3 ou 4 segundos (teste de enchimento capilar dos dedos dos pés); Pulsos f inos ou mesmo ausentes na extremidade inferior (femoral comum, poplítea, tibial anterior e/ou tibial posterior). Avaliação Obrigatória Palpação dos pulsos periféricos dos membros inferiores (femoral comum, poplíteo, tibial anterior e/ou tibial posterior e pedioso); Avaliação do índice tornozelo-braquial (ITB), que é considerado como uma ferramenta de triagem primária; valores entre 1,0 a 1,4 são considerados normais e entre 0,9-0,99 como limítrofes. Valores < 0,9 indicam a presença de doença obstrutiva, enquanto um índice >1,4 é indicativo de incompressibilidade arterial devido à provável calcif icação (veja como calcular o ITB no link da f igura abaixo). • • 1 2 Fonte: Ambulatório de Feridas da UNICENTRO Figura 1.31 - Ferida Arterial 97 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Fonte: http://clinicordismedica.com.br/exames/itb-indice- tornozelo-branquial/ Figura 1.32 - Indice Tornolezelo Braquial (ITB) Exames Complementares Dentre os exames mais indicados, podemos citar a ultrassonografia com Doppler arterial e angiotomografia de membros inferiores. Importante: O tratamento das feridas arteriais exige uma abordagem multidisciplinar. É necessário garantir um fluxo sanguíneo adequado, o que muitas vezes implica uma intervenção cirúrgica. A pessoa com ferida deve ser encorajada a adotar e manter um estilo de vida saudável, pois essas alterações irão ajudar no controle de fatores que levam à arteriopatia, como a diabetes, a hipertensão arterial e o tabagismo e, com isso, melhorar a perfusão dos tecidos. http://clinicordismedica.com.br/exames/itb-indice-tornozelo-branquial/ http://clinicordismedica.com.br/exames/itb-indice-tornozelo-branquial/ 98 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Ferida Neuropática É a ferida causada por uma neuropatia periférica, ou seja, pelo mau funcionameto de um nervo periférico sensitivo, motor ou misto.11 Logo, esse tipo de ferida é decorrente de alterações sensitivas, motoras e tróf icas consequentes da neuropatia.12,13 Causas Uma neuropatia pode ser causada em decorrência de diabetes mellitus, hanseníase, uso crônico e abusivode álcool, por medicamentos, e por agravos neurológicos como espinha bíf ida, neuropatia hereditária sensorial e motora. 14, 15, 16 Etiopatogenia e Sinais Clínicos Neuropatia Sensitiva: Observa-se uma redução da sensibilidade propioceptiva e somestésica e isso favorece microtraumatismos, traumatismos repetidos e queimaduras. A deformidade de áreas que sof rem contínuas lesões, também é um dos sinais da neuropatia sensitiva. Neuropatia Vegetativa: A disfunção autonômica resulta em pele seca e atrof ia da pele e das glândulas sudoríparas e sebáceas, com predisposição a eczemas, infecções e hiperqueratose. Além disso, ocorre alteração na microcirculação causando sinais clínicos como hiperfluxo sanguíneo, fluxo diastólico permanente, abertura de shunts arteriovenosos levando, por exemplo, à condição de pé quente e seco. 1 2 99 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Neuropatia Motora: A alteração da inervação motora causa atrof ia com alteração na musculatura intrínseca dos pés, tornozelos, pernas e mãos. Essa atrof ia leva à deformidade, com aumento de carga, principalmente na base dos metatarsos. Pé Neuropático: Pé quente que favorece ao aparecimentode lesão de origem mecânica e térmica, pouco indolor e de aparecimento espontâneo. Desenvolve-se sob áreas de hiperqueratose, nas extremidades de dedos e sobre a superf ície plantar do metatarso. Para maior detalhamento desta lesão em pé, tão complexa, consulte o Manual do Ministério da Saúde. Neuropatia Hanseniana (Neuropatia Mista): Causadas pelo Mycobacterium leprae, é uma ferida de dif ícil tratamento devido ao comprometimento de mais de um tipo de função neural periférica. Os transtornos tróf icos observados nesse tipo de ferida ocorrem devido à alteração do sistema vasomotor e, como consequência, alteram o sistema tegumentar. O que se observa é uma epiderme f ina brilhante, com f issuras ou bolhas, até surgir a ferida. A lesão do nervo tibial posterior leva à paralisia dos músculos intrínsecos do pé, hipoestesia ou anestesia plantar, alterações simpáticas vasculares e das glândulas sudoríparas. 13, 14 A úlcera neuropática típica é o mal perfurante plantar, que ocorre em áreas de pressão, em geral embaixo de calosidades.17 A ferida é profunda, indolor e de bordos calosos. O mal perfurante plantar ocorre f requentemente na neuropatia por hanseníase e diabetes. 3 4 5 http://www.as.saude.ms.gov.br/wp-content/uploads/2016/06/manual_do_pe_diabetico.pdf http://www.as.saude.ms.gov.br/wp-content/uploads/2016/06/manual_do_pe_diabetico.pdf 100 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Complicações • Destruição indolor dos ossos e das articulações, causando o pé de Charcot. Ocorre mudanças na arquitetura dos pés e cria outras áreas de alta pressão; • Osteomielite e infecções bacterianas de partes moles. Exames Complementares Teste de monofilamento de Semmes–Weinstein. A não detecção do monofilamento laranja de 5.07 (10g), na região plantar, indica perda da sensibilidade protetora com risco para ulceração.17 Radiograf ias para avaliação da parte óssea, principalmente em caso de feridas profundas.18,19 Figura 1.33 - Ferida por Neuropatia Sensitiva Figura 1.34 - Pé Diabético Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. 101 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Lesão por Pressão O termo Lesão por Pressão (LP) substituiu o termo Úlcera por Pressão, e é definido como dano na pele e/ou tecidos subjacentes, que ocorre em pele íntegra ou como úlcera aberta. 20,21,22,23 Causas A LP resulta da pressão intensa e duradoura em locais de proeminências ósseas em combinação com fricção e cisalhamento, o que leva à deformação das células e, f inalmente, morte celular. A pressão aplicada sobre os tecidos moles a um nível superior ao encontrado nos vasos sanguíneos pode causar isquemia e edema e, f inalmente, ferimentos. A pele é mais resistente à pressão do que o músculo, às vezes mascarando uma lesão mais profunda. 19 Existem três principais fatores de risco para o aparecimento da LP: • Imobilidade ou atividade reduzida; • Perda de perfusão sanguínea; • Pele frágil. Por tais motivos, os idosos também estão mais propensos ao desenvolvimento de LP.21 Assim como pessoas com déficit de mobilidade, morbidades cardiovasculares, renais, pulmonares, urinárias, endócrinas, demências, desnutrição e sepse.22,25,26 102 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Estágios e Classificação de Lesão por Pressão De acordo com a recente classif icação da National Pressure Ulcer Advisory Panel 27,28, as lesões por pressão são classif icadas como: Pele íntegra com eritema que não embranquece: Pele íntegra com área localizada de eritema que não embranquece com mudanças na sensibilidade, temperatura ou consistência (endurecimento). Perda parcial da espessura da pele com exposição da derme: Perda da pele em sua espessura parcial com exposição da derme. O leito da ferida é de coloração rosa ou vermelha, úmido e pode também apresentar-se como uma bolha intacta (preenchida com exsudato seroso) ou rompida. O tecido adiposo e tecidos profundos não são visíveis. Tecido de granulação, esfacelo e escara não estão presentes. Geralmente ocorre na região da pélvis e no calcâneo. 1 2 Estágio Estágio Figura 1.35 - LPP de Estágio 1 Figura 1.36 - LPP de Estágio 2 103 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Perda da pele em sua espessura total: Perda da pele em sua espessura total na qual a gordura é visível e, frequentemente, tecido de granulação e epíbole (lesão com bordas enroladas) estão presentes. Esfacelo e/ou escara pode estar visível. A profundidade do dano tissular varia conforme a localização anatômica; áreas com adiposidade signif icativa podem desenvolver lesões profundas. Não há exposição de fáscia, músculo, tendão, ligamento, cartilagem e/ou osso. Perda da pele em sua espessura total e perda tissular: Perda da pele em sua espessura total e perda tissular com exposição ou palpação direta da fáscia, músculo, tendão, ligamento, cartilagem ou osso. Esfacelo e /ou escara pode estar visível. Lesão por pressão não classificável: Perda da pele em sua espessura total e perda tissular na qual a extensão do dano não pode ser confirmada porque está encoberta pelo esfacelo ou escara. Ao ser removido (esfacelo ou escara), pode f icar aparente o Estágio 3 ou Estágio 4. 3 4 Estágio Estágio Figura 1.37 - LPP de Estágio 3 Figura 1.38 - LPP de Estágio 4 Figura 1.39 - LPP Não Classificável 104 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Definições adicionais Lesão por Pressão Tissular Profunda: Descoloração vermelho-escuro, marrom ou púrpura, persistente e que não embranquece. Pele intacta ou não, com área localizada e persistente de descoloração vermelha-escuro, marrom ou púrpura que não embranquece ou separação epidérmica que mostra lesão com leito escurecido ou bolha com exsudato sanguinolento. Dor e mudança na temperatura f requentemente precedem as alterações de coloração da pele. Lesão por Pressão Relacionada a Dispositivo Médico: Essa terminologia descreve a etiologia da lesão. A Lesão por Pressão Relacionada a Dispositivo Médico resulta do uso de dispositivos criados e aplicados para fins diagnósticos e terapêuticos. A lesão por pressão resultante geralmente apresenta o padrão ou forma do dispositivo. Essa lesão deve ser categorizada usando o sistema de classificação de lesões por pressão. Lesão por Pressão em Membranas Mucosas: A lesão por pressão em membranas mucosas é encontrada quando há histórico de uso de dispositivos médicos no local do dano. Devido à anatomia do tecido, essas lesões não podem ser categorizadas. Como avaliar Existem escalas para avaliação de risco de desenvolvimento de LP. Entre elas, a Escala de Braden é muito utilizada no Brasil.29 Trata-se de uma escala que forneceum escore de risco para a ocorrência de LP baseado em seis características: percepção sensorial, umidade, atividade, mobilidade, nutrição e f ricção/ cisalhamento. O escore varia de 6 a 23 pontos e quanto menor a classif icação, maior o risco de ocorrência de uma LP. http://www.hcfmb.unesp.br/wp-content/uploads/2015/09/GuiaRapido.pdf 105 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Como citado nos outros tipos de ferida, é necessário tratar a causa para que ocorra a cicatrização. Assim, no caso das lesões por pressão é fundamental que o prof issional de saúde siga alguns passos para evitar a pressão contínua e o cisalhamento, que são: Avaliar o risco de novas LP, pois essa avaliação ajuda a identif icar as causas; Reavaliar o risco em todos os atendimentos; Inspecionar a pele diariamente; Gerenciar a umidade; Otimizar a nutrição e a hidratação; Minimizar a pressão. Recentemente, a National Pressure Ulcer Advisory Panel 27 instituiu um protocolo para a prevenção de LP subdividido em 5 itens: avaliação de risco, cuidados com a pele, nutrição, reposicionamento e mobilização e educação continuada. Cuidados a serem avaliados diariamente em pacientes hospitalizados ou com mobilidade reduzida. 1 2 3 4 5 6 Figura 1.40 - LPP em Região Sacral Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. https://www.epuap.org/wp-content/uploads/2010/10/Quick-Reference-Guide-DIGITAL-NPUAP-EPUAP-PPPIA-16Oct2014.pdf 106 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Ferida Isquêmica Hipertensiva ou Úlcera de Martorell É uma lesão isquêmica causada pela hipertensão arterial grave, não controlada, que leva à rarefação dos vasos da microcirculação arterial, com consequente isquemia e morte celular. É uma ferida rara de ser encontrada, quando comparada a outras já abordadas, mas sua principal manifestação clínica, a dor, chama a atenção, pois o portador frequentemente procura os serviços de saúde para analgesia.30,31 Causas Esse tipo de ferida surge como consequência da manutenção de valores elavados da pressão arterial, que causa, na microcirculação arterial dos chamados órgãos alvo (cérebro, coração, retina, rins e artérias de membros inferiores), vasoespasmo, hipertrof ia e hiperplasia da camada média, espessamento intimal por hiperplasia do endotélio e acúmulo de material hialino. Todas essas transformações promovem diminuição da luz das arteríolas (pequenos vasos arteriais), privando os tecidos adjacentes de sangue em quantidades ideais para manter a vida celular. Assim, a isquemia leva à morte celular e necrose do tecido.32 Localização As feridas isquêmicas hipertensivas se formam mais comumente no terço inferior da perna, na face lateral desta região, devido ao pobre suprimento sanguíneo e escassa circulação colateral. Também pode ocorrer sobre o tendão de Aquiles. É comum, ainda, o portador apresentar múltiplas lesões. 107 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Características da lesão A lesão inicial é arredondada, de base granulosa ou necrótica na face lateral inferior da perna. Essa lesão pode progredir até aumentar sua extensão, com manutenção da base bem granulosa ou necrótica.33,34 Manifestações clínicas A principal manifestação clínica desta ferida é a dor intensa, desproporcional ao tamanho da lesão. Ocorrem com mais f requência em mulheres de 50 a 70 anos. Os analgésicos comuns geralmente são inef icientes no tratamento da dor neste tipo de lesão. Exames complementares Como a isquemia arterial causa dor devido à falta de suprimento de nutrientes ao tecido, é importante realizar hemograma para afastar anemias severas, que também causam feridas e dor intensa. Também é indicado radiograf ia para excluir a hipótese de ostiomielite e doppler arterial. A avaliação clínica rigorosa para descartar infecção, que também causa muita dor, deve ser realizada. Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. Figura 1.41 - Úlcera de Martorell 108 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Atenção: é comum os prof issionais de saúde considerarem que a manipulação de uma ferida causa a dor e leva ao aumento dos níveis de pressão arterial. Todavia, deve-se considerar que o aumento da pressão arterial por períodos prolongados (a hipertensão descontrolada) causa isquemia na ferida e isso causa a dor devido à injúria (sofrimento) tecidual. Controlar a pressão aliviará a dor. O tratamento desta lesão deve incorporar obrigatoriamente o manejo da hipertensão. As referências internacionais indicam o uso de bloqueadores de canal de cálcio e inibidores da enzima de conversão da angiotensina com vistas à vasodilatação arterial periférica. Não adianta gastar em produtos sem tratar a hipertensão. 109 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO Referências O’DONNELL, T. F. Jr. et al. Society for Vascular Surgery; American Venous Forum. Management of venousleg ulcers: clinical practice guidelines of the Society for Vascular Surgery and the AmericanVenous Forum. J. Vasc. Surg., v.60, n.2, p.3- 59. 2014. Italian College of Phlebplogy. Guidelines for the diagnosis and treatment of chronic venous insufficiency. Int. Angiol., v.20, n.2, p.1-37. 2001. NETTEL, F. et al. Primer consenso latinoamericano de úlceras venosas. Angiol., v.41, n.3, p.95-126. 2013. GLOVICZKI, P. et al. Society for Vascular Surgery; American Venous Forum. The care of patients with varicose veins and associated chronic venous diseases: clinical practice guidelines of the Society for Vascular Surgery and the American Venous Forum. J Vasc Surg., v.53, n.5, p.2-48. 2011. SBACV. Sociedade Brasileira de Cirurgia Vascular. Insuficiência Venosa Crônica: diagnóstico e tratamento. Projeto Diretrizes. 2015. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Manual de condutas para úlceras neurotróficas e traumáticas - Brasília: Ministério da Saúde, 2002. VIVAS, A.; LEV-TOV, H.; KIRSNER, R. S. Venous Leg Ulcers. Ann Intern Med. v. 165, n.3, p.17-32. 2016. NELSON, E. A. Venous leg ulcers. BMJ Clin. Evid., p.2011-1902. 2011. MALAGUTTI, W.; KAKIHARA, C. T. Curativos, estomias e dermatologia: uma abordagem multiprofissional. 2.ed. São Paulo: Martinari, 2011. SBACV. Sociedade Brasileira de Cirurgia Vascular. Doença arterial periférica obstrutiva de membros inferiores: diagnóstico e tratamento. Projeto Diretrizes. 2015. FRYKBERG, R. G.; BANKS, J. Challenges in the Treatment of Chronic Wounds. Adv Wound Care, v.4, n.9, p.560‐582. 2015. AGALE, S. V. Chronic Leg Ulcers: Epidemiology, Aetiopathogenesis, and Management. Ulcers, v. 2013, p. 1-9. 2013. PURI, V.; VENKATESHWARAN, N.; KHARE, N. Trophic ulcers-Practical management guidelines. Indian. J. Plast. Surg., v.45, n.2, p.340–351. 2012. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 110 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO THOMAZ, J. B. Úlceras dos membros: diagnósticos e terapêuticas. 2.ed. Rio de Janeiro: Editora Rubio, 2011. BRASIL. Manual de condutas para feridas neurotróficas e traumáticas. Brasília: 2002. DEMIDOVA-RICE, T. N.; HAMBLIN, M. R.; HERMAN, I. M. Acute and impaired wond healing: pathophysiology and current methods for drug delivery, part 1: normal and chronic wounds: biology, causes, and approaches to care. Adv Skin Wound Care. Philadelphia, v. 25, n. 7, p. 304-14, 2012. National Pressure Ulcer Advisory Panel. Pressure Injury Prevention Points. 2016. RICCI, J. A.; BAYER, L. R.; ORGILL, D. P. Evidence-Based Medicine: The Evaluation and Treatment of Pressure Injuries. Plast. Reconstr. Surg., v.139, n.1, p.275-286. 2017. COLEMAN, S. et al. Patient risk factors for pressure ulcer development: systematic review. International Journal of Nursing Studies, v.50, n.7, p.974- 1003. 2013. CUSHING, C. A.; PHILLIPS, L. G. Evidence-based medicine: Pressure sores. Plast Reconstr Surg., v.132, p.1720–1732. 2013. KAEWPRAG, P. et al. Predictive models for pressure ulcers from intensive care unit electronic healthrecords using Bayesian networks. BMC Med Inform Decis Mak. v.17, n.2, p.81-91. 2017. TAYLOR, C. Importance of nutrition in preventing and treating pressure ulcers. Nurs Older People. v.29, n.6, p.33-39. 2017. THOMAZ, J. B. Úlceras dos membros: diagnósticos e terapêuticas. 2.ed. Rev. Ampl.Rio de Janeiro: Editora Rubio, 2011. MATOZINHOS F. P., et al. Fatores associados à incidência de úlcera por pressão durante a internação hospitalar. Rev. esc. enferm. USP. 2017. MOORE, Z.; JOHANSSEN, E.; VAN ETTEN, M. A review of PU prevalence and incidence across Scandinavia, Iceland and Ireland (Part I). Journal of Wound Care., v.22, n.7, p.1-7. 2013. WHITTY J. A.; et al. The cost-effectiveness of a patient centred pressure ulcer prevention care bundle: Findings from the INTACT cluster randomised trial. Int J Nurs Stud. v.27, n.75, p.35-42. 2017. 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 14 111 MÓDULO 1 - DEFINIÇÕES E GUIAS PARA AVALIAÇÃO National Pressure Ulcer Advisory Panel. New 2014 prevention and treatment of pressure ulcers: Clinical practice guideline. 2014. SERPA, L. F.; SANTOS, V. L. C. G.; CAMPANILI, T. C. G. F.; QUEIROZ, M. Validade preditiva da Escala de Braden para o risco de desenvolvimento de úlcera por pressão em pacientes críticos. Rev Latino-Am Enfermagem. v.19, n.1, p.50-57. 2011. AYELLO, E. A.; LYDER, C. H. A new era of pressure ulcer accountability in acute care. Adv Skin Wound Care., v.21, p.134–42. 2008. MANSOUR, M.; ALAVI, A. Martorell ulcer: chronic wound management and rehabilitation. Chronic Wound Care Management and Research. v.6, p.83-88. 2019. CONDE MONTERO, E. et al. Martorell Hypertensive Ischemic Ulcer Successfully Treated With Punch Skin Grafting. Wounds. v.30, n.2, p.E9-E12. 2018. LIMA, A. P. et al. Martorell’s Ulcer: Diagnostic and Therapeutic Challenge. Case Rep Dermatol., v.7, n.2, p.199–206. 2015. SHELLING, M. L.; FEDERMAN, D. G.; KIRSNER, R. S. Clinical approach to atypical wounds with a new model for understanding hypertensive ulcers. Arch Dermatol. v.146, n.9, p.1026–1029. 2010. FREIRE, B. M.; FERNANDES, N. C.; PIÑEIRO-MACEIRA, J. Úlcera hipertensiva de Martorell: relato de caso. Anais Brasileiros de Dermatologia. v.81, n.3, p.S327-S331. 2006. 28 29 30 31 32 33 34 27 2 Módulo 2 Técnicas, Procedimentos e Produtos 113 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS CAPÍTULO 1 PREPARO DO LEITO DA FERIDA E ESCOLHA DA COBERTURA ADEQUADA Carine Teles Sangaleti Definição Lembram da sigla TIME abordada no Módulo 1? É uma sigla que indica os passos que devem ser seguidos para cuidar do todo, a partir do leito da ferida. A TIME pode ser então considerada uma ferramenta que guia como preparar o leito da ferida de forma a favorecer a cicatrização.1 Assim devemos seguir quatro etapas para preparar o leito da ferida e selecionar os produtos de cobertura para favorecer a cicatrização: • Remover Tecidos desvitalizados - Remover todos os tecidos desvitalizados que são: necrose seca e úmida e esfacelo; - Usar a técnica de desbridamento. • Controle da Inflamação e Infecção - Limpeza; - Uso de surfactante e produtos de cobertura para evitar e diminuir a colonização microbiana e biofilme; - Eliminar toda causa de inflamaçao crônica. • Equilíbrio da Umidade - Manter umidade no leito, sem excessos; - Evitar o ressecamento do leito em toda ferida crônica para promover limpeza, a formação do tecido de granulação e epitelização. • Favorecer a epitelização - Proteger a lesão; - Tratar fatores causais e evitar recidivas; - Alinhar as bordas da lesão ao leito; - Cuidar da pele ao redor e proteger a lesão. T I M E 114 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Remover tecidos desvitalizados A remoção de tecido desvitalizado é obrigatória, mas existem contra indicações para a remoção ambulatorial e em Unidade Básica de Saúde. Saiba mais no capítulo sobre desbridamento. Que tipos de tecidos devemos remover Tecidos necróticos e o esfacelo [ver página 32]. Como remover um tecido desvitalizado e necrótico Para isso emprega-se um procedimento chamado de Desbridamento. Quais as vantagens do desbridamento Retira o tecido não vascularizado, bactérias e células que impedem o processo de cicatrização (carga celular), proporcionando ambiente que estimula o tecido saudável. Ao contário das feridas agudas, que geralmente requerem desbridamento apenas uma vez, se for o caso, feridas crônicas podem exigir desbridamento repetido. Por sua importância e devido aos aspectos legais de cada prof isssão, elaboramos um capítulo específ ico para abordar esse assunto [vá para a página 128]. Controle da Inflamação e Infecção Como já abordado em capítulos anteriores, as feridas crônicas f requentemente apresentam como fator causal o fornecimento insuf iciente de fluxo sanguíneo, com consequente hipóxia tecidual, doenças subjacentes que alteram o padrão metabólico tecidual, e são colonizadas por microrganismos que podem levar à formação de biof ilme.2 1 2 115 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Todos estes fatores causam inflamação contínua, que é deletéria aos tecidos, e favorece a infecção. Assim, para promover o controle da inflamação e evitar a infecção é necessário: rigor no processo de limpeza da ferida, o uso adequado de anti-séptico (surfactante) e o controle dos fatores locais e sistêmicos que comprometem a nutrição tecidual no local da ferida [leia atentamente o capítulo sobre a limpeza da ferida - esse procedimento é fundamental]. Manter equilíbrio da umidade É fundamental manter um nível ideal de umidade na lesão, ou seja, não permitir o ressecamento nem o excesso de umidade. Esse manejo do grau de umidade evita, em casos de excesso, a maceração e a colonização microbiana e, em caso de ressecamento, dor e retardo da epitelização. Na página 169 são apresentadas algumas coberturas indicadas para manejar o exsudado.3 Favorecer a reepitelização Para isso é necessário cuidado especial com as bordas da lesão. Estas devem ser alinhadas ao leito de forma a evitar a colonização crônica e todo tecido desvitalizado, hiperqueratose e tunelização devem ser tratados de forma a favorecer esse alinhamento. Se bordas e leito não estiverem num mesmo nível não ocorrerá a migração das células epiteliais das bordas ao leito da lesão.4 A realização de procedimentos e o uso de produtos inadequados, podem causar lesão ao leito da ferida e essa lesão amplia a inflamação e atrasa o processo cicatricial. Avalie sua conduta para verificar se não é o seu procedimento que está retardando a cicatrização. 3 4 116 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Referências European Pressure Ulcer Advisory Panel and National Pressure Ulcer Advisory Panel. Treatment of pressure ulcers: Quick reference guide. Washington, DC: National Pressure Ulcer Advisory Panel, 2009. HESS, C. T. Clinical Guide to Wound Care. 7º ed. Philadelphia, PA: Lippincott Williams & Wilkins, 2012. KOSIER, B. Fundamentals of Nursing: Concepts, Process, and Practice. 6º ed. Upper Saddle River, NJ: Prentice-Hall, Inc, 2000. OVINGTON, L. G. Hanging wet-to-dry dressings out to dry. Adv Skin Wound Care. v.15, n.2, p.79-84, 2002. 1 2 3 4 Informação fundamental para a prática: Todos os procedimentos, técnicas e produtos para curativo devem ser baseados nas quatro etapas fundamentais para o preparo do leito da lesão, visando sua cicatrização. Por isso lembre-se: Existem muitos produtos e coberturas diferentes no mercado., e muitas outras devem surgir, por isso, para a escolha da cobertura ideal fique sempre atento a essas quatro etapas, ou seja: Se tiver tecido desvitalizado, ou necrótico, é necessário desbridar usando produtos ou técnica instrumental. Isso vale também para as bordas; A limpeza do leito é obrigatória e o uso de surfactantes é indicado em toda ferida crônica para tratar ou evitar a colonização crítica e o biofilme. Existem outros produtos, além dos surfactantes, também destinados a esse fim; O leitoda ferida deve ser mantido úmido, sem excessos. Existem muitos produtos para manejo de exsudato e controle da umidade (lembre das bordas); As bordas da lesão devem ser alinhadas ao leito, por isso existem produtos para serem usados em cavidades e para favorecer a granulação de forma a favorecer esse alinhamento. 117 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS CAPÍTULO 2 TÉCNICA DE LIMPEZA DE LEITO, BORDAS E PELE AO REDOR Alessandra Cristina de Paula Faria Zampier Cristiano Walter de Farias Jessica Rodrigues dos Passos Definição A técnica de limpeza das feridas: apesar de ser um procedimento fácil, a limpeza do leito de feridas é um procedimento muitas vezes banalizado no cotidiano dos serviços. A efetividade do tratamento de feridas depende de uma limpeza bem feita e isso signif ica técnica adequada, não lesiva, fundamentada em princípios de não contaminação e garantia de conforto à pessoa que precisa deste procedimento.1 A técnica de limpeza da ferida tem fundamental importância na reparação tecidual. Sobre a técnica de limpeza Procedimento obrigatório em todo atendimento à pessoa com ferida. Sua f inalidade é: remover resíduos da cobertura anterior, restos celulares, materiais estranhos, tecido necrótico ou desvitalizado, reduzir a quantidade de microrganismos presentes na superf ície da ferida sem causar traumatismos no tecido saudável, tratar qualquer biof ilme residual e evitar sua re-formação. O que limpar: Leito, bordas e pele ao redor.1,2 118 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Como escolher o produto para limpar a ferida O produto ideal é aquele que é hipoalergênico, não tóxico para tecido viável, prontamente disponível, econômico e estável. Esse produto também deve ser: Ef icaz na presença de material orgânico, como sangue, fluidos corporais ou tecido necrótico; Reduzir o número de microrganismos que se formam na superf ície da ferida; Impedir a lesão do tecido (mecânica ou f ísica). Que solução usar e o que não devo fazer O manuseio da ferida deve ser realizado com critério e rigor. Recomenda-se a limpeza por meio da irrigação, com solução f isiológica ou salina de cloreto de sódio a 0,9%, uma vez que esta solução é isotônica, não causa dano tecidual, alergias ou proliferação de microrganismos. A solução f isiológica limpa a ferida, removendo todo o exsudato e resíduo presente, sem traumatizar as células do leito da mesma e, por isso, favorece o processo de cicatrização.3 1 2 3 Atenção: Não é indicada a limpeza mecânica com gaze no leito da ferida, pois esta fricção pode lesar as células recém-formadas, desencadeando reações inflamatórias e assim prejudicar a cicatrização 119 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Etapas do procedimento de limpeza do leito Antes do procedimento em si é fundamental garantir a qualidade do local de realização do curativo e a qualidade do processo de esterilização dos materiais. No esquema com fotos a seguir são demonstradas a forma de organização do local para atender a pessoa com ferida, do carrinho auxiliar, a técnica de abertura de campo, de irrigação do leito, limpeza das bordas da ferida, da pele ao redor e retirada das luvas.4,5 Importante: Percebeu que uma técnica de limpeza mal feita, que não remova as sujidades ou que causa ferimentos no leito pode ampliar a inflamação e favorecer a infecção? Etapa 1 Etapa 2 • Preparo da maca para o atendimento: Realizar limpeza concorrente antes e após cada atendimento. Usar impermeáveis e lençóis individuais, ou seja, realizar a troca a cada atendimento. Atenção ao recepiente para irrigação. Quando o uso da bacia não for possível, use campos cirúgicos ou outro tipo de campo limpo, evitando o contato deste tecido com a lesão. • Preparo e posicionamento do carrinho auxiliar: Após limpeza do carrinho auxiliar, promover o posicionamento adequado dos produtos que serão usados no procedimento. A organização é fundamental para evitar deslocamentos e contaminações. Figura 2.1 Preparo da Maca Figura 2.2 Preparo do Carrinho 120 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Etapa 3 Etapa 5.1 Etapa 4 • Posicionamento da pessoa com ferida: Manter a pessoa em posição confortável, de forma a favorecer a visualização da área. A posição deitada em maca ou no leito é a preferencial, pois favorece a circulação, a visualização adequada da ferida e pele ao redor, reduz a formação do edema e promove o conforto. • Uso do frasco de SF sem a seringa: Técnivas para abrir agulha e o frasco de SF para evitar contaminação. Observe que a face interna do invólucro da agulha é usado para evitar a contaminação da mesma. • Abertura do campo de curativo: Respeite sempre os princípios da não contaminação do campo. Figura 2.3 Posicionamento do Paciente Figura 2.4 Abertura do Campo Estéril Figura 2.5 Abertura da Agulha 121 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Etapa 7 Etapa 8 • Técnica de irrigação sem seringa: Proceder a irrigação da ferida com a solução salina aquecida utilizando seringa sem agulha, ou a agulha inserida de forma estéril no frasco de soro, aplicando pouca força a uma distância de 15cm da ferida, buscando minimizar o trauma tecidual. Essa técnica é aplicável em leitos sem necrose ou esfacelo. • Tecnica de irrigação com seringa: Proceder a irrigação da ferida com jato de solução salina aquecida utilizando seringa com agulha ou pressão manual do frasco perfurado com agulha de grosso calibre (40 x 12 ou 25 x 8 mm), a uma distância de 15cm da ferida, buscando aumentar a efetividade da remoção de detritos e/ou população microbiana. A irrigação pode ser realizada com pressão variada, várias vezes, até a completa retirada de detritos e microrganismos. Figura 2.8 Técnica de Irrigação Figura 2.9 Técnica de Irrigação com Seringa Etapa 5.1 Etapa 6 • Uso do frasco de SF com a seringa: Técnica para abrir a seringa de 20 ml e o frasco de SF para evitar contaminação. • Retirada do Curativo: Realizar irrigação prévia, usar luvas de procedimento. Use um par de luvas para retirar o curativo, e outro par para realização do novo. Figura 2.6 Abertura da Seringa Figura 2.7 Retirada do Curativo 122 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Etapa 9 Etapa 10 • Limpeza das bordas da ferida: Remover tecido necrótico, crostas e esfacelos. Remover a hiperqueratose para corrigir bordas salientes que podem abrigar microrganismos e favorecer a formação do biofilme. Garanta que as bordas se alinhem com o leito da ferida para facilitar o avanço epitelial e contração da ferida. • Limpeza da pele ao redor: Promover a limpeza com gaze e solução fisiológica, evitando a entrada de soução da pele ao redor no leito. Promova a limpeza numa área de 10 até 20 cm da lesão. Figura 2.10 Limpeza das Bordas Figura 2.11 Limpeza da Pele Etapa 11 • Aplicação de surfactante solução ou gel: Por irrigação ou uso de gel mantendo o contato no leito em gaze por 15 minutos ou ainda usar a solução em gel, após a limpeza com SF aquecida como cobertura primária. Figura 2.12 Aplicação de Cobertura 123 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Considerações sobre o procedimento de irrigação com Solução Fisiológica (Cloreto de sódio 0,9%) A limpeza da ferida por meio da irrigação com solução f isiológica pode ser realizada de diversas maneiras, considerando o tipo de tecido presente na lesão.6 A temperatura ideal da solução salina para a irrigação da ferida deve ser em torno de 37ºC, uma vez que a divisão celular no organismo humano ocorre à temperatura f isiológica de 37°C. Após a limpeza, a ferida demanda de 30 a 40 minutos para retornar a essa temperatura e de três a quatro horas para atingir a velocidade normal de divisão celular. Portanto, para preservar o processo celular, é importante manter a temperatura em torno de 37°C, justif icando o uso de solução salina aquecida. A força hidráulica empregada na irrigação, que determina a remoção de detritos e bactérias, é mais efetiva utilizando-se seringa com agulha.Pressões inferiores a 8 psi podem não realizar uma limpeza adequada em feridas infectadas, com tecido necrótico ou esfacelo. Porém, a pressão excessiva pode lesar células recém-formadas, sendo contraindicada em feridas com tecido de granulação (usar irrigação com agulha, sem seringa - ver fotos acima).6 Para uma limpeza adequada do leito de uma ferida crônica recomenda- se o uso de soluções surfactantes para conter a colonização microbiana. Uso de soluções surfactantes para limpeza de feridas crônicas O uso de antissépticos no tratamento de feridas gera muita polêmica, seja pela manutenção do uso de antissépticos inadequados [veja o capítulo 4 de produtos inadequados] , seja pela dif iculdade de indicar o uso destes produtos corretamente. Assim, as evidências científ icas vêm demonstrando que o uso de soluções surfactantes é indicado para limpeza de todas as feridas crônicas. 124 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Essas soluções, além de terem poder antisséptico e desinfetante, podem remover o biof ilme que é um dos fatores mais prejudiciais ao processo de cicarização numa ferida crônica. Segundo o consenso de antissepsia de ferida, as soluções que contém polihexametileno biguanida (PMHB) e a betaína são as substâncias antissépticas surfactantes mais indicadas.6 Como usar As feridas podem ser irrigadas com a solução surfactante após a técnica de limpeza com irrigação de SF 0.9%, ou podem ser cobertas com gazes esterelizadas irrigadas com a solução de PMHB, deixando-o agir por 15 alguns minutos e, na sequência, retirar a gaze e proceder a aplicação da cobertura selecionada para o curativo. Além destas formas, é possível usar o PHMB em gel, como uma cobertura primária. Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. Figura 2.13 - PHMB em Gel 125 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS O uso de um produto antisséptico, como o PMHB, não exclui os cuidados com a técnica asséptica de curativo e avaliação global da pessoa com ferida. Por isso, antes de usar um antisséptico, as seguintes regras devem ser consideradas: Determine o diagnóstico correto (ou seja, etiologia) de qualquer ferida de dif ícil cicatrização, pois o melhor antisséptico será ineficaz se a causa da lesão, da contaminação ou de uma infecção não for tratada; O uso de antissépticos não substitui limpeza e desbridamento, ao contrário, essas duas ações podem tornar desnecessário o uso de antissépticos. Antissépticos são ineficazes na presença de tecidos desvitalizados e em feridas não limpas; Gerencie qualquer ferida de acordo com sua fase de cicatrização, especialmente no que se refere à técnica e à escolha dos curativos. Cada troca de curativo deve ser feita meticulosamente, seguindo regras antissépticas básicas. Não adianta fazer uma técnica sem seguir regras de assepsia e depois usar antissépico. Nesse caso, a causa da contaminação é a ação do profissional. Além disso, para utilizar os antissépticos da forma correta, é necessário saber sua indicação:7 Prevenção de infecção de feridas agudas, por exemplo, após trauma, mordida ou ferimentos perfuro-cortantes; Prevenção de infecções em feridas pós-cirúrgicas (infecções de sítio cirúrgico) em situações clínicas indicadas como: imunodeprimidos, cirurgias em áreas que aumentam o risco de infecção, implantação de cateteres, sondas e drenos; 1 1 2 2 3 126 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Descolonização de feridas colonizadas com microrganismos multirresistentes; Tratamento de feridas infectadas que apresentam sinais clínicos da infecção; Limpeza de feridas crônicas em ambulatórios, para reduzir a colonização no leito da lesão, especialmente de portadores de lesão crônica que não vinham sendo acompanhados em serviços de saúde qualificados. 3 4 5 Observação: Existem atualmente outros produtos para limpeza das feridas, além da solução fisiológica. Como já descrito existem produtos na forma de gel, espuma, fibras, que também se destinam à limpeza das feridas. Todavia, a limpeza com irrigação com SF 0.9% é uma etapa obrigatória antes de qualquer outro produto. Leia o capítulo sobre produtos e coberturas, mais especificamente no item “indicação”. 127 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Referências BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de condutas para tratamento de úlceras em hanseníase e diabetes. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. 2. ed. Brasília, 2008. PEDRO, I; SARAIVA, S. Intervenções de enfermagem na gestão de biofilmes em feridas complexas. Journal of Aging and Innovation, v.1, n.6, p.78-88, 2012. SANTOS, V; MARQUES, J; SANTOS, A. S; CUNHA, B; MANIQUE, M. Limpeza de feridas crónicas: abordagem baseada na evidência. Journal of Aging and Innovation, v.1, n.4,2012. WOLCOTT, R; FLETCHER, J. The role of wound cleansing in the management of wounds. Wounds International. v.1, n.1, 2014. MURPHY, C. et al. International consensus document. Defying hard-to-heal wounds with an early antibiofilm intervention strategy: wound hygiene. J Wound Care. v.29, n.3, p.S1-28, 2020. KRAMER, A; DISSEMOND, J; KIM, S. et al. Consensus on Wound Antisepsis: Update 2018. Skin Pharmacol Physiol. v.31, n.1, p.28-58, 2018. EBSERH. Procedimento Operacional Padrão – Comissão de Prevenção e Tratamento de Feridas. Coberturas para feridas. EBSERH, 2018. 1 2 3 4 5 6 7 128 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS CAPÍTULO 3 DESBRIDAMENTO Leticia Gramazio Soares Definição Desbridamento é a técnica empregada para remoção de tecido necrótico, desvitalizado, não viável, infectado, biof ilme, crostas, corpo estranho, detritos, calosidades e hiperqueratose do leito da ferida ou pele ao redor com o objetivo de promover a cicatrização.1,2,3,5 Na estratégia TIME, remover tecidos desvitalizados é o primeito item de preparo do leito da ferida. Relevância Além de remover tecidos inviáveis e corpos estranhos, o desbridamento reduz a carga bacteriana e preserva os tecidos viáveis.5 Sendo assim, o desbridamento pode diminuir odor, excesso de umidade, estimular as bordas da ferida e melhorar a qualidade de vida da pessoa com ferida.2 Na realização de um curativo, o desbridamento pode ser um procedimento essencial, uma vez que a presença de tecidos inviáveis pode retardar e prejudicar o processo de cicatrização. A literatura reconhece a importância do desbridamento para o melhor estabelecimento da cicatrização,6,7,8,9,10 sendo considerado um princípio básico no cuidado a feridas.5,10,11 O conhecimento dos métodos disponíveis para desbridamento, vantagens, desvantagens, riscos e produtos é indispensável para definir o que será mais eficiente e adequado para o tipo de ferida e às condições físicas e emocionais da pessoa.5 Esse capítulo tem o objetivo de instrumentalizar o enfermeiro para a tomada de decisão quanto ao desbridamento de feridas.12,13 129 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Por que desbridar tecido desvitalizado do leito e bordas das feridas? Porque a presença de tecidos desvitalizados, necróticos, corpos ou partículas estranhas no leito ou borda da ferida: (i) prolonga a fase inflamatória, fundamental para a reparação tecidual; (ii) inibe a fagocitose; (iii) promove o crescimento de biof ilmes bacterianos, o que aumenta o risco de infecção;10,12,14 (iv) cria uma barreira f ísica na recuperação do tecido de granulação.12 Todos esses fatores alteram o processo de cicatrização. Permanecer na fase inflamatória por um período prolongado é um problema para o estabelecimento da cicatrização8,11,12,14,15 Os tecidos necróticos fornecem um meio de crescimento para bactérias e favorecem a formação de endotoxinas que inibem a migração de f ibroblastos e queratinócitos para a ferida, o que prejudica a formação de tecido de granulação, contração e epitelização.8 Importante: não existe necrose favorável ou “casquinha de ferida” que deva ser mantida. As causas da necrose ou do tecido desvitalizado devem ser encontradas, removidasou tratadas, assim como todo tecido desvitalizado deve ser retirado da lesão. É necessário conhecimento para indicar a melhor técnica de desbridamento, ou seja, os tipos, pois esse conhecimento vai evitar dor, infecções, prolongamento do tratamento e perda da qualidade de vida. 130 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Tipos de desbridamento O desbridamento pode ser realizado de várias maneiras diferentes, a literatura é diversif icada em opções. Avanços tecnológicos têm permitido que os enfermeiros e outros prof issionais de saúde acessem novos métodos de desbridamento que vão desde ultrassom até a utilização de larvas.1,5,6,15 No Brasil, o Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), por meio da Resolução 5015/2015, def iniu quatro tipos de desbridamento, sendo eles: autolítico, instrumental conservador, mecânico e químico.16 É competência específ ica do enfermeiro no cuidado às feridas a execução do desbridamento autolítico, instrumental conservador, químico e mecânico.16 Desbridamento autolítico A autólise é um processo natural que ocorre durante a cicatrização, quando células fagocíticas e enzimas proteolíticas digerem e removem os detritos durante a fase inflamatória.8,15 Esse processo ocorre em todas as feridas, porém, nas crônicas torna-se sobrecarregado por altos níveis de endotoxinas liberadas pelo tecido danificado, sendo necessário o uso de outros métodos de depuração.8 O desbridamento autolítico refere-se ao uso de enzimas próprias do corpo e umidade para reidratar, suavizar e liquefazer tecidos necróticos.17 É promovido pela ação de enzimas lisossomais liberadas pelos macrófagos, neutróf ilos, eosinófilos e basófilos e das enzimas digestivas do próprio organismo.16 Alguns produtos promovem a autólise do tecido necrótico e favorecem o desbridamento autolítico por meio de um método seletivo, no qual o tecido viável é mantido.16 Estes produtos garantem um ambiente propício para a cicatrização, umidade f isiológica e temperatura em torno de 37ºC.4,15 A remoção do excesso de exsudato facilitará o desbridamento autolítico.1 131 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Vantagens Método seletivo, indolor e não invasivo; pode ser usado antes ou entre outros métodos de desbridamento;6,8 Desvantagens Lento; pode levar à maceração da pele ao redor da ferida; potencial risco de infecção;1,6,17 Indicação Quando há uma pequena quantidade de tecido não viável na ferida; pessoas que não podem sofrer desbridamento cirúrgico; crostas, especialmente em feridas isquêmicas; esfacelo seco aderido, úmido, e esfacelo fibrinoso. Contraindicação Em feridas com presença de necrose de coagulação ou escaras; feridas infectadas e com grande quantidade de tecido necrótico;8 feridas isquêmicas nos pés;17 usar com cautela em feridas arteriais.6 Exemplos de produtos Hidrogéis; hidrocolóides; hidrof ibras, f ibras poliabsorventes; espumas hidrofílicas; coberturas à base de mel;5 alginato de cálcio gel [conheça mais sobre estes produtos a partir da página 153]. 132 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Desbridamento instrumental conservador É a remoção seletiva de tecidos necrosados, acima do tecido viável,1 realizada com instrumentos cortantes, bisturi, tesoura ou pinça esterilizados. Não deve ocasionar dor e sangramento.3,5,17 O desbridamento instrumental conservador, como o próprio nome diz, envolve um procedimento que remove apenas tecido desvitalizado e conserva o tecido viável. É diferente do desbridamento cirúrgico, que é indicado em feridas que apresentam extensa destruição de tecido, lesão óssea, muscular ou necrose tissular,16 e é um procedimento médico, realizado em ambiente cirúrgico, sob anestesia.2,5,6,8 O desbridamento instrumental conservador pode ser realizado por enfermeiros, mas exige dos prof issionais competência, conhecimento das estruturas anatômicas e dos riscos, segurança e habilidade para sua realização.5,8,16,17 O reconhecimento de que o procedimento comporta risco de danos a vasos sanguíneos, nervos e tendões e requer um alto grau de habilidade psicomotora é necessário para evitar danos.1,6 Somente deve ser realizado após uma avaliação do leito da ferida, com foco nas estruturas do tecido que deverá ser removido. Isso é vital para evitar lesão traumática.6 Quando houver exposição de estruturas, como vasos sanguíneos, nervos e tendões, não se encoraja realização de desbridamento pelo enfermeiro. Por isso, o COFEN reforça que pode ser empregado em lesões cuja área de necrose não seja muito extensa, que comprometem até o tecido subcutâneo; a analgesia local geralmente não é necessária, visto que o tecido necrótico é indolor.18 133 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS A literatura sugere a utilização de um agente debridante enzimático ou autolítico, antes ou em combinação, com o desbridamento instrumental conservador.13 Vantagens Ser seletivo, remover quantidade maior de tecido necrótico, garante resultados rápidos. 1,5,6 Desvantagens Pode exigir várias sessões, exige exímio domínio da técnica pelo profissional; 5,6 Indicação Feridas com uma camada sólida de tecido necrótico com uma clara linha entre tecido viável e não viável.2 Contra-indicação Ferida tumoral; insuficiência arterial; oxigenação tecidual deficiente; coagulação alterada/risco de hemorragia;5 quando houver presumido envolvimento de estruturas profundas, como vasos, ossos, nervos e tendões.2,5 Desbridamento mecânico Consiste na aplicação de força mecânica diretamente sobre o tecido necrótico, a f im de facilitar sua remoção e promover um meio ideal para a ação de coberturas primárias.16 É o método mais simples para remover os tecidos que causam atraso na cicatrização.7 No entanto, esse método não é seletivo, pois na remoção pode ser removido tanto o tecido desvitalizado como o saudável, prejudicando potencialmente o leito cicatrizante.15,17 Pode ser realizado por f ricção com gaze, irrigação com jato de soro f isiológico a 0,9%; irrigação pulsátil, hidroterapia e curativo úmido-seco.16 134 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Fricção: realizada com gazes ou esponjas umedecidas em soluções de limpeza; indicado em lesões pequenas com áreas de necrose, pode ser dolorosa.5 Não deve ser realizado em leitos de feridas com tecido em granulação.2 Irrigação: realizada com soro morno em jato.5 É um passo na facilitação da progressão da fase inflamatória à proliferativa da ferida ao remover detritos que impedem a cicatrização.18 A pressão do fluido de irrigação é o fator determinante para o desbridamento.19 Irrigação pulsátil: refere-se a uma irrigação de solução estéril aquecida sob pressão de 10-15 psi no leito da ferida, por meio de um dispositivo alimentado por bateria, de modo pulsátil. Promove desbridamento por fluxo contínuo ou intermitente e é recomendada para remover qualquer tecido necrótico, restos de resíduos, especialmente após desbridamento cirúrgico,11 pois retira partículas e coágulos.20 A força da irrigação do fluxo retira também a exsudato, fibrina e bactérias associadas do leito da ferida. • • • Hidroterapia: realizada em tanques com turbilhonamento para tratar grandes feridas no tronco ou nas extremidades, com crosta e/ou secreção espessa, por meio da imersão do local afetado.5 As pressões geradas são difíceis de monitorar e podem resultar em danos nos tecidos de granulação.15 Curativo úmido-seco: envolve a aplicação de gaze embebida com soro fisiológico 0,9% na ferida, a umidade induz a separação do tecido desvitalizado. Depois de seco, o curativo é removido juntamente com o tecido necrótico.15 No entanto, deve ser evitada pois causa dor.15 • • 135 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Importante: Nas técnicas que utilizam soro fisiológico 0,9%, deve-se optar pela solução em temperatura morna, já que a temperatura ambiente altera a temperatura da lesão, retardando a cicatrização. Consulte o Capítulo 2, que trata sobre o assunto. Vantagens Curativoúmido-seco tem baixo custo; hidroterapia remove hiperqueratose da borda da ferida; irrigação pulsátil é de fácil manuseio em áreas pequenas, como mãos e pés.19 Desvantagens Não é seletivo e pode danificar o tecido de granulação; pode ser doloroso e levar muito tempo;1,2,6,8 irrigação pulsátil tem custo elevado;20 no curativo úmido-seco pedaços remanescentes de gaze no leito da ferida podem atuar como corpos estranhos; 2 hidroterapia aumenta o risco de infecção.20 Indicação Eficaz em todos os tipos de necroses, exceto escara seca.17 Contraindicação Feridas com tecido de granulação;8 clientes com distúrbios de coagulação.2 136 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Vantagens É rápido e altamente seletivo e mais conservador do que o desbridamento cirúrgico.8 Desvantagens Pode destruir tecido de granulação, no caso da colagenase; ou ser doloroso, no caso da papaína. Indicação Ferida de pé diabético, excesso de f ibrina; quando o desbridamento mecânico é contraindicado; necrose de liquefação. Pode ser aplicado em necrose seca após umidif icação prévia e técnica de square. Desbridamento químico Também conhecido como desbridamento enzimático. Método no qual são utilizadas enzimas proteolíticas para obter remoção mais rápida do tecido desvitalizado, por degradação do colágeno.8 É semelhante ao autolítico por utilizar enzimas, mas neste caso são usadas enzimas exógenas.5 O desbridamento químico envolve a aplicação de um produto que degrada seletivamente apenas colágeno desnaturado que está ancorado na ferida e não prejudica os f ibroblastos, que são as células responsáveis pela produção de colágeno, elastina e fatores de crescimento essenciais na fase proliferativa do processo de cicatrização8 [Para saber mais sobre os produtos que favorecem o desbridamento químico vá para à página 153 e 169]. 137 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Exemplo de produto Colagenase, papaína, f ibrinolisina, estreptoquinase.2, 5 Desbridar ou não desbridar Há relativamente poucas feridas onde não é seguro desbridar, desde que o método correto seja escolhido. Uma regra geral: se a ferida não for coberta de tecido de granulação, o desbridamento pode ser realizado para progredir para a cura.1 Entretanto, antes de proceder o desbridamento é necessário que o prof issional realize uma adequada avaliação da pessoa com ferida quanto às: condições clínicas, doenças de base, perfusão sanguínea, condição mental e emocional, bem como avalie a necrose com relação ao tipo, quantidade e aderência.3,5 A literatura aponta ainda outros aspectos importantes, tais como: etiologia, tamanho e profundidade da ferida, tecido presente no leito e borda, quantidade de exsudato, presença de infecção, dor, custo, estado nutricional e medicações em uso.2,13,14 Se for necessário rever os aspectos citados acima volte aos capítulos: avaliação global da pessoa com feridas e tipos de feridas. 138 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Condições nas quais não se indica o desbridamento incluem: doente em fase terminal, escara estável no calcanhar, escara seca em membros isquêmicos, na vigência de terapia anticoagulante e distúrbios hemorrágicos.3,5 O desbridamento só deve ser realizado quando houver uma perfusão adequada da ferida, deve-se realizar uma avaliação vascular completa antes do desbridamento em extremidades inferiores para determinar se o suprimento arterial é suf iciente para suportar a cicatrização da ferida desbridada.3 O enfermeiro deve avaliar a ferida e reconhecer os diferentes tipos de necrose para indicar a melhor técnica e produto desbridante, tendo em vista que, para cada tipo de tecido desvitalizado ou necrótico, um produto e técnica específ ica devem ser empregados. Cabe ao enfermeiro e/ou ao médico escolher o melhor método.21,22,23 O enfermeiro deve reconhecer suas habilidades e conhecimentos para tomar decisão quanto à realização ou não do desbridamento. Mas é fato que, se o tecido desvitalizado não for removido, não haverá cicatrização. Além disso, devem sempre consultar o COREN do seu Estado com relação a esta técnica. O excessivo desbridamento pode resultar em uma reinstalação do processo inflamatório com uma consequente piora da ferida, o que adia a cicatrização.8 O procedimento deve ser interrompido quando houver sangramento excessivo.5 Como com qualquer tratamento, é importante explicar o processo à pessoa com ferida e obter consentimento antes de realizá-lo.1,6 É indispensável a aceitação, compreensão e envolvimento da pessoa, familiares e cuidadores.5 Deve-se sempre avaliar se o controle da dor é apropriado para a técnica escolhida, pode ser necessária a indicação médica de analgesia.6 139 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS A cada troca de curativo deve-se reavaliar a ferida para rever a necessidade de continuar ou não o desbridamento. Os resultados devem ser documentados para que possam ser avaliados.1 O desbridamento conservador das feridas do pé diabético e neuropáticas é um procedimento de risco e deve ser realizado com máxima cautela, pois, pela perda de sensibilidade, há maior risco de lesão traumática.24 Para f inalizar, levanta-se um desaf io para os enfermeiros: melhorar o nível de conhecimento e habilidade em desbridamento e aumentar o acesso a materiais, produtos e recursos nos serviços de saúde. Somente assim será possível oferecer assistência de enfermagem qualif icada aos portadores de feridas.24 140 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Referências WOUNDS (UK) EffectiveDebridement in a Changing NHS: A UK Consensus. Wounds UK, London, 2013. EWMA Document: Debridamentanupdated overview andclarificationoftheprinciple role ofdebridement. Journal of Wound Care, vol. 22, n. 1 EWMA Document, 2013. NATIONAL PRESSURE ULCER ADVISORY PANEL (NPUAP). European Pressure Ulcer Advisory Paneland Pacific Pressure Injury Alliance. Prevention and Treatment of Pressure Ulcers: Quick Reference Guide. Emily Haesler (Ed.). Cambridge Media: Osborne Park, Australia, 2014. INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. Tratamento e Controle de Feridas Tumorais e Úlceras por Pressão no Câncer Avançado. Série Cuidados Paliativos, Rio de Janeiro, RJ, 2009. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTOMATERAPIA (SOBEST). Guia de boas práticas preparo do leito da lesão: desbridamento. São Paulo-SP, 2016. LEAK, K. Ten top tips for wound debridement. Wounds International, v. 3, n. 1, 2012. METCALF, D. G.; BOWLER, P. G. Biofilm delays wound healing: A review of the evidence. Burns & Trauma. v. 1, n. 1, p. 5-122, 2013. BROADUS, C. Debridement options: BEAMS made easy. Wound Care Advisor. v. 2, n. 2, p. 15-18, 2013. GETHIN, G.; COWMAN, S.; KOLBACH, D. N. Debridement for venous leg ulcers. Cochrane Data base Syst Rev. Oxford, v. 9, 2015. FRYKBERG, R. G.; BANKS, L. Challanges in the treatment of chronic wounds. Adv Wound Care. Dundee, v. 4, n. 9, 560-82, 2015. JANIS, J.; HARRISON, B. Woundhealing: part II. Clinical applications. v. 133, n. 3, 383-392, 2014. SKRLIN, J . Impact of biofilm on healing and a method for identifying it in the wound. Acta Med Croatica. Zagreb, v. 70, n. 1, p. 29-32, 2016. MCCALLON, S.; WEIR, D.; LANTIS, J. C. Optimizing wound bed preparation witch collagenase enzymatic debridement. J. Am Coll Clin Wound Spec. New York, v. 6, n. 1-2, p. 14-23, 2015. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 141 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS ATKIN L.; OUSEY, K. Wound bed preparation: A novel approach using hydro Therapy. Br. J. CommunityNurs. v. 21, n. 12, p. 23-28, 2016. MCFARLAND, A.; SMITH, F. Wound debridement: a clinical update. Nurs Stand. v. 28, n. 52, p. 51-8, 2014. COFEN. Resolução COFEN no. 0502/2015. Competência da Equipe de Enfermagem no cuidado de feridas. GRAY, D. et al. Consensus guidance for the use of debridement techniques in the UK. Wounds .UK, v. 7, n.1, p. 77–84, 2011. SHETTY, R.; BARRETO, E.; PAUL, K. M. Suction assisted pulse lavage: randomized controlled studiescomparing its efficacy with conventional dressings in healing of chronic wounds. IntWound J, 2012. MARTINS, E. A. P.; MENEGHIN, P. Avaliação de três técnicas de limpeza do sítio cirúrgico infectado utilizando soro fisiológico. Cienc Cuid Saúde. Maringá. V. 12, p. 204-210, 2012. FRY, D. E. Pressure Irrigation of Surgical Incision sand Traumatic Wounds. Surgical infections. v.18, 2017. ONESTI, M. G. et al. Effect of enzymatic debridement with two different collagenases versus mechanical debridement on chronic hard-to-heal wounds. International Wound Journal, 2015. PATRY, J.; BLANCHETTE, V. Enzymatic debridement with collagenase in wound sand ulcers: a systematic review and meta-analysis. Int Wound J. Oxford, 2017. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA DE ATENÇÃO À SAÚDE. DEPARTAMENTO DE ATENÇÃO BÁSICA. Manual do pé diabético: estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – Brasília: Ministério da Saúde, 2016. HAYCOCKS, S.; CHADWICK, P. Debridement of diabetic foot wounds. Nurs Stand. v.26, n.24, p.51-6, 2012. 14 15 16 21 17 22 18 23 19 24 20 142 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Gabriele de Vargas O tratamento das feridas crônicas tem início com a limpeza do ferimento, e deve ser realizada com aplicação de produtos que não causem toxicidade celular e realizem a remoção de materiais estranhos, restos celulares, tecido necrótico e desvitalizado. As coberturas utilizadas não devem ser lesivamente aderentes à pele, devem favorecer o desbridamento autolítico e criar meios adequados para a cicatrização e, ainda, impedir a proliferação bacteriana. Todo produto que não apresente estas condições mínimas exigidas tem seu uso contraindicado. 1,2 São produtos contraindicados: Antissépticos Os resultados de revisões sistemáticas e a publicação do Consenso sobre Antissepsia de Feridas usado nesse capítulo, e demais evidências científ icas, demonstram que vários produtos, ainda comuns na prática prof issional, são contraindicados por prejudicarem o processo de cicatrização, por serem ineficientes ou ainda por serem inativados na presença de matéria orgânica. São eles: 3,4 Polivinilpirrolidona 10% (PVPI – tópico) O antisséptico tópico PVPI é inef icaz na presença de substância orgânica (ou seja, tudo o que há no leito de uma ferida), além de ser tóxico e atuar como inibidor do tecido de granulação. Deve ser utilizado em pele íntegra, e é contra-indicado em feridas abertas, independente da etiologia das mesmas. CAPÍTULO 4 CONTRAINDICAÇÕES NO TRATAMENTO E LIMPEZA DE FERIDAS CRÔNICAS 143 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Sua ação deletéria nos tecidos causa diversos efeitos colaterais como: acidose metabólica, hipernatremia, neutropenia, irritação da pele e membranas mucosas, queimadura, dermatite, hipotireoidismo até o prejuízo da função renal, quando utilizado por longos períodos. O uso do produto é contraindicado por possuir efeito citotóxico sobre as células, causando destruição do f ibroblasto que retarda a epitelização celular e diminui a força tensional da ferida, além de causar reações alérgicas. 3 Clorexidina A clorexidina atua na destruição da membrana citoplasmática das bactérias, atuando como germicida. Porém seu uso não é aconselhado em feridas abertas de nenhuma etiologia, e limita- se sua utilização para áreas de inserção e adjacentes a cateteres (vasculares, diálise), introdutores e f ixadores externos.5,6 Peróxido de hidrogênio (água oxigenada) O peróxido de hidrogênio atua na limpeza mecânica e promove desbridamento devido à ação efervescente, porém causa ulceração tissular no tecido recém-formado. Estudos têm mostrado que o peróxido de hidrogênio atrasa o processo de cicatrização, além de ser citotóxico para os f ibroblastos, devendo então ser evitado para a limpeza de feridas. 7,8 Permanganato de Potássio É contraindicada a utilização de permanganato de potássio em feridas, pois este é tão citotóxico às células quanto os outros antissépticos. O permanganato resseca o tecido, o que impossibilita que o leito da ferida se torne úmido.9,10 144 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Antibióticos Tópicos Aqui podemos citar a neomicina, nitrofurazona, rifampicina, metronidazol, entre outros. O uso de antibióticos tópicos em feridas crônicas na maioria das vezes é inef iciente, pois estes agentes não apresentam penetração tissular satisfatória para causar os efeitos desejados. Seu uso indiscriminado pode favorecer a resistência bacteriana, levando à mudança do perf il de sensibilidade da microbiota presente na ferida, favorecendo assim o surgimento de cepas bacterianas multirresistentes. Também é importante considerar que quando agentes antimicrobianos tópicos são utilizados em feridas limpas e prontas para cicatrizar, estes retardam o processo de cicatrização e não produzem os resultados benéf icos esperados. No caso de infecções nas feridas crônicas deve-se optar pelo uso de antibióticos sistêmicos.11 Açúcar O açúcar é utilizado em feridas há muitos anos, porém existem poucos estudos científicos que descrevam qual o seu princípio de ação em feridas infectadas e colonizadas, que apresentam tecido necrótico e de granulação e suas contraindicações.12,13 Biswas et al (2010) refere que o açúcar tem ação bactericida por proporcionar um meio hiperosmótico, impedindo a proliferação bacteriana. Porém, depois de duas horas em contato com a ferida, perde o poder de alterar a osmolaridade e se transforma em um meio de cultura.14,15,16 O uso de açúcar em feridas é contraindicado, pois favorece a proliferação de infecção na ferida, necessita de trocas diárias constantes e ainda pode atrair insetos como as formigas; além disso, seu efeito esfoliante pode acabar lesando e prejudicando a formação do tecido de granulação da ferida. 17 145 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Corticoides, Éter/Benzina, Lidocaína gel e Vaselina Corticoides Retarda o crescimento tecidual e consequentemente a cicatrização da ferida é prejudicada. Éter/Benzina Tem efeito tissular irritante no tecido perilesão, além de retardar o processo de cicatrização, causa resfriando e desidratação da pele. Lidocaína gel Sua anestesia em feridas abertas não é comprovada e interfere na ação de outros produtos, como os desbridantes. Vaselina Por causar a impermeabilidade da pele, impede o mecanismo de ação de outros produtos e, por não ser garantida sua esterilização, pode favorecer a colonização bacteriana no ferimento. Sabão ou sabonetes É contraindicado o uso de qualquer tipo de sabão ou sabonete no leito das feridas, mesmo que sejam neutros e hipoalergênicos. Tais produtos, quando dermatologicamente testados, podem ser usados na limpeza da pele ao redor da lesão, pois no leito causam irritação, ressecamento e retardam o processo de cicatrização. 16 146 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Lavar a ferida no chuveiro durante o banho Apesar de ainda ser uma indicação comum, esse hábito pode promover a colonização e infecção do leito de feridas crônicas, pois a água do banho vem carregada de contaminações da região genital, anal, axilar e da pele de um modo geral. Por isso o curativo ideal é oclusivo, para proteger o leito da lesão de agressões como esta. 12,13,14 147 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Referências ICARAÍ – FICHA TÉCNICA DE PRODUTO - Iodopovidona 10% (PVP-I Tópico). Contra indica o uso do produtos em ferida abertas. ABRANTES, P. M.; MAGALHAES, S. M. S.; ACURCIO, F. A.; SAKURAI, E. A qualidade da prescrição de antimicrobianos em ambulatórios públicos da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, MG. Ciênc. saúde coletiva [online]. v.13, p.711-720, 2008. FERNANDEZ, R; GRIFFITHS, R. Water for Wound Cleansing. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2010. LEITE, J. Evolução dos Tensoativos Detergentes em Cosméticos. CRQ-IV. Conselho Regionalde Química IV Região (SP) – Minicursos, 2016. LIPSKY, B. A; HOEY, C. Topical antimicrobial therapy for treating chronic wounds. 2009. LISBOA, F. A. et al. Nonsteroidal anti-inflammatory drugs may affect cytokine response and benefit healing of combat-related extremity wounds. Surgery, v.161 , n.4 , p.1164–1173, 2016. SANTOS, E.; QUEIRÓS, P.; CARDOSO, D.; CUNHA, M.; APÓSTOLO, J. A eficácia das soluções de limpeza para o tratamento de feridas: uma revisão sistemática Revista de Enfermagem Referência Série IV. n.8, 2016. THE JOANNA BRIGGS INSTITUTE. Solutions, techniques and pressure in wound cleansing. Australian Nursing Journal. v.14, p.20-23, 2006. THOMAS, G. W. et al. Mechanisms of delayed wound healing by commonly used antiseptics. Journal of Trauma and Acute Care Surgery, v.66, n.1, p.82-91, 2009. VOYLES, B. A.; MCGRATH, C. M. Differential response of malignant BALB/c mammary epithelial cells to the multiplication-stimulating activity of insulin. J. Natl. Cancer Inst. v.62, p.597-604, 1979. ZHU, G.; WANG, Q.; LU, S.; NIU, Y. Hydrogen Peroxide: A Potential Wound Therapeutic Target? Med. Princ. Pract. v.26, n.4, p.301-308, 2017. WILSON, J. R; MILLS, J. G; PRATHER, I. D.; DIMITRIJEVICH, S. D. A toxicity index of skin and wound cleansers used on in vitro fibroblasts and keratinocytes. Adv. Skin Wound Care. v.18, n.7, p. 373-378, 2005. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 148 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS WOLCOTT, R.; FLETCHER, J. The role of wound cleansing in the management of wounds. Products and Technology. Wounds International, v.5, n.3., p.25-31. 2014. SOBENFeE. 1º Recomendação brasileira para o gerenciamento de biofilme em feridas crônicas e complexas. 2018. HEAL, C. F. et al. Topical antibiotics for preventing surgical site infection in wounds healing by primary intention. Cochrane Database of Systematic. v.11. 2016. KRAMER, A. et al. Consensus on Wound Antisepsis: Update 2018. Skin Pharmacol. Physiol., v.31, n.1, p.28-58. 2018. BISWAS, A. et al. Use of sugar on the healing of diabetic ulcers: a review. J. Diabetes Sci. Technol., v.4, n.5, p.1139-45. 2010. 13 14 15 16 17 149 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS CAPÍTULO 5 MALHAS NÃO ADERENTES E GAZE Malhas não aderentes É um curativo primário destinado ao tratamento de feridas constituído por uma malha não aderente de acetato de celulose (Exemplos: Rayon, adaptic, malha não aderente). A celulose é um material que ocorre naturalmente na madeira, algodão, cânhamo e outros materiais à base de plantas, e consiste em repetir unidades de anidroglucose unidas por ß-. O processo para a fabricação de f ilme de celulose a partir de viscose foi descoberto por três químicos ingleses, Charles Frederick Cross, Edward John Bevan e Clayton Beadle, em 1898.1,2 A aplicação mais utilizada de celulose em medicina tem sido como uma membrana no tratamento da insuficiência renal. Porém, o uso de celulose microbiana sintetizada por Acetobacter xylinum é uma ótima opção para a cicatrização de feridas.1,3 Qual sua ação? Promovem a manutenção de meio úmido no leito da ferida e podem conferir proteção. Quando impreganadas por algum composto adjuvante para tratamento, as malhas não aderentes podem desempenhar diversas ações como: ação antimicrobiana, tratamento de biof ilme, redução da dor por evitar a adesão e promover maleabilidade. São comuns no mercado malhas não aderentes impreganadas com prata. Vantagem Não adere como as gazes comuns de algodão, sendo capaz de ser removido facilmente durante as trocas de curativo. Miniminiza a dor e traumas durante o procedimento de remoção do curativo, pois reduz a perda do tecido Pollyanna Bahls de Souza 150 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS recém-formado, o que contribui para o processo de cicatrização. Podem ser recortados para atender à necessidade de diferentes tamanhos, sem provocar o desprendimento de f ilamentos.2 Além disso, podem apresentar mais de uma ação, como a ação antimicrobiana, quando impregnadas com prata ou outro composto.4 Indicação É uma cobertura indicada para uso como curativo primário ou secundário, sobre feridas leves a moderadamente drenantes. Contra-Indicação A depender do composto agregado à malha não aderente podem ocorrer processos alérgicos. Não são indicadas em lesões com exsudação abundante. Figura 2.14 - Malha Não Aderente Figura 2.15 - Malha Não Aderente com Matriz Cicatrizante TLC-AG Figura 2.16 - Malha Não Aderente Impregnada com Prata Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. 151 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Gaze Um dos mais populares curativos para feridas. Começou a ser produzida em 1981 com a f inalidade de servir como curativo cirúrgico a partir de f io de algodão esterilizado.5 Vantagem A gaze tem algumas vantagens: é barata, conf iável, não oclusiva, grande disponibilidade e, principalmente, é altamente permeável e absorvente. Além disso, pode ser usada tanto como cobertura primária como secundária, em feridas infectadas ou não, e de qualquer tamanho.3 Atualmente existem no mercado gazes impregnadas com PHMB, com hidrogel e com produtos f itoterápicos como o aloe vera. Desta forma esse clássico produto de cobertura vem agregando outras propriedades.6 Desvantagem As gazes secas costumam se ligar à superf ície da ferida, causando dor e trauma no momento da retirada de curativo. Tem pouca capacidade de fornecer uma barreira efetiva contra a invasão bacteriana. É permeável a bactérias exógenas e está associada a uma maior taxa de infecção do que com f ilmes transparentes ou hidrocolóides. Nesse sentido, os custos dos curativos com gaze pode ser signif icativamente afetado também, uma vez que requer mudanças com maior frequência, de duas a três vezes ao dia.6 A gaze pode deixar resíduos na ferida, o que pode favorecer a inflamação e a formação de granuloma, e retardar a cicatrização. Atualmente, muitas gazes vêm impregnadas com substâncias distintas a f im de otimizar a cicatrização da ferida.6,7 Figura 2.17 - Gaze 152 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Referências GRASSMANN, A. et al. ESRD patients in 2004: Global overview of patient numbers, treatment modalities and associated trends. Nephrol. Dial. Transplant. v.20, p.2587-2593, 2005. HOENICH, N. Cellulose for medical applications: past, presente and future. Bio Resources. v.1, n.2, p.270-280, 2006. SOOD, A.; GRANICK, M. S.; TAMASELLI, N. L. Wound Dressings and Comparative Effectiveness Data. Advances In Wound Care. v.3, n.8, 2012. BOLTON, L. et al. Wound-healing outcomes using standardized assessment and care in clinical practice. J Wound Ostomy Continence Nurs, v.31, p.65-71, 2004. BROUGHTON, G.; JANIS, J.; ATTINGER, C. A brief history of wound care. Plast Reconstr Surg., p.117, 2006. FONDER, M.A., et al. Treating the chronic wound: A practical approach to the care of nonhealing wounds and wound care dressings. J Am Acad Dermatol., 2008. OVINGTON, L.G. Hanging wet to dry dressings out to dry. Home Healthc Nurse, v.19, p.477, 2001. 1 2 3 4 5 6 7 153 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Papaína O que é papaína: é uma enzima proteolítica capaz de degradar proteínas inviáveis no leito de uma ferida, além de promover a reparação dos tecidos danif icados. É de origem vegetal proveniente do látex das folhas e frutos do mamão verde adulto carica papaya linne. Pode ser encontrada nas seguintes formulações: pura em pó a 100%, na forma de gel ou creme com concentrações que variam de 2 a 10%. 1,2 É um produto reconhecidamente seguro para uso, pois seu efeito proteolítico ocorre apenas sobre necrose e tecido desvitalizado, ou seja, não há riscos da papaína lesar o tecido sadio, de granulação ou epitelização. A papaína acelera o processo de cicatrização por favorecer o desbridamento e ainda tem múltiplas funções úteis ao processo de cicatrização. 2,3 Importante: no tecido sadio, a enzima α 1 antitripisina impede a ação de degradação da papaína,ou seja, a papaína não degrada tecido viável. Diversos profissionais comparam os efeitos da papaína no tecido humano aos efeitos amolecedores em carnes de animais. Mas esses efeitos de quebra de proteínas só ocorrem em tecido desvitalizado. CAPÍTULO 6 POMADAS E HIDROGÉIS Aline Padilha Mattei Carine Teles Sangaleti Lucas de Oliveira Araújo Maicon Henrique Lentsck Vanessa Neroni Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. Figura 1.18 - Papaína em pó a 100% 154 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Ação A papaína apresenta diversas funções, tanto que é usada por dentistas, em formulações cosméticas, na indústria alimentícia e para promover a cicatrização de feridas. Seus efeitos sobre o processo de cicatrização variam conforme sua concentração. Formulações a 2% promovem a granulação e deixam o tecido de granulação mais exuberante, pois a papaína estimula a função dos fibroblastos e a angiogênese. Ainda nessa concentração, estimula a contração da ferida por estimular a diferenciação e alinhamento de fibras de colágeno. Formulações de 6 a 10% são usadas para o desbridamento de todos os tipos de tecidos desvitalizados. Em qualquer concentração, apresenta ainda efeitos anti-inflamatórios e torna o meio desfavorável à proliferação de microrganismos patogênicos devido à sua ação bacteriostática e bactericida. 4 Cuidados na Manipulação A papaína, quando usada na forma de pó, deve ser diluída no momento do uso, em água estéril ou solução f isiológica não aquecida, e em recipientes opacos, não metálicos, pois é inativada na presença de ar ambiente, luz, metais ou composições metálicas, derivados de iodo, água oxigenada e em temperaturas iguais ou superiores aos 30°C. Pelos mesmos motivos, a papaína na forma de creme e gel não deve ser mantida em bisnaga ou sachês metálicos e em temperaturas superiores a 30°C. Deve ser conservada em geladeira e apenas retirada no momento do seu uso. Requer o uso de máscara para não ser inalada.5 Lembre-se que sulfadiazina de prata ou qualquer produto de curativo que contenha prata reduz a atividade da papaína devido à presença desse componente metálico. Indicação A papaína é um dos produtos de curativo mais versáteis, pois pode ser utilizado em qualquer tipo de ferida, limpas, contaminadas ou infectadas, e em qualquer fase da cicatrização. 155 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Possui boa tolerabilidade, respeitando-se as concentrações indicadas, apresenta efetividade comprovada no desbridamento de necrose e esfacelo em diversos estudos que utilizaram este produto, além de possuir um baixo custo de produção.6 Contra-indicação Alergia ao látex; como ela pode causar ardência e dor durante e após a realização do curativo, as reações do portador de feridas devem ser consideradas para indicar ou continuar seu uso. Também é contraindicada em feridas muito exsudativas, pois o exsudato liquefeito com a solução enzimática pode irritar a pele ao redor. Além disso, feridas muito exsudativas não mantêm o produto no leito pelo período necessário à sua ação.7 Desvantagens Pode causar dor, o despreparo prof issional pode prejudicar seu uso, especialmente da forma em pó que deve ser diluída, e requer inúmeros cuidados para sua atividade não ser reduzida ou inativada. Requer cobertura secundária e troca a cada 24 horas. Diluição Concentração 1g + 50 ml 5g + 50 ml 2% 10% 2g + 100 ml 10g + 100 ml 2% 10% Quadro 2.1 - Diluições da Papaína em Pó em Solução Fisiológica ou Água Estéril 156 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Hidrogéis Os hidrogéis amorfos são produtos à base de glicerina e água fabricados principalmente com o propósito de hidratar o leito de feridas. Pode conter em sua composição: alginato de cálcio e sódio, ácidos graxos essenciais, dentre outros compostos. 8,9 Os hidrogéis ajudam a manter um ambiente úmido para a cicatrização da ferida, promovem a granulação e a epitelização, além de facilitar o desbridamento autolítico. Devido ao seu alto teor de água, normalmente não conseguem absorver grandes quantidades de exsudato. 10,11,12 Aplicação O hidrogel deve ser aplicado após limpeza do leito da ferida, aplicando-se uma fina camada sobre a lesão. Em seguida, deve-se inserir uma cobertura secundária estéril não absorvente, como, por exemplo, filme transparente. 9,13,14 Indicação Os hidrogéis são indicados para uso como curativo primário no tratamento de feridas com pouca quantidade de exsudação, como lesões por pressão de estágio 2, feridas dérmicas superf iciais, lacerações na pele, dermatites e feridas com necrose para favorecer o desbridamento autolítico. É indicada também em lesões por queimaduras, e pode controlar o prurido nesse tipo de ferida.15 Contraindicação A aplicação do hidrogel é contraindicada em feridas com exsudação abundante, podendo causar maceração das bordas da lesão. 10 Figura 1.19 - Pomada Hidrogel 157 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Colagenase Agente de desbridamento enzimático seletivo obtido a partir de uma bactéria Gram-positiva (Clostridium histolyticum), que limpa de maneira ef iciente o tecido necrótico da ferida e diminui a carga bacteriana. 17,18 Ação Trata-se de um tratamento tópico que usa enzimas proteolíticas ou proteinases de forma seletiva, pois especif icadamente quebra uma única proteína, o colágeno, componente importante da matriz extracelular, cuja degradação seletiva facilita a cicatrização de feridas. Além da limpeza, a colagenase aumenta a migração e a proliferação de queratinócitos, células endoteliais e f ibroblastos, liberando fatores de crescimento ligados à célula ou à sua superf ície extracelular.19,20,21 Como o tecido necrótico está ancorado à ferida por meio de colágeno desnaturado, a colagenase quebra as f ibras dessa proteína, facilitando a remoção da necrose e a granulação. 20,21 Aplicação A colagenase é aplicada diretamente (produto de curativo primário) no tecido necrótico ou esfacelo da ferida e fornece o desbridamento contínuo, estabelecendo um ambiente na ferida propício para a cura.19 A colagenase pode ser utilizada diariamente, e pode ser aplicada por mais vezes ao dia se houver saturação do curativo. Outro ponto importante é que o leito da ferida deve ser mantido úmido para que a enzima exerça sua atividade biológica, que pode ser obtida por exsudato endógeno ou exogenamente por meio de hidrogel. Em escaras secas, além da manutenção da umidade por meio de hidrogel, esta deve ser escarif icada.22 158 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Para melhor efetividade, a localização da ferida, tamanho e profundidade devem ser considerados; além disso, a escolha correta da cobertura secundária também é de extrema importantância. 22,23 Indicação Este produto é indicado para desbridamento de tecido necrótico, especialmente em situações que contraindicam o desbridamento cirúrgico.24 Contraindicação Não pode ser usada em tecidos viáveis como o tecido de granulação. Não pode ser aplicada juntamente com antimicrobianos que contêm prata iônica, pois esses curativos reduzem sua atividade em 50% e curativos de iodo inibem em 90% a atividade.25, 26 159 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Sulfadiazina de Prata A sulfadiazina de prata é uma combinação do nitrato de prata com a sulfadiazina, que é um agente antibiótico. Com relação ao aspecto f ísico, é um pó branco, inodoro, que sofre alterações na coloração quando exposto à luz devido à oxidação dos sais de prata.27 Atualmente, é um medicamento comercializado na forma de creme, com concentração a 1%, de uso externo, sendo uma opção terapêutica muito utilizada no tratamento de feridas.26,28 Ação Os íons de prata causam a precipitação de proteínas, agindo diretamente na membrana citoplasmática da célula bacteriana, exercendo ação bactericida imediata e ação bacteriostática residual, pela liberação de pequenas quantidades de prata iônica. Tal ação resulta em um amplo espectro de cobertura microbiana,incluindo algumas espécies de fungos, bactérias Gram-positivas e Gram-negativas.29 Aplicação A aplicação deste creme é realizada diretamente na lesão. Após limpeza do leito da ferida e remoção de tecidos desvitalizados, procede-se a aplicação, com técnica asséptica, de uma camada com aproximadamente 5mm de extensão, em toda a ferida. 24,30 A periodicidade da troca é no máximo a cada 24 horas, ou quando a cobertura secundária estiver saturada, a cada 12 horas.27,28 160 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Indicação Conforme publicação da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, a sulfadiazina de prata 1% é um creme indicado para profilaxia e tratamento de infecções em queimaduras e áreas de abrasão em enxerto de pele, além de adjuvante de curto prazo na infecção de feridas de perna e de decúbito.25 Limitações de Uso Sua utilização pode acarretar em leucopenia e, raramente, em reações alérgicas, devido à absorção da sulfadiazina. O uso prolongado dessa substância demonstra um retardo na cicatrização, como um efeito adverso da prata, além de toxicidade renal. 28,31,32 o desaf io na utilização desta classe de produto tópico é manter uma concentração do agente antimicrobiano suf icientemente alta, com uma ação residual suf iciente para que não haja resistência. O creme de sulfadiazina de prata a 1% fornece uma concentração inicial alta de prata (3025 lg/L) porém pouca atividade residual. 32,34,35 Além disso, cabe ressaltar que a sulfadiazina de prata não deve ser aplicada juntamente com a colagenase, nem com a papaína, pois há inativação destes produtos. 35 Atenção: O uso de antibióticos tópicos em feridas crônicas não é recomendado, devido ao desenvolvimento de resistência e sensibilização. 32 161 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Ácido Hialurônico O ácido hialurônico, uma substância endógena, contribui para o processo de regeneração tecidual, aumentando sua concentração plasmática durante o processo de cicatrização de feridas, participando f isiologicamente na renovação tecidual. Seu uso tópico favorece a síntese e atividade de elementos celulares responsáveis pela regeneração cutânea, podendo ser considerado como uma intervenção exógena capaz de reduzir o tempo de reparação de feridas e melhorar a qualidade da epitelização. 36 Ação O ácido hialurônico (HA) mantém o leito da ferida hidratado por sua alta capacidade de ligação à água; facilita o transporte de nutrientes e outras substâncias essenciais para o bom funcionamento das células e tecidos. Contribui para a migração e proliferação de novas células. 36, 37 O HA permite o suporte para as ligações das unidades de proteoglicanos com as f ibras de colágeno, dando forma ao conteúdo que separa células e tecidos, atuando na organização e estrutura do tecido neoformado. 37 O ácido hialurônico e os componentes provindos da degradação celular nas feridas ativam respostas celulares, como a proliferação de f ibroblastos e a formação de novos vasos sanguíneos, migração de neutróf ilos e macrófagos favorecendo a atividade fagocítica dos mesmos, além do aumento em número de miof ibroblastos e f ibroblastos na fase proliferativa da cicatrização, o que favorece o remolde do tecido. 38 No uso tópico, foram detectados níveis plasmáticos moderados de ácido hialurônico, revelando a ação terapêutica a nível local, cuja absorção ocorre no tecido epitelial com permanência máxima neste. 39,40,41 162 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Indicação O ácido hialurônico sintético é indicado para feridas agudas, caso seja necessário acelerar o processo de cicatrização da pele. Pode ser utilizado como adjuvante (em associação com outros produtos como o colágeno, bota de unna, sulfadiazina de prata, AGE, entre outros) ou uso exclusivo no processo de cicatrização de feridas crônicas, como: feridas de estase (venosas e arteriais), lesões de pressão e neuropáticas. 39, 42 Aplicação Deve ser aplicado direto no leito, formando uma camada f ina. O tempo de troca de curativo e reaplicação da substância, indicado pelo fabricante, é de 24 horas. Porém não existe contraindicação da permanência de um tempo maior do produto, visto que ele mantém a umidade do leito. 39,40 Advertências O uso prolongado do creme de ácido hialurônico a 2% pode causar sensibilização da área em que o produto está sendo aplicado. 42 163 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Gel ou creme de cadexômero de iodo Curativo em forma de pomada ou gel castanho-escuro estéril, composto por cadexômero (microgrânulos de amido modif icado), polietilenoglicol, poloxâmero e 0.9% de iodo. Os grânulos de cadexômero são biodegradáveis.34 Ação Remove o excesso de exsudato e f ibrina do leito da ferida e reduz a contaminação bacteriana na sua superf ície, devido à ação antimicrobiana, de amplo expectro, do iodo de liberação lenta. Nesse processo é formado um gel úmido e suave no leito, que ajuda no desbridamento, tornando assim o produto efetivo contra o biof ilme. Diferentemente da clássica apresentação de solução de iodo, o PVP-I, a composição em gel ou creme de cadoxômero com iodo fornece liberação lenta e sustentada, de baixa concentração, deste composto antimicrobiano, de forma a não agredir as células envolvidas no processo de cicatrização.32 Indicação É indicado no tratamento tópico de feridas exsudativas crônicas. Pode ser usado sob terapia de compressão, bem como em feridas infectadas. Sempre que o produto for utilizado em feridas infectadas, a infecção deverá ser inspecionada e tratada de acordo com os protocolos clínicos locais [analisar sinais de infecção sistêmica e sinais de infecção local - Volte à página 36 para recordar]. Esse produto é especialmente indicado para uso em cavidades, pois promove a ação antibacteriana nessa área de dif ícil acesso.32 Figura 1.20 - Pomada de Cadexómero de Iodo 164 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Contraindicação Esse formulação não deverá ser usada em tecidos necróticos secos ou pessoas com sensibilidade conhecida ao iodo ou a qualquer um dos seus componentes. Não deve ser usado em crianças, mulheres grávidas ou que estejam amamentando, nem em pessoas que sofram de insuficiência renal ou com distúrbios da tiróide (ex: tireoidite de Hashimoto ou bócio nodular não- tóxico). Advertências - Há um risco potencial de interação com lítio, resultando numa maior possibilidade de desenvolvimento de hipotiroidismo. - Não deve ser usado concomitantemente com antissépticos mercuriais ou taurolidina. - O médico deve ser informado sobre o uso deste produto caso a pessoa com ferida tenha que realizar testes funcionais da tiróide. - Pode causar uma leve dor passageira, principalmente durante a primeira hora após aplicação. Isso é sinal de que o produto está começando a limpar a lesão. Ocasionalmente, normalmente transitória. Porém, se persistir o enfermeiro deve suspender seu uso. Aplicação Deve ser aplicada uma camada f ina, de até 3 mm, sobre a lesão após a limpeza com solução f isiológica. A aplicação em cavidades pode ser facilitada usando luva estéril, para posicionar melhor o creme ou gel nessas regiões. Não deve ser aplicado na pele perilesão e não deve ser usado próximo aos olhos, nariz, ouvido e boca. Deve ser trocado quando se apresentar saturado de fluidos da lesão e todo iodo tiver sido liberado. Isso é indicado pela perda de cor e em geral ocorre duas a três vezes por semana. 165 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Referências AYELLO, E. A.; CUDDIGAN, J. E. Debridement: controlling the necrotic/ cellular burden. Adv Skin Wound Care., v.17, p.66–75. 2004. SHI, L.; ERMIS, R.; KIEDAISCH, B.; CARSON, D. The effect of various wound dressings on the activity of debriding enzymes. Adv Skin Wound Care. v.23, n.10, p.456-462. 2010. MCCALLON, S. K.; WEIR, D.; LANTIS, J.C. Optimizing Wound Bed Preparation With Collagenase Enzymatic Debridement. J Am Coll Clin Wound Spec., v.15, n.6,p.14-23. 2015. MANDELBAUM, S.H.; DI SANTIS, E.P.; MANDELBAUM, M.H.S. Cicatrização: conceitos atuais e recursos auxiliares - Parte II. Anais Brasileiros de Dermatologia, v.78, n.5, p.521-522. 2003. LEITE, A. P.; OLIVEIRA, B. G. R. B.; SOARES, M. F.; BARROCAS, D. L. R. Uso e efetividade da papaína no processo de cicatrização de feridas: uma revisão sistemática. Rev Gaúcha Enferm., v.33, n.3, p.198-207. 2012. Coren–RO. PARECER TÉCNICO Nº 006/2013 - Referente à solicitação de esclarecimentos sobre as competências dos Enfermeiros para o tratamento de feridas. Segunda Opinião Formativa-SOF-RS-BVS. 17 dez 2008. Em qual tipo de feridas/úlceras está indicado o uso de papaína a 10%. Pode-se utilizá-la em úlcera isquêmica focal. DUMVILLE, J.C.; STUBBS, N.; KEOGH, S.J.; WALKER, R.M.; LIU, Z. Hydrogel dressings for treating pressure ulcers. Cochrane Database Syst Rev., n.2, 2015. MOSTI, G. Wound care in venous ulcers. Phlebology, p.79-85, 2013. REZVANIAN, M.; AHMAD, N.; MOHD AMIN, M. C. Ng SF. Optimization, characterization, and in vitro assessment of alginate-pectin ionic cross-linked hydrogel film for wound dressing applications. Int J Biol Macromol., v.97, p.131- 140, 2017. EDWARDS, J.; STAPLEY, S. Debridement of diabetic foot ulcers. Cochrane Database Syst Rev., 2012. DUMVILLE, J. C.; O’MEARA, S.; DESHPANDE, S.; SPEAK, K. Hydrogel dressings for healing diabetic foot ulcers. Cochrane Database Syst Rev., 2011. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 166 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS TRICCO, A. C. et al. Seeking effective interventions to treat complex wounds: an overview of systematic reviews. BMC Medicine., v.13, p.89, 2015. GETHIN, G.; COWMAN, S.; KOLBACH, D. N.Debridement for venous leg ulcers. Cochrane Database Syst Rev. v.14, n.9, 2015. WU, J. et al. Effective symptomatic treatment for severe and intractable pruritus associated with severe burn-induced hypertrophic scars: A prospective, multicenter, controlled trial.Burns. v.42, n.5, p.1059-1066. 2016. DEMIDOVA-RICE, T. N.; HAMBLIN, M. R.; HERMAN, I. M. Acute and impaired wond healing: pathophysiology and current methods for drug delivery, part 1: normal and chronic wounds: biology, causes, and approaches to care. Adv Skin Wound Care. Philadelphia, v. 25, n. 7, p. 304-14, 2012. LEAPER, D. J. et al. Extending the TIME concept: what have we learned in the past 10 years? Int Wound J. Oxford, v. 9, supl 2: 1-19, 2012. GETHIN, G.; COWMAN, S.; KOLBACH, D. N. Debridement for venous legulcers. Cochrane Database Syst Rev. Oxford, v. 9, 2015. MOTLEY T. A.; GILLIGAN, A. M.; LANGE, D. L.; WAYCASTER, C. R.; DICKERSON JR, J. E. Cost-effectiveness of clostridial colagenase ointment on wound closure in patient swith diabetic foot ulcers: economicanalysis of results from a multicenter, randomized, open-label trial. J FootAnkle Res. London, v. 8, n. 7, 2015. TORRA I BOU, J.; PAGGI, B. La colagenasa y el tecido desvitalizado: en el contexto de la preparación dell echo de laherida. Rev Rol Enf. Barcelona, v. 36, n. 2, p. 109-14, 2013. MCCALLON, S.; WEIR, D.; LANTIS, J. C. Optimizing wound bed preparation witch collagenase enzymatic debridement. J. Am. Coll. Clin. Wound Spec. New York, v. 6, n. 1-2, p. 14-23, 2014. RAMUNDO, J.; GRAY, M. Collagenase for enzymatic debridement, a systematic review. J Wound Ostomy Continence Nurs., v. 36, Suppl 6, p. S4–11, 2009. PATRY, J.; BLANCHETTE, V. Enzymatic debridement with collagenase in wound sand ulcers: a systematic review and meta-analysis. IntWound J., 2017. BALAN, M. Guia terapêutico para tratamento de feridas. 2 ed. São Paulo: Difusão Editora, 2012. BRASIL. Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE). Formulário Terapêutico Nacional, 2010. 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 167 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS FERREIRA, R. R. et al. Gel de plaquetas enriquecido com sulfadiazina de prata e sulfato de zinco. Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, 2017. FRANCO, D.; GONÇALVES, L. F. Feridas Cutâneas: a escolha do curativo adequado. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, n. 35, p. 203-206, 2008. KHORASANI, G. et al. Aloe versus Silver Sulfadiazine Creams for Second-Degree Burns: A Randomized Controlled Study. Surgery Today, Irã, v. 39, p. 587–591, 2009. MOSER, H.; PEREIMA, R. R.; PEREIMA, M. J. L. Evolução dos curativos de prata no tratamento de queimaduras de espessura parcial. Revista Brasileira de Queimaduras, v.12, n.2, p.60-67, 2013. MOSER, H.; PEREIMA, R. R.; SOARES, F. F.; FEIJÓ, R. Uso de curativos impregnados com prata no tratamento de crianças queimadas internadas no Hospital Infantil Joana de Gusmão. Revista Brasileira de Queimaduras, v.13, n.3, p. 147-153, 2014. MURPHY, P. S.; EVANS, G. R. D. Advances in Wound Healing: A Rewiew of Current Wound Healing Products. Plastic Surgery International, 2012. PLOTNER, N. A.; MOSTOW, E. M. A review of bioactive materials and chronic wounds. Cutis. v. 85, n.5, p. 259-66, 2010. RAMUNDO, J.; GRAY, M. Collagenase for enzymatic debridement, a systematic review. Journal of Wound, Ostomy & Continence Nursing. v. 36, p. 4-11, 2009. SCEMONS, D.; ELSTON, D. Nurse to nurse: cuidados com feridas em enfermagem. Editora Artmed: Porto Alegre, 2011. WARRINER, R.; BURRELL, R. Infection and the chronic wound: a focus on silver. Advances on skin & wound care, v. 18 p. 2-12, 2005. BROWN, J. A. The role of hyaluronic acid in wound healing’s proliferative phase. Journal of Wound Care, v.13, n.2, p. 48-51, 2004. BURD, A. Hyaluronan and scarring. In: Garg, H. G. & Hales, C. A. Chemistry and biology of hyaluronan. Elsevier Ltda., 2004. p. 367-394. DALMEDICO, M. M. et al. Hyaluronic acid covers in burn tratment: a systematic review. Rev Esc Enferm USP, v. 50, n.3, p. 519-524, 2016. HYALUDERMIN. Responsável Técnico Dawerson Rodrigues. São Paulo: TRB pharma indústria química e farmacêutica ltda., 2012. Bula de remédio. 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 168 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS VOLPI, N.; SCHILLER, J.; STERN, R.; SOLTÉS, L. Role, metabolism, chemical modifications and applications of hyaluronan. Current Medicinal Chemistry, v.16, n.14, p. 1718-1745, 2009. WEINDL, G. et al. Hyaluronic acid in the treatment and prevention of skin diseases: molecular biological, pharmaceutical and clinical aspects. Skin Pharmacol Physiol, v.17, n.4, p. 207-213, 2004. OLIVEIRA, C. R.; OLIVEIRA, P. G.; GONSALES, D. S.; TRINDADE, C. B. Avaliação in vitro da atividade proliferativa do ácido hialurônico sobre linhagem de fibroblastos dérmicos humanos. Rev enf atual in derme, v.15, n.72, p.62, 2015. 40 41 42 169 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS CAPÍTULO 7 FIBRAS E HIDROFIBRAS Eliane Rosso Saionara Zakrzevski Stoy Os curativos à base de f ibras ou hidrof ibra são curativos de retenção de umidade, que contém em sua fórmula f ibra (não-tecido) hidrocolóide de carboximetilcelulose de sódio, com alterações macro e microscópicas de estrutura, podendo ou não conter prata na formulação. Os curativos contendo prata oferecem uma concentração de 1,2% de prata iônica em sua extensão, com objetivo de controle e/ou prevenção de infecção por bactérias. 1,2,3 Existem no mercado f ibras poliabsorventes com matrizes de cicatrização e tecnologias variadas para controle da colonização crítica e tratamento do biof ilme. São produtos versáteis e representam uma grande evolução do tratamento de feridas complexas.4 Ação As hidrofibras têm propriedade de absorção semelhante à dos alginatos, mas sua capacidade de absorção pode ser até três vezes maior. Promovem a formação de um gel resistente, capaz de manter o exsudato absorvido no curativo mesmo sob compressão. Isso proporciona maior vida útil ao curativo quando em contato com a lesão e a utilização de sua capacidade máxima, diminuindo vazamentos e, com isso, prevenindo a maceração da pele ao redor.5,6,7 Nos curativos de hidrof ibra com prata iônica, oobjetivo é proporcionar, além de ambiente úmido para a ferida, ação contra bactérias de forma prof ilática e/ou terapêutica. Nestes curativos, a prata é liberada de forma lenta e gradual por até duas semanas.4 A nível celular, a prata atua na cadeia de citocromos das bactérias, bem como na replicação do DNA, impedindo sua proliferação; e a hidrof ibra mantém os microrganismos dentro de suas f ibras, diminuindo, ao longo do tempo, a carga microbiana da ferida. 170 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS A hidrof ibra com prata, por sua vez, atua também como debritante químico, com ação de liquefazer o tecido necrótico e desvitalizado, promovendo ganho em todo o processo de cicatrização da lesão.2,1 As matrizes de cicatrização das f ibras poliabsorventes combinam a ação da prata e de partículas lipof ílicas para remoção do biof ilme a tratamento do mesmo. O poder absorvente destas f ibras é conferido pelo poliacrilato de amônio. Aplicação Devem ser aplicadas diretamente no leito da lesão, após limpeza com SF. Alguns tipos de f ibra e hidrofibras também podem ser usados em cavidades (depende do fabricante). Esses tipos de cobertura são maleáveis, se adaptam a qualquer formato de leito, mas o distanciamento da aplicação no leito em relação às bordas também devem seguir as indicações dos fabricantes. Indicação Os curativos de f ibras e hidrof ibra são indicados especialmente para manejo do exsudato e para a manutenção de um grau de umidade ideal no leito das feridas. Quando impregnados com prata ou outro agente antimicrobiano podem ser usados em lesões infectadas ou com risco de infecção. As f ibras com matriz cicatrizante e partículas lipof ílicas são indicadas para o tratamento do biof ilme. As f ibras e hidrof ibras também são indicadas para o desbridamento, pois ao manejarem o exsudato podem favorecer o desbridamento autolítico e, ao desempenhar tal ação, ainda evitam o crescimento microbiano. Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. Figura 1.21 - Fibra Poliabsorvente com Matriz Cicatrizante TLC-AG 171 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS As f ibras e hidrof ibras têm a vantagem de serem utilizadas também em lesões profundas, sendo aplicadas dentro de feridas cavitárias.5,6 Curativos de hidrof ibra com prata têm sido utilizados no tratamento de queimaduras e demonstraram ef icácia contra microrganismos aeróbios e anaeróbios, fungos e bactérias resistentes a antibióticos, além de reduzir a perda de água e a dor, proporcionando maior conforto e cicatrização rápida neste tipo de lesão, culminando em menor tempo de internação, menor custo com cirurgias e efeitos adversos de anestesias.4 Contraindicação A contraindicação deste tipo de cobertura está relacionada principalmente à sua composição, ou seja, alergia aos componentes. As f ibras e hidrof ibras não devem ser usadas concomitantemente a outros produtos no leito, como gel, óleos, outras f ibras, pois isso impossibilita a ação destes compostos. Como toda ferida crônica tem a indicação do uso do surfactante para tratamento e prevenção do biof ilme, antes da aplicação da f ibra ou hidrof ibra, é necessário lavar a lesão com SF, solução de surfactantes e na sequência a aplicação deste tipo de cobertura. Figura 2.22 - Hidrofibras 172 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Alginato de Cálcio Composto de f ibras de ácido algínico (ácido gulurônico e ácido manurônico) extraído das algas marinhas marrons (Laminaria), é biodegradável e amplamente utilizado no tratamento de lesões cutâneas.8 O produto pode ser encontrado em diversas apresentações como em f ibras, placas e gel, o que permite melhor adequação ao tipo de lesão. A caraterística primordial deste produto é a alta capacidade de absorção e não aderência ao leito das lesões e sua capacidade hemostática.9,10 Ação A troca iônica que ocorre entre o cálcio do alginato, o sódio do sangue e o exsudato promove a hemostasia, assim há a absorção do exsudato e como conseqüência da reação é gerado um complexo sódio-cálcio, em forma de gel, que mantém a umidade no local da lesão. Esse processo promove a granulação e auxilia o desbridamento autolítico. A liberação de íons de cálcio leva à ativação plaquetária.3,8 Aplicação A aplicação deve ser direta no leito da lesão, tendo o cuidade de não aplicar o alginato sobre as bordas ou muito rente a essas, pois, por absorver de forma vertical e horizontal, o alginato se expande e pode extravasar nas laterais, ampliar a lesão e macerar a pele circundante. Requer cobertura secundária. Em feridas cavitárias utilizar, preferencialmente, o corte em f ita preenchendo o espaço parcialmente, pois o produto sofre expansão. Os alginatos podem permanecer em feridas por até 7 dias após sua saturação. Para feridas infectadas os curativos de alginato devem ser trocados diariamente. No caso de feridas limpas sangrantes a troca do alginato de cálcio está indicada a cada 48 horas. A cobertura secundária deve ser trocada sempre que houver a necessidade.8,10 173 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Indicação Este produto é particularmente eficaz para absorção do exsudato em feridas exsudativas e com profundidade. Também é indicado nas incisões cirúrgicas, deiscência de feridas e túneis, e o gel para áreas doadoras de pele para enxertos, regiões com tendões expostos e lesões infectadas. Devido às propriedades hemostáticas, são extremamente úteis em feridas que sangram.10 Os curativos em forma de placa são ideais para feridas superf iciais, e em formatos de f itas ou cordões são indicados para feridas profundas e cavidades.10 Destaca-se que é necessário o uso de cobertura secundária associada ao uso do alginato de cálcio e esta cobertura precisa ser escolhida de acordo com o tipo de ferida, pois pode influenciar diretamente nos resultados associados ao uso do alginato de cálcio.8 Assim se recomenda que, para feridas altamente exsudativas, utilize-se uma cobertura que auxilie na absorção, como as gazes; já no caso de feridas com quantidade média de exsudato o uso de f ilme ou espuma pode levar a uma melhor cicatrização.10 Contraindicação Este produto é contraindicado para feridas que não apresentam exsudato, como necrose seca, pois os alginatos prontamente promovem absorção e não têm qualidades de hidratação, e podem ser dolorosos para remover se usados em feridas que apresentam pequenas quantidades de exsudado.3,8,10 Figura 2.23 - Alginato de Cálcio 174 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Referências MOSER, H.; PEREIMA, R. R.; PEREIMA, M. J. L. Evolução dos curativos de prata no tratamento de espessura parcial. Revista Brasileira de Queimaduras, v. 12, n. 2, p. 60-7, 2013. BARNEA, Y.; WEISS, J.; GUR, E.; A review of the applications of the hydrofiber dressing with silver (Aquacel Ag®) in wound care. Therapeutics and Clinical Risk Management, v. 6, p. 21-27, 2010. DABIRI, G.; DAMSTETTER, E.; PHILIPS, T.; Choosing a Wound Dressing Based on Common Wound Characteristic. Advances in Wound Care, v. 5, n. 1, 2014. ALMEIDA, S. A.; MOREIRA, C. N. O.; SALOME, G. M. Pressure Ulcer Scale for Healing no acompanhamento da cicatrização em pacientes idosos com úlcera de perna. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, v.29, n.1, p. 120-7, 2013. RICHETTA, A. G. et al. Hydrofiber Dressing and Wound Repair: Review of the Literature and New Patents. Recent Pantenstd on Inflammation & Allergy Drug Discovery, 2011. SKÓRKOWSKA-TELICHOWSKA, K.; CZEMPLIK, M.; KULMA, A.; SZOPA, J. The local treatment and available dressings designed of chronic wounds. American Academy of Dermatology, 2011. WALKER, M.; PARSONS, D.; Hydrofiber® Technology: its role in exudate management. Wounds uk, v. 6, n.2, 2010. BRASIL, BVS APS Atenção Primária a Saúde. SOF. Como é feito o tratamento de feridas com alginato de cálcio? Telessaúde HC UFMG Minas Gerais, 2017. PINHEIRO, L. S., BORGESI, E. L., DONOSO, M. T. V. Uso de hidrocolóide e alginato de cálcio no tratamentode lesões cutâneas. Rev Bras Enferm., v.5, n. 66, p. 760- 70, 2013. SOOD, A., GRANICK, M. S., L., TOMASELLI N. L. Wound Dressings and Comparative Effectiveness Data. Advances in Wound Care, v.3, n. 8, 2012. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 175 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS CAPÍTULO 8 ESPUMAS E HIDROCOLÓIDES Maria Regiane Trincaus Tatiana da Silva Melo Malaquias Espumas Curativos de espuma são placas comumente compostas por poliuretano, com pequenos poros capazes de reter uma grande quantidade de fluidos, similares a uma esponja. Eles podem ser impregnados ou em camadas, podendo ser combinados com outros materiais. A capacidade de absorção depende da espessura e da composição do curativo específ ico. A área de contato com a superf ície da ferida não adere ao leito, possibilitando uma remoção fácil e atraumática. Os curativos de espuma estão disponíveis na forma de almofada, folha, tira e curativo cavitário, bem como com uma borda adesiva de silicone e/ou um revestimento de f ilme transparente que atua como uma barreira bacteriana.1,2 Ação As espumas proporcionam a absorção do exsudato, transfomando-o em um gel que cria um ambiente úmido que estimula o desbridamento autolítico. Além disso, as espumas são maleáveis e evitam traumas na lesão, além de manter a temperatura ideal para promover o processo de cicatrização. A depender do produto impregnado na espuma outras ações são desempenhadas, como tratamento do biof ilme, ação antimicrobiana, proliferação de f ibroblastos e outras. As espumas também são usadas nos curativos a vácuo que exercem pressão negativa no leito das feridas e com isso potencializam a aborsorção do exsudato. Certamente esse é um tipo de curativo muito versátil e com muitas opções no mercado. 1,2 176 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Indicação Os curativos de espuma são indicados para uso como curativos primários ou secundários em feridas com exsudação mínima ou intensa, como lesões por pressão de estágio 2-4, feridas cirúrgicas e úlceras neuropáticas. Dependendo do produto, curativos de espuma podem ser usados em feridas infectadas, feridas de tunelamento ou feridas cavitárias. Curativos de espuma também podem ser usados para proteger a pele intacta sobre as proeminências ósseas ou áreas de f ricção. Contraindicação As contraindicações variam de acordo com o produto. Os curativos de espuma são geralmente contraindicados para uso em queimaduras de terceiro grau e feridas secas ou não drenantes, a menos que sejam usados para prevenção ou proteção. Além disso, é necessário atentar para o risco de maceração das bordas.3 Aplicação As espumas devem ser posicionadas sobre o leito da lesão, em contato direto para exercer suas ações. Quando possuírem bordas de silicone ou hidrocolóide, tais bordas devem ser aplicadas apenas em pele íntegra, logo isso deve orientar a escolha do tamanho da espuma. Espumas sem bordas aderentes requerem cobertura secundária. A periodicidade depende da instrução do fabricante e saturação da espuma por exsudato, mas geralmente podem permanecer até 7 dias na lesão.4 177 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Hidrocolóides Curativos hidrocolóides são curativos oclusivos ou semioclusivos feitos de gelatina, pectina, polissacarídeos ou carboximetilcelulose sódica (CMC). Os curativos hidrocolóides estão disponíveis em forma de pasta, gel ou placa/folha com uma camada externa de poliuretano ou f ilme (pastas e géis requerem curativo secundário). Esses curativos gelif icam em contato com o exsudato da ferida, proporcionando um ambiente úmido para a cicatrização da ferida e promovendo o desbridamento autolítico. 1,2 Ação Absorve uma grande quantidade de exsudato, mantém a umidade da ferida, liquefaz lentamente os tecidos necróticos. Quando impregnados com prata também exercem ação antimicrobiana. Hidrocolóides com alginato de cálcio tem maior poder de aborção, além de ação hemostática. Por ser um curativo maleável e ter formatos variados, aplicáveis em regiões de dif ícil adaptação de uma cobertura, esse produto reduz os traumas e proporciona conforto por reduzir a sensação de dor.2 Indicação Os hidrocolóides são indicados para uso como curativo primário ou secundário no tratamento de feridas com exsudação leve a moderada, como úlceras dérmicas, lacerações na pele, lesões por pressão ou feridas com tecido necrótico ou descamação. Também é indicado como curativo preventivo para áreas de fricção com alto risco de lesão por pressão.5 Contraindicação Os curativos hidrocolóides são geralmente contraindicados para queimaduras ou feridas secas, feridas com exsudato pesado, feridas 178 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS em túnel ou tratos sinusais, feridas infectadas, feridas com tendão ou osso exposto ou feridas com pele frágil ao redor da ferida. O não conhecimento do produto também pode ser considerado uma contraindicação. Tais coberturas geram um odor discreto e deixam resíduos no leito da lesão, o que pode ser facilmente interpretado, ao olhar de um leigo, como sinal de infecção.5 Aplicação É um tipo de cobertura autoadesiva, de fácil aplicação. Pode ser mantido por um periodo de 5 a 7 dias, minimizando o trauma à pele e a interrupção da cicatrização (dependendo da marca e da indicação do fabricante, ver bula). É fundamental que seja respeitada uma margem de 2 a 3 cm de pele íntegra para f ixação da placa de hidrocolóide, para que não ocorram lesões nas bordas e para garantir a durabilidade indicada do produto. Os hidrocolóides podem ser usados como cobertura primária ou secundária para creme, gel ou f ibras.5,6 Na forma de pasta, o hicrocolóide pode ser aplicado diretamente no leito e em túneis ou cavidades. Os f ilmes têm baixo poder de absorção e são indicados nas fases f inais da cicatrização.6 Importante: Coberturas de hidrocolóide possuem características um tanto quanto singulares, que devem ser levadas em conta no momento da indicação. Dentre elas podemos citar: odor forte, que pode ser erroneamente interpretado por profissionais que não conheçam o produto. Risco de maceração de pele ao redor, se for usado em feridas muito exsudativas, e aumento da possibilidade de infecção por bactérias anaeróbicas, se não tiver um antimicrobiano associado. Por manter o leito úmido, há o risco de estímulo de granulação hipertrófica. 179 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Figura 2.24 - Placas de Hidrocolóide Figura 2.25 - Placas de Espuma Fonte: Ambulatório de feridas da UNICENTRO. Fonte: Cenfe - www.cenfewc.com.br 180 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Referências IRION, G. L. Feridas: novas abordagens, manejo clínico e atlas em cores. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 2012. FRANCO, D; GONÇALVES, L.F. Feridas cutâneas: a escolha do curativo adequado. Revista Colégio Brasileiro de Cirurgiões, v. 35, n. 3, 2008. MANDELBAUM, S.H.; SANTIS E. P.; MANDELBAUM, M.H.S. Cicatrização: conceitos atuais e recursos auxiliares – Parte I. Anais Brasileiros de Dermatologia, v. 78, n. 4, 2003. PINHEIRO, L. S.; BORGES, E. L.; DONOSO, M. T.V. Uso de hidrocolóide e alginato de cálcio no tratamento de lesões cutâneas. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 66, n.5, 2013. POTTER, P.A.; PERRY, A. G. Fundamentos de enfermagem. Rio de Janeiro: Elsevier, 8ª edição, 2013. FRANCO, D.; GONCALVES, L. F. Feridas cutâneas: a escolha do curativo adequado. Rev. Col. Bras. Cir., v.35, n.3, p.203-206, 2008. 1 2 3 4 5 6 181 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS CAPÍTULO 9 BOTA DE UNNA E TERAPIAS COMPRESSIVAS Aline Padilha Mattei Carine Teles Sangaleti Definição Bota de Unna e outras coberturas que proporcionam contenção ou compressão são a melhor escolha para o tratamento de feridas provenientes de estase venosa e linfática de membros inferiores. A bota de Unna é uma bandagem inelástica, impregnada de pasta composta por óxido de zinco e associações. Além da bota de Unna existem terapias compressivas nomercado que associam componente inelástico ao elástico para potencializar o mecanismo de ação destes produtos. 1,2,3 Composição A bota de Unna industrializada está disponível com diferentes composições, sendo o produto comum em todas as formulações o óxido de zinco, podendo conter também: glicerol, álcool ceto-estearílico, óleo de rícino, goma acácia, conservantes, água deionizada, gelatina, calamina, entre outros. As bandagens elásticas e inelásticas comerciais têm composição variada nos tipos de malhas.4 Ação Quando corretamente aplicadas as bandagens oferecem suporte à musculatura esquelética do membro inferior e, desta forma, agem na macrocirculação, favorecendo o retorno venoso. A ação compressiva diminui a pressão tissular, fazendo com que os líquidos acumulados nos espaços 182 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS intersticiais retornem aos sistemas vascular e linfático e, desta forma, favorece a reabsorção do edema, evita sua formação e ainda favorece a circulação venosa local. 1,5,6 As terapias inelásticas, como a bota de Unna, exercem pressão durante a deambulação apenas, e pequena pressão durante o repouso. As bandagens que combinam o componente inelástico ao elástico favorecem a compressão ajustada durante deambulação e repouso. 4 Bandagens multicomponentes são mais efetivas que as monocomponentes. A adequada compressão da perna é essencial na cicatrização da úlcera venosa. 1,2,3,5,7 Considerando as etapas de preparo do leito da ferida crônica, a bota de Unna também pode ser associada a produtos tópicos como f ibras, hidrofobras e outros, com o intuito de tratamento do biof ilme e produtos para desbridamento do leito. Indicação Feridas de etiologia venosa em membros inferiores. Também indicadas às pessoas com feridas crônicas que não conseguem aderir a outros tratamentos de manejo de edema.1,4 Contraindicação As terapias compressivas não devem ser usadas em pessoas que não deambulam, que apresentam o Índice tornozelo-braço inferior a 0,8. Também não devem ser usadas em pessoas que apresentem infecção ativa da lesão e tecidos adjacentes, como é o caso das vasculites infecciosas (erisipela). Também estão contraindicadas nos quadros de insuf iciência cardíaca congestiva, hipertensão arterial descompensada e em quadros sugestivos de trombose venosa.4 183 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Prescrição Antes de decidir pelo uso da bota de Unna ou outra terapia compressiva, o enfermeiro deve realizar a avaliação global da pessoa com ferida, preferencialmente no processo de enfermagem. É necessário ter adequada competência clínica para excluir todas as causas que contraindicam o tratamento, bem como segurança para identif icar as lesões que indicam a terapia compressiva. Aplicação Orientações ao profissional: - A bota de Unna e os outros tipos de terapia compressiva devem ser aplicadas no membro sem edema; ou seja, a pessoa com ferida deve estar em maca para que sejam realizadas manobras para redução do edema, antes da aplicação. Sugere-se a flexão e extensão do tornozelo, drenagem linfática e contração da panturilha. - A pessoa com ferida não deve sentir dor após a aplicação, mas pode sentir leve desconforto por não estar habituada à sensação da compressão. 8 - Não aplique uma terapia compressiva com a pessoa em posição sentada. - Atentar para a indicação do fabricante do produto, pois algumas ataduras devem ser aplicadas com a técnica em oito e outras em espiral contínua; evitar dobras durante o enfaixamento; atentar para alergia aos componentes da bota; - Quanto à troca: Tanto bota de Unna quanto outras terapias compressivas geralmente podem permanecer por 07 dias, sendo o tempo máximo de permanência de 15 dias.4 - Tanto a bota quando outras terapias compressivas são permeáveias à saída do exsudato do leito das lesões, por isso devem ser aplicadas gazes na área externa das faixas. 184 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Orientações ao paciente: - Se a atadura f icar apertada ou desconfortável, orientar o paciente a elevar o membro por 30 minutos, sem comprimir as artérias iguinais. Caso o desconforto não passe, as faixas devem ser retiradas e é necessário procurar o serviço de saúde onde elas foram colocadas. Recomenda-se que as pessoas em uso destas terapias compressivas troquem diariamente o curativo secundário.9,10 Figura 2.26 - Colocação da Bota de Unna Figura 2.27 - Bota de Unna 185 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Referências ABBADE, L. P. F. Diagnósticos diferenciais de úlceras crônicas em membros inferiores. In:MALAGUTTI, W.; KAKIRARA, C.T.;et al. Curativo, ostomias e dermatologia: umaabordagem multiprofissional. São Paulo: Martinari; 2010. ABREU, A. M.; OLIVEIRA, B. R. B. Uso da atadura elástica como terapia compressiva em úlcera venosa: Relato de experiência. RevEnferm Profissional, v.1, n.2, 2014. ABREU, A. M.; OLIVEIRA, B. R. B.; MANARTE, J.J. Treatment of venous ulcers with an unna boot: a case study. Online Braz J Nurs, v.12, n.1, 2013. SCEMONS, D.; ELSTON, D. Nurse to nurse: cuidados com feridas em enfermagem. Porto Alegre: AMGH, ed.1 2011. FRADIQUE, C. et al. Legulcer: conservative treatment. Acta MedPort, v.24, n.1, 2011. MAFFEI, F. H. A. et al. Doenças vasculares periféricas. Rio de janeiro: Guanabara Koogan, v. 2, ed.4, p.1796-814, 2008. O’MEARA, S.; CULLUM, N.; NELSON, E. A.; DUMVILLE, J. C. Compression for venous leg ulcers. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2012. ROBSON, M. C. et al. Guidelines for the treatment of venous ulcers. Wound Rep Reg., v.14, 2006. Carvalho, M. R.; Oliveira, B. G. R. B. Terapia compressiva para o tratamento de úlceras venosas: uma revisão sistemática da literatura. Enf Global, v.45, 2017. SELLMER, D. et al. Expert system to support the decision in topical therapy for venous ulcers. Rev. Gaúcha Enferm., v.34, n.2, 2013. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 186 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Ácidos Graxos Essenciais (AGE) Apesar da prática de utilização dos Ácidos Graxos Essenciais (AGE) para o tratamento de feridas ser muito comum, existem poucos estudos que tratam sobre a sua utilização.1,2 No Brasil muitos profissionais de saúde denominam genericamente de AGEs algumas das apresentações comerciais utilizadas para tratamento de feridas, porém, ao consultar suas formulações, verifica-se presente apenas um AGE, o ácido linolênico. Ressalta-se que até há alguns anos, a Agência Nacional da Vigilância Sanitária (ANVISA), mesmo com alguns estudos descritos, não autorizava registro dos AGEs como produto terapêutico para o tratamento de feridas, sendo a maioria registrada como produto cosmético, portanto sem a indicação para a qual ele é amplamente utilizado. Recentemente a ANVISA passou a autorizar produtos que contém em sua fórmula AGEs para serem utilizados no tratamento de feridas. Ação O produto é originado de óleos vegetais poliinsaturados que apresentam em sua composição ácidos graxos que não são produzidos pelo organismo, tais como: ácido linoleico, ácido caprílico, ácido cáprico, vitaminas A, E, e a lecitina de soja.3 Seu mecanismo de ação é favorável à cicatrização por sua ação bactericida e por sua interferência nas diversas fases do processo cicatricial: aumentam a permeabilidade da membrana celular; facilitam a entrada de fatores de crescimento; promovem a divisão e proliferação celular; estimulam a formação de novos vasos sanguíneos; e são quimiotáxicos para leucócitos. CAPÍTULO 10 OUTROS PRODUTOS Carine Teles Sangaleti Kelly Holanda Prezotto Lucas de Oliveira Araújo Tatiana da Silva Melo Malaquias 187 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Aplicação Aplicar o AGE no leito da ferida ou embeber uma gaze com o produto em quantidade suf iciente para manter a ferida úmida. Aplicar cobertura secundária seca (gaze, chumaço) para manter o ferimento ocluído. A troca do curativo deve acontecer a cada 24 horas ou sempre que a cobertura secundária estiver saturada.3,4O AGE pode ser utilizado em associação a outros produtos de cobertura, como alginato e carvão ativado. A aplicação tópica em pele íntegra tem grande absorção: forma uma película protetora, previne escoriações devido à alta capacidade de hidratação, e proporciona nutrição celular local.4 Indicação Seu uso é variado, podendo ser utilizado na pele íntegra para prevenção de lesões, no tratamento de dermatites e de feridas abertas, como as venosas, e por pressão.3 Contraindicação O uso do produto deve ser suspenso nos casos onde há sinais indicativos de hipergranulação do tecido ou hipersensibilidade ao produto.4 Figura 2.28 - AGE 188 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Carvão Ativado O curativo de carvão ativado é composto por material carbonizado envolto por camada de tecido sem carvão ativado e impregnado com nitrato de prata a 0,15%.5,6 Ação Quando aplicado sobre uma ferida, os curativos com carvão ativado absorvem as toxinas e exsudatos e assim inativam odor. Além disso, o nitrato de prata combate os microrganismos da ferida, reduzindo sua colonização, o que favorece o processo de cicatrização.7,8 Aplicação e indicação A cobertura de carvão ativado deve ser aplicada sobre a ferida após limpeza, retirada do exsudato e tecido necrótico. É indicado em feridas exsudativas, neoplásicas, fétidas e infectadas. Pode permanecer até 07 dias no leito da ferida, a depender da quantidade de exsudato no local. Atenção: o invólucro não deve ser cortado. 7,9,10 Contraindicação O uso da cobertura de carvão ativado pode causar irritação em feridas de baixa exsudação. Outros eventos adversos são derivados da hipersensibilidade aos seus componentes.11 Figura 2.29 - Cobertura com Carvão Ativado 189 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Filmes Transparentes Os filmes transparentes utilizados em curativos são feitos de poliuretano com adesivo acrílico, permitindo a adesão à pele, mas não ao leito da ferida. São semioclusivos e permitem a evaporação de líquidos, porém não absorvem o exsudato, proporcionando um ambiente úmido. Este tipo de cobertura é impermeável a líquidos, água e bactérias, mas permeável ao vapor de umidade e gases atmosféricos. A transparência do curativo permite a visualização da ferida. Disponível em uma ampla variedade de tamanhos, tanto estéreis quanto a granel.12,13 Indicação O Filme Transparente é indicado como curativo primário para áreas doadoras de enxerto, feridas cirúrgicas fechadas e limpas, proteção da pele íntegra em pessoas suscetíveis a lesão por pressão, lesões superf iciais de pele - desde que não sejam exsudativas -,f ixação e proteção de cateteres venosos centrais e periféricos. Também pode ser utilizado como curativo secundário para manter um material absorvente na ferida e para desbridamento autolítico de pequenas feridas. No caso das feridas crônicas, esse produtos só têm utilidade nos estágios f inais da cicatrização.14,15 Contraindicação O Filme Transparente não deve ser utilizado sobre feridas infectadas, profundas ou altamente exsudativas.15 Figura 2.30 - Filme Transparente Não Estéril 190 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Outras Terapias para o Tratamento de Feridas É marcante a velocidade da inovação e incorporação de novas tecnologias para o cuidado com feridas. Inúmeras áreas do conhecimento se articulam para o desenvolvimento de novos produtos e técnicas para o tratamento de lesões complexas, de dif ícil cicatrização. A resolução do COFEN nº 567/2018 destaca que os enfermeiros apresentam competência para o uso de novas técnicas e tecnologias como o Laser, Light Emitting Diode - LED, terapia por pressão negativa, eletroterapia, entre outras, mediante capacitação clínica e técnica, e isso vale a qualquer prof issional. Diferente dos outros produtos e técnicas apresentados anteriormente, algumas destas tecnologias ainda não estão amplamente difundidas, contudo devem ser apresentadas para fomentar a inovação e efetividade da atenção às pessoas com feridas crônicas. 191 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Produto/Técnica Definição Terapia por pressão negativa (curativo a vácuo - VAC) Aplicação de pressão subatmosférica no leito da ferida que possibilita a drenagem do exsudato, redução do edema local, a redução da carga bacteriana e o desenvolvimento precoce do tecido de granulação pela estimulação angiogênica. Pode ser realizada continuamente em ambiente hospitalar, ou de forma intermitente em ambulatórios e ainda, com mecanismos portáteis que podem permanecer na lesão por sete dias, o que favorece o cuidado domiciliar. Administração de uma fração inspirada de oxigênio puro ou a 100%, em ambiente com uma pressão superior (geralmente duas a três vezes) à pressão atmosférica ao nível do mar. Este aumento de pressão resulta em aumento da pressão arterial e tecidual de oxigênio. Esse tipo de terapia tem indicações específicas e é realizado em ambiente hospitalar. Oxigenoterapia hiperbárica Quadro 2.2 - Outras Possibilidades de Tratamento: Produtos e Terapias 192 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Eletroterapia Ozonioterapia Terapia que consiste na aplicação de corrente elétrica exógena no leito da ferida crônica ou nos tecidos adjacentes, de forma a favorecer o processo de cicatrização. O ambiente úmido no leito conduz a corrente elétrica e o campo elétrico estimula a proliferação e a migração de células epiteliais e de tecido conjuntivo. As correntes elétricas exógenas são classificadas como diretas, alternadas ou de pulso e possuem indicações terapêuticas específicas. Quando aplicada nos tecidos adjacentes à lesão, a eletroterapia promove importante redução da dor, e essa ação é um aliado adjuvante importante no processo de tratamento das feridas crônicas. O ozônio é um gás volátil que apresenta potente ação antibacteriana, tanto que já é amplamente usado na indústria para tratamento de água. Para o tratamento de feridas é usada uma mistura de oxigênio e ozônio em proporções que variam de: 0,05% de ozônio e 99.95% de oxigênio a 5% de ozônio e 95% de oxigênio. A ozonioterapia inclui o uso deste desta mistura em várias formulações como: a limpeza das lesões com água ozonizada, uso tópico de cremes e/ou óleos ozonizados, sessões com bolsas infláveis com gás ozônio ou ainda imersão em água e gás, denominada hidrozonioterapia. 193 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Ozonioterapia Fotobioestimulação: Laserterapia (terapia com o uso de luz Laser), Ledterapia (terapia com o uso de luz Led) A ozonioterapia favorece a cicatrização segundo os seguintes mecanismos de ação do ozônio: ação bactericida e bacteriostática, viricida e fungicida; aceleração da neoangiogênese; aumento do número médio de fibroblastos; aumento da capacidade de absorção do O2 por parte do eritrócito, e estimula o sistema imunológico. Terapia estimuladora da cicatrização que se baseia na interação da luz (Laser de Baixa Intensidade ou Diodo emissor de luz – LED) com os tecidos do corpo humano, estimulando os processos fotofísicos, fotoquímicos e fotobiológicos em nível mitocondrial. Esse estímulo aumenta o metabolismo celular, podendo acelerar cicatrização, aliviar dores e drenar inflamações. É útil tanto para favorecer a ação dos fibroblastos e demais componentes teciduais, quanto para recuperar lesões, reduzir a inflamação e edema e, consequentemente, a dor. 194 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Terapia fotodinâmica Nanotecnologia Biomembranas Fotoquimioterapia que associa um fotossensibilizante, a luz de intensidade e foco controláveis e, o oxigênio tecidual que tem o potencial de causar efeito citotóxico sobre microrganismos no leito da lesão. Além disso, o termo dinâmica se refere a capacidade de modif icação de intensidade, frequência, e o fotoestimulador e assim desempenhar outras funções como a destruição seletiva de um tecido, como o tecido desvitalizado, no leito de uma ferida. Terapiasde cobertura baseadas em materias e princípios ativos em escala nanométrica. Destacam- se as nanopartículas de prata, ouro e uma variedade de nanofibras poliméricas que podem ser aplicadas diretamente no leito da lesão, em emulsões, espumas, fibras. Dentre as ações no processo de cicatrização destacam-se o alto poder de penetração, inclusive em biofilme, liberação controlada de substâncias com ação antiinflamatória, antimicrobiana, estimulação da proliferação de fibroblastos. Ainda há muitos estudos em desenvolvimento sobre nanoestruturas, nanomateriais e nanopartículas no tratamento de feridas crônicas. São polímeros sintéticos biorreabsorvíveis que podem ser utilizados sob a forma de membranas para sustentar e guiar o crescimento celular no processo de reparação tecidual. As biomembranas aceleram o processo de adesão celular e favorecem um desenvolvimento celular constante, por este fato têm sido utilizadas, com o intuito de biocurativos. 195 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Plasma autógeno rico em plaquetas (gel de plaquetas) Biomembranas Concentrado de plaquetas obtido a partir do sangue da própria pessoa que receberá a aplicação deste concentrado. Esse produto tem grande potencial no tratamento de feridas crônicas porque contém fibrina e altas concentrações de fatores de crescimento. Sabe- se que o leito de feridas crônicas apresenta fibroblastos senescentes e baixa concentração de fatores de crescimento, por isso o plasma rico em plaquetas, do próprio paciente, se destaca como uma terapia adjuvante de tratamento. São exemplos de biomembramas: acajumembrana, membrana de latéx natural, de quitosana com ácido hialurônico, de colágeno, biopolímero de cana-de- açúcar, de celulose microbiana, cola de fibrina. Punção Venosa Aplicação Pipetagem Plasma Centrifugação Eritrocitos Leococitos e PlaquetasPlasma Rico em Plaquetas Plasma Pobre em Plaquetas 196 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Referências MOTA, D. et al. Evidência na utilização dos ácidos graxos essenciais no tratamento de feridas. Caderno de Graduação – HS, v.2, n.3, p. 55-64, 2015. SILVA, D. R. A. et al. Pressure ulcer dressings in critical patients: a cost analysis. Rev Esc Enferm. USP, 2017. MANDELBAUM, Samuel Henrique; Di SANTIS, Érico Pampado; MANDELBAUM, Maria Helena Sant’Ana. Cicatrização: conceitos atuais e recursos auxiliares – Parte II. Anais Bras de Dermatol., v.78, n.5 p.525-542, 2003. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Manual de Condutas para úlceras neurotróficas e traumáticas. Brasília: Ministério da Saúde, 2002. AKHMETOVA, A. et al. A Comprehensive Review of Topical Odor-Controlling Treatment Options for Chronic Wounds. J. Wound Ostomy Continence Nurs., v.43, n.6, p. 598-609, 2016. KERIHUEL, J. C. Effect of activated charcoal dressings on healing outcomes of chronic wounds. Journal of wound care, v. 1, n.5, p.208-215, 2010. GETHIN, G.; GROCCOTT, P.; PROBST, E. C. Current practice in the management of wound odour: An international survey. International Journal of Nursing Studies, v. 51, p. 865–874, 2014. ALEXANDER, S. Malignant fungating wounds: managing malodour and exudate. J. wound Care, v. 18(9), p.374-382, 2009. INTERNATIONAL CASE SERIES. Using ACTISORB: Case Studies. London: Wounds International, 2012. SORNAKUMAR, L.; KALARANI, M.; SRINIVAS, C.R. Activated charcoal dressing in malodorous leg ulcers. Indian J. Lepr., v.82, n.3, p. 147-148, 2010. FRANCO, D; GONCALVES, L. F. Feridas cutâneas: a escolha do curativo adequado. Rev. Col. Bras. Cir., v. 35, n.3, p. 203-206, 2008. PFLEGE Z. Wound odor: what the psychological effects it has on patients and family caregivers and how to control it. From disgust to gag reflex., v. 67, n.6, p. 356-359, 2014. INTERNATIONAL CONSENSUS. Appropriate use of silver dressings in wounds. An expert working group consensus. London: Wounds International, 2012. 1 2 3 4 8 5 9 6 10 7 11 12 13 197 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS IRION, G. L. Feridas: novas abordagens, manejo clínico e atlas em cores. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 2012. POTTER, P.A.; PERRY, A. G. Fundamentos de enfermagem. Rio de Janeiro: Elsevier, 8ª edição, 2013. FRANCO, D.; GONCALVES, L. F. Feridas cutâneas: a escolha do curativo adequado. Rev. Col. Bras. Cir., v.35, n.3, p.203-206, 2008. ANDRADE, S. M. S. Oxigenoterapia hiperbárica para tratamento de feridas. Rev. Gaúcha Enferm., v.37, 2016. ANDROS, G. et al. Tucson Expert Consensus Conference. Consensus statement on negative pressure wound therapy (V.A.C. Therapy) for the management of diabetic foot wounds. Ostomy Wound Manage. J., p.1-32, 2006. THAKRAL, G. Electrical stimulation to accelerate wound healing. Diabet Foot Ankle, v.4, 2013. FRADE, M. A. C. et al. The vegetal biomembrane in the healing of chronic venous ulcers. An. Bras. Dermatol. [online], v.87, n.1 p.45-51, 2012. VYAS, K. S.; VASCONEZ, H. C. Wound Healing: Biologics, Skin Substitutes, Biomembranes and Scaffolds. Healthcare (Basel), v.2, n.3, p.356-400, 2014. FITZPATRICK, E.; HOLLAND, O. J.; VANDERLELIE, J. J. Ozone therapy for the treatment of chronic wounds: A systematic review. Int Wound J., v.15, n.4, p.633- 644, 2018. NESI-REIS, V. et al. Contribution of photodynamic therapy in wound healing: A systematic review. Photodiagnosis Photodyn Ther., v.21, p.294-305. 2018. 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 198 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Definição No Brasil, as terapias tradicionais são reconhecidas como Práticas Integrativas e Complementares (PIC) pelo Ministério da Saúde (MS). Em 2006, o MS publicou a portaria n° 971/2006 que regulamenta a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), com o intuito de reconhecer e inserir as PIC no Sistema Único de Saúde (SUS) (BRASIL, 2014). A PNPIC engloba as seguintes práticas: Medicina Tradicional Chinesa (MTC) – Acupuntura, Medicina Antroposóf ica, Homeopatia, Termalismo, Crenoterapia e Plantas Medicinais e Fitoterapia. 1,2 A f itoterapia é uma “terapêutica caracterizada pelo uso de plantas medicinais em suas diferentes formas farmacêuticas, sem a utilização de substâncias ativas isoladas, ainda que de origem vegetal”. O uso de plantas medicinais na arte da cura, tratamento e prevenção de doenças vem de origens muito antigas, relacionadas aos primórdios da medicina e fundamentada no acúmulo de informações por sucessivas gerações.3,4 Embora exista no mercado uma gama de substâncias sintéticas para tratamentos de feridas, percebe-se que pacientes e prof issionais recorrem à f itoterapia como opção de tratamento, possivelmente pelo destaque que esta tem alcançado no contexto da saúde.5 A discussão sobre o uso da f itoterapia tornou-se mais consistente a partir da constatação de que, simultaneamente ao uso de CAPÍTULO 11 A FITOTERAPIA NO TRATAMENTO DE FERIDAS CRÔNICAS Calíope Pilger Laryssa de Col Dalazoana Baier 199 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS medicamentos industrializados, a população faz seu uso, muitas vezes desconhecendo a possível existência de toxicidade e mesmo sua comprovada ação terapêutica, forma correta de cultivo, preparo, indicações e contraindicações, acreditando que, por serem plantas medicinais, não são prejudiciais à saúde, independente da forma e quantidade utilizada. 6,7,8 A ef iciência clínica destes componentes no tratamento de feridas tem sido investigada por meio de ensaios clínicos in vivo e in vitro, usando ambos modelos animais e humanos.9,10 Apesar do grande contingente de publicações em nível mundial, observa- se que o Brasil vem desenvolvendo pesquisas importantes para o avanço do conhecimento das propriedades medicinais das plantas utilizadas pela população. De acordo com a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 10, de 2010, que dispõe sobre a notif icação de drogas vegetais junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA),há uma lista com 66 plantas medicinais que podem ser utilizadas e distribuídas pelos serviços de saúde no Brasil, dentre estas, oito são indicadas para cicatrização de feridas, com comprovadas ações, como a Anacardium occidentale L., Caesalpinia ferrea Mart., Casearia sylvestris Sw., Schinus terebinthifolius Raddi, Stryphnodendrom adstringens (Mart.) Coville, Maytenus ilicifolia Mart. ex Reissek e Polygonum punctatum Elliott e Calendula off icinalis L.10,11 Outra planta encontrada em estudos internacionais, com comprovada ação cicatrizante em feridas, é a Aloe vera, da família das Liliáceas.12 Após pesquisa e análise dos estudos encontrados que envolvem f itoterápicos e sua ef icácia no tratamento de feridas, selecionou-se duas plantas, a Calendula off icinalis L., uma das mais citadas na literatura nacional, e a Aloe vera, na literatura internacional para exposição de suas propriedades terapêuticas.13,14,15 200 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Aloe Vera A Aloe barbadensis Miller, comumente conhecida como Aloe vera, é uma das mais de 400 espécies de Aloe da família das Liliaceae,sendo considerada de grande importância comercial. Pode ajudar na cicatrização de feridas e é popular no campo de pesquisas científicas. 15,16 Ação A planta Aloe vera contém cerca de 70 componentes potencialmente ativos, dentre eles vitaminas, enzimas, minerais, açúcares, compostos fenólicos e orgânicos, além de ácido salicílico e ácidos aminados, apresenta efeito anti-inflamatório, antioxidante, cicatrizante, bactericida, laxativo, emoliente e suavizante. Muitos dos seus benef ícios são atribuídos aos polissacarídeos presentes em sua polpa.14,17,18 Um dos polissacarídeos presentes na Aloe vera é o acemano. Segundo o CONSELHO INTERNACIONAL DE CIÊNCIA DE ALOE – IASC (2012), apenas produtos que contenham acemano ou o beta 1-4 glucomananas acetilados, podem ser considerados como Aloe vera. O acemano tem sido apontado como responsável pela proliferação de f ibroblastos e produção do ácido hialurônico hidroxipolímerizado em f ibroblastos, os quais são importantes para o remodelamento da matriz extracelular durante a fase de cicatrização.14,19,20 Outros polissacarídeos, como o manose-6-fostato, podem ativar o crescimento de substâncias, especialmente na fase de epitelização, aumentar a contração da ferida e promover a síntese de colágeno e angiogênese. O manose-6-fosfato de ligação pode ainda induzir a proliferação de f ibroblastos, o que ajuda a promover a deposição de colágeno e reorganização celular.15,21 Desde muito tempo a espécie Aloe tem sido explorada e estudada por sua ef icácia médica, seus constituintes f itoquímicos, propriedades terapêuticas e rejuvenescedoras, e a espécie Aloe vera pelos seus efeitos antihiperlipídicos, antivirais, antimicrobianos, anticancerígenos, hepatoprotetores, antioxidantes, hipoglicêmicos e imunomoduladores.22,23 201 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Preparação do Composto A partir do processamento das folhas da planta Aloe vera, dois produtos principais são obtidos: - Da parte mais externa pode se extrair um suco amarelo amargo, geralmente conhecido como “Aloe vera latex ou suco de aloe”, que quando concentrado e seco recebe a denominação de Aloé. Esse suco flui espontaneamente das folhas cortadas e possui forte odor e sabor muito amargo, é composto principalmente por derivados antracênicos, sendo as aloínas (barbaloína e isobarbaloína) os mais conhecidos. 19,24 - Da polpa foliar, que é a porção mais interna da folha, pode se extrair o Gel de Aloe Vera, constituído por água, polissacarídeos e outras substâncias como vitaminas (A, B1, B2, B6, C e E), aminoácidos, lignina, lipídeos, enzimas (fosfatase ácida, fosfatase alcalina, amilase e lipase), carboidratos, ácidos salicílicos, proteínas e minerais (sódio, cálcio, magnésio e potássio, zinco).15,19,21,25 Aplicação A Aloe vera pode ser aplicada topicamente em lesões cutâneas, como preparações tópicas, cremes, mucilagens, géis, ou ser impregnada dentro de um curativo e aplicada na ferida, além de soluções orais.15,21,26 Estudos apontam várias formulações tópicas, como creme de Aloe a 0,5%, gel f resco natural, gel de Aloe (composto de 98 % do gel bruto do interior da folha da planta).14,27 202 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Efeitos Adversos Embora o preparo de soluções tópicas e orais de Aloe vera seja considerado seguro, sem efeitos colaterais graves, como toxicidade e mortalidade, algumas reações adversas foram experimentadas pelos pacientes.28 Algumas das reações, que podem ocorrer com as preparações tópicas, são prurido, irritação na pele, dermatite de contato, eritema e fotodermatite.15,19 Devido à presença de antraquinona na planta, quando se apresenta em excesso nas soluções orais, causa forte diarreia, cólicas severas, náusea e consequente perda de eletrólitos.4,17,19 Figura 2.31 - Aloe barbadensis Miller Figura 2.32 - Calêndula officinalis L. 203 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Calêndula officinalis L. Calêndula off icinalis L. pertence à Família Asteraceae, é uma planta herbácea, anual, de jardim comum, nativa da região do Mediterrâneo (sul da Europa e do Egito), amplamente cultivada em várias partes do mundo para f ins ornamentais, cosméticos e medicinais, conhecida no Brasil como calêndula, calêndula-hortense, maravilha, maravilha-dos-jardins, malmequer, malmequer-de-jardim, flor-de-todos-os-males, margarida- dourada e verrucária. É usada para tratar vários distúrbios da pele, como queimaduras e feridas, eczema, psoríase e várias infecções cutâneas.1,13,18 Ação Mais de 35 propriedades foram atribuídas a decocções e tinturas das flores de Calêndula off icinalis L.. Pesquisas f itotoquímicas realizadas com as flores e os receptáculos registraram um amplo espectro de compostos químicos, sobretudo flavonoides (Quercetina, rutina, narcissina, kaempferol) carotenoides, polissacarídeos, saponinas triterpênicas, triterpenos, cumarinas, taninos, além de ésteres de ácidos graxos, hidrocarbonetos, ácidos graxos, fenólicos, gálicos, cafeicos, salicílicos, poliacetilenos, esteróis, sesquiterpenos glicosídeo, um óleo volátil (0,1 a 0,2%) muito abundante em sesquiterpenos hidrocarbonetos e álcoois. 13,18,24,25 Estudos f itofarmacológicos de flores de Calêndula off icinalis têm mostrado atividade antiinflamatória, antibactericida, antiparasita, antiviral, antifúngica, imunomoduladora, vasodilatora, antiémetica, antioxidante, antiespasmódica, antitumoral, hipoglicêmica, hipolipídica e tonif icante da pele. Em estudos clínicos, tem apresentado alta eficácia como agente de cicatrização de lesões de pele e mucosas, bem como para o tratamento de herpes, eritemas solares, queimaduras, dermatite e cicatrização de feridas.7,12 204 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Preparação do Composto São citados o uso do caule e das folhas secas, das sementes, de toda a planta, e da flor, que é a parte mais utilizada e estudada.13 Aplicação Inúmeros usos medicinais e farmacêuticos são vinculados à Calêndula off icinalis, conjugados ao uso interno e externo, em diferentes formas de preparo que incluem o seu consumo in natura em saladas, assim como infusão, de cocção, tinturas, pomadas, géis, cataplasmas, unguentos, banhos, extratos, contudo, esta última forma de preparo, para uso tópico, é a mais comumente utilizada como agentes anti-inflamatórios, agentes de cicatrização de lesões de pele e mucosas. A flor da Calêndula off icinalis pode ser utilizada na forma de chá, extrato, tintura a 5%, gel com concentração de 5%, 7% ou 10% da planta, pétalas maceradas em compressas de alcoolato são usadas para feridas abertas, óleo essencial, em produtos cosméticos ou de cuidados pessoais (pétalas secas).13,21,24, Efeitos Adversos A Calêndula off icinalis tem baixa toxicidade, mas deve-se ter cautela e ser contraindicada quando for conf irmado que o portador de ferida tem alergiaàs plantas e alimentos da família da Asteraceae, o que é muito raro. 12 205 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Considerações Nos últimos tempos, tem ocorrido um aumento do uso de produtos naturais à base de plantas para o tratamento de várias condições crônicas. Esta pode ser uma alternativa terapêutica pelo seu baixo custo, todavia, sem a qualidade adequada, tais produtos não promovem a ação desejada, podem anular a sua ef icácia e trazer riscos à saúde.1,27 Para manter a ef icácia e qualidade dos componentes das plantas medicinais, faz-se necessário que os prof issionais de saúde estejam abertos a novas possibilidades de práticas de cuidados numa perspectiva de integralidade, aliando práticas populares, alternativas e complementares às convencionais, em uma associação promissora, visando o bem-estar dos pacientes, e a busca por novas ferramentas de cuidado. Outro fator importante para o progresso do uso da f itoterapia, é o desenvolvimento de novos métodos de extração, procedimentos de purif icação, avaliação do controle de qualidade e protocolos de tratamento, mecanismos exatos de ação, efeitos colaterais e segurança destes compostos, e para isso são necessárias mais pesquisas, comprovação e evidências científ icas, além de f inanciamento de órgãos governamentais.21 Pode-se perceber que as duas plantas supracitadas, Aloe vera e Calêndula off icinallis, apresentaram evidências científ icas no tratamento de feridas. Este fato é de extrema relevância para a área da saúde, principalmente no cuidado com feridas, pois emerge a necessidade de realizar pesquisas com outras plantas medicinais, com intuito de conhecer a ef icácia e benef ícios das mesmas. Ainda percebe-se que as plantas medicinais tornam-se alternativas de grande relevância para o tratamento e cicatrização de feridas, considerando que seu uso seja validado por estudos que conf irmem seu potencial e ef icácia. Para isso, sugere-se novos estudos de comprovação clínica, custos e benef ícios, e a constante atualização acerca das publicações que envolvem a f itoterapia.22 206 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS Referências AGYARE, C. et al. Medicinal Plants and Natural Products with Demonstrated Wound Healing Properties. Chapter from the book Wound Healing - New insights into Ancient Challenges, 2016. ANTONIO, G. D.; TESSER, C. D.; MORETTI-PIRES, R. O. Phytotherapy in primary health care. Rev Saúde Pública, v.48, n.3, p.541-553, 2014. ALVES, J. F.; DE SOUSA, A. T. O.; SOARES, M. J. G. O. Sentimentos de inclusão social de pessoas com úlcera venosa. Rev de Enfermagem da UFSM, v.5, n.2, p 193-203, 2015. BARETTA, Z. et al. Aloe-induced hypokalemia in a patient with breast cancer during chemotherapy. Annals of Oncology, v.20, n.8, p.1445-46, 2009. BUENO, M. J. A. Manual de Plantas Medicinais e Fitoterápicos Utilizados na Cicatrização de Feridas. Universidade do Vale do Sapucaí. [Dissertação]. Pouso Alegre: UNIVÁS, 2016. BOUDREAU, M., BELAND, F. An evaluation of the biological and toxicological properties of Aloe barbadensis (Miller), Aloe vera. J. Environ. Sci. Heal., v.C, n. 24, p.103–154, 2006. BUZZI, M; FREITAS, F.; WINTER, M. A. Buzzi M, Freitas F, Winter MB. Pressure ulcer healing with Plenusdermax® Calendula officinalis L. extract. Rev Bras Enferm. v.69, n.2, p.230-236. 2016. BUZZI, M; FREITAS, F.; WINTER, M. A. Prospective, Descriptive Study to Assess the Clinical Benefits of Using Calendula officinalis Hydroglycolic Extract for the Topical Treatment of Diabetic Foot Ulcers. Ostomy Wound Management, v.62, n.3, p.8–24. 2016. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política nacional de práticas integrativas e complementares no SUS: atitude de ampliação de acesso / Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. – 2. ed. – Brasília: Ministério da Saúde, 2015. BRASIL. RESOLUÇÃO - RDC Nº 10, DE 9 DE MARÇO DE 2010. Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Ministério da Saúde, Brasília, 2010. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretária de Atenção à Saúde. Portaria No 849/2017. Brasília, 2017. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 207 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS BRAUN, L.; COHEN, M. Herbs and Natural Supplements: An Evidence-Based Guide. Volume 2. 4° edição. Chatswwod: Elservier Austrália, 2015. CITADINI-ZANETTE, V; NEGRELLE, R. R. B.; BORBA, E.T. Calendulaofficinalis L. (ASTERACEAE): aspectos botânicos, ecológicos e usos. Visão Acadêmica, v.13, n.1, p.6-23, 2012. CHINI, L.T., et al. O uso do Aloe sp (babosa) em feridas agudas e crônicas: revisão integrativa. Aquichan, v.17, n.1, p.7-17, 2017. DAT, A. D.; POON, F.; PHAM, K.B.; DOUST, J. Aloe vera for treating acute and chronic wounds. Cochrane Database Syst Rev., v.2, n.15, 2012. FONTENELE, R. P.; SOUZA, D. M. P.; CARVALHO, A. L. M.; OLIVEIRA, F. A. Fitoterapiana Atenção Básica: olhares dos gestores e profissionais da Estratégia Saúde da Família de Teresina (PI), Brasil. Ciência&Saúde Coletiva, v.18, n.8, p.2385-2394, 2013. FOSTER, M.; HUNTER, D.; SAMMAN. S. Evaluation of the nutritional and metabolic effects of Aloe vera. In: Herbal Medicine, Biomolecular and Clinical Aspects, 2ºed, Benzie IFF and Wachtel-Galor S. Boca Raton, FL: CRC Press, p. 37–54. 2011 FONSECA, Y. M. et al Protective effect of Calendula officinalis extract against UVB-induced oxidative stress in skin: Evaluation of reduced glutathione levels and matrix metalloproteinase secretion. J. of Ethnopharmacol, v.127, n.3, p.596- 60, 2010. FREITAS, V. S.; RODRIGUES, R. A. F.; GASPI, F. O. G. Propriedades farmacológicas da aloe vera (L.) Burm. f. Rev. Bras. Plantas Med., v.16, n.2, p. 299-307, 2014. FRYKBERG, R. G.; BANKS, L. Challanges in the treatment of chronic wounds. Adv Wound Care (New Rochelle). v.4, n.9, p.560-82, 2015. PEREIRA, R.F; BARTÓLO, P.J. Traditional Therapies for Skin Wound Healing. Advances in Wound Care. v.4, n.5, p.208-229, 2016. PIRIZ, M.A. et al. Plantas medicinais no processo de cicatrização de feridas: uma revisão de literatura. Rev. Bras. Pl. Med., v.16, n.3, p.628-636, 2014. PREFEITURA MUNICIPAL DE CAMPINAS; SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE. Guia de Tratamento de Feridas. 2016. Disponível em: http://www.campinas. sp.gov.br/sa/impressos/adm/FO1286.pdf. Último acesso em Abril de 2021. RE, T. A. et al. Application of the threshold of toxicological concern approach for the safety evaluation of calendula flower (Calendula officinalis) petals and extracts used in cosmetic and personal care products. Food and Chemical Toxicology, v.47, p.1246–1254, 2009. 12 16 13 17 14 18 15 19 20 21 22 23 24 208 MÓDULO 2 - TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS RIGANE, G., BEN YOUNES, S., GHAZGHAZI, H.; BEN SALEM, R. Investigation into the biological activities and chemical composition of Calendula officinalis L. growing in Tunisia. International Food Research Journal, v. 20, n.6, p.3001-3007, 2013. ROCHA, I. C. et al. Pessoas com feridas e as características de sua lesão cutaneomucosa. J. Nurs. Health, v.3, n.1, p.3-15, 2013. SANTOS, L. M. O.; OLIVEIRA, L. A. O.; TIBULO, E. P. S.; LIMA, C. P. L. Análise de amostras de flores de Calêndula (Calendulaofficinalis L., Asteraceae) comercializadas na grande Curitiba. Rev. Ciênc. Farm. Básica Apl., v.36, n.2, p.251-258, 2015. SILVA, R. S.; MATOS, S. L.; ARAÚJO, E. C; PAIXÃO, G. P. N.; LIMA COSTA, L. E.; PEREIRA, A. Práticas populares em saúde: autocuidado com feridas de usuários de plantas medicinais. Rev. enferm. UERJ, v.22, n.3, p.389-95, 2014. 25 26 27 28 3 Módulo 3 Aspectos Legais 210 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS CAPÍTULO 1 O PAPEL DO ENFERMEIRO Leticia Gramazio Soares Soriane Loures Definição As feridas constituem um problema complexo e multifatorial, que se integram à realidade dos diversos níveis de atenção à saúde, desde a básica até o atendimento terciário em hospitais. Ou seja, tem ferida em todas as áreas da atenção à saúde. As feridas fazem parte dotrabalho cotidiano das enfermeiras, enfermeiros e toda equipe de enfermagem. 1 O enfermeiro tem autonomia para avaliar a ferida, indicar produtos e técnicas para realizar o curativo e modificar a conduta, mediante evolução do caso. Tanto que a Resolução n. 567 de 2018, do Conselho Federal de Enfermagem definiu como competência do enfermeiro: realizar curativos, coordenar e supervisionar a equipe de enfermagem na prevenção e cuidado às feridas. Além disso, especif icou que é de competência do enfermeiro a abertura de consultório de enfermagem para a prevenção e cuidado às feridas, preferencialmente pelo enfermeiro especialista. 1 Mas você sabe definir claramente qual é o papel do enfermeiro na assistência ao paciente portador de feridas? Podemos dizer que é um papel amplo e complexo, que exige comprometimento, conhecimento científ ico e habilidade clínica. Logo, esse papel é possível de ser executado nos serviços de saúde. 2,3 Os principais eixos que compõem o papel do enfermeiro na assistência de enfermagem ao portador de feridas incluem: 211 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS Avaliação global do portador de ferida; Identificação das necessidades de saúde do portador (clínicas, sociais, psicológicas/mentais); Avaliação da ferida em si (condições do leito e tecidos adjacentes); Indicação de técnicas e produtos; Educação em saúde; Gerenciamento de recursos humanos e materiais. Avaliação global do cliente portador de ferida O tratamento de feridas ocorre por meio de ações simples que visam remover as barreiras que impedem a cicatrização. Para tanto, o enfermeiro deve sistematizar suas ações, mas para isso ele precisa avaliar a pessoa que precisa de cuidado. Infelizmente é comum na prática de enfermagem a execução de procedimentos, a indicação de produtos, sem uma adequada avaliação. 2,3 Como avaliar? Sugerimos aqui a aplicação do Processo de Enfermagem, pois ele guia os passos da avaliação e da condução do cuidado de forma organizada e científ ica. Como é um processo direcionado a um fator, a ferida crônica, a TIME é a ferramente que deve ser incorporada no processo de enfermagem [leia novamente o início do módulo 1, se necessário]. A Resolução nº358 de 2009, do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), dispõe sobre a implementação do Processo de Enfermagem em cinco etapas: I. Coleta de dados de Enfermagem; II. Diagnóstico de Enfermagem; III. Planejamento de Enfermagem; IV. Implementação e V. Avaliação de Enfermagem. 4 • • • • • • 212 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS I. Coleta de dados de Enfermagem Nessa etapa o enfermeiro vai levantar o histórico de vida e saúde do portador de ferida e, na sequência, fazer um exame físico minucioso em busca de evidências clínicas de uma disfunção que possa explicar o retardo no processo de cicatrização, conforme amplamente abordado no primeiro módulo deste e-book. 3 Histórico de Enfermagem O conhecimento do histórico de uma pessoa que apresenta uma ferida de dif ícil cicatrização é muito importante, pois na trajetória de busca de cuidados, geralmente muitas infomações não foram consideradas. Ao conhecer o que a pessoa já fez para se cuidar, há quanto tempo tem o problema, que tratamentos realizou, o que faz no dia a dia e como faz, dentre tantas outras informações, podemos evidenciar fatores que interferem diretamente na cicatrização da ferida e podem ser identif icados nesta etapa do processo de enfermagem. 5 Exame físico Muitas vezes a presença de uma ferida que não cicatriza desvia a atenção do problema de base que a causa. Devemos ter claro que a ferida é a manifestação de uma doença descompensada, de uma alteração f isiológica grave ou de um tratamento mal conduzido ou mesmo não realizado. 5,6 Importante: Devemos obrigatoriamente analisar bem as seguintes informações: Idade, condições socioeconômicas, ocupação, hábitos de vida como tabagismo e consumo de álcool, prática de atividades físicas, doenças pré-existentes, medicações em uso prescritas ou não, hábitos alimentares e histórico familiar. 213 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS II. Diagnóstico de Enfermagem Depois de conhecer o histórico e realizar o exame f ísico, o enfermeiro deverá agrupar os dados coletados na primeira etapa e determinar os Diagnósticos de Enfermagem apropriados, os quais constituirão a base para a seleção das intervenções. Quais técnicas utilizar: inspeção, palpação, percussão e ausculta. Cada técnica deve ser realizada de maneira detalhada, não basta observar à distância, tirando conclusões com base em odores ou inferir causas sem avaliação. A avaliação da ferida em si também é realizada durante o exame f ísico. Essa avaliação é decisiva para a escolha do curativo e essencial para o estabelecimento de um diagnóstico de enfermagem acurado. Algumas manifestações clínicas são indispensáveis para def inir, por exemplo, qual a causa da ferida e explicam, por exemplo, a presença de tecido desvitalizado no leito. Essas manifestações devem ser registradas no prontuário, pois serão determinantes na escolha da conduta do enfermeiro. Importante: Ao realizar o histórico de enfermagem com enfoque na ferramenta TIME é possível identificar as causas que explicam a presença de tecidos desvitalizados no leito da ferida (sigla T), causas da manutenção de processos inflamatórios e infecciosos (sigla I), fatores que aumentam a exsudação ou mantém o leito da ferida ressecado (sigla M) e os motivos do retardo no processo de epitelização (sigla E). Importante: o exame físico deve seguir o sentido céfalo-caudal, observando todos os sistemas. É importante não pular nada, pelo menos na primeira avaliação. Todavia, devemos partir da análise do leito para o todo, segundo a ferramenta TIME, pois o exame deve ser direcionado à questão do processo de cicatrização. 214 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS III. Planejamento de Enfermagem Nesta etapa deve-se determinar os resultados que se espera alcançar e as intervenções de enfermagem que serão realizadas, lembrando que o objetivo das intervenções é garantir condições de cicatrização, remover barreiras que a impedem, sem risco de contaminação. A indicação de produtos e coberturas, da técnica e a educação em saúde são ferramentas importantes desta etapa. Indicação de produtos e técnicas O enfermeiro deve indicar os produtos e técnicas para serem utilizados na ferida, de acordo com a sua avaliação. Para isso, deve conhecer a ação, indicação e contraindicação dos produtos disponíveis ou necessários para o preparo do leito - o curativo em si. Segundo o COFEN (2018), é competência do enfermeiro estabelecer prescrição de medicamentos/coberturas utilizados na prevenção e cuidado às feridas, estabelecida em Programas de Saúde ou Protocolos Institucionais. Essa colocação não se destina a uma reserva de mercado de trabalho, nem tampouco para aumentar a carga de trabalho dos prof issionais de enfermagem, mas se baseia na capacidade teórica, técnica e prática que os enfermeiros são formados para ter. 1 Além da indicação de produtos, o enfermeiro deve ainda indicar a melhor técnica para ser empregada no curativo, dentre as quais podemos citar: tipo de limpeza da ferida (irrigação ou desbridamento), tipo de curativo (oclusivo, compressivo, seco, úmido). O enfermeiro deve também determinar a periodicidade da troca do curativo e def inir qual prof issional irá realizar, tendo em vista que o procedimento pode ser delegado para prof issional de nível médio. O enfermeiro tem competência para prescrever cuidados de enfermagem aos Técnicos e Auxiliares de Enfermagem, observadas as disposições legais da prof issão. 1 215 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS Educação em saúde É também papel do enfermeiro e faz parte do Planejamento de Enfermagem realizar ações de educação em saúde, relacionadas em boa parte aos modos de vida e gerenciamento de doenças subjacentes do portador de feridas. Por exemplo, no cuidado aos tabagistas,obesos ou desnutridos, diabéticos ou hipertensos, é necessário que o enfermeiro, com base no conhecimento da realidade e necessidades do portador de feridas, realize orientações necessárias para favorecer o processo de cicatrização. É importante envolver nesse processo a pessoa com ferida, familiares e cuidadores para que as ações de educação em saúde sejam efetivas. 7 Não é raro, nos casos das feridas crônicas, que as ações de educação em saúde requeiram a participação de assistentes sociais, psicólogos, órgãos de gestão estadual e municipal, para que o portador de feridas obtenha o que realmente precisa para modif icar seu estilo de vida. 8 Também cabe ao enfermeiros as ações de educação permanente em serviço, para atualização técnica e aprimoramento clínico. IV. Implementação Nesta etapa ocorre a realização das ações ou intervenções determinadas na etapa de Planejamento de Enfermagem. Após conhecer as necessidades de saúde do portador de ferida e com base nos materiais disponíveis no serviço, o enfermeiro deverá proceder o curativo e as orientações (ações de educação em saúde). Para executar o curativo o enfermeiro deve dominar princípios científ icos e técnicos. Alguns cuidados são essenciais na implementação, tais como: Importante: ação de educação em saúde não é sinônimo de prescrição de orientação apenas. Você deve se envolver com o caso para que suas ações de educação sejam realmente efetivas. 216 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS Garantir que o procedimento seja realizado por meio de técnica asséptica; Disponibilizar materiais esterilizados para serem empregados na troca de curativos, como pinças, por exemplo; Utilizar equipamentos de proteção individual, pois na troca do curativo e realização de limpeza e novas coberturas existe o risco de contaminação prof issional com material biológico. Sendo assim, devem ser usados luvas, óculos, máscara, gorro e aventais de mangas longas. Assim como o cuidado ao manipular instrumentos cortantes como bisturis e o uso de calçados fechados; Realizar o atendimento em local apropriado, com adequada iluminação e ventilação, proporcionando privacidade, segurança e conforto a pessoas com ferida; Registrar o procedimento no prontuário, sendo que as informações destacadas no módulo 1 são indispensáveis. Produto e técnica empregados na troca do curativo e orientações realizadas também devem ser registrados; Realizar as ações de educação em saúde, como: orientações por escrito, demonstração com repetição, grupos com cuidadores e familiares, implementação de formas de comunicação inovadoras como o monitoramento telefônico. • • • • • • 217 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS IV. Avaliação de Enfermagem As feridas devem ser avaliadas por meio de processo contínuo, pois são dinâmicas e mudam conforme cicatrizam. Deve ser realizada exclusivamente pelo enfermeiro, por meio da avaliação da ferida propriamente dita, da evolução de todas as condições levantadas no histórico, bem como pelos registros em prontuários. Deve-se focar na verif icação da necessidade de manutenção ou mudanças de conduta. 2,4,9 Quando necessário, realizar registro fotográf ico para acompanhamento da evolução da ferida, desde que autorizado formalmente pela pessoas com ferida ou responsável, usando formulário institucional. 1 Gerenciamento dos recursos humanos e materiais Também é papel do enfermeiro o gerenciamento dos recursos humanos e materiais utilizados no cuidado a feridas, dentre os quais podemos citar: Capacitação da equipe de enfermagem; Elaboração de protocolos e manuais, tendo em vista que a Resolução n. 567/2018 cita diversas vezes que a competência do enfermeiro no cuidado em feridas está vinculada à normatização das ações de atendimento, via protocolos institucionais; Lembre-se: A realização do curativo não é uma ação final, e sim uma ação meio, a assistência de enfermagem deve sempre ser prestada de maneira integral. • • 218 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS Supervisão do trabalho do técnico e auxiliar de enfermagem; Organização do ambiente; Controlar estoques, gastos e custos; Proporcionar qualidade e confiabilidade aos materiais utilizados; Realizar controle de infecções relacionadas à assistência à saúde; Pleitear a aquisição de produtos e materiais junto aos gestores dos serviços de saúde, Gerenciar corretamente os resíduos sólidos produzidos no serviço. • • • • • • • 219 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS Referências COFEN, Resolução nº 567, de 29 de janeiro de 2018. Regulamenta a atuação da Equipe de Enfermagem no Cuidado aos pacientes com feridas. BRASIL. Protocolo para prevenção de úlcera por pressão. Ministério da Saúde/ Anvisa/Fiocruz, 2013. Conselho Federal de Enfermagem – COFEN (BR). Lei do Exercício Profissional, nº 7.498/86; Decreto nº 94.406/87 e Código de Ética dos profissionais de enfermagem. Conselho Federal de Enfermagem – COFEN (BR). Resolução nº 311 de 2007, que aprova o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Conselho Federal de Enfermagem – COFEN (BR). Resolução nº 358 de 2009, que dispõe sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem. Conselho Federal de Enfermagem – COFEN (BR). Resolução nº 429 de 2012, que dispõe sobre o registro das ações profissionais no prontuário do paciente. Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo – COREN SP. PARECER COREN – SP CAT nº 011/2009. Uso do laser de baixa intensidade pelo profissional enfermeiro no tratamento clínico de feridas. KIELO, E.; SUHONEN, R.; SALMINEN, L.; STOLT, M. Competence areas for registered nurses and podiatrists in chronic wound care, and their role in wound care practice. J Clin Nurs., v.28, n.21, p.4021-4034. 2019. Corbett, L. Q. Wound Care Nursing: Professional Issues and Opportunities. Adv Wound Care., v.1, n.5, p.189-193. 2012. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 220 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS CAPÍTULO 2 CONTROLE DE CONTAMINAÇÃO NOS LOCAIS DE ATENDIMENTO Janete Dalmar dos Santos Hupfer Silvana Maria Sasso Definição Garantir uma assistência à saúde sem danos tem se tornado um desaf io, uma vez que enfrentamos tempos de crescente multirresistência de microrganismos e (re)surgimento de doenças. Prestar um cuidado efetivo, que preserve e garanta a segurança, requer conhecimento científ ico, voltado para o controle do processo de trabalho nos serviços de saúde, eliminando assim os principais riscos que o envolvem, principalmente, os referentes à infecção. Os prof issionais de saúde que atuam em serviços que prestam atendimento a pessoas com feridas crônicas realizam cotidianamente inúmeros procedimentos, sejam eles invasivos ou não. Tais procedimentos envolvem o contato de instrumentais com mucosas ou pele das pessoas assistidas, e muitos itens são reutilizáveis. Desta forma, falhas no processo de trabalho podem ter como consequência a disseminação e transferência de microrganismos no ambiente, colocando em risco a segurança das pessoas e dos próprios prof issionais. Dentre os fatores que favorecem a contaminação destes serviços, podemos citar: as mãos dos prof issionais de saúde em contato com as superf ícies; não utilização de técnicas básicas de proteção e segurança por estes prof issionais; manutenção de superf ícies úmidas, molhadas, empoeiradas ou com presença de matéria orgânica, seja pela falta da ação do profissional ou devido condições precárias de revestimentos do ambiente.1,2,3,4 221 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS Medidas preventivas para profissionais de saúde Os profissionais que prestam assistência devem empregar estratégias e técnicas básicas para manutenção de um ambiente de trabalho seguro, e sempre visando à diminuição dos riscos de contaminação. Para isso, é imprescindível o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) como luvas, touca, máscara, óculos de acrílico, avental e calçados apropriados ao ambiente. 7,8 Segundo Hinrichsen (2004), há evidências da transmissão de infecções por rotavirus,que consegue sobreviver no meio ambiente por mais de 12 dias, pelo HIV, que em superf ície com matéria orgânica sobrevive por até três dias, e o vírus da hepatite, nas mesmas condições, até sete dias. Portanto, a presença de sujidades, principalmente matéria orgânica de origem humana, pode colaborar para a proliferação de microrganismos. 5,6 Sendo assim, são de suma relevância a limpeza e desinfecção corretas das superf ícies, e adoção de estratégias preventivas pelos prof issionais com objetivo de diminuir a disseminação dos microrganismos. Atenção: Nunca toque com a mão enluvada maçanetas, puxadores de armários, canetas e pacotes esterilizados. As luvas são EPIs, mas se utilizadas de forma negligenciada se tornam uma fonte de contaminação. Dica: como forma de diminuir o risco de contaminação, proteja com dupla camada de sacos plásticos íntegros o recipiente metálico (bacia), utilizado na lavagem da pele da pessoa assistida durante o curativo de suas lesões. 222 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS Atenção: O avental é um EPI, portanto, deve ser utilizado somente no ambiente de trabalho, nunca utilizar fora do serviço de saúde. No intervalo de descanso, retire-o e deixe-o acondicionado adequadamente. Transporte-o sempre protegido por um saco plástico. Utilize-o corretamente. Outras medidas preventivas simples que devem fazer parte da rotina dos prof issionais de saúde, tais como manter cabelos presos, totalmente cobertos pela touca; unhas aparadas, de preferência sem pinturas excessivas e com cutículas íntegras; evitar o uso de adornos, e a lavagem das mãos, diminuem os riscos de contaminação e infecção cruzada. 9 A lavagem das mãos é a medida mais simples e a mais importante na prevenção e controle de infecção, o uso de água e sabão propicia a remoção de bactérias transitórias e algumas residentes, como também elimina células descamativas, suor, sujidades e oleosidade da pele.10,11 Para maior ef icácia, utilizar a f ricção com álcool a 70%, por 15 segundos, lembrando que se deve proceder esta f ricção com as mãos secas, pois, se estiverem molhadas, a ef icácia diminui.12,13 Além dos cuidados pessoais o prof issional de saúde deve atentar- se para a prevenção de contaminação durante toda a sua rotina, desde o preparo do ambiente de trabalho, mantendo superf ícies limpas, preparando adequadamente o material para atendimento dos usuários, uso de medidas preventivas no cuidado direto e no gerenciamento e descarte dos resíduos dos serviços de saúde (RSS). Lembre-se: A lavagem das mãos é uma técnica simples, de baixo custo, rápida e muito eficaz, utilize-a sem moderação. Faça deste procedimento um hábito. 223 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS Limpeza e desinfecção de superfícies A estrutura f ísica dos serviços de saúde em território brasileiro segue um padrão normativo exigido pelo Ministério da Saúde (MS), que através da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), por meio da RDC nº 50 de 21 de fevereiro de 2002, regulamentou as exigências sobre o planejamento, programação, elaboração e avaliação de projetos f ísicos de estabelecimentos assistenciais de saúde.5 A ANVISA elaborou recentemente um manual que aborda aspectos sobre a segurança do paciente em serviços de saúde, e discorre com riqueza de detalhes sobre a limpeza e desinfecção de superf ícies, que são considerados elementos primários e ef icazes de controle e que colaboram para o rompimento da cadeia epidemiológica das infecções. 12,14 A limpeza e desinfecção das superf ícies visa garantir aos usuários do serviço um ambiente limpo e com menor carga de contaminação possível, com redução da possibilidade de transmissão de infecção por estas fontes inanimadas. 15 As superf ícies em serviços de saúde compreendem: mobiliários, pisos, paredes, divisórias, portas e maçanetas, tetos, janelas, equipamentos para a saúde, bancadas, pias, macas, suporte para soro, balança, computadores, instalações sanitárias, ventilador, exaustor, luminárias, bebedouro, aparelho telefônico e outros. 4,16,17 Atenção: É importante que os ambulatórios, elaborem normas e rotinas próprias do processo de trabalho a ser desenvolvido, estabelecendo a frequência e o tipo de limpeza que deverá ser realizada no ambiente. Como exemplo, limpeza e desinfecção de armários uma ou duas vezes por semana; paredes ao final de cada dia de trabalho; maca e bancadas sempre entre um curativo e outro. http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2002/res0050_21_02_2002.html http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2002/res0050_21_02_2002.html 224 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS Os ambulatórios devem possuir protocolos próprios referentes aos procedimentos operacionais padrão (POP), que enfatizem medidas importantes, tais como: utilizar a varredura úmida para evitar a dispersão de microrganismos pelas partículas de pó; utilizar produtos saneantes aprovados pela ANVISA; usar produtos desinfetantes apenas em superf ícies com matéria orgânica; padronização de todas as ações desenvolvidas no local, e cronograma de limpeza atentando para os locais com maior potencial de contaminação. 12 Neste sentido, a sala onde são realizados os curativos apresenta alto potencial de contaminação, uma vez que pode apresentar a presença de sangue, secreção e matéria orgânica, como restos de tecidos necróticos. A sala de curativos deve ser limpa sempre ao f inal de cada turno de trabalho, bem como o lixo contendo RSS deve também ser retirado. Vale ressaltar que estes resíduos podem apresentar grande quantidade de secreção e que o odor pode ser forte, por isso o descarte deve ser adequado. Importante: Lembre sempre do princípio científico da limpeza e desinfecção de superfícies, realizar do local menos contaminado para o mais contaminado. Para limpeza concorrente utilizar água e sabão, e para a desinfecção fazer fricção por 15 segundos com álcool a 70%, sempre utilizando o mesmo sentido, com três repetições. Na maca da sala de curativo, por exemplo, em muitos casos o local mais contaminado será a área destinada à limpeza de pernas e pés, assim a limpeza e desinfecção deverão ocorrer da cabeceira em direção à peseira. 225 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS Segundo RDC nº 306 de 2004, conforme princípios de biossegurança para prevenir acidentes, preservando a saúde pública e o meio ambiente, foi estabelecida a responsabilidade por parte dos serviços de saúde pelo correto gerenciamento de todos os RSS. Todas as etapas devem ser realizadas de forma ordenada, garantindo o manejo adequado, desde a separação dos RSS, armazenamento, tratamento e disposição f inal. 18 Atenção: Utilizar somente 80% da capacidade dos recipientes coletores. No transporte deste material não permitir que o mesmo toque no profissional, não o arrastar. Os RSS que necessitam, ser transportados por empresas para tratamento e disposição final necessitam obrigatoriamente, ficar armazenados em local separado, em recipientes fechados e abrigados em sala específica. 11 Reprocessamento de artigos nos serviços de saúde Como foi abordado no início deste capitulo, muitos artigos que entram em contato com o portador de feridas são reutilizáveis, e precisam ser adequadamente mantidos e manipulados. Os artigos de múltiplo uso são classificados de acordo com os riscos potenciais de transmissão de infecção para os pacientes e para definição dos processos a que serão submetidos após seu uso. 3,10,19 As práticas de reprocessamento dos materiais necessitam de estrutura, métodos e produtos adequados para garantir a segurança do procedimento, diminuindo ou eliminando o risco de transmissão de agentes infecciosos. Os métodos mais utilizados são os processos f ísicos, através do uso de autoclaves; os processos químicos como, por exemplo, o glutaraldeído a 2% e o ácido peracético; e processos f ísico-químicos, como o óxido de etileno, este último utilizado por empresas especializadas. 9 226 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAISAtenção: Segundo o Art. 92 da seção IX da RDC nº 15, não é permitido o uso de estufas para a esterilização de produtos para saúde.11 A validação e comprovação da eficácia do processo é realizada com uso de testes e indicadores, que podem ser físicos (tempo, temperatura, pressão etc), químicos (utilizados na parte externa e interna de todos os pacotes e indicam se estes passaram pelo processo) e biológicos (são preparações de cepas puras de microrganismos de alta resistência, podendo ser realizado ao início do dia, semanalmente ou conforme protocolo definido pelo serviço de saúde). 9,10,11 Contudo, é essencial que o elemento humano, prof issional de saúde, responsável pela realização de procedimentos, aplique e avalie constantemente o conhecimento sobre recomendações para a reutilização segura de artigos na assistência. 18,20 Atenção: Problemas referentes às falhas nas práticas de limpeza, desinfecção e esterilização dos artigos podem envolver a fabricação, manipulação, manutenção ou armazenagem dos mesmos e dos produtos usados para esta finalidade. Importante: Se o artigo apresentar sujidade visível, deverá retornar ao processo de limpeza inicial, pois de nada adianta ter tecnologia disponível e fazer uso de testes com alto custo para validação do processo de esterilização, se os artigos não estiverem livres de material orgânico ou inorgânico. 227 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS Atenção: Segundo o Art. 79 da seção IX da RDC nº 15, não é permitido o uso de papel kraft como embalagem de artigos por conter amido, microfuros, corantes e produtos tóxicos. Além disso, não resiste à umidade, apresenta irregularidades na gramatura, se mostra frágil quanto à resistência física e vulnerável com barreira microbiana após a esterilização. 11 A primeira etapa do reprocessamento e também uma das mais importantes é a limpeza dos artigos, onde é utilizada a ação mecânica (f ricção) ou produtos enzimáticos para remoção completa das sujidades, pois a presença de matéria orgânica dif iculta a ação dos produtos químicos nos processos de desinfecção e esterilização, inviabilizando estes processos. 11,16,17,21 O reprocessamento dos artigos tem como fases subsequentes a secagem, inspeção e avaliação da integridade e funcionalidade, desinfecção, preparo, embalagem, rotulagem, esterilização com uso de testes biológicos e químicos para análise residual do agente esterilizante, garantindo assim o desempenho e a segurança de todo o processo. 11,20 Ao final do processo de esterilização, os pacotes não devem ser colocados sobre superfícies frias, pois poderão provocar condensação com possibilidade de contaminação. Seu armazenamento deverá ser em local limpo e seco, sob proteção da luz solar direta e submetidos à manipulação mínima. 13,16,18 Atenção: Para lavagem dos artigos que contenham ranhuras ou serrilhas, nunca utilize materiais abrasivos, esponjas ou materiais com possibilidade de liberação de partículas, sempre utilize escovas de fio sintético, as quais devem ser substituídas periodicamente.11 228 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS Considerações finais Diante do exposto, enfatiza-se o importante papel do ambiente como reservatório de microrganismos nos serviços de saúde, especialmente os multirresistentes. Ainda, a presença de matéria orgânica favorece a proliferação de microrganismos e o aparecimento de insetos e roedores, que podem veicular microrganismos nos serviços de saúde. O aparecimento de infecções nesses ambientes pode estar relacionado ao uso de técnicas incorretas de limpeza e desinfecção de superf ícies, falhas no processo de trabalho e reprocessamento de artigos, e manejo inadequado dos RSS.21 Sendo assim, é de extrema importância que os prof issionais sigam as recomendações dos órgãos regulamentadores, bem como os protocolos implantados pelos serviços de saúde, minimizando o risco de infecções e colaborando para a preservação do meio ambiente. 229 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS Referências BASSO M., ABREU E. S. Limpeza, desinfecção de artigos e áreas hospitalares e antissepsia. 2 ed. São Paulo, 1994. AGUIAR, C. A., SOARES, E. SILVA, C. S. Evolução das centrais de material e esterilização: História, atualidades e perspectivas para a Enfermagem. Enfermería global, n. 15, 2009. APECIH – Associação Paulista de Estudos e Controle de Infecção Hospitalar, 2004. BRASIL. Ministério da saúde. Coordenação de Controle de Infecção. Processamento de Artigos e Superfícies em Estabelecimentos de Saúde. Brasília, 1994. BRASIL. Ministério da Saúde. Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução RDC nº 50 de 21 de fevereiro de 2002. Dispõe sobre o regulamento técnico para planejamento, programação, elaboração e avaliação de projetos f ísicos de estabelecimentos assistenciais de saúde. Brasília, 2002. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução RDC Nº 306, de 7 de dezembro de 2004. Dispõe sobre o Regulamento Técnico para o gerenciamento deresíduos de serviços de saúde. Brasília, 2004. BRASIL. Ministério da saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Segurança do Paciente em Serviços de Saúde – Higienização das mãos. Brasília, 2009. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução RDC Nº 2, de 25 de janeiro de 2010. Dispõe sobre o gerenciamento de tecnologias em saúde em estabelecimentos de saúde. Brasília, 2010. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de vigilância Sanitária (ANVISA). RDC nº 42, de 25 de outubro de 2010. Dispõe sobre a obrigatoriedade de disponibilização de preparação alcoólica para fricção antisséptica das mãos,pelos serviços de saúde do País e dá outras providências. Brasília, 2010. BRASIL. Ministério da Saúde. Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). RDC Nº 31, de 4 de julho de 2011. Dispõe sobre a indicação de uso dos produtos saneantes na categoria “Esterilizante”, para aplicação sob a forma de imersão, a indicação de uso de produtos saneantes atualmente categorizados como “Desinfetante Hospitalar para Artigos Semicríticos” e dá outras providências. Brasília, 2011. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 230 MÓDULO 3 - ASPECTOS LEGAIS OLIVEIRA, A. Infecções Hospitalares, Epidemiologia, Prevenção e Controle. Rio de Janeiro: Medsi, 2005. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução RDC Nº 15, de 15 de março de 2012. Dispõe sobre requisitos de boas práticas para o processamento de produtos para saúde e dá outras providências. Brasília, 2012. HINRICHSEN, S. L. et al. Limpeza Hospitalar: Importância no Controle de Infecções. In: HINRICHSEN, S. L. Biossegurança e Controle de Infecções. Risco Sanitário Hospitalar. Rio de Janeiro: Medsi, 2004. PINTO, M. B.; VILAS–BOAS, V. A.; FREITAS, M. I. P. Validação do processo de limpeza de artigos odonto-médico-hospitalares: uma revisão integrativa. Rev. SOBECC, São Paulo, 2013. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Segurança do Paciente em Serviço de Saúde: Limpeza e Desinfecção de Superfícies, Brasília, 2012. FREITAS, L. R. et al. Embalagem de tecido de algodão: análise do uso em hospitais de médio e grande porte. Rev. Eletr. Enf., 2012. GARNER, J. S. The hospital infection control practices advisory committee. Guideline for isolation precautions in hospital.Infect. Control Hosp. Epidemiol. 1996. VOLPATO A. C. B.; PASSOS V. C. S. Técnicas básicas de enfermagem. 4.ed. São Paulo: Martiniari, 2014. MOURA, M. L. P. A. Enfermagem em Centro de Material e Esterilização. 10. ed. São Paulo: Senc, 2011. OURIQUES, C. M;MACHADO, M. E. Enfermagem no processo de esterilização de materiais. Texto Contexto Enferm., Florianópolis, 2013. POTTER, P; PERRY, A.G. Fundamentos de Enfermagem. 8° ed. Elsevier. 2013. 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 TI P O D E TE C ID O A N EX O - I Q U A D R O G U IA P A R A S EL EÇ Ã OD E P R O D U TO S E C O B ER TU R A S D E A C O R D O C O M A A V A LI A Ç Ã O D O L EI TO D A F ER ID A N ec ro se d e co ag u la çã o – n ec ro se s ec a N ec ro se d e liq u ef aç ão / es fa ce lo m u có id e / n ec ro se ú m id a E sf ac el o fi b ri n o so D es b ri d ar D es b ri d ar D es b ri d ar P ap aí n a em p ó a 1 0 0 % o u c re m e o u g el a 1 0 % ; C o la g en as e; H id ro g éi s; G el d e P H M B ; P la ca d e h id ro co ló id e. P ap aí n a em p ó a 1 0 0 % o u c re m e o u g el a 1 0 % ; C o la g en as e; G el d e P H M B ; H id ro fi b ra s co m p ra ta ; C ar vã o a ti va d o ; Su lf ad ia zi n a d e p ra ta ; O xi g en o te ra p ia . G el d e P H M B ; Io d o so rb ; H id ro fi b ra s; H id ro co ló id e; E sp u m as ; C re m e d e al o ev er a. U m ed eç a a n ec ro se c o m s o ro m o rn o, r ea liz e té cn ic a d e sq u ar e p ar a fa vo re ce r a aç ão d o p ro d u to . U se a t éc n ic a d e d es b ri d am en to in st ru m en ta l q u an d o a s b o rd as d a n ec ro se n ão e st iv er em a d er id as a o le it o. O s h id ro g éi s fa vo re ce m o d es b ri d am en to a u to lít ic o, q u e é m ai s le n to . A p la ca d e h id ro co lo id e fa vo re ce o d es b ri d am en to p o r m an te r o p ro d u to n o le it o. R eq u er a li m p ez a p ré vi a co m so lu çã o fi si o ló g ic a m o rn a, ab u n d an te , c o m ja te am en to c o m se ri n g a e ag u lh a. O d es b ri d am en to in st ru m en ta l co n se rv ad o r p o d e se r em p re g ad o p ar a p ro m ov er a li m p ez a d e fo rm a m ai s rá p id a, s eg u in d o a s in d ic aç õ es co n ti d as n o c ap ít u lo s o b re d es b ri d am en to . A te n çã o a o m an ej o d o e xs u d at o, n ão u ti liz e a p la ca d e h id ro co ló id e p ar a fa vo re ce r a re m o çã o d o es fa ce lo s e a fe ri d a fo r m u it o ex su d at iv a. Fe ri d as c rô n ic as e xi g em t ra ta m en to d o b io fi lm e, s en d o a ss im , o g el d e P H M B p o d e se r as so ci ad o a o h id ro co lo id e e es p u m as q u e n ão co n te n h am p ra ta . C A R A C TE R IS TI C A S D O T EC ID O P R O D U TO O U C O B ER TU R A O B SE R V A Ç Õ E S IM P O R TA N TE S O Q U E FA ZE R Te ci d o d e g ra n u la çã o v iá ve l Te ci d o d e g ra n u al aç ão es cu ro o u p ál id o E p it el iz aç ão P el e ao r ed o r Le m b re -s e: A e sc o lh a d o p ro d u to d ev e co n si d er ar a s co n d iç õ es c lí n ic as e s o ci ai s d a p es so a co m f er id a, p o is a s ca ra ct er ís ti ca s d o s te ci d o s q u e en co n tr am o s n o l e it o d ep en d em d es ta s co n d iç õ es . S en d o a ss im , a es co lh a d o p ro d u to a d eq u ad o p ar a fe ri d as c av it ár ia s e co m p ro fu n d id ad e, p o r ex e m p lo , é d if er en te d o i n d ic ad o p ar a fe ri d as p la n as o u p o te n ci al m en te c o n ta m in ad as , co m o a s q u ei m ad u ra s. A e sc o lh a d o p ro d u to t am b ém d ev e co n si d er ar a q u an ti d ad e d e ex su d at o p ro d u zi d a. L em b re -s e ta m b ém d a im p o rt ân ci a d a in ve st ig aç ão d a ca u sa d a fe ri d a p ar a ev it ar a m o rt e ce lu la r (n ec ro se ) e fa vo re ce r a g ra n u la çã o e e p it el iz aç ão . P ro te g er M an te r u m id ad e e te m p er at u ra id ea l Tr at ar a ca u sa d a p er tu rb aç ão d a g ra n u la çã o ; P ro te g er ; M an te r te m p er at u ra e u m id ad e ad eq u ad a. P ro te g er E vi ta r re ci d iv as P ro te g er H id ro g éi s; H id ro fi b ra s; E sp u m as ; P la ca d e h id ro co lo id e; A lg in at o d e cá lc io ; C re m e d e ca lê n d u la ; A lo e ve ra ; G el o u c re m e d e ác id o ; h ia lu rô n ic o ; Fi to sc ar ; B io m em b ra n as ; A G E ; M al h as n ão a d er en te s; G az e u m id ec id a o u im p re g n ad a; O zo n io te ra p ia . G el d e P H M B ; H id ro fi b ra s co m p ra ta ; C ar vã o a ti va d o ; H id ro co ló id e; E sp u m as c o m P re ss ão n eg at iv a; O xi g en o te ra p ia ; O zo n io te ra p ia ; Te ra p ia f o to d in âm ic a. E sp u m a co m o u s em si lic o n e; Fi lm e tr an sp ar en te ; G el o u c re m e d e ác id o h ia lu rô n ic o. A G E ; C re m es b ar re ir a; So lu çõ es h id ra ta n te s. C on si d er ar a q u an ti d ad e d e ex su d aç ão d a le sã o p ar a es co lh er a c ob er tu ra . O u so d e al g in at o d e cá lc io e xi g e ap lic aç ão c om d is ta n ci am en to d as b or d as d a le sã o. Fe ri d as c om p ro fu n d id ad e ex ig em o u so d e p ro d u to s q u e fa vo re ça m o p re en ch im en to . N ão u se c ob er tu ra s ad er en te s ao le it o, p ar a n ão c au sa r d an os n a re m oç ão d o cu ra ti vo . E vi te a h ip er g ra n u la çã o co m p ro d u to s q u e tr at em a in fl am aç ão , e vi ta n d o ai n d a a u m id ad e ex ce ss iv a. E m f er id as p ou co e xs u d at iv as n ão u se p ro d u to s m u it o ab so rv en te s, p oi s p od em c au sa r re ss ec am en to d o le it o. A s ca u sa s m ai s co m u n s d ev em s er tr at ad as , c o m o a in fe cç ão d o le it o, is q u em ia e h ip óx ia c ir cu la tó ri a o u an êm ic a, p re ss ão n o le it o e n tr e o u tr as ( vo lt e ao c ap ít u lo s o b re t ip o s d e te ci d o ). A e sc o lh a d o p ro d u to d ev e es ta r in te g ra d a ao m an ej o lo ca l e si st êm ic o d o s fa to re s q u e co m p ro m et em a g ra n u la çã o v iá ve l. M es m o a p ó s a ep it el iz aç ão co m p le ta d a le sã o é n ec es sá ri o m an te r a p ro te çã o lo ca l. Lo g o, o m o n it o ra m en to d ev e es ta r p re vi st o n o p la n o d e cu id ad o s. N ão lu b ri fi q u e a p el e n a ár ea d e ad es ão d e es p u m as e h id ro co lo id es . N ão a p liq u e p ro d u to s d e p ro te çã o e lu b ri fi ca çã o s em a n te s h id ra ta r e lim p ar a p el e co m s o lu çã o fi si o ló g ic a m o rn a.