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Espero que estudes e que sejas feliz. Como advérbios, que guardam com o núcleo verbal uma relação, em geral, mais frouxa, esses advérbios podem vir em princípio em qualquer posição dentro da oração em que se inserem: Eles não chegaram nem todavia deram certeza da presença. Eles não chegaram nem deram, todavia, certeza da presença. Eles não chegaram nem deram certeza da presença, todavia. Também os advérbios não participam da particularidade das conjunções coordenativas de constituírem um bloco unitário de enunciados coordenados por sua vez coordenado a outro anterior [CA.1]: Luís é vegetariano, mas [não come abóbora nem bebe chá]. Remetemos dois convites ao Paulo, mas [ou ele se mudou ou está doente]. Transpositores ou conjunções subordinativas Transpositores ou conjunções subordinativas – Já dissemos que o transpositor ou conjunção subordinativa transpõe oração degradada ou subordinada ao nível de equivalência de um substantivo capaz de exercer na oração complexa uma das funções sintáticas que têm por núcleo o substantivo. Falamos em oração complexa e chegou o momento de diferençá-la em relação ao grupo oracional. Oração complexa é aquela que tem um ou mais dos seus termos sintáticos sob forma de uma oração subordinada. Esperamos [que todos venham ao baile], em que a oração transposta pelo que exerce uma das funções comuns ao substantivo: objeto direto do núcleo verbal esperamos. Já no grupo oracional temos orações coordenadas, independentes, e que, por isso mesmo, podem ser usadas separadamente umas das outras: Chegamos tarde e não assistimos a todo o filme, mas vimos o mais interessante dele. Chegamos tarde. Não assistimos a todo o filme. Vimos o mais interessante dele. As conjunções e e mas não modificam o valor sintático das orações reunidas; apenas indicam o tipo de relação semântica: adição (e) e contraste (mas). Além do que transpositor de oração ao nível de substantivo, chamado conjunção integrante, e do que pronome relativo, que transpõe oração ao nível de adjetivo, a língua portuguesa conta com poucos outros transpositores: a) Se que transpõe oração originariamente interrogativa total, isto é, desprovida de unidade interrogativa, ao nível de substantivo, conhecida, por isso mesmo, como conjunção integrante, a exemplo do que anterior: Ela não sabe [se terá sido aprovada]. Aqui a oração interrogativa Terá ela sido aprovada ? se transpõe, mediante o se, ao nível de substantivo e como tal está habilitada a exercer a função de objeto direto do núcleo verbal não sabe, sem o primitivo contorno melódico interrogativo. b ) Se que transpõe oração ao nível de advérbio, e como tal está habilitada a exercer a função de adjunto adverbial, com valor de circunstância de condição e é, por isso mesmo, chamado conjunção condicional. Que e locuções: as chamadas locuções conjuntivas Que e locuções: as chamadas locuções conjuntivas – A oração transposta a substantivo pela conjunção que, de acordo com a função sintática que exerce em relação ao núcleo verbal da oração chamada “principal”, pode receber um índice funcional representado por uma preposição. Se exerce função de sujeito, objeto direto, predicativo, não precisará deste índice funcional: Parece [que vai chover]. Esperamos [que cheguem cedo]. A verdade é [que todos se saíram bem]. Se a função é de complemento relativo ou de objeto indireto, ou complemento nominal, a conjunção que vem precedida da conveniente preposição: Estavam precisando [de que os ajudassem]. Ela dedicava seu cuidado [a que o filho tivesse boa educação]. Eram poucas as esperanças [de que tudo acabasse bem]. Como todo substantivo transposto, a oração subordinada substantiva pode exercer a função de adjunto adverbial; neste caso, o que também terá a companhia de uma preposição adequada, que marcará a relação semântica da circunstância: Tudo sairá bem [desde que as providências sejam tomadas a tempo]. [Sem que estivesse tudo acertado], não iria viajar. Trabalhou afincadamente [para que tivesse uma velhice tranquila]. Ela só dizia tudo aquilo porque [= por que gostava da verdade]. Pelo que podemos observar, tais combinações de preposição e conjunção que não constituem outros tipos especiais de locuções; são, na realidade, o concurso de um que, transpositor de oração a substantivo e de uma preposição que o acompanha como índice de sua função sintática em relação ao núcleo verbal, função, aliás, exercida pela oração inteira. Nisto, o que conjunção difere do que pronome relativo, pois aqui a preposição é índice da função sintática que o relativo exerce na oração em que está inserido: O homem de que falavas era pouco conhecido na cidade, em que o transpositor que, precedido de preposição, funciona como complemento relativo do núcleo verbal falavas, enquanto a oração transposta a adjetivo de que falavas funciona como adjunto adnominal do substantivo homem. Também se formam “locuções” aparentemente especiais quando temos segmentos do tipo logo que, sempre que, ainda que, etc., em que aparecem advérbios (que sozinhos podem funcionar como adjunto adverbial) seguidos do transpositor relativo que, já que esse relativo é um “repetidor” de advérbio, papel análogo ao que desempenha como “repetidor” (isto é, referente) de substantivo ou pronome. Assim, se na oração independente Logo saiu de casa, o advérbio logo funciona como adjunto adverbial; quando a oração se transpõe a subordinada: [Logo que saía de casa], encontrou o amigo, exercerá também a função de adjunto adverbial. O que degrada a oração saía de casa a subordinada e lhe confere o papel de termo adjunto do advérbio logo. Formalmente, esse relativo será equivalente a quando: Quando saía de casa, encontrou o amigo [AL.1, 236]. Este papel repetidor do relativo que parece estar presente em construções do tipo há (faz) dias (meses, anos, tempo, etc.), em que já não temos um advérbio, mas substantivo cujo significado léxico aponta para o campo das expressões denotadoras de espaço ou percurso de tempo: Há dias que não o vejo, em que também, pelo sentido, o relativo equivale a quando. Cabe lembrar, por fim, que, em algumas construções, se pode alterar o significado originário do advérbio, motivado pelos significados dos lexemas que entram na oração e por uma interpretação suplementar, contextual, do falante, calcada na sua experiência de mundo. Assim, já, que tem valor originário temporal, ao unir-se ao que na fórmula já que, passa a uma interpretação causal ou condicional: Já que todos saíram, desisto do negócio. Da mesma sorte, ainda, nitidamente temporal, ao unir-se ao que na locução ainda que, altera seu significado para valor concessivo, equivalente a embora: Nada conseguiu da justiça, ainda que juntasse todas as provas em sua defesa. Da mesma sorte que não são conjunções coordenativas os advérbios contudo, entretanto, pois, etc., equivalentes pelo sentido a unidades introdutoras de enunciados adversativos, explicativos e conclusivos, assim também não são conjunções subordinativas certos advérbios de significado causal, concessivo, temporal, consecutivo, etc. Damos a seguir uma lista das principais conjunções e “locuções conjuntivas” subordinativas, relacionando-as pelo matiz semântico, reunindo, ainda, as que se formam com o concurso do transpositor que conjunção e do transpositor relativo que, examinados anteriormente, bem como das comparativas e consecutivas que têm outro tratamento. Estudo complementar delas veremos ao tratar das orações subordinadas: 1) Causais: quando iniciam oração que exprime a causa, o motivo, a razão do pensamento da oração principal: que (= porque) , porque, como (= porque, sempre anteposta a sua principal, no português moderno), visto que, visto como, já que, uma vez que (com verbo no indicativo), desde que (com o verbo no indicativo), etc.: “A memória dos velhos é menos pronta porque o seu arquivo é muito extenso” [MM]. “Como ia de olhos fechados, não via o caminho” [MA.1, 19]. “Desde que se fala, indeterminadamente, e no plural, em direitos adquiridos e atosjurídicos perfeitos, razão era que no plural e indeterminadamente se aludisse a casos julgados” [RB.4, 25]. Observações: 1.ª) Já se condenou injustamente o emprego de desde que em sentido causal, só o aceitando com ideia temporal (assim que) ou condicional. 2.ª) Evite-se o emprego de de vez que por não ser locução legítima. 2) Comparativas: quando iniciam oração que exprime o outro termo da comparação. A comparação pode ser assimilativa ou quantitativa. É assimilativa “quando consiste em assimilar uma coisa, pessoa, qualidade ou fato a outra mais impressionante, ou mais conhecida” [MC.3, II, 48]. As unidades comparativas assimilativas são como ou qual, podendo estar em correlação com assim ou tal postos na oração principal, ou ainda aparecer assim como: “O medo é a arma dos fracos, como a bravura a dos fortes” [MM]. “A ignorância, qual outro Faetonte, ousa muito e se precipita como ele” [MM]. “O jogo, assim como o fogo, consome em poucas horas o trabalho de muitos anos” [MM]. A comparação quantitativa “consiste em comparar, na sua quantidade ou intensidade, coisas, pessoas, qualidades ou fatos” [MC.3]. Há três tipos de comparação quantitativa: a) Igualdade – introduzida por como ou quanto em correlação com o advérbio tanto ou tão da oração principal: “Nenhum homem é tão bom como o seu partido o apregoa, nem tão mau como o contrário o representa” [MM]. “Nada incomoda tanto aos homens maus como a luz, a consciência e a razão” [MM]. b) Superioridade – introduzida por que ou do que em correlação com o advérbio mais da oração principal: “O orgulho do saber é talvez mais odioso que o do poder” [MM]. “O homem bom espera mais do que teme, o mau receia mais do que espera” [MM]. c) Inferioridade – introduzida por que ou do que em correlação com o advérbio menos da oração principal: “Tempos há em que é menos perigoso mentir que dizer verdades” [MM]. 3) Concessivas: quando iniciam oração que exprime que um obstáculo – real ou suposto – não impedirá ou modificará a declaração da oração principal: ainda que, embora, posto que, se bem que, apesar de que, etc.: “Ainda que perdoemos aos maus, a ordem moral não lhes perdoa, e castiga a nossa indulgência” [MM]. 4) Condicionais (e hipotéticas): quando iniciam oração que em geral exprime: a) uma condição necessária para que se realize ou se deixe de realizar o que se declara na oração principal; b) um fato – real ou suposto – em contradição com o que se exprime na principal. Este modo de dizer é frequente nas argumentações. As principais conjunções condicionais (e hipotéticas) são: se, caso, sem que, uma vez que (com o verbo no subjuntivo), desde que (com o verbo no subjuntivo), dado que, contanto que, etc: “Se os homens não tivessem alguma coisa de loucos, seriam incapazes de heroísmo” [MM]. “Se as viagens simplesmente instruíssem os homens, os marinheiros seriam os mais instruídos” [MM]. 5) Conformativas: quando iniciam oração que exprime um fato em conformidade com outro expresso na oração principal: como, conforme, segundo, consoante: “Tranquilizei-a como pude” [MA.1, 174]. Fez os exercícios conforme o professor determinou. 6) Consecutivas: quando iniciam oração que exprime o efeito ou consequência do fato expresso na oração principal. A unidade consecutiva é que, que se prende a uma expressão de natureza intensiva como tal, tanto, tão, tamanho, posta na oração principal. Estes termos intensivos podem facilmente calar-se: “Os povos exigem tanto dos seus validos, que estes em breve tempo se enfadam e os atraiçoam” [MM]. “Os vícios são tão feios que, ainda enfeitados, não podem inteiramente dissimilar a sua fealdade” [MM]. “Vive de maneira que ao morrer não te lastimes de haver vivido” [MM]. isto é: vive de tal maneira que (que em consequência...). 7 ) Finais: quando iniciam oração que exprime a intenção, o objetivo, a finalidade da declaração expressa na oração principal: para que, a fim de que, que (para que) , porque (para que): “Levamos ao Japão o nosso nome, para que outros mais felizes implantassem naquela terra singular os primeiros rudimentos da civilização ocidental” [LCo apud FB.1, 219]. 8 ) Modais: quando iniciam oração que exprime o modo pelo qual se executou o fato expresso na oração principal: sem que: Fez o trabalho sem que cometesse erros graves. Observação: A Nomenclatura Gramatical Brasileira não agasalhou as conjunções modais e, assim, as orações modais, apesar de pôr o modo entre as circunstâncias adverbiais. 9) Proporcionais: quando iniciam oração que exprime um fato que ocorre, aumenta ou diminui na mesma proporção daquilo que se declara na oração principal: à medida que, à proporção que, ao passo que, (tanto mais)... quanto mais, (tanto mais)... quanto menos, (tanto menos)... quanto mais, (tanto mais)... menos, etc.: “O anão quanto mais alto sobe, mais pequeno se afigura” [MM]. Progredia à medida que se dedicava aos estudos sérios. 10) Temporais: quando iniciam oração que exprime o tempo da realização do fato expresso na oração principal. As principais conjunções e “locuções temporais” são: a) para o tempo anterior: antes que, primeiro que: “Ninguém, senhores meus, que empreenda uma jornada extraordinária, primeiro que meta o pé na estrada, se esquecerá de entrar em conta com suas forças...” [RB apud FB.1, 126]. b) para o tempo posterior (de modo indeterminado): depois que, quando: Quando disse isso, ninguém acreditou. c) para o tempo posterior imediato: logo que, tanto que (hoje raro), assim que, desde que, eis que, (eis) senão quando, eis senão que: Logo que saíram, o ambiente melhorou. d) para o tempo frequentativo (repetido): quando (com o verbo no presente), todas as vezes que, (de) cada vez que, sempre que: “Quando o povo não acredita na probidade, a imoralidade é geral” [MM]. Observação: Evite-se o erro de preceder com em o que da locução todas as vezes que (dizendo: todas as vezes em que). e) para o tempo concomitante: enquanto, (no) entretanto que (hoje raro): Dormiu enquanto estava no cinema. Observação: Entretanto ou no entretanto são advérbios de tempo, com o sentido de nesse ínterim, nesse tempo, nesse intervalo: “O aperto dos sitiados aumentava entretanto de dia para dia” [RS.2, IV, 208]. Mais modernamente entretanto passou a ter sentido adversativo, e, por influência do advérbio, tem sido empregado precedido da combinação no (no entretanto). Muitos puristas condenam tal acréscimo. f) para o tempo terminal: até que: Passeou até que se sentisse esgotado. O relativo que entra em expressões de tempo: agora que, hoje que, a primeira vez que, etc. Agora, que tudo acabou, posso pensar mais tranquilamente. Se o conjunto é proferido sem pausa, estabelece-se uma unidade de sentido à semelhança de depois que, já que, etc., e se passa a considerar o todo como locução conjuntiva temporal: Agora que tudo acabou, posso pensar mais tranquilamente. Que excessivo Que excessivo – Sob o modelo das “locuções” conjuntivas finalizadas por que, desenvolveu-se o costume de acrescentar este transpositor junto a advérbio que só por si funciona como adjunto adverbial: enquanto que, apenas que, embora que, mal que, etc., construções que os puristas não têm visto com bons olhos, apesar dos exemplos de escritores corretos: “... porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos” [MA.1, 24]. Aparece ainda o que excessivo depois de expressões de sentido temporal como: Desde aquele dia que o procuro. Conjunções e expressões enfáticas Conjunções e expressões enfáticas – As conjunções coordenativas podem aparecer enfatizadas. Para esta ênfase o idioma se serve de vários recursos. Assim, a adição pode vir encarecida das expressões do tipo: não só... mas (também) não só... mas (ainda) não só... senão (também) não só... que também, etc. Não só se aplica ao português mas ainda ao latim. A alternativa pode ser enfatizada pela repetição: Ou estudas ou brincas. Já dizes sim já dizes não. Ora vem aqui, ora vai ali.A série nem... nem adquire sentido aditivo negativo. Nem estudou nem tirou boas notas (não estudou e não tirou...) Quer... quer e ou... ou, com o verbo no subjuntivo e tom de voz descendente, podem adquirir um sentido suplementar de concessão quando a possibilidade de ações opostas não impede a declaração contida na oração principal: Quer estudes quer não, aprenderás facilmente a lição. Nas subordinadas e principais, a correlação de uma expressão com o conectivo ou outro termo da oração a que se prende, para mostrar relação semântica em que essas orações se acham com a circunstância ou fato já expresso, é outro meio de enfatizar a interdependência oracional. Esta expressão memorativa é constituída por advérbio ou equivalente: “Como os sábios não adulam os povos, também estes os não promovem” [MM]. “Quando os homens se desigualam, então se harmonizam” [MM]. Embora não me digam a verdade, ainda assim perguntarei mais vezes. “Acabemos, pois, de despertar deste mortal letargo” [ED.1, 119]. “Estudemos portanto, e não nos deixemos dominar pela preguiça” [RV.1, 251]. 10 – Interjeição Interjeição Interjeição – É a expressão com que traduzimos os nossos estados emotivos. Têm elas existência autônoma e, a rigor, constituem por si verdadeiras orações. Em certas situações, algumas podem estabelecer relações com outras unidades e com elas constituir unidades complexas. Acompanham-se de um contorno melódico exclamativo. Podem, entretanto, assumir papel de unidades interrogativo-exclamativas e de certas unidades próprias do chamamento, chamadas vocativo, e ainda por unidades verbais, como é o caso do imperativo [AL.1, 240; MC.4, 147]. As interjeições se repartem por quatro tipos: a) certos sons vocálicos que na escrita se representam de maneira convencional: ah!, oh!, hui!, hum; o h no final pode marcar uma aspiração, alheia ao sistema do português; b) palavras já correntes na língua, como olá!, puxa!, bolas!, bravo!, homem!, valha! (com contorno melódico exclamativo); c) palavras que procuram reproduzir ruídos de animais ou de objetos, ou de outra origem, como: clic (clique), tic-tac (tique-taque), pum!. d) locuções interjetivas: ai de mim!, cruz credo!, valha-me Deus!, aqui d’el-rei!. Eis uma relação das interjeições mais comuns da língua, conforme a situação em que se apresentam: 1) de exclamação: viva! 2) de admiração: ah!, oh! 3) de alívio: ah!, eh! 4) de animação: coragem!, eia!, sus! 5) de apelo ou chamamento: ó!, olá!, alô!, psit!, psiu! 6) de aplauso: bem!, bravo! 7) de desejo ou ansiedade: oh!, oxalá!, tomara! 8) de dor física: ai!, ui! 9) de dor moral: oh! 10) de dúvida, suspeita, admiração: hum!, hem! (também hein) 11) de impaciência: arre!, irra!, apre!, puxa! (melhor será, não registrado oficialmente, pucha) 12) de imposição de silêncio: caluda!, psiu! (demorado) 13) de repetição: bis! 14) de satisfação: upa!, oba!, opa! 15) de zombaria: fiau! Locução interjetiva Locução interjetiva – é um grupo de palavras com valor de interjeição: ai de mim, ora bolas, com todos os diabos. As interjeições são proferidas em tom de voz especial, ascendente ou descendente, conforme as diversas circunstâncias dos nossos estados emotivos. Quando estão combinadas com uma frase maior exclamativa, podem-se separar da frase por meio de uma vírgula, ou por meio do ponto de exclamação, ao qual se deve seguir, entretanto, letra minúscula: “Oh! que doce harmonia traz-me a brisa” [CAv apud MC.3, I, 65]. B) Estrutura das unidades: análise mórfica 1 – Estrutura das palavras Palavra e morfema Palavra e vocábulo: conceito Palavra e vocábulo: conceito – O termo palavra se nos apresenta com aplicações diferentes, que devem ser distinguidas e, portanto, classificadas de maneira diversa. Podemos ver a palavra habilidade sob três prismas diferentes: a) o seu aspecto material, fônico, como significante ou expressão; b) a sua significação gramatical como uma classe de palavra que se apresenta sob forma de um substantivo feminino singular; c) a sua significação lexical, isto é, o que significa a palavra habilidade em relação, por exemplo, a caridade ou amabilidade. Como expressão material, quanto ao seu aspecto fônico, como “simples” palavra, de formas, não tem nenhum significado e só pode ser classificada pelas suas características físicas: habilidade pode ser classificada, por exemplo, pelo seu número de sílabas (polissílabo), ou pela posição da sílaba tônica (paroxítono). Consideradas como puras palavras, há uma só forma “amo” (amo, ‘quero bem’ e amo ‘senhor’) e uma só forma “casa” (“a casa de meu amigo” e “Maria se casa amanhã”) [ECs.7, 54]. Nesta acepção, em vez de palavra, se pode usar o termo vocábulo, do latim vox, que significa ‘a voz’. Aqui temos de relembrar que a fronteira do vocábulo difere se se trata de língua oral ou de língua escrita. Na língua oral, na fala, predomina o ritmo acentual, o que resulta em que as sílabas átonas se agrupam em torno da sílaba tônica, de modo que são as pausas que marcam os limites ou fronteiras dos grupos fônicos, também chamadas grupos de força. Assim é que, na língua oral, há um só grupo fônico e, portanto, um só vocábulo, em aluga-se, em que a sílaba átona se se agrupa em torno da sílaba tônica (lu). Por isso, se dá, como reflexo na escrita, a grafia errônea alugasse (ou alugase). O vocábulo, portanto, nem sempre coincide com a palavra; no exemplo, temos um vocábulo e duas palavras significativas (aluga e se). Como já vimos, as sílabas átonas que se agrupam em torno da sílaba tônica podem, segundo a posição, ser proclíticas | syaluga | – se vêm antes – ou enclíticas | alugase | – se vêm depois. Na língua escrita, as fronteiras são demarcadas pelos espaços em branco: se aluga ou aluga-se. Quando, além da parte fônica (significante), se considera a parte significativa (significado), também há diferenças que devem ser levadas em conta. A questão se põe quando se pergunta quantas palavras existem no conhecido verso de Bilac: Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada. Responderemos que há quatro ou três palavras conforme o conceito por que tomemos o termo palavra. Serão quatro se entendermos cheguei, chegaste como palavras de significação gramatical diferentes, já que expressam uma o pretérito perfeito do indicativo na 1.ª pessoa do singular (eu cheguei) e a outra o pretérito perfeito do indicativo na 2.ª pessoa do singular (tu chegaste). Tais significações se dizem “gramaticais” porque decorrem de classificações estabelecidas na gramática da língua portuguesa. Assim, cheguei e chegaste são contadas como duas palavras gramaticais. Diremos que só há no referido verso três palavras se entendermos cheguei, chegaste como palavras de uma só significação lexical, já que ambas têm em comum o significado lexical ‘atingir o final de movimento de ida ou vinda’, um significado dado pela língua, mas que se situa fora da gramática, pois se trata de uma realidade do mundo em que vivemos. Assim, cheguei e chegaste são duas formas, duas “flexões” de uma mesma palavra léxica, o verbo “chegar”. É neste sentido de palavra léxica que dizemos que boa é o feminino da “palavra bom”, que meninos é o “substantivo menino no plural”[HCv.1, II, 594-595]. Repare-se que nos nossos dicionários o normal é iniciar o verbete com a palavra léxica básica: verbo no infinitivo, substantivo no gênero gramatical usual (livro, vela, pente, ponte) e adjetivo no masculino singular. Explica-se o procedimento porque o infinitivo, o masculino e o singular representam as formas não marcadas respectivamente do verbo, do substantivo e do adjetivo. Observação: Na literatura linguística e gramatical, costumam os autores distinguir convencionalmente a maneira de indicar o vocábulo e a palavra. Coseriu, por exemplo, usa itálico para a palavra como signo, isto é, como expressão (significante) + conteúdo (significado): chegar = a palavra portuguesa chegar concomitantemente como expressão e conteúdo; itálico e aspas normais (duplas) para a expressão: “chegar” = o significante de chegar / xegar/; só aspasduplas para o conteúdo: “chegar” = o significado de chegar; só aspas simples para os traços distintivos de conteúdo: ‘chegar’ = traço distintivo que se encontra no conteúdo de chegar, chegada, chegança, aconchego e demais componentes da família. Palavra e morfema Palavra e morfema – Do que foi exposto acima, conclui-se que em nossa língua, como se repete nas chamadas línguas flexionais, a palavra está constituída indissoluvelmente (a separação só se faz para efeito de análise e estudo) de uma base fônica e de duas formas semânticas, a gramatical e a lexical, conhecidas pelo nome técnico morfema. Chama-se morfema a unidade mínima significativa ou dotada de significado que integra a palavra. A depreensão do morfema ou dos morfemas que integram a palavra nem sempre constitui uma operação fácil e sujeita a uma única solução. Se tomarmos falávamos falava facilmente depreendemos o elemento comum falava, e mos como distintivo. A unidade -mos indica estar a primeira forma verbal referida à 1.ª pessoa do plural (nós), e assim, portadora de um conteúdo gramatical, é um morfema. Se agora compararmos falava fala, destacamos o morfema -va- que indica que a ação verbal se dá num passado que se prolonga (pret. imperfeito do indicativo). É, assim, outro morfema. Se agora compararmos falava falara se poderia chegar à conclusão que o elemento ou unidade distintiva das duas formas verbais fosse o -v- para a primeira ou o -r- para a segunda. A comparação com outras formas (falava / fala; falara / falasse, etc.) nos mostraria que as unidades a serem consideradas serão -va- e -ra-, que marcam o pret. imperf. e o mais-que-perf. do indicativo. Portanto, a depreensão de um morfema não é uma operação puramente material; há de se levar em consideração o seu conteúdo ou significado. Também, como são unidades que se acham em concorrência com outras unidades, estão passíveis de mudanças na sua estrutura material, devidas a regras morfofonêmicas; no português, são frequentes a elisão e a crase: porta + eiro Õ port (a) eiro Õ porteiro (elisão); porta + aria Õ portaria (crase). Outras vezes, trata-se de alteração fônica: falava / falaveis (por influência do i de is); outras vezes, de haplologia: idade + oso Õ idoso (por idadoso). Tipos de morfema na estrutura das palavras Tipos de morfema na estrutura das palavras – Na estrutura das palavras, os morfemas derivativos e flexionais se distribuem, quanto ao aspecto formal, pelos seguintes tipos, conforme ocorram por acréscimo (aditivos), por subtração (subtrativos) e por alternância (modificativos). Há ainda relações gramaticais que se estabelecem no plano sintagmático, como a concordância, a regência e a “consecutio temporum”, e também pela posição dos termos no sintagma, conhecida na gramática tradicional pelo rótulo “ordem das palavras”. Destes tipos falaremos mais adiante. Em nossa língua, são mais produtivos os morfemas aditivos, ao lado das formações com compostos; são raros os subtrativos, e os modificativos ocorrem com frequência nos casos de flexão nominal e verbal, conforme veremos no lugar competente. Morfemas aditivos Morfemas aditivos – Representados por: 1) prefixos: anteposição à base lexical: pôr Õ repor; quieto Õ inquieto 2) sufixos, interfixos e desinências: posposição à base lexical 3) infixos: intercalação no interior da estrutura da base 4) circunfixos: anteposição e posposição simultaneamente à base (parassintéticos) 5) discontínuos: fragmentação pela intercalação de outro morfema 6) reduplicativos: repetição da parte inicial da base As Unidades no Enunciado A� 9 – Conjunção Transpositores ou conjunções subordinativas Que e locuções: as chamadas locuções conjuntivas Que excessivo Conjunções e expressões enfáticas 10 – Interjeição Interjeição Locução interjetiva B� 1 – Estrutura das palavras Palavra e vocábulo: conceito Palavra e morfema Tipos de morfema na estrutura das palavras Morfemas aditivos