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Teoria geral da prova e a perícia Prof. Michel Grumach Descrição Conceitos fundamentais da prova no direito processual e meios de prova típicos, com especial atenção à prova pericial. Propósito A compreensão dos conceitos da prova oferece resultados melhores, por exemplo, na execução de contratos, em negociações de acordos e na compreensão das chances de êxito de processos de qualquer natureza, além de ser parte fundamental da capacitação do advogado para a defesa efetiva de seus clientes. Objetivos Módulo 1 Teoria geral da prova Analisar os principais conceitos da teoria geral da prova e do direito probatório em processos jurisdicionais. Módulo 2 Meios de prova Identificar os meios de prova típicos na legislação e suas especificidades. Módulo 3 Prova pericial Reconhecer o funcionamento da prova pericial. Introdução Profissionais das mais diversas áreas, inclusive além do direito, podem se beneficiar da compreensão do modo pelo qual a prova dos fatos é feita nos processos jurisdicionais. Nos mais diversos campos da vida empresarial, observa-se uma melhora consistente de resultados em litígios quando os envolvidos na vida do contrato tomam cuidado de preservar provas adequadas e compreendem a dinâmica da fixação dos fatos em juízo. Neste conteúdo, entenderemos as normas fundamentais da prova, a dinâmica da produção da prova em juízo, quais os meios de prova admitidos, com especial atenção à prova pericial. 1 - Teoria geral da prova Ao �nal deste módulo, você será capaz de analisar os principais conceitos da teoria geral da prova e do direito probatório em processos jurisdicionais. Conceitos introdutórios O direito é uma área que busca garantir a justiça e a equidade nas relações sociais e, para isso, utiliza diversas ferramentas, incluindo a prova. Confira neste vídeo o papel da prova no direito e especialmente nos processos. Prova, interdisciplinaridade e seu papel na lógica processual O conceito de prova não é apenas jurídico, pois as decisões de seres humanos racionais, nas mais diversas searas da vida, são tomadas com base no exame de determinados elementos de convencimento a sua disposição; com base no exame de provas, portanto (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021). Advogada durante uma audiência. Em um processo judicial, as partes não debatem apenas sobre a interpretação da Constituição, leis, tratados e princípios; em uma infinidade de casos, podem discutir a respeito da ocorrência ou não de fatos, do modo de ser de eventos, sobre a interpretação técnica dos acontecimentos, dentre outras possibilidades. Nesse sentido, a prova é algum traço do fato relevante ao julgamento que o julgador tenha capacidade de ver e se convencer a fim de decidir o caso concreto, já que, na maioria dos casos, não vivenciou os acontecimentos (CARNELUTTI, 1999). O direito à prova tem dimensão constitucional e principiológica, pois é faceta do direito ao contraditório, que, por sua vez, é um princípio do devido processo legal e um direito fundamental resguardado pela Constituição Federal (art. 5º, LV), por tratados internacionais de Direitos Humanos de que o Brasil é signatário, e nas Normas Fundamentais do Processo Civil (art. 7º, CPC/2015). Segundo Didier JR., Braga e Olveira (2021), trata-se de garantia complexa, que compreende os seguintes direitos: Oportunidade adequada de pedir prova. Produção da prova. Participar da produção. Manifestação sobre o que se produziu. Ver a prova produzida efetivamente examinada pelo julgador. Segundo Giuseppe Chiovenda: Entende-se que o julgador não deve adotar postura restritiva em relação à produção de provas no processo. Deve indeferir a produção daquelas consideradas “inúteis ou meramente protelatórias” (art. 370, p.u., CPC/2015), mas permitir que sejam produzidas as provas sobre as quais paire qualquer dúvida, já que o conteúdo das garantias deve ser interpretado de modo a conferir-lhes a máxima eficiência (THEODORO JÚNIOR, 2021). Prova e verdade Não se concebe um processo justo em que a reconstrução dos fatos realizada pelo juiz não objetive à verdade. Porém, outros valores incidem sobre ele, como a necessidade de efetividade e celeridade, que impõem o juiz cheguar a uma decisão – e logo. Deve haver um limite aos esforços do juiz de investigar os fatos; “quer dizer, não pode levar a sua busca para além de certos limites, ainda que, assim, só uma verdade aproximada possa conseguir” (CARNELUTTI, 1999, p. 544). Assim, a literatura passou a tratar com a dicotomia “verdade real” x “verdade formal”, sendo a segunda a verdade do processo, que poderia não corresponder inteiramente à verdade real. Não há uma “verdade absoluta”, tampouco se pode falar em diferentes verdades dentro e fora do processo (“real” x “formal”). O papel da prova não é estabelecer a verdade em juízo, nem fixar formalmente os fatos no processo, mas convencer o juiz da veracidade das alegações (DIDIER; BRAGA; OLIVEIRA 2021). De�nições e classi�cações de prova Confira no vídeo quais são os principais meios de prova e como as presunções podem ser utilizadas para fundamentar uma decisão judicial. Sentidos da palavra “prova” Três significados merecem menção: Atividade de provar Significa a atividade para demonstrar suas alegações. Meio de prova Significa a técnica utilizada para demonstração do fato (depoimento de testemunha, documental, pericial etc.). Resultado da atividade Significa que determinada proposição está provada (“O Autor fez prova de suas alegações”). Nos dois primeiros significados, se diz que há prova em sentido objetivo; no terceiro, em sentido subjetivo (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021). Em outros termos, no sentido objetivo, a prova é o elemento material dirigido ao juiz para evidenciar o fato alegado; em sentido subjetivo, a crença gerada no juiz sobre a verdade da afirmação. Daí que, para alguns, só há prova, processualmente, quando o juiz se convence (THEODORO JÚNIOR, 2021). Meios de prova Os meios de prova designam a técnica utilizada para a evidenciação de um fato em juízo. Vejamos! Típico O meio de prova previsto em lei (tipificado). Atípico O meio de prova não previsto em lei. Conforme art. 369 do CPC/2015, são admissíveis todos os meios legais e moralmente legítimos de prova, mesmo que atípicos. Provas diretas e indiretas Em relação a seu objeto, as provas podem ser: Direta Evidencia o fato que se pretende provar, como uma testemunha que presenciou uma morte em caso de homicídio. Indireta Evidencia um fato diferente daquele que se pretende comprovar, ao qual se alcança por um trabalho de raciocínio; por exemplo, as pegadas deixadas no solo podem ser consideradas provas indiretas da passagem do acusado no local do crime. Esse tipo de prova também é chamada de indiciária ou por presunção (THEODORO JÚNIOR, 2021), Presunção Observe como se divide a presunção: Presunção simples ou judicial É o raciocínio admitido pela lógica corriqueira do que ordinariamente é verdadeiro em função da existência de indícios; é o que permite observar a roupa do réu manchada com o sangue da vítima e a arma do crime encontrada em seus pertences, induzindo logicamente à presunção de autoria do homicídio, mesmo que não haja prova direta (não há uma testemunha que viu o crime ou uma gravação do momento da morte). Presunção legal É o raciocínio lógico já realizado de antemão pelo legislador, à luz do que normalmente acontece, editando uma norma que diga que a prova de determinado fato é suficiente para presumir a ocorrência de outro, como um consequente normativo. É absoluta (iuris et de iure) a presunção legal que não admite prova em contrário, e relativa (iuris tantum) a presunção legal que pode ser desconstituída por provas (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021). Objeto, �nalidade e destinatário da prova Entenda neste vídeo os conceitos de objeto, finalidade e destinatário da prova, confira como identificá-los e como se relacionam na busca pelaverdade. Objeto O objeto da prova são os fatos (ou alegações de fato) deduzidos pelas partes em juízo, que sejam relevantes para o julgamento. “São, pois, os fatos litigiosos o objeto da prova” (THEODORO JÚNIOR, 2021, p. 732). É o que se chama de fato probando ou thema probando. Diz-se que a prova recai sobre os fatos litigiosos, porque usualmente o direito – ou seja, a norma jurídica objeto da controvérsia – não necessita ser provado, à luz do brocardo latino jura novit curia (“o tribunal conhece a lei”). Todavia, o juiz pode exigir a prova do direito local (estadual ou municipal), estrangeiro ou dos costumes (art. 376 do CPC/2015). Há certos fatos que, mesmo sendo relevantes para o julgamento, não necessitam ser provados (art. 374 do CPC/2015). Significa que a lei processual aceita tais fatos como verdadeiros, mesmo que não haja prova. Trata-se dos fatos “notórios” (inciso I), fatos “afirmados por uma parte e confessados pela parte contrária” (inciso II), fatos “admitidos no processo como incontroversos” (inciso III) e fatos “em cujo favor milita presunção legal de existência ou de veracidade” (inciso IV). Portanto, a questão objeto de prova deve ser: Controvertida Fática com a qual as partes não concordam. Relevante Capaz de influir no julgamento por se tratar de fato constitutivo, impeditivo, modificativo ou extintivo de direito em disputa. Precisa Empregada no sentido de não genérica; apenas a alegação de fato concreto, suficientemente descrito pela parte poderá ser objeto de prova (THEODORO JÚNIOR, 2021). Assim, exemplificativamente, na hipótese de o autor alegar que o réu “agiu com culpa na condução do veículo”, não haverá descrição suficiente do fato para que seja objeto de prova. É necessário afirmar que “o réu avançou o cruzamento enquanto o semáforo estava fechado e se chocou com o veículo do autor”. Finalidade(s) e destinatário(s) A toda prova deve corresponder a finalidade de contribuir para a formação do convencimento do julgador a respeito dos fatos. Ou melhor, a finalidade da prova é oferecer ao juiz elementos suficientes para que se convença a respeito dos fatos, decidindo a lide fundada nessa crença (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021). Essa crença resulta do exame dos autos pautado no devido processo legal, balizado pelas alegações das partes e conforme as provas e presunções incidentes em cada caso (THEODORO JÚNIOR, 2021). A literatura mais atual refere que a prova também tem a finalidade de convencer as partes de suas posições no litígio e de sua capacidade de demonstrá-las em juízo, de modo que possam aferir suas chances de êxito (DIDIER JR.; BRAGA OLIVEIRA, 2021). Inclusive, o Código admite a produção antecipada da prova nos casos em que ela possa viabilizar a autocomposição ou possibilitar o conhecimento dos fatos pelas partes, justificando ou evitando o ajuizamento de ação (art. 381, I e II, do CPC/2015). O único objeto desse procedimento será permitir que o interessado obtenha a prova em juízo, tanto que a lei veda ao juiz qualquer pronunciamento sobre os fatos ou sobre suas consequências jurídicas (art. 382, § 2º, do CPC/2015). Juiz anunciando que tomou uma decisão. O destinatário da prova é o juiz, que deve formar seu convencimento sobre os fatos relevantes a fim de proferir sua decisão. Face o atual reconhecimento de que a prova também tem finalidade de melhor instruir a convicção das partes sobre as próprias pretensões, evidencia- se que as partes também são destinatárias diretas da prova. Produção de provas Confira neste vídeo algumas das questões mais relevantes na produção de provas e veja informações e dicas para ajudá-lo a lidar com elas. Valoração da prova Mesmo sendo o juiz o destinatário da prova, a formação de seu convencimento não prescinde de um método que confira legitimidade à decisão. Nesse sentido, ao longo de sua história, o direito processual conheceu três sistemas de valoração da prova: Da prova legal ou critério legal É superado o sistema da prova legal ou prova tarifada, utilizado largamente no direito romano e medieval. Atribuía-se um valor a cada tipo de prova e ao julgador cabia apenas aferir as provas produzidas (TARUFFO, 2016). Do livre convencimento Com inspiração na intime conviction do júri, na França revolucionária, em sua forma mais radical, reconhecia uma total discricionariedade do juiz, sem qualquer imposição de um critério racional de valoração da prova (TARUFFO, 2016). Da persuasão racional ou convencimento motivado É o adotado no direito processual brasileiro, no art. 371 do CPC/2015 (“O juiz apreciará a prova constante dos autos, independentemente do sujeito que a tiver promovido, e indicará na decisão as razões da formação de seu convencimento.”). O juiz é vinculado a critérios racionais de valoração da prova, que devem possuir relação com alegações das partes, e ser explicitados na motivação. Instrução Em sentido restrito, corresponde à fase probatória do processo de conhecimento. Nela, se concentra a colheita e produção das provas com o intuito de oferecer elementos para a formação do convencimento do juiz. No entanto, o direito processual brasileiro não concentra a instrução em uma só fase (BARBOSA MOREIRA, 2002); por exemplo, documentos devem ser apresentados ainda na fase postulatória (com a petição inicial ou a contestação – art. 434 do CPC/2015) ou mesmo a qualquer tempo, tratando-se de fatos novos (art. 435 do CPC/2015). Após as manifestações das partes quanto às provas pretendidas (fase de proposição), sucede o exame de sua admissibilidade pelo juiz, consoante sua necessidade, utilidade e cabimento (fase de admissão) e a determinação de que alguma prova seja produzida de ofício (fase de ordenação oficial). A fase de produção varia conforme o meio de prova admitido: documentos devem ser juntados ainda na fase postulatória; provas orais são colhidas na audiência de instrução e julgamento (art. 361 do CPC/2015). A fase de valoração tem lugar na decisão. Atenção! É possível que o julgador, após a fase de produção, reabra a fase de ordenação oficial de provas se entender que não possui elementos para julgar, convertendo o julgamento em diligência (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021). Aquisição da prova pelo processo Ao examinar o conjunto probatório, não deve o juiz fazer distinção entre provas trazidas por autor ou réu. É possível, por exemplo, que uma prova proposta pelo autor confirme a ocorrência de fato extintivo do direito do autor e venha a beneficiar o réu. Poder instrutório do juiz O Código é expresso no sentido de que o juiz tem poder de determinar provas de ofício (art. 370 do CPC/2015), o que vai ao encontro da ideia de que o juiz deve conferir decisão justa à lide (art. 6º do CPC/2015). Afinal, não pode haver decisão justa sem que a compreensão dos fatos seja veraz. No entanto, há debate na doutrina sobre se o juiz sempre pode determinar provas de ofício ou se há limites a esse poder. O poder instrutório do juiz é complementar ao das partes, não substitutivo, e varia conforme a causa e as partes. Pode o juiz determinar prova de ofício, caso persista dúvida após a produção das provas propostas pelas partes (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021). Proibição da prova ilícita São inadmissíveis como prova a confissão obtida mediante tortura, a gravação decorrente de interceptação telefônica não autorizada, o documento obtido por violação do sigilo de correspondência, além de outros tipos de prova que contrariam o ordenamento jurídico. A Constituição Federal proíbe a prova ilícita (art. 5º, LVI). Entende-se por ilícita “aquela prova que contraria qualquer norma do ordenamento jurídico” (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021, p. 117). A definição está em linha com o conceito trazido pelo art. 157, caput, do Código de Processo Penal (CPP – Decreto-Lei 3.689/1941), que classifica como ilícitas as provas “obtidas em violação a normas constitucionais ou legais”. Também é inadmissível a prova ilícitapor derivação, que é a prova a princípio lícita, mas que se torna ilícita porque produzida a partir de uma prova ilícita. Exemplo Um documento obtido em busca e apreensão em endereço que só se poderia ter conhecimento por uma interceptação telefônica não autorizada. O art. 157, § 1º, do CPP, reconhece expressamente a aplicação da teoria dos frutos da árvore envenenada. Prova emprestada Prevista no art. 372 do CPC/2015, trata-se de técnica de aproveitamento de prova, por meio da qual pode ser aceita no processo (de destino) uma prova produzida em outro processo (de origem), mediante a simples juntada. A título de exemplo, ouvida a testemunha no processo A, aproveita-se o termo de depoimento como prova emprestada no processo B; feita perícia no processo A, leva-se o laudo pericial como prova emprestada ao processo B. A prova emprestada terá o valor que o juiz do processo de destino considerar adequado. Para a utilização de prova emprestada, é indispensável observar a garantia do contraditório, sendo dada a oportunidade a todos os interessados para se manifestarem em prazo suficiente. O Enunciado 52 do Fórum Permanente de Processualistas Civis aponta a necessidade de contraditório na origem e no destino da prova. Ônus da prova Entenda neste vídeo os conceitos fundamentais relacionados ao ônus da prova, como ele é aplicado em diferentes áreas do direito e as consequências de não cumprir com essa obrigação. Distribuição legal do ônus da prova O ônus da prova foi fixado no art. 373 do CPC/2015 e é atribuído conforme: a posição das partes (autor e réu); e o tipo de fato sobre o qual recai a atividade probatória (fatos constitutivos, impeditivos, modificativos e extintivos dos direitos discutidos). O autor tem o ônus de provar o fato constitutivo de seu direito. (Art. 373, I, do CPC/2015) Para dar alguns exemplos, em ação de cobrança, o autor tem o ônus de provar a existência da dívida; em ação de indenização por acidente de trânsito, o autor tem o ônus de provar a culpa do réu pelo acidente, além dos danos sofridos. Por outro lado: O réu tem o ônus de provar a existência de fato impeditivo, modi�cativo ou extintivo do direito do autor. (Art. 373, II, do CPC/2015) Nos mesmos exemplos, caberia ao réu provar a novação da dívida (fato modificativo) ou que, tendo ocorrido o acidente, os danos do autor já foram indenizados por outrem (fato extintivo). Ônus da prova como regra de julgamento Ônus é um encargo que, se não cumprido, coloca o onerado em situação de desvantagem. Não há dever de produção da prova; apenas uma desvantagem da parte que tinha o ônus de produzi-la e não fez. Assim, o ônus da prova é uma regra de julgamento. Significa dizer que a parte que tem o ônus de provar um fato que não restar provado sofre a desvantagem de um julgamento desfavorável. Caso se conclua a instrução, com a produção de todas as provas cabíveis, e ainda persista dúvida do juiz a respeito dos fatos relevantes, ele deverá se valer da regra do ônus da prova para decidir o perdedor. Entenda! Se o fato constitutivo do direito do autor não tiver sido provado, a ação será julgada improcedente. Se o fato constitutivo do direito do autor tiver sido provado e não provado fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor, a ação será julgada procedente. Distribuição dinâmica Nem todos os casos se submetem à regra geral de distribuição do ônus da prova prevista no caput do art. 373 do CPC/2015. A ocorrência de circunstâncias específicas previstas em lei pode fazer o juiz atribuir a uma parte o ônus de provar um fato que, a princípio, não lhe caberia provar. Juiz analisando a prova. O § 1º do dispositivo permite ao juiz, diante da impossibilidade ou excessiva dificuldade de uma parte em fazer a prova ou da maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, distribuir o ônus da prova de modo diverso do legal, desde que por decisão fundamentada. Sempre que assim fizer, o juiz deve dar oportunidade à parte para se desincumbir do novo ônus, de maneira que essa decisão não pode ser tomada na própria sentença. Por outro lado, a distribuição dinâmica do ônus da prova não pode gerar situação tal que a parte incumbida pelo juiz necessite fazer prova “impossível ou excessivamente difícil” (art. 373, § 2º, do CPC/2015). Ações de consumo É direito básico do consumidor a inversão do ônus da prova a seu favor, desde que presentes, a critério do juiz, os requisitos de verossimilhança de suas alegações e de sua hipossuficiência (art. 6º, VIII, do Código de Defesa do Consumidor – Lei 8.078/1990). Diferentemente do que poderia parecer da leitura do dispositivo, não se pode admitir a inversão completa e automática do ônus da prova. Cabe interpretação teleológica e sistemática do art. 6º, VIII, do CDC, conforme o conjunto integrado também pelo CPC/2015. Assim, deve o dispositivo “ser utilizado com equidade e moderação, dentro da busca de harmonização dos interesses em conflito nas relações de consumo.” (THEODORO JÚNIOR, 2021, p. 768). Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Ao julgar os pedidos, o juiz deve estar atento às alegações das partes e às provas produzidas no processo. Analisando as provas produzidas, é correto afirmar que Parabéns! A alternativa C está correta. A sempre que o autor da ação provar a ocorrência do fato constitutivo de seu direito, seu pedido deve ser julgado procedente. B quando for impossível ou excessivamente difícil para uma parte fazer a prova que lhe caberia, o juiz pode desde logo julgar os pedidos, atribuindo o ônus da prova de modo diverso. Mas sempre deve fundamentar essa decisão. C quando for impossível ou excessivamente difícil para uma parte fazer a prova que lhe caberia, o juiz pode atribuir o ônus da prova de modo diverso, desde que fundamente essa decisão e dê a oportunidade à outra parte de se desincumbir do novo ônus que lhe foi atribuído. D tratando-se de ação que trate de relação de consumo, o ônus da prova deve ser automaticamente invertido em favor do consumidor, pois a facilitação da defesa de seus direitos em juízo é seu direito básico. E o réu tem o dever de provar os fatos impeditivos, modificativos e extintivos do direito do autor que tenha alegado, sob pena de a ação ser julgada procedente. O art. 373, § 1º, do CPC/2015 prevê que, nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos termos do caput do próprio dispositivo, ou à maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da prova de modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído. Questão 2 As provas produzidas no curso do processo podem apontar para diferentes conclusões a respeito dos fatos relevantes para o julgamento. Assinale a alternativa correta a respeito da busca pela verdade. A O juiz desconsiderará a prova prejudicial à própria parte que a trouxe aos autos ou a requereu, porque ninguém pode produzir prova contra si mesmo. B O juiz pode formar seu livre e íntimo convencimento sobre a verdade a partir do conjunto probatório dos autos, desde que o faça com sinceridade, razoabilidade e lógica. C Ao proferir seu julgamento, o juiz deve observar a hierarquia entre as provas, atendendo à vontade do legislador, que predefine o valor que deve ser atribuído a cada meio de prova. D O juiz pode formar seu convencimento a partir do conjunto probatório dos autos, atribuindo o valor que considerar adequado às provas, indicando em sua decisão suas razões. E Se ultrapassada a fase de instrução e não houver pedido das partes para produzir provas, o juiz deve julgar a ação com base nas provas existentes nos Parabéns! A alternativa D está correta. São superados os sistemas da provatarifada e do livre convencimento puro. O CPC/2015 adotou o sistema de valoração das provas segundo o convencimento motivado ou a persuasão racional, conforme o art. 371, o qual prevê que o juiz apreciará a prova constante dos autos, independentemente do sujeito que a tiver promovido, e indicará na decisão as razões da formação de seu convencimento. 2 - Meios de prova Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car os meios de prova típicos na legislação e suas especi�cidades. Depoimento pessoal Confira neste vídeo o depoimento pessoal, um dos principais instrumentos utilizados no processo judicial para esclarecer fatos relevantes em uma demanda. Entenda o conceito e a disciplina legal que regulamenta o depoimento pessoal, bem como os procedimentos que devem ser adotados durante a sua realização. autos, nunca podendo determinar a produção de provas sem que haja pedido. Disciplina legal e conceito O depoimento pessoal é meio de prova disciplinado principalmente nos artigos 385 a 388, e no art. 379, I, todos do CPC/2015. Somente pode prestar depoimento pessoal a parte ou terceiro interveniente. São objeto do depoimento pessoal os fatos alegados pela parte contrária ou que o juiz considere necessário esclarecer. Por isso, a função do depoimento pessoal é provocar confissão ou esclarecer fatos, sendo primordialmente de interesse da parte contrária à que presta depoimento (THEODORO JÚNIOR, 2021, p. 793). O art. 388 do CPC/2015 escusa a parte de depor sobre fatos “criminosos ou torpes que lhe forem imputados” (inciso I), “a cujo respeito, por estado ou profissão, deva guardar sigilo” (inciso II), “acerca dos quais não possa responder sem desonra própria, de seu cônjuge, de seu companheiro ou de parente em grau sucessível” (inciso III) e “que coloquem em perigo a vida do depoente ou das pessoas referidas no inciso III” (inciso IV). Juíza ouvindo a parte. Deve a parte responder a tudo com lealdade. Se a parte não responder o que lhe é perguntado ou se utilizar de respostas evasivas, o juiz pode considerar que ela se recusou a depor, e assim aplicar-lhe a pena de confesso (art. 386 do CPC/2015). Procedimento do depoimento pessoal Deve ser requerido pelo interessando antes da decisão de saneamento e de organização do processo (art. 357 do CPC/2015). O depoimento pessoal segue basicamente o formato da inquirição de testemunhas, com a ressalva de algumas peculiaridades. A parte depoente é intimada a comparecer pessoalmente à audiência de instrução e julgamento, sob pena de confesso, oportunidade em que será ouvida após o perito e os assistentes técnicos e antes das testemunhas. Atenção! O depoimento pessoal do autor deve ser tomado antes do depoimento do réu (art. 361, II, do CPC/2015), o juiz deve providenciar para que uma parte não assista ao depoimento da outra antes de ter prestado seu próprio depoimento (art. 385, § 2º, do CPC/2015), bem como para que a parte não consulte escritos ao depor, à exceção de notas breves (art. 387 do CPC/2015). A parte não tem o direito de mentir em seu depoimento pessoal. Mas não se lhe impõe prestar o compromisso de dizer a verdade sob pena de caracterização de crime, como ocorre com as testemunhas (art. 458 do CPC/2015). Con�ssão Entenda neste vídeo a disciplina legal que regulamenta a confissão, bem como o seu conceito e os requisitos necessários para que ela seja considerada válida. Além disso, vamos abordar os efeitos da confissão no processo judicial, tanto para a parte que confessa quanto para a parte contrária. Disciplina legal, conceito e requisitos A confissão vem regulamentada entre os artigos 389 e 395 do CPC/2015. Apelidada de rainha das provas, é meio de prova altamente persuasivo para o juiz. Conforme o art. 389, “há confissão, judicial ou extrajudicial, quando a parte admite a verdade de fato contrário ao seu interesse e favorável ao do adversário”. A confissão é da parte e não de seu representante! Para que o representante ou procurador confesse fato em nome da parte, é preciso que tenha poderes expressos e especiais para esse fim. Há quatro tipos de confissão (art. 390 do CPC/2015): Con�ssão extrajudicial Se dá fora dos autos. Con�ssão judicial Se dá nos autos. Con�ssão espontânea É de iniciativa da parte ou de seu representante. Con�ssão provocada É a que resulta do depoimento pessoal. A confissão se dá sobre um fato desfavorável à parte e não sobre o direito. Portanto, é possível que, apesar da confissão, a ação seja julgada favoravelmente à parte que confessou. Confissão é diferente de reconhecimento da procedência do pedido, que é causa de resolução do mérito (art. 487, III, “a”, do CPC/2015). São requisitos da confissão: reconhecer um fato alegado pela outra parte; que o reconhecimento seja voluntário; e que daí decorra um prejuízo ao confitente. Não necessita ser expressa, afinal, é possível a confissão presumida ou ficta, como nos casos de aplicação de pena de confesso. Efeitos da con�ssão A confissão faz prova do fato contra a parte confitente (art. 391 do CPC/2015), dispensa a produção de outras provas sobre o mesmo fato (art. 374, II, do CPC/2015) e ocasiona a preclusão lógica quanto à possibilidade de o confitente produzir provas para desconstituí-la. Todavia, o sistema de prova tarifada é passado. Ao analisar diversos sistemas processuais da Europa, Taruffo (2014, p. 70-71) conclui que “a confissão como declaração probatória vinculante é uma relíquia do passado que segue existindo simplesmente pela inércia de alguns legisladores europeus.” Tratando-se de elemento que compõe o conjunto probatório dos autos, a confissão deve ser valorada pelo magistrado como entender pertinente; jamais como prova vinculante de seu convencimento sobre os fatos, mas observando-se o pesado ônus argumentativo de rejeitá-la (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021). O art. 391 do CPC/2015 excepciona que a confissão não prejudica os litisconsortes do confitente. Significa que, na hipótese de litisconsórcio simples, a confissão prejudica o confitente e não afeta as demais partes no polo. Quando a confissão se originar de pessoa incapaz ou disser respeito a fatos relacionados a direito indisponível, não terá eficácia típica de confissão (art. 392, caput e § 1º, do CPC/2015). Mas poderá ser valorada pelo magistrado como prova atípica; espécie de declaração genérica da parte. O mesmo se diz em relação à confissão de apenas um dos cônjuges, em “ações que versarem sobre bens imóveis ou direitos reais sobre imóveis alheios” (art. 391, parágrafo único, do CPC/2015). Homem confessando crime ao juiz. O confitente não pode voltar atrás no que confessou (art. 393 do CPC/2015). Entretanto, o dispositivo autoriza que se busque a anulação da confissão nos casos em que resulte de erro de fato (art. 138 do CC/2002) ou de coação (art. 151 do CC/2002). O meio adequado é a ação anulatória da confissão. Prova documental Confira neste vídeo as características e importância das provas documentais e atas notariais e como elas podem ser utilizadas para proteger os seus direitos e interesses. Produção da prova O CPC/2015 regulamenta a prova documental entre os artigos 405 a 438. O Código não definiu documento ou prova documental. A doutrina nacional define documento como “toda atestação escrita ou gravada para um fim” (PINHO, 2013, p. 255); ou “resultado de uma obra humana que tenha por objeto a fixação ou retratação material de algum acontecimento” (THEODORO JÚNIOR, 2021, p. 808). Em nosso sistema processual, a prova documental é meio de prova que tem como fonte o documento passível de ingresso nos autos na forma do art. 434 e seguintes do CPC/2015, geralmente em forma escrita, mas também por outras mídias (fotografias, reprodução cinematográfica, fonográfica). Comentário A prova documental, a princípio, deve ser produzida ainda na fase postulatória. Cabe ao autor juntar todos os documentos pertinentes em sua petição inicial; ao réu, cabe juntá-losem sua contestação, conforme art. 434 do CPC/2015. Documentos novos podem ser trazidos sempre que “destinados a fazer prova de fatos ocorridos depois dos articulados ou para contrapô-los aos que foram produzidos nos autos” (art. 435). Contudo, a regra sempre foi flexibilizada (BARBOSA MOREIRA, 2002). Admite-se a juntada posterior de documentos, desde que de boa-fé e observado o contraditório (art. 435, parágrafo único). Força probante dos documentos públicos e dos privados Distinguem-se os documentos entre particulares e públicos (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021, p. 224). Veja! Documento particular É todo documento de “cuja formação não participou qualquer agente público no exercício de suas funções”. Documento público É todo documento de “cuja formação tenha participado um agente público no exercício de suas funções”. Prevê o art. 405 do CPC/2015 que o “documento público faz prova não só da sua formação, mas também dos fatos que o escrivão, o chefe de secretaria, o tabelião ou o servidor declarar que ocorreram em sua presença”. Trata-se de presunção iuris tantum, que comporta prova em contrário. Além disso, certos fatos só podem ser provados por documento público, como a propriedade de bens imóveis, por exemplo. Nesses casos, em que o instrumento público é “da substância do ato, nenhuma outra prova, por mais especial que seja, poderá suprir-lhe a falta” (art. 406 do CPC/2015). Por sua vez, o documento particular escrito e assinado ou somente assinado gera presunção relativa de veracidade, em relação a seu(s) autor(es), das declarações nele contidas (art. 408, caput, do CPC/2015), desde que sua autenticidade não seja objeto de dúvida (art. 412, caput). Falsidade documental Só cessa a fé do documento, ou seja, deixa de fazer prova, se declarada sua falsidade judicialmente (art. 427, caput, do CPC/2015). Por isso, a parte não pode se contentar em impugnar o conteúdo do documento em suas manifestações, uma vez que isso não afasta sua força probante. Deverá propor ação autônoma de declaração da falsidade (art. 19, II, do CPC/2015) ou argui-la em incidente típico na contestação, na réplica ou em quinze dias de quando tiver ciência da juntada de novos documentos (incidente de arguição de falsidade – art. 430 do CPC/2015). Falsidade ideológica é o vício do documento que contém declaração ou registro de fato não verdadeiro, em documento materialmente perfeito (PINHO, 2013). Documento com falsidade material é aquele que viciado em sua formação, nos aspectos exteriores. Importante distinguir falsidade de inautenticidade. É inautêntico o documento cuja autoria real não seja a que se declara no documento (por exemplo, recibo de quitação com assinatura falsa). Atenção! A distinção é relevante para o ônus da prova na impugnação do documento (art. 429 do CPC/2015). Se alegada a falsidade, o ônus da prova é de quem alega (inciso I); se alegada a inautenticidade, o ônus da prova de sua autenticidade é de quem trouxe o documento aos autos (inciso II). Documentos eletrônicos O legislador optou por tratar da prova documental “tradicional” em seção distinta dos documentos eletrônicos, que são disciplinados nos artigos 439 a 441 do CPC/2015. Pasta com documentos eletrônicos. Tratamos com documentos eletrônicos o tempo todo. Compramos e vendemos ações por aplicativos de celular, fazemos depósitos bancários, compramos passagens aéreas e até trocamos likes em redes sociais. A maioria dos autos de processos judiciais em curso no Brasil são documentos exclusivamente eletrônicos, sem correspondência alguma com autos físicos. Parafraseando Augusto Tavares Rosa Marcacini, o documento eletrônico é uma sequência digital de informação (bytes), traduzida por computador, que representa um fato (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021). O documento eletrônico útil ao processo e à busca da verdade deve assegurar as qualidades típicas dos documentos em geral: a capacidade e confiabilidade de registrar um fato, o tempo em que ocorrido e de confirmar a autoria. Documentos eletrônicos com possibilidade de verificação de autenticidade, desde que se garanta sua confiabilidade, serão admitidos como prova no processo (artigos 439 e 441 do CPC/2015), cuja validade e regramento serão os mesmos da prova documental “tradicional”. No entanto, mesmo o documento eletrônico sem a autenticidade verificada deverá ser valorado pelo juiz segundo o grau de confiabilidade que puder ser atribuído à prova, pelas regras gerais do direito probatório, máximas de experiência e até com auxílio de perito. O mais relevante, sempre, é observar a parte final do art. 440 do CPC/2015, a fim de que seja assegurado às partes o acesso ao teor original do documento eletrônico. Ata notarial É meio de prova documental previsto no art. 384 do CPC/15. Segundo o caput, a “existência e o modo de existir de algum fato podem ser atestados ou documentados, a requerimento do interessado, mediante ata lavrada por tabelião.” A ata notarial é um documento público produzido a requerimento do interessado, antes ou no curso de um processo judicial, por meio do qual o tabelião atesta um fato ou situação fática presenciada por ele. A fé pública abarca somente a narrativa do fato, mas não o fato em si. Exemplificativamente, a ata notarial pode ser usada para documentar o conteúdo de sites de internet, o estado de uma obra civil, inclusive mediante imagens etc. Exibição de documento ou coisa É um meio de obtenção de elemento de prova, mais do que um meio de prova em si (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021). No entanto, veio tratada como meio de prova autônomo na legislação processual, previsto nos artigos 396 a 404 do CPC/2015. O juiz pode determinar que uma parte ou um terceiro exiba no processo documento ou coisa que esteja em seu poder (art. 396 do CPC/2015) se entender que a parte postulante tem interesse legítimo na exibição. O interesse pode resultar da intenção de produzir uma prova direta do fato litigioso, como a exibição de um contrato que comprova a dívida, ou uma prova indireta, como um objeto que será periciado (THEODORO JÚNIOR, 2021). Quando a exibição é determinada à parte e essa não oferecer resposta, não exibir os documentos ou sua recusa for havida por ilegítima, há relevantíssima consequência jurídica, pois “os fatos que se pretendia provar com a exibição serão presumidos verdadeiros” (art. 400 do CPC/2015). Contudo, se a exibição for requerida em face de terceiro e esse se recusar ou não responder, não há presunção de veracidade dos fatos. Prova testemunhal Confira neste vídeo o conceito de testemunha e a importância da prova oral em um processo, bem como quem pode prestar a prova testemunhal e quais fatos podem ser objeto dela. Veja ainda como é produzida a prova testemunhal e quais são as regras que devem ser seguidas para garantir a sua validade e eficácia no processo. Prova oral e conceito de testemunha A prova testemunhal é meio de prova oral disciplinado entre os artigos 442 e 463 do CPC/2015. Taruffo (2014) ensina que, geralmente, ao redor do mundo, as provas orais compartilham o fato de serem tomadas por declarações orais em resposta a perguntas feitas em interrogatório especialmente designado, em que a declarante é pessoa com conhecimento de informações úteis para estabelecer a verdade dos fatos. Testemunha. A testemunha “é uma pessoa diversa dos sujeitos processuais chamada a expor ao juiz as próprias observações de fatos ocorridos, de importância na causa” (CHIOVENDA, 1998, p. 131); ou “uma pessoa natural, distinta dos sujeitos processuais, que é chamada a juízo para dizer o que sabe sobre o fato probando” (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021, p. 309). Quem pode prestar prova testemunhal A lei estabelece diversos critérios sobre a credibilidade da testemunha. Assim, qualquer pessoa pode ser testemunha, exceto aquelas consideradas incapazes, impedidas ou suspeitas (art. 447, caput, do CPC/2015). A valoração de cada testemunhocabe ao juiz, conforme critérios racionais já abordados. O § 1º do art. 447 do CPC/2015 trata dos incapazes para prestar testemunho, de que são exemplos o interdito por enfermidade ou doença mental e o menor de dezesseis anos. Segundo art 447, caput, § 2º, II e III, e § 3º, II, ser parte, intervir em nome da parte ou ter interesse no litígio são, respectivamente, causas de: Impedimento Pessoas em certos graus de parentesco. Suspeição Inimigo e amigo íntimo. Mesmo assim, se for especialmente necessário ao descobrimento da verdade, o juiz pode ouvir a testemunha impedida, suspeita ou menor de idade como informante do juízo, sem esta prestar compromisso legal de dizer a verdade sob pena de crime de falso testemunho (art. 447, §§ 4º e 5º, do CPC/2015). Atenção! Ninguém pode se escusar de prestar depoimento, apesar de poder haver recusa para certos fatos prejudiciais à testemunha (nunca à parte) ou sobre os quais tenha dever de sigilo profissional, conforme descrito no art. 448 do CPC/2015). Trata-se de um dever considerado serviço público (art. 463 do CPC/2015). Se a testemunha não comparece, pode ser conduzida por força policial ao local do depoimento. Os fatos objeto de prova testemunhal Qualquer fato pode ser provado por meio de prova testemunhal, com poucas exceções expressas pelo legislador (art. 442 do CPC/2015). No entanto, o juiz pode indeferir a oitiva de testemunha sobre fato já provado por documento ou que só possa ser provado por documento ou perícia (art. 443 do CPC/2015), apesar de ser preferível ouvir a testemunha e valorar seu depoimento posteriormente. Produção da prova testemunhal A prova testemunhal é produzida com a inquirição oral da testemunha em audiência de instrução e julgamento. As testemunhas são ouvidas após a oitiva do perito, dos assistentes técnicos e das partes. As testemunhas propostas pelo autor são ouvidas antes das testemunhas propostas pelo réu, cuidando para que umas não escutem os depoimentos das outras. Primeiro, a testemunha responde às perguntas do juiz e depois às das partes. Em audiência de instrução e julgamento, a parte interessada pode impugnar a credibilidade da testemunha por meio da contradita a fim de que não seja ouvida ou ao menos para reduzir o valor de seu depoimento. A contradita é disciplinada pelo art. 457, § 1º, do CPC/2015, devendo ser formulada antes que o juiz inicie a inquirição da testemunha. A testemunha presta compromisso legal de dizer a verdade, sendo alertada pelo juiz de que o faz sob pena de caracterização do crime de falso testemunho (art. 458 do CPC/2015). A acareação pode ser determinada pelo juiz para confrontar depoimentos conflitantes em matéria fática. São feitas reperguntas aos acareados para que elucidem os pontos de divergência (art. 461, II, e §§ 1º e 2º, do CPC/2015). Inspeção judicial Confira neste vídeo a previsão legal da inspeção judicial e o seu conceito, bem como o procedimento para a sua realização. Veja ainda como ela pode ser utilizada para esclarecer fatos relevantes em um processo e contribuir para a tomada de decisão do juiz. Previsão legal e conceito A inspeção judicial é meio de prova real ou prova demonstrativa disciplinada entre os artigos 481 e 484 do CPC/2015. Reconhece-se, sobre as provas reais, que o: Traço comum dessa diversidade de elementos probatórios é que se trata de eventos, comportamentos, situações, objetos ou ocorrências que são ou podem ser diretamente percebidos pelo julgador. (TARUFFO, 2014, p. 99) Aí reside exatamente a questão nodal: a percepção “real” do juiz a respeito dos fatos, formada por meio de seu contato direto com pessoas ou coisas, é o que constitui a prova. Com efeito, inspeção judicial é meio típico de prova pelo qual é dado ao juiz “inspecionar pessoas ou coisas, a fim de se esclarecer sobre fato que interesse à decisão da causa” (art. 481 do CPC/2015, in fine). Admite-se que o conceito de “coisas” englobe também lugares e fenômenos (por exemplo, o local de uma construção objeto da disputa ou os ruídos e odores de uma indústria), porque pode haver fatos em disputa que, por suas características ou circunstâncias, só possam ser adequadamente observados e interpretados a partir do reconhecimento contextualizado (art. 483 do CPC/2015). A inspeção deve ter objeto bem delimitado e não se destinar à satisfação de curiosidades genéricas ou de “instintos e perseguição em torno dos envolvidos no processo”. No entanto, apesar do relativo desuso prático, é apontada como “um dos mais importantes, esclarecedores e seguros meios de prova” (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021, p. 385). Procedimento A inspeção judicial pode ser feita em qualquer fase do processo (art. 481 do CPC/2015). Deve ser requerida preferencialmente antes do saneamento, mas não há impedimento que seja requerida durante a instrução, inclusive para esclarecer alguma questão tratada nas provas produzidas, ou até mesmo na fase recursal. Admitida a produção da prova, deve ser designada data e hora para a diligência, que deve acontecer na sede do juízo, em audiência, ou, sendo necessário, poderá ser feita no local em que se acha o objeto da inspeção (art. 483 do CPC/2015). Comentário Em qualquer caso, deve sempre ocorrer a intimação das partes para que possam acompanhar a produção da prova, inclusive para que possam prestar esclarecimentos e fazer observações (parágrafo único). O art. 482 do CPC/2015 prevê a possibilidade de o juiz ser acompanhado, na inspeção, por um ou mais peritos de sua confiança. Não há qualquer impedimento que o expert seja o mesmo que funcione como perito no processo, em prova técnica eventualmente determinada. As partes podem ser acompanhadas de assistentes técnicos. Toda inspeção judicial deve ser formalizada por auto ou termo de inspeção (art. 484 do CPC/2015), que deverá ser assinado por todos os sujeitos processuais e auxiliares. Tudo que puder ser utilizado como elemento de convencimento do magistrado deve estar descrito no auto ou termo, que é instrumento ad substancia de prova da diligência (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021). Significa dizer que, se não houver auto, ou determinado fato não estiver nele descrito, o fato observado pelo juiz não pode ser invocado futuramente nas razões de decidir. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 (FEPESE – 2022 |Prefeitura de Florianópolis – SC | Procurador Municipal) É correto afirmar sobre as provas no processo civil: Parabéns! A alternativa A está correta. O art. 463 do CPC/2015 estabelece que o depoimento prestado em juízo é considerado serviço público, de modo que a testemunha, A Considera-se serviço público o depoimento da testemunha prestado em juízo. B Cabe ao juízo intimar a testemunha arrolada pela parte do dia, da hora e do local da audiência designada, dispensando-se a intervenção do advogado no ato processual. C A confissão poderá ser judicial ou extrajudicial, espontânea ou provocada, faz prova contra o confitente e todos os litisconsortes, ativos ou passivos. D O depoimento pessoal é prova exclusiva do juízo, sendo vedada à parte adversa requerer a sua produção. E Embora inconclusiva ou deficiente, o juiz não poderá reduzir a remuneração inicialmente arbitrada para o trabalho pericial. quando sujeita ao regime da legislação trabalhista, não sofre perda de salário nem desconto no tempo de serviço por comparecer à audiência. Questão 2 (MPDFT – 2021 | Ministério Público do Distrito Federal e Territórios | Promotor de Justiça) Quanto à força probatória de documentos: Parabéns! A alternativa C está correta. O art. 408, caput, do CPC/2015, prevê que as declarações constantes do documento particular escrito e assinado ou somente assinado presumem-se verdadeiras em relação ao signatário. A O documento feito por oficial público incompetente é nulo de pleno direito, razão pela qual não pode ser usado como prova no processo civil. B O documentofeito por oficial público incompetente, mas observadas as formalidades legais, devidamente subscrito pelas partes, tem a eficácia probatória de documento público. C As declarações constantes de documento particular escrito e assinado geram a presunção de veracidade em relação ao signatário. D Não se admite em juízo o documento particular assinado, mas sem o reconhecimento de firma por semelhança ou verdadeiro. E O documento particular que contiver ciência de determinado fato prova o fato em si, desde que seja assinado perante Tabelião. 3 - Prova pericial Ao �nal deste módulo, você será capaz de reconhecer o funcionamento da prova pericial. Compreensão inicial da perícia A perícia é um termo que pode ser bastante confuso e complexo, mas é uma parte essencial de muitas áreas de atuação. Confira neste vídeo o que é uma perícia, em que situações ela pode ser necessária e sobre quais assuntos ela pode ser realizada. Objeto da perícia Sem o apoio de áreas de conhecimento como engenharia, medicina, contabilidade, economia, administração de empresas, agrimensura, arquitetura, oceanografia, geologia e muitas outras, o juiz não terá condições de dar solução justa à grande diversidade de casos que batem à porta do Poder Judiciário. A crescente complexidade das demandas e as limitações naturais de conhecimento dos julgadores a respeito de fatos técnicos e científicos faz todos os sistemas processuais modernos acolherem ao menos alguma modalidade de prova pericial (TARUFFO, 2014). Juíza. Exige-se do juiz conhecimento jurídico e capacidade de ponderar as máximas de experiência que circundam o meio cultural em que está inserido, para formar seu convencimento sobre os fatos a partir do conjunto probatório. Mas, quando a compreensão envolver conhecimento técnico ou científico não exigível do magistrado, esse conhecimento precisará ser complementado. Nessa esteira, “sempre que se exija do juiz conhecimento especializado não jurídico para a compreensão e verificação dos fatos da causa, é a hipótese de produção de prova pericial” (ALMEIDA, 2013, p. 23-24). Conceito de prova pericial O campo para utilização da prova pericial é amplíssimo, podendo reclamar diferentes abordagens a partir das diversas áreas do saber que podem ser chamadas a intervir no processo, o que dificulta sua definição por critérios materiais. Além disso, o modo de produção da prova pericial é variado (TARUFFO, 2014). Observe! Comumente adotam modelo de testemunhas técnicas das partes, por elas contratadas, para serem interrogadas em audiência a respeito de sua avaliação técnica dos fatos. Como o Brasil, usualmente preferem modelo centrado na figura de um perito imparcial que detém a confiança do tribunal, a quem cabe analisar o conjunto probatório sob o aspecto técnico para entregar um laudo, onde documenta suas conclusões. No Brasil, trata-se de meio de prova típico disciplinado entre os artigos 464 e 480 do CPC/2015. A lei indica apenas que a “prova pericial consiste em exame, vistoria ou avaliação” (art. 464). A definição coube à doutrina. Assim, “prova pericial é aquela em que a elucidação do fato se dá com o auxílio de um perito, especialista em determinado campo do saber, que deve registrar sua opinião técnica e científica no chamado laudo pericial – que poderá ser objeto de discussão pelas partes e por seus assistentes técnicos” (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021, p. 335). Admissibilidade da prova pericial A prova pericial é admissível quando os fatos controvertidos da lide não puderem ser elucidados pelos meios ordinários de convencimento. Dependência de conhecimentos técnicos e utilidade, portanto, são os requisitos de admissibilidade da prova pericial. Dispõe o art. 464, § 1º, do CPC/2015, que o juiz indeferirá a perícia se “a prova do fato não depender de conhecimento especial de técnico” (inciso I), “for desnecessária em vista de outras provas produzidas” (inciso II) ou “a verificação for impraticável” (inciso III). Atenção! Repudia-se a prática de determinar perícias – muitas vezes sem a necessidade de conhecimento técnico – unicamente para que um terceiro destrinche os fatos para auxiliar o juiz na tarefa de julgar. Sistemas de países de tradição jurídica anglo-americana Sistemas de países de tradição europeia continental A respeito do art. 464, § 1º, III, o fato de o objeto periciado não mais existir ou já estar alterado em função do tempo não necessariamente torna a verificação impraticável. Distingue-se a perícia direta – realizada diretamente sobre o objeto periciado – da perícia indireta – que pode ser feita com base em documentos, registros públicos, vestígios do objeto periciado etc., valendo-se sempre das regras de experiência técnica para reconstruir os fatos. Ao juiz caberá valorar a perícia indireta, atribuindo-lhe o peso que entender que merece, a partir inclusive dos elementos de que dispunha o perito. O perito Conheça neste vídeo os diferentes tipos de perito, desde aquele que é apontado pelo juízo até aquele escolhido pelas partes, passando pela questão da capacidade técnica e da imparcialidade. Além disso, confira o papel do assistente técnico, aquele que auxilia as partes em uma perícia. Capacidade técnica Quando o caso demandar conhecimento técnico ou científico, o juiz será assistido por perito (art. 156, caput, do CPC/2015). O perito exerce função pública de auxiliar da justiça (art. 149). Daí, se extrai que o perito deve possuir conhecimento técnico ou científico que lhe permita complementar o saber do juízo para compreender os fatos técnicos da disputa. A falta de conhecimento necessário é caso de substituição do perito (art. 468, I, do CPC/2015). Não se exige que o perito tenha diploma universitário. No entanto, quando houver órgão regulador da atividade (conselhos de medicina, ordem de advogados etc.), é preciso que o perito seja neles cadastrado (art. 156, §§ 1º e 5º, do CPC/2015). Pode a prova técnica demandar mais de uma área do saber – perícia complexa. Nesse caso, o juiz poderá indicar mais de um perito (expert teaming), de maneira a cobrir os conhecimentos técnicos necessários (art. 475 do CPC/2015). Perito apontado pelo juízo É frequente o perito ser escolhido e nomeado pelo juiz (art. 465, caput, do CPC/2015). A nomeação se dá ao admitir a prova pericial, na decisão de saneamento e organização do processo (art. 357, § 8º), indicando na própria decisão a especialidade técnica necessária e o nome do profissional que fará a perícia. O perito será intimado da nomeação pelo cartório, devendo apresentar suas qualificações técnicas, sua proposta de honorários e endereço para intimações (art. 465, § 2º, do CPC/2015). Poderá recusar a função, por meio de escusa por motivo legítimo, no prazo de quinze dias (art. 157, caput e § 1º). Curiosidade A livre escolha do perito pelo juiz foi alvo de críticas diversas, pois não garantiria a escolha de profissionais atualizados em suas respectivas áreas de conhecimento, o que prejudica a busca da verdade (ALMEIDA, 2013). Com base nas críticas sobre a livre escolha do perito pelo juiz, o legislador inovou ao prever que os tribunais deverão manter um cadastro de profissionais habilitados a funcionar como peritos nas mais diversas áreas, com capacitação técnica a ser aferida regularmente, de modo que o juiz deve escolher o expert a partir de tal lista (art. 156, §§ 1º a 3º do CPC/2015). Quando não houver profissional com a especialidade necessária cadastrado na localidade, o juiz poderá escolher perito de fora da lista, mas sempre sujeito à confirmação de sua capacitação (§ 5º). Perito de escolha das partes Perito frente aos juízes. As partes também podem, de comum acordo, escolher o perito que funcionará na causa, através de negócio jurídico processual típico previsto no art. 471 do CPC/2015. De acordo com o § 3º do dispositivo, a perícia com escolha consensual de perito substitui para todos os fins a perícia realizadapor expert nomeado pelo juiz. Imparcialidade A imparcialidade do perito é da essência do modelo de prova pericial adotado no processo civil brasileiro. O perito tem de cumprir escrupulosamente seu encargo, independentemente de compromisso (art. 466, caput). O perito deve ser de confiança do juízo, o que gera apenas uma presunção relativa de sua imparcialidade, mas não a garante de todo. Assim, o perito, como auxiliar da justiça, está sujeito às mesmas regras de impedimento e suspeição aplicáveis ao juiz (artigos 144 e 145 c/c art. 148, caput, II, todos do CPC/2015). Assistente técnico As partes têm o direito de indicar assistente técnico para a perícia (art. 465, § 1º, II, do CPC/2015). É ônus da parte indicar o assistente técnico e apurar sua qualificação para a tarefa. O assistente técnico, assim como o perito, deve ser um profissional versado na área técnica ou científica necessária para elucidação do fato controvertido ao juízo. Entretanto, diferentemente do perito, não está sujeito a regras de impedimento ou suspeição, pois é profissional de confiança da parte (art. 466, § 1º). Os assistentes técnicos têm função importante na boa condução do trabalho pericial. Devem ser capazes de “traduzir” ao perito a posição defendida pela parte sob o aspecto técnico. Ademais, a lei prevê uma série de prerrogativas dos assistentes técnicos, como acessar diligências e documentos (art. 466, § 2º), instruir a perícia com documentos, testemunhas, informações etc. (art. 473, § 3º), apresentar parecer quanto ao laudo pericial (art. 477, § 1º) e obter esclarecimento do perito sobre ponto divergente entre laudo e parecer (art. 477, § 2º, II). Procedimento da prova pericial Acompanhe neste vídeo a proposição e admissão da prova pericial até a entrega do laudo, pareceres técnicos e esclarecimentos. Confira ainda as incumbências das partes diante da nomeação do perito, como funciona o processo de recusa e substituição do perito e quais são as principais informações que devem constar no laudo e nos pareceres técnicos. Proposição e admissão da prova pericial A produção de prova pericial deve ser requerida durante a fase postulatória, ou seja, na petição inicial, contestação ou réplica, ainda que genericamente. Deve ser ratificada e mais bem elucidada no momento de especificação de provas, já na fase de saneamento (DIDIER JR.; BRAGA OLIVEIRA, 2021). Pode ainda ser determinada a produção de prova pericial de ofício, se o juiz entender que é indispensável para a apuração da verdade de fatos técnicos ou científicos indispensáveis para a solução da demanda. Juiz analisando prova pericial. A prova pericial será admitida, quando for o caso, na decisão de saneamento e organização do processo (art. 357 do CPC/2015). É fundamental que o juiz aponte com clareza quais os pontos controvertidos técnicos sobre os quais a prova deverá se debruçar (inciso II), podendo até formular perguntas do juízo a serem respondidas pelo perito em seu laudo (art. 470, II). Ao admitir a produção de prova pericial, deve o juiz nomear o perito e fixar o prazo para a entrega do laudo (art. 465, caput, do CPC/2015). O perito faz jus à remuneração arbitrada pelo juiz. Contudo, se a perícia for inconclusiva ou deficiente, a remuneração poderá ser reduzida (art. 465, §§ 3º e 5º, do CPC/2015). Incumbências das partes diante da nomeação do perito A partir da intimação das partes quanto à nomeação do perito, inicia-se um prazo de quinze dias em que podem tomar três importantes atitudes, simultaneamente (art. 465, § 1º, do CPC/2015): 1. “Arguir o impedimento ou a suspeição do perito, se for o caso” (inciso I), inclusive sob pena de preclusão. 2. “Indicar assistente técnico” (inciso II) 3. “Apresentar quesitos” (inciso III). Quesitos são perguntas formuladas pela parte ao perito, que fica obrigado a respondê-las em seu laudo ou em audiência. O quesito permite à parte direcionar o perito a analisar aspectos técnicos importantes de suas alegações, para que integrem o laudo. Eles devem guardar pertinência com a questão técnica tratada na perícia e com a solução da lide, devendo o juiz indeferir os impertinentes (art. 470, I, do CPC/2015). Entretanto, o indeferimento deve ser medida excepcional, pois não se deve cercear da parte o direito extrair a maior utilidade da perícia. Atenção! A parte pode apresentar quesitos suplementares ao longo da perícia (art. 469 do CPC/2015). Recusa e substituição do perito Em caso de impedimento ou suspeição do perito, a parte deve manifestar sua recusa por meio de impugnação ao perito, na primeira oportunidade que tiver de falar nos autos e no prazo de quinze dias (art. 465, § 1º, I, do CPC/2015), sob pena de preclusão. Sendo acolhida a impugnação, o juiz nomeará novo perito (art. 467, parágrafo único). Pode ainda o perito ser substituído quando lhe faltar conhecimento técnico ou quando, sem justo motivo, deixar de cumprir o prazo de entrega do laudo fixado pelo juiz no momento da nomeação (art. 468, caput e incisos, do CPC/2015). Entrega do laudo, pareceres técnicos e esclarecimentos O perito deve entregar o laudo pericial em juízo, no prazo assinalado (art. 477, caput, do CPC/2015) e as partes serão intimadas sobre a entrega. Em quinze dias contados da intimação, as partes poderão fazer suas considerações sobre a perícia, destacando seus pontos de concordância e discordância, e pedir esclarecimentos ao perito (art. 477, § 1º, do CPC/2015). No mesmo prazo, os assistentes técnicos poderão apresentar seus pareceres de concordância ou de discordância, trazendo os elementos técnicos que entendam pertinentes para complementar ou contrapor o laudo. O perito será intimado, devendo se manifestar em quinze dias sobre as manifestações das partes, dúvidas do juiz e eventualmente do Ministério Público (art. 477, § 2º, I) e expressamente sobre eventuais pontos de discordância entre o laudo e os pareceres dos assistentes técnicos (inciso II). Atenção! Caso persista a necessidade de esclarecimentos, a parte interessada os requererá na forma de quesitos direcionados ao perito ou ao assistente técnico, que deverão respondê-los oralmente em audiência de instrução e julgamento (art. 477, §§ 3º e 4º, do CPC/2015). Na audiência, são ouvidos o perito e o assistente técnico antes do depoimento pessoal das partes (art. 361, I). O trabalho pericial e sua valoração Entenda neste vídeo o que é laudo pericial, como ele é elaborado, quais informações devem constar nele e qual é a sua importância no processo judicial. Confira ainda a valoração da perícia e como o juiz utiliza o laudo pericial para tomar sua decisão. Coleta de informações O art 464 do CPC/2015 prevê três espécies de perícia: Exame Se dá sobre bens móveis, semoventes e pessoas. Vistoria Se dá sobre bens imóveis. Avaliação Tem por objeto fixar o valor de coisas ou direitos. No entanto, a distinção teórica não possui utilidade didática ou prática (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021). O perito e os assistentes técnicos, para o desempenho adequado de suas funções: Podem valer-se de todos os meios necessários, ouvindo testemunhas, obtendo informações, solicitando documentos que estejam em poder da parte, de terceiros ou em repartições públicas, bem como instruir o laudo com planilhas, mapas, plantas, desenhos, fotografias ou outros elementos necessários ao esclarecimento do objeto da perícia. (art. 473, § 3º, do CPC/2015) As partes serão intimadas, antes do início dos trabalhos (art. 474 do CPC/2015). Inclusive, o perito deve assegurar que os assistentes técnicos possam acompanhar quaisquer diligências ou exames realizados (art. 466, § 2º). Requisitos do laudo O perito deve documentar seu trabalho e conclusões no laudo pericial. O art. 473 do CPC/2015 elenca os principais requisitos do laudo: “a exposição do objeto da perícia” (inciso I), “a análise técnica ou científica realizada pelo perito” (inciso II), “a indicação do método utilizado, esclarecendo-oe demonstrando ser predominantemente aceito pelos especialistas da área do conhecimento da qual se originou” (inciso III) e “resposta conclusiva a todos os quesitos apresentados pelo juiz, pelas partes e pelo órgão do Ministério Público” (inciso IV). Saiba mais Deve o perito registrar os principais posicionamentos técnicos defendidos pelas partes ao longo do processo, o que for relevante para a perícia. Deve ainda indicar o ponto controvertido a respeito do qual o laudo é desenvolvido; afinal toda prova (e a pericial não é exceção) diz respeito a um fato específico. Ao indicar a análise técnica ou científica, o laudo deve descrever o percurso intelectual e investigativo realizado pelo perito, de modo a dar sustentação a suas conclusões. Para tanto, deve apontar os fatos considerados e as provas e circunstâncias que permitem admiti-los como verdadeiros. O perito deve realizar sua análise conforme método predominantemente aceito por especialistas da área tratada, o que deve ser comprovado por dados científicos, publicações em periódicos etc., que demonstrem sua predominância. Tal exigência não é absoluta, pois seria impossível fazer perícia quando não houver consenso quanto ao melhor método entre especialistas. Por esses motivos, o laudo deve apontar o método utilizado, seu nível de aceitação, a possibilidade de desvio no resultado, tudo de modo a oferecer ao juiz a compreensão mais completa possível da conclusão e de suas premissas. O laudo deve conter linguagem tão simples quanto possível, evitando o tecnicismo, que em nada contribui para a compreensão da conclusão do perito, além de manter uma linha coerente na fundamentação (art. 473, § 1º, do CPC/2015). O art. 473, § 2º, do CPC/2015 aponta ser “vedado ao perito ultrapassar os limites de sua designação, bem como emitir opiniões pessoais que excedam o exame técnico ou científico do objeto da perícia.” Por exemplo, não pode perito nomeado para apurar as causas de um acidente realizar a quantificação dos danos. Valoração A valoração da prova pericial se dá na sentença (art. 479 do CPC/2015) e obedece à lógica da persuasão racional, à luz do art. 371. Aliás, o art. 479, ao tratar da valoração da prova pericial, remete expressamente ao art. 371, reconhecendo que o juiz pode “considerar ou deixar de considerar as conclusões do laudo”, desde que o faça racional e motivadamente, considerando o método utilizado pelo perito. Mesmo não sendo especialista na área da perícia, o juiz não está vinculado a suas conclusões. Entretanto, não pode ignorar a prova pericial e, se discordar de suas conclusões, deverá oferecer motivação contundente para tanto. O sistema de valoração da prova pericial no CPC/2015, resultado da combinação dos artigos 371, 473, III e § 1º, e 479, exige que o juiz faça o controle da completude, integridade e coerência do laudo pericial, à luz de sua aderência a métodos técnicos ou científicos. Segunda perícia Se a perícia não for esclarecedora, o juiz deverá determinar a realização de segunda perícia (art. 480, caput, do CPC/2015). A segunda perícia não comporta ampliação dos temas em relação à primeira. Seu objeto deverá ser o mesmo, já que se destina a corrigir eventual omissão ou inexatidão nos resultados (§ 1º). Seguirá as mesmas disposições da primeira (§ 2º), à exceção do perito, que não deve ser o mesmo. A lei não atribui peso maior ou menor à segunda perícia. Deve o juiz valorar cada uma delas em sua fundamentação (§ 3º). Outros tipos de prova técnica Entenda neste vídeo o que é prova técnica simplificada, quando ela pode ser utilizada e quais são as vantagens desse tipo de prova em relação a outras formas de prova pericial. Confira também os pareceres técnicos. Prova técnica simpli�cada Dependendo, na resolução da lide de elucidação de questão técnica ou científica de menor complexidade, o juiz pode determinar a produção de prova técnica simplificada, a qual substitui a prova pericial (art. 464, § 2º, do CPC/2015). A prova é produzida em audiência de instrução e julgamento, mediante a inquirição do especialista a respeito do ponto controvertido de natureza técnica ou científica (§ 3º). Deve ser assegurada às partes oportunidade de indicação de assistente técnico, que poderão ser perguntados sobre os mesmos pontos. Além disso, às partes também deverá ser oportunizada a formulação de perguntas (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2021). Pareceres das partes É corriqueiro que as partes tragam pareceres técnicos e documentos elucidativos juntamente com a petição inicial e a contestação. Se, diante de tais documentos e pareceres, o juiz entender que a questão técnica controvertida está suficientemente elucidada, ele poderá dispensar a produção da prova pericial em juízo (art. 472 do CPC/2015). A doutrina por vezes chama essa modalidade de prova técnica de perícia extrajudicial (THEODORO JÚNIOR, 2021). Entendemos ser mais adequado chamar de prova técnica por pareceres das partes, por a lei referir claramente à admissão da prova técnica por pareceres ser caso de dispensa da prova pericial. A prova pericial, no processo civil brasileiro, tem uma lógica própria, que não necessariamente se aplica à prova técnica por pareceres das partes. Re�exão Vale o alerta de que a persistência da menor dúvida quanto a aspectos técnicos ou de idoneidade dos pareceres trazidos é suficiente para impedir a aplicação do dispositivo legal, determinando a produção da prova pericial, já que a prova técnica por pareceres, na maior parte das vezes, não permite que as partes fiscalizem a prova produzida pela outra parte, formulem quesitos e efetivamente participem em contraditório prévio (THEODORO JÚNIOR, 2021). Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 (FCC – 2016 |TRT 20ª Região (SE) | Analista Judiciária) Considere as proposições a seguir acerca da prova pericial. I. O perito não está sujeito às causas de suspeição e impedimento, por não ser parte no processo. II. O juiz poderá autorizar o pagamento da integralidade dos honorários antes do início dos trabalhos. III. Os assistentes técnicos não estão sujeitos a impedimento ou suspeição. IV. O juiz poderá dispensar prova pericial quando as partes, na inicial e na contestação, apresentarem, sobre as questões de fato, pareceres técnicos ou documentos elucidativos que considerar suficientes. Está correto o que se afirma apenas em Parabéns! A alternativa C está correta. A II e III. B I e II. C III e IV. D I e IV. E I. Conforme art. 466, § 1º, do CPC/2015, os assistentes técnicos são de confiança da parte e não estão sujeitos a impedimento ou suspeição. Por outro lado, o art. 472 do Código de Processo Civil de 2015 prevê que o juiz poderá dispensar prova pericial quando as partes, na inicial e na contestação, apresentarem, sobre as questões de fato, pareceres técnicos ou documentos elucidativos que considerar suficientes. Note-se que o perito está sujeito a causas de suspeição e impedimento, e seu pagamento não será deferido na integralidade antes do início dos trabalhos. Questão 2 (TRF – 3ª Região – 2018 | Juiz Federal | ADAPTADA) Em tema de prova pericial, afigura-se correto afirmar: A O critério para que o juiz determine a produção de prova técnica simplificada é a prevalência da oralidade no processo. B Se o laudo for inconclusivo o juiz poderá reduzir a remuneração do perito. C No caso em que as partes, de comum acordo, escolham o perito, compete exclusivamente àquelas a formulação de quesitos. D Sendo vedado ao perito ultrapassar os limites de sua designação, ele deve se abster de emitir opiniões pessoais que excedam o exame técnico ou científico do objeto da perícia, de ouvir testemunhas ou de obter documentos que estejam em poder da parte. E O laudo pericial deve conter a indicação de todos os métodos existentes na literatura técnica/científica da área de conhecimento de que se originou, demonstrando-se, em relação a cadaum deles, o Parabéns! A alternativa B está correta. Conforme art. 465, § 5º, do CPC/2015, quando a perícia for inconclusiva ou deficiente, o juiz poderá reduzir a remuneração inicialmente arbitrada para o trabalho. Considerações �nais A prova é elemento material que permite ao julgador formar sua crença quanto à verdade das alegações das partes a respeito dos fatos relevantes para julgar o caso concreto. É um direito fundamental da parte, que tem como destinatário principal o juiz e cuja finalidade é convencê-lo da veracidade de suas alegações. Atualmente, a valoração da prova segue o sistema de persuasão racional ou convencimento motivado. A prova ingressa no processo principalmente durante a instrução, por iniciativa das partes ou por determinação do juiz, de ofício. O direito admite qualquer meio de prova moralmente legítimo, mesmo que sem previsão expressa em lei. As provas típicas na legislação processual civil são depoimento pessoal, confissão, prova documental (incluindo documento eletrônico e ata notarial), prova testemunhal, prova pericial e inspeção judicial. A perícia é meio de prova típica centrada na figura do perito, que é auxiliar da justiça com conhecimento técnico ou científico diferente do jurídico necessário para a busca da verdade sobre fato relevante para o julgamento da lide. O perito é imparcial e de confiança do juízo, mas pode também ser escolhido em comum acordo pelas partes. Suas conclusões devem ser documentadas em laudo pericial elaborado de maneira lógica, clara, conforme as metodologias aceitas na área de saber específica e garantindo às partes e a seus assistentes técnicos a possibilidade de participarem de todas as fases da perícia. Pode o juiz discordar do laudo pericial, desde que o faça de forma fundamentada. motivo pelo qual o método utilizado é mais adequado. Podcast Olá! Vamos discutir as principais formas de obtenção de provas em processos judiciais, tais como testemunhos, documentos, perícias e outras técnicas utilizadas para demonstrar a veracidade de fatos e argumentos em um julgamento. Explore + Confira as indicações que separamos especialmente para você! Pesquise o artigo Boa-fé, cooperação, prova e verdade e veja a opinião de Fátima Nancy Andrighi, Ministra do Superior Tribunal de Justiça, e de Rodrigo Mendonça a respeito do papel que a cooperação das partes na busca pela verdade tem sobre a valoração do conjunto probatório. Pesquise o artigo Notas sobre a avaliação da prova pericial: resgatando a causalidade, em que o Flávio Mirza aborda a questão substituição muitas vezes inadequada, em trabalhos periciais, da investigação de relações efetivas de causa e efeito por argumentação calcada em estatística e probabilidade. Referências ALMEIDA, D. A. R. de. A prova pericial no novo CPC. In: ROQUE, A. V.; PINHO, H. D. B. de. O projeto do novo código de processo civil: uma análise crítica. 1. ed. Brasília: Gazeta Jurídica, 2013. p. 21-42. BARBOSA MOREIRA, J. C. O novo processo civil brasileiro: exposição sistemática do procedimento. Rio de Janeiro: Forense, 2002. CARNELUTTI, F. Teoria geral do direito. São Paulo: LEJUS, 1999. CHIOVENDA, G. Instituições de direito processual civil. v. 3. Campinas: Bookseller, 1998. CINTRA, A. C. A.; GRINOVER, A. P.; DINAMARCO, C. R. Teoria geral do processo. 14. ed. São Paulo: Malheiros, 1998. DIDIER JR., F.; BRAGA, P. S.; OLIVEIRA, R. A. de. Curso de direito processual civil: teoria da prova, direito probatório, decisão, precedente, coisa julgada, processo estrutural e tutela provisória. v. 2. 16. ed. Salvador: Juspodivm, 2021. PINHO, H. D. B. de. Direito processual civil contemporâneo: processo de conhecimento, cautelar, execução e procedimentos especiais. v. 2. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2013. TARUFFO, M. A prova. 1. ed. São Paulo: Marcial Pons, 2014. TARUFFO, M. Uma simples verdade: o juiz e a construção dos fatos. tradução Vitor de Paula Ramos – 1. ed. – São Paulo : Marcial Pons, 2016. THEODORO JÚNIOR, H. Curso de direito processual civil. v. 1. 62. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2021. Material para download Clique no botão abaixo para fazer o download do conteúdo completo em formato PDF. Download material javascript:CriaPDF() O que você achou do conteúdo? Relatar problema