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HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA Unidade 1 Introdução à historiografia brasileira CEO DAVID LIRA STEPHEN BARROS Diretora Editorial ALESSANDRA FERREIRA Gerente Editorial LAURA KRISTINA FRANCO DOS SANTOS Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autoria FÁBIO RONALDO DA SILVA 4 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 A U TO RI A Fábio Ronaldo da Silva Olá. Sou pós-doutorando em História pelo PPGH/UFCG. Sou doutor em História pelo PPGH/UFPE. Possuo o título de mestre em História pelo PPGH/UFCG. Já atuei como professor substituto do curso de Jornalismo da UEPB, assim como lecionei no curso de Publicidade e Propaganda da Cesrei. Além disso, ministro aulas no curso de Comunicação Social das FIP e no curso de Produção em Audiovisual da Facisa/Cesed. Tenho especialização em Programação Visual, além de formações em Comunicação Social, pela UEPB, e História, pela UFCG. Atualmente, exerço o papel de pesquisador colíder do Grupo de Pesquisa/DGP-CNPq História e Memória da Ciência e Tecnologia. Minhas pesquisas estão concentradas nas áreas de Comunicação e de História, com foco especial nos temas de estudos de gênero, sexualidades, velhices, imprensa homoerótica, homossexualidades, imagem, cinema, história oral, arquivo jornalístico, memória e novas tecnologias da informação. Tenho uma paixão profunda pelo que faço e sinto grande satisfação em compartilhar minha experiência de vida com aqueles que estão começando em suas respectivas carreiras. Por essa razão, recebi o convite da Editora Telesapiens para fazer parte de seu grupo de autores independentes. Estou extremamente contente em poder oferecer minha ajuda durante essa fase de intenso estudo e dedicação. Saiba que pode contar comigo! 5HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 ÍC O N ESEsses ícones aparecerão em sua trilha de aprendizagem nos seguintes casos: OBJETIVO No início do desenvolvimento de uma nova competência. DEFINIÇÃO Caso haja a necessidade de apresentar um novo conceito. NOTA Quando são necessárias observações ou complementações. IMPORTANTE Se as observações escritas tiverem que ser priorizadas. EXPLICANDO MELHOR Se algo precisar ser melhor explicado ou detalhado. VOCÊ SABIA? Se existirem curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo. SAIBA MAIS Existência de textos, referências bibliográficas e links para aprofundar seu conhecimento. ACESSE Se for preciso acessar sites para fazer downloads, assistir vídeos, ler textos ou ouvir podcasts. REFLITA Se houver a necessidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido. RESUMINDO Quando for preciso fazer um resumo cumulativo das últimas abordagens. ATIVIDADES Quando alguma atividade de autoaprendizagem for aplicada. TESTANDO Quando uma competência é concluída e questões são explicadas. 6 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 SU M Á RI O Conceito de historiografia e sua importância no estudo da história do Brasil ...........................................................................9 Definindo historiografia ............................................................................................... 9 A função da historiografia .........................................................................13 A interdisciplinaridade da historiografia ................................................14 A historiografia como reflexão crítica da história ................................................16 Mecanismos de crítica em historiografia ...............................................18 Historiografia brasileira: contextualizando sua essência e seu significado ..19 A historiografia brasileira contemporânea ...........................................20 Principais marcos históricos da historiografia brasileira ......24 A formação da historiografia nacional: Independência e Período Imperial .24 A história como ferramenta política no Império ..................................27 Tensões historiográficas: centralização versus regionalismo ..........28 O papel da escravidão nas narrativas históricas .................................29 Abolição, industrialização e modernização: transformações na escrita da história ...........................................................................................................................32 Redemocratização e renovação historiográfica: a busca por vozes silenciadas .....................................................................................................................36 Metodologias e teorias utilizadas pelos historiadores brasileiros ....................................................................................40 Evolução metodológica na historiografia brasileira ............................................40 A revolução dos micro-históricos e estudos locais .............................43 A era digital e novas metodologias ........................................................44 Teorias historiográficas em foco..............................................................................46 Práticas e ferramentas de pesquisa .......................................................................50 Principais correntes historiográficas no Brasil .......................53 Das instituições às relações sociais: tradição institucionalista e historiografia marxista .........................................................................................................................53 Implicações para a compreensão do passado brasileiro ..................58 Cultura e cotidiano: entre a história social e a história cultural ......................59 Perspectivas particulares: micro-história, história ambiental e história indígena .........................................................................................................................63 7HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 A PR ES EN TA ÇÃ O Você sabia que a área de historiografia brasileira é uma das mais ricas e diferenciadas do mundo acadêmico e será responsável pela geração de profundos insights sobre a construção da nossa identidade nacional nos próximos anos? Isso mesmo. A área de historiografia está inserida no núcleo fundamental da História como disciplina. Sua principal responsabilidade é analisar e refletir sobre a própria maneira como a história é escrita, abordada e interpretada. Isso significa que, ao estudarmos a historiografia, não estamos apenas olhando para os eventos passados, mas para a maneira como esses eventos foram contados, os debates que viveram ao seu redor, as metodologias utilizadas pelos historiadores e os paradigmas teóricos que moldaram diferentes épocas. No contexto brasileiro, isso se torna ainda mais fascinante. Nossa história é repleta de nuances, conflitos, sofrimentos e resistências. Compreender o conceito da historiografia brasileira e a importância da história, os principais marcos historiográficos e correntes é, portanto, uma porta de entrada para entender a complexidade das narrativas que compõem o Brasil – desde as lutas até as vozes muitas vezes silenciadas de grupos indígenas e de outros marginalizados. É também uma chance de mergulhar nas metodologias e teorias que têm moldado o campo historiográfico no país. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva você vai mergulhar neste universo! 8 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 O BJ ET IV O S Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 1. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: 1. Definir o conceito de historiografia, compreendendo sua importância para o estudo da história do Brasil. 2. Identificar e contextualizar os principais marcos históricos que influenciaram o desenvolvimento da historiografia brasileira. Eventos como a Independência, o Período Imperial, a abolição da escravidão, a industrialização e o processo de redemocratização do País impactaram a produção historiográfica.3. Reconhecer os diferentes enfoques teóricos e metodológicos utilizados pelos historiadores brasileiros. 4. Entender as principais correntes historiográficas no Brasil e suas contribuições para a compreensão do passado brasileiro. 9HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 Conceito de historiografia e sua importância no estudo da história do Brasil OBJETIVO Ao término deste capítulo, você será capaz de definir o conceito de historiografia, compreendendo sua importância para o estudo da história do Brasil, e entender as diversas camadas e perspectivas que compõem a narrativa histórica nacional. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Vamos lá. Avante! Definindo historiografia A compreensão de qualquer conceito começa por sua origem e evolução ao longo do tempo. No caso da historiografia, seu significado etimológico e sua trajetória ao longo da história fornecem insights valiosos sobre sua essência. A palavra “historiografia” é de origem grega, derivada dos termos história, que pode ser traduzido como “investigação” ou “pesquisa”, e graphein, que significa “escrever” (Momigliano, 1993). Portanto, no sentido mais literal, historiografia refere-se à “escrita da pesquisa” ou “escrita da investigação”. Ao longo dos tempos, a prática de investigar e registrar eventos teve lugar em diversas civilizações. Contudo, foi na Grécia Antiga que a historiografia ganhou contornos mais próximos do que hoje entendemos por escrita histórica. Historiadores como Heródoto, frequentemente considerado o “Pai da História”, buscavam não apenas registrar eventos, mas entender causas, efeitos e motivações, aproximando-se, assim, da pesquisa histórica moderna (Hartog, 2001). 10 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 O termo “historiografia” não apenas encapsula a atividade de escrever a história, mas também a reflexão crítica sobre essa escrita, algo que se tornou ainda mais proeminente nos debates acadêmicos contemporâneos (Burke, 1992). Assim, a historiografia, ao passar dos séculos, evoluiu de um simples registro de eventos para uma sofisticada e complexa análise e interpretação da narrativa histórica. Delinear os contornos entre história e historiografia é crucial para a compreensão de ambas. Se, à primeira vista, os termos podem parecer sinônimos, uma análise mais detida revela nuances e particularidades que os distinguem significativamente. A história, em sua essência, é o estudo de eventos, processos e personalidades do passado. É uma tentativa de reconstruir, entender e interpretar o que aconteceu em tempos anteriores ao presente. Como nos aponta Cardoso (2005), a história é a narrativa do que é considerado significativo em termos de ações humanas ao longo do tempo. Ela é o resultado de uma seleção criteriosa de eventos e processos, organizados e interpretados a partir de evidências e fontes, ou seja, a história é aquilo que é narrado sobre o passado. Imagem 1.1 – Historiografia x História Historiografia Estudo sobre como a narrativa do passado é construída. História Aquilo que é narrado sobre o passado. Fonte: Elaborado pela autoria (2023) Por outro lado, a historiografia é, de acordo com Marques (1998), o estudo sobre como essa narrativa é construída. Ela se concentra nas técnicas, metodologias e interpretações 11HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 utilizadas pelos historiadores ao longo do tempo. Além disso, a historiografia está atenta às escolhas feitas pelos historiadores: por que certos eventos são priorizados e outros negligenciados? Quais perspectivas são centrais e quais são marginalizadas? Nesse sentido, a historiografia é uma reflexão sobre a prática da escrita da história, uma espécie de “história da história”. EXEMPLOS: um exemplo prático dessa distinção pode ser observado ao estudarmos um evento histórico específico, como a Independência do Brasil. A narrativa dos eventos, os personagens e as consequências desse processo compõem a história da Independência. No entanto, quando começamos a analisar como essa narrativa mudou ao longo do tempo, quais vozes foram priorizadas em diferentes períodos e quais métodos e fontes foram utilizados para construir diferentes versões dessa história, estamos nos aprofundando na historiografia da Independência do Brasil. Dessa forma, percebe-se que, enquanto a História busca o entendimento e a representação do passado, a Historiografia investiga como essa representação é (e foi) feita, destacando suas variações, nuances e seus debates internos (Reis, 2007). A historiografia, enquanto campo de estudo, não permaneceu estagnada. Ao contrário, sofreu significativas transformações ao longo dos séculos, refletindo as mudanças nas abordagens, preocupações e metodologias dos historiadores. IMPORTANTE Ao longo do tempo, a historiografia refletiu as preocupações, metodologias e abordagens de cada época, servindo como um espelho das mudanças intelectuais e culturais da humanidade. 12 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 Na Antiguidade, a escrita da história estava imbuída de um caráter moral e pedagógico. Historiadores como Heródoto e Tucídides, embora diferissem em suas abordagens, concordavam em uma coisa: a história deveria servir como lição para as gerações futuras (Azevedo, 2008). Era uma época em que a história estava, muitas vezes, entrelaçada com a mitologia, buscando explicar os feitos dos homens e dos deuses de maneira integrada. A Idade Média, especialmente na Europa, foi um período em que a historiografia estava fortemente ligada à religião. A história era vista por meio de uma lente teológica, em que os eventos eram interpretados como parte de um plano divino (Le Goff, 1994). A narrativa tinha um caráter linear, que partia da Criação e caminhava para o Juízo Final. Contudo, foi durante o Renascimento e o Iluminismo que a historiografia passou por mudanças marcantes. Surgiu um crescente interesse pela investigação empírica, pela crítica das fontes e por uma abordagem mais “científica” da história. Voltairine e Gibbon são exemplos de pensadores desse período que defendiam uma visão mais racional e menos teológica da história (Pinsky, 2000). O século XX, por sua vez, presenciou uma pluralidade de abordagens historiográficas. Com a influência de movimentos como o estruturalismo, a escola dos Annales e o marxismo, a historiografia começou a explorar não apenas a política e as elites, mas também temas como a vida cotidiana, as mentalidades e as estruturas socioeconômicas (Ferro, 2003). No Brasil, a historiografia teve suas peculiaridades, oscilando entre narrativas nacionais épicas, como as de Varnhagen, até abordagens mais críticas e sociais no século XX, 13HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 como as propostas por Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior (Schwarcz; Starling, 2008). A função da historiografia A função da historiografia, embora intrínseca à sua natureza, é um tópico que desperta ricas discussões no âmbito acadêmico. Afinal, ao considerarmos a historiografia como uma “história da história”, estamos nos referindo ao modo como entendemos, interpretamos e representamos o passado. Porém, qual é o propósito dessa reflexão contínua? Primeiramente, a historiografia serve como um meio de autoconsciência para a disciplina histórica. Por meio dela, os historiadores podem compreender e avaliar as metodologias, teorias e abordagens que utilizam em suas investigações. Como destaca Bloch (2002), a historiografia é essencial para a maturidade de qualquer disciplina, pois permite que ela se autoanalise, compreenda suas limitações e potencialidades. Outra função crucial da historiografia é proporcionar uma base para a crítica histórica. Ao estudar a forma como a história foi escrita e interpretada em diferentes contextos e épocas, os historiadores podem identificar tendências, vieses e lacunas em narrativas anteriores. Tal processo é fundamental para que a escrita da histórianão se torne dogmática ou monolítica, mas, sim, dinâmica e aberta a revisões (Candido, 1995). VOCÊ SABIA? A função da historiografia não é meramente acadêmica ou teórica. Ela tem implicações práticas profundas, influenciando a maneira como entendemos nosso passado, nosso presente e, por extensão, nosso futuro. 14 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 A historiografia também desempenha um papel importante na construção da memória coletiva. Ao analisar as diferentes narrativas históricas, os acadêmicos podem perceber quais versões do passado foram priorizadas em detrimento de outras e quais memórias foram suprimidas, marginalizadas ou esquecidas ao longo do tempo (Halbwachs, 1990). No contexto brasileiro, a historiografia tem uma função adicional, que é ajudar na construção da identidade nacional. Ao revisitar os modos como a história do Brasil foi narrada, é possível entender as diversas concepções sobre o que significa ser brasileiro, desde as visões mais heroicas até as críticas mais contundentes (Freyre, 2006). A interdisciplinaridade da historiografia A interdisciplinaridade, entendida como o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento, tem se tornado cada vez mais relevante no campo acadêmico. Na historiografia, essa tendência não é diferente. O estudo da história, quando em interação com outras disciplinas, amplia seus horizontes, enriquecendo análises e permitindo novas abordagens sobre o passado. Imagem 1.2 – Interdisciplinaridade da historiografia HISTORIOGRAFIA Antropologia Economia Sociologia Literatura Fonte: Elaborado pela autoria (2023) 15HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 Um dos exemplos mais emblemáticos dessa interdisciplinaridade na historiografia é a relação entre História e Antropologia. A partir dos trabalhos de historiadores como Darnton (1987) e Geertz (1989), a cultura e os rituais de diferentes sociedades passaram a ser analisados com um olhar mais atento às suas especificidades e aos seus significados. Essa troca permitiu uma compreensão mais aprofundada das mentalidades e das práticas culturais de distintos grupos humanos ao longo do tempo. Outra interação significativa é entre História e Sociologia. Por meio de autores como Bourdieu (2007) e Elias (1994), a historiografia tem se beneficiado de categorias analíticas que ajudam a entender as dinâmicas sociais, as formações de classe e as relações de poder. Ao abordar a história com uma perspectiva sociológica, é possível identificar padrões e estruturas que influenciam a trajetória dos grupos humanos. A relação entre História e Economia, influenciada por abordagens marxistas e pela escola dos Annales, também tem sido frutífera. O conceito de “modo de produção”, por exemplo, permite entender a dinâmica socioeconômica de diferentes sociedades, desde a Antiguidade até o mundo contemporâneo (Braudel, 1987). No contexto brasileiro, a interdisciplinaridade também tem florescido. Um bom exemplo é o diálogo entre História e Literatura. Por meio da análise de obras literárias, historiadores como Candido (1995) e Schwarz (2001) têm explorado as nuances da sociedade brasileira, capturando aspectos da identidade, da cultura e das tensões sociais presentes no país. 16 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 Essas interações mostram que a historiografia não é uma disciplina isolada. Ela é enriquecida, desafiada e renovada pela interdisciplinaridade, permitindo uma compreensão mais ampla e diversificada da complexa trama da experiência humana. A historiografia como reflexão crítica da história A historiografia não é simplesmente um registro passivo do que aconteceu. É, por natureza, um exercício crítico de interrogação e interpretação da realidade passada. E como escreveu Marc Bloch (2002), um dos grandes nomes da escola dos Annales, “a compreensão do presente nasce da discussão do passado”. Essa compreensão, no entanto, não se dá de forma linear ou imutável. Ao contrário do que muitos poderiam pensar, a história não é feita de verdades absolutas. A cada geração, historiadores se deparam com novas questões e perspectivas que os levam a revisitar e a reinterpretar eventos, personagens e processos do passado (Reis, 2007). Isso significa que a historiografia está em constante movimento, sendo moldada não apenas pelos eventos que busca representar, mas também pelas circunstâncias, pelas metodologias em voga e pelas preocupações de seu tempo. A natureza crítica da historiografia é, assim, intrínseca à sua essência. Por meio dela, a sociedade confronta versões estabelecidas do passado, desafia narrativas dominantes e procura compreender mais profundamente as complexidades e nuances de sua história. Como afirma Jörn Rüsen (2012), a história é um conhecimento orientado para a prática, e é por meio da reflexão crítica que ela se torna relevante para o presente, ajudando a orientar a sociedade em direção ao futuro. 17HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 Este exercício de crítica e de reflexão não se limita a uma esfera puramente acadêmica. A historiografia influencia a maneira como a sociedade se percebe, como interpreta seus desafios atuais e como se posiciona diante deles. Portanto, entender o papel crítico da historiografia é fundamental para compreender a própria construção da memória e de identidade coletivas. A crítica, em sua essência, está entrelaçada com o desenvolvimento da historiografia. Desde os primeiros registros históricos, observamos um constante reajuste e uma reconsideração dos eventos passados em resposta às mudanças culturais, políticas e sociais. A crítica é, assim, uma ferramenta vital que permite à historiografia se adaptar e responder às necessidades de cada época (Cardoso, 1997). A historiografia clássica, exemplificada por autores como Heródoto e Tucídides, já revelava uma preocupação com a precisão e a busca por múltiplas fontes para reconstruir o passado. Entretanto, foi com o Iluminismo, no século XVIII, que vimos uma guinada mais acentuada para uma abordagem crítica. A ênfase na razão e no método científico proporcionou aos historiadores ferramentas para questionar as narrativas tradicionais e buscar um entendimento mais aprofundado dos eventos históricos (Ventura, 2004). No século XIX, com o surgimento da história como disciplina acadêmica formalizada, a crítica tornou-se ainda mais sistemática. A história passou a ser vista não apenas como uma coleção de fatos, mas como um processo em constante evolução. A introdução da temporalidade e da dialética na análise histórica, impulsionada por pensadores como Marx, trouxe consigo uma nova dimensão de crítica, focando nas relações de poder e nos processos subjacentes que moldam os eventos (Pinsky, 2000). 18 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 Já no século XX, a crítica se expandiu para abordar as próprias metodologias historiográficas. A escola dos Annales, por exemplo, enfatizou a necessidade de se transcender a narrativa política tradicional e de se adotar uma perspectiva mais holística, considerando fatores geográficos, sociais e econômicos (Reis, 2007). Além disso, movimentos pós-coloniais e feministas começaram a questionar as narrativas eurocêntricas e patriarcais dominantes, propondo novas maneiras de entender e de interpretar a história (Schwarcz, 1993). Mecanismos de crítica em historiografia No âmago da historiografia encontra-se o constante questionamento e a busca pela veracidade e precisão. Essa tarefa demanda uma série de mecanismos críticos que os historiadores utilizam para avaliar, interpretar e, por vezes, desafiar as narrativas estabelecidas. • Crítica das fontes: todo trabalho historiográfico começa com a análise cuidadosa de fontes primárias e secundárias. Por meio da crítica documental, os historiadores examinam a autenticidade, a proveniência, o contexto e o propósito da fonte, garantindo sua confiabilidade (Le Goff, 1994). Por vezes, o silêncio das fontes, o quenão é mencionado, pode ser tão revelador quanto o seu conteúdo explícito. • Análise contextual: a história não ocorre no vácuo. A compreensão do contexto cultural, político, social e econômico em que os eventos ocorreram é vital. Essa análise permite discernir motivações, relações de poder e influências externas que podem ter moldado os acontecimentos (Burke, 1992). 19HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 • Dialética historiográfica: os historiadores frequentemente se engajam em diálogos com trabalhos anteriores, reconhecendo contribuições, apontando lacunas e desafiando interpretações. Esse processo dialético enriquece o entendimento histórico e proporciona uma visão mais matizada dos eventos (Pesavento, 2004). • Interdisciplinaridade: a historiografia moderna beneficia-se do diálogo com outras disciplinas, como a antropologia, a sociologia e a arqueologia. Essa abordagem interdisciplinar permite uma análise mais rica e complexa, ao considerar diferentes perspectivas e metodologias (Ferro, 1992). • Reavaliação de narrativas dominantes: uma função crucial da historiografia crítica é questionar e desafiar as narrativas hegemônicas. Ao fazer isso, os historiadores podem trazer à luz vozes marginalizadas, reconsiderar eventos sob novas lentes e promover uma compreensão mais inclusiva e diversa da história (Ginzburg, 1989). A adoção desses mecanismos críticos assegura que a historiografia permaneça uma disciplina viva, em constante evolução e em sintonia com as mudanças e necessidades da sociedade. Historiografia brasileira: contextualizando sua essência e seu significado A formação da historiografia brasileira é, em si, um reflexo da complexidade e da diversidade que caracterizam a história do país. Desde os primeiros contatos com os colonizadores 20 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 europeus, a terra hoje conhecida como Brasil foi cenário de incontáveis narrativas e interpretações. A própria ideia de uma “história brasileira” emergiu não apenas das experiências vividas aqui, mas também de como essas experiências foram registradas, interpretadas e, por vezes, reinventadas ao longo do tempo. Os primeiros relatos da terra recém-descoberta foram feitos por navegadores e missionários europeus. Como afirma Capistrano de Abreu (1988), os cronistas coloniais estavam mais interessados em descrever e catequizar do que em compreender os indígenas. IMPORTANTE Essa perspectiva europeia moldou inicialmente a historiografia, resultando em uma visão muitas vezes distorcida dos verdadeiros habitantes e dos eventos do Brasil. No entanto, com o passar do tempo e o desenvolvimento de uma consciência nacional distinta, surgiu a necessidade de reavaliar e reescrever a história brasileira por brasileiros e para brasileiros. Essa mudança pode ser mais bem ilustrada pela obra de historiadores como Sérgio Buarque de Holanda, cujo livro “Raízes do Brasil” (2015) é fundamental para entender o caráter singular do brasileiro e sua formação social. A influência dos movimentos históricos significativos no Brasil, como a Independência, em 1822, e a Proclamação da República, em 1889, gerou um novo olhar sobre a identidade nacional. Foi um momento crucial para a historiografia brasileira, pois, conforme destaca Mattos (2009, p. 97), “a historiografia republicana tinha o desafio de construir uma identidade nacional que legitimasse o novo regime e, ao mesmo tempo, rompesse com os laços coloniais”. 21HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 A historiografia brasileira contemporânea Ao nos debruçarmos sobre o cenário recente da historiografia brasileira, percebemos uma rica diversidade temática e metodológica, que reflete as transformações sociais, políticas e culturais do Brasil nas últimas décadas. Em meio a um país de realidades tão multifacetadas, os historiadores contemporâneos têm procurado novos objetos de estudo e novas formas de abordagem. IMPORTANTE A historiografia brasileira contemporânea demonstra um compromisso crescente com a interdisciplinaridade, dialogando com campos como a antropologia, a sociologia e os estudos literários. Essa abertura a múltiplas vozes e perspectivas enriquece e complexifica nossa compreensão da trajetória brasileira, tornando-a, ao mesmo tempo, mais global e mais particular. Um fenômeno marcante da historiografia brasileira contemporânea é a valorização das “micro-histórias”. Inspirados, em parte, pelo trabalho do historiador italiano Carlo Ginzburg, os pesquisadores brasileiros têm buscado narrativas mais locais e específicas, retratando o cotidiano, os grupos marginalizados e as experiências individuais. Essa perspectiva permite uma compreensão mais íntima e detalhada dos processos históricos, que frequentemente escapam de grandes narrativas. No campo da história social, a questão das identidades tem ocupado um lugar central. Lilia Moritz Schwarcz e Helena Bomeny, por exemplo, têm investigado a formação da identidade nacional brasileira, revelando como conceitos de raça, gênero e classe 22 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 estão intrinsecamente ligados a essa construção. Por outro lado, a história da sexualidade, impulsionada por obras como as de João Silvério Trevisan, abriu novas perspectivas sobre a compreensão da diversidade e das lutas pelos direitos LGBTQIA+ no país. Além disso, os estudos sobre memória têm ganhado um espaço significativo. O período da ditadura militar (1964-1985) e suas consequências são temas frequentemente revisitados, buscando não apenas compreender o regime em si, mas também suas repercussões na sociedade e na cultura brasileira. Elio Gaspari e Marcelo Ridenti são exemplos de autores que têm se dedicado a desvendar as intricadas relações entre poder, resistência e memória durante e após a ditadura. 23HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 RESUMINDO E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a historiografia não é simplesmente a história escrita, mas o estudo sobre como a história é escrita, entendendo seus métodos, suas abordagens e a evolução do pensamento histórico. Abordamos sua etimologia e a origem do termo, que nos ajudou a compreender melhor sua essência. No decorrer do capítulo, também exploramos a historiografia como uma reflexão crítica da história. Foi evidenciado o papel crucial que a historiografia desempenha ao avaliar a maneira como os eventos históricos são interpretados, registrados e transmitidos. Isso foi essencial para entendermos os mecanismos de crítica em historiografia e a evolução dessa crítica ao longo do tempo. E, claro, não poderíamos deixar de lado a historiografia brasileira. Aprendemos sobre sua formação, os grandes nomes que contribuíram para o seu desenvolvimento e como essa historiografia se manifesta no cenário contemporâneo. Isso nos deu uma visão detalhada de como a história do Brasil é interpretada e recontada, levando em conta os contextos sociopolíticos e culturais que influenciaram e continuam influenciando essas narrativas. Ao compreender a historiografia, você não apenas entende melhor a história, mas também como ela é moldada, quem a molda e por que certos aspectos são destacados enquanto outros são deixados de lado. Assim, você se torna mais capacitado para analisar criticamente o vasto mundo da história e, particularmente, a rica tapeçaria da história brasileira. 24 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 Principais marcos históricos da historiografia brasileira OBJETIVO Ao término deste capítulo, você será capaz de identificar e contextualizar os principais marcos históricos que influenciaram o desenvolvimento da historiografia brasileira, eventos como a independência, o período imperial, a abolição da escravidão, a industrialização e o processode redemocratização do país impactaram a produção historiográfica. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Vamos lá. Avante! A formação da historiografia nacional: Independência e Período Imperial A historiografia brasileira, ao nos levar pela mão pelos complexos corredores da história, apresenta-nos primeiramente à turbulenta e emblemática fase da Independência e do subsequente Período Imperial. A passagem de Brasil Colônia para uma nação independente não foi apenas uma mudança política, mas também um ponto crucial para a formação de uma identidade nacional e para a consolidação de uma narrativa histórica própria (Carvalho, 2007). O processo de independência, concretizado em 1822, não nasceu da noite para o dia. Foi precedido por uma série de eventos e movimentos que mostravam a crescente insatisfação das elites locais com a metrópole portuguesa, como a Inconfidência Mineira e a Conjuração Baiana, os quais pavimentaram o terreno para a Proclamação da Independência (Gomes, 2010). O desafio, 25HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 então, era construir uma nação unificada e coesa, a partir de um território vasto e diversificado, com populações que, muitas vezes, possuíam interesses e identidades distintos. Ao longo do Período Imperial (1822-1889), a figura do monarca, seja Pedro I ou Pedro II, atuou como um símbolo de unidade e continuidade. Entretanto, sob essa aparente calmaria imperial, fermentavam questões sociais e políticas explosivas, com destaque para a problemática da escravidão, que viria a ser o calcanhar de Aquiles do Império, sendo uma das principais razões para seu eventual colapso (Mattos, 2004). Imagem 1.3 – Independência do Brasil . Fonte: Freepik Esse período também foi marcado por tentativas de modernização, com a construção de ferrovias, o incentivo à imigração europeia e o estímulo à educação e à cultura. As elites, agora munidas de instrumentos mais sofisticados de comunicação e interação, como jornais e clubes literários, começavam a interpretar e a registrar o passado de uma forma mais sistemática e a refletir sobre a trajetória da nação (Schwarcz, 1998). 26 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 Ao se imergir nesse contexto, percebe-se a importância de entender como a historiografia se moldou e foi moldada pelos ventos de mudança dessa época. A produção de história nesse período não foi apenas um exercício acadêmico, mas também uma ferramenta crucial para a construção da identidade nacional e para a legitimação do poder imperial. A trajetória da historiografia brasileira, sobretudo durante o alvorecer da nação recém-emancipada, não pode ser compreendida sem se debruçar sobre as figuras pioneiras que buscaram, por meio da escrita, consolidar uma identidade para o Brasil. As narrativas fundacionais, nesse sentido, foram fundamentais para estabelecer um senso de pertencimento e para legitimar o novo Estado nacional (Almeida, 1999). Varnhagen, frequentemente aclamado como o “pai da historiografia brasileira”, é um desses nomes incontornáveis. Em sua monumental “História geral do Brasil”, Varnhagen buscou não apenas narrar eventos, mas oferecer uma interpretação de um Brasil uno, a despeito de sua vastidão e diversidade (Oliveira, 2008). O autor, por meio de uma narrativa linear e progressista, visualizava o Brasil como uma nação destinada à grandeza, desde sua descoberta até a independência. Outra figura proeminente é Capistrano de Abreu, que, diferentemente de Varnhagen, buscava entender o Brasil colonial a partir de suas estruturas internas, focando-se nas dinâmicas locais. Seus trabalhos, notadamente “Capítulos de História colonial” e “O Descobrimento do Brasil”, desvendaram o país não como mero apêndice da história europeia, mas como um território com suas particularidades e seus desafios (Freitas, 2011). Não se pode esquecer também de Sílvio Romero, cuja obra se situa na encruzilhada entre a literatura, a sociologia e a história. Romero, influenciado pelo evolucionismo e pelo determinismo, 27HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 buscou nas raízes indígenas e africanas a explicação para o caráter singular do povo brasileiro, argumentando que a mistura racial era um traço distintivo da nação (Santos, 2013). Esses historiadores, embora com abordagens e ênfases diversas, compartilhavam de um objetivo comum: narrar a história do Brasil de forma a consolidar sua identidade e soberania. As narrativas fundacionais, nesse contexto, tornaram-se essenciais na construção do imaginário coletivo, oferecendo uma lente pela qual as gerações futuras interpretariam seu passado e projetariam seu futuro. A história como ferramenta política no Império A consolidação do Império brasileiro, período que se estendeu de 1822 a 1889, demandou não somente esforços políticos e administrativos, mas também simbólicos. Nesse sentido, a História emergiu como uma poderosa ferramenta de construção e legitimação do Estado Imperial e da identidade nacional (Cardoso, 1998). IMPORTANTE A historiografia do período imperial não foi uma mera reprodução de fatos, mas uma construção deliberada e estratégica que serviu para fortalecer e consolidar o poder imperial. Reconhecer isso é essencial para uma compreensão crítica e profunda do Brasil oitocentista. O Império necessitava solidificar sua posição, e a história fornecia os alicerces necessários para justificar sua soberania. Nesse período, o passado colonial começou a ser reinterpretado, destacando episódios que enaltecessem o papel do Brasil enquanto nação destinada à grandiosidade. A própria figura de Dom Pedro I, o proclamador da independência, foi exaltada em diversas 28 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 narrativas como herói nacional, relegando ao esquecimento suas controvérsias políticas e pessoais (Sousa, 2005). Não menos importante foi a exaltação do período monárquico, com seus feitos, progressos e conquistas. A ideia central era de que a monarquia era a guardiã da unidade nacional, o baluarte contra as divisões e o alicerce para o progresso (Mota, 2007). Narrativas que desviavam desse ideal, que questionavam a centralidade da monarquia ou propunham versões alternativas da história eram frequentemente marginalizadas ou silenciadas. Também vale ressaltar a importância do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em 1838, que se tornou o centro de produção e de validação da história oficial. Esse instituto, que contou com a participação ativa de membros da elite imperial, teve o papel de reunir, organizar e disseminar uma versão da história que reforçava os ideais monárquicos e a missão civilizatória do Império (Guimarães, 1995). Tensões historiográficas: centralização versus regionalismo A historiografia brasileira, particularmente durante o período imperial, enfrentou uma série de tensões que derivavam dos próprios dilemas do país recém-independente. Uma dessas tensões, e talvez a mais profunda, dizia respeito à dialética entre centralização e regionalismo (Ferreira, 2002). O Brasil, país de dimensões continentais, sempre lidou com a complexidade de conciliar suas várias regionalidades à necessidade de uma unidade nacional. Na historiografia imperial, percebe-se uma evidente centralização. A história era, muitas vezes, contada a partir do Rio de Janeiro, cidade que se tornou a capital do país e o centro político- 29HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 administrativo do Império (Gomes, 1990). Essa centralização não apenas geográfica, mas também ideológica, procurava construir uma narrativa coesa, que reforçasse o papel integrador da monarquia. No entanto, paralelamente a essa historiografia centralizadora, surgiram vozes regionais que buscavam resgatar as particularidades, os heróis e os episódios locais que não encontravam espaço na narrativa nacional. Essa busca pelo protagonismo regional gerou importantes obras, que detalhavam a históriade províncias específicas, seu desenvolvimento, suas revoltas e seus personagens (Abreu, 1988). Esta tensão entre centralização e regionalismo não se restringiu apenas ao campo historiográfico. Ela estava presente na política, na economia e na cultura, com províncias como Pernambuco, Minas Gerais e Rio Grande do Sul frequentemente questionando o poder central e reivindicando maior autonomia (Carvalho, 2007). Portanto, para compreender a historiografia do Império brasileiro, é crucial reconhecer essas tensões. Elas nos mostram um país em busca de si mesmo, tentando equilibrar a construção de uma identidade nacional com o respeito e a valorização de suas múltiplas regionalidades. O papel da escravidão nas narrativas históricas Não há como entender a história e a historiografia brasileira sem abordar um dos pilares mais complexos e controversos de nossa formação: a escravidão. O sistema escravista foi parte intrínseca da sociedade brasileira por quase quatro séculos e, como observa Florestan Fernandes (2008), a sua 30 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 abolição não eliminou os resquícios e os impactos socioculturais gerados por essa prática. IMPORTANTE A escravidão, mais do que um período histórico, é uma chaga aberta na alma brasileira. As narrativas que a envolvem são essenciais para compreender nossa identidade, nossos conflitos e nossas potencialidades enquanto nação. A escravidão, em diferentes momentos da historiografia brasileira, foi tratada de maneiras variadas. Durante o Império e início da República, os relatos oficiais procuravam, muitas vezes, minimizar os horrores do sistema ou até mesmo enaltecer os “benefícios” da mão de obra escrava para o desenvolvimento econômico do país (Mattos, 2004). Esses relatos, embora distorcidos, eram reflexos de uma elite que, mesmo após a abolição, tentava justificar seu passado escravocrata. No entanto, a partir do século XX, com o desenvolvimento de uma historiografia mais crítica e social, houve uma mudança significativa na maneira de abordar a escravidão. Historiadores como Clóvis Moura (1981) e Gilberto Freyre (1933) trouxeram novas perspectivas sobre o papel dos escravizados na formação da identidade nacional. Moura, por exemplo, destaca a resistência negra e os quilombos, enquanto Freyre ressalta a interação entre senhores e escravos na formação da família patriarcal brasileira. Imagem 1.4 – Escravidão . Fonte: Freepik 31HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 É essencial reconhecer que a escravidão não foi apenas um sistema econômico, mas também uma relação de poder que permeou todos os aspectos da sociedade brasileira. Da culinária à música, da religião à linguagem, as influências africanas moldaram o Brasil e sua narrativa historiográfica, como aponta Schwarz (2001), precisa reconhecer tanto os traumas quanto as riquezas desse legado. A escravidão no Brasil não se trata apenas de uma sucessão de fatos, mas de um legado que nos convida a repensar sobre as estruturas de poder, sobre injustiças e resistências. Um dos marcos teóricos mais influentes para compreender esse legado foi proposto por Antonio Candido (1988), quando afirmou que a literatura (e por extensão, a história) deve ser vista como um direito do cidadão, pois o ajuda a viver. As narrativas que envolvem a escravidão oferecem um espelho, por vezes doloroso, que reflete a formação social, econômica e cultural do Brasil. O resgate da memória de resistência e de luta dos escravizados, evidenciado em trabalhos como o de Sidney Chalhoub (1990), lembra-nos da necessidade de reconhecer a agência dos sujeitos historicamente oprimidos. Essa agência, silenciada por narrativas dominantes, foi fundamental para a formação do Brasil como nação. Por outro lado, conforme pontua Júlio José Chiavenato (1984), as descrições do sistema escravocrata e seus horrores não devem ser vistos apenas como narrativas do passado, mas como um alerta sobre como a desigualdade, o racismo e a opressão ainda se manifestam em diferentes formas na sociedade brasileira contemporânea. 32 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 O legado da escravidão, portanto, está impresso não só nos livros de história, mas no cotidiano e na cultura popular. É uma memória viva, uma chama que ilumina as questões mais profundas sobre quem somos como nação. Reconhecer, estudar e refletir sobre esse legado é fundamental para que possamos construir um futuro mais justo e inclusivo. Abolição, industrialização e modernização: transformações na escrita da história No final do século XIX e início do século XX, o Brasil passava por transformações significativas em sua estrutura socioeconômica e política. A abolição da escravatura, em 1888, representou mais do que apenas o fim de um regime de trabalho; ela foi um ponto de inflexão na identidade nacional e nas relações sociais (Mattos, 2004). Já a industrialização, que se intensificou nas primeiras décadas do século XX, trouxe consigo uma série de mudanças nas cidades, na economia e na própria percepção do que seria o Brasil moderno (Freire, 2002). A Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel, encerrava oficialmente um período de quase 400 anos de escravidão no Brasil. No entanto, ao contrário do que muitos esperavam, a liberdade não se traduziu em igualdade. Os ex-escravos encontraram um país ainda fortemente marcado por preconceitos e por uma estrutura socioeconômica que não lhes proporcionava as mesmas oportunidades. O pós-abolição, portanto, foi marcado por desafios e por um longo caminho em busca de cidadania plena (Andrews, 1998). Paralelamente, o Brasil começava a se urbanizar e a se industrializar. Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro 33HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 transformavam-se em polos industriais, atraindo migrantes de diversas regiões do país e também do exterior. Esse processo trouxe novos desafios: a necessidade de infraestrutura, habitação e de serviços, além de conflitos e tensões nas relações de trabalho (Rolnik, 1997). Essa fase de transformações, porém, também abriu espaço para reflexões acerca da identidade nacional, do lugar do Brasil no mundo e de como escrever sua própria história. Em meio a debates, conflitos e aspirações, surge uma historiografia que busca compreender e registrar as nuances desse período tão rico e complexo. A industrialização e a modernização brasileiras, que tiveram seu auge nas primeiras décadas do século XX, não foram processos isolados. Elas dialogavam com transformações globais e foram moldadas, também, pelo legado da colonização e do regime escravista. Consequentemente, entender como esses processos foram narrados na historiografia é crucial para perceber como o Brasil percebeu e registrou sua própria evolução. Ao pensar na industrialização brasileira, não podemos deixar de considerar o papel das oligarquias cafeeiras, principalmente paulistas, que investiram na industrialização como uma forma de diversificar a economia e manter seu domínio político (Fausto, 1995). Essa relação intrínseca entre o café e a indústria moldou a percepção de que a modernização brasileira, particularmente em São Paulo, estava atrelada ao sucesso da cafeicultura (Stein, 1990). No entanto, as narrativas sobre essa industrialização, muitas vezes, foram marcadas por uma visão ufanista. Segundo Carvalho (2008), em diversos momentos da historiografia, a modernização foi celebrada como uma espécie de “redenção” para o país, um caminho inevitável rumo ao progresso e à superação 34 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 de um passado colonial e agrário. Esse otimismo, contudo, frequentemente negligenciava as profundas desigualdades sociais, as tensões urbanas e a exclusão de parcelas significativas da população dos benefícios desse progresso. IMPORTANTE A narrativa histórica sobre a industrialização e a modernização brasileiras foi, e ainda é, palco de intensos debates. Esses processos, tãocentrais na formação do Brasil contemporâneo, continuam sendo reinterpretados à luz de novas perspectivas e descobertas acadêmicas. A modernização, por sua vez, também foi interpretada como um processo de “ocidentalização” ou “europeização” do Brasil. Segundo Schwartz (1988), a ideia de “civilização” esteve fortemente atrelada a padrões europeus, e a modernização era vista como uma maneira de o Brasil se aproximar desses padrões, deixando para trás sua “barbárie” tropical e mestiça. Essa perspectiva, todavia, foi questionada nas últimas décadas do século XX. Historiadores passaram a analisar a modernização não apenas como um processo de “imitação” da Europa, mas como um fenômeno genuinamente brasileiro, com seus conflitos, suas especificidades e sínteses culturais (Holanda, 1995). A historiografia brasileira sobre a industrialização e a modernização é vasta e diversificada. Ao longo do tempo, diferentes autores contribuíram para a construção e a revisão dessa narrativa, cada um com suas perspectivas, fontes e metodologias. Vamos destacar alguns desses intelectuais que foram fundamentais para a compreensão desses processos em suas múltiplas dimensões. • Caio Prado Júnior: um dos grandes marcos da historiografia brasileira, Prado Júnior, em sua obra 35HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 “Formação do Brasil contemporâneo” (1942), apresentou uma análise econômica e social da colonização portuguesa, enfatizando o caráter predatório e mercantil dessa relação. Ao analisar o desenvolvimento do Brasil, ele levou em consideração a base agrário- exportadora e sua relação com a formação social brasileira, dando destaque para a questão da terra e do trabalho escravo (Prado Júnior, 1942). • Sérgio Buarque de Holanda: em “Raízes do Brasil” (2015), Holanda discutiu a formação da sociedade brasileira, contrapondo a herança ibérica e as particularidades tropicais. Seu conceito de “homem cordial” tornou-se amplamente debatido, sendo uma referência para entender as relações sociais no Brasil. Ao longo de sua obra, ele também refletiu sobre o urbanismo, a modernização e o ethos nacional, criando um diálogo com as transformações do século XX. • Celso Furtado: economista e historiador, Furtado foi fundamental para compreender o desenvolvimento econômico brasileiro. Em “Formação econômica do Brasil” (1959), ele analisa a evolução da economia desde a colonização até meados do século XX. Sua obra destaca a interação entre os ciclos econômicos e a formação de uma estrutura produtiva dependente e periférica, o que se relaciona diretamente com os desafios da industrialização (Furtado, 2007). • Eunice Ribeiro Durham: antropóloga de formação, Durham trouxe contribuições significativas sobre a modernização brasileira. Seus estudos, centrados principalmente na urbanização e nas mudanças sociais decorrentes desse processo, são essenciais para 36 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 entender como a industrialização afetou as relações sociais e culturais no Brasil (Durham, 1984). A pluralidade desses autores e as suas contribuições mostram a riqueza da historiografia brasileira sobre industrialização e modernização. Eles proporcionaram ferramentas analíticas para entender um país em constante transformação, marcado por contrastes e desafios. Redemocratização e renovação historiográfica: a busca por vozes silenciadas O processo de redemocratização brasileiro, que marcou o fim do regime militar e a abertura política, trouxe consigo intensas mudanças não apenas no campo político, mas também no âmbito da historiografia nacional. Como afirma Schwarcz (1997), a historiografia é influenciada pelo contexto no qual está inserida, e a redemocratização permitiu uma maior liberdade de expressão, de crítica e de interpretação que foi prontamente assimilada pelos historiadores. Os movimentos sociais e a resistência democrática que se fortaleciam durante a redemocratização clamavam por novas narrativas, que incluíssem aqueles que haviam sido historicamente marginalizados pela historiografia tradicional (Schwarcz, 1998). Nesse novo cenário, surgiu uma crítica profunda ao eurocentrismo, que caracterizava grande parte da historiografia brasileira. Como Gomes (2000) salienta, a necessidade de desconstruir essa visão europeizada e elitista da história do Brasil tornou-se imperativa, abrindo espaço para novas interpretações e abordagens. 37HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 A revisão da historiografia brasileira passou a considerar temas e perspectivas antes negligenciados, reconhecendo a complexidade e a diversidade da sociedade brasileira. (Gomes, 1996). No campo da pesquisa, temas como a história dos indígenas, afro-brasileiros, mulheres e comunidades LGBTQIA+ começaram a ganhar relevância. Estudos subalternos e a história oral surgiram como ferramentas metodológicas essenciais nesse processo, pois, como aponta Meihy (2002), essas abordagens procuram dar voz àqueles que, tradicionalmente, não a tinham nos relatos históricos. A história oral tornou-se uma ferramenta valiosa na busca por testemunhos e experiências que desafiavam a narrativa histórica oficial (Meihy, 2002). O resgate de tais narrativas silenciadas não foi uma tarefa simples. Demandou a busca meticulosa por documentos, testemunhos e outros registros, muitas vezes negligenciados ou menosprezados pela historiografia dominante. As universidades desempenharam um papel crucial, sendo espaços nos quais de novos grupos de pesquisa emergiram e nos quais a renovação historiográfica encontrou seu maior apoio. Desse modo, podemos compreender que o processo de redemocratização desencadeou uma intensa renovação no campo da historiografia brasileira. Uma renovação que não se limitou a reinterpretações, mas que buscou ativamente incluir vozes e perspectivas historicamente silenciadas, contribuindo para uma compreensão mais rica, diversa e inclusiva da história brasileira. A busca dessas vozes transformou-se em um legado historiográfico vital, que molda e enriquece a pesquisa histórica até os dias atuais. 38 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 SAIBA MAIS Aprofunde ainda mais os seus estudos lendo o artigo “A história da historiografia no Brasil, 1940- 1970: apontamentos sobre sua escrita”. Nele você encontrará informações relevantes, que ampliarão ainda mais os seus conhecimentos. Para ter acesso, basta clicar aqui. http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300912250_ARQUIVO_ANPUH2011TextoRebecaGontijo.pdf 39HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 RESUMINDO E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a historiografia brasileira é um campo vasto e em constante transformação, influenciada diretamente por marcos históricos significativos que moldaram a nação. Na primeira parte, abordamos a formação da historiografia nacional, destacando a influência da Independência e do Período Imperial. Observamos como os primeiros historiadores se dedicaram a criar uma narrativa fundacional e como a história foi utilizada como ferramenta política durante o Império, refletindo tensões entre centralização e regionalismo e o papel central da escravidão nas narrativas históricas. Avançando no tempo, discutimos como os eventos da Abolição, a crescente industrialização e a modernização do país afetaram a escrita da história. Esses processos levaram a novas interpretações e à necessidade de integrar diferentes vozes na narrativa histórica, bem como de destacar contribuições significativas de historiadores que refletiram sobre essas transformações. Por fim, analisamos o período de redemocratização, momento em que a historiografia brasileira passou por uma renovação significativa. Esse foi o momento de resgatar as vozes que haviam sido silenciadas ao longodo tempo – grupos indígenas, afro- brasileiros, mulheres, comunidades LGBTQIA+ e outros. A academia desempenhou um papel crucial nessa renovação, promovendo a inclusão e a diversificação das narrativas. Esperamos que, com este capítulo, você tenha adquirido uma compreensão mais profunda e apreciativa dessas complexas dinâmicas historiográficas. 40 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 Metodologias e teorias utilizadas pelos historiadores brasileiros OBJETIVO Ao término deste capítulo, você será capaz reconhecer os diferentes enfoques teóricos e metodológicos utilizados pelos historiadores brasileiros, compreendendo teorias historiográficas, práticas e ferramentas de pesquisa. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Vamos lá. Avante! Evolução metodológica na historiografia brasileira A historiografia, enquanto ciência que estuda a escrita da História, possui raízes profundas e variadas em diferentes contextos nacionais. No Brasil, esse exercício de compreender, relatar e interpretar o passado teve suas especificidades, moldadas por uma história rica e, muitas vezes, controversa. As primeiras tentativas de documentar a história do Brasil podem ser rastreadas até os primeiros relatos dos colonizadores. Durante o período colonial, a escrita da história foi, em grande medida, conduzida por missionários, viajantes e funcionários da Coroa portuguesa. Esses relatos, como aponta Capistrano de Abreu (1988), muitas vezes eram descritivos, centrando-se nas maravilhas naturais do “novo mundo” e nas tentativas de catequizar os indígenas, com um tom muitas vezes etnocêntrico. Os primeiros relatos, como os de Pero Vaz de Caminha, descrevendo o encontro entre europeus e nativos, inauguram a tradição historiográfica brasileira, embora de forma rudimentar 41HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 e com clara influência europeia (Caminha, 1500). O cronista português, em sua famosa carta ao rei de Portugal, não somente narra os primeiros contatos, mas também estabelece uma narrativa que viria a influenciar a percepção sobre a terra e seu povo durante os séculos subsequentes. No século XVIII, com o surgimento de uma intelectualidade crioula e o desenvolvimento de instituições educacionais nas principais cidades coloniais, houve uma tentativa de se estabelecer uma identidade brasileira mais coesa. Autores como Frei Vicente do Salvador (1627) começam a fornecer narrativas mais sistematizadas, embora ainda influenciadas por preconceitos e visões eurocêntricas. Contudo, é no século XIX, após a Independência, que a historiografia brasileira começa a ganhar contornos mais definidos e uma abordagem crítica, influenciada por correntes historiográficas europeias. A busca por uma identidade nacional autônoma torna-se imperativa. Conforme sinaliza José Honório Rodrigues (1979), os historiadores desse período buscavam uma identidade que, ao mesmo tempo, respeitasse as tradições e projetasse um futuro promissor para a nação recém-formada. IMPORTANTE As origens da historiografia brasileira foram marcadas por influências externas, mas também por esforços endógenos em busca de uma identidade própria e de uma narrativa que fizesse jus à complexidade e à diversidade da formação do Brasil. O século XX, sem dúvida, representou um ponto de inflexão na historiografia brasileira. Se, nos séculos anteriores, a escrita da história estava profundamente imbuída de uma perspectiva eurocêntrica e, por vezes, elogiosa em relação à colonização, o século XX trouxe consigo novas abordagens, 42 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 influências teóricas e uma crescente complexidade no modo de abordar o passado brasileiro. Inicialmente, é impossível falar sobre o início do século XX sem mencionar a atuação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Esse organismo, ainda no século XIX, estabeleceu as bases do que se convencionou chamar de “história oficial”, com uma visão ufanista e, por vezes, elitista da trajetória brasileira (Mota, 1974). Contudo, a primeira metade do século XX viu o surgimento de vozes dissonantes, que começaram a questionar essa narrativa dominante. Caio Prado Jr. (1933), por exemplo, foi pioneiro em propor uma interpretação marxista da História brasileira. Em sua obra “Evolução política do Brasil”, ele interpreta a dinâmica colonial não apenas como um desdobramento de aventuras europeias, mas como um processo intrínseco ao desenvolvimento do capitalismo. Essa abordagem materialista da história se tornou fundamental para os estudos subsequentes. Imagem 1.5 – Escrita da história Fonte: Freepik 43HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 Outro ponto crucial do século XX foi a crescente valorização dos estudos regionais e das especificidades locais. Contrapondo-se a uma história centralizadora, autores como Capistrano de Abreu e Sérgio Buarque de Holanda deram grande ênfase às singularidades regionais e à multiplicidade de experiências no território brasileiro (Holanda, 2015). A segunda metade do século, especialmente após a redemocratização, viu uma explosão de novas abordagens e temas até então negligenciados. O papel das mulheres, dos negros, dos indígenas e de outros grupos marginalizados na narrativa tradicional começou a ganhar destaque. A influência dos Annales e a virada linguística também influenciaram a historiografia brasileira, trazendo novas questões e novos métodos de análise. A revolução dos micro-históricos e estudos locais A ascensão dos estudos micro-históricos na historiografia brasileira sinalizou uma significativa mudança de paradigma nas últimas décadas do século XX. Abandonando as grandes narrativas e as explicações universais, a micro-história, oriunda, em grande parte, dos debates historiográficos europeus – especialmente da escola italiana –, buscou compreender a complexidade das experiências humanas em uma escala reduzida e específica. VOCÊ SABIA? A revolução micro-histórica no Brasil foi uma resposta a um anseio de renovação teórica e metodológica, proporcionando uma compreensão mais rica, detalhada e, em muitos aspectos, mais próxima da realidade vivida por diferentes sujeitos ao longo da história brasileira. No Brasil, essa abordagem encontrou terreno fértil, especialmente porque, como já apontado anteriormente, o século 44 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 XX foi marcado por uma valorização dos estudos regionais e das singularidades locais. A micro-história, nesse contexto, veio reforçar essa tendência, focando não apenas em regiões, mas também em pequenas comunidades, famílias e até mesmo em indivíduos (Revel, 1998). Um dos marcos dessa abordagem no contexto brasileiro foi a valorização das fontes até então consideradas menores ou secundárias, como cartas, testamentos, processos judiciais e registros paroquiais. Esses documentos, antes relegados a segundo plano, tornaram-se centrais para compreender a vida cotidiana, as relações sociais, as tensões e as negociações locais (Ginzburg, 1989). Autores como Manoel Luís Salgado Guimarães, por exemplo, dedicaram-se a entender as peculiaridades do Rio de Janeiro no século XIX a partir de uma perspectiva micro-histórica, investigando, entre outros temas, os conflitos urbanos, a vida nas ruas e as formas de sociabilidade (Guimarães, 1995). O impacto dos estudos micro-históricos foi além da simples valorização do local: eles proporcionaram uma revisão das categorias de análise, das escalas e dos próprios métodos da disciplina histórica. Abriu-se espaço para se questionar as grandes narrativas e, sobretudo, para dar voz a sujeitos historicamente silenciados, como mulheres, negros, indígenas e outras minorias. A era digital e novas metodologias A chegada da era digital trouxe não apenas novos instrumentos e meios para a pesquisa histórica, mas também propôs desafios e ampliou os horizontes metodológicos da historiografia brasileira. A digitalização de documentos,a criação de repositórios on-line e a emergência das humanidades digitais 45HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 ressignificaram o modo como o historiador interage com suas fontes e apresenta suas pesquisas ao público (Schwartz, 2011). Se, anteriormente, o acesso a muitos documentos e arquivos era limitado pela distância geográfica ou pela disponibilidade física, a era digital democratizou esse acesso. Repositórios como o Arquivo Nacional ou a Biblioteca Nacional Digital tornaram milhares de páginas de documentos disponíveis para pesquisadores e entusiastas da história de qualquer lugar do Brasil ou do mundo (Fonseca, 2015). Porém, essa massiva disponibilidade digital de fontes também trouxe desafios. A imensa quantidade de informação requer novas habilidades do historiador, que precisa, agora, de conhecimentos básicos em informática e, por vezes, em programação. A “mineração” desses dados, ou seja, a habilidade de extrair de grandes conjuntos de dados padrões, relações e informações relevantes, tornou-se fundamental (Burke, 2013). Neste novo cenário, a interdisciplinaridade da história com áreas como a estatística e a ciência da computação tem ganhado relevância. As humanidades digitais emergem como um campo que busca entender como as novas tecnologias podem ser empregadas em benefício da pesquisa histórica, e como estas, por sua vez, transformam a própria natureza do trabalho historiográfico (Almeida, 2018). Além das transformações no âmbito da pesquisa, a era digital também alterou a forma como a história é comunicada. Plataformas de mídia social, blogs acadêmicos e websites especializados têm permitido uma difusão mais ampla e democrática do conhecimento histórico, aproximando o historiador do público geral e permitindo um diálogo mais direto com a sociedade (Silva, 2017). 46 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 Sem dúvidas, a era digital inaugurou uma nova fase na historiografia brasileira, marcada por desafios metodológicos, mas também por imensas possibilidades. O historiador do século XXI, mais do que nunca, precisa ser versátil, aberto a novas ferramentas e atento às constantes transformações do mundo digital. Teorias historiográficas em foco As teorias historiográficas não são simplesmente meios pelos quais os historiadores dão sentido ao passado, mas também são reflexos das questões e preocupações predominantes em diferentes momentos históricos. Compreender as várias teorias é essencial para qualquer historiador, pois elas moldam a maneira como o passado é entendido, interpretado e apresentado (Cardoso, 1997). Desde os primórdios da escrita da história, com Heródoto e Tucídides, já se pode observar uma preocupação em distinguir uma narrativa verídica dos simples relatos e mitos. Porém, é a partir da modernidade que a história começa a ser vista como uma ciência, com métodos e teorias próprios, que buscam compreender a complexidade da experiência humana ao longo do tempo (Burke, 1992). IMPORTANTE No Brasil, a historiografia acompanhou as tendências internacionais, mas também desenvolveu características próprias, reflexo dos desafios e das particularidades do país. O século XIX, por exemplo, foi dominado por uma visão positivista da história, que buscava identificar leis universais do progresso humano. Essa visão, contudo, foi contestada e revisada ao longo do século XX, quando novas teorias historiográficas 47HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 começaram a enfatizar a complexidade, a diversidade e os aspectos culturais e sociais da experiência histórica (Prado Jr., 1996). As teorias historiográficas, portanto, fornecem as lentes por meio das quais os historiadores interpretam o passado. E, assim como um artesão precisa conhecer bem suas ferramentas para produzir seu trabalho, o historiador precisa estar ciente das teorias disponíveis e de como elas podem ser aplicadas para analisar e entender o passado (Ginzburg, 1989). • O positivismo e a história “científica” No século XIX, o positivismo, teoria proposta por Auguste Comte, dominou o pensamento historiográfico, propondo uma visão “científica” da história. Essa abordagem buscava afastar-se das narrativas meramente literárias ou teológicas, valorizando a busca por leis universais e invariáveis que governariam o progresso humano (Comte, 1851). No Brasil, a influência positivista na historiografia pode ser observada em obras de autores como Euclides da Cunha, que, em sua célebre obra “Os sertões”, tentou combinar observação direta com uma análise teórica rigorosa (Cunha, 1902). • O marxismo e a história como luta de classes Com Karl Marx, a historiografia ganhou uma nova perspectiva: a história como resultado da luta de classes. Essa teoria defende que as relações econômicas são a base sobre a qual se estruturam todas as outras relações sociais e que a luta entre classes opressoras e oprimidas é o motor da história (Marx; Engels, 1848). No Brasil, historiadores como Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes adotaram e adaptaram a perspectiva marxista para interpretar a formação socioeconômica brasileira (Prado Jr., 1942; Fernandes, 1975). 48 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 Imagem 1.6 – Marxismo e luta de classes Fonte: Freepik • A escola dos Annales e a história total O movimento historiográfico surgido na França na década de 1920, conhecido como escola dos Annales, propôs uma ruptura com a história tradicional, centrada em eventos políticos e individuais. Liderados por Marc Bloch e Lucien Febvre, os Annales defendiam uma “história total”, interdisciplinar, que considerasse todos os aspectos da sociedade: geografia, economia, cultura, entre outros (Bloch, 2002). A influência dessa escola pode ser percebida em autores brasileiros como Sérgio Buarque de Holanda, que, em “Raízes do Brasil”, buscou analisar o caráter singular da formação brasileira sob diversas perspectivas (Holanda, 2015). • Micro-história: a importância do pequeno A micro-história emergiu como uma resposta às grandes narrativas, defendendo que, ao se focar em pequenas unidades – seja um evento, um indivíduo ou uma comunidade –, podemos obter insights mais profundos sobre estruturas sociais maiores (Levi, 1991). Contrapondo-se à história total, a micro-história 49HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 busca entender os processos históricos a partir da experiência do “comum”, do “pequeno”, do “individual”. No Brasil, autores como Manolo Florentino e João José Reis têm empregado essa abordagem para estudar, por exemplo, o cotidiano da escravidão urbana no século XIX (Reis; Florentino, 1997). • História cultural e as novas abordagens A história cultural surge como uma maneira de examinar as culturas e subculturas por meio de suas práticas e de seus discursos, considerando fenômenos tão variados quanto festas, rituais, arte, literatura e muito mais (Chartier, 1990). Essa abordagem expandiu os horizontes da historiografia ao enfatizar a importância das representações e dos significados na construção dos fenômenos históricos. No contexto brasileiro, a história cultural tem sido uma ferramenta valiosa para estudar aspectos da cultura popular, a identidade nacional e a formação de subculturas, como abordado nas obras de Márcia Abreu sobre a circulação de literatura no Brasil imperial (Abreu, 1999). Essas duas últimas correntes historiográficas, micro- história e história cultural, trouxeram novos desafios e possibilidades para a prática da história. Elas oferecem maneiras inovadoras de entender o passado, enfocando a vida cotidiana, as experiências individuais e as manifestações culturais que moldaram as sociedades ao longo do tempo. Ao focar no “pequeno” e no “cultural”, os historiadores têm a capacidade de trazer à luz aspectos da história que muitas vezes são esquecidos ou marginalizados nas grandes narrativas. Práticas e ferramentas de pesquisa No universo historiográfico, a pesquisa é o pilarcentral para a construção do conhecimento. Não se trata apenas de 50 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 coletar dados, mas de uma jornada investigativa que exige rigor, método e criatividade (Cardoso, 1997). E, no decurso da evolução da disciplina histórica, as práticas e ferramentas de pesquisa têm se transformado e se diversificado. IMPORTANTE As práticas e ferramentas de pesquisa na historiografia refletem as mudanças teóricas e metodológicas da disciplina ao longo do tempo. A diversidade de fontes e de metodologias permite aos historiadores explorar novos horizontes e abordar temas antes negligenciados, enriquecendo nosso entendimento sobre o passado. No período clássico da historiografia, o arquivo e o documento escrito eram quase sinônimos de pesquisa histórica. Como afirmou Lucien Febvre (1982), para o historiador, o documento escrito era “a matéria-prima por excelência”. No entanto, essa perspectiva começou a mudar, principalmente com a escola dos Annales, quando a noção de documento foi ampliada para incluir desde registros orais até artefatos e paisagens (Le Goff, 1984). O advento da História Oral no século XX trouxe consigo a valorização do testemunho oral como fonte histórica (Portelli, 1997). No Brasil, a utilização da história oral ganhou espaço com pesquisadores como Verena Alberti, que estudou movimentos sociais e políticos por meio dos relatos de seus protagonistas (Alberti, 2004). Essa metodologia permite não só recuperar vozes historicamente silenciadas, mas também entender os processos de construção da memória. Com a era digital, as ferramentas de pesquisa foram novamente ampliadas. Bancos de dados on-line, softwares de análise textual e plataformas de mapeamento digital se tornaram instrumentos valiosos para o historiador moderno (Zimmermann, 51HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 2013). Essas ferramentas, como o software GIS para análises espaciais, permitem uma visualização dinâmica de processos históricos ao longo do tempo e do espaço. SAIBA MAIS Conheça um pouco mais sobre o IHGB – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – consultando a página dele. Nela são disponibilizados artigos e vários outros documentos que ampliarão ainda mais os seus conhecimentos. Para ter acesso, basta clicar aqui. RESUMINDO E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? O capítulo 3 nos levou por uma fascinante jornada pelas metodologias e teorias que moldaram a historiografia brasileira. Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a evolução metodológica na historiografia brasileira não foi um caminho linear, mas uma série de transformações e adaptações. Desde os primeiros registros históricos, que eram fortemente influenciados por padrões europeus, até as abordagens mais contemporâneas, que valorizam vozes locais e metodologias inovadoras, a pesquisa histórica brasileira tem demonstrado sua resiliência e capacidade de renovação. As teorias historiográficas exercem um papel crucial na maneira como entendemos e interpretamos o passado. 52 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 Discutimos importantes correntes teóricas como o positivismo, que buscava tornar a história uma ciência rigorosa; o marxismo, com sua ênfase na luta de classes; a escola dos Annales e sua visão holística da história; a micro-história, que destaca o papel de indivíduos e de comunidades pequenas, e a história cultural, que se concentra nas expressões culturais e seus significados. E, por fim, exploramos as diversas práticas e ferramentas de pesquisa disponíveis para os historiadores. Desde os tradicionais arquivos e documentos escritos até entrevistas orais e softwares de análise digital, a caixa de ferramentas do historiador moderno é vasta e variada. A tecnologia, em particular, oferece novas oportunidades e novos desafios, permitindo uma análise mais aprofundada e a visualização de dados de maneiras antes impensáveis. Esperamos que esta viagem pelo mundo das metodologias e das teorias historiográficas tenha enriquecido sua compreensão sobre o vasto e dinâmico campo da historiografia brasileira. E lembre-se: a história está sempre em construção e é nossa responsabilidade, como estudiosos e entusiastas, continuar explorando, questionando e reimaginando o passado. 53HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 Principais correntes historiográficas no Brasil OBJETIVO Ao término deste capítulo, você será capaz de entender as principais correntes historiográficas no Brasil e suas contribuições para a compreensão do passado brasileiro. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Vamos lá. Avante! Das instituições às relações sociais: tradição institucionalista e historiografia marxista A historiografia brasileira, ao longo do tempo, foi influenciada por diversas correntes historiográficas. Cada uma delas trouxe diferentes métodos, teorias e abordagens que moldaram a maneira como o passado brasileiro foi pensado e interpretado. Ao adentrarmos o universo da historiografia brasileira, é impossível não se deparar com duas das mais robustas e influentes tradições: a institucionalista e a marxista. IMPORTANTE Essas tradições, cada uma com sua especificidade e proposta, refletem diferentes formas de entender e de interpretar o complexo campo da história brasileira. Vejamos as principais características de cada uma delas: A tradição institucionalista, ao longo da trajetória historiográfica brasileira, sempre carregou a herança de evidenciar como as instituições – desde as jurídicas até as educacionais – 54 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 foram fundamentais na construção e na consolidação do Estado nacional. Essa abordagem, ao analisar a história brasileira, não se limita a compreender as instituições como entidades burocráticas, e sim como manifestações vivas da cultura, dos valores e das aspirações da sociedade brasileira. Uma característica marcante da tradição institucionalista é a sua capacidade de vincular a formação das instituições aos processos mais amplos de formação do Estado e da sociedade brasileira. Nesse sentido, Carvalho (2002) destaca que as instituições não são apenas moldadas por influências externas ou imposições, mas também são fruto de escolhas internas, de debates e de tensões políticas e sociais. O legado dessa abordagem é amplo e diversificado. Por meio dele, foi possível mapear os momentos-chave na consolidação do Estado brasileiro, como a Proclamação da República, a Era Vargas e o período democrático posterior a 1985. Além disso, ele fornece um entendimento das raízes históricas de diversas práticas e costumes que permeiam a sociedade brasileira até os dias de hoje. Outra contribuição essencial dessa tradição foi a valorização da pesquisa em arquivos, documentos oficiais e fontes primárias. Esse método, empregado por diversos historiadores institucionalistas, permitiu não só a reconstituição detalhada de períodos históricos, mas também o resgate de vozes, discursos e de práticas muitas vezes esquecidas pela historiografia dominante. A rica produção dentro dessa tradição também inclui estudos sobre a construção da cidadania no Brasil, as transformações e permanências nas estruturas políticas, bem como a influência das instituições na formação da identidade nacional. Como Faoro (2001) observa em sua obra monumental, a relação entre Estado e sociedade no Brasil possui peculiaridades 55HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 que só podem ser plenamente compreendidas por meio do estudo minucioso das instituições e de seu legado. Já a historiografia marxista, fundamentada na obra de Karl Marx e Friedrich Engels, trouxe uma abordagem revolucionária para a interpretação dos eventos históricos. Centrada na ideia da luta de classes como motor da história, a historiografia marxistaanalisa os fenômenos sociais e psicológicos por meio da dialética materialista, um método que compreende a sociedade a partir das relações de produção e das contradições entre as classes sociais. No Brasil, essa abordagem foi fundamental para desvendar a complexidade das relações sociais ao longo de sua história, principalmente no que tange a questões de trabalho, escravidão e relações de poder. Florestan Fernandes (1975), em seus estudos pioneiros, buscou compreender a transição da sociedade escravocrata para a sociedade capitalista no Brasil, destacando a persistência de antigas estruturas de dominação e de exploração em novos contextos. VOCÊ SABIA? A tradição institucionalista na historiografia brasileira valorizou a pesquisa em arquivos, documentos oficiais e em fontes primárias. Ao adotar esse método, os historiadores institucionalistas não apenas reconstituíram detalhadamente períodos históricos, mas também resgataram vozes, discursos e práticas muitas vezes esquecidas pela historiografia dominante. Isso permitiu uma compreensão mais abrangente e autêntica das experiências passadas, contribuindo para uma visão mais completa da formação das instituições e da sociedade brasileira como um todo. A dialética, como método de análise, permite identificar as contradições inerentes ao sistema capitalista e suas manifestações 56 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 concretas na sociedade. Em outras palavras, a história não é vista como uma sucessão linear de eventos, mas como um processo de transformações impulsionadas pelas lutas intensas entre as classes dominantes e dominadas. Para EP Thompson (1987), a experiência da classe trabalhadora, por exemplo, não pode ser compreendida sem se levar em conta a totalidade das relações sociais e reduzidas que a moldam. Além disso, a historiografia marxista trouxe ao debate a necessidade de se analisar a formação das classes sociais no Brasil, como os camponeses rurais, os operários urbanos e os intelectuais comprometidos com a transformação social. Como aponta Ridenti (1993), a análise marxista permitiu uma reflexão profunda sobre a cultura e a ideologia, mostrando como as representações testemunhadas são também campos de luta e de construção de hegemonia. Contudo, vale ressaltar que, apesar de sua influência, a historiografia marxista no Brasil não foi monolítica. Existiram e ainda existem intensos debates entre os próprios marxistas sobre a aplicabilidade e a interpretação de certos conceitos no contexto brasileiro, como o de “revolução passiva” ou a especificidade do nosso “modo de produção”. Diante disso, é preciso destacar que as correntes historiográficas são construídas ao longo do tempo, em meio a contextos sociais, políticos e culturais específicos, e, portanto, carregam consigo perspectivas que refletem tais contextos. Ao considerarmos a tradição institucionalista e a historiografia marxista, é evidente que ambas trouxeram contribuições para a historiografia brasileira. No entanto, elas também apresentam pontos notáveis de divergência em suas abordagens e premissas. 57HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 Como pontos de convergência, podemos citar: • Tanto a tradição institucionalista quanto a historiografia marxista reconhecem a importância do Estado e das instituições na formação social e política do Brasil. A atenção às estruturas estatais e à evolução das instituições brasileiras é uma característica comum a ambos. Como Fausto (1995) observa, independentemente da perspectiva adotada, a história brasileira é fortemente marcada pelas intervenções estatais e pela dinâmica de suas instituições ao longo do tempo. • Ambas as correntes buscam entender as especificidades da formação social brasileira. Seja por meio da análise das instituições e de seu papel na construção da nação (tradição institucionalista), seja pelo estudo das relações de classe e das contradições inerentes ao desenvolvimento socioeconômico (historiografia marxista). Segundo Ianni (1988), a sociedade brasileira é atravessada por uma multiplicidade de fatores que só podem ser compreendidos quando considerados em conjunto, independentemente da corrente historiográfica. Como pontos divergentes, podemos enfatizar: • A principal divergência entre as duas correntes está na identificação do que impulsionou a história. Enquanto a tradição institucionalista dá ênfase às instituições e ao papel das elites na condução dos processos históricos, a historiografia marxista, ancorada na dialética materialista, enxerga a luta de classes como o motor da história. A formação econômica, a propriedade dos meios de produção e as relações de trabalho são 58 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 elementos centrais na análise marxista, ao passo que, para a tradição institucionalista, as práticas e políticas estatais e institucionais mantêm maior relevância. • A tradição institucionalista costuma adotar uma abordagem mais descritiva, focando na evolução das instituições e na trajetória das elites políticas. Já a historiografia marxista utiliza o método dialético, priorizando as contradições socioeconômicas e o sofrimento entre as classes. Para Prado Jr. (1942), por exemplo, o desenvolvimento brasileiro é marcado por uma série de contradições que se manifestam nas relações de classe e nas emoções fortes. Implicações para a compreensão do passado brasileiro Ao analisarmos as correntes historiográficas que permeiam a compreensão da história brasileira, nós partimos com um mosaico de interpretação e leituras: cada uma oferece perspectivas singulares e, muitas vezes, complementares. Ambas as correntes – tradição institucionalista e historiografia marxista –, ao iluminarem diferentes facetas do passado, têm referências significativas para nossa compreensão do Brasil. Primeiramente, por meio da tradição institucionalista, é evidente que as instituições brasileiras, sejam elas políticas, jurídicas ou sociais, são vividas de forma voluntária. São fruto de contextos históricos específicos e de disputas de poder. Como Freitas (2002) argumenta, a continuidade de certas práticas e a perpetuação de determinadas estruturas, muitas vezes, refletem a resiliência das elites brasileiras em manter sua influência. 59HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 IMPORTANTE As instruções dessas correntes para a compreensão do passado brasileiro vão além de mera divergência teórica. Elas são fundamentais para entender as intrincadas tramas de poder, resistência e formação que moldaram e continuam a moldar a nação. No entanto, é preciso também considerar as críticas levantadas pela historiografia marxista, que, ao trazer as classes subalternas para o centro da análise, desafia muitas das narrativas protegidas. Gomes (1990) sugere que a história brasileira é repleta de resistências, reviravoltas e subversões e que as tensões de classe não podem ser negligenciadas ao buscar-se compreender a trajetória do país. Essas correntes, em sua interação, mostram que a história brasileira é um campo de tensão e que as simplificações ou generalizações são merecidas. Além disso, é por meio desse diálogo entre as diferentes abordagens que emergem os matizes e as complexidades inerentes à experiência brasileira. Segundo Alencastro (2000), o Brasil, em sua multiplicidade, desafia as categorias tradicionais e exige uma abordagem que acolha sua diversidade e suas especificidades. Cultura e cotidiano: entre a história social e a história cultural No cenário da historiografia brasileira, observa-se, desde o século XX, uma marcante efervescência de correntes teóricas e metodológicas. Em especial, duas abordagens destacam-se pelo seu pioneirismo e sua profundidade: a história social e a história cultural. Ambas emergem como respostas aos desafios de interpretar uma nação tão diversa e complexa como o Brasil 60 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 e ambas trazem consigo particularidadese contribuições essenciais. Vejamos. A história social emergiu como um contraponto à história política tradicional, buscando descentralizar o olhar e abordar o cotidiano, as lutas e as tensões presentes na sociedade. E quais seriam as suas características marcantes e por que ela se tornou tão relevante no contexto brasileiro? Primeiramente, a história social coloca em evidência os sujeitos historicamente marginalizados, dando voz a classes, grupos e setores que tradicionalmente eram eclipsados pela narrativa dominante. Como bem aponta Thompson (1981), a experiência é fundamental na compreensão da história social, na medida em que resgata sensações, sentimentos e perspectivas dos sujeitos ao longo de suas vidas. Em terras brasileiras, essa perspectiva teve um papel crucial para desenvolver as dinâmicas sociais que formaram a nação. Prado Jr. (1942), por exemplo, em sua obra “Formação do Brasil contemporâneo”, adentra os meandros da colonização sob uma ótica social, argumentando que as relações de trabalho escravo e as estruturas agrárias determinaram, em grande parte, as particularidades da formação social brasileira. Além disso, a história social brasileira destaca-se pelo seu interesse nos movimentos sociais e nas lutas por direitos. Um episódio emblemático é a Revolta da Chibata, ocorrida em 1910, em que marinheiros, liderados por João Cândido, insurgiram-se contra os castigos físicos na Marinha. Freitas (2000) salienta que esse episódio não pode ser compreendido apenas como uma revolta militar, mas como um movimento social que revela a tensão de uma sociedade em transformação. 61HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 IMPORTANTE Essa abordagem, ao focar nos conflitos, nas relações de trabalho, nos movimentos sociais e nas experiências cotidianas, proporciona uma visão mais ampla e profunda da sociedade brasileira, resgatando aspectos muitas vezes negligenciados por outras vertentes historiográficas. À medida que a história social consolidou sua posição na academia brasileira, uma nova vertente começou a ganhar força e notoriedade, propondo novos horizontes de análise: a história cultural. Esse campo historiográfico tem suas raízes nas transformações intelectuais e culturais da segunda metade do século XX e vem propondo, desde então, inovações significativas para a compreensão do passado. Como afirma Chartier (1990), não existem realidades culturais que subsistam por si mesmas, mas práticas que as instituem e negociação que as transmitem. Tal perspectiva destaca a importância das práticas cotidianas e das representações como mediadoras das relações humanas. No contexto brasileiro, a história cultural aprendeu um novo olhar sobre eventos, personagens e movimentos, rompendo com a análise psicológica ou política. Por exemplo, Moraes (2003), em “O olhar dividido: carnaval, fotografia e identidade nacional”, aborda a construção da identidade brasileira por meio do olhar fotográfico durante os carnavais do início do século XX. Segundo o autor, o carnaval não era apenas uma festa, mas um espaço de construção, desconstrução e reconfiguração de identidades. Outro enfoque dessa abordagem é a valorização das “micro-histórias”, ou seja, narrativas que focam em eventos específicos, personagens marginalizados ou episódios pouco conhecidos. Ginzburg (1989), com sua análise sobre o moleiro Menocchio, em “O queijo e os vermes”, exemplifica essa tendência, 62 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 mostrando que a história de um indivíduo pode revelar-se como uma época dolorosa e vivida. Imagem 1.7 – História cultural Fonte: Freepik Vale destacar que a historiografia brasileira, ao longo das últimas décadas, tem sido palco de intensos diálogos entre diferentes correntes. A convergência entre história social e história cultural ilustra esse processo, especialmente ao enfocar temas relacionados à cultura e ao cotidiano. Essas duas correntes, embora possuíssem perspectivas metodológicas e teóricas distintas, encontram pontos de interseção ao abordar a vida diária, seus rituais, suas práticas e representações. Se, por um lado, a história social buscou entender o cotidiano a partir das relações de trabalho, das classes sociais e das estruturas sociais, a história cultural trouxe para o debate as questões relacionadas à linguagem, à simbologia e às representações culturais. Assim, Santos (2006) demonstra, em sua obra “Cotidiano e cultura: história, historiografia e ensino”, como 63HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 as representações culturais do cotidiano podem revelar aspectos fundamentais das relações sociais em diferentes momentos da história brasileira. É indiscutível que cultura e vida cotidiana se entrelaçam de maneiras intricadas, criando uma trama abundante em significados. Ao analisar, por exemplo, as festas populares no Brasil, percebe-se que as práticas sociais e culturais se unem, moldando a identidade nacional. Da capoeira aos festejos juninos, as manifestações culturais expressivas são, além de expressões artísticas, relações de poder, resistências e apropriações (Burke, 2005). Perspectivas particulares: micro- história, história ambiental e história indígena Ao adentrarmos o vasto e multifacetado campo da história, deparamo-nos com uma multiplicidade de abordagens e perspectivas que refletem a complexidade intrínseca à compreensão dos fenômenos humanos. A historiografia brasileira, especialmente a partir do século XX, vivenciou intensas transformações epistemológicas e metodológicas, ampliando seu escopo e reconhecendo a multiplicidade de vozes, assuntos e temas até então marginalizados (Reis, 2007). Essa ampla variedade de abordagens não surge ao acaso. A história, assim como qualquer ciência, é sensível aos contextos sociais, políticos e culturais de cada época. As mudanças sociais vivenciadas pelo Brasil, desde o processo de redemocratização após o regime militar até as intensas mobilizações sociais dos anos 2000, fizeram emergir demandas por novas narrativas históricas, mais inclusivas e representativas (Ferreira; Amado, 2006). 64 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 O interesse em novos objetos de estudo e em novas formas de abordar o passado também é fruto das influências teóricas e metodológicas advindas da historiografia europeia, sobretudo a francesa, com a chamada “nova história” e seus elogios. Assim, a busca por uma história “total”, que abarca todas as dimensões da experiência humana, cedeu espaço para estudos mais focados e específicos, que buscam entender o geral a partir do particular (Burke, 1992). Essa virada historiográfica, marcada pela inclusão de novas correntes como a micro-história, a história ambiental e a história indígena, entre outras, responde a uma necessidade de se reconhecer a pluralidade de experiências, desafiar narrativas hegemônicas e construir uma compreensão histórica mais rica e avançada. Portanto, ao nos debruçarmos sobre essas “perspectivas particulares”, estamos, na realidade, buscando entender e valorizar a multiplicidade do passado brasileiro, reafirmando o compromisso da história com a diversidade e a justiça social. Ao nos depararmos com a expressão “micro-história”, podemos, inicialmente, ser cuidadosos ao pensar que ela se refere a uma investigação historiográfica de menor importância ou de alcance limitado. No entanto, essa corrente historiográfica, originária da Itália dos anos 1970 e popularizada por historiadores como Carlo Ginzburg e Giovanni Levi, propõe-se exatamente ao contrário: argumentar que o estudo atento e cuidadoso de um fenômeno local e singular pode revelar aspectos da experiência humana (Ginzburg, 1989). A micro-história brasileira também oferece possibilidades interpretativas ricas. Ao focar nas trajetórias individuais ou em pequenas comunidades, é possível desvendar as nuances das estruturas sociais, políticas e culturais do Brasil. Tal abordagem pode trazer à tonavozes marginalizadas, revelando a resistência 65HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 e a agência de grupos muitas vezes invisibilizados em narrativas históricas mais amplas (Silva, 2002). A premissa central da micro-história é a ideia de que o pequeno é revelador. Ao se voltar para o local, para o específico, os historiadores dessa corrente buscam evidenciar como o particular pode lançar luz sobre processos e estruturas mais abrangentes. Assim, a micro-história não se opõe à macro-história, mas a complementa, enriquecendo nossa compreensão do passado ao trazer à tona os detalhes, as singularidades e as vozes que, muitas vezes, perdem-se em abordagens mais amplas (Levi, 1991). A história ambiental surge como um campo historiográfico que busca compreender profundamente as sociedades humanas e seus ambientes naturais ao longo do tempo. Enquanto corrente, ela propõe uma releitura da história que coloca a natureza não como um mero pano de fundo, mas como agente ativo e participante nos processos históricos (Worster, 1991). No Brasil, a história ambiental ganha destaque a partir da década de 1990, quando a preocupação com questões ambientais se intensifica. As reflexões de José Augusto Pádua, por exemplo, têm sido fundamentais para compreender a trajetória da relação entre os brasileiros e seu ambiente, abordando desde a devastação inicial promovida pela colonização até os desafios ambientais contemporâneos (Pádua, 2002). Um dos principais aportes da história ambiental é a sua capacidade de lançar luz sobre as formas como sociedades diversas percebem e se relacionam com o meio ambiente. No caso brasileiro, essa perspectiva permite entender, por exemplo, a tensão entre modelos de desenvolvimento econômico embasados na exploração intensiva de recursos naturais e nos impactos destes na biodiversidade e nas populações locais (Dean, 1996). 66 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 IMPORTANTE A história ambiental, ao propor um diálogo profundo entre natureza e sociedade, desafia-nos a pensar a história para além das ações humanas, reconhecendo a agência do ambiente e a intrincada teia de relações que se estabelece entre o humano e o não humano ao longo do tempo. Além disso, a história ambiental traz à tona a importância dos saberes tradicionais, como os dos povos indígenas e das comunidades ribeirinhas, na construção de práticas inteligentes e na resistência a projetos predatórios. Esses saberes, construídos a partir de uma relação milenar com a terra, são fundamentais para pensar alternativas de convivência equilibrada entre homem e natureza (Santos, 2004). A história indígena, como campo de estudo, visa à desconstrução de uma narrativa histórica tradicionalmente eurocêntrica e à valorização das experiências e perspectivas dos povos originários. Ela busca dar voz a essas pessoas, muitas vezes relegadas à marginalidade na escrita da história oficial (Monteiro, 1994). Imagem 1.8 – História indígena Fonte: Freepik O Brasil, com sua rica diversidade étnica e cultural, composta por mais de 300 povos indígenas, oferece um terreno experimental para essa investigação. Esses povos, cada qual com sua língua, cultura e tradição, têm resistido há mais de cinco 67HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 séculos à opressão, ao etnocídio e às tentativas de assimilação (Oliveira, 1999). Nesse contexto, surge como referencial a obra de Manuela Carneiro da Cunha. Em “História dos índios no Brasil”, a autora destaca como a resistência indígena moldou a formação do Brasil, seja por meio de alianças, conflitos, mestiçagens ou estratégias de sobrevivência (Cunha, 1992). A revitalização das línguas indígenas, o resgate de suas práticas culturais e a reivindicação de seus territórios são aspectos fundamentais nessa jornada de resistência. Grupos como os Yanomami e os Guarani têm, por exemplo, reivindicado não apenas seu espaço físico, mas também sua identidade cultural e espiritual, demonstrando que a terra, para esses povos, vai além do material, adentrando o espiritual e o simbólico (Albert; Ramos, 2002). A diversidade historiográfica examinada neste capítulo desvenda a multiplicidade de abordagens e de perspectivas pelas quais o passado é investigado e interpretado. Da micro-história, que prioriza o singular, ao estudo da história ambiental e indígena, observa-se a evolução de um campo acadêmico que se tornou cada vez mais inclusivo, interdisciplinar e complexo (Revel, 1998). Em terras brasileiras, essa ampliação de perspectivas é de importância vital. O resgate e a preservação da história indígena, por exemplo, remetem-nos a uma memória ancestral e a uma diversidade cultural que constitui a essência da identidade nacional (Cunha, 1992). Assim, ao se interligar a história ambiental, percebe-se que a relação entre sociedade e natureza no Brasil não é apenas uma questão de uso de recursos, mas está imbricada em contextos culturais, políticos e sociais específicos (Dean, 1996). 68 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 Tendo em vista essa multiplicidade de olhares, torna-se evidente que o estudo da história, mais do que um mero registro de eventos passados, é um processo contínuo de reinterpretação e ressignificação do passado à luz das preocupações e dos contextos presentes (Ferro, 1992). RESUMINDO E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a historiografia brasileira não é uma via única; ela é uma diversidade tecida com múltiplos núcleos e padrões. Começamos com a apresentação da tradição institucionalista, uma visão que priorizava o estudo das estruturas políticas e formais da nossa nação. A historiografia marxista, por sua vez, trouxe a lente das relações de classe, mostrando-nos como o conflito e a cooperação entre diferentes grupos sociais moldaram o nosso país, mas o Brasil não é feito apenas de grandes instituições ou lutas de classes. Também exploramos como o cotidiano das pessoas e suas expressões culturais contam uma história vibrante e muitas vezes esquecida. Aqui, aprendemos sobre os ritmos, rituais, festas e práticas alcançados que dão sabor à nossa identidade nacional. E, como toda boa história, também nos concentramos em aspectos mais específicos e, muitas vezes, negligenciados. Mergulhamos no mundo da micro-história, entendendo como eventos aparentemente pequenos podem ter significados grandiosos. A história ambiental nos fez refletir sobre nossa relação com a natureza, uma ligação crucial para um país com uma biodiversidade tão rica como a nossa. E, por fim, a história indígena trouxe à luz às narrativas, 69HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 resistências e culturas dos primeiros habitantes do Brasil, lembrando-nos de suas contribuições e de seus desafios em um país que nem sempre registrou seu valor. Mais do que simples dados e eventos, você deve ter percebido que a historiografia é sobre pessoas, culturas, lutas e as inúmeras maneiras pelas quais todos nós contribuímos para o tecido da nossa nação. Agora, munido deste conhecimento, esperamos que você veja o Brasil sob uma luz renovada, apreciando a diversidade e a complexidade que fazem de nossa história algo tão fascinante e valioso. E lembre-se: a história está sempre em construção e cada um de nós é um autor em potencial. 70 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA U ni da de 1 ABREU, C. Capítulos de história colonial (1500-1800). 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Conceito de historiografia e sua importância no estudo da história do Brasil Definindo historiografia A função da historiografia A interdisciplinaridade da historiografia A historiografia como reflexão crítica da história Mecanismos de crítica em historiografia Historiografia brasileira: contextualizando sua essência e seu significado A historiografia brasileira contemporânea Principais marcos históricos da historiografia brasileira A formação da historiografia nacional: Independência e Período Imperial A história como ferramenta política no Império Tensões historiográficas: centralização versus regionalismo O papel da escravidão nas narrativas históricas Abolição, industrialização e modernização: transformações na escrita da história Redemocratização e renovação historiográfica: a busca por vozes silenciadas Metodologias e teorias utilizadas pelos historiadores brasileiros Evolução metodológica na historiografia brasileira A revolução dos micro-históricos e estudos locais A era digital e novas metodologias Teorias historiográficas em foco Práticas e ferramentas de pesquisa Principais correntes historiográficas no Brasil Das instituições às relações sociais: tradição institucionalista e historiografia marxista Implicações para a compreensão do passado brasileiro Cultura e cotidiano: entre a história social e a história cultural Perspectivas particulares: micro-história, história ambiental e história indígena