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HISTORIOGRAFIA 
BRASILEIRA
Unidade 1
Introdução à 
historiografia 
brasileira
CEO 
DAVID LIRA STEPHEN BARROS
Diretora Editorial 
ALESSANDRA FERREIRA
Gerente Editorial 
LAURA KRISTINA FRANCO DOS SANTOS
Projeto Gráfico 
TIAGO DA ROCHA
Autoria 
FÁBIO RONALDO DA SILVA
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Fábio Ronaldo da Silva
Olá. Sou pós-doutorando em História pelo PPGH/UFCG. 
Sou doutor em História pelo PPGH/UFPE. Possuo o título de 
mestre em História pelo PPGH/UFCG. Já atuei como professor 
substituto do curso de Jornalismo da UEPB, assim como lecionei no 
curso de Publicidade e Propaganda da Cesrei. Além disso, ministro 
aulas no curso de Comunicação Social das FIP e no curso de 
Produção em Audiovisual da Facisa/Cesed. Tenho especialização 
em Programação Visual, além de formações em Comunicação 
Social, pela UEPB, e História, pela UFCG. Atualmente, exerço o 
papel de pesquisador colíder do Grupo de Pesquisa/DGP-CNPq 
História e Memória da Ciência e Tecnologia. Minhas pesquisas 
estão concentradas nas áreas de Comunicação e de História, com 
foco especial nos temas de estudos de gênero, sexualidades, 
velhices, imprensa homoerótica, homossexualidades, imagem, 
cinema, história oral, arquivo jornalístico, memória e novas 
tecnologias da informação. Tenho uma paixão profunda pelo que 
faço e sinto grande satisfação em compartilhar minha experiência 
de vida com aqueles que estão começando em suas respectivas 
carreiras. Por essa razão, recebi o convite da Editora Telesapiens 
para fazer parte de seu grupo de autores independentes. Estou 
extremamente contente em poder oferecer minha ajuda durante 
essa fase de intenso estudo e dedicação. Saiba que pode contar 
comigo!
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ÍC
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ESEsses ícones aparecerão em sua trilha de aprendizagem nos seguintes casos:
OBJETIVO
No início do 
desenvolvimento 
de uma nova 
competência. DEFINIÇÃO
Caso haja a 
necessidade de 
apresentar um novo 
conceito.
NOTA
Quando são 
necessárias 
observações ou 
complementações. IMPORTANTE
Se as observações 
escritas tiverem que 
ser priorizadas.
EXPLICANDO 
MELHOR
Se algo precisar ser 
melhor explicado ou 
detalhado. VOCÊ SABIA?
Se existirem 
curiosidades e 
indagações lúdicas 
sobre o tema em 
estudo.
SAIBA MAIS
Existência de 
textos, referências 
bibliográficas e links 
para aprofundar seu 
conhecimento.
ACESSE
Se for preciso acessar 
sites para fazer 
downloads, assistir 
vídeos, ler textos ou 
ouvir podcasts.
REFLITA
Se houver a 
necessidade de 
chamar a atenção 
sobre algo a 
ser refletido ou 
discutido.
RESUMINDO
Quando for preciso 
fazer um resumo 
cumulativo das últimas 
abordagens.
ATIVIDADES
Quando alguma 
atividade de 
autoaprendizagem 
for aplicada. TESTANDO
Quando uma 
competência é 
concluída e questões 
são explicadas.
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O
Conceito de historiografia e sua importância no estudo da 
história do Brasil ...........................................................................9
Definindo historiografia ............................................................................................... 9
A função da historiografia .........................................................................13
A interdisciplinaridade da historiografia ................................................14
A historiografia como reflexão crítica da história ................................................16
Mecanismos de crítica em historiografia ...............................................18
Historiografia brasileira: contextualizando sua essência e seu significado ..19
A historiografia brasileira contemporânea ...........................................20
Principais marcos históricos da historiografia brasileira ......24
A formação da historiografia nacional: Independência e Período Imperial .24
A história como ferramenta política no Império ..................................27
Tensões historiográficas: centralização versus regionalismo ..........28
O papel da escravidão nas narrativas históricas .................................29
Abolição, industrialização e modernização: transformações na escrita da 
história ...........................................................................................................................32
Redemocratização e renovação historiográfica: a busca por vozes 
silenciadas .....................................................................................................................36
Metodologias e teorias utilizadas pelos historiadores 
brasileiros ....................................................................................40
Evolução metodológica na historiografia brasileira ............................................40
A revolução dos micro-históricos e estudos locais .............................43
 A era digital e novas metodologias ........................................................44
Teorias historiográficas em foco..............................................................................46
Práticas e ferramentas de pesquisa .......................................................................50
Principais correntes historiográficas no Brasil .......................53
Das instituições às relações sociais: tradição institucionalista e historiografia 
marxista .........................................................................................................................53
Implicações para a compreensão do passado brasileiro ..................58
Cultura e cotidiano: entre a história social e a história cultural ......................59
Perspectivas particulares: micro-história, história ambiental e história 
indígena .........................................................................................................................63
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Você sabia que a área de historiografia brasileira é 
uma das mais ricas e diferenciadas do mundo acadêmico e 
será responsável pela geração de profundos insights sobre 
a construção da nossa identidade nacional nos próximos 
anos? Isso mesmo. A área de historiografia está inserida no 
núcleo fundamental da História como disciplina. Sua principal 
responsabilidade é analisar e refletir sobre a própria maneira 
como a história é escrita, abordada e interpretada. Isso significa 
que, ao estudarmos a historiografia, não estamos apenas olhando 
para os eventos passados, mas para a maneira como esses 
eventos foram contados, os debates que viveram ao seu redor, 
as metodologias utilizadas pelos historiadores e os paradigmas 
teóricos que moldaram diferentes épocas. No contexto brasileiro, 
isso se torna ainda mais fascinante. Nossa história é repleta de 
nuances, conflitos, sofrimentos e resistências. Compreender o 
conceito da historiografia brasileira e a importância da história, 
os principais marcos historiográficos e correntes é, portanto, uma 
porta de entrada para entender a complexidade das narrativas 
que compõem o Brasil – desde as lutas até as vozes muitas vezes 
silenciadas de grupos indígenas e de outros marginalizados. É 
também uma chance de mergulhar nas metodologias e teorias 
que têm moldado o campo historiográfico no país. Entendeu? Ao 
longo desta unidade letiva você vai mergulhar neste universo!
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Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 1. Nosso objetivo 
é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências 
profissionais até o término desta etapa de estudos:
1. Definir o conceito de historiografia, compreendendo 
sua importância para o estudo da história do Brasil.
2. Identificar e contextualizar os principais marcos 
históricos que influenciaram o desenvolvimento da 
historiografia brasileira. Eventos como a Independência, 
o Período Imperial, a abolição da escravidão, a 
industrialização e o processo de redemocratização do 
País impactaram a produção historiográfica.3. Reconhecer os diferentes enfoques teóricos e 
metodológicos utilizados pelos historiadores 
brasileiros.
4. Entender as principais correntes historiográficas no 
Brasil e suas contribuições para a compreensão do 
passado brasileiro.
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Conceito de historiografia e 
sua importância no estudo da 
história do Brasil
OBJETIVO
Ao término deste capítulo, você será capaz 
de definir o conceito de historiografia, 
compreendendo sua importância para o estudo da 
história do Brasil, e entender as diversas camadas 
e perspectivas que compõem a narrativa histórica 
nacional. E então? Motivado para desenvolver esta 
competência? Vamos lá. Avante!
Definindo historiografia
A compreensão de qualquer conceito começa por sua 
origem e evolução ao longo do tempo. No caso da historiografia, 
seu significado etimológico e sua trajetória ao longo da história 
fornecem insights valiosos sobre sua essência. A palavra 
“historiografia” é de origem grega, derivada dos termos história, 
que pode ser traduzido como “investigação” ou “pesquisa”, e 
graphein, que significa “escrever” (Momigliano, 1993). Portanto, no 
sentido mais literal, historiografia refere-se à “escrita da pesquisa” 
ou “escrita da investigação”.
Ao longo dos tempos, a prática de investigar e registrar 
eventos teve lugar em diversas civilizações. Contudo, foi na Grécia 
Antiga que a historiografia ganhou contornos mais próximos do 
que hoje entendemos por escrita histórica. Historiadores como 
Heródoto, frequentemente considerado o “Pai da História”, 
buscavam não apenas registrar eventos, mas entender causas, 
efeitos e motivações, aproximando-se, assim, da pesquisa 
histórica moderna (Hartog, 2001).
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O termo “historiografia” não apenas encapsula a atividade 
de escrever a história, mas também a reflexão crítica sobre essa 
escrita, algo que se tornou ainda mais proeminente nos debates 
acadêmicos contemporâneos (Burke, 1992). Assim, a historiografia, 
ao passar dos séculos, evoluiu de um simples registro de eventos 
para uma sofisticada e complexa análise e interpretação da 
narrativa histórica.
Delinear os contornos entre história e historiografia é 
crucial para a compreensão de ambas. Se, à primeira vista, os 
termos podem parecer sinônimos, uma análise mais detida revela 
nuances e particularidades que os distinguem significativamente.
A história, em sua essência, é o estudo de eventos, 
processos e personalidades do passado. É uma tentativa de 
reconstruir, entender e interpretar o que aconteceu em tempos 
anteriores ao presente. Como nos aponta Cardoso (2005), a 
história é a narrativa do que é considerado significativo em 
termos de ações humanas ao longo do tempo. Ela é o resultado 
de uma seleção criteriosa de eventos e processos, organizados e 
interpretados a partir de evidências e fontes, ou seja, a história é 
aquilo que é narrado sobre o passado.
Imagem 1.1 – Historiografia x História
Historiografia
Estudo sobre como a 
narrativa do passado é 
construída.
História Aquilo que é narrado sobre o 
passado.
Fonte: Elaborado pela autoria (2023)
Por outro lado, a historiografia é, de acordo com Marques 
(1998), o estudo sobre como essa narrativa é construída. Ela 
se concentra nas técnicas, metodologias e interpretações 
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utilizadas pelos historiadores ao longo do tempo. Além disso, a 
historiografia está atenta às escolhas feitas pelos historiadores: 
por que certos eventos são priorizados e outros negligenciados? 
Quais perspectivas são centrais e quais são marginalizadas? Nesse 
sentido, a historiografia é uma reflexão sobre a prática da escrita 
da história, uma espécie de “história da história”.
EXEMPLOS: um exemplo prático dessa distinção pode ser 
observado ao estudarmos um evento histórico específico, 
como a Independência do Brasil. A narrativa dos eventos, 
os personagens e as consequências desse processo 
compõem a história da Independência. No entanto, 
quando começamos a analisar como essa narrativa 
mudou ao longo do tempo, quais vozes foram priorizadas 
em diferentes períodos e quais métodos e fontes foram 
utilizados para construir diferentes versões dessa 
história, estamos nos aprofundando na historiografia da 
Independência do Brasil.
Dessa forma, percebe-se que, enquanto a História busca 
o entendimento e a representação do passado, a Historiografia 
investiga como essa representação é (e foi) feita, destacando suas 
variações, nuances e seus debates internos (Reis, 2007).
A historiografia, enquanto campo de estudo, não 
permaneceu estagnada. Ao contrário, sofreu significativas 
transformações ao longo dos séculos, refletindo as mudanças nas 
abordagens, preocupações e metodologias dos historiadores.
IMPORTANTE
Ao longo do tempo, a historiografia refletiu as 
preocupações, metodologias e abordagens de cada 
época, servindo como um espelho das mudanças 
intelectuais e culturais da humanidade.
12 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA
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Na Antiguidade, a escrita da história estava imbuída de 
um caráter moral e pedagógico. Historiadores como Heródoto e 
Tucídides, embora diferissem em suas abordagens, concordavam 
em uma coisa: a história deveria servir como lição para as gerações 
futuras (Azevedo, 2008). Era uma época em que a história estava, 
muitas vezes, entrelaçada com a mitologia, buscando explicar os 
feitos dos homens e dos deuses de maneira integrada.
A Idade Média, especialmente na Europa, foi um período 
em que a historiografia estava fortemente ligada à religião. A 
história era vista por meio de uma lente teológica, em que os 
eventos eram interpretados como parte de um plano divino (Le 
Goff, 1994). A narrativa tinha um caráter linear, que partia da 
Criação e caminhava para o Juízo Final.
Contudo, foi durante o Renascimento e o Iluminismo 
que a historiografia passou por mudanças marcantes. Surgiu 
um crescente interesse pela investigação empírica, pela crítica 
das fontes e por uma abordagem mais “científica” da história. 
Voltairine e Gibbon são exemplos de pensadores desse período 
que defendiam uma visão mais racional e menos teológica da 
história (Pinsky, 2000).
O século XX, por sua vez, presenciou uma pluralidade de 
abordagens historiográficas. Com a influência de movimentos 
como o estruturalismo, a escola dos Annales e o marxismo, a 
historiografia começou a explorar não apenas a política e as elites, 
mas também temas como a vida cotidiana, as mentalidades e as 
estruturas socioeconômicas (Ferro, 2003).
No Brasil, a historiografia teve suas peculiaridades, 
oscilando entre narrativas nacionais épicas, como as de 
Varnhagen, até abordagens mais críticas e sociais no século XX, 
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como as propostas por Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado 
Júnior (Schwarcz; Starling, 2008).
A função da historiografia
A função da historiografia, embora intrínseca à sua 
natureza, é um tópico que desperta ricas discussões no âmbito 
acadêmico. Afinal, ao considerarmos a historiografia como uma 
“história da história”, estamos nos referindo ao modo como 
entendemos, interpretamos e representamos o passado. Porém, 
qual é o propósito dessa reflexão contínua?
Primeiramente, a historiografia serve como um meio de 
autoconsciência para a disciplina histórica. Por meio dela, os 
historiadores podem compreender e avaliar as metodologias, 
teorias e abordagens que utilizam em suas investigações. Como 
destaca Bloch (2002), a historiografia é essencial para a maturidade 
de qualquer disciplina, pois permite que ela se autoanalise, 
compreenda suas limitações e potencialidades.
Outra função crucial da historiografia é proporcionar uma 
base para a crítica histórica. Ao estudar a forma como a história 
foi escrita e interpretada em diferentes contextos e épocas, os 
historiadores podem identificar tendências, vieses e lacunas em 
narrativas anteriores. Tal processo é fundamental para que a 
escrita da histórianão se torne dogmática ou monolítica, mas, sim, 
dinâmica e aberta a revisões (Candido, 1995).
VOCÊ SABIA?
A função da historiografia não é meramente 
acadêmica ou teórica. Ela tem implicações 
práticas profundas, influenciando a maneira como 
entendemos nosso passado, nosso presente e, por 
extensão, nosso futuro.
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A historiografia também desempenha um papel 
importante na construção da memória coletiva. Ao analisar as 
diferentes narrativas históricas, os acadêmicos podem perceber 
quais versões do passado foram priorizadas em detrimento de 
outras e quais memórias foram suprimidas, marginalizadas ou 
esquecidas ao longo do tempo (Halbwachs, 1990).
No contexto brasileiro, a historiografia tem uma função 
adicional, que é ajudar na construção da identidade nacional. 
Ao revisitar os modos como a história do Brasil foi narrada, é 
possível entender as diversas concepções sobre o que significa 
ser brasileiro, desde as visões mais heroicas até as críticas mais 
contundentes (Freyre, 2006).
A interdisciplinaridade da historiografia
A interdisciplinaridade, entendida como o diálogo entre 
diferentes áreas do conhecimento, tem se tornado cada vez mais 
relevante no campo acadêmico. Na historiografia, essa tendência 
não é diferente. O estudo da história, quando em interação com 
outras disciplinas, amplia seus horizontes, enriquecendo análises 
e permitindo novas abordagens sobre o passado.
Imagem 1.2 – Interdisciplinaridade da historiografia
HISTORIOGRAFIA
Antropologia
Economia Sociologia
Literatura
Fonte: Elaborado pela autoria (2023)
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Um dos exemplos mais emblemáticos dessa 
interdisciplinaridade na historiografia é a relação entre História 
e Antropologia. A partir dos trabalhos de historiadores como 
Darnton (1987) e Geertz (1989), a cultura e os rituais de diferentes 
sociedades passaram a ser analisados com um olhar mais atento 
às suas especificidades e aos seus significados. Essa troca permitiu 
uma compreensão mais aprofundada das mentalidades e das 
práticas culturais de distintos grupos humanos ao longo do tempo.
Outra interação significativa é entre História e Sociologia. 
Por meio de autores como Bourdieu (2007) e Elias (1994), a 
historiografia tem se beneficiado de categorias analíticas que 
ajudam a entender as dinâmicas sociais, as formações de classe e 
as relações de poder. Ao abordar a história com uma perspectiva 
sociológica, é possível identificar padrões e estruturas que 
influenciam a trajetória dos grupos humanos.
A relação entre História e Economia, influenciada por 
abordagens marxistas e pela escola dos Annales, também tem 
sido frutífera. O conceito de “modo de produção”, por exemplo, 
permite entender a dinâmica socioeconômica de diferentes 
sociedades, desde a Antiguidade até o mundo contemporâneo 
(Braudel, 1987).
No contexto brasileiro, a interdisciplinaridade também 
tem florescido. Um bom exemplo é o diálogo entre História e 
Literatura. Por meio da análise de obras literárias, historiadores 
como Candido (1995) e Schwarz (2001) têm explorado as nuances 
da sociedade brasileira, capturando aspectos da identidade, da 
cultura e das tensões sociais presentes no país.
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Essas interações mostram que a historiografia não é uma 
disciplina isolada. Ela é enriquecida, desafiada e renovada pela 
interdisciplinaridade, permitindo uma compreensão mais ampla e 
diversificada da complexa trama da experiência humana.
A historiografia como reflexão 
crítica da história
A historiografia não é simplesmente um registro passivo do 
que aconteceu. É, por natureza, um exercício crítico de interrogação 
e interpretação da realidade passada. E como escreveu Marc 
Bloch (2002), um dos grandes nomes da escola dos Annales, “a 
compreensão do presente nasce da discussão do passado”. Essa 
compreensão, no entanto, não se dá de forma linear ou imutável.
Ao contrário do que muitos poderiam pensar, a história 
não é feita de verdades absolutas. A cada geração, historiadores 
se deparam com novas questões e perspectivas que os levam a 
revisitar e a reinterpretar eventos, personagens e processos do 
passado (Reis, 2007). Isso significa que a historiografia está em 
constante movimento, sendo moldada não apenas pelos eventos 
que busca representar, mas também pelas circunstâncias, pelas 
metodologias em voga e pelas preocupações de seu tempo.
A natureza crítica da historiografia é, assim, intrínseca 
à sua essência. Por meio dela, a sociedade confronta versões 
estabelecidas do passado, desafia narrativas dominantes e procura 
compreender mais profundamente as complexidades e nuances 
de sua história. Como afirma Jörn Rüsen (2012), a história é um 
conhecimento orientado para a prática, e é por meio da reflexão 
crítica que ela se torna relevante para o presente, ajudando a 
orientar a sociedade em direção ao futuro.
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Este exercício de crítica e de reflexão não se limita a uma 
esfera puramente acadêmica. A historiografia influencia a maneira 
como a sociedade se percebe, como interpreta seus desafios 
atuais e como se posiciona diante deles. Portanto, entender o 
papel crítico da historiografia é fundamental para compreender a 
própria construção da memória e de identidade coletivas.
A crítica, em sua essência, está entrelaçada com 
o desenvolvimento da historiografia. Desde os primeiros 
registros históricos, observamos um constante reajuste e uma 
reconsideração dos eventos passados em resposta às mudanças 
culturais, políticas e sociais. A crítica é, assim, uma ferramenta 
vital que permite à historiografia se adaptar e responder às 
necessidades de cada época (Cardoso, 1997).
A historiografia clássica, exemplificada por autores como 
Heródoto e Tucídides, já revelava uma preocupação com a 
precisão e a busca por múltiplas fontes para reconstruir o passado. 
Entretanto, foi com o Iluminismo, no século XVIII, que vimos uma 
guinada mais acentuada para uma abordagem crítica. A ênfase 
na razão e no método científico proporcionou aos historiadores 
ferramentas para questionar as narrativas tradicionais e buscar 
um entendimento mais aprofundado dos eventos históricos 
(Ventura, 2004).
No século XIX, com o surgimento da história como 
disciplina acadêmica formalizada, a crítica tornou-se ainda mais 
sistemática. A história passou a ser vista não apenas como uma 
coleção de fatos, mas como um processo em constante evolução. 
A introdução da temporalidade e da dialética na análise histórica, 
impulsionada por pensadores como Marx, trouxe consigo uma 
nova dimensão de crítica, focando nas relações de poder e nos 
processos subjacentes que moldam os eventos (Pinsky, 2000).
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Já no século XX, a crítica se expandiu para abordar as 
próprias metodologias historiográficas. A escola dos Annales, por 
exemplo, enfatizou a necessidade de se transcender a narrativa 
política tradicional e de se adotar uma perspectiva mais holística, 
considerando fatores geográficos, sociais e econômicos (Reis, 2007). 
Além disso, movimentos pós-coloniais e feministas começaram a 
questionar as narrativas eurocêntricas e patriarcais dominantes, 
propondo novas maneiras de entender e de interpretar a história 
(Schwarcz, 1993).
Mecanismos de crítica em historiografia
No âmago da historiografia encontra-se o constante 
questionamento e a busca pela veracidade e precisão. Essa tarefa 
demanda uma série de mecanismos críticos que os historiadores 
utilizam para avaliar, interpretar e, por vezes, desafiar as narrativas 
estabelecidas.
 • Crítica das fontes: todo trabalho historiográfico 
começa com a análise cuidadosa de fontes primárias 
e secundárias. Por meio da crítica documental, os 
historiadores examinam a autenticidade, a proveniência, 
o contexto e o propósito da fonte, garantindo sua 
confiabilidade (Le Goff, 1994). Por vezes, o silêncio das 
fontes, o quenão é mencionado, pode ser tão revelador 
quanto o seu conteúdo explícito.
 • Análise contextual: a história não ocorre no vácuo. A 
compreensão do contexto cultural, político, social e 
econômico em que os eventos ocorreram é vital. Essa 
análise permite discernir motivações, relações de 
poder e influências externas que podem ter moldado 
os acontecimentos (Burke, 1992).
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 • Dialética historiográfica: os historiadores 
frequentemente se engajam em diálogos com 
trabalhos anteriores, reconhecendo contribuições, 
apontando lacunas e desafiando interpretações. Esse 
processo dialético enriquece o entendimento histórico 
e proporciona uma visão mais matizada dos eventos 
(Pesavento, 2004).
 • Interdisciplinaridade: a historiografia moderna 
beneficia-se do diálogo com outras disciplinas, como 
a antropologia, a sociologia e a arqueologia. Essa 
abordagem interdisciplinar permite uma análise mais 
rica e complexa, ao considerar diferentes perspectivas 
e metodologias (Ferro, 1992).
 • Reavaliação de narrativas dominantes: uma função 
crucial da historiografia crítica é questionar e desafiar as 
narrativas hegemônicas. Ao fazer isso, os historiadores 
podem trazer à luz vozes marginalizadas, reconsiderar 
eventos sob novas lentes e promover uma compreensão 
mais inclusiva e diversa da história (Ginzburg, 1989).
A adoção desses mecanismos críticos assegura que a 
historiografia permaneça uma disciplina viva, em constante 
evolução e em sintonia com as mudanças e necessidades da 
sociedade.
Historiografia brasileira: 
contextualizando sua essência e 
seu significado
A formação da historiografia brasileira é, em si, um reflexo 
da complexidade e da diversidade que caracterizam a história 
do país. Desde os primeiros contatos com os colonizadores 
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europeus, a terra hoje conhecida como Brasil foi cenário de 
incontáveis narrativas e interpretações. A própria ideia de uma 
“história brasileira” emergiu não apenas das experiências vividas 
aqui, mas também de como essas experiências foram registradas, 
interpretadas e, por vezes, reinventadas ao longo do tempo.
Os primeiros relatos da terra recém-descoberta foram 
feitos por navegadores e missionários europeus. Como afirma 
Capistrano de Abreu (1988), os cronistas coloniais estavam mais 
interessados em descrever e catequizar do que em compreender 
os indígenas.
IMPORTANTE
Essa perspectiva europeia moldou inicialmente 
a historiografia, resultando em uma visão muitas 
vezes distorcida dos verdadeiros habitantes e dos 
eventos do Brasil.
No entanto, com o passar do tempo e o desenvolvimento 
de uma consciência nacional distinta, surgiu a necessidade de 
reavaliar e reescrever a história brasileira por brasileiros e para 
brasileiros. Essa mudança pode ser mais bem ilustrada pela obra 
de historiadores como Sérgio Buarque de Holanda, cujo livro 
“Raízes do Brasil” (2015) é fundamental para entender o caráter 
singular do brasileiro e sua formação social.
A influência dos movimentos históricos significativos 
no Brasil, como a Independência, em 1822, e a Proclamação da 
República, em 1889, gerou um novo olhar sobre a identidade 
nacional. Foi um momento crucial para a historiografia brasileira, 
pois, conforme destaca Mattos (2009, p. 97), “a historiografia 
republicana tinha o desafio de construir uma identidade nacional 
que legitimasse o novo regime e, ao mesmo tempo, rompesse 
com os laços coloniais”.
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A historiografia brasileira 
contemporânea
Ao nos debruçarmos sobre o cenário recente da 
historiografia brasileira, percebemos uma rica diversidade 
temática e metodológica, que reflete as transformações sociais, 
políticas e culturais do Brasil nas últimas décadas. Em meio 
a um país de realidades tão multifacetadas, os historiadores 
contemporâneos têm procurado novos objetos de estudo e novas 
formas de abordagem.
IMPORTANTE
A historiografia brasileira contemporânea 
demonstra um compromisso crescente com a 
interdisciplinaridade, dialogando com campos 
como a antropologia, a sociologia e os estudos 
literários. Essa abertura a múltiplas vozes e 
perspectivas enriquece e complexifica nossa 
compreensão da trajetória brasileira, tornando-a, 
ao mesmo tempo, mais global e mais particular.
Um fenômeno marcante da historiografia brasileira 
contemporânea é a valorização das “micro-histórias”. Inspirados, 
em parte, pelo trabalho do historiador italiano Carlo Ginzburg, 
os pesquisadores brasileiros têm buscado narrativas mais locais 
e específicas, retratando o cotidiano, os grupos marginalizados 
e as experiências individuais. Essa perspectiva permite uma 
compreensão mais íntima e detalhada dos processos históricos, 
que frequentemente escapam de grandes narrativas.
No campo da história social, a questão das identidades tem 
ocupado um lugar central. Lilia Moritz Schwarcz e Helena Bomeny, 
por exemplo, têm investigado a formação da identidade nacional 
brasileira, revelando como conceitos de raça, gênero e classe 
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estão intrinsecamente ligados a essa construção. Por outro lado, a 
história da sexualidade, impulsionada por obras como as de João 
Silvério Trevisan, abriu novas perspectivas sobre a compreensão 
da diversidade e das lutas pelos direitos LGBTQIA+ no país.
Além disso, os estudos sobre memória têm ganhado um 
espaço significativo. O período da ditadura militar (1964-1985) 
e suas consequências são temas frequentemente revisitados, 
buscando não apenas compreender o regime em si, mas também 
suas repercussões na sociedade e na cultura brasileira. Elio Gaspari 
e Marcelo Ridenti são exemplos de autores que têm se dedicado 
a desvendar as intricadas relações entre poder, resistência e 
memória durante e após a ditadura.
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RESUMINDO
E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu 
mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de 
que você realmente entendeu o tema de estudo 
deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. 
Você deve ter aprendido que a historiografia não 
é simplesmente a história escrita, mas o estudo 
sobre como a história é escrita, entendendo 
seus métodos, suas abordagens e a evolução 
do pensamento histórico. Abordamos sua 
etimologia e a origem do termo, que nos ajudou 
a compreender melhor sua essência. No decorrer 
do capítulo, também exploramos a historiografia 
como uma reflexão crítica da história. Foi 
evidenciado o papel crucial que a historiografia 
desempenha ao avaliar a maneira como os 
eventos históricos são interpretados, registrados e 
transmitidos. Isso foi essencial para entendermos 
os mecanismos de crítica em historiografia e a 
evolução dessa crítica ao longo do tempo. E, claro, 
não poderíamos deixar de lado a historiografia 
brasileira. Aprendemos sobre sua formação, os 
grandes nomes que contribuíram para o seu 
desenvolvimento e como essa historiografia se 
manifesta no cenário contemporâneo. Isso nos 
deu uma visão detalhada de como a história do 
Brasil é interpretada e recontada, levando em 
conta os contextos sociopolíticos e culturais que 
influenciaram e continuam influenciando essas 
narrativas. Ao compreender a historiografia, 
você não apenas entende melhor a história, mas 
também como ela é moldada, quem a molda e 
por que certos aspectos são destacados enquanto 
outros são deixados de lado. Assim, você se torna 
mais capacitado para analisar criticamente o 
vasto mundo da história e, particularmente, a rica 
tapeçaria da história brasileira.
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Principais marcos históricos da 
historiografia brasileira
OBJETIVO
Ao término deste capítulo, você será capaz de 
identificar e contextualizar os principais marcos 
históricos que influenciaram o desenvolvimento 
da historiografia brasileira, eventos como a 
independência, o período imperial, a abolição 
da escravidão, a industrialização e o processode redemocratização do país impactaram a 
produção historiográfica. E então? Motivado para 
desenvolver esta competência? Vamos lá. Avante!
A formação da historiografia 
nacional: Independência e Período 
Imperial
A historiografia brasileira, ao nos levar pela mão pelos 
complexos corredores da história, apresenta-nos primeiramente 
à turbulenta e emblemática fase da Independência e do 
subsequente Período Imperial. A passagem de Brasil Colônia para 
uma nação independente não foi apenas uma mudança política, 
mas também um ponto crucial para a formação de uma identidade 
nacional e para a consolidação de uma narrativa histórica própria 
(Carvalho, 2007).
O processo de independência, concretizado em 1822, não 
nasceu da noite para o dia. Foi precedido por uma série de eventos 
e movimentos que mostravam a crescente insatisfação das 
elites locais com a metrópole portuguesa, como a Inconfidência 
Mineira e a Conjuração Baiana, os quais pavimentaram o terreno 
para a Proclamação da Independência (Gomes, 2010). O desafio, 
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então, era construir uma nação unificada e coesa, a partir de um 
território vasto e diversificado, com populações que, muitas vezes, 
possuíam interesses e identidades distintos.
Ao longo do Período Imperial (1822-1889), a figura do 
monarca, seja Pedro I ou Pedro II, atuou como um símbolo de 
unidade e continuidade. Entretanto, sob essa aparente calmaria 
imperial, fermentavam questões sociais e políticas explosivas, 
com destaque para a problemática da escravidão, que viria a ser o 
calcanhar de Aquiles do Império, sendo uma das principais razões 
para seu eventual colapso (Mattos, 2004).
Imagem 1.3 – Independência do Brasil
.
Fonte: Freepik
Esse período também foi marcado por tentativas de 
modernização, com a construção de ferrovias, o incentivo à 
imigração europeia e o estímulo à educação e à cultura. As elites, 
agora munidas de instrumentos mais sofisticados de comunicação 
e interação, como jornais e clubes literários, começavam a 
interpretar e a registrar o passado de uma forma mais sistemática 
e a refletir sobre a trajetória da nação (Schwarcz, 1998).
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Ao se imergir nesse contexto, percebe-se a importância 
de entender como a historiografia se moldou e foi moldada pelos 
ventos de mudança dessa época. A produção de história nesse 
período não foi apenas um exercício acadêmico, mas também 
uma ferramenta crucial para a construção da identidade nacional 
e para a legitimação do poder imperial.
A trajetória da historiografia brasileira, sobretudo 
durante o alvorecer da nação recém-emancipada, não pode 
ser compreendida sem se debruçar sobre as figuras pioneiras 
que buscaram, por meio da escrita, consolidar uma identidade 
para o Brasil. As narrativas fundacionais, nesse sentido, foram 
fundamentais para estabelecer um senso de pertencimento e 
para legitimar o novo Estado nacional (Almeida, 1999).
Varnhagen, frequentemente aclamado como o “pai da 
historiografia brasileira”, é um desses nomes incontornáveis. Em 
sua monumental “História geral do Brasil”, Varnhagen buscou 
não apenas narrar eventos, mas oferecer uma interpretação de 
um Brasil uno, a despeito de sua vastidão e diversidade (Oliveira, 
2008). O autor, por meio de uma narrativa linear e progressista, 
visualizava o Brasil como uma nação destinada à grandeza, desde 
sua descoberta até a independência.
Outra figura proeminente é Capistrano de Abreu, que, 
diferentemente de Varnhagen, buscava entender o Brasil colonial a 
partir de suas estruturas internas, focando-se nas dinâmicas locais. 
Seus trabalhos, notadamente “Capítulos de História colonial” e “O 
Descobrimento do Brasil”, desvendaram o país não como mero 
apêndice da história europeia, mas como um território com suas 
particularidades e seus desafios (Freitas, 2011).
Não se pode esquecer também de Sílvio Romero, cuja obra 
se situa na encruzilhada entre a literatura, a sociologia e a história. 
Romero, influenciado pelo evolucionismo e pelo determinismo, 
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buscou nas raízes indígenas e africanas a explicação para o caráter 
singular do povo brasileiro, argumentando que a mistura racial 
era um traço distintivo da nação (Santos, 2013).
Esses historiadores, embora com abordagens e ênfases 
diversas, compartilhavam de um objetivo comum: narrar a história 
do Brasil de forma a consolidar sua identidade e soberania. As 
narrativas fundacionais, nesse contexto, tornaram-se essenciais 
na construção do imaginário coletivo, oferecendo uma lente pela 
qual as gerações futuras interpretariam seu passado e projetariam 
seu futuro.
A história como ferramenta política no 
Império
A consolidação do Império brasileiro, período que se 
estendeu de 1822 a 1889, demandou não somente esforços 
políticos e administrativos, mas também simbólicos. Nesse 
sentido, a História emergiu como uma poderosa ferramenta de 
construção e legitimação do Estado Imperial e da identidade 
nacional (Cardoso, 1998).
IMPORTANTE
A historiografia do período imperial não foi uma 
mera reprodução de fatos, mas uma construção 
deliberada e estratégica que serviu para fortalecer 
e consolidar o poder imperial. Reconhecer isso é 
essencial para uma compreensão crítica e profunda 
do Brasil oitocentista.
O Império necessitava solidificar sua posição, e a história 
fornecia os alicerces necessários para justificar sua soberania. 
Nesse período, o passado colonial começou a ser reinterpretado, 
destacando episódios que enaltecessem o papel do Brasil enquanto 
nação destinada à grandiosidade. A própria figura de Dom Pedro 
I, o proclamador da independência, foi exaltada em diversas 
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narrativas como herói nacional, relegando ao esquecimento suas 
controvérsias políticas e pessoais (Sousa, 2005).
Não menos importante foi a exaltação do período 
monárquico, com seus feitos, progressos e conquistas. A ideia 
central era de que a monarquia era a guardiã da unidade nacional, 
o baluarte contra as divisões e o alicerce para o progresso (Mota, 
2007). Narrativas que desviavam desse ideal, que questionavam 
a centralidade da monarquia ou propunham versões alternativas 
da história eram frequentemente marginalizadas ou silenciadas.
Também vale ressaltar a importância do Instituto Histórico 
e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em 1838, que se tornou 
o centro de produção e de validação da história oficial. Esse 
instituto, que contou com a participação ativa de membros da 
elite imperial, teve o papel de reunir, organizar e disseminar uma 
versão da história que reforçava os ideais monárquicos e a missão 
civilizatória do Império (Guimarães, 1995).
Tensões historiográficas: centralização 
versus regionalismo
A historiografia brasileira, particularmente durante o 
período imperial, enfrentou uma série de tensões que derivavam 
dos próprios dilemas do país recém-independente. Uma dessas 
tensões, e talvez a mais profunda, dizia respeito à dialética entre 
centralização e regionalismo (Ferreira, 2002). O Brasil, país de 
dimensões continentais, sempre lidou com a complexidade de 
conciliar suas várias regionalidades à necessidade de uma unidade 
nacional.
Na historiografia imperial, percebe-se uma evidente 
centralização. A história era, muitas vezes, contada a partir do Rio 
de Janeiro, cidade que se tornou a capital do país e o centro político-
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administrativo do Império (Gomes, 1990). Essa centralização não 
apenas geográfica, mas também ideológica, procurava construir 
uma narrativa coesa, que reforçasse o papel integrador da 
monarquia.
No entanto, paralelamente a essa historiografia 
centralizadora, surgiram vozes regionais que buscavam resgatar 
as particularidades, os heróis e os episódios locais que não 
encontravam espaço na narrativa nacional. Essa busca pelo 
protagonismo regional gerou importantes obras, que detalhavam 
a históriade províncias específicas, seu desenvolvimento, suas 
revoltas e seus personagens (Abreu, 1988).
Esta tensão entre centralização e regionalismo não se 
restringiu apenas ao campo historiográfico. Ela estava presente 
na política, na economia e na cultura, com províncias como 
Pernambuco, Minas Gerais e Rio Grande do Sul frequentemente 
questionando o poder central e reivindicando maior autonomia 
(Carvalho, 2007).
Portanto, para compreender a historiografia do Império 
brasileiro, é crucial reconhecer essas tensões. Elas nos mostram 
um país em busca de si mesmo, tentando equilibrar a construção 
de uma identidade nacional com o respeito e a valorização de suas 
múltiplas regionalidades.
O papel da escravidão nas narrativas 
históricas
Não há como entender a história e a historiografia 
brasileira sem abordar um dos pilares mais complexos e 
controversos de nossa formação: a escravidão. O sistema 
escravista foi parte intrínseca da sociedade brasileira por quase 
quatro séculos e, como observa Florestan Fernandes (2008), a sua 
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abolição não eliminou os resquícios e os impactos socioculturais 
gerados por essa prática.
IMPORTANTE
A escravidão, mais do que um período histórico, é 
uma chaga aberta na alma brasileira. As narrativas 
que a envolvem são essenciais para compreender 
nossa identidade, nossos conflitos e nossas 
potencialidades enquanto nação.
A escravidão, em diferentes momentos da historiografia 
brasileira, foi tratada de maneiras variadas. Durante o Império e 
início da República, os relatos oficiais procuravam, muitas vezes, 
minimizar os horrores do sistema ou até mesmo enaltecer os 
“benefícios” da mão de obra escrava para o desenvolvimento 
econômico do país (Mattos, 2004). Esses relatos, embora 
distorcidos, eram reflexos de uma elite que, mesmo após a 
abolição, tentava justificar seu passado escravocrata.
No entanto, a partir do século XX, com o desenvolvimento 
de uma historiografia mais crítica e social, houve uma mudança 
significativa na maneira de abordar a escravidão. Historiadores 
como Clóvis Moura (1981) e Gilberto Freyre (1933) trouxeram 
novas perspectivas sobre o papel dos escravizados na formação 
da identidade nacional. Moura, por exemplo, destaca a resistência 
negra e os quilombos, enquanto Freyre ressalta a interação entre 
senhores e escravos na formação da família patriarcal brasileira.
Imagem 1.4 – Escravidão
.
Fonte: Freepik
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É essencial reconhecer que a escravidão não foi apenas 
um sistema econômico, mas também uma relação de poder que 
permeou todos os aspectos da sociedade brasileira. Da culinária à 
música, da religião à linguagem, as influências africanas moldaram 
o Brasil e sua narrativa historiográfica, como aponta Schwarz 
(2001), precisa reconhecer tanto os traumas quanto as riquezas 
desse legado.
A escravidão no Brasil não se trata apenas de uma sucessão 
de fatos, mas de um legado que nos convida a repensar sobre as 
estruturas de poder, sobre injustiças e resistências.
Um dos marcos teóricos mais influentes para 
compreender esse legado foi proposto por Antonio Candido 
(1988), quando afirmou que a literatura (e por extensão, a história) 
deve ser vista como um direito do cidadão, pois o ajuda a viver. 
As narrativas que envolvem a escravidão oferecem um espelho, 
por vezes doloroso, que reflete a formação social, econômica e 
cultural do Brasil.
O resgate da memória de resistência e de luta dos 
escravizados, evidenciado em trabalhos como o de Sidney 
Chalhoub (1990), lembra-nos da necessidade de reconhecer a 
agência dos sujeitos historicamente oprimidos. Essa agência, 
silenciada por narrativas dominantes, foi fundamental para a 
formação do Brasil como nação.
Por outro lado, conforme pontua Júlio José Chiavenato 
(1984), as descrições do sistema escravocrata e seus horrores não 
devem ser vistos apenas como narrativas do passado, mas como 
um alerta sobre como a desigualdade, o racismo e a opressão 
ainda se manifestam em diferentes formas na sociedade brasileira 
contemporânea.
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O legado da escravidão, portanto, está impresso não só 
nos livros de história, mas no cotidiano e na cultura popular. É 
uma memória viva, uma chama que ilumina as questões mais 
profundas sobre quem somos como nação. Reconhecer, estudar 
e refletir sobre esse legado é fundamental para que possamos 
construir um futuro mais justo e inclusivo.
Abolição, industrialização e 
modernização: transformações na 
escrita da história
No final do século XIX e início do século XX, o Brasil 
passava por transformações significativas em sua estrutura 
socioeconômica e política. A abolição da escravatura, em 1888, 
representou mais do que apenas o fim de um regime de trabalho; 
ela foi um ponto de inflexão na identidade nacional e nas relações 
sociais (Mattos, 2004). Já a industrialização, que se intensificou 
nas primeiras décadas do século XX, trouxe consigo uma série de 
mudanças nas cidades, na economia e na própria percepção do 
que seria o Brasil moderno (Freire, 2002).
A Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel, encerrava 
oficialmente um período de quase 400 anos de escravidão no Brasil. 
No entanto, ao contrário do que muitos esperavam, a liberdade 
não se traduziu em igualdade. Os ex-escravos encontraram um 
país ainda fortemente marcado por preconceitos e por uma 
estrutura socioeconômica que não lhes proporcionava as mesmas 
oportunidades. O pós-abolição, portanto, foi marcado por desafios 
e por um longo caminho em busca de cidadania plena (Andrews, 
1998).
Paralelamente, o Brasil começava a se urbanizar e 
a se industrializar. Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro 
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transformavam-se em polos industriais, atraindo migrantes de 
diversas regiões do país e também do exterior. Esse processo 
trouxe novos desafios: a necessidade de infraestrutura, habitação 
e de serviços, além de conflitos e tensões nas relações de trabalho 
(Rolnik, 1997).
Essa fase de transformações, porém, também abriu 
espaço para reflexões acerca da identidade nacional, do lugar 
do Brasil no mundo e de como escrever sua própria história. Em 
meio a debates, conflitos e aspirações, surge uma historiografia 
que busca compreender e registrar as nuances desse período tão 
rico e complexo.
A industrialização e a modernização brasileiras, que 
tiveram seu auge nas primeiras décadas do século XX, não foram 
processos isolados. Elas dialogavam com transformações globais e 
foram moldadas, também, pelo legado da colonização e do regime 
escravista. Consequentemente, entender como esses processos 
foram narrados na historiografia é crucial para perceber como o 
Brasil percebeu e registrou sua própria evolução.
Ao pensar na industrialização brasileira, não podemos 
deixar de considerar o papel das oligarquias cafeeiras, 
principalmente paulistas, que investiram na industrialização como 
uma forma de diversificar a economia e manter seu domínio 
político (Fausto, 1995). Essa relação intrínseca entre o café e a 
indústria moldou a percepção de que a modernização brasileira, 
particularmente em São Paulo, estava atrelada ao sucesso da 
cafeicultura (Stein, 1990).
No entanto, as narrativas sobre essa industrialização, 
muitas vezes, foram marcadas por uma visão ufanista. Segundo 
Carvalho (2008), em diversos momentos da historiografia, a 
modernização foi celebrada como uma espécie de “redenção” para 
o país, um caminho inevitável rumo ao progresso e à superação 
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de um passado colonial e agrário. Esse otimismo, contudo, 
frequentemente negligenciava as profundas desigualdades 
sociais, as tensões urbanas e a exclusão de parcelas significativas 
da população dos benefícios desse progresso.
IMPORTANTE
A narrativa histórica sobre a industrialização e a 
modernização brasileiras foi, e ainda é, palco de 
intensos debates. Esses processos, tãocentrais na 
formação do Brasil contemporâneo, continuam 
sendo reinterpretados à luz de novas perspectivas 
e descobertas acadêmicas.
A modernização, por sua vez, também foi interpretada 
como um processo de “ocidentalização” ou “europeização” do 
Brasil. Segundo Schwartz (1988), a ideia de “civilização” esteve 
fortemente atrelada a padrões europeus, e a modernização era 
vista como uma maneira de o Brasil se aproximar desses padrões, 
deixando para trás sua “barbárie” tropical e mestiça.
Essa perspectiva, todavia, foi questionada nas últimas 
décadas do século XX. Historiadores passaram a analisar a 
modernização não apenas como um processo de “imitação” da 
Europa, mas como um fenômeno genuinamente brasileiro, com 
seus conflitos, suas especificidades e sínteses culturais (Holanda, 
1995).
A historiografia brasileira sobre a industrialização e a 
modernização é vasta e diversificada. Ao longo do tempo, 
diferentes autores contribuíram para a construção e a revisão 
dessa narrativa, cada um com suas perspectivas, fontes e 
metodologias. Vamos destacar alguns desses intelectuais que 
foram fundamentais para a compreensão desses processos em 
suas múltiplas dimensões.
 • Caio Prado Júnior: um dos grandes marcos da 
historiografia brasileira, Prado Júnior, em sua obra 
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“Formação do Brasil contemporâneo” (1942), apresentou 
uma análise econômica e social da colonização 
portuguesa, enfatizando o caráter predatório e 
mercantil dessa relação. Ao analisar o desenvolvimento 
do Brasil, ele levou em consideração a base agrário-
exportadora e sua relação com a formação social 
brasileira, dando destaque para a questão da terra e 
do trabalho escravo (Prado Júnior, 1942).
 • Sérgio Buarque de Holanda: em “Raízes do Brasil” 
(2015), Holanda discutiu a formação da sociedade 
brasileira, contrapondo a herança ibérica e as 
particularidades tropicais. Seu conceito de “homem 
cordial” tornou-se amplamente debatido, sendo uma 
referência para entender as relações sociais no Brasil. 
Ao longo de sua obra, ele também refletiu sobre o 
urbanismo, a modernização e o ethos nacional, criando 
um diálogo com as transformações do século XX.
 • Celso Furtado: economista e historiador, Furtado foi 
fundamental para compreender o desenvolvimento 
econômico brasileiro. Em “Formação econômica do 
Brasil” (1959), ele analisa a evolução da economia 
desde a colonização até meados do século XX. Sua 
obra destaca a interação entre os ciclos econômicos 
e a formação de uma estrutura produtiva dependente 
e periférica, o que se relaciona diretamente com os 
desafios da industrialização (Furtado, 2007).
 • Eunice Ribeiro Durham: antropóloga de formação, 
Durham trouxe contribuições significativas sobre a 
modernização brasileira. Seus estudos, centrados 
principalmente na urbanização e nas mudanças sociais 
decorrentes desse processo, são essenciais para 
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entender como a industrialização afetou as relações 
sociais e culturais no Brasil (Durham, 1984).
A pluralidade desses autores e as suas contribuições 
mostram a riqueza da historiografia brasileira sobre industrialização 
e modernização. Eles proporcionaram ferramentas analíticas para 
entender um país em constante transformação, marcado por 
contrastes e desafios.
Redemocratização e renovação 
historiográfica: a busca por vozes 
silenciadas
O processo de redemocratização brasileiro, que marcou o 
fim do regime militar e a abertura política, trouxe consigo intensas 
mudanças não apenas no campo político, mas também no âmbito 
da historiografia nacional. Como afirma Schwarcz (1997), a 
historiografia é influenciada pelo contexto no qual está inserida, e 
a redemocratização permitiu uma maior liberdade de expressão, 
de crítica e de interpretação que foi prontamente assimilada pelos 
historiadores.
Os movimentos sociais e a resistência democrática que 
se fortaleciam durante a redemocratização clamavam por novas 
narrativas, que incluíssem aqueles que haviam sido historicamente 
marginalizados pela historiografia tradicional (Schwarcz, 1998).
Nesse novo cenário, surgiu uma crítica profunda ao 
eurocentrismo, que caracterizava grande parte da historiografia 
brasileira. Como Gomes (2000) salienta, a necessidade de 
desconstruir essa visão europeizada e elitista da história do Brasil 
tornou-se imperativa, abrindo espaço para novas interpretações e 
abordagens.
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A revisão da historiografia brasileira passou a considerar 
temas e perspectivas antes negligenciados, reconhecendo a 
complexidade e a diversidade da sociedade brasileira. (Gomes, 
1996).
No campo da pesquisa, temas como a história dos 
indígenas, afro-brasileiros, mulheres e comunidades LGBTQIA+ 
começaram a ganhar relevância. Estudos subalternos e a história 
oral surgiram como ferramentas metodológicas essenciais nesse 
processo, pois, como aponta Meihy (2002), essas abordagens 
procuram dar voz àqueles que, tradicionalmente, não a tinham 
nos relatos históricos.
A história oral tornou-se uma ferramenta valiosa na busca 
por testemunhos e experiências que desafiavam a narrativa 
histórica oficial (Meihy, 2002).
O resgate de tais narrativas silenciadas não foi uma 
tarefa simples. Demandou a busca meticulosa por documentos, 
testemunhos e outros registros, muitas vezes negligenciados ou 
menosprezados pela historiografia dominante. As universidades 
desempenharam um papel crucial, sendo espaços nos quais de 
novos grupos de pesquisa emergiram e nos quais a renovação 
historiográfica encontrou seu maior apoio.
Desse modo, podemos compreender que o processo de 
redemocratização desencadeou uma intensa renovação no campo 
da historiografia brasileira. Uma renovação que não se limitou 
a reinterpretações, mas que buscou ativamente incluir vozes e 
perspectivas historicamente silenciadas, contribuindo para uma 
compreensão mais rica, diversa e inclusiva da história brasileira. A 
busca dessas vozes transformou-se em um legado historiográfico 
vital, que molda e enriquece a pesquisa histórica até os dias atuais.
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SAIBA MAIS
Aprofunde ainda mais os seus estudos lendo o 
artigo “A história da historiografia no Brasil, 1940-
1970: apontamentos sobre sua escrita”. Nele você 
encontrará informações relevantes, que ampliarão 
ainda mais os seus conhecimentos. Para ter acesso, 
basta clicar aqui.
http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300912250_ARQUIVO_ANPUH2011TextoRebecaGontijo.pdf
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RESUMINDO
E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu 
mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de 
que você realmente entendeu o tema de estudo 
deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. 
Você deve ter aprendido que a historiografia 
brasileira é um campo vasto e em constante 
transformação, influenciada diretamente por 
marcos históricos significativos que moldaram a 
nação. Na primeira parte, abordamos a formação 
da historiografia nacional, destacando a influência 
da Independência e do Período Imperial. 
Observamos como os primeiros historiadores 
se dedicaram a criar uma narrativa fundacional 
e como a história foi utilizada como ferramenta 
política durante o Império, refletindo tensões entre 
centralização e regionalismo e o papel central da 
escravidão nas narrativas históricas. Avançando no 
tempo, discutimos como os eventos da Abolição, 
a crescente industrialização e a modernização do 
país afetaram a escrita da história. Esses processos 
levaram a novas interpretações e à necessidade 
de integrar diferentes vozes na narrativa 
histórica, bem como de destacar contribuições 
significativas de historiadores que refletiram 
sobre essas transformações. Por fim, analisamos 
o período de redemocratização, momento em 
que a historiografia brasileira passou por uma 
renovação significativa. Esse foi o momento de 
resgatar as vozes que haviam sido silenciadas 
ao longodo tempo – grupos indígenas, afro-
brasileiros, mulheres, comunidades LGBTQIA+ 
e outros. A academia desempenhou um papel 
crucial nessa renovação, promovendo a inclusão 
e a diversificação das narrativas. Esperamos que, 
com este capítulo, você tenha adquirido uma 
compreensão mais profunda e apreciativa dessas 
complexas dinâmicas historiográficas.
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Metodologias e teorias 
utilizadas pelos historiadores 
brasileiros
OBJETIVO
Ao término deste capítulo, você será capaz 
reconhecer os diferentes enfoques teóricos e 
metodológicos utilizados pelos historiadores 
brasileiros, compreendendo teorias 
historiográficas, práticas e ferramentas de 
pesquisa. E então? Motivado para desenvolver esta 
competência? Vamos lá. Avante!
Evolução metodológica na 
historiografia brasileira
A historiografia, enquanto ciência que estuda a escrita 
da História, possui raízes profundas e variadas em diferentes 
contextos nacionais. No Brasil, esse exercício de compreender, 
relatar e interpretar o passado teve suas especificidades, moldadas 
por uma história rica e, muitas vezes, controversa.
As primeiras tentativas de documentar a história do Brasil 
podem ser rastreadas até os primeiros relatos dos colonizadores. 
Durante o período colonial, a escrita da história foi, em grande 
medida, conduzida por missionários, viajantes e funcionários 
da Coroa portuguesa. Esses relatos, como aponta Capistrano 
de Abreu (1988), muitas vezes eram descritivos, centrando-se 
nas maravilhas naturais do “novo mundo” e nas tentativas de 
catequizar os indígenas, com um tom muitas vezes etnocêntrico.
Os primeiros relatos, como os de Pero Vaz de Caminha, 
descrevendo o encontro entre europeus e nativos, inauguram a 
tradição historiográfica brasileira, embora de forma rudimentar 
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e com clara influência europeia (Caminha, 1500). O cronista 
português, em sua famosa carta ao rei de Portugal, não somente 
narra os primeiros contatos, mas também estabelece uma 
narrativa que viria a influenciar a percepção sobre a terra e seu 
povo durante os séculos subsequentes.
No século XVIII, com o surgimento de uma intelectualidade 
crioula e o desenvolvimento de instituições educacionais nas 
principais cidades coloniais, houve uma tentativa de se estabelecer 
uma identidade brasileira mais coesa. Autores como Frei 
Vicente do Salvador (1627) começam a fornecer narrativas mais 
sistematizadas, embora ainda influenciadas por preconceitos e 
visões eurocêntricas.
Contudo, é no século XIX, após a Independência, que 
a historiografia brasileira começa a ganhar contornos mais 
definidos e uma abordagem crítica, influenciada por correntes 
historiográficas europeias. A busca por uma identidade nacional 
autônoma torna-se imperativa. Conforme sinaliza José Honório 
Rodrigues (1979), os historiadores desse período buscavam uma 
identidade que, ao mesmo tempo, respeitasse as tradições e 
projetasse um futuro promissor para a nação recém-formada.
IMPORTANTE
As origens da historiografia brasileira foram 
marcadas por influências externas, mas também 
por esforços endógenos em busca de uma 
identidade própria e de uma narrativa que fizesse 
jus à complexidade e à diversidade da formação 
do Brasil.
O século XX, sem dúvida, representou um ponto de 
inflexão na historiografia brasileira. Se, nos séculos anteriores, 
a escrita da história estava profundamente imbuída de uma 
perspectiva eurocêntrica e, por vezes, elogiosa em relação à 
colonização, o século XX trouxe consigo novas abordagens, 
42 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA
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influências teóricas e uma crescente complexidade no modo de 
abordar o passado brasileiro.
Inicialmente, é impossível falar sobre o início do século 
XX sem mencionar a atuação do Instituto Histórico e Geográfico 
Brasileiro (IHGB). Esse organismo, ainda no século XIX, estabeleceu 
as bases do que se convencionou chamar de “história oficial”, com 
uma visão ufanista e, por vezes, elitista da trajetória brasileira 
(Mota, 1974).
Contudo, a primeira metade do século XX viu o surgimento 
de vozes dissonantes, que começaram a questionar essa narrativa 
dominante. Caio Prado Jr. (1933), por exemplo, foi pioneiro em 
propor uma interpretação marxista da História brasileira. Em 
sua obra “Evolução política do Brasil”, ele interpreta a dinâmica 
colonial não apenas como um desdobramento de aventuras 
europeias, mas como um processo intrínseco ao desenvolvimento 
do capitalismo. Essa abordagem materialista da história se tornou 
fundamental para os estudos subsequentes.
Imagem 1.5 – Escrita da história
Fonte: Freepik
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Outro ponto crucial do século XX foi a crescente 
valorização dos estudos regionais e das especificidades locais. 
Contrapondo-se a uma história centralizadora, autores como 
Capistrano de Abreu e Sérgio Buarque de Holanda deram 
grande ênfase às singularidades regionais e à multiplicidade de 
experiências no território brasileiro (Holanda, 2015).
A segunda metade do século, especialmente após a 
redemocratização, viu uma explosão de novas abordagens e temas 
até então negligenciados. O papel das mulheres, dos negros, 
dos indígenas e de outros grupos marginalizados na narrativa 
tradicional começou a ganhar destaque. A influência dos Annales 
e a virada linguística também influenciaram a historiografia 
brasileira, trazendo novas questões e novos métodos de análise.
A revolução dos micro-históricos e 
estudos locais
A ascensão dos estudos micro-históricos na historiografia 
brasileira sinalizou uma significativa mudança de paradigma nas 
últimas décadas do século XX. Abandonando as grandes narrativas 
e as explicações universais, a micro-história, oriunda, em grande 
parte, dos debates historiográficos europeus – especialmente 
da escola italiana –, buscou compreender a complexidade das 
experiências humanas em uma escala reduzida e específica.
VOCÊ SABIA?
A revolução micro-histórica no Brasil foi uma 
resposta a um anseio de renovação teórica e 
metodológica, proporcionando uma compreensão 
mais rica, detalhada e, em muitos aspectos, mais 
próxima da realidade vivida por diferentes sujeitos 
ao longo da história brasileira.
No Brasil, essa abordagem encontrou terreno fértil, 
especialmente porque, como já apontado anteriormente, o século 
44 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA
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XX foi marcado por uma valorização dos estudos regionais e 
das singularidades locais. A micro-história, nesse contexto, veio 
reforçar essa tendência, focando não apenas em regiões, mas 
também em pequenas comunidades, famílias e até mesmo em 
indivíduos (Revel, 1998).
Um dos marcos dessa abordagem no contexto brasileiro 
foi a valorização das fontes até então consideradas menores 
ou secundárias, como cartas, testamentos, processos judiciais 
e registros paroquiais. Esses documentos, antes relegados a 
segundo plano, tornaram-se centrais para compreender a vida 
cotidiana, as relações sociais, as tensões e as negociações locais 
(Ginzburg, 1989).
Autores como Manoel Luís Salgado Guimarães, por 
exemplo, dedicaram-se a entender as peculiaridades do Rio de 
Janeiro no século XIX a partir de uma perspectiva micro-histórica, 
investigando, entre outros temas, os conflitos urbanos, a vida nas 
ruas e as formas de sociabilidade (Guimarães, 1995).
O impacto dos estudos micro-históricos foi além da 
simples valorização do local: eles proporcionaram uma revisão 
das categorias de análise, das escalas e dos próprios métodos da 
disciplina histórica. Abriu-se espaço para se questionar as grandes 
narrativas e, sobretudo, para dar voz a sujeitos historicamente 
silenciados, como mulheres, negros, indígenas e outras minorias.
 A era digital e novas metodologias
A chegada da era digital trouxe não apenas novos 
instrumentos e meios para a pesquisa histórica, mas também 
propôs desafios e ampliou os horizontes metodológicos da 
historiografia brasileira. A digitalização de documentos,a criação 
de repositórios on-line e a emergência das humanidades digitais 
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ressignificaram o modo como o historiador interage com suas 
fontes e apresenta suas pesquisas ao público (Schwartz, 2011).
Se, anteriormente, o acesso a muitos documentos 
e arquivos era limitado pela distância geográfica ou pela 
disponibilidade física, a era digital democratizou esse acesso. 
Repositórios como o Arquivo Nacional ou a Biblioteca Nacional 
Digital tornaram milhares de páginas de documentos disponíveis 
para pesquisadores e entusiastas da história de qualquer lugar do 
Brasil ou do mundo (Fonseca, 2015).
Porém, essa massiva disponibilidade digital de fontes 
também trouxe desafios. A imensa quantidade de informação 
requer novas habilidades do historiador, que precisa, agora, 
de conhecimentos básicos em informática e, por vezes, em 
programação. A “mineração” desses dados, ou seja, a habilidade 
de extrair de grandes conjuntos de dados padrões, relações e 
informações relevantes, tornou-se fundamental (Burke, 2013).
Neste novo cenário, a interdisciplinaridade da história 
com áreas como a estatística e a ciência da computação tem 
ganhado relevância. As humanidades digitais emergem como um 
campo que busca entender como as novas tecnologias podem 
ser empregadas em benefício da pesquisa histórica, e como 
estas, por sua vez, transformam a própria natureza do trabalho 
historiográfico (Almeida, 2018).
Além das transformações no âmbito da pesquisa, 
a era digital também alterou a forma como a história é 
comunicada. Plataformas de mídia social, blogs acadêmicos e 
websites especializados têm permitido uma difusão mais ampla 
e democrática do conhecimento histórico, aproximando o 
historiador do público geral e permitindo um diálogo mais direto 
com a sociedade (Silva, 2017).
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Sem dúvidas, a era digital inaugurou uma nova fase na 
historiografia brasileira, marcada por desafios metodológicos, 
mas também por imensas possibilidades. O historiador do século 
XXI, mais do que nunca, precisa ser versátil, aberto a novas 
ferramentas e atento às constantes transformações do mundo 
digital.
Teorias historiográficas em foco
As teorias historiográficas não são simplesmente meios 
pelos quais os historiadores dão sentido ao passado, mas também 
são reflexos das questões e preocupações predominantes em 
diferentes momentos históricos. Compreender as várias teorias é 
essencial para qualquer historiador, pois elas moldam a maneira 
como o passado é entendido, interpretado e apresentado 
(Cardoso, 1997).
Desde os primórdios da escrita da história, com Heródoto 
e Tucídides, já se pode observar uma preocupação em distinguir 
uma narrativa verídica dos simples relatos e mitos. Porém, é a 
partir da modernidade que a história começa a ser vista como 
uma ciência, com métodos e teorias próprios, que buscam 
compreender a complexidade da experiência humana ao longo 
do tempo (Burke, 1992).
IMPORTANTE
No Brasil, a historiografia acompanhou as 
tendências internacionais, mas também 
desenvolveu características próprias, reflexo dos 
desafios e das particularidades do país.
O século XIX, por exemplo, foi dominado por uma visão 
positivista da história, que buscava identificar leis universais do 
progresso humano. Essa visão, contudo, foi contestada e revisada 
ao longo do século XX, quando novas teorias historiográficas 
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começaram a enfatizar a complexidade, a diversidade e os aspectos 
culturais e sociais da experiência histórica (Prado Jr., 1996).
As teorias historiográficas, portanto, fornecem as lentes 
por meio das quais os historiadores interpretam o passado. E, 
assim como um artesão precisa conhecer bem suas ferramentas 
para produzir seu trabalho, o historiador precisa estar ciente 
das teorias disponíveis e de como elas podem ser aplicadas para 
analisar e entender o passado (Ginzburg, 1989).
 • O positivismo e a história “científica”
No século XIX, o positivismo, teoria proposta por Auguste 
Comte, dominou o pensamento historiográfico, propondo uma 
visão “científica” da história. Essa abordagem buscava afastar-se 
das narrativas meramente literárias ou teológicas, valorizando 
a busca por leis universais e invariáveis que governariam o 
progresso humano (Comte, 1851). No Brasil, a influência positivista 
na historiografia pode ser observada em obras de autores como 
Euclides da Cunha, que, em sua célebre obra “Os sertões”, tentou 
combinar observação direta com uma análise teórica rigorosa 
(Cunha, 1902).
 • O marxismo e a história como luta de classes
Com Karl Marx, a historiografia ganhou uma nova 
perspectiva: a história como resultado da luta de classes. Essa 
teoria defende que as relações econômicas são a base sobre 
a qual se estruturam todas as outras relações sociais e que a 
luta entre classes opressoras e oprimidas é o motor da história 
(Marx; Engels, 1848). No Brasil, historiadores como Caio Prado 
Jr. e Florestan Fernandes adotaram e adaptaram a perspectiva 
marxista para interpretar a formação socioeconômica brasileira 
(Prado Jr., 1942; Fernandes, 1975).
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Imagem 1.6 – Marxismo e luta de classes
Fonte: Freepik
 • A escola dos Annales e a história total
O movimento historiográfico surgido na França na década 
de 1920, conhecido como escola dos Annales, propôs uma 
ruptura com a história tradicional, centrada em eventos políticos e 
individuais. Liderados por Marc Bloch e Lucien Febvre, os Annales 
defendiam uma “história total”, interdisciplinar, que considerasse 
todos os aspectos da sociedade: geografia, economia, cultura, entre 
outros (Bloch, 2002). A influência dessa escola pode ser percebida 
em autores brasileiros como Sérgio Buarque de Holanda, que, em 
“Raízes do Brasil”, buscou analisar o caráter singular da formação 
brasileira sob diversas perspectivas (Holanda, 2015).
 • Micro-história: a importância do pequeno
A micro-história emergiu como uma resposta às grandes 
narrativas, defendendo que, ao se focar em pequenas unidades 
– seja um evento, um indivíduo ou uma comunidade –, podemos 
obter insights mais profundos sobre estruturas sociais maiores 
(Levi, 1991). Contrapondo-se à história total, a micro-história 
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busca entender os processos históricos a partir da experiência 
do “comum”, do “pequeno”, do “individual”. No Brasil, autores 
como Manolo Florentino e João José Reis têm empregado essa 
abordagem para estudar, por exemplo, o cotidiano da escravidão 
urbana no século XIX (Reis; Florentino, 1997).
 • História cultural e as novas abordagens
A história cultural surge como uma maneira de examinar as 
culturas e subculturas por meio de suas práticas e de seus discursos, 
considerando fenômenos tão variados quanto festas, rituais, arte, 
literatura e muito mais (Chartier, 1990). Essa abordagem expandiu 
os horizontes da historiografia ao enfatizar a importância das 
representações e dos significados na construção dos fenômenos 
históricos. No contexto brasileiro, a história cultural tem sido uma 
ferramenta valiosa para estudar aspectos da cultura popular, a 
identidade nacional e a formação de subculturas, como abordado 
nas obras de Márcia Abreu sobre a circulação de literatura no 
Brasil imperial (Abreu, 1999).
Essas duas últimas correntes historiográficas, micro-
história e história cultural, trouxeram novos desafios e 
possibilidades para a prática da história. Elas oferecem maneiras 
inovadoras de entender o passado, enfocando a vida cotidiana, 
as experiências individuais e as manifestações culturais que 
moldaram as sociedades ao longo do tempo. Ao focar no 
“pequeno” e no “cultural”, os historiadores têm a capacidade de 
trazer à luz aspectos da história que muitas vezes são esquecidos 
ou marginalizados nas grandes narrativas.
Práticas e ferramentas de 
pesquisa
No universo historiográfico, a pesquisa é o pilarcentral 
para a construção do conhecimento. Não se trata apenas de 
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coletar dados, mas de uma jornada investigativa que exige rigor, 
método e criatividade (Cardoso, 1997). E, no decurso da evolução 
da disciplina histórica, as práticas e ferramentas de pesquisa têm 
se transformado e se diversificado.
IMPORTANTE
As práticas e ferramentas de pesquisa na 
historiografia refletem as mudanças teóricas e 
metodológicas da disciplina ao longo do tempo. A 
diversidade de fontes e de metodologias permite 
aos historiadores explorar novos horizontes e 
abordar temas antes negligenciados, enriquecendo 
nosso entendimento sobre o passado.
No período clássico da historiografia, o arquivo e o 
documento escrito eram quase sinônimos de pesquisa histórica. 
Como afirmou Lucien Febvre (1982), para o historiador, o 
documento escrito era “a matéria-prima por excelência”. No 
entanto, essa perspectiva começou a mudar, principalmente com 
a escola dos Annales, quando a noção de documento foi ampliada 
para incluir desde registros orais até artefatos e paisagens (Le 
Goff, 1984).
O advento da História Oral no século XX trouxe consigo 
a valorização do testemunho oral como fonte histórica (Portelli, 
1997). No Brasil, a utilização da história oral ganhou espaço com 
pesquisadores como Verena Alberti, que estudou movimentos 
sociais e políticos por meio dos relatos de seus protagonistas 
(Alberti, 2004). Essa metodologia permite não só recuperar vozes 
historicamente silenciadas, mas também entender os processos 
de construção da memória.
Com a era digital, as ferramentas de pesquisa foram 
novamente ampliadas. Bancos de dados on-line, softwares de 
análise textual e plataformas de mapeamento digital se tornaram 
instrumentos valiosos para o historiador moderno (Zimmermann, 
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2013). Essas ferramentas, como o software GIS para análises 
espaciais, permitem uma visualização dinâmica de processos 
históricos ao longo do tempo e do espaço.
SAIBA MAIS
Conheça um pouco mais sobre o IHGB – Instituto 
Histórico e Geográfico Brasileiro – consultando a 
página dele. Nela são disponibilizados artigos e 
vários outros documentos que ampliarão ainda 
mais os seus conhecimentos. Para ter acesso, 
basta clicar aqui.
RESUMINDO
E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu 
mesmo tudinho? O capítulo 3 nos levou por uma 
fascinante jornada pelas metodologias e teorias 
que moldaram a historiografia brasileira. Agora, 
só para termos certeza de que você realmente 
entendeu o tema de estudo deste capítulo, 
vamos resumir tudo o que vimos. Você deve 
ter aprendido que a evolução metodológica na 
historiografia brasileira não foi um caminho linear, 
mas uma série de transformações e adaptações. 
Desde os primeiros registros históricos, que eram 
fortemente influenciados por padrões europeus, 
até as abordagens mais contemporâneas, 
que valorizam vozes locais e metodologias 
inovadoras, a pesquisa histórica brasileira 
tem demonstrado sua resiliência e capacidade 
de renovação. As teorias historiográficas 
exercem um papel crucial na maneira como 
entendemos e interpretamos o passado.
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Discutimos importantes correntes teóricas como 
o positivismo, que buscava tornar a história uma 
ciência rigorosa; o marxismo, com sua ênfase na 
luta de classes; a escola dos Annales e sua visão 
holística da história; a micro-história, que destaca 
o papel de indivíduos e de comunidades pequenas, 
e a história cultural, que se concentra nas 
expressões culturais e seus significados. E, por fim, 
exploramos as diversas práticas e ferramentas de 
pesquisa disponíveis para os historiadores. Desde 
os tradicionais arquivos e documentos escritos 
até entrevistas orais e softwares de análise digital, 
a caixa de ferramentas do historiador moderno é 
vasta e variada. A tecnologia, em particular, oferece 
novas oportunidades e novos desafios, permitindo 
uma análise mais aprofundada e a visualização 
de dados de maneiras antes impensáveis. 
Esperamos que esta viagem pelo mundo das 
metodologias e das teorias historiográficas tenha 
enriquecido sua compreensão sobre o vasto e 
dinâmico campo da historiografia brasileira. E 
lembre-se: a história está sempre em construção 
e é nossa responsabilidade, como estudiosos e 
entusiastas, continuar explorando, questionando 
e reimaginando o passado.
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Principais correntes 
historiográficas no Brasil
OBJETIVO
Ao término deste capítulo, você será capaz de 
entender as principais correntes historiográficas 
no Brasil e suas contribuições para a compreensão 
do passado brasileiro. E então? Motivado para 
desenvolver esta competência? Vamos lá. Avante!
Das instituições às relações 
sociais: tradição institucionalista e 
historiografia marxista
A historiografia brasileira, ao longo do tempo, foi 
influenciada por diversas correntes historiográficas. Cada uma 
delas trouxe diferentes métodos, teorias e abordagens que 
moldaram a maneira como o passado brasileiro foi pensado e 
interpretado.
Ao adentrarmos o universo da historiografia brasileira, é 
impossível não se deparar com duas das mais robustas e influentes 
tradições: a institucionalista e a marxista.
IMPORTANTE
Essas tradições, cada uma com sua especificidade e 
proposta, refletem diferentes formas de entender 
e de interpretar o complexo campo da história 
brasileira.
Vejamos as principais características de cada uma delas:
A tradição institucionalista, ao longo da trajetória 
historiográfica brasileira, sempre carregou a herança de evidenciar 
como as instituições – desde as jurídicas até as educacionais – 
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foram fundamentais na construção e na consolidação do Estado 
nacional. Essa abordagem, ao analisar a história brasileira, não se 
limita a compreender as instituições como entidades burocráticas, 
e sim como manifestações vivas da cultura, dos valores e das 
aspirações da sociedade brasileira.
Uma característica marcante da tradição institucionalista 
é a sua capacidade de vincular a formação das instituições aos 
processos mais amplos de formação do Estado e da sociedade 
brasileira. Nesse sentido, Carvalho (2002) destaca que as 
instituições não são apenas moldadas por influências externas 
ou imposições, mas também são fruto de escolhas internas, de 
debates e de tensões políticas e sociais.
O legado dessa abordagem é amplo e diversificado. 
Por meio dele, foi possível mapear os momentos-chave na 
consolidação do Estado brasileiro, como a Proclamação da 
República, a Era Vargas e o período democrático posterior a 1985. 
Além disso, ele fornece um entendimento das raízes históricas de 
diversas práticas e costumes que permeiam a sociedade brasileira 
até os dias de hoje.
Outra contribuição essencial dessa tradição foi a 
valorização da pesquisa em arquivos, documentos oficiais e fontes 
primárias. Esse método, empregado por diversos historiadores 
institucionalistas, permitiu não só a reconstituição detalhada de 
períodos históricos, mas também o resgate de vozes, discursos e 
de práticas muitas vezes esquecidas pela historiografia dominante.
A rica produção dentro dessa tradição também 
inclui estudos sobre a construção da cidadania no Brasil, as 
transformações e permanências nas estruturas políticas, bem 
como a influência das instituições na formação da identidade 
nacional. Como Faoro (2001) observa em sua obra monumental, a 
relação entre Estado e sociedade no Brasil possui peculiaridades 
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que só podem ser plenamente compreendidas por meio do estudo 
minucioso das instituições e de seu legado.
Já a historiografia marxista, fundamentada na obra de Karl 
Marx e Friedrich Engels, trouxe uma abordagem revolucionária 
para a interpretação dos eventos históricos. Centrada na ideia da 
luta de classes como motor da história, a historiografia marxistaanalisa os fenômenos sociais e psicológicos por meio da dialética 
materialista, um método que compreende a sociedade a partir das 
relações de produção e das contradições entre as classes sociais.
No Brasil, essa abordagem foi fundamental para desvendar 
a complexidade das relações sociais ao longo de sua história, 
principalmente no que tange a questões de trabalho, escravidão 
e relações de poder. Florestan Fernandes (1975), em seus 
estudos pioneiros, buscou compreender a transição da sociedade 
escravocrata para a sociedade capitalista no Brasil, destacando a 
persistência de antigas estruturas de dominação e de exploração 
em novos contextos.
VOCÊ SABIA?
A tradição institucionalista na historiografia 
brasileira valorizou a pesquisa em arquivos, 
documentos oficiais e em fontes primárias. 
Ao adotar esse método, os historiadores 
institucionalistas não apenas reconstituíram 
detalhadamente períodos históricos, mas também 
resgataram vozes, discursos e práticas muitas 
vezes esquecidas pela historiografia dominante. 
Isso permitiu uma compreensão mais abrangente e 
autêntica das experiências passadas, contribuindo 
para uma visão mais completa da formação das 
instituições e da sociedade brasileira como um 
todo.
A dialética, como método de análise, permite identificar as 
contradições inerentes ao sistema capitalista e suas manifestações 
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concretas na sociedade. Em outras palavras, a história não é vista 
como uma sucessão linear de eventos, mas como um processo 
de transformações impulsionadas pelas lutas intensas entre as 
classes dominantes e dominadas. Para EP Thompson (1987), a 
experiência da classe trabalhadora, por exemplo, não pode ser 
compreendida sem se levar em conta a totalidade das relações 
sociais e reduzidas que a moldam.
Além disso, a historiografia marxista trouxe ao debate 
a necessidade de se analisar a formação das classes sociais no 
Brasil, como os camponeses rurais, os operários urbanos e os 
intelectuais comprometidos com a transformação social. Como 
aponta Ridenti (1993), a análise marxista permitiu uma reflexão 
profunda sobre a cultura e a ideologia, mostrando como as 
representações testemunhadas são também campos de luta e de 
construção de hegemonia.
Contudo, vale ressaltar que, apesar de sua influência, a 
historiografia marxista no Brasil não foi monolítica. Existiram e 
ainda existem intensos debates entre os próprios marxistas sobre 
a aplicabilidade e a interpretação de certos conceitos no contexto 
brasileiro, como o de “revolução passiva” ou a especificidade do 
nosso “modo de produção”.
Diante disso, é preciso destacar que as correntes 
historiográficas são construídas ao longo do tempo, em meio a 
contextos sociais, políticos e culturais específicos, e, portanto, 
carregam consigo perspectivas que refletem tais contextos. 
Ao considerarmos a tradição institucionalista e a historiografia 
marxista, é evidente que ambas trouxeram contribuições para a 
historiografia brasileira. No entanto, elas também apresentam 
pontos notáveis de divergência em suas abordagens e premissas.
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Como pontos de convergência, podemos citar:
 • Tanto a tradição institucionalista quanto a historiografia 
marxista reconhecem a importância do Estado e 
das instituições na formação social e política do 
Brasil. A atenção às estruturas estatais e à evolução 
das instituições brasileiras é uma característica 
comum a ambos. Como Fausto (1995) observa, 
independentemente da perspectiva adotada, a história 
brasileira é fortemente marcada pelas intervenções 
estatais e pela dinâmica de suas instituições ao longo 
do tempo.
 • Ambas as correntes buscam entender as especificidades 
da formação social brasileira. Seja por meio da análise 
das instituições e de seu papel na construção da 
nação (tradição institucionalista), seja pelo estudo 
das relações de classe e das contradições inerentes 
ao desenvolvimento socioeconômico (historiografia 
marxista). Segundo Ianni (1988), a sociedade brasileira 
é atravessada por uma multiplicidade de fatores que 
só podem ser compreendidos quando considerados 
em conjunto, independentemente da corrente 
historiográfica.
Como pontos divergentes, podemos enfatizar:
 • A principal divergência entre as duas correntes está na 
identificação do que impulsionou a história. Enquanto a 
tradição institucionalista dá ênfase às instituições e ao 
papel das elites na condução dos processos históricos, 
a historiografia marxista, ancorada na dialética 
materialista, enxerga a luta de classes como o motor 
da história. A formação econômica, a propriedade 
dos meios de produção e as relações de trabalho são 
58 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA
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elementos centrais na análise marxista, ao passo que, 
para a tradição institucionalista, as práticas e políticas 
estatais e institucionais mantêm maior relevância.
 • A tradição institucionalista costuma adotar uma 
abordagem mais descritiva, focando na evolução 
das instituições e na trajetória das elites políticas. Já 
a historiografia marxista utiliza o método dialético, 
priorizando as contradições socioeconômicas e o 
sofrimento entre as classes. Para Prado Jr. (1942), por 
exemplo, o desenvolvimento brasileiro é marcado por 
uma série de contradições que se manifestam nas 
relações de classe e nas emoções fortes.
Implicações para a compreensão do 
passado brasileiro
Ao analisarmos as correntes historiográficas que 
permeiam a compreensão da história brasileira, nós partimos 
com um mosaico de interpretação e leituras: cada uma oferece 
perspectivas singulares e, muitas vezes, complementares. Ambas 
as correntes – tradição institucionalista e historiografia marxista 
–, ao iluminarem diferentes facetas do passado, têm referências 
significativas para nossa compreensão do Brasil.
Primeiramente, por meio da tradição institucionalista, 
é evidente que as instituições brasileiras, sejam elas políticas, 
jurídicas ou sociais, são vividas de forma voluntária. São fruto de 
contextos históricos específicos e de disputas de poder. Como 
Freitas (2002) argumenta, a continuidade de certas práticas e a 
perpetuação de determinadas estruturas, muitas vezes, refletem 
a resiliência das elites brasileiras em manter sua influência.
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IMPORTANTE
As instruções dessas correntes para a 
compreensão do passado brasileiro vão além de 
mera divergência teórica. Elas são fundamentais 
para entender as intrincadas tramas de poder, 
resistência e formação que moldaram e continuam 
a moldar a nação.
No entanto, é preciso também considerar as críticas 
levantadas pela historiografia marxista, que, ao trazer as classes 
subalternas para o centro da análise, desafia muitas das narrativas 
protegidas. Gomes (1990) sugere que a história brasileira é repleta 
de resistências, reviravoltas e subversões e que as tensões de 
classe não podem ser negligenciadas ao buscar-se compreender 
a trajetória do país.
Essas correntes, em sua interação, mostram que a 
história brasileira é um campo de tensão e que as simplificações 
ou generalizações são merecidas. Além disso, é por meio desse 
diálogo entre as diferentes abordagens que emergem os matizes 
e as complexidades inerentes à experiência brasileira. Segundo 
Alencastro (2000), o Brasil, em sua multiplicidade, desafia as 
categorias tradicionais e exige uma abordagem que acolha sua 
diversidade e suas especificidades.
Cultura e cotidiano: entre a 
história social e a história cultural
No cenário da historiografia brasileira, observa-se, desde 
o século XX, uma marcante efervescência de correntes teóricas 
e metodológicas. Em especial, duas abordagens destacam-se 
pelo seu pioneirismo e sua profundidade: a história social e a 
história cultural. Ambas emergem como respostas aos desafios 
de interpretar uma nação tão diversa e complexa como o Brasil 
60 HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA
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e ambas trazem consigo particularidadese contribuições 
essenciais.
Vejamos.
A história social emergiu como um contraponto à história 
política tradicional, buscando descentralizar o olhar e abordar o 
cotidiano, as lutas e as tensões presentes na sociedade. E quais 
seriam as suas características marcantes e por que ela se tornou 
tão relevante no contexto brasileiro?
Primeiramente, a história social coloca em evidência os 
sujeitos historicamente marginalizados, dando voz a classes, 
grupos e setores que tradicionalmente eram eclipsados pela 
narrativa dominante. Como bem aponta Thompson (1981), a 
experiência é fundamental na compreensão da história social, na 
medida em que resgata sensações, sentimentos e perspectivas 
dos sujeitos ao longo de suas vidas.
Em terras brasileiras, essa perspectiva teve um papel 
crucial para desenvolver as dinâmicas sociais que formaram 
a nação. Prado Jr. (1942), por exemplo, em sua obra “Formação 
do Brasil contemporâneo”, adentra os meandros da colonização 
sob uma ótica social, argumentando que as relações de trabalho 
escravo e as estruturas agrárias determinaram, em grande parte, 
as particularidades da formação social brasileira.
Além disso, a história social brasileira destaca-se pelo seu 
interesse nos movimentos sociais e nas lutas por direitos. Um 
episódio emblemático é a Revolta da Chibata, ocorrida em 1910, 
em que marinheiros, liderados por João Cândido, insurgiram-se 
contra os castigos físicos na Marinha. Freitas (2000) salienta que 
esse episódio não pode ser compreendido apenas como uma 
revolta militar, mas como um movimento social que revela a 
tensão de uma sociedade em transformação.
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IMPORTANTE
Essa abordagem, ao focar nos conflitos, nas 
relações de trabalho, nos movimentos sociais e nas 
experiências cotidianas, proporciona uma visão 
mais ampla e profunda da sociedade brasileira, 
resgatando aspectos muitas vezes negligenciados 
por outras vertentes historiográficas.
À medida que a história social consolidou sua posição 
na academia brasileira, uma nova vertente começou a ganhar 
força e notoriedade, propondo novos horizontes de análise: a 
história cultural. Esse campo historiográfico tem suas raízes nas 
transformações intelectuais e culturais da segunda metade do 
século XX e vem propondo, desde então, inovações significativas 
para a compreensão do passado.
Como afirma Chartier (1990), não existem realidades 
culturais que subsistam por si mesmas, mas práticas que as 
instituem e negociação que as transmitem. Tal perspectiva destaca 
a importância das práticas cotidianas e das representações como 
mediadoras das relações humanas.
No contexto brasileiro, a história cultural aprendeu um 
novo olhar sobre eventos, personagens e movimentos, rompendo 
com a análise psicológica ou política. Por exemplo, Moraes (2003), 
em “O olhar dividido: carnaval, fotografia e identidade nacional”, 
aborda a construção da identidade brasileira por meio do olhar 
fotográfico durante os carnavais do início do século XX. Segundo 
o autor, o carnaval não era apenas uma festa, mas um espaço de 
construção, desconstrução e reconfiguração de identidades.
Outro enfoque dessa abordagem é a valorização das 
“micro-histórias”, ou seja, narrativas que focam em eventos 
específicos, personagens marginalizados ou episódios pouco 
conhecidos. Ginzburg (1989), com sua análise sobre o moleiro 
Menocchio, em “O queijo e os vermes”, exemplifica essa tendência, 
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mostrando que a história de um indivíduo pode revelar-se como 
uma época dolorosa e vivida.
Imagem 1.7 – História cultural
Fonte: Freepik
Vale destacar que a historiografia brasileira, ao longo 
das últimas décadas, tem sido palco de intensos diálogos entre 
diferentes correntes. A convergência entre história social e 
história cultural ilustra esse processo, especialmente ao enfocar 
temas relacionados à cultura e ao cotidiano. Essas duas correntes, 
embora possuíssem perspectivas metodológicas e teóricas 
distintas, encontram pontos de interseção ao abordar a vida 
diária, seus rituais, suas práticas e representações.
Se, por um lado, a história social buscou entender o 
cotidiano a partir das relações de trabalho, das classes sociais e 
das estruturas sociais, a história cultural trouxe para o debate 
as questões relacionadas à linguagem, à simbologia e às 
representações culturais. Assim, Santos (2006) demonstra, em sua 
obra “Cotidiano e cultura: história, historiografia e ensino”, como 
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as representações culturais do cotidiano podem revelar aspectos 
fundamentais das relações sociais em diferentes momentos da 
história brasileira.
É indiscutível que cultura e vida cotidiana se entrelaçam 
de maneiras intricadas, criando uma trama abundante em 
significados. Ao analisar, por exemplo, as festas populares no 
Brasil, percebe-se que as práticas sociais e culturais se unem, 
moldando a identidade nacional. Da capoeira aos festejos juninos, 
as manifestações culturais expressivas são, além de expressões 
artísticas, relações de poder, resistências e apropriações (Burke, 
2005).
Perspectivas particulares: micro-
história, história ambiental e 
história indígena
Ao adentrarmos o vasto e multifacetado campo da 
história, deparamo-nos com uma multiplicidade de abordagens 
e perspectivas que refletem a complexidade intrínseca à 
compreensão dos fenômenos humanos. A historiografia 
brasileira, especialmente a partir do século XX, vivenciou intensas 
transformações epistemológicas e metodológicas, ampliando seu 
escopo e reconhecendo a multiplicidade de vozes, assuntos e 
temas até então marginalizados (Reis, 2007).
Essa ampla variedade de abordagens não surge ao acaso. 
A história, assim como qualquer ciência, é sensível aos contextos 
sociais, políticos e culturais de cada época. As mudanças sociais 
vivenciadas pelo Brasil, desde o processo de redemocratização 
após o regime militar até as intensas mobilizações sociais dos anos 
2000, fizeram emergir demandas por novas narrativas históricas, 
mais inclusivas e representativas (Ferreira; Amado, 2006).
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O interesse em novos objetos de estudo e em novas 
formas de abordar o passado também é fruto das influências 
teóricas e metodológicas advindas da historiografia europeia, 
sobretudo a francesa, com a chamada “nova história” e seus 
elogios. Assim, a busca por uma história “total”, que abarca todas 
as dimensões da experiência humana, cedeu espaço para estudos 
mais focados e específicos, que buscam entender o geral a partir 
do particular (Burke, 1992).
Essa virada historiográfica, marcada pela inclusão de 
novas correntes como a micro-história, a história ambiental e a 
história indígena, entre outras, responde a uma necessidade de 
se reconhecer a pluralidade de experiências, desafiar narrativas 
hegemônicas e construir uma compreensão histórica mais rica e 
avançada. Portanto, ao nos debruçarmos sobre essas “perspectivas 
particulares”, estamos, na realidade, buscando entender e 
valorizar a multiplicidade do passado brasileiro, reafirmando o 
compromisso da história com a diversidade e a justiça social.
Ao nos depararmos com a expressão “micro-história”, 
podemos, inicialmente, ser cuidadosos ao pensar que ela se 
refere a uma investigação historiográfica de menor importância 
ou de alcance limitado. No entanto, essa corrente historiográfica, 
originária da Itália dos anos 1970 e popularizada por historiadores 
como Carlo Ginzburg e Giovanni Levi, propõe-se exatamente ao 
contrário: argumentar que o estudo atento e cuidadoso de um 
fenômeno local e singular pode revelar aspectos da experiência 
humana (Ginzburg, 1989).
A micro-história brasileira também oferece possibilidades 
interpretativas ricas. Ao focar nas trajetórias individuais ou em 
pequenas comunidades, é possível desvendar as nuances das 
estruturas sociais, políticas e culturais do Brasil. Tal abordagem 
pode trazer à tonavozes marginalizadas, revelando a resistência 
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e a agência de grupos muitas vezes invisibilizados em narrativas 
históricas mais amplas (Silva, 2002).
A premissa central da micro-história é a ideia de que o 
pequeno é revelador. Ao se voltar para o local, para o específico, os 
historiadores dessa corrente buscam evidenciar como o particular 
pode lançar luz sobre processos e estruturas mais abrangentes. 
Assim, a micro-história não se opõe à macro-história, mas a 
complementa, enriquecendo nossa compreensão do passado ao 
trazer à tona os detalhes, as singularidades e as vozes que, muitas 
vezes, perdem-se em abordagens mais amplas (Levi, 1991).
A história ambiental surge como um campo historiográfico 
que busca compreender profundamente as sociedades humanas 
e seus ambientes naturais ao longo do tempo. Enquanto corrente, 
ela propõe uma releitura da história que coloca a natureza 
não como um mero pano de fundo, mas como agente ativo e 
participante nos processos históricos (Worster, 1991).
No Brasil, a história ambiental ganha destaque a partir da 
década de 1990, quando a preocupação com questões ambientais 
se intensifica. As reflexões de José Augusto Pádua, por exemplo, 
têm sido fundamentais para compreender a trajetória da relação 
entre os brasileiros e seu ambiente, abordando desde a devastação 
inicial promovida pela colonização até os desafios ambientais 
contemporâneos (Pádua, 2002).
Um dos principais aportes da história ambiental é a 
sua capacidade de lançar luz sobre as formas como sociedades 
diversas percebem e se relacionam com o meio ambiente. No 
caso brasileiro, essa perspectiva permite entender, por exemplo, a 
tensão entre modelos de desenvolvimento econômico embasados 
na exploração intensiva de recursos naturais e nos impactos 
destes na biodiversidade e nas populações locais (Dean, 1996).
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IMPORTANTE
A história ambiental, ao propor um diálogo 
profundo entre natureza e sociedade, desafia-nos 
a pensar a história para além das ações humanas, 
reconhecendo a agência do ambiente e a intrincada 
teia de relações que se estabelece entre o humano 
e o não humano ao longo do tempo.
Além disso, a história ambiental traz à tona a importância 
dos saberes tradicionais, como os dos povos indígenas e das 
comunidades ribeirinhas, na construção de práticas inteligentes e 
na resistência a projetos predatórios. Esses saberes, construídos 
a partir de uma relação milenar com a terra, são fundamentais 
para pensar alternativas de convivência equilibrada entre homem 
e natureza (Santos, 2004).
A história indígena, como campo de estudo, visa à 
desconstrução de uma narrativa histórica tradicionalmente 
eurocêntrica e à valorização das experiências e perspectivas dos 
povos originários. Ela busca dar voz a essas pessoas, muitas vezes 
relegadas à marginalidade na escrita da história oficial (Monteiro, 
1994).
Imagem 1.8 – História indígena
Fonte: Freepik
O Brasil, com sua rica diversidade étnica e cultural, 
composta por mais de 300 povos indígenas, oferece um terreno 
experimental para essa investigação. Esses povos, cada qual 
com sua língua, cultura e tradição, têm resistido há mais de cinco 
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séculos à opressão, ao etnocídio e às tentativas de assimilação 
(Oliveira, 1999).
Nesse contexto, surge como referencial a obra de Manuela 
Carneiro da Cunha. Em “História dos índios no Brasil”, a autora 
destaca como a resistência indígena moldou a formação do Brasil, 
seja por meio de alianças, conflitos, mestiçagens ou estratégias de 
sobrevivência (Cunha, 1992).
A revitalização das línguas indígenas, o resgate de suas 
práticas culturais e a reivindicação de seus territórios são aspectos 
fundamentais nessa jornada de resistência. Grupos como os 
Yanomami e os Guarani têm, por exemplo, reivindicado não 
apenas seu espaço físico, mas também sua identidade cultural e 
espiritual, demonstrando que a terra, para esses povos, vai além 
do material, adentrando o espiritual e o simbólico (Albert; Ramos, 
2002).
A diversidade historiográfica examinada neste capítulo 
desvenda a multiplicidade de abordagens e de perspectivas pelas 
quais o passado é investigado e interpretado. Da micro-história, 
que prioriza o singular, ao estudo da história ambiental e indígena, 
observa-se a evolução de um campo acadêmico que se tornou 
cada vez mais inclusivo, interdisciplinar e complexo (Revel, 1998).
Em terras brasileiras, essa ampliação de perspectivas 
é de importância vital. O resgate e a preservação da história 
indígena, por exemplo, remetem-nos a uma memória ancestral e 
a uma diversidade cultural que constitui a essência da identidade 
nacional (Cunha, 1992). Assim, ao se interligar a história ambiental, 
percebe-se que a relação entre sociedade e natureza no Brasil não 
é apenas uma questão de uso de recursos, mas está imbricada 
em contextos culturais, políticos e sociais específicos (Dean, 1996).
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Tendo em vista essa multiplicidade de olhares, torna-se 
evidente que o estudo da história, mais do que um mero registro 
de eventos passados, é um processo contínuo de reinterpretação 
e ressignificação do passado à luz das preocupações e dos 
contextos presentes (Ferro, 1992).
RESUMINDO
E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu 
mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza 
de que você realmente entendeu o tema de 
estudo deste capítulo, vamos resumir tudo 
o que vimos. Você deve ter aprendido que a 
historiografia brasileira não é uma via única; ela 
é uma diversidade tecida com múltiplos núcleos 
e padrões. Começamos com a apresentação da 
tradição institucionalista, uma visão que priorizava 
o estudo das estruturas políticas e formais da 
nossa nação. A historiografia marxista, por 
sua vez, trouxe a lente das relações de classe, 
mostrando-nos como o conflito e a cooperação 
entre diferentes grupos sociais moldaram o 
nosso país, mas o Brasil não é feito apenas de 
grandes instituições ou lutas de classes. Também 
exploramos como o cotidiano das pessoas e suas 
expressões culturais contam uma história vibrante 
e muitas vezes esquecida. Aqui, aprendemos 
sobre os ritmos, rituais, festas e práticas 
alcançados que dão sabor à nossa identidade 
nacional. E, como toda boa história, também 
nos concentramos em aspectos mais específicos 
e, muitas vezes, negligenciados. Mergulhamos 
no mundo da micro-história, entendendo como 
eventos aparentemente pequenos podem ter 
significados grandiosos. A história ambiental nos 
fez refletir sobre nossa relação com a natureza, 
uma ligação crucial para um país com uma 
biodiversidade tão rica como a nossa. E, por fim, 
a história indígena trouxe à luz às narrativas, 
69HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA
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resistências e culturas dos primeiros habitantes do 
Brasil, lembrando-nos de suas contribuições e de seus 
desafios em um país que nem sempre registrou seu 
valor. Mais do que simples dados e eventos, você deve 
ter percebido que a historiografia é sobre pessoas, 
culturas, lutas e as inúmeras maneiras pelas quais 
todos nós contribuímos para o tecido da nossa nação. 
Agora, munido deste conhecimento, esperamos que 
você veja o Brasil sob uma luz renovada, apreciando 
a diversidade e a complexidade que fazem de nossa 
história algo tão fascinante e valioso. E lembre-se: a 
história está sempre em construção e cada um de nós 
é um autor em potencial.
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	Conceito de historiografia e sua importância no estudo da história do Brasil
	Definindo historiografia
	A função da historiografia
	A interdisciplinaridade da historiografia
	A historiografia como reflexão crítica da história
	Mecanismos de crítica em historiografia
	Historiografia brasileira: contextualizando sua essência e seu significado
	A historiografia brasileira contemporânea
	Principais marcos históricos da historiografia brasileira
	A formação da historiografia nacional: Independência e Período Imperial
	A história como ferramenta política no Império
	Tensões historiográficas: centralização versus regionalismo
	O papel da escravidão nas narrativas históricas
	Abolição, industrialização e modernização: transformações na escrita da história
	Redemocratização e renovação historiográfica: a busca por vozes silenciadas
	Metodologias e teorias utilizadas pelos historiadores brasileiros
	Evolução metodológica na historiografia brasileira
	A revolução dos micro-históricos e estudos locais
	 A era digital e novas metodologias
	Teorias historiográficas em foco
	Práticas e ferramentas de pesquisa
	Principais correntes historiográficas no Brasil
	Das instituições às relações sociais: tradição institucionalista e historiografia marxista
	Implicações para a compreensão do passado brasileiro
	Cultura e cotidiano: entre a história social e a história cultural
	Perspectivas particulares: micro-história, história ambiental e história indígena