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Copyright © 2020 Brasil Paralelo Os direitos desta edição pertencem a Brasil Paralelo Editor Responsável: Equipe Brasil Paralelo Revisão ortográfica e gramatical: Equipe Brasil Paralelo Projeto de capa: Equipe Brasil Paralelo Produção editorial: Equipe Brasil Paralelo Nogueira, Rafael Titãs da Civilização Ocidental: Aula 6 ISBN: 1. História do mundo antigo CDD 930 __________________________________________ Todos os direitos dessa obra são reservados a Brasil Paralelo. Proibida toda e qualquer reprodução integral desta edição por qualquer meio ou forma, seja eletrônica ou mecânica, fotocópia, gravação ou qualquer outro meio de reprodução sem permissão expressa do editor. Contato: www.brasilparalelo.com.br contato@brasilparalelo.com.br http://www.brasilparalelo.com.br/ mailto:contato@brasilparalelo.com.br SINOPSE Há séculos, em Roma, nasceu Plutarco. Apesar da distância temporal, suas obras permanecem uma fonte de aprendizado para os dias atuais. Nesta aula, além de descobrirmos quem foi esse homem, somos conduzidos como podemos extrair ensinamentos de seus textos. OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Ao final desta aula, espera-se que você saiba: quem foi Plutarco; quais os períodos da história de Roma e que aspecto foi utilizado para determiná-los; o que podemos aprender com as obras de Plutarco. INTRODUÇÃO Estamos chegando agora em Roma. Vimos, na aula anterior, o último estudo que eu havia programado para a Grécia. No entanto, como essa passagem histórica não é tão simples, vou começar apresentando alguns aspectos do contexto histórico que vão compor o cenário no qual entrará o Plutarco. Plutarco é o nosso autor de hoje. Eu vou explicar um pouco da biografia e também das preocupações intelectuais dele, das obras dele, porque é um autor extremamente interessante e pouco estudado. Falta uma absorção maior, principalmente daqueles que estudam história e daqueles que estudam moral. É essa lacuna que eu estou tentando preencher. Estou trazendo o Plutarco, também, para que vocês possam compreender, primeiro, como existe um determinado elo intelectual entre aquelas coisas que aconteceram na Grécia e outras que vão acontecer em Roma e como eu mesmo tenho estruturado a minha visão de história. Nessas aulas, eu tenho uma visão muito particular da história. Muitas vezes, eu sou menos historiador, muito embora algumas pessoas me definam como tal, do que alguém que tem um olhar ensaístico e até filosófico sobre alguns aspectos da história. Eu jogo em história um olhar que é alicerçado na filosofia. É isso que esse curso tenta transmitir também. Esse curso é panorâmico, mas não é superficial. Ele dá o panorama da visão ocidental, elo por elo, livro por livro, mas é a minha visão. Nós podemos fazer vários percursos do Ocidente. Inclusive alguns bem atrapalhados que algumas pessoas fazem em universidades como se fosse o único. O professor Olavo de Carvalho mostrou isso bem em seu livro “O jardim das aflições”, quando ele mostra, assistindo àquela palestra sobre ética do Peçanha, que as opiniões que a USP estava tomando, tanto na sala de aula quanto nessas palestras que estavam se celebrizando, quanto também nas opções dos livros a serem traduzidos e publicados, era uma opção por uma determinada visão do ocidente. Estou trazendo para vocês a minha visão. CONTEXTUALIZAÇÃO Anteriormente, expliquei que a história da Grécia Antiga se divide, para melhor compreensão, em cinco períodos, sendo o último deles o alexandrino. Apenas para recordar, o primeiro período é o pré-homérico. O segundo é o homérico. O terceiro é o arcaico. O quarto é o clássico. E o quinto alexandrino ou helenístico. No quinto período, chamado de helenístico ou alexandrino, temos uma fase na qual as ideias da Grécia, a cultura grega, vai se espalhar para oriente. Ao mesmo tempo, há uma fragilização das poleis, das cidades-Estado maiores, mais fortes, notadamente Atenas, Esparta e Tebas. Com isso, os grandes polos produtores de inteligência e de cultura estavam enfraquecidos, justamente quando a cultura grega se espalhava pelo oriente. É como se houvesse uma estabilização, em que aqueles conhecimentos que haviam sido produzidos até aquele momento eram a cultura grega. Essa estabilização vai ser padronizada por livros, por métodos pedagógicos, e até institucionalmente em escolas. É neste período que surge a escola clássica, pois é nele que se solidificam algumas opções educacionais, porque, a bem da verdade, no período clássico, Atenas era um grande tubo de ensaio pedagógico. Havia várias escolas concomitantes e lutando entre si. Eu expliquei aqui a luta da escola platônica com outras escolas. Isso era muito forte na época clássica. Quando Alexandre avança sobre determinados localidades, deixa nelas ginásios, escolas e bibliotecas. Para ter bibliotecas, é preciso livros e, para ter livros, é preciso de cópias. As cópias não eram feitas integralmente, no sentido de abrangerem todas as obras dos autores. A determinação é que sete obras de cada autor fossem copiadas. O que nos restou foi o que Alexandre mandou copiar. Restaram-nos sete obras dos grandes autores do teatro e algumas obras de vários outros. A história das obras de Platão e Aristóteles seguem um rumo diverso já explicitado nos encontros anteriores. É neste período que aparece Alexandre. Deixaremos sua história momentaneamente de lado, pois vou contá-la sob a ótica do Plutarco. Seguiremos nosso trajeto na história para que vocês compreendam como aparece Plutarco, que é o nosso autor. Em outros termos, o autor que vai falar de Alexandre é, agora, o meu objeto. Esse último período que corresponde à decadência da Grécia clássica, também corresponde a uma fase na qual Roma estava ascendendo. Roma também é formada por gregos, mas é formada por todo um outro conjunto de povos, entre os quais, os itálicos ou italiotas, os latinos e os etruscos. E mais outros povos. Essa confluência de povos começa sob uma monarquia etrusca. Assim como eu falei que a história da Grécia tem cinco períodos, a periodização da história de Roma é dividida em três. O enfoque da história de Roma é outro. A história da Grécia tem um enfoque muito cultural, se vocês repararem. Pré-homérico, é o período que antecede aquilo sobre o que Homero falou. Homérico, o período no qual se passavam as histórias que Homero contou. O arcaico, o período no qual Homero viveu. O período no qual as primeiras pólis foram formadas. O clássico é o apogeu cultural. O período alexandrino ou helenístico é justamente esse espalhar-se da cultura grega e essa diminuição de profundidade e progresso e aumento de expansividade. Roma e a política No caso da história romana, os romanos são mais políticos e jurídicos do que são culturais. Sua cultura também é muito interessante, tem alguns desenvolvimentos marcantes, mas eles derivam muito da cultura grega. Note que até é eleita a periodização em três partes que são, na verdade, as formas políticas pelas quais Roma passou a se organizar. Percebemos que periodizar a história da Grécia pela cultura e periodizar a história de Roma pela política não é só uma opção do historiador. É algo que os fatos gritam para o analista. A Grécia não tinha uma unidade política, mas somente uma unidade cultural. Unidade de religião, de mito, de língua e dos jogos olímpicos. A unidade romana, por sua vez, é política. Esse fato grita e o estudioso vai observar que as modificações políticas são os fatos centrais também das modificações da vida romana. Então, tem início com uma monarquia, que começa com a lenda de Rômulo e Remo. Depois da prevalência de um sobre o outro, que se torna o primeiro rei, há a sucessão do Numa Pompílio. Numa é o homem responsável por organizar Roma para que a monarquia funcione, pacifique-se,para que os problemas internos acabem. No fundo, ele é aquele homem que criou a ideia, em Roma, de fundir Igreja e Estado. Igreja aqui é usada com muitas aspas. Não era a Igreja que conhecemos. Cristianismo ainda não existia. Era, na verdade, a religião romana. O Numa Pompílio cria uma religião romana que tem tudo a ver com os que governam. Essa fusão de religião, dos deuses, com a política, acontece no segundo reinado da monarquia romana. Essa monarquia teve sete reinados. No sétimo, há o Tarquínio, o Soberbo. Ele é chamado de “o soberbo” justamente por não ter dado ouvidos às elites romanas a respeito de várias diferenças que ele tinha com elas. Nenhuma das diferenças era do caráter dos povos. O povo etrusco acabou diminuindo em importância e se fixando somente na realeza. É como se um povo de pequena expressão domina-se e governa-se outros povos de expressão muito maior e de maior número. O povo etrusco é aquele que mais dá a diferença da religião romana para a grega. É aquele que faz os romanos terem essa ideia de os deuses lares, as vestais, a hereditariedade com algo de divindade. Isso é muito etrusco. Por mais que pensemos que a mitologia romana é apenas uma cópia da mitologia grega, há o elemento etrusco que confere um diferencial importante. A República romana O último rei etrusco, diminuído em diferença com o grupo da elite, é suplantado por uma instituição chamada Senado, a qual não corresponde ao nosso senado atual. O nosso senado, que advém da nossa constituição de 1988, representa os estados, como se fossem as nossas divisões administrativas e autônomas, que enviam, para essa casa do poder legislativo, três representantes. No caso romano, o senado é uma palavra que deriva de senix, é o ancião, é o velho. Portanto, já era uma Casa de elite. Era a ideia de que ali estavam os melhores que tinham. São os mais velhos porque são os mais sábios, são os proprietários, são os ricos, são os homens de poder. Aí temos aquela palavrinha: aristocracia. Uma palavra grega que designa o governo estabelecido pelos melhores na medida em que governam para todos. Parece que, neste momento, o senado, ao derrubar o rei, implanta uma aristocracia. Começa aí o que chamamos de República Romana. A república romana vai passar por várias fases de aperfeiçoamento institucional de modo que esse senado, que é que como se fossemos governados hoje por um poder legislativo, vai cada vez mais se adaptando às novidades, dividindo esse poder. Houve, por exemplo, a criação do consulado que, posteriormente, também se dividiu em dois. Há vários outros poderes que vão se segmentando até chegar em um determinado ponto em que Roma já tem um território tão grande que são nomeados governadores de província. Com isso, há uma complexidade administrativa, política e jurídica tal que Roma ainda tem muito a nos ensinar sobre direito. A república romana teve esse mérito de unificar politicamente Roma e, ao mesmo tempo, de se expandir, porque a administração funciona, há um enriquecimento e há um movimento de expansão. Essa expansão, a partir do centro da península itálica, para o norte, para o sul, vai chegar até o norte da África, gerando a famosa guerra contra Cartago, as guerras púnicas. Os púnicos eram os descendentes dos fenícios. As guerras púnicas duram mais de século até que Roma as vence. Brincamos que, assim como o Brasil chegou a dizer uma vez, para afirmar soberania, “o petróleo é nosso”, os romanos disseram “o mar é nosso”. Na República, o mare nostrum faz referência ao fato de Roma ter o norte da África, a península itálica e avançar sobre os outros litorais, até chegar ao Mar Egeu, tornando tudo província romana. Muita gente fala em Império romano querendo compreender toda história romana e isso está bem errado. O Império romano só vai surgir com o ruir da república romana. A República ruiu quando, passados muitos séculos, houve uma expansão grande demais, com governadores se segmentando, lutas internas, muita corrupção, guerras já não sendo travadas por autodefesa ou por um expansionismo meio que imperialista, mas para enriquecimento de alguns líderes. Há uma espécie de caos. Nesse momento de caos, alguns líderes populistas e hábeis surgem. Dentre eles, Júlio César, a quem daremos um tratamento especial, aparece como um líder na República romana. Júlio César vai romper algumas leis, que já estavam sendo rompidas em vários sentidos. Dizemos que ele ganhou algumas eleições de forma corrupta, mas todo mundo era corrupto. Parece a primeira república brasileira, em que todos fraudavam as eleições. Em Roma, todos fraudavam tudo. Era ameaça, era suborno do adversário para desistir. Isso era a coisa mais comum do mundo. Júlio César aprende o jogo. Ainda por cima, por alguns aspectos especiais que contarei, torna-se um grande líder militar, enfrenta seus adversários e dura, como ditador supremo, por uns cinco anos, até que é assassinado. O império romano O problema é que seus inimigos pensaram que com a morte dele, que estava tentando ser um ditador e querendo restabelecer a monarquia, poderiam fazer com que a república voltasse a ter estabilidade. No entanto, não teve estabilidade nenhuma. As guerras voltaram ininterruptamente. Um homem, que se julgava herdeiro político de Júlio César, foi surpreendido pelo testamento dele. Enfim, quem assume é outra pessoa, um filho adotivo dele. Com isso, há uma guerra interna e seu sobrinho, Otaviano e, depois, Otávio César, transforma-se no primeiro imperador. A partir daí, temos o Império romano até o seu fim, até a destituição do último imperador romano, que também é Rômulo. É engraçado: vamos de Rômulo a Rômulo. Do primeiro rei ao último imperador, pelo menos do Império romano do Ocidente, que é destituído por um germânico chamado Odoacro. Então, as hostes germânicas destroem o império romano. Por que aprender a história de Roma? A história de Roma é muito interessante, pois parece que eles experimentaram de tudo. Eu sei que não, mas parece, de tanta variedade de modelos políticos e de governantes. A história de Roma nos traz parâmetros, porque, às vezes, não os temos. Chamamos de ditador sanguinário alguém que não é assim. Por isso, é bom trazer, para o século 20, um exemplo da antiguidade de ditador sanguinário. Com isso, você volta a olhar para a América Latina, sobretudo para o Brasil, e consegue verificar se há diferença ou não. É óbvio que tem. Tem diferenças marcantes. Calígula era engraçado. Ele nomeou o cavalo senador. É engraçado, mas tem partes que não são nada engraçadas. O que ele fez com a irmã, por exemplo. Ele a prostituiu por diferenças políticas. É algo abominável. Também olhamos para as pessoas e pensamos que nunca descemos tanto em costumes. Eu também gosto de ensinar Roma porque mostro que, em alguns aspectos, acho que eles desceram mais fundo. Como um campo experimental que já aconteceu, é muito interessante extrair esses elementos. Esse foi um dos meus objetivos para estudar história. Eu sou originariamente da filosofia. Minha formação foi primeiro em filosofia, depois, com Olavo. Posteriormente, virei aluno do direito e só depois, então, eu fui estudar história. A história apareceu quando eu senti uma necessidade de compreender essa variedade de experiências e, ao mesmo tempo, saber como chegamos aqui a partir dessa variedade de experiências. Eu queria tirar as lições da história. Eu sou bem antiquado nesse aspecto. Eu gosto de tratar a história como uma mestra da vida e é assim que Plutarco trata a história, como uma mestra da vida. Por que as pessoas acham atualmente que não é bem assim? Porque o professor é aquele cínico, da escola dos análises ou positivista. O positivista ainda tenta tirar história de alguns heróis, de alguns políticos notáveis. Alguns professores dizem para somente levantar os dados. Ou eles são marxistas e aúnica lição que se tira da história já está no “Manifesto Comunista”, que foi a luta de classes. Não é exatamente uma lição, é só para mostrar algo que está, no fundo, ensinado no manifesto do partido comunista. Eu não enxergo assim. Eu acho que há uma variedade de experiências ali que podem nos instruir. Não sei se vocês sabem, mas o José Bonifácio era extremamente instruído também na história romana. Em alguma medida, ele foi historiador. Digo em alguma medida porque, quando Bonifácio se transforma no secretário da Academia de Ciência de Lisboa, fica responsável por, ano a ano, colecionar tudo que Portugal realizou na área da ciência, tudo que havia sido descoberto. Em seus discursos, no entanto, ele não se restringia a relatar somente isso. Todas as vezes, ele enquadrava a história de Portugal naquele momento com a história das ciências desde Grécia e Roma. Bonifácio mencionava o Trivium e o Quadrivium, abordava até mesmo a maneira com que os gregos tratavam os heróis. Ele inclusive citava muito Plutarco, que é o nosso objeto. Os founding fathers dos Estados Unidos, por sua vez, foram responsáveis por os americanos gostarem tanto de Roma. Há símbolos romanos espalhados por Washington, na moeda. Isso está presente nos artigos federalistas, que tem muitas ideias derivadas de aprendizado com a experiência romana. A história de Roma é fecunda em lições, sobretudo para direito e para política, mas também para todo aquele que é interessado na natureza humana, em aprender sobre o homem, em tirar lições de moral. Por isso, esse é o meu enfoque hoje. PLUTARCO Como e onde aparece Plutarco? Plutarco aparece no momento em que Roma era governada pelo imperador Trajano. Ele vive entre os governos de Trajano e de Adriano, mais ou menos no I d.C.. Isso significa que Plutarco é contemporâneo daqueles que escreveram os evangelhos. Toda aquela querela, aquela dificuldade de redigir o que aconteceu com Cristo e definir quais são os livros que devem ser selecionados, os livros canônicos e os livros apócrifos, é contemporâneo à existência do Plutarco. Isso diz muito para mim, porque Plutarco foi um autor de biografias, nas quais ele buscava lições de moral. Então, era mais um professor e um investigador de moral do que propriamente um historiador. Eu vou dizer o que Plutarco faz com as palavras dele, presentes na abertura do livro “Alexandre e César” da edição da Nova Fronteira: “Escrevemos, neste livro, a vida do rei Alexandre e a vida de César. Como único preâmbulo, dado o grande número de fatos que constituem a matéria, limitamo- nos a pedir aos leitores que não o censurem, se no lugar de expor amplamente cada acontecimento ou algum dos atos mais memoráveis, damos aqui apenas um simples sumário da maior parte deles. Com efeito, não escrevemos histórias, mas vidas. Nem sempre, aliás, são ações mais brilhantes as que mostram melhor as virtudes ou os vícios dos homens. Muitas vezes uma pequena coisa, a menor palavra ou um gracejo, ressaltam melhor um caráter do que combates sangrentos, batalhas campais e ocupações de cidades. Assim como os pintores, em seus retratos, procuram fixar os traços do rosto e o olhar, refletindo nitidamente a índole da pessoa, sem se preocupar com as outras partes do corpo, aqui nos permitimos concentrar nosso estudo principalmente nas manifestações características da alma e esboçar, de acordo com esses sinais, a vida dessas duas personagens, deixando a outros os grandes acontecimentos e os combates”. Eu peço atenção no seguinte fragmento: “Assim como os pintores, em seus retratos, procuram fixar os traços do rosto e o olhar, refletindo nitidamente a índole da pessoa, sem se preocupar com as outras partes do corpo, aqui nos permitimos concentrar nosso estudo principalmente nas manifestações características da alma[...]” . Isso expõe que o objetivo de Plutarco é mostrar as virtudes ou os vícios dos homens. Qual o método que ele utiliza para investigar e para escrever? Comentário: é muito interessante essa forma de Plutarco fazer história, no final das contas, para tirar lições de ética ou moral, porque, atualmente, autores como Alasdair MacIntyre e a Martha Nussbaum, por exemplo, afirmam que só se entende a reflexão ética ou a filosofia moral se se entende que a ética e a moral tratam da narrativa de uma vida. Se se entende que o ethos individual ou coletivo ou os mores individuais ou coletivos não se reduzem a um ato isolado de uma pessoa, mas a sua conduta no arco da sua existência. O que nós temos de altamente inovador, na atualidade, já está em Plutarco. O método de Plutarco apresenta muita semelhança com a maneira com que os evangelistas narraram a vida de Cristo. Eu não sei se eles tiveram algum tipo de contato, porque Plutarco falava mal latim. Suas palestras e seus escritos eram feitos em grego, ainda que estejamos no primeiro século de Roma. Plutarco nasceu na Queroneia, uma pequena cidade ao norte da Grécia, na Beócia, em que houve uma famosa batalha. Desde criança, ele aprendeu o grego. Plutarco foi aprender latim depois dos trinta e tantos anos. Na época dele, o latim era a língua utilizada tanto para questões oficiais quanto para divulgação de trabalhos. Ou seja, corresponde ao que o inglês é atualmente. O grego, embora fosse considerado uma língua de cultura, já não era mais tão bem-aceito. Um intercâmbio pode ter ocorrido, porque o método utilizado por Plutarco, o qual veremos agora, realmente me parece ter embasado algumas daquelas narrativas. Eu não sei, eu não acompanhei isso. Eu estou estudando história da Igreja, pois me chama muita atenção o fato de, nos primeiros séculos, termos tantos mártires e cristãos genuínos e não termos ainda o cânone da bíblia, a bíblia perfeitamente formada. Na verdade, é nesse momento em que estão sendo escritos os evangelhos. Plutarco concedia palestras em várias localidades. Ele viajava bastante. Apesar disso, escreveu uns duzentos livros. Ao todo, devem ser cerca de setenta ou oitenta biografias e análises. Só que ele tem mais obras. É muito interessante para quem estuda ética ou filosofia moral, porque é de uma abrangência magnífica. Ele tem livros sobre a infância, sobre como educar as crianças e os adolescentes, ele tem livro sobre as virtudes femininas. Ele tem um estudo sobre o daemon de Sócrates, o espírito de Sócrates. Ele tem um livro sobre as virtudes romanas, ou seja, sobre as virtudes que os romanos mais cultivam e que os seus grandes homens dão exemplo. Tem livro sobre filosofia também, questões platônicas, contradições dos estoicos, uma análise dos oráculos dos gregos, isso é um tema muito importante. Ele tem um livro que é meio que uma reclamação. Do ponto de vista católico, é uma falta de respeito até. O nome do livro é “A demora da justiça divina”. No fundo, se você ler, ele está reconfortando as pessoas que ela demora, mas chega. O ensino da virtude. As qualidades morais. A virtude e o vício. Um livro só sobre a inveja. A paz de espírito. O domínio da cólera. O progresso da virtude. Preceitos políticos. Como distinguir o amigo do adulador. Olha que coisa importante! Preconceitos políticos. Preceitos matrimoniais. As pessoas pensam que casamento é a vida moderna que dá problema. Também. Mas tem muitos problemas que são perenes. Tem outros que já não tem muito a ver com ética, como “a aparência da lua” e “questões homéricas”. Plutarco também aborda questões históricas. Perceba que, na introdução que li, ele teve o cuidado de explicar o que ele está fazendo. Por incrível que pareça, ele tem textos em que compara o seu afazer com o de Heródoto, que é considerado o pai da história até hoje. Plutarco diz que Heródoto contava os fatos sem ter a humildade de exaltar os grandes feitos na medida em que eles merecem. Até hoje em dia, a tendência geral é entender que Heródoto estava certo, que não é paraficar fazendo idealização de herói. Há muitos que criticam a Brasil Paralelo, como se fizesse uma idealização de herói, mas essa também é uma discussão perene. Depende: você está estudando história para quê? No caso, eu estudei também para buscar as virtudes modelares, sobretudo as virtudes modelares do nosso povo, ou seja, aquelas que são passíveis de cultivo. Se pensamos um homem dos nossos em uma circunstância até mais adversa que conseguiu se transformar naquela coisa tão grande. Percebemos que isso é muito importante. Os americanos cuidam muito disso. Os ingleses cuidam muito disso. E onde eles estão do ponto de vista político, econômico? Eles estão no topo. Desde a Brasil Paralelo ficou famosa a minha frase: a gente é bom no futebol também porque a gente não esquece a história do nosso futebol e sempre exalta os grandes heróis do nosso futebol. O Plutarco é meu professor. Vocês sabem meu segredo agora, com que eu aprendi essas coisas, foi lendo Plutarco, porque ele dizia para lermos as vidas desses homens, não só detalhes de batalhas ou números de negócios, mas sim as anedotas que contam o principal, aquelas que desnudam a alma e deixam claras as virtudes e os defeitos. Por isso, acho que o método dele tem semelhança. Plutarco também explica seu método de investigação em alguns preâmbulos de outros textos. Eu já li muitos livros dele, mas não completei a leitura dos pares dele. Eu digo pares porque ele sempre costuma comparar a biografia de um grego com a biografia de um romano e, na maioria das vezes, ele escreve um terceiro livro comparando os dois. Neste caso, das biografias do Alexandre do César, ele não comparou. Mas esta comparação é tão evidente, que conseguimos fazê-las por nós mesmos. Plutarco explica que usa cartas, anotações pessoais, discursos anotados. São os documentos históricos, aqueles elementos que nos falam sobre a vida de uma pessoa. Para essas coisas, Plutarco concede uma dimensão que transcende a do Heródoto. Ele não vai levantar só a partir dessas fontes, as fontes mais palpáveis, as fontes materiais, o que aconteceu. Plutarco dá ouvidos a anedotas. Plutarco explica que pega cartas, anotações pessoais, discursos anotados, são os documentos históricos, aqueles elementos que nos falam sobre a vida de uma pessoa, mas também, e aí está o que ele acrescenta, ele dá uma outra dimensão para essas coisas que vai além do Heródoto. Ele não vai levantar só a partir dessas fontes, as fontes mais palpáveis, as fontes materiais, o que aconteceu. Ele vai dar ouvidos a anedotas. Por exemplo, se um sujeito atribuiu a um sonho, a um beijo de mulher, a um tropeço, o ponto de mudança de sua vida, Plutarco as conta. Ele registra anedotas, que muitas vezes são historinhas que contam a modificação, o momento em que a personalidade dá um salto. O professor Olavo explica muito bem isso na teoria das camadas, mas ainda não contamos essa teoria de uma forma narrativa. Quando uma determinada personalidade dá um salto? Acho que o filme do Bonifácio é o que há de melhor nesse sentido. No filme, tentamos mostrar quando ele dá os saltos de camada. Plutarco está preocupado com isso, embora não conheçamos a teoria de evolução da personalidade dele. Vejam bem: eu não disse que ele não tem. Não lemos a obra completa de Plutarco. Além desses pares, somente li um livro sobre como educar crianças. É possível que ele tivesse uma obra mais completa. A obra filosófica de Plutarco, que embase sua maneira de contar a história, não chama tanta atenção porque temos o “Ética a Nicômaco” do Aristóteles, que é algo primoroso. A luz dessa obra é tão grande que ofusca. Além disso, Sêneca escrevia tão bem e os estoicos apareceram um pouco depois, quase junto. Com isso, Plutarco acabou ficando mais famoso pela obra de história. Mas, se vocês repararem, a obra de história é uma obra moralizadora. O método de Plutarco era esse: levantar esses dados a partir das fontes materiais, mas também a partir das historinhas que as pessoas contam, que é o que chamamos de tradição. É o que a tradição diz sobre determinado personagem. Há um fato muito importante, por exemplo, que ele conta em “Vida de Licurgo”. Licurgo é o legislador que basicamente é fundador de Esparta. Ele inventou a lei espartana, a qual foi seguida por séculos. De acordo com Plutarco, Esparta decai quando para de seguir a lei de Licurgo. Plutarco conta que Licurgo ganhou o poder porque seu irmão morreu e o filho dele, que era o herdeiro, era muito pequeno para assumir. Portanto, Licurgo herda o poder. Só que Licurgo percebe que as pessoas ligadas ao seu irmão e ao filho deste estavam tramando para matar qualquer pessoa que quisesse pegar o poder. Notando isso, Licurgo declara que não interesse no poder, somente em ajudar a educar seu sobrinho. Ele educa o menino. O tempo passa e quando o menino vai ficando, digamos assim, muito devedor de favores, de respeito a ele, Licurgo decide viajar. São coisas simples assim que fazem com que Plutarco parece ir à alma. Por que Licurgo viaja por todos os povos do entorno? Porque aprende muito de política. Quando retorna, é capaz ainda de codificar a lei melhor do que antes. Mas Licurgo está percebendo o que está acontecendo. Então, percebe-se um fator de mutação. Licurgo percebe as invejas e a ira, na verdade, o ódio mortal, das pessoas ligadas à política e, por isso, decide ser só o educador do menino. Quando mesmo isso passou a chamar atenção, ele decidiu fazer uma viagem. Plutarco tenta interpretar como foi essa opção, elucidar a razão explicativa do ato. No caso de Alexandre e César, do qual também falaremos, vocês vão perceber que abundam exemplos desse tipo de coisa. A vida de Plutarco, se você notar bem, é a vida de um expositor e estudioso de filosofia moral que vai ficar famoso em Roma já na maturidade. Ele dava muitas palestras, publicou certamente mais de uma centena de obras. Essas obras ficaram famosas. Dizem que os imperadores o ouviam. Ele ganhou fama, celebridade, notoriedade. Era muito difícil que alguém não o conhecesse. Ao mesmo tempo, os evangelistas estão escrevendo os livros, que também unem, provavelmente, dados materiais com a tradição. Eles unem as anedotas, as histórias, os ensinamentos. Já havia história. Havia uma série de historiadores que levantavam dados e eram muito cuidadosos na indicação de suas fontes. No caso, Plutarco traz essa maneira de dizer a história e de estudar a história e, de repente, os evangelhos têm mais ou menos o mesmo método. Eu acho que houve aí uma confluência de fatores e fico muito grato nisso a Plutarco, porque possibilitou que uma certa tradição não se perdesse. É assim que eu entendo a Igreja até hoje. Ela ainda se propõe a preservar certa tradição, para além das escrituras. Que é até uma diferença em relação a outros modos de ser cristão. Além das escrituras preservar a tradição, é algo bem parecido com a visão de Plutarco. Essa é a exposição básica de quem foi Plutarco. As minhas obras favoritas são de Licurgo e a de Numa Pompílio, porque eu gosto muito da história de Esparta e foi lendo Licurgo que eu perdi um pouco o excesso de encantamento. Eu me mantive grato aos espartanos que deram suas vidas para manter a civilização ocidental. Graças e eles, ao seu esforço heroico, à sua capacidade de serem guerreiros, que conseguimos ter a manutenção da cultura grega. Ao mesmo tempo, há tantas analogias com os estados totalitários do século 20. Eu não estou sendo anacrônico aqui, por isso digo analogias. Licurgo institui, por exemplo, critério de vestimenta. Institui critério de comida - havia ração para todas as pessoas. Institui critério de propriedade - as propriedades tinham que ser de uma maneira específica e não podiam exceder um determinado tamanho. Institui critério de comportamento. Institui até critério biológico - se a criança nascia deficiente,era morta. Esses critérios são algo totalitário. Ao ler Licurgo, achei-o um gênio, mas um gênio que tratou os seres humanos como massinha. Em alguns sentidos, sua lei deu certo. Ela criou a cidade-Estado com os guerreiros mais bravos e valentes do mundo antigo. No entanto, se observarmos as guerras entre Esparta e Atenas, essa vantagem não era tão absurda. Às vezes, Atenas saia na frente por estratégia. Então, vale a pena séculos de vidas e vidas sendo moldadas a ferro e fogo por uma lei? Para mim, isso foi iluminador em estudar Plutarco. Em relação a Numa Pompílio. Por um lado, o peloponeso, onde Esparta se forma, era cercado por povos descendentes dos antigos dórios. Todos eram povos muito guerreiros e belicosos. A própria Esparta era uma dessas comunidades descendentes dos dórios. Essas comunidades guerreavam e assaltavam uns aos outros o tempo todo. Licurgo dá um jeito nisso. Graças à sua lei, Esparta se sobressai, vence todas as batalhas e transforma todos os outros povos em trabalhadores, para sustentá-los. Então, os espartanos não trabalhavam. Isso era algo aristocrático e oligárquico, que devia variar de um momento para o outro, mas os espartanos tinham uma lei que os elevou de tal modo que ninguém os vencia em batalha e eles ficaram famosos e célebres por isso. Em relação ao Numa Pompílio. Quando Rômulo funda Roma, havia uma circunstância de luta interna. Não era exatamente uma guerra civil, era uma espécie de estado natural de Thomas Hobbes, uma luta de todos contra todos. Havia roubos frequentes, mortes gratuitas, brigas familiares que terminavam em assassinato. Era todo mundo matando todo mundo. Rômulo percebe que precisa pacificar a população. Para isso, cria uma religião ligada ao estado. Numa Pompílio utiliza uma religião que já existia, funde-a com o estado e a transforma em lei. Ou seja, há obrigatoriedade. Ele cria regras para casamento. A mulher, por exemplo, devia manter sua virgindade até uma certa idade, sob pena do casamento não ocorrer. Ele cria uma espécie de sharia. Isso, claro, é uma analogia para compreender o período. Às vezes, um aspecto do passado ilumina o presente. Então, Numa Pompílio cria uma lei severa, que organiza, que pune os criminosos. Quem não a obedecia, estava contra os deuses. As pessoas começam a obedecer e a se organizar. Ele une todo mundo. Por isso, sou maior fã da tática do Numa Pompílio, embora ache que não a faria. Ele faz uma espécie de religião fabricada. Ao ler, você percebe que dá para fazer isso. E isso dura séculos e séculos em Roma. Por mais que haja mudanças, depois vire república e, depois, império, só houve adaptações. A partir de Numa Pompílio, Roma está fundada enquanto tal. Falamos de Rômulo, mas este era um guerreiro. Quem organiza culturalmente Roma é o Numa Pompílio. Eu só aprendi isso com Plutarco. Os livros de história de Roma que eu li não deixavam isso claro. Há histórias de reis espartanos, quando Plutarco mostra a decadência de Esparta. A história daqueles sem-terra de Roma, Caio Graco e Tibério Graco, que foram uma espécie de revolucionários da época. Quando ele conta, por exemplo, a história do Coriolano, que é um líder militar que vai virar político sem ter muito jeito para isso. Coriolano ficou famoso por um aspecto militar e a mãe dele era um gênio político. Ela o coordena e ele se torna cônsul, só que ele não tem o menor traquejo político. Ele xingava os adversários e quando ia falar com o povo e falava “saia de perto, sujo!”. Ele não conseguia falar com o povo. Isso parece de hoje em dia. Um cara que não está muito bem talhado. Eu não vou citar nomes, mas estou vendo agora, para as próximas eleições presidenciais, lá de onde eu venho, algumas pessoas ascenderem. Dentre elas, tem uma pessoa que é um magistrado que está indo para política. Magistrado é tratado como um deus por muito tempo em sua vida. Agora, ele quer ir para política. Eu estou vendo que ele não tem o menor traquejo. Quando vai discutir, ele levanta a voz. Ele não admite que alguém discorde dele. Eu pensei: tá Coriolano ali. Eu aprendi com Plutarco. Quem mais aprendeu com Plutarco? Só eu desenterrei o cara? Pelo amor de Deus, quem escreveu Coriolano também, mesmo título? Shakespeare. Quem escreveu Júlio César? É quase a mesma coisa contada de uma forma diferente. O próprio Shakespeare. Várias histórias, como Cleópatra e todas aquelas da antiguidade romana, Shakespeare simplesmente extraiu de Plutarco. Com Plutarco, podemos ensinar muito de moral, ensinar as pessoas a melhorar mesmo. Um dos elementos que Plutarco mais destaca no Alexandre e no César e diz que foi um dos fundamentos de sua grandiosidade é a generosidade. Ele deixa bem claro isso, nos dois. É a capacidade de não se apegar tanto a bens e de querer que as pessoas participem de suas conquistas. Eu achei bem interessante isso, como matriz da grandiosidade. Na próxima aula, como Plutarco é historiador, vamos voltar no tempo para falar de Alexandre e de César. Ele mesmo tinha algum distanciamento dos dois. Ao mesmo tempo, essas histórias já eram contadas. Existiam estátuas de Alexandre em várias lugares e César já era célebre. Plutarco contou de uma forma original até para época. PERGUNTAS 1) Como Plutarco falou bastante de virtudes e vícios morais, chegou a descer ao tema da lei natural? Por exemplo, para Aristóteles, e até para Cícero, obedecer à lei natural seria a raiz das virtudes e a desobediência a ela seria a raiz dos vícios. Ou ele não trata da lei natural? Eu não sei se Plutarco codificou isso em outro texto. Pelas biografias, eu percebo muito claramente que sim, porque, se você observar bem, cada um dos personagens se dão melhor ou pior diante de um certo entrosamento com o cosmos. Você nota claramente. É por isso que tem alguns eventos até místicos. Além dos sonhos, Plutarco conta de algumas coincidências que vão acontecendo que prenunciam determinadas coisas. Ele sempre procura mostrar, dentro de uma lógica, da qual ele pressupõe que participemos. Plutarco tinha essa compreensão de que há uma ordem no cosmos que precede as biografias. Estas, digamos, encaixam-se em um cenário e acabam se dando melhor ou pior nisso. Essa compreensão devia estar em voga, ou, então, as palestras dele o fizeram famoso por isso. Uma pista disso fica clara para mim também, professor, quando vemos que ele escreve sobre o destino, quando ele estuda os oráculos, quando ele estuda o daemon, quando ele estuda o progresso da virtude, como se houvesse uma regra para progredir na virtude. Está subjacente. Pelos títulos que tenho, não me recordo de ele teorizar o direito a esse ponto, mas acho que está subjacente mesmo. Ele pressupõe que as pessoas participem disso. Sabemos que os estoicos tinham uma fundamentação filosófica muito clara para se entender, mas Plutarco acha que os estoicos tem autocontradições. Então, ele era uma espécie de adversário. Eu não vou entrar nessas minúcias para não errar, porque não estou preparado. Mas esse é um tema muito legal para estudar: qual é a base filosófica, desde esse ponto de vista do direito natural, do Plutarco. Comentário: você vê um substrato na essência humana de onde provêm virtudes e vícios. Professor: Sim. Parece-me, pelos temas, claramente que sim. Comentário: interessante também essa sua hipótese com relação à escrita do novo testamento, dos evangelhos, particularmente, porque, dos quatro evangelistas, Lucas é aquele que, no início do seu evangelho, diz, com todas as letras, que procurou investigar, pesquisar, os fatos com minúcia. E existe uma coincidência numerosíssima entre os evangelhos de Lucas, de Marcos e Mateus que são, precisamente por isso, chamados de evangelhos sinóticos. João era o mais jovem dos apóstolos e foi o que mais tempo viveu. Por isso, e por ter escrito seu evangelho e o apocalipse, último livro da Bíblia,no final da sua vida, perto do ano 100 d.C., acabou tratando de temas e situações da vida de Jesus Cristo diferentes dos temas e das situações descritas nos outros três evangelhos. Seria interessante verificar qual dos três evangelhos sinóticos foi escrito em primeiro lugar. Lucas seguiu uma metodologia histórica para compor o seu escrito. Caso este tenha sido o primeiro a ser composto, certamente Mateus e Marcos se valeram dele. Então, é uma hipótese a ser investigada, para ver a motivação pela qual Lucas utilizou essa metodologia historiográfica. Professor: Se ele estudou, provavelmente tomou contato com o que Plutarco estava falando. Comentário: Sim, pois era seu contemporâneo e alguém conhecido em sua época. Professor: Só para mencionar mais algumas vidas paralelas de personagens famosos, Plutarco também escreve sobre Cícero e o compara com Demóstenes. São outras biografias muito interessantes. Demóstenes foi o maior orador da história grega. Era um homem que, a princípio, era gago e depois fez algum treinamento. Daí vem a história de colocar duas pedras na língua para falar melhor. Demóstenes treinava escondido, falava sozinho em sua caverna. Discursava de memória. Foi um gênio da oratória. Depois, vem o Cícero. Além disso, compara Tibério e Caio Graco com Ágis e Cleômenes, que são espartanos. Plutarco compara o próprio Rômulo com Teseu, que é um dos heróis gregos. Há também Sólon e Publícola. Se não me engano, o pseudônimo publius utilizado por Hamilton, Madison e Jay nos artigos federalistas, refere-se ao Publícola. Este é um dos fundadores da república romana. É um homem que cria uma nova regra e, a partir dessa regra estabelecida, as coisas funcionam melhor. Sólon foi isso também para Atenas. Ele compara Alcibíades e Coriolano. Alcebíades é um herói grego contemporâneo a Sócrates, aluno deste. O Coriolano esse herói romano que teve dificuldade ao entrar na política e acabou se voltando contra os próprios romanos. Essa obra completa das biografias é conhecida como “Vidas paralelas”, justamente por Plutarco sempre comparar um grego com um romano. Plutarco era de cultura grega e os gregos, um dos povos formadores de Roma, estavam em uma situação muito submissa. Havia muito tempo que eles estavam em decadência. Por isso, eu entendo que mais um objetivo dele, além de todos que já expus, era mostrar, por meio dessa obra, que os romanos eram grandes, mas que haviam aprendido com os gregos e que estes ainda eram melhores. Algo nesse sentido. Então, Plutarco foi um dos responsáveis por demonstrar isso. Nessas comparações, ele sempre exaltava um pouquinho mais o grego. Pelo menos, é a minha impressão. Isso fica muito claro quando ele faz o paralelo e ele mostra o romano tomando conhecimento da biografia daquele outro grego que ele também biografou. Isso acontece com César e Alexandre. É muito interessante isso, de ele exaltar o povo dele dentro de Roma, mas comparando. Acho que uma produção interessante é comparar alguns líderes brasileiros com grandes líderes das nações anglo-saxônicas ou de outros países importantes da Europa. Uma das minhas ideias é comparar D. Pedro I com Henrique VIII, da Inglaterra. Eu acho que os dois são grandes, em alguma medida, mas saímos ganhando. Como Plutarco. Estamos meio rebaixados no mundo. Eu queria contar as histórias desses homens que eles exaltam, mostrando como, ainda assim, os nossos são maiores. Poderia comparar o Bonifácio com alguns fundadores e ir escrevendo essas vidas paralelas no mesmo sentido de Plutarco para recuperar até a nossa autoestima. Seria um trabalho até que dá sequência ao que fizemos na Brasil Paralelo. Eu mencionei o Henrique VIII e o D. Pedro I pois há muitos paralelos. O primeiro paralelo é o fato de Henrique VIII ter uma espécie de Bonifácio, que era um filósofo, o Thomas More, ao seu lado. O D. Pedro também. O fato de eles terem brigado. O D. Pedro exila, quase mandando à morte, Bonifácio. Henrique VIII envia à morte Thomas More. De eles terem uma amante muito importante e influente. Henrique VIII transforma sua amante em rainha e D. Pedro I, não, no final das contas, ele resiste e não a transforma em rainha. Quando Leopoldina morre, ele escreve um poema em sua homenagem e manda sua amante embora. D. Pedro não matou o Bonifácio, não transformou a Domitila de Castro, que é a nossa Ana Bolena, em rainha. Ele não fundou uma nova Igreja, por mais que fosse meio maçom sim e tivesse algumas diferenças. Ele criou um império católico. Eu penso que fazemos paralelos e saímos ganhando. Eu compararia o Bonifácio com todo panteão dos founding fathers, mas aí eles vão ficar bravos. Mas, de qualquer forma, é uma maneira de mostrar essas coisas. Acho que sairíamos ganhando com esses estudos. Quantos campeões também da liberdade dos escravos nós não tivemos? Desde o Bonifácio, o Nabuco até o Luís Gama. Tem tantos libertos que tem uma vida extraordinária, bastava que comparássemos para mostrar a grandiosidade de ambos, mas que o nosso pode sair ganhando. Tudo Plutarco que me deu essas ideias. Vocês viram como estudar os clássicos é fecundo? É algo fantástico. Eu não canso de estudar os clássicos. Todo esse percurso do Ocidente que estamos percorrendo juntos é a minha visão também muito devedora da visão que o Olavo me transmitiu e que o próprio Mortimer Adler, com as suas coleções de clássicos, e que outras coleções de clássicos, melhores do que as nossas dos pensadores, como a de Harvard, que eu fui colecionando e vendo as explicações, as introduções, os livros, essas coleções me deram uma ideia de um percurso que é diferente desses que os professores normalmente usam. Por exemplo, um amigo meu fez filosofia na USP. Ele compartilhou comigo que a parte obrigatória de história da filosofia antiga era o estudo de um cético da antiguidade grega. Era só isso a parte obrigatória era só isso. Sócrates ficou para optativa. A pessoa sai de lá com uma visão que vem de um cético, depois vai para Epicuro, olha como é diferente. Eu não trouxe Epicuro aqui. Epicuro já está traduzido e comentado abundantemente pela nossa bibliografia uspiana e outras universidades públicas. Então, vai daquele cético para Epicuro, deste para a Idade Média, em que estudam alguns autores controversos, como até o Roger Bacon. No fim, na modernidade, é Descartes e Kant para tudo, para chegar, depois, na pós- modernidade, como se fosse a linha lógica única. Eu apresentei uma que acho uma linha de continuidade, de perguntas em aberto que vão se complementando, que vão respondendo, que vão se ramificando, e eu não digo que é a única. Falta honestidade. Introdução à filosofia é só Descartes e Kant. Como se nada de antes importasse, porque Descartes e Kant deram um novo início à filosofia. É falho.