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Copyright © 2020 Brasil Paralelo 
Os direitos desta edição pertencem a Brasil Paralelo 
 
Editor Responsável: Equipe Brasil Paralelo 
Revisão ortográfica e gramatical: Equipe Brasil Paralelo 
Projeto de capa: Equipe Brasil Paralelo 
Produção editorial: Equipe Brasil Paralelo 
 
 
Nogueira, Rafael 
 
Titãs da Civilização Ocidental: Aula 6 
 
ISBN: 
 
1. História do mundo antigo 
 
CDD 930 
__________________________________________ 
 
Todos os direitos dessa obra são reservados a Brasil Paralelo. 
Proibida toda e qualquer reprodução integral desta edição por qualquer meio ou 
forma, seja eletrônica ou mecânica, fotocópia, gravação ou qualquer outro meio de 
reprodução sem permissão expressa do editor. 
 
Contato: 
www.brasilparalelo.com.br 
contato@brasilparalelo.com.br 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
http://www.brasilparalelo.com.br/
mailto:contato@brasilparalelo.com.br
 
SINOPSE 
 Há séculos, em Roma, nasceu Plutarco. Apesar da distância temporal, suas 
obras permanecem uma fonte de aprendizado para os dias atuais. Nesta aula, além 
de descobrirmos quem foi esse homem, somos conduzidos como podemos extrair 
ensinamentos de seus textos. 
 
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM 
 Ao final desta aula, espera-se que você saiba: quem foi Plutarco; quais os 
períodos da história de Roma e que aspecto foi utilizado para determiná-los; o que 
podemos aprender com as obras de Plutarco. 
 
INTRODUÇÃO 
Estamos chegando agora em Roma. Vimos, na aula anterior, o último estudo 
que eu havia programado para a Grécia. No entanto, como essa passagem histórica 
não é tão simples, vou começar apresentando alguns aspectos do contexto histórico 
que vão compor o cenário no qual entrará o Plutarco. 
Plutarco é o nosso autor de hoje. Eu vou explicar um pouco da biografia e 
também das preocupações intelectuais dele, das obras dele, porque é um autor 
extremamente interessante e pouco estudado. Falta uma absorção maior, 
principalmente daqueles que estudam história e daqueles que estudam moral. É essa 
lacuna que eu estou tentando preencher. 
Estou trazendo o Plutarco, também, para que vocês possam compreender, 
primeiro, como existe um determinado elo intelectual entre aquelas coisas que 
aconteceram na Grécia e outras que vão acontecer em Roma e como eu mesmo 
tenho estruturado a minha visão de história. Nessas aulas, eu tenho uma visão muito 
particular da história. Muitas vezes, eu sou menos historiador, muito embora algumas 
pessoas me definam como tal, do que alguém que tem um olhar ensaístico e até 
filosófico sobre alguns aspectos da história. Eu jogo em história um olhar que é 
alicerçado na filosofia. É isso que esse curso tenta transmitir também. 
Esse curso é panorâmico, mas não é superficial. Ele dá o panorama da visão 
ocidental, elo por elo, livro por livro, mas é a minha visão. Nós podemos fazer vários 
percursos do Ocidente. Inclusive alguns bem atrapalhados que algumas pessoas 
fazem em universidades como se fosse o único. 
O professor Olavo de Carvalho mostrou isso bem em seu livro “O jardim das 
aflições”, quando ele mostra, assistindo àquela palestra sobre ética do Peçanha, que 
as opiniões que a USP estava tomando, tanto na sala de aula quanto nessas 
palestras que estavam se celebrizando, quanto também nas opções dos livros a 
serem traduzidos e publicados, era uma opção por uma determinada visão do 
ocidente. 
Estou trazendo para vocês a minha visão. 
 
CONTEXTUALIZAÇÃO 
 Anteriormente, expliquei que a história da Grécia Antiga se divide, para melhor 
compreensão, em cinco períodos, sendo o último deles o alexandrino. Apenas para 
recordar, o primeiro período é o pré-homérico. O segundo é o homérico. O terceiro é 
o arcaico. O quarto é o clássico. E o quinto alexandrino ou helenístico. 
No quinto período, chamado de helenístico ou alexandrino, temos uma fase na 
qual as ideias da Grécia, a cultura grega, vai se espalhar para oriente. Ao mesmo 
tempo, há uma fragilização das poleis, das cidades-Estado maiores, mais fortes, 
notadamente Atenas, Esparta e Tebas. Com isso, os grandes polos produtores de 
inteligência e de cultura estavam enfraquecidos, justamente quando a cultura grega 
se espalhava pelo oriente. É como se houvesse uma estabilização, em que aqueles 
conhecimentos que haviam sido produzidos até aquele momento eram a cultura 
grega. 
Essa estabilização vai ser padronizada por livros, por métodos pedagógicos, e 
até institucionalmente em escolas. É neste período que surge a escola clássica, pois 
é nele que se solidificam algumas opções educacionais, porque, a bem da verdade, 
no período clássico, Atenas era um grande tubo de ensaio pedagógico. Havia várias 
escolas concomitantes e lutando entre si. Eu expliquei aqui a luta da escola platônica 
com outras escolas. Isso era muito forte na época clássica. Quando Alexandre avança 
sobre determinados localidades, deixa nelas ginásios, escolas e bibliotecas. Para ter 
bibliotecas, é preciso livros e, para ter livros, é preciso de cópias. As cópias não eram 
feitas integralmente, no sentido de abrangerem todas as obras dos autores. A 
determinação é que sete obras de cada autor fossem copiadas. O que nos restou foi 
o que Alexandre mandou copiar. Restaram-nos sete obras dos grandes autores do 
teatro e algumas obras de vários outros. A história das obras de Platão e Aristóteles 
seguem um rumo diverso já explicitado nos encontros anteriores. 
É neste período que aparece Alexandre. Deixaremos sua história 
momentaneamente de lado, pois vou contá-la sob a ótica do Plutarco. Seguiremos 
nosso trajeto na história para que vocês compreendam como aparece Plutarco, que 
é o nosso autor. Em outros termos, o autor que vai falar de Alexandre é, agora, o meu 
objeto. 
Esse último período que corresponde à decadência da Grécia clássica, 
também corresponde a uma fase na qual Roma estava ascendendo. Roma também 
é formada por gregos, mas é formada por todo um outro conjunto de povos, entre os 
quais, os itálicos ou italiotas, os latinos e os etruscos. E mais outros povos. Essa 
confluência de povos começa sob uma monarquia etrusca. Assim como eu falei que 
a história da Grécia tem cinco períodos, a periodização da história de Roma é dividida 
em três. O enfoque da história de Roma é outro. A história da Grécia tem um enfoque 
muito cultural, se vocês repararem. Pré-homérico, é o período que antecede aquilo 
sobre o que Homero falou. Homérico, o período no qual se passavam as histórias que 
Homero contou. O arcaico, o período no qual Homero viveu. O período no qual as 
primeiras pólis foram formadas. O clássico é o apogeu cultural. O período alexandrino 
ou helenístico é justamente esse espalhar-se da cultura grega e essa diminuição de 
profundidade e progresso e aumento de expansividade. 
 
Roma e a política 
No caso da história romana, os romanos são mais políticos e jurídicos do que 
são culturais. Sua cultura também é muito interessante, tem alguns desenvolvimentos 
marcantes, mas eles derivam muito da cultura grega. Note que até é eleita a 
periodização em três partes que são, na verdade, as formas políticas pelas quais 
Roma passou a se organizar. Percebemos que periodizar a história da Grécia pela 
cultura e periodizar a história de Roma pela política não é só uma opção do 
historiador. É algo que os fatos gritam para o analista. A Grécia não tinha uma unidade 
política, mas somente uma unidade cultural. Unidade de religião, de mito, de língua e 
dos jogos olímpicos. A unidade romana, por sua vez, é política. Esse fato grita e o 
estudioso vai observar que as modificações políticas são os fatos centrais também 
das modificações da vida romana. 
Então, tem início com uma monarquia, que começa com a lenda de Rômulo e 
Remo. Depois da prevalência de um sobre o outro, que se torna o primeiro rei, há a 
sucessão do Numa Pompílio. Numa é o homem responsável por organizar Roma para 
que a monarquia funcione, pacifique-se,para que os problemas internos acabem. No 
fundo, ele é aquele homem que criou a ideia, em Roma, de fundir Igreja e Estado. 
Igreja aqui é usada com muitas aspas. Não era a Igreja que conhecemos. Cristianismo 
ainda não existia. Era, na verdade, a religião romana. O Numa Pompílio cria uma 
religião romana que tem tudo a ver com os que governam. Essa fusão de religião, dos 
deuses, com a política, acontece no segundo reinado da monarquia romana. Essa 
monarquia teve sete reinados. No sétimo, há o Tarquínio, o Soberbo. Ele é chamado 
de “o soberbo” justamente por não ter dado ouvidos às elites romanas a respeito de 
várias diferenças que ele tinha com elas. Nenhuma das diferenças era do caráter dos 
povos. O povo etrusco acabou diminuindo em importância e se fixando somente na 
realeza. É como se um povo de pequena expressão domina-se e governa-se outros 
povos de expressão muito maior e de maior número. O povo etrusco é aquele que 
mais dá a diferença da religião romana para a grega. É aquele que faz os romanos 
terem essa ideia de os deuses lares, as vestais, a hereditariedade com algo de 
divindade. Isso é muito etrusco. Por mais que pensemos que a mitologia romana é 
apenas uma cópia da mitologia grega, há o elemento etrusco que confere um 
diferencial importante. 
 
A República romana 
 O último rei etrusco, diminuído em diferença com o grupo da elite, é suplantado 
por uma instituição chamada Senado, a qual não corresponde ao nosso senado atual. 
O nosso senado, que advém da nossa constituição de 1988, representa os 
estados, como se fossem as nossas divisões administrativas e autônomas, que 
enviam, para essa casa do poder legislativo, três representantes. 
No caso romano, o senado é uma palavra que deriva de senix, é o ancião, é 
o velho. Portanto, já era uma Casa de elite. Era a ideia de que ali estavam os melhores 
que tinham. São os mais velhos porque são os mais sábios, são os proprietários, são 
os ricos, são os homens de poder. Aí temos aquela palavrinha: aristocracia. Uma 
palavra grega que designa o governo estabelecido pelos melhores na medida em que 
governam para todos. Parece que, neste momento, o senado, ao derrubar o rei, 
implanta uma aristocracia. Começa aí o que chamamos de República Romana. 
A república romana vai passar por várias fases de aperfeiçoamento 
institucional de modo que esse senado, que é que como se fossemos governados 
hoje por um poder legislativo, vai cada vez mais se adaptando às novidades, dividindo 
esse poder. Houve, por exemplo, a criação do consulado que, posteriormente, 
também se dividiu em dois. Há vários outros poderes que vão se segmentando até 
chegar em um determinado ponto em que Roma já tem um território tão grande que 
são nomeados governadores de província. Com isso, há uma complexidade 
administrativa, política e jurídica tal que Roma ainda tem muito a nos ensinar sobre 
direito. 
A república romana teve esse mérito de unificar politicamente Roma e, ao 
mesmo tempo, de se expandir, porque a administração funciona, há um 
enriquecimento e há um movimento de expansão. Essa expansão, a partir do centro 
da península itálica, para o norte, para o sul, vai chegar até o norte da África, gerando 
a famosa guerra contra Cartago, as guerras púnicas. Os púnicos eram os 
descendentes dos fenícios. As guerras púnicas duram mais de século até que Roma 
as vence. Brincamos que, assim como o Brasil chegou a dizer uma vez, para afirmar 
soberania, “o petróleo é nosso”, os romanos disseram “o mar é nosso”. Na República, 
o mare nostrum faz referência ao fato de Roma ter o norte da África, a península 
itálica e avançar sobre os outros litorais, até chegar ao Mar Egeu, tornando tudo 
província romana. Muita gente fala em Império romano querendo compreender toda 
história romana e isso está bem errado. O Império romano só vai surgir com o ruir da 
república romana. 
A República ruiu quando, passados muitos séculos, houve uma expansão 
grande demais, com governadores se segmentando, lutas internas, muita corrupção, 
guerras já não sendo travadas por autodefesa ou por um expansionismo meio que 
imperialista, mas para enriquecimento de alguns líderes. Há uma espécie de caos. 
Nesse momento de caos, alguns líderes populistas e hábeis surgem. Dentre eles, 
Júlio César, a quem daremos um tratamento especial, aparece como um líder na 
República romana. 
Júlio César vai romper algumas leis, que já estavam sendo rompidas em vários 
sentidos. Dizemos que ele ganhou algumas eleições de forma corrupta, mas todo 
mundo era corrupto. Parece a primeira república brasileira, em que todos fraudavam 
as eleições. Em Roma, todos fraudavam tudo. Era ameaça, era suborno do adversário 
para desistir. Isso era a coisa mais comum do mundo. Júlio César aprende o jogo. 
Ainda por cima, por alguns aspectos especiais que contarei, torna-se um grande líder 
militar, enfrenta seus adversários e dura, como ditador supremo, por uns cinco anos, 
até que é assassinado. 
O império romano 
O problema é que seus inimigos pensaram que com a morte dele, que estava 
tentando ser um ditador e querendo restabelecer a monarquia, poderiam fazer com 
que a república voltasse a ter estabilidade. No entanto, não teve estabilidade 
nenhuma. As guerras voltaram ininterruptamente. Um homem, que se julgava 
herdeiro político de Júlio César, foi surpreendido pelo testamento dele. Enfim, quem 
assume é outra pessoa, um filho adotivo dele. Com isso, há uma guerra interna e seu 
sobrinho, Otaviano e, depois, Otávio César, transforma-se no primeiro imperador. A 
partir daí, temos o Império romano até o seu fim, até a destituição do último imperador 
romano, que também é Rômulo. É engraçado: vamos de Rômulo a Rômulo. Do 
primeiro rei ao último imperador, pelo menos do Império romano do Ocidente, que é 
destituído por um germânico chamado Odoacro. Então, as hostes germânicas 
destroem o império romano. 
 
Por que aprender a história de Roma? 
A história de Roma é muito interessante, pois parece que eles experimentaram 
de tudo. Eu sei que não, mas parece, de tanta variedade de modelos políticos e de 
governantes. A história de Roma nos traz parâmetros, porque, às vezes, não os 
temos. Chamamos de ditador sanguinário alguém que não é assim. Por isso, é bom 
trazer, para o século 20, um exemplo da antiguidade de ditador sanguinário. Com 
isso, você volta a olhar para a América Latina, sobretudo para o Brasil, e consegue 
verificar se há diferença ou não. É óbvio que tem. Tem diferenças marcantes. Calígula 
era engraçado. Ele nomeou o cavalo senador. É engraçado, mas tem partes que não 
são nada engraçadas. O que ele fez com a irmã, por exemplo. Ele a prostituiu por 
diferenças políticas. É algo abominável. Também olhamos para as pessoas e 
pensamos que nunca descemos tanto em costumes. Eu também gosto de ensinar 
Roma porque mostro que, em alguns aspectos, acho que eles desceram mais fundo. 
Como um campo experimental que já aconteceu, é muito interessante extrair esses 
elementos. Esse foi um dos meus objetivos para estudar história. 
Eu sou originariamente da filosofia. Minha formação foi primeiro em filosofia, 
depois, com Olavo. Posteriormente, virei aluno do direito e só depois, então, eu fui 
estudar história. A história apareceu quando eu senti uma necessidade de 
compreender essa variedade de experiências e, ao mesmo tempo, saber como 
chegamos aqui a partir dessa variedade de experiências. Eu queria tirar as lições da 
história. Eu sou bem antiquado nesse aspecto. Eu gosto de tratar a história como uma 
mestra da vida e é assim que Plutarco trata a história, como uma mestra da vida. 
Por que as pessoas acham atualmente que não é bem assim? Porque o 
professor é aquele cínico, da escola dos análises ou positivista. O positivista ainda 
tenta tirar história de alguns heróis, de alguns políticos notáveis. Alguns professores 
dizem para somente levantar os dados. Ou eles são marxistas e aúnica lição que se 
tira da história já está no “Manifesto Comunista”, que foi a luta de classes. Não é 
exatamente uma lição, é só para mostrar algo que está, no fundo, ensinado no 
manifesto do partido comunista. Eu não enxergo assim. Eu acho que há uma 
variedade de experiências ali que podem nos instruir. 
Não sei se vocês sabem, mas o José Bonifácio era extremamente instruído 
também na história romana. Em alguma medida, ele foi historiador. Digo em alguma 
medida porque, quando Bonifácio se transforma no secretário da Academia de 
Ciência de Lisboa, fica responsável por, ano a ano, colecionar tudo que Portugal 
realizou na área da ciência, tudo que havia sido descoberto. Em seus discursos, no 
entanto, ele não se restringia a relatar somente isso. Todas as vezes, ele enquadrava 
a história de Portugal naquele momento com a história das ciências desde Grécia e 
Roma. Bonifácio mencionava o Trivium e o Quadrivium, abordava até mesmo a 
maneira com que os gregos tratavam os heróis. Ele inclusive citava muito Plutarco, 
que é o nosso objeto. 
Os founding fathers dos Estados Unidos, por sua vez, foram responsáveis por 
os americanos gostarem tanto de Roma. Há símbolos romanos espalhados por 
Washington, na moeda. Isso está presente nos artigos federalistas, que tem muitas 
ideias derivadas de aprendizado com a experiência romana. 
A história de Roma é fecunda em lições, sobretudo para direito e para política, 
mas também para todo aquele que é interessado na natureza humana, em aprender 
sobre o homem, em tirar lições de moral. Por isso, esse é o meu enfoque hoje. 
 
PLUTARCO 
Como e onde aparece Plutarco? Plutarco aparece no momento em que Roma 
era governada pelo imperador Trajano. Ele vive entre os governos de Trajano e de 
Adriano, mais ou menos no I d.C.. Isso significa que Plutarco é contemporâneo 
daqueles que escreveram os evangelhos. Toda aquela querela, aquela dificuldade de 
redigir o que aconteceu com Cristo e definir quais são os livros que devem ser 
selecionados, os livros canônicos e os livros apócrifos, é contemporâneo à existência 
do Plutarco. Isso diz muito para mim, porque Plutarco foi um autor de biografias, nas 
quais ele buscava lições de moral. Então, era mais um professor e um investigador 
de moral do que propriamente um historiador. 
Eu vou dizer o que Plutarco faz com as palavras dele, presentes na abertura 
do livro “Alexandre e César” da edição da Nova Fronteira: 
“Escrevemos, neste livro, a vida do rei Alexandre e a vida de César. Como 
único preâmbulo, dado o grande número de fatos que constituem a matéria, limitamo-
nos a pedir aos leitores que não o censurem, se no lugar de expor amplamente cada 
acontecimento ou algum dos atos mais memoráveis, damos aqui apenas um simples 
sumário da maior parte deles. Com efeito, não escrevemos histórias, mas vidas. Nem 
sempre, aliás, são ações mais brilhantes as que mostram melhor as virtudes ou os 
vícios dos homens. Muitas vezes uma pequena coisa, a menor palavra ou um gracejo, 
ressaltam melhor um caráter do que combates sangrentos, batalhas campais e 
ocupações de cidades. Assim como os pintores, em seus retratos, procuram fixar os 
traços do rosto e o olhar, refletindo nitidamente a índole da pessoa, sem se preocupar 
com as outras partes do corpo, aqui nos permitimos concentrar nosso estudo 
principalmente nas manifestações características da alma e esboçar, de acordo com 
esses sinais, a vida dessas duas personagens, deixando a outros os grandes 
acontecimentos e os combates”. 
Eu peço atenção no seguinte fragmento: 
“Assim como os pintores, em seus retratos, procuram fixar os traços do rosto 
e o olhar, refletindo nitidamente a índole da pessoa, sem se preocupar com as outras 
partes do corpo, aqui nos permitimos concentrar nosso estudo principalmente nas 
manifestações características da alma[...]” . 
Isso expõe que o objetivo de Plutarco é mostrar as virtudes ou os vícios dos 
homens. 
Qual o método que ele utiliza para investigar e para escrever? 
 
Comentário: é muito interessante essa forma de Plutarco fazer história, no final das 
contas, para tirar lições de ética ou moral, porque, atualmente, autores como Alasdair 
MacIntyre e a Martha Nussbaum, por exemplo, afirmam que só se entende a reflexão 
ética ou a filosofia moral se se entende que a ética e a moral tratam da narrativa de 
uma vida. Se se entende que o ethos individual ou coletivo ou os mores individuais 
ou coletivos não se reduzem a um ato isolado de uma pessoa, mas a sua conduta no 
arco da sua existência. O que nós temos de altamente inovador, na atualidade, já está 
em Plutarco. 
 O método de Plutarco apresenta muita semelhança com a maneira com que 
os evangelistas narraram a vida de Cristo. Eu não sei se eles tiveram algum tipo de 
contato, porque Plutarco falava mal latim. Suas palestras e seus escritos eram feitos 
em grego, ainda que estejamos no primeiro século de Roma. Plutarco nasceu na 
Queroneia, uma pequena cidade ao norte da Grécia, na Beócia, em que houve uma 
famosa batalha. Desde criança, ele aprendeu o grego. Plutarco foi aprender latim 
depois dos trinta e tantos anos. Na época dele, o latim era a língua utilizada tanto para 
questões oficiais quanto para divulgação de trabalhos. Ou seja, corresponde ao que 
o inglês é atualmente. O grego, embora fosse considerado uma língua de cultura, já 
não era mais tão bem-aceito. Um intercâmbio pode ter ocorrido, porque o método 
utilizado por Plutarco, o qual veremos agora, realmente me parece ter embasado 
algumas daquelas narrativas. Eu não sei, eu não acompanhei isso. Eu estou 
estudando história da Igreja, pois me chama muita atenção o fato de, nos primeiros 
séculos, termos tantos mártires e cristãos genuínos e não termos ainda o cânone da 
bíblia, a bíblia perfeitamente formada. Na verdade, é nesse momento em que estão 
sendo escritos os evangelhos. 
Plutarco concedia palestras em várias localidades. Ele viajava bastante. 
Apesar disso, escreveu uns duzentos livros. Ao todo, devem ser cerca de setenta ou 
oitenta biografias e análises. Só que ele tem mais obras. É muito interessante para 
quem estuda ética ou filosofia moral, porque é de uma abrangência magnífica. Ele 
tem livros sobre a infância, sobre como educar as crianças e os adolescentes, ele tem 
livro sobre as virtudes femininas. Ele tem um estudo sobre o daemon de Sócrates, o 
espírito de Sócrates. Ele tem um livro sobre as virtudes romanas, ou seja, sobre as 
virtudes que os romanos mais cultivam e que os seus grandes homens dão exemplo. 
Tem livro sobre filosofia também, questões platônicas, contradições dos estoicos, 
uma análise dos oráculos dos gregos, isso é um tema muito importante. Ele tem um 
livro que é meio que uma reclamação. Do ponto de vista católico, é uma falta de 
respeito até. O nome do livro é “A demora da justiça divina”. No fundo, se você ler, 
ele está reconfortando as pessoas que ela demora, mas chega. O ensino da virtude. 
As qualidades morais. A virtude e o vício. Um livro só sobre a inveja. A paz de espírito. 
O domínio da cólera. O progresso da virtude. Preceitos políticos. Como distinguir o 
amigo do adulador. Olha que coisa importante! Preconceitos políticos. Preceitos 
matrimoniais. As pessoas pensam que casamento é a vida moderna que dá problema. 
Também. Mas tem muitos problemas que são perenes. Tem outros que já não tem 
muito a ver com ética, como “a aparência da lua” e “questões homéricas”. 
Plutarco também aborda questões históricas. Perceba que, na introdução que 
li, ele teve o cuidado de explicar o que ele está fazendo. Por incrível que pareça, ele 
tem textos em que compara o seu afazer com o de Heródoto, que é considerado o 
pai da história até hoje. Plutarco diz que Heródoto contava os fatos sem ter a 
humildade de exaltar os grandes feitos na medida em que eles merecem. Até hoje em 
dia, a tendência geral é entender que Heródoto estava certo, que não é paraficar 
fazendo idealização de herói. Há muitos que criticam a Brasil Paralelo, como se 
fizesse uma idealização de herói, mas essa também é uma discussão perene. 
Depende: você está estudando história para quê? No caso, eu estudei também para 
buscar as virtudes modelares, sobretudo as virtudes modelares do nosso povo, ou 
seja, aquelas que são passíveis de cultivo. Se pensamos um homem dos nossos em 
uma circunstância até mais adversa que conseguiu se transformar naquela coisa tão 
grande. 
Percebemos que isso é muito importante. Os americanos cuidam muito disso. 
Os ingleses cuidam muito disso. E onde eles estão do ponto de vista político, 
econômico? Eles estão no topo. Desde a Brasil Paralelo ficou famosa a minha frase: 
a gente é bom no futebol também porque a gente não esquece a história do nosso 
futebol e sempre exalta os grandes heróis do nosso futebol. O Plutarco é meu 
professor. Vocês sabem meu segredo agora, com que eu aprendi essas coisas, foi 
lendo Plutarco, porque ele dizia para lermos as vidas desses homens, não só detalhes 
de batalhas ou números de negócios, mas sim as anedotas que contam o principal, 
aquelas que desnudam a alma e deixam claras as virtudes e os defeitos. Por isso, 
acho que o método dele tem semelhança. 
Plutarco também explica seu método de investigação em alguns preâmbulos 
de outros textos. Eu já li muitos livros dele, mas não completei a leitura dos pares 
dele. Eu digo pares porque ele sempre costuma comparar a biografia de um grego 
com a biografia de um romano e, na maioria das vezes, ele escreve um terceiro livro 
comparando os dois. Neste caso, das biografias do Alexandre do César, ele não 
comparou. Mas esta comparação é tão evidente, que conseguimos fazê-las por nós 
mesmos. 
Plutarco explica que usa cartas, anotações pessoais, discursos anotados. São 
os documentos históricos, aqueles elementos que nos falam sobre a vida de uma 
pessoa. Para essas coisas, Plutarco concede uma dimensão que transcende a do 
Heródoto. Ele não vai levantar só a partir dessas fontes, as fontes mais palpáveis, as 
fontes materiais, o que aconteceu. Plutarco dá ouvidos a anedotas. 
Plutarco explica que pega cartas, anotações pessoais, discursos anotados, são 
os documentos históricos, aqueles elementos que nos falam sobre a vida de uma 
pessoa, mas também, e aí está o que ele acrescenta, ele dá uma outra dimensão 
para essas coisas que vai além do Heródoto. Ele não vai levantar só a partir dessas 
fontes, as fontes mais palpáveis, as fontes materiais, o que aconteceu. Ele vai dar 
ouvidos a anedotas. Por exemplo, se um sujeito atribuiu a um sonho, a um beijo de 
mulher, a um tropeço, o ponto de mudança de sua vida, Plutarco as conta. Ele registra 
anedotas, que muitas vezes são historinhas que contam a modificação, o momento 
em que a personalidade dá um salto. 
O professor Olavo explica muito bem isso na teoria das camadas, mas ainda 
não contamos essa teoria de uma forma narrativa. Quando uma determinada 
personalidade dá um salto? Acho que o filme do Bonifácio é o que há de melhor nesse 
sentido. No filme, tentamos mostrar quando ele dá os saltos de camada. Plutarco está 
preocupado com isso, embora não conheçamos a teoria de evolução da 
personalidade dele. Vejam bem: eu não disse que ele não tem. Não lemos a obra 
completa de Plutarco. Além desses pares, somente li um livro sobre como educar 
crianças. É possível que ele tivesse uma obra mais completa. 
A obra filosófica de Plutarco, que embase sua maneira de contar a história, não 
chama tanta atenção porque temos o “Ética a Nicômaco” do Aristóteles, que é algo 
primoroso. A luz dessa obra é tão grande que ofusca. Além disso, Sêneca escrevia 
tão bem e os estoicos apareceram um pouco depois, quase junto. Com isso, Plutarco 
acabou ficando mais famoso pela obra de história. Mas, se vocês repararem, a obra 
de história é uma obra moralizadora. O método de Plutarco era esse: levantar esses 
dados a partir das fontes materiais, mas também a partir das historinhas que as 
pessoas contam, que é o que chamamos de tradição. É o que a tradição diz sobre 
determinado personagem. 
Há um fato muito importante, por exemplo, que ele conta em “Vida de Licurgo”. 
Licurgo é o legislador que basicamente é fundador de Esparta. Ele inventou a lei 
espartana, a qual foi seguida por séculos. De acordo com Plutarco, Esparta decai 
quando para de seguir a lei de Licurgo. Plutarco conta que Licurgo ganhou o poder 
porque seu irmão morreu e o filho dele, que era o herdeiro, era muito pequeno para 
assumir. Portanto, Licurgo herda o poder. Só que Licurgo percebe que as pessoas 
ligadas ao seu irmão e ao filho deste estavam tramando para matar qualquer pessoa 
que quisesse pegar o poder. Notando isso, Licurgo declara que não interesse no 
poder, somente em ajudar a educar seu sobrinho. Ele educa o menino. O tempo passa 
e quando o menino vai ficando, digamos assim, muito devedor de favores, de respeito 
a ele, Licurgo decide viajar. São coisas simples assim que fazem com que Plutarco 
parece ir à alma. Por que Licurgo viaja por todos os povos do entorno? Porque 
aprende muito de política. Quando retorna, é capaz ainda de codificar a lei melhor do 
que antes. Mas Licurgo está percebendo o que está acontecendo. Então, percebe-se 
um fator de mutação. Licurgo percebe as invejas e a ira, na verdade, o ódio mortal, 
das pessoas ligadas à política e, por isso, decide ser só o educador do menino. 
Quando mesmo isso passou a chamar atenção, ele decidiu fazer uma viagem. 
Plutarco tenta interpretar como foi essa opção, elucidar a razão explicativa do ato. No 
caso de Alexandre e César, do qual também falaremos, vocês vão perceber que 
abundam exemplos desse tipo de coisa. 
A vida de Plutarco, se você notar bem, é a vida de um expositor e estudioso 
de filosofia moral que vai ficar famoso em Roma já na maturidade. Ele dava muitas 
palestras, publicou certamente mais de uma centena de obras. Essas obras ficaram 
famosas. Dizem que os imperadores o ouviam. Ele ganhou fama, celebridade, 
notoriedade. Era muito difícil que alguém não o conhecesse. Ao mesmo tempo, os 
evangelistas estão escrevendo os livros, que também unem, provavelmente, dados 
materiais com a tradição. Eles unem as anedotas, as histórias, os ensinamentos. Já 
havia história. Havia uma série de historiadores que levantavam dados e eram muito 
cuidadosos na indicação de suas fontes. No caso, Plutarco traz essa maneira de dizer 
a história e de estudar a história e, de repente, os evangelhos têm mais ou menos o 
mesmo método. Eu acho que houve aí uma confluência de fatores e fico muito grato 
nisso a Plutarco, porque possibilitou que uma certa tradição não se perdesse. É assim 
que eu entendo a Igreja até hoje. Ela ainda se propõe a preservar certa tradição, para 
além das escrituras. Que é até uma diferença em relação a outros modos de ser 
cristão. Além das escrituras preservar a tradição, é algo bem parecido com a visão 
de Plutarco. 
Essa é a exposição básica de quem foi Plutarco. As minhas obras favoritas são 
de Licurgo e a de Numa Pompílio, porque eu gosto muito da história de Esparta e foi 
lendo Licurgo que eu perdi um pouco o excesso de encantamento. Eu me mantive 
grato aos espartanos que deram suas vidas para manter a civilização ocidental. 
Graças e eles, ao seu esforço heroico, à sua capacidade de serem guerreiros, que 
conseguimos ter a manutenção da cultura grega. Ao mesmo tempo, há tantas 
analogias com os estados totalitários do século 20. Eu não estou sendo anacrônico 
aqui, por isso digo analogias. Licurgo institui, por exemplo, critério de vestimenta. 
Institui critério de comida - havia ração para todas as pessoas. Institui critério de 
propriedade - as propriedades tinham que ser de uma maneira específica e não 
podiam exceder um determinado tamanho. Institui critério de comportamento. Institui 
até critério biológico - se a criança nascia deficiente,era morta. Esses critérios são 
algo totalitário. Ao ler Licurgo, achei-o um gênio, mas um gênio que tratou os seres 
humanos como massinha. 
Em alguns sentidos, sua lei deu certo. Ela criou a cidade-Estado com os 
guerreiros mais bravos e valentes do mundo antigo. No entanto, se observarmos as 
guerras entre Esparta e Atenas, essa vantagem não era tão absurda. Às vezes, 
Atenas saia na frente por estratégia. Então, vale a pena séculos de vidas e vidas 
sendo moldadas a ferro e fogo por uma lei? Para mim, isso foi iluminador em estudar 
Plutarco. 
Em relação a Numa Pompílio. Por um lado, o peloponeso, onde Esparta se 
forma, era cercado por povos descendentes dos antigos dórios. Todos eram povos 
muito guerreiros e belicosos. A própria Esparta era uma dessas comunidades 
descendentes dos dórios. Essas comunidades guerreavam e assaltavam uns aos 
outros o tempo todo. Licurgo dá um jeito nisso. Graças à sua lei, Esparta se sobressai, 
vence todas as batalhas e transforma todos os outros povos em trabalhadores, para 
sustentá-los. Então, os espartanos não trabalhavam. Isso era algo aristocrático e 
oligárquico, que devia variar de um momento para o outro, mas os espartanos tinham 
uma lei que os elevou de tal modo que ninguém os vencia em batalha e eles ficaram 
famosos e célebres por isso. 
Em relação ao Numa Pompílio. Quando Rômulo funda Roma, havia uma 
circunstância de luta interna. Não era exatamente uma guerra civil, era uma espécie 
de estado natural de Thomas Hobbes, uma luta de todos contra todos. Havia roubos 
frequentes, mortes gratuitas, brigas familiares que terminavam em assassinato. Era 
todo mundo matando todo mundo. Rômulo percebe que precisa pacificar a população. 
Para isso, cria uma religião ligada ao estado. Numa Pompílio utiliza uma religião que 
já existia, funde-a com o estado e a transforma em lei. Ou seja, há obrigatoriedade. 
Ele cria regras para casamento. A mulher, por exemplo, devia manter sua virgindade 
até uma certa idade, sob pena do casamento não ocorrer. Ele cria uma espécie de 
sharia. Isso, claro, é uma analogia para compreender o período. Às vezes, um aspecto 
do passado ilumina o presente. Então, Numa Pompílio cria uma lei severa, que 
organiza, que pune os criminosos. Quem não a obedecia, estava contra os deuses. 
As pessoas começam a obedecer e a se organizar. Ele une todo mundo. Por isso, 
sou maior fã da tática do Numa Pompílio, embora ache que não a faria. Ele faz uma 
espécie de religião fabricada. Ao ler, você percebe que dá para fazer isso. E isso dura 
séculos e séculos em Roma. Por mais que haja mudanças, depois vire república e, 
depois, império, só houve adaptações. A partir de Numa Pompílio, Roma está fundada 
enquanto tal. Falamos de Rômulo, mas este era um guerreiro. Quem organiza 
culturalmente Roma é o Numa Pompílio. Eu só aprendi isso com Plutarco. Os livros 
de história de Roma que eu li não deixavam isso claro. 
Há histórias de reis espartanos, quando Plutarco mostra a decadência de 
Esparta. A história daqueles sem-terra de Roma, Caio Graco e Tibério Graco, que 
foram uma espécie de revolucionários da época. Quando ele conta, por exemplo, a 
história do Coriolano, que é um líder militar que vai virar político sem ter muito jeito 
para isso. Coriolano ficou famoso por um aspecto militar e a mãe dele era um gênio 
político. Ela o coordena e ele se torna cônsul, só que ele não tem o menor traquejo 
político. Ele xingava os adversários e quando ia falar com o povo e falava “saia de 
perto, sujo!”. Ele não conseguia falar com o povo. Isso parece de hoje em dia. Um 
cara que não está muito bem talhado. Eu não vou citar nomes, mas estou vendo 
agora, para as próximas eleições presidenciais, lá de onde eu venho, algumas 
pessoas ascenderem. Dentre elas, tem uma pessoa que é um magistrado que está 
indo para política. Magistrado é tratado como um deus por muito tempo em sua vida. 
Agora, ele quer ir para política. Eu estou vendo que ele não tem o menor traquejo. 
Quando vai discutir, ele levanta a voz. Ele não admite que alguém discorde dele. Eu 
pensei: tá Coriolano ali. Eu aprendi com Plutarco. Quem mais aprendeu com 
Plutarco? Só eu desenterrei o cara? Pelo amor de Deus, quem escreveu Coriolano 
também, mesmo título? Shakespeare. Quem escreveu Júlio César? É quase a 
mesma coisa contada de uma forma diferente. O próprio Shakespeare. Várias 
histórias, como Cleópatra e todas aquelas da antiguidade romana, Shakespeare 
simplesmente extraiu de Plutarco. 
Com Plutarco, podemos ensinar muito de moral, ensinar as pessoas a 
melhorar mesmo. 
 Um dos elementos que Plutarco mais destaca no Alexandre e no César 
e diz que foi um dos fundamentos de sua grandiosidade é a generosidade. Ele deixa 
bem claro isso, nos dois. É a capacidade de não se apegar tanto a bens e de querer 
que as pessoas participem de suas conquistas. Eu achei bem interessante isso, como 
matriz da grandiosidade. 
Na próxima aula, como Plutarco é historiador, vamos voltar no tempo para falar 
de Alexandre e de César. Ele mesmo tinha algum distanciamento dos dois. Ao mesmo 
tempo, essas histórias já eram contadas. Existiam estátuas de Alexandre em várias 
lugares e César já era célebre. Plutarco contou de uma forma original até para época. 
 
PERGUNTAS 
1) Como Plutarco falou bastante de virtudes e vícios morais, chegou a descer ao 
tema da lei natural? Por exemplo, para Aristóteles, e até para Cícero, obedecer 
à lei natural seria a raiz das virtudes e a desobediência a ela seria a raiz dos 
vícios. Ou ele não trata da lei natural? 
Eu não sei se Plutarco codificou isso em outro texto. Pelas biografias, eu 
percebo muito claramente que sim, porque, se você observar bem, cada um dos 
personagens se dão melhor ou pior diante de um certo entrosamento com o cosmos. 
Você nota claramente. É por isso que tem alguns eventos até místicos. Além dos 
sonhos, Plutarco conta de algumas coincidências que vão acontecendo que 
prenunciam determinadas coisas. Ele sempre procura mostrar, dentro de uma lógica, 
da qual ele pressupõe que participemos. Plutarco tinha essa compreensão de que há 
uma ordem no cosmos que precede as biografias. Estas, digamos, encaixam-se em 
um cenário e acabam se dando melhor ou pior nisso. Essa compreensão devia estar 
em voga, ou, então, as palestras dele o fizeram famoso por isso. 
Uma pista disso fica clara para mim também, professor, quando vemos que ele 
escreve sobre o destino, quando ele estuda os oráculos, quando ele estuda o 
daemon, quando ele estuda o progresso da virtude, como se houvesse uma regra 
para progredir na virtude. Está subjacente. Pelos títulos que tenho, não me recordo 
de ele teorizar o direito a esse ponto, mas acho que está subjacente mesmo. Ele 
pressupõe que as pessoas participem disso. Sabemos que os estoicos tinham uma 
fundamentação filosófica muito clara para se entender, mas Plutarco acha que os 
estoicos tem autocontradições. Então, ele era uma espécie de adversário. Eu não vou 
entrar nessas minúcias para não errar, porque não estou preparado. Mas esse é um 
tema muito legal para estudar: qual é a base filosófica, desde esse ponto de vista do 
direito natural, do Plutarco. 
Comentário: você vê um substrato na essência humana de onde provêm virtudes e 
vícios. 
Professor: Sim. Parece-me, pelos temas, claramente que sim. 
Comentário: interessante também essa sua hipótese com relação à escrita do novo 
testamento, dos evangelhos, particularmente, porque, dos quatro evangelistas, Lucas 
é aquele que, no início do seu evangelho, diz, com todas as letras, que procurou 
investigar, pesquisar, os fatos com minúcia. E existe uma coincidência numerosíssima 
entre os evangelhos de Lucas, de Marcos e Mateus que são, precisamente por isso, 
chamados de evangelhos sinóticos. João era o mais jovem dos apóstolos e foi o que 
mais tempo viveu. Por isso, e por ter escrito seu evangelho e o apocalipse, último livro 
da Bíblia,no final da sua vida, perto do ano 100 d.C., acabou tratando de temas e 
situações da vida de Jesus Cristo diferentes dos temas e das situações descritas nos 
outros três evangelhos. Seria interessante verificar qual dos três evangelhos sinóticos 
foi escrito em primeiro lugar. Lucas seguiu uma metodologia histórica para compor o 
seu escrito. Caso este tenha sido o primeiro a ser composto, certamente Mateus e 
Marcos se valeram dele. Então, é uma hipótese a ser investigada, para ver a 
motivação pela qual Lucas utilizou essa metodologia historiográfica. 
Professor: Se ele estudou, provavelmente tomou contato com o que Plutarco estava 
falando. 
Comentário: Sim, pois era seu contemporâneo e alguém conhecido em sua época. 
Professor: Só para mencionar mais algumas vidas paralelas de personagens 
famosos, Plutarco também escreve sobre Cícero e o compara com Demóstenes. São 
outras biografias muito interessantes. Demóstenes foi o maior orador da história 
grega. Era um homem que, a princípio, era gago e depois fez algum treinamento. Daí 
vem a história de colocar duas pedras na língua para falar melhor. Demóstenes 
treinava escondido, falava sozinho em sua caverna. Discursava de memória. Foi um 
gênio da oratória. Depois, vem o Cícero. Além disso, compara Tibério e Caio Graco 
com Ágis e Cleômenes, que são espartanos. Plutarco compara o próprio Rômulo com 
Teseu, que é um dos heróis gregos. Há também Sólon e Publícola. Se não me 
engano, o pseudônimo publius utilizado por Hamilton, Madison e Jay nos artigos 
federalistas, refere-se ao Publícola. Este é um dos fundadores da república romana. 
É um homem que cria uma nova regra e, a partir dessa regra estabelecida, as coisas 
funcionam melhor. Sólon foi isso também para Atenas. Ele compara Alcibíades e 
Coriolano. Alcebíades é um herói grego contemporâneo a Sócrates, aluno deste. O 
Coriolano esse herói romano que teve dificuldade ao entrar na política e acabou se 
voltando contra os próprios romanos. Essa obra completa das biografias é conhecida 
como “Vidas paralelas”, justamente por Plutarco sempre comparar um grego com um 
romano. 
 Plutarco era de cultura grega e os gregos, um dos povos formadores de Roma, 
estavam em uma situação muito submissa. Havia muito tempo que eles estavam em 
decadência. Por isso, eu entendo que mais um objetivo dele, além de todos que já 
expus, era mostrar, por meio dessa obra, que os romanos eram grandes, mas que 
haviam aprendido com os gregos e que estes ainda eram melhores. Algo nesse 
sentido. Então, Plutarco foi um dos responsáveis por demonstrar isso. Nessas 
comparações, ele sempre exaltava um pouquinho mais o grego. Pelo menos, é a 
minha impressão. 
Isso fica muito claro quando ele faz o paralelo e ele mostra o romano tomando 
conhecimento da biografia daquele outro grego que ele também biografou. Isso 
acontece com César e Alexandre. É muito interessante isso, de ele exaltar o povo 
dele dentro de Roma, mas comparando. 
Acho que uma produção interessante é comparar alguns líderes brasileiros 
com grandes líderes das nações anglo-saxônicas ou de outros países importantes da 
Europa. Uma das minhas ideias é comparar D. Pedro I com Henrique VIII, da 
Inglaterra. Eu acho que os dois são grandes, em alguma medida, mas saímos 
ganhando. Como Plutarco. Estamos meio rebaixados no mundo. Eu queria contar as 
histórias desses homens que eles exaltam, mostrando como, ainda assim, os nossos 
são maiores. Poderia comparar o Bonifácio com alguns fundadores e ir escrevendo 
essas vidas paralelas no mesmo sentido de Plutarco para recuperar até a nossa 
autoestima. Seria um trabalho até que dá sequência ao que fizemos na Brasil 
Paralelo. 
Eu mencionei o Henrique VIII e o D. Pedro I pois há muitos paralelos. O 
primeiro paralelo é o fato de Henrique VIII ter uma espécie de Bonifácio, que era um 
filósofo, o Thomas More, ao seu lado. O D. Pedro também. O fato de eles terem 
brigado. O D. Pedro exila, quase mandando à morte, Bonifácio. Henrique VIII envia à 
morte Thomas More. De eles terem uma amante muito importante e influente. 
Henrique VIII transforma sua amante em rainha e D. Pedro I, não, no final das contas, 
ele resiste e não a transforma em rainha. Quando Leopoldina morre, ele escreve um 
poema em sua homenagem e manda sua amante embora. D. Pedro não matou o 
Bonifácio, não transformou a Domitila de Castro, que é a nossa Ana Bolena, em 
rainha. Ele não fundou uma nova Igreja, por mais que fosse meio maçom sim e tivesse 
algumas diferenças. Ele criou um império católico. Eu penso que fazemos paralelos 
e saímos ganhando. Eu compararia o Bonifácio com todo panteão dos founding 
fathers, mas aí eles vão ficar bravos. Mas, de qualquer forma, é uma maneira de 
mostrar essas coisas. Acho que sairíamos ganhando com esses estudos. Quantos 
campeões também da liberdade dos escravos nós não tivemos? Desde o Bonifácio, 
o Nabuco até o Luís Gama. Tem tantos libertos que tem uma vida extraordinária, 
bastava que comparássemos para mostrar a grandiosidade de ambos, mas que o 
nosso pode sair ganhando. Tudo Plutarco que me deu essas ideias. Vocês viram 
como estudar os clássicos é fecundo? É algo fantástico. Eu não canso de estudar os 
clássicos. 
Todo esse percurso do Ocidente que estamos percorrendo juntos é a minha 
visão também muito devedora da visão que o Olavo me transmitiu e que o próprio 
Mortimer Adler, com as suas coleções de clássicos, e que outras coleções de 
clássicos, melhores do que as nossas dos pensadores, como a de Harvard, que eu 
fui colecionando e vendo as explicações, as introduções, os livros, essas coleções 
me deram uma ideia de um percurso que é diferente desses que os professores 
normalmente usam. Por exemplo, um amigo meu fez filosofia na USP. Ele 
compartilhou comigo que a parte obrigatória de história da filosofia antiga era o estudo 
de um cético da antiguidade grega. Era só isso a parte obrigatória era só isso. 
Sócrates ficou para optativa. A pessoa sai de lá com uma visão que vem de um cético, 
depois vai para Epicuro, olha como é diferente. Eu não trouxe Epicuro aqui. Epicuro 
já está traduzido e comentado abundantemente pela nossa bibliografia uspiana e 
outras universidades públicas. Então, vai daquele cético para Epicuro, deste para a 
Idade Média, em que estudam alguns autores controversos, como até o Roger Bacon. 
No fim, na modernidade, é Descartes e Kant para tudo, para chegar, depois, na pós-
modernidade, como se fosse a linha lógica única. Eu apresentei uma que acho uma 
linha de continuidade, de perguntas em aberto que vão se complementando, que vão 
respondendo, que vão se ramificando, e eu não digo que é a única. Falta honestidade. 
Introdução à filosofia é só Descartes e Kant. Como se nada de antes importasse, 
porque Descartes e Kant deram um novo início à filosofia. É falho.

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