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INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS 
HISTÓRICOS 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Caio de Amorim Féo 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Na presente aula, verificaremos algumas das principais correntes teórico-
metodológicas da história, com a intenção possibilitar ao aluno um vislumbre das 
perspectivas usuais durante o trabalho historiográfico. Nesse sentido, 
pretendemos expor as origens e pressupostos fundamentais que configuram tais 
correntes, além de mencionar alguns de seus principais membros para que os 
alunos possam recorrer caso desejem se aprofundar mais em alguma dessas 
perspectivas. Como se trata de um vasto campo com diversas possibilidades, 
decidimos selecionar aquelas que nos parecem mais basilares para um(a) 
aluno(a) que esteja iniciando o curso de História. São elas: a Escola Metódica, 
Escola dos Annales, Marxismo, Pós-modernismo e História Global. 
TEMA 1 – FUNDAÇÃO DA HISTÓRIA ENQUANTO DISCIPLINA 
Comecemos pela escola historiográfica considerada como pioneira nos 
estudos históricos como campo científico do conhecimento. Inaugurada no 
século XIX, essa corrente garantiu importantes avanços ao setor da História em 
questões de método, teoria e abordagem do objeto de estudo por parte do 
historiador. Ainda que atualmente seja uma perspectiva considerada datada e 
não mais utilizada de forma específica nos estudos históricos, a Escola Metódica 
forneceu importantes avanços que atualmente são considerados como 
indispensáveis na pesquisa histórica, independentemente da perspectiva 
utilizada. 
1.1 Escola metódica 
A chamada Escola Metódica possui suas origens em meados do século 
XIX, momento em que a História estava se formando como disciplina. Foi ela, 
inclusive, a principal responsável pela institucionalização e consolidação da 
História como uma área do conhecimento autônoma e clamava para sua prática 
um teor científico. 
Tradicionalmente essa corrente historiográfica é também conhecida como 
positivista, especialmente pelo rigor que possui no tratamento com os 
documentos históricos. Entretanto, como bem destacaram Guy Bourdé e Hervé 
Martin (1990), seria um erro considerá-la positivista, já que essa filosofia da 
história possui pressupostos que são opostos ao defendidos pela linha metódica. 
 
 
3 
Entre as principais características do positivismo que se choca com os metódicos 
estão a defesa da busca por leis ordenadoras e totalizantes, bem como a 
preferência pelas populações em massa ao invés dos grandes personagens 
históricos, o que possibilitaria estudos que fossem capazes de “ao mesmo tempo 
constituir o passado e prever o futuro” (Bourdé; Martin, 1990, p. 113). 
A referência principal dos metódicos, nesse sentido, não seria o 
positivismo encabeçado por Augusto Comte, mas sim os trabalhos do alemão 
Leopold von Ranke (1795-1886). Os pressupostos rankeanos que influenciaram 
a Escola Metódica foram elencados por Bourdé e Martin (1990), sendo preciso 
relembrá-los brevemente no esquema abaixo. 
Quadro 1 – Pressupostos rankeanos 
 
Por meio dessa influência que em 1876 foi inaugurada a Revue Historique 
por Charles Fagainez e Gabriel Monod, principal revista francesa que dera início 
à chamada Escola Metódica. De acordo com Pedro Paulo Funari e Glaydson 
José da Silva (2008), os metódicos introduziram seus estudos também no ensino 
básico como forma de refundar os valores nacionais, sendo a escola o principal 
veículo de propagação do ideal de nação. Vale lembrar que a França havia 
• Para Ranke, o historiador não deveria estabelecer
juízo de valor sobre a História.1º
• Não haveria qualquer interdependência entre o
historiador e seu objeto de estudo.2º
• A História possui uma estrutura definida que
independe do historiador e que é capaz de ser
conhecida.3º
• Historiador precisa trabalhar numa linha
mecanicista, movida por métodos rigorosos.4º
• Necessariamente deve partir do acúmulo de
dados reproduzir uma imagem tal qual ocorrera no
passado.5º
 
 
4 
acabado de ser derrotada na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), algo que 
abalou fortemente as bases nacionais que a França se ancorava até então. 
Podemos destacar, portanto, que os principais membros dessa escola de 
pensamento que aplicava rigorosos métodos de análise e primava a utilização 
de documentos escritos e foco em grandes personagens e batalhas são, para 
além do próprio Ranke, Gabriel Monod, Charles Fagainez, Ernest Lavisse e 
Charles Seignobos. 
TEMA 2 – A REVOLUÇÃO NA HISTÓRIA COM A CRÍTICA AOS METÓDICOS 
A segunda metade do século XIX certamente foi dominada pelas 
perspectivas construídas pela Escola Metódica, um modelo objetivo de fazer 
história que retirava qualquer poder de interferência do historiador em termos de 
julgamento sobre seu objeto de análise. Mas ainda que tenha vigorado nas 
primeiras décadas do século XX, foi justamente nesse momento que as primeiras 
críticas aos métodos e teorias da Escola Metódica passaram a ser questionados. 
A principal corrente que se destacou nesse momento foi a chamada Escola dos 
Annales, encabeçada pelos historiadores Lucien Febvre e Marc Bloch. Nos 
dedicaremos aqui a observar suas principais críticas aos metódicos e também 
seus principais pressupostos teórico-metodológicos. 
2.1 A Escola dos Annales: a primeira geração 
A primeira geração de historiadores dos Annales se deu a partir da 
inauguração, em 1929, da revista intitulada Annales d’histoire économique et 
sociale, que segundo Peter Burke tinha a intenção de “exercer uma liderança 
intelectual nos campos da história social e econômica [...] em favor de uma 
abordagem nova e interdisciplinar da história” (Burke, 1992, p. 33). 
A elaboração do projeto dos Annales tem relação direta com os 
desenvolvimentos dos praticamente 60 anos anteriores liderados pela Escola 
Metódica. Guy Bourdé e Hervé Martin (Bourdé; Martin, 1990, p. 115) elucidaram 
as críticas direcionadas pelos Annales aos metódicos, as quais resumimos no 
esquema a seguir: 
 
 
 
5 
Quadro 2 – Críticas direcionadas aos metódicos 
 
Nesse sentido, como ressalta Burke (1992), trata-se de uma corrente 
historiográfica que foca a pesquisa histórica a partir de um problema imposto 
pelo historiador, que analisará seu tema por um viés interdisciplinar. Podemos 
citar como principais autores dessa geração Marc Bloch, Lucien Febvre e Henri 
Pirenne, ainda que este último fosse mais um colaborador do grupo do que um 
membro integrante. 
2.2 Segunda geração dos Annales 
O sucesso da Escola dos Annales logo se tornou visível e rapidamente se 
tornou uma das escolas historiográficas (seria até possível dizer a mais) 
influentes não apenas na Europa, como no mundo. Com a morte de Marc Bloch 
em 1944, Lucien Febvre assumiu a direção dos Annales até 1956, ano que viria 
a falecer. Foi então que uma outra figura passou a ganhar destaque e terminou 
por impulsionar ainda mais a produção historiográfica. Trata-se de Fernand 
Braudel. Braudel assumiu o posto de líder dos Annales após a morte de Febvre 
e estabeleceu a corrente historiográfica annalista como interdisciplinar. 
• A necessidade de superação de uma história que
se resume à análise de documentos escritos.1º
• Superação do foco em fatos singulares a partir do
deslocamento para processos mais extensos, algo
que Ciro Flamarion Santana Cardoso (1992)
atribuiu como a instituição de temporalidades
múltiplas em oposição ao tempo linear, curto.
2º
• Revela-se a demanda para que se substitua a
perspectiva metódica que enfatiza os fatos de
grandes personagens para uma visão que priorize
“factos económicos, sociais e culturais”.
3º
• Exigência de superação de uma ausência de
posicionamento e interpretação do historiador
face seu objeto, algo que inviabiliza as tão
necessárias construções de sínteses históricas.
4º
 
 
6 
De acordo com Peter Burke (1992), o aspecto mais relevante trazido nos 
estudos de Braudel foi, sem dúvida, as mudanças de perspectivasa respeito das 
categorias de tempo e espaço. Esta última foi promovida especialmente pela 
aproximação do autor com os estudos do renomado geógrafo Paul Vidal de la 
Blache, com quem manteve diálogos constantes. Particularmente em sua obra 
O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na Época de Filipe II, publicado pela 
primeira vez em 1949, se tornou uma referência indispensável e representa um 
trabalho onde o trato com a geografia é marcante em vários momentos. 
Contudo, é importante destacar que a questão do tempo seja ainda mais 
predominante nos trabalhos de Fernand Braudel, principalmente por essa 
categoria estar presente em todos os momentos de seu O Mediterrâeno... 
ordenando todo o desenvolvimento de sua análise. Burke (1992) nos informa 
que a definição do tempo de longa duração proposto por Braudel seria aquele 
de maior interesse aos historiadores, pois embora ele fosse curto quando 
comparado com outras temporalidades, como o tempo geológico, ele seria o 
responsável por fornecer ao historiador aquela imagem mais clara das 
mudanças que seu objeto de análise sofrera. Em outras palavras, Braudel 
mantinha um grande interesse nas estruturas, sendo que essas só seriam 
possíveis de serem identificadas com maior precisão e clareza quando o 
historiador se dedicasse a analisá-las na longa duração. 
Em fins da década de 1960, após desgastes internos no grupo, Braudel 
recrutou novos historiadores para integrar os Annales a fim de promover uma 
renovação de seus membros. Dentre eles estavam importantes nomes como 
Jacques Le Goff, Emmanuel Le Roy Ladurie e Marc Ferro. Outro nome de 
destaque nessa segunda geração, tão preocupada com as questões de 
demografia e economia, fora Georges Duby, historiador que inovou em suas 
análises sobre a sociedade rural na Idade Média. 
2.3 Terceira geração dos Annales 
As tendências trabalhadas especialmente, embora não unicamente, por 
Fernand Braudel, dando ênfase nas transformações estruturais passíveis de 
conhecimento pela análise da longa duração, manifestaram o crescimento de 
uma outra linha de pesquisa ainda durante a segunda geração, mas que de fato 
foi impulsionada na terceira geração: os estudos acerca da mentalidade. 
 
 
7 
Pedro Paulo Funari e Glaydson José da Silva afirmam que a terceira 
geração dos Annales proporcionou uma verdadeira ampliação dos pressupostos 
de Lucien Febvre e Marc Bloch, que clamavam pela maior interdisciplinaridade 
nos estudos históricos. Isso teve impacto inclusive nos temas que foram cada 
vez mais se diversificando, estando presentes alguns “como morte, doença, 
alimentação, sexualidade, família, loucura, bruxaria, mulher, clima etc” e que 
viria a ressaltar a “passagem quase exclusiva de preocupações 
socioeconômicas e demográficas em declínio para uma história mais 
antropológica” (Funari; Silva, 2008, p. 71). 
Funari e Silva (2008) também ressaltam que outra diferença da terceira 
geração (também chamada de História Nova) em relação às duas anteriores é 
que, enquanto aquelas mantiveram sua liderança conduzidas por nomes 
específicos, esta manifestou uma despersonalização tamanha que se refletiu na 
ausência de um diretor e na ampliação da condição fragmentada na produção 
intelectual de seus membros. 
Mas o ponto marcante dessa geração foi de fato o estudo das 
mentalidades. A questão-chave dessa temática era demonstrar as distinções 
existentes entre a mentalidade da época estudada com a do historiador que a 
estudava. Nos termos de Georges Duby, essa consciência de mentalidades 
distintas era importante para impedir que fosse cometido o “anacronismo 
psicológico”, prejudicando a análise (Funari; Silva, 2008, p. 73). Contudo, como 
bem destacam Funari e Silva (2008), essa geração também sofreu duras críticas 
de outras linhas historiográficas, especialmente porque, ao considerar as 
mudanças da mentalidade estruturadas em longas durações, corria-se o risco de 
dispor “em níveis similares diferentes segmentos [sociais], aí constituindo uma 
de suas maiores críticas” (Funari; Silva, 2008, p. 73). 
Apesar das críticas, as inovações da terceira geração dos Annales foram 
extremamente importantes na historiografia e ainda hoje nos auxiliam em 
reflexões das mais diversas. Entre os principais expoentes dessa geração estão, 
além de Georges Duby (que também esteve ativo na segunda geração), Pierre 
Nora, Jacques Le Goff, Philippe Ariès e Jacques Revel. 
TEMA 3 – A HISTÓRIA PELA PERSPECTIVA DO MATERIALISMO HISTÓRICO 
É preciso destacar que as críticas levantadas pelos Annales contra a 
Escola Metódica não formularam a única vanguarda de enfrentamento das 
 
 
8 
prerrogativas desSa corrente historiográfica. Além dos Annales é preciso 
destacar também a historiografia marxista que, seguindo os preceitos de Karl 
Marx do século XIX estabeleceriam críticas profusas ao mesmo tempo que 
indicavam novas perspectivas teórico-metodológicas, assim como introduziam a 
necessidade de exploração de outras temáticas até então pouco trabalhadas. 
Veremos nesse terceiro tema, portanto, o desenvolvimento e estabelecimento 
do Marxismo como corrente historiográfica destacando seus pressupostos 
básicos de funcionamento. 
3.1 Marxismo 
Nos escritos de Karl Marx ao longo de todo o século XIX, foi desenvolvida 
uma perspectiva teórico-metodológica que supera o campo da História e possui 
seus alicerces na Filosofia. Durante o século XX, a corrente marxista foi 
adaptada e reformulada em alguns aspectos que formularam diferentes 
perspectivas. Não pretendemos aqui fazer um levantamento dessas 
ramificações por questões de espaço no presente material, por isso decidimos 
apresentar as principais linhas que constituem o pensamento marxista que, de 
uma forma ou de outra, acabam por integrar as perspectivas por mais diversas 
que possam ser. 
O principal fator que caracteriza a abordagem marxista está explicitado na 
concepção filosófica que a sustenta, uma posição que coloca em oposição à 
grande perspectiva filosófica de então no século XIX: o idealismo de Hegel. Karl 
Marx foi um duro crítico dos pressupostos da filosofia hegeliana e não é preciso 
se esforçar para percebê-lo como tal. José Paulo Netto (2011) nos explica que 
na visão de Marx a teoria seria a elaboração feita pelo pesquisador a respeito de 
um objeto quando compreendido como manifesto na realidade. Para chegar a 
determinada teoria, o pesquisador (e em nosso caso o historiador) deveria partir 
de um método específico para que fosse possível chegar à essência daquele 
objeto, ou seja, depreendendo sua estrutura e dinâmica na realidade. Nos termos 
de Netto: 
Para Marx, ao contrário, o papel do sujeito é essencialmente ativo: 
precisamente para apreender não a aparência ou a forma dada ao 
objeto, mas a sua essência, a sua estrutura e a sua dinâmica (mais 
exatamente: para apreendê-lo como um processo), o sujeito deve ser 
capaz de mobilizar um máximo de conhecimentos, criticá-los, revisá-
los, e deve ser dotado de criatividade e imaginação. (Netto, 2011, p. 
25) 
 
 
9 
Nesse sentido, percebemos que a abordagem marxista também combate 
a ausência de posicionamento por parte do pesquisador da perspectiva 
metódica, inserindo-o no seio da construção da análise sobre o objeto. Em 
termos filosóficos, Marx rebate a posição do idealismo de Hegel ao afirmar que 
a essência e, portanto, a elaboração de uma síntese sobre um dado objeto só é 
possível de ser feita a partir da aplicação de métodos sobre aquilo que se estuda, 
levando às proposições e construções teóricas, isto é, no plano ideal. Trata-se, 
como bem expõe Netto (2011), da base do pensamento marxista estar ancorado 
no pressuposto de que é o ser quem determina a consciência, e não o oposto. 
Ciro Flamarion Santana Cardoso sintetiza de forma bastante clara as 
prerrogativas do Marxismo: 
A principal contradição dialética reconhecida pelo Materialismo 
Histórico (ou seja, pela teoria marxista decomo funcionam e mudam 
as sociedades humanas) é a que se estabelece entre as sociedades 
humanas historicamente dadas e a natureza, e que se resolve no 
desenvolvimento das forças produtivas. As outras contradições 
fundamentais são a que vincula as forças produtivas com as relações 
de produção e a que estabelece a determinação em última instância 
da base econômica sobre os níveis da superestrutura (política, 
instituições, leis, ideologias). Justamente da análise integrada de tais 
contradições surgem os conceitos fundamentais de modo de produção, 
formação econômico-social e – para certas sociedades – o de classes 
sociais (Cardoso, 1992, pp. 40-41) 
Nesse sentido, ao realizar seus estudos sobre o capitalismo, Marx 
esclarece que sua investigação tem por base a compreensão de que as relações 
materiais dos homens “formam a base de todas as suas relações” (Marx, 2009, 
p. 245, citado por Netto, 2011, p. 34). Por mais que a perspectiva marxista encare 
que, em última instância, é o econômico que determina as relações humanas, 
isso não significa que devamos reduzir a abordagem marxista a um mero 
determinismo economicista. O próprio Friedrich Engels, personagem importante 
nas formulações da perspectiva do materialismo histórico, esclarecera em uma 
carta no ano de 1890 que sua proposição desenvolvida juntamente com Marx 
não colocava o econômico como único e exclusivo fator de transformação das 
relações humanas. Nas palavras de Engels, se alguém mobiliza a concepção de 
que o “fator econômico [é] o único determinante [das transformações sociais], 
converte esta tese numa frase vazia, abstrata, absurda” (Marx; Engels, 2010, p. 
107, citado por Netto, 2011, p. 14). 
O entendimento equivocado de que a abordagem marxista daria primazia 
ao econômico face às demais esferas do social (cultura, política, religião etc.) 
 
 
10 
não era presente somente entre os críticos do Marxismo, mas inclusive muitos 
adeptos deste entendiam suas formulações como correspondendo a essa noção 
de determinismo do econômico. Romper com tal perspectiva era necessário e o 
próprio Marx demonstrou como a abordagem do materialismo histórico que ele 
e seu colega Engels propunham poderia ser utilizada no estudo de um fenômeno 
histórico com foco na esfera política. Foi nesse sentido que a obra O 18 Brumário 
de Luís Bonaparte foi publicada em 1852. Conforme as décadas foram passando 
e a abordagem foi sendo cada vez mais empregada, novos estudos confirmaram 
que a abordagem marxista não se restringia à abordagem do econômico, algo 
que pode ser visto, por exemplo, nos estudos sobre cultura do historiador inglês 
Edward Palmer Thompson. 
Em suma, podemos afirmar que a perspectiva marxista trouxe inúmeras 
inovações envolvendo tanto questões estruturais quanto de dinâmicas 
específicas das sociedades. Baseando-se numa linha filosófica oposta ao 
idealismo hegeliano, o marxismo defendeu uma clara atuação ativa do 
historiador durante o procedimento de análise de seu objeto, seja ele qual fosse. 
Por tratar especialmente das questões produtivas como base da reprodução e 
transformação social, o marxismo abriu margem para estudos de setores da 
sociedade que até então mobilizavam pouca atenção, particularmente o 
campesinato e o operariado. 
TEMA 4 – CRISE DA HISTÓRIA E ASCENSÃO PÓS-MODERNA 
A historiografia presenciou ao longo das décadas de 50-60 do século 
passado a ascensão de uma nova perspectiva um tanto provocativa e, de certa 
forma, também inovadora: o pós-modernismo. A base da crítica pós-moderna 
encontra sua origem já no século XIX, mas é principalmente no XX que suas 
discussões colocaram em xeque a qualidade da História como ciência, 
desafiando a conquista metódica que, até então, não havia sido questionada de 
forma tão veemente. É fato que as perspectivas sobre como o historiador deveria 
proceder ao fazer sua análise são variadas, mas a crítica pós-moderna assumiria 
uma postura questionando inclusive a existência da verdade dos fatos, ou seja, 
atingia o cerne da matéria prima do historiador. 
 
 
 
 
11 
4.1 Pós-modernismo 
Compreender a discussão que envolve a perspectiva pós-moderna nos 
impulsiona a partir em direção a dois pontos essenciais: aos discursos e aos 
argumentos totalizantes. Se fossemos rastrear as origens da perspectiva pós-
moderna, deveríamos nos deslocar para o século XIX em direção aos estudos 
filosóficos de Friedrich Nietzsche. Diogo da Silva Roiz (2010) nos informa que 
Nietzsche possuía uma postura crítica a respeito das reflexões sobre os fatos, 
justamente por considerar que estes não existem na realidade, sendo somente 
interpretações que podem variar de acordo com quem interpreta determinada 
situação. O ponto é preocupante especialmente para os historiadores que 
procedem em suas pesquisas analisando fatos. 
A crítica ganharia novos contornos especialmente ao longo das décadas 
de 1950-60. Como destaca Ellen Melkins Wood (1999), essa nova corrente 
teórico-metodológica “é produto de uma consciência formada na chamada idade 
áurea do capitalismo, por mais que possa insistir na nova forma do capitalismo 
(‘pós-fordista’, ‘desorganizada’, ‘flexível’) da década de 1990” (Wood, 1999, p. 9-
10). Seria, portanto, fruto de uma sociedade que presenciou tanto os horrores 
das duas Guerras Mundiais quanto os benefícios tecnológicos proporcionados 
pelo capitalismo da década de 1960. 
As temáticas pós-modernas são variadas passando por temas culturais 
até os linguísticos, mas são nesses últimos que suas abordagens mais se 
destacaram a partir das análises dos discursos. De acordo com Wood (1999), a 
estrutura da sociedade na linha pós-moderna seria aquela mesma da linguagem, 
e é nesse sentido que podemos compreender melhor a afirmação dos discursos 
como chave investigativa da História cuja origem está em Nietzsche. Já que a 
estrutura explicativa e ordenadora da sociedade está na linguagem e “todos nós 
somos dela cativos, nenhum padrão externo de verdade, nenhum referente 
externo para o conhecimento existe para nós, fora dos ‘discursos’” (Wood, 1999, 
p. 11). Ou seja, a verdade única e possível de se apreender se encontra nos 
discursos, e por isso mesmo ela não é una e possui uma enorme variedade. 
Justamente pelo discurso ser a chave dos fenômenos históricos e também 
da prática do historiador que a crítica a respeito da cientificidade ganhou corpo. 
Segundo Roiz (2010), um dos maiores historiadores pós-moderno, o 
estadunidense Hayden White, direcionou suas críticas afirmando que o discurso 
 
 
12 
narrativo nos trabalhos históricos estava mais próximo da arte do que da ciência. 
Já Wood (1999) ressaltou que alguns dos pesquisadores mais recentes 
extrapolam a noção do conhecimento como socialmente construído a ponto de 
estender essa perspectiva para as leis físicas e matemáticas, afirmando que 
suas formulações são frutos de um contexto histórico específico. Ainda nessa 
perspectiva de pluralidade é que os pós-modernos possuem seu foco em realçar 
as diferenças e agir contrariamente às teorias ditas reducionistas, totalizantes 
ou, para ser mais claro, que buscam estabelecer sínteses sobre os fenômenos 
históricos. Nos termos de Wood, estruturas e causas “foram substituídas por 
fragmentos e contingências. Não há um sistema social (como, por exemplo, o 
sistema capitalista), com unidade sistêmica e ‘leis dinâmicas’ próprias; há 
apenas muitos e diferentes tipos de poder, opressão, identidade e ‘discurso’” 
(1999, p. 14). 
Dentre os principais pensadores pós-modernos que podemos citar, estão 
Charles Wright Mills, Hayden White, Keith Jenkins, Michel Foucault e Paul 
Ricoeur, todos sendo ainda bastante influentes nos trabalhos historiográficos. 
TEMA 5 – PENSANDO O MUNDO GLOBALMENTE 
Mais recentemente temos presenciado um crescimento bastante 
considerável de pesquisas que se dizem globais. Embora não seja uma linha de 
pesquisa nova, pois possui origens já desdemeados do século XX, o que 
comumente vem sendo chamado de História Global tem colocado importantes 
problemas a partir de considerações teórico-metodológicas a respeito da 
espacialidade estudada e das interconexões dos fenômenos históricos. Veremos 
neste tema os principais contornos da História Global que atualmente pode ser 
considerada como uma das correntes historiográficas com maior destaque nos 
estudos históricos. 
5.1 História global 
Podemos afirmar que as origens da História Global podem remontar 
desde estudos como o já mencionado O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo 
na Época de Filipe II de Fernand Braudel. Considerado como pioneiro dos 
estudos da então chamada História Mundial, Braudel se tornou importante 
referência no campo e inspirou muitos pesquisadores a romper com as fronteiras 
 
 
13 
nacionais em suas pesquisas. A ruptura com a ideia de se estudar os temas dos 
mais diversos considerando as circunscrições espaciais do Estado-nação como 
categoria analítica fundamental foi um dos principais avanços dessa corrente 
historiográfica. As nações atuais possuem distintas configurações territoriais 
quando comparamos esses mesmos espaços em momentos que os estados-
nacionais não tinham sido construídos ainda. 
Um momento-chave da evolução da perspectiva global fora a ascensão 
do processo de globalização pós 1950, tornando o mundo cada vez mais 
conectado e integrado. Fluxos, trânsitos e principalmente as conexões passaram 
a ser alguns dos objetos preferidos dos historiadores globais que perceberam a 
impossibilidade de sociedades sobreviverem e se desenvolverem de maneira 
isolada. Por isso que, de acordo com Sebastian Conrad (2019), muitos passaram 
a identificar ou buscar as origens da(s) globalização(ções) ou mesmo localizar 
suas manifestações no tempo. 
A superação dessas fronteiras nacionais como parâmetro fundamental de 
investigação histórica também está relacionada com a superação da explicação 
de fenômenos históricos de maneira endógena, ou seja, considerando somente 
as mudanças internas da sociedade em que o pesquisador se debruça. Além 
disso, é preciso mencionar outro fator em que a crítica da História Global se 
direciona: o eurocentrismo. 
Seguindo de perto as proposições de Sebastian Conrad, a crítica ao 
eurocentrismo não significa mover os estudos da história para outras regiões do 
globo para além da Europa, mas sim em romper com o que o autor chama de 
“eurocentrismo conceitual” (Conrad, 2019, p. 203-204). Trata-se de avançar 
numa abordagem que evite a reprodução dos mesmos valores e parâmetros que 
consagraram a narrativa da ortodoxia eurocêntrica. Em outras palavras, mudar 
a região de análise da Europa para outro continente qualquer não faz com que 
se rompa com o eurocentrismo se as bases e os preceitos fundamentais da 
pesquisa são os mesmos formulados pelas narrativas eurocêntricas tradicionais 
que davam ênfase no chamado nacionalismo metodológico. 
É preciso ter em mente, contudo, que a História Global ainda não é uma 
perspectiva em que os(as) autores(as) possuem concordância a respeito de sua 
prática metodológica. Como bem definiu Diego Olstein em seu livro Thinking 
History Globally (2015), atualmente é possível definir pelo menos 12 
perspectivas distintas que estão “pensando o mundo globalmente”, o que nos 
 
 
14 
demonstra a diversidade de abordagens distintas. Contudo, se podemos definir 
as prerrogativas que são criticadas de maneira comum a todas elas seriam, sem 
dúvida, a ruptura com o eurocentrismo e com o nacionalismo metodológico. 
Entre os principais autores que se destacam nos estudos de História 
Global estão Sebastian Conrad, Diego Olstein, Bruce Mazlish, Immanuel 
Wallerstein e Sanjay Subrahmanyam. 
NA PRÁTICA 
As correntes historiográficas são extremamente variadas e múltiplas nas 
suas abordagens. Nesse sentido, propomos a seguinte atividade: analise o 
trecho abaixo e tente identificar qual a corrente historiográfica, dentre as 
mencionadas ao longo desta aula, que mais se aproxima com a linha de 
raciocínio do autor, justificando sua escolha. 
Proponho que a base da cultura, e da religião como campo primordial 
de sua manifestação, reside na forma e na maneira pela qual os 
indivíduos entendem, definem, articulam e expressão as mútuas 
relações estabelecidas entre si e com a natureza. Em sociedades 
caracterizadas por uma profunda hierarquização e apropriação 
desigual da produção, estas formas de percepção social e estes modos 
de comportamento fundamentam-se tanto nos aspectos relativamente 
igualitários da organização do trabalho e da vida cotidiana, e na 
reprodução deste domínio ao longo do tempo, quanto na extrema 
desigualdade que caracteriza a relação de apropriação do produto e a 
reprodução dessa relação. (Bastos, 2013, p. 80-81) 
FINALIZANDO 
Nesta aula, vimos as diversas correntes teórico-metodológicas que 
podem ser utilizadas nas pesquisas históricas do historiador. Visamos 
estabelecer cinco vias historiográficas possíveis que internamente se desdobram 
em diversas outras possibilidades, mas que infelizmente não temos espaço o 
suficiente para discorrer nesse texto. Contudo, fornecemos ao longo de cada 
uma delas diversos autores para que o(a) aluno(a) possa recorrer às suas obras 
a fim de conhecer mais a respeitos da perspectiva em questão mais lhe tenha 
chamado a atenção. 
Passando desde a Escola Metódica com suas metodologias rigorosas e 
pela consolidação da História como disciplina, seguimos para a Escola dos 
Annales com suas três gerações críticas aos pressupostos metódicos e 
promovendo cada vez mais a interdisciplinaridade. Com o Marxismo, vimos 
como o enfrentamento da história metódica não se restringiu aos Annales, sendo 
 
 
15 
uma corrente pautada em pressupostos filosóficos do materialismo histórico que 
reformula o entendimento das transformações sofridas nas sociedades 
humanas. Contrastamos, ao fim, com a perspectiva crítica da História enquanto 
ciência pela corrente Pós-Moderna e seu foco nos discursos, além da História 
Global com suas múltiplas perspectivas que entendem a fluidez do espaço e a 
interconectividade das sociedades e de seus processos históricos. 
Vale lembrar que todas essas correntes não necessariamente se anulam 
e, a depender da questão formulada pelo pesquisador ao seu objeto de análise, 
podem ser combinadas de muitas maneiras a fim de garantir uma pesquisa de 
qualidade e com um alto nível de discussão teórica e metodológica. 
 
 
 
 
16 
REFERÊNCIAS 
BASTOS, M. J. da M. Assim na Terra como no Céu.... Paganismo, 
Cristianismo, Senhores e Camponeses na Alta Idade Média Ibérica (Séculos IV-
VIII). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2013. 
BOURDÉ, G.; MARTIN, H. As Escolas Históricas. Portugal: Editora 
Publicações Europa-América, 1990. 
BURKE, P. A Revolução Francesa da Historiografia: a Escola dos Annales 
(1929-1989). 2. ed. São Paulo: Editora UNESP, 1992. 
CARDOSO, C. F. S. Uma Introdução à História. São Paulo: Editora Brasiliense, 
1992. 
CONRAD, S. O que é História Global? Porto: Edições 70, 2019. 
FUNARI, P. P. A.; SILVA, G. J. da. Teoria da História. São Paulo: Editora 
Brasiliense, 2008. 
NETTO, J. P. Introdução ao estudo do método de Marx. São Paulo: 
Expressão Popular, 2011. 
OLSTEIN, D. Thinking History Globally. London: Palgrave Macmillan, 2015. 
ROIZ, D. da S. O ofício do historiador: entre a ‘ciência histórica’ e a ‘arte 
narrativa’. Revista História da Historiografia, n. 4, p. 255-278, 2010. 
WOOD, E. M. Introdução. In: FOSTER, J. B.; WOOD, E. M. (Org.). Em defesa 
da História: Marxismo e pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 
1999.

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