Prévia do material em texto
Geraldo Girão Nery INCT-GP Perfilagem Geofísica em Poço Aberto Fundamentos básicos com ênfase em petróleo Geraldo Girão Nery Perfilagem Geofísica em Poço Aberto Fundamentos básicos com ênfase em petróleo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Geofísica do Petróleo – INCT-GP/CNPq Sociedade Brasileira de Geofísica – SBGf Rio de Janeiro – RJ 2013 c©2013 Sociedade Brasileira de Geofísica (SBGf) É proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorização por escrito das editoras. Coeditoração do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Geofísica do Petróleo – INCT-GP/CNPq/MCT Capa inspirada em arte de Márcia Uchoa Revisão: Simone Basilio Comissão editorial SBGf: Secretário de Publicações: Luiz Geraldo Loures Editora de Publicações: Adriana Reis Xavier Assistente de Publicações: Fabianna Mathias Sotero Comissão editorial INCT-GP: Amin Bassrei, Hédison Kiuity Sato, Jessé Carvalho Costa, Joerg Dietrich Wilhelm Schleicher, Milton José Porsani, Sérgio Adriano Moura Oliveira, Walter Eugênio de Medeiros Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca do Observatório Nacional – ON N454 Nery, Geraldo Girão Perfilagem Geofísica em Poço Aberto - fundamentos básicos com ênfase em petróleo. - Rio de Janeiro: SBGf, 2013. 222p. ISBN: 978-85-88690-19-6 1. Perfilagem geofísica. 2. Geofísica de poço. 3. Petrofísica. I Título. CDU 550.832 Sociedade Brasileira de Geofísica – SBGf Av. Rio Branco 156, Sala 2509 CEP 20040-901– Centro – Rio de Janeiro – RJ Tel./Fax: (55) 21 2533-0064 sbgf@sbgf.org.br www.sbgf.org.br Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Geofísica do Petróleo – INCT-GP R. Barão de Jeremoabo, s/n, Instituto de Geociências CEP 40170-115 Salvador-BA-Brasil Tel./Fax: (55) 71 3283-8551 inct-gp@inct-gp.org www.inct-gp.org Apresentação Este livro é a primeira publicação conjunta entre a Sociedade Brasileira de Geofísica (SBGf) e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Geofísica do Petróleo (INCT-GP/CNPq). O INCT-GP é um dos 122 projetos aprovados pelo CNPq como parte do Programa Institu- tos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT), lançado em julho de 2008 e conta com apoio financeiro do CNPq, PETROBRAS e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ní- vel Superior (Capes/MEC). O INCT-GP reúne professores e pesquisadores de 5 universidades brasileiras (UFBA, UFPA, UFRN, UNICAMP e UENF) que atuam na pesquisa e formação de recursos humanos nas áreas de geofísica, geologia e engenharia de reservatórios. O livro apresenta os fundamentos teóricos dos métodos de perfilagem geofísica de poços, com ênfase na aplicação à exploração de petróleo e água subterrânea. A sua diagramação e formatação foi feita com o sistema LATEX, utilizando equipamentos e recursos humanos do Centro de Pesquisa em Geofísica e Geologia da Universidade Federal da Bahia (CPGG/UFBA). O professor Girão possui vasta experiência na área, adquirida como geocientista da PETRO- BRAS, consultor, empresário e como professor participante dos Programas de Pós-graduação em Geofísica da UFPA e da UFBA e Curso de Graduação em Geofísica da UFBA, que contam com o apoio de convênios da ANP e PETROBRAS para a formação de recursos humanos no setor petróleo e gás. 5 6 Apresentação Prefácio Nascido e criado em Fortaleza, estudei em escolas públicas e me formei em Engenharia Agronômica. Entrei para a Petrobras, vim para Salvador e em dois anos ela, com ajuda de um bando de gringos, me transformou em geólogo. Fui designado para uma equipe de geologia de superfície (TG-6) que mapeava o alto es- trutural localizado entre as bacias de Sergipe- Alagoas e as bacias baianas do Recôncavo, Tu- cano e Jatobá. Em seguida fui designado para a TG-7, para realizar idêntico trabalho no leste e nordeste de Sergipe. A vida era dura, andando a pé, de jipe, e até em saveiro vazando água do Velho Chico. Naquela época nós trabalhávamos 40 dias ma- peando no campo e tínhamos 10 dias de folga, em Maceió, sede do antigo Serdeste (Setor de Exploração do Nordeste). Longe dos familiares, sem a facilidade e ra- pidez dos celulares atuais, passava as minhas folgas em um hobby sofisticado, o radioama- dorismo, a construir transmissores para emitir e receber torpedos diários da família e notícias da terrinha, a ocupar os macanudos conterrâ- neos. Um belo dia, fui abordado por meu chefe a perguntar se eu estaria disposto a fazer um curso de perfilagem, a ser dado por um alemão da Schlumberger. Pedi mais informações e fui esclarecido em rápidas palavras sobre o que era aquilo. Como eu tinha algum conhecimento prévio de eletricidade, ele achava que eu seria bem sucedido. Não sei se foi minha sorte ou meu azar. O fato é que gostei bastante do assunto. Todavia, levei o maior susto quando, tão logo retornei, me deram a chave de um jipe e disseram: vá perfilar um poço lá em Sergipe. Se vira. Só para chegar à locação devo ter gastado umas 12 horas naquelas estradas de barro esburacadas e a travessia de balsa. Asfalto, só até a saída do aeroporto de Maceió. Lá chegando, o geólogo do poço apertou mi- nha mão, entregou-me as pastas do poço em perfuração e as pastas dos poços de correlação, disse-me “tchau e benção”. Sumiu. Fiquei sozi- nho a pensar no que havia me metido. Quanto maior a dificuldade, maior a glória. Arregacei as mangas e fui à luta, companheiro. Passamos a noite acordados, eu e minha ré- gua de cálculo (sim, as máquinas de calcular só viriam muito depois, e os laptops então. . . ), olhando aquelas fitas de papel com mais de 1000 m de poço, cheias de, ainda, garatujas para mim. Não teve uma só baixa radioativi- dade e uma só deflexão do SP da qual eu não tivesse calculado a saturação em água, usando a velha equação de Archie. O peso da responsabilidade era grande, por- que naquele tempo o geólogo era quem re- comendava a completação ou o abandono do poço. Mesmo tremendo nas bases, decidi abandoná-lo. Entreguei ao pusher os interva- los de tampão de abandono e, sonolento ainda, voltei. Ao retornar a Maceió, só respirei alivi- ado quando concordaram com o que eu havia feito. O tempo foi passando, eu sempre acompa- nhando perfilagens e interpretando. As perfi- lagens, coincidentemente, sempre ocorrem nos 7 8 Prefácio feriados, finais de semana e à noite. As fer- ramentas de então eram analógicas, cheias de válvulas, fios e painéis e apresentavam bastan- tes problemas. Nas plataformas, as perfilagens duravam se- manas e não noites. Frequentemente, esperá- vamos horas, ou dias a fio, para que uma fer- ramenta fosse substituída, vinda de lanchas ou rebocador. Helicóptero, só muito depois. Tí- nhamos que subir em cestas ou pular da lancha para os navios tenders, no balanço das ondas. Tudo era juventude e entusiasmo. Feriados, natais e carnavais, quase sempre embarcado à espera de uma ferramenta para a substituição de uma que não funcionara a contento, ou à espera de que fosse feito o re- condicionamento da lama após eventuais kicks, como em Caioba. Certo dia, pensei: “Por que não ensinar aos geólogos de poço como acompanhar e interpre- tar perfis?” Peguei um deles à unha, como pri- meira cobaia. Sentados lado a lado à minha mesa, comecei a mostrá-lo como as curvas se comportavam e o que deveria ser feito. Não é que deu certo?! Comecei com um recém-formado e, quando me dei conta, eram mais de 10, que chegavam anualmente a Aracaju, para onde a sede havia se deslocado após a descoberta de Carmópolis, em Sergipe. Foram várias turmas em sala, com cuspe e giz, transparências, provinhas e tudo o mais que um professor tinha direito. Noutro dia, vi-me designado para ensinar geólogos antigos, em Salvador, no que se de- nominava, à época, de curso de atualização de técnicas exploratórias (Catepe), no setor de en- sino da Bahia (Senba), precursor da atual Uni- versidade Petrobras. Fui acumulando experiência, de tal sorte que acabei deixando o que hoje se denomina E & P e passei para RH, transferido de vez para o Senba. Foi bom e foi ruim. Bom, porque estava re- alizando aquilo que aprendera a gostar - ensi-nar. Ruim, porque perdi o contato direto com o pessoal da E & P. Houve uma época em que o setor de geolo- gia do Senba foi desativado e transferido, com todo o acervo, inclusive professores, para o Rio de Janeiro. Como nunca me agradou traba- lhar no Rio - eu sempre dizia que o lugar mais longe de Fortaleza para mim seria Salvador -, fiquei. Porém, para ficar eu teria que acumu- lar a cadeira de geologia de petróleo, além da de perfilagem, para os engenheiros dos cursos de perfuração, produção, química, etc., o que aparecesse. Topei. Para me atualizar com as novidades em ge- ologia, fiz mestrado na UFBA. Foi uma ótima ideia. Ensinar a engenheiros me fez bem, porque eles me desafiavam com seus raciocínios ana- líticos. Como geólogo fui treinado em raciocí- nio lógico, comparativo, e a contemplar o meio ambiente para dele deduzir coisas do tipo - o presente é a chave do passado. E topei, mais ainda, quando a Petrobras co- meçou seus convênios com a UFBA, com a UFOP, com a UFPA e com a Universidade Agostinho Neto (Angola). Dei minha modesta contribuição a todas elas, e continuo a dar. A vida acadêmica me fez bem. Antes, ain- da na Petrobras, eu lidava com profissionais recém-formados, portanto empregados, todos bem vestidos e adequadamente comportados. Os bancos escolares e as brincadeiras estavam fora daquele ambiente de trabalho. Eles ti- nham que dar duro, porquanto ao concluírem o curso de pós-graduação em petróleo, a empresa lhes cobraria os gastos feitos com eles durante aquele ano. Nas universidades os alunos são jovens. A maioria recém-saída da adolescência e um tan- to irreverente, mas alegres, usa bermudas, ca- misetas, sandálias, ainda sem imaginar o que lhe espera lá fora. Aposentado da Petrobras, não parei e conti- nuei a pedalar a bicicleta da vida. Tornei-me Prefácio 9 empresário da água subterrânea. Sai do preto para o branco, a lidar com as mesmas linhas e traçados caóticos que nos conduzem aos misté- rios da perfilagem. Esta modesta contribuição é para todos aqueles que, bem ou mal, aprenderam junto comigo, em salas de aula, em palestras, em congressos ou onde quer que nosso amigo per- fil geofísico estivesse sendo discutido. A eles a minha homenagem e a minha gratidão, o meu carinho e o meu muito obrigado pela paciência que tiveram ao me escutar e ler. Aos geólogos Rui Gomes da Silva e Walter Ohofugi, durante muito tempo companheiros de luta e aprendizado, o meu abraço cordial. Sem o incentivo, a paciência e a ajuda dos professores Hédison Sato, Milton Porsani, Oli- var Lima e da graduanda Odette Aragão, este livro não teria se concretizado. Os agradecimentos finais vão para a Petro- bras que me deu oportunidades, as quais tenho certeza que correspondi plenamente; à Cerb que por meio da Hydrolog cedeu exemplos de perfis; aos demais patrocinadores; e, em es- pecial ao INCT-GP/CNPq, que me incentivou neste despretensioso livro, que nada mais é do que uma coletânea de tudo aquilo que fui acu- mulando – grande parte de domínio público – ao longo dos meus 50 anos de vida profissional e 40 de ensino. Uma homenagem final a Gesualdo, Dalva, Francisco, Joaninha, Oséas, Rita, Simone, Mô- nica, Márcio e Mauro, presenças constantes em todos os meus dias. Salvador, setembro de 2012 10 Prefácio Sumário Apresentação 5 Prefácio 7 Sumário 11 Lista de Figuras 19 Lista de Tabelas 23 1 Introdução 25 1.1 O Que é Perfil Geofísico de Poço? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26 1.2 Histórico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28 1.3 Correspondência entre os Registros e as Propriedades das Rochas . . . . . . . . . . 29 1.4 Aplicação dos Perfis Geofísicos em Poço Aberto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30 1.5 Utilização dos Perfis Geofísicos no Petróleo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30 1.6 O Meio Ambiente de uma Ferramenta de Perfilagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 1.6.1 Pressões em Subsuperfície . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 1.6.2 Fluido de Perfuração (Lama) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32 1.6.3 Invasão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32 1.6.4 Reboco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 1.6.5 Geometria do Poço . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34 1.6.6 Volume da Lama ou Diâmetro do Poço . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34 1.6.7 Zoneamento Fluido Circunvizinho às Paredes do Poço . . . . . . . . . . . . . 35 1.6.8 Zoneamento Fluido em Função do Tipo de Lama . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 1.6.9 Salinidade ou Resistividade da Lama . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37 1.7 Uma Operação de Perfilagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37 11 12 Sumário 1.8 A Malha Gráfica API . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38 1.9 Apresentação Final de um Perfil de Poço . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39 1.9.1 Formatos dos Arquivos Digitalizados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40 1.10 Vantagens dos Perfis de Poços . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41 1.11 Desvantagens dos Perfis de Poços . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41 1.12 Principais Tipos de Perfis Geofísicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42 1.13 Questionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43 2 Propriedades Fundamentais das Rochas 45 2.1 Generalidades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45 2.2 Lei das Misturas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 2.3 Teoria da Unicidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 2.4 Porosidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 2.5 Permeabilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47 2.6 Propriedades Petrofísicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49 2.6.1 Propriedades Elétricas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49 2.7 Propriedades Acústicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56 2.7.1 Propriedades Radioativas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57 2.8 Questionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61 3 Perfil de Raios Gama 63 3.1 Generalidades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63 3.2 Energia e Características Físicas das Radiações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63 3.3 Absorção dos Raios Gama pela Matéria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64 3.4 Deposição dos Radioelementos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65 3.4.1 Rochas Radioativas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65 3.5 Princípio de Medição do Perfil de Raios Gama . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66 3.6 Fatores que Afetam as Leituras dos Perfis de Raios Gama . . . . . . . . . . . . . . . . 67 3.6.1 Calibração de uma Ferramenta de Raios Gama. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69 3.7 Interpretação do Perfil de Raios Gama Convencional - GR . . . . . . . . . . . . . . . . 69 3.7.1 Interpretação Qualitativa do Perfil Exemplo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70 3.7.2 Interpretação Quantitativa do Perfil Exemplo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71 3.8 Resumo do Perfil de Raios Gama Convencional (GR ou RG) . . . . . . . . . . . . . . 72 3.9 Raios Gama de Espectrometria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 74 3.10 Questionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 74 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75 Sumário 13 4 Perfil do Potencial Espontâneo 77 4.1 Potenciais Naturais em um Poço . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77 4.1.1 Potencial Eletrocinético - Ek . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77 4.1.2 Potencial de Junção de Líquidos - Ej . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 78 4.1.3 Potencial de Membrana - Em . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 79 4.2 Potencial Espontâneo Estático - SSP . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81 4.3 Efeitos Ambientais sobre a Curva do SP . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82 4.3.1 Fatores que Afetam o Formato da Curva do SP . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83 4.4 Qualidade da Curva do SP . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84 4.5 Interpretação da Curva do SP . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84 4.5.1 Leituras no Perfil Exemplo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85 4.5.2 Arquivos Digitalizados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 86 4.6 Interpretação da Curva do SP na Presença de Sais Bivalentes . . . . . . . . . . . . . 86 4.7 Resumo da Curva do SP . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87 4.8 Questionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 88 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89 5 Perfis com Eletrodos Galvânicos 91 5.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91 5.2 Eletrodo em um Meio Homogêneo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92 5.3 Tipos de Perfis com Eletrodos Galvânicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 5.3.1 Sistemas Monoeletrodos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 5.3.2 Sistemas Multieletrodos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95 5.4 Principais Sistemas Multieletrodos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96 5.4.1 Limitações dos Multieletrodos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96 5.4.2 Principais Usos dos Multieletrodos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97 5.4.3 Resumo do Macro Perfil Elétrico Convencional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97 5.5 Sistemas Elétricos Focalizados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98 5.5.1 Focalização da Corrente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98 5.5.2 Princípio da Medição dos Macros Lateroperfis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 5.5.3 Usos dos Lateroperfis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 5.6 Perfis de Micro Resistividades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101 5.6.1 Micro Perfil Elétrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101 5.6.2 Limitações do Microperfil Elétrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102 5.6.3 Interpretação Qualitativa do Micro Perfil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 103 14 Sumário 5.6.4 Apresentação do Micro Perfil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 103 5.6.5 Micro Lateroperfil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104 5.6.6 Proximidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104 5.6.7 Apresentação do Proximidade e Micro Lateroperfil . . . . . . . . . . . . . . . . 104 5.6.8 Micro Esférica Focalizada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105 5.6.9 Resumo das Condições Ideais dos Perfis de Rxo (MLL, PL, MSFL) . . 105 5.6.10 Utilização Prática da Rxo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 106 5.6.11 Resumo das Ferramentas de Microrresistividade ou de Rxo . . . . . . . . . 109 5.7 Questionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111 6 Perfis de Indução 113 6.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113 6.2 Base Teórica do Perfil de Indução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113 6.2.1 Princípio de Funcionamento da Ferramenta de Indução . . . . . . . . . . . . 114 6.2.2 A Ferramenta de Indução Convencional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 115 6.2.3 Calibração da Ferramenta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116 6.3 Teoria do Fator Geométrico de Doll . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116 6.3.1 Fator Geométrico Radial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117 6.3.2 Fator Geométrico Vertical . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118 6.4 Teoria de Moran & Kunz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118 6.4.1 Doll vs Moran & Kunz. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119 6.5 Interpretação do Perfil de Indução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 120 6.5.1 Erro Ferramental . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 120 6.6 Limitações do Perfil de Indução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 121 6.6.1 Principais Usos do Perfil de Indução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 122 6.7 Ferramentas Indutivas Atuais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 122 6.8 Resumo dos Perfis de Indução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 124 6.9 Questionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 124 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125 Sumário 15 7 Perfil Sônico 127 7.1 Generalidades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127 7.2 Princípio da Medição do Tempo de Trânsito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127 7.2.1 Parâmetros Acústicos Mensuráveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129 7.3 O Sônico como Determinante da Porosidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129 7.3.1 Efeito da Ausência de Compactação sobre φs . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 130 7.3.2 Efeito da Porosidade Secundária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132 7.3.3 Efeito da Matriz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132 7.3.4 Efeito da Argilosidade (Vsh) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133 7.3.5 Efeito do Hidrocarboneto (∆thc) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133 7.3.6 Problemas Operacionais e Imprecisões das Leituras de φs . . . . . . . . . . . 135 7.3.7 Integração do Tempo de Trânsito (Travel Time Integrator) . . . . . . . . . 136 7.3.8 Equação de Raymer, Hunt & Gardner (1980) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 7.4 Ondas Cisalhantes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 138 7.5 Resumo do Perfil Sônico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 138 7.6 Questionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 138 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 140 8 Perfil de Densidade 141 8.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 141 8.2 Princípio do Perfil de Densidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 142 8.3 Definição de Densidade Eletrônica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143 8.4 A Ferramenta Densidade Compensada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 145 8.5 Interpretação do Perfil de Densidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 146 8.5.1 Efeito da Lama/Reboco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147 8.5.2 Efeito dos Hidrocarbonetos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 148 8.5.3 Efeito da Argilosidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 149 8.6 Apresentação do Perfil de Densidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 149 8.7 Perfil Litodensidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 150 8.8 Resumo do Densidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 151 8.9 Questionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 151 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 152 16 Sumário 9 Perfis Neutrônicos 153 9.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 153 9.2 Propriedades dos Nêutrons . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 153 9.3 Fontes de Nêutrons . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 153 9.4 Interação dos Nêutrons com a Matéria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 154 9.4.1 Colisão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 155 9.4.2 Amortecimento ou Espalhamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156 9.4.3 Termalização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 159 9.4.4 Captura (ou Absorção) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 159 9.4.5 Absorvedores de Nêutrons Termais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 160 9.5 Princípio das Ferramentas Neutrônicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 161 9.5.1 Neutrônico Omnidirecional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 162 9.5.2 Neutrônico Epitermal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 162 9.5.3 Neutrônico Termal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 163 9.5.4 Duplo Neutrônico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 163 9.6 Apresentação dos Perfis Neutrônicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 164 9.7 Interpretação dos Perfis Neutrônicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 164 9.8 Usos dos Perfis Neutrônicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 166 9.9 Resumo dos Perfis Neutrônicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 166 9.10 Questionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 166 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 167 10 Interpretação dos Perfis Geofísicos 1 169 10.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 169 10.1.1 Cuidados com os Analógicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 171 10.2 Interpretação Qualitativa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 172 10.2.1 Métodos Quick Looks de Interpretação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 173 10.3 Interpretação Quantitativa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 175 10.3.1 Dados que Devem ser observados a priori nos Cabeçalhos dos Perfis . 175 10.3.2 Critérios para a Realização das Leituras nos Perfis Analógicos . . . . . . 176 10.3.3 Parametrização das Equações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 176 10.4 Interpretação Avançada dos Perfis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 178 10.4.1 Determinação da Litologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 179 10.5 Questionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 182 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 183 Sumário 17 11 Interpretação dos Perfis Geofísicos 2 185 11.1 A Argilosidade (Vsh) e os Perfis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 185 11.1.1 Efeito Vsh sobre os Perfis de Resistividade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 186 11.1.2 Efeito Vsh sobre os Perfis de Porosidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 187 11.2 Principais Indicadores de Vsh . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 188 11.3 Os Hidrocarbonetos e os Perfis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 190 11.3.1 Efeito dos Hidrocarbonetos sobre o Densidade . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . 192 11.3.2 Efeito dos Hidrocarbonetos sobre os Neutrônicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . 192 11.3.3 Visualização dos Efeitos dos Hidrocarbonetos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 193 11.3.4 Gráfico da ASA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194 11.3.5 Algoritmos do Gráfico φD × φN . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 195 11.3.6 Algoritmos do Gráfico da Asa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 198 11.4 Questionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 198 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 199 12 Interpretação dos Perfis Geofísicos 3 201 12.1 A Condutividade das Rochas Argilosas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 201 12.2 Equações Conceituais e Empíricas para as Rochas Argilosas . . . . . . . . . . . . . . . 202 12.3 Interpretação Usando Planilhas de Cálculos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 206 12.4 Passos Sequenciais de uma Planilha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 207 12.4.1 Esclarecimentos importantes sobre o procedimento . . . . . . . . . . . . . . . . 208 12.5 Cálculo do Net Pay . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 209 12.6 Hidrocarbonetos em Reservatórios com Água Doce . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 209 12.7 Uso dos Perfis na Água Subterrânea . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 210 12.7.1 Exemplo de um Caso de Contaminação de Aquíferos . . . . . . . . . . . . . . . 212 12.8 Questionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 213 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 214 Símbolos 217 Currículo 221 18 Sumário Lista de Figuras 1.1 Exemplo de rebocos de fluidos. Adaptada de Reid (2000). . . . . . . . . . . . . . . . . . 34 1.2 Zoneamento Fluido Radial ao Poço. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 1.3 Perfis de invasão para um fluido de perfuração a base de água. Adaptada de Glover (2007). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36 1.4 Perfis de invasão para um fluido de perfuração a base de óleo. Adaptada de Glover (2007). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36 1.5 Unidade de Perfilagem - Caminhão Laboratório. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37 1.6 Componentes principais para uma operação de perfilagem geofísica. . . . . . . . . 38 1.7 Curvas de perfis inscritas em malha tipo API. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39 2.1 Modelo geológico de rocha porosa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49 2.2 Comportamento esquemático das condutividades em rocha limpa e argilosa. Adaptada de Worthington (1985). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55 2.3 Gráfico de Waxman & Smits (1968) usando dados de Hill & Milburn (1956). 56 3.1 Correlação entre uma curva de raios gama e seus fotogramas. . . . . . . . . . . . . . . 63 3.2 Exemplo de perfil composto. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70 3.3 Definição de ambientes sedimentares com o uso do perfil de Raios Gama (adap- tada de Glover, 2007). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70 3.4 Compilação de equações não lineares de argilosidade e seus respectivos autores. 71 3.5 Curvas Raios Gama em área altamente radioativa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73 3.6 Curvas de Raios Gama em poço aberto (OH) e após revestido em aço (CH). . 73 3.7 Gráfico para escolha do GRmax e GRmin do poço 1. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75 3.8 Gráfico para escolha do GRmax e GRmin do poço 2. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76 3.9 Gráfico para escolha do GRmax e GRmin do poço 3. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76 4.1 Curvas do SP obtidas em um mesmo poço e em datas distintas. . . . . . . . . . . . 79 19 20 Lista de Figuras 4.2 Atividade do Na+ versus resistividade das soluções de NaCl (Schlumberger, 1989). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 80 4.3 O SP é a medida entre o eletrodo móvel e um fixo na superfície (SP = irm) (Adaptada de Hallenburg, 1983). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82 4.4 Perfil SP exemplo para cálculo do Rw. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85 5.1 Princípio da medição do perfil elétrico. A é o eletrodo de corrente e B, o de retorno (Guyod, 1944). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92 5.2 Esferas equipotenciais vizinhas a um eletrodo em meio homogêneo e isotrópico. 93 5.3 Arranjo dos eletrodos dos Sistemas Normais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95 5.4 Arranjo dos eletrodos do Sistema Lateral. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95 5.5 Exemplo de Perfil Elétrico Multieletrodo Convencional. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97 5.6 Arranjo de eletrodos cilíndricos LL-3 (Schlumberger, 1989). . . . . . . . . . . . . . . . 99 5.7 Arranjo de eletrodos do Duplo Lateroperfil (Schlumberger, 1989). . . . . . . . . . . 99 5.8 Esquema do Micro Perfil Elétrico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101 5.9 Exemplo de Micro Perfil elétrico com Cáliper de dois braços. . . . . . . . . . . . . . . 103 5.10 Patins das ferramentas do Micro Lateroperfil e Proximidade. Adaptada de Glover (2007). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104 5.11 Patim da ferramenta Micro Esférica Focalizada (Schlumberger, 1989). . . . . . . 105 5.12 Modelo do MOP mostrando uma camada permoporosa antes e após a invasão. 106 6.1 Diferenças de fases observadas em um sistema de bobinas do perfil de Indução. Adaptada de Serra (1984). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 115 6.2 Arranjo de bobinas 6FF40 coaxiais ao poço (Dresser-Atlas, 1973). . . . . . . . . . . 115 6.3 Posicionamento espacial de anéis condutores em relação a duas bobinas. . . . . 118 6.4 Exemplo de Perfil de Indução. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 122 7.1 Trem de ondas no osciloscópio do Sônico e suas aplicações petrofísicas. . . . . . 128 7.2 Esquema de uma ferramenta sônica com um Transmissor e dois Receptores. . 128 7.3 Exemplo de corpos de folhelhos não compactados com ∆tsh > 100 µs/pé. . . 131 7.4 Modelo teórico de uma mistura de duas matrizes e água. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132 7.5 Modelo clássico das porosidades total e efetiva. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133 7.6 Modelo de uma camada limpa portadora de óleo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 134 7.7 Perfil Sônico BHC mostrando o resultado da integração do tempo (ITT), à esquerda da segunda faixa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 136 8.1 Uma fonte de 0,662 MeV tem como limite mínimo de energia defletida 0,288 MeV. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 142 Lista de Figuras 21 8.2 Transformada do perfil de densidadeρe = 1,0704ρeLS − 0,1883 (Schlumberger, 1985). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 144 8.3 Carta para correção do Efeito Z/A (Schlumberger, 1985). . . . . . . . . . . . . . . . . . 145 8.4 Ferramenta do Densidade Compensada pelo efeito do poço. Adaptada de Sch- lumberger, 1985. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 145 8.5 Porcentual da informação da densidade compensada com a distância da parede do poço. Adaptada de Glover, 2007. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 146 8.6 Exemplo de perfil de Densidade Compensada. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 146 8.7 O gráfico Spine & Ribs mostra o efeito dos rebocos leves ou pesados (Schlum- berger, 1985). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147 9.1 Zoneamento energético dos nêutrons após a saída de uma fonte omnidirecional. 158 9.2 A diminuição da concentração de nêutrons termais independe da porosidade da rocha. Adaptada de Ellis (1987). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 160 9.3 Comparação entre as porosidades sônica, densidade e neutrônica, em zona com água. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165 9.4 Zona com HC e água de acordo com as curvas do perfil de Densidade e do Neutrônico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165 10.1 Variação da qualidade das curvas com o tempo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 172 10.2 Exemplo de dois intervalos com alta resistividade intercalados por folhelhos de diferentes propriedades radioativas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 173 10.3 Gráfico para escolha dos parâmetros GRmax e GRmin, usando o perfil da Figura 9.4. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 177 10.4 Gráfico para escolha dos parâmetros dos folhelhos (φDsh, φNsh), usando o perfil da Figura 9.4. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 178 10.5 Geometria dos ambientes sedimentares para definição exploratória. Adaptada de Bjorlykke, 1989. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 178 10.6 Curva de Raios Gama e os ambientes deposicionais. Adaptada de Glover (2007). 179 10.7 Exemplo do Hingle plot para definição de parâmetros litológicos. . . . . . . . . . . . 180 10.8 Exemplo de gráfico da Schlumberger para definição da porosidade e da litologia. 181 10.9 Poço em minério de ferro, com eletrofácies modeladas segundo o método do KNN (Soares et al, 2009). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 182 11.1 Distribuição dos três tipos de folhelhos dentro do modelo de rocha da perfila- gem. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 185 11.2 Gráfico φD vs φN mostrando o comportamento dos três tipos de folhelhos em relação à porosidade (Schlumberger, 1985). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 186 22 Lista de Figuras 11.3 Duas camadas de águas (livre e adsorvida) dão origem à condução em paralelo em uma rocha arenoargilosa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 186 11.4 Modelo de rocha com folhelho interlaminado. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 187 11.5 Definição de φ e Vsh conforme os laboratórios e perfis Densidade e Neutrônicos (adaptado de Eslinger & Pevear, 1988). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 188 11.6 Confecção de um gráfico φD × φN. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 189 11.7 Modelo de rocha limpa com hidrocarboneto. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 192 11.8 Perfil RG/Densidade/Neutrônico, mostrando o comportamento de camadas com folhelhos (φNsh < φDsh), água ou óleo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 193 11.9 Gráfico da asa para a interpretação dos perfis. Adaptado da Schlumberger (1973). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194 11.10 Definição das retas traçadas no gráfico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 196 11.11 Dedução da Equação da porosidade Gaymard. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 198 12.1 Gráfico da tendência convexa das areias argilosas (Lima et al, 2005). . . . . . . . 201 12.2 Modelo unitário de Poupon, Loy & Tixier (1954). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 203 12.3 Amplitude de uso das equações de Sw (Adaptado de Worthington, 1995). . . . 205 12.4 Comparação entre dois modelos de equação de Sw (Ramos, 1990). . . . . . . . . . 206 12.5 Intervalos de interesse e seus parâmetros para o cálculo do Net Pay. . . . . . . . . 209 12.6 Perfil de aquisição (esquerda) e computado (direita) para orientação da escolha de profundidades ideais para a colocação de filtros (cortesia Cerb/Hydrolog). 212 12.7 Pluma contaminante (Palma, 2004). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 213 12.8 Determinação do parâmetro cutoff de Sw (Mendes, 2007). . . . . . . . . . . . . . . . . . 214 12.9 Determinação do parâmetro cutoff de Vsh (Mendes, 2007). . . . . . . . . . . . . . . . . 214 12.10 Determinação do parâmetro cutoff de φ (Mendes, 2007). . . . . . . . . . . . . . . . . . . 214 Lista de Tabelas 1.1 Exemplo de cálculo do VOR. Dados estimados de A, h, φ e Sw, considerando-se Bo = 1,3 e FR = 25 %. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 1.2 Exemplo de arquivo LAS. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41 1.3 Análises hidroquímicas das águas de um poço no tempo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43 2.1 A Lei das Misturas aplicada a uma combinação de quatro minerais volumetri- camente distintos resulta em quatro respostas físicas idênticas (densidades) a gerar ambiguidades interpretativas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47 2.2 Valores laboratoriais petrofísicos para vários tipos litoambientais (Elias et al, 2000). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53 2.3 Contribuição relativa dos três principais elementos radioativos naturais em um fluxo radioativo (Adams & Weaver, 1958). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60 4.1 Planilha para cálculo do RwSP, preenchida com o dado digitalizado do SP. Acima os parâmetros (constantes) e abaixo, os dados (leituras e resultados). . 87 5.1 Cálculos efetuados com a Equação 5.11 mostram que existe uma diferença de apenas 8,3V (90%) entre o eletrodo e uma esfera equipotencial localizada no infinito elétrico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 94 5.2 Condições ideais para a obtenção de Rxo, com as ferramentas MLL, PL e MSFL (dados extraídos de Schlumberger (1984). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 106 6.1 Cálculo do erro de uma ferramenta indutiva, de primeira geração. . . . . . . . . . . 121 6.2 Cálculo do erro de uma ferramenta indutiva, de última geração. . . . . . . . . . . . 121 7.1 Diferenças entre as resoluções do Sônico e a Sísmica. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 8.1 Valores da constante C para os elementos mais comuns das rochas sedimentares(Schlumberger, 1985). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143 8.2 Comparação entre as densidades de laboratório (ρLAB), eletrônica (ρe) e a re- gistrada no perfil de Densidade (ρperfil) (Schlumberger, 1985). . . . . . . . . . . . . . 144 23 24 Lista de Tabelas 9.1 Características dos principais componentes do átomo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 154 9.2 Interação dos nêutrons com alguns elementos das rochas, de acordo com a sua secção eficaz de espalhamento e captura. Adaptada da Schlumberger, 1973. . 158 9.3 Espectro de emissão dos raios gama de captura para alguns elementos das rochas (Schlumberger, 1973). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 159 9.4 Tipos de ferramentas neutrônicas, de acordo com suas detecções. . . . . . . . . . . 161 10.1 Usos e problemas dos principais perfis para uma interpretação básica na indús- tria do petróleo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 170 10.2 Planilha de cálculos para o método do RwA Mínimo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 175 11.1 Principais indicadores de argilosidade obtidos com dados dos perfis. . . . . . . . . 191 Capítulo 1 Introdução A perfuração constitui-se na última etapa da prospecção de um poço tubular, quer para hi- drocarbonetos, água subterrânea, minerais, ge- otecnia ou estudos ambientais. Não obstante os avançados métodos geofísi- cos e geológicos atuais poderem mapear e suge- rir as mais promissoras das locações, somente a perfuração do poço revelará se os prognósticos serão ou não confirmados. Muitas vezes, durante a própria perfura- ção, torna-se difícil a constatação do potencial do bem prospectado de acordo com o projeto construtivo do poço. Faz-se necessário iden- tificar os vários tipos de rochas perfuradas e avaliar o significado comercial destas. Os re- sultados obtidos por meio destes procedimen- tos constituem o que se denomina, na indústria do petróleo, de avaliação de uma formação. Para que uma avaliação seja realista, ela deve ser iniciada desde os primeiros metros per- furados do poço e obedecer a duas etapas dis- tintas: 1. Avaliação Exploratória ou Geológica - sub- dividida em duas etapas. A primeira de- las, durante a execução da operação de perfuração, pela análise e estudo: (a) dos fragmentos triturados pela broca (amostras descontínuas ou de calha); (b) dos eventuais testemunhos (amostras contínuas obtidas com ferramentas específicas de perfuração); (c) das ocorrências de extravasões (kicks ou blowouts) de fluidos intersticiais das camadas perfuradas; (d) das anomalias observadas em detec- tores de gás; e (e) dos eventuais perfis geofísicos reali- zados durante a própria operação de perfuração do poço (Measure e Log- ging While Drilling - MWD e LWD). A segunda etapa da avaliação explorató- ria é aquela realizada após o término da perfuração de cada fase do poço (antes de ser revestido ou completado, estando, por- tanto, ainda em aberto), pela análise e es- tudo: (a) da perfilagem geofísica elétrica, acús- tica e/ou radioativa; (b) dos testes de formação (completação provisória); (c) dos testes de formação a cabo; e, (d) das amostras laterais (pequenos tes- temunhos perpendiculares à parede do poço). 25 26 Capítulo 1. Introdução 2. Avaliação Explotatória ou de Produção - realizada após o poço ter sido considerado de interesse pela avaliação exploratória e completado (ou revestido), pela análise e estudo: (a) dos perfis geofísicos específicos para poços já revestidos; e, (b) dos testes de produção (ou de longa duração). Na indústria do petróleo, os métodos de ava- liação exploratória, em poço aberto (sem reves- timento), baseiam-se na perfilagem geofísica (também denominada Wireline - WL) e nos testes de formação. Um poço pode ser comple- tado sem ter sido executado nele um só teste de formação. Todavia, nenhum poço para produ- ção de petróleo jamais será completado ou re- vestido sem que tenha sido perfilado enquanto ainda em aberto. Existe, há décadas, na indústria petrolí- fera, uma tecnologia denominadaMeasurement While Drilling - MWD, na qual suas ferramen- tas fazem parte integrante da coluna de perfu- ração. Seus sensores transmitem, em tempo real, para a superfície, dados de pressão, tor- que, velocidade da perfuração, etc., por meio de pulsos de radiofrequência na lama (fluido usado para auxiliar a perfuração) ou técnicas assemelhadas, para que se possa fazer um per- feito acompanhamento da operação de perfu- ração. Posteriormente, esse sistema de telemetria mostrou a possibilidade de se poder acoplar sensores elétricos, acústicos, radioativos, etc., para realizar avaliações petrofísicas, de modo a minimizar os potenciais problemas causados por invasões fluidas prejudiciais aos parâme- tros a avaliar. Foram, então, desenvolvidas as ferramentas de Logging While Drilling - LWD, que visavam originalmente substituir, parcial ou totalmente, as operações de perfilagem ge- ofísica (WL) em poço aberto. Tais ferramen- tas suportam ambientes hostis aos perfis WL e permitem a tomada de decisões sem que a per- furação seja paralisada. Devido ao fato de a perfilagem LWD ser realizada ao mesmo tempo que a operação de perfuração, seus perfis so- frem menos os efeitos da invasão do filtrado da lama. Com o sucessivo avanço tecnológico e a acei- tação dos resultados pela indústria, o LWD passou a ser largamente usado, principalmente, nos poços de alto ângulo ou horizontais, bem como naqueles verticais de alto custos e ris- cos empresariais, onde haja a necessidade de prévia avaliação do reservatório ou tomada de decisão para redirecionamento. Todos os perfis usados em poço aberto (WL) estão disponíveis em LWD, sendo que alguns deles foram desenvolvidos somente para tal sis- tema. Na indústria da água, os métodos de ava- liação exploratória baseiam-se, na maioria das vezes, no estudo das amostras de calha e, even- tualmente, na perfilagem geofísica. Por outro lado, na avaliação explotatória, sempre nos tes- tes de produção ou de bombeamento. Na indústria da mineração, onde as rochas são desprovidas de permoporosidade (rochas cristalinas), os perfis são usados para o ajudar no posicionamento dos filtros em locais prefe- renciais fraturados e com alta vazão, com a fi- nalidade de rebaixar o nível freático e permitir o aprofundamento das minas. Programas estatísticos capazes de proporci- onarem definições eletrofaciais estão disponí- veis, hoje em dia, para melhorar a fase explo- ratória da mineração. 1.1 O Que é Perfil Geofísico de Poço? Em um afloramento observam-se várias ca- racterísticas das rochas: cores, fósseis, litolo- gias, texturas e estruturas sedimentares, com 1.1. O Que é Perfil Geofísico de Poço? 27 as quais se definem paleocorrentes e ambientes sedimentares. Com tais informações pode-se inferir a geometria dos corpos sedimentares e proporcionar base geológica para uma bem su- cedida exploração mineral. Ao se perfurar um poço tubular para água, petróleo, mineral, estudo ambiental, geotecnia, etc., as rochas, trituradas pela ação da broca, esfarelam-se em pequenos fragmentos denomi- nados de amostras de calha ou de perfuração. As amostras de calha, consideradas como o primeiro passo da avaliação, devem ser criteri- osamente coletadas em intervalos de profundi- dade estabelecidos pelo projeto de construção do poço, para registro estratigráfico e/ou auxí- lio na avaliação final. Alguns tipos de perfis geológicos são confec- cionados manualmente durante a própria ope- ração de perfuração, com base nas amostras de calha. Dados da granulometria, da litologia e da ocorrência de indícios de hidrocarbonetos, entre outros, são registrados. A depender da profundidade e das variá- veis hidrodinâmicas do fluido de perfuração (propriedades tixotrópicas, pressão de bom- beio, etc.), podem ocorrer desmoronamentos acima da profundidade da broca, de modo que as amostras de calha não correspondemexata- mente às profundidades referidas pelo sonda- dor. Para uma perfeita coerência das litologias atravessadas com suas respectivas profundida- des, operações bastante onerosas e demoradas de testemunhagem se fazem necessárias. As rochas podem ser identificadas em função de suas propriedades elétricas (condutividade, polarização induzida, constante dielétrica ou potencial eletroquímico natural, etc.), acústi- cas (velocidade de propagação de ondas elásti- cas compressionais ou cisalhantes, em relação a intervalos verticais das rochas), radioativas (naturais ou induzidas), mecânicas, térmicas, etc. Para a obtenção de tais propriedades, um ou mais sensores são deslocados dentro do poço, por meio de um cabo elétrico, resultando em um registro contínuo com a profundidade. No passado, denominava-se, genericamente, perfil elétrico todo e qualquer perfil, indepen- dentemente da propriedade registrada. Entre- tanto, o ideal é dizer-se perfil geofísico elétrico, acústico, radioativo, mecânico, térmico, etc., de acordo com o que nele seja registrado. Por definição, perfil geofísico é a representa- ção gráfica entre as profundidades e as proprie- dades petrofísicas das rochas atravessadas por um poço. Para o tipo de precisão desejada, os cabos de perfilagem são calibrados e monitorados den- tro de um limite máximo de erro da ordem de 1/1000 m. Deste modo, o intérprete de perfis tem a certeza de que seus cálculos quantitati- vos, necessários para a avaliação da potencia- lidade comercial de um poço, correspondem às profundidades registradas. São citadas, a seguir, algumas diferenças en- tre os perfis manuais e os geofísicos: 1. Um perfil litológico manual (confeccio- nado com as amostras de calha) regis- tra propriedades supostamente referidas à profundidade da broca. Muitas vezes, as amostras de camadas consolidadas, admi- tidas como obtidas a determinada profun- didade, pertencem a intervalos superio- res devido à ocorrência de desmoronamen- tos. Por outro lado, alguns tipos de folhe- lhos simplesmente são incorporados às la- mas, desaparecendo, ou quase, das amos- tragens; 2. O fator humano é praticamente eliminado na aquisição dos dados dos perfis geofísi- cos como um todo. Seus sensores regis- tram propriedades das rochas in loco; 3. A descida de um ou mais sensores é rea- lizada em um tempo relativamente curto 28 Capítulo 1. Introdução (em média, uma hora para cada 1000 me- tros de poço). Como vários deles po- dem ser acoplados a uma mesma ferra- menta em uma única descida, registra-se, em uma só operação, um grande número de dados; 4. O problema está na interpretação a ser re- alizada com tais dados, os quais dependem de inúmeros fatores, que vão desde a qua- lidade dos equipamentos de aquisição, re- gistro e processamento, do ambiente onde os sensores estão imersos (poço e circunvi- zinhança) até a qualificação do intérprete. Atribui-se a Einstein a seguinte afirmativa: “Não existe verdade absoluta quando se trata de interpretação”. Interpretar é, pois, uma ciência-arte. 1.2 Histórico O constante aprimoramento da pesquisa e da lavra do petróleo, por sua importância no de- senvolvimento tecnológico, exigiu, no passado, a partir da descoberta do Coronel Drake, em 1859, técnicas correlatas para maior economia e redução do custo exploratório. Perfurar poço tornava-se cada vez mais fá- cil. Difícil era avaliar quais as camadas poten- cialmente produtoras de hidrocarbonetos. As completações dos poços, bem como os testes de formação para avaliação da capacidade pro- dutiva das camadas, eram realizadas às cegas, isto é, sem fundamentação científica, apenas com sentimento (achologia). As dez perguntas mais frequentes dos pio- neiros eram: 1. Quais são as profundidades do topo e da base da camada de interesse? 2. Qual a sua espessura efetiva? 3. Qual a sua porosidade? 4. Qual a sua permeabilidade? 5. Qual o seu tipo de fluido intersticial: óleo, gás ou água? 6. Qual a porcentagem de óleo em relação à água? 7. Qual a porcentagem de óleo em relação ao espaço poroso (saturação fluida)? 8. Qual o volume final de óleo capaz de ser extraído da camada? 9. Qual o volume de óleo retido como resíduo na camada? 10. Quando o capital investido começará a ser revertido em lucro? Assim vivia a indústria, até 05/09/1927, quando Henri Doll, Charles Scheibli e Roger Jost, sob o comando dos irmãos Conrad e Mar- cel Schlumberger (Allard & Martin, 1977), re- solveram aplicar o método geofísico de eletror- resistividade superficial em um poço explora- tório de petróleo do campo de Pelchebronn (França). Os resultados de suas medições fo- ram desenhados manualmente a cada metro de profundidade. Esse foi o primeiro perfil geo- físico, de natureza elétrica, realizado em um poço. No início, a exploração do petróleo visou so- mente as grandes áreas com fácil acesso ob- servadas nos mapeamentos gravimétricos e/ou sísmicos. À proporção em que as pesquisas se desenvolviam e tais áreas se tornavam cada vez mais escassas, houve a necessidade de se pro- curar o petróleo em áreas menores, complexas e de elevado custo operacional. Estudos mais apurados teriam que ser de- senvolvidos por dois motivos: para reaprovei- tamento dos poços antigos (maduros), porém ainda capazes de produzirem algum petróleo e, para a busca de novos parâmetros e técnicas para a minimização dos custos exploratórios. 1.3. Correspondência entre os Registros e as Propriedades das Rochas 29 A maioria das companhias de perfilagem usa multicabos elétricos para enviar à superfície dados digitalizados na razão 700 bytes (in- dução), 200 kilobytes (dipmeter) até 10 me- gabytes (sônico digital) por metro de poço, para processamento. Fazendo-se uma compa- ração, o perfil que registra todo o trem de uma onda acústica tem, aproximadamente, a mesma quantidade de dados que se registra em pouco mais de um quilômetro de linha sísmica convencional (Schlumberger, 1989). A demanda de novas informações forçou o desenvolvimento de sistemas de telemetria efi- cientes e de sensores capazes de serem combi- nados e montados em uma única ferramenta, sem interferirem uns nos outros. Para fazer face à expansão do número de dados proveni- entes dos novos sensores, tornou-se obrigatório o uso de computadores e de sofisticados progra- mas de aquisição, processamento e interpreta- ção. Inúmeros tipos de perfis são disponibiliza- dos, nos dias atuais, para os mais variados usuários. Todavia, em que pese a melhoria ocorrida, os princípios físicos que regem os per- fis geofísicos permanecem os mesmos. As ferra- mentas que realizam as aquisições das propri- edades elétricas, acústicas e radioativas, conti- nuam com os mesmos arranjos de antigamente, com algumas variações em função da neces- sidade de um maior número de sensores ou de uma maior resolução da investigação ra- dial/vertical, requeridos pelos processamentos. Os princípios básicos dos perfis mais usados nas avaliações em poço aberto serão aborda- dos, discutidos e exemplificados, neste livro. 1.3 Correspondência entre os Registros e as Propriedades das Rochas Um conjunto de perfis geofísicos, quando em- pregado na avaliação de um poço, não fornece, diretamente, propriedades relevantes na avali- ação do potencial econômico das camadas, tais como: porosidade, permeabilidade, salinidade das águas intersticiais, teor de argila, satura- ção fluida, etc. Na realidade, tais propriedades são interpretadas a partir dos sinais registra- dos pelos sensores, em forma de medições elé- tricas, acústicas, radioativas, mecânicas, tér- micas, etc. Deste modo, a porosidade pode ser inferida a partir das medições do tempo gasto para uma onda elástica percorrer um certo intervalo de rocha, ou pela contagem de elétrons ou núcleos de hidrogênio, resultantes de um bombardeio artificial de raios gama ou nêutrons, respecti- vamente. A salinidade da água intersticial pode ser in- ferida diretamente, a partir da medida da re- sistividade elétrica de uma amostra coletada durante um teste de formação, ou, indireta- mente, peloregistro do potencial eletroquímico que se desenvolve espontaneamente nas rochas, em virtude de elas apresentarem concentra- ções iônicas (salinidades) diferentes daquelas do fluido de perfuração (lama). O conteúdo de argila de uma rocha sedimen- tar pode ser inferido a partir da quantidade maior ou menor do isótopo K40, elemento ra- dioativo natural e componente essencial dos ar- gilominerais. A resistência mecânica de uma camada pode ser inferida a partir do maior ou menor desmo- ronamento da parede do poço em relação ao diâmetro da broca que o perfurou, e assim por diante. Convém lembrar que, na maioria das vezes, os perfis geofísicos são os únicos registros pe- trofísicos de um poço, principalmente quando não foram cortados testemunhos por dificulda- des operacionais e/ou econômicas. Por serem passíveis de arquivamento perma- nente, em forma de filmes, cópias impressas ou mídia, os perfis funcionam como registros efici- entes e duradouros, podendo, posteriormente, 30 Capítulo 1. Introdução serem reinterpretados à luz de novos conheci- mentos inexistentes na época de sua realização. 1.4 Aplicação dos Perfis Geofísicos em Poço Aberto Os perfis constituem-se na mais importante ferramenta exploratória para seus usuários, proporcionando padrões para correlação entre poços vizinhos, confecção de mapas geológicos, definição da geometria dos corpos e ambientes de sedimentação. Abaixo são citadas, resumidamente, algu- mas das principais informações que podem ser obtidas a partir dos perfis geofísicos: 1. Qualitativos (evidências visuais) - litolo- gia, inclusive, identificação de evaporitos, tipo de fluido, salinidade das águas inters- ticiais, fraturas, zonas de perda de circu- lação, permeabilidade, qualidade das ci- mentações, seleção de zonas para canho- neio e produção de hidrocarbonetos, con- trole das profundidades perfuradas, plane- jamento de testes de avaliação, seleção de zonas para isolamento hidráulico, previsão de pressões anormais e escolha de brocas. 2. Quantitativos (evidências numéricas) - es- pessuras das camadas, porosidades, resis- tividades, velocidades acústicas, densida- des, constantes elásticas, permeabilidades, saturações fluidas, volumes de hidrocarbo- netos móveis, volumes de hidrocarbonetos residuais, percentual de misturas litológi- cas, conteúdo radioativo, teor de argila, volumes de petróleo no reservatório, cál- culo da pressão de poros, medida do di- âmetro e do volume dos poços, mergulho das camadas, determinação da inclinação e direção de poços. 1.5 Utilização dos Perfis Geofísicos no Petróleo O cálculo do volume total de petróleo que existe dentro dos poros de uma camada re- servatório (VOR) é feito por meio da seguinte equação: VOR = Ahφ(1− Sw) (1.1) sendo: A, a área, h, a espessura, φ, a porosi- dade e Sw(= 1− So), a saturação em água. A Tabela 1.1 exemplifica cálculos para a es- timativa de uma reserva de petróleo. Os dados h e φ podem ser obtidos com os perfis. Já a área A é, geralmente, fornecida pela sísmica e/ou mapas geológicos. Para se ter um valor real da quantidade a re- cuperar, devemos adicionar os fatores Bo, que transforma o volume de hidrocarboneto exis- tente em subsuperfície no reservatório em vo- lume correspondente às condições de superfície e, FR, que corresponde ao volume de hidro- carboneto a ser recuperado em um tanque na superfície. Devido às diferentes condições de T e P exis- tentes no reservatório em profundidade e na su- perfície, um barril de petróleo em profundidade (sob compressão, portanto) terá um menor vo- lume ao chegar ao tanque, na superfície, devido à presença de gás em dissolução. Caso um óleo não tenha nenhum gás em solução (o que ra- ramente acontece), o volume que ele ocupará, ainda assim, no tanque, será menor do que ele ocupava em profundidade, devido unicamente à descompressão do líquido. Por outro lado, e de um modo geral, FR = 15% quando o gás está dissolvido juntamente com o petróleo, FR = 30 a 35% quando o gás forma uma capa acima do reservatório e FR = 35 a 40% quando o petróleo é expulso do reservatório pelo empuxo da água. O questionamento final de uma empresa de petróleo será: Quanto tempo, após a desco- 1.6. O Meio Ambiente de uma Ferramenta de Perfilagem 31 Dado Descrição Resultado φ Porosidade 15 % Ahφ Volume Poroso Drenado 4,5× 108 m3 Sw Saturação em Água 25 % (1− Sw) So = Saturação de Óleo 75 % AhφSo V.O. = Volume Total de Óleo 3,38× 108 m3 AhφSo/Bo V.O. (in place )= V.O. / Bo 2,6× 108 bbl V.O. Recuperável V.O. (in place ) × FR 9,09× 107 Valor da Reserva em U$ U$ 100,00 por Barril 9,09× 109 Valor da Reserva em R$ U$ 1,00 = R$ 2,00 1,818× 1010 Tabela 1.1: Exemplo de cálculo do VOR. Dados estimados de A, h, φ e Sw, considerando-se Bo = 1,3 e FR = 25 %. berta do campo, a empresa terá seu investi- mento de volta, passando, daí em diante, a contabilizar somente lucros? Entenda-se como investimento toda a soma envolvida na pesquisa exploratória (geológica e geofísica), aluguel de equipamentos de per- furação terrestre ou plataformas, se no mar, equipamentos de completação, transporte (ou oleodutos), refino, etc. 1.6 O Meio Ambiente de uma Ferramenta de Perfilagem As ferramentas de perfilagem portam múltiplos sensores que são sensibilizados pelas condições existentes dentro dos próprios poços, tais como a sua geometria, as altas temperaturas e pres- sões, os elementos químicos aditivados às la- mas, além das camadas circunvizinhas (sobre e sotopostas) àquelas que desejamos estabele- cer as propriedades petrofísicas. As camadas permoporosas, por exemplo, recebem também influências originadas pela lama e seus compo- nentes. Entretanto, tudo que se deseja para uma ótima avaliação são os registros relativos às propriedades físicas virgens das camadas (isto é, aquelas que elas possuíam antes de serem perfuradas). Neste item são considerados os aspectos que envolvem conhecimentos de como e porque po- dem esses elementos, estranhos às rochas, influ- enciar os resultados das leituras dos sensores. 1.6.1 Pressões em Subsuperfície Verticalmente, as rochas e seus fluidos intersti- ciais estão submetidas à pressão devido ao peso das camadas sotopostas, denominada de pres- são litostática. Horizontalmente, tais pressões variam em razão de forças tectônicas, tensio- nais ou compressionais, e pela falta de homo- geneidade da crosta, fraturas, etc. Quando ocorre uma continuidade vertical desde a superfície, os fluidos internos das ca- madas permoporosas dependem do peso dos fluidos acima. Como a densidade dos fluidos é da ordem de 1/3 das rochas, a pressão litostá- tica é cerca de três vezes a hidrostática. Toda- via, para que ocorram acumulações comerciais em reservatórios de petróleo há a necessidade de uma rocha selante ou capeadora, de modo a inibir tal verticalidade, originando pressões anormalmente altas (Glover, 2007). A compressão efetuada pela força litostática tende a esmagar as rochas. Ela é contraba- lançada pela hidrostática, de forma a originar 32 Capítulo 1. Introdução um terceiro tipo de pressão, a efetiva (também denominada de Pressão Estática - PE), que é igual à diferença entre as duas atuantes. A explotação de hidrocarbonetos (retirada de fluido) traz como consequências a diminui- ção da pressão hidrostática e o aumento da pressão efetiva da camada. Com o passar do tempo, iniciam-se esmagamentos e compacta- ções que complicam a continuação da extração. Além da discutida pressão hidrostática, os fluidos interporosos sofrem também o efeito das pressões capilares e de empuxos proveni- entes dos aquíferos. 1.6.2 Fluido de Perfuração (Lama) Uma operação de perfuração exige a presença de um fluido com características capazes de au- xiliar a continuidade do avanço até a profundi- dade desejada. Contudo, não se deve imaginar que tais flui- dos sirvam apenas como um meio para atingir- se, com rapidez e eficiência, a profundidade final. Deve-se levar, também, em considera- ção, que dentre as suas mais diversas propri- edades petrofísicas, algumas delas interessam particularmenteà avaliação exploratória, prin- cipalmente no que diz respeito aos perfis geo- físicos. No que se refere aos procedimentos essenci- ais para uma perfeita avaliação, de modo a pro- porcionar um meio físico realista para as ope- rações de perfilagens, é essencial que se mante- nha o fluido de perfuração dentro dos parâme- tros estabelecidos para cada projeto específico, controlando-se: 1. A reologia necessária para o transporte do material triturado pela broca até a super- fície, para análise litológica. Reologia é o ramo da mecânica dos fluidos que estuda as propriedades físicas que influenciam a quantidade de movimento. A propriedade mais conhecida delas é a viscosidade. 2. Os processos de filtração (visando minimi- zar a invasão radial das camadas permeá- veis pelos sólidos e pela fase contínua do fluido) e da espessura do reboco (visando furos calibrados, i.e., sem desmoronamen- tos ou estrangulamentos excessivos). 3. A hidratação de argilas expansivas presen- tes. 4. As pressões de subsuperfície, por meio da densidade adequada à estabilidade do furo. Por suas características eletrolíticas (solu- ções salinas), o fluido de perfuração (lama) ocasiona uma série de distúrbios nos perfis ge- ofísicos e altera a precisão das informações que se deseja obter. Essas alterações resultam de três características do sistema fluido: volume (ou diâmetro) do poço, invasão e resistividade (ou salinidade) da lama. Além dos fatores ambientais citados, acres- centem-se outros responsáveis, em parte, por diversas alterações nos perfis, tais como o re- boco, pressão hidrostática da lama (PH), pres- são estática da formação (PE), gradiente geo- térmico local (GG), temperatura da lama, etc. 1.6.3 Invasão Uma operação de perfuração, para ser bem executada, deve ter uma lama com pressão hi- drostática (PH) aproximadamente igual à pres- são estática intrínseca das camadas, de modo a contrabalançar a pressão exercida por seus fluidos interporosos (PE). A necessidade da lama é uma exigência na- tural para fins de: 1. Preservação das seções não consolidadas (manutenção das paredes para evitar des- moronamentos). 2. Lubrificação da broca e demais elementos da coluna de perfuração e, 1.6. O Meio Ambiente de uma Ferramenta de Perfilagem 33 3. Permitir quantidade suficiente de amos- tras de calha na superfície para análise. Por questão de segurança operacional, ge- neralizou-se que as lamas devem ter PH um pouco acima da PE com a finalidade de eli- minar surgências fluidas indesejáveis e perigo- sas (kicks, blowouts, etc.). Em resposta a esse diferencial de pressão, ocorre uma infiltração (invasão) da lama através dos canais naturais das camadas permoporosas (capilares ou poros interconectados e/ou fraturas). A fase contínua da lama (filtrado) adentra os poros das rochas. A descontínua, ou sólida (argilas adicionadas ou incorporadas e aditivos químicos), não penetra com facilidade, a não ser que tenha tamanho menor que os poros ou que ocorra algum mecanismo capaz de distor- cer seu formato e comprimi-la entre os grãos. A porção sólida impermeabiliza gradualmente a parede do poço na forma de um reboco. Tão logo a broca penetra uma camada per- moporosa inicia-se a invasão do filtrado, ao tempo em que se depositam as primeiras par- tículas sólidas nas paredes do poço (reboco). O aumento da espessura do reboco imper- meabiliza e limita a penetração adicional de filtrado. Todavia, enquanto a coluna de perfu- ração estiver (ou for colocada) em movimento - como durante as manobras para troca de bro- cas ou limpar o poço para iniciar uma perfila- gem - o reboco sofrerá raspagens e, por con- sequência, novas frentes de invasão poderão ocorrer. A invasão tem, portanto, caráter di- nâmico e estático. A extensão radial (diâmetro de invasão -Di), resultante da penetração fluida, é uma função qualitativa de: 1. Fatores relativos ao poço/lama - tempo gasto na perfuração do poço, permeabi- lidade do reboco, viscosidade do filtrado e perda de água da lama; 2. Fatores relativos às camadas perfuradas - diferencial de pressão (PH-PE), permeabi- lidade, litologia e porosidade da camada. Um dos parâmetros usados pela engenharia de perfuração para controlar a magnitude da invasão é a medida da perda de água da lama (fluid loss) durante todo o desenrolar da per- furação do poço. Para lamas à base de água, uma amostra é forçada a passar através de um filtro-prensa, sob uma pressão de 100 psi, durante 30 minu- tos. Esse procedimento recupera uma amostra do filtrado e uma do reboco, cujas resistivida- des são medidas e anotadas nos cabeçalhos dos perfis por exigência normativa do API (Ame- rican Petroleum Institute). Igual anotação é feita para a perda de água da lama e demais características. As lamas à base de óleo são igualmente ana- lisadas, porém, com uma instrumentação espe- cífica, uma vez que seus filtrados, nas condições de temperatura da superfície, são de pequeno volume. 1.6.4 Reboco Nos primeiros poços perfurados, os fluidos de perfuração eram constituídos de águas de rios, lagoas, mangues, entre outros, com adição de algum tipo de argila e/ou incorporação de par- tículas resultantes do próprio ato de perfurar. Posteriormente, produtos naturais ou sintéti- cos foram acrescentados para que cada pro- blema operacional que surgisse tivesse uma so- lução adequada correspondente. Todavia, nem todos os produtos utilizados pela indústria do petróleo são adequados à indústria da água de- vido à possibilidade de ocorrência de subpro- dutos decomposicionais que possam contami- nar os aquíferos e/ou o meio ambiente. Os argilominerais, quando secos, apresentam cargas elétricas nas suas superfícies externas, 34 Capítulo 1. Introdução as quais governam suas atividades eletroquími- cas, conferindo-lhes características de atração e repulsão por moléculas eletricamente não ba- lanceadas ou íons. Quando em contato com a água, as cargas periféricas hidratam-se, devido à adsorção das moléculas bipolares de água (Pereira, 2001). Os fluidos bentoníticos (argilosos), chama- dos de alto teor de sólidos, têm forte tendência a flocular devido à incorporação de sólidos du- rante a perfuração, na dependência do pH e na possibilidade de contaminação por Ca e Mg. Os fluidos poliméricos (moléculas alongadas constituídas de cadeias de carbonos com uni- dades menores, idênticas e repetidas) podem ter origem natural ou sintética. Quando sinte- ticamente modificados, eles apresentam cargas elétricas periféricas e quando são imersos em água, solubilizam-se e formam uma estrutura de rede microscópica capaz de gerar a caracte- rística de viscosidade e, ainda, serem conduto- res elétricos, isto é, apresentam características similares às argilas (Nery e Macari, 2004). Os fluidos poliméricos, com teores de sólidos menores que 5%, inibem o processo de flocu- lação pela minimização do problema da circu- lação de água e do reboco - tal como obser- vado nos fluidos bentoníticos - e formam rebo- cos mais finos nas paredes dos poços. Na Figura 1.1, observa-se que o reboco das lamas bentoníticas tende a penetrar mais pro- fundamente nas camadas, enquanto os polimé- ricos não. Esse fato é um diferencial a ser ana- lisado com mais cuidado quando se avaliam os perfis em poços com um ou outro tipo de lama. 1.6.5 Geometria do Poço Durante a perfuração, a constante movimenta- ção da coluna e a variação da pressão de bom- beio do fluido de perfuração fazem com que as rochas se comportem de acordo com suas pro- Polimérico Bentonítico Figura 1.1: Exemplo de rebocos de fluidos. Adaptada de Reid (2000). priedades físicas e/ou mecânicas, mantendo ou não o diâmetro nominal da broca usada. Nos calcários (duros e compactos), as pare- des do poço permanecem, aproximadamente, com o mesmo diâmetro da broca. Os folhe- lhos, de tendência laminar, físsil e quebradiça, desmoronam e aumentam o diâmetro do poço. Nos arenitos, a permoporosidade favorece à penetração do fluido de perfuração com a ocor- rência de um depósito de crosta de partículas sólidas (reboco) nasparedes laterais, reduzindo o diâmetro do poço. A parte líquida da lama (filtrado) penetra camada adentro e desloca ra- dialmente parte do fluido original da rocha (in- vasão). Variações de tais comportamentos podem ocorrer em função das particularidades litope- trofísicas de cada camada e em zonas de alta pressão (ZPAA), zonas fraturadas e em rochas não consolidadas. 1.6.6 Volume da Lama ou Diâmetro do Poço Os gráficos de interpretação (produtos de mo- delamentos analíticos ou matemáticos) forne- cidos pelas empresas de perfilagem são elabo- rados a partir de poços perfurados com 8 pole- gadas, sob condições ideais, em rochas sintéti- 1.6. O Meio Ambiente de uma Ferramenta de Perfilagem 35 cas ou conhecidas. Entretanto, a qualidade e a precisão de tais correções diminuem à propor- ção em que aumentam o diâmetro do poço, a invasão e a espessura do reboco. Nos poços reais, bruscas variações locais em seus diâmetros implicam em variações nos pa- râmetros dos gráficos, tornando-os, de certo modo, imprecisos, porém não irreais e passí- veis de adaptações e/ou correções. 1.6.7 Zoneamento Fluido Circunvizinho às Paredes do Poço Os canais porosos são diminutos capilares (ex- ceto em fraturas ou cavidades de origem se- cundária) que funcionam como filtros. A inva- são dá origem, circunjacente e radialmente ao poço, a três zonas de distintas misturas fluidas, conforme ilustra a planta baixa de um poço (Figura 1.2). Figura 1.2: Zoneamento Fluido Radial ao Poço. Na zona lavada, o fluido interporoso original é varrido pelo filtrado. O termo varrido não significa, necessariamente, que todo o fluido original tenha sido expulso ou substituído pelo filtrado invasor, porquanto depende da quanti- dade de água retida pelas forças de adesão e/ou tensão superficial da camada invadida. Quanto menor a granulometria, maior a área de con- tato e maior a quantidade de água adsorvida. Nessa zona, o filtrado coexiste em difusão com a água retida (residual) e, se ocorrer, também com os hidrocarbonetos residuais. A zona invadida é de natureza transicional ou de coexistência temporária de fluidos (fil- trado, hidrocarbonetos e água da formação ir- redutível e/ou livre). O fluido presente tende a ser uma mistura entre o filtrado e a água da formação. A zona verdadeira ou virgem não sofre per- turbação ou contaminação do filtrado e pre- serva todos os fluidos em sua proporção volu- métrica original. O reboco da lama é constituído de partículas sólidas e líquido, e toma um aspecto de folhe- lho (inclusive, em termos de propriedades elé- tricas). Assim, não é admissível se dizer que, quanto mais espesso o reboco, mais permeável a camada. As várias manobras para troca de brocas, efetuadas durante a perfuração, podem raspar um reboco já formado e favorecer no- vas frentes de invasão, muito embora o reboco possa permanecer fino. O contato entre as três zonas fluidas não é brusco como aparenta ser na Figura 1.2, mas sim transicional devido à capilaridade. Com o devido tempo, a zona invadida tenderá a desa- parecer. 1.6.8 Zoneamento Fluido em Função do Tipo de Lama A profundidade de invasão, ou o diâmetro da invasão (Di), depende, qualitativamente, da permeabilidade (capilaridade) das camadas. As Figuras 1.3 e 1.4 esquematizam as quatro situações das zonas radiais em função do tipo 36 Capítulo 1. Introdução Figura 1.3: Perfis de invasão para um fluido de perfuração a base de água. Adaptada de Glover (2007). Figura 1.4: Perfis de invasão para um fluido de perfuração a base de óleo. Adaptada de Glover (2007). de lama usada na perfuração e do tipo de fluido presente na camada. • Camada aquífera perfurada com lama à base de água: o filtrado desloca pratica- mente toda a água original existente na zona lavada da camada permoporosa. • Camada contendo petróleo perfurada com 1.7. Uma Operação de Perfilagem 37 lama à base de água: o filtrado desloca tanto a água da formação como algum pe- tróleo presente nas proximidades das pare- des do poço. Permanecem, todavia, como fluidos residuais a água e o óleo. • Camada aquífera perfurada com lama a base de óleo, o filtrado movimenta-se de- vido ao diferencial de pressão e desloca grande parte da água da formação. • Camada contendo petróleo perfurada com lama à base de óleo: o filtrado desloca parcialmente a água da formação e parte do petróleo presente nas proximidades das paredes do poço. 1.6.9 Salinidade ou Resistividade da Lama O movimento aleatório dos íons (browniano), em uma solução, é o responsável pela condução da corrente elétrica. A lama contém elementos sólidos condutores (argilas) e apresenta propri- edades elétricas, assim como as soluções. Denomina-se Rm a resistividade da lama; Rmf, a do filtrado; e, Rmc, a do reboco. Resistividades das lamas com os íons mono- valentes Na e Cl guardam as seguintes relações empíricas: Rmf = 0,75Rm e Rmc = 1,50Rm (Schlumberger, 1989). Todavia, nas lamas à base de KHCO3 ou KCl e outros íons bivalentes, suas proprieda- des físico-químicas sofrem sensíveis modifica- ções e exigem novas relações para as interpreta- ções dos perfis de potencial espontâneo (Lima & Nery, 1999). 1.7 Uma Operação de Perfilagem Três fases podem ser reconhecidas durante uma operação de perfilagem geofísica: aquisição, processamento e registro. Uma perfilagem re- quer vários equipamentos, uns localizados na superfície e outros dentro do poço (downhole tools), em deslocamento ascensional contínuo. Figura 1.5: Unidade de Perfilagem - Caminhão Laboratório. O primeiro deles é o caminhão ou unidade de perfilagem (Figura 1.5), onde está montado um grande tambor contendo o cabo de perfila- gem. Este cabo é revestido externamente por duas malhas de fios de aço, dispostas helicoi- dalmente e em sentido contrário, uma da outra, para fins de segurança mecânica e operacional, quanto à tração e à torção. Internamente, ele consiste de sete condutores, perfeitamente iso- lados por teflon ou material equivalente. É por ele que se envia a corrente de alimentação para os sensores, e é ele que traz, para a superfície, os sinais (voltagem, pulsos por segundo, etc.) captados pelos sensores. Uma roldana métrica, calibrada regularmen- te dentro dos padrões internacionais, por onde o cabo de perfilagem se movimenta, denomi- nada de medidor de profundidade ou spooler. Ela destaca-se na traseira do caminhão e é a responsável pela precisão das profundidades re- gistradas. Na superfície, dentro do caminhão, estão os computadores e painéis com circuitos eletroe- letrônicos de medição, conversão e registro dos sinais provenientes do poço. 38 Capítulo 1. Introdução Figura 1.6: Componentes principais para uma operação de perfilagem geofísica. A presença de computadores nas unidades laboratório deve-se a necessidades operacio- nais, tais como: • acelerar e monitorar a operação; • aumentar a quantidade de combinações ferramentais possíveis; • diminuir o número de descidas em um poço; • facilitar a interpretação computadorizada no canteiro de obras; e, • liberar o operador da perfilagem das tare- fas cansativas de calibração e controle das operações. As unidades de perfilagem também possi- bilitam ver e interpretar um perfil ao mesmo tempo em que a ferramenta obtém as informa- ções no fundo do poço. É a operação em tempo real (real time), graças ao uso de monitores óti- cos ou de câmaras de raios laser ou catódicos. A Figura 1.6 ilustra os componentes prin- cipais dos equipamentos necessários a uma operação de perfilagem geofísica. Por mídia, subtende-se toda a parafernália usada para transmitir ao cliente, a distância em suas se- des, as informações adquiridas. 1.8 A Malha Gráfica API As curvas dos perfis são registradas em uma malha quadriculada, seguindo normas do Ins- tituto Americano de Petróleo (API, 1997), pa- dronizada em três pistas, faixas ou tracks . Cada faixa está dividida em dez pequenas di- visões verticais de 1/4 de polegada e tantas horizontais quantas forem necessárias para a representação da profundidade do poço (pés ou metros). A profundidadeestá impressa em uma estreita faixa localizada entre a primeira e a segunda faixas (Figura 1.7). As escalas de profundidade mais usadas no petróleo são as de 1/200 e 1/1000, respectiva- mente, para trabalhos de avaliação e correla- ção. Na água subterrânea, adota-se a escala 1/500. A primeira faixa é sempre apresentada em escala linear e, de um modo geral, as curvas nela registradas sinalizam informações de na- tureza litológica (SP, GR, Cáliper, etc) A segunda faixa pode ser apresentada tanto 1.9. Apresentação Final de um Perfil de Poço 39 Figura 1.7: Curvas de perfis inscritas em malha tipo API. em escala linear como logarítmica. Neste úl- timo caso, as informações são de resistividade. A terceira faixa é sempre linear e, geral- mente, apresenta as curvas de porosidade. As segunda e terceira faixas podem estar unidas em vários ciclos logarítmicos para a im- pressão das curvas de resistividade. É conveniente lembrar que os ciclos logarít- micos usados nos perfis de resistividade são ge- ralmente iniciados com múltiplos ou submúlti- plos de 2 e eventualmente de 1, de sorte que o primeiro ciclo iniciado em 0,2 termina em 2. Do segundo ciclo em diante, ele se normaliza, mas o último deles sempre termina em 2 ou múltiplos de 2. A Figura 1.7 mostra, na segunda faixa, um grid logarítmico iniciado em 2 e terminando 200 Ω.m. Existem curvas que são sempre registradas na primeira faixa, outras na segunda ou na terceira, e algumas abrangendo a segunda e a terceira faixas, em escalas log ou linear. 1.9 Apresentação Final de um Perfil de Poço Os perfis são apresentados aos usuários em for- mato gráfico e/ou digitalizados, que podem ser interpretados nas próprias unidades labora- tórios ou processados posteriormente em seus computadores. O formato gráfico em papel (Figura 1.7), deve estar constituído, segundo a norma API, por quatro partes distintas, cada uma com um propósito específico: 1. Cabeçalho - onde são colocados os dados de propriedade do poço, das característi- cas gerais da perfuração/fluido e da loca- lização geográfica; 2. Ficha de Calibração - onde são mostradas as evidências das correspondências físicas entre os valores registrados pelos sensores e os parâmetros petrofísicos que se deseja medir; 3. Perfil Propriamente Dito - todo o inter- valo perfilado do poço com o registro das curvas solicitadas pelo cliente à compa- nhia de perfilagem, e pelo qual ele pagará pelo serviço e, 4. Seção Repetida - registro adicional de 50 ou 60m do trecho perfilado, geralmente do fundo do poço, para demonstrar ao cliente uma estimativa da precisão e das tolerân- cias da física da medição. As calibrações das ferramentas de perfila- gem, realizadas contra padrões normatizados, são baseadas em princípios válidos para respos- tas lineares, isto é, sem contar com ocorrências das contribuições eventuais dos muitos e vari- ados componentes eletrônicos das ferramentas. Para que ocorra a linearidade requerida pe- los padrões de calibração, as ferramentas de- vem usar dados digitalizados e devem ser cali- 40 Capítulo 1. Introdução bradas periodicamente nas oficinas das empre- sas de perfilagem, bem como antes e após cada operação no campo. Aliadas a estes procedimentos operacionais, todas as ferramentas usam componentes de ponta de uso militar (suportam fortes choques e temperaturas entre −55 e 155 oC), têm sol- das em ligas de prata e são testadas quanto a ganhos, desvios, perdas de pulso e sincronis- mos, além de possuírem circuitos internos para realizarem compensações controladas externa- mente pelo operador. Ultrapassadas as tolerâncias estabelecidas pelos fabricantes e/ou o API, as ferramentas são retiradas do serviço e submetidas à manu- tenção corretiva, independentemente da vali- dade da preventiva. Por outro lado, os cali- bradores (padrões) são controlados por orga- nismos independentes, que, no Brasil, são cre- denciados pelo Inmetro. Os dados registrados tanto podem ser entre- gues aos clientes em papel, em mídia com todas as curvas ou digitalizados em formatos especi- ais, prontos para uso em microcomputadores ou workstations. Antes de 1961 (introdução do computador no Dipmeter), todos os perfis eram registrados em filmes fotográficos e copiados em papéis es- pecíficos, exigindo espaços e condições clima- tizadas para armazenamento. Com o tempo, tanto o filme como o papel esmaeciam e per- diam parcial ou totalmente as custosas infor- mações neles contidas. 1.9.1 Formatos dos Arquivos Digitalizados Vários são os formatos usados pelas diversas companhias de serviços de perfilagem: LIS (Log Interchange Standard) - Desenvol- vido no final de 1970 pela Schlumber- ger, tem os dados arquivados de diferentes maneiras sequenciais. Muito embora não adotado por qualquer organismo da classe petroleira, ainda assim, é um formato dos mais usados. DLIS (Digital Log Interchange Standard) - Também conhecido como API Recommen- ded Practice 66. Foi introduzido quando as fitas DAT (Digital Audio Tape) predo- minavam no mercado. Os dados são mo- delados em formato seriado e sequencial. Antes de 1999, todos os dados digitaliza- dos eram apenas de formato LIS. Após 1999, eles passaram a ser, predominante- mente, de formato DLIS. BIT (Basic Information Tape) - Desenvolvido nos anos 70 pela Atlas Wireline (atual Ba- ker Atlas). Não muito usual nos dias atu- ais, porém ainda encontrado na China. ASCII (American Standard Code for Infor- mation Interchange) - É uma categoria ge- ral de arquivo texto, facilmente visualiza- dos pelos usuários. O mais difundido e usado em microcom- putadores para a realização de cálculos rápidos é o LAS (Log ASCII Standard), desenvolvido pela CWLS (Canadian Well Logging Society). Muito embora diferentes em formatos, eles compartilham algumas características comuns. DLIS, LIS e BIT são arquivos múltiplos que po- dem ser encapsulados ou copiados para discos como um único arquivo. Cada arquivo lógico dentro do disco é aproximadamente compará- vel às informações contidas em um LAS. Todos os formatos são autoexplicativos e suas estru- turas variam de arquivo para arquivo. Um exemplo de arquivo LAS pode ser visto na Tabela 1.2. Neste tipo de arquivo, ocor- rendo alguns valores negativos, tipo -999.99, significam a inexistência de leitura na profun- didade indicada. 1.11. Desvantagens dos Perfis de Poços 41 Depth DT GR ILD NPHI RHOB 325.0000 -999.99 69.3906 2.3180 38.0798 2.1626 325.2000 120.2891 68.8594 2.2629 38.1439 2.2021 325.4000 123.9570 65.7571 2.2592 37.6511 2.2849 325.6000 124.8074 64.5977 2.2617 38.7573 2.2206 325.8000 123.7019 63.9937 2.2491 36.1328 2.2275 326.0000 123.0977 62.8164 2.2321 37.2070 2.1689 326.2000 129.6836 58.1484 2.2475 44.5694 2.0115 326.4000 127.8789 54.3010 2.2657 46.7209 1.9714 326.6000 127.9219 60.2812 2.3172 43.2632 2.1229 326.8000 124.5234 64.4390 2.2261 41.9769 2.1398 327.0000 132.6328 63.4922 2.0752 45.6482 1.9890 327.2000 129.8164 62.6577 2.0773 48.7915 1.9269 327.4000 127.9712 66.0469 1.9927 46.7041 2.0244 327.6000 128.4243 68.8281 1.9631 44.4687 2.2065 327.8000 124.5859 68.0173 1.9466 42.6758 2.2657 328.0000 128.2148 66.1797 1.9116 42.0898 2.2923 A primeira linha contém a identificação de cada curva e, nas colunas, os valores amostrados a cada 20 cm de poço. Tabela 1.2: Exemplo de arquivo LAS. . 1.10 Vantagens dos Perfis de Poços As principais vantagens dos perfis de poços (WL), em comparação com demais métodos de avaliação, são: 1. Cobrem todo o intervalo perfurado. 2. Apresentam erro máximo nas profundida- des da ordem de 0,05%. 3. Registram várias propriedades petrofísicas em uma só descida de ferramenta. 4. Realizam amostragens em grande detalhe. A depender do tipo de perfil, uma amostra a cada 6 polegadas ou uma amostra a cada polegada (15 cm a 0,5 cm de poço). 5. De rápida execução. Velocidade de perfi- lagem entre 10 e 75 m/min. 6. De custo reduzido quando comparado à perfuração do poço em si, ou, ainda, de uma testemunhagem contínua ou LWD (Logging While Drilling). 1.11 Desvantagens dos Perfis de Poços Paraa sua interpretação, há necessidade de um especialista, ou intérprete, que deve ser man- tido em constante reciclagem por seus empre- gadores. Ele deve conhecer, além dos princí- pios físicos de cada perfil, como suas ferramen- tas funcionam, ter razoáveis conhecimentos da geologia regional, de petrofísica, etc, aliados a uma boa dose de bom senso, lógica e pragma- tismo. Interpretação é uma ciência-arte, na qual não há uma verdade absoluta. A experiência, bom senso, equipamentos calibrados e conheci- mento geológico da área devem prevalecer so- 42 Capítulo 1. Introdução bre a escassez de dados adicionais. 1.12 Principais Tipos de Perfis Geofísicos A Lei de Archie (1942) é a maneira mais sim- ples de se entender os procedimentos de uma avaliação de poço, quando realizada por meio dos perfis geofísicos: Snw = aRw φmRt = (1− So) (1.2) Essa lei foi o ponto de partida para toda a técnica da perfilagem, muito embora ela so- mente deva ser aplicada para camadas sem grãos condutores (minerais metálicos ou não argilosos) e com água intersticial em torno de 10000 ppm. Pelo que se pode observar, a aplicação dessa lei necessita, no mínimo, da determinação de quatro constantes (denominadas na técnica da perfilagem de parâmetros - a, m, n e Rw), es- pecíficas para cada tipo de formação, cada tipo de ambiente deposicional, etc., e de duas variá- veis (denominadas dados - Rt e φ), registradas a cada profundidade. Os parâmetros a, m e n deverão resultar, preferentemente, de testes laboratoriais em tes- temunhos ou amostras laterais, da experiência da área ou, eventualmente, dos próprios perfis, desde que de boa qualidade. A resistividade da água da formação Rw pode ser calculada a partir da curva do Po- tencial Espontâneo (SP), pelo método do RwA Mínimo, pelos procedimentos gráficos denomi- nados cross-plots, ou de medidas diretas da re- sistividade de águas recuperadas em teste de formação ou de produção. A resistividade da zona virgem da camada (Rt) pode ser obtida com os perfis que fazem leituras profundas de resistividade (indução, lateroperfis e seus sucessores com registro de múltiplas resistividades). A porosidade (φ) pode ser obtida a partir dos principais perfis exploratórios, denomina- dos Sônico, Densidade e Neutrônicos. Dessa maneira, o mais simples dos progra- mas de perfilagem, para a determinação da saturação de água em uma camada (Sw), e, por diferença, a saturação em hidrocarbone- tos (So = 1 − Sw), deve constar de um per- fil de resistividade profunda, do tipo (ILD; LLD) e, pelo menos um de porosidade (DT; RHOB; NPHI) conforme ilustra a Tabela 1.2. Entretanto, devido à complexidade de alguns reservatórios e às limitações dos diversos ti- pos de perfis, há sempre a necessidade de uma maior quantidade de curvas para que se obte- nha uma redundância ótima de valores e uma maior aproximação da realidade da rocha. Ra- zão pela qual, são corridos, geralmente, três tipos de perfis de porosidade. 1.13 Questionário 1. O que é Perfilagem Geofísica de Poço? 2. Quais os equipamentos mínimos de super- fície e downhole necessários para a reali- zação de uma operação de perfilagem? 3. Qual a peça responsável pela exatidão de profundidade durante uma perfilagem? 4. Por que se diz que a disciplina Perfilagem Geofísica é multidisciplinar? 5. O que é fluido de perfuração (lama) e como ele contribui para a avaliação de for- mação? 6. Citar três vantagens e três desvantagens dos perfis geofísicos. 7. De acordo com a API Recommended Pra- tice 31A de 1997, uma cópia em papel de um perfil de poço deve ser apresentada ao cliente dividida em quatro partes. Qual a razão da exigência de cada uma delas? Referências 43 Data C.E. RwL Ca Mg Na K Cl SO4 HCO3 CO3 NO3 ppm Rw 11/93 300 33,3 18 60 0 0 65 40 14 64 7 04/95 341 29,3 28 68 0 0 112 41 24 24 8 12/95 213 46,9 28 36 0 0 153 30 18 18 7,8 08/96 615 16,2 36 160 0 0 300 75 20 20 6,9 01/00 1514 6,6 40 510 780 13 1120 80 32 32 0,75 02/00 1810 5,5 162 448 690 17,5 1200 107,5 26 26 0 Tabela 1.3: Análises hidroquímicas das águas de um poço no tempo. 8. O que é um arquivo *.LAS (ASCII - American Standard Code for Information Interchange) e para que ele serve? 9. Exemplifique uma calibração ferramental qualquer. 10. Uma água de formação tem resistividade Rw = 0,15 Ω.m @ 80oF. Qual é a sua salinidade em ppm equivalentes a NaCl? Quais são as resistividades dessa água nas seguintes temperaturas? Rw Rw Rw @ 100◦F @ 180◦F @ 280◦F 11. Qual a resistividade Ro de um arenito com grãos subarredondados, isento de minerais de argila (Vsh = 0) e/ou minerais condu- tores, com porosidade = 21,5% e saturado com água de 25550 ppm de NaCl @ 80oF? 12. Se este mesmo arenito tivesse seus grãos com o formato placoidal, o que aconteceria com a sua resistividade Ro? Seria igual ou diferente? Por quê? 13. Quais serão respectivamente as resistivi- dades Rt das rochas citadas nos itens 11 e 12, caso elas tivessem 32,5% de porosi- dade? 14. Qual a razão de não existir uma rocha com saturação em água (So) igual a 100%? 15. Qual a temperatura extrapolada (BH- Text) de um poço de 3250 m de profundi- dade, que antes de ser perfilado foi cir- culado para limpeza durante um tempo t = 4 horas? Após a parada da circulação, cada um dos cinco perfis atingiu o fundo do poço com tempos de ∆ts = 2, 5, 8, 11 e 16 horas, e registraram as temperaturas máximas de: 207, 211, 214, 216 e 217oF, respectivamente. 16. Qual é o Gradiente Geotérmico (GG) deste poço, sabendo-se que a temperatura média da superfície (TSup) da área onde o poço está localizado é de 83oF? 17. Qual é a temperatura da formação (FT) na profundidade de 2500 m? 18. Estude a Tabela 1.3, resultante da aná- lise hidroquímica de um poço onde foram observadas variações da concentração iô- nica (em ppm) com o tempo, e determine suas respectivas salinidades equivalentes a NaCl. Observações: C.E. = Condutivi- dade do Laboratório em µS/cm @ 75oF. RwL (inversão da medida do laboratório) e Rw (calculada com o ppm NaCl) expressas em Ω.m @ 75oF. Qual a correlação entre RwL e Rw? Explicar as possíveis diferen- ças entre ambos os valores. Referências Allard, L. & Martin, M., 1977 - Schlumber- ger, the history of a technique. New York, John Wiley Sons. 44 Referências API - American Petroleum Institute, 1997 - API Recommended Pratice 31A, 1st edi- tion, August 1997. Nery, G. G. & Macari, R., 2004 - Os fluidos de perfuração usados na indústria da água subterrânea e a sua influência sobre os per- fis geofísicos de princípio elétrico. Anais do Congresso Brasileiro de Águas Subter- râneas. Glover, P. W. J., 2007 - Pétrophysique course notes, http://www.ggl.ulaval.ca. Lima, O.A.L. & Nery, G. G., 1999 - Deter- minação da resistividade elétrica de águas intersticiais usando perfilagens de poten- cial espontâneo. Paper SBGf 149, Anais do 6th International Congress da SBGf. Pereira, E., 2001 - Fluidos de perfuração: O uso de inibidores de argila como so- lução dos problemas de sondagem. In: Anais Encontro Nacional de Perfurado- res de Poços da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas. Recife. Reid, P., 2000 - Minimising formation da- mage, www.impact-es.com Schlumberger Well Services, 1989 - Log In- terpretation Charts, N. Y., Schlumberger Ltd. Capítulo 2 Propriedades Fundamentais das Rochas 2.1 Generalidades Os perfis geofísicos foram desenvolvidos para atender a indústria do petróleo, cuja quase to- talidade de sua ocorrência se dá em rochas do tipo sedimentar. São três os grandes grupos de rochas sedimentares: • Terrígenos ou Siliciclásticos - rochas resul- tantes de materiais erodidos fora da ba- cia de sedimentação e transportados como fragmentos sólidos. • Carbonatos - rochas bioconstruídas ou re- sultantes do retrabalhamento de substân- cias precipitadas na própria bacia. • Evaporitos - depósitos químicos resultan- tes da evaporação de salmouras em condi- ções de intensa restrição ambiental. Uma rocha sedimentar, terrígena ou carbo- nática, para efeito petrofísico descritivo, está constituída mineralogicamentepor três ele- mentos: arcabouço, matriz e cimento. O arcabouço (grãos ou aloquímicos) é a fra- ção da rocha que normalmente lhe dá susten- tação. No caso dos arenitos e calcarenitos, é a fração de constituintes de diâmetro entre 0,062 e 2,0 mm, independentemente de sua natureza ou composição. Interessa tão somente o tama- nho dos grãos em si. A matriz (dos siliciclásticos) ou a micrita (dos carbonatos) é a fração fina (menor que 0,039 mm) transportada em suspensão du- rante a sedimentação. A depender das con- dições ambientais, esses materiais finos preen- chem os espaços vazios entre grãos. Geral- mente, são constituídos por um ou vários mi- nerais de argila, misturados a outros menores que 0,039 mm. A matriz ou a micrita, quando presente, dá consistência à rocha. O cimento (dos siliciclásticos) ou o espato (dos carbonatos) é o componente precipitado quimicamente nos poros das rochas. Geral- mente, é constituído por silicatos, carbonatos, sulfatos, óxidos de ferro, etc. Quando presente, é o responsável pela rigidez das rochas sedi- mentares e tende a obliterar os espaços vazios preexistentes. Na técnica de perfilagem, a conceituação ge- ológica acima tem que ser adaptada às diferen- tes condições da abordagem de estudo. Os sensores ferramentais, ou das sondas, quer sejam de natureza elétrica, acústica ou ra- dioativa, são incapazes de distinguir um grão de sílica de uma matriz ou cimento silicoso. Igualmente, grãos carbonáticos (fósseis ou in- traclastos) não se diferenciam do cimento car- bonático. Isto é, uma rocha com grãos, matriz e cimento silicoso mostrará uma resposta ge- ofísica diferente de outra com grãos silicosos, 45 46 Capítulo 2. Propriedades Fundamentais das Rochas matriz argilosa e cimento calcífero. Assim posto, o modelo geológico de uma ro- cha é um pouco diferente do modelo adotado na perfilagem geofísica. Divide-se, na perfilagem geofísica, uma ro- cha sedimentar em duas partes distintas: • MATRIZ - termo que engloba os grãos, o cimento e a matriz propriamente dita. É todo o material sólido dentro da rocha; e • PORO - termo que representa todo o es- paço vazio de uma rocha, ou espaço que possa ser preenchido por fluidos (água ou misturas de água e hidrocarbonetos). Sendo o volume unitário rochoso igual à uni- dade (1 ou 100%), então a matriz representará um volume igual a (1− φ) da rocha. Nas equações de interpretação de perfila- gem, a porosidade, a saturação e demais da- dos que envolvem volumes são expressas sem- pre em termos fracionais (adimensional) e não em números inteiros. 2.2 Lei das Misturas Lei Física que diz que: em um sistema mul- ticomposto cada componente contribui volume- tricamente para as propriedades da mistura na razão da fração volumétrica de um dos compo- nentes vezes a propriedade deste, elevada a um fator (m) referente a sua distribuição geomé- trica. Essa lei tem base física na linearidade dos efeitos: para dois componentes, um sólido e um líquido de propriedades US e UL, respecti- vamente, sua mistura UM será dada por: UM = φUmL + (1− φ)UmS ]1/m (2.1) • Quando m = 1 significa dizer que a pro- priedade está sendo medida em série. • Quando m = −1 significa dizer que a pro- priedade está sendo medida em paralelo. • Teoricamente: −∞ < m < +∞ Sabendo-se as densidades (massas específi- cas) da sílica (2,65 g/cm3), da calcita (2,71 g/cm3), da dolomita (2,87 g/cm3) e da água (1,00 g/cm3), e seus respectivos volumes (Vi), pode-se calcular a densidade da mistura. A Tabela 2.1 mostra que quatro misturas mi- neralógicas volumetricamente distintas podem resultar em uma só medida física, capaz de ge- rar ambiguidades na interpretação dos resulta- dos, caso não se tenha conhecimento da litolo- gia da área ou informações adicionais. 2.3 Teoria da Unicidade Um raciocínio inverso nos leva a pensar: qual seria a composição mineralógica de uma mis- tura cuja densidade medida seja igual a 2,155 g/cm3? Igual à mistura 1, 2, 3 ou 4? Qual a mis- tura verdade? Quer dizer, um dado geofísico único pode derivar vários modelos geológicos (ou composições mineralógicas distintas), mas somente um deles representará a realidade! É o que diz a Teoria da Unicidade: a equa- ção resposta (transformada) de um modelo pe- trofísico qualquer fornece somente uma única resposta. Qualquer que seja o tipo de registro geofí- sico que estejamos analisando, ele poderá dar origem a várias soluções, as quais, a depender do conhecimento específico de cada intérprete (das rochas, das respostas das ferramentas nas mais diversas situações ambientais, etc.), po- derão conduzir a realidade dos fatos. Lembrar que não existe verdade absoluta quando se trata de interpretação, porquanto interpretar é a arte em que se deve buscar a verdade dos fatos. 2.4 Porosidade Definida como a relação entre o volume de es- paços vazios (Vv) de uma rocha e o volume to- 2.5. Permeabilidade 47 Mistura Vol. Sílica (%) Vol. Calcita (%) Vol. Dolomita (%) Vol. Água (%) Densidade Mistura (g/cm3) 1 70 0 0 30 2,155 2 0 67,75 0 32,45 2,155 3 0 0 61,76 38,24 2,155 4 26 25,5 15,5 33 2,155 Tabela 2.1: A Lei das Misturas aplicada a uma combinação de quatro minerais volumetrica- mente distintos resulta em quatro respostas físicas idênticas (densidades) a gerar ambiguidades interpretativas. tal (Vt) da mesma, em percentual, é uma pro- priedade estatística que depende das dimen- sões envolvidas. Qualquer processo de medição que envolva volumes da ordem de centímetros ou decíme- tros pode ser representativa ou capaz de obter porosidades constantes, quando a amostragem é uniforme e seus grãos têm diâmetros da or- dem de milímetros. Classifica-se a porosidade (φ) em dois tipos: • Porosidade primária ou deposicional - é aquela adquirida pela rocha durante a sua deposição ou bioconstrução. Exemplo: Porosidade intergranular dos arenitos ou interparticular dos carbona- tos. • Porosidade secundária ou pós-deposicio- nal - resulta de processos geológicos sub- sequentes à conversão dos sedimentos em rochas. Exemplos: Desenvolvimento de fraturas em arenitos, folhelhos, carbonatos e ro- chas cristalinas; cavidades devidas à dis- solução nos carbonatos e, em menor pro- porção (em tamanho e quantidade), nos arenitos. Usam-se, também, os termos porosidade ab- soluta - que relaciona o volume total de vazios - e porosidade efetiva - que leva em conta ape- nas os espaços vazios interconectados. A poro- sidade efetiva é a desejável nos cálculos de in- terpretação dos perfis por ser, comercialmente, a mais importante. Os principais fatores que afetam a porosi- dade nos terrígenos são: grau de seleção, ir- regularidade e arranjo dos grãos, cimentação, compactação e argilosidade (teor ou volume de argila). Os principais fatores que afetam a porosi- dade nos carbonatos são: dissolução, cimenta- ção, conteúdo de matriz ou aloquímicos e do- lomitização. Vários são os métodos laboratoriais para a determinação da porosidade das rochas conso- lidadas. Esses métodos usam pequenas amos- tras e cálculos estatísticos e consistem, geral- mente, na medida física de dois dos três pa- râmetros: volume total, volume de sólidos ou volume de vazios. As porosidades também podem ser obtidas com o uso dos perfis sônico e/ou radioativos induzidos (densidade e neutrônico), razão pela qual se fala em porosidade sônica (φS), poro- sidade do densidade (φD) e porosidade neutrô- nica (φN). 2.5 Permeabilidade Darcy (1856) demonstrou que a vazão de esco- amento da água (volume fluido por unidade de 48 Capítulo 2. Propriedades Fundamentais das Rochas tempo), em um meio poroso, era diretamente proporcional à seção transversal do meio, à di- ferença de carga hidráulica entre dois pontos e, inversamente, à distância percorrida pelo fluido. A constante de proporcionalidade dessa re- lação foi denominada condutividade hidráulica (K). Esta, por sua vez, depende de várias ca- racterísticas, tanto do meio (permeabilidade intrínseca, porosidade, tamanho, forma e ar- ranjo ou distribuição dos grãos), como do fluido usado (viscosidade emassa específica). A permeabilidade intrínseca (κ), também denominada permeabilidade específica, é uma função do tipo do material poroso, da granulo- metria e da disposição estrutural. A permeabilidade absoluta de um meio é a capacidade de fluxo de um fluido que satura 100% de seus poros interconectados e/ou fra- turas. Permeabilidade efetiva é a capacidade de fluxo de um fluido na presença de um outro qualquer. Em uma rocha contendo óleo, gás e/ou água, cada um desses fluidos escoa de acordo com a quantidade dos demais. Os geólogos e engenheiros de petróleo traba- lham com rochas com fluidos multifásicos (óleo + gás + água), enquanto que os hidrogeólogos, com um fluido monofásico. Os fatores que influenciam na porosidade efetiva afetam também o valor da permeabi- lidade absoluta. Apesar de ser aparentemente simples, a de- finição da permeabilidade é, na realidade, bas- tante complexa. A vazão do fluido aumenta à proporção em que aumenta o diferencial da pressão exercido sobre o mesmo. Por outro lado, esse fluido terá maior dificuldade em es- coar, à proporção em que sua viscosidade au- mentar. O gás escoa mais facilmente do que a água, e esta, por sua vez, escoa mais facilmente que o óleo. A permeabilidade absoluta pode ser facil- mente identificada qualitativamente em perfis, por meio das curvas do Potencial Espontâneo (movimentação iônica), Microperfil (presença da invasão e reboco) e Cáliper (presença de re- boco, desmoronamentos e rugosidades). Inexiste perfil geofísico específico que quanti- fique diretamente a permeabilidade intrínseca (κ) ou a condutividade hidráulica (K). Toda- via, algumas características petrofísicas obti- das em perfis, tais como granulometria (raios gama), porosidade (sônico ou radioativos indu- zidos) e resistividades (indução, entre outros, etc) são usadas para a correlação com algumas propriedades hidráulicas. Lima & Niwas (2000) mostram como se pode estimar alguns parâmetros hidráulicos de aquí- feros a partir de perfis geofísicos. Casos especiais em camadas com ocorrên- cia de uma zona transicional entre a água e o óleo, é possível calcular, quantitativamente, por meio de equações ou gráficos específi- cos, a permeabilidade intrínseca (Schlumber- ger, 1989). A maioria dos reservatórios, aquíferos ou de petróleo, ocorre em camada sedimentar terrígena e/ou carbonática. Rochas fratura- das (folhelhos e/ou rochas cristalinas) podem apresentar, localmente, porosidades e perme- abilidades suficientes para serem consideradas como reservatórios. A complexa relação existente entre porosi- dade e permeabilidade está além da natureza deste trabalho, entretanto, de um modo geral, quanto mais porosa a rocha, maior a sua per- meabilidade. É conveniente lembrar que, muito embo- ra sedimentos finos (folhelhos e/ou calcilu- titos) possam apresentar altas porosidades, a consequente diminuição do tamanho dos grãos/poros reduz a permeabilidade. 2.6. Propriedades Petrofísicas 49 2.6 Propriedades Petrofísicas As propriedades mais importantes para a ava- liação das formações por meio dos perfis geofí- sicos são as elétricas, as acústicas e as radioa- tivas. As mecânicas e as térmicas estão em um segundo plano. Os conceitos aqui emitidos são válidos so- mente para rochas de origem sedimentar, as quais, pelo fato de serem permoporosas, são aquelas preferenciais para o armazenamento fluido. 2.6.1 Propriedades Elétricas São três os parâmetros que caracterizam ele- tricamente uma rocha: permeabilidade magné- tica, permissividade dielétrica e condutividade (ou seu inverso, a resistividade). A maioria das rochas está composta de mi- nerais não magnéticos cujas permeabilidades magnéticas tendem à do espaço livre. Tal pro- priedade ainda não tem uso prático na geofísica de poço. O perfil de Propagação Eletromagnética re- gistra a permissividade elétrica e é bastante usado na distinção entre o petróleo e a água doce, devido ao fato de a constante dielétrica variar entre 1 e 2 nos hidrocarbonetos e entre 77 e 79 nas águas diluídas. Nos demais casos, predominam os perfis que registram a resisti- vidade elétrica. Sob o ponto de vista geológico, uma rocha está composta de grãos, matriz, cimento e po- ros, onde se localizam as possíveis ocorrências fluidas (Figura 2.1). Sob o ponto de vista conceitual dos perfis, uma rocha tem apenas dois constituintes - uma matriz (ou seja, todos os sólidos reunidos em um só volume) e poros (onde se situam os flui- dos). Sendo a matriz, preferencialmente, formada por minerais não condutivos (silicatos, óxidos, Figura 2.1: Modelo geológico de rocha porosa. carbonatos e outros), sua condutividade deve- se à presença de fluidos condutivos (soluções eletrolíticas) dentro dos poros. Uma rocha se torna mais (ou menos) con- dutora da corrente elétrica na dependência da quantidade (saturação) e qualidade (con- centração) de seu eletrólito e na natureza de sua distribuição interporosa (continuidade e/ou isolamento). A presença de fluidos iso- lantes, tais como água doce, ar, óleo e/ou gás, torna a rocha menos condutiva ou mais resis- tiva. Os minerais metálicos conduzem a corrente elétrica por meio de movimentos aleatórios de seus elétrons de valência, os quais se orde- nam sob a ação de um campo elétrico externo e deslocam-se através do próprio sólido, por transferência entre átomos. Por outro lado, a condutividade dos fluidos deve-se ao movimento ordenado dos íons sub- metidos a um campo elétrico externo. Na au- sência do campo, os íons movimentam-se ale- atoriamente, por agitação térmica, em rota de colisão entre os demais. 50 Capítulo 2. Propriedades Fundamentais das Rochas Como em uma solução existem vários tipos de íons, a condutividade (σ) resulta da quanti- dade de elementos condutores (η), da carga de cada um deles (ε) e de suas respectivas mobi- lidades (µ): σ = ηεµ (2.2) Mobilidade (µ) é a velocidade de deslocamento de um dado íon por unidade de campo elétrico (m/s/V/m ou m2 s−1 V−1). Existem, mais raramente, alguns minerais, dentro dos sedimentos, que são bons conduto- res de eletricidade (pirita, calcopirita, galena, magnetita, etc). De um modo geral, eles ocor- rem dispersos e em pequenas quantidades, com eventual participação nas propriedades elétri- cas dos mesmos. Os argilominerais, por serem volumetrica- mente importantes e por apresentarem elevada quantidade de cátions adsorvidos em suas pare- des interlaminares (em contato com o fluido in- terporoso), influenciam consideravelmente na condutividade das rochas argilosas. A resistência (r), que é a recíproca da condu- tância elétrica, é definida como sendo a habili- dade que tem um material de impedir a passa- gem da corrente elétrica. A condutância, por sua vez, é a habilidade de permitir ou facilitar o fluxo elétrico. A resistência (r) de um condutor é dire- tamente proporcional ao comprimento (L), a ser percorrido pela corrente elétrica, e inver- samente proporcional à área (A) atravessada. Isto é: r ∝L A r =R L A (2.3) A constante introduzida nesta proporcionali- dade (R na técnica de perfilagem e ρ nos tra- balhos acadêmicos) é denominada resistência específica ou resistividade. Como a unidade de resistência é o Ω (ohm), a unidade de resistivi- dade é o Ω.m. As resistividades das formações variam en- tre 0,2 e 1000 Ω.m. Resistividades maiores são raras nas rochas permeáveis com hidrocar- bonetos, mas um tanto frequentes nas rochas com água doce, próximas à superfície ou com ar acima do nível freático. Na técnica de perfilagem, utiliza-se também o termo condutividade (σ), inverso da resisti- vidade, com unidade Siemens/metro (S.m−1). Como esta unidade é relativamente grande para a amplitude das condutividades observa- das nas rochas, utiliza-se o submúltiplo miliSi- emens/metro (mS.m−1). Quem coordena, mundialmente, as unidades na técnica de perfilagem é o API (American Petroleum Institute), porém com pequenas di- vergências com o SI. Salinidade e Temperatura Em um fio condutor, a corrente elétrica des- loca-se por meio do movimento ordenado dos elétrons(condução eletrônica). Em uma rocha, a corrente elétrica desloca-se através da solução eletrolítica que preenche os poros interconecta- dos e/ou fraturas, na dependência da maior ou menor quantidade de íons presentes (condução iônica). Os íons, responsáveis por tal condução, re- sultam da dissociação dos sais da água inters- ticial das rochas (água da formação). O mais abundante deles é o cloreto de sódio, que se dissocia em Na+ e Cl−. É o movimento dos íons positivos e negativos, sob a influência de um potencial elétrico, que permite a solução salina conduzir a eletricidade. Como cada íon conduz uma quantidade fi- nita de cargas elétricas subtende-se que quanto mais íons na solução, maior será a sua condu- tividade, ou menor sua resistividade. Assim, o primeiro e mais importante con- ceito na interpretação de perfis, considerando- se os demais fatores equilibrados, é relativo à 2.6. Propriedades Petrofísicas 51 quantidade de sais dissolvidos totais (SDT ou TDS). Desta forma, um arenito com porosi- dade conhecida e água intersticial concentrada (alto teor de sais), apresentará uma maior con- dutividade (ou menor resistividade) que um arenito semelhante, porém com água diluída (baixo teor de sais). Para qualquer concentração de sais, a tem- peratura da solução é de grande importância. A condutividade eletrolítica resulta do movi- mento de íons energizados que, para efeito ilustrativo, podem ser considerados como pe- queníssimas esferas de resistência desprezível à fricção. A viscosidade das soluções modifica-se com a temperatura, diminuindo à proporção em que a temperatura aumenta, o que provoca maior atrito e movimento dos íons. Consequente- mente, em temperaturas elevadas, as soluções eletrolíticas apresentam maiores condutivida- des do que nas baixas temperaturas. O inter-relacionamento entre a temperatura, a resistividade e a salinidade das soluções (SALw) pode ser observada em gráficos especí- ficos das empresas de perfilagem e/ou na Equa- ção abaixo (Bateman & Konen, 1977): Rw75◦F = 10(3,562−0,955 log(SALw) − 0,0123 (2.4) sendo Rw75◦F a resistividade de uma solução à temperatura de 75◦F ou 24◦C e SALw, em ppm, equivalentes a uma solução de NaCl. Conhecendo-se Rw1 a uma temperatura co- nhecida Tw1, e desejando-se saber qual será seu valor Rw2 à temperatura Tw2, ambas em ◦F), utiliza-se a relação abaixo (Schlumberger, 1989): Rw2 = Rw1 Tw1 + 6,77 Tw2 + 6,77 (2.5) Para cálculos em graus Centígrados, a cons- tante 6,77 deve ser substituída por 21,5. Partindo-se do princípio que existe uma cor- relação entre a resistividade de uma solução (Rw) e a quantidade de sais dissolvidos totais (SDT), e que a composição química da água (de uma dada camada ou aquífero) seja uni- forme, pode-se, experimentalmente, estabele- cer relações empíricas hiperbólicas para deter- minação da qualidade dos diversos tipos de águas nas mais variadas áreas, ambientes de- posicionais, formações, etc; Nery (1996/1998) determinou com ajuda de análises hidroquímicas, em várias situações ambientais, que o SDT podia ser, generica- mente, expresso por: SDT = a Rbw (2.6) onde a e b são parâmetros definidos para cada situação (área, ambiente deposicional, forma- ção, etc.). Fator de Formação (F ) A técnica de perfilagem tem terminologia pró- pria e bem definida para as mais diversas situa- ções petrofísicas. Assim, uma rocha composta de grãos e fluidos interporosos tem sua resis- tividade, como um todo, denominada de Ro. Sua água saturante é denominada de Rw. Imagine-se, então, para fins de desenvolvi- mento deste conceito, uma rocha como sendo um cubo de gelo feito com água doce, e que esta água tenha uma resistividade igual a Rw1. Em termos de porosidade, o cubo terá 100%, i.e, φ = 1, já que inexiste matriz, somente fluido. A resistividade total desta nossa rocha hipoté- tica, por definição, será igual a Ro1. Caso tivéssemos feito o gelo com água sal- gada de resistividade Rw2, notar-se-ia que Ro2 seria menor que Ro1. Quanto mais salgada a água, maior a quan- tidade de íons condutores e menor a sua resis- tividade Ro, ou maior sua condutividade σo. Em outras palavras, Ro varia diretamente com Rw. 52 Capítulo 2. Propriedades Fundamentais das Rochas Caso sejam colocados alguns grãos isolantes (ex.: quartzo) dentro do gelo, verificaríamos que a resistividade Ro aumenta proporcional- mente ao número de grãos adicionados. Por outro lado, a adição de grãos isolantes diminui a porosidade do cubo ou o volume de líquido condutivo. Conclusões: Ro varia na razão direta da re- sistividade da água Rw e na inversa da porosi- dade φ. Em relação às resistividades, verifica-se que existe uma relação linear: Ro ∝ Rw Ro = FrRw (2.7) i.e.: Fr = Ro Rw (2.8) onde Fr, também denominado de Fator de Re- sistividade da Formação, é, por definição, igual à relação que existe entre a resistividade de uma rocha saturada com água e a resistividade da água saturante. Em relação à porosidade (φ), verifica-se que existe relação linear inversa: F = a φm (2.9) onde F é o Fator Intrínseco da Formação e o expoente m é um coeficiente relativo à cimen- tação ou à geometria porosa. Apesar de empíricas, as Equações 2.8 e 2.9 devem ser analisadas sob dois aspectos teóricos importantes: 1. A formação deve ser isotrópica, uma vez que Ro depende da direção da medida. 2. As rochas devem ser limpas, i.e., isentas de argilominerais e/ou minerais conduti- vos, de modo que a condução da corrente elétrica seja apenas a eletrolítica. A Equação 2.9 foi definida empiricamente em rochas não consolidadas por Sunderberg (1932), sendo por ele denominada Fator de Formação, e posteriormente incorporada por Archie em 1942. A denominação fator intrín- seco da formação F é usada para diferenciar equações outras obtidas por procedimentos re- lacionados às resistividades Fr. Fr deve ser igual a F na situação teórica em que Ro = Rw. Neste caso, o numerador a, da Equação 2.9, deve ser igual à unidade. A bibliografia mostra inúmeros exemplos onde, matematicamente, a adquire valores di- ferentes da unidade. Tais possibilidades nu- méricas são contestadas por alguns autores, porquanto elas fogem das condições limitan- tes geológicas, onde rochas teóricas com poro- sidade igual a 100% a resistividade da rocha seria igual à resistividade do fluido (Ro = Rw). F = 1 φm = φ−m (2.10) A Tabela 2.2, de Elias et al (2000), mostra re- sultados obtidos com trabalhos laboratoriais. Estudos demonstram claramente que a ar- gilosidade afeta Ro e, portanto, F . Daí, o aparecimento dos modelos interpretativos con- ceituais de Waxman & Smits (1967), Clavier, Coates & Dumanoir (1977) e Lima & Sharma (1990) e outros, que tentam eliminar ou mini- mizar o efeito na resistividade das rochas de- vido à presença de grãos condutores. Resistividade e Anisotropia A anisotropia, sob o ponto de vista dos perfis geofísicos, somente começou a ser considerada quando observaram-se diferenças significativas entre as resistividades relativas a uma mesma camada, medidas em poços perfurados verti- calmente com aquelas obtidas em poços vizi- nhos horizontais. Anisotropia (λ) é a característica de um meio em transmitir diferentemente campos ou 2.6. Propriedades Petrofísicas 53 Litologias Fator de Formação Tortuosidade Porosidade m a Arenitos I 29,8 – 84,3 6,0 – 9,52 1,0 – 14,9 1,06 5,59 Arenitos II 10,5 – 29,8 9,52 – 51,0 14,9 – 31,0 1,42 1,79 Turbiditos I 25,0 – 51,0 2,0 – 6,5 9,0 – 17,5 1,17 4,32 Turbiditos II 12,0 – 25,0 6,5 – 30,0 17,5 – 24,0 1,82 0,94 Deltas I 12,0 – 25,0 2,0 – 14,0 10,0 – 16,0 1,39 2,98 Eólico I 33,7 – 45,0 10,0 – 21,6 10,0 – 15,2 0,67 11,26 Eólico II 20,0 – 33,0 21,6 – 52,0 15,2 – 19,7 1,66 1,47 Oólitos III 22,78 – 46,7 1,82 – 5,42 15,1 – 20,23 1,91 1,14 Coquinas II 25,0 – 54,4 9,65 – 35,0 14,5 – 19,0 1,57 1,82 Tabela 2.2: Valores laboratoriais petrofísicos para vários tipos litoambientais (Elias et al, 2000). ondas, de acordo com a direção de propaga- ção. Em termos de resistividade, define-se um coeficiente de anisotropia como sendo: λ = √ Rv Rh= √ σh σv (2.11) sendo v e h, respectivamente, as componentes vertical e horizontal da resistividade ou condu- tividade. Por sua vez a média da resistividade Ro de uma camada é dada por: Ro = √ RvRh = λRh (2.12) considerando-se que Ro = Rh. Em um meio condutor, o fluxo de uma cor- rente (J) é um vetor que se relaciona com o campo elétrico (E), por meio da condutividade (σ), inverso da resistividade: J = σE (2.13) Dada a característica tensorial da condutivi- dade, podemos desdobrar (2.13) em: J1 = σ11E1 + σ12E2 + σ13E3 J2 = σ21E1 + σ22E2 + σ23E3 J3 = σ31E1 + σ32E2 + σ33E3 Note-se que cada componente J depende de três componentes de E, diferentemente de um meio isotrópico, onde, para cada J , só há um componente de E. Um meio isotrópico, pelo fato de ter σ11 = σ22 = σ33; σij = 0; e i = j, faz com que a condutividade seja um escalar, i.e, J = σE. Todavia, nas rochas, o comportamento mais comum é o tensorial, sendo raro o isotrópico. Nos meios anisotrópicos, teríamos, aparente- mente, nove componentes tensoriais indepen- dentes. Todavia, a simetria σij = σji reduz o número para apenas seis componentes. Em notação matricial, J = σ̂E, onde σ̂ re- presenta a matriz ou o tensor da condutivi- dade. De modo equivalente, podemos expres- sar: E = R̂J , sendo R̂ = σ̂−1, o tensor da resistividade. As ferramentas tradicionais indutivas me- dem as resistividades em relação às bobinas posicionadas coaxialmente ao poço. As ferra- mentas de última geração usam bobinas po- sicionadas segundo os eixos x, y e z, e criam campos eletromagnéticos úteis para a definição das anisotropias elétricas das camadas. Resistividade de uma Rocha Limpa con- tendo Hidrocarbonetos (Rt) Os poros de uma rocha permoporosa saturam- se com 100% de fluido. Tendo somente água, 54 Capítulo 2. Propriedades Fundamentais das Rochas Sw = 1. Coexistindo uma mistura de água mais óleo e/ou gás, Sw < 1, i.e., Sw = 1− So. No caso em que a rocha contiver gás, óleo e/ou água salgada misturados (Sw < 1), a resistividade dessa rocha aumentará devido à proporção volumétrica isolante. Quanto maior a quantidade de hidrocarboneto (ou menor a quantidade de água condutiva), maior a difi- culdade da corrente elétrica para atravessar um certo volume de rocha. Próximo à superfície, a zona aerada do sub- solo - aquela na qual a água ainda percola em direção ao nível freático - contém também ar nos seus poros, o que faz com que essa zona tenha um comportamento elétrico tão isolante quanto àquela contendo hidrocarbonetos. Como consequência, a resistividade de uma rocha é diretamente proporcional à resistivi- dade de seu fluido interporoso (ou qualidade) e inversamente proporcional a sua quantidade. Padronizou-se chamar de Ro a resistividade de uma rocha contendo somente água (doce ou salgada), ou seja, Sw = 1. Por outro lado, se a rocha contém parte hidrocarboneto parte água (doce ou salgada), ou seja Sw < 1, sua resistividade é chamada de Rt. A resistividade (Rt) de uma rocha contendo água e óleo é diretamente proporcional a sua resistividade com água (Ro) e inversamente proporcional à quantidade dessa água (Sw). Caso a rocha tenha somente água (Sw = 1), condutiva ou salgada, Ro será baixa. Caso te- nha água resistiva ou doce, Ro será alta. A substituição parcial dessa água por hidrocarbo- neto aumenta a resistividade da rocha de modo inversamente proporcional à quantidade deste. Entretanto, esse aumento será bem mais sig- nificativo (resguardadas as mesmas proporções volumétricas de água e óleo), caso seja em uma rocha com água doce, portanto, inicialmente mais resistiva. Gus Archie estabeleceu, experimentalmente, em 1942 (op. cit.) bases para duas leis físicas, usando rochas limpas (isentas de argila e/ou outros minerais condutivos). Em seus experi- mentos, suas rochas tinham porosidades entre 10 e 28% e águas com salinidades entre 20000 e 100000 ppm equivalentes ao sal NaCl. Verificou ele que Ro aumentava linearmente com Rw por um fator F , que ele denominou Fa- tor de Formação. Um gráfico logarítimo de F versus φ apresenta um comportamento linear definido por: logF = −m log φ (2.14) Trabalhos análogos posteriores, com rochas contendo óleo e água, mostraram as seguintes relações: Rt = IRo (2.15) e I = 1 Snw = S−nw (2.16) onde I é o Índice de Resistividade e n um Ex- poente de Saturação, determinado a partir do coeficiente angular da reta I = −n logSw. Pes- quisas laboratoriais devem avaliar tais expoen- tes. Finalmente, combinando-se as equações aci- ma, obtém-se a Lei de Archie: Rt = Rw φmSnw = Rwφ −mS−nw (2.17) Esta lei demonstra, de maneira simples, como se pode calcular a quantidade de água em uma rocha reservatório (desde que isenta de mine- rais condutivos), tendo-se, para tanto, a me- dida de sua resistividade, da resistividade da água da formação e da porosidade. Resistividade de uma Rocha contendo Minerais Condutores na Matriz A condução da corrente elétrica nas rochas per- morosas é função dos íons contidos em seus flui- dos interporosos. Todavia, a presença de mine- rais condutores ou semicondutores, tais como: 2.6. Propriedades Petrofísicas 55 pirita, calcopirita, magnetita, hematita, gra- fita, galena e esfalerita, entre outros, em teores superiores a 7% (Clavier, Coates & Dumanoir, 1976), também provocam mudanças no com- portamento elétrico das rochas, em função da condutância adicional. Os argilominerais também apresentam con- dutância adicional, devido à grande quanti- dade de cargas negativas periféricas, resultado da substituição isomórfica e/ou quebra mecâ- nica de suas estruturas cristalinas. A fragilidade das ligações do Si4+ e do Al3+ dentro dos octaedros e tetrataedros estruturais permite seu deslocamento em direção às solu- ções intersticiais, enquanto que vagas estrutu- rais, assim abertas, são ocupadas (neutraliza- das) pelos íons bivalentes do meio, por adsor- ção. Esse fenômeno aumenta a eletronegatividade dos argilominerais e caracteriza sua capacidade de troca catiônica (cation exchange capacity - CEC), na forma de uma camada fixa de car- gas positivas, de efeito capacitivo, denomina- das dupla camada. Winsauer & McCardell (1953) estudaram com detalhes a ocorrência das duplas camadas condutivas dos argilominerais e verificaram a presença de uma com cátions periféricos e ou- tra com ânions adsorvidos. Quando as soluções intersticiais são diluídas, a baixa concentração de cátions é insuficiente para compensar a área superficial negativa dos argilominerais, de modo que a neutralização das cargas se faz com moléculas bipolares da água, que afastam (dispersam) os cátions das paredes e aumentam a espessura da dupla ca- mada. Nessa situação, a água dentro da dupla camada (adsorvida) é menos condutiva do que a água livre do espaço poroso. Quando as soluções intersticiais são de sa- linidades elevadas (salmouras), a alta concen- tração de cátions é suficiente para compensar a área superficial negativa dos argilominerais, de modo que a neutralização das cargas se faz com os próprios cátions do meio, atraídos (flo- culam) pelas cargas negativas das paredes, e diminuem a espessura da dupla camada. Nessa situação, a água dentro da dupla camada (ad- sorvida) é mais condutiva do que a água li- vre do espaço poroso (Keller & Frischknetch, 1966). O efeito adicional da condução superficial dos argilominerais pode ser observado na au- sência da linearidade admitida por Archie (Fi- gura 2.2). Figura 2.2: Comportamento esquemático das condutividades em rocha limpa e argilosa. A- daptada de Worthington (1985). Patnode & Wyllie (1950) propuseram a exis- tência de uma condutividade dos sólidos σs atuando paralelamente à condução iônica σw, através das soluções intersticiais. Em termos de condutividade, a equação de Archie pode ser escrita como: σo = σw F (2.18) a qual, acrescida do termo proposto σs fica: σo = σw F + σs (2.19) 56 Capítulo 2. Propriedades Fundamentais das Rochas Posteriormente, Winsauer & McCardell (op. cit.) a modificaram para: σo = 1 F (σw + σz) (2.20) sendo σza condutividade da dupla camada, que depende do tipo e da concentração dos íons da solução intersticial. σz tende a zero quando σo e σw também tendem a zero, justificando a curvatura da Figura 2.2 na zona de baixa con- dutividade da solução. Muito embora esse modelo descreva melhor o comportamento elétrico das rochas, há a difi- culdade natural de sua aplicabilidade nos perfis pela inexistência de metodologias práticas para a determinação de σz. Waxman & Smits (op. cit.) verificaram que a corrente elétrica nos meios argilosos percorre linearmente o mesmo caminho da corrente ele- trolítica interporosa, de acordo com: σz = BQν (2.21) onde B é um fator de proporcionalidade cor- respondente à condutância equivalente dos íons adsorvidos e suas mobilidades associadas, e Qν corresponde à concentração dos contraíons por unidade de volume poroso (meq/cm3). Hill & Milburn (1956), a partir de um gráfico σo versus σw, estabeleceram uma correlação entre a capacidade de troca catiônica (CEC) e o teor de argila (Qν). Dessa forma, a Equação 2.20 ficará: σo = 1 F (σw +BQν) (2.22) Verifica-se, na Figura 2.3, que nas soluções mais concentradas e com menores valores de Qν (0,28 e 0,52 meq/ml), as retas passam pró- ximas à origem do gráfico, enquanto que nas rochas mais argilosas (Qν = 1,47 meq/ml), mostram no eixo das abcissas um segmento de comportamento linear em relação à Qν. Figura 2.3: Gráfico de Waxman & Smits (1968) usando dados de Hill & Milburn (1956). Tal fato levou os autores a admitirem que em altas concentraçõesB teria um valor constante. Adaptando-se à Equação 2.23 para camadas com hidrocarbonetos, tem-se: σt = Snw F (σw + BQν Sw ) (2.23) onde a razão BQν/Sw quantifica o incremento da concentração dos íons adsorvidos, na me- dida em que o volume da solução diminui, desde que o número de íons seja um valor fixo. A Equação 2.23 transforma-se-á na de Ar- chie quando as rochas estiverem isentas de ar- gila (Qν = 0). 2.7 Propriedades Acústicas O som propaga-se com diferentes velocidades a depender do meio em que as ondas viajam. É mais rápido nos sólidos do que nos líquidos e nos gases. A propagação de uma onda acústica atra- vés de um corpo permoporoso (rocha) varia de acordo com: • tipo do material sólido (matriz ou litolo- gia); 2.7. Propriedades Acústicas 57 • separação entre seus componentes sólidos (porosidade) e, • tipo do material entre os componentes só- lidos (fluidos). Entende-se, portanto, que a medida do tem- po gasto por uma onda acústica para percorrer um determinado intervalo, fixo e bem definido de uma rocha pode ser usado para a determi- nação quantitativa da proporcionalidade entre seus sólidos, líquidos e gases, i.e., matriz e po- rosidade. Existem vários tipos de ondas acústicas. Duas delas nos interessam mais de perto e es- tão detalhadas nos livros clássicos de física: 1. Onda Compressional ou Longitudinal - a oscilação das partículas se processa na di- reção da propagação. Sua velocidade é dada por: VP = √ K + 4µ/3 ρB = √ E ρB ( 1 + 2σ2 1− σ − 2σ2 ) = √ E ρB (1− σ) (1− 2σ)(1 + σ) (2.24) 2. Onda de Cisalhamento ou Transversal - a oscilação das partículas se processa per- pendicularmente à direção de propagação. Estas ondas são próprias dos corpos só- lidos porque eles resistem às tensões de cisalhamento, o que não acontece com os líquidos ou gases. A velocidade destas ondas é dada por: VS = √ µ ρB (2.25) ou VS = √ E ρB 1) 2(1 + σ) (2.26) Consequentemente, VP VS = K µ + 4 3 (2.27) ou VP VS = √ 1− σ 1 2 − σ (2.28) sendo: ρB = massa específica do meio; K = módulo de massa ou resistência à deformação; µ = módulo de rigidez ou cisalhamento; E = módulo de Young ou de elasticidade; e σ = módulo de Poisson. Para um mesmo meio considerado, VP será sempre maior do que VS . Ambos radicais são maiores do que a unidade, porqueK e µ são po- sitivos e iguais a 0,5 nos sólidos ideais. Geral- mente, diz-se que VP é aproximadamente igual a 2VS . A atenuação de uma onda, através de um meio qualquer, é a medida da mudança de sua amplitude por unidade de distância. Quanto maior for a distância desejada, para se obser- var um fenômeno acústico, maior a atenuação e, portanto, maior deve ser a resolução do equi- pamento para minimizar tais efeitos. 2.7.1 Propriedades Radioativas Algumas definições da física nuclear. Radioatividade é a desintegração espontânea de um núcleo instável (Z > 80), com emis- são de partículas e/ou energia eletromag- nética. ElétronVolt (seus múltiplos e submúltiplos) - é a unidade de energia usada como base para a medida dos processos atômicos (eV), eletrônicos (keV), nucleares (MeV) e subnucleares (GeV ou TeV). Por definição, 1 eV é a quantidade de ener- gia cinética adquirida por um elétron sob 58 Capítulo 2. Propriedades Fundamentais das Rochas um campo elétrico de 1 Volt. 1eV = 1,602× 10−12erg (2.29) = 1,6× 10−19J (2.30) = 3,8× 10−20C (2.31) Curie (Ci) - é a unidade originalmente usada para descrever a intensidade da radiação de uma amostra. É a medida do número de desintegrações por segundo, indepen- dente do tipo de emissão radioativa. 1 Ci = 3,7× 108desintegrações/s. É a radioatividade correspondente a 1g de Urânio. Não é mais reconhecida pelo S.I., tendo sido substituída pelo Becquerel. Becquerel (Bq) - é definido como a quantidade de desintegração que um núcleo decai por segundo. É, portanto, equivalente a s−1. Assim, um Curie (Ci) passa a correspon- der a 3,7× 1010 becquerels ou 37 GBq. Röentgen (R) - é a unidade S.I. que mostra a habilidade da radiação, tais como os raios X e os gama. 1 R é a quantidade de ra- diação necessária para liberar uma carga elétrica (positiva ou negativa) de uma uni- dade eletrostática (esu) em 1 cm3 de ar, nas CNTP, por um fóton em sua trajetó- ria de deslocamento. 1 R = 2,083 × 109 pares de íons/cm3 de Ar ou 6,76× 1010 eV. Angstron (Å) - é uma unidade, não reconhe- cida pelo S.I., de medida do comprimento de onda (λ) igual a 0,1 nanômetro ou 10−10m. É bastante usada para dimen- sionar átomos, espectros visíveis da luz e comprimento de ligações químicas. Relação Massa / Energia em uma reação nu- clear - A Equação de Einstein nos fornece: E = mc2 = m 9× 1020 1,602× 10−12 (2.32) sendo m (massa de um elétron) = 9,112× 10−28 g, então, a energia de repouso será: E(e−) = 9,112× 10−28 × 5,61× 1032 (2.33) = 511183,2 eV (2.34) = 0,511 MeV (2.35) que é a energia mínima necessária para efeitos interativos entre um raio gama e a matéria. Um átomo consiste de nêutrons de massa igual a 1 uma (unidade de massa atômica ou Dalton = 1/12 da massa do C12 = 1,66 × 10−27 kg) e nenhuma carga elétrica; de prótons de massa igual a 1 uma e carga positiva; e, finalmente, de elétrons orbitais de carga negativa e massa de 1/1840 daquela do próton. O número de massa (A) define o número de prótons e nêutrons do núcleo. O número atô- mico (Z) define a quantidade de prótons do núcleo ou de elétrons da eletrosfera. Isótopos são os diferentes estados de um ele- mento onde se observam valores diferentes de A, enquanto Z permanece inalterado. Para ilustrar, o urânio natural consiste de três isó- topos com pesos atômicos 234, 235 e 238. Alguns isótopos são estáveis, isto é, eles não mudam suas estruturas atômicas ou seu estado energético. Por outro lado, isótopos instáveis naturalmente trocam de estrutura quando emitem energia em forma de radiações, transformando-se em elementos diferentes. O termo nuclídeo refere-se a cada uma das possíveis combinações de nêutrons e prótons. A maioria dos 1400 nuclídeo conhecidos são instáveis e apenas 65 ocorrem naturalmente. A maior parte da energia liberada, durante a fase de instabilidade temporária dos isótopos 2.7. Propriedades Acústicas 59 radioativos, consiste de partículas ou raios alfa de carga positiva, de partículas ou raios beta de carga negativa e energia eletromagnética raios gama, sem carga, porém com alta frequência. • Raios Alfa - possuem quatro vezes a massa do próton. Devido a sua grande massa, são capazes de penetrar algumasfolhas de papel. É igual a um núcleo de Hélio (2 prótons + 2 nêutrons); +2α 4 • Raios Beta - são elétrons de pequena massa, facilmente desviados por campos eletromagnéticos. Penetram milímetros em alumínio. É igual a um elétron; −1β 0 • Raios Gama - energia eletromagnética de alta frequência e pequeno comprimento de onda (cerca de 0,1 Angstron). Não pos- suem carga elétrica nem são desviados por campos eletromagnéticos. Radiações simi- lares às ondas de luz e de rádio. Penetram espessos materiais, sendo absorvidos por polegadas de chumbo. 0γ 0 Uma vez que os raios gama possuem carac- terísticas tanto de partícula como de ondas de alta frequência, o termo fóton é também utili- zado para descrever sua energia. A energia emitida por cada isótopo radioa- tivo é característica do núcleo do átomo emis- sor. Apenas os raios gama são detectados pelos equipamentos de perfilagem radioativa (cintilô- metros), devido a sua alta capacidade de pene- tração em materiais densos (revestimentos de aço e o corpo da própria ferramenta de perfila- gem), após sofrer atenuação parcial. Também existem ferramentas que usam nêu- trons produzidos artificialmente, com alta ca- pacidade de penetração nos materiais densos, mas que são amortecidos (ou termalizados) por materiais hidrogenados. A energia de radiação é medida em milhões de elétron-volt (MeV). Por definição, 1 eV é equivalente à variação da energia que sofre um elétron quando submetido a um diferencial de potencial igual a 1 Volt. A amplitude de um pulso elétrico recebido por um detector de radiação se dá em função da energia (ou velocidade) do fóton que nele penetra. A intensidade da radiação está re- lacionada ao número de pulsos ou contagens detectados por unidade tempo (cps). As rochas são mais ou menos radioativas, a depender da maior ou menor quantidade de seus elementos radioativos, que pertencem a três famílias radioativas naturais: a do Urânio- Rádio, a do Actínio e a do Tório. A família de menor importância para a perfilagem radioa- tiva é a do Actínio, volumetricamente insigni- ficante na natureza. Os raios gama naturais têm origem, prima- riamente, em três fontes distintas: 1. Nos principais elementos filhos provenien- tes da desintegração do U235; 2. No principal elemento filho proveniente da desintegração do Th232 - (Ta208) e, 3. No Potássio (K40), responsável por 0,012 % de todo o potássio existente na crosta. A razão principal destes três elementos se- rem predominantes nas radioatividades natu- rais das rochas está na ordem de grandeza da meia-vida de cada um deles (Tabela 2.3), apro- ximadamente igual à idade da Terra (4,5 × 109 anos). Demais elementos radioativos conhecidos, tais como: Césio, Rubídio, Lutécio e Samá- rio, entre outros, são naturalmente desprezí- veis, tendo em vista suas baixas meias-vidas. 60 Capítulo 2. Propriedades Fundamentais das Rochas Elemento Atividade por peso (γ/s/g) Abundância na crosta (ppm) K40 1 23500 Th232 1,3× 103 12 U235 3,6 × 103 3 Tabela 2.3: Contribuição relativa dos três prin- cipais elementos radioativos naturais em um fluxo radioativo (Adams & Weaver, 1958). Anomalias provocadas por esses minerais po- dem ocorrer, local e eventualmente. 2.8 Questionário 1. Diferenciar matriz geológica de matriz da perfilagem? 2. Estabeleça vários modelos geológicos que possam dar uma só resposta geofísica e le- var a uma ambiguidade interpretativa. 3. Como é possível minimizar potenciais am- biguidades na interpretação dos perfis geo- físicos de poço? Citar alguns procedimen- tos aconselháveis. 4. Quantas medidas direcionais de resistivi- dade devem ser feitas em um testemunho para que se tenha seu valor verdadeiro? 5. O que é anisotropia elétrica? 6. Cada ferramenta de porosidade é regi- da por princípios físicos distintos, po- dendo gerar resultados numéricos diferen- tes. Existirá possibilidade de elas resulta- rem em valores iguais? Quando? 7. Porque os folhelhos têm alta porosidade porém, baixa permeabilidade? 8. Qual a composição média dos folhelhos? 9. Por que se diz que os argilominerais são física e quimicamente ativos? 10. No que se diferenciam os fatores de forma- ção de Archie e o de Winsauer & McCar- dell (1953)? Explicar. 11. Demonstrar que duas rochas limpas (Vsh = 0), embora com iguais valores de Ro, podem resultar de situações de distin- tas salinidades da água e porosidades. 12. O que é a dupla camada dos argilominerais ou folhelhos? Por que ela ocorre? 13. Quais as consequências do fenômeno da dupla camada no estudo da resistividade das rochas arenoargilosas? 14. Por que a presença de elementos condu- tores compondo a matriz de uma rocha invalidam a Lei de Archie (1942)? 15. Quais os elementos laboratoriais que são adicionados às equações de Waxman & Smits e às de outros autores, para com- pensar os problemas ocasionados pela con- dutância superficial? 16. Qual a razão operacional da perfilagem ra- dioativa natural usar os raios gama para a detecção? Por que não os raios beta ou alfa? 17. Quais são as fontes naturais de radioativi- dade das rochas? 18. Quais os elementos de rocha capazes de in- fluenciar na propagação de uma onda elás- tica? 19. O que se entende como resolução vertical e radial de uma ferramenta de perfilagem? 20. Quais os tipos de ferramentas que devem ter investigação radial mais profunda: as de resistividade ou as de porosidade? Por quê? Referências 61 21. Quais os tipos de ferramentas que devem ter investigação vertical maiores (sensores mais espaçados): as de resistividade ou as de porosidade? Por quê? Referências Adams, J. A. & Weaver, C. E., 1958 - Tho- rium to uranium ratios as indicators of se- dimentary processes: example of concept of geopchemical facies. Bull. Am. Assoc. Pet. Geol., 42(2) Archie, G. E., 1942 - The electrical resistivity log as an aid in determining some reservoir characteristics. Am. Inst. Min. Metall. Engineers, 146:54-62. Bateman, R. M. & Konen, D. K, 1977 - The log analyst and the programmable pocket calculator. Determination of Rw from the SP. The Log Analyst, 18(5):3-11. Clavier, C., Coates, G. & Dumanoir, J., 1976 - Theoretical and experimental bases for the Dual-Water mode for interpretation os shaly sands. J. Pet. Tech., April. Darcy, H., 1856 - Les fontaines publiques de la Ville de Dijon, Paris. Elias, V. L. G. et al, 2000 - Cong. SBGf RJ, paper 16099 Hill, H. J.& Milburn J. D., 1956 - Effect of clay and water salinity on electricalche- mical behavior of reservoir rocks. Pet. Trans. AIME, 207:65-72. Keller, G. & Frischknecht, F., 1966 - Elec- trical methods in geophysical prospecting. Pergamon Press. Lima O. A. L. & Sharma, M. M., 1990 - A grain conductivity approach to shaly sandstone, Geophysics, 55(10):1347-1356. Lima O. A. L. & Nery, G. G., 1999 - Determi- nação das resistividades verdadeiras das águas subterrâneas usando perfilagens de potencial espontâneo. 6th Int. Cong. Of the Brazilian Geophy Soc. Rio de Janeiro, SBGf. Lima O. A. L., & Niwas, S., 2000 - Esti- mation of hydraulic parameters of shaly sandstones aquifers from geological mea- surements, Journal of Hydrology, 235:12- 26. Nery, G. G., 1996 - Equações hiperbólicas re- lacionando Rw com SDT. Determinação da qualidade da água através dos perfis geofísicos. Anais do 10o Congresso Brasi- leiro de Aguas Subterrâneas, Salvador. Nery, G. G., 1998 - Perfilagem Geofísica de Poços, In: Hidrogeologia - Conceitos e Aplicações, 1a ed., CPRM, cap. 10. Patnode, H. W.& Wyllie, M. R. J., 1950 - The presence of conductive solids in reservoir rocks as factor in electric log interpreta- tion. Pet. Trans. AIME, 189:47-52. Schlumberger Educational Services, 1989 - Log Interpretation Principles, N. Y., Sch- lumberger Ltd. Sunderberg, K., 1932 - Effect of impregna- ting waters on electrical condutivities of soil and rocks. Am. Inst. Min. Metall. Engineers, 97:367-371. Waxman, W. H. & Smits, L. J. M., 1968 - Electrical condutivities in oil-bearing sands. Soc. Pet. Eng. Journal, june. Winsauer, W. O. & McCardell, W. M., 1953 - Ionic double-layerconductivity in reser- voir rock. Pet. Trans., AIME, 198:129- 134. 62 Referências Worthington, P. F., 1985 - Evolution of Shaly- Sand Concept in Reservoir Evaluation, The Log Analyst, 26(1):23-40. Capítulo 3 Perfil de Raios Gama O início do estudo da perfilagem pelo per- fil ou curva de raios gama (GR ou RG) leva o aluno a entender, com facilidade, como cons- truir uma curva bastando para tanto distinguir o que seja folhelho de não folhelho. Um folhe- lho, normalmente, não é um reservatório. Um não folhelho, poderá sê-lo. A Figura 3.1 mostra um exemplo típico onde se observa perfeita correlação entre a curva e a litologia, mostrada pelos fotogramas (cortesia Hydrolog). Figura 3.1: Correlação entre uma curva de raios gama e seus fotogramas. 3.1 Generalidades Radioatividade é a propriedade pela qual os átomos de grande número atômico (Z) emitem espontaneamente radiação, devido à instabili- dade de seus núcleos. Segundo Sir lsaac New- ton, as radiações são essencialmente partícu- las, enquanto que, para Fresnel e Young, são ondas eletromagnéticas invisíveis, capazes de serem detectadas por seus efeitos ionizantes. A diferença entre os raios gama e os raios X está na origem de cada um deles. Estes se ori- ginam de reações orbitais e aqueles, das nu- cleares. Uma vez criados, tanto os raios gama como os raios X são bastante idênticos em pro- priedades. 3.2 Energia e Características Físicas das Radiações A luz é uma radiação visível, descrita qualita- tiva e quantitativamente. A cor azul (quali- dade) pode ser expressa em termos de compri- mento de onda (4800 Å), frequência ou, ainda, pelo produto da frequência pela constante de Planck (6,6×10−27 erg.s). Esta última tem a conveniência de definir a energia associada ao fóton (menor unidade de energia eletromagné- tica indivisível), cuja luz azul foi emitida ou absorvida. No lugar da constante de Planck, para dar uma ideia da qualidade da radiação, 63 64 Capítulo 3. Perfil de Raios Gama pode-se usar uma outra unidade definida por meio da intensidade (quantidade) de energia associada ao fóton. A unidade de energia usada para descrever a quantidade de raios gama é igual à energia adquirida por um elétron que se desloca em di- reção a um anodo, tendo um potencial elétrico de um milhão de volts mais positivo do que o catodo. Como o elétron-volt (eV) é uma unidade pe- quena para os eventos radioativos, usa-se o mi- lhão de elétron-volt (MeV). A quantidade de uma radiação qualquer também pode ser definida em termos da ra- zão de deslocamento da energia transportada, através de uma área, perpendicular a sua di- reção. Nesse caso, a intensidade é o número de fótons que atravessa uma área unitária na unidade de tempo. Expressa-se, também, a intensidade de uma radiação pela quantidade de ionização produ- zida. Um Röentgen (R) é a quantidade de ra- diação X, ou gama, capaz de liberar uma uni- dade eletrostática de íons ou 2,083× 109 pares de íons/cm3 de ar, nas CNTP. É uma unidade cumulativa. Quanto maior o tempo de radia- ção, maior a quantidade em Röentgen. Resumidamente, E = hf = ch λ (3.1) onde: E = Energia (erg) h = Constante de Planck f = Frequência (Hertz) c = Velocidade da luz (m/s) λ = Comprimento de onda (Angstron) 3.3 Absorção dos Raios Gama pela Matéria Os raios gama interagem com a matéria (ro- chas) por meio de três efeitos ou processos: produção de par, efeitos Compton e fotoelé- trico. Todos eles dependentes do nível de ener- gia envolvida. Para a perfilagem geofísica, o mais impor- tante dos processos é o espalhamento inelás- tico ou efeito Compton, que ocorre entre um fóton incidente de média energia (entre 75 keV e 1,02 MeV) e um elétron orbital. O fóton ejeta o elétron de sua órbita, cede ao mesmo parte de sua energia cinética e sofre um desvio (matematicamente previsível) em sua trajetó- ria. Isto é, ele permanece interagindo no meio, muito embora com menor energia que a inicial. Fótons com energia abaixo de 75 keV tam- bém interagem elasticamente com os elétrons orbitais e cedem, para os mesmos, toda sua e- nergia, principalmente se o átomo tiver grande diâmetro. O fóton desaparece do meio (é ab- sorvido ou aniquilado), enquanto o elétron se transforma em um fotoelétron livre. É o efeito fotoelétrico. O terceiro é o efeito de produção de par, no qual o fóton incidente, com energia superior a 1,022 MeV, interage diretamente com o núcleo dos átomos, transformando-se em um elétron e um pósitron (antimatéria). O pósitron tem uma vida bastante curta e interage com um elétron da vizinhança, quando ambos se ani- quilam com liberação de 1,02 MeV de energia total, na forma de dois fótons com 511 keV cada, em direções opostas. Os valores são de- finidos como fator de conversão de massas cor- respondentes às duas partículas (ver Equação 2.35). Os raios gama naturais oriundos do K40, U e Th, por possuírem níveis energéticos da or- dem de 1,4 a 2,6 MeV, interagem principal- mente pelo efeito Compton. Após cada coli- são, os raios gama defletidos continuam a sofrer choques sucessivos até serem absorvidos foto- eletricamente, quando então ocorre a expulsão de elétrons dos respectivos átomos absorvedo- res, dando origem a correntes elétricas, finitas e mensuráveis. 3.4. Deposição dos Radioelementos 65 3.4 Deposição dos Radioelementos São três as famílias radioativas naturais: a do Urânio-Rádio, a do Actínio e a do Tório. A de menor importância para a perfilagem radioativa é a do Actínio, volumetricamente in- significante na natureza. Os demais elementos radioativos conhecidos, muito embora de alto teores e pelo fato de terem pequenas meias- vidas, tornam-se igualmente insignificantes em relação à perfilagem, a não ser quando origina- rem depósitos ou impregnações localizadas. Por outro lado, o 19K40 não dá origem a uma família, mas sim a dois produtos por adição ou subtração de partícula β, respectivamente o 18Ar40 e o 20Ca40. As rochas são mais ou menos radioativas a depender da maior ou menor quantidade de seus elementos radioativos. O K40 é o respon- sável por 0,012% de todo o potássio existente na crosta e 0,27% dos folhelhos. Cada elemento filho das séries radioativas naturais (U, Th e K) emite raios gama distintos em número e nível de energia, caracterizando- os qualitativa e quantitativamente. O K40 emi- te apenas raios gama monoenergéticos de 1,46 MeV, enquanto o Tório e o Urânio, polienergé- ticos, têm seus níveis principais de energia na ordem de 2,62 e 1,76 MeV, respectivamente. Os elementos radioativos naturais ocorrem originalmente nas rochas ígneas. Durante os processos de erosão e redistribuição, eles são espalhados nos sedimentos e na água do meio ambiente deposicional. A maior ou menor con- centração desses elementos depende de vários fatores, dentre eles: a natureza em si dos sedi- mentos e a presença de organismos vivos nas águas em que ocorreu a deposição. Os compostos de Tório e elementos filhos, em baixas temperaturas, têm limitada solubili- dade na água. Quando presentes nos folhelhos, são originados de partículas insolúveis proveni- entes da rocha matriz. Quando em condições de alta temperatura, são transportados em so- lução e, eventualmente, podem preencher fra- turas, planos de falhas e outros locais passíveis de migração fluida, dando origem aos depósitos residuais (placers). Os compostos de Urânio (até 20000 ppm) são muito solúveis na água, quando oxidados, e insolúveis quando reduzidos. O Urânio e o Tório são oligoelementos (traços) sem grande importância na gênese das rochas. Todavia, dissoluções, migrações e precipitações podem ocasionar uma redistribuição dos mesmos com o tempo, de modo a proporcionar alta radioa- tividade local. As argilas e/ou folhelhos são sedimentos ra- dioativamente naturais, mais que os demais, devido à capacidade em reter íons metálicos, entre eles Urânio e o Tório. Um maior ou me- nor percentual desses elementos dependerá do seu ambiente deposicional e/ou de suas modi- ficações diagenéticas. A radioatividade natural dos folhelhos e ar- gilas têm suaorigem, basicamente, no alto por- centual de K40 e de uma pequena quantidade razoável de Tório e Urânio. Essa combina- ção registra uma amplitude normal para os fo- lhelhos da ordem de 75 a 150 Unidades API (UAPI). Todavia, a presença de mineralizações localizadas de outros elementos radioativos e de matéria orgânica podem alterar bastante tais valores. 3.4.1 Rochas Radioativas As rochas podem ser divididas em três grupos distintos, de acordo com sua radioatividade na- tural: 1. Rochas altamente radioativas - folhelhos e argilas de águas profundas formadas por lamas de radiolários e globigerinas; folhe- lhos pretos betuminosos; evaporitos po- tássicos (carnalita, silvinita, taquidrita, 66 Capítulo 3. Perfil de Raios Gama etc.) e algumas rochas ígneas e/ou me- tamórficas. 2. Rochas medianamente radioativas - folhe- lhos e arenitos argilosos de águas rasas e carbonatos/dolomitos argilosos. 3. Rochas de baixas radioatividades - grande maioria de carvões e evaporitos não potás- sicos (halita, anidrita, gipsita, etc.). O nível de radioatividade dos sedimentos não é tão grande quanto aquele das rochas íg- neas que os originaram, devido às diluições, contaminações e intemperismo. A radioatividade nos folhelhos é bastante significativa porque eles: • são ricos em K40 e em matéria orgânica (existe uma tendência dos microrganis- mos em concentrarem elementos radioati- vos em seus corpos, retirando-os da água do mar); e • têm grande capacidade de realizar trocas iônicas com as soluções intersticiais (in- terporosas) do meio ambiente onde foram depositados. Por essas razões, após os evaporitos potás- sicos, os folhelhos são as rochas sedimentares que apresentam os mais altos valores de radio- atividade. Nas demais rochas sedimentares importan- tes para a acumulação de hidrocarbonetos - calcários, dolomitos e os arenitos -, a presença ou não de elementos radioativos depende, tam- bém, de sua origem deposicional. De um modo geral, nos carbonatos, por re- sultarem do desenvolvimento de matéria esque- letal marinha, CaCO3, a radioatividade espe- rada é a mais baixa possível. Já os dolomi- tos apresentam uma radioatividade um pouco maior que a dos calcários, por serem passíveis de contaminações através das águas percolan- tes. Os arenitos ambientalmente contaminados por argilominerais são, das três rochas reser- vatórios principais, os que apresentam a mais alta radioatividade. Os siltitos, granulometri- camente intermediários entre arenitos e folhe- lhos, têm igualmente uma radioatividade inter- mediária a eles. Todavia, deve-se lembrar que estas conside- rações são baseadas na lógica. Anormalida- des podem ocorrer, com frequência, em função do ambiente deposicional das rochas, como um todo. Assim, o perfil de raios gama pode ser utili- zado como um indicador qualitativo e quanti- tativo do conteúdo argiloso das rochas, desde que essa radioatividade dependa exclusivamen- te do teor de argilomineral presente. Rochas com grãos feldspáticos (arcóseos) ou conglome- rados polimíticos são as exceções a esta regra. 3.5 Princípio de Medição do Perfil de Raios Gama Para registro de uma curva de Raios Gama bastam detectores tipo Câmara de Ioniza- ção, Geiger-Müeller, Cintilômetro ou Contador Proporcional. Estes detectores são afetados pelos raios gama do meio ambiente após des- carte, pelo próprio corpo metálico da sonda, das radiações (partículas) alfa e beta. Os Raios Gama não são detectados como energia eletromagnética, mas sim pelos efeitos ocasionados por suas interações com os átomos do interior dos detectores (ionização). As ferramentas de Raios Gama de poço usam cintilômetros contendo um cristal que emite luz quando atingido por um fóton. Aco- plado ao cristal está um tubo fotomultiplicador que amplifica a corrente elétrica em um milhão de vezes. Os cristais mais comuns são de fós- foro, com iodeto de sódio tálio ativado. A sensibilidade dos cintilômetros é função da forma e do tamanho do cristal, enquanto que 3.6. Fatores que Afetam as Leituras dos Perfis de Raios Gama 67 a intensidade da cintilação é diretamente pro- porcional à energia do fóton que o atingiu. Sendo a altura de cada pulso proporcional à intensidade da energia captada, fica fácil iden- tificar se os diferentes tipos de radiação foram provenientes do K40 (1,46 MeV), do principal elemento filho do U235 (1,76 MeV) ou do Th232 (2,62 MeV). 3.6 Fatores que Afetam as Leituras dos Perfis de Raios Gama Os folhelhos apresentam alto teor de K40, ra- zão pela qual esse perfil é bastante usado na distinção litológica entre folhelhos e não fo- lhelhos, ressalvadas as condições de enriqueci- mento eventual por minerais radioativos (césio, polônio, irídio, etc.). Vários são os fatores, extra litologia ou radi- oatividade, que afetam os resultados apresen- tados por um perfil de Raios Gama: 1. Detectores de Radiação - Entre os tipos de detectores abaixo, apenas o cintilômetro não opera sob o princípio geral da ioniza- ção dos gases, mas sim por emissão de luz quando atingido por um raio gama: • Contador Geiger-Müeller - câmara cilíndrica com gás à baixa pressão e um fio central sob alta voltagem em relação ao envoltório da câmara. A penetração de raios gama na câ- mara provoca a ionização das molé- culas do gás. Há uma produção de íons que são acelerados pelo campo elétrico, ionizando em cadeia outras moléculas. O gás torna-se condutor e provoca uma descarga no fio central. Em seguida, ocorre a desionização do gás e o restabelecimento da alta vol- tagem do fio central. Esse tipo de detector apresenta duas falhas que refletem na sua precisão: (a) alguns raios gama atravessam o contador sem interagir com as molé- culas do gás e, (b) permanece ina- tivo durante alguns microssegundos para que o gás seja recarregado, ori- ginando um baixo rendimento, da or- dem de 5 a 7%. • Câmara de Ionização - é semelhante a um Geiger-Müeller, porém o gás io- nizável está submetido à alta pressão e a voltagem do fio central é baixa. Os raios gama provocam a passagem de uma fraca corrente no gás que, de- vidamente amplificada, fornece uma indicação da radiação que penetra na câmara. Tem também um baixo ren- dimento, da ordem de 5 a 7%. • Cintilômetro - detecção baseada na produção de finas centelhas de luz quando os raios gama atingem cer- tos cristais. As centelhas são con- vertidas em pulsos elétricos, cuja al- tura depende da quantidade de ener- gia absorvida. Esse detector é dez vezes mais eficiente do que os a gás, porque possui maior massa material (por unidade de volume) sensível à radiação. A vantagem do cintilômetro é seu bom rendimento (50 a 60%) em relação aos de- mais detectores. Isso resulta em um per- fil com o máximo de detalhes possíveis e maior precisão nas leituras. Além do mais, os cintilômetros podem ser construídos em tamanhos relativamente pequenos, o que diminui sua resolução vertical (definição da espessura das camadas) para menos de 1 pé. 2. Variações Estatísticas - o conhecimento da natureza estatística das emissões é um fa- tor importante na interpretação de perfis 68 Capítulo 3. Perfil de Raios Gama radioativos. Meia-vida é o tempo necessá- rio para que a metade dos átomos de um elemento se decomponha. Ela varia desde frações de segundos até milhões de anos. Apesar de se conhecer esse tempo de de- composição, é quase impossível de se pre- ver quantos átomos se desintegrarão, ou quantos raios gama serão emitidos durante um certo intervalo de tempo. A emissão de fótons apresenta uma distri- buição normal, isto é, o desvio padrão da amostragem é da ordem da raiz quadrada do número de desintegrações. Nos primórdios da perfilagem radioativa havia o conceito de constante de tempo, que é o tempo em segundos no qual o de- tector realizava a média aritmética dos fó- tons registrados. Esse conceito é impor- tante no ajuste dos equipamentos analó- gicos para fins de comparação e correla- ção entre perfis de distintas companhias de serviços em um mesmo campo de pe- tróleo. O casamento entre a constante de tempo (para finsde medições estatísticas da flu- tuação radioativa) e a velocidade de per- filagem era realizado de modo a corres- ponder a um critério ótimo de aceitação da qualidade da leitura estabelecido pelo API. A introdução dos computadores nas ope- rações de perfilagem favoreceu o uso de vários tipos de filtros estatísticos, de sorte que a relação entre a velocidade de perfila- gem e a constante de tempo não é mais o fator determinante da qualidade dos perfis de Raios Gama. Assim, quer se use a velocidade de perfila- gem casada com uma constante de tempo, quer se use um filtro (geralmente do tipo gaussiano), qualquer contagem que um de- tector realize em uma unidade de tempo (cps) é uma média padronizada. Esse pro- cedimento nivela todos os equipamentos a um padrão ótimo de resposta. As flutuações estatísticas são mais percep- tíveis quando se realiza baixas contagens de pulsos. Entretanto, o número de raios gama contados durante um período sufici- entemente longo será praticamente cons- tante. Convém lembrar que a duração de uma operação de perfilagem não poderá ser tão longa assim, porque nenhuma ferramenta de perfilagem pode ficar parada dentro do poço por muito tempo sem o risco de apri- sionamento. Os perfis não estatísticos (tipo elétricos, acústicos, mecânicos, etc.) são corridos com velocidades superiores aos radioati- vos. Caso um perfil radioativo seja aco- plado a um não radioativo, prevalecerá a menor velocidade usada para aqueles. 3. Raio de Investigação - estudos mostram que 90% do valor registrado pelos perfis de Raios Gama provém de uma zona loca- lizada dentro de um raio das seis primeiras polegadas, a partir da parede do poço. 4. Efeitos do Poço - o efeito da interposição de material pesado, entre o detector e a parede do poço, tais como cimento ou re- vestimento, ou baritina na lama e no re- boco, é reduzir a intensidade registrada no perfil. Existem gráficos específicos confecciona- dos para recuperar as leituras originais, pelas companhias de perfilagem. Eles de- vem ser usados, principalmente, em poços de grande diâmetro ou revestidos. Os raios gama de nível energético médio perdem a metade de sua intensidade após haverem penetrado cerca de 1/2 polegada em aço. 3.7. Interpretação do Perfil de Raios Gama Convencional - GR 69 5. Unidades Usadas no Perfil de Raios Gama - antigamente cada companhia de perfi- lagem usava um tipo de unidade diferen- ciada: uma registrava seus perfis em mi- crograma de Rádio equivalente por tone- lada de rocha, outra em microRöentgen por hora, outra em Unidade de Radia- ção, etc. Isso complicava nas ocasiões em que se desejava correlacionar poços de um mesmo campo ou área, porém perfilados por companhias diferentes. A radioatividade total registrada por um detector pode ser expressa em termos de peso, de um elemento conhecido, que pro- duza uma certa quantidade de radiação equivalente. Assim, para contornar as possíveis di- vergências entre as companhias, surgiu a Unidade API – (UAPI) ou Grau API – (GAPI), que é a medida da radioatividade artificial em um poço teste do Instituto Americano do Petróleo (API), que serve de normalização, no qual foram dissemi- nadas quantidades conhecidas de Urânio, Tório e Potássio. Por definição, uma UAPI é igual a 1/200 da leitura feita entre os valores máximos e mínimos do poço padrão nos Estados Uni- dos. 3.6.1 Calibração de uma Ferramenta de Raios Gama Nas oficinas das companhias existem calibra- dores secundários (jigs) capazes de reproduzi- rem o valor da calibração primária API. A sonda é posta em um ambiente afastado de eventuais materiais radioativos, enquanto re- gistra uma contagem (pulsos ou contagens por segundo - cps) correspondente a zero de radi- oatividade local (background). Em seguida, é colocado sobre a posição do cintilômetro um calibrador API (pastilha de mineral de radio- atividade conhecida), para o equipamento re- alizar uma nova contagem, a qual será direta- mente proporcional ao valor do referido cali- brador, em unidades UAPI. Em função da linearidade da resposta, ob- tém-se uma equação do tipo y = ax + b, que será inserida no software de aquisição. A con- versão dos cps em UAPI depende do tipo da ferramenta e do detector usado. 3.7 Interpretação do Perfil de Raios Gama Convencional - GR São dois os tipos de ferramentas de Raios Gama. A Convencional, com um só canal ana- lisador da altura do pulso (não discrimina os três elementos radioativos principais, mas so- mente a soma U+Th+K), e a de Espectrome- tria, com multicanais analisadores, que identi- fica o espectro energético discriminando cada um de seus componentes (U, Th e K), além de realizar igualmente a soma U+Th+K. O perfil de Raios Gama Convencional (U + Th + K) possibilita a distinção entre os folhe- lhos e/ou argilas e os demais tipos litológicos. Tem a vantagem de poder ser corrido em poços revestidos com aço, tornando-se útil em traba- lhos de completação e restauração dos poços. Sabendo-se que o perfil de Raios Gama Con- vencional reflete somente a proporção de folhe- lho ou argila de uma camada, pode-se utilizá- lo com um indicador do teor de folhelho ou da argilosidade das rochas (VshGR). Ele é usado, também, para a detecção e a avaliação de mi- nerais radioativos e evaporitos. Tomemos como exemplo o perfil composto da Figura 3.2. Por convenção, a curva GR é sempre apresentada na primeira faixa, à es- querda da estreita coluna das profundidades, sempre com a radioatividade crescendo da es- querda para a direita (no exemplo, respectiva- mente 0 a 150 UAPI). 70 Capítulo 3. Perfil de Raios Gama Figura 3.2: Exemplo de perfil composto. Na prática, a escolha da escala a usar de- pende do nível radioativo da área. 3.7.1 Interpretação Qualitativa do Perfil Exemplo O formato da curva de Raios Gama, enquanto corresponda realmente ao conteúdo de argilo- minerais presentes em uma camada, pode dar uma ideia do ambiente onde ela foi depositada. Isso pode ser observado na Figura 3.3 que ilustra possíveis interpretações ambientais de- duzidas a partir do comportamento do per- fil. Igual raciocínio pode ser feito com a curva do Potencial Espontâneo (SP), a ser estudada mais adiante. • Um formato cilíndrico geralmente sinaliza ambientes com fácies sujeitas a transgres- sões e regressões: eólicos, canais fluviais, barras, cânions, plataformas carbonáticas e assemelhados, locais de bastante retra- balhamento capaz de deixar as camadas com baixo teor de finos. • Um formato de sino (baixa radioatividade Figura 3.3: Definição de ambientes sedimenta- res com o uso do perfil de Raios Gama (adap- tada de Glover, 2007). no topo, alta na base) geralmente sinaliza ambientes progradantes. • Um formato de funil (alta radioatividade no topo, baixa na base) geralmente sina- liza ambientes transgressivos. Inicia-se uma interpretação pelo estudo qua- litativo da curva azul GR (GAPI). A Figura 3.2 mostra dois corpos de baixa radioatividade (50–145 e 188–242 metros) e três de alta radi- oatividade (30–50, 145–188 e 242–290 metros). Deduz-se, intuitivamente, com base na in- formação adicional (bacia, nome da formação, etc.), que os intervalos de baixa radioatividade devem corresponder aos arenitos e os de alta, aos folhelhos. Portanto, é necessário que o intérprete tenha sempre algum conhecimento prévio da litologia da área. Todavia, o relacionamento entre baixos (ro- chas limpas, sem argilosidade) e altos valores de leitura API (rochas argilosas) não é total- mente linear, conforme pode ser observado na Figura 3.4. Igualmente, Sombra (1987) definiu, por meio de um polinômio de segundo grau, a relação não linear que existe entre a argilosidade resul- tante de peneiramento da amostras do campo 3.7. Interpretação do Perfil de Raios Gama Convencional - GR 71 Figura 3.4: Compilação de equações não line- ares de argilosidade e seus respectivos autores. de Siririzinho, bacia Sergipe-Alagoas, e o índice de argilosidade IGR (ver a seguir), concordante com os demais autores mostrados na figura em referência. Voltando à Figura 3.2,observa-se que a ca- mada entre 50–145 m tem um aspecto predo- minantemente de um cilindro, enquanto que a localizada entre 188–242 m tem aspecto simé- trico, com diminuição da radioatividade para o topo e aumento para a base. A camada superior (50–145m), barril, mos- tra que deve ter havido uma uniformidade na deposição granulométrica. A camada inferior (188–242 m) tem, em sua parte central, uma granulometria mais gros- seira, que afina em direção ao topo, indica- tiva de uma granodecrescência ascendente re- sultante de uma deposição tipo regressiva. Por outro lado, a sua base mostra uma granode- crescência descendente dando ideia de deposi- ção transgressiva. Então, quais as considerações geológicas, de- posicionais ou ambientais que podem ser reti- radas em proveito dos aspectos observados nas curvas de um perfil de Raios Gama? Os exploracionistas, com tais informações, podem, então, deduzir o comportamento geo- métrico/espacial dos diversos corpos potenci- almente reservatórios, para direcionamento de suas pesquisas em busca de locações mais pro- missoras tanto em espessuras como em reser- vas. 3.7.2 Interpretação Quantitativa do Perfil Exemplo Desde que entendida a qualidade da curva (mesma formação, ambiente deposicional, etc.), inicia-se a interpretação quantitativa propriamente dita, com o traçado de uma li- nha de base defronte aos folhelhos (LBF). Os valores a seguir, no perfil exemplo, resul- tam de leituras visuais da curva. Para valores mais apurados, devem-se usar os dados do ar- quivo digitalizado *.las fornecido pela empresa de perfilagem. • LBF - Essa linha deve ser traçada repre- sentando a média dos valores máximos dos folhelhos, vez que a radioatividade é um evento estatístico. Evitar adotar valores maximoruns, os quais poderão resultar de minerações localizadas. No presente caso, a LBF localiza-se entre 90 a 105 unida- des ou graus API (GAPI). Digamos que, visualmente ela seja igual a 98 GAPI. • GRMáximo (GRmax) - O valor de 98 GAPI da LBF é então escolhido como repre- sentativo dos folhelhos puros do intervalo analisado. • GRMínimo (GRmin) - Por outro lado, o arenito mais limpo do intervalo está loca- lizado aos 225 m, com um valor mínimo visual igual a 27 GAPI. 72 Capítulo 3. Perfil de Raios Gama • Argilosidade - Digamos que se deseja saber qual o teor de argila (ou argilosidade), no arenito localizado aos 120 m, cuja leitura visual é de 40 GAPI, aproximadamente. Dois passos serão necessários: o primeiro é o estabelecimento de uma relação linear, ou Índice de Radioatividade (IGR), para então se calcular a argilosidade propriamente dita (Vsh). Como se discute uma argilosidade calculada com base nos raios gama, usa-se a terminologia VshGR. Resolvendo-se primeiramente a relação li- near (IGR): IGR = GR−GRmin GRmax −GRmin (3.2) = 40− 27 98− 27 = 0,183 (3.3) Portanto, o índice linear de radioatividade aos 120 m é igual a 18,3%. A bibliografia mostra várias equações, em- píricas ou experimentais, não lineares, para o cálculo da argilosidade, as quais levam em con- sideração alguns fatores, dentre eles a idade da rocha. Algumas delas estão compiladas na Fi- gura 3.4. O autor usa bastante em seus trabalhos prá- ticos as equações de Larionov (Asquith & Kry- gowski, 2004), por considerá-las as mais rea- listas, porquanto trazem embutidas um fator correspondente à idade da rocha. Sendo a camada sob análise de idade terciá- ria (ou mais nova), a respectiva Equação é da forma: VshGR = 0,083(2(3,7×IGR) − 1) (3.4) Sendo a camada sob análise de idade pré- terciária (ou antiga, portanto consolidada), a respectiva equação é da forma: VshGR = 0,33(2(2×IGR) − 1) (3.5) Resolvendo-se a argilosidade (VshGR) com base nas equações de Larionov: • Caso a rocha seja de idade cretácica, tem- se: VshGR = 0,33(2(2×0,183) − 1) = 0,095 (3.6) • Caso a rocha seja de idade terciária, tem- se: VshGR = 0,083(2(3,7×0,183) − 1) = 0,049 (3.7) Quanto mais novas as rochas, menor a atuação da diagênese e maior a presença de elementos radioativos portadores de potássio, tais como os feldspatos e micas, o que proporcionará altas radioatividade não ligadas, propriamente, aos argilominerais. Uma outra Equação bastante usada é a de Steiber (Asquith & Krygowski, 2004): VshGR = IGR 3− 2× IGR (3.8) que calcularia um VshGR = 0,069. 3.8 Resumo do Perfil de Raios Gama Convencional (GR ou RG) 1. Medição Soma da radioatividade natural emitida pelos três principais elementos naturais (U, Th e K40). 2. Unidade Unidades ou Graus API. 3. Usos • Definição da litologia com base no que seja folhelho e não folhelho. • Definição eventual de ambientes de deposição. • Correlação entre poços vizinhos. 3.8. Resumo do Perfil de Raios Gama Convencional (GR ou RG) 73 Figura 3.5: Curvas Raios Gama em área alta- mente radioativa. • Identificação de minerais radioativos e evaporitos (Figura 3.5, intervalo 675-710 m). • Cálculo da argilosidade ou volume de folhelho (VshGR). • Usos Especiais: - Identificação de intervalos canhone- ados. - Determinação exata das profundi- dades. - Detecção de fluxo fluido atrás dos revestimentos de poços antigos. • Pode ser corrido em poços revestidos com aço (Figura 3.6). 4. Problemas • Relacionados às litologias: - Mineralizações eventuais. - Rochas arcoseanas. - Conglomerados policompostos. - Rochas densas. Figura 3.6: Curvas de Raios Gama em poço aberto (OH) e após revestido em aço (CH). • Relacionados à operação: - Camadas finas. - Tipo do detector. - Excentralização da ferramenta. - Presença de revestimentos de aço. • Relacionados à conceituação (admi- tidas as seguintes hipóteses): - A radioatividade medida é pro- porcional ao volume de argila na camada. - Apenas dois componentes volumé- tricos (folhelho e não folhelho). No caso de areias argilosas considera-se: GAPI = GRSS(1−Vsh) +GRSHVsh (3.9) quando deveria ser considerada também a água: GAPI = GRSS(1− φ− Vsh) + GRSHVsh + GRwφ (3.10) 74 Capítulo 3. Perfil de Raios Gama Sendo a água isenta de radioatividade, en- tão a Equação 3.9 = 3.10. Na realidade, os GAPIs são proporcionais à radioatividade por unidade de massa. Sendo assim, tanto 3.9 como 3.10 repre- sentam a radioatividade volumétrica e não a radioatividade relativa à massa da ca- mada. Portanto, é preferível a alternativa: GAPI ρB = GRSS(1− φ− Vsh)ρSS + GRSHVshρSH + GRwφρw (3.11) onde ρi é a massa específica (g/cm3), res- pectivamente, da rocha, areia, folhelho e água. A Equação 3.11 implica que rochas de diferentes porosidades podem ter leituras GAPI também diferentes. Para finalizar, algumas observações impor- tantes: • Atenção para a possibilidade de arenitos radioativos ou mineralizações eventuais. • Atenção para picos de folhelhos anormais, fora do padrão geral, que possam resul- tar de uma maior quantidade de radioati- vidade localizada, fora da representativi- dade da LBF. • Lembrar que o parâmetro GRmax deve re- presentar a média dos valores máximos ob- servados na curva e não o GRmaximorun. Ver observação acima. 3.9 Raios Gama de Espectrometria 1. Medição Radioatividade individualizada (U, Th e K40) e somatório (U + Th + K40.) 2. Unidade Graus ou Unidades API. 3. Usos • Definições mais precisa das litologias (folhelhos e não folhelhos). • Identificação mais precisa dos argilo- minerais. • Correlação entre poços. • Cálculo da argilosidade. • Identificação de ambientes marinhos e continentais. • Identificação de rochas geradoras de hidrocarbonetos. 4. Problemas • Praticamente os mesmos do RG Con- vencional. 3.10 Questionário 1. O que é elétron-volt? 2. Quais as séries radioativas naturais e em que elas se assemelham ou diferem? 3. Por que é aproximadamente correto dizer que a Contagem de Pulsos (cps) emiti- dos pelos RG Naturais é basicamente uma função do teor de K40? 4. Quais os três processos pelos quais os raios gama interagem com a matéria? 5. Qual(is) a(s) razão(ões) pela(s) qual(is) se diz que os raios gama interagem basica- mente por Compton com os principais ele- mentos componentes das rochas?6. Como se detecta a presença de raios gama em uma rocha? 7. Quais as diferenças operacionais entre o Geiger-Müeller, o Cintilômetro e o Conta- dor Proporcional? Referências 75 8. Qual a razão de ser o cintilômetro o mais usado na perfilagem? 9. Como funciona um cintilômetro? 10. Dentre os fatores que alteram a resposta da Curva dos Raios Gama? Qual(is) o(s) que você considera mais importante(s)? Justificar. 11. Qual o princípio ferramental e quais os usos do perfil Gama de Espectrometria? 12. Como a argilosidade altera o comporta- mento dos reservatórios com porosidade intergranular? 13. Justificar a razão pela qual um calcário com 10% de porosidade tem radioativi- dade menor do que um arenito de mesma porosidade. 14. Qual a relação entre as energias e o ângulo de espalhamento relativas para o efeito Compton, quando a energia inicial do fó- ton é igual a do K40? (Ilustrar com grá- fico). 15. Um arenito terciário é, naturalmente, mais ou menos radioativo que um do cre- táceo? Explicar. 16. Citar três rochas de alta radioatividade natural, três de média e três de baixa. 17. Por que as micas Muscovita e Biotita têm alto teor de potássio? 18. O que é o Grau API (GAPI) ou Unidade API (UAPI)? 19. Como se converte a medida de um detec- tor em GAPI ou UAPI? Como é feita esta calibração? 20. Citar dois fatores ferramentais e três fa- tores ambientais que possam alterar o for- mato da curva a ser registrada por um per- fil de Raios Gama Natural. 21. Qual(is) o(s) critério(s) que se deve usar para se fazer uma boa escolha dos valores de GR máximo e GR mínimo a usar nas equações de VshGR? 22. Quais os passos a serem dados para se de- terminar o VshGR de uma camada? 23. Quais os principais usos da curva dos Raios Gama Natural? 24. O que é um RG de Espectrometria? No que ele difere do RG Natural e onde ele é aplicado? 25. Determinar os valores de GR máximo e GR mínimo nas Figuras 3.7, 3.8 e 3.9. Ob- serve que o nível mínimo de radioatividade é bem maior no poço 2 do que no 1, em virtude da radioatividade proveniente da presença de feldspatos potássicos na área. Figura 3.7: Gráfico para escolha do GRmax e GRmin do poço 1. Referências Asquith, G. & Krygowski, D.; 2004, Basic 76 Referências Well Log Analysis: AAPG Methods In Exploration, 16:31-35 Glover, P. W. J., 2007 - Pétrophysique course Figura 3.8: Gráfico para escolha do GRmax e GRmin do poço 2. Figura 3.9: Gráfico para escolha do GRmax e GRmin do poço 3. notes, http://www.ggl.ulaval.ca. Sombra, C. L., 1987, Sedimentação, diagênese e alguns aspectos relacionados com poten- ciais danos dos reservatórios Carmópolis do campo de Siririzinho, Bacia de Sergipe- Alagoas. Dissertação de Mestrado, Univ. Federal de Ouro Preto. Capítulo 4 Perfil do Potencial Espontâneo 4.1 Potenciais Naturais em um Poço Existem diversas fontes de potenciais de ocor- rência natural sem a necessidade de uso instru- mental: eletroquímica, eletrocinética, eletro- magnética, bimetalismo, piroeletricidade, pie- zoeletricidade, etc. A necessidade de um fluido capaz de pro- porcionar facilidade na perfuração das rochas (lama) é uma exigência operacional para fins de preservação das seções não consolidadas, para evitar desmoronamentos das paredes dos po- ços, para lubrificar a broca e demais elemen- tos da coluna de perfuração e, principalmente, para proporcionar um suficiente suprimento de amostras de calha na superfície, capaz de per- mitir uma primeira avaliação litológica e/ou observar eventuais indícios econômicos. A coluna de lama exerce uma pressão hi- drostática (PH) sobre as camadas permoporo- sas e provoca, através do processo de filtração, uma dissociação entre os seus elementos líqui- dos e sólidos, desde que PH seja maior do que a pressão dos líquidos porosos ou estática da formação (PE). A parte líquida (filtrado) pe- netra radialmente nas camadas permoporosas ao mesmo tempo em que as partículas sólidas (argilas e/ou aditivos) depositam-se nas pare- des externas das camadas (reboco). 4.1.1 Potencial Eletrocinético - Ek Quando um sólido entra em contato com uma solução eletrolítica, um potencial se estabelece devido à adsorção de íons do meio ou pela ioni- zação do próprio sólido. Uma primeira camada de cátions fica imobilizada, adsorvida, próxima à superfície negativa do sólido. A camada de cátions mais afastada (ou difusa) tem mobili- dade similar à do fluido livre, com a predomi- nância de cargas positivas. Para simplificar a análise desse potencial, consideram-se essas duas camadas de cátions como um condensador com placas separadas por centímetros e carga de algumas unidades eletrostáticas/cm2. O diferencial de potencial que se forma entre a zona de cisalhamento, que separa a camada fixa da difusa, é denominado Potencial de Ele- trofiltração ou Streaming Potencial (Ek). Nos microporos pode não ocorrer fluxo e, portanto, pouca ou nenhuma separação de car- gas ocorrerá. Por outro lado, nas fraturas aber- tas (ou grandes poros), a movimentação será bem maior. Existem várias equações traduzindo o fenô- meno Ek. A Equação 4.1, de Davies & Rideal (1963), é uma das mais divulgadas: Ek = ζDw∆P 4πµw[σw + 2(S/r)] (4.1) 77 78 Capítulo 4. Perfil do Potencial Espontâneo onde ζ é o potencial que existe entre as zonas fixas e difusas, Dw, a permissividade da água, ∆P , o diferencial de pressão, µw, a viscosidade da água, σw, a condutividade da água, S, a condutância superficial do meio, e r, o raio do poro. Porém, como essa equação envolve variáveis não facilmente definidas por meio das curvas dos perfis - tais como a diferença de poten- cial entre as duas camadas, permissividade e viscosidade da água, condutância superficial do meio e raio do poro -, optou-se por traba- lhar, na perfilagem, com equações mais simpli- ficadas, empíricas e de conotação prática, tais como uma adotada pela Schlumberger (1989): Ek = 0,0391×∆P √ Rmctmcfl (4.2) onde ∆P é a diferença entre PH e PE em psi; tmc é a espessura do reboco, lida no perfil cá- liper em polegadas; fl (fluid loss) é a perda de água da lama, em cm3 obtidos com uma amos- tra submetida à 100 psi durante 30 minutos, em uma prensa específica; e Rmc é a resisti- vidade do reboco em Ω.m, obtido na mesma prensa. Esses valores são medidos e anotados, obrigatoriamente, no cabeçalho de cada poço perfilado. Os valores usuais de peso das lamas nas indústrias da água e do petróleo, respectiva- mente 9 e 12 libras por galão (1,08 e 1,48 psi/m), dão origem a gradientes normais de pressão de poros da ordem de 1,42 psi/m. Um poço para água e outro para petróleo, cada um com 500 m de profundidade e mesmas carac- terística de reboco e perda d’água, apresenta- rão, de acordo com a Equação 4.2, os potenci- ais eletrocinéticos respectivos da ordem de 57 e 3,2 mV. Isto significa dizer, teoricamente, que é mais fácil a ocorrência de Ek em poços para água do que para petróleo. Entretanto, na indústria do petróleo, ou mesmo naqueles poços bastante profundos pa- ra água, onde as pressões hidrostáticas atingem altos valores, na impossibilidade de um bom controle do ∆P e demais variáveis, o potencial eletrocinético torna-se relevante. 4.1.2 Potencial de Junção de Líquidos - Ej Sendo a lama confeccionada a partir de uma solução aquosa (água coletada em rios, em po- ços vizinhos, no mar, etc.), e aditivada com produtos condutores da corrente elétrica, o seu filtrado também será condutor. O contato físico entre o filtrado e a água po- rosa das camadas, na interface entre a zona in- vadida e a zona virgem, origina correntes elé- tricas naturais devido à difusão entre os íons dessas duas soluções. Esta difusão, ou movimentação iônica, ocor- re devido à diferença de concentração iônica, na zona de contato entre soluções distintas de um mesmo sal, desde que ocorram diferenças entre as mobilidades das cargas negativas e po- sitivas. O potencial assim criado é denominado de potencial eletroquímico de junção líquida (Ej). A velocidade de difusão de um íon (v) resulta do produto do campo elétrico (ε), expresso em volt/m,e sua mobilidade (µ) em m/s: v = εµ. (4.3) A velocidade de difusão (mobilidade, ou ainda, atividade) depende da relação entre soluto e solvente (concentração). Uma solução concen- trada é mais ativa do que uma diluída, uma vez que os íons difundem-se do meio de maior para o de menor concentração ou, em outras palavras, do maior potencial de carga para o menor. A corrente de difusão (Jdif) é proporcional à mobilidade (µ) de cada íon: Jdif = −(µCl − µNa)KT dn dx , (4.4) 4.1. Potenciais Naturais em um Poço 79 onde dn/dx é o gradiente do eletrólito de con- centração n na direção x, K é a constante de Boltzman, e T é a temperatura absoluta. Por outro lado, a densidade da corrente cau- sada pela separação de cargas positivas e nega- tivas (Jsep) é dada pela Lei de Ohm referente a cada íon: Jsep = σCl−ε + σNa+ε (4.5) Ainda pode-se expressar a Jsep como: Jsep = βn(µCl− − µNa+)ε (4.6) onde β é uma constante de proporcionalidade e n é o número de cargas positivas e negativas envolvidas. Fazendo-se Jsep = Jdif e realizando-se a integração compatível com as concentrações, obtém-se uma diferença de potencial denomi- nada Potencial de Junção Líquida (Ej), ex- pressa em milivolts: Ej = (t+ − t−) RT F ln ( a1 a2 ) (4.7) onde R = 8,314 Joule (constante dos gases); T = temperatura absoluta; F = Faraday (nú- mero de Avogadro × carga do elétron ou 96.540 Coulomb); t+ = fração de corrente transpor- tada pelas cargas positivas; t− = fração de cor- rente transportada pelas cargas negativas; ln = base dos logaritmos naturais, e a1 e a2 = co- eficientes das atividades das soluções antes e após a diluição, respectivamente. Em uma solução de NaCl pura, o Cl− tem uma mobilidade µCl = 7,91×10−8 m2 s−1 V−1 e transporta cerca de 60% das cargas da solu- ção. Já o Na+, por sua vez, tem sua mobilidade µNa = 5,19 × 10−8 m2 s−1 V−1 e transporta os 40% das cargas restantes disponíveis. Em outras palavras, o Cl− é mais veloz, ou mais ativo, do que o Na+. A difusão estabiliza-se quando as concentra- ções se igualam, i.e., quando t+ = t−. Ela con- tinuará presente enquanto se adicionar mais so- luto ou uma outra fonte qualquer de potencial ao circuito. 4.1.3 Potencial de Membrana - Em O SP não desaparece com o tempo (Figura 4.1) devido a ocorrência de fenômenos elétricos adi- cionais, nas situações em que se coloca uma lâ- mina de folhelho entre duas soluções distintas de um mesmo sal. Tal lâmina passa a funcio- nar como se fosse uma nova fonte de potencial adicionada ao circuito. Figura 4.1: Curvas do SP obtidas em um mesmo poço e em datas distintas. Para se compreender tais fenômenos adicio- nais, devemos, em primeiro lugar, entender que o folhelho é uma rocha composta estatistica- mente por cerca de 60% de argilominerais (es- mectita, ilita, caulinita, clorita, camadas mis- tas e afins) e os outros 40% são formados por quartzo, carbonatos, matéria orgânica e outros minerais, desde que tenham tamanho da ordem de 4 µm (Yaalon, 1962; Shaw & Weaver, 1965; e Pettijohn, 1975). 80 Capítulo 4. Perfil do Potencial Espontâneo Em segundo lugar, temos que entender a ra- zão pela qual os argilominerais se comportam como uma membrana seletiva para as cargas elétricas. As células cristalinas unitárias dos argilomi- nerais apresentam, estruturalmente, uma carga periférica negativa devido à quebra mecânica, ou à substituição isomórfica, que ocorre du- rante a sua cristalização. A mobilidade dos íons através dos folhelhos difere bastante da- quela mobilidade observada entre soluções de diferentes concentrações. Quando os folhelhos estão imersos em água, os argilominerais não se dissolvem, ficando em suspensão coloidal. Parte dos cátions estrutu- rais permanece ionizada e solubilizada, passe- ando livremente na água interporosa, enquanto que a outra parte fica presa eletrostaticamente às superfícies dos argilominerais, capeando-as adsortivamente. Deste modo, os argilominerais são corpos carregados positivamente em sua face mais ex- terna, ou de contato, com o meio aquoso. Ao separarmos as duas soluções por uma ca- mada de folhelho, verifica-se que a livre movi- mentação dos cátions de uma solução para a outra ficaria comprometida, devido à repulsão proporcionada pelas cargas positivas adsorvi- das, enquanto que os ânions poderiam atraves- sar o folhelho do lado mais concentrado para o menos concentrado. Todavia, um preenchi- mento das cargas negativas pelos primeiros cá- tions migrantes favorece uma livre movimenta- ção, dos mesmos, pela estabilização das cargas superficiais. Esse fenômeno dá origem a um novo tipo de potencial eletroquímico, denomi- nado potencial de membrana (Em). Cada folhelho tem um potencial de mem- brana diferente, a depender da sua composi- ção mineralógica específica, do tipo e porcen- tual dos seus argilominerais componentes e de suas respectivas capacidades de troca catiô- nica (CEC - Cation Exchange Capacity) com o meio. Folhelhos constituídos de ilita e esmec- tita têm um potencial de membrana superior aos folhelhos cauliníticos ou cloríticos. Na Equação (4.7), o folhelho ao inibir a li- vre movimentação dos cátions, faz t+ tender a zero, enquanto que t− permanece com um valor finito. Como consequência: Em = RT F ln ( a1 a2 ) (4.8) Esse potencial extra Em, provocado pela passa- gem dos ânions através dos folhelhos, aumenta a capacidade de transferência de cargas dos mesmos em cerca de cinco vezes àquela que seria observada caso se tivesse somente o po- tencial de junção de líquidos (Ej). Sendo o folhelho uma membrana seletiva perfeita, nenhuma carga positiva o atravessará. Figura 4.2: Atividade do Na+ versus resisti- vidade das soluções de NaCl (Schlumberger, 1989). Conforme a Figura 4.2, soluções puras de NaCl com resistividades Rw ≥ 0, 1 Ω mostram 4.2. Potencial Espontâneo Estático - SSP 81 um comportamento linear decrescente (inver- samente proporcional), em relação as ativida- des do cátion Na, o que não ocorre nas solu- ções mais concentradas (Rw ≤ 0,1 Ω.m). A curvatura observada na figura deu origem ao conceito do termo Resistividade Equivalente da Água - Rwe, razão pela qual as equações do SP usam resistividades em vez de atividades. As atividades de soluções são informações resul- tante de estudos laboratoriais, enquanto que resistividades resultam dos perfis. Deste modo, substituindo-se a razão entre as atividades pela razão inversa das resistivi- dades, obtém-se a equação mais difundida do SP: SP = −K log ( Rmf Rw ) (4.9) sendo K uma constante que engloba as demais presentes na Equação 4.8, e log é o logarítimo decimal. K = 61 + 0,133× FT (4.10) usado nos casos de temperaturas em graus Fa- renheit, e K = 65 + 0,24× FT (4.11) usado nos casos de temperaturas em graus Centígrados. Não se deve usar a Equação simplificada 4.9 acima para quantificações em soluções con- tendo cátions divalentes (Ca+2 e/ou Mg+2, fre- quentes nas águas superficiais). Nestas situações, de acordo com estudos teó- ricos e experimentais de Gondouin, Tixier & Simard (1957), ela deve ser modificada para: SP = −K log (aNa + √ aCa + aMg)mf (aNa + √ aCa + aMg)w (4.12) onde aCa, aMg e aNa representam suas ativi- dades nas soluções água de formação (w) e fil- trado (mf). A presença dos divalentes cálcio e magnésio, mesmo em pequena concentração, faz o termo sob a raiz quadrada apresentar um grande efeito sobre o SP. O problema nesta equação reside no fato de que inexiste, até o momento, bibliografia que relacione as atividades de todos os cátions bi- valentes com as suas respectivas resistividades, como existe para o NaCl. Encontram-se, toda- via, figuras que estabelecem fatores multipli- cadores (denominados fatores de Dunlap) para alguns íons principais, cujas concentrações me- didas podem ser transformadas em concentra- ções equivalentes a soluções de NaCl. Recomenda-se o desenvolvimento de equa- ções empíricas para cada situação hidroquí- mica em particular, quando da ocorrência de cátions bivalentes. 4.2 Potencial Espontâneo Estático - SSP Omáximo potencial que se desenvolvenum cir- cuito lama/rocha/folhelho/lama é denominado Potencial Espontâneo Estático (ou SSP). Ele corresponde à soma dos potenciais Ek, Ej e Em. Isto é: SSP = Em + Ej + Ek. (4.13) Entretanto, como ocorre um fluxo iônico pro- veniente da lama em direção ao folhelho (pro- vocado pela invasão e capilaridade), do folhe- lho para a camada permoporosa e desta para a lama novamente, ocorrerá uma queda ôhmica (produto da corrente pela resistência do meio) em cada um dos elementos do circuito. O registro do total dessa queda ôhmica (SSP) é impossível de ser obtido em um poço, devido à natureza da pesquisa, já que os ele- trodos de medição estão localizados um deles dentro do poço, deslocando-se a uma veloci- dade constante, e o outro, de referência na su- perfície, mantido sob um potencial constante 82 Capítulo 4. Perfil do Potencial Espontâneo Figura 4.3: O SP é a medida entre o ele- trodo móvel e um fixo na superfície (SP = irm) (Adaptada de Hallenburg, 1983). (geralmente, dentro da própria lama, fora do tanque e afastado de metais). Todavia, a depender das características da lama (peso, salinidade, etc.), o Ek pode ser desprezado. Assim, seguindo-se o circuito elé- trico da Figura 4.3, tem-se: SSP = Em + Ej = = i(rm + rxo + rt + rsh) (4.14) onde rm, rxo, rt e rsh correspondem, respecti- vamente, às resistências elétricas da lama, das zonas lavada/invadida e virgem, e da camada do folhelho adjacente, sendo i a corrente que se desenvolve devido à queda ôhmica motivada pelas diferenças de concentração entre as duas soluções. Conclusão: a curva do SP, tal como é regis- trada nos perfis, nada mais é do que apenas uma parte do SSP, porquanto seus eletrodos medem apenas o potencial que se desenvolve dentro do poço (em referência ao eletrodo de superfície de potencial fixo) e não dentro das camadas. Isto é: SP = irm (4.15) Para que haja condução da corrente iôni- ca em uma solução, todos os sais dissolvi- dos/ionizados, sem exceção, participam da condução. Daí, dizer-se que a medição la- boratorial da resistividade (ou da condutivi- dade) é um dado mais realista, completo e significativo do que uma análise hidroquímica (considerando-se que elas jamais analisam to- dos os tipos de íons presentes, mas somente os essenciais e alguns oligoelementos). Por outro lado, o resistivímetro (ou o cir- cuito do SP) contabiliza a condução efetuada por todo e qualquer íon, por menor que seja a sua concentração na solução. É bastante difícil medir-se eletricamente o SSP (corrente total no poço - Equação 4.14), porém, é relativamente fácil medir-se o SP (fra- ção do SSP que se desenvolve entre a lama e o eletrodo na superfície, de potencial fixo). Dada essa dificuldade operacional para a me- dida do SSP, optou-se pela Equação 4.9 da ter- modinâmica, para a quantificação de Rw a par- tir da curva do potencial espontâneo, como ve- remos adiante. 4.3 Efeitos Ambientais sobre a Curva do SP De acordo com Doll (1949), a relação entre SSP, SP e as resistividades ambientais (i.e., aquelas que se situam ao longo do percurso re- alizado pelas correntes do SSP - Figura 4.3), pode ser obtida relacionando-se as Equações 4.14 e 4.15: SP = SSP 1 + ( rxo + rt + rsh rm ) (4.16) 4.3. Efeitos Ambientais sobre a Curva do SP 83 sendo que ri = Ri Li Ai (4.17) Pelo que se observa na Equação 4.16, o SP somente será igual ao SSP quando o termo do denominador, entre parênteses, for igual à uni- dade. Isto será possível somente nos casos de elevados valores das áreas transversais à tra- jetória das correntes do SP, isto é, quando as camadas permeáveis forem bastante espessas. Qual seria então a praticidade das equações desenvolvidas a partir da teoria elétrica do SP? Poderíamos responder que nenhuma, já que ela envolve trajetórias e áreas transversais, ele- mentos difíceis de se estabelecer através dos perfis. Entretanto, elas nos fazem entender como o fenômeno ocorre eletricamente. Por este motivo, a curva do SP é muito mais analisada, compreendida e quantificada, sob o ponto de vista de suas equações termodinâmi- cas citadas. Assim, a Equação 4.9 cumpre o objetivo fi- nal do SP, que é o cálculo de uma das mais im- portantes constantes da Lei de Archie (1942) - Rw. O interessante é que sem as característi- cas da água interporosa não se pode calcular a sua saturação (Sw). Rw = Rmf@FT 10−SSP/K (4.18) onde o Rmf é lido no cabeçalho, geralmente ex- presso à temperatura da superfície e calculado para a temperatura da profundidade da forma- ção (FT) que se deseja determinar Rw. É sob este ponto de vista que se deve anali- sar os fatores que afetam a curva do SP e que podem trazer erros à Equação 4.18. 4.3.1 Fatores que Afetam o Formato da Curva do SP De acordo com as Equações 4.16 e 4.17, pode- se estabelecer três tipos de fatores capazes de diminuir a amplitude da curva do SP, vindo a prejudicar a boa determinação quantitativa de Rw. São eles: 1. Fatores relacionados ao termo ri: Cama- das permoporosas com iguais diâmetros de poço e mesma resistividade porém com es- pessuras diferentes; aquela com maior es- pessura tem uma área de contato com a lama também maior. Assim, a razão ri/rm do denominador da Equação 4.16 tende a zero e faz o SP se aproximar do SSP. 2. Fatores relacionados ao termo rm: Cama- das permoporosas com diferentes diâme- tros de poço e mesma resistividade, porém com espessuras iguais, aquela com menor área tem um maior valor de rm, portanto a razão ri/rm do denominador da Equação 4.16 tende a zero e faz o SP se aproximar do SSP. 3. Fatores relacionados à litologia, lama e fluido intersticial (Rw): • Quanto maior a argilosidade, me- nor a permeabilidade, menor o fluxo fluido, menor o SP em relação a uma rocha com idênticas proprieda- des, porém, sem argila. • Quanto mais salgada a lama (> 30000 ppm), é impossível se reali- zar qualquer medida devido ao curto- circuito estabelecido dentro do poço (irm = 0). • A presença de hidrocarbonetos (Sw < 1) eleva bastante o termo rt do de- nominador da Equação 4.16; • Quanto maior o diâmetro de invasão, mais longe do eletrodo ficarão as li- nhas de corrente (maiores Li e ri), fazendo com que (SP < SSP). Diminuições na amplitude da curva do SP significam menores valores de leitura, já que o 84 Capítulo 4. Perfil do Potencial Espontâneo SP é medido pela separação entre a LBF e o ponto a se analisar. Assim, as Equações 4.9 ou 4.18 calcularão valores mais altos para Rw. Quanto maior o Rw mais doces serão as águas, não condizentes com a realidade. 4.4 Qualidade da Curva do SP O controle da qualidade dos perfis é manda- tório e deve fazer parte da primeira análise a se realizar, a exemplo de qualquer experimento de natureza científica. Defronte aos folhelhos ou rochas impermeá- veis (onde não ocorre invasão do filtrado nem difusão de sais), a curva do SP mostrará uma tendência retilínea, sendo, por isso mesmo, de- nominada linha base dos folhelhos (LBF). Defronte às camadas permeáveis (onde ocor- re invasão do filtrado), a curva do SP apresen- tará deflexões para a direita (positiva) quando o filtrado for mais salgado do que a água inters- ticial (Rmf < Rw), e para a esquerda (negativa) quando a água intersticial for mais salgada do que o filtrado (Rw < Rmf) - ver Equação 4.9. O sinal do SP é, portanto, função do con- traste das atividades, ou resistividades, entre a água da formação e o filtrado da lama. Havendo, portanto, igualdade de salinidade entre o filtrado e a água da formação, não ha- verá qualquer deflexão. Quer dizer, tanto uma rocha impermeável como uma rocha permeável podem mostrar uma mesma linha base, desde que a permeável tenha uma água de salinidade igual à do filtrado da lama. Este fato, onde há permeabilidade, porém Rmf = Rw, pode pregar uma peça nos intérpretes mais afoitos, porquanto poderão computar uma maior es- pessura para o folhelho e descartar um possível reservatório interlaminado. Dúvidas de interpretação devem ser esclare- cidas com um maior número de perfis possíveis. Jamais usar um só perfil para tirar conclusõesintempestivas. Sendo o SP o resultado da circulação de uma corrente contínua e bastante fraca (da ordem de milivolts), ele poderá ser perturbado ou in- fluenciado por correntes espúrias (ruídos) que ocorram na vizinhança do poço, induzidas por fontes naturais e/ou artificiais. Um desses ruí- dos pode ser devido ao atrito da armadura de aço que reveste o próprio cabo de perfilagem com as partes metálicas da torre de perfura- ção. O aço é eletroquimicamente ativo. Ao ser imerso num eletrólito (lama), desenvolve um efeito de bateria ao longo de toda a sua super- fície molhada. Caso o cabo esteja estacionário, a bate- ria polariza-se e o seu potencial constante sobrepõe-se, para a direita ou para a esquerda da curva, deslocando-a em um mesmo sentido. Caso o cabo se movimente, o filme de po- larização é rompido, intermitentemente, pelo atrito contra as paredes do poço. Nesse caso, o potencial torna-se bastante variável, sobre- pondo-se, aleatoriamente, à curva do SP, o que torna praticamente inviável qualquer identifi- cação e, portanto, quantificação. Demais fontes de ruídos podem ser provo- cadas pela possibilidade de magnetização do cabo de perfilagem pelos revestimentos ou pe- ças metálicas (próximos ou dentro do próprio poço), redes de alta tensão, transmissões de rádio, tempestades magnéticas, movimentação de fluidos dentro do poço (poço em produção), etc. Os equipamentos para a perfilagem em poços de petróleo usados atualmente na pesquisa de água subterrânea estão munidos de filtros que minimizam ou eliminam os citados ruídos. 4.5 Interpretação da Curva do SP No perfil da Figura 4.4 (poço perfurado para água) estão registradas, na primeira faixa, as curvas do RG (cheia) e do SP (pontilhada), 4.5. Interpretação da Curva do SP 85 Figura 4.4: Perfil SP exemplo para cálculo do Rw. mostrando uma sucessão de arenitos e folhe- lhos. As demais curvas nas faixas 2 e 3 serão discutidas mais adiante. Reparar, inicialmente, a excelente correlação entre as duas. As areias defletem, tanto no SP como no RG, para a esquerda e os folhelhos, para a direita. O SP, por não ter caracterís- ticas estatísticas como o RG, tem contornos mais suaves que aquela. Nas segundas e ter- ceira faixas, em escala log, estão duas curvas de resistividade. A exemplo do RG, o folhelho é a base da interpretação, desde que dentro de uma mesma formação, ambiente deposicional, etc. O primeiro passo é a definição da linha de base dos folhelhos (LBF). Lembrar de sepa- rar individualmente os intervalos de formações distintas, porque os folhelhos não têm poten- cial de membrana (Em) fixo, mas variável, de acordo com sua composição química, minera- lógica e/ou faciológica. A LBF deve representar, para cada intervalo a analisar, uma tangente média dos valores má- ximos dos folhelhos de um mesmo pacote. Ja- mais usar a LBF de uma formação em outra diferente. A interpretação quantitativa do SP pode ser realizada de duas maneiras: a primeira com as leituras obtidas no perfil impresso (como se es- tivéssemos na boca do poço) e, posteriormente, com os dados digitalizados *.las (como se esti- véssemos no escritório em um computador). É claro que esta última situação é a mais precisa. 4.5.1 Leituras no Perfil Exemplo A LBF é da ordem de +34 mV, estabelecida como sendo o zero do potencial de membrana do folhelho. Os arenitos do intervalo estão lendo à esquerda da LBF, o que significa dizer que um maior potencial de cargas negativas es- taria na água da formação (Rw), mais salgada, e não no filtrado da lama (Rmf), mais doce. Assim, a Equação 4.9 mostra que a obtenção de um SP negativo se dá pelo fato de o Rmf ser mais resistivo que Rw, ou, em outras palavra o filtrado da lama tem que ser mais doce ou diluído do que a água da formação. A partir destas constatações e dos dados do cabeçalho (ver Tabela 4.1), os seguintes passos devem ser adotados e resolvidos: 1. Leitura da LBF no perfil = +34 mV; 2. Leitura da deflexão da curva na profundi- dade mais afastada da LBF = +3 mV. Este procedimento tem por base o fato de o SP apresentar um gradiente nas suas de- flexões do topo para a base, mostrando a possibilidade da ocorrência de uma vari- ação granulométrica, ou argilosidade, na- quela direção. Observa-se, também, que a maior deflexão encontra-se aos 902,5 m de profundidade, que deve ser a areia mais limpa (Vsh tendendo a zero) de todo o in- tervalo. Este foi, e deve mesmo ser, o 86 Capítulo 4. Perfil do Potencial Espontâneo ponto a ser escolhido para se fazer a lei- tura mais representativa de todo o inter- valo 861-913 m; 3. Cálculo do Gradiente Geotérmico do poço: GG = 0,046 ◦F/m; 4. Cálculo da temperatura da profundidade escolhida para a leitura: FT = 116,9 ◦F; 5. Cálculo do Rmf à temperatura da forma- ção (Equação 2.5): Rmf@FT = 8,263 Ω.m @ 116,9 ◦F; 6. Cálculo da constante da Equação 4.9: K = 76,55; 7. Cálculo do SSP: SSP = (+34) - (+3) = -29 mV (considerar a leitura como sendo negativa devido ao fato de a curva estar à esquerda da LBF); 8. Cálculo do Rw à temperatura da forma- ção: Rw@FT = 3,454 Ω.m @ 116,9 ◦F; 9. Cálculo do Rw à temperatura da super- fície (75 ◦F) para poder usar os gráfi- cos convencionais ou equações específicas: Rw@75◦F = 5,2249 Ω.m @75◦F. 10. Cálculo da Salinidade correspondente à uma solução de NaCl: somente o valor de Rw não ilustra a salinidade de uma solu- ção, por isso, usa-se a equação de Bateman & Konen (1977), para transformar Rw em ppm equivalentes à uma solução de NaCl (ver Equação 4.19): SALw = 10(3,562−log(Rw@75−0,0123))/0,955 (4.19) Resultado: uma solução de Rw = 5,2249 Ω.m @75◦ F cor- responde à uma solução com 953 ppm de NaCl. 4.5.2 Arquivos Digitalizados Usam-se planilhas de cálculos como a mostrada na Tabela 4.1, devidamente preenchidas com os dados dos arquivos *.las, *.lis, etc. As primeiras duas linhas da Tabela 4.1 cor- respondem, respectivamente, ao intervalo a analisar; PF é profundidade final do poço (me- tros); Rmf é a resistividade do filtrado medida à temperatura Tmf (graus Farenheit); SALmf é a salinidade convertida do filtrado a partir da Rmf; TSup é a temperatura da superfície (graus Farenheit); GG é o gradiente geotérmico do poço (◦F/m); e LBF é a leitura obtida com o traçado da linha base dos folhelhos, desde que ela seja representativa de uma formação, de um ambiente deposicional, etc. Para efeito demonstrativo, calculou-se na Tabela apenas uma profundidade, exatamen- te aquela escolhida visualmente no perfil (902,5 m). Observe-se que a leitura visual do SP foi de +3 mV, enquanto que o dado digitalizado, mais confiável, foi de +4,3406 mV (item 4.5.1). Comparando-se os resultados entre os cálcu- los com as leituras da cópia impressa e as digi- tais, observa-se que as diferenças são mínimas. Elas residem no que se tem na ocasião do tra- balho: o perfil impresso ou dados digitalizados. 4.6 Interpretação da Curva do SP na Presença de Sais Bivalentes O que foi dito acima aplica-se somente no caso de soluções ricas em NaCl, uma vez que toda a teoria do SP foi desenvolvida para estes casos, devido ao fato de ser este o sal predominante nas águas encontradas na maioria dos campos de petróleo, cuja indústria é a fomentadora e a mantenedora da técnica da perfilagem. Para soluções eletrolíticas - que são mistu- ras de diferentes sais de cálcio, magnésio, além do sódio -, Gondouin, Tixier & Simard (1957) mostraram que o potencial eletroquímico (SP) 4.7. Resumo da Curva do SP 87 Intervalo PF Rmf Tmf SALmf TSup BHT GG LBF 830-930 1227 12,5 75 382 75 132 0,046 +34,1645 Prof. SP FT Rmf@FT K SSP Rw@FT Rw@75 SALw 902,5 4,3406 116,95 8,263 76,55 -29,82 3,3694 5,0970 978 Tabela 4.1: Planilha para cálculo do RwSP, preenchida com o dado digitalizado do SP. Acima os parâmetros (constantes) e abaixo, os dados (leituras e resultados). é expresso pela Equação 4.12. As atividades envolvidas estão relacionadas às concentrações iônicas das soluções. Com base nas análises químicas de amostras de dez poços para água subterrânea, perfura- dos na formação São Sebastião,Bahia, con- tendo, além do sódio e potássio, quantida- des expressivas de cálcio e magnésio, Lima & Nery (1999) definiram uma relação entre ativi- dade total e resistividade elétrica válida para as águas dessa formação. Estatisticamente, os valores de atividade e resistividade dessas águas se ajustam a uma expressão da forma: aw = α Rβw . (4.20) Usando-se o conceito de resistividade equiva- lente de uma solução eletrolítica como um pa- râmetro inversamente proporcional a sua ati- vidade, pode-se escrever que as resistividades das águas da formação São Sebastião (RwSS) obedecem a seguinte relação: RwSS = κ aw = κ α Rβw (4.21) Na área estudada, supõe-se que as águas usa- das no preparo de lamas possuem característi- cas químicas comparáveis às das águas subter- râneas. Todavia, essas lamas são normalmente compostas por argilas bentonitas ricas em só- dio. Dada a elevada capacidade de troca catiô- nica das bentonitas, o filtrado da lama tende a comportar-se como uma solução de cloreto de sódio. Com isso, a relação atividade ver- sus resistividade para filtrados tem a forma da Equação 4.21, com κ = 0,075 e β = 1. Com isso, a Equação 4.9, adaptada para as condições experimentais na região e para as águas do aquífero São Sebastião, tem a forma: SP = −K log Rmf RwSS (4.22) e RwSS = 1,465R0,346 w (4.23) Tais resultados mostram que, se não for feita uma distinção clara entre RwSS e Rw, as esti- mativas baseadas em perfis do SP podem levar a resistividades fictícias bem menores do que as resistividades verdadeiras das águas das for- mações, que se expressam eletricamente como mais salinas do que realmente são. É bastante válido acrescentar-se que, para se ter cálculos realísticos, tem-se que partir das análises da água usada para a confecção da lama, bem como de seus filtrados, de modo a se poder estabelecer equações compatíveis para cada área, região, formação ou ambiente depo- sicional. 4.7 Resumo da Curva do SP 1. Medição Diferença de Potencial entre dois eletro- dos; um dentro do poço e outro na super- fície. 88 Capítulo 4. Perfil do Potencial Espontâneo 2. Unidade Milivolts (mV). 3. Usos • Detecção de camadas permoporosas; • Correlação entre poços vizinhos: • Argilosidade: VshSP = 1− (SP/SSP); • Resistividade das águas das forma- ções (RwSP). 4. Apresentação Primeira faixa com valores aumentando da esquerda para a direita. 5. Problemas • Camadas argilosas; • Poços com lama a base de óleo; • Poços desmoronados; • Camadas com óleo (Sw < 1); • Lamas com alta salinidade (> 30000 ppm de NaCl); • Camadas com espessuras menores do que 5 metros. 4.8 Questionário 1. Quais fatores originam a velocidade de di- fusão dos íons? 2. Qual o íon mais rápido em difusão: Cl−, Na+, Ca++ ou K+? Por quê? 3. Quais os fatores que controlam o Potencial de Junção de Líquidos (Ej)? 4. Por que Ej é menor do que o Em? 5. Por que o SP é menor do que SSP? 6. Por que o SP não desaparece com o tem- po? Explicar. 7. O que é a Dupla Camada e quais as causas de sua origem nos folhelhos? 8. Pesquisar a composição mineralógica de um folhelho qualquer para demonstrar que 60% dela corresponde a um certo grupo de minerais, enquanto que os 40% restan- tes são determinantes de suas proprieda- des petrofísicas. 9. Como funciona a Célula de Mounce & Rust? 10. Quais os fatores que controlam o Potencial de Membrana (Em)? 11. Quais os fatores que controlam o Potencial Eletrocinético (Ek)? 12. Citar três eventuais potenciais naturais que podem ocorrer em um poço perfurado com lama a base de água? 13. Um poço perfurado com um fluido à base de ar terá SP mapeável? Explicar. 14. Citar, e explicar, três fatores que alteram o formato da curva do SP. 15. O que significa o conceito de Resistividade Equivalente da água (Rwe)? 16. Quais os principais usos da Curva do SP? 17. Considerando-se uma equação prática do potencial eletrocinético (Ek) como sendo igual a: Ek = 0,0391∆P √ Rmctmcfl (4.24) qual será a tendência numérica deste tipo de potencial, respectivamente, nas indús- trias petrolífera e da água? Referências 89 Referências Archie, G. E., 1942 - The electrical resistivity log as an aid in determining some reservoir characteristics. Am. Inst. Min. Metallur- gical Engineers, 146:54-62. Bateman, R. M., & Konen, D. K., 1977 - The log analyst and the programmable pocket calculator. Determination of Rw from the SP. The Log Analust, 18(5):3-11. Davies J. T.& Rideal, E. K., 1963 - Interfa- cial Phenomena, University of Cambridge, England, 2nd ed., 480 pp. Doll, H. G., 1949 - The S.P. Log: Theorethical analysis and principles of interpretation. Am. Inst. Min. Metallurgical Engineers, 179:146 - 185. Gondouin, M., Tixier, M.& Simard, G. L., 1957 - An Experimental study on the influence of the chemical composition of electrolytes on the SP. Journal of Petro- leum Technology, 210:58-72. Hallenburg, J. K., 1983 - Geophysical well log- ging for mineral and engineering applica- tions, Pennwell Books, 254 pp. Lima, A. O. L.& Nery, G. G. - 1999, Determi- nação da resistividade elétrica das águas intersticiais usando perfilagens do poten- cial espontâneo. Anais do Congresso In- ternacional da SBGf, RJ. Pettijohn, 1975 - Sedimentary Rocks, 3rd. Ed. Harper & Row, New York. Schlumberger Educational Services, 1989 - Log Interpretation Principles, N.Y., Sch- lumberger Ltd. Shaw, D. B.; Weaver, C. C., 1965 - The mine- ralogic composition of shales. Journal of Sedimentary Petrology, 35:213-222. Yaalon, D. H., 1962 - Mineral composition of the avarage shales. Clay Mineralogy Bul- letin, 5:31-36. 90 Referências Capítulo 5 Perfis com Eletrodos Galvânicos 5.1 Introdução Este capítulo abrange algumas ferramentas já obsoletas e outras ainda em uso. Elas são aqui discutidas com a finalidade de explicar como funcionam as medidas de resistividade nos po- ços. Entendidas suas metodologias, fica fácil entender a física envolvida. A condutividade elétrica de uma substância qualquer é a medida da habilidade no transporte de cargas elétricas livres, sob a ação de um campo externo. Ela é definida pela Lei experimental de Ohm, que estabelece o relacionamento linear entre os vetores colineares da densidade da corrente (J), em um ponto qualquer do condutor, e o campo elétrico (ε), naquele mesmo ponto. A constante de proporcionalidade (σ) é denomi- nada condutividade dessa substância. Isto é : J = σε (5.1) Em meios anisotrópicos, a condutividade varia conforme a direção da medição: J = σijε (5.2) A referida lei expressa, também, a relação di- reta entre o fluxo da corrente elétrica (i) e a diferença de potencial (∆E) que ocasiona tal fluxo. A constante de proporcionalidade intro- duzida é a resistência elétrica (r) do material considerado. Isto é: r = ∆E i (5.3) onde r = R L S (5.4) e, finalmente: R = ∆E i S L (5.5) sendo L o comprimento, S a área transversal e a letra R adotada pela técnica de perfilagem (diferentemente da letra ρ acadêmica) é a in- versa da condutividade (σ). Na técnica de per- filagem usa-se, preferentemente, resistividade no lugar de condutividade. O potencial ∆E é expresso em Volts, a cor- rente i em Amperes, a resistência r em Ω e a resistividade em Ω.m. A medida da corrente i que atravessa as duas faces de um testemunho de poço, submetidas a um ∆E conhecido, fornece a resistência da amostra. A resistência, assim determinada, é uma propriedade do material dependente das dimensões da amostra. Duplicando-se o com- primento da amostra, duplica-se também a re- sistência. Duplicando-se a área perpendicular à passagem da corrente, a resistência cai pela metade. 91 92 Capítulo 5. Perfis com Eletrodos Galvânicos Todavia, se a medida de resistência é reali- zada levando-se em consideração as unidades de área e comprimento, eliminam-se os efeitos dimensionais e obtém-se a resistividade (Equa- ção 5.5), propriedade esta dependente do ma- terial e não de suas dimensões. Como as rochas sedimentares são constituí- das de grãos - geralmente isolantes - e fluidos condutores, a correnteelétrica propaga-se nor- malmente através dos fluidos, exceto nos casos de grãos condutores e fluidos isolantes, fatores estes complicadores da avaliação. As resistividades das rochas variam normal- mente entre 0,2 a 2000 Ω.m ou 5000 a 0,5 mS/m. Os perfis com eletrodos galvânicos medem a resistência à passagem da corrente elétrica através das camadas localizadas entre um ele- trodo que se desloca no poço e outro estacio- nário na superfície, ou mesmo dentro do poço, a uma distância considerada infinita. Como a corrente enviada ao eletrodo emis- sor é mantida constante, a curva registra um potencial (estando o eletrodo de retorno no in- finito), ou a diferença de potencial (estando o eletrodo de retorno dentro do poço ou próximo ao emissor). Posteriormente, esse potencial (ou DDP) é convertido em valores de resistividade elétrica usando-se a Equação (5.5). 5.2 Eletrodo em um Meio Homogêneo Uma carga qo localizada a uma distância L de um eletrodo qualquer de carga qa recebe uma força atuante de acordo com a Lei de Coulomb igual a: |F | = 1 4πεo qaqo L2 (5.6) enquanto que a intensidade do campo elétrico sobre qo será: |ε| = |F | qo = 1 4πεo qa L2 (5.7) donde se conclui que: 1. O campo elétrico diminui exponencial- mente com a distância; 2. As linhas (imaginárias) de força, por sime- tria, têm o mesmo campo elétrico (ε) em todos os pontos equidistantes da fonte, cri- ando esferas equipotenciais nas proximi- dades dos eletrodos de corrente (Figuras 5.1 e 5.2). Figura 5.1: Princípio da medição do perfil elé- trico. A é o eletrodo de corrente e B, o de retorno (Guyod, 1944). Tomemos, por exemplo, a situação das li- nhas e esferas de correntes, conforme mostra a Figura 5.2, e chamemos de a o raio do eletrodo; de L o diâmetro total em relação a uma esfera afastada de a; de x o raio da esfera equipoten- cial mais interna; de x + dx o raio da esfera equipotencial mais externa; de V a DDP entre 5.3. Tipos de Perfis com Eletrodos Galvânicos 93 Figura 5.2: Esferas equipotenciais vizinhas a um eletrodo em meio homogêneo e isotrópico. o eletrodo e a primeira esfera interna; de V +dv a DDP entre o eletrodo e a esfera externa; de r a resistência do meio homogêneo (Ω); e de R a resistividade do terreno (Ω.m). O potencial fixo é dado por: V = ir, ou seja, dV = idr. Daí, dV = R dr dS (5.8) dr = R dx 4πx2 (5.9) dV = iR 4π dx x2 (5.10) Finalmente, a equação que calcula a DDP entre um eletrodo cilíndrico de raio a, dentro de um poço, e uma esfera equipotencial concên- trica qualquer, posicionada a uma distância L do eletrodo, será: V = iR 4π ( 1 a − 1 L ) = KR (5.11) O termo dentro do segundo parêntese da Equação (5.11), multiplicado por 4π é deno- minado constante ferramental ou geométrica (K), definida de acordo com a configuração, montagem ou separação entre os eletrodos e a corrente usada. O segredo das ferramentas elétricas está em se estabelecer em qual esfera equipotencial dis- tante de A deve-se posicionar o eletrodo B. A medida do DDP entre A e B define a resisti- vidade do volume de material localizado entre ambos. Atribuindo-se, na Equação (5.11), os valores i = 10 Ω, R = 10 Ω.m, o raio de A = 0,1 m, e variando-se o raio L, sucessivamente, de 1, 2, 10 metros até o infinito, verifica-se que toda esfera equipotencial de raio superior a 10 vezes o raio do eletrodo A, promove apenas um pe- queno acréscimo (cerca de 10%) na diferença de potencial entre A e a esfera considerada (onde deverá estar o eletrodo B). Em outras palavras, 90% do DDP entre um eletrodo emissor de corrente e uma esfera situ- ada em L ocorre, no máximo, até 10 vezes o raio do eletrodo A (Tabela 5.1). 5.3 Tipos de Perfis com Eletrodos Galvânicos Os perfis galvânicos são classificados em ma- cro e microvolumétricos, os quais, por sua vez, podem ter seus eletrodos configurados nos sis- temas mono ou multieletrodos. A diferença entre as configurações operacio- nais dos macro e microperfis reside tão somente na distância que separa os eletrodos, de modo que os princípios e as equações ferramentais de aquisição continuam as mesmas. 5.3.1 Sistemas Monoeletrodos Monoeletrodo é aquele sistema elétrico de per- filagem que tem apenas um eletrodo de cor- rente (A) dentro do poço, a exemplo do ilus- trado na Figura 5.1. Um gerador na superfície emite uma corrente constante, alternada e de baixa frequência, que desce pelo cabo até A e se espalha em todas as direções, para retornar à superfície através 94 Capítulo 5. Perfis com Eletrodos Galvânicos Corrente Resistividade Raio Eletrodo Raio Externo Medição % em relação (Ampère) (Ω.m) (m) (m) (Volt) (ao infinito) 10 10 0,1 1 75,0 90 10 10 0,1 2 79,2 95 10 10 0,1 3 80,6 97 10 10 0,1 ∞ 83,3 100 Tabela 5.1: Cálculos efetuados com a Equação 5.11 mostram que existe uma diferença de apenas 8,3V (90%) entre o eletrodo e uma esfera equipotencial localizada no infinito elétrico. das camadas e fechar o circuito no eletrodo de retorno (B), dentro de um buraco com lama. A resistência oferecida à passagem da cor- rente elétrica, entre A e B, está em série com uma bateria e um voltímetro. Quando a resistência do pacote intermediá- rio de rocha é baixa (por exemplo, rocha por- tadora de água salgada), a corrente em B tem alto valor e o perfil registra uma curva bastante sensível. Quando a resistência das rochas é alta (por- tadora de água doce ou hidrocarboneto), a cor- rente é pequena. Estes fatos diminuem a sensibilidade da curva. Isto é, uma deflexão de 5 Ω.m regis- trada entre 10 e 20 Ω é muito maior do que uma deflexão, de igual valor, entre 100 e 120 Ω.m. A falta de linearidade na reposta dá aos monoeletrodos um caráter meramente qualita- tivo. Devido à utilização de corrente constante, o potencial é inversamente proporcional à resis- tência ente os eletrodos A e B. Conforme a Equação (5.11), 90% da resposta (raio de in- vestigação) deste sistema, em um meio homo- gêneo e isotrópico, corresponde a uma esfera de raio igual a 10 vezes o raio do eletrodo emissor. Guyod (1944) demonstrou que a resistência medida pelos monoeletrodos consiste em várias resistências em série: a do semi-hemisfério do eletrodo de corrente A; a da lama, a das rochas que circundam o eletrodo A (até uma distância 10 vezes o seu raio); a resistência das rochas localizadas entre 10×A; e, finalmente, do semi- hemisfério do eletrodo B, na superfície. Limitações dos Monoeletrodos - Devido ao pe- queno diâmetro dos eletrodos e, por con- sequência, do raio de investigação, eles são fortemente influenciados pelo volume e pela condutividade da lama. Em desmoronamentos, cavernas ou fratu- ras, os monoeletrodos registram apenas a resistividade da lama e não das camadas entre eletrodos. Caso o intervalo perfilado tenha uma re- sistência maior do que a da lama, apenas uma pequena parte da corrente fluirá pe- las rochas. O restante permanecerá circu- lando dentro do poço, o meio mais condu- tivo. Camadas finas e/ou interlaminações resis- tivas afetarão, também, o fluxo da cor- rente, dificultando seus reconhecimentos e quantificações. Principais Usos dos Monoeletrodos - Os mo- noeletrodos devem ser utilizados para cor- relação entre poços, definição de variações litológicas, determinação da espessura das camadas e, eventualmente, identificação de intervalos fraturados em rochas crista- linas ou de porosidade matricial nula. 5.3. Tipos de Perfis com Eletrodos Galvânicos 95 Conclusão - São perfis de natureza qualita- tiva, ensejando quantificações puramente especulativas. 5.3.2 Sistemas Multieletrodos Normalmente equipados com quatro eletrodos. Um emissor (A), um receptor de corrente (B) e dois eletrodos (M e N) que medem o potencial ou a diferença de potencial entre eles. Quando a separação entre os eletrodos A e M é da or- dem de 16 ou mais polegadas, é denominado sistema ou Perfil Elétrico Convencional (ES ou EL). Quando a separação é da ordem de uma polegada, é denominado sistema ou Micro Per- fil Elétrico (ML). Os arranjos de eletrodos mostrados nas Fi- guras 5.3 e 5.4 são similaresao arranjo Sch- lumberger de superfície. A cor amarela em ambas as figuras mostra onde praticamente se concentra toda a investigação do sistema e si- naliza suas resoluções horizontais e radiais em MHII. Em laboratórios, a amostra encontra- se envolta por ar ou outro material isolante, fato este que obriga as linhas de corrente a cir- cularem, somente, entre os eletrodos A e B, portanto, sem fuga. A relação R = K/V , da Equação 5.11, define a resistividade real da amostra, enquanto S/L define a geometria do corpo analisado. Em um poço, muito embora o arranjo dos eletrodos seja idêntico ao do laboratório, não há confinamento das linhas de corrente à ge- ometria cilíndrica da amostra, mas sim um espalhamento pelo conjunto condutor infinito lama/rocha. Desta forma, a constante geomé- trica K não mais será obtida pela razão S/L, a não ser em raros casos de isotropia e homoge- neidade de todo o meio envolvido no sistema. O efeito combinado das propriedades elétri- cas da coluna de lama e do poço inserem na me- dição uma constante geométrica G (diferente de K), fazendo com que a resistividade a me- Figura 5.3: Arranjo dos eletrodos dos Sistemas Normais. Figura 5.4: Arranjo dos eletrodos do Sistema Lateral. dir seja aparente (R 6= Ra): V = iR 4π ( 1 a − 1 L ) = GR (5.12) 96 Capítulo 5. Perfis com Eletrodos Galvânicos Para cada arranjo entre os eletrodos de me- dição e de corrente estabelecido por qual- quer que seja a companhia de perfilagem, bem como para qualquer espaçamento entre eles, haverá sempre um valor numérico diferente para G. Todavia, não importa qual seja o ar- ranjo usado, todas elas deverão registrar, em um mesmo poço, idênticos valores de resistivi- dades aparentes, segundo as normas do Insti- tuto Americano do Petróleo (API). 5.4 Principais Sistemas Multieletrodos Dois são os arranjos dos multieletrodos: o Nor- mal e o Lateral. O Macro Sistema Normal tem o eletrodo de retorno (B) e o de medição (N) posicionados a uma grande distância de A e M . Na realidade, N e B ficam próximos à (ou na) superfície, portanto, no infinito elétrico. Este sistema mede o potencial entre M e N , do qual 90% estão situados na distância AM. O Macro Sistema Normal está subdividido em Normal Curto (AM igual a 16 polegadas) e Normal Longo (AM igual a 64 polegadas). Em ambos os casos, as resistividades aparen- tes, tanto a normal curta (RSN ou R16) como a normal longa (RLN ou R64) serão dadas por: R16 ou 64 = 4πAM V i (5.13) No Macro Sistema Lateral, os eletrodos A, M e N estão posicionados na própria sonda que desce ao poço, enquanto que B permanece na superfície. A distância entre o eletrodo A e o ponto médio entre M e N é de 18 pés e 8 pole- gadas. Daí sua denominação RLAT ou R18.8. Este sistema mede o diferencial de potencial entre as esferas que passam em M e N . Nesse caso, a resistividade aparente lateral RLAT ou R18.8 será: RLAT ou 18.8 = 4πV i ( 1 AM − 1 AN ) (5.14) Como, de um modo geral, o meio em que os eletrodos estão localizados não é eletricamente homogêneo, nem uniforme (lama + rocha), as leituras, em qualquer um dos sistemas elétricos discutidos acima, dependerá das resistividades radialmente dispostas (ou em série) entre os eletrodos A e B. Isto é: lama (Rm) + reboco (Rmc) + zona invadida pelo filtrado da lama (Rxo) + zona virgem (Ro ou Rt) + demais ca- madas sobre ou sotopostas aos eletrodos (Rs). 5.4.1 Limitações dos Multieletrodos O principal problema destes perfis é a distorção do campo elétrico, devido às diferenças entre as resistividades da lama (Rm) e da rocha (Rt ou Ro), as quais influenciam a leitura final da resistividade (Ra), afastando-a cada vez mais dos valores reais desejados (Rt ou Ro). Caso uma camada defronte aos eletrodos tenha pequena espessura, haverá uma forte influência daquelas soto e sobrepostas (Rs). Além do mais, devido ao processo de inva- são do filtrado da lama, quando permoporo- sas, suas resistividades variam radialmente. A resistividade verdadeira somente será estabele- cida quando forem usados sistema de grandes profundidades de investigação radial, tais como os de princípio eletromagnético (indutivos). Por sua vez, quanto maior for o afastamento entre os eletrodos de medição, maior deverá ser a espessura da camada para que se possa obter Rt. Esta foi a razão principal pela qual os per- fis elétricos convencionais foram desenhados. Distintos espaçamentos entre eletrodos var- rem lateralmente as camadas, negligenciando, todavia, a resolução vertical (ou espessura) das mesmas. Teoricamente, em meio homogêneo (i.e., quando Rm = Rxo = Rt = Rs), a Normal Cur- ta teria uma resolução radial da ordem de 16 pol.(0,4064 m) a partir do eixo da ferramenta. Já a Longa de 64 pol.(1,6256 m), e a Lateral, 5.4. Principais Sistemas Multieletrodos 97 de 18 pés e 8 pol. (5,6896 m). Por outro lado, as camadas pesquisadas deveriam ter espessu- ras condizentes com o dobro do espaçamento - respectivamente 80 cm, 3,25 m e 11,5 m. Figura 5.5: Exemplo de Perfil Elétrico Multie- letrodo Convencional. Compreende-se que, para que os três cita- dos arranjos leiam dentro de uma mesma ca- mada, ela deverá ter, no mínimo, a espessura do dobro da maior investigação vertical (11,5 metros). Caso contrário, cada curva realizará leituras verticais e radiais diferentes e influen- ciadas pelas camadas sobre e sotopostas, pre- judicando os cálculos quantitativos e as esti- mativas qualitativas. Durante duas décadas, após 1927, as macro curvas normais e a lateral foram as únicas dis- poníveis para a indústria na determinação da resistividade das camadas. Apesar de suas inú- meras limitações acima discutidas, e de suas dificuldades interpretativas, muito petróleo foi descoberto em todo o mundo. O perfil mostrado na Figura 5.5 ilustra um pacote de areia com espessura suficiente e su- perior à máxima exigida pelos três sistemas. A areia contém água salgada, conforme o SP ne- gativo e as baixas resistividades RLN e RLAT. O fato da RSN ser um pouco mais resistiva que a RLN corrabora a situação em que o filtrado invasor (dentro de Rxo) é mais doce do que a água dentro da zona virgem (Ro), razão do SP negativo. Esta análise torna-se factível ao reconhecer- mos que as três resistividades resultam de um princípio de medição semelhante, variando so- mente suas investigações radiais e verticais. Conclusão: Uma ferramenta ideal de resisti- vidade deve ser aquela que tenha um mesmo princípio de medição vertical (resolução verti- cal ou de espessura) e diferentes profundidades de investigação radial (resolução lateral). 5.4.2 Principais Usos dos Multieletrodos Os macroperfis multieletrodos devem ser usa- dos para correlações geológicas (pelas mesmas razões dos monoeletrodos) e quando as cama- das forem bastante espessas, para uma aproxi- mação da resistividade verdadeira das rochas (Ro ou Rt) a partir da RLAT. Havendo a necessidade de se tentar aproxi- mar quantitativamente da resistividade verda- deira (Rt) de uma camada, com as ferramentas elétricas convencionais, deve-se dar preferência aos multieletrodos, porquanto eles realizam lei- turas que envolvem áreas e comprimentos rela- tivamente estimados, o que não é possível nos monoeletrodos. Resguarde-se, entretanto, a falta de homo- geneidade do meio em que eles estão situados, que provoca distorções nas linhas de corrente (ou campo elétrico), fazendo com que as equa- ções, pré-estabelecidas para volumes esféricos compostos de materiais homogêneos e isotrópi- cos, calculem valores irreais ou aparentes. 5.4.3 Resumo do Macro Perfil Elétrico Convencional • Apresentação 98 Capítulo 5. Perfis com Eletrodos Galvânicos SP na primeira faixa. Na segunda, as cur- vas RSN e RLN, e na terceira, a curva RLAT. Havendo necessidade aparecerão as curvas de back up, com valores de leitura multiplicados por 10. • Medição RLAT mede a DDP das camadas localiza- das entre duas esferas equipotenciais vizi- nhas. RSN e RLN medem 90% do potencial en- tre o emissor e uma esfera equipotencial próxima ao emissor (16 ou 64 polegadas).• Unidade Ω.m • Usos - Correlação entre poços; - Leituras aproximadas de Rxo (RSN) e Ri (RLN); - Leitura aproximada de Rt (RLAT); - Análise qualitativa de zonas com água e/ou hidrocarbonetos (espessuras > 11,5 m). • Problemas - Poços com lama salgada (> 30000 ppm); - Camadas finas (< 12 metros); - Distorções das linhas de fluxo de corrente pela falta de homogeneidade do meio am- biente; - Correções exageradas para a obtenção de Rt e/ou Rxo. Perfil de natureza mais qua- litativa do que quantitativa. 5.5 Sistemas Elétricos Focalizados As correntes emitidas pelos sistemas elétricos convencionais (RSN, RLN e RLAT) tendem a se espalhar perpendicular e radialmente (em meio homogêneo) ou a permanecer na lama enquanto esta for mais condutiva do que as rochas. Em outras palavras, tais perfis, por não serem focalizados ou direcionados, são in- fluenciados pelos efeitos ambientais: diâmetro do poço, sal ou óleo na lama, relação espessura da camada/separação entre eletrodos, camadas sobre e sotopostas, etc. Em vista disso, as companhias de perfilagem desenvolveram ferramentas onde as correntes elétricas teriam que ser, de algum modo, força- das (ou focalizadas) para dentro das camadas, mesmo em situações adversas, como em lamas condutivas à base de sal. 5.5.1 Focalização da Corrente O primeiro perfil de resistividade com um sis- tema focalizado desenvolvido foi o Lateroperfil- 3 (LL-3). Este macrosistema consistia em um eletrodo cilíndrico central de corrente (Ao), com potencial fixo, posicionado entre dois ou- tros (A1 e A′1), monitorados e mantidos com o mesmo potencial de Ao. Tal configuração promove um bloqueio elétrico, onde as linhas de correntes saídas de Ao não transpõem, para cima ou para baixo as posições de A1 e A′1 sendo, portanto, forçadas para dentro das ca- madas, até uma certa distância poço, quando iniciam seu retorno à superfície para fechar o circuito. Isto proporciona uma maior profun- didade de investigação radial do que aquela ob- servada nos macroperfis elétricos convencionais distorcíveis. Na Figura 5.6, eletrodos cilíndricos separa- dos dão origem a linhas de corrente normais à superfície. Devido à aproximação física das cargas de mesma polaridade (eletrodos de blo- queio), as linhas de corrente entre elas sofrem repulsão. Esta repulsão natural dá origem a um disco radial de corrente (focalização), de modo uniforme e omnidirecional, cuja espes- sura será igual à distância entre os eletrodos. A resistividade medida pela ferramenta LL-3 será o resultado do produto da constante fer- ramental KLL vezes a razão voltagem pela cor- rente, onde V é o potencial usado para ativar 5.5. Sistemas Elétricos Focalizados 99 Figura 5.6: Arranjo de eletrodos cilíndricos LL-3 (Schlumberger, 1989). a ferramenta e i é a corrente saída do eletrodo central. O LL-3 é uma ferramenta com característi- cas de condutividade, porquanto i é linear e inversamente proporcional à resistividade me- dida ou diretamente proporcional à condutivi- dade do meio. Embora as medidas das resistividades te- nham sido melhoradas com esta configuração (em relação aos perfis elétricos convencionais), havia um problema denominado SBR (shoul- der bed resistivity) ou influência das resistivi- dades das camadas sobre e sotopostas àquelas defronte aos eletrodos, principalmente se resis- tivas, quando as linhas de corrente ascendiam em busca do eletrodo de retorno na superfície. Nestas ocasiões, a corrente injetada perdia a focalização (∆V 6= 0) e migrava em busca das camadas mais condutivas, ainda que o sistema de monitoramento fosse acionado para retorno à situação anterior (∆V = 0). Além do mais, o comprimento dos eletro- dos cilíndricos interferiria com as curvas do SP, caso ele estivesse acoplado. Figura 5.7: Arranjo de eletrodos do Duplo La- teroperfil (Schlumberger, 1989). Devido a tais dificuldades, foram desenvol- vidos o LL-7 e, algum tempo depois, o Duplo Lateroperfil (DLL), esquematizado na Figura 5.7, ambos sistemas com sete eletrodos cilín- dricos curtos. Dois eletrodos monitoram a cor- rente acima e abaixo do emissor, e dois outros realizam o bloqueio das correntes, porque são ajustados de tal modo que o potencial entre os monitores de cada par seja zerado, criando uma superfície equipotencial bastante próxima daquela do eletrodo central. A diferença entre o LL-7 e o DLL reside na frequência da corrente usada. Um dos sistemas do DLL tem maior penetração (LLD, de deep ) e o outro, menor penetração (LLS, de shallow ), o que proporciona valores mais realistas de Rt, passíveis de melhores correções pelos efeitos do poço e da invasão. Em ambos os sistemas Lateroperfis, o poten- cial é medido entre um dos eletrodos monitores e o eletrodo central, mantendo uma faixa cen- tral de focalização (ou espessura) da ordem de 32 polegadas (81,28 cm). 100 Capítulo 5. Perfis com Eletrodos Galvânicos Vale lembrar que a ideia do perfil elétrico convencional era a de investigar as zonas ra- diais do poço por meio de três profundidades diferentes. Pecava, todavia, pelo fato de que, para tanto eram necessárias diferentes separa- ções entre os eletrodos, exigindo espessuras di- ferenciadas das camadas. A ideia da focalização veio para solucionar este problema. A ferramente ideal tem que ser aquela que obtenha resistividades em pro- fundidades radiais diferentes, porém com uma mesma resolução vertical (espessura). Isto fi- cou esclarecido com o aparecimento das ferra- mentas do tipo Lateroperfis (LL) e Duplo La- teroperfis (DLL). Uma vez que eventuais problemas operacio- nais ou ambientais surgem a cada dia, as em- presas desenvolvem sempre novas ferramentas para minimizá-los ou eliminá-los. No caso, a família lateroperfil passou por diferentes evolu- ções desde o surgimento do LL-3. Apareceram o LL-7, o DLL e, por último, as ferramentas azimutais atuais, as quais realizam diferentes leituras de resistividade em diferentes profun- didades radiais, ensejando uma maior realidade nas leituras de Rt. 5.5.2 Princípio da Medição dos Macros Lateroperfis A equação base da investigação dos lateroperfis é dada por: R = KLLV i (5.15) correspondentes às seguintes situações opera- cionais: 1. Caso i seja constante (LL-3 e LL-7), então V será diretamente proporcional à resisti- vidade medida. Para tanto, basta a leitura de V para a sua resolução; 2. Caso V seja constante (LL-3 e as ferra- mentas de focalização esférica, a discutir mais adiante), então i será diretamente proporcional à condutividade e inversa- mente proporcional à resistividade; e 3. Caso V e i sejam variáveis (LLD e LLS), então deve-se medir tanto V como i, que devem resultar em um valor constante (constant power). A última geração desse tipo de ferramenta, o Lateroperfil Azimutal de Alta Resolução, detecta uma componente azimutal adicional, onde cada eletrodo está subdividido em oito ou mais, separados e arranjados de modo a pro- porcionarem leituras direcionais das resistivi- dades mais profundas das camadas. Também podem fornecer as resistividades em forma de imagens. Os azimutais, além de realizarem medições de resistividades bastante rasas (Rm, para cor- reção das leituras pelo efeito do poço), têm re- solução vertical da ordem de 1 pé (0,3048 m) e um inclinômetro para a orientação geográfica dos eletrodos, recurso bastante útil para o caso de poços direcionais e imageamento. 5.5.3 Usos dos Lateroperfis Obtenção de Rt - É uma ferramenta que lê re- sistividades em série. Sendo ferramentas elétri- cas, seus componentes não portam elementos sensíveis a falhas (tais como diodos, bobinas, etc.). O erro de leitura é muito baixo. Daí eles serem recomendados para altas resistividades. Pelo fato de lerem resistividades em série quanto mais salgada a lama, menor a influência do poço (Rm). Mesmo assim, é recomendável o uso de uma curva de Rxo para que se possa efetuar correções ambientais nas leituras rasa (LLS) e profunda (LLD), por meio dos gráficos conhecidos como tornados. 5.6. Perfis de Micro Resistividades 101 5.6 Perfis de Micro ResistividadesExiste uma total analogia entre os princípios físicos, as configurações e as medições das ma- cro e microferramentas. Os macroperfis de resistividades visam inves- tigar grandes volumes de rocha para a obten- ção da resistividade das zonas virgens (Rt). Os microrresistividades são miniaturas das macro- ferramentas. Tal artifício, por consequência, diminui sensivelmente seus raios de investiga- ção às zonas próximas às paredes do poço (Rmc e Rxo). Os principais microperfis de resistividade são, por ordem de entrada na indústria: Mi- cro Perfil Elétrico (ML), Micro Lateroperfil (MLL), Proximidade (PL) e Micro Perfil Es- férico Focalizado (MSFL). Esses perfis são de- nominados perfis de Rxo, a discutir. Na indústria do petróleo, usa-se atualmente apenas o Micro Esférico (MSFL) para a obten- ção de Rxo. Os demais estão obsoletos. Ape- sar de não serem mais corridos, ainda existem registros deles nos arquivos das empresas de petróleo, e com bastante uso nas reinterpreta- ções. 5.6.1 Micro Perfil Elétrico A necessidade de medidas de resistividade nas proximidades das paredes dos poços, ou me- lhor, deRxo, levou à miniaturização das macro- ferramentas elétricas, de modo a realizar me- didas centimétricas. Para entender o funcionamento de tais fer- ramentas, basta raciocinarmos com base nas Figuras 5.3 e 5.4, onde os eletrodos discoides estão separados, entre si, por uma polegada apenas. Uma almofada de borracha preenchida com óleo é pressionada contra a parede do poço, por meio de braços articulados que permitem também registrar seu diâmetro (cáliper). Na face externa da almofada estão três minúsculos botões eletrodos separados, entre si, por uma polegada, sendo denominados A, M1 e M2. O eletrodo A envia uma corrente constante em direção às paredes do poço, enquanto que M1 e M2 realizam as micromedidas. As duas cur- vas registradas pelos Micro Perfis correspon- dem, respectivamente, a um sistema Lateral (MicroInversa - MI ouM1×1) e ao sistema Nor- mal (MicroNormal -MN ouM2) (Figura 5.8). Figura 5.8: Esquema do Micro Perfil Elétrico. A MicroInversa é, na realidade, uma ma- crolateral de dimensões reduzidas, onde a cor- rente, após atravessar o reboco de resistividade Rmc, retorna na parte posterior metálica da al- mofada, que é o eletrodo de retorno (B). A medida do DDP é obtida entre os microeletro- dos M1 e M2. A MI é bastante influenciada pela resistividade do reboco. A MicroNormal é uma macronormal de di- mensões reduzidas, na qual a corrente, após atravessar o reboco e parte da zona lavada (Rxo), retorna ao eletrodo N2 no infinito elé- trico (muito embora N2 seja a parte metálica posterior da sapata onde estão os 3 eletrodos). A medida do potencial é feita entre os microe- letrodos M2 e N2. A MN é influenciada tanto por Rmc como por Rxo. Devido ao maior espaçamento entre os ele- trodos, a MN tem maior penetração do que a MI. Como resultado, admite-se que a profun- didade de investigação seja da ordem de 1,5 102 Capítulo 5. Perfis com Eletrodos Galvânicos polegadas para a MicroInversa e de 2 polega- das para a MicroNormal. Visto que, tanto MI como MN são medições realizadas em série, e como Rmc < Rxo, diz-se que MN tende a Rxo, enquanto MI a Rmc. O sistema de emissão de corrente do Mi- cro Perfil difere operacionalmente um pouco do macroperfil elétrico convencional, no que diz respeito ao fato de os eletrodos não serem ci- líndricos e por estarem pressionados contra as paredes do poço. Deste modo, a constante fer- ramental de cada sistema não pode ser calcu- lada, mas sim medida empiricamente. A compressão das molas contra a parede do poço elimina, parcialmente, o efeito curto- circuitante da lama (Rm). Ainda assim, per- manece a influência da espessura do reboco (tmc ou hmc). O afastamento entre os dois braços articu- lados do ML fornece o cáliper. Pelo fato de ter dois braços, o cáliper do ML permite medir sempre o maior diâmetro e, portanto, calcular o maior volume do poço. Sendo a maioria dos poços ovalizada, nas si- tuações em que se deseja determinar um vo- lume de cimento, pré-filtro, entre outros, é mais vantajoso o uso de cálipers que tenham quatro ou mais braços, articulados e indepen- dentes. 5.6.2 Limitações do Microperfil Elétrico Como o maior raio de investigação deste perfil é da ordem de 2 polegadas, caso o tmc > 1 po- legada (isto é, 1/2 para cada lado do poço), as duas curvas tenderão a ler o Rmc mais condu- tivo do que Rxo. Por outro lado, quando Rxo � Rmc, a ferra- menta perde a sensibilidade pela distorção das linhas de corrente que permanecem no meio mais condutivo, no caso o reboco. As várias limitações deste perfil o levaram ao obsoletismo no petróleo, porém, ele ainda está em uso na indústria da água subterrânea, para definição das espessuras permoporosas (devido a sua precisão da ordem de fração de polegada) e pela visualização da separação entre as curvas MI e MN, indicativa da permeabilidade quali- tativa das camadas. A ideia da permeabilidade qualitativa tem por base o fato de que a resistividade da zona lavada (Rxo) de uma camada saturada com fil- trado (Sxo = 1) é sempre maior do que a resis- tividade do reboco (Rmc) agregado à parede do poço, também saturado com o mesmo filtrado. Assim, considera-se que uma camada tem per- meabilidade qualitativa quando Rxo > Rmc, ou seja, MN > MI. Este tipo de separação (MN > MI) é deno- minada de positiva e fornece uma visão rápida da invasão, portanto, da permeabilidade qua- litativa. Para que seja eliminada a possibilidade de falsas separações positivas, devido à interposi- ção de um filme de lama entre a almofada e a parede do poço (quando não houver reboco presente), a MicroNormal é eletricamente ajus- tada para realizar leituras menos sensíveis (da ordem de 10%) do que a MicroInversa. Uma consequência disto é que em um meio homo- gêneo, como em alguns folhelhos ou quando a almofada estiver totalmente fechada dentro de um poço direcional, por exemplo, a MN poderá ler um valor absoluto um pouco menor do que a MI, dando origem a uma separação negativa. Convém lembrar porém, que separações po- sitivas poderão acontecer em camadas imper- meáveis, caso a almofada não esteja bem com- primida contra a parede do poço. Portanto, muita atenção nas zonas desmo- ronadas, as quais serão facilmente identificadas pelo cáliper, que deve sempre acompanhar este perfil. Como este é um cáliper de apenas dois braços, ele registra sempre o maior diâmetro, principalmente nos poços ovalizados. O Micro Perfil foi inicialmente desenvolvido para a obtenção da Rxo (desde que Sxo = 1) 5.6. Perfis de Micro Resistividades 103 e, indiretamente, da porosidade, com base na equação do fator de formação de Archie. En- tretanto, devido a dificuldades inerentes a lei- turas confiáveis de Rxo, aos poucos, este perfil passou para um segundo plano, à proporção que foram sendo desenvolvidos perfis direta- mente relacionados à porosidade, tais como o Sônico, o Densidade e os Neutrônicos. O Micro Perfil não foi desenvolvido para uso em altas resistividades. Pelo fato de não ser uma ferramenta focalizada, a corrente de me- dição entrará em curto-circuito, através do re- boco, quando a relação Rxo/Rmc for muito alta. Em função destes problemas, o Micro Per- fil não deve ser usado para identificar quali- tativamente camadas permeáveis quando ine- xiste reboco, invasão nula ou, ainda, quando Rt � Rmc. 5.6.3 Interpretação Qualitativa do Micro Perfil Uma zona impermeável (folhelho, anidrita, etc.) não sofre invasão nem apresenta zonas de separação fluida. As curvas MN e MI deverão ler, aproximadamente, o mesmo valor da resis- tividade (Rt) da camada. Se for um folhelho não consolidado e com bastante água, ambas as resistividades serão baixas. Caso seja uma anidrita, uma dolomita ou um calcário, imper- meáveis, ou rocha de baixa porosidade, as lei- turas de ambas as curvas deverão ser altas. Uma zona permeável, por outro lado, faci- lita naturalmente o processo da invasão. A in- vestigação mais rasa (MI), mais influenciada pelo reboco,apresentará um valor mais baixo do que a curva de investigação mais profunda (MN). Assim, as curvas mostrarão uma sepa- ração visual entre si, que foi convencionada de positiva. Existem outros perfis de microrresistividade, a apresentar que, por possuírem uma única curva, não indicam a permeabilidade qualita- tiva como o Micro Perfil, mas somente Rxo. 5.6.4 Apresentação do Micro Perfil Na Figura 5.9 observa-se na primeira faixa os Raios Gama e o SP para uma visualização da litologia. Na segunda, conforme a codificação superior da faixa, estão as curvas MicroInversa (MI - linha cheia) e MicroNormal (MN - linha pontilhada). Separações positivas, aquelas em que MN > MI (zonas hachuradas), são indica- tivas da presença de reboco (menos resistivo) defronte às respectivas camadas. O Cáliper (MCAL) presente na terceira fai- xa mostra desmoronamentos defronte aos fo- lhelhos e o mesmo diâmetro que a broca (BOREID). Quaisquer que sejam as larguras das separações positivas, jamais deverão ser traduzidas em milidarcy ou unidades equiva- lentes. Figura 5.9: Exemplo de Micro Perfil elétrico com Cáliper de dois braços. A maneira de se usar este perfil é observar situações como a localizada entre as profundi- dades de 340-380 m. Um potencial aquífero 104 Capítulo 5. Perfis com Eletrodos Galvânicos ocorre entre 351-373 metros, cuja permeabili- dade qualitativa é mostrada pelas hachuras. 5.6.5 Micro Lateroperfil O próprio nome já revela seu princípio e fi- nalidades. Adaptou-se, em uma almofada, a mesma configuração, porém reduzida, dos sete eletrodos do LL-7, dispostos concentricamente (Figura 5.10 - à esquerda). Por serem focali- zadas, as linhas de correntes penetram profun- damente na zona lavada (liberadas da perma- nência obrigatória dentro dos rebocos ou lamas condutivas, como no caso do ML). Por registrar uma só curva, o MLL não dá ao intérprete a opção de estimar qualitativamente a permeabilidade das camadas, a exemplo do ML, mas somente a resistividade da zona la- vada (Rxo). O sistema de focalização dessa ferramenta é similar ao Lateroperfil-7. Um eletrodo cen- tral emite uma corrente constante. Outra cor- rente ajustada automaticamente, é enviada pe- los dois eletrodos mais externos, de tal forma que a diferença de potencial entre os eletro- dos de controle M1 e M2 seja mantida igual a zero. O fluxo da corrente, ao ultrapassar um dos eletrodos monitores, não pode atingir o outro, sendo forçada a penetrar mais profun- damente na camada. A medição do potencial é, então, realizada entre o eletrodo central de corrente e um dos monitores. 5.6.6 Proximidade Tendo em vista o MLL não ser recomendado para espessuras de reboco maiores do que 3/8 de polegada, foi desenvolvido o perfil de Proxi- midade (PL), capaz de sobrepor tal problema, admitindo-se que poderia fornecer valores mais exatos de Rxo (Figura 10.1 - à direita). Subtende-se que, em casos de pequena in- vasão, o Proximidade não seria a ferramenta ideal, porque tenderia a ler Rt, dada a sua maior capacidade de penetração radial em re- lação ao MLL. A focalização das correntes do PL, para pro- porcionar maior penetração radial, utiliza um sistema de corrente bem mais potente que os anteriores. Dada a possibilidade de a grande penetração radial poder ler Rt, pensando-se ser Rxo, este perfil teve uma vida útil relativamente curta. Figura 5.10: Patins das ferramentas do Micro Lateroperfil e Proximidade. Adaptada de Glo- ver (2007). 5.6.7 Apresentação do Proximidade e Micro Lateroperfil Ambos perfis são apresentados nas faixas 2 e 3 em escala logarítmica. Simultaneamente, pode-se registrar as três curvas do ML, MI e MN na faixa 1. Em termos de apresentação, visualmente, ambos perfis se assemelham bas- tante. A diferença está no cabeçalho e na iden- tificação de cada uma das curvas. Na realidade, o PL e o MLL eram patins intercambiáveis. Isto é, corria-se um ou outro perfil com a mesma ferramenta, bastando para 5.6. Perfis de Micro Resistividades 105 tanto uma troca de patim com seus respectivos eletrodos. Convém chamar atenção para o fato de que, neste tipo de apresentação, a escala de resisti- vidade do Micro Perfil, na faixa 1, estará inver- tida, ou seja, aumenta para a esquerda, donde se conclui que separações positivas estarão ao contrário do seu padrão normal discutido an- teriormente. As ferramentas de Rxo, a exemplo do MLL e PL, têm limitações, principalmente sob as condições adversas de espessura de reboco (tmc ou hmc), diâmetro de invasão (Di) e contraste de resistividades (Rxo/Rmc). 5.6.8 Micro Esférica Focalizada A ferramenta do perfil Micro Esférica Focali- zada (MSFL) foi idealizada no sentido de pro- mover uma configuração esférica na distribui- ção da corrente enviada ao poço (Figura 5.11). A corrente de focalização ou de bloqueio (ib) passa de Ao para A1, preferentemente por den- tro do reboco, tomando uma forma aproxi- mada de uma esfera. A corrente de medição (io) fica então confinada diretamente para den- tro da formação, onde se espalha e retorna a um eletrodo (B), localizado no próprio corpo da sonda. Para que isto seja possível, a corrente de blo- queio (ib) é ajustada de modo que a voltagem nos monitores permaneça sempre igual a zero. Com esse sistema, o efeito do reboco é minimi- zado ao máximo e a ferramenta ainda perma- nece com uma investigação bastante rasa. A MSFL é, dentre as ferramentas de micror- resistividades, a que mais se aproxima de Rxo, exceto em situações nas quais o diâmetro de in- vasão seja muito pequeno (camada impermeá- vel ou muito dura). Os gráficos das companhias de perfilagem mostram os efeitos da razão Rxo/Rm e da es- pessura do reboco (tmc ou hmc) sobre as leitu- Figura 5.11: Patim da ferramenta Micro Esfé- rica Focalizada (Schlumberger, 1989). ras das três ferramentas de Rxo (MLL, PL e MSFL). Sempre foi costume dos setores de pesquisas das grandes empresas multinacionais de per- filagem promover o desenvolvimento de uma nova ferramenta com o objetivo de eliminar os obstáculos apresentados pelas antecessoras. O que é vantajoso para uma ferramenta pode ser desvantajoso para outra. Este raciocínio tecnológico persiste até os tempos atuais, fazendo com que as companhias de serviço sejam dinâmicas na busca de proces- sos e equipamentos de ponta, lançando com ra- pidez no obsoletismo sistemas ainda hoje atu- antes e aceitos pela comunidade científica. 5.6.9 Resumo das Condições Ideais dos Perfis de Rxo (MLL, PL, MSFL) Para obtenção de Rxo com as microferramen- tas, deve-se observar os valores mostrados na Tabela 5.2, os quais resumem as condições ide- ais de cada perfil. Convém lembrar que o Micro Perfil Elétrico não é um perfil de Rxo. 106 Capítulo 5. Perfis com Eletrodos Galvânicos Perfil Razão tmc ou hmc Di em relação a um Leitura do Perfil/Rmc (polegadas) poço de 8 pol. MLL 8 ≤ MLL/Rmc ≤ 15 ≤ 3/8 ≥ 23 PL 2 ≤ PL/Rmc ≤ 30 ≤ 3/4 ≥ 40 MSFL 5 ≤ MSFL/Rmc ≤ 100 ≤ 3/8 ≥ 40 Tabela 5.2: Condições ideais para a obtenção de Rxo, com as ferramentas MLL, PL e MSFL (dados extraídos de Schlumberger (1984). Figura 5.12: Modelo do MOP mostrando uma camada permoporosa antes e após a invasão. 5.6.10 Utilização Prática da Rxo I - Método do Óleo Móvel (Movable Oil Plot - MOP) Observar, na Figura 5.12, o comportamento de uma rocha permoporosa com óleo e água, antes e após a invasão do filtrado da lama e suas respectivas relações volumétricas. As saturações Swi e SOR representam, res- pectivamente, a água irredutível e o óleo resi- dual, incapazes de se deslocarem sob a influên- cia invasiva do filtrado. A Swf e o SOM, res- pectivamente, a água livre interporosa e o óleo móvel, são, pelo contrário, facilmente deslocá- veis, dentro do diferencial de pressão existente nos poços preenchidos por lama. Fazendo-se o balanço dos materiais, con- forme ilustra a Figura 5.12, obtém-se: • Antes da invasão: Swf + Swi + SOR + SOM = 1 (5.16) • Após a invasão: SOR + Swi + Sxo = 1 (5.17) Isto é, após a invasão, a distribuição fluida passa a ser: Sxo = 1− SOR− Swi (5.18) De modo que,tanto antes como após a inva- são, Swi é um valor constante, não participa- tivo da movimentação fluida podemos, simpli- ficadamente, dizer que: Sxo = 1− SOR (5.19) principalmente, nos casos de camadas com gra- nulometria média a grosseira, onde Swi tende a ter baixo valor. Caso a camada tenha granulometria vari- ando de fina a síltica, ou ainda muito argilosa, sua área específica (volume da superfície ex- terna porosa/volume de rocha) será bastante 5.6. Perfis de Micro Resistividades 107 elevada e Swi terá um valor numérico não des- prezível, o que deve ser levado em consideração nas Equações acima. Sabe-se, também, que nas formações limpas: Snw = aRw φmRt (5.20) analogamente, nas zonas lavadas: Snxo = aRmf φmRxo (5.21) Dividindo-se uma pela outra, obtém-se a Equa- ção da Mobilidade, que correlaciona as satura- ções nas zonas virgem e lavada, sem que haja a necessidade de um perfil de porosidade:( Sw Sxo )n = Rxo Rt Rw Rmf (5.22) A razão entre as saturações pode ser também apresentada como a Equação 5.23, a ser estu- dada sob três aspectos distintos: 1o Caso: Sw = Sxo Sw Sxo = Sw (1− SOR) = 1 (5.23) ou ainda, Sw + SOR = 1 (5.24) Entretanto, para um mesmo resultado de Sw/Sxo = 1, pode-se ter duas situações distintas de reservatórios: • ambas as saturações calculadas têm altos valores, digamos 90%. Sw Sxo = 0, 9 0, 9 = 1 (5.25) situação esta que retrataria uma ca- mada predominantemente saturada com água, mas que teria ainda algum hidrocarboneto (residual). • ambas as saturações calculadas têm baixos valores, digamos 30%. Sw Sxo = 0, 3 0, 3 = 1 (5.26) situação esta que retrataria uma ca- mada portadora de hidrocarboneto, muito provavelmente residual. De qualquer modo, não haverá real inte- resse para hidrocarboneto em ambas as situações. A ocorrência de 90% de água na camada recomendaria o seu abandono imediato. A ocorrência de 70% de óleo, na segunda situação, recomendaria análi- ses de risco/retorno mais apuradas, pelo fato de este tipo de hidrocarboneto (resi- dual) exigir elevados investimentos adici- onais para a sua recuperação. 2o Caso: Sw > Sxo Sw Sxo > 1 (5.27) Neste caso, o valor calculado de Sw é maior do que o de Sxo. Isto é: Sw (1− SOR) > 1 Sw + SOR > 1 (5.28) Observando-se a Figura 5.12, esta situação foge completamente ao modelo analisado. Sxo é sempre maior do que Sw. Normalmente, quando Sw + SOR > 1, admite-se ter ocorrido algum erro na es- colha dos parâmetros (Rmf, Rw, a, m e n), ou então, nos cálculos propriamente dito. Na maioria das vezes, trata-se de uma zona sem interesse comercial, porta- dora de água. 3o Caso: Sw < Sxo Sw Sxo < 1 (5.29) 108 Capítulo 5. Perfis com Eletrodos Galvânicos Neste caso, o valor calculado de Sw é me- nor do que o de Sxo. Verifica-se, na Figura 5.12, que esta situação mostra que ainda falta um certo volume de fluido para com- pletar os 100% do balanço das saturações. Obviamente, espera-se óleo móvel (SOM): Sw (1− SOR) < 1 Sw + SOR < 1 (5.30) Este último caso é o mais importante e economicamente significante de todos os três analisados. Assim, quando se tem Sw/Sxo < 1, é por- que a camada certamente tem óleo móvel dentro de seus poros e poderá produzi-lo por empuxo de água (water drive), teoria pela qual se baseia o MOP (Método do Óleo Móvel). Se o filtrado invade uma camada deslo- cando seu óleo móvel, este poderá deslo- car aquele quando o poço for colocado em produção. Na prática, a experiência aliada a estudos estatísticos adota as seguintes relações: • Camada não produtora de hidrocar- bonetos. Sw Sxo > 1 (5.31) • Camada a ser testada para confirma- ção da capacidade produtiva. 0, 8 < Sw Sxo < 0, 9 (5.32) • Camada produtora por excelência, sem muita necessidade de confirma- ção por testes de formação. Sw Sxo < 0, 7 (5.33) II - Perfil do Óleo Móvel - Movable Oil Plot Nos itens anteriores, estudou-se a possibili- dade de se ter uma ideia qualitativa da mobi- lidade dos hidrocarbonetos, baseados na razão Sw/Sxo. Existem, todavia, meios pelos quais se pode quantificar os hidrocarbonetos deslocados da zona lavada pelo filtrado da lama, durante a perfuração do poço. Esta quantificação é re- alizada em relação ao volume total da rocha. Os conceitos de porosidade e saturação flui- da são respectivamente: Porosidade - relação entre o volume de vazios (Vv) de uma rocha e seu volume total (Vt); Saturação fluida - re- lação entre o volume de fluido água (Vw) ou filtrado (Vfm) e o volume de vazios (Vv) da ro- cha. Em outras palavras: φ = Vv Vt Sw = Vw Vv Sxo = Vxo Vv SOM = Sxo − Sw (5.34) Os volumes totais fluidos envolvidos, de acordo com a Figura 5.12 e Equações acima são: φSw = Vw Vt φSxo = Vxo Vt φ SOM = φ(Sxo − Sw) (5.35) O perfil do óleo móvel (Movable Oil Plot - MOP) é um perfil gerado pela resolução grá- fica das Equações acima. Ele está composto por três curvas em uma mesma faixa, escala e sentido, representando: (1) a porosidade total (φt); (2) o volume total de filtrado (φSxo); e (3) o volume total de água (φSw). A separação entre as curvas (1) e (2) indica a fração do volume total da zona lavada preen- 5.6. Perfis de Micro Resistividades 109 chida por hidrocarboneto residual: φ− (φSxo) = φ(1− Sxo) = φ SOR (5.36) A separação entre as curvas (2) e (3) indica a fração do volume total da zona virgem pre- enchida por hidrocarboneto móvel: φSxo − φSw = φ(Sxo − Sw) = φ SOM (5.37) A separação entre as curvas (1) e (3) indica a fração do volume total de hidrocarboneto (So = móvel e residual) da formação: φ− (φSw) = φ(1− Sw) = φSo (5.38) Este perfil pode ser realizado ainda na pró- pria locação, para fins de uma fácil e rápida visualização e identificação dos intervalos esté- reis dos portadores de hidrocarbonetos. Vale a pena lembrar que esta análise só é válida para os casos em que Swi pode ser con- siderada desprezível, i.e., naquelas rochas de granulometria grosseira. Sua validade se torna comprometida nos casos de granulometria fina, síltica ou argilosa, quando Swi pode atingir va- lores consideráveis de saturação. III - Correção de Rt pelo Efeito da Inva- são Melhores resultados de Rt são obtidos quando se tem valores precisos de Rxo para auxiliar na correção (ou recuperação) do valor real de Rt. Dentro das suas condições ideais, os latero- perfis têm como resposta: RLLD = JRxo + (1− J)Rt (5.39) e o indução: 1 RILD = G Rxo + (1−G) Rt (5.40) onde J e G são seus respectivos fatores geomé- tricos. Pode-se, então, com o uso de gráficos conhe- cidos como tornados, reconstruir os valores de Rt e Rxo, a partir das relações RILM/RILD (ou RLLS/RLLD) e Rxo/RILD (ou Rxo/RLLD). Tais gráficos ainda permitem determinar o diâmetro de invasão (Di) das camadas. Ver exemplos de gráficos tornados na pági- nas das companhias ou nos chartbooks distri- buídos aos clientes. Onde se lê Rxo, entenda- se como sendo a resistividade lida por uma das ferramentas de Rxo, dentro de suas especifica- ções e condições ótimas de poço. 5.6.11 Resumo das Ferramentas de Microrresistividade ou de Rxo 1. Medição Microvolumes de rochas, por meio de sis- temas elétricos focalizados, acondiciona- dos em patins, almofadas ou sapatas, pres- sionados contra as paredes dos poços. São, por tal razão, denominados os perfis de Rxo, exceto o Micro Perfil (ML) por não ser focalizado. 2. Utilização • Corrigir Rt e Rxo pelo efeito da inva- são; • Perfis essenciais nos casos de óleo misturado com água doce; • Perfis essenciais na confecção do MOP e interpretações avançadas dos perfis que exijam Rt e Rxo; • Corrigir as porosidades lidas pelos perfis pelo efeito dos hidrocarbone- tos; • Determinação do diâmetro de inva- são; • Eventualmente, e em condições espe- ciais, podem ser usados na quantifi- cação da porosidade; 110 Capítulo 5. Perfis com Eletrodos Galvânicos • Eventuais na identificação de fratu- ras. 3. Apresentação Isolados ou acoplados aos perfis de ma- crorresistividade. Nestes casos, por não possuírem a mesma resolução vertical, suas leituras são submetidas a programasde coerência/ponderação. 4. Problemas Desmoronamentos/rugosidades; rebocos espessos; e invasão rasa. Altos contrastes Rxo/Rmc favorecem a desfocalização da ferramenta, perdendo sua razão de ser. 5.7 Questionário 1. Demonstrar que qualquer esfera equipo- tencial posicionada além de dez vezes o raio do eletrodo perde apenas 10% do po- tencial esperado. 2. Qual(is) a(s) diferença(s) operacional(is) entre as medições de resistividade de uma rocha, comparativamente entre o labora- tório e dentro de um poço? 3. Qual(is) a(s) diferença(s) entre as medi- ções de resistividade de um sistema Late- ral e um Normal? Explicar. 4. Uma camada com espessura de 2 m tem condições de ser vista por qual(is) curva(s) elétrica(s)? 5. Esquematizar um gráfico de invasão para mostrar qual(is) curva(s) têm a possibi- lidade de ler, respectivamente, Rxo e Rt, quando o Di = 5 m. 6. O que é um Fator Pseudo Geométrico de uma ferramenta elétrica? Como eles são utilizados pelas companhias de perfi- lagem? 7. Em um poço de 16 polegadas de diâmetro, com lama Rm = 2,5 Ωm, leu-se uma RSN ou Ra = 38 Ωm. Qual seria o valor dessa mesma RSN caso o poço tivesse sido per- furado com 8 polegadas? (Usar os gráficos das multinacionais de perfilagem). 8. Citar as vantagens e as desvantagens dos sistemas elétricos Normal e Lateral. 9. Qual(is) a(s) diferença(s) entre o Macro Perfil Elétrico (ES) e o Micro Perfil Elé- trico (ML)? Para que serve este último? 10. Sabendo-se que 90% da resposta da RSN e RLN é proveniente de uma distância apro- ximada de 10 vezes o diâmetro do ele- trodo, por que não multiplicar o valor lido por 1,1 e obter a resistividade verdadeira de cada zona ou camada (Rxo, Rt ou Ro)? Justificar. 11. Qual a espessura mínima de uma camada, para ter as leituras da RSN, RLN e RLAT totalmente desenvolvidas? 12. Qual a razão de a indústria de perfilagem ter desenvolvido sistemas elétricos focali- zados (Lateroperfis)? 13. Quais as diferenças entre uma curva do sis- tema elétrico Lateral e uma de um sistema Lateroperfil (LL-7)? 14. Como é feita a Focalização de um Latero- perfil (LL-7 ou DLL)? É melhor ou pior que o ES? As modificações no ferramental Lateroperfil foram feitas visando o quê? 15. Quais as razões de se ter duas curvas no Duplo Laterolog (DLL)? O que se espera que cada uma leia? 16. Por que nas rochas de granulometria fina se diz que a Swi é alta ou não desprezível, quando se estuda o processo da invasão? Referências 111 17. Por que se diz que nas situações em que Sw = Sxo a camada não apresenta, neces- sariamente, interesse na produção de hi- drocarbonetos? Referências Glover, P.W.J., 2007, Pétrophysique course notes, http://www.ggl.ulaval.ca. Guyod, H.G., 1944 - Electric log interpreta- tion. The Oil Weekly Magazine, Dec. 3, 10, 17, 24. Schlumberger, 1984 - Resistivity Measure- ment Tools, M-089020, SMP-9020. Schlumberger, 1989 - Log Interpretation Prin- ciples/Applications, Schlumberger Educa- tional Services, Houston. 112 Referências Capítulo 6 Perfis de Indução 6.1 Introdução As ferramentas com eletrodos galvânicos ne- cessitam de um meio razoavelmente condutivo (lama à base de água doce) para facilitar o aco- plamento elétrico entre os eletrodos e as rochas. Entretanto, não podem ser usadas em poços perfurados com lama condutiva (salgada, si- tuação em que os eletrodos entram em curto circuito) ou isolante (base de óleo, gás, ar ou água muito doce, situação na qual as correntes não penetram totalmente nas rochas). Além do mais, o campo elétrico sofre distorções, na dependência do contraste de resistividade entre a lama e as rochas. Para solucionar este problema, foi introdu- zido o Perfil de Indução, cujo princípio fí- sico tem por base o acoplamento eletromag- nético (indutivo) entre os sensores (bobinas) e as rochas, capaz de minimizar o efeito da lama/poço. Por outro lado, o campo eletro- magnético penetra, indistintamente, no meio lama e rocha, para qualquer que seja o con- traste resistivo. 6.2 Base Teórica do Perfil de Indução O princípio físico teórico do perfil de Indução exige o conhecimento de algumas leis funda- mentais do eletromagnetismo. • Lei de Ampère - Definida para condutores lineares, estabelece a associação entre um campo magnético B gerado por um fluxo de corrente perpendicular ao mesmo. Um elemento dx de um fio retilíneo, localizado a uma distância r e percorrido por uma corrente i, fornece uma contribuição dB em um ponto P no espaço de: B ∝ i R ⇔ B = µ0 2π i R (6.1) sendo µ0 = 4π × 10−7 H/m. • Lei de Biot-Savart - Lei equivalente à de Ampère, porém definida para condutores circulares ou bobinas, estabelece que um elemento dx de uma espira circular, loca- lizado a uma distância r e percorrido por uma corrente i, fornece uma contribuição dB no ponto P igual a: B = µ0iR 2 2π(R2 +X2) 2 3 (6.2) Somente o elemento dB em paralelo con- tribui escalarmente para o campo total em P, uma vez que os elementos perpen- diculares apontam em todas as direções, anulando-se por simetria. 113 114 Capítulo 6. Perfis de Indução • Lei de Faraday - Todo campo magnético que corta um condutor induz no mesmo uma corrente diretamente proporcional à razão da mudança do fluxo. • Lei de Lenz - A FEM induzida devido à essa mudança de fluxo estará defasada de 90◦ da geradora e de sentido contrário. Com base nessas leis e na existência de co- nexões físicas entre poros interconectados, nas rochas permoporosas, preenchidos por eletró- litos, observa-se, coaxialmente aos poços, um fluxo circular de corrente de Foucault. Estas correntes estão defasadas de 90◦ em relação à corrente que circula em uma bobina transmis- sora e sua magnitude depende das caracterís- ticas de condutividade das rochas circunvizi- nhas. As correntes de Foucault, por sua vez, criam um campo magnético secundário que irá origi- nar, em uma bobina receptora uma voltagem alternada, mensurável. Entretanto, além do campo gerado pelas cor- rentes de Foucault, chegam também na bo- bina receptora campos oriundos da própria bo- bina transmissora (por acoplamento direto), e campos provenientes de todo o meio que a en- volve, tais como: da lama, da zona lavada, da zona virgem e das camadas adjacentes, além de eventuais campos espúrios. Quanto mais condutiva for uma camada, maior a interferência entre os campos criados por seus anéis individuais e autoindução. Tais interferências diminuem a resposta desejável do equipamento. 6.2.1 Princípio de Funcionamento da Ferramenta de Indução Para facilitar o entendimento do princípio ope- racional desta ferramenta, costuma-se estudá- la com base em um único par de bobinas, am- bas coaxiais ao eixo do poço - uma transmis- sora e uma receptora. Uma corrente alternada, ao circular em uma bobina qualquer, produz em sua volta, um campo eletromagnético variável e de mesma frequência, capaz de induzir, em outra bobina dentro de sua zona de influência, uma volta- gem também alternada, de iguais caracterís- ticas, porém em sentido oposto (defasada de 90◦). Esta CA propaga-se eletromagnetica- mente dentro do meio com a velocidade das ondas de rádio. A magnitude do sinal na segunda bobina (re- ceptora) está diretamente relacionada aos se- guintes aspectos: • A permeabilidade magnética do meio, a- través do qual se realiza a indução; • A potência da energia aplicada; • A quantidade de voltas e a distância entre suas espiras; • A distância e a posição entre as bobinas; e • A direção ou o sentido relativo entre am- bas as bobinas. Assim, caso a bobina energizada (transmis- sora) esteja dentro de um poço, a CA gera um campo eletromagnético que, por sua vez, varre radialmente tanto a lama como as camadas si- tuadas ao nível da bobina transmissora. Como as rochas sedimentares têm permopo- rosidades e, portanto, condições de reter solu- ções eletrolíticas, elas constituem-se em bons condutores da corrente elétrica. Com efeito, as camadas condutivas circundantes comportam- se como um circuito secundário formado pelo somatório de várias espiras acopladas induti- vamenteà transmissora. Para análise matemática e conveniência ilus- trativa, a corrente induzida nas camadas cir- cunvizinhas pode ser subdividida em anéis uni- tários, fechados, circundantes à bobina trans- missora. 6.2. Base Teórica do Perfil de Indução 115 Figura 6.1: Diferenças de fases observadas em um sistema de bobinas do perfil de Indução. Adaptada de Serra (1984). Em uma camada homogênea, tais anéis ele- mentares têm a forma toroidal com simetria axial ao eixo do poço. A densidade da corrente induzida em cada um deles depende de sua po- sição espacial com respeito às bobinas trans- missoras e receptoras e a condutividade do meio. O campo secundário gerado nos anéis vi- aja através das camadas, assim como o campo primário, induzindo uma tensão na bobina re- ceptora. A Figura 6.1 ilustra as amplitudes e as fases envolvidas no perfil de Indução. 6.2.2 A Ferramenta de Indução Convencional Simplificadamente, uma ferramenta de indu- ção consta de duas bobinas (Figura 6.2): u- ma transmissora usada para energizar as ro- chas circunvizinhas ao poço e uma receptora usada para detectar os sinais provenientes do poço/camadas. A bobina transmissora é ali- mentada por uma corrente alternada de inten- sidade e frequência (20 kHz) constantes. O campo magnético primário, emitido pela bo- bina transmissora, tem formato toroidal e flui coaxialmente ao poço (perpendicularmente ao eixo da bobina), varrendo as rochas defronte a ela. T bobina transmissora principal R bobina receptora principal t1r1 par transmissor-receptor para minimização do acoplamento direto tr par de bobinas acima e abaixo das duas principais para melhorar a focalização ver- tical Observar os diferentes números de voltas e sentido de cada par de bobina Figura 6.2: Arranjo de bobinas 6FF40 coaxiais ao poço (Dresser-Atlas, 1973). Ao penetrar nas rochas, este campo primá- rio induz, nos fluidos condutores interporosos, uma corrente elétrica que, por sua vez, desen- volve seu próprio campo magnético secundário. A intensidade deste campo secundário é dire- tamente proporcional à condutividade elétrica das rochas. Quanto menor a condutividade da rocha (no caso de ser portadora de água doce, hidrocar- bonetos ou, ainda, ter baixa porosidade), me- nor o campo secundário criado, e vice-versa. Este campo secundário é o que nos interessa medir por meio da força eletromotriz (fem) in- 116 Capítulo 6. Perfis de Indução duzida por ele ao cortar a bobina receptora. A bobina receptora, posicionada a uma dis- tância fixa e pré-determinada da transmissora, detecta tanto o campo primário (ou os sinais de acoplamento direto, também denominados em quadratura, defasados de 90◦, saídos dire- tamente da transmissora para a receptora, sem a contribuição da rocha/poço), bem como o campo secundário (ou sinais gerados efetiva- mente pela rocha/poço defasados de 180◦). A amplitude do sinal de acoplamento direto é maior do que a amplitude dos sinais proveni- entes das camadas, devido à pouca atenuação ocasionada pela menor trajetória percorrida. Portanto, amplitude e ângulo de defasagem in- dividualizam os sinais de origem primária e se- cundária (Figura 6.1). Intuitivamente, pode-se deduzir que este tipo de ferramenta não deve ser usado em po- ços com lama muito salgada (≥ 30000 ppm de sólidos totais), porquanto o sinal gerado pelo próprio poço (lama) poderá ser exagera- damente alto, capaz de bloquear parcialmente os sinais emitidos pelas zonas mais afastadas da parede do poço, ou seja, da zona virgem. Uma vantagem adicional do princípio eletro- magnético usado é que, pelo fato de não neces- sitar de acoplamento galvânico com a lama, o perfil de Indução pode ser operado em poços perfurados a ar, gás, óleo ou lamas muito do- ces, isto é, fluidos não condutivos ou revestidos com plástico (PVC), como na maioria dos po- ços da indústria da água. 6.2.3 Calibração da Ferramenta O primeiro passo de uma calibração de sucesso está no fato de se posicionar a sonda suspensa no ar, longe de qualquer objeto metálico, com a ferramenta funcionando como se em um poço estivesse. Realiza-se uma primeira leitura, que deverá corresponder a zero mV. O segundo passo é o de se colocar entre as duas bobinas principais um anel calibrador for- necido pelo fabricante (meio condutor de valor conhecido). Realiza-se uma segunda leitura, que terá um sinal na receptora diretamente proporcional à condutividade (σ) do mesmo. Tanto o valor zero de leitura como o do anel na posição central das bobinas T e R são lançados em um gráfico onde a abcissa repre- senta a voltagem lida na receptora, correspon- dente a cada valor de calibração (ar e anel). Estabelece-se, então, uma relação entre volts e mS/m para a realização das perfilagens. Essa calibração deve ser realizada trimestralmente na base de operações da companhia de perfila- gem. Vale a pena lembrar que a voltagem lida com a ferramenta no ar, por questões construtivas, não é exatamente zero, mas sim um valor resi- dual, o qual se constitui no erro do diodo ou da ferramenta. Esse erro varia de ferramenta para ferramenta, uma vez que elas podem ter confi- gurações diferenciadas, a depender do número de bobinas, da distância entre elas, etc. Nas ferramentas de primeira geração, esse erro é da ordem de 2 mS/m. Nas de últimas geração, é da ordem de ≤ 0,75 mS/m. 6.3 Teoria do Fator Geométrico de Doll Pelo exposto acima, o sinal que chega à re- ceptora tem dois componentes: um deles, o de acoplamento direto, com alta amplitude e de- fasado de 90◦ do sinal da transmissora, e outro com 180◦ e de baixa amplitude, que é o gerado pelas rochas (Figura 6.1). Visualmente, pode- mos separá-los com o uso de um osciloscópio, e por consequência, eletricamente também. Doll (1949), baseado na Lei de Biot-Savart, desenvolveu a Teoria do Fator Geométrico, para calcular o sinal ∆VR proveniente de um único anel unitário, de coordenadas L e Z em relação ao ponto média das duas bobinas, e afastado de uma distância r de seu eixo, imerso 6.3. Teoria do Fator Geométrico de Doll 117 em meio homogêneo de condutividade zero (Fi- gura 6.2). Ele considerou o campo estacionário e origi- nado por uma única bobina transmissora com frequência angular igual a zero, e obteve como resultado: ∆VR = ( µ2ω2ATARiT 4πL ) [ r3L2 (r2 + (L2 − z)2)3/2(r2 + (L2 + z)2)3/2 ] σ(r, z) (6.3) O primeiro termo da Equação 6.3 define a cons- tante ferramental K, em função das caracterís- ticas elétricas das bobinas transmissora e re- ceptora (permeabilidade magnética do meio, frequência angular, corrente da transmissora, áreas das bobinas e distância entre bobinas). O segundo colchete representa o posiciona- mento espacial do anel unitário, g(r, z). O terceiro termo da equação, σ(r, z), é a in- fluência da condutividade do meio onde o anel unitário está inserido. Considerando-se que cada anel esteja con- tribuindo de modo independente para o sinal total recebido na receptora VR, um número in- finito deles contribuirá com: VR = K ∫ z=+∞ z=−∞ ∫ r=+∞ r=0 g(r, z)σ(r, z)drdz (6.4) Devido à a ocorrência de zonas radiais dife- renciadas em torno das bobinas - tais como a lama, a zona lavada, a zona invadida, a zona virgem, a zona adjacente, a Equação 6.4, pode ser assim expressa: VR = K [ σ ∫∫ m g(r, z)drdz+ + ∫∫ xo g(r, z)drdz + · · · ] (6.5) onde m e xo correspondem, respectivamente, aos anéis de lama, da zona lavada, etc. A maneira usual de se expressar a equação de Doll é substituindo cada integral dupla pela letra g, correspondente ao posicionamento es- pacial de cada anel de rocha: VR = Kgσ (6.6) Usando-se a razão VR/K como sendo a medida da ferramenta (σIL), a Equação 6.6 pode ser desdobrada em: VR K = σIL = σmgm+σxogxo+σtgt+σsgs (6.7) ou em termos de resistividade: VR K = 1 RIL = gm Rm + gxo Rxo + gt Rt + gs Rs (6.8) onde as letras m,xo, t e s representam respec- tivamente a lama, a zona lavada/invadida, a zona virgem e a camada sobre e/ou sotoposta, e g representa a fração contribuída por cada uma das zonas respectivas, de sorte que asoma de todos os g seja igual à unidade ou a 100% do sinal detectado pela bobina receptora. A letra g, ou fator geométrico, pode ainda ser desdobrada em dois fatores: um radial e outro vertical. As Equações 6.7 e 6.8 mostram, respectiva- mente, que as condutividades têm um compor- tamento de circuito elétrico em série, ao passo que as resistividades, em paralelo. 6.3.1 Fator Geométrico Radial De acordo com a Figura 6.3, este fator resulta da integração da função g(r, z), considerando que z está entre os limites mais e menos infi- nito, enquanto que o raio do anel permanece invariável: g(r) = ∫ z=+∞ z=−∞ g(r, z)dz (6.9) Nesta situação, os anéis estariam posicionados a uma distância r, fixa em relação ao eixo da 118 Capítulo 6. Perfis de Indução Figura 6.3: Posicionamento espacial de anéis condutores em relação a duas bobinas. bobina, variando de altura (z) para cima ou para baixo das mesmas, até mais infinito e me- nos infinito. O sinal de maior peso, no total, estaria na distância média entre a transmissora e a re- ceptora, i.e., no centro da bobina (z = L/2), tornando-se desprezível a partir de r > 3L. 6.3.2 Fator Geométrico Vertical Resulta da integração da função g(r, z), onde r está entre os limites de zero a mais infinito: g(z) = ∫ r=+∞ r=0 g(r, z)dr (6.10) Nesta situação, os anéis se posicionariam a uma mesma distância entre as bobinas, como se fossem discos variando seu raio de zero até mais infinito. O sinal de maior peso, no total, provém dos anéis localizados entre as bobinas transmissora e receptora, diminuindo a partir da distância correspondente a 2L. 6.4 Teoria de Moran & Kunz A teoria do Fator Geométrico de Doll foi, durante muitos anos amplamente difundida e aceita para cálculos e análises do comporta- mento do perfil de Indução, por seu conceito fácil com base no somatório de todos os anéis elementares do meio. Lamentavelmente, a teoria de Doll não con- templou o efeito de propagação ou a absorção da energia eletromagnética. A propagação eletromagnética, em um meio condutor, sofre uma diminuição progressiva em sua amplitude e fase, à proporção em que se afasta da fonte geradora. Esta mudança de fase pode acarretar erros de leitura na bobina receptora, uma vez que o sistema foi concebido para a captação de sinais defasados de 180◦ daquele emitido pela bobina transmissora. Em outras palavras, ocorre sempre uma perda do sinal devido a três fatores: • Atenuação da amplitude da onda; • Defasagem do campo secundário, na or- dem de 5◦/pé ou 15◦/metro e, • Autoindução entre os anéis vizinhos. Moran & Kunz (1962) verificaram que seus cálculos de VR eram 37% menores do que os previstos por Doll. Definiram tal perda como devida ao Efeito de Propagação da onda ou Skin Effect (SE ou δ), dado por: SE = δ = 1 (πfµ0σ)1/2 . (6.11) Estes mesmos autores, com base nas equações de Maxwell, definiram expressões analíticas li- neares exatas para as ferramentas com duas bobinas, nas situações de meio homogêneo, ca- mada de espessura infinita e invadida, cama- das soto e sobrepostas não invadidas e camada 6.4. Teoria de Moran & Kunz 119 fina entre duas homogêneas. Em todos os qua- tro modelamentos, a voltagem medida na re- ceptora (VR) era menor do que a prevista pela teoria de Doll. Segundo eles, para um meio homogêneo, iso- trópico e linear, em que as duas bobinas se comportam como pequenos dipolos, a volta- gem desenvolvida na receptora (VR), com NR espiras e raio r, localizada a uma distância L da transmissora de NT espiras e corrente iT , é dada por: VR = 2NTNR ( πr2 )2 4π iT jωµ(1− jαL) ejαL L3 (6.12) onde j = √ −1 é o operador complexo; α = (jωµσ)1/2 é a constante de propagação; e ω = 2πf é a frequência angular da corrente. 6.4.1 Doll vs Moran & Kunz Para que se possa comparar as duas teorias, deve-se separar o sinal VR em suas duas com- ponentes: a real (em fase - VRr) e a imaginária (em quadratura ou fora de fase a 90◦ - VRx), ambas em relação à corrente da bobina trans- missora (iT ). A expansão e o truncamento da exponencial quando σ tender a zero fornece: −VRr = Kσ [ 1− 2L 3δ + 2 15 ( L δ ) − · · · ] (6.13) Isto é, −VRr K = σ [ 1− 2L 3δ + 2 15 ( L δ ) − · · · ] (6.14) onde se pode observar que a razão −VRr/K é a voltagem medida na receptora em meio ho- mogêneo e isotrópico, em relação à geometria ferramental, segundo Doll (1949). Os demais elementos da série representam as correções que devem ser realizadas devido ao efeito de propagação (mudança de fase e atenuação) da onda ao penetrar no meio. Nas ferramentas de indução, a separação entre bobinas de 40 polegadas faz o termo L/δ < 1, ou σIL < σ real do meio, de modo a se definir o sinal devido ao efeito de propa- gação (σs) como sendo: σs = σ − σIL ∼= 2L L δσ (6.15) Por sua vez, a componente em quadratura ou fora de fase a 90◦ (VRx) é dada por: VRx = 2K ωµL2 [ 1− 2 3 ( L δ )3 + 1 2 ( L δ )4 − · · · ] (6.16) Isto é, VRx K = 2 ωµL2 [ 1− 2 3 ( L δ )3 + 1 2 ( L δ )4 − · · · ] (6.17) O primeiro termo dentro do colchete, nas Equações 6.14 e 6.17, tem magnitude seme- lhante. Por outro lado, o termo fora do pa- rêntese (Equação 6.17) independe da conduti- vidade do meio e corresponde à indutância mú- tua entre as bobinas transmissora e receptora (acoplamento direto). Caso se possa eliminar a indutância mútua, por calibração e/ou instrumentação, então a medida de ambas as condutividades (fase e quadratura) restaura tanto o SE (δ) bem como a condutividade do meio (σ). Da equação (6.13), verifica-se que quanto mais δ aproxima-se do espaçamento entre as bobinas (L), maior o efeito sobre as leituras de VRr. Na prática, o SE (δ) é negligível nas condu- tividades menores do que 1000 mS/m. Acima deste valor, há a necessidade de se fazer corre- ções, geralmente usando sistemas internos das ferramentas, chamados de boosting panels, ou equações apropriadas. 120 Capítulo 6. Perfis de Indução Nos casos em que L/δ � 1, verifica-se que VRr/VRx � 1, o que demonstra a dificuldade operacional que as ferramentas de última ge- ração enfrentam para mapearem os sinais em fase e em quadratura. 6.5 Interpretação do Perfil de Indução Simplificadamente, pode-se usar a teoria do Fator Geométrico de Doll (Equações 6.7 e 6.8), com base no zoneamento fluido radial das ca- madas permoporosas, para se estabelecer uma primeira aproximação da Rt, considerando-se que ∑ gi = 1. • Ao se usar uma lama não condutiva (à base de água doce, petróleo, gás ou ar), cuja condutividade tenda a zero, os dois primeiros termos da equação (gmσm + gxoσxo) também tenderão a zero, desde que o filtrado não condutivo esteja pre- sente em ambos. • Sendo a espessura da camada maior do que a distância que separa as duas bobi- nas principais (40 polegadas ou 1,016 m), o termo (gsσs) também se anula. • Sobrará, então, o que nos interessa, isto é, a condutividade registrada no perfil será igual à condutividade verdadeira da zona virgem (σIL = gtσt). Sendo a condutividade expressa em mS/m, basta dividir 1000 pelo valor registrado e se tem a resistividade em Ω.m, i.e., RIL = 1000/σIL. Facilmente observa-se que sobre a resposta final do perfil RIL ou σIL incidem diferentes percentuais de Rm, Rxo, Rs e Rt, além do erro ferramental inerente à própria instrumentação. Em outras palavras, influem sobre a leitura σIL os seguintes efeitos ambientais: • Poço (tipo e volume da lama); • Invasão (diâmetro e Rxo); e • Espessura da camada (h). É importante que o intérprete esteja apto a reconhecer o grau de complexidade criado por cada um dos efeitos acima. Muito embora as ferramentas tenham algumas correções auto- máticas, estas admitem meios homogêneos e espessuras infinitas, o que não é realidade para a maioria das camadas atravessadas por um poço. Assim, estes equipamentos não são tão pre- cisos quanto se imagina. Há a necessidade im- periosa de o intérprete saber escolher a ferra- menta apropriada para a definição de Rt, em função do meio ambiente em que ela irá tra- balhar (os três primeirositens acima) e de seu erro ferramental, para que a resposta da leitura bruta - σIL possa ser a mais realista possível de σt. Em assim procedendo, a Equação (6.7) ficará reduzida a σIL = gxoσxo + gtσt, e a interpreta- ção se completará no momento em que se tiver um perfil de σxo, ou seja, de alcance limitado à zona lavada/invadida e aos gráficos de fatores geométricos que estabelecerão os valores para gxo e gt, respectivamente. A resolução das Equações 6.7 e 6.8, de modo a se eliminar os efeitos ambientais citados, é feita pela subtração individual de cada um de- les, por meio de cartas de correção ou equações disponibilizadas pela empresas de perfilagem para os usuários em suas páginas ou publica- ções específicas. 6.5.1 Erro Ferramental Além dos três efeitos ambientais citados na se- ção anterior, deve-se considerar também o erro ferramental das ferramentas indutivas. As Tabelas 6.1 e 6.2 ilustram dois casos de erros ferramentais, calculados considerando-se 6.6. Limitações do Perfil de Indução 121 Rt σt Erro da ferramenta σIL Erro (Ω.m) (mS/m) (mS/m) (mS/m) % 1 1000 2 1.002 0,2 10 100 2 102 2 100 10 2 12 20 1000 1 2 3 200 Tabela 6.1: Cálculo do erro de uma ferramenta indutiva, de primeira geração. Rt σt Erro da ferramenta σIL Erro (Ω.m) (mS/m) (mS/m) (mS/m) % 1 1000 0,75 1000,75 0,075 10 100 0,75 100,75 0,75 100 10 0,75 10,75 7,5 1000 1 075 1,75 75 Tabela 6.2: Cálculo do erro de uma ferramenta indutiva, de última geração. erros positivos (eles também podem ser nega- tivos). Estes erros dependem, principalmente, dos elementos constituintes do sistema de bo- binas e da eletrônica envolvida, o quais, devido ao continuado avanço tecnológico diminuem a cada geração de ferramenta nova lançada no mercado. A Tabela 6.1 mostra uma ferramenta de pri- meira geração, cujo erro, declarado em publi- cações proprietárias, é da ordem de ± 2 mS/m. A Tabela 6.2 mostra uma ferramenta de última geração, de erro declarado bem menor. Observa-se que tais ferramentas foram cons- truídas para ambientes de baixa a razoável re- sistividade, onde se costuma dizer que o perfil de Indução não serve para camadas com re- sistividades acima de 50 Ω.m, razão do forte empenho em melhorias construtivas das ferra- mentas atuais. 6.6 Limitações do Perfil de Indução Uma de suas principais limitações pode ser observada nos poços perfurados com lamas muito salgadas, ou que apresentem uma inva- são muito profunda, quando (a exemplo dos perfis elétricos) não será possível se obter a re- sistividade verdadeira (Rt) da camada e sim da zona invadida pelo filtrado (Rxo). O raio de investigação vertical do perfil de Indução depende do espaçamento entre as bo- binas transmissora e receptora principais (40 polegadas ou, aproximadamente, 1 metro). Como consequência, o seu volume teórico de investigação é um toroide de 40 polegadas de altura e de igual diâmetro, em torno do eixo do poço. Experimentos laboratoriais, entretanto, in- dicam que o volume real a ser considerado é da ordem de 1,5 vezes o espaçamento, i.e., 60 polegadas (1,5 metros). Por essa razão e de- vido ao caráter focalizado, em camadas de es- pessura maiores do que 1,5 m e invasão radial (Di) menor do que 60 polegadas, o perfil de Indução fornece resistividades das zonas verda- deiras das camadas (Ro ou Rt) com bastante precisão. O perfil de Indução torna-se um tanto quan- 122 Capítulo 6. Perfis de Indução to impreciso nas rochas de baixíssimas condu- tividades (ou altíssimas resistividades), por se- rem elas eletricamente ineficientes (tão isolan- tes quanto o ar), de sorte que não são satisfa- toriamente quantificadas, sendo, portanto, re- comendável o uso do perfil de Indução em ca- madas menos resistivas. Para valores de resistividades além do limite estabelecido pelo erro ferramental, devem-se usar as ferramentas da família dos Lateroper- fis. 6.6.1 Principais Usos do Perfil de Indução Devido ao grande volume investigado, em rela- ção aos perfis elétricos convencionais, o perfil de Indução sofre razoável influência do diâme- tro do poço e tem condições de fornecer a re- sistividade verdadeira das rochas (Ro ou Rt). A obtenção de Rt via perfil de Indução pro- porciona condições mais realistas para a deter- minação do fator de formação (F = Ro/Rw = 1/φm) e, inclusive, uma primeira aproxima- ção da saturação em água (Sw = √ Ro/Rt), quando comparadas àquelas obtidas a partir dos elétricos, mono e multieletrodos. 6.7 Ferramentas Indutivas Atuais Neste livro, a maioria da terminologia usada é a da Schlumberger, pelo simples fato de ter ela o maior acervo de publicações a disposição dos usuários. Não há nisto nenhuma conotação comercial do autor, muito embora seja sócio- diretor de empresa prestadora de serviços de perfilagem para a indústria da água (Hydro- log), que tem sua terminologia um pouco dife- renciada da de petróleo. Tradicionalmente, acoplava-se ao perfil de Indução convencional (IL) duas outras curvas: a normal curta e o SP. Esta foi a solução ope- racional para que a indústria de petróleo desse continuidade a seus trabalhos de correlação en- tre o emergente perfil de Indução e aqueles po- ços perfilados, antes da década de 1940, com os antigos mono ou multieletrodos. Esta composição de curvas RIL, CIL, RSN e SP recebeu o nome de perfil Elétrico-Indução (IEL - Figura 6.4), a primeira geração de tais tipos ferramentais. A CIL (σIL) é a leitura bruta da ferramenta, que é convertida internamente na RILD. Figura 6.4: Exemplo de Perfil de Indução. A parte indutiva do perfil Elétrico-Indução (IEL) consta de três pares distintos de bobinas coaxiais: duas maiores, chamadas de transmis- sora e receptora principais (separadas entre si por 40 polegadas ou 101,6 cm), duas menores entre as duas principais T e R, enroladas em sentido inverso das principais para minimizar o sinal de acoplamento direto, e duas outras, também menores, posicionadas acima e abaixo de T e R, para manter a corrente primária como que comprimida entre as duas bobinas principais (Figura 6.2). Esta configuração obriga a corrente primá- ria a penetrar mais profundamente nas rochas (focalização). Por possuir seis bobinas e pro- porcionar uma focalização tanto vertical como 6.7. Ferramentas Indutivas Atuais 123 radial, a ferramenta foi denominada de 6FF40, e sua leitura é referenciada como RIL. A segunda geração indutiva veio com o Duplo-Indução (DIL), constituído por um sis- tema 6FF40 acoplado a outro de igual reso- lução vertical, porém com menor espaçamento entre as bobinas. A aproximação entre bobi- nas diminui a investigação radial em relação à 6FF40, por isto, a curva foi chamada de in- dução média (RILM), em contraposição a an- terior que passou a ser denominada de RILD (D de deep). Ambos os jogos de bobinas (a profunda e a média) são totalmente indepen- dentes e individualizados por frequências dis- tintas. Acopla-se, ainda, uma terceira ferra- menta de investigação ainda mais rasa do que a RILM, geralmente uma Micro Esférico Foca- lizada (RMSFL). O uso de frequências distintas e da MSFL proporciona profundidades (e volumes) de in- vestigação também distintos, de modo a se me- dir, com quase precisão, a resistividade das zo- nas invadida (Rxo) e verdadeira (Ro ou Rt), além de se obter o diâmetro de invasão (Di) com o uso dos gráficos denominados tornados. As ferramentas indutivas da terceira geração (Indução de Alta Resolução) foram desenvolvi- das no final da década de 1980, porque as fer- ramentas anteriores necessitavam de correções para minimizar os efeitos ambientais e camadas adjacentes (SBR - Shoulder Bed Resistivity). Embora tais correções sejam possíveis de ser realizadas manual ou computacionalmente, elas se baseiam na não linearidade do sinal recebido pelas bobinas, devido ao efeito de propagação. Tais ferramentas nada mais são do que versões melhoradas do Duplo-Indução, operando com frequências de 10, 20, 40 ou mais kHz e medindo as componentes em fase e em quadratura do sinal, o que permite melhoria na correção do efeito de propagação. As ferramentasIL e DIL registram somente o sinal real, ou resistivo, que chega à bobina re- ceptora, descartando eletronicamente (por in- versão de fase e amplitude) a componente re- ativa ou em quadratura. Conforme as Equa- ções (6.14 e 6.17), o sinal resistivo é devido à própria formação, ao passo que o reativo re- sulta do acoplamento entre as bobinas, ou seja, da impedância reativa causada pelos induto- res (bobinas) e capacitores do sistema ferra- menta/formação. Além do mais, elas passam por um proces- samento de deconvolução não linear do sinal, corrigindo as leituras em tempo real pelo efeito do SBR e camadas finas (resolução em espes- sura de até 2 pés). O referido processamento, bem como a melhoria eletrônica atual, reduz bastante o erro das leituras, proporcionando valores bem mais confiáveis. A quarta geração veio com a ferramenta de imagens resistivas, na qual um transmissor de três frequências e oito receptores mutuamente balanceados realizam 28 leituras diferentes em intervalos de três polegadas, as quais são cor- rigidas em tempo real pelo efeito do poço. Um processamento combina as 28 leituras para a produção de cinco curvas com profundidades de investigação radial variando entre 10, 20, 30, 60 e 90 polegadas, a partir do centro do poço. Pelo fato de lerem radialmente distâncias va- riáveis, é possível se observar as heterogenei- dades laterais das camadas. Como tais curvas têm uma mesma resolução vertical, elas podem ser apresentadas como tendo sido realizadas com 1, 2 ou 4 pés, para melhor definição de camadas finas. Processamento mais avançado permite visu- alizar o comportamento da invasão em dimen- sões de resistividade de forma radial e volumé- trica. No último semestre do ano 2000, foi intro- duzido comercialmente o 3DEX (3D Explorer Induction Logging Service), pela Baker Atlas, como sendo a primeira ferramenta capaz de 124 Capítulo 6. Perfis de Indução proporcionar medidas das resistividades hori- zontais e verticais, independentemente do des- vio do poço e mergulho da formação (Mollison et al, 2001). Ela consta de três transmissores e três re- ceptores mutualmente ortogonais, que medem a componente axial do campo magnético pa- ralelo ao eixo do poço (Hzz) e as transversais perpendiculares ao poço (Hxx e Hzz). Adici- onalmente, dois outros componentes cruzados (Hxy e Hxz) são usados para mapeamento de anisotropias condutivas: o primeiro índice re- presenta a direção do dipolo transmissor e o segundo, a direção do dipolo receptor. Em poço vertical, a Hzz é sensível às resisti- vidades horizontais das camadas, enquanto que Hxx e Hyy são sensíveis tanto às horizontais quanto às verticais. Devido à tradição do uso da resistividade nas interpretações dos perfis elétricos, os equi- pamentos indutivos realizam a conversão das condutividades em resistividades, compatibili- zando as unidades em, respectivamente, Ω.m e mS/m. 6.8 Resumo dos Perfis de Indução 1. Medições • Elétrico-Indução: SP, RSN, RSNampliada, CIL e RIL. • Duplo-Indução: RILD, RILM e uma curva de Rxo (geralmente, RMSFL). • High Resolution Induction: RIL10, RIL20 e RIL40, respectivamente com 10, 20 e 40 kHz. • Array Induction Imager: cinco cur- vas com profundidades de investiga- ção variando entre 10, 20, 30, 60 e 90 polegadas, a partir do centro do poço. • Indução Multicomponente: três transmissores e três receptores mutuamente ortogonais, medindo o componente axial do campo magné- tico paralelo ao eixo do poço (Hzz) e as transversais perpendiculares ao poço (Hxx e Hzz). 2. Usos • Correlação poço a poço. • Identificação qualitativa da litologia e do fluido das rochas. • Ideia qualitativa da permeabilidade em função da separação entre as cur- vas. • Valor Quantitativo de Sw = √ (Ro/Rt). • Poços com lama não condutiva (base de óleo, gás, ar, espuma, água doce, etc). 3. Problemas • Poços com lamas condutivas (base de Sal ≥ 30000 ppm de NaCl). • Camadas finas (espessura ≤ 1 me- tro). • Zonas com altas resistividades (≥ 50 Ω.m). • Atenção para os erros ferramen- tais específicos declarados em mS/m, para cada tipo de ferramenta. 6.9 Questionário 1. Defina e explique o que significa cada um dos termos da equação de Doll (1949). 2. Quais as semelhanças entre as equações de Doll e Moran & Kunz, no que diz respeito à operacionalização do perfil de Indução? 3. O que você entende por Fatores Geomé- tricos Diferencial Radial, Vertical e Fator Geométrico Integrado? Referências 125 4. Definir o que é skin effect no perfil de In- dução e quais são suas variáveis. 5. Será possível eliminar o skin effect das fer- ramentas indutivas? Explicar. 6. Usando a curva ou a equação do boos- ting panel (das publicações das multinaci- onais), calcular o erro devido somente ao skin effect, que possa ocorrer em duas ca- madas de iguais litologias - uma com re- sistividade (Rt1) igual a 0,5 Ω.m e uma outra (Rt2) igual a 0,2 Ω.m. 7. Usando os gráficos (das publicações das multinacionais), calcular o erro oriundo somente do poço (gmσm), em relação à re- sistividade da rocha (Ro) nas seguintes si- tuações (ferramenta 6FF40 e Stand Off de 1,5 polegadas): • Diâmetro do Poço = 12,25 polega- das; Rm = 10 Ω.m e Ro = 100 Ω.m. • Diâmetro do Poço = 12,25 polega- das; Rm = 1 Ω.m e Ro = 100 Ω.m; 8. Usar o gráfico do Fator Geométrico Ra- dial Integrado (das publicações das multi- nacionais) e calcular somente o efeito da invasão, nos seguintes casos: • Diâmetro de Invasão = 60 polegadas; Rxo = 10 Ω.m e Ro = 1 Ω.m; • Diâmetro de Invasão = 60 polegadas; Rxo = 1 Ω.m e Ro = 10 Ω.m. 9. Qual o porcentual de erro encontrado nos dois casos acima sobre as leituras da 6FF40? 10. Quais seriam os limites operacionais desta ferramenta, levando-se em conta apenas os itens analisados? 11. Calcule o erro ferramental da 6FF40 que possa ocorrer em duas camadas de iguais litologias, uma com resistividade (Rt1) igual a 0,5 Ω.m e outra (Rt2) igual a 150 Ω.m. 12. Calcule o erro ferramental do Laterolog 7, que pode ocorrer em duas camadas de iguais litologias, uma com resistividade (Rt1) igual a 0,5 Ω.m e outra (Rt2) igual a 150 Ω.m. 13. Analisar os erros do perfil de Indução 6FF40 em relação às ferramenta mais mo- dernas (Phasor, HRI e AIT). 14. Qual o princípio teórico de uma ferra- menta de Indução com três pares de bobi- nas ortogonais e quais os seus efeitos sobre a anisotropia das camadas ? Referências Doll, H. G., 1949, Introduction to Induction Logging and Application to Well Drilled with Oil Mud: Journal of Petroleum Te- chnology, 1(6):148-162. Dresser-Atlas, 1973 - Log Interpretation Re- view, Dresser-Atlas Industries, Houston, Texas. Mollison, R.A., Fanini, O.N., Kriegshouser, B.F., Yu, L., Ugeto, G., van Popta, J., 2001 - Impact of Multicomponent Induc- tion Technology on a Deepwater Turbidite Sand Hydrocarbon Saturation Evaluation. SPWLA 42nd Annual Logging Sympo- sium. Transactions: Society of Professi- onal Well Log Analysts. Moran, J. H., & Kunz, K. S., 1962 - Basic Theory of Induction Logging and Appli- cation to Study of Two Coil Sonds. Ge- ophysics, 27(6):829-858. Serra, O., 1984 - Fundamentals of Well- Log Interpretation. Amsterdam, Elsevier. 126 Referências 432p. (Developments in Petroleum Sci- ence, 15 A). Capítulo 7 Perfil Sônico 7.1 Generalidades Os parâmetros previamente considerados (re- sistividade e potencial espontâneo), originam- se nas características elétricas das rochas. Existem, todavia, outras características físicas, tais como magnetismo, condutividade térmica, radioatividade, etc., que podem ser igualmente úteis na quantificação do conteúdo fluido das rochas. A determinação do tempo gasto pelo som para percorrer um determinado espaço de for- mação é uma delas. A velocidade do som varia segundo o meio em que suas ondas se propagam. Ela é mais rápida nos sólidos do que nos líquidos e ga- ses. Velocidade de propagação maior significa tempo menor. Assim, o tempo gasto pelo som para percorrer uma mesma distância fixa nos sólidos é bem menor do que nos líquidos e nos gases. Ao se considerarduas rochas semelhantes, a que contiver mais fluidos dentro de seus po- ros (maior porosidade) mostrará um tempo de trânsito maior do que uma com menos fluidos (menor porosidade). Intuitivamente, o perfil Sônico nos mostra a existência de uma relação direta entre o tempo de propagação do som e a porosidade das ro- chas. 7.2 Princípio da Medição do Tempo de Trânsito A ferramenta mais simples do perfil Sônico usa um transmissor de frequência constante, ul- trassônica baixa e dois receptores. Um impulso sonoro (i.e., uma onda elás- tica), muito curto e de alta amplitude, é emi- tido radial e simetricamente pelo transmissor e propaga-se nas camadas até ativar dois recep- tores posicionados a distâncias fixas e prede- terminadas. Para chegar aos receptores, este impulso vi- aja pelas rochas com diferentes tipos de ondas e velocidades, enquanto sofre dispersões (espa- lhamento) e atenuações (perda de energia ab- sorvida pelas rochas). Após certo tempo da emissão do pulso (mi- crossegundos), começam a chegar nos recep- tores as primeiras ondas compressionais (ou longitudinais, ou, ainda, ondas de pressão - P-waves), as mais rápidas delas. A seguir, chegam as ondas cisalhantes (ou transversais - S-waves), mais lentas, porém com maiores amplitudes, não propagáveis nos meios fluidos. Em seguida, chegam as ondas Rayleigh e Sto- neley, diretamente associadas à energia que se propaga ao longo das paredes do poço. Por úl- timo, uma onda de pressão chega através da coluna de lama do poço (Figura 7.1). 127 128 Capítulo 7. Perfil Sônico Figura 7.1: Trem de ondas no osciloscópio do Sônico e suas aplicações petrofísicas. Ondas que viajam ao longo do metal da fer- ramenta são retardadas por construção, por meio de ranhuras que fazem com que as mes- mas cheguem muito após as P e S. Cada receptor mede a primeira chegada compressional e calcula a diferença de tempo entre elas para registro (tempo de trânsito), i.e., o inverso da velocidade de propagação en- tre os receptores. O princípio de medição em si é simples. A Figura 7.2, ilustra a trajetória de um impulso sonoro que sai do transmissor, percorre a traje- tória a, b, c até atingir o receptor R1, e a, b, d, e até atingir o receptor R2. Os tempos calcu- lados representam a diferença de tempo final (∆t) percorrido na distância R1-R2 ou no tre- cho d, de 2 pés (0,3048m). Esta ferramenta, desde que centralizada (a = c = e) dentro de um poço preenchido por uma lama de velocidade Vm, circundado por uma formação de velocidade Vfm, registrará, de acordo com o princípio de Fermat, o me- nor tempo gasto pela onda compressional para percorrer a distância entre os dois receptores. Por convenção do API, a unidade usada para o tempo de trânsito é o µs/pé (ou µs/m) e a velocidade é expressa em pés/s (ou m/s). A Figura 7.2 ilustra ainda a metodologia de cálculo do tempo gasto por um impulso sonoro que sai do transmissor e atinge dois recepto- res vizinhos, em sequência. Admite-se que a Figura 7.2: Esquema de uma ferramenta sônica com um Transmissor e dois Receptores. ferramenta esteja dentro da situação ideal de centralização, em um poço vertical e bem cali- brado (paredes uniformes). Os dados para o cálculo das velocidades e do poço envolvidos na Figura 7.2, são: • Vm = velocidade da lama = 5000 pés/s • Vfm = velocidade da camada = 15255,5 pés/s; • Tempo de propagação da onda P em 1 pé de rocha = 106/15255,5 = 65,55 µs/pé. • ic = arcsen(Vm/Vfm) = 19◦13′ • tan(19◦13′) = 0,347 • sen(19◦13′) = 0,328 • s = 3,8 pol = 0,317 pés • x = s tan ic = 0,317 × 0,347 = 0,10996 pés • a = x/sen ic = 0,10996/0,328 = 0,335 pés 7.3. O Sônico como Determinante da Porosidade 129 • b = 3− (2× 0,10996) = 2,78 pés • a = c = e • d = 1 pé Resolução: 1. Tempo gasto pelo som, entre o transmissor até o primeiro receptor: t(T−R1) = a Vm + b Vfm + c Vm = 316,23 µs/pé. 2. Tempo gasto pelo som, entre o transmissor até o segundo receptor: t(T−R2) = a Vm + b Vfm + d Vfm + e Vm = 381,78 µs/pé. 3. Diferença de tempo entre R1 e R2 a ser registrada no perfil, por uma ferramenta com um transmissor e dois receptores: ∆t = 381,78 − 316,23 = 65,55 µs/pé (tempo da onda acústica para percorrer 1 pé da camada). Para minimizar os efeitos de desmoronamen- tos e/ou rugosidades que possam afetar a cen- tralização (a = c = e), as ferramentas são cons- truídas com dois transmissores, um superior e outro inferior, e quatro (ou dois) receptores, que operam alternadamente na obtenção de quatro tempos e, por conseguinte, 2∆ts, cuja média aritmética será o valor registrado. Nesta situação, o espaçamento entre dois re- ceptores de um mesmo transmissor é de 2 pés, para que a unidade convencionada seja respei- tada. Esta configuração (2T e 4R ou 2T e 2R) é denominada Perfil Sônico Compensado pelo Efeito do Poço (Bore Hole Compensated Sonic Log). Os transmissores e os receptores consistem de transdutores feitos de cristais, cerâmica ou bobinas magnéticas. Eles têm a função de pro- duzir uma deformação mecânica em resposta a um sinal elétrico (caso seja um transmissor), ou produzir um sinal elétrico quando ele se de- forma (caso seja um receptor). 7.2.1 Parâmetros Acústicos Mensuráveis Um sinal acústico pode ser caracterizado por quatro parâmetros principais: 1. Tempo de chegada, pelo qual se pode de- terminar a velocidade de sua propagação no meio; 2. Amplitude, que representa o decréscimo exponencial da energia à medida que a onda se afasta do transmissor; 3. Atenuação, que é a medida do decréscimo da amplitude com a distância do transmis- sor; e, 4. Frequência (ou sua recíproca, o período), que fornece o número de oscilações por unidade de tempo. Existem ferramentas sônicas que registram apenas o primeiro parâmetro. Outras, mais complexas, medem tanto as ondas P como as S; e outras, todo o trem de onda. O perfil Sônico Convencional (BHC), a ser estudado registra o ∆t, enquanto que os perfis usados pela Engenharia de Reservatórios, para a determinação da pega do cimento ao reves- timento e rocha, CBL e VDL, registram, res- pectivamente, a amplitude do sinal e o trem de onda. 7.3 O Sônico como Determinante da Porosidade Antigamente o perfil Sônico era utilizado como uma ferramenta auxiliar da sísmica. 130 Capítulo 7. Perfil Sônico Wyllie, Gregory & Gardner (1956), estu- dando a correlação que existe entre o tempo de trânsito e a porosidade, demonstrou que o tempo poderia ser usado, também, para a de- terminação da porosidade intergranular das ro- chas sedimentares. Atualmente, em função dos cálculos mais re- alistas das porosidades fornecidas pelos perfis radioativos (densidade e neutrônicos), o perfil Sônico está retornando as suas origens sísmicas na indústria do petróleo. Na indústria da água subterrânea, o perfil Sônico mantém sua utilidade nos cálculos da porosidade, em virtude de sua ferramenta não portar fonte radioativa como os dois outros já citados. A perda de uma ferramenta sônica em um poço de água não trará o mesmo problema ambiental que a de uma radioativa. Ainda segundo Wyllie, Gregory & Gardner (op. cit.) o tempo de trânsito nada mais é do que um valor médio, ponderado volumetrica- mente, entre os tempos dos elementos envolvi- dos na trajetória do impulso sonoro. Em ou- tras palavras, é a própria definição da Lei das Misturas. Admitindo-se que uma rocha seja composta de uma matriz sólida de tempo ∆tm (grãos, ci- mento e matriz geológica) ou velocidade Vm, de um fluido de tempo ∆tf ou velocidade Vf, e de uma porosidade φ, a diferença de tempo (∆t) ou a velocidade (V ) a ser registrada no perfil Sônico Compensado (BHC) será dada por: ∆t = φ∆tf + (1− φ)∆tm (7.1) Em termos de velocidades, a Equação de Wyl- lie será: 1 V = φ Vf + (1− φ) Vm (7.2) e a porosidade sônica será o resultado de: φs = ∆t−∆tm ∆tf −∆tm (7.3) O índice s acrescentado à letra grega φ indica que a porosidade da rocha foi calculada usando os dados do perfil Sônico (Equação 7.3). Esta terminologia é adotada para as demais ferra- mentas e equações de porosidade a seguir, nocurso. A Equação 7.1, conhecida como equação do tempo médio de Wyllie, somente calcula po- rosidades realistas das rochas quando satura- das com água (Sw = 1), com porosidade in- tergranular, compactadas e isentas de argila (Vsh = 0). Estas condições são estabelecidas experimentalmente pelo seu autor. Na prática, como ignoramos, inicialmente, a quantidade de óleo/gás/água contida nas ro- chas, calcula-se sempre φs com o ∆tf igual ao da água. No entanto, é necessário que se esteja consciente de que tal procedimento é errado, ainda que seja facilmente corrigível posterior- mente. 7.3.1 Efeito da Ausência de Compactação sobre φs Wyllie, Gregory & Gardner (op. cit.) confirma- ram o trabalho de Wyllie, adiantando porém que as velocidades calculadas pela Equação 7.2 somente se igualam às equações da física clás- sica quando as camadas se apresentam com- pactadas, saturadas com água (Sw = 100%), com matriz conhecida, argilosidade nula, poro- sidade primária ou intergranular e espessuras iguais a duas vezes ou mais o comprimento da onda utilizada. Nas rochas não compactadas, a água su- porta a pressão das camadas sobrepostas. Uma maior quantidade de água, em relação à ma- triz, promove uma atenuação nas ondas em forma de leve estiramento (stretch) das am- plitudes e, por consequência, um aumento do tempo medido. Em vista disso, as porosida- des calculadas pelo perfil Sônico necessitam de algum tipo de correção para compatibilizá-las com igual comportamento das rochas compac- tadas. 7.3. O Sônico como Determinante da Porosidade 131 Wyllie, Gregory & Gardner (op. cit.) mos- traram que se deve considerar uma camada permoporosa como sendo compactada quando o tempo médio dos folhelhos (∆tsh), sobre e sotopostos à mesma, forem menores do que 100 µs/pé. Para folhelhos com ∆tsh > 100 µs/pé, deve-se aplicar a correção abaixo: φ s cor = φs × 100 c∆tsh (7.4) O fator c varia de acordo com a área, o am- biente, a formação, etc., entre 0,8 e 1,2. Tais valores resultam de observações práticas e ex- perimentais. Ocorrendo folhelhos com valores inferiores àquele limite estabelecido não se deve efetuar a correção, por se considerar que a ca- mada já esteja devidamente compactada. Dois arenitos de iguais porosidades não têm que ter, necessariamente, o mesmo tempo de trânsito, pois o ∆t depende da compactação da rocha. Exemplificando: • Arenito 1: (∆tm = 55,5 µs/pé), compac- tado (∆tsh = 100 µs/pé), saturado com água salgada (∆tf = 189 µs/pé) e φ = 25,84 %, apresentará um ∆t igual a: ∆t = 0, 2584(189)+(1−0, 2584)55, 5 = 90 (7.5) ou seja, ∆t = 90 µs/pé. • Arenito 2: (∆tm = 55,5 µs/pé), não com- pactado (∆tsh = 120 µs/pé), saturado com água salgada (∆tf = 189 µs/pé) e φ = 25,84% (admitindo-se um coeficiente de compactação (c = 1, 0), apresentará um ∆t igual a: 0,2584 = ∆t− 55,5 189− 55,5 × 100 120 = 97 (7.6) portanto, ∆t = 97 µs/pé. Significa dizer que um aumento de 20µs/pé, provocado por uma menor compactação dos folhelhos adjacentes, faz com que o efeito do stretch da onda provoque um ∆t de 7 µs/pé a mais no tempo. Um intérprete desavisado, usando a equa- ção de Wyllie e não considerando a falta de compactação, poderá calcular uma porosidade maior do que a real. Senão vejamos: φs = 97− 55,5 189− 55,5 = 31,09% (7.7) Caso a correção não seja realizada, ocorrerá em erro para mais (otimista) no valor da po- rosidade, na ordem de 20% (31,09/25,84 = 1,2032). Figura 7.3: Exemplo de corpos de folhelhos não compactados com ∆tsh > 100 µs/pé. A Figura 7.3 mostra dois corpos de areia in- tercalados entre folhelhos, cujo ∆tsh está entre 120-140 µs/pé. A não realização da correção pela ausência de compactação acarretará erro na porosidade sônica. Convém lembrar que as rochas endógenas (calcários e dolomitos) não apresentam este tipo de problema (ausência de compactação), as quais, por serem produtos de precipitações químicas e/ou crescimento orgânico, são natu- ralmente compactadas. 132 Capítulo 7. Perfil Sônico 7.3.2 Efeito da Porosidade Secundária O perfil Sônico registra sempre o menor tempo de trânsito, ou o primeiro evento chegado ao receptor, independentemente da trajetória per- corrida pela onda entre o transmissor e o recep- tor. O som na matriz das rochas tem maior ve- locidade que nos fluidos, de modo que o per- fil Sônico tende a registrar somente a porosi- dade interligada ou intergranular, contornando os espaços vazios isolados, tipo cavidades ou vesículas. Assim, não é aconselhável usar a equação de Wyllie para litologias que apresentem tais tipos de porosidade, porquanto as φs assim calcula- das serão por demais pessimistas. Todavia, nas fraturas horizontais a sub- horizontais a onda compressional é forçada a atravessá-las, aumentando consideravelmente o tempo a registrar, dando origem a stretches ou saltos de ciclos. 7.3.3 Efeito da Matriz O modelo mostrado na Figura 7.4 representa uma rocha compactada com φ = 10% e 50% de cada litologia mostrada (amarelo arenito = 55,5 µs/pé e vermelho calcário = 47,6 µs/pé). A Lei das Misturas nos fornecerá o tempo da matriz como sendo: ∆tm = 0,5× 55,5 + 0,5× 47,6 = 51,55 µs/pé (7.8) A equação de Wyllie nos indicará o valor a ser registrado no perfil: ∆t = 0,9× 51,55 + 0,1× 189 = 65,295 µs/pé (7.9) Ao se usar os 65,295 µs/pé para determinar φs, três situações poderão ocorrer: • Caso se considere a camada como arenito Figura 7.4: Modelo teórico de uma mistura de duas matrizes e água. puro: φs = 65,295− 55,5 189− 55,5 = 0,0733 = 7,33% (7.10) • Caso se considere a camada como calcário puro: φs = 65,295− 47,6 189− 47,6 = 0,125 = 12,5% (7.11) • Caso se tenha conhecimentos precisos a- cerca da litologia da camada (testemu- nhos, formação, ambiente, etc.), os er- ros acima serão evitados, uma vez que se usará o ∆tm real da rocha calculado na Equação 7.8, i.e., 51,55 µs/pé: φs = 65,295− 51,55 189− 51,55 = 0,1 = 10% (7.12) A primeira situação resultou em uma inter- pretação pessimista; a segunda, otimista e a terceira, a realista. Ao analisarmos as três situações acima con- cluiremos acerca da necessidade de sermos sempre otimistas ao procurar o petróleo. 7.3. O Sônico como Determinante da Porosidade 133 7.3.4 Efeito da Argilosidade (Vsh) A presença de argila nas camadas permopo- rosas aumenta a quantidade de água inters- ticial (comparadas àquelas limpas ou sem ar- gila), atenua a velocidade do som e aumenta o ∆t registrado. Aumentos do tempo sempre são visualizados como aumentos na porosidade, o que não é realidade. Para se estudar este tipo de efeito, adota-se o modelo clássico mostrado na Figura 7.5. Fazendo-se um balanço dos tempos e mate- riais, temos: ∆t = ∆tm(1− φe − Vsh) + Vsh∆tsh + φe∆tf (7.13) isolando-se a porosidade e chamando-a de porosidade sônica corrigida pela argilosidade (φesc), tem-se: φesc = ∆t−∆tm ∆tf −∆tm − Vsh ( ∆tsh −∆tm ∆tf −∆tm ) (7.14) Denominando-se os termos (∆t−∆tm)/(∆tf− ∆tm) de porosidade sônica, (φes) e (∆tsh − ∆tm)/(∆tf−∆tm) de porosidade aparente dos folhelhos adjacentes (φssh), a Equação resume- se em: φesc = φes − Vshφssh (7.15) onde φes é a porosidade sônica calculada de acordo com a equação de Wyllie, como se a rocha fosse limpa (sem argilosidade), e Vsh é a argilosidade calculada pelo perfil de Raios Gama, etc. Observar que, na dedução da Equação 7.14, o ∆tm usado é exatamente o mesmo tanto para a areia como para o folhelho, considerando-se que ambos (arenitos e folhelhos) tenham um mesmo tipo de matriz. Introduz-se, assim, o conceito de uma poro- sidade aparente do folhelho (φssh), calculada (ainda segundo Wyllie) a partir da média dos tempos dos folhelhos adjacentes (sobre e soto- postos) à camada de interesse. Figura 7.5: Modelo clássico das porosidades total e efetiva. 7.3.5 Efeito do Hidrocarboneto (∆thc) O tempo de trânsito na água é da ordem de 189 ou 200 µs/pé (salgada ou doce, res- pectivamente); o do óleo (menos denso) é de 236 µs/pé; e do gás (menos denso ainda) é da ordem de 600 µs/pé. Pelo visto, camadas portadoras de hidrocar- bonetos têm um ligeiro (óleo) ouexagerado (gás) aumento no ∆t, em função da diferença de tempos de trânsito entre seus diversos flui- dos. Em outras palavras, observa-se um re- tardamento no tempo total de propagação de uma onda sonora em camadas contendo uma mistura de óleo e água, quando comparadas àquelas contendo apenas água. Aumentos do ∆t (a curva se desloca para a esquerda da faixa), intuitivamente, nos levam a pensar em aumentos da porosidade, o que não é verdade. Uma rocha com 10% de porosi- dade continuará tendo 10% mesmo que tenha em seus poros água, óleo ou gás, isoladamente ou misturados em quaisquer proporções. O que muda é o tempo registrado pelo perfil Sônico (∆t), uma função do tempo de trânsito dos fluidos ou mistura fluida (∆tf). Analisemos tal fato na Figura 7.6, usando a equação deWyllie e admitindo-se três situações onde o tempo do fluido será dado pelo balanço 134 Capítulo 7. Perfil Sônico entre as duas saturações presentes na zona de investigação da ferramenta, i.e., a lavada. Figura 7.6: Modelo de uma camada limpa por- tadora de óleo. No modelo estabelecido, o tempo da mistura fluida será dado por: ∆tf = (1− Sxo)∆thc + Sxo∆tmf (7.16) e o tempo a registrar no perfil será igual a: ∆t = (1− φe)∆tm + φe∆tf (7.17) Assim sendo, serão três as situações possíveis: 1. Arenito com água salgada (Sxo = 100%) e φe = 10% Nesta situação, considera-se que os po- ros da camada têm somente filtrado, i.e., ∆tf = ∆tmf. Sendo a matriz arenosa (∆tm = 55,5 µs/pé) e o fluido interporoso (∆tf = 189 µs/pé), o perfil Sônico re- gistrará: ∆t = 0,9 × 55,5 + 0,1 × 189 = 68,85 µs/pé Este valor de 68,85 µs/pé, quando aplicado na equação de Wyllie corresponderá a: φes = 68,85− 55,5 189− 55,55 = 0,1 = 10% Vale a pena lembrar que o exemplo acima foi realizado em rocha limpa, monomine- ral, contendo somente água salgada, por- tanto, não há erro de cálculo, vez que se atende a teoria. A porosidade assim cal- culada é a realista. 2. Arenito portador de óleo (Sxo = 50%) e φe = 10%. Demais características para o exemplo: ∆thc = 236 µs/pé, ∆tm = 55,5 µs/pé e ∆tmf = 189 µs/pé. O tempo do fluido será: ∆tf = 0,5× 236 + 0,5× 189 = 212,5 µs/pé Com tal matriz e fluido interporoso, o per- fil Sônico registrará: ∆t = 0,9×55,5+0,1×212,5 = 71,2 µs/pé Este valor de 71,2 quando aplicado na equação de Wyllie, corresponderá a: φes = 71,2− 55,5 189− 55,55 = 0,1176 = 11,76% Ao se admitir a rocha somente com água (189 µs/pé) e não com a mistura água e óleo (212,5 µs/pé), a porosidade calculada é otimizada em cerca de 20% a mais do que a real. 3. Arenito portador de gás com Sxo = 50% e φe = 10%. Demais características para o exemplo: ∆thc = 666 µs/pé, ∆tm = 55,5 µs/pé, e ∆tmf = 189 µs/pé. ∆tf = 0,5× 666+ 0,5× 189 = 427,5 µs/pé Com tal matriz e fluido interporoso, o per- fil Sônico registrará: ∆t = 0,9×55,5+0,1×427,5 = 92,7 µs/pé Este valor de 92,7 µs/pé, quando aplicado na equação de Wyllie corresponderá a: φes = 92,7− 55,5 189− 55,55 = 0,2786 = 27,86% 7.3. O Sônico como Determinante da Porosidade 135 Ao se admitir a rocha somente com água (189 µs/pé) e não com uma mistura de gás e água (427,5 µs/pé), a porosidade calculada é quase três vezes maior do que a real. Pelo demonstrado, um mesmo tipo de rocha com φe = 10% pode apresentar tempos dife- renciados sem que isto tenha sido ocasionado por aumentos da porosidade em si, mas sim pela influência do tipo do fluido interporoso. Na realidade, o intérprete se encontra em uma situação delicada. Para calcular a φes, ele precisa saber quanto há de óleo e água (doce ou salgada) na camada, portanto de Sw. Para calcular Sw, ele precisa da φes. É uma sinuca de bico que ele tem que resolver da maneira mais lógica possível. Na prática, caso se deseje calcular a φes de uma camada qualquer, desconhecendo-se, ainda no estágio exploratório de uma área, qual é o porcentual de hidrocarboneto e água den- tro de seus poros, deve-se calcular φes sem- pre usando o fluido água e, partir para outros procedimentos mais realistas, conforme se verá mais adiante. Caso se use o tempo de trânsito da água, o intérprete deve estar consciente de que co- mete um erro. Todavia, este é um procedi- mento operacional usual, para a obtenção de uma primeira aproximação da porosidade. Tal erro leva os menos avisados afirmarem que, em zonas com hidrocarbonetos a porosi- dade sônica aumenta. Isto não é verdade: o que aumenta é o tempo dispendido pelo som para atingir o detector. Uma mistura fluida de óleo (ou gás) e água é mais lenta do que a água pura. A porosidade in situ de uma rocha é imutável, para qualquer tipo, ou mistura, de fluido em seus poros. O intérprete conscientemente erra em seus cálculos, admitindo em uma primeira etapa, que o fluido seja água, para, mais adiante com dados e perfis mais realistas, corrigir este erro. Eventualmente, o erro pode decorrer por to- tal desconhecimento ou falta de dados litogeo- lógicos da área. 7.3.6 Problemas Operacionais e Imprecisões das Leituras de φs Apesar do cuidado que se possa ter em rela- ção aos itens anteriormente discutidos, ainda assim, os ∆t’s apresentam outros problemas, principalmente, em poços bastante desmoro- nados ou rugosos, ou quando a ferramenta encontra-se em situações tais que suas inclina- ções provocam uma assimetria admitida para o trajeto da onda sonora (Figura 7.2). Para minimizar tais possibilidades, a se- gunda geração de ferramentas sônicas foi deno- minada BHC (Bore Hole Compensated) e dis- põe de um sistema simétrico de dois transmis- sores (um superior e outro inferior) e dois ou quatro receptores, em posições fixas e interme- diárias. Obtém-se, com elas, quatro medidas de ∆t e registra-se a média. Entretanto, apesar de se utilizar sistemas si- métricos, esta ferramenta ainda tende a apre- sentar algum problema nos casos de grandes desmoronamentos ou rugosidades da parede do poço. A curva do Cáliper (calibre do poço) é peça fundamental na interpretação do perfil Sônico e demais perfis de porosidade. Outro problema que prejudica bastante a qualidade das leituras deste perfil é o apareci- mento de saltos de ciclo (cycle skipping). Um salto de ciclo se caracteriza pelo não aciona- mento de um dos detectores devido à ocor- rência de zonas de gás, altíssimas porosidades e fraturas horizontais preenchidas por fluidos, etc., onde as ondas percorrem um meio mais atenuante, diminuindo amplitudes, tornando- as incapazes de impressionar os detectores. 136 Capítulo 7. Perfil Sônico 7.3.7 Integração do Tempo de Trânsito (Travel Time Integrator) O perfil Sônico pode realizar a integração dos tempos de trânsito (∆t) com a profundidade e representar tal integração em forma de picos ou sinal equivalente. Por exemplo, a cada soma de 1000 µs (i.e., 1 ms) o equipamento registra um pequeno traço à margem de uma das faixas da malha API. A cada 10000 µs (ou 10 ms) é registrado um traço de maior tamanho, para uma rápida vi- sualização na contagem dos tempos totais (Fi- gura 7.7). Figura 7.7: Perfil Sônico BHC mostrando o re- sultado da integração do tempo (ITT), à es- querda da segunda faixa. Deve ser observado que, em uma seção de litologia uniforme, quanto maior for o valor do ∆t, menor será o espaçamento entre picos con- secutivos. A recíproca é verdadeira, ou seja, quanto menor o ∆t, maior será o espaçamento entre traços. Desta maneira, em se tendo a distância en- tre traços (espaço = e) e o tempo gasto pela onda acústica para percorrer um determinado trecho de formação (∆t), torna-se fácil calcular a Velocidade lntervalar (VI) do intervalo con- siderado, utilizando-se a relação clássica: VI = e/∆t. O resultado deste cálculo será diretamente proporcional à qualidade das curvas registra- das e, por consequência, da integração reali- zada. Para isto, torna-se necessário um controle mais apurado da qualidade da integração (ou calibração da integração), que é feito da se- guinte maneira: escolhe-se, na seção perfilada, um intervalo (ou uma camada) com ∆t relati- vamente constante e contam-se, defronte a ele, o traços de milissegundos.Ao mesmo tempo, lê-se o ∆t no intervalo correspondente ao inter- valo escolhido para calibração da integração, vez que ela é de importância para uso na Sís- mica. Em seguida, calculam-se duas velocidades intervalares, compatibilizando-se as unidades: VI1 = e ITT (7.18) onde e é a espessura da camada a calcular a velocidade intervalar, em metros, e ITT é o valor lido, em milisegundos, entre o topo e a base da camada. VI2 = R1R2 ∆t (7.19) onde R1R2 é a distância padrão da unidade de tempo (1 pé) e ∆t é o valor lido no total da espessura da camada escolhida, em micro- segundos/pé. Após a compatibilização das unidades, VI1 deve ser aproximadamente igual a VI2, dentro de um erro máximo admitido de ± 10%. No perfil exemplo da Figura 7.7, a camada central tem cerca de 45 m, muito embora com uma pequena intercalação de folhelho. Ao longo de toda a sua espessura, podem-se contar cerca de 13 picos de 1 ms e ler um ∆t médio da ordem de 90 µs/pé. Qual é a velocidade intervalar dessa camada? Resolução: VI1 = 45 13× 10−3 = 3641,5 m/s 7.3. O Sônico como Determinante da Porosidade 137 Velocidade λ BHC λ sísmica (m/s) (m) (m) 7.620 0,38 152,4 1.905 0,10 38,1 1.524 0,08 30,5 608 0,03 12,2 Tabela 7.1: Diferenças entre as resoluções do Sônico e a Sísmica. VI2 = 0,3048 90× 10−6 = 3886,6 m/s A diferença entre as duas velocidades calcu- ladas é da ordem de 6,7%. Ambos valores (ITT e VI) são utilizados na sísmica de superfície para as calibrações de suas seções e mapas, na verificação dos topos das formações e pelos exploracionistas em ge- ral, para a interrupção ou continuação da per- furação de um poço exploratório. É conveniente lembrar que o uso de frequên- cias diferentes entre os métodos sísmicos de poço e de superfície resulta em algumas dife- renças quantitativas entre ambas as metodolo- gias. No perfil Sônico a frequência usada é de 20 kHz e na Sísmica, 50 Hz. Deste modo, a resolução vertical do Sônico é muito maior (me- lhor definição de camadas finas) do que a Sís- mica, que identifica pacotes bem mais espessos de rocha. Por outro lado, a profundidade de investiga- ção do Sônico é bastante superficial, da ordem de três vezes o comprimento de onda (λ). Ver Tabela 7.1. 7.3.8 Equação de Raymer, Hunt & Gardner (1980) Estes autores, baseados na correlação entre tempos de trânsitos e porosidades medidas, em um sem número de testemunhos, definiram uma equação diferente da de Wyllie, para cal- cular a φs em arenitos consolidados e não con- solidados. Tem como vantagem não ser neces- sária a correção pela falta de compactação e do tempo do fluido (∆tf). Abaixo, as equações definidas em ambas as metodologias, para as situações em que as ro- chas tenham valores entre zero e 37% de po- rosidade. Na realidade, esta é a abrangência maior das porosidades da maioria das rochas reservatórios. Wyllie, Gregory & Gardner (op. cit.): ∆t = (1− φ)∆tm + φ∆tf Raymer, Hunt & Gardner (op. cit.): 1 ∆t = (1− φ)2 ∆tm + φ ∆tf (7.20) Observar que, para ambos os autores, quando a porosidade for igual a zero, ∆t = ∆tm. Quando a porosidade, teoricamente, for igual a 100%, ∆t = ∆tf. Raymer, Hunt & Gardner (op. cit.) estabe- leceram, também, a seguinte Equação prática e determinaram os valores para ∆tm = 58 (are- nitos), 49 (calcários) e 44 µs/pé (dolomitos): φSR = k (∆t−∆tm) ∆t (7.21) onde φSR é a porosidade calculada pela Equa- ção de Raymer, Hunt & Gardner (op. cit.), onde k é uma constante empírica que varia de acordo com a área, etc. Eles recomendam um valor da ordem de 0,625. De acordo com as Equações em discussão, conclui-se que Wyllie considera a porosidade como sendo um sistema rocha/fluido em série, resolvido pela média ponderada volumetrica- mente entre os tempos dos seus diversos mate- riais componentes. Por sua vez, Raymer, Hunt & Gardner (op. cit.) admitem um sistema em paralelo, re- solvido pela média harmônica do sistema ro- cha/fluido. 138 Capítulo 7. Perfil Sônico 7.4 Ondas Cisalhantes Conforme foi visto na Figura 7.1, o conheci- mento dos tempos (ou velocidades) cisalhantes, bem como os compressionais, são necessários e importantes nos estudos da perfilagem geofí- sica e da física pura. O perfil Sônico, conforme discutido, é uma das ferramentas mais antiga para determina- ção da porosidade, com base na medida da pri- meira chegada compressional nos detectores, após ondas elásticas serem geradas por trans- missores monopolos radiais simétricos. As chegadas cisalhantes, oriundas da conver- são das compressionais nas interfaces dos po- ços/formações, somente são detectadas quando Vs > Vf. Diz-se, portanto, que o perfil Sônico somente detecta as ondas cisalhantes nas for- mações rápidas (fast formations). Zemanek et al (1984), usando transmissores do tipo dipolos, mostraram que as ondas cisa- lhantes poderiam ser geradas e detectadas sem que houvesse qualquer tipo de conversão. Os dipolos (transmissores não simétricos) geram ondas cisalhantes em qualquer tipo de forma- ção, independentemente de suas características de velocidade. Os dipolos são construídos de modo a com- primir diretamente um lado do poço, enquanto o outro sofre descompressão, causando forças cisalhantes perpendiculares ao eixo do poço. A propagação desta onda é similar às ondas Sto- neley, que, sendo dispersiva como tal, tem velo- cidade de propagação dependente da frequên- cia usada (a onda se propaga com maior veloci- dade nas baixas frequências do que nas altas). As ferramentas atuais têm condições de com- binar monopolos e dipolos capazes de mapear as ondas compressionais e cisalhantes em qual- quer tipo de formação, inclusive, em poços abertos ou revestidos. Suas medidas tornam viáveis estudos variados de mecânica das ro- chas, fraturas, permeabilidades, etc. 7.5 Resumo do Perfil Sônico 1. Medição A menor diferença do tempo compressi- onal (compressional slowness) decorrido para uma onda compressional percorrer o espaço entre dois detectores localizados a distâncias fixas entre si. 2. Unidade µs/pé ou µs/m. 3. Usos • Cálculo da porosidade intergranular; • Detecção ocasional de zonas fratura- das ou com perda de circulação; • Auxílio à engenharia de produção de petróleo (CBL e VDL); • Auxílio à sísmica de superfície; • Auxílio à engenharia de perfuração; e • Auxílio à geotecnia com as constan- tes elásticas. 4. Problemas • Litologia ou matriz desconhecida; • Hidrocarbonetos; • Argilosidade; • Porosidade Secundária; • Grandes desmoronamentos e/ou ru- gosidades; e • Saltos de Ciclos. 7.6 Questionário 1. Quais as propriedades das rochas possíveis de serem medidas pelos perfis acústicos ou Sônicos? 7.6. Questionário 139 2. Qual a distância entre o Transmissor - Re- ceptor Perto (T-R1) da ferramenta do Sô- nico Compensado? E a distância entre o Transmissor - Receptor Longe (T-R2)? 3. Desenhar um osciloscópio, com seus qua- tro respectivos trens de onda, onde seja possível se determinar a diferença de tem- po de trânsito (∆t) a ser registrada em um perfil Sônico Compensado. 4. O tempo é medido em horas, minutos, se- gundos, etc. Por que, então, o perfil Sô- nico registra seus tempos em µs/pé (mi- crosegundos/pé) e não em segundos so- mente? 5. Quais os respectivos valores de velocidade compressional, em pés/s e m/s, para um ∆t registrado de 85 µs/pé? 6. Quais os tempos (∆t) registrados em um perfil Sônico em duas camadas aquífe- ras, ambas mineralogicamente constituí- das de 33,33% de sílica, 33,33% de calcita e 33,33% de dolomita, sendo que uma está aos 100 m de profundidade e a outra aos 1000 m? Explicar. 7. Como funciona e para que serve o delay circuit da ferramenta do perfil Sônico? 8. O que é o fator de correção pela ausên- cia de compactação da equação de Wyllie? Por que esse fator teve que ser acrescen- tado à referida equação? 9. Qual(is) a(s) diferença(s) entre as equa- ções de Wyllie e Raymer, Hunt & Gard- ner? 10. Quais são as principais limitações do perfil Sônico no que se refere às propriedades do reservatório e do meio ambiente (poço)? 11. O que é salto de cicloe quais as condições possíveis de sua ocorrência em um perfil Sônico? 12. Deduzir uma equação única (com base na equação de Wyllie) em que a camada te- nha três minerais distintos compondo sua matriz, argilosidade e dois tipos de fluidos distintos em seus poros. 13. Quais os principais usos do perfil Sônico nas indústrias da água e do petróleo? 14. Citar outros tipos de perfis que usam o princípio de propagação de ondas acústi- cas e quais são seus usos na indústria do petróleo. 15. Quais são as diferenças operacionais entre um perfil Sônico de uma operação sísmica de superfície? 16. O perfil Sônico é também usado para cali- brar a sísmica de superfície. Quais são, portanto, os objetivos dessa calibração? Calibra-se por quê ou para quê? 17. Quais os principais problemas operacio- nais do perfil Sônico capazes de prejudicar um perfeito uso na sísmica de superfície? 18. Em que diferem os perfis Sônico Compen- sado e de Longo Espaçamento? 19. Exemplificar quais são os tipos de calibra- ções ou verificações que se pode realizar em perfis do tipo Sônico, para que se te- nha certeza de seu bom funcionamento? 20. Qual é o objetivo de se realizar a integra- ção do tempo de trânsito de um perfil Sô- nico? 21. Como funciona o Travel Time Integrator e para que serve? 22. Qual o ∆t que deve ser registrado no Sô- nico Compensado, se uma camada de 100 m de espessura apresenta uma contagem de 18,5 ms? 140 Referências 23. Quais as principais técnicas de sísmica de poço e qual o objetivo de cada uma delas? 24. Qual a distância mínima desejada entre o transmissor e um receptor de uma ferra- menta do perfil Sônico de quatro polega- das de diâmetro externo, em um poço de oito polegadas, para que o tempo de che- gada da lama (∆tf = 189 µs/pé) seja pos- terior às situações das camadas abaixo: • ∆t da Camada (1) = 240 µs/pé • ∆t da Camada (2) = 100 µs/pé • ∆t da Camada (3) = 75 µs/pé • ∆t da Camada (4) = 40 µs/pé 25. Discutir o fato de as amplitudes cisalhan- tes serem mais altas do que as compressi- onais. Referências Raymer, L. L., Hunt, E. R. & Gardner, J. S., 1980 - An Improved Sonic Transit Time- to-Porosity Transform. Trans. SPWLA 21th Annual Logging Symposium, paper P. Wyllie, M. R. J., Gregory, A. R. & Gardner, L. W., 1956 - Elastic wave velocities in he- terogeneous and porous media: Geophy- sics, 21(1):41-70. Zemanek, J., Angona, F. A., Williams, D. M., Caldwell, R. L., 1984 - Continous Acous- tic Shear Wave Logging. 25th Annual SP- WLA Logging Symposium, Trans. vol 1, paper T. Capítulo 8 Perfil de Densidade 8.1 Introdução O termo Density Log foi traduzido inicialmente como Perfil de Densidade. Em inglês, density (g/cm3 ou kg/m3) equivale ao português massa específica, enquanto que specific gravity equi- vale a densidade. Pela tradição na técnica da perfilagem, o termo densidade será usado ao longo deste livro. O perfil de Densidade registra continua- mente as variações das densidades das camadas (g/cm3 ou kg/m3) com a profundidade. A exemplo do que foi discutido no perfil Sô- nico, existe uma relação entre a participação volumétrica de cada elemento constituinte e a densidade total da rocha (bulk density = ρB). A medida da densidade é realizada pelo bombardeio das camadas por um feixe monoe- nergético de raios gama. Para que isso seja possível, a ferramenta dis- põe de um patim metálico com uma fonte radi- oativa (Cs137), direcionada, com nível energé- tico da ordem de 0,662 MeV, pressionada con- tra a parede do poço. A probabilidade de ocorrência de um choque entre os raios gama e a matéria depende das propriedades nucleares do material envolvido e da energia do fóton. Esta probabilidade é denominada seção eficaz (cross section) e tem por unidade o Barn = 10−24cm. Quanto maior a seção eficaz, maior a proba- bilidade de uma interação se realizar. Assim, a seção eficaz pode ser considerada como sendo um diâmetro aparente de um núcleo a ser atin- gido. Quando os raios gama atravessam um meio qualquer, eles interagem com os átomos e elé- trons orbitais de seus constituintes de três mo- dos distintos: 1. Efeito Fotoelétrico - Colisão entre um fó- ton de baixa energia (< 75 keV) e um átomo. Caso a energia do fóton seja maior do que a energia de ligação de um elétron orbital: • O fóton transfere toda sua energia para o elétron ejetado e desaparece do meio. Diz-se que o fóton foi ab- sorvido ou aniquilado. • O elétron deixa a sua órbita com uma energia cinética igual à diferença en- tre a do fóton e sua energia de liga- ção. 2. Efeito de Produção de Par - Colisão entre um fóton de alta energia nas proximidades de um núcleo (energia > 1,02 MeV = 2 vezes a massa de repouso de um elétron). O fóton se converte em um par elétron- pósitron, de tal sorte que: 141 142 Capítulo 8. Perfil de Densidade • O fóton é absorvido; • O elétron desacelera; e • O pósitron interage com um elétron qualquer do meio, aniquilando ambos com a produção de dois raios gama. 3. Efeiton Compton - Colisão entre um fóton de média energia (75 keV< E< 1,02 MeV) e um átomo qualquer, ocorrendo: • Ejeção de um elétron da órbita ex- terna enquanto o fóton permanece no meio, porém sua energia diminui a cada choque. Diz-se que o fóton so- freu espalhamento. • A energia do elétron assim espalhado é função do ângulo da colisão elás- tica. O Efeito Compton é a interação preferencial entre os raios gama e as rochas, pelo fato de se usar uma fonte de Cs137, dentro de um nível energético compatível. Tais interações são expressas por: If = Iie −µxρe (8.1) onde If = fluxo final dos fótons; Ii = fluxo inicial; µ = coeficiente de absorção de massa do material alvo; x = espessura; e ρe = densidade eletrônica do material (número de elétrons/cm3). Por sua vez, a energia defletida nas intera- ções dos raios gama com a matéria é dada pela equação: Eγ = Eγo 1 + Eγo moc2 (1− cos θ) (8.2) sendo mo massa de repouso do elétron = 9,112×10−28 g; c = velocidade da luz = 3 × 1010 cm/s; moc 2 = 0,511 MeV; Eγo a energia inicial; Eγ a energia final do fóton; e θ o ângulo da colisão. A Figura 8.1 mostra o decaimento da ener- gia de uma fonte de 0,662 MeV em função do ângulo de colisão entre o fóton e os átomos do meio. Aos 180◦, a energia é da ordem de 0,288 MeV. Figura 8.1: Uma fonte de 0,662 MeV tem como limite mínimo de energia defletida 0,288 MeV. 8.2 Princípio do Perfil de Densidade Um feixe monoenergético de raios gama, de in- tensidade fixa, ao sair da fonte, choca-se su- cessivamente com os elétrons da formação, por meio do Efeito Compton. À proporção que os raios gama vão se dispersando, ou sendo ab- sorvidos, a intensidade do feixe inicial dimi- nui. Essa diminuição de intensidade, que é uma função da mudança na densidade eletrônica do meio, é então medida pelo detector. Assim, quanto mais densa for a rocha, menor a inten- sidade da radiação no detector, e vice-versa. Como o Efeito Compton é diretamente pro- porcional ao número de elétrons por unidade de volume de material (portanto, densidade eletrônica) e, como o número de elétrons por unidade de volume é proporcional à densidade (massa/volume) das formações, deduz-se que este perfil responde diretamente à densidade da formação e inversamente à porosidade. Para que a relação densidade eletrônica ver- sus porosidade se torne realidade, algumas pro- vidências operacionais devem ser tomadas: 8.3. Definição de Densidade Eletrônica 143 • A fonte radioativa deve ter energia sufici- entemente alta (≥ 75 keV) para favorecer o Efeito Compton. • A fonte radioativa deve ter energia sufici- entemente baixa (≤ 1,02 MeV) para não favorecer a ocorrência do Efeito de Pro- dução de Par. • O detector deve ser blindado para evitar o Efeito Fotoelétrico. O resultado final é uma função inversa da densidade eletrônica média do material exis- tente dentro do volume investigado (i.e., espaço fonte-detector). 8.3 Definição de Densidade Eletrônica Por definição, a densidade eletrônica de uma formação (ρe) é a quantidade de elétrons por volume amostrado. Partindo-se denoções da química, nas quais entram a constante de Avogadro (6,02×1023 átomos/átomo-grama), o número atômico Z (número de prótons ou de elétrons/átomo- grama), a massa atômica A (número de gramas/átomo-grama) e a densidade ρLAB (g/cm3), chega-se à seguinte relação: ρe = 2Z A ρLAB = CρLAB (8.3) A Tabela 8.1 mostra que C é próximo da unidade para os componentes litológicos mais comuns das rochas. A Tabela 8.2 mostra uma comparação entre os valores das densidades total (ou obtida em laboratório), da eletrônica e daquela registrada pela ferramenta do perfil de Densidade. Nas litologias homogêneas com água (areni- tos, calcários e dolomitos), o fato de C ≈ 1 faz com que a densidade registrada pelo perfil, se- gundo o seu algorítmo, seja igual à medida do Elemento A Z C = 2Z/A H 1,008 1 1,9841 C 12,001 6 0,9991 O 16,000 8 1,0000 Na 22,990 11 0,9569 Mg 24,320 12 0,9868 Al 26,980 13 0,9637 Si 28,090 14 0,9968 S 32,070 16 0,9978 Cl 35,460 17 0,9585 K 39,100 19 0,9719 Ca 40,080 20 0,9980 Tabela 8.1: Valores da constante C para os ele- mentos mais comuns das rochas sedimentares (Schlumberger, 1985). laboratório. Ocorrendo outros materiais nos poros (a exemplo de hidrocarbonetos), há di- ferenças entre ambos os valores, fato este que exigirá correções das leituras. Para eliminar tais diferenças (denominadas efeito Z/A) e se imprimir a densidade do per- fil igual à densidade de laboratório, usa-se ca- librar a ferramenta em uma rocha de matriz conhecida para a obtenção de uma equação de calibração (Figura 8.2). A Lei das Misturas nos fornece, para um cal- cário (CaCO3) cuja densidade da matriz seja ρmLS e saturado com água doce de densidade ρw, a seguinte relação: ρB = ρmLS(1− φ) + φρw (8.4) Fazendo-se as devidas substituições na Equa- ção 8.4, tem-se: ρeLS = ρmLSCLS(1− φ) + φρwCw (8.5) Eliminando-se φ em ambas as Equações e resolvendo-se para ρB, tem-se: ρB = ρeLS ρmLS − ρw ρmLS − ρwCw − − ρmLS(CLS − Cw) ρmLSCLS − ρwCw (8.6) 144 Capítulo 8. Perfil de Densidade Componente Fórmula ρLAB (g/cm3) 2 ∑ Z′s P.M. ρe = 2Z A ρLAB ρperfil (g/cm3) Quartzo SiO2 2,654 0,9985 2,650 2,648 Calcita CaCO3 2,710 0,9991 2,708 2,710 Dolomita CaCO3MgCO3 2,870 0,9977 2,863 2,876 Anidrita CaSO4 2,960 0,9990 2,957 2,977 Silvita KCl 1,984 0,9160 1,916 1,863 Halita NaC 2,165 2,0740 2,074 2,032 Gipsita CaSO4.2H2O 2,320 1,0222 2,372 2,351 Água Doce H2O 1,000 1,1101 1,110 1,000 Água Salgada 200000 ppm 1,146 1,0797 1,237 1,135 Óleo n(CH2) 0,850 1,1407 0,970 0,850 Gás C1,1H4,2 ρgás 1,2380 1,238(ρgás) 1,325(ρmetano)− 0,188 Tabela 8.2: Comparação entre as densidades de laboratório (ρLAB), eletrônica (ρe) e a registrada no perfil de Densidade (ρperfil) (Schlumberger, 1985). Figura 8.2: Transformada do perfil de densi- dade ρe = 1,0704ρeLS − 0,1883 (Schlumberger, 1985). Substituindo-se ρmLS, ρw, CLS e Cw pelos seus valores respectivos (Tabelas 8.1 e 8.2), tem-se finalmente: ρB = 1,0704ρeLS − 0,1883 (8.7) onde ρeLS é densidade eletrônica do calcário usado na calibração. Os valores da última coluna da Tabela 8.2 mostrados como ρperfil resultam da aplicação do algorítmo (Equação 8.7). São eles os valo- res mapeados pela ferramenta de densidade e registrados como ρB, para as condições esta- belecidas (calcário com água doce). Correções compatíveis devem ser realizadas para usos em outras litologias usadas na calibração. Considerando-se que uma ferramenta esteja calibrada para calcário, qual será o erro, caso ela seja usada para perfilar em arenito com po- rosidade nula (φ = 0%)? Resolvendo-se o problema: ρB = 1,0704× 2,650− 0,1883 = 2,64826 g/cm3 O registro de um ρB = 2,64826 g/cm3, de- fronte ao arenito em questão, quando deve- ria ter sido 2,654 g/cm3 (valor de ρB para um arenito puro), origina um erro de apenas 0,0057 g/cm3 ou 0,2148%. Em outras pala- vras, ρLAB ≈ ρB. Daí dizer-se que o perfil de Densidade fornece aproximadamente ρB. Para eliminar essas pequenas diferenças exis- tentes entre ρLAB e ρB, as companhias de per- filagem confeccionam cartas de correção deno- minadas Efeito Z/A. Entretanto, como a or- dem de grandeza das correções é geralmente de pequeno valor, costuma-se desprezá-las nos cálculos. 8.4. A Ferramenta Densidade Compensada 145 Figura 8.3: Carta para correção do Efeito Z/A (Schlumberger, 1985). Olhando-se a Figura 8.3, verifica-se que, para as três litologias mais importantes (are- nito, calcário e dolomito), mesmo que tenham porosidades variando entre 0 e 40%, a correção se torna desprezível, a não ser na presença de gás nos poros. Pergunta-se: Qual será o algoritmo de cali- bração de uma ferramenta em um arenito com água doce? 8.4 A Ferramenta Densidade Compensada A Figura 8.4 mostra uma ferramenta do perfil de Densidade compensada pelo efeito do poço. t A fonte é colimada (focalizada) e seu feixe de gama encontra-se apontado na direção do reboco e formação. Para minimizar o efeito do poço (lama e reboco, respectivamente, de densidades ρm e ρmc), tanto a fonte como os detectores perto (SS - Short Spacing) e longe (LS - Long Spacing) estão localizados em um patim metálico, pressionado contra a parede do poço, cuja parte superior está adaptada uma lâmina para remover parte dele. Há também uma blindagem entre a fonte e os detectores para evitar acoplamento direto entre eles. A abertura do braço registra um perfil Cá- liper, dado essencial para o controle da quali- dade da curva, garantindo uma interpretação mais realista. O reboco entre a fonte e os detectores influ- encia a leitura final, daí a necessidade dos dois detectores, um perto (SS) e outro longe (LS). Figura 8.4: Ferramenta do Densidade Com- pensada pelo efeito do poço. Adaptada de Sch- lumberger, 1985. Os fótons atingem os elétrons do meio, defle- tem gradualmente e perdem energia, retroespa- lhando-se até serem detectados. O fluxo final a ser detectado no SS é maior do que no LS, de- vido à menor distância envolvida. Assim, o SS sofre um maior efeito do poço, enquanto que o LS é mais afetado pela camada em si. A contagem dos pulsos (cps) nas rochas den- sas é menor do que nas rochas porosas, mais leves, guardando uma relação inversa com ρB e direta com a porosidade φ. A Figura 8.5 mostra que 100% da informa- ção chegada ao detector perto (SS) é proveni- ente dos dez primeiros centímetros da parede do poço, enquanto que igual porcentual do de- tector longe vem dos 25 cm. Tal fato confere 146 Capítulo 8. Perfil de Densidade Figura 8.5: Porcentual da informação da den- sidade compensada com a distância da parede do poço. Adaptada de Glover, 2007. uma investigação radial pouco profunda para este perfil. A retirada do efeito do reboco está ilustrada como uma curva de compensação denominada DRHO na metade da terceira faixa (Figura 8.6). Para eliminar eventual contaminação com os raios gama naturais, muito embora tenham energias superiores ao Efeito Compton, é rea- lizada uma contagem em background para ser subtraída da resposta final. 8.5 Interpretação do Perfil de Densidade De modo análogo ao perfil Sônico, a Equação do perfil de Densidade pode ser expressa como: ρB = (1− φe)ρm + φeρf (8.8) ou φeD = ρm − ρB ρm − ρf (8.9) A densidade da matriz da rocha (ρm) é da or- dem de 2,65 (se arenito); 2,71 (se calcário); e 2,87 g/cm3 (se dolomito). Por sua vez, ρf Figura 8.6: Exemplo de perfil de Densidade Compensada. corresponde à densidade do fluido da zona in- vestigada. Usa-se, geralmente, para o filtrado doce, ρmf = 1,00 g/cm3, ou salgado, ρmf = 1,10 g/cm3. No perfil exemplo (Figura 8.6), a camada en- tre 1.661-1.673 m tem uma leitura de ρB da ordem de 2,4 g/cm3, o que calcula uma φD ≈ 15%. Qual será a φD na camada 1.775-1.780 m? O motivo, em princípio, de se usar o fluido da zona lavada reside na pequena investigação da ferramenta, conforme mostra a Figura 8.5. Assim, é bom saber, de antemão, que tanto ρf como ∆tf dependem de Sxo e não de Sw. A saturação de hidrocarboneto que influencia as leituras de ρB é, por consequência, SOR (= 1− Sxo). As leituras deste perfil, ao contrário do que ocorre noperfil Sônico, não precisam de corre- ção pela falta de compactação das rochas. Você saberia explicar por quê? Também, a exemplo do perfil Sônico deve-se manter bastante atenção ao analisar um densi- 8.5. Interpretação do Perfil de Densidade 147 dade, no que se refere às influências ambientais. 8.5.1 Efeito da Lama/Reboco O problema mais significativo a ser conside- rado nas leituras deste perfil é o provocado pela presença da lama e/ou reboco, defronte às ca- madas permeáveis. Os fótons, na saída da fonte, interagem com os elétrons da lama (e/ou reboco). Alguns dis- persam e não retornam ao poço onde estão os detectores, diminuindo a intensidade do feixe inicial, mesmo antes de penetrar nas camadas. A ideia de se eliminar este problema está fundamentada nos mesmos princípios dos per- fis elétricos: uso de diferentes espaçamentos entre sensores para a obtenção de diferentes profundidades de investigação. O perfil de Densidade Compensada tem dois detectores localizados a distâncias fixas da fonte (Figura 8.4). O SS é o mais influen- ciado pela densidade do reboco (ρmc) do que o LS, que é mais influenciado pelas rochas. Com duas leituras em diferentes profundidades e acrescida da medida da espessura do reboco com a curva do Cáliper, a ferramenta pode, internamente, realizar correções de ρB. As rochas estão caracterizadas por sua ρB e ZB (média do número atômico de seus consti- tuintes). O reboco interposto entre a fonte- rocha-detector introduz os parâmetros ρmc, Zmc e tmc (espessura do reboco). O problema maior reside no Zmc, uma vez que alguns fluidos de perfuração - principal- mente nos poços muito profundos - usam bá- rio (Z = 56), de alto coeficiente de absorção de massa. Nesses casos, o reboco se comporta como um absorvedor para os fluxos iniciais e finais do sistema (ver Equação 8.1). A solução para a minimização do efeito Zmc e tmc é a confecção de um algorítmo chamado Spine & Ribs (Figura 8.7). A ferramenta é inicialmente inserida em dois blocos metálicos (Al e Mg), padronizados, e posta a funcionar para registro das contagens nos detectores SS e LS. Como a fonte e os detectores estão direta- mente em contacto com os blocos, inexiste re- boco (tmc = 0). Traça-se, então, uma reta, in- terligando os dois pontos extremos (ρAl = 2,59 g/cm3 e ρMg = 1,71 g/cm3), em um gráfico linear em cujo eixo estão os valores das respec- tivas contagens (cps). Figura 8.7: O gráfico Spine & Ribs mostra o efeito dos rebocos leves ou pesados (Schlum- berger, 1985). Coloca-se, em seguida, entre o sistema fonte- detectores e os blocos, uma placa de borracha de densidade = 1,5g/cm3, simbolizando um re- boco. À proporção que se aumenta a espes- sura da borracha (tmc), ambas as contagens (SS e LS) também aumentam uma vez que a borracha é mais leve, ou menos densa, que o alumínio. Neste momento, cada detector mos- trará diferentes razões de crescimento no re- gistro (cps). Esta diferença (∆ρB) é a base do algorítmo de correção da leitura de ρB. É obrigatório o registro de ∆ρB para que se tenha mais um controle da qualidade de 148 Capítulo 8. Perfil de Densidade ρB (DRHO e RHOB, respectivamente, na Fi- gura 8.6). Resumindo: • Quando o reboco for mais leve do que a formação (lamas normais), a curva ∆ρB deverá mostrar valores positivos de lei- tura. • Quando o reboco for mais pesado do que a formação, ∆ρB será negativa (lamas à base de baritina são um problema à parte por causa da grande capacidade de absor- ção pelo bário). Anomalias de tais comportamentos devem ser analisadas, inclusive, como falha ferramental ou intensos desmoronamentos. 8.5.2 Efeito dos Hidrocarbonetos Na Equação 8.8, o correto seria se usar o valor real da densidade do fluido, i.e.: ρf = ρmfSxo + ρhc(1− Sxo) (8.10) o que faria com que a Equação da porosidade passasse a ser vista como: φeD = ρm − ρB ρm − (ρmfSxo + ρhc(1− Sxo)) (8.11) Adota-se, todavia, conforme discutido durante o estudo do perfil sônico, ρf sempre igual a 1,0 g/cm3 (poço perfurado com lama doce) ou 1,1 g/cm3 (poço com lama salgada). Este erro proposital decorre por não se sa- ber, antecipadamente, conforme explicado an- teriormente, qual a proporção real dos fluidos (água e/ou hidrocarbonetos) nas camadas. Vale a pena lembrar que, para se calcular Sw ou Sxo, precisa-se conhecer φ. E para se calcular φ, precisa-se saber qual a proporção dos fluidos presentes na camada. A interpretação final de φ e Sxo (ou Sw) é, portanto, um processo interativo que deve ser iniciado com este erro. Para se ter uma ideia da magnitude do efeito dos hidrocarbonetos sobre a ρB, basta atentar para os seguintes exemplos hipotéticos, realiza- dos igualmente durante o estudo do perfil Sô- nico: 1. Arenito portador de óleo com as seguin- tes características: ρhc = 0,8 g/cm3, ρm = 2,65 g/cm3, ρmf = 1,0 g/cm3, Sxo = 50% e φ = 10%. • Primeiro passo - calcular a densidade do fluido: ρf = 0,5×0,8+0,5×1,0 = 0,9 g/cm3 • Segundo passo - calcular ρB com o ρf = 0,9 g/cm3, pois este é o valor que será registrado no perfil: ρB = 0,9× 2,65 + 0,1× 0,9 = 2,475 g/cm3 Caso o intérprete use ρf = 1,0 g/cm3, ele obterá o seguinte resultado: φD = 2,65− 2,475 2,65− 1,0 = 0,106 ou 10,6% i.e., ele cometerá um erro de +6% Usando ρf = 0,9 g/cm3, conforme defi- nido acima, ele calculará o valor correto de φD = 10%, conforme a hipótese levan- tada. 2. Arenito portador de gás com as seguin- tes características: ρhc = 0,3 g/cm3, ρm = 2,65 g/cm3, ρf = 1,0 g/cm3, Sxo = 50% e φ = 10%. • Primeiro passo - calcular a densidade do fluido: ρf = 0,5×0,3+0,5×1,0 = 0,65 g/cm3 8.6. Apresentação do Perfil de Densidade 149 • Segundo passo - calcular ρB com o ρf = 0,65 g/cm3, pois este é o valor que será registrado no perfil: ρB = 0,65× 0,1 + 2,65× 0,9 = 2,45 g/cm3 Caso o intérprete use ρf = 1,0 g/cm3, ele obterá o seguinte resultado: φD = 2,65− 2,45 2,65− 1,0 = 0,1212 ou 12,12% i.e., ele comete um erro de +21,2%. Usando ρf = 0,65 g/cm3, definido acima, ele calculará o valor correto de φD = 10%, con- forme a hipótese levantada. Pelos cálculos acima, muito embora a atua- ção do perfil seja nas proximidades da parede do poço, onde predomina ρmf, caso a camada seja portadora de gás - cuja densidade é da ordem de 0,1 g/cm3 - um volume significativo dele ainda permanece na zona invadida, mesmo após a penetração do filtrado. Esta é a razão pela qual cálculos com o fluido água otimizam as porosidades do densidade. Você saberia dizer qual dos dois perfis (Sô- nico e Densidade) é o mais influenciado pela presença de gás? Já a presença de óleo (densidade da or- dem de 0,7 g/cm3) não causa tanto otimismo quanto o gás, dada a aproximação entre os va- lores das densidades do óleo e da água. De acordo com o que já foi discutido por ocasião do estudo dos efeitos dos fluidos sobre o ∆t, jamais haverá aumentos ou diminuições nas porosidades das rochas detectadas pelos perfis, mas sim, efeitos causados pela presença de gás, da argila da lama e do reboco, sobre as suas leituras, para as quais devemos estar sempre atentos. Perfis de boa qualidade, controlados por pes- quisas ou correlações com as rochas, não erram. O intérprete é que erra com a escolha de parâ- metros não realistas para usar em seus cálculos. 8.5.3 Efeito da Argilosidade Os folhelhos têm densidades altamente variá- veis em virtude de suas composições minera- lógicas - aproximadamente 60% de argilomine- rais e 40% de outros minerais. A exemplo do perfil Sônico a argila também afeta as leituras do perfil de Densidade por- quanto mais leve ou menos densa, por unidade de volume (dado o excesso de água), tenderá também a diminuir o valor de ρB. Para se corrigir tal efeito, usa-se o mesmo modelo de rocha e raciocínio lógico usado para o perfil Sônico: φeDC = φeD − VshφDsh (8.12) sendo φDsh a porosidade aparente dos folhelhos adjacentes, calculada nos mesmos moldes da φSsh. Não nos preocupemos, por enquanto, com os efeitos da presença de argila e de hidrocar- bonetos sobre as leituras dos perfis. Isso será motivo de estudo posterior. Taisefeitos serão corrigidos na interpretação quantitativa final, com o uso de dois ou três perfis de porosidade. Um fato importante acerca dos folhelhos é a compactação que ele sofre com o aumento da profundidade e da idade, tendo como con- sequência uma mudança nas suas proprieda- des. Variações bruscas na densidade e tempos de intervalos de folhelho podem indicar a pos- sibilidade de ambientes diferentes entre as for- mações acima e abaixo deles. 8.6 Apresentação do Perfil de Densidade A apresentação do perfil de Densidade Com- pensada deve vir sempre acompanhada de um Cáliper (Figura 8.6). A densidade (ρB) das ca- madas é mostrada nas segunda e terceira fai- xas, com valores crescentes da esquerda para a direita, de 2,00 até 3,00 g/cm3. Na terceira 150 Capítulo 8. Perfil de Densidade faixa, e no mesmo sentido, variando de -0,25 a +0,25 g/cm3, imprime-se ∆ρB. A curva de ∆ρB mostra o valor que foi adici- onado, pelo sistema, a ρB, de modo a eliminar os efeitos do poço (reboco e lama), conforme o item 8.5.1. Convencionou-se dizer que cor- reções menores do que 0,15 g/cm3 ou maiores do que 0,15 g/cm3, indicam leituras falhas (o equipamento realizou uma compensação exa- gerada). É necessário atentar para todos os casos desta natureza, porque eles ocorrem, princi- palmente, defronte a zonas desmoronadas ou rugosas. 8.7 Perfil Litodensidade Resulta de um sistema ampliado e aperfeiçoado das ferramentas do Densidade. O espectro radioativo registrado é dividido em duas janelas distintas: uma chamada H, de alta energia (entre 180 a 540 keV), que é usada para a detecção do efeito Compton. O número de fótons nela, como já discutido, está inversa- mente relacionado com a densidade eletrônica do meio (ρe). A segunda janela, S, de baixa energia (entre 40 a 80 keV), está inversamente relacionada com ρe e com o índice de absorção fotoelétrica, Pe. A medida desses dois efeitos é realizada nas ferramentas de Litodensidade, simultaneamente. Pela comparação das cps (razão S/H), elimi- na-se a influência de ρe no registro e pode-se determinar o índice de absorção fotoelétrica, Pe, cuja unidade é o Barn/elétron. Observa-se que ρB relaciona-se em primeiro lugar com a porosidade (φ) e secundariamente com a matriz (litologia) e os fluidos porosos. Por outro lado, Pe relaciona-se em primeiro lu- gar com a matriz (litologia) e secundariamente com a porosidade (φ) e os fluidos porosos. Foi observado, também, que Pe varia muito pouco para situações de porosidades entre 0 e 35% nos três principais tipos conhecidos de rochas. Os valores de Pe para as rochas e fluidos mais comuns são: calcita 5,084, dolomita 3,142, sí- lica 1,806, água doce 0,358, água salgada 0,807, óleo 0,119 a 0,125 e folhelhos normais 3,420. O índice fotoelétrico Pe é dado pela seguinte expressão: Pe = Z3,6 10 (8.13) Para as moléculas formadas por vários átomos, Pe é determinada pela fração atômica: Pe = ∑ AiZiPei AtZt (8.14) onde Zi é o número atômico, Ai é o massa atômica e Pei é o índice fotoelétrico de cada átomo. Zt e At representam, respectivamente, o número atômico e o peso atômico total da molécula. Foi estabelecido um parâmetro U , denomi- nado seção fotoelétrica transversal de um ma- terial qualquer, por definição: U = Peρe (8.15) A unidade de Pe é em Barn/elétron e ρe, em elétron/cm3. Assim, a unidade de U é dada em Barn/cm3. Tal fato permite expressar a seção fotoelétrica de uma rocha de um modo volumétrico, i.e.: U = (1− φ)Um + φUf (8.16) Os valores mais comuns de U (seção foto- elétrica transversal) para os diversos tipos de rochas e fluidos são: calcita 13,77, dolomita 9,00, sílica 4,79, água doce 0,40, água salgada 0,96 e óleo 0,11 a 0,12 Barn/cm3. A exemplo de ρb, Pe também sofre influên- cia do reboco. Quando o Z do reboco é menor do que o Z da formação (Zmc < ZB), a in- fluência do reboco é desprezível, porém quando Zmc > ZB, o efeito deve ser corrigido por ser 8.9. Questionário 151 expressivo. O procedimento usado para corri- gir tais efeitos é, a exemplo do perfil de den- sidade, por meio dos gráficos Spine & Ribs, específicos para o perfil Litodensidade. Os usos mais comuns deste tipo de informa- ção (Pe e/ou U) são: • Identificação de minerais, principalmente do tipo pesado e argilominerais; • Identificação de zonas de fraturas; e, • Identificação de camadas finas, uma vez que o espaçamento entre a fonte e o de- tector é menor do que na ferramenta do Densidade. Além destes usos gerais, este perfil é também útil nas interpretações avançadas, quando se usam cross plots. 8.8 Resumo do Densidade 1. Medição Densidade Detecção dos raios gama defletidos (ou re- troespalhados) pelos elétrons orbitais dos elementos componentes das rochas, após terem sido emitidos por uma fonte coli- mada, localizada em uma sapata, pressio- nada contra a parede do poço. Esta atenuação é função da densidade de elétrons (ρe) por volume do material exis- tente dentro da profundidade de investi- gação radial da ferramenta. 2. Unidade g/cm3. 3. Usos • Cálculo da Porosidade Total das ca- madas; • Determinação da litologia, quando usado em conjunto com o Sônico e/ou o Neutrônico; • Identificação de zonas de hidrocarbo- netos leves (gás e/ou condensado), quando usado em conjunto com o Neutrônico; • Cálculo das Constantes Elásticas, quando usado em conjunto com o Sô- nico; e • Cálculo do Coeficiente de Reflexão e impedância, quando usado em con- junto com o Sônico, para a confecção de sismogramas sintéticos para a sís- mica. 4. Problemas • Lama com baritina; • Argilosidade; • Matriz desconhecida; • Poços rugosos ou desmoronados além da abertura máxima dos patins. 8.9 Questionário 1. A probabilidade de ocorrência de uma in- teração radioativa (fóton - matéria) de- pende de quais fatores? 2. Dos três efeitos interativos do fóton com a matéria, qual deles é essencial ao princípio da ferramenta de Densidade? Por quê? 3. Por que os Raios Gama Naturais (U, Th e K) não são passíveis de detecção pela ferramenta do Densidade? 4. Qual a diferença entre os termos Densi- dade Eletrônica (ρe) e Densidade propria- mente dita (ρB)? 5. Quais as diferenças entre ρe, ρB e o regis- tro indicado no perfil de Densidade, para os seguintes materiais puros: quartzo, cal- cário, dolomito, halita e anidrita? 152 Referências 6. A que se deve tais diferenças observadas no item acima ? 7. Determinar a equação de calibração de uma ferramenta de Densidade dentro de um arenito silicoso saturado de água doce. 8. Qual a vantagem de se ter dois detecto- res na ferramenta do perfil de Densidade Compensada? 9. Por que se blindam os detectores do Den- sidade para valores para energia menores do que 0,488 MeV? 10. Quando uma porosidade calculada pelo Densidade (φD) deve ser aproximadamen- te igual a porosidade calculada pelo Sô- nico (φS)? 11. Para que serve o gráfico denominado Spine & Ribs? Como ele é construído? 12. Para que serve a curva de ∆ρB, acrescen- tada no perfil de Densidade Compensada? 13. Quais as densidades (ρB) registradas em um perfil de Densidade em duas camadas aquíferas, ambas mineralogicamente cons- tituídas de 33,33% de sílica, 33,33% de cal- cita e 33,33% de dolomita, sendo que uma está aos 100 m de profundidade e a outra aos 1000 m? 14. Como um arenito compacto com 20% de porosidade efetiva, portador de 50% de gás e invadido por filtrado de água doce, será mostrado em um perfil de Densidade? E no perfil Sônico? 15. Como um arenito compacto com 20% de porosidade efetiva, portador filtrado de água salgada, será mostrado em um perfil de Densidade? E no Sônico? 16. Que conclusões você tira da análise teórica realizada nos dois itens acima ? 17. Definir a equação completa para uma ca- mada com três minerais distintos, argilo- sidade e dois tipos de fluidos, também dis- tintos. 18. Quais os principais problemas operacio- nais e petrofísicos encontrados na inter- pretação do Densidade? 19. Quais os principais usos do Densidade? 20. Um arenito tem 30% de cimento dolomí- tico, 15% de porosidade e 40% de gás. Qual seráa sua leitura no Densidade? 21. Por que não se corrige a porosidade do densidade pela ausência de compactação? 22. Qual a diferença entre as curva de ρB e Pe do Perfil Litodensidade? 23. Calcular a Densidade da Matriz de um Fo- lhelho (ρmsh) que teoricamente apresenta a seguinte composição mineralógica: Composição Mineral ρm( g/cm3) % Minerais de Argila 2,65 59 Quartzo 2,65 20 Feldspatos 2,60 6 Dolomito 2,87 7 Pirita 4,99 3 Matéria Orgânica 0,85 2 Zircônio 4,51 1 Anidrita 2,98 1 Barita 4,08 1 Referências Glover, P.W.J., 2007 - Pétrophysique course notes, http://www.ggl.ulaval.ca Schlumberger Well Services, 1985 - Log In- terpretation Charts, N.Y., Schlumberger Ltd. Capítulo 9 Perfis Neutrônicos 9.1 Introdução São quatro os tipos de perfis Neutrônicos. Eles distinguem-se entre si pelo método utilizado na detecção dos nêutrons. Embora alguns deles já sejam obsoletos, o estudo de seus princípios fer- ramentais auxilia no entendimento operacional dos demais. Os nêutrons são partículas enquanto os raios gama são energia eletromagnética destituídas de carga elétrica. Sendo neutras, elas podem penetrar profundamente na matéria, intera- gindo elástica ou inelasticamente com os nú- cleos dos elementos que compõem as rochas. O perfil de Raios Gama natural (GR) con- siste no registro da radioatividade espontânea das rochas. Por sua vez, os perfis Neutrônicos medem uma radioatividade induzida artificial- mente, por meio de bombardeio das rochas com nêutrons de alta energia ou velocidade. 9.2 Propriedades dos Nêutrons A teoria atômica foi proposta por Dalton como resultado de estudos sobre as leis que gover- nam as combinações químicas. Nesta teoria, o átomo não é divisível pelos processos químicos conhecidos, preservando sua individualidade. Um átomo é eletricamente neutro, composto de um núcleo carregado positivamente - onde toda a sua massa (nêutrons e prótons) está con- centrada, e de elétrons orbitais negativos. O conceito do nêutron foi introduzido por Heisenberg (1932). A Tabela 9.1 mostra as características dos três principais componentes do átomo. O nêutron é uma partícula não ionizante, de massa igual ao hidrogênio (1H1), não existente livre na natureza, e tem meia-vida entre 10 e 30 minutos. Ele decai em: 0η 1 ⇒ 1p 1 + 1e 0 + 0η 0 + ∆E sendo ∆E a energia de diferença de massa igual a 0,75 MeV. 9.3 Fontes de Nêutrons Dois são os tipos de fontes radioativas de nêu- trons para uso nas ferramentas de perfilagem: química e reatores. 1. Uma fonte química de nêutrons resulta da junção de um material radioativo, geral- mente 88Ra226, 94Pu239 ou 95Am245, com o 4Be9. Este último elemento tem fraco poder de retenção sobre o elétron de sua camada mais externa. As partículas alfa α (2He4), produzidas pelo Ra, Pu ou Am, colidem com os nú- cleos do Be, forçando-o a expulsar um 153 154 Capítulo 9. Perfis Neutrônicos Elemento Massa (kg) Carga Elétrica (C) Elétron 9,1085× 10−31 −1,6× 10−19 Próton 1,673× 10−27 +1,6× 10−19 Nêutron 1,675× 10−27 nula Tabela 9.1: Características dos principais componentes do átomo. fluxo de nêutrons de energia variável, pre- dominantemente 4,5 MeV. Quanto maior a energia das partículas alfa, maior a ener- gia dos nêutrons expulsos. A reação é dada por: 2He4 + 4Be9 ⇒ 6C12 + 0η 1 As principais fontes químicas usadas são: • 88Ra226 ⇒ 4Be9 : Atividade = 0,3 Curies; Fluxo = 4, 5×106 nêutrons/s; Energia = 1 a 13 (média 4,5) MeV e meia-vida = 1620 anos. • 94Pu239 ⇒ 4Be9 : Atividade = 5 Cu- ries; Fluxo = 8,5 × 106 nêutrons/s; Energia = 4,5 MeV e Meia-vida = 24320 anos. • 95Am245 ⇒ 4Be9 : Atividade = 4 ou 16 Curies; Fluxo = 4 ou 10×106 nêu- trons/s; Energia = 4,5 MeV e Meia- vida = 458 anos. Estas fontes foram projetadas para a emis- são de nêutrons rápidos. Eventualmente, elas também podem emitir uma pequena sujeira de raios gama de baixa energia, sem causar, todavia, danos significativos na interpretação final do perfil. 2. Minirreatores ou miniaceleradores são ca- pazes de emitirem fluxos da ordem de 108 nêutrons/s e energia aproximada de 14 MeV. 1H2 + 1H3 ⇒ 2He4 + 0η 1 Como os nêutrons não ionizam diretamente a matéria, eles interagem com outros elementos dentro dos detectores, geralmente 5B10, 3Li6 ou 2He3, com a finalidade de produzirem partícu- las carregadas, passíveis de detecção. A interação dos nêutrons com tais elementos, ioniza internamente o detector na razão direta da energia envolvida. As cintilações produzi- das e a consequente liberação de elétrons são amplificadas por um fotomultiplicador. Os nêutrons se classificam, de acordo com seu nível energético em: • Rápido, com energia maior que 0,1 MeV; • Epitermal, com energia entre 0,1 MeV e 0,025 eV; e • Termal, quando se encontra em equilí- brio térmico com o meio ambiente, i.e., com energia cinética média na ordem de 0,025 eV a 20◦C, em um meio não absor- vedor. Os detectores de 2He4 são usados para a de- tecção de nêutrons epitermais e os de 3Li6, para os termais. Os detectores epitermais têm um revesti- mento de Cádmio (X-section = 2500 Barn) para eliminar a penetração de nêutrons ter- mais. 9.4 Interação dos Nêutrons com a Matéria Os nêutrons interagem com os núcleos dos ele- mentos componentes da matéria de três modos: 9.4. Interação dos Nêutrons com a Matéria 155 • Absorção, captura ou ainda reação - acom- panhada de emissão imediata de prótons ou partículas alfa; • Espalhamento elástico - o nêutron muda de direção e transfere parte de sua energia cinética para o núcleo atingido; e • Espalhamento inelástico - a energia ci- nética não é conservada porque o núcleo atingido é deixado em estado excitado. Muito embora os nêutrons que sofreram es- palhamento inelástico possam apresentar gran- des perdas de energia, eles constituem uma po- pulação relativamente pequena quando compa- rada a dos nêutrons de baixa energia. A probabilidade de ocorrência de cada uma destas interações depende do nível de energia do nêutron incidente e da natureza do núcleo envolvido no choque. Por outro lado, a velocidade com que uma reação nuclear se desenvolve, em um determi- nado material, depende do número e da ener- gia do nêutron incidente e do número e tipo do núcleo envolvido. A variável que controla essa velocidade, em função dos parâmetros acima, é conhecida como seção eficaz (nuclear cross section). E- xistem dois tipos de seções eficazes: de espa- lhamento (ou amortecimento) e de captura. A seção eficaz (µ) para uma dada reação é regida pela expressão: µ = ( l NI )( dl dx ) (9.1) onde µ = Barn (= 10−24 cm2); dl/l = mudança na intensidade do feixe de nêutrons; I = in- tensidade do feixe de nêutrons (nêutrons/cm2); N = número de núcleos/cm2 do alvo e dx = espessura do alvo. Um nêutron tem uma vida relativamente curta. Considera-se como início de sua exis- tência o instante em que ele sai da fonte como um nêutron rápido. E sua morte, como sendo o momento em que ele é absorvido ou capturado por um núcleo do meio. Ao longo da trajetória fonte - captura, um nêutron passa pelas seguin- tes fases: colisão, amortecimento, termalização e captura ou absorção. 9.4.1 Colisão A mecânica clássica descreve os choques en- tre os nêutrons e os núcleos em repouso como semelhantes àqueles entre partículas dotadas de energia. Após o choque, o nêutron adquire uma nova trajetória diferente da original, se- gundo um ângulo definido. O núcleo atingido, por sua vez, recebe parte da energia cinética do nêutron incidente e afasta-se de sua direção original com um ângulo, também definido. A relação entre ângulos e a velocidade de ambas as partículas, após a colisão, é determi- nada pela lei da conservação da energia e do momento linear. Uma vez que o núcleo se encontra em re- pouso e adquire movimento como resultado do choque, a lei da conservação da energia de- monstra que a energia inicial do nêutron é re- duzida de uma quantidade exatamente igual à transferida para o núcleo. Em cada choque, o nêutron perde parte de sua energia (ou veloci- dade), anterior ao choque. A perda relativa deenergia sofrida pelo nêu- tron depende de sua energia inicial, do ângulo de choque e da massa do núcleo atingido. Na realidade, não se está interessado na dis- tribuição angular dos nêutrons defletidos, mas sim na probabilidade de que, após cada coli- são, a energia do nêutron permaneça dentro de um certo intervalo energético, abaixo daquele inicial. Demonstra-se que esta probabilidade é cons- tante para qualquer nível de energia, dentro de um limite inferior, que é determinado pela massa do núcleo atingido. 156 Capítulo 9. Perfis Neutrônicos Em um choque com o elemento cálcio, por exemplo, um nêutron não pode perder mais do que 9,5% de sua energia inicial. No caso do hidrogênio, a perda de energia é da ordem de 100%. Isto se deve ao fato de o núcleo do hidro- gênio (1 próton) ter massa igual à do nêutron. A perda máxima de energia (PME), obser- vada em cada choque, aumenta à proporção que diminui a massa atômica (M) do elemento envolvido no processo. Ela é dada pela relação: PME = 4M (1 +M)2 (9.2) Alguns elementos conhecidos têm as seguintes PME: H1 = 100%, C12 = 28%, O16 = 22%, Si28 = 13% e Pb207 = 2%. É importante acrescentar que, nos choques entre nêutrons e núcleos, os nêutrons não são influenciados pelas combinações químicas dos elementos do meio. Na realidade, os nêutrons comportam-se co- mo se estivessem em um meio constituído de bolas de vários tamanhos e massas, de tal forma que as bolas de hidrogênio são as que mais influenciam no espalhamento e na perda de energia, independentemente do local onde elas estejam alojadas: nas moléculas de óleo, do gás, da água porosa, da água adsorvida aos argilominerais, ou ainda, nas águas de cristali- zação, como no caso da gipsita (CaSO4.2H2O), etc. Além das colisões tipicamente elásticas entre os nêutrons e os átomos, ocorrem ainda colisões do tipo inelásticas de importância secundária. Para compreender esse tipo de colisão, deve- se abandonar temporariamente o modelo do núcleo-bola, mas sim levar em consideração um conjunto de bolas (exceto o hidrogênio), inter- ligadas por molas (forças eletrostáticas). Para tais conjuntos, as colisões deslocam os núcleos para um lado, porém vibrações adicionais são induzidas no todo. Nestes casos, o nêutron, além de perder uma parte de sua energia ini- cial (que se converte em excitação interna do núcleo em forma de calor), uma outra parte da energia desloca o centro de massa do conjunto. É demonstrado na física clássica que esse tipo de colisão é como o entre bolas de plástico: parte da energia cinética do elemento incidente aquece o elemento atingido, enquanto parte o desloca. A energia mecânica do sistema não é totalmente conservada. A probabilidade de choques entre um nêu- tron e um núcleo do meio é diretamente pro- porcional ao número de núcleos por unidade de volume (densidade de núcleos). Uma outra particularidade, envolvida nos processos das colisões nucleares, é dada pela maneira com que o nêutron, individualmente, vê os núcleos durante a sua trajetória através da matéria. Diferentes núcleos têm diferentes aparências para os nêutrons. Esta aparência, já referida como seção efi- caz (nuclear cross section), pode ser de dois tipos: de espalhamento ou de captura. Nú- cleos de elevada seção eficaz têm mais chances de interagir com os nêutrons do que aqueles de pequena seção eficaz. Estudos demonstram que as primeiras chan- ces preferenciais de colisão ocorrerão com os núcleos de oxigênio e hidrogênio, em propor- ções aproximadamente iguais. À medida em que a energia dos nêutrons vai diminuindo, de- vido aos choques sucessivos, as chances relati- vas ao hidrogênio ainda prevalecem. Caso ra- ciocinemos em relação a porosidades cada vez maiores, a densidade dos núcleos de hidrogênio aumenta cada vez mais em relação ao oxigênio e ao silício. 9.4.2 Amortecimento ou Espalhamento Dois são os fatores relevantes no amorteci- mento energético dos nêutrons rápidos: um de- les é a perda de energia sofrida pelo nêutron em choques com os núcleos de uma dada espécie. 9.4. Interação dos Nêutrons com a Matéria 157 O outro, é a probabilidade do nêutron entrar realmente em colisão com os mesmos. A grandeza que nos interessa medir como representativa deste processo é uma combina- ção dos dois fatores, denominada slowing-down power (S), expressa como: S = nσx∆x (9.3) onde nσx é o produto da densidade (quanti- dade/volume) vezes a seção eficaz de um ele- mento x e ∆x, e corresponde a perda média de energia por centímetro de trajetória do nêu- tron, provocada pelo elemento x, observada durante a colisão. Caso se tenha uma mistura de dois ou mais elementos, um dos quais apresenta uma grande PME por colisão, o efeito total deste elemento poderá ser pequeno, desde que o produto de suas concentrações vezes suas respectivas se- ções eficazes também seja pequeno. A Tabela 9.2 mostra seções de espalhamento e captura de alguns elementos comuns das ro- chas sedimentares, e valores calculados do nú- mero de choques necessários para provocar a termalização de um nêutron rápido. Observa-se na Tabela 9.2 a influência mar- cante do hidrogênio no espalhamento dos nêu- trons, bem superior à do oxigênio e a do silício. Torna-se óbvio que à proporção que a densi- dade do hidrogênio (nσH) aumenta, com o au- mento da porosidade da rocha (lembrar que os poros estão cheios de hidrogênio), os outros ele- mentos se tornam cada vez menos significantes, não devendo, todavia, ser ignorados. No que se refere aos choques e amortecimen- tos dos nêutrons, configura-se que tal tarefa é realizada preferencialmente pelos núcleos de hi- drogênio. Esta é a razão principal pela qual se fala (quando o assunto é perfil Neutrônico) do índice de hidrogênio (HI) no lugar da porosi- dade. O índice de hidrogênio (HI) pode ser definido como sendo a quantidade de hidrogênio (livre, adsorvido, cristalizado, etc.) por unidade de volume. Alternativamente, o HI pode ser ca- librado em valores de porosidade, usando-se uma rocha padrão de laboratório de porosidade conhecida (com pouco ou nenhum hidrogênio) e totalmente saturada com água. Ao se bombardear uma rocha com um feixe monoenergético de nêutrons, várias colisões poderão ocorrer. A primeira trajetória livre sempre é longa, porque em altos níveis de ener- gia, a probabilidade de colisão, por unidade de percurso, é bastante pequena. O efeito fi- nal mostra que a distância média entre suces- sivas colisões diminui proporcionalmente com a energia cinética. Após cada colisão, o nêutron se dispersa ale- atoriamente, afastando-se da fonte. Em um dado tempo, o nêutron que tiver participado de vários choques sucessivos atingirá um afas- tamento tal que será bem menor do que outro nêutron que tenha tido um menor número de choques, ou então, que não tenha sofrido cho- que algum. Desta forma, cada nêutron realiza diferentes trajetórias em redor da fonte, não atingindo as mesmas distâncias até a captura, quer em tempo ou em números de colisões, muito em- bora possam apresentar os mesmos níveis ener- géticos. Após suficientes choques de amortecimentos (ver Tabela 9.2), os nêutrons estarão distribuí- dos nas rochas em zonas concêntricas, a partir da fonte e, provavelmente, todos com o mesmo nível energético, conforme ilustra a Figura 9.1. A zona mais afastada da fonte contém nêu- trons denominados termais, cuja energia mé- dia é da ordem de 0,025 eV, que é a energia que teria um gás de nêutrons à temperatura das rochas circunvizinhas, a partir da qual os nêutrons serão, finalmente, capturados ou ab- sorvidos. A aplicação imediata do zoneamento energé- tico dos nêutrons, no espaço ao redor de uma 158 Capítulo 9. Perfis Neutrônicos Z Símbolo Seção Eficaz Espalhamento (Barn) Seção Eficaz Captura (Barn) No de choques para reduzir de 2 MeV para 0,025 eV 1 H 20,0 0,3 18 4 Be 6,1 0,009 87 5 B 3,0 700,0 105 6 C 4,8 0,0032 115 7 N 10,0 1,89 130 8 O 4,1 0,002 150 11 Na 3,5 0,505 215 12 Mg 3,6 0,4 227 13 Al 1,5 0,23 251 14 Si 1,7 0,13 261 16 S 1,5 0,53 297 17 Cl 10,0 31,6 329 19 K 1,5 2,2 362 20 Ca 9,50,43 371 26 Fe 11,0 2,5 514 48 Cd 5,3 2.500 1.028 56 Ba 8,0 1,25 1.252 Tabela 9.2: Interação dos nêutrons com alguns elementos das rochas, de acordo com a sua secção eficaz de espalhamento e captura. Adaptada da Schlumberger, 1973. Figura 9.1: Zoneamento energético dos nêu- trons após a saída de uma fonte omnidirecio- nal. fonte, na confecção de ferramentas neutrônicas conforme mostra a Figura 9.1, é relativamente simples. A velocidade de um nêutron termal de uma unidade de massa será de 0,22 cm/µs. Se rápido, emitido por uma fonte de 2,5 MeV, será de 2,236 cm/µs (v = (2E/m)1/2). A distância Fonte-Detector é escolhida de acordo com o nível energético que se deseja registrar. Assim, para capturar nêutrons de nível energético rápido, o detector deve estar localizado próximo à fonte. Por outro lado, desejando-se capturar nêutrons de baixa ener- gia, deve-se posicionar o detector o mais longe possível da fonte. Um pequeno problema de interpretação de- correrá com o aumento da distância, uma vez que, quanto mais afastados da fonte mais os nêutrons são amortecidos (ou absorvidos), por outros elementos constituintes das rochas bom- bardeadas (Ca, Mg, Si) e não o somente pelo hidrogênio. É o denominado efeito matricial sobre a resposta dos perfis neutrônicos. 9.4. Interação dos Nêutrons com a Matéria 159 9.4.3 Termalização Tendo os nêutrons adquirido um nível ener- gético igual ao do meio ambiente (0,025 eV), ocasionados por choques sucessivos com os vá- rios elementos do meio, eles ainda continuam em processo de colisão, cada vez mais se afas- tando da fonte, porém, sem maiores mudanças energéticas. A característica fundamental da fase de ter- malização está na invariabilidade energética e nas pequenas distâncias percorridas entre cho- ques. Uma vez que a fonte emite continuamente nêutrons, a população dos nêutrons rápidos es- tará sempre em crescimento, bem como a dos termais (etapa final da vida dos nêutrons). Na realidade, é estabelecido um equilíbrio em virtude dos núcleos absorverem ou captu- rarem os nêutrons termais, além de dispersá- los naturalmente. Este equilíbrio é atingido quando o número total de nêutrons, captura- dos por segundo pelos elementos das rochas, se torna igual ao número de nêutrons rápidos emitidos pela fonte em igual tempo. Tal situ- ação é atingida durante a perfilagem enquanto a fonte se desloca no poço. O não prosseguimento do bombardeio deixa no local um número finito de nêutrons em con- tínuo processo de interação, durante um certo período de tempo. Esta é a razão pela qual esta ferramenta deve ser a última, de princípio radioativo, a ser usada durante uma operação de perfilagem de poço. 9.4.4 Captura (ou Absorção) O processo de captura de nêutrons termaliza- dos se dá pela incorporação do mesmo a um nú- cleo, não necessariamente de hidrogênio, mas de qualquer um outro do meio. Pequena porção da massa do nêutron con- verte-se em energia adicional para o núcleo, de acordo com Einstein, a qual se manifesta por uma excitação (ou vibração) de todo ele, a exemplo de nosso conjunto bolas + molas. Esta excitação dura um tempo relativamente curto, podendo ser considerado nulo, quando então ocorre a liberação de energia em forma de um raio gama de captura. A liberação dos raios gama de captura, em termos de nível energético e quantidade, de- pende de cada elemento envolvido na colisão, porquanto cada um deles tem o seu próprio espectro de emissão, distinto dos demais (Ta- bela 9.3). Os raios gama de captura deixam a fonte e atravessam as rochas com a velocidade da luz, até serem absorvidos por meio do efeito fotoelétrico. Caso se disponha de um detector localizado dentro da zona de termalização, ele mostrará uma contagem de raios gama proporcional ao número de nêutrons termais espalhados na sua vizinhança. Raios gama de captura produzidos a uma grande distância dos detectores, além da zona termal, serão absorvidos fotoeletricamente pe- las rochas e não participarão da contagem final Z Símbolo Energia emitida pelo gama de captura (MeV) 1 H 2,23 6 C 4,05 - 4,95 8 O 6,09 12 Mg 3,92 - 8,16 13 Al 3,02 - 7,72 14 Si 4,95 - 6,4 16 S 4,84 - 5,43 17 Cl 7,42 - 7,77 20 Ca 5,89 - 6,42 Tabela 9.3: Espectro de emissão dos raios gama de captura para alguns elementos das ro- chas (Schlumberger, 1973). 160 Capítulo 9. Perfis Neutrônicos de um detector de nível termal. Existem, todavia, diferenças de nível ener- gético entre os raios gama naturais e os raios gama induzidos pelo processo de bombardea- mento de nêutrons (ou raios gama de captura). Os raios gama naturais têm energia da or- dem de 2,0 MeV (K40 = 1,46 MeV), enquanto que os induzidos por esse processo variam entre 2 e 8 MeV (Tabela 9.3). Esta variação energética apresentada pelos diferentes componentes das rochas sedimenta- res deu origem a um outro tipo de perfil de poço denominado perfil de Raios Gama de Es- pectrometria Induzida, cujo uso principal está na possibilidade de uma determinação mais precisa da litologia, em função da principal composição química das mesmas. Figura 9.2: A diminuição da concentração de nêutrons termais independe da porosidade da rocha. Adaptada de Ellis (1987). Observando-se a Figura 9.2, um detector lo- calizado próximo da fonte, dentro da zona S, mostra que as rochas com altas porosidades apresentam uma maior contagem. À propor- ção em que o afastamos da fonte, ainda na zona S, ocorre uma diminuição na contagem do de- tector para todos os valores de porosidade. Além da diminuição da contagem, a resolu- ção em termos de porosidade também diminui. Isto ocorre porque as curvas de porosidade con- vergem para uma zona de indefinição (I), fa- zendo com que o equipamento se torne cada vez menos sensível às variações de porosidade. Afastando-se mais ainda o detector, para dentro da zona L, verifica-se que a população de nêutrons termais diminui com o aumento da porosidade. Como consequência, este pro- cedimento melhora a resolução da ferramenta nas baixas porosidades, onde as contagens são, também, normalmente baixas. O resultado prático destas noções é que a es- colha da distância fonte-detector deve ser ade- quada para a resolução da porosidade, em fun- ção de uma melhor contagem. 9.4.5 Absorvedores de Nêutrons Termais Durante a existência de um nêutron dentro das rochas, verifica-se que população termal é fun- ção das fases de amortecimento e termaliza- ção. Assim, qualquer elemento do meio que afete uma destas duas fases, afeta, também, a distribuição espacial final dos nêutrons e, con- sequentemente, o índice de hidrogênio ou a po- rosidade calculada pelo perfil. É sabido que o poder de amortecimento de uma rocha é exercido, preferencialmente, pelo elemento hidrogênio. Por outro lado, a fase de termalização pode ser afetada pela presença de elementos absorvedores que compõem a matriz da rocha e pela concentração de elementos com maiores probabilidades de capturar nêutrons termais (ver na Tabela 9.2, os elementos Cd, B, Cl e Ba). Na prática, a concentração destes elementos de alto poder de captura é mínima, principal- mente quando se trata de rochas com porosi- dades maiores do que 10-15%. Em baixas po- rosidades, quando a maioria dos absorvedores é constituída pelos elementos matriciais (por escassez do próprio hidrogênio), as diferenças 9.5. Princípio das Ferramentas Neutrônicas 161 entre arenitos (Si) e carbonatos (Ca, Mg) po- dem ser significativas. Um dos elementos absorvedores de grande importância neste aspecto é o cloro. Átomo por átomo, o cloro é cerca de 100 vezes mais absorvedor do que o próprio hidrogênio, de modo que sua presença nas águas porosas, ou na lama, pode reduzir a população de nêutrons termais. Convém lembrar que a água usada na lama dos poços de petróleo tem sempre uma razoável concentração de NaCl. Além do mais as águas das formações, em profundidade, são predomi- nantemente constituídas por este mesmo tipo de sal. A presença de absorvedores menores (Ca, Mg, etc.) nas rochas proporciona um efeito de importância vital na interpretação