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A PROBLEMÁTICA DO ENSINO DE RELIGIÃO DE MATRIZ AFRICANA NO BRASIL 
Joseilton Castro do Carmo
1. INTRODUÇÃO 
O Brasil, país famoso por sua diversidade cultural e étnica, abriga uma grande variedade de expressões religiosas que não apenas destacam a riqueza de sua herança histórica, mas também evidenciam as complexidades de sua formação social. Entre essas expressões religiosas, as religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, desempenham um papel fundamental na vida espiritual e cultural de milhões de brasileiros. Apesar de sua importância, essas religiões têm enfrentado desafios significativos no que diz respeito ao seu reconhecimento e valorização no sistema educacional brasileiro.
A história das religiões de matriz africana no Brasil é profundamente marcada pela herança da escravidão e pelo processo de aculturação forçada imposto aos africanos trazidos para o país. Ao longo dos séculos, essas práticas religiosas foram marginalizadas e perseguidas tanto pelas autoridades coloniais quanto pela sociedade brasileira após a abolição da escravatura. A visão predominante da religiosidade afro-brasileira como algo "primitivo", "supersticioso" ou até mesmo "diabólico" foi internalizada e perpetuada ao longo dos anos, resultando em um estigma persistente que afeta tanto a compreensão pública quanto a educação formal.
A promulgação da Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas, representou um avanço significativo no reconhecimento das contribuições culturais e históricas dos africanos e seus descendentes no Brasil. No entanto, a implementação efetiva dessa legislação tem sido desigual e frequentemente enfrenta resistências, especialmente quando se trata de incluir o estudo das religiões de matriz africana. A falta de materiais didáticos apropriados, a formação insuficiente dos professores e os preconceitos arraigados são alguns dos desafios que limitam a inclusão e a representatividade dessas religiões nos currículos escolares.
Neste contexto, este estudo tem como objetivo explorar os principais aspectos da problemática do ensino das religiões de matriz africana no Brasil. Serão abordados os desafios enfrentados, as resistências encontradas e as estratégias possíveis para promover uma educação mais inclusiva e respeitosa da diversidade religiosa e cultural do país. Por meio de uma análise crítica e reflexiva, busca-se contribuir para um debate necessário sobre como superar obstáculos históricos e contemporâneos para garantir o reconhecimento pleno das religiões afro-brasileiras no ambiente educacional brasileiro.
2. DESENVOLVIMENTO
As religiões de matriz africana no Brasil enfrentam diversos desafios estruturais e culturais que afetam diretamente sua presença e valorização no ambiente educacional do país. Essas crenças, como o Candomblé, a Umbanda e outras manifestações espirituais afro-brasileiras, são fundamentais não apenas como sistemas de fé e rituais, mas também como elementos essenciais da identidade cultural e espiritual de milhões de brasileiros, especialmente aqueles de ascendência africana. No entanto, ao longo da história, essas religiões têm sido marginalizadas, discriminadas e até criminalizadas, refletindo um profundo racismo estrutural que permeia várias camadas da sociedade brasileira, incluindo o sistema educacional.
2.1. Contexto Histórico e Cultural
Para entender os desafios atuais enfrentados pelas religiões de matriz africana no Brasil, é crucial examinar o contexto histórico desde os tempos da escravidão. Durante séculos, os africanos trazidos para o Brasil foram submetidos a um brutal processo de despojamento cultural, no qual suas línguas, tradições religiosas e sistemas de conhecimento foram suprimidos em favor da imposição da cultura dominante europeia. Esse processo de aculturação forçada não apenas serviu para controlar a população escrava, mas também para eliminar qualquer forma de resistência cultural que pudesse desafiar a ordem colonial vigente.
As religiões de matriz africana, com seus rituais, devoção aos ancestrais e vínculos espirituais com a natureza, foram alvo de perseguição intensa pelas autoridades coloniais e, mais tarde, pelas elites brasileiras após a abolição da escravidão. Rotuladas como "supersticiosas" ou "primitivas", essas religiões foram sistematicamente marginalizadas, e seus praticantes frequentemente estigmatizados e criminalizados pela sociedade dominante.
2.2. Marco Legal e Progressos na Educação
A luta pelo reconhecimento e valorização das religiões de matriz africana no Brasil alcançou um marco importante com a Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o estudo da História e Cultura Afro-Brasileira no currículo escolar. Esta legislação representou um avanço significativo para corrigir distorções históricas e promover a valorização das contribuições culturais e históricas dos africanos e seus descendentes no Brasil.
Apesar dos avanços legais, a aplicação efetiva desta lei enfrenta desafios consideráveis. Muitas escolas brasileiras ainda negligenciam o ensino das religiões de matriz africana ou abordam o tema de maneira superficial e estereotipada. A falta de materiais didáticos apropriados, resistência por parte de alguns professores e gestores escolares, e o desconhecimento sobre essas tradições religiosas são obstáculos que comprometem a eficácia da Lei 10.639/2003.
2.3. Resistências e Estigmas
A resistência ao ensino das religiões de matriz africana também reflete preconceitos enraizados na sociedade brasileira. A visão estereotipada e pejorativa dessas religiões como "bruxaria", "magia negra" ou práticas inferiores persiste em muitos setores da população, inclusive na comunidade educacional. Esse estigma não apenas deslegitima as religiões afro-brasileiras, mas também perpetua um ciclo de discriminação que afeta negativamente a autoestima e a identidade cultural dos praticantes dessas religiões.
2.4. Educação Inclusiva e Formação de Professores
A formação inicial e contínua dos professores desempenha um papel crucial na promoção de uma educação inclusiva e respeitosa da diversidade religiosa e cultural do Brasil. Infelizmente, muitos educadores não recebem a preparação adequada para abordar de maneira sensível e informada as religiões de matriz africana em sala de aula. A falta de conhecimento sobre essas tradições religiosas contribui para a perpetuação de estereótipos e dificulta o reconhecimento da importância cultural e espiritual das mesmas.
2.5. Desafios e Futuro
Para superar os desafios identificados, é essencial promover iniciativas que visem a capacitação dos professores, o desenvolvimento de materiais educacionais inclusivos e o fortalecimento das políticas públicas voltadas para a promoção da diversidade religiosa no ambiente escolar. É fundamental estimular o diálogo intercultural e inter-religioso, fomentando o respeito mútuo e a valorização das diferentes manifestações religiosas presentes na sociedade brasileira.
3. CONCLUSÃO 
A questão do ensino das religiões de matriz africana no Brasil se apresenta como um desafio multifacetado, entrelaçado por questões históricas, culturais, educacionais e sociais profundamente enraizadas na sociedade brasileira. Este trabalho explorou como religiões como o Candomblé e a Umbanda enfrentam resistências e estereótipos que frequentemente as marginalizam e deslegitimam dentro do sistema educacional.
Desde os tempos da escravidão, as religiões afro-brasileiras foram alvos de repressão e tentativas de erradicação, refletindo um padrão de discriminação estrutural que persiste até hoje. A imposição de uma visão eurocêntrica e a desvalorização das culturas africanas contribuíram para a invisibilidade das contribuições históricas e culturais dos povos africanos e afrodescendentes para a formação da identidade nacional brasileira.
A Lei 10.639/2003 representou um avanço significativo ao incluir o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira no currículo escolar. Contudo, a implementação efetiva dessa legislação tem enfrentado obstáculos,como a carência de materiais didáticos apropriados, a resistência de alguns educadores e gestores escolares, e a perpetuação de estereótipos negativos sobre as religiões de matriz africana.
A formação dos professores emerge como um ponto crucial para superar esses desafios. É imperativo investir na capacitação dos educadores para que possam abordar as religiões afro-brasileiras de maneira respeitosa, sensível e informada em sala de aula. Além disso, é necessário desenvolver políticas públicas que garantam o acesso igualitário ao conhecimento sobre essas religiões e promovam o respeito à diversidade religiosa e cultural entre os estudantes.
Para o futuro, é essencial promover o diálogo intercultural e inter-religioso, criando espaços de convivência e aprendizado que valorizem a pluralidade religiosa presente na sociedade brasileira. A inclusão das religiões de matriz africana no contexto educacional não apenas fortalece o combate ao racismo e à intolerância religiosa, mas também enriquece a educação ao proporcionar uma compreensão mais abrangente e inclusiva da história e identidade brasileiras.
Em resumo, a valorização das religiões de matriz africana no Brasil vai além do reconhecimento de suas práticas rituais e crenças espirituais; constitui um imperativo para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e respeitosa das diversas manifestações culturais que a compõem.
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
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Oliveira, R. G. de. (2016). A história que não é contada: apontamentos sobre a presença e a invisibilidade dos negros na sociedade brasileira. Revista da ABPN, 10(Ed. Especial - Caderno Temático: História e Cultura Africana e Afro-brasileira – Lei 10.639/03 na escola), 39-64. DOI: 10.31418/2177-2770.2018.v10.n00.p39-64
Vidal, D. (2015). História, monumentos e a presença do negro na formação das cidades históricas do Brasil. In R. F. S. Lima, R. A. de S. Santos, & J. M. C. Santos (Orgs.), História e cultura afro-brasileira e africana na escola: a Lei 10.639/2003 em debate (pp. 81-96). ABPN.
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