Prévia do material em texto
Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Clínica Médica CLÍNICA MÉDICA ARRITMIAS, SÍNCOPE E PCR Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR ÍNDICE 5 8 8 9 12 15 19 19 34 62 66 80 80 83 INTRODUÇÃO PARTE 1: TAQUIARRITMIAS - DEFINIÇÃO E CLASSIFICAÇÃO - FISIOPATOLOGIA - MANEJO INICIAL NA EMERGÊNCIA - EXTRASSÍSTOLES - TAQUICARDIA SINUSAL - TAQUICARDIAS SUPRAVENTRICULARES (TSV) - FIBRILAÇÃO ATRIAL - FLUTTER ATRIAL - TAQUICARDIAS VENTRICULARES PARTE 2: BRADIARRITMIAS - FISIOPATOLOGIA - CLASSIFICAÇÃO CM 2 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR 113 133 134 135 137 139 142 143 144 145 149 149 157 158 172 187 - INVESTIGAÇÃO E MANEJO PARTE 3: SÍNCOPE - DEFINIÇÃO E EPIDEMIOLOGIA - CAUSAS E CLASSIFICAÇÃO - SÍNCOPE NEUROMEDIADA OU SÍNCOPE REFLEXA - HIPOTENSÃO ORTOSTÁTICA - SÍNCOPE CARDÍACA - SÍNCOPE NEUROLÓGICA - SÍNCOPE PSICOGÊNICA - INVESTIGAÇÃO PARTE 4: PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA E MORTE SÚBITA - RITMOS DA PCR - CADEIA DE VIDA - SUPORTE BÁSICO DE VIDA (BLS - BASIC LIFE SUPPORT) - SUPORTE AVANÇADO DE VIDA (Advanced Cardiovascular Life Support) - INVESTIGAÇÃO DAS CAUSAS DE PCR CM 3 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR 189 192 192 194 - CUIDADOS PÓS-PCR - AVALIAÇÃO DO PROGNÓSTICO CONCLUSÃO Bibliografia CM 4 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR INTRODUÇÃO Fala, pessoal, tudo bem com vocês? Prontos para iniciarmos os estudos de alguns dos assuntos mais importantes da Cardiologia? Sejam bem-vindos e bem-vindas à nossa apostila de “Arritmias, Síncope e PCR”. Só pelo nome imaginamos que vocês já saibam que temos muito assunto para conversar aqui, não é? Por isso mesmo, por ser um foco tão abrangente dentro da Cardiologia, vamos começar alinhando nossas expectativas! Isso porque não vamos conseguir falar de todos os detalhes dentro de cada um dos grandes assuntos abordados aqui: Taquiarritmias, Bradiarritmias, Síncope e Parada Cardiorrespiratória. E essa não é nem nossa intenção! Vamos focar aqui no que realmente é cobrado de vocês nas provas de vocês, fechou? Portanto, não fiquem ansiosos e não se prendam a detalhes! Dito isso, vamos começar dizendo o que é imprescindível que vocês saiam sabendo dessa apostila: Reconhecer os padrões eletrocardiográficos das principais arritmias que veremos aqui: destaque para fibrilação atrial, taquicardia supraventricular (TSV) e Torsades de Pointes. Saber o manejo do paciente que chega com taqui/bradi estável x instável na emergência. Manejo inicial da síncope (como descartar que a causa é cardíaca) e hipotensão postural. 1. 2. 3. CM 5 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Algoritmo do ACLS: foco em TV/FV e em como garantir compressões eficazes (inclusive utilizando capnografia). Bom, dentro das quatro grandes partes dessa apostila, Taquiarritmias é o assunto que mais é cobrado de vocês! Na verdade, esse assunto não cai, DESPENCA! E, na prova, é relativamente simples se vocês souberem jogar com as questões e não travarem na interpretação do eletrocardiograma. “Ah é? Simples assim?”... É, sabemos que não é tão simples. Mas, não se preocupem, vamos juntos! Bom, se tivermos que escolher um único assunto dentro das Taquiarritmias para saber, vamos focar em Fibrilação Atrial (FA)! É importantíssimo que vocês saibam, além de como reconhecer esse ritmo, como conduzir um caso de FA no PS e no ambulatório bem como entender como optaremos ou não pela anticoagulação nesses casos. Depois disso, nosso foco deve ser nas taquicardias supraventriculares: um grupo de arritmias que engloba vários subtipos dentro dele! O que elas têm em comum? Todas têm origem acima do nó atrioventricular! Elas são estudadas juntas porque, de modo geral, têm o mesmo manejo inicial (que veremos mais à frente). Dentre todas, o foco será na taquicardia supraventricular por reentrada nodal (TRN). Mas, aqui, prestem atenção: por mais que seja nosso foco, o que é mais cobrado de vocês nessa parte é justamente o que falamos lá em cima - qual deve ser nossa conduta frente a um paciente com taquicardia de QRS estreito e (ins)estabilidade hemodinâmica? Sim! É isso mesmo: antes de se desesperarem tentando entender detalhes fisiopatológicos, foquem em saber o máximo e os detalhes das condutas a serem tomadas! Por fim, no contexto epidemiológico recente da pandemia de COVID-19, também é importante saber bem sobre Torsades de Pointes - uma taquicardia ventricular que ficou muito "em alta" devido ao uso de drogas prolongadoras do intervalo QT (azitromicina, hidroxicloroquina etc.). 4. CM 6 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Bom, conversamos sobre as taquiarritmias e agora está na hora de desacelerar um pouco, com perdão pelo trocadilho. As Bradiarritmias são um território relativamente pouco explorado pelos concursos. Mas, por ser um tema importante na prática médica diária, pode ser abordado pelas bancas. É aquele tema clássico que “todo mundo sabe”, então, “se eu não souber, estou em desvantagem…”, por isso, não saber, não é uma opção! Via de regra, as questões se baseiam em pacientes com tontura e/ou síncope e colocam um ECG para dar o diagnóstico (especialmente BAVT e BAV de segundo grau Mobitz tipo 2 - calma, já já vamos ensinar esses conceitos). Eventualmente, as instituições também cobram a causa (geralmente medicamentosa, como medicações bradicardizantes) e a conduta, em que a Atropina costuma reinar, mas também precisamos saber as indicações da necessidade de marca-passo. E, de novo, como dito lá em cima: o esquema é sabermos a conduta das Arritmias no pronto-socorro! E, já que falamos em Síncope: quem faz plantão em pronto-socorro (PS), com certeza já se deparou com a queixa de perda transitória da consciência. Na verdade, a síncope perfaz cerca de 3% de todas as visitas do PS. Se um de vocês disser que não, favor indicar esse local de plantão para os coleguinhas, pois só pode ser um lugar “RR” (repouso remunerado). Ou essa pessoa faz um plantão a cada passagem do cometa Halley - respeitamos, cada um com sua superstição! Enfim, galerinha! A missão aqui é, além de acertar as questões na prova - o principal, ajudar um pouco em como separar as síncopes que precisam de internação e em como prosseguir na investigação. O foco aqui é nas situações de risco que envolvem síncope! CM 7 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Por fim, não podemos fechar essa apostila sem falar da Parada Cardiorrespiratória, não é mesmo? Tema importantíssimo tanto para a vida como para as provas (prática e teórica). E aqui, como não poderia ser diferente, o foco é no algoritmo do ACLS, fechou? Não tem muito segredo! Bom, sem mais delongas, bora lá, começando por Taquiarritmias! PARTE 1: TAQUIARRITMIAS DEFINIÇÃO E CLASSIFICAÇÃO Taquiarritmia é a presença de uma arritmia com uma frequência cardíaca > 100 bpm. Podem ser subdivididas quanto a sua origem em supraventriculares (em que o foco encontra-se nos átrios) ou ventriculares (em que o foco encontra-se nos ventrículos). Perceba que o que as diferencia é justamente o nó atrioventricular. De forma prática, podemos dividi-las pelo complexo QRS: QRS < 120 ms (estreito) = supraventriculares (acima do feixe de His). QRS ≥ 120 ms = dúvida! Mas cerca de 80% das vezes são ventriculares (abaixo do Feixe de His). • • CM 8 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Como assim “dúvida?”. Diante de uma taquiarritmia de QRS largo, cerca de 81% é taquicardia ventricular (TV). Mas, em 14% dos casos, teremos arritmias supraventriculares. Acontece que nessas situações o paciente possui algum grau de Bloqueio de Ramo e, assim, o estímulo elétricoconduzido para os ventrículos gera um QRS alargado, que são as chamadas Taquicardias Supraventriculares de Condução Aberrante. Essa alteração é pouquíssima cobrada nas provas, assim, não será extremamente detalhada aqui, certo? FISIOPATOLOGIA Esse é um assunto pouco explorado em provas, vamos nos ater ao que é estritamente necessário, fechou? Existem diversos mecanismos arritmogênicos reconhecidos, mas, dois principais que iremos citar: CM 9 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR automatismo e reentrada. 1. Automatismo: um grupo de células miocárdicas, por possuírem um limiar de despolarização menor, disparam mais rápido que o nó sinusal e assim, assumem o controle do ritmo cardíaco. Isso pode acontecer por fatores transitórios, como distúrbios hidroeletrolíticos, uso de medicações e drogas, ou por alterações estruturais e autonômicas. 2. Reentrada: aqui, o que acontece é a criação de um “looping” elétrico porque existem duas vias de condução elétrica - uma de condução rápida e uma de condução lenta. Uma célula recém-despolarizada recupera sua excitabilidade e é novamente despolarizada por um impulso elétrico novo, não sinusal, provocando uma despolarização regional, fechando o ciclo. Para que o ciclo de reentrada aconteça, precisa haver um substrato “anormal” no coração: uma alteração anatômica, como uma cicatriz de infarto (macroreentrada), ou uma desorganização elétrica/metabólica (microreentrada) - o mecanismo de deflagração mais comum da reentrada é uma extrassístole. Em condições normais, o estímulo nodal é conduzido pela via rápida (que tem um período refratário prolongado). Quando acontece uma extrassístole, portanto, a via rápida está fechada e o estímulo é conduzido pela via que sobra - a lenta (que tem período refratário curto). Assim, enquanto o estímulo percorre a via lenta, a via rápida não estará mais refratária e o que acontece é que ela é novamente despolarizada, mas agora de forma retrógrada (Figura 1). CM 10 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 1. Exemplo do circuito de reentrada no nó atrioventricular (AV). À direita, via rápida (com período refratário lento); à esquerda, via lenta (com período refratário curto). Inicialmente (na primeira figura, da esquerda para a direita), temos: estímulo do nó sinusal chega às duas vias, mas, é conduzido pela via rápida, já que a via lenta está em seu período refratário. Depois, na segunda figura, o estímulo sinusal é conduzido pela via lenta já que a via rápida está em seu período refratário. Vejam que, nessa segunda situação, não há taquiarritmia: a via rápida não está sendo retrogradamente despolarizada porque está em seu período refratário. Em ambas as situações, o estímulo do nó sinusal está seguindo o caminho normal: Feixe de His e ramos esquerdo e direito. Diferente do que acontece na terceira figura: aqui houve um segundo estímulo que é conduzido pela via lenta. E o detalhe é: além de seguir para o Feixe de His, ele também encontra a via rápida fora de seu período refratário e isso provoca sua despolarização, de forma retrógrada. No ECG isso aparece como um “eco atrial”, a despolarização atrial começa “de baixo para cima” e isso faz com que apareça uma segunda onda p, negativa em DII, DIII e aVF. Mas, na terceira figura ainda não temos taquiarritmia porque a o estímulo que agora passou pela via rápida encontra a via lenta em seu período refratário. Por fim, na figura quatro, aí sim temos taquiarritmia: a via rápida, ao ser estimulada retrogradamente, encontra a via lenta fora de seu período refratário e o “looping” elétrico se inicia. Fonte: Manual de emergência: abordagem prática, 14ª edição, versão digital. Calma, não se desesperem! De novo: esses mecanismos são muito pouco cobrados na prova! Trouxemos aqui à título de conhecimento CM 11 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR aprofundado, mas, dificilmente será algo que irá definir se vocês irão acertar a questão ou não… MANEJO INICIAL NA EMERGÊNCIA Bom, muito mais importante do que a fisiopatologia das Taquiarritmias é seu manejo inicial na emergência! Atenção porque essa é, provavelmente, uma das partes mais cobradas de vocês nas provas quando o assunto são Taquiarritmias! Aqui, não há segredo: é fluxograma, como aprendemos lá no ACLS (Figura 2)! Figura 2. Algoritmo de Taquicardia com Pulso em Adulto. Fonte: ACLS for Experienced Providers Manual and Resource Text eBook. American Heart Association, 2017. CM 12 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Vejam: o primeiro e mais importante passo é definir se nosso paciente está estável ou instável! E se instável, se essa instabilidade é pela taquiarritmia! É improvável que uma FC < 150 bpm esteja causando instabilidade hemodinâmica. Mas, não se esqueçam, principalmente para as provas práticas: o primeiríssimo passo (antes mesmo desse aí) é o famoso MOVE CM 13 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR (monitorização, oxigênio, acesso venoso e exames, se necessário) na sala de emergência! E, é sempre bom verificar a glicemia do paciente! E, agora que já vimos o manejo inicial das taquicardias no pronto-socorro, vamos falar mais especificamente de como identificar de qual taquicardia estamos falando! Como? Através de algumas perguntas essenciais, descritas abaixo! Figura 3. Fluxograma para diagnóstico da Taquicardia. Fonte: acervo Medway. Bom, agora sim! Vamos ver algumas taquiarritmias de forma mais específica… Bora lá? Antes, só vamos relembrar alguns conceitos importantes sobre extrassístoles. CM 14 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR EXTRASSÍSTOLES Extrassístoles, via de regra, são qualquer batimento fora daquele comandado pelo nó sinusal. Elas podem ter origem atrial (supraventricular), dentro do nó AV (juncional) ou ventricular. As extrassístoles supraventriculares e as juncionais, por ocorrerem antes da emergência do feixe de His, deflagram um QRS estreito (< 120 ms ou < 3 mm). Como assim? Se a extrassístole ocorre antes do nó atrioventricular, ela vai despolarizar esta estrutura e o estímulo seguirá através do sistema de condução especializado, ou seja, rapidamente. Um estímulo sendo conduzido rapidamente leva a um QRS estreito! As ventriculares possuem uma condução fora das vias de condução rápida, logo a condução célula a célula traduz-se como QRS alargado (≥ 120 ms). SUPRAVENTRICULARES Extrassístole atrial: ocorre devido a um disparo elétrico precoce (antes do nó sinusal) de um grupo de cardiomiócitos atriais, provocando um ciclo cardíaco completo. Temos (Figura 4): Ondas p prematuras (p') em relação ao ciclo cardíaco normal (elas desencadeiam um batimento cardíaco “antes da hora” para um ritmo regular). Morfologia de p' diferente da onda p sinusal (ou seja, não é positiva em D1, D2 e aVF, e altera o intervalo PR). • • CM 15 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR QRS estreito (semelhante ao ritmo sinusal basal). Seguidas de pausas compensatórias (ou seja, um período maior sem novo batimento cardíaco - é aquele momento em que você está auscultando o paciente e pensa “aqui era para ter vindo um batimento, mas ele chegou atrasado”). Figura 4. ECG exemplo com extrassístoles atriais (ESSV). Notem a morfologia da onda p extrassistólica diferente: em D1, D2 e aVF a diferença da P sinusal (seta branca) das p’ da ESSV (seta azul). Ocorre ainda uma salva de ESSV em D2 longo. Notem ainda a pausa compensatória antes do retorno ao ritmo sinusal. Fonte: 150 ECG Casos clínicos John R. Hampton - ECG nº11 ; 4a Ed traduzida Elsevier ECG 11. Extrassístole juncional: mais uma vez temos um ritmo sinusal que foi interrompido por um batimento precoce. Mas, dessa vez, o batimento precoce tem origem no nó AV, logonão tem onda p precedendo o complexo QRS, que também costuma ser estreito (já que o restante do estímulo seguirá por fibras de condução rápidas). Geralmente, também possui pausa compensatória. Vejam o exemplo (Figura 5): • • CM 16 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 5. Exemplo de ECG com extrassístole juncional (flechas pretas). Notem que o QRS é estreito e igual ao batimento sinusal. O QRS está deformado pela onda p sinusal (flechas vermelhas) que está caindo em sua porção terminal e, com isso, está sendo bloqueada. Esse ECG está em trigeminismo (2 batimentos normais para 1 extrassistólico). Observe que também ocorre uma pausa compensatória (o próximo impulso acontece quando deveria acontecer habitualmente, mas, como teve um estímulo precoce pela extrassístole juncional, fica a impressão de que ele está atrasado - por isso chamamos de pausa compensatória). Fonte: ECG Medway, banco de ECGs número 80. VENTRICULARES Extrassístoles ventriculares: são provenientes do próprio ventrículo, de fora das vias de condução rápidas do coração, logo, é esperado uma transmissão elétrica célula-célula e, com isso, veremos um QRS alargado e de morfologia diferente da usual do batimento sinusal. Seguem as características: QRS prematuro, alargado e "bizarro" (> 120 ms), onda T oposta ao QRS.• CM 17 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Pausas compensatórias. Pode existir mais de um tipo de morfologia do QRS. Segue nosso exemplo (Figura 6): Figura 6. ECG em D2 longo com extrassístoles ventriculares (EV) monomórficas (todas têm o mesmo formato, o que sugere origem no mesmo foco ectópico). Há momentos em que aparece isolada, outros, em trigeminismo e bigeminismo. Destacamos trechos desses momentos. Notar a pausa compensatória após a EV. Fonte: ECG Medway, banco de ECGs. Para a maioria das extrassístoles, não há necessidade de qualquer tratamento, pois essas alterações ocorrem frequentemente em pessoas saudáveis, inclusive. Pode-se considerar tratamento quando há uma quantidade muito grande de eventos ou sintomas. Nesses casos, em geral, usam-se beta-bloqueadores. • • CM 18 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR TAQUICARDIA SINUSAL Trata-se de estímulo elétrico originado no nó sinoatrial, mas com frequência de disparo maior do que 100 batimentos por minuto em adultos. Usualmente, a FC não ultrapassa 160 batimentos/minuto. Nem vamos perder tempo com essa condição. O que vocês precisam entender é que, geralmente, ela é uma resposta compensatória do corpo a uma situação fisiológica de alto gasto energético (atividade física, estresse emocional e similares), ou a uma situação patológica que também demanda aumento do metabolismo basal (como um processo infeccioso, instabilidade hemodinâmica). Por isso, a nossa meta é tratar a causa de base. Controlar a frequência, nesses casos, será deletério para o paciente, já que ele precisa dessa resposta orgânica para a demanda do momento. Como estabelecer o diagnóstico? Identificando taquicardia com ritmo sinusal (onda p precedendo o QRS de morfologia adequada, isto é, com onda p positiva em D1, D2 e aVF). TAQUICARDIAS SUPRAVENTRICULARES (TSV) Bom, como vimos, a maior parte das questões de taquiarritmias fala sobre seu manejo inicial e sobre sua identificação no ECG! Mas, eventualmente, essa identificação pode ser especificamente sobre a famosa “taqui-supra”. CM 19 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Menos frequentemente, a banca cobra o diagnóstico específico (taquicardia de reentrada nodal, taquicardia atrial multifocal etc.) e tratamento no pronto-socorro (além de reconhecimento, avaliação de estabilidade e indicação de cardioversão elétrica, indicação de manobras vagais ou adenosina - como vimos lá no fluxograma inicial de manejo!). POR REENTRADA NODAL (TRN) Esta é a vulgarmente chamada de “taqui-supra”. Lembrem-se que todas as arritmias que provêm do átrio são “taqui-supras”. Mas, via de regra, esse termo está, provavelmente, se referindo à TRN (já que as outras são mais fáceis de diferenciar no eletrocardiograma). O mecanismo da TRN é, como o próprio nome diz, a reentrada (que vimos lá em fisiopatologia), mas com esse ciclo ocorrendo DENTRO do nó AV. O normal é o nó AV ter uma única via de condução, mas, nos pacientes com TRN, o nó AV tem duas vias de condução, chamadas de alfa e beta, que possuem características opostas: a via beta transmite o impulso elétrico rapidamente, mas tem período refratário lento; a via alfa transmite o impulso elétrico lentamente, mas tem período refratário curto. Na TRN temos, portanto, um nó AV com um ciclo elétrico provocando despolarizações para cima (átrios com uma P invertida) e para baixo (ventrículos com QRS estreito porque o estímulo está sendo conduzido pelas vias normais de despolarização). Qual o quadro clínico e a epidemiologia típicas da TRN? Esse é o protótipo da taquicardia supraventricular, por isso, as características descritas aqui, de maneira geral, valem para as "taqui-supras" (se considerarmos o grupo como um todo). Atenção! Esse é, classicamente, o enunciado da questão de taqui-supra da prova! CM 20 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR É um quadro que usualmente se manifesta entre a segunda ou terceira década de vida. Os sintomas, de forma geral, acompanham a taquicardia e variam desde palpitação, sensação de nervosismo ou ansiedade até angina e síncope, dependendo da duração, da frequência da taquicardia e da presença de doença cardíaca estrutural prévia - pois a arritmia pode descompensá-las. Em provas: mulher jovem que vem com palpitação e desconforto torácico. Existe ainda o clássico sinal de “Frog”, que é a descrição da visualização da pulsação carotídea no pescoço. CM 21 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Essa p deformando a porção final do QRS, tornando-a negativa, é chamada de “Pseudo-s em D2”. “Pseudo” porque não é um s do complexo QRS, mas sim uma P negativa. O pseudo-s pode eventualmente ser observado também em D3 e aVF. Essa p retrógrada também pode ser vista às vezes em V1, como a forma de um “Pseudo-r’”. Veja na Figura 8: Figura 8. Exemplo de TRN. Observar em D2 a pseudo-s e em V1 a pseudo-r’’, apontadas pelas setas. vermelhas. CM 22 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR É o protótipo das taqui-supras! E, classicamente, tem pseudo-s em D2, D3 e aVF com pseudo-r’ em V1 (mas essa informação não é essencial para a maioria das questões!). O tratamento das taqui-supras no pronto-socorro segue basicamente o mesmo fluxograma exposto lá em cima! Aqui, chamo a atenção de vocês para os casos de estabilidade hemodinâmica: nesses casos, a opção é por medidas que causem bloqueio transitório do nó AV (pois, assim, você corta o ciclo de reentrada) - as famosas manobras vagais - ou fazer uso de medicações (principalmente a Adenosina, mas também beta- bloqueadores ou bloqueadores de canais de cálcio não-diidropiridínicos (Verapamil ou Diltiazem), em casos mais recorrentes ou refratários às manobras vagais. As manobras vagais são uma opção fisiológica para promover o bloqueio transitório do nó AV e, por isso, são a primeira escolha. Existem várias manobras vagais descritas, entre elas: temos a massagem do seio carotídeo (evitar em idosos, principalmente se tiver sopro carotídeo, pela possível presença placa de aterosclerose nas carótidas), manobra de Valsalva e manobra de Valsalva modificada, pressão em globo ocular CM 23 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR (cuidado porque pode provocar danos oculares), esforço do vômito ou exposição do rosto com água gelada (utilizada em crianças).. Se a TRN for refratária às manobrasvagais, o indicado é a tentativa de cardioversão com adenosina 6 mg IV (1 ampola) em veia proximal, injetada de forma rápida, seguida imediatamente de um flush de soro fisiológico 0,9% ou água destilada. Antes de fazer essa medicação, explique ao paciente que haverá uma sensação ruim (às vezes descrita como morte iminente), mas que será transitório (real, oficial, não esquece de avisar porque a sensação é desesperadora!). Depois, há sempre o momento de ficar nervoso(a): se você observar o monitor logo após a infusão da medicação, há um período de linha reta, seguido do retorno ao ritmo sinusal. Caso o ritmo de retorno seja ainda taquissupra (ou, na maioria dos casos, especificamente TRN), é permitido repetir a adenosina, agora, na dose de 12 mg IV seguindo o mesmo procedimento de injeção rápida. Caso ainda seja refratário, há possibilidade de uma terceira tentativa, novamente na dose de 12 mg. Se, mesmo assim, não tiver cardioversão, geralmente, o próximo passo é partir para a cardioversão elétrica. Entretanto, em serviços em que há disponibilidade de verapamil ou diltiazem EV, esses podem ser utilizados, pois costumam promover a cardioversão após cerca de 2 minutos com 90% de sucesso. Para o tratamento ambulatorial, em casos refratários ou recorrentes, as opções são as medicações já citadas ou a ablação, já que a TRN é basicamente causada pela presença de uma via acessória dentro no nó AV. CM 24 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR POR REENTRADA ATRIOVENTRICULAR (TAV) É um subtipo muito menos explorado nas provas, portanto, vamos apenas citá-lo aqui, ok? À semelhança da TRN, a TAV (ou TRAV) também usa uma via acessória para fazer o mecanismo de reentrada, mas aqui a via acessória não está dentro do nó AV, mas sim, fora! São as vias chamadas de “feixe de Kent”, que podem ocorrer em qualquer região do anel atrioventricular. Nesses casos, a reentrada ocorre formando um ciclo em que o estímulo elétrico desce pelo nó AV, despolariza ventrículos e sobe pela via acessória. Quando ele sobe, encontra as células atriais prontas para se despolarizarem novamente e, assim, ocorre a onda p retrógrada. Quando CM 25 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR essa mesma despolarização chega ao nó AV, ele já está pronto para transmitir o estímulo aos ventrículos novamente e, assim, fecha o ciclo (via acessória atrioventricular e nó AV). Ora, se a via acessória não está mais dentro do nó AV, o ciclo possui um “raio” maior. Se o ciclo é maior, então o esperado é que essa p retrógrada não caia mais dentro do QRS, certo? O ciclo ainda é rápido, pois utiliza uma via acessória, mas a distância a mais que o estímulo precisa percorrer permite que a p retrógrada seja mais facilmente identificada que na TRN. Vamos ao ECG (Figura 9): Figura 9. Exemplo de TAV. Quando presente, a alternância de amplitude do QRS ajuda a diferenciar no ECG a TAV da TRN. Observem em D2 algo que aparenta ser Infra de ST ou uma T negativa, mas que na verdade é a p retrógrada caindo logo após o QRS. Note que não há aspecto de pseudo-s nem do pseudo-r’ em V1. Fonte: ECG Medway, aula 24. WOLFF-PARKINSON-WHITE (WPW) Você já deve ter ouvido falar sobre a Síndrome de Wolff-Parkinson-White. O nome correto deveria ser Síndrome de Pré-excitação Ventricular, e, CM 26 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR quando esse paciente faz uma taquicardia, aí sim seria chamada de WPW. Mas o que o WPW tem a ver com as taquicardias supraventriculares? E com a taquicardia por reentrada atrioventricular? Ela é um subtipo de TAV com alterações eletrocardiográficas específicas! Essa síndrome é marcada por uma onda DELTA (um “empastamento” no início do QRS) com um PR curto (Figura 10). Relembrando a fisiopatologia que acabamos de ver, o estímulo elétrico chega aos ventrículos pela via acessória, ou seja, fora das vias rápidas de condução. Assim, a despolarização inicia-se a partir daquele ponto percorrendo célula a célula, ou seja, é uma despolarização lenta (o que descreveria um QRS largo se conseguisse efetivamente despolarizar todas as células ventriculares e se parecesse um bloqueio de ramo), mas essa despolarização lenta encontra um estímulo vindo do nó AV em células que estão no período refratário, por isso esse estímulo é bloqueado e não há progressão da despolarização célula-célula. Ou seja, o estímulo vindo pelo nó AV e pela via de condução rápida despolariza o ventrículo ANTES desse estímulo vindo da via acessória se propagar. Assim, essa transmissão imediata do estímulo traduz-se no ECG como um PR curto e (só) esse início de QRS largo que denominamos de onda Delta. O aspecto final pode ser descrito como “presença de pré-excitação ventricular”. A presença dessas vias acessórias podem desencadear outros tipos de taquiarritmias, inclusive induzir TV e FV, causando morte súbita. Por isso, pacientes portadores de WPW devem ser avaliados por cardiologistas e, eventualmente, eletrofisiologistas, para ablação da via acessória. CM 27 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 10. Observe, em tracejado azul, como seria a transmissão do estímulo sem a presença de via acessória. Agora, observem o traçado vermelho, que é chamado de onda Delta. Ele representa o início de despolarização célula a célula. Note a consequência dessa onda Delta para o traçado como um todo: presença de um PR curto (menor que 120 ms) e um QRS largo (> 120 ms, ficou largo porque tem a onda Delta, mas não era para ser). Fonte: https://i.pinimg.com/originals/4a/0f/df/4a0fdff354e0fbdc0b048d825d63a6ae.jpg. Vamos agora ver isso ocorrendo em um ECG? Sigam então para a Figura 11: CM 28 https://i.pinimg.com/originals/4a/0f/df/4a0fdff354e0fbdc0b048d825d63a6ae.jpg Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 11. Observe em D1 a onda delta e o consequente PR curto (mal termina a onda P e já vem o QRS). No ECG, a onda delta contribui para criar o QRS largo (> 120 ms). Fonte: ECG Medway. TAQUICARDIA ATRIAL O mecanismo na taquicardia atrial são os automatismos: um grupo de células atriais (foco ectópico) dispara impulsos elétricos mais rapidamente, suprimindo o ritmo sinusal. Às vezes, a frequência de disparo pode ser muito alta, acima de 150 bpm. Como diferenciar, então, a TA da TAV e TRN? Bom, aquelas que tinham seu substrato em ciclos (TRN e TAV) conseguem se propagar dos ventrículos para os átrios de maneira muito rápida, a ponto da onda p retrógrada cair dentro do QRS (TRN) ou imediatamente após (TAV). Ocorre que um foco ectópico não tem essa agilidade, então a onda p fica mais distante do QRS. Como essa p não é sinusal - porque tem origem em outros pontos do átrio - chamamos de p’ (“P linha”). CM 29 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 12. Percebam que, nas taquicardias por reentradas, a onda P está mais próxima do complexo QRS imediatamente anterior à ela. Enquanto nas taquicardias atriais a onda P está mais próxima do próximo QRS, mas terá uma morfologia diferente da sinusal. A: Situação em que o P’ está logo após o QRS (mas poderia estar dentro). A distância entre o R e o P’ é menor que a distância desse mesmo P’ até o próximo R. Isso denota que a onda P está sendo retrógrada (parte dos ventrículos) e essa situação ocorre na TRN e TRAV. B: Situação em que a distância entre R e o P’ (ectópico) é maior que a distância entre o P’ e o próximo R. Em um ritmo sinusal, já é assim (P até R é menor que R até P), a diferença agora é que o P’ não é originado do nó sinusal e, por isso, tem uma morfologia diferente. Situações em que o RP’ é menor que o PR são chamadas de arritmias de RP’ curto (TRN, onde RP’ < 70 ms e TRAV, onde RP’ > 70 ms). As taquiarritmias em que o RP’ é maior que o PR são chamadasde RP’ longo. CM 30 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 13. Exemplo de ECG com taquicardia atrial. Note a p’ negativa em D2 a aVF (seta), indicando que o ritmo claramente não é sinusal. Parece um ECG em ritmo sinusal, mas quem comanda não é o nó sinusal. No fundo, é exatamente isso que ocorre. Se o ritmo de disparo for muito rápido, pode ficar difícil a diferenciação com TRN/TRAV. Nesse caso você deve medir o RP’ e o PR para tentar estabelecer o diagnóstico. Fonte: ECG Medway, aula 24. A taquicardia atrial é um tipo de arritmia frequentemente associada à descompensação de quadros clínicos e hidroeletrolíticos, então muitas vezes o principal foco é corrigir a causa base e estabilizar o paciente clinicamente. A Adenosina aqui não costuma funcionar: uma vez que seu efeito é bloquear o nó AV transitoriamente e o nó AV NÃO faz parte da arritmia (não está inserido no ciclo), ele apenas transmite a arritmia aos ventrículos. Fazer adenosina NÃO vai cardioverter o paciente. Mas é proibido fazer? Não! O fato de tentar cardioverter com adenosina pode até ajudar a desmascarar essa arritmia. No ato da aplicação da adenosina, haverá o bloqueio do nó AV, logo você “limpa” o ECG do monitor das ondas ventriculares. Se, ao invés de uma linha reta (esperado ocorrer quando você rompe o ciclo das taquicardias supraventriculares reentrantes), você tiver pequenas ondas rápidas regulares, isso sugere CM 31 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR uma TA. Principalmente se, ao passar o efeito da adenosina, a taquicardia retornar instantaneamente. TAQUICARDIA ATRIAL MULTIFOCAL Um tipo de arritmia muito “famosa”, mas não é tão frequente assim, nem na prática, nem em prova. É basicamente originada por múltiplos focos de extrassístoles supraventriculares disparando desordenadamente. A consequência é um traçado (Figuras 14 e 15) semelhante a uma fibrilação atrial (FA), ou seja, com ritmo irregular, já que o estímulo cada hora parte de um lugar, de maneira desordenada. Na verdade, a fibrilação atrial é o seu principal diagnóstico diferencial, até na prova. E como você vai diferenciá-las? Na taquicardia atrial multifocal teremos ondas p anômalas, enquanto na FA temos apenas ondas f. Como regra prática de prova (e de vida), sempre que se depararem com uma taquiarritmia de RR irregular, pensem sempre em FA até que se prove o contrário, ok? É disparado o mais comum. CM 32 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 14. ECG em ritmo sinusal (flechas azuis), seguido de extrassístoles atriais polimórficas (flechas de outras cores). Há provável sobrecarga atrial direita (onda p > 2,5 mm em D2). A dilatação atrial poderia facilitar o surgimento de taquicardia atrial multifocal. Fonte: ECG Medway, banco de ECGs, nº 44. Figura 15. D2 longo do ECG anterior, demonstrando períodos de taquicardia atrial multifocal. Note o RR irregular, mas não é fibrilação atrial porque temos onda p’. Perceba que, no nosso fluxograma do início desta apostila, a pergunta sobre a presença de ondas P vem antes de perguntar sobre a regularidade do RR, exatamente para minimizar essa chance de confusão. Fonte: ECG Medway, banco de ECGs. CM 33 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR FIBRILAÇÃO ATRIAL Chegamos à ela: a menina dos olhos das Taquicardias - a fibrilação atrial. O assunto aqui é bastante extenso, mas, vamos tentar resumir ao máximo e focar no que realmente é cobrado em provas, certo? Ou seja, basicamente a identificação no ECG e a conduta diante do diagnóstico! A fibrilação atrial acontece pelo surgimento de microrrentradas no átrio esquerdo (AE) que possuem uma frequência em torno de 300-500 bpm e surgem, normalmente, pelo aumento atrial. Graças ao atraso de condução e período de refratariedade do nó AV, essa frequência atrial não é transmitida aos ventrículos, ou teríamos uma fibrilação ventricular (ritmo de PCR). O apêndice/aurícula atrial esquerdo (AAE) é o principal local de formação de trombos. CM 34 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Os principais fatores de risco para seu desenvolvimento são: envelhecimento, HAS, diabetes mellitus, obesidade, Síndrome da Apneia e Hipopneia Obstrutiva do Sono (SAHOS), fatores genéticos, abuso de álcool, valvopatias/dilatação do AE. A FA é uma arritmia capaz de reduzir em cerca de 25-30% o débito sistólico (lembram que a fase final do enchimento ventricular depende da contração atrial?), logo, pode ter um impacto razoável em algumas populações, concordam? Além disso, sabendo que AVE isquêmico é uma das principais causas de morte no Brasil e FA é uma causa importante deste evento por mecanismo emboligênico, podemos concluir facilmente que tratar adequadamente a população com o diagnóstico e evitar o surgimento de FA possui um impacto razoável na morbidade de uma população. Sabe-se, ainda, que é uma arritmia que aumenta a incidência de insuficiência cardíaca (IC) e reduz a função cognitiva dos seus portadores (por prováveis microembolias e consequente demência vascular). Quanto à sua classificação, a FA pode ser dividida de duas formas: anatomicamente e temporalmente. Anatomicamente, podemos dividi-la em: Não-valvar: quando não há relação com valvopatias. Valvar: distúrbio na valva mitral que desencadeia um aumento do átrio esquerdo. Temporalmente (a classificação mais importante para provas), em: 1. 2. CM 35 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Paroxística: após surgimento, desaparece sozinha e possui duração de no máximo 7 dias (maioria, menos de 24h). Persistente: duração maior de 7 dias e só desaparece com intervenção. Persistente de longa duração quando por mais de 1 ano. Permanente: mais do que a duração, tentou-se cardioversão, mas a tentativa falhou ou, após sucesso, retornou ao ritmo de FA, ou ainda decidiu-se por nem tentar cardioverter. 1. 2. 3. CM 36 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR CM 37 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Bom, até aqui falamos de definição, prognóstico, classificação e do ECG da fibrilação atrial! Mas, isso tudo nem de longe é o que mais cai desse assunto! O que as bancas amam cobrar é o manejo da fibrilação atrial. Aqui, tenham em mente um conceito inicial: uma coisa é o tratamento no pronto-socorro, outra, no contexto ambulatorial! Não é difícil imaginar qual deles é mais cobrado de vocês, não é mesmo? As provas, de um modo geral, amam condutas do pronto-socorro, mas, saibam ambos (até para a vida de vocês…). Vamos começar pelo manejo no pronto-socorro e pela tão temida anticoagulação! CM 38 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR MANEJO NO PRONTO-SOCORRO: ESTABILIDADE versus INSTABILIDADE E ANTICOAGULAÇÃO Como sempre, nas taquicardias, o primeiro divisor de águas é: há sinais de instabilidade hemodinâmica? Hipotensão (PAS < 90 mmHg) ou choque circulatório (alteração da perfusão). Dor torácica: do tipo anginosa, como vimos. Alteração do nível de consciência. Dispneia: outro sinal para se ter cuidado na prova. Alguns examinadores só consideram se estiver associada à congestão pulmonar. Se houver sinais de instabilidade, não tem conversa, galerinha: sedoanalgesia mais Cardioversão Elétrica Sincronizada (CVES) , carga de 120-200J no bifásico. Mas, atenção: FA dificilmente causa instabilidade. É comum que o paciente chegue instável por outro motivo (por exemplo, choque séptico) e a demanda metabólica aumentada desencadeie uma FA em um paciente com predisposição. Também é possível que o paciente já possua FA, não sabia, e agora fez uma FA de alta resposta ventricular, ou seja, com FC > 110 bpm. • • • • CM 39 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Agora, se o paciente estiver estável e aFA é o principal motivo da procura pelo PS (e, geralmente, na prova, no cenário de estabilidade, será), ou ela está piorando uma condição basal (IC descompensada, por exemplo), a primeira opção será sempre a cardioversão! Mas, só iremos fazer cardioversão no momento de chegada do paciente ao PS se tivermos certeza absoluta (redundância para reforçar a importância) que a FA se iniciou há menos de 48h. Isso, na prática, nem sempre é possível, mas na prova é o quadro clássico! Você terá uma questão que descreve um paciente jovem, que iniciou com palpitações recentes ou com intoxicação etílica - chamado de “Holiday Heart Syndrome”. CM 40 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Há duas maneiras de fazer essa cardioversão de FA ≥ 48 horas com segurança: Tentar visualizar a presença de trombos imediatamente por meio de um ecocardiograma transesofágico (não, não serve o transtorácico). Presumir que pode haver coágulo, iniciar a anticoagulação por tempo suficiente para o organismo “dissolver o trombo” (lembre que anticoagulação não é trombolítico, ela impede que esse possível coágulo aumente e é o próprio sistema fibrinolítico do organismo que se encarrega de destruir o trombo). • • CM 41 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Se o ecocardiograma transesofágico (ECO TE) demonstrar ausência de trombos intracardíacos, a conduta é igual àquela de FA com menos de 48 horas, ou seja, faremos uma dose de anticoagulante, seguida de cardioversão. Se não tiver esse exame disponível, o tempo de anticoagulação efetiva necessária para poder realizar a cardioversão é de três semanas ou 21 dias (cuidado, se for Varfarina, não podemos contar a partir do primeiro dia de uso da medicação, contaremos a partir do primeiro dia de RNI no alvo!). Depois da cardioversão, independentemente se ela foi imediata, após realização de ECOTE ou após 21 dias de anticoagulação, sempre vamos anticoagular por mais 4 semanas. CM 42 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 18. Fluxograma de conduta da FA no PS. Fonte: acervo Medway. Isso é tão importante que falaremos novamente: independentemente da estratégia até a cardioversão, o uso de anticoagulante por mais 4 semanas está sempre indicado . Após essas 4 semanas, a decisão quanto à anticoagulação definitiva depende do escore CHA2DS2VASc. E aquele paciente que chega no PS com FA de diagnóstico acidental, assintomático, que buscou atendimento por outro motivo? Galera, esse paciente tem FA crônica e é candidato a seguimento e manejo CM 43 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR ambulatorial. No PS você vai fingir que nem viu essa FA, porque, se ela não é a causa do atendimento, nem tem relação direta, não vai mudar a sua conduta, entende? Isso não costuma ser explorado em provas, mas é importante fecharmos essa linha de raciocínio: o paciente com diagnóstico “acidental” de FA, é paciente ambulatorial. E se for gestante? É permitido fazer cardioversão elétrica em qualquer período da gestação, só tomando cuidado no posicionamento das pás. Para controle de FC, também é permitido o uso de metoprolol, preferencialmente, e amiodarona. Já já vamos falar somente sobre anticoagulação, mas, antes disso, vamos ver o manejo ambulatorial da FA! MANEJO AMBULATORIAL: CONTROLE DE RITMO versus FREQUÊNCIA CARDÍACA Para os pacientes em ambiente ambulatorial, temos duas opções: Controle de Ritmo: de volta ao ritmo sinusal. Controle de Frequência: o ritmo de FA é preservado, mantendo-se apenas a FC em faixa otimizada para evitar taquicardiomiopatia. Em termos de mortalidade, não há diferença entre elas desde que a FC fique realmente controlada (estudo AFFIRM). Contudo, foi observado que as pessoas do grupo controle de ritmo internaram com maior recorrência e apresentaram mais efeitos colaterais (justamente nos momentos que a FA retornava). Então, como vamos escolher? Depende do paciente. 1. 2. CM 44 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Idosos, múltiplas comorbidades, com FA assintomática ou oligossintomática: há tendência ao controle de frequência. Jovens (ou mesmo aqueles mais velhos, com mais de 65 anos), sintomáticos, com poucas comorbidades: controle de ritmo. Pode não ser possível controlar, mas, ao menos, faz-se uma tentativa. FA persistente de longa duração (por mais de 1 ano) ou átrio esquerdo (AE) > 50 mm: há alta taxa de recorrência, então a tendência é optar por controle de frequência. Essa escolha da estratégia nem sempre é tão simples ou clara, havendo um enorme espectro de pacientes entre os dois extremos (Figura 19). Figura 19. Representação do espectro de pacientes para a escolha da estratégia de tratamento da FA no contexto ambulatorial. Fonte: acervo Medway. CONTROLE DE RITMO O objetivo é o controle de recidivas! O primeiro passo é a cardioversão programada (química ou elétrica) e, em seguida, iniciam-se medicações com objetivo de “atrasar a recorrência”, pois ela provavelmente irá ocorrer em algum momento. A escolha da medicação depende • • • CM 45 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR principalmente da presença ou ausência de cardiopatia estrutural, que pode ser verificada por meio de um ecocardiograma transtorácico. Essa parte é bastante específica e não é tão cobrada no acesso direto. Portanto guardem apenas esses conceitos: Se há cardiopatia estrutural: Há insuficiência cardíaca? Se sim, amiodarona! Há comprometimento da fração de ejeção (FEVE)? A única medicação possível é a amiodarona. Caso contrário, pode-se utilizar sotalol. Coração estruturalmente normal: FA paroxística: tentativa de ablação da FA (tentativa de “destruição” das vias acessórias de reentrada). FA permanente ou paciente não quer ser submetido à ablação: sotalol ou propafenona. Para os pacientes com FA paroxística, especialmente aqueles com recorrências sintomáticas pontuais durante o ano (1 ou 2, por exemplo), há opção de manter o paciente sem medicação contínua, sob a estratégia de “pill on the pocket” - pílula no bolso, em tradução livre. Consiste no próprio paciente notar a taquiarritmia e promover a própria cardioversão química com propafenona 450-600 mg VO. Porém, não é uma estratégia que pode ser oferecida a todos os pacientes, mesmo que preencham aquele critério inicial. O candidato ideal para o “pill on the pocket” é aquele com: FA paroxística. • ◦ ◦ • ◦ ◦ • CM 46 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Episódios pouco frequentes (por volta de 1-2 vezes por ano, por exemplo) e sintomáticos. Ausência de cardiopatia estrutural. Testou a estratégia primeiramente em ambiente hospitalar e foi bem tolerada. Figura 20. Principais medicação para controle de ritmo na FA em contexto ambulatorial. BRE - bloqueio de ramo esquerdo, BRD - bloqueio de ramo direito. Fonte: acervo Medway. CONTROLE DE FREQUÊNCIA • • • CM 47 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR No outro extremo, ao invés de controlar o ritmo, podemos pensar apenas em controlar a frequência cardíaca. Aqui, a escolha é manter o paciente em ritmo de fibrilação atrial, mas com uma FC controlada e tolerada (sem sintomas). A intenção de controlar a FC é prevenir a ocorrência de taquicardiomiopatia futura (que é quando o paciente desenvolve alguma alteração cardíaca devido a uma FC sustentadamente elevada). É importantíssimo lembrar que não há vantagem da estratégia de controle de ritmo sobre a de frequência com relação à redução de mortalidade, ok? O alvo da FC é ser menor que 110 bpm ou o necessário para manter o paciente assintomático. A principal medicação para obter esse objetivoé o betabloqueador (BB). Se, mesmo após a dose máxima, a FC ficar acima do alvo, podemos associar digoxina. E se houver cardiopatia estrutural com FEVE reduzida? Diferentemente da estratégia de controle de ritmo, aqui não muda nada, vamos usar BB com possibilidade de associar digoxina, se necessário. Então, só não vamos usar BB se houver uma contraindicação específica, ok? CM 48 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 21. Principais medicação para controle de frequência na FA em contexto ambulatorial. ICFER - insuficiência cardíaca de fração de ejeção reduzida, DAC - doença arterial coronariana. Fonte: acervo Medway. CM 49 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR A ablação do nó AV é uma alternativa para controle de FC, mas é uma conduta de exceção, pois a forma mais eficaz de controlar a FC é mesmo a medicamentosa. A ideia aqui é “queimar” o nó AV e, dessa forma, isolar o ventrículo dos estímulos elétricos desordenados dos átrios. Sim, é como se criássemos um “BAVT”. Então, coloca-se um marcapasso com um eletrodo somente no ventrículo (modo VVI). Não se desesperem, faremos uma breve abordagem sobre os marcapassos no capítulo de bradicardias! Bom, agora sim, vamos falar sobre anticoagulação! E aqui entra um aspecto importantíssimo que causa muita confusão: perceba que a indicação ou estratégia de anticoagulação é independente da escolha sobre controle de frequência ou controle de ritmo, por isso, podemos discutir à parte tranquilamente! ANTICOAGULAÇÃO CM 50 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR INDEPENDENTEMENTE do contexto (PS ou ambulatório) ou da estratégia escolhida (controle de ritmo ou controle de frequência), o que manda se o paciente vai anticoagular ou não a longo prazo é o Escore CHA2DS2VASc. As únicas exceções são aqueles casos com fator desencadeante claro e reversível, como nas FA após libação etílica, por exemplo. Observem alguns exemplos que podem confundir em prova: FA paroxística assintomática encontrada no Holter. Escolho a estratégia de controle de ritmo e vem dando certo. Precisa de anticoagulação? Não sei, vamos calcular o CHA2DS2VASc. Idoso veio por FA ao PS, de início desconhecido, fiz o ECO TE e era limpo, foi feita cardioversão com sucesso. Faz anticoagulação? Sim, por 4 semanas. E depois? Não sei, calcule o CHA2DS2VASc. Idoso veio por FA ao PS, início desconhecido, sem o ECO TE. Fez 3 semanas de anticoagulação, submetido à cardioversão, manteve anticoagulante e voltou no consultório após 4 semanas de anticoagulação: o que fazer daqui para frente? Ele seguirá com o anticoagulante? Não sei, vamos calcular o CHA2DS2VASc. Jovem iniciou com palpitações há menos de 48h e veio com uma FA. Cardioversão com sucesso. Anticoagula? Vamos decidir pelo CHA2DS2VASc. Jovem fez ablação da FA com sucesso, está em ritmo sinusal. Pode ficar sem anticoagulação? Não sei, calcular o CHA2DS2VASc. Ficou claro, pessoal? Vamos decorar o escore então: • • • • • CM 51 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 22. Escore CHA2DS2VASC para decisão sobre anticoagulação em caráter crônico na fibrilação atrial. Beleza, calculei o CHA2DS2VASc e agora? Paciente do sexo masculino: Zero pontos: não anticoagular. 1 ponto: considerar anticoagulação. ≥ 2 pontos: anticoagulação. Paciente do sexo feminino: ≤ 1 ponto: não anticoagular. Mulher = 2 pontos: considerar anticoagulação. Mulher ≥ 3 pontos: anticoagulação. • ◦ ◦ ◦ • ◦ ◦ ◦ CM 52 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Atenção que, mais recentemente, a categoria “sexo feminino” foi retirada do escore. Por esse motivo, a pontuação das mulheres pode ser cobrada de maneira reestruturada na sua prova, isto é, com os mesmos cortes do homem, porque o que tornava o corte maior era justamente o sexo feminino. Mas perceba que, em termos práticos, é a mesma coisa, a diferença era que, só por ser mulher, ela já pontuaria 1, logo você toleraria se o único risco fosse esse. Em termos práticos, se você considerar o sexo feminino, o corte de mulher é diferente (e sempre maior em 1 ponto), se não for o mesmo de homens. Então fechou: CHA2DS2VASc alto, já vamos anticoagular? Mais ou menos. Em termos gerais, sim, mas devemos sempre analisar a individualidade do paciente. Neste sentido, criou-se um escore para avaliar o risco de sangramento: HAS-BLED. Mas atenção, um HAS-BLED alto NÃO contraindica a anticoagulação! O julgamento é clínico e esse escore só serve como substrato para embasar a sua decisão. A partir dele, você pode OPTAR por não anticoagular se a relação entre riscos e benefícios for desfavorável. Isso é muito difícil de ser explorado em prova porque depende do julgamento individual, por isso, frequentemente, quando se quer que o candidato opte por não anticoagular, colocam um escore de sangramento bastante elevado com características que justifiquem o não uso da medicação (como fragilidade social, RNI lábil e uso irregular da medicação, paciente etilista com epilepsias frequentes por síndrome de abstinência… é o prato cheio para ter um TCE com sangramento!). Vamos conhecer o escore: CM 53 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 23. Escore HAS-BLED para decisão sobre anticoagulação em caráter crônico na fibrilação atrial. HAS - Hipertensão Arterial Sistêmica, PAS - Pressão Arterial Sistólica, LSN - limite superior de normalidade, AVE - Acidente Vascular Encefálico. Galera, depois que você decora o CHA2DS2VASc, fica natural pensar o “A” como “Age” , aí quando você ia decorar o HAS-BLED, havia sempre uma confusão do “A”. Então, elaboramos uma forma ALTERNATIVA para memorizar esse escore. Fiquem à vontade para escolher o método de vocês: CM 54 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 24. Escore HAS-BLED para decisão sobre anticoagulação em caráter crônico na fibrilação atrial - versão adaptada. DRC - Doença Renal Crônica. Observem que o HAS-BLED possui muitos fatores modificáveis, como, por exemplo, HAS descontrolada, consumo de álcool, drogas que interfiram na varfarina etc. Ou seja, há como “baixar” o HAS-BLED, enquanto o CHA2DS2VASc é um escore de pontuação somente progressiva. Atenção, ainda! Existem condições nas quais SEMPRE indicamos anticoagulação na presença de FA, independentemente do CHA2DS2VASc. FA valvar: questão batida de prova! Se lembre que há divergência na literatura quanto a essa definição. Pode ser desde meramente a FA junto de estenose mitral moderada ou importante, até exclusivamente a estenose mitral reumática. Presença de prolapso da valva mitral geralmente não é considerado FA valvar. Sempre analisar a questão com desconfiança. Presença de prótese MECÂNICA: vamos anticoagular mesmo se não houver FA! No caso de prótese biológica quase sempre indicamos anticoagulação também, mas pode ser discutível. • • CM 55 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Miocárdio não compactado/Cardiomiopatia hipertrófica: cardiomiopatias, nunca caiu para prova de acesso direto. Hipertireoidismo em fase hipotireoidiana. Amiloidose cardíaca. ESCOLHA DO ANTICOAGULANTE Atualmente, a preferência é pelos anticoagulantes diretos (DOACs), também conhecidos como novos anticoagulantes orais (NOACs): Apixabana, Dabigatrana, Rivaroxabana e Edoxabana - exceto em casos de contraindicação específica. Como escolher? FA não valvar: qualquer DOAC (preferencialmente) ou varfarina. ATENÇÃO: a nossa grande referência de provas é diretriz brasileira, mas ela está um pouco desatualizada em relação aos estudos mais recentes com NOACs. Nela, ainda constam Varfarina e DOAC no mesmo grau de preferência, enquanto a tendência mundial é preferirDOAC, por isso, se houver as duas opções na sua prova, escolha DOAC. FA valvar ou prótese mecânica = VARFARINA. É contraindicado DOAC? SIM, já se tentou usar Dabigatrana nesse cenário e foi pior que varfarina para eventos tromboembólicos, além da maior incidência de sangramentos. FA + Síndrome Anticorpo Antifosfolípide = VARFARINA. • • • • ◦ • • CM 56 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR FA + DRC dialítica = VARFARINA. Há estudos para criar respaldo para Apixabana, com evidências ainda pouco robustas, mas é possível que seja superior. De qualquer forma, na prova é Varfarina. FA + DRC não dialítica: depende! Nesse contexto foram cobradas em algumas provas dos últimos anos a utilização dos DOACS com base na sua excreção renal. Vejam abaixo: Figura 25. Comparação entre DOACs na FA. • • CM 57 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR As maiores vantagens dos DOACs são: ausência de necessidade de monitorização e não inferioridade quanto à diminuição de AVE (isquêmico ou hemorrágico). Mas, em contrapartida, como desvantagens, temos: preço elevado, sem aprovação para uso em próteses metálicas e estenose mitral (moderada-severa), gestantes e crianças e trombofilias (como SAAF), além da necessidade de ajuste para função renal. Além disso, vamos apenas citar aqui: a Dabigatrana tem um antídoto (Idarucizumabe), mas ainda muito pouco disponível e caro. E o AAS na FA? Se for caso de FA não valvar e há contraindicação à anticoagulação, ainda há respaldo para usar dupla antiagregação plaquetária, mas é conduta de EXCEÇÃO, não espere isso em provas! AAS + Clopidogrel para FA quase sempre é a alternativa ERRADA! Eu não posso usar Varfarina nos casos em que o NOAC é preferencial? Lógico que pode, ainda mais no SUS onde o uso dos novos CM 58 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR anticoagulantes fica bem restrito. Mas, de maneira geral, se tiver a opção de escolher na prova, você escolhe o que é melhor. E sempre devo trocar Varfarina por DOAC? Não! Se o RNI for dentro da faixa terapêutica em mais de 65% do tempo, essa escolha é opcional. Contraindicações aos DOACs: Sangramento ativo clinicamente significativo. Doença hepática com coagulopatia. Alergia. Prótese valvar metálica. Estenose mitral moderada a grave. Insuficiência renal: Dabigatrana: ClCr < 30 mL/min/1,73m². Apixabana, Rivaroxabana e Edoxabana: ClCr < 15 mL/min/1,73m² (obs.: ainda em fase de estudos Apixabana para dialíticos). Edoxabana: ClCr > 95 mL/min/1,73m² (sim, maior que 95. Isso porque aparentemente aumenta risco de AVEi, pois elimina mais a droga). FA valvar. • • • • • • ◦ ◦ ◦ • CM 59 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR MANEJO DA VARFARINA A varfarina é uma medicação que inibe a síntese de fatores de coagulação dependentes de vitamina K: II, VII, IX, X. É famoso dizer que, no início de sua ação, há uma fase pró-coagulante, devido à inibição das proteínas C e S. Entretanto, isso não significa que vocês precisam fazer “ponte” com enoxaparina, HNF ou algo do tipo. Só ter a ciência que eventualmente seu paciente pode ter uma complicação trombótica nessa fase. Ela é uma medicação muito antiga, contudo é de manejo relativamente difícil devido ao grande número de interações medicamentosas, que tanto aumentam, como diminuem o efeito da droga. CM 60 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR O alvo do RNI para FA é, via de regra, entre 2,0-3,0, mas há algumas situações específicas na cardiologia em que o alvo é modificado, como podem ver pela tabela abaixo: Figura 26. Alvo de RNI - situações cardiológicas específicas. O que decorar dessa tabela? Pensem assim: é sempre entre 2 e 3, exceto se tiver prótese mecânica, que é entre 2,5 e 3,5. Com uma exceção da exceção: quando a prótese é mitral e o paciente, em ritmo sinusal. PACIENTES COM CONTRAINDICAÇÃO À ANTICOAGULAÇÃO Lembram que o principal local de formação de trombo é o apêndice atrial esquerdo? Pois bem, em pacientes que não podem usar anticoagulação por longos períodos, mas possuem essa indicação pelo CHA2DS2VASc, podem realizar a oclusão percutânea do apêndice atrial esquerdo. Esse CM 61 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR procedimento tem a possibilidade de evitar totalmente a anticoagulação. Contudo, o paciente não pode ter contraindicação absoluta ao anticoagulante, pois, logo após o implante, há um período de anticoagulação transitório para todos. FLUTTER ATRIAL O flutter atrial é um tipo de taquiarritmia também causado por circuito de reentradas, como acontece na FA! Aliás, são duas arritmias semelhantes em vários pontos. E esse mecanismo de reentrada pode acontecer em direção anti-horária (típico) ou no sentido horário (atípico). Mas essa informação não costuma ser tão cobrada em provas de acesso direto! As melhores derivações para vermos um flutter no ECG são as derivações inferiores (D2, D3 e aVF)! Então, foquem nelas na hora de resolver questões. CM 62 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR CM 63 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Uma particularidade que queremos mostrar é o que alguns especialistas chamam de “Fibrilo-Flutter”: isso é um vício de linguagem, pois a maioria dos autores e bibliografias não aceita essa denominação. O certo, nessas situações intermediárias, é considerar FA mesmo. Chama-se assim quando em V1 ocorre uma morfologia que lembra um “Flutter Atrial”, mas, ainda assim, é uma FA (Figura 28). CM 64 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 28. Observem V1, realmente lembra um Flutter atrial pelo serrilhado na linha de base. Mas não se encontra essa morfologia em nenhuma outra derivação e o ritmo é irregular. Dessa forma, consideraremos como FA. Fonte: ECG Medway. O tratamento do flutter atrial é o mesmo da FA! Seja no ambulatório, seja no PS e mesmo nas condutas relacionadas à anticoagulação! Mas, como nem tudo são flores, existem algumas diferenças: no contexto ambulatorial, teremos duas opções também, mas, aqui, serão o controle de ritmo ou a cardioversão elétrica! Não usamos controle de frequência para flutter atrial, no geral. No PS, segue o jogo: há instabilidade hemodinâmica secundária à taquiarritmia? Cardioversão Elétrica Sincronizada! O paciente está estável? Vamos olhar para o tempo de arritmia! < 48 horas = cardioversão elétrica sincronizada (50 J). ≥ 48 horas = anticoagulação por 3 semanas + cardioversão elétrica sincronizada (50 J). • • CM 65 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Independentemente do momento da cardioversão, vamos manter anticoagulação por mais 4 semanas e decidir se iremos manter anticoagulação cronicamente pelo CHA2DS2VASc. Atenção: percebam que no flutter a opção é pela cardioversão elétrica. É uma arritmia que responde muito bem tanto à cardioversão elétrica quanto à ablação, portanto, a tendência é a estratégia de controle do ritmo. TAQUICARDIAS VENTRICULARES As TVs são um conjunto de 3 ou mais batimentos taquicárdicos de QRS alargado (≥ 120 ms). São elas: Taquicardia Ventricular (Mono ou Polimórfica, e, dentre as Polimórficas, a famosa Torsades de Pointes), Fibrilação Ventricular e Ritmo Idioventricular Acelerado (RIVA). CM 66 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Os QRS são alargados porque o estímulo elétrico proveniente do ventrículo é conduzido célula a célula, fora das vias de condução rápida e não são acompanhados de ondas P - diz-se que há “dissociação atrioventricular”. Dependendo do tipo de TV, as frequências variam de 70 a 250 bpm. Pode ser: TV sustentada (TVS): mais de 30 segundos de duração OU que causa instabilidadehemodinâmica. TV não sustentada (TVNS): até 30 segundos de duração (interrupção espontânea). Os sintomas incluem manifestações diversas, a depender da causa base. Podem se apresentar como palpitações, mas também como síncope, PCR ou morte súbita (por isso vemos esses assuntos todos nessa mesma apostila). Geralmente, a gravidade dos sintomas possui maior correlação com a frequência e duração do episódio (se muito frequentes, tendem a cursar com síncope por hipofluxo). A maioria dos pacientes tratados para TV sintomática recorrente tem doença cardíaca isquêmica de base, seguidos pelos portadores de insuficiência cardíaca de fração de ejeção reduzida e de cardiomiopatia hipertrófica. MONOMÓRFICA Na TV monomórfica as ondas do QRS têm morfologia sempre igual (por isso, monomórfica). • • CM 67 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 29. Exemplo de ECG com taquicardia ventricular (TV) monomórfica. Observem a sequência de QRS alargados (≥ 120 ms), sempre do mesmo aspecto. Pequenos entalhes podem ocorrer devido à condução lenta, bem como podem corresponder à onda P caindo dentro do complexo (já que há dissociação atrioventricular). Fonte: ECG Medway, aula 28. TRATAMENTO AGUDO DA TV MONOMÓRFICA Sem instabilidade hemodinâmica, pode-se utilizar amiodarona EV 300 mg como dose de ataque, seguido de 600-900 mg em BIC para as próximas 24h horas (podendo ou não ter fase de infusão mais rápida ou ataque de 6hs seguido de fase de infusão mais lenta de 18 horas). Se a TV não for interrompida ou se recorrer, uma repetição da dose de ataque pode ser administrada. Se ainda assim não houver resposta à terapia medicamentosa, a cardioversão elétrica sincronizada (CVES) pode ser considerada. CM 68 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Na presença de instabilidade hemodinâmica, CVES imediatamente. Cargas muito baixas são capazes de reverter uma TV, como 10 a 50 J, mas muitos protocolos sugiram iniciar com cargas maiores, como 100 J. As provas não costumam entrar nesse mérito da carga. Após a conversão da arritmia é importante buscar a causa (se já não for conhecida) e fazer medidas para a prevenção da recorrência. TRATAMENTO A LONGO PRAZO O principal objetivo da terapia a longo prazo é prevenir a morte súbita nos pacientes predispostos e a recorrência de TVs sintomáticas, em que os betabloqueadores são efetivos para a maioria dos casos. Os que possuem risco aumentado de morte súbita podem ter indicação de CDI. As indicações de CDI são um tanto específicas e individualizadas de acordo com a etiologia, presença ou não de sintomas. Criamos uma “regra geral”, que não é infalível, mas acerta a maioria das indicações e questões: CM 69 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR 1. Prevenção secundária: paciente que teve PCR devido TV de causa não reversível ou teve TVS também de causa irreversível (possui IC, infarto prévio etc.). 2. Prevenção primária (nunca teve TV flagrada): portadores de FEVE < 35% + condição clínica importante irreversível (ex.: doença de Chagas sintomática, cardiomiopatia hipertrófica com critérios de alto risco, cardiomiopatia isquêmica sintomática) ou com TV induzida no estudo eletrofisiológico. 3. Condição clínica que cause TV com síncope inexplicada, refratária a tratamento medicamentoso. Para finalizar, é interessante vocês terem contato com a síndrome de Brugada, condição que, raramente é cobrada em prova e que, portanto, vocês já sabem: vamos ser breves! Essa é uma uma canalopatia congênita de transmissão autossômica dominante que prolonga o QT e predispõe a ocorrência de TV, mas o tratamento inicial é com betabloqueadores. Para casos refratários, pensaremos em CDI. O ECG aqui é bem característico e lembra um BRD. Entretanto, há períodos em que o ECG desses pacientes é normal. De qualquer forma, na presença dessa alteração em V1, lembre-se da síndrome de Brugada! CM 70 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 30. Esquematizado o aspecto de Brugada Tipo 1 na derivação em V1. A síndrome de Brugada (BrS) se manifesta com elevação do segmento ST nas derivações precordiais direitas (V1 a V3), bloqueio incompleto ou completo do ramo direito e suscetibilidade à taquiarritmia ventricular e morte súbita. O BrS é uma patologia elétrica sem anomalias miocárdicas evidentes. Fonte: adaptado de DOI: 10.1016/j.repc.2017.06.015 - Induced Brugada Syndrome: Possible sources of arrhythmogenesis. TAQUICARDIA VENTRICULAR MONOMÓRFICA VERSUS TAQUICARDIA SUPRAVENTRICULAR DE CONDUÇÃO ABERRANTE Não é um assunto importante para provas! Na prova, taquicardia de QRS alargado = TV até que se prove o contrário! Mas, a título de conhecimento geral, e para não serem pegos desprevenidos caso a banca faça uma pegadinha, é preciso saber que existem taquicardias supraventriculares que aparentam TV, chamadas de Taquicardias Ventriculares com Condução Aberrante (TSVA). Mas, que fique claro: na prova, é muito, mas muito mais provável se tratar de TV e o contexto mais comum é o de PCR! E, mesmo na vida, o tratamento costuma ser o mesmo, então, sem estresse nessa parte, fechou? Até porque, nem sempre é fácil diferenciar, pelo contrário, às vezes é um desafio. Afinal, para tudo que é meio incerto inventam critérios. Neste caso, são os Critérios de Brugada e Critérios de Vereckei (Figuras 31 e 32). Brugada “erra menos”, mas Vereckei é mais fácil de aplicar por não especialistas. Confira abaixo esses critérios a título de curiosidade: VERECKEI CM 71 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 30. Algoritmo de Vereckei para diferenciação de Taquicardia Ventricular (TV) e Taquicardia Supraventricular de Condução Aberrante (TSV-A). Fonte: ECG Medway, aula 28. BRUGADA CM 72 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 31. Algoritmo de Brugada para diferenciação de taquicardia ventricular (TV) e taquicardia supraventricular de condução aberrante (TSV-A). Fonte: ECG Medway, aula 28. POLIMÓRFICA Por se tratar de um ritmo de PCR (ou iminência dela), maiores detalhes de conduta serão explorados no capítulo específico de parada cardiorrespiratória. Por ora, vamos focar na parte eletrocardiográfica, fechado? É, basicamente, um tipo de taquiarritmia de QRS alargado (assim como a TV monomórfica), mas que se apresenta com diversos tipos de complexos distintos, configurando o polimorfismo. Mais fácil ver do que descrever (Figura 32), vamos lá: CM 73 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 32. Exemplo de ECG com TV polimórfica. Note que, embora alguns complexos se pareçam, há uma diferença importante entre eles, tanto em amplitude, como em duração. A diferenciação de ritmo de parada cardíaca ou não depende da presença de pulso. Por isso, chamamos de TV sem pulso (PCR) ou TV com pulso (ritmo pré-parada). Tratamento agudo: por se tratar de ritmo pré-PCR, frequentemente, é uma arritmia que cursa com instabilidade, e, nesse caso, o tratamento preconizado é a desfibrilação elétrica, o choque (não sincronizado) mesmo. Isso mesmo, ATENÇÃO REDOBRADA AQUI! Isso é pegadinha de prova, o tratamento é equivalente a paciente instável, mas com choque não sincronizado, pois não há complexos QRS organizados. CM 74 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR TORSADES DE POINTES É um subtipo de TV polimórfica, caracterizada pela aparência eletrocardiográfica de complexos QRS que mudam de amplitude e que parecem se torcer em torno da linha isoelétrica (Figura 33). Geralmente, ocorre em frequências de 200 a 250 bpm. Há diversas condições clínicas que predispõem a ocorrência desse tipo de taquiarritmia, dentre as mais comuns, temos: as bradicardias congênitas CM 75 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR severas, hipocalemia(e também hipocalcemia e hipomagnesemia) e o uso de medicamentos que prolongam o QT (lista adiante). A ocorrência de uma sequência de ciclo RR longo-curto são comumente a causa precipitante da Torsades de Pointes. Figura 33. Exemplo de ECG com Torsades de Pointes. Abaixo, no detalhe, observem em vermelho a descrita linha imaginária na qual ocorre a torção. As flechas demonstram as pontas que estavam inferiores e progressivamente foram para parte superior e, na sequência, inverteram-se. Por se tratar de ritmo de taquicardia ventricular polimórfica, o tratamento preconizado é o mesmo, ou seja, a desfibrilação elétrica imediata é indicada em pacientes instáveis (TV polimórfica em paciente instável = não sincronização). Caso o paciente encontra-se estável e não tenha CM 76 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR degenerado para FV (ritmo de parada, nem precisa avaliar pulso), pode-se realizar o tratamento direcionado antes da cardioversão. Embora tenha um ECG característico o suficiente para se iniciar um tratamento direcionado, o diagnóstico “definitivo” ocorre quando, após a desfibrilação, você identifica QT longo e/ou presença de onda U nos complexos basais. Feito o diagnóstico de Torsades de Pointes, a medicação de escolha para seu tratamento é o sulfato de magnésio endovenoso (se já não tiver sido feito no momento agudo). Isso é importante, pois a administração de alguns antiarrítmicos, como propafenona, amiodarona ou sotalol, podem aumentar a recorrência dessa arritmia. A lidocaína, dependendo do contexto, pode ser utilizada. Aqui, importante: não atrasamos o choque para administrar a medicação! CM 77 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR No contexto recente de pandemia pelo COVID-19, principalmente em 2020 e 2021, foi bastante comum a prescrição, por alguns médicos, de medicações como hidroxicloroquina e azitromicina: sabidamente, medicações que prolongam o intervalo QT. Dessa forma, tornou-se um prato cheio para os examinadores cobrarem a respeito do Torsades de Pointes e é interessante, então, saber também as principais medicações (e drogas, de maneira geral) que prolongam o QT: Amiodarona. Escitalopram, Fluoxetina, Paroxetina. Azitromicina, Eritromicina, Levofloxacina, Norfloxacino. Sotalol, Propafenona. Haloperidol, Risperidona. Amitriptilina. Fenitoína. Atazanavir. Fluconazol. Hidroxicloroquina, Cloroquina. Antieméticos. Intoxicação por organofosforados. • • • • • • • • • • • • CM 78 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Cocaína. RITMO IDIOVENTRICULAR ACELERADO (RIVA) Ritmo idioventricular acelerado (RIVA) é definido como ritmo ectópico com mais de três batimentos prematuros (antes do estímulo sinusal) consecutivos, com frequência maior que a sinusal, no entanto, menor que a maioria das taquicardias ventriculares (geralmente entre 60 e 110 batimentos por minuto). Tem origem em focos ventriculares (idioventricular - do próprio ventrículo) recém-perfundidos. Por isso, simplificadamente, é uma “TV” com FC < 100-120 bpm (Figura 34). São chamados de ventriculares porque, habitualmente, quando o ritmo é desencadeado no ventrículo, costumamos observar uma bradicardia (nos casos de BAVTs, por exemplo), mas, no caso do RIVA, o disparo ventricular é mais acelerado que o padrão habitual, a ponto de acontecer, por vezes, antes da chegada do estímulo sinusal (ou seja, o estímulo sinusal encontra as células miocárdicas em período refratário), por isso, é comum haver uma dissociação atrioventricular visível. Em geral, trata-se de uma arritmia benigna, autolimitada, sem repercussão hemodinâmica e que não requer tratamento específico, podendo ocorrer na fase de reperfusão do infarto do miocárdio, ou associada à intoxicação exógena ou cardiopatia congênita. Todavia, pacientes que apresentam tal arritmia de forma sustentada ou incessante podem evoluir com taquicardiomiopatia (cardiomiopatia induzida por taquicardia sustentada). • CM 79 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 34. ECG em D2 longo, exemplificando a RIVA. Destacado um desses períodos em vermelho. Flechas pretas apontam ondas Ps, caindo na onda T, sem condução subsequente, demonstrando que estão dissociadas do ritmo ventricular. É um clássico ritmo da reperfusão coronariana, mas pode ocorrer em indivíduos mais vagotônicos. Fonte: ECG Medway, aula 28. PARTE 2: BRADIARRITMIAS FISIOPATOLOGIA As bradicardias são ritmos nos quais a FC é menor que 60 bpm (algumas referências trazem o ponto de corte de 50 bpm, mas as provas não CM 80 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR costumam explorar níveis intermediários para bater o martelo entre uma condição ou outra). Vamos relembrar o caminho percorrido pelo impulso elétrico no coração? Figura 35. Figura 35. Fibras elétricas cardíacas. O estímulo parte normalmente do nó AV, segue pelos feixes atrioventriculares até o nó atrioventricular. Passa pelo Feixe de His, pelas fibras de Purkinje e se divide em ramos direito e esquerdo (com subdivisões que são secundárias). Fonte: Autores: Juliana Irani Fratucci de Gobb, Paloma Grazielle Bittencourt da Silva, Data Publicação: 00/00/0000 Página: Museu escola IBB, UNESP. CM 81 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Geralmente, o ritmo cardíaco é comandado pelo nó sinusal (região do coração que possui células com automatismo - capacidade de despolarização espontânea). Todas as células especializadas em condução da atividade elétrica cardíaca têm essa capacidade, mas, o que diferencia o nó sinusal é que ele tem uma frequência despolarização intrínseca maior que as outras células - antes que qualquer outra célula do coração despolarize, o nó sinusal já disparou e o estímulo já chegou até essas células, de forma que elas, agora, estão em período refratário. A despolarização, então, segue por fibras específicas até o nó AV e, depois, percorre pelo Feixe de His e fibras de Purkinje (sistema His-Purkinje), que se divide em ramos direito e esquerdo. Se, por alguma razão, o nó sinusal perder sua capacidade de despolarizar, o estímulo começa a partir de pontos mais baixos do sistema cardíaco de condução elétrica. Ou seja, se houver falha na geração do impulso elétrico pelo nó sinusal, o nó atrioventricular assumirá a ritmicidade do coração, gerando as despolarizações - que serão produzidas em menor frequência, devido à presença de menor quantidade de canais de sódio vazantes no nó AV. E se o nó AV também falhar? O estímulo vai partir de outros pontos mais baixos do sistema especializado de condução elétrica. Ou seja, quanto mais alta a origem do estímulo, maior a velocidade de disparos. Como assim? Vamos falar em termos numéricos para ficar mais didático. Se o nó sinusal dispara 90 vezes por minuto (FC 90 bpm), o nó AV dispara 60 (FC 60 bpm), o Feixe de His dispara 45 vezes (FC 45 bpm) e as fibras de Purkinje 30 vezes (FC 30 bpm). Assim, chegamos à conclusão final de que se, por algum motivo, o nó sinusal for acometido e parar de desempenhar a sua função ou seu estímulo deixar de ser conduzido, haverá um bloqueio e outra região (que gera estímulos de menor frequência) assume essa função de "marca-passo". Dependendo da região que assume o automatismo, o CM 82 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR bloqueio pode ser classificado em dois tipos: supra-hissiano (acima do Feixe de His) ou infra-hissiano (abaixo). CLASSIFICAÇÃO Como vimos, de acordo com a localização, podemos classificar os bloqueios em supra ou infra-hissianos. Mas, algumas literaturas costumam classificar as bradiarritmias de acordo com o mecanismode ação e resposta ao tratamento. Como assim? Algumas referências classificam as bradiarritmias em benignas ou malignas: Benignas: são supra-hissianas, com poucos sintomas e sem repercussões sistêmicas. Em geral, não necessitam de tratamento específico, apenas observação clínica, mas, se necessário, respondem à atropina, uma medicação que diminui a ação vagal sobre o coração e, com isso, acelera a frequência cardíaca… Malignas: são infra-hissianas, e, em geral, aparecem em situações clínicas graves, com repercussões hemodinâmicas importantes (rebaixamento do nível de consciência, precordialgia, dispneia por edema agudo pulmonar, síncope etc.)! Exigem tratamento específico e avaliação para implante de marca-passo, já que não respondem adequadamente aos antiarrítmicos (mesmo à atropina, recomendação do ACLS nas bradiarritmias instáveis). • • CM 83 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR As arritmias causadas por fibrose nas fibras de condução elétrica também não respondem à atropina: há substituição do tipo celular por tecido colágeno e sua presença não permite a ação da atropina. E se não tem atropina ou esta é ineficaz, como tratar? Com marca-passo. Agora vamos falar um pouco de cada uma das apresentações de bradiarritmias! Existem alguns tipos: Disfunção do nó sinusal: aqui, veremos brevemente a bradicardia sinusal e a pausa sinusal. Ritmos de escape (não é o nó sinusal que controla o ritmo, o estímulo se inicia em células musculares cardíacas comuns ao invés de ter origem nas fibras cardíacas especializadas). • • CM 84 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Escape atrial (ritmo idioatrial) - o ritmo tem origem em outro lugar dos átrios (que não o nó sinusal). Escape juncional (ritmo idiojuncional): o ritmo tem origem em outro lugar entre os átrios e os ventrículos (que não o nó AV) Escape ventricular (ritmo idioventricular): o ritmo tem origem em algum ponto localizado nos ventrículos (que não o sistema His- Purkinje ou os ramos direito/esquerdo). Bloqueios atrioventriculares: vamos citá-los aqui para explorá-los com mais detalhes à frente! Podem ser de três graus distintos: 1º, 2º ou 3º grau, também chamado de Bloqueio Atrioventricular Total. O de segundo grau ainda se subdivide em Mobitz I ou Mobitz II e o 2:1. ◦ ◦ ◦ • CM 85 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 36. Classificação das arritmias quanto ao seu comportamento de benignidade ou malignidade. Percebam que o BAV 2º grau 2:1 é, em geral, maligno, mas, a verdade é que essa classificação vai depender do estudo eletrofisiológico (EEF). DISFUNÇÃO SINUSAL Figura 37. Fluxograma de causas de bradiarritmias provenientes do nó sinusal. BRADICARDIA SINUSAL Aqui o ritmo cardíaco é comandado pelo nó sinusal (onda p positiva em D1, D2 e aVF), mas com frequência cardíaca (FC) reduzida < 50 bpm (figura 38). CM 86 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 38. ECG em bradicardia sinusal Fonte: ECG Medway banco de ECG - ECG 30. Nem sempre indica um estado patológico, sendo observada comumente em atletas, mulheres e momentos de tônus vagal aumentado, como período do sono, por exemplo. Em geral, é uma condição de evolução benigna, entretanto, há condições patológicas que podem precipitar uma bradicardia sinusal (crises vagotônicas): hipertensão intracraniana (tríade de Cushing), infarto de parede inferior, ortostatismo (mudança brusca), manobras vagais… Ou ainda há o uso de drogas cronotrópicas negativas! CM 87 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR PAUSA SINUSAL Além da bradicardia sinusal, ou seja, um ritmo persistentemente lentificado, podemos observar um ritmo sinusal com pausa. Como assim? É um ritmo sinusal normal, mas que, eventualmente, fica sem um batimento, que ocorre porque o nó sinusal resolve não trabalhar e, dessa forma, a contagem do número de batimentos ao longo de 1 minuto fica inferior a 50-60 bpm. Isso pode acontecer por uso de drogas bradicardizantes ou estímulo vagal (parassimpático). Mas, nesse caso, geralmente são pausas rápidas (≤ 3 segundos) e, portanto, assintomáticas e benignas. Mas, a pausa sinusal também pode acontecer por doença do nó sinusal. CM 88 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR A doença do nó sinusal é uma doença fibro-degenerativa do nó sinusal ou perinodal, mais comum em mulheres de 60 a 69 anos. É acompanhada de sintomas de baixo débito (tontura, síncope ou pré- síncope, por exemplo) Não é muito cobrada em provas, principalmente do estado de São Paulo, por isso, seremos breves aqui! A doença do nó sinusal pode ser idiopática/primária (genética - autossômica dominante), que acontece mais em pacientes jovens, ou secundária a doenças como a Doença de Chagas, isquemia miocárdica e doenças degenerativas. No ECG veremos irregularidade no comando ( há sempre onda p precedendo QRS, mas ele aparece de forma irregular), e não há bloqueio. Mesmo assim, essa irregularidade pode provocar pausas maiores de 3 segundos, quando isso acontece, dizemos que a pausa é longa e, nesses casos, muitas vezes sintomática. Figura 39. Pausa sinusal (nesse caso, relacionada à doença do nó sinusal em paciente idoso). Observe que todo complexo QRS é precedido de uma onda p, mas a onda p surge quando “bem entende”, tornando o ritmo irregular. Apesar do ritmo irregular, o que torna esse eletrocardiograma diferente de um eletrocardiograma de um paciente com fibrilação atrial de baixa resposta ventricular, é justamente a presença das ondas p. Observe ainda que não há um bloqueio de condução (o intervalo PR tem tamanho normal e é sempre existente; não há dissociação entre as ondas P e o complexo QRS). Fonte: Curso Nacional de Reciclagem, Sociedade Brasileira de Cardiologia, Acervo Pessoal Dr. Moura, Bradiarritmias. CM 89 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Quando cursa com pausas maiores de 3 segundos, a arritmia é vista como maligna, porque pode cursar com sintomas. E responde à atropina? Lembre-se, está acima do Feixe de His, então, tecnicamente, deveria responder. Acontece que, nesse caso, temos uma doença do nó, que está fibrosado, ou seja, essas células não serão capazes responder ao uso de antiarrítmico. Por isso, a atropina não funciona. Outro detalhe, essa é uma doença permanente e não um quadro transitório. O nó está "destruído''! Uma doença permanente exige um tratamento definitivo. Então, mesmo que respondesse ao uso de um antiarrítmico, o paciente teria que usá-lo constantemente. Você já viu algum paciente com atropina contínua? Não, porque isso não existe! Ou seja, aqui precisamos do implante de marca-passo. Inclusive, a doença do nó sinusal é uma das principais causas de implante de marca-passo. RITMOS DE ESCAPE Nos ritmos de escape não é o nó sinusal que está ditando a ritmicidade cardíaca: algum outro miócito percebe que o nó AV não trabalhou e desencadeia o estímulo. Por isso, os escapes são batimentos considerados tardios ou de suplência e são precedidos por uma pausa. Nos ritmos de escape não temos nenhum bloqueio, o ritmo passa adequadamente pelas fibras, o problema está na origem do estímulo, que pode ser atrial, juncional ou ventricular. Eles caracterizam os ritmos idioatrial, idiojuncional e idioventricular. “Idio” quer dizer ritmo que é próprio daquele lugar, ou seja, que tem origem naquele ponto. CM 90 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR ATRIAL O estímulo tem origem em algum miócito atrial, que não o nó sinusal. O esperado é que o paciente se apresente com uma frequência cardíaca baixa, entre 40-60 bpm. O achado eletrocardiográfico é marcado pela presença de uma onda p antecedendoo QRS, mas de morfologia anormal (diferente da onda p sinusal). Entre as causas temos o coração de atleta, cronotropismo positivo do sono e o uso de gases anestésicos. Classicamente, é uma arritmia benigna. JUNCIONAL No ritmo idiojuncional o estímulo tem origem em um miócito localizado entre o átrio e o ventrículo (incluindo o nó AV). A frequência cardíaca também é baixa, em torno de 40-60 bpm. Também tem comportamento benigno e, portanto, a conduta é observacional, mas, se o paciente apresentar instabilidade, pode-se usar atropina para tratamento, com boa resposta. Uma diferença importante é que, no ritmo idiojuncional, não temos bloqueio. Nos bloqueios completos, o ritmo também pode ter origem no nó AV, mas temos uma onda p que não conduz - ou seja, está dissociada do complexo QRS. Já no caso dos escapes juncionais, a onda p não existiu porque o estímulo teve origem no nó AV. Eletrocardiograficamente (figura 40), temos: ausência de onda p (porque o estímulo não partiu do átrio) e complexos QRS estreitos (o estímulo segue passando pelas vias rápidas de condução). CM 91 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 40. Ritmo juncional. Observe a presença de onda p nos primeiros dois estímulos (sinalizados no segundo traçado pela seta verde). Subsequentemente, não vemos mais uma onda p antecedendo o QRS (círculo vermelho). Temos um batimento de suplência, ou seja, um QRS tardio, que aparece depois do esperado (traçado em azul), que caracteriza um ritmo de escape. Este ritmo de escape tem um QRS estreito não precedido de onda p, logo um escape juncional. VENTRICULAR Por fim, temos o ritmo idioventricular (escape ventricular). Nesse caso, o estímulo tem origem em um miócito ventricular. Recorda que a frequência de disparo dos automatismos é menor quanto mais longe do nó sinusal estivermos? Pois então, aqui a frequência é tão baixa que fica entre 8-40 bpm, ou seja, cursa com um débito cardíaco insuficiente, levando a sintomas e, portanto, sendo classificada como uma arritmia MALIGNA. Também por ter origem abaixo do Feixe de His, não responde à atropina, por isso, o tratamento é com a colocação de marca-passo cardíaco. CM 92 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 41. Ritmo idioventricular. Batimentos considerados ectópicos, isto é, originados em uma região do miocárdio diferente do ritmo predominante, podem ser classificados como extrassístoles ou escapes. Em ambos os casos, apresentam morfologias distintas dos demais QRS. A primeira diferença é que extrassístoles geralmente são estudadas com taquiarritmias, enquanto escapes geralmente são vistos com CM 93 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR bradiarritmias. Parece algo sem noção, mas na verdade ajuda muito, olha só! O que de fato diferencia um do outro é o momento em que acontecem: extrassístoles são batimentos considerados precoces, ou seja, ocorrem antes do próximo batimento esperado para o ritmo (por isso, se correlacionam com as taquiarritmias, eles são “apressadinhos” e se eles se sustentarem, ou seja, uma extrassístole atrás da outra, acabam deflagrando uma taquiarritmia, lembram?). Figura 42. Ritmo sinusal, com extrassístoles ventriculares. Perceba o encurtamento do intervalo RR, em verde, indicando a precocidade. Já os escapes são batimentos considerados tardios ou de suplência (ou seja, quem era para trabalhar não trabalhou e não desencadeou um potencial de ação, então, os miócitos resolvem se despolarizar para garantir algum estímulo elétrico). São precedidos por uma pausa, geralmente, relacionada a um atraso transitório da automaticidade das fibras miocárdicas responsáveis pela determinação do ritmo cardíaco. CM 94 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 43. Ritmo sinusal, com escape atrial (em vermelho onda p de morfologia anormal precedendo QRS estreito). Percebam a pausa (aumento do intervalo RR em azul), indicando tratar-se de um batimento de suplência (tardio). Nesse exemplo, é possível perceber que o ritmo de escape é demarcado pelo quadro verde. Já falamos das bradiarritmias sinusais (bradicardia e pausas) e dos ritmos de escape, mas agora está na hora de falarmos sobre os famosos bloqueios atrioventriculares. Atenção total neste ponto! Dentre as bradiarritmias, este é o assunto mais cobrado nas provas! BLOQUEIOS ATRIOVENTRICULARES (BAV) Os bloqueios atrioventriculares (BAV) são, por definição, uma dissociação entre o estímulo proveniente do nó sinusal e a recepção desse mesmo estímulo no nó atrioventricular. CM 95 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Em termos eletrocardiográficos, serão marcados por uma falha no acoplamento entre a onda p e o complexo QRS. Essa falha pode ser desde um atraso na transmissão (o estímulo do nó sinusal demora a chegar ao nó AV) até a ausência completa da transmissão. Podem ser de origem congênita ou adquirida (doença de Chagas, IAM, doenças infiltrativas, valvopatias, entre outros). CM 96 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 44. Divisão didática sobre o comportamento dos bloqueios atrioventriculares. Observe que, apesar de ter sido colocado entre os BAVs malignos, o BAV 2º grau 2:1 nem sempre terá comportamento maligno. 1º GRAU O bloqueio AV de primeiro grau não é um bloqueio propriamente dito, mas sim uma lentificação na condução do estímulo, ou seja, é definido por um atraso na condução AV (intervalo PR ≥ 200 ms). É considerado benigno, até que se prove o contrário. Pode ocorrer naturalmente durante o sono, mas isso não indica evolução para uma condição de pior prognóstico, pois dificilmente evolui para os bloqueios mais avançados. São frequentes na prática clínica diária. Característica essencial: intervalo PR ≥ 200 ms (5 mm ou 1 quadradão). Observe o ECG de exemplo (figura 45): CM 97 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 45. Exemplo de BAV de 1º grau. Destacado, o intervalo PR de mais de 200 ms. Fonte: Cardiopapers - Como reconhecer diferentes tipos de bloqueios de forma simples. Lembrar que eles não requerem tratamento na esmagadora maioria dos casos (mesmo ambulatorialmente). Em contexto de pronto-socorro, raramente cursam com instabilidade, mas quando o fazem, respondem à atropina. Em pacientes sintomáticos ambulatoriais, o tratamento definitivo poderá ser realizado com o implante do marca-passo, mas é importante salientar que o implante de marca-passo em assintomáticos é contraindicado. CM 98 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR 2º GRAU Enquanto no bloqueio de primeiro grau tínhamos apenas um atraso na condução, a partir do bloqueio de segundo grau, começamos a ter bloqueios verdadeiros na condução do nó sinusal para o nó AV. O que marca o bloqueio AV de segundo grau, é que apenas algumas ondas p conduzem o estímulo aos ventrículos, gerando o QRS. São subdivididos em bloqueio Mobitz tipo I, Mobitz tipo II, e BAVs avançados. O que diferencia os subtipos de bloqueios é a temporalidade com que o bloqueio acontece e a capacidade do examinador de antecipar a ocorrência do bloqueio. BLOQUEIO AV DE SEGUNDO GRAU MOBITZ TIPO 1 (BAV 2º GRAU MB1) CM 99 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR O BAV de 2º grau Mobitz tipo 1 ou bloqueio do fenômeno de Wenckebach é aquele no qual há um aumento progressivo do intervalo PR até haver um bloqueio da onda P. Às vezes, esse aumento pode ser discreto, então uma das principais maneiras de identificar esse BAV é verificar se o PR antes do bloqueio é maior que o PR depois do bloqueio. Usar essa dica ajuda a diagnosticar o BAV 2º grau Mb1 mesmo que ele ocorra em ciclos curtos. Figura 46. Exemplo de BAV de 2o grau Mobitz tipo 1. Observem a P bloqueada destacada em azul. Agora vejam que oPR verde (antes do bloqueio) é maior que o PR vermelho (depois do bloqueio). Observem ainda que a partir do PR vermelho, há um prolongamento progressivo desse intervalo, até ocorrer um novo bloqueio adiante. Apesar de ser um achado tipicamente eletrocardiográfico, esse bloqueio foi descrito inicialmente pela semiologia. É por isso que as bancas algumas vezes exploram o significado clínico dele: o examinador pode descrever uma irregularidade no ritmo cardíaco caracterizada por pausas ventriculares precedidas ritmicamente por uma redução progressiva da intensidade da primeira bulha (que corresponde ao alargamento PR). Tal achado clínico deu origem ao que hoje chamamos CM 100 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR de fenômeno de Wenckebach, representado no ECG como aumento progressivo do intervalo PR seguido de um bloqueio. Também é um tipo de bloqueio benigno, típico de pessoas com sistema vagal mais ativado - como mulheres, atletas, jovens e alguns idosos. Também pode ocorrer normalmente durante o sono. Raramente será responsável por qualquer sintomatologia, como lipotímia, e só se considera o implante de marca-passo definitivo ambulatorialmente se houver uma correlação muito clara entre o sintoma e o bloqueio, após exclusão de outros diagnósticos diferenciais. Pode ocorrer na vigência de um IAM inferior (mais comumente o IAM de VD). Nesse contexto, não há necessidade de tomar medidas adicionais, exceto estabilização clínica e monitorização. BLOQUEIO AV DE SEGUNDO GRAU MOBITZ TIPO 2 (BAV 2º GRAU MB2) Agora, adentramos no território dos bloqueios ditos malignos. O BAV de 2º grau Mobitz tipo II sempre é patológico. O bloqueio de condução ocorre no feixe de His em 20% dos pacientes e nos ramos direito e esquerdo nos demais. Os pacientes podem ser assintomáticos, mas, com frequência, apresentam sintomas de baixo débito como lipotímia e síncope, dependendo da razão entre batimentos conduzidos e bloqueados. O BAV de 2º grau Mobitz tipo 2 ocorre, habitualmente, em pessoas que possuem alguma cardiopatia - IAM prévio, doença de Chagas, cardiomiopatias, entre outras. Nesse tipo de BAV, há um bloqueio súbito e imprevisível da onda P , sem alteração do intervalo PR, seguido de retorno ao ritmo sinusal. CM 101 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 47. Exemplo de BAV 2G Mb2. Notem que no primeiro ciclo, está tudo certinho… P, QRS e T. Na sequência, há uma onda P não seguida de QRS. As flechas vermelhas apontam os outros momentos em que ocorre esse bloqueio. Observem que não é possível prever quando será o próximo bloqueio. Fonte: Curso de ECG Medway. Portadores desse tipo de bloqueio têm indicação de marca-passo cardíaco, mesmo que apresentem um QRS estreito ou sejam assintomáticos, porque pode ocorrer progressão para um BAV avançado ou BAVT, portanto, com FC extremamente reduzida, levando a sintomas de baixo débito pela incapacidade de garantir a perfusão sistêmica. Até hoje o conceito específico de BAV 2:1 não foi cobrado nas provas, mas o seu nome pode aparecer entre as alternativas, então precisamos elucidar esse conceito. Como o próprio nome sugere, é um tipo de bloqueio em que há, de forma alternada, condução e bloqueio de onda P, ou seja, toda 2ª onda P é bloqueada. Observe na figura 48: CM 102 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 48. Exemplo de ECG com BAV 2:1. Notem a alternância entre uma P conduzida da P bloqueada (que eventualmente pode se apresentar muito próxima da onda T). Fonte: Manual MSD, português, cardiovasculares, arritmias e doenças cardíacas - Bloqueio atrioventricular. Qual é o problema desse tipo de bloqueio? É que não conseguimos definir se ele é supra ou infra-hissiano. Ou seja, não conseguimos dizer se ele é benigno ou maligno, com indicação de conduta conservadora ou implante de marca-passo. Isso porque existem duas formas de criarmos um bloqueio 2:1: BAV 1º grau, Mobitz tipo I: o nó AV conduz uma vez e, no potencial de ação seguinte, já alarga tanto o PR que bloqueia, sem dar tempo de percebermos o alargamento progressivo. Dizemos então que é um bloqueio supra-hissiano, benigno e no qual a conduta pode ser expectante. BAV 2º grau, Mobitz tipo II: o nó AV está tão danificado que conduz uma vez e não conduz outra. Dizemos então que é um bloqueio infra- hissiano, maligno, com indicação de implante de marca-passo. A distinção se é um bloqueio Mobitz tipo I ou II é difícil de ser efetuada, pois duas ondas p nunca são conduzidas em uma série. Dessa forma, também é difícil prever o risco de evolução para bloqueio AV total. • • CM 103 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Como diferenciar? Bem, a diferenciação definitiva pode ser feita pelo estudo eletrofisiológico. AVANÇADO À semelhança do BAV 2º grau Mobitz tipo II, também é um bloqueio súbito e inesperado da onda P, mas, agora, com mais de uma P bloqueada em sequência. O perfil do paciente, ou seja, é o de um portador de cardiopatia estrutural. Trata-se de um BAV maligno e o tratamento é com implante de marca- passo, mesmo nos pacientes assintomáticos. Observe o ECG de exemplo (figura 49). Figura 49. ECG com BAV avançado. Nesse exemplo, há duas ondas p bloqueadas em sequência (pode haver bloqueios avançados com mais de 2 ondas bloqueadas sequencialmente). Fonte: ECG library (av-block-2nd-degree-high-grade-av-block). CM 104 https://litfl.com/av-block-2nd-degree-high-grade-av-block/ https://litfl.com/av-block-2nd-degree-high-grade-av-block/ Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Como assim? Vocês verão que em algumas questões com BAVT (em que há completa dissociação entre a onda P e o QRS) vai parecer que uma onda P está conduzindo o estímulo, simplesmente porque ela ficou à frente do QRS, mas ela não está conduzindo, foi apenas uma coincidência. Essa diferença vai ficar mais clara quando discutirmos BAVT, mas, por ora, já é preciso chamar a sua atenção. Não esperem que a banca cobre bloqueios avançados! Geralmente, em prova, quando houver um bloqueio sequencial (mais de uma onda P bloqueada), até prova em contrário, trata-se de um BAVT. CM 105 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR CM 106 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR 3º GRAU OU TOTAL Chegamos ao bloqueio atrioventricular mais famoso. Nele ocorre um bloqueio completo, ou seja, não há qualquer transmissão do estímulo atrial pelo nó AV, fazendo com que o ritmo ventricular seja completamente independente do ritmo atrial. Esse é sempre um bloqueio maligno, que pode evoluir para morte súbita por assistolia. Isso só não acontece com maior frequência, porque o automatismo das células ventriculares não deixa. Essas células acabam se despolarizando na forma de extrassístole ventricular e mantêm uma CM 107 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR contração ventricular, ainda que em frequência muito inferior ao desejado. Frequentemente a pessoa apresenta-se sintomática com astenia, dispneia e sintomas de baixo débito, como síncope. O ECG é marcado pela dissociação entre as ondas Ps e os complexos QRSs, com intervalos PP e RR regulares entre si . O ritmo de escape ventricular costuma ser em menor frequência do que a frequência das ondas p, ou seja, num mesmo traçado aparecerão mais ondas p que os complexos QRS. A dica clássica é pegar um ECG, medir uma distância P-P, e, depois, transferir essa distância para outras regiões do ECG, primeiramente de uma mesma derivação. É interessante que você também compare essa distância em outra derivação para verificar a existência de p “escondidas” dentro de complexos QRS e/ou ondas T. Repita o procedimentopara o intervalo RR. Se os intervalos PP e RR forem constantes, mas não existir relação entre as ondas p e os complexos QRS, você pode afirmar com grande grau de certeza que está diante de um BAVT. Observe o ECG de exemplo (figura 50): CM 108 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 50. Exemplo de BAVT. Observem as medidas P-P (traçado azul do início de uma onda p até o início de outra) constantes e as medidas R-R (traçado vermelho pico a pico) também constantes, porém, sem relação entre elas. Vejam que o traçado azul é menor que o vermelho, ou seja, a frequência atrial é maior que a ventricular (como é esperado). Vejam, ainda, a onda T apontada pela flecha verde que possui uma morfologia diferente, que se analisada isoladamente poderia “passar batido”, mas ela contém uma P ali dentro, ou seja, se vocês observarem ondas Ts que “mudam de morfologia”, lembrar de suspeitar de BAVT. Fonte: Curso de ECG Medway. CM 109 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR O BAVT pode ter origem congênita ou adquirida. Nesse último caso, costuma ser secundário à isquemia, doença valvar, complicação de pós- operatório de cirurgia cardíaca, miocardiopatias, doenças neuro- degenerativas ou, ainda, pelo uso de medicações bradicardizantes - especialmente em associação (pacientes em uso concomitante de betabloqueadores e amiodarona, por exemplo). Exceto se o BAVT for medicamentoso ou por uma causa conhecidamente reversível, ele sempre será indicação de implante de marca-passo definitivo. Uma situação reversível bastante cobrada em provas é o IAM de VD que evolui com BAVT (consequência do reflexo de Bezold-Jarisch). Se o paciente for sintomático, pode ser uma indicação de marca-passo transvenoso provisório. Contudo, é um BAVT potencialmente reversível, ou seja, só está indicado implante de marca-passo definitivo se o BAVT for mantido após 14 dias do IAM. CM 110 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Para finalizar os tipos de bradiarritmias, reveja um resumo do que foi abordado no quadro compilando as informações mais importantes. Garanta que você tenha memorizado minimamente as informações contidas na tabela abaixo. CM 111 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Bom, agora que você já sabe reconhecer os tipos de bradiarritmias, é importante saber conhecer outras formas de chegar ao diagnóstico e como prosseguir com o tratamento. O manejo desses pacientes é dividido em duas etapas: pronto-socorro e ambulatório. Sendo bem simplista, a maioria das bancas não pedirá detalhes sobre o manejo (raramente é abordado o funcionamento e tipos de marca-passo), mas é importante que você tenha conhecimento de causa para saber eliminar as alternativas erradas quando elas aparecerem entre as opções. CM 112 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR INVESTIGAÇÃO E MANEJO Quando o paciente apresenta somente um ECG demonstrando a bradiarritmia, seu único trabalho será fechar o diagnóstico. O problema são os pacientes que aparecem com sintomas, ou seja, que referem síncope ou pré-síncope, tontura, enfim… sintomas inespecíficos, geralmente compatíveis com baixo débito e que levantam a suspeita de bradiarritmia. O eletrocardiograma será sempre o exame inicial na investigação. Mas, algumas vezes, a natureza intermitente ou transitória de algumas bradicardias exige que lancemos mão de outros exames complementares, monitorando o ECG de forma prolongada, de forma a correlacionar o ritmo aos sintomas queixados pelo paciente. Vocês conhecem o arsenal disponível e como escolher entre esses exames complementares? Temos várias opções de investigação listadas abaixo, a escolha entre elas vai depender da frequência e natureza dos sintomas ou da presença de gatilhos identificados na história clínica. Podemos usar o holter (24h, 48h ou de 7 dias), looper de eventos (funciona por 14 a 30 dias, ou até mesmo anual, grava o ritmo quando paciente sinaliza ao aparelho que está tendo sintomas), teste ergométrico. CM 113 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Nos pacientes portadores de bradicardia sintomática, a avaliação de cardiopatia estrutural subjacente deve ser realizada por meio de exames de imagem. Essa investigação também é útil para determinar a função sistólica do VE e para diagnosticar potenciais causas reversíveis de distúrbios de condução. Pode ser iniciada por meio do ecocardiograma, que é um exame acessível, mas, na suspeita de doença arterial coronariana, exames mais específicos são recomendados - como uma tomografia computadorizada coronariana, angiografia ou ecocardiograma/cintilografia de estresse são recomendadas. E o estudo eletrofisiológico (EEF)? Bom, não sei se vocês sabem, mas o estudo eletrofisiológico é realizado de maneira semelhante ao cateterismo, mas com objetivos distintos. O EEF visa identificar a função anormal do nó SA ou determinar a localização anatômica do distúrbio de condução. Por ser um exame invasivo e de baixa disponibilidade, nem sempre é indicado, mas pode ser uma opção naqueles casos em que se tem dúvidas sobre a possibilidade de ser uma bradiarritmia maligna e o diagnóstico muda completamente a conduta (implante de marca- passo). CM 114 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR A partir do diagnóstico, vamos ter que avaliar a indicação de tratamento da arritmia. E, como dito anteriormente, a análise agora será sobre a necessidade de tratamento em ambiente de emergência ou o manejo ambulatorial. Mas, antes de começarmos essa parte, tenham em mente que a maior parte das questões irá abordar o contexto emergencial. O manejo das bradiarritmias é um assunto pouco explorado em provas teóricas, por ser baseado em algoritmos e fluxogramas (ACLS), mas, eventualmente pode ser abordado em provas práticas. O primeiro cuidado é ter em mente que o manejo de bradiarritmias no adulto é diferente do manejo em crianças. Vocês verão esse assunto com calma na aula de PALS, mas, para evitar conflitos futuros, já guardem que É DIFERENTE! Vamos dar início ao fluxograma, acompanhando a figura 51. CM 115 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 51. Esquematização das condutas frente a uma bradicardia instável. Há literaturas que colocam o marca-passo transcutâneo e medicações em BIC em mesmo grau de prioridade que a atropina. Fonte: Manual de Cardiologia - Cardiopapers (ACLS) última edição. Como sempre, em qualquer situação de emergência, o primeiro passo é garantir a estabilização clínica do doente, por isso você deve MOVÊ-lo para sala de emergência (Monitorização, Oxigênio, se necessário, Veia - garantir acesso venoso calibroso, solicitar Exames, se necessário). Depois, partiremos para o manejo específico de arritmias, que consiste inicialmente na avaliação da presença de sinais de instabilidade hemodinâmica que, em geral, considera-se como rebaixamento de nível de consciência, angina , hipotensão , síncope ou sinais de choque. Na ausência desses sinais, estamos diante de uma bradicardia estável. CM 116 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR ESTÁVEL Se não tem repercussões hemodinâmicas e não há necessidade de elevação imediata da FC, a conduta é expectante, conforme figura 52. Figura 52. Diante da estabilidade clínica, nenhuma conduta deve ser adotada e o especialista deve ser convocado para avaliar a indicação de manejo específico. Fonte: Manual de Cardiologia - Cardiopapers (ACLS) última edição. Definida a estabilidade, a função do médico generalista é avaliar se o bloqueio é maligno ou não. Caso seja maligno (BAV de 2° grau Mobitz tipo II, BAV avançado, BAV 2º grau 2:1 ou BAVT), indica-se internaçãohospitalar imediata em ambiente com monitorização cardíaca e avaliação do cardiologista. ATENÇÃO! Em termos de prova teórica e prática, diante de uma bradicardia estável, a conduta será sempre expectante! CM 117 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR CM 118 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Já naqueles casos que cursam com instabilidade, devemos adotar uma postura ativa! INSTÁVEL Na presença de sinais de instabilidade hemodinâmica, além de suporte de via aérea, oxigenação suplementar, monitorização e estabelecimento de acesso venoso, há três condutas possíveis: atropina, marca-passo transcutâneo e dopamina (ou adrenalina). CM 119 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Dependendo do protocolo do hospital ou literatura, essas condutas podem ser equivalentes ou não. Por exemplo, algumas referências, sugerem a instalação imediata de marca-passo transcutâneo quando for evidenciado um ritmo não responsivo à atropina, ou seja, as bradiarritmias malignas (como BAVT ou BAV 2º grau, Mobitz tipo II). Já o ACLS, referência bibliográfica mais utilizada para emergências cardiológicas, sugere a realização de teste de resposta com atropina: se esta for ausente, o próximo passo é a instalação de marca-passo transcutâneo ou o uso de drogas endovenosas em bomba de infusão contínua (como dopamina ou epinefrina). Essa referência também ressalta que a resposta à atropina costuma ser insatisfatória nos casos de bradiarritmias malignas e que, nesses casos, pode-se partir diretamente para a inserção do marca-passo, mas que não é errado tentar a atropina enquanto o marca-passo é preparado, conforme observado na figura 53. CM 120 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 53. Manejo recomendado para a bradicardia instável. Observem a tentativa de reversão do ritmo com atropina (1 mg dose a cada 3-5 minutos, com no máximo 3 doses) e a recomendação de uso de marca-passo ou medicação em bomba de infusão, no caso de ineficácia com a atropina. Fonte: Manual de Cardiologia - Cardiopapers (ACLS) última edição. Vamos entender um pouco o mecanismo de ação de cada uma dessas drogas. A atropina é a primeira droga a ser administrada nos quadros instáveis, até mesmo pela sua facilidade posológica, agilidade de administração e disponibilidade. Recomenda-se a sua realização na dose de 1 mg IV , repetida a cada 3 a 5 minutos (máximo de 3 mg). Devemos lembrar que as bradiarritmias malignas classicamente não responderão ao uso da atropina, mas não é errado tentar (enquanto prepara a instalação do marca-passo). Por falar nele… O marca-passo transcutâneo está indicado na presença de sintomas de instabilidade e refratariedade à atropina (seja por tentativa e ausência de resposta, ou perspectiva literária de que aquela arritmia não responderá a essa droga). Quando se está diante de um caso com sinais graves de instabilidade, essa é a principal opção. Sua instalação deve ser realizada sob analgesia ou sedo-analgesia leve (fentanil, por exemplo). As pás adesivas podem ser posicionadas em posição anteroposterior ou anterolateral, conforme figura 54. CM 121 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 54. Posicionamento das pás do marca-passo transcutâneo. Após o posicionamento das pás, inicia-se uma estimulação a 60 a 100 bpm, com intensidade de 20-30mV e aumento progressivo da intensidade até haver captura eletrocardiográfica. Ou seja, quando a FC do paciente passa a ser a mesma do marca-passo e a condução ocorre com QRS alargado. No traçado eletrocardiográfico desses pacientes, podemos nos deparar com uma espícula, achado que traduz o momento da ativação, seja da atrial, ventricular ou bicameral. Vamos ver um exemplo de como isso ocorre na figura 55. CM 122 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 55. Observe atentamente as retas antecedendo o QRS. Essas retas são um sinal no traçado eletrocardiográfico chamadas de espícula (círculo vermelho) e indicam exatamente o momento em que houve a ativação (neste caso, uma ativação atrial e outra ventricular). Fonte: Universidade de Pernambuco, programa de especialização em cardiologia. Após captura eletrocardiográfica, devemos palpar na região onde estaria o pulso femoral e elevar a intensidade do estímulo novamente até haver palpação do pulso nesta região. Ao encontrar essa potência final, adiciona-se mais 20 mV para garantir que não haverá perda de captura. Na ausência de marca-passo transcutâneo ou na falta de prática na sua instalação, podemos optar pelo uso de dopamina ou adrenalina EV em bomba de infusão contínua (BIC). Ambas possuem a intenção de aumentar a FC sob estimulação de receptores adrenérgicos. A adrenalina (2 a 10 mcg/min) possui maior potencial de elevar a FC, pois tem efeito alfa e beta adrenérgicos. A dopamina (5 a 20 mcg/kg/min) possui efeito apenas beta-1-adrenérgico. CM 123 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR CM 124 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR CM 125 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR MARCA-PASSO CARDÍACO Quando o assunto é marca-passo, muito pouco, mas muito pouco mesmo, é explorado nas provas de R1. Por isso, não vamos falar muito disso aqui, combinado? Temos o marca-passo transcutâneo (temporário), o marca-passo transvenoso (temporário), e o marca-passo implantável (definitivo). Como o próprio nome sugere, o objetivo de indicarmos o marca-passo é determinar o ritmo que o coração vai bater, quando ele apresenta uma bradiarritmia. Ou seja, a colocação do marca-passo é indicada quando CM 126 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR a pessoa possui alguma doença que cause diminuição dos batimentos cardíacos associado à sintomatologia, especialmente se há sinais de instabilidade hemodinâmica ou risco de degeneração maligna (morte súbita por assistolia). E por que o marca-passo também não pode ser usado nas taquiarritmias? O efeito do marca-passo está em desencadear um potencial de ação antes das células se despolarizarem. Se a frequência cardíaca do paciente for superior à frequência determinada pelo marca-passo, ele não vai nem disparar, vai ser o próprio paciente que vai controlar o ritmo. Isso também é válido para os pacientes que têm bradiarritmias transitórias, pois no ECG desses doentes, você vai observar alguns batimentos sem espículas, isso CM 127 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR pode sugerir que foi o próprio músculo cardíaco que iniciou o potencial de ação daquele batimento. Depois, precisamos saber quando indicar a instalação de cada tipo de marca-passo. O marca-passo transcutâneo é transitório (figura 56), funcionando como uma “ponte”, e tem baixa durabilidade. O risco de perder a condução do ritmo é muito grande, por isso, ele é indicado em contextos de bradiarritmias instáveis que não responderam à atropina. Mas, seu uso é restrito a algumas horas, enquanto o paciente é transportado para um CM 128 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR centro de referência ou chegue no serviço com algum profissional capacitado na passagem do marca-passo transvenoso. Figura 56. Marca-passo transcutâneo. O marca-passo transvenoso também é temporário, mas tem durabilidade maior (pode permanecer no paciente até 15-30 dias). Ele é indicado naqueles pacientes com bradiarritmia instável como substituto do marca-passo transcutâneo, em duas situações principais: enquanto o paciente aguarda a instalação do marca-passo definitivo (sob monitorização contínua em leito de UTI) ou enquanto se aguarda melhora clínica espontânea nos casos reversíveis (como o IAM de VD ou intoxicações medicamentosas). Nessa modalidade, há a passagem de um cateter de estimulação de ritmo através da veia jugular internacom (quase) a mesma técnica que utilizamos para passagem de cateter venoso central. O cabo é locado no VD. Já o marca-passo implantável é um dispositivo definitivo (figuras 57 e 58). Frequentemente, seu uso é indicado ambulatorialmente quando o médico identifica em uma consulta de rotina a presença de uma CM 129 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR bradiarritmia maligna (mesmo que assintomática), mas também pode ser indicado para os pacientes que foram hospitalizados por uma bradicardia instável sem causa reversível, em substituição ao marca- passo transvenoso. Figura 57. RX com um marca-passo instalado. Circulado em azul, o eletrodo atrial. Em vermelho, o eletrodo ventricular e, em amarelo, temos o gerador. A título de curiosidade, no Brasil, a doença de Chagas é o principal motivo de implante de marca-passo, já em outros países não endêmicos para Chagas, é a doença de Lév-Lenegre (calcificação progressiva do anel mitral, que por contiguidade danifica o nó AV). CM 130 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Uma curiosidade: a posição dos eletrodos no marca-passo (uni ou bipolar) é sempre nas câmaras direitas. A consequência disso é que o ECG terá morfologia de BRE: Figura 58. Marca-passo unipolar (apenas uma espícula antecedendo o QRS), dando origem a um QRS alargado com morfologia de BRE (implante em câmaras direitas com condução célula-célula até o ventrículo esquerdo). Além da classificação dependendo do número de polos, o marca-passo pode ganhar uma nomenclatura específica. Algumas vezes você vai ler na prova os termos “marca-passo VVI” ou “DDD”, mas, vocês não precisam conhecer a fundo tais conceitos para acertar a questão, mas, como as provas estão cada vez mais aprofundando os conceitos cobrados, é interessante citá-los. Os marca-passos, desfibriladores e ressincronizadores cardíacos são dispositivos implantáveis classificados de acordo com uma padronização internacional que permite a identificação eletrocardiográfica da estimulação cardíaca pelo equipamento. Essa normatização é composta por cinco letras (vide tabela abaixo). CM 131 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 59. Nomenclatura dos dispositivos cardíacos eletrônicos implantáveis segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia. Calma! Tudo parece confuso e realmente é, mesmo para o especialista. Vocês NÃO precisam decorar nenhuma dessas letras, basta saber que existem diferenças entre os dispositivos e, por isso, as questões colocam entre as alternativas estes “sobrenomes”. Deem uma olhada na figura abaixo para entender como esse conceito é abordado. CM 132 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 60. Essas foram as alternativas apresentadas pela banca da UNIFESP em 2021, a partir de uma questão de insuficiência cardíaca. Era totalmente dispensável saber o significado das letras, bastava saber que na IC com FE reduzida sintomática refratária a indicação é o ressincronizador. Então, o objetivo é ficar tranquilo com o significado dessas letras, porque é um conhecimento altamente específico, mas você não pode se desesperar na hora da prova pensando: “Nossa! E se for A ou B? E eu nunca ouvi falar?”. Dessa forma, terminamos nossa abordagem de bradiarritmias. Perceba que, em muitos momentos, trouxemos a síncope como principal manifestação clínica de uma bradicardia. No entanto, nem toda síncope tem causa cardíaca, e algumas bancas exploram esse conceito. Por isso, vamos conversar um pouquinho sobre “Síncope”. Vamos lá? PARTE 3: SÍNCOPE Bom pessoal, vamos passar agora para o nosso próximo assunto, como falamos ali em cima: Síncope! Não é um assunto muito cobrado em provas, por isso, o importante é que vocês saibam, principalmente, com um único conceito fundamental: identificar sinais e sintomas no enunciado que implicam em risco para o doente (causa cardiogênica) ou não. Você excluindo a ausência desses sintomas, é correto marcar a alternativa que sugere que o paciente não precisa de nenhuma avaliação complementar. CM 133 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR DEFINIÇÃO E EPIDEMIOLOGIA A síncope é uma queixa que perfaz 3% de todas as visitas de um PS e se refere ao sintoma de perda transitória de consciência. Mais do que isso, na verdade, corretamente definida a síncope é a perda completa e transitória da consciência e do tônus postural devido à hipoperfusão cerebral global, geralmente resultante da diminuição do débito cardíaco ou da resistência vascular sistêmica. O início de síncope cardíaca é súbito, abrupto e de curta duração, com uma recuperação rápida, com um retorno completo e espontâneo ao nível basal de funcionamento (sem sequelas). Epilepsia, hipoglicemia, hipercapnia, intoxicação, AIT/AVE, hipóxia, cataplexia não são síncope, mas todos eles conseguem causar perda de consciência. Já BAVT, taquiarritmias, estenose aórtica importante, são capazes de causar perda de consciência do tipo síncope. Assim observem: Perda completa da consciência: se deu tempo da pessoa chamar ajuda, se proteger adequadamente e se ela disse ouvir as pessoas chamando… não deve ser síncope. Transitória: se a pessoa está há horas desacordada ou mesmo que só foi acordar já no hospital… não deve ser síncope. Sem sequelas: se acordou muito confuso, muito lentificado, com déficit motor… não deve ser síncope. Existem muitos escores de gravidade para a síncope, e já vimos que tudo o que tem muito escore é porque não há nenhum escore suficiente. Esses • • • CM 134 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR escores não são cobrados em provas, mas, eventualmente, eles são cobrados indiretamente porque resumem, de uma forma ou de outra, as situações de risco. CAUSAS E CLASSIFICAÇÃO A síncope pode ser classificada de acordo com a etiologia específica do evento gerador em: neuromediado (reflexo), cardiovascular, ortostático, neurológico, psicogênico ou idiopático. Essas etiologias podem ser subdivididas de acordo com o mecanismo fisiopatológico específico. Aproximadamente 40% dos eventos sincopais são inexplicáveis (idiopáticos). Além disso, nem sempre é um mecanismo isolado. A diretriz da ESC (Sociedade Europeia de Cardiologia) coloca um quadro interessante a respeito fisiopatologia da situação (figura abaixo), pois notem que ao CM 135 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR centro temos a “Hipoperfusão Cerebral”, ou seja, para ser síncope, a perda da consciência tem de, no final das contas, ter a hipoperfusão. Figura 61. Esquematização da fisiopatologia da síncope proposta pela ESC. Na periferia ficam as causas mais genéricas e mais centralizadas, as consequências principais (em azul), que vão provocar o mecanismo fundamental da síncope: baixa pressão e hipoperfusão cerebral (branco). RVP - Resistência Vascular Periférica, SNA - Sistema Nervoso Autônomo. Fonte: 2018 ESC Guidelines for the diagnosis and management of syncope. European Heart Journal, Volume 39, Issue 21, 01 June 2018, Pages 1883–1948, https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehy037.Published: 19 March 2018. CM 136 https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehy037.Published Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Vamos falar um pouco de cada uma dessas condições! SÍNCOPE NEUROMEDIADA OU SÍNCOPE REFLEXA A síncope neuromediada é ocasionada pelo reflexo de Bezold-Jarisch , situação na qual há uma resposta parassimpática inapropriada a determinado gatilho (ficar muito tempo em pé, urinar, ver sangue etc.). Essa é a forma mais comum de síncope e é vista principalmente em adultos jovens. O mecanismo sincopal subjacente, denominado reflexo neurocardiogênico ou vasodepressor, leva a uma resposta de vasodilatação, bradicardia e reflexo sistêmico de hipotensão, que provoca hipoperfusãotransitória do cérebro. Retornem um pouquinho no conceito… é uma resposta INAPROPRIADA, ou seja, é uma descarga parassimpática inesperada ou ao menos acima do esperado para determinada situação, beleza? CM 137 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Há diversos mecanismos que ficam englobados nesse subtipo: Reflexo vasovagal: mais comum após ortostatismo prolongado, mas pode ser provocado por outros estímulos nocivos como medo, estresse ou superexposição ao calor. Situacional: após algumas situações específicas, como urinar, tossir, defecar, alimentar-se copiosamente. Hipersensibilidade do seio carotídeo: manipulação mecânica, colarinho apertado, ato de fazer a barba ou até mesmo movimento rotacional da cabeça desencadeiam os sintomas. Atípica: sem gatilho aparente. O que marca esse tipo de síncope? A presença de sintomas prodrômicos: tontura, náusea e sudorese. É bastante comum também o aparecimento de fadiga generalizada após o evento sincopal. REFLEXO VASOVAGAL Mais especificamente, esse tipo de perda transitória da consciência é secundária a uma vasodilatação periférica pela temperatura elevada e ação da gravidade. Dessa forma, o corpo interpreta que está desidratado e ativa o sistema simpático, que aumenta a contratilidade • • • • CM 138 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR cardíaca, mas não aumenta o retorno venoso, o que faz o coração bater “no seco” (ventrículos relativamente pouco preenchidos). Nesse momento, ocorre uma resposta paradoxal: desativa-se o simpático e ativa-se o parassimpático, desenvolvendo bradicardia e/ou hipotensão. O que faz a pessoa sentar-se ou cair ao chão, o que restabelece o retorno venoso. O principal tratamento é evitar gatilhos : muito tempo em pé, calor excessivo, desidratação, estresse psicológico ou levantar-se rapidamente. Mas, outras medidas comportamentais podem ser tomadas, como tomar ao menos 2 litros de líquido por dia, aumentar a ingesta de sal (para quem não possui comorbidades que contraindiquem), alimentar-se a cada 3 horas, dormir bem e eventualmente utilizar meias elásticas de média compressão do tipo ¾. Se o paciente começar com os pródromos, orientar e realizar a contração voluntária máxima da mão pelo máximo de tempo possível, a famosa manobra de handgrip (aumenta o retorno venoso). Se estiver em pé, pode-se cruzar e tensionar as pernas, abdome, glúteo, com a maior força possível. Se nada der certo, o paciente deve procurar se deitar com os membros levantados. HIPOTENSÃO ORTOSTÁTICA A síncope por hipotensão ortostática é a terceira forma mais comum de síncope e afeta predominantemente adultos mais velhos. Mas, atenção! É um tipo de Síncope que é bastante cobrado nas provas! Ocorre classicamente após as mudanças de posição e também pode estar associada a sintomas prodrômicos, como tontura. CM 139 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Ela é mais comumente causada por hipovolemia, medicamentos e intoxicação por álcool. Menos comumente, a insuficiência autonômica primária (doença de Parkinson, atrofia de múltiplos sistemas e esclerose múltipla) ou falha autonômica secundária (diabetes, amiloidose, doença do tecido conjuntivo e lesão da medula espinhal) pode levar ao ortostatismo (hipotensão ortostática). As apresentações clínicas são divididas em alguns grupos, a mais relevante delas a hipotensão postural: hipotensão postural, disautonomias e Síndrome Postural Ortostática Taquicardizante. HIPOTENSÃO POSTURAL Define-se hipotensão postural por uma queda da PAS ≥ 20 mmHg e/ou PAD ≥ 10 mmHg após 3-5 minutos em posição ortostática (em comparação com a PA verificada em decúbito). Torna-se mais fidedigna quando a variação de PA durante o teste está associada a sintomas. É um sinal/sintoma frequentemente associado ao uso de medicações hipotensoras e (até por isso) é muito comum em idosos! Estes pacientes possuem risco aumentado de quedas e uma forma de avaliar esse risco é justamente aferindo a PA em pé e deitado. Em caso de teste de hipotensão postural positiva, a recomendação é de reduzir os anti- hipertensivos e tolerar os valores pressóricos aumentados, tendo em vista o importante impacto das quedas na morbimortalidade do idoso. DISAUTONOMIAS CM 140 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Nas disautonomias, temos perda do tônus vascular, geralmente por alguma doença (como diabetes mellitus, doença de Parkinson). SÍNDROME POSTURAL ORTOSTÁTICA TAQUICARDIZANTE (SPOT) Aqui há um aumento da frequência cardíaca de aproximadamente 30 bpm na posição ortostática em relação à posição supina. A FC é maior que 100 bpm e, geralmente, acima de 120 bpm. Essa síndrome tem ganhado destaque, pois está relacionada à Síndrome Pós-COVID. Além da síncope poder ser precedida por sintomas prodrômicos (tontura, pré-síncope…), este paciente pode apresentar pequenos movimentos tônico-clônicos, extremamente breves (menos de 1 segundo). É a temporalidade desses abalos que permite diferenciá-los de uma crise tônico-clônica generalizada, por exemplo. Eles são tão curtinhos que geralmente nem são percebidos clinicamente. Há um exame chamado “tilt-test”, no qual o paciente é colocado em ambas as posições (deitado e em ortostase), enquanto se afere a PA e a FC. Esse exame ajuda no diagnóstico das síncopes ortostáticas e também da SPOT. Esse teste nunca foi cobrado nas provas de acesso direto, por isso, não colocamos mais detalhes aqui! Mas, por vezes, aparece nas alternativas e, por isso, está sendo citado! CM 141 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR SÍNCOPE CARDÍACA A síncope de origem cardiovascular é a segunda forma mais comum de síncope e está associada ao aumento da morbidade, mortalidade (incluindo morte súbita) e lesão traumática direta. Os eventos sincopais cardiovasculares costumam ocorrer repentinamente e geralmente sem um pródromo significativo, embora dor torácica e palpitações possam estar presentes. As causas incluem: arritmias cardíacas (BAV segundo grau Mobitz 2, doença do nó sinusal, BAVT, BAV avançado, taquicardia ventriculares/ Torsades de Pointes, taquicardias supraventriculares), doença arterial coronária, doenças genéticas (Síndrome de Brugada, QT longo CM 142 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR congênito, QT curto) e doença estrutural e/ou obstrutiva, incluindo estenoses da válvulas aórtica e pulmonar, cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva, miocardiopatia chagásica, dissecção aórtica, displasia arritmogênica de ventrículo direito e tamponamento cardíaco. A embolia pulmonar é cada vez mais apreciada como uma causa de síncope cardiogênica, com prevalência de até 17% em alguns estudos. Aqui é onde o prognóstico é variável, mas muitas vezes pode ser muito ruim, sob risco de morte súbita. É por isso que todo paciente sob risco de causa cardíaca para a síncope deve ser submetido à avaliação complementar: a questão mais comum das provas quando o assunto é síncope é qual exame deve ser solicitado inicialmente e a resposta é simples ⇒ ECG! O eletrocardiograma será solicitado principalmente com o intuito de descartar causas cardiogênicas. SÍNCOPE NEUROLÓGICA CM 143 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Condições neurológicas são uma causa rara de síncope. Eventos cerebrovasculares (ataque isquêmico transitório, acidente vascular cerebral isquêmico ou hemorrágico), convulsões e traumatismo cranioencefálico direto podem levar à perda transitória de consciência, mas devem ser diferenciados da síncope verdadeira, até pelo risco associado a essas doenças. Por exemplo, eventos cerebrovasculares,que levam a perda de consciência, envolvem principalmente a circulação posterior (vertebrobasilar) e geralmente se apresentam com sintomas concomitantes de tontura, vertigem, alterações na marcha e achados neurológicos focais. O envolvimento da circulação anterior (artérias cerebrais) raramente leva a síncope (cursa mais com déficits focais). As convulsões podem ser confundidas com síncope e as informações do espectador podem ajudar a distinguir entre esses dois eventos. As características mais sugestivas de convulsão, em pacientes com perda de consciência, são a adoção de postura anormal durante o evento, giro involuntário da cabeça e laceração da língua (sinais de mordedura de língua). Auras, incontinência esfincteriana e confusão prolongada pós- ictal também favorecem o diagnóstico de convulsão. SÍNCOPE PSICOGÊNICA A síncope psicogênica também é conhecida como pseudo-síncope, geralmente ocorre em pacientes mais jovens com ansiedade subjacente, transtorno do pânico ou depressão. Não é classicamente cobrada em prova, mas podem estar entre as alternativas como um confundidor. CM 144 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR INVESTIGAÇÃO Já classificamos as síncopes e conhecemos seus fatores de risco e características principais. Agora, como bons cliniqueiros que somos, vem de investigação, Sherlock! CM 145 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR A American Heart Association (AHA), o American College of Cardiology (ACC) e a Heart Rhythm Society (HRS), em conjunto, concluem que a história e o exame físico são as ferramentas diagnósticas mais importantes na determinação da causa subjacente de um evento sincopal. A história deve se concentrar na elicitação de sintomas prodrômicos ou pós-episódios, condições médicas ou psiquiátricas comórbidas, o contexto psicossocial do evento e informações do observador. Uma revisão completa da prescrição e dos medicamentos do paciente também deve ser realizada. Assim, existem quatro pilares principais: história clínica, perfil epidemiológico, exame físico e ECG . Com essas informações, geralmente já é possível criar hipóteses bem estruturadas. O ECG deve ser feito para todos, mesmo que o quadro clínico seja muito sugestivo pela história e exame físico, especialmente, porque em idosos pode haver mais de um mecanismo envolvido. QUANDO INTERNAR PACIENTE DO PS COM SÍNCOPE? Como dissemos, em provas de residência os escores não são cobrados. Entretanto, para a vida, vamos deixar aqui um dos dois escores mais validados na literatura para avaliar se o paciente apresenta uma síncope de risco (e, portanto, precisa ser investigado) ou de baixo risco (provavelmente não cardiogênica). CM 146 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 62. Escore de Oesil para estratificação de risco do paciente com síncope. Observem que esse escore é meramente uma organização dos sintomas mais sugestivos de síncope cardiogênica. Por isso, na sua prova, vocês não precisam saber dele com precisão, basta saber reconhecer o que sugere uma síncope de origem cardiogênica. COMO ATENDER UM PACIENTE COM SÍNCOPE NO AMBULATÓRIO? Os dados de história e exame físico, além do eletrocardiograma, permanecem igualmente importantes aqui, semelhante ao atendimento no PS.: Mas no ambiente ambulatorial, se o paciente tiver características de alto risco, deve-se considerar internação para a investigação. Entre os exames complementares que podemos solicitar estão alguns exemplos, como: Teste ergométrico: suspeita de isquemia ou se a história teve relação com esforço físico. Só uma dica: Atenção na ausculta cardíaca! Se tiver sopro, pode ser uma Estenose Aórtica a causa e, portanto, é melhor fazer um ecocardiograma ANTES do teste ergométrico, fechado? CM 147 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Holter 24h: embora muito solicitado, só é diagnosticado em 5% dos casos e com sintomas frequentes, quase diários. Mas é uma ferramenta interessante na suspeita de arritmias. Looper (como um “holter” de um mês): interessante para os sintomas que acontecem com uma frequência mais espaçada, ao menos uma vez por mês, pois faz monitoração por 15-30 dias. Monitor de eventos implantáveis (ou loop recorder implantável): é como um looper, mas interno e de duração prolongada. Só considerar para os pacientes de alto risco de morte súbita e com síncopes esporádicas e inexplicadas. Se suspeita de isquemia cardíaca induzindo arritmias: cintilografia miocárdica, angioTC de coronárias, entre outros. Ressonância magnética cardíaca: doenças estruturais, de depósito ou impossibilidade de realização de ecocardiograma. Massagem do seio carotídeo: a hipersensibilidade carotídea pode ser avaliada em indivíduos com mais de 40 anos, com síncope de causa desconhecida e com o uso de massagem do seio carotídeo. No entanto, essa técnica é contraindicada em pacientes com doença carotídea conhecida ou ataque isquêmico/acidente vascular cerebral transitório recente nos últimos 3 meses. Tilt-Test: indicado para a suspeita de síncope neuromediada ou disautonomia. Mas não se pede para todos, somente se a história é muito sugestiva, porque ocorrem muitos casos falsos positivos. Também não serve para avaliar a resposta ao tratamento de pessoas que possuem o mecanismo vasovagal. CM 148 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Estudo eletrofisiológico: somente para forte suspeita de síncope cardíaca e outros exames não foram conclusivos. Candidatos: cardiopatia isquêmica, portadores de BRE ou BRD + BDAS. Com isso, encerramos nossa discussão sobre síncope e partimos para a última parte desta apostila: parada cardiorrespiratória! Bora lá? PARTE 4: PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA E MORTE SÚBITA RITMOS DA PCR Bom, vamos começar essa última parte da apostila de Arritmias, Síncope e PCR falando um pouquinho da fisiopatologia da PCR. Não é uma parte muito explorada em provas, mas é importante para entendermos mais a fundo o assunto, ok? A PCR pode ser dividida didaticamente em três fases: CM 149 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Agora sim podemos passar para os ritmos de PCR propriamente ditos! São quatro possíveis: 2 chocáveis (Fibrilação Ventricular e Taquicardia Ventricular Sem Pulso) e 2 não chocáveis (Atividade Elétrica Sem Pulso e Assistolia). Dentro da Taquicardia Ventricular Sem Pulso temos ainda um subtipo de taquicardia, que já abordamos mais cedo lá em cima, o Torsades de Pointes. No ambiente extra-hospitalar, o mais comum é a PCR em FV/TV sem pulso (cerca de 80% dos casos) – daí a importância de se ter um desfibrilador externo automático (DEA) em locais públicos, já que estes são ritmos chocáveis. Se o choque elétrico for realizado dentro dos primeiros 3 a 5 minutos de parada, a chance de reversão é bastante alta e os danos neurológicos potencialmente mínimos ou ausentes. Já no ambiente intra-hospitalar, o mais comum é AESP/Assistolia, pois nesse ambiente há pacientes com mais condições predisponentes para esse tipo de parada. O prognóstico é pior: apenas 20% dos pacientes com PCR intra-hospitalar retornam à circulação espontânea. CM 150 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Vamos, em seguida, esmiuçar cada um dos ritmos acima citados. Fiquem atentos especialmente às indicações de choque e às características eletrocardiográficas de cada um - isso DESPENCA em provas. FIBRILAÇÃO VENTRICULAR Ritmo no qual não há atividade elétrica organizada (Figura 63), nem contração ventricular efetiva. É um ritmo chocável, para o qual deve ser feita a desfibrilação na carga máxima disponível no aparelho (360 J no monofásico, 200 J no bifásico),o mais brevemente possível - ou seja, assim que o desfibrilador chegar. CM 151 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 63. Exemplo de ECG de Fibrilação Ventricular. Fonte: Medlibes (Online Medical Library) - Fibrilação Ventricular. Observem que temos um traçado, o qual não há formato regular dos complexos QRS, já que a atividade elétrica é completamente desorganizada. Não há onda P, nem intervalo PR. TAQUICARDIA VENTRICULAR SEM PULSO As taquicardias ventriculares (TV) foram abordadas lá em cima, mas, independentemente de serem monomórficas ou polimórficas, se não há pulso, o preconizado é DESFIBRILAÇÃO. Cuidado! Não confundam com a TV com pulso - aqui procederemos à cardioversão sincronizada, ok? Vamos dar uma olhada na morfologia da TV no ECG, checa só a figura 64: Figura 64. Exemplos de Taquicardia Ventriculares: monomórfica (à esquerda) e polimórfica (à direita). CM 152 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Observem que os intervalos R-R são, em sua maior parte, regulares. Não é possível determinar a frequência atrial, mas usualmente temos uma frequência ventricular em torno de 150-200 bpm. Os complexos QRS não são precedidos por ondas P, de forma que também não é possível delimitar um intervalo PR. O complexo QRS é largo (> 0,12 segundo) e de formato bizarro. CM 153 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR TORSADES DE POINTES A Torsades de Pointes é um subtipo específico de TV polimórfica, que vimos lá na primeira parte dessa apostila. Observem que há alternância de amplitude dos complexos QRS, conferindo-lhe um aspecto bastante característico. Não há regularidade do ritmo e é impossível determinar a frequência atrial, visto que não há ondas P identificáveis. A frequência ventricular gira em torno de 150-200 bpm, como nas outras TVs. Figura 65. Exemplo de Torsades de Pointes. Fonte: ECG Medway - Banco de ECGs. CM 154 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Em contexto de PCR, o tratamento imediato é igual ao de qualquer TV polimórfica sem pulso, ou seja, desfibrilação. Contudo, existe uma medida adicional que podemos fazer nesses casos: a administração de sulfato de magnésio (MgSO4), a famosa sulfatação. Mas cuidado! Essa medicação não deve ser usada de forma rotineira, sendo reservada exclusivamente para esse contexto. ATIVIDADE ELÉTRICA SEM PULSO Não tem muito segredo aqui, pessoal. É a situação na qual, pelo monitor, há atividade elétrica organizada (figura 66), sem pulso palpável. O traçado pode ter diversas morfologias e é caracterizado como AESP desde que não preencha critérios para FV, TV ou assistolia. CM 155 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 66. Atividade elétrica organizada, inclusive com QRS estreito, mas, clinicamente, esse paciente não apresenta pulso palpável. Fonte: ECG Medway - banco de ECGs. Aqui não cabe nenhum tipo de choque, só mesmo a administração de adrenalina, além, obviamente, da RCP. ASSISTOLIA Situação em que há uma linha reta no monitor (figura 67). Figura 67. Exemplo de assistolia. Fonte: ACLS - Advanced Cardiac Life Support, Provider Handbook. Dr Karl Disque. Página 48. Não há ritmo, onda P, intervalo PR ou complexos QRS, apenas uma longa e decepcionante linha reta. E aí, adrenalina EV de imediato? Não, calma! Devemos nos assegurar, antes de mais nada, de que não há erro técnico. É aí que entra o famoso protocolo “CA-GA-Da”, um mnemônico famoso para lembrarmos de verificar: CAbos, GAnho e Derivação. Cabos: cheque se os cabos estão adequadamente conectados ao monitor e garanta que os adesivos tenham um bom contato com o • CM 156 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR indivíduo e estejam posicionados corretamente. É relativamente comum o desprendimento dos cabos durante as manobras de RCP. Ganhos: aumente o ganho do aparelho para garantir que estamos frente a uma assistolia. Eventualmente podemos nos deparar com uma FV muito fina e - se você não aumentar o ganho (a sensibilidade/ potência do aparelho) - perderá a chance de desfibrilar um ritmo chocável. Derivações: muitos desfibriladores monitoram apenas uma derivação. Se o vetor estiver paralelo à derivação que você está observando, ele aparecerá como uma linha isoelétrica. Mude a derivação para garantir que isso não está acontecendo. Garantindo que o paciente está em assistolia, seguiremos o fluxo de atendimento determinado pelo ACLS (descrito mais abaixo no corpo do texto). CADEIA DE VIDA • • CM 157 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR As etapas do atendimento de uma PCR foram organizadas para que tudo possa ocorrer de forma otimizada e padronizada. Dessa maneira, criaram- se duas cadeias de vida: uma para o ambiente intra-hospitalar e outra para o extra-hospitalar. Observem a figura 68. Figura 68. Imagem traduzida da diretriz da AHA (American Heart Association), equipe que desenvolve o ACLS. Fonte: American Heart Association, Adult Basic and Advanced Life Support 2020. AHA Journals. Bastante coisa, não é? Calma, iremos detalhar abaixo e ficará mais intuitivo! SUPORTE BÁSICO DE VIDA (BLS - BASIC LIFE SUPPORT) CM 158 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Começamos essa seção com uma crítica construtiva em relação ao termo “básico”. A presença dessa palavra dá uma impressão errada sobre a importância da fase - o início precoce da RCP é, talvez, a medida mais importante para se obter o melhor desfecho possível para esses pacientes (menores danos teciduais e cerebrais). Leiam “básico” no sentido de “base fundamental” e não como “simples”, ok? É com sua correta aplicação que temos a maior chance de trazer o paciente para a circulação espontânea (RCE). Até mesmo em ambiente hospitalar, frequentemente vemos a equipe se preocupando em arrumar a bandeja de intubação, preparar medicações e esquecendo de iniciar imediatamente as manobras de ressuscitação cardiopulmonar (RCP) - o passo mais importante e imediato de todos! Enquanto isso, o tempo está passando, o paciente não recebe assistência e perde, progressivamente, a chance de RCE e um melhor desfecho clínico. BLS salva vidas, pessoal! É um protocolo que todo cidadão, leigo ou não, deveria saber. Vamos observar o fluxograma (figura 69): CM 159 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 69. Fluxograma do BLS traduzida da diretriz da AHA. Fonte: American Heart Association, Adult Basic and Advanced Life Support 2020. AHA Journals. A ordem de prioridade das coisas é frequentemente motivo de polêmica em provas: Primeiro, chama ajuda? Primeiro, verifica a segurança da cena? Ou deve iniciar imediatamente a RCP? Como a própria AHA diz, idealmente, a RCP e a solicitação por ajuda devem ocorrer simultaneamente - inclusive, a popularização de celulares possibilita que um único reanimador inicie a RCP ao mesmo tempo em que aciona o serviço de emergência com o aparelho na função viva-voz. CM 160 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR O fluxograma acima tem que estar mais do que decorado, galera! Tem que ser um reflexo, tanto para a vida quanto para a prova! Ao invés do tradicional ABC dos protocolos de trauma, aqui é C-A-B, adaptado ao nosso português fica: CM 161 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR CM 162 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 70. Manobra de inclinação da cabeça e elevação do queixo. Fonte: Atualização da Diretriz de Ressuscitação SBC - portugues.pdf (amazonaws.com). CM 163 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 71. Manobra de elevação do ângulo da mandíbula. Fonte: Atualização da Diretriz de Ressuscitação SBC - portugues.pdf (amazonaws.com). CM 164 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Entendido? Então vamos ver commais detalhes os principais componentes do atendimento prestado no BLS: compressões, ventilação e o DEA (desfibrilador externo automático). COMPRESSÕES Ao falar de compressões, é obrigatório elencar as características que indicam qualidade. Colocamos isso em destaque no material de vocês por 2 motivos: Compressões de alta qualidade salvam vidas.1. CM 165 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR As provas de acesso direto ADORAM cobrar esse conceito. Então, como são essas tais compressões de alta qualidade que vocês PRECISAM saber para a vida e para a prova? As compressões de alta qualidade devem conter TODAS as seguintes características: Posicionamento correto (figura 72): posicione a vítima sobre uma superfície rígida, mantenha-se lateralmente a ela. Coloque a região hipotenar de uma mão sobre terço inferior do esterno, ou seja, próximo ao apêndice xifoide, enquanto a outra mão será entrelaçada sobre a primeira. Os braços devem estar completamente estendidos e devem ser mantidos em um ângulo de 90°. Frequência cardíaca deve ser de 100 a 120 repetições por minuto. Profundidade de no mínimo 5 cm, devendo-se evitar que ultrapasse 6 cm. Permitir retorno completo do tórax após cada compressão. Minimizar as interrupções: não interromper a massagem por mais do que 10 segundos e respeitar a proporção de 30:2 acima citada. Trocar o massageador a cada 2 minutos, de modo a evitar compressões de má qualidade em decorrência de cansaço físico. 2. • • • • • • CM 166 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 72. Correto posicionamento do socorrista. Fonte: Atualização da Diretriz de Ressuscitação SBC - portugues.pdf (amazonaws.com). Atualmente, tem se popularizado dispositivos de feedback da RCP (Figura 73), no qual ele é colocado no local das compressões e há um retorno audiovisual da qualidade da massagem (monitora a amplitude e a frequência e ajuda o socorrista a ajustar sua manobra, dizendo “comprima mais forte/fraco” ou “acelere/desacelere a massagem” ou comandos semelhantes). CM 167 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 73. Apontado pela flecha o dispositivo de feedback das compressões; ele deve ser instalado no local onde será feita a massagem e as compressões devem ser realizadas em cima do dispositivo. Fonte: https://zollaedshop.com/product/cpr-stat-padz-electrode-8- case/?add_to_wishlist=1863. VENTILAÇÃO Antes de explorarmos um pouquinho melhor os detalhes da ventilação no BLS, é importante lembrarmos do primeiro passo do atendimento: segurança da cena! Essa segurança inclui a segurança de quem está prestando o atendimento. Adicionalmente, é importante recordar que o passo mais importante são as compressões! Por esse motivo, na ausência de dispositivos adequados para ventilação, essa etapa deve ser pulada, e o atendimento realizado apenas com compressões por 2 minutos. Ninguém é obrigado a sair realizando ventilação boca-a-boca com ninguém! Mas a respeito da ventilação, o recomendado é a realização de 2 ventilações a cada 30 compressões (30:2). CM 168 https://zollaedshop.com/product/cpr-stat-padz-electrode-8-case/?add_to_wishlist=1863. https://zollaedshop.com/product/cpr-stat-padz-electrode-8-case/?add_to_wishlist=1863. Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR O dispositivo BVM pode ser manejado por uma única pessoa (Figura 74) ou por duas (situação na qual uma garante a boa oclusão da máscara, vedando adequadamente com ambas as mãos, e a outra realiza as ventilações). A máscara deve cobrir a cavidade nasal e oral, de modo a evitar escape de oxigênio. O uso de O2 a 100% é razoável e recomendado durante as manobras de RCP. Embora a exposição prolongada a essa concentração de oxigênio seja comprovadamente tóxica, não existem evidências definitivas sobre esse efeito deletério no cenário da RCP em adultos. CM 169 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 74. Esquematização da ventilação usando o dispositivo BVM por uma única pessoa; Notem a mão que fixa a máscara no paciente: os dedos indicador e polegar formam um “C” estabilizando a máscara, enquanto os demais dedos formam um “E”, estabilizando a cabeça e mantendo a via aérea pérvia. Fonte: Atualização da Diretriz de Ressuscitação SBC - portugues.pdf (amazonaws.com). Cuidado! Apesar do paciente precisar de oxigênio, devemos nos atentar para não hiperventilar o doente. A hiperventilação é contraindicada, pois aumenta a pressão intratorácica, diminuindo o retorno venoso (pré- carga) e, consequentemente, o débito cardíaco. Isso reduz a perfusão e, também, a sobrevida do doente. Além disso, ainda há risco de hiperinsuflação gástrica, o que pode desencadear vômitos, broncoaspiração e limitação da mobilidade do diafragma. CM 170 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR DESFIBRILADOR EXTERNO AUTOMÁTICO (DEA) Esse dispositivo é item obrigatório em muitos estabelecimentos, logo deve ser sempre solicitado, caso a PCR ocorra em um ambiente público. Em geral, não possui tela para a análise do ritmo, limitando-se a comandos verbais simples e completos, para poder ser operado por pessoas sem qualificação. A colocação das pás adesivas pode ser feita conforme o indicado na figura 75, porém esse conhecimento não é necessário, visto que existe uma marcação nas pás indicando seu correto posicionamento. CM 171 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 75. Representação da colocação das pás adesivas do DEA. Fonte: Atualização da Diretriz de Ressuscitação SBC - portugues.pdf (amazonaws.com). Com isso, finalizamos a seção sobre BLS. Caso vocês ainda tenham dúvidas ou estejam inseguros com relação a algum conceito, retornem no texto e leiam novamente antes de prosseguir. O conhecimento dessas informações é importantíssimo para a prova e para a sua vida como médico. Passemos então para um dos atendimentos protocolares mais famosos da medicina: ACLS. SUPORTE AVANÇADO DE VIDA (Advanced Cardiovascular Life Support) CM 172 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR O suporte avançado se caracteriza pela possibilidade de realização de medicações endovenosas e obtenção de uma via aérea avançada. Embora o ACLS seja muito valorizado, gostaríamos de abrir essa parte, ressaltando algo importantíssimo: as duas medidas mais importantes da RCP - com evidência científica robusta demonstrando aumento de RCE e redução de dano neurológico - são a massagem cardíaca de alta qualidade e a desfibrilação precoce, medidas essas já contidas no BLS. A adrenalina (estrela do ACLS) a despeito de aumentar a RCE, aumenta também os danos neurológicos nos indivíduos reanimados. No ACLS, assim como no BLS, é fundamental o início imediato da RCP, com massagem de alta qualidade até a chegada do desfibrilador. Esse desfibrilador agora não é mais o DEA, mas sim um dispositivo complexo, com tela para a verificação do ritmo e com pás de metal. Ele pode ser monofásico (praticamente fora de operação atualmente) ou bifásico. Antes de partirmos para o fluxograma do ACLS, vamos revisar a composição ideal de uma equipe de reanimação. Idealmente, a equipe deve ser composta por 6 pessoas responsáveis, cada uma delas: pelo CM 173 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR tempo (anotador), pela via aérea, pelas compressões (se possível e idealmente até mais de uma pessoa), pela aplicação do choque e manipulação do desfibrilador, pelas medicações e o líder da equipe. Pronto! Agora é hora de vermos o ACLS propriamente dito! É muito importante decorar o fluxograma (figura 76) abaixo. De novo, não é apenas para as provas, é para a vida. Esse fluxogramatem que ser medular! CM 174 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 76. Fluxograma do ACLS, adaptado da diretriz da AHA para o português. Fonte: Adaptado de American Heart Association, Adult Basic and Advanced Life Support 2020. AHA Journals. As provas gostam de cobrar o que ocorre em cada ciclo da “alça” dos ritmos chocáveis. A conferência do ritmo/choque demarca o início de um ciclo. No primeiro ciclo, devemos estabelecer um acesso venoso. No segundo ciclo, considerar ou realizar intubação e administrar a primeira dose de adrenalina. No terceiro, administrar a primeira dose de amiodarona e assim por diante. Caso algum de vocês tenha feito o ACLS há algum tempo, irá notar que não há mais uma dose de adrenalina no primeiro ciclo. A primeira dose foi CM 175 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR “empurrada” para o segundo ciclo, porque há o entendimento de que sua administração logo no início da reanimação pode atrapalhar a efetividade da desfibrilação, já que provoca - obviamente - certa intensa descarga adrenérgica. Mas cuidado: Estamos falando de PCR em ritmo CHOCÁVEL. A diretriz da AHA cita que para PCR em ritmo não chocável, é aceitável administrar a epinefrina assim que for possível. Agora, outros dois pontos bastante importantes: Chegou o desfibrilador? Checa o ritmo já! Sim, é uma das únicas situações em que a massagem pode ser interrompida no meio do ciclo. Depois disso, só nos momentos corretos, ok? Analisou o ritmo, é chocável? Pede para a equipe se afastar e desfibrile. “Tá, eu desfibrilei… e agora?” Retome a RCP imediatamente! Não é hora de checar pulso, respiração, fazer medicação, nem nada disso - massageie! Essas checagens são só no início do próximo ciclo. Beleza? Decoraram o fluxograma? Então, vamos falar com um pouco mais de detalhes sobre algumas etapas da cadeia de reanimação. DESFIBRILAÇÃO Um detalhe muito importante que aumenta a taxa de cardioversão, é o correto posicionamento das pás do desfibrilador. Tenham em mente que se essas pás ficarem muito juntas, a alça de energia choca uma massa muito pequena de células, diminuindo a chance de cardioversão/ desfibrilação. CM 176 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR A pá esternal deve ficar na linha hemiclavicular direita e a pá apical entre a linha axilar anterior e a linha axilar média, na altura do mamilo - pode haver discreta divergência do local exato a depender da literatura. Figura 77. Posicionamento correto das pás no tórax para a desfibrilação. CM 177 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR E se o paciente possuir marcapasso (MCP)? Neste caso, deve-se colocar as pás a pelo menos 8 cm de distância do dispositivo. Em geral, não há necessidade de alteração do posicionamento padrão. No entanto, quando o MCP está à direita, você precisará colocar as pás em posição anteroposterior (uma no dorso e outra no tórax). ACESSOS VENOSOS CM 178 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR O acesso preferencial é o venoso periférico. A última atualização inclusive reforça o acesso venoso sobre o intraósseo (IO) - ou seja, só vai para o IO se o acesso periférico não for obtido. É importante que as medicações sejam administradas em bolus e seguidas de um “flush” de 20 mL de solução fisiológica 0,9% (SF 0,9%) ou água destilada (AD) e, por fim, elevação do membro. Caso o acesso venoso não seja obtido, a próxima via recomendada é a intraóssea. Esse acesso é muito difícil de se usar na prática, mas, se for o caso, devemos obtê-lo no fêmur, porção distal da tíbia, úmero ou esterno. Em último caso, temos a via orotraqueal (tubo). Para o uso dessa via, devemos ajustar a dose da medicação administrada, que é cerca de 2 a 5 vezes maior do que a de por via endovenosa. As medicações que podem ser usadas dessa maneira são: Vasopressina, Atropina (classicamente descrita, porém não utilizamos mais), Naloxone, Epinefrina e Lidocaína. CM 179 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR MEDICAÇÕES VASOPRESSORAS Adrenalina: há evidências de maior taxa de RCE com seu uso, contudo há também maior taxa de sequelas neurológicas. Vasopressina: observado mesmo desfecho do que com a administração de adrenalina, porém mais cara. Não deve ser utilizada como primeira alternativa, mas costuma ser indicada em infusão contínua em pacientes de UTI com choque refratário. MEDICAÇÕES ANTIARRÍTMICAS Nessa classe farmacológica temos a amiodarona e a lidocaína. A despeito de antigamente haver uma preferência pela amiodarona, atualmente ambas possuem o mesmo nível de recomendação. Além dessas duas medicações, devemos citar o sulfato de magnésio, indicado no contexto de PCR em Torsades de Pointes. Mas, atenção! Nenhuma dessas medicações altera a sobrevida hospitalar. Os pacientes retornam mais à circulação espontânea, porém não há aumento de sobrevida: são medicações indicadas para o tratamento de arritmias refratárias. Bora ver as doses recomendadas pelo ACLS? CM 180 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Amiodarona: 1ª dose é de 300 mg em bolus (2 ampolas); se persistir, a 2ª dose é de 150 mg. Manutenção (em caso de reversão): 900 mg/dia – 360 mg em 6 horas e 540 mg nas próximas 18h. Após as 24h iniciais, discutir manutenção com equipe médica. A dose de manutenção pode variar um pouco entre protocolos. Lidocaína: 1ª dose é de 1 a 1,5 mg/kg; se persistir, a 2ª dose é de 5 a 10 min depois, 0,5 a 0,75 mg/kg; não é usada de manutenção. Sulfato de Magnésio (MgSO4): indicado exclusivamente em ritmo de Torsades de Pointes. MgSO4 1 a 2 g diluídos em 10 mL de SG 5% EV em 5 a 20 minutos. Pode-se repetir a dose, se arritmia refratária. ANTÍDOTOS Figura 78. Principais informações sobre os antídotos mais utilizados na PCR. • • CM 181 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR MONITORAMENTO INVASIVO DA QUALIDADE DE RCP Existem algumas medidas invasivas que podem nos auxiliar a monitorar a qualidade da RCP, que estão, inclusive, sendo cada vez mais cobradas nas provas de acesso direto (na primeira e na segunda fase - provas práticas/ multimídia). Vamos dar uma olhada nelas? PRESSÃO ARTERIAL INVASIVA (PAi) Dispositivo inserido diretamente em artéria (radial ou femoral), que nos fornece a medida de PA segundo a segundo, de maneira contínua. Normalmente instalada em pacientes no ambiente de terapia intensiva, dificilmente será instalada durante a PCR em si. A massagem é considerada adequada quando a PA diastólica se mantém acima de 20 mmHg - valor de pressão mínimo para que seja mantida a perfusão coronariana. Veremos mais sobre a PAi na apostila de “Sepse, Choque Séptico e Outros Tipos de Choque”, onde abordamos mais sobre “Cardiointensivismo”. CAPNOGRAFIA Aparelho pouco disponível no Brasil, embora a Diretriz da AHA recomende seu uso, uma vez que dados demonstram que há maior probabilidade de RCE se houver monitoramento por capnografia. É uma espécie de sensor de CO2, instalado em aparelho de ventilação mecânica após intubação orotraqueal. O capnógrafo mensura a fração expirada de CO2 que, em geral, é 5-6 mmHg mais baixa que a concentração arterial de CO2. Então, seus valores normais giram em torno de 35-40 mmHg. CM 182 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 79. Acima, curva de saturação periférica e, em baixo, a curva da capnografia, onde cada ondulação representa um movimento expiratório. Abaixo, uma intubação adequada, com capnografia normal. Na PCR, um valor superior a 10 mmHg e idealmente acima de 20 mmHg é indicativo de RCP de boa qualidade: se mais sangue circula pelo corpo, maior é a quantidade de hemácias que passa pelos vasos pulmonares, permitindo assim uma maior troca de CO2. Este gás é então exaladoe captado pelo aparelho, gerando uma curva. Se obtivermos um valor abaixo de 10 mmHg por mais de 20 minutos, apesar de compressões aparentemente de qualidade, devemos considerar interromper as manobras de RCP, por futilidade terapêutica. CM 183 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 80. Demonstração das curvas de capnografia em cenários de RCP eficaz e ineficaz. Esse assunto de capnografia também será novamente abordado, com mais detalhes, na apostila de “Pneumointensivismo”, mas, é importante conhecer sua utilidade no cenário de PCR. VIA AÉREA AVANÇADA A obtenção de uma via aérea avançada é importante, porém não tão essencial quanto muitos médicos presumem. A intubação orotraqueal (IOT) é, sem dúvida, a melhor via aérea para o paciente, pois é a que permite melhor oxigenação. Contudo, não há evidência definitiva de diferença de prognóstico ou de sobrevivência entre a ventilação com BVM e uma via aérea avançada. O ideal é não interromper a RCP para a laringoscopia. Em caso de extrema necessidade, a interrupção deve ser inferior a 10 segundos para a IOT e checagem do posicionamento do dispositivo (normalmente por ausculta). A capnografia é o método padrão-ouro para checagem do posicionamento do tubo endotraqueal, mas pouco disponível ainda. A leitura do sensor é traduzida em um gráfico em forma de onda. O dióxido de carbono expirado confirma a localização traqueal do tubo. CM 184 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 81. A-B ventilação do espaço morto, B-C fase expiratória ascendente, C-D Platô alveolar, D-E fase inspiratória ascendente. Fonte: Krauss B, Deykin A, Lam A, et al. Capnogram shape in obstructive lung disease. Anesth Analg 2005; 100:884. Copyright © 2005 Lippincott Williams & Wilkins. A capnografia tem, portanto, em 4 fases: Fase 1: ventilação do espaço morto (A-B), corresponde ao início da expiração, quando mobilizamos o ar do espaço morto (área na qual não há troca gasosa) da via aérea superior e a concentração de CO2 se aproxima de 0. Fase 2: fase ascendente (B-C), representa a rápida ascensão da concentração de CO2 no ar exalado, quando o CO2 dos alvéolos finalmente atinge o capnógrafo. Fase 3: platô alveolar (C-D), estado no qual a concentração de CO2 exalado chega a um nível constante. • • • CM 185 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Fase 4: fase inspiratória (D-E), fase inspiratória do ciclo, o CO2 volta a cair. E agora vamos a um exemplo prático, que ilustra como interpretamos uma curva de capnografia, na figura 82. Relembre os conceitos que explicamos da verificação de compressões cardíacas de qualidade mais acima no texto. • CM 186 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Figura 82. Situação 1: IOT adequada e capnografia normal. Meta entre 35-40 mmHg. Situação 2: IOT esofagiana. Situação 3: Retorno à circulação espontânea durante a RCP, há aumento do CO2 expirado. Situação 4: Redução das ondas significa piora da qualidade da RCP (capnografia estava > 10 e foi para < 10), se a qualidade verificada é boa, significa mau prognóstico. Situação 5: capnografia sinusoidal também sugere IOT esofagiana. Outra opção de via aérea avançada na PCR - que salva muitas vidas - é a máscara laríngea. Ela assegura uma via aérea, com adequada ventilação, quando não é possível realizar a intubação, seja por dificuldade técnica (via aérea difícil) ou por inexperiência do profissional. Deve ser considerada ainda em pacientes com malformações craniofaciais ou síndromes genéticas. INVESTIGAÇÃO DAS CAUSAS DE PCR O líder da PCR tem um papel mais importante do que meramente verificar a qualidade da RCP “de camarote”. Ele precisa também, além de CM 187 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR seguir o protocolo, pensar na causa da PCR e sugerir medidas que possam reverter essa condição. No “calor do momento” é comum a cabeça querer dar um branco. Por isso, é clássica (e realmente útil) a decoreba dos 5Hs e 5Ts. Corrigir a causa permite que o paciente retorne mais facilmente à circulação espontânea e também evita uma nova PCR. Aqui vai então o segundo mantra da semana de você. Precisa saber, galera! Vamos lá então? CM 188 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Agora que abordamos todo o fluxograma de atendimento inicial, vamos a uma importante parte do atendimento, relativamente negligenciada pelos profissionais de saúde: os cuidados pós-PCR. CUIDADOS PÓS-PCR O momento após o RCE é de ouro! Não infrequentemente vemos equipes voltando ao trabalho “normal” assim que conquistam a RCE e nada mais deve ser feito. Devemos garantir que o paciente não irá evoluir com nova PCR, o que pode conferir um prognóstico sombrio ao doente. Nos 20 minutos iniciais após RCE, ocorre o que chamamos de lesão de reperfusão. Há liberação de mediadores químicos pelas células até então CM 189 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR em hipóxia, bem como componentes de tecidos já necrosados e essas substâncias são lavadas pelo sangue que atravessa esses locais, desencadeando uma intensa cascata inflamatória. É possível ainda o desenvolvimento de injúria cerebral nas próximas 12 a 72 horas. Levando em conta tudo que dissemos acima, elaborou-se um protocolo de cuidado no pós-parada, que possui os seguintes objetivos: Minimizar a injúria cerebral. Manejar isquemia global e injúria por reperfusão. Corrigir disfunção cardíaca. Detectar e tratar causas precipitantes e persistentes. No pós-PCR temos algumas metas que, comprovadamente, demonstraram melhores desfechos em estudos clínicos, listamos elas a seguir: • • • • CM 190 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Menor FiO2 para manter SatO2 ≥ 94%. Normocapnia para manter pCO2 entre 40 e 45 mmHg. Manter PAS > 90 mmHg ou PAM ≥ 65 mmHg. Dosar lactato e manejar volemia. Controle do K sérico. Glicemia entre 140 e 180 mg/dL; tratar se glicemia < 80 mg/dL. Se estiver em coma, realizar controle direcionado de temperatura: manter temperatura central (esôfago, bexiga e/ou cateter de artéria pulmonar) entre 32°C e 36°C por pelo menos 24 horas. Pode usar dipirona EV fixa ou resfriamento físico. Monitorar e tratar crises epilépticas. Se comatoso, considerar fazer eletroencefalograma para descartar estado de mal não convulsivo. Não está indicado anticonvulsivante profilático. Normalmente, após RCE, o paciente estará comatoso. Nessa situação, você deve iniciar o controle direcionado de temperatura (que é diferente de hipotermia). Se o hospital não tem um protocolo de hipotermia, evite febre a qualquer custo! Observe o quadro abaixo para mais detalhes. • • • • • • • • CM 191 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR AVALIAÇÃO DO PROGNÓSTICO Em geral, a avaliação do prognóstico deve ser feita APÓS 72h. Poucas conclusões acerca da evolução podem ser tiradas antes desse prazo. A única medida que pode ser feita de maneira imediata é a TC de crânio, as demais avaliações ficam prejudicadas (reflexos de tronco, reflexos pupilares etc.). Não entraremos em detalhes sobre o assunto, pois não é algo que costuma cair em provas. Bom, fim! É isso, chegamos ao fim da última parte dessa apostila! CONCLUSÃO CM 192 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Ufa! Sejam sinceros: por um momento, vocês acharam que não chegariam até aqui, não é mesmo? Bom, se por algum motivo você não chegou: não se preocupe! Não se esqueça que o que realmente vai fixar o assunto são as questões da prova! Façam quantas forem necessárias e possíveis, além das revisões! Não se esqueçam que nosso material é direcionado e tem como objetivo funcionar mais como um material de apoio doque como metodologia de ensino! Dito isso, terminamos a abordagem dessa apostila! Vimos Taquiarritmias, Bradiarritmias, Síncope e PCR! O foco foram as provas de acesso direto, mas ao longo do texto percebam que foram dadas várias dicas úteis para a vida! Por fim, não se esqueçam do nosso combinado do que não dá pra sair dessa apostila sem saber: Reconhecer os padrões eletrocardiográficos das principais arritmias que veremos aqui: destaque para fibrilação atrial, TSV e Torsades de Pointes. Saber o manejo do paciente que chega com taqui/bradi estável x instável na emergência. Manejo inicial da síncope (como descartar que a causa é cardíaca) e hipotensão postural. Algoritmo do ACLS: foco em TV/FV e em como garantir compressões eficazes (inclusive utilizando capnografia). Esperamos que tenham gostado da leitura! Se tiverem alguma dúvida e/ ou sugestões, não hesitem em falar conosco… Será um prazer inenarrável! Até a próxima! 1. 2. 3. 4. CM 193 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR Bibliografia Medicina de emergência : abordagem prática / editores Irineu Tadeu Velasco ... [et al.]. - 14. ed., rev., atual. e ampl. - Barueri [SP] : Manole, 2020. Fonte: Autores: Juliana Irani Fratucci de Gobb, Paloma Grazielle Bittencourt da Silva. Disponível em: http:// museuescola.ibb.unesp.br/subtopico.php? id=2&pag=2&num=7&sub=54>. ACLS - Advanced Cardiovascular Life Support, 2020. Kusumoto FM, Schoenfeld MH, Barrett C, Edgerton JR, Ellenbogen KA, Gold MR, et al. 2018 ACC/AHA/HRS guideline on the evaluation and management of patients with bradycardia and cardiac conduction delay. Circulation. 2018:CIR0000000000000628. PMID: 30586772 doi:10.1161/CIR.0000000000000628. ESC Scientific Document Group, 2021 ESC Guidelines on cardiac pacing and cardiac resynchronization therapy: Developed by the Task Force on cardiac pacing and cardiac resynchronization therapy of the European Society of Cardiology (ESC) With the special contribution of the European Heart Rhythm Association (EHRA), European Heart Journal, Volume 42, Issue 35, 14 September 2021, Pages 3427–3520, https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehab364. Braunwald - Tratado de doenças cardiovasculares, 10ª Edição, em português. ESC Guidelines: Atrial Fibrillation, 2020. II Diretriz brasileira de Fibrilação Atrial. 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. CM 194 http://museuescola.ibb.unesp.br/subtopico.php?id=2&pag=2&num=7&sub=54 http://museuescola.ibb.unesp.br/subtopico.php?id=2&pag=2&num=7&sub=54 http://museuescola.ibb.unesp.br/subtopico.php?id=2&pag=2&num=7&sub=54 http://museuescola.ibb.unesp.br/subtopico.php?id=2&pag=2&num=7&sub=54 http://museuescola.ibb.unesp.br/subtopico.php?id=2&pag=2&num=7&sub=54 http://museuescola.ibb.unesp.br/subtopico.php?id=2&pag=2&num=7&sub=54 http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30586772 http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30586772 http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30586772 http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30586772 Clínica Médica Arritmias, Síncope e PCR III Diretriz da SBC sobre análise e emissão de laudos eletrocardiográficos. Manual de Cardiologia Cardiopapers 2ª edição. 2018 Guidelines for Diagnosis/Management of Syncope. ESC Clinical Practice Guidelines. Shen WK, Sheldon RS, Benditt DG, Cohen MI, Forman DE, Goldberger ZD, et al. Diretriz ACC / AHA / HRS de 2017 para avaliação e tratamento de pacientes com síncope: resumo executivo: um relatório do American College of Cardiology / Força-Tarefa da American Heart Association sobre Diretrizes de Prática Clínica e da Heart Rhythm Society. Circulação. 2017; 136: e25-e59. PMID: 28280232 doi: 10.1161 / CIR.0000000000000498. Copyright 2017, American Heart Association, Inc. Costantino G, Sun BC, Barbic F, Bossi I, Casazza G, Dipaola F, et al. Síncope gestão clínica no departamento de emergência: um consenso do primeiro workshop internacional sobre síncopeestratificação de risco no pronto-socorro. Eur Heart J. 2016; 37: 1493-8. PMID: 26242712 doi: 10.1093 / eurheartj / ehv378. 8. 9. 10. 11. 12. CM 195 http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28280232 http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28280232 http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26242712 http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26242712 Sobre a Medway O único preparatório 100% focado em São Paulo A Medway é o único curso preparatório para a residência médica 100% focado nas instituições de São Paulo. Preparamos nosso material com didática padrão-ouro vinda de nossos professores especialistas que já foram residentes onde você quer passar. Nosso maior objetivo é ajudar nossos alunos a conquistarem a residência dos sonhos. E para isso, nos certificamos de estarmos juntos até o final. juntos até o final! Você em 1º lugar na residência dos seus sonhos! A sua aprovação pode ser a próxima a aparecer aqui! Seu nome na lista de aprovados Henrique Bosso 2º lugar na Unifesp em Oftalmologia Beatriz Aveiro 1º lugar no HIAE em Medicina Intensiva Raphaela Bastos 3º lugar na USP-RP em Dermatologia