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Casamento Prof. Gilberto Fachetti Silvestre, Prof.ª Bruna Figueira Marchiori false Descrição Abordagem conceitual e prática dos requisitos mais importantes de constituição de um casamento e de uma união estável. Propósito Essa é uma das principais matérias das quais resultam demandas discutidas em ações judiciais, sendo, portanto, um assunto de grande viés prático e operabilidade para o exercício das profissões jurídicas. Preparação Para iniciar os estudos deste assunto, tenha o Código Civil atualizado em mãos. Objetivos Módulo 1 Capacidade, impedimentos e causas suspensivas Identificar as principais regras de constituição do casamento, assim como as modalidades de impedimentos à sua constituição. Módulo 2 Dissolução do vínculo conjugal Analisar as consequências da dissolução do vínculo conjugal. Módulo 3 União estável e sua dissolução Reconhecer os elementos da união estável e sua dissolução. Introdução Casamento e união estável são instituições da maior importância, porque são entidades familiares e família constitui célula da sociedade. Daí a importância de compreender em detalhes como é a constituição do casamento e da união estável e quais as características de cada um. As consequências sociais e jurídicas que podem advir dessas situações servem de campo fértil para o desenvolvimento profissional. Paralelamente a isso, o casamento e a união estável implicam uma consequência prática e alguns conceitos próprios e peculiares, que permitem melhor compreender como funcionam essas entidades familiares e como os problemas deles decorrentes devem ser resolvidos. Assim, vamos apresentar conceitos e demonstrar como eles se aplicam para a solução de problemas que resultam da constituição do casamento e da união estável. Para isso, primeiro será mostrado um panorama dos elementos essenciais caracterizadores do casamento e da união estável. Na sequência, será abordada a dissolução por não atendimento a tais requisitos essenciais. Por fim, será apresentado o regime jurídico dos elementos essenciais do casamento e da união estável, de modo a resumir e sistematizar as principais regras sobre a matéria. Material para download Clique no botão abaixo para fazer o download do conteúdo completo em formato PDF. Download material javascript:CriaPDF() 1 - Capacidade, impedimentos e causas suspensivas Ao �nal deste módulo, você deverá ser capaz de identi�car as principais regras de constituição do casamento, assim como as modalidades de impedimentos à sua constituição. Conceito de casamento Casamento Neste vídeo, o professor reflete sobre o que é o casamento e seus requisitos fundamentais. Confira! Noções gerais sobre os requisitos do casamento O casamento é o ato jurídico caracterizado pelo vínculo jurídico entre duas pessoas com a intenção de constituir uma família (affectio familiae). Antes da ADI nº 4277 e da ADPF nº 132, julgadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2011, e da Resolução nº 175/2013 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o casamento era restrito somente à união entre homem e mulher. Shutterstock.com Shutterstock.com Com as decisões do STF e a resolução do CNJ, passou-se a admitir a celebração do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Para casar, porém, é preciso preencher uma série de requisitos formais, dos quais os mais importantes são: Capacidade para casar Não haver impedimentos Não haver causas suspensivas. Vamos analisar cada um dos requisitos formais separadamente. Capacidade núbil Regramento geral da capacidade para casar A capacidade para casar, também chamada de capacidade núbil, é a aptidão da pessoa para poder casar, ou seja, a pessoa tem o discernimento necessário para a prática do ato. Tem a ver, portanto, com o preenchimento de condições subjetivas do interessado em se casar, que revelem sua habilidade para compreender a importância do ato que pratica. Essa capacidade é a de fato ou de exercício, que pode ser limitada ao longo da vida da pessoa. A capacidade de direito ou de gozo é a mesma durante toda a vida da pessoa. Assim, quando falamos em capacidade para casar, estamos nos referindo à capacidade de fato, que consiste na possibilidade de a própria pessoa exercer seus direitos na vida civil, sem a necessidade de um assistente ou um representante. Aquele que não possui a capacidade casamentária é, portanto, incapaz para o casamento (incapacidade absoluta e relativa). Sendo o casamento um ato jurídico, a ele se aplicam as causas de incapacidade previstas no art. 3º e no caput do art. 4º do Código Civil. São incapazes absolutamente para o casamento os menores de 16 anos. São incapazes relativamente para o casamento: 1. Os ébrios habituais (alcoólicos) e os viciados em tóxico (narcóticos). 2. Aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade. 3. Os pródigos. Pródigo É a pessoa que gasta imoderadamente seu dinheiro e seus bens, comprometendo o seu patrimônio. Atenção! No caso dos relativamente incapazes (ébrios habituais, dos viciados em tóxico, dos impossibilitados de exprimir sua vontade e dos pródigos), não basta que a pessoa seja acometida dessas causas de incapacidade. É preciso que a pessoa seja interditada, ou seja, que um juiz declare o sujeito que apresenta aquelas condições como sendo relativamente incapaz. Ninguém maior de 18 anos é incapaz só porque é viciado em álcool ou tóxico, é pródigo ou está impossibilitado de manifestar vontade. É preciso uma declaração judicial de que aquela pessoa é relativamente incapaz, que é obtida na chamada ação de curatela de interditos. Nessa ação, é nomeado o curador, o qual é uma pessoa responsável em ser o assistente do interditado-incapaz. Logo, se alguém estiver interditado, não poderá casar-se sem autorização do seu curador. Se o fizer, o casamento será nulo. E quanto à hipótese do inciso I do caput do art. 4º do Código Civil, pela qual os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos são relativamente incapazes? Nesse caso, excepcionalmente, o caput do art. 1.517 do Código Civil admite o casamento de pessoas que tenham entre 16 e 18 anos: Por esse motivo, diz-se que a idade núbil, no Brasil, é aos 16 anos. Mas o fato de uma pessoa entre 16 e 18 anos ter a capacidade para se casar não significa que é dispensada a autorização de seus responsáveis (ou responsável, se houver somente um). Assim, pais e tutor (caso a pessoa esteja submetida à tutela) precisam autorizar o casamento para que este tenha validade. Saiba mais Essa autorização dos responsáveis poderá ser revogada até a data da celebração do casamento (art. 1.518). No caso da pessoa que tem pai e mãe ou dois tutores, havendo divergência entre ambos, é possível que a divergência seja levada até o Judiciário para que um juiz analise se a recusa tem justa causa (parágrafo único do art. 1.631). Não havendo justa causa na recusa em autorizar o casamento do filho ou da filha, ou tutelado e tutelada, o juiz dará o consentimento (art. 1.519). A pessoa entre 16 e 18 anos, ao se casar, será automaticamente emancipada (inciso II do parágrafo único do art. 5º do Código Civil). Isso significa que, mesmo menor de 18 anos, passará a ser plenamente capaz, ou seja, sua capacidade plena é adiantada e ela poderá exercer todos os atos da vida civil sem a necessidade de um assistente. Antes da Lei nº 13.811/2019, que alterou a redação do art. 1.520, admitia-se, excepcionalmente, o casamento de quem não havia atingido a idade núbil (16 anos). Era a chamada antecipação da idade núbil. A hipótese excepcional era gravidez. Agora, com a nova redação do art. 1.520, não é permitido, em qualquer caso, o casamento de quem não atingiu a idade núbil. Capacidade para casar frente ao Estatuto e à Lei de Inclusão da PCD Uma questão que se coloca, agora, diz respeito à Lei nº 13.146/2015 – Estatuto da Pessoa com Deficiência ou Lei de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Essa lei modificoua redação do art. 3º e no caput do art. 4º do Código Civil, eliminando as deficiências mentais como causas de incapacidade absoluta ou relativa. Pelo art. 84 do Estatuto, a pessoa com deficiência tem assegurado o direito ao exercício de sua capacidade legal em igualdade de condições com as demais pessoas. Ou seja, a pessoa com deficiência mental/intelectual tem capacidade plena. Dependendo do grau de deficiência mental, a pessoa pode ser submetida a uma curatela especial (§ 1º do art. 84). Porém, de acordo com o art. 85, tal curatela afetará tão somente os atos relacionados aos direitos de natureza patrimonial e negocial e não alcança o direito ao próprio corpo, à sexualidade, ao matrimônio, à privacidade, à educação, à saúde, ao trabalho e ao voto. Logo, ninguém poderá ser interditado (e declarado incapaz) por causa de deficiência mental/intelectual. Uma pessoa nessa condição não é incapaz. Daí vem a pergunta: a pessoa com deficiência mental/intelectual maior de 18 anos pode casar-se sem a autorização de algum responsável? De acordo com o § 1º do art. 1.550, a pessoa com deficiência mental ou intelectual em idade núbil poderá contrair matrimônio, expressando sua vontade perante o Oficial do Registro diretamente ou por meio de seu responsável ou curador. Assim, em regra e a princípio, ninguém pode se opor ao casamento de uma pessoa com deficiência mental ou intelectual. Não há idade núbil máxima, ou seja, a pessoa, desde que plenamente capaz, poderá se casar em qualquer idade. Há, porém, uma restrição: se um dos nubentes for maior de 70 anos, o regime de bens do casamento será, obrigatoriamente, a separação de bens (inciso II do art. 1.641). Essa é, portanto, a única restrição para o casamento quanto a fatores etários, além da necessidade de autorização para o caso dos maiores de 16 anos e menores de 18 anos. Dessa maneira, após a Lei nº 13.811/2019, só existe uma hipótese de incapacidade absoluta para o casamento: a menoridade de 16 anos. Impedimentos para casar Proibições matrimoniais previstas em lei São proibições que a lei impõe para que certas pessoas não se casem e, caso se unam, tal união não seja considerada nem casamento, nem união estável. Essas proibições estão previstas no art. 1.521 do Código Civil em um rol taxativo (numerus clausus). Seu objetivo é preservar valores morais da sociedade e evitar problemas genéticos e de saúde de uma possível prole. As causas de impedimentos são as seguintes: Avós, pais, filhos, netos, bisnetos... não podem se casar entre si. Ascendência e descendência constituem o parentesco na linha reta, caracterizado pela progenitura. Essa restrição atinge tanto o parentesco natural quanto o civil. Parentesco natural é o biológico, ou seja, consanguíneo; e o parentesco civil é o que resulta da adoção, cujo vínculo é afetivo, e não genético. Cada cônjuge é coligado aos parentes do outro pelo vínculo da afinidade, ou seja, o cônjuge torna-se parente (por afinidade) dos parentes do outro cônjuge. Há o parentesco por afinidade em linha reta (ascendentes e descendentes) e o parentesco por afinidade em linha colateral (irmãos). Ocorre que, com o fim do casamento, somente o parentesco por afinidade em linha colateral é extinto. Nesse caso, o ex-marido pode se casar com a ex-cunhada. Tal situação, porém, não ocorre no caso do parentesco por afinidade em linha reta, conforme prescreve o § 2º do art. 1.595 do Código Civil, pelo qual, na linha reta, a afinidade não se extingue com a dissolução do casamento ou da união estável. Por isso, não existe ex-sogra, ex-sogro, ex-enteado, ex-madrasta etc. O vínculo será perpétuo, independentemente de novos casamentos. Desse modo, essa proibição consiste em impedir que pessoas se casem com enteados, sogros, avós do ex-cônjuge, netos do ex-cônjuge etc. Ascendentes com os descendentes Afins em linha reta Adotante com quem foi cônjuge do adotado e o adotado com quem o foi do adotante Aquele que é adotado se torna descendente do adotante e parente na linha reta e na linha colateral de todos os parentes do adotante. Não há (e nem pode haver) qualquer diferença de tratamento entre um parente consanguíneo e um parente civil (adotado). Veja um exemplo: João foi casado com Maria e já se divorciou. Pedro foi casado com Ana e já se divorciou. João adota Pedro como filho. É como se Ana se tornasse nora de João e Maria se tornasse madrasta de Pedro por afinidade. Irmãos bilaterais são os que descendem do mesmo pai e mesma mãe e também são chamados de irmãos germanos. Irmãos unilaterais são os que possuem em comum somente o pai ou somente a mãe. Parentes em linha colateral ou transversal são as pessoas provenientes de um só tronco, sem descenderem uma da outra. Esse parentesco vai somente até o quarto grau, ou seja, somente até os primos, os filhos de sobrinhos, os tios de tios etc. (Por exemplo: o filho de um primo seu não é seu parente para fins legais). São parentes colaterais: irmãos, tios, sobrinhos e primos. Irmãos são proibidos de se casar. Já os demais parentes colaterais, a proibição alcança os tios (3º grau). A partir do 4º grau não há restrição. Assim, a princípio, tios e sobrinhos não podem se casar. Mas o Decreto-Lei nº 3.200/1941 admite o chamado casamento avuncular, ou seja, o matrimônio entre colaterais de 3º grau (tio- sobrinho). O entendimento predominante é o de que o Decreto- Lei nº 3.200/1941 não foi revogado pelo Código Civil; ao contrário, aplica-se para interpretar o inciso IV do art. 1.521 do Código Civil. A partir disso, a proibição de casamento entre tios e sobrinhos pode ser afastada desde que preenchidos dois requisitos: não trazer riscos à saúde do casal e de sua prole eventual; e ter autorização judicial. Irmãos, unilaterais ou bilaterais, e demais colaterais, até o terceiro grau, inclusive Como o adotado se torna, indistintamente, parente dos parentes do adotante, o filho do adotante se torna irmão do adotado. Logo, não poderão se casar, porque irmãos não podem se casar. Trata-se da chamada bigamia, ou, no caso de mais de dois casamentos, de poligamia. Então, quem já é casado não pode se casar novamente enquanto não dissolvido o casamento anterior (por divórcio, por viuvez ou por anulação). A bigamia é tipificada como crime no caput do art. 235 do Código Penal: “Contrair alguém, sendo casado, novo casamento: Pena – reclusão, de dois a seis anos”. “Outrossim, aquele que, não sendo casado, contrai casamento com pessoa casada, conhecendo essa circunstância, é punido com reclusão ou detenção, de um a três anos” (§ 1º do art. 235). Há, ainda, uma última causa de impedimento, resultante de crime. Não pode se casar o cônjuge sobrevivente com o condenado por homicídio ou tentativa de homicídio contra o seu consorte (inciso VII do art. 1.521). Ainda sobre os impedimentos, observe! Adotado com o filho do adotante Pessoas casadas Resultante de crime Os impedimentos devem ser opostos Antes da celebração do casamento, com o fim de evitar que o ato se concretize. Trata-se da oposição de impedimentos. Os impedimentos podem ser opostos Até o momento da celebração do casamento, por qualquer pessoa capaz. No caso do juiz e do oficial de registro, se eles tiverem conhecimento da existência de algum impedimento, são obrigados a declará-lo de ofício, ou seja, independentemente da manifestação de outra pessoa. Descoberta uma causa de impedimento posteriormente à celebração do casamento, deve ser proposta uma ação de nulidade do casamento, que o declarará nulo e, com isso, dissolvido (inciso II do art. 1.548 do Código Civil). De acordo com o art. 1.549, a ação de nulidade de casamento pode ser proposta por qualquer interessado ou pelo Ministério Público. Causas de suspensão do casamento Circunstâncias suspensivas do casamento São hipóteses previstas no art. 1.523 do Código Civil que não impedem a celebração do casamento, mas levam à aplicação de sanções aos nubentesque as descumprem. As causas que levam à aplicação das sanções são situações patrimoniais confusas que não foram desembaraçadas pelos nubentes antes do casamento. As sanções são: Obrigatoriedade do regime de separação total de bens (inciso I do art. 1.641 do Código Civil) Suspensão da celebração do casamento (art. 1.524) Observe que entre as sanções não se encontra a invalidade do casamento (nulidade e anulabilidade). Assim, casando-se os que não devem se casar, de acordo com o art. 1.523, o casamento não será dissolvido. Automaticamente, o regime de bens será a separação total e será desconsiderado qualquer outro regime de bens escolhido. Até resolver as pendências patrimoniais, não devem se casar: 1. Pessoas viúvas que tiverem filho do cônjuge falecido, enquanto não fizer inventário dos bens do casal e der partilha aos herdeiros. 2. A viúva, ou a mulher cujo casamento se desfez por ser nulo ou ter sido anulado, até 10 meses depois do começo da viuvez, ou da dissolução da sociedade conjugal. 3. Pessoas divorciadas, enquanto não houver sido homologada ou decidida a partilha dos bens do casal. 4. O tutor ou o curador e os seus descendentes, ascendentes, irmãos, cunhados ou sobrinhos, com a pessoa tutelada ou curatelada, enquanto não cessar a tutela ou curatela, e não estiverem saldadas as respectivas contas. Acompanhe as explicações a seguir para compreender melhor as hipóteses apresentadas: As hipóteses 1 e 3 existem para evitar confusão patrimonial que prejudique a identificação do patrimônio a ser inventariado e partilhado. Impedindo, assim, que o patrimônio do novo cônjuge possa influenciar, de algum modo, na partilha a ser realizada. A hipótese 2 tem por objetivo evitar a confusão de sangue, pois antes do prazo de 10 meses poderia haver a possibilidade de a viúva estar grávida do marido morto. A hipótese 4 pretende evitar artimanhas por parte do tutor e do curador para burlar responsabilidade quanto à prestação de contas. Comprovado que não haverá prejuízo a herdeiros e filhos, o juiz poderá afastar as causas 1, 3 e 4. Na causa 2, basta a comprovação da inexistência de gravidez. Ampliando o conhecimento Você está familiarizado com os requisitos necessários para o casamento? Consegue distinguir as hipóteses de impedimentos e de causas suspensivas do casamento? A fim de compreendermos a importância prática dessas categorias, analisaremos o estudo de caso a seguir, adaptado da Apelação Cível n° 1007581-69.2020.8.26.0286 do Tribunal de Justiça de São Paulo. Pedro e Luiz, dois irmãos, começaram a namorar com as também irmãs Paula e Jéssica. Luiz e Jéssica começaram a namorar em 2021, tendo, respectivamente 28 e 31 anos. Pedro e Paula começaram a namorar também em 2021, tendo, respectivamente, quinze e treze anos. Em 2023, Paula engravidou de Pedro. Como Pedro já trabalhava e, por isso, possuía condições de sustentar sua família, Pedro pediu Paula em casamento. Depois de conversar com Paula, Pedro resolve conversar com João, pai de Paula, para saber se ele anuiria ao casamento. Após dizer que concordava com a união dos dois, João, viúvo, consente e autoriza, sozinho, a realização do casamento. O casal, então, vai ao Cartório de Registro de Pessoas Naturais, com o intuito de iniciar o processo de habilitação para o casamento. O oficial de registro civil opõe-se à celebração do casamento, afirmando que Paula ainda não havia atingido a idade núbil. Indignada, Paula, devidamente representada por seu genitor, ingressou com uma demanda pleiteando a autorização judicial para casar-se civilmente com Pedro. Afirmou, em síntese, que o suprimento da idade núbil privilegiaria o interesse do nascituro, que poderia nascer e ser criado no seio de um núcleo familiar estruturado. Após a leitura do case, é hora de aplicar seus conhecimentos! Questão 1 Imagine que Luiz fosse um indivíduo com síndrome de Down e tivesse se casado civilmente com Jéssica sem que tivesse solicitado autorização de seu pai. O casamento deles, por via de regra, seria: https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/46602/pdf/apelacao_civel_1007581-69.2020.8.26.0286.pdf Parabéns! A alternativa B está correta. A partir do Estatuto da Pessoa com Deficiência, de 2015, a deficiência intelectual não é mais uma causa de incapacidade absoluta ou relativa para o casamento. Dessa forma, a pessoa com deficiência poderá expressar seu desejo de casar-se independentemente de qualquer autorização prévia. Questão 2 Imagine outra situação hipotética: No procedimento de habilitação para o casamento de Luiz e Jéssica, um primo de Luiz levantou uma questão: apesar de Luiz ser divorciado, a partilha dos bens de seu casamento anterior ainda não havia sido concluída. Com base nesse cenário, é possível dizer que a ausência de prévia partilha de bens A Nulo, pois quem tem síndrome de Down não pode se casar civilmente. B Válido, e Luiz poderia ter expressado sua vontade diretamente ou por meio de seu responsável ou curador. C Anulável. D Nulo, e Luiz precisaria da autorização de um responsável ou curador. E Válido, pois toda pessoa com mais de 16 anos é considerada plenamente capaz. A constitui uma causa suspensiva e, uma vez demonstrado, levaria à anulabilidade do matrimônio, se este fosse efetivado mesmo assim. Parabéns! A alternativa C está correta. Segundo o art. 1.524 do Código Civil, as causas suspensivas da celebração do casamento podem ser arguidas pelos parentes em linha reta de um dos nubentes, sejam consanguíneos ou afins, e pelos colaterais em segundo grau, sejam também consanguíneos ou afins. Questão 3 Você foi procurado por Pedro e Paula para uma consultoria jurídica. O casal deseja saber se existe, de fato, algum óbice para a realização do seu casamento civil. A sua resposta seria a mesma se o caso tivesse ocorrido em 2016? Por fim, caso esse casamento fosse realmente celebrado, haveria uma sanção jurídica para esse ato? Se sim, qual? Digite sua resposta aqui Chave de resposta B constitui um impedimento matrimonial e, uma vez demonstrado, resultaria na inexistência jurídica do casamento, caso este fosse celebrado apesar disso. C trata-se de uma causa suspensiva, não podendo ser oposta por um parente colateral de quarto grau. D trata-se de um impedimento, e pode ser oposta por qualquer interessado. E trata-se de um impedimento, e apenas poderia ser oposta até o momento da celebração do casamento. A Lei n° 13.811, de 2019, alterou o texto do art. 1.520 do Código Civil, de forma a vedar, em qualquer hipótese, o casamento de quem não atingiu a idade núbil. Conforme estabelece o art. 1.517 do Código Civil, a idade núbil é atingida aos 16 anos no Brasil, isto é, a partir dos 16 anos, encontra-se preenchido o critério etário para a obtenção da capacidade núbil. Todavia, ainda que o menor entre 16 e 18 anos tenha capacidade núbil, é necessário que um responsável autorize a realização do casamento para que ele tenha validade jurídica. No caso prático analisado, como Paula tem apenas 13 anos quando tenta ingressar com o processo de habilitação para o casamento, ela não possui capacidade núbil e nem mesmo a autorização do pai é suficiente para garantir a capacidade matrimonial da menor. Na hipótese desse caso ter ocorrido em 2016, ou seja, antes do início da vigência da Lei n° 13.811, algumas peculiaridades deveriam ser consideradas. Até a edição dessa lei, o Código Civil previa, em seu art. 1.520, uma exceção para a proibição de celebração do casamento de menor de 16 anos: a gravidez. Assim, em caso de gravidez, excepcionava-se a proibição do casamento de pessoa fora da idade núbil. Por esse motivo, se o caso analisado tivesse ocorrido em 2016, mesmo que Paula ainda não tivesse atingido a idade mínima para se casar, o casamento civil poderia ter sido realizado, uma vez que a noiva estava grávida. Por fim, considerando que o casamento de Pedro e Paula tenha sido realizado mesmo diante daproibição legal de casar pessoas que não atingiram a idade núbil, por exemplo, se o oficial do registro civil não identificasse que um dos noivos tem menos de 16 anos, o casamento seria, em regra, anulável, conforme estabelece o art. 1.550, I do Código Civil. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Assinale a alternativa correta: Parabéns! A alternativa D está correta. Trata-se da hipótese do inciso II do art. 1.523, cujo objetivo é evitar a confusão de sangue e a dúvida de paternidade entre o antigo marido e o atual. Questão 2 Maria, aos 17 anos, recebeu autorização de seus pais para se casar com Pedro, de 21 anos. Os pais doaram um apartamento como presente ao casal. Semanas após o casamento, o casal decide A O curador não pode se casar com o curatelado após cessar a curatela. B A viúva que tiver filho do cônjuge falecido terá seu novo casamento nulo, se celebrado antes da realização do inventário dos bens e da partilha aos herdeiros. C O divorciado que se casar antes de homologada ou decidida a partilha dos bens do casal, deverá adotar o regime de separação parcial de bens. D A viúva não deve se casar até dez meses depois do começo da viuvez. E Pessoas já casadas podem se casar novamente se estiverem separadas de fato. vender o apartamento para adquirir outro imóvel. Nesse caso, a venda do imóvel por Maria e Pedro é Parabéns! A alternativa C está correta. O casamento é uma causa de emancipação (inciso II do parágrafo único do art. 5º do Código Civil). Com isso, a pessoa entre 16 e 18 anos que casa deixa de ser relativamente incapaz e antecipa sua capacidade civil plena. Sendo capaz, Maria pode praticar livremente os atos da vida civil independentemente de autorização de quem quer que seja. Assim, a venda é válida porque tanto Pedro quanto Maria têm plena capacidade de praticar o ato conjuntamente. A nula, pois Maria é menor de 18 anos. B anulável, pois os pais de Maria não deram a autorização escrita. C plenamente válida. D ineficaz, até Maria completar 18 anos. E válida, pois a autorização de Pedro supre a incapacidade relativa de Maria. 2 - Dissolução do vínculo conjugal Ao �nal deste módulo, você deverá ser capaz de analisar as consequências da dissolução do vínculo conjugal. Conceito de dissolução do vínculo Base conceitual da dissolução do vínculo conjugal A dissolução do vínculo conjugal é a extinção do casamento (sociedade conjugal). São fatores que fazem com que a sociedade conjugal deixe de existir. Atenção! É importante não confundir extinção da sociedade conjugal (fim do casamento) com a suspensão da sociedade conjugal, ou seja, dos efeitos pessoais e patrimoniais do casamento. A suspensão da sociedade conjugal ocorre nas hipóteses de separação judicial e separação de fato. Nesses casos, o casamento continua existindo, embora não produza efeitos, como o dever de fidelidade e de coabitar e o regime de bens. Já o fim do casamento decorre de três causas (caput do art. 1.571 do Código Civil): Morte de um dos cônjuges (ou de ambos, em caso de comoriência) Divórcio Invalidade do casamento (nulidade ou anulação) O casamento válido só é extinto pelo divórcio ou pela morte. Analisemos, mais detidamente, cada uma das causas do fim do casamento. Morte e extinção do casamento Extinção do casamento pela morte A morte biológica (art. 6º do Código Civil) e a morte presumida por motivo de ausência (art. 7º c/c arts. 22 a 39 do Código Civil) têm o condão de desfazer o vínculo entre os cônjuges. O cônjuge falecido será o de cujus; o cônjuge sobrevivente é o supérstite ou viúvo. Saiba mais Em se tratando de caso de comoriência (art. 8º do Código Civil), situação em que não se consegue determinar qual dos cônjuges faleceu primeiro, considera-se extinto o casamento com a decretação de morte simultânea. Isso é importante para fins de partilha de bens entre os herdeiros dos cônjuges falecidos. O cônjuge sobrevivente tem o direito de continuar a usar o sobrenome do de cujus, caso tenha acrescido o sobrenome quando se casaram. A morte de um dos cônjuges não extinguirá o parentesco por afinidade entre o cônjuge sobrevivente e os parentes na linha reta do de cujus (§ 2º do art. 1.595 do Código Civil). Assim, os pais, avós, filhos e netos do de cujus permanecem sendo parentes por afinidade do sobrevivente (obviamente, se não houver parentesco consanguíneo ou civil entre o sobrevivente e aqueles parentes). Divórcio Extinção do casamento pelo divórcio O divórcio é a extinção do casamento por vontade de pelo menos um dos cônjuges. Para compreender melhor, assista ao vídeo a seguir: Divórcio e separação Conheça a definição de divórcio e separação e saiba mais sobre suas espécies! A Emenda Constitucional nº 66/2010 deu nova redação ao § 6º do art. 226 da Constituição da República, dispondo que, para a dissolubilidade do casamento civil pelo divórcio, estavam suprimidos os requisitos de prévia separação judicial por mais de um ano ou o de comprovada separação de fato por mais de dois anos. Veja a comparação de redações do § 6º do art. 226: Antes da EC nº 66/2010 Art. 226. [...]. § 6º O casamento civil pode ser dissolvido pelo divórcio após prévia separação por mais de um ano nos casos expressos em lei ou comprovada separação e fato por mais de dois anos. Após a EC nº 66/2010 Art. 226. [...]. § 6º O casamento civil pode ser dissolvido pelo divórcio. Observe que, para requerer o divórcio, não existem mais requisitos, ou seja, não é mais necessária a separação anterior (judicial ou de fato), nem qualquer tempo prévio. É possível, inclusive, casar-se em um dia e se divorciar no outro. Também é irrelevante a vontade do outro cônjuge e qualquer motivo para pleitear o divórcio. Por isso, afirma-se que o divórcio é um direito potestativo, ou seja, basta um dos cônjuges o requerer e ele será deferido. Tudo isso por simples manifestação de vontade do cônjuge interessado em extinguir o casamento. O divórcio pode ser classificado quanto à vontade e à decretação. Veja mais detalhes! Quanto à vontade Quanto à vontade, o divórcio pode ser: Ambos os cônjuges estão de acordo com o divórcio e com uma proposta de partilha de bens, guarda dos filhos (se houver), aos alimentos e visita aos filhos (se houver). Quando um dos cônjuges se opõe ao divórcio; ou, então, concordam com o divórcio, mas não estão de acordo quanto à partilha de bens, à guarda dos filhos (se houver), aos alimentos e à visita aos filhos (se houver). Quanto à decretação Quanto à decretação, o divórcio pode ser: Consensual Litigioso Extrajudicial É o divórcio feito em cartório e que segue os parâmetros da Lei nº 11.441/2007, da Resolução nº 35/2007 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do art. 733 do Código de Processo Civil. Logo, é um divórcio realizado na via administrativa. Nele, não se pleiteia apenas a dissolução do vínculo, mas também a partilha (se for o caso). Para se divorciar em cartório, os cônjuges devem atender aos seguintes requisitos: Ambos estão de acordo com todos os termos do divórcio, ou seja, ele é consensual. O casal não tem filhos menores de 18 anos ou incapazes por outros motivos do art. 4º do Código Civil. A mulher não está grávida. Atenção! Embora realizado em cartório, sob a condução de um tabelião, é obrigatória a presença de um advogado, que poderá ser o mesmo profissional para ambos, ou um advogado para cada parte. Judicial É aquele feito por meio de uma ação de divórcio e que será decretado pelo juiz. Será judicial quando: For litigioso. O casal tem filhos menores de 18 anos ou relativamente incapazes. A mulher está grávida. Como o divórcio é um direito potestativo, em se tratando do caso de litigioso, o juiz pode decretar o divórcio antecipadamente e a ação prossegue para a discussão quanto à partilha de bens, à guarda dos filhos (se houver estes), aos alimentos e à visita aos filhos(se houver estes). No caso do divórcio extrajudicial, a partir da instituição do chamado e- Notariado pelo Provimento nº 100/2020 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que possibilita a prática de atos notariais de maneira eletrônica, tornou-se possível constituir o processo administrativo de divórcio pela via virtual. Saiba mais A Lei nº 13.894/2019 promoveu uma alteração na Lei Maria da Penha para prever a competência dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher para a ação de divórcio, separação, anulação de casamento ou dissolução de união estável nos casos de violência. Além disso, essa lei tornou obrigatória a informação às vítimas acerca da possibilidade ajuizarem aquelas ações amparadas pelos serviços de assistência judiciária. Separação Há dois tipos de separação: Decretada pelo juiz em uma ação judicial. Previamente à EC nº 66/2010, a separação judicial era uma fase obrigatória antes da decretação do divórcio. Somente poderiam requerer a separação aqueles cônjuges casados há pelo menos dois anos. Após a decretação de separação judicial, o casal deveria aguardar no mínimo um ano para requerer o divórcio definitivo. Com a EC nº 66/2010, a separação judicial prévia deixou de ser obrigatória para a decretação do divórcio, o qual pode ser concedido imediatamente. Assim, a separação judicial existe, hoje, para casos excepcionais e se as partes desejarem. Por exemplo: por motivos religiosos, um casal não quer se divorciar, mas pretende não viver mais conjuntamente. É feita de modo informal, pelos próprios casados, que passam a não viver mais juntos e a não ter uma vida comum. Perdem a intenção de constituir família. Pode ser de comum acordo ou pode se dar pela saída de um dos cônjuges do lar. Antes da EC nº 66/2010, o divórcio poderia ser concedido após dois anos de separação de fato. Separação judicial Separação de fato Seja no caso de separação judicial, seja no caso de separação de fato, não há extinção do casamento, da sociedade conjugal. A separação suspende a sociedade conjugal, ou seja, suspende os efeitos pessoais (direitos e deveres entre os cônjuges) e os efeitos patrimoniais (regime de bens), mas os cônjuges permanecem casados. Invalidade do casamento Extinção do casamento por invalidade Existem dois tipos de invalidade: a nulidade e a anulabilidade. Vejamos! Nulidade É uma sanção mais grave e dissolverá o casamento desde a sua celebração, ou seja, a declaração de nulidade pelo juiz produz efeitos ex tunc (retroativos). Para fins legais, o casamento nulo nunca existiu no mundo do Direito. O casamento é nulo quando constituído com o descumprimento das proibições (impedimentos) para casar, previstas no art. 1.521 do Código Civil. A ação de nulidade visando à extinção do casamento celebrado sob impedimentos pode ser proposta por qualquer interessado ou pelo Ministério Público. Anulabilidade O casamento será anulável (art. 1.550) se: Um dos nubentes não completou 16 anos. O menor em idade núbil não recebeu a autorização de seu representante legal. O ato foi celebrado mediante vício da vontade (arts. 1.556 a 1.558). Um dos nubentes for incapaz de consentir ou manifestar, de modo inequívoco, o consentimento. O mandatário (procurador) que representa um dos nubentes não sabia da revogação do mandato (procuração) e não sobreveio coabitação entre os cônjuges. A autoridade celebrante do casamento era incompetente, ou seja, não tinha poderes atribuídos pela lei para celebrar um casamento. Quanto à anulação do casamento porque o menor em idade núbil não recebeu a autorização de seu representante legal, o art. 1.551 prescreve que não se anulará, por motivo de idade, o casamento de que resultou gravidez. Mas essa exceção deve ser interpretada de acordo com o art. 1.520, quer dizer, se o menor entre 16 e 18 anos se casa sem autorização, mas houve gravidez, o casamento permanecerá válido. Atenção! Se, porém, for casamento de menor de 16 anos, então, nem havendo gravidez, nem mesmo autorização dos responsáveis, tal casamento persistirá. O casamento do menor em idade núbil, quando não autorizado por seu representante legal, só poderá ser anulado se a ação for proposta em 180 dias, por iniciativa: Nesse caso, o prazo contará a partir do momento em que cessar a incapacidade (lembre-se de que, se o casamento é inválido, Do incapaz então, a emancipação pelo casamento não ocorrerá). Nesse caso, o prazo para anulação é contado a partir do dia da celebração do casamento; porém, não se anulará o casamento quando os representantes legais do incapaz tiverem assistido à sua celebração ou tiverem, de alguma maneira, manifestado sua aprovação. Nesse caso, conta-se o prazo a partir da morte do incapaz. O casamento também pode ser anulado se foi celebrado mediante vício da vontade (arts. 1.556 a 1.558). Tal vício da vontade existirá quando houver erro essencial de um dos cônjuges quanto à pessoa do outro. São estas as hipóteses de erro essencial sobre a pessoa do outro cônjuge: No caso de erro quanto à identidade, honra e boa fama do outro cônjuge, o erro deve ser tal que o seu conhecimento posterior torne, para o cônjuge enganado, insuportável a vida em comum. Também a ignorância antes do casamento de crime praticado anteriormente ao casamento só se considera erro essencial capaz de anular o casamento se, dependendo da natureza do crime, a vida conjugal se torne insuportável. Dos representantes legais do incapaz Dos herdeiros necessários do incapaz Ignorância quanto à identidade, honra e boa fama Ignorância de crime praticado anteriormente ao casamento Ignorância de defeito físico irremediável e que não caracterize deficiência. Em se tratando de desconhecimento antes do casamento de defeito físico irremediável, não se insere nessa hipótese defeito que caracterize deficiência. A pessoa com deficiência não pode ser discriminada, de acordo com o Estatuto da Pessoa com Deficiência, ou seja, uma deficiência física não pode ensejar a invalidade do casamento. Já o caso de erro quanto à existência de moléstia grave e transmissível (por contágio ou por herança genética), anterior ao casamento quanto à existência de moléstia grave e transmissível, anulação somente terá lugar se tal moléstia for capaz de pôr em risco a saúde do outro cônjuge ou de sua descendência. Ignorância de moléstia grave e transmissível Ampliando o conhecimento Você está familiarizado com o conceito de dissolução do vínculo matrimonial, que envolve diversas formas de terminar um casamento, como a morte de um dos cônjuges ou o divórcio? Além disso, você consegue listar algumas situações em que um casamento pode ser considerado inválido? Conseguiria, após estudar esses temas, diferenciar as diversas modalidades de encerramento do vínculo conjugal? A fim de entendermos a relevância prática dessas categorias no direito de família, vamos analisar um caso prático, adaptado do Recurso Extraordinário 1167478. Jorge e Helena foram casados por cinco anos. Percebendo a existência de diferenças inconciliáveis entre o casal, que geravam inúmeras discussões, Helena decide se divorciar de Jorge. Assim, em março de 2024, Helena ingressa com uma ação de divórcio. Jorge foi pego de surpresa com a ação de divórcio e, totalmente insatisfeito, começa a pesquisar a doutrina e a jurisprudência acerca do tema, buscando encontrar qualquer justificativa que pudesse levar à improcedência o pedido formulado por Helena. Em suas pesquisas, Jorge se deparou com duas disposições legais importantes: i) A primeira foi a Emenda Constitucional 66 de 2010, que alterando a redação do art. 226, § 6º da Constituição Federal, suprimiu os prazos de um ano de separação judicial e de dois anos de separação de fato como requisitos para o divórcio. ii) A segunda disposição foi a do art. 1.571, III, do Código Civil, que estabelece que a separação judicial é uma das hipóteses de dissolução da sociedade conjugal.A partir desses dispositivos, Jorge pretende contestar a ação de divórcio argumentando que, embora a Constituição Federal tenha alterado sua redação para remover a separação como pré-requisito para o divórcio, o texto do Código Civil permanece inalterado, continuando a estabelecer a separação judicial como método para encerrar a sociedade conjugal. Assim, ele pretende sustentar que, mesmo com a tentativa de mudança no tratamento do divórcio pela Constituição, o assunto ainda deve ser regulado pelo Código Civil, que, por não ter alterado seu texto, ainda exige implicitamente a determinação da separação judicial antes do pedido de divórcio. Após a leitura do case, é hora de aplicar seus conhecimentos! Questão 1 Como visto, Helena deseja se divorciar de Jorge. Acerca da extinção do casamento, assinale a alternativa correta: A São hipóteses de extinção do casamento a separação e a morte de um dos cônjuges. B No divórcio litigioso, a decretação do divórcio pelo juiz pode ocorrer de forma antecipada em relação à partilha dos bens do casal. C A consensualidade é o único requisito indispensável para a decretação do divórcio de forma extrajudicial. D A separação é uma etapa indispensável para a decretação do divórcio judicial. E Ocorrendo a extinção do casamento pela morte de um dos cônjuges, não é facultado ao cônjuge supérstite a manutenção do sobrenome do de cujus. Parabéns! A alternativa B está correta. No divórcio litigioso, a decretação do divórcio pelo juiz pode ocorrer antecipadamente em relação à partilha dos bens do casal. A legislação civil permite a tramitação separada dessas questões, possibilitando que o divórcio seja concedido mesmo que a partilha dos bens ainda esteja pendente. Questão 2 Suponha que Helena tivesse procurado um cartório para se divorciar extrajudicialmente de Jorge. Nessa hipótese, assinale a alternativa correta: Parabéns! A alternativa A está correta. Para que o divórcio ocorra extrajudicialmente, a partir de escritura pública, é necessário, além do consenso entre os cônjuges, o preenchimento de outros requisitos. São eles: a plena capacidade A Não é possível que o divórcio ocorra de forma extrajudicial, visto que não restam preenchidos os requisitos necessários para tanto. B É possível o divórcio do casal pela via administrativa, mas não sem a presença de um advogado. C O divórcio poderá ser realizado na via administrativa independentemente da assistência de advogado. D Jorge e Helena, necessariamente, devem ser assistidos por advogados distintos para que o divórcio administrativo possa ocorrer. E Na situação narrada, tanto o divórcio judicial quanto o divórcio extrajudicial são possíveis. civil dos cônjuges para livre manifestação de suas vontades, a inexistência de nascituros, filhos menores ou incapazes advindos do casamento e o acompanhamento de um advogado. No caso narrado, é evidente que a consensualidade não está presente, impossibilitando a realização do divórcio de forma administrativa. Questão 3 Diante do caso, responda às seguintes perguntas, considerando a jurisprudência do STF e do STJ sobre o tema: O argumento de Jorge, caso realmente seja utilizado para fundamentar a sua contestação, deve proceder? A separação judicial ainda subsiste no direito brasileiro, seja como requisito para o divórcio seja como uma figura autônoma? Digite sua resposta aqui Chave de resposta A partir do Tema 1053, de novembro de 2023, o Supremo Tribunal Federal fixou a seguinte tese de repercussão geral: “Após a promulgação da EC nº 66/2010, a separação judicial não é mais um requisito para o divórcio nem subsiste como figura autônoma no ordenamento jurídico. Sem prejuízo, preserva-se o estado civil das pessoas que já estão separadas, por decisão judicial ou escritura pública, por se tratar de ato jurídico perfeito (art. 5º, XXXVI, da CF)”. Com base nesse entendimento, observa-se que a separação judicial, a partir da Emenda Constitucional 66, deixou de ser um requisito para o divórcio. O objetivo da referida Emenda foi, justamente, simplificar o processo de dissolução do vínculo matrimonial e, por isso, a partir dela, dispensa-se uma separação prévia para o divórcio, tornando-o incondicional. Ocorre que, a despeito da alteração do conteúdo do art. 226 da Constituição Federal, as disposições do Código Civil acerca da separação não foram formalmente revogadas. Isso gerou debate sobre a validade da separação judicial após a emenda. Duas principais correntes se formaram sobre o tema: A primeira, capitaneada pela jurisprudência do STJ, defende que a separação judicial continua a ser uma possibilidade no ordenamento jurídico brasileiro, caso os cônjuges optem por essa posição. Esse entendimento também foi adotado no enunciado 514 das V Jornada de Direito Civil, que assim estabelece: “A Emenda Constitucional n° 66/2010 não extinguiu o instituto da separação judicial e extrajudicial”. A segunda, defendida doutrinariamente por autores como Flávio Tartuce, Nelson Rosenvald e Cristiano Chaves de Farias, sustenta que a separação judicial deixou de existir no sistema jurídico brasileiro, na medida em que houve a não recepção do conteúdo do art. 1.571 do Código Civil a partir da Emenda Constitucional 66. Com base no entendimento firmado com repercussão geral pelo STF, relacionado ao Tema 1053, é provável que o assunto seja pacificado, de forma a consolidar-se o entendimento de que, seja como figura autônoma, seja como requisito para o divórcio, a separação judicial deixa de existir no sistema jurídico brasileiro. Portanto, no caso em análise, o argumento de Jorge não deve proceder. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Analise as assertivas a seguir: I. Crime de adultério. II. Fixação de pensão alimentícia para um dos cônjuges. III. Guarda dos filhos maiores de 21 anos. Marque a alternativa correta quanto às matérias a serem discutidas em ação de divórcio. Parabéns! A alternativa B está correta. Admite-se que uma ação de divórcio, para economia processual, além da decretação do fim do casamento e da partilha dos bens, também discuta outras matérias paralelas, como guarda dos filhos menores, alimentos e visita aos filhos. O que não pode é discutir matéria criminal, pois essa deve ser julgada em ação criminal própria. Questão 2 Sobre o divórcio litigioso, assinale a alternativa correta. A Apenas I. B Apenas II. C Apenas III. D Apenas I e III. E Apenas II e III. A Depende de causa justificadora para ser concedido. B Não pode ser concedido no início do processo, antes da partilha de bens. C Será concedido mesmo com a vontade contrária do outro cônjuge. Parabéns! A alternativa C está correta. Sendo direito potestativo, não é necessária a concordância do outro cônjuge. 3 - União estável e sua dissolução Ao �nal deste módulo, você deverá ser capaz de reconhecer os elementos da união estável e sua dissolução. Conceito de união estável União estável D Poderá ser decidido por um juiz ou por um tabelião, a critério das partes. E Extingue a sociedade conjugal, mas não põe fim ao vínculo matrimonial. Conheça agora o conceito de união estável e os requisitos para a sua caracterização. Vamos lá! Noção geral de união estável e o a�ectio maritalis A união estável é uma relação de convivência duradoura entre duas pessoas com a intenção de constituir uma família (affectio familiae). Os conviventes (ou companheiros) vivem como se fossem casados, mas não se casaram, ou seja, não passaram pela celebração do ato jurídico chamado casamento. Curiosidade Antes da ADI nº 4277 e da ADPF nº 132, julgadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2011, a união estável era restrita somente à relação entre um homem e uma mulher. Com as decisões e do STF, passou-se a admitir a existência de união estável entre pessoas do mesmo sexo. A união estável tem como base duas características evidentes: More uxorioIsso significa que a relação entre os companheiros se parece com uma relação entre pessoas A�ectio maritalis Significa que os companheiros mantêm uma relação de lealdade, respeito e assistência, e de casadas (cônjuges), embora não tenham se casado “no papel”. guarda, sustento e educação dos filhos. Não existe prazo para que uma relação seja considerada união estável. Para configurar uma união estável, a Lei nº 8.971/1994 exigia uma convivência de, pelo menos, cinco anos ou, então, que a mulher tivesse prole (filhos) com o companheiro. Ocorre que a Lei nº 9.278/1996 revogou aquela exigência, de modo que a união estável depende de convivência pública entre pessoas como se fossem casadas, independentemente de quando a relação começou. O Código Civil também não impõe qualquer exigência temporal como requisito da união estável. Veja as definições de união estável encontradas na legislação: Art. 226. [...] § 3º Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento. [...]. Constituição Federal Art. 1º A companheira comprovada de um homem solteiro, separado judicialmente, divorciado ou viúvo, que com ele viva há mais de cinco anos, ou dele tenha prole, poderá valer-se do disposto na Lei nº 5.478, de 25 de julho de 1968, enquanto não constituir nova união e desde que prove a necessidade. Parágrafo único. Igual direito e nas mesmas condições é reconhecido ao companheiro de mulher solteira, separada judicialmente, divorciada ou viúva. Art. 1º É reconhecida como entidade familiar a convivência duradoura, pública e contínua, de um homem e uma mulher, estabelecida com objetivo de constituição de família. Art. 1.723. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família [...]. O que caracteriza união estável Atributos da união estável Na Constituição Federal, a união estável é tratada como uma família. Antes do § 3° do art. 226 da Constituição Federal, a união estável não era considerada uma entidade familiar e não tinha juridicidade. Por isso, a união estável era chamada de concubinato puro, ao lado do Lei nº 8.971/1994 Lei nº 9.278/1996 Código Civil concubinato impuro, que é a relação entre adúlteros. Concubinato significa uma relação irregular. Re�exão Observe que, para haver união estável, é preciso que haja a intenção de constituir família, além de viver publicamente como se houvesse casamento entre os companheiros. Isso pode acontecer, por exemplo, em semanas. São requisitos para que uma relação seja considerada uma união estável: Publicidade As pessoas, a sociedade, reconhecem que aqueles dois companheiros vivem como se fossem casados. Continuidade A relação não é de encontros eventuais. Durabilidade Os companheiros têm objetivos de constituir uma vida em comum, há planos para uma vida familiar. Estabilidade O relacionamento “será eterno enquanto durar”, ou seja, os companheiros pretendem conviver sem a intenção de encerrar a relação a qualquer momento. A união estável não será reconhecida se ocorrerem os impedimentos para o casamento prescritos no art. 1.521. Mas o § 1º do art. 1.723 do Código Civil afasta a incidência do inciso VI, no caso de a pessoa casada se achar separada de fato ou judicialmente. Quer dizer, se alguém estiver separado do seu cônjuge e iniciar uma convivência com outra pessoa, ficará caracterizada a união estável. Essa pessoa, mesmo separada, não poderá se casar (inciso VI do art. 1.521), mas poderá constituir união estável plenamente válida (§ 1º do art. 1.723). Ausência dos impedimentos do art. 1.521 (exceto inciso VI) O objetivo da restrição é impedir os mesmos problemas morais e de saúde que podem resultar do casamento entre as pessoas do art. 1.521. Intenção de constituir uma família Os companheiros querem constituir, entre si, um espaço de afeto e amparo recíproco, independentemente da existência de filhos. A�ectio maritalis Os companheiros são, em si, leais, respeitosos e se assistem, além de cuidarem e sustentarem os filhos; é por isso que não se reconhecem uniões estáveis simultâneas (a segunda relação será concubinato). Quando pessoas impedidas de casar constituem uma relação não eventual, tal relação não será reconhecida como união estável. Nesses casos, o art. 1.727 descaracteriza a existência de união estável e prescreve que esse tipo de relação constitui um mero concubinato, relação não jurídica semelhante ao adultério (concubinato impuro). Quanto às causas suspensivas do casamento, previstas no art. 1.523 do Código Civil, elas não impedirão a caracterização da união estável. Um namoro, por si só, não constitui união estável, independentemente do tempo do relacionamento. Inclusive, os namorados até podem viver juntos e, mesmo assim, não ficar configurada a união estável. É que para existir união estável é necessário que as partes queiram constituir uma união estável, ou seja, estão juntas para constituir uma família baseada no companheirismo. Inclusive, alguns casais de namorados celebram o chamado contrato de namoro. Por esse documento, as partes declaram que a relação entre elas é um namoro, e não uma união estável. Mas esse contrato não será aceito judicialmente se for utilizado com o objetivo de fraudar a lei e a existência de uma união estável efetiva. A união estável tem sua forma de constituição livre, podendo ocorrer de maneira formal ou informal: Quando os companheiros passam a viver juntos sem celebrar qualquer ato formal, como um contrato de união estável. O início ocorre pela simples coabitação e convivência, sem qualquer documento registrando o início da relação. A prova da existência de união estável ocorrerá por meio de testemunhas, documentos que demonstrem que os companheiros coabitavam, relação de dependência registrada na declaração do imposto de renda ou em órgão previdenciário. Antes do início da convivência ou após ter se iniciado e se consolidado, as partes formalizam a existência da união por meio de um documento chamado contrato de união estável. Esse contrato pode ser escrito e assinado pelos próprios companheiros (instrumento particular) ou feito em cartório por um tabelião (escritura pública). A importância desse contrato é que ele é uma prova pré- constituída da existência de união estável. O contrato de união estável pode se restringir a declarar a existência desse tipo de relação entre os companheiros. Mas, geralmente, o contrato objetiva, além dessa declaração, escolher e determinar qual será o regime de bens que incidirá sobre a união estável. Assim, nesse contrato, as partes poderão escolher entre os seguintes regimes de bens: União estável não formalizada União estável formalizada Comunhão universal; Comunhão parcial (ou separação parcial); Participação final dos aquestos; Separação total. Efeitos patrimoniais na união estável Regime de bens da união estável Neste momento é interessante pensarmos em um detalhe: Qual será o regime de bens da união estável se os conviventes celebrarem o contrato de união estável e não escolherem o regime de bens ou, então, não formalizarem a união? O art. 1.725 do Código Civil prescreve que na união estável, salvo contrato escrito entre os companheiros, aplica-se às relações patrimoniais, no que couber, o regime da comunhão parcial de bens. Exceto se se tratar de pessoa com mais de 70 anos, hipótese em que o regime de bens será o da separação total (inciso II do art. 1.641 do Código Civil). A comunhão parcial é o regime legal entre conviventes que não se manifestaram quanto aos efeitos patrimoniais da relação. Por esse regime, somente haverá comunhão a ser partilhada quanto aos bens adquiridos onerosamente após o início da união estável. Os bens decada companheiro, anteriores à união, seguem sendo de propriedade exclusiva do companheiro. Atenção! Quanto ao estado civil, os companheiros não são casados; os conviventes são solteiros. Aliás, os companheiros não são esposo- esposa, marido-mulher. Eles são companheiros ou conviventes. Em 2017, o Supremo Tribunal Federal (STF), ao julgar o Tema nº 809 de repercussão geral, decidiu que o art. 1.790 do Código Civil é inconstitucional e declarou que o companheiro tem o direito de participar da herança de seu companheiro em conformidade com o regime jurídico estabelecido no art. 1.829 do Código Civil. Antes dessa decisão, a sucessão na união estável seguia as regras especiais do art. 1.790, diferentes da sucessão de quem é casado. Agora, o art. 1.790 foi declarado inconstitucional e se aplicará à união estável as mesmas regras de sucessão que se aplicam ao casamento. Extinção da união estável Causas extintivas da união estável A união estável tem duas causas extintivas: Morte de um ou de ambos os companheiros. Dissolução por vontade de pelo menos um dos companheiros (resilição). A dissolução pode ocorrer pela simples separação de fato ou com a elaboração de um distrato da união estável. Existe, ainda, a ação de reconhecimento e dissolução de união estável, a ser proposta em vara de família. Essa ação objetiva: Reconhecer (declaração) a existência da união estável. Reconhecer (declaração) o fim da relação. Determinar o período da união estável, ou seja, seu início e fim. Decidir a partilha de bens. Decidir sobre guarda, visita e alimentos dos filhos (se houver). Decidir possível pensão alimentícia para um dos companheiros. Ampliando o conhecimento Você compreende o conceito de união estável, seus critérios caracterizadores e os efeitos patrimoniais decorrentes dessa modalidade de convivência? Além disso, está ciente dos elementos que levam à extinção da união estável? Após analisar esses temas, seria capaz de distinguir as particularidades da união estável em relação ao casamento? Para aprofundarmos nosso entendimento sobre a relevância prática dessas categorias, vamos analisar um caso prático. Pedro e Maria mantêm um relacionamento amoroso há quase dez anos, caracterizado por sua continuidade, visibilidade pública e affectio maritalis, mesmo nunca tendo compartilhado um mesmo lar. Pedro sempre residiu na cidade de Cachoeiro, enquanto Maria, sempre foi domiciliada em Nova Venécia. Apesar da distância, o casal sempre se comportou como uma verdadeira família, e assim também eram encarados por seus familiares e amigos, que acompanham o relacionamento deles há anos. No entanto, há aproximadamente cinco anos, Pedro iniciou uma relação simultânea com Manuela, que morava na cidade de Pedro Canário. Pedro conheceu Manoela em uma viagem de emprego e, desde então, os dois seguiram como um casal. Como Pedro nunca residiu perto de nenhuma delas, era fácil para ele manter o relacionamento com Manuela escondido de Maria e de seus amigos e familiares. Ele alegava constantemente que teria que passar longos períodos viajando por razões profissionais, quando na verdade suas viagens eram para passar um tempo de qualidade com Manuela. A comunidade de Pedro Canário, alheia ao vínculo preexistente entre Pedro e Maria, passou a considerar a relação de Pedro e Manuela como contínua, pública, com affectio maritalis e a intenção evidente de construir uma família. Essa visão era reforçada pelo comportamento de Manuela, que sempre apresentou Pedro aos seus amigos, familiares e vizinhos como amor de sua vida e futuro pai de seus filhos, bem como sempre externou para eles seu desejo de seguir compartilhando, para sempre, a sua vida com ele. Após a leitura do case, é hora de aplicar seus conhecimentos! Questão 1 Considerando seus conhecimentos jurídicos sobre o tema da união estável, assinale a alternativa que descreve corretamente como deve se enquadrar, juridicamente, o relacionamento de Pedro e Maria: A A relação deles não configura união estável, visto que apenas a partir do reconhecimento formal da convivência por meio de uma escritura pública registrada em cartório seria possível considerá-los como em união estável. B Com as informações apresentadas no enunciado não é possível dizer que o casal se encontra em união estável, visto que a doutrina e a jurisprudência consideram o efetivo compartilhamento de despesas como o único critério indispensável para a configuração da união estável, fato que não resta claro a partir dos dados apresentados. C Trata-se de uma união estável, visto que o casal cumpriu o requisito temporal expressamente previsto em lei de cinco anos de convivência para que reste configurada a união estável. Parabéns! A alternativa E está correta. As informações extraídas do enunciado indicam que Pedro e Maria convivem de forma pública, contínua e duradoura com o intuito de constituir família, cumprindo, dessa forma, os requisitos apontados pela doutrina e jurisprudência brasileiras como necessários à configuração da união estável. Questão 2 Caso Pedro decida encerrar sua relação com Maria, escolha a alternativa correta que descreva as hipóteses em que isso seria possível: D Não é possível considerá-los como conviventes em união estável, porque a jurisprudência, pacificamente, exige a coabitação como requisito para a sua configuração. E Pedro e Maria são conviventes em união estável, visto que são duas pessoas que se apresentam socialmente como um casal e convivem de forma contínua, duradoura, estável e com o intuito de constituir família. A A extinção da união estável pode ocorrer a partir de suas causas principais: da morte de Pedro ou de Maria e da dissolução da união estável. B A união estável, como situação jurídica de fato, apenas extingue-se com a morte de Pedro e de Maria. C Apenas é possível realizar a dissolução da união estável judicialmente, sendo impossível que Pedro e Maria façam isso consensualmente em cartório. Parabéns! A alternativa A está correta. A dissolução da união estável desempenha um papel importante ao extinguir os efeitos pessoais e patrimoniais decorrentes da relação. A dissolução amigável pode ser formalizada por meio de instrumento particular ou por escritura pública em Cartório de Notas, desde que Pedro e Maria concordem com todos os seus termos e que Maria não esteja grávida. Não podendo ser realizada de forma amigável, a dissolução da união estável deve ocorrer de forma litigiosa, ou seja, Pedro ou Maria devem ajuizar uma ação específica em vara de família para reconhecimento e dissolução da união estável. Questão 3 Pedro e Manuela buscam você, como advogado, para entender melhor as implicações jurídicas de sua relação. A partir das informações apresentadas pelo casal, é possível dizer que a relação do casal se caracteriza como uma união estável? A existência de alguma hipótese de impedimento ou suspeição para o casamento mudaria a sua resposta anterior? Por fim, é possível o reconhecimento de união estável entre Pedro e Manuela? Digite sua resposta aqui Chave de resposta D A extinção da união estável não pode ser requerida judicialmente a qualquer tempo, sendo necessária a comprovação que Pedro e Maria já convivem há determinado período especificado em lei para que seja requerida. E A dissolução da união estável sempre poderá ser feita em cartório, mesmo que Pedro não concorde com a sua realização. Para responder a essa questão, é necessário relembrar quais são os requisitos necessários para a caracterização de uma união estável. São eles: Publicidade. Continuidade. Durabilidade. Estabilidade. Ausência dos impedimentos enumerados no art. 1.521 (exceto inciso VI) do Código Civil. Intenção de constituir família. Affectio maritalis. A partir dos dados apresentados, é possível inferir que a relação entre Pedro e Manuela possui os atributos necessários à configuração da união estável. Conforme enunciado,a relação entre eles sempre foi contínua, pública, com affectio maritalis e intenção de constituir família. O fato de o casal nunca ter residido junto em nada afeta essa caracterização, visto que a coabitação não representa um requisito essencial à configuração da união estável. No que se refere à eventual existência de uma hipótese de impedimento ou suspeição, é necessário diferenciar esses dois cenários. Havendo uma hipótese de impedimento para o casamento (art. 1.521 do Código Civil), a configuração da união estável entre Pedro e Manuela restaria impossibilitada. A única exceção a essa regra refere-se ao art. 1.521, inciso VI. Segundo dispõe o § 1º do art. 1.723, a existência de separação de fato ou judicial não impede a constituição da união estável. A existência de qualquer causa suspensiva do casamento, conforme art. 1.523 do Código Civil, não impede a configuração da união estável. Por sua vez, a partir do julgamento do Recurso Especial 1.045.273, o Supremo Tribunal Federal firmou o entendimento de que a preexistência de casamento ou de união estável de um dos conviventes, ressalvada a exceção do artigo 1.723, § 1º, do Código Civil, impede o reconhecimento de novo vínculo referente ao mesmo período, inclusive para fins previdenciários, em virtude da consagração do dever de fidelidade e da monogamia pelo ordenamento jurídico-constitucional brasileiro. Dessa forma, ainda que a relação de Pedro e Manuela seja contínua, pública, com affectio maritalis e intenção de constituir família, não é possível o reconhecimento de união estável entre eles. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Quais destas pessoas podem ter união estável reconhecida validamente? Parabéns! A alternativa E está correta. De acordo com o § 1º do art. 1.723, a união estável não se constituirá se ocorrerem os impedimentos do art. 1.521. Por outro A O companheiro ou cônjuge sobrevivente com o condenado por homicídio ou tentativa de homicídio contra o seu cônjuge ou companheiro. B As pessoas casadas. C O adotante com quem foi cônjuge do adotado e o adotado com quem o foi do adotante. D Os afins em linha reta. E O divorciado, enquanto não houver sido homologada ou decidida a partilha dos bens do casal. lado, o § 2º do art. 1.723 dispõe que as causas suspensivas do art. 1.523 não impedirão a caracterização da união estável. Questão 2 João, aos 72 anos, passa a viver junto com Maria, que tem 45 anos. Procuram um advogado que redige um contrato de união estável, no qual João e Maria reconhecem que vivem como companheiros e escolhem o regime da comunhão universal de bens. Quanto a essa situação, assinale a alternativa correta: Parabéns! A alternativa B está correta. Maiores de 70 anos podem casar e constituir união estável, porém, o regime deve ser, obrigatoriamente, a separação total de bens (art. 1.641, II). Não é obrigatória a forma pública para o contrato. A O contrato é nulo, pois pessoas maiores de 70 anos não podem casar e não podem constituir união estável. B A escolha do regime da comunhão universal de bens é nula, pois o regime de bens para o casamento e a união estável de maiores de 70 anos deve ser a separação total de bens. C A escolha do regime da comunhão universal de bens é nula, pois a lei fixa que o regime de bens da união estável deve ser a comunhão parcial de bens. D A relação entre João e Maria é um concubinato impuro por causa da idade de João e, por isso, o regime de bens deve ser a separação total de bens. E O ato é nulo porque o contrato de união estável deve ser realizado em cartório. Considerações �nais Este conteúdo foi destinado a demonstrar como são os requisitos essenciais de constituição do casamento e da união estável e, a partir daí, demonstrar como devem ser constituídas essas entidades familiares e quais as consequências da constituição de cada uma. A abordagem realizada foi destinada a apresentar não somente aspectos teóricos, mas, também, e principalmente, os aspectos práticos. É preciso ter em mente que os requisitos constituintes são matérias discutidas em ações judiciais. Logo, é um campo fértil de atuação profissional. Podcast Para encerrar, ouça um resumo sobre casamento e união estável, seus requisitos e as diferenças principais entre essas figuras jurídicas. Explore + Confira o conteúdo indicado especialmente para você! Leia os artigos: O divórcio virtual e o e-notariado: a era da desmaterialização dos procedimentos extrajudiciais, de Patrícia Novais Calmon, publicado em 12 jun. 2020. O material explica o Provimento nº 100 do Conselho Nacional de Justiça, que instituiu o sistema de atos notariais eletrônicos, denominado e-Notariado. A partir dele, o divórcio passa a se operacionalizar de modo virtual. A constituição da união estável e a importância da sua dissolução, de Patrícia Diniz Navarro, publicado em 3 ago. 2020. O artigo analisa a importância de se proceder com a dissolução da união estável, uma vez que a união estável gera efeitos pessoais e patrimoniais na vida dos conviventes, os quais devem ser extintos e partilhados quando da separação de fato dos companheiros. Divórcio unilateral extrajudicial, de Leonardo Dalto Romero, publicado em 1 nov. 2021. Quais são os direitos na união estável? de Danielle Santos, publicado em 18 set. 2020. O artigo analisa as recentes decisões dos tribunais superiores sobre direitos dos companheiros. Divórcio extrajudicial: guia simplificado passo a passo, de Marco Jean de Oliveira Teixeira, publicado em: 8 set. 2020. Trata-se de material que explica como é o procedimento do divórcio extrajudicial e quais são os requisitos e os documentos que os cônjuges devem reunir para levá-lo ao cartório. Referências DINIZ, M. H. Curso de Direito Civil Brasileiro. Vol. 5 – Direito de Família. 34. ed. São Paulo: Saraiva, 2020. FARIAS, C. C. de; ROSENVALD, N. Curso de Direito Civil. Vol. 6 – Famílias. 13. ed. Salvador: Juspodivm, 2021. GONÇALVES, C. R.. Direito Civil Brasileiro. Vol. 6 – Direito de Família. 18. ed. São Paulo: Saraiva, 2021. ROMERO, L. D. Divórcio unilateral extrajudicial. 1 nov. 2021. Material para download Clique no botão abaixo para fazer o download do conteúdo completo em formato PDF. Download material O que você achou do conteúdo? Relatar problema javascript:CriaPDF()