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Módulo Exigibilidade do Crédito Tributário
SEMINÁRIO III - DECADÊNCIA E PRESCRIÇÃO EM MATÉRIA TRIBUTÁRIA
Questões
1. A respeito da “decadência” no âmbito do direito tributário.
(a) Com base na bibliografia indicada para desenvolvimento deste seminário apresente as diferentes acepções do conceito “decadência”.
De início, importante frisar que “a decadência ou caducidade é tida como o fato jurídico que faz perecer um direito pelo seu não-exercício durante certo lapso de tempo.”[footnoteRef:1] [1: CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de direito tributário. São Paulo: Noeses, Item 8, Capítulo XIV, p. 464.]
Ainda, nas lições de Paulo de Barros Carvalho[footnoteRef:2]: [2: CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário: linguagem e método. São Paulo: Noeses, Item 2.8.8 do Capítulo 2, da segunda parte, p. 488.]
Breve investigação semântica revelará nada menos do que seis acepções para o vocábulo "decadência", no campo do direito tributário: (i) "decadência" como norma geral e abstrata; (ii) como a hipótese dessa norma, descrevendo o termo final de um lapso de tempo; (iii) como o consequente da norma geral e abstrata, tipificando o efeito extintivo; (iv) como norma individual e concreta que constitui o fato de haver decorrido o tempo referido na regra geral e abstrata, no mesmo instante em que determina, no consequente, o efeito fulminante de desconstituir uma relação existente; (v) como o antecedente desta última norma individual e concreta; e (vi) tão só como o consequente, também desta última regra.
Vale pontuar, também, as diferentes acepções do conceito de decadência apresentados por Aurora Tomazini de Carvalho[footnoteRef:3], citando Eurico Marcos Diniz de Santi, que diferencia: [3: CARVALHO, Aurora Tomazini de. Regras para fixação do critério temporal das normas de decadência e prescrição no direito tributário. In: CARVALHO, Aurora Tomazini (Org.). Decadência e prescrição em direito tributário. São Paulo: MP. p. 41.]
(i) decadência do direito do fisco: a perda da competência administrativa do fisco para constituir o crédito tributário, em decorrência do decurso de certo período de tempo sem que o tenha exercitado;
(...)
iii) decadência do direito do contribuinte: a perda da legitimidade do contribuinte de repetir o indébito na esfera administrativa, em decorrência do decurso de certo período de tempo sem que o tenha exercitado.
Ademais, neste mesmo sentido, Eurico Marcos Diniz de Santi, citado por Aurora Tomazini de Carvalho[footnoteRef:4], estabeleceu cinco regras para fixação do critério temporal de decadência do direito do Fisco, e duas regras para fixação do critério temporal de decadência do direito do contribuinte: [4: CARVALHO, Aurora Tomazini de. Regras para fixação do critério temporal das normas de decadência e prescrição no direito tributário. In: CARVALHO, Aurora Tomazini (Org.). Decadência e prescrição em direito tributário. São Paulo: MP. p. 45/49.
]
Regras para fixação do critério temporal de decadência do direito do Fisco:
1) não-previsão de pagamento antecipado, não-ocorrência do pagamento antecipado, não-ocorrência de dolo, fraude ou simulação, não-ocorrência de notificação preparatória e não-ocorrência de anulação (art. 173, I do CTN);
2) não-ocorrência de pagamento antecipado (com ou sem previsão), não-ocorrência de dolo, fraude ou simulação, ocorrência da notificação preparatória, e não-ocorrência da anulação (art. 173, I e P.U. do CTN);
3) ocorrência do pagamento antecipado (com previsão), não-ocorrência de dolo, fraude ou simulação, não-ocorrência da notificação, não-ocorrência de anulação (art. 150, § 4º do CTN);
4) previsão do pagamento antecipado, ocorrência de dolo, fraude ou simulação, ocorrência de notificação, não-ocorrência de anulação (art. 150, § 4º, e art. 173, P.U., do CTN);
5) existência de decisão administrativa ou judicial que decrete a anulação por vício formal de lançamento anterior (art. 173, II, do CTN).
Regras para fixação do critério temporal de decadência do direito do contribuinte:
1) não-ocorrência de desfazimento de decisão anterior que tenha motivado o pagamento (art. 168, I, do CTN);
2) ocorrência de desfazimento de decisão anterior que tenha motivado o pagamento (dentro do prazo de cinco anos do pagamento), por reforma, revogação ou revisão (art. 165, III, e art. 168, II, do CTN).
(b) Construa a respectiva estrutura normativa para cada acepção (ex. NGA, NIC, antecedente, consequente...), indicando qual(is) dessa(s) estrutura(s) normativa(s) são norma em sentido estrito.
Considerando a acepção trazida por Eurico Marcos Diniz de Santi, citado por Aurora Tomazini de Carvalho, mencionada acima, e, ainda, considerando os ensinamentos de Paulo de Barros Carvalho no excerto transcrito na questão anterior, pode-se estabelecer a seguinte estrutura normativa:
Decadência do direito do Fisco:
1) Norma Geral e Abstrata (NGA) / Antecedente = não-previsão de pagamento antecipado, não-ocorrência do pagamento antecipado, não-ocorrência de dolo, fraude ou simulação, não-ocorrência de notificação preparatória e não-ocorrência de anulação. Norma Individual e Concreta (NIC) / Consequente = perda do direito do Fisco de constituir o crédito tributário após cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado (art. 173, I do CTN);
2) Norma Geral e Abstrata (NGA) / Antecedente = não-ocorrência de pagamento antecipado (com ou sem previsão), não-ocorrência de dolo, fraude ou simulação, ocorrência da notificação preparatória, e não-ocorrência da anulação. Norma Individual e Concreta (NIC) / Consequente = perda do direito do Fisco de constituir o crédito tributário após cinco anos contados da data do ato preparatório (notificação) (art. 173, I e P.U. do CTN);
3) Norma Geral e Abstrata (NGA) / Antecedente = ocorrência do pagamento antecipado (com previsão), não-ocorrência de dolo, fraude ou simulação, não-ocorrência da notificação, não-ocorrência de anulação. Norma Individual e Concreta (NIC) / Consequente = perda do direito do Fisco de constituir o crédito tributário após cinco anos contados da ocorrência do fato gerador (lançamento por homologação) (art. 150, § 4º do CTN);
4) Norma Geral e Abstrata (NGA) / Antecedente = previsão do pagamento antecipado, ocorrência de dolo, fraude ou simulação, ocorrência de notificação, não-ocorrência de anulação. Norma Individual e Concreta (NIC) / Consequente = perda do direito do Fisco de constituir o crédito tributário após cinco anos contados do ato-norma administrativo formalizador do ilícito tributário (art. 150, § 4º, e art. 173, P.U., do CTN);
5) Norma Geral e Abstrata (NGA) / Antecedente = existência de decisão administrativa ou judicial que decrete a anulação por vício formal de lançamento anterior. Norma Individual e Concreta (NIC) / Consequente = perda do direito do Fisco de constituir o crédito tributário após cinco anos contados da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado (art. 173, II, do CTN).
Decadência do direito do contribuinte:
1) Norma Geral e Abstrata (NGA) / Antecedente = não-ocorrência de desfazimento de decisão anterior que tenha motivado o pagamento. Norma Individual e Concreta (NIC) / Consequente = perda da legitimidade do contribuinte de repetir o indébito na esfera administrativa em cinco anos contados da data do pagamento (art. 168, I, do CTN);
2) Norma Geral e Abstrata (NGA) / Antecedente = ocorrência de desfazimento de decisão anterior que tenha motivado o pagamento (dentro do prazo de cinco anos do pagamento), por reforma, revogação ou revisão. Norma Individual e Concreta (NIC) / Consequente = perda da legitimidade do contribuinte de repetir o indébito na esfera administrativa em cinco anos contados da data em que se tornar definitiva a decisão administrativa ou passar em julgado a decisão judicial que tenha reformado, anulado, revogado ou rescindido a decisão condenatória (art. 165, III, e art. 168, II, do CTN).
(c) É correta a afirmaçãode que a decadência opera automática e infalivelmente? Justifique sua resposta.
Inicialmente, faz-se necessário recorrer às lições de Paulo de Barros Carvalho[footnoteRef:5] quanto à introdução do instituto da decadência no subsistema jurídico do direito tributário, a qual se dá através da linguagem específica, juridicamente falando. Vejamos: [5: CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário: linguagem e método. São Paulo: Noeses, Item 2.8.8.1 do Capítulo 2, da segunda parte, p. 498/499.]
Nos limites desse quadro, aliás, comum no sistema tributário, há necessidade premente de ater-se o intérprete à noção de que o direito posto não se satisfaz com a linguagem ordinária que utilizamos em nossas comunicações diárias: exige forma especial, fazendo adicionar declarações perante autoridades determinadas, requerendo a presença de testemunhas e outros requisitos mais. A linguagem do direito não aceita as comunicações sociais em sua forma natural. Impõe, para que o fato se dê por ocorrido juridicamente, um procedimento específico, previsto por norma que lhe outorgue fundamento jurídico e transmitida segundo a linguagem das provas. Eis a linguagem do direito positivo (Ldp) incidindo sobre a linguagem da realidade social (Lrs) para produzir uma unidade na linguagem da facticidade jurídica (Lfj).
Com supedâneo em tais ponderações, entendo que, para a decadência ingressar nesse subsistema jurídico, deverá preencher os requisitos: (i) de apresentar-se como expressões linguísticas portadoras de sentido jurídico; (ii) produzidas por órgãos credenciados pelo ordenamento para sua expedição; e ii) consoante o procedimento específico estipulado pela ordem jurídica por meio de uma norma geral e abstrata. (grifos nossos)
Nesta mesma toada, Aurora Tomazini de Carvalho[footnoteRef:6], nos esclarece: [6: CARVALHO, Aurora Tomazini de. Regras para fixação do critério temporal das normas de decadência e prescrição no direito tributário. In: CARVALHO, Aurora Tomazini (Org.). Decadência e prescrição em direito tributário. São Paulo: MP. p. 39/40.
]
Seguindo os ensinamentos de Paulo de Barros Carvalho, para compreender a mensagem legislada, num primeiro momento, o intérprete entre em contato com o dado objetivo do direito, a literalidade textual: um aglomerado de frases ordenadas que formam o chamado plano de expressão (S1). Partindo deste plano, com a leitura dos enunciados prescritivos, o intérprete vai atribuindo valores aos símbolos que os compõem e construindo em sua mente significações, que constituem o plano das proposições ainda não deonticamente estruturadas (S2). Para atribuir sentido lógico-deôntico (próprios dos discursos prescritivos) à sua construção, o intérprete parte para estruturação destas proposições na forma implicacional (H C), juntando algumas significações na posição sintática de hipótese e outras, no lugar sintático de consequente, ingressando, assim, no plano das normas jurídicas (S3). Ao final, ordena tais significações normativas, que construiu no plano S3, de acordo com critérios de subordinação e coordenação, compondo os vínculos que se estabelecem entre as normas e ingressa no plano da sistematização jurídica (S4). Durante o processo gerador de sentido, o intérprete transita várias vezes por todos estes planos até que se sinta satisfeito.
A este processo gerador de sentido dá-se o nome de interpretação. Nele, o jurista atribui valores aos signos postos pelo legislador e assim vai construindo suas significações.
Portanto, a par dos entendimentos existentes em sentido contrário, entendo que a decadência não se opera automática e infalivelmente. Isto porque, como verificado nas lições de Paulo de Barros Carvalho, as quais coaduno, para que a decadência se opere, deverá estar apresentada com linguagem competente, a qual surge a partir do processo de geração de sentido do intérprete, sendo tal linguagem competente produzidas pelo órgão credenciado e através de procedimento específico determinado por meio de uma norma geral e abstrata.
(d) Quanto aos efeitos da decadência em relação ao crédito tributário (arts. 150 e 173, do CTN), pode-se afirmar que sejam: (i) extintivos ou (ii) impeditivos? Justifique sua resposta.
A princípio, o art. 156, V, do CTN[footnoteRef:7], traz a decadência como uma das causas de extinção do crédito tributário. Em uma primeira leitura podemos ser levados à conclusão de que o efeito da decadência é extintivo do próprio crédito tributário. [7: Art. 156. Extinguem o crédito tributário:
(...)
V - a prescrição e a decadência;]
Porém, é preciso destacarmos a lição de Paulo de Barros Carvalho[footnoteRef:8] sobre o assunto: [8: CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário: linguagem e método. São Paulo: Noeses, Item 2.8.8 do Capítulo 2, da segunda parte, p. 489.]
O efeito extintivo previsto é o do desaparecimento do direito da Fazenda, consistente em exercer sua competência administrativa para constituir o crédito tributário. Reconhecido o fato da decadência, sua eficácia jurídica será a de fulminar a possibilidade de a autoridade administrativa competente realizar o ato jurídico-administrativo do lançamento. Sabemos que, sem efetuá-lo, não se configura o fato jurídico e, por via de consequência, também não se instaura a obrigação tributária. É fácil concluir que, nesse caso, a decadência não extingue a relação jurídica tributária, mas tão somente a competência para que os agentes do Poder Tributante celebrem o ato de lançamento. A caducidade será extintiva do vínculo apenas nas circunstâncias em que tiver sido alegada pelo interessado e reconhecida pelo órgão credenciado pelo sistema, depois de ter nascido a obrigação tributária. Aqui, sim, o efeito será terminativo da relação. Em ambos os casos, porém, trata-se mesmo do direito de a Fazenda Pública editar a norma individual e concreta do lançamento. (grifos nossos)
Deste modo, as disposições trazidas pelos artigos 150 e 173 do CTN[footnoteRef:9] impedem a constituição do crédito tributário após o transcurso do período de cinco anos. Entendo que, mesmo no caso do lançamento por homologação, previsto no mencionado art. 150 do CTN, o lançamento (ou seja, a constituição do crédito tributário) opera-se apenas quando a autoridade competente expressamente o homologa e, assim, o referido prazo de decadência, também nesta situação, impede a constituição do crédito tributário, ou seja, a sua homologação pela autoridade competente. [9: Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, opera-se pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa.
§ 1º O pagamento antecipado pelo obrigado nos termos deste artigo extingue o crédito, sob condição resolutória da ulterior homologação ao lançamento.
§ 2º Não influem sobre a obrigação tributária quaisquer atos anteriores à homologação, praticados pelo sujeito passivo ou por terceiro, visando à extinção total ou parcial do crédito.
§ 3º Os atos a que se refere o parágrafo anterior serão, porém, considerados na apuração do saldo porventura devido e, sendo o caso, na imposição de penalidade, ou sua graduação.
§ 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considera-se homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação.
Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue-se após 5 (cinco) anos, contados:
I - do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado;
II - da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado.
Parágrafo único. O direito a que se refere este artigo extingue-se definitivamente com o decurso do prazonele previsto, contado da data em que tenha sido iniciada a constituição do crédito tributário pela notificação, ao sujeito passivo, de qualquer medida preparatória indispensável ao lançamento.]
Do exposto, ainda que o art. 156, V, do CTN, preveja que a decadência é causa de extinção do crédito tributário, entendo que o verdadeiro efeito da decadência é impeditivo da constituição do crédito tributário pela autoridade competente, com base nos ensinamentos do professor Paulo de Barros Carvalho, acima citado.
(e) Diferençar, se possível: (i) decadência do direito de lançar, (ii) prescrição do direito do Fisco cobrar o crédito tributário, (iii) decadência do direito do contribuinte pleitear a restituição do indébito tributário e (iv) prescrição do direito de ação do contribuinte repetir o indébito tributário.
(i) decadência do direito de lançar.
O art. 173 do CTN, já mencionado neste trabalho, estabelece que a Fazenda pública perde o direito de constituir o crédito tributário após cinco anos, sendo que o marco inicial deste período dependerá da situação fática, observados os incisos e parágrafo único do mesmo dispositivo.
O que nos importa, para a resposta da questão em tela, é a redação do referido do caput do referido dispositivo, o qual nos deixa o entendimento de que a Fazenda teria um direito de efetuar o lançamento (o qual seria extinto após o prazo de cinco anos).
Paulo de Barros Carvalho nos ensina que tal redação do CTN é equivocada, uma vez que o lançamento do crédito é um ato administrativo obrigatório e vinculado, ou seja, não é um direito e sim um dever.[footnoteRef:10] [10: “Mas, no art. 173 do Código Tributário Nacional, o legislador se refere à existência de um direito de lançar, que seria alcançado pela decadência quando decorrido o intervalo de cinco anos, sem que o ato de lançamento fosse regularmente realizado. A análise cuidadosa dá condições a uma indagação de superior importância: existe um direito de lançar? Sabemos que não. O ato jurídico administrativo de lançamento é vinculado e obrigatório, sob pena de responsabilidade funcional (CTN, art. 142, parágrafo único). Trata-se, na verdade, de um dever do Estado, enquanto entidade tributante, que se não confunde com o direito subjetivo de exigir a prestação, não podendo ser considerado, também, como pretende importante segmento doutrinário, um direito potestativo.
A teoria dominante, trabalhando em cima do texto escrito do direito positivo, não tem levantado certos aspectos relevantes que a matéria propicia. É o resultado quase sempre infrutífero da interpretação literal do direito posto. É a vã tentativa de prestigiar o texto em detrimento do sistema; de ler, para não refletir; de simplesmente enunciar, para não compor.
O equívoco nos leva ao perecimento de dois direitos: o de praticar o lançamento e o de perceber o valor pecuniário. A decadência, entendida assim, teria o condão de inibir a autoridade administrativa de lavrar o ato constituidor (perda do direito de lançar) e, simultaneamente, de fulminar o direito subjetivo de que esteve investido o sujeito pretensor.
Paralelamente, somos levados a concluir que a Fazenda Pública, que tem o dever de constituir o crédito, ver-se-ia liberada desse encargo com o decurso do tempo, isto é, acontecendo o fato jurídico da caducidade. O paradoxo é incontornável.” (CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de direito tributário. São Paulo: Noeses, Item 8, Capítulo XIV, p. 464.).
]
Logo, a decadência do “direito” de lançar, trata-se do impedimento colocado pela legislação ao Fisco de constituir o crédito tributário após o transcurso do período de cinco anos previsto em lei.
(ii) prescrição do direito do Fisco cobrar o crédito tributário.
O art. 174 do CTN dispõe:
Art. 174. A ação para a cobrança do crédito tributário prescreve em cinco anos, contados da data da sua constituição definitiva.
Parágrafo único. A prescrição se interrompe:
I – pelo despacho do juiz que ordenar a citação em execução fiscal;
II - pelo protesto judicial;
III - por qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor;
IV - por qualquer ato inequívoco ainda que extrajudicial, que importe em reconhecimento do débito pelo devedor.
Desta forma, a prescrição do direito do Fisco de cobrar o crédito tributário é a impossibilidade jurídica de que a Fazenda ingresse judicialmente para cobrar referida obrigação. Diferentemente do que ocorre na decadência, na prescrição o crédito tributário já foi constituído, e, inclusive, a obrigação de pagamento para o contribuinte já está vencida.
Ademais, neste sentido, vale trazer as lições de Eurico Marcos Diniz de Santi[footnoteRef:11]: [11: SANTI, Eurico Marcos Diniz de. Decadência e prescrição no direito tributário. São Paulo: Max Limonad. Capítulo 9, p. 217/218.]
Assim como ocorreu com a decadência, a prescrição do direito de ação do Fisco será tratada, aqui, como norma jurídica, pois ambas incidem sobre o processo de positivação do direito. No direito tributário, a diferença essencial entre uma e outra não está na forma de contagem do prazo, ou em contingências relativas ao efeito que irradiam, mas na fase do processo de positivação em que cada qual opera. A decadência opera na fase da constituição administrativa do crédito; a prescrição, no momento do exercício do direito de ação.
(...)
Assim, na hipótese da regra de prescrição do direito do Fisco, o fator tempo figura em conjunção com a conduta omissiva da Fazenda Pública. E só há omissão, se houver a possibilidade jurídica da exigibilidade do crédito: não basta que o crédito esteja instalado no sistema com notificação regular, líquido e certo, requer-se também que seja exigível, sem exigibilidade não há omissão, tão-somente fluxo de tempo. Em contrapartida, sem fluxo de tempo, também não se configura a omissão, ainda que haja a exigibilidade do crédito.
O crédito só é exigível passado o período previsto para a efetivação do pagamento, e esse período não tem um limite fixo. (...)
(iii) decadência do direito do contribuinte pleitear a restituição do indébito tributário.
(iv) prescrição do direito de ação do contribuinte repetir o indébito tributário.
Eurico Marcos Diniz de Santi[footnoteRef:12] nos ensina que: [12: SANTI, Eurico Marcos Diniz de. Decadência e prescrição no direito tributário. São Paulo: Max Limonad. Capítulo 9, p. 253.
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Utilizaremos a expressão decadência do direito do contribuinte (Item 4.3), para a extinção do direito de pleitear o débito do Fisco pela via administrativa, e prescrição do direito do contribuinte, para a extinção do direito de cobrar o débito do fisco pela via judicial. As normas gerais e abstratas que regem a decadência e a prescrição do direito do contribuinte produzem regras individuais e concretas que veiculam, em seu antecedente, o fato concreto do decurso do tempo qualificado pela omissão do contribuinte e, em seu consequente, a extinção, respectivamente, do direito de pleitear administrativamente o débito e do direito à ação judicial de cobrança do débito do Fisco.
Deste modo, a decadência do direito do contribuinte pleiteai a restituição do indébito tributário, é a impossibilidade de o contribuinte reaver, na esfera administrativa, um pagamento feito indevidamente. Neste sentido, o art. 168 do CTN dispõe que o direito de pleitear a restituição pelo contribuinte extingue-se com o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados:
(i) da data da extinção do crédito tributário na hipótese de cobrança ou pagamento espontâneo de tributo indevido ou a maior em face da legislação tributária aplicável, ou da natureza ou circunstâncias materiais do fato gerador efetivamente ocorrido, ou ainda na hipótese de erro na edificação do sujeito passivo, na determinação da alíquota aplicável, no cálculo do montante do débito ou na elaboração ou conferência de qualquer documento relativo ao pagamento;
(ii) da data em que se tornar definitiva a decisão administrativa ou passar em julgado a decisão judicial que tenha reformado, anulado, revogado ou rescindido a decisão condenatória.Já a prescrição do direito de ação do contribuinte repetir o indébito tributário é, justamente, a impossibilidade de que o contribuinte ingresse judicialmente para cobrar do Fisco débito decorrente de pagamento indevido. Nesta situação, o art. 169, caput, do CTN, estabelece o prazo de prescrição de dois anos para ação anulatória da decisão administrativa que denegar a restituição.
2. Conjugando o art. 146, III, “b”, da CF e o princípio da autonomia dos entes federativos, responda: A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, por meio de lei ordinária, podem estabelecer prazo diverso do constante no CTN para a decadência e prescrição de seus créditos? E mediante lei complementar estadual ou municipal? (Vide anexos I e II).
Inicialmente, lembra-se que o art. 146, III, “b”, da Constituição Federal, determina que cabe à lei complementar estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária, especialmente sobre obrigação, lançamento, crédito, prescrição e decadência tributários.
Desta forma, e conforme jurisprudência já pacificada no âmbito do Supremo Tribunal Federal, não é possível que, por meio de lei ordinária, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, estabeleçam prazos diversos do CTN para decadência e prescrição de seus créditos, como se pode observar no julgado do RE n. 559.943/RS, com repercussão geral e na Súmula Vinculante n° 8, trazidos nos Anexos I e II, respectivamente, deste material. Apenas ressalta-se que, o CTN foi recepcionado pela Constituição Federal com “status” de lei complementar, e, portanto, devem ser observados os seus prazos de decadência e prescrição.
Isto posto, em relação à possibilidade de lei complementar estadual ou municipal estabelecer prazos de decadência e prescrição diferentes daqueles previstos no CTN, ressalta-se que, o art. 24, I, da Constituição Federal dispõe que compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre, entre outros, direito tributário. Ainda, a competência da União limitar-se-á a estabelecer normas gerais, sendo dos Estados a competência apenas suplementar, uma vez que os Estados apenas poderão exercer competência legislativa plena caso inexista lei federal, nos moldes dos §§ 1º a 3º do mencionado art. 24.
Sendo assim, se a competência da União é limitada a estabelecer normas gerais (art. 24, § 1º da CF/88), e, a prescrição e decadência são assuntos próprios de normas gerais, como estabelece o próprio art. 146, III, “b” da Constituição Federal, logo, concluo que não seria possível que lei complementar estadual ou municipal, estabelecessem outros prazos de prescrição e decadência, eis que não há omissão legislativa federal, tendo vista haver o CTN como lei complementar federal que estabelece os prazos de decadência e prescrição.
3. Quando começa a contar o prazo de decadência para o Fisco lançar nos tributos sujeitos ao lançamento de ofício? E nos tributos sujeitos ao “lançamento por homologação”? Se não houver o que homologar, o prazo passa a ser o dos tributos sujeitos ao lançamento de ofício? E no caso de fraude? (Vide anexos III, IV e V)
Inicialmente, faz-se necessária breve diferenciação das modalidades de lançamento e, para tanto, a par das críticas feitas pelo autor em relação ao tema, utilizo-me dos ensinamentos de Paulo de Barros Carvalho[footnoteRef:13]: [13: CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de direito tributário. São Paulo: Noeses, Item 21, Capítulo XII, p. 423.]
Nos arts. 147 a 150, cuida a Lei n. 5.172/66 das modalidades de lançamento. Acolheu três: a) lançamento direto, ou por ofício; b) misto, ou por declaração; e c) por homologação.
A fonte inspiradora da tricotomia reside no índice de colaboração do administrado, com vistas à celebração do ato. Na primeira hipótese, a participação seria inexistente, uma vez que todas as providências preparatórias são feitas nos cancelos da Administração. Na segunda, colaboram ambas as partes, visando aos resultados finais do lançamento. Na última, quase todo o trabalho é cometido ao súdito, limitando-se o fisco a homologar os atos por ele praticados.
Posto isto, temos que, em regra geral, nos lançamentos de ofício, aplica-se o prazo de decadência previsto no art. 173, do CTN, ou seja, cinco anos do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado (inciso I), ou da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado (inciso II).
Já no caso de lançamento por homologação, a regra geral é aquela prevista no art. 150, § 4º do CTN, o qual determina que “se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considera-se homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação.”
Porém, vale frisar que, o prazo previsto no referido art. 150, § 4º do CTN apenas será aplicado quando houver o pagamento antecipado, ainda que de forma parcial, pelo contribuinte. Isto porque, o lançamento por homologação ocorre justamente na situação em que o contribuinte realiza o pagamento, como é possível observar na redação do caput do art. 150 do CTN[footnoteRef:14]. [14: Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, opera-se pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa.
(...)]
Deste modo, em não havendo o pagamento por parte do contribuinte, mesmo que parcial, por via de consequência, não haverá a homologação por parte da autoridade competente, e, assim, há entendimento de que o prazo de decadência aplicável é o previsto no art. 173, I do CTN, ou seja, cinco anos do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado (o mesmo prazo decadencial previsto no caso de lançamento de ofício). Tal posicionamento pode ser observado nos julgados trazidos nos Anexos III, IV e V deste trabalho.
Ademais, no caso de dolo, fraude ou simulação, não se aplicará o prazo previsto no art. 150, § 4º do CTN, por expressa ressalva constante no próprio dispositivo legal. Entretanto, a legislação também nada dispõe qual prazo decadencial a ser aplicável nesta situação. Nesse sentido, o julgado presente no, já mencionado, Anexo V do presente trabalho.
Importante constar, neste contexto, de que o entendimento do professor Paulo de Barros Carvalho[footnoteRef:15] é de que, no caso de ausência de pagamento pelo contribuinte, total ou parcial, e ausentes o dolo, fraude ou simulação, o prazo decadencial seria de cinco anos contados desde a ocorrência do evento tributário, e não do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Já no caso de ausência de pagamento, total ou parcial, com a presença de dolo, fraude ou simulação, o prazo seria aquele previsto no art. 173, I do CTN (cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado). [15: Diante da lacuna causada pela omissão do legislador ordinário em disciplinar esse prazo, entendemos que a regra que mais condiz com o espírito do sistema é a do art. 173, I, do Código Tributário Nacional, isto é, havendo dolo, fraude ou simulação, adequadamente comprovados pelo fisco, o tempo de a contar do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que poderia ter praticado o ato.
São, portanto, duas situações diferentes: a) falta de recolhimento do tributo, em termos totais ou parciais, todavia sem dolo, fraude ou simulação: o intervalo temporal, para fins de lançamento, é de cinco anos, a partir do instante da ocorrência do evento tributário; e b) falta de recolhimento, integral ou parcial, de tributo, cometida com dolo, fraude ou simulação: o trato de tempo para a formalização daexigência e para a aplicação de penalidades é de cinco anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido realizado. (CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário: linguagem e método. São Paulo: Noeses, Item 2.8.8 do Capítulo 2, da segunda parte, p. 492).]
Em que pese julgados em sentido diverso, como os próprios julgados trazidos nos Anexos III, IV e V deste trabalho, concordo com o entendimento do professor Paulo de Barros Carvalho. Isto porque, entendo ser prejudicial tratar da mesma maneira (ou seja, aplicar o prazo decadencial considerando o mesmo marco inicial) os contribuintes que não agiram com dolo, fraude ou simulação, e aqueles que agiram com dolo, fraude ou simulação, pois, a contagem do prazo a partir da ocorrência do evento tributário é mais benéfica ao contribuinte.
4. Como deve ser interpretado o parágrafo único do art. 173 do CTN? Que se entende por “medida preparatória indispensável ao lançamento”? Tal medida tem apenas o condão de antecipar o termo inicial da contagem do prazo prescrito no inciso I ou pode também postergá-lo? Trata-se de causa de interrupção do prazo decadencial?
O parágrafo único do art. 173 do CTN assim dispõe:
Art. 173 (...)
Parágrafo único. O direito a que se refere este artigo extingue-se definitivamente com o decurso do prazo nele previsto, contado da data em que tenha sido iniciada a constituição do crédito tributário pela notificação, ao sujeito passivo, de qualquer medida preparatória indispensável ao lançamento.
Deste forma, o referido dispositivo traz uma nova contagem do prazo decadencial quinquenal, ou seja, a partir da data em que se iniciou a constituição do crédito tributário pela notificação, ao sujeito passivo, de qualquer medida preparatória indispensável ao lançamento, e não do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado.
Quanto à medida preparatória indispensável para o lançamento, esta, como um ato administrativo, também é atuação vinculada da Administração Pública. A medida preparatória trata-se de ato que antecede à constituição do crédito tributário (lançamento), como, por exemplo, uma notificação de início do procedimento fiscalizatório.
Em relação à possibilidade de antecipar ou postergar o termo inicial da contagem do prazo decadencial, o professor Paulo de Barros Carvalho[footnoteRef:16] entende que haverá a antecipação do marco inicial previsto no art. 173, I do CTN. [16: Além disso, cumpre esclarecer que o art. 173, I, do CTN traz outro termo inicial nas hipóteses em que há ciência, pelo particular, de algum fato ou medida preparatória indispensável ao lançamento. Neste caso, ocorrerá antecipação do termo inicial para o decurso do prazo decadencial, contando-se cinco anos a partir da data em que se tenha por formalizada a notificação do contribuinte a respeito desta medida. (CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário: linguagem e método. São Paulo: Noeses, Item 2.8.8 do Capítulo 2, da segunda parte, p. 490).]
Neste sentido também é o entendimento do Superior Tribunal de Justiça, vejamos, com grifos nossos:
TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO SEM PAGAMENTO PRÉVIO. ART. 173 DO CTN. NOTIFICAÇÃO DE MEDIDA PREPARATÓRIA. REGRA DE ANTECIPAÇÃO DO TERMO INICIAL DA DECADÊNCIA. INAPLICABILIDADE.
1. Nos termos da jurisprudência do STJ, a "norma do art. 173, parágrafo único, do Código Tributário Nacional incide para antecipar o início do prazo de decadência a que a Fazenda Pública está sujeita para fazer o lançamento fiscal, não para dilatá-lo - até porque, iniciado, o prazo de decadência não se suspende nem se interrompe.
Embargos de divergência providos" (STJ, EREsp 1.143.534/PR, relator Ministro Ari Pargendler, Primeira Seção, DJe de 20/3/2013).
2. O início da ação fiscal tendente a apurar eventual omissão ou erro no recolhimento de tributo não tem o condão de interromper o prazo decadencial em curso.
3. Hipótese em que o Tribunal a quo, ao concluir pela desconsideração da consumação do prazo decadencial porquanto o crédito tributário constituiu-se no ato da intimação do contribuinte por TIAF, divergiu da firme jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça acerca do assunto (AREsp n. 1.838.902, Ministra Assusete Magalhães, DJe de 20/5/2021).
4. No caso dos autos, deve-se considerar como termo inicial do prazo decadencial a intimação do contribuinte do auto de infração.
Agravo interno improvido.
(AgInt no REsp n. 1.427.073/MG, relator Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 8/5/2023, DJe de 11/5/2023.)
Por outro lado, Aurora Tomazini de Carvalho[footnoteRef:17], quando da explicação das regras para fixação do critério temporal das normas de decadência do direito do Fisco, construídas por Eurico Marcos Diniz de Santi, ao detalhar a regra prevista no parágrafo único do art. 173 do CTN, dispõe o seguinte: [17: CARVALHO, Aurora Tomazini de. Regras para fixação do critério temporal das normas de decadência e prescrição no direito tributário. In: CARVALHO, Aurora Tomazini (Org.). Decadência e prescrição em direito tributário. São Paulo: MP. p. 45.]
2ª regra: não-ocorrência do pagamento antecipado (com ou sem previsão), não-ocorrência de dolo, fraude ou simulação, ocorrência da notificação preparatória e não-ocorrência de anulação. CT da norma de decadência: cinco anos da data da notificação (ato preparatório) – antecipa o prazo da primeira regra e posterga o da terceira (art. 173, I e parágrafo único, do CTN).
20.5.1998 08.10.1998 (5anos) 08.10.2003
*-------------------|------------------------|----------------------------------|
evento notificação 1º dia (e.f.s) 5 anos após
(início do prazo) (fim do prazo)
Percebe-se que, o entendimento acima exposto, é de que há antecipação do marco inicial previsto no art. 173, I do CTN (primeira regra, na redação da obra), porém, posterga-se o marco inicial da terceira regra, que, na obra mencionada, é a regra prevista para o lançamento por homologação, do art. 150, § 4º do CTN.
Lembra-se que, o prazo decadencial no caso de lançamento por homologação é de cinco a contar da ocorrência do fato gerador. Ora, se após o fato gerador houver uma medida preparatória (notificação) pelo Fisco, altera-se o marco inicial do prazo decadencial, postergando este para a data da notificação, não mais sendo considerado o fato gerador.
Assim, coaduno com a linha de entendimento trazida por Aurora Tomazini de Carvalho e Eurico Marcos Diniz de Santi, e, assim, considerando as demais regras de lançamento do crédito tributário, entendo que a referida regra do parágrafo único do art. 173 do CTN poderá tanto antecipar como postergar o marco inicial do prazo decadencial. Ressalvo que, caso seja considerado apenas a regra do lançamento de ofício (art. 173, I do CTN), neste caso específico, a regra prevista no parágrafo único do art. 173 do CTN apenas antecipará o marco inicial do prazo decadencial, não podendo postergá-la.
Ademais, quanto à questão da interrupção ou não do prazo decadencial, cito o estudo de Charles William Mcnaughton[footnoteRef:18]: [18: MCNAUGHTON, Charles W. Decadência. Enciclopédia jurídica da PUC-SP. Celso Fernandes Campilongo, Alvaro de Azevedo Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo: Direito Tributário. Paulo de Barros Carvalho, Maria Leonor Leite Vieira, Robson Maia Lins (coord. de tomo). 1. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2017. Disponível em: https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/263/edicao-1/decadencia Acesso em 18/04/2024 às 15h41.]
A grande discussão que se tem dessa última hipótese de incidência é se com ela o início da fiscalização teria o condão de “interromper” a contagem do lapso decadencial, de tal forma que bastaria uma notificação do contribuinte de início de fiscalização que o Fisco teria 5 (cinco) anos paraconstituir o crédito tributário. Não parece que essa seja a melhor alternativa.
É preciso considerar que uma norma jurídica é uma estrutura em que a hipótese de incidência é condição suficiente de seu consequente. Isso significa que a hipótese de incidência de uma norma não “neutraliza” a hipótese de incidência de outra norma, o que só ocorreria se fossem condições necessárias de seu consequente.
(...)
Na estrutura sintática de uma norma jurídica, formada por um condicional, a hipótese de incidência, como regra geral, é condição suficiente do consequente e não necessária deste. Inúmeros exemplos poderiam confirmar a afirmação, mas basta pensar, no exemplo específico da decadência, que ainda que inexista qualquer medida preparatória para o lançamento – inércia total do Fisco – em mais de cinco anos o termo a quo a decadência seria aplicável. Isso significa que o parágrafo único do art. 173 carrega hipótese suficiente para que seja aplicável a decadência, mas não necessária.
Se isso é verdade, então, ainda que comece a fluir um prazo de decadencial contado de 5 anos do envio da medida preparatória do lançamento isso não afasta o aspecto de que também corre um prazo decadencial contado do exercício seguinte daquele em que o lançamento poderia ter ocorrido.
Mas, se assim é, qual a utilidade prática do parágrafo único do art. 173? Ora, se o art. 173, I, do Código Tributário Nacional guarda prazo que aparentemente se inicia antes do veiculado pelo parágrafo único do art. 173, estaria o segundo dispositivo fadado à ineficácia semântica?
A resposta é negativa. O art. 173, parágrafo único, do Código Tributário Nacional é aplicável quando a medida preparatória do lançamento se inicia antes do exercício seguinte àquele que o lançamento poderia ter sido efetivado, ou seja, no exato ano que o lançamento pode ser efetivado.
Portanto, entende-se que a regra trazida no parágrafo único do art. 173 do CTN, não interrompe o prazo decadencial. Nesse sentido também entende o STJ, como se pode observar no julgado trazido anteriormente nesta resposta.
5. A Lei n. 11.051/04 incluiu ao art. 40 da lei federal 6.830/80 o § 4º[footnoteRef:19], permitindo a decretação de ofício da prescrição intercorrente, depois de ouvida a Fazenda Pública, na hipótese de arquivamento dos autos pela não localização de bens ou do devedor. Pergunta-se: [19: Art. 40. (...)
§ 4o Se da decisão que ordenar o arquivamento tiver decorrido o prazo prescricional, o juiz, depois de ouvida a Fazenda Pública, poderá, de ofício, reconhecer a prescrição intercorrente e decretá-la de imediato.]
(a) Qual é o tratamento a ser dado no caso de falta de intimação da Fazenda Pública sobre o despacho que determina sua manifestação antes da decisão que decreta a prescrição intercorrente? É possível que a decretação da prescrição intercorrente seja ilidida? Justificar sua resposta. (Vide anexo VI)
Inicialmente, vamos à redação do art. 40 da Lei n° 6.830/1980:
Art. 40 - O Juiz suspenderá o curso da execução, enquanto não for localizado o devedor ou encontrados bens sobre os quais possa recair a penhora, e, nesses casos, não correrá o prazo de prescrição.
§ 1º - Suspenso o curso da execução, será aberta vista dos autos ao representante judicial da Fazenda Pública.
§ 2º - Decorrido o prazo máximo de 1 (um) ano, sem que seja localizado o devedor ou encontrados bens penhoráveis, o Juiz ordenará o arquivamento dos autos.
§ 3º - Encontrados que sejam, a qualquer tempo, o devedor ou os bens, serão desarquivados os autos para prosseguimento da execução.
§ 4º Se da decisão que ordenar o arquivamento tiver decorrido o prazo prescricional, o juiz, depois de ouvida a Fazenda Pública, poderá, de ofício, reconhecer a prescrição intercorrente e decretá-la de imediato. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004)
§ 5º A manifestação prévia da Fazenda Pública prevista no § 4o deste artigo será dispensada no caso de cobranças judiciais cujo valor seja inferior ao mínimo fixado por ato do Ministro de Estado da Fazenda. (Incluído pela Lei nº 11.960, de 2009)
Ainda, importante destacar alguns pontos do julgado, pelo STJ, do REsp n° 1.340.553/RS, constante do Anexo VI deste material:
4.1.) O prazo de 1 (um) ano de suspensão do processo e do respectivo prazo prescricional previsto no art. 40, §§ 1º e 2º da Lei n. 6.830/80 - LEF tem início automaticamente na data da ciência da Fazenda Pública a respeito da não localização do devedor ou da inexistência de bens penhoráveis no endereço fornecido, havendo, sem prejuízo dessa contagem automática, o dever de o magistrado declarar ter ocorrido a suspensão da execução;
(...)
4.4.) A Fazenda Pública, em sua primeira oportunidade de falar nos autos (art. 245 do CPC/73, correspondente ao art. 278 do CPC/2015), ao alegar nulidade pela falta de qualquer intimação dentro do procedimento do art. 40 da LEF, deverá demonstrar o prejuízo que sofreu (exceto a falta da intimação que constitui o termo inicial - 4.1., onde o prejuízo é presumido), por exemplo, deverá demonstrar a ocorrência de qualquer causa interruptiva ou suspensiva da prescrição.
Desta forma, de acordo com o entendimento do STJ, em regra geral, a Fazenda Pública deverá demonstrar o prejuízo que sofreu no caso de ausência de sua intimação, a exemplo de qualquer causa interruptiva ou suspensiva da prescrição, ilidindo, assim, a decretação de prescrição intercorrente.
Apenas no caso de ausência da intimação que constitui o termo inicial (aquela em que dá ciência à Fazenda Pública da suspensão do curso execução por um ano) é que o prejuízo será presumido e, desta forma, poderá ilidir a decretação de prescrição intercorrente.
Portanto, no caso de ausência de intimação da Fazenda Pública sobre o despacho que determina sua manifestação antes da decisão que decreta a prescrição intercorrente, caberá à Fazenda demonstrar o prejuízo sofrido, nos moldes acima.
6. É possível falar em prescrição intercorrente em processo administrativo fiscal, ou ela se aplica apenas aos processos judiciais? (Vide anexos VII e VIII).
Inicialmente, lembra-se que o entendimento do CARF, demonstrado pela Súmula n° 11 e pelo Acórdão nº 1402-001.761, respectivamente trazidos nos Anexos VII e VIII deste trabalho, é de que a prescrição intercorrente não é aplicada nos processos administrativos, sendo aplicável apenas nos processos judiciais.
Eurico Marcos Diniz de Santi[footnoteRef:20] também entende quanto a impossibilidade de ocorrência da prescrição intercorrente no processo administrativo. Vejamos: [20: SANTI, Eurico Marcos Diniz de. Decadência e prescrição no direito tributário. São Paulo: Max Limonad. Capítulo 9, p. 239.
]
Consideramos que não pode haver prescrição intercorrente no processo administrativo porque, quando há impugnação ou recurso administrativo durante o prazo para pagamento do tributo, suspende-se a exigibilidade do crédito, o que simplesmente impede a fixação do início do prazo prescricional.
Ocorre que, o art. 24 da Lei n° 11.457/2007 (que, entre outras providências, dispõe sobre a Administração Tributária Federal), estabelece que “é obrigatório que seja proferida decisão administrativa no prazo máximo de 360 (trezentos e sessenta) dias a contar do protocolo de petições, defesas ou recursos administrativos do contribuinte.”.
Neste contexto, importante lembrar que, o referido art. 24 possuía, em seus parágrafos vetados, a possibilidade de dilação e interrupção do prazo de 360 dias. Nas razões[footnoteRef:21] de veto, os quais foram propostos pelos Ministérios da Fazenda e da Justiça, é mencionado justamente a necessidade de que, além da observância dos princípios do contraditório e ampla defesa, tenha o processo uma duração de tempo razoável. Ora, se o processo administrativo deve ter uma duração razoável, a meu ver não seria eficaz que se deixasse de aplicar a prescrição intercorrente, perdurando o processo pelo tempo que o Fisco entender necessário. [21: Razões do veto dos parágrafos 1º e 2º do art. 24 da Lei 11.457/2007.
“Como se sabe,vigora no Brasil o princípio da unidade de jurisdição previsto no art. 5o, inciso XXXV, da Constituição Federal. Não obstante, a esfera administrativa tem se constituído em via de solução de conflitos de interesse, desafogando o Poder Judiciário, e nela também são observados os princípios do contraditório e da ampla defesa, razão pela qual a análise do processo requer tempo razoável de duração em virtude do alto grau de complexidade das matérias analisadas, especialmente as de natureza tributária.
Ademais, observa-se que o dispositivo não dispõe somente sobre os processos que se encontram no âmbito do contencioso administrativo, e sim sobre todos os procedimentos administrativos, o que, sem dúvida, comprometerá sua solução por parte da administração, obrigada a justificativas, fundamentações e despachos motivadores da necessidade de dilação de prazo para sua apreciação.
Por seu lado, deve-se lembrar que, no julgamento de processo administrativo, a diligência pode ser solicitada tanto pelo contribuinte como pelo julgador para firmar sua convicção. Assim, a determinação de que os resultados de diligência serão presumidos favoráveis ao contribuinte em não sendo essa realizada no prazo de cento e vinte dias é passível de induzir comportamento não desejável por parte do contribuinte, o que poderá fazer com que o órgão julgador deixe de deferir ou até de solicitar diligência, em razão das consequências de sua não realização. Ao final, o prejudicado poderá ser o próprio contribuinte, pois o julgamento poderá ser levado a efeito sem os esclarecimentos necessários à adequada apreciação da matéria.” Disponível em https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/Msg/VEP-140-07.htm. Acesso em 19/04/2024, às 10h42.]
Além disso, mesmo que desconsideremos o art. 24 da Lei n° 11.457/2007, vale lembrar da previsão Lei nº 9.873/1999, que, em seu art. 1º, § 1º dispõe “incide a prescrição no procedimento administrativo paralisado por mais de três anos, pendente de julgamento ou despacho, cujos autos serão arquivados de ofício ou mediante requerimento da parte interessada, sem prejuízo da apuração da responsabilidade funcional decorrente da paralisação, se for o caso.” Em princípio, uma vez que trata de forma genérica de procedimentos administrativos, entendo que tal prazo poderia ser aplicado também nos procedimentos administrativos tributários.
Do exposto, ainda que não haja previsão legal expressa, e ainda que o entendimento do CARF seja pela não aplicação da prescrição intercorrente no processo administrativo fiscal, entendo de forma contrária, e, a meu ver, parece razoável que se aplique a prescrição intercorrente também no processo administrativo, levando em consideração o princípio constitucional da razoável duração do processo, insculpido no art. 5º, LXXVIII da Constituição Federal.
7. Qual o marco inicial da contagem do prazo para redirecionamento da execução fiscal contra os sócios? Trata-se de prazo decadencial ou prescricional? É possível compreender que o mesmo fato jurídico “dissolução irregular” seja considerado ilícito suficiente ao redirecionamento da execução fiscal de débito tributário e não o seja para a execução fiscal de débito não-tributário. (Vide anexo IX)
De início, faz-se necessário esclarecer o que é o redirecionamento da execução fiscal e, de acordo com Maria Rita Ferragut[footnoteRef:22], tem-se o seguinte: [22: FERRAGUT, Maria Rita. Prescrição intercorrente e o redirecionamento da execução fiscal para o administrador. Disponível em: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/prescricao-intercorrente-e-redirecionamento-da-ef-09102017. Acesso em 19/04/2024, às 15h05.]
Entende-se por redirecionamento da execução fiscal a inclusão do administrador da pessoa jurídica no polo passivo da ação, passando ele a responder solidariamente pelos débitos tributários imputados pela Fazenda ao devedor contribuinte. Faz-se possível nos casos em que ficar demonstrada a prática de ato eivado de excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatuto, ou de dissolução irregular da pessoa jurídica, conforme já assentado pelo STJ, em sede de recurso
repetitivo (RESP 1.371.128/RS).
Isto posto, o art. 135, III, do CTN dispõe que, são pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado.
Entretanto, ressalte-se que a legislação não dispõe expressamente com relação ao termo inicial do prazo para redirecionamento da execução fiscal contra os sócios. O inciso I do parágrafo único do art. 174 do CTN[footnoteRef:23], apenas dispõe que a prescrição será interrompida pelo despacho do juiz que ordenar a citação em execução fiscal. [23: Art. 174. A ação para a cobrança do crédito tributário prescreve em cinco anos, contados da data da sua constituição definitiva.
Parágrafo único. A prescrição se interrompe:
I – pelo despacho do juiz que ordenar a citação em execução fiscal;
II - pelo protesto judicial;
III - por qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor;
IV - por qualquer ato inequívoco ainda que extrajudicial, que importe em reconhecimento do débito pelo devedor.]
Desta forma, o STJ tem entendimento pacificado que o prazo prescricional para redirecionamento da execução fiscal ao sócio é de cinco anos contados da citação da pessoa jurídica, quando o fato que fulminou no redirecionamento (como a dissolução irregular da empresa, por exemplo) acontecer antes da citação. Nesse sentido é o julgado constante no Anexo IX deste trabalho. Além disso, como também mencionado no julgado em comento, trata-se de prazo prescricional e não decadencial.
Por fim, quanto ao redirecionamento da execução no caso de dívida não tributária, o STJ entendeu, no julgado do Recurso Especial nº 1.371.128 – RS, que não há como compreender que o mesmo fato jurídico "dissolução irregular" seja considerado ilícito suficiente ao redirecionamento da execução fiscal de débito tributário e não o seja para a execução fiscal de débito não-tributário. Assim, em se tratando de dissolução irregular, é possível o redirecionamento da execução fiscal para o sócio da pessoa jurídica ainda que se trate de dívida não-tributária. Vejamos a íntegra da ementa do julgado em tela:
PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA. ART. 543-C, DO CPC. REDIRECIONAMENTO DE EXECUÇÃO FISCAL DE DÍVIDA ATIVA NÃO-TRIBUTÁRIA EM VIRTUDE DE DISSOLUÇÃO IRREGULAR DE PESSOA JURÍDICA. POSSIBILIDADE. ART. 10, DO DECRETO N. 3.078/19 E ART. 158, DA LEI N. 6.404/78 - LSA C/C ART. 4º, V, DA LEI N. 6.830/80 - LEF.
1. A mera afirmação da Defensoria Pública da União - DPU de atuar em vários processos que tratam do mesmo tema versado no recurso representativo da controvérsia a ser julgado não é suficiente para caracterizar-lhe a condição de amicus curiae. Precedente: REsp.1.333.977/MT, Segunda Seção, Rel. Min. Isabel Gallotti, julgado em 26.02.2014.
2. Consoante a Súmula n. 435/STJ: "Presume-se dissolvida irregularmente a empresa que deixar de funcionar no seu domicílio fiscal, sem comunicação aos órgãos competentes, legitimando o redirecionamento da execução fiscal para o sócio-gerente".
3. É obrigação dos gestores das empresas manter atualizados os respectivos cadastros, incluindo os atos relativos à mudança de endereço dos estabelecimentos e, especialmente, referentes à dissolução da sociedade. A regularidade desses registros é exigida para que se demonstre que a sociedade dissolveu-se de forma regular, em obediência aos ritos e formalidades previstas nos arts. 1.033 à 1.038 e arts. 1.102 a 1.112, todos do Código Civil de 2002 - onde é prevista a liquidação da sociedade com o pagamento dos credores em sua ordem de preferência - ou na forma da Lei n. 11.101/2005, no caso de falência. A desobediência a tais ritos caracteriza infração à lei.
4. Não há como compreender que o mesmo fato jurídico "dissoluçãoirregular" seja considerado ilícito suficiente ao redirecionamento da execução fiscal de débito tributário e não o seja para a execução fiscal de débito não-tributário. "Ubi eadem ratio ibi eadem legis dispositio". O suporte dado pelo art. 135, III, do CTN, no âmbito tributário é dado pelo art. 10, do Decreto n. 3.078/19 e art. 158, da Lei n. 6.404/78 - LSA no âmbito não-tributário, não havendo, em nenhum dos casos, a exigência de dolo.
5. Precedentes: REsp. n. 697108 / MG, Primeira Turma, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, julgado em 28.04.2009; REsp. n. 657935 / RS , Primeira Turma, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, julgado em 12.09.2006; AgRg no AREsp 8.509/SC, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 4.10.2011; REsp 1272021 / RS, Segunda Turma, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 07.02.2012; REsp 1259066/SP, Terceira Turma, Rel. Min. Nancy Andrighi, DJe 28/06/2012; REsp.n. º 1.348.449 - RS, Quarta Turma, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 11.04.2013; AgRg no AG nº 668.190 - SP, Terceira Turma, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 13.09.2011; REsp. n.º 586.222 - SP, Quarta Turma, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 23.11.2010; REsp 140564 / SP, Quarta Turma, Rel. Min. Barros Monteiro, julgado em 21.10.2004.
6. Caso em que, conforme o certificado pelo oficial de justiça, a pessoa jurídica executada está desativada desde 2004, não restando bens a serem penhorados. Ou seja, além do encerramento irregular das atividades da pessoa jurídica, não houve a reserva de bens suficientes para o pagamento dos credores.
7. Recurso especial provido. Acórdão submetido ao regime do art. 543-C do CPC e da Resolução STJ 08/2008.
(REsp 1371128/RS, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 10/09/2014, DJe 17/09/2014)
Anexo I
RE n. 559.943/RS (REPERCUSSÃO GERAL)
DJ 26/09/2008
CONSTITUCIONALIDADE FORMAL DOS ARTIGOS 45 E 46 DA LEI N. 8.212/1991. ARTIGO 146, INCISO III, ALÍNEA B, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA TRIBUTÁRIAS. MATÉRIA RESERVADA À LEI COMPLEMENTAR. ARTIGOS 173 E 174 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO AO QUAL SE NEGA PROVIMENTO. 1. A Constituição da República de 1988 reserva à lei complementar o estabelecimento de normas gerais em matéria de legislação tributária, especialmente sobre prescrição e decadência, nos termos do art. 146, inciso III, alínea b, in fine, da Constituição da República. Análise histórica da doutrina e da evolução do tema desde a Constituição de 1946. 2. Declaração de inconstitucionalidade dos artigos 45 e 46 da Lei n. 8.212/1991, por disporem sobre matéria reservada à lei complementar. 3. Recepcionados pela Constituição da República de 1988 como disposições de lei complementar, subsistem os prazos prescricional e decadencial previstos nos artigos 173 e 174 do Código Tributário Nacional. 4. Declaração de inconstitucionalidade, com efeito ex nunc, salvo para as ações judiciais propostas até 11.6.2008, data em que o Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade dos artigos 45 e 46 da Lei n. 8.212/1991. 5. Recurso extraordinário ao qual se nega provimento.
Anexo II
Súmula Vinculante 8
São inconstitucionais o parágrafo único do artigo 5º do Decreto-Lei nº 1.569/1977 e os artigos 45 e 46 da Lei nº 8.212/1991, que tratam de prescrição e decadência de crédito tributário.
Anexo III
REsp n. 973.733/SC
PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543-C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, I, DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, § 4º, e 173, do CTN. IMPOSSIBILIDADE.
1. O prazo decadencial quinquenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) conta-se do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: REsp 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.11.2007, DJ 25.02.2008; AgRg nos EREsp 216.758/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.03.2006, DJ 10.04.2006; e EREsp 276.142/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ 28.02.2005).
2. É que a decadência ou caducidade, no âmbito do Direito Tributário, importa no perecimento do direito potestativo de o Fisco constituir o crédito tributário pelo lançamento, e, consoante doutrina abalizada, encontra-se regulada por cinco regras jurídicas gerais e abstratas, entre as quais figura a regra da decadência do direito de lançar nos casos de tributos sujeitos ao lançamento de ofício, ou nos casos dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação em que o contribuinte não efetua o pagamento antecipado (Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs.. 163/210).
3. O dies a quo do prazo quinquenal da aludida regra decadencial rege-se pelo disposto no artigo 173, I, do CTN, sendo certo que o "primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado" corresponde, iniludivelmente, ao primeiro dia do exercício seguinte à ocorrência do fato imponível, ainda que se trate de tributos sujeitos a lançamento por homologação, revelando-se inadmissível a aplicação cumulativa/concorrente dos prazos previstos nos artigos 150, § 4º, e 173, do Codex Tributário, ante a configuração de desarrazoado prazo decadencial decenal (Alberto Xavier, "Do Lançamento no Direito Tributário Brasileiro", 3ª ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2005, págs.. 91/104; Luciano Amaro, "Direito Tributário Brasileiro", 10ª ed., Ed. Saraiva, 2004, págs.. 396/400; e Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs.. 183/199).
5. In casu, consoante assente na origem: (i) cuida-se de tributo sujeito a lançamento por homologação; (ii) a obrigação ex lege de pagamento antecipado das contribuições previdenciárias não restou adimplida pelo contribuinte, no que concerne aos fatos imponíveis ocorridos no período de janeiro de 1991 a dezembro de 1994; e (iii) a constituição dos créditos tributários respectivos deu-se em 26.03.2001.
6. Destarte, revelam-se caducos os créditos tributários executados, tendo em vista o decurso do prazo decadencial quinquenal para que o Fisco efetuasse o lançamento de ofício substitutivo.
7. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543-C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008.
(REsp n. 973.733/SC, relator Ministro Luiz Fux, Primeira Seção, julgado em 12/8/2009, DJe de 18/9/2009.)
Anexo IV
AgRg no REsp n. 1.448.906/MG
TRIBUTÁRIO. EXECUÇÃO FISCAL. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PRAZO DECADENCIAL. PAGAMENTO A MENOR. APLICAÇÃO DO ART. 150, § 4º, DO CTN. EXEGESE DO ENTENDIMENTO FIRMADO NO RESP PARADIGMA 973.733/SC. SÚMULA 83/STJ.
1. A Primeira Seção, no julgamento do REsp 973.733/SC, Rel. Min. Luiz Fux, submetido ao rito dos recursos repetitivos (art. 543-C do CPC), firmou entendimento no sentido de que, nos tributos sujeitos a lançamento por homologação, para a fixação do prazo decadencial para a constituição do crédito tributário, considera-se apenas a existência, ou não, de pagamento antecipado, pois é esse o ato que está sujeito à homologação pela Fazenda Pública, nos termos do art. 150, e parágrafos, do CTN. Súmula 83/STJ.
2. "Não importa, para efeitos da contagem da decadência, perquirir as circunstâncias apresentadas pelo contribuinte para justificar o pagamento a menor. A dedução aqui considerada (creditamento indevido) nada mais é do que um crédito utilizado pelo contribuinte decorrente da escrituração do tributo apurado em determinado período (princípio danão cumulatividade), que veio a ser recusada (glosada) pela administração", de modo que "houve pagamento a menor de débito tributário em decorrência de creditamento indevido. Dessa forma, deve-se observar o disposto no art. 150, § 4º, do CTN" (AgRg nos EREsp 1.199.262/MG, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 26/10/2011, DJe 7/11/2011.).
Agravo regimental improvido.
(AgRg no REsp n. 1.448.906/MG, relator Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 17/12/2015, DJe de 5/2/2016.)
AnexoV
AgRg no REsp n. 1.523.619/MG
TRIBUTÁRIO. PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS À EXECUÇÃO FISCAL. ICMS. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PAGAMENTO A MENOR. OCORRÊNCIA DE FRAUDE. TERMO INICIAL. ART. 173, I, DO CTN. DECADÊNCIA NÃO CARACTERIZADA. CDA. VALIDADE. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 7/STJ.
1. Nos casos de tributos sujeitos a lançamento por homologação não declarados e não pagos, o prazo decadencial conta-se nos moldes determinados pelo art. 173, I, do CTN, impossível, assim, a sua acumulação com o prazo determinado no art. 150, § 4º, do CTN.
2. Contudo, uma vez efetuado o pagamento parcial antecipado pelo contribuinte, a decadência do direito de constituir o crédito tributário é regida pelo art. 150, § 4°, do CTN, salvo os casos de dolo, fraude ou simulação.
3. No caso em apreço, entendeu a Corte de origem que ocorreu fraude, razão pela qual, mesmo havendo pagamento a menor, afastou a aplicação do art. 150, § 4º, do CTN, fazendo incidir o art. 173, I, do mesmo diploma legal.
4. Não está caracterizada a decadência, já que não transcorreram mais de 5 anos entre primeiro dia do exercício seguinte (01/01/2002) àquele em que os lançamentos poderiam ter sido efetuados e a constituição definitiva do crédito (24/11/2006).
5. Quanto ao alegado vício de lançamento, a irresignação não comporta conhecimento ante o óbice da Súmula 7/STJ.
Agravo regimental improvido.
(AgRg no REsp n. 1.523.619/MG, relator Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 5/11/2015, DJe de 13/11/2015.)
Anexo VI
REsp n. 1.340.553/RS
RECURSO ESPECIAL REPETITIVO. ARTS. 1.036 E SEGUINTES DO CPC/2015 (ART. 543-C, DO CPC/1973). PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. SISTEMÁTICA PARA A CONTAGEM DA PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE (PRESCRIÇÃO APÓS A PROPOSITURA DA AÇÃO) PREVISTA NO ART. 40 E PARÁGRAFOS DA LEI DE EXECUÇÃO FISCAL (LEI N. 6.830/80).
1. O espírito do art. 40, da Lei n. 6.830/80 é o de que nenhuma execução fiscal já ajuizada poderá permanecer eternamente nos escaninhos do Poder Judiciário ou da Procuradoria Fazendária encarregada da execução das respectivas dívidas fiscais.
2. Não havendo a citação de qualquer devedor por qualquer meio válido e/ou não sendo encontrados bens sobre os quais possa recair a penhora (o que permitiria o fim da inércia processual), inicia-se automaticamente o procedimento previsto no art. 40 da Lei n. 6.830/80, e respectivo prazo, ao fim do qual restará prescrito o crédito fiscal. Esse o teor da Súmula n. 314/STJ: "Em execução fiscal, não localizados bens penhoráveis, suspende-se o processo por um ano, findo o qual se inicia o prazo da prescrição qüinqüenal intercorrente".
3. Nem o Juiz e nem a Procuradoria da Fazenda Pública são os senhores do termo inicial do prazo de 1 (um) ano de suspensão previsto no caput, do art. 40, da LEF, somente a lei o é (ordena o art. 40: "[...] o juiz suspenderá [...]"). Não cabe ao Juiz ou à Procuradoria a escolha do melhor momento para o seu início. No primeiro momento em que constatada a não localização do devedor e/ou ausência de bens pelo oficial de justiça e intimada a Fazenda Pública, inicia-se automaticamente o prazo de suspensão, na forma do art. 40, caput, da LEF. Indiferente aqui, portanto, o fato de existir petição da Fazenda Pública requerendo a suspensão do feito por 30, 60, 90 ou 120 dias a fim de realizar diligências, sem pedir a suspensão do feito pelo art. 40, da LEF. Esses pedidos não encontram amparo fora do art. 40 da LEF que limita a suspensão a 1 (um) ano. Também indiferente o fato de que o Juiz, ao intimar a Fazenda Pública, não tenha expressamente feito menção à suspensão do art. 40, da LEF. O que importa para a aplicação da lei é que a Fazenda Pública tenha tomado ciência da inexistência de bens penhoráveis no endereço fornecido e/ou da não localização do devedor. Isso é o suficiente para inaugurar o prazo, ex lege.
4. Teses julgadas para efeito dos arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015 (art. 543-C, do CPC/1973): 4.1.) O prazo de 1 (um) ano de suspensão do processo e do respectivo prazo prescricional previsto no art. 40, §§ 1º e 2º da Lei n. 6.830/80 - LEF tem início automaticamente na data da ciência da Fazenda Pública a respeito da não localização do devedor ou da inexistência de bens penhoráveis no endereço fornecido, havendo, sem prejuízo dessa contagem automática, o dever de o magistrado declarar ter ocorrido a suspensão da execução; 4.1.1.) Sem prejuízo do disposto no item 4.1., nos casos de execução fiscal para cobrança de dívida ativa de natureza tributária (cujo despacho ordenador da citação tenha sido proferido antes da vigência da Lei Complementar n. 118/2005), depois da citação válida, ainda que editalícia, logo após a primeira tentativa infrutífera de localização de bens penhoráveis, o Juiz declarará suspensa a execução.
4.1.2.) Sem prejuízo do disposto no item 4.1., em se tratando de execução fiscal para cobrança de dívida ativa de natureza tributária (cujo despacho ordenador da citação tenha sido proferido na vigência da Lei Complementar n. 118/2005) e de qualquer dívida ativa de natureza não tributária, logo após a primeira tentativa frustrada de citação do devedor ou de localização de bens penhoráveis, o Juiz declarará suspensa a execução.
4.2.) Havendo ou não petição da Fazenda Pública e havendo ou não pronunciamento judicial nesse sentido, findo o prazo de 1 (um) ano de suspensão inicia-se automaticamente o prazo prescricional aplicável (de acordo com a natureza do crédito exequendo) durante o qual o processo deveria estar arquivado sem baixa na distribuição, na forma do art. 40, §§ 2º, 3º e 4º da Lei n. 6.830/80 - LEF, findo o qual o Juiz, depois de ouvida a Fazenda Pública, poderá, de ofício, reconhecer a prescrição intercorrente e decretá-la de imediato; 4.3.) A efetiva constrição patrimonial e a efetiva citação (ainda que por edital) são aptas a interromper o curso da prescrição intercorrente, não bastando para tal o mero peticionamento em juízo, requerendo, v.g., a feitura da penhora sobre ativos financeiros ou sobre outros bens. Os requerimentos feitos pelo exequente, dentro da soma do prazo máximo de 1 (um) ano de suspensão mais o prazo de prescrição aplicável (de acordo com a natureza do crédito exequendo) deverão ser processados, ainda que para além da soma desses dois prazos, pois, citados (ainda que por edital) os devedores e penhorados os bens, a qualquer tempo - mesmo depois de escoados os referidos prazos -, considera-se interrompida a prescrição intercorrente, retroativamente, na data do protocolo da petição que requereu a providência frutífera.
4.4.) A Fazenda Pública, em sua primeira oportunidade de falar nos autos (art. 245 do CPC/73, correspondente ao art. 278 do CPC/2015), ao alegar nulidade pela falta de qualquer intimação dentro do procedimento do art. 40 da LEF, deverá demonstrar o prejuízo que sofreu (exceto a falta da intimação que constitui o termo inicial - 4.1., onde o prejuízo é presumido), por exemplo, deverá demonstrar a ocorrência de qualquer causa interruptiva ou suspensiva da prescrição.
4.5.) O magistrado, ao reconhecer a prescrição intercorrente, deverá fundamentar o ato judicial por meio da delimitação dos marcos legais que foram aplicados na contagem do respectivo prazo, inclusive quanto ao período em que a execução ficou suspensa.
5. Recurso especial não provido. Acórdão submetido ao regime dos arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015 (art. 543-C, do CPC/1973).
(REsp n. 1.340.553/RS, relator Ministro Mauro Campbell Marques, Primeira Seção, julgado em 12/9/2018, DJe de 16/10/2018.)
Anexo VIISúmula do CARF n. 11
“Não se aplica a prescrição intercorrente no processo administrativo fiscal.”
Anexo VIII
CARF - Acórdão n. 1402-001.761
Julgamento: 31/07/2014
DECADÊNCIA E PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE. 1. Do fato gerador até o lançamento tem-se prazo decadencial. Do lançamento à execução o prazo é de natureza prescricional. O lançamento resulta formalizado com a notificação do sujeito passivo. Apresentada impugnação, há suspensão de exigibilidade e, por consequência do prazo prescricional. A circunstância do exame da impugnação e do recurso não serem apreciados no prazo de 360 (trezentos e sessenta dias) não se constitui em hipótese que tenha reflexo no prazo prescricional. Ademais, em conformidade com a Súmula 11 do CARF não se aplica a prescrição intercorrente no processo administrativo fiscal. (...) Recurso Voluntário Parcialmente Provido. CARF, Ac. 1402-001.761, julg. 31/07/2014.
Anexo IX
Resp 1.201.993/ SP
PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. RECURSO REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA (AFETADO NA VIGÊNCIA DO ART. 543-C DO CPC/1973 - ART. 1.036 DO CPC/2015 - E RESOLUÇÃO STJ 8/2008). EXECUÇÃO FISCAL. DISSOLUÇÃO IRREGULAR. TERMO INICIAL DA PRESCRIÇÃO PARA O REDIRECIONAMENTO. DISTINGUISHING RELACIONADO À DISSOLUÇÃO IRREGULAR POSTERIOR À CITAÇÃO DA EMPRESA, OU A OUTRO MARCO INTERRUPTIVO DA PRESCRIÇÃO. ANÁLISE DA CONTROVÉRSIA SUBMETIDA AO RITO DO ART. 543-C DO CPC/1973 (ATUAL 1.036 DO CPC/2015)
1. A Fazenda do Estado de São Paulo pretende redirecionar Execução Fiscal para o sócio-gerente da empresa, diante da constatação de que, ao longo da tramitação do feito (após a citação da pessoa jurídica, a concessão de parcelamento do crédito tributário, a penhora de bens e os leilões negativos), sobreveio a dissolução irregular. Sustenta que, nessa hipótese, o prazo prescricional de cinco anos não pode ser contado da data da citação da pessoa jurídica.
TESE CONTROVERTIDA ADMITIDA 2. Sob o rito do art. 543-C do CPC/1973 (art. 1.036 e seguintes do CPC/2015), admitiu-se a seguinte tese controvertida (Tema 444):
"prescrição para o redirecionamento da Execução Fiscal, no prazo de cinco anos, contados da citação da pessoa jurídica".
DELIMITAÇÃO DA MATÉRIA COGNOSCÍVEL
3. Na demanda, almeja-se definir, como muito bem sintetizou o eminente Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, o termo inicial da prescrição para o redirecionamento, especialmente na hipótese em que se deu a dissolução irregular, conforme reconhecido no acórdão do Tribunal a quo, após a citação da pessoa jurídica. Destaca-se, como premissa lógica, a precisa manifestação do eminente Ministro Gurgel de Faria, favorável a que "terceiros pessoalmente responsáveis (art. 135 do CTN), ainda que não participantes do processo administrativo fiscal, também podem vir a integrar o polo passivo da execução, não para responder por débitos próprios, mas sim por débitos constituídos em desfavor da empresa contribuinte".
4. Com o propósito de alcançar consenso acerca da matéria de fundo, que é extremamente relevante e por isso tratada no âmbito de recurso repetitivo, buscou-se incorporar as mais diversas observações e sugestões apresentadas pelos vários Ministros que se manifestaram nos sucessivos debates realizados, inclusive por meio de votos-vista - em alguns casos, com apresentação de várias teses, nem sempre congruentes entre si ou com o objeto da pretensão recursal. PANORAMA GERAL DA JURISPRUDÊNCIA DO STJ SOBRE A PRESCRIÇÃO PARA O REDIRECIONAMENTO
5. Preliminarmente, observa-se que o legislador não disciplinou especificamente o instituto da prescrição para o redirecionamento. O Código Tributário Nacional discorre genericamente a respeito da prescrição (art. 174 do CTN) e, ainda assim, o faz em relação apenas ao devedor original da obrigação tributária.
6. Diante da lacuna da lei, a jurisprudência do STJ há muito tempo consolidou o entendimento de que a Execução Fiscal não é imprescritível. Com a orientação de que o art. 40 da Lei 6.830/1980, em sua redação original, deve ser interpretado à luz do art. 174 do CTN, definiu que, constituindo a citação da pessoa jurídica o marco interruptivo da prescrição, extensível aos devedores solidários (art. 125, III, do CTN), o redirecionamento com fulcro no art. 135, III, do CTN deve ocorrer no prazo máximo de cinco anos, contado do aludido ato processual (citação da pessoa jurídica). Precedentes do STJ: Primeira Seção: AgRg nos EREsp 761.488/SC, Rel. Min. Hamilton Carvalhido, DJe de 7.12.2009. Primeira Turma: AgRg no Ag 1.308.057/SP, Rel. Ministro Benedito Gonçalves, DJe 26.10.2010; AgRg no Ag 1.159.990/SP, Rel. Ministro Arnaldo Esteves Lima, DJe 30.8.2010; AgRg no REsp 1.202.195/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, DJe 22.2.2011; AgRg no REsp 734.867/SC, Rel. Ministra Denise Arruda, DJe 2.10.2008. Segunda Turma: AgRg no AREsp 88.249/SP, Rel. Ministro Humberto Martins, DJe 15.5.2012; AgRg no Ag 1.211.213/SP, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, DJe 24.2.2011; REsp 1.194.586/SP, Rel. Ministro Castro Meira, DJe 28.10.2010; REsp 1.100.777/RS, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 2.4.2009, DJe 4.5.2009.
7. A jurisprudência das Turmas que compõem a Seção de Direito Público do STJ, atenta à necessidade de corrigir distorções na aplicação da lei federal, reconheceu ser preciso distinguir situações jurídicas que, por possuírem características peculiares, afastam a exegese tradicional, de modo a preservar a integridade e a eficácia do ordenamento jurídico. Nesse sentido, analisou precisamente hipóteses em que a prática de ato de infração à lei, descrito no art. 135, III, do CTN (como, por exemplo, a dissolução irregular), ocorreu após a citação da pessoa jurídica, modificando para momento futuro o termo inicial do redirecionamento: AgRg no REsp 1.106.281/RS, Rel. Ministro Francisco Falcão, Primeira Turma, DJe 28.5.2009; AgRg no REsp 1.196.377/SP, Rel. Ministro Humberto Martins, DJe 27.10.2010.
8. Efetivamente, não se pode dissociar o tema em discussão das características que definem e assim individualizam o instituto da prescrição, quais sejam a violação de direito, da qual se extrai uma pretensão exercível, e a cumulação do requisito objetivo (transcurso de prazo definido em lei) com o subjetivo (inércia da parte interessada). TERMO INICIAL DA PRESCRIÇÃO PARA REDIRECIONAMENTO EM CASO DE DISSOLUÇÃO IRREGULAR PREEXISTENTE OU ULTERIOR À CITAÇÃO PESSOAL DA EMPRESA
9. Afastada a orientação de que a citação da pessoa jurídica dá início ao prazo prescricional para redirecionamento, no específico contexto em que a dissolução irregular sucede a tal ato processual (citação da empresa), impõe-se a definição da data que assinala o termo a quo da prescrição para o redirecionamento nesse cenário peculiar (distinguishing).
10. No rigor técnico e lógico que deveria conduzir a análise da questão controvertida, a orientação de que a citação pessoal da empresa constitui o termo a quo da prescrição para o redirecionamento da Execução Fiscal deveria ser aplicada a outros ilícitos que não a dissolução irregular da empresa - com efeito, se a citação pessoal da empresa foi realizada, não há falar, nesse momento, em dissolução irregular e, portanto, em início da prescrição para redirecionamento com base nesse fato (dissolução irregular).
11. De outro lado, se o ato de citação resultar negativo devido ao encerramento das atividades empresariais ou por não se encontrar a empresa estabelecida no local informado como seu domicílio tributário, aí, sim, será possível cogitar da fluência do prazo de prescrição para o redirecionamento, em razão do enunciado da Súmula 435/STJ ("Presume-se dissolvida irregularmente a empresa que deixar de funcionar no seu domicílio fiscal, sem comunicação aos órgãos competentes, legitimando o redirecionamento da execução fiscal para o sócio-gerente").
12. Dessa forma, no que se refere ao termo inicial da prescrição para o redirecionamento, em caso de dissolução irregular preexistente à citação da pessoa jurídica, corresponderá aquele: a) à data da diligência que resultou negativa, nas situações regidas pela redação originaldo art. 174, parágrafo único, I, do CTN; ou b) à data do despacho do juiz que ordenar a citação, para os casos regidos pela redação do art. 174, parágrafo único, I, do CTN conferida pela Lei Complementar 118/2005.
13. No tocante ao momento do início do prazo da prescrição para redirecionar a Execução Fiscal em caso de dissolução irregular depois da citação do estabelecimento empresarial, tal marco não pode ficar ao talante da Fazenda Pública. Com base nessa premissa, mencionam-se os institutos da Fraude à Execução (art. 593 do CPC/1973 e art. 792 do novo CPC) e da Fraude contra a Fazenda Pública (art. 185 do CTN) para assinalar, como corretamente o fez a Ministra Regina Helena, que "a data do ato de alienação ou oneração de bem ou renda do patrimônio da pessoa jurídica contribuinte ou do patrimônio pessoal do(s) sócio(s) administrador(es) infrator(es), ou seu começo", é que corresponde ao termo inicial da prescrição para redirecionamento. Acrescenta-se que provar a prática de tal ato é incumbência da Fazenda Pública.
TESE REPETITIVA 14. Para fins dos arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015, fica assim resolvida a controvérsia repetitiva:
(i) o prazo de redirecionamento da Execução Fiscal, fixado em cinco anos, contado da diligência de citação da pessoa jurídica, é aplicável quando o referido ato ilícito, previsto no art. 135, III, do CTN, for precedente a esse ato processual; (ii) a citação positiva do sujeito passivo devedor original da obrigação tributária, por si só, não provoca o início do prazo prescricional quando o ato de dissolução irregular for a ela subsequente, uma vez que, em tal circunstância, inexistirá, na aludida data (da citação), pretensão contra os sócios-gerentes (conforme decidido no REsp 1.101.728/SP, no rito do art. 543-C do CPC/1973, o mero inadimplemento da exação não configura ilícito atribuível aos sujeitos de direito descritos no art. 135 do CTN). O termo inicial do prazo prescricional para a cobrança do crédito dos sócios-gerentes infratores, nesse contexto, é a data da prática de ato inequívoco indicador do intuito de inviabilizar a satisfação do crédito tributário já em curso de cobrança executiva promovida contra a empresa contribuinte, a ser demonstrado pelo Fisco, nos termos do art. 593 do CPC/1973 (art. 792 do novo CPC - fraude à execução), combinado com o art. 185 do CTN (presunção de fraude contra a Fazenda Pública); e, (iii) em qualquer hipótese, a decretação da prescrição para o redirecionamento impõe seja demonstrada a inércia da Fazenda Pública, no lustro que se seguiu à citação da empresa originalmente devedora (REsp 1.222.444/RS) ou ao ato inequívoco mencionado no item anterior (respectivamente, nos casos de dissolução irregular precedente ou superveniente à citação da empresa), cabendo às instâncias ordinárias o exame dos fatos e provas atinentes à demonstração da prática de atos concretos na direção da cobrança do crédito tributário no decurso do prazo prescricional.
RESOLUÇÃO DO CASO CONCRETO 15. No caso dos autos, a Fazenda do Estado de São Paulo alegou que a Execução Fiscal jamais esteve paralisada, pois houve citação da pessoa jurídica em 1999, penhora de seus bens, concessão de parcelamento e, depois da sua rescisão por inadimplemento (2001), retomada do feito após o comparecimento do depositário, em 2003, indicando o paradeiro dos bens, ao que se sucedeu a realização de quatro leilões, todos negativos. Somente com a tentativa de substituição da constrição judicial é que foi constatada a dissolução irregular da empresa (2005), ocorrida inquestionavelmente em momento seguinte à citação da empresa, razão pela qual o pedido de redirecionamento, formulado em 2007, não estaria fulminado pela prescrição.
16. A genérica observação do órgão colegiado do Tribunal a quo, de que o pedido foi formulado após prazo superior a cinco anos da citação do estabelecimento empresarial ou da rescisão do parcelamento é insuficiente, como se vê, para caracterizar efetivamente a prescrição, de modo que é manifesta a aplicação indevida da legislação federal.
17. Tendo em vista a assertiva fazendária de que a circunstância fática que viabilizou o redirecionamento (dissolução irregular) foi ulterior à citação da empresa devedora (até aqui fato incontroverso, pois expressamente reconhecido no acórdão hostilizado), caberá às instâncias de origem pronunciar-se sobre a veracidade dos fatos narrados pelo Fisco e, em consequência, prosseguir no julgamento do Agravo do art. 522 do CPC/1973, observando os parâmetros acima fixados.
18. Recurso Especial provido.
(REsp n. 1.201.993/SP, relator Ministro Herman Benjamin, Primeira Seção, julgado em 8/5/2019, DJe de 12/12/2019.)
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