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DISFUNÇÕES DERMATOLÓGICAS APLICADAS À ESTÉTICA Mônica Kuplich Cicatrização e reparo tecidual Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Definir cicatrização. � Compreender as etapas da cicatrização. � Identificar os fatores que interferem na cicatrização. Introdução Neste capítulo, você vai estudar a cicatrização, um processo fisiológico dinâmico e sistêmico, que busca restaurar a continuidade dos tecidos em razão de lesões por agentes mecânicos, térmicos, químicos e bacterianos. Cicatrização A habilidade autorregenerativa é um elemento que sucede nos organismos vivos. A cicatrização é um processo natural, quando há um ferimento prove- niente de lesão, cirurgia ou trauma, provocando um reparo e uma restauração da pele, que é um processo celular e bioquímico, tendo como resultado final a restauração da superfície da pele e a reconstituição da derme. Na ferida, acontecem três processos envolvidos no reparo: a hemostasia, quando vasos se rompem, causando a hemorragia; a inflamação, a qual tem a função de proteger o tecido contra lesão; e a regeneração, a qual é a recons- tituição do tecido A cicatrização vai depender do tipo da lesão sofrida pelo tecido agredido. Durante a cicatrização normal, há estágios, sendo que cada um é marcado por uma série de interações entre as principais células, os fatores de crescimento e a matriz extracelular. Homeostasia O processo de cicatrização tem a intenção restabelecer a homeostasia tecidual. Essa fase depende da atividade plaquetária e da cascata de coagulação, tendo início após o surgimento da ferida. Após um dano tecidual, as alterações nas células endoteliais, a ruptura de vasos sanguíneos e o extravasamento de seus constituintes incitam compostos vasoativos a promoverem uma vasoconstrição imediata, visando diminuir a perda sanguínea para o espaço extravascular. Inflamação Lesões tissulares de natureza física, química ou biológica geram uma infla- mação aguda e desencadeiam de imediato uma série de eventos, como rubor, tumor, calor, dor e diminuição ou perda de função. Sendo que o rubor e o calor ocorrem em razão da vasodilatação, o edema em razão da saída de líquido do vaso para os tecidos e a dor é causada pela liberação de substâncias na infla- mação, gerando irritação nervosa. Os agentes inflamatórios são as infecções, o trauma, a necrose tecidual, os corpos estranhos e as reações imunológicas. Os episódios iniciais do processo de reparo estão voltados para o tamponamento desses vasos, sendo que os tampões são ricos em fibrina. A inflamação é caracterizada por alterações vasculares. Alguns vasos sanguíneos próximos às lesões sofrem vasoconstrição, seguida de vasodila- tação, elevação do fluxo sanguíneo e aumento do número de células de defesa leucócitos. Nessas células, são formadas as fibrinas para estancar o sangue. As substâncias bioquímicas são secretadas para levar células ao local da ferida. As plaquetas são responsáveis pela coagulação, a qual ocorre quando os vasos danificados trombosam. O coágulo é formado por colágeno, plaquetas e trom- bina, que servem de reservatório proteico para síntese de citocinas e fatores de crescimento, aumentando seus efeitos. As células danificadas liberam os mastócitos, que secretam histamina, causando edema e vermelhidão. Durante a fase inflamatória, a liberação de fatores de crescimento por plasma, fibroblastos e macrófagos/neutrófilos ativa os queratinócitos locali- zados nas margens e no interior do leito da ferida. As células inflamatórias têm a função fagocitária de bactérias, fragmentos celulares e corpos estranhos e produzem fatores de crescimento, que preparam a ferida para a fase proli- ferativa, quando fibroblastos e células endoteliais também serão recrutados. As plaquetas são efetivas à formação do tampão hemostático e secretam múltiplos mediadores, incluindo fatores de crescimento, liberados na área lesada. Induzidas pela trombina, ainda sofrem a degranulação plaquetária e Cicatrização e reparo tecidual2 liberam vários fatores de crescimento, como o derivado de plaquetas (PDGF), o de crescimento transformante-β (TGF-β), o de crescimento epidérmico (EGF), o de crescimento transformante-α (TGF-α) e o de crescimento de células endoteliais (VEGF), além de glicoproteínas adesivas, como a fibronectina e a trombospondina, que são importantes constituintes da matriz extracelular provisória. Durante o estágio inflamatório, há o processo celular para controlar a infecção, que é causada por agente biológico. A inflamação aguda pode ser classificada de acordo com o exsudato en- contrado na inflamação: � Serosa: apresenta um líquido aquoso e pobre em proteína, como o líquido encontrado na bolha de uma queimadura. � Fibrinosa: apresenta grande quantidade da proteína fibrinogênio, res- ponsável pela formação da fibrina. O exsudato fibrinoso se desprende após o epitélio se regenerar. � Purulenta ou supurativa: apresenta um líquido amarelado, denomi- nado pus. Essa inflamação recebe o nome de pústula, quando ocorre na epiderme, furúnculo, quando ocorre na derme, eantraz, quando ocorre no tecido subcutâneo. � Hemorrágica: é caracterizada pelo aparecimento de grande quantidade de hemácias no exsudato. A inflamação crônica é considerada de duração prolongada, na qual a inflamação, a destruição tecidual e a tentativa de reparação ocorrem ao mesmo tempo. Recebe a nomenclatura de acordo com o local inflamado mais o sufixo ite, como a gastrite, que é a inflamação no estômago. Permeabilidade vascular e edema Em condições normais, há uma movimentação de fluidos de dentro dos vasos para o espaço extravascular. Esses fluidos são absorvidos pela circulação linfática, condição conhecida como Lei de Starling, pois esse princípio reconhece que o gradiente de pressão vascular depende das diferentes pressões hidrostáticas e oncóticas entre os meios intra e extravasculares. Sendo assim, o aumento da pressão hidrostática ou a diminuição da pressão oncótica proporcionam o extra- 3Cicatrização e reparo tecidual vasamento do fluido das paredes vasculares e, por muitas vezes, há um excesso de fluidos no meio extravascular, impedindo os vasos linfáticos de absorvê-los, causando um acúmulo de líquido nessa região, denominado de edema, o qual pode ter características inflamatória de acordo com as alterações na anatomia e na função da microcirculação, gerando acúmulo de líquido nos tecidos. O aumento da permeabilidade microvascular é uma etapa importante, que permite, por meio do extravasamento de proteínas, citocinas e elementos celulares, a formação de matriz extracelular provisória necessária à migração e à proliferação das células endoteliais. Reparação tecidual A fase proliferativa é composta de três eventos importantes que sucedem o período de maior atividade da fase inflamatória: neoangiogênese, fibroplasia e epitelização. Depois que acontece a agressão dos tecidos, o processo infla- matório (já descrito anteriormente) e a limpeza do ferimento, se inicia a fase da reparação, na qual acontece a reconstrução dos tecidos, podendo ou não ocorrer a regeneração, e a substituição do tecido conjuntivo ou de células mortas por um tecido fibroso. A proliferação é a fase responsável pelo fechamento da lesão, compreen- dendo: reepitelização, que se principia horas após a lesão, com a circulação das células epiteliais procedentes da margem e dos apêndices epidérmicos localizados no centro da lesão; e fibroplasia e angiogênese, que compõem o chamado tecido de granulação responsável pela ocupação do tecido lesionado cerca de quatro dias após a lesão. A reepitelização é o recobrimento da ferida por um novo epitélio e versa na migra- ção e na proliferação dos queratinócitos a partir da periferia da lesão. Nessa fase, os fibroblastos se proliferam, originando a fibroplasia por meio da ação de citocinase. A angiogênese provoca a formação de novos vasos sanguíneos, a partirde vasos preexistentes. A epitelização ocorre nas primeiras 24 a 36 horas após a lesão, e fatores de crescimento epidérmicos estimulam a proliferação de células do epitélio. Na pele, os ceratinócitos são capazes de sintetizar diversas citocinas que estimulam a cicatrização das feridas cutâneas. Nessa fase, o fechamento da lesão se inicia por volta do terceiro dia após a lesão e pode perdurar por duas a três semanas. Cicatrização e reparo tecidual4 As células de reparação são originadas de fontes adjacentes à lesão e se diferenciam no mesmo tecido em que tiveram origem. A reparação envolve a regeneração de células especializadas por meio da proliferação das sobreviventes, a formação do tecido granuloso e a reconstrução teci- dual, sendo que o resultado está vinculado ao tipo do tecido lesionado e à extensão da ferida. O fibroblasto produz colágeno, fibronectina, elastina e substância fun- damental. Os fibroblastos do tecido de granulação se transformam em miofibroblasto, o qual permite que as células centralizem e migrem e tem um papel importante na contração do ferimento. A formação do tecido de granulação envolve o acúmulo de macrófagos, a proliferação de fibroblastos, a deposição da matriz e a angiogênese. Os fibroblastos causam a retração da ferida. A matriz extracelular serve como substrato para a migração dos macrófagos, células antigênicas e outros fibroblastos. A reorganização da matriz extracelular, que se transforma de provisória em definitiva, reflete a intensidade dos fenômenos que ocorreram, bem como o grau de equilíbrio ou desequilíbrio entre eles. Há uma migração das células epidérmicas não danificadas, das extre- midades do ferimento, ocorrendo uma modificação nas células basais. As quais perdem sua ligação com outras células ao retrair. A fase da proliferação inicia, a taxa celular aumenta e as células constituídas de glicoproteína fibronectina e colágeno se movem sobre uma superfície. A fibronectina é produzida por queratinócitos. A regeneração é a substituição de células perdidas por células semelhantes, estrutural e funcionalmente completa. A regeneração depende da nobreza das células, que podem ser classificadas como: � células lábeis se proliferam por toda a vida, como células da epiderme e medula óssea. � células estáveis se multiplicam e cessam ou diminuematé a adolescência, como células dos rins, cartilagens e ossos. � células permanentes (perenes) não têmcapacidade de se dividir,como células nervosas. A remodelagem é a última fase de cicatrização. Acontece a maturação da matriz extracelular, com síntese e deposição de colágeno tipo I, e perdura de meses a anos. É responsável pelo aumento da força de tensão e pela diminui- ção do tamanho da cicatriz e do eritema. É o período no qual os elementos reparativos da cicatrização são transformados para tecido maduro de carac- 5Cicatrização e reparo tecidual terísticas bem diferenciadas. Durante a remodelagem ocorre a redução da atividade celular e do número de vasos sanguíneos, além de perda do núcleo dos fibroblastos, levando à maturação da cicatriz. Tipos de cicatrização Existem dois tipos de cicatrização: a cicatrização por primeira intenção e a cicatrização por segunda intenção. A diferença básica entre esses dois tipos é a intensidade (de organização, de reparação, de formação de cicatriz). Um exemplo clássico de cicatrização por primeira intenção é quando é feito um corte na pele durante uma cirurgia e os bordos da ferida são aproximados (por exemplo, com pontos). A perda de tecido nesse caso é muito pequena, e daí há menos organização e menos formação de tecido conjuntivo. Uma cicatrização por segunda intenção é quando a ferida é muito grande e os bordos da ferida não são aproximados, assim, vai haver mais organização, mais deposição de colágeno e mais formação de cicatriz. Fatores que influem na cicatrização � Fatores nutricionais – indivíduos malnutridos têm dificuldade em formar cicatriz em razão da ausência de certas proteínas, metais e vitaminas, os quais são importantes para a síntese de colágeno. � Pele envelhecida leva mais tempo para cicatrizar. � Medicação pode interferir na cicatrização de feridas, produzindo efeitos negativos sobre a pele, tornando-a mais suscetível ao surgimento de lesões e outras patologias cutâneas. O uso de anticoagulantes e glico- corticoides atrasam a cicatrização. � Isquemia tecidual dificulta a estimulação da proliferação dos fibroblastos e a síntese de colágeno. � Infecção, que tem a presença de corpos estranhos, causando uma in- flamação e infecção persistente. � Diabetes, porque causa isquemia e aumenta a susceptibilidade a infecções. � Fluxo de sangue deficiente para a ferida aumenta o risco de infecção, retardando a taxa de cura, e reduz a perfusão tecidual, aumentando a hipóxia, interferindo no metabolismo e no crescimento celular e prejudicando a cicatrização. Cicatrização e reparo tecidual6 O tratamento de feridas procura o fechamento rápido da lesão, obtendo uma cicatriz funcional e esteticamente satisfatória. 7Cicatrização e reparo tecidual BORGES, F. S. Dermato-funcional: modalidades terapêuticas nas disfunções estéticas. 2. ed. São Paulo: Phorte, 2010. DÂNGELO, J. G.; FATTINI, C. A. Anatomia humana: sistêmica e segmentar. 3. ed. São Paulo: Atheneu, 2007. 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