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W BA 05 73 _V 2. 0 METODOLOGIAS ATIVAS E TAXONOMIA DE BLOOM 2 Tayra Carolina Nascimento Aleixo Londrina Editora e Distribuidora Educacional S.A. 2023 METODOLOGIAS ATIVAS E TAXONOMIA DE BLOOM 1ª edição 3 2023 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR Homepage: https://www.cogna.com.br/ Diretora Sr. de Pós-graduação & OPM Silvia Rodrigues Cima Bizatto Conselho Acadêmico Alessandra Cristina Fahl Ana Carolina Gulelmo Staut Camila Braga de Oliveira Higa Camila Turchetti Bacan Gabiatti Giani Vendramel de Oliveira Gislaine Denisale Ferreira Henrique Salustiano Silva Mariana Gerardi Mello Nirse Ruscheinsky Breternitz Priscila Pereira Silva Coordenador Giani Vendramel de Oliveira Revisor Bruna Braga de Paula Editorial Beatriz Meloni Montefusco Carolina Yaly Márcia Regina Silva Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)_____________________________________________________________________________ Aleixo, Tayra Carolina Nascimento Metodologias ativas e taxonomia de Bloom/ Tayra Carolina Nascimento Aleixo, – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A 2023. 32 p. ISBN 978-65-5903-294-5 1. Aprendizagem 2. Teorias 3. Estratégias I. Título. CDD 153.152 _____________________________________________________________________________ Raquel Torres – CRB 8/10534 A366m © 2023 por Editora e Distribuidora Educacional S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. 4 SUMÁRIO Apresentação da disciplina __________________________________ 05 Teorias de aprendizagem ____________________________________ 07 Metodologias ativas _________________________________________ 18 Metodologia da problematização e PBL _____________________ 30 Taxonomia de Bloom ________________________________________ 41 METODOLOGIAS ATIVAS E TAXONOMIA DE BLOOM 5 Apresentação da disciplina No primeiro tema desta disciplina, você terá a oportunidade de estudar as principais teorias de aprendizagem, desde o behaviorismo clássico até as teorias socioculturais, e compreender suas diferentes abordagens teórico-pedagógicas. Além disso, você vai conhecer as metodologias ativas, como a sala de aula invertida e o ensino híbrido, e como elas podem ser aplicadas em diferentes contextos de aprendizagem. Já no segundo conteúdo, serão apresentadas as inteligências múltiplas, ampliando o entendimento a respeito de como aplicar diferentes metodologias para diferentes grupos de pessoas. No terceiro conteúdo programático, você vai conhecer o Problem- Based Learning, uma metodologia que se baseia na problematização e busca estimular a reflexão e a resolução de problemas em grupo. Você também estudará as características da proposta curricular de Problem- Based Learning, e suas possibilidades de aplicação no contexto brasileiro. Por fim, no quarto conteúdo programático, você vai estudar a Taxonomia de Bloom, uma das principais referências em objetivos de aprendizagem. Você compreenderá a sua estrutura, as alterações que foram feitas na sua revisão, e como utilizar a tabela bidimensional da Taxonomia de Bloom para formular objetivos gerais e específicos. Além dos conteúdos programáticos já mencionados, essa disciplina também proporciona possibilidades de aplicação prática no cotidiano da sala de aula. Por meio das metodologias ativas, o professor pode estimular a participação ativa dos alunos, fomentando o trabalho em equipe e a resolução de problemas reais. Com o Problem-Based Learning, 6 por exemplo, é possível desenvolver habilidades socioemocionais, como a capacidade de trabalhar em grupo, a comunicação e a liderança. Já a Taxonomia de Bloom oferece um quadro conceitual para a definição de objetivos de aprendizagem, ajudando o professor a formular objetivos específicos e mensuráveis para cada aula ou atividade. Esses objetivos, por sua vez, podem ser utilizados para avaliar o progresso dos alunos e ajustar o plano de ensino para melhor atender às necessidades individuais dos estudantes. Portanto, ao concluir essa disciplina, você estará preparado para utilizar diferentes teorias de aprendizagem e metodologias ativas em sala de aula, enriquecendo sua prática pedagógica e proporcionando uma experiência mais significativa e engajadora aos seus alunos. 7 Teorias de aprendizagem Autoria: Tayra Carolina Nascimento Aleixo Leitura crítica: Bruna Braga de Paula Objetivos • Resgatar as principais vertentes teóricas que explicam o processo de aprendizagem; • Delinear diferentes abordagens teórico-pedagógicas com base nessas teorias; • Refletir as atuais práticas pedagógicas mediante referencial teórico- comportamentalismo, cognitivismo e humanismo. 8 1. Contexto e considerações iniciais O processo de aprendizagem parece ter despertado atenção da ciência logo nos primórdios da Era Antropocêntrica, época na qual o homem passa a ser considerado o centro das coisas e o método científico começa a se desenvolver (MARCONDES, 2004). Atualmente, estaríamos vivendo a Era Tecnocêntrica, na qual a máquina passa a ocupar a posição de centralidade supracitada. Essa transição entre as duas épocas, antropocêntrica e tecnocêntrica, coincide com o surgimento da televisão, o terceiro meio de comunicação de massa, precedido pelo jornal e rádio (MARCONDES, 2004). Esses meios de comunicação de massa passam a pautar, segundo a hipótese do Agenda Setting (teoria que descreve a capacidade dos meios de comunicação de influenciar a importância que o público atribui a determinados temas, questões e problemas), as conversas das pessoas, uma vez que o contato entre elas passa a ser cada vez mais sistemático e randomizado (MARTINO, 2013). Em outras palavras, se nos tempos feudais as pessoas lidavam basicamente com algumas dezenas de pessoas ao longo de todo a vida, agora, nas grandes cidades, esbarramos todos os dias com pessoas que não conhecemos. Ao ter o contato com a mídia ampliado por toda tecnologia à disposição, nosso processo de aprendizagem se torna cada vez mais mediado. Essa é uma constatação trabalhada, por exemplo, no conceito de ensino híbrido (metodologias que combinam sala de aula com ambientes virtuais) (BACICH; NETO; TREVISANI, 2015). A pressuposição feita por Martín-Barbero (2011, p. 126) acerca do aprendizado mediado vem a seguir: A escola deixou de ser o único lugar de legitimação do saber, pois existe uma multiplicidade de saberes que circulam por outros canais, difusos e descentralizados. Essa diversificação e difusão do saber, fora da escola, é 9 um dos desafios mais fortes que o mundo da comunicação apresenta ao sistema educacional (MARTÍN-BARBERO, 2011, p. 126) Levando a fundo a presente argumentação, a linha teórica chamada conectivismo, considerada uma das perspectivas mais jovens para explicar os processos de aprendizagem, chega a imprimir a estrutura reticular na estrutura cognitiva humana, reconhecendo a construção do conhecimento como o estabelecimento de nós especializados por meio de fontes diversas de informação (jornais, sites, livros, pessoas, banco de dados, televisão ou qualquer outra fonte de informação) (SIEMENS, 2006). Apesar de comentar alguns desdobramentos teóricos contemporâneos acerca do processo de aprendizagem, se faz necessário conhecer as vertentes teóricas que permitiram este caminho. Os próximos subitens se ocuparão de trazer detalhes sobre as principais delas. 2. Teorias da aprendizagem As teorias da aprendizagem buscaram, ao longo do tempo, explicar o fenômeno da aprendizagem, seja pela observação de comportamentos, como também por estruturasmentais que organizam tal processo. Nas palavras de Moreira (2022, p. 15), “uma teoria é uma tentativa humana de sistematizar uma área de conhecimento, uma maneira particular de ver as coisas, de explicar e prever observações, de resolver problemas”. No campo da educação, a falta de consenso a respeito do termo “aprendizagem” endereça enorme desafio para tal teorização – as definições sobre ele variam desde a aquisição de conhecimento e resolução de problemas até mudança comportamental e construção de novas estruturas cognitivas (MOREIRA, 2022). Vale destacar que a linha teórica que influenciou o mundo ocidental a partir dos anos 1930 ficou conhecida como behaviorismo 10 (ou comportamentalismo) e acreditava na credibilidade dos comportamentos observáveis. Já nas teorias cognitivistas, o comportamento cede lugar para o processo cognitivo, apesar de alguns teóricos serem considerados de transição entre uma vertente e outra, pois trabalhavam com observação de comportamentos como também explicando os caminhos pelos quais passam a cognição humana no processo de aprendizagem. As teorias humanistas, por sua vez, buscam reclamar a integralidade do indivíduo enquanto sujeito inscrito na lógica social, cultural e histórica da humanidade. Aqui, o indivíduo educado seria aquele que aprendeu a aprender e pode continuar desenvolvendo seu conhecimento autonomamente. A título de síntese, segue quadro-resumo com os principais enfoques teóricos que buscaram compreender o processo de ensino-aprendizagem. Figura 1 – Principais enfoques teóricos à aprendizagem e ao ensino Fonte: adaptada de Moreira (2022). 11 2.1 Teoria Behaviorista Behaviorismo, ou comportamentalismo, refere-se aos estudos empíricos sobre o comportamento observável. Tal perspectiva se opunha, no primeiro momento, ao mentalismo predominante na época de sua concepção (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). As palavras-chave dessa teoria são: estímulo, resposta, comportamento, condicionamento, reforço positivo, objetivo comportamental. A ideia- chave é: o comportamento é controlado por suas consequências (MOREIRA, 2022). Apesar de ainda serem empreendidas pesquisas behavioristas na academia, o behaviorismo é encarado como fundamentação teórica ultrapassada. Ou seja, de nada adianta adotar novas tecnologias na educação se essas se baseiam em princípios behavioristas (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). O behaviorismo metodológico foi inaugurado por John Watson (1878- 1958) e ganhou popularidade ainda nos anos de 1930, no mundo ocidental. Sua maior influência foi o cientista Ivan Pavlov (1849-1936) com seus estudos sobre condicionamento feito com cães (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). Depois da vertente metodológica, o behaviorismo radical, concebido por Burrhus Frederic Skinner (1904-1990), resgatava alguns pressupostos da perspectiva mentalista, negando a face determinista do behaviorismo metodológico. Além disso, para Watson, o homem funcionaria como uma “tábula rasa” ao nascer, sendo possível desenvolver qualquer competência ou habilidade por meio do processo de estímulos e respostas (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). Skinner atualiza a teoria behaviorista, acrescentando na equação estímulo-resposta condicionantes que poderiam servir como balizadores 12 do comportamento esperado. Ou seja, com reforços ou punições seria possível condicionar o comportamento humano com base no mecanismo de novas escolhas a partir das consequências (SKINNER, 1972). Por fim, vale relembrar o behaviorista Edward Thorndike (1874-1949). Sua contribuição para o terreno de estudos do comportamento se refere ao reforço. Com a Lei do Efeito, o comportamento poderia ser reforçado por meio de consequências satisfatórias, ao passo que, se o comportamento for seguido de estados chamados irritantes, ele poderia ser levado à extinção (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). Portanto, a principal característica que permeia os estudos behavioristas seria o objeto de pesquisa, no caso, o próprio comportamento observável. E é exatamente nessa superficialidade que reside a maior crítica voltada para esta teoria. 2.1.1 Teorias de transição entre o behaviorismo clássico e o cognitivismo Para se desenvolver, a ciência trabalha com o resgate de autores e teorias para contrapor, ampliar ou corroborar suas visões. Nesse sentido, pode haver teorias entendidas como de transição entre uma linha e outra de trabalho. É o caso da transição entre as teorias behavioristas e cognitivistas. Os teóricos desse período tanto consideravam alguns pressupostos do comportamentalismo como também sugeriram novos olhares cognitivistas para entender o processo de aprendizagem. Talvez a primeira teoria de processamento de informações tenha sido formulada por Robert Gagné (1916-2002). Tal autor entendia que os estímulos poderiam servir como inputs no processo de desempenho (output) do indivíduo (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). 13 Já o autor Edward Thorndike (1886-1959) traz uma abordagem intencional do behaviorismo. Em outras palavras, as intenções dos envolvidos no processo de aprendizagem poderiam servir como guia para estimular o desenvolvimento cognitivo dos envolvidos (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). A Teoria da Gestalt, por sua vez, foi concebida pelos psicólogos alemães Kurt Koffka (1886-1940), Max Wertheimer (1880-1943) e Wolfgang Koöhler (1887-1967). Essa teoria recusa o estruturalismo da época e propõe que, ao contrário do que acreditava os estruturalistas, conhecer as partes não significa conhecer o todo (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). Figura 2 – O que você enxerga na figura a seguir: um vaso ou dois rostos? Fonte: depositphotos.com. A interpretação e a percepção são mecanismos básicos para a Teoria da Gestalt e acabam configurando o processo de aprendizagem. Por exemplo, mediante imagens com ilusões de ótica, a partir da percepção, o indivíduo empreende uma interpretação que pode escapar da realidade objetiva. 14 O próximo subitem traz, finalmente, a teoria cognitivista após os desenvolvimentos de sua transição entre as vertentes behavioristas clássicas e o cognitivismo propriamente dito. 2.2 Teorias Cognitivistas São identificados três tipos de aprendizagens: afetiva, cognitiva e psicomotora. A maior parte das teorias de aprendizagem problematizam a aprendizagem cognitiva, pois ela serve como base para o desenvolvimento dos outros dois tipos (MOREIRA, 1999). As teorias cognitivistas adentram o cenário educacional a partir dos anos 1980. Para seus adeptos, o significado apreendido da realidade não corresponderia, necessariamente, à sua versão objetiva. Isso quer dizer que a subjetividade influencia diretamente a decodificação da realidade por parte do indivíduo (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). Os conceitos básicos dessa teoria são: esquema de assimilação, signo/instrumento, conceito-em-ação, modelo mental, subsunçor, construto pessoal. A ideia-chave é que o conhecimento é construído (construtivismo) (MOREIRA, 2022). Para Jean Piaget (1896-1980) o desenvolvimento cognitivo deveria ser considerado nos seguintes âmbitos: sensório-motor, pré-operacional e operacional-crítico. O indivíduo aprenderia por meio dos mecanismos de assimilação (recorrendo ao repertório já existente no sistema cognitivo) e de acomodação (na falta de elementos para assimilação, o cérebro busca acomodar as novas informações com outros elementos cabíveis que podem auxiliar no aprendizado) (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). Desse modo, deve haver pontes entre o repertório do estudante e os novos saberes, provocando desequilíbrios dosados no sistema cognitivo do indivíduo. No entanto, o autor adverte que esses desequilíbrios 15 não podem ser tão grandes a ponto de os estudantes recorrerem ao mecanismo de acomodação (MOREIRA, 1999). Essas pontes, para o psicólogo estadunidense David Ausubel (1918- 2008), devem ser expressas na utilização de subsunçores (estruturas de conhecimentos específicos), que poderiam auxiliar o indivíduoem seu processo de aprendizagem. Com o estabelecimento de hierarquias de conceitos, os subsunçores funcionariam como elementos introdutórios que poderiam embasar o novo conhecimento a ser compreendido (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). Não obstante, o que Lev Semenovitch Vygotsky (1896-1934) chama de zona de desenvolvimento proximal funcionaria como um auxílio mínimo necessário do professor em relação à pessoa estudante, para que esta possa interiorizar novos signos ou instrumentos. A finalidade do aprendizado seria internalizar também as regulações externas como forma de autorregulação para uma vida em sociedade (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). Os elementos voltados para a regulação estariam vinculados aos processos histórico e cultural, alterando, de tempos em tempos, o conjunto de signos e instrumentos necessários para a sobrevivência em sociedade (MELLO, 2004). Ou seja, a cada nova geração são constituídas novas aptidões que são inseridas no recorte temporal em questão. James V. Wertsch, teórico da escola sociocultural, aprofunda-se na teoria de Vygotsky e identifica três grandes subdivisões presentes em toda obra do autor: a) funções mentais superiores derivam da vida social; b) confiança no método genético e evolutivo; c) ação humana mediada por signos e instrumentos. Apesar de o segundo item ser o mais utilizado por cientistas no ocidente, Wertsch acredita que o elemento crucial se encontra no terceiro item, desenvolvendo, daí, a zona de aproximação sociocultural, em 1995 (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). 16 Já George Kelly (1905-1967) adiciona o entendimento de que a realidade é construída por meio de construtos pessoais. Ou seja, mediante o mecanismo de antecipação a pessoa já calçaria sua interpretação no momento seguinte, variando, a nível individual, acerca da permeabilidade desses construtos propriamente ditos (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). Para concluir, o autor Jerome Bruner (1915-2016) pauta sua argumentação na honestidade. Para ele, esse valor pode promover o aprendizado nas escolas, em especial, quando o currículo propõe o contato com conceitos que a todo momento são resgatados em diferentes níveis de profundidade, fomentando a apreensão deste saber (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). 2.3 Teorias Humanistas As teorias humanistas buscam reconhecer o ser humano em sua integralidade. O objetivo da educação seria o desenvolvimento pessoal do indivíduo, tornando-o um ser atuante em sua realidade social e cultural (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). As ideias básicas dessa teoria são: aprender a aprender, liberdade, ensino centrado no estudante, crescimento pessoal, consciência crítica, autonomia, diálogo e amor. A ideia central é de que os pensamentos, sentimentos e ações estão integrados (MOREIRA, 2022). Um dos expoentes dessa linha de pensamento é o psicólogo estadunidense Carl Rogers (1902-1987). O âmbito afetivo se relaciona diretamente com a capacidade de aprender, e o ambiente escolar deve ser sustentado por uma postura essencialmente empática. Além disso, o professor deve se mostrar como uma pessoa real, como outra qualquer ali, em meio aos educandos (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). Alinhada ao conectivismo nesse determinado ponto, a teoria humanista prevê que o sujeito educado é aquele que aprendeu a aprender. Em 17 qualquer situação, poderá revestir seu conhecimento com novos saberes, independentemente da situação das circunstâncias de acordo com a situação vigente (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). A imersão do educando no contexto próximo de sua realidade é um dos requisitos para o processo de alfabetização proposto por Paulo Freire (1921-1997). Seu programa não previa o estabelecimento prévio de conteúdos, mas era, sim, construído com os alfabetizandos, motivando- os a se tornarem autores de suas próprias histórias (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011). Independentemente da fundamentação teórica do programa educacional, o mais importante é que ele seja eficaz e traga um ensino de qualidade, e que seja coerente para o recorte temporal no qual os educandos estejam imersos. Referências BACICH, I.; NETO, A. T.; TREVISANI, F. M. Ensino híbrido: personalização e tecnologia na educação. São Paulo: Penso, 2015. MARCONDES FILHO, C. Sociedade Tecnológica. São Paulo: Scipione, 2004. MARTÍN-BARBERO, J. Desafios Culturais: da Comunicação à Educomunicação. In: CITELLI, A. O.; COSTA, M. C. C. (org.). Educomunicação: Construindo uma Nova Área de Conhecimento. São Paulo: Paulinas, 2011. p. 121-134. MARTINO, L. M. S. Teoria da Comunicação: Ideias, Conceitos e Métodos. 4. ed. rev. e atual. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. MELLO, S. A. A Escola de Vygotsky. In: CARRARA, K. (org.). Introdução à Psicologia da Educação: Seis Abordagens. São Paulo: Avercamp, 2004. p. 135-155. MOREIRA, M. A. Teorias da aprendizagem. 3. ed. ampl. Rio De Janeiro: LTC, 2022. MOREIRA, M. A. Teorias da Aprendizagem. São Paulo: EPU, 1999. OSTERMANN, F.; CAVALCANTI, C. J. de H. Teorias de Aprendizagem. Porto Alegre: Evangraf; UFRGS, 2011. SIEMENS, G. Knowing Knowledge. [S. l.]: Lulu.com, 2006. SKINNER, B. F. Tecnologia do Ensino. São Paulo: Herder, 1972. 18 Metodologias ativas Autoria: Tayra Carolina Nascimento Aleixo Leitura crítica: Bruna Braga de Paula Objetivos • Delinear as metodologias ativas dentro do atual contexto educacional; • Comentar sobre as inteligências múltiplas; • Apresentar a noção de ensino híbrido e suas possibilidades; • Discorrer acerca de comportamentos de aprendizagem emergentes e tecnologias a favor da personalização do ensino. 19 1. Inteligências múltiplas O processo de aprendizagem é complexo. Nas palavras de Christensen, Horn e Johnson (2012, p. 4) “a maioria de nós sabe, intuitivamente, que todos aprendemos de forma diferente – por métodos diferentes, em diferentes estilos e com ritmos diferentes”. Essa complexa multiplicidade é apresentada desde o momento do nascimento. Cada pessoa é singular em “sua morfologia, em sua anatomia, em sua filosofia, em seu temperamento, em seu comportamento e em sua inteligência”, ou seja, existem dimensões que nos tornam indivíduos únicos que buscam autonomia de ser e existir (ROSINI, 2007, p. 60). E isso acaba interferindo diretamente no processo de ensino-aprendizagem. Sob o ângulo da educação, e na visão do psicólogo Howard Gardner (1993; 2001), a inteligência deve ser encarada como plural, ou seja, como inteligências que podem ser aplicadas em mais de um âmbito da vida humana e não apenas aquelas privilegiadas pelo ensino formal. No lugar dessa visão reducionista, o ser humano poderia desenvolver inteligências que fogem daquelas desenvolvidas no sistema escolar (inteligência linguística e lógico-matemática), como a inteligência musical ou a inteligência espiritual (GARDNER, 2001). Reconhecer diferentes inteligências significa abandonar os rótulos que julgam o valor de um indivíduo diante de apenas um imposto conjunto limitado de possibilidades de conhecimento. A ampliação das possibilidades interativas acaba sendo encarada como uma possível solução para melhor atender ao infinito nível de gradações das diferentes inteligências e estilos observados no processo de aprendizagem. 20 2. Ensino híbrido José Moran, logo em 2015, ou seja, antes de conhecer os efeitos da pandemia no contexto educacional, acreditava que o ensino híbrido logo seria predominante na educação. Combinar ferramentas virtuais com encontros presenciais define, grosso modo, o que significa ensino híbrido no contexto educacional atual. A ideia de híbrido refere-se propriamente ao novo desenho educacional: além de presencial, também conectado, atendendo à conectividade e à mobilidade tão presentes na rotina dos educandos (considerados, a partir da geração Z, como nativos digitais). Em linhas gerais, a proposta de valor que advém da combinação de ferramentas didáticas virtuais com encontros presenciais contribui para personalização do ensino. O ensino híbrido surge para sanar os gapsde aprendizagem dos educandos, respeitando o tempo e ritmo de cada um deles (BACICH; ABRANTES; CANNATÁ, 2015), além de ampliar as oportunidades de ensino-aprendizagem, democratizando o acesso à educação. Antecipar o contato do estudante com o conteúdo, por exemplo, convida-o a iniciar reflexões prévias. O recurso em vídeo tanto pode aumentar o engajamento com a aula, como a aula gravada em si habilita mais oportunidades de o conteúdo ser revisitado e o estudante ampliar o entendimento de pontos de maior dúvida ou interesse. O material navegável, por sua vez, pode contar com animação, simulação e laboratório virtual, entre outros (VALENTE, 2015, p. 15). Algumas profissões podem se beneficiar amplamente dessa prática levada ao ambiente virtual (simulação de voos, procedimentos cirúrgicos, construção civil etc.). Na prática, imagine estudantes com dificuldade em matemática com a oportunidade de investir tempo na resolução de situações-problema no 21 ambiente virtual ou mesmo cursar oficinas de nivelamento para melhor acompanhar as disciplinas de exatas na faculdade. Em suma, o ensino híbrido articula momentos síncronos (simultâneos, com aula ao vivo ou presencial) com momentos assíncronos (atividades virtuais sem necessidade de presencialidade). Alguns entendem ensino híbrido como a combinação entre aula presencial com recursos à distância. Em termos de ofertas educacionais, o mercado tem apresentado inúmeras adaptações e composições, ampliando o leque de possibilidades e estratégias pedagógicas em prol do processo de ensino-aprendizagem. 3. Metodologias ativas como estratégia de aprendizagem Metodologias ativas são “técnicas, estratégias, métodos que dão o protagonismo para o aprendiz e que propõem uma forma diferente e mais significativa de aprender” (CAVALCANTI, 2023, p. 22). Tais metodologias convidam o estudante a figurar como protagonistas do processo ensino-aprendizagem, por meio da participação em debates, desenvolvimento de projetos, análise de estudos de caso, testagem de hipóteses, criação de protótipos etc. Dentre as metodologias ativas mais difundidas na educação, é possível citar: estudo de caso, aprendizagem baseada em problemas, instrução por pares, Design Thinking, jogos e gamificação, cultura maker e sala de aula invertida, entre outras. Resgatando o contexto do ensino (híbrido), uma das metodologias mais adotadas nessa modalidade é a sala de aula invertida. Trata-se de uma metodologia ativa de aprendizagem na qual o educando acessa as informações básicas e teóricas antes do tempo de aula sendo este, por sua vez, dedicado à solução de atividades mais elaboradas de maneira conjunta com os demais colegas, sob supervisão do professor (MORAN, 2015). Perceba que a aplicação dessa metodologia suscita o contexto de 22 ensino híbrido – é preciso, portanto, identificar o melhor método para determinado contexto/modalidade (presencial, à distância ou híbrido), área do conhecimento e componente curricular. A título de ilustração, imagine que para cada aula o docente recomenda uma análise, leitura, prática ou observação anterior ao momento de aula propriamente dito. Trata-se de uma atividade prévia que já inscreverá o estudante na problemática, envolvendo-o e colocando-o para refletir antes de ter contato com o conteúdo em si. Um dos benefícios é demonstrar, de antemão, o valor prático do componente curricular que será trabalhado. Retomando ao contexto híbrido de ensino, o tempo dedicado às atividades presenciais pode adotar modelos rotacionais que são utilizados para ampliar o nível de engajamento dos educandos e manter a abordagem ativa também no momento presencial. Propostos pelo Instituto Clayton Christensen (CHRISTENSEN; HORN; JOHNSON, 2012), esses modelos servem para dinamizar a aula e são divididos em: • rotação por estações: separados em grupos, os estudantes percorrem estações de ensino de modo que, ao final, todos tenham completado toda trilha previamente planejada; • laboratório rotacional: a classe é dividida em dois grandes grupos, um permanece com o professor na sala de aula para atividades integradoras, enquanto a outra metade se dirige ao laboratório de informática para cumprir atividades individuais no ambiente online; e, depois invertem; • sala de aula invertida: o aluno estuda a parte teórica em casa, reservando o tempo em sala para debates e discussões que aprofundam aqueles conceitos previamente estudados; • e, por fim, rotação individual: com base em dados coletados em avaliações, o professor propõe um caminho a ser percorrido 23 no tempo de uma aula, de maneira individual, pelos alunos; a diferença, aqui, é que os alunos não rotacionam por necessariamente todas as estações. Neste ponto, imagine contar com a inteligência artificial (IA) para diagnosticar o desempenho estudantil em níveis mais específicos de cada disciplina e propor uma trilha personalizada, incluindo o recurso de rotação individual, para diminuir gaps de aprendizagem – essa prática é possível. Filatro e Cavalcanti (2023) citam as técnicas lógica difusa, árvore de decisão, redes bayesianas e redes neurais como possibilidades de IA aplicadas à educação. Em linhas gerais, as autoras apresentam dois modelos de sistemas de aprendizagem adaptável: 1. Sistemas baseados em regras: construídos com uma série de funções que balizam a sequência de atividades de acordo com acertos e erros. Por exemplo, em caso de erro, outra forma de expor o conteúdo é apresentada. 2. Sistemas baseados em algoritmos: combinam análise do desempenho de estudantes e também do conteúdo para delinear a trilha mais ajustada possível para determinado estudante. Tais sistemas podem utilizar machine learning para potencializar os resultados. Os sistemas adaptativos mais recentes e sofisticados são data-driven, ou seja, geram inteligência a partir do grande volume de dados que armazenam. Os dados podem ser do usuário, seu comportamento de consumo (engajamento, pausas em vídeos, avaliações, frequência de acessos etc.) para mapear adequadamente o percurso de aprendizagem ideal para ele (FILATRO; CAVALCANTI, 2023). De outro modo, por meio dos processos avaliativos e trilhas personalizadas de ensino, o educando dá pistas acerca das dificuldades 24 e caminhos utilizados na construção cognitiva que demonstram relação ao conteúdo ministrado e às metodologias ativas propostas (HOFFMANN, 2005). De um lado, a tecnologia apoia a personalização do ensino; do outro, as metodologias ativas convidam o aprendiz a “colocar a mão na massa” e ativar o seu protagonismo. Na andragogia (educação de adultos), por exemplo, situações da realidade profissional são largamente postas ao educando para que ele desenvolva uma postura crítica e autônoma, capaz de guiá-lo quando egresso. 4. Processos avaliativos e protagonismo No cenário de desenvolvimento crítico e autônomo do aprendiz, emerge o caráter investigativo do processo de avaliação, e o professor é colocado na posição de coinvestigador. Ou seja, à medida que metodologias ativas de aprendizagem são inseridas no contexto educacional, novas formas de avaliação surgem para compor o processo de ensino-aprendizagem (como avaliação por pares, apresentações de projetos, organização de eventos, defesas de trabalhos etc.). O professor exerce a função de orientador e mediador do processo de ensino-aprendizagem, pois a aquisição de informações depende cada vez menos da interação entre aluno e professor (MORAN, 2007). O estudo, por sua vez, é apoiado em diferentes plataformas, como computador ou smartphone, que providenciam a personalização do ensino, enquanto a sala de aula providencia o papel de assimilação e integração dos saberes. Dessa forma, o aprendiz tem oportunidade de tomar o lugar de protagonismo antes ocupado pelo professor. O tempo de aula já não é mais reservado à prática expositiva de conteúdo (paradigma 25 transmissionista), mas sim reservado a debatese momentos para sanar as dúvidas remanescentes (VALENTE, 2014), além de abrir espaços de troca e desenvolvimento socioemocional. A fim de colaborar com o protagonismo e processo avaliativo dos alunos, o professor também consegue desenvolver propostas integradas às habilidades socioemocionais, em destaque, no desenvolvimento das competências mencionadas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018), trabalho e projeto de vida, autoconhecimento e autocuidado, empatia e cooperação e responsabilidade e cidadania. Um parêntese em relação a habilidades socioemocionais no contexto da educação básica: publicado em 2018, o documento normativo indica 10 competências gerais que devem perpassar os conteúdos curriculares (ciências humanas, exatas, da natureza e linguagens). São elas: 1) conhecimento, 2) pensamento científico, crítico e criativo, 3) repertório cultural, 4) comunicação, 5) cultura digital, 6) trabalho e projeto de vida, 7) argumentação, 8) autoconhecimento e autocuidado, 9) empatia e cooperação e 10) responsabilidade e cidadania. Retomando, nas palavras de Valente, “a aplicação, análise, síntese, significação e avaliação desse conhecimento acontecem em sala de aula, onde eles têm o apoio de seus pares e do instrutor” (VALENTE, 2014, p. 92), fomentando a postura autônoma ao dar voz aos educandos até então repreendidos em suas iniciativas e superando as avaliações que simplificam por demasiado o potencial de muitos estudantes em competências essenciais como comunicação, relacionamento interpessoal, ética e gestão de conflitos. Essa visão está atrelada à aprendizagem ativa. Ativa porque coloca o aprendiz em movimento contínuo, fazendo-o aplicar conceitos teóricos em situações próximas de sua realidade imediata. E esse entendimento também é extensivo para os momentos de pesquisa na internet. 26 A tecnologia pode auxiliar previamente nesse acúmulo de experiência, de modo que o futuro piloto de avião, por exemplo, possa praticar dentro de simuladores de voo durante horas a fio para alcançar o mínimo de prática simulada necessária para prosseguir na próxima fase. Além disso, esses simuladores podem ser configurados de maneira lúdica. Muitos jogos simulam práticas profissionais reais servindo como, além de treinadores eficazes, teste vocacional. Ou seja, o adolescente, nativo digital, pode descobrir desde cedo afinidade com, continuando o exemplo, a profissão de piloto. 5. Nativos digitais e a gamificação na educação A fixação de objetivos específicos, mas também de desafios, acaba resultando em linguagem aproximada de jogos, estimulando os educandos a galgarem níveis (levels ou conquista de bagdes/tiers) também dentro do ambiente educacional. A gamificação, nesse sentido, acaba tocando também a educação. Vale destacar que os games já superam a educação em volume de visitas a websites e uso de aplicativos (34,8 contra 26,5%) (WE ARE SOCIAL LTD., 2022). A adequação do processo de ensino deve respeitar a nova sensibilidade do aprendiz nativo digital. A lógica de interação social e aprendizagem difere das gerações anteriores principalmente por conta da forte presença de tecnologias mobile e da alta conectividade a nível mundial. Consciência colaborativa e relacionamentos virtuais fazem parte da realidade do aprendiz do século XXI. Ao trazer essa perspectiva para o interior das instituições escolares, o potencial de intercâmbio entre conhecimentos pode ser ampliado de maneira exponencial. O embasamento dessa latente necessidade de inovação na educação é apoiado amplamente em pesquisas empíricas. Como alerta José Moran 27 (2007) acerca do baixo interesse dos aprendizes na escola justamente por não enxergarem utilidade nos caminhos do conhecimento que ali residem. Modelos asfixiantes e engessados ainda ocupam grande parte das atividades pedagógicas. As altas taxas e evasão escolar confirmam isso: em 2021, a taxa de evasão do ensino superior nas instituições privadas atingiu 61% (BRASIL, 2021). O primeiro passo, então, seria reconhecer que a escola é apenas um dos vários ambientes de aprendizagem. A pesquisa se concentra cada vez mais no domínio da internet (MORAN, 2007). Vários recursos virtuais podem ser utilizados para apoiar o aprendiz no seu processo individual de aprendizagem, como a realidade virtual que ajuda a criar ambientes de simulação que permitem a aplicação e resolução de problemas. Esses ambientes podem receber soluções criativas utilizando até mesmo uma face lúdica para estimular o interesse dos alunos pelo conhecimento (MAIA; MATTAR, 2007; ROSINI, 2007). A hipertextualidade presente na linguagem da internet é atrelada também aos jogos digitais. Enquanto os professores resguardam a lógica sequencial da aprendizagem, os nativos digitais buscam “saltar” de tela em tela, buscando aquilo que almejam conhecer – geralmente movidos por utilidade imediata (MATTAR, 2010). Em linhas gerais, os nativos digitais aprendem na prática, não partem de leitura de manuais para iniciar uma partida de um jogo que jamais experimentaram antes. Nessa dinâmica de imersão, a conexão e estabelecimento de times (colaboração) para jogar fazem parte da experiência lúdica desses aprendizes (MATTAR, 2010). Resta, portanto, as instituições educacionais buscarem articular tecnologia e educação para promover a implementação de tendências de aprendizagem do século XXI. Nas palavras de José Moran, “os projetos pedagógicos inovadores conciliam, na organização curricular, 28 espaços, tempos e projetos que equilibram a comunicação pessoal e a colaborativa, presencial e online” (MORAN, 2015, p. 27). Referências BACICH, L.; ABRANTES, R.; CANNATÁ, V. Ensino híbrido, personalizar para ensinar. Direcional educador, [s. l.], v. 11, p. 42-43, 2015. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 12 maio 2023. BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Resumo técnico: censo escolar da educação básica 2021.Brasília, 2021. CAVALCANTI, C. C. Aprendizagem socioemocional com metodologias ativas: um guia para educadores. São Paulo: Saraiva, 2023. CHRISTENSEN, C. M.; HORN, M. B.; JOHNSON, C. W. Inovação na Sala de Aula: Como a Inovação Disruptiva Muda a Forma de Aprender. Porto Alegre: Bookman, 2012. FILATRO, A.; CAVALCANTI, C. C. 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Acesso em: 25 jan. 2023. 30 Metodologia da problematização e PBL Autoria: Tayra Carolina Nascimento Aleixo Leitura crítica: Bruna Braga de Paula Objetivos • Conhecer a metodologia da problematização e suas características; • Investigar a proposta curricular baseada em problemas (PBL); • Discutir pontos de paridade e diferenciação entre ambas as propostas pedagógicas (metodologia da problematização e aprendizagem baseada em problemas). 31 1. Introdução Na esteira das metodologias ativas, a proposição de situações nas quais se requer resoluções dos aprendizes ganha cada vez mais força. Isso acontece porque um dos pontos de valorização do processo de ensino- aprendizagem diz respeito à aplicação de conceitos teóricos na prática. Existem dois caminhos para propor situações que desenvolvam a postura crítica e autônoma do educando mediante colocação de problemas: a aprendizagem baseada em problemas e a metodologia da problematização. A aprendizagem baseada em problemas (do inglês Problem-Based Learning ou simplesmente PBL) busca propor problemas que cubram os conhecimentos e competências previstos na grade curricular de determinado curso. A ideia é propor situações que instiguem o processo de aprendizagem por meio da articulação autônoma e crítica dos educandos (BERBEL, 1998). Já a metodologia da problematização permite que o próprio educando, pela observação, problematize situações que serão tencionadas no tempo de aula (BERBEL, 1998). Ambas as linhas exploram possíveis experiências vivenciais que agregam, no perfil do egresso, postura autônoma e espírito crítico. Este capítulo é dedicado a conhecer as características de cada uma das metodologias, bem como os pontos de diferenciação e paridade entre elas. 2. Metodologia da Problematização Na abordagem da problematização, como apontado na introdução, os problemas são levantados por meio da observação dos próprios alunos (BERBEL, 1998). 32 Essa é uma perspectiva alinhada à proposta freireana da educação. Paulo Freire (1987; 1996) destacava a necessidade de aproximar o processo de ensino e aprendizagem da realidade do educando, fazendo com que ele enxergasse, de maneira imediata, utilidade em adquirir aquele determinado conhecimento. O recorte da realidade trabalhado nessa metodologia tem sido amplamente atrelado ao chamado método do arco, proposto inicialmente por Charles Maguerez (BERBEL, 1998). Segundo o autor, existem cinco etapas que devem ser desenvolvidas com base em recortes da realidade: • Observação: percepção dos fenômenos imersos no contexto prático. • Pontos-chave: propostas de intervenção sobre a realidade experimentada. • Teorização: levantamento de fontes e referências para aprofundar a reflexão acerca do problema em voga. • Hipóteses de solução: mediante etapa anterior de teorização, o aprendiz propõe soluções factíveis ao problema identificado. • Aplicação prática: intervenção dos fatores social e político, pois neste momento o educando aplica soluções baseadas no seu próprio estudo, transformando o meio do qual faz parte. Acerca do método do arco e da transposição dos limites acadêmicos com finalidade de pesquisa, nas palavras de Neusi Berbel: a prática que corresponde a esta etapa implica num compromisso dos alunos com o seu meio. Do meio observaram os problemas e para o meio levarão uma resposta de seus estudos, visando transformá-lo em algum grau. (BERBEL, 1996, p. 8-9) 33 No entanto, Neusi Berbel (1998) ressalta ainda o necessário alinhamento da metodologia da problematização com a aprendizagem de conhecimentos pertinentes na vida em sociedade. Por exemplo, a autora faz um paralelo entre o exercício da função de enfermeiros e como a vivência pode trazer situações problematizadoras possíveis de serem articuladas em sala de aula; em contrapartida, ensinar e aprender o uso adequado da crase não apresentaria necessidade que justificasse a aplicação de tal metodologia. Não obstante, descobrir de maneira autônoma a complexidade de problemas sociais pode ser revelador e instigar o processo de aprendizagem do educando por si só. Nesse sentido, propor o exercício da observação, regado a debates e trabalhos em grupo para levantar possíveis fatores determinantes dos problemas apontados, revela o potencial ativo que promove o protagonismo do aprendiz. Além disso, o educando eleva sua consciência a ponto de contribuir intencionalmente para o meio em que vive. Por meio do fluxo ação – reflexão – ação, o aprendiz se torna cada vez mais um cidadão pronto para melhorar e promover a dignidade humana na vida em sociedade (BERBEL, 1998). Não obstante, apesar de ambas as metodologias serem baseadas na proposição de problemas, o caminho adotado pela metodologia da problematização difere da aprendizagem baseada em problemas enquanto proposta curricular (BERBEL, 1998). A seguir serão apresentadas as características da segunda metodologia, a fim de pontuar, na sequência, pontos de paridade e diferenciação entre os dois caminhos pedagógicos aqui discutidos. 34 3. Problem-Based Learning (PBL): características e aplicações A diferença entre a metodologia da problematização e a aprendizagem baseada em problemas é com relação à fonte dos problemas propriamente ditos. Enquanto no primeiro a observação serve como ferramenta de captação dessas situações, no segundo há proposição de situações ao estudante (BERBEL, 1998). Em outras palavras, um corpo acadêmico prepara diversos problemas que contemplem as atuações necessárias para exercício de determinada função, quando egresso. Nesse sentido, os problemas são construídos a partir da perspectiva curricular e, muitas vezes, de uma perspectiva interdisciplinar. De outro modo, a resolução de problemas ganha caráter formativo na PBL, ou seja, diversas informações podem ser acrescentadas à medida que novos conteúdos são abordados dentro de uma mesma disciplina ou de várias disciplinas – neste último caso, conteúdos submetidos a um projeto interdisciplinar. Assim, a aprendizagem vai se desdobrando em situações e acréscimos de condicionantes capazes de orientar o aprendiz no que tange ao acúmulo e à aplicação de novos conceitos, sempre alinhados com a perspectiva prática prevista no curso. Nas palavras de Neusi Berbe, “a Aprendizagem Baseada em Problemas tem uma sequência de problemas a serem estudados. Ao término de um, inicia-se o estudo do outro” e acrescenta “o conhecimento adquirido em cada tema é avaliado ao final de cada módulo, com base nos objetivos e nos conhecimentos científicos” (BERBEL, 1998, p. 149). 35 Figura 1 – Estrutura Conceitual Básica da PBL Fonte: adaptada de Frezatti et al. (2018). A estrutura conceitual básica da PBL interrelaciona três principais aspectos: contexto, problema e hipóteses. Enquanto o primeiro esclarece o terreno no qual o problema está imerso, o último supõe causas dele. O problema em si, por sua vez, além de ser o elemento-chave do método, também é considerado a própria “âncora das atividades de aprendizagem” (SAVERY; DUFFY, 1995 apud FREZATTI et al., 2018). O contexto pode ser definido levando em conta cinco diferentes aspectos: participantes, estrutura social, objetivos, tecnologia e ambiente externo (SHERWOOD, 2004; SCOTT, 1992 apud FREZATTI et al., 2018). Um exemplo de contexto acerca de diversidade seria: o Brasil é um país diverso em termos de população, cultura, etnia, religião e orientação sexual. A diversidade no Brasil é resultado de séculos de migrações, colonização e miscigenação, além de uma rica história indígena. Ainda assim, a diversidade brasileira muitas vezes é marcada por desigualdades sociais, econômicas e políticas, que afetam especialmente as comunidades negra, indígena, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência. O problema, por sua vez, pode conter diferentes perspectivas, como: identificaçãodas partes e relações funcionais entre elas; rastreamento da história e mudanças ocorridas; identificação de categorias e características de determinado fenômeno; e determinação do valor para o contexto. Além 36 disso, o problema pode ser categorizado como acadêmico, simulação ou problema da vida real (GORDON, 1998 apud FREZATTI et al., 2018). Exemplo de problema: falta de representatividade e inclusão de grupos minoritários em cargos de liderança e em posições de poder. Um problema para ser considerado “bom” deve conter as características a seguir, da perspectiva daqueles que desenvolverão sua resolução: familiaridade com problema; dificuldade do problema; relevância do problema; clareza do problema; e formato. Além das características, deve apresentar como funções: promoção da ligação com objetivos de aprendizagem; despertar curiosidade e interesse; estimular a análise crítica; promover o autoestudo; estimular a elaboração; e promover o trabalho em grupo (SOCKALINGAM; SCHMIDT, 2011 apud FREZATTI et al., 2018). Por fim, hipóteses são prováveis causas de determinado problema. Para Marconi e Lakatos (2003), as hipóteses têm caráter explicativo ou preditivo passível de investigação (FREZATTI et al., 2018). Exemplos de hipóteses que possam solucionar a falta de representatividade nas organizações: 1) políticas de diversidade e inclusão podem garantir a igualdade de oportunidades para todos os funcionários, independentemente de sua origem, etnia, gênero, orientação sexual ou condição física; 2) programas de capacitação e treinamento para líderes e funcionários que incentivem a diversidade e a inclusão pode diminuir o gap de representatividade; e 3) programas de recrutamento que busquem ativamente candidatos de grupos minoritários. 3.1 Perspectiva histórica da PBL Em uma perspectiva histórica, a PBL surge como iniciativa de professores da faculdade de Medicina da Universidade de McMaster, no Canadá, logo no final da década de 1960. A preocupação era municiar os educandos de experiências práticas capazes de sustentar o início de sua vida profissional. De lá para cá, vários autores discutiram a abordagem em questão, 37 construindo uma verdadeira teia de conhecimentos no que diz respeito às características e aplicações da PBL (SOUZA; DOURADO, 2015). A área da saúde tem mostrado grandes avanços na aplicação de PBL em seus currículos. No Brasil, desde a década de 1970, nos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, práticas pedagógicas têm envolvido problematização incorporadas nas atividades de preparação de auxiliares de enfermagem (BERBEL, 1998). Na perspectiva pedagógica, o docente exerce o papel de facilitador do processo de desenvolvimento cognitivo voltado à habilidade de resolução do educando (SOUZA; DOURADO, 2015). De outro modo, a PBL promove a contextualização dos problemas, sendo capaz de envolver o aprendiz em situações passíveis de observação prática. A palavra-chave, neste caso, seria “integração” (SOUZA; DOURADO, 2015). A integração também ocorre em termos de relacionamento interpessoal entre colegas de sala. O trabalho em grupo é bastante difundido como a organização discente para resolução de problemas, fazendo desta ocasião uma oportunidade de desenvolver competências socioemocionais (MUNHOZ, 2015). Além disso, o desenho curricular também deve levar em conta a integração do contexto escolar com o contexto social (VEIGA et al., 2015). Acerca da importância de adaptar contextos e fomentar o engajamento dos educandos no processo de aprendizagem, Munhoz pontua a perspectiva mercadológica, dizendo que “a aprendizagem que se adapta ao contexto de uma nova sociedade onde as mudanças acontecem de forma abrupta e emergencial, altamente acelerada e imprevisível em seu desenvolvimento” encontra na PBL “uma nova maneira de engajar os alunos e formar egressos com competências e habilidades mais próximas do que aquilo que o mercado exige” (MUNHOZ, 2015, p. 124). 38 Vale destacar que as aplicações da PBL, apesar de terem nascido na área da saúde, atualmente servem a diversas outras áreas, como bioquímica, psicologia, engenharias, biologia, física, matemática, direito, geografia etc. (SOUZA; DOURADO, 2015). Além disso, as aplicações são observadas desde o nível básico da educação até o ensino superior e cursos de pós- graduação, demonstrando a ampla difusão da PBL em nível mundial (SOUZA; DOURADO, 2015). 3.2 Currículo baseado na solução de problemas Atuar na educação atualmente significa mover o estudante para o centro do processo de ensino-aprendizagem. Dessa maneira, o educando tem oportunidade de aprender a aprender, substituindo a memorização pela compreensão (SOUZA; DOURADO, 2015). Pensar no currículo baseado em problemas significa romper com modelos pedagógicos tradicionais e conservadores. Dessa forma, as instituições escolares devem apresentar autonomia para adequar as propostas de acordo com a realidade e o contexto de cada uma (VEIGA et al., 2015). No mais, a proposição de problemas no processo de ensino- aprendizagem apresenta três diferentes etapas, segundo Munhoz (2015): • Etapa 1: uma delas se refere a pesquisas seminais com colegas e professores, mas também em sites de busca e redes sociais. • Etapa 2: respondidas as questões preliminares (“o que sei sobre o problema proposto?”, “o que preciso ainda descobrir para resolvê- lo?”), a etapa dois do currículo baseado em problemas foca a triagem das informações coletadas no primeiro momento. Na segunda etapa, portanto, as informações são transformadas em conhecimento – ou seja, relacionar os dados primários e secundários passa a gerar conhecimento que possa, efetivamente, embasar as resoluções apontadas na etapa três. 39 • Etapa 3: os resultados obtidos serão apresentados na terceira e última grande etapa dessa organização curricular. O aprendiz tem a oportunidade de apresentar, por meio de recursos multimídia, artigos ou relatórios, sua contribuição intelectual para solução dos problemas propostos desenvolvendo, assim, competências e habilidades que o ajudarão no exercício de sua profissão. Apesar de apresentar diferentes configurações, geralmente o currículo PBL contempla essas três etapas genéricas. Nesse sentido, a formulação dos problemas gera não somente movimento de pesquisa, mas também resulta, por fim, em trabalhos que buscam concluir o processo de resolução desenvolvido pelo aprendiz. Para concluir, vale destacar que a PBL pode ser utilizada em diversas modalidades e etapas de ensino, como a educação básica, educação superior, nos formatos de ensino presencial, híbrido ou à distância, assim como na educação corporativa (HERARTH, 2020). 4. Pontos de paridade e diferenciação entre as duas propostas (metodologia da problematização e PBL) Mediante descrição de algumas características de ambas as propostas metodológicas, a organização curricular que norteia a PBL difere em grande parte da proposição de problemas mediante observação dos educandos na metodologia da problematização. Nesse sentido, a PBL depende de esforços sinérgicos do corpo docente, visto que perpassa toda a organização curricular. Já a metodologia da problematização pode ser aplicada autonomamente por professores que enxerguem a oportunidade desta aplicação em suas disciplinas e conteúdos (BERBEL, 1998). 40 Na metodologia da problematização não há limitação prevista quanto aos objetivos, condicionantes e possíveis soluções. Até mesmo o número de problemas observados pode variar, assim como a perspectiva de seus observadores, no caso, os aprendizes (BERBEL, 1998). Em linhas gerais, a metodologia da problematização resulta em intervenção na realidade imediata do aluno, enquanto a PBL busca agrupar diferentes áreas envolvidas na grade curricular do curso. Dessa forma, ambos os termos diferem tanto no caminho quanto nos resultados da adoção dessas propostas (BERBEL, 1998). Referências BERBEL, N. A. N. Metodologia da problematização noensino superior e sua contribuição para o plano da práxis. Semina: v. 17, n. esp., p. 7-17, 1996. BERBEL, N. A. N. A problematização e a aprendizagem baseada em problemas: diferentes termos ou diferentes caminhos? Interface – Comunic, Saúde, Educ 2, Botucatu, v. 2, n. 2, p. 139-154, fev. 1998. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ icse/v2n2/08.pdf. Acesso em: 23 abr. 2018. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. FREZATTI, F. et al. Aprendizagem baseada em problemas (PBL): uma solução para aprendizagem na área de negócios. São Paulo: Atlas, 2018. HERARTH, H. H. Aprendizagem baseada em problemas. Curitiba: Contentus, 2020. MUNHOZ, A. S. ABP – Aprendizagem Baseada em Problemas. Ferramenta de apoio ao docente no processo de ensino e aprendizagem. São Paulo: Cengage Learning, 2015. ROCHA, F. Correntes pedagógicas contemporâneas. 2. ed. Aveiro: Estante, 1988. SOUZA, S.; DOURADO, L. Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP): um Método de Aprendizagem Inovador Para o Ensino Educativo. Holos, ano 31, v. 5, p. 182- 200, 2015. Disponível em: http://www2.ifrn.edu.br/ojs/index.php/HOLOS/article/ viewFile/2880/1143. Acesso em: 23 abr. 2018. VEIGA, I. P. A. et al. Formação médica e aprendizagem baseada em problemas. Campinas, SP: Papirus, 2015. 41 Taxonomia de Bloom Autoria: Tayra Carolina Nascimento Aleixo Leitura crítica: Bruna Braga de Paula Objetivos • Conhecer a Taxonomia de Bloom, amplamente utilizada em todas as áreas do conhecimento; • Entender a estrutura hierárquica dos objetivos educacionais mediante a divisão dos três domínios da aprendizagem, a saber: cognitivo, afetivo e psicomotor; • Esclarecer as possibilidades estratégicas para formular e implementar objetivos gerais e específicos no processo de ensino-aprendizagem. 42 1. Introdução O presente capítulo versa acerca da taxonomia dos objetivos educacionais, também conhecida propriamente como Taxonomia de Bloom. Para entender a proposta da comissão multidisciplinar liderada por Benjamin S. Bloom, em meados do século XX, conhecer o significado da palavra taxonomia pode ajudar. A palavra taxonomia vem do grego e significa “arranjo” e “método”. Para a ciência, trata-se de um campo que busca identificar, descrever, nomear e classificar, como acontece na biologia: a taxonomia é utilizada para ordenar e classificar por meio de semelhanças e diferenças (MELLO; ALMEIDA NETO; PETRILLO, 2022). Significa, no contexto das ciências sociais, em especial da educação, ciência ou técnica de classificação. Ou seja, a estrutura hierárquica dos objetivos pretendidos no processo de aprendizagem é identificada e captada na Taxonomia de Bloom a fim de articular estratégias eficazes e eficientes com relação ao processo de ensino formal. Na prática, a Taxonomia de Bloom auxilia coordenadores pedagógicos/ acadêmicos, diretores e docentes a especificar, organizar e controlar a utilização dos objetivos educacionais em diferentes níveis de complexidade e abstração do processo cognitivo, direcionando a escolha dos métodos de ensino-aprendizagem mais adequados para cada área do conhecimento e nível acadêmico (MELLO; ALMEIDA NETO; PETRILLO, 2022). Duas das principais críticas com relação à Taxonomia de Bloom referem-se ao seu caráter qualitativo, bem como, até mesmo por consequência, à subjetividade intrínseca ao processo de classificação prevista nesta metodologia. 43 2. Taxonomia de Bloom: objetivos gerais e específicos no processo de aprendizagem No campo organizacional, muitos professores e pesquisadores da área de gestão de pessoas reconhecem e utilizam a teoria da fixação de objetivos, proposta por Edwin Locke (1968). Segundo o autor, uma das maiores motivações postas ao trabalhador seria a fixação de objetivos. Caminhar em direção a objetivos pode funcionar como um tipo de motor propulsor que influencia positivamente o alcance de metas. Nesse sentido, o objetivo deve ser proposto informando, simultaneamente, a tarefa a ser realizada e o esforço que deve ser despendido para realização dos objetivos propriamente ditos (LOCKE, 1968). Edwin Locke (1968) divide os objetivos entre específicos e difíceis. O primeiro conjunto diz respeito a objetivos mais palpáveis e frequentes, enquanto o segundo conjunto requer maior nível de esforço do colaborador e pode ocupar um intervalo de tempo maior. Alguns ambientes virtuais colocados atualmente ao educando apresentam barras de progressão no que tange à realização de tarefas ou objetivos por disciplina ou curso. Desse modo, o aprendiz seria motivado em seu processo contínuo de aprendizagem ao notar que sua movimentação é imediatamente apontada e, também, notada. Em 1956 a comissão multidisciplinar, liderada por Benjamin S. Bloom, desenvolveu a classificação da aprendizagem em três grandes esferas. A primeira esfera diz respeito ao âmbito cognitivo, ligado à parte intelectual do processo de aprendizagem. Já a segunda esfera é direcionada ao caráter afetivo, ou seja, às características sensíveis e de valores dos educandos. E, por último, o lado psicomotor, que envolve a habilidade motora na execução das tarefas. 44 Em termos de aplicação, o caráter cognitivo, intelectual, do processo de aprendizagem é o mais amplamente trabalhado nos processos formais de ensino. As outras duas esferas, afetiva e psicomotora, são geralmente negligenciadas e, com isso, também todos os aprendizes que apresentam predisposição para aprender por meio desses dois caminhos. Não obstante, a técnica de classificação proposta por Bloom e seu grupo permite aos professores e gestores educacionais relacionarem os objetivos traçados com os conteúdos curriculares, dando uma visão geral da eficácia do processo de ensino-aprendizagem, ou seja, o que os educandos realmente apreenderam no processo (SILVA; NICOLINI; ANDRADE, 2015). Segundo Gonçalves e Ribeiro (2012), a utilização da Taxonomia de Bloom nos exames Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) para estudantes de Administração e demais cursos de gestão deveria servir como justificativa para fomentar a aplicação dessa classificação também na sala de aula, fomentando a congruência entre os objetivos educacionais e de avaliação. Nesse ponto, as competências do egresso – que também é ingressante no mercado de trabalho –, acabam reivindicando por uma mudança no paradigma educacional. Mediante a latente necessidade de atrair os estudantes, a construção do processo de aprendizagem mais pertinente e consistente ganha importância (SOFFNER; EVANGELISTA; MIRANDA, 2014). O sentido da palavra competência também pode ser ampliado para além da esfera profissional. Destarte, competência seria a própria “capacidade de fazer e de realizar atividades que agreguem real valor para qualquer processo da existência de uma pessoa” (SOFFNER; EVANGELISTA; MIRANDA, 2014, p. 817). Os subitens são dedicados a cada um dos três domínios citados anteriormente. Vale destacar, de antemão, que a Taxonomia de Bloom 45 não serve apenas para classificar conteúdos pedagógicos, mas também hierarquizar os conhecimentos articulados no processo de ensino- aprendizagem (FERRAZ; BELHOT, 2010). 3. Domínios da taxonomia de Bloom Os domínios da Taxonomia de Bloom são da versão original, desenvolvida em 1956 por Benjamin Bloom e sua equipe de educadores. A Taxonomia Revisada de Bloom, desenvolvida em 2001 por Anderson e Krathwohl, incluiu mudanças nas categorias de verbos de ação e na inclusão de uma dimensão do conhecimento, mas manteve os domínios da versão original. Os domínios da Taxonomia de Bloom são: 1. Domínio cognitivo: este domínio trata do desenvolvimento do conhecimento intelectual e da habilidade de processar informações, incluindo a memória, a compreensão, a aplicação, a análise, a síntese e a avaliação. 2. Domínio afetivo: este domínio trata do desenvolvimento de sentimentos,emoções, atitudes e valores, incluindo a atenção, a resposta, a valorização, a organização, a caracterização e a internalização. 3. Domínio psicomotor: este domínio trata do desenvolvimento da habilidade física e da coordenação motora, incluindo a percepção, a preparação, a resposta, a adaptação, a habilidade e a originação. Os três domínios da Taxonomia de Bloom são amplamente utilizados em educação para ajudar os educadores a planejar e avaliar a aprendizagem dos alunos em áreas diferentes e complementares. 46 3.1 Domínio Cognitivo Este domínio da aprendizagem trata do conhecimento em si, mas também da compreensão, capacidade de resgatar, na memória, informações relevantes e conceitos centrais, além do fato de raciocinar acerca de algum determinado assunto, aplicando, analisando, avaliando ou sintetizando o conteúdo em si. A título de ilustração, verifique a hierarquia dos objetivos educacionais na Figura 1 que tangem ao domínio cognitivo em pauta neste item e, em seguida, observe também alguns apontamentos acerca de cada um dos níveis de aprendizagem propostos por Bloom et al. (1972): Figura 1 – Pirâmide representativa dos níveis cognitivos Fonte: adaptado de Bloom et al. (1972). Conhecimento: primeiro nível de conhecimento que busca resgatar informações por meio da memória de fatos, padrões e conceitos. A articulação intelectual do nível mais básico da hierarquia de Bloom requer o reconhecimento de informações previamente passadas. A prática de cobrar memorização é amplamente identificada em avaliações quantitativas aplicadas no ensino superior, em instituições engessadas no paradigma transmissionista da educação. 47 Compreensão: ao dominar o primeiro nível hierárquico, o educando seria capaz de interpretar problemas, ou seja, compreender caminhos para solucionar situações colocadas em seu processo de aprendizagem. Esse nível hierárquico também prevê a fixação de significados, a tradução de conceitos teóricos para situações reais, bem como o estabelecimento de pontes entre o repertório cognitivo atual e as novas informações ministradas no conteúdo didático. Aplicação: já a aplicação refere-se ao nível hierárquico no qual o estudante já expressa a capacidade de aplicação dos conteúdos, na prática. Ou seja, novas situações são possivelmente solucionadas, nesse momento, no processo de aprendizagem. O ensino baseado em problematização utiliza, de maneira ampla, o objetivo educacional em questão. Uma vez propostas novas e/ou específicas situações, alinhadas às práticas de determinada profissão, o educando é convidado a exercer sua autonomia intelectual. Análise: este nível é ainda mais complexo do que o objetivo supracitado, pois requer a capacidade crítica do aprendiz em apontar relevância nas informações transmitidas, bem como estipular relações entre elementos e conceitos isolados. Nesse momento, o educando já se encontra no patamar de desenvolvimento holístico acerca dos temas estudados. De outro modo, o entendimento se torna amplo à medida que se entende o todo como maior do que a soma de suas partes. Síntese: este objetivo educacional é voltado para reconhecimento de padrões – ou seja, utilizar as informações e habilidades adquiridas para articular novas situações, modelos ou estruturas genéricas capazes de teorizar os elementos envolvidos em determinado assunto. 48 Projetos que envolvem mais de uma disciplina podem fomentar a capacidade de síntese, pois promovem interações pertinentes entre diversas áreas que, agrupadas, trazem potencial criativo e inovativo para o processo de aprendizagem. Avaliação: este nível da hierarquia de Bloom trata dos julgamentos, ou seja, por meio da imbricação entre fatos e critérios, o educando realiza avaliações, quantitativas e qualitativas, que resultem em soluções eficazes para os problemas propostos. O Quadro 1 relaciona cada nível educacional de Bloom com diversos verbos que traduzem as ações empreendidas em cada uma das camadas de sua hierarquia, a saber: Quadro 1 – Categorias e verbos da Taxonomia de Bloom CATEGORIAS DA TAXONOMIA DE BLOOM VERBOS DE AÇÃO 1. Conhecimento: processo que requer comportamentos do estudante de evocação, recognição e memória. Habilidade de lembrar com exatidão informações e conteúdos previamente abordados como datas, relatos, procedimentos, fórmulas, teorias, regras. Listar, rotular, nomear, dizer, definir, denominar, ordenar, reconhecer. 2. Compreensão: requer elaboração (modificação) de um dado ou informação original. O estudante deve ser capaz de usar uma informação original e ampliá-la, reduzi-la, representá-la de outra forma (oral, escrita, diagramas etc.) ou prever consequências resultantes da informação original. Explicar, resumir, descrever, ilustrar, construir, converter, decodificar, resolver, redefinir, traduzir. 3. Aplicação: exige habilidade do aluno para usar informações, métodos e conteúdos apreendidos em novas situações concretas. Aplicar, alterar, programar, demonstrar, desenvolver, empregar, resolver, usar, construir. 4. Análise: caracteriza-se pelo desdobramento de uma comunicação em seus elementos ou partes constituintes, de modo que as hierarquias entre as ideias expressas sejam explicitadas. Esse processo pressupõe identificar os aspectos centrais de uma proposição, verificar a sua validade e constatar possíveis incongruências lógicas. Analisar, categorizar, comparar, separar, classificar, identificar, distinguir, esquematizar, relacionar. 49 5. Síntese: reúne habilidades do indivíduo para a combinação de elementos e partes, de modo a formar um todo. Criar, planejar, elaborar hipóteses, inventar, desenvolver, explicar, categorizar, conceber, construir. 6. Avaliação: julgamento a respeito do valor de ideias, materiais, trabalhos, métodos e soluções para certos propósitos. Julgar, recomendar, criticar, justificar, avaliar, comparar. Fonte: adaptado de Gonçalves e Ribeiro (2012). Ao articular cada objetivo educacional com os níveis da Taxonomia de Bloom, o gestor educacional, seja localizado na ponta (professor) ou no planejamento e execução (coordenador, gerente ou diretor), deve configurar instrumental rico em diversidade de aplicações que possibilitem ao estudante transitar e avançar nessa estrutura ascendente de aprendizagem. 3.2 Domínio Afetivo No que diz respeito ao âmbito afetivo, a discussão gira em torno de aspectos relacionados a atitude, valores, mudança nos interesses e, em especial, à capacidade empática do educando. Vale destacar que esse domínio gera consciência social e fomenta o alcance de metas pessoais por meio da autodisciplina. Essa esfera da aprendizagem é cada vez mais reclamada no processo formal de ensino, pois a inteligência emocional tem se mostrado relevante na qualidade das relações interpessoais que a vida em sociedade requer. Não é à toa que a carta da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) para a educação do século XXI reclama habilidades socioemocionais como disciplina formal nos currículos escolares. Para adentrar as discussões do domínio afetivo, vale elencar os níveis hierárquicos propostos: recepção (relacionada à disposição de receber, mas também de canalizar atenção para determinados 50 fatores extrínsecos), resposta (participação responsiva aliada à postura proativa), valorização (desde aceitação até compromisso com o processo de aprendizagem), organização (trata-se de valor e suas hierarquias individuais) e, por último, internalização de valores (depois do nível de organização, alinhar comportamento de acordo com a estrutura de valores que possui). 3.3 Domínio Psicomotor Com relação ao domínio psicomotor, o processo de aprendizagem se volta para o desenvolvimento da habilidade em manipular ferramentas e manusear objetos. Apesar de não propor uma hierarquia de itens, alguns autores o fizeram, propondo os seguintes níveis: percepção (capacidade de perceber, reconhecermovimentos primários e vitais), resposta conduzida (mediante treinos constantes, há refinamento e aprimoramento de respostas motoras coordenativas), automatismos (no que diz respeito aos movimentos básicos exercidos mediante reflexos, aqui há sua automatização), respostas complexas (postura desenvolta com relação aos estímulos externos), adaptação (improvisação e adaptação em situações inusitadas) e, por fim, organização (de maneira espontânea, dos reflexos mais complexos são geradas respostas organizadas). Estudantes com facilidade em aprender em movimento devem ser estimulados com estratégias educativas que abarquem o domínio psicomotor. Além disso, o potencial dos educandos poderia ser mais bem aproveitado em termos de aprendizagem. Para concluir, alguns trabalhos apontam possíveis imbricações entre design instrucional, game design e Taxonomia de Bloom. A título de ilustração, Scaico et al. (2012) analisam um jogo voltado para o ensino da programação Python, enquanto Savi et al. (2010) trazem o modelo de avaliação de jogos educacionais baseado na motivação 51 ARCS, na experiência do usuário (design UX) e a Taxonomia de Bloom propriamente dita. 4. Taxonomia de Bloom: versão revisada e tabela bidimensional A Taxonomia de Bloom foi revisada em 2001 por um grupo de educadores, liderado por Anderson e Krathwohl, resultando na Taxonomia Revisada de Bloom. Essa revisão trouxe algumas mudanças significativas na estrutura da taxonomia original. A principal mudança foi a mudança da sequência de categorias de verbos de ação de “conhecimento, compreensão, aplicação, análise, síntese e avaliação” para “lembrar, entender, aplicar, analisar, avaliar e criar”. Essa mudança foi feita para refletir melhor o processo cognitivo envolvido em cada categoria e para tornar as categorias mais fáceis de entender. Outra mudança significativa na Taxonomia Revisada de Bloom foi a inclusão de uma dimensão chamada “Dimensão do Conhecimento”. Essa dimensão inclui quatro tipos de conhecimento: factual, conceitual, procedural e metacognitivo. Essa inclusão foi feita para ajudar os educadores a entenderem que diferentes tipos de conhecimento são necessários para diferentes níveis de aprendizado. Além disso, a Taxonomia Revisada de Bloom também inclui exemplos específicos de verbos de ação para cada categoria, o que ajuda os educadores a selecionar atividades e avaliações que correspondam aos níveis de aprendizado desejados. Por exemplo: aprender (processo cognitivo lembrar) os nomes das principais capitais brasileiras (conhecimento factual) (MELLO; ALMEIDA NETO; PETRILLO, 2022). 52 Quadro 2 – Tabela bidimensional Dimensão do conhecimento Dimensão do processo cognitivo Lembrar Entender Aplicar Analisar Sintetizar Criar Factual Listar Resumir Classificar Ordenar Ranquear Combinar Conceitual Descrever Interpretar Experimentar Explicar Avaliar Planejar Procedural Tabular Prever Calcular Diferenciar Concluir Compor Metacognitivo Uso apropriado Executar Construir Alcançar Agir Efetivar Fonte: adaptado de Mello, Almeida Neto e Petrillo (2022). Em resumo, a Taxonomia Revisada de Bloom é uma atualização importante da taxonomia original que reflete melhor as últimas pesquisas que tratam de aprendizagem e cognição, e fornece aos educadores ferramentas mais claras e úteis para planejar e avaliar o aprendizado dos alunos. Referências BLOOM, B. S. et al. Taxonomia de objetivos educacionais: domínio cognitivo. 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