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AULA 4 
DIREITO DIGITAL APLICADO 
Prof. Charles Emmanuel Parchen 
 
 
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TEMA 1 – ANALFABETISMO DIGITAL E LITERACIA DIGITAL COMO UM 
DIREITO 
Embora possamos afirmar que as tecnologias sejam usadas por milhões 
de pessoas ao redor do globo, não podemos esquecer de que existe uma enorme 
parcela da população mundial que sequer tem acesso a elas: são os chamados 
infoexcluídos. A infoexclusão, por evidente, leva à ausência de oportunidades, 
especialmente se levarmos em consideração o fato de que, na modernidade, o 
acesso e uso das tecnologias é condição premente para o exercício da cidadania 
e dignidade. 
Desse modo, a exclusão social pode implicar privação, falta de recursos 
ou, de uma forma mais abrangente, ausência de cidadania, se, por esta, 
se entender a participação plena na sociedade, aos diferentes níveis em 
que esta se organiza e se exprime: ambiental, cultural, económico, 
político e social. (Amaro, 2000, p. 11) 
 Logo, os infoexcluídos, com toda certeza, precisam de urgente atenção 
dos governos e entidades assistenciais, que devem promover a sua necessária 
inclusão digital. Importa dizer que, embora a questão dos que não têm acesso à 
tecnologia seja relevante e sirva de contextualização para a nossa aula, não 
vamos nos ater propriamente a ela. É necessário que foquemos em um outro tipo 
de fenômeno mais recente e que também causa ausência de cidadania e 
dignidade, relacionado àqueles que, tendo acesso à tecnologia, acabam não 
sabendo usá-la por falta de educação e conscientização. Estamos falando do 
analfabetismo digital, que é uma espécie de analfabetismo funcional e ocasiona 
terríveis consequências, especialmente relacionadas à segurança da informação 
e à superexposição: 
Em todo o mundo, a modernização das sociedades, o desenvolvimento 
tecnológico, a ampliação da participação social e política colocam 
demandas cada vez maiores com relação às habilidades de leitura e 
escrita. A questão não é mais apenas saber se as pessoas sabem ou 
não ler e escrever, mas também o que elas são capazes ou não de fazer 
com essas habilidades. Isso quer dizer que, além da preocupação com 
o analfabetismo, problema que ainda persiste nos países mais pobres e 
também no Brasil, emerge a preocupação com o alfabetismo, ou seja, 
com as capacidades e usos efetivos da leitura e escrita nas diferentes 
esferas da vida social. Ocorre que aquele que não domina a informática 
é um verdadeiro analfabeto, marginalizado pela rápida evolução 
tecnológica que possibilita o acesso à informação. O analfabetismo 
digital é um grande fator de exclusão, que resulta em sérias implicações 
sociais, políticas, jurídicas e econômicas. Antes se falava que aquele que 
não fosse devidamente alfabetizado, que não conseguisse interpretar e 
compreender um texto, estava marginalizado, estigmatizado. Com esteio 
nesta assertiva, essa tal pessoa não teria sua cidadania exercida 
 
 
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plenamente, estando, pois, fadada inexoravelmente a um destino sem 
perspectivas, restando-lhe somente subempregos. Ocorre que aquele 
que não domina a informática é um verdadeiro analfabeto, marginalizado 
pela rápida evolução tecnológica que possibilita o acesso à informação. 
O analfabetismo digital é um grande fator de exclusão, que resulta em 
sérias implicações sociais, políticas, jurídicas e econômicas. Antes se 
falava que aquele que não fosse devidamente alfabetizado, que não 
conseguisse interpretar e compreender um texto, estava marginalizado, 
estigmatizado. Com esteio nesta assertiva, essa tal pessoa não teria sua 
cidadania exercida plenamente, estando, pois, fadada inexoravelmente 
a um destino sem perspectivas, restando-lhe somente subempregos. 
Com efeito, a exclusão agora é outra. Hoje, "navegar" é imprescindível, 
sobretudo, dominar as tecnologias de informação. Sem embargos, 
informação é poder. Diante de tais circunstâncias, o já estreito funil da 
exclusão ficou mais apertado. É de incontroverso saber que a Internet e 
o computador são ferramentas imprescindíveis para quem quer se inserir 
no mercado de trabalho. Isto porque, desde o balconista do 
supermercado até o dentista ou o advogado, a todos se impõe o uso da 
informática. Qualquer profissional precisa dominar as tecnologias de 
informação, seja ele quem for, esteja ele onde estiver. Hodiernamente, 
sem informação não há comunicação, o que resulta em exclusão, 
marginalização. Temos, então o surgimento do excluído digital, o 
marginalizado do século XXI. (Malaquias, 2013, p. 1) 
Basicamente, parcela significativa dos usuários brasileiros de tecnologias 
é composta de pessoas sem qualquer instrução básica acerca de como operar e 
usar corretamente os sistemas e aplicativos disponíveis. De acordo com Peck 
(2002, p. 20): 
Outra consequência da sociedade convergente é o aumento da distância 
entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, devido ao que se 
chama de analfabetismo digital – um problema político social consistente 
em se ter uma massa de trabalhadores não preparada para o uso das 
novas tecnologias. O fenômeno da marginalização social se dá pela 
incapacidade dos indivíduos de conhecer e dominar as novas 
tecnologias. 
O fenômeno do analfabetismo digital é particularmente verificado no Brasil, 
país ainda insipiente no trato da tecnologia e de sua democratização. Como 
nação, experimentamos um enorme atraso tecnológico (lembre: não falaremos da 
parcela significativa da população que sequer tem acesso à internet), e o processo 
de espalhamento da era digital ainda possui enormes lacunas: 
E isso ocorre, basicamente, porque as escolas esqueceram de educar e 
orientar os alunos para o correto e proveitoso uso das tecnologias 
disponíveis e amplamente acessíveis. Não se observa nas escolas 
brasileiras, por exemplo, aulas sobre o correto uso de e-mails e do 
Facebook, ferramenta social amplamente difundida entre os jovens. 
(Parchen, 2014, p. 85-86) 
O Brasil é um país especialista em dar subsídios para que as pessoas 
possam comprar aparatos tecnológicos: houve sucessivas renúncias fiscais 
(como as que suspenderam a incidência de impostos – principalmente PIS/Pasep 
 
 
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e COFINS) em favor dos fabricantes, importadores e exportadores de tecnologia. 
Isso culminou na criação da Lei 11.196/2005 e foi responsável pelo espraiamento 
de muitos dos dispositivos tecnológicos usados pelos brasileiros: 
Além do combate ao mercado informal, a Lei do Bem também tem sido 
essencial para o programa de inclusão digital do governo, que, embora 
bem-sucedido até aqui, ainda tem muito a avançar, principalmente, 
considerando todas as oportunidades que surgem no horizonte próximo, 
com a internet das coisas, onde a tecnologia estará cada vez mais 
presente na vida de toda a sociedade. (Abinee, 2015, p.1) 
No ano de 2014, o Governo Federal isentou PIS e COFINS de 
comerciantes de computadores, smartphones, tablets e roteadores (O Globo, 
2014, p. 1). Os benefícios foram revogados em 2015 pela Medida Provisória 690. 
Isso mostra que os governantes muito se preocuparam em possibilitar o acesso 
das pessoas às tecnologias, mas, em contrapartida, nada houve quanto à 
preocupação legislativa sobre o correto uso dos dispositivos tecnológicos: não há 
nenhuma política pública educacional que sirva a instruir o usuário sobre os riscos 
e perigos envolvidos, por exemplo, quando do uso de redes sociais. 
O fato é que não é possível afirmar se essa omissão do Estado é proposital 
ou não. No entanto, a ausência de uma preocupação com o correto uso das 
tecnologias tem o potencial de trazer perigosas situações para os usuários, tais 
como a ocorrência cada vez maior de fraudes eletrônicas, furto e roubo de dados, 
divulgação sem controle de documentos sigilosos, instalação indevida de trojans 
e vírus de computador, entre outros. 
A intensidade dos relacionamentos na web é intensa. No ano de 1929, o 
jornalista húngaro Frigyes Karinthy foi responsável por criar uma crônica que dizia 
que, quando oassunto são conexões, qualquer pessoa do mundo estaria a no 
máximo 5 graus de separação uma da outra, mesmo que jamais se conhecessem. 
Mais tarde, em 1967, o psicólogo americano Stanley Milgram conduziu uma 
experiência que provou que as pessoas estavam separadas umas das outras, em 
redes de conexão, a no máximo 6 graus. 
Para provar sua hipótese, bastou que ele pedisse a uma pessoa aleatória 
que fizesse chegar uma carta endereçada à outra, em um lugar bem distante. A 
única condição era a de que a pessoa que recebesse a carta deveria repassá-la 
adiante à outra pessoa que fosse considerada possível de conhecer o destinatário 
da correspondência. Com isso, percebeu-se que a média de pessoas utilizadas 
para que a carta chegasse ao destino era de apenas 6 intermediários. Essa tese 
 
 
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ficou famosa e conhecida como a teoria dos seis graus de separação, dando 
origem a livros e filmes. 
Todavia, com o advento da internet e mais especialmente da banda larga 
e das redes sociais, o Facebook foi o responsável por destruir esses graus de 
separação. Segundo informações da própria rede social, dentro dela, qualquer 
pessoa está separada de outra por graus que variam entre 2,9 a 4,2 usuários, com 
média de 3,57 (TechTudo, 2016, p.1). Esse cenário é preocupante, pois diante de 
tanta troca de vivências, experiências, produção de dados e informações, vivemos 
em uma repleta ausência de literacia digital (digital literacy). 
Esse termo pode ser conceituado como: 
Destreza digital significa ter as habilidades necessárias para viver, 
aprender e trabalhar em uma sociedade em que a comunicação e o 
acesso à informação são cada vez maiores por meio de tecnologias 
digitais como plataformas da internet, redes sociais e dispositivos móveis 
(Western Sydney University, 2016, p. 1, tradução nossa) 
A literacia digital é entendida como a capacidade de acurácia ou destreza 
digital, tão necessária na contemporaneidade. Richard Lanham, citado por 
Laskshear e Knobel (2006, p.12, tradução nossa) designa digital literacy como: “a 
capacidade de entender as informações apresentadas”. Já para Payton e Hague 
(2010, p. 5, tradução nossa), pode ser entendida como: 
Ter destreza digital é ter acesso a uma ampla gama de práticas e 
recursos culturais que você pode aplicar a ferramentas digitais. É a 
capacidade de fazer, representar e compartilhar significado em 
diferentes modos e formatos; para criar, colaborar e comunicar de forma 
eficaz e para entender como e quando as tecnologias digitais podem ser 
mais bem utilizadas para apoiar esses processos. 
O processo legislativo deveria voltar sua atenção para a tutela daqueles 
que estão em risco diante do mau uso das tecnologias. Ao mesmo tempo, vemos 
que o direito tem papel importante nesse aspecto, quando da salvaguarda dos 
direitos dos hipossuficientes e vulneráveis (lembrando que, quando o assunto é 
internet, podemos falar em hipervulnerabilidade). É por essa razão que todo bom 
profissional da área jurídica deve estar antenado a estes fenômenos que 
permeiam a sociedade tecnológica. 
É necessário estar atento também para o fato de que maus 
comportamentos ocasionam brechas de segurança e pessoas má intencionadas. 
Estas se aproveitam para a prática de atos deletérios e crimes contra os usuários 
das tecnologias, especialmente de redes sociais. E é por isso que o analfabetismo 
digital é tão perigoso e virulento. 
 
 
6 
As redes sociais possuem seus próprios dispositivos de segurança, tais 
como as opções de privacidade que são disponibilizadas aos usuários. Uma vez 
alterados, permitem que, por exemplo, um perfil seja bloqueado ou, ainda, que 
determinado conteúdo fique restrito apenas a “amigos”. Todavia, qualquer 
ativação, configuração e manutenção desses filtros só pode ser feita se o usuário 
quiser. Logo, é aqui que percebemos a importância da literacia digital: quanto mais 
se compreender a forma de funcionamento da tecnologia, melhor será seu uso e 
maior a proteção contra qualquer malefício decorrente do ambiente digital. Só que 
para isto ocorrer, é necessária a educação – ou literacia digital – que o Estado e 
entes privados devem promover. 
Portanto, o comportamento do usuário é determinante para ocorrência de 
problemas. Apenas como exemplo, vejamos que a superexposição decorre da 
prática de atos não raciocinados ou bem internalizados, tais como os de aceitar 
conexão com perfis de pessoas estranhas, “marcar” fotos de viagens e locais de 
encontro, ostentar bens de consumo de alto valor, dar informações sobre o trajeto 
e local de trabalho etc. Perceba que, se o usuário tiver um suficiente conhecimento 
acerca das vantagens e desvantagens das tecnologias, bem como de sua 
responsabilidade e as implicações das informações constantes das redes, 
pensaria duas vezes antes de colocar no Facebook a foto do filho recém-nascido. 
Deve-se ter em conta que a tecnologia envolve muitos riscos que não são 
minimamente controlados, e é necessário, assim como tudo na vida, conhecer o 
intermédio e a ferramenta tecnológica para que possa haver seu bom proveito. 
Um bom exemplo de adoção de literacia digital no caso das redes sociais é a 
leitura atenta dos termos de uso e política de privacidade, pois o usuário, por 
contrato, acaba concordando com ambos quando faz uso de uma rede social. 
Por todas essas razões é que precisamos entender a literacia digital como 
um direito de todo usuário da tecnologia, na promoção da sustentabilidade e da 
dignidade da pessoal humana, que devem sempre pautar as relações sociais, 
inclusive no âmbito digital. Para encerrar este capítulo, importa dizer também que 
a ausência de literacia digital é verificada em todos os países ao redor do globo, 
não sendo exclusividade de um ou outro. O que ocorre, na verdade, é que países 
periféricos e pouco desenvolvidos apresentam índices maiores de inabilidade para 
a tecnologia. E é por esta motivo que o Brasil é um país campeão da disseminação 
das denominadas fake news, que abordaremos a partir de agora. 
 
 
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TEMA 2 – AS FAKE NEWS E AS BOLHAS INFORMACIONAIS 
As fake news, também conhecidas como notícias falsas ou ainda, 
desinformação, podem ser conceituadas como “as publicações on-line de 
intencionais ou conscientemente falsas declarações de fatos” (Klein; Wueller, 
2017, p. 6). Elas não são fenômeno recente, muito menos têm origem no âmbito 
tecnológico, pois ao longo da história da humanidade foram muito utilizadas. 
Como exemplos, na Idade Média, percebemos o importante papel da 
falsidade da informação, pois dissimular o que era feito fazia parte da estratégia 
de guerra e de poder sobre o inimigo. Por sua vez, na Segunda Guerra Mundial, 
a Alemanha nazista usava uma máquina, denominada Enigma, para embaralhar 
as mensagens do comando alemão e evitar que os inimigos conhecessem seu 
conteúdo. Mais tarde, Alan Turing, considerado o pai da informática, foi o 
responsável por descriptografar o encadeamento de informações alemãs, dando 
vantagem aos Aliados para vencer o conflito de forma definitiva. 
Portanto, podemos afirmar que as fake news sempre acompanharam e irão 
acompanhar a humanidade, fazendo parte inexorável desta. Mas então o que 
ocorre com a tecnologia que torna a desinformação algo tão premente a ser 
estudado? É que a era digital, infelizmente, potencializou as notícias falsas, já que 
estão submetidas à velocidade da banda larga e se espalham rápida e 
instantaneamente, assim como seus efeitos. 
Com isso, nunca na história as fake news foram tão perigosas, 
especialmente em redes sociais como o Twitter que, com seus chats, fóruns e 
discussões, dá voz a qualquer tipo de conteúdo, independentemente de sua 
qualidade ou quantidade. E o que é pior: de forma completamente monista, 
polarizada e carregada de discursos de ódio (haterismo). 
Vivemos um ambiente digital dominado por enormes quantidades de 
mensagens que livremente trafegam via WhatsAppou Facebook e se espalham 
sem distinção à medida que vão sendo compartilhados de maneira indiscriminada 
e sem verificação. Nesse sentido, o jornal O Estado de S. Paulo afirma que, para 
o ano de 2017, mais de 12 milhões de pessoas difundiam reiteradamente notícias 
falsas sobre política no Brasil (O Estado de São Paulo, 2017, p. 1). 
As notícias falsas, portanto, reforçam os chamados filtros-bolhas, ou seja, 
conteúdos de internet completamente enviesados, destinados ao manter o usuário 
“preso” ao seu universo de convencimento, sem se dar conta do restante da 
 
 
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realidade que o cerca. Logo, as fake news têm o potencial de fazer com que os 
usuários da web estejam envoltos a visões fragmentárias e potencialmente 
distorcidas da realidade, pois na ausência de uma visão holística dos fatos, há a 
perda do senso de comunidade, da tolerância, da empatia e da alteridade. 
A criação de filtros-bolha faz com que a radicalização aumente 
exponencialmente, pois cada vez mais se sabe muito de algo que muitas vezes é 
irrelevante, fútil ou extremamente filtrado, pormenorizado, direcionado ou 
especializado, e menos do “restante do mundo”. A pervasividade das fake news é 
tamanha que há, com elas, um nefasto empobrecimento cultural e informacional 
de toda a coletividade: há o que Sunstein (2007, p. 1) designa de “The Daily Me” 
(Diário do Eu): um “jornal da vida” altamente personalizado e filtrado e que 
corresponde a apenas uma parte do todo, no qual só se tem acesso ao que se 
quer ver e ouvir, sem possibilidade de abertura ao diálogo e ao heterogêneo. 
Assim, as fake news, corroboradas pelos filtros-bolha, segmentam grupos 
e fortalecem as assimetrias informacionais: enaltecem crenças equivocadas de 
uma pessoa que, por sua vez, fazem com que ela não mude sua opinião (Johnson, 
2012). Quem perde, por evidente, é a democracia, afinal, de segregação em 
segregação, torna-se impossibilitado qualquer debate ou diálogo sob o âmbito da 
pluralidade, da complexidade e da alteridade. 
Podemos agora compreender o papel do direito com relação às fake news: 
é necessário salvaguardar a democracia e a cidadania como condição plena da 
dignidade humana. Para isso, deve haver leis rígidas que coíbam as 
desinformações. Elas são, dentre todas as más condutas sociais da era digital, as 
que mais estão relacionadas à ausência de educação para o bom e correto uso 
das tecnologias (literacia digital): elas dependem exclusivamente do 
comportamento do usuário. Neste sentido, “o cerne das Fake News é o 
desconhecimento do usuário acerca do seu papel e responsabilidade social, além 
de como bem usar o aparato tecnológico posto à disposição” (Parchen, 2020, p. 
132). E é por isso que são as que podem ser mais facilmente solucionadas: a 
desinformação é, eminentemente, uma questão de educação. 
Infelizmente, o Estado brasileiro não possui, até o presente momento, 
políticas públicas que foquem no combate das notícias falsas por intermédio da 
educação para o uso das tecnologias. Por evidente, isto é uma opção política 
completamente equivocada, pois se de um lado há políticas de subsídios para a 
aquisição de aparelhos tecnológicos, o mesmo não se pode faltar em dotação de 
 
 
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literacia digital à população. Isso é lamentável, pois desta forma, percebe-se que 
as fake news não são fenômeno que irão diminuir ou acabar. Pelo contrário, irão 
aumentar cada vez mais, sujeitando a sociedade aos riscos derivados da 
desinformação e da mentira – ainda mais em ambientes de internet, onde 
prepondera o anonimato e a dificulta de rastreamento da origem das fake news. 
Como tentativa de combater a desinformação, o Senado aprovou em 30 de 
junho de 2020 o Projeto de Lei n. 2.630/2020, que cria a lei brasileira de liberdade, 
responsabilidade e transparência na internet. A intenção é clara: evitar prejuízos 
decorrentes aos direitos individuais e coletivos (Brasil, 2020). Dentre as 
proposições, encontra-se a obrigação de as plataformas excluírem contas falsas; 
a criação de compliance para uso de redes em órgãos públicos; a revisão e 
remoção de conteúdo ofensivo; a responsabilização de fornecedores por notícias 
falsas, entre outros (Brasil, 2020). Ao mesmo tempo, acompanha-se na mídia o 
julgamento, pelo STF, do chamado inquérito das fake news, que visa 
responsabilizar aqueles que disseminaram informações falsas, por exemplo, 
contra os membros da Corte. 
Diante desse frágil e temerário cenário, devemos inclusive nos perguntar: 
qual o papel de empresas como Google, Facebook, Apple e Microsoft no combate 
à desinformação? Não se percebe qualquer tipo de movimento delas, nem mesmo 
em seus termos de uso ou políticas de privacidade, que se preocupe com ética, 
moralidade, bom uso das tecnologias. Logo, se os grandes players privados 
propositadamente não se preocupam com a literacia digital – algo que o 
documentário O Dilema das Redes, da Netflix deixa claro – podemos afirmar que 
é função e responsabilidade do estado tutelar e promover a literacia digital como 
única forma eficaz de combate às fake news. 
Contudo, as notícias falsas não são o único tipo de prática nefasta 
observada na rede mundial de computadores. Com efeito, há muitas outras, sendo 
que as principais necessitam ser conhecidas pelo operador do direito. 
TEMA 3 – PRINCIPAIS CONSEQUÊNCIAS SOCIOAMBIENTAIS DERIVADAS DO 
USO DA INTERNET 
Vamos olhar mais detidamente algumas consequências de ordem 
socioambiental que ocorrem na internet e que urgem do profissional do direito a 
devida atenção para suas ocorrências, a fim de preveni-las ou, ainda, combatê-
 
 
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las da maneira mais adequada quando de ações judiciais que se façam 
necessárias para a tutela dos direitos daqueles que as experimentam. 
3.1 Trollagem 
Primeiramente, trataremos da trollagem, que é uma prática tão nociva 
quanto as fake news. Isso porque ela consiste: 
[...] no fato de alguém, usando informações postas em meios digitais, 
(como a rede mundial de computadores e a computação em nuvem) 
tumultuar propositadamente, geralmente utilizando-se de argumentos 
estúpidos, alguma discussão, fórum ou chat na Internet. Ainda, usando 
de informações privadas e íntimas, praticar brincadeiras ou “pegadinhas” 
de forma a induzir determinada pessoa em erro e também a obrigando a 
passar por situações constrangedoras e engraçadas perante as vistas 
de todos. (TecMundo, 2012, p. 1) 
O termo advém de troll, criatura mítica e lendária caracterizada por sua falta 
de inteligência e agressividade (TecMundo, 2012, p. 1). Qual o objetivo de quem 
executa essa prática? Causar controvérsia, originar atritos e discussões 
desnecessárias, às vezes pelo simples prazer de gerar esses conflitos. Nesse 
sentido: 
O simples acompanhamento de listas de discussões, fóruns e debates 
no Facebook, Twitter e outros revela que a informação gerada é 
facilmente deturpada de modo a conformar a propagação de discursos 
muitas vezes temerários, seja para fazer propaganda política, seja para 
causar medo, comoção ou ainda, induzir a erro quem é vítima de tal 
perigoso fator socioambiental da era digital. (Parchen, 2014, p. 100) 
Tal prática é consistente no fato de alguém, usando de informações digitais, 
tumultuar propositadamente, geralmente com argumentos estúpidos, discussões, 
fóruns e chats, praticando pegadinhas, brincadeiras de mal gosto ou forçando a 
pessoa a erro, constrangendo-a e a colocando em humilhação perante os outros. 
Assim como ocorre com as fake news, a trollagem deriva de questão 
eminentemente comportamental, cujo ato infringe o senso comum, a lei (dignidade 
da pessoa humana e boa-fé objetiva) e os códigos sociais de ética e conduta. 
3.2 Haterismo e ciberbullying 
Da trollagem deriva o haterismo (discurso de ódio). Esse tipo de conduta é 
a faceta mais sombria de um monismo informacional, pois não só tem a função 
de causar controvérsia desnecessárias, mas às vezes serve de projeto político eeconômico, na medida em que as polarizações e radicalizações decorrentes do 
 
 
11 
hatter fomentam a infração aos direitos de personalidade mais elementares de 
uma pessoa ou coletividade. Como consequência jurídica do haterismo, tem-se a 
infração à liberdade de pensamentos, de livre manifestação, de pluralidade e 
filiação a partidos políticos, religiões, clubes ou gostos pessoais. A pluralidade, 
diversidade e pacificação social são todos direitos previstos na Constituição. 
Da junção do haterismo com a trollagem verifica-se a ocorrência do 
ciberbullying, “que é apenas um dos exemplos de trollagem que acontecem 
corriqueiramente em ambientes de nuvem” (Parchen, 2014, p. 100). O bullying, 
para se caracterizar, precisa de uma vítima e plateia. Quando a plateia é a virtual, 
digital, ou das redes sociais, fala-se em ciberbullying, que se caracteriza por 
comentários depreciativos que se espalham na velocidade da internet banda larga 
e se perpetuam no mundo digital, tornando-se indeléveis (mecanismo eterno de 
memória). 
As consequências jurídicas são amplas, pois a superexposição indevida 
leva à vergonha e humilhação, e inclusive casos de suicídio. Logo, o ciberbullying 
atenta contra a saúde psíquica e física, o direito à vida e à livre determinação, bem 
como à privacidade e intimidade, todos estes direitos constitucionais. 
3.3 Sexting e revenge porn 
Há ainda o chamado sexting, que é a prática de envio de fotos e vídeos 
com conteúdo erótico ou pornográfico, usando meios eletrônicos, por obtenção de 
prazer, vaidade, beleza etc. Isso gera algumas consequências jurídicas, como a 
infração à privacidade, intimidade, crime de estelionato, chantagem, extorsão etc. 
Inclusive, pode ocorrer a prática da “vingança pornô” (revenge porn), que é o ato 
de divulgação, sem autorização ou consentimento, do conteúdo do sexting, para 
obter vantagem ou se “vingar” de um término de relacionamento, por exemplo. Tal 
ato foi considerado crime pela Lei n. 13.718/2018, que alterou o Código Penal e 
incluiu o tipo do art. 218-C: 
Art. 218-C. Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, vender ou expor 
à venda, distribuir, publicar ou divulgar, por qualquer meio - inclusive 
por meio de comunicação de massa ou sistema de informática ou 
telemática -, fotografia, vídeo ou outro registro audiovisual que 
contenha cena de estupro ou de estupro de vulnerável ou que faça 
apologia ou induza a sua prática, ou, sem o consentimento da vítima, 
cena de sexo, nudez ou pornografia: Pena - reclusão, de 1 (um) a 5 
(cinco) anos, se o fato não constitui crime mais grave. Aumento de 
pena: § 1º A pena é aumentada de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços) se 
o crime é praticado por agente que mantém ou tenha mantido relação 
íntima de afeto com a vítima ou com o fim de vingança ou humilhação. 
 
 
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§ 2º Não há crime quando o agente pratica as condutas descritas no 
caput deste artigo em publicação de natureza jornalística, científica, 
cultural ou acadêmica com a adoção de recurso que impossibilite a 
identificação da vítima, ressalvada sua prévia autorização, caso seja 
maior de 18 (dezoito) anos. (Brasil, 2018, p. 1) 
Oportuno aqui adentrarmos na análise de crimes na internet que, para além 
da revenge porn, ocorrem quando há, por exemplo, furto ou roubo de dados 
sigilosos de um servidor ou, ainda, de discos rígidos ou pen-drives: logins e 
senhas bancárias são devassadas, com a retirada indevida de numerário de 
contas correntes e aplicações financeiras sem que o correntista tenha ciência do 
que está ocorrendo. 
3.4 Malwares e phishing 
Essa prática é cada vez maior e mais frequente, e acontece especialmente 
quando o usuário da tecnologia, por não saber usá-la, instala em seu dispositivo 
malwares (como vírus de computador), que contribuem para a violação dos 
sistemas de segurança. Como explana a empresa de segurança na internet, 
Symantec (2012, p. 1, tradução nossa): 
O número de ataques direcionados aumentou drasticamente em 2011, 
de uma média de 77 por dia em 2010 para 82 por dia em 2011. E as 
ameaças persistentes avançadas (APTs) atraíram mais atenção do 
público como resultado de alguns incidentes bem divulgados. Ataques 
direcionados usam malware customizado e engenharia social 
direcionada refinada para obter acesso não autorizado a informações 
confidenciais. Esta é a próxima evolução da engenharia social, onde as 
vítimas são pesquisadas com antecedência e visadas especificamente. 
Normalmente, os criminosos usam ataques direcionados para roubar 
informações valiosas, como dados de clientes, para obter ganhos 
financeiros. Ameaças avançadas persistentes usam ataques 
direcionados como parte de uma campanha de espionagem de longo 
prazo, normalmente visando informações ou sistemas de alto valor no 
governo e na indústria. 
A instalação de trojans – cavalos de Troia, ou “presentes de grego” –, que 
são programas maliciosos, disfarçados de programas comuns e legítimos, explora 
as vulnerabilidades do computador para permitir a hackers e crackers controlá-
los, roubar dados etc. Eles se dividem em keyloggers – roubo de senhas – e 
backdoors – abrem as “portas” do computador para invadi-lo. 
Já os vírus são programas de computador que visam a destruição de 
arquivos e de sistemas operacionais, ocasionando defeitos nas peças dos 
computadores. Geralmente são replicáveis, ou seja, fazem cópias deles mesmos 
e se espalham aos contatos salvos no computador. 
 
 
13 
Dentre as principais práticas de malwares encontra-se o phishing, que nada 
mais é do que a “pesca” de informações e dados pessoais por intermédio de 
“armadilhas” ou iscas (exemplo: clique aqui para bloquear seu cartão de crédito). 
Objetiva o furto de dados pessoais como senhas, cartões etc. e geralmente se dá 
por e-mails e chats. Do ponto de vista jurídico, constitui o phishing um claro ato 
ilícito que gera danos materiais e morais, podendo ser inclusive ilícito penal 
(Código Penal e Lei Carolina Dieckman). 
Logo, agregado ao custo financeiro dos malwares, há outro que não pode 
ser facilmente constatado, que é o impacto socioambiental e psicológico 
(emocional) de todas estas más práticas. O “custo social” é enorme, na medida 
em que a maioria dos cibercrimes é oriunda do incorreto comportamento dos 
usuários diante da tecnologia, o que contribui decisivamente para brechas e 
lacunas de segurança da informação. 
3.5 Stalking 
O stalking (perseguição persistente) é um termo da língua inglesa que 
designa uma forma de violência na qual o sujeito ativo invade repetidamente a 
esfera de privacidade da vítima, empregando táticas de perseguição e meios 
diversos, tais como ligações telefônicas, envio de mensagens pelo SMS ou 
por correio eletrônico, publicação de fatos ou boatos em sites 
(cyberstalking), remessa de presentes, espera de sua passagem nos lugares que 
frequenta etc. 
Resulta dano à integridade psicológica e emocional da vítima (geralmente 
mulher), restrição à sua liberdade de locomoção ou lesão à sua reputação. Os 
motivos dessa prática são os mais variados: erotomania, violência doméstica, 
inveja, vingança, ódio ou simples “brincadeira”. 
Na internet, se faz por meio de mensagens em redes sociais, vídeos, 
comentários em blogs, perfis etc. Como evidentes consequências jurídicas, tem-
se a perda da privacidade e intimidade, além da infração ao Código Civil caso a 
perseguição gere prejuízo moral e material. Do ponto de vista criminal, tal prática 
é objeto do Projeto de Lei n. 1369/2019, que estabelece prisão de até 2 anos ao 
perseguidor. Nesse sentido, criará o tipo do art. 149-B do Código Penal: 
Art. 149-B. Perseguir ou assediar outra pessoa, de forma reiterada, por 
meio físico ou eletrônico ou por qualquer outro meio, direta ou 
indiretamente, de forma a provocar-lhe medo ou inquietação ou a 
 
 
14 
prejudicar a sua liberdade de ação ou de opinião: Pena – detenção, de 
6 (seis) meses a 2 (dois) anos, ou multa (Brasil, 2019,p.1) 
O projeto foi aprovado pela Câmara dos Deputados no final de 2020 e 
encaminhado ao Senado para votação. Pois bem: sem pretensão de esgotar as 
práticas derivadas do comportamento do usuário na internet, que seriam muitas, 
e uma vez ultimada a análise das principais consequências de ordem 
socioambiental e suas repercussões no âmbito jurídico, cabe adentrarmos na 
questão do direito ao esquecimento, que está em voga por conta do julgamento 
do tema junto ao STF (leading case RE 1010606). 
TEMA 4 – O DIREITO AO ESQUECIMENTO 
O chamado direito ao esquecimento teve origem na União Europeia, mais 
especificamente na Espanha, e tem inspiração no direito penal – esquecimento, 
ressocialização, ficha criminal limpa após cumprimento da pena, recomeço etc. O 
caso paradigmático, que inaugurou a discussão, assim ficou ementado: 
TJ/U.E- processo c-131/12) – Google Spain x agência espanhola de 
proteção de dados . «dados pessoais — proteção das pessoas 
singulares no que diz respeito ao tratamento desses dados — diretiva 
95/46/ce — artigos 2.°, 4.°, 12.° e 14.° — âmbito de aplicação material e 
territorial — motores de busca na internet — tratamento de dados 
contidos em sítios web — pesquisa, indexação e armazenamento 
desses dados — responsabilidade do operador do motor de busca — 
estabelecimento no território de um estado-membro — alcance das 
obrigações desse operador e dos direitos da pessoa em causa — carta 
dos direitos fundamentais da união europeia — artigos 7.° e 8.°» (EUR-
Lex, 2014, p. 1) 
O sr. Mario González, perito em caligrafia, teve uma notícia sua novamente 
veiculada, mas desta vez na internet e no ano de 2008. Acontece que o jornal La 
Vanguardia digitalizou seu acervo, e uma edição trazia, ao lado de uma notícia 
sobre eutanásia e suicídio de um tetraplégico, o fato de o sr. Mario dever e não 
pagar seu financiamento imobiliário. Logo, seu apartamento foi levado à leilão. No 
Google, o jornal era acessível a todos. O fato havia ocorrido cerca de 20 anos 
antes. 
Em um primeiro momento, instado pelo sr. Mario, o Google se recusou a 
cumprir a ordem da agência espanhola de proteção de dados para retirada do 
conteúdo. O caso foi parar no Tribunal de Justiça da União Europeia, que decidiu 
o caso, no ano de 2014, favoravelmente a Gonzalez: o Google foi obrigado a 
remover todos os links de acesso ao conteúdo. 
 
 
15 
A questão do direito ao esquecimento é de suma importância para o 
ordenamento jurídico brasileiro, pois não só o STF, como já dito, está se 
debruçando atualmente sobre o problema, como o direito ao esquecimento guarda 
íntima relação com o Marco Civil da Internet (Lei n. 12.965/2014). Seu art. 7º, X, 
determina como direito do usuário: 
X - exclusão definitiva dos dados pessoais que tiver fornecido a 
determinada aplicação de internet, a seu requerimento, ao término da 
relação entre as partes, ressalvadas as hipóteses de guarda obrigatória 
de registros previstas nesta Lei. (Brasil, 2014, p. 1) 
Podemos notar que a questão de fundo é o embate de princípios 
constitucionais: de um lado, o direito à privacidade e intimidade (art. 5º, X), e de 
outro, à liberdade de informação (art. 5º, IV e IX). O julgamento do caso paradigma 
– RE 1010606 – e com repercussão geral reconhecida – Tema 786 – se debruçou 
sobre esse conflito. Em 11 de fevereiro de 2021, por 9 a 1 (o Ministro Barroso não 
votou) fixou-se a tese contra o direito ao esquecimento (Folha de S. Paulo, 2021). 
Nesse sentido: 
Decisão: O Tribunal, por maioria, apreciando o tema 786 da repercussão 
geral, negou provimento ao recurso extraordinário e indeferiu o pedido 
de reparação de danos formulado contra a recorrida, nos termos do voto 
do Relator, vencidos parcialmente os Ministros Nunes Marques, Edson 
Fachin e Gilmar Mendes. Em seguida, por maioria, foi fixada a seguinte 
tese: "É incompatível com a Constituição a ideia de um direito ao 
esquecimento, assim entendido como o poder de obstar, em razão da 
passagem do tempo, a divulgação de fatos ou dados verídicos e 
licitamente obtidos e publicados em meios de comunicação social 
analógicos ou digitais. Eventuais excessos ou abusos no exercício da 
liberdade de expressão e de informação devem ser analisados caso a 
caso, a partir dos parâmetros constitucionais - especialmente os relativos 
à proteção da honra, da imagem, da privacidade e da personalidade em 
geral - e as expressas e específicas previsões legais nos âmbitos penal 
e cível", vencidos o Ministro Edson Fachin e, em parte, o Ministro Marco 
Aurélio. Afirmou suspeição o Ministro Roberto Barroso. Presidência do 
Ministro Luiz Fux. Plenário, 11.02.2021 (Sessão realizada por 
videoconferência - Resolução 672/2020/STF) (Brasil, 2021, p. 1) 
No conflito de preceitos constitucionais, não há hierarquia entre eles, de 
modo que tende a ser privilegiado aquele quer mais se aproxima do interesse 
coletivo e da preservação dos interesses da sociedade brasileira como um todo. 
Neste caso, devemos sempre nos indagar: no confronto entre a liberdade de 
expressão e o direito à privacidade e intimidade, qual dos dois princípios 
prevalece? 
A resposta não é simples e ganha contornos ainda mais dramáticos, porque 
o direito a esquecimento confronta, quando o assunto é a tecnologia, mecanismos 
eternos de memória, ou seja: dados são indeletáveis ou sofrem backup ou 
 
 
16 
redundância, o que os eterniza para sempre. Assim, há, efetivamente, um direito 
ao esquecimento ou este não passa de uma retórica sem aplicação prática na 
contemporaneidade das redes sociais, dos memes e das correntes de WhatsApp? 
TEMA 5 – NEUROMARKETING E VÍCIOS DE CONSENTIMENTO EM 
CONTRATOS ELETRÔNICOS 
Por tudo o que vimos até aqui, fica claro que os riscos a que os usuários 
da tecnologia se submetem são superlativos e, portanto, podemos falar na 
existência de uma hipervulnerabilidade. Ao abordar os negócios jurídicos na 
internet, mais especificamente os contratos eletrônicos, podemos perceber que 
eles estão todos eivados de técnicas de neuromarketing que fazem uma pessoa 
consumir de maneira irracional e, portanto, compulsivamente. 
Lembre que já vimos anteriormente a forma como o cérebro humano age e 
pensa, de modo que os algoritmos influenciam nosso processo de tomada de 
decisão. É justamente nos campos cerebrais não autônomos e intuitivos que as 
técnicas de consumo compulsivo vão incidir. Nesse sentido: 
O neuromarketing explora a fundo os sistemas reptiliano e límbico do 
cérebro humano em busca da indução ou da sugestão do automatismo 
e do inconsciente, usando artifícios que ativem ou os exacerbem, bem 
como que produzam emoções e sensações de prazer no cérebro, 
diminuindo, portanto, a atuação ou a preponderância do córtex 
responsável pela decisão racional. (Parchen; Freitas; Meireles, 2018, p. 
528) 
O uso de sons, emojis, cores e movimentos dá a sensação, na internet, de 
prazer e confiança. Além disso, o acolhimento e bem-estar são produzidos em 
meios eletrônicos de divulgação, o que em uma mídia tradicional, como o jornal 
impresso, por exemplo, não é possível. Dessa maneira, a imersão proporcionada 
pela experiência de navegação na web torna prazeroso estar nela. Com isso, o 
engajamento (ou fidelidade) às plataformas aumenta muito. Essa forma de 
conexão é de suma importância para a atividade de redes sociais, por exemplo, 
pois, como já vimos anteriormente, as empresas dependem da mineração dos 
dados produzidos para lucrar. E manter o usuário fiel e produzindo dados a todo 
o momento é, com certeza, um desafio suprido de forma parcial justamente pelo 
neuromarketing. 
Esta questão é importante para o operador do direito, na medida em que, 
se, pela teoria dos contratos, aprendemos que a vontade que forma o negócio 
jurídico não pode ser viciada e tem de ser livre e desimpedida (sob pena de 
 
 
17 
caracterizar vício de consentimento), pode-se falar em vício de consentimento em 
contratos eletrônicos que tem por técnicade consumo a aplicação de elementos 
de neuromarketing? Neste sentido: 
Desta forma, fazendo com que o inconsciente, os automatismos 
cerebrais e as emoções prevaleçam, o neuromarketing vai estimular o 
ser humano a agir por puro impulso e em claro detrimento do raciocínio. 
Aproveitando-se da efemeridade das relações sociais digitais, o 
neuromarketing como técnica de mercado pode potencializar a 
dependência dos produtos e serviços conformados para a Internet, 
causando, por exemplo, sensações de onipotência, onipresença e 
onisciência de produtos e serviços como o Google, o WhatsApp, o 
Facebook, o Twitter e outros, ao mesmo tempo sem que o consumidor 
esteja ciente de que sua vida inteira é permeada pela informática e pela 
não possibilidade de desconexão à rede mundial de computadores. 
(Parchen; Freitas; Meireles, 2018, p. 536-537) 
Importa percebermos que as técnicas de neuromarketing se dão de forma 
“invisível” à percepção do usuário e ajudam a criar dependência de tecnologias, 
como WhatsApp, Facebook, Google etc. Assim, por meios indiretos ou 
mecanismos sutis de indução, o usuário não conseguirá saber ou discernir, por 
exemplo, seus deveres e direito, e mais: os riscos a que está sujeito com o uso 
da tecnologia. 
Portanto, o neuromarketing infringe claramente inúmeras disposições 
normativas brasileiras, entre elas o princípio constitucional da proteção 
integral do consumidor, da Dignidade da Pessoa Humana, do Meio 
Ambiente Ecologicamente Equilibrado, da boa-fé objetiva e dos 
requisitos de formação do contrato, isso sem falar do Código de Defesa 
do Consumidor, pois imputa ao consumidor cláusulas abusivas e 
prestações claramente desproporcionais e excessivas. (Parchen; 
Freitas; Meireles, 2018, p. 545) 
A título de conclusão, importa esclarecer que, se reconhecermos que nos 
contratos eletrônicos há aplicação de técnicas de neuromarketing que levam a 
consentimentos viciados, é direito do usuário – à luz do Código Civil e do Código 
de Defesa do Consumidor – pedir sua anulação e/ou revisão em Juízo. 
 
 
 
 
18 
REFERÊNCIAS 
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BRASIL. Lei 13.718, de 24 de setembro de 2018. Diário Oficial da União, 
Brasília, DF, 25 set. 2018. Disponível em: 
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato20152018/2018/lei/l13718.htm>. 
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