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GÊNEROS TEXTUAIS EM LIBRAS AULA 2 Prof.ª Joana Bonato Melegari Andrade 2 CONVERSA INICIAL Gêneros textuais e gêneros do discurso Em nossa Aula 1, mergulhamos nos Gêneros do Discurso. Nesta Aula 2, iremos dialogar sobre os Gêneros Textuais, compreendendo esse Conceito e aplicando nosso Conhecimento nas Análises Textuais de Produções Textuais, com relação a Textos Sinalizados. Pensemos da seguinte forma: se os Gêneros do Discurso, produzidos em diferentes Esferas Sociais, ocupam-se dos Enunciados produzidos pelos sujeitos, devemos observar a concretude da Linguagem. Os Gêneros Textuais se ocupam das Textualidades, da Materialidade Textual imprimida nos suportes que carregam Enunciados Linguístico-Ideológicos em sua composição. Os Gêneros do Discurso englobam Textos, símbolos, imagens e até mesmo modos de comportamento. As discussões sobre os Gêneros Textuais se ocupam dos Textos (Escritos, Sinalizados, Visuais e Orais), podendo desconsiderar os fatores Sociais, analisando de forma preponderante o Texto concreto e sua estrutura; em essência e se distinguindo dos Textos, os Gêneros do Discurso englobam questões Sociais, relações Falante/Sinalizante e Enunciador/Receptor, pontos de vista, situacionalidade, ambiência, questões voltadas ao Contexto, ao Discursivo, e não apenas à estrutura desses Textos. Assim, podemos simplificar que os Gêneros do Discurso dizem respeito ao Contexto Histórico, Social, Ideológico e dos agentes envolvidos em determinado Discurso, enquanto os Gêneros Textuais se referem à estrutura desses Textos e sua composição. O Texto é aquilo que podemos ver, ler, identificar, de forma Visual ou Sonora. É uma concretude materializada, em sinais, palavras, sons, imagens, performances, vídeos, pinturas etc. O Texto carrega um sentido e sempre “diz” algo, seja efêmero ou perene. Uma bula de remédio é Texto, um anúncio de outdoor, uma receita médica, uma estátua na praça, uma pintura, uma troca de memes com os amigos, os gifs e figurinhas do WhatsApp®, o rito Religioso e a Arquitetura do prédio histórico da cidade são Textos, pois estão carregados de sentido, mensagem, histórias e signos. Nesta Aula, iremos afunilar nosso Conhecimento na Análise dos Gêneros Textuais, trabalhando com os aspectos composicionais que um Texto nos apresenta, seja um Texto em Libras, Visual ou Escrito. Nosso objetivo é 3 apreender como os Gêneros Textuais se estruturam e formam composições relativamente estáveis que se replicam. Iremos observar de forma conceitual e prática como os Textos podem ser analisados e aplicados em Contextos de Letramentos. Para isso, nossa Aula se estrutura dentro dos seguintes tópicos: • Tudo é Texto? • Gêneros Textuais; • Estrutura, Temática, Estilo e Finalidade; • Gêneros Textuais e Multimídia; • Gêneros Textuais em Libras; • Gêneros Textuais e Letramentos. Nossa expectativa é que, com essa Aula, você, Estudante, possa reunir as ferramentas necessárias para identificar os Gêneros Texturas, em especial os Sinalizados, bem como tenha a habilidade de realizar a descrição da composicionalidade dos Gêneros Textuais em Libras a partir dos Conceitos que iremos conhecer neste momento. TEMA 1 – TUDO É TEXTO? Na Aula anterior, tratamos acerca do comportamento que temos e a Linguagem1 que acionamos quando estamos em um espaço Religioso, como uma Igreja Católica. Retomemos esse conceito e imaginemos, mais uma vez, esse mesmo espaço. O formato e a disposição dos bancos frente ao altar, a imagem de Jesus na Cruz logo no alto, de frente para as pessoas que entram na igreja, imagens de diferentes Santos e as disposições de todos estes elementos no espaço. Tudo nos conta algo e, mesmo que não saibamos ler os símbolos e objetos Litúrgicos, tudo que está ali evoca uma mensagem, um sentido, atravessado por Séculos de elaboração da Linguagem dentro dessa Esfera Discursiva e Textual. A questão é: as Textualidades estão ali, mas sabemos ou não ler esses Textos? 1 Optou-se, ao longo das Rotas de Aprendizagem 1, 2 e 3, pelo uso maiúsculo da primeira letra de ‘Linguagem’, por exemplo, de forma arbitrária, no sentido de colocar este e demais conceitos como objetos de estudo das Rotas em questão. O mesmo ocorrerá com outras palavras, observadas ao longo do texto. 4 Leiamos a figura a seguir: Figura 1 – A redenção de Cam (1985), de Modesto Brocos y Gómez (1852-1936) Crédito: Modesto Brocos Gómez-CC/PD; Museu Nacional de Belas Artes. Em um primeiro momento, esse Texto Visual nos parece uma bela pintura de uma Família Cristã, aparentemente de classe/origem humilde, multirracial, relacionando-se com um bebê. O que é ocorre é que, por vezes, Leituras Textuais desembocam em Discursos Históricos e Enunciados que tecem a interpretação de determinada imagem, revelando um Texto Visual repleto de Textualidade. A pintura do Artista Espanhol, Modesto Brocos, que data do final do Século XIX, retrata a Ideologia Política eugenista que começa a vigorar no Brasil após a abolição do regime de Escravização. Os patrões Brancos perdem a mão de obra escravizada, e, embora enriquecidos, ainda precisavam de novos trabalhadores, explorando o trabalho de Negros ex-escravizados, ou até mesmo começando a contratar mão de obra de Imigrantes da Europa, resultando em um contingente Racial dilacerado pela Escravidão e por todo o sistema Semiótico- Discursivo que se operará sobre os corpos Negros. Daí o surgimento dos complexos periféricos, do analfabetismo das populações Racializadas e todo 5 Racismo Científico que vai se estabelecer ao longo do final do Século XIX e início do Século XX, resultado de uma Política sistêmica que abortou da população Negra a possibilidade de ascensão Social no Brasil Pós-Abolição. Voltemos à obra A Redenção de Cam. Estabelece-se dentro dos círculos de influência no Brasil, nas Esferas Científica, Acadêmica, Literária e Política, o debate sobre Miscigenação como possibilidade de embranquecimento da população Brasileira, tendo como fim a eliminação das Pessoas Negras na paisagem Social. Isso porque a população Negra representava o maior número de habitantes do Brasil e, com isso, desejava-se mudar a cor do País, torná-lo Branco, já que a branquitude seria sinônimo de beleza e prosperidade para os Ideais Eugênicos. A proposta Racista desse Discurso enxergava a branquitude como superior, necessitando da “redenção” da população Negra diante do embranquecimento de suas gerações. E por que A Redenção de Cam? No Texto Bíblico, Cam é o filho amaldiçoado por Noé, por expor e zombar da nudez do pai enquanto este dormia embriagado; com isso, toda a geração de Cam é condenada a ser “escrava de seus irmãos” (Gênesis, 9:18-29). Daí a reinterpretação do Espanhol Modesto Brocos, ao pintar a redenção da população Negra, “escrava de seus irmãos”, em submissão à genética da população Branca na violência da Miscigenação e o embranquecimento do País. E como a Obra nos conta tudo isso? Retorne à pintura e, após observar seus componentes, acompanhe a Análise a seguir. A senhora Negra de pele Retinta, visivelmente com roupas serviçais, está de pé em um chão batido, para o lado de fora da casa. Sua filha, Negra de pele Clara, fruto de um relacionamento inter-racial, está ao meio, entre a mãe e o marido, entre o chão batido e o chão de pedra. O marido, homem Branco, está confortavelmente sentado em um banco disposto em um chão de pedra, firme, assentado, mas dentro da casa. A esposa segura o filho, uma criança Branca, com um fruto em uma das mãos, enquanto esta observa a avó, apontando para ela, com indicação da mãe. A avó agradece a Deus pela geração de netos Brancos, pelo futuro Branco. O pai observa, em contento. O fruto é símbolo de Conhecimento, é metáfora do portal; lembra-se do fruto proibido do Éden esuas consequências? Na pintura, cada escolha simbólica, seja na disposição dos personagens, nos gestos destes, nas cores de suas roupas... tudo contribui para Leitura de uma Textualidade. 6 Obviamente, o Discurso Racista de Brocos não é isolado, pois é reflexo de um conjunto de Enunciados de sua época que tencionavam para esse Discurso como hegemônico e palpável aos intelectuais daquele período. O Racismo Científico, Teoria predominante no Século XX, iria se proliferar na Medicina, no Direito, na Sociologia e na Educação. Discursos formulados dentro de diferentes Esferas Discursivas, utilizando diferentes Gêneros do Discurso e Gêneros Textuais, para aplicação de uma Ideologia. TEMA 2 – GÊNEROS TEXTUAIS Os Gêneros Textuais são incontáveis, assim como os Gêneros do Discurso e a produtividade de Enunciados no Dialogismo Humano. Os Gêneros Textuais, como produtos dos Gêneros do Discurso, são mais visíveis, mais palpáveis, e, portanto, mais aptos para Análises de suas estruturas e funcionalidades. O que define um Gênero Textual é sua funcionalidade e forma. Para Luiz Antônio Marcuschi (1946-2016), os Gêneros Textuais se proliferam e adquirem diferentes roupagens, em especial na sua relação com as novas mídias, a interface com a internet, onde a todo momento novos Gêneros Textuais são elaborados, muito a partir de suas bases já convencionais, mas sempre em um processo contínuo de reprodução e circulação. Para o Autor, os Gêneros Textuais: Caracterizam-se como eventos textuais altamente maleáveis, dinâmicos e plásticos. Surgem emparelhados a necessidades e atividades sócioculturais, bem como na relação com inovações tecnológicas, o que é facilmente perceptível ao se considerar a quantidade de gêneros textuais hoje existentes em relação a sociedades anteriores à comunicação escrita. (Marcuschi, 2010, p.19) Ao analisarmos um Gênero Textual, estamos observando diretamente a sua estrutura. Questões de cunho mais Social, Ideológico, Inter-Relacional (Texto, Autor e Leitor), relações de poder, entre outras, ficam a cargo da Análise do Discurso. Isso não significa que essas questões não estão refletidas nos Gêneros Textuais, pelo contrário, as próprias composicionalidades de determinados Gêneros Textuais estão subordinadas às condições materiais de suas produções em relação à instituição a que o Gênero Discursivo está ligado. Como exemplo, é muito diferente o valor acadêmico de um Texto traduzido para Inglês, se comparado a um Texto traduzido para a Libras. Um Testamento Legal 7 possui muito mais valor do que uma Carta deixada na gaveta. Os Gêneros Discursivos e Textuais da publicidade, que movimentam um grande capital, são mais ornamentados e circulam mais que Gêneros Textuais produzidos nas Escolas. Os Gêneros Textuais da Medicina terão mais valor que os Gêneros Textuais produzidos por curandeiros. A mesma relação de poder que se estabelece entre os Discursos valora os Gêneros Textuais. Professores de Libras observam que a composicionalidade dos Gêneros Textuais está ligada às possibilidades e às condições concretas da produção de Videolibras. O impacto do histórico de opressão à Comunidade Surda reflete diretamente no corpus Linguístico e Textual que temos disponível na Atualidade. Retornando ao Conceito, os Gêneros Textuais nos informam sobre o produto da Textualidade, sua estrutura interna, mas também a exterioridade do seu suporte, seu formato, e como esse Gênero está exposto, relacionando- se à Semiótica do Texto, à sua composição entre Signo Verbal (o Signo Sinalizado também é Verbal), e as Semióticas do Texto. Como exemplo, pensemos em como os outdoors apresentam informações mais Visuais, maiores, e com pouco texto? Justamente porque as Pessoas que passam por um outdoor, geralmente de transporte (carro, ônibus, entre outros), precisam absorver o máximo de informação em pouco tempo. O suporte e o Gênero Textual irão coadunar com a necessidade daquele Gênero do Discurso, apresentando um Texto em um suporte que dê conta da sua finalidade. TEMA 3 – ESTRUTURA, TEMÁTICA, ESTILO E FINALIDADE Observemos agora a composicionalidade de um Texto. • Estrutura (ou construção composicional): refere-se ao conjunto da Materialidade de um Texto, palavras, imagens, formatos, disposição dos elementos no Texto, fonte, Tipo de Suporte, canal, entre outras características. Quanto à Estrutura, Fiorin (2016, p. 69) explica que é: “[...] o modo de organizar o texto, de estruturá-lo”. Recomendamos que acesse a tirinha That Deaf Guy2 para continuarmos nossas discussões. 2Disponível em: <https://www.facebook.com/surdalidades/photos/a.354534317912494/366666893365903/?- type=3&theater>. Acesso em: 21 maio 2024. 8 Na tirinha, produzida por Matt & Kay Daygle, podemos ver como Estrutura a junção entre Texto Escrito, Texto Sinalizado e Textos Imagéticos, as imagens e disposição destas. O título e o nome dos Autores acima dos quadros, a composição de cenas, divididas em três quadros. Os personagens sinalizam e há indicação de diálogo em Sinais. • Conteúdo temático: trata do objetivo central, o assunto que o Texto pretende apresentar, seu interesse e Contexto Textual. De forma mais exata, “[...] O conteúdo temático não é o assunto específico de um texto, mas é um domínio de sentido que se ocupa do gênero.” (Fiorin, 2016, p. 69). Na tirinha, a Temática é de humor e trabalha a questão da facilidade da Leitura Labial do personagem Surdo; há uma crítica ao fato de a Comunidade Surda não ter acesso à legenda de filmes. • Estilo: trata da forma da Escrita, as escolhas lexicais, o tom de voz, as expressões faciais, a postura, a forma como sinaliza, os Classificadores, uso do espaço, os trejeitos, os recursos estilísticos da escrita ou da sinalização, a entonação, prosódia, sotaque, paleta de cores, traço da pintura, densidade das linhas, ângulos e enquadramentos, composição sonora, entre muitas outras características que se fixam em determinado Texto, mostrando a recorrência e o estilo do Autor. O Estilo “[...] é o conjunto de procedimentos de acabamento de um enunciado.” (Fiorin, 2016, p. 51). São “[...] os recursos empregados para elaborá-lo.” (Fiorin, 2016). Podemos observar o Estilo, traço, cores e demais composições em mais duas tirinhas de Matt & Kay Daygle, que se repetem em suas produções. Recomendamos que acesse as tirinhas That Deaf Guy3 para continuarmos nossas discussões. Poderíamos realizar a mesma análise nas produções em Videolibras, levando em consideração o Suporte Vídeo. Observe os Videopoemas do Poeta Surdo Brasileiro Edinho, acessando o perfil do Instagram® @edinhopoesia4. 3Disponível em: <http://notisurdo.com.br/chargealmococonversa.html>. Acesso em: 21 maio 2024. Disponível em: <https://www.facebook.com/surdalidades/photos/tomara-que-o-papai-noel- atenda-os-tr%c3%aas-desejos-importantes-para-a-vida-dos- surdo/1101977513168167/?paipv=0&eav=afae2empm7fsucfjj5laxvvavyx013gxrlpb4ekwrazylzu _ryu77hoagwgtd9d-wd0&_rdr>. Acesso em: 21 maio 2024. 4 Postagens realizadas em 17 dez. 2017, 23 dez. 2017 e 15 set. 2018. 9 O Poeta se utiliza de uma mesma Linguagem em seus Poemas, o filtro preto e branco, o enquadramento mais aproximado/aberto (zoom in, zoom out), demonstrando uma repetição em sua escolha Estética, formando um Estilo da produção Poética do Autor. • Finalidade: sempre quando um Texto é produzido, ele pretende dizer algo; há sempre um Leitor imaginário, mesmo que não bem definido. Escrevemos, sinalizamos, desenhamos, filmamos, pensando em um público-sujeito. O que e a quem pretendemos atingir? Quem são os leitores, telespectadores, grupos e instituição a qual o Texto é publicizado? A Finalidade corresponde diretamente ao desejo de alcance do Autor. Essas informações sobre a Composicionalidade do Gênero Textual nos permitem observar a qual Esfera Discursivapertence o Gênero, assim como qual tipo de Texto se refere. Ao observar Textos, repare que os Gêneros mostram semelhanças, mesmo quando produzidos por Autores diferentes. Uma bula de remédio tem sempre uma Estrutura, assim como uma receita de comida; independentemente do produto, nós a reconhecemos facilmente. O Estilo, em especial, pode nos revelar a quem pertence o Texto. Alguns Autores reconhecemos pela forma da escrita, inclusive em Textualidades Visuais, como Tarsila de Aguiar do Amaral (1886-1973), Romero Francisco da Silva Brito (Britto) (1963-) e Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón (1907-1954). Temos certeza de que você consegue reconhecer os Estilos desses Artistas, mesmo à primeira vista da Obra. TEMA 4 – GÊNEROS TEXTUAIS EM LIBRAS Enfim, chegamos ao conceito primordial de nossa Disciplina. Mas, antes de entrarmos na discussão teórica que aloca esse Conceito, é necessário enfatizar que pesquisas relacionadas aos Gêneros Textuais em Libras são muito incipientes ainda, embora os Gêneros Sinalizados já se mostrem inúmeros e diversificados nas Esferas Sociais; a pesquisa Acadêmica e das Políticas Linguísticas ainda carece de maior aprofundamento e incentivo para circulação dos Textos Sinalizados. Falar sobre Políticas Linguísticas nesse contexto é reconhecer que Ações Públicas voltadas para a Língua de Sinais irão intensificar 10 a circulação da Língua em diferentes Esferas Discursivas, forjando a produção de mais Gêneros Textuais em Libras. Pesquisas desenvolvidas por um dos Professores desta Disciplina, Jonatas, em conjunto com a Professora Sueli de Fátima Fernandes e com o Professor Rhaul de Lemos Santos, encaminham uma vasta discussão no Campo acadêmico relacionada à necessidade de categorizar, para fins Pedagógicos, os diferentes Gêneros Textuais produzidos em Libras, assim como descrever Metodologias de Tradução de Gêneros Textuais e até mesmo descrever os percursos de produção desses Gêneros. A pesquisa dos gêneros textuais sinalizados requer a constituição de um corpus com número representativo do gênero em foco, de modo a identificar traços regulares e prototípicos que nos levem a caracterizar e explicar usos da língua. (Medeiros; Fernandes, 2020, p. 79) Entendemos que a riqueza Textual da Comunidade Surda passa, infelizmente, desapercebida dentro das discussões de Linguística Aplicada, principalmente no que tange ao uso dos Gêneros Textuais Sinalizados como recurso Pedagógico frutífero para o Ensino de Libras para Crianças Surdas, assim como para o Ensino de Português na relação entre as Línguas. Isso não significa que professores de Libras não utilizam vídeos como recursos Pedagógicos, sabemos até mesmo que a prática é recorrente, porém, não há sistematizações Pedagógicas e Linguísticas que possam orientar práticas de Ensino de forma estruturada, com fins e objetivos comuns para o Letramento das Comunidades Surdas em fase Escolar. Assim como a Língua Portuguesa, que possui um vasto corpus de Análise dos Gêneros Textuais e sua aplicabilidade em Sala de Aula, é urgente a construção de Conteúdos e Metodologias que organizem as Textualidades Surdas para que elas possam ser ensinadas Pedagogicamente na Educação de Surdos, estabelecendo objetivos comuns mínimos para a Disciplina de Libras, assim como o Ensino de Português para Surdos como L2 (Segunda Língua). 4.1 O que define um Gênero Textual Sinalizado? Para estruturarmos essa definição, iremos analisar, em conjunto, um Gênero Textual sinalizado. 11 Estrutura, temática, estilo, finalidade Se pensarmos em uma definição ampla, os Gêneros Textuais em Libras podem ser identificados em Videolibras, podendo ser Sinalizados Face a Face, ou por meio de algum recurso tecnológico. Os Gêneros Textuais Face a Face se referem aos Gêneros Orais das Línguas de modalidade Oral-Auditiva. Já os Videolibras podem ser visualizados como Textos Materializados. O Enunciado, seja Sinalizado em ambiente ao vivo, seja gravado, possui determinadas Estruturas, com Conteúdos Temáticos, assim como uma composicionalidade interna na produção de seu Texto. Os Gêneros Sinalizados Face a Face, em rodas de conversa, diálogos, sem o objetivo do registro, são da natureza do Enunciado concreto, maleável, com interferências e intercorrência próprias da presença e da interferência do outro, por suas colocações e expressões, seja de concordância ou discordância, o olhar do outro que nos interpela e participa da construção do nosso Texto, interpelando e direcionando o Ato da Fala/Sinalização. Em relação ao Suporte Vídeo, por se tratar de um registro, o nosso Interlocutor é imaginado, não estando presente no instante de nossa Produção Textual, o que nos obriga a organizar o Texto de forma que se estabelece um Diálogo sem as pistas exatas daqueles que desejamos interpelar. Objetiva-se que um Texto Gravado seja registrado, passível de revisitação e até mesmo duradouro (mesmo que o tempo possa ser efêmero). Um Videolibras para WhatsApp®, com recurso de visualização única, é diferente de um Videolibras do Gênero Literário Poesia publicado em uma Rede Social. Ambos são Vídeos, ambos são registros, enquanto um mais é mais efêmero, e o outro, duradouro. 4.2 Vídeo em Libras, Videolibras, Videossinalizado Por ser um debate emergente dentro do Campo dos Estudos Linguísticos da Língua de Sinais, assim como dentro da Linguística textual, é comum observarmos a variação conceitual na Literatura vigente sobre Gêneros Textuais em Libras. É observado o uso do termo Vídeo em Libras nas primeiras publicações que trazem o Vídeo como elemento do registro da Libras, debatendo questões relacionadas à performance dos Sinalizantes, assim como das questões técnicas da produção de Textos Sinalizados, em Vídeo. Em pesquisas realizadas 12 oriundas do debate dos Estudos da Tradução com a Linguística Textual, optamos por trabalhar com o uso do termo Videolibras, para distinguir os Gêneros Textuais em Libras de meros Vídeos em Libras, porque a composição desses vídeos é subordinada ao interesse de dado Contexto comunicativo. O Pesquisador Surdo Rodrigo Custódio da Silva cunha o termo Videossinalizado para denominar os mais diferentes Tipos de Gêneros Textuais Sinalizados em Vídeo. Essas definições, em um primeiro momento, aparecem como sinônimos, mas podem sofrer melhores definições, conforme haja avanço teórico no Campo. 4.3 Gêneros Textuais em Multimídia As novas Tecnologias, evidentemente, irão interferir nos Gêneros Textuais, produzindo novos Gêneros ou mesmo reformulando a forma que determinados Gêneros Textuais são produzidos. Em certo momento histórico, uma carta romântica se tornou uma declaração no Orkut®, gerando disputas pelo “topo” da página da pessoa amada, quem não se lembra desse recurso? Hoje, a carta romântica pode assumir a forma de um post com a foto e/ou o vídeo de momentos felizes do casal. O Gênero se modificou, recebendo novos contornos, tornando-se outro Gênero. O universo da multimídia permite diferentes combinações Textuais, sejam de Textos Escritos ou Visuais, imagens, cores, layout, e afins. Diferentes Linguagens podem se cruzar e formar sentidos diversos de Gêneros Textuais, produzidos em meio a Gêneros Discursivos ligados às Esferas Sociais. Essa observância enriquece e complexifica nossa Leitura Textual, necessitando de novas ferramentas Linguísticas para leitura de mundo. Novos Letramentos e habilidades vão se fazendo necessárias para nos relacionarmos com as Textualidades Multimodais que nos interpelam. A Multimodalidade cria novas Gêneros Textuais que interagem palavras, imagens, vídeos, sons, hiperlinks e todo um universo de Linguagens e Modalidades que se relacionam e criam camadas de Significados e sentidos cada vez mais complexos e relacionais. 13 TEMA 5 – GÊNEROS TEXTUAIS E LETRAMENTOSPor fim, finalizamos nossos estudos com a articulação do debate dos Gêneros Textuais com o Conceito de Letramento. Antes de tudo, é importante definir o que se entende por Letramento nessa perspectiva dos Gêneros Textuais Sinalizados. O Letramento (ou Letramentos) se refere aos Conhecimentos que um indivíduo tem sobre determinando assunto, assim como sua capacidade de ler as Textualidades presentes naquele Gênero Discursivo. Pensemos em uma pessoa Acadêmica, que lê Artigos Científicos. Ela pode ser letrada e conhecer muito sobre o Gênero Textual Acadêmico, mas nem um pouco letrada na interpretação de receitas culinárias. Um advogado pode ter um Letramento do contexto jurídico e não conhecer nada sobre Botânica, Letramento que um jardineiro possui na sua prática. Uma pessoa de idade pode não ser Alfabetizada e conseguir discorrer Textualidades acerca da Bíblia. Um Surdo pode não escrever o Português, mas pode produzir Poesias Visuais únicas. Essa reflexão é importante, porque não existem pessoas não letradas, mas sim pessoas com diferentes Letramentos e esses Letramentos apreendidos pelas mais variadas Finalidades. O que cabe em um processo Educacional é colocar em diálogo os diferentes universos que nossos Educandos carregam. Sendo assim, torna-se fundamental articular os Gêneros Textuais na construção de novos Letramentos no Ensino de Língua de sinais. Os Planos de Ensino de Língua necessitam se organizar levando em consideração a diversidade de Gêneros Textuais, e a necessidade de aplicá-los em Sala. Os Gêneros Textuais são Materialidades em diálogo com o mundo, portanto, sua função Pedagógica em Sala pode e deve ser explorada. Nesse sentido, as Políticas Linguísticas e Educacionais de Surdos são fundamentais para fomentar a produção Textual na Comunidade Surda e, consequentemente, possibilitar mais ainda a proliferação de Gêneros Textuais Sinalizados em Videolibras. Propiciar o Letramento digital para a Comunidade Surda e o Letramento Audiovisual possibilita maior autonomia das Pessoas Surdas nas produções de seus Textos. Formar Educadores Bilíngues para a produção de materiais Bilíngues, Videolivro em Libras, Videoreceitas, Videobulas, e toda a finitude de Textos que devem circular dentro da Comunidade Surda como um Direito do acesso e da produção de Linguagem. As Políticas de Tradução também 14 impactam diretamente na transladação de Textos em Videolibras, ampliando de forma exponencial o corpus de materiais em Videolibras. Conforme Medeiros e Fernandes (2020) comentam: Essas modalidades de gêneros vão se complexificando em aspectos materiais, à medida que a escolarização avança e, no ensino superior, o conhecimento dos gêneros textuais acadêmicos se amplia com as práticas de letramentos, leitura e escrita de textos variados que possuem características estruturais, discursivas, pragmáticas e estilísticas próprias, como projetos, resumos, artigos, nas vivências dos estudantes com as práticas de ensino, pesquisa e extensão que envolvem sua formação universitária. (Medeiros; Fernandes, 2020, p. 68) O que os Autores explanam é que, com a possibilidade de explorar novos Gêneros Textuais Sinalizados, produzindo uma cadeia de Gêneros Textuais que se estendem a toda vida Educacional da Pessoa Surda, acabam por tornar o Videolibras mais complexo, tanto do ponto de vista Textual-Verbal quanto material. Por fim, é importante lembrar que o Ensino de Gêneros Textuais no Ensino Regular atende diretamente à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), sustentada como central no Ensino de Português, para os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). O Ensino deve ser contextualizado e formar o Estudante para diversas Linguagens de forma crítica e reflexiva. NA PRÁTICA Para aplicar os Conhecimentos adquiridos, analisemos o Gênero Textual presente na postagem do dia 4 de agosto de 2023 do perfil do Instagram® @linguasesociedadeuninter. • Estrutura: Multimodal, com presença de imagens, nome do Programa em destaque, Tema do Programa, data, horário, imagens do Apresentador e da Participante, logo da Empresa, logo do Programa e das Redes Sociais da Rádio, símbolo de live em destaque, e ao fundo, imagem do Cantor Elvis Presley adicionada ao post, apontamento para a música Suspicious Mind, do Cantor. • TEMÁTICA: Convite para live no YouTube®. • ESTILO: post de Instagram®, no feed, Linguagem Não Verbal e Verbal Simétrica, disposição organizada dos elementos visuais, destaque para principais informações, Multimodalidade. 15 • Finalidade: convidar Acadêmicos do Curso de Letras e interessados na Língua Inglesa para dialogar acerca da Língua, com base em uma música do Cantor Elvis Presley. Poderíamos ainda elaborar reflexões acerca do canal de circulação desse Gênero, as Redes Sociais, a possibilidade de interação com esse Gênero e até mesmo a sobreposição de Gêneros Textuais incorporados a esse exemplo, uma vez que se trata de um post de uma divulgação convidando Acadêmicos a assistirem uma live, no YouTube®. O Texto, inclusive, se relaciona com outras mídias. Para finalizar, poderíamos discutir acerca do Gênero Discursivo desse Texto, ligados a uma instituição de Ensino Superior, dialogando com música e Cultura Americana. São muitas camadas, não é mesmo? FINALIZANDO Nesta aula, dialogamos sobre a distinção entre Gêneros do Discurso e Gêneros Textuais. Averiguamos como diferentes Linguagens podem ser carregadas de Textualidade, o quanto os símbolos e objetos carregam Textos Socioecológicos em sua Semiótica. Compreendemos também o interesse do Campo dos Gêneros Textuais nas Estruturas e Funcionalidades dos Textos que circulam Socialmente, que a Composicionalidade de um Texto pode ser analisada por sua Estrutura, Temática, Estilo e Finalidade. Foi possível, ainda, contextualizar o Conceito de Gênero Textuais em Videolibras e aspectos da sua Composicionalidade. Conhecemos as variações das Terminologias utilizadas na Literatura Acadêmica para definir os Textos Sinalizados em Videolibras. Fica a nossa reflexão final sobre o quanto a produtividade de uma Língua está ligada aos seus meios de produção, o que implica Políticas Linguísticas, Políticas de Tradução e Políticas Educacionais. Nosso trabalho como Professores de Libras e a qualidade do Ensino se articulam aos Gêneros Discursivos e Textuais que pautam ou invisibilizam nossa atividade Docente. Os Gêneros Textuais em Videolibras já são inúmeros, mas ainda há muito o que construir. 16 REFERÊNCIAS ÁREA DE LÍNGUAS E SOCIEDADE. Instagram. Disponível em: <https://www.instagram.com/p/CvihSHhJxGc/>. Acesso em: 21 maio 2024.. CORREA, J. B. B. Plano de aula: Redenção de Cam: imigração e branqueamento no Brasil imperial. Nova Escola. Disponível em: <https://novaescola.org.br/planos-de-aula/fundamental/8ano/historia/redencao- de-cam-imigracao-e-branqueamento-no-brasil-imperial/5467>. Acesso em: 21 maio 2024.. COSTA, R. F. Aula 6: GÊNEROS TEXTUAIS ACADÊMICOS. Centro de Educação Superior a Distância (CESAD). Disponível em: <https://cesad.ufs.br/ORBI/public/uploadCatalago/13281119072021Aula_06.pdf >. Acesso em: 21 maio 2024.. EDINHO SANTOS. Instagram. Disponível em: <https://www.instagram.com/edinhopoesia/>. Acesso em: 21 maio 2024.. FIORIN, J. L. Introdução ao Pensamento de Bakhtin. Editora: Contexto, São Paulo, 2ª ed., 2016. MARCUSCHI, L. A. Gêneros Textuais: Definição e Funcionalidade. In: DIONISIO, A. P.; MACHADO, A. R.; BEZERRA, M. A. (Org.). Gêneros Textuais & Ensino. Editora: Parábola, São Paulo, 2010. MEDEIROS, J. 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Disponível em: <https://www.facebook.com/surdalidades/photos/tomara-que-o-papai-noel- atenda-os-tr%C3%AAs-desejos-importantes-para-a-vida-dos- surdo/1101977513168167/?paipv=0&eav=AfZX3pYEL1s8hHh_HFoNoKoTsYg YcwEuyzHH0j17Grq7nVkkwhTrwEX8RCd1N_GqhqE&_rdr>. Acesso em: 21 maio 2024..