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WBA0944_v1.1 APRENDIZAGEM EM FOCO ÉTICA E RESPONSABILIDADE PROFISSIONAL 2 APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA Autoria: Alberto Carneiro Barbosa de Souza Leitura crítica: Juliana dos Santos Corbett O Sistema de Conselhos de Psicologia tem preservado e atualizado de forma eficiente os princípios éticos da profissão, em sintonia com as demandas de transformações da sociedade. Porém, é dever de todo psicólogo se manter atualizado em relação ao código de ética e suas correlações com problemas contemporâneos brasileiros. A disciplina de Ética e responsabilidade profissional objetiva discutir e investigar os dilemas e os desafios éticos que têm se apresentado a categoria. Assim sendo, você terá a oportunidade de estudar o código de ética aplicado às situações concretas e os estudos de caso que permeiam o cotidiano dos psicólogos, seja na área clínica ou em outros campos de atuação. Por exemplo, discutiremos a questão de violência contra a mulher em diferentes contextos e como o psicólogo deve agir diante desses casos. Da mesma forma, você estudará o dilema de quebra de sigilo, quando ele deve ser feito, em quais situações, como fazê-lo e as consequências para o psicólogo no caso da denúncia não ser realizada. Não menos importante, as aulas abordarão sobre documentos psicológicos, quais são eles, como armazená-los, como e com quem compartilhá-los e como está sendo feita a digitalização de documentos psicológicos sigilosos, tanto nos consultórios particulares quanto em um ambiente organizacional. A guarda de documentos é um tema de suma importância não só para a arqueologia da psicologia, mas sobretudo para a pesquisa acadêmica. Contudo, trata-se de um tema pouco abordado em cursos de graduação e de especialização. Assim, esse curso vem 3 preencher essa lacuna tão importante para o fazer mais responsável e eficiente da Psicologia. Estudar sobre questões éticas e guarda de documentos em um mesmo curso é o grande diferencial deste curso. Nesse contexto, muitos psicólogos esquecem que a ética em Psicologia não se restringe apenas às condutas clínicas e ao sigilo clínico. A ética também se aplica à forma que confeccionamos, guardamos e divulgamos documentos psicológicos. A experiência em participar de uma investigação na qual se estuda essas questões em um mesmo programa é oportunidade rara no ensino de Psicologia no Brasil. Bons estudos! INTRODUÇÃO Olá, aluno (a)! A Aprendizagem em Foco visa destacar, de maneira direta e assertiva, os principais conceitos inerentes à temática abordada na disciplina. Além disso, também pretende provocar reflexões que estimulem a aplicação da teoria na prática profissional. Vem conosco! Entidade de classe e o Código de Ética Profissional ______________________________________________________________ Autoria: Alberto Carneiro Barbosa de Souza Leitura crítica: Juliana dos Santos Corbett TEMA 1 5 DIRETO AO PONTO A Psicologia brasileira já existia muito antes de sua regulamentação, mas foi apenas com ela, assim como a criação do “Sistema Conselhos”, que os psicólogos se organizaram em uma entidade de classe, com seus direitos e obrigações descritas em um estatuto elaborado pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). Além do estatuto, uma das maiores contribuições do Sistema Conselhos foi o aprimoramento do já existente Código de Ética dos Psicólogos. Antes disso, o primeiro código de ética foi elaborado pela extinta Associação Brasileira de Psicologia (ABP), ainda bastante influenciado pela ética médica, devido a dois motivos: por um lado, a Psicologia ainda era exercida em grande parte dentro de ambientes médicos, como em clínicas psiquiátricas; por outro lado – e como consequência da razão citada –, o Código de Ética da Psicologia nasceu à sombra da classe médica, a fim de buscar maior legitimidade social em função de ser para a época uma profissão relativamente nova no país. A segunda versão foi lançada em 1979 e, apesar do país estar em plena ditadura militar, sua redação se mostrou importante instrumento de resistência política, sendo influenciada por movimentos sociais antiditatoriais. Já o terceiro Código de Ética da Psicologia foi o reflexo da abertura política no Brasil nos anos 1980 e, entrando em vigor em 1987, se preocupava com o resgate do diálogo da Psicologia com outras áreas do saber, como a Antropologia e a Sociologia. Finalmente, sem sua mais recente versão, publicada em 2005, o código de ética adquiriu total independência em relação à medicina, sendo bastante 6 progressiva e com ênfase na observação dos direitos de minorias e de populações marginalizadas. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) tem como uma de suas principais atribuições acompanhar as mudanças sociais e políticas que possam influenciar diretamente na profissão, com o objetivo de manter a formação do psicólogo atualizada no âmbito acadêmico e da ciência. Uma vez que seria impraticável um único órgão centralizar toda fiscalização no país, assim, instituiu-se o “Sistema Conselhos”, no qual cada estado possui seu próprio conselho de classe, sempre subordinado ao CFP. As únicas exceções são Acre e Rondônia, que possuem um único Conselho para ambos os estados, assim como Amazonas e Roraima e Pará e Amapá. O CRP também têm a função de receber e julgar processos éticos e de registrar novos psicólogos formados naquela região. Por fim, o conselho regional também recebe o registro de psicólogos de outras regiões que queiram se transferir para o estado no qual aquele conselho seja responsável. A exceção é o trabalho acadêmico e de pesquisa, para os quais o psicólogo não necessita mudar a região de seu CRP. O Sistema Conselhos, para exercer as atribuições descritas anteriormente, possui uma estrutura chamada Instâncias Deliberativas, que apresenta a mesma estrutura em todos vinte e quatro conselhos regionais, como se pode observar na figura a seguir. 7 Figura 1 – Sistema Conselhos em Psicologia: estrutura deliberativa Fonte: elaborada pelo autor. Assim como o código de ética, a própria formação de Psicologia passou por diferentes fases de amadurecimento no Brasil. Até 1962, ela não era regulamentada, mas, a partir da sua regulamentação naquele ano, todos os cursos de graduação foram obrigados a adotado um currículo mínimo obrigatório e os programas fiscalizados, depois disso, esse momento na história da formação do psicólogo brasileiro ficou conhecido como “currículo mínimo”. A terceira fase de formação teve início no começo do século XXI e se estendeu até os dias de hoje, sendo chamado de Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN). A DCN é aplicada em todos os cursos da área de saúde no Brasil em nível de graduação e, lançada em 2001, almeja um ensino mais integrado entre os diferentes campos do saber dessa área, sendo totalmente incorporado à formação de psicólogo em 2002. Outras características da DCN são a grande ênfase na pesquisa acadêmica, assim como um incremento 8 no diálogo do campo de mercado de trabalho com alunos em formação. Dessa forma, os professores têm sido cada vez mais contratados em razão de sua experiência no campo de trabalho de sua especialização e de seu diálogo com outros setores do campo da saúde, resultando, por exemplo, em estágios supervisionados nos quais os alunos têm a oportunidade de conhecerem de perto a realidade do núcleo que estudam (SANTANA, 2016). Referências bibliográficas SANTANA, A. L. et al. Estágio curricular em saúde e em psicologia: análise de documentos de domínio público. Athenea digital, [s.l.], v. 16, n. 3, p. 507-28, 2016. Disponível em: https://raco.cat/index.php/Athenea/article/view/314739. Acesso em: 17 set. 2021. PARA SABER MAIS Entre as questões éticas da Psicologia contemporânea, uma das mais sensíveis às mudanças sociopolíticas brasileiras são relacionadas à bioética. O exercício da psicologia para além do fazer clínico vem se inscrevendo – e, por isso, sendo bastante influenciado – pela interdisciplinaridadeentre as diversas áreas, como é o caso da psicologia social ou, ainda, da psicologia comunitária. Atualmente, a bioética ultrapassou os limites do campo da medicina e está presente no cotidiano do psicólogo desde o campo social ao organizacional, pois todos precisam lidar com questões éticas, como respeitar e fazer respeitar a identidade social de pessoas não-binárias ou compreender os possíveis obstáculos que uma pessoa trans possa enfrentar em seu ambiente de trabalho ou na comunidade onde vive, sabendo como orientá-la adequadamente. As mudanças de paradigmas que a Psicologia passou nas últimas décadas, talvez, sejam maiores do que em outras profissões, pois, https://raco.cat/index.php/Athenea/article/view/314739 9 tais desafios apontam para como a Psicologia (que não deixa de ser um espelho da sociedade) se relaciona com a patologia e a saúde, assim como ela lida com diversas transformações socioculturais ao longo do tempo. Tais dilemas afetam diretamente o Código de Ética da Psicologia e a relevância da bioética nesse campo do saber. Por exemplo, até meados dos anos de 1970, a homossexualidade infelizmente ainda era tida como patologia mental e, muitas vezes, assim era tratada. No final do século XX o Conselho Federal de Psicologia (CFP) formalizou por meio da Resolução nº 01/1999 o entendimento de que para a Psicologia a sexualidade faz parte da identidade de cada sujeito e, por isso, práticas homossexuais não constituem doença, distúrbio ou perversão. Dessa forma, seu tratamento passou a ser criminalizado e eticamente proibido, levando à cassação do registro do CRP do profissional. Desse modo, conclui-se que, com os avanços em diversos campos de sociedade – sejam tecnológicos ou socioculturais –, o psicólogo e os demais profissionais de saúde se encontram diante de uma realidade cada vez mais complexa em relação ao tratamento de seus pacientes. Assim, campos de atuação como a bioética passam a ser matéria de estudo obrigatória por todos aqueles que exercem sua profissão. TEORIA EM PRÁTICA O psicólogo que exerce sua atividade clínica no CRP 06 (São Paulo) e que deseje se mudar para Recife, se vê obrigado a pedir a transferência de seu registro profissional para o CRP 02 (Pernambuco), sob pena de exercer sua profissão sem autorização legal. Porém, este mesmo psicólogo não necessita transferir seu CRP para Pernambuco caso a única função que exercerá é a docência universitária. 10 A partir desta afirmação, reflita acerca das obrigações éticas (se houver) e o papel social do psicólogo (se houver) perante o CRP. Qual seria a justificativa para a obrigatoriedade da transferência do registro para a região na qual o profissional atuará? Da mesma forma, por que a mesma exigência não se aplica ao trabalho docente? Até onde vai a responsabilidade ética do psicólogo em ambos os contextos? Para conhecer a resolução comentada proposta pelo professor, acesse a videoaula deste Teoria em Prática no ambiente de aprendizagem. LEITURA FUNDAMENTAL Prezado aluno, as indicações a seguir podem estar disponíveis em algum dos parceiros da nossa Biblioteca Virtual (faça o log in por meio do seu AVA), e outras podem estar disponíveis em sites acadêmicos (como o SciELO), repositórios de instituições públicas, órgãos públicos, anais de eventos científicos ou periódicos científicos, todos acessíveis pela internet. Isso não significa que o protagonismo da sua jornada de autodesenvolvimento deva mudar de foco. Reconhecemos que você é a autoridade máxima da sua própria vida e deve, portanto, assumir uma postura autônoma nos estudos e na construção da sua carreira profissional. Por isso, nós o convidamos a explorar todas as possibilidades da nossa Biblioteca Virtual e além! Sucesso! Indicações de leitura 11 Indicação 1 O livro indicado, apesar de tratar especificamente sobre a Psicologia e Criminologia, é uma literatura importante para que você conheça os dilemas éticos contemporâneos que se aplicam cada vez mais aos diversos campos da psicologia, como a bioética ou a psicologia aplicada ao adolescente infrator e as limitações éticas do psicólogo. Como estudado anteriormente, a Psicologia está aprimorando o diálogo entre suas diferentes áreas de atuação, por isso, esse livro é útil a todo estudante de ética e psicologia. COLETTA, E. D. et al. Psicologia e criminologia. Porto Alegre: Grupo A, 2018. [Minha Biblioteca] Indicação 2 O livro indicado é uma importante leitura para todo psicológico na atualidade, pois, trata-se de um excelente compendio a respeito de questões éticas e o trabalho a distância via internet, algo que se torna cada vez mais frequente no fazer da Psicologia Moderna. Nesta obra, os autores abordam temas como ética versus moral no trabalho on-line, questões éticas em relação ao atendimento virtual e a ética no mundo digital. CRISOSTOMO, A. L. et al. Ética. Porto Alegre: Grupo A, 2018. [Minha Biblioteca] QUIZ Prezado aluno, as questões do Quiz têm como propósito a verificação de leitura dos itens Direto ao Ponto, Para Saber 12 Mais, Teoria em Prática e Leitura Fundamental, presentes neste Aprendizagem em Foco. Para as avaliações virtuais e presenciais, as questões serão elaboradas a partir de todos os itens do Aprendizagem em Foco e dos slides usados para a gravação das videoaulas, além de questões de interpretação com embasamento no cabeçalho da questão. 1. O Sistema Conselhos de Psicologia foi criado para facilitar a fiscalização e a coordenação da profissão no Brasil. Sobre o Sistema Conselhos de Psicologia, pode-se afirmar que: a. O Sistema Conselhos de Psicologia não é obrigado a cumprir resoluções e orientações definidas pelos Conselhos Regionais, pois o primeiro possui ascendência sobre o segundo. b. O Sistema Conselhos de Psicologia possui na sua vertente política o compromisso ético de promover discussões político- partidárias, a fim de buscar maior engajamento social de seus membros. c. O Sistema Conselhos de Psicologia não deve promover eventos nos quais temas polêmicos e controversos possam gerar polarizações e discussões entre seus membros, tais como racismo ou homofobia em alguns ambientes profissionais. d. O Sistema Conselhos de Psicologia deve buscar o aprimoramento da prática em Psicologia, buscando a saúde mental e bem-estar do profissional e de seus clientes. e. O Sistema Conselhos de Psicologia não tem jurisdição nos julgamentos de falhas éticas de psicólogos, sendo competência exclusiva do Conselho Federal de Psicologia (CFP). 13 2. Em relação à ética em Psicologia no Brasil atualmente, pode-se afirmar que: a. A ética em Psicologia permanece sem alteração desde o primeiro código de ética, já que não está sujeita às mudanças sociais e políticas. b. O equilíbrio entre o indivíduo e o coletivo não é tema pertinente à ética em Psicologia, uma vez que o psicólogo trabalha essencialmente com seu cliente não com o coletivo. c. Os campos mais tradicionais da Psicologia seguem diretrizes éticas próprias, pois possuem cláusulas pétreas em sua redação. d. A Psicologia Comunitária não segue o código de ética da categoria, pois possui questões mais pertinentes ao código e ética da Sociologia. e. Apesar da psicanálise não estar sujeita ao Sistema Conselhos de Psicologia, os psicólogos que a adotam como linha clínica devem respeitar o código de ética da categoria. GABARITO Questão 1 - Resposta D Resolução: A alternativa “O Sistema Conselhos de Psicologia não é obrigado a cumprir resoluções e orientações definidas pelos Conselhos Regionais, pois o primeiro possui ascendência sobre o segundo” está incorreta, pois, o Sistema Conselhos de Psicologia é formado exatamente pelo conjunto dos Conselhos Regionais. A alternativa “O Sistema Conselhos de Psicologia possui na sua vertente política o compromisso ético de promover discussões político-partidárias, a fim de buscar maior engajamento social 14 de seus membros” está incorreta, poisa vertente política do Sistema de Conselhos se ocupa da promoção de eventos e de diálogos, a fim de incentivas maior engajamento social de seus membros, não tendo qualquer relação com assuntos político- partidários. A alternativa “O Sistema Conselhos de Psicologia não deve promover eventos nos quais temas polêmicos e controversos possam gerar polarizações e discussões entre seus membros, tais como racismo ou homofobia em alguns ambientes profissionais” está incorreta, porque uma das atribuições do sistema é: promover discussões a respeito de temas que sejam relevantes à realidade social atual e que possam interferir na saúde mental do indivíduo, como o racismo e a homofobia. A alternativa “O Sistema Conselhos de Psicologia deve buscar o aprimoramento da prática em Psicologia, buscando a saúde mental e bem-estar do profissional e de seus clientes” está correta, pois, ao ser criado, o Sistema de Conselhos teve como uma de suas primeiras diretrizes o aprimoramento do psicólogo e promover discussões a respeito da saúde mental e bem-estar do profissional. A alternativa “O Sistema Conselhos de Psicologia não tem jurisdição nos julgamentos de falhas éticas de psicólogos, sendo competência exclusiva do Conselho Federal de Psicologia (CFP)” está incorreta, pois, o julgamento de falhas éticas cabe ao CRP da região ou do estado onde tal falha ocorreu Questão 2 - Resposta E Resolução: A alternativa “A ética em Psicologia permanece sem alteração desde o primeiro código de ética, já que não está 15 sujeita às mudanças sociais e políticas”, está incorreta, pois, o código de ética acompanha as mudanças sociopolíticas de nossa sociedade. A alternativa “O equilíbrio entre o indivíduo e o coletivo não é tema pertinente à ética em Psicologia, uma vez que o psicólogo trabalha essencialmente com seu cliente não com o coletivo” está incorreta, porque cada vez mais o psicólogo vê sua atuação sendo influenciada por outros campos do saber em saúde, incluindo a saúde coletiva e a medicina social. A alternativa “Os campos mais tradicionais da Psicologia seguem diretrizes éticas próprias, pois possuem cláusulas pétreas em sua redação” está incorreta, pois ocorre exatamente o oposto: os campos mais transicionais têm sofrido forte influência dos novos segmentos da Psicologia, adaptando suas práticas a uma ética mais em sintonia com as mudanças sociais. Além disso, não existem cláusulas pétreas no código de ética. A alternativa “A Psicologia Comunitária não segue o código de ética da categoria, pois possui questões mais pertinentes ao código e ética da Sociologia”, está incorreta, pois a Psicologia Comunitária está sujeita ao mesmo código de ética comum a toda categoria e não tem qualquer ligação com os Conselhos de sociologia. A alternativa “Apesar da psicanálise não estar sujeita ao Sistema Conselhos de Psicologia, os psicólogos que a adotam como linha clínica devem respeitar o código de ética da categoria” está correta, pois todo psicólogo tem a obrigação de respeitar o código de ética vigente, sob pena que pode ir desde censura pública até a cassação do registro. Normas para a atuação em psicologia clínica ______________________________________________________________ Autoria: Alberto Carneiro Barbosa de Souza Leitura crítica: Juliana dos Santos Corbett TEMA 2 17 DIRETO AO PONTO As normas do fazer em psicologia clínica têm se traduzido em uma prática para além da relação entre profissional e pacientes. A demanda dos pacientes e a expertise do psicólogo, por si só, já trazem elementos sociais, culturais e políticos que influenciam, perpassam e ultrapassam a Psicologia. Em razão disso, as diretrizes e as normas elaboradas pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) que regem a psicologia clínica têm buscado incentivar a interdisciplinaridade entre diferentes saberes, não só durante a formação do psicólogo, mas, também, ao longo de toda sua carreira, incluindo a supervisão de estágios em nível de graduação e especialização. As normas que regem o estágio supervisionado em psicologia clínica acompanham as transformações sociais, embora no tocante à ética profissional permaneçam sem grandes alterações, como a obrigatoriedade do aluno de assinar o Termo de Compromisso de Estágio (TCE). A Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP) fiscalizará o programa de estágio e a responsabilidade do supervisor em coordenar sua equipe no sentido de manter uma conduta ética em conformidade com as diretrizes estabelecidas pelo CFP. Dessa forma, as normas que delineiam a formação do psicólogo devem igualmente estar em sintonia com o Código de Ética da categoria, assim como com a sociedade. A partir disso, a formação em psicologia clínica no Brasil tem procurado inserir o olhar do psicólogo cientista ao longo da graduação, a fim de que o aluno exercite suas capacidades de interpretação e reflexão diante da realidade trazida pelo paciente, não somente à luz da linha clínica escolhida, mas também no que se tem produzido a respeito daquele quadro na atualidade e, até mesmo, se reflete na maioria dos cursos de especialização em psicologia clínica. 18 Se em seu início a formação do psicólogo clínico brasileiro privilegiava o ensino da psicopatologia onde o foco se centralizava no tratamento de quadros já estabelecidos, isso tem mudado aos poucos. Atualmente, vê-se a migração da clínica para o caráter preventivo que esta pode oferecer, sobretudo em função das transformações que temos observado nessa cultura, após a pandemia da covid-19, a qual exigiu que a psicologia clínica passasse a exercer um papel importante como instrumento de promoção de saúde mental para prevenir quadros tais como a depressão e fobia social, entre outros, em função do isolamento social compulsório que o mundo enfrentou durante a pandemia. A psicologia clínica tem adotado uma postura de cada vez mais conscientização da capacidade de o próprio paciente agir como agente preventivo de sua própria saúde mental com a ajuda do psicólogo, mas sendo o paciente o principal responsável pela sua saúde: o indivíduo contemporâneo não mais se coloca como alguém passivo diante do saber médico e psicológico, mas, antes, como colaborador e principal ator na construção de seu equilíbrio psicoemocional (WENZEL, 2018). Figura 1 – A Psicologia clínica buscando cada vez mais exercer papel preventivo Fonte: elaborada pelo autor. 19 Referências bibliográficas WENZEL, A. Inovações em terapia cognitivo-comportamental: intervenções estratégicas para uma prática criativa. Porto Alegre: Artmed, 2018. PARA SABER MAIS A psico-oncologia foi proposta como área de atuação da psicologia pela APA (American Psychological Association), para que esse saber contribuísse com a produção cientifica e clínica com a oncologia, área da medicina que estuda o câncer. No Brasil, a psico-oncologia trabalha a interdisciplinarmente com outros saberes e tem como principal foco o estudo e a clínica dos processos psicológicos presentes desde o aparecimento do câncer, sua progressão, recuperação e resolução. Com o avanço da ciência, a possibilidade de cura tem se tornado realidade cada mais presente na evolução da doença, embora ela possa aparecer de novo em alguns pacientes. Por isso, é fundamental ajudar o paciente a elaborar suas emoções em relação à cura, mas tendo em vista a real possibilidade de uma remissão da doença. Eis o dilema ético da psico-oncologia: como trabalhar emoções positivas e de esperança e, ao mesmo tempo, não perder de vista a realidade de uma doença que pode voltar a qualquer momento? A relação do psicólogo com o paciente, muitas vezes, extrapola os muros do ambulatório de oncologia, pois o tratamento pode ter continuidade em ambiente domiciliar ou no consultório do psicólogo. Apesar disso, o cuidado com a ética profissional por parte do psicólogo segue o mesmo código de ética que toda a categoria deve observar. As diferenças estão em relaçãoa algumas normas que o psicólogo deve observar no ambiente hospitalar envolvendo suas atividades no tocante ao pronto-atendimento em uma equipe multidisciplinar, o psicodiagnóstico e o atendimento ambulatorial e em UTI. 20 Na psico-oncologia, o psicólogo deve atentar, entre outros pontos, para o cuidado e o foco que o psicólogo deve ter no tocante ao vínculo do paciente com seus familiares, para que ele se mantenha por meio de canais de comunicação adequados. A comunicação com a família é algo muito importante, pois isso ajudará a construir um importante fator de acolhimento durante a estadia do paciente no hospital que, por vezes, pode se prolongar por semanas ou até meses, fazendo com que ele mantenha sua autoestima e se sinta seguro. Para isso, além das normas a serem seguidas como em qualquer atendimento, o psicólogo deve buscar desconstruir tabus e concepções errôneas a respeito da doença, caso isso permeei a relação da família com o paciente (ANGERAMIN-CAMON, 2010). Além disso, o psicólogo é peça chave na humanização do ambulatório de oncologia, ajudando na desvinculação da imagem do paciente de oncologia atrelada à doença. Em outras palavras, é comum que amigos e familiares possam confundir o paciente com a própria enfermidade. Dessa forma, é papel do psicólogo fazer com que uma subjetividade que já existia muito antes do aparecimento do câncer seja resgatada e faça parte de todo o processo, desde a internação até a alta. O psicólogo trabalha também na desconstrução do medo do desconhecido, além de tratar a tristeza durante o tratamento, assim como a depressão e a ansiedade. Ao longo de todo o tratamento, o psicólogo deve sempre consultar o paciente sobre quais informações deve dividir com seus familiares e vice-e-versa. Nesse caso, o sigilo vai além do observado na clínica tradicional, pois, entre outros fatores, o contato com familiares pode ser constante. Mais do que em qualquer outra clínica, a comunicação é um fator decisivo e a forma com que ela acontece pode ser determinante para o estado psicoemocional do paciente e de seus familiares, algo não presente na clínica tradicional. O psicólogo deve estar ciente de que, muitas vezes, pacientes e familiares poderão ter certa dificuldade em transmitir emoções e 21 sentimentos. Por isso, o profissional deve respeitar os limites de ambos, ajudando-os a elaborar seus pensamentos e transmitindo aquilo que lhe for autorizado e, sobretudo, construtivo para o paciente, inclusive após a alta hospitalar, se houver continuidade do tratamento psicológico (ANGERAMIN-CAMON, 2010). Referências bibliográficas ANGERAMIN-CAMON, V. (org.). O doente, a psicologia e o hospital. 3. Ed. São Paulo: Cengage Learning, 2010. TEORIA EM PRÁTICA Uma paciente oncológica de 62 anos que faz tratamento com psicólogo especializado em psico-oncologia se queixa, há uma semana, de dores fortes associadas ao seu quadro clínico, mas esconde da família, pois não quer preocupar os filhos. Somado a isso, há o uso abusivo de opioides (remédios controlados para dor que podem causar grave dependência) sem melhora do sintoma da dor, o que faz com que a paciente acabe usando cada vez doses mais fortes. Além disso, a paciente contava com a “ajuda” de um “amigo” que fornecia o medicamento com doses acima das prescritas pelo médico, fato já relatado ao psicólogo, algo que pode levar desde a dependência até o óbito por overdose. Diante desse quadro, qual a postura correta a ser tomada pelo psicólogo tendo em vista os procedimentos éticos na psico-oncologia? Para conhecer a resolução comentada proposta pelo professor, acesse a videoaula deste Teoria em Prática no ambiente de aprendizagem. 22 LEITURA FUNDAMENTAL Prezado aluno, as indicações a seguir podem estar disponíveis em algum dos parceiros da nossa Biblioteca Virtual (faça o log in por meio do seu AVA), e outras podem estar disponíveis em sites acadêmicos (como o SciELO), repositórios de instituições públicas, órgãos públicos, anais de eventos científicos ou periódicos científicos, todos acessíveis pela internet. Isso não significa que o protagonismo da sua jornada de autodesenvolvimento deva mudar de foco. Reconhecemos que você é a autoridade máxima da sua própria vida e deve, portanto, assumir uma postura autônoma nos estudos e na construção da sua carreira profissional. Por isso, nós o convidamos a explorar todas as possibilidades da nossa Biblioteca Virtual e além! Sucesso! Indicação 1 A partir de estudos de casos e apresentação da teoria pertinente, o autor apresenta a psicologia hospitalar, com seus principais pressupostos, questões éticas, limites e atuação do psicólogo e discussões a cerca deste fazer em Psicologia. Trata-se de uma excelente leitura para o psicólogo interessado em conhecer mais a respeito deste campo fascinante da Psicologia. RONICK, P. V. Psicologia hospitalar. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2017. [Minha Biblioteca] Indicações de leitura 23 Indicação 2 O livro proposto introduz a Psicologia ligada a outros saberes da saúde, tais como a enfermagem e a medicina. A autora faz um competente compendio dos principais referenciais teóricos da Psicologia aplicada à saúde, sempre contextualizando a teoria na realidade brasileira. O livro enfatiza a relação do psicólogo com o paciente e seus familiares e como se dá a conduta ética e as normas a serem seguidas de acordo com o código de ética da profissão. ROSAL, A. S. R. de. Psicologia aplicada à saúde. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2016. QUIZ Prezado aluno, as questões do Quiz têm como propósito a verificação de leitura dos itens Direto ao Ponto, Para Saber Mais, Teoria em Prática e Leitura Fundamental, presentes neste Aprendizagem em Foco. Para as avaliações virtuais e presenciais, as questões serão elaboradas a partir de todos os itens do Aprendizagem em Foco e dos slides usados para a gravação das videoaulas, além de questões de interpretação com embasamento no cabeçalho da questão. 1. Ao longo da formação do psicólogo clínico, o estágio supervisionado constitui uma importante etapa na construção de sua carreira. Em relação ao estágio supervisionado, pode-se afirmar que: a. A carga horaria a ser cumprida não depende do programa de estágio, seja em nível de graduação ou especialização. 24 b. As entrevistas de acolhimento de novos pacientes não podem ser conduzidas pelo estagiário, mas somente pelo supervisor. c. As normas e as diretrizes do estágio supervisionado em psicologia clínica no Brasil sofrem transformações de acordo com as mudanças em nossa sociedade, inclusive as normas éticas relativas ao atendimento do estagiário. d. Caso o supervisor identifique determinado caso clínico que exija maior experiência, ele dará continuidade ao tratamento no lugar do estagiário. e. A supervisão de estágios em psicologia clínica tem seu principal objetivo pautado em sua função pedagógica. 2. O psicólogo clínico tem sido cada vez mais valorizado em relação ao processo de humanização hospitalar, sobretudo no campo da oncologia, pois, esse profissional terá a função chave de contribuir para a diminuição da estigmatizarão do câncer, sobretudo entre os familiares do paciente. Em relação à psico-oncologia, é correto afirmar que: a. O psicólogo deve focar sua atenção no paciente e não deve interferir na comunicação dele com a família, mesmo que seja requisitado a fazê-lo, pois isso feriria suas responsabilidades éticas. b. O sigilo profissional na psico-oncologia difere do observado na clínica tradicional, já que nessa especialidade a relação paciente- família pode ser constante e fundamental para sua recuperação, portanto é importante facilitar a comunicação entre eles. c. A psico-oncologia é especialidade da psicologia clínica que se ocupa de pacientes acometidos por câncer e restringe seu tratamento ao âmbito hospitalar. d. A psico-oncologia tem seu próprio código de ética, poispossui questões mais pertinentes ao código de ética da medicina. 25 e. O psicólogo se ocupa no tratamento da tristeza ao longo do tratamento contra o câncer, mas encaminha o paciente para a psiquiatria no caso de depressão e/ou ansiedade. GABARITO Questão 1 - Resposta E Resolução: A alternativa “A carga horaria a ser cumprida não depende do programa de estágio, seja em nível de graduação ou especialização” está incorreta, pois ocorre exatamente o oposto: a carga horaria dependerá do programa de estágio, pois, ele pode possuir diferentes exigências curriculares. Por sua vez, a carga horaria mínima permanece a mesma para os cursos de graduação. A alternativa “As entrevistas de acolhimento de novos pacientes não podem ser conduzidas pelo estagiário, mas somente pelo supervisor” está incorreta, pois, uma vez que o supervisor verifique que a qualificação do estagiário é adequada para a função, ele poderá fazê-la. A alternativa “As normas e as diretrizes do estágio supervisionado em psicologia clínica no Brasil sofrem transformações de acordo com as mudanças em nossa sociedade, inclusive as normas éticas relativas ao atendimento do estagiário” está incorreta, pois, as normas éticas básicas em relação ao estágio supervisionado não se alteram ao longo do tempo. A alternativa “Caso o supervisor identifique determinado caso clínico que exija maior experiência, ele dará continuidade ao tratamento no lugar do estagiário” está incorreta, porque o supervisor não substitui o estagiário em seu atendimento, mas 26 sugere o encaminhamento para ouro serviço de atendimento mais especializado. A alternativa “A supervisão de estágios em psicologia clínica tem seu principal objetivo pautado em sua função pedagógica” está correta, pois esse é seu papel primordial na formação do psicólogo clínico. Questão 2 - Resposta B Resolução: A alternativa “O psicólogo deve focar sua atenção no paciente e não deve interferir na comunicação dele com a família, mesmo que seja requisitado a fazê-lo, pois isso feriria suas responsabilidades éticas”, está incorreta, pois a comunicação paciente-família é fundamental em pacientes oncológicos e o psicólogo pode intermediar esse diálogo caso seja requisitado. A alternativa “A psico-oncologia é especialidade da psicologia clínica que se ocupa de pacientes acometidos por câncer e restringe seu tratamento ao âmbito hospitalar” está incorreta, pois, o tratamento pode se dar no ambulatório hospitalar, no consultório e/ou em domicílio. A alternativa “A psico-oncologia tem seu próprio código de ética, pois possui questões mais pertinentes ao código de ética da medicina” está incorreta, pois todas as áreas de atuação da psicologia estão submetidos ao mesmo código de ética da categoria e não compartilham códigos de outras profissões. A alternativa “O psicólogo se ocupa no tratamento da tristeza ao longo do tratamento contra o câncer, mas encaminha o paciente para a psiquiatria no caso de depressão e/ou ansiedade” está incorreta, pois, a psicologia possui instrumentos suficientes para tratar quadros depressivos e/ou de ansiedade, podendo, em alguns casos, trabalhar com parceria com a psiquiatria. Registros profissionais e a guarda de documentos ______________________________________________________________ Autoria: Alberto Carneiro Barbosa de Souza Leitura crítica: Juliana dos Santos Corbett TEMA 3 28 DIRETO AO PONTO A responsabilidade do psicólogo vai muito além dos cuidados relativos à saúde mental e bem-estar. Ele também tem responsabilidade ética e legal na produção e guarda de documentos relativos a todo trabalho por ele executado em qualquer área da Psicologia. A esses documentos dá-se o nome de documentos psicológicos, que, normalmente, contém material sigiloso e pode ser a única fonte de consultas presentes e futuras, por parte do próprio psicólogo e seu cliente, assim como a instituição na qual o serviço foi prestado ou outros interessados mediante ordem judicial. Mas não é apenas para consultar laudos ou resultados de testes que servem os documentos psicológicos. Os pesquisadores os utilizam para compreender como se deu a evolução da Psicologia desde seu início, assim como investigar determinados procedimentos psicológicos ao longo da história. Não fossem tais documentos, seria mais difícil conhecer nossa própria profissão e, portanto, teríamos maior dificuldade em aprimorar técnicas e procedimentos. Um exemplo disso é a mudança de paradigma na Psicologia ao longo do tempo em relação ao estigma social. Apesar de sempre ter adotado uma postura de vanguarda, a Psicologia brasileira evoluiu bastante na pesquisa e no tratamento do estigma social e isso se deve em grande parte aos estudos sobre posturas que, muitas vezes, necessitavam de aprimoramento, sobretudo no tocante às relações de poder na sociedade. Dada a sua importância, os documentos psicológicos devem ser cuidadosamente guardados. A guarda desse material é responsabilidade do psicólogo responsável pelos procedimentos e resultados descritos nos documentos que podem ser físicos ou digitalizados. No caso da digitalização, deve-se atentar para a clara legibilidade, assim como a segurança cibernética. Portanto, 29 aconselha-se que documentos psicológicos digitalizados sob a guarda do psicólogo devem ser criptografados e protegidos contra alterações por terceiros. Da mesma forma, muitos psicólogos preferem obter uma certificação digital para garantir a autenticidade do documento. A guarda de documentos psicológicos, tanto digitalizados quanto físicos, deve ser mantida por no mínimo cinco anos e, no caso de documentos gerados a partir de uma equipe multiprofissional, deve-se observar o tempo mínimo de guarda de cada categoria envolvida no tratamento ou atendimento ao paciente/cliente/usuário do serviço de saúde. Segundo Resolução 06/2019, que versa sobre o tema, temos cinco: art. 8º Constituem modalidades de documentos psicológicos: I – Declaração; II – Atestado Psicológico; III – Relatório: a) Psicológico; b) Multiprofissional; IV – Laudo Psicológico; V – Parecer Psicológico. Assim, todos os resultados e laudos dos profissionais devem ser descritos nesse documento de forma resumida e objetiva em linguagem na qual todos os profissionais envolvidos compreendam, ou seja, evita-se jargões específicos da categoria. Dessa forma, apenas esse profissional e seu paciente/cliente podem ter acesso. Além dos documentos escritos temos o registro documental, de uso exclusivo do psicólogo, nesse registro, deve-se constar todos os resultados advindos de práticas de avaliação, como de testes psicológicos, descrever os procedimentos executados e sessões clínicas. Outro ponto importante a ser destacado é o registro profissional. Apesar de a Psicologia só ser regulamentada como profissão no Brasil a partir de 1962, bem antes disso, a profissão já se fazia presente na realidade nacional, pois desde 1946 a lei brasileira já previa a formação do psicólogo, embora para tal ele tivesse que cursar três anos de Biologia, Antropologia ou Filosofia para então cursar uma especialização em Psicologia. Porém, na década de 1970, a psicologia começou a cresceu vertiginosamente com a proliferação 30 de cursos de graduação universitários. Diante desse cenário surge a necessidade de um maior controle em relação ao registro profissional, surgindo um novo código de ética que, em pesquisa recente, se constata que é preocupação do Sistema Conselhos de manter o código de ética da profissão sempre em sintonia com as mudanças sociais e culturais no Brasil (ZAIA; OLIVEIRA; NAKANO, 2018). A formação em Psicologia sem o devido registro no conselho regional da categoria não autoriza o formado a exercer a função de psicólogo, a não ser que seja o cargo de gerente de Recursos Humanos ou função acadêmica. Da mesma forma, ao se mudar de região ou estado, o psicólogo precisa transferir seu registro em um processo denominado InscriçãoSecundária, mas, para tanto, deve estar em dia com seu registro principal. Exercer Psicologia sem a transferência de registro se caracteriza exercício irregular da profissão, ao passo que a exercer sem possuir registro no Sistema de Conselhos se configura exercício ilegal da profissão, sendo uma falha ética grave, situação prevista inclusive no Código Penal Brasileiro. Além disso, é reponsabilidade do psicólogo assegurar que seu contratante seja pessoa jurídica que tenha seu registro regular no Sistema Conselhos. Da mesma forma, a contratante deve exigir do psicólogo seu registro no seu CRP, seja o registro principal ou a inscrição secundária (é a que possibilita à(ao) psicóloga(o) o exercício da profissão simultaneamente em outra região, além daquela onde detém a inscrição principal). Ao nos certificarmos que os registros profissionais, tanto a contratante quanto o contratado, estamos valorizando a profissão e protegendo o mercado de trabalho de Psicologia contra pessoas que exercem a profissão irregularmente, ou pior, de forma ilegal. Tal certeza é, antes de obrigação ética e legal, um direito de todo psicólogo. 31 Figura 1 – A guarda e a manutenção do sigilo de documentos psicológicos é obrigação ética e legal do psicólogo Fonte: elaborada pelo autor. Referências bibliográficas BRASIL. Decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Brasília, DF: Presidência da República, 1940. CFP. Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 6/2019. Comenta orientações sobre elaboração de documentos escritos produzidos pela(o) psicóloga(o) no exercício profissional. Brasília, DF: CFP, 2019. ZAIA, P.; OLIVEIRA, K. S.; NAKANO, T. C. Análise dos processos éticos publicados no jornal do Conselho Federal de Psicologia. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 1, n. 38, p. 8-21, 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pcp/a/ LYw9hxkCpDKTWXbhGb3gjRH/abstract/?lang=pt. Acesso em: 7 fev. 2022. PARA SABER MAIS O processo de investigar e analisar faltas éticas por parte de psicólogos regularmente registrados em seu CRP se dá a partir de denúncias de tais faltas, que podem ser feitas tanto pela parte https://www.scielo.br/j/pcp/a/LYw9hxkCpDKTWXbhGb3gjRH/abstract/?lang=pt https://www.scielo.br/j/pcp/a/LYw9hxkCpDKTWXbhGb3gjRH/abstract/?lang=pt 32 supostamente prejudicada ou por qualquer cidadão. A partir da condenação, é direito do psicólogo recorrer ao CFP cuja decisão será incontestável. Nesse contexto, as denúncias ocorrem por diversas razões, desde desacordos com os resultados de testes psicológicos até o exercício ilegal da profissão. É interessante observar que as denúncias variam bastante de acordo com a região ou estado do CRP. Há vários anos, a maior parte das denúncias estão concentradas no CRP 06, de São Paulo, o que é esperado em função do número de profissionais registrados em relação a outras regiões. Em uma pesquisa publicada em 2018 (ZAIA; OLIVEIRA; NAKANO, 2018), os pesquisadores constataram que o CRP 08, do Paraná, ocupava o segundo lugar, com 46 denúncias concretizadas, apenas atrás de São Paulo, com 107. Na mesma pesquisa, supreendentemente, o CRP 01, de Brasília, com apenas 7 denúncias concretizadas, e Mato Grosso, Amazonas, Acre, Roraima e Rondônia, Piauí, Maranhão e Sergipe sem nenhuma denúncia. Vale ainda acrescentar que atualmente existem mais de 320 mil psicólogos e, por isso, a ABEP tem feito grande esforço para garantir a boa qualidade dos cursos de graduação em Psicologia, assim como promover debates a respeito de questões éticas contemporâneas na psicologia (ZAIA; OLIVEIRA; NAKANO, 2018). Por fim, cabe a todos os psicólogos buscar sempre estar atualizados em relação às resoluções éticas estabelecidas pelo Conselho Federal de Psicologia, assim como se aperfeiçoar constantemente por meio de formação complementar. Encontros da categoria e congressos nacionais e, até mesmo, internacionais. É dever de todos nós zelar pela boa prática da Psicologia e da imagem de nossa categoria perante a sociedade. 33 Referências bibliográficas ZAIA, P.; OLIVEIRA, K. S.; NAKANO, T. C. Análise dos processos éticos publicados no jornal do Conselho Federal de Psicologia. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 1, n. 38, p. 8-21, 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pcp/a/ LYw9hxkCpDKTWXbhGb3gjRH/abstract/?lang=pt. Acesso em: 7 fev. 2022. TEORIA EM PRÁTICA Um psicólogo trabalhando em uma autarquia pública como clínico foi requisitado a digitalizar os seus documentos psicológicos e, além disso, aconselhado a criar uma certificação digital para os documentos. O psicólogo agiu conforme requisitado, mas manteve apenas em sua forma física alguns prontuários de funcionários que foram seus clientes no passado e não mais trabalhavam naquela autarquia, pois pediram transferência. A razão pela qual o psicólogo decidiu manter esses prontuários apenas em sua forma física se deve ao fato de nele conterem informações sensíveis quanto aos atendimentos, como ideação suicida, automutilação e alienação parental. Ao ser questionado por seu supervisor se ele havia digitalizado todos os documentos, o psicólogo explicou que excluiu alguns prontuários. O procedimento do psicólogo foi correto? Havia risco real na digitalização de prontuários com informações extremamente sensíveis como essas? Para conhecer a resolução comentada proposta pelo professor, acesse a videoaula deste Teoria em Prática no ambiente de aprendizagem. https://www.scielo.br/j/pcp/a/LYw9hxkCpDKTWXbhGb3gjRH/abstract/?lang=pt https://www.scielo.br/j/pcp/a/LYw9hxkCpDKTWXbhGb3gjRH/abstract/?lang=pt 34 LEITURA FUNDAMENTAL Prezado aluno, as indicações a seguir podem estar disponíveis em algum dos parceiros da nossa Biblioteca Virtual (faça o log in por meio do seu AVA), e outras podem estar disponíveis em sites acadêmicos (como o SciELO), repositórios de instituições públicas, órgãos públicos, anais de eventos científicos ou periódicos científicos, todos acessíveis pela internet. Isso não significa que o protagonismo da sua jornada de autodesenvolvimento deva mudar de foco. Reconhecemos que você é a autoridade máxima da sua própria vida e deve, portanto, assumir uma postura autônoma nos estudos e na construção da sua carreira profissional. Por isso, nós o convidamos a explorar todas as possibilidades da nossa Biblioteca Virtual e além! Sucesso! Indicação 1 O livro indicado proporciona uma visão ampla a respeito do desenvolvimento e apreçamento da Psicologia ao longo da história. Livros como esses só são possíveis graças aos documentos psicológicos guardados e preservados por psicólogos e pesquisadores. Vale a pena conferir o resultado da guarda de documentos ao longo da história. Além disso, esta obra traz relatos interessantes a respeito do registro profissional de psicólogos no Brasil. TORRES, A. R. R. História da psicologia. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2016. [Minha Biblioteca] Indicações de leitura 35 Indicação 2 A obra indicada descreve as responsabilidades do psicólogo em relação às políticas públicas no Brasil. A indicação para leitura se justifica em razão da ampla discussão que as autoras propõem a respeito da responsabilidade profissional do psicólogo diante da população e de sua própria categoria. SILVA, E. da; PICIRILLI, C. C. Psicologia e políticas públicas. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2016. [Minha Biblioteca] QUIZ Prezado aluno, as questões do Quiz têm como propósito a verificação de leitura dos itens Direto ao Ponto, Para Saber Mais, Teoria em Prática e Leitura Fundamental, presentes neste Aprendizagem em Foco. Para as avaliações virtuais e presenciais, as questões serão elaboradas a partir de todos os itens do Aprendizagem em Foco e dos slides usados para a gravação das videoaulas, além de questões de interpretação com embasamento no cabeçalho da questão. 1. A Psicologia no Brasil, desde sua regulamentação como profissão em1962, tem evoluído constantemente acompanhando as mudanças socioculturais. Um exemplo disso está na regulamentação e proliferação do atendimento psicológico remoto ou on-line. A respeito dessa modalidade de atendimento, pode-se afirmar que: 36 a. O registro de voz e/ou vídeo do atendimento psicológico on-line, apesar de ser material da própria sessão, não se configura como prontuário e, portanto, não pode ser utilizado como tal. b. Criptografar documentos psicológicos digitalizados é considerado falha ética, pois impede que o paciente/usuário/ cliente tenha acesso ao mesmo ou, se o tiver, não terá como visualizá-lo. c. Em conformidade com a resolução do CFP nº 01/2009, é obrigação ética do psicólogo ter a autorização expressa de seu paciente para gravar as sessões, pois é necessário seu consentimento. d. A assinatura digital não é registro válido para documentos relativos ao atendimento feito on-line. e. No atendimento remoto ou on-line, apesar de o psicólogo ter o dever ético de elaborar um prontuário psicológico, não há a necessidade deste possuir inscrição no Sistema Conselhos. 2. A guarda de documentos psicológicos tem importância crucial não só para o histórico dos atendimentos ou dos serviços prestados pelo psicólogo, mas também por ser fonte fidedigna para consultas por pesquisadores e acadêmicos. Em relação à guarda de documentos psicológicos, é correto afirmar que: a. A avaliação psicológica tem como função o diagnóstico do cliente e, portanto, a guarda de seus resultados é dever ético do psicólogo, apesar de não ser necessário incluir como se deu a aplicação do teste. b. A guarda de documentos psicológicos digitalizados deve ser de no mínimo cinco anos e documentos não-digitalizados de vinte anos. 37 c. O prontuário único eletrônico é documento de uso exclusivo do psicólogo e deve estar sob sua guarda por cinco anos e estar à disposição do paciente/usuário/cliente. d. A guarda de documentos psicólogos é de responsabilidade do psicólogo e, portanto, a instituição para qual o profissional trabalha não compartilha tal obrigação com o psicólogo. e. A certificação digital para documentos psicológicos não está prevista como obrigatoriedade legal ou ética, mas tem sido fortemente recomendada aos psicólogos. GABARITO Questão 1 - Resposta A Resolução: A alternativa “O registro de voz e/ou vídeo do atendimento psicológico on-line, apesar de ser material da própria sessão, não se configura como prontuário e, portanto, não pode ser utilizado como tal” está correta, pois qualquer atendimento, inclusive on-line necessita ter seu prontuário próprio. O simples registro da sessão não caracteriza como prontuário psicológico. A alternativa “Criptografar documentos psicológicos digitalizados é considerado falha ética, pois impede que o paciente/usuário/cliente tenha acesso ao mesmo ou, se o tiver, não terá como visualizá-lo” está incorreta, pois ocorre exatamente o oposto: a criptografia de documentos psicológicos digitalizados é aconselhada, pois protege o sigilo do documento. Além disso, o paciente tem a chave pública do documento, ou seja, pode visualizá-lo sem fazer modificações. A alternativa “Em conformidade com a resolução do CFP nº 01/2009, é obrigação ética do psicólogo ter a autorização 38 expressa de seu paciente para gravar as sessões, pois é necessário seu consentimento” está incorreta, pois apesar de a afirmação ser verdadeira, a Resolução nº 01/2009 se trata da obrigatoriedade do psicólogo em manter prontuário e registro documental dos atendimentos on-line. A alternativa “A assinatura digital não é registro válido para documentos relativos ao atendimento feito on-line” está incorreta, pois a assinatura digital é registro valido em documentos psicológicos digitais. A alternativa “No atendimento remoto ou on-line, apesar de o psicólogo ter o dever ético de elaborar um prontuário psicológico, não há a necessidade deste possuir inscrição no Sistema Conselhos” está incorreta, pois qualquer atendimento clínico (presencial ou remoto) só pode ser feito por um psicólogo com seu registro profissional em dia junto ao Sistema Conselhos. Questão 2 - Resposta E Resolução: A alternativa “A avaliação psicológica tem como função o diagnóstico do cliente e, portanto, a guarda de seus prontuários é dever ético do psicólogo, apesar de não ser necessário incluir como se deu a aplicação do teste” está incorreta, pois os prontuários de avaliações psicológicas devem incluir também como se deu a aplicação dos testes A alternativa “A guarda de documentos psicológicos digitalizados deve ser de no mínimo cinco anos e documentos não-digitalizados de vinte anos” está incorreta, pois qualquer documento psicológico deve ser guardado no mínimo por cinco anos. 39 A alternativa “O prontuário único eletrônico é documento de uso exclusivo do psicólogo e deve estar sob sua guarda por cinco anos e estar à disposição do paciente/usuário/cliente” está incorreta, pois o prontuário único eletrônico é utilizado por equipes multiprofissionais. A alternativa “A guarda de documentos psicólogos é de responsabilidade do psicólogo e, portanto, a instituição para qual o profissional trabalha não compartilha tal obrigação com o psicólogo” está incorreta, pois a instituição divide com o psicólogo a responsabilidade pela guarda de documentos. A alternativa “A certificação digital para documentos psicológicos não está prevista como obrigatoriedade legal ou ética, mas tem sido fortemente recomendada aos psicólogos” está correta, pois, não há resolução do CFP relativa a essa obrigatoriedade, apesar de muitas instituições aconselharem o psicólogo a possuir uma certificação digital para seus documentos digitalizados a fim de garantir sua segurança, sigilo e autenticidade. Reflexões acerca da atuação profissional – Sigilo ______________________________________________________________ Autoria: Alberto Carneiro Barbosa de Souza Leitura crítica: Juliana dos Santos Corbett TEMA 4 41 DIRETO AO PONTO O sigilo na prática da Psicologia, qualquer que seja a área de atuação, deve ter absoluta prioridade. O laço de confiança entre o profissional e seu cliente/usuário/paciente é o pilar de sustentação dessa relação e a quebra deste contrato, que pode ser verbal ou escrito, comprometerá o resultado esperado. Naturalmente, há situações nas quais esse sigilo será quebrado mais, mesmo assim, com a anuência do cliente. As principais causas para essa quebra são requisições judiciais, ameaças que possam se concretizar contra terceiros ou contra si próprio ou, ainda, quando o paciente não pode responder por si, como no caso de crianças e adolescentes, e o psicólogo entende que determinada situação deve ser levada ao conhecimento dos responsáveis. As novas áreas de atuação da Psicologia também têm mantido o compromisso com o sigilo. Entre os novos campos de atuação temos a psicologia ambiental que, apesar de ainda pouco desenvolvida no Brasil (apesar de termos profissionais nessa área), cresce rapidamente na Europa e América do Norte. Essa especialidade estuda como as mudanças ambientais afetam o bem-estar e a saúde mental do indivíduo, desde a poluição das grandes cidades até as secas e o aquecimento global. Por trabalhar em uma equipe multiprofissional, o sigilo profissional da Psicologia deve ser mantido e dado sensíveis de determinado cliente só podem ser compartilhados com sua anuência. Além disso, em razão do psicólogo compartilhar documentos com profissionais de áreas muito diferentes da Psicologia, o sigilo deve ser redobrado. 42 Da mesma forma, a psicologia do trânsito, outra área relativamente recente, deve observar o sigilo profissional quando, por exemplo, o cliente que se submete ao teste psicotécnico para tirar sua habilitação se revela sofrer de determinada psicopatologia. Esse diagnóstico não poderá sob nenhuma hipótese ser compartilhado com terceiros sem a concordância expressado cliente. Os psicólogos atuando em diversas especialidades atuam no Sistema Único de Saúde (SUS) atualmente. O sigilo exigido do psicólogo locado em uma unidade do SUS traz consigo o engajamento político de uma categoria que sempre lutou pelas liberdades individuais e pela valorização da vida. O psicólogo do SUS, de maneira geral, possui a consciência de que o direito fundamental ao sigilo clínico do usuário do sistema, talvez, seja umas das principais características do fazer da Psicologia voltada às populações em situações de vulnerabilidade. Por fim, é importante compreender as especificidades da clínica do adolescente e a importância do sigilo clínico e o elo de confiança para essa população. O adolescente necessita se sentir aceito e aprovado pelo outro, pois, isso o ajuda a elaborar as diversas crises de identidade por que ele passa. Essa necessidade se faz muito maior na relação com seu psicólogo, pois ele será a confirmação de que o paciente é aceito na sociedade em que vive e que suas crises de identidade são absolutamente normais. Portanto, a questão do sigilo clínico passa a ser a base do tratamento e da relação psicólogo-paciente. Contudo, isso não significa que adolescentes possuem uma subjetividade homogenia. Ao contrário, suas particularidades são inúmeras e cada grupo deve ser tratado de forma diferente e, cada adolescente, de maneira única (OUTEIRAL, 2008). 43 Figura 1 – A clínica psicológica com adolescentes possui características muito específicas Fonte: elaborada pelo autor. Referências bibliográficas OUTEIRAL, J. Adolescer. 3. ed. Rio de Janeiro: Revinter, 2008. PARA SABER MAIS A clínica psicológica do adolescente, em conflito com a lei, passou por uma das maiores transformações de que se tem notícia após a entrada em vigor do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) no Brasil (SOUZA; VENÂNCIO, 2011). Crianças e adolescentes passaram a gozar de total prioridade jurídica e psicossocial, assim, a clínica psicológica entende que esse paciente/usuário do sistema público de saúde mental está em pleno processo de desenvolvimento psicoemocional, físico e intelectual. Portanto, a inimputabilidade jurídica do adolescente outorga ao psicólogo o direito de manter sigilo sobre toda informação que ele achar sensível ou que possa prejudicar o desenvolvimento do usuário. 44 Os adolescentes em conflito com a lei são indivíduos que cometeram contravenção penal ou ato infracional e deram entrada no sistema DEGASE (Departamento Geral de Ações Socioeducativas) no Rio de Janeiro, Fundação CASA (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente) em São Paulo e demais instituições similares nos demais estados da união. Nessas autarquias, o psicólogo tem o poder de determinar juntamente com uma equipe multiprofissional a capacidade de o adolescente se reinserir na sociedade e/ou o nível de comprometimento psicoemocional do paciente, por meio de laudo que é enviado ao juiz responsável pelo caso de seu paciente. Portanto, o psicólogo possui normalmente um grande leque de informações extremamente sensíveis sobre o adolescente que devem ser compartilhados com muito cuidado com a equipe, a fim de garantir o direito do adolescente a sua integridade psicoemocional. O psicólogo é, por essa razão, bastante respeitado e valorizado, assim como o psiquiatra, embora esse último passe em geral menos tempo em contato com o adolescente e, portanto, detém menos informações confidenciais a respeito do paciente do que o psicólogo. Referências bibliográficas SOUZA, V. L. T. de; VENÂNCIO, M. M. R. Os sentidos atribuídos à medida socioeducativa de liberdade assistida por jovens em conflito com a lei e seus socioeducadores. Psicol. educ., São Paulo, n. 32, p. 163-185, 2011. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S1414-69752011000100010. Acesso em: 8 fev. 2022. TEORIA EM PRÁTICA O adolescente J. Q. V., 16 anos, morador de uma comunidade de baixa renda na zona norte da Grande São Paulo frequenta o http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-69752011000100010 http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-69752011000100010 45 segundo ano do ensino médio e trabalha como vendedor na barraca de peixe de seu tio na feira todas as terças e quintas. J. Q. V. tem planos de entrar na faculdade e cursar engenharia, já que gosta de matemática e física. O adolescente está namorando M. Z. U., de 17 anos, dependente química, que não estuda e não trabalha. M. Z. U. foi apreendida com grande de entorpecentes juntamente com J. Q. V. que, durante a abordagem, afirmou ser o único responsável pelo material encontrado pela polícia. Contudo, ao conversar com a psicóloga da Fundação CASA, para onde foram conduzidos, J. Q. V. admite que sequer sabia que a namorada estava com substâncias ilegais, mas que não se importa em ser apreendido no lugar dela. Ao final da conversa, o adolescente faz um pedido: que a psicóloga mantenha sigilo sobre o que foi dito e não reporte ao juiz de plantão. Tendo em vista o Código de Ética da Psicologia e a legislação vigente, qual deve ser sua conduta nesse caso? Para conhecer a resolução comentada proposta pelo professor, acesse a videoaula deste Teoria em Prática no ambiente de aprendizagem. LEITURA FUNDAMENTAL Prezado aluno, as indicações a seguir podem estar disponíveis em algum dos parceiros da nossa Biblioteca Virtual (faça o log in por meio do seu AVA), e outras podem estar disponíveis em sites acadêmicos (como o SciELO), repositórios de instituições públicas, órgãos públicos, anais de eventos científicos ou periódicos científicos, todos acessíveis pela internet. Indicações de leitura 46 Isso não significa que o protagonismo da sua jornada de autodesenvolvimento deva mudar de foco. Reconhecemos que você é a autoridade máxima da sua própria vida e deve, portanto, assumir uma postura autônoma nos estudos e na construção da sua carreira profissional. Por isso, nós o convidamos a explorar todas as possibilidades da nossa Biblioteca Virtual e além! Sucesso! Indicação 1 A psicologia jurídica possui particularidades em relação ao sigilo profissional que, apesar de seguir Código de Ética da Profissão, dialoga com a ética do campo jurídico. Assim sendo, essa é uma obra excelente para a iniciação à psicologia jurídica. GOULART, E. Psicologia jurídica. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2018. [Minha Biblioteca] Indicação 2 A psicologia ambiental é uma das especialidades que mais cresce em todo o mundo. Em um momento histórico no qual a preocupação com nosso ecossistema e os riscos de mudanças climáticas podem causar em todos nós, os danos psicológicos têm sido igualmente graves e, por isso, este livro dará ao leitor um bom panorama de como trabalhar a saúde mental em colaboração com outros campos do saber ligados aos estudos ambientais. THOMAZ, M. C. A. Planejamento e saúde ambiental. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2017. [Minha Biblioteca] 47 QUIZ Prezado aluno, as questões do Quiz têm como propósito a verificação de leitura dos itens Direto ao Ponto, Para Saber Mais, Teoria em Prática e Leitura Fundamental, presentes neste Aprendizagem em Foco. Para as avaliações virtuais e presenciais, as questões serão elaboradas a partir de todos os itens do Aprendizagem em Foco e dos slides usados para a gravação das videoaulas, além de questões de interpretação com embasamento no cabeçalho da questão. 1. Os adolescentes em conflito com a lei podem ser empurrados para o delito em função de fatores como a precarização das relações de trabalho, alta evasão escolar e/ou renda familiar inferior para a garantia de necessidades fundamentais de alimentação e/ou habitação. Além disso, soma-se a ausência de políticas sociais eficientes. Vindo de famílias vulneráveis e, muitas vezes, habitando localidades nas quais a violência social e o uso e/ou venda de entorpecentesfazem parte de seu cotidiano, esses cidadãos brasileiros enfrentam uma dura realidade. A respeito dos adolescentes em conflito com a lei e a questão de sigilo profissional do psicólogo, pode-se afirmar que: a. O psicólogo tem acesso às informações sensíveis sobre o adolescente que devem ser compartilhadas com sua equipe em sua integralidade. b. São pessoas que cometeram contravenção penal ou ato infracional e deram entrada no sistema prisional brasileiro. 48 c. A imputabilidade jurídica do adolescente não autoriza o psicólogo a decidir quais informações devem ser compartilhadas com outros membros da equipe. d. Por meio de ordem judicial, o psicólogo tem obrigação ética e legal de compartilhar informações sobre o adolescente que de outra forma permaneceriam confidenciais. e. O adolescente em conflito com a lei deve ter prioridade absoluta e não pode ser apreendido sem a anuência do psicólogo. 2. O Sistema Único de saúde (SUS) brasileiro tem como sua filosofia básica o atendimento universal e o oferecimento de atendimento multidisciplinar, fazendo com que seja reconhecidamente um dos melhores sistemas de saúde pública do mundo. Em relação ao SUS e o sigilo do psicólogo, é correto afirmar que: a. O sigilo profissional do psicólogo do SUS não difere daquele de qualquer outra especialidade, tal como a organizacional e recursos humanos, por exemplo. b. O psicólogo clínico do SUS não precisa manter um prontuário em separado, pois trabalha em equipe multiprofissional. c. As chamadas Redes Intersetoriais são estruturas do SUS que objetivam horizontalizar as relações de poder, incluindo o sigilo profissional, pois informação é, antes de tudo, garantia sociopolítica de poder. d. A principal característica da psicologia clínica aplicada ao SUS é, sem dúvida, a inovação em relação ao sigilo do psicólogo e seu atendimento ao usuário do sistema. e. O psicólogo do SUS deve determinar quais informações podem e/ou devem ser reveladas a outro colega em eventuais reuniões com outras equipes de atendimento. 49 GABARITO Questão 1 - Resposta D Resolução: A alternativa “O psicólogo tem acesso às informações sensíveis sobre o adolescente que devem ser compartilhadas com sua equipe em sua integralidade” está incorreta, pois a confiabilidade e o sigilo devem ser observados entre o usuário e o psicólogo, sendo esse último autorizado a divulgar apenas o que determinar ser pertinente para tal. A alternativa “São pessoas que cometeram contravenção penal ou ato infracional e deram entrada no sistema prisional brasileiro” está incorreta, pois o menor infrator, de acordo com o ECA, não pode ser preso. Ao contrário, ele é apreendido e levado às instituições para cumprir medidas socioeducativas. A alternativa “A imputabilidade jurídica do adolescente não autoriza o psicólogo a decidir quais informações devem ser compartilhadas com outros membros da equipe” está incorreta, pois esse profissional tem direito legal em decidir quais informações de seu cliente podem ser ou não compartilhadas. A alternativa “O adolescente em conflito com a lei deve ter prioridade absoluta e não pode ser apreendido sem a anuência do psicólogo” está incorreta, pois o psicólogo não possui poderes legais para impedir a apreensão de um menor. Questão 2 - Resposta E Resolução: A alternativa “O sigilo profissional do psicólogo do SUS não difere daquele de qualquer outra especialidade, tal como a organizacional e recursos humanos, por exemplo” está incorreta, pois uma de suas maiores características é, além dos cuidados da saúde física e mental da população, a restituição 50 de direitos de populações particularmente vulneráveis, tais como pacientes oriundos de longas internações psiquiátricas, que são hoje em dia proibidas por lei. A alternativa “O psicólogo clínico do SUS não precisa manter um prontuário em separado, pois trabalha em equipe multiprofissional” está incorreta, pois os prontuários psicológicos possuem informações confidenciais que não poder ser compartilhadas com terceiros. A alternativa “As chamadas Redes Intersetoriais são estruturas do SUS que objetivam horizontalizar as relações de poder, incluindo o sigilo profissional, pois informação é, antes de tudo, garantia sociopolítica de poder” está incorreta, pois o que essas redes propõem são uma ação conjunta de serviços oferecidos à população no sentido de proporcionar prevenção e tratamento holísticos ao usuário. A alternativa “A principal característica da psicologia clínica aplicada ao SUS é, sem dúvida, a inovação em relação ao sigilo do psicólogo e seu atendimento ao usuário do sistema” está incorreta, pois, apesar de o SUS realmente ter proposto grande inovações nos serviços de psicologia, o sigilo profissional segue em conformidade com o código de ética da profissão. BONS ESTUDOS! TEMA 1 Direto ao ponto Para saber mais Teoria em prática Leitura fundamental Quiz Gabarito TEMA 2 Direto ao ponto Para saber mais Teoria em prática Leitura fundamental Quiz Gabarito TEMA 3 Direto ao ponto Para saber mais Teoria em prática Leitura fundamental Quiz Gabarito TEMA 4 Direto ao ponto Para saber mais Teoria em prática Quiz Gabarito