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O mínimo sobre maternidade
Cássia Kawamura
1ª edição — agosto de 2022 — CEDET
Copyright © Cássia Kawamura 2022
Sob responsabilidade 
do editor, não foi adotado o 
Novo Acordo Ortográfico de 1990
Os direitos desta edição pertencem ao
CEDE — Centro de Desenvolvimento 
Profissional e Tecnológico
Av. Comendador Aladino Selmi, 4630
Condomínio GR Campinas 2 — módulo 8
CEP: 13069-096 — Vila San Martin 
Campinas-SP
Telefones: (19) 3249–0580 / 3327–2257
E-mail: livros@cedet.com.br
CEDET LLC is licensee for publishing and sale of the electronic edition of this book
CEDET LLC
1808 REGAL RIVER CIR - OCOEE - FLORIDA - 34761
Phone Number: (407) 745-1558
e-mail: cedetusa@cedet.com.br
Editor:
Felipe Denardi
Revisão & preparação:
Vitório Armelin
Capa:
Guilherme Conejo Lopes
Diagramação:
Virgínia Morais
Revisão de provas:
Mariana Souto Figueiredo 
Flávia Regina Theodoro
Conselho editorial: Adelice Godoy César Kyn d’Ávila Silvio Grimaldo de Camargo
FICHA CATALOGRÁFICA 
Kawamura, Cássia.
O mínimo sobre maternidade / Cássia Kawamura
Campinas, SP: O Mínimo, 2022.
ISBN: 978-65-997705-7-9
1. Maternidade 2. Família 3. Educação 
I. Autor II. Título
cdd 306.8743 / 306.85 / 370 
ÍNDICES PARA CATÁLOGO SISTEMÁTICO
1. Maternidade — 306.8743
2. Família — 306.85
3. Educação — 370
www.ominimoeditora.com.br
Reservados todos os direitos desta obra. Proibida toda e qualquer reprodução desta edição por qualquer meio ou forma,
seja ela eletrônica, mecânica, fotocópia, gravação ou qualquer outro meio de reprodução, sem permissão expressa do
editor.
Sumário
INTRODUÇÃO
TER UM BOM CASAMENTO PARA VIVER BEM A MATERNIDADE
É PRECISO ENTENDER COMO A MATERNIDADE FUNCIONA
É NECESSÁRIO ENCONTRAR O PORQUÊ DE SER MÃE
CONCLUSÃO
D
DEDICATÓRIA
edico cada página deste livro à minha amada mãe que, assim como meu Senhor, me
amou primeiro. Amou-me antes que eu soubesse o que era o amor.
Que cada bom fruto, que essas breves páginas possam fazer brotar na alma de quem as
encontrar, seja depositado também na conta da mulher em cujo olhar eu nunca encontrei
desprezo e cujo colo nunca me foi negado, a mulher que me gerou em seu ventre, coração
e alma.
Minha amada mãe, dedico meu primeiro e singelo livro à senhora, pois o seu amor me
privou e curou de imensos males desde sempre.
Que Deus a recompense com o Céu, na presença dulcíssima da Virgem Maria e do
justíssimo São José.
P
INTRODUÇÃO
ara a mulher, a maternidade não se limita a gestar e parir um filho na carne, mas inclui
enobrecer uma alma cujo destino é eterno, dando à luz a criatura e dando a criatura à
luz divina. Muito se engana quem pensa que ser mãe se resume a um simples evento
fisiológico, e se frusta gravemente a mulher que tenta fugir da maternidade simplesmente
evitando uma gravidez.
A humanidade passa pelo ventre materno, e de certa forma o mundo depende das
mulheres, pois não há um único ser humano que não tenha se abrigado no útero de uma
mãe. É impossível dizer que a mulher é uma criatura qualquer, já que não é qualquer
criatura que carrega o futuro e a eternidade no próprio ventre e suporta por tanto tempo
um contínuo sacrifício de si mesma para que novas vidas sejam geradas.
Sendo hoje uma mãe de cinco filhos, posso afirmar que
a maternidade não é um chamado para algumas
mulheres, mas para todas,
e acrescento também que não deve ser evitada por nenhuma de nós, porque
necessitamos dela para curar muitas feridas que acumulamos durante a vida, nos tirando
do lugar de meninas para nos elevar à posição de mulheres. Já não seremos mais quem
espera por socorro, mas passamos a ser aquela que pode socorrer, que pode curar, que
pode dar vida a quem já está vivo, mas vive como se já tivesse morrido porque conheceu
um amor genuíno, um amor gratuito e incondicional, um amor que não busca ferir, e sim
constrange por tanta generosidade.
Quase oito anos atrás eu subia no altar para me casar e jurava receber os filhos que Deus
quisesse me enviar, e fazia aquilo por livre e espontânea vontade. Eu me casei para formar
minha própria família, para estar aberta aos possíveis filhos, e fiz isso com grande alegria.
Mas, mesmo cheia de alegria e boa vontade, aos vinte e dois anos eu não era tão madura
como julgava ser e nem tinha a consciência do quanto a maternidade exigiria de mim.
Tive medo, muitos medos como a grande maioria das mães que hoje conversam comigo.
Medo de não dar conta de educá-los bem, medo de não ser capaz de sustentá-los como
gostaria, medo de sofrer por não saber ser uma boa mãe.
Dizem que “quem pensa muito não casa”; bem, deve ser mesmo verdade, e é por isso
que é tão importante estar apaixonado. Os jovens noivos estão ardentes de paixão e
querem logo viver juntos, a paixão os empurra para a batalha, como faz com o jovem
adolescente que grita de alegria por poder ir à guerra defender o seu país e honrar os seus
pais.
Pensar demais num futuro que não está totalmente sob o nosso controle e em todas as
possibilidades de ruína de uma família, calculando quanto custa cada gota de leite e cada
fralda, não encorajaria ninguém a constituir família. Assim podemos concluir que quem
se casou realmente não pensou demais nos desafios e não se acovardou diante deles, mas
decidiu ir para a linha de frente de peito aberto, estava disposto a vencer a batalha na qual
acabara de adentrar.
Escrevo este livro com imensa alegria porque sei o quanto o amor de uma mãe pode
mudar outras vidas e sei também que há muitas mães carentes de mães. Sei disso porque é
esse o meu trabalho — certamente um tipo de trabalho realizado de maneira bem
moderna, mas que muitas outras mulheres já realizaram antes de mim, conversando com
jovens mães em volta da mesa. Hoje faço isso de casa falando para milhares de mulheres.
É um trabalho muito valioso e gratificante. Todos os dias eu falo com muitas mães, escuto
suas dores, presto atenção a cada dúvida e partilho meus estudos e experiência como uma
mãe faz com a filha que lhe pede ajuda para cuidar do primeiro filho, porque eu sei que há
mesmo muitas inseguranças.
Devo muito desse olhar atento com as mães e com os seus filhos à minha própria mãe,
que sempre respondeu pacientemente às minhas perguntas mais tolas. Porque ela nunca
se cansou de responder às minhas dúvidas e responde a tudo com paciência e amor, eu
nunca tive vergonha de lhe pedir ajuda e nem me senti inferior por saber que não sabia de
muitas coisas. Assim, busco ser um pouco mãe de milhares de mulheres que estão
aprendendo a ser mães e estão dispostas a fazer isso da melhor maneira possível.
E para ajudar estas mães eu preciso ir muito além de simples dicas de como se deve
montar uma rotina para uma criança de três anos; eu preciso falar sobre o que é ser mãe, o
que nos faz mães e o porquê de viver essa vocação.
Por isso iniciei este livro falando que a maternidade não se resume a parir um filho.
Todos, mas especialmente a mulher, precisam entender que
a maternidade humana não pode ser rebaixada e colocada
lado a lado com a maternidade animal.
Não podemos acreditar que a mãe cadela faz exatamente a mesma coisa que a mãe
humana, e que a nossa mãe ou nós mesmas não fazemos nada além do que uma mãe
chimpanzé é capaz de fazer.
Antes que alguém pense que estou menosprezando os animais, deixo bem claro que não
se trata de desprezar os bichos, mas de se lembrar da grandeza da mulher e da potência
humana que, quando bem educada, cuidará de pessoas, animais, plantas e tudo o que
houver ao seu redor.
Creio que ninguém se revoltará se eu afirmar que meu filho de três anos decora poemas
e aprende a cantar novas músicas a cada ano, enquanto o cachorro da vizinha segue
latindo da mesma maneira há cinco anos. Não estou aqui desvalorizando a potência do
bicho — que, por sinal, é muito bonitinho —, só estou afirmando que o ser humano é
capaz de coisas muito mais elevadas do que os animais, e por isso somos nós que
cuidamos deles e não eles que cuidam de nós. Eu, pelo menos, nunca vi cachorro
passeando com homens na coleira por aí. Ainda que haja homem que se comporte feito
bichoe bicho que ganhe festa de aniversário feito gente, eles continuam sendo criaturas
diferentes que vivem de modo diferente.
Quando comecei a escrever na internet, eu tinha acabado de ganhar minha primeira
filha e só pensava em registrar belas fotos com alguma frase bonitinha. Sempre gostei de
escrever, então vez ou outra conseguia escrever algo de bom sobre minhas novas
experiências como mãe e percebi que as pessoas gostavam de ler e distribuir corações na
foto da pequena bochechuda. Como a constância é muito apreciada, por mais que eu
escrevesse como um passatempo, as mães que me conheciam foram divulgando os meus
textos para outras mães enquanto eu paria quase um filho por ano, entre livros e
perrengues da maternidade.
Os meus textos escritos com bebê no colo ajudavam outras mães, porque elas se
identificavam com minhas lutas diárias, nós nos entendíamos quando falávamos sobre
como era difícil cozinhar com uma mão só e como era bom ter esses pequenos com pés de
bisnaga para amar, como a birra parecia pior no final da tarde e como nos tornamos mais
felizes apesar das olheiras.
E assim eu sigo escrevendo há cerca de sete anos; sigo partilhando minhas lutas, mas não
mais como um passatempo, e sim como um trabalho de mãe para mãe, ou melhor
dizendo: de uma mãe para milhares de mães. É um privilégio e uma responsabilidade.
Durante estes anos de contato constante com mães de muitos cantos do mundo e com
muitas realidades diferentes, consegui encontrar dores que são sempre semelhantes nas
mais variadas famílias e necessidades que fazem parte de todo cotidiano por mais
diferente que cada mãe possa ser. Descobri basicamente três coisas: que a maternidade é
mais sofrida quando o casamento não vai bem, que os adultos não sabem como as
crianças funcionam e que as mães não têm um propósito bem definido que as motive a
viver a maternidade com alegria.
Um casamento ruim com uma esposa cansada, um marido carente, um filho que não
tem suas necessidades atendidas e todos sem saber como melhorar, sem saber identificar a
causa do caos e nem por onde começar a ajustar as dificuldades se tornou algo comum:
em todo lugar há famílias assim.
Percebendo estas dores em comum no meio de milhares de famílias, eu entendi que é
necessário falar com as mães e explicar que a maternidade não pode ser vivida de modo
superficial. Não basta parir e manter viva a prole, porque o ser humano não tem relação
sexual e se reproduz somente para dar seguimento a sua própria espécie.
Nós não estamos neste mundo para viver como os animais, que não sofrem se percebem
que não foram tão pacientes com os filhos durante o dia, que não se questionam se o
menino caçula está desobediente pela falta autoridade dos pais ou pelos doces infinitos
que saem dos bolsos dos avós enquanto a mãe não está por perto.
São os seres humanos que sentem a consciência lhes acusar quando percebem que não
estão exercendo bem o papel de educador dos próprios filhos; somos nós que nos
angustiamos por não entender a causa de um choro, nós que estamos buscando um
sentido nesse árduo caminho que é constituir uma família.
É muito claro para mim que a maternidade não pode ser só sofrer no parto e não deixar
os pequenos morrerem de fome. Mas isso só me é compreensível porque eu sei que o ser
humano tem anseios que superam as necessidades fisiológicas, que nenhum de nós
encontra o sentido da vida e a felicidade só se reproduzindo e matando a fome.
Quando a mulher olha para sua potência de ser mãe e a reduz a parir e manter vivo
aquele que pariu, ela está rebaixando sua vocação a uma vida semelhante à vida da mãe
chimpanzé. Por isso muitas mulheres dizem que nem toda mulher nasceu para ser mãe e
não encontram motivos e nem alegria no ter filhos.
Se os filhos servem somente para nos fazer sofrer durante o parto e para dar trabalho
enquanto os mantemos vivos, não parece mesmo grande coisa tê-los, e talvez evitá-los seja
uma boa opção para quem quer aproveitar a vida.
O ser humano não quer somente existir, mas entender o
sentido da sua existência.
Todos nós um dia nos questionaremos sobre o porquê da vida, o que estamos fazendo
neste mundo e se há mesmo um fim último para tudo o que realizamos. Para a mulher
viver bem sua maternidade, ela não poderá olhar para seu papel de mãe como uma
simples lista de coisas que deve e não deve fazer. É preciso encontrar um sentido no doar
o próprio corpo para que uma nova vida seja gerada.
Por que correr o risco de ter marcas de estrias? Por que aceitar vomitar por longas
semanas? Por que sofrer com as dores do parto? Por que perder tantas horas de sono? Por
que ter um filho, afinal de contas? É a busca por esse porquê que irá separar as mulheres
que vivem a maternidade com alegria e esperança das que mulheres que viverão seu
chamado com raiva e tristeza, chamando de injustiça o que nos é natural.
As mães não são infelizes por ter filhos; elas são infelizes por ter filhos e não saber por
que os tiveram, enxergando-os como um castigo que veio de uma noite que era para ser
apenas de prazer. Quando não temos um propósito que direcione e faça valer a pena
nossos esforços, nós passaremos a olhar para a vida de mãe como um eterno cumprir com
obrigações, e isso é mesmo uma frustração.
Por isso há tantas mulheres que se sentem inúteis ao precisarem ficar em casa trocando
fraldas de um recém-nascido. Realmente há muitas mães — e eu já conversei com muitas
delas — que olham para tudo o que fazem pelos filhos e vêem um trabalho vergonhoso.
Queixam-se de que só cuidam dos filhos e já não podem mais ajudar o marido com a
renda familiar, não podem acrescentar nada em casa porque são só mães.
Mas o que pode ser mais valioso do que cuidar de uma vida, a vida do filho que só a mãe
pode gerar? Quando perdemos a sensibilidade diante da vida, tratamos os filhos como
coisas. Então corremos o risco de pensar que “essas coisas” são até bonitinhas, mas por
vezes atrapalham os nossos planos de dormir mais, e porque atrapalham causam tristeza
ou mesmo raiva. Perdendo o amor pela vida do outro, acabamos nos perdendo em nossa
própria vida. Não ver a grandeza da humanidade no filho nos faz perder a nossa própria
humanidade. Infelizmente, muitas pessoas olham para essas vidas como coisas que podem
ser descartadas, que tanto faz ter ou não ter, abortar ou não, não muda nada. Mas, na
verdade, muda tudo. A maneira como nós olhamos para os nossos filhos desde quando
descobrimos sua existência muda tudo, revela-se para nós mesmos quem somos e o que
amamos de fato.
E de onde vem essa objetificação dos filhos? Da incapacidade de olhar para o ser
humano como alguém que precisa ser amado: passamos a tratá-lo como uma coisa da
qual podemos nos livrar ou, no mínimo, rejeitar. E se os filhos não são mais vistos como
bens preciosos, tudo o que faço para tê-los comigo também parece pobre e superficial. Se
a pequena criatura diante de mim não vale tanto assim, muito menos vale o meu esforço
de trocar suas fraldas na madrugada.
Não sabendo valorizar a vida humana, nada mais fará
sentido.
Para escrever este livro, que traz o mínimo sobre a maternidade, eu não posso deixar de
dizer que as mães são criaturas que fazem um trabalho em conjunto com Deus. Quando
falo do propósito que deve haver por detrás de cada troca de fralda e noite em claro, eu
falo da compreensão de que tudo o que uma mãe faz, ela faz para Aquele que é o Senhor
da vida. Ainda que muitas mães não sejam católicas como eu, todas nós temos de
entender que a vida que precisa ser amada, a vida que foi gerada em nosso ventre e agora
depende de nós, necessita de nosso amor incondicional; não há como voltar atrás, não há
como deixar de ser mãe. Mesmo as mães que abortam seus filhos nunca deixarão de ser
mães, apenas serão mães de filhos mortos, e ainda assim precisarão aprender a viver a
maternidade para que a voz que grita dentro de nós, chamando para cuidar do outro, faça
sentido.
E para ser capaz de amar incondicionalmente essas pequenas vidas que necessitarão do
nosso cuidado durante vinte e quatro horaspor dia ao longo dos anos, precisaremos estar
dispostas a doar a nossa própria vida, sacrificando muitas coisas de que gostamos, e ainda
assim seremos felizes porque cremos que vale a pena. Se entendermos que vale a pena
doar o nosso corpo e o nosso tempo por amor ao outro, estaremos fazendo aquilo que o
Cristo nos pede e, sendo assim, estaremos juntas nessa missão e a caminho da verdadeira
felicidade, que é a conseqüência de uma vida que não se poupa.
Não preciso aqui tratar da existência de Deus e da coerência de seus mandamentos;
basta dizer que uma mãe consegue olhar para a paixão de Nosso Senhor e entender como
alguém foi capaz de se sacrificar ao máximo pelo bem daqueles que ama.
Assim são as mães: criaturas que não medem esforços para cuidar dos filhos, que são
capazes de se lançar ao mar para salvar seu rebento mesmo que não saibam nadar, que
deixam de comer para dar alimento ao filho que tem fome, que deixam de comprar uma
roupa para si porque o filho também necessita de uma. E, em geral, as mães fazem isso
com alegria, porque o mais importante é ver bem aquele filho tão amado. Então, mesmo
que nós mães doemos tudo o que temos e somos, sempre estaremos ganhando, pois
entendemos com certa facilidade que, perdendo a nossa vida, nós estamos vivendo uma
vida ainda mais feliz porque há um sentido nessa doação, há um filho que faz valer a pena
todo esforço.
A mãe faz aquilo que o Cristo pede ainda que ela não tenha fé, e Deus não se esquecerá
de quanto amor foi depositado em cada pequena tarefa mesmo que ela não saiba, porque
nós podemos nos esquecer d’Ele, mas Ele nunca se esquece de nós. Não se esquece de nós
e nem de cada alma imortal que desejou nos confiar na vida dos nossos filhos. E, quando
o encontrarmos no Juízo Final, se tivermos cumprido nossa vocação materna com amor,
ouviremos da boca d’Aquele que nos fez mães: “Porque tive fome, e destes-me de comer;
tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-
me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes visitar-me”. Amamos o Cristo nos
nossos filhos e a nossa recompensa será eterna, esse é o grande motivo de ser possível ser
feliz nessa árdua tarefa. Se a vida foi nos dada gratuitamente, alguém a deu a nós.
Nem todas as mães têm a mesma fé, mas se temos
verdadeira disposição para o amor, ao final da nossa
jornada estaremos ainda mais unidas do que agora.
Sempre que se fala em mãe, fala-se também sobre amor e força, doação e abnegação. E
nós nos orgulhamos disso, nos alegramos por reconhecer em nós essa capacidade de ser
tão forte ao ponto de poder tudo doar por amor ao filho.
Eu sou uma mãe de cinco filhos e já tenho alguma experiência para poder partilhar
minhas lutas e conquistas, e espero através destas páginas poder dar mais do que
conselhos de como organizar uma casa e manter os filhos calmos. Creio firmemente que
todas as mulheres devem abraçar a maternidade como esse chamado privilegiado a gerar e
formar novas vidas, mas que não se limita ao gerar e exige necessariamente a busca por
formar uma nova geração, uma geração que seja melhor do que a de agora para que assim
se formem outras ainda melhores.
Há quem pense que não devemos ter filhos porque o mundo anda mal; eu, porém,
encorajo vocês ao contrário: eu as encorajo a terem muitos filhos e fazerem deles grandes
homens e mulheres que sejam realmente bons. Se há tantos males neste mundo é porque
as crianças não estão sendo educadas para o bem, e as pessoas andam mais preocupadas
com o ter do que com o ser. Tenhamos filhos, e os eduquemos para que comecem a fazer
do mundo um lugar melhor, e isso começa sempre dentro de casa, no meio da família, no
ombro do pai, no colo da mãe. Há mesmo muitas desgraças acontecendo no mundo e, se
nós desejamos fazer algo de bom, comecemos por amar os nossos, dando o colo ao filho
que chora, amando quem está aqui e agora, necessitando do nosso amor.
É muito fácil querer mudar o mundo ou dizer o quanto ele é cruel enquanto se assiste a
uma série de filmes com a internet ilimitada e se faz textões nas redes sociais... Não
podemos ser covardes e nem hipócritas: se o mundo anda mal, nós não podemos ser mais
um mal em forma de mãe que não dá o amor que os filhos necessitam, não podemos ser
mais uma mãe a criar adultos carentes e egoístas.
Se Deus confiou tanto em nós a ponto de nos fazer mães é porque somos capazes de
cumprir bem com esse papel. Nós não seremos mais um grupo de pessoas que choram
pelas crianças da África que passam fome enquanto desprezamos os nossos, batendo e
gritando com todos que são mais fracos do que nós. E eu não falo somente sobre não
amar e não cuidar bem dos próprios filhos, mas me refiro também ao não ser capaz de
bem cuidar de qualquer outra pessoa que necessite do nosso amor. Porque ser mãe, como
tentei explicar até aqui, não é somente manter vivo os que pariu, e sim ser capaz de
acolher outras vidas, cuidando delas e transformando-as em alguém melhor, sempre
entregando mais do que encontrou. A mãe é essa que acolhe, que transforma. O corpo
feminino é assim por natureza, é a mulher que recebe o homem no ato sexual, ela que
transforma aquela pequena semente num lindo bebê e depois forma aquele bebê para ser
um excelente homem.
Precisamos olhar para as mães com grande respeito, porque
a humanidade passa pelas mães,
todos nós temos uma mãe, todos nós fomos gerados em um ventre materno e, como
dizem por aí, ter mãe é tão bom que até Deus quis ter uma.
Podendo Nosso Senhor vir ao mundo como bem quisesse, porque é onipotente, quis
fazer-se pequeno para nascer de uma mulher. Através da mulher a salvação veio até nós, e
depois de Maria, cada uma de nós é chamada a trilhar este mesmo caminho. A Virgem
Santíssima gerou o Cristo em seu ventre porque o Espírito Santo de Deus a tocou; por
meio dessa gestação Deus se fez homem e nos trouxe a salvação. Nós também temos esse
chamado, pois foi Deus quem nos fez mães, e iremos gerar o Cristo em nossa família
através da transmissão da fé na vida de cada filho.
Que privilégio foi dado à mulher! Nós não precisamos buscar uma oferenda para ofertar
como sacrifício: nós somos um sacrifício vivo, ofertamo-nos a nós mesmas, e nessa oferta
deixamos de ser meninas para nos tornamos mulheres.
O ápice da feminilidade é a maternidade
porque é a maternidade que faz com que a mulher não viva e trabalhe para cumprir com
obrigações, e sim para transformar outras vidas.
Assim como eu encontrei mais sentido na minha vida após os meus filhos, todas as
mulheres poderão encontrar mais sentido em suas vidas se entenderem o que é a
maternidade, não a enxergando somente como o ato de colocar uma criança no mundo,
mas como a capacidade de gerar, formar e transformar vidas.
Toda mulher tem uma natureza que deseja cuidar, deixar mais bonito, melhor, e quer
fazer isso para ver o bem do outro. Ainda que muitas mulheres hoje em dia não saibam
mais o que é ser mãe de forma profunda, todas sofrem juntas quando descobrem que uma
mulher perdeu um filho numa tragédia, todas gostariam de dar colo ao pequeno bebê que
foi maltratado e abusado. As mulheres sofrem quando outra mulher sofre porque o
coração feminino foi feito para ser mãe, para ser aquela que acolhe e ajuda a desenvolver
melhor.
Nossa feminilidade se revela também no desejo de escolher a decoração da casa, na
combinação das roupas, nas cores das toalhas, no cuidado com as plantas, com os
animais, e assume sua potência máxima quando direciona esse zelo para as pessoas,
doando seu tempo e habilidades para cuidar de quem precisa de mais cuidado. Essa
feminilidade é necessária e, apesar de frágil, não é de modo algum fraca.
É preciso entender duas coisas a respeito da maternidade: a primeira coisa é que mesmo as mulheres que não podem
ter filhos biológicos e as mulheres que nunca adotarão uma criança para cuidar também devem ter um coração
maternal. Esse coração maternal fará com que sejamos capazes de olhar para o outro com caridade, desejando cuidar,
proteger, enobrecer. Isso faz parte da nossanatureza feminina e mesmo as crianças já demonstram essa capacidade de
acolher.
A segunda coisa é que a força da mulher é diferente da força do homem. A mulher é
extremamente forte para suportar grandes sacrifícios por longos anos. Somos nós que
vamos morrendo um pouco a cada dia, morrendo de amor enquanto doamos nossas
horas e o nosso corpo, e podemos fazer isso durante a vida inteira.
Lembro-me muito bem do quanto sofri com a minha primeira filha, porque eu não
sabia quais eram suas necessidades, não sabia a causa dos choros e acabei por chorar
algumas vezes tentando acalmá-la, julgando-me incapaz de ser a mãe de que ela precisava.
Quero contar um pouco sobre mim para que ninguém pense que sempre foi fácil e que
estou aqui escrevendo um livro com cinco crianças para cuidar porque eu sou uma super-
mulher. Eu fui aprendendo a me sacrificar, fui compreendendo as minhas potências e
amando cada vez mais a minha feminilidade, porque comecei a olhar para ela e entender
como eu sou e funciono; entendi também que a maneira como a mulher pode
transformar o mundo é diferente da maneira com a qual os homens fazem isso, uma
maneira que por tantas vezes eu quis imitar porque não amava as minhas potências
femininas. Homens e mulheres são diferentes em muitos aspectos, e isso nos diferencia,
mas não rebaixa nenhum dos lados: somos igualmente necessários.
Há muitas mulheres que dizem odiar o que são: odeiam o próprio corpo que se prepara
para conceber todos os meses, odeiam a própria natureza porque desconhecem o quão
maravilhosas são. Pensam que é terrível ser mulher porque é necessário usar absorventes
para menstruação e não pararam para pensar que esse é um sacrifício insignificante diante
da capacidade de gerar vida que foi dada somente à mulher. Nenhuma parte do que
somos é um problema que deva ser descartado, e sim uma potência a ser bem vivida.
Sei que muitas vezes as mães ficam tristes porque não sabem como cuidar de um bebê
como gostariam, têm dúvidas que parecem bobas e se sentem inferiores a outras mães que
parecem cuidar dos filhos com uma mão nas costas.
Gostaria de lembrá-las de que nenhuma mãe nasce pronta, todas nós estamos
aprendendo, toda mãe precisou trocar uma primeira fralda e muito provavelmente todas
nós em algum momento nos perguntamos: “E agora, o que eu faço?”.
É preciso ter paciência também consigo mesma; não há mãe que saiba de tudo e que
nunca tenha precisado aprender coisas novas para cuidar bem do próprio filho.
A minha geração — nasci em 1992 — ouviu muitas vezes que a mulher precisava ser
independente do marido, ter um diploma, estudar para não ser só uma dona de casa e
assim acabou se esquecendo de que o cuidado com o próximo também faz parte da vida e
é mais necessário do que um bom currículo.
É ótimo estudar, ter um bom emprego e dinheiro, mas saber cuidar de uma criança e de
uma família nunca deveria ter sido abolido da nossa educação só porque ser “uma simples
esposa e mãe” não parece ser uma boa meta de vida para algumas pessoas que tiveram
experiências ruins. Do que nos adiantará ter o mundo debaixo de nossos pés se não
tivermos com quem dividi-lo, não é mesmo? Ou do que nos adiantará percorrer o mundo
e só encontrar homens e mulheres amargos, mal-educados e mal-amados no nosso
caminho? Devemos mesmo buscar ter bons conhecimentos e uma vida financeira estável,
mas essas coisas não servem como um fim em si mesmas; elas são meios que nos
possibilitam ter uma vida feliz porque temos alguém com quem dividir nossas conquistas.
Há quem negue, mas o ser humano foi feito para amar e ser amado, e só podemos amar
de fato as pessoas quando usamos as coisas. As pessoas foram feitas para serem amadas e
as coisas para serem usadas, nunca o contrário.
Como muitas de nós foram criadas para o sucesso profissional sem saber do básico
sobre como cuidar das pessoas, constituir uma família parece realmente assustador. E,
infelizmente, nós não deixamos de aprender somente sobre os bebês, e sim sobre o
casamento, sobre o papel do homem e da mulher, do porquê de ter filhos e como
podemos ter uma família feliz, mesmo trabalhando duro e tendo crianças pequenas em
casa. Parece que é necessário escolher entre uma coisa e outra.
Ou se é uma mulher bem sucedida e livre, ou se é uma mãe
ignorante que só sabe limpar bumbum de bebê,
uma pobre coitada que não teve boas oportunidades na vida e por isso hoje é escrava do
seu próprio lar e empregada do marido.
Nós menosprezamos a maternidade por longos anos e, quando finalmente precisamos
assumi-la, não sabemos por onde começar, não temos paciência para persistir nas
pequenas adaptações, não temos coragem de pedir ajuda e queremos dominar em pouco
tempo o que levaremos uma vida inteira para entender.
Então, paciência. Paciência com as mudanças do corpo, com as mudanças hormonais,
com o cansaço, com os enjôos, com a nova rotina. O caminho que uma mãe trilha é para a
vida toda, e precisamos estar muito focadas em cada passo, estar presentes e atentas a cada
novo desafio porque sempre surgirão mais e mais deles. Mãe é sempre mãe.
Eu sempre desejei filhos ainda que nem sempre tenha desejado um marido. Fui a típica
jovem que via o casamento como um dos piores erros que alguém pudesse cometer em
vida, por conta dos incontáveis fracassos que via ao meu redor — e isso, infelizmente,
incluía o casamento de meus pais.
Todavia, graças a Deus, tenho uma boa mãe que sempre me mostrou que os filhos são
um grande bem. Ela tudo suportou alegremente por causa de nós três, seus únicos filhos.
Meu pai, hoje eu entendo, também se esforçava para nos dar o seu melhor dentro das suas
possibilidades. Realmente podemos compreender muito melhor os nossos pais depois que
nós mesmos nos tornamos pais.
Uma união infeliz entre meu pai e minha mãe não era só infelicidade, porque três filhos
nasceram dela, três vidas que, uma vez geradas, jamais deixarão de existir. Sendo assim, eu
e meus irmãos somos um grande acerto em meio a tantos erros na vida de um jovem
casal.
Durante a infância, minha mãe sempre nos recordava do quanto era feliz porque tinha a
nós três, e na verdade, por longos anos, fomos tudo o que ela teve como motivo para
seguir adiante numa infeliz vida de casada. E porque cresci sentindo o seu amor maternal,
sempre escutando suas palavras convictas de que nós éramos a melhor coisa que lhe havia
acontecido, eu nunca pensei em não ser mãe. Os filhos pareciam ser a luz em meio ao caos
de uma família ferida, as crianças simbolizavam sempre uma esperança de uma vida
melhor, eram as pequenas vidas que precisavam ser guardadas para um possível futuro
promissor.
Sempre acreditei na alegria de poder gerar e bem educar os meus próprios filhos, sempre
os desejei, desde criança, porque vi dentro da minha casa o testemunho de que vale a pena
ter filhos ainda que, para tê-los, seja necessário imenso sacrifício.
E agora, prestes a completar meus trinta anos de vida e já com algumas contrações para
trazer à luz nossa quinta filha, tenho o privilégio e indispensável oportunidade de
partilhar minhas felizes e árduas experiências de como é ser mãe, na esperança de
encorajar e levar alívio para quem ainda teme essa vocação tão bela e arrebatadora.
Há tempos eu desejava escrever um livro para as mães, com o intuito de mostrar que
essa vida de gerar e educar não é só choro e ranger de dentes como muitas vezes nós
vemos por aí, mas não sabia como iria fazer isso e nem quando eu teria tempo para me
sentar e organizar meus pensamentos e conselhos em páginas. Não posso negar que meu
coração está transbordando de alegria enquanto escrevo cada linha deste livro, porque eu
o desejei por longos anos e sei que Deus preparou tudo para que agora eu pudesse estar
aqui, finalmente, dando à luz a minha primeira obra.
Espero, muito sinceramente, que a minha experiência como mãe possa auxiliar as
mulheres que mais necessitam de uma outra mãe para tirar suas dúvidas mais simples sem
que se sintam inferiores ou fúteis por estarem doando suas vidas às outras vidas.
Que eu possa fazerpelas mães um pouco do que a minha própria mãe faz por mim,
quando me ensina, com suas palavras e gestos, o quanto o amor materno pode curar e
transformar vidas.
Mães, não menosprezem a grandiosa missão que Deus lhes confiou. Cada homem e
mulher chamados por Nosso Senhor à vida passou por um ventre materno e Ele conta
conosco para que retornemos todos para Ele.
Se desejamos deixar um legado neste mundo e na eternidade, invistamos com todas as
nossas forças na boa criação dos nossos filhos, eles darão testemunho do nosso trabalho.
O salário da mãe será pago na eternidade.
E
TER UM BOM CASAMENTO PARA VIVER BEM A
MATERNIDADE
u estou aqui pronta para dar à luz a nossa quinta filha, observando meus outros quatro
pequenos que brincam pela casa, respirando com calma entre boas contrações, já com
mais de 39 semanas de gestação e pensando no quão maravilhoso é ter a quem amar. Faço
isso enquanto sinto o cheiro do almoço quase pronto e contemplo a grande oportunidade
de aprender a ser gente cuidando destas criaturas ainda tão imaturas e necessitadas da
minha reta intenção.
É evidente que ser mãe é muito mais do que um evento fisiológico; não é possível que eu
esteja oferecendo tanto de mim só para que essas criaturinhas não morram de fome. Tem
de haver algo maior do que nós ou isso tudo não passa de uma brincadeira de mau gosto.
Infelizmente, nem toda mulher conseguirá encontrar na geração dos filhos um caminho
de alegria, justamente porque desconhece o valor e o significado da própria vocação.
Quando nós nos deparamos com uma dificuldade e não encontramos propósito digno o
suficiente que
nos faça enfrentá-la com desejo de ver superadas as nossas limitações, a batalha que se
segue é só uma dor a ser suportada, um castigo miserável e sem sentido do qual sempre
tenderemos a fugir.
Nas batalhas da vida é necessário almejar algo que esteja além delas, do contrário o
sofrimento das lutas é uma tortura e evitar todo e qualquer esforço parecerá uma boa
solução para a infeliz vida cheia de pedras num caminho que leva a lugar nenhum.
Eu poderia facilmente ser uma mãe muito infeliz porque, entre dores de parto, preciso
ainda me preocupar com a mistura do almoço e com a roupa que ainda está para lavar.
Sim, eu poderia ser uma miserável e triste mulher que lamenta ter de amar e cuidar dos
próprios filhos, se eu não tivesse sido amada primeiro e não tivesse experimentado o doce
gosto que o amor é capaz de trazer aos dias ordinários de uma simples mãe.
E uma mãe tem muito a agradecer durante as tarefas triviais de cada dia quando entende
que, através de simples trabalhos que ninguém vê, os seus são amados e o cuidado de
Deus é revelado.
Como eu, que tantas vezes senti a barriga roncando de fome na infância, agora não seria
feliz lavando as louças que são testemunhas de que hoje os meus filhos não passaram
fome?
Muitas vezes a infelicidade das mães é só a ingratidão unida
à autopiedade.
Temos pena de nós mesmas por ter a quem amar porque no fundo ainda temos preguiça
de cuidar de quem precisa do nosso cuidado.
Que alegria ter tantas roupas para lavar, tantas roupas que não permitem que meus
filhos andem nus ou sintam frio. E que beleza de pratos e talheres sujos que hoje nós
usamos para comer o que Deus nos enviou. Ah, e que belo som de crianças saudáveis
correndo pela casa, que maravilha esses passos barulhentos de uma meninada que está
aqui sob a minha proteção.
Cada novo dia com suas inúmeras tarefas e crianças para educar é uma grande dádiva.
Poderíamos não ter nenhuma louça suja, porque alimento nenhum pudera ser servido, e
veríamos chorar de fome quem agora só chora por causa de um colo. Mesmo sabendo
disso, reclamamos, fazemos tudo com pouco amor; somos mães infelizes porque ainda
somos pessoas ingratas, longe da caridade, longe do sentido da vida.
A ingratidão impede a felicidade. E infelizmente, incontáveis vezes nós perdemos o foco
daquilo que é realmente importante, para dar demasiado valor ao que é passageiro e
desnecessário. Nós nos apegamos ao fato de que o cesto de roupas nunca está vazio,
dedicamos nosso tempo e pensamento a ele, ao invés de sermos gratas por podermos
vestir quem necessita ser vestido. Do mesmo modo, reclamamos tanto das louças sujas
que não nos sobra tempo para agradecer pelo alimento. Estamos perdendo tempo com as
coisas e nos esquecendo das pessoas, e por isso mesmo cuidar dos filhos parece uma tarefa
tão vazia e fria. Se a mulher foi feita para cuidar das pessoas, dedicar uma vida a zelar
pelas coisas é garantia de uma vocação frustrada. Quem se dedica a amar as pessoas
aprende a usar as coisas. E a mãe que se dedica a amar as coisas, vê as pessoas como
obstáculos.
Quando crianças, nós certamente esperamos muito por algum presente, e quando ele
finalmente chegou, nós zelamos e fomos muito felizes com ele, o dia todo e todo dia,
porque o mais importante é que ele estava ali. Pois bem, na maternidade nós também
recebemos muitos presentes. Temos o maior deles que é a própria vida do filho e temos
também as tarefas cotidianas que nos permitem bem cuidar dele. É um privilégio ter uma
cama para arrumar quando antes se dormia no chão, não é mesmo? Que belo presente
deitar-se num belo colchão e poder cuidar dele todos os dias, que alegria zelar pelo que
me é tão precioso.
Preciso reconhecer: fui muito agraciada por Deus por ter entendido a grandeza da
vocação feminina. Primeiro através do colo de minha mãe e depois através dos
ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo Deus, quis fazer-se pequeno e ser
gerado em um ventre materno, nos apresentando assim sua doce mãe. Temos uma mãe
perfeita que pode nos ensinar a estar de pé diante da cruz, temos como norte uma
perpétua luz materna, a estrela da manhã que sempre anunciará o Sol da nossa vida,
sempre conduzirá para a salvação.
O desconhecimento do valor da própria vocação gerará inúmeros problemas para a
mulher que assume os filhos, mas não sabe por que e nem como cuidar bem deles.
Não ser capaz de olhar para uma criatura mais frágil
que necessita de nosso amor e ter genuíno desejo de
protegê-la é fruto de um longo caminho de desvalorização
da vida humana.
E isso se torna ainda mais grave quando o desprotegido é ameaçado por aquela que o
gerou na própria carne. Incontáveis mães são infelizes e se sentem inúteis mesmo
podendo fazer um trabalho que nenhuma outra criatura no mundo é capaz de fazer,
mesmo gerando em seu próprio ventre uma vida que irá transcender os mais belos
monumentos do mundo e todos os séculos que já se passaram e que ainda podem vir a
existir. As mães precisam saber quão valiosas, necessárias e insubstituíveis elas são,
precisam entender que há um salário a ser recebido na eternidade e que nenhuma noite
em claro deve ser vivida em vão nesta Terra.
Sei que ainda tenho muito a aprender como mãe, mas ainda assim eu me disponho, com
as ferramentas de que disponho agora, a compartilhar o que eu tenho vivido ao longo
destes quase oito anos de casada que me permitiram receber nossos filhos e experimentar,
através do cuidado e amor depositados em cada um deles, uma alegria genuína.
Santo Tomás de Aquino nos ensina que
a alegria é conseqüência da caridade
e nós sabemos que a verdadeira caridade é o amor gratuito e incondicional, que busca o
bem do outro porque reconhece o amor de Deus que nos amou primeiro. Bem nos
ensinou São Paulo que de nada nos adiantaria ter muitos dons e fazer grandes sacrifícios,
se não os fizéssemos com amor e por amor. Pois “ainda que distribuísse toda a minha
fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado,
e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria” (1Cor 13, 3). Assim entendemos por que
nem toda mulher amadurece e fica feliz mesmo quando é agraciada com um filho, porque
não basta doar o corpo: é preciso doá-lo com verdadeira caridade.
Precisamos entender essa relação que há entre o serviço e o amor. Para amar é
necessário servir, e só se serve realmente bem com amor. Assim, a mãe compreende que
essa felicidade nãoestá no que ela faz, mas também no porquê de ela fazer o que faz. Se
faz por amor, verdadeira caridade, encontrará a felicidade. Se faz por mera obrigação, não
encontra no trabalho nem redenção nem satisfação. Faz como um cão adestrado o que
deveria fazer como filha de Deus, pois o coração só é livre quando faz o bem pelo bem, e
não porque é obrigado, não porque já não resta quem faça em seu lugar.
Que terrível é ser a mãe escrava e não a mãe entregue. A vida de uma mãe deve ser uma
vida entregue por amor, onde cada pequena atividade da casa é um singelo sacrifício
ofertado ao Céu, onde nenhum segundo é perdido, mas doado; nada é roubado, e sim
presenteado. Só é possível ser feliz como mãe entendendo que o nosso propósito não é
cumprir com as nossas obrigações, mas ir além delas, amando os filhos e o esforço de
educá-los porque sabemos o quanto valem e como dependem de nós para alcançarem
uma vida plena. Aqui não nos colocaremos como vítimas de nossas próprias crias que um
dia decidimos dar à luz, mas nos manteremos de pé na posição de guardiãs de jovens
vidas que necessitam de alguém que seja corajoso o suficiente para dar a vida por elas.
Quando nos tornamos mães e olhamos pela primeira vez para aquele pequeno rosto que
cabe perfeitamente na palma de nossas mãos, a nossa vida muda. Ser medíocre e covarde
já não deve ser mais uma opção. E somos de certa forma obrigadas a viver submissas ao
amor para que não corramos o risco de viver prisioneiras do medo, pois como bem disse
Santo Ambrósio: “Aquilo que o amor faz, o medo jamais poderá realizá-lo. Nada é mais
útil do que fazer-se amar”.
•
Enquanto escrevo estas linhas, quero avisar que acabo de dar à luz a nossa quinta filha, e
agora me esforço para terminar de dar à luz este livro na esperança de despertar nas
mulheres o ápice da vocação feminina que é a maternidade. Muitas mulheres, ao ouvirem
que toda mulher nasceu para ser mãe, se revoltam, rasgam as vestes e logo despejam tudo
o que têm no repertório sobre o direito de não casar, não ter filhos, abortar quantas vezes
for necessário, ser mãe de pet e pagar creches para bonecas newborn, porque tratam a
maternidade como uma condenação.
Sim, somos feitas para a maternidade e nosso corpo revela isso todos os meses. O corpo
sangra quando uma nova vida não é concebida, e em cada novo ciclo ele engrossa cada
vez mais as paredes do útero para a possível concepção de um bebezinho. A natureza e a
saúde da mulher sempre desejam nova vida, mas infelizmente muitas cabeças já não
sabem mais amar o próprio corpo, negam o que é evidente, rejeitam o que são. Mesmo as
mulheres que não podem conceber naturalmente têm um ventre e todo um sistema
reprodutor que não nos permite fingir que não fomos feitas para dar continuidade à
espécie humana.
Todavia,
não é somente o corpo feminino que aponta para a
maternidade, mas também a nossa maneira de enxergar o
mundo e viver nele.
Não somos mulher só no corpo, mas também na alma, no espírito. A mulher é sempre
aquela que busca cuidar, acolher, transformar em algo melhor aquilo que ela toca. Esse
desejo das mulheres de deixar um grande legado é mesmo legítimo: fomos feitas para
gerar obras tão grandes que o mundo é pouco para elas, fomos chamadas a gerar obras
eternas. Nós somos mesmo uma criatura que quer ser notada, e por isso o que somos
capazes de fazer jamais será apagado, nosso trabalho não pode ser desfeito.
A mulher não quer somente trabalhar, ela quer que as pessoas se beneficiem deste
trabalho. Não basta dar aula para mil pessoas, é necessário que estas mil pessoas saiam
dali melhores do que quando chegaram. O nosso desejo não é só ter uma profissão, mas
transformar vidas através dela porque somos maternais: queremos educar, cuidar, deixar
melhor tudo o que nos foi confiado, desejamos amar quem necessita ser amado.
Eu não sou mãe somente porque gero meus filhos na carne, mas também (e em grau
muito mais importante) porque os gero no mais íntimo do meu ser, porque acolho
espiritualmente cada um deles. Meu amado Padre Paulo Ricardo falou disso muito bem
em alguma de suas centenas de aulas: ele nos explica que muito mais importante do que a
maternidade biológica é a maternidade espiritual. Não estou, portanto, repetindo os
padrões da mãe animal; estou gerando homens e mulheres, porque compreendo que
preciso me doar incansavelmente aos meus, cuidando do corpo e da alma de cada um
deles. Compreendo que eles também não são animais que serão felizes e alcançarão suas
potências máximas se eu somente não os deixar morrer de fome.
Sendo assim,
as mulheres que não podem gerar um filho biologicamente
em seu próprio ventre não estão suspensas de exercer a
maternidade.
Uma vez que a maternidade não se resume a um evento fisiológico, mas é a busca pelo
cuidado com o outro, todas nós nos movemos instintivamente para transformar o mundo
através do trabalho que busca formar o ser humano.
Por isso nós sofremos tanto quando olhamos para as crianças que morrem na guerra,
por isso queremos sair para proteger outras mulheres, sofremos quando o outro sofre,
sorrimos quando o outro sorri e choramos quando o outro chora, somos capazes de viver
com profundidade as dores e alegrias de quem está ao nosso lado. É por isso também que
quem rejeita os filhos acaba dedicando a vida aos pets ou às bonequinhas que freqüentam
a creche. Toda mulher é chamada à maternidade porque é da nossa natureza cuidar.
E com a chegada de cada filho e a cada dia que passa, estou mais convicta de que a
maternidade, com seus cuidados, é uma arte. Para ser uma boa mãe e viver a maternidade
com grandeza de espírito, a mulher precisa desenvolver muitas habilidades, aprender
técnicas que a ajudem a ensinar o filho a dormir sozinho, comer bem, ler, obedecer, ser
capaz de esperar; sem contar a capacidade de estabelecer uma boa rotina para si mesma
ainda que tenha muitos filhos pequenos.
Não preciso trazer dados científicos para citar que jovens de onze anos já estão
aprendendo sobre sexo nas escolas enquanto ainda não são capazes nem de arrumar a
própria cama. E uma vez despertadas para o sexo como uma diversão, onde o próprio
corpo e o outro do outro são brinquedos que trazem prazer, não são capazes de imaginar
o tamanho da beleza que é poder viver uma relação sexual plenamente, usando o seu
corpo com tanto respeito que a vida que poderá ser concebida irá crescer dentro dela e
jamais deixará de existir, e por isso ela necessita de um bom homem que ajude a cuidar
dela e do fruto dos dois. Já na infância muitas meninas se perdem da sua vocação porque
não houve quem lhes explicasse o quão preciosas são. Com grande pesar nós vemos
jovens meninas permitindo que homens sem nenhuma virtude usem de seus corpos,
fazendo delas mães sem que saibam ainda o que é ser mãe.
Por isso é tão necessário que nós sejamos boas mães: precisamos cuidar dos nossos
filhos para que as mulheres não se tornem mães sozinhas, mães desamparadas, mães
desorientadas e desprotegidas. Necessitamos do auxílio de outras mães também quando
nos tornamos mães; precisamos de alguém que nos mostre como se segura um recém-
nascido, quais as possíveis causas e soluções para um choro que já dura longos minutos.
Ou seja, as jovens mães inexperientes precisam de mães experientes e bem-dispostas que
transmitam para elas a arte de ser mãe, a arte de cuidar de seres humanos, a arte de
formar bons homens e mulheres com amor e paciência.
Não é mesmo uma grande arte tornar-se capaz de ordenar uma família? Quem ousaria
dizer que uma mulher que, além de gerar vidas, consegue estabelecer uma boa rotina para
si e para os seus, alimentando tanto o corpo quanto a alma de cada um dos que lhe foram
confiados, não é digna de aplausos porque esculpe almas enquanto transforma uma casa
em lar? E ainda há quem pense que fico em casa para fazer bolos. Não, nada disso... Estou
fazendo bolos nos momentos mais tranqüilos do meu trabalho de esculpir almas, e
mesmo batendo uma massa eu os educo e amo; estou gerando belas memórias que serão
guardadas nos corações quesão sustentados por estas almas.
•
Acabo de me lembrar de um dia em que minha mãe me elogiava pela mãe que eu tinha
me tornado — embora eu conheça muito bem minhas limitações para não aceitar
aplausos — e meu irmão mais novo, sempre muito sincero, disse: “Eh, parabéns por estar
fazendo o que você deveria fazer mesmo, cuidar dos seus filhos!”. Demos risada, porque,
de fato, é isso mesmo; faço o que toda mãe deveria fazer: “Cuidar dos seus filhos”. Porque
muitas mulheres deixaram de fazer o básico, as mães comuns começaram a parecer
grande coisa. Aceito com alegria os elogios de minha mãe e de todas as mulheres que
acompanham o meu trabalho, mas devemos ter sempre em mente que nada é mérito
nosso, mas sim da divina misericórdia.
Eu também precisei aprender a ser mãe, e sigo aprendendo, dia após dia. Estou
aprendendo neste exato momento, aliás. Porque enquanto estou na Maternidade
cuidando da pequena Maria Clara e me deliciando com seu cheiro magnífico de recém-
nascida — será que é este o cheiro do Céu? —, parte do meu coração chora de saudades
dos meus outros pequenos. E penso especialmente no Petter, que tem somente um ano e
dez meses. Ser mãe não é mesmo fácil, e por isso mesmo precisamos estar muito focadas
na nossa missão para não perdemos a alegria de uma vida por causa de cruzes passageiras.
Nesse caminho de amor também aprendi que, na maioria das vezes, amar não é gostoso.
É doloroso aprender a amar porque começamos a ver infinitos defeitos em nós e a
perceber como é difícil se livrar deles. Na verdade, às vezes nem queremos mesmo nos
livrar da nossa preguiça, é mais fácil continuar estagnada.
Partilho um pouco da minha vida para que outras mães vejam que não há nada de
espetacular em mim para que eu seja feliz e capaz de cuidar dos meus filhos, do marido,
da casa, do homeschooling, das alunas, das aulas, dos bolos no café na tarde e... bem,
assim parece muita coisa, então vamos começar do começo, porque
tudo isso foi construído ao longo de anos e com muito
esforço.
Nenhuma mãe nasce pronta, lembrem-se disso. Precisamos aprender primeiro a ser
esposa, porque o casamento precede a maternidade, e já que é a dois que se fazem os
filhos, é a dois também que se deve educá-los. Além disso, a mãe precisa conhecer as
necessidades das crianças em geral e de cada filho em particular, porque cada pessoa é
única e tem necessidades únicas.
Quando estamos em um bom casamento e entendemos como os filhos funcionam,
precisamos ter um propósito que está além de nós para que não caiamos na tentação de
trocar o caminho pelo fim a que este caminho deve nos conduzir. Necessitamos de um
porquê para manter esse casamento ao longo dos anos enquanto lutamos para educar
estes filhos.
Quem quer dar o melhor aos filhos, luta por um bom casamento. Eu me casei aos vinte e
dois anos com o amor da minha vida. Ele é dez anos mais velho e sempre nos entendemos
muito bem. Confesso que, desde o primeiro dia em que o vi, algo nele chamou minha
atenção. Nós namorávamos outras pessoas naquela altura, e da minha parte, era um
namoro muito imaturo.
Falo de nós como casal porque a maternidade procede do matrimônio, e eu só posso ser
a mãe que está aqui hoje cuidando destes filhos em paz porque há um bom marido que
me permite dar o meu melhor, há um homem que dá a segurança necessária para que eu
me entregue a essa vocação. Só escrevo com certa tranqüilidade nesta madrugada porque
amanhã alguém olhará as crianças se eu precisar de um cochilo entre fraldas sujas e
mamadas.
Pela experiência destes anos falando com outras mulheres, muitas famílias ainda não se
deram conta de que,
na maioria das vezes, a mulher é triste na maternidade
porque é triste no casamento.
Quando comecei a escrever na internet, o meu foco era a maternidade. Sempre dedicava
meu tempo a fazer partilhas sobre a alegria de ter bebês, e as dúvidas e frustações que
apareciam eram sintomas de uma relação que estava desajustada, e por isso educar os
filhos parecia tão difícil ou mesmo quase impossível.
Quanto a mim a ao meu esposo, terminamos os namoros anteriores e seguimos juntos
no grupo de jovens da paróquia, e fomos ficando cada vez mais amigos. É bom lembrar
aos mais jovens que é assim que nasce o amor matrimonial: geralmente um amor philia
evolui para um amor eros, até que se torne um amor ágape. Ou seja, uma boa amizade
que ama e rejeita as mesmas coisas vai evoluindo para uma forte atração física pela outra
pessoa — aquela fase boa em que o coração palpita quando o outro lhe dá um abraço —, e
por fim, esse amor só deseja que a outra pessoa seja realmente feliz, e nos tornamos
capazes de suportar com alegria seus defeitos, porque mais importa vê-la bem do que
qualquer outra coisa. Essa última fase do amor, o amor ágape, é a fase que faz com que a
esposa não dê uma sapatada no marido quando ela pede para ele olhar as crianças e ele
fica no celular — é o que devemos alcançar. Fernando e eu namoramos por cerca de dois
anos, e não foi uma fase fácil, porque minha família não apoiava nosso namoro. Ficamos
firmes mesmo assim, porque estávamos convictos de que daríamos o nosso melhor para
constituir e manter nossa futura família. Nós nos casamos no dia 24 de maio de 2014, e
três meses depois eu estava grávida da nossa primeira filha, a Kimberly.
É importante falar sobre a vida desta pequena, porque foi ela o primeiro grande passo
para a reaproximação e o perdão; o perdão entre mim, meu esposo, meus pais e irmãos,
após eu me casar contra a vontade deles. Não consigo pensar nessa primeira gestação sem
pensar em como uma única vida, uma vida com dias de concepção, pode mudar tantas
outras vidas. Nenhuma vida vem a este mundo sem um grande propósito; não podemos
menosprezar nenhuma delas e nem acreditar que possam ser um erro do acaso. Quando
juramos a Deus receber os filhos que Ele quisesse enviar, quando e como Ele quisesse,
fizemos a coisa certa. O tempo d’Ele é muito melhor do que o nosso, e nossa primeira
filha nos obrigou a superar os erros sem questionar nada. Todos nós amadurecemos e
optamos por ressignificar o que havia passado, porque ela merecia ser recebida no amor.
Essa donzela guerreira — é isso que “Kimberly” significa — me derrubou do cavalo
quando nasceu. Na verdade, antes do parto já senti que a maternidade não era mesmo
para amadores. Eu tive sangramentos até o quarto mês de gestação, o que me obrigou a
parar de trabalhar e parar de fazer a faculdade, porque sem o meu salário não seria
possível seguir pagando as mensalidades. Poderia ser um sinal de que havia errado na
vida, se eu não soubesse que a cruz é regra, e não exceção. Além dos sangramentos, do
pouco dinheiro e do medo de perdê-la, eu vomitava diariamente, várias vezes ao dia,
sentia-me realmente doente e fiquei comendo arroz com azeitonas por semanas. Era uma
das poucas refeições que eu não vomitava por completo. (Isso aconteceu, na verdade, em
todas as gestações, na que é para mim a fase mais difícil. É bem desagradável ter que me
trancar no banheiro para vomitar enquanto há outros pequenos batendo na porta
querendo colo.) O primeiro sangramento veio quando ela tinha cerca de sete semanas de
vida, somente. Estávamos em uma festa em honra a Nossa Senhora Aparecida, era 12 de
outubro de 2014, quando fui ao banheiro e voltei chorando com o coração em pedaços
porque havia sangue na minha calcinha. Corri ao encontro do meu marido, assustei todo
mundo porque estava em lágrimas e em poucos minutos estávamos dentro do carro em
busca de um hospital. Não adiantou procurar por um hospital ali, precisamos voltar para
nossa província e ir até à Maternidade onde eu comecei o pré-natal, o que levou horas até
que conseguíssemos chegar na clínica e fazer o ultrassom. Para nossa imensa alegria, ali
na tela escura do monitor estava um minúsculo coração pulsando forte dentro de um
corpo minúsculo que nadava em meu ventre.
Ouvir aquele coraçãozinho fez meu coração voltar ao ritmo normal também, graças a
Deus e Nossa Senhora Aparecida, que veio ouvindo as súplicas e choro daquela jovem
mãede primeira viagem...
Como os sangramentos não paravam, minha mãe fez uma promessa a Nossa Senhora de
Fátima, dizendo que a primeira pessoa a ir a Fátima faria uma procissão de joelhos em seu
Santuário. Eu achei a idéia um tanto inapropriada, porque ir a Portugal parecia um sonho
distante demais, não estava nos nossos planos e nem no orçamento de ninguém da
família. Ocorreu que, em maio do ano seguinte, lá estava eu pagando a promessa da
procissão com um belo sorriso no rosto e joelhos em carne viva. Tivemos de visitar meu
sogro que estava com câncer e — adivinhem só — ele é português. Foi uma viagem
maravilhosa e pude agradecer à Virgem Santíssima por ter cuidado da nossa pequena.
Amadureci muito já durante a gestação, porque percebi que o mundo não girava em
torno do meu umbigo e eu estava sendo obrigada a ser mais forte, mais paciente, mais
generosa e humilde. Agora eu dependia mais do meu esposo, não tinha a força e
vitalidade de antes e precisava seguir firme mesmo assim porque havia alguém crescendo
dentro de mim.
Fui aprendendo que
diante das dificuldades nós só temos duas opções: fortalecer
ou sucumbir,
como uma vez escreveu minha amiga Narlla Bessoni. Eu não estava tão disposta a ser
mais forte, mas estava ainda menos disposta a ser uma esposa e mãe infeliz só porque
agora a vida finalmente me convidava a algo que era maior do que os meus interesses
mesquinhos. E eu ainda tinha que aprender a pedir e aceitar a ajuda imperfeita do meu
marido. Como é difícil! Para uma esposa, ter que pedir ajuda, explicar mil vezes o que se
quer e ainda aceitar que a ajuda não saiu como ela esperava, dói. Em mim doía
profundamente, porque eu não tinha paciência para explicar e ainda achava que, de
alguma forma, eu merecia mais ser servida do que servir. Resumindo, eu era uma imatura
mulher de vinte e dois anos.
Quando dei à luz, senti a pior dor da minha vida, e aquela dor lavou minha alma.
Finalmente eu tinha entregado a minha vida por amor a outra pessoa, e não era qualquer
pessoa, era a carne da minha carne, sangue do meu sangue, uma filha pela qual eu havia
rezado diariamente, em cuja espera tinha sofrido e pela qual sofri muito enquanto estava
em trabalho de parto. Que grande redenção foi para mim entender que
a nossa vida faz realmente mais sentido quando ela é doada.
Agora não tinha mais espaço para uma Cássia voltada só para si, e eu comecei aos poucos
a compartilhar minhas reflexões e experiências de jovem mãe com outras mulheres
através das redes sociais. Sempre gostei de escrever, tive blogs na adolescência, mas agora
finalmente sentia que poderia me dedicar a algo que iria ajudar outras mães, porque ser
mãe não é uma fase, ser mãe é para sempre. Eu não iria deixar de ser mãe, agora era uma
sentença, uma missão na qual eu não poderia falhar.
Aos poucos ia postando uma foto aqui e ali com pequenos textos, e as pessoas gostavam
de acompanhar o crescimento da Kimberly, ler sobre os desafios da maternidade e como
eu buscava lidar com eles. Mas, como vida de mãe não é só foto bonita, eu também
comentava como estavam sendo as fases difíceis e como eu estava lutando para dar conta
das coisas. E esse é um ponto muito importante para quem está assumindo um lugar para
auxiliar outras pessoas. As mães foram me acompanhando na internet porque se
identificavam com as minhas dores e lutas, reconheciam em meus textos seus próprios
sentimentos e por isso foram ficando e convidando mais e mais mães. No fundo, nossas
dores são as mesmas porque nossos pecados são os mesmos. E a maternidade que vive
dentro de cada uma de nós nos mantém unidas nessas lutas e desejo por superação.
Neste ano a Kimberly completará seus sete anos, portanto há quase sete anos eu escrevo
para as esposas e mães, há quase sete anos luto para ser melhor e compartilho isso com
elas. Já falei com incontáveis mulheres, li muitas histórias, conheci muitas circunstâncias
diferentes e, enquanto busco estudar e ter uma vida o mais reta possível, organizo minhas
experiências com meus estudos na esperança de que mais e mais mulheres possam viver a
maternidade de maneira feliz.
E descobri que um grande e primeiro passo para dar conta das demandas da casa, da boa
educação dos filhos e do cuidado de si e do esposo, é dedicar-se ao esposo. Não é muito
mais difícil sorrir durante o dia quando se brigou com o marido na noite anterior? Contei
aqui um pouco das dificuldades que encontrei no primeiro ano como esposa e mãe para
que fique claro que não é mesmo fácil para nenhuma de nós. Nenhuma mulher vai se
levantar e dizer que ser mãe é tarefa muito simples e que não é necessário grande esforço
para exercê-la com precisão. Vivendo os primeiros desafios de ser mãe, percebi também
muitos desafios em ser esposa. Parar de trabalhar por causa dos sangramentos me deixou
totalmente dependente do meu marido, e isso foi logo com poucos meses de casados. Não
havíamos pensado naquele cenário antes. Dependente dele, eu precisei aprender a me
comunicar melhor com ele.
Dentro do casamento vale muito aquela máxima de que “não é o que se fala, mas como
se fala”. Se a esposa necessita da ajuda do marido, seja para que faça as compras na volta
do trabalho ou para que ele lave a louça para que ela siga vomitando no banheiro, é
necessário haver boa comunicação.
O esposo não é o nosso inimigo, não é o nosso
mordomo e nem o nosso filho.
Ou seja, ele não está ali como alguém a ser vencido, não é alguém que deva nos servir
quando e como desejamos, e também não é alguém que deva nos obedecer e ponto final.
Marido é marido, ele é o nosso companheiro de viagem, quem luta ao nosso lado na
trincheira, é a pessoa a quem juramos amor incondicional, na saúde e na doença, na
alegria e na tristeza, até o último dia de nossas vidas. Precisamos tratar muito bem aquele
que agora é uma só carne conosco. Se queremos dar o melhor aos nossos filhos,
precisamos dar a eles a segurança de pais que se amam.
Já ouvi muitas mulheres falando do marido com desprezo, dizendo que pelos filhos são
capazes de matar e morrer, mas que pelo esposo não estão dispostas ao mesmo tanto, ou
nem mesmo dispostas ao mínimo. Afinal de contas o marido já é crescido, não é aleijado,
então, ele que se vire! E se não estiver gostando, ele que arrume um jeito de ser feliz.
Mas... qual filho será feliz se percebe que os pais não se amam? Eu posso afirmar que é
imensamente triste saber que a família não está totalmente bem, que os pais não se amam
e que os dois vivem entre brigas, que nunca há um momento agradável com todos em
volta da mesa.
Sei que é muito mais fácil ser mãe do que esposa, é mais fácil ser carinhosa e atenta com
os pequenos do que fazer o mesmo com o marido.
E é exatamente por isso que devemos amar mais ao
marido, pois requer mais esforço, é mais árduo.
Exige mais amor porque necessita de mais amor para se manter bem.
Facilmente as mulheres passam a dedicar praticamente todo seu tempo e disposição aos
filhos depois que eles nascem, e se esquecem de que ainda há um marido, e que esse
marido necessita de sua esposa. Mas, porque ambos são incapazes de descrever
exatamente o que estão sentindo ou não têm paciência para explicar o que esperam do
outro, vão deixando o diálogo para depois, empurrando com a barriga, na esperança de
que as coisas se resolvam sozinhas. Lamento decepcionar, mas no casamento as coisas não
se resolvem sozinhas, precisamos decidir conversar e mudar o que for necessário
inúmeras vezes, incansavelmente. Lembram do amor ágape? É ele o nosso objetivo. As
diferenças que há entre marido e mulher não necessariamente são sinônimo de falta de
amor, mas podem ser uma grande oportunidade dos dois se tornarem mais amáveis e
mais capazes de amar.
•
Os filhos não acabam com o casamento como algumas pessoas dizem por aí; eles apenas
revelam os problemas que já existiam e convidam os pais a ajustarem a rota. Se a esposa
não recebe a ajuda que gostaria do marido, ela precisa dizer isso a ele de maneira clara,
objetiva e sem briga. Do mesmo modo, se o esposo sente que a esposa jánão olha mais
para ele porque agora quer ser somente mãe, ele precisa dizer que isso não está fazendo
bem para eles como um casal.
Um bebezinho de poucos dias parece causar um grande caos na vida de jovens pais, mas
se prestarmos bem a atenção, estes pais estão vivendo uma fantástica oportunidade de
entender como ajudar o cônjuge, como reconhecer seus desejos, necessidades e buscar ser
amável, ser útil para que o outro fique bem. Estão se abrindo as portas para o amor ágape,
e se nos esforçarmos para vivê-lo, seremos cada dia mais felizes porque iremos superar
nossos vícios para poder ver feliz a quem amamos, estaremos zelando pela família que um
dia desejamos construir, e os nossos filhos não precisarão chorar por uma separação.
Assim como meu esposo, eu também vi meus pais se separando, e é extremamente bom
podermos olhar um para o outro convictos de que os nossos filhos não precisarão passar
por isso. Nós juramos um ao outro e a Deus que nossos filhos não precisarão chorar pelos
pais se separando, não precisarão escolher com quem morar e sem entender o que é de
fato um casamento se acabando.
No casamento não há uma lista de tarefas de homem e tarefas de mulher, ainda que
naturalmente se faça um arranjo onde o homem deve consertar o encanamento da pia
entupida e a mulher deve tirar as manchas de mofo das roupas. Não podemos nos apegar
ao que é a minha tarefa de esposa e a tarefa do esposo, sempre dividindo, sempre
contando quem fez mais ou menos, sempre esperando não sair no prejuízo porque “eu fiz
café duas manhãs seguidas”.
Casamento não é feito de cobrança, mas de doação.
Essa doação será capaz de ajustar os diferentes pensamentos que há entre o casal. Quando
decidimos amar e cuidar do marido com verdadeira caridade, com um belo sorriso no
rosto e uma comida saborosa, ele reage.
Gosto de dizer que a mulher é o coração da casa e que a família pulsa bem se ela está
bem. Assim também, a família perde o ritmo se a mãe se ausenta ou vive depressiva. Se
acordamos o marido com um belo beijo e as crianças com um largo sorriso, eles reagem.
Se acordamos de cara feia, reclamando do sol, da roupa, do cachorro, eles também reagem
e, neste caso, ficam acuados.
O homem reage às ações da esposa e vice-versa. Contudo, se o marido não está sabendo
corresponder às expectativas da mulher, ela precisa fazer alguma coisa, precisa lutar pelo
seu casamento. Precisamos tomar a firme decisão de sermos felizes para que lutemos com
as ferramentas que nos foram entregues.
As ferramentas da esposa são muitas e, se formos inteligentes para bem usá-las,
poderemos conduzir o nosso marido para florescer como esposo, pai, filho, trabalhador.
Sim, o homem é a cabeça da família e nós somos o pescoço, só precisamos entender como
conduzir essa cabeça para que seja fiel à sua família e não a si próprio.
Vamos então para a parte prática de como ter um bom casamento para viver a
maternidade com mais leveza. Minha intenção é formar esposas e mães felizes e não
somente mulheres que saibam cuidar bem do filho, porque maternidade e casamento não
devem estar separados. Quero ver famílias bem estruturadas, casais felizes com filhos
felizes, seguros do que estão fazendo.
Como sou esposa e mãe e falo para um grande número de mulheres, vou focar naquilo
que nós podemos fazer para ver nossa família mais unida e organizada. A mulher não
assume um papel de coitada quando decide se dedicar ao esposo e aos seus filhos.
Precisamos acabar com essa história de que a dona de casa é a pobre mulher ignorante
sem diploma e sem trabalho que depende do seu marido opressor para sobreviver com
migalhas.
Há, é verdade, casamentos muito infelizes, homens agressivos que se assemelham aos
animais, mas não podemos achar que todos os homens são abusivos em potencial e que
por isso devemos tratá-los com certa dose de grosseria diária mostrando que não
aceitamos qualquer coisa.
Se o seu marido é um marido agressivo, que abusa de você e dos seus filhos, busque
ajuda. Não espere o pior. Infelizmente, há mesmo homens maus. Todavia, se o seu marido
é só um homem bom, mas ainda imaturo que perde tempo demais no celular e não pintou
a parede que está prometendo pintar há três anos, não o confunda com um homem
realmente mau do qual você deve se proteger ou mesmo fugir.
Pode até ser que vocês tenham grandes mágoas do passado por conta de palavras duras,
falta de diálogo e até traições, mas você pode decidir lutar por esse homem mesmo assim.
Decidir lutar pelo casamento é também lutar pelo bem dos filhos e nenhuma dessas coisas
é vergonhosa, muito pelo contrário, é extremamente admirável ser alguém capaz de amar
com grande determinação.
Quando um muda, o outro também muda. Essa foi uma das primeiras coisas que
percebi dentro do meu casamento e pude testar a veracidade com inúmeras outras esposas
que passaram a se dedicar mais ao esposo, cuidando dele como gostariam de ser cuidadas.
Se as pessoas reagem às nossas atitudes, tanto para o bem quanto para o mal, vamos
decidir agir sempre bem para colher este bem de volta.
Antes de discutir com o marido sobre dar ou não uma palmada no filho, antes de
tomarem a decisão de enviá-lo à escola ou educá-lo integralmente em casa, vocês
precisam estar bem entre vocês. Se o casal está disposto a ouvir, entender e buscar o
melhor para a família, os diferentes pensamentos podem até gerar longas e desgastantes
conversas, mas não haverá pessoas magoadas e humilhadas.
•
Eu me lembro muito bem de quando me casei e meu marido disse que os pais não
precisam ser amigos dos seus filhos. Ouvi e logo retruquei dizendo que minha mãe
sempre foi minha melhor amiga, ou seja, ele estava errado. E seguimos cada um
defendendo o direito inexistente de ter a razão.
Felizmente, deixamos de ser imaturos e entendemos que a razão não é algo a se possuir,
mas algo pelo qual devemos nos deixar possuir. Podemos estar com a razão, mas não a
possuímos de fato, ela não é minha e nem dele. O que é certo é certo e independe de
nossas opiniões.
O nosso desentendimento era na verdade uma incapacidade de ambos dizerem com
clareza o que significava esse “ser amigo dos filhos”. Para mim era ser uma mãe atenciosa
que, além de brincar de bola, também era uma boa confidente. Para ele, era o pai que
queria ficar sentado no tapete fazendo caretas para os filhos agindo como se também
tivesse três anos sem assumir sua autoridade. Ora, os pais podem brincar e ser confidentes
de seus filhos sem serem bobos. Depois de muita conversa, nos entendemos quanto a isso
e a muitas outras coisas que aparecem na educação dos filhos. Se nós nos enxergássemos
como inimigos a serem abatidos, não seríamos capazes de buscar o melhor para nossa
família e seguiríamos sendo dois egoístas que moram juntos, mas vivem vidas separadas.
Poderíamos até acabar separados nas tarefas de casa, separados no objetivo de educar os
filhos, separados na conta bancária e até na fé, como vivem muitos casais atuais.
Já disse anteriormente que os filhos são feitos a dois e, portanto, devem ser educados a
dois. Pai e mãe precisam estar alinhados quanto à maneira que irão receber os filhos e
bem instruí-los.
As crianças rapidamente se revoltam e se tornam agressivas quando sentem que os pais
não sabem o que estão fazendo e usam os filhos para demonstrar ao cônjuge como ele é
melhor e tem a tal da razão. A autoridade dos pais é dada naturalmente, mas a capacidade
de exercê-la é uma conquista, fruto de uma dedicação diária. E quanto mais afastados um
do outro, mais difícil é exercer essa autoridade. Marido e mulher precisam estar unidos
num mesmo propósito para que a criação dos filhos seja executada com o máximo de
sucesso possível. Conversem sobre os filhos, sobre como irão educá-los e se houver
dúvidas ou pensamentos diferentes,
não busquem somente ter razão, mas entender o que de
fato é o melhor para a família.
E busquem fazer isso ainda na fase anterior ao casamento para que não se iludam
quanto aos pensamentos e objetivos do outro. Nessa busca do melhor para a família e não
só para si,é necessário que haja um bem que é superior ao ego de cada cônjuge, é preciso
haver um ponto onde o bem se separa do mal, deixando claro que há caminhos
prejudiciais e outros benéficos. Não podemos tratar tudo subjetivamente, com aquela
história de que “o mal está nos olhos de quem vê” ou que “cada um tem a sua verdade” e,
portanto, não podemos dizer o que é certo ou errado, bonito ou feio, bom ou mau. Não
caiam nessa armadilha.
Esse assunto é a tal da busca pela verdade. Se acreditamos que deixar que os filhos sejam
criados feito zumbis segurando um smartphone enquanto definham em frente ao
YouTube, falando feito bebê aos cinco anos, assistindo ao Felipe Neto aos seis, desejando
as novinhas dançando funk aos sete, vendo pornografia aos oito anos, tendo tendinite aos
dez, obesidade aos doze e depressão aos quatorze só é maléfico para quem tem olhar
maldoso e preconceituoso, que é um exagero se preocupar com isso, nós estamos
alimentando o inimigo a pão-de-ló. Certas coisas irão mesmo destruir a vida dos nossos
filhos e nós não podemos fingir que não estamos vendo. Há lutas que precisamos encarar
de frente e não somente fazendo cara feia porque o marido não quis ouvir, enquanto os
filhos seguem sendo criados pela internet.
A pergunta de um milhão de reais é: “O que você quer que seu filho seja?”. E a resposta
não é sobre profissão, do tipo, “ah, quero que seja médico”, e nem do tipo mais
superficial, “quero que seja bom”. Se queremos que o filho seja bom, precisamos saber o
que é bom de fato. E o que é bom de fato não pode ser mutável de acordo com as
diferentes opiniões. O que é bom é sempre bom. Não podemos dizer que um pedófilo é
bom; ele é mau, sempre mau, ainda que digam o contrário. A verdade não muda.
Se você, mãe, já está disposta a dar o seu melhor para bem educar os seus filhos, ótimo.
Agora é hora de trazer o marido para perto, mirar num propósito, traçar metas e lutar por
elas incansavelmente. O seu marido é o seu grande companheiro nessa vocação, então
cuide dele, estejam sempre íntimos, sempre conversando sobre as lutas que estão
enfrentando, buscando vencê-las juntos. Pode ser que ele realmente não saiba nada sobre
parto, puerpério, desmame, papinhas e rotina, mas você pode e deve auxiliá-lo com isso.
Se para nós já é difícil aprender tudo o que é necessário a fim de bem cuidar dos filhos,
para o marido é ainda mais desafiador, porque o envolvimento do pai com os filhos não
se dá da mesma maneira como acontece conosco. Nós estamos ali sentindo aquele filho
crescendo em nosso ventre, todos os dias sentimos seus movimentos; depois que nascem,
nós somos a primeira a sentir aquele cheiro único de recém-nascido e permanecemos
unidas a ele pela amamentação, dia após dia. É um contato muito forte, muito próximo e
constante, e mesmo assim é difícil. Pensar nisso nos ajudará a ter paciência para buscar
trazer o marido para mais perto da educação dos filhos, explicando a importância da
rotina e como ele pode ajudar a mantê-la.
Muitas mães reclamam que o marido é grosseiro com os filhos, que só sabe corrigir
batendo ou gritando. Bem, muito provavelmente esse é único meio que ele conhece para
tentar educar porque foi criado assim. Precisamos também ter essa sensibilidade para
pensar no que o nosso esposo conhece e desconhece, como foi sua criação, quem é sua
família, como ele cresceu e por que age da maneira que age.
Ainda que amemos muito o nosso cônjuge, precisamos aceitar que ele tem defeitos e
traz consigo uma história diferente da nossa. Pode ser que em um primeiro momento nós
sintamos certa raiva das atitudes dele como pai, mas simplesmente bater de frente pode
não resolver o problema e ainda corremos o risco criar um problema a mais para o casal.
Quando a esposa já se preparou e sabe como deve conduzir um momento de choro
excessivo, ela pode mostrar ao esposo como funciona bem um outro método que não tem
as palmadas e gritos como primeira opção.
Talvez seja possível contar nos dedos quantos maridos sabem que uma criança de dois
anos precisa fazer soneca após o almoço, para não ficar chorando às dezoito horas porque
está não apenas com fome, mas também com sono demais para comer, e por isso o castigo
nunca resolve. E isso tudo acontece bem na hora que ele chega do trabalho e a esposa está
lutando para terminar o jantar, amamentar o bebê e dar banho no outro filho.
Conseguem imaginar uma cena assim? Ela é muito comum e pode se tornar um ponto
de discórdia enorme entre o casal. O marido chega em casa cansado, encontra uma
criança chorando que não quer comer, mas tem que comer, que já deveria estar de banho
tomado, mas agora tomará banho enquanto todos os vizinhos escutam os gritos de
protesto.
O homem fica muito irritado com o mesmo caos diário
e decide tentar resolver dando umas palmadas no pequeno
malcriado,
mas se depara com uma mãe raivosa que não aceita palmadas. E assim o casal briga, a
criança segue chorando até dormir soluçando, e todo mundo vai dormir se sentindo
frustrado.
E tudo isso seria evitado se a mãe soubesse um pouco sobre rotina e sono infantil. A
criança faria três horas de soneca após o almoço, tomaria banho às dezessete, jantaria às
dezoito e, quando o pai chegasse, não estaria exausta de sono e nem morta de fome.
Agora fica mais fácil compreender a necessidade deste livro e como ser boa esposa não
está desvinculado de ser boa mãe, não é mesmo? Nós nos tornamos mães e não deixamos
de ser esposas. Precisamos sempre ter o nosso marido como prioridade porque ele é a
nossa segurança para bem cuidar dos nossos filhos. Quando o dia foi muito puxado você
precisa poder contar com um colo do marido, seja para chorar ou sorrir um pouco.
Todo mundo já sabe, mas acho importante relembrar que os filhos crescem e vão formar
suas próprias famílias, e quem permanecerá será o casal. E é muito bom que eu e meu
marido possamos ficar quando eles decidirem voar porque permaneceremos sendo essa
base forte que os educou para que pudessem mesmo alçar vôo, mas ao mesmo tempo
seremos sempre um local seguro onde poderão buscar ajuda. Sempre seremos os pais,
sempre encontrarão em nós um refúgio, porque, ainda que fiquem mais altos do que nós,
seguirão sendo os nossos filhos aos quais nunca negaremos amor.
E quando chegar o momento dos nossos filhos começarem suas próprias famílias, eles se
lembrarão de nós, levarão consigo as experiências que estamos criando hoje. Espero
sinceramente que possam voar em paz tendo a certeza de que seus pais continuam juntos
e se amando.
N
É PRECISO ENTENDER COMO A MATERNIDADE FUNCIONA
ão é por acaso que uma criança nasce como um fruto de dois adultos. Espera-se
mesmo que esses dois adultos sejam capazes de dar a essa nova criatura os meios
necessários para que se desenvolva integralmente da maneira mais perfeita possível.
Eu estou com uma bebê recém-nascida aqui encostadinha em mim enquanto escrevo, e
com mais quatro crianças pequenas dormindo no quarto ao lado. Tenho filhos de zero a
seis anos. Uma pequena com oito dias, um bebê de um ano e dez meses, um menino de
três anos, outro menino de cinco anos e uma menina de seis. É muito bom que eu tenha a
oportunidade de escrever sobre maternidade enquanto eles ainda são pequenos e me é
fresca a memória de cada fase.
Para a mãe que deseja saber o mínimo sobre a maternidade, minha vida é um ótimo
estudo de caso. Tenho aqui várias idades e fases pelas quais já passei mais de uma vez! E o
fato de ter um bebê recém-nascido em casa pela quinta vez é maravilhoso. Mais uma vez
tenho a graça de viver essa fase tão bonita e aprender mais sobre como viver bem estes
dias regados a leite e cheirinho do Céu. Sim, uma fase não apenas muito bonita, como
também imensamente feliz.
Dois grandes medos das mães são: o parto e os dias pós-parto, o puerpério. Quero
começar este capítulo falando destas fases porque são mesmo o começo mais prático da
maternidade já que falamos do casamento nas páginas anteriores.
Esse medo de dar à luz e o medo de cuidar de um bebê são muito comuns e parece que,
cada vez mais,tornam os dias das mães um tormento. Isso acontece porque a grande
maioria de nós só aprendeu a trocar uma fralda já com o primeiro filho.
As famílias estão cada vez menores, e as mulheres que decidem ter filhos enfrentam logo
de cara dois problemas: experiências de partos sofridos e carência de uma boa rede de
apoio.
“Rede de apoio” não é lá um termo que eu goste muito, mas é coisa pessoal minha. Mas,
admito, a mãe precisa de ajuda, e não falo aqui de uma ajuda onde a mãe e tias devam agir
como empregadas. Falo de uma ajuda para formar uma nova mãe mesmo, uma ou mais
pessoas experientes que possam responder perguntas simples de uma mãe de primeira
viagem.
As mães precisam de mães.
Pouquíssimas mães hoje tiveram a oportunidade de ver uma tia sendo cuidada no
puerpério, quase nenhuma mulher conviveu com um bebê antes do seu primeiro filho.
Então chegamos diante de uma gestação, parto e puerpério cruas, despreparadas mesmo,
em vários aspectos. Não sabemos realmente como tudo irá se desenvolver, o que podemos
fazer, e infelizmente grande parte de nós, mães, não tem nem a quem perguntar sobre o
que fazer para receber bem um bebê que está a caminho.
Mais uma vez eu agradeço a Deus por ter a minha mãe comigo e pela minha mãe estar
disposta, até hoje, a me ajudar a ser uma boa mãe. Estou com cinco filhos, trinta anos, e
ela segue me aconselhando, segue exercendo o seu papel de mãe, e isso, sem sombra de
dúvidas, é um bálsamo enorme para a minha vivência da maternidade. Sim, completei
meus trinta anos há poucos dias. Maria Clara nasceu dia 7 de março e eu fiz mais um
aniversário no dia 11 de março. Não poderia ter recebido um presente mais valioso! Mais
uma vez estou constrangida com o amor de Deus. Não mereço tanto, mas darei a minha
vida para honrar tamanha dádiva.
Quero muito que este livro possa ajudar as mães a se formarem a respeito da
maternidade para que cada uma se sinta segura do que está fazendo, mas, muito mais do
que uma autoformação, espero que as mães nunca deixem de ser mães. Nós precisamos
ensinar o que aprendemos, precisamos ser mães de outras jovens mães e um dia
precisaremos ensinar nossas filhas a fazerem o mesmo. A minha maior alegria é ver que
mulheres capazes de cuidar bem dos filhos fazem isso a vida toda. Não trocando fraldas de
bebês até os oitenta anos, mas transmitindo os ensinamentos que passam adiante para
suas filhas, netas, amigas.
Muito provavelmente eu não precisaria estar aqui escrevendo sobre como cuidar dos
filhos se algumas mães não tivessem deixado de lado sua vocação em algum momento.
Muitas mães encontrarão nestas páginas o que deveriam ter encontrado em suas próprias
mães, aprenderão aqui o que deveriam ter aprendido dentro de casa e eu peço, por favor,
não se revoltem com isso, muito pelo contrário, alegrem-se porque vocês podem decidir
fazer diferente com os filhos de vocês. Quem conhece a dor de não ter o amor de uma boa
mãe e nem a segurança de pais que se amam deve fazer disso um motivo para ser ainda
melhor e nunca para fazer com que esse mal siga adiante em mais uma geração. Basta de
dor, que de agora em diante os filhos que nascerão em nossas famílias sejam recebidos e
formados no amor.
Ao engravidar, a mulher precisa entender que o parto não é uma sentença de sofrimento
e que ela só precisa sobreviver a ele, resistindo à dor. Nós nos preparamos por meses para
tirar uma carta de motorista, estudamos por anos para ganhar um diploma na faculdade,
treinamos uma vida toda para competir nas Olímpiadas, mas vamos gestar, dar à luz e
cuidar dos filhos como quem sai para comprar um pão na padaria: só nos levantamos e
seguimos adiante.
Para o trabalho mais importante do mundo que é gerar, dar à luz, educar novos homens
e mulheres, nós só fazemos algumas breves pesquisas no Google ou enviamos uma dúvida
na caixinha do Instagram de alguém com pequena probabilidade de sermos respondidas.
Por que fazemos isso? Mais uma vez respondo: porque não sabemos o tamanho da nossa
vocação. Ter filhos não é como ter um par de sapatos. Não posso tratar um ser humano
como algo descartável, utilitário, contando com a sorte para ter um bom resultado com a
vida que nos foi confiada.
Se temos medo do parto, preparemo-nos para ele.
O medo não é de todo mau porque também nos previne da imprudência, nos faz temer
possíveis males e assim podemos nos adiantar para evitar desavenças. Existe um medo
que pode nos paralisar, nos manter acovardadas. Este medo geralmente vem porque
desconhecemos a batalha que enfrentaremos e não fazemos nada para nos preparar para
uma vitória.
Como mães, iremos navegar por muitos mares e precisamos estar prontas para cair na
água, nadar e voltar para terra firme. Há vidas que dependem de nós agora, não podemos
simplesmente embarcar nessa viagem com a cara e a coragem, precisamos preparar kits
salva-vidas, traçar uma rota, observar o tempo e seguir com coragem, sabedoria e fé.
Como disse minha mãe quando engravidei: “Entrou, vai ter que sair”. Não é a frase mais
encorajadora nem delicada do mundo, mas ela estava certa. Uma hora todo bebê nasce,
estejamos nós preparadas e com as malas prontas ou não. Então, já que sabemos que ele
vai nascer e que o parto não é algo tão simples ainda que seja natural, é melhor que
estejamos preparadas.
Se a maternidade não é um simples evento fisiológico, é evidente que a gestação e o
parto também não. Essa preparação então não se dará somente como uma ginástica, mas
como resposta a um grande chamado que inclui os aspectos físicos, emocionais e
espirituais. Sendo o homem dotado de corpo, alma e espírito, nenhum destes deve ser
deixado para trás enquanto uma mãe se prepara para receber uma nova vida.
O aspecto físico inclui uma mãe saudável, que se alimenta bem, não está anêmica e nem
com a musculatura fragilizada. Uma mãe que está carente de vitaminas e anêmica sofre
mais porque fica mais cansada, o corpo agora precisa enviar muitas energias para o bebê
que está crescendo, então ela precisa estar saudável para que essa pequena criatura cresça
bem e ela tenha boa disposição para seguir até o fim da gestação e ter forças para trazer
seu filho à luz.
Eu sei que infelizmente nem todas as mães podem ter uma refeição ideal para o período
gestacional e nem conseguem comprar suplementos, mas é importante dizer que este
ponto faz muita diferença no ânimo da gestante. Estou aqui como quem passou por
gestações com muita anemia e sem suplementos e depois passou por gestações comendo
bem e com suplementos. A diferença é enorme.
Entender que um corpo debilitado precisa ser cuidado não é coisa fútil. Sei que há quem
pense que com boa vontade podemos fazer tudo, mas nós também temos nossos limites.
Durante o final da minha quarta gestação, eu sentia vontade de gritar ao tentar me virar
na cama, de tanta dor no quadril. No terceiro trimestre eu mal levantava o pé para vestir
uma calcinha e fazia tudo com muitas dores no púbis. E não era uma dorzinha de grávida,
era uma dor que quase me impedia de caminhar, uma dor que fazia com que eu fechasse
os olhos e mordesse os lábios de tão forte que era.
Naquela altura eu não conseguiria correr atrás de um filho caso ele saísse disparado
rumo à avenida. Eu passei semanas fazendo todos os serviços de casa com muita
dificuldade. Dar banho nas crianças havia se tornado um enorme sacrifício porque eu
precisava me abaixar para lavar aqueles pés gordinhos. Todas essas dores porque a minha
musculatura abdominal já não existia e a diástase adquirida desde a primeira gestação
estava ainda maior.
Um corpo fraco não combina com uma mulher que
deseja quantos filhos Deus quiser lhe enviar.
Obviamente eu sobrevivi e trouxe meus filhos ao mundo mesmo anêmica e caminhando
como uma idosa com hérnia de disco, mas o corpo enfraquecido afetava o meu
emocional. Eu estava feliz esperando o nascimento de cada filho, mas as dores e o cansaço
me causavam, sim, certa tristeza, e se eu não estivesse bem espiritualmente, poderia ter me
afundado no desânimo.
Uma mãe anêmica vive mais cansada mesmo, e seacrescentamos aí uma dor no osso
pubiano que a obriga a passar meses com fortes pontadas a cada passo e mais três filhos
pequenos para dar banho e limpar bumbum, temos uma mãe com uma grande
probabilidade de perder a paciência ou cair em uma crise de ansiedade e até depressão.
Não precisamos só sobreviver, mas viver bem. Há cruzes que são inevitáveis, mas outras
que nós carregamos por descuido nosso mesmo.
Como eu ainda desejo ter mais filhos, preciso aceitar que, a cada gestação e ano que
passa, fico mais debilitada fisicamente e precisarei me obrigar a, daqui um mês, fazer
exercícios físicos se eu não quiser correr o risco de engravidar novamente com a
musculatura enfraquecida. A última gestação, a da nossa quinta filha, foi bem melhor do
que a quarta gestação porque eu me preparei melhor e espero seguir assim com as
próximas.
Ainda falando do aspecto físico, entender quais os músculos do corpo entrarão em cena
na hora do trabalho de parto e treinar a consciência corporal fará enorme diferença na
vivência das contrações. Mais uma vez falo como alguém que passou por um primeiro
parto sem preparo nenhum e depois viveu os dois últimos partos sem fazer careta até o
expulsivo porque estava muito bem preparada para ajudar o meu corpo a fazer o que é
natural para a mulher.
No primeiro parto eu realmente pensei que iria morrer de tanta dor. Cheguei a vomitar,
suava muito durante as contrações, gemia, me contorcia e depois de muitas horas em
trabalho de parto, tremia e urrava. Eu me apeguei demais à frase da minha mãe de que o
bebê iria sair de qualquer jeito e só esperei. Bem, o bebê saiu mesmo, mas foi muito
doloroso.
A cada parto eu fui estudando um pouco mais sobre como respirar durante as
contrações e pude passar pelo segundo e terceiro parto mais tranqüila, mas ainda assim
com bastante dor. Foi na quarta gestação que estudei melhor o método ensinado no livro
Parto sem dor do Doutor Pierre Vellay, e aprendi a respirar nas diferentes fases do
trabalho de parto.
Só estudei e fiz os exercícios para mostrar que não funcionavam, porque eu realmente
acreditava que não existia maneira natural de evitar tamanha dor. Para a minha enorme
surpresa e alegria, tive um parto praticamente sem dor; tão serena eu estava que, dois
minutos antes do Petter nascer, enviei uma mensagem à minha mãe avisando que já
estava na hora. Senti ele descendo pela minha pelve e o apanhei com minhas próprias
mãos e sorrindo. Só não pulei de alegria porque eu estava ajoelhada e realmente não ia ser
uma boa idéia, mas eu estava muito impressionada com a eficiência da técnica de
respiração. Pude repetir as respirações do método psicoprofilático neste quinto parto e foi
maravilhoso do mesmo jeito. Com cinco para seis centímetros de dilatação, eu estava
gravando stories e comendo gelatina. Só não tive o expulsivo calmo como o outro por
conta da posição que a parteira me pediu para manter. Mas, foi muito mais tranqüilo do
que os meus primeiros partos.
As parteiras ficam muito felizes e surpresas ao ver que eu sigo em silêncio e calma
mesmo durante as contrações mais fortes, e eu fico com imenso desejo de correr para
acudir as mães que gritam por horas nas outras salas de pré-parto.
Deixo aqui a recomendação do livro Parto sem dor do Dr. Vellay, e também as minhas
aulas sobre como viver as contrações plenamente. Ainda quero escrever um livro só sobre
este tema, porque eu sei que a dor do parto não é pouca coisa e que a experiência de
passar pelas contrações com calma traz imensa alegria às mães. Muitas mães já
conseguiram um parto feliz por conta dessa respiração adequada durante o trabalho de
parto que pude ensinar em uma live, o que me deixa imensamente feliz. O parto não
precisa ser um evento que aterroriza a mulher, que nada pode fazer senão resistir entre
lágrimas e gritos. Nosso corpo tem mesmo potência para dar à luz, mas precisamos
treiná-lo, então não menosprezem o preparo durante a gestação para que na hora do
parto vocês possam viver uma experiência feliz e serena, ativas, sentindo que estão mesmo
ajudando este filho a nascer e não somente sendo passivas, sobrevivendo às dores.
Se eu pudesse dar uma única dica preciosa sobre como viver bem o trabalho de parto,
seria:
Aprenda a respirar!
É evidente que todos nós respiramos, mas a maioria das mulheres não sabe como uma
boa respiração pode transformar as contrações dolorosas em uma pressão totalmente
suportável. Mas esta respiração precisa ser bem feita, treinada e mantida com grande foco
até que o bebê nasça.
Quando respiramos podemos ver que nossos pulmões se enchem de ar e aumentam de
volume. Entretanto, quando observamos um cantor profissional, percebemos que o ar
inspirado não preenche os pulmões, e sim o diafragma.
Bem, para o trabalho de parto, precisaremos aprender a respirar como os músicos,
aprender a fazer a respiração diafragmática. O ar não vai aumentar o volume dos nossos
pulmões, mas sim do nosso ventre. A contração uterina acontece durante horas e dura
cerca de um minuto, começando fraca, atingindo um pico e voltando a ficar fraca até
cessar. Dependendo da fase em que se encontra o trabalho de parto o intervalo das
contrações varia. Podem vir de 15 em 15 minutos no início do trabalho de parto e podem
vir de 3 em 3 minutos quando já se aproxima a hora do expulsivo. Lembrando que cada
mulher é uma, e que as regras gerais não se adéquam a todas as parturientes, como é o
meu caso, em que as contrações sempre começam já bem próximas.
Durante a minha primeira experiência com as contrações, elas realmente pareciam
durar uma eternidade, e chegou um momento em que eu simplesmente achei que não
agüentaria mais; pensei que aquela dor iria me matar e confesso que senti minhas forças
minguando nos últimos minutos. Quando eu já urrava de dor, nossa filha nasceu, graças a
Deus. E um minuto após achar que era meu fim, lá estava eu sorrindo com a minha
pequenina nos braços. O amor realmente nos faz compreender a cruz.
A diferença entre os partos com muita e pouca dor foi imensa. Essa diferença se deu
especialmente graças à boa respiração e concentração durante cada contração.
Como este livro é para as mães, quero me esforçar para falar do parto, porque tenho a
noção de que
muitas mulheres desistiram de ter mais filhos por causa
da dor que sentiram no primeiro parto.
E outras mães acabarão se condenando e viverão imensamente amarguradas por só
conseguirem ver sofrimento e desgraça na vivência do parto, tratando-o como um terrível
castigo destinado a nós.
Há poucos dias uma mulher me escreveu dizendo que preferia ter câncer a ter que
passar pela “experiência infernal” do parto novamente, e ainda desejou que eu não tivesse
mais filhos porque eu já sofri demais. Eu tinha acabado de dar à luz a nossa quinta filha e
estava imensamente feliz e grata a Deus. Os primeiros dias de pós-parto foram repletos de
imensa alegria para mim, alegria porque tinha minha filha comigo e porque creio que
recebi, pela intercessão de São José, o milagre de não ter tido mais uma hemorragia pós-
parto.
Ao ler a mensagem eu poderia ter me afundado em lágrimas, se não soubesse muito bem
do porquê de ter estes filhos, e que o amor que sinto por eles não me faz querer poupar
minha vida, senão entregá-la livremente.
É muito claro para mim que esta mãe que me escreveu é uma mãe machucada. E pode
ser que esse machucado tenha sido causado por um parto muito doloroso. Não creio que
só a dor do trabalho de parto torne estéril toda uma vida, mas é certo que pode ser um
fator de muito peso para a mulher decidir não ter mais filhos. Como a sociedade já nos
ensinou que ter filho dói demais e que mulher nasceu para sofrer, nós, infelizmente,
acabamos por acreditar nisso.
Aqui quero me levantar e dizer em alto e bom som que
a experiência de dar à luz pode ser imensamente feliz e
tranqüila.
O Doutor Lamaze escreveu na década de 50 que, dali a alguns anos, as mulheres estariam
vivendo a experiência do parto sem dor. Lamentavelmente, ainda caminhamos a passos
muito curtos para ensinar às gestantescomo se preparar para bem viver a experiência de
dar à luz estando conscientes do que fazem.
Se cada uma de nós puder ensinar a outras mães sobre como viver bem o parto, ou pelo
menos estar ao lado delas na hora das contrações e no pós-parto com verdadeira
disposição de ajudar, podemos ir mudando a vida de muitas famílias.
Quando a mãe passa pela experiência do parto, especialmente do primeiro filho, ela
muda. Ter um filho nos braços nos traz muitas alegrias, mas também nos traz muitas
dúvidas. Quase sete anos após ter dado à luz a Kimberly, ainda me emociono ao me
lembrar de como foi especial aquele momento. Como foi bom ouvir aquele choro forte
após tantas horas de dor. Aquele cheiro tão único de um recém-nascido; ali estava a
minha jóia tão preciosa, deitada sobre o meio peito, tão quente, tão viva, tão minha. Gosto
de comparar o trabalho de parto ao Calvário; creio que a mulher tem uma oportunidade
extraordinária de viver um pouco da Paixão de Cristo enquanto dá à luz. Sendo a mãe
uma criatura muito querida de Deus, ela pode experimentar na carne um pouco do que o
próprio Cristo viveu. Ao sentir as primeiras contrações a mãe pode desejar não passar por
aquele sofrimento, então entra em agonia, mas lembrando-se das palavras de Nosso
Senhor também é capaz de dizer: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não
seja feita a minha vontade, mas a tua”. Neste momento se entrega ao seu destino, sofre
suas dores, sobe o seu Calvário e entre sangue a água traz nova vida ao mundo.
Entregando o seu corpo como sacrifício, experimenta a alegria de um novo tempo. Que
privilégio nós temos de amar com tanta intensidade. Não precisamos buscar oferenda
nenhuma, somos nós um sacrifício vivo.
Mas e agora, com um bebê nos braços, como será a vida? A grande maioria das mães de
hoje só pegaram um bebê no colo quando deram à luz: é normal que haja muitas dúvidas
e medos. Algumas mulheres são mais destemidas e fazem logo bom uso do instinto
natural de pegar o bebê com firmeza, enquanto outras pensam que podem quebrar o
recém-nascido ao meio.
Em todo o caso, há um longo caminho de aprendizagem. Essa nova vida agora
dependerá de nós noite e dia por alguns anos e vamos crescer juntos em muitos aspectos.
O puerpério é uma fase muito temida pelas mães, porque há um medo de não ser capaz
de cuidar e entender como funciona aquela nova criaturinha que agora depende vinte e
quatro horas por dia de cuidado. É preciso aprender a dar de mamar, trocar fralda,
entender os diferentes choros, fazer massagem para cólica, tudo isso enquanto nosso
corpo ainda está frágil e se recuperando do grande evento que foi o parto normal ou uma
cesariana.
Confesso, não é mesmo uma fase muito fácil, especialmente para as mães que viverão os
quarenta dias sem alguém que possa lhes garantir ao menos um ombro amigo e um banho
de dez minutos enquanto dá colo para o bebê.
A minha mãe nunca tinha me falado de “puerpério”, e sim de “resguardo”. Ela deu à luz
entre 1988 e 1994, muitas coisas e termos mudaram de lá para cá. A palavra “puerpério”
estava nos grupos de mães quando eu engravidei em 2014, então precisei recorrer ao
Google para saber o que significava.
Para a minha surpresa, o puerpério parece ser diferente do resguardo, ainda que a
Wikipédia diga ser a mesma coisa. Aprendi que o resguardo é o período de 40 dias em que
a mulher precisa repousar para se recuperar do parto, por isso deve evitar esforço físico, o
estresse e manter certa dieta para o bem dela e do recém-nascido. Mas, na busca pela
palavra “puerpério” encontrei mais do que um período em que a mulher precisa se
recuperar fisicamente, fala-se do período que o corpo da mulher volta para as condições
normais antes da gestação, incluindo então a retomada dos órgãos para o lugar, a
regularização hormonal, o estado emocional e o retorno da menstruação, ou seja, pode
não durar apenas quarenta dias, mas muito mais.
Eu me lembro de uma mãe que dizia que o puerpério dela havia demorado uns dois
anos e eu fiquei com a pulga atrás da orelha. Foi aí que eu percebi que ela se referia ao
estado emocional dela. Se o puerpério é o período de tempo que a mulher leva para voltar
às suas condições normais de antes da gestação, incluindo o estado emocional, ele pode
não acabar é nunca. Assustador, não é? Mas eu não estou aqui para ficar definindo
significados, e sim apresentando o que vocês poderão encontrar sobre maternidade nos
grupos de mães e blogs.
Cuidado, já alerto: há muitos grupos de mães que são grupos de mulheres sofridas onde
cada uma conta sua dor, mas não há direção para sair dela. É bom poder conversar, mas
melhor ainda é saber como encontrar soluções para os nossos problemas. E uma mãe
precisa de soluções práticas para conseguir realizar bem suas tarefas diárias com um
recém-nascido no colo.
Estou ainda no meu puerpério, com o seio um pouco inflamado por conta do leite
acumulado, mas muito tranqüila em relação às minhas impotências nesta fase.
Gosto de me referir ao puerpério como tempo favorável
para ser humilde.
E ser humilde não é ser uma pobre coitadinha encolhida no canto do quarto. Uma
pessoa humilde é aquela capaz de reconhecer o que é, que tem consciência de suas
limitações, é modesta, não aumenta e nem diminui seus adjetivos.
Quando falamos de uma mãe humilde, hoje em dia, logo pensamos em uma mãe pobre,
desprovida de bens materiais, necessitada de dinheiro. E é impossível não me lembrar de
C. S. Lewis falando sobre como as palavras perdem sua utilidade quando já não expressam
mais seu verdadeiro sentido. Podemos ter uma mãe cheia de dinheiro e muito humilde,
assim como podemos ter uma mãe pobre e muito soberba. A humildade não está
relacionada ao que cada pessoa tem, mas ao que cada pessoa é e sua capacidade de
reconhecer-se a si mesma.
Após dar à luz o filho, a mãe fica frágil e necessita de ajuda. É mesmo verdade que fez
um trabalho magnífico e não podemos negar que usou de muita força física como
também emocional e espiritual, mas todos nós precisamos reconhecer que também é
necessário se recolher, pedir ajuda, aceitar ajuda, aceitar nossas limitações. Aceitar
aprender a ser humilde.
Eu sei muito bem que não queremos ver a casa suja, ainda mais se sabemos que a sogra
virá visitar o mais novo netinho, mas sei também que o corpo ainda está fraco, por vezes
ainda dolorido, tentando se recuperar. Não adianta querer ser a Mulher Maravilha; o
corpo tem seus limites, e respeitá-los não é vergonhoso para nenhuma mulher que ainda
caminha devagar porque acabou de dar à luz.
Se este tempo é tempo de buscar fazer amizade com a humildade, precisaremos também
de paciência. Paciência, muita paciência, pois não é fácil desligar-se um pouco da casa,
aceitar que as roupas ficarão para guardar amanhã ou talvez só depois, aceitar que
precisaremos pedir ajuda. Se as cólicas pós-parto doem, muito mais doloroso é ter que
aprender a dizer ao marido que você precisa da ajuda dele, e o pior de tudo:
Aprender a dizer o que se quer sem ser ou parecer
grosseira.
Minhas companheiras de maternidade, é preciso aprender a pedir ajuda. Se para você,
assim como para mim, isso é quase tão difícil quanto parir um filho, aprenda mesmo a ser
humilde e paciente. E se não bastasse a dor do orgulho de ter que se reconhecer
necessitada de ajuda, ainda é necessário aceitar que a ajuda pode não ser como
gostaríamos.
Lembro-me muito bem de cada puerpério porque em cada um deles eu quis dar uma
sapatada no meu marido. Claro que o fato nunca foi consumado, apesar de ter acontecido
muitas vezes nos meus pensamentos. O amor ágape, né? Sim, estou na luta por alcançá-lo.
Meu marido me ajuda, não posso negar. Enquanto estou na Maternidade, ele sempre me
liga para dizer que já arrumou a casa, deu comida para as crianças e lavou as roupas. Esse
“lavei as roupas” quer dizer que meias, cuecas, panos de prato, blusas de lã e tudo o que
havia naqueles cestos foi lavado junto. Já sei que, ao voltar para casa, terei mesmo roupas
lavadas, mas com bolinhas, amassadas, talvez até manchadas, e estátudo bem.
Tudo bem porque ele está tentando me ajudar. Preciso reconhecer seu esforço; ainda
que ele não saiba fazer o que eu faço e como eu faço, ele está ali, tentando ser um pouco
da Cássia enquanto estou me recuperando do parto. Aceitar essas ajudas imperfeitas sem
fazer cara feia e sem reclamar é sinal de maturidade e faz muito bem para o nosso ego.
As pessoas podem até não ser capazes de fazer o que eu faço, mas se eu não posso fazer
agora, bendito seja Deus por quem se dispõe ao menos a tentar, não é mesmo? Seria
maravilhoso parir o filho de manhã e na hora do almoço já estar bem o suficiente para
correr atrás dos outros filhos e levantar as cadeiras para limpar o chão. Mas isso não é
realidade da puérpera. Sei que há quem se sinta bem e queira fazer de tudo, mas a
humildade vem também para nos fazer entender que repousar e caminhar mais devagar
nestes primeiros dias é um ato de amor.
Sim, de amor. Um ato de amor para com nossa própria vida e corpo, porque não insistir
em carregar a casa nas costas hoje pode impedir que muitos problemas de saúde recaiam
sobre nós amanhã. Um ato de amor também para com o esposo e filhos que terão sim
uma mãe cansada, mas não tão cansada que chegue à beira da loucura.
Uma mulher que está muito cansada fica mais irritada e pode com muita facilidade
perder as estribeiras com os seus, gritando com os filhos já nascidos, não sendo capaz de
explicar ao marido que tipo de ajuda necessita e não sentindo alegria em cuidar daquele
que acaba de dar à luz. Sem mencionar que o corpo muito cansado e irritado pode parar
de produzir leite, gerando assim um estresse adicional para a mãe e o bebê. Além disso
tudo há as mudanças hormonais que trazem um peso maior para tudo que ocorre com a
mãe no pós-parto.
Então, paciência e humildade, mãe. É só uma fase, vai passar como as outras, o
importante é que você e seu esposo saiam melhores dela. Sim, os dois, porque vocês
precisam estar unidos, muito bem acertados para que o novo bebê não carregue a culpa
das brigas que os adultos deveriam ser capazes de resolver.
Essa mesma humildade servirá para aceitar a ajuda imperfeita de uma mãe, de uma
amiga, uma sogra e de quem se dispuser de boa vontade a ajudá-la.
Entretanto, lembre-se de que
seu bebê e sua casa são mesmo seus, e pode ser que
algumas vezes você precise defendê-los de quem não lhe faz
bem — ainda que insista em dizer que faz.
E, para evitar ainda mais estresse nessa fase, se há problemas com pessoas de fora,
principalmente com a sogra, peça ajuda do marido para que ele intervenha caso
ultrapassem certos limites do bom senso. E não é necessário ter medo das interferências
de fora se vocês dois estão realmente unidos no mesmo propósito.
Nestes primeiros dias após dar à luz, pode haver um misto de sentimentos no coração da
mãe. Ao mesmo tempo em que se sente orgulhosa do parto e feliz por aquele bebê, pode
também ter pensamentos negativos a respeito de si, achando que não dará conta, que o
cansaço e a dor para amamentar podem ser um sinal de que não vale a pena ser mãe.
Antes de mais nada quero que se lembrem de que ser mãe é maravilhoso, mas não é
tarefa fácil. De fato, “é justo que muito custe aquilo que muito vale”, como disse Santa
Teresa d’Ávila, e não há nada que valha mais do que a vida humana.
Durante o puerpério, tenha paciência consigo e com as circunstâncias. São muitas
mudanças físicas, emocionais e espirituais que ocorrem com a mãe. Há alterações
hormonais, o útero está voltando ao seu tamanho normal, os outros órgãos estão
retornando ao lugar de antes, sem contar as possíveis dificuldades com a amamentação,
sono do bebê, a nova rotina com um recém-nascido, um marido perdido nas tarefas e
filhos mais velhos carentes.
Felizmente eu não desisti de ter mais filhos no primeiro puerpério que me deixou
exausta, e também segui adiante após o segundo que me deixou só a pele e o osso. Eu
poderia ser mais uma mãe que morreu na praia com o primeiro filho, mas, porque nós
juramos a Deus que receberíamos todos os filhos que Ele nos confiasse, não ouvi minhas
misérias: apenas continuei nadando e buscando ser obediente. Não dependia da minha
vontade, do meu cansaço, do quanto eu me achava capaz ou não. É a minha submissão à
vontade de Deus. Tenho certeza de que eu me acovardaria se estivesse vivendo só pelas
minhas vontades e hoje eu não conheceria estes rostinhos que estão dormindo enquanto
escrevo.
Deixo aqui algumas dicas para as mães que viverão o puerpério, seja o primeiro ou não.
Alegria! Este filho é de Deus antes de ser seu, você educa uma alma para a eternidade.
Muito lhe foi confiado, muito lhe será cobrado e muito mais lhe será dado como
recompensa na eternidade. O seu salário será pago no Céu, lembre-se sempre disso.
• Descanse, você não precisa dar conta de tudo e deve estar bem para cuidar do seu bebê. Muitas mulheres me
perguntam como eu dou conta de tudo. Ora, eu não dou conta de
tudo, ninguém dá conta de tudo, isso é uma grande ilusão. Cada uma de nós deve eleger
prioridades e lutar por elas. A arrumação da casa não tem fim, pode esperar um pouco, já
o recém-nascido cresce rápido e você só o tem pequenininho agora, aproveite. Dê muito
beijo, abraço, colo. Dá uma saudade depois, é verdade que passa rápido demais mesmo.
• Peça ajuda! Aprenda a reconhecer os seus limites, diga o que sente, o que está pensando, explique. Ninguém pode
adivinhar o que você pensa e você não será uma mãe ruim porque admite que ainda não sabe fazer de tudo. Estamos
todas aprendendo, dia após dia.
• Não desconte sua impaciência e cansaço no filho ou no esposo, assuma sua cruz com alegria e se torne mais forte,
mais virtuosa. Pode ser que nesse momento você pense que é a única que sofre, mas não é verdade. Desejar que todos
sofram não amenizará o peso da nossa cruz, aceitar carregá-la com amor e encontrar nela um propósito, sim. Aliás,
falarei disso no capítulo seguinte.
• Paciência. Paciência com seu corpo, com seu
bebê, com seu cônjuge. Todos estão aprendendo.
• E saiba que você é capaz, não desanime. Estude, aprenda mais, não se conforme em ser uma mãe mais ou menos,
não faça amizade com seus vícios, não pense que com pouco esforço se pode alcançar grandes vitórias. Deus lhe fez
mãe para que mereça o Céu para si e para os seus, dê o seu melhor. Nós podemos escolher fazer deste um caminho de
perdição ou de salvação.
• Quando as estrias e a barriguinha lhe incomodarem, olhe para os seios fartos! O seu corpo agora tem marcas, é
verdade. Sabe por quê? Porque o amor deixa marcas, veja as chagas de Cristo. Agora você tem as suas próprias chagas,
e se seguir carregando sua cruz com amor, poderá apresentá-las ao próprio Cristo um dia. Elas serão testemunhas de
que você não foi covarde, de que não se poupou e por isso também não se perdeu. E assim poderá com alegria dizer
que “combateu o bom combate”.
A vida muda quando nasce um bebê, pois junto dele também “nasce” uma mãe, nasce
um pai, um irmão mais velho, os avós, os tios. As coisas estão mudando para muita gente,
então não olhe só para si, cresçam todos juntos como família.
Vejo muitos casais relatarem que depois dos filhos o casamento acabou, que não têm
tempo a sós, que vivem cansados e estressados.
Bem, saibam que os filhos não acabam com o casamento, porque eles não são “o
problema”, eles apenas revelam o problema que já existia. Mostram como ainda pensamos
mais em nós do que no outro, no quanto queremos ser o centro do mundo.
Ter um recém-nascido exige muito dos pais, e é aí que se revela o quanto o casal está
disposto a se doar por aquele que ama. Talvez seja a primeira vez que você não virá em
primeiro em lugar; não se trata do que você quer fazer, mas do que deve ser feito para o
bem do próximo, de um ser totalmente dependente de você. Por isso dói tanto, você está
aprendendo a amar de verdade. Ah, que grande oportunidade para deixar de ser imatura e
egoísta! Pais, atenção, este filho não veio para tirar a paz de vocês: ele é o fruto mais belo
do amor que os uniu, é a materialização da entrega mútuae a conseqüência eterna dessa
união. Vocês dois devem estar sempre íntimos para poder cuidar bem deste filho. O filho
precisa e merece uma base forte, e ela começa no amor de vocês, então tenham paciência
um com o outro e conversem sempre, todos os dias. Não alimentem suposições,
conversem. A mãe está cansada, o pai ainda não entende bem como pode ajudar, escutem
um ao outro, sejam caridosos.
Não dêem ouvidos a quem diz que “agora a vida será só dor
de cabeça e gastos”.
Busquem os bons exemplos, estejam perto de quem ama de verdade os filhos. Quem trata
filho como fardo só serve como exemplo daquilo que não devemos ser e não devemos
fazer.
A castidade será colocada à prova. Entendam que o matrimônio deve ser sempre casto.
O homem deve esperar com paciência a recuperação da esposa e a esposa deve ter
paciência com o anseio do esposo. Sejam carinhosos de todas as formas possíveis,
conversem sempre, não se esqueçam de que um abraço apertado, um beijo, um carinho,
um cafezinho, um elogio e um agradecimento devem alimentar os dias que ainda anseiam
pelo retorno do ato conjugal. O sexo é mesmo muito importante, mas estar sem ele por
um tempo é prova de fogo para o amor de vocês. O casal precisa se complementar, pois o
casamento não é feito de tarefas divididas igualmente, mas de entrega incondicional de
ambas as partes. Não fiquem só cobrando atitudes e tarefas um do outro, busquem doar-
se mais e mais. É difícil porque amar é difícil, mas não ter estes filhos e não dar a vida por
eles não deve ser uma opção para quem desejou ser uma família diante de Deus: eles
fazem parte do nosso juramento, foram planejados no sim no altar. Nada do que vocês
desejam construir ou conquistar juntos vale mais do que os filhos, sejam eles biológicos
ou de coração. Peçam a ajuda um do outro, sorriam e chorem juntos, mas não desistam.
Os filhos irão crescer e crescerão muito rápido, logo a fase do puerpério passará e muitas
outras fases virão, e vocês dois devem seguir unidos para bem educá-los.
•
A presença da avó também é muito importante durante o puerpério, e por isso lhe
dedico algumas palavras também. Tanto a avó materna quanto a avó paterna seguem
sendo mães, e poderão servir de grande auxílio para a jovem mãe enquanto relembram
com carinho a fase que um dia também viveram.
Mãe é sempre mãe. Mesmo quando os filhos já se tornaram pais, a mãe continua sendo
única, continua sendo necessária e sua presença pode trazer conforto para os seus. Eu
amo ver como a minha mãe é uma avó amorosa e forte, ela foi uma mãe maravilhosa e
parece que como avó se saiu ainda melhor.
Algumas pessoas se questionam sobre até quando se deve educar os filhos. Eu, como
filha e mãe, lhes respondo:
até o fim de nossas vidas.
Minha mãe continua cuidando de mim, e graças a sua presença sempre doce e servil eu
posso relatar a vocês como é bom ter uma vovó para um netinho recém-nascido e uma
mãe para uma mãe recém-parida.
Ela sempre vem em meu socorro durante os resguardos e nunca precisei pedir nada, e
tantas coisas me ensinou por pura generosidade, do mesmo modo como estendeu-me os
braços para apoiar meus primeiros passos, com o mesmo carinho com que pacientemente
segurou minha mão para que eu escrevesse as primeiras vogais, ela continua a responder
minhas dúvidas mais bobas com grande caridade, ela continua sendo a minha doce e
paciente professora da vida.
Ainda que para ela as minhas dúvidas sejam muito óbvias, nunca encontrei em seu olhar
— muitas vezes cansado — qualquer traço de desprezo. Nunca me negou um colo, mesmo
que agora ela caiba melhor no meu do que eu no dela.
Minha mãe é o amor que São Paulo descreve em Coríntios 13: “É paciente, é bondoso.
Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses,
não se ira facilmente, não guarda rancor”. Ela “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo
suporta” por amor aos seus filhos e me ensinou a fazer o mesmo. Ela é muito melhor do
que eu, mas eu seguirei tentando ser um pouco melhor a cada dia enquanto a observo
amar.
Vovós, vocês são um grande tesouro:
saibam que, ainda que algumas de vocês não tenham tido ajuda ao tornarem-se mães,
vocês podem decidir fazer diferente agora.
Se sua mãe não a ajudou e isso feriu você, não reproduza essa ferida em sua filha. Que o
mal pare em você, e que essa maternidade vivida agora com os netos possa curar todas as
feridas do coração da avó e da mãe. Mãe recém-parida também precisa de colo de mãe. Vá
até ela e lembre-se do quanto você também quis ou precisou de ajuda. Há muitos
pequenos detalhes que só uma mãe pode ensinar a uma filha. Seja paciente e generosa
com essa jovem mãe que agora está dando os primeiros passos rumo a uma jornada
preciosa.
A maternidade da avó continua necessária ainda que haja muitos netos. Não deixe de se
alegrar com as novas vidas que sua filha trouxe ao mundo. Confie na sua filha, ela é capaz
de ser uma boa mãe. Muitos já irão criticá-la; que em você ela possa encontrar amparo.
Agora que sua filha entende melhor o seu papel, é a chance de amadurecer o amor que
há entre vocês e não hora de lavar roupa suja. Se sente que falhou com os filhos, busque
não errar novamente com seus netos. É a oportunidade de reparar os erros da
inexperiência do passado. A avó sabe que o tempo passa rápido demais, então ajude sua
filha a viver bem esse período e aproveite para relembrar como é bom ter um recém-
nascido em casa, e não se esqueça do quão importante é a sua presença na vida deles. Se
colo de mãe é doce, o de avó é puro mel! Certamente não faltarão momentos felizes com
os netos, e muitas vezes ainda se emocionará ao ver que sua pequena filha se tornou uma
grande mãe.
Parabéns, vovó! O seu amor permitiu que muitas outras vidas pudessem vir ao mundo
por meio dos filhos que você não negou a Deus.
•
É importante que a mãe entenda que a criança aprende muito mais pelo exemplo do que
pelo sermão. Aqui entra o exemplo do pai, da avó, dos tios, mas principalmente da mãe,
porque geralmente é a mãe que passa mais tempo ao lado dos pequenos. Os anos passarão
e vocês poderão observar que os filhos imitam seus pais, usando as mesmas expressões
faciais e até caminhando no mesmo ritmo.
Esteja atenta ao seu filho, e não se esqueça de que para se educar o sono do bebê, para
ensinar a comer sozinho, não bater no irmão, guardar os brinquedos, usar o banheiro,
tudo, tudo o que você deseja ensinar ao seu filho necessitará de muita paciência,
persistência, constância e propósito.
Quando o seu filho estiver chorando porque não quer dormir no próprio berço ou
porque não quer escovar os dentes, entenda que ele ainda não entende o que de fato é
bom para ele, e você está aí para ser o limite dele enquanto ele ainda não é capaz de
estabelecê-lo sozinho. Muitas vezes precisaremos ver os nossos filhos chorando e isso
também faz parte da maternidade, mas precisamos ter um olhar muito atento para que
saibamos reconhecer cada tipo de choro, e o mais importante, reconhecer quem é a
pessoa que está diante de nós necessitando de nosso cuidado e boa disposição para educá-
la.
E aqui chegamos em um ponto que requer de nós enorme sacrifício e perseverança.
Para educar os nossos filhos é necessário, antes de mais
nada, a busca pela auto-educação.
De fato, não podemos dar ao outro aquilo que não temos. Estas breves páginas tentam
suprir um pouco dessa necessidade do conhecimento do que cabe a uma mãe buscar e
realizar, e aproveito para afirmar com veemência que a busca pelo enobrecimento de nós
mesmas nunca terá fim, porque o que nos foi confiado nessa vocação materna são vidas, e
o futuro dessas vidas depende muito do quanto nos doamos para elas durante o tempo
que estivermos aqui, especialmente nos seus primeiros anos de vida. Se desejamos que
nossos filhos sejam carinhosos, precisamos lhes dar carinho primeiro. Se desejamos que
aprendam a falar baixo e com calma, precisamos falar assim com eles em primeiro lugar.
Quando uma mãe desorganizada cobra organização de um filho pequeno, ela está sendo
injusta porque nuncaensinou ao filho o que agora cobra dele.
No Catecismo da educação do Abade René Bethléem há a seguinte citação:
Ora, não há ninguém como a mãe que possua as ternuras e os heroísmos deste amor. E,
por conseqüência, não se lhe pode contestar o lugar que ocupa na hierarquia dos
educadores.
Quando estivermos diante dos nossos filhos, desejando corrigi-los, precisamos ter a
consciência de que não basta dizer o que não podem fazer, mas o que devem como e
como devem fazer. Esta prática deve estar presente desde quando o bebê ainda não fala
até quando já se formou homem e vai sair para constituir sua própria família.
Se o seu filho com um ano de idade está batendo no seu rosto porque não quer parar de
enfiar o dedo na tomada, mostre que ele não pode fazer aquilo, segure suas mãozinhas e o
ensine a fazer carinho, e não bater. Com o passar do tempo ele precisará guardar os
próprios brinquedos, então, junto dele, mostre que não podemos jogar carrinhos de longe
e sim guardá-los em uma caixa apropriada. A criança também tenta jogar comida no
chão, e a mãe precisa mais uma vez dizer que não pode, impedi-la e conduzir suas mãos
para comer da maneira correta. Sempre precisaremos estar atentas ao que os nossos filhos
estão fazendo, ouvindo e buscando. Corrigir e direcionar as atitudes das crianças, estando
de fato interessadas em não permitir que façam só o que desejam e não o que de fato é
bom, é amar. O adolescente que não ouve os pais não ficou desobediente agora, mas foi
sendo formado assim desde o colo.
Muitas mães se distanciam de seus filhos ainda nos primeiros anos de vida, porque não
têm paciência para repetir incansavelmente as mesmas palavras de correção, porque não
escutam as perguntas dos filhos com caridade, sempre acham que a criança é chata
demais e a mandam brincar bem longe, porque estão ocupadas. Ora, mas
a ocupação mais importante de uma mãe é o seu filho.
Se não estivermos dispostas a doar os nossos dias para bem educar estes filhos, quem
fará isso? Não adianta enviar o filho para a escola, para a catequese ou para o judô,
pedindo ao professor, ao catequista e ao sensei para que dêem um jeito naquela criança
desobediente. Cabe a nós educar estes filhos, esse é um dever e um direito primordial que
nos foi dado naturalmente por Deus.
Contudo, é impossível ser uma mãe sempre preguiçosa e egoísta e querer cobrar dos
filhos serviço e obediência. Quando encontrarem um grave defeito em um filho, desejem
com todas as forças ajudá-lo, porque quanto mais difícil a educação, mais amor será
necessário. É muito triste ver tantas crianças desobedientes, mimadas, sendo tratadas com
descaso pelos amigos e por seus próprios pais porque são mal-educadas.
Uma criança mal-educada sofre porque não encontrou ninguém que fosse capaz de
amá-la o suficiente para corrigi-la, impondo limites às suas vontades imaturas, dando
amor e uma direção adequada para sua jovem vida. Logo nos primeiros anos de vida dos
nossos filhos poderemos ver os frutos da nossa maternidade em suas atitudes diárias. As
crianças não são animais a serem adestrados: são almas a serem enobrecidas. E, neste
enobrecimento, o colo materno com seu amor que tem poder de cura é extremamente
necessário e insubstituível.
P
É NECESSÁRIO ENCONTRAR O PORQUÊ DE SER MÃE
ode ser que a vida de mãe se torne muito pesada em determinado momento da vida, e
não confiemos mais em nós mesmas; e, quando isso acontecer, lembre-se d’Aquele que
a fez mãe. Não somos mães por acaso, porque nenhuma vida veio a este mundo por acaso.
Existe, sim, um propósito para tudo que o amor de uma mãe está disposto a cumprir.
Muitas coisas sofreremos por escolher amar estes filhos, sejam eles nascidos do nosso
ventre ou não, sejamos nós mães de filhos que vivem aqui na Terra ou filhos que já vivem
na eternidade. Tantas cruzes diferentes para tantas mães diferentes... Há mães que
enterram seus filhos muito cedo, mães que nunca conseguem conhecer os rostos de seus
filhos, mães que geram muitos filhos em seu ventre, mães que gestarão uma única vez. Há
mães que exercerão sua maternidade como freiras dentro da clausura enquanto zelam por
filhos espirituais, há mães que encontrarão os seus filhos já nascidos dentro de um
orfanato. Há tantas mães... que alegria ter criaturas tão belas pelo mundo! Encontramos
mães professoras, mães médicas, mães donas de casa; há mães em toda a parte, porque
sempre há mulheres que estão dispostas a fazer da própria vida, uma vida que é lugar de
repouso e cura para outras vidas.
Certamente pude descrever muitas dores que fazem parte da vida de toda mãe, mas eu
sei que cada mãe subirá o seu Calvário de uma maneira diferente, e eu gostaria de falar
que só seremos capazes de suportar a dor da perda, a dor da espera, a dor da incerteza, se
encontrarmos o porquê de ser mãe, se pudermos olhar para essa vocação compreendendo
seu valor extraordinário.
Eu encontrei o meu porquê na maternidade pois encontrei o porquê da minha vida
inteira. Como todas as pessoas, eu sempre quis ser feliz, e um dia eu conheci a felicidade
sentada no banco de uma igreja. A felicidade que eu sempre quis me esperava desde
sempre. A felicidade tem um rosto e tem um nome: é Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque
reconheci este amor hoje posso amar os meus com alegria. Eu sei que nenhum dos
pequenos sacrifícios passarão em branco diante do Senhor da vida, que tudo o que vivo na
maternidade, tudo o que sofro é merecido e necessário para que eu não tenha uma vida
estéril.
O esforço diário que me é exigido é o que necessito para não viver entregue à preguiça
que me promete alegria, mas nunca me faz feliz de fato. Minha mãe sempre diz que é pela
graça divina que consigo cuidar destes filhos. Ela é minha mãe, me conhece muito bem e
não fala isso por acaso: ela sabe que eu sempre fui muito fraca fisicamente, sempre me
encontro um pouco doente, desde criança. E apesar da minha fraqueza física, eis que
estou aqui cuidando destes cinco pequenos com alegria. A maternidade e o amor que ela
exige de mim é a prova de que
a verdadeira caridade é capaz de fazer forte aquele que
tem uma missão a cumprir.
Sou mãe, uma mãe ainda fraquinha, mas quem me fez mãe sabe das minhas fraquezas e
me dá o auxílio necessário na hora necessária se eu me permito amar e ser amada. Ainda
que você esteja sem companhia, não estará de fato sozinha, porque é Deus quem faz a mãe
e Ele é o maior interessado em que realizemos nossa vocação com excelência.
Os meus filhos trazem imensa alegria para a minha vida, e não tenho palavras
suficientes para descrever o tamanho do meu amor por cada um eles. Do mesmo modo,
amo imensamente o meu esposo que construiu essa família comigo, amo minha mãe que
sempre foi o meu Cirineu buscando aliviar o meu fardo, amo e sou muito feliz com meus
pais e irmãos, mas eu só sou realmente feliz com a minha família e vivendo a minha
vocação materna porque eu sei quem me deu tudo isso e sei que um dia eu precisarei
devolver cada alma a Ele.
Compreender o valor do meu papel de mãe não me levou muito tempo; mas ser capaz
de focar nessa missão em vez de desejar fugir das dificuldades, sim. Sempre amei os meus
filhos, mas muitas vezes o meu amor era muito imaturo. Ainda não sou a mãe que
gostaria de ser realmente, mas agora eu consigo aceitar com alegria que a minha vida já
não é só minha.
E aproveito para falar sobre a paciência porque todas as mães desejam ser um pouco
mais pacientes e uma grande maioria sofre muito por não conseguir evitar os gritos, e se
sente realmente triste por “errar a mão” na hora de corrigir quem necessita de muito
amor. Algumas mães acabam confundindo o cansaço com a tristeza porque não
entendem que o cansaço é bom companheiro de quem decidiu amar. A mãe que nunca
encontrou o propósito da maternidade, que nunca experimentou um amor gratuito e
incondicional, que confunde cansaço com tristeza, vive impaciente, dizendo que odeia a
maternidade. Diz que odeia a maternidade porque não sabe lidar com ela; é, na verdade,
uma fuga. Mas
não é possível amar os filhos e odiarser mãe,
e dizer o contrário é mais uma grande mentira que nos contaram. A mãe que odeia a
maternidade, a odeia porque faz por obrigação o que deveria fazer por amor.
Os sacrifícios da maternidade são muitos, é fato. Porém fazer destes sacrifícios somente
um grande fardo é carregar uma cruz sem o Cristo, sem o Amor. E sem o Cristo, sem o
amor na maternidade, a cruz é só um madeiro morto, é só o horror da humilhação e da
dor. Não há esperança em seguir adiante carregando o mesmo fardo diariamente.
Olhe para a cruz diária e decida carregá-la com amor, por amor e pelo Amor. Uma cruz
sem amor é só sofrimento; com ele, é salvação. Jesus não subiu o Calvário por obrigação,
subiu por amor. E por isso foi tão paciente sofrendo tudo o que lhe era pedido naquele
momento.
Uma das maiores dificuldades da mãe é a falta de paciência para saber lidar com os
filhos. Na verdade, a falta de paciência é um desafio para quem decide amar, não é
mesmo? Sofre também o pai, o professor, o sacerdote. Educar outro ser humano é uma
tarefa muito desafiadora e que exige de nós muito mais do que um método de ensino,
exige de nós verdadeira devoção à alma que está diante de nós e que precisa ser moldada
para o bem na esperança de que nunca se perca em meio aos males e dores deste mundo.
Quem me conhece através da tela de um celular, vê uma Cássia de fala doce e sorriso
gentil, mas eu sei quem eu sou. Só eu e Deus sabemos do quanto preciso ser dura comigo
mesma, fazer violência contra meus instintos mais baixos que muitas vezes me convidam
a ser covarde enquanto tento parar com um choro exagerado de um dos meus filhos.
Lembro-me muito bem de que, desde criança, minha mãe sempre me educava para ser
mais paciente. Eu queria tudo do meu jeito, facilmente me irritava com as atitudes dos
meus irmãos e me recordo, com vergonha, dos sentimentos que brotavam dentro de mim
ainda que eu fosse tão pequena. Luto a minha vida toda para ser paciente porque eu sei
que a falta dessa virtude me fez muitas vezes ferir quem eu mais amo e quem mais me
ama: a minha própria família.
Agora como mãe, necessito de ainda mais prudência para poder educar os meus filhos.
Tudo o que falo e faço é para eles um exemplo que pode fazer brotar frutos bons ou ruins
em suas vidas.
Já sei que para as crianças o bom exemplo é muito mais poderoso e cativante do que as
palavras. Os de fora eu posso até enganar com palavras bonitas, mas os de dentro, os
meus, eles sabem quem eu sou de verdade, porque não somos o que dizemos ser ou
pensamos ser, somos aquilo que somos e fazemos diariamente. E se eu sou diferente do
que eu falo e cobro, passo como uma farsante, perco minha autoridade, sou para eles um
exemplo de uma mentirosa que não vive o que prega; sirvo para distanciá-los da verdade
porque vivo na mentira.
Muitas mães não se dão conta de que precisam ser melhores e isso é muito grave.
Reconhecer-se impaciente, ainda que continue caindo diariamente enquanto tenta ser
melhor, é muito mais digno do que não se reconhecer necessitada dessa virtude e não se
confessar cheia de defeitos.
Quem não reconhece os próprios defeitos não poderá
ajustá-los nunca.
Mas quem sabe exatamente o que é, reconhecendo-se impaciente, tem grande chance de
vencer seus maus hábitos porque, encontrando um caminho, não desejará não o trilhar, já
que ele significa um bem para si e para quem ama.
Sendo eu naturalmente impaciente, busco há anos vencer este defeito tão feio e covarde.
Tive noção disso já na vida adulta quando pude, com a graça de Deus, perceber que estava
machucando a quem eu mais amava agindo sempre com profundo egoísmo. Reconheci
com grande vergonha que nunca tinha caridade para falar e nem para ouvir. Tudo tinha
que ser do meu jeito, na hora que eu queria: nada podia sair da linha que eu havia traçado
para mim e para os meus. Eu era o deus da minha vida e por isso era tão infeliz e
mesquinha.
Quando me casei e os filhos vieram eu pude ver com ainda mais clareza o quanto eu
queria que tudo e todos seguissem na mesma linha que eu traçara para mim. Perdi as
contas de quantas vezes já fui confessar este mesmo pecado, mas em uma de minhas
confissões o padre me clareou muitas coisas que agora dividirei aqui.
O que me gerava tanta impaciência era a incapacidade
de olhar para o outro
e suas necessidades sem me colocar em primeiro lugar. Quando um filho chorava na
madrugada eu não pensava em socorrê-lo para que ficasse bem, sempre me levantava
lamentando por perder alguns minutos de sono. E assim eu seguia também durante o dia.
A bagunça, o pedido de colo, o suco derramado, tantas tarefas que eu precisava realizar,
tudo me irritava porque eu não queria fazer o que precisava ser feito, no fundo eu ainda
lutava para não ser mãe. Eu amava os meus filhos, mas também amava demais a mim
mesma de modo desordenado. Não me amava para que eu fosse capaz de fazer o que era
bom, mas me amava ao ponto de querer que o mundo me servisse, ainda que eu nunca o
tivesse servido primeiro.
Por isso a maternidade foi um rasgar de peito tão grande, e eu precisei aprender a me
doar de verdade, coisa que eu nunca tinha feito até então. E na busca por entender o
porquê de ser tão fraca diante de uma birra, lutando para não armar briga com uma
criança que nem falava, eu encontrei o Padre Faus e sua descrição tão certeira a respeito
da paciência: “A paciência é um amor que sabe sofrer”.
E eu não sabia sofrer, sabia apenas cobrar, sabia apenas saborear as coisas passageiras da
vida e por isso me irava diante de vidas que não podiam ser controladas, diante de
situações cujas soluções escorriam pelas minhas mãos. Se para amar é necessário se
sacrificar e isso na maioria das vezes é doloroso, é necessário ser paciente para seguir
amando mesmo quando isso já não nos causa gozo algum. É necessário, portanto, saber
ser paciente para amar e saber amar para ser paciente.
E uma mãe não pode nem amar e nem ser paciente como deve, se não for capaz de olhar
para fora de si, se não for capaz de olhar para o suco derramado sem raiva de quem o
derramou, pensando não na sujeira que ela terá de limpar, mas na criança que precisa ser
educada.
Podemos reconhecer nestes pequenos acidentes o quanto somos incapazes de sofrer,
porque não suportamos ter de limpar uma sujeira causada sem querer por pequenas mãos
que deveríamos estar ajudando a segurar o copo... Acontece o mesmo com o pedido de
colo na hora do almoço: estamos tão focadas em fazer logo aquela comida para nos
livrarmos de uma tarefa, que automaticamente mandamos a criança para longe e, ao invés
de acalmar a situação, despertamos o choro do filho, e assim vem o grito da mãe, vem a
frustração, o sentimento de impotência em lidar com uma simples criança enquanto se
cozinha o feijão.
Isso acontece porque tomamos as tarefas de casa como uma obrigação que nos impede
de aproveitar a vida, e o pedido de colo pela quinta vez é a gota d’água, porque atrapalha
ainda mais a minha vida, o meu ego. E que vida é essa afinal onde uma mãe não tem o
cuidado dos seus próprios filhos como uma prioridade? Todos nós sofremos para cuidar
de nossa família, mas quem sofre por amor é paciente e generoso; quem sofre por ver o
outro como um fardo é egoísta e grosseiro.
Não por acaso São Paulo descreve a caridade, o amor, como “paciente e generoso”. O
primeiro adjetivo usado é a paciência porque, de fato, só sendo muito pacientes
poderemos educar os nossos filhos sem desejar humilhá-los, sem desejar feri-los, sem
enxergá-los como coisas que atrapalham os nossos planos.
Pude compreender então que o segredo para não perder a paciência, ou, pelo menos,
lutar contra a impaciência com grandeza de espírito, é me lembrar que as pessoas
precisam ser amadas, que os filhos estão sob o nosso cuidado para que sejam educados e
instruídos porque eles precisam mesmo de alguém que os ensine a viver. Tudo devemos
ensinar aos nossos pequenos. Ensinamos a dormir, a segurar no garfo, a falar, a dividir o
brinquedo, a pedir desculpas, a juntar as mãos para rezar.
Os filhos são, para nós, uma perfeitaoportunidade de ser pacientes, porque é mesmo
sofrido ter de repetir várias vezes a mesma ordem, separar brigas diárias, contornar birras,
tudo isso enquanto se tem um bebê de colo e o almoço no fogo. Com facilidade perdemos
nosso equilíbrio emocional porque com facilidade colocamos as coisas na frente das
pessoas. Em questão de segundos o bebê que nos alegrava com seu sorriso tão meigo se
torna causa de irritação porque não quer brincar sozinho por quinze minutos enquanto a
mãe termina de colocar a roupa no varal.
Ainda que tenhamos muitas tarefas durante o dia, os filhos estão nos observando o
tempo todo, aprendendo a agir conforme nós agimos. Então, tudo bem que ele tenha que
esperar um pouco para receber o colo, desde que o ensinemos a esperar sem gritos e
ameaças. Não é necessário sentir raiva do pequeno que chora, ele só chora porque ainda é
incapaz de controlar suas vontades. Mas nós podemos controlar as nossas vontades e fazer
com que aquela situação não nos cause nenhuma revolta interior, nós podemos ser mais
maduras do que uma criança de fraldas, não é mesmo?
É um grande problema encarar os choros de um bebê
como uma afronta,
como algo que não deveria acontecer nunca. As crianças choram e nós não temos total
controle sobre isso, e cabe a nós sofrer alguns minutos escutando esse choro enquanto
fazemos o que precisa ser feito. Não podemos perder a alegria de ter estes filhos só porque
eles choram demais e necessitam de nossa ajuda.
Para que não sejamos sempre escravas da impaciência é necessário conhecer os filhos e
suas necessidades, como já expliquei algumas páginas atrás. E, conhecendo o filho, nós
saberemos o que fazer, e isso nos trará segurança para sermos firmes e carinhosas na
medida mais acertada possível.
Porém, quando não conhecemos a necessidade dos nossos filhos e ouvimos choros ou
brigas, logo queremos resolver aquela situação que nos tira a paz e fazer o que for mais
rápido, ainda que não sirva para educar.
Santo Tomás diz que “é evidente que a paciência é causada pelo amor”. Quando eu falo
que se faltou paciência é porque faltou amor, algumas mães se escandalizam, por não
entenderem do que se trata. Mas é isso mesmo. Pensemos na situação que nos fez perder a
paciência. Façamos a experiência de revivê-la em pensamento: pense em como teria agido
se não tivesse agido só pensando nos seus sentimentos, mas buscando cuidar do outro.
Sempre podemos amar mais, agir com mais ternura. Os defeitos dos nossos filhos devem
ser acolhidos com amor, e não com raiva. Só o amor é capaz de desejar cuidar de quem
chora sem irritar-se profundamente.
E não podemos ser covardes. Quando brigamos com os nossos filhos para descontar
neles a nossa raiva pelo trabalho de educá-los, só fazemos isso porque sabemos que são
mais fracos do que nós. Não gritamos com o chefe chato, não é verdade? A paciência é
mesmo filha do amor, um amor que é capaz de poupar o outro do sofrimento ainda que
eu mesma esteja com a carne exposta. Buscar a paciência não é uma escolha, mas um
dever, pois entre a fé e a santidade existe a paciência.
Como é doloroso ouvir mães dizendo que a maternidade é tão sofrida que prefeririam
não ter gerado nenhuma vida, mães que nunca aprenderam a sofrer. “Deus me livre dos
filhos!”. Que triste é ouvir e ler esta frase por aí, frase que vem sendo dita por jovens
mulheres e mesmo por mães que já deram à luz. Nós pedimos a Deus que nos livre do que
é mau, e não do que é bom. E os filhos são bons demais. Que vida miserável levam estas
mulheres que não sabem reconhecer a graça de ser mãe. E, como disse Santo Agostinho:
“Ninguém ama aquilo que tolera, ainda que ame suportá-lo; mesmo que se rejubile em
tolerar, prefere não ter o que suportar”. Assim são as mães que dizem amar seus filhos,
mas prefereriam nunca tê-los concebido. Criam uma fantasia de que os amam ao mesmo
tempo em que pedem a Deus que as livre de outros como estes que já possui. Que amor é
este, afinal? Ao dizer que amamos algo, logo queremos tê-lo conosco e se possível cada
vez mais abundantemente. A comida que nos atrai é sempre bem-vinda e não dizemos:
“Chega, uma vez basta. Eu a amo, mas não a desejo mais”. As roupas novas que tanto nos
cativam nunca são demais, nem o carro novo ou a casa nova, mas os filhos... ah! “Não
valem tanto assim”. Se o sangue do teu sangue, que cresceu em teu ventre, não te cativa,
nada mais te cativa. Apenas te distrai e ilude.
É preciso elevar o coração e pedir que Deus nos livre do egoísmo, não dos filhos. Que
Deus nos livre da preguiça, não dos filhos. Que Deus nos livre da vaidade desordenada,
não dos filhos. Que Deus nos livre dos maus conselhos, não dos filhos. Que Deus nos livre
de tudo aquilo que nos leva para longe da caridade, não dos filhos. Que Deus nos perdoe
por não saber amar estes filhos. Que Deus nos salve através destes filhos. Que Deus nos
ajude a salvar estes filhos. Que Deus nos livre de não amar estes filhos.
estes meus anos como mãe, eu só posso concluir que é mesmo um privilégio poder fazer
da própria vida uma fonte de vida para outras vidas. Se o bem mais precioso que Deus fez
é a vida humana, eu estou mesmo cuidando daquilo que mais importa.
CONCLUSÃO
Desde que me entendo por gente neste mundo eu vejo as crianças nascendo, as pessoas
partindo, as árvores florescendo, os frutos caindo, todo um ciclo se concluindo dia após
dia, ano após ano; tudo tem seu começo e fim, mas o meu trabalho de mãe não terá fim.
Ainda que para muitos eu esteja perdendo a minha vida, sei o quanto ganho todos os dias
cuidando da minha família, e tenho plena consciência de que, quando a morte vier me
chamar, eu poderei ir na esperança de que finalmente chegou a hora de conhecer os frutos
que nasceram da minha maternidade.
Fico pensando no quanto Deus é generoso comigo me confiando os meus cinco filhos.
Chego a me emocionar quando dedico algum tempo a observar os sorrisos, os pezinhos
tão gordinhos, os olhos com tanto brilho, tão cheios de vida. Nada fiz para merecê-los,
mas muito preciso me sacrificar para honrar tamanha graça. Penso também que na
eternidade eu poderei conhecer mais rostos, rostos de filhos concebidos sem que eu
chegasse a saber. Filhos que Deus tinha urgência de chamar para si, e somente um
pequeno sinal de sangue me restou como lembrança.
Além dos filhos gerados em meu próprio ventre, creio que também verei o bem que a
minha vida como mãe pôde fazer em outras vidas. Nós vivemos em tempos em que a
internet não serve somente para distração tola, mas serve também como canal de
aprendizagem, de ajuda, de serviço.
E com humildade eu reconheço que tenho um privilégio enorme de poder falar com
quase 100 mil mulheres através do meu trabalho no Instagram (talvez daqui algumas
gerações as mães precisem pesquisar o que é o Instagram), só Deus sabe quantas vidas,
quantas famílias já puderam e poderão me ouvir falar sobre a beleza de ser família. Tenho
consciência do tamanho da minha responsabilidade em estar sendo acompanhada por
tantas mulheres, e sempre me serve como grande motivação a necessidade de ajuda que
outras esposas e mães têm. Todavia, mesmo tendo consciência da minha
responsabilidade, sei também que tenho muito a melhorar e sei que estou aqui por um
propósito que é muito maior do que eu e do que eu posso oferecer.
As mulheres me buscam como um meio para aprender a serem felizes com seus filhos,
para entender melhor como se educa uma criança, querem saber sobre a rotina e o
casamento, e por mais que eu me esforce em escrever e esquematizar métodos, tudo se
resume a uma única coisa: “Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo
15, 12). O amor fez brotar nova vida em nosso ventre e em nossa alma, e por isso só o
amor é capaz de transformar uma tarefa tão árdua em um caminho de felicidade.
Assim, quando outras mães olham para a minha vida e se sentem mais felizes, elas não
estão aprendendo simplesmente a ter uma boa rotina, estão aprendendo a amar, porque é
isso que eu busco fazer todos os dias e é isso também que eu quis partilhar nestas brevespáginas. Não é possível amar sem servir e é frustrante demais servir sem amar.
Não há faculdade que ensine a ser mãe, mas há uma
pessoa que ensina o que é o amor,
e essa pessoa olha por nós o todo tempo incansavelmente. Em cada madrugada em
claro, ali está o Amor. Em cada dor de parto, ali também está o Amor e está a sofrer
conosco, em nenhum segundo nos esquece, porque já suou sangue por nós.
Que nenhuma mulher queira viver uma vida estéril, longe da doação e do cuidado com
o outro, que nenhuma de nós queira matar a maternidade que grita em nós desde que
ainda éramos crianças e recolhíamos flores pelas calçadas das ruas.
Sei que muito se fala sobre liberdade, uma liberdade onde não podemos depender de um
marido, nem perder tempo com filhos, mas mentiram para nós quando trataram a família
como algo que nos causa mal, que nos rouba a vida. Ter família é um belíssimo meio de
ser livre de verdade.
A mulher que é incapaz de cuidar de alguém com alegria não é livre, mas escrava de seu
egoísmo. Do mesmo modo, a esposa que não consegue sorrir para seu esposo não é livre
quando o maltrata, mas é refém do seu próprio mau humor, controlada pela sua falta de
caridade.
Só existe liberdade no fazer o bem, e a maternidade muito nos ajuda a sermos capazes de
fazer o bem pelo bem, sem esperar reconhecimento do outro. Já que, por um bom tempo,
o outro ao qual fazemos grande bem só pode nos dar um sorriso banguela.
Hoje estes pequenos ainda cabem nos meus braços, mas um dia serei eu a necessitar de
um colo para me despedir deste mundo e espero sinceramente que o pouco que faço hoje
seja suficiente para que se lembrem de mim com alegria, e não pesar. Que sintam
saudades destes nossos dias comuns dentro de casa, dias tão felizes que passamos juntos
em volta da mesa, que se lembrem da minha voz contando belas histórias, das minhas
canções desafinadas, que se lembrem do cheiro dos meus bolos dentro do forno, que se
lembrem também do quanto nós sorrimos juntos; que se lembrem do calor do meu
abraço, de como eu segurava o lápis junto de seus dedos tão pequenos, do timbre da
minha voz dizendo ao pé do ouvido que os amava e de como eu os arrumava para ir à
Santa Missa e penteava os seus cabelos. Que meus filhos reconheçam que eu busquei dar a
eles o amor que nos foi dado gratuitamente e desejem fazer o mesmo por seus filhos.
Eu não os tenho aqui comigo por acaso: cada um destes filhos veio ao mundo para que
eu tivesse a oportunidade de amar profundamente, para que eu pudesse deixar marcado
em suas vidas o sabor do amor que só poderão provar de fato no Céu. Fui encarregada de
ensinar a eles que essa vida é maravilhosa apesar de suas batalhas, mas que só encontra a
plena felicidade na cruz quem é capaz de encontrar a salvação que está no centro dela.
Eu sou mãe, e mãe é aquela que, trazendo vida ao mundo,
traz também a salvação para muitas outras vidas.
“Entretanto, a mulher será salva dando à luz filhos — se permanecer na fé, no amor e na
santidade, com bom senso” (1Tm 2, 15).
Tenhamos fé de que o nosso trabalho, por mais simples que seja, se feito com verdadeiro
amor jamais será em vão, jamais será esquecido. Que as mães encontrem em seus filhos o
amor que as levará a uma vida santa, digna de edificar homens, transformar o mundo e
povoar o Céu.
Finalizo este livro com os conselhos do meu confessor, e espero que gerem bons frutos
no coração de cada mulher que os encontrar.
A mãe está sacrificada em seu lar, como Cristo está sacrificado no Tabernáculo:
ninguém O vê de fora, mas é a sua presença que sustenta todo o resto.
Nem todo mundo vê as mães trabalhando em seus lares, dedicando-se para bem educar,
alimentar, vestir e acalentar seus pequenos. Também não sabem o quão árduo é suportar
os choros indecifráveis, seguindo dia após dia, com apenas poucas horas de sono.
Porém, mesmo realizando tantas tarefas, a mãe pode se sentir um tanto incapacitada,
pois fica sozinha, somente dentro de seu lar. E é preciso lembrá-la, portanto, de que é este
o seu dever. A mãe deve realizar a tarefa de mãe, não precisa conquistar o mundo. Quem
precisa dela agora são os seus filhos, neste momento este é o trabalho mais valioso que ela
pode fazer pelo bem do mundo.
A mãe que fica em casa, sacrificada, como Nosso Senhor Jesus Cristo, está doando sua
vida e por isso deve se alegrar imensamente. Ainda que ninguém veja seus esforços, Cristo
os reconhece e os ama.
Mãe, a maternidade é a sua missão. Abrace-a com grande amor e coragem! E se
perguntarem “o que faz o dia todo?”, responda que cria almas para o Céu, o mais
importante trabalho que se pode exercer neste momento.
Que todos os dias as mães possam dizer a exemplo daquele que mais amou: “Ninguém
tira a minha vida de mim, mas eu a dou por minha própria vontade. Tenho o direito de
dá-la e de tornar a recebê-la, pois foi isso o que o meu Pai me mandou fazer”. Doamos
hoje a nossa vida pela vida dos filhos porque um dia o Amor nos amou primeiro, e Ele nos
aguarda de braços abertos.
Os filhos são de Deus antes de serem nossos, por isso só seremos verdadeiramente
felizes sendo mães se lutarmos para devolvê-los a Ele, dando a Deus o que é de Deus:
o dom da vida.
	Introdução
	Ter um bom casamento para viver bem a maternidade
	É preciso entender Como a maternidade funciona
	É necessário encontrar o porquê de ser mãe
	Conclusão

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