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JOSÉ MATIAS-PEREIRA ADMINISTRAÇÃO CURSO DE PÚBLICA FOCO NAS INSTITUIÇÕES E AÇÕES GOVERNAMENTAIS 4a EDIÇÃO REVISTA E ATUALIZADA C A P Para alguns livros é disponibilizado Material Complementar e/ou de Apoio no site da editora. Verifique se há material disponível para este livro em atlas.com.br SÃO PAULO EDITORA ATLAS S.A. – 2014 J M-P F I A G C A P 4a E R A © 2007 by Editora Atlas S.A. 1. ed. 2008; 2. ed. 2009; 3. ed. 2010; 4. ed. 2014 Capa: Leonardo Hermano Projeto gráfico e composição: CriFer – Serviços em Textos Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Matias-Pereira, José Curso de Administração Pública : foco nas instituições e ações governamentais / José Matias-Pereira. – 4. ed. – São Paulo : Atlas, 2014. Bibliografia. ISBN 978-85-224-8326-6 ISBN 978-85-224-8327-3 (PDF) ISBN 978-85-224-8329-7 (ePub) 1. Administração Pública – Estudo e ensino I. Título. 08-00733 CDD-354.07 Índice para catálogo sistemático: 1. Administração Pública : Estudo e ensino 354.07 TODOS OS DIREITOS RESERVADOS – É proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio. A violação dos direitos de autor (Lei no 9.610/98) é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal. ABDR Editora Atlas S.A. Rua Conselheiro Nébias, 1384 Campos Elísios 01203 904 São Paulo SP 011 3357 9144 atlas.com.br Sumário Apresentação, xiii Estrutura do livro, xv Introdução, 1 Debate sobre Governo e Administração Pública, 1 Gestão Pública no Brasil, 3 Reforma e Modernização do Estado, 4 Papel do Estado no Mundo Contemporâneo, 5 Democracia, Cidadania e Demandas Sociais, 6 Modelo Gerencial com Foco no Cidadão, 7 Parte I – Compreensão dos Fundamentos da Ciência Política, Estado, Governo e Administração Pública, 9 1 Ciência política, Estado, governo e Administração Pública, 11 O Conceito Clássico e Moderno de Política, 11 Política e Estado em Aristóteles, 12 O Pensamento Político de Santo Tomás de Aquino, 13 Concepção da Formação do Estado Moderno em Maquiavel, 15 Fontes para o Estudo do Estado em Norberto Bobbio, 16 2 Teorias sobre a origem do Estado, 18 Formação do Estado Moderno, 20 Principais Pensadores do Estado Moderno, 22 Política e Estado em Nicolau Maquiavel (1469-1527), 22 Jean Bodin (1530-1596), 24 vi Curso de Administração Pública • Matias-Pereira Thomas Hobbes (1588-1679), 24 John Locke (1632-1704), 25 Immanuel Kant (1724-1804), 26 Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), 28 Benjamim Constant de Rebecque (1767-1830), 29 Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), 29 Karl Heinrich Marx (1818-1883), 30 Friedrich Engels (1820-1895), 30 3 Estado, nação e soberania, 35 Elementos Essenciais do Estado, 38 A Função do Estado-Nação e a Noção de Soberania, 39 4 Pluralismo e federalismo, 40 Federalismo, 41 O Modelo do Federalismo Norte-Americano, 42 Federalismo e Independência dos Estados Unidos, 43 Os Distintos Tipos de Federalismo, 44 A Crise dos Estados Federais, 44 Pluralismo, Federalismo e República no Brasil, 45 Configuração da Organização do Estado Brasileiro, 46 Teoria da Separação dos Poderes e Democracia, 47 Estudos Comparados entre o Federalismo Brasileiro e o Norte-Americano, 47 5 Ciência política, governo e Administração Pública, 49 Introdução, 49 O Pensamento Filosófico Aplicado à Convivência em Sociedade, 51 O Sistema Político Internacional, 51 O Funcionamento de seus Sistemas Políticos a Sociais, 52 Pesquisa Científica sobre o Funcionamento do Estado, 52 6 Origem e trajetória do modelo de Estado do bem-estar, 54 As Bases do Estado do Bem-Estar ou Welfare-State, 55 O Estado Corporativo, 58 Divisão de Responsabilidades: Estado, Mercado e Família, 58 A Concepção da Ideia do Estado do Bem-Estar, 59 O Estado de Proteção Social no Brasil, 59 A Crise do Estado do Bem-Estar, 60 7 Teoria da burocracia, 62 Introdução, 62 O Conceito de Poder na Visão de Max Weber, 63 O Modelo Burocrático de Max Weber, 64 Jandson Realce Sumário vii Principais Características do Modelo Burocrático de Weber, 65 Gestão Pública, 67 Vantagens da Burocracia, 67 Questões para Discussão, 70 Parte II – Governo, Governabilidade, Governança e Accountability, 73 8 Governo, Administração Pública e sociedade civil, 75 Introdução, 75 Conceitos de Eficiência, Eficácia e Efetividade, 76 Conceito de Administração Pública, 77 Conceito de Serviço Público, 78 Conceito de Estado Social, 78 Conceito da Sociedade Civil, 79 Direitos à Liberdade Individual, 80 O Papel do Estado na Realização dos Direitos Sociais, na Visão de Marshall, 82 9 Governabilidade, governança e accountability, 83 Introdução, 83 Prestação de Contas dos Resultados das Ações (Accountability), 85 Gestão Pública e Governança, 86 Referencial Teórico de Governança, 87 Governabilidade das Democracias, 87 Distintas Visões da Governança, 89 Governança Corporativa no Setor Público, 90 Princípios de Governança na Gestão Pública, 92 10 Cultura nas organizações públicas, 93 Questões para Discussão, 96 Parte III – Mudanças no Estado e na Administração Pública, 97 11 Reformas e transformações na Administração Pública, 99 Introdução, 99 A Reforma do Serviço Público Norte-Americano, 100 Principais Mudanças Ocorridas no Mundo – Período de 1860-2013, 102 12 A trajetória das reformas administrativas, modernização administrativa e reforma do Estado no Brasil pós-1930, 105 Governo Getúlio Vargas – Década de 1930, 105 O Estado Oligárquico, 106 Estado Interventor (1930-1956), 106 Período do Autoritarismo ou Ditadura Militar (1964-1985), 107 A Reforma Administrativa de 1967, 107 viii Curso de Administração Pública • Matias-Pereira Redemocratização e Institucionalização da Sociedade Civil (pós-1985), 108 Os Efeitos Negativos da Democratização na Administração Pública, 108 (Des)Reforma Administrativa do Governo Collor, 109 13 O esgotamento do modelo de intervenção estatal, 112 14 O debate da reforma da Administração Pública, 117 Introdução, 117 Reformas na Administração Pública: As Bases da Nova Gestão Pública, 118 A Adoção da Nova Administração Pública no Brasil, 119 Problemas e Contradições do NPM, 121 15 A reforma gerencial do Estado brasileiro, 123 Introdução, 123 O Novo Gerencialismo e o Processo de Redemocratização, 123 Substituição do Modelo Burocrático no Contexto da Reforma do Estado, 124 Reforma do Estado e Governança, 124 O Desafio da Construção da Esfera Pública, 124 16 Modelos de Administração Pública patrimonialista, burocrática e gerencial, 126 Introdução, 126 Administração Pública Patrimonialista, 127 Administração Pública Burocrática, 127 Diferenças entre a Administração Pública Burocrática e a Gerencial, 128 Redefinição do Papel do Estado e a Administração Pública Gerencial, 130 Forma de Atuação Descentralizada e Baseada no Controle por Resultados, 131 Características dos Modelos: Gerencial e Democrático-Participativo, 132 Críticas ao Modelo de Administração Pública Gerencial, 133 Questões para Discussão, 135 Parte IV – Modelos de Estado, Governo e Administração Pública, 137 17 Funções de governo e da Administração Pública, 139 Funções de Estado e Funções de Governo, 140 Políticas de Estado e Políticas de Governo, 141 18 Modelos de Estado, Governo e Administração Pública, 143 Introdução, 143 As Reformas do Estado no Mundo Contemporâneo, 144 Questões para Discussão, 147 Parte V – Interface entre Economia e Administração Pública, 149 19 Interface entre economia e Administração Pública, 151 Fundamentos Teóricos da Contratualização, 152 Sumário ix Contribuições da Teoria da Agência, 154 As Respostas da Teoria da Agência para o Alinhamento dos Interesses, 155 Contribuições da Nova Economia Institucional, 156 20 A relevância das instituições para o funcionamento da sociedade e daeconomia, 159 Introdução, 159 Abordagens do Institucionalismo Sociológico, 161 Evolução do Institucionalismo Econômico, 162 Pluralismo Institucional e Economia no Mundo Contemporâneo, 164 Questões para discussão, 166 Parte VI – Sistema de Defesa da Concorrência e Regulação Econômica. Criação e Atribuições das Agências Reguladoras no Brasil, 167 21 Tradição em defesa da concorrência nos países em desenvolvimento, 169 Política de Defesa da Concorrência, 169 Concorrência como Regra de Mercado, 171 O Papel da Regulação no Mundo Contemporâneo, 172 A Atividade de Defesa da Concorrência e Regulação Econômica no Brasil, 173 Enfoques Teóricos das Políticas de Defesa da Concorrência, 175 Instituições Econômicas e a Teoria da Nova Economia Institucional, 176 Economia e Prática Antitruste no Mundo, 177 Regulação Setorial, Defesa da Concorrência e Parâmetros Regulatórios do Estado, 177 Critérios de Análise dos Atos de Concentração, 178 O Novo Sistema Brasileiro de Defesa de Concorrência (SBDC), 181 Conceitos Básicos Relacionados à Defesa da Concorrência, 183 Conceitos Básicos na Área de Defesa da Concorrência, 183 22 Criação e atribuições das agências reguladoras no Brasil, 187 O Estado como Ente Regulador, 187 Aspectos Conceituais da Regulação, 188 Atividade de Regulação, 189 Aspectos Relevantes para a Criação das Agências Reguladoras, 192 O Programa Nacional de Desestatização e as Agências Reguladoras, 194 Questões para Discussão, 196 Parte VII – Fundamentos Constitucionais do Estado e de Controle da Administração Pública no Brasil, 197 23 Fundamentos constitucionais do Estado e da Administração Pública, 199 Introdução, 199 A República Federativa do Brasil, 199 x Curso de Administração Pública • Matias-Pereira Administração Pública, 200 Conceitos Jurídicos de Administração Pública, 202 Aspectos Relevantes do Princípio da Eficiência, 202 Probidade Administrativa, 203 24 Sistema de controle na Administração Pública, 204 Controle Social e Transparência no Brasil, 204 Transparência Informacional do Estado, 206 Controle como Instrumento da Democracia, 207 Fiscalização Contábil, Financeira e Orçamentária do Estado, 207 Controle das Finanças Públicas, 208 Mecanismos de Controle Administrativo, 209 As Comissões Parlamentares de Inquérito como Instrumento de Controle Social, 210 25 Organização do controle interno e externo na Administração Pública, 211 Controle Interno na Administração Pública, 211 Inovações e Mudanças no Controle Interno na Administração Pública no Brasil, 212 Competência e Jurisdição da Controladoria-Geral da União, 213 Portal da Transparência da CGU, 214 Aspectos Relevantes da Lei de Transparência, 214 Acesso à Informação no Brasil, 215 Páginas de Transparência Pública, 216 Programa de Fiscalização dos Municípios, 216 Controle Externo na Administração Pública, 217 Jurisdição do Tribunal de Contas da União, 218 Regime Diferenciado de Contratações, 219 Competência do Controle Externo, 219 Competência dos Tribunais de Contas, 220 Prestações de Contas, 221 Legislação Básica dos Órgãos de Controle, 222 Funções Básicas Exercidas pelo Controle, 223 Sujeitos do Controle, 223 Objetos do Controle, 224 26 Princípios do controle na Administração Pública, 225 Introdução, 225 Princípios de Controle da Administração Pública, 226 27 O poder de compra do Estado, 229 Governança e Ética na Administração Pública, 229 Regulamentação do Processo de Licitação Pública no Brasil, 230 Jandson Realce Jandson Realce Sumário xi O Processo Licitatório na Administração Pública, 231 As Normas Legais do Processo Licitatório, 232 Concorrência, 232 Tomada de preços, 232 Convite, 233 Concurso, 233 Leilão, 233 Pregão, 233 Pregão Eletrônico, 234 Utilização das Novas Tecnologias da Informação nos Negócios, 235 O Sistema de Compras da Administração Pública – Siasg/Comprasnet, 235 Disseminação das Compras Governamentais em Meio Eletrônico, 236 Sistema Licitações-e, 236 Experiência Internacional sobre Compras Públicas por Meio Eletrônico, 237 Questões para Discussão, 238 Parte VIII – Atividade Financeira do Estado, 239 28 Atividade financeira do Estado, 241 Conceitos de Finanças Públicas, 242 Finanças Públicas e a Realização das Necessidades Públicas, 244 Focos da Política Fiscal, 244 Teoria das Finanças Públicas, 245 A Existência de Bens Públicos, 246 A Existência de Monopólios Naturais, 246 As Externalidades, 246 Os Mercados Incompletos e a Ocorrência de Desemprego e Inflação, 246 As Razões para a Existência do Governo, 247 Os Objetivos da Política Fiscal e as Funções do Governo, 247 Instituições Financeiras, 247 Teoria da Tributação, 248 As Bases da Justiça Fiscal, 249 O Gasto Público, 250 Tipos de Finanças e Impostos, 250 Formas de Tributação, 250 Impostos em Cascata, 252 O Imposto sobre o Valor Adicionado e suas Vantagens, 252 A Existência de Dilemas (trade-offs), 252 29 Finanças públicas contemporâneas, 253 As Bases da Teoria Clássica, 253 xii Curso de Administração Pública • Matias-Pereira Contribuições de Adam Smith para as Finanças Públicas, 254 As Contribuições da Teoria Keynesiana, 255 Debate Recente sobre a Política Fiscal, 256 Transformação Recente das Finanças Públicas no Brasil, 258 30 Contabilidade pública e controle na Administração Pública, 259 Introdução, 259 Sistema de Controle na Administração Pública, 259 A Função e Objetivos da Contabilidade Pública ou Governamental, 260 Objeto da Contabilidade Pública, 261 Objetivos da Contabilidade Pública, 262 Contabilidade Aplicada à Administração Pública, 262 Evolução da Contabilidade Pública Brasileira, 263 Plano de Contas, 264 Operações Econômicas do Setor Público, 264 Quadro-Síntese da Contabilidade Pública, 265 Questões para Discussão, 267 Parte IX – Desafios e Perspectivas da Administração Pública Contemporânea, 269 31 Desafios e perspectivas da Administração Pública contemporânea, 271 Considerações Finais, 271 O Papel do Estado Brasileiro no Novo Cenário Mundial, 272 Função do Estado no Mundo Contemporâneo, 272 As Mudanças nas Relações entre a Administração Pública e os Usuários, 273 Medidas para Melhorar o Desempenho da Administração Pública, 273 Objetivos e Fundamentos da Reforma do Estado, 275 Construção de um Novo Paradigma de Gestão Pública, 275 Fragilidades, Deficiências e Perspectivas da Administração Pública no Brasil, 275 Referências, 277 Apresentação “Na Administração Pública não há preço de mercado para as realizações. Isto torna indispensável operar as repartições públicas segundo princípios inteiramente diferentes dos aplicados para o setor privado, que visa à obtenção do lucro.” (Dwight Waldo, 1953)1 Reiteramos, nesta quarta edição – revista e atualizada – que o propósito deste livro Curso de Administração Pública – apoiado numa visão teórica e prática – é contribuir para aprofundar o debate e a compreensão dos leitores sobre as questões centrais que envolvem a importância da modernização do Estado para elevar a sua capacidade de ofertar serviços públicos de qualidade à população. Assim, as discussões sobre a forma de tornar o Estado inteligente e a gestão pública competente permeiam esses debates, além de outros temas relevantes, como controle social e a transparência na Administração Pública no Brasil. Nesse sentido, temos como preocupação central buscar responder às seguintes perguntas: o Estado, por meio da Administração Pública, está estru- turado para responder com qualidade e tempestividade aos desafios do século XXI, em especial às crescentes demandas da sociedade brasileira? A boa gover- nança e a ética na Administração Pública contribuem para elevar o grau da ci- dadania e da democracia no Brasil? Observa-se que esse debate é frequentemente matizado ideologicamente. São exemplos as sistemáticas críticas de diversos segmentos, como a mídia, os empresários, entre outros, ao despreparo, à burocracia e à baixa qualidade dos serviços prestados pela Administração Pública no país. Considerandoa impor- 1 WALDO, D. (1913-2000). Ideas and issues in public administration: a book of readings. New York: McGraw-Hill, 1953. xiv Curso de Administração Pública • Matias-Pereira tância das atribuições da Administração Pública e a sua relevância para o de- senvolvimento socioeconômico-ambiental do país, entendemos que esse deba- te não deve ser orientado nessa direção. Valendo-se da abstração, o que nos obrigou a procurar estabelecer as rela- ções mais gerais dos processos estudados, o enfoque do debate foi direciona- do para as análises a respeito das relações entre Estado, governo e sociedade, que estão fortemente evidenciadas na política econômica de cunho neoliberal implantada no Brasil. Nele buscamos argumentar que tanto o papel do Esta- do como as políticas públicas adotadas devem priorizar os interesses dos cida- dãos, a partir da elevação da qualidade no nível da gestão e da transparência governamental. Esse esforço nos permite argumentar, ao final, que a constru- ção da cidadania e a consolidação da democracia no Brasil exigem um Estado inteligente e uma gestão pública competente, traduzidos na transparência e na qualidade dos serviços prestados à sociedade. Por ser um livro essencialmente bibliográfico, descritivo e dedutivo, bus- camos apresentar e descrever um conjunto de dados e informações e teorias relevantes para a compreensão dos assuntos nele tratados. Destaca-se, entre as teorias aqui abordadas, a teoria do Novo Serviço Público, desenvolvida por Denhardt e Denhardt (2003), que apontam novas alternativas para a Admi- nistração Pública, buscando fomentar a participação direta do cidadão. Ado- tamos, também, a visão de Arendt (2001), que resgata o conceito grego de polis,2 e a Teoria da Delimitação dos Sistemas Sociais, que foi desenvolvida por Ramos (1989), no intuito de corroborar o modelo do Novo Serviço Pú- blico. É importante, ainda, agradecer aos demais autores que aqui foram ci- tados, especialmente Maquiavel, Locke, Kant, Max, Weber, Wilson, Waldo, Amato, Przeworski, North, Rose-Ackerman, Habermas, Bobbio, entre outros, cujas teo rias, conceitos e reflexões foram fundamentais para elevar a qualidade deste livro. Os resultados dessas análises é que irão sustentar os argumentos e as conclusões nele contidas. 2 Veja, a esse respeito, ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 2001. Para Arendt, a pólis grega foi “uma espécie de anfiteatro onde a liberdade podia aparecer (p. 201)”. Estrutura do livro O livro está estruturado em nove partes – divididas em 31 capítulos –, além da introdução e das referências. Parte I – Compreensão dos Fundamentos da Ciência Política, Estado, Governo e Administração Pública; Parte II – Go- verno, Governabilidade, Governança e Accountability; Parte III – Mudanças no Estado e na Administração Pública; Parte IV – Modelos de Estado, Governo e Administração Pública; Parte V – Interface entre Economia e Administração Pública; Parte VI – Sistema de Defesa da Concorrência e Regulação Econômica. Criação e Atribuições das Agências Reguladoras no Brasil; Parte VII – Funda- mentos Constitucionais do Estado e de Controle da Administração Pública no Brasil; Parte VIII – Atividade Financeira do Estado; Parte IX – Desafios e Pers- pectivas da Administração Pública Contemporânea. Brasília – DF, setembro de 2013. José Matias-Pereira Introdução “No estudo da Administração Pública, o objetivo final é melhorar as práticas administrativas do governo, para, assim, melhor servir aos interesses públicos, aos ideais e às necessidades do povo.” (Pedro Muñoz Amato, 1954)1 Debate sobre Governo e aDministração Pública O Estado existe fundamentalmente para realizar o bem comum. Os teóri- cos que cuidam da análise desta finalidade do Estado desdobram-na em três vertentes: o bem-estar, a segurança e a justiça. A interdependência dos fins do Estado assume particular importância em relação à grande e última finalidade do Estado: a promoção do bem comum. O Estado, nesse sentido, enquanto for- ma de organização política por excelência da sociedade, pode ser aceito como o espaço natural de desenvolvimento do poder político. O tema abordado neste livro – Curso de Administração Pública – situa-se no campo da reflexão política que busca investigar a relação de causalidade entre o poder político, o poder econômico e o poder social, instâncias para- lelas de mando que, em geral, cristalizam-se em sínteses instáveis (MATIAS- -PEREIRA, 2012a).2 Nesse contexto, vamos abordar e debater alguns temas sensíveis no mundo contemporâneo, em especial os aspectos que envolvem as crescentes demandas dos cidadãos por serviços públicos de qualidade, transpa- rência e participação social, bem como as interfaces das questões socioeconô- mico-ambientais que estão afetas à Administração Pública. A complexidade e a amplitude do tema tratado neste livro exigem uma análise mais aprofundada 1 MUÑOZ AMATO, Pedro. Introducción a la administración pública: teoría general, planificación, presupuestos. México: Fondo de Cultura Económica, 1954. v. 1. 2 MATIAS-PEREIRA, José. Manual de gestão pública contemporânea. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2012a. 2 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira dos sistemas político, social e econômico, bem como das suas interações e dinâmicas. Nesse sentido, partimos do pressuposto de que esses sistemas inte ragem de forma permanente, e que nenhum deles funciona de forma independente, ou seja, as estruturas constitutivas de cada um interferem na forma de funcionamento dos demais. Os argumentos aqui debatidos estão baseados em diversas áreas do conhecimento, em especial na Ciência Polí- tica, Administração Pública, Economia, Sociologia e Direito. Assim, torna-se essencial abordar preliminarmente as questões mais rele- vantes sobre o assunto no campo da Ciência Política e da Administração Públi- ca, bem como ressaltar a relevância dos seus construtores. Busca-se destacar no rol desses importantes autores aqueles que abordaram nos seus estudos o tema Estado, como Platão, Aristóteles, Nicolau Maquiavel (1469-1527), Tho- mas Hobbes (1588-1679), Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e Karl Marx (1818-1883), entre outros. Observa-se que a existência de diferenças marcantes entre os objetivos e as estruturas administrativas nas Administrações Públicas de cada país é decorrente de regimes políticos distintos, formações históricas específicas e diferenças cultu- rais. Distinto da administração empresarial, na qual a postura prevalecente é de adotar modelos considerados universalmente válidos, o estudo da Administra- ção Pública surge, de certa maneira, com uma perspectiva comparada (MATIAS- -PEREIRA, 2006b). Desde o sistema de governo aos modelos de burocracia plena e permanente, culturas e sociedades diferentes propiciam alternativas e estraté- gias institucionais distintas de organização política e de ação pública. O Estado pode ser aceito como um locus no qual o cidadão exerce a cidada- nia. Dessa forma, todo e qualquer esforço de reforma deve ter como objetivos melhorar a qualidade da prestação do serviço público na perspectiva de quem o usa e possibilitar o aprendizado social de cidadania. Por sua vez, o objetivo principal da Administração Pública é a promoção da pessoa humana e do seu desenvolvimento integral em liberdade. Para isso, deve atuar de maneira efeti- va para viabilizar e garantir os direitos do cidadão, os quais estão consagrados na Constituição. Nesse contexto, deve ser ressaltada a importância do envolvi- mento do setor privado e das organizações do terceiro setor nessa tarefa. Para Sen (2000),3 a liberdade e a equidade são duas faces complementares da democracia e do mercado. As desigualdades acentuadas são um obstáculo à liberdade. Assim, argumenta que é difícil entender uma perspectiva de liber- dade que não tenha a equidade como elemento central. Se a liberdade for real- mente importante, argumenta aquele autor, não é correto reservá-la unicamentepara uns poucos eleitos. 3 SEN, Amartya. Development as freedom. New York: Alfred A. Knopf, 1999; SEN, Amartya. What difference can ethics make? Ethics and Development International Meeting. Washington: Inter- American Development Bank, 2000. Introdução 3 A partir das escolhas da sociedade quanto à configuração do Estado que se deseja, são direcionados os limites e as possibilidades da gestão pública, seu modelo, suas práticas e seus valores. Ao aparelhar a ação do Estado com garantia de direitos, oferta de serviços e distribuição de recursos, a gestão pública impac- ta de maneira significativa o cotidiano de grupos sociais e agentes econômicos. Por sua vez, as reformas, as reestruturações e os ajustes que ocorreram a partir da década de 1930 provocaram sensíveis mudanças na estrutura do apa- relho do Estado e, por consequência, na gestão pública. Gestão Pública no brasil A administração pública no Brasil, conforme assinala Bresser-Pereira (1998),4 passou por três grandes reformas na tentativa de reestruturar e mo- dernizar a máquina do Estado. A primeira, a Reforma Burocrática de 1936, ins- pirada no modelo descrito por Weber; a segunda foi sistematizada no Decreto- -lei nº 200, de 1967. Ambas foram idealizadas e implementadas em contextos de ditadura política e sem debates com a sociedade. A terceira, iniciada em 1995, foi a primeira a pensar o setor público do país em um contexto democrá- tico, com ênfase para o atendimento dos seus cidadãos, e com a consideração de que as instituições públicas devem ser eficientes e eficazes e o debate com a sociedade deve ser incrementado. Observa-se, em relação ao Brasil, que a decisão política adotada pelo gover- no Getúlio Vargas de estruturar o aparelho do Estado, com caráter autoritário e centralizador, e a implantação de uma burocracia nos moldes “weberianos” começa a ser viabilizada com a criação do Departamento de Administração do Setor Público (DASP), em 1936. Essas medidas tinham como objetivo, entre outros, a intenção de suprimir a administração patrimonialista, que até então prevalecia no país. No começo da década seguinte, teve início a formação do Estado empresário, com a criação da Companhia Siderúrgica Nacional. Entretan- to, após a queda de Getúlio Vargas, em 1945, novamente são retomadas as prá- ticas patrimonialistas, deteriorando de forma acentuada o aparelho do Estado. Decorridos quase três anos após a instalação do regime militar no Brasil (1964), o governo federal buscou dar maior efetividade à ação governamen- tal, com a introdução de valores gerenciais. Para alcançar os seus propósitos, editou o Decreto-lei no 200, de 1967.5 Esse diploma legal definiu novos ru- mos para a Administração Pública, por exemplo, autonomia de gestão, des- 4 BRESSER-PEREIRA, Luiz C. Uma reforma gerencial da administração pública no Brasil. Revista do Serviço Público. ENAP, ano 49, nº 1, jan./mar. 1998a. 5 MATIAS-PEREIRA, José. Governança pública e transparência no Brasil: evolução, dificuldades e perspectivas. RAM, p. 1-17, jul. 2013b. 4 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira centralização administrativa do aparelho do Estado, com a expansão da ad- ministração indireta, sobretudo por meio da criação de empresas estatais. Foi implantada, assim, a denominada “administração para o desenvolvimento”, conservando uma forte centralização política na União. Verifica-se o início da expansão e consolidação do Estado desenvolvimentista, do Estado empresá- rio-produtor no Brasil. A consequên cia dessas mudanças no aparelho do Esta- do é um sensível enfraquecimento da administração direta, deteriorando sua capacidade de formulação de políticas. Na década de 1980, foram realizadas no mundo profundas mudanças no papel do Governo e da Administração Pública. Deve-se ressaltar que, na maio- ria dos países que fizeram reformas, elas foram conduzidas pelo governo fe- deral. No caso dos países federativos, os Estados-membros também foram envolvidos. No Brasil, a pauta das mudanças no papel do Governo e da Ad- ministração Pública começa na segunda metade da década, com algumas tentativas incipientes de abertura de mercado, desregulamentação e privati- zação. Esse processo de reformas, que começa de maneira bastante lenta no país – governo Sarney –, ganha um excessivo dinamismo no governo Collor, no início dos anos 1990, com a abertura da economia brasileira, desregula- mentação e privatizações. Em seguida, é deflagrado o segundo estágio da ge- ração de reformas, que visaram à construção e à reconstrução das capacidades administrativa e institucional. É perceptível, no entanto, que essas reformas promovidas até então não foram benéficas para o país. As reformas, como a executada no governo Collor, ao invés de modernização, ocasionaram a desestruturação do aparelho do Es- tado. O esforço para alterar esse quadro tem início no primeiro governo Fer- nando Henrique (1995-1998), no qual se constata uma iniciativa – mesmo que incipiente – de reconstrução do Estado, com readequação de suas funções na expectativa de estabelecer as bases de um Estado regulador e promotor do desenvolvimento do país. Buscou-se implantar modelos organizacionais/ins- titucionais e introduzir uma cultura gerencial, associados aos distintos instru- mentos que fortalecessem valores democráticos, como a transparência, partici- pação e controle social. reforma e moDernização Do estaDo A literatura recente evidencia que as reformas que tratam da capacidade administrativa no mundo foram orientadas para criar instrumentos que visam à elevação do desempenho dos organismos públicos, para permitir a obtenção de resultados e a satisfação do cidadão, que passa a ser denominado cliente. Assim, o propósito da capacitação administrativa é o aumento da satisfação do cliente que utiliza os serviços públicos. A capacidade institucional busca identi- Introdução 5 ficar um incentivo que aumente os estímulos para a cooperação, a formulação e a implantação sustentada das decisões governamentais. Os debates sobre a reforma do Estado nos últimos anos estão contribuindo para elevar o nível de conscientização da sociedade organizada de que a mo- dernização e o fortalecimento da Administração Pública, especialmente em ter- mos de capital humano, infraestrutura e tecnologia, devem ser vistos como um processo permanente e necessário. Os seus resultados, mesmo que considera- dos frágeis, têm revelado que reforma do Estado e transparência são condições indispensáveis para que o Brasil possa continuar a progredir no processo de desenvolvimento socioeconômico e na consolidação da democracia. Ressalte- -se que a transparência do Estado se efetiva por meio do acesso do cidadão à informação governamental, o que torna mais democráticas as relações entre o Estado e sociedade civil, e contribui decisivamente para a consolidação da de- mocracia no país (MATIAS-PEREIRA, 2013b). A profunda transformação nas relações entre administração pública e seus usuários, para Pleguezuelos (2000), deve-se, em grande medida, à cri- se do atendimento ao cidadão. Usuários de serviços públicos se mostravam, recorrentemente, insatisfeitos com a qualidade do atendimento. Além disso, os cidadãos exigem, cada vez mais, a prestação de serviços de qualidade que consigam dar respostas às suas demandas crescentes. É pertinente ressaltar que a ideia de reformar o Estado precisa estar apoiada na defesa deste enquanto coisa pública, no qual o patrimônio públi- co deve ser de todos e para todos, atendendo às demandas dos cidadãos. A constituição desses princípios administrativos é orientadora essencial do de- senvolvimento e profissionalização da Administração Pública. PaPel Do estaDo no munDo contemPorâneo O cenário mundial tem sido afetado, nas últimas três décadas, por duas grandes tendências transformadoras: a consolidação dos mecanismos de mer- cado, no âmbito econômico, e a consolidação da democracia, no âmbito polí- tico. Assim, o mercado e a democracia são as bases sobreas quais estão se es- truturando as novas sociedades. A mudança funcional do papel do Estado, transformando-o em um ente ordenador da economia e garantidor dos processos de reprodução do capital, está bastante evidente. Observa Child (1993, p. 17): “a parte de la nueva filosofía política consiste en llevar los principios de la administración de la empresa privada a la gerencia del Estado y a la administración pública en general. Esto implica un cambio radical en la filosofía del Estado que ya no se concibe dentro de los paradigmas teó- 6 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira ricos convencionales... la teoría democrática del Estado, por el contrario proyecta una administración pública abierta a los cambios de la opinión y de las fuerzas políticas que compiten dentro del sistema electoral de la democracia política”. Mesmo com a tendência da Gestão Pública de se inspirar de forma cres- cente no modelo de governança privada, devemos ressaltar que nunca se deve perder a perspectiva de que o setor privado visa ao lucro, enquanto a Admi- nistração Pública busca realizar sua função social. Essa função social deve ser alcançada com a maior qualidade possível na sua prestação de serviços. Assim, não se pode mais ignorar as questões relacionadas à eficiência, eficácia e a efe- tividade, no que se refere à sua função social. Democracia, ciDaDania e DemanDas sociais A democracia em seu significado formal, conforme ensina Bobbio (2004), pode ser aceita como um conjunto de regras ou de procedimentos para a constituição de governos e decisões políticas, ou seja, mais do que uma de- terminada ideologia, é compatível com várias doutrinas de conteúdo ideoló- gico. Para o autor, o conceito de democracia substancial, por sua vez, ape- nas faz referência prevalentemente a certos conteúdos inspirados em ideais característicos da tradição do pensamento democrático, com relevo para o igualitarismo. Sustenta, por fim, que a democracia perfeita até agora não foi realizada em nenhuma parte do mundo, sendo utópica, portanto, deveria ser simultaneamente formal e substancial. Democracia, para Diniz (1998, v. 2, p. 52), é “forma de governo em que há participação dos cidadãos, influência popular no governo através da livre esco- lha de governantes pelo voto direto. É o sistema que procura igualar as liberda- des públicas e implantar o regime de representação política popular, é o Estado político em que a soberania pertence à totalidade dos cidadãos”. O processo de aprofundamento da democracia tem estimulado o surgi- mento de demandas sociais crescentes. À medida que se elevam os graus de cidadania e de educação, uma crescente parte da população acostuma-se com padrões mais altos de serviço no setor privado, e torna-se cada vez menos in- clinada a aceitar respostas inflexíveis e burocráticas dos serviços públicos. As- sim, tanto a qualidade do serviço quanto o aumento da produtividade têm sido metas amplamente defendidas. O atendimento dessas demandas, diante de um quadro de restrições fiscais, remete os gestores públicos para uma única alternativa: melhorar o desempenho da gestão pública e, dessa forma, elevar a qualidade e a produtividade do setor público. Fica implícito, portanto, que, independentemente da quantidade de recur- Introdução 7 sos alocados ao setor público, ele tem o dever de aplicá-los de maneira adequa- da. Nesse sentido, o Estado necessita desenvolver competência na formulação, implantação e prestação de contas dos recursos orientados para as políticas públicas sob sua responsabilidade.6 moDelo Gerencial com foco no ciDaDão Observa-se que a partir do final da década de 1970 começam a ocorrer mudanças nos paradigmas da Administração Pública, com a instituição de um novo modelo – denominado gerencial – que tinha como preocupação central a ênfase na eficiência e no controle dos resultados. Esse novo modelo veio pro- mover a substituição do modelo orientado para o controle das atividades-meio das organizações burocráticas. A orientação para o cidadão permitiu o surgimento de inúmeros instru- mentos que visam à simplificação dos procedimentos na administração públi- ca. Destacam Osborne e Gaebler (1994, p. 210), que um sistema dirigido ao cliente deve ser “descomplicado” para o cliente, que não deve ser confrontado com um fabuloso labirinto de programas fragmentados, [...] e uma infinidade de formulários para preencher. O sistema deve ser transparente para que os clientes sejam capazes de transitar por entre as muitas opções disponíveis, sem necessariamente ter que transitar pelas burocracias que se ocultam por trás de cada uma delas. O modelo gerencial, em que pese suas diferentes peculiaridades, prioriza de modo consistente os esforços para privilegiar o atendimento ao cidadão. Essa preocupação de ter o “foco no cidadão” como síntese de princípios pode ser delineada da seguinte forma (SOARES, 2002, p. 47): • Velocidade e agilidade de resposta do prestador de serviços. • Utilização de sistemas flexíveis de atendimento ao cidadão, com maiores condições de atendimento segmentado ou personalizado, em substitui- ção à prestação de serviços padronizada. • Busca da excelência dos serviços com o estabelecimento de padrões e metas de qualidade de atendimento. • Manutenção de canais de comunicação com os usuários. • Avaliação da qualidade dos serviços prestados. 6 VAZ, J. C. Limites e possibilidades do uso de portais municipais para promoção da cidadania: a cons- trução de um modelo de análise e avaliação. 2003. Tese (Doutorado) – São Paulo: EAESP/FGV. 8 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira Nesse mesmo sentido, sustenta Coelho (2001, p. 131)7 que, entre as ten- dências emergentes nas organizações públicas que caracterizam um novo mo- delo de organização do trabalho, destacam-se as seguintes: • formas mais flexíveis e menos regulamentadas de emprego público; • maior flexibilidade gerencial; • maior compromisso com desempenho e resultados; • elevados padrões de conduta, comportamento e ética profissional; • oferecimento de oportunidades a minorias e portadores de deficiências; • associação de remuneração a desempenho; • capacitação de gerentes para liderança de equipes; • postura ativa em relação a parcerias e novos negócios. Deve-se ressaltar que a administração gerencial vincula a sua atuação ao in- teresse da coletividade, sob o enfoque do cidadão-cliente, ou cidadão-usuário. Assim, na administração gerencial, o foco deixa de ser a própria administração pública para tornar-se a satisfação do cidadão. Nesse contexto, o Estado deve as- segurar, no interesse desse cidadão-usuário, a maior eficiência e qualidade dos serviços públicos, e não apenas verificar o cumprimento da legislação em vigor. A decisão de focar a sua atenção no cidadão apresenta-se, entre os prin- cípios do modelo gerencial, como um princípio central de reorganização do Estado. Além da reestruturação na prestação de serviços, busca redirecionar e mudar as prioridades sobre todo o funcionamento do aparelho estatal, com base nas demandas entendidas como prioritárias dos cidadãos. Assim, os governantes buscam, na atualidade, desenvolver ações e medi- das para melhorar o desempenho da Administração Pública nos três níveis de governo: União, Estados e Municípios. Entre essas ações e providências, des- tacam-se aquelas orientadas para a priorização na gestão por resultados, mo- nitoramento de prioridades de governo e programas estratégicos, e contratua- lização de resultados. Isso reflete a intenção dos governos de responderem de forma adequada às demandas dos cidadãos. 7 COELHO, Espartaco M. Governo eletrônico e seus impactos na estrutura e na força de trabalho das organizações públicas. Revista do Serviço Público, ano 52, nº 2, abr./jun. 2001. Parte I Compreensão dos Fundamentos da Ciência Política, Estado, Governo e Administração Pública 1 Ciência política, Estado, governo e Administração Pública “A Administração é a partepredominante do governo; é o governo em ação; é o executivo, atuante, o aspecto mais proeminente do governo.” (Woodrow Wilson, 1887)1 o conceito clássico e moDerno De Política A expressão política é derivada do adjetivo originado de polis – politikós –, que significa tudo o que se refere à cidade e, por decorrência, o que é urbano, civil, público, inclusive sociável e social. O termo política foi usado durante séculos para designar principalmente obras dedicadas ao estudo daquela esfera de atividades humanas, que se referem de algum modo às atividades do Estado. No período mo- derno, o termo perdeu seu significado original e foi substituído, pouco a pouco, por outras expressões. Assim, passou a ser identificado como “Ciência do Estado”, “Doutrina do Estado”, “Ciência Política”, “Filosofia Política”, entre outros. Dessa forma, passou a ser utilizado para identificar atividades ou conjunto de atividades que, de alguma forma, têm como ponto de referência a polis, ou seja, o Estado.2 Ciência política, conforme assinala Azambuja (2003), é o estudo da natu- reza, dos fundamentos, do exercício, dos objetivos e dos efeitos do poder na sociedade. Ciência política, para De Cicco e Gonzaga (2012), é o estudo de 1 WILSON, W. The study of administration. Political Science Quarterly, p. 197-222, jun. 1887. 2 MATIAS-PEREIRA, J. Manual de administración pública. e-Book. São Paulo: Atlas, 2013. 12 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira teo rias e casos práticos da política, bem como a análise e a descrição dos siste- mas políticos e seu comportamento. Consiste no estudo do governo do Estado, buscando analisar a realidade social e histórica, bem como seu funcionamento. Política e estaDo em aristóteles O homem é classificado, na zoologia de Aristóteles, como um animal social por natureza (Política, 1253a, Livro I, Capítulo I, § 9), que desenvolve suas po- tencialidades na vida em sociedade, organizada adequadamente para seu bem- -estar. A meta da política é descobrir primeiro a maneira de viver que leva à fe- licidade humana e, depois, à forma de governo e às instituições sociais capazes de garantir aquele modo de viver. Nesse sentido, sustenta Aristóteles (2004, p. 101): “Em todas as ciências e artes o fim é um bem, e o maior dos bens e bem no mais alto grau se acha principalmente na ciência toda-poderosa; esta ciên- cia é a política, e o bem em política é a justiça, ou seja, o interesse comum...” (Política, 1283a, Livro III, Capítulo VII). Aristóteles, nos capítulos iniciais de Ética a Nicômacos, aplica o termo po- lítica a um assunto único – a ciência da felicidade humana – subdividido em duas partes: a primeira é a ética e a segunda é a política propriamente dita. As- sim, a política aristotélica é essencialmente unida à moral, porque o fim último do Estado é a virtude, isto é, a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. O Estado é um organismo moral, condição e com- plemento da atividade moral individual, e fundamento primeiro da suprema atividade contemplativa. A política, contudo, é distinta da moral, porquanto esta tem como objetivo o indivíduo e aquela, a coletividade. Sustenta aquele pensador que todos os homens pensam, por isso que a justiça é uma espécie de igualdade, e até certo ponto eles estão de acordo, de modo geral, com as distinções de ordem filosófica estabelecidas por nós a propósito dos princípios éticos. Para Aristóteles, a ética é a doutrina moral individual. A política é a dou- trina moral social. O Estado é o ente que está acima do indivíduo, uma vez que a coletividade prevalece sobre o indivíduo e o bem comum é superior ao bem particular. É no Estado que se realiza a satisfação de todas as necessidades, pois o homem, sendo naturalmente animal social, político, não pode realizar a sua perfeição sem a sociedade do Estado. Alternativamente, e adotando-se uma perspectiva lógico-dedutiva ao invés de histórica, é possível afirmar que o Estado é o resultado político-institucio- nal de um contrato social por meio do qual os homens cedem uma parte de sua liberdade a esse Estado para que este possa manter a ordem ou garantir os direitos de propriedade e a execução dos contratos. De acordo com essa visão contratualista, o Estado não é o produto histórico da evolução e complexifica- ção da sociedade, mas a consequência lógica da necessidade de ordem. Ciência política, Estado, governo e Administração Pública 13 As duas hipóteses são claramente complementares. E, em qualquer uma delas, o Estado é uma estrutura política, um poder organizado que permite à classe economicamente dominante tornar-se também politicamente dirigen- te e, assim, garantir para si a apropriação do excedente. São seus elementos constitutivos: (a) um governo formado por membros da elite política, os quais tendem a ser recrutados com a classe dominante; (b) uma burocracia ou tecno- burocracia pública, ou seja, um corpo de funcionários hierarquicamente orga- nizados, que se ocupa da administração; e (c) uma força policial e militar, que se destina não apenas a defender o país contra o inimigo externo, mas também a assegurar a obediência das leis, mantendo, dessa forma, a ordem interna. No entanto, como propõe Weber, essa organização política detém o monopólio da violência institucionalizada, ou seja, tem o poder de estabelecer um sistema le- gal e tributário, e de instituir uma moeda nacional. Dessa maneira, além do go- verno, da burocracia e da força pública, que constituem o aparelho do Estado, o Estado é adicionalmente constituído (d) por um ordenamento jurídico impo- sitivo, que extravasa o aparelho do Estado e se exerce sobre toda a sociedade. O Estado, dessa forma, se apresenta como uma organização burocrática que se diferencia das demais organizações por ser a única que dispõe do de- nominado poder extroverso – de um poder político que ultrapassa os seus pró- prios limites organizacionais. Observa-se que as organizações burocráticas pos- suem normas que as regulam internamente, enquanto o Estado é estruturado por um imenso arcabouço institucional que regula toda a sociedade. O Estado – entendido como uma organização burocrática – é regulado pelo direito admi- nistrativo e dividido em três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário). O poder do Estado se exerce sobre um território e uma população, os quais não são propriamente elementos constitutivos do Estado, mas do Estado-nação. Na verdade, são os objetos sobre os quais se exerce a soberania estatal, ao mesmo tempo em que a população transformada em povo, ou seja, conjunto dos cida- dãos, assume o papel de sujeito do próprio Estado. Em síntese, o Estado é a única organização que detém o poder extroverso. Possui a capacidade de legislar e tributar sobre a população de um determinado território. A sociedade civil e o Estado, por sua vez, constituem o Estado-nação. o Pensamento Político De santo tomás De aquino No debate sobre a historicidade das ideias e do pensamento político me- dieval, é importante buscar compreender a relação que existe entre o poder, o Estado, as formas de governo e a legitimidade das leis com a cultura clerical e com a valoração extremada das forças religiosas. As especificidades de conteú- do religioso-eclesiástico da filosofia política medieval é que permitem distin- gui-las do pensamento político antigo (naturalístico, panteísta e cívico) e do 14 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira moderno (secularizado, antropocêntrico e racionalista). Nesse contexto, ocor- reram dois significativos momentos culturais que contribuíram para influen- ciar as ideias políticas: a Patrística e a Escolástica, correntes de pensamento que integram a Filosofia e a Teologia. A população cristã da Europa Ocidental, ao longo do período da Idade Média,3 teve como referência, em termos de uma concepção comum de mun- do, as formas de saber e de verdade expostas no Novo Testamento, nas Escri- turas Sagradas e nos ensinamentos dos Padres da Igreja.A filosofia política e as demais áreas da cultura e do conhecimento científico eram controladas pela ótica da teologia oficial e das doutrinas da Igreja Romana. A herança da anti- guidade clássica, entretanto, não havia sido relegada ao esquecimento, visto que serviu de fonte de inspiração para a obra dos grandes pensadores cristãos. Coube a esses estudiosos a tarefa de adaptar para a teologia cristã a obra de Platão, Aristóteles, Sêneca, Cícero, entre outros. No campo do pensamento político, destacam-se os estudos do teólogo e filósofo Santo Tomás de Aquino. Coube a ele trazer e adaptar para o Cristianis- mo as formulações aristotélicas da natureza política do homem, discorrendo com profundidade sobre inúmeras teorias, por exemplo, a teoria do poder; do Estado e do bem comum; a teoria da natureza das leis; a teoria da resistência à injustiça; e a teoria das formas de governo. As principais contribuições políticas de Santo Tomás de Aquino estão regis- tradas na Suma teológica e no ensaio inacabado “Do Reino ou do Governo dos Príncipes ao Rei de Chipre”. De sua extensa obra destaca-se a Suma teológica (Summa theologica) (SOUZA NETO, 1997), na qual está expressa a sistemati- cidade de uma ciência filosófica e teológica, fonte inspiradora de grande parte da Idade Média cristã e do início dos tempos modernos. Estão expostas, com acuidade e rigor metodológico, matérias como lógica, metafísica, antropologia, ética, teologia e política (em que explicita, com profundidade de conhecimen- to, questões sobre a natureza das leis). A partir de premissas aristotélicas, Santo Tomás, nos seus estudos de “Suma Teológica”, constrói uma doutrina teológica do poder e do Estado. Primeiro, compreende que a natureza humana tem fins terrenos e necessita de uma au- toridade social. Se o poder, em sua essência, tem uma origem divina, é captado e se realiza por meio da própria natureza do homem, capaz de seu exercício e sua aplicação. Certamente, tanto o poder temporal quanto o poder espiritual foram “instituídos por Deus. Deus é o criador da natureza humana e, como o Estado e a Sociedade são coisas naturalmente necessárias, Deus é também o 3 O período medieval na Europa tem início com a queda do Império Romano, no século V, e termina com a tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453. Nesse intervalo de tempo, ocorreram fatos significativos para a civilização ocidental, como o advento do Cristianismo, a substituição do Império Romano pela Igreja Católica e a institucionalização do feudalismo (sociedade fragmentada e senhorial em um quadro de ordens, de hierarquias e de relações pessoais) (MATIAS-PEREIRA, 2010a). Ciência política, Estado, governo e Administração Pública 15 autor e a fonte do poder do Estado. [...] o Estado não é uma necessidade do pecado original (AQUINO, 2002; GRABMANN, 1945, p. 140-143)”.4 Enquan- to o homem necessita do Estado, este deve servir a comunidade dos cidadãos, promovendo a moralidade e o bem-estar públicos, efetivando sua plena missão de incentivar uma vida verdadeiramente boa e virtuosa, e criando as condi- ções satisfatórias do bem comum. Por consequência, os fins do Estado são fins morais (o bem-estar de toda a comunidade), ao passo que os cidadãos estão comprometidos com um fim temporal (representado pela autoridade estatal) e espiritual (corporificado pela Igreja, que atua como instância maior). O poder do Estado não fica subordinado de forma absoluta ao poder da Igreja (como defendia Santo Agostinho), mas, sim, de modo relativo; a autoridade da Igreja é superior em matéria espiritual. Apoiado nos estudos de Aristóteles, dos estoicos e de Santo Agostinho, coube a Santo Tomás de Aquino elaborar uma consistente filosofia político- -jurídica da natureza das leis.5 Registre-se que a importância de sua obra está na fundamentação racionalista da legalidade, bem como na sistematicida- de e na distinção das leis em geral (lei eterna, lei natural, lei humana e lei divina). Para Santo Tomás, a razão adquire uma primazia sobre a vontade, impondo-se o intelectualismo helênico sobre o voluntarismo da metafísica paulino-agustiniana. Nesse sentido, o conceito de lei é formulado no âmbito do intelecto, da razão. concePção Da formação Do estaDo moDerno em maquiavel A concepção da teoria moderna é concebida por Maquiavel (1999).6 O autor elaborou sua teoria, baseado na realidade da sua época, e dessa forma formou a teoria de como se constitui o Estado moderno. Coube a ele separar o estudo da política separada da moral e da religião. O importante, na sua visão, não era idealizar um Estado ideal, mas discernir sobre um estado que já existia. Nos seus estudos seminais defende o estudo das coisas como o que se pode e é necessário fazer, e não o que se deveria fazer. O Estado, para Maquiavel (1999), por intermédio do príncipe, possuía ra- zões que respaldavam suas ações, de uma maneira totalmente diferente daque- 4 AQUINO, St. Tomás de. Suma teológica. São Paulo: Loyola, 2002; e GRABMANN, Martín. Santo To- más de Aquino. 2. ed. Barcelona: Labor, 1945. 5 A esse respeito, veja a tradução e organização da Suma Teológica (na parte relacionada às leis) e Do Reino ou do Governo dos Príncipes ao Rei de Chipre feita por Francisco Benjamin de Souza Neto. In: Escritos Políticos de Santo Tomás de Aquino. Petrópolis: Vozes, 1997. 6 MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999. 16 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira las que justificam as ações humanas, baseadas em princípios cristãos éticos e morais, notadamente no mundo Ocidental. Coube a Maquiavel, a partir da con- cepção de que “os fins justificam os meios”, separar a política da moral, da ética, do direito e da teologia, criando, assim, as bases da ciência política moderna. Registre-se que Maquiavel é reconhecido como o primeiro cientista político empírico, por seus métodos de estudo, atendo-se à realidade para construir sua teoria, razão pela qual ocupa um lugar de destaque no rol dos grandes autores do campo de conhecimento das ciências sociais, em especial, na ciência política. fontes Para o estuDo Do estaDo em norberto bobbio Bobbio (1987), ao abordar o tema “filosofia política moderna e suas con- cepções de Estado e sociedade”, assinala que podem ser agrupadas em duas grandes vertentes, o modelo jusnaturalista e o modelo hegelo-marxiano, que se contrapõem um ao outro. O jusnaturalismo abarca de Hobbes a Rousseau, passando por Locke, Spinoza e Kant; o modelo hegelo-marxiano, por sua vez, como já acena o próprio nome, abarca duas perspectivas que, mesmo sendo a segunda uma inversão da primeira, guardam entre si a identidade estrutural. O que caracteriza o modelo jusnaturalista é, antes de tudo, o seu objetivo de desenvolver uma teoria racional do Estado; se o modelo tradicional de con- cepção política que remonta a Aristóteles explicava o Estado como uma cons- trução histórica, partindo de círculos menores (família, aldeia) para círculos cada vez mais abrangentes (a Pólis) que culminam no Estado, que é a forma mais perfeita de organização, os jusnaturalistas vão se dedicar a uma recons- trução racional, buscando hipóteses de trabalho que permitam a percepção do sentido do Estado (BOBBIO, 1987).7 A partir da indagação de quando nasceu o Estado, Bobbio (2007, p. 73),8 apoiado em Adam Ferguson (1723-1816),9 assinala: “O Estado, entendido como ordenamento político de uma comunidade, nasce da dissolução da comunidade primitiva fundada sobre laços de parentesco e da formação de comunidades mais amplas derivadas da 7 BOBBIO, Norberto. “O Modelo Hobbesiano” e “O Modelo Aristotélico” In: BOBBIO, Norberto; BO- VERO, Michelangelo. Sociedade e estado na filosofia política moderna. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 34-48. 8 BOBBIO, Norberto. Estado, governo, sociedade: para uma teoria geral da política. 14. ed. São Paulo : Paz e Terra, 2007. Veja, também, BOBBIO, Norberto. O significado da política. In: BOBBIO, Norberto et al.Curso de introdução à ciência política. 2. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1984. Unidade 1, bloco 1, p. 5-19. 9 FERGUSON, A. An essay on the history of civil society. Cambridge: Cambridge University Press, 1995. Ciência política, Estado, governo e Administração Pública 17 união de vários grupos familiares por razões de sobrevivência interna (o sustento) e externas (a defesa). O nascimento do estado assinala o início da era moderna, segundo esta mais antiga e mais comum interpretação, o nascimento do Estado representa o ponto de passagem da idade primi- tiva, gradativamente diferenciada em selvagem e bárbara, à sociedade civil, onde civil está ao mesmo tempo para cidadão e civilizado. Também para Engels o Estado nasce da dissolução da sociedade gentílica fundada sobre o vínculo familiar e o nascimento do estado assinala a passagem do estado de barbárie à civilização, mas distingue-se pela interpretação exclusivamente econômica que dá a este evento, para ele, na comuni- dade primitiva vigora o regime de propriedade coletiva dos bens, com o nascimento da propriedade individual, nasce a divisão do trabalho, e com esta, a divisão da sociedade em classes, a dos proprietários e a dos que nada têm. Com a divisão da sociedade em classes nasce o poder po- lítico. O Estado, cuja função é manter o domínio de uma classe sobre a outra, recorrendo inclusive a força.” As duas fontes principais para o estudo do Estado, ensina Bobbio (2007, p. 53-60), são a história das instituições políticas e a história das doutrinas políticas. Nesse sentido, assinala que a primeira fonte para um estudo das instituições autônomo com respeito às doutrinas é fornecida pelos historia- dores: Maquiavel reconstrói a história e o ordenamento das instituições da república romana comentando Lívio; Vico, para reconstruir a história civil das nações partindo do estado bestial (stato ferino) e chegando aos grandes Estados do seu tempo. Ao estudo da história, destaca o autor, segue o estudo das leis, que regulam as relações entre governantes e governados, o conjunto das normas que cons- tituem o direito público (uma categoria ela própria doutrinária): as primeiras histórias das instituições foram histórias do direito, escritas por juristas que com frequência tiveram um envolvimento pratico direto nos negócios de Estado. Mais do que em seu desenvolvimento histórico, sustenta o autor, o Estado é estudado em si mesmo, em suas estruturas, funções, elementos constituti- vos, mecanismos, órgãos etc., como um sistema complexo considerado em si mesmo e nas relações com os demais sistemas contíguos. Convencionalmente, hoje, o imenso campo de investigação está dividido entre duas disciplinas até didaticamente distintas: a filosofia política e a ciência política. 2 Teorias sobre a origem do Estado “O Estado moderno, desde o seu surgimento, apresenta dois elementos que diferem dos Estados que existiram no passado: o primeiro é a autonomia, na qual se verifica a plena soberania do Estado; e o segundo é que o Estado se torna uma organização distinta da sociedade civil, embora seja expressão desta.” (José Matias-Pereira, 2010a) “República é um reto governo de vários lares e do que lhes é comum, com poder soberano.” Jean Bodin (1530-1596). Les six livres de la République (1593) O Estado pode ser aceito como um fenômeno histórico. Sob a ótica histó- rica torna-se possível aprofundar a compreensão sobre a sua evolução ao lon- go do tempo. Antes do surgimento do Estado moderno havia quatro formas de Estado: a sociedade nômada, cuja organização era muito primitiva; o Estado- -cidade (ou cidade-Estado), que surge com a Grécia Antiga, cuja sociedade era bastante sofisticada; o império burocrático, que foi adotado na China; e o Esta- do feudal, que a partir dos excedentes agrícolas criou as condições básicas para acelerar o dinamismo de mercado. A humanidade, conforme assinala Dantas (2008, p. 55), conheceu outras formas de se governar, como, por exemplo, nas cidades gregas, nos impérios antigos, entre outras. Para o autor, o Estado seria um conceito histórico concre- to surgido no século XVI, acompanhado da noção de soberania. Teorias sobre a origem do Estado 19 Diversos autores, como, por exemplo, Bobbio (2003),1 Azambuja (2001)2 e Matias-Pereira (2010a), por ângulos distintos, identificam como as principais teorias da origem do Estado as seguintes: de origem familiar; de origem con- tratual; e da força. Registre-se que a teoria de origem familiar é a mais antiga, e tem como referência a fundamentação bíblica, baseada no desenvolvimento e na ampliação da família; a teoria da origem contratual sustenta que o Estado foi criado a partir de uma convenção entre os membros da sociedade humana: um contrato social; e, por fim, a teoria da origem da força, violenta, ou seja, o que origina o Estado é a violência dos mais fortes. A Ciência Política tem como base o Estado moderno. O termo Estado foi empregado pela primeira vez por Maquiavel (1999) – numa concepção próxi- ma ao Estado moderno –, que o define como a sociedade política organizada, o que exige uma autoridade própria e de regras definidas para permitir a convi- vência de seus membros. Pode-se afirmar, nesse sentido, que o pensamento po- lítico de Maquiavel foi o responsável pelo rompimento com o tradicionalismo e, dessa forma, seculariza o Estado. Assim, ao tornar-se laico, o Estado assume a independência estatal em relação à religião. Com vista a permitir uma melhor compreensão do assunto, apresentamos a seguir o quadro-síntese, com as principais teorias sobre a origem do Estado. Quadro 2.1 Síntese das principais teorias sobre a origem do Estado. Principais teorias sobre a origem do Estado • Origem familiar: • Dialética: o Estado nasceu da força, quando uma pessoa ou grupo controlou os demais (poucos submeteram muitos). O Estado surge com a luta de classe. Para Oppenheimer, a norma básica do Estado é poder. Isto é, visto pelo lado de sua origem: violência transformada em poder (Franz Oppenheimer (1864-1943), System der Soziologie. Vol. II Der Staat. Stuttgart, 1964). • Teoria evolucionária ou da origem familiar: o Estado desenvolveu-se naturalmente (evolução do bando) a partir da união de laços de parentesco, onde o mais forte ou mais experiente detinha o controle do poder (Numa-Denys Fustel de Coulanges (1830- 1889). A cidade antiga. São Paulo: Edameris, 1961). • Teoria do direito divino: na Europa, entre os séculos XV e XVIII. O Estado foi criado por Deus, e Deus tem dado o poder divino de governar aos reis. Veja a esse respeito: despotismo esclarecido, absolutismo moderno, teocracia, imperador. 1 BOBBIO, Norberto. Estado, governo e sociedade. 10. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003. 2 AZAMBUJA, Darcy. Teoria geral do estado. 41. ed. São Paulo: Globo, 2001. 20 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira • Teoria do contrato social: coube aos filósofos, John Locke, Thomas Hobbes e Jean- -Jacques Rousseau (séculos XVII e XVIII), que desenvolveram a teoria do contrato social. Nessa concepção, o Estado nasce do contrato social, evoluindo do “estado de natureza” para o “Estado democrático”. • Teoria da origem patrimonial: teoria desenvolvida por Karl Marx e Friedrich Engels, relacionada à origem econômica: proteção da propriedade privada e regulamentação de relações patrimoniais. Para os autores, o surgimento do poder político e do Estado é decorrente da dominação econômica do homem pelo homem. O Estado vem a ser uma ordem coativa, instrumento de dominação de uma classe sobre outra. Para os autores, todos os fenômenos históricos são produto das relações econômicas entre os homens. Veja o Quadro 2.2 – que trata da escola do socialismo científico. Fonte: Matias-Pereira (2012a), com adaptações. Torna-se relevante, na busca de facilitar a compreensão sobre as teorias da origem do Estado, destacar duas explicações clássicas sobre o tema: i. A primeira está relacionada às teoriasnaturalistas ou da origem natu- ral do Estado – Aristóteles, Cícero, Santo Tomás de Aquino. O homem, enquanto ser social, por sua própria natureza, necessita, para se rea- lizar, viver em sociedade. Assim, o Estado aparece como uma necessi- dade humana fundamental. ii. A segunda explicação está vinculada às teorias voluntaristas, con- tratualistas ou da origem voluntária do Estado. O Estado não se for- ma de uma maneira natural, mas porque os indivíduos voluntaria- mente o desejam. É, portanto, produto de um acordo de vontades entre os indivíduos. formação Do estaDo moDerno O Estado moderno, unitário e dotado de um poder próprio, começa a nas- cer na segunda metade do século XV, na França, Inglaterra e Espanha, depois é adotado por diversos outros países europeus e, muito mais tarde, pela Itália. Assim, somente a partir da formação dos Estados modernos é que se forma uma reflexão sobre o Estado. É oportuno lembrar que a crise do sistema feudal, no período final da Ida- de Média, contribuiu para a formação das monarquias nacionais e para a con- solidação da autoridade do rei. Dessa maneira, no espaço da suserania feu- dal – apoiada na relação senhor-vassalo –, o Estado moderno desenvolveu a noção de soberania pela qual o soberano (o governante) tinha o direito de Teorias sobre a origem do Estado 21 fazer valer suas decisões perante os súditos (os governados) que viviam no território do Estado. Observa-se que o Estado moderno utilizou inúmeros instrumentos e meios para facilitar o controle político da monarquia, por exemplo: • Burocracia administrativa: corpo de funcionários que, cumprindo or- dens do rei, desempenhavam as tarefas da Administração Pública. Os cargos elevados da administração eram ocupados pela nobreza pala- ciana e pela alta burguesia, as quais compravam títulos nobiliárquicos. • Força militar: forças armadas (Exército, Marinha, Polícia) permanen- tes, para assegurar a ordem pública e a autoridade do governo. • Leis e justiça unificadas: legislações nacionais e uma justiça pública atuante no território do Estado. • Sistema tributário: sistema de tributos (impostos, taxas etc.) regula- res e obrigatórios para sustentar as despesas do governo e patrocinar a Administração Pública. • Idioma nacional: língua oficial do Estado, que transmitia as origens, as tradições e os costumes da nação. No intuito de criar o sentido de iden- tificação entre os membros da sociedade, também valorizava a cultura de cada povo. Em síntese, o Estado Moderno é resultado de uma evolução que teve início há mais de três séculos. A fase mais antiga é a Monarquia; a segunda fase do Es- tado Moderno é o Estado Liberal, criado em decorrência das Revoluções Liberais na França e na Inglaterra; a terceira fase do Estado Moderno, que surge no final do século XIX, com a crise do Estado Liberal, que não consegue mais responder às demandas sociais – fase em que surgem as ideologias de Direita (Fascismo) e de Esquerda (Comunismo); na quarta fase surge o Estado Democrático Liberal, em função dos reflexos da crise econômica e social ocorrida em 1929, que muda a forma de atuação do Estado e amplia a democracia para a sociedade como um todo (veja a esse respeito os estudos de John Maynard Keynes). Na Europa, como resultado da crise de 1929 e da Segunda Guerra Mundial, aprofunda-se o Estado-providência (MATIAS-PEREIRA, 2012b). O surgimento de novos Estados, na atualidade, ocorre de três formas dis- tintas: guerra, fracionamento e união. O processo de criação de novos Estados no mundo atual tem como base, entre outros, os interesses econômicos e as identidades culturais. O Estado moderno, desde o seu surgimento, apresenta dois elementos que diferem dos Estados que existiram no passado: o primeiro é a autonomia, na qual se verifica a plena soberania do Estado (que não permite que sua autorida- 22 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira de dependa de qualquer outra autoridade); e o segundo é que o Estado se torna uma organização distinta da sociedade civil, embora seja expressão desta. PrinciPais PensaDores Do estaDo moDerno Podemos identificar duas importantes correntes que estudam o Estado: a histórico-indutiva e a lógico-dedutiva. A primeira corrente, histórico-indutiva, tem origem em Aristóteles e é continuada por Santo Tomás de Aquino, Vico, Hegel, Marx e Engels, e os filósofos pragmáticos norte-americanos. A segunda corrente, lógico-dedutiva, está baseada no contratualismo fundado por Hob- bes, continuada pelos jusnaturalistas até Rousseau e Kant. Registre-se que o pensamento neoliberal contemporâneo, apoiado na escola econômica neoclás- sica (escola lógico-dedutiva), adota uma perspectiva a-histórica. Feitas essas considerações, apresentamos, a seguir, uma síntese dos princi- pais autores que trataram do Estado moderno. Nicolau Maquiavel (1469-1527) Jean Bodin (1530-1596) Thomas Hobbes (1588-1679) John Locke (1632-1704) Emmanuel Kant (1724-1804) Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) Benjamim Constant de Rebecque (1767-1830) Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) Karl Heinrich Marx (1818-1883) Fonte: Adaptada de Matias-Pereira (2010a). Figura 2.1 Principais pensadores do Estado moderno. Política e estaDo em nicolau maquiavel (1469-1527) Maquiavel (1999) representa uma referência na elaboração da moderna concepção de política. É aceito pela maioria dos teóricos das Ciências Sociais como o pai da Ciência Política moderna. Enquanto a política antiga e a medie- val procuravam descrever o bom governo, ditando as regras do governante Teorias sobre a origem do Estado 23 ideal, Maquiavel verifica como os governantes realmente agem. Na sua obra mais conhecida, O príncipe (1513), estão refletidas as condições políticas da época em que foi escrito. Podemos identificar na obra de Maquiavel algumas questões essenciais, como a reforma política, o livre exame dos fatos históricos, o ataque às tra- dições medievais e, especialmente, a instituição do êxito como única medida do poder do príncipe, que tratava da ruptura do poder temporal com o poder espiritual. Para o autor, o príncipe deve ser capaz de compreender o jogo po- lítico efetivo nas suas circunstâncias concretas e de identificar as forças do conflito a fim de agir com eficácia. Para que essa atuação não seja inútil, é necessário admitir que os valores morais que regulam as condutas individuais não se aplicam na ação política (MAQUIAVEL, 1999). A recusa da prevalência dos valores morais na ação política sinaliza um novo conceito de ordem, im- pensável na filosofia política medieval. Assim, a política requer a lógica da for- ça, bem como se torna impossível governar sem fazer uso da violência. Nesse sentido, Maquiavel é o responsável pela autonomia do campo da Ciência Políti- ca, que se desprende das preocupações da filosofia e da política normativa dos gregos, desligando-se também da moral cristã. Maquiavel (1999) elaborou sua teoria a partir de reflexões sobre a realida- de da sua época, e formulou a teoria de como se constitui o Estado moderno. Ele foi o primeiro pensador a realizar o estudo da política separada da moral e da religião. Para ele, o importante não era pensar um Estado ideal, e sim dis- cernir um Estado que já existia. Por isso, defende o estudo das questões que envolvem a política e a condução do Estado moderno como o que se pode e é necessário fazer, e não o que se deveria fazer. A política, segundo Maquiavel (1999, p. 80),3 deve considerar que a na- tureza dos homens é imutável. Não se deve esperar gratidão por parte dos ho- mens, por exemplo, pois eles são ingratos por natureza. O príncipe que espe- rar gratidão por parte dos súditos será derrotado. Afirma o autor: “Os homens têm menos escrúpulo de ofender quem faz amar do que quem faz temer. Pois o amor depende de uma vinculação moral que os homens, sendo malvados, rom- pem; mas o temor é mantido por um medo de castigo que não nos abandona nunca.” Por esse motivo, “o Estado moderno deve-se fundarno terror”. Maquiavel não se ocupa de moral, ele trata de política, estuda suas leis específicas e começa a fundamentar a Ciência Política. Nesse sentido, ele funda uma nova moral. Essa nova moral é a moral mundana, que se forma a partir dos relacionamentos dos homens, ou seja, a moral do cidadão que constrói o Estado. 3 MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 1999. Capítulo XVII, p. 80. 24 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira Jean boDin (1530-1596) Bodin (1951, 1986, 2011) é autor de inúmeros estudos, entre os quais, o Método para a fácil compreensão da história (1566) e Os seis livros da República (1576). Primeiro pensador a fazer uma reflexão sobre o Estado moderno, teo- rizou sua autonomia e soberania, assumindo que o Estado é constituído essen- cialmente do poder, ou seja, nem o território nem o povo representam tanto o Estado quanto o poder. Para ele, é da soberania que depende toda a estrutura do Estado, o qual é, portanto, o poder absoluto, a coesão de todos os elemen- tos da sociedade. Bodin discorria sobre um Estado que já existia, o da França. É pertinente ressaltar que as ideias de Bodin (1951) a respeito das for- mas de constituição estão delineadas no Capítulo VI do Methodus ad facilem historiarum cognitionem (1566), que trata das constituições das repúblicas. No citado capítulo, Bodin (1951, p. 350) tem como objetivo principal promo- ver uma ampla revisão das definições aristotélicas para cidadão, república, soberania e magistratura. thomas hobbes (1588-1679) A concepção da teoria do Estado de Hobbes (1998) está apoiada na se- guinte visão: os homens em seu estado natural vivem como animais, jogando- -se uns contra os outros pelo desejo de poder, riquezas e propriedades. Contudo, se continuassem a viver dessa forma, eles tenderiam a se autodestruir. É notó- ria, portanto, a necessidade de se estabelecer um acordo, um contrato, para se protegerem. O contrato teria como propósito impor limites às atitudes egoístas do homem, e impediria que eles vivessem em constante guerra. De acordo com Hobbes, os pactos, os tratados e os contratos, sem o poder de impor punição, são apenas palavras sem força. Por isso, para garantir tal contrato dever-se-ia criar um Estado absoluto, com poderes absolutos, duríssimo em seu poder. Hobbes (1993, 1994, 1998) argumenta em seus estudos que o estado da natureza caracterizava-se pela desordem e pela injustiça permanente. Isso so- mente poderia ser ultrapassado quando a sociedade humana tivesse um mí- nimo de organização do ponto de vista político. Ao Estado – cujo poder de- veria ser ilimitado – caberia o papel de traduzir essa organização e garantir a estabilidade e a segurança na vida individual. Para que isso fosse possível, os indivíduos deveriam alienar definitivamente em favor do Estado o poder que originariamente detinham enquanto membros da sociedade natural. Essas con- cessões seriam em benefício próprio do indivíduo, pois em um Estado forte es- taria concentrado o segredo da segurança individual. Nesse sentido, por meio de um contrato hipoteticamente estabelecido, que viabilizaria a transição do estado de natureza para o estado de sociedade, são definidas as bases teóricas Teorias sobre a origem do Estado 25 que irão sustentar os Estados absolutistas dos séculos XVII e XVIII, os quais fo- ram os precursores dos regimes totalitários modernos. Desse modo, sustenta Hobbes (1993, p. 10): “Seguindo, portanto, este método, ponho em primeiro lugar como um princípio conhecido de todos por experiência, não havendo ninguém que o negue, a saber, que os homens são por natureza de tal feitio que, se não forem coagidos por medo de algum poder comum, vivendo sempre descon- fiados uns dos outros, temendo-se reciprocamente: terão decerto o direito de prevenir-se cada qual com as próprias forças, mas terão também neces- sariamente a vontade para isso.” Em outras palavras, o estado de natureza é uma questão prejudicial ao ho- mem, porque na medida em que os homens estão relacionados uns com os ou- tros, em uma condição de medo, guerra de todos contra todos, a razão não opera como reguladora. Os homens são, portanto, inimigos uns dos outros e, de acordo com essas condições naturais, não conseguirão criar o equilíbrio necessário para as relações sociais, o que seria, desse ponto de vista, um estágio infantil da hu- manidade. Justifica-se, então, a necessidade de um poder regulador e absoluto. Assim, para Hobbes (1993, p. 11), a liberdade do homem em seu estado de natureza é prejudicial, fazendo dele um destruidor da sua vida e dos outros integrantes da sociedade, ao passo que o Estado absoluto é preservador da vida humana. Nesse contexto, faz as seguintes afirmações: “Vemos como todas as cidades, embora em paz com as vizinhas, preser- vam seus limites como deveres e guarnições militares, e sua população com muralhas, portões e sentinelas. Para que isso, se nada temessem dos vizinhos? Vemos também como nas próprias cidades, onde há leis e penas estabelecidas contra os maus, os cidadãos não andam sem alguma arma para sua defesa, nem vão dormir sem antes trancar as portas contra os concidadãos ou sem fechar portas e gavetas contra os domésticos.” O Estado, para Hobbes, se apresentava como senhor absoluto, cabendo aos cidadãos ou súditos a obediência sem questionamentos, pois este funcionava como uma ordem absoluta e controladora, com o objetivo de tirar os homens da guerra de todos contra todos. John locke (1632-1704) Sustenta Locke (1998) que o nascimento do Estado é um ato de liberdade de decisão e princípio de sobrevivência e preservação. As necessidades de cada 26 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira indivíduo devem, portanto, estar associadas à sua relação com os outros indi- víduos, constituindo-se, assim, a sociedade civil e política. Nesse sentido, Locke (1998, p. 495) procura e almeja “unir-se em socieda- de com outros que já se encontram reunidos ou projetam unir-se para a mútua conservação de suas vidas, liberdades e bens”, aos quais ele atribui o termo ge- nérico propriedade. A existência do Estado resulta também de um contrato que permitiria su- perar o estado de natureza que se caracterizava por uma completa liberdade e igualdade entre todos os homens, fonte de conflitos quando tivessem que cum- prir a lei natural. Sendo todos iguais, tenderiam a interpretar e aplicar a lei natural segundo as suas conveniências. Por meio do contrato, cada indivíduo transferia para o Estado o poder de aplicar a lei e o direito natural, punindo as infrações e tendo como observância o maior respeito pela liberdade individual. É nesse cenário que Locke surge como precursor do liberalismo e da doutrina da limitação do poder para salvaguardar os direitos individuais do homem. O homem em seu estado natural é plenamente livre, mas sente a necessida- de de limitar a sua própria liberdade, a fim de garantir a sua propriedade. Assim, os homens se juntam em sociedades políticas para conservarem suas proprieda- des, pois no seu estado natural estas não são garantidas. É necessário, portanto, que se constitua um Estado capaz de assegurar essa propriedade. De acordo com o entendimento da ideia do surgimento de um contrato so- cial, argumenta Locke (1998) que esse contrato não gera um Estado absoluto, uma vez que poderia ser desfeito como qualquer outro contrato e que o Estado não pode tirar de ninguém o poder supremo sobre sua propriedade. Observa-se também que Locke (1998) busca estabelecer a separação das esferas da sociedade: a política e a civil, que obedecem a normas e leis dife- rentes. Nesse sentido, todos os direitos de propriedade são exercidos na so- ciedade civil e o Estado não deve interferir, mas garantir o livre exercício da propriedade. Verifica-se dessa perspectiva uma estreita relação entre proprie- dade e liberdade. immanuel kant (1724-1804) A base da filosofia moral e política kantiana (inserida no contexto do idea- lismo alemão)apoia-se na afirmação da ideia de liberdade. Para Kant (2005), a consciência humana se apresentava como fator determinante na construção de mundo, visto que o mundo é percebido por mecanismos mentais a que o submete o observador. Nesse sentido, o observador tem um papel ativo ao es- tabelecer, por meio da razão, com base nas suas impressões sensoriais, as leis da natureza. Assim, o conhecimento da verdadeira natureza das coisas está Teorias sobre a origem do Estado 27 oculto aos homens, que são incapazes de conhecer a realidade que é revelada aos seus sentidos. Os estudos que tratam da filosofia moral e política de Kant estão contidos em três obras: Fundamentação da metafísica dos costumes (1785), Crítica da ra- zão prática (1788) e Metafísica dos costumes (1798). É nesta última obra que está formulada a maior parcela das suas teorias políticas e do direito. O seu entendimento de Estado também está presente em A paz perpétua (1795), na qual busca fundamentar um sistema capaz de encerrar o estado de guerra per- manente entre os Estados. Deve-se destacar, ainda, o estudo denominado Ideia de uma história universal (1784), no qual procura demonstrar por meio da his- tória a evolução do homem para o melhor. Observa-se, no debate sobre os principais elementos do idealismo político kantiano, quando da transição por parte da humanidade de um estado de na- tureza para um estado de direito civil, e a sua ascensão a um estado de direito cosmopolita de paz, a importância da construção de estruturas jurídicas. Nesse sentido, sustenta Kant (1996, p. 32): “O estado de natureza, portanto, é um estado de ausência de direito (sta- tus justitia vacuus): quando há um litígio (jus controversum), nenhum juiz competente pode dar força de direito à sentença que obriga a entrar num estado jurídico [...]. Se as leis sobre o que é de cada um prescrevem no Estado a mesma coisa que na sociedade, é só no Estado que as leis têm condições de ser realizadas.” Para Kant (2005), somente por meio de estruturas jurídicas institucionais é possível assegurar a paz, ou seja, o estado de paz se instaura por meio do di- reito e a lei sobrepõe-se à soberania do povo. Kant (1996, p. 89) define o direito público como um sistema legal de ca- ráter geral estabelecido para um povo ou multiplicidade de povos por meio de uma vontade unificadora representada em uma constituição a fim de estabele- cer a justiça. Por sua vez, o Estado é a totalidade de indivíduos sob uma condi- ção civil e legal em relação aos membros dessa totalidade. O modo pelo qual um povo sai do estado de natureza e forma um Estado é denominado por Kant de contrato originário. Cada indivíduo, por meio desse contrato, dispõe-se a abrir mão de sua liberdade externa, selvagem e irrestrita para se tornar parte integrante do Estado. No Estado, pode então gozar plena- mente de sua liberdade natural ao condicioná-la a leis criadas pela sua própria vontade (KANT, 1996, p. 93). Observa-se, no que se refere ao direito, que a filosofia kantiana é fortemen- te marcada pelo idealismo. Verifica-se que o termo direito é aceito com sentido valorativo. Ao formular a sua concepção do direito e, em seguida, do Estado, Kant não tem a preocupação em explicitar os fenômenos tais como ocorrem na 28 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira realidade. A sua visão está direcionada para estabelecer a teoria pura do direi- to, apoiada em conceitos a priori da razão. A doutrina do direito é definida como o conjunto das leis que podem ser dadas externamente. Assim, a distinção de justo e injusto é possível apenas por meio da razão, na qual se baseará o direito positivo. O direito apresenta três características essenciais (KANT, 1996, p. 24): i. Deve dizer respeito somente às relações práticas externas entre as pessoas, na medida em que as ações de um podem influenciar as ações de outro. ii. O direito se refere somente às relações entre as vontades dos indiví- duos, não sendo considerada jurídica a relação na qual uma vontade encontre um desejo, como em atos de beneficência e crueldade. iii. Nessa relação entre vontades, não podem ser consideradas as maté- rias destas, os fins a que se propõem, sendo relevante somente a for- ma, contanto que a escolha seja livre. Jean-Jacques rousseau (1712-1778) Argumenta Jean-Jacques Rousseau, no seu Do contrato social (1983), que o homem era naturalmente bom. Ao fundamentar a teoria do bom selvagem, que representava a situação do homem no estado da natureza, ilustrava a con- dição humana primitiva, sustentando que a responsabilidade pelo que de mal existisse no homem deveria, pois, ser atribuída à própria sociedade. Nesse sen- tido, o Estado surge para dirimir os conflitos sociais por meio de um contrato social, no qual os indivíduos se dispõem a alienar os seus direitos e liberdades em favor do Estado. Tal contrato é livremente estabelecido e a vontade do Es- tado equivaleria sempre à vontade dos indivíduos. Assim, para Rousseau (1983) a desobediência ao Estado deveria ser entendi da como a desobediência à generalidade da sociedade. Partia-se do entendimento de que cada indivíduo estava obrigado a ser livre. O homem só pode ser livre se for igual e, portanto, assim que surgir uma desigualdade entre os homens acaba-se a liberdade. O único fundamento da liberdade é a igualda- de; não há liberdade onde não existir igualdade. Segundo Rousseau (1983), os homens não podem renunciar a dois bens essenciais de sua condição natural: a liberdade e a igualdade. Eles devem cons- tituir-se em sociedade, que também surge de um contrato. Por sua vez, o povo nunca pode perder a soberania; por isso, não deve criar um Estado distinto ou separado de si mesmo. O único órgão soberano é a assembleia e é nesta que se expressa a soberania. Dessa maneira, deixa de existir a separação dos três Teorias sobre a origem do Estado 29 poderes que Montesquieu tinha fixado no início do século XVIII. Ele nega a distinção entre os poderes, visando afirmar, sobretudo, o poder da assembleia. benJamim constant De rebecque (1767-1830) Constant (2005) tem como principal preocupação nas suas ideias a ques- tão da separação entre Estado e sociedade civil. Busca distinguir a liberdade dos antigos e a liberdade do homem moderno. Esta está no direito de se sub- meter apenas à lei e nunca à vontade arbitrária de um ou mais indivíduos; de expressar sua própria opinião, exercer seu trabalho, dispor de seu trabalho etc. É, finalmente, o direito de exercer sua influência sobre a administração do go- verno, ou seja, é grande na esfera privada e limitada na esfera pública. GeorG Wilhelm frieDrich heGel (1770-1831) O tema da liberdade surge nos estudos de Hegel (1973, 1993, 2003)4 como o núcleo de um sistema conceptual. Assim, o pensamento hegeliano se apresenta como a principal fonte do pensar das teorias cujo princípio ou fun- damento tenha como referência a liberdade. No debate entre Estado e sociedade civil, formulado pelos pensadores do século XVIII, Hegel (1993) coloca o Estado como fundamento da sociedade civil e da família. Isso quer dizer que não há sociedade civil se não existir um Esta- do que a construa, que a componha e que integre suas partes; não existe povo se não existir o Estado, pois é o Estado que funda o povo, e não o contrário. É o oposto da concepção democrática, segundo a qual a soberania é do povo, que a exprime no Estado, mas o fundamento dessa soberania fica sempre no povo. Para Hegel (2003), o Estado funda o povo e a soberania é do Estado; portanto, a sociedade civil é incorporada pelo Estado e de certa forma aniquila-se neste. O Estado foi teorizado por Hegel como realização unificadora da Razão que ultrapassa a conflitualidade existente na sociedade civil. Em face do caráter irre- conciliável dos interesses particulares, o Estado deve surgir como relação objetiva e necessária. Assim, para Hegel (1973, p. 250-251), o Estado “é a realização em ato da ideia moral objetiva, o espíritocomo vontade substancial revelada, clara para si mesma, que se conhece e se pensa, e realiza o que sabe e porque sabe”. A sociedade civil, na concepção de Hegel, surge como uma sociedade de antagonismos. É descrita como um universo de indivíduos autônomos que es- tabelecem relações com outros indivíduos independentes, com base no princí- pio da utilidade e dos interesses econômicos. 4 HEGEL, G. W. Friedrich. Principes de la philosophie du droit. Paris: Gallimard, 1973. 30 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira Nesse sentido, argumenta Hegel (1973, p. 206) que, na sociedade civil, os indivíduos “são pessoas privadas que têm como fim o seu próprio interesse”. A pessoa concreta, mista de apetite natural e de arbítrio, é um dos seus princípios. Hegel, na busca de negar a multiplicação das patologias resultantes da nature- za egoísta dos indivíduos, designadamente a multiplicação dos desejos, a desi- gualdade e a miséria, tratará de enfatizar as estratégias que lhes permitem lutar contra a arbitrariedade e o particularismo que estão presentes na sociedade civil. karl heinrich marx (1818-1883) Marx faz a crítica do Estado burguês e, por conseguinte, do liberalismo. Para ele, o comunismo que foi instaurado com a Revolução Francesa era utópi- co, pois se deu apenas a igualdade jurídica, e para alcançar a igualdade efetiva era necessária a revolução econômico-social. Essa igualdade pregada na Re- volução Francesa interessava apenas ao setor economicamente dominante, a burguesia. A igualdade jurídica, sem a revolução econômico-social, era apenas aparente; escondia e consolidava as desigualdades reais. Ele chegou à conclu- são de que as relações jurídicas não podem ser compreendidas em si, pois suas raízes estão nas relações materiais de existência. A sociedade civil é entendida como o conjunto das relações econômicas, as quais explicam o surgimento do Estado, seu caráter e natureza de leis. Em seu prefácio de 1859, Marx define a correlação existente entre o de- senvolvimento das relações econômicas, o Estado e as ideologias, de maneira bem límpida: “O conjunto dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, isto é, a base real sobre a qual levanta-se uma su- perestrutura jurídica e política, à qual correspondem formas determinadas da consciência social (p. 17).” Com isso, ele permite fundamentar uma teoria científica do Estado. A socie- dade civil, ou seja, as relações econômicas, é inserida no quadro de um Estado determinado, na medida em que este garanta aquelas relações econômicas. Na verdade, não é o Estado que determina a estrutura econômica, e sim o contrário. frieDrich enGels (1820-1895) Coube a Engels (2000),5 partindo de uma perspectiva histórica do estudo de Morgan, denominado “Ancient society”, publicado em 1877,6 definir as três 5 ENGELS, F. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. 10. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1985. 6 MORGAN, Lewis H. A sociedade primitiva. Lisboa: Presença, 1976. Teorias sobre a origem do Estado 31 principais formas do surgimento do Estado, tendo como ponto inicial a disso- lução das tribos e clãs. Em Atenas, o Estado nasceu diretamente dos antago- nismos de classe; em Roma, forma-se um Estado de cidadãos, em que se con- fundem aristocracia e plebe. Em ambos os casos, a classe dominada é reduzida à escravidão. Finalmente, entre os germanos, o Estado surge a partir das con- quistas de territórios estrangeiros. A origem da família, da propriedade privada e do Estado, de Friedrich Engels A obra A origem da família, da propriedade privada e do Estado, de Friedrich Engels (1820-1895), foi publicada em 1884. Nela se aborda a formação da sociedade moderna calcada na propriedade privada, na produção, no comércio e no poder do Estado. A origem da família também é discutida nesta obra, visto que, para Engels, foi com o declínio de uma estrutura familiar primitiva – organizada em grupos de interesses comuns, vivendo em uma propriedade comum a todos, sem o comércio e o acúmulo de riquezas – que a sociedade moderna se formou. O trabalho de Engels tem como base as pesquisas e as publicações do cientista norte-americano e historiador da sociedade primitiva Lewis Henry Morgan (1818-1881). Fonte: Adaptado de Matias-Pereira (2006a). É pertinente ressaltar que Engels deixou de examinar em seus estudos um quarto caso, entendido como mais importante que os anteriores: o Estado ou o modo de produção asiático que se constituiu na antiguidade em torno dos grandes rios, nas sociedades também chamadas hidráulicas. Esse tema foi ana- lisado por Karl Marx (Grundrisse) como parte de sua análise sobre as formações sociais pré-capitalistas. Evidencia-se nesse estudo de Marx que o Estado surge da dissolução da comunidade primitiva e da divisão da sociedade em classes. Assinala Engels (1985, p. 193-194), no seu livro A origem da família, da pro- priedade privada e do Estado, que o Estado está a serviço da classe dominante: “Como o Estado nasceu da necessidade de conter o antagonismo das clas- ses, e como, ao mesmo tempo, nasceu em meio ao conflito delas, é, por regra geral, o Estado da classe mais poderosa, da classe economicamente dominante, classe que, por intermédio dele, se converte também em classe politicamente dominante e adquire novos meios para a repressão e explo- ração da classe oprimida [...] o moderno Estado representativo é o ins- trumento de que se serve o capital para explorar o trabalho assalariado.” Para Engels (2000, p. 326-327), o Estado não é de forma alguma 32 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira “um poder que se impôs à sociedade de fora para dentro; tampouco é a ‘realidade da ideia moral’, nem ‘a imagem e a realidade da razão’ como afirma Hegel. É, antes, um produto da sociedade quando esta chega a determinado grau de desenvolvimento; é a confissão de que essa socie- dade se enredou numa irremediável contradição com ela própria e está dividida por antagonismos irreconciliáveis que não consegue conjurar. Mas para que esses antagonismos, essas classes com interesses econô- micos colidentes não se devorem e não consumam a sociedade em uma luta estéril, faz-se necessário um poder colocado acima da sociedade, chamado a amortecer o choque e a mantê-lo dentro dos limites da ‘or- dem’. Este poder, nascido da sociedade, mas posto acima dela, e dela se distanciando cada vez mais, é o Estado”. Engels (2000) resume a origem do Estado e, ao mesmo tempo, o conceitua a partir de um ponto de vista histórico: trata-se de um poder, ou seja, de uma es- trutura organizacional e política que emerge da progressiva complexificação da sociedade e da sua divisão em classes destinada a manter a ordem dentro da so- ciedade, e, portanto, a manter o sistema de classes vigente. Em outras palavras, o Estado é a organização que garante os direitos de propriedade e os contratos, sem os quais nenhuma sociedade civilizada pode funcionar. Para Engels (2000, p. 231), para haver Estado é necessário que este seja civilizado. Civilização é: “o estágio de desenvolvimento da sociedade em que a divisão do trabalho, a troca entre indivíduos do resultante, e a produção mercantil – que compre- ende uma a outra – atingem o seu pleno desenvolvimento e ocasionam uma revolução em toda a sociedade anterior, ou seja, é o conjunto de caracteres próprios da vida social, política, econômica e cultural de um Estado”. Nesse sentido, o autor sustenta que, para atingir a civilização, é necessária: “a criação de leis internas para organizar a vida social, buscando a or- dem. Contudo, toda a produção social ainda é regulada, não segundo o plano elaborado coletivamente, ou seja, não de acordo com a forma mais benéfica para sociedade e de acordo com a vontade desta, mas por leis ce- gas, que atuam com a força dos elementos, em últimas instâncias nas tem- pestades dos períodos de crise comercial. A sociedade por meio de impulsos e paixões buscou melhores condições devida, sendo este a principal força motriz da civilização” (ENGELS, 2000, p. 231). A elaboração de Engels vai além da questão do Estado, uma vez que mos- tra a conexão histórica entre família, propriedade e Estado, identificando assim Teorias sobre a origem do Estado 33 a origem deste último. Ele afirma que a sociedade não é a soma das famílias que a constituem. A formação da sociedade e a da família são dois aspectos intrinsecamente relacionados, pois a sociedade organiza as relações entre os sexos para sua própria vida e sobrevivência, sobretudo visando a suas necessi- dades econômicas. Evidentemente, é um absurdo pensar que a família exista antes da sociedade. A sociedade originária, a tribo, segundo ele, ainda não conhecia a proprie- dade privada, a subordinação da mulher, e a descendência é por linha materna. A propriedade privada surge da caça, quando nasce a criação de gado. A caça era uma tarefa do homem, o qual se torna, então, o proprietário do rebanho. Com a propriedade privada, afirma-se a descendência por linha paterna, ou seja, a herança passa de pai para filho. Verifica-se também o início da subordi- nação da mulher. Nesse momento, nasce a sociedade patriarcal, em que o pai é a autoridade suprema. Quadro 2.2 Síntese sobre o marxismo. Socialismo científico Coube a Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) desenvolverem – no período de 1848 a 1867 – a teoria política do socialismo científico ou, simplesmente, marxismo. Essa escola de pensamento tem como base a dialética hegeliana (resultado da luta de forças opostas), além de ser influenciada fortemente pelo socialismo utópico e pela economia inglesa. O materialismo histórico prevê que, no final, os trabalhadores triunfarão sobre a burguesia. Marx denomina de comunismo essa sociedade e de socialismo a forma como ocorrerá o processo de transição do capitalismo para o comunismo. Destacam-se entre as ideias da teoria política do socialismo científico: • Dialética: a natureza e a sociedade passaram por um processo permanente de transformação. Esse processo dialético move-se pela luta das forças contrárias, como, por exemplo, o explorado e o explorador etc. Essa luta promove mudanças quantitativas e qualitativas na realidade. • Modo de produção: toda sociedade possui uma base material (estrutura) representada pelas forças de produção econômica (dizem respeito aos instrumentos de produção e à experiência dos homens que lidam com esses instrumentos) e pelas relações sociais de produção (dizem respeito ao relacionamento social no processo de produção. Exemplo: relações de dominação, de solidariedade etc.). Isso constitui o modo de produção de vida material da sociedade. Esse modo de produção condiciona, de maneira geral, a vida social, política e intelectual. Assim, para Marx, não é a consciência dos homens que determina sua existência, mas, ao contrário, é a sua existência social que determina a sua consciência. 34 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira • Lutas de classes: em termos sociais, o motor da história humana é a luta de classes. Essa luta só terminaria com o aparecimento da sociedade comunista perfeita. Nela, desapareciam a exploração de classes e as injustiças sociais. • Mais-valia: para Marx e Engels, o capitalista (proprietário dos meios de produção), ao explorar o trabalho assalariado, recebe lucros gerados pela mais-valia. Em termos simples, podemos explicar a noção de mais-valia da seguinte maneira: um operário, por exemplo, ao realizar um trabalho, deveria receber de forma integral o correspondente ao valor social do seu trabalho. Entretanto, o capitalista apodera-se de parte desse trabalho que deveria ser pago ao operário. A essa parte não remunerada do trabalho social dá-se o nome de mais-valia. Fonte: MARX, Karl. O capital (1867) e ENGELS, Friedrich. Do socialismo utópico ao socialismo científico. Leipzig, 1878. 3 Estado, nação e soberania “O conceito de Estado envolve três dimensões específicas, que interagem e se complementam: a sociológica, a política e a constitucional. É nessa organização estatal, com território definido, organizada política, social e juridicamente, que o cidadão exerce a cidadania.” José Matias-Pereira (2012) O conceito de Estado é impreciso na ciência política. É comum confundir Es- tado com governo, com Estado-nação ou país, e mesmo com regime político ou com sistema econômico. Na tradição anglo-saxã, fala-se em governo, e não em Estado. Dessa forma, perde-se a distinção entre governo e Estado, o primeiro en- tendido como a cúpula político-administrativa do segundo. Na tradição europeia, o Estado é frequentemente identificado ao Estado-nação, ou seja, ao país. Expres- sões como Estado liberal ou Estado burocrático são normalmente uma indicação de que a palavra Estado está sendo utilizada como sinônimo de regime político. Por sua vez, as expressões do tipo Estado capitalista ou Estado socialista identifi- cam o Estado com um sistema econômico (BRESSER-PEREIRA, 1995, p. 86). O povo é a essência do Estado, visto que este é produzido pelo primeiro – o povo. Ao se organizar politicamente, o povo estabelece o seu instrumento de poder, que é o Estado (HOBSBAWN, 1998).1 Uma vez definido o ordenamen- to político, a intensidade do poder do Estado será resultado das dimensões antropológicas do povo ou das culturas sociais que o formam na sua capaci- tação, ou seja, guerreira, econômica e cognitiva. Explica-se, assim, por que se 1 HOBSBAWN, Eric J. A questão do nacionalismo: nações e nacionalismo desde 1780. Lisboa: Terra-mar, 1998. Para Hobsbawn, a nação somente se concretiza quando associada a um Estado territorial, um Estado-nação. Jandson Realce Jandson Realce Jandson Realce 36 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira formam dimensões distintas de poder. Essas dimensões são responsáveis pelo surgimento da hierarquia entre as nações, e, portanto, pela formação de pou- cas nações que assumem a posição de dominação e de um elevado número de nações submissas. Para Kelsen (1998), o Estado é o sinônimo de direito, unificador por exce- lência dos diversos acontecimentos sociais, o elemento que permite interpretá- -los a todos no mesmo sentido. Assim, assinala que: “O Estado deve ser representado como uma pessoa diferente do Direito para que o Direito possa justificar o Estado – que cria este Direito e se lhe submete. E o Direito só pode justificar o Estado quando é pressuposto como uma ordem essencialmente diferente do Estado, oposta à sua ori- ginária natureza, o poder, e, por isso mesmo, reta ou justa em qualquer sentido. Assim o Estado é transformado, de um simples fato de poder, em Estado de Direito que se justifica pelo fato de fazer direito.” Nesse sentido, Gramsci (2002, p. 28) argumenta: “Se todo Estado tende a criar e a manter um certo tipo de civilização e de cidadãos (e, portanto, de conivência e de relações individuais), tende a fazer desaparecer certos costumes e atitudes e a difundir outros, o direi- to será o instrumento para esta finalidade (ao lado da escola e de outras instituições e atividades) e deve ser elaborado para ficar conforme a tal finalidade, ser maximamente eficaz e produtor de resultados positivos.” O Estado para Azambuja (2001, p. 10) “é a organização político-jurídica de uma sociedade para realizar o bem público, com governo próprio e territó- rio determinado”. Nesse contexto, sustenta Reale (1973, p. 320)2 que: “Dentro dos limites de seu território, ou seja, nos limites reconhecidos pelo Direito Internacional, o direito do Estado estende-se a todos os setores da vida social e, prima facie, cabe-lhe sempre razão nos entremenores das competências... A autoridade do Estado, em virtude de sua essência mes- ma, faz presumir a formulação da verdadeira norma jurídica, presunção esta que nenhuma outra autoridade pode invocar. Assim sendo, a sobera- nia é o direito do Estado moderno. Porquanto só no Estado moderno se verifica o pleno primadodo ordenamento jurídico estatal sobre as regras dos demais círculos sociais que nele se integram e representam a condição essencial da validade prima facie incondicionada das regras do Direito.” 2 REALE, Miguel. Teoria do Direito e do estado. São Paulo: Saraiva, 1973, p. 320. Jandson Realce Jandson Realce Jandson Realce Estado, nação e soberania 37 O termo Estado, em que pese tratar-se de uma entidade abstrata, indepen- dentemente de suas condições geográficas, cultural, política, econômica e so- cial, possui características específicas, tais como: “é soberano e está encarregado de representar ou expressar a coletividade; possui um quadro jurídico e administrativo, que define suas regras orga- nizando as formas da existência social: e se constitui na instância gover- namental que, em última análise, toma decisões referentes aos negócios comuns” (CHâTELET; PISIER-KOUCHNER, 1983, p. 77).3 O conceito de Estado, para Matias-Pereira (2012b),4 envolve três dimen- sões específicas, que interagem e se complementam: a sociológica, a política e a constitucional. Do ponto de vista sociológico é a corporação territorial dotada de um poder de mando originário; sob o enfoque político é a comunidade de homens fixada sobre um território, com potestade superior de ação, de mando e de coerção; e sob a ótica constitucional é a pessoa jurídica territorial sobe- rana. É nessa organização estatal, com território definido, organizada política, social e juridicamente, que o cidadão exerce a cidadania. A compreensão do que vem a ser o próprio Estado passa pela necessida- de de que seja assimilado o conceito de soberania, visto que não pode existir Estado perfeito sem soberania. Nesse sentido, tal conceito é aceito pelos teóri- cos como extremamente complexo, por tratar-se de uma expressão que pode ser traduzida simultaneamente por intermédio de duas classes gramaticais, ou seja, a classe substantiva e a adjetiva. No sentido material (substantivo) é o po- der que tem a coletividade humana (povo) de se organizar jurídica e politica- mente (forjando, em última análise, o próprio Estado) e de fazer valer no seu território a universalidade de suas decisões. No aspecto adjetivo, por sua vez, a soberania se exterioriza conceitualmente como a qualidade suprema do poder, inerente ao Estado, como Nação política e juridicamente organizada. O conceito de soberania, ao longo da história humana, sofreu muitas va- riações. No Estado grego antigo, retratado por Aristóteles, falava-se em autar- quia, significando um poder moral e econômico de autossuficiência do Estado. Entre os romanos, o poder de imperium era um poder político transcendente que se refletia na majestade imperial. A origem do termo soberania etimologi- camente provém de superanus, supremitas ou superomnia, configurando-se de- finitivamente por meio da formação francesa souveraineté, que expressava, no conceito de Bodin (1986), “o poder absoluto e perpétuo de uma República”. 3 CHâTELET, François; PISIER-KOUCHNER, Évelyne. As concepções políticas do século XX: histó- ria do pensamento político. Rio de Janeiro: Zahar, 1983. 4 MATIAS-PEREIRA, José. Finanças públicas: foco na política fiscal, no planejamento e orçamen- to público. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2012. Jandson Realce Jandson Realce Jandson Realce Jandson Realce 38 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira A nação, sendo um espaço de vida, é, ao mesmo tempo, uma propriedade coletiva. Essa propriedade coletiva tem sido um patrimônio permanentemente disputado por um sistema indutor dessa disputa. O entendimento de que a nação é uma ideologia de lealdade em relação a um tipo de Estado é defendido pela maioria dos teóricos. Essa visão adota como modelo, no caso europeu – que tem em Mario Albertini o seu maior representante –, de maneira geral, a variação de fronteiras dos Estados europeus.5 Deve-se ressaltar que essas variações sem- pre existiram, o que comprova a mobilidade dos povos no fluir da história, nos seus conflitos, ou os Estados surgidos da descolonização. elementos essenciais Do estaDo Os elementos essenciais para justificar a existência de um Estado são: o povo, o território e o poder político. Desses elementos, destaca-se a questão do território. É notório que a importância do elemento territorial aumenta de di- mensão com a construção dos Estados modernos. Assistimos, também, ao de- clínio da importância das relações pessoais na estruturação do poder político na sociedade. O princípio da territorialidade que preside ao Estado moderno vai, progressivamente, substituindo o princípio da personalidade, à medida que os estrangeiros tornam-se equiparados aos cidadãos do Estado na submis- são ao poder deste. O espaço territorial é o definidor de competência dos órgãos do Estado. Isso significa que o poder destes fica circunscrito ao espaço territorial defi- nido pelos limites do Estado. Na ideia de invulnerabilidade do território ao poder de órgãos de outros Estados reside parte significativa da essência do conceito de soberania dos Estados. É uno o poder do Estado. Assim, no âmbito do respectivo território o po- der soberano é conferido a ele e não existem quaisquer outras competências autoritárias que não provenham de seus órgãos, detentores do poder político, ou que não derivem desse poder. A finalidade do Estado é, portanto, prover a realização do bem comum. O Estado existe fundamentalmente para realizar o bem comum. A doutri- na costuma analisar esta grande finalidade desdobrando-a em três vertentes: o bem-estar, a segurança e a justiça. A interdependência dos fins do Estado assume particular importância em relação à sua grande e última finalidade: a promoção do bem comum. Assim, o Estado, enquanto forma de organização política por excelência da sociedade, pode ser aceito como o espaço natural de desenvolvimento do poder político. 5 ALBERTINI, Mario et al. L’idée de nation. Paris: Presses Universitaires de France, 1969. Veja, também, BOBBIO, N.; MATTEUCCI, N.; PASQUINO, G. Dicionário de política. 12. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2004. Jandson Realce Jandson Nota CAIU NA CCV, POVO, TERRITÓRIO E PODER POLÍTICO Jandson Realce Jandson Realce Jandson Realce Estado, nação e soberania 39 a função Do estaDo-nação e a noção De soberania O Estado, para Locke (1998), tem como finalidade precípua atender à razão natural da vida em sociedade e promover a realização das expectativas do ho- mem em busca da felicidade comum, ou seja, do bem comum. Para a soberania interna não ultrapassar os limites dos direitos individuais e coletivos, é necessá- rio haver a limitação do poder do Estado perante a sociedade e, assim, respeitan- do a Nação, ao cumprir adequadamente a tarefa de promover o bem comum, o Estado se legitima. Nesse contexto, Locke afirma que o bem comum será assegu- rado por um governo que expresse a vontade da maioria dos cidadãos. O Estado é o detentor da soberania, e a soberania define-se pelo poder po- lítico que se configura na faculdade de ordenar a organização social e de deli- berar sobre os assuntos de natureza coletiva, devendo agir sempre e em todos os atos de conformidade com o interesse coletivo. Assim, a base do poder po- lítico é o dever moral. O Estado pode ser compreendido fundamentalmente por meio de duas concepções básicas: (a) como uma relação social de dominação e (b) como um conjunto de organizações com autoridade para tomar decisões que atinjam todos os indivíduos de uma coletividade. É importante ainda destacar que o Estado representa mais que o governo, sobretudo ao se considerar que o seu sistema permite estruturar inclusive diversas relações na sociedade civil. A noção de cidadania, desde a sua concepção, tem sido vinculada à ideia de Estado-nação, o qual exerce tanto uma soberania “interna” – sobre a popu- lação que está dentro de um território definido – quanto uma soberania “ex- terna”. A cidadania aparece como um conjunto de mecanismos institucionais que regularamas relações entre o Estado e a população, definindo os direitos e as obrigações desta última e introduzindo o princípio da igualdade formal, ao contrário das normas diferenciadas criadas para cada segmento da popu- lação na sociedade feudal. Definiu-se a relação indivíduo-Estado de manei- ra “secular”, mantendo a neutralidade estatal diante de convicções, projetos ideológicos ou outras preferências “privadas” por parte dos cidadãos. Dessa maneira, o cidadão passou a identificar-se com o denominado Estado-nação, fazendo com que essa afinidade seja traduzida em uma forte sensação de pertencer àquele Estado. Ao longo do tempo esse sentimento de pertencer ao Estado-nação6 foi sendo reforçado pelo desenvolvimento, ou seja, pela conquista dos direitos sociais. Por sua vez, o processo de globalização tende a enfraquecer a importância da referência territorial e, portanto, a erodir os fundamentos da cidadania tradicional. 6 O conceito de Estado não deve ser confundido com o conceito de nação: Estado é a nação politicamente organizada; a nação, por sua vez, é um agrupamento humano unido por laços culturais, históricos, linguísticos e religiosos. Recorde-se que um Estado pode ser formado por mais de uma nação (Matias-Pereira, 2010a). Jandson Realce Jandson Realce Jandson Realce Jandson Realce Jandson Realce Jandson Realce 4 Pluralismo e federalismo “Parto do pressuposto de que uma característica chave da democracia é a contínua responsividade do governo às preferências de seus cidadãos, considerados como politicamente iguais. [...] gostaria de reservar o termo ‘democracia’ para um sistema político que tenha, como uma de suas características, a qualidade de ser inteiramente, ou quase inteiramente, responsivo a todos os seus cidadãos.” Robert Dahl, Poliarquia (1971) “O Estado federal pressupõe a coexistência de dois ordenamentos estatais: um Estado soberano, formado por uma pluralidade de Estados, no qual o poder do Estado emana dos Estados-membros, ligados numa unidade estatal.” Georg Jellinek (1851-1911)1 É importante destacar, no campo do pluralismo, a contribuição dos autores que desenvolveram as teorias “pluralistas” do Estado e da ação política. Citam- -se entre eles, Laski, Cole e Hirst,2 da corrente europeia; e Truman, Dahl e Lin- dblom, da vertente norte-americana. 1 JELLINEK, Georg. Teoría general del Estado. Buenos Aires: Editorial Albatros, 1954. 2 HIRST, Paul. Introduction. In: HIRST, Paul (Org.). The pluralist theory of the state. London, New York: Routledge, 1993. p. 1-45. Pluralismo e federalismo 41 Na teoria pluralista, a divisão da autoridade impede que o governo adote medidas apressadas, muitas vezes imprudentes, e pode impedir também toda e qualquer medida quando houver discordância entre centros importantes de poder. Dessa forma, o pluralismo apresenta-se como uma evolução do libera- lismo, uma vez que se posiciona em contraposição à teoria realista e seus prin- cipais pontos são praticamente antagônicos: as visões de Estado e sistema in- ternacional, a tomada de decisão e o papel do indivíduo (JANDA, 2006, p. 1). O pluralismo teve grande impulso na década de 1940, sustentado por diversos autores, em especial, Talcott Parsons (1937). Posteriormente, nesta mesma escola de pensamento, destacaram-se David Trumann (1960) e em especial Robert Dahl (1971), que o transformou na teoria da poliarquia.3 Em relação ao caso norte-americano, principalmente na teoria da poliarquia de Dahl, o pluralismo é uma teoria da competição política, no sentido da defesa de um governo das minorias, quando sustenta que qualquer minoria pode ter sempre uma parcela significativa de poder quando influencia a decisão polí- tica sobre as questões que lhe interessam. Observa-se que o pluralismo nasce como uma maneira diferenciada de equilibrar o Estado e a sociedade, que busca enfatizar a necessidade de con- ciliar as suas respectivas demandas e imperativos por meio de uma síntese cuidadosa (BOBBIO, 1990). Nessa escola de pensamento, o interesse público não aparece como algo separado da sociedade civil e que lhe é sobreposto por agentes políticos externos. Assim, torna-se oportuno distinguir entre concep- ções pluralistas e não pluralistas do bem comum. Temos nas primeiras Rousseau e o Estado jacobino, cujas bases ele fundou, e, nas segundas, o pensamento de Madison e dos federalistas americanos. feDeralismo A palavra federal é oriunda do latim foedus, que significa pacto, união. Essa expressão passou a integrar um documento político-jurídico pela primeira vez com a votação da Constituição Federal dos Estados Unidos, em 1787.4 O fede- ralismo é um sistema político que se opõe ao unitarismo, buscando assegurar a autonomia dos Estados dentro de uma mesma nação. Essa forma criativa de or- ganização política surgiu a partir da ideia dos founding fathers norte-america- nos – de maioria protestante – tendo como objetivo resolver a situação das 13 3 DAHL, Robert. Poliarchy, participation and opposition. New Haven: Yale University Press, 1971. 4 Os Estados Unidos da América foi o primeiro país a adotar o modelo de Estado federal, a partir da convenção da cidade de Filadélfia, em 1787. Por meio dela ocorreu a conversão da confede- ração dos Estados americanos, em consonância com a declaração de independência daquele país de 1776 (MATIAS-PEREIRA, 2010a). 42 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira colônias no processo de integração daquele país, numa forma de organização político-administrativa que possibilitasse autonomia administrativa dos novos Estados-membros, união em benefício da coletividade. No sistema federativo, a soberania enquanto poder supremo, uno e indi- visível é prerrogativa exclusiva da União, a quem cabe gerir os assuntos de interesse geral. Aos Estados federados são garantidas aquelas competências e autonomias necessárias à gestão e decisão sobre assuntos locais e a eleição de seus governantes. Esta divisão de poderes entre os Estados e a União é o mecanismo geral que regula a dinâmica e a evolução dos Estados federais, expondo os diferentes graus de descentralização político-administrativa al- cançados historicamente. O Estado federal (que surgiu no século XVIII) foi uma inovação posta em prática no contexto de formação e consolidação da independência dos Estados Unidos. A base jurídica da União Federal de Estados está na aceita- ção comum e soberana de uma Constituição que subordina todos os mem- bros da União. O federalismo e o Estado Federal requerem o fim da sobera- nia das unidades estaduais, processo que já foi descrito como “um suicídio de Estados” (DALLARI, 1986).5 o moDelo Do feDeralismo norte-americano Durante a constituição da federação norte-americana, os Founding Fathers, George Washington, James Madison, Thomas Jefferson, John Adams, Benja- min Franklin e Alexander Hamilton desenharam um sistema em que o poder federal exercia pouca influência perante os Estados. Os americanos, naque- la época, já consideravam o governo e o Estado um mal necessário, portan- to, um governo central pairando perante todos os governos estaduais não era o mais desejado. Mesmo enfrentando resistências internas, como externas, ou seja, a guerra pela independência com a Inglaterra, os Estados Unidos se constituíram em uma só federação. Nesse sentido, sustentam Hamilton, Madison e Jay (2003) que, se os ho- mens fossem anjos, nenhuma espécie de governo seria necessária. Se fossem os anjos a governarem os homens, não seriam necessários controles externos nem internos sobre o governo. Ao construir um governo em que a administração será feita por homens sobre outros homens, a maior dificuldade reside nisto: primeiro é preciso habilitar o governo a controlar os governados; e, seguida- mente, obrigar o governo a controlar-se a si próprio. A dependência do povo é, sem dúvida, o controle primário sobre o governo; mas a experiência ensinou à humanidade a necessidade de precauções auxiliares. 5 DALLARI, D. A. OEstado Federal. São Paulo: Ática, 1986. Pluralismo e federalismo 43 Cumpre destacar que as ideias de Hamilton, Madison e Jay estruturaram a filosofia do sistema político norte-americano, consubstanciadas na constituição daquele país. Verifica-se que inúmeros aspectos do sistema político norte-ame- ricano promovem a descentralização do poder, entre os quais se destacam: fe- deralismo, separação dos poderes, Congresso com duas câmaras de igual peso e os sistemas eleitorais – pois há dois sistemas diferentes. Essas ideias estão presentes em O federalista (The Federalist),6 e contribuíram de forma decisiva para se estabelecer a separação dos poderes nos Estados Unidos. Estabelece- ram, também, os mandatos por tempo limitado e outros mecanismos de con- tenção dos poderes que demarcam o sistema de freios e contrapesos garantido- res da República e da Democracia. A grande inovação da Constituição de 1787 foi a invenção do federalismo centralizado, uma fórmula associativa que criou um governo central dotado de autonomia e independência em relação aos Estados-membros. São, portanto, instituições importantes aquelas que garantem a independência do governo cen- tral, em oposição à sua dependência dos Estados-membros na fórmula prévia da Confederação. A partir de 1787, a Presidência e o Legislativo centrais passaram a ser escolhidos diretamente pela população; o governo central passou a ter uma longa lista de atividades exclusivas, assim como sua autoridade prevaleceria nos casos de conflito entre os níveis de governo (RIKER, 1975, p. 109).7 feDeralismo e inDePenDência Dos estaDos uniDos O agravamento das relações entre as colônias e as autoridades metropo- litanas começou a aprofundar-se com mudanças na política tributária inglesa, por meio da imposição de impostos elevados e das restrições ao comércio colo- nial. Essas restrições provocaram o envio de um protesto redigido pelo primei- ro congresso continental reunido em Filadélfia, em 5 de setembro de 1774. A partir desse fato tem início um longo período de enfrentamento bélico entre as colônias e a Inglaterra. O reconhecimento da independência dos Estados Uni- dos pela Inglaterra ocorreu somente em 1783. Ao tratar das motivações que levaram à Declaração da Independência dos Estados Unidos, em 1776, ressalta Janda (2006, p. 1-4):8 “Como súdita do rei George III, a população das 13 colônias britânicas originais não confiava no governo central forte que controlava a vida das pessoas a partir do além-mar e se rebelou em 1775. A Declaração da Independência de 1776 acusava o rei 6 HAMILTON, Alexander; MADISON, James; JAY, John. O federalista. Belo Horizonte: Líder, 2003. 7 RIKER, W. “Federalism”. In: GREENSTEIN, F.; POLSBY, N. (Ed.). Handbook of Political Science. Massachusetts: Addison-Wesley, v. 5, 1975. 8 JANDA, Kenneth. Pluralismo e democracia. eJournal USA. Disponível em: <http://usinfo.state. gov/journals/itsv/0606/ijsp/janda.htm#top>. Acesso em: jun. 2006. 44 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira de impor ‘absoluta tirania a estes estados’. Ao mesmo tempo em que lutavam na Guerra da Independência, os colonos criaram os Estados Unidos da América conforme os Artigos da Confederação, documento que forjou pouco mais que uma aliança entre estados rebeldes. Os colonos ganharam a independência em 1781 – ano da ratificação e entrada em vigência dos Artigos.” No debate sobre as razões que levaram os Estados Unidos a adotar o mo- delo federativo, argumenta Duchacek (1970, p. 241),9 “a barganha federativa que deu origem ao modelo federativo de 1787 teve uma pré-condição históri- ca: treze Estados, cuja identidade e interesse comum se desenvolveram previa- mente à União e cujo propósito na Convenção da Filadélfia era preservar essa autonomia. No caso do Brasil, por exemplo, apenas algumas unidades adquiri- ram razoável senso de identidade previamente à formação da federação e mes- mo elas tiveram que disputar seu espaço no plano federal, porque na formação da federação brasileira a União antecedeu suas partes”. os Distintos tiPos De feDeralismo Existem três diferentes tipos de federalismo (FIORI, 1995).10 O primeiro é o caso norte-americano, que por ter sido construído a partir da união voluntá- ria dos Estados é chamado de progressivo ou construtivo. A União Europeia é o grande representante contemporâneo deste modelo. A segunda versão de fe- deralismo é chamada de perversa ou defensiva. É praticada como último recur- so para manter a unidade em Estados ameaçados de desintegração territorial, sendo típica de sociedades multiétnicas ou multiculturais. Dentro dela existem casos que, apesar de algumas turbulências, são reconhecidamente bem-sucedi- dos como o Canadá e a Espanha das Autonomias, mas a maioria deles envol- vem iniciativas fracassadas como na ex-Iugoslávia, ex-URSS e ex-Tchecoeslo- váquia. A terceira versão é o federalismo pragmático ou reativo, característico da América Latina dos anos 1980. Nestes países, o federalismo esteve naquele período identificado às lutas contra os regimes autoritários e a uma via para a democratização e descentralização do Estado. a crise Dos estaDos feDerais Argumenta Harvey (1992)11 que, assim como os demais tipos de Estados- -nacionais modernos, os Estados Federais passam por uma séria crise diante 9 DUCHACEK, I. D. Comparative Federalism. The Territorial Dimension of Politics. Santa Barbara: Holt, Rinehart and Winston, 1970. 10 FIORI, J. L. O federalismo frente ao desafio da globalização. Rio de Janeiro: IEI/UFRJ. Texto para discussão IEI/UFRJ no 336, 1995. 11 HARVEY, D. Condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 1992. Pluralismo e federalismo 45 das novas escalas de acumulação que acompanham a terceira Revolução In- dustrial. As escalas privilegiadas na pós-modernidade são as transnacionais e as locais, o que tem espremido e acuado as escalas nacionais típicas dos Esta- dos. As incertezas quanto aos rumos dos Estados-nacionais é algo sobejamen- te discutido na agenda política contemporânea e sem dúvida nenhuma é uma das manifestações mais candentes da “inquietude das paisagens capitalistas. É perceptível, nesse contexto que, tanto o funcionamento dos Estados nacionais quanto a viabilidade dos sistemas federativos estão sob sérias ameaças, so- bretudo naqueles países com territórios extensos e populações heterogêneas, como a Índia, a Rússia, o Brasil e a China” (FIORI, 1995). Pluralismo, feDeralismo e rePública no brasil No Brasil, República e Federalismo nasceram juntos, com a promulgação da Constituição Republicana de 1891. Nela foi definida a divisão dos poderes e a separação entre Igreja e Estado. Antes, entre a proclamação da Independên- cia, em 1822, e a queda do Império, em 1889, existia o Poder Moderador do imperador, acima dos outros, imposto pela Constituição de 1824. A vocação histórica do Brasil para o federalismo surgiu, principalmente, em virtude das próprias condições geográficas do país, pois a imensidão terri- torial e as condições naturais obrigaram a descentralização, que é base do re- gime federativo. Uma das causas sociais da origem do federalismo é a própria imensidão territorial, obrigando a descentralização de governo, a fim de man- ter a pluralidade das condições regionais e o regionalismo de cada zona, tudo integrado na unidade nacional do federalismo. O federalismo brasileiro, inspirado no modelo norte-americano, é signifi- cativamente distinto do modelo existente nos Estados Unidos. Essas diferenças são decorrentes, em grande parte, da formação histórica do Estado brasileiro, que teve como origem um Estado unitário e monarquista (SOUZA, 1994).12 Constata-se, quando comparados os modelos dos dois países – Estados Unidos e Brasil – que no caso brasileiro existe uma forte tendência centralizadora por parte da União Federal, em particular, no âmbito tributário. Embora os Estados Unidos e o Brasil adotem o mesmo modelo de Estado fedederal, é preciso destacar que na constituição da clássica Federaçãonorte- -americana, as colônias, e posteriormente os Estados, se uniram para criar um Estado federal. No Brasil ocorreu o inverso, ou seja, o governo central surgiu antes dos demais entes: os Estados e municípios (MATIAS-PEREIRA, 2010a). 12 SOUZA, M. do C. C. de. Aspectos político-institucionais do federalismo (1930-1964). Relató- rio de Pesquisa. Projeto: Balanço e perspectivas do federalismo fiscal no Brasil. São Paulo: IESP/ Fundap, 1994. 46 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira O Estado e as instituições políticas brasileiras passaram por diversas trans- formações desde a origem até a versão contemporânea. Conjunturas críticas como o Estado Novo, o regime militar e a Constituição de 1988 legaram alte- rações importantes na natureza das relações federativas (SOUZA, 1994). Isso implica dizer que, para a interpretação dos Estados federativos contemporâneos, cuja origem seja anterior ao final do século XX, é também necessária uma teo- ria das condições de desenvolvimento dos distintos modelos. É pertinente ressaltar que o Brasil possui os requisitos de uma democracia pluralista, que assume múltiplos centros de poder. Isso está evidenciado, por exemplo, na Constituição Federal de 1988, em especial no seu art. 1o, V, no qual o pluralismo político surge como um dos cinco fundamentos da República Fe- derativa do Brasil. Essas normas constitucionais, inéditas em relação às consti- tuições anteriores, representam um avanço e o reconhecimento da alteridade e da legitimidade da diversidade presentes na sociedade brasileira. confiGuração Da orGanização Do estaDo brasileiro A organização do Estado brasileiro está delineada no Quadro 4.1, apresen- tado a seguir. Quadro 4.1 Síntese da organização do Estado brasileiro. • Forma de Estado: A sua forma de Estado é a federação. A concepção de federação é para se contrapor à ideia do Estado Unitário. O conceito da forma de Estado está relacionado à ideia de repartição física de território. • Forma de Governo: A forma de governo é a República (sua forma se contrapõe a Monarquia). • Regime de Governo: O regime de governo é presidencialista. Nesse sistema, o presidente da República é o chefe do Estado e do Governo (contrapõe-se a ele o parlamentarismo, onde o chefe de governo é o primeiro-ministro e o chefe de Estado é o Presidente da República ou o Monarca). • Regime Político: O regime político é o democrático. Nesse regime, conforme define a Constituição Federal de 1988, “o poder emana do povo, exercido pelo povo e em proveito do próprio povo”. Fonte: Matias-Pereira (2012b), com adaptações. Pluralismo e federalismo 47 teoria Da seParação Dos PoDeres e Democracia A teoria da separação dos poderes, presente na maioria das constituições dos países no mundo na atualidade, está associada à ideia de Estado democrá- tico. No sistema de freios e contrapesos dessa concepção, destacam-se dois atos praticados pelo Estado: os atos gerais e os atos especiais. Ao explicitar a distinção desses atos, assinala Dallari (2013)13 que os atos gerais, que só podem ser praticados pelo Poder Legislativo, constituem-se a emissão de regras gerais e abstratas, não se sabendo, no momento de serem emitidas, a quem elas irão atingir. Dessa forma, o Poder Legislativo, que só pra- tica atos gerais, não atua corretamente na vida social, não tendo meios para cometer abusos de poder nem para beneficiar ou prejudicar a uma pessoa ou a um grupo em particular. Só depois de emitida a norma geral é que se abre a possibilidade de atuação do Poder Executivo, por meio de atos especiais. O Executivo dispõe de meios concretos para agir, mas está igualmente impossi- bilitado de ajudar discricionariamente, porque todos os seus atos estão limita- dos pelos atos gerais praticados pelo Legislativo. E se houver exorbitância de qualquer dos poderes, surge a ação fiscalizadora do Poder Judiciário, obrigan- do cada um a permanecer nos limites de sua respectiva esfera de competência. estuDos comParaDos entre o feDeralismo brasileiro e o norte-americano Quando comparado com outras federações contemporâneas, sustenta Ar- retche (2001),14 o federalismo brasileiro estaria, juntamente com os EUA, no extremo da escala de demos-constraining. O sistema de composição do Senado brasileiro, semelhante ao do americano, com número equivalente de cadeiras para Estados excepcionalmente diferentes em termos populacionais, garante um excessivo grau de super-representação aos Estados menores. Para aquela autora, os poderes legislativos do Senado brasileiro também seriam excessi- vos: além do poder para aprovar todas as leis e emendar a Constituição, a Câmara Alta dispõe de 12 áreas de exclusividade legislativa. O poder residual dos Estados nos casos de omissão constitucional e o poder dos governadores, combinados ao excessivo detalhamento da Constituição de 1988 e à exigên- cia de supermaiorias para as emendas constitucionais, impõem um extremo poder de restrição à realização das preferências da maioria. Conclui, por 13 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de teoria geral do estado. 32. ed. São Paulo: Saraiva, 2013. 14 ARRETCHE, Marta. Federalismo e democracia no Brasil: a visão da ciência política norte-ame- ricana. São Paulo em Perspectiva, v. 15, no 4, Oct./Dec. 2001. Disponível em: <http://www.scielo. br>. CASTRO JR., Osvaldo Agripino de. Teoria e prática do direito comparado e desenvolvimento: Estados Unidos x Brasil. Florianópolis: Fundação Boiteux, IBRADD, UNIGRANRIO, 2002. 48 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira fim, que o controle dos governos locais sobre as candidaturas, assim como as regras eleitorais que incentivam o comportamento individualista dos parla- mentares, tornam os partidos brasileiros excessivamente voláteis, isto é, pouco disciplinados. A literatura e os estudos comparativos entre o federalismo brasileiro e nor- te-americano, em grande parcela, assinalam que o federalismo brasileiro foi historicamente caracterizado por um alto grau de centralização do poder po- lítico. É relevante destacar nesse contexto que as competências municipais no Brasil sempre foram reduzidas e a política municipal foi tradicionalmente rele- gada a um plano de menor importância e a um menor espaço de atuação pú- blica. Pode-se argumentar, por fim, que o sucesso do modelo político dos Esta- dos Unidos reside na limitação do poder, o que evidencia que um Estado com poderes federais limitados pode alcançar o desenvolvimento. 5 Ciência política, governo e Administração Pública “O mundo da política não leva ao céu, mas sua ausência é o pior dos infernos.” Nicolau Maquiavel (1469-1527), O príncipe (1532)1 introDução A política, como uma ciência crítica da realidade, tem na utopia sua re- ferência. A ciência política preocupa-se em analisar fatos, ações e o funciona- mento de instituições. Cuida de avaliar também os resultados das ações e das políticas implantadas. Ela descreve, por meio dos fatos, os distintos interesses que justificam e orientam as ações em uma direção, e não em outra, em um determinado momento histórico e contexto específico. Torna-se relevante, em uma primeira aproximação, destacar que ciência política é um ramo das ciências sociais modernas com relativa autonomia, que dedica sua atenção à esfera do poder, assim como Economia Política se dedica à produção, ou a Sociologia às relações sociais, por exemplo. Dedicando-se aos estudos do poder, a Ciência Política pretende investigar os fenômenos relacio- nados a ele – dos mais simples aos mais complexos –, estabelecendo, igualmen- te, conceitos e teorias sobre as relações políticas, que podem abranger desde uma empresa até um determinado Estado. 1 O Príncipe (em italiano, Il Principe), foi escrito por Nicolau Maquiavel em 1513, mas sua pri- meira edição foi publicada somente em 1532. 50 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira Ao analisar o campo da política, assinala Schmitter (1984): “O campo da política seria então: o estudo das relações de autoridadeen- tre os indivíduos e os grupos, da hierarquia de forças que estabelecem no interior de todas as comunidades numerosas e complexas. A cúpula desta estrutura é o Estado ou governo, a instituição que tem a autoridade últi- ma e o ‘direito’ de utilizar a força física para se fazer respeitar; mas a ta- refa da Ciência Política seria a de analisar e explicar toda essa estrutura e as forças e influências respectivas que a compõem.” Ao tratar da preocupação básica da política, destaca Easton (1984): “Preocupação básica da Política: explicar e presumivelmente predizer, por que uma determinada linha de conduta foi, é ou será adotada. Como foi formulada? Quem participou? Quais foram os determinantes desta ativi- dade? Qual foi o resultado e seu impacto sobre decisões posteriores?” Por sua vez, Apter (1965), ao definir a função da política, sustenta: “A função da política é a de resolver os conflitos entre indivíduos e gru- pos, sem que este conflito destrua um dos partidos em conflito. Isto não implica dizer que na política não devam existir conflitos, mas sim na ideia de que existem conflitos que são permanentes dentro de qualquer so- ciedade e que a política não pode extinguir. Apesar de não poder extingui- -los, a política pode desarmá-los, canalizá-los, transformá-los em formas não destrutivas para os partidos e a coletividade em geral.” Observa-se que, como as demais ciências sociais, a ciência política não tem uma definição que seja aceita de forma consensual. Uma parcela dos autores define-a como a ciência que estuda estruturas e processos sociais relacionados à formação, às transformações e ao exercício do poder. É definida também por inú- meros autores como a ciência que lida com as formas pelas quais as sociedades se organizam e se estruturam para a realização de seus fins. A terceira definição mais utilizada é a que se refere aos instrumentos, mecanismos e instituições que se valem da autoridade para distribuir os recursos escassos em uma sociedade. No mundo contemporâneo, o Estado é a principal dessas instituições. Registre-se que a política não se ocupa de todos os processos de formu- lação e tomada de decisões, mas apenas daqueles que afetem ou possam vir a afetar, de alguma maneira, o conjunto dos cidadãos. Assim, a ênfase da po- lítica é sobre o fenômeno da repartição, da administração de decisões sobre bens escassos na sociedade. Nesse contexto, os elementos de uma sociedade política são heterogêneos e estão, ao mesmo tempo, em conflito e em inter- dependência. Ciência política, governo e Administração Pública 51 A natureza da dominação política, contrariamente a outras formas de do- minação, é a de reconhecer os conflitos e a variedade de interesse e atitudes que dão base a esses conflitos e a de tratar de contê-los dentro de um quadro social comum, preservando a ordem pública. Nesse sentido, a política tem como preocupação a ênfase no bem comum (conceito idealista). Assim, como o fim da política é o bem-estar dos cidadãos, a função do sistema político se aplica principalmente à realização de objetivos coletivos. o Pensamento filosófico aPlicaDo à convivência em socieDaDe Uma parte importante da ciência política, do ponto de vista conceitual, é o pensamento filosófico aplicado à compreensão da convivência humana em so- ciedade. Provavelmente, essa tradição foi iniciada com A República de Platão, passando por Política de Aristóteles, posteriormente com Maquiavel, Locke, Hobbes, até chegar à fase contemporânea, com Hannah Arendt. A ciência po- lítica, ao longo de sua trajetória, incorpora a tradição mais pragmática e his- tórica de Tocqueville, Hamilton, Marx, Michels e Sorel, entre outros. Apoia- do nos estudos desses teóricos fica evidenciado como ela está estreitamente vinculada à tradição do pensamento filosófico sobre o homem em sociedade. Registre-se que a teoria política pode ser classificada – com base nos períodos históricos – em clássica, moderna e contemporânea. A filosofia política possui um caráter “normativo” que tem a preocupação de saber como a “política deve ser”. A ciência política possui um caráter inves- tigativo da realidade, e uma aplicação prática da realidade (SARTORI, 1997).2 o sistema Político internacional Outra parte relevante da ciência política contemporânea está relaciona- da ao sistema político internacional. O estudo de política internacional decor- re, em boa parte, dos interesses da política externa de países mais dinâmicos no contexto internacional. São desenvolvidas teorias e ideias sobre a relação de poder, estrutura e composição do sistema internacional, corrida armamen- tista, sistemas de cooperação internacional, acordos e protocolos no campo socioeconômico-ambiental, entre outros. Pode-se verificar que o enfoque cen- tral desses estudos é a relação econômica, política e militar entre as potências mundiais. Na fase atual, diante do desaparecimento da URSS, diversos estudos estão sendo realizados sobre a questão e implicações da hegemonia econômi- ca, política e militar dos Estados Unidos. 2 SARTORI, Giovanni. A política. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981 (Cap. 7: O que é a política?; Cap. 8: A política como ciência), p. 157-201. 52 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira o funcionamento De seus sistemas Políticos a sociais Os estudos sobre países periféricos são realizados por especialistas de de- terminada região ou área, que passam naturalmente da análise do compor- tamento internacional dos países de sua especialidade para a análise do fun- cionamento de seus sistemas políticos a sociais. Esses estudos, que estão se vinculando à teoria política contemporânea, tornam-se relevantes para o for- talecimento da área de estudos políticos comparados. Deve-se ressaltar que, tradicionalmente, a pesquisa na área de política internacional tende a ser his- tórica e descritiva. A sua outra vertente foca as metodologias que utilizam da- dos matemáticos e quantitativos, em particular as provenientes das teorias de jogos, conflitos e coalizões. Pesquisa científica sobre o funcionamento Do estaDo A pesquisa científica sobre a forma de funcionamento do Estado, em geral, pode ser dividida nas seguintes áreas (ver SCHWARTZMAN, 1977):3 i. Estudos sobre os diferentes grupos sociais (identificados como o sujeito e o objeto da atividade política governamental) – essa linha de pesquisa tem como foco central a caracterização e explicação do com- portamento político das diversas classes e grupos sociais, da estrutura e difusão de ideologias a valores políticos na sociedade, do comporta- mento eleitoral das populações e seus representantes, da organização da sociedade em partidos políticos e grupos de interesse. Verifica-se que o desenvolvimento desses estudos, de maneira geral, utiliza uma combinação de abordagens históricas, estatísticas e lógico-formais. A ciência política, nesse contexto, tende a aproximar-se significativa- mente da economia, na medida em que se preocupa com o entendi- mento da estrutura e comportamento de classes, grupos sociais e ins- tituições a eles ligadas. Aproxima-se também da sociologia, ao buscar estudar atitudes, valores, ideologias e sua distribuição em função de variáveis sociais; bem como da psicologia, pelo estudo dos mecanis- mos psicossociais que estão subjacentes ao comportamento político de elites e de populações. ii. Estado e o sistema governamental – essa linha de pesquisa da ciên cia política está relacionada ao campo de conhecimento do di- reito. Nesse sentido, considera os diversos arranjos constitucionais e legais da distribuição do poder a da autoridade, bem como das 3 SCHWARTZMAN, Simon (Relator). Avaliação e perspectivas da área de Ciência Política. Brasília: CNPq, 1977. Ciência política, governo e Administração Pública 53 suas transformações. A sua perspectiva é mais empírica do que nor- mativa, fato que reforça o interesse dessa linha de pesquisa tanto pelos estudos históricos quanto pelos comparados. Destaca-setam- bém a organização do poder político em sociedades primitivas, em comunidades de pequeno porte, em que uma metodologia de tipo antropológico tende a predominar. Preocupa-se, inclusive, com o conhecimento de instituições públicas específicas, como por exem- plo as Forças Armadas, o sistema judiciário, as empresas governa- mentais, entre outras. Nessas pesquisas são utilizadas metodolo- gias próximas à sociologia das organizações. iii. Processo de tomada de decisões das instituições públicas. Nos estudos das políticas governamentais são examinados temas como o seu contexto institucional, da disponibilidade a uso de recursos, do exercício do poder político em suas diversas formas, seu impac- to diferencial na sociedade. As análises de política pública utilizam distintas variáveis; por exemplo, psicológica, institucional, análise de tendências estatísticas de comportamento governamental. Nessa área de atividade se destacam os estudos de processos orçamentá- rios das instituições governamentais, fixação das fontes de recursos, fiscalização e controle de sua aplicação. A ciência política contemporânea, conforme ensina Schmitter (1984),4 se distingue essencialmente por duas qualidades: sua vontade de ser científica (preocupação teórica e metodológica; verificação de hipóteses; e sua necessi- dade de clara “delimitação da disciplina” e um sentido de prioridade que a vi- são do conjunto do processo político dá. Feitas essas considerações, pode-se argumentar que a ciência política, as- sim como as demais ciências sociais, não possui um paradigma bem definido que especifique todas as pesquisas realizadas sob este título. Possui, porém, um importante conjunto de tradições de trabalho que a torna um campo diferen- ciado de estudo, pesquisa e reflexão (MATIAS-PEREIRA, 2012e).5 4 SCHMITTER, Philippe C. Reflexões sobre o conceito de política. In: Curso de introdução à ciên- cia política, Un. I, 2. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1984. 5 MATIAS-PEREIRA, José. Manual de metodologia da pesquisa científica. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2012e. 6 Origem e trajetória do modelo de Estado do bem-estar “O Estado de bem-estar social se efetiva quando o Estado atua de forma concreta na proteção e promoção do bem-estar social e econômico das populações mais desprotegidas. Para isso é necessário uma boa governança, traduzida em políticas públicas sociais consistentes.” Matias-Pereira (2012b) O processo de gestação do Estado Social no continente europeu tem início com as revoltas e tentativas de revolução dos anos 1848 e com a Comuna de Paris, em 1871. Por sua vez, as motivações para a criação do Estado do Bem-Es- tar estavam presentes nas profundas desigualdades provocadas pela Revolução Industrial, na urbanização e nas consequências econômicas e sociais provoca- das pelas depressões econômicas e as guerras. Para Karlsson (2001)1 a decisão de utilizar a “política social”, como um instrumento para se alcançar a eficiên- cia econômica, incorporou-se no Socialismo Fabiano inglês, no Socialismo Fun- cional Sueco e no Marxismo Austríaco. É importante destacar que existem inconvenientes na utilização do mes- mo conceito – proteção social – para instituições e práticas significativamente diferentes como: as “Poor Laws” e as “Friendly Societies” inglesas, os seguros sociais compulsórios alemães (Bismarck), as Caixas de Pensão brasileiras (Eloy Chaves), o New Deal norte-americano (Roosevelt), ou Estado de Bem-Estar So- cial, a forma moderna mais avançada de exercício público da proteção social. Observa-se que o modelo de Estado do Bem-Estar, criado pelo chance- ler alemão Otto Von Bismarck ou modelo Bismarckiano (Estado Corporativo), 1 KARLSSON, S. Det intelligenta samhället. Stockholm: Carlssons, 2001. Origem e trajetória do modelo de Estado do bem-estar 55 pode ser considerado o precursor do welfare state. Implantado no final do sé- culo XIX, sua aprovação contou com o apoio efetivo da elite daquele país para evitar uma revolução popular. É um modelo seletivo, corporativo – beneficiava exclusivamente os operários da indústria – e fortemente associado à ideia de seguridade social. Registre-se que as principais medidas propostas por Bismarck foram: as legislações previdenciárias, aprovadas em 1883; a Lei do Seguro- -Doença, em 1884; e a Lei do Seguro de Acidentes, em 1884; e a Lei do Seguro de Invalidez e Velhice, em 1889. Verifica-se, no caso da Alemanha, que a seguridade social foi criada a par- tir do Estado, o qual forneceu os meios necessários para suplantar os estreitos limites do mercado, por meio de uma nova burocracia e da concessão de sub- sídios ao novo sistema. Seu objetivo explícito foi a pacificação da classe operá- ria, bem como erodir sua organização e garantir a paz social. A classe operária industrial recebeu um status social mais digno e ficou sob a tutela estatal. O welfare state, conforme define Esping-Andersen (1995),2 é um tipo es- pecial de capitalismo voltado à produção e distribuição de proteção social (ou bem-estar social) para um conjunto definido de cidadãos. Assim, o que singula- rizaria cada tipo específico de capitalismo de bem-estar seria a forma pela qual as instituições interdependentes do Estado, do Mercado e da Família se arran- jam e se combinam para a tarefa de produção e distribuição do welfare state. as bases Do estaDo Do bem-estar ou WelfAre-StAte A construção do Estado do Bem-Estar está relacionada a três elementos es- senciais: (i) a existência de excedentes econômicos passíveis de ser realocados pelo Estado para atender às necessidades sociais; (ii) o pensamento keynesia- no, que estruturou a sua base teórica; e (iii) a experiência de centralização go- vernamental durante a Segunda Guerra Mundial, que fomentou o crescimento da capacidade administrativa do Estado. De acordo com esses elementos básicos, foram desenvolvidas distintas teo- rias para explicar o surgimento e o desenvolvimento do Estado de Bem-Estar Social. Destacam-se, entre elas, além da Nova Economia Institucional ou Teo- ria Neoinstitucional, a Teoria da Convergência ou lógica da industrialização, a Teoria da Cidadania, a Teoria Marxista e a Teoria Funcionalista. i. Nova Economia Institucional (NEI) ou Teoria Neoinstitucional. As transformações sobre a forma de se pensar a atividade econômica de 2 ESPING-ANDERSEN, G. As três economias políticas do Welfare State. Lua Nova, v. 24, p. 85- 116, 1995. 56 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira um modo geral, com as contribuições de Coase (A natureza da firma, de 1937) e North (1990), estimularam o interesse no meio acadêmico pelo estudo das instituições sobre a organização. Os estudos de North (1990) buscam aprofundar a compreensão da re- lação entre instituições e eficiência, ou seja, têm como objeto de análi- se o efeito de diferentes instituições sobre o desempenho econômico. Sustenta North (1990, 1998) que, para o funcionamento da atividade econômica não apenas as organizações são importantes, mas também as instituições, as quais exercem papéis ativos quanto à organização destas atividades. As organizações desenvolvem suas atividades inse- ridas em um contexto maior do ambiente institucional e são moldadas por suas regras e restrições. O propósito da NEI ou Teoria Neoinstitucional é explicar o papel das instituições no processo de desenvolvimento. Instituições são as re- gras do jogo numa sociedade ou, mais formalmente, as restrições cria- das para moldar a interação humana e, assim, estruturar incentivos para ações de natureza política, social ou econômica (NORTH, 1990, p. 91). As instituições podem ser formais: a constituição, as leis e os regulamentos; regras criadas pelos governos; e informais: convenções e códigos de conduta estabelecidos pelos indivíduos. O desenvolvi- mento das organizações (políticas, econômicas, sociais e educacio- nais) decorre das instituições. As instituições abrangem as crenças da sociedade, sendo que os resultados são em grandeparte o produto de nossas crenças, e a mídia, que se apresenta como veículo para mani- festação de opiniões sobre o governo e as reformas, atuando como ca- nal de pressão em favor de mudanças nas instituições. ii. A Teoria da Convergência ou lógica da industrialização defende que o Estado passou a garantir um padrão mínimo de vida quando as insti- tuições que tradicionalmente desempenhavam esse papel perderam a capacidade para desempenhá-lo. Explica-se, dessa forma, a motivação que teria levado todas as nações industrializadas, independentemente de suas especificidades históricas ou culturais, a adotar políticas sociais a fim de reduzir a marginalização de determinados grupos – que teria sido provocada pela industrialização. Para essa corrente de pensamen- to, a expansão do welfare state baseou-se na crença de que a ação re- distributiva do Estado se harmonizava com o crescimento econômico, o qual, por sua vez, é indispensável para que o Estado possa exercer suas novas funções sociais. As condições econômicas favoráveis e necessida- des sociais, no entanto, não são suficientes para estabelecer esse mode- lo estatal. Torna-se necessário, ainda, o desenvolvimento da burocracia e do sistema político. Assim, as políticas sociais são simultaneamente requisito e consequência da economia capitalista e da democracia mo- Origem e trajetória do modelo de Estado do bem-estar 57 derna. Fica evidenciado, desse modo, que as principais causas do sur- gimento desse tipo de Estado são resultado do crescimento econômico, da mudança demográfica e da burocratização. iii. A Teoria da Cidadania, apoiada na contribuição de T. H. Marshall, se preocupou em analisar o desenvolvimento dos três componentes da cidadania moderna na Inglaterra: os direitos civis, políticos e sociais. Marshall, apoiado nos resultados de suas pesquisas, realizadas em um país em que a cidadania se desenvolveu por meio de um processo in- cremental, linear e evolucionário, procurou universalizar essas carac- terísticas. Ao analisar sua contribuição para o conhecimento, essa teo- ria, quando aplicada a outros países, não se ajusta, em boa parte, aos seus respectivos processos de desenvolvimento histórico. iv. A Teoria Marxista, que tem em Karl Marx o seu expoente, susten- ta que o welfare state nasceu em decorrência da natureza competi- tiva da dinâmica político-partidária das democracias de massa, que obrigou os partidos políticos a buscar o máximo de apoio eleitoral. O aumento da base do eleitorado criou maior heterogeneidade dos grupos de apoio, diluindo assim a identidade coletiva e, por con- sequência, reduzindo o radicalismo político. Concomitantemente, o conflito de classes nas sociedades industriais se institucionalizou, concentrando-se nas questões distributivas, em detrimento daquelas ligadas à produção. v. A Teoria Funcionalista, na mesma linha do marxismo, sustenta que os programas sociais procuram gerar a harmonia social, aprimoran- do as aptidões dos trabalhadores e garantindo a eles um relativo bem-estar. Contribuem, dessa maneira, para a adequação do funcio- namento do mercado de trabalho capitalista. Observam os técnicos da citada escola que, ao subsidiar gastos sociais que estavam anterior- mente a cargo do setor privado, o Estado opera primordialmente em benefício do capital. É pertinente ressaltar que as teorias Marxista e Funcionalista sustentam que as políticas sociais são úteis e funcionais para o capitalismo. De acordo com essas correntes de pensamento, as políticas sociais amortecem o processo de acumulação e diminuem os choques decorrentes da concentração de renda. Assim, a transferência de renda do governo para determinados grupos viabiliza simultaneamente a produção e a circulação de bens. Isso implica a redução dos custos de reprodução, aumenta a produtividade dos trabalhadores e garante a manutenção de níveis elevados de demanda agregada, o que reduz a possibili- dade dos riscos de uma crise sistêmica. 58 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira o estaDo corPorativo O corporativismo é apresentado pelos seus formuladores como uma al- ternativa teórica ao pluralismo. O ponto de convergência dos teóricos dessa corrente de pensamento é a crítica ao pluralismo, que consideram incapaz de explicar o desenvolvimento da organização político-social, a dinâmica política e as transformações nas formas institucionais de relação entre Estado e interes- ses de classe organizados. Existem dois tipos de corporativismo: o estatal, mo- delo utilizado na América Latina, e o societal ou neocorporativismo, adotado na Europa e nos Estados Unidos. O corporativismo é definido como um sistema de representação de interes- ses que se diferencia do pluralismo por ser este último constituído por unida- des não competitivas, oficialmente sancionadas e supervisionadas pelo Estado. Essa visão está baseada nas seguintes premissas: o Estado possui elevada au- tonomia diante da sociedade; há uma competição limitada entre um pequeno grupo de organizações fortemente centralizadas, que são detentoras do mono- pólio da representação; essas organizações são constituídas compulsoriamente e seus membros estão a ela vinculados; o Estado interfere diretamente no seu funcionamento, tornando-as quase públicas, e as relações entre elas são está- veis e obedecem a uma lógica de atender a interesses mútuos. O modelo estatal está fundado em três distintas correntes: a culturalista, a societalista e a estruturalista. Divisão De resPonsabiliDaDes: estaDo, mercaDo e família Com base no modelo bismarckiano (Estado Corporativo), criaram-se outros três modelos, todos orientados para a divisão de responsabilidades e tarefas en- tre o Estado, o mercado e a família. São eles: o modelo beveridgeano (imple- mentado na Inglaterra, após a Segunda Guerra Mundial, por Sir William Beve- ridge), baseado em três pilares: o pleno emprego, o serviço nacional de saúde e o abono da família (Estado social-democrata); os modelos: Residual, Produti- vidade e Desempenho Industrial; e o Redistributivo Institucional. Estes últimos, propostos por Richard Titmuss, visam defender a intervenção do Estado, fomen- tar a ética do trabalho, ressaltar o papel da família e destacar que os parâmetros econômicos não devem ser as únicas medidas para a provisão de bem-estar. O modelo residual prescreve uma participação mínima e temporária do Estado, cabendo à família e ao mercado satisfazer à maior parte das necessi- dades humanas. A assistência pública só deve ser concedida àqueles que não disponham de condições de ter acesso à assistência privada. Esse modelo é, portanto, o que mais se aproxima do sistema empregado nos Estados Unidos (Estado liberal). Origem e trajetória do modelo de Estado do bem-estar 59 O modelo de Produtividade e Desempenho Industrial, por sua vez, pro- põe que o Estado desempenhe um papel mais relevante, complementar ao da iniciativa privada. Assim, os benefícios ofertados são proporcionais ao mérito individual e a recompensa decorre da produtividade e do desempenho indivi- dual no trabalho. No modelo Redistributivo Institucional, o Estado passa a assumir uma fun- ção essencial, visto que os serviços e benefícios são fornecidos de forma univer- sal, independentemente do mercado e de acordo com as necessidades indivi- duais. Nesse sentido, o modelo Redistributivo Institucional tem como propósito atingir maior igualdade entre os cidadãos, por entender que o bem-estar indi- vidual é responsabilidade da sociedade, o que implica que todas as pessoas têm direito à cidadania plena. a concePção Da iDeia Do estaDo Do bem-estar O Estado do Bem-Estar, que foi gerado para contrapor-se aos processos econômicos desumanizados, inflexíveis, onipotentes e onipresentes, é uma as- piração ao direito à equidade e um apelo para romper com as estruturas de mercado, impessoais, homogeneizantes e universalistas. É a procura menos dramática de identidade entre a democracia e a liberdade econômica. Isso fica evidenciadoem distintos estudos, como o de Castells (1994), que realizou um balanço positivo da aplicação do citado modelo e seus efeitos sobre a dinâmica do crescimento econômico nas décadas de 1950, 1960 e primeira metade da década de 1970. Argumenta Castells em relação à constituição de um Estado do Bem-Es- tar que: “en suma la constitución de un Estado del Bienestar [...] en los últimos cincuenta años ha articulado a las sociedades, dinamizando la economía y hecho posible que las personas se sientan individuos con futuro y ciuda- danos con derechos en la práctica” (1994, p. 178). o estaDo De Proteção social no brasil Verifica-se que ocorreu no Brasil, a partir do início dos anos 1930 até a dé- cada de 1980, um lento processo de expansão das políticas sociais, que foram deixando de ser privilégio dos trabalhadores do setor formal para abranger se- tores mais amplos da população. Com a promulgação da Constituição Federal de 1988 os direitos de cidadania aumentaram de forma significativa, visto que passaram a ser universais. 60 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira Não existe um consenso sobre o modelo de sistema de proteção social construído no Brasil ao longo da segunda metade do século XX. Para Draibe (1993), o modelo de Estado de Bem-Estar brasileiro adotado até os anos 1980 é do tipo conservador-corporativo. Vianna (1998),3 por sua vez, caracteriza-o como neocorporativista e americanizado. Outros autores, como, por exemplo, Poschmann (2003)4 e Matias-Pereira (2010b), consideram que, mesmo con- tando com um sistema de proteção social amplo, o Brasil nunca teve um Estado de Bem-Estar nos moldes universalistas, como os existentes em grande parcela dos países europeus. A Constituição de 1988 procurou redirecionar o sistema para um modelo de proteção social institucional-redistributivo ou mais universalista e equânime (DRAIBE, 1993, p. 23).5 Os critérios de elegibilidade para os benefícios foram redefinidos e a sua cobertura ampliada pela Constituição de 1988, que estabe- leceu um sistema composto por: Previdência Social, Assistência Social e Saúde. a crise Do estaDo Do bem-estar As evidências históricas mostram que quatro fatores foram fundamentais para agravar a crise do modelo do Estado do Bem-Estar: os crescentes desequi- líbrios internos, evidenciados nos déficits fiscais; a espiral inflacionária, que re- percutiu na dinâmica do comércio internacional; o crescimento desmedido dos índices da dívida externa; e a crise de legitimidade social, impulsionada pelo processo de segmentação da sociedade em que se confrontaram setores minori- tários enriquecidos com uma crescente classe média empobrecida (OECD, 1981, 2008).6 Registre-se que esse cenário se agravou, ainda mais, com a crise econô- mica mundial, que teve início nos Estados Unidos no final de 2007, e que vem repercutindo fortemente nos países europeus.7 As ações políticas visando à reforma e modernização do Estado começam a ser implantadas quando o modelo de Estado estruturado pelos países de- senvolvidos no pós-guerra entrou em crise no final da década de 1970. Esse modelo de Estado, que primava por estar presente em todas as faces da vida 3 VIANNA, M. L. T. W. A americanização (perversa) da seguridade social no Brasil. Estratégias de bem-estar e políticas públicas. Rio de Janeiro: Iuper/Ucam, Editora Revan, 1998. 4 POSCHMANN, M. Gastos sociais, distribuição de renda e cidadania: uma questão política. Eco- nômica, v. 5, nº 1, p. 111-114, 2003. 5 DRAIBE, S. M. Qualidade de vida e reformas de programas sociais: o Brasil no cenário latin- -americano. Revista de Cultura e Política, São Paulo: Cedec, nº 31, p. 5-46, 1993. 6 OECD. The welfare in crisis. Paris: OECD, 1981. Veja, também, OECD. GrowingUnequal? Income- Distribution and Poverty in OECDCountries. Paris: OECD, 2008. 7 MATIAS-PEREIRA, José. Efeitos da crise mundial e perspectivas de expansão da economia bra- sileira – APGS. Revista de Administração Pública e Gestão Social, v. 4, p. 2-31, 2012. Origem e trajetória do modelo de Estado do bem-estar 61 social, contribuiu para modificar e desgastar significativamente suas relações com a sociedade civil e com suas instituições. A resposta para o problema, em princípio, foi a adoção de um modelo neoliberal-conservador. As políticas propostas na década de 1980, em decorrência da necessidade de reformar o Estado, restabelecer seu equilíbrio fiscal e equilibrar o balanço de pagamen- tos dos países em crise, foram orientadas com a única preocupação: reduzir o tamanho do Estado e viabilizar o predomínio total do mercado (MATIAS- -PEREIRA, 2003c). A recomendação contida na proposta neoliberal-conservadora, entretanto, mostrou-se descabida de sentido econômico e político. Ficou evidenciado que, depois de algum tempo, a solução não estaria no desmantelamento do aparelho estatal, mas em sua reconstrução. Assim, passou a prevalecer o entendimento de que era preciso construir um Estado para enfrentar os novos desafios da socieda- de pós-industrial. Esse Estado deveria ser capaz de garantir o cumprimento dos contratos econômicos, bem como de ser forte o suficiente para assegurar os di- reitos sociais e a competitividade de cada país no cenário internacional. 7 Teoria da burocracia “Todo poder procura suscitar e cultivar a fé na própria legitimidade. Todo poder se manifesta e funciona como administração.” (Max Weber, 1982) introDução Merece destaque nos estudos, Max Weber (1864-1920) o seu livro A éti- ca protestante e o espírito do capitalismo, no qual argumenta que o capitalismo é um sistema econômico baseado em ações racionalmente calculadas para obter um lucro continuado, ou seja, não é simplesmente dirigido pela ânsia pelo lucro, pela ganância. Para o autor, o capitalismo, assim como a ciência, o direito, a arte, a organização acadêmica e o Estado, não é exclusividade do mundo ocidental moderno; ações capitalistas seriam observáveis e relatadas em vários períodos e locais no mundo (WEBER, 2010).1 Weber (2010) busca compreender um fenômeno observado na transição do século XIX para o XX, a ocorrência de um nível de desenvolvimento capita- lista mais elevado nos países de confissão protestante e uma proporção maior de protestantes entre os detentores de capital, aqueles mais qualificados e, como corolário, integrantes das camadas superiores. No seu estudo, o autor conclui que o “espírito” do capitalismo é compatível com o racionalismo eco- nômico, que apresenta uma estreita relação com o aumento da produtividade do trabalho, compatível com a ética protestante. 1 WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Veja, também, WEBER, M. Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. Teoria da burocracia 63 Por sua vez, o termo burocracia, adotado por Weber (1963, 1982)2 nos seus estudos, designa um modelo específico de organização administrativa. Buro- cracia, num sentido amplo, pode ser definida como um sistema de controle so- cial baseado na racionalidade – adequação dos meios para se alcançar os fins –, tendo como referência a eficiência para alcançar os resultados esperados. Registre-se que a teoria da burocracia surge em decorrência da fragilidade e da parcialidade das teorias clássica e das relações humanas, que detinham uma visão extremista e incompleta sobre as organizações; da necessidade de um modelo racional que envolvesse todas as variáveis da organização; e do crescimento e da complexibilidade das organizações, que passou a exigir mo- delos mais bem definidos. Na medida em que identifica os tipos ideais, Weber (1982) explicita os aparatos ideológicos que perpetuam e justificam a racionalidade no capitalis- mo ocidental, suprimindo os tapumes que ocultava as relações e comporta- mentos dos indivíduos no interior das organizações. É relevante ressaltar que a relação e a interação existente entre o capitalis- mo e a burocracia viabilizou o desenvolvimento de ambos. Foi apoiado na or- ganizaçãoburocrática que o sistema capitalista se impôs. Por sua vez, o sistema capitalista foi o responsável pela consolidação da administração burocrática. Os diferentes entendimentos sobre a burocracia são decorrentes das inú- meras pesquisas realizadas em diversas áreas do conhecimento, notadamente no campo das ciências sociais: sociologia, ciência política, direito, administra- ção e administração pública. Entre outros entendimentos, a burocracia tem sido percebida como organização, como categoria social, como poder político. Os estudos seminais sobre o tema foram realizados por Max Weber (1982) e serviram de base para vários outros pesquisadores de diversas correntes epis- temológicas. A dimensão dessa contribuição explica por que, ao lado de Émi- le Durkheim e Karl Marx, Max Weber ocupa um lugar de destaque no rol dos grandes pensadores da sociologia moderna. o conceito De PoDer na visão De max Weber O poder está estreitamente vinculado às relações de mando, à capacida- de de decisão, à luta, aos antagonismos, à possibilidade de utilização de força, persuasiva ou material. A consolidação do poder nas formações sociais concre- tas – assim como seus processos de legitimação, distribuição, preservação e, 2 WEBER, Max (1864-1920). The essentials of bureaucratic organization: an ideal-type con- strution. In Robert K. Merton et al. Glencoe, Illiniois: Free Press, p. 18-27, 1963. Veja, também, WEBER, Max. Burocracia. In: GERTH, H. H.; MILLS, C. Wright (Org.). Max Weber: ensaios de sociologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1982. p. 229-282. 64 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira principalmente, transformação de suas estruturas – está no âmbito do campo de estudo da ciência política. O conceito de poder está fortemente relacionado à questão da dominação, visto que o tema remete obrigatoriamente para os dominantes e dominados, ou seja, aqueles que exercem o poder e aqueles sobre quem o poder é exercido. Para Weber (1982), o “poder significa toda oportunidade de impor sua própria vontade, no interior de uma relação social, até mesmo contra resistên- cias, pouco importando em que repouse tal oportunidade”. Assim, Weber en- tende por poder as oportunidades que um homem, ou um grupo de homens, têm de realizar sua vontade, mesmo contra a resistência de outros homens que participam da vida em sociedade. Possuir o poder, portanto, é conseguir impor sua vontade sobre a vontade de outras pessoas. o moDelo burocrático De max Weber O modelo burocrático de Weber seria uma forma de dominação, que se manifestaria no “tipo ideal” de dominação legítima. A forma de dominação era entendida da seguinte maneira: dominação racional (legal), fundada na legitimidade que as ordens possuem dentro de posições específicas, as quais conferem ao indivíduo o direito de mando; dominação tradicional, que tem sua origem na crença e nas tradições correntes, as quais conferem legitimidade àqueles representantes da autoridade; e dominação carismática, baseada na admiração da conduta exemplar de uma pessoa, que lhe propicia o poder da ordem. Deve-se ressaltar que a primeira representação de dominação, defini- da como autoridade legítima dentro da organização burocrática, recebeu uma atenção especial nos estudos de Weber. A burocracia3 é o tipo de administração caracterizada por uma hierarquia formal de autoridade, na qual existem regras definidas para a classificação e solução de problemas, que devem ser estendidas às comissões e aos organis- mos coletivos de decisão e formas escritas de comunicação. Em geral, é pecu- liar das repartições e instituições estatais; porém, em certa medida, pode ser verificada nas grandes corporações privadas. O termo burocracia é utilizado também em outros sentidos: serve para designar tanto o conjunto de funcioná- rios – ou burocratas – como para qualificar uma forma de proceder lenta, roti- neira, que dificulta e entrava toda decisão. 3 Segundo Weber (1982), a burocracia, enquanto forma de dominação, se sustenta sobre o conhecimento técnico, que além de lhe conferir caráter racional, a transforma em instrumento capaz de assegurar alta eficiência administrativa. Isso pressupõe certa racionalidade impessoal que, guiada por regras formais que padronizam e conferem igualdade no tratamento dos casos, define com precisão as relações de mando e subordinação, mediante a distribuição das ativida- des a serem executadas e de acordo com os fins a que se visa. Teoria da burocracia 65 O termo burocracia, na linguagem comum, assumiu diversos contornos e significados, e na maioria das vezes é referenciado como algo pejorati- vo. Nesse sentido, ela tende a ser relacionada à ineficiência, atrasos, confu- são, autoritarismo, privilégio, entre outras expressões de significado negativo (VASCONCELOS, 2002). Racionalidade é um conceito estreitamente relacionado à burocracia. No sentido weberiano, a racionalidade implica adequação dos meios aos fins. No contexto burocrático, isso significa eficiência. Assim, a Teoria da Burocracia, criada por Max Weber (1864-1920), está apoiada no entendimento de que um homem pode ser pago para agir e se comportar de maneira preestabelecida. Para que isso ocorra, deve ser a ele explicada com exatidão, minuciosamente e em hipótese alguma permitir que suas emoções interfiram no seu desempe- nho. Essa teoria passa a ganhar importância no âmbito da Administração, nos anos 1940, em decorrência das inconsistências da Teoria Clássica e da Teoria das Relações Humanas. Tornam-se evidentes, assim, a necessidade da criação de um modelo de organização racional que pudesse identificar todas as variá- veis envolvidas, bem como o comportamento dos membros participantes, e que fossem factíveis as distintas formas de organização humana, em especial as relacionadas às empresas, que exigiam modelos organizacionais consistentes. As bases das teorias da burocracia tiveram como fonte de inspiração o modo de estruturação da Igreja e do Exército. Nesse sentido, observa-se que a burocracia que conhecemos na atualidade é consequência das mudanças reli- giosas ocorridas após o Renascimento. Argumenta Max Weber que o moderno sistema de produção, eminentemente racional e capitalista, não teve sua ori- gem nas mudanças tecnológicas nem nas relações de propriedade, como sus- tentava Karl Marx. Para ele, essas mudanças eram resultado de um novo con- junto de normas sociais morais, às quais chamou de “ética protestante”. Essa ética era apoiada no trabalho duro e árduo, na poupança (que proporcionaram a reaplicação das rendas excedentes), em vez de seu dispêndio e consumo em símbolos materiais e improdutivos de vaidade e prestígio. Argumenta ainda que o capitalismo, a organização burocrática e a ciência moderna constituem três formas de racionalidade que surgiram a partir dessas mudanças religiosas ocorridas inicialmente em países protestantes – como Inglaterra e Holanda –, e não em países católicos. As semelhanças entre o protestantismo e o comporta- mento capitalista são impressionantes, porquanto essas três formas de raciona- lidade se apoiaram nas mudanças religiosas (WEBER, 2010). PrinciPais características Do moDelo burocrático De Weber Com vista a permitir uma melhor visão do tema burocracia, apresentamos, a seguir, o quadro-síntese com as principais características do modelo burocrá- tico, formulada por Max Weber (1982). 66 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira Quadro 4.1 Síntese – características do modelo burocrático – Max Weber MODELO BUROCRÁTICO – MAX WEBER • Fatores que contribuíram para o desenvolvimento da burocracia: . Economia monetária: a moeda racionaliza as transações econômicas. . Superioridade técnica: a burocracia é superior a qualquer outro tipo de organização. • Características da Burocracia: . Caráter legal das normas e regulamentos: é uma organização ligada por normas e regulamentos. . Caráter formal das comunicações: são registradas por escrito. . Divisão racional do trabalho.. Impessoalidade: relação a nível de cargos, e não de pessoas. . Hierarquia: cada cargo inferior deve estar sob supervisão do cargo automaticamente superior. . Rotina: o funcionário deve fazer o que a burocracia manda; não tem autonomia. . Meritocracia: a escolha das pessoas é baseada no mérito e na competência técnica. . Especialização da Administração: separação entre propriedade e administração. . Profissionalização. . Previsibilidade: prever as ações; por meio das normas. • Tipos de Poder: . Tradicional: prevalecem características patriarcais e patrimonialistas. . Carismático: prevalecem características místicas e personalísticas; há seguidores, devoção, autenticidade. . Legal ou burocrático: prevalecem normas impessoais e hierárquicas, como no exército, repartições públicas, entre outras. • Tipo Ideal de Burocracia (sete dimensões principais): . Formalização. . Divisão do trabalho. . Princípio da hierarquia. . Impessoalidade. . Competência técnica. . Separação entre propriedade e administração. . Profissionalização do funcionário. Fonte: Matias-Pereira (2010a), com adaptações. Teoria da burocracia 67 Gestão Pública Na gestão da coisa pública Weber constatou que o emperramento da má- quina administrativa se caracterizava nos seguintes problemas: disfuncionali- dade organizativa; antidemocraticidade dos aparelhos dos partidos e dos Es- tados; corporativismo; e incapacidade técnica da Administração Pública. A burocracia weberiana especifica as variantes modernas das soluções dadas aos problemas gerais da administração e ressalta as seguintes características: legitimidade do processo decisório; aparelho administrativo legalmente cons- tituído; funções administrativas exercidas de modo continuado; e decisões for- malizadas com base em documentos escritos. Segundo Weber (1982), a burocracia pode ser compreendida como um conjunto de regulamentos, leis e normas que o funcionário, supervisionado por seu superior, deve cumprir, sempre respeitando a estrutura hierárquica, à qual deve obedecer fiel e dignamente. A burocracia – como estrutura organizativa e administrativa, constituída por funcionários sujeitos à hierarquia e a regula- mentos –, surgiu durante o Estado Moderno para atender às necessidades da época. Porém, com o passar do tempo foi ampliando seu território de poder e, atualmente, passou a ser o próprio poder. A palavra burocracia vem do francês bureau – oficina (escritório) + cratie (poder, autoridade). O domínio legal é caracterizado, do ponto de vista da legitimidade, pela existência de normas formais e, da perspectiva do aparelho, pela existência de um staff administrativo burocrático (grupo qualificado de funcionários pela aptidão e competência, que assiste a um dirigente em entidades públicas e pri- vadas). Weber (1982), portanto, define a burocracia como a estrutura admi- nistrativa de que se serve o tipo mais puro do domínio legal. No entanto, verifica-se que as duas principais causas do desvirtuamento da burocracia – as quais são responsáveis pela interpretação e emprego errôneos do termo – são: (i) a centralização e a verticalização do processo decisório, tendo como consequência a morosidade dos trâmites processuais na estrutura hierár- quica em sentido ascendente; e (ii) a falta de flexibilidade, ou seja, preocupa- ção obsessiva em seguir regras. Quando surgem casos que não se encaixam com precisão às regras, não há lugar para modificação. Na medida em que não pode converter-se em racionalização, com atividades definidas e praticadas com ob- jetividade, a burocracia transforma-se no emperramento do processo decisório, conectado a um emaranhado de regras que não permitem a sua transposição. vantaGens Da burocracia Segundo Weber (1982), as vantagens da burocracia são: racionalidade em relação ao alcance dos objetivos da organização; precisão na definição do car- 68 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira go e na operação, pelo conhecimento exato dos deveres; rapidez nas decisões, pois cada um conhece o que deve ser feito e por quem, e as ordens e papéis tra- mitam por meio de canais preestabelecidos; univocidade de interpretação garan- tida pela regulamentação específica e escrita. Contudo, a informação é discreta, uma vez que é fornecida apenas a quem deve recebê-la; uniformidade de ro- tinas e procedimentos que favorecem a padronização, redução de custos e de erros, pois os procedimentos são definidos por escrito; continuidade da organi- zação por meio da substituição do pessoal que é afastado. Por sua vez, os critérios de seleção e escolha do pessoal baseiam-se na ca- pacidade e na competência técnica; na redução do atrito entre as pessoas, pois cada funcionário conhece que aquilo que é exigido dele são os limites entre suas responsabilidades e as dos outros; na constância, visto que os mesmos tipos de decisão devem ser tomados nas mesmas circunstâncias; na subordi- nação dos mais novos aos mais antigos, de modo que o superior possa tomar decisões que afetem o nível mais baixo; na confiabilidade, pois o negócio é conduzido de acordo com regras conhecidas, e grande número de casos simi- lares é metodicamente tratado por meio de uma mesma maneira sistemática. As decisões são previsíveis e o processo decisório, por ser despersonalizado no sentido de excluir sentimentos irracionais, como o amor, a raiva, as preferên- cias pessoais, elimina a discriminação pessoal. Existem benefícios em relação a certas pessoas na organização, pois a hierarquia é formalizada, o trabalho é dividido de maneira ordenada, as pessoas são treinadas para se tornarem espe- cialistas em seus campos particulares, podendo encarreirar-se na organização em função de seu mérito pessoal e sua competência técnica. Nessas condições, o trabalho é profissionalizado, o nepotismo é evitado e as condições de trabalho favorecem a moralidade econômica e dificultam a corrupção. A equidade das normas burocráticas, quase sempre baseadas em padrões universais de justiça e de tratamento igualitário, tem a virtude de assegurar cooperação entre grande número de pessoas sem que estas se sintam necessariamente cooperadoras. As pessoas cumprem as regras orga- nizacionais principalmente porque os fins alcançados pela estrutura total são altamente valorizados e cada qual deve fazer a sua própria parte para que o objetivo seja atingido. Mesmo considerando a burocracia como a mais eficiente forma de orga- nização criada pelo homem, Weber temia essa grande eficiência, cujos resul- tados, advindos da crescente burocratização do mundo moderno, seriam uma enorme ameaça à liberdade individual e às instituições democráticas das socie- dades ocidentais. Quanto aos seus dilemas, Weber percebeu que existia uma fragilidade na estrutura burocrática, que enfrenta um impasse típico: de um lado, existem pressões constantes de forças exteriores para encorajar o burocrata a seguir normas diferentes das da organização e, de outro lado, o compromisso dos su- Teoria da burocracia 69 bordinados com as regras burocráticas tende a enfraquecer gradativamente. A organização, para ser eficiente, exige um tipo especial de legitimidade, racio- nalidade, disciplina e limitação de alcance. Burocracia, segundo esse mesmo autor, é uma organização cujas conse- quências desejadas se resumem na previsibilidade do seu funcionamento, no propósito de alcançar maior eficiência da organização. Estudando as consequên- cias previstas (ou desejadas) da burocracia que a levam à máxima eficiência, percebeu também as consequências imprevistas (ou indesejadas) que a condu- zem à ineficiência e às imperfeições. Essas disfunções emperram e estrangulam as organizações; com isso, prejudicam os clientes e, por consequên cia, impe- dem a modernização das mesmas. Observa-se que os estudos sobre burocracia já têm uma tradição na ciên- cia política brasileira, contando com análises clássicas a respeito da criação do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP),do papel da ad- ministração paralela no período JK e do modelo burocrático instituído pelos governos militares. Em linhas gerais, essa literatura mostra a importância da burocracia – ou de parte dela – para a definição dos rumos do Estado nacio- nal-desenvolvimentista. Atualmente, podemos constatar que inúmeros estudos foram realizados pelos teóricos brasileiros sobre a burocracia no contexto da Nova Administração Pública. 70 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira questÕes Para Discussão Parte i Na Parte I deste livro – Capítulos 1 a 7 – tem-se como propósito debater os conceitos e a compreensão dos fundamentos da Ciência Política, Estado, Go- verno e Administração Pública, a partir das contribuições dos principais teóri- cos que trataram desse tema. Parte i: exercícios 1. Após as leituras e os contatos com colegas e o professor da disciplina, ela- bore (preferencialmentte em grupos) uma síntese – tendo como referência as teorias naturalistas ou da origem natural do Estado – sobre a conver- gência que existe entre o pensamento de Aristóteles e de Santo Tomás de Aquino sobre o poder, o Estado, as formas de governo e a legitimidade das leis. Debater o tema em sala de aula. 2. A partir do debate sobre as teorias em relação à origem do Estado, elabo- re uma síntese sobre os inúmeros instrumentos e meios que o Estado mo- derno utilizou para facilitar o controle político da monarquia. Debater o assunto em sala de aula. 3. Maquiavel é aceito como uma referência na elaboração da moderna concep- ção de política. Para a maioria dos teóricos das Ciências Sociais, é identifi- cado como o pai da Ciência Política moderna. Enquanto a política antiga e a medieval procuravam descrever o bom Governo, ditando as regras do go- vernante ideal, Maquiavel verifica como os governantes realmente agem. Na sua obra mais conhecida, O príncipe (1513), estão refletidas as condições po- líticas da época em que foi escrito. A partir dessa afirmação, faça uma síntese sobre a importância da obra de Maquiavel, em particular sobre o estudo da política separada da moral e da religião. Debater o assunto em sala de aula. 4. O pluralismo, segundo Bobbio (2003), nasce como uma maneira diferen- ciada de equilibrar o Estado e a sociedade, que busca enfatizar a necessi- dade de conciliar as suas respectivas demandas e imperativos por meio de uma síntese cuidadosa. A divisão da autoridade, na teoria pluralista, impe- de que o Governo adote medidas apressadas, muitas vezes imprudentes, e pode impedir também toda e qualquer medida quando houver discordân- cia entre centros importantes de poder. Perguntas: O pluralismo apresenta-se como uma evolução do liberalismo? Justifique. Existe semelhança entre o pluralismo adotado nos Estados Unidos e no Brasil? Justifique. Debater o assunto em sala de aula. Teoria da burocracia 71 5. Pode-se afirmar que a política, como uma ciência crítica da realidade, tem na utopia sua referência. A ciência política preocupa-se em analisar fatos, ações e o funcionamento de instituições, além de avaliar os resulta- dos das ações e das políticas implantadas. Ela descreve, por meio dos fatos, os distintos interesses que justificam e orientam as ações em uma direção, e não em outra, em determinado momento histórico e contexto específico. Pergunta: A pesquisa sobre o funcionamento do Estado divide-se em quais áreas? Fundamente. Debater o assunto em sala de aula. 6. É sabido que a origem do Estado do Bem-Estar está relacionada a três ele- mentos essenciais: (i) a existência de excedentes econômicos passíveis de ser realocados pelo Estado para atender às necessidades sociais; (ii) o pen- samento keynesiano, que estruturou a sua base teórica; e (iii) a experiên cia de centralização governamental durante a Segunda Guerra Mundial, que fo- mentou o crescimento da capacidade administrativa do Estado. Pergunta: Quais as principais teorias que foram elaboradas para explicar o surgimento e o desenvolvimento do Estado de Bem-Estar So- cial? Fundamente. Debater o assunto em sala de aula. 7. A burocracia é o tipo de administração caracterizada por uma hierarquia formal de autoridade, na qual existem regras definidas para a classificação e solução de problemas, que devem ser estendidas às comissões e organis- mos coletivos de decisão e formas escritas de comunicação. Em geral, é pe- culiar das repartições e instituições estatais, porém, em certa medida, pode ser verificada nas grandes corporações privadas. Pergunta: Quais as principais vantagens da burocracia, na concepção de Max Weber? Fundamente. Debater o assunto em sala de aula. Vamos debater a seguir, na Parte II deste livro, os temas que tratam de Governo, Governabilidade, Governança e Accountability na Administração Pública. Parte II Governo, Governabilidade, Governança e Accountability 8 Governo, Administração Pública e sociedade civil “O objetivo do estudo administrativo é salvar os métodos executivos da confusão e alto custo do experimento empírico e baseá-los em fundamentos firmemente arraigados em princípios estáveis.” (Woodrow Wilson, 1887) introDução O Estado, num sentido amplo, é a sociedade política e juridicamente or- ganizada em determinado território, dotado de soberania; o governo, por sua vez, é o núcleo estratégico ocupado de forma temporária por indivíduos que definem os objetivos, diretrizes e metas do Estado; e administração pública é a máquina estatal que viabiliza a vontade política do governo. Nesse contexto, assinala Bandeira de Mello (2013)1 que a função do Esta- do ou função pública, no Estado Democrático de Direito, é a atividade exercida no cumprimento do dever de alcançar o interesse público, mediante o uso de poderes instrumentalmente necessários conferidos pela ordem jurídica. É sabido que governar está relacionado a adotar medidas e/ou decisões para atender às necessidades públicas. Nesse sentido, argumenta Motta (1991, p. 15) que: 1 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo. 30. ed. São Paulo: Ma- lheiros, 2013. 76 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira “Governar significa tomar decisões sobre alternativas de ação para a so- ciedade. Tais alternativas têm como base, em princípio, o interesse públi- co expressado coletivamente, de acordo com um processo administrativo onde demandas e apoios são convertidos em normas, produtos e serviços. Resultando uma distribuição de direitos e deveres, benefícios e custos, fun- damentados na autoridade.” Governar, para Nogueira (2001, p. 99), significa: “deter uma posição de força a partir da qual seja possível desempenhar uma função imediatamente associada ao poder de decidir e implementar decisões ou, ainda, de comandar e mandar nas pessoas”. Torna-se possível, assim, argumentar, de forma sucinta, que governo é a con- dução política do conjunto de órgãos e as atividades do Estado, estabelecendo suas diretrizes supremas. Nesse sentido, governo não se confunde com a admi- nistração pública, que tem a responsabilidade de executar as diretrizes definidas pelo governo. Registre-se que o governo pode agir com ampla discricionarieda- de; a administração pública, por sua vez, deve atuar de maneira subordinada. conceitos De eficiência, eficácia e efetiviDaDe Na abordagem sobre Administração Pública torna-se relevante definir os conceitos de eficácia, eficiência e efetividade. Eficácia é uma medida normativa do alcance de resultados, enquanto a eficiência é uma medida normativa da utilização de recursos nesse processo. No campo econômico, a eficácia de uma empresa refere-se à sua capacidade de satisfazer uma necessidade da sociedade por meio do suprimento de seus produtos (bens ou serviços), enquanto a eficiência é uma relação técnica entre entradas e saídas. Assim, eficiência é uma relação entre custos e benefícios. Ela representa a relação entre os recursos aplicados e o produto final obtido: é a razão entre o esforço e o resultado, entre a despesae a receita, entre o custo e o benefício resultante. A eficiência se preocupa em fazer corretamente as ações e/ou atividades a que se propõe, e da melhor maneira possível. Daí a ênfase nos métodos e procedimentos internos. A eficácia se preocupa em fazer de for- ma correta as ações e/ou atividades a que se propõe para atender às necessida- des da empresa e do ambiente que a envolve. Em síntese, podemos argumentar que a eficiência está relacionada ao mé- todo com o qual realizamos as ações pretendidas, eficácia diz respeito ao re- sultado final da ação (alcançou-se ou não o objetivo pretendido) e efetividade corresponde ao grau de qualidade do resultado obtido. Governo, Administração Pública e sociedade civil 77 conceito De aDministração Pública O conceito de Administração Pública é amplo e complexo. A ausência de uma definição clara e consistente do termo Administração Pública decorre da diversida- de de sentidos da própria expressão, quer pelos diferentes campos por meio dos quais se desenvolve a atividade administrativa. Em que pesem essas limitações, pode-se argumentar que a Administração Pública, num sentido amplo, designa o conjunto de serviços e entidades incumbidos de concretizar as atividades adminis- trativas, ou seja, da execução das decisões políticas e legislativas. Assim, a Admi- nistração Pública tem como propósito a gestão de bens e interesses qualificados da comunidade no âmbito dos três níveis de governo: federal, estadual ou municipal, segundo preceitos de Direito e da Moral, visando o bem comum. Waldo (1971, p. 6), no primeiro capítulo do seu livro O estudo da Adminis- tração Pública, publicado em 1955, na busca de responder a pergunta: o que é Administração Pública? assinala que: “(i) Administração pública são a orga- nização e a gerência de homens e materiais para a consecução dos propósitos de um governo; (ii) Administração pública são a arte e a ciência das gerências aplicadas aos negócios de Estado.” Harmon e Mayer (1999, p. 34) sustentam que “a Administração Pública é a ocupação de todos aqueles que atuam em nome do povo – em nome da so- ciedade, que delega de forma legal – e cujas ações têm consequências para os indivíduos e os grupos sociais”. Define Bobbio (1998, p. 10) que: “Em seu sentido mais abrangente, a ex- pressão Administração Pública designa o conjunto das atividades diretamente destinadas à execução das tarefas ou incumbências consideradas de interesse público ou comum, numa coletividade ou numa organização estatal.” A Administração Pública, para De Plácido e Silva (2000),2 em seu sentido amplo, é uma das manifestações do Poder Público na gestão ou execução de atos ou de negócios políticos. Isto se daria de forma tal que a Administração Pública se confundiria com a própria função política do poder público, expres- sando um sentido de governo que se entrelaçaria com o da Administração. Para Di Pietro (2013),3 o conceito de Administração Pública divide-se em dois sentidos: em sentido objetivo, material ou funcional, Administração Públi- ca pode ser definida como a atividade concreta e imediata que o Estado desen- volve, sob regime jurídico de direito público, para a consecução dos interesses coletivos; e, em sentido subjetivo, formal ou orgânico, pode-se definir Admi- nistração Pública como sendo o conjunto de órgãos e de pessoas jurídicas aos quais a lei atribui o exercício da função administrativa do Estado. 2 DE PLÁCIDO E SILVA. Vocabulário jurídico. 18. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2001. 3 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo. 26. ed. São Paulo: Atlas, 2013. 78 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira conceito De serviço Público O termo serviço público, na mesma linha do conceito de Administração Pú- blica, também é de difícil definição. A maioria das suas definições deriva da contribuição dos teóricos e juristas do Direito Administrativo, em função da forte tradição jurídica que envolve o estudo da Administração Pública brasilei- ra, distinta da Administração Pública norte-americana, cuja abordagem vem da Ciência Política. Para Di Pietro (2013), o serviço público se define como atividade material atribuída por lei ao Estado, que a exerce diretamente ou a delega a outrem, com o objetivo de satisfazer necessidades coletivas, regida total ou parcial- mente pelo regime do Direito Público. Bandeira de Mello (2013), por sua vez, sustenta que serviço público é o oferecimento pelo Estado, ou por quem este designar, de utilidade ou comodidade destinada à satisfação da coletividade em geral (ainda que possa ser usufruído somente pelos administrados) sob o regime do Direito Público e de acordo com os interesses públicos. conceito De estaDo social O papel do Estado Social, conforme define Bauman (1998),4 é atuar de maneira a reduzir os efeitos do mercado na geração de desigualdades, o que somente a política e a criação de estruturas voltadas para o interesse coletivo podem fazer, promovendo o princípio da comunalidade endossada, do seguro coletivo contra o infortúnio individual e suas consequências. Para Habermas (2000, p. 30 e 49), “enquanto Estado administrativo capaz de cumprir funções específicas, o Estado moderno tinha se diferenciado das instituições jurídicas engendra- das pela economia de mercado; em tanto que Estado fiscal, ele dependia, ao mesmo tempo, da economia capitalista. Ao longo do século XIX, ele abriu-se, em tanto que Estado-nação às formas democráticas de domina- ção. Em algumas regiões privilegiadas e nas condições favoráveis do pós- -guerra, este Estado-Nação, erigido em modelo em escala planetária, pode adotar – por meio da regulação de uma economia nacional cujos mecanis- mos permanecem intactos – a forma de Estado-social. Longamente coroa- da pelo sucesso, esta combinação está hoje ameaçada, na medida em que uma economia globalizada foge às intervenções de tal Estado regulador. [...] Esquematicamente, pode-se analisar a estrutura do Estado-Nação, em tanto que ela rege o processo democrático, sob quatro aspectos. Com 4 BAUMAN, Z. O mal-estar na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. Governo, Administração Pública e sociedade civil 79 efeito, o Estado moderno nasceu: (a) como Estado administrativo e fiscal; e (b) como Estado territorial soberano. E ele pode se desenvolver (c) no quadro do Estado-Nação para (d) tomar a forma de um Estado democrá- tico de direito e de um Estado social”. Argumenta Habermas sobre o Estado social (2000, p. 53) que: “nenhum preconceito ou discriminação deve privar aos grupos não pri- vilegiados de sua oportunidade de usar os direitos formais distribuí- dos igualitariamente. A dialética entre igualdade jurídica e desigualda- de real fundamenta a tarefa do Estado social que consiste em assegurar condições de vida sociais, tecnológicas e ecológicas que permitam a todos, em condições de igualdade de oportunidades, tirarem proveito dos direitos cívicos igualmente distribuídos”. conceito Da socieDaDe civil No debate sobre o papel da sociedade civil na atualidade, torna-se relevante retomar os argumentos de Tocqueville, visto que a valorização das instituições e associações voluntárias da esfera pública está fortemente relacionada à construção de instrumentos capazes de proteger as comunidades dos riscos do despotismo. A esse respeito, sustenta Habermas (2002), que é nas lutas pelo reconheci- mento de identidades, de defesa contra a opressão, marginalização e exclusão que a sociedade se articula e busca através de práticas democráticas a luta po- lítica e as interpretações de interesses coletivos, seja em meio à comunidade do povo ou no âmbito de uma cultura majoritária. Para aquele autor, a sociedade civil é um complexo institucional composto de “conexões não governamentais e não econômicas e associações voluntárias que ancoram as estruturas comu- nicativas da esfera pública”. Habermas (2002),5 no debate sobre a legitimação e a soberania popular, considera que na concepção liberal a formação democráticada vontade serve para legitimar o exercício do poder político, enquanto na concepção republi- cana ela possui um sentido mais profundo, ou seja, a sociedade deve ser cons- tituída como uma coletividade política. Ao exemplificar o papel da eleição nas sociedades inseridas sob tais regimes, Habermas sustenta que: “Na concepção liberal, as eleições equivalem a uma licença para a tomada do poder governamental, ao passo que o governo tem de justificar o uso 5 HABERMAS, J. A inclusão do outro: estudos de teoria política. São Paulo: Loyola, 2002. 80 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira desse poder perante a opinião pública e o parlamento. Na concepção repu- blicana, o governo não é apenas investido de poder para o exercício de um mandato sem maiores vínculos, por meio de uma eleição entre grupos de liderança concorrentes; ao contrário, ele está comprometido também pro- gramaticamente com a execução de determinadas políticas. Sendo mais uma comissão do que um órgão estatal, ele é parte de uma comunidade política que se administra a si própria, e não o topo de um poder estatal separado” (HABERMAS, 2002, p. 281). Para Arato e Cohen (1989, p. 429), o conceito de sociedade civil deve ser reconstruído para designar o nível institucional do mundo da vida: “este conceito incluiria todas as formas institucionais e associativas que requerem interação comunicativa para a sua reprodução e que se apoiam primordialmente em processos de integração social para coordenar ações dentro de seus limites”. Nesse sentido, Habermas (1996, p. 366) e os seus discípulos propõem a substituição do par Estado/mercado pela tríade Estado/mercado/sociedade ci- vil, tendo como preocupação abarcar analiticamente aquelas instituições so- ciais que não estão vinculadas ao Estado e/ou ao mercado. Para aqueles auto- res, essas novas instituições políticas recuperam uma dimensão da vida social relacionada ao exercício da cidadania, cujas funções de integração social e ra- cionalização do mundo da vida não podem ser exercidas plenamente nem pe- las instituições do Estado nem pelo mercado (ARATO; COHEN, 1992). Direitos à liberDaDe inDiviDual Os direitos civis na categorização de Marshall (1950) são aqueles que sus- tentam a liberdade individual: a liberdade da pessoa, a liberdade de expressão, de opinião e de credo, o direito da propriedade e a fazer contratos e o direito da justiça. Como os direitos políticos, os direitos civis são direitos “negativos” no sentido de que o Estado deveria respeitá-los e protegê-los visando garantir a autonomia dos indivíduos privados contra os abusos do próprio Estado. No caso dos direitos sociais, o Estado intervém de maneira ativa a fim de “igualar” as faculdades dos indivíduos para o gozo dos direitos civis e políticos. São di- reitos “positivos” que afetam os indivíduos de maneira diferenciada ainda que estejam disponíveis para todos. Governo, Administração Pública e sociedade civil 81 Foi Marshall (1992, p. 37)6 que assinalou a tensão entre os direitos civis e os direitos sociais em sua análise do surgimento dos direitos cidadãos. Argu- menta o autor que: “os direitos civis são indispensáveis para o funcionamento de uma econo- mia de mercado. Esses direitos proporcionam a cada indivíduo os meios para participar de forma independente na luta econômica. Desde o mo- mento em que o indivíduo está facultado para proteger-se a si mesmo, a proteção social através do estado resulta desnecessária. Esse foi o argu- mento para a destruição dos direitos sociais pré-capitalistas, baseados no pertencimento a uma comunidade local ou a uma associação funcional. Já temos visto que a tensão entre direitos civis e direitos sociais surgiu no- vamente no marco da ofensiva neoliberal ao privilegiar os direitos civis enfatizando a responsabilidade dos indivíduos para com seu bem-estar e o de seus dependentes”. (tradução livre nossa) Para Marshall (1950, p. 76), a cidadania é um status que é concedido àque- les indivíduos que são membros integrais de uma comunidade. Todos aqueles que possuem o status são iguais com respeito aos direitos e obrigações perti- nentes ao status. Não há nenhum princípio universal que determine o que es- tes direitos e obrigações serão, mas as sociedades nas quais a cidadania é uma instituição em desenvolvimento criam uma imagem de uma cidadania ideal em relação à qual o sucesso pode ser medido e em relação à qual a aspiração pode ser dirigida (tradução livre nossa). Nos seus estudos, Marshall (1963, p. 73-74)7 busca estabelecer uma dife- rença qualitativa entre a educação e os demais direitos sociais. Ao contrário dos demais serviços deste tipo, que passam a ser reivindicados no século XX, a edu- cação é colocada como elemento essencial à cidadania já no século XIX. Assim, a educação tem papel fundamental para a cidadania por ser o instrumento que permite o exercício pleno da liberdade civil e da democracia política. Para o autor, “os direitos civis se destinam a ser utilizados por pessoas inteligentes e de bom senso que aprenderam a ler e a escrever” (ibidem, p. 73). Do mesmo modo, era cada vez mais evidente que “a democracia política necessitava de um eleitorado educado” (ibidem, p. 74). 6 MARSHALL, T. H. [1950] Citizenship and social class. London: Pluto Press, 1992. 7 MARSHALL, T. H. Cidadania e classe social. In: MARSHALL, T. H. Cidadania, status e classe social. Rio de Janeiro: Zahar, 1963. 82 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira o PaPel Do estaDo na realização Dos Direitos sociais, na visão De marshall A realização dos direitos sociais, na concepção de Marshall (1992), depen- de de um Estado dotado de infraestrutura administrativa a fim de propiciar políticas sociais que garantam o acesso universal a um mínimo de bem-estar e segurança material. Evolução de instituições que contribuíram para o surgimento dos direitos, na visão de Marshall: • Tribunais: para garantir os direitos civis e proteção dos membros do Estado-nação em geral. • Instâncias representativas locais e nacionais: para garantir o acesso à participação na legislação e tomada de decisões públicas. • Serviços sociais/políticas de Estado: para garantir a proteção contra a pobreza, doença e, ainda, escolas para o cidadão receber pelo menos os elementos básicos de uma educação. Verifica-se, assim, que Marshall busca enfatizar nos seus estudos os seguin- tes aspectos: • universalidade da cidadania: garantia do status de direitos univer- sais para categorias sociais devidamente definidas; • territorialização da cidadania: o princípio da universalidade articula-se com a territorialidade para delimitar o alcance político da cidadania, a extensão do mesmo no território para delimitar a abran- gência desse status, contrapondo-se aos princípios corporativos da ci- dadania que vigoravam no Antigo Regime; • individualização da cidadania: ampliação dos vínculos diretos entre o indivíduo e o Estado, consubstanciados pelo princípio da participa- ção a partir da consulta popular, opondo-se às antigas tutelas corpo- rativas. A intenção era superar o princípio funcional da tutela e o cha- mado Governo indireto, quer dizer, a delegação das funções do Estado às camadas locais de intermediários entre os poderes centrais e os do- nos de terras, os mercenários, o clero, e diversos tipos de oligarquias; • nacionalização da cidadania: o princípio da cidadania com status de pertencimento ao Estado-nação, garantindo um sentimento de pertencimento e vinculação direta e coparticipante na constituição do Estado-nação. 9 Governabilidade, governança e accountability “Governança é um fenômeno mais amplo que governo; abrange as instituições governamentais, mas implica também mecanismos informais, de caráter não governamental, que fazem com que as pessoas e as organizações dentro da sua área de atuação tenham uma conduta determinada, satisfaçam as suas necessidades e respondam as suas demandas.” James N. Rosenau (2000) introDuçãoOs conceitos de governabilidade e governança aparecem de forma sistemáti- ca na literatura contemporânea sobre o Estado e políticas públicas. Desse modo, a capacidade política de governar, ou seja, a governabilidade, seria resultante da relação de legitimidade do Estado e do seu governo com a sociedade, e a go- vernança, por sua vez, decorreria da capacidade financeira e administrativa, em sentido amplo, do governo de realizar políticas (MATIAS-PEREIRA, 2010b).1 Observa-se que o conceito de governança utilizado com maior frequência na atualidade é o adotado pelo Banco Mundial, segundo o qual governança pode ser aceita como a forma com que os recursos econômicos e sociais de um país são gerenciados, com vistas a promover o desenvolvimento. Para diversos 1 MATIAS-PEREIRA, José. Governança no setor público. São Paulo: Atlas, 2010b. 84 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira autores, entretanto, esse conceito não passa de uma reformulação do conceito de governabilidade. Para Rosenau (2000, p. 15), governança não é o mesmo que governo. Para o autor, governo sugere atividades sustentadas por uma autoridade formal, pelo poder de polícia que garante a implementação das políticas devidamente instituídas, enquanto governança refere-se a atividades apoiadas em objetivos comuns, que podem ou não derivar de responsabilidades legais e formalmente prescritas e não dependem, necessariamente, do poder de polícia para que se- jam aceitas e vençam resistências Nesse debate fica evidenciado que a principal diferença entre governabi- lidade e governança está na maneira como a legitimidade das ações dos go- vernos é entendida. No conceito de governabilidade, a legitimidade é prove- niente da capacidade do governo de representar os interesses de suas próprias instituições. Por sua vez, no conceito de governança, uma parcela de sua legi- timidade advém do processo como ela se concretiza, ou seja, quando grupos específicos da população participam da elaboração e implementação de uma política pública, ela tem maior possibilidade de obter sucesso nos seus objeti- vos. O ponto de convergência entre as duas – tornando-as semelhantes – refe- re-se à defesa da participação institucionalizada como meio para se atingir a estabilidade política. Para diversos autores, como Diniz (1996, p. 12-13), o termo governabili- dade se refere às condições sistêmicas mais gerais, por meio das quais se dá o exercício do poder em dada sociedade, como a forma de governo, as relações entre os poderes, os sistemas partidários etc. Por sua vez, governança refere-se à capacidade governativa, em sentido mais amplo, envolvendo a capacidade da ação estatal de implantação das políticas e na consecução das metas coletivas. Inclui-se, nessas ações do Estado, o conjunto de mecanismos e procedimentos para cuidar da dimensão participativa e plural da sociedade. O termo governabilidade está relacionado ao grau no qual o sistema po- lítico se institucionaliza (MATIAS-PEREIRA, 2010b, 2012a). Assim, enquan- to a governabilidade diz respeito às condições do exercício da autoridade política, a governança qualifica o modo de uso dessa autoridade. A capaci- dade de governança implica a capacidade governamental de criar e assegu- rar o enforcement de regras universalistas nas transações sociais, políticas sociais e econômicas. Governança, do ponto de vista político, significa também a capacidade de resistência à captura por grupos de interesse por parte das elites governamentais (FRISCHSTAK, 1994), e a promoção da accountability (PRZEWORSKI, 1995). Observa-se que, no debate mais recente, o conceito de governança (go- vernance) teria ultrapassado seus aspectos operacionais, incorporando novos elementos. Além dos mecanismos tradicionais de agregação e articulação de Governabilidade, governança e accountability 85 interesses, tais como partidos políticos e grupos de pressão, incluem-se na fase atual as redes sociais informais – de fornecedores, famílias, gerentes –, hierar- quias e associações de diversos tipos. Assim, torna-se relevante citar a definição proposta por Arbós e Giner (1993, p. 13): “gobernabilidad es la cualidad propia de una comunidad política según la cual sus instituciones de gobierno actúan eficazmente dentro de su es- pacio de un modo considerado legítimo por la ciudadanía, permitiendo así el libre ejercicio de la voluntad política del poder ejecutivo mediante la obediencia cívica del pueblo”. Legitimidade é o reconhecimento que tem uma ordem política, ela depen- de das crenças e das opiniões subjetivas, e seus princípios são justificações do poder, ou seja, o direito de mandar. Vamos utilizar a contribuição de Weber (1972, 1993) na análise das bases da legitimidade e, em especial, sua tipologia dos modos e das fontes de legitimidade como parte integrante de uma sociolo- gia da dominação, na qual demonstra até que ponto poder, legitimidade e au- toridade estão relacionados entre si. Prestação De contas Dos resultaDos Das açÕes (AccountAbility) O termo accountability pode ser considerado o conjunto de mecanismos e procedimentos que levam os decisores governamentais a prestarem contas dos resultados de suas ações, garantindo-se maior transparência e a exposição das políticas públicas. Quanto maior a possibilidade de os cidadãos poderem dis- cernir se os governantes estão agindo em função do interesse da coletividade e sancioná-los apropriadamente, mais accountable é um governo. O conceito de accountable está relacionado estreitamente ao universo político-administrativo anglo-saxão. Para Campos (1990),2 quando as atividades governamentais se expan- dem e aumenta a intervenção do governo na vida do cidadão, a preser- vação dos direitos democráticos requer um controle efetivo da cidadania organizada; uma sociedade desmobilizada não será capaz de garantir a accountability. O exercício da accountability é determinado pela qualidade das relações entre governo e cidadãos, entre burocracia e clientelas. O alto grau de preocupação com accountability ou a ausência desse conceito em 2 CAMPOS, Ana Maria. Accountability: quando poderemos traduzi-la? Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro, FGV, 24(2), fev./abr. 1990. 86 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira uma democracia estão relacionados ao elo entre accountability e cidadania organizada e explica-se pela diferença no estágio de desenvolvimento po- lítico do país em questão. O sentimento de comunidade ou a emergência de instituições dentro dela é que favorecem a recuperação da cidadania e portanto a verdadeira vida democrática. A cidadania organizada pode não só influenciar o processo de identificação de necessidades e canalização de demandas, como também pode cobrar melhor desempenho do serviço pú- blico, abrindo um caminho para a accountability. Gestão Pública e Governança No debate sobre governança, torna-se necessário estabelecer as diferenças entre as visões teóricas que tratam do assunto. Das correntes de pensamento, destacam-se as que enfocam como objetivo principal o aumento da eficiência e efetividade governamental, e as outras que se preocupam, nas suas abordagens, com as questões do potencial democrático e emancipatório. Ambas as correntes teóricas possuem forte conteúdo ideológico em suas concepções. Observa-se, no entanto, que a intensa discussão na atualidade sobre a questão da “governança” tem forte relação com a ideologia das políticas neo- liberais que visam à redução do tamanho do Estado, bem como a comprova- da incapacidade das instituições públicas em lidarem adequadamente com os complexos e crescentes problemas urbanos. Destaca Frey (2007, p. 136) que: “Reconhecendo as novas potencialidades relacionadas à ampliação dos ato- res sociais envolvidos na gestão da coisa pública, a literatura sobre gestão pública vem crescentemente enfatizando o tema de ‘governança’ (governan- ce), salientando novas tendências de Administração Pública e de gestão de políticas públicas,particularmente a necessidade de mobilizar todo o conhe- cimento disponível na sociedade em benefício da melhoria da performance administrativa e da democratização dos processos decisórios locais.” Para Frey (2007, p. 136), “Apesar de os conceitos teóricos de governança serem multifacetados (HIRST, 2000; RHODES, 2000), não há dúvida alguma sobre uma mudança subs- tancial – tanto em política urbana quanto em teoria urbana – dos conceitos tradicionais, baseados no princípio da autoridade estatal, para abordagens de governança, frisando novas tendências de uma gestão compartilhada e interinstitucional que envolve o setor público, o setor produtivo e o cres- cente terceiro setor. Está expresso nestas tendências o reconhecimento dos Governabilidade, governança e accountability 87 próprios limites da ação estatal: ‘Governar torna-se um processo intera- tivo porque nenhum ator detém sozinho o conhecimento e a capacidade de recursos para resolver problemas unilateralmente.’ (STOkER, 2000, p. 93). O governo é apenas um entre muitos influentes atores sociais que estão envolvidos na formulação e implementação de políticas públicas” (KICKERT et al., 1999b, p. 5). referencial teórico De Governança O tema governança tem como base os estudos seminais de Ronald Coa- se, publicados em 1937, The nature of the firm (COASE, 1991).3 Esses estudos seminais de Coase foram posteriormente aperfeiçoados por Oliver Wiliamson (1975). A governança, de acordo com as análises de Coase e reforçadas por Williamson, designaria os dispositivos operacionalizados pela firma para con- duzir coordenações eficazes que tangem a dois registros: os protocolos inter- nos, quando a firma desenvolve suas redes e questiona as hierarquias internas; os contratos e as aplicações de normas, quando ela se abre à terceirização. Há uma substituição das firmas hierarquizadas, integradas verticalmente, por or- ganizações globais e em rede. Para Coase e Williamson (1991), as trocas ou transações podem organizar- -se em duas direções: o mercado ou as organizações (denominadas de hierár- quicas por Williamson). O mercado, para ser eficaz, deve responder a uma con- dição de atomicidade; é, portanto, uma forma organizacional fragmentada. A complexidade dessas trocas gera custos. As escolhas são arbitradas por preços. A grande firma integrada impõe-se historicamente como um meio para reduzir esses custos de transação. Registre-se que o uso do termo governança, importado do mundo da em- presa para descrever protocolos de coordenação diferentes dos mercados, seria aplicado posteriormente ao mundo do poder e das organizações locais, cujas variações em termos de contexto são fundamentais. GovernabiliDaDe Das Democracias O tema da governabilidade (governability) das democracias foi objeto do relatório da Comissão Trilateral, divulgado em 1975. A hipótese central 3 COASE R. H. The nature of the firm (1937). In: WILLIAMSON, O.; WINTER, S. (Org.). The nature of the firm. New York, Oxford: Oxford University Press, 1991. p. 18-33. 88 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira desse relatório – elaborado por Crozier, Huntington e Watanuki – era que os problemas de governabilidade, na Europa ocidental, no Japão e nos Estados Unidos, tinham como base os problemas decorrentes do aumento das deman- das sociais, agravados pela escassez de recursos do Estado (do ponto de vis- ta financeiro, de seus recursos humanos e sua capacidade de gestão).4 Diante deste cenário inquietante, se faziam necessárias mudanças nas instituições e, de forma concomitante, no comportamento dos cidadãos. Observa-se, a partir dessas transformações, que as discussões em ciências políticas envolvendo o Estado centraram-se nas deficiências e na incapacidade do Estado de cumprir adequadamente as suas funções regalianas que estão relacionadas à regulação, ao bem-estar e ao desenvolvimento social. As teorias políticas, a partir da constatação das fragilidades do Estado, pas- saram a perceber que os atores não estatais estão construindo uma legitimidade cada vez maior para defender e promover o bem público. Dessa forma, o Estado não mais seria o detentor do monopólio da promoção desse bem público nem de sua definição. Nesse esforço, buscam também definir o espaço público no qual se concretiza a democracia na atualidade. Esse espaço público é consti- tuído de uma rede complexa de interesses, de interações entre atores e esca- lões de intervenções políticas (MILANI; SOLINÍS, 2002).5 No final dos anos 1980, o termo governança (governance) ressurgiu nas ações e decisões do Banco Mundial, em decorrência da percepção de que havia problemas de “má governança” nos países em vias de desenvolvimento. Assim, as administrações dos países do Sul deveriam ser reformadas para melhor res- ponder às exigências da eficácia e da rentabilidade economicistas inerentes aos programas do Banco. Nesse contexto, surgiu um conjunto de programas nacio- nais de reforma do Estado (programas nacionais de “boa governança”) na Áfri- ca, na Ásia e na América Latina. Esses programas foram (e são) frequentemen- te acompanhados de políticas de descentralização e de formação das técnicas do new public management. Na formulação proposta pelo Banco Mundial, governança é definida ori- ginalmente como a maneira pela qual o poder é exercido na administração dos recursos econômicos e sociais tendo em vista o desenvolvimento. O con- ceito de governança seria, nessa visão, distinto do de governabilidade, que 4 CROZIER; HUNTINGTON; WATANUKI. The crisis of democracy, 1975. Sobre o tema, ver coletâ- nea organizada por ASSMAN, Hugo. A trilateral: nova fase do capitalismo mundial, 1979. Para uma avaliação crítica do assunto, ver OFFE, Clauss. Problemas estruturais do Estado capitalista, 1984. Sobre a importância da Comissão Trilateral, ver também SKLAR. Trilateralism: the Trilate- ral Commission and elite planning for world management, 1980. 5 MILANI, C.; SOLINÍS, G. Pensar a democracia na governança mundial: algumas pistas para o futuro. In: MILANI, C.; ARTURI, C.; SOLINÍS, G. (Org.). Democracia e governança mundial: que regulações para o século XXI? Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002. Governabilidade, governança e accountability 89 descreve as condições sistêmicas de exercício do poder em um sistema políti- co (WORLD BANK , 1994).6 Para alguns autores, como Mappa (2004), o termo governança pode ser entendido como a gestão administrativa da ordem social. Tem um alcance implícito: o de despolitização das escolhas e ajustes sociais. Assim, o poder estaria confiscado pelas elites financeiras e técnico-administrativas com fina- lidades decididas de antemão e na ausência das sociedades. Desse ponto de vista, o conceito de governança está relacionado à prioridade do econômico sobre o político, do capital sobre o Estado, do mercado sobre a democracia, do lucro sobre a justiça social. É a vitória final do dinheiro sobre quaisquer outros valores éticos e sociais. Distintas visÕes Da Governança O termo governança, com base na literatura acadêmica, pode ser definido, em sentido amplo, como um processo complexo de tomada de decisão que an- tecipa e ultrapassa o governo (RHODES, 1996).7 Os aspectos frequentemen- te evidenciados nessa literatura estão relacionados à legitimidade do espaço público em constituição; à repartição do poder entre aqueles que governam e aqueles que são governados; aos processos de negociação entre os atores so- ciais (os procedimentos e as práticas, a gestão das interações e das interdepen- dências que desembocam ou não em sistemas alternativos de regulação, o esta- belecimento de redes e os mecanismos de coordenação); e à descentralização da autoridade e das funções ligadas ao ato de governar. Torna-se relevante, nesse contexto, abordar as diferentes visões sobre a go- vernança, conforme apresentadas a seguir: • governança enquanto Estado mínimo: baseada na necessidade da redu- ção dos déficits públicos, esse uso da governançarefere-se a uma nova forma de intervenção pública e ao papel dos mercados na produção dos serviços públicos (GERY STOCKER, 1995). • governança corporativa: oriunda das teorias do management, acentua a necessidade de eficácia, assim como a da accountability na gestão dos bens públicos (TRICKER, 1994). • governança enquanto new public management (NPM): o NPM prega a gestão e os novos mecanismos institucionais em economia por meio da 6 WORLD BANK. Governance and development. Washington DC: World Bank, Nov. 1994. 7 RHODES, R. A. W. The new governance: governing without government. In: Political Studies, v. 44, no 4, p. 652-667, 1996. 90 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira introdução de métodos de gestão do setor privado, bem como do esta- belecimento de medidas incitativas (incentives) no setor público; • boa governança: utilizada originalmente pelo Banco Mundial em rela- ção a suas políticas de empréstimos, a boa governança é uma norma que supõe a eficácia dos serviços públicos, a privatização das empresas estatais, o rigor orçamentário e a descentralização administrativa; • governança enquanto sistema sociocibernético: a governança pode ser considerada como o teste padrão ou a estrutura que emerge em um sistema social-político como o resultado ou o resultado comum dos es- forços de interação da intervenção de todos os atores envolvidos (KO- OIMAN, 1993, p. 35).8 Nesse sentido, além da complexidade da defini- ção, aquele autor argumenta que assim o mundo político seria marcado pelas coestratégias: a cogestão, a corregulação, assim como as parcerias público-privado; • governança enquanto conjunto de redes organizadas: a governança re- fere-se a managing networks that are self-organizing. Considerando que o Estado é um dos atores (e não mais o único e exclusivo ator) no siste- ma mundial, redes integradas e horizontais (ONGs, redes profissionais e científicas, meios de comunicação) desenvolvem suas políticas e mo- delam o ambiente desse sistema (RHODES, 1996). Governança corPorativa no setor Público A governança trata da aquisição e distribuição de poder na sociedade, en- quanto a governança corporativa diz respeito à forma como as corporações são administradas. A governança corporativa no setor público, por sua vez, refere- -se à administração das agências do setor público, por meio dos princípios de governança corporativa do setor privado, que são totalmente aplicáveis no se- tor geral do Estado, em que as agências de serviços não públicos são agrupadas (BHATTA, 2003, p. 5-6). É perceptível que o conceito de governança corporativa está relacionado à accountability – entendido como a responsabilidade em prestar contas. A exi- gência de prestação de contas será diferente dependendo da natureza da en- tidade envolvida. Este é o caso da organização do setor público, por exemplo, que deve estar comprometida em assegurar a integridade do que faz, ou seja, não deve aguardar até que os seus dirigentes sejam investigados, mas adotar medidas imediatas para coibir que ocorra o comportamento não ético por par- te desses dirigentes. 8 KOOIMAN, J. Social-political governance. In: KOOIMAN, J. Modern governance. London: Sage, 1993. p. 35-50. Governabilidade, governança e accountability 91 A governança corporativa no setor público, argumenta Timmers (2000, p. 9), deve ser entendida como a proteção ao inter-relacionamento entre a ad- ministração, o controle e a supervisão, feita pela organização governamental, pela situação organizacional e pelas autoridades do governo, visando relacio- nar os objetivos políticos eficaz e eficientemente. Além disso, deve comunicar publicamente bem como providenciar uma prestação de conta para o benefício da sociedade. Observa-se, nesse sentido, que a governança do setor público é constituída pelos seguintes elementos: responsabilidade em atender a socieda- de; supervisão; controle; e assistência social. Na interação que envolve a administração, o controle, a supervisão e a res- ponsabilidade em prestar contas, a responsabilidade ministerial, para Timmers (2000, p. 9-10), interessa-se pela natureza do relacionamento com os partici- pantes da área política e em atingir os objetivos políticos. Para tanto, o ministro deveria ter uma visão administrativa, sendo responsável por definir claramente esses objetivos (eficácia), as precondições, como a qualidade, eficiência, con- formidade com os regulamentos e leis relevantes, e controle financeiro. A Administração Pública, para Benington e Hartley (2001), possui três pa- radigmas que podem conduzir para caminhos particulares em que a inovação não é só generalizada, mas também adaptada; trata-se dos papéis dos políti- cos, dos administradores e da população. Cada caminho é uma visão mundial ou um modelo consistente em que cada um tem uma concepção ou suposição sobre a natureza do mundo. A abordagem da Administração Pública, particularmente evidente no perío do pós-guerra e nos anos 1980, é, de modo amplo, baseada no legislativo, na burocracia e em regras para a provisão dos serviços públicos. A população é, assumidamente, homogênea, e as definições das necessidades e problemas são empreendidas pelos profissionais para promoverem os serviços padronizados à população (HARTLEY, 2005, p. 29). Existem diversas maneiras, sustenta Marques (2005, p. 4-5), para repre- sentar a governança corporativa no setor público, em decorrência da comple- xidade da estrutura de governança e das diferentes formas de compreender a abordagem pelas entidades do setor. Em que pese essas divergências, a boa governança corporativa, seja no setor público ou no privado, exige: clara iden- tificação e articulação das definições de responsabilidade; verdadeira compre- ensão do relacionamento entre as partes interessadas da organização e sua estrutura de administrar os recursos e entregar os resultados; e suporte para a administração, particularmente de alto nível. Assim, o desafio para o setor público é o de articular um conjunto de princípios e elementos comuns que são relevantes em cada contexto e que podem ser considerados em uma estrutura de governança. Os fatores essen- ciais, segundo Marques (2005, p. 14), que contribuem para uma governança corporativa sólida são os seguintes: estrutura administrativa; ambiente admi- nistrativo; administração de risco; conformidade e complacência; monitora- 92 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira ção e avaliação de desempenho; responsabilidade em prestar contas; confor- midade versus desempenho. PrincíPios De Governança na Gestão Pública Uma boa governança pública, à semelhança da corporativa, está apoiada em quatro princípios: relações éticas; conformidade, em todas as suas dimensões; transparência; e prestação responsável de contas. A ausência desses princípios requer mudança na forma de gestão. A busca permanente da prática desses prin- cípios na administração do país ou na gestão de qualquer instituição deve ser vista como uma condição indispensável para que essa instituição possa continuar a progredir. É importante ressaltar que essa é uma tarefa permanente, que exige uma participação proativa de todos os atores envolvidos – dirigentes, políticos, órgãos de controle – e, em especial, da sociedade organizada. Os princípios mais relevantes a que as entidades do setor público devem aderir para efetivamente aplicar os elementos de governança corporativa, para alcançar as melhores práticas, para Barrett (2005, p. 5-6), são: liderança, in- tegridade, compromisso (relativos a qualidades pessoais), e responsabilidade em prestar contas, integração e transparência (são principalmente o produto de estratégias, sistemas, políticas e processos no lugar). O uso dessas práticas de governança corporativa exige que todas as organi- zações do setor público sejam transparentes e responsáveis por suas atividades, visto que os cidadãos são os principais interessados em conhecer se os recursos públicos estão sendo usados apropriadamentee o que está sendo alcançado com eles. Essa transparência é indispensável para permitir que os responsáveis pela gestão pública sejam controlados pela sociedade. Essa prática, por sua vez, contribui de forma indireta para a boa governança. Nesse sentido, pode-se ob- servar que existe um ponto em comum entre os inúmeros autores que tratam do tema que envolve os princípios da boa governança: a responsabilidade do gestor público em prestar contas e a necessidade de promover o controle. Em síntese, a busca permanente da transparência na Administração Públi- ca deve ser vista como uma condição essencial para que os países, em especial os latino-americanos, possam continuar a progredir no processo de desenvol- vimento socioeconômico e na consolidação da democracia. Nesse contexto, a transparência do Estado se efetiva por meio do acesso do cidadão à informa- ção governamental, o que torna mais democráticas as relações entre o Estado e sociedade civil. 10 Cultura nas organizações públicas “Cultura é um sistema de significados que cria algum tipo de identidade compartilhada.” Clifford Geertz (1989) As organizações públicas – responsáveis pela prestação de serviços para a sociedade – podem ser aceitas como sistemas complexos, interdependentes e dinâmicos. Atuam e interagem no seu ambiente, de forma ininterrupta e de ma- neira coe rente, por meio de pessoas e tecnologias, trocas de informações e das estruturas organizacionais. Buscam, no cumprimento de suas atividades, alcan- çar o melhor desempenho possível e, assim, atender de maneira efetiva e com qualidade as demandas da população. Para Shepherd e Valencia (1996, p. 103-128), as situações que dificultam a administração de organizações públicas são as seguintes: • a Administração Pública oferece, principalmente, serviços dos quais ela detém o monopólio, o que propicia que sejam produzidos de maneira ineficiente; • o controle dos eleitores sobre os políticos é normalmente imperfeito, uma vez que organizações políticas destinadas a representar os eleito- res dificilmente trabalham sem atrito; • a dificuldade dos políticos em controlar os funcionários, bem como em definir e medir com exatidão os resultados da Administração Pública. 94 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira É sabido que a cultura é a responsável por viabilizar a transformação da natureza. Isso explica as diferenças existentes entre os povos. Por meio das suas elaborações culturais, invenções e diferentes formas de encaminhar e resolver os problemas – especialmente em termos de ciência, tecnologia e inovação – é que os países buscam avançar em termos econômicos, sociais e políticos. Para Hall (1978, p. 80), a cultura “possui três características: ela não é inata, e sim aprendida; suas distintas facetas estão inter-relacionadas; ela é compartilhada e de fato determina os limites dos vários grupos existentes. A cultura é o meio de comunicação do homem”. Sustenta Guimarães (2000, p. 127) que: “no setor público, o desafio que se coloca para a nova Administração Pú- blica é como transformar estruturas burocráticas, hierarquizadas e que tendem a um processo de insulamento em organizações flexíveis e em- preendedoras. [...] Essa transformação só é possível quando ocorrer uma ruptura com os modelos tradicionais de administração dos recursos públi- cos e introduzir-se uma nova cultura de gestão”. Hudson (1999, p. 268) afirma que a cultura organizacional pode ser divi- dida em três patamares: superficial, justificativas e inconscientes. Eles são ex- plicitados da seguinte maneira: “i. Superficial. Manifestada de forma fácil nos ativos da organização, prédios, fotos na parede, móveis, linguagem de trabalho empregada e pe- las suas rotinas diárias. ii. Justificativas da organização. São os processos conscientes de pensa- mento, que justificam as decisões e as ações, estão impregnados nos ‘por- quês’ do discurso dos atores da organização. iii. Inconsciente. Considerado o tipo de cultura organizacional mais impor- tante. Nela estão presentes as crenças fundamentais que dominam o uni- verso simbólico direcionando a ação, muitas vezes, de forma espontânea.” Para Pires e Macedo (2006, p. 105), a cultura de organizações públicas: “leva essas mesmas organizações às burocracias públicas tradicionais, que além de terem se tornado complexas, com características centralizado- ras e estruturas rígidas, não têm sido orientadas para o atendimento das necessidades dos cidadãos, ou para a eficácia e efetividade. Para tanto, difundem-se no setor público inovações consideradas exitosas no setor em- presarial, sem que se considerem objetivos e valores predominantes na Ad- ministração Pública”. Cultura nas organizações públicas 95 Nesse sentido, assinala Vaitsman (2000, p. 850) que: “Produto de uma história social, política e cívica, a configuração de qual- quer organização pública também revela determinado padrão de intera- ções entre seus membros. Se, por cultura organizacional, entendemos o sistema de significados compartilhados pelos membros de uma organiza- ção, que lhes dá algum tipo de identidade coletiva, a cultura das organiza- ções públicas é marcada pelo modo como se instituíram as relações entre estado e sociedade, bem como as relações do sujeito com a coisa pública.” De acordo com Matias-Pereira (2012a), toda organização recebe influên- cia do contexto cultural em que se insere. Nesse sentido, assevera que as ca- racterísticas existentes na cultura de organizações públicas – que em geral pos- suem burocracias centralizadoras e estruturas rígidas – tendem a se refletir na forma de atuar e de comportar dos seus servidores. Destacam-se entre essas características os aspectos que envolvem apego às regras, às rotinas e ao po- der, excessiva valorização da hierarquia, centralização, corporativismo, forte paternalismo nas relações funcionais, desconsideração dos avanços conquista- dos, descontinuidade administrativa, perda de tecnologia e desconfiança ge- neralizada. Esses aspectos assinalados impactam significativamente na decisão dos processos internos, nas propostas de mudanças e inovações, nas políticas de recursos humanos, e, em especial, na formação dos valores e crenças orga- nizacionais. Esse quadro descrito torna-se preocupante, na medida em que a cultura tende a se perpetuar, caso não ocorram mudanças que interfiram nessa trajetória. Tal fato explica por que os resultados obtidos por grande parcela das organizações públicas no Brasil ficam abaixo das expectativas dos cidadãos. Constata-se, desse modo, que essas características e distorções culturais que são peculiares às organizações públicas representam enormes obstáculos no esforço de promover mudanças e introduzir inovações tecnológicas. 96 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira questÕes Para Discussão Parte ii Nesta Parte II do livro – Capítulos 8, 9 e 10 –, tem-se como propósito de- bater os conceitos e os principais aspectos que envolvem Governo, Governabi- lidade, Governança e Accountability na Administração Pública. exercícios referentes à Parte ii 1. Após as leituras e os contatos com colegas e o professor da disciplina, ela- bore (preferencialmentte em grupos) – a partir do entendimento que go- vernar está relacionado a adotar medidas e/ou decisões para atender às necessidades públicas –, uma síntese sobre os distintos conceitos de Ad- ministração Pública. Debater o tema em sala de aula. 2. No debate sobre o papel da sociedade civil na atualidade, torna-se relevante retomar os argumentos de Tocqueville, visto que a valo- rização das instituições e associações voluntárias da esfera pública está fortemente relacionada à construção de instrumentos capazes de proteger as comunidades dos riscos do despotismo (MATIAS-PE- REIRA, 2012a). A partir desta afirmação, recomenda-se debater em sala de aula a importância das instituições e dos direitos civis, tendo como referência a visão de Marshall. 3. Os conceitos de governabilidade egovernança aparecem de forma siste- mática na literatura contemporânea sobre Estado e políticas públicas. A partir desse entendimento, faça uma síntese sobre os conceitos de gover- no, governabilidade, governança e accountability. Debater em sala de aula o tema governança corporativa no setor público. 4. Toda organização, sustenta Matias-Pereira (2012a), recebe influência do contexto cultural em que se insere. Nesse sentido, argumenta que as ca- racterísticas existentes na cultura de organizações públicas – que em geral possuem burocracias centralizadoras e estruturas rígidas – tendem a se re- fletir na forma de atuar e de comportar dos seus servidores. A partir desse entendimento, defina o conceito de “organizações públicas”. Debater o tema em sala de aula. Vamos debater a seguir, na Parte III, os temas que tratam de mudanças no Estado e na Administração Pública. Parte III Mudanças no Estado e na Administração Pública 11 Reformas e transformações na Administração Pública “Em termos gerais a função e atitude governamental tem pelo menos três aspectos complementares que servem para diferençar o governo de todas as demais instituições e atividades: largueza de objetivo, impacto e consideração; responsabilidade pública; caráter público. Nenhuma instituição não governamental tem a amplitude do governo.” (Paul H. Appleby, 1945) “A reforma e modernização do Estado, com a redefinição de suas relações com a sociedade, é um processo eminentemente político.” (CLAD, 1998) introDução O debate sobre a democracia, ao longo do século XIX, se desenvolveu prin- cipalmente por meio do confronto entre liberalismo e socialismo. O ponto de partida para concepção liberal de Estado foi o discurso de Benjamim Constant sobre A liberdade dos antigos comparada com a dos modernos. Para ele, a liber- dade dos modernos é a liberdade individual em sua relação com o Estado aque- la liberdade de que são manifestações concretas as liberdades civis e política; enquanto a liberdade dos antigos, que se tornou impraticável e danosa, é a li- berdade como participação direta na formação de leis pelas assembleias. Nesse 100 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira contexto, foi se afirmando por meio dos escritores liberais que a única forma de democracia compatível com o Estado liberal é a democracia representativa ou parlamentar, em que o dever de fazer leis não é atribuído a todo o povo, e sim aos representantes eleitos por ele próprio. O processo de desenvolvimento da democracia nos regimes representati- vos se orienta nas seguintes direções: i. Ampliação de forma gradual do direito de votar, atingindo todos os cidadãos, de ambos os sexos, a partir de um certo limite de idade. ii. Proliferação dos órgãos representativos. Verifica-se, nesse processo de democratização desenvolvido nos Estados liberais, que a transforma- ção foi mais qualitativa do que quantitativa do regime representativo. Cumpre destacar, por sua vez, que no socialismo o ideal democrático re- presenta um elemento integrante e necessário, mas não constitutivo. A essên- cia do socialismo está baseada na ideia da revolução das relações econômicas, e não apenas na emancipação política do homem. a reforma Do serviço Público norte-americano Observa-se que a agenda da primeira reforma do serviço público norte- -americano, realizada no período da Progressive Era – que durou de 1906 até a Primeira Guerra Mundial –, tinha como propósitos combater a corrupção, cujos principais corruptores eram as máquinas políticas e sindicais, e a busca da eficiência na Administração Pública (SKOWRONEK, 1982). Nesse sentido, verifica-se que a reforma do serviço civil dos Estados Unidos estava apoiada nas ideias e nos estudos de Woodrow Wilson, Frederick Taylor e Max Weber, apresentadas a seguir: • Separação necessária entre política (politics) e administração. A primei- ra esfera era responsável pela formulação das políticas públicas (poli- cies), enquanto à ação administrativa ficava reservada a implementação (WILSON, 1887). • Caráter científico da administração, dado pela separação entre orga- nização do trabalho (a ser realizada pelo manager) e a execução de tarefas bem descritas e especializadas (a cargo dos trabalhadores ou funcionários); existência de um único método para a realização da ta- refa, comprovadamente mais rápido e melhor (the one, universal, best way); princípios da divisão do trabalho, especialização das funções, ho- mogeneidade e unidade de comando; estabelecimento de regras, leis e Reformas e transformações na Administração Pública 101 fórmulas que substituem o julgamento de cada trabalhador individual (TAYLOR, 1912). • Adoção do princípio hierárquico nas organizações, baseada em um “sis- tema firmemente ordenado de super e subordinação, no qual há super- visão dos níveis inferiores de funcionários pelos níveis superiores”; a lealdade impessoal devotada a postos funcionais hierarquicamente su- periores; a eficiência como resultante da implementação impessoal de regras racionais e impessoais, desde que não haja interferência política (WEBER, 2004, p. 144).1 Verifica-se, assim, que os reformadores americanos, baseados nessas pro- postas, procuraram construir uma Administração Pública mais eficiente e ac- countable, baseada na relação direta entre elected officials e eleitorado. Dessa forma, separada a administração da política e garantida a lealdade impessoal do corpo de funcionários à estrutura hierárquica de comando, assegurava- -se a accountability de todo o sistema, tanto político quanto administrativo (BARZELAY, 1992, p. 5). Deve-se lembrar que Woodrow Wilson, além de ser um dos inspiradores do paradigma clássico da Administração Pública, delineado no seu artigo “The Study of Administration”, publicado em 1887, foi responsável também pela construção das bases do denominado new public management.2 Coube a Wilson introduzir, há 120 anos, diversos aspectos da accountability democrática. Ten- do como preocupação a abertura da administração à opinião pública, defendia, contrariamente a Weber, a discricionariedade do administrador na escolha dos meios, como maneira de aumentar sua responsabilidade; apoiava a eliminação do anonimato burocrático; criticava a desconfiança ilimitada nos administra- dores e nas instituições públicas, considerando seus efeitos mais perversos do que benéficos (WILSON, 1887). 1 WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Vol. 1. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2004. 2 O new public management considera que o processo de accountability passa a ser implementa- do pelos stakeholders das políticas públicas (e não mais genericamente pelos eleitores, como no paradigma clássico), apostando em um permanente processo de checks and balances entre eles. O debate se inicia pela abordagem de como funciona na prática esse processo, quando, ao invés de checks and balances, há conluio entre os diversos stakeholders. O NPM ainda considera que a mudança de foco – dos “processos” aos “resultados” – tem um importante efeito sobre a atitude da opinião pública em relação à administração. O foco sobre os resultados, e a criação de um sistema de monitoramento que enfatize os resultados alcançados por distintas agências, podem fazer com que “agências públicas comecem a convencer os cidadãos de que ‘performance de governo’ não é um oxímoro” (BEHN, 1998, p. 24). 102 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira PrinciPais muDanças ocorriDas no munDo – PeríoDo De 1860-2013 São perceptíveis as profundas transformações políticas, econômicas e so- ciais ocorridas no mundo nas últimas 15 décadas: o advento do Welfare Sta- te ou Estado do Bem-Estar3 inaugurado por Bismarck, na Alemanha, contra a luta de classes, no final do século XIX; o New Deal de Franklin Roosevelt – orientado para estimular a prosperidade norte-americana e o equilíbrio entre os grupos de interesse econômico pós-depressão econômica de 1929; ecrises na economia mundial nas décadas de 1980 e 1990 do século XX. Essas crises foram responsáveis, de forma direta ou indireta, para fomentar mudanças no papel do Estado-nação. O ritmo veloz das mudanças socioeconômico-ambientais e políticas a par- tir do surgimento de inovações nas últimas décadas do século XX trouxe dis- tintas maneiras e possibilidades para modernizar a função gerencial.4 A Admi- nistração Pública, por consequência, também foi afetada por essas influências. A maioria dessas mudanças estava associada às transformações mais amplas que ocorreram no papel do Estado e nas relações deste com a sociedade. Em outras palavras, essa radical transformação social e econômica do mundo, que atinge todos os setores, inclusive as instituições governamentais, sinaliza que estas deveriam reinventar-se para adaptar-se à nova realidade. Isso exige um novo modelo de gestão pública, o qual atue de maneira integrada e orientada para a excelência, sem desconsiderar as características e as especificidades da Administração Pública. As significativas transformações que ocorreram no mundo após a Segunda Guerra Mundial contribuíram decisivamente para acelerar o grau de maturida- de político-econômica e social dos governos e das sociedades, especialmente a partir da década de 1970. Esse fato também ensejou o grande anseio para que se fizesse a substituição do modelo burocrático. Aumentou as atribuições dos governos, a complexidade de suas ações e as demandas pelos seus serviços. O processo de globalização econômica, por sua vez, também foi impulsionado, tornando-se fator indutor de mudanças de toda ordem: tecnológicas, econômi- cas, sociais, culturais e políticas. Inúmeros países começaram a abrir as suas economias, o nível de educação elevou-se, assim como o acesso às informa- ções. As sociedades tornaram-se mais pluralistas, democráticas e conscientes. 3 Estado do Bem-Estar – Welfare State – deve ser entendido como o sistema econômico baseado na livre-empresa, mas com acentuada participação do Estado na promoção de benefícios sociais. Seu objetivo é proporcionar ao conjunto dos cidadãos padrões de vida mínima, desenvolver a produção de bens e serviços sociais, controlar o ciclo econômico e ajustar o total da produção, considerando os custos e as rendas sociais (MATIAS-PEREIRA, 2006a). 4 MATIAS-PEREIRA, J. Manual de gestão pública contemporânea. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2010a. Reformas e transformações na Administração Pública 103 O Brasil faz parte do elenco desses países que iniciaram os esforços para pro- mover a reforma do Estado. As motivações para a reforma do aparelho do Estado estão relacionadas às questões que envolviam a crise de governabilidade e credibilidade do Estado na América Latina nas décadas de 1980 e 1990, mesmo que suas prioridades relativas tenham variado com o tempo e de acordo com as circunstâncias e os pontos de partida particulares de cada um. A sua motivação maior, especial- mente durante os períodos de crise econômica do início dos anos 1980 e 1990, foi a tentativa de reduzir despesas. Além disso, é inegável que houve um amplo desejo de remediar o fraco desempenho percebido em áreas significativas do setor público. À medida que se elevam os padrões de educação, uma crescen- te parte da população acostuma-se com padrões mais altos de serviço no setor privado, e torna-se cada vez menos inclinada a aceitar respostas inflexíveis e burocráticas dos serviços públicos. Assim, tanto a qualidade do serviço quanto o aumento da produtividade têm sido metas amplamente defendidas. A partir dos estudos teóricos desenvolvidos por John Maynard Keynes5 tem início uma profunda mudança no papel do Estado enquanto ente responsável pelo manejo e controle discricional de um conjunto de objetivos e instrumen- tos de política econômica. É por meio deles que se pretende ter ingerência na regulação e formalização das regras do jogo econômico tanto para a produção como para o consumo. Esse papel funcional do Estado nos permite argumentar que este tem a capacidade de gerar benefícios em certos grupos sociais; o que redunda em uma não neutralidade do Estado diante de seu papel distributivo. Isso se verifica no seu poder de extrair e reorientar recursos, no aprofunda- mento das tendências espontâneas do livre jogo da oferta e da demanda e na capacidade de corrigir as distorções ou mudar radicalmente as condições no processo de crescimento econômico. É oportuno destacar que a Administração Pública tem como objetivo maior atender às necessidades públicas, no que diz respeito aos direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos. Os seus órgãos e agentes administrativos estão subordinados à Constituição e à lei, e devem atuar, no exercício das suas funções, com respeito pelos princípios da igualdade, da proporcionalidade, da justiça, da imparcialidade e da boa-fé. Para atender ao interesse público, a Ad- ministração Pública deverá ser estruturada de modo a evitar a burocratização, 5 KEYNES, J. M. A teoria geral do emprego, do juro e da moeda. São Paulo: Atlas, 1982. Obser- vando os elevados e persistentes níveis de desocupação na Inglaterra durante a Grande Depres- são dos anos 30, Keynes buscou elaborar uma teoria alternativa à ortodoxia clássica, que via o desemprego involuntário como um desequilíbrio transitório a ser automaticamente superado pela ação das forças de mercado. Keynes rejeitou a visão de que o sistema econômico é estável e autorregulável, tendendo a um equilíbrio ótimo se deixado à própria sorte. A citada obra, pu- blicada em 1936, pode ser considerada um marco na moderna tradição macroeconômica, tendo alterado decisivamente os rumos da teoria econômica. 104 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira a aproximar os serviços das populações e a assegurar a participação dos inte- ressados na sua gestão efetiva, especialmente por intermédio de associações públicas, organizações de moradores e outras formas de representação demo- crática. Compete ao Governo, na qualidade de órgão superior da Administra- ção Pública, dirigir os serviços e a atividade da administração direta do Esta- do, civil e militar. Cabe a ele também superintender a administração indireta e exercer a tutela tanto sobre esta quanto sobre a administração autônoma. Consideram-se domínios da administração direta do Estado as atribuições que são exercidas sob a gestão imediata dos órgãos e serviços integrados a sua estrutura. Além dessas, existem outras atribuições que a lei incumbe às entidades de direito público que são distintas do Estado. Trata-se de entida- des criadas para permitir uma gestão mais ágil e eficiente, por exemplo, as agências reguladoras. Deve-se ressaltar, ainda, que o ajuste fiscal buscado pelo governo tem dois componentes essenciais: o componente macroeconômico, que está relacionado à sobrevivência do plano de estabilização econômica; e componente microeco- nômico, que se refere à eficiência do setor público. A ênfase deste livro incidirá nesta segunda face. Compreender a relação entre as concepções políticas, sociais e econô- micas da reforma do Estado, bem como o papel deste no estabelecimento e implantação das políticas de gestão, torna-se relevante. Isso porque a admi- nistração no Estado democrático, na maioria das vezes, tende a ser percebida pela mídia e pela população com hostilidade. Dessa forma, a tendência da mídia e da opinião pública é não destacar ou valorizar com a devida relevân- cia o que é realizado de maneira adequada, mas, sim, divulgar para a socie- dade os erros e desvios que foram ou estão sendo cometidos. Nesse sentido, é importante reafirmar que os eventuais erros cometidos pelos gestores da Ad- ministração Pública devem ser combatidos prontamente, para que não sejam vistos pela população como uma endemia que atingiu a Administração Pública como um todo. 12 A trajetória das reformas administrativas, modernização administrativa e reforma do Estado no Brasil pós-1930 GovernoGetúlio varGas – DécaDa De 1930 Com a chegada ao poder do governo Getúlio Vargas, nos anos 1930, tem iní- cio a implantação do modelo de administração burocrática no Brasil. Esse mo- delo surge no bojo do processo da industrialização brasileira. Nesse processo, o Estado passa a ter uma função decisiva, visto que passou a intervir fortemente no setor produtivo de bens e serviços. Com essa reforma promovida pelo go- verno Getúlio Vargas – executada por Maurício Nabuco e Luiz Simões Lopes –, a Administração Pública é submetida a um forte processo de racionalização. Esse esforço viabilizou a criação das primeiras carreiras burocráticas, bem como a busca de adotar o concurso como forma de acesso ao serviço público. Fica evidenciado que a implantação da Administração Pública burocrática está relacionada à modernização do sistema capitalista existente no Brasil. O Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), criado em 1936, tinha como objetivo principal a realização da modernização administra- tiva do país. No início do processo, a Administração Pública – influenciada pela teoria da administração científica de Taylor – buscou a racionalização por meio da simplificação, padronização e aquisição racional de materiais, revisão de es- truturas e aplicação de métodos na definição de procedimentos, bem como foi implantada a função orçamentária vinculada ao planejamento. Na área de ad- ministração dos recursos humanos, o DASP inspirou-se no modelo weberiano 106 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira para estruturar a burocracia, ou seja, baseou-se no princípio do mérito profis- sional. Essa política de recursos humanos, em que pese os esforços realizados, não respondeu adequadamente às necessidades do Estado. Registre-se que, embora a Administração Pública estivesse em processo de mudança, o patrimonialismo ainda se fazia presente no contexto político bra- sileiro. Dessa forma, o coronelismo abria espaço para o clientelismo e para o fisiologismo. A administração burocrática implantada na década de 1930 foi objeto de inúmeras tentativas de reforma. Observa-se que os frágeis resultados obtidos foram decorrentes das inadequações do modelo adotado. Essas reformas esti- veram centradas na extinção e criação de órgãos, bem como na constituição de estruturas paralelas visando alterar a rigidez burocrática. o estaDo oliGárquico O Estado oligárquico, no período identificado como República Velha ou dos Coronéis (1889-1930), pouca importância dava às políticas públicas de caráter social ou à mobilização da sociedade civil. As instituições religiosas, em alguns casos apoiadas pelo Estado, assumiam um papel preponderante no atendimen- to aos pobres e excluídos que, em sua maioria, ficavam à margem das políticas sociais básicas. As Santas Casas de Misericórdia, as irmandades e as ordens ter- ceiras, além de outras instituições religiosas não católicas, constituíram-se como protagonistas importantes nesse período. Tal cenário começa a alterar-se de for- ma lenta na década de 1920, quando se iniciam as condições históricas que leva- riam à queda do regime oligárquico. É notório o surgimento de uma mobilização social e, nesse contexto, aparecem os primeiros movimentos sociais urbanos. estaDo interventor (1930-1956) O governo Vargas (1930-1945) deflagra o processo que leva à criação das ba- ses institucionais de uma democracia nos moldes das sociedades fordistas da épo- ca, estabelecendo direitos trabalhistas, um sistema de ensino público, o sufrágio universal e a Constituição de 1946. Tais iniciativas buscavam instaurar um Estado de Bem-Estar no País (Welfare State). Nesse esforço, serão criadas grandes insti- tuições paraestatais mediadoras entre o Estado e a sociedade (especialmente na esfera econômica). Destacam-se, entre elas, o Serviço Social da Indústria, o Servi- ço Nacional de Aprendizagem Comercial e a Legião Brasileira de Assistência. São criados, também, os principais sindicatos, federações e confederações que congre- gavam trabalhadores por empresa, região ou setor de atividade. É pertinente ressaltar que a preocupação com a profissionalização da as- sistência social, por meio da criação de cursos e valorização dessa função na A trajetória das reformas administrativas, modernização administrativa e... 107 esfera pública, foi estruturada a partir de uma visão clientelista e populista, ca- racterísticas da ideologia do governo autoritário de Getúlio Vargas. Apesar de a igreja ter mantido o seu papel na assistência social, sua atuação passou a ser complementada pela ação administrativa do Estado. PeríoDo Do autoritarismo ou DitaDura militar (1964-1985) A democracia vivida pelo país, entre a segunda metade dos anos 1950 e o início dos anos 1960, acaba de forma abrupta em março de 1964, com o golpe de Estado comandado pelo segmento militar. Na vigência desse novo período de exceção, que produz efeitos negativos sobre a sociedade civil brasileira, ocorre o aumento da tutela do Estado nas questões civis, por meio da instauração do regime militar e, com ele, das estruturas hierarquizadas e centralizadas para a gestão do social. Foram criados o Instituto Nacional de Previdência Social, o Banco Nacional de Habitação, o Movimento Brasileiro de Alfabetização, en- tre outras instituições. Além da criação das organizações não governamentais, surgem, nesse mesmo período, em distintas regiões do país, os movimentos so- ciais para se contraporem à forma de fazer política do regime vigente – como as comunidades eclesiais de base, redes de solidariedade. Observa-se, nesse contexto, que a repressão política praticada no período do autoritarismo (di- tadura militar), em que pese não ser essa a sua intenção, acabou colaborando para a constituição de uma sociedade civil brasileira mais bem estruturada. a reforma aDministrativa De 1967 A reforma administrativa no Brasil, realizada por meio do Decreto-lei no 200, de 1967, representa um avanço na busca de romper com a rigidez buro- crática. Pode ser entendida como a primeira experiência de implantação da ad- ministração gerencial no país. Por meio de suas normas definidoras, executam- -se a transferência de atividades para autarquias, fundações, empresas públicas e sociedades de economia mista. Teve como propósito aumentar o dinamismo operacional por meio da descentralização funcional. Foram instituídos como princípios de racionalidade administrativa o planejamento e o orçamento, en- tre outras medidas. Procurou-se, pela ampliação da administração indireta, atribuir maior operacionalidade às atividades econômicas do Estado. Esse modelo não foi capaz de provocar alterações significativas na admi- nistração burocrática central. Ele permitiu a coexistência de setores de eficiên- cia e competência na administração indireta, bem como de formas arcaicas e ineficientes no âmbito da administração direta ou central. A política adotada pelos governantes do regime militar, que não implementou carreiras de admi- 108 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira nistradores públicos de alto nível – passou a contratar os escalões superiores da administração por meio das empresas estatais –, pode explicar o enfraque- cimento do núcleo burocrático da Administração Pública brasileira. A criação da Secretaria de Modernização, nos anos 1970, representou um novo esforço para estimular a modernização da Administração Pública. Nes- sa fase, procurou-se implantar novas técnicas de gestão, em especial a admi- nistração de recursos humanos, no âmbito federal. A criação do Ministério da Desburocratização e do Programa Nacional de Desburocratização – PrND –, no início da década de 1980, que tinham como objetivos a revitalização e agilização das organizações do Estado, a descentralização da autoridade, a melhoria e simplificação dos processos administrativos e a promoção da efi- ciência, visava reformar a burocracia e direcioná-la rumo à Administração Pública gerencial. As ações do PrND, que a princípio foramdirigidas para o combate à burocratização dos procedimentos, foram posteriormente orienta- das para o desenvolvimento do Programa Nacional de Desestatização. Essas medidas tinham como propósito diminuir os excessos decorrentes da expan- são da administração descentralizada. reDemocratização e institucionalização Da socieDaDe civil (Pós-1985) O período do autoritarismo, ou da ditadura militar, encerra-se, em 1985, com a retomada do processo de democratização do país. No período de tran- sição, que durou de 1985 até 1988, foi escrita uma nova Constituição, que restabeleceu as bases legais para o exercício pleno da democracia. Após a pro- mulgação da nova Constituição, começam a ser implementados distintos ins- trumentos e medidas para a promoção da descentralização da ação governa- mental e atualização do arcabouço institucional, em especial, os orientados para garantir os direitos do cidadão. Foi deflagrado um processo de municipali- zação da gestão pública, concedendo maiores poderes aos municípios; criação de Conselhos Municipais em várias áreas de interesse público – educação, saúde, ambiental –; ampliação da participação da sociedade na resolução de assuntos comunitários; aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente, Defesa do Consumidor, Estatuto do Idoso, entre outras medidas. os efeitos neGativos Da Democratização na aDministração Pública A transição democrática de 1985, por sua vez, representou um enorme re- trocesso na modernização da Administração Pública, visto que os acordos polí- ticos espúrios – resultantes de um novo populismo patrimonialista – propicia- A trajetória das reformas administrativas, modernização administrativa e... 109 ram um rateio dos cargos públicos da administração indireta e dos órgãos dos ministérios nos Estados para os dirigentes políticos dos partidos vitoriosos. A alta burocracia, nesse período, passava a ser acusada pelas forças conservado- ras de ser a responsável pela crise do Estado, na medida em que havia contri- buído para o seu crescimento desmedido. Esses dois fatores, presentes na discussão e elaboração da Constituição de 1988, contribuem para o forte retrocesso burocrático do País. A nova Consti- tuição retirou a autonomia do Poder Executivo para tratar da estruturação dos órgãos públicos, bem como impôs a obrigatoriedade de regime jurídico único para os servidores civis da União, dos Estados-membros e dos Municípios. Su- primiu, também, da administração indireta a sua flexibilidade operacional, na medida em que atribuiu às fundações e autarquias públicas normas de funcio- namento idênticas às que regem a administração direta. (Des)reforma aDministrativa Do Governo collor Os efeitos decorrentes das disfunções da Constituição de 1988 começaram a ser percebidos de forma imediata no funcionamento da Administração Pú- blica. Na busca de soluções para melhorar a performance do setor público, o governo Collor (1990-1992), entre outras medidas, propõe-se a reduzir o ta- manho e o número de servidores da máquina governamental. O desmonte do setor público e o enfraquecimento do papel do Estado, feitos de forma inade- quada por esse governo, agravaram ainda mais os problemas existentes. Após o impedimento do presidente Collor no poder, assume o vice-presidente, Itamar Franco. Em seu mandato procurou promover a recomposição dos salários dos servidores, que haviam sido violentamente reduzidos. Registre-se que foi no governo Itamar Franco que foi lançado o Plano Real. Podemos verificar que a questão da reforma administrativa somente volta a entrar na agenda de discussão política do país a partir de 1994. Com a defla- gração da campanha presidencial, o tema é novamente introduzido nos pro- gramas da maioria dos candidatos, em particular, a intenção de implantação da Administração Pública gerencial. Com a eleição do presidente Fernando Hen- rique Cardoso (1994-1998/1999-2002), reinicia-se o processo de mudança or- ganizacional e cultural da Administração Pública. A preocupação com a revita- lização do Estado, em que pese as suas dificuldades, também está presente na agenda política do governo Lula (2003-2006/2007-2010). Para uma melhor visão da trajetória das reformas administrativas, mo- dernização administrativa e reforma do Estado no Brasil, veja o Quadro 12.1, apresentado a seguir. 1 1 0 C u rso d e A d m in istração Pú blica • M atias-Pereira Quadro 12.1 Síntese da trajetória das reformas administrativas, modernização administrativa e reforma do Estado no Brasil. Ações Casos Medidas Orientadoras Processos Adotados Reforma Administrativa • DASP • O problema está nos meios. Reforça o papel da burocracia. • Princípios – centralização e padronização. • Soluções (a burocracia ortodoxa); busca de problemas (burocracia patrimonial). • Projeto Mauricio Nabuco – implantado de maneira autoritária. Modernização Administrativa • Administração paralela (Governo JK) • Administração para o Desenvolvimento (regime militar) • O problema está na adequação entre meios e fins – necessidade de uma burocracia flexibilizada para os fins de desenvolvimento (Plano de Metas e Planos Nacionais de Desenvolvimento, respectivamente). • Problemas (rigidez e incapacidade) em busca de soluções (grupos executivos e Decreto-lei no 200, respectivamente). • Elabora-se diagnóstico (Comissão de Simplificação Burocrática – COSB; e Comissão Amaral Peixoto, respectivamente); proposições legais; e implementa-se mediante forte liderança top-down (grupos executivos) ou de forma autoritária (Decreto-lei no 200). Reforma do Estado • Governo Collor – 1990/1991 • Princípios – descentralização e flexibilização. • O Estado como problema. • Soluções (desmonte e enfraquecimento do papel do Estado). Reforma do Estado • Governos FHC – 1995/2002 • O Estado como problema (a crise do Estado e da administração burocrática segundo a visão neo- institucionalista econômica). • Construção do Estado regulador. • Descolamento entre planejamento e gestão – um plano de adequação do Estado (Plano Diretor) não atrelado a metas de desenvolvimento; e um plano de desenvolvimento (PPA 2000-2003) sem um modelo de adequação do Estado para sua implementação. • Orientação dominante do ajuste fiscal obstruiu tanto o Plano Diretor quanto o PPA. • Princípios – desestatização, flexibilidade, foco no cliente, orientação para resultados, controle social. • Soluções (nova gestão pública; “administração gerencial”) em busca de problemas (a “administração burocrática”). • Elaboram-se planos (PD, PPA) com baixo envolvimento e participação dos atores envolvidos, o que gera baixo grau de implementação. • As políticas de gestão se fragmentam e prevalece a orientação do ajuste fiscal. A trajetó ria d as refo rm as ad m in istrativas, m o d ern ização ad m in istrativa e... 1 1 1 Ações Casos Medidas Orientadoras Processos Adotados Revitalização do Estado • O Plano de Gestão Pública do Governo Lula – 2003/2006 – 2007/2010 • O Plano de Gestão Pública do Governo Dilma - 2011/2014 • O Estado como solução – papel ativo na redução das desigualdades e promoção do desenvolvimento. • A Administração Pública pode e deve ser otimizada para aumentar a capacidade de governo. • Princípios – redução do déficit institucional; fortalecimento da capacidade de formular e implementar políticas; otimização de recursos; participação, transparência e ética. • O Estado como solução – papel ativo na redução das desigualdades e promoção do desenvolvimento. • Continuidade das ações e princípios adotados no governo Lula (2003/2010). • Problemas (diagnóstico institucional da APF) em busca de soluções (um plano de gestão pública). • O Plano de Gestão como uma agenda positiva – implementação dos PPAs – 2004-2007 e 2008-2011, inovações gerenciais e equacionamento de problemas estruturais da administraçãofederal. • Busca-se elaborar um diagnóstico participativo; debatem-se os problemas; elabora-se um plano coletivo de governo; constrói- -se uma rede de implementação com ampla sustentação. • Os resultados do primeiro mandato (2003-2006) ficam abaixo do esperado, em termos de eficiência, eficácia e efetividade, bem como na transparência e ética. • Pretende-se no período 2007-2011 reforçar a governança, com a superação das dificuldades encontradas para se implantarem as políticas públicas, devido à rigidez e ineficiência da máquina administrativa. • Continuidade e aperfeiçoamento dos processos adotados no governo Lula. Fonte: Adaptado de Presidência da República (2004) e Matias-Pereira (2012a). 13 O esgotamento do modelo de intervenção estatal A crise do petróleo, ocorrida em 1973, foi a responsável por deflagrar os mecanismos que provocaram o esgotamento do antigo modelo de intervenção estatal, nos moldes burocráticos. A crise econômica mundial, que teve início naquela década, pôs fim à era de prosperidade que havia sido iniciada no pós- -Segunda Guerra Mundial. Nesse período, tanto os países capitalistas desen- volvidos quanto os subdesenvolvidos (inclusive o Brasil), bem como países do bloco socialista, experimentaram elevadas taxas de crescimento econômico. Quatro fatores socioeconômicos contribuíram decisivamente para agravar a crise do Estado gerada no pós-guerra: 1. Crise econômica mundial – iniciada em meados dos anos 1970 e agra- vada ao longo dos anos 1980. Observa-se que, a partir de 1979, o pa- drão de crescimento baseado no financiamento externo ou estatal, por meio do investimento direto do Estado ou do investimento privado subsidiado, que havia prevalecido durante a década de 1970, entrou em crise, quando o fluxo de financiamento externo líquido cessou em 1982. Diante desse novo cenário, as economias da maioria dos países enfrentaram um grande período recessivo, sem o retorno aos índices de crescimento econômico atingidos nas décadas de 1950 e 1960. 2. Crise fiscal do Estado – após várias décadas de crescimento, apoiados no modelo econômico proposto por Keynes, a maioria dos governos não tinha mais como financiar seus déficits. Na medida em que ficavam mais endividados, os governos tiveram que elevar a carga tributária para co- brir os déficits, mas sem necessariamente manter serviços de qualidade ou até mesmo melhorá-los. Essa situação provocou uma grande revolta O esgotamento do modelo de intervenção estatal 113 nos contribuintes, principalmente porque eles não conseguiam enxergar uma relação direta entre o acréscimo nos tributos e a melhoria dos ser- viços públicos. Em outras palavras, havia um problema de conflito de interesses: enquanto os Estados estavam sobrecarregados de atividades e com recursos escassos para este cumprimento, a sociedade organizada não queria perder tudo o que já havia sido conquistado. 3. Crise de governabilidade – os governos mostravam-se incapazes para resolver os problemas econômicos e sociais de seus países, o que levou diversos deles a sofrerem crise de governabilidade. 4. Emergência da globalização e das inovações tecnológicas – as pro- fundas transformações que ocorreram na economia e no setor produ- tivo também se refletiram no Estado. Com o aumento do número das empresas transnacionais e os grandes fluxos financeiros e internacio- nais, os Estados nacionais tiveram seus controles enfraquecidos, o que implicou a perda de parcela significativa de poder de definir suas po- líticas macroeconômicas. O Estado, além disso, passou a ser responsabilizado pelas empresas como culpado pelos altos custos, especialmente os trabalhistas, previdenciários e tri- butários. Pressionado pelo segmento empresarial a reduzir impostos e a sua participação no mercado de trabalho, o enorme Estado burocrático viu-se dian- te de um dilema: ao mesmo tempo em que necessitava de maior arrecadação para cobrir seus sérios problemas fiscais, tinha de diminuir tributos e sua in- gerência no mercado de trabalho, para que suas empresas pudessem ter mais competitividade no cenário global e para que pudesse ser alvo dos investido- res. A conjugação de todos esses fatores exigia cortes urgentes de custos, com a redução de gastos com pessoal e com aumento da eficiência governamental. O aparato governamental precisava ser mais ágil e flexível, tanto em sua di- nâmica interna como em sua capacidade de adaptação às mudanças externas. Verifica-se que houve uma tendência, no âmbito mundial, a partir do início da década de 1980, em favor da Reforma do Estado, com uma nítida preocupa- ção dos governos em empreender esforços para modernizar e agilizar a Adminis- tração Pública. Em nenhum outro momento da história o movimento em favor da reforma da Administração Pública avançou tanto e de forma tão rápida. Esse movimento está intimamente relacionado ao novo paradigma de Ad- ministração Pública gerencial. O que se buscou com a Reforma do Estado foi a substituição do modelo burocrático pelo modelo gerencial. Este, pautado em princípios da administração das empresas privadas, traz novos conceitos de gestão, os quais os reformadores acreditam que podem ser aplicados com su- cesso em muitos setores da Administração Pública: administração por objeti- vos, downsizing, serviços públicos voltados para o consumidor, empowerment, pagamento por desempenho, qualidade total, formas de descentralização. 114 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira Nesse sentido, argumenta Bresser-Pereira (2006, p. 7-8) que, a partir das mudanças de paradigmas, o processo de transição da Administração Pública burocrática para a gestão pública gerencial torna-se inevitável. Para aquele au- tor essas mudanças de paradigmas são essenciais no processo de organizar e administrar o Estado como sistema político. “Quando, no século 20, o Estado se torna democrático, e os cidadãos dei- xam de ser apenas os burgueses para serem todo o povo, suas funções so- ciais se ampliam enormemente, e a reforma da gestão pública, visando a transformar o Estado meramente burocrático em gerencial e, portanto, eficiente, torna-se inevitável.” Devemos ressaltar que a Administração Pública gerencial surgiu na década de 1970, como resposta à crise que o velho modelo burocrático vinha causando aos Estados, por falta de adequação às grandes mudanças socioeconômicas da segunda metade do século XX. Inspirada em bem-sucedidos modelos da admi- nistração privada, a administração gerencial veio com a missão de enfrentar a crise fiscal dos Estados, advinda dos incontáveis serviços que estes prestavam e da má alocação de receitas cada vez mais escassas. Portanto, a Administração Pública gerencial surgiu como estratégia para reduzir os custos e tornar a Ad- ministração Pública mais eficiente, além de ser um instrumento para combater as mazelas e a penetração da corrupção que a burocracia ocasionara. A retomada de teorias críticas às burocracias estatais e favoráveis aos ideais liberais do Estado-mínimo1 foi reforçada com a chegada dos governos conser- vadores na Grã-Bretanha, em 1979 (Margaret Thatcher), e dos republicanos nos Estados Unidos em 1980 (Ronald Reagan). Coube aos governantes daque- les dois países implantarem as primeiras reformas no antigo modelo, logo no início da década de 1980. Cumpre lembrar que foi a Grã-Bretanha o grande la- boratório das técnicas gerenciais aplicadas. Seguindo essa tendência, um gran- de número de países começou a ensaiar o início das reformas de seus Estados. As ações dos governos desses países, no entanto, resumiram-se apenas em ajustar os contornos da Administração Pública com medidas como: • Limitações das dimensões do setor público. 1 O liberalismo surge na Europa para contrapor-se ao absolutismo. As ideias liberais nasceram na Inglaterra e foram desenvolvidas e propagadas na França, a partir da efetiva contribuição dos filósofos iluministas. Essas ideias foram incorporadas na Declaração da Independência norte--americana. Constata-se que o pensamento liberal – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – con- solida-se de forma definitiva com a Revolução Francesa. Ele se baseia na liberdade dos homens, sem privilégios sociais ou de nascimento, e, em especial, na soberania dos povos. Os ideais libe- rais constam na Declaração dos Direitos do Homem. Podemos creditar à Revolução e ao Império napoleônico a responsabilidade por divulgar essas ideias no continente europeu. O esgotamento do modelo de intervenção estatal 115 • Privatização. • Comercialização ou corporativização de órgãos públicos. • Descentralização para governos subnacionais. • Desconcentração no governo central. • Uso de mecanismos típicos de mercado. • Novas atribuições aos órgãos da administração central. • Outras iniciativas de reestruturação ou racionalização. Ficou evidenciado, em seguida, que reformar um Estado nacional é tarefa de grande complexidade, que envolve inúmeros aspectos, como ideias, estraté- gias, processos, recursos humanos, estruturas organizacionais, poderes e polí- tica, orçamentos, relações externas, agentes não governamentais e sociedade. Vários dos países pioneiros desse movimento apresentaram particularidades em seus processos de reforma: • Os EUA adotavam a filosofia do “deixem o administrador administrar”, apregoando a “melhoria contínua”, baseada nos princípios da gestão da qualidade total. • No Reino Unido, o governo Thatcher desencadeou uma reforma batiza- da de “Próxima Passos”. Nela, as autoridades da administração nacio- nal definiriam as políticas gerais, mas dois terços dos serviços públicos deveriam ser realocados em agências. As agências seriam regidas por contratos, nos quais seria definido o que elas fariam, além dos padrões pelos quais seu desempenho seria avaliado. Os acordos sobre desempe- nho e metas a serem alcançados serviriam de base para uma mudança radical no antigo sistema burocrático Whitehall. Cada agência pôde se concentrar mais diretamente na melhoria do serviço que devia prestar a usuários e consumidores. • Na Nova Zelândia promoveram-se mudanças radicais. Houve, de modo intenso, venda de empresas estatais ao setor privado, além da sujeição do restante da Administração Pública à concorrência de mercado. Os funcionários mais graduados foram integrados à Administração Pública mediante contratos de desempenho para administrar órgãos cujo traba- lho é definido por acordos de compra de serviços. Estes passaram a ser remunerados de acordo com o desempenho, e os que não atingissem as metas propostas poderiam ser demitidos. Em síntese, era o mercado que determinava o sucesso de cada agência. Tanto o Reino Unido como a Nova Zelândia fizeram suas reformas com inspiração nos ensinamentos da teoria econômica, que diz que “o Estado, por 116 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira ser monopolista, é inerentemente ineficiente; tende a crescer e a inchar; e por isso tem mal desempenho”. Assim, decidiram por uma maciça privatização de suas empresas públicas, terceirizaram ou delegaram muitas das atividades que eram mantidas sob controle do Estado. Ao invés do controle da produção, pas- saram à aferição dos resultados das atividades governamentais e introduziram sistemas muito mais amplos de controle dos gastos públicos. Apesar das pe- culiaridades nas reformas em diferentes países (PDAE/MARE, 1995), a abor- dagem do problema parte dos mesmos fundamentos quando se comparam as reformas administrativas do passado e as do presente. • Ênfase – as reformas administrativas tradicionais concentravam-se na reestruturação organizacional. As recentes reformas do setor público buscam modificar procedimentos. • Responsabilização – a administração tradicional está baseada em um sistema autoritário, hierarquizado e rígido. As recentes reformas do se- tor público têm adotado mecanismos baseados no mercado. • Resultado final – a administração tradicional tendia a julgar os admi- nistradores com base no processo. Era o império da lei e das normas. O que elas ditavam deveria ser executado e a sua mera realização seria sinal do dever cumprido, não importando se os resultados fossem ina- dequados. As reformas mais recentes do setor público têm dado maior atenção à eficiência. • O papel dos funcionários públicos – a administração tradicional re- corria a funcionários públicos para executar tarefas do Estado. As refor- mas mais recentes do setor público não partem mais do pressuposto de que as tradicionais tarefas do Estado têm de necessariamente ser exe- cutadas pela Administração Pública. Tal fato envolve a perspectiva de recursos humanos na administração. • O papel dos cidadãos – a administração tradicional tendia a tratar os cidadãos como clientes, presumindo que os funcionários públicos co- nheciam melhor suas necessidades, e que os cidadãos eram beneficiá- rios passivos dos serviços públicos. As novas reformas do setor público levam a uma visão deles como consumidores. No entanto, é necessário definir quem e o que é consumidor e qual é o papel dele para o bom funcionamento do sistema. • O núcleo do Estado – a Administração Pública tradicional definia “ser- viços públicos” como algo que só o Estado podia ou devia fazer. As recentes reformas do setor já não impõem esses limites conceituais, embora ainda deva ser preservado um núcleo mínimo do Estado, com atribuições exclusivas. O desafio é saber como delimitar esse núcleo. 14 O debate da reforma da Administração Pública “Para apreciar a natureza geral e a importância da responsabilidade administrativa é preciso compreender o significado da burocracia no Estado moderno.” (Arthur A. Maass e Laurence I. Radway, 1949) introDução As ideias que fundamentam as propostas de reforma na Administração Pú- blica não é um assunto novo. Isso está explicitado, por exemplo, na conceitua- lização de uma forma mais racional de administração dos assuntos públicos proposta por Weber no final do século XIX – o paradigma burocrático –, defi- nindo a separação entre a política e a administração (que teve como referência os estudos seminais de Wilson, de 1887). Assim, o surgimento da Nova Admi- nistração Pública, proposta na década de 1960, pode ser considerado esfor- ço relevante para confrontar as noções que eram aceitas naquele período em relação à Administração Pública. Observa-se, nesse sentido, que mesmo não sendo o tema da reforma do setor público uma novidade no âmbito do debate acadêmico sobre a Administração Pública, somente nos últimos 30 anos é que se criou uma área consistente de pesquisa, inclusive como potencial área de es- pecialização do estudo sobre gerência pública (BARZELAY, 2001). Os fundamentos para explicar a onda de reformas em países tão distintos como a Inglaterra, os Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, Brasil, entre outros, são diversos e, não raro, estão relacionados a processos políticos es- pecíficos de cada país. Verifica-se, em alguns casos, a partir de estudos compa- rados, a existência de evidências que indicam algumas similitudes nesses pro- cessos. Veja, por exemplo, os estudos de Zifcak (1994); Aucoin (1995); Kettl (2000); Christensen e Laegrid, (2001), entre outros. 118 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira reformas na aDministração Pública: as bases Da nova Gestão Pública O aumento das expectativas e das demandas dos cidadãos em uma par- cela significativa dos países passou a exigir uma nova forma de orientação na prestação de serviços por parte da Administração Pública para responder a esta crescente exigência da população. A qualidade dos serviços que são ofertados e o nível de satisfação do cidadão/cliente são o referencial da NGP (fortemen- te embasada em um modelo gerencial), que se apresenta, em escala mundial, como o novo paradigma do final do século XX. Essas transformações ocorriam num contexto de globalização e difusão da Tecnologia da Informação, que, por sua vez, refletiam profundamente no ambiente de negócios, exigindo das orga-nizações mais flexibilidade nas suas operações. Esta mudança veio impulsionar a realização de reformas na Administração Pública de inúmeros países que tinham necessidade de melhorar a eficiência, a eficácia e a efetividade das suas prestações. Nessas reformas, denominadas New Public Management – Nova Gestão Pública (NGP), estão incluídas mu- danças nos procedimentos utilizados e alterações nas estruturas da organiza- ção do setor público com o objetivo de conseguir que o mesmo funcione me- lhor (AUCOIN, 1990;1 HOOD, 1991; DUNLEAVY; HOOD, 1993;2 HOOD, 1995; POLLITT, 1990; BOUCKAERT, 2000). O esforço para identificar as melhores práticas do setor privado empre- sarial e a sua aplicação à Administração Pública tiveram início nos Estados Unidos, nos anos 1960, que serviram de referência para um grande número de países no mundo. As explicações para a adoção dessas novas formas de gestão pública, a par- tir das melhores práticas adotadas no setor privado, são atribuídas às seguintes propostas (OLÍAS, 2001):3 • redução do tamanho do setor público; • maior autonomia e responsabilidade dos gestores (agência); • empowerment (delegação e descentralização); • reinventing government (reengenharia); • ênfase nos resultados e na necessidade de serem medidos (indicadores de avaliação); 1 AUCOIN, P. Administrative Reform in public management paradigms, principles, paradoxes, and pendulums. Governance, 1990. p. 115-137, v. 3. 2 DUNLEAVY, P.; HOOD, C. From old public administration to new public management. Public Money and Management, v. 14, no 3, p. 9-16, July/Sept. 1994. 3 OLÍAS, B. L. La nueva gestion pública. Madrid: Prentice Hall, 2001. O debate da reforma da Administração Pública 119 • equilíbrio financeiro (utilizador-pagador); • orientação para os clientes; • formas de contratação de pessoal mais flexível; • qualidade na prestação dos serviços públicos; • transparência da informação (accountability). Observa-se que a concretização desta nova forma de gestão tem sido efe- tuada de várias formas, como, por exemplo, por meio de privatizações; aber- tura de mercados antes protegidos; concessões de serviços públicos ao setor privado; além da criação de entidades e contratos com características especiais como: agências reguladoras; parcerias público-privadas, entre outros. a aDoção Da nova aDministração Pública no brasil Instituída por Hood (1991),4 a expressão “Nova Administração Pública” (NAP), no contexto do processo de reforma do aparelho de Estado, foi incor- porada no Brasil como Administração Pública gerencial – em um esforço de seu coordenador político de se distanciar do movimento reformista internacional e de sua vinculação com o ideário neoliberal (BRESSER-PEREIRA, 2001). De acordo com Boston et al. (1996), a NAP pode ser sintetizada como a definição de regras de modo a separar a formulação de políticas de sua operação, ou seja, separar as dimensões políticas e a administrativa. A formulação de políti- cas passa a ser entendida como a definição de objetivos e missão da organiza- ção, da meta de desempenho e dos indicadores de avaliação. Hood (1995) sintetiza o ideário da NAP como a redução ou remoção de di- ferenças entre o setor privado e público, refletindo tanto a crença nos métodos do mercado e das empresas privadas quanto a descrença nos servidores públi- cos. Apesar de variações na sua implementação nos diferentes países, identifica temas comuns: i) uma mudança de ênfase do processo de elaboração de políticas para habilidades gerenciais; ii) uma mudança de ênfase de processos para resultados; iii) uma mudança de ênfase de hierarquias ordenadas para bases mais competitivas e para a provisão de serviços, de pagamentos fixos para variados, e de serviços uniformes e inclusivos para contratos de provisão; 4 NAP (ou NPM) é um conjunto de argumentos e filosofias administrativas propostos como um novo paradigma de gestão pública a partir do surgimento dos temas: crise e reforma do Estado (MATIAS-PEREIRA, 2010a). 120 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira iv) observa-se, nesse sentido, que as mudanças implementadas na déca- da de 1980 delinearam uma nova filosofia administrativa, ou seja, um novo paradigma para a gestão pública (HOOD; 1991; 1995; POLLITT; BOUCKAERT, 2000; MATIAS-PEREIRA, 2012a, 2010b).5 Assim, a partir da perspectiva das políticas de reforma, a Nova Gestão Pú- blica tem sido a fonte teórica de ideias para desenhar e realizar novas práti- cas e processos no âmbito da gestão pública. Nesse sentido, sustentam Mino- gue et al. (1998) que o principal objetivo, inerente às reformas do estilo NGP, é tornar as práticas mais eficientes e obter “valor por dinheiro”, realizando mudanças organizacionais e de gestão para alcançar uma utilização mais efi- ciente de recursos. Apresentam-se, na Figura 14.1, as principais diferenças entre burocracia e management. A burocracia é: Limitada por leis Orientada para dentro Centrada na obediência Estática Postura: Paternalista Dirigida por uma mística Orientada a estândares Autorregulada Os políticos são: Dogmáticos Interventores Instáveis O management é: Inovador Orientado para fora Focado no desempenho Dinâmico Postura: Orientado para o consumidor Transparente Focado nos resultados Os managers são: Pragmáticos Facilitadores Estratégicos Estáveis Fontes: Hood (1991; 1995); Matias-Pereira (2012a), com adaptações. Figura 14.1 As principais diferenças entre burocracia e management. O debate sobre a validade da adoção e as características da NGP vem sen- do realizado de forma intensa a partir do início da década de 1990. Destacam- -se nessas discussões os estudos de Hood (1991; 1995); Minogue et al. (1998) e Matias-Pereira (2012a), conforme se pode verificar na Figura 14.2. 5 POLITT, C.; BOUCKAERT, G. Public management reform: a comparative analysis. Oxford: Ox- ford University Press, 2000. O debate da reforma da Administração Pública 121 Hood (1991; 1995) Minogue et al. (1998) 1. Tendência à desagregação. 2. Melhoramento da competência. 3. Uso de práticas de gestão oriundas do setor privado. 4. Maior ênfase na disciplina e a parcimônia na utilização de recursos. 5. Tendência a uma gestão mais aplicada. 6. Preocupação por estândares mais explícitos e mensuráveis de desempenho. 7. Preocupação em controlar de acordo com as medidas predefinidas. 1. Separação entre o desenho de políticas e gestão operacional. 2. Maior preocupação com resultados do que com processos. 3. Orientação para as necessidades dos clientes, em detrimento daquelas da organização. 4. Mudança desde a provisão direta em favor de um rol de direção ou facilitação. 5. Uma cultura burocrática transformada. Fontes: Hood (1991; 1995); Minogue et al. (1998); Matias-Pereira (2012a). Figura 14.2 Visão das principais características da NGP (HOOD versus MINOGUE et al.). Problemas e contraDiçÕes Do nPm Em termos teóricos, o gerencialismo (NPM/NGP) levanta sérios problemas e contradições. Em primeiro lugar, parte de suposições que não demonstra e que são autênticas falácias, como o pressuposto de que a gestão empresarial é ineren- temente superior à gestão pública e de que o papel dos cidadãos pode ser re- duzido ao de consumidores. Em segundo lugar, o new public management insiste, por um lado, na descentralização e no desaparecimento dos escalões inter- médios, mas, por outro, acentua a necessidade de controle financeiro e coorde- nação orçamental, o que gera incoerências e contradições no processo de decisão e implementação das políticas públicas. Os governos alijam as responsabilidades de funcionamento dos serviços públicos e, simultaneamente, querem controlar esse funcionamento. Finalmente, muitos dos serviços públicos são difíceis de se- rem medidos em termos de eficiência e avaliação de performance, o que torna a aplicação da new public management muito problemática. Hood (1991, p. 9)6 sintetiza a sua visão sobre a newpublic management com as seguintes críticas: 6 HOOD, C. A public administration for all seasons? Public Administration, 1991, v. 69, p. 3-19. Veja, também, HOOD, C. The new public management in the 1980s: variation on a theme. Ac- counting Organizations and Society, v. 20, (2-3), p. 93-109, 1995. 122 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira • A primeira crítica é de que o new public management não tem qualquer conteúdo teórico, é uma roupagem vazia. • A grande consequência do gerencialismo (NPM/NGP) tem sido o au- mento exponencial dos controladores orçamentais e de performance, sem que o fato se tenha traduzido em melhorias dos serviços públicos, como vem sendo constatado pelos cidadãos. • Embora se apresente como promotor do bem comum, o manageralis- mo, na realidade, tem servido de veículo para interesses particulares, criando uma elite de novos gestores públicos, cujos privilégios são mui- to superiores aos dos antigos administradores. • Além disso, a new public management deve ser entendida como um mo- delo de gestão pública de matriz britânica, dificilmente exportável para outras estruturas e culturas administrativas. É importante ressaltar que a NPM (NGP), do ponto de vista teórico, in- corpora na sua concepção diferentes teorias, como, por exemplo, as teorias da escolha pública e da economia organizacional (que tem como base as teo- rias da agência e dos custos de transação), as teorias administrativas tradi- cionais – taylorismo e fayolismo –, bem como a teoria comportamental de Simon (SIMON, 1965).7 As bases dessas teorias estão apoiadas em suposi- ções comportamentais: os atores são motivados por seus próprios interesses, sendo oportunistas, enganadores, adeptos de explorar os demais e, portanto, não confiáveis. Nesse sentido, pode-se sustentar que, no momento em que os promotores de reformas assumem essas premissas, passam a aceitar na sua in- tegralidade a referida visão reducionista da natureza humana. 7 SIMON, Herbert A. Comportamento administrativo: estudo dos processos decisórios nas orga- nizações administrativas. Rio de Janeiro: Centro de Publicações Técnicas da Aliança para o Pro- gresso, 1965. Na sua abordagem, Herbert Simon (1965) propõe uma visão da organização mais abrangente, em que o consenso entre indivíduos e organização, em que pese ser problemático, torna-se viável por meio de mecanismos de recompensa e contribuição (princípios estes da teo- ria behaviorista). Apesar de Simon se opor à teoria da racionalidade, a teoria comportamental mantém a crença de que os objetivos precedem a ação. É a noção de cálculo utilitário (raciona- lidade econômica) retratado na satisfação dos objetivos da organização. 15 A reforma gerencial do Estado brasileiro introDução No Brasil, a expressão desse ideário ocorre no processo de reforma do apa- relho de Estado, o qual, além de dar importância às formas clássicas da accoun- tability política (regras processuais, auditorias e revisão parlamentar), instituiu “três formas de accountability gerencial: controle por resultados contratados, pela competição controlada e pelo controle social” (BRESSER-PEREIRA, 2001, p. 158). Para este autor, as três instituições organizacionais básicas da reforma foram as agências reguladoras, as agências executivas e as organizações sociais. o novo Gerencialismo e o Processo De reDemocratização O consenso que se formou em relação à necessidade de reformar o Esta- do fica evidenciado na pauta de objetivos definidos para a reforma (PDRAE/ MARE, 1995). Nesse contexto, podemos identificar dois importantes paradig- mas: o novo gerencialismo e a perspectiva democratizante. É perceptível que o denominado novo gerencialismo contém um paradigma hegemônico, e que a perspectiva democratizante é menos formalizada conceitualmente. Não deve- mos desconsiderar, entretanto, que dela resultam diversas experiências locais de inovação gerencial e de democratização do Estado. Registre-se que a reforma do Estado brasileiro de 1995 foi dividida em dois estágios. No primeiro estágio, foram realizadas a privatização, descentraliza- ção, desregulamentação, entre outras medidas. No segundo, foi feita a estrutu- ração de capacidade administrativa institucional. 124 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira substituição Do moDelo burocrático no contexto Da reforma Do estaDo As profundas transformações ocorridas no mundo após a Segunda Guer- ra Mundial contribuíram de forma decisiva para acelerar o nível de maturida- de político-econômico-social dos governos e das sociedades, especialmente a partir da década de 1970. Esse fato também ensejou o grande anseio para que se fizesse a substituição do modelo burocrático. Cresceram as atribuições dos governos, a complexidade de suas ações e as demandas pelos seus serviços. O processo de globalização econômica, por sua vez, também foi impulsionado, tornando-se fator indutor de mudanças de toda ordem: tecnológicas, econômi- cas, sociais, culturais e políticas. Inúmeros países começaram a abrir as suas economias, o nível de educação elevou-se, assim como o acesso às informa- ções. As sociedades tornaram-se mais pluralistas, democráticas e conscientes. Nesse cenário de alta consciência, o autoritarismo burocrático estava com os dias contados. O Brasil está inserido no elenco desses países que iniciaram os esforços para promover a reforma do Estado. reforma Do estaDo e Governança A partir da decisão do governo de promover a reforma do Estado brasi- leiro, procurou-se criar novas instituições legais e organizacionais que per- mitissem a uma burocracia profissional e moderna ter condições de gerir o Estado. Inicialmente, sob a responsabilidade do Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado (MARE), foram estabelecidas condições para que o governo federal pudesse aumentar sua governança. Com esse propó- sito, foi elaborado o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado, como um instrumento balizador da reforma e modernização deste (PDRAE/MARE, 1995). Constata-se que, mesmo tendo como foco de sua atenção a Adminis- tração Pública federal, muitas de suas diretrizes foram aplicadas no âmbito estadual ou municipal. Para melhor compreensão dos assuntos tratados a se- guir, faremos uma abordagem das principais características da Administração Pública gerencial e da burocrática. o Desafio Da construção Da esfera Pública O grande desafio brasileiro está na construção da esfera pública, tendo em vista a dissociação que existe entre Nação e Estado, ou seja, a Nação que não se reconhece no Estado. A esse respeito, sustenta Fleury (1994, p. 235) que: A reforma gerencial do Estado brasileiro 125 “A constituição, na América Latina, de Estados sem cidadãos implica que a existência de um poder político central não correspondeu à criação de uma nação, entendida como a construção de uma sociabilidade minima- mente necessária para legitimar o exercício deste poder. Esta é a crise de governabilidade que temos enfrentado durante todo este século (XX), com diferentes feições.” A intensificação do debate sobre a Administração Pública é um fato bastan- te perceptível no mundo atual. A relevância dessa discussão – que está presente neste livro – vem ocupando crescente importância na agenda internacional, nos fóruns de discussão, bem como nas revistas científicas que tratam do pro- cesso de transformação do Estado e da sociedade, na atualidade. Observa-se que a discussão envolvendo a gestão pública tende a se confundir com o debate sobre o Estado. Em que pese serem coisas distintas, é inegável que as mudan- ças nas formas de regime político do Estado tendem a ocorrer de forma mais rápida do que as mudanças nas formas de Administração Pública. O surgimento do modelo da Nova Gestão Pública (NGP), motivado pela cri- se fiscal, persistência da cultura burocrática, mitigada por práticas patrimonialis- tas, e elevado déficit de desempenho, tanto em quantidade quanto em qualidade na prestação de serviços públicos,entre outros, ainda está presente na nossa rea- lidade. Para inúmeros autores, como Barzelay (2001) e Matias-Pereira (2012a), a Nova Gestão Pública se apresenta como um âmbito de discussão, um diálogo profissional sobre a estrutura, a gestão e o controle da Administração Pública en- volvendo o mundo acadêmico e os servidores públicos. Assim, deve-se descartar a tentação de definições formais, concentrando o debate na busca de respostas, segundo determinadas circunstâncias, para as questões de como estruturar, gerenciar e controlar os sistemas burocráti- cos públicos. A concepção NGP está apoiada nas teorias da Escolha Pública (Public Choice) e, em particular, do Agente-Principal. A ela também foram agregados os aspectos contemporâneos da gestão empresarial, por exemplo, a Total Quality Management (TQM), reengenharia, stakeholders, orientação a clientes, foco em resultados, flexibilização, remuneração variável por desem- penho, entre outros. Em relação aos novos temas que estão emergindo com intensidade, desta- ca-se o que trata do desenvolvimento e a retomada desse tema reveste-se de especial relevância. A ele se agregaram as questões da sustentabilidade, esta- bilidade econômica, política, institucional e social em um mundo globalizado. Essa nova concepção do desenvolvimento, como não poderia deixar de ocorrer, reflete-se de forma profunda no papel do Estado e da Administração Pública. A partir dessas observações, buscamos aprofundar, neste capítulo, o debate sobre as funções do Estado, do Governo e da Administração Pública no Brasil. 16 Modelos de Administração Pública patrimonialista, burocrática e gerencial introDução A Administração Pública pode ser aceita como o aparelho de Estado orga- nizado com a função de executar serviços, visando à satisfação das necessida- des da população. Nesse sentido, se apresenta como uma organização que tem o objetivo de pôr em prática funções políticas e serviços realizados pelo gover- no. Em outras palavras, é um conjunto de atividades destinadas à execução de obras e serviços, comissionados ao governo para o interesse da sociedade. Exis- tem na trajetória da Administração Pública – a partir do surgimento do Estado moderno – três diferentes formas de atuação: Administração Pública patrimo- nialista, a burocrática e a gerencial. Observa-se que o Estado se apresenta concomitantemente como um siste- ma político e uma organização. Ele nasce com um sistema político absoluto, passa a ter um sistema político liberal ao longo do século XIX, e adota a de- mocracia no século XX. Por sua vez, como organização, o Estado nasce como uma organização patrimonial, atravessa o século XIX e chega quase até o fi- nal do século XX como burocrático. No final do século XX, passa a ser uma organização gerencial. Registre-se que o modelo de Administração Pública que está sendo supe- rado na atualidade foi a solução encontrada para administrar um Estado bu- rocrático. A gestão pública, por seu turno, foi a forma encontrada para admi- Modelos de Administração Pública patrimonialista, burocrática e gerencial 127 nistrar os Estados que estão adotando o modelo gerencial. Constata-se, nesse sentido, que na trajetória histórica do Estado moderno ocorreram apenas duas reformas administrativas significativas: Reforma burocrática e a Reforma da gestão pública. i. Reforma burocrática: tem início na segunda metade do século XIX. Trata-se do processo de transição do Estado patrimonial para o Estado burocrático weberiano. ii. Reforma da gestão pública: orienta a transição do Estado burocrático para o Estado gerencial. aDministração Pública Patrimonialista Podemos observar que as reformas não ocorreram por meio de uma im- posição autoritária, mas por serem reformas necessárias na maneira de gerir e organizar o Estado como sistema político. Na vigência do Estado absoluto, a administração podia ser patrimonial, visto que não havia nenhuma necessi- dade de os monarcas separarem o seu patrimônio do patrimônio público. No Estado liberal, entretanto, com as conquistas políticas e sociais da população, essa mudança se fez necessária. A separação entre o patrimônio dos gover- nantes e dos cidadãos – que pagam impostos e passam exigir garantias das suas liberdades – se tornou uma imposição. Assim, na Administração Pública patrimonialista, o aparelho de Estado atua como uma extensão do poder do monarca. Os servidores públicos pos- suem status de nobreza real. Os cargos funcionam como recompensas, o que gera o nepotismo. Isso contribui para a prática de corrupção e do controle do órgão público por parte dos soberanos. aDministração Pública burocrática A Administração Pública burocrática nasce na segunda metade do século XIX, com o objetivo de combater a corrupção e o nepotismo patrimonialista. Pregava os princípios do desenvolvimento, da profissionalização, ideia de car- reira pública, hierarquia funcional, impessoalidade, formalismo; tudo comi- nava no poder legal, colocando a priori as metas de acabar com o nepotismo e com a corrupção. Para isso, torna-se necessário o controle rígido dos pro- cessos e do ingresso à carreira pública, com regras na admissão, controle nas compras, visando evitar abusos, ineficiência e incapacidade. A administração burocrática tornou-se inadequada aos interesses da população, visto que suas regras passaram a se sobrepor aos interesses da sociedade. 128 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira O modelo de Administração Pública burocrática era funcional para respon- der às demandas de um Estado pequeno como era o caso do Estado liberal. Apoiava-se em normas rígidas, o que não exigia um sistema descentralizado de gestão. Nesse modelo burocrático, o Estado – cujas funções são mínimas – não tem dificuldade de executar diretamente os serviços sob sua responsabilidade. Assim, em função da adoção do modelo de Estado burocrático, impõe-se a reforma do serviço público, por ser um pré-requisito para tornar efetiva a ação da organização estatal. Nesse contexto, quando o Estado passa a ser democrá- tico (século XX), e tem como responsabilidade gerar o bem comum, por meio do atendimento adequado das crescentes demandas da população, ocorre sig- nificativa ampliação das suas funções nos campos socioeconômico e político. O aumento dessas pressões e a incapacidade do Estado burocrático de atendê- -las de maneira satisfatória colocam em xeque o Estado burocrático. Tem-se, portanto, o início do processo de transformações, com a introdução da reforma da gestão pública, que busca transformar o modelo de Estado burocrático em Estado gerencial. Diferenças entre a aDministração Pública burocrática e a Gerencial A diferença entre os modelos da Administração Pública burocrática e da gerencial é bastante significativa, na medida em que a última parte de princí- pios e pressupostos diferentes, com outra visão de funcionários, do Estado e da sociedade. Modelos de Administração Pública patrimonialista, burocrática e gerencial 129 Administração Burocrática Administração Gerencial i. A Administração Pública burocrática é autorreferente e se concentra no processo, em suas próprias necessidades e perspectivas, sem considerar a alta ineficiência envolvida. ii. A Administração Pública burocrática acredita em uma racionalidade absoluta, que a burocracia está encarregada de garantir. iii. A Administração Pública burocrática assume que o modo mais seguro de evitar o nepotismo e a corrupção é pelo controle rígido dos processos, com o controle de procedimentos. iv. Na administração burocrática não existe a confiança. v. A administração burocrática é centralizadora, autoritária. vi. A administração burocrática prega o formalismo, rigidez e o rigor técnico. i. A Administração Pública gerencial é orientada para o cidadão, voltada para o consumidor, e se concentra nas necessidades e perspectivas desse consumidor, o cliente-cidadão. No gerencialismo, o administrador público preocupa-seem oferecer serviços, e não em gerir programas; visa atender aos cidadãos, e não às necessidades da burocracia. ii. A Administração Pública gerencial pensa na sociedade como um campo de conflito, cooperação e incerteza, na qual os cidadãos defendem seus interesses e afirmam suas posições ideológicas. iii. A Administração Pública gerencial parte do princípio de que é preciso combater o nepotismo e a corrupção, mas que, para isso, não são necessários procedimentos rígidos, e sim outros meios, como indicadores de desempenho, controle de resultados etc. iv. Na administração gerencial, a confiança é limitada, permanentemente controlada por resultados, mas ainda assim suficiente para permitir a delegação, para que o gestor público possa ter liberdade de escolher os meios mais apropriados ao cumprimento das metas prefixadas. v. A administração gerencial prega a descentralização, com delegação de poderes, atribuições e responsabilidades para os escalões inferiores. vi. A administração gerencial preza os princípios de confiança e descentralização da decisão, exige formas flexíveis de gestão, horizontalização de estruturas, descentralização de funções e incentivos à criatividade e inovação. Fontes: Hood (1991, 1995); Matias-Pereira (2012a), com adaptações. Figura 16.1 Principais diferenças entre a Administração Pública burocrática e a gerencial. 130 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira reDefinição Do PaPel Do estaDo e a aDministração Pública Gerencial A partir da redefinição do seu papel, o Estado deixa de ser o responsável direto pelo desenvolvimento econômico e social pela via da produção de bens e serviços, para se adequar a uma nova função de Estado gerencial. Assim, a re- forma do Estado priorizou a transferência para o setor privado das atividades que podem ser controladas pelo mercado. Por meio da liberalização comercial, esse mesmo mercado passa a ter mais liberdade de ação, com o abandono da estratégia protecionista de substituição das importações. Para Bresser-Pereira (2001, p. 30), o Estado gerencial vai “além de criar agências reguladoras: é também o Estado democrático e eficiente que financia a fundo perdido os ser- viços sociais e a pesquisa científica e age como capacitador (enabler) da com- petitividade das empresas privadas”. A questão da transparência passa a ter lugar de destaque, visto que a cor- rupção apresenta-se como um fenômeno que enfraquece a democracia, a con- fiança no Estado, a legitimidade dos governos e a moral pública. No caso bra- sileiro, é perceptível que a corrupção é um problema grave e estrutural da sociedade e do sistema político do país. Encontramos alguns autores, como Norberto Bobbio (1997), que isolam o problema da contradição entre Estado versus mercado da discussão convencio- nal, e colocam nele uma extensão da disjuntiva que se formula em termos de um Estado democrático versus o mercado. Para Bobbio, o assunto da democra- cia não é somente um problema de maiorias absolutas ou a existência de um marco legal que garante a existência de regras e procedimentos. Além disso, é importante ter as garantias reais de exercício da democracia, as quais devem estar consignadas nos chamados direitos fundamentais (de liberdade, opinião, expressão, associação e reunião), que só podem ser dados no seio do Estado li- beral. Em outras palavras, naquele tipo de Estado que não só exerce um poder de submissão à lei, bem como está limitado pelo reconhecimento constitucio- nal dos chamados direitos invioláveis do indivíduo. Sustenta Bobbio (1997b, p. 26) que: “de ahí que el Estado liberal no solamente es el supuesto histórico sino también jurídico del estado democrático. El Estado liberal y el Estado de- mocrático son interdependientes en dos formas: 1) en la línea que va del liberalismo a la democracia, en el sentido que son necesarias ciertas liber- tades para el correcto ejercicio del poder democrático; 2) en línea opuesta, la que va de la democracia al liberalismo, en el sentido de que es indis- pensable el poder democrático para garantizar la existencia y persistencia de las libertades fundamentales. En otras palabras: es improbable que un Estado no liberal pueda asegurar un correcto funcionamiento de la demo- cracia, y por otra parte es poco probable que un Estado no democrático sea capaz de garantizar las libertades fundamentales”. Modelos de Administração Pública patrimonialista, burocrática e gerencial 131 Para Touraine (1999, p. 20), a essência do capitalismo na atualidade é a mundialização da economia: “sin detenerse a caracterizarla. El capitalismo supone una economía de mercado en cuanto que ésta rechaza cualquier control exterior, pues por el contrario, busca actuar sobre la sociedad en bloque en función de sus propios intereses. El capitalismo significa que la sociedad se ve dominada por la economía”. Argumenta Razeto (2000, p. 11) que: “la crisis del desarrollo de que hablamos la podemos expresar en estos tér- minos concisos: mientras la economía mundial continua su proceso de ex- pansión y crecimiento global, una visión de conjunto del mundo permite ver que estamos avanzando hacia un colapso de la misma civilización que se está expandiendo y creciendo. Crisis del desarrollo no significa, pues, que lo que hemos entendido como desarrollo esté dejando de verificarse, sino al contrario, que mientras mas avanzamos por el camino de ese de- sarrollo, más se agudizan los problemas y contradicciones de la sociedad y más nos acercamos al punto en que continuar por dicha senda de desar- rollo resultará imposible”. É oportuno ressaltar que grande parte das reformas de segunda e terceira geração no Brasil dependem da criação de novas instituições, de mudanças constitucionais ou de alterações profundas no sistema administrativo. Como essas mudanças afetam grandes interesses políticos e econômicos, fica evi- denciado que os próximos governos devem continuar priorizando as refor- mas que o país ainda necessita promover. É preciso incluir também na agenda política a criação de um consistente programa nacional de combate à corrup- ção, que possa garantir, de maneira eficiente, eficaz e efetiva, a transparência e a ética na Administração Pública. forma De atuação DescentralizaDa e baseaDa no controle Por resultaDos É perceptível que a gestão pública adotada pelo Estado gerencial tornou- -se necessária para elevar o nível de eficiência do Estado democrático, o que exige uma forma de atuação descentralizada e baseada no controle por resul- tados. Assim, na gestão pública, o Estado precisa terceirizar para empresas inúmeros tipos de serviços, e para entidades públicas não estatais (as orga- nizações sociais) os serviços sociais e científicos. Ao lado dessas mudanças, 132 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira verifica-se que suas atividades exclusivas passam a ser delegadas para agên- cias executivas e reguladoras. Registre-se que o surgimento da Administração Pública gerencial está rela- cionado ao desenvolvimento tecnológico, abertura e expansão dos mercados, globalização da economia mundial. Ele decorre da necessidade de pesquisar o desejo do cliente, visando a melhoria da qualidade dos serviços oferecidos, a eficiência, a redução do tempo gasto, o aumento da qualidade, a flexibilidade das regras, a melhoria do desempenho com controle dos resultados e a avalia- ção do processo. Não deve ser visto, portanto, como um rompimento dos prin- cípios anteriores, pois está apoiado nesses princípios. Passa a existir, entretan- to, maior flexibilidade do processo para o bom desempenho, no qual prevalece o interesse do público e o cidadão é aceito como contribuinte de impostos, um cliente dos serviços oferecidos. Para Bresser-Pereira (2003), a reforma da gestão pública, por ser historica- mente a segunda reforma administrativa relevante do Estado moderno, ocor- rerá de qualquer maneira em todos os países. Nesse sentido, argumenta que, uma vez iniciada, não há alternativasenão dar-lhe prosseguimento, ressaltan- do que os caminhos serão vários, porque a reforma tem uma amplitude de ins- tituições e de práticas muito grande. características Dos moDelos: Gerencial e Democrático-ParticiPativo No debate sobre a reforma e modernização do Estado e da gestão pública no Brasil, faz-se necessário ressaltar a importância das duas principais verten- tes de reflexão teórica: os modelos gerencial da Administração Pública e o de- mocrático-participativo. Esses modelos, sob o aspecto analítico, se apresentam como significativos referenciais na análise e avaliação do processo de gestão nos três níveis de governo: federal, estadual e municipal. Nesse contexto, podemos destacar algumas características específicas dos referidos modelos (FREY, 1996): i. Modelo gerencial da nova Administração Pública. Trata-se do enfoque denominado “socialdemocracia de cunho neoliberal”, que enfatiza a necessidade de redução do tamanho do Estado e da modernização gerencial do setor público e que, pelo menos na prática da política brasileira, adotou fortes traços do neoliberalismo (OLIVEIRA, 1999), sobretudo no tocante à política econômico-financeira. O modelo gerencial da Administração Pública tem como fonte de inspi- ração a prática do gerenciamento de empresas privadas, por meio do qual se procura transferir instrumentos de gerência empresarial para o setor público. Modelos de Administração Pública patrimonialista, burocrática e gerencial 133 Observa-se que no modelo gerencial da Nova Administração Pública existe uma separação clara entre a esfera política, em que são tomadas as decisões políticas e dadas as diretrizes básicas para os gestores públicos, e a esfera ad- ministrativa, dinamizada por meio da concessão de ampla liberdade gerencial e considerada essencial para garantir a cobrança de resultados, bem como es- tabelecer transparência e condições de accountability. ii. Modelo democrático-participativo. O enfoque denominado democrá- tico-participativo busca estimular a organização da sociedade civil e promover a reestruturação dos mecanismos de decisão, em favor de maior envolvimento da população no controle social da Administra- ção Pública e na definição e realização de políticas públicas. Esse modelo tem como principal preocupação o aumento do controle so- cial, pelo processo de democratização das relações Estado-sociedade e o au- mento da participação da sociedade civil e da população na gestão pública. Além disso, busca-se promover a accountability por meio do envolvimento e participação intensa da sociedade civil organizada e dos cidadãos na formula- ção, implementação e no controle das políticas públicas. Para alguns autores, como Schmitter (2002), a governança interativa, ou participativa, parece a forma mais adequada para se lidar com problemas complexos, como a promoção do desenvolvimento sustentável ou de proces- sos de inovação. Frey (2007, p. 136-150) sustenta que: “Enquanto o modelo gerencial visa isolar e proteger o gestor público das pressões oriundas da sociedade, o modelo democrático-participa- tivo requer novas habilidades do gestor público, sobretudo em relação à articulação e à cooperação com os mais variados atores políticos e sociais. No modelo gerencial, o gestor público é avaliado conforme sua capacidade de alcançar as metas estabelecidas pelo sistema de decisão política. Já no modelo democrático-participativo, ganha relevância o próprio processo da gestão pública, particularmente no que diz respei- to ao seu caráter democrático.” críticas ao moDelo De aDministração Pública Gerencial Torna-se perceptível, com a promulgação da Constituição Federal de 1988, que houve um retrocesso no processo de consolidação do modelo de adminis- tração gerencial. A Magna Carta continha no seu bojo normas excessivamente 134 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira burocráticas, as quais refletiram negativamente no funcionamento do aparelho estatal. O retorno ao regime estatutário único para servidores públicos das ad- ministrações direta e indireta, e a aposentadoria com proventos integrais sem correlação com o tempo de serviço ou valor da contribuição, são apontados como exemplos do retrocesso ao modelo burocrático e alguns dos problemas trazidos pela Constituição. Além disso, a enorme quantidade de controles e de- talhamentos das normas contidas na Constituição Federal também vem contri- buir para o inadequado funcionamento da Administração Pública. Com o governo Collor, iniciou-se em 1990 o processo de abertura comer- cial do país, com medidas que tinham como consequências a reavaliação do papel do Estado na economia e a exposição do Brasil no cenário econômico e financeiro internacional. Esses fatores passariam a demandar outra abordagem do governo na economia, tornando necessária a implantação, de modo siste- mático, de um novo modelo de Administração Pública que se adequasse à eco- nomia globalizada de mercado: a Administração Pública gerencial. Por fim, podemos argumentar que, em suas três dimensões, a reforma ge- rencial avançou de maneira adequada nos níveis institucional e cultural. A ideia da Administração Pública gerencial em substituição à burocrática se efe- tivou, e as principais instituições necessárias para a sua implantação foram aprovadas pelo Congresso Nacional. O grande desafio da reforma reside na efetivação da gestão. Nessa dimensão, é perceptível que a reforma está apenas começando, visto que sua implantação somente irá se efetivar no longo prazo. A responsabilidade de continuar o processo de implantação da reforma do Estado, a partir do segundo governo Fernando Henrique Cardoso (1999- 2002), foi atribuída ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Essa mudança alterou a forma de implantação da reforma gerencial, que passou a usar como instrumento básico o Orçamento anual da República e, em particu- lar, o Plano Plurianual (PPA). Buscou-se, assim, o fortalecimento das funções de regulação e de coordenação do Estado, particularmente no âmbito fede- ral, e a progressiva descentralização vertical, nos âmbitos estadual e munici- pal, das funções executivas no campo da prestação dos serviços sociais e de infraestrutura. Essa tendência foi mantida nos PPAs, nos períodos 2004-2007 e 2008-2011 (governo Lula), bem como está sendo recomendada para o PPA de 2012-2015 (governo Dilma). Dessa forma, pretende-se reforçar a governança, com a superação das dificuldades encontradas para se implantar as políticas públicas, devido à rigidez e ineficiência da máquina administrativa. Modelos de Administração Pública patrimonialista, burocrática e gerencial 135 questÕes Para Discussão Parte iii Nesta Parte III do livro – Capítulos 11 a 16 –, tem-se como propósito deba- ter os conceitos e os principais aspectos das mudanças ocorridas no Estado e na Administração Pública. exercícios referentes à Parte iii 1. Após as leituras e os contatos com colegas e o professor da disciplina, elabore (preferencialmentte em grupos) uma síntese sobre as profundas transformações políticas, econômicas e sociais ocorridas no mundo nas úl- timas 15 décadas, procurando destacar como essas mudanças refletiram no papel do Estado-nação e no surgimento de um novo modelo de gestão da Administração Pública. Debater o tema em sala de aula. 2. Faça uma síntese das reformas administrativas, modernização administra- tiva e reforma do Estado no Brasil, pós-1930. Debater o tema em sala de aula, buscando identificar a(s) reforma(s) mais importante(s) para o Bra- sil nesse período. 3. Faça uma síntese dos quatro fatores socioeconômicos que contribuíram decisivamente para agravar a crise do Estado gerada no pós-guerra, des- tacando as principais medidas adotadas pelos Estados para enfrentar essa crise. Debater o tema em sala de aula. 4. É sabido que as ideias que fundamentam as propostas de reforma na Admi- nistração Pública não é um assunto novo. Isso está explicitado, por exem- plo, na conceitualizaçãode uma forma mais racional de administração dos assuntos públicos proposta por Weber no final do século XIX – o paradigma burocrático –, definindo a separação entre a política e a administração. A partir dessas referências, faça uma síntese sobre as bases da nova gestão pública. Debater o tema em sala de aula. 5. O consenso que se formou em relação à necessidade de reformar o Estado encontra-se evidenciado na pauta de objetivos definidos no plano para a reforma do Estado, de 1995. Nesse sentido, formulamos a seguinte ques- tão: Está havendo uma intensificação do debate sobre a Administração Pú- blica no mundo atual? Justifique. Debater o tema em sala de aula, buscan- do identificar o papel da comunidade acadêmica nesse debate. 6. A Administração Pública é aceita, em sentido amplo, como o aparelho de Estado organizado com a função de executar serviços, visando à satisfação das necessidades da população. Nesse sentido, se apresenta como uma or- 136 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira ganização que tem o objetivo de pôr em prática funções políticas e serviços realizados pelo governo. Em outras palavras, é um conjunto de atividades destinadas à execução de obras e serviços, comissionados ao governo para o interesse da sociedade. Existem na trajetória da Administração Pública – a partir do surgimento do Estado moderno – três diferentes formas de atua ção: Administração Pública patrimonialista, a burocrática e a geren- cial. Faça uma síntese (preferencialmente em grupo) sobre as característi- cas da Administração Pública patrimonialista, burocrática e gerencial. De- bater o tema em sala de aula. Vamos debater na Parte IV, a seguir, os temas que tratam dos modelos de Estado, Governo e Administração Pública. Parte IV Modelos de Estado, Governo e Administração Pública 17 Funções de governo e da Administração Pública “As instituições são como regras formais ou informais idealizadas pelos homens, para criar ordem ou reduzir a incerteza das trocas. Nesse sentido, as instituições e organizações afetam o desempenho da economia na medida em que, ao dar forma e estruturar as interações humanas, reduzam as incertezas e induzam a cooperação, diminuindo os custos das transações.” (Douglas North, 1990) “Os fatores que medem o nível de competitividade de um país no cenário mundial são: desempenho econômico; eficiência, eficácia e efetividade do governo; ambiente de negócio e infra- estrutura. Em todos eles, direta e indiretamente, o Estado, por meio da Administração Pública, está presente.” (Matias-Pereira, 2003) As expressões Governo e Administração Pública, em geral, são citadas com o mesmo significado. Trata-se de uma visão equivocada, visto que existe uma divisão bastante clara entre os dois, ou seja, Governo e Administração são ter- mos que interagem, mas possuem significados distintos. Ao abordar esse tema, sustenta Meirelles (2002, p. 63): “Governo significa conduzir politicamente os negócios públicos, é uma ex- pressão política de comando, de iniciativa, de fixação de objetivos do Esta- 140 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira do e de manutenção da ordem jurídica vigente. O Governo atua mediante atos de soberania na condução dos negócios públicos.” “Administração Pública, em sentido formal, é o conjunto de órgãos ins- tituídos para consecução dos objetivos do Governo; em sentido material, é o conjunto das funções necessárias aos serviços públicos em geral; em acepção operacional, é o desempenho perene e sistemático, legal e técnico, dos serviços próprios do Estado ou por ele assumidos em benefício da co- letividade. Administração Pública é, pois, todo aparelhamento do Estado, preordenado à realização de seus serviços, visando a satisfação das neces- sidades coletivas. A administração não pratica atos de governo; pratica, tão somente, atos de execução, com maior ou menor autonomia funcio- nal, segundo competência do órgão e de seus agentes.” O Governo é o responsável por orientar as metas, cabendo à Administração Pública a sua execução. O governo é exercido pelos políticos eleitos que atuam em consonância com suas metas. A Administração, por sua vez, é o corpo téc- nico e legal responsável pelo cumprimento desses atos de soberania. Ao com- parar Governo e Administração, argumenta Meirelles (2002, p. 64): “Comparativamente, podemos dizer que o governo é atividade política e discricionária; administração é atividade neutra, normalmente vinculada à lei ou à norma técnica. Governo é conduta independente; administra- ção é conduta hierarquizada. O Governo comanda com responsabilidade constitucional e política, mas sem responsabilidade profissional pela exe- cução; a Administração executa sem responsabilidade constitucional ou política, mas com responsabilidade técnica e legal pela execução. A ad- ministração é o instrumental de que dispõe o Estado para pôr em prática as opções políticas do Governo. Isto não quer dizer que a Administração não tenha poder de decisão. Tem. Mas o tem somente na área de suas atribuições e nos limites legais de sua competência executiva, só poden- do opinar e decidir sobre assuntos jurídicos, técnicos, financeiros ou de conveniência e oportunidade administrativas, sem qualquer faculdade de opção política sobre a matéria.” funçÕes De estaDo e funçÕes De Governo Os princípios e fundamentos do Estado contemplados pela Constituição Federal são bastante distintos dos objetivos de Governo. Isso está evidenciado, por exemplo, nos arts. 1o, 3o e 170 da CF. Quanto aos principais dispositivos constitucionais que envolvem as políticas de Estado, podemos citar o art. 194, ao tratar a seguridade social como um conjunto integrado de ações de iniciati- Funções de governo e da Administração Pública 141 va dos Poderes Públicos; o art. 196, que estabelece a promoção de políticas de saúde como dever do Estado; o art. 205, que define a promoção do direito à Educação como um dever do Estado; o art. 217, no qual o fomento ao desporto é definido como uma política de Estado. Nesse sentido, quem elabora pautas políticas são os poderes públicos. O Estado tem instituições que, apoiadas no princípio republicano, deverão obe- decer à Constituição, à Lei e às políticas públicas. Registre-se que as políticas de Governo devem ser estabelecidas no ambiente institucional para que pos- sam ser implementadas sem sobressaltos ou restituições. Políticas De estaDo e Políticas De Governo É nítida a separação que existe entre políticas de Estado e políticas de Go- verno no âmbito do direito constitucional brasileiro. Nesse sentido, torna-se possível definir que: i) políticas de Estado são aquelas estabelecidas por Lei, no processo complexo que envolve as ações do Legislativo e do Executivo. Nelas ficam definidas as premissas e objetivos que o Estado brasileiro, em dado momento histórico, quer ver consagrados para dado setor da economia ou da sociedade. As políticas de Estado se configuram pelo seu caráter de estabilidade, e em geral tendem a ser alteradas para se ajustarem a um novo contexto histórico. Para que isso aconteça, é preciso apenas que ocorra a alteração no quadro legal. Trata-se de po- líticas necessariamente estruturantes; ii) políticas de Governo são os objetivos, normalmente estabelecidos em um plano de governo, elaborados pelo então candidato, que após elei- to busca implantá-los em diferentes setores da vida econômica ou so- cial. Referem-se à orientação política e governamental que se preten- de imprimir a um setor. Registre-se que essas políticas de Governo devem estar em consonância com as políticas de Estado. Segundo Bucci (2002, p. 264),1 as políticas públicas, por sua vez, são com- postas por normas, princípios e atos voltados a um objetivo determinado de interesse geral. As políticas públicas devem ser estabelecidas no espaço gover- namental, conjugando os objetivos e princípios das políticas de Estado – pre- vistos em Lei ou na Constituição – com as metas e orientaçõesde políticas go- 1 BUCCI, Maria Paula Dallari. Direito administrativo e políticas públicas. São Paulo: Saraiva, 2002. 142 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira vernamentais. São definidas, necessariamente, a partir de mediações políticas. Para a autora, políticas públicas podem ser entendidas como metas, progra- mas, princípios e objetivos da ação governamental definidos a partir dos pro- cessos decisórios politicamente mediados. Visam orientar, articular e coorde- nar a atuação de agentes públicos e privados, bem como a alocação de recursos públicos e privados para atingir interesses públicos considerados relevantes em dado momento histórico. 18 Modelos de Estado, Governo e Administração Pública “Não existe Estado sem um princípio unificador.” (Norberto Bobbio, 2003) introDução O debate sobre a articulação entre o Estado e a Administração Pública é tão importante que necessita ser situado de acordo com o conceito de Estado. O Estado pode ser aceito como um conjunto de instituições criadas, recriadas e ajustadas para administrar conflitos e tensões em um determinado território, ou seja, a noção de conflito e tensão é essencial a esse conceito. Por ser um ente abstrato, o Estado se materializa por meio de instituições, que são o Exe- cutivo, o Legislativo, o Judiciário, as forças militares, os governos subnacionais e a Administração Pública. Todas essas instituições vão materializar e arbitrar esses conflitos e tensões que são levados para o Estado. O Estado que conhe- cemos foi criado e consolidado no século XX e, nas últimas décadas, está sob forte questionamento, em especial sobre a sua capacidade de atender de forma adequada as crescentes demandas da sociedade. Dos diferentes modelos de Estado, Governo e Administração Pública ado- tados no mundo ocidental, destacam-se: i. O primeiro é o modelo norte-americano, sempre mais voltado ao estí- mulo da competição e ao empreendedor individual. No tocante à Ad- ministração Pública foi também marcado por muitas ambiguidades e pela forte participação das associações locais. Verifica-se que a Admi- nistração Pública norte-americana sempre esteve perpassada por inte- 144 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira resses particulares. Os interesses públicos e privados muito próximos sempre foram a marca de sua administração. ii. O segundo modelo que vai repercutir no mundo é o modelo europeu, o chamado Estado do Bem-Estar Social. A administração e a burocra- cia públicas são altamente maximizadas nesse modelo. Há toda uma cultura e procedimentos que fortalecem sempre o papel da Adminis- tração Pública e de seus servidores. iii. Na fase inicial do terceiro modelo, adotado na América Latina, o Gover- no era praticamente o único condutor dos negócios públicos e privados. Esse modelo foi o responsável pela geração do Estado Desenvolvimen- tista. No campo econômico, é o denominado modelo de substituição de importações. No campo social, foi um modelo que se caracterizou por políticas reconhecidamente ambíguas e instáveis. Representa uma fase em que prevaleceram as políticas populistas e clientelistas. as reformas Do estaDo no munDo contemPorâneo Os estímulos provocados pelo movimento internacional de Reforma do Es- tado foram responsáveis pela proliferação, nos países latino-americanos, de implementações de diversas experiências na área da Administração Pública. Essas mudanças tiveram como características básicas buscar maior flexibili- dade gerencial em relação à compra de insumos e materiais, à contratação e dispensa de recursos humanos, à gestão financeira dos recursos, além de esti- mular a implantação de uma gestão que priorizasse resultados, satisfação dos usuários e qualidade dos serviços prestados. Ferlie et al. (1999) caracterizam, no contexto internacional das reformas do Estado, quatro modelos da Nova Administração Pública: 1) Modelo do impulso para a eficiência – aproximação entre serviços públicos e serviços privados, preconizando a transformação do setor público por meio da introdução de padrões de eficiência desenvolvi- dos pelo setor privado. 2) Maior controle financeiro – introdução de sistemas de custos e audi- torias quanto aos aspectos financeiros e profissionais, poder outorga- do à administração superior, com estabelecimento de objetivos claros, com monitoramento do desempenho e desregulamentação do merca- do de trabalho. 3) Modelo downsizing e descentralizado – separação entre o financia- mento público e dotação do setor autônomo, mudança da gestão hie- rárquica para a gestão por contrato, surgimento de organizações se- Modelos de Estado, Governo e Administração Pública 145 paradas para compra e para prestação de serviços e redução drástica da folha de pagamento das organizações públicas. 4) Modelo da busca pela excelência – baseado na Escola de Relações Humanas, com ênfase para a “cultura organizacional” – modelo de orientação para o serviço público. Até hoje tem sido o padrão menos desenvolvido, fruto da fusão entre os modelos definidos pelos serviços públicos e privados, conferindo, ao primeiro, aspectos administrativos qualitativos presentes, no segundo, incluindo a responsabilidade dos serviços com os usuários e os cidadãos, não mais considerados meros consumidores ou simples usuários. No Brasil, nas últimas décadas, os modelos jurídico-administrativos, em conformidade com essas inovações, obedeceram às figuras da administração indireta (autarquias, empresas públicas) ou, até mesmo, às fundações de direi- to privado, de apoio à administração direta. Nesse cenário, a implantação das organizações sociais no plano administrativo e no ordenamento jurídico bra- sileiro insere-se na proposição de um novo modelo de administração proposto a partir de 1995. Em uma fase mais recente, foram definidas as normas para a qualificação de entidades civis sem fins lucrativos, com destaque para as orga- nizações sociais,1 conforme havia sido formulado no Plano Diretor da Reforma do Estado (PDRE/MARE, 1995).2 A aprovação da Lei no 9.637/1998, além de definir normas para a quali- ficação de entidades civis sem fins lucrativos como organizações sociais, esta- beleceu também orientações de como será realizada a parceria com a Admi- nistração através de um contrato de gestão.3 Verifica-se que o surgimento de novas figuras na evolução do Direito Administrativo brasileiro vem exigindo um dinâmico processo de mudanças do ordenamento jurídico do país. Destaca- -se, entre essas novas figuras, a constituição de parcerias entre a Administra- ção Pública, a iniciativa privada e a sociedade civil na busca da realização das finalidades estatais, delineando o perfil do denominado modelo gerencial da Administração Pública. 1 Veja a esse respeito a Lei no 9.637, de 1998, que define normas para a qualificação de entidades civis sem fins lucrativos como organizações sociais, bem como da realização da parceria com a Administração através de um contrato de gestão. O artigo 1o da lei mencionada define que: “o Poder Público poderá qualificar como organizações sociais pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, cujas atividades sejam dirigidas ao ensino, à pesquisa científica, ao desenvol- vimento tecnológico, à proteção e preservação do meio ambiente, à cultura, à saúde, atendidos os requisitos previstos nesta lei”. 2 BRASIL. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA/CâMARA DA REFORMA DO ESTADO. Plano Diretor da Reforma do Estado. Brasília: Mare, 1995. 3 Bucci (2002, p. 27) define parceria como o: “[...] termo que reúne figuras criadas no âmbito das relações empresariais, sob a égide do direito civil e comercial, e ingressam no universo das relações administrativas, tais como a terceirização, a franquia etc.” 146 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira Para Meirelles (1999, p. 338)4 a “ organização social não é um novo ente administrativo, é um título, que a Administração outorga a uma entidade pri- vada, sem fins lucrativos, para que ela possa receberdeterminados benefícios do poder Público (dotações orçamentárias, isenções fiscais etc.) para a realiza- ção de atividades de interesse coletivo”. Registre-se, por fim, que o ordenamento jurídico do Brasil, além da legis- lação que trata das organizações sociais, conta também um instrumento legal – Lei no 9.790, de 1999 – que define normas para a criação das denominadas Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP). As menciona- das entidades são regidas por regras muito semelhantes às das organizações sociais, exceto pelo vínculo com a Administração, que se realiza por meio do contrato de parceria. 4 MEIRELLES, Hely Lopes. Curso de Direito Administrativo. 24. ed. São Paulo: Malheiros, 1999. Modelos de Estado, Governo e Administração Pública 147 questÕes Para Discussão Parte iv Nesta Parte IV do livro – Capítulos 17 e 18 – tem-se como propósito deba- ter os modelos de Estado, Governo e Administração Pública. exercícios referentes à Parte iv 1. Após as leituras e os contatos com colegas e o professor da disciplina, ela- bore (preferencialmentte em grupo) uma síntese sobre o significado dos termos Governo e Administração Pública. Utilize como referência a aborda- gem feita por Meirelles (2002). Debater o tema em sala de aula. 2. Partindo do entendimento de que existe uma nítida separação entre políticas de Estado e políticas de governo no âmbito do direito constitucional brasi- leiro, faça uma síntese dessas distinções. Debater o tema em sala de aula. 3. Elabore uma síntese dos diferentes modelos de Estado, governo e Admi- nistração Pública adotados no mundo ocidental. Debater o tema em sala de aula. 4. É sabido que os estímulos provocados pelo movimento internacional de Reforma do Estado foram responsáveis pela proliferação, nos países la- tino-americanos, de implementações de diversas experiências na área da Administração Pública. Essas mudanças tiveram como características bá- sicas buscar maior flexibilidade gerencial em relação à compra de insu- mos e materiais, à contratação e dispensa de recursos humanos, à gestão financeira dos recursos, além de estimular a implantação de uma gestão que priorizasse resultados, satisfação dos usuários e qualidade dos serviços prestados. Faça uma síntese, com base nos estudo de Ferlie et al. (1999), sobre os quatro modelos da Nova Administração Pública. Debater o tema em sala de aula. 5. No Brasil, nas últimas décadas, os modelos jurídico-administrativos, em conformidade com essas inovações, obedeceram às figuras da administra- ção indireta (autarquias, empresas públicas) ou, até mesmo, às fundações de direito privado, de apoio à administração direta. Em uma fase mais recente, foram definidas as normas para a qualificação de entidades civis sem fins lucrativos como organizações sociais. Defina o papel das “organi- zações sociais”. Debater em sala de aula. Vamos debater na Parte V, a seguir, os temas que tratam da interface entre economia e Administração Pública. Parte V Interface entre Economia e Administração Pública 19 Interface entre economia e Administração Pública O Estado nacional é um agente indispensável para atender os anseios e as- pirações da sociedade. Isso se realiza por sua função como ente regulador, na promoção do desenvolvimento, redistribuição da renda; estabilização da eco- nomia; e, ainda, nas atividades típicas do Estado, por meio da produção e for- necimento de bens e serviços públicos. O crescimento da economia depende da forma de organização política e das estruturas sociais específicas de cada Estado nacional. Nesse processo, con- textualiza-se a globalização, a qual é regida pelas grandes corporações trans- nacionais no mercado. Ao tratar do tema mercado, torna-se conveniente de- fini-lo. Um mercado traduz, de forma permanente e simultânea, as condições de oferta e demanda. É nele que são exercitadas livremente as preferências e as decisões adotadas por compradores e vendedores. Pode ser entendido, por- tanto, como um instrumento que viabiliza a interação competitiva do sistema empresarial, organizando e ordenando as trocas de bens e serviços. Nesse sen- tido, veja o Quadro 19.1, a seguir, o qual trata da “amplitude e complexidade do desenvolvimento econômico” (CNI, 2005). 152 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira Quadro 19.1 Amplitude e complexidade do desenvolvimento econômico. Desenvolvimento Sustentável Posicionamento Crescimento Econômico Mais Emprego e Renda Elevação da Qualidade de Vida Diminuição das Desigualdades Regionais e Sociais Expansão dos Negócios com Geração de Valor Expansão da Base Industrial Inserção Internacional Gestão Empresarial e Produtividade Inovação Responsabili- dade Social e Ambiental Infraestrutura Disponibilidade de Recursos Liderança Empresarial Ambientes Institucional e Regulatório Educação e Saúde V is ão R e su lt ad o s p ar a o P aí s M e rc ad o P ro ce ss o s e A ti vi d ad e s B as e s d o D e se n vo lv im e n to Fonte: Mapa Estratégico (CNI, 2005). Torna-se relevante, após essas observações, destacar a importância das contribuições da economia para o debate e compreensão a respeito do tema que envolve o Estado, governo e Administração Pública. Nessa discussão faz-se necessário abordar a Teoria da Seleção Racional (Rational Choice), visto que dela surgiu a Teoria da Agência, sobre a qual trataremos a seguir. funDamentos teóricos Da contratualização Destacam-se, entre as diferentes propostas de reorganização burocrática, duas variantes de prescrições. A primeira delas é a tradição advinda da Admi- nistração Pública, que enfatiza aspectos relacionados à identidade, socializa- ção, sistema de crenças e capacitação da burocracia pública. A segunda está apoiada na tradição disciplinar da economia, na qual a ênfase recai sobre os aspectos relativos à estrutura de incentivos com que se deparam os atores em uma organização burocrática, analisados a partir de uma perspectiva de indiví- duos racionais que buscam maximizar os seus interesses e utilidades. A segunda corrente de pensamento tem sua origem no neoinstitucionalis- mo econômico, que adota o paradigma contratualista no exame das relações Interface entre economia e Administração Pública 153 entre indivíduos, entre instituições, ou entre ambos (indivíduos ou grupos e instituições). Nesse paradigma as transações podem ser modeladas como uma situação que envolve dois atores, um chamado agente e, o outro, principal. Essa situação é tipicamente a que acontece quando há uma separação entre controle e propriedade, ou seja, quando há uma delegação de autoridade; por exemplo, quando o agente é um empregado contratado por um empre- gador (o principal) para realizar uma tarefa pré-especificada. O problema contemplado, então, pela teoria agente-principal está relacionado à existên- cia de informação assimétrica entre agente e principal, visto que o custo do controle total para o principal é tão elevado que não compensaria contratar o agente. No entanto, o agente, como o único que detém todas as informações sobre seu próprio desempenho, pode utilizá-las de forma oportunista. Pode-se argumentar que o problema do agente-principal é uma questão contratual, no qual os agentes atuam de modo desalinhado com os interesses do principal. Nesse contexto, surge a questão do custo para monitorar e redu- zir a ação do agente. O desalinhamento causado por assimetria informacio- nal entre o agente e o principal demanda estruturas contratuais especializa- das. O custo de “agency”, conforme definido por Jensen e Meckling (1976)1 é a soma dos custos de monitorar e limitar a ação do agente e o valor residual perdido pelo principal. A teoria agente-principal assume ainda mais relevância na discussão sobre descentralização, tanto nas questões referentes ao federalismo (ou seja, envol- vendo as esferas de poderes subnacionais) quanto na descentralização intraor- ganizacional em agênciasou setores do governo. Nesse caso, há justificativas de ordem econômica para a descentralização, relacionadas aos ganhos em termos de eficiência alocativa. Admite-se que a descentralização permite ganhos em ter- mos de maior heterogeneidade e variabilidade na provisão de serviços, maiores possibilidades de geração de inovações e aprendizado organizacional devido à competição intraorganizacional entre unidades administrativas. Pode-se caracterizar a burocracia descentralizada (ou seja, aquela que está na agência autônoma ou empresa estatal objeto do contrato de gestão) como o agente, e a burocracia do órgão supervisor do contrato de gestão como o prin- cipal. Nesse caso, o oportunismo do agente pode se fazer sentir no momento em que ele não aplica todo o esforço que poderia despender para a satisfação das necessidades do principal, a partir do momento em que esse esforço gera uma desutilidade para o agente. Trata-se, então, basicamente de uma situação de conflito de interesses ou, para usar um termo mais técnico, de um trade-off entre as funções e objetivo do agente e do principal. A dimensão do esforço é inobservável pelo principal, pois o custo da informação perfeita pode facilmen- 1 JENSEN, M. C.; MECKLING, W. H. Theory of the firm: managerial behaviour, agency costs and ownership structure. Journal of Financial Economy, p. 305-360, 1976. 154 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira te superar a utilidade, para o principal, de contratar o agente; essa é a origem do fenômeno da informação assimétrica. A literatura, ao prescrever soluções sobre o problema agente-principal, en- volve, em geral, o desenvolvimento de uma estrutura de incentivos que possi- bilite uma harmonização maior entre os objetivos do principal e os do agente, ou seja, permita que as funções-objetivo de cada um se reforcem mutuamente. Na próxima seção, arrolaremos as principais críticas e deficiências identifica- das nos contratos de gestão, e com base nas contribuições da teoria agente- -principal (quando for pertinente) faremos algumas recomendações sobre as formas de debelar as dificuldades encontradas na implantação desses contra- tos. Faremos também algumas considerações sobre as críticas aos contratos de gestão provenientes de campos que estão fora do alcance das prescrições da teoria agente-principal e da tradição disciplinar da economia como um todo; em particular, discutiremos as relações entre o Núcleo Estratégico do Estado e os demais setores em termos das possibilidades de aprendizado organizacional e do impacto da “contratualização” sobre os processos de aprendizado. contribuiçÕes Da teoria Da aGência A reforma do Estado, como observado, esteve apoiada em contribuições e orientações como a Teoria da Seleção Racional (Rational Choice). A contribui- ção dessa teoria, aplicada à reforma do Estado, é conhecida como a Teoria da Agência (ou Principal-Agência), a qual partiu dos mesmos princípios utilitários clássicos em relação às motivações individuais na tomada das decisões racio- nais que permitem maximizar seus interesses. A atualização se aplica a agentes econômicos que operam em mercado imperfeito, com níveis diferenciados de acesso às informações necessárias para a tomada de decisões. Existem três tipos de relação agente-principal que estão presentes na lite- ratura: • Primeiro tipo: ocorre quando a ação propriamente dita do agente não é conhecida; é chamada de risco-moral (moral-hazard); • Segundo tipo: ocorre quando (embora se possa conhecer a ação do agente) não se tem como avaliar se foi a mais apropriada do ponto de vista do principal, porque aquele dispõe de determinada informação que este desconhece; esse tipo é chamado de informação encoberta (hi- dden information); e • Terceiro tipo: é a combinação dos dois primeiros tipos. É o que apresen- ta as maiores aplicações práticas. Interface entre economia e Administração Pública 155 as resPostas Da teoria Da aGência Para o alinhamento Dos interesses A Teoria da Agência oferece duas respostas para o alinhamento dos inte- resses. A primeira é elevar o fluxo de informações do principal por meio dos indicadores de desempenho, aumentar o rendimento das contas financeiras e especificar de forma clara os objetivos. A segunda é contratar no mercado, visto que a concorrência atua como um instrumento de disciplina dos agen- tes. Os contratos permitem ao principal uma maior oportunidade de contro- lar os seus agentes e, portanto, de prevenir a captura por parte dos produto- res (DAVIS; WOOD, 1998). Na Teoria da Escolha Racional, as preferências são formadas no âmbito exógeno e em conformidade com as crenças e os valores dos indivíduos. O pre- dicado de racionalidade da teoria exige apenas, por uma necessidade lógica, ordenações e decisões consistentes. A Teoria da Escolha Racional sugere uma forma específica de relacionamento entre os conceitos de preferência, crença e escassez. Nesse sentido, a ação racional deve seguir critérios de consistência lógica, que se aplicam para ordenações de preferências e crenças. Nos processos de escolhas individuais, para a teoria econômica, as institui- ções e valores são exógenos. Esses elementos, entretanto, são essenciais, visto que implicam estruturas de incentivos que podem gerar resultados não deseja- dos. A simples existência de Estado e governo cria a possibilidade de alocações políticas de recursos econômicos escassos, as quais podem ser determinadas por critérios políticos não competitivos. A esse respeito, veja, por exemplo, os estudos de Arrow (1951) e Olson (1965, 1982). Arrow (1974)2 preocupou-se em provar logicamente a impossibilidade de escolhas coletivas racionais (transitivas e completas), como as decisões de pro- dução de bens públicos, de compra de obras por parte do governo e também a própria escolha democrática dentro de qualquer parlamento. Por sua vez, Tullock (1990) é o responsável pelo desenvolvimento do conceito de compor- tamento rent-seeking ou caçador de renda. Com base nessa concepção, os agentes privados e públicos buscam transferir renda dentro da sociedade. O rent-seeking surge como uma atividade “parasitária” do Estado. A Teoria da Agência é aquela que, em uma organização, delega responsa- bilidade a um outro indivíduo, denominado agente, o qual age de acordo com os seus objetivos privados. Nesse sentido, o problema reside no fato de que, na 2 ARROW, K. Limits of organization. New York: Norton, 1974. No seu estudo Arrow analisa outros aspectos do comportamento dos agentes econômicos, considerando que os conceitos de ética e moralidade não são inconsistentes com o pressuposto comportamental do autointeresse e comportamento maximizador neoclássico. Dessa forma, a economia é aplicável a áreas tão díspares como a criminalidade, o matrimônio e outros campos do comportamento social e eco- nômico (ARROW, 1974, p. 26). 156 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira administração, em geral e na pública, torna-se extremamente difícil a fiscali- zação do comportamento do agente. Assim, principal-agente é uma questão de supervisão e controle de comportamento de agentes que podem agir de forma oculta. Considerando que a eficiência e a decência da Administração Pública dependem do comportamento, nem sempre controlado e supervisionado, de agentes (burocratas), o principal (a sociedade, representada pelo Governo) fica à mercê da perda de controle sobre a máquina governamental. Observa-se, assim, que o problema da relação agente-principal tem um pa- pel relevante na explicação do desempenho de empresas públicas e privadas, na medida em que a mudança da estrutura de propriedade possa alterar os incen- tivos dos administradores e dos proprietários. Um exemplo bastante conhecido do caso em que o principal não conhece a ação do agente no campo da Admi- nistração Pública é o de um Governo Central que possui diversos órgãos na sua estrutura. Na elaboração do orçamento, cada órgão descentralizado (os agentes) tendea pedir mais recursos do que precisa, porque não tem incentivo para redu- ção de custos, pois isso implicaria menos recursos no ano seguinte. O Governo Central (o principal) não dispõe da informação in loco dos verdadeiros custos da administração descentralizada, e, por isso, não tem como medir a real necessida- de de recursos para aquele ano específico. Essa questão ficou conhecida na lite- ratura como compatibilidade de incentivos (incentive compatibility). contribuiçÕes Da nova economia institucional Podemos verificar que a influência de variáveis institucionais sobre o de- sempenho econômico, em especial no que se refere ao nível de produto e ao crescimento, vem sendo investigada em inúmeros trabalhos e pesquisas re- centes. Destacam-se, entre eles, os conceitos desenvolvidos pela Nova Econo- mia Institucional ou Neoinstitucionalismo, que se apresenta como uma das principais bases dessa linha de pensamento. As conclusões mais relevantes desses estudos são as seguintes: (i) as instituições que garantem o direito de propriedade são cruciais ao crescimento econômico; (ii) o grau de corrupção percebida influencia negativamente o desempenho econômico; (iii) a con- fiança que se estabelece entre os agentes econômicos e a cooperação cívica produz importantes efeitos sobre o crescimento econômico e a produtividade dos fatores; e (iv) o desenvolvimento institucional promove o crescimento econômico e a convergência dos países em desenvolvimento para os padrões de produto dos países desenvolvidos. Isso nos permite argumentar que as “instituições importam para o crescimento”. É a partir desse arcabouço teóri- co que podemos analisar o impacto da corrupção, condicionada a um conjun- to de instituições, sobre a economia. Interface entre economia e Administração Pública 157 A teoria aplicada ao estudo das organizações, focalizando a análise micro- econômica, que foi desenvolvida por Williamson (1975) 3 em seu livro The eco- nomic institutions of capitalism – apoiado nas contribuições de Coase,4 Arrow, Simon5 e de Macneil –, utiliza dois pressupostos comportamentais básicos: o da racionalidade limitada de Simon (1972)6 e o seu corolário, os contratos in- completos que, associados ao pressuposto do oportunismo, fornecem as bases para a análise das formas de governança das organizações. A contribuição de North (1990), que se concentra na análise macroeconômica, também deriva da influên cia de Coase (1937), mas diferencia-se do trabalho de Williamson (1975), por priorizar o papel das instituições econômicas, seu desenvolvimen- to e a sua relação com as organizações. North define as instituições como o conjunto de leis, normas, costumes, tradições e outros aspectos culturais que balizam a ação de sociedades, organizações e indivíduos. Para o autor, é de fundamental importância o papel das instituições como redutoras dos custos de transação para a sociedade. A Nova Economia Institucional, na busca de entender a cooperação vo- luntária, reforça a importância das instituições para o funcionamento da eco- nomia, visto que as imperfeições do mercado requerem o estabelecimento de regras que organizem a ação coletiva. Na análise da evolução das principais relações e influências das escolas do pensamento econômico, é possível consta- tar que os antecedentes do neoinstitucionalismo são bastante remotos. Vamos localizar as suas origens nos estudos dos economistas clássicos, no historicismo alemão, na escola austríaca e no marxismo, com destaque para Adam Smith, John Stuart Mill e Karl Marx. Para North (1990), as instituições são definidas como regras – formais ou informais –, idealizadas pelos homens para criar ordem ou reduzir a incerteza nos intercâmbios. Assim, instituições e organizações – respectivamente, as re- gras do jogo e a divisão de tarefas entre os agentes que participam – afetam o desempenho da economia na medida em que, ao dar forma e estruturar as in- terações humanas, reduzem as incertezas e induzem a cooperação, diminuindo os custos das transações. É oportuno lembrar que a contribuição de North (1995) no campo do neoinstitucionalismo foi importante porque criticou os pressupostos comporta- mentais tradicionais que impedem o avanço da economia em sua explicação da mudança institucional. Assim, sustenta o autor que os indivíduos fazem suas eleições com base em modelos derivados subjetivamente, os quais divergem 3 WILLIAMSON, Oliver. The economic institutions of capitalism. New York: The Free Press, 1975. 4 COASE, R. H. The Nature of the Firm. Economica, v. 4, p. 386-405, 1937. 5 SIMON, H. Administrative behaviour. New York: Macmillan, 1947. 6 SIMON, H. Theories of Bounded Rationality. In: MCGUIRE, C. B.; RADNER, R. (Ed.). Decision and organization. New York: American Elsevier, 1972. p. 161-176. 158 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira entre os indivíduos. Isso faz com que a informação que recebem dos atores seja tão incompleta que, na maioria dos casos, esses modelos subjetivos não mos- tram nenhuma tendência a convergirem. No amplo conjunto de temas e enfoques que cuida, a Nova Economia Ins- titucional incorpora os atritos sociais, os conflitos distributivos e as estruturas de poder que surgem no mundo real quando se relacionam a economia e as instituições. Isso é feito por meio de contratos, regulação, direitos de proprie- dade e, em geral, as leis que regulamentam essas questões. Nesse sentido, o neoinstitucionalismo enfoca as estruturas de poder de uma dupla perspectiva: a organização e o controle do sistema econômico e o processo jurídico, ou seja, o nexo entre marco jurídico-processo econômico, que é o processo central que organiza a estrutura da relação jurídico-governo-política-economia. O neoinstitucionalismo pode ser definido como um enfoque que inclui vários modelos que enfatizam a importância crucial das regras sociais para a interação social. No seu esforço de compreender a cooperação voluntária, o neoinstitucionalismo confirma a importância das instituições para o funciona- mento da economia, visto que as imperfeições do mercado requerem o estabe- lecimento de normas que organizem a ação coletiva. 20 A relevância das instituições para o funcionamento da sociedade e da economia “As instituições representam uma barganha social a partir da qual emergem retornos de obediência.” (Margareth Levi, 1991) introDução A preocupação com a relevância das instituições no campo das ciências sociais não é um tema novo.1 Constata-se que os economistas clássicos, como, por exemplo, Smith e Marx, nos seus estudos em economia política, deixavam evidenciada a relevância das instituições para o desenvolvimento econômico. Registre-se, nesse debate, que eles não tinham as instituições como focos prin- cipais dos seus trabalhos, o que explica por que não foram analisadas com maior rigor. A análise mais aprofundada foi feita pela corrente denominada institucional original, criada no final do século XIX, composta na sua maioria por teóricos norte-americanos. Numa fase mais recente, notadamente nas últimas três décadas, começam a ocorrer avanços significativos na consolidação da ideia que as instituições contam na análise e funcionamento das sociedades contemporâneas. Das di- 1 Observa-se que o institucionalismo do final século XIX, representado pelas obras de Woodrow Wilson e James Bryce, propunham a adoção de modelos institucionais de outros países, em particular do modelo da burocracia alemã, para os Estados Unidos. 160 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira versas áreas das ciências sociais que tem se dedicado a estudar a relevância das instituições para o funcionamento da sociedade, destacam-se as disciplinas de economia, sociologia e ciência política. Essas correntes, que se influenciam mu- tuamente, contribuem de forma efetiva para o neoinstitucionalismo, por meio de um significativo número de conceitos, ajudando a construir um arcabouço relevante para a análise social. Nesse novo contexto,reforça-se a relevância do neoinstitucionalismo eco- nômico, por meio das teorias de custo de transação e da noção de direito de propriedade, que são utilizadas pelos teóricos da ciência política para analisar as ações de organizações governamentais e de agências regulatórias. A corren- te do institucionalismo histórico também vem assumindo um papel relevante nesse campo, onde a sequência do aparecimento dos eventos, e os constrangi- mentos assim impostos aos atores e ao contexto, criariam a path-dependence. Observa-se que os autores da corrente sociológica, em sua maioria, são oriun- dos do campo da teoria das organizações, destacando-se, entre eles, March e Olsen (1984),2 Powell e DiMaggio (1991) e Scott (2001), que desenvolveram estudos seminais na proposição de um quadro analítico básico. Os pressupostos de partida dos trabalhos dos autores da sociologia, com visões bastante distintas (focados na elaboração de modelos para análises de políticas públicas), explicam, em grande parcela, as diferenças com as outras correntes neoinstitucionalistas. Nesse sentido, constata-se que o modelo neoinstitucional tornou-se uma referência para o estudo das políticas públicas. Isso decorre da consistência da teoria neoinstitucional, na medida em que agrega no seu arcabouço fatores de grande relevância analítica, e de forte poder explicativo para a compreensão de processos de tomada de decisões públicas (MATIAS-PEREIRA, 2012d). Tanto os autores de tradição econômica (NORTH, 1990),3 como os que inte- gram a corrente sociológica, consideram as instituições como criação. Os teóri- cos dessas escolas entendem que se trata de um resultado de ações intencionais que são realizadas, sobretudo, por indivíduos racionais orientados instrumental- mente, enquanto para os da corrente econômica não se trata necessariamente do produto de um desenho deliberado, considerando as instituições como padrões sociais que mostram um determinado processo de reprodução. Para Hodgson (2001, p. 101), o conceito de instituições é amplo, definin- do-as como sistemas duradouros de regras sociais estabelecidas e embutidas que estruturam as relações sociais. O institucionalismo, conforme ressalta Hay- den (1989), é normalmente associado aos estudos políticos, e o conceito de instituição está diretamente relacionado à ideia de avaliação social. 2 MARCH, James G.; OLSEN, Joahan P. The New Institutionalism: Organizational Factors in Political Life, The American Political Science Review, v. 78, nº 3, p. 734-749, Sept. 1984. 3 NORTH, Douglass C. Institutions, institutional change and economic performance. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. A relevância das instituições para o funcionamento da sociedade e da economia 161 aborDaGens Do institucionalismo sociolóGico Observa-se que cientistas políticos modernos, em sua maioria, deixaram de tratar as instituições políticas – particularmente o Estado – como fatores independentes, importantes para o ordenamento e o entendimento da vida co- letiva. Nesse sentido, conforme sustenta Easton (1968), o Estado perdeu sua posição de centralidade na disciplina; o interesse em formas abrangentes de organização política declinou; os eventos políticos são definidos mais como epifenômenos do que como ações necessárias para ter-se um entendimento da sociedade; a política espelha o seu contexto. Por sua vez, March e Olsen (1984, p. 734)4 fazem uma análise sobre as mudanças no campo das instituições e o surgimento do novo institucionalismo na ciência política: “Na maior parte das teorias políticas contemporâneas, as instituições polí- ticas tradicionais, tais como a legislatura, o sistema legal e o Estado, assim como as instituições econômicas tradicionais, como a firma, perderam impor- tância em relação à posição que tinham nas teorias anteriores de cientistas políticos como J. W. Burgess ou W. W. Willoughby, economistas como Thors- tein Veblen ou John R. Commons e sociólogos como Max Weber. De um pon- to de vista comportamental, as instituições sociais formalmente organizadas passaram a ser retratadas simplesmente como arenas dentro das quais o com- portamento político, motivado por fatores mais fundamentais, ocorre. De um ponto de vista normativo, ideias que embutiam moralidade nas instituições, tais como as da lei ou da burocracia, e que enfatizavam a cidadania como um fundamento para a identidade pessoal, deram lugar a ideias de moralismo individual e a uma ênfase em interesses conflitantes. [...] Entretanto, em anos recentes, um novo institucionalismo surgiu na Ciência Política. Ele está longe de ser coerente ou consistente e não está completamente legitimado, mas tam- bém não pode ser inteiramente ignorado. O ressurgimento dessa preocupação com as instituições é uma consequência cumulativa da moderna transforma- ção das instituições sociais e do persistente comentário de seus observadores. As instituições sociais, políticas e econômicas tornaram-se maiores, conside- ravelmente mais complexas e cheias de recursos e, prima facie, mais impor- tantes para a vida coletiva. A maioria dos principais atores nos sistemas eco- nômicos e políticos modernos são organizações formais e as instituições da lei e da burocracia ocupam um papel dominante na vida contemporânea.” 4 MARCH, James G.; OLSEN, Joahan P. The New Institutionalism: Organizational Factors in Political Life, The American Political Science Review, v. 78, nº 3, p. 734-749, Sept. 1984. 162 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira Deve-se destacar, nesse debate, os estudos de Skocpol (1985, p. 83),5 que propõe uma reorientação teórica em relação às abordagens precedentes, além de dedicar-se a organizar as bases da análise neoinstitucionalista. A sociedade civil, para a autora, é permanentemente influenciada pelo Estado, devendo este ser concebido como muito mais que um simples foro em que os grupos sociais formulam demandas e empreendem lutas políticas ou estabelecem acordos. Sustenta a autora que, para o neoinstitucionalismo, o Estado, ao contrário do que defendem os pluralistas e marxistas, não se submete simplesmente a interesses localizados na sociedade, sejam das classes ou dos grupos de interesse. As ações do Estado, implementadas por seus funcionários, obedecem à lógica de buscar reproduzir o controle de suas instituições sobre a sociedade, reforçando sua autoridade, seu poder político e sua capacidade de ação e controle sobre o ambiente que o circunda. A burocracia estatal, especialmente a de carreira, estabelece políticas de longo prazo diversas das demandadas pelos atores sociais. Suas ações buscam propor visões abrangentes sobre os problemas com que se defrontam. A capacidade que a burocracia tem de elaborar e implementar políticas é, em parte, resultante do controle que ela exerce sobre um recurso de poder privilegiado, que é o acesso diferenciado à informação. Nessa perspectiva, as decisões públicas trazem, portanto, a marca dos interesses e das percepções que a burocracia tem da realidade. O Estado aparece como variável independente, dotado de autonomia de ação, expressão do “insulamento” da burocracia. evolução Do institucionalismo econÔmico Na visão dos institucionalistas originais, ou velhos institucionalistas, com destaque para as contribuições de Veblen, Commons e Mitchell, o estudo da economia deveria interagir com outras disciplinas, como história, ciência polí- tica, sociologia, antropologia, filosofia, psicologia e o direito, assim como levar em consideração a importância dos hábitos, costumes, tradições, ideologias, religiões e outros campos de crença e experiências humanas. Todo esse con- junto moldaria as instituições, que seriam em grande parte responsáveis pelas trajetórias seguidas pelos países. É preciso ressaltar, em que pese uma parcela significativa das ideias dos institucionalistas tradicionais terem sido aproveita- das pelos novos institucionalistas, que existem diferenças significativas entre ambas as correntes. 5 SKOCPOL,Theda. Bringing the State back in: Strategies of analysis in current research. In: EVANS, P.; RUESCHMEYER, D.; SCOKPOL, T. Bringing the State back in. New York: Cambridge University Press, 1985. A relevância das instituições para o funcionamento da sociedade e da economia 163 A preocupação em evidenciar essas diferenças entre as duas formas de ins- titucionalismo é revelada por Kerstenetzky (2001, p.127), ao afirmar: “A qualidade básica do institucionalismo é chamar a atenção para elemen- tos adicionais aos normalmente discutidos na economia, na coordenação da vida econômica. Discutindo endogeneidade de preferências e o papel do hábito e de estruturas cognitivas em termos institucionais e evolutivos, as contribuições dos velhos institucionalistas são fortemente marcadas pelas críticas à teoria neoclássica, não aceitando o homem econômico racional como ponto de partida. Os autores neoinstitucionalistas, por sua vez, intro- duzem instituições de forma a integrar-se no marco estático do ‘mainstream’, ou seja, dentro do marco metodológico da escolha individual.” A escola denominada como a “nova economia institucional” surgiu nas dé- cadas de 1960 e 1970, e foi integrada por um grupo de economistas oriundos de uma abordagem basicamente ortodoxa, que começou a desenvolver uma nova perspectiva, direcionando o foco de seus estudos para os aspectos micro e ma- croeconômicos das instituições. A partir dessa realidade, Williamson (1991) di- vide a Economia Institucional em duas correntes distintas: Ambiente institucio- nal e instituições de governança, sendo a primeira mais focada na análise de macroinstituições, enquanto estas últimas dão maior ênfase às microinstituições. Revela-se, assim, que as instituições são essenciais para o funcionamento das economias e, em especial, para o processo de desenvolvimento econômi- co. Em sua conferência feita por ocasião da entrega do Prêmio Nobel de 1993, destacou North: “Instituições são as restrições desenvolvidas pela humanidade que estru- turam a interação humana. Elas são feitas de restrições formais (regras, leis, Constituições), de restrições informais (normas de comportamento, convenções e códigos de conduta autoimpostos) e de como essas restrições são aplicadas ou impostas. Juntas, elas definem as estruturas de incenti- vos das sociedades e, especificamente, das economias.” Nesse sentido, pode-se argumentar que as instituições são determinantes básicos do desempenho econômico. Existe quase um consenso sobre a rele- vância da denominada segurança jurídica, em particular no que diz respeito ao direito de propriedade e ao respeito aos contratos, para o crescimento de economias de mercado. Quanto maior a segurança, menor o risco. Baixo risco significa retornos e juros – exigidos – menores e, assim, um maior estímulo aos investimentos. Ora, mais investimentos geram maior crescimento econômico. A recíproca, portanto, também é verdadeira. Baixo nível de segurança jurídica sinaliza altos riscos, os quais diminuem o volume de investimentos, que, por sua vez, provoca queda no crescimento da economia. 164 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira O crescimento econômico, portanto, depende de instituições que estimu- lem os investimentos. É oportuno ressaltar que as instituições relevantes para a boa performance econômica não são apenas as instituições formais nem somen- te as leis e normas legais, mas também muito importantes são as instituições informais, normas de comportamento e os códigos de conduta. Entre essas, a cultura do cumprimento e da exigência do cumprimento das normas jurídicas (NORTH, 1990). Pluralismo institucional e economia no munDo contemPorâneo As profundas mudanças em curso no mundo, muitas delas provocadas por imposições de organismos multilaterais, têm revelado a fragilidade do argu- mento da necessidade de os países adaptarem as instituições que estruturam as suas políticas econômicas. Isso vem impedindo que cada país encontre o seu próprio caminho na busca de realizar os seus próprios ideais de justiça. Assim, torna-se relevante destacar os estudos de Rodrik (2004, p. 1-24), ao tratar das políticas direcionadas para estimular o crescimento em países em desenvolvimento. Argumenta Rodrik (2004, p. 13) que: • As reformas sintetizadas no lema “estabilizar, liberalizar e privatizar”, que foram adotadas pelos países em desenvolvimento nas décadas de 1980 e 1990, e com especial zelo por países da América Latina (influen- ciados ou pressionados por organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional – FMI e/ou o Banco Mundial), produziram re- sultados claramente frustrantes. • No entanto, os países que mais tiveram sucesso econômico (por exem- plo, China, Índia, Vietnã, entre outros) adotaram políticas heterodoxas, com misturas e combinações de diversas medidas adaptadas à realida- de de cada um. • Não obstante, algumas condições muito genéricas parecem acompa- nhar o crescimento da economia: (a) a estabilidade macroeconômica; (b) o desejo de interação com a economia mundial; (c) a existência de direitos de propriedade e de contratos; e (d) medidas que assegurem certo grau de coesão social, solidariedade e estabilidade política. • Essas “condições básicas” podem ser realizadas, na prática, por meio de inúmeras e extremamente variadas medidas concretas, não sendo ne- cessário que sigam um “modelo único”. • Por isso, são desejáveis tanto a diversidade de políticas quanto certo grau de experimentação (ou experimentalismo) institucional. A relevância das instituições para o funcionamento da sociedade e da economia 165 • As chamadas “reformas de segunda geração” (ou “Consenso de Wa- shington Ampliado”), pregadas por agências internacionais, são um verdadeiro beco sem saída, por ignorarem a necessidade de flexibili- dade, adaptabilidade, pluralismo e de favorecimento a especificidades do desenho institucional das políticas a serem adotadas em cada caso. • Em resumo, é preciso que sejam identificadas as soluções específicas a cada país (country-specific solutions). • Diante disso, torna-se evidente que, muitas vezes, o que é apresenta- do como “estado da arte” em economia não passa de um conjunto de regras práticas “que impõem os valores e as preferências de [certos] economistas a autoridades públicas desavisadas (unsuspecting policy- -makers) sob o disfarce do rigor e da solidez técnica”. 166 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira questÕes Para Discussão Parte v Nesta Parte V do livro – Capítulos 19 e 20 –, tem-se como propósito deba- ter a interface entre economia e Administração Pública. exercícios referentes à Parte v 1. Após as leituras e os contatos com colegas e o professor da disciplina, ela- bore (preferencialmentte em grupos) uma síntese sobre os fundamentos teóricos da contratualização. Debater o tema em sala de aula. 2. Faça uma síntese das contribuições da Teoria da Agência para a com- preensão da Administração Pública. Debater o tema em sala de aula. 3. Elabore uma síntese dos diferentes modelos de Estado, governo e Admi- nistração Pública adotados no mundo ocidental. Debater o tema em sala de aula. 4. Elabore uma síntese, a partir da visão dos neoinstitucionalistas sociológi- cos, da relevância das instituições para o funcionamento da sociedade. De- bater o tema em sala de aula. 5. A Nova Economia Institucional, na busca de entender a cooperação vo- luntária, reforça a importância das instituições para o funcionamento da economia, visto que as imperfeições do mercado requerem o estabeleci- mento de regras que organizem a ação coletiva. A partir da visão de North (1990), faça uma síntese da relevância das instituições para o desenvolvi- mento econômico. Debater em sala de aula. Vamos debater na Parte VI os temas que tratam do Sistema de Defesa da Concorrência e Regulação Econômica; e das Agências Reguladoras no Brasil. Parte VI Sistema de Defesa da Concorrência e Regulação Econômica. Criação e Atribuiçõesdas Agências Reguladoras no Brasil 21 Tradição em defesa da concorrência nos países em desenvolvimento “Dentre as funções desempenhadas pelo Estado, destaca-se a regulação setorial e a defesa da concorrência nas economias de mercado. Essa atividade é de fundamental importância para as empresas e para a economia em geral.” (Matias-Pereira, 2006a) “A política de defesa da concorrência tem como propósito limitar o exercício do poder de mercado, pois é sabido que as firmas que possuem esse poder são capazes de distorcer o processo competitivo, provocando ineficiências nesse mercado.” (Matias-Pereira, 2012b) Política De Defesa Da concorrência A política de defesa da concorrência é instrumento legal utilizado pelo Estado, por meio das agências de concorrência (Antitruste) para preservar e promover a livre concorrência nos mercados.1 Por meio da aplicação legal, bus- 1 É sabido que a defesa da concorrência é uma preocupação bastante antiga dos governantes e da sociedade no mundo. Este é o caso, por exemplo, da Grã-Bretanha onde a common law construiu um conjunto de decisões judiciais sem um estatuto preciso, que definisse normas para as diferentes questões examinadas naquele país. Por sua vez, a common law inglesa foi recep- 170 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira ca-se a preservação do jogo competitivo, inibindo ou coibindo certos tipos in- desejáveis de condutas dos agentes econômicos. Nesse sentido, busca atuar de forma preventiva na estrutura dos mercados e acentuando as pressões sobre as empresas para que atuem com maior eficiência, visando garantir à coletividade os benefícios econômicos que a livre concorrência pode trazer: i. para o consumidor: variedade de escolha, melhor qualidade e meno- res preços; aos agentes econômicos, a liberdade de atuação e de cres- cimento por seus próprios méritos, sem os óbices criados por empre- sas dominantes ou por ações conjuntas de empresas no mercado; ii. para a coletividade: o desenvolvimento econômico do país, que goza- rá de um parque industrial moderno, melhorando a vida quotidiana. A aplicação dessas normas alcança todos os setores da economia nacional – indústria, comércio e serviços –, atingindo todos os agentes econômicos, seja de caráter público ou privado, de fato ou de direito, pessoas físicas ou jurídicas, que possam vir a praticar atos que atentem contra a ordem econômica. Deve-se ressaltar que o bem juridicamente protegido é a preservação dos valores liga- dos ao funcionamento do sistema de mercado, ou seja, a garantia da manuten- ção do ambiente concorrencial propiciador da autorregulação do mercado por meio da livre concorrência das forças da oferta e da demanda. Constata-se que, numa economia de livre mercado, é dada a oportunidade para que cada produtor procure maximizar seu lucro, tanto quanto um indivíduo deve procurar maximizar seu bem-estar, dentro de sua limitação orçamentária. Assim, é sabido que o preço tende a ser o resultado do encontro entre os desejos dos produtores concorrentes em ofertar quantidade e qualidade de produtos e os dos consumidores em adquiri-los. Quando ocorre a concorrência esse encon- tro de interesses permite levar a uma alocação ótima dos recursos produtivos do país e a um maior bem-estar de sua população (MATIAS-PEREIRA, 2006a). Veja na Figura 21.1 os objetivos da política de defesa da concorrência. cionada pela justiça dos Estados Unidos (EUA), servindo de base ao estatuto legal de defesa da concorrência norte-americano (Sherman Antitrust Act, de 2 de julho de 1890). Tradição em defesa da concorrência nos países em desenvolvimento 171 Política de defesa da concorrência Concorrência Eficiência econômica Preços menores Maior nível de escolha Maior qualidade Inovação Fonte: Matias-Pereira (2006a). Figura 21.1 Política de defesa da concorrência: objetivos. É perceptível que a concorrência tende ser maior quanto mais livre for o co- mércio entre os países e quanto menor for a intensidade da interferência do Es- tado no processo econômico (OLIVEIRA; RODAS, 2004; MOTTA, 2004). Assim, pode-se argumentar que a eficácia no esforço de se controlar as condutas anti- competitivas está relacionada aos seguintes aspectos: uma sociedade consciente da relevância da livre concorrência para garantir preços justos e o respectivo ar- cabouço jurídico-institucional que fizer valer essa aspiração da sociedade. As duas vertentes da defesa da concorrência estão orientadas para: a pre- venção, quando se procura evitar que fusões e aquisições que tenham caracte- rísticas anticompetitivas se realizem, e para a repressão, quando são investiga- das e punidas essas condutas que prejudicam a concorrência. concorrência como reGra De mercaDo Ao considerar que a concorrência é a regra do mercado, torna-se possível sustentar que a ela deve ser creditada a elevação do nível de competitividade e de qualidade dos bens e serviços ofertados pelas empresas ao mercado con- sumidor. As empresas, para sobreviverem nesse ambiente hostil, conforme ar- gumenta Schumpeter no seu estudo Theory of economic development (1983), tendem a criar, em muitos casos, algum tipo de restrição à atuação e à entrada de novos concorrentes no mercado. Ao Estado cabe a responsabilidade de atuar como garantidor da cidadania econômica (OCDE, 1992). O direito da concorrência mostra-se um instrumento típico de limitação do poder econômico, atuando como um conjunto de regras que garantem o fun- 172 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira cionamento de uma economia de livre mercado, direcionada, principalmente, para uma relação de igualdade de oportunidades entre os agentes do mercado (MACEDO, 2008, p. 11). Nos países em desenvolvimento, entretanto, são sistemáticas as interferên- cias políticas e empresariais para rever as decisões dos órgãos de defesa da con- corrência, uma vez que possuem pouca tradição em relação a esse aspecto. Esse fenômeno também se verifica no Brasil, em que as decisões do CADE não são aceitas pacificamente pelas lideranças políticas e empresariais dos Estados afe- tados pelas decisões do órgão. Para Matias-Pereira (2006a), essas pressões que questionam a decisão e a própria existência do CADE podem ser creditadas, en- tre outros aspectos, à carência de uma cultura no campo da defesa da concor- rência no Brasil. Isso é agravado pelo desconhecimento das lideranças políticas e empresariais de que o objetivo maior da defesa da concorrência é definir se determinada operação entre agentes econômicos ou a prática restritiva à con- corrência estão produzindo efeitos indesejáveis ao mercado relevante analisado. Essas constatações demonstram que o Sistema Brasileiro de Defesa da Con- corrência (SBDC) ainda apresenta fragilidades no âmbito institucional, o que reflete na sua capacidade de assegurar a aplicação das regras de concorrência no país em conformidade com o princípio da economia de mercado e da livre concorrência (NORTH, 1990). Assim, tem-se como ponto de partida a preocupação de contribuir para o aprofundamento da compreensão dos aspectos relacionados às duas classes de políticas econômicas, as quais são essenciais para apoiar o crescimento econômi- co, a regulação econômica e a defesa da concorrência, com ênfase nesta última. o PaPel Da reGulação no munDo contemPorâneo A regulação é um dos principais instrumentos de ação do Estado no mundo contemporâneo. É por meio desse mecanismo que os governos atuam na promoção do bem-estar social e econômico dos seus cidadãos. A relevância da intervenção regulatória decorre das crescentes transformações e complexidade das economias, além da necessidade dos governos de encontrar soluções para os problemas sociais. Diante desse cenário a qualidade da regulação tornou-se essencial para a efetividade da ação governamental e para o desenvolvimento econômico dos países. Por sua vez, a concorrência em nível mundial exige que as economias se tornem cada vez mais competitivas e eficientes.A revisão da regulação doméstica de maneira continuada pode significar um fluxo mais livre de bens, serviços, investimentos e tecnologia que movimenta a economia, levando as empresas a alcançarem padrões internacionais, e, dessa forma, beneficiando os consumidores. Não deve ser desconsiderada, ainda, que a intervenção regulatória seja realizada de forma efetiva e com menores custos. Tradição em defesa da concorrência nos países em desenvolvimento 173 A regulação pode ser entendida como os diversos atos normativos por meio dos quais os governos estabelecem exigências aos agentes econômicos e aos cidadãos (OECD, 1997, p. 6). Esses instrumentos jurídicos-normativos podem ser de várias espécies, como, por exemplo, leis, decretos, regulamentos, acordos, circulares, portarias e resoluções. A OCDE (1997) identifica três grandes categoriais de regulação: • Regulação econômica. Intervenção direta do governo nas decisões de mercado, tais como condições de entrada e saída, preços e grau de con- corrência; • Regulação social. Intervenção governamental para a proteção de inte- resses públicos como saúde, segurança e meio ambiente; e • Regulação administrativa. Toda a série de exigências governamentais e formalidades administrativas necessárias para assegurar a aplicação das normas, tais como o preenchimento de formulários e outros documentos. Torna-se oportuno, com vista a permitir uma melhor compreensão do assunto, sintetizar esses três tipos de regulação: • A regulação econômica tem como propósito melhorar a eficiência pro- dutiva ou econômica. Ela existe para, na ocorrência de falhas de mer- cado, assegurar que o resultado da interação entre os produtores e os consumidores de determinado bem ou serviço seja o mais eficiente pos- sível, resultando em produtos ou serviços em quantidade, qualidade e preços adequados. • A regulação social é importante para proteger os grandes interesses co- letivos da sociedade. É por meio dela que as empresas, por exemplo, são incentivadas a ter em conta, no âmbito de suas atividades, os custos sociais de suas ações em relação ao meio ambiente e que os consumi- dores podem dispor de um conjunto de informações mínimo necessário para as suas decisões relativas à aquisição de bens e serviços. • A regulação administrativa, por fim, é necessária para que o governo disponha de registros confiáveis e informações suficientes para as suas ações. a ativiDaDe De Defesa Da concorrência e reGulação econÔmica no brasil A relevância das políticas de defesa da concorrência no Brasil aparece com maior nitidez com as mudanças do papel do Estado, no início dos anos 1990, 174 Curso de Administração Pública • Matias-Pereira em decorrência do avanço nas privatizações das empresas estatais, afastando- -se de sua função de Estado empresário (FARINA; AZEVEDO, 2001).2 É opor- tuno lembrar que nas décadas de 1970 e 1980 foi consolidada uma economia essencialmente apoiada nas grandes empresas estatais. Essa situação permitiu que o Estado se transformasse em um fornecedor privilegiado de bens e servi- ços para o consumidor ou na referência de garantia de produtos e serviços pela iniciativa privada. Dessa forma, o Estado empresário consolida-se e, em muitos casos, se sobrepõe à própria Administração Pública direta. Com a dificuldade de exercer maior controle de preços, em decorrência da consolidação do fe- nômeno da formação dos conglomerados estatais, o Estado brasileiro passou a incentivar as formações empresariais cartelizadas. A reconhecida importân- cia das decisões que eram adotadas pela Comissão Interministerial de Preços (CIP), nesse período, decorre dessas disfunções econômicas, que geraram uma degeneração no sistema concorrencial do país. Verifica-se, assim, que a econo- mia brasileira estava apoiada, no final da década de 1980, nas grandes empre- sas estatais e nas estruturas cartelizadas (MATIAS-PEREIRA, 2006a). O CADE, com a relevância dada pelo Estado para a sua função de regulador, ampliou significativamente a sua dimensão. A abertura da economia e a pro- mulgação da Lei no 8.884, de 1994, criaram as condições para garantir a defesa da concorrência no país (SALGADO, 1997). Procura-se evitar, assim, que as em- presas estabelecidas abusem de suas posições dominantes, impondo restrições à competição nos mercados em que atuam ou, ainda, incrementem seu poder de mercado por meio de alianças ou fusões com empresas concorrentes. As políticas de defesa da concorrência buscam impedir que as barreiras suprimidas pelo go- verno sejam recompostas pelos agentes com elevado nível de poder econômico, bem como se propõem a criar uma cultura concorrencial entre produtores e con- sumidores, cujas normas de competição passam a ser necessárias para garantir a própria existência do mercado (CONSIDERA; ARAÚJO, 2002). Observa-se que a regulação do mercado, especialmente em setores em que a estrutura do livre mercado apresenta elevado grau de concentração – visto que concentrar é restringir o espaço de mercado –, é uma condição indispen- sável para garantir um adequado ambiente concorrencial (VAZ, 1993). A pre- sença do Estado na organização da economia aumentou significativamente no mundo atual com os danos causados pelas grandes concentrações ao mercado, notadamente diante da possibilidade de ocorrer um dano potencial para as ou- tras empresas que estavam atuando no citado mercado. A concentração deve ser vista como uma ação que, mesmo quando não inviabiliza a concorrência, altera o nível de competição, prejudicando em última instância o consumidor. Registre-se que a regulação de setores específicos na economia tem como pro- pósito corrigir eventuais falhas de mercado (LE MOAL, 1979). 2 FARINA, E. M. M. Q.; AZEVEDO, P. F. Política industrial e defesa da concorrência: a experiência brasileira nos anos 90. Economia, Niterói, RJ, v. 2, no 2, p. 513-547, 2001. Tradição em defesa da concorrência nos países em desenvolvimento 175 O mercado se apresenta como instrumento essencial para atender as de- mandas materiais do ser humano, atuando como poupador de recursos e tem- po, na medida em que permite a troca entre pessoas de maneira impessoal. Os mercados são instituições humanas que funcionam apoiadas em um conjunto de regras sociais que variam no tempo e no espaço. Assim, para o Estado cum- prir a função, como as demais instituições humanas, necessita que determina- das normas sejam preservadas, entre as quais destacamos duas: a liberdade de concorrer no mercado e a autonomia de escolha do consumidor. Para que ocorra o funcionamento adequado do mercado, é preciso que o Estado dispo- nha de instituições de salvaguarda sólidas na área de defesa da concorrência (MATIAS-PEREIRA, 2006a, 2012b). enfoques teóricos Das Políticas De Defesa Da concorrência A política de defesa da concorrência está tradicionalmente apoiada na teo ria de organização industrial (SCHERER; ROSS, 1990; CARLTON; PERLOFF, 1994; SHEPHERD, 1991; FARINA, 2001; MATIAS-PEREIRA; KRUGLIANSKAS, 2005; MATIAS-PEREIRA, 2007a). Essa teo ria foi desenvolvida a partir dos anos 1950 pela Escola de Harvard, em que a estrutura da empresa, traduzida no número de produtores e compradores, diferenciação do produto, barreiras à entrada, estru- turas de custos, integração vertical e diversificação, determinaria a sua conduta. A teoria da nova organização industrial, apoiada no paradigma Estrutura- -Conduta-Desempenho (ECD), teve como fundamento os estudos seminais de- senvolvidos por Edward Mason (1939),3 e posteriormente aperfeiçoados por Joe Bain (1956).4 Registre-se que tanto Mason como Bain tinham por objetivo estudar os oligopólios para promover políticas de defesa da concorrência. A teoria da nova organização industrial cuida da concorrência em merca- dos concentrados, enfatizando dois aspectos fundamentais das empresas capi- talistas modernas: primeiro, as estratégias de concorrência e crescimento de- terminam e, ao mesmo tempo, são condicionadas pela estrutura da indústria