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Indaial – 2022 EnfErmagEm na SaúdE mEntal Prof.ª Cristina Albuquerque Douberin 2a Edição aSSiStência dE Elaboração: Prof.ª Cristina Albuquerque Douberin Copyright © UNIASSELVI 2022 Revisão, Diagramação e Produção: Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI Impresso por: C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI. Núcleo de Educação a Distância. DOUBERIN, Cristina Albuquerque. Assistência de Enfermagem na Saúde Mental. Cristina Albuquerque Doube- rin. Indaial - SC: Arqué, 2022. 225p. ISBN Digital 978-65-5466-177-5 “Graduação - EaD”. 1. Assistência 2. Enfermagem 3. Mental CDD 610.7 Bibliotecário: João Vivaldo de Souza CRB- 9-1679 Caro acadêmico! É perceptível, hoje, que parcela considerável da população está afetada de alguma forma por afecções de natureza mental. A busca crescente pelo cuidado da saúde mental tem levado muitos dispositivos e profissionais que neles trabalham a se aperfeiçoarem para atender aos usuários com o máximo de excelência possível. Por outro lado, convém ressaltar que inúmeros são os obstáculos a serem superados dentro desse campo, uma vez que os estigmas sociais que delimitam uma de suas características históricas ainda se fazem presentes na época contemporânea, dificultando, inclusive, o repasse de recursos financeiros para investimento nessa área. Para reverter essa conjuntura, você será desafiado a entender os principais conceitos atrelados à saúde mental e, posteriormente, a demonstrar habilidades por meio de atitudes capazes de gerir um cuidado eficaz em sua prática profissional. Este livro didático está dividido em três unidades e, cada uma delas, em outras subunidades. Na Unidade 1 serão apresentados os principais conceitos dentro da saúde mental, incluindo toda a perspectiva histórica do que se denomina de loucura. Serão narrados os eventos que culminaram na Reforma Psiquiátrica, perpassando pelas consequências deste quadro, tais como o surgimento dos serviços substitutivos para cuidado em saúde mental, das políticas públicas imbricadas nesse campo do saber e pelas questões éticas inerentes à abordagem ao paciente com problemas de natureza mental. Por fim, também serão mencionados a organização da Rede de Atenção Psicossocial, a caracterização da linha de cuidado em saúde mental e suas tecnologias leves do cuidado; como também o papel do profissional de enfermagem dentro da saúde mental, que se volta principalmente para o processo de reabilitação e/ou reinserção social do usuário, fomentando o processo de autonomia dele. Na Unidade 2, abre-se espaço para a explanação dos principais tipos de transtornos mentais que afetam a população mundial, como também as principais funções psíquicas que são afetadas em cada tipo de problema mental. As situações de crise serão caracterizadas com o olhar voltado para a abordagem do atendimento emergencial. Também serão abordados os principais fármacos utilizados na terapêutica medicamentosa dentro dessa área. Por fim, na Unidade 3, a inserção das considerações sobre a atuação da enfermagem no processo de cuidado em saúde mental se fará presente. Serão pontuados quesitos como a sistematização da assistência de enfermagem, o processo de enfermagem e a comunicação terapêutica perante o atendimento ao paciente. Você está preparado? Prof.ª Cristina Albuquerque Douberin APRESENTAÇÃO Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você – e dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, nós disponibilizamos uma diversidade de QR Codes completamente gratuitos e que nunca expiram. O QR Code é um código que permite que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar essa facilidade para aprimorar os seus estudos. GIO QR CODE Olá, eu sou a Gio! No livro didático, você encontrará blocos com informações adicionais – muitas vezes essenciais para o seu entendimento acadêmico como um todo. Eu ajudarei você a entender melhor o que são essas informações adicionais e por que você poderá se beneficiar ao fazer a leitura dessas informações durante o estudo do livro. Ela trará informações adicionais e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto estudado em questão. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina. A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um novo visual – com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada também digital, em que você pode acompanhar os recursos adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Preocupados com o impacto de ações sobre o meio ambiente, apresentamos também este livro no formato digital. Portanto, acadêmico, agora você tem a possibilidade de estudar com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Preparamos também um novo layout. 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SUMÁRIO UNIDADE 1 - CONCEITOS HISTÓRICOS INICIAIS, PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL, PREVENÇÃO DA DOENÇA MENTAL E ORGANIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA EM SAÚDE MENTAL ......................................................................................................................................1 TÓPICO 1 - CONCEITOS INICIAL E HISTÓRICO DA PSIQUIATRIA ........................................3 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................3 2 A PERSPECTIVA HISTÓRICA DA LOUCURA ......................................................................4 2.1 REFORMA PSIQUIÁTRICA BRASILEIRA ..............................................................................................7 3 CRÍTICA AO MODELO HOSPITALOCÊNTRICO ................................................................... 7 4 SURGIMENTO DOS SERVIÇOS SUBSTITUTIVOS AO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO ..........18 5 POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE MENTAL NO BRASIL ................................................. 21 6 QUESTÕES ÉTICAS EM SAÚDE MENTAL ........................................................................ 23 RESUMO DO TÓPICO 1 ........................................................................................................ 32 AUTOATIVIDADE................................................................................................................. 33 TÓPICO 2 - MODELO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL .......................................................... 35 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 35 2 DETERMINANTES EM SAÚDE MENTAL ........................................................................... 36 3 DISPOSITIVOS PARA TRATAMENTO EM SAÚDE MENTAL ............................................. 39 4 REDE DE APOIO SOCIAL EM SAÚDE MENTAL ................................................................ 53 RESUMO DO TÓPICO 2 .........................................................................................................57 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 58 TÓPICO 3 - ORGANIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA NA REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE MENTAL (RAPS) ...................................................................................................................59 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................59 2 LINHA DE CUIDADO EM SAÚDE MENTAL (CONSTRUÇÃO COLETIVA) .......................... 60 3 TECNOLOGIAS DO CUIDADO (ACOLHIMENTO, ESCUTA, VÍNCULO, MATRICIAMENTO, ATUAÇÃO EM EQUIPE, AÇÕES INTERSETORIAIS) .......................... 65 LEITURA COMPLEMENTAR .................................................................................................67 RESUMO DO TÓPICO 3 ........................................................................................................ 69 AUTOATIVIDADE ..................................................................................................................70 REFERÊNCIAS ......................................................................................................................72 UNIDADE 2 — TRANSTORNOS MENTAIS E SUAS CLASSIFICAÇÕES, FUNÇÕES PSÍQUICAS, CRISE/EMERGÊNCIA PSIQUIÁTRICA E PSICOFARMACOLOGIA ...........................79 TÓPICO 1 — TRANSTORNOS DO HUMOR .............................................................................81 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................81 2 TRANSTORNO AFETIVO BIPOLAR .................................................................................. 82 2.1 DEPRESSÃO ......................................................................................................................................... 84 RESUMO DO TÓPICO 1 .........................................................................................................87 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 88 TÓPICO 2 - SÍNDROMES ANSIOSAS, TRANSTORNO DO ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO E TRANSTORNOS PSICÓTICOS ......................................................... 89 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 89 2 TRANSTORNO DE ANSIEDADE GENERALIZADA (TAG) ................................................. 89 2.1 TRANSTORNO DO PÂNICO ................................................................................................................. 91 2.2 FOBIAS ..................................................................................................................................................93 2.3 TRANSTORNO OBSESSIVO COMPULSIVO (TOC) .........................................................................94 2.4 TRANSTORNO DO ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO (TEPT).........................................................95 2.5 TRANSTORNOS PSICÓTICOS ...........................................................................................................96 RESUMO DO TÓPICO 2 .......................................................................................................100 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................ 101 TÓPICO 3 - TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE ..........................................................103 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................103 2 TIPOS DE TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE ......................................................... 104 RESUMO DO TÓPICO 3 ........................................................................................................111 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................ 112 TÓPICO 4 - SÍNDROMES RELACIONADAS À ALIMENTAÇÃO, À SEXUALIDADE, AO SONO E AO ABUSO DE SUBSTÂNCIAS ........................................................................ 113 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 113 2 SÍNDROMES RELACIONADAS À ALIMENTAÇÃO ........................................................... 113 2.1 SÍNDROMES RELACIONADAS À SEXUALIDADE ..........................................................................116 2.2 SÍNDROMES RELACIONADAS AO SONO ......................................................................................121 2.3 SÍNDROMES RELACIONADAS AO ABUSO DE SUBSTÂNCIAS ................................................ 124 2.4 ÍNDROME DE DEPENDÊNCIA E ABSTINÊNCIA ........................................................................... 125 2.5 TRANSTORNOS MENTAIS E COMPORTAMENTOS CAUSADOS PELO USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS (SPA) .............................................................................................. 126 2.6 PROGRAMA DE REDUÇÃO DE DANOS ........................................................................................ 127 RESUMO DO TÓPICO 4 .......................................................................................................129 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................130 TÓPICO 5 - CRISE/EMERGÊNCIA PSIQUIÁTRICA............................................................ 131 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 131 2 CARACTERÍSTICAS, CLASSIFICAÇÕES E FASES DA CRISE ........................................ 131 2.1 EMERGÊNCIAS PSIQUIÁTRICAS ..................................................................................................... 133 2.2 IDEAÇÃO SUICIDA E SUICÍDIO/PROTOCOLO DE SUICÍDIO ..................................................... 134 2.3 CONTENÇÃO FÍSICA ......................................................................................................................... 137 RESUMO DO TÓPICO 5 .......................................................................................................139 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................... 140 TÓPICO 6 - FUNÇÕES PSÍQUICAS E PSICOFARMACOLOGIA .......................................... 141 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 141 2 CONSCIÊNCIA ................................................................................................................. 141 3 ATENÇÃO ......................................................................................................................... 141 4 SENSO-PERCEPÇÃO ...................................................................................................... 141 5 AFETIVIDADE ..................................................................................................................1426 IMPULSIVIDADE ..............................................................................................................142 7 INTELIGÊNCIA .................................................................................................................142 8 MEMÓRIA .........................................................................................................................142 9 JUÍZO ...............................................................................................................................142 10 PENSAMENTO ...............................................................................................................143 11 LINGUAGEM ...................................................................................................................143 12 ORIENTAÇÃO .................................................................................................................143 13 PSICOMOTRICIDADE ....................................................................................................143 14 PSICOFARMACOLOGIA – ASPECTOS HISTÓRICOS E GERAIS DOS PSICOFÁRMACOS ........................................................................................................ 144 15 ANSIOLÍTICOS E HIPNÓTICOS .................................................................................... 144 16 ANTIDEPRESSIVOS .......................................................................................................145 17 ESTABILIZADORES DO HUMOR ....................................................................................145 18 ANTIPSICÓTICOS (NEUROLÉPTICOS) .........................................................................145 RESUMO DO TÓPICO 6 .......................................................................................................146 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................ 147 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................149 UNIDADE 3 — SAE, PROCESSO E ATUAÇÃO DE ENFERMAGEM EM SAÚDE MENTAL, E COMUNICAÇÃO E RELACIONAMENTO TERAPÊUTICO .................................................... 151 TÓPICO 1 — SISTEMATIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM SAÚDE MENTAL ..............................................................................................................................153 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................153 2 OBSERVAÇÃO E AVALIAÇÃO INICIAL ............................................................................155 2.1 SEMIOLOGIA PSIQUIÁTRICA (ANAMNESE REALIZADA PELO ENFERMEIRO) ...................... 156 2.2 EXAME PSÍQUICO (AVALIAÇÃO DO ESTADO MENTAL) ............................................................ 165 3 ETAPAS SUBSEQUENTES DO PROCESSO DE ENFERMAGEM ...................................... 175 3.1 ABORDAGEM DO PACIENTE E DA FAMÍLIA ................................................................................. 179 3.2 ANOTAÇÕES DE ENFERMAGEM ....................................................................................................182 RESUMO DO TÓPICO 1 .......................................................................................................183 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................184 TÓPICO 2 - CLIMA TERAPÊUTICO, TERAPIAS E INTERVENÇÕES ..................................187 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................187 2 RELAÇÃO INTERPESSOAL .............................................................................................189 3 COMUNICAÇÃO TERAPÊUTICA......................................................................................194 4 CONSTRUÇÃO DO PROJETO TERAPÊUTICO SINGULAR (PTS) PARA DIRECIONAMENTO DO TRATAMENTO ...........................................................................198 4.1 INTERVENÇÃO PSICOTERAPÊUTICA DE ENFERMAGEM ........................................................ 202 4.2 INTERVENÇÃO PSICOEDUCACIONAL ......................................................................................... 203 4.3 INTERVENÇÃO BREVE .................................................................................................................... 203 4.4 INTERVENÇÃO EM CRISE .............................................................................................................. 204 4.5 INTERVENÇÃO EM GRUPO ............................................................................................................ 204 5 TERAPIAS COMPLEMENTARES EM SAÚDE MENTAL ................................................... 205 6 TERAPIA COMUNITÁRIA ................................................................................................ 207 7 VISITAS DOMICILIARES ................................................................................................. 207 8 TERAPIAS DE RELAXAMENTO ...................................................................................... 207 9 TERAPIAS BIOLÓGICAS (PSICOFARMACOTERAPIA, ELETROCONVULSOTERAPIA E ESTIMULAÇÃO MAGNÉTICA TRANSCRANIANA) ..........208 10 MINDFULNESS E SAÚDE MENTAL .............................................................................. 209 RESUMO DO TÓPICO 2 .......................................................................................................210 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................ 211 TÓPICO 3 - PAPEL DO ENFERMEIRO NO CAMPO DA SAÚDE MENTAL E EM SEUS CONTEXTOS ESPECÍFICOS ...............................................................................................213 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................213 2 INFLUÊNCIA DA TEORIA DE ENFERMAGEM DE HILDEGARD PEPLAU (RELAÇÕES INTERPESSOAIS) ............................................................................................................213 3 TRANSFORMAÇÕES DA ATUAÇÃO DO ENFERMEIRO DE SAÚDE MENTAL ATÉ A CONTEMPORANEIDADE .................................................................................................214 4 ENFERMAGEM DE SAÚDE MENTAL POR GRUPOS E CONTEXTOS SOCIAIS DIVERSOS .......................................................................................................................215 LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................218 RESUMO DO TÓPICO 3 ...................................................................................................... 220 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................221 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 222 1 UNIDADE 1 - CONCEITOS HISTÓRICOS INICIAIS, PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL, PREVENÇÃO DA DOENÇA MENTAL E ORGANIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA EM SAÚDE MENTAL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • conceituar saúde e doença mental; • identificar elementos-chave do contexto histórico da loucura; • conhecer os pressupostos que culminaram na reforma psiquiátrica brasileira; • conhecer as políticas públicas brasileiras de saúde mental; • identificar os diferentes dispositivos de tratamento e de rede de apoio social à pessoa com transtorno mental; • compreender o conceito e funcionalidade das principais tecnologias do cuidado em saúde mental perante a organização da raps; • conhecer a atuação da enfermagem nos dispositivos de saúde mental. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividadescom o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – CONCEITOS INICIAL E HISTÓRICO DA PSIQUIATRIA TÓPICO 2 – MODELO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL TÓPICO 3 – ORGANIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA NA REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE MENTAL (RAPS) Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 1! Acesse o QR Code abaixo: 3 CONCEITOS INICIAL E HISTÓRICO DA PSIQUIATRIA 1 INTRODUÇÃO TÓPICO 1 - UNIDADE 1 Partindo-se do pressuposto de que todo indivíduo é um ser considerado sob três esferas principais, que juntas se constituem o que se denomina de biopsicossocial, torna-se possível compreender o motivo pelo qual o conceito de saúde, frequentemente, é definido, através da vertente do senso comum, como um completo estado de bem- estar físico, psíquico e social. Por outro lado, quando alguma dessas esferas se encontra em desequilíbrio, toda a completude do ser humano se vulnerabiliza, uma vez que são interdependen- tes; o que acarreta uma desarmonia em seu processo saúde-doença e culmina em seu adoecimento. Diante do exposto, percebe-se que um dos alicerces dessa tríade é o componente psicológico, ou seja, mental. Assim, como definir saúde e doença mental? A princípio, pode parecer algo simples, mas como envolve múltiplos fatores, infere-se que denotam significados mais complexos. Primeiramente, pode-se dizer que é pertinente fazer alusão ao fato de que a mente controla todos os processos corporais e é bastante influenciada por eles. Dessa forma, se a mente não está bem, provavelmente a saúde biológica também será afetada e vice-versa. Acrescido a isso, sabe-se que as questões sociais também interferem diretamente nas faculdades mentais, regendo sua funcionalidade de forma positiva ou negativa. Inúmeras variáveis de natureza biológica, psicológica e ambiental se coadunam, portanto, para determinar a integridade da saúde mental. A exemplo, citam-se: capa- cidades inatas, tendências, sexo, idade, aprendizagem e constitucionalidade, traumas e situações estressoras. A saúde mental não se caracteriza apenas como a ausência de transtornos mentais que, por sua vez, levam a alterações de comportamentos; nem tam- pouco apenas como a inaptidão para se adaptar ao meio ambiente em que se vive. Saúde mental é compreendida como um estado de bem-estar no qual o indivíduo revela concretude de seu próprio potencial, obtendo capacidade de enfrentamento aos eventos estressores cotidianos, conseguindo trabalhar de forma produtiva e contribuinte para com as pessoas ao seu entorno (OMS, 2014). 4 Se o ser humano experimenta relações interpessoais saudáveis, participa de forma sustentável para com o meio, rege seus próprios conflitos internos e destina tempo ao alcance de objetivos de vida, deduz-se que ele exprime boa saúde mental. Em contrapartida, fala-se em doença mental quando, de fato, existe algum transtorno mental diagnosticado; bem como quando o indivíduo é dotado de condutas comportamentais que fogem daquelas moralmente aceitas pela sociedade, não conseguindo administrar seus papéis quando inserido em contextos coletivos (família, trabalho, lazer). Dentro do campo da doença mental, por fim, consideram-se situações de surtos, crises (como as de ansiedade, que elevam o estresse) e emergências, todas requerentes de intervenções rápidas e eficazes; bem como situações de estabilidade do quadro clínico, que exigem reavaliações periódicas e condutas de manutenção terapêutica, quase sempre. 2 A PERSPECTIVA HISTÓRICA DA LOUCURA Quando se fala em perspectiva histórica da loucura, significa que será feita menção de como ela era considerada desde os tempos mais remotos, nos âmbitos internacional e nacional. Pois bem, antes de qualquer outra coisa, convém definir o termo loucura. Em seu sentido denotativo, ou seja, aquele encontrado no dicionário, esse termo pode ser compreendido como um substantivo feminino traduzido como a ausência da razão e/ou insanidade mental. No que concerne ao sentido conotativo, entretanto, o termo loucura pode assumir diversos significados, pois a conotação abrange contextos específicos de emprego da palavra. Apropriando-se do significado do termo em suas mais variadas nuances, facilmente se prossegue com suas considerações históricas ao longo dos anos. Na era antes de Cristo, muito comum eram as justificativas de viés místico para tudo aquilo que se desviava da normalidade, inclusive a loucura. Em outras palavras, isso quer dizer que os seres humanos eram tachados pejorativamente de loucos ou alienados quando suas atitudes comportamentais comprometiam as relações de vida em sociedade. Acreditava-se que esses indivíduos adotavam esses desvios por terem cometido muitos pecados, por estarem recebendo castigo de divindades adoradas na época e/ou por estarem possuídas por alguma força maligna. Tais pessoas, portanto, eram excluídas, marginalizadas e escanteadas da sociedade. Frequentemente, também eram duramente perseguidas e assoladas, queimadas vivas, jogadas em calabouços, torturadas ou levadas para viverem enclausuradas e isoladas de tudo e de todos. 5 Essa situação vigorou ao longo dos séculos, fazendo-se presente, ainda, em épocas depois de Cristo. A lógica consistia em retirá-las brutalmente do convívio coletivo sob duas formas principais: maltratando-as até a morte e levando-as para locais distantes semelhantes a prisões, pois, assim, assegurava-se a paz e harmonia dos demais membros da sociedade, sem sua contaminação. Essa realidade começou a apresentar algumas transformações após a época do Renascimento, ou seja, no período em que se passou a justificar os fatos com foco no raciocínio crítico humano. Assim, quando grupos de profissionais da saúde, mais especificamente médicos, reuniram-se para discutir e reivindicar melhorias em termos de promoção de dignidade e tratamento para os cidadãos denominados de loucos (hoje, entende-se que são os doentes mentais), construíram-se os chamados asilos, manicômios ou hospitais de alienados. Cabe dizer, portanto, que a doença mental lapidou o conceito de loucura e que a construção e multiplicação de instituições asilares para os alienados representaram um resquício da formulação de políticas públicas voltadas aos doentes mentais. Há, a partir dessa ideia, um elo íntimo entre o surgimento dos manicômios (hoje denominados de hospitais psiquiátricos) e a representação histórica da loucura. Diferentes momentos históricos retratam e defendem uma corrente de pensamento a respeito dessa relação supracitada. Na antiguidade clássica, cita-se a visão dos pensadores gregos; nos séculos XV e XVI, tem-se o ponto de vista dos exorcistas; nos séculos XVII e XVIII, considera-se o enfoque médico e o século XIX aborda os manicômios (RAMMINGER, 2002). Desde a antiguidade clássica até a era cristã, a loucura foi interpretada sob alguns ângulos principais. Destaca-se a figura de Homero com o enfoque mitológico religioso; o de Eurípedes, com o enfoque passional ou psicológico; e a de Hipócrates e Galeno, com o enfoque das disfunções somáticas. Na Idade Média, a loucura foi, de fato, considerada preponderantemente como uma possessão diabólica por iniciativa própria ou por intermédio de algum bruxo, cidadãos ou entidades existentes na época. No que tange à possessão, considera-se a bifurcação entre duas vertentes: a primeira se exprime com a incorporação do diabo; ao passo que a segunda revela alterações de sensopercepção (FIGUEIRÊDO; DELEVATI; TAVARES, 2014). A partir de Hipócrates, a justificativa para a loucura seguiu a tendência de uma consideração patológica, sendo algumas alterações cognitivas como perturbações do intelecto, um gatilho para a insanidade e, consequentemente, diagnóstico de loucura ou doença mental. Este fenômeno delimitou um marco na inauguração da psiquiatria como especialidade médica e, a partir de então, a loucurafoi compreendida por três maneiras distintas, conforme segue. 6 [...] a primeira consiste em introduzi-la no quadro nosológico cons- truído pelo saber psiquiátrico e considerá-la uma psicose (paranoia, esquizofrenia, psicose maníaco-depressiva); a segunda visa elaborar uma antropologia de suas diferentes manifestações de acordo com as culturas [...] a terceira, finalmente, propõe abordar a questão pelo ângulo de uma escuta transferencial da fala, do desejo, ou da vivên- cia do louco (psiquiatria dinâmica, análise existencial, fenomenologia, psicanálise, antipsiquiatria) (ROUDINESCO, 1998, p. 478). Nos séculos XVII, XVIII e XIX, diferentes concepções sobre a loucura foram também consideradas, mas a herança que perpassou durante os séculos anteriores não foi abandonada. A exemplo disso, menciona-se o fato quão comum é a expressão da loucura como a perda da razão. O enfoque, por sua vez, passou a ser o da alienação mental, com olhares e condutas voltados para o tratamento do que hoje se chama de transtornos mentais. Subentende-se aí a predominância de uma abordagem clínica, mesmo que em seu início simples (FIGUEIRÊDO; DELEVATI; TAVARES, 2014). Dentre os séculos supracitados, especifica-se que, no XVIII, houve a atuação marcante do médico Philippe Pinel (1745-1826), uma vez que ele propulsionou a preconização de tratamentos mais humanizados para o doente mental. Existem indícios de que ele libertou pacientes internados em dois renomados hospitais franceses, sendo a grande maioria recluso de longas datas (MELLO, 2008). Pinel identificou que os transtornos mentais admitiam um caráter ou componente genético, sendo, portanto, influenciado pela hereditariedade. Estudando a loucura, ele chegou à conclusão de que ela possibilitava três mecanismos etiológicos: físico, puramente ligado às questões biológicas; hereditariedade, também relacionada às questões orgânicas; e causas morais, atreladas a relacionamentos amorosos intensos, excessos, inadequações e estilo de vida. Acrescido a tudo isso, é sabido também que Pinel defendia uma espécie de tratamento moral da loucura, pautado em estruturação rígida de rotina, medicalização, bem como atividades de lazer e trabalho. Com o intuito de ratificar essa linha de raciocínio, um renomado filósofo da área e contemporâneo a esta época, Michel Foucault publica claramente em sua obra História da Loucura que a loucura é exatamente o caminho para se alcançar a razão, ou melhor, o objeto de estudo da própria vertente clínica psiquiátrica se consiste na loucura, sendo capaz de reestruturar os atos de ver e de se expressar. Dessa forma, o temor, o horror e até a admiração pelo louco, transformam-se na busca incansável pela integralidade dos sujeitos (SANDER, 2010). O local de estudo da loucura por parte dos profissionais, em sua maioria médicos, era o manicômio, também considerado hospício, hospital ou asilo para alienados. Para tal, nele, os loucos eram recolhidos, aprisionados e isolados do contato e convívio com os membros da população tida como normal. É válido ressaltar que, embora fossem locais propícios ao estudo da loucura, esses ambientes se caracterizavam por serem dotados de precária infraestrutura, de oferta irrisória ou nula de condições de higiene e de situação geográfica distante dos grandes centros urbanos. 7 Enfatiza-se, ainda, que uma justificativa plausível para essa realidade se fundamenta no considerável propósito de realizar uma “limpeza social”, livrando a população dos indivíduos considerados pertencentes a uma categoria social inferior e com práticas comportamentais inadequadas, e atendendo aos padrões de civilização por ela estabelecidos. Apesar de todos esses fatos, essas instituições dominaram toda a Europa a partir do século XIX, regendo lógicas de tratamentos que passaram a ser consideradas por escolas de pensamentos da psiquiatria. A influência sobre outras grandes nações, como o Brasil, também foi inevitável (ARBEX, 2013). 2.1 REFORMA PSIQUIÁTRICA BRASILEIRA O Hospício Dom Pedro II, na cidade do Rio de Janeiro, foi criado em 1952, demarcando o primeiro manicômio/hospital psiquiátrico no território brasileiro. Seguiu o que era preconizado pela escola alienista francesa, cujo precursor foi o médico psiquiatra Philippe Pinel: a concepção de que o saber psiquiátrico é proveniente de observação e análise sistemática de eventos perceptíveis na enfermidade. No período político do Segundo Reinado brasileiro, que transcorreu entre 1840- 1889, o número de instituições destinadas ao cuidado de alienados aumentou: São Paulo (1852), Pernambuco (1864), Pará (1873), Bahia (1874), Rio Grande do Sul (1884) e Ceará (1886). Médicos diversos, preocupados com o descaso que assolava os doentes mentais na sociedade, juntaram-se e passaram a reivindicar pela existência e construção dessas instituições, como se pode visualizar no trecho que se segue. [...] as primeiras instituições psiquiátricas surgiram em meio a um contexto de ameaça à ordem e à paz social, em resposta aos reclamos gerais contra o livre trânsito de doidos pelas ruas das cidades; acrescentem-se os apelos de caráter humanitário, as denúncias contra os maus tratos que sofriam os insanos. A recém- criada Sociedade de Medicina engrossa os protestos, enfatizando a necessidade de dar-lhes tratamento adequado, segundo as teorias e técnicas já em prática na Europa (RESENDE, 2007, p. 38). Muitos problemas relacionados a essas instituições, entretanto, passaram a vigorar a tal ponto que culminaram na urgência de uma reforma psiquiátrica, ou seja, uma transformação nos campos a elas relacionados de assistência e gestão. 3 CRÍTICA AO MODELO HOSPITALOCÊNTRICO Percebe-se, diante de tudo o que já está sendo comentado nesta unidade até agora, que o dispositivo hospitalar foi conquistando espaço e notoriedade no que dizia respeito ao tratamento do doente mental, fazendo jus ao conceito do termo hospitalo- cêntrico, que significa dizer que o hospital passou a delimitar o centro desse cuidado. 8 Por outro lado, nem tudo estava devidamente adequado e satisfatório nesses dispositivos, implicando inúmeras críticas ao seu modelo. Para entender essa conjuntura, urge mencionar alguns pontos principais. Dentre eles, destaca-se que, praticamente, todos foram erguidos de forma ostensiva em sua arquitetura no que se pode denominar de “fundos” ou “quintal” de hospitais gerais maiores, na época denominados de Santas Casas de Misericórdias, ficando, pois, sob a administração das irmãs de caridade ou entidades religiosas que ali trabalhavam. Além disso, mesmo sem a devida formação científica na área médica e, consequentemente, sem o conhecimento dela oriundo, elas camuflavam a atuação dos poucos médicos psiquiatras neles atuantes, realizando os procedimentos assistenciais também, com exceção da prescrição medicamentosa. Conclui-se, a partir dessas ideias, que havia a coadunação de vários nós críti- cos, o que levou especificamente a um médico, Teixeira Brandão, liderar um movimento delator das problemáticas que ele identificou ao longo de sua vivência dentro dessas instituições, em especial do Hospital Dom Pedro II. A saber: o fato de que a disponibi- lidade de vagas era bem maior para os alienados que podiam pagar pela internação; a assistência religiosa, e não médica, dada pelas irmãs de caridade; a falta de critérios diagnósticos para a internação dos alienados; a superlotação do hospício; a falta de médicos; a mistura das diferentes formas de moléstias mentais na mesma enfermaria; a presença de alienados criminosos no hospital e não em celas ou hospitais especiais; e a existência de crianças misturadas com alienados adultos. Não é difícil depreender, en- tão, que a imagem transpassada era de caos, desorganização e ineficácia terapêutica. A síntese das ideias deste panorama está explícita no parágrafo a seguir: [...] por mais parciais e ambíguas que tenham sido as primeiras conquistas dos alienistas brasileiros, elas estiverampautadas, desde o início, na ampliação do significado da moléstia mental que, ultrapassando em muito os limites da loucura associada ao delírio, procurava legitimar a reclusão de indivíduos que manifestassem os mais diversos comportamentos considerados moral e/ou socialmente perigosos, ao mesmo tempo em que viabilizava as perspectivas de ampliação de poder do alienista (ENGEL, 2001, p. 331). Em termos ilustrativos, tem-se na Figura 1 que segue, uma imagem rica em detalhes do extremo descaso referente às internações que ocorriam nesse cenário. 9 Figura 1 – Condições de descaso para com os alienados no hospital D. Pedro II FONTE: Revadam e Scartezini (2020, s. p.) Dando-se prosseguimento à sequência cronológica dos fatos, teve início, após tudo isso, o período republicano no Brasil, mais precisamente no ano de 1889. Essa fase marcou o estopim de mudanças nos planos político e social, assegurando novas nuances para a paz, a ordem e o progresso. No setor da saúde, houve a desvinculação do Hospício Pedro II da Santa Casa, ficando aquele sob a égide da administração pública, passando a ser denominado de Hospício Nacional dos Alienados (JABERT, 2005). No tocante a essa transição, defendeu-se a ideologia que se segue no parágrafo a seguir. Pode-se estabelecer grosseiramente o período imediatamente pos- terior à Proclamação da República como o marco divisório entre a psiquiatria empírica do vice-reinado e a psiquiátrica científica, a lai- cização do asilo, a ascensão dos representantes da classe médica ao controle das instituições e ao papel de porta-vozes legítimos do Es- tado, que avocara a si as atribuições da assistência ao doente men- tal, em questões de saúde e doença mental tal como a gravidade da situação exigia (RESENDE, 2007, p. 43). Nesse ínterim, torna-se inevitável a medicalização da loucura e a continuidade de uma abordagem psiquiátrica fundamentada na marginalização da figura do louco, o que acabou por originar a Assistência Médico-Legal aos Alienados dentro de colônias agrícolas, espaços físicos que proporcionaram suporte aos hospitais psiquiátricos mais tradicionais. Essas medidas resultaram na primeira reforma psiquiátrica brasileira, que encontrou um ambiente político e ideológico favorável ao seu desenvolvimento (AMARANTE, 1998). Como a prática psiquiátrica não existe num vazio social, era de se esperar que ela assimilasse aos seus critérios de diferenciação do normal e do patológico os mesmos valores da sociedade onde se inseria, e se empenhasse em devolver à comunidade indivíduos tratados e curados, aptos para o trabalho. O trabalho passou a ser ao mesmo tempo meio e fim do tratamento (RESENDE, 2007, p. 47). 10 Teixeira Brandão foi o primeiro diretor tanto da Assistência Médico-Legal dos Alienados, quanto do Hospício Nacional dos Alienados. Seu sucessor, Juliano Moreira, teve uma gestão marcada pela atenuação da influência da escola francesa de Philippe Pinel e, consequentemente, transição para o crescimento da escola alemã, que teve como precursor Emil Kraepelin, considerado o pai da psiquiatria contemporânea. A ideologia alemã preconizava uma etiologia orgânica ou fisicalista para as doenças mentais, realocando o doente mental para a posição de objeto de análise, uma vez que se baseia em uma operação intelectual a partir do qual o psíquico é compreendido como meramente uma coisa. Essa operação exige dissociação e distanciamento. Na década de 1920 do século XX, mais precisamente no ano de 1923, a figura de Gustavo Riedel lança a Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM), o que demarca uma radicalização do organicismo. Tal liga consegue se consolidar através da defesa de ideais eugênicos, racistas, xenofóbicos e antiliberais. Em outras palavras, isso quer dizer que a psiquiatria também passa a preterir a recuperação e purificação das raças, através da constituição de coletividades humanas sadias, requerendo do Estado uma atuação rígida de controle social com forte poder de intervenção (FONTE, 2012). O lema da Liga era “controlar, tratar e curar” e a visão que detinha dos eventos de natureza psíquica é a de que eles são produtos do meio. Assim, medidas restritivas de liberdade e de cidadania passaram a ser defendida e implementadas a partir de esterilizações em massa e proibição de casamentos. Já a vertente higienista faz jus ao termo sanitário, quando se lutava pela defesa também da modificação dos hábitos e costumes de vida de toda uma população, a fim que ela se prevenisse do diagnóstico de doenças mentais e se tornasse, assim, impura (PASSOS, 2009). No início da década de 1930 do século XX, foram criados, no Brasil, serviços nacionais por doenças, o que equivale comparar com um processo de verticalização de ações de saúde vinculadas a determinadas enfermidades, inserindo nesse contexto as doenças mentais. Pode-se dizer que no ano de 1941, por exemplo, foi criado o Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM), através do qual o poder público, representado pelo Ministério da Saúde, passou a intermediar uma coparticipação administrativa dos hospitais psiquiátricos já existentes. Nessa época, quase a totalidade dos hospitais psiquiátricos eram de iniciativa pública, portanto (PAULIN; TURATO, 2004). 11 A 3 de janeiro de 1946, o Decreto-Lei nº 8.555 propiciou uma autorização ao SNDM a realização de convênios com os governos estaduais para a construção de hospitais psiquiátricos. Esses dispositivos passaram a ser denominados mesmo de hospitais, uma vez que o Código Brasileiro de Saúde, publicado em 1945, julgava pejorativos termos como asilos ou retiros. NOTA A psiquiatria vinha, então, tentando se firmar como especialidade médica e, com essa significativa consideração na área da saúde, novas abordagens biológicas de tratamento foram sendo introduzidas no Brasil: choque cardiazólico, cirurgias psíquicas, insulinoterapia e eletroconvulsoterapia (ECT). É possível entender um pouco mais sobre esta última abordagem através das Figuras 2 e 3 a seguir. Figura 2 – Eletroconvulsoterapia (Ect) e seu mecanismo de ação FONTE: https://www.estimulacaoneurologica.com.br/o-que-e-neuromodulacao/. Acesso em: 18 ago. 2022. COMO FUNCIONA A ESTIMULAÇÃO CEREBRAL COM CORRENTE ELÉTRICA Bateria comum acoplada a eletrodos sobre a cabeça altera atividade de neurônios 1- O QUE É Um aparelho de estimulação movido a bateria é ligado a dois eletrodos fixados sobre o couro cabeludo, criando um circuito elétrico que atravessa o cérebro 2- 0 QUE FAZ A técnica muda a atividade cerebral porque altera a facilidade com que o impulso nervoso passa de um neurônio para o outro (limlar de transmissão nervosa) 3- COMO FUNCIONA Neuronios próximos ao eletrodo negative ficam mais excitados (a transmissão é facilitada), enquanto os próximos ao eletrodo positivo ficam mais inibidos (a transmissão é dificultada) Corrente elétrica Bateria de 9 volts Aparelho de estimulação Solucão salina Eletrodo Cérebro limiar para transmissão do impulso Eletrodo negativo Eletrodo positivo Cérebro sem estímulo externo impulso nervoso Cérebro estimu- lado Limiar menor, facilita condução nervasa Limiar maior, dificulta condução nervasa 12 Figura 3 – Preparo do paciente para a eletroconvulsoterapia FONTE:https://www.estimulacaoneurologica.com.br/o-que-e-neuromodulacao/. Acesso em: 18 ago. 2022. Nos anos 1960 do século XX, o Estado passa a realizar compras de leitos psiquiátricos hospitalares no setor privado, ao invés de investir em ações capazes de alterar o precário cenário nos hospitais psiquiátricos públicos. Isso se justifica porque o raciocínio que imperava na época girava em torno da internação, que inclusive deveria ser prolongada. Assim, as empresas privadas lucravam bastante com essas internações, e para elas quanto mais internações ocorressem, melhor, financeiramente falando. Por outro lado, o paciente não recebia cuidado direcionado, mas ficava sob verdadeiro descaso. Esta fase tornou-seconhecida como “indústria da loucura” (FONTE, 2012). 13 O filme “Bicho de sete cabeças” retrata claramente esse panorama da indústria da loucura. É um filme de sucesso brasileiro, com a duração de 1 hora e 14 minutos. Direção de Lais Bodanzky e Roteiro de Luis Bolognesi; baseado na autobiografia de Austregésilo Carrano Bueno, Canto dos Malditos. Realizado com colaboração das produtoras Buriti Filmes, Dezenove Som e Imagem Produções Ltda., Gullane Filmes, Rio Filmes, Fábrica e Cinema. Com Othon Bastos (como Sr Wilson), Rodrigo Santoro (como Neto) e Cassia Kiss Magro (como Meire). Seu Wilson e seu filho Neto possuem um relacionamento difícil, com um vazio entre eles aumentando cada vez mais. Seu Wilson despreza o mundo de Neto e este não suporta a presença do pai. A situação entre os dois atinge seu limite, e Neto é enviado para um manicômio, onde terá que suportar as agruras de um sistema que lentamente devora suas presas. DICAS Em contrapartida, após a Segunda Guerra, na Europa e nos Estados Unidos, eclodiram alguns movimentos que se opunham à forma de tratamento e abordagem geral que ocorriam nos hospitais psiquiátricos. Dentre eles, citam-se o Movimento Institucional na França, Comunidades Terapêuticas na Inglaterra e Psiquiatria Preventiva nos Estados Unidos. Todos eles defendiam abordagens mais humanistas no campo da saúde mental, chegando a propor alterações de natureza técnica, científica e administrativa nessa área, sendo pertinente dizer, então, que representaram o estopim de uma luta antimanicomial ou simplesmente movimento de reforma psiquiátrica (GOULART, 2006). No Brasil, a denúncia dos casos de violência nas instituições asilares, bem como das precárias condições de trabalho dentro dos manicômios, culminaram, na década de 1970, com o surgimento do Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM). Esse evento serviu de âncora para que os olhares fossem voltados a uma emergência de reforma psiquiátrica em território nacional também (SANDER, 2010). Em período anterior e concomitantemente contemporâneo ao surgimento do MTSM, o Brasil estava experimentando a vivência sob a “Era do Temor”, em que o sistema psiquiátrico vinha sendo completamente deteriorado. Dessa forma, subentende-se o motivo pelo qual muitos manicômios, casas de repouso e leitos de hospitais psiquiátricos abriam e fechavam em curto espaço de tempo. Neles, o direito mais básico do ser humano, o de cidadania, estava sendo violado através de maus tratos, isolamento social e formas de tratamento brutais e inadequadas para os alienados mentais (CAMPELLO; SANTIAGO, 2015). A situação vigente era alarmante e, à medida em que as denúncias se intensi- ficavam e as reivindicações aumentavam, proporciona-se notoriedade para a categoria profissional de psicologia a partir do fomento de sua atuação na saúde pública dentro dos dispositivos de saúde mental, acarretando uma multiprofissionalidade, até então inexistente (ZAMBENEDETTI; SILVA, 2008). 14 Na medicina, a atuação da figura da médica psiquiatra Nise da Silveira (1905- 1999) representou, também, um marco divisor na forma de tratamento ao paciente psiquiátrico, pois ela instigou e implementou um trabalho de terapia ocupacional por meio da arte em detrimento do uso da eletroconvulsoterapia, da camisa de força, da lobotomia, da insulinoterapia e do confinamento (VEIGA, 2022). Para saber mais sobre a biografia e modo de atuação profissional de Nise da Silveira, assista ao filme brasileiro “Nise: O Coração da Loucura”, baseado em fatos reais e que foi lançado em 2015, tendo como temática central a ruptura do sistema manicomial até, então, vigente na década de 1950. DICAS Na esfera científica, alguns eventos de considerável importância vinham sendo promovidos e, neles, muito se discutiam as ideias para alterações na abordagem do cuidado ao doente mental. O grande intuito era, de fato, propagar essas informações, a fim de sensibilizar a população. A exemplos destes, citam-se o V Congresso de Psiquiatria, I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições e o III Congresso Mineiro de Psiquiatria. Enaltece-se, entretanto, que o I Encontro Nacional de Trabalhadores da Saúde Mental, ocorrido em 1987, e que teve como lema “por uma sociedade sem manicômios”, foi o grande responsável pelo surgimento do Movimento da Luta Antimanicomial no Brasil (FIGUEIRÊDO; DELEVATI; TAVARES, 2014). O trecho a seguir explicita o que se defendeu nesse encontro: Eliminar os meios de contenção presentes no tratamento, reesta- belecer a relação do indivíduo com seu próprio corpo, reconstruir o direito e a capacidade de uso da palavra e dos objetos pessoais, produzir relações, espaços de interlocução, restituir os direitos civis, eliminando a coação, as tutelas judiciais e o estatuto da periculosi- dade, reativando uma base de inserção para poder ter acesso aos intercâmbios sociais (RAMMINGER, 2002, p. 115). Diante disso, os dirigentes governamentais brasileiros foram se inteirando cada vez mais com as propostas divulgadas nesses eventos sobre a Reforma, o que culminou com a confecção do documento Diretrizes para a área de Saúde Mental, onde constava a defesa de um tratamento realizado fora do ambiente hospitalar, limitação da internação hospitalar, reintegração ou participação da família, e incentivo às pesquisas na área de saúde mental (VASCONCELLOS, 2008). 15 Vale salientar que a conjuntura política vigente nesse período no Brasil também contribuiu para a implementação do processo de luta antimanicomial ou desospitalização. Ela foi caracterizada pelas fases de redemocratização e de outra reforma, a sanitária. Isso abriu oportunidade para espaços de discussão e elaboração de propostas de novos dispositivos da esfera do cuidado em saúde mental. IMPORTANTE A Reforma Psiquiátrica é demarcada por quatro dimensões características: teórico-conceitual, técnico-assistencial, jurídico-política e sociocultural. No que concerne à dimensão teórico-conceitual, foi preconizado e defendido que novos conceitos e olhares constroem outros modos de entendimento sobre a loucura e, consequentemente, promovem práticas diferenciadas; foram questionados alguns pontos como os conceitos de doença mental, de normalidade, de cura, de periculosidade, bem como a função terapêutica do hospital psiquiátrico e a noção de que a loucura é um comportamento desviante, de que o indivíduo considerado louco deve ser “consertado”. Pregou uma proposta de desconstrução das teorias e conceitos da psiquiatria tradicional e que novas práticas desse contexto levam em consideração que a intervenção médica tradicional reduz o sujeito aos sintomas e diagnósticos, deixando de lado as outras características das pessoas. Para ela, o louco passa a ser considerado um sujeito e a doença mental deixa de ser o foco central, consequentemente a internação no hospital psiquiátrico deixa de ser uma possibilidade terapêutica, e a cura não se torna o único fim a ser atingido com o tratamento. O paciente é visto como sujeito e cidadão, com direitos e deveres e responsabilidades. O cuidado psicossocial pretende tratar da pessoa em sua integralidade e em sua complexidade e todas as pessoas, consideradas doentes ou não, possuem capacidades e competências, mas acima de tudo projetos e desejos de vida, pois, ao invés da cura da doença da doença mental, o foco é a “invenção de saúde”, que significa pensar na qualidade de vida da pessoa que está sendo cuidada, criando condições de tratamento e de vida digna, considerando a especificidade de cada sujeito na sua história. Todos esses preceitos estão representados na Figura 4 que segue. 16 Figura 4 – Representação dos preceitos da dimensão teórico-conceitual FONTE: https://bhdicas.uai.com.br/luta-antimanicomial-bh/. Acesso em: 18 ago. 2022. Com relação à dimensão técnico-assistencial, pode-se dizer que ela defendeu a existência de três aspectos fundamentais – planejamento das novas estruturas assistenciais,tipo de atendimento às diferentes demandas de tratamento e modelo de atendimento, tipos de terapia medicamentosa, psicoterápica e de sociabilidade; preconizou a substituição do atendimento centrado na hospitalização e no isolamento por uma atenção integrada ao indivíduo no seu local de domicílio, em seu território. Aqui, o território passa a ser entendido como o lugar social onde tecemos nossas referências de vida, onde dominamos os códigos segundo os quais montamos nossa rede de relações sociais. Lutou-se pelos direitos dos pacientes e oportunidade de participação destes em diferentes espaços na sociedade, bem como pela defesa de que o tratamento da doença mental não tem como finalidade a construção de um sujeito ideal, completamente “normal”, perfeito, sem problemas, visto a impossibilidade desta ideia para qualquer ser humano na sociedade. A atenção psicossocial lida com a subjetividade através da singularidade dos sujeitos por meio de atuações transdisciplinares e intersetoriais. A Figura 5, a seguir, revela os preceitos dessa dimensão. 17 Figura 5 – Representação dos preceitos da dimensão técnico-assistencial FONTE: https://www.unijui.edu.br/comunica/institucional/34780-pos-graduacao-em-saude- mental-tem-carga-horaria-ampliada. Acesso em: 18 ago. 2022. A dimensão jurídico-política, por sua vez, tece considerações a respeito da inimputabilidade do louco; de sua interdição civil; da ideia ultrapassada do fato de ele ser louco e, consequentemente, perigoso e incapaz; e sobre a Lei da Reforma Psiquiátrica Brasileira (Lei nº 10.216/01). Nela, expressa-se, ainda, a Carta de Direito dos Usuários de Saúde Mental. Na Figura 6, há sua representatividade. Figura 6 – Representatividade da dimensão jurídico-política FONTE: https://www.amazon.com.br/Dimens%C3%A3o-jur%C3%ADdico-pol%C3%ADtica- reforma-psiqui%C3%A1trica-brasileira/dp/8559682090. Acesso em: 18 ago. 2022. 18 Por fim, tem-se a dimensão sociocultural, que objetiva transformar o imaginário social, lança a proposta de deslocamento da loucura do espaço médico e psicológico para os diversos espaços do meio social e preconiza o protagonismo de usuários e familiares dos serviços de saúde mental e a criação de associações de usuários e familiares, o que pode ser exemplificado na Figura 7, a seguir. Figura 7 – Ideal da dimensão sociocultural FONTE: https://bit.ly/3AbGp7g. Acesso em: 21 ago. 2022. 4 SURGIMENTO DOS SERVIÇOS SUBSTITUTIVOS AO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO Após a redemocratização, como se está vendo, eventos de natureza científica voltados para a discussão de questões a respeito da saúde mental foram se tornando cada vez mais comuns. Nos anos de 1987 e 1992, ocorreram, por exemplo, duas Conferências Nacionais de Saúde Mental, nas quais muito se debateu sobre novas formas de abordagem à loucura e tratamento do doente mental; como também sobre a importância de se ter uma atuação multiprofissional nessa área, considerando a participação de categorias profissionais como médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais (FIGUEIRÊDO; DELEVATI; TAVARES, 2014). Em 1992, após o Brasil assinar a Declaração de Caracas e após a realização da II Conferência Nacional de Saúde Mental, é que passaram a vigorar as primeiras normas federais de regulamentação e implantação de serviços alternativos. Esse foi um processo fundamental para a área da saúde mental, uma vez que garantiu aos usuários a universalidade à assistência, a sua integralidade (CANÔNICO; NEVES; SOUZA et al., 2018). 19 Veja a Declaração de Caracas, documento que marca as reformas na atenção à saúde mental no continente americano. Disponível em: http://bvsms.saude.gov. br/bvs/publicacoes/declaracao_caracas.pdf. DICAS Um dos resultados provenientes das discussões desses eventos, indubitavel- mente foi o surgimento de serviços substitutivos aos hospitais psiquiátricos, totalmente assegurados e regulamentados por normas federais. Os assuntos referentes à saúde mental passaram, ainda, a compor pautas de reuniões nas agendas governamentais de todas as esferas. Desde então, os serviços substitutivos ao modelo hospitalocêntrico têm sido notadamente fortalecidos com a criação de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPS), Hospitais-Dia, Centros de Convivência, Serviços de Urgência e Emergência Psiquiátrica nos Hospitais Gerais de referência, dentre outros. A princípio, no final da década de 1980 e início da década de 1990, surgiram os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e os Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPS). O perfil dos usuários prioritariamente atendidos no CAPS, em seus primórdios, está descrito no trecho a seguir: [...] como aquela “sociedade invalidada”, com “formas diferentes e especiais de ser”, com “patologias de maior complexidade”, de “pessoas que tenham enveredado por um circuito de cronificação”, de “pessoas com graus variáveis de limitações sociais” e com “graves dificuldades de relacionamento e inserção social” (AMARANTE; TORRE, 2001, p. 29). Ao longo desta unidade, você ainda será apresentado e familiarizado com as características dos CAPS, no que diz respeito a sua infraestrutura, metodologias de trabalho dos profissionais, serviços ofertados à população e seus objetivos. ESTUDOS FUTUROS 20 O NAPS, por sua vez, adota algumas estratégias cabíveis ao seu funcionamento e aos seus objetivos para atenuar a influência da lógica manicomial ao tratamento do doente mental. Dentre essas estratégias, é possível citar a regionalização, que visa à transformação cultural a partir da coleta de dados de necessidades; o percurso da demanda psiquiátrica; diálogo com a comunidade a partir da participação em entidades de representação civil na sociedade; e implementação do projeto terapêutico singular (AMARANTE; TORRE, 2001). Como marco importante na luta antimanicomial, tem-se também a atuação do deputado federal Paulo Delgado, que lançou a proposta de um Projeto de Lei nº 3657, defendendo o fechamento intensivo dos manicômios. Por outro lado, somente a partir da década de 2000, mais precisamente no ano de 2001, esse projeto é devidamente aprovado, tendo como produto e legado para as ciências da saúde, a promulgação da Lei Nacional da Reforma Psiquiátrica, Lei nº 10.216, acarretando mudanças consideráveis na forma de abordagem ao cuidado do doente mental. Essa lei previa a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais (FIGUEIRÊDO; DELEVATI; TAVARES, 2014). Ainda em 2001, pode-se dizer que a Reforma Psiquiátrica foi consolidada como política de governo, na III Conferência Nacional de Saúde. A Lei federal nº 10.216 ficou conhecida como Lei Antimanicomial. Ela destaca os seguintes direitos do usuário do SUS (CANÔNICO; NEVES; SOUZA et al.; 2018): I- Ter acesso ao melhor tratamento do sistema de saúde, de acordo com suas necessidades. II- Ser tratado com humanidade e respeito e no interesse exclusivo de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade. III- ser protegido contra qualquer forma de abuso e exploração. IV- Ter garantia de sigilo nas informações prestadas. V- Ter direito à presença médica, em qualquer tempo, para esclarecer a necessidade, ou não, de sua hospitalização involuntária. VI- Ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis. VII- receber o maior número de informações a respeito de sua doença e de seu tratamento. VIII- ser tratado em ambiente terapêutico pelos meios menos invasivos possíveis. IX- Ser tratado, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental. IMPORTANTE 21 Em termos de fortalecimento e medida de apoio nesse contexto, no ano de 1992 se instituiu a portaria ministerial de nº 224, que defendeu a instalação de leitos ou unidades psiquiátricas dentro de hospitais gerais. FONTE: https://www.saude.mg.gov.br/images/documentos/Portaria_224.pdf. Acesso em: 21 ago. 2022. NOTA Os serviços substitutivosse caracterizam, portanto, como grandes legados da Reforma Psiquiátrica, uma vez que surgiram para implementar alternativas de tratamento bastante diversificadas em detrimentos de bases teórico-práticas defasadas e inadequadas até então vigentes (HIRDES, 2009). O atendimento advindo da Reforma Psiquiátrica representou um enorme ganho na área de saúde mental, porém é válido salientar que a luta pela implementação do que por ela é preconizado tem sido diária, pois muitos cidadãos ainda ignoram suas conquistas, travando-se uma problemática ainda presente até hoje. 5 POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE MENTAL NO BRASIL Após anos de luta para implementar mecanismos de abordagens à loucura e, consequentemente, ao tratamento dos doentes mentais, pode-se dizer que apenas ao final da década de 1990 houve a concretização de uma nova política nacional de saúde mental, que foi pautada nos princípios da Reforma Psiquiátrica e em uma lógica de cuidados humanizados. A Política Nacional de Saúde Mental (PNSM) surge para barrar métodos vergo- nhosos e extremamente brutais de tratamento na área da psiquiatria. Não se tolerava mais o desrespeito e a ínfima qualificação em termos científicos-metodológicos e sociais, bem como a falta de empatia com à falta de direcionamento do olhar para o doente men- tal e a exclusão social ocasionada pelo enclausuramento em ambiente hospitalar. O estopim da criação e implementação da Política Nacional de Saúde Mental foi o Projeto de Lei nº 3657 do deputado federal Paulo Delgado, já supracitado, pois objetivava à progressiva extinção dos leitos em hospitais psiquiátricos com consequente substituição deles por outros dispositivos do cuidado, que não viessem apenas a somar om os já até então existente, mas de fato que os substituísse. 22 Com a ampliação do projeto de lei em questão para a Lei nº 10.216/2001, deu-se destaque à criação dos CAPS em suas mais diversas nuances (adulto, infanto-juvenil e álcool e drogas) por todo território nacional. Neles, também se passou a valorizar e enxergar o espaço para a prática de um trabalho multidisciplinar, fazendo com que os profissionais, cada um em sua categoria, estivessem mais próximos dos pacientes ou usuários. A Política Nacional de Saúde Mental obedece aos princípios do SUS, pois conta com a característica de ser política pública. A exemplo desses princípios, está o fato de considerar a integralidade do sujeito, assumindo e compreendendo que ele se apresenta sob três esferas principais: a biológica, a psicológica e a social. As equipes que trabalham nesses dispositivos, no entanto, devem se atentar às questões sociais, uma vez que, mais do que nunca, hoje se sabe que elas influenciam positiva ou negativamente o seu estado de saúde mental. Com o advento dessa nova política de saúde mental, estados e municípios precisaram também se ajustar no que concerne à adaptação às novas demandas impostas pelos serviços substitutivos recém-criados em território nacional. Apesar de vários avanços, alguns retrocessos parecem querer ressurgir, pois no ano de 2017, a Comissão Intergestores Tripartite (CIT) aprovou a Portaria nº 3588, no dia 21 de dezembro, sem comunicação ou consulta prévia com ninguém que representasse a sociedade civil ou algum outro órgão. O retrocesso que a caracteriza se justifica pelo fato de propor a desestruturação da lógica de organização da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) (VALENTE, 2022). Alguns dos pontos de alterações sugeridos por essa Portaria foram: a inclusão do hospital psiquiátrico na Rede de atenção Psicossocial (RAPS); o aumento do valor da diária de internação em hospitais psiquiátricos; o não fechamento do leito com a desinstitucionalização do paciente cronificado; o aumento do número de leitos psiquiátricos em hospitais gerais de 15% para 20%; o aumento do número mínimo de quatro para oito leitos de saúde mental em hospital geral para recebimento de custeio; e a exigência de taxa de ocupação de 80% em leitos de saúde mental em hospital geral, como condicionante para recebimento de recursos de custeio (ALMEIDA, 2019). Corroborando com esse retrocesso, o Ministério da Saúde publicou uma nota técnica em 2019, anunciando que tais alterações objetivam “tornar a rede assistencial mais acessível, eficaz, resolutiva e humanizada, por meio de uma reforma do modelo de assistência em saúde mental, que necessitava de aprimoramentos, sem perder a essência de respeito à Lei 10.216/01” (BRASIL, 2019). Não é difícil compreender, portanto, que a interrupção dos serviços substitutivos coloca o hospital psiquiátrico novamente no centro do cuidado em saúde mental, o que implicará atenuação do acesso a uma atenção de qualidade; elevação de violações de direitos humanos e intensificação da marginalização das pessoas com sofrimento de natureza mental. 23 Não obstante a todo esse caos, menciona-se, ainda, a criação de Unidades Psiquiátricas Especializadas dentro de hospitais gerais e Unidades Ambulatoriais Especializadas. Esses serviços revelam um certo grau de importância na lógica do cuidado em saúde mental, porém, seguindo a lógica do que se estabelece na nota técnica de 2019, eles passariam a funcionar de forma desligada de um território específico, como também não estariam matriciados a um CAPS, levando a uma fragmentação do sistema e a uma perda da longitudinalidade do cuidado. Tais mudanças ignoram literalmente os pilares de promoção, prevenção, tratamento e reabilitação da saúde, distanciando-se, também, dos preceitos da Política Nacional de Saúde Mental (PATEL et al., 2018). A Figura 8 expressa bem o que se tem visto em termos de manifestos a esse retrocesso. As pessoas estão tendo que lutar no grito, ou seja, na marra, fazendo-se ouvir por parcela considerável da população, para que não aceitem um retorno ao descaso, ao desrespeito, à patologização do transtorno mental e à precificação dos internamentos. Figura 8 – Expressão da luta contra retrocessos da nota técnica de 2019 FONTE: Valente (2022, s. p.) 6 QUESTÕES ÉTICAS EM SAÚDE MENTAL É natural, ao falar sobre questões éticas, que se pense imediatamente em toma- das de decisões, entre escolher o certo e o errado, o bem e o mal, entre a vida e a morte. No campo da saúde, de uma forma geral, a tomada de decisões faz parte da prática dos profissionais que nela trabalham e, mais especificamente, dos enfermeiros, que necessi- tam se manter no nível mais elevado dos princípios legais e éticos de sua profissão. 24 No momento em que existe uma legislação determinando o que é correto ou bom dentro de uma vida em sociedade, faz-se necessário conhecer esses conceitos, inclusive atrelados à prática de enfermagem em saúde mental, uma vez que tal entendimento tende a aumentar a qualidade da assistência prestada ao paciente por esta categoria profissional, bem como a conferir-lhe o respaldo suficiente perante o exercício de suas obrigações legais. Alguns conceitos importantes e fundamentais precisam ser aqui expostos: ética, bioética, valores, comportamento moral e direito. Eles serão definidos nesta ordem, sequencialmente. A ética é o ramo de ciência humana que se detém ao estudo das tratativas de abordagens sistemáticas que diferenciam comportamentos entre certo e errado (BUTTS; RICH, 2008). Quando esses princípios precisam ou são, de fato, aplicados nas ciências da saúde, onde se inclui a enfermagem, tem-se a consideração da bioética. Comportamento moral que, por sua vez, pode ser definido como o respeito básico que cada pessoa tem por outra dentro de uma sociedade, o que engloba a consciência de até onde vão certos limites para se ter uma convivência harmoniosa e pacífica (PAPPAS, 2006). Já os valores são crenças pessoais sobre o que se considera importante e se tem como desejável (BUTTS; RICH, 2008). Por fim, um direito se consiste em uma reivindicação legalmente reconhecida, que a sociedade concordou e formalizou em lei (LEVY; RUBENSTEIN, 1996). NOTA Existem, também, alguns princípiosque proporcionam a capacidade de tomada de decisões éticas, levando em consideração determinadas diretrizes. Dentre as principais diretrizes compreendidas como considerações éticas, citam-se o utilitarismo, o kantismo, a ética cristã, o direito natural, o egoísmo ético, o dilema ético. Nos próximos parágrafos, serão abordadas considerações a respeito de cada um deles. • O utilitarismo, de acordo com Towsend (2017), é considerado uma espécie de princípio de maior felicidade, ou seja, defende a ideia de que as atitudes são corretas quando tendem a promover felicidade; ao passo que são erradas quando tendem a causar o contrário da felicidade. Uma decisão ética baseada no utilitarismo tem por objetivo os resultados que ela vai acarretar, ou melhor, a ação é realizada tendo-se por fundamento os resultados que produzem maior felicidade para a maioria das pessoas. • O Kantismo, por sua vez, já corresponde ao oposto do utilitarismo quando defende que a motivação sobre a qual a ação se baseia representa o fator moralmente decisivo para que ela seja certa ou errada; e não as consequências ou seus resultados. Geralmente é uma teoria entendida e considerada como uma deontologia, pois as decisões são tomadas com base no que é moralmente aceito e obrigatoriamente deve ser cumprido. 25 • A ética cristã fundamenta-se na maneira de viver e nos ensinamentos de Jesus Cristo. Um de seus ensinamentos clássicos é o fato de fazer aos outros o que se gostaria que fizessem com você, concentrando-se no amor de Deus, no seu perdão e na honestidade. Já o direito natural se baseia nos ensinamentos de São Tomás de Aquino, afirmando que, na condição de ser humano racional, Deus concedeu a cada um o saber sobre a diferença entre o bem e o mal, o certo e o errado. • Egoísmo ético preconiza a defesa da tomada de decisão baseada nas ações de um indivíduo que sejam mais vantajosas para ele, não podendo a ação ser melhor para nenhuma outra pessoa. Por fim, um dilema ético é a situação que requer que o indivíduo tome sua decisão entre duas possibilidades igualmente desfavoráveis. A partir de agora serão aqui pontuados princípios da bioética que devem ser considerados pelos profissionais da saúde em sua prática profissional quando se tem que agir tomando decisões. Eles são autonomia, beneficência, não maleficência, justiça e veracidade. • A autonomia é aquele princípio que considera até o último instante a faculdade mental de uma pessoa, ou seja, seu autopoder decisório de realizar escolhas sobre seu processo saúde-doença. Quando o paciente não tiver poder responsivo (criança, indivíduo comatoso e doente mental grave), os representantes legais desses pacientes precisam consentir a realização de procedimentos assistenciais a serem neles realizados. • A beneficência é o princípio que consiste em proporcionar apenas o bem de outra pessoa. Dessa forma, o profissional de saúde que atua atendendo os interesses de seus pacientes é dito beneficente. • A não maleficência é o oposto da beneficência, pois se conceitua em como evitar fazer o mal, intencionalmente ou não, ao seu paciente (AIKEN, 2004). • A justiça exprime o dever que cada cidadão tem de tratar todas as pessoas sem fazer-lhes acepção alguma, ou seja, de forma igual e justa, de fato. No campo da saúde isso deve ser visto mediante a distribuição igualitária de todos os recursos disponíveis para proporcionar o melhor cuidado possível aos cidadãos da população. • O princípio da veracidade, por sua vez, refere-se ao dever de uma pessoa ser sempre verdadeira. No caso de um profissional da saúde, estes precisam entender e implementar o fato de que os pacientes têm o direito de saber seu diagnóstico, tratamento e prognóstico. Com o intuito de exemplificar a tomada de decisões éticas na prática de um profissional de saúde, será explanado um estudo de caso, a seguir. 26 ESTUDO DE CASO Estudo de caso para tomada de decisões éticas. Etapa 1 – Avaliação Tonja tem 17 anos e atualmente encontra-se na unidade psiquiátrica com o diagnóstico de transtorno de conduta. Tonja relata que é sexualmente ativa desde os 14 anos. Ela fez um aborto quando tinha 15 anos e um segundo aborto apenas há seis semanas atrás. Ela afirma que a mãe lhe disse que “fez seu último aborto” e que ela tem que começar a tomar pílula anticoncepcional. Ela pede a sua enfermeira, Kimberly, que lhe informe sobre as pílulas e como consegui-las. Kimberly acredita que Tonja precisa muito de informações sobre pílulas anticoncepcionais e sobre outros tipos de contraceptivos, porém a unidade psiquiátrica é parte de um hospital católico e a política desse hospital proíbe a propagação desse tipo de informação. Etapa 2 – Identificação do problema Existe um conflito entre a necessidade de informação da cliente, o desejo da enfermeira de dar tais informações e a política da instituição que proíbe a disseminação de dessas informações. Etapa 3 – Alternativas benefícios e consequências Alternativa 1: informar à cliente e se arriscar a perder o emprego. Alternativa 2: não informar à cliente e comprometer os próprios valores de enfermagem holística. Alternativa 3: encaminhar a cliente para outra fonte fora do hospital e arriscar-se a uma repreensão do supervisor. Etapa 4. Considerar princípios de teorias éticas Alternativa 1: informar à cliente que, certamente, respeitaria a sua autonomia e a beneficiaria por diminuir sua probabilidade de engravidar novamente. Não seria o melhor para Kimberly, pois ela provavelmente perderia seu emprego. E, de acordo com o ponto de vista do hospital católico, as leis naturais de Deus seriam violadas. Alternativa 2: não informar restringe a autonomia da cliente. Tem o potencial lesivo em que, sem o uso de contraceptivos, a cliente pode engravidar novamente (e ela deixa transparecer que não é o que deseja). A ética cristã de Kimberly é violada porque esta ação não é o que ela gostaria que “lhe fizessem”. Alternativa 3: um encaminhamento respeitaria a autonomia da cliente, promoveria o bem, não seria lesivo (exceto talvez para o ego de Kimberly pela possível repreensão) e essa decisão estaria de acordo com a ética cristã de Kimberly. 27 Etapa 5. Selecionar uma alternativa A alternativa 3 é selecionada com base nas teorias éticas do utilitarismo (fazer o máximo de bem para o maior número de pessoas), a ética cristã (crença de Kimberly de “fazer aos outros o que gostaria que os outros lhe fizessem”), o kantismo (fazer seu dever) e os princípios éticos de autonomia, beneficência e não maleficência. O sucesso dessa decisão depende do acompanhamento da cliente com o encaminhamento e a adesão ao uso dos anticoncepcionais. Etapa 6. Agir e comunicar Agir envolve informar por escrito à Tonja, talvez, fazendo um telefonema e marcando um horário para ela no consultório Planned Parenthood [Paternidade/Maternidade Planejada]. A comunicação sugere compartilhar informações com a mãe de Tonja. A comunicação também inclui documentação do encaminhamento no prontuário da cliente. Etapa 7. Avaliar o resultado O resultado aceitável indicaria que Tonja de fato compareceu à consulta no Planned Parenthood e está seguindo o esquema contraceptivo prescrito. Também poderia incluir a iniciativa de Kimberly no processo de mudança na sua instituição a fim de implementar esses tipos de encaminhamentos para outras clientes que deles necessitassem. Um desfecho inaceitável seria indicado por Tonja não comparecer à consulta no Planned Parenthood ou por ela não usar os contraceptivos, resultando em nova gravidez. Kimberly também pode se deparar com uma repreensão do supervisor como um resultado inaceitável, particularmente se lhe falarem que ela deverá selecionar alternativas caso a mesma situação ocorra no futuro. Isso pode motivar Kimberly a tomar outra decisão, procurar emprego em uma instituição que apoie uma filosofia mais compatível com a sua própria. FONTE: TOWSEND, M. C. Enfermagem psiquiátrica: conceitos de cuidados na práticabaseada em evidências. 7. ed. [Reimpr.]. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. Dando-se seguimento nas questões éticas, é chegado o momento de considerá-las, especificamente, no contexto do campo da saúde mental. Dessa forma, é imprescindível mencionar antecipadamente que os portadores de transtornos mentais são dotados de proteção e direitos, em conformidade com o modelo assistencial em saúde mental vigente no Brasil (BRASIL, 2001). No que tange aos principais direitos do paciente, consideram-se os seguintes: acesso ao melhor tratamento no sistema de saúde, conforme suas necessidades; benefício para sua saúde e garantia de sua inserção na família, trabalho e comunidade; proteção contra abuso e exploração; garantia de sigilo; acesso aos meios de comunicação; orientações sobre sua doença e tratamento; tratamento em ambiente terapêutico e realizado, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental (MELLO, 2008). 28 Alguns pontos específicos merecem destaque. Um deles diz respeito ao direito de recusa de medicação. Na psiquiatria, as consequências clínicas desta ação podem abranger internação involuntária, audiência de competência legal ou alta do paciente. Isso significa que o princípio da autonomia impera, na área de psiquiatria existem algumas limitações, a saber: A equipe de tratamento deve determinar que três critérios sejam satisfeitos para forçar medicação sem o consentimento do cliente. Este deve exibir comportamento perigoso para si ou para outrem; a medicação prescrita pelo médico deve ter uma possibilidade razoável de ajudar o cliente; e os clientes que recusam a medicação precisam ser julgados incompetentes para avaliar os benefícios do tratamento em questão (WEISS-KAFFIE; PURTELL, 2001, p. 361). Com relação aos tipos de internação autorizados na psiquiatria, existem três principais: • a voluntária, que se caracteriza por ocorrer em concordância do paciente, que assina um termo de consentimento e pode solicitar alta do dispositivo caso deseja; • a involuntária, que ocorre por solicitação de terceiros, sem consentimento da pessoa, devendo o Ministério Público Estadual ser comunicado dentro de 72 horas; e • a compulsória, que é determinada pela justiça (BRASIL, 2001). Outro ponto específico de destaque é o direito do portador de transtorno mental à alternativa de tratamento minimamente restritivo. Os pacientes podem ser tratados em nível ambulatorial, em hospitais-dia ou por hospitalizações através dos internamentos; mas o nó crítico parece surgir quando se tem que decidir entre uma intervenção de tratamento medicamentoso involuntário, reclusão e restrições mecânica ou terapia eletroconvulsiva. Diante disso, afirma-se: A distinção entre essas intervenções com base na restrição mostra- se um exercício puramente subjetivo carregado com tendências pessoais. Além disso, cada uma dessas três intervenções é, ao mesmo tempo, mais ou menos restritiva do que as outras duas. Não obstante, deve-se esforçar para pensar em termos de restritividade ao se decidir como tratar pacientes (SADOCK; SADOCK, 2007, p. 1376). Com relação ao tratamento a ser realizado em ambiente hospitalar, no caso brasileiro se consideram diretrizes e normas preconizadas e estabelecidas por uma portaria ministerial. Esta define o hospital psiquiátrico como o espaço, cuja maioria de leitos é destinada aos tratamentos psiquiátricos especializados, em regime de internação; estabelece que ele deve articular-se com a rede comunitária de saúde mental e estar situado no mesmo território da porta de entrada; ele não deve conter espaços restritivos (celas fortes); defende a inviolabilidade de comunicação do paciente 29 e o registro semanal dos procedimentos diagnósticos e terapêuticos em prontuário único, sendo a anotação da equipe de enfermagem diária. O paciente deve receber atendimento semanal de pelo menos um profissional conforme seu plano terapêutico (BRASIL, 2002). Ainda em conformidade com a Portaria do Gabinete Ministerial nº 251/2002, tem-se que as modalidades de atendimento individual correspondem ao medicamen- toso, à psicoterapia breve, à terapia ocupacional, principalmente; ao passo que as modalidades de atendimento grupal correspondem ao grupo operativo, psicoterapia em grupo, atividades socioterápicas, dentre outras. A garantia da longitudinalidade do cuidado deve ser implementada após o preparo para alta, e seu projeto terapêutico singular encaminhado para a instituição de referência. A família precisa ser esclareci- da sobre a doença e os aspectos relativos ao tratamento. Há obrigatoriedade da pre- sença de uma sala de intercorrências clínicas com insumos suficientes e necessários (cama Fowler, oxigênio, aspirador de secreções, vaporizador, nebulizador, bandeja de curativo e carrinho de parada cardiorrespiratória), bem como, de área externa para lazer e prática de esportes. Por fim, a portaria supracitada ainda divulga que o quadro mínimo de pessoal assistencial para hospitais psiquiátricos deve ser: um médico plantonista nas 24 horas; um enfermeiro, das 19h às 7h, para cada 240 leitos; um médico para cada 40 pacientes; um enfermeiro para cada 40 pacientes; um assistente social, um psicólogo, um terapeuta ocupacional para cada 60 pacientes; quatro técnicos de enfermagem para cada 40 leitos; um clínico geral para cada 120 pacientes; e um nutricionista e um farmacêutico para cada 240 leitos. Em âmbito internacional, no ano de 1980, foi aprovada a Lei de Sistemas de Saúde Mental nos Estados Unidos. Ela inclui uma carta de direitos para pacientes psiquiátricos como mostra a Quadro 1 a seguir. Quadro 1 – Carta de direitos para pacientes psiquiátricos Direito de tratamento apropriado e serviços relacionados em um ambiente de apoio máximo e mínima restrição à liberdade pessoal. Direito à individualização, com tratamento ou plano de serviços descritos; direito a tratamento com base em tal plano; e direito à revisão periódica e restabelecimento do plano com base nas necessidades de tratamento. Direito, compatível com a capacidade de cada um, de participar e de receber uma explicação razoável dos cuidados e do processo de tratamento. Direito de recusar tratamento, exceto em uma emergência ou conforme permitido por lei. Direito de não participar de experimentação sem consentimento informado voluntário e por escrito. Direito à liberdade sem restrição ou reclusão, exceto em emergência. 30 O direito a um tratamento humanizado que proporcione proteção razoável contra lesão e privacidade adequada. Direito à confidencialidade de registros clínicos (também aplicável após a alta do paciente). Direito a acesso aos prontuários médicos, exceto informações recebidas de terceiros sob promessa de confidencialidade e quando o acesso seria prejudicial à saúde do paciente (também aplicável sucedendo a alta do paciente) Direito de acesso ao uso do telefone, correio postal e visitas, a menos que considerados inadequados para os fins de tratamento. Direito de ser informado sobre esses direitos em linguagem compreensível. Direito de registrar reclamações se os direitos forem infringidos. Direito a encaminhamento, conforme adequado, a outros provedores de serviços de saúde mental após alta. Fonte: EUA (1980, p. 1564) Dentro desta carta, há a inclusão do direito à liberdade de contenção ou reclusão, exceto em emergências. Esse ponto tem sido gerador de bastante polêmica, uma vez que muitos esforços têm sido implementados nas alçadas federais e estaduais, com o intuito de atenuar ou eliminar seu uso. Durantes algumas tentativas de uso, houve casos de lesões e até de óbito, fazendo com que seja requerida atenção cuidadosa em sua utilização (TOWSEND, 2017). O significado do termo contenção afirma que se consiste numa técnica de aplicação de um conjunto de tiras de couro ou de faixas de material ortopédico ou ainda medicações para conter os membros de um indivíduo, cujo comportamento esteja fora do controle e que represente riscopara a segurança física de si mesmo e para os demais que estiverem em seu entorno, incluindo profissionais que estejam ofertando assistência. Por outro lado, a reclusão é um tipo de contenção física em que o paciente é confinado sozinho em uma sala através da qual ele não consegue sair. Sendo assim, padrões específicos relacionados ao uso de reclusão e contenção foram estabelecidos por entidades que realizam processo de acreditação hospitalar. Alguns exemplos incluem (THE JOINT COMMISSION, 2010): Reclusão ou contenção é suspensa no menor tempo possível, independentemente de quando a ordem está agendada de expirar; a menos que a lei estadual seja mais restritiva, as ordens para conter ou colocar em reclusão devem ser revistas a cada 4h para adultos com 18 anos de idade ou mais, a cada duas horas para crianças e adolescentes com idade entre 9 e 17 anos e de hora em hora para crianças com menos de 9 anos. As ordens devem ser revistas de acordo com esses limites de tempo para um máximo de 24 horas consecutivas; uma avaliação pessoal (por um médico, psicólogo clínico ou outro profissional independente graduado e responsável pelos cuidados do paciente) deve ser conduzida em até 1 hora de início da contenção ou da reclusão. 31 Enfermeiras e médicos assistentes devidamente treinados também podem conduzir essa avaliação, mas precisam consultar o médico responsável; os pacientes que estiverem simultaneamente contidos e reclusos deverão ser monitorados continuamente pela equipe treinada, seja pessoalmente, seja por meio de equipamento de áudio ou vídeo, posicionado próximo do paciente; a equipe envolvida na contenção e na reclusão de pacientes deve ser treinada para monitorar o bem-estar físico e psicológico do paciente, incluindo (mas não limitado a) status respiratório e circulatório, integridade cutânea e sinais vitais. 32 Neste tópico, você aprendeu: • A diferença entre saúde mental e doença mental, compreendendo que ambos são inti- mamente relacionados pelo equilíbrio-desequilíbrio do processo saúde-doença e seus fatores condicionantes e determinantes de saúde que influenciam a vida do indivíduo. • A definição e o entendimento sobre a loucura, termo considerado hoje pejorativo, mas muito utilizado ao longo dos séculos para a designação ou referência à pessoa com problemas de doença mental e tudo o que dizia respeito a sua abordagem. • Como esse histórico recebeu diversas críticas por ser inadequado, foi inevitável a ocorrência de uma Reforma Psiquiátrica no mundo e no Brasil. • Esse movimento foi bastante influenciado por escolas de corrente de pensamento alienista (francês), que preconiza um tratamento diferenciado para a loucura; e organicista (alemão), que se propunha a colocar o doente mental em posição de objeto de investigação. • A partir dessa reforma, os hospitais psiquiátricos, que inicialmente foram construídos como espaços anexos das santas casas de misericórdia, deixaram de ser o foco do local de tratamento do doente mental, cedendo lugar aos vários tipos de serviços substitutivos como os Centros de Atenção Psicossocial. • Após anos de luta, foram implementadas políticas públicas na área de saúde mental, bem como elencados preceitos de dimensão ética a serem considerados neste campo de atuação. RESUMO DO TÓPICO 1 33 AUTOATIVIDADE 1 O cuidado em saúde mental deve obedecer a mesma ótica do cuidado em qualquer outra área da saúde, que considera o ser humano como sendo um indivíduo. Diante deste excerto, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Biopsíquico. b) ( ) Biossocial. c) ( ) Biopsicossocial. d) ( ) Psíquicosocial. 2 Definida pela OMS como o estado de bem-estar físico, mental e social, a saúde pode ainda ser mais especificada quando o ser humano se encontra apto a responder adequadamente pelos seus atos e a enfrentar eventos estressores em seu cotidiano. Neste caso, ela é designada de: a) ( ) Doença mental. b) ( ) Saúde mental. c) ( ) Saúde espiritual. d) ( ) Saúde social. 3 Os espaços anexos das santas casas de misericórdia serviram como primeiros locais para o cuidado ao indivíduo com problemas mentais. O modelo de cuidado em saúde mental resultante dessa iniciativa e que sofreu duras críticas, culminando na Reforma Psiquiátrica, chama-se: a) ( ) Substitutivo. b) ( ) Hospitalocêntrico. c) ( ) Transitório. d) ( ) Escalonado. 4 O dispositivo hospitalar foi conquistando espaço e notoriedade no que dizia respeito ao tratamento do doente mental, fazendo jus ao conceito do termo hospitalocêntrico, cujo significado é que o hospital passou a delimitar o centro desse cuidado. Cite três críticas que foram realizadas ao modelo hospitalocêntrico. 5 É natural, ao falar sobre questões éticas, que se pense imediatamente em tomadas de decisões, entre escolher o certo e o errado, o bem e o mal, entre a vida e a morte. No campo da saúde, de uma forma geral, a tomada de decisões faz parte da prática dos profissionais que nela trabalham e, mais especificamente, dos enfermeiros, que necessitam se manter no nível mais elevado dos princípios legais e éticos de sua profissão. Diante disso, disserte um pouco sobre questões éticas relativas aos direitos dos usuários em saúde mental. 34 35 MODELO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 1 TÓPICO 2 - Um modelo de atenção é uma forma de organização elencada para padronizar as técnicas, as tecnologias e o processo de trabalho de maneira igualitária com determinado ideário ético-político (MERHY, 1998). No caso da área de saúde mental, o modelo de atenção psicossocial é aquele que mais se assemelha a uma perspectiva de saúde que atenda aos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) como direito de equidade, universalidade, integralidade, participação, defesa de direitos humanos, cuidado em liberdade, e não criminalização de usuários de drogas (CAMPOS, 1992). Com o intuito de compreender este modelo relativamente recente, será inserida aqui Quadro 2, que se trata de um quadro comparativo entre esse modelo e o modelo de atenção asilar, que perdurou por vários séculos da história de vida da psiquiatria. Alguns quesitos como organização do processo de trabalho, incluindo objeto e meios de trabalho, cenários de campo prático, organização institucional, relacionamento com o usuário, finalidade e efeitos terapêuticos e éticos são de suma importância para essa compreensão (COSTA-ROSA, 2000). Quadro 2 – Quadro comparativo entre modelo de atenção asilar e psicossocial MODELO ASILAR MODELO PSICOSSOCIAL OBJETO DE TRABALHO Doença/Transtorno mental Sofrimento/Existência MEIOS DE TRABALHO Recursos multiprofissionais Divisão tradicional e fragmentada do trabalho em saúde Médico-centrado Medicação e controle disciplinar como principais instrumentos de trabalho Recursos multiprofissionais Integração dos processos de trabalho Centralidade no usuário Técnico de referência (função intercessora e facilitação de vínculos) Conjunto amplo de dispositivos de reintegração sociocultural CENÁRIO DE PRÁTICAS Hospital psiquiátrico Serviços territoriais abertos 36 ORGANIZAÇÃO INSTITUCIONAL (RELAÇÕES INTRA- INSTITUCIONAIS) Organogramas piramidais ou verticais Amálgama entre poder decisório e de coordenação Estratificações de poder e saber Organograma horizontal Diferenciação entre poder decisório e de coordenação Horizontalização das relações de poder Ênfase à participação popular RELACIONAMENTO COM A CLIENTELA Instituição como lócus depositário da clientela potencial Interdição de espaços aos usuários e população geral Interdição do diálogo Reprodução de relações intersubjetivas verticais Espaços de interlocução horizontais Suporte transferencial compatível com a singularidade FINALIDADE Cura Subjetivação da queixa Desospitalização Desmedicalização Implicação subjetiva e sociocultural EFEITOS TERAPÊUTICOS E ÉTICOS (FINS POLÍTICOS E SOCIOCULTURAIS) Supressão sintomática Cronificação Reposicionamentosubjetivo Reinserção sociocultural Fonte: Adaptado de Costa-Rosa (2000) 2 DETERMINANTES EM SAÚDE MENTAL Falar em determinantes em saúde mental remete a alguns aspectos da saúde pública, o que não deixa de fazer sentido, já que as políticas públicas na área de saúde mental também estão, após anos de luta, inseridas no panorama do Sistema Único de Saúde (SUS). Existe um ramo da saúde pública, a Epidemiologia, que estuda detalhadamente os chamados fatores determinantes e condicionantes de saúde. Esses fatores, conjuntamente considerados nos setores que regem a vida em sociedade, podem influenciar positiva ou negativamente o processo saúde-doença dos indivíduos, desde que eles estejam mais ou menos expostos a alguns deles. Em termos conceituais, portanto, os determinantes sociais são tidos como pressupostos que se equiparam a situações de vida e de trabalho das pessoas, individualmente falando, ou delas em coletividades com suas condições de saúde, 37 considerando suas vertentes sociais, econômicas, culturais, étnico/raciais, psicológicas e comportamentais que, de fato, influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco nas populações (BOSI et al., 2014). Assim, os determinantes em saúde mental são motivo de preocupação da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma vez que podem elevar de forma considerável as doenças de natureza mental. Fatores psicológicos podem ser preditores do desenvolvimento de transtornos mentais. A pobreza, a dependência de uma economia baseada no dinheiro, altos níveis de violência, reduzido apoio social, a migração, que resulta frequentemente em altos índices de desemprego, os conflitos, as guerras e a inquietação social são também para a Organização Mundial da Saúde fatores sociais altamente associados a taxas elevadas de problemas de saúde mental, o que requer maiores estudos de aprofundamento (OMS, 2001). No que diz respeito aos determinantes biológicos, citam-se fatores genéticos, idade e gênero, principalmente. Os primeiros influenciam o processo saúde-doença na saúde mental induzindo alterações químicas no cérebro, alterando comportamentos, a forma de se vivenciar emoções e a expressão de algumas doenças psiquiátricas. A idade, epidemiologicamente falando, está associada ao desenvolvimento de transtornos mentais, tendo grande parte deles início entre o final da puberdade e o início da fase adulta; mas, alguns casos se apresentam desde a infância e outros em idades mais avançadas. O gênero se relaciona com o desenvolvimento de transtornos mentais com grandes divergências, pois alguns casos são mais prevalentes no sexo masculino, como a esquizofrenia; ao passo que outros são mais prevalentes no sexo feminino, como a depressão. Para alguns outros transtornos, como o Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) a distribuição entre os gêneros é semelhante. A Figura 9 traz imagens representativas desses determinantes, respectivamente. Figura 9 – determinantes biológicos (genético, idade, gênero) FONTE: Adaptado de https://www.marianasaadeh.com.br/determinantes-saude-mental. Acesso em: 19 ago. 2022. 38 Os determinantes sociais, por sua vez, são representados pela renda, pela educação, pela estrutura familiar e pelo trabalho, principalmente. A relação entre renda e doença mental é bastante conhecida e prevalente, uma vez que alguns quadros específicos estão fortemente imbricados a condições econômicas desfavoráveis. Alguns transtornos mentais graves são provenientes de uma situação de baixa renda familiar, tais como a tentativa de suicídio e a depressão pós-parto. O cesso à educação se associa a melhores níveis de saúde mental, pois experiências positivas nesse ramo contribuem para bons resultados acadêmicos e escolares. No que tange à estrutura familiar, sabe-se que quanto menos harmoniosa ela for, e consequentemente mais conturbada, funciona como fator de risco direto para o desenvolvimento de transtornos mentais e comportamentos agressivos na fase adulta da vida; o mesmo raciocínio é válido para os mais variados tipos de relacionamentos. A interligação entre o trabalho e a saúde mental é inegável apesar de complexa. Em geral o trabalho remunerado contribui para o bem-estar e para a saúde mental individual, não só por compor parte da renda, mas também por promover satisfação, sentido e propósito para alguns. No entanto, algumas vezes, o trabalho pode representar uma sobrecarga de stress e uma ameaça à saúde mental das pessoas. Situações de violência, falta de reconhecimento, cargas de trabalho excessivas, ausência de suporte social, isolamento, assédio e incerteza são fatores de risco bem descritos. O desemprego também está fortemente ligado ao desenvolvimento de problemas mentais, por causar estresse, ansiedade e outros distúrbios. As representações simbólicas desses determinantes são apresentadas na Figura 10. Figura 10 – Determinantes sociais (renda, trabalho, relacionamentos, estrutura familiar e educação) FONTE: Adaptado de https://www.marianasaadeh.com.br/determinantes-saude-mental. Acesso em: 19 ago. 2022. 39 3 DISPOSITIVOS PARA TRATAMENTO EM SAÚDE MENTAL Dispositivos de cuidado representam possibilidades de investidas, processos ou serviços capazes de realizar reabilitação e reinserção social ao sujeito portador de transtorno mental. Dessa forma, é possível admitir que estão ou são relacionados à saúde mental, quando se sabe que os usuários experimentam vivências nesses locais dentro do território, alcançando bem-estar e diminuindo seu sofrimento (SOUZA, 2011). Esses dispositivos requerem, para seu melhor funcionamento, uma conforma- ção em rede, a fim de que o usuário possa ser atendido em suas demandas de saúde com foco nos princípios do SUS, tais como integralidade, multidisciplinaridade e criação de vínculo (PEIXOTO; MEIRA; SANTOS et al., 2017). Dentre os dispositivos a serem caracterizados nesta unidade, citam-se: Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), Centros de Convivência e Cultura, Comunidades Terapêuticas, Unidades de Acolhimento (UA) e os Leitos de Atenção Integral (em Hospitais Gerais e nos CAPS III), Hospital-dia, e Equipes de Consultório de Rua. Na alçada da Atenção Básica, existem os Centros de Convivência e Cultura (CECCO), que são considerados dispositivos cuja atuação se dá, principalmente, com foco na promoção de saúde e nos processos de reabilitação psicossocial através do estabelecimento de espaços de convívio sociabilidade, produção e intervenção na cultura e na cidade. Neles, o que se oferta são atividades criativas e diferenciadas relacionadas às questões culturais, sendo as oficinas terapêuticas seu eixo de organização. As oficinas podem ser bastante variadas, como: artes plásticas (desenho, pintura, gravura, papel marchê, mosaico, cerâmica, artes visuais), oficinas de música, artes cênicas, dança, teatro, artesanato (bordado, costura, tapeçaria), esportivas, culinária e horta (CANÔNICO; NEVES; SOUZA et al., 2018). A Figura 11 a seguir retrata usuários em uma oficina terapêutica. Figura 11 – Oficina terapêutica em entro de convivência e cultura FONTE: https://www.otaboanense.com.br/centro-de-convivencia-e-cultura-de-taboao-da-serra-inicia- campanha-seja-um-doador/. Acesso em: 19 ago. 2022. 40 Considerando-se, agora, a Atenção Psicossocial, existem os Centros de Aten- ção Psicossocial (CAPS), que consistem em espaços de serviços de abordagem comu- nitária e aberto do SUS que oferta cuidado a pessoas que estão sendo acometidas por sofrimentos psíquicos diversos, especificamente os transtornos metais mais graves e recorrentes. Neles, as intervenções implementadas consideram a inserção familiar e a confecção do projeto terapêutico singular, respeitando-se o princípio ético da autono- mia e o princípio moral de cidadania, atenuando a marginalização da loucura. É conveniente acrescentar aqui que os CAPS são subdivididos em algumas modalidades conforme critérios específicos (CANÔNICOet al., 2018). Eis as modalidades de CAPS: • CAPS I: atende a pessoas com transtornos mentais graves e persistentes e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool ou outras drogas de todas as faixas etárias; indicado para municípios com população entre 20 mil e 70 mil habitantes. • CAPS II: atende a pessoas com transtornos mentais graves e persistentes, podendo também atender a pessoas com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool ou outras drogas, conforme a organização da rede de saúde local; indicado para municípios com população entre 70 mil e 200 mil habitantes. • CAPS III: atende a pessoas com transtornos mentais graves e persistentes. Proporciona serviços de atenção contínua, com funcionamento 24 horas, incluindo feriados e finais de semana, ofertando retaguarda clínica e acolhimento noturno a outros serviços de saúde mental, inclusive CAPS-Ad; indicado para municípios ou regiões com população acima de duzentos mil habitantes. • CAPS-AD: atende a adultos ou crianças e adolescentes, considerando as normativas do Estatuto da Criança e do Adolescente, com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool ou outras drogas. Serviço de saúde mental aberto e de caráter comunitário; indicado para municípios ou regiões com população acima de setenta mil habitantes; • CAPS-AD III: atende a adultos ou crianças e adolescentes, considerando as normativas do Estatuto da Criança e do Adolescente, com necessidades de cuidados clínicos contínuos. Serviço com no máximo doze leitos para observação e monitoramento, de funcionamento 24 horas, incluindo feriados e finais de semana; indicado para municípios ou regiões com população acima de duzentos mil habitantes; • CAPS Infantojuvenil: atende a crianças e adolescentes com transtornos mentais graves e persistentes e os que fazem uso de crack, álcool ou outras drogas. Serviço aberto e de caráter comunitário; indicado para municípios ou regiões com população acima de cento e cinquenta mil habitantes. ATENÇÃO 41 A partir das classificações dos tipos de CAPS supracitadas, termos semelhantes, mas com definições diferentes apareceram naturalmente. Você sabe, por exemplo, diferenciar hospitalidade noturna de internação? Pois bem, o primeiro se caracteriza por um suporte em momentos de crise ou vulnerabilidade de um usuário, ficando em permanência de tempo integral o CAPS por um período aproximado de até duas semanas. Durante esse tempo, ele recebe acompanhamento e monitoração constantes, evitando-se uma internação propriamente dita, que é o segundo dos termos em questão. INTERESSANTE Por fim, as principais atividades realizadas dentro dos CAPS são: atendimentos em grupo; atendimentos em oficinas terapêuticas; atividades externas coletivas; medicação supervisionada e atendimento à desintoxicação; ações de matriciamento com visitas domiciliares e discussão de casos; atendimentos aos familiares; reuniões e supervisões institucionais e acompanhamento às Unidades de Acolhimento (UAA). Veja nas Figuras 12, 13 e 14, a seguir, respectivamente, a estrutura física da fachada de um CAPS, o passo a passo de atendimento psicossocial inicial e em situações de crise. O enfermeiro, dentro dos CAPS, adota uma atuação profissional pautada na subjetividade dos usuários. A depender do perfil destes, o enfermeiro pode ofertar tratamento na forma de psicoterapia de grupo, sessão de psicodrama, grupo de acompanhamento ao uso de psicofármacos, grupo de sala de espera, técnicas de relaxamento dirigido, meditação e aquecimento com exercício físico com inúmeros objetivos como vivenciar relações interpessoais em ambiente protegido de grupo, favorecer o autoconhecimento, compartilhar de problemas semelhantes, resgatar a criatividade e a espontaneidade dos usuários, ajudá-los para melhor compreender a própria doença e a entender que existem formas complementares de lidar com ela que, associadas aos medicamentos, podem propiciar mais qualidade de vida e autonomia. O enfermeiro realiza, ainda, visitas domiciliares, triagem de atendimento, coordenação de serviço e estruturação de grupos terapêuticos (FRAGA, 2000). 42 Figura 12 – Estrutura física de um CAPS Fonte: https://encrypted-tbn3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQHe5sNp4Hi4-sHPXN4Np1jMA TPzksd4mJzXWLRhmaUgfVnc5_G. Acesso em: 19 ago. 2022. Figura 13 – Passo a passo do atendimento psicossocial inicial Fonte: https://www.cartaosus2020.com/psiquiatra-como-conseguir-consulta/. Acesso em: 19 ago. 2022. 43 Figura 14 – Passo a passo do atendimento psicossocial em crise Fonte: https://www.noticianatela.com.br/2022/01/saude-mental-campanha-de-alerta-para.html Acesso em: 19 ago. 2022. Outro ponto de cuidado da área de saúde mental, a Atenção Residencial Transitória, contempla as Unidades de Acolhimento e as Comunidades Terapêuticas. No que diz respeito às Unidades de Acolhimento (UA), elas correspondem a dispositivos de atenção residencial, incluindo abordagem para os usuários de álcool e outros tipos de drogas. São serviços substitutivos que asseguram direitos de moradia, educação, convivência de âmbito familiar e social; tudo o que confere oportunidade de projeção da cidadania. Muitas literaturas as consideram como uma parcela do projeto terapêutico desenvolvido dentro do CAPS-AD, uma vez que objetivam a reinserção social através de espaço para convivência, trabalho e atividades lúdicas, contribuindo para atenuar possíveis preconceitos, e ampliar a autonomia do usuário. Nesses serviços, o enfermeiro baseia sua atuação profissional na ampliação de trocas, circulação de diferenças e promoção de um espaço no qual os egressos das internações psiquiátricas sejam efetivamente sujeitos de si, ou seja, de sua vida (SUIYAMA; ROLIM; COLVERO, 2007). 44 A Portaria nº 121/12 instituiu as Unidades de Acolhimento, ao passo que a Portaria nº 855/12 esclareceu seus procedimentos. Estas e outras informações podem ser visualizadas no link disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/ saudelegis/gm/2012/prt0121_25_01_2012.html. DICAS Os usuários nelas acolhidos vivenciam o processo de corresponsabilização de tarefas, pois executam a divisão do trabalho em relação ao que desempenham dentro delas. Isso tudo é discutido e pactuado a partir de assembleias semanais. No que concerne ao funcionamento, é sabido que funcionam por 24 horas, podendo o usuário permanecer nela por um período de seis meses. Normalmente, os profissionais nelas atuantes são os terapeutas especializados em dependência química, e uma outra equipe de agentes redutores de danos, atuantes numa escala de 12x36 horas. A fachada de uma Unidade de Acolhimento está apresentada na Figura 15 que segue. Figura 15 – Fachada de uma unidade de acolhimento Fonte: https://www.fortaleza.ce.gov.br/noticias/prefeitura-inaugura-nova-unidade-de- acolhimento-para-usuarios-de-alcool-crack-e-outras-drogas. Acesso em: 19 ago. 2022. 45 O dispositivo de referência da UA é o CAPS, portanto, os dois precisam ser ou estar bem articulados, obedecendo alógica da clínica ampliada e solicitando aceite por parte do usuário nessa pactuação. ATENÇÃO Partindo-se agora para as considerações a respeito das Comunidades Tera- pêuticas (CT), pontua-se aqui que elas também são dispositivos de caráter residencial, porém pautadas na convivência entre os pares e na capacidade voluntária para sanar problemas atrelados ao uso de substâncias psicoativas. São serviços regulamentados pela Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nº 29/2011, bem como pela Resolução nº 01/2015 do Conselho Nacional e Polí- ticas sobre Drogas (CONAD) (CANÔNICO; NEVES; SOUZA et al., 2018). Ainda conforme Canônico et al. (2018), as regulamentações que merecem des- taque a respeito das CT são: precisam comunicar o início e o encerramento de suas atividades, bem como o seu programa de acolhimento, para os órgãos de controle e atuar de forma integrada com a rede de cuidados; garantir que todos os acolhidoste- nham passado por avaliação prévia na rede de saúde; devem elaborar Plano de Atendi- mento Singular (PAS), em consonância com o Programa de Acolhimento da entidade; precisam desenvolver atividades recreativas, de desenvolvimento da espiritualidade, de promoção do autocuidado e da sociabilidade e de capacitação, de promoção da apren- dizagem, formação e as atividades práticas inclusivas; devem informar os critérios de admissão, permanência e saída; necessitam permitir a visitação de familiares, bem como acesso aos meios de comunicação que permitam contato com familiares; não devem praticar ou permitir ações de contenção física ou medicamentosa, isolamento ou restrição à liberdade da pessoa acolhida; precisam manter os ambientes de uso dos acolhidos livres de trancas, chaves ou grades; não podem praticar ou permitir castigos físicos, psicológicos ou morais, nem utilizar expressões estigmatizantes com os acolhi- dos ou familiares; não podem submeter os acolhidos a atividades forçadas ou exaus- tivas, sujeitando-os a condições degradantes; e devem garantir ao acolhido o direito à privacidade. A seguir, tem-se a ilustração de usuários de uma Comunidade Terapêutica realizando atividade de recreação com música na Figura 16. 46 Figura 16 – usuários em atividade com música em uma comunidade terapêutica Fonte: l1nq.com/8WALH. Acesso em: 19 ago. 2022. Para a atenção hospitalar, os dispositivos que abrangem cuidados destinados a pessoas em sofrimento psíquico são os leitos ou enfermarias especializadas em hospitais gerais. Veja na Figura 17 o cenário desse dispositivo. Nesses dispositivos, a prática da enfermagem ainda está voltada prioritaria- mente para a abordagem clínica, ou seja, curativa. O enfermeiro foca na terapêutica medicamentosa; contenção verbal, química ou mecânica; medidas de vigilância e con- trole de relacionamento interpessoal para com seus pacientes; além das atividades bu- rocráticas de gestão do cuidado (MACHADO; COLVERO, 2003). Figura 17 – Enfermaria psiquiátrica em hospital geral Fonte: https://img.jornalcruzeiro.com.br/img/2014/08/05/media/156972_CSA050814A005F01.jpg. Acesso em: 19 ago. 2022. 47 Os hospitais gerais são dispositivos de atendimento à população em suas mais variadas enfermidades, mas que também apresentam um determinado setor, ala ou andar destinado à internação de pacientes que possuem transtornos psiquiátricos. Essa internação é de curta duração, ou seja, o paciente não vai residir no hospital, como acontecia em hospitais exclusivamente psiquiátricos. O acesso a esses hospitais para o processo de internação ocorre através da central de regulação de leitos ou pelo CAPS, a depender da logística de cada município. A Lei Antimanicomial nº 10.216/01 estabelece aspectos legais no que diz respeito ao processo de internação (CANÔNICO et al., 2018). A saber: Art. 4º A internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes. § 1º O tratamento visará, como finalidade permanente, à reinserção social do paciente em seu meio. § 2º O tratamento em regime de internação será estruturado de forma a oferecer assistência integral à pessoa portadora de transtornos mentais, incluindo serviços médicos, de assistência social, psicológicos, ocupacionais, de lazer, e outros. § 3º É vedada a internação de pacientes portadores de transtornos mentais em instituições com características asilares, ou seja, aquelas desprovidas dos recursos mencionados no § 2º e que não assegurem aos pacientes os direitos enumerados no parágrafo único do Art. 2º. IMPORTANTE Existem, também, dispositivos classificados dentro da lógica de estratégias de desinstitucionalização, como os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT). Uma de suas definições mais completas está descrita a seguir: As Residências Terapêuticas são moradias inseridas preferencialmente na comunidade, destinadas a acolher pessoas com internação de longa permanência (dois anos ou mais ininterruptos), egressas de hospitais psiquiátricos e hospitais de custódia. A inserção em um SRT compõe o longo processo de reabilitação que deverá buscar a progressiva inclusão social do morador. Assim, as Residências Terapêuticas constituem-se como alternativas de moradia para um grande contingente de pessoas que estão internadas há anos em hospitais psiquiátricos por não contarem com suporte adequado na família e na comunidade (FORMIGONI; DUARTE, 2018, p. 87). A Figura 18 traz uma cartilha que expressa a representatividade de um Serviço Residencial Terapêutico. 48 Figura 18 – Serviço residencial terapêutico Fonte: https://pt.slideshare.net/Ministerio_Publico_Santa_Catarina/manual-sobre-residencias- terapeuticas. Acesso em: 19 ago. 2022. Outra modalidade de dispositivo de cuidado em saúde mental é o Hospital-Dia (HD). Ele consiste em um serviço através do qual pessoas com quadros psiquiátricos de neuroses e/ou psicoses recebem suporte psicoemocional para seu processo de reabilitação e reinserção social. Sua indicação, portanto, visa atender a pacientes que revelem dificuldades no que tange à convivência social, seja ela é de natureza familiar, laboral ou afetiva, independente até de sua faixa etária e do seu diagnóstico psiquiátrico. O paciente em tratamento no Hospital-Dia recebe abordagem de membros de uma equipe multidisciplinar, composta por médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e farmacêuticos. Seu período de funcionamento se dá em dias úteis em horário comercial. Em um momento inicial, o paciente passa pelo processo de acolhimento, etapa em que ele e seus possíveis acompanhantes são ouvidos por algum profissional de referência, a fim de que se possa detectar sus principais demandas. Logo após este momento, um plano terapêutico individual será confeccionado, contemplando, dentre outros aspectos, a frequência semanal dos atendimentos pelos quais o paciente passará, bem como os grupos terapêuticos dos quais ele participará. A seguir, nas Figuras 21 e 22, tem-se um grupo terapêutico sendo realizado com usuários de um Hospital-Dia. 49 Figura 19 – Atendimento de usuários em hospital-dia Fonte: https://www.saude.ce.gov.br/2020/08/20/hospital-dia-lugar-de-vida-retoma-atendimento-a- pacientes-com-transtornos-mentais/. Acesso em: 19 ago. 2022. Figura 20 – Usuários realizando dinâmica de grupo em hospital-dia Fonte: https://www.saude.ce.gov.br/2020/08/20/hospital-dia-lugar-de-vida-retoma-atendimento-a- pacientes-com-transtornos-mentais/. Acesso em: 19 ago. 2022. Para saber mais sobre hospital-dia, acesse o link a seguir e assista ao vídeo sobre essa modalidade de dispositivo. Acesse em: https://holiste.com.br/o-que- e-um-hospital-dia-de-saude-mental-webvideo/. DICAS 50 Nos hospitais-dia de saúde mental, o enfermeiro executa procedimentos assistenciais diretos e indiretos através de ações nos âmbitos individual e coletivo, priorizando o fomento à autonomia dos usuários (DAMÁSIO; MELO; ESTEVES, 2008). Por fim, um último dispositivo de cuidado em saúde mental a ser aqui abordado é a equipe de Consultório de Rua (e-CR). Esses consultórios realizam atendimentos ditos extramuros, ou seja, para além da alçada hospitalar, para pessoas que usam drogas psicoativas e que se encontram em condições de extrema vulnerabilidade social. Complementando suas características fundamentais: São dispositivos clínico-comunitários que ofertam cuidados em saúde aos usuários em seus próprios contextos de vida, adaptados para as especificidades de uma população complexa. Promovem a acessibilidade a serviços da rede institucionalizada, a assistência integral e a promoção de laços sociais para os usuários em situação de exclusão social, possibilitando um espaço concreto do exercício de direitos e cidadania (BRASIL, 2010b, p.10). A equipe de atuação desses consultórios também é multidisciplinar com expertise em saúde mental: médicos,enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, redutores de danos, técnicos de enfermagem e educadores sociais. Eles exercem sus funções literalmente nas ruas, necessitando para isso de um carro (Kombi, Van) cedido pela prefeitura. Esse carro, além de transportar os membros da equipe e os insumos de que se utilizam, se constituem referência para os usuários, uma vez que, ao visualizarem o carro, já sabem que ali se encontram profissionais de saúde que apenas lhes fazem bem. Isso contribui para a criação positiva de vínculo do binômio usuário-profissional. Daí, infere-se a importância de o veículo apresentar identificações institucionais, com o nome Consultório de Rua – SUS. Como os consultórios não tem infraestrutura física fixa, faz-se necessário que eles demarquem um ponto estratégico para realizar suas intervenções, e em dias e horários pactuados com os usuários, com o intuito de estabelecer uma referência e tornar os contatos mais constantes e acessíveis para eles. O trecho a seguir ratifica a ideia contida nesta explicação: Diferentemente do trabalho dentro de uma instituição, quando é o usuário que busca o serviço e cujas condições de atendimento já estão dadas, com toda a ambiência ajudando a compor o setting terapêutico, incluindo o lugar que o profissional ocupa na organização do serviço, na rua esses “lugares” precisam ser construídos a partir do trabalho e da posição em que os profissionais se colocam para os usuários. No seu posicionamento, a equipe deve explicitar o propósito da presença do Consultório de Rua e quais as características do seu trabalho, diferenciando-o de outras ações desenvolvidas na rua, como ações de cunho caritativo. Assim, gradativamente, vai-se demarcando o lugar do Consultório de Rua, enquanto um dispositivo do campo da saúde (BRASIL, 2010b, p. 11). 51 Quando um município conta com população superior a 300 mil habitantes e apresenta um perfil epidemiológico considerável de usuários de substâncias psicoativas, isso se caracteriza como indicações diretas para a implantação de equipe de Consultório de Rua. Para que ele seja operacionalizado, portanto, é imprescindível que se realize o mapeamento da cidade, identificando locais em que existam maior concentração de jovens sob situação de risco psicossocial e em uso de drogas. Em seguida, faz-se a abertura de campo, ou seja, uma busca pela identificação de lideranças comunitárias, para lhes solicitar aval de atuação da equipe de Consultório de Rua em território específico, sem que isso venha a interferir de forma negativa no seu espaço social (GIOVANNI et al., 2010). Você sabia que os Consultórios de Rua têm diretrizes próprias? Sim, elas existem e estão documentadas (BRASIL, 2010a). São elas: - Constituir-se como dispositivos públicos componentes da rede de atenção integral em álcool e outras drogas, que ofereçam ações de promoção, prevenção e cuidados primários no espaço da rua a usuários com problemas decorrentes do uso de substâncias psicoativas. - Priorizar o direito ao tratamento de qualidade a todo usuário de álcool e outras drogas, ofertado pela rede de serviços públicos de saúde, assegurando o acesso a ações e serviços compatíveis com as demandas dos usuários. - Promover ações que enfrentem as diversas formas de vulnerabilidade e risco, especialmente em crianças, adolescentes e jovens. - Ter como eixo político o respeito às diferenças, a promoção de direitos humanos e da inclusão social, o enfrentamento do estigma. - Atuar a partir do reconhecimento dos determinantes sociais de vulnerabilidade, risco e dos padrões de consumo, levando em consideração a estreita relação entre a dinâmica social e os processos de adoecimento. - Assegurar o cuidado no território, na perspectiva da integralidade, do trabalho em redes, garantido uma atenção diversificada aos usuários de álcool e outras drogas. - Priorizar as ações dirigidas às crianças e adolescentes em situações de vulnerabilidade, haja vista a iniciação cada vez mais precoce do consumo de substâncias psicoativas e as graves repercussões do seu uso no desenvolvimento psicossocial dos jovens. - Considerar a rede social de relacionamento da população alvo, como fatores de agravamento ou redução das condições de vulnerabilidade, isto é, levar em conta fatores de risco e de proteção, em cada contexto. - Incentivar o trabalho de natureza interdisciplinar e enfoque intersetorial, considerando a complexidade que envolve os contextos de vida da população que vive em situação de rua, e a necessidade de ações de atenção integral aos usuários de psicoativos com tais características; - Manter articulação permanente da rede de saúde e intersetorial visando à sensibilização dos serviços e profissionais da rede para o acolhimento com qualidade aos usuários de drogas em situação de rua. - Garantir o alinhamento com as diretrizes da Política para Atenção Integral a Pessoas que Usam Álcool e Outras Drogas, do Plano Emergencial de Ampliação do Acesso ao Tratamento e Prevenção em Álcool e outras Drogas, do Plano Integrado de Enfrentamento do Crack, da Política Nacional de Saúde Mental, da Política Nacional de DST/AIDS, da Política de Humanização e da Política de Atenção Básica do Ministério da Saúde. NOTA 52 Após a explanação das características pormenorizadas das equipes de Consultório de Rua, segue demonstração ilustrativa de duas figuras, 21 e 22, a respeito do emblema dessas equipes e da atuação de seus membros. Figura 21 – Ambulância do consultório de rua Fonte: https://gcpstorage.caxias.rs.gov.br/images/2020/10/503c0722-f144-4244-b0dd- fc0dcde567ca_1000.jpg. Acesso em: 20 ago. 2022. Figura 22 – Atendimento da equipe de consultório de rua Fonte: https://www.ipatinga.mg.gov.br/detalhe-da-materia/info/consultorio-na-rua-amplia-equipe- com-a-inclusao-de-medico/95169. Acesso em: 20 ago. 2022. 53 Dentre as atribuições do enfermeiro nas equipes de Consultório de Rua, citam- se: realização de atenção integral e reabilitação social; supervisão e coordenação de técnicos de enfermagem e agentes sociais; realização de consulta de enfermagem e atividades em grupo; realização de atividades programadas e de atenção à demanda espontânea; contribuir na construção de um projeto terapêutico singular; organizar insumos necessários ao funcionamento do dispositivo em questão e participar das atividades de educação permanente da equipe (BRASIL, 2012). 4 REDE DE APOIO SOCIAL EM SAÚDE MENTAL Quando se fala em rede de apoio social em saúde mental, urge lembrar que ela tomará como referência a implementação de políticas de assistência social. A assistência social passou a ser regulamentada após a promulgação da Constituição de 1988, o que pode ser conferido através da Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) ou Lei nº 8742/1993. Os objetivos desta Lei são a proteção social, que tem por intuito a garantia de vida e a redução de danos; a vigilância socioassistencial, que tem por intenção a detecção de vulnerabilidades nas famílias em seus territórios; e a defesa dos direitos, que visa garantir o pleno acesso aos direitos de forma geral. Esses objetivos foram materializados através da implementação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), inserido dentro da Política Nacional de Assistência Social (PNAS). A PNAS é dotada de algumas diretrizes principais: descentralização político- administrativa; participação popular; destaque responsório do Estado e centralidade na família. IMPORTANTE O Sistema Único de Assistência Social (SUAS), por sua vez, gere a assistência social em território nacional, organizando a Política de Assistência Social sob os seguintes princípios organizativos: supremacia do atendimento às necessidades sociais; universalização dos direitos sociais; respeito à dignidade do cidadão, a sua autonomia e ao seu direito a benefícios e serviços de qualidade, bem como à convivência familiar e comunitária; igualdade de direitos no acesso ao atendimento, sem discriminação de qualquernatureza; e divulgação ampla dos benefícios, serviços, programas e projetos assistenciais, bem como dos recursos oferecidos pelo Poder Público e dos critérios para sua concessão (NEVES et al., 2018). 54 Torna-se compreensível o porquê da inserção deste tópico nesta unidade, pois os cuidados aplicados aos usuários portadores de transtornos mentais e os usuários de substâncias psicoativas são norteados por princípios semelhantes aos considerados por tais políticas. Esses pacientes, quase em sua totalidade, encontram-se sob condições de extrema vulnerabilidade social, sendo marginalizados do convívio para com os demais membros da população; cenário que exige mudanças o mais breve possível. O trabalho dos assistentes sociais é de suma importância dentro de dispositivos que ofertam serviços de saúde mental. Eles precisam estar inseridos na composição da equipe multiprofissional que trabalha para eles, dialogando com todos os demais integrantes a respeito dos projetos terapêuticos singulares de cada usuário. Dessa forma, a equipe estará bem articulada e os pilares da promoção, prevenção, tratamento e reabilitação da saúde, em sua total funcionalidade, pois todos os atores participam do processo de cuidado. A grande estratégia de atuação dos assistentes sociais consiste na implementação de um conjunto de serviços, programas, projetos e benefícios para atenuar situações de vulnerabilidades sociais a partir da Proteção Social Básica. A família serve de referência em todo esse percurso e a principal modalidade de operacionalização dessa proteção se dá através dos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS), uma vez que eles funcionam como dispositivos que servem para articular a rede de serviços protetivos através de encaminhamentos, estabelecimento de fluxos, intervenções e promoção da intersetorialidade. Os Serviços de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF) e os Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) estão inseridos nos CRAS e na lógica da proteção social básica (NEVES et al. 2018). No Quadro 3 a seguir, encontra-se um quadro com a exemplificação compa- rativa desses dois serviços. Percebe-se que ambos realizam atendimentos aos mem- bros da população. Quadro 3 – Comparação entre os serviços protetivos PAIF e SCFV Organização dos serviços de Proteção Social Básica PAIF SCFV Atendimentos e Ações individuais Ações coletivas Atendimento e ações coletivas Acolhida Grupos Ações particularizadas Oficinas com famílias Oficinas Ações comunitárias Encaminhamento Ações comunitárias Fonte: Adaptado de Brasil (2016) 55 Além da Proteção Social Básica, existe a Proteção Social Especial, que revela como diferencial o público-alvo, que corresponde a cidadãos e famílias com a problemática decorrente do uso de substâncias psicoativas, de violência, de abandono, situação de rua, trabalho infantil, ou seja, pessoas que tiveram seus direitos básicos violados a partir do convívio com membros da família biológica. Seu caráter é preventivo e ela é subdividida em duas modalidades principais: a Proteção Social Especial de Média Complexidade e a Proteção Social Especial de Alta Complexidade. Fazendo-se uma analogia aos CRAS que integra a proteção social básica; na proteção social especial existem os Centros de Referência Especializadas da Assistência Social (CREAS). No Quadro 4, observa-se um comparativo entre essas duas modalidades, focando os serviços por elas ofertados. Média Complexidade Alta Complexidade • Serviço Especializado de Abordagem Social a pessoas em situação de rua (SEAS) • Serviço Especializado de Abordagem a Adultos em situação de rua (SEAS Adulto) • Serviço Especializado de Abordagem a Crianças e Adolescentes em situação de rua (SEAS Crianças e Adolescentes) • Serviço Especializado de Abordagem a Pessoas que fazem uso das ruas para o consumo ou abuso de substâncias psicoativas em cenas de uso (SEAS 4) • Núcleos de convivência para pessoas em situação de rua • Núcleos de apoio e reabilitação na comunidade e inclusão social para pessoas com deficiência • Serviços de medidas socioeducativas em meio aberto • Prestação de serviço à comunidade • Serviços de orientação e apoio sociofamiliar • Liberdade assistida • Serviços de plantão social • Núcleo de Proteção Jurídico-Social e Apoio Psicológico (NPI) • Os equipamentos de acolhimento institucional para crianças e adolescentes • Família acolhedora ou substituta • Centros de acolhida emergencial • Centros de acolhida para adultos • Centros de acolhida especial, que se destinam a públicos específicos, oferecendo atendimento diferenciado, respeitando os diferentes ciclos de vida, gênero, período de convalescença e famílias como: Idosos, Mulheres; Gestantes, Mães e Bebês; Famílias imigrantes; transexuais • República social • Serviços de medidas socioeducativas restritiva e privativa de liberdade, semiliberdade, internação provisória, internação sentenciada Fonte: Adaptado de Brasil (2016) Quadro 4 – Comparação entre serviços protetivos especiais de média e alta complexidade 56 Para finalizar as considerações a respeito do suporte social à saúde mental, cita- se o dispositivo denominado de Centro Pop, que é de média complexidade e especializado para atendimento a pessoas que estão em condições de rua, direcionando-os para que providenciem a retirada de documentos perdidos, questões de vínculos familiares perdidos, assuntos relacionados a benefícios, oferta de higienização, como o banho e lavagem de roupas (BRASIL, 2012). 57 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu: • Em tempos hodiernos, principalmente após a implementação do Sistema Único de Saúde (SUS), passaram a existir políticas públicas de saúde, bem como aquelas voltadas para a saúde mental, especificamente. • Dentro da Rede de Atenção à Saúde (RAS) estão inseridos os serviços substitutivos de saúde mental (CAPS, residências terapêuticas, centros de convivência, consultórios na rua, dentre outros) que se comunicam pela tecnologia do matriciamento com foco na reinserção e reabilitação social dos usuários, pois a principal ótica do cuidado nessa área, hoje, é promover autonomia para o usuário, possibilitando uma vivência em sociedade mais ou menos parecida com a que ele já tinha antes de se encontrar doente. • Além desses serviços voltados aos cuidados dos usuários, propriamente ditos, existem os serviços de assistência social que prestam apoio à rede de atenção psicossocial (RAPS), com o intuito de tentar atenuar questões extremas de vulnerabilidade a que estão submetidos. 58 AUTOATIVIDADE 1 Os espaços anexos das santas casas de misericórdia serviram como primeiros locais para o cuidado ao indivíduo com problemas mentais. O modelo de cuidado em saúde mental resultante desta iniciativa e que sofreu duras críticas, culminando na Reforma Psiquiátrica, chama-se: a) ( ) Substitutivo b) ( ) Hospitalocêntrico c) ( ) Transitório d) ( ) Escalonado 2 Local de tratamento para pessoas em sofrimento mental, com diagnóstico instalado ou sob efeito de substâncias e que se caracteriza por ser o principal dispositivo substitutivo do cuidado em saúde mental: a) ( ) SRT. b) ( ) UA. c) ( ) CAPS. d) ( ) CECCO. 3 Quem reside na rua está altamente propenso à utilização de substâncias químicas chamadas de drogas psicoativas, o que lhes acarreta problemas de saúde diversos, incluindo aqueles atrelados aos de natureza mental. Diante disso, qual o dispositivo de cuidado em saúde mental que atende a população em situação de rua: a) ( ) Consultório na rua. b) ( ) Consultório de rua. c) ( ) Consultório da rua. d) ( ) Consultório para rua. 4 Falar em determinantes em saúde mental remete a alguns aspectos da saúde pública, o que não deixa de fazer sentido, já que as políticas públicas na área de saúde mental também estão, após anos de luta, inseridas no panorama do Sistema Único de Saúde (SUS). Qual a relação entre determinantes de saúde mentale desenvolvimento de transtornos mentais? 5 A interrupção dos serviços substitutivos coloca o hospital psiquiátrico novamente no centro do cuidado em saúde mental, o que implicará atenuação do acesso a uma atenção de qualidade; elevação de violações de direitos humanos e intensificação da marginalização das pessoas com sofrimento de natureza mental. Diante do exposto, cite os principais dispositivos substitutivos do cuidado em saúde mental. 59 TÓPICO 3 - ORGANIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA NA REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE MENTAL (RAPS) 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 1 A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que foi regulamentada pela Portaria nº 3.088, de 23 de dezembro de 2011 e instituída pelo Decreto Presidencial nº 7508, do mesmo ano, tem como componentes a Estratégia de Saúde da Família (ESF), os Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF), as Equipes de Consultório na Rua, os Centros de Convivência e Cultura, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS – principais dispositivos), as Unidades de Acolhimento, as Comunidades Terapêuticas, os Serviços de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), as Unidades de Pronto Atendimento (UPA), os Hospitais Psiquiátricos Gerais, os Serviços Residenciais Terapêuticos, Programa Geração de Renda e o Programa De Volta Para Casa (FORMIGONI; DUARTE, 2018). Na Figura 23 a seguir, enaltece-se a organização da RAPS. Figura 23 – Organização da RAPS Fonte: https://marcozero.org/a-rede-de-atencao-psicossocial/. Acesso em: 20 ago. 2022. CONSULTO- RIO DE RUA UNIDADE BÁSICA DE SAÚDE NÚCLEO DE APOIO A SAÚDE DA FAMÍLIA NASF EQUIPE DE AB DE APOIO AS CT COMUNIDADE TERAPÊUTICA CENTRO ESPECIA- LIZADO EM ÁLCOOL E DROGAS CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL ENFERMARIAS ES- PECIALIZADAS EM ÁLCOOL E DROGAS UNIDADE DE ACOLHI- MENTO TERAPÊUTICO TRANSITÓRIO UATT I UNIDADE DE ACOLHI- MENTO TERAPÊUTICO TRANSITÓRIO UATT II 60 2 LINHA DE CUIDADO EM SAÚDE MENTAL (CONSTRUÇÃO COLETIVA) A criação do SUS é baseada em alguns princípios, tais como universalidade, igualdade e integralidade. Dentre eles, este último é considerado um princípio doutrinário desse Sistema, e pode ser definido como um conjunto articulado e contínuo das ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema (BRASIL, 1990). Para garantir a integralidade de forma eficaz, se faz necessário operar mudanças na produção do cuidado, a qual se encontra muito deficitária, em todos os níveis assistenciais. A implementação da tecnologia das Linhas de Cuidado (LCs), por exemplo, é capaz de ampliar e estender o domínio deste princípio (MERHY et al., 2003; CARRIJO, 2012). Entende-se por Linhas de Cuidado, estratégias gerenciais capazes de organizar o percurso dos usuários pela rede de serviços e de qualificar as portas de entrada do sistema, permitindo que a equipe de profissionais de saúde acolha, compreenda, corresponsabilize, crie um vínculo e produza autonomia, ofertando, pois, um atendimento de qualidade voltado para as necessidades de cada indivíduo. Dessa forma, elas reorganizam os serviços de saúde, superando a fragmentação da prática e alcançando uma assistência integral (MARINHO et al., 2011). Assim, é possível fazer uso de uma expressão conhecida por “Linha de Cuidado Integral”, a qual incorpora a ideia da integralidade na assistência à saúde, o que significa unificar ações preventivas, curativas e de reabilitação; proporcionar o acesso a todos os recursos tecnológicos que o usuário necessita, e ainda requer uma opção de política de saúde e boas práticas dos profissionais. O cuidado integral é pleno, feito com base no ato acolhedor do profissional de saúde, no estabelecimento de vínculo e na responsabilização diante do seu problema de saúde (FRANCO; SANTOS; SALGADO, 2011). Tratando-se especificamente do campo da Saúde Mental, pode-se dizer que a atual Política brasileira referente à área preconiza uma Linha de Cuidado pautada nos legados da Reforma Psiquiátrica (RP), os quais enfatizam uma reorientação do modelo hospitalocêntrico ao modelo de atenção extra-hospitalar. Com base nesse preceito, foi instituída a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), efetivando, portanto, uma rede assistencial substitutiva ao hospital psiquiátrico e objetivando alcançar o patamar de integralidade da atenção em todos os níveis (BORGES, 2016). Para se alcançar uma Linha de Cuidado desinstitucionalizante, entretanto, vários obstáculos necessitam ser superados, pois é fato que existem demandas de atenção muitas vezes não atendidas devido à escassez de recursos, inadequação de assistência profissional, estigmatização, violação dos direitos dos doentes e dificuldade de acesso (BORGES, 2016). Torna-se imprescindível transpor essas barreiras para poder garantir toda uma resolutividade e integralidade do atendimento, sem nenhum resquício de discriminação. 61 Os dispositivos inseridos na Atenção Básica são as Unidades Básicas de Saúde (UBS), dentre as quais algumas são dotadas de Estratégia de Saúde da Família (ESF); os Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF); os Consultórios na Rua e os Centros de Convivência e Cultura (CECCO). Serão abordados, neste tópico, todos, exceto os CECCO, uma vez que eles já foram devidamente caracterizados anteriormente. As UBSs se constituem como serviços de porta de entrada no tocante ao acesso pelo usuário da rede pública de saúde, e estão obedecendo à lógica da territorialização no que diz respeito ao fato de estarem localizadas em proximidade da população adscrita. Nelas, atuam profissionais de diversas categorias, formando uma equipe multiprofissional, a qual trabalha conforme a metodologia de uma clínica ampliada, enxergando e considerando o cidadão em sua totalidade e, consequentemente, desenvolvendo ações de promoção da saúde mental, prevenção e cuidado dos transtornos mentais, todas compartilhadas com os demais dispositivos da rede. Você pode se aprofundar na caracterização das UBSs o que diz respeito à infraestrutura e funcionamento, acessando o link da Portaria nº 2436/2017. Acesse em: 189.28.128.100/dab/docs/publicacoes/geral/pnab.pdf. https:// bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2017/prt2436_22_09_2017.html. DICAS Algumas UBSs contam com Equipes de Estratégia de Saúde da Família (ESFs), desde que elas cubram uma população adscrita de 2000 a 3500 pessoas, assegurando o cumprimento dos princípios e diretrizes do SUS, alcançando a resolutividade das demandas dos usuários. A composição delas também é multiprofissional, englobando as figuras do médico, enfermeiro, técnico de enfermagem e agente comunitário de saúde. Além destes, também podem compor essa equipe, os agentes comunitários de endemias, cirurgiões-dentistas e técnicos de saúde bucal. O diferencial que as ESFs conferem às UBSs é o maior grau de proximidade para com a comunidade e sua realidade, através da realização das visitas domiciliares e da elaboração do projeto terapêutico singular (FORMIGONI; DUARTE, 2018). Com o objetivo de conferir apoio logístico técnico-pedagógico às ESF, o Minis- tério da Saúde criou, em 2008, os Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF). Esse apoio é direcionado para a ampliação das ações de saúde, favorecendo a troca de ex- periências e saberes. Os NASF são literalmente equipes multiprofissionais (nutricionis- tas, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, educadores físicos, arteterapêutas, as- sistentes sociais, farmacêuticos, psicólogos, médicos, sanitaristas, dentre outros) que oferecem cuidados clínicos aos usuários das ESFs na Atenção Básica e que asseguram a longitudinalidade do cuidado quando necessita serem implementadas a referência e contrarreferência, ou seja, os fluxos deles dentro da rede (BRASIL, 2017). https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2017/prt2436_22_09_2017.html https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2017/prt2436_22_09_2017.html 62 Em suma, o trabalho desenvolvido pelos profissionais do NASF segue a óticado matriciamento, uma vez que consegue criar espaços, mesmo não sendo dotada de ambiente físico próprio, de discussão para gerenciar o cuidado e a elaboração conjunta dos projetos terapêuticos singulares. Os NASF são classificados em algumas modalidades específicas de acordo com o número de equipes de saúde da família em territórios bem delimitados. De acordo com a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), as modalidades dos NASFs são as seguintes (BRASIL, 2017): NASF I – (carga horária total: 200 h/semana) – vinculados com 5 a 9 equipes da Esf (equipe de saúde da família) e/ou eAB (equipe de atenção básica) para populações específicas. Cada ocupação deve ter no mínimo 20h e no máximo 80h de carga horária semanal. NASF II – (carga horária mínima de 120h/semana) – vinculados com 3 a 4 equipes da eSF e/ou eAB para populações específicas. Cada ocupação deve ter no mínimo 20h e no máximo 40h de carga horária semanal. NASF III – (carga horária total mínima de 80h/semana) – vinculados com uma ou duas eSF e/ou eAB para populações específicas. Cada ocupação deve ter no mínimo 20h e no máximo 40h de carga horária semanal. NOTA As equipes de Consultório na Rua (eCR) fazem parte da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), tendo sido instituídas pela Portaria nº 122 de 2011 da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB). Elas oportunizam a ampliação do acesso da população moradora de rua em diversos pontos da atenção básica, exercendo sua dinâmica de trabalho de modo itinerante, conforme a lógica da intersetorialidade, proporcionando, também, cuidados na perspectiva da redução de danos e da clínica ampliada (BRIGUET et al., 2018). A composição das equipes de consultório na rua é formada por enfermeiro, médico, assistente social, psicólogo, terapeuta ocupacional, técnico de enfermagem e agente comunitário de saúde e, conforme a lotação desses profissionais, as eCRs são classificadas em três modalidades principais: modalidade I, quando é formada minimamente por quatro profissionais, sendo dois profissionais de nível superior e dois profissionais de nível médio, não incluindo médico; modalidade II, quando é formada minimamente por seis profissionais, sendo três profissionais de nível superior e três profissionais de nível médio, não incluindo médico; e a modalidade III, quando além da equipe da modalidade II é também acrescida de um médico (BRASIL, 2017). 63 Basicamente, todos os serviços ofertados pela Estratégia de Saúde da Família também o são pelas equipes de Consultório na Rua: exames laboratoriais, vacinas, teste rápido para HIV, hepatites B e C e Sífilis, consultas especializadas, exames de imagem, pré-natal, curativos, distribuição de medicamentos e supervisão de doses, tratamento odontológico, dentre outros. A Atenção Psicossocial Estratégica é formada pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que tem revelado um valor estratégico, uma vez que oferecem atendimento clínico especializado a todas as pessoas portadoras de transtorno mental, seja este grave e/ou persistente, embasando-se nos atendimentos individuais e nas práticas de grupo de forma que o sofrimento mental seja acolhido (BRASIL, 2017). A intersetorialidade é alcançada na saúde mental através do CAPS, já que o indivíduo é visto por completo, mas não apenas como uma doença. Dessa forma, as redes se tornam fortalecidas, implicando a implementação de políticas sociais que assegurem a integralidade do usuário através de ações intersetoriais que envolvam educação, esporte, cultura, atividades lúdicas e de lazer (BRASIL, 2013). A atenção às urgências e emergências é composta por serviços de atendi- mento pré-hospitalar, incluindo as demandas de saúde mental e de intoxicação agu- da por uso de substâncias psicoativas, sendo representadas pelo SAMU 192, salas de estabilização, UPA (Unidades de Pronto Atendimento) e emergências hospitalares de forma geral. Esses serviços realizam classificação de risco e tratamento das pessoas com transtorno mental e/ou necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas em situações de urgência e emergência, ou seja, em momentos de crise forte. Veja alguns exemplos na Figura 24. Figura 24 – Serviços de urgência e emergência atuantes na raps Fonte: https://www.cruzdasalmas.ba.gov.br/admin/noticias/5e1628bed4b73.jpg. Acesso em: 20 ago. 2022. 64 Segundo o protocolo do Ministério da Saúde, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192) tem como objetivo chegar precocemente à vítima após ter ocorrido alguma situação de urgência ou emergência que possa levar ao sofrimento, sequelas ou mesmo à morte. Seu atendimento é iniciado a partir do chamado telefônico, quando são prestadas orientações sobre as primeiras ações. A ligação é gratuita para telefones fixo e móvel. Os técnicos do atendimento telefônico identificam a emergência e coletam as primeiras informações sobre as vítimas e sua localização. Em seguida, as chamadas são remetidas ao Médico Regulador, que presta orientações de socorro às vítimas e aciona as ambulâncias quando necessário (QUEVEDO; SCHMITT; KAPCZINSK, 2008). No caso de emergências psiquiátricas, o SAMU deverá ser acionado quando houver agitação e situação de violência, autoagressão ou tentativa de suicídio. Nesses quadros devem ser considerados os seguintes aspectos: agitação psicomotora; alteração súbita de consciência; déficit neurológico agudo; história de inconsciência; história de overdose; história psiquiátrica importante; risco de agressão às outras pessoas; risco de autoagressão (OMS, 2014). Já na UPA, o paciente é acolhido com prioridade de acordo com o protocolo de classificação de risco. O paciente é estabilizado e, em situações de emergência psiquiátrica, é regulado via SAMU e encaminhado para algum hospital geral de referência (QUEVEDO; SCHMITT; KAPCZINSK, 2008). Por fim, no que tange à Estratégia de Reabilitação Psicossocial, é possível citar a o Programa Geração de Renda, que tem como intuito observar usuários com aptidão para produção de algum insumo ou artigo que possa ser colocado à venda sob preço simbólico, gerando trabalho e renda para eles. Isso proporciona a inclusão produtiva, capacitando-os para a inserção no mercado de trabalho de acordo com suas limitações e possibilidades (BRASIL, 2017). O Programa de Volta para Casa, por sua vez, foi instituído por lei federal e se caracteriza por ser uma das estratégias mais eficazes para o desligamento de cidadãos com transtornos mentais da logística de desospitalização tanto nos estados quanto nos municípios. O objetivo é contribuir firmemente para o processo de reinserção social de indivíduos com histórico de longas internações psiquiátricas através de uma remuneração mensal de um auxílio-reabilitação através de um convênio estabelecido entre o Ministério da Saúde e o Banco da Caixa Econômica Federal (BRASIL, 2013). Para saber mais sobre o Programa de Volta para Casa, clique no link a seguir e tenha acesso ao conteúdo de um vídeo que contempla mais detalhes do Programa. https://www.youtube.com/watch?v=H6tvUufX8os. DICAS 65 3 TECNOLOGIAS DO CUIDADO (ACOLHIMENTO, ESCUTA, VÍNCULO, MATRICIAMENTO, ATUAÇÃO EM EQUIPE, AÇÕES INTERSETORIAIS) É sabido que o acolhimento, o vínculo e a responsabilização caracterizam- se como diretrizes das Linhas de Cuidado, uma vez que norteiam todo o processo de trabalho dos profissionais, produzindo cuidado aos usuários e facilitando seu fluxo dentro da rede. Convém explanar, ainda, que elas funcionam com base em Projetos Terapêuticos, que, por sua vez, correspondem ao conjunto dos atos assistenciais pensados para sanar problemas de saúde específicos dos usuários, através de uma avaliação de risco não somente clínico, mas também social, econômico, ambiental e afetivo (FRANCO; SANTOS; SALGADO, 2011). A desinstitucionalização tem tido como alicerces a valorização de tecnologias leves, tais como acolhimento, vínculo, corresponsabilização e autonomia, todas carac- terizadas como diretrizesde Linha de Cuidado. Estas, por sua vez, vêm ressignificando as práticas e os serviços de saúde mental, envolvendo nesse aspecto diferentes atores: usuários, familiares e profissionais (MARTINHAGO; OLIVEIRA, 2015). Pela lógica de raciocínio das LC, novos arranjos vêm sendo exigidos, como trabalho intersetorial, deslocamento das práticas no campo psicossocial para a comunidade, bem como a articulação e integração com as equipes de saúde da família, mediante uma ótica de apoio matricial. Pensar na produção do cuidado de forma sistêmica ou integralizada traz, também, as ideias de construção de laços com outros serviços (intersetorialidade), o que acaba considerando, consequentemente, a continuidade do cuidado (longitudinalidade), bem como de família, que, nas relações de cuidado, passa a ser vista como produto e produtora da prática de saúde. A integralidade do cuidado em saúde mental também pode ser alcançada mediante implementação de outras duas ferramentas: o Projeto Terapêutico Singular (PTS), que se traduz como o conjunto de propostas de condutas terapêuticas articuladas, planejado entre a equipe multidisciplinar e o usuário, de forma que busque resgatar sua autonomia e cidadania; e o Matriciamento, o qual implica no compartilhamento do cuidado entre serviços de saúde, significando a aplicabilidade direta do fluxo assistencial inerente à Linha de Cuidado (BORGES, 2016). Considerando-se outra ótica de integralidade, torna-se importante mencionar o fato de que sua garantia é imprescindível para operar mudanças na produção do cuidado, a partir da rede básica, secundária, da rede de atenção à urgência e de todos os outros níveis assistenciais, incluindo a polêmica atenção hospitalar. Assim, os serviços de saúde mental devem seguir uma vertente de organização em rede, em cada município, nos diversos níveis de complexidade do sistema de saúde, pelas equipes multiprofissionais existentes no território, pelo poder de articulação dos serviços entre si e pelos demais setores sociais (BENEVIDES, 2009). 66 No CAPS, alguns dispositivos de tecnologia leve, propulsores de uma relação terapêutica entre usuário-profissional e inerentes ao processo de funcionamento de uma Linha de Cuidado na área vêm tendo seu uso destacado e valorizado, tais como acolhimento, vínculo, corresponsabilização e autonomia. Dessa forma, torna-se possível inferir que a organização das linhas de produção do cuidado vem assegurando às equipes de saúde mental, as responsabilidades sobre o cuidado, devendo gestar os projetos terapêuticos de seus usuários, garantindo o acesso aos demais níveis de complexidade e a referência e contrarreferência como forma de continuidade do vínculo aos cuidados de todos que necessitam do serviço; e fortalecendo a eficácia e efetividade da relação terapêutica usuário-profissional (JORGE et al., 2014). 67 SAÚDE MENTAL NO BRASIL: AVANÇOS, RETROCESSOS E DESAFIOS Rosana Teresa Onocko Parece impossível, hoje, pensar na Reforma Psiquiátrica Brasileira sem contex- tualizar, na história recente, a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) na Constituinte de 1988 e o advento dos governos progressistas dos anos 2000. Apesar da crise finan- ceira permanente e da restrição orçamentária que se arrastrou desde o momento da criação do SUS e de sua regulamentação, é inegável que a redemocratização e o pro- cesso da Reforma Psiquiátrica permitiram a criação de redes assistenciais ao longo e ao largo do país com grande expansão de serviços comunitários. Esse processo, assentado em valores humanitários e no usufruto de direitos, esteve permanentemente marcado por uma forte disputa ideológica com certo setor da psiquiatria tupiniquim. E, apesar de muito alardeado e de fato efetivado em alguns grandes centros urbanos, no geral, contou com um fraco envolvimento da sociedade civil. Apesar de que a nouvelle familiar da Reforma Psiquiátrica destaque os movimentos de usuários e de trabalhadores como fundantes e importantes, estes movimentos não conseguiram se espalhar pelo Brasil afora e a Reforma foi impulsionada como política pública de saúde e não como reivindicação da sociedade civil. Não queremos com isso negar que houvesse articulação entre esses campos, mas contribuir para a compreensão dos rumos presentes e das defesas possíveis da Reforma. Após quase 30 anos de Reforma Psiquiátrica, a produção científica brasileira permite-nos hoje apontar alguns resultados consolidados na literatura, sendo os principais, comentados a seguir. Houve uma efetiva inversão do gasto em saúde mental, com os serviços comunitários recebendo mais recursos do que os hospitais psiquiátricos desde 2006. Os serviços comunitários brasileiros são, quase em sua maioria, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) nas modalidades I, II ou III (com leitos-noite). Houve fechamento de leitos em hospitais monovalentes, hoje reconhecidos como ineficazes pela literatura mundial (processo inconcluso, do qual ainda restam em diversos lugares do país inúmeros hospitais monovalentes com práticas de duvidosa efetividade e suspeitas de maus-tratos a pacientes). É preciso destacar que a expansão de serviços comunitários está praticamente estanque após 2011, e que se carece de dados após 2015, numa lamentável perda de transparência do Ministério da Saúde. LEITURA COMPLEMENTAR 68 Também vale ressaltar que, apesar dessa importante expansão de cobertura de serviços comunitários, permaneceu a falta de escala para alguns dispositivos relevantes para a efetivação do recovery na sociedade como o Programa de Volta para Casa, os centros de convivência, os centros de geração de renda etc. (...). FONTE: adaptada de ONOCKO-CAMPOS, R. T. Saúde mental no Brasil: avanços, retrocessos e desafios. Cad. Saúde Pública, v. 35, n. 11:e00156119, 2019. 69 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu: • A rede de atenção psicossocial (RAPS) está organizada conforme princípios e diretrizes do SUS, como os doutrinários (universalidade, equidade e integralidade), bem como os organizativos (hierarquização, descentralização, regionalização e participação social). • Dentro dessa rede, o usuário perpassa por vários dispositivos de cuidado e esse itinerário que ele realiza é compreendido como linha de cuidado em saúde mental. • A linha de cuidado em saúde mental é regida pela utilização de algumas tecnologias leves e complexas do cuidado como vínculo (estabelecimento de uma relação pactuada entre profissional e usuário), acolhimento (escuta amiga da demanda em saúde do paciente), matriciamento (dinamismo da comunicação entre serviço de referência e outros da rede por onde o usuário passou), dentre outras. 70 AUTOATIVIDADE 1 Quando uma pessoa está com demanda de saúde de natureza mental, ele pode perpassar por vários dispositivos de cuidado que integram a rede de atenção psicossocial. Dessa forma, como se denomina o itinerário do usuário na RAPS: a) ( ) Matriciamento. b) ( ) Acolhimento. c) ( ) Linha de cuidado em saúde mental. d) ( ) Vínculo. 2 Quando um indivíduo acessa a porta de entrada de um serviço de atenção à saúde com alguma demanda, ele não pode sair desse dispositivo sem ter recebido a mínima atenção de algum profissional de saúde, em um processo denominado de acolhimento. Qual a tecnologia leve do cuidado em saúde mental que é implementada no acolhimento: a) ( ) Vínculo. b) ( ) Escuta. c) ( ) Matriciamento. d) ( ) Ação intersetorial. 3 Com a instituição da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), urgiu a necessidade de implementar a clínica ampliada, atendendo o indivíduo em todas as esferas do cuidado, física, psíquica e social, o que levou, por exemplo, ao surgimento da RAPS. Assim, qual a portaria que regulamentou a funcionalidade da RAPS: a) ( ) 3088/11. b) ( ) 3090/11. c) ( ) 7508/11. d) ( ) 7580/11. 71 4 Para garantir a integralidade de forma eficaz, se faz necessário operar mudanças na produção do cuidado, a qual se encontra muito deficitária,em todos os níveis assistenciais. A implementação da tecnologia das Linhas de Cuidado (LCs), por exemplo, é capaz de ampliar e estender o domínio deste princípio (MERHY et al., 2003; CARRIJO, 2012). Conceitue linha de cuidado em saúde mental. Fonte: MERHY, E. E. et al. O trabalho em saúde: olhando e experienciando o sus no cotidiano. Hucitec, São Paulo, 2003. CARRIJO, E. R. Implementação das linhas de cuidado na saúde pública brasileira: O caso da unidade de saúde escola da UFSCar. 2012. 88 f. Dissertação (Mestrado em Ciência Política) –Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2012. 5 Dentro da Rede de Atenção à Saúde (RAS) estão inseridos os serviços substitutivos de saúde mental (CAPS, residências terapêuticas, centros de convivência, consultórios na rua, dentre outros) que se comunicam pela tecnologia do matriciamento com foco na reinserção e reabilitação social dos usuários, pois a principal ótica do cuidado nessa área, hoje, é promover autonomia para o usuário, possibilitando uma vivência em sociedade mais ou menos parecida com a que ele já tinha antes de se encontrar doente. Diante do exposto, explique o que é o matriciamento. 72 REFERÊNCIAS AIKEN, T. D. Legal, ethical, and political issues in nursing. 2nd ed. Philadelphia: F. A. Davis, 2004. ALMEIDA, J. M. C. Política de saúde mental no Brasil: o que está em jogo nas mudanças em curso. Cad. Saúde Pública, Lisboa, v. 35, n. 11, p. 1-6, out. 2019. 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A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – TRANSTORNOS DO HUMOR TÓPICO 2 – SÍNDROMES ANSIOSAS, TRANSTORNO DO ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO E TRANSTORNOS PSICÓTICOS TÓPICO 3 – TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE TÓPICO 4 – SÍNDROMES RELACIONADAS À ALIMENTAÇÃO, À SEXUALIDADE, AO SONO E AO ABUSO DE SUBSTÂNCIAS TÓPICO 5 – CRISE/EMERGÊNCIA PSIQUIÁTRICA TÓPICO 6 – FUNÇÕES PSÍQUICAS E PSICOFARMACOLOGIA Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 80 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 2! Acesse o QR Code abaixo: 81 TÓPICO 1 — TRANSTORNOS DO HUMOR UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, serão abordados dois tipos de transtornos mentais principais e que, comumente, são denominados de transtornos do humor. Antes de caracterizar cada um, porém, faz-se necessário conversar um pouco sobre alguns conceitos importantes e clássicos. Pois bem, dentre os conceitos supracitados, serão aqui definidos os termos “síndrome” e “transtorno”. Neste momento, talvez você tenha se perguntado: “Esses termos não são iguais?” A resposta é clara e uma só: não! Você sabe a diferença entre os dois? Eles serão esclarecidos a partir de agora. A síndrome significa um conjunto de sintomas. Entenda esse conjunto como sendo uma reunião, quando se considera o real sentido da palavra, ou seja, sua etimologia. Além, disso, partindo-se da premissa que este tópico tratará de doenças, pode-se inferir que a síndrome é essa reunião ou conjunto de diversos e diferentes sintomas que ocorrem em uma determinada doença, mas que não tem uma etiologia definida. Por outra vertente, diz-se que a síndrome pode desvelar inúmeras origens, bem como pode ser que ela nunca exiba um comportamento unicausal genuíno. O transtorno, por sua vez, é aquilo que tem a capacidade de perturbar, desorganizar e transtornar, mesmo em seu sentido mais literal enquanto palavra. Dessa forma, surge a ideia de que desorganizaçãona saúde não implica obrigatoriamente uma doença, mesmo ocasionando prejuízos de natureza mental. Para os profissionais que atuam nessa área de saúde mental ou psiquiatria, os transtornos mentais assolam quesitos diversos da vida do indivíduo e podem ser provenientes de lacunas biológicas concomitantes às psicológicas, ou não. Agora que você entendeu as principais diferenças entre esses termos, torna- se possível pontuar sobre as síndromes depressivas e maníacas, onde se inserem dois transtornos do humor principais, como a depressão e o transtorno afetivo bipolar. Urge, também, a conveniência de dialogar a respeito do humor propriamente dito. Por outro lado, como muitas literaturas se utilizam da nomenclatura “transtorno afetivo” ao se referirem aos transtornos do humor, torna-se pertinente explanar alguns esclareci- mentos a respeito do que vem a ser humor e do que vem a ser afeto ou afetividade. 82 A afetividade está relacionada aos sentimentos de uma forma geral, ou melhor, das experiências internas de cada pessoa, as suas emoções, aos seus prezares; todos manifestados sob as mais variadas nuances. Também costuma ser admitida como uma das funções psíquicas, assunto a ser tratado ainda nesta unidade. Já o humor é algo mais voltado para o sentido de estado, ou melhor, a maneira temporal de expressão das emoções e dos sentimentos em que o indivíduo se encontra ou simplesmente está. Diante do exposto, é possível dizer que uma pessoa está triste, alegre, eufórica, abatida, ou seja, em uma espécie de jogo de alternância desses sentimentos e emoções. Os transtornos do humor ou afetivos acarretam, portanto, oscilação do estado de humor ou do afeto, podendo o ser humano apresentar uma depressão ou uma mania, ambos sentimentos antagônicos. Eles ocasionam mudanças amplas na execução de atividades, são recorrentes (ou seja, apresentam períodos de remissão e exacerbação) e revelam um ínfimo elo para com situações de estresse. Dando prosseguimento ao conteúdo deste tópico, cabe enfatizar que ele será didaticamente apresentado da seguinte forma: inicialmente será explanado o transtorno afetivo bipolar e suas características; e, depois, a depressão com suas características. 2 TRANSTORNO AFETIVO BIPOLAR O transtorno afetivo bipolar (TAB), epidemiologicamente falando, revela incidência semelhante entre os gêneros, costuma se manifestar ao início da segunda década de vida, é mais frequente entre cidadãos solteiros do que em casados e atinge mais expressivamente as pessoas de poder aquisitivo mais elevado. É considerado, ainda, a sexta maior causa de incapacidade por volta da quinta década de vida, uma vez que tende a levar o enfermo à perda de rendimentos e de produtividade, ou seja, reflete-se negativamente nas atividades laborais que geram remuneração ao cidadão (TOWNSEND, 2017). De todos os nomes que compõem a expressão transtorno afetivo bipolar está faltando definir “bipolar”, pois sobre transtorno e afeto você já foi devidamente esclarecido. Assim, é sabido que o termo “bipolar” significa dois polos, estando coadunado à definição do transtorno, uma vez que se considera que ele é caracterizado por alterações do humor entre dois polos: a tristeza profunda (depressão) e a euforia (mania), intercaladas pelas remissões, ou melhor, os momentos de normalidade em que o indivíduo não aparenta ter esse diagnóstico. A Figura 1 mostra a analogia entre os dois estados de humor sob os quais a pessoa com TAB apresenta. 83 Figura 1 – Analogia entre os estados de humor do TAB Fonte: https://www.psiquiatraportoalegre.com.br/diferencas-entre-transtorno-bipolar-e- transtorno-borderline/. Acesso em: 12 jul. 2022. A fase de depressão é entendida e evidenciada como uma tristeza profunda. Isso quer dizer que a pessoa é insuficientemente capaz de enfrentar essa tristeza, fazendo com ela perdure por, pelo menos, duas semanas aproximadamente. Como as demais caracterís- ticas dessa fase estão imbricadas à depressão, elas serão inseridas posteriormente. A mania, entretanto, demarca a fase do transtorno em que o humor está consideravelmente elevado e acelerado, incorporado e transfigurado no paciente a ponto de torná-lo inesgotavelmente enérgico e, assim, atrapalhar sua convivência em sociedade. Alguns dos comportamentos por ele adotados que justificam esse prejuízo são o erotismo, a agressividade, a desinibição e a insensatez. Quando essas ocasiões extrapolam todos os limites, o paciente pode precisar de internação hospitalar, pois, assim, se previnem maiores riscos a ele mesmo e aos outros membros da sociedade. Contrariamente a esses eventos extremos, tem-se a situação de hipomania, ou seja, o estado de mania que não implica prejuízo profissional ou social. A hipomania também não leva à ocorrência de sintomas psicóticos, como delírios e alucinações. Existem alguns critérios diagnósticos que denotam um quadro de episódio maníaco, sendo suficiente e necessário que a pessoa apresente três ou mais deles. Os critérios são: inflação da autoestima com sentimento de grandeza; redução das horas de sono dormidas; logorreia (falando demais); extrapolação de ideias; distração; hiperatividade e envolvimento em atividades de prazeres momentâneos e iminência de consequências drásticas (APA, 2000). https://www.psiquiatraportoalegre.com.br/diferencas-entre-transtorno-bipolar-e-transtorno-borderline/ https://www.psiquiatraportoalegre.com.br/diferencas-entre-transtorno-bipolar-e-transtorno-borderline/ 84 Para o paciente receber o diagnóstico de Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), ele tem que apresentar, ao menos, um episódio maníaco, que perdure por aproximadamente uma semana. Uma vez tendo apresentado o(s) episódio(s) maníaco(s), intercalado(s) com a depressão, ele será assim diagnosticado. IMPORTANTE O transtorno afetivo bipolar é classificado em TAB tipo I, no qual o episódio de ma- nia está presente pelo menos uma vez; e TAB tipo II, em que se tem a hipomania. Indepen- dentemente do tipo de TAB, os estudos indicam uma associação entre fatores biológicos, psicológicos, ambientais e sociais no que concerne a sua etiologia (MELLO, 2008). Importante mencionar que o TAB tipo II revela como precursor a ciclotimia e/ou Transtorno Ciclotímico. A denominação possibilita duas nomenclaturas, uma vez que não necessariamente esse quadro se classifica como um transtorno do humor maior, mas como variações extremas do humor, que se caracterizam por períodos hipomaníacos e períodos de minidepressão que duram poucos dias, seguem um curso irregular e são menos graves que os apresentados no transtorno bipolar (DSM-5, 2013). No que tange ao tratamento, este é pautado na manutenção da qualidade de vida do paciente, a partir do direcionamento dele para adoção de hábitos de vida saudáveis, como a prática regular de atividade física, dieta balanceada e equilibrada e esquiva quanto ao uso de substâncias. Os outros pilares terapêuticos do TAB são a psicoeducação, inclusive da família, que precisa ofertar suporte, acima de tudo, emocional; psicoterapia e medicamentos ditos estabilizadores do humor, sendo o Lítio o mais utilizado. No último tópico desta unidade, o foco da discussão será a psicofarmacologia, logo, em breve, você terá outros detalhes sobre os fármacos desse e dos demais transtornos. 2.1 DEPRESSÃO A partir de agora, o espaço será dedicado às definições e caracterizações sobre a depressão. Também conhecida por transtorno depressivo maior, é a doença mental de maior notoriedade desde os tempos mais remotos. Isso porque era bastante comum sua ocorrência desde a Antiguidade. Nesse período, era identificada como um estado de intensa melancolia, o que se traduz, em tempos hodiernos, por tristeza. Em épocas contemporâneas, tem tido, inclusive, seu número de casos crescente, já sendo, portanto, considerada como o grande mal do século em termos de afecções mentais. 85 Sentir-se triste ou desapontado com algo ou alguém se consiste em eventos corriqueiros da vida dequalquer pessoa. Em outras palavras, isso quer dizer que, quan- do o ser humano é frustrado, decepcionado, lesado ou algo do tipo, é natural que ele reaja a essas situações com sentimento de tristeza. Com o transcorrer das primeiras horas ou dias após essas situações, essa tristeza não mais existe, o que permite inferir que ela é passageira. Continuando a linha de raciocínio supracitada, significa que a pessoa imple- mentou sua capacidade de enfrentamento perante os fatos adversos de sua vida e deixou esse estado de desânimo, tendo se adaptado à realidade. Por outro lado, com a ocorrência desses eventos e o advento da tristeza, se esta última se fizer presente por um período superior a duas semanas, pode-se dizer que a pessoa não está conseguindo reagir satisfatoriamente a essas situações e quem está ao seu entorno precisa ficar de alerta para tentar impedir que essa falta de adaptação à realidade se transforme em algo patológico. Diante disso, define-se a depressão como uma patologia na qual ocorrem alterações no estado de humor que culminam na expressão dos sentimentos de tristeza, negativismo, pessimismo por parte do paciente. Dessa forma, ele perde o interesse ou prazer por tudo, a tal ponto que não sente vontade de sair da cama, de se alimentar, de se higienizar, de interagir com os demais; enfim, de nada (TOWNSEND, 2017). A Figura 2 representa as características de uma pessoa depressiva. Figura 2 – Características da pessoa depressiva Fonte: https://pxhere.com/pt/photo/1458889. Acesso em: 12 jul. 2022. Sob a nuance epidemiológica, pesquisas indicam ser maior a incidência de depressão nas mulheres do que nos homens, o que se justifica pelo materialismo histórico transfigurado pelos papéis sociais exercidos por cada gênero. Esse fenômeno, https://pxhere.com/pt/photo/1458889 86 conhecido por “socialização do gênero” explica que existiu a elaboração de um estereótipo atrelado ao gênero, que acabou por promover comportamentos femininos típicos como impotência, fraqueza e passividade, relacionadas com o quadro de depressão (KORNSTEIN, 2006). Para Hudson (2005), a depressão age de forma inversamente proporcional ao status econômico, ou seja, pessoas de classe social mais baixa estão mais propensas à ocorrência de depressão. Com relação à etnia, os brancos têm maior tendência à depressão, mas os sintomas dela são mais graves nos negros. O estado civil com maior prevalência de depressão é o de solteiro, quando comparado ao de casado. A depressão pode se fazer presente na vida de uma pessoa através de um único episódio, porém é mais comum que seja ou se revele de forma recorrente, levando o indivíduo a ser dotado de um histórico de episódios pregressos. No tocante ao grau de sintomatologia, a depressão pode ser considerada leve, moderada e grave. Para receber um diagnóstico de depressão, são levados em consideração alguns critérios. Caso o cidadão apresente cinco ou mais deles durante um período de pelo menos quatorze dias, ele será assim diagnosticado. Eis os critérios: humor deprimido boa parte do dia, cotidianamente; anedonia (falta de prazer em tudo ou quase tudo); alteração do peso (para mais ou para menos); insônia ou hipersonia; agitação ou retardo psicomotor; fadiga ou anergia; sensação de desvalorização de si mesmo ou sentimento de culpa excessiva; dificuldade de raciocínio ou de concentração; e ideação suicida (APA, 2000). Uma vez diagnosticada a depressão, seu curso é variável, mas sua natureza, crônica. Os fatores etiológicos que contribuem significativamente para seu surgimento são biológicos, com destaque para o componente genético; os psicológicos, os ambientais e os sociais. Por fim, no que diz respeito ao seu tratamento, sabe-se que ele tem como alicerce os psicofármacos, sendo os antidepressivos os mais eficazes. Outras modalidades tera- pêuticas utilizadas são a eletroconvulsoterapia e a estimulação eletromagnética transcra- niana, a psicoterapia, a psicoeducação e a reabilitação psicossocial (MELLO, 2008). 87 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu: • A diferença entre síndromes e transtornos, compreendendo que ambos os termos tendem a ser confundidos, mas significam coisas diferentes. • Segundo a etimologia da palavra, a síndrome significa um conjunto de sintomas. • Na síndrome se considera um conjunto de sinais e sintomas sem etiologia definida; a síndrome é a reunião ou conjunto de diversos e diferentes sintomas que ocorrem em uma determinada doença. • O transtorno, por sua vez, é aquilo que tem a capacidade de perturbar, desorganizar e transtornar, mesmo em seu sentido mais literal enquanto palavra. • Dentre os principais tipos de transtornos de humor, fala-se em transtorno afetivo bipolar, no qual se alternam dois ciclos (a depressão e a mania); e na depressão, entendida e visualizada como uma tristeza profunda propriamente dita e que interfere significativamente na qualidade de vida da pessoa. 88 AUTOATIVIDADE 1 O transtorno afetivo bipolar é caracterizado por uma alternância típica entre duas fases ou momentos extremos, vindo disso o nome bipolar. Diante do exposto, assinale a alteernayiva CORRETA: a) ( ) Mania e loucura. b) ( ) Mania e depressão. c) ( ) Euforia e depressão. d) ( ) Depressão e loucura. 2 Quando a pessoa não revela um mecanismo adaptado de enfrentamento aos efeitos adversos da vida dentro de poucas horas ou poucos dias, esse quadro torna-se patológico, podendo se enquadrar em uma depressão. No tocante a quantos dias se faz presente uma depressão, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) 18 dias. b) ( ) 15 dias. c) ( ) 20 dias. d) ( ) 10 dias. 3 Após estudar os dois principais tipos de transtornos do humor (depressão e transtorno afetivo bipolar), surge uma dúvida comum sobre como o profissional médico realiza o diagnóstico clínico de cada um deles. Sobre qual o critério diagnóstico para o transtorno afetivo bipolar, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Pelo menos um episódio de mania. b) ( ) Um episódio de depressão. c) ( ) Dois episódios de mania. d) ( ) Dois episódios de depressão. 4 O transtorno afetivo bipolar (TAB), epidemiologicamente falando, revela incidência semelhante entre os gêneros, costuma se manifestar ao início da segunda década de vida. Já a depressão, também conhecida por transtorno depressivo maior, é a doença mental de maior notoriedade desde os tempos mais remotos. Diante disso, disserte sobre o que diferencia a depressão do transtorno afetivo bipolar? 5 A depressão em épocas contemporâneas, tem tido, inclusive, seu número de casos crescente, já sendo, portanto, considerada como o grande mal do século em termos de afecções mentais. Diante do exposto, disserte sobre a definição de depressão. 89 SÍNDROMES ANSIOSAS, TRANSTORNO DO ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO E TRANSTORNOS PSICÓTICOS 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 2 TÓPICO 2 - Neste tópico, o conteúdo abordado tratará das síndromes ansiosas, transtorno do estresse pós-traumático e síndromes psicóticas. No primeiro caso, se inserem, obviamente, os transtornos ansiosos. Dentre eles, os que serão aqui discutidos são: transtorno de ansiedade generalizada, transtorno do pânico, agorafobia e o transtorno obsessivo compulsivo. No caso do transtorno do estresse pós-traumático, sabe-se que ele se enquadra na categoria de Transtorno Obsessivo Compulsivo e Transtornos Relacionados. Já as síndromes psicóticas, envolvem distúrbios que desorganizam a vida da pessoa, sendo o principal deles a Esquizofrenia. 2 TRANSTORNO DE ANSIEDADE GENERALIZADA (TAG) Para dar início, é válido tecer comentários a respeito da ansiedade em si. Sobre ela, é sabido que está presente na vida do ser humano desde o tempo das primeiras civilizações até as épocas contemporâneas. Você sabe o porquê disso? Caso não saiba, não se preocupe, pois você entenderá agora. A ansiedade corresponde a uma resposta emocional. Em outras palavras, significa um mecanismo de defesa corporal diante de estímulosque surgem abruptamente ou inesperadamente, elevando os níveis de cortisol, mais conhecido como hormônio do estresse, e, consequentemente, desorganizando a homeostase. Inúmeras são as situações que culminam no surgimento de ansiedade, sendo as mais comuns, processos de doenças e hospitalizações, dores, perdas de entes queridos e amigos, desemprego e término de relacionamentos. Quando esse evento estressor se finda ou até mesmo quando ele ainda perdura, mas o organismo demonstra capacidade de enfrentamento e resolução perante a essas situações, o nível de ansiedade diminui, considerando-se, assim, um quadro normal diante dos fatos. Por outro lado, depois de um certo tempo, com o cessar ou não dos estímulos estressores, a falta de adaptação do indivíduo, nesse caso, o direciona para um problema de origem psicológica, mas com efeitos biológicos que podem chegar a ser paralisantes, incapacitantes ou trágicos. 90 Essa reação normal frente a uma ameaça, chamada ansiedade pode, ainda, ser classificada em leve, moderada, intensa e estado de pânico, sendo este último o mais grave. O grau leve permite o direcionamento para novas formas de adaptação. O moderado, atenua a sensopercepção, mas ainda permite a realização de escolhas. O intenso altera bastante as faculdades cognitivas, incluindo a concentração. Já o estado de pânico simboliza imenso temor e pavor, paralisando quase todas as funções vitais, podendo causar colapso e morte (MELLO, 2008). Ainda conforme Mello (2008), dentre a sintomatologia dos casos mais graves de ansiedade, ou seja, a ansiedade dita patológica, citam-se: taquicardia, taquipneia, alterações na temperatura e na pressão arterial, relaxamento da musculatura lisa das vísceras, inquietação motora, pele úmida, calafrio, midríase, boca seca, cefaleia e rebaixamento de autoestima. No que tange aos dados epidemiológicos, pode-se dizer que os transtornos de ansiedade são os mais frequentes na sociedade e afetam mais as mulheres do que os homens. Especificamente para cada tipo de transtorno ansioso, estudos indicam uma taxa de prevalência entre 3% e 5% para transtornos de ansiedade generalizada e transtorno do pânico, 2% e 3% para transtorno obsessivo compulsivo, 8% para transtornos do estresse pós-traumático e 25% para fobias (TOWNSEND, 2017). Os principais mecanismos etiológicos envolvidos para os transtornos de ansiedade são de natureza biológica, psicológica, ambiental e social. O Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) assola até 5% da população e é marcado pela presença excessiva da ansiedade com intensa preocupação sobre os fatos da vida na maioria dos dias e por pelo menos um período de seis meses. Ocasiona inquietação, fadiga, falta de concentração, irritabilidade e tensão que levam à perda da capacidade de convivência normal em sociedade. Veja na Figura 3 a seguir uma síntese desses e outros sintomas decorrentes da TAG. 91 Figura 3 – Sintomas da TAG Fonte: https://br.pinterest.com/pin/730427633315138706/. Acesso em: 14 jul. 2022. 2.1 TRANSTORNO DO PÂNICO O Transtorno do Pânico, por sua vez, é aquele que se caracteriza por constantes ataques de pânico. Estes correspondem a curtos períodos (cerca de dois minutos), de início abrupto em que a pessoa apresenta extrema ansiedade, angústia e pavor, mas que somatizam, ou seja, acarretam outros sintomas, os de natureza física, que podem ser diversos. A pessoa que apresenta pelo menos quatro sintomas físicos está tendo um ataque de pânico. Eis os sintomas: palpitações, sudorese, tremores, falta de ar, engasgo, dores no peito, náuseas, tonturas, desrealização, medo de perder o controle da situação, medo de morrer, parestesias e extremos de temperatura (APA, 2000). https://br.pinterest.com/pin/730427633315138706/ 92 O transtorno do pânico pode ser acompanhado também da Agorafobia, ou melhor, um tipo de fobia (medo) de pessoas e ambientes em que não conheçam ou não se sintam seguros a ponto de não terem a quem recorrer na ocorrência dos ataques. Esse pavor atinge fortemente a condição de ir e vir do indivíduo, pois a pessoa evita sair de casa e de perto das pessoas de seu convívio. Alguns exemplos de situações agorafóbicas são: estar em meio a uma multidão, em um supermercado, em um avião, dentre outros. As figuras 4 e 5 exibem situações de agorafobia e pânico, respectivamente. Figura 4 – Situação de agorafobia Fonte: https://www.vittude.com/blog/transtorno-do-panico-o-que-e-como-lidar/. Acesso em: 14 jul. 2022 Figura 5 – Situação de pânico Fonte: https://ipecs.com.br/transtorno-de-panico/. Acesso em: 14 jul. 2022. https://www.vittude.com/blog/transtorno-do-panico-o-que-e-como-lidar/ https://ipecs.com.br/transtorno-de-panico/ 93 2.2 FOBIAS Existe, também, a agorafobia sem associação com o transtorno do pânico, mesmo sendo menos frequentes. Os critérios diagnósticos para esse caso envolvem o medo de desenvolver sintomas semelhantes ao pânico e restrição dos movimentos com consequente necessidade da companhia de alguém de sua confiança para sair de casa (APA, 2000). Além da agorafobia, existem outros tipos de fobia, que significa meramente o medo, por antecipação, de alguém ou alguma situação específica. Quando exposta a essas pessoas ou situações, o indivíduo desvela intensa ansiedade que só finda com a retirada desses estímulos (MELLO, 2008). Os medos mais comuns correspondem a pequenos animais, injeções, sangue, altura, escuridão, lugares fechados, dentre outros. Vale salientar que a questão do medo é subjetiva, o que significa que diferentes pessoas não terão necessariamente o mesmo tipo de medo. Esses medos, portanto, são denominados de fobias específicas e se constituem reações excessivas e desaptativas que escapam do controle do indivíduo, levando-o à fuga ou esquiva. Por fim, no tocante às fobias, convém mencionar a fobia social, que se caracteriza como sendo aquela em que o cidadão apresenta medo de estar em público nas mais variadas circunstâncias. O exemplo mais clássico desta fobia é quando a pessoa se preocupa com a possibilidade de estar em alguma atividade pública, sendo avaliada e observada, bem como passando por alguma situação de constrangimento ou humilhação. Isso a atrapalha bastante. A Figura 6 evidencia esse fenômeno. Figura 6 – Fobia social Fonte: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/07/28/fobia-social-quando-o-sofrimento-pela- timidez-e-tanto-que-a-saida-e-se-esconder.ghtml. Acesso em: 14 jul. 2022. https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/07/28/fobia-social-quando-o-sofrimento-pela-timidez-e-tanto-que-a-saida-e-se-esconder.ghtml https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/07/28/fobia-social-quando-o-sofrimento-pela-timidez-e-tanto-que-a-saida-e-se-esconder.ghtml 94 2.3 TRANSTORNO OBSESSIVO COMPULSIVO (TOC) Outro tipo de síndrome ansiosa é o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), que, como o próprio nome revela, é uma condição de obsessão seguida de compulsão. O que vem a ser, entretanto, obsessão e compulsão? A primeira diz respeito a pensamentos irracionais, involuntários, persistentes, mas que denotam algo bastante marcante para a pessoa; ao passo que a compulsão são atitudes desempenhadas de forma indesejada pela pessoa, a fim de atenuar as tensões ocasionadas pelas obsessões. Quando se juntam essas condições, torna-se fácil compreender que a vida da pessoa tende a ficar incapacitada e densamente prejudicada, pois acaba por interferir inclusive nas suas atividades laborais (MELLO, 2008). A exemplo de algumas situações obsessivas compulsivas, tem-se a lavagem constante das mãos por entender que tudo o que se toca está contaminado; como também a conferência do fechamento de uma porta através do manuseio repetido da maçaneta. A Figura 7 traz esses e outros exemplos. Figura 7 – Exemplos de TOC Fonte: https://www.psiquiatraportoalegre.com.br/tratamento-de-transtorno-obsessivo-compulsivo/. Acesso em: 14 jul. 2022. https://www.psiquiatraportoalegre.com.br/tratamento-de-transtorno-obsessivo-compulsivo/95 2.4 TRANSTORNO DO ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO (TEPT) O Transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) se consiste no desenvolvimento de uma série de sintomas específicos, após a pessoa ter vivenciado uma situação bastante estressora, marcante ou traumática, de fato, uma vez que sua integridade física ou pessoal ficou em xeque. De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico, em sua quinta edição, o TEPT se enquadra na categoria de Transtorno Obsessivo Compulsivo e Transtornos Relacioinados. Por exemplo, suponha que alguém estava na parada do ônibus e foi abordada por dois homens encapuzados e armados, que a ameaçaram de atirar nela caso ela não lhes entregasse a bolsa. Mesmo que a vítima não tenha sofrido dano físico e tenha entregado a bolsa, como lhe foi solicitado, essa situação funcionará como gatilho mental em forma de flashbacks (lembranças) que, por sua vez, fomentarão o medo, o estresse, o nervosismo a ponto de imaginar que poderá acontecer novamente a qualquer momento da mesma forma ou pior. Esses pensamentos passam a se fazer presentes praticamente todos os dias, interferindo no padrão de sono, no padrão alimentar, dentre outros. O mesmo tipo de raciocínio se aplica quando a pessoa passa por um acidente automobilístico, presencia um desastre aéreo, experiencia um desastre ambiental, é torturado, é tomado como refém, recebe um diagnóstico de uma grave doença, dentre outros. A pessoa passa a apresentar inibição ou desinibição excessivas, hipervigilância, pensamentos obsessivos e comportamentos de esquiva para evitar nova ocorrência ao evento traumático que perduram por mais de um mês. É recomendável não conversar com a pessoa sobre o ocorrido, pois isso tende a ser doloroso para ela. A Figura 8 faz alusão ao que ocorre com o indivíduo nessa situação. Figura 8 – Estado do paciente no TEPT Fonte: https://nadiabossa.com.br/web/transtorno-de-estresse-pos-traumatico/. Acesso em: 14 jul. 2022. https://nadiabossa.com.br/web/transtorno-de-estresse-pos-traumatico/ 96 2.5 TRANSTORNOS PSICÓTICOS Falar em transtornos psicóticos requer uma série de considerações. Para início de conversa, convém trazer a definição de psicose. Pois bem, esta é uma condição mental séria em que se evidencia desorganização da personalidade, prejuízo do funcionamento social e distanciamento ou distorção da realidade. Pode ainda existir a alucinação e o delírio (TOWNSEND, 2017). O distúrbio psicótico, que será explorado aqui, é o da Esquizofrenia, transtorno mental também bastante antigo na história e que resulta da influência de um conjunto de fatores, como predisposição genética, estresse psicológico, mecanismos fisiológicos, e do metabolismo como um todo. Foram formuladas diversas teorias a respeito do que é decisivo para o indivíduo receber o diagnóstico de esquizofrenia, porém uma delas, também mais atual, sugere que ela seja uma enfermidade de base biológica, cujo estopim é influenciado por eventos ambientais (internos ou externos), sendo, portanto, designada de Modelo Transacional de Estresse/Adaptação (TOWNSEND, 2017). De todos os transtornos mentais existentes e conhecidos, a esquizofrenia é notoriamente marcada por necessidade de hospitalizações do paciente, que, muitas vezes, são longas; por desestruturação no convívio familiar e por ideação suicida. Não tem cura, mas tratamento. Este é pautado pelo trabalho de uma equipe multidisciplinar que se empenha para proporcionar autonomia e qualidade de vida aos pacientes, através do fomento à execução de habilidades sociais e da farmacoterapia. Diante dessas características, cabe citar uma das opiniões mais marcantes a respeito desse quadro clínico, como se pode visualizar a seguir. [Esquizofrenia] é provavelmente a doença mais devastadora tratada pelos psiquiatras. [Ela] ataca as pessoas exatamente quando elas es- tão se preparando para entrar na fase de suas vidas em que podem alcançar o seu maior crescimento e produtividade – tipicamente na adolescência ou no início dos 20 anos –, deixando a maioria delas in- capaz de retornar para as vidas normais da idade adulta jovem: ir para a escola, encontrar um emprego ou casar e ter filhos. De acordo com The Global Burden of Disease (Carga Global da Doença), um estudo patrocinado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o custo das doenças clínicas em todo o mundo, a esquizofrenia está entre as 10 principais causas de incapacidade no mundo entre as pessoas na faixa etária de 15 a 44 anos (BLACK; ANDREASEN, 2011, p. 107). Partindo-se da premissa da história natural da doença, a esquizofrenia é dividida em quatro fases principais: pré mórbida, prodrômica, progressão e estabilização. Na fase pré mórbida se evidencia baixa sociabilidade do indivíduo, com direcionamento ao isolamento e alterações nas funções cognitivas, principalmente as relativas à memória e atenção. Isso pode ser identificado conforme Sadock e Sadock (2007, p. 481) descrevem: 97 Na história pré-mórbida típica, mas não invariável, de esquizofrenia, os pacientes tinham personalidades esquizoides ou esquizotípicas caracterizadas como quietas, passivas introvertidas; quando crianças, tinham poucos amigos. Os adolescentes pré-esquizofrênicos podem não ter amigo próximo nem namorado(a) e podem evitar esportes em equipe. Eles podem gostar de [atividades solitárias] para excluir atividades sociais. A fase prodrômica, por sua vez, se traduz por um período variável no qual a pessoa pode revelar um estado de apreensão e perplexidade sem causa aparente, ficando em verdadeiro estado de alerta imaginando que algo está para acontecer. O indivíduo apresenta mudança comportamental, com exibição de pensamentos psicóticos breves, antecedendo as manifestações típicas da doença propriamente dita (TOWNSEND, 2017). Dessa forma, foi afirmado que: Durante a fase prodrômica a pessoa experimenta comprometimento funcional substancial e sintomas inespecíficos como distúrbios do sono, ansiedade, irritabilidade, humor deprimido, dificuldade de concentração, fadiga e déficits comportamentais, como deterioração da função do papel e isolamento social. Os sintomas positivos, como anormalidades perceptuais, ideias de referência e desconfiança, desenvolvem-se tardiamente na fase prodrômica e anunciam o início iminente de psicose (LEHMAN et al., 2006, p. 625-626). Perceba que, os autores supracitados, mencionaram o termo “sintomas positivos”. Partindo-se, pois, dessa premissa, convém pontuar que no quadro esquizofrênico existem sintomas ditos positivos, negativos e cognitivos. Os positivos se reportam a ideais persecutórios; os negativos, à redução da expressão das emoções, com embotamento afetivo e anedonia; e os cognitivos, à agitação, aparência bizarra e catatonia, ou seja, uma perturbação da motricidade, já que correspondem a déficits no processamento de informações e na resolução de problemas (MELLO, 2008). Também se faz pertinente diferenciar alucinação de delírio, sintomas que costumam causar certo teor de confundimento. A alucinação é o sintoma condizente com uma falsa percepção das coisas, sejam elas visuais, auditivas, táteis, olfativas ou uma mescla delas, ou seja, o paciente acredita piamente que está ouvindo, vendo, sentindo e inalando coisas que só existem para ele. Já o delírio, é uma crença exacerbada, ou melhor, uma sensopercepção errônea da realidade de forma bizarra. A Figura 9 retrata um enigma que gira em torno desses sintomas. 98 Figura 9 – Alucinação ou delírio? Fonte: http://lavrapalavra.blogspot.com/2013/08/alucinacao-ilusao-delirio-qual-desses.html. Acesso em: 14 jul. 2022. Dando seguimento às fases da esquizofrenia, fala-se agora na fase de progressão, que se trata da esquizofrenia propriamente dita. Os sintomas típicos como delírios, alucinações, fala desorganizada, comportamento bizarro e catatonia, bem como a disfunção social e ocupacional se fazem presentes. Por fim, em seguida, tem-se a fase de estabilização, ou seja, aquela em que o quadro geral é estável,mas sujeito a recaídas; como também aquela em que os sintomas negativos podem ser detectados continuamente e os positivos, mais nas fases de crise (TOWNSEND, 2017). Além dessa divisão de fases, a esquizofrenia é classificada em alguns tipos principais, como o subtipo paranóide, a hebefrênica, a catatônica, a indiferenciada e a residual. A esquizofrenia paranóide é aquela em que o paciente apresenta ideias delirantes de forma relativamente estável, acompanhadas de alucinação; ao passo que perturbações relativas ao afeto, à linguagem e os sintomas catatônicos são discretos ou inexistentes. Já a esquizofrenia hebefrênica, é aquela em que o paciente denota perturbações afetivas constantemente, seu comportamento irresponsável e imprevisível também está presente, há uma tendência ao isolamento social e à perda da volição, ou seja, do poder de escolha ou tomada de decisão (MELLO, 2008). A esquizofrenia catatônica é aquela em que verifica predominância de distúrbios da motricidade, alternando entre extremos de hipercinesia e estupor. Há a aparição do que se denomina de flexibilidade cérea, ou melhor, posturas adotadas e mantidas por longos períodos, como se pode ver na Figura 10 a seguir. http://lavrapalavra.blogspot.com/2013/08/alucinacao-ilusao-delirio-qual-desses.html 99 Figura 10 – Flexibilidade cérea Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Flexibilidade_cerosa. Acesso em: 14 jul. 2022. A catatonia propriamente dita é manifestada no paciente por intermédio das agitações psicomotoras, precursoras da execução de movimentos frenéticos, acompanhados de discurso por meio de gritos incoerentes. Dessa forma, compreende- se que o paciente precisa, o mais precocemente possível, de intervenção médica para providenciar o controle físico; caso contrário, tanto a vida dele quanto a dos demais envolvidos em seu entorno podem estar ameaçadas por episódios de violência (TOWNSEND, 2017). A esquizofrenia indiferenciada é também denominada de esquizofrenia atípica porque preenchem os critérios gerais para a esquizofrenia, mas não revelam nenhum sintoma específico ou especificamente marcante que lhe diferencie das demais. Pode ser interpretada, ainda, quando os pacientes apresentam sintomas associados entre um e outro tipo de esquizofrenia. A esquizofrenia residual é aquela em que o paciente já recebeu o diagnóstico de esquizofrenia há muitos anos e que se encontra com o quadro relativamente estabilizado, na ausência de delírios e alucinações, por exemplo. Os sintomas residuais corriqueiros são representados por retraimento social, comportamento excêntrico, déficit do autocuidado, embotamento afetivo e discurso pobre com pensamento ilógico (TOWNSEND, 2017). https://pt.wikipedia.org/wiki/Flexibilidade_cerosa 100 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu: • As síndromes ansiosas são vertentes patológicas diversas, quando o organismo não consegue enfrentar situações adversas dentro da normalidade. • Existe o transtorno de ansiedade generalizada, que ocasiona inquietação, fadiga, falta de concentração, irritabilidade e tensão que levam à perda da capacidade de convivência normal em sociedade. • O transtorno do pânico se caracteriza por constantes ataques de pânico, que correspondem a curtos períodos (cerca de dois minutos), de início abrupto em que a pessoa apresenta extrema ansiedade, angústia e pavor. • As fobias se constituem em reações excessivas e desaptativas, que escapam do controle do indivíduo, levando-o à fuga ou esquiva. • O transtorno obsessivo compulsivo é aquele em que a vida social da pessoa tende a ficar incapacitada e densamente prejudicada, pois acaba por interferir inclusive nas suas atividades laborais. • O transtorno do estresse pós-traumático, por sua vez, se consiste no desenvolvimento de uma série de sintomas específicos, após a pessoa ter vivenciado uma situação bastante estressora, marcante ou traumática, de fato, uma vez que sua integridade física ou pessoal ficou em xeque. • O transtorno psicótico principal, a esquizofrenia, resulta da influência de um conjunto de fatores, como predisposição genética, estresse psicológico, mecanismos fisiológicos, e do metabolismo como um todo. 101 AUTOATIVIDADE 1 A síndrome ansiosa é aquela em que o nível do hormônio cortisol, bem como o estresse, se encontram elevados. Marque a alternativa que não contempla uma síndrome ansiosa: a) ( ) TAG. b) ( ) TEPT. c) ( ) TOC. d) ( ) TAB. 2 Transtorno que é caracterizado por flashbacks de fatos ocorridos inesperadamente por pelo menos um mês. Com relação ao exposto, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) TAG. b) ( ) TOC. c) ( ) TEPT. d) ( ) TAB. 3 A esquizofrenia apresenta quatro fases principais em seu curso, após diagnosticada. Sobre as fases clínicas da esquizofrenia, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) Pré mórbida, prodrômica, progressão, estabilização. b) ( ) Prodrômica, pré mórbida, estabilização, progressão. c) ( ) Estabilização, progressão, prodrômica, pré mórbida. d) ( ) Pré mórbida, progressão, estabilização, prodrômica. 4 No que tange aos dados epidemiológicos, pode-se dizer que os transtornos de ansiedade são os mais frequentes na sociedade e afetam mais as mulheres do que os homens. Diante disso, caracterize o transtorno de ansiedade generalizada (TAG). 5 Na fase de progressão, que se trata da esquizofrenia propriamente dita, se fazem presentes os sintomas típicos como delírios, alucinações, fala desorganizada, comportamento bizarro e catatonia, bem como a disfunção social e ocupacional. Diante de excerto, diferencie delírio de alucinação. 102 103 TÓPICO 3 - TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 2 A personalidade é definida por ser a principal característica que diferencia uma pessoa da outra, pois determina sua individualidade. Ela se desenvolve em um processo lento, cujo gatilho inicial se dá na transição entre infância e adolescência; e se encerra na transição da adolescência para início da fase adulta. Quando se diz que uma pessoa tem uma personalidade fácil ou difícil, significa que ela tem um conjunto de características comportamentais que fazem com ela seja reconhecida dessa forma. Essas características estão distribuídas por todos os campos da vida: o pessoal, o afetivo, o profissional, o financeiro, dentre outros. A personalidade é reconhecida como normal quando a pessoa adota padrões de comportamento socialmente e moralmente aceitos; como também adequados perante as adversidades da vida, respondendo e se adaptando bem a elas. Segundo Sigmund Freud, um dos grandes estudiosos da área psicanalítica, a personalidade se desenvolve por estágios, os quais são dotados de alguns componentes: o id, o ego e o superego. O id é o componente da personalidade demarcado pelo princípio do prazer, tendo características inatas com tendências à satisfação de necessidades e obtenção de bônus imediatos. O ego, é tido como o momento em que surge a realidade do mundo externo, obrigando o ser a se adaptar a ele. À medida em que se desenvolve, porém, o ego interfere sobre o id com o intuito de substituir o princípio do prazer pelo da realidade. Já o superego, corresponde ao princípio da perfeição, em que valores e princípios morais são internalizados e são responsáveis pelo indivíduo, sendo extremamente importante para o processo de socialização (MELLO, 2008). Os estágios do desenvolvimento ocorrem em cinco fases: oral, anal, fálica, de latência e genital, nesta ordem. A fase oral tem a boca como foco de energia e nela há a satisfação de necessidades básicas; a fase anal tem o controle dos esfíncteres como foco de energia e é marcada pela interação social e normas de higiene; a fase fálica revela a zona genital como foco de energia e a libido passa a ser investida sobre as figuras do pai e da mãe; a fase de latência vai até a puberdade e a pessoa passa a focar nos grupos de amigos de mesmo gênero; por fim, a fase genital abrange a adolescênciae é nela que as relações interpessoais proporcionam prazer a partir da interação sexual, por exemplo (TOWNSEND, 2017). 104 2 TIPOS DE TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE Quando se diz que alguém apresenta transtorno de personalidade, infere-se que se trata de um distúrbio grave do seu comportamento que envolve todas as suas áreas de atuação, ocasionando desmembramentos de sua vida em sociedade. Sua origem revela como fator predisponente o componente genético. Eles são de difíceis diagnósticos, mas quando isso ocorre, geralmente acontece ao final da infância ou na adolescência. Esses tipos de transtornos são, ainda, classificados por grupos, a depender da modalidade de comportamento apresentado pelo paciente. Existem três grupos: A, B e C. As pessoas que apresentam transtornos de personalidade do grupo A expres- sam comportamentos descritos como estranhos ou excêntricos. Dentro desse grupo, estão inseridos três subtipos de transtornos: transtorno da personalidade esquizotípica, transtorno da personalidade paranoide e transtorno da personalidade esquizoide. O transtorno da personalidade paranoide é aquele no qual o paciente revela sensibilidade exagerada em qualquer instante; tende a guardar as emoções negativas de mágoa, rancor e ódio, assumindo sentimento de culpa; sempre está desconfiado, chegando a interpretar erroneamente as atitudes amistosas de terceiros; não dá credibilidade a nenhuma forma de fidelidade nos relacionamentos; autovaloriza-se em excesso; acredita que tudo é misterioso e se preocupa com eventos conspiratórios. A Figura 11 a seguir revela esse tipo de comportamento. Figura 11 – Transtorno da personalidade paranóide Fonte: https://psicoativo.com/2016/07/transtorno-de-personalidade-paranoide-causas-sintomas- tratamentos.html. Acesso em: 14 jul. 2022. O transtorno da personalidade esquizoide revela pacientes frios e distantes emocionalmente falando. Sentem dificuldades de expressar sentimentos de extremos; apresentam muita anedonia; são indiferentes aos elogios ou críticas que recebem e não tem interesse sexual aflorado, tanto que dificilmente se relacionam com alguém de forma amorosa, preferindo a solidão, como se pode ver na Figura 12 a seguir. https://psicoativo.com/2016/07/transtorno-de-personalidade-paranoide-causas-sintomas-tratamentos.html https://psicoativo.com/2016/07/transtorno-de-personalidade-paranoide-causas-sintomas-tratamentos.html 105 Figura 12 – Transtorno da personalidade esquizóide Fonte: https://psicoativo.com/2016/07/transtorno-da-personalidade-esquizoide-causas- sintomas-tratamentos.html. Acesso em: 14 jul. 2022. Já o transtorno de personalidade esquizotípica exprime como características o fato de os pacientes serem dotados de afeto inapropriado ou constrangido, de retraimento social, serem crentes em coisas estranhas, terem aparência excêntrica, não possuírem amigos e denotarem pensamentos vagos e estereotipados, como representado através da Figura 13. Figura 13 – Transtorno da personalidade esquizotípica Fonte: https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns- atualmente/. Acesso em: 14 jul. 2022. Os transtornos da personalidade do grupo B agregam pacientes com comportamentos descritos como dramáticos e emocionais. Nesse grupo, estão inseridos quatro subtipos de transtornos: transtorno da personalidade antissocial, transtorno da personalidade borderline, transtorno da personalidade histriônica e transtorno da personalidade narcisista. https://psicoativo.com/2016/07/transtorno-da-personalidade-esquizoide-causas-sintomas-tratamentos.html https://psicoativo.com/2016/07/transtorno-da-personalidade-esquizoide-causas-sintomas-tratamentos.html https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/ https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/ 106 O transtorno da personalidade antissocial atinge pacientes que são indiferentes pelos sentimentos alheios; que são irresponsáveis e desrespeitosos perante as normas; que não conseguem manter relacionamentos duradouros; que tem pouca tolerância às frustrações; que não expressam sentimentos de culpa frente às adversidades da vida, assumindo a tendência de culpabilizar os outros, como representado na figura 14 a seguir. Figura 14 – Transtorno da personalidade antissocial Fonte: https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns- atualmente/. Acesso em: 14 jul. 2022. O transtorno de personalidade borderline, por sua vez, é aquele em que o indivíduo revela instabilidade na regulação do afeto e dos impulsos; tem fragilidade no humor; manifesta sua impulsividade de duas formas principais, a automutilação e a tentativa de suicídio, ou através do abuso de substâncias, distúrbios alimentares e participação em orgias; bem como apresentam imenso medo de abandono. A figura 15 que se segue mostra esse comportamento. Figura 15 – Transtorno da personalidade borderline Fonte: https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns- atualmente/. Acesso em: 14 jul. 2022. https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/ https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/ https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/ https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/ 107 No transtorno da personalidade histriônica, os pacientes são dramáticos, teatrais, exagerados e superficiais em seus relacionamentos; gostam de chamar a atenção e direcionar os holofotes para si mesmo, apresentando intensa preocupação com a aparência; são manipuladores; exigem atenção constantemente e fazem de tudo para conseguirem essa atenção; bem como possuem o dom da sedução e gostam disso, mas não mantêm relações genuínas, como se vê representado na Figura 16. Figura 16 – Transtorno da personalidade histriônica Fonte: https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns- atualmente/. Acesso em: 14 jul. 2022. O transtorno da personalidade narcisista é aquele em que os pacientes expres- sam padrão generalizado de grandiosidade, ausência de empatia e muita sensibilidade às críticas, reagindo a elas com sentimento de raiva, vergonha, humilhação, indignação; exploram os sentimentos de seus relacionamentos para alcançarem o que desejam; julgam-se muito importantes e almejam ser tratados sempre de forma especial. A Figura 17 a seguir demonstra esse comportamento. Figura 17 – Transtorno da personalidade narcisista Fonte: https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns- atualmente/. Acesso em: 14 jul. 2022. https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/ https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/ https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/ https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/ 108 Por fim, os transtornos da personalidade do grupo C são aqueles em que os comportamentos descritos são tidos como ansiosos ou medrosos. Ele contém três tipos principais: transtorno da personalidade de abstenção ou de esquiva, transtorno da personalidade dependente e transtorno da personalidade obsessivo-compulsiva. No transtorno da personalidade de abstenção ou esquiva, o paciente teve um processo iniciado nas primeiras etapas de vida adulta a respeito do medo de avaliação negativa e de timidez; só estabelece relação com outras pessoas se identificarem que não serão rejeitadas; preocupam-se constantemente com seus defeitos; e consideram a perda e a rejeição dolorosos a ponto de preferirem não se arriscar mais em relacionamentos. A Figura 18 revela esse comportamento. Figura 18 – Transtorno da personalidade de abstenção ou esquiva Fonte: https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/. Acesso em: 14 jul. 2022. O transtorno da personalidade dependente se traduz como aquele em que a pessoa tem enormes dificuldades para tomadas de decisão, permitindo a interferência de terceiros nesse quesito de sua vida; costuma esquecer de si e de suas próprias vontades, submetendo-se às necessidades dos outros; e denotam dificuldade de se utilizar do “não” e de fazer exigências. É representado através da Figura 19. https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/ https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/ 109 Figura 19 – Transtorno da personalidade dependente Fonte: https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns- atualmente/. Acesso em: 14 jul. 2022. O paciente com transtorno da personalidade obsessiva-compulsivo se caracteriza por ser dotado de sentimentos duvidosos e cautelosos em excesso; é perfeccionista a ponto desse perfeccionismo interferir nas realizações de suas atividades de vida diária; costuma ser rígido e teimoso e insistente ao fato de moldar as demais pessoas as suas ordens ou maneiras. A Figura 20 a seguir demonstra esse comportamento. Figura 20 – Transtorno da personalidade obsessiva-compulsivo Fonte: https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns- atualmente/. Acesso em: 14 jul. 2022. https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/ https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/ https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/ https://segredosdomundo.r7.com/10-transtornos-de-personalidade-mais-comuns-atualmente/ 110 Para finalizar a parte dos transtornos da personalidade, cabe dizer que eles não têm cura, apenas tratamento, que, por sua vez, pode ser medicamentoso ou não. No primeiro caso, todos os fármacos prescritos só têm princípio ativo para os sintomas desvelados pelo paciente, mas não curam, até porque a personalidade não é algo modificável. Já em relação ao segundo tipo de terapêutica, frisa-se a necessidade de psicoterapia, que, inclusive, frequentemente se caracteriza como o único tratamento adequado no qual o paciente exibe controle perante os sintomas. 111 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu: • A personalidade se define como a principal característica que diferencia uma pessoa da outra, pois determina sua individualidade. Consiste em um processo lento, cujo gatilho inicial se dá na transição entre infância e adolescência; e se encerra na transição da adolescência para início da fase adulta. • O transtorno de personalidade se trata de um distúrbio grave de comportamento que envolve todas as áreas de atuação da pessoa, ocasionando desmembramentos de sua vida em sociedade. • Os transtornos de personalidade são, ainda, classificados por grupos, a depender da modalidade de comportamento apresentado pelo paciente. Existem três grupos: A, B e C. • Dentro do grupo A, tem-se: transtorno da personalidade esquizotípica, transtorno da personalidade paranoide e transtorno da personalidade esquizoide. • No grupo B, tem-se: transtorno da personalidade antissocial, transtorno da personalidade borderline, transtorno da personalidade histriônica e transtorno da personalidade narcisista. • Por fim, no grupo C, tem-se: transtorno da personalidade de abstenção ou de es- quiva, transtorno da personalidade dependente e transtorno da personalidade ob- sessivo-compulsiva. 112 AUTOATIVIDADE 1 Os transtornos de personalidade são classificados em grupos, cada um reunindo características específicas. Assim, assinale a única alternativa que NÃO contempla um desses grupos. a) ( ) Grupo D. b) ( ) Grupo C. c) ( ) Grupo B. d) ( ) Grupo A. 2 A característica desse transtorno parece inocente, mas, se exacerbada, o indivíduo, além do medo de perder o apoio dos que estão em volta, tem enormes dificuldades para tomadas de decisão, permitindo a interferência de terceiros. A respeito de que tipo de Transtorno de personalidade estamos nos referindo, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Narcisista. b) ( ) Dependente. c) ( ) Histriônica. d) ( ) Obsessivo compulsivo. 3 Correspondem ao tipo de transtorno mental mais difíceis de serem diagnosticados, uma vez que revela um processo lento, cujo gatilho inicial se dá na transição entre infância e adolescência; e se encerra na transição da adolescência para início da fase adulta. Diante disso, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Psicóticos. b) ( ) Ansiosos. c) ( ) Personalidade. d) ( ) Humor. 4 O transtorno de personalidade narcisista está entre os transtornos de personalidade mais comuns atualmente. Defina esse transtorno. 5 O transtorno de personalidade histriônica apresenta mudanças emocionais repenti- nas. Defina esse tipo de transtorno. 113 TÓPICO 4 - SÍNDROMES RELACIONADAS À ALIMENTAÇÃO, À SEXUALIDADE, AO SONO E AO ABUSO DE SUBSTÂNCIAS 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 2 Neste tópico, serão abordadas síndromes relativas à alimentação, à sexualidade, ao sono e ao abuso de substâncias, didaticamente nessa ordem. Cada uma delas possui algumas classes de transtornos específicos que serão também explanados aqui. 2 SÍNDROMES RELACIONADAS À ALIMENTAÇÃO Iniciando-se pelas síndromes relacionadas à alimentação, convém salientar, antes de tudo, que a alimentação consiste em uma das etapas do ato de nutrição, tão essencial à manutenção da vida, pois a partir dela, o ser humano tem acesso aos mais variados tipos de nutrientes energéticos para serem distribuídos para as células e, assim, elas desempenharem seu metabolismo. É possível dizer que todos os indivíduos têm um comportamento alimentar adotado ao longo de sua vida. Esse comportamento pode ser conceituado, conforme Halmi (2008, p. 971). O comportamento alimentar é agora conhecido por refletir uma interação entre um estado fisiológico do organismo e condições ambientais. As variáveis fisiológicas salientes incluem o equilíbrio de vários neuropeptídios e neurotransmissores, estado metabólico, taxa metabólica, condição do trato gastrintestinal, quantidade de tecido de armazenamento e receptores sensoriais para paladar e olfato. As condições ambientais incluem características do alimento, como sabor, textura, novidade, acessibilidade e composição nutricional, e outras condições externas, como temperatura ambiente, presença de outras pessoas e estresse. Quando esse comportamento passa por problemas, ocasionando perda ou ganho de peso e perda ou acentuação do apetite, diz-se que, muito provavelmente, pode estar havendo algum tipo de transtorno alimentar. Esses transtornos, por sua vez, mexem com vários aspetos, incluindo a percepção da imagem corporal, já que esta é uma forma pessoal de enxergar a aparência física, tão influenciada pela alteração do peso. 114 Diante do que já foi exposto, você é capaz de concluir que a etiologia dos transtornos alimentares é bem diversificada, envolvendo fatores biológicos, psicológicos, ambientais e socioculturais, principalmente. Dentre os transtornos alimentares, a anorexia nervosa, a bulimia nervosa, o transtorno da compulsão alimentar periódica e a Picafagia serão aqui abordados por serem os mais prevalentes na sociedade. A anorexia nervosa é caracterizada pelo medo constante e considerável do ganho de peso, mesmo quando a pessoa está abaixo do peso considerado ideal. Nesse caso, existe a distorção da imagem corporal da seguinte forma: o indivíduo se enxerga gordo ou acima do peso, mesmo não estando. Devido ao fato de ele ter essa percepção errônea da imagem corporal, ele evita comer a todo custo para não aumentar o peso. Perceba que o problema está no fato de ele evitar comer/alimentar-se, e não em não sentir fome. Por isso mesmo que somente o termo anorexia para descrever esse distúrbio está errado, como era denominado antigamente. Dentre as principais característicasapresentadas na anorexia nervosa, desta- cam-se: importante perda de peso; negação da fome; sensopercepção normal do próprio comportamento alimentar; amenorréia; inatividade sexual; obsessão e perfeição; intro- versão; iminência de morte por inanição ou suicídio e utilização de purgantes, diuréticos e laxantes (MELLO, 2008). Na Figura 21 a seguir, percebe-se esse comportamento. Figura 21 – Anorexia nervosa Fonte: https://www.posuscs.com.br/anorexia-nervosa-saiba-como-identificar-e-tratar/noticia/217. Acesso em: 14 jul. 2022. A bulimia nervosa, por sua vez, se caracteriza por uma rápida, incontrolada e compulsiva ingestão de grandes quantidades de alimentos. Aqui também existe a sensação de fome, mas a pessoa come exageradamente em curto espaço de tempo, representando uma compulsão. https://www.posuscs.com.br/anorexia-nervosa-saiba-como-identificar-e-tratar/noticia/217 115 Como há, ainda, a preocupação considerável com a imagem corporal, o paciente recorre à utilização de laxantes, diuréticos, bem como à prática exacerbada de atividade física e realização de dietas e jejuns no intuito de compensar a ingestão em excesso, anterior. Vale enfatizar que esses comportamentos purgativos (como vômitos e outros) acabam por acarretar também problemas de disfunção no equilíbrio hidroeletrolítico com consequente desidratação (TOWNSEND, 2017). As principais características do paciente com bulimia nervosa, portanto, podem ser compiladas da seguinte forma: peso próximo do normal, apresentando menor perda que o anoréxico; maior extroversão que o anoréxico; sensação de fome; sensopercepção adequada do comportamento alimentar errado; sexualmente mais ativo que o anoréxico; revelar obsessão e esquiva; menstruação irregular; iminência de morte por hipocalcemia e suicídio; como também adoção de comportamentos impulsivos como a cleptomania e uso de substâncias (MELLO, 2008). A Figura 22 representa tais características. Figura 22 – Bulimia nervosa Fonte: https://www.istockphoto.com/br/vetor/transtorno-nutricional-da-mulher-bulimia-problema- vetor-gm1277727210-376858774?phrase=bulimia%20nervosa. Acesso em: 14 jul. 2022. O transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP) é aquele no qual a pes- soa exprime vários eventos de hiperfagia, adquirindo sofrimento e vergonha como con- sequência. Perde-se o controle sobre o comportamento alimentar, mas não há tomada de providência para evitar ganhar peso (MELLO, 2008). A Figura 23 ilustra essa realidade. https://www.istockphoto.com/br/vetor/transtorno-nutricional-da-mulher-bulimia-problema-vetor-gm1277727210-376858774?phrase=bulimia nervosa https://www.istockphoto.com/br/vetor/transtorno-nutricional-da-mulher-bulimia-problema-vetor-gm1277727210-376858774?phrase=bulimia nervosa 116 Figura 23 – Transtorno da compulsão alimentar periódica Fonte: https://hospitalsantamonica.com.br/tag/compulsao-alimentar/. Acesso em: 14 jul. 2022. A Picafagia, por fim, é o transtorno que corresponde à ingestão frequente de conteúdos de natureza não alimentar, e, consequentemente, não nutritivo, como areia, papel, argila, cabelo, giz, dentre outros; por um período mínimo ou superior a um mês (TOWNSEND, 2017). No que tange ao tratamento dos transtornos alimentares, é sabido que seu maior objetivo é promover a recuperação do estado nutricional do paciente e trabalhar com o paciente a psicoterapia, a fim de ele modificar os hábitos alimentares. 2.1 SÍNDROMES RELACIONADAS À SEXUALIDADE Conversando, agora, sobre as síndromes relativas à sexualidade, destina- se aqui algum espaço para considerações iniciais e importantes sobre a temática da sexualidade. Inicialmente, urge frisar que inexiste um consenso sobre comportamento sexual adequado ou normal. Há alguns anos, o normal para essa situação era o que ocorria entre cônjuges, heterossexuais e com finalidade de gerar uma prole, perpetuando a espécie. Em tempos hodiernos, porém, existem múltiplas possibilidades de comportamento sexual socialmente aceitos e abrangentes, uma vez que há de se considerar as questões de gênero. Tendo-se por base essa vertente, é pertinente esclarecer que orientação sexual é a atração que se sente por outra pessoa, seja ela do mesmo gênero, do gênero oposto ou de ambos; ao passo que identidade de gênero é a noção subjetiva de ser um https://hospitalsantamonica.com.br/tag/compulsao-alimentar/ 117 homem, uma mulher ou ambíguo. Independentemente dessas questões, entretanto, é possível pontuar a respeito de comportamento sexual bem adaptado, sendo aquele que acontece entre dois indivíduos adultos, com consentimento de ambos, sem prejuízo de nenhuma natureza e que aconteça em espaço privado (MELLO, 2008). As síndromes de natureza sexual são subdivididas em três categorias: as disfunções sexuais, os transtornos de preferências sexuais e os transtornos de identidade sexual. As principais disfunções sexuais englobam o vaginismo, a dispareunia, o transtorno orgásmico e o transtorno de excitação sexual. O vaginismo se consiste em uma contração involuntária do canal vaginal, acarretando dor. Está geralmente relacionado a casos de violência sexual. A dispareunia é, meramente, a dor durante o ato sexual propriamente dito, sendo ocasionado frequentemente por doenças no aparelho pélvico, infecções e redução da lubrificação. O transtorno orgásmico se caracteriza como a inibição do orgasmo por estimulação inadequada de zonas erógenas ou até outros eventos de natureza mental. Por fim, o transtorno de excitação sexual se reporta à ausência de excitação durante a relação sexual. Atente-se, a partir da Figura 24 a seguir, que essas disfunções correspondem a problemas orgânicos, mas que acabam por afetar as esferas psicológicas e sociais dos relacionamentos ou de seus participantes. Figura 24 – Disfunções sexuais Fonte: https://br.mundopsicologos.com/artigos/o-que-voce-precisa-saber-sobre-disfuncoes-sexuais. Acesso em: 15 jul. 2022. https://br.mundopsicologos.com/artigos/o-que-voce-precisa-saber-sobre-disfuncoes-sexuais 118 Os transtornos de preferências sexuais, também intitulados de parafilias, são aqueles que dizem respeito aos fetiches ou fantasias sexuais, podendo ser desempenhados pela preferência de uso de objeto não humano; pela realização do ato sexual que envolva sofrimento real ou simulado e pelo desempenho de atividade sexual repetitiva não consentida por um dos envolvidos. Todos eles são geradores de sentimento angustiante de pelo menos seis meses para quem é portador e levam ao prejuízo da convivência em nível social e laboral. Os principais transtornos inseridos nessa vertente correspondem à pedofilia, ao exibicionismo, ao fetichismo, ao voyeurismo, ao tranvestismo fetichista e ao sadismo sexual. A pedofilia se caracteriza pelos impulsos, fantasias e comportamentos sexuais recorrentes, envolvendo uma criança ou adolescente. A faixa etária do molestador é de pelo menos 16 anos e a maior parte das moléstias envolve carícias genitais e sexo oral (APA, 2000). A Figura 25 a seguir demonstra a situação vivenciada pela criança vítima dessa situação. Figura 25 – Pedofilia Fonte: https://www.conexaopolitica.com.br/congresso/comissao-aprova-projeto-de-lei-que-cria- cadastro-nacional-de-pedofilos/. Acesso em: 15 jul. 2022. O exibicionismo é o transtorno em que o indivíduo sente intenso prazer em se exibir para outrem. Em outras palavras, essa situação denota exposição dos órgãos sexuais a algum estranho, podendo, ainda, envolver a masturbação (KING, 2009). Na Figura 26 a seguir, evidencia-se essa situação. https://www.conexaopolitica.com.br/congresso/comissao-aprova-projeto-de-lei-que-cria-cadastro-nacional-de-pedofilos/ https://www.conexaopolitica.com.br/congresso/comissao-aprova-projeto-de-lei-que-cria-cadastro-nacional-de-pedofilos/ 119 Figura 26 – Exibicionismo Fonte: https://pt.sainte-anastasie.org/articles/sexologa/exhibicionismo-causas-y-sntomas-de-esta- parafilia-sexual.html. Acesso em: 15 jul. 2022. O fetichismo, porsua vez, envolve os impulsos, desejos e comportamentos sexuais recorrentes de pelo menos seis meses a partir da utilização de objetos inanimados, que frequentemente são manipulados durante a masturbação ou incorporado à atividade sexual com outra pessoa para provocar a excitação (APA, 2000). Ainda em conformidade com a Associação Americana de Psiquiatria (APA) (2000), o tranvestismo fetichista é o fetichismo que abrange o chamado cross-dressing, ou seja, a utilização de peças do vestuário feminino por homens quando estão sozinhos. Nesse ínterim, afirma-se que a excitação sexual acontece a partir da fantasia imaginada pelo homem ao se enxergar vestido de mulher sem atenção voltada pera a genitália. As Figuras 27 e 28 que se seguem abordam essas duas últimas situações, respectivamente. Figura 27 – Fetichismo Fonte: https://areademulher.r7.com/curiosidades/fetiche/. Acesso em: 15 jul. 2022. https://pt.sainte-anastasie.org/articles/sexologa/exhibicionismo-causas-y-sntomas-de-esta-parafilia-sexual.html https://pt.sainte-anastasie.org/articles/sexologa/exhibicionismo-causas-y-sntomas-de-esta-parafilia-sexual.html https://areademulher.r7.com/curiosidades/fetiche/ 120 Figura 28 – Tranvestismo fetichista Fonte: https://psicoterapeutas.eu/tratamiento-del-fetichismo-trasvestista/. Acesso em: 15 jul. 2022. O sadismo sexual é o transtorno sexual em que se verifica excitação ao presenciar ou provocar sofrimento de natureza psicológica ou física, inclusive o ato de humilhação, da vítima. Admitem atos consensuais ou não, portanto. Os exemplos mais clássicos de sadismo sexuais são os atos de bater, estuprar, torturar, queimar e conter. A Figura 29 demonstra essa situação. Figura 29 – Sadismo sexual Fonte: https://falauniversidades.com.br/praticas-fetiches-sexuais-guia-explicativo/. Acesso em: 15 jul. 2022. Por fim, o voyeurismo consiste-se nos impulsos, excitações e desejos provenientes do ato de observar alguém inocente que se encontra despido ou em processo de retirada da roupa durante o ato sexual. Importante chamar atenção para o fato de que esses sentimentos são despertados apenas pelo ato de olhar, mas não de ter que realizar algum contato (APA, 2000). Essa modalidade de transtorno pode ser verificada na Figura 30 a seguir. https://psicoterapeutas.eu/tratamiento-del-fetichismo-trasvestista/ https://falauniversidades.com.br/praticas-fetiches-sexuais-guia-explicativo/ 121 Figura 30 – Voyeurismo Fonte: https://iracemateixeira.com.br/voyeurismo-nao-e-so-curiosidade-sobre-a-intimidade-alheia/. Acesso em: 15 jul. 2022. 2.2 SÍNDROMES RELACIONADAS AO SONO Para concluir este tópico, serão trazidos à tona as síndromes relacionadas ao sono. Uma das primeiras considerações a ser feita é sobre o próprio processo de sono. Este consiste em um momento que foi destinado ao repouso ou descanso do ser humano, ou seja, um período em que o homem para de realizar suas atividades a fim de poupar energia para o dia seguinte. Esse momento em que se descansa é evidenciado desde os tempos mais remotos como sendo aquele em que a luz solar se põe e o planeta é iluminado pela luz da lua, o chamado entardecer ou cair da noite. Quando isso acontece, o corpo humano automaticamente entende que é o momento de fazer uma pausa e dormir. Partindo-se das nuances fisiológicas, o sono, juntamente com a vigília, fase antagônica a este, são regulados pelo denominado ciclo ou ritmo circadiano, em que se identifica a atuação dos sistemas nervoso e endócrino. Esse ciclo tem duração de um dia, mas acontece diariamente, porque é essencial para a manutenção do metabolismo ou do funcionamento do relógio biológico. O controle do ciclo é regido pelo hipotálamo, uma glândula do sistema nervoso que, dentre várias funções, capta a sensibilidade aos raios luminosos, estabelecendo esse padrão de sono e vigília ao longo do dia. Após captar esses raios, os estímulos luminosos são direcionados para outra glândula de suma importância, a hipófise que, por sua vez, desempenha a produção de um hormônio chamado melatonina. Este hormônio tem seus níveis acentuados quando o dia anoitece, preparando o corpo para o descanso diminuindo a atividade metabólica da seguinte forma: abaixando a temperatura basal, a pressão arterial, a frequência cardíaca, a respiração; enfim, os sinais vitais. Por outro lado, quando o dia amanhece, esse hormônio tem seus níveis diminuídos em contraposição, também, aos níveis do hormônio cortisol que se elevam para deixar o corpo em estado de vigília e alerta. https://iracemateixeira.com.br/voyeurismo-nao-e-so-curiosidade-sobre-a-intimidade-alheia/ 122 O ciclo circadiano pode ser desequilibrado diante de alguns eventos que hodiernamente demarcam o estilo de vida da maioria das pessoas em todo o mundo. Esses eventos são exemplificados pelo ato de dormir tarde; inversão do horário do próprio ciclo sono-vigília, com o trabalho noturno e repouso diurno; realização de viagens para lugares cujo fuso horário apresente uma enorme diferença em relação ao local de origem; dentre outros. Quando isso acontece, o corpo humano começa a dar sinais de cansaço extremo, perda de concentração e atenção, irritabilidade, cefaleia e alterações do padrão alimentar. Algumas dessas mudanças podem evoluir para distúrbios do sono mais sérios, assunto que será tratado nos próximos parágrafos. Antes dessas considerações, é válido, ainda, ressaltar que o sono se subdivide em quatro fases principais: fase 1, fase 2, fase 3 e fase REM. Durante as três primeiras fases, o corpo poupa energia, promovendo a restauração tecidual, aumentando a massa muscular e liberando o hormônio somatotrófico ou hormônio do crescimento. Já na fase REM, fun- ções cognitivas como a memória e o aprendizado são devidamente consolidadas. Inúmeros distúrbios relacionados ao sono já foram identificados e são, portanto, conhecidos. Esses distúrbios são denominados de transtornos do sono e são frequentes na população. As formas como se manifestam podem ser má qualidade do sono, insônia, sonolência excessiva diurna, dificuldade em dormir ou acordar na hora desejada e por movimentos/comportamentos anormais relacionados ao sono (NEVES; MACEDO; GOMES, 2017). A insônia se caracteriza pela dificuldade de dormir, considerando as vertentes inicial do sono e de manutenção dele. Por outro ângulo, pode-se dizer que suas queixas são pautadas à dificuldade de iniciar o sono, ao despertar noturno inúmeras vezes com dificuldade de retomar o sono e ao despertar precoce (MARGIS, 2015). Quando isso acontece, a pessoa sente as manifestações clínicas no âmbito físico, como sonolência e cansaço; no âmbito mental, como alterações das principais funções cognitivas; e no âmbito social, como prejuízos nos relacionamentos. Esse problema não é diagnosticado ao ocorrer apenas uma vez, pois se faz necessário que exista uma durabilidade de pelo menos três meses, como episódios de frequência de três vezes na semana, impactando na qualidade de vida da pessoa ou piorando outras patologias de base já pré-existentes (MACEDO et al., 2015). A sonolência excessiva diurna (SED) significa a incapacidade de se manter acordado ou em estado de alerta durante o momento do dia, podendo ser proveniente de algum transtorno de sono já existente, à privação de sono, à má qualidade deste e algum outro transtorno de base, o que acaba por interferir negativamente nas atividades de cunho laboral, por exemplo (NEVES; MACEDO; GOMES, 2017). 123 Quadro 1 – Caraçonas relacionadas ao sono REM Despertar confusional Usualmente menores de cinco anos de idade, com despertar confuso antes da primeira parte do sono, com duração de menos de 5 minutos. O comportamento é benigno, ocasionalmente podem estar agressivos e violentos. Resolução espontânea no adulto, podendo persistir ao longo do tempo e com comportamentos automáticos/inapropriados. Sonambulismo Usualmente, inicia assim que a criança começa a andar, na adolescência ou em qualquer fase da vida (incluídaa sétima década). Deixam a cama, andam, correm, podendo apresentar comportamentos inapropriados e violentos com prejuízo da memória retrógrada e anterógrada. Terror noturno 1% a 6,5% das crianças (início entre 4 e 12 anos) e 2,2% nos adultos. Geralmente, os sintomas desaparecem na adolescência. Acompanhados de choros, gritos, sonhos e sintomas motores e autonômicos intensos (taquicardia, taquipneia, dilatação pupilar e diaforese) diferente do despertar confusional. Desorientação e amnésia após cada episódio, término súbito e resistência ao consolo. Sono associado com comportamentos sexuais anormais Comportamentos sexuais anormais (masturbação, molestação sexual e vocalização sexual alta) durante o sono com consequências interpessoais, clínicas e até criminais com amnésia matinal. Transtornos do sono relacionados à alimentação Episódios recorrentes de ingestão de alimentos de forma disfuncional durante o sono. Consumo de combinações de alimentos peculiares ou de substâncias tóxicas podendo causar lesões na procura da comida ou no seu cozimento e aumento de peso. Fonte: Adaptado de Neves; Macedo; Gomes (2018) A dificuldade para dormir ou acordar na hora desejada ocorre quando existem transtornos do ritmo circadiano, situação em que há um desequilíbrio do ciclo sono- vigília. Isso pode ocorrer por necessidades sociais ou não. Se for por causas sociais, fala-se que o ciclo se torna fora de sincronia para atender as demandas da rotina de vida da pessoa; se for por causas não sociais, o ciclo se desregula devido a mecanismos fisiopatológicos diversos. Por fim, existem os transtornos do sono associados aos movimentos e comportamentos anormais durante sua ocorrência. Aqui se inserem, as parassonias, que se enquadram em fenômenos clínicos oriundos nas transições entre as fases REM e NREM (não REM) do sono. As Figuras 31 e 32 a seguir demonstram todas as possibilidades de parassonias existentes hoje, com seus principais sintomas, tanto para a fase REM quanto para a fase NREM, respectivamente. 124 Fonte: Adaptado de Neves; Macedo; Gomes (2018) 2.3 SÍNDROMES RELACIONADAS AO ABUSO DE SUBSTÂNCIAS A partir de agora, você conhecerá as principais síndromes relacionadas ao abuso de substâncias. Que substâncias são essas, entretanto? Elas são substâncias de natureza química denominadas genericamente de drogas. Você sabe qual a definição para o termo drogas? A droga é conceituada como qualquer tipo de substância que não é produzida pelo organismo e que tem a capacidade de agir sobre um ou mais dos sistemas orgânicos, acarretando alterações em seu funcionamento. Há quem considere a droga como má, como também há quem a considere como boa. Por outro lado, saiba que ela não é uma coisa nem outra, pois algumas são medicamentos, outras são venenos ou tóxicos, bem como, algumas podem funcionar como medicamentos e venenos concomitantemente. Quadro 2 – Parassonias relacionadas ao sono NREM Transtorno comportamental do sono REM Geralmente, ocorre em homens acima de 50 anos, podendo manifestar-se também em mulheres e indivíduos mais jovens. Esses episódios podem se expressar por vocalizações ou comportamentos motores complexos e relatos de sonhos violentos com agressões ao próprio paciente ou ao (a) companheiro (a) Pesadelos Acontece mais em crianças (entre 6 a 10 anos) acompanhados de medo, terror e/ou ansiedade. Comuns em pacientes que usam drogas anticolinérgicas, betabloqueadoras, antiparkinsonianas e na retirada de drogas supressoras do sono REM (antidepressivos tricíclicos, inibidores da MAO, lítio, anfetaminas, metilfenidato e clonidina). Paralisia Recorrente Isolada do Sono Início na segunda e terceira década de vida. Incapacidade para falar e movimentar tronco e membros durante o início do sono ou ao acordar com duração de alguns segundos ou minutos causando ansiedade ou medo de adormecer, não estando relacionada com a narcolepsia. Promulgação dos sonhos – Dream-enactment behavior Os pacientes apresentam pesadelos ou sonhos perturbadores. As mulheres falam, choram, riem e sentem-se amendrontadas. Homens tem mais comportamento sexual. Pode ser frequente nas gestantes e no puerpério. As crises são menos frequentes e violentas do que na doença comportamental do sono REM. São independentes de outras parassonias e não estão relacionadas ao conteúdo do sonho. 125 Dentre as classificações existentes para as drogas, salienta-se a do ponto de vista legal, que as divide em lícitas e ilícitas. As drogas ditas lícitas são aquelas comercializadas de forma legal, podendo ou não ser submetidas a algum tipo de restrição. Como exemplo, citam-se o álcool e os cigarros (tabaco). Já as drogas ditas ilícitas, são aquelas cuja comercialização não ocorre de forma legal, existindo na clandestinidade, portanto. Como exemplos, citam-se a maconha e a cocaína. No tocante ao mecanismo de ação da droga nas células do sistema nervoso central, elas podem ser depressoras, estimulantes e perturbadoras. As drogas depressoras do sistema nervoso central implicam diminuição da atividade global ou de pontos específicos no cérebro. Reduzem a motricidade, a reatividade à dor e à ansiedade. É bastante comum que originem um efeito inicial de euforia e, posteriormente, do aumento de sonolência. Os exemplos que se encaixam aqui são o álcool, os barbitúricos, os benzodiazepínicos, os opioides, os solventes e os inalantes. As drogas estimulantes do sistema nervoso central aumentam a atividade de espaços cerebrais específicos, levando ao estado de alerta exacerbado, insônia e aceleração dos processos químicos como consequência. O tabaco, a cafeína, as anfetaminas e a cocaína são alguns dos seus exemplos. As drogas perturbadoras do sistema nervosos central, por sua vez, alteram a atividade mental, de forma a gerar diversos fenômenos psíquicos anormais, como alucinações e delírios. Como exemplo, citam-se a maconha, o LSD, o ecstasy, os anticolinérgicos e os esteróides. 2.4 ÍNDROME DE DEPENDÊNCIA E ABSTINÊNCIA Um dos dois grupos de transtornos relacionados com o uso de substâncias corresponde aos transtornos por uso de substâncias (dependência e uso abusivo). Tanto o uso quanto o abuso de substâncias são tidos como importantes problemas de saúde pública e que ocorrem pela interação entre fatores e condicionantes de saúde em suas esferas individual, cultural e social. O abuso de substâncias consiste em seu uso contínuo; já a dependência é uma avidez extrema da droga pelo organismo, ocasionando sintomas físicos, psíquicos e comportamentais. Ambas as condições levam a variados prejuízos. Faz- se imprescindível inserir o conceito de tolerância também, pois ela está relacionada à necessidade de elevar a quantidade de droga ingerida com o intuito de gerar os mesmos efeitos anteriores (MELLO, 2008). Acrescenta-se o conceito de abstinência, como sendo o quadro de sintomas físicos e psicológicos, de moderado a grave, o qual resulta de uma parada gradual ou abrupta de uma determinada substância em que já existia um histórico de dependência, 126 quando, por algum motivo, não há mais como fazer uso dela (MALBERGIER, 2002). Os principais sintomas de uma síndrome de abstinência são tontura, náusea, cefaleia, alucinação, paresia, sonolência e alteração do apetite. A Figura 33 a seguir traz um exemplo dessas situações supracitadas, diferenciando através da ilustração, seus conceitos. Figura 31 – Síndromes de dependência e abstinência Fonte: https://slideplayer.com.br/slide/5647692/. Acesso em: 15 jul. 2022. 2.5 TRANSTORNOS MENTAIS E COMPORTAMENTOS CAUSADOS PELO USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS (SPA) Existem inúmeros transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de substâncias psicoativas. O que os diferencia é a gravidade e a sintomatologia diversa deles. O diagnóstico é realizado por um profissional médico competente, que leva em consideração a substância utilizada pelo paciente e o quadro clínico por ele apresentado.Para fazer sua anamnese da forma mais completa possível, o médico se utiliza de toda fonte de informação disponível, tal como o próprio paciente, os resultados de exames, os sintomas físicos e psicológicos do paciente, outras evidências como drogas de que os pacientes estejam de posse e relatos de acompanhantes. Nessas categorias, existem os transtornos psicóticos relacionados ao uso de substâncias que são caracterizados pela presença de alucinações, ideias delirantes, perturbações psicomotoras e de afetos anormais, comprometimento da sensopercepção, podendo também existir um certo grau de obnubilação da consciência. https://slideplayer.com.br/slide/5647692/ 127 Outro tipo de transtorno é a síndrome amnésica, que ocasiona importantes lapsos de memória tanto para fatos recentes quanto para os remotos. A memória recente, entretanto, encontra-se tipicamente mais perturbada que a remota. Normalmente o paciente experiencia perturbações de orientação temporal da cronologia dos acontecimentos e apresenta confabulação intensa. Considera-se, anda, o transtorno psicótico residual ou de instalação tardia, ou seja, aquele em que as alterações persistem além do período, durante o qual pode ser subentendido como efeito direto da substância. 2.6 PROGRAMA DE REDUÇÃO DE DANOS Antes de falar sobre a redução de danos, convém tecer algumas considerações sobre a Política Nacional sobre Drogas (PNAD). Esta política estabelece os fundamentos, os objetivos, as diretrizes e as estratégias indispensáveis para que os esforços, voltados para a redução da demanda e da oferta de drogas, possam ser conduzidas de forma planejada e articulada. O sistema nacional dessa política apresenta como objetivos a contribuição para inclusão social do cidadão; a promoção da construção e a socialização do conhecimento sobre drogas no país; a prevenção de danos; a repressão da produção não autorizada e o tráfico ilícito de drogas, bem como a promoção de políticas públicas setoriais dos órgãos das três esferas do poder. Quando se fala em drogas, muito se é discutido a respeito de como diminuir seus efeitos e danos à saúde. Dessa forma, surgiu o que se chama de Redução de Danos (RD), que nada mais é do que um conjunto de estratégias que objetivam minimizar os danos causados pelo uso de diferentes drogas, sem que necessariamente o usuário realize uma parada abrupta da substância (DOMANICO, 2006). Analisando-se essa ideia por outra ótica, pode-se dizer que a RD pretende fazer com que o usuário evite outros tipos de danos e riscos a sua saúde, apesar de não entrar em abstinência da droga totalmente. Os princípios básicos da Redução de Danos são: ser uma alternativa de saúde pública para modelos morais e criminais relativos ao uso das drogas; reconhecer a abstinência como resultado ideal, mas admitir outras possibilidades que reduzam os danos; ser implementada como uma abordagem de “baixo para cima”; promover acesso a serviços de baixa exigência; e basear-se em princípios de um pragmatismo empático em detrimento a um idealismo moralista (MARLLAT, 1999). As principais atividades dos programas de redução de danos, no Brasil, incluem a localização e abordagem dos usuários; a substituição de seringas usadas por novas; informações e orientações à saúde; testagem anônima para infecções sexualmente 128 transmissíveis; exames para os demais problemas de saúde e encaminhamento para tratamento da dependência. Torna-se, ainda, imprescindível salientar que toda essa abordagem ao usuário é pactuada entre ele e o profissional de referência, ou seja, nada lhe é imposto, nada lhe é forçado. Ele tem autonomia para decidir se quer participar de um programa de redução de danos ou não. Na Figura 32 a seguir, retrata-se a lógica da Redução de Danos. Figura 32 – Lógica da Redução de Danos Fonte: https://redehumanizasus.net/reducao-de-danos-com-usuarios-de-drogas-e-alcool-no-sistema- de-saude/. Acesso em: 15 jul. 2022. https://redehumanizasus.net/reducao-de-danos-com-usuarios-de-drogas-e-alcool-no-sistema-de-saude/ https://redehumanizasus.net/reducao-de-danos-com-usuarios-de-drogas-e-alcool-no-sistema-de-saude/ 129 RESUMO DO TÓPICO 4 Neste tópico, você aprendeu: • Quando o comportamento alimentar passa por problemas, ocasionando perda ou ganho de peso e perda ou acentuação do apetite, diz-se que, muito provavelmente, pode estar havendo algum tipo de transtorno alimentar. • A anorexia nervosa é caracterizada pelo medo constante e considerável do ganho de peso, mesmo quando a pessoa está abaixo do peso considerado ideal. • A bulimia nervosa, por sua vez, se caracteriza por uma rápida, incontrolada e compulsiva ingestão de grandes quantidades de alimentos. • O transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP) é aquele no qual a pessoa exprime vários eventos de hiperfagia, adquirindo sofrimento e vergonha como consequência. • A Picafagia, por fim, é o transtorno que corresponde à ingestão frequente de conteú- dos de natureza não alimentar, e, consequentemente, não nutritivo, como areia, papel, argila, cabelo, giz, dentre outros; por um período mínimo ou superior a um mês. • As síndromes de natureza sexual são subdivididas em três categorias: as disfunções sexuais, os transtornos de preferências sexuais e os transtornos de identidade sexual. • As formas como os distúrbios do sono se manifestam podem ser má qualidade do sono, insônia, sonolência excessiva diurna, dificuldade em dormir ou acordar na hora desejada e por movimentos/comportamentos anormais relacionados ao sono. • Existem inúmeros transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de substâncias psicoativas. O que os diferencia é a gravidade e a sintomatologia diversa deles. O diagnóstico deles é realizado por um profissional médico compe- tente, que leva em consideração a substância utilizada pelo paciente e o quadro clínico por ele apresentado. • Os princípios básicos da Redução de Danos são: ser uma alternativa de saúde pública para modelos morais e criminais relativos ao uso das drogas; reconhecer a abstinência como resultado ideal, mas admitir outras possibilidades que reduzam os danos; ser implementada como uma abordagem de “baixo para cima”; promover acesso a serviços de baixa exigência; e basear-se em princípios de um pragmatismo empático em detrimento a um idealismo moralista. 130 AUTOATIVIDADE 1 Quando uma pessoa não consegue enxergar-se fisicamente como realmente é, diz- se que ela tem a distorção da imagem corporal. Com relação a qual transtorno se trata, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Personalidade. b) ( ) Ansioso. c) ( ) Alimentar. d) ( ) Sono. 2 Os transtornos relacionados ao comportamento sexual são diversos. Com relação àquele que consiste nos impulsos, excitações e desejos provenientes do ato de observar alguém inocente que se encontra despido, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Exibicionismo. b) ( ) Voyeurismo. c) ( ) Pedofilia. d) ( ) Narcisismo. 3 As drogas ocasionam várias alterações na vida de um usuário. Quando isso chega a um extremo, é necessário propor mecanismos de intervenção. Sobre o Programa que consiste em diminuir os riscos à saúde sem a interrupção total do uso das drogas, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Redução de males. b) ( ) Redução de danos. c) ( ) Redução de riscos. d) ( ) Redução dos fatores. 4 Para ser devidamente diagnosticada como insônia, é necessário que exista uma durabilidade de pelo menos três meses, com episódios de frequência de três vezes na semana, impactando na qualidade de vida da pessoa ou piorando outras patologias de base já pré-existentes. Diante disso, disserte sobre o que é insônia? 5 Tanto o uso quanto o abuso de substâncias são tidos como importantes problemas de saúde pública e que ocorrem pela interação entre fatores e condicionantes de saúde em suas esferas individual, cultural e social. Diante disso, descreva a diferença entre abstinência e dependência. 131 CRISE/EMERGÊNCIA PSIQUIÁTRICA1 INTRODUÇÃO UNIDADE 2 TÓPICO 5 - Este tópico tem sua importância devido ao fato de qualquer pessoa estar sujeita a apresentar crises em sua vida. Para quem já tem o diagnóstico de algum tipo de transtorno psiquiátrico, inclusive, isso não foge à regra, até porque a própria crise funciona como fator predisponente para a ocorrência da emergência psiquiátrica. Na literatura, existem vários conceitos para o termo “crise”. Dois desses conceitos serão aqui considerados. O primeiro deles, alega que a crise se refere à inabilidade da pessoa para resolver um problema, o que provoca um aumento crescente da ansiedade e deve ser considerada um evento crítico (AGUILERA, 1998; FORTINASH; HOLODAY- WORRET, 1999). Já o segundo afirma que a crise é um evento que surge quando a pessoa se depara com uma situação de conflito para o seu equilíbrio e não se sente capaz de ignorar ou de resolver o problema com seus mecanismos habituais de enfrentamento, o que também contribui para a elevação da ansiedade (SCOTT; VARCAROLIS, 2006; TOWNSEND, 2017). 2 CARACTERÍSTICAS, CLASSIFICAÇÕES E FASES DA CRISE Agora que você já sabe o que é uma crise, convém conhecer suas características mais marcantes, o que pode ser visualizado na Figura 33 a seguir. 132 Figura 33 – Características da crise Fonte: a autora Primeiramente, percebe-se que a crise ocorre em pessoas saudáveis, mesmo funcionando como fator predisponente para uma emergência psiquiátrica em casos específicos. Seu caráter é agudo e sua duração limitada porque ela é proveniente de eventos estressores abruptos que elevam os níveis do hormônio cortisol, provocando um mecanismo de reação rápido do corpo para sair da situação. Sua reação emocional é opressora porque enquanto a pessoa não sai da situação estressora que serviu de gatilho, ela sofre. A gravidade é determinada pela experimentação, uma vez que vai depender bastante da capacidade de o indivíduo responder bem e o mais breve possível aos eventos estressores. Para finalizar, diz-se que ela serve de oportunidade para crescimento porque a pessoa tende a aprender com os fatos adversos da vida. No que tange a sua classificação, a crise apresenta três tipos principais: maturacional, situacional e acidental. A crise maturacional é aquela que faz jus ao nome no sentido de ser evidenciada como cada evento estressor que surge para cada estágio do desenvolvimento da vida humana, ou seja, na infância, na adolescência, na fase adulta e na senilidade. Dessa forma, para cada etapa de vida, o indivíduo apresenta uma capacidade de reação proveniente da maturidade do que aprendeu na anterior. Já a crise situacional é aquela que depende de alguma situação específica e ao mesmo tempo corriqueira que surge de forma repentina e inesperada. Diferencia-se da crise acidental, uma vez que esta decorre de episódios raros e inesperados que não costumam ocorrer, tais como desastres naturais e interpessoais. Com relação às fases, as crises apresentam quatro em sequência de evolução cronológica, conforme aparece na Figura 34 a seguir. 133 Figura 34 – Fases da crise Fonte: a autora Na primeira fase, a crise aparece na vida da pessoa, levando-a ao aumento do estresse e ansiedade. Nela, os mecanismos primários de reação não evoluem com sucesso, o que faz com que aumente mais ainda o nível de estresse e de ansiedade, entrando na segunda fase. Nesta fase, os mecanismos de defesa e reação também não surtem efeito, então a pessoa entra na fase três, onde o estresse e a ansiedade estão extremamente exacerbados e o corpo adota mecanismos de defesa e reação “extras”, despendendo muita energia. Ainda assim, não surte efeito satisfatório, até que ela entra na fase quatro ou de colapso total, porque sua vida passa a se tornar sem sentido, um verdadeiro caos. Todos os mecanismos de defesa e reação foram explorados e a pessoa entra em exaustão, paralisando tudo a ponto de ficar na iminência da morte. 2.1 EMERGÊNCIAS PSIQUIÁTRICAS Emergência psiquiátrica (EP) é qualquer situação na qual exista risco significativo e iminente de morte ou lesão grave, provocado por sentimentos, pensamentos ou ações que colocam em risco a integridade da própria pessoa, de outras, do ambiente e da sociedade. Exige intervenção terapêutica imediata, em minutos ou horas (GUERTZEINSTEIN, 2007; SPODE; FLECK, 2001). As situações mais comuns de emergência psiquiátrica são as tentativas de suicídio, que irão requerer vigilância constante de 24 horas da pessoa que estiver com ideação para tentar; agitação e agressividade, que requer intervenção de contenção física ou química para acalmar a situação; ansiedade aguda; surtos psicóticos, que podem culminar em extrema irritabilidade e agressividade, requerendo ações de contenção; e intoxicação alcóolica, que pode levar ao coma e óbito e, portanto, requer intervenções imediatas de procedimentos assistenciais. O manejo dessas situações pode ser verificado na Figura 35. 134 Figura 35 – Manejo de Emergências Psiquiátricas Fonte: https://www.sanarmed.com/emergencias-psiquiatricas-como-manejar. Acesso em: 16 jul. 2022. 2.2 IDEAÇÃO SUICIDA E SUICÍDIO/PROTOCOLO DE SUICÍDIO O suicídio é um fenômeno presente ao longo de toda história da humanidade, em todas as culturas. Apresenta determinantes e condicionantes de saúde multifatoriais que são acumulados ao longo de toda a vida de um indivíduo: psicológicos, culturais, socioambientais e biológicos/genéticos. Falar sobre essa temática não é algo tão prático por conta de muitos estigmas existentes a seu respeito, mas, por se tratar de um grave problema de saúde pública com taxas crescentes ao longo dos últimos anos, urge essa necessidade. No caso do Brasil, é possível dizer que, levando-se em consideração essa atual conjuntura, no ano de 2017, o Ministério da Saúde criou uma agenda estratégica de prevenção ao suicídio. Quando se diz que as taxas de suicídio vêm crescendo nos últimos anos, considera-se as esferas nacional e internacional. É sabido que ele vem sendo considerado umas das principais causas de morte entre pessoas jovens, onde se incluem os adolescentes e adultos jovens. Diante desse cenário preocupante, faz-se necessário pensar sobre o porquê desse comportamento epidemiológico. Uma das possíveis justificativas para tal situação é a de que pode estar faltando capacidade de enfrentamento para os fatos adversos da vida; pois, se assim não fosse, esses indicadores não estariam se elevando. O comportamento suicida é regido por uma fase de ideação, em que a pessoa pensa em eliminar a própria vida e, portanto, planeja como isso pode ser feito; em seguida, existe a fase de tentativa desse suicídio, que pode ser concretizado ou não. No primeiro caso, não há mais o que ser feito por essa pessoa, uma vez que o plano dela https://www.sanarmed.com/emergencias-psiquiatricas-como-manejar 135 deu certo e ela estará morta. No segundo caso, em que a tentativa não foi feliz, vale ressaltar que essa pessoa precisa de enorme apoio social e, por isso mesmo, o correto é que ela permaneça sob vigilância constante de 24 horas para não voltar a tentar. Alguém com planejamento de suicídio nunca deve ficar sozinho. Convém salientar, que também no tocante à prevenção, ainda existem barreiras por parte de alguns profissionais, o que pode ser exemplificado por medo e vergonha de falar a respeito do assunto; desconhecimento sobre o assunto, bem como dos próprios sinais de alerta e fatores de risco. As pessoas frequentemente dão fortes indícios da sua intenção de se suicidar, modificando o comportamento e falando com amigos e profissionais a respeito; por isso, conversar abertamente sobre o assunto ajuda a preveni-lo, uma vez que alivia a angústia e o desespero. No que tange aos fatores de risco, estes são demarcados por questões sociais, psicológicas, por doenças mentais e condições de saúde limitantes, principalmente. Dentre os aspectos sociais, é possível citar a idade mais jovem, bem como a idade acima dos65 anos; o desemprego; os problemas financeiros e a fragilidade dos vínculos nos relacionamentos interpessoais. Já em relação aos aspectos psicológicos, é possível mencionar alguma perda recente (de amigos, familiares); baixa resiliência, que é a capacidade de se adaptar às mudanças ou situações adversas da vida; personalidade difícil; vivência de algum tipo de violência e falta de esperança. As doenças mentais que mais levam à tentativa de suicídio são a depressão, o transtorno afetivo bipolar, a esquizofrenia, os transtornos de personalidade e aqueles relacionados ao uso de substâncias. Já as condições de saúde limitantes que mais conduzem ao mesmo tipo de comportamento são as neoplasias malignas e outras doenças crônicas. Os tratamentos recomendados para as situações de comportamento suicida são pautados na psicoterapia e nos medicamentos. Os fatores protetivos, por sua vez, são a ausência de transtornos mentais, a fé ou crença religiosa, os relacionamentos interpessoais saudáveis e a prática de atividade física associada a momentos de lazer. Diante do exposto, percebe-se que podem ser variados os riscos de pessoas com comportamento suicida. Sendo assim, é possível falar na existência de um protocolo de prevenção ao suicídio que objetiva pontuar sobre ações e tomada de decisão por equipes de profissionais em sua abordagem aos pacientes que revelem esse tipo de comportamento em sua admissão ou ao longo de sua internação em dispositivos de saúde ambulatoriais e hospitalares. 136 As Figuras 36 e 37 a seguir, mostrarão dois tipos de protocolos de prevenção ao suicídio implementados em um hospital universitário brasileiro, sendo um para atendimentos em nível ambulatorial e outro para atendimentos hospitalares. Convém apenas definir alguns termos neles presentes, como pacientes de baixo, médio e alto risco para esse tipo de comportamento. O paciente de baixo risco é aquele que apresenta pensamentos suicidas esporádicos e que revelam grau de suporte social e familiar adequados. O paciente de médio risco é aquele que pensa e planeja o suicídio, mas nunca chegou a tentá-lo e que tem um bom suporte social. Já o paciente de alto risco é aquele com planos e tentativas recentes e com baixo ou nenhum suporte social. Figura 36 – Fluxograma de pacientes ambulatoriais Fonte: Batista Filho (2020, p. 14) 137 Figura 37 – Fluxograma para pacientes internados Fonte: Batista Filho (2020, p. 15) 2.3 CONTENÇÃO FÍSICA A contenção física é uma conduta assistencial na prática psiquiátrica utilizada quando os pacientes estão agressivos e agitados, colocando em risco a si mesmo, os profissionais e outros internos. Existe muito tabu a respeito desta técnica, mas convém salientar que ela pode ser implementada de forma humanizada, desde que seja utilizada a técnica correta, o que assegura também a integridade e dignidade do próprio paciente. Dessa forma, faz- se importante pontuar que essa técnica não deve ser posta em prática por conveniência ou até como alternativa de punição. A primeira observação a ser feita é a de que esse procedimento deve ser prescrito por um profissional médico, após terem sido colocadas em prática outras técnicas como comunicação verbal e aplicação de medicamentos que não surtiram efeito. Em seguida, após a prescrição, é importante destacar que deve ser realizada por uma equipe de pelo menos três membros em que um deles assuma o papel de condutor da situação, mas todos agindo com extremo profissionalismo, claro. Os pertences pessoais do paciente devem ser retirados de perto dele, para não oferecer risco de manuseio de sua parte, como também para não colocar a equipe em risco. Após 138 RESUMO DO TÓPICO 5tudo isso, as articulações dos membros do paciente serão imobilizadas, aplicando-se a contenção física ao leito. Restrições torácicas também são realizadas, a depender da necessidade, mas vale enfatizar a observância a ser mantida perante os movimentos respiratórios. Podem ser utilizados fitas de bandagens ortopédicas, lençóis, por exemplo. A seguir, na Figura 38, observam-se as partes do corpo de um paciente, nas quais essa técnica pode ser implementada. Figura 38 – Locais de realização da contenção física Fonte: https://bit.ly/3yCM2v8. Acesso em: 13 out. 2022. 139 RESUMO DO TÓPICO 5 Neste tópico, você aprendeu: • Um dos conceitos para o termo “crise” alega que a crise se refere à inabilidade da pes- soa para resolver um problema, o que provoca um aumento crescente da ansiedade e deve ser considerada um evento crítico. O outro afirma que a crise é um evento que surge quando a pessoa se depara com uma situação de conflito para o seu equilíbrio e não se sente capaz de ignorar ou de resolver o problema com seus mecanismos habi- tuais de enfrentamento, o que também contribui para a elevação da ansiedade. • Emergência psiquiátrica (EP) é qualquer situação na qual exista risco significativo e iminente de morte ou lesão grave, provocado por sentimentos, pensamentos ou ações que colocam em risco a integridade da própria pessoa, de outras, do ambiente e da sociedade. Exige intervenção terapêutica imediata, em minutos ou horas. • O comportamento suicida é regido por uma fase de ideação, em que a pessoa pensa em eliminar a própria vida e, portanto, planeja como isso pode ser feito; em seguida, existe a fase de tentativa desse suicídio que, pode ser concretizado ou não. • A contenção física é uma conduta assistencial na prática psiquiátrica utilizada quando os pacientes estão agressivos e agitados, colocando em risco a si mesmo, os profissionais e outros internos. 140 AUTOATIVIDADE 1 Variados eventos adversos ocorrem cotidianamente em nossas vidas e de forma abrupta. Quando um evento inesperado ocorre na vida de uma pessoa, seu nível de estresse e ansiedade se elevam. A respeito disso, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Depressão. b) ( ) Emergência psiquiátrica. c) ( ) Ideação suicida. d) ( ) Crise. 2 A crise ocorre em pessoas saudáveis, mesmo funcionando como fator predisponente para uma emergência psiquiátrica em casos específicos. Sobre o que NÃO contempla um tipo de crise, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Situacional. b) ( ) Maturacional. c) ( ) Ocasional. d) ( ) Acidental. 3 As crises apresentam uma sequência de evolução cronológica. Com relação às fases de uma crise, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Uma Fase. b) ( ) Três fases. c) ( ) Duas fases. d) ( ) Quatro fases. 4 As situações mais comuns de emergência psiquiátrica são as tentativas de suicídio, agitação e agressividade; ansiedade aguda; surtos psicóticos, e intoxicação alcóolica. Diante de excerto, conceitue emergências psiquiátricas. 5 Quando se diz que as taxas de suicídio vêm crescendo nos últimos anos, considera- se as esferas nacional e internacional. É sabido que ele vem sendo considerado umas das principais causas de morte entre pessoas jovens, onde se incluem os adolescentes e adultos jovens. Diante disso, caracterize o suicídio. 141 FUNÇÕES PSÍQUICAS E PSICOFARMACOLOGIA 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 2 TÓPICO 6 - As funções psíquicas são diversas e correspondem a elementos observados durante a avaliação inicial e de rotina realizada diante de um paciente em exame do estado mental. Dentre elas, citam-se: consciência, atenção, sensopercepção, afetividade, impulsividade, inteligência, memória, juízo, pensamento, linguagem, orientação e psicomotricidade. Neste tópico, serão abordados, ainda, alguns pontos principais, como a evolução histórica dos tratamentos dos psicofármacos; a relação entre a descoberta dos psicofármacos e o papel do enfermeiro na área de psiquiatria, e as principais características dos psicofármacos mais utilizados hoje no mercado. 2 CONSCIÊNCIA Com a avaliação da consciência, percebe-se se o paciente está vígil, sonolento, torporoso ou em coma. Quando está vígil, ele está responsivo a ponto de apresentar abertura ocular espontânea. Com a sonolência, há a lentificaçãodos processos ideacionais. Em estado de torpor, ele dorme, exceto quando estimulado e, em coma, ele não pode ser acordado. 3 ATENÇÃO Para a função de atenção, deve-se observar a vigilância, que compreende a manutenção de um foco de atenção para estímulos externos; a tenacidade, que é a capacidade de se manter em uma tarefa específica; e a concentração, que se consiste na capacidade de manter a atenção voluntária em alguma atividade. 4 SENSO-PERCEPÇÃO Na avaliação da sensopercepção, tenta-se identificar ilusões, ou seja, interpretações errôneas de um estímulo real; alucinações, que correspondem à percepção sensorial na ausência de estímulo externo, tendo o paciente uma percepção real de um objeto inexistente; despersonalização, que ocorre quando o paciente não tem a percepção de si adequada, manifestando estranheza ou irrealidade; desrealização, quando ele não percebe o ambiente tal qual é. 142 5 AFETIVIDADE Nesta função, o que se avalia é a qualidade do afeto (tristeza, culpa, alegria, vergonha); a sua modulação, podendo ela estar aumentada – hipermodulação, ou diminuída – hipomodulação, ou embotamento, quando não há expressão afetiva alguma; e a tonalidade do afeto (hipotimia – sintomas depressivos, hipertimia – euforia e disforia – mau humor). 6 IMPULSIVIDADE A impulsividade é a função representativa por uma atividade básica e espon- tânea que se apresenta inibida por questões pertinentes à moral. Elas não podem ser contidas ou controladas, manifestando-se como atos isolados, involuntários e sem um objetivo certo. 7 INTELIGÊNCIA A inteligência é a capacidade de pensar e agir de forma racional e lógica, discer- nindo o que é de fato essencial na vida. Costuma ser mensurada através de testes, mas suas alterações não correspondem a patologias propriamente ditas. Dentre as modifi- cações, citam-se a oligofrenia, que consiste em uma deficiência intelectual herdada ou adquirida; e demência, que é um declínio progressivo da capacidade intelectual. 8 MEMÓRIA A avaliação da memória envolve os subtipos de memória: a imediata, relativa aos últimos cinco minutos; a recente, que abrange os últimos dias e horas; e a remota, que engloba o passado, desde o início da vida da pessoa. 9 JUÍZO Também conhecido por juízo crítico, corresponde à ideia ou ao pensamento que o indivíduo tem de si mesmo (neste caso, uma autoavaliação) e das outras coisas e pessoas, adquirindo ou implementando capacidade de julgamento, ou seja, de opinar a respeito, definindo seus valores e atributos. 143 10 PENSAMENTO O pensamento consiste-se na capacidade de suceder a ideias expressas por meio da linguagem e, assim, compreender e adaptar-se ao mundo. Ele pode estar relacionado à experiência de vida, por exemplo. Ele é avaliado quanto à velocidade, à forma e ao conteúdo. Com relação à velocidade, ele pode ser lentificado, inibido ou acelerado. Quanto ao conteúdo, pode ser denominado de ruína, culpa, tristeza, grandeza e poder. Já em relação à forma, ele pode ser arborizado, quando o raciocínio não é concluído; roubado, quando transmite a sensação de roubo dele; prolixo, quando está preso a ideias supér- fluas; fugitivo, quando os assuntos são modificados subitamente; ambivalente, quando ideias antagônicas coexistem; e incoerente, quando tem seu discurso perdido. 11 LINGUAGEM A linguagem é a função psíquica relativa à forma de se comunicar através de um discurso, dependendo de fatores de um certo contexto. Ela sofre alterações na sua quantidade (mutismo, monossilábico, espontânea ou não espontânea); quanto a sua velocidade (rápida, lenta, hesitante); e ao volume (alta ou baixa). 12 ORIENTAÇÃO A orientação é a capacidade de a pessoa se situar adequadamente no tempo e no espaço. Pode admitir alterações qualitativas, como desorientação autopsíquica (de si mesmo); alopsíquica (de outras pessoas); temporal (sobre o tempo) e espacial (local em que encontra). 13 PSICOMOTRICIDADE Uma vez que todo evento psíquico culmina em eventos motores, a psicomo- tricidade representa a exteriorização e o resultado da elaboração interna de estímulos. Suas variantes podem ser: hipercinesia ou movimentação elevada; hipocinesia ou mo- vimentação diminuída; ecopraxia ou repetição imitativa do movimento; e maneirismo ou repetição estereotipada de movimentos exagerados. 144 14 PSICOFARMACOLOGIA – ASPECTOS HISTÓRICOS E GERAIS DOS PSICOFÁRMACOS No que diz respeito à evolução histórica dos tratamentos em psiquiatria, pode-se dizer que até o ano de 1950 prevalecia a insulinoterapia, eletroconvulsoterapia e a conten- ção e vigilância dos pacientes; todos já explicados anteriormente. Após o ano de 1950, en- tretanto, aconteceu uma mudança radical na terapêutica da área de saúde mental devido à introdução do uso da Clorpromazina, iniciando-se aí a terapia medicamentosa. Com o advento do uso dos psicofármacos, pois, a atuação do enfermeiro da área de saúde mental também sofreu alterações, passando a ser mais próxima do paciente e um tanto menos opressora, uma vez que houve a redução no tempo de contenção e vigilância do paciente. Acresce-se a isso, a possibilidade de convívio com a comunidade e família do paciente. Os psicofármacos são substâncias que alteram a atividade psíquica, aliviando sintomas de transtornos psiquiátricos ou promovendo alterações na percepção ou no pensamento. Sua utilização se baseia em algumas etapas de tratamento: início, estabilização, manutenção e retirada; e suas principais classes são a dos hipnóticos e ansiolíticos (benzodiazepínicos), a dos antidepressivos, a dos estabilizadores do humor e os antipsicóticos. 15 ANSIOLÍTICOS E HIPNÓTICOS Essas classes de medicamentos são denominadas de benzodiazepínicos, cujo início de ação é rápido; o tempo de tratamento pelo qual devem ser utilizados gira em torno de 8 semanas e seus efeitos se pronunciam sobre a memória e a aprendizagem. Suas principais indicações são como adjuvantes no tratamento de transtornos ansiosos e depressivos, na síndrome da abstinência ao álcool, nas convulsões e como relaxantes musculares. De forma geral, são amplamente utilizados, proporcionam alívio dos sintomas como ansiedade e insônia, não devem ser utilizados concomitantemente com o álcool, apresentam alguns efeitos colaterais e precisam ser descontinuados através de um desmame. Como exemplos de benzodiazepínicos de longa duração (ansiolíticos), é possível citar o Diazepam, o Rivotril e o Clobazam. Já os benzodiazepínicos de curta duração (hipnóticos) podem ser exemplificados pelo Alprazolam, Dormonid e Lorazepan. 145 16 ANTIDEPRESSIVOS Esta classe de medicamentos revela risco para superdosagem, no caso de algum paciente que tenha ideação suicida; necessidade de restrição ao consumo de álcool e precisam ser desmamados, ou seja, ter sua retirada gradual. São indicados para quadros depressivos, transtornos ansiosos, bulimia, TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade), incontinência urinária, dor crônica, nevralgias e enxaquecas (FUKUDA; STEFANELLI; ARANTES, 2017). Como exemplos dessas medicações, citam-se a Amitriptilina, o Anafranil, a Fluoxetina, a Paroxetina, a Sertralina, dentre outros. 17 ESTABILIZADORES DO HUMOR Os estabilizadores do humor são os medicamentos utilizados primariamente na emergência do transtorno afetivo bipolar; são eficazes em oitenta por cento dos casos de mania aguda; mas como sua dose terapêutica é muito próxima da dose tóxica, originam alguns efeitos colaterais principais como tremores, problemas dermatológicos, ganho de peso e alterações no funcionamento da tireoide; mas devem ser mantidos como profiláticos (FUKUDA; STEFANELLI; ARANTES, 2017). Muitos medicamentos dessa classe, contém o elemento químico Lítio em sua estrutura, logo a equipe de enfermagem deve ficar atenta aos efeitos da litemia (concentração dele no sangue), que são: náuseas, vômitos, fadiga, letargia, tremor fino, confusão, agitação, disartria, ataxia, hipertonia, hiperreflexia, nistagmo, fraquezamuscular, coma, convulsões, mioclonia, hipertermia e colapso cardiovascular, que são sinais de toxicidade (OLIVEIRA, 2011). Como exemplos desses medicamentos, citam-se: a Carbamazepina, o Carboli- tium, o Depakene, o Topamax, dentre outros. 18 ANTIPSICÓTICOS (NEUROLÉPTICOS) Esta classe de medicamentos é usada no controle de delírios e alucinações, sendo também eficazes no controle da agitação. São indicados para a esquizofrenia, episódios de mania, episódios mistos maníaco-depressivos, depressões psicóticas, comportamento de violência e alterações do mesmo, psicoses orgânicas e Parkinson e Alzheimer (OLIVEIRA, 2011). Os neurolépticos típicos ou de primeira geração são o Haldol, a Clorpromazina e o Akeneton. Já os neurolépticos atípicos ou de segunda geração são a Olanzapina, a Risperidona, a Clozapina e a Quetiapina. 146 RESUMO DO TÓPICO 6 Neste tópico, você aprendeu: • As funções psíquicas são diversas e correspondem a elementos observados du- rante a avaliação inicial e de rotina realizada diante de um paciente em exame do estado mental. • As funções psíquicas são: consciência, atenção, sensopercepção, afetividade, impulsividade, inteligência, memória, juízo, pensamento, linguagem, orientação e psicomotricidade. • No que diz respeito à evolução histórica dos tratamentos em psiquiatria, pode-se dizer que até o ano de 1950 prevalecia a insulinoterapia, eletroconvulsoterapia e a contenção e vigilância dos pacientes. • Após o ano de 1950, entretanto, aconteceu uma mudança radical na terapêutica da área de saúde mental devido à introdução do uso da Clorpromazina, iniciando-se aí a terapia medicamentosa. • Os psicofármacos são substâncias que alteram a atividade psíquica, aliviando sintomas de transtornos psiquiátricos ou promovendo alterações na percepção ou no pensamento. Sua utilização se baseia em algumas etapas de tratamento: início, estabilização, manutenção e retirada; e suas principais classes são a dos hipnóticos e ansiolíticos (benzodiazepínicos), a dos antidepressivos, a dos estabilizadores do humor e os antipsicóticos. 147 AUTOATIVIDADE 1 As funções psíquicas são diversas e correspondem a elementos observados durante a avaliação inicial e de rotina realizada diante de um paciente em exame do estado mental. Com relação a quais são as funções psíquicas, assinale alternativa CORRETA: a) ( ) Consciência, atenção, sensopercepção, afetividade, impulsividade, inteligência, memória, juízo, pensamento, linguagem, orientação e psicomotricidade. b) ( ) Consciência, atenção, sensopercepção, afetividade, impulsividade, inteligência, memória, juízo, pensamento, irritabilidade, desorientação. c) ( ) Afetividade, impulsividade, inteligência, memória, juízo, pensamento, miopia, tontura, labirintite, hiperatividade. d) ( ) Afetividade, impulsividade, inteligência, linguagem, orientação, psicomotricidade, senso comum, parcialidade, bulimia. 2 Essa função psíquica se refere à capacidade de pensar e agir de forma racional e lógica, discernindo o que é de fato essencial na vida. Dentre as modificações que acontecem, citam-se a oligofrenia, que consiste em uma deficiência intelectual herdada ou adquirida; e demência, que é um declínio progressivo da capacidade intelectual. Com relação a denominação dessa função psíquica, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Juízo. b) ( ) Afetividade. c) ( ) Inteligência. d) ( ) Sensopercepção. 3 Essas classes de medicamentos têm início de ação rápido; o tempo de tratamento pelo qual devem ser utilizados gira em torno de oito semanas e seus efeitos se pronunciam sobre a memória e a aprendizagem, sendo ministrados para tratamento: Alprazolam, Dormonid e Lorazepan. Assinale a alternativa CORRETA, que denomina a classe desses medicamentos: a) ( ) Benzodiazepínicos. b) ( ) Antidepressivos. c) ( ) Neurolépticos. d) ( ) Estabilizadores do humor. 148 4 Os psicofármacos são substâncias que alteram a atividade psíquica, aliviando sintomas de transtornos psiquiátricos ou promovendo alterações na percepção ou no pensamento. Sua utilização se baseia em algumas etapas de tratamento: início, estabilização, manutenção e retirada; e suas principais classes são a dos hipnóticos e ansiolíticos (benzodiazepínicos), a dos antidepressivos, a dos estabilizadores do humor e os antipsicóticos. Caracterize os antidepressivos e cite exemplos. 5 Neurolépticos são utilizados no controle de delírios e alucinações, sendo também eficazes no controle da agitação. Cite exemplos dessa classe de medicamentos. 149 REFERÊNCIAS AGUILERA, D. C. Crisis intervention: theory and methodology. 8. ed. Saint Louis: Mosby, 1998. APA. American Psychiatric Association. Diagnostic and statistical manual of mental disorders. 4. ed. Washington, DC: American Psychiatric Publishing, 2000. BLACK, D. W.; & ANDREASEN, N. C. Introductory textbook of psychiatry. 5. ed. Washington, DC: American Psychiatric Publishing, 2011. DOMANICO, A.; MACRAE, E. J. B. N. Estratégias de redução dos danos para uso de crack. In: SILVEIRA, D. X.; MOREIRA, F. G. 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Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. 151 SAE, PROCESSO E ATUAÇÃO DE ENFERMAGEM EM SAÚDE MENTAL, E COMUNICAÇÃO E RELACIONAMENTO TERAPÊUTICO UNIDADE 3 — OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • compreender o desenvolvimento da entrevista do usuário dos serviços de saúde men- tal, bem como o da implementação da sistematização de assistência de enfermagem; • conhecer os conceitos e métodos terapêuticos utilizados em saúde mental; • identificar as principais técnicas de relacionamento e comunicação terapêuticos para com o paciente com transtorno mental; • identificar os principais cuidados de enfermagem em saúde mental, os papéis e funções do enfermeiro em quaisquer níveis de assistência; • conhecer as causas de transtornos mentais em diversos grupos e contextos sociais, bem como entender as intervenções de enfermagem frente a cada um deles. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – SISTEMATIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM SAÚDE MENTAL TÓPICO 2 – CLIMA TERAPÊUTICO, TERAPIAS E INTERVENÇÕES TÓPICO 3 – PAPEL DO ENFERMEIRO NO CAMPO DA SAÚDE MENTAL E EM SEUS CONTEXTOS ESPECÍFICOS Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 152 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 3! Acesse o QR Code abaixo: 153 TÓPICO 1 — SISTEMATIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM SAÚDE MENTAL UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO A Enfermagem, enquanto ciência integrante da área da saúde, é composta por conhecimentos teóricos e práticos a serem tomados como alicerce pelo enfermeiro para o alcance da oferta de uma assistência a mais adequada e segura possível aos pacientes sob seus cuidados. A partir desse raciocínio, torna-se possível deduzir que o trabalho desempenhado pelo enfermeiro dentro de sua equipe requer uma organização que deve ser cumprida de forma padronizada nos mais variados tipos de dispositivos de saúde onde exista o cuidado de enfermagem, sejam eles de cunho público ou privado. O ponto ápice dessa padronização foi obtido através da consideração e implementação de uma tecnologia leve e essencial, denominada de Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE). Esta, por sua vez, conceitua-se como um aparato de normas e regras com natureza teórico-filosófica que possibilitam a organização e operacionalização do trabalho do enfermeiro, ou seja, um método científico capaz de promover a melhoria da qualidade da assistência de enfermagem e ampliar a função gerencial dele (OLIVEIRA; ALMEIDA; MOREIRA et al., 2019). Convém salientar, ainda, que a SAE abrange um conjunto de etapas a serem executadas pelo enfermeiro definido como Processo de Enfermagem (PE), e que o amparo legal de sua implementação é respaldado pela Resolução do Conselho Federal de Enfermagem – COFEN nº 358/2009, que revogou a edição de uma outra Resolução, a de nº 272/2002. Essa resolução conta com oito artigos, dos quais seis expressam critérios estabelecidos ao exercício da profissão de enfermagem no que tange à aplicabilidade da SAE e, consequentemente, do PE. Em seu primeiro artigo, a resolução explicita a necessidade de realização do PE de modo deliberado e sistemático em todos os ambientes públicos ou privados, de fato, em que se identifique cotidianamente o cuidado de enfermagem. Esse artigo contém dois parágrafos, sendo o primeiro deles aquele que faz menção aos tipos de ambientes em questão, referindo-se a eles como instituições hospitalares, ambulatoriais, domiciliares, escolares, comunitárias e empresariais, principalmente; ao passo que o segundo estabelece que o PE desenvolvido fora do âmbito hospitalar corresponde à Consulta de Enfermagem. 154 O segundo artigo da resolução contempla a informação de que o PE é formado por cinco etapas que se inter-relacionam, sendo elas sequencialmente representadas: 1) coleta de dados; 2) diagnóstico de enfermagem; 3) planejamento de enfermagem; 4) implementação e 5) avaliação de enfermagem. Estas etapas são cíclicas e, concomitantemente, interdependentes, o que pode ser visualizado na Figura 1 a seguir. Figura 1 – Etapas do processo de enfermagem Fonte: Barros e Lemos (2017) Em seu artigo terceiro, a Resolução – COFEN nº 358/2009 salienta a imprescindibilidade de um aporte teórico por parte do enfermeiro para que ele execute com extrema maestria as etapas do Processo de Enfermagem. Torna-se propício enfatizar, portanto, a importância que o enfermeiro deve dar ao binômio ensino- aprendizagem em sua formação, uma vez que ela será decisiva para uma habilidosa execução do PE por parte dele. A resolução, em seu quarto artigo, direciona a incumbência da liderança do en- fermeiro no que concerne à execução e avaliação do PE, clarificando que a ele cabe, de forma privativa, a realização das etapas de elaboração dos diagnósticos e prescrições de enfermagem. Em complementaridade ao exposto neste último artigo, o quinto determina a participação dos profissionais técnicos de enfermagem e auxiliar de enfermagem na execução do PE sob supervisão do enfermeiro naquilo que lhes for cabível. Por fim, o sexto artigo preconiza a outorga do registro formal de todas as informações inerentes à execução do PE, pois, indubitavelmente, a documentação da prática profissional corresponde ao maior respaldo do trabalho da enfermagem. A sistematização da assistência de enfermagem e o processo de enfermagem, por fim, devem ser aplicados em todos os setores de atuação possíveis para esta categoria profissional, incluindo o de saúde mental. Por outro lado, a saúde mental se consiste em um campo cuja abordagem ao paciente é completamente diferenciada dentro da enfermagem, o que implica, consequentemente, uma implementação da SAE e do PE pautada nessa diferença que será a partir de agora explanada. O PE em saúde mental é dinâmico, contínuo e composto pelas cinco etapas já supracitadas: histórico, diagnósticos, planejamento, implementação e avaliação dos resultados. 155 2 OBSERVAÇÃO E AVALIAÇÃO INICIAL A avaliação inicial é entendida aqui como sendo o primeiro momento em que o enfermeiro terá contato com o paciente para abordá-lo através das etapas do processo de enfermagem e realizar a sistematização de sua assistência. Para tanto, uma das ferramentas fundamentais das quais o enfermeiro se vale, neste momento de avaliação inicial, é a observação. Isso significa que ele se utiliza da técnica propedêutica da inspeção visual para observar aspectos físicos e comportamentais aparentados e apresentados pelo paciente. Com relação ao aspecto físico, o enfermeiro deve observar se o paciente está com a higiene preservada ou não; vestindo trajes limpos ou não; com a pele íntegra ou com algum ferimento ou lesão, por exemplo, atentando-se para o fato de que essas feridas podem ser indícios do fenômeno da automutilação. Já em relação ao aspecto comportamental, o enfermeiro precisa observar se o paciente está tranquilo, agitado, responsivo, tímido, eufórico, logorreico, agressivo; ou seja, observar todas as funções psíquicas, dentre outros quesitos fundamentais. Enquanto observa, o enfermeiro também precisa, nesta avaliação inicial, apresentar-se para o paciente, ou seja, dizer seu nome e sua função na instituição; mencionar o que pretende desempenhar com o paciente neste momento, frisando que está ali para ajudá-lo; perguntar se o paciente sabe onde está e qual o papel da instituição; tentar realizar o toque terapêutico enquanto conversa com ele; perguntar o nome dele para referir-se a ele pelo nome; tentar passar tranquilidade ao paciente; implementar a escuta amiga e dizer que ali ele está seguro. Dessa forma, é possível dizer que o enfermeiro agiu de maneira bastante assertiva para o estabelecimento do vínculo para com seu paciente, ponto imprescindívelpara o estabelecimento de toda a sistematização da assistência de enfermagem e longitudinalidade do cuidado a ele. Essa atitude assertiva é pautada no modelo de Relacionamento Terapêutico, preconizado por Hildegard Peplau, como será visto ao final da unidade. Caso contrário, se o paciente não se sente seguro e confortável, o enfermeiro não cria este vínculo e não consegue implementar adequadamente uma abordagem terapêutica para com ele. Nesse momento, o enfermeiro se utiliza, ainda, de uma comunicação terapêutica assertiva, adequada à situação e com demonstração de aceitação e observa as expressões verbais e não verbais do paciente. 156 2.1 SEMIOLOGIA PSIQUIÁTRICA (ANAMNESE REALIZADA PELO ENFERMEIRO) A semiologia, em seu sentido etimológico enquanto palavra, significa estudo dos sinais. Mas que sinais são esses? Os sinais dizem respeito às condições físicas, psíquicas e sociais instaladas ou estabelecidas na vida de uma pessoa, de forma aguda ou crônica, e que são expressos por ela como algo que incomoda e que, portanto, precisa ser sanado. Além desse significado, acrescenta-se o conceito do que vem a ser a semiologia. Pois bem, esta é designada como uma das disciplinas cursadas por estudantes da área de saúde, sob as nuances teórica e prática, e que lhes propicia o entendimento sobre os sinais e sintomas deflagrados por alguma condição das esferas biopsicossocial que já implica alteração do funcionamento adequado do organismo. Para conseguir implementar o objetivo do estudo da semiologia, o profissional de saúde capacitado para tal se utiliza de técnicas propedêuticas específicas e inerentes ao que se denomina de exame físico, a fim de investigar os sinais e sintomas; bem como de técnicas de comunicação, também específicas, para a realização de uma entrevista ou anamnese com o paciente. Todas essas técnicas podem e devem ser aplicadas quando se pretende avaliar qualquer pessoa no papel de paciente ou usuário dos serviços de saúde, independentemente da área ou especialidade médica para a qual ele tenha se destinado e procurado por assistência. Dessa forma, a área psiquiátrica ou de saúde mental não fica descoberta. Neste subtópico, primeiramente, serão explicadas as características da entrevista ou anamnese. Uma entrevista, em seu sentido mais geral, consiste em uma conversa, neste caso de caráter profissional, entre uma pessoa que ajuda e uma outra pessoa que necessita dessa ajuda. Convém salientar, entretanto, que nem sempre o elo da entrevista se dará entre profissional e paciente, uma vez que se admite permuta entre a pessoa que recebe cuidado para com algum membro familiar seu ou algum cuidador direto que não seja necessariamente da alçada familiar. Em saúde mental, por exemplo, a entrevista realizada pelo profissional enfermeiro deve ir muito mais além do que a abordagem ao paciente ou a essa outra pessoa inserida no contexto devido à permuta, pois sua finalidade é observar o doente e lhe propor condições de ajuda para melhorar seu quadro clínico. 157 Sendo assim, os objetivos principais da anamnese consistem na coleta de dados ou informações; no suporte psicológico, na psicoeducação para o autocuidado; na resolução de problemas e de crise e na alteração de certos comportamentos. Importante frisar que a entrevista pode ser influenciada por fatores relacionados com o paciente, como seu nível de compreensão e de motivação; por fatores relacionados ao próprio entrevistador (enfermeiro), como suas atitudes e disponibilidade; e por fatores relacionados com o ambiente, que pode ou não ofertar tranquilidade e privacidade. Existem alguns tipos de entrevistas mais utilizadas pelos profissionais de saúde, dentre eles, o enfermeiro. A entrevista pode ser do tipo estruturada ou direta, quando sua intenção é a de coletar dados através da aplicação de escalas ou instrumentos padronizados com perguntas fechadas; pode ser também não direta, quando sua maior pretensão é promover um suporte emocional através de uma conversa simples e espontânea composta por questionamentos abertos; e pode ser semidireta, quando objetiva que o paciente se expresse livremente de forma informal. Para realizar a entrevista, independentemente da sua classificação, é necessário que o enfermeiro inicie por um momento de preparo, que envolve a escolha do local, os meios de registro, a apresentação pessoal adequada e o que ele vai objetivar com essa técnica. Após isso, ele estará apto a fazer um bom acolhimento promotor de escuta, questionamentos, aprofundamentos; uma boa análise de comportamentos e uma clara identificação de problemas. Especificamente no campo da enfermagem psiquiátrica, a abordagem ao paciente é alicerçada em sua história biopsicossocial e do seu estado mental atual por meio de observação e anamnese. A observação, como já referida em tópico anterior, é uma ferramenta essencial para identificar aspectos nos âmbitos físico, comportamentais e emocionais do paciente. A história biopsicossocial, por sua vez, é propícia ao fornecimento de dados pessoais e clínicos, tais como motivo de internamento; evolução da doença; história pregressa; história familiar; história social; fatores culturais e de valores e princípios. Os estados mental e físico serão estudados em tópicos subsequentes. Capta-se, ainda, dados referentes a possíveis usos de medicações; capacidade de adaptação do paciente; efeito atual de sua situação no seu cotidiano e atividades desenvolvidas e seus recursos disponíveis para sair dessa situação. Finda-se o momento da entrevista agradecendo o paciente pela presença, valorizando seu envolvimento nesse momento e preparando-o para a marcação do próximo encontro. A seguir as Figuras de 1 a 6 obtêm trechos de um modelo de questionário que pode ser utilizado como ferramenta norteadora da entrevista a ser realizada pelo enfermeiro a seu paciente na área de saúde mental. 158 Quadro 1 – Informações pessoais gerais Informação geral Nome do cliente: Alergias: Número do quarto: Dieta: Médico: Altura/peso: Idade: Sinais vitais: TPR/PA Nome e número de telefone de pessoa de contato: Sexo: Cor/Raça (branco, preto, pardo, amarelo, indígena por autodeclaração): Língua dominante: Cidade de residência: Estado civil: Diagnóstico (na admissão e atual): Queixa principal: Condições na admissão: Data: Hora: Acompanhado por: Meio de admissão (cadeira de rodas, deambulando, maca): Admitido de: Fonte: adaptado de Townsend (2017) Quadro 2 – Fatores predisponentes genéticos Fatores predisponentes A. Influências genéticas 1. Configuração familiar (use genogramas): Família de origem: ______________________________________________ Família atual: __________________________________________________ Dinâmica familiar (descreva relacionamentos significantes entre membros familiares): 159 2. História clínica/psiquiátrica: a. Cliente: ______________________________________________________________ b. Membros da família: ______________________________________________________________ 3. Outras influências genéticas que afetem a adaptação atual. Podem incluir efeitos específicos para sexo, grupo étnico, aparência, como defeitos físicos genéticos ou qualquer outro fator relacionado que afete a adaptação do cliente, que ainda não foi mencionada em algum outro local desta avaliação. Fonte: adaptado de Townsend (2017) Quadro 3 – Fatores predisponentes de experiências passadas B. Experiências passadas 1. História cultural e social: a. Fatores ambientais (arranjos familiares, tipo de vizinhança, condições especiais de trabalho): b. Crenças e práticas relacionadas com a saúde (responsabilidade pessoal pela saúde; práticas de autocuidado especiais): 160 c. Crenças e práticas religiosas: d. Formação educacional: e. Perdas/alterações significativas (incluir datas): f. Relacionamentos com pares/amigos:g. História ocupacional: h. Padrão prévio para lidar com o estresse: 161 i. Outros fatores de estilo de vida que contribuem para a adaptação atual: Fonte: adaptado de Townsend (2017) Quadro 4 – Fatores relacionados a condições já existentes C. Condições existentes 1. Estágio de desenvolvimento (Erikson): a. Teórico: __________________________________ b. Comportamental: _________________________ c. Racional: _________________________________ 2. Sistemas de apoio:_________________________ 3. Segurança econômica: _____________________ 4. Vias de produtividade/contribuição: _________________ a. Estado profissional atual: ___________________ b. Contribuições e responsabilidade por outros: Fonte: adaptado de Townsend (2017) 162 Quadro 5 – Outros fatores relacionados III. Evento precipitante Descreva a situação ou os eventos que precipitaram esta doença/ hospitalização:__________________________________________________ IV. Percepção do cliente sobre o estressor Compreensão do cliente ou membros familiares ou descrição do estressor/doença e expectativas da hospitalização: V. Respostas adaptacionais A. Psicossocial 1. Nível de ansiedade (circule o nível e marque os comportamentos que se aplicam): leve, moderado, grave, pânico ____ calmo____ alerta____ percebe corretamente o ambiente____ cooperativo____ atenção prejudicada____ agitado____ incapaz de concentração____ hiperventilando____ interpretação incorreta do ambiente (alucinações)____ despersonalização ____ obsessões ____ Compulsões ____ queixas somáticas ____ hiperatividade excessiva ____ amistoso ____ pacífico ____outros _________________________ 2. Humor/afeto (circule todos que se aplicam): Felicidade, tristeza, abatimento, desespero, exaltação, euforia, suspeição, apatia (baixo tônus emocional), raiva, hostilidade. 3. Mecanismos de defesa por ego (descreva como é utilizado pelo cliente) Projeção Supressão Anulação Deslocamento Intelectualização Isolamento Regressão Formação de reação Divisão Religiosidade Sublimação 163 Compensação 4. Nivel de autoestima (+B13:B34circular um): baixo moderado alto Coisas que o cliente gosta em si: Coisas que o cliente gostaria de mudar em si: Avaliação objetiva da autoestima: Contato visual: Aparência geral: Higiene pessoal: Participação em atividades de grupo e interações com outros: 5. Estágio e manifestações de luto (circular um) negação raiva barganha depressão aceitação Descreva os comportamentos do cliente que estão associados a esse estágio de luto em resposta à perda ou mudança 6. Processos de raciocínio (circular todos os que se aplicam): Explícito, lógico, facilidade de acompanhamento, relevante, confuso, bloqueado, delirante, fluxo rápido de pensamentos, lentidão na associação de pensamentos, suspeição Memória recente: perda intacta Memória remota: perda intacta Outros: 7. Padrões de comunicação (circular todos os que se aplicam): claro, coerente, fala arrastada, incoerente, neologismos, associações frouxas, voo de ideias, afásico, perseveração. Ruminação, fala tangencial, loquacidade, lento, fala empobrecida, impedimento da fala (descrever) 164 Outros: 8. Padrões de interação (descrever o padrão do cliente de interações interpessoais com o staff e pares na unidade, como, por exemplo, manipulativo, introvertido, isolado, verbal ou fisicamente hostil, argumentativo, passivo, assertivo, agressivo, passivo-agressivo, outros): 9. Orientação sobre a realidade (marcar todos os que se aplicam): Orientado para: Tempo Local Pessoa Situação 10. Ideias de destruição própria/outros? Sim _______ Não _______ Em caso positivo, considerar plano e meios disponíveis: Fonte: Adaptado de Townsend (2017) Quadro 6 – Fatores de natureza fisiológica B. Fisiológico 1. Manifestações psicossomáticas (descreva quaisquer queixas somáticas que possam estar relacionadas com o estresse): 2. História medicamentosa e avaliação: Uso de medicamentos prescritos: Nome Dosagem Prescrito para Resultados Uso de medicamentos de venda livre: Nome Dosagem Utilizado para Resultados 165 Uso de drogas recreativas (ou ilícitas) ou álcool Nome Quantidade utilizada Frequência de Uso Último Uso Efeitos Produzidos Fonte: adaptado de Townsend (2017) 2.2 EXAME PSÍQUICO (AVALIAÇÃO DO ESTADO MENTAL) O exame físico realizado pelo enfermeiro de saúde mental abrange as vertentes de um exame físico geral e comum a todas as outras áreas de especialidades, mas revela como foco a avaliação do estado mental do indivíduo, sendo, portanto, denominado de exame psíquico. O exame do estado mental é realizado após a entrevista ou anamnese, mas ambos integram a primeira etapa do processo de enfermagem, que representa o histórico ou coleta de dados. Sua implementação é imprescindível para dar continuidade a esta etapa, bem como as demais etapas subsequentes do processo de enfermagem, pois, a partir dele, obtém-se um alicerce para futuras comparações, caso o paciente venha a precisar de nova abordagem, por exemplo. Todas as informações colhidas na anamnese e no exame psíquico do paciente devem ser devidamente registradas na evolução de enfermagem, o que ratifica a importância da realização dessa etapa do processo de enfermagem. NOTA 166 O exame do estado mental tem por principais objetivos a detecção de disfunções psicológica e de causas de psicopatologias; e a avaliação do nível de consciência, da aparência geral, da fala, do comportamento, do humor e afeto, do desempenho intelectual, da capacidade de julgamento, da percepção e do conteúdo de pensamento; ou seja, de várias funções psíquicas. Sendo assim, o exame psíquico será descrito a seguir por categorias. A primeira categoria aqui contemplada é a de descrição geral, em que se avalia a aparência, a fala, a atividade motora e a interação durante a anamnese. A aparência vai servir de parâmetro para reflexão dos estados emocional e mental do paciente, uma vez que será observado se ele está vestido e arrumado de forma adequada para a idade; se a pele e seus anexos estão limpos; se a forma de se vestir é apropriada; se, se tratando de paciente do gênero feminino, o uso de maquiagem e outros cosméticos está com a aplicação correta e se existe um auto descaso, ou seja, a ausência de roupas coloridas nas vestimentas. Através da aparência, deve-se notar, ainda, a postura, a marcha, as expressões faciais e o contato visual do paciente; bem como o processo de dilatação/contração das pupilas e o estado geral de saúde e nutrição. Quando o paciente exibe midríase, associa- se à uma provável intoxicação por substâncias; ao passo que, na miose, supõe-se que ele pode estar sob dependência de narcóticos, por exemplo. Uma postura inclinada, por sua vez, soa como forte indicativo de depressão; e a vestimenta com cores chamativas e artigos incomuns geralmente são vistas em pacientes com quadro de mania. No que tange à fala, é sabido que ela é a principal ferramenta de comunicação do ser humano e que pode ser avaliada na quantidade, velocidade e qualidade. Quando há a restrição na qualidade, o que se evidencia por repostas monossilábicas, diz-se que existe uma pobreza da fala. Com relação a sua velocidade, identifica-se a logorreia para o seu aumento; e bradilalia para sua diminuição. A respeito do volume, a fala pode ser alta ou baixa; e sobre a quantidade, pode existir escassez,mutismo ou pressão, sendo esta última rápida e dificilmente interrompida. Cabe enfatizar que as alterações da fala frequentemente são ocasionadas por lesões cerebrais. Uma fala arrastada pode indicar intoxicação do paciente; uma fala logorreica é muito visualizada em pacientes maníacos, ao passo que, nos depressivos, identifica-se a relutância em falar. A atividade motora é a característica que diz respeito ao movimento físico do paciente, devendo o enfermeiro analisar e registrar o seu nível (letargia, tensão, inquietação ou agitação); seu tipo (tiques e outros tremores); e gestos incomuns, maneirismos ou compulsões. 167 Quando o indivíduo desempenha movimentos corporais excessivos, ele pode estar ansioso, em quadro de mania ou até sob efeito de estimulantes. Por outro lado, se sua atividade corporal estiver reduzida, ele pode estar vivenciando uma depressão, uma esquizofrenia catatônica ou outras causas puramente orgânicas. Os tiques ou outros tremores, uma vez presentes, podem ser indicativos de efeitos colaterais de medicações; e a realização de movimentos repetitivos podem indicar quadro de transtornos obsessivos-compulsivos. No que concerne à interação durante a entrevista, diz-se que esta é a maneira como o paciente se porta durante sua realização. O enfermeiro deve se valer do maior grau de impessoalidade possível, no intuito de analisar os seguintes comportamentos: hostilidade, cooperação, irritabilidade, apatia e desconfiança, principalmente. Esta última pode indicar quadro de paranoia e a irritabilidade, um transtorno ansioso. A categoria do estado emocional abrange os quesitos de humor e afeto. O primeiro diz respeito a um sentimento que dá sentido à percepção que a pessoa tem do mundo, refletindo sua situação de vida. Ele pode ser avaliado a partir de uma única pergunta simples, que consiste em saber como o paciente está se sentindo. A maioria das pessoas com depressão refere desesperança, por exemplo. O paciente, entretanto, admite várias possibilidades do estado de humor, podendo este ser eufórico, lábil, irritável, disfórico e eutímico. Já o afeto consiste no padrão observável dos sentimentos atuais do paciente, sendo, portanto, mais variável no tempo do que o humor. Ele pode ser descrito de acordo com os parâmetros de amplitude, duração, intensidade e adequação. Seu espectro pode ser dito normal ou amplo; e restrito ou embotado, dependendo do contexto cultural do paciente. Sua amplitude pode ser normal, excessiva ou reduzida. Quando se evidencia discordância do discurso do paciente, seu afeto está inadequado, e quando ele varia de modo abrupto, ele é dito lábil. Na categoria das experiências, avaliam-se as percepções. Estas são definidas como sendo a reação frente a um estímulo físico nos órgãos do sentido. Quando essas reações estão anormalmente aumentadas, identifica-se uma hiperestesia; ao passo que, quando o paciente revela diminuição da sensibilidade aos estímulos, ele está hipoestésico. Existem, ainda, dois tipos de problemas de percepção: as alucinações e as ilusões. As alucinações são as falsas impressões ou experiências sensitivas; e as ilusões são falsas percepções ou interpretações dos estímulos externos reais. Aquelas podem ocorrer em quaisquer um dos cinco sentidos, sendo as auditivas mais comuns em pacientes esquizofrênicos; e as visuais, em causas orgânicas, abuso de substâncias e tremores oriundos dos delírios. 168 A categoria dos pensamentos abrange o conteúdo e o processo pertinente a eles. O pensamento, propriamente dito, se caracteriza por ser o fluxo das ideias com alguma meta, sendo integrado pelo curso, forma e conteúdo. O curso diz se o fluxo do pensamento é normal, lento ou acelerado. A forma, por sua vez, é a estrutura básica a partir da qual as ideias se apresentam, podendo ser lógica e organizada; incoerente; frouxa, quando há uma desconexão entre os temas e desagregada, quando não exibe sentido, por exemplo. O conteúdo do pensamento pode ser pobre, quando é vago ou expressa repetições vazias; obsessivo, quando há persistência de um pensamento irresistível; fóbico, quando revela um certo temor; delirante, quando se acredita em uma falsa crença. Diante disso, é sabido que uma associação desconexa de ideias sugere esquizofrenia e uma fuga de ideias sugere mania, por exemplo. Por fim, a categoria sensorial e cognitiva avalia variáveis como o nível de consciência, a memória, a inteligência e o julgamento. O nível de consciência, quando avaliado, detecta se o paciente está consciente, letárgico, torporoso ou comatoso. Ele depende de estruturas encefálicas presentes no tronco cerebral; pode ser afetado por lesões corticais difusas ou bilaterais, mas a lesão de um único hemisfério pode afetá-lo por conta do edema surgido no outro. A memória aborda o nível de concentração e cálculos, sendo, portanto, uma função psíquica extremamente complexa, armazenando informações, inclusive. A concentração é a capacidade de o paciente conseguir prestar atenção no decorrer da entrevista. A memória exibe perturbações quantitativas, como a amnésia, que é a incapacidade de recordar informações; e a hipermnésia, que é um grau exagerado de retenção dessas recordações. Existem, ainda, as perturbações quantitativas, como o déjà-vu, que é uma ilusão de reconhecimento visual na qual nova situação é reconhecida como repetição de lembranças anteriores; e amnésia lacunar, que é uma incapacidade de recordar fatos sucedidos em um intervalo de tempo. A inteligência, por sua vez, consiste na capacidade de entender, recordar, mobilizar e integrar construtivamente algum aprendizado pregresso, tendo relação com o vocabulário e a gama de conhecimentos adquiridos pelo indivíduo. Com relação as suas alterações, menciona-se o retardo mental, caracterizado pela ausência de inteligência que interfere no desempenho social e ocupacional, podendo ser adquirido ou congênito. Por fim, tem-se o julgamento que é a capacidade de tomada de decisões a partir da compreensão dos fatos, pode ser crítico, quando está adequado; automático, quando consiste no desempenho reflexo de uma ação; e prejudicado, quando está inadequado ou diminuído. 169 No que tange ao restante do exame físico de um paciente com problemas psiquiátricos, este é realizado da mesma forma como para os pacientes que tem diagnóstico clínico, sendo feito por sistemas orgânicos no sentido cefalocaudal. A sequência dos Quadros 7 a 12 a seguir, mostra trechos de um modelo de que serve como roteiro para a realização do exame físico. Quadro 7 – Avaliação física dos sinais vitais e dos sistemas tegumentar, musculoesquelético, neurológico e cardiovascular 3. Avaliações físicas pertinentes: a. Respiração: normal Laboriosa Frequência Ritmo b. Pele aquecida seca úmida fria pegajosa rósea cianótica turgor diminuído edemaciada Evidência de eritemas/exantemas escoriações marcas de agulhas hirsutismo perda de pelos outros c. Estado musculoesquelético: fraqueza tremores Grau de amplitude de movimentos (descreva limitações) _____________ Dor (descrever) ______________________________________________ Deformidades esqueléticas (descrever)___________________________ Coordenação (descrever limitações) ______________________________ d. Estado neurológico: História de (marcar todos os que se aplicam): convulsões 170 (descrever método de controle) __________________________________ dores de cabeça (descrever localização e frequência) ________________ fala desorientada _____________________________________________ tonturas ____________________________________________________formigamento/torpor (descrever localização) _______________________ e. Cardiovascular: PA Pulso História de (marcar todos os que se aplicam): hipertensão__________________________________________________ palpitações__________________________________________________ sopros cardíacos_____________________________________________ dor torácica__________________________________________________ falta de ar___________________________________________________ dor nos membros inferiores_____________________________________ flebite_______________________________________________________ edema em tornozelos/pernas___________________________________ torpor/formigamento nas extremidades____________________________ veias varicosas______________________________________________ Fonte: adaptado de Townsend (2017) Quadro 8 – Avaliação física do sistema gastrintestinal f. Gastrointestinal Padrões usuais de dieta __________________________________________ Alergias alimentares Próteses dentárias? Superior Inferior Quaisquer problemas com a mastigação ou deglutição? ________________ Qualquer mudança recente no peso? ________________________________ Qualquer problema com: Indigestão/queimação? ___________________________________________ Aliviada por ___________________________________ Náuseas/vômitos? ______________________________________________ Aliviada por História de úlceras? ____________________________________ 171 Padrão intestinal usual ___________________________________________ Constipação intestinal? ___________________________________________ Diarreia? ______________________________________________________ Tipo de assistência para o autocuidado de cada um dos problemas citados Fonte: adaptado de Townsend (2017) Quadro 9 – Avaliação física do sistema geniturinário/reprodutivo g. Geniturinário/reprodutivo Padrão usual de micção ______________________________ Polaciúria? __________________________________________ Frequência? _________________________________________ Nictúria? ____________________________________________ Dor/queimação? ______________________________________ Incontinência? _______________________________________ Quaisquer lesões genitais? ____________________________ Secreções? ________________________________________ Odor? _____________________________________________ História de doença sexualmente transmitida? ______________ Em caso positivo, favor explicar: ________________________ Quaisquer preocupações sobre sexualidade/atividade sexual* Método de contracepção utilizado ________________________ Mulheres: Data do último ciclo menstrual___________________________ Duração do ciclo______________________________________ Problemas associados à menstruação? __________________ Mamas: Dor/sensibilidade? _____________________________ Edema? ____________________________________________ Secreções? _________________________________________ Protuberâncias? ______________________________________ Depressões? ________________________________________ Prática do autoexame das mamas? _____________________ Frequência? ________________________________________ 172 Homens: ___________________________________________ Secreção peniana? ___________________________________ Problemas de próstata? ________________________________ Fonte: adaptado de Townsend (2017) Quadro 10 – Avaliação física do sistema sensorial h. Olhos Sim ____ Não _____ Explicar: Óculos? _________________________________ Lentes de contato? _________________________ Edema? __________________________________ Secreção? _______________________________ Prurido? _________________________________ Visão turva? _____________________________ Visão dupla? _____________________________ i. Ouvidos Sim ____ Não _____ Explicar: Dor? ____________________________________ Drenagem? ______________________________ Dificuldade auditiva? _______________________ Tinido? __________________________________ Fonte: adaptado de Townsend (2017) 173 Quadro 11 – Avaliação física de alguns padrões comportamentais j. Efeitos adversos de medicamentos: Quais sintomas o cliente está experimentando que podem ser atribuídos ao uso da medicação atual? k. Valores laboratoriais alterados e possível significância l. Padrões de atividade/repouso: Exercício (quantidade, tipo, frequência) Atividades de lazer Padrões do sono: Número de horas por noite ___________________________________________________ Uso de auxílio para dormir? __________________________________________________________________ Padrão de acordar durante a noite? ____________________________________________________________ Sente-se descansado ao acordar? ______________________________________________________________ m. Higiene pessoal/atividades diárias: Padrões de autocuidado: independente ________________________________________________________ Requer assistência com: mobilidade ___________________________________________________________ higiene _____________________________________________________________________________ toalete________________________________________________________________________ alimentação___________________________________________________________________ vestimenta____________________________________________________________________ outros________________________________________________________________________ Declaração descrevendo higiene pessoal e aparência geral n. Outras avaliações físicas pertinentes Fonte: adaptado de Townsend (2017) 174 Quadro 12 – Resumo da avaliação física e psicossocial VI. Resumo da avaliação psicossocial/física inicial Déficits de conhecimento identificados: Diagnósticos de enfermagem indicados: Fonte: adaptado de Townsend (2017) Segue agora o Quadro 13, que representa um modelo de uma avaliação rápida do estado mental de um paciente. Quadro 13 – Modelo de avaliação rápida do estado mental Área da função mental avaliada Atividade de avaliação Orientação para o tempo “Em que ano estamos? Qual é o mês? Que dia é hoje?” (3 pontos) Orientação para o lugar “Onde você está agora?” (1 ponto) Atenção e lembrança imediata “Repita estas três palavras agora: sino, livro e vela” (3 pontos) “Memorize estas palavras, pois pedirei que você as repita em alguns minutos” Pensamento abstrato “O que isto significa: Não chore sobre o leite derramado?” (3 pontos) Memória recente “Diga as três palavras que eu pedi que você memorizasse” (3 pontos) Nomeação de objetos Aponte para um par de óculos e pergunte: “O que é isso?” Repita com outro item (p. ex., calendário, relógio, lápis) (2 pontos possíveis) Capacidade de seguir comandos verbais simples “Rasgue este pedaço de papel no meio e coloque na lata do lixo” (2 pontos) 175 Capacidade de seguir um comando simples por escrito Escreva um comando em um pedaço de papel (p. ex., toque seu nariz), dê o papel ao seu cliente e diga: “Faça o que está escrito neste papel” (1 ponto para ação correta) Capacidade de utilizar corretamente a linguagem Peça para o paciente escrever uma frase (3 pontos se a sentença possui sujeito, um verbo e um significado válido) Capacidade de concentração “Diga os meses do ano de trás para frente, começando em dezembro” (1 ponto para cada resposta correta de novembro a agosto. 4 pontos possíveis) Compreensão das relações espaciais “Desenhe um relógio, coloque todos os números e os ponteiros na posição de 3h (círculo do relógio = 1 ponto; números na sequência correta = 1 ponto; números colocados corretamente no relógio = 1 ponto; dois ponteiros no relógio = 1 ponto; ponteiros sobre a hora correta = 1 ponto (5 pontos possíveis) Fonte: adaptado de Townsend (2017) 3 ETAPAS SUBSEQUENTES DO PROCESSO DE ENFERMAGEMApós a primeira etapa do processo de enfermagem, coleta de dados ou histórico, segue – se com as demais fases, denominadas respectivamente de Diagnóstico de Enfermagem; Planejamento; Implementação e Avaliação. O diagnóstico de enfermagem é definido como uma espécie de julgamento clínico sobre as respostas do indivíduo, de sua família ou da comunidade, que foram fornecidas ou percebidas na etapa anterior, a fim de identificar principais e potenciais problemas do processo saúde-doença dele. Sendo assim, infere-se que o diagnóstico de enfermagem serve de base para o elenco das intervenções de enfermagem na etapa subsequente (HERDMAN; KAMITSURU, 2021). A Associação de Diagnósticos de Enfermagem Norte Americana (NANDA Internacional) foi desenvolvida para refinar e promover a terminologia que culmina com a precisão dos julgamentos clínicos supracitados. 176 Ela se pauta exclusivamente nas evidências e inclui dimensões nas esferas sociais, psicológicas e espirituais do cuidado. Dessa forma, essa taxonomia será a considerada nesta unidade. NOTA Torna-se pertinente salientar que a padronização das ações de enfermagem, bem como de sua terminologia consiste em importante ferramenta para uma oferta de cuidados assistenciais eficazes em sua longitudinalidade, entre os enfermeiros que trabalham nos diversos dispositivos de saúde. O diagnóstico de enfermagem, segundo a taxonomia da NANDA-I, é formado por três componentes essenciais: problemas de saúde (P), etiologia (E) E sinais e sintomas (S), que são combinados a partir de termos de ligação. Assim, o diagnóstico de enfermagem é escrito da seguinte maneira: problema “relacionado com” etiologia “evidenciado por” sinais e sintomas. Uma vez que o problema é o componente que pode ser identificado como resposta humana aos desequilíbrios de saúde reais ou potenciais; que a etiologia pode ser representada por experiências pregressas do próprio indivíduo, alterações fisiopatológicas e influências dos estratos biopsicossocial; e que os sinais e sintomas simbolizam o que o paciente declara e o que o enfermeiro observa; todos são tidos como a base do planejamento para o cuidado. Convém mencionar que esta é a estrutura básica, mas que nem sempre esses termos de ligação estarão todos presentes, até porque as versões da NANDA-I são atualizadas periodicamente. A edição mais recente da NANDA-I, versão 2021-2023, é dotada da seguinte estrutura: 13 domínios, 47 classes e 267 diagnósticos. A Figura 2 a seguir mostra os quatro tipos de diagnósticos existentes hoje nessa edição mais atual. 177 Figura 2 – Tipos de diagnósticos de acordo com a NANDA 2021–2023 Fonte: a autora Quando o diagnóstico tem como foco o problema, tem-se que seu julgamento clí- nico leva em consideração uma resposta humana indesejada a algum fator determinante ou condicionante do processo saúde-doença de alguma pessoa/família/comunidade. O diagnóstico de risco, por sua vez, tem por base alguma vulnerabilidade da pes- soa/família/comunidade para deflagrar uma resposta indesejável ao processo saúde-do- ença. O diagnóstico de promoção da saúde é aquele que julga clinicamente a motivação e o desejo para elevação do bem-estar e melhor estado de saúde. Já a síndrome, realiza julgamento clínico para um grupo de diagnósticos que ocorrem simultaneamente. A NANDA-I 2021-2023 traz, ainda, duas novidades: os conceitos de população de risco e de condições associadas, que podem figurar nos diagnósticos de enfermagem. O primeiro diz respeito a um grupo de pessoas que possui alguma característica partilhada, tornando, portanto, cada membro suscetível à resposta humana específica; ao passo que o segundo é representado por diagnósticos médicos que conferem apoio para uma maior adequabilidade dos diagnósticos de enfermagem (HERDMAN; KAMITSURU, 2021). Diante de tudo isso, o diagnóstico de enfermagem da NANDA-I 2021-2023, ou seja, sua edição mais atualizada, é formado pelas seguintes estruturas: título (nome do diagnóstico); definição (termo que diferencia os diagnósticos entre si); indicadores diagnósticos (característica definidora, fator relacionado e fator de risco); condições associadas e população de risco. O diagnóstico de enfermagem, por fim, é uma parte do processo de enfermagem que identifica respostas humanas para algum problema de saúde atual e potencial; privativo do enfermeiro, tendo este último responsabilidade legal perante sua confecção, portanto; e que fornece a base para as prescrições de intervenções específicas, também de enfermagem. 178 Dando-se prosseguimento às etapas do processo de enfermagem, após os diagnósticos de enfermagem terem sido elaborados, tem-se a fase de planejamento. Esta fase é aquela em que o enfermeiro confecciona um plano de cuidados propriamente dito, inserindo nele as prescrições das intervenções de enfermagem para alcançar os resultados esperados. Cada paciente tem um planejamento, o que significa dizer que o plano deve ser individualizado, pois cada um tem problemas específicos e responde a eles de forma diferente. As intervenções e os resultados esperados são elencadas para cada diagnóstico elaborado. A fase de implementação, por sua vez, de forma bem simples, é aquela em que o enfermeiro coloca em prática tudo o que foi planejado na etapa anterior, ou seja, ele implementa, de fato, as intervenções que pensou e elaborou com vistas à melhoria do estado de saúde do seu paciente. Por fim, a última fase, a de avaliação, consiste na verificação da assertividade, ou não, de todas as outras etapas do processo de enfermagem. Isso significa que o enfermeiro precisa averiguar se o paciente melhorou, alcançou os resultados esperados; ou, se o paciente não evoluiu ou apresentou uma piora, tendo que, neste último caso, repensar e refazer todo ou muitos dos quesitos planejados para ele. Na Figura 3 a seguir, você encontra alguns dos principais diagnósticos de enfermagem. Figura 3 – Principais diagnósticos de enfermagem em saúde mental Fonte: a autora Para o diagnóstico de ansiedade, alguns dos fatores que podem estar relacionados são: abuso de substâncias, ameaça de morte, crises situacionais, estresse e mudança no ambiente e no estado de saúde. Essas causas podem ser evidenciadas por aflição, ansiedade, sofrimento, insônia, preocupação, dentre outros. Algumas das prescrições de enfermagem para este caso são: uso de uma abordagem calma e segura, escuta atenta, ajuda ao paciente no tocante à identificação de situações precipitadoras da ansiedade, dentre outras. O diagnóstico de confusão aguda, por sua 179 vez, se relaciona com abuso de substâncias, delírios, demências e alterações no ciclo circadiano. Pode ser evidenciado por agitação intensa, alucinações e inquietações exacerbadas. Como possíveis prescrições de enfermagem para este caso, citam-se: manejo das alucinações, oferta de ambiente seguro, controle de medicamentos, dentre outros (TOLEDO; MOTOBU; GARCIA, 2015). Ainda conforme os mesmos autores supracitados, a percepção sensorial perturbada se relaciona com o estresse psicológico e estímulos ambientais excessivos, podendo ser evidenciada por agitação, alucinação, desorientação e mudança no padrão comportamental; cabendo como prescrições de enfermagem o controle de ideias delirantes, o manejo de alucinações, o controle de medicamentos e a redução de ansiedade. Por fim, em relação ao risco de suicídio, os possíveis fatores relacionados são impulsividade, abuso de substâncias, histórias pregressas de tentativas de suicídio, isolamento social e história familiar de suicídio. As prescrições de enfermagem para esse caso, podem ser: orientação sobre estratégia de enfrentamento, retirada de objetos que possam ser usados para provocar autolesão e investigação de ideação suicida. 3.1 ABORDAGEM DO PACIENTE E DA FAMÍLIA Considerando que, muitas vezes, o paciente é dotado de uma família, cabe, inicialmente, definir esse termo. Pois bem, uma família é caracterizada como um grupo depessoas que se considera como tal, admitindo algumas nuances. Existe, portanto, a família intitulada biológica, que gerou uma prole de descendentes; a nuclear, que abrange um ou mais membros da família de origem; a monoparental, constituída por um único membro responsável (pai ou mãe); dentre outras. Independentemente do tipo familiar, os atributos encontrados normalmente em uma família são afeição, durabilidade de convívio e emoção fortalecida (WRIGHT; LEAHEY, 2009). Essa definição e demais considerações supracitadas se fazem pertinentes, uma vez que uma doença ou processos de hospitalização acabam por afetar todos os membros de uma família, o que requer imenso aprendizado da equipe de enfermagem para trabalhar com eles questões específicas do cuidado. Dentro de um ambiente familiar, os membros exprimem os mais diversos tipos de sentimento perante as situações de vida a que são expostos, através da interação e co- municação. Um ambiente familiar dito positivo é aquele onde se encontra leveza, confian- ça, amor e respeito entre seus membros; ao passo que no ambiente familiar disfuncional ou negativo existe tensão, sofrimento, raiva e desesperança (TOWNSEND, 2017). Levando-se em consideração principalmente a última vertente, a do ambiente familiar negativo, faz-se imprescindível a aplicabilidade de uma terapia familiar, que consiste em um tipo de terapia aplicada a famílias integradas por membros com algum tipo de relacionamento. Essa terapia busca compreender os problemas que a permeiam. Dessa forma, os relacionamentos familiares são determinantes para a saúde mental. 180 Conforme Mello (2008), o ambiente familiar apresenta-se como negativo quando existe uma mãe super protetora ou pai ausente por trabalho, alcoolismo, dentre outros; quando há um cônjuge superprotetor ao lado de outro passivo; falta de uma figura parental que coloque limites nos filhos; algum membro usuário de drogas; e comportamento denotativo de algum tipo de abuso. Para trabalhar a questão da terapia familiar, é importante mencionar que a família também é compreendida como um sistema, considerando uma vertente holística. Mas, por que um sistema? Porque um sistema é o todo de várias partes e funciona com dinamismo. Quando uma parte sofre alterações, estas acarretam mudanças nas outras partes e, consequentemente, no sistema como um todo. Sendo assim, é possível falar em hierarquia de sistemas quando se estuda família. A Figura 4 transmite o esquema que serve de base para o estudo dessa teoria sistemática familiar. Figura 4 – Hierarquia sistemática para estudo da família Fonte: adaptada de Townsend (2017) Segundo Bowen (1978), a utilização da abordagem do sistema em um trabalho de terapia com a família envolve oito conceitos principais: diferenciação do self; triângulo; processo emocional da família nuclear; processo de projeção familiar; processo de transmissão multigeracional; posição entre irmãos; rompimento emocional e processo emocional societário. 181 A diferenciação do self se traduz como a capacidade de a pessoa se enxergar como um ser separado; o triângulo é a conformação estrutural emocional entre três pessoas, em que a terceira pessoa é abrangida com a intenção de equilibrar alguma tensão entre os outros dois membros. O processo emocional da família nuclear se reporta aos padrões comportamentais de seus membros ao longo de uma geração. Já o processo de uma projeção familiar é aquele que geralmente ocorre na forma de um triângulo pai-mãe-filho, em que os pais geram ou geraram esse filho para tentar sanar algum problema de suas vidas que lhes causa ansiedade, o que resulta sempre na tendenciosa atitude de culpabilizar esse filho por tudo o que acontecer de errado. O processo de transmissão multigeracional, por sua vez, surge para fazer menção ao fato de um conjunto de parâmetros entre membros de uma família ser transmitido aos demais membros da próxima geração e assim sucessivamente. Esses parâmetros são representados por comportamentos, valores, crenças, dentre outros. Um bom exemplo desse processo consiste na utilização dos genogramas, ou seja, espécies de gráficos que representam, através dos símbolos legendados dos caracteres de cada um dos membros familiares, conforme se vê na Figura 5 a seguir. 182 Figura 5 – M odelo de G enogram a Fonte: adaptada de Tow nsend (2017) 183 O rompimento emocional é o evento designado como sendo o grau de ligação emocional não resolvida em relação aos genitores, não sofrendo influência da distância entre esses membros. Por fim, o processo emocional societário é aquele que vê a sociedade como causadora de crise emocional, elevando os indivíduos ao estresse e à ansiedade, que, assim, passam a tomar soluções impensadas, acarretando mais problemas. Diante disso, algumas das técnicas que um terapeuta pode empregar para implementar a terapia familiar sistêmica são: juntar-se à família, tornando-se parte dela em posição de liderança para que sua reestruturação ocorra; avaliar a estrutura familiar, o que pode ser alcançado através da observação de padrões de comportamentos diversos de seus membros; e reestruturar a família, a partir do estabelecimento de um contrato. 3.2 ANOTAÇÕES DE ENFERMAGEM As anotações de enfermagem representam documentos de caráter legal que servem para registrar todo tipo de cuidado realizado pelo profissional de enfermagem frente aos seus pacientes. Sendo assim, infere-se que elas correspondem a informações salutares da assistência prestada, adquirindo, também, qualidade de ser fonte para a área do ensino e pesquisa. As anotações de enfermagem contribuem para a implementação da sistematização da assistência de enfermagem (SAE) quando identificam alterações do estado e das condições biopsicossociais do paciente, possibilitando a detecção de novos problemas e, dessa forma, asseguram a longitudinalidade do cuidado. Essa garantia implica, ainda, a comunicação eficaz entre os membros da equipe de enfermagem, tornando-os todos cientes sobre o que está sendo realizado sobre o processo de saúde-doença do paciente. As anotações, legalmente falando, cabem a todos os membros da equipe de enfermagem e cada instituição de saúde tem seus impressos timbrados, inclusive os destinados a elas. Dentre os itens que se fazem necessários nas anotações, é possível citar: a data, o horário, os sinais vitais, as condições de aparência e de higiene, os padrões de alimentação e hidratação, as eliminações fisiológicas, as medicações administradas, os exames realizados, os encaminhamentos para consultas e outros exames, as atividades terapêuticas desempenhadas, as intercorrências e queixas e as condutas e tomadas de decisão da equipe. Por outro lado, as evoluções de enfermagem são privativas do enfermeiro e correspondem a relatos sobre o estado de saúde de um paciente decorrente das últimas 24 horas. IMPORTANTE 184 RESUMO DO TÓPICO 1Para tantos dados importantes presentes nas anotações, faz-se imprescindível que a escrita em seus impressos seja legível, formal, padronizada, em sequência lógica e sem rasuras. Ao final, é necessário identificar a anotação com o nome completo do profissional que a realizou. 185 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu: • A sistematização da assistência de enfermagem e o processo de enfermagem, devem ser aplicados em todos os setores de atuação possíveis para esta categoria profissional, incluindo o de saúde mental. • A avaliação inicial é entendida, aqui, como o primeiro momento em que o enfermeiro terá contato com o paciente para abordá-lo, através das etapas do processo de enfermagem, e realizar a sistematização de sua assistência. • Especificamente no campo da enfermagem psiquiátrica, a abordagem ao paciente é alicerçada em sua história biopsicossocial e do seu estado mental atual por meio de observação e anamnese. • O exame do estado mental tem como principais objetivos a detecção de disfunções psicológicas e de causas de psicopatologias;e a avaliação do nível de consciência, da aparência geral, da fala, do comportamento, do humor e afeto, do desempenho intelectual, da capacidade de julgamento, da percepção e do conteúdo de pensamento; ou seja, de várias funções psíquicas. • Após a primeira etapa do processo de enfermagem, coleta de dados ou histórico, segue-se com as demais fases, denominadas respectivamente de Diagnóstico de Enfermagem; Planejamento; Implementação e Avaliação. 186 AUTOATIVIDADE 1 O processo de enfermagem é formado por cinco etapas que se inter-relacionam, sendo elas sequencialmente representadas: 1) coleta de dados; 2) diagnóstico de enferma- gem; 3) planejamento de enfermagem; 4) implementação e 5) avaliação de enferma- gem. Sendo assim, qual a etapa do PE em que o enfermeiro realiza a anamnese: a) ( ) Histórico. b) ( ) Diagnóstico de enfermagem. c) ( ) Avaliação. d) ( ) Planejamento. 2 A avaliação inicial é entendida aqui como sendo o primeiro momento em que o enfermeiro terá contato com o paciente para abordá-lo, através das etapas do processo de enfermagem, e realizar a sistematização de sua assistência. Sobre o que enfermeiro precisa alcançar em uma avaliação inicial de saúde mental, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Segurança. b) ( ) Observação. c) ( ) Vínculo. d) ( ) Humanização. 3 O exame físico realizado pelo enfermeiro de saúde mental abrange as vertentes de um exame físico geral e comum a todas as outras áreas de especialidades, mas revela como foco a avaliação do estado mental do indivíduo, sendo, portanto, denominado de exame psíquico. A respeito do que NÂO contempla um parâmetro analisado no exame psíquico, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Concentração e cálculo. b) ( ) Afeto. c) ( ) Temporalidade. d) ( ) Motricidade. 4 O exame físico realizado pelo enfermeiro de saúde mental abrange as vertentes de um exame físico geral e comum a todas as outras áreas de especialidades, mas revela como foco a avaliação do estado mental do indivíduo, sendo, portanto, denominado de exame psíquico. Diante disso, descreva quais os principais objetivos do exame psíquico (mental). 187 5 As anotações de enfermagem representam documentos de caráter legal que servem para registrar todo tipo de cuidado realizado pelo profissional de enfermagem frente aos seus pacientes. Cite descrições que não podem deixar de estar presentes nas anotações de enfermagem: 188 189 CLIMA TERAPÊUTICO, TERAPIAS E INTERVENÇÕES 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 3 TÓPICO 2 - Quando se fala em clima terapêutico, imediatamente se imagina a estruturação de um ambiente que se apresente favorável à prestação do cuidado, isso se justifica porque é dentro do ambiente em que recebe tratamento que o paciente deve ter suas demandas, em termos de saúde, atendidas ou efetivamente satisfeitas. O enfermeiro é o profissional responsável pelo preparo ou estabelecimento desse ambiente dentro das instituições de saúde mental. Para estabelecer o clima terapêutico ideal, o enfermeiro, portanto, lida com aspectos de infraestrutura, arrumação e conforto. Os principais objetivos de um clima terapêutico consistem na ajuda por resgate de autoestima; no estabelecimento de relacionamentos saudáveis; na aquisição de confiança no próximo e na reinserção social. Já no que tange às vantagens ao paciente, o ambiente ou clima terapêutico é oportuno para estabelecer suas necessidades físicas; para respeitá-los enquanto cidadãos; para protegê-los; para que adotem outros padrões de comportamentos diferentes dos habituais e para interagirem socialmente (STUART, 2001). A figura 6 a seguir contempla um exemplo de clima terapêutico propício ao desenvolvimento do cuidado. Figura 6 – Exemplo de clima terapêutico Fonte: https://zenklub.com.br/blog/palavra-de-especialista/o-que-e-setting-terapeutico/. Acesso em: 18 ago. 2022. https://zenklub.com.br/blog/palavra-de-especialista/o-que-e-setting-terapeutico/ 190 De acordo com Mello (2008), existe um instrumento bastante empregado na área de saúde mental capaz de mensurar o clima terapêutico, o Ward Atmosphere Scale (WAS). NOTA Segundo tal escala, o ambiente terapêutico abrange dez variáveis que dizem respeito ao paciente, como: • Envolvimento: mede o grau de envolvimento no funcionamento da unidade e avalia sentimentos como orgulho por pertencer ao setor, entusiasmo geral pelo que acontece e espírito de grupo. • Oferecimento de suporte (apoio): mede o grau de suporte que existe entre os pacientes e a disposição da equipe de tratamento em encorajar e ajudar. • Espontaneidade: avalia até que ponto o ambiente proporciona oportunidade de agir abertamente e expressar sentimentos. • Autonomia: avalia a autossuficiência em relação aos assuntos pessoais e o quanto a equipe de tratamento estimula esse comportamento. Também detecta até que ponto a equipe de trabalho é aberta a sugestões, críticas e iniciativas dos pacientes. • Orientação prática para a vida: avalia o quanto o ambiente ajuda a preparar para a vida fora da unidade de saúde, através de treinamentos para empregos e perspec- tivas de vida. • Orientação para problemas de cunho pessoal: mede o quanto são encorajados a se envolverem com sentimentos e problemas, abordá-los e discuti-los entre eles e equipe de tratamento. • Abordagem da raiva e agressão: observa quanto há encorajamento para discussão de problemas com as demais pessoas do ambiente e expressão aberta de sentimentos, principalmente de raiva ou agressividade. • Ordem e organização: mede a influência da organização dos espaços, ordem e horários no comportamento dos pacientes, e quanto a equipe de tratamento ajuda em relação a esses itens. • Clareza do programa: averigua o conhecimento que possuem do programa terapêutico, das regras e dos procedimentos da unidade. • Controle efetivo pela equipe de saúde: mede até que ponto a equipe precisa restringir cumprimento de horários, regras, relações entre pacientes e quais medidas são tomadas para manter controle efetivo. 191 2 RELAÇÃO INTERPESSOAL Em seu sentido etimológico, a expressão “relação interpessoal” significa uma interação estabelecida entre pessoas, que, no caso em questão se reporta à relação entre profissional de saúde (enfermeiro) e seu paciente. Vale salientar que nesta relação, o foco não é a doença, ou seja, o sofrimento mental ou o transtorno psiquiátrico; mas sim o paciente, ou melhor, a pessoa. Neste caso, a relação interpessoal passa a ser denominada de relação terapêutica. O enfermeiro, neste momento de estabelecimento de vínculo, se vale das ferramentas essenciais a este processo, todas já mencionadas em tópicos anteriores: técnicas de comunicação, de observação e de sensibilidade. Apropriando-se desses recursos, o enfermeiro consegue enaltecer aspectos positivos de seu paciente, tais como seu crescimento, sua autonomia, seu discernimento e seus hábitos saudáveis. Em meio a tudo isso, uma tecnologia leve do cuidado deve se fazer presente também: a empatia, principalmente quando o paciente não está vivenciando um bom momento em sua vida. A partir da empatia, realiza-se a escuta amiga, faz-se o acolhimento e tenta-se ser resolutivo. Veja a seguir, no Quadro 13, algumas condições essenciais para o desenvolvimento de uma relação terapêutica satisfatória ou ideal. Quadro 13 – Condições ideais para um relacionamento terapêutico Harmonia Confiança • Capacidade verdadeira de importar- se com os outros, ocorrendo entre o enfermeiro e o cliente. • Aceitação, calor, amizade, interesses comuns, confiança e atitude não critica. • Base de uma relação terapêutica. • Oferecer o que o cliente precisa, cumprir com o prometido, por exemplo. Considerar suas opiniões. Respeito Autenticidade • Ato de não fazer para os outros aquilo que não gostaríamos que fizessem conosco. • Chamar pelo nome, permitir o tempo de resposta, não usar clichês. • Ser franco e honesto. • Cuidado para não ultrapassar o papel de enfermeiro. Empatia• Tendência para sentir o que sentiria se estivesse na situação experimentada por outra pessoa. Fonte: a autora Importante salientar que, quando essas condições satisfatórias não se fazem presentes, acontece o que se denomina de impasse terapêutico ou meramente um bloqueio no relacionamento enfermeiro-paciente. As causas que levam a esse bloqueio são bastante variadas, mas é sabido que elas servem de gatilho para deflagração de sentimentos intensos entre os dois envolvidos, tais como ansiedade, frustração e raiva. 192 Os impasses terapêuticos podem ser, ainda, classificados em três tipos principais: resistência, transferência e contratransferência. A resistência se caracteriza como sendo uma tentativa de o indivíduo não ter sensopercepção do que lhe causa ansiedade, o que se evidencia por uma defesa ou espécie de negação da mudança de seu comportamento, mesmo reconhecendo que ela é necessária. O paciente demonstra isso através de comportamento teatral, falta ou atraso em uma consulta, autodepreciação e visão negativa do futuro (TOWNSEND, 2017). A transferência, por sua vez, consiste na resposta inconsciente através da qual o paciente vivencia sentimentos e atitudes do enfermeiro, os quais ele associou a pessoas significativas em sua vida e, assim, o paciente tenta atenuar sua ansiedade. A transferência se torna um problema real quando permanece ignorada. Por fim, a contratransferência é o tipo de impasse terapêutico expresso pelo profissional em defesa à resistência do paciente. Essa defesa se traduz como uma resposta emocional perante um conflito prévio vivenciado a partir de temas como autoridade, autonomia e/ou afirmação sexual. Considerando-se o ângulo em que o profissional de saúde não consegue separar o espaço limítrofe do relacionamento terapêutico, estabelecendo uma relação social, pessoal ou financeira com o paciente, diz-se que houve uma transgressão dos limites. Para sanar esses bloqueios supracitados, faz-se necessário que os sentimentos e outras emoções sejam expostas ou dialogadas; que esses problemas sejam devida- mente reconhecidos por alguma das partes envolvidas; e que as metas e objetivos do relacionamento terapêutico sejam reavaliadas para se alcançar um acordo mútuo. No que tange aos objetivos do relacionamento terapêutico, pode-se dizer que existem aqueles que se voltam para a evolução do paciente enquanto cidadão e aqueles voltados para a concretização dos planos do enfermeiro. No primeiro caso, objetiva-se que o paciente cresça por meio da autorrealização, autoaceitação e autoconhecimento; por meio da sensopercepção de sua identidade; por meio da capacidade de estabelecimento de relações interpessoais de outras naturezas e por meio do estímulo ao alcance daquilo que lhe traz prazer e satisfação em nível pessoal. Para o enfermeiro atingir suas metas ele deve encorajar a socialização do paciente com a família e os amigos; identificar e corrigir eventuais problemas de comunicação e estimular novos padrões de comportamento por parte do paciente. Por outro lado, o enfermeiro conseguirá tudo isso e inclusive mais, se tiver sua autoconsciência desenvolvida, o que é fundamental para o profissional que trabalha nessa área, pois possibilita, por exemplo, a implementação de uma comunicação eficaz e do reconhecimento das diferenças e singularidades de cada pessoa. 193 Segundo o modelo holístico de autoconsciência de Campbell, a utilização da figura do “eu” acarreta a capacidade de alcance pleno da personalidade com o intuito de estabelecer vínculos. Esse modelo revela um componente psicológico, que inclui o conhecimento a respeito das emoções, motivações, autoconceito e personalidade; um componente físico, que abrange a fisiologia pessoal e geral, como também a propriocepção e imagem corporal; um componente ambiental, que considera os espaços socioculturais e socioambientais; e um componente filosófico, que corresponde à sensação de que a vida tem sentido (TOWNSEND, 2011). Em suma, para o enfermeiro ser considerado um agente terapêutico, ele precisa apresentar certas condutas, como o desenvolver a autoconsciência; discernir sobre seus valores; explorar sentimentos; servir de exemplo; ter motivação altruísta, ou seja, de preocupação com o próximo sem interesse; e comportar-se com ética e responsabilidade. A Figura 7 a seguir demonstra um momento do relacionamento terapêutico entre o profissional e seu paciente. Figura 7 – Momento de relacionamento terapêutico Fonte: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4109578/mod_resource/content/1/ Relacionamento%20terap%C3%AAutico.pdf. Acesso em: 19 ago. 2022. O relacionamento terapêutico profissional-paciente admite quatro fases específicas. A primeira, ou fase de pré-interação, é aquela em que ambos se preparam para o encontro e a partir desse encontro, o profissional realiza a coleta de dados, avaliando potencialidades e fragilidades de seu paciente. A segunda fase, ou introdutória, ou ainda de orientação, é aquela que determina a razão pela qual o paciente buscou ajuda e estabelece-se o vínculo terapêutico. A terceira, ou fase de trabalho, é aquela em que, fazendo jus ao nome, toda a terapêutica é desenvolvida. E a quarta fase, ou de encerramento, se caracteriza por aquela em que as metas terapêuticas foram alcançadas e o paciente pode receber alta. A seguir, nas Figuras 8 a 9, visualiza-se a representatividade de cada uma dessas quatro fases. 194 Figura 8 – Fase de pré-interação Fonte: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4109578/mod_resource/content/1/ Relacionamento%20terap%C3%AAutico.pdf. Acesso em: 19 ago. 2022. Figura 9 – Fase de orientação Fonte: https://pt-static.z-dn.net/files/d80/f4c8493b4186805c1a7a40bc16612b4d.png. Acesso em: 19 ago. 2022 https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4109578/mod_resource/content/1/Relacionamento terap%C3%AAutico.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4109578/mod_resource/content/1/Relacionamento terap%C3%AAutico.pdf 195 Figura 10 – Fase de trabalho Fonte: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4109578/mod_resource/content/1/ Relacionamento%20terap%C3%AAutico.pdf. Acesso em: 19 ago. 2022. Figura 11 – Fase de encerramento Fonte: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4109578/mod_resource/content/1/ Relacionamento%20terap%C3%AAutico.pdf. Acesso em: 19 ago. 2022. https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4109578/mod_resource/content/1/Relacionamento terap%C3%AAutico.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4109578/mod_resource/content/1/Relacionamento terap%C3%AAutico.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4109578/mod_resource/content/1/Relacionamento terap%C3%AAutico.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4109578/mod_resource/content/1/Relacionamento terap%C3%AAutico.pdf 196 3 COMUNICAÇÃO TERAPÊUTICA A comunicação terapêutica é um instrumento fundamental a ser posto em prática durante o relacionamento terapêutico entre o enfermeiro e seu paciente. Isso se deve ao fato de ela se revelar como um meio através do qual as pessoas influenciam o comportamento umas das outras. As modalidades básicas de comunicação terapêutica são a verbal e a não verbal. No que diz respeito à comunicação terapêutica verbal, é sabido que ela ocorre através de palavras escritas ou proferidas, que transmitem pensamentos e sensações diversos e levam em consideração os aspectos étnicos e culturais das pessoas que se comunicam por meio dela. Por outro lado, a comunicação não verbal simboliza tudo o que não seja mensagem escrita ou falada, mas que abrange os cinco sentidos. Os tipos de comunicação não verbal expressos através do comportamento podem ser de sugestões vocais (tom, volume, intensidade da voz, velocidade e ritmo de fala e sons não verbais como os risos e sons de hesitação); ser de sugestões de ações (movimentos corporais como a postura, expressão facial, gestos); ser de sugestões por objetos (vestuário, adornos) e de espaço (espaço íntimo, pessoal, social ou público).A comunicação terapêutica é representada por algumas técnicas, que serão apresentadas logo a seguir, através do Quadro 14. Quadro 14 – Técnicas da comunicação terapêutica Técnica Explicação/Análise Racional Exemplo Silêncio Dá ao cliente a oportunidade de juntar e organizar pensamentos, de pensar em algo ou de considerar introduzir um tópico de maior preocupação que aquele que está a ser debatido. _____ Aceitação Transmite uma atitude de recepção e consideração. “Sim entendo o que disse” (contato visual, acenar). Reconhecimento Reconhecimento e indicação de percepção consciente; melhor que elogiar; que reflete a opinião do enfermeiro. “Olá Sr. L...., vi que fez um cinzeiro na terapia ocupacional.” “vi que fez a sua cama.” Oferecer-se a si (offering self) Mostrar-se disponível incondicionalmente – aumenta o sentimento de amor-próprio do cliente. “Eu fico um pouco contigo.” “Podemos almoçar juntos.” “Quero saber de você.” 197 Abertura Permite ao cliente tomar iniciativa e introduzir o tópico, enfatiza a importância do papel do cliente na interação. “Sobre o que gostaria de falar hoje?” “Diga-me no que está a pensar?” Reforçar pistas Oferece ao cliente encorajamento para continuar “Sim, entendo, continue”, “e depois?” Localizar um evento no tempo ou sequência Clarifica no tempo os eventos da relação para que o cliente e o enfermeiro possam vê-los em perspectiva. “O que fez o levar a isso?” “Isso foi antes ou depois?” “Quando foi que aconteceu?” Fazer observações Verbalizar o que é observado ou entendido. Isso encoraja o cliente a reconhecer comportamentos específicos e a comparar percepções com o enfermeiro. “Parece-me tenso.” “Reparei que ainda anda muito de um lado para o outro.” “Parece-me desconfortável quando...” Encorajar a descrição de percepções Pedir ao cliente para verbalizar o que é entendido; frequentemente utilizado em clientes que tem alucinações. “Diga-me o que está a passar agora...” “Está novamente ouvindo vozes?” “O que dizem as vozes?” Encorajar a comparação Pedir ao cliente para comparar semelhanças e diferenças em ideias, experiências ou relações interpessoais: isso ajuda o cliente a reconhecer experiências de vida que tendem a ser recorrentes, assim como aspectos da vida que são alteráveis “Isso foi como...” “Com o que isso se compara?” “Qual foi a sua resposta da última vez que essa situação ocorreu?” Repetição A ideia principal do que o cliente disse é repetida, dá a entender ao cliente se algo que foi dito foi entendido e dá-lhe a hipótese de continuar ou clarificar, se necessário. Cliente: “Não consigo estudar, a minha mente continua às voltas.” Enfermeiro: “tem dificuldade em concentrar-se?” Cliente: “Não posso aceitar o novo trabalho. E se não conseguir fazê-lo?” Enfermeiro: “Tem medo de falhar nesse novo cargo?” Reflexão Questões e sentimentos são relembrados ao cliente para que possam ser reconhecidos e aceitos, e para que o cliente possa reconhecer em que o seu ponto de vista tem valor (uma boa técnica para utilizar quando o cliente pede conselhos ao enfermeiro). Cliente: “O que acha que eu devia fazer em relação ao problema da minha mulher com o álcool?” Enfermeiro: “o que acha que devia fazer?” Cliente: “A minha irmã não ajuda em nada com o problema da minha mãe. Tenho de fazer tudo sozinho.” Enfermeiro: ‘sente-se zangado por ela não ajudar?” 198 Focalização Fazer notar cada ideia ou cada palavra, funciona especialmente bem com um cliente que passa rapidamente de um pensamento para outro. No entanto, essa técnica não será terapêutica com um cliente ansioso. Não deve ser utilizada até o nível de ansiedade estar diminuído. “Parace-me interessante focarmos neste ponto com mais atenção. Talvez o possamos discutir juntos.” Exploração Explorar um assunto, ideia, experiência ou relação; especialmente útil com clientes que tem tendência a manter- se num nível superficial de comunicação. No entanto, se o cliente optar por não dar mais informações, o enfermeiro deve evitar forçar uma área que obviamente é de desconforto. “Por favor, explique- me a situação mais detalhadamente.” “Fale-me mais desta situação em particular.” Clarificação e validação Tentar explicar o que é vago ou incompreensível e procurar o entendimento mútuo: clarificar o significado do que foi dito facilita e aumenta o entendimento tanto para o cliente como para o enfermeiro. “Não sei se entendi; pode explicar, por favor.” “Diga-me se o meu entendimento é o mesmo que o seu.” “Percebi bem o que disse?” Apresentar a realidade Quando o cliente tem uma percepção errada do ambiente, o enfermeiro define a realidade ou indica ao cliente a sua percepção da situação. “Entendo que as vozes lhe pareçam reais, mas eu não as ouço.” “Não há mais ninguém na sala para além de nós.” Expressão de dúvida Expressar a incerteza em relação à realidade das percepções do cliente; frequentemente utilizado com clientes que experienciam pensamentos delirantes “É difícil acreditar” “Parece-me duvidoso” “Entendo que possa achar que isso é verdade, mas eu vejo a situação de modo diferente.” Verbalização do implícito Verbalizar o que o cliente disse indiretamente ou deixou implícito pode também ser utilizado com o cliente que não fala ou que experiencia problemas de comunicação verbal: isso clarifica o que está implícito e não-implícito. Cliente: “É uma perda de tempo estar aqui. Não posso falar com você nem com ninguém.” Enfermeiro: “sente que ninguém a entende?” Cliente: (silêncio) Enfermeiro: “Deve ter sido difícil para você quando o seu marido morreu no incêndio.” 199 Descodificação de sentimentos Quando são exprimidos sentimentos indiretamente, o enfermeiro tenta traduzir o que foi dito e encontrar pistas para os verdadeiros sentimentos implícitos. Cliente: “Ando à deriva.” Enfermeiro: “Deve sentir-se muito só neste momento.” Formular um plano de ação Quando um cliente tem um plano em mente para lidar com o que considera uma situação estressante, este pode servir para evitar que a raiva ou ansiedade aumentem para um nível impossível de gerir. “O que poderia fazer para soltar a sua raiva de modo inofensivo?” “Da próxima vez que isso surgir, o que pode fazer para lidar melhor com isso?” Fonte: adaptado de Stuart e Laraia (2001) Como exemplos de técnicas de comunicação não terapêutica, entretanto, citam- se: dar conselhos; sondar; defender; fazer pouco caso dos sentimentos expressos; e introduzir um tópico não relacionado na conversa. Dar conselho consiste em dizer ao paciente o que ele deve fazer, indicando que o enfermeiro sabe o que é melhor (por exemplo: “acho que você deveria aceitar...”; o certo é “o que você acha que deveria fazer?”). Sondar é interrogar o paciente de modo insistente, forçando-o a proclamar respostas sobre problemas que ele não quer discutir (por exemplo: “conte-me como aconteceu seu primeiro abuso sexual?”; o certo é perceber a resposta e interromper quando houver sinal de mal-estar). Defender significa tentar proteger alguém, o que não implica melhora do sentimento do paciente. Defender alguém que o paciente tenha criticado faz com que ele não tenha direito de expressar suas ideias e sentimentos. Fazer pouco caso dos sentimentos expressos consiste em julgar erroneamente o nível de desconforto do paciente (por exemplo: “todo mundo fica por baixo às vezes, até eu me sinto assim...”; o certo é “você deve estar muito preocupado ou aborrecido, diga-me o que está sentindo agora”). Por fim, introduzir um tópico não relacionado na conversa consiste em mudar de assunto (por exemplo: o paciente diz: “não tenho nenhuma razão para viver” e o enfermeiro fala: “você teve visitas nesse fim de semana?”; o certo é permanecer acessível à escuta do paciente, assumindo tudo o que é comunicado de forma verbal e não verbal. 2004 CONSTRUÇÃO DO PROJETO TERAPÊUTICO SINGULAR (PTS) PARA DIRECIONAMENTO DO TRATAMENTO O Projeto Terapêutico Singular (PTS) é um conjunto de propostas de condutas terapêuticas articuladas, para um sujeito individual ou coletivo, resultado da discussão coletiva de uma equipe interdisciplinar, com apoio matricial se necessário. Geralmente é dedicado a situações mais complexas. Foi bastante desenvolvido em espaços de atenção à saúde mental como forma de propiciar uma atuação integrada da equipe valorizando outros aspectos, além do diagnóstico psiquiátrico e da medicação, no tratamento dos usuários (BRASIL, 2008). Esses espaços de atenção à saúde mental supracitados podem ser representados pela Estratégia de Saúde da Família; pelo Núcleo de Apoio à Saúde da Família; pelo Consultório na Rua, dentre outros. Para sua confecção, faz-se necessário conhecer a pessoa envolvida; delinear ações coerentes ao seu contexto de vida; envolver discussões em equipe e participação de vários atores; bem como identificar potencialidades e fragilidades das esferas biopsicossocial do paciente. Já no tocante à metodologia utilizada para sua elaboração, sabe-se que existem cinco etapas principais a serem seguidas: diagnóstico, definição de objetivos, distribuição de tarefas e prazos, coordenação e negociação, e reavaliação. Na etapa de diagnóstico deve existir uma avaliação orgânica, psicológica e social, que possibilite uma conclusão a respeito dos riscos e da vulnerabilidade do usuário. Deve-se tentar captar como o sujeito singular se produz diante de forças como as doenças, os desejos e os interesses, assim como, também o trabalho, a cultura, a família e a rede social. Na definição dos objetivos, uma vez que a equipe fez os diagnósticos, ela faz propostas de curto, médio e longo prazo, que serão negociadas com o sujeito doente pelo membro da equipe que tiver um vínculo melhor. Na distribuição de tarefas e prazos, subdivide-se as funções de cada ator do processo. Na coordenação e negociação são pactuados os cumprimentos dos objetivos por cada ator dentro dos respectivos prazos elencados. Na reavaliação, discutir-se-á a evolução, a fim de sanar possíveis lacunas. Ainda sobre a etapa de diagnóstico, convém salientar que nela são utilizadas algumas ferramentas técnicas imprescindíveis como o genograma e o ecomapa. O primeiro é uma representação gráfica utilizada para evidenciar diferentes arranjos familiares. Entende-se por arranjo familiar um grupamento de pessoas que convivem em uma unidade domiciliar, mesmo sem relação de parentesco (OLIVEIRA, 2010). Em outras palavras, o genograma informa de maneira completa e objetiva os dados de uma determinada família, fazendo de forma realista uma revisão do passado familiar e dos potenciais problemas de saúde, assim como fornece informações ricas sobre os relacionamentos, incluindo ocupação, religião, etnia e migração (NASCIMENTO; ROCHA; HAYES, 2005). 201 Os componentes de um genograma são: simbologia própria, no mínimo três gerações, nomes dos membros da família, idade ou ano de nascimento, mortes, doenças ou problemas significativos, datas de casamentos e divórcios. A partir deles, exprimem- se relacionamentos intergeracionais, interpessoais e as funções e os papéis na família. Verifique a seguir, na figura 12, um exemplo de genograma. 202 Figura 12 – Exem plo de genogram a Fonte: N ascim ento, Rocha e H ayes (2005) 203 Sua utilização confere uma série de vantagens, como observar e analisar barreiras e padrões de comunicação entre as pessoas; explorar aspectos emocionais e comportamentais em um contexto de várias gerações; auxiliar os membros da família a identificar aspectos comuns e únicos de cada um deles; discutir e evidenciar opções de mudanças na família; prevenir o isolamento de um membro da família. O ecomapa, por sua vez, é a representação gráfica dos contatos dos membros da família com os outros sistemas sociais, incluindo a rede de suporte sócio sanitário. Pode representar a presença ou ausência de recursos sociais, culturais e econômicos, sendo eminentemente, um retrato de um determinado momento na vida dos membros da família e, portanto, dinâmico (NASCIMENTO; ROCHA; HAYES, 2005). No tocante a sua representação, é sabido que a família se apresenta dentro de um círculo, enquanto os contatos da família com a comunidade ou com pessoas e grupos significativos são representados em círculos externos. Nele, são incluídos serviços da comunidade (creche, escolas, unidade de saúde); grupos sociais (igrejas, associação de moradores do bairro); relações significativas (amigos, vizinhos, família); trabalho; dentre outras (Lazer). A Figura 13 mostra um exemplo de ecomapa. Figura 13 – Exemplo de ecomapa Fonte: Nascimento, Rocha e Hayes (2005) 204 O PTS visa, acima de tudo, à autonomia do sujeito sobre suas condições de vida e saúde por meio da busca de seu protagonismo. Por isso, é essencial que uma parte das responsabilidades terapêuticas seja assumida por ele. Também é fundamental a construção de um cronograma de ações com a respectiva identificação dos responsáveis específicos por elas. Nesse cronograma de ações é interessante constar a periodicidade de reavalia- ção do caso, considerando o tempo necessário para produção do efeito desejado, assim como a tolerância que não signifique riscos ou danos aos sujeitos, e, principalmente, que as equipes não percam a familiaridade com o caso. A etapa de reavaliação é imprescindível porque busca identificar e ajustar a proposta inicial às novas necessidades e resoluções atingidas, considerando as hipóteses anteriormente descartadas na primeira etapa de construção de hipóteses diagnósticas e da proposta de intervenção. Em outras palavras, essa fase corresponde a um momento de reconhecimento das falhas, mas também das conquistas, em que o grupo compartilha da força de superação e estímulo para vencer novos desafios. 4.1 INTERVENÇÃO PSICOTERAPÊUTICA DE ENFERMAGEM Um modelo de intervenção psicoterapêutica de enfermagem foi criado para embasar os cuidados gerais de um enfermeiro especialista em saúde mental e psiquiatria. Para sua elaboração, as teorias de enfermagem, bem como suas principais taxonomias serviram de pilares fundamentais. Os profissionais de enfermagem atuantes na área em questão, portanto, necessitam da sua apropriação antes de executarem sua prática clínica (SAMPAIO; SEQUEIRA; CANUT, 2018). Importante frisar que essa intervenção se caracteriza por ser uma aplicabilidade informada e intencional de algumas técnicas de psicoterapia, e não nesta propriamente dita. Ela revela por alicerces os seguintes princípios: intervenção estruturada, sistematizada, progressiva e sequencial; realizada por enfermeiro especialista em saúde mental ou psiquiatria; baseada em uma ou mais obras de teóricos da psicoterapia; é decorrente da percepção de algum diagnóstico de enfermagem no âmbito da saúde mental; dinamicidade e autoconsciência do paciente; dotada de três a doze sessões; admite como suporte a relação terapêutica com a comunicação de mesma nuance; e objetiva alguma mudança de comportamento do paciente (SAMPAIO; SEQUEIRA; CANUT, 2014). Em suma, diante do exposto, essa intervenção, quando comparada à psicoterapia propriamente dita, difere desta porque tem uma duração menor de tempo; parte de um diagnóstico de enfermagem e pode ser desenvolvida em outro ambiente que não seja o consultório de enfermagem (BULECHEK et al., 2012). 205 4.2 INTERVENÇÃO PSICOEDUCACIONAL A psicoeducação é uma forma de intervenção que insere ensinamentos ou simplesmente educação, a fim de instruir o paciente ou seu responsável sobre algum ponto ou consideração importante do seu tratamento, inclusive para que algum método tenha reprodutilidade por ele quando estiver sozinho. As intervenções psicológicas de maior sucesso são aquelas que se fazem valer de elementos de cunho educativo. Tais elementos consistem no ensino ao paciente ou aos seus responsáveisde saber lidar com quesitos como o estigma; manter estilo de vida saudável; evitar abuso de substâncias e aderir ao tratamento (MELLO, 2008). As principais funções dessa intervenção giram em torno da oferta de suporte emocional e do ensino para o manejo de problemas já identificados através de métodos básicos e simples, portanto. É possível verificar, por meio da implementação da psicoe- ducação que: o transtorno mental é legitimado através do conhecimento e compreen- são de sua base biológica; a cooperação dos familiares do paciente aumenta; a família tor- na-se mais hábil em monitorar sintomas, evitando recaídas e internações; e as emoções negativas de familiares e comunidade diminuem (YACUBIAN; LOTUFO NETO, 2002). Por fim, considera-se que uma psicoeducação adequada precisa apresentar: informação sobre índices de recorrência dos transtornos mentais e o fato de eles ainda não terem cura; fatores desencadeantes e treinamento para identificação; informação sobre psicofármacos: uso e efeitos colaterais; detecção e manejo precoce de sintomas; necessidade de o paciente e família terem um “plano de emergência” para situações críticas; riscos associados ao uso de drogas ilícitas e legais; importância de manter rotinas e hábitos saudáveis de vida; gerenciamento de estresse; informação clara e objetiva sobre gravidez em portadoras de transtornos mentais e riscos associados; e enfrentamento do estigma e da discriminação relacionados aos transtornos mentais (COLON; VIETA, 2004). 4.3 INTERVENÇÃO BREVE A técnica de intervenção breve (IB) foi proposta, no campo da saúde mental, para o trabalho com usuários de droga, que, por sua vez, é focado na promoção do suporte e desenvolvimento da autonomia deles. O significado da expressão que confere nome ao tipo de intervenção se justifica pelo fato de ela ser considerada uma técnica de atendimento com tempo curto ou limitado, sendo, portanto, objetiva e focal. Essa intervenção é composta pelos seguintes princípios: feedback; responsabi- lidade; aconselhamento; menu de opções; empatia e autoeficácia. O feedback é o prin- cípio norteador em que, por meio de instrumentos padronizados, o profissional avalia o consumo de substâncias pelo usuário e lhe dá um retorno sobre os riscos que essa utilização pode causar. 206 No princípio de responsabilidade, o profissional negocia com o paciente algumas metas para a redução no consumo da substância ou abstinência. No aconselhamento, o profissional reforça algumas atitudes já prévias com a oferta de materiais informativos sobre o uso de substâncias, por exemplo. Com o menu de opções, o profissional vai estimular o paciente a refletir sobre formas de parar ou reduzir o consumo da substância. Na empatia, o profissional se mostra acessível ao usuário para ouvi-lo e ajudá-lo. Já com a autoeficácia, o profissional intensifica a motivação do usuário para o processo de mudança pelo qual ele está passando. 4.4 INTERVENÇÃO EM CRISE Uma outra modalidade de intervenção com tempo curto e, portanto, breve, intensa, focal e objetiva consiste na intervenção em crise, cujo objetivo é pautado na busca por mecanismos adaptativos novos do usuário, a fim de que ele possa conseguir superar uma determinada situação estressora, sozinho. Para implementar essa técnica, o enfermeiro deve seguir algumas etapas, tais como a identificação de um evento tido como crítico, solicitando ao paciente que o relate minuciosamente; a exploração de sentimentos, pensamentos e comportamentos, solicitando a sensopercepção do usuário sobre o evento; a identificação de mecanismos de enfrentamento, solicitando ao paciente que proclame como ele já reagiu a alguma situação semelhante em momento anterior; o desenvolvimento de um plano adaptado ao manejo, envolvendo o paciente nesse planejamento; e a avaliação de como o paciente percebe o plano de enfrentamento, perguntando sobre isso a ela (MELLO, 2008). 4.5 INTERVENÇÃO EM GRUPO A intervenção em grupo se caracteriza como sendo um método de psicoterapia que objetiva investigar semelhanças entre atitudes de indivíduos que estão participando da reunião do grupo no presente momento. A atitude de uma pessoa que fala sobre suas experiências, expondo-as ao grupo, encoraja outras que, até então, não tinham estímulo para partilhar suas vivências, verbalizando-as. Participa deste grupo um profissional de saúde mental, o qual coleta dados e praticamente monitora toda a dinâmica de ocorrência dele. Ela consiste, frequentemente, em falar durante a terapia, admitindo, entretanto, outras modalidades terapêuticas, inclusive a terapia não falada, como a expressão cor- poral, a pintura, o artesanato, o cuidado com plantas, dentre outras. Nela são exploradas questões em uma conjuntura social cuja reflexão sobre a vida real é bastante fidedigna, o que serve de oportunidade para observação e pensamentos sobre as próprias habi- lidades sociais; bem como para dar e receber apoio imediato sobre preocupações das mais variadas nuances, de forma confidencial. 207 Os participantes escutam uns aos outros, manifestando-se de forma a proclamar como e porque iniciaram e convivem com problemas diversos, dentre eles, a dependência química. Quando existe a procura pela participação em grupo por parte de algum cidadão, geralmente se verifica que ele chegou à convicção da necessidade de ajuda pela reinserção social. A princípio, a intervenção em grupo adquiriu a finalidade de diminuir custos em instituições que a ofertavam como modalidade de terapia, mas foi mantida, sobretudo, porque passou a revelar vantagens não observadas nas terapias meramente individuais. 5 TERAPIAS COMPLEMENTARES EM SAÚDE MENTAL Uma terapia dita complementar é aquela que se baseia em implementar inter- venções diferentes de um tratamento convencional ou tradicional, ou complementan- do-a, de fato. Por isso mesmo, a terapia complementar é vista e compreendida como cuidados de saúde holísticos, ultrapassando as barreiras do corpo físico e enxergando o indivíduo como um ser biopsicossocial. Essas terapias, inclusive, são plenamente capa- zes de ocasionar mudanças positivas no estilo de vida das pessoas, as quais tem como educadores nesse processo, os profissionais de saúde. As diferenças entre os tipos de terapia convencional e complementar podem ser visualizadas no Quadro 15. Quadro 15 – Diferenças entre terapias convencionais e complementares Convencional Complementar/alternativa Quimioterapia Plantas e outros produtos naturais Curar/tratar Cicatrização/cuidado pastoral Indivíduo considerado como a doença Indivíduo visto como um ser único Estágio terminal Confiança/esperança Foco na doença e no mal-estar Foco na saúde e no bem-estar Tratamento da doença Promoção da saúde e prevenção de doença Nutrição é adjunta e apoia o tratamento Nutrição como base de saúde, bem-estar e tratamento Objetivismo: a pessoa é separada de sua doença Subjetivismo: integralidade da pessoa em relação à doença Paciente/cliente Indivíduo/pessoa Profissional como autoridade Profissional como facilitador Paternalismo do profissional/dependência do paciente Profissional como parceiro/emponderador do indivíduo Positivismo/materialismo: os dados são mensuráveis fisicamente Metafísica: a entidade é um sistema de energia ou força vital 208 reducionista Holística Cuidados especializados Autocuidado Alívio dos sintomas Alívio de fatores causais Modelo somático (biológico e fisiológico) Modelo comportamental-psicossocial-espiritual Ciência como única fonte de conhecimento e verdade Múltiplas fontes de conhecimento e verdade Tecnológica/invasiva Natural/não invasiva Fonte: adaptado de Townsend (2017) Dentre as modalidades de terapias complementares, tem-se a fitoterapia, que consiste no uso de plantas para fins medicinais. A ela muito se tem recorrido, tendo em vista que as plantas deflagram menos efeitos colaterais que os medicamentos já conhecidos no mercado farmacológico. Considera-se, também, as modalidades