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Deus e Cosmos
Urn Coin eilo Crisiao do lempo. 
do I spat, o e do Unlverso
John Byl
DEUS
e
COSMOS
Uma Visão Cristã 
do Tempo, do Espaço 
e do Universo
John Byl
PUBLICAÇÕES EVANGÉLICAS SELECIONADAS 
Caixa Postal 1287 
01059-970 - São Paulo - SP
Título original:
God and Cosmos
Primeira edição:
2001
Editora:
The Banner of Truth Trust
Primeira edição em português:
2003
Tradução do inglês:
Adelelmo Fernandes Fialho
Revisor:
Antonio Poccinelli
Cooperador:
Luís Christianini
Capa:
Sérgio Luiz Menga
Impressão:
Imprensa da Fé
À Minha Esposa Margaret 
“E alegra-te com a mulher 
da tua mocidade” 
(Provérbios 5:18)
Indice
Prefácio ................................................................................. 11
Prefacio para a Edição em Português..................................... 13
1. AS QUESTÕES BÁSICAS.................................................15
Reconciliando a Cosmologia e a Biblia.........................16
Avaliando Modelos Cosmológicos.................................17
O Papel do Comprometimento Religioso.....................21
Epistemología e Revelação.............................................23
Interpretando a Biblia.....................................................27
A Abrangência da Autoridade Bíblica..........................29
Perspectiva.......................................................................33
2. BREVE ESBOÇO HISTÓRICO.......................................35
Cosmologia Antiga..........................................................35
Origens da Cosmologia Grega........................................36
Cosmologia Clássica........................................................38
Redimindo o Fenômeno.................................................40
A Cosmologia Medieval.................................................43
A Harmonia Perfeita................................................44
O Fim da Cosmologia Medieval.............................49
Galileu versus a Igreja......................................................50
Conseqüências Teológicas........................................57
Cosmologia Pré-Moderna...............................................60
Cosmologia Newtoniana.................................................61
O Universo Dinâmico.....................................................64
A Morte do Calor............................................................66
7
Deus e Cosmos
3. COSMOLOGIA MODERNA............................................70
Uma Breve História do Big Bang..................................70
Explicando as Observações.............................................78
1. Deslocamento para o Vermelho..........................78
2. Abundâncias de Elementos.................................85
3. As Microondas Cósmicas de Fundo................. 88
Problemas Subseqüentes com o Big Bang....................93
1. Inflação.................................................................94
2. Formação de Galáxia...........................................97
3. Massa Faltante......................................................98
4. Aceleração...........................................................100
5. Mais Quebra-Cabeças........................................102
Premissas Básicas Cosmológicas..................................104
O Problema de Verificação...........................................110
Sumário..........................................................................112
4. COSMOLOGIA E A EXISTÊNCIA DE DEUS........ 117
O Argumento Cosmológico..........................................118
Os Argumentos Filosóficos...................................119
A Singularidade do Big Bang...............................126
A Segunda Lei da Termodinâmica.......................140
O Argumento do Design..............................................146
Alternativas ao Conceito de Design...................... 151
Design e Evolução.................................................163
Conclusões.....................................................................164
5. COSMOLOGIA, VIDA E FUTURO............................ 170
Vida no Universo...........................................................170
Uma Breve História de ETI - Inteligência
Extraterrestre..................................................171
A Razão Científica para ETI.................................172
Motivação para a Crença em ETI.........................179
Considerações Teológicas.......................................180
8
Indice
O Futuro da Vida no Universo................................... 187
Vida Futura num Universo Fechado..................190
Vida Futura num Universo Aberto....................192
Vida Futura numa Cosmologia Plasmática....... 194
6. OS ESTRANHOS DEUSES DA COSMOLOGIA
MODERNA.........................................................198
O Deus Evolutivo da Teologia Natural........................198
Deuses Naturais Evolutivos..................................200
Deuses Autocausados.................. ,........................206
O Cristianismo e o Deus Evolutivo.............................213
1.0 Deus de Teilhard de Chardin........................213
2. O Deus da Teologia de Processo........................216
Vida Após a Morte.........................................................220
7. A BIBLIA E COSMOLOGIA......................................... 226
O Ser e a Natureza de Deus..........................................226
A Doutrina da Criação..................................................230
A Historia do Universo.................................................234
Eventos da Criação.................................................234
A Queda e Suas Conseqüéncias............................238
Escatologia..............................................................240
A Data da Criação..................................................241
O Mundo Espiritual......................................................245
Questões Cosmológicas Posteriores..............................252
O Tamanho do Universo...............................................259
Um Universo Expandido?............................................261
A Estrutura Referencial Bíblica...................................262
A Biblia e o Big Bang...................................................264
8. COSMOLOGIAS BÍBLICAS......................................... 272
Universos Jovens...........................................................273
9
Deus e Cosmos
1. A Velocidade Variável da Luz.......................... 274
2. Retardo do Tempo..............................................277
3. Modelos de Espaço Curvo.................................279
4. Criação Amadurecida........................................282
Modelos Geométricos...................................................292
Limites de Cosmologia Bíblica...................................302
9. CONCLUSÕES...................................................................309
Sumário..........................................................................309
Observações Finais........................................................317
Bibliografia.............................................................................324
índice de Nomes e Assuntos.....................................................340
Figuras
2.1 O Universo Geocêntrico de Acordo com Peter
Apian..................................................................... 39
2.2 A Teoria Epicíclica..........................................................42
2.3 A Visão Medieval do Universo...................................... 45
2.4 A Concepção de Dante sobre o Universo......................48
2.5 O Universo Heliocêntrico de Acordo com Copérnico. 51
2.6 O Sistema de Ticho Brahe..............................................53
2.7 O Universo Heliocêntrico de Thomas Digges..............62
3.1 A Distribuição da Matéria no Universo........................72
3.2 A Comparação de Geometrias Espaciais...................... 74
3.3 A Distribuição de Galáxias mais Próximas..................91
3.4 O Tamanho do Universo versus O Tempo......................95
7.1 As Constelações do Hemisfério Norte.........................256
7.2 As Constelações do Hemisfério Sul.............................257
8.1 Os Efeitos do Espaço Curvo em Distâncias
Aparentes..................................................................281
8.2 O Universo Invertido....................................................295
10
Prefácio
Recentemente, muito tem sido escrito sobre a relação 
entre ciência e religião. Apenas uma bem pequena porção 
disto tem sido para tratar específicamente da interação entre 
cosmologia e teologia. A vasta maioria dos livros sobre o 
assunto pressupõe a validade da cosmologia moderna, e a 
partir daí propõe modificações ao cristianismo ortodoxo. As 
poucas obras teologicamente conservadoras e criacionistas 
geralmente apresentam um foco muito estreito, enfatizando 
principalmente desaprovar a cosmologia do Big Bang 
(doravante “Big Bang”) ou promover suas alternativas 
cosmológicas particulares.
O propósito deste livro é sondar mais abaixo, além das 
habituais questões de origens, cavando mais fundo nas áreas 
básicas do debate filosófico, e também examinar um número 
de questões intimamente relacionadas. A ênfase por um lado 
será nas pressuposições teológicas e implicações da moderna 
cosmologia e, por outro lado, a importância da Bíblia para a 
cosmologia.
Este livro é destinado àqueles interessados em defender a 
fé cristã numa era de ciência naturalista. Para que seja acessível 
ao leitor comum, não pressuponho qualquer conhecimento 
prévio de cosmologia. Embora os modelos cosmológicos 
específicos tendam a ser altamente matemáticos, este livro não 
contém equações matemáticas.
Sou grato ao meu colega Rick Sutcliffe que leu e criticou 
alguns dos primeiros capítulos. Também agradeço a Douglas 
Taylor, da Banner of Truth Trust, por suas úteis sugestões. 
Sinto-me também obrigado à Trinity University por conceder-
11
Deus e Cosmos
-me licença sabática, durante a qual realizei a maior parte 
do trabalho de pesquisa e leitura.
Versões precedentes de várias partes deste livro apareceram 
em diversas publicações anteriores. Grande parte do material 
do Capítulo 1 apareceu em “Considerações Preliminares: sobre 
método científico e teológico”, Premise, Vol. 5 n° 3, pp 1-11, 
1998 (http://www.capo.org/premise/archive.html). Partes do 
Capítulo 3 apareceram em “O papel da crença religiosa na 
cosmologia moderna”, J.M. Van der Meer (ed.), Facetas de Fé e 
Ciência, Vol. 3: O Papel da crença religiosa em Ciências Naturais, 
Lanham: University Press of America, 1996, pp 47-62. Partes 
do Capítulo 4 foram publicadas como “A defesa de Craig do 
Argumento da Cosmologia Kalam”, no Volume 4 da mesma 
série, Interpretando a Ação de Deus no Mundo, pp. 75-90. Este 
material é usado aqui com permissão do publicador. A primeira 
parte do Capítulo 5 foi publicada em “Sobre a Vida no 
Cniverso”, Professorenforum Journal, Vol. 2 N° 1, Janeiro de 
2001. (http://www.professorenforum.de/volumes).
John Byl 
Janeiro 2001
12
http://www.capo.org/premise/archive.html
http://www.professorenforum.de/volumes
Prefácio
para a edição em português
O conhecimento sobre o universo em que vivemos sem­
pre fascinou a mente humana. O desafio de compreendê-lo e 
relacioná-lo com a nossa própria existência tem sido a proposta 
máxima da chamada ciência moderna. Contudo, a dimensão 
desta tarefa nem sempre é bem entendida tanto por leigos 
quanto por profissionais da área científica devido a sua 
enorme abrangência. Se tais dificuldades já não fossem quase 
uma montanha intransponível, a busca do conhecimento e da 
compreensão do universo nos levaria a um encontro direto 
com a existência dAquele que está acima do mais elevado 
pensamento humano - Deus. Aqui cosmologia e teologia se 
encontram.
No passado, o conhecimento científico e o conhecimento 
teológico andavam juntos. Não era considerado incoerente 
nem inconsistente o homem que em busca do conhecimento 
científico cresse na existência do Deus pessoal, Criador de todas 
as coisas revelado nas Escrituras, e que mantivesse um 
relacionamento pessoal de amor e adoração com esse Deus 
da Bíblia. Grandes cientistas como Sir Isaac Newton, James 
Clerk Maxwell e muitos outros assim viveram. Mas, dentro 
do errôneo pensamento moderno, o cientista deve estar livre 
desta influência teológica para assim poder realizar a sua 
pesquisa sem pressuposições. Noutras palavras, o crer em 
Deus o desqualifica para a tarefa de entender o universo de 
forma científica.
Dr. John Byl mostra de forma brilhante e interessante o 
quão infundado e preconceituoso é esse tipo de pensamento. 
O conhecimento de Deus através da Sua revelação pessoal por
13
Deus e Cosmos
meio das Escrituras oferece uma base sólida e científica 
relevante para a compreensão do universo, tanto do seu passado, 
quanto do seu presente, como também do seu futuro. A sua 
abordagem do relacionamento da cosmologia com a teologia é 
consistente, abrangente e equilibrada. A dosagem da quan­
tidade de informação, a clareza das explicações e a transparência 
com que são tratadas as posições favoráveis e as antagônicas à 
visão cosmológica cristã dão a esta obra uma natureza única, 
digna de apreciação.
Para muitos, a leitura deste livro poderá abrir as portas 
para as respostas das grandes perguntas da vida e talvez para a 
maior descoberta de todas - a de que o Deus Criador Se importa 
conosco não apenas por sermos Suas criaturas mas por causa 
do Seu amor.
Para outros, a mesma leitura irá produzir uma agradável 
surpresa ao descobrir um cristianismo muito além da religião, 
de um cristianismo que transcende as paredes das nossas igrejas, 
permeando todos os lugares, até os mais distantes do universo 
em que vivemos. Este cristianismo oferece uma proposição 
científica coerente sobre o tempo, o espaço e o universo, e que 
é relevante para cada esfera do pensamento humano.
Dentro desta viagem fantástica de questionamentos e 
respostas, de propostas e soluções, poderemos mergulhar num 
mundo de conhecimento riquíssimo. Tal conhecimento, sem 
dúvida, irá alterar a nossa percepção do mundo em que 
vivemos, bem como a percepção da grandeza e glória do Deus 
Criador, tanto da Sua sabedoria quanto do Seu poder, levando- 
-nos a adorá-10 por tudo aquilo que Ele realmente é.
Prof. Adauto J. B. Lourenço 
Presbítero, Físico pesquisador 
no Oak Ridge National Laboratory, E.U.A. 
e no Max Planck Institut für Stròmunsgsforchung, Alemanha
14
1
As Questões Básicas
Pode ura cristão, vivendo na era espacial continuar 
crendo em céu, anjos e vida após a morte, ou teria o conheci­
mento científico moderno refutado como ingênuas tais noções 
simplistas? E quanto à teoria do Big Bang, teria ela demons­
trado a evidência de um Criador, ou lançado dúvidas sobre o 
Génesis?
Os cristãos têm sido cada vez mais confrontados com 
questões perturbadoras como essas. A finalidade deste estudo 
é examinar algumas dessas questões e os problemas escon­
dendo atrás de cada uma delas. Nossa investigação nos 
conduzirá através dos campos da cosmologia e da teologia. 
Cosmologia é a ciência que estuda o universo físico como um 
todo (devemos considerá-la como incluindo a cosmogonia, o 
estudo da origem do universo); teologia é o estudo de Deus e 
Sua revelação.
Como, entre si, se afetam a teologia e a cosmologia? Em 
que extensão é a cosmologia afetada pela tendência teológica? 
Quais seriam, se é que existem, as conseqüências teológicas 
derivadas da cosmologia? Tais questões constituem o foco deste 
estudo. Nós nos limitaremos primariamente à teologia cristã, 
tomando a Bíblia como fonte primária da revelação divina.
Para os cristãos, é de principal importância saber o que 
a Bíblia tem a dizer sobre cosmologia. A Bíblia certamente 
parece considerar de modo bem específico a questão da 
origem e destino do universo, bem como da existência do 
mundo espiritual. Em tempos medievais uma detalhada
15
Deus e Cosmos
cosmologiafoi construída, baseada, assim se pensava, em tais 
informações bíblicas.
Em tempos modernos a situação é bem diferente. A velha 
visão medieval do universo foi descartada desde há muito tem­
po. Ela foi substituída por uma nova cosmologia dominante: 
a cosmologia do Big Bang. Esta teoria postula que o universo 
físico, com todos os seus componentes, foi causado pela explo­
são inicial (o “Big Bang”), e desenvolvimento subseqüente, 
de uma altamente comprimida bola de energia-massa. 
Reconciliando a Cosmologia e a Bíblia
Como poderemos reconciliar a cosmologia moderna e o 
cristianismo. A reação dos cristãos tem se dado num bem 
amplo espectro de opiniões. É muito claro que a cosmologia 
do Big Bang está em discordância com a interpretação tradici­
onal da Bíblia. A aceitação da cosmologia do Big Bang 
portanto, requer uma reavaliação daqueles textos bíblicos que 
parecem ter implicações cosmológicas.
Uma possível abordagem é aquela do concordismo, o 
esforço para re-interpretar a Bíblia de modo a trazê-la à 
harmonia com a cosmologia moderna. De fato, alguns autores 
alegam que a teoria do Big Bang realmente confirma Gênesis, 
bastando apenas que o leiamos apropriadamente.
Outros, convencidos de que tais interpretações concor- 
distas são inválidas, adotariam métodos mais drásticos. Talvez 
a Bíblia, escrita numa era pré-científica, esteja em erro quan­
do abordando assuntos científicos. Talvez a Bíblia esteja se 
preocupando apenas com assuntos teológicos. Um ponto de 
vista que tem se tornado bem popular últimamente é o do 
complementarismo, que enfoca a teologia e a cosmologia como 
totalmente independentes, cada uma lidando com assuntos 
diferentes: elas dão descrições complementares da mesma 
realidade. A teologia estaria preocupada com o “Quem” e o
16
As Questões Básicas
“Porquê” e a ciência com o “ Quando” e o “Como”.
Em resumo, adaptar a Bíblia à cosmologia do Big Bang 
parece impor um estiramento ou adaptação forçada por um 
lado, ou uma redução de sua autoridade por outro lado.
Uma abordagem alternativa seria adaptar a cosmologia à 
Bíblia, ou pelo menos à leitura tradicional da Bíblia do modo 
como tem sido aceita pela maioria dos cristãos através das < ' s. 
Como isso implica na rejeição da cosmologia do Big Bang, 
então questões devem ser feitas com respeito ao status e auto 
ridade de teorias cosmológicas: “Quão bem estabelecida é a 
cosmologia do Big Bang?” “Seria possível construir uma 
cosmologia alternativa viável, com base na Bíblia?” 
Avaliando Modelos Cosmológicos
Muitos astrônomos - bem como muitos teólogos - estão 
convencidos de que a teoria do Big Bang é essencialmente 
correta. Em capítulo subseqüente examinaremos os pontos 
fortes e fracos desta teoria cosmológica dominante. Aqui eu 
quero apenas levantar algumas preocupações preliminares.
Em construindo uma teoria cosmológica, ou “modelo” 
(isto é, uma representação matemática simplificada) da 
origem e estrutura do inteiro universo é muito claro que 
temos ao nosso dispor apenas uma quantidade muito limitada 
de dados observacionais. Foi apenas nos últimos setenta anos 
que pudemos observar as galáxias muito distantes. E pode 
muito bem ser que aquilo que presentemente observamos 
seja apenas uma pequena fração do universo integral.
Extrair conclusões a respeito do universo integral, a 
partir de um limitado conjunto de dados, necessariamente 
requer que adotemos premissas ou pressuposições teóricas. 
Considerações similares se aplicam à história do universo. Por 
exemplo, não podemos observar diretamente o Big Bang, que 
teria ocorrido supostamente a uns quinze bilhões de anos atrás.
17
Deus e Cosmos
Tal hipotético evento do passado pode apenas ser inferido com 
base em dados que recebemos agora, os quais chegam até nós 
na forma de raios de luz.
Além disso, como veremos mais adiante, os dados são 
explicáveis em um número de diferentes maneiras. Podemos 
ter certeza, por exemplo, de que as leis físicas aplicáveis aqui 
e agora são universalmente válidas? Pode ser que a constante 
de gravidade ou a velocidade da luz varie no espaço e no 
tempo. Uma série dessas propostas pode ser encontrada em 
jornais astronômicos profissionais. Ou pode ser também que 
o universo foi criado instantaneamente, num passado não muito 
distante. Mesmo que uma tal possibilidade possa ser recebida 
por nós como algo muito improvável, é notoriamente difícil 
refutá-la. Em resumo, há uma grande multidão de possíveis 
extensões teóricas e explicações para as observações astronô­
micas.
Dada uma tão ampla escolha de teorias, como podemos 
esperar acertar a teoria correta? De fato, mesmo se fôssemos 
escolher a melhor teoria baseada no acaso, como poderíamos 
reconhecê-la como tal? Na mesma linha de raciocínio, como 
poderíamos nós escolher ainda que fosse entre apenas duas 
teorias concorrentes?
No último meio século tem sido geralmente aceito que 
teorias científicas não podem simplesmente ser deduzidas a 
partir de observações. Pelo contrário, a origem das teorias tem 
sido considerada na atualidade como amplamente subjetiva. 
O notável filósofo de ciência, Sir Karl Popper afirma que 
“temos que considerar todas as leis ou teorias como hipoté­
ticas ou conjeturais; isto é, como suposições” ele vê teorias 
como “criações livres, de nossas mentes”.1 2 Ou, como coloca
1 Objective Knowledge (Conhecimento Objetivo), Londres: Oxford University 
Press, 1972, p.9.
2 Conjectures and Refutations (Conjeturas e Refutações), Londres: Routlcdge, 
1962, p. 192
18
As Questões Básicas
Cari Hempel:
A transição de dados para teoria requer imaginação criativa. 
Hipóteses e teorias cientificas não são derivadas de fatos 
observados, mas são inventadas para explicar ou justificar os 
dados.3
É como se as teorias ao invés de ser-nos dadas pela nature­
za, são impostas por nós sobre a natureza; elas não são resultado 
do pensamento racional tanto como criações de nossa intuição 
irracional.
Enquanto alguém poderia pensar que pesquisas poste­
riores acabariam por provar como falsas a maioria dessas 
teorias, isso de fato não ocorre facilmente na prática. Uma 
teoria favorita, como é o caso da cosmologia do Big Bang, pode 
ser sempre preservada da refutação observacional, através de 
adequadas adaptações da mesma. Uma teoria que precise ser 
escorada por dispositivos ad hoc artificiais (desenvolvidos 
específicamente para esquivar ou evitar pontos fracos particu­
lares) geralmente não é muito valorizada em termos de 
plausibilidade. Apesar disso, não importando quão difícil 
possa ser demonstrar como verdadeira uma particular teoria 
ad hoc, é ainda mais difícil refutá-la conclusivamente. De 
acordo com Imre Lakatos:
Teorias cientificas não são apenas incomprováveis, e igualmente 
improváveis, mas são também igualmente irrefutáveis.4
Enquanto reconhecendo não haver lógica envolvida na 
descoberta de teorias, Popper esperou construir um processo 
racional para a seleção objetiva de teorias. Ele propôs que
3 Philosophy of Natural Science (Filosofia da Ciência Natural), Englewood 
Cliffs, N. J.: Prentice Hall, 1966, p. 15
4 The Methodology of Research Programmes (A Metodologia de Programas 
de Pesquisa), Cambridge: The University Press, 1980, p, 19
19
Deus e Cosmos
teorias científicas genuínas deveriam ser refutáveis (isto é, elas 
deveriam fazer previsões bem definidas e testáveis). Contudo, 
se aplicássemos este critério à cosmologia, muito poucas 
teorias sobrariam. Hoje, virtualmente todos os modelos 
cosmológicos são refutados por observações. Nem Popper 
oferece qualquer justificação quanto ao porquê as teorias mais 
facilmente refutáveis são mais provavelmente verdadeiras do 
que outras.
E claro que é possível jogar com a cosmologia sob dife­
rentes regras. Vários critérios para avaliar teorias têm sido 
sugeridos. Por exemplo, Howard Van Till5 alista relevância 
cognitiva, precisão de predição, coerência, abrangência 
explanatória, poder de unificação, e fertilidade. No entanto, 
embora tais critérios possam parecer razoáveiso bastante, 
geralmente se reconhece que eles não são de modo algum 
rigorosos. Eles simplesmente refletem valores usados na prá­
tica. De fato, a criação de um critério de seleção não é menos 
subjetivo do que a própria criação das teorias científicas. Como 
Lakatos observa (p. 122):
Esses jogos científicos carecem de genuíno conteúdo 
epistemológicos (tendo a ver com conhecimento) a menos que 
a eles sobreponhamos algum tipo de princípio metafísico o qual 
dirá se o jogo, como especificado pela metodologia, nos dá a 
melhor chance de nos aproximarmos da verdade.
Em resumo, a ciência em geral - e cosmologia em parti­
cular - é infestada pela falta de critério definido e objetivo 
que possa permitir separar teorias verdadeiras de falsas. E 
neste ponto crucial que teremos que ser freqüentemente 
guiados por fatores extra-científicos.
5 Portraits of Creation (Imagens da Criação), Grand Rapids: Eerdmans, 1990, 
p. 146
20
As Questões Básicas
O Papel do Comprometimento Religioso
Isto nos conduz à questão sobre qual seria o papel do com­
prometimento religioso na teorização cosmológica. De que 
modo deveriam as convicções religiosas influenciar a cosmo­
logia?
Está claro que na prática, pelo menos, convicções ou 
pontos de vista religiosos podem desempenhar um papel 
decisivo na geração, avaliação e seleção de teorias cosmológicas. 
Por exemplo, a escolha pró ou contra o Big Bang é algumas 
vezes feita na base do ponto de vista religioso. Assim Fred 
Hoyle rejeita pelo menos em parte a cosmologia do Big Bang 
porque o surgimento repentino do universo num tempo finito 
do passado implicaria em admitir uma causa sobrenatural.6 
Enquanto que, com base no mesmo raciocínio, cristãos tais 
como Norman Geisler 7 e Hugh Ross 8 são favoravelmente 
inclinados para o Big Bang.
Ou considere a rejeição pelos criacionistas de uma longa e 
evolucionária historia do universo. Isso é baseado primaria­
mente em seus compromissos religiosos com a Biblia. Por outro 
lado, a Academia Nacional de Ciência dos Estados Unidos se 
opõe primariamente ao criacionismo com base em que o 
criacionismo “subordina evidência a declarações feitas 
sob autoridade ou revelação”9 * e que “isso justifica a origem 
da vida por meios sobrenaturais”. Tal rejeição imediata de
6 Astronomy and Cosmology (Astronomia e Cosmología), San Francisco: 
Freeman, 1975, p. 684
7 Journal of the Evangelical Theological Society (Jornal da Sociedade Evan­
gélica Teológica), 1979,22 p. 282
8 The Fingerprint of God (As Impressões Digitais de Deus), Orange: Premisse 
Pub. Co., 2aEdição
9 Scientific Creationism: A View from the National Academy of Science
(Criacionismo Científico: O Ponto de Vista da Academia Nacional de Ciências), 
Washington: National Academy Press, 1984
21
Deus e Cosmos
através de Sua Palavra e de Suas obras.
Na visão tradicional, entretanto, a revelação geral con­
siste apenas na ¿zwto-revelação de Deus. Por Suas obras de 
criação e providência o caráter invisível de Deus é revelado 
(ver, por exemplo, Romanos 1:20). Depois da Queda, o conhe­
cimento humano a respeito de Deus através da revelação geral 
tem sido obscurecido pelo pecado, de maneira tal que as 
Escrituras e a graça do Espírito Santo são agora necessárias 
para que o homem possa entender claramente a mensagem da 
revelação geral.
Aqueles que rejeitam esta visão freqüentemente justifi­
cam isto apelando para uma avaliação mais expandida da 
revelação geral. Por exemplo, David W. Diehl tem argumen­
tado que a revelação geral deve incluir não apenas o conheci­
mento de Deus, mas também o de Suas obras na natureza.110 
que ele tem em mente é a observação da natureza e a teorização 
científica, que vão além das observações. De acordo com Diehl, 
alguns pontos de vista científicos que têm sido impopulares 
entre teólogos, são tão bem estabelecidos que rejeitá-los seria 
verdadeiramente anticientífico e injusto à revelação geral. As 
formas de revelação especial e geral, afirma Diehl, devem ter 
autoridade igual, cada uma tendo autoridade final dentro de 
seu próprio domínio.
O que é devemos fazer diante disto? Com toda certeza, 
poucos negariam a importância de nossas observações da natu­
reza. Neste sentido a revelação geral (eu prefiro aqui o termo 
criação, ou natureza) é seguramente autoritativa: temos que 
apelar para ela, ou pelo menos à nossa experiência a respeito 
dela, como balizamento em todas as nossas teorizações 
científicas. 11
11 “Evangelicalism and general revelation: an unfinished agenda” (Evange- 
licalismo e revelação geral: uma agenda não acabada), The Journal of the 
Evangelical Theological Society (Jornal da Sociedade Evangélica Teológica), 
1987,30, p.441.
24
As Questões Básicas
Além disso, é preciso buscar apoio nas regras da lógica 
dedutiva. E evidente que Deus fez o universo de tal modo que 
estas regras são aplicáveis. Deus dotou o homem, criado à 
Sua imagem, com habilidades analíticas para usar essas leis, 
embora o homem, devido à sua natureza finita e decaída, 
possa cometer erros lógicos.
Contudo, nosso poder de raciocínio não está confinado 
à meras aplicações da lógica, mas também à habilidade para 
o pensamento teórico e imaginativo. Desafortunadamente, 
nosso pensamento, particularmente depois da Queda, é uma 
ferramenta controlada pelos nossos desejos interiores. Como 
tal, ela pode ser facilmente desencaminhada: “porque do 
coração procedem os maus pensamentos” (Mateus 15:19,). 
Claramente o homem é responsável pelos seus pensamentos, e 
conseqüentemente pelos resultados deles advindos, o que 
inclui teorias científicas. Finalmente, como já vimos, teorias 
científicas não passam de invenções especulativas, produto da 
mente criativa do homem.
Uma epistemología apropriada atribuirá portanto um alto 
peso às Escrituras, às observações e à lógica. Todas essas fontes 
são dadas por Deus e devem portanto estar em harmonia, cons­
tituindo a pedra de toque do nosso conhecimento. Por outro 
lado, a teorização humana, em todas as suas formas deve ser 
colocada numa categoria muito inferior de conhecimento. Se 
ela não passar no teste da lógica, da observação e das Escritu­
ras, certamente ela deve ser rejeitada como falsa. Mesmo se ela 
passar por esses testes, ainda assim precisamos ser cautelosos: 
qualquer alegação ou reivindicação que vá além das observa­
ções e das Escrituras provavelmente será falsa.
A dificuldade com a posição de Diehl, como eu argumen­
tei em maiores detalhes em outra parte,12 resulta quando ele
12 “General Revelation and Evangelicalism” (Revelação Geral e Evangelica- 
lismo), Mid-América Journal of Theology, 1989,5, pp.1-13.
25
Deus e Cosmos
estende o conteúdo da “revelação geral” indo além dos dados 
observacionais e da lógica, para incluir também teorias cientí­
ficas. Se, como Diehl crê, a revelação geral é infalível, então 
tal infalibilidade deve também ser outorgada a certas teorias 
científicas. Mas quais delas? A história da ciência está repleta 
de exemplos de teorias científicas que foram uma vez susten­
tadas como verdades indubitáveis, as quais depois foram 
descartadas como falsas. O exemplo mais famoso desses casos 
é o da mecânica newtoniana que por séculos foi considerada 
como absolutamente verdadeira, e posteriormente foi destro­
nada pela teoria da relatividade de Einstein. Infelizmente Diehl 
não oferece qualquer critério através do qual possamos 
distinguir as teorias verdadeiras das falsas, ou pelo menos 
julgar relativa exatidão.
Desde o início da revolução científica a noção de que Deus 
tem revelado verdades em dois livros, as Escrituras e a nature­
za, foi amplamente usada como meio de reconciliação entre a 
ciência e as Escrituras. Historicamente, contudo, a doutrina 
dos dois livros tem conduzido a um declínio da autoridade 
bíblica. Uma vez admitindo a premissa de que algumas teori­
as científicas podem ser tomadas como verdades divinas, 
estaremos, em essência, permitindo que o “livro da ciência” 
modifique as Escrituras. Na falta de um critério válido atravésdo qual possamos inventar e detectar teorias corretas, nossa 
leitura da Bíblia estará para sempre numa condição de fluxo, 
à mercê das ondas das teorias científicas correntemente em 
voga.
Em resumo, um problema de capital importância na 
reconciliação entre a ciência e as Escrituras é aquilo que pode­
mos chamar de o problema do conhecimento científico: não há um 
critério justificável para a constatação de teorias verdadeiras. 
O único lugar onde é relativamente fácil traçar uma linha 
demarcatória é entre as observações e as teorias que são conce­
bidas para explicar ou ampliar a extensão de tais observações.
26
As Questões Básicas
E aqui é necessário dizer “relativamente” pois mesmo nossas 
observações são, até certo ponto, oneradas ou afetadas por 
teorias. Por exemplo, nossas teorias determinam que aspectos 
da realidade serão observadas. Contudo, ainda assim, nossas 
observações são muito mais seguras ou isentas do que suas 
extrapolações teóricas. Podemos aceitar como fatos científicos 
apenas os dados realmente observados. Ao darmos o primeiro 
passo além das observações, já estaremos à mercê das ondas, 
em pleno mar da especulação subjetiva.
Interpretando a Bíblia
Até aqui eu tenho defendido a idéia de que o comprome­
timento religioso pode influenciar a teorização cosmológica e 
que a revelação divina relevante deve ser limitada à revelação 
especial. Mas o que tem a Bíblia a dizer a respeito de assuntos 
cosmológicos? Como devemos interpretar aquelas passagens 
que parecem tratar dessas questões? Que princípios herme­
nêuticos deveriam ser empregados?
A questão da interpretação apropriada das Escrituras 
tem sido discutida desde os primórdios do cristianismo. Agos­
tinho, e depois Aquino, argumentaram que a Bíblia deveria 
ser tomada em seu sentido literal, a menos que evidências 
internas das Escrituras mostrassem conclusivamente que a 
interpretação não literal seria requerida. Quanto às asserções 
do conhecimento natural, estas deveriam ser subpostas pelas 
Escrituras, a menos que provadas como verdadeiras. A mais 
simples palavra de Deus deveria ter precedência sobre a mais 
grave, lastreada, ou endossada palavra de homem, a menos que 
esta pudesse ser conclusivamente demonstrada. Em tal caso, 
como não pode haver conflito entre a Palavra de Deus e a ver­
dade, é evidente que uma outra interpretação seria requerida.
Mas o que poderia ser considerado como prova válida da 
exatidão de qualquer item do conhecimento extra-bíblico?
27
Deus e Cosmos
concordismo, Young opta pelo que equivale a uma limitação 
da autoridade bíblica. Ele advoga que devamos tratar Gênesis, 
capítulo 1, não como um relatório científico ou histórico, mas 
como uma peça de literatura antiga com bem definidos 
padrões de pensamento, estruturas, símbolos, imagens inten­
cionadas para representar verdades teológicas.15
Em anos recentes a natureza e a extensão da autoridade 
bíblica têm sido muito discutidas também no meio evangéli­
co. Uma posição de popularidade crescente é a de que ciência 
e Escrituras não se contradizem uma à outra, mas se comple­
mentam uma à outra. Howard Van Till, um astrônomo cristão, 
e colega de Young, tem apoiado vigorosamente este ponto 
de vista. Como já mencionamos, Van Till crê que a ciência 
deve ser neutra concernente à religião. As visões evolucio­
nista e bíblica do cosmos são descrições complementares que 
respondem diferentes tipos de questões. A ciência revela in­
formações sobre a estrutura física e passado histórico do 
universo; a Bíblia relata a relação entre o universo e Deus. 
A ciência responde a questões “quando” e “como”; a Bíblia 
responde a questões “quem” e “porquê”.16
A dificuldade com esta solução é que a própria Bíblia não 
sugere que sua autoridade seja limitada a questões teológicas 
de “quem” e “porquê”. Pelo contrário, parece que ela trata bem 
específicamente de assuntos referentes às origens do universo 
físico. Com que base podemos então estabelecer fronteiras 
para sua autoridade, e como podemos determinar até onde 
vão tais fronteiras?
Van Till tenta traçar uma linha demarcatória fazendo 
distinção entre o conteúdo divino da história bíblica e o invó­
lucro ou acondicionamento humano no qual ela é apresentada.
15“Scripture in the hand of geologists” (As Escrituras nas mãos dos geólogos), 
Westminster Theological Journal, 1987,49, p.303.
16 The Fourth Day (O Quarto Dia), Grand Rapids: Eerdmans, pp. 193-215
30
As Questões Básicas
O ímpeto teológico de uma verdade bíblica pode ser tomado 
como digno de confiança, mas não os detalhes específicos que 
formam seu “invólucro”. Ele explica:
Assim, nós, como leitores das Escrituras, devemos ser diligen­
tes em nossos estudos e orações, para, com sabedoria, separarmos 
o conteúdo (os ensinamentos confiáveis de Deus) do veículo ou 
invólucro. Desconsiderar esta separação seria tolice tal como 
tentar comer uma barra de chocolate sem antes remover a sua 
embalagem)1
Contudo, alguém poderá perguntar como pode Van Till 
ter tanta certeza de que o invólucro, ou forma de apresenta­
ção, não seja também divinamente inspirado. Como podere­
mos, na falta de um critério claro e divinamente ratificado, 
desenredar a mensagem divina, separando-a de seus alegados 
acondicionamentos humanos? Por último, o discernimento 
do ensino divino contido nas Escrituras seria deixado aos 
caprichos subjetivos do leitor individual.
E claro que existem outras opiniões além das categorias 
de concordismo e complementarismo acima citadas. Alguém 
poderá considerar as Escrituras e a ciência, as duas, como mais 
ou menos interdependentes. Contudo, se chegarmos ao ponto 
de envolver qualquer redução da autoridade bíblica, então as 
mesmas considerações acima se aplicam.
Concluímos que, enquanto o concordismo indevidamente 
distorce a mensagem bíblica através de sua hermenêutica 
elástica, o complementarismo igualmente a distorce pela 
imposição de limites não autorizados à autoridade bíblica. 
Aqueles que desejam mudar a leitura tradicional da Bíblia 
são importunados pela ausência de um critério válido e claro 
para separar o trigo da palha que alegam existir. Como já
17 The Fourth Day (O Quarto Dia), Grand Rapids: Eerdmans, pp. 15-16.
31
Deus e Cosmos
disseram, se não pudermos aceitar todas as Escrituras como 
autoritativas, como poderemos ter certeza de que qualquer 
porção delas é autoritativa?
Devemos mencionar que a afirmação da supremacia 
epistemológica das Escrituras implica na sua inerrância. Se 
aceitarmos as Escrituras como o padrão de referência mais alto, 
então não há outro padrão ou meio para testar sua exatidão; 
assim, sua inerrância é pressuposta como ponto de partida. Se 
seguimos o princípio de que as Escrituras devem interpretar 
as Escrituras, então nossa interpretação das Escrituras exige 
consistência interna. Não pode haver contradições internas. 
E, é claro, desde que a Bíblia de fato faz predições específicas 
a respeito do futuro, as alegações bíblicas são afinal testáveis. 
Ao mesmo tempo, entretanto, é mister resistir à tentação de 
“provar” sua inerrância ao recorrer às evidências científicas, 
pois isso afinal faria do cientista, falível ser humano, juiz 
sobre as Escrituras. A inerrância é nosso ponto de partida, não 
nossa conclusão.
Mas, em nossos dias, seria sustentável a interpretação 
tradicional de Escrituras absolutamente autoritativas? Essa é 
a questão primária com a qual lidaremos nos capítulos seguin­
tes. É necessário observar que, se os “fatos” científicos forem 
restritos à observação direta, então pouco conflito real subsis­
tirá entre a Bíblia e o conhecimento científico. Afinal, a 
Bíblia se ocupa com eventos num passado distante, ou num 
(ainda não observado) futuro, e no (invisível) domínio espiri­
tual; por outro lado, observações científicas se ocupam com 
apenas o presente e o passado bem recente. As colisões ou 
conflitos acontecem primariamente entre a Bíblia e a teorização 
científica. A questão fundamental que precisa ser estudada é, 
portanto, seas teorias científicas e a moderna cosmologia, 
incertas como são, podem, apesar de tudo, ser suficientemente 
aceitas e estabelecidas a ponto de justificar sua elevação acima 
das Escrituras.
32
As Questões Básicas
Perspectiva
Feito um preâmbulo sobre as primeiras questões relati­
vas à ciência e as Escrituras, deixem-me rapidamente esboçar 
nosso percurso para o restante deste livro. Nosso estudo 
focalizará três questões básicas.
1. O que a teologia tem a dizer sobre cosmologia?
De que modo as considerações teológicas têm influencia­
do a construção, abordagem e seleção de teorias cosmológicas? 
O que tem a Bíblia a dizer sobre cosmologia?
2. O que a cosmologia tem a dizer sobre teologia?
De que formas têm os modelos cosmológicos influencia­
do a teologia? Que conseqüências teológicas podem advir da 
cosmologia do Big Bang? Qual o grau de confiabilidade dos 
modelos cosmológicos?
No próximo capítulo daremos início à um breve exame 
da cosmologia medieval, suas conexões teológicas, e os fatores 
que determinaram a mudança que, partindo dos conceitos 
medievais, levaram à cosmologia moderna. O capítulo seguinte 
àquele tratará da cosmologia do Big Bang, apresentará consi­
derações sobre seus pontos fortes e fracos, e examinará as 
premissas básicas nas quais esse modelo se apoia. Várias 
interpretações cosmológicas alternativas das evidências 
observacionais serão apresentadas.
Os capítulos seguintes examinarão as várias implicações 
teológicas decorrentes da cosmologia do Big Bang. Evidên­
cias cosmológicas têm sido usadas em várias provas para a 
existência de Deus. A validade de tais provas será assunto de 
um capítulo. Outro capítulo abordará o futuro do universo, 
particularmente no tocante à vida. A possibilidade de vida 
extraterrestre também será examinada. Apoiadores da
33
Deus e Cosmos
cosmologia moderna têm proposto uma variedade de deuses, 
alegando serem estes mais prováveis no mundo moderno do 
que o Deus dos cristãos. Esses deuses estranhos, e a esperança 
que eles possam representar para uma vida depois desta, serão 
também abordados num capítulo posterior.
Em seguida, examinaremos o que a Bíblia tem a dizer 
sobre assuntos cosmológicos. Um capítulo será dedicado a 
examinar vários modelos cosmológicos construídos a partir 
de premissas bíblicas. A validade, função e utilidade de tais 
modelos serão discutidos, particularmente tendo em vista o 
seu emprego ou utilidade como ferramenta apologética. O 
capítulo final resumirá as conclusões alcançadas.
34
2
Um Breve Esboço Histórico
Primeiramente faremos uma rápida revisão da história 
da cosmologia. Nosso foco principal estará na cosmologia 
medieval, uma combinação deveras ambiciosa de ciência e 
teologia. Para estabelecermos uma base será necessário estu­
darmos primeiro a cosmologia antiga, particularmente a dos 
gregos. Mais tarde examinaremos o declínio da cosmologia 
medieval e os subseqüentes desenvolvimentos cosmológicos 
até o começo do século vinte.
Cosmologia Antiga
Todas as civilizações antigas tiveram suas cosmologias, suas 
noções a respeito de como o mundo veio a existir e como fora 
estruturado. Através da história o homem tem-se preocupado 
em como entender e explicar o mundo em que ele vive.
O primeiro homem, Adão, indubitavelmente sabia 
muito bem como Deus havia criado o universo. Muitos 
detalhes são ainda preservados para nosso conhecimento 
através dos registros sobre a criação em Gênesis, os quais 
formaram a base para a cosmologia judaica. Outras cosmolo­
gias antigas são em grande parte distorções da história 
original da criação. Os mitos da criação originários da 
Mesopotâmia e Egito, datados de pelo menos 2000 anos a.C., 
descrevem o mundo como começando num abismo de 
água, do qual gradualmente emergiu um espírito cego e sem 
forma. A mistura ou matização desse espírito com o abismo
35
Deus e Cosmos
de água produziu os vários deuses e deusas bem como os 
componentes do mundo presente. A função principal desses 
deuses era servir e proteger a espécie humana.
Além do seu interesse pela origem do universo, o homem 
antigo tinha um aguçado senso de observação do universo, 
particularmente o firmamento repleto de estrelas. Os babilô­
nios, por exemplo, desde antes de 2.000 anos a.C. já haviam 
dividido o firmamento nas constelações do Zodíaco, compi­
lado um catálogo de estrelas e registrado os movimentos dos 
planetas. Eles eram capazes de prever eclipses, preparar 
calendários e antever as estações do ano e as fases da lua. Con­
tudo, eles não tentaram explicar as observações celestes por 
meio de teorias cosmológicas ou modelos. Eles coletaram e 
registraram muitas observações, mas não as unificaram por 
meio de princípios teóricos.
Origens da Cosmologia Grega
Os primeiros modelos científicos do universo surgiram 
com o pensamento grego. Os filósofos gregos rejeitavam 
mágica e mito; eles se empenhavam por obter explicações 
naturalistas para o universo. Apoiando-se firmemente em 
observações criteriosas e pensamento crítico eles desenvolve­
ram modelos matemáticos simplificados para o universo. 
Esses ainda são os elementos fundamentais da ciência como 
praticada hoje.
A origem da ciência e filosofia data desde Tales (621-543 
a.C.), um nativo de Mileto, Jônia. Tales tornou-se famoso em 
585 a.C. pela previsão de um eclipse solar. Ele reduziu a 
multiplicidade do universo à unidade, postulando que todas 
as coisas eram afinal compostas de uma única e toda-pene- 
trante substância: a água. De acordo com Tales o mundo 
evoluiu a partir da água por meios puramente naturais.
Anaximandro, um jovem companheiro e colega de Tales
36
Um Breve Esboço Histórico
rejeitou a noção de que a água era o elemento básico do 
universo. Ele postulou que todas as coisas consistiam da 
combinação de quatro substâncias básicas: água, ar, fogo e terra. 
Esses elementos seriam, por sua vez, derivados de uma subs­
tância mais básica chamada apeiron, que significa ilimitado. No 
princípio, havia apenas apeiron. O ar, o fogo, a água e a terra 
foram formados a partir do primordial apeiron por meio de 
um movimento giratório que produziu a separação dos vários 
elementos. Este princípio giratório ao mesmo tempo explica­
va o movimento das estrelas. No centro do universo achava-se 
a Terra, a qual era cilíndrica em sua forma. Os homens viviam 
numa das faces planas de tal cilindro.
A partir destes começos, os gregos construíram uma 
multidão de modelos cosmológicos. Geralmente eles se esfor­
çavam por explicar o universo em termos de algum elemento 
chave fundamental, princípio físico, ou conceito numérico. 
Foram muitos os gregos que afirmavam ser o universo o pro­
duto de ou sujeito ao governo de uma inteligência racional. 
Mas também haviam aqueles que rejeitavam qualquer noção 
de divindade.
Entre estes últimos estavam os atomistas Lêucipo (quin­
to século a.C.) e Demócrito (quinto/quarto século a.C.). 
Lêucipo acreditava que o universo era constituído de apenas 
duas coisas: átomos e espaço vazio. Os átomos, infinitos em 
número, moviam-se através do espaço infinito; a colisão de 
átomos resultava na formação de novos objetos. Eventualmente 
esses novos objetos, por um processo de decadência, voltavam 
aos átomos individuais. Tal universo de mundos infinitos 
estava num constante estado de fluxo, produzindo uma varie­
dade ilimitada de objetos. Afirmando que o universo sempre 
existiu desde a eternidade os atomistas tentavam assim evitar 
a necessidade de um criador ou de um arquiteto.
Mesmo tendo .o modelo atomista um distinto sabor 
moderno, ele exerceu pouca influência sobre a cosmologia
37
Deus e Cosmos
medieval. De fato, apesar da grande variedade da cosmologia 
grega, o único sistema que influenciou de modo significativo 
a cosmologia medieval foi aquele derivado dos dois maiores 
filósofos da antigüidade: Platão (427-347 a.C.) e seu aluno 
Aristóteles (384-322 a.C.)
Cosmologia Clássica
A característica essencial do sistema cosmológico de 
Platão foi apresentada em seulivro Timaeus (Timeu). Platão 
acreditava que o Criador fez o universo de acordo com um 
plano racional. Por aquela época havia se tornado comumente 
aceita - pelo menos entre os filósofos - a idéia de que a Terra 
tinha forma esférica. A esfera terrestre ocupava o centro do 
universo (ver Figura 2.1). Ela era formada de terra, água, ar 
e fogo. Ao redor da Terra havia sete esferas planetárias, e uma 
oitava esfera exterior para as estrelas. Essa esfera exterior, 
contendo as estrelas, executava uma rotação diária; as esferas 
intermediárias, contendo os planetas executavam rotações em 
velocidades variadas. O movimento das esferas era causado 
por espíritos inteligentes. Tudo na Terra era imperfeito e em 
mutação, ao passo que os objetos celestes eram perfeitos. 
Todas as coisas eram organizadas hierarquicamente, de 
acordo com suas dignidades inerentes e perfeição; o cosmos 
como um todo prestava testemunho da existência de Deus e 
a preocupação dEle com a Sua criação. De acordo com Platão, 
o mundo não é eterno. Ao invés disto, ele foi feito pelo 
Criador a partir de um modelo previamente presente em Sua 
mente. Tudo havia sido formado a partir de um caos inicial, 
de acordo com um plano perfeito. Também o tempo havia 
sido criado como a mais perfeita imitação possível da eter­
nidade.
A cosmologia de Platão foi posteriormente desenvolvida 
por Aristóteles. A esfera sublunar, interna, conteria os quatro
38
Um Breve Esboço Histórico
Figura 2.1: O Universo Geocéntrico, segundo Peter Apian, da 
obra de sua autoría Cosmographicus Liber (1539). Observar as 
esferas internas de terra, água, ar e fogo. (Estes e outros diagra­
mas cosmológicos, inclusive as Figuras 2.3 e 2.5-7, aparecem 
na obra de S. K. Henninger, The Cosmological Glass: Renaissance 
Diagrams of the Universe, San Marino, Calif.: Huntington 
Library, 1977.)
39
Deus e Cosmos
elementos terrestres: terra, água, ar e fogo. O restante do 
universo conteria um quinto elemento chamado éter. O movi­
mento natural dos quatro elementos terrestres era para cima e 
para baixo. Por este movimento eles encontravam seus lugares 
próprios de acordo com seus pesos. O movimento natural do 
éter era um perfeito movimento circular ao redor da Terra.
Como cada movimento necessita ter uma causa, deveria 
haver um imóvel causador primário, situado além da esfera 
das estrelas fixas. Esse causador primário dava movimento à 
esfera móvel mais exterior. A partir dessa esfera mais exterior 
o movimento era então transmitido às outras esferas, manten­
do assim em movimento o sistema como um todo. Aristóteles 
sustentava que o movedor primário mantinha o movimento 
de tudo “por ser amado”. Tanto Aristóteles como Platão criam 
que a ordem do universo apontava para a existência de um 
Criador.
O movimento perfeito das esferas etéreas, controlado por 
agentes inteligentes, era sem princípio e sem fim. Ao contrá­
rio de Platão, Aristóteles sustentava que o universo existia 
essencialmente imutável deste a eternidade. Como a fronteira 
exterior do universo girava em torno da Terra num tempo finito 
(cada 24 horas), decorria daí que o universo era necessaria­
mente finito.
Redimindo o Fenômeno
Esta ambiciosa cosmologia tinha contudo uma grande 
deficiência. Ao mesmo tempo em que as estrelas fixas 
apresentavam um movimento circular perfeito, as estrelas 
“errantes” (isto é, os planetas) não seguiam tais órbitas sim­
ples. Seus movimentos diferiam significativamente daquele 
movimento de velocidade uniforme, segundo círculos per­
feitos. Tal observação já havia sido feita por Platão, o qual 
havia designado a seus estudantes o problema de desenvolver
40
Um Breve Esboço Histórico
hipóteses matemáticas que “salvassem as aparências”. Assim, 
aos astrônomos havia sido designada a tarefa de reconciliar 
teoria e prática. Como poderiam os complicados movimentos 
dos planetas ser reduzidos a movimentos circulares uniformes? 
Aristóteles tentou resolver o problema, porém a alto custo: ele 
necessitou de cinqüenta e cinco esferas intermediárias.1 Mes­
mo assim, seu sistema mostrou-se deficiente de observações.
O problema foi eventualmente resolvido através dos 
esforços de Claudius Ptolomeu, aproximadamente em 150 d.C. 
Ptolomeu inventou um número de novos dispositivos geo­
métricos: o epiciclo (um pequeno círculo superposto sobre um 
círculo maior denominado deferente), o excêntrico (um disposi­
tivo que fazia o centro do círculo girar fora de centro em torno 
da Terra) e o equântico (outro ponto fora de centro, de onde as 
velocidades eram calculadas, de modo a fazê-las uniformes). 
Esses conceitos estão todos ilustrados na Figura 2.2.0 modelo 
geométrico resultante funcionou muito bem: ele produziu 
resultados que se aproximavam muito dos movimentos ob­
servados e permitiu que os astrônomos fizessem previsões 
sobre futuras posições dos planetas. Contudo, no caso de 
alguns planetas tornou-se forçoso acrescentar alguns epiciclos 
menores, que girassem em torno de outros epiciclos maiores, 
permitindo assim ajustar de modo adequado a descrição dos 
movimentos observados. O sistema ptolomaico completo 
consistia de quarenta epiciclos.
Entretanto, apesar de seu sucesso prático, o modelo não 
pôde dar explicação física para o movimento dos planetas. Na 
verdade, no modelo cosmológico aristotélico de esferas 
sólidas girando em torno da Terra central, movimentos corres­
pondentes a epiciclos, excêntricos e equânticos eram fisica­
mente impossíveis. Para defender seu modelo mate-mático 1
1 Ver N. Max Wildiers, The Theologian and His Universe (O Teólogo e Seu 
Universo), New York: Seabury Press, 1982.
41
Deus e Cosmos
Figura 2.2: Teoria Epicíclica: Um planeta orbita em torno de 
um círculo menor, seu epiciclo, e este, por sua vez, orbita em 
torno de um círculo maior, seu deferente. O círculo deferente é 
excêntrico quando seu centro não é a terra. O eqüante é um 
ponto não central em torno do qual move o epiciclo a uma 
velocidade angular constante.
42
Um Breve Esboço Histórico
Ptolomeu adotou um ponto de vista anti-realista (também 
chamado “instrumentista”) das teorias científicas, alegando que 
hipóteses científicas eram nada mais que ficções úteis - ou 
instrumentos - que permitiam previsões práticas. Seu critério 
principal em escolher teorias era (1) precisão em “salvar as 
aparências” e (2) simplicidade máxima. Ptolomeu acreditava 
que explicações físicas eram necessariamente especulativas, 
que os filósofos jamais chegariam a um acordo a respeito 
delas, e que somente modelos matemáticos poderiam produ­
zir conclusões sólidas, livres de dúvidas.
Este ponto de vista sobre teorização científica era bem 
diferente da posição rival “realista” que havia sido defendida 
por Aristóteles, o qual acreditava que teorias deveriam fazer 
mais do que simplesmente ajustar as observações: elas 
também deveríam estar de acordo com a verdadeira natureza 
das coisas. Assim, seus seguidores rejeitaram o sistema 
ptolomaico, pois este era contrário aos princípios da física 
aristotélica. A luta entre os pontos de vista realista e instru­
mentalista sobre teorização científica continua até os dias 
atuais, com os realistas alegando que suas teorias retratam 
verdades mais profundas da realidade e os instrumentalistas 
questionando a capacidade da ciência de penetrar além dos 
fenômenos observados.2
A Cosmologia Medieval
Os Pais da Igreja Primitiva lutavam com o problema de 
como reconciliar a Bíblia e o pensamento científico dos 
gregos. Para isto diferentes abordagens foram adotadas. Uma 
das escolas de pensamento, principalmente associada com a
2 Para uma breve visão, ver John Byl, “Instrumentalism: A Third Option” 
(Instrumentalismo: Uma Terceira Opção), Journal of the American Scientific 
Affiliation, 1985,37, pp.11-18.
43
Deus e Cosmos
Igreja Síria, adotou uma atitude bastante negativa contra a 
cosmologia grega. Insistindo que a verdade só poderia ser 
encontrada na Palavra de Deus, eles dispensaram a ciência 
grega e sua filosofia. Por outro ladohavia aqueles, particu­
larmente em Alexandria, que se mostravam muito impres­
sionados com o saber grego. Eles tentaram harmonizar as 
Escrituras com os ensinamentos pagãos. Mais popular, 
entretanto, era a abordagem intermediária que fazia grande 
uso do pensamento grego, mas ao mesmo tempo mantendo o 
vínculo com o senso histórico das Escrituras, e rejeitando o 
ensinamento pagão onde houvesse conflito. Esta visão consti­
tuiria a base para a cosmologia medieval.
A Perfeita Harmonia
Muitos Pais da Igreja Primitiva viam similaridades entre 
os ensinamentos cosmológicos de Platão e o primeiro capítulo 
de Gênesis. De fato, acreditava-se que Platão fora de algum 
modo influenciado por Moisés. Em ambos os casos, por exem­
plo, um único Criador criou o cosmos de acordo com um 
plano racional, e o foco do universo era sobre a Terra centrada 
no homem.
A cosmologia de Platão fora incorporada na teologia 
cristã largamente através dos escritos pseudo-Dionísio, publi­
cados por volta de 500 d.C. (Platão alegava que sua obra era a 
de Dionisio, que fora convertido por intermédio do apóstolo 
Paulo em Atenas, como registrado em ritos 17:34). Na Idade 
Média sua obra era amplamente aceita como genuína, e se 
tornou muito influente, sendo aceita como a mais alta autori­
dade depois das Escrituras.
O Pseudo-Dionísio interpretou a hierarquia dos espíritos 
de Platão, e entendeu serem anjos os espíritos que moviam as 
esferas. Ele classificou os anjos mencionados nas Escrituras 
numa hierarquia de nove ordens, uma para cada esfera celeste.
44
Um Breve Esboço Histórico
Figura 2.3: A Visão Medieval do Universo, extraído da obra 
Liber Chronicarium (1493) de Schedel. Observar as nove or­
dens de anjos, enumeradas à esquerda, ladeando o trono de 
Deus.
45
Deus e Cosmos
Tal classificação, organização, listava, em ordem ascendente: 
anjos, arcanjos (7 Tessalonicenses 4:16), principados, poderes, 
potestades, domínios (Efésios 1:21), tronos (Colossenses 1:16), 
querubins (Ezequiel, capítulo 10), e serafins (Isaías, capítulo 
6). Acima da hierarquia dos anjos, na décima esfera, estava a 
habitação de Deus: o céu empíreo (ver Figuras 2.1 e 2.3). O 
universo era assim povoado por uma cadeia contínua de 
criaturas, estendendo-se desde Deus, no mais alto céu, até a 
mais baixa habitação do inferno, no centro da Terra. É neces­
sário enfatizar que o homem medieval acreditava ser a Terra 
um globo, e não uma superfície achatada como comumente, 
mas erroneamente, se afirma. Embora no início da Idade Mé­
dia houvesse alguns autores que defendessem a planicidade 
da Terra, virtualmente todos os escritores da fase final da Ida­
de Média concordavam ser a Terra uma esfera.3
A cosmologia medieval atingiu seu desenvolvimento 
mais completo através da obra de Bonaventura (1221-1274) e 
Tomás de Aquino (1224-1274). Aquino, em particular, estava 
preocupado com a reconciliação da filosofia de Aristóteles, cuja 
obra havia sido recentemente redescoberta, e a teologia cristã. 
A principal dificuldade com Aristóteles era sua insistência 
de que o mundo era eterno. Neste ponto Aquino afirmou 
que, embora Deus pudesse ter criado um mundo de eterna 
duração, a revelação de Deus indica que o universo começou a 
existir num tempo finito do passado.
Na cosmologia medieval o universo era considerado como 
uma máquina perfeitamente ordenada, consistindo primaria­
mente de um sistema de esferas, umas dentro das outras, como 
as várias camadas de uma cebola. Ao centro ficava a Terra fixa, 
composta das quatro áreas elementares: terra, água, ar e fogo. 
A seguir vinham sete áreas, contendo a Lua, Mercúrio, Vénus,
3 C. S. Lewis, The Discarded Image (Almagem Descartada), Cambridge: The 
University Press, 1964, p. 140.
46
Um Breve Esboço Histórico
o Sol, Marte, Júpiter e Saturno. Todas estas, envolvidas pelas 
três áreas celestiais: uma para as estrelas, uma para o firma­
mento cristalino (referindo-se às águas de Gênesis 1:6) e uma 
para o empíreo, a habitação de Deus. Isto era essencialmente o 
mesmo cosmos de Aristóteles, exceto que o “vazio” além da 
área estelar era agora substituído pela habitação celeste de 
Deus.
Em linha com Platão e Aristóteles, acreditava-se que 
havia uma diferença fundamental entre as esferas celeste e 
terrestre. Os objetos terrestres eram imperfeitos e transitórios, 
enquanto que os corpos celestes eram perfeitos e imperecíveis. 
A perfeição dos corpos celestes era ilustrada pelo seus movi­
mentos circulares, em oposição aos movimentos mais lineares 
da matéria terrestre. O mundo era constituído de uma enorme 
estrutura hierárquica organizada desde os níveis mais baixos, 
começando com o centro da Terra, onde era localizado o infer­
no, passando pelas várias divisões na sociedade e Igreja, 
atravessando as áreas planetárias, até atingir a perfeição máxi­
ma do empíreo (Figura 2.4). Este mecanismo mundial era 
posto em movimento por Deus mediante os anjos que movi­
am as várias áreas. Os planetas, através de seus movimentos, 
exerciam influência em todas as coisas físicas da Terra, e eram 
portanto instrumentos usados por Deus para fazer ocorrer os 
eventos materiais. Era para o benefício do homem, a coroa da 
criação, que Deus continuamente dirigia o mundo.
Se por um lado a estrutura do cosmo medieval devia 
muito ao pensamento grego, por outro lado o relatório de 
sua origem, era baseado na Bíblia. Ao longo da Idade Média 
inúmeros comentários a respeito dos seis dias da criação 
foram escritos. Quanto à data da criação, virtualmente a opi­
nião unânime - baseada nas genealogias de Gênesis e outras 
informações cronológicas da Bíblia - era de que o mundo 
havia sido criado há apenas poucos milhares de anos antes de 
Cristo.
47
Deus e cosmos
Figura 2.4: A visão do Universo apresentada pelo poeta italiano 
Dante Alighieri (1265-1321) em sua obra The Divine Comedy (A 
Divina Comédia).
IX Esfera Cristalina, Primum Mobile
VIII Esfera das estrelas fixas - 0 Zodíaco
vn Esfera de Saturno III Esfera de Vénus
VI Esfera de Júpiter II Esfera de Mercúrio
V Esfera de Marte I Esfera da Lua
IV Esfera do Sol
48
Um Breve Esboço Histórico
A concepção medieval do universo atingiu uma unidade 
harmônica envolvendo os conceitos de Deus, o mundo, e o 
homem. O universo era encarado como refletindo tanto a 
sabedoria quanto o amor de Deus: sabedoria, porque tudo 
demonstrava perfeita ordem, e amor, porque expressava a 
preocupação de Deus para com o homem.
Em resumo, o universo medieval era um todo perfeita­
mente organizado. Era estático, hierárquico, e antropocêntrico. 
Infelizmente, a harmonia entre cosmologia e teologia provou 
ser uma fraqueza, pois a morte da cosmologia medieval, 
para muitos, levou à ruína a teologia que a acompanhava.
O Fim da Cosmologia Medieval
O harmonioso casamento entre ciência e teologia per­
maneceria como a cosmologia dominante até o século 
dezessete. Um número de fatores causou seu colapso final. 
Dentre aqueles fatores, o principal foi a tendência da ciência 
de atribuir grande peso à observação direta, em vez de se apoiar 
na autoridade dos antigos. Consequentemente tornou-se 
evidente, particularmente no século dezesseis, que a física 
aristotélica e a astronomia ptolomaica eram deficientes.
Assim, por exemplo, sério prejuízo foi causado pelos 
dois eventos registrados pelo astrônomo Tycho Brahe (1546- 
1601). Em 11 de novembro de 1572 ele observou uma nova 
estrela (isto é, uma “nova”). Isto punha em contradição a 
doutrina de que toda mudança estava confinada à área sublu­
nar terrestre. Pouco tempo depois, Tycho Brahe demonstrou 
que o grande cometa de 1577 não era um fenômeno sublunar, 
como os cometas eram então considerados, porém que estava 
se movendo nas áreas planetárias. Isso estilhaçou a crença da 
imutabilidade dos céus e a solidez das áreas celestes.
O telescópio, inventado apenas alguns anos depois, em 
pouco tempo trouxe dificuldades mais sérias. Em 1610 Galileu
49
Deus e Cosmos
provou que a superfície da lua não era perfeita, como afirmavaAristóteles, mas tinha montanhas e vales similares à Terra. Isso 
sugeriu similitude entre matéria terrestre e matéria celeste. 
Posteriormente, no século dezessete, tal similitude foi confir­
mada por Isaac Newton, que demonstrou serem as mesmas 
leis físicas aplicáveis a ambas as esferas. O desenvolvimento 
da mecânica newtoniana completou a destruição da física 
aristotélica.
Galileu versus a Igreja
O mais sério impacto à cosmologia medieval, contudo, 
foi a remoção da Terra do centro do universo. A noção de um 
universo heliocêntrico já havia sido proposta pelo astrônomo 
grego Aristarco de Samos (aprox. 310-230 a.C.). Embora 
nunca tenha sido popular, esta idéia antiga havia sido 
novamente apanhada por Nicolau Copérnico (1473-1543), na 
esperança de que o modelo heliocêntrico viesse a simplifi­
car os cálculos das posições planetárias (Figura 2.5). Quanto a 
isto, ele não foi muito bem sucedido: seu novo sistema acabou 
por ser não menos complicado, requerendo quarenta e oito 
epiciclos, comparado aos quarenta de Ptolomeu. Contudo, 
ofereceu a vantagem de explicar de modo mais simples 
algumas peculiaridades dos movimentos planetários, assim 
como permitir o cálculo das distâncias relativas aos planetas.
Contudo, era ainda possível desenvolver modelos equiva­
lentes que mantinham a Terra no centro. Por exemplo, o 
modelo de Tycho Brahe, onde os planetas giravam em torno 
de um Sol que girava ao redor de uma Terra estacionária, 
explicava os movimentos planetários do mesmo modo 
como o fazia o sistema heliocêntrico (Figura 2.6).
A teoria de Copérnico não se tornou amplamente aceita 
até o início do século 17, quando levou a um famoso episódio 
na história da ciência. Quase todos os livros que tratam de
50
Um Breve Esboço Histórico
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Figura 2.5 O Universo Heliocêntrico segundo Corpérnico, 
extraído de sua obra De Revolutionibus Coelestium (1543).
51
Deus e Cosmos
ciência e cristianismo discutem a condenação proferida pela 
igreja católica romana contra o cientista italiano Galileu Galilei 
(1564-1642). Galileu promoveu a teoria de Copérnico de que 
a Terra se movia em torno de um sol fixo. A igreja católica 
romana afirmou ser isso contrário à Bíblia, a qual falava de 
uma Terra fixa. Isso resultou em muito debate. Qual dos dois 
estaria em movimento absoluto, a Terra ou o Sol? Embora 
política, conflitos de classes, e física aristotélica tivessem 
todos desempenhado papel importante na discussão, a prin­
cipal objeção levantada contra o modelo de universo de 
Copérnico era de que tal modelo estava em conflito com a 
leitura tradicional da Bíblia.
A principal dificuldade era que nenhuma das provas 
apresentadas em favor do modelo de Copérnico era conclu­
siva. O formidável teólogo católico-romano, cardeal Roberto 
Belarmino, consultor do Santo Ofício e um líder no julgamento 
de Galileu, em 1616, frisou numa carta a Galileu:
Se houvesse uma prova real... de que o Sol não gira em tomo 
da Terra, mas a Terra em tomo do Sol, então haveríamos de 
proceder com grande cautela em explicar as passagens das Escri­
turas que parecem ensinar o contrário, e preferiríamos dizer que 
não as entendemos a declarar uma opinião falsa que seja prova­
da como sendo verdadeira. Mas eu não acredito que haja uma 
tal prova, desde que nenhuma me foi apresentada. Demonstrar 
que as aparências são salvas através de supor o sol no centro e a 
Terra no firmamento não é o mesmo que demonstrar que de fato 
o sol está no centro... Eu creio que a primeira demonstração 
possa existir, porém eu tenho graves dúvidas quanto à segunda; e 
em caso de dúvida, não se deve abandonar as Sagradas Escritu­
ras tal como expostas pelos santos padres.4
4 Como citado por Arthur Koestler em The Sleepwalkers, Harmondsworth: 
Penguin Books, 1968, p. 454.
52
Um Breve Esboço Histórico
Figura 2.6: O Sistema de Tycho Brahe, extraído de sua obra De 
Mundi Aetherei Recentioribus Phaenomenis (1588).
53
Deus e Cosmos
Belarmino não mostrou dificuldade em aceitar o modelo 
de Copérnico como uma hipótese útil. Todavia ele objetou que 
tal hipótese fosse elevada à categoria de verdade: fazer tal coisa 
requereria provas definitivas, provas essas que Galileu não 
poderia suprir. Galileu apresentou uma certa dose de evidên­
cia, consistindo primariamente de observações feitas com o 
recém-inventado telescópio. Isso incluía novidades tais 
como os satélites de Júpiter, as fases de Vénus, as crateras da 
Lua, e várias novas estrelas. Entretanto, embora tudo isto fos­
se consistente com o modelo de Copérnico, nenhuma dessas 
observações supria prova evidente do caso. Todas aquelas 
observações podiam ainda ser acomodadas dentro de um 
modelo geocêntrico.
Em março de 1616 a Congregação Geral do Index regula­
mentou que a doutrina do movimento da Terra e imobilidade 
do sol era “totalmente falsa e contrária às Escrituras”.5
O tratamento dado pela igreja católica ao caso de Galileu 
tem causado aos cristãos embaraços sem fim. Após suportar 
um ridículo de séculos, a igreja romana, em outubro de 1992, 
finalmente reverteu seu julgamento sobre Galileu.
Mas, estaria em erro a igreja católica romana quanto a 
sua condenação de Galileu? A questão não é tão clara como 
supõe a maioria das pessoas. De fato, a questão de movimento 
absoluto dificilmente poderia ser respondida em âmbito 
científico. Está claro que as estrelas e a Terra estão em movi­
mento em relação umas às outras. No entanto isto pode ser 
explicado por diferentes modos. Poderíamos tomar a Terra em 
movimento em relação às estrelas fixas. Ou poderíamos tomar 
as estrelas como movendo-se em relação a uma Terra fixa. Ou 
poderíamos tomar ambos em movimento com relação a um 
outro ponto fixo. Do ponto de vista observacional, todos esses
5 Como citado por Arthur Koestler em The Sleepwalkers, Harmondsworth: 
Penguin Books, 1968, p. 462.
54
Um Breve Esboço Histórico
modelos são equivalentes, pois tudo que podemos observar é 
o movimento relativo, e não o movimento absoluto. Alegar que 
realmente é a Terra, e não o resto do universo físico, que está se 
movendo, é ir além da evidência observacional. Ainda mais, 
refletindo profundamente, que significado teria dizer que as 
estrelas distantes estão em repouso? Em repouso com relação 
a quê? Isso implica ou exige que haja algum outro recurso 
do universo com relação ao qual o movimento das estrelas 
pode ser medido. E isso por sua vez levanta a questão seguin­
te, sobre se este novo recurso está “em repouso” e com relação 
a quê. E assim por diante.
Para ver se a Terra está “realmente” movendo-se é neces­
sário sair fora do universo físico e localizar-se num ponto fixo 
em repouso. Isto, somente Deus pode fazer. Portanto, em 
última análise, somente Deus pode responder adequada­
mente à questão de movimento absoluto.
Em resumo, a questão de determinar qual estaria em 
movimento, a Terra ou o Sol, não é uma questão que possa ser 
respondida através de investigação científica. Não há prova 
direta do movimento da Terra, e nem pode haver. Em seu ní­
vel mais profundo, a questão até mesmo carece de significância 
científica. A definição do que constitui um padrão “absoluto” 
depende grandemente de considerações filosóficas não- 
-observacionais.
Esta limitação do conhecimento científico tem sido 
salientada por muitos cientistas e filósofos de renome. Atual­
mente, a questão de movimento absoluto tem sido, de modo 
geral,reconhecida como sendo uma questão de cunho 
não-científico. A citação abaixo é do famoso filósofo 
britânico Bertrand Russell:
Antes de Copérnico as pessoas criam que a Terra era imóvel e 
que o firmamento girava em torno dela, uma vez por dia. 
Copérnico ensinou que “realmente” a Terra gira uma vez por
55
Deus e Cosmos
dia, e que a rotação diária do sol e das estrelas é apenas “aparen­
te”... Mas na teoria moderna a questão entre Copémico e seus 
predecessores é apenas uma questão de conveniência; todo 
movimento é relativo, e não há diferença entre as duas posições...
A astronomia toma-se mais fácil se considerarmos o Sol como 
fixo, ao invés de considerarmos a Terra... Entretanto, dizer algo 
além disso em favor de Copémico é assumir movimento abso­
luto, o que seria apenas ficção. Não passa de apenas convenção 
tomarmos um corpo como fixo. Qualquer outra convenção 
seria legítima, mas nem todas seriam convenientes.6
Em recente artigo7 foi demonstrado que, num universo 
fechado, a relatividade geral prediz os mesmos efeitos, não 
importando se tomamos a Terra fixa e consideramos o univer­
so girando em torno dela, ou se tomamos a Terra girando num 
universo fixo: somente o movimento relativo tem importân­
cia física.✓
E risível que em círculos científicos haja certo des­
conforto a respeito da posição de Galileu. Após a recente 
reabilitação de Galileu feita pelo Vaticano, a revista Nature, 
um importante periódico britânico, em seu editorial de 5 de 
novembro de 1992, p.2, advertiu o Vaticano por haver agido 
tão tardiamente e com tanto rancor. Mas o editor prossegue 
fazendo considerações sobre se a Terra gira em torno do Sol 
em outro sentido que não o relativo, e acrescenta: “Galileu foi 
provavelmente um cientista bom demais para se comprome­
ter com um ponto de vista absoluto”. Nisto o editor de Nature 
está errado: foi exatamente a insistência de Galileu num
6 The ABC of Relativity (O ABC da Relatividade), Londres: Allen and Unwin, 
1958, p.13.
7 D. Lynden-Bell, J. Katz e J. Bicak, “Mach’s Principle from the Relativistic 
Constraint Equations” (O princípio de Mach das Equações da Limitação 
Relativista), Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, 1995, 272, 
pp. 150-160.
56
Um Breve Esboço Histórico
ponto de vista absoluto quanto ao movimento da Terra que 
lhe causou tantos aborrecimentos.
Conseqüências Teológicas
A questão crucial no caso de Galileu era de epistemo­
logía. Em particular, o debate tornou-se violento sobre a 
natureza e extensão da autoridade bíblica e o status das 
teorias científicas. Como já observamos, Galileu apresentou 
o sistema de Copérnico não como mera teoria, e sim como 
verdade, verdade perante a qual as Escrituras, ou pelo menos 
a interpretação das Escrituras sustentada pela igreja romana, 
deveria se retratar. Ele defendeu uma visão realista das teorias 
científicas, em oposição à sugestão instrumentalista mais 
moderada proposta por Belarmino.
Galileu discutiu seu ponto de vista sobre a relação entre a 
ciência e as Escrituras em sua Letter to the Grand Duchess 
Christina (1615) (Carta à Grã-duquesa Cristina (1615). Ali ele 
argumentou que certas passagens das Escrituras não deveriam 
ser tomadas em sentido literal, sendo a seguinte uma das 
razões para isso:
Essas proposições expressas pelo Espírito Santo foram 
registradas pelos santos escribas de modo a acomodá-las à capa­
cidade de pessoas comuns, as quais são rudes e iletradas}
A segunda razão apresentada por Galileu8 9 foi que a 
cosmologia é irrelevante ao propósito central da Bíblia, a qual
8 Letter to the Grand Duchess Christina (1615) in Discoveries and Opinions of 
Galileo (Carta à Grã-duquesa Cristina (1615) em Descobertas e Opiniões de 
Galileu), traduzido por Stillman Drake, New York: Doubleday Anchor, 1957, p. 
182.
9 Ibid, p.188.
57
Deus e Cosmos
nos ensina como obter salvação: “As Escrituras nos dizem como 
ir para o céu, não como estão indo os céus”. Galileu também 
afirmou:
Eu penso que na discussão dos problemas físicos devemos 
começar não a partir da autoridade das passagens das Escrituras, 
mas a partir de experiências dos sentidos e suas necessárias 
demonstrações... nada físico que a experiência sensorial exponha 
ante nossos olhos, ou que a necessária demonstração nos prove, 
deve ser questionado (menos ainda condenado) sob o testemu­
nho de passagens bíblicas que possam ter algum significado 
diferente por trás das palavras. Temos que levar em conta, ao 
examinar a doutrina de Moisés, que de todo modo evitemos 
afirmar... qualquer coisa que contradiga a manifesta experiência 
e o raciocínio filosófico ou as outras ciências. Pois toda verdade 
deve estar de acordo com todas as outras verdades, assim, a ver­
dade das Sagradas Escrituras não pode ser contrária às razões 
sólidas e experiências do conhecimento humano.10
Para os cristãos o drama da salvação tem sido sempre 
central, e portanto mais importante que a natureza. Ora, Galileu 
não apenas considera o livro da Natureza tão significante 
quanto o livro das Escrituras, porém assume que o livro da 
Natureza fala mais claramente que o livro das Escrituras. Com 
Galileu, a inquirição científica da natureza adquiriu umstáíí/s 
independente à qual todas as verdades devem conformar. A 
atitude de Galileu já foi descrita como uma ameaça ao enten­
dimento cristão:
Uma tradição foi forjada na qual a crescente clareza discernida 
através da natureza foi posta em contraste com a prevalecente
10 Letter to the Grand Duchess Christina (1615) in Discoveries and Opinions 
of Galileo (Carta à Grã-duquesa Cristina (1615) em Descobertas e Opiniões de 
Galileu), traduzido por Stillman Drake, New York: Doubleday Anchor, 1957, p. 
182-186.
58
Um Breve Esboço Histórico
falta de clareza das Escrituras, com a esperança de que assim as 
Escrituras pudessem ser purgadas de sua obscuridade. Em 
retrospecto, está claro que isso somente pode ser conseguido por 
uma lógica que não busca mais orientação da revelação bíblica, 
mas de uma filosofia que determinou o conteúdo a partir de 
seu próprio ângulo de visão. Em Galileu, uma base natural 
independente para a religião começou a determinar o entendi­
mento bíblico da revelação. Disso, Galileu certamente não 
estava cônscio.11
Se Galileu estava cônscio disso ou não, sua posição foi 
baseada numa epistemología que levou a uma lenta mas 
constante redução da autoridade bíblica.
Muitos outros que aceitaram a nova astronomia também 
aceitaram o ponto de vista de Galileu a respeito da relação 
entre os dois Livros. O proeminente astrônomo alemão 
Johannes Kepler (1571-1630), o qual também estava muito 
preocupado em reconciliar a ciência e as Escrituras, estava 
preparado para reinterpretar as Escrituras de um modo mais 
flexível, através da amplamente apoiada noção da acomo­
dação.
Essa posição foi contraposta por vários teólogos que 
insistiram na primazia das Escrituras, mesmo em assuntos 
de astronomia. Por exemplo, o luterano Abraham Calovius 
declarou, no meio do século dezessete, que em assuntos natu­
rais Copérnico não poderia ter mais autoridade que a Palavra 
de Deus. Ele temia que a aceitação da noção de que passagens 
bíblicas deveriam ser acomodadas a maneiras comuns de 
pensar teria efeito semelhante ao de abrir um pequeno furo 
numa barragem, o qual eventualmente destruiria a própria 
barragem. Então Calovius sustentou que nenhum erro, 
mesmo em assuntos não importantes, poderia ter lugar nas 11
11 John Dillenberger, Protestant Thought and Natural Science (O Pensamento 
Protestante e a Ciência Natural), New York: Abingdon Press, 1960, p.90.
59
Deus e Cosmos
Escrituras. Essa afirmação de inerrância, mesmo em assuntos 
científicos foi ecoada por muitos outros, incluindo iminentes 
teólogos reformados como Gisbert Voet (1588-1676) e Francis 
Turretin (1623-1687). Turretin considerava que a admissão 
de qualquer erro, por mínimo que fosse, seria a rejeição da 
autoridade das Escrituras. Assim, em assuntos escriturísti- 
cos, esses homens rejeitaramCopérnico. Eles sentiam que 
capitular em qualquer ponto, demandaria capitulação total.
Muitos intelectuais não estavam contentes em buscar 
outras interpretações para as Escrituras. Eles consideravam que 
a ciência havia provado ser falso o ponto de vista geocêntrico 
da Bíblia. Isso os levou a rejeitar a inerrância da Bíblia e, even­
tualmente, à rejeição de toda a religião revelada. O deísmo, 
que rejeitou toda forma de religião revelada como incompa­
tível com a ciência, e tentou construir uma teologia natural, 
tornou-se um importante movimento no século dezoito. Deus 
era encarado primariamente como o arquiteto do universo, 
deixando-o prosseguir por si mesmo, de acordo com as leis 
que Ele havia imposto sobre a natureza. O ateísmo, que tam­
bém se tornou proeminente no século dezoito, foi mais 
adiante, rejeitando todo e qualquer conceito de Deus.
O triunfo do copernicismo teve efeitos de grande alcance 
na comunidade cristã. Ao aceitarem a nova astronomia os cris­
tãos davam tácita aprovação à implícita epistemología secular 
de Galileu e seus aderentes. Permitindo-se que uma teoria 
científica ditasse a interpretação da Bíblia eles abandonaram a 
supremacia epistemológica das Escrituras. A razão humana 
passou a ser considerada como uma independente fonte de 
verdade, uma fonte superior às Escrituras - pelo menos em 
questões científicas.
Cosmologia Pré-Moderna
O modelo cosmológico de Copérnico ainda estava
60
Um Breve Esboço Histórico
limitado pela esfera externa das estrelas fixas, esfera esta 
agora centrada no Sol, ao invés de na Terra. Contudo, como o 
movimento aparente da esfera externa era agora atribuído ao 
movimento da Terra, a esfera estelar podia então ser conside­
rada em repouso. A remoção do movimento da esfera estelar 
levou de vez o argumento para a sua dimensão finita. Assim, 
como conseqüência natural da cosmologia de Copérnico, um 
universo infinito podia agora ser contemplado.
Este passo, não proposto pelo próprio Copérnico, foi 
tomado, em 1576, por Thomas Digges (1543-1595), um astrô­
nomo inglês e recém-convertido ao copernicismo. Ele 
removeu a fronteira externa do universo, pondo o céu com 
seus seres celestiais dentro de um espaço infinito de estrelas 
(Figura 2.7).
Cosmologia Newtoniana
A nova cosmologia que substituiu a velha deveu muito ao 
grande cientista inglês Sir Isaac Newton (1642-1727). Através 
de suas teorias da gravidade e movimento, o universo veio a 
ser considerado como uma gigantesca máquina governada por 
equações matemáticas. Contudo esse mecanismo de relógio, 
criado por Deus, não podia funcionar por si mesmo. Newton 
descobriu que uma tal mecânica não podia ser responsabi­
lizada pela aparente estabilidade do sistema solar. Ele propôs 
que Deus interferia de tempos em tempos para manter os 
movimentos planetários em seus trilhos. De fato, Newton viu 
esta deficiência mecânica como uma prova da existência de 
Deus. Esta extraordinária dependência em Deus foi removida 
no século seguinte pelo francês Pierre-Simon Laplace (1749- 
1827), o qual foi capaz de demonstrar que a mecânica 
newtoniana em si mesma era suficiente para manter a estabi­
lidade do sistema solar: nenhuma intervenção sobrenatural 
era requerida.
61
Deus e Cosmos
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Figura 2.7: O Sistema Heliocéntrico de Thomas Digges, 
extraído de sua obra A Perfit Description of the Caelestial 
Orbes (1576).
62
Um Breve Esboço Histórico
De acordo com Newton, tempo e espaço sempre existi­
ram. O universo material fora criado num tempo finito do 
passado, num espaço vazio infinito. Newton considerou o 
mundo material como sendo de dimensões finitas, cercado por 
um espaço vazio infinito. Seus seguidores, entretanto, logo 
deixaram o universo material preencher todo o espaço infi­
nito, pois eles não viam razão para limitar a atividade criadora 
de Deus a apenas uma pequena porção do espaço. Raciocínio 
similar logo levou à remoção das restrições da ação criadora 
de Deus no tempo. O mundo criado tornou-se infinito, tanto 
no espaço como no tempo.
Como um mundo infinito e eterno não necessita ter 
um criador, Deus em pouco tempo Se tornou supérfluo como 
um Criador. Além disso, como Newton havia considerado o 
espaço como sendo um atributo de Deus, incorporando Sua 
presença e ação, a nova filosofia veio, gradualmente, a consi­
derar o espaço como o vácuo dos antigos atomistas gregos. 
O espaço era o vazio absoluto de tudo - incluindo Deus.12 A 
despeito do objetivo de Newton de apoiar, ou enfatizar, um 
conceito teísta do universo, o cosmo que emergiu da mecâ­
nica newtoniana não tinha necessidade de Deus.
Assim, o movimento iniciado por Copérnico, e levado 
adiante por Kepler, Galileue Newton, promoveu uma cres­
cente visão mecanicista do universo. Deus foi gradualmente 
removido como uma força ativa no mundo físico. Kuhn 
sumarizou esta tendência do seguinte modo:
No universal mecanismo de relógio, Deus freqüentemente 
apareceu como o único relojoeiro, o Ser que fizera as partes 
atômicas, estabelecera as leis de seus movimentos, e depois as
12 Alexandre Koyre, From the Closed World to the Infinite Universe (Do Mun- 
do Fechado ao Universo Infinito), Baltimore: John Hopkins Press, 1957, pp. 
274-276.
63
Deus e Cosmos
deixara funcionando por si mesmas. O deísmo, uma versão 
elaborada deste ponto de vista, foi um importante ingrediente 
no pensamento do final do século 17 e através do século 18.
Na medida em que tal visão avançava, a crença em milagres 
declinou, pois milagres seriam uma suspensão das leis mecânicas 
pela direta intervenção de Deus e seus anjos em situações 
terrestres. Pelo fim do século dezoito um crescente número de 
homens, cientistas e não cientistas, deixaram de ver necessidade 
de afirmar a existência de Deus.13
A visão medieval do mundo não apenas permitia a 
interação direta de Deus com a Sua criação, mas também 
reservava um lugar especial para Deus: o trono de Deus era 
localizado no Empíreo celeste, o qual ficava além da esfera 
das estrelas fixas. Até à época de Newton, os cristãos geral­
mente consideravam o céu como um lugar físico além das 
estrelas. Isso tudo foi mudado como resultado da revolução de 
Copérnico. Quando o universo fechado foi substituído por um 
espaço infinito, não havia mais lugar para o céu. Embora, como 
já vimos, Thomas Digges ainda misturava seu estelar e teoló­
gico céu, Deus foi gradualmente expelido desse céu, deixando 
ali apenas as estrelas. Assim, o homem foi abandonado na 
solidão, perdido em seu labirinto infinito.
O Universo Dinâmico
Inicialmente o universo newtoniano era essencialmente 
estático, não tendo passado por mudanças significativas ao 
longo do tempo. Tal concepção, entretanto, durou pouco tem­
po. No século 18 a noção de mudança ao longo do tempo 
tornou-se popular em diversas disciplinas, particularmente
13 T. S. Kuhn, The Copernican Revolution (A Revolução de Copérnico, 
Cambridge), Mass.: Harvard University Press, 1957, p. 233.
64
Um Breve Esboço Histórico
geologia e biologia. Interesse crescente era mostrado a res­
peito da questão de origens. No campo da cosmologia várias 
teorias foram propostas, com o fim de explicar a formação dos 
objetos celestes.
O universo newtoniano infinito havia abandonado tanto 
a geocentricidade como a heliocentricidade. Inicialmente 
pensou-se que o espaço infinito era uniformemente populado 
por estrelas similares ao sol. No entanto, logo tornou-se evi­
dente que as estrelas não eram aleatoriamente espalhadas 
pelo espaço. Em vez disso, a maior parte delas parecia estar 
agrupada na Via Láctea. Thomas Wright (1711-1786) especu­
lou em 1750 que a Via Láctea consistia ou de uma esfera ou de 
um disco de estrelas girando em torno do centro. Este centro 
seria uma fonte sobrenatural da qual originavam todas as leis 
danatureza. Naquela época um número de objetos pálidos e 
pouco definidos havia sido observado. Wright conjecturou 
que tais nuvens ou “nebulosas” eram de fato grupos de estre­
las similares à via láctea. De acordo com ele, o universo estaria 
repleto de infinitos centros de criação.
Pouco tempo depois, em 1755, o filósofo alemão, 
Immanuel Kant (1724-1804), dando um passo adiante, pro­
pôs uma origem naturalista para todos os objetos celestes do 
universo. Ele sugeriu que, inicialmente, o universo consistia 
de um infinito e quase uniforme gás. Pela ação da gravidade, 
agrupamentos de matéria foram se formando. Os movimentos 
ocasionais dessas porções condensadas de massa deram-lhes 
algum spin (um pequeno giro). Na medida que tal sistema se 
contraía, os spins se incrementavam e as galáxias foram forma­
das. No interior das galáxias um processo similar causou a 
formação individual de estrelas e planetas. Esta “hipótese 
nebular” foi posteriormente exposta por Laplace. O principal 
ponto de contenda referia-se à interpretação dada às nebulosas 
pálidas. Laplace pensava que elas eram apenas nuvens de gás 
associadas à via láctea. Seu universo era centrado sobre uma
65
Deus e Cosmos
única e gigantesca via láctea cercada de nuvens de gás em 
movimento circular. O oponente ponto de vista de Wright e 
Kant era o de uma infinidade de “universos ilhas” similares 
à via láctea. Esse debate foi finalmente resolvido em 1920, 
quando novas observações justificaram a posição multi- 
galáctica.
A noção de um universo dinâmico e revolvente tornou-se 
extremamente popular na última metade do século dezenove, 
particularmente com o desenvolvimento da evolução bioló­
gica. Em particular, os escritos de Charles Darwin (1809-1882) 
exerceram grande influência. Sua obra principal, A Origem 
das Espécies (1859), tratou principalmente da evolução de 
plantas e animais. Na sua obrazl Descendência do Homem (1871) 
ele estendeu o princípio da evolução, para também incluir 
a origem do homem. Essa idéia foi logo aplicada também 
à sociedade, incorporando o atraente ideal do progresso 
humano. O modelo evolucionário do universo rapidamente 
tornou-se o ponto de vista dominante no mundo. Desde o 
começo, houve oposição exercida pela ala religiosa, mas a 
maioria dos teólogos buscou adaptar seu cristianismo ao cos­
mo evolucionário.
Assim, um modelo científico naturalista finalmente rei­
vindicou dar explicação para a formação do universo inteiro, 
com todos os seus componentes. O estático, finito, geocêntrico 
e teísta mecanismo de relógio do homem medieval foi substi­
tuído pelo organismo dinâmico, infinito e materialista, em 
contínua evolução para cima.
A Morte do Calor
O estabelecimento do cosmo evolucionário inicial­
mente gerou uma visão otimista do futuro. Os defensores da 
evolução sentiram que o universo estava constantemente 
melhorando. O próprio Darwin concluiu:
66
Um Breve Esboço Histórico
Como a seleção natural opera unicamente por e para o bem de 
cada ser, todos os dons e talentos corporais e mentais tendem a 
progredir até a perfeição.14
Este espírito otimista logo seria severamente abalado.
O desafio veio através da nova ciência da termodinâmica, 
o estudo do calor. A revolução industrial, que havia ganhado 
momentum no início do século dezenove, dependia extrema­
mente do desenvolvimento de maquinário eficiente. Por volta 
de 1850, o estudo de máquinas a vapor e outros processos 
envolvendo trocas de energia levaram à descoberta de dois 
princípios fundamentais.
O primeiro deles, a primeira lei da termodinâmica, como 
tornou-se conhecida, tinha a ver com a conservação de 
energia. Esta lei postulou que, embora energia pudesse ser 
transformada de uma forma em outra, energia não podia 
jamais ser criada ou destruída. Considere, por exemplo, uma 
queda d’água. Na medida em que a água cai, sua energia 
potencial gravitacional, devido ao seu peso, é convertida em 
energia mecânica. Se for usada para movimentar uma tur­
bina, a energia mecânica pode ser transformada em energia 
elétrica. Se essa energia elétrica for usada para operar uma 
bomba d’água, poderiamos bombear a água à sua altura 
original. A primeira lei da termodinâmica afirma que, se 
pudéssemos desprezar as perdas de energia devidas ao atrito, 
a queda d’água geraria energia em quantidade exatamente 
necessária para bombear de volta a água que cai. Nenhuma 
nova energia a mais pode ser gerada.
Se levarmos em conta o atrito, como é necessário na prá­
tica, a situação piora. Isso nos conduz à segunda lei da 
termodinâmica, a qual trata da quantidade de energia útil
14 C.Darwin, On the Origin of the Species (A Origem das Espécies), 2a edição 
1858, London: John Murray, p. 486.
67
Deus e Cosmos
disponível. Isso foi pela primeira vez formulado em 1851 por 
Rudolf Clausius (1822-1888) em Berlim, e William Thompson 
(Lord Kelvin, 1824-1907) em Glasgow. A segunda lei da 
termodinâmica especifica que, em todo processo físico real, 
certa quantidade de energia útil é sempre dissipada. Os efeitos 
do atrito, na forma de calor, sempre causam a dissipação de 
parte da energia disponível. Se deixarmos uma bola cair na 
superfície plana do piso, veremos que ela jamais pulará de 
volta até a altura de onde a deixamos cair. Alguma energia 
mecânica é sempre perdida, transformando-se em calor que 
esquenta ou o ambiente ou a bola, ou ambos.
A primeira lei da termodinâmica afirma que em todo e 
qualquer processo a energia final na saída não pode exceder a 
energia inicial na entrada. A segunda lei da termodinâmica 
estipula que não podemos nem mesmo empatar: a energia útil 
que umà máquina entrega na saída, será sempre menor que a 
energia útil posta na entrada. Isso impossibilita de vez a 
máquina de moto-perpétuo. A segunda lei da termodinâ­
mica é comumente reconhecida como uma das leis mais 
básicas de toda a ciência.
Clausius definiu a “entropia” de um sistema como sendo 
a medida do seu estado de desordem, seu estado casual. Quanto 
mais alto o grau de desordem, mais alta a entropia. Considere, 
por exemplo, uma sala cheia de molécula de ar. Caso todas as 
moléculas estejam em apenas uma das metades da caixa (evento 
altamente improvável!), isso corresponderia a um estado alta­
mente ordenado, sendo a entropia, portanto, muito baixa. Se 
as moléculas se espalharem por todo o espaço da sala, a ordem 
é então perdida e a entropia torna-se alta. De acordo com 
Clausius, todo sistema tende a um estado de “equilibrium”, 
onde não haverá fluxo natural de energia. Sistemas tendem a 
se deslocar de um estado ordenado para um estado desor­
denado, não vice-versa. Assim, se abandonado a si mesmo, um 
castelo de areia tende a se degenerar num montículo de areia,
68
Um Breve Esboço Histórico
ao passo que o reverso não acontece. Processos reais tendem a 
ser irreversíveis.
Aplicando este princípio ao universo como um todo, 
Clausius concluiu que a energia total do universo é constante, 
e sua entropia tende para um máximo. Conclusão similar foi 
conseguida pelo cientista alemão Hermann von Helmholtz, 
em 1854. Ele deduziu algumas conseqüências de longo alcan­
ce. Se o universo está constantemente tramitando para um es­
tado de desordem, então ele deve ter sido energizado (como 
dar corda, num mecanismo de relógio) num tempo finito do 
passado por algum processo violando a segunda lei. Indo mais 
além, num tempo finito do futuro o universo tornar-se-á total­
mente desordenado. Ele tenderá a um estado de equilíbrio, 
onde todas as regiões estarão na mesma temperatura. Naquele 
tempo não restará mais nenhuma energia útil no universo, e 
qualquer forma de vida terá que desaparecer. Isso é o que tem 
sido chamado de “morte do calor” do universo.
As novas leis da termodinâmica impõem restrições 
fundamentais à teorização cosmológica. A segunda lei, em 
particular, com sua melancólica predição do futuro fim da vida 
no universo, apagou com um sopro o ponto de vista otimista 
de um universo evoluindo a um estado de perfeição cada vez 
maior. Emseu lugar, veio um sentimento de desespero, um 
sentimento de que o nosso universo habitável não passava 
de mero acidente estatístico, sem perspectivas futuras e sem 
propósito final.
69
3
Cosmologia Moderna
Neste capítulo examinaremos teorias da cosmologia 
moderna. Como a cosmologia do Big Bang é, de longe, a mais 
popular, concentraremos nela o foco de nossa discussão. 
Faremos uma revisão de sua história e apoio observacional, 
abordaremos seus pontos fortes e fracos, e uma breve análise 
de várias alternativas. Na última parte do capítulo examina­
remos várias premissas cosmológicas básicas, bem como a 
dificuldade delas serem verificadas.
Uma Breve História do Big Bang
Edgar Alian Poe, que se tornou mais famoso por seus 
contos, foi õ primeiro a sugerir que o universo teve origem 
numa gigantesca explosão. Em seu pequeno livro Eureka, 
publicado em 1848, Poe descreve como o universo foi criado 
per Deus, a partir do nada, como uma partícula primordial 
explosiva. Inicialmente a matéria explodiu movimentando-se 
em todas as direções. Na medida em que o universo se expan­
dia, a gravidade gradualmente induziu os átomos a se 
condensarem, formando assim as estrelas e planetas. Eventu­
almente, em algum tempo no futuro, a ação da gravidade fará 
que pare a expansão, e então começará a contração. O cosmos 
finalmente retornará ao seu estado inicial, um pequeno ponto, 
tempo no qual ele desaparecerá.
Poe não acreditava que o nosso universo pudesse ser 
infinito. Ele se referia ao Paradoxo de Olbers, uma objeção ao
70
Cosmologia Moderna
conceito de um universo infinito levantada em 1823 por 
Heinrich Olbers e outros antes dele. De acordo com Olbers, se 
existisse um número infinito de estrelas, então, ao olharmos 
em qualquer direção deveríamos eventualmente encontrar uma 
estrela. A noite o céu seria uniformemente luminoso com luz 
estelar. Como não é esse o caso, Olbers concluiu que nosso 
universo é finito.
Contudo, Poe encontrou um jeito de manter o universo 
infinito e eterno. Ele especulou que haveria um número 
infinito de universos, cada um com o seu deus. Mas esses 
universos estariam tão imensamente distantes uns dos outros, 
que não poderia haver comunicação entre eles. Além disso, 
depois que nosso universo viesse ao colapso, Deus geraria um 
novo universo, uma outra pulsão do ciclo eternal. O modelo 
de Poe não conseguiu atrair muitos cientistas. A maioria 
continuou acreditando em alguma forma de universo newto- 
niano, infinito e dinamicamente estático.
A cosmologia moderna realmente teve início em 1917, 
quando Albert Einstein pela primeira vez aplicou sua nova 
teoria gravitacional - conhecida como relatividade geral - ao 
universo como um todo. Einstein presumiu que o universo 
era homogêneo, o que significa que, numa larga escala, a maté­
ria seria uniformemente distribuída através do universo (ver 
Figura 3.1). Ele também aplicou o princípio cosmológico que 
presumiu que qualquer região particular pareceria seme­
lhante a qualquer outra. O princípio cosmológico implica que 
o universo não tem bordas ou fronteiras, pois se assim o fosse, 
um observador localizado próximo à borda teria um ponto 
especial de vantagem.
Até então, a solução para evitar bordas era imaginar 
o universo infinito. Agora, uma nova possibilidade era 
oferecida pela relatividade, a curvatura do espaço. A teoria 
de Einstein postulava que o efeito gravitacional da matéria 
fazia com que o universo fosse curvo. Se houvesse matéria
71
Deus e Cosmos
Figura 3.F. Distribuição da Matéria no Universo
(a) Universo Homogêneo. A matéria é uniformemente dis­
tribuída sobre grandes distâncias.
(b) Universo Não-homogêneo. A matéria é não-uniforme- 
mente distribuída sobre grandes distâncias.
(Extraído da obra de Michael Zeilik, Conceptual Astronomy, 
New York: John Wiley & Sons Inc. 1992.)
72
Cosmologia Moderna
em quantidade suficiente, então o campo gravitacional resul­
tante seria suficientemente forte para curvar o espaço sobre si 
mesmo, criando assim um universo finito, porém sem bordas. 
Um tal universo, finito mas sem fronteiras, é chamado de 
universo fechado. Um universo menos denso, que não fosse 
fechado, seria chamado universo aberto. Num universo aberto, 
o princípio cosmológico só pode ser mantido se o universo for 
infinito em tamanho. As diferentes geometrias do espaço são 
comparadas na Figura 3.2.
Visualizar diretamente um universo fechado é impossí­
vel, pois isso envolve uma geometria quadridimensional. Mas 
poderíamos usar uma analogia bidimensional. Considere 
um pedaço de arame. Se ele for reto, terá duas extremidades, 
ou “bordas”, porém se o curvarmos até assumir a forma de um 
círculo, então não terá mais extremidades. Também podería­
mos considerar a superfície de uma bola como sendo uma 
superfície bidimensional sem bordas, mergulhado num 
espaço tridimensional. Similarmente, nosso universo de três 
dimensões pode ser imaginado como sendo um volume finito, 
sem bordas, mergulhado num espaço de número maior Jg 
dimensões. Com a relatividade tornou-se possível retornar ao 
universo íihito e ainda assim manter o princípio cosmológico 
da uniformidade.
Contudo, restava uma dificuldade. Einstein achava que o 
universo devia ser estático, permanecendo sem mudanças por 
um período de tempo. Como o campo gravitacional de um 
universo finito tenderia a causar o colapso do mesmo, Einstein 
acrescentou uma força repulsiva ao seu modelo cosmológico, 
força essa que impediria o movimento para dentro. Assim, 
existiria uma “constante cosmológica”, ou “Lambda”, para 
contrabalançar a força atrativa da gravidade. Defendeu-se que 
tal força deveria aumentar com a distância, de modo que o seu 
efeito local seria por demais pequeno para ser detectado. 
Somente em escala cosmológica, quando a contribuição das
73
Deus e Cosmos
Figura 3.2: Comparação de Geometria Espacial.
(a) Geometria Plana. A soma dos ângulos internos de um 
triângulo é sempre igual a 180 graus.
(b) Geometria Hiperbólica (aberta). A soma dos ângulos 
internos de um triângulo é sempre menor que 180 graus.
(c) Geometria Esférica (fechada). A soma dos ângulos in­
ternos de um triângulo é sempre maior que 180 graus.
(Extraído da obra de Michael Zeilick, Conceptual Astronomy, 
New York: John Wiley & Sons, Inc., 1992.
74
Cosmologia Moderna
mais distantes galáxias se torna significante, a ação dessa força 
seria importante.
Pouco tempo depois, em 1920, a luz das galáxias distan­
tes mostrava um deslocamento ou desvio espectral tendendo 
para vermelho. Isso foi tido como uma evidência de que essas 
galáxias estavam se movendo para fora, afastando-se da Terra, 
ao invés de permanecerem estacionárias. Com base nesse 
novo desenvolvimento, a teoria do Big Bang foi ressuscitada 
em forma moderna pelo padre e cosmólogo belga Georges- 
-Henry Lemaître, no final da década de 1920. Lemaître 
hipotetizou que o universo originalmente começou com a 
explosão do “átomo primevo”, uma concentração de matéria 
muito densa inicialmente.
Como prova da explosão primeva Lemaître apontou os 
raios cósmicos (partículas de alto nível de energia, vindas do 
espaço, e que bombardeiam a Terra). Lemaître argumentou 
que nenhuma fonte astronômica conhecida poderia produzir 
aqueles raios, e portanto eles teriam sido causados pela excep­
cionai condição da explosão do Big Bang. Outro fator que 
aparentemente suportava essa hipótese era a distribuição dos 
raios cósmicos. Eles pareciam vir uniformemente de todas as 
direções, como era de se esperar, supondo que estivessem 
vindo do Big Bang. Achava-se que eles não poderiam vir das 
galáxias, pois estas estavam distribuídas irregularmente.
Contudo, nas décadas seguintes foi mostrado que os raios 
cósmicos poderiam ser gerados por forças eletromagnéticas, 
em operação no espaço interestelar. Mais do que isso, tornou- 
-se aparente que os raios cósmicos estariam vindo de nossa 
própria galáxia, a distribuição uniforme deles sendo conse­
quência de suas trajetórias curvadas pela ação docampo 
magnético da galáxia. Ao invés de virem de distantes 
extremos, refletindo as dores de parto do universo, os raios 
cósmicos mostraram ser um fenômeno relativamente local. 
Prejudicada por algumas limitações teóricas e observacionais,
75
Deus e Cosmos
a cosmologia do Big Bang de Lamaitre não conseguiu muitos 
adeptos.
Novamente, em 1946, a teoria do Big Bang ressurgiu com 
Georges Gamow. Gamow conjeturou que se o Big Bang fosse 
uma gigantesca explosão nuclear sua temperatura e densidade 
extremamente altas poderiam gerar as proporções observadas 
de hidrogênio, hélio e outros elementos presentes no univer­
so. Contudo, poucos meses mais tarde, Fred Hoyle mostrou 
que processos nucleares nas estrelas eram suficientes para 
produzir os elementos pesados em abundâncias quase exatas, 
embora algum outro mecanismo fosse necessário para produ­
zir a quantidade observada de hélio.
Em 1948, Hoyle, junto com Hermán Bondi e Thomas 
Gold, formularam uma cosmologia alternativa: o modelo de 
estado-estável. Essa teoria foi baseada no assim chamado 
“princípio cosmológico perfeito”, o qual afirma que o universo 
parece basicamente o mesmo, não apenas em todos os lugares, 
porém em todos os tempos. A taxa de expansão, a densidade 
do espaço e a distribuição das galáxias são todas supostamente 
constantes. Como a expansão tende a espalhar as galáxias, a 
teoria requer que matéria nova esteja sendo constantemente 
criada - a partir do nada - precisamente à exata taxa de expan­
são, para assim manter constante a densidade. Novas galáxias 
são então formadas a partir da matéria nova sendo criada, na 
medida em que, por causa da expansão, as velhas galáxias 
vão se afastando através do espaço.
Uma das principais motivações desta cosmologia era 
evitar o que Hoyle considerava ser uma implicação teísta da 
singularidade inicial. Contudo, enquanto o modelo evita a 
criação ex nihilo alegadamente implícita no Big Bang, o sêu 
próprio conceito de criação contínua indica não apenas um 
ato da criação ex nihilo, mas um numero infinito delas.
Uma importante descoberta para o Big Bang veio à tona 
em 1965. Gamow deduziu que <a bola de fogo inicial teria
76
Cosmologia Moderna
deixado atrás de si radiações na forma de ondas de rádio. Seus 
cálculos prediziam que essa radiação deveria ter esfriado a uma 
temperatura de aproximadamente 30 graus Kelvin (zero grau 
Kelvin corresponde ao zero absoluto, a mais baixa tempera­
tura possível, equivalente a -273°C). Também, a radiação 
deveria ser isotrópica, isto é, uniformemente distribuída em 
todas as direções. Em 1965, tal radiação foi de fato observada, 
embora a uma temperatura de apenas 3 graus Kelvin.
Embora a cosmologia do estado estacionário tivesse goza­
do de popularidade por algumas décadas, principalmente 
entre os cosmologistas britânicos, a descoberta em 1965 da 
radiação de fundo fez com que a maioria dos cosmologistas 
dessem preferência à cosmologia do Big Bang. Enquanto essa 
radiação, ou pelo menos suas principais características, surge 
naturalmente do modelo do Big Bang, o modelo do estado 
estacionário teve maiores dificuldades em explicá-la, embora 
muitas possíveis explicações tenham sido elaboradas.
De acordo com o moderno “modelo Big Bang padrão” o 
universo teve origem em torno de 10 a 15 bilhões de anos atrás 
numa explosão de energia originária de um ponto muito 
pequeno, uma “singularidade”. Começou com uma tempera­
tura muito elevada, alta densidade, e num estado de expansão 
muito rápida. Na medida que o universo expandiu, ele res­
friou. Dentro dos primeiros poucos minutos a matéria inicial 
(constituída principalmente de partículas subatômicas) 
condensou em hidrogênio, hélio e alguns traços de outros 
elementos leves. Na medida em que o tempo passou, porções 
de matéria foram se contraindo, devido à gravidade, constitu­
indo assim as galáxias. Dentro das galáxias, porções menores 
também foram se contraindo, formando as estrelas. Na medi­
da em que as estrelas iam se contraindo, energia gravitacional 
ia se transformando em calor. Eventualmente as temperaturas 
dentro das estrelas foram se elevando a ponto de gerar reações 
nucleares, das quais o carbono, o oxigênio e outros elementos
77
Deus e Cosmos
pesados foram formados. Posteriormente, na medida em que 
as estrelas evoluíam, elas passaram a ejetar matéria no espaço 
interestelar. A partir deste material interestelar foram forma­
das as estrelas de segunda geração, as quais continham agora 
maior quantidade de elementos pesados. Algumas dessas 
estrelas tinham planetas. Em pelo menos um desses planetas 
(a Terra), interações casuais de moléculas produziram uma 
forma primitiva de vida. Eventualmente, formas mais com­
plexas de animais e plantas evoluíram, culminando com o 
aparecimento do homem.
Essa é a história da criação de acordo com a cosmologia 
do Big Bang. Trata-se de uma teoria ampla e compreensiva 
que se esforça para explicar todas as realidades físicas em 
termos de um universo dinâmico em evolução e que pode ser 
rastreado até a sua singularidade inicial.
Explicando as Observações
Quão bem fundamentado é o modelo Big Bang? Como já 
foi notado anteriormente, a teoria do Big Bang repousa em 
três pilares de evidência observacional: o galáctico desvio 
para o vermelho, abundâncias de elementos, e radiação de fun­
do. Partir desses fatos observacionais e interpretá-los como 
velocidades e resíduos de uma explosão inicial Big Bang, 
envolve um salto enorme que exige exame mais cuidadoso.
1. Deslocamentos para o Vermelho
No final da década de 1920 o astrônomo americano Edwin 
Hubble descobriu que a luz das galáxias apresentava desloca­
mento para o vermelho, a extremidade de baixa freqüência 
do espectro luminoso. Um fenômeno similar de abaixamento 
de freqüência (ou de tom) pode ser notado quando a sirene da 
polícia passa por nós. Na medida em que a sirene se afasta de 
nós, as ondas de som são como que esticadas pelo movimento
78
Cosmologia Moderna
da sirene, fazendo-nos perceber o som numa freqüência um 
pouco mais baixa do que a freqüência real. Este fenômeno é 
chamado efeito Doppler. Assim, uma simples explicação do 
deslocamento para o vermelho observado nas galáxias é que 
elas estariam se distanciando de nós.
Hubble descobriu que o deslocamento para o vermelho 
era aproximadamente proporcional às distâncias das galáxias. 
Esta relação, que veio a ser conhecida como lei de Hubble, foi 
interpretada por muitos astrônomos como uma evidência de 
que o universo estaria se expandindo.
E importante notar que, na cosmologia do Big Bang, 
postula-se que os deslocamentos para o vermelho são causa­
dos não pelo movimento das galáxias através do espaço, e sim 
pela expansão do espaço propriamente dita. Na medida em 
que o espaço se expande, o comprimento de onda da luz é 
esticado, correspondendo assim à redução de freqüência. O 
deslocamento para o vermelho é calculado subtraindo o com­
primento de onda original emitido do comprimento de onda 
recebido (observado), depois dividido pelo comprimento de 
onda emitido. O deslocamento para o vermelho é denotado 
pelo símbolo#. Por exemplo, um deslocamento de#=7 indica 
que o comprimento de onda recebido é o dobro do compri­
mento de onda emitido, implicando assim que o evento de 
emissão ocorreu quando o universo tinha metade do seu 
tamanho atual.
Há, contudo, algumas dificuldades com esta interpre­
tação de velocidade do deslocamento para o vermelho. O 
astrônomo Halton Arp^bservou que muitos pares de galá­
xias, aparentemente bem próximas umas das outras, algumas 
até mesmo fisicamente ligadas, mostram deslocamentos para 
o vermelho muito diferentes. Isso sugere que pelo menos 
alguns deslocamentos para o vermelho são causados por outra 
1 SeeingRed (Vendo o Vermelho), Montreal: Apeiron, 1998.
79
Deus e Cosmos
coisa que não é movimento. Se alguns deslocamentos têm 
outra causa que não é movimento, é possível que a maioria 
tenha tal causa, deixando-nos assim, com um universo basica­
mente estático.Além disso, Arp notou que os deslocamentos se agrupam 
em valores z preferenciais, tais como: 0,06; 0,3; 0,6; 0,9; 1,4; e 
1,96. Extensiva evidência de periodicidade e variabilidade de 
deslocamentos para o vermelho foi encontrada por Tifft2. Isso 
é contrário ao que se espera num universo homogêneo e em 
expansão, indicando que ou nós estaríamos no centro de uma 
série de cascas ou camadas em expansão ou então os desloca­
mentos para o vermelho teriam outra causa que não é a 
velocidade.
Há ainda outras dificuldades. A relação “distância/deslo­
camento para o vermelho” de Hubble, principal pilar de 
suporte da cosmologia do Big Bang, foi inicialmente baseada 
na análise de apenas algumas dúzias de galáxias. Análises 
estatísticas mais recentes, muito mais completas, e baseadas 
nas observações de milhares de galáxias, divergem significati­
vamente da lei linear de Hubble. Estudos feitos por I. E. 
Segai3 4 mostram que uma relação quadrática, onde o desloca­
mento para o vermelho varia com o quadrado da distância, 
fornece uma aproximação muito melhor. Esses estudos 
contradizem a expans,ão do Big Bang, mas concordam com a 
cosmologia cronométrica de Segal, uma cosmologia estática
2 W. G. Tifft, “Global Redshift Peridiocities and Periodicity Variability”, 
Astrophysical Journal, 1997,485, pp. 465-483.
31. E. Segal, J. E Nicoll, P Wu, Z. Zhou, “Statistically Efficient Testing of 
the Hubble and Landmark Laws on IRAS Galaxy Samples”, Astrophysical 
Journal, 1993,41 l,pp. 465-484.
41. E. Segal, J. F. Nicoll, “Statistics of a Complete High-Redshift Quasar 
Survey and Predictions of Nonevolutionary Cosmologies”, Astrophysical 
Journal, 1996,459, p. 496.
80
Cosmologia Moderna
onde o deslocamento para o vermelho é diretamente propor­
cional à curvatura do espaço.5
Como o deslocamento para o vermelho corresponde a 
um abaixamento de sua freqüéncia, e como a energia da luz 
é proporcional à sua freqüéncia, um deslocamento para o 
vermelho implica numa perda de energia. Um problema do 
modelo Big Bang é como considerar e computar a perda de 
energia da luz deslocada para o vermelho. A energia parece 
simplesmente desaparecer, implicando na não conservação 
de energia. O proeminente cosmologista de Princeton, P J. E. 
Peebles, pergunta:
Para onde vai a energia perdida?... A resolução para este 
paradoxo é que, enquanto a conservação de energia é um bom 
conceito local... não há uma lei de conservação de energia global 
na teoria da relatividade geral.6
Anteriormente, uma conclusão similar foi obtida 
por Edward Harrison, que, em sua clássica obra, Cosmologia, 
escreveu:
A conclusão, quer gostemos ou não, é óbvia: no universo, a 
energia não é conservada. O princípio de conservação de energia 
serve-nos bem em todas as ciências, exceto em cosmologia.7
Uma quebra inexplicável, tal como essa, de um dos mais 
fundamentais conceitos da ciência não é muito satisfatória.
51. E. Segal, Z. Zhou, “Maxwell’s Equations in the Einstein Universe and 
Cronometric Cosmology”, Astrophysical Journal Suplement, 1995,100, p. 307.
6 Principles of Physical Cosmology, Princeton: The University Press, 1993, 
p. 138.
7 E. R. Harrison, Cosmology: The Science of the Universe, Cambridge: 
University Press, 1981, p.277.
81
Deus e Cosmos
Teria o deslocamento para o vermelho alguma outra razão 
que não a velocidade? Muitas explicações alternativas do 
deslocamento para o vermelho têm sido propostas. A perda de 
energia da luz tem sido usualmente explicada como resultado 
do movimento num meio resistente, referido como “luz can­
sada”, ou como a escalada de um forte campo gravitacional, 
referido como “deslocamento gravitacional para o vermelho”. 
Inúmeras cosmologias estáticas, baseadas em pontos de vista 
sobre a não-velocidade do deslocamento para o vermelho, têm 
sido sugeridas.
a. Luz Cansada
A interpretação do deslocamento para o vermelho, tendo 
o movimento como causa, foi questionada desde o início. Em 
1929, o astrônomo Fritz Zwicky já havia proposto, como 
causa do deslocamento para o vermelho, a perda de energia da 
luz durante sua viagem através do espaço. Uma das vantagens 
das teorias da luz cansada é que elas naturalmente predizem 
um deslocamento para o vermelho proporcional à distância 
viajada, de acordo com a lei de Hubble. O próprio Hubble, 
durante toda a sua vida, enfatizou sua preferência pela teoria 
da luz cansada em contraposição ao ponto de vista da expan­
são, porém ele nunca conseguiu oferecer um mecanismo 
plausível para a geração de um tal efeito. Ter-se-ia que expli­
car qual o truque para que as unidades de luz, os fótons, 
perdessem energia sem contudo se espalharem significativa­
mente, ou as imagens das galáxias seriam menos nítidas do 
que realmente são.
Recentemente, a teoria da luz cansada tem sido defen­
dida por vários astrônomos. Ghosh8 lista vinte possíveis
8 A. Ghosh, “ Velocity Dependent Inertial Induction: a Possible Tired Light 
Mechanism”, Apeiron, 1991,9-10, pp.35- 44. Para outros possíveis mecanis­
mos veja os artigos de autoria de Kierein, Marmet e Reber, D.F. Crawford, 
Fisher e Van Flandern na Bibliografia deste livro.
82
Cosmologia Moderna
mecanismos de não-velocidade sobre o deslocamento para 
o vermelho. Nas teorias de luz cansada em relação ao des­
locamento para o vermelho, geralmente é postulado que a 
energia perdida pela luz é re-irradiada como energia de baixa 
temperatura, levando assim em conta também o irradiador 
de microondas.
Paul La Violette, depois de realizar vários testes com as 
duas alternativas para a explicação do deslocamento para o 
vermelho, concluiu que a teoria da luz cansada se encaixa muito 
melhor nas observações do que o modelo do universo em 
expansão.9
b. Deslocamento Gravitacional para o Vermelho
G. F. R. Ellis demonstrou que o deslocamento para o 
vermelho das galáxias e a radiação de fundo de microondas 
podem ser explicados assumindo um universo estático, 
esféricamente simétrico, com dois centros, estando a nossa 
galáxia localizada próxima a um dos centros.10 11 Os sistemáticos 
deslocamentos para o vermelho das galáxias são então inter­
pretados como deslocamentos cosmológicos gravitacionais 
para o vermelho, enquanto que a radiação de fundo seria 
originada de gases quentes envolvendo uma singulari­
dade situada no segundo centro do universo. Embora não 
alegando que o universo seja como tal modelo, ele afirma não 
existir um argumento avassalador que demonstre que tal 
modelo não poderia reproduzir todas as observações corren­
tes. Um modelo estático, de certo modo similar, mas tendo 
apenas um centro, foi desenvolvido por Rao e Annapurna.11
9 E A. La Violette, Beyond the Big Bang: Ancient Myth and the Science of 
Continuous Creation, Rochester, Vermont: Park Street Press, 1995.
10 G. F. R. Ellis, “Is The Universe Expanding?”, General Relativity and 
Gravitation, 1978,9, pp.87-94.
11 J. Krishna Rao, M. Annapurna, “Spherically Symetric Static 
Inhomogeneous Cosmological Models”, Pramana, 1991,36, pp. 95-103.
83
Deus e Cosmos
Mais recentemente, outro modelo, usando ambos, gravita- 
cional e Doppler, deslocamentos para o vermelho, foram 
propostos por Robert Gentry.12
c. Constantes fue Variam
Outro modelo estático de universo foi construído pelo 
russo V. S. Troitskii13, o qual interpreta o deslocamento para 
o vermelho como sendo devido à redução na velocidade da 
luz. Tal mecanismo produziria também a radiação de fundo 
observada.
Em 1931, Sir James Jeans propôs um modelo no qual as 
dimensões dos átomos diminuiriam com o tempo. Isso 
produziria a impressão de um universo em expansão, embora 
na realidade não estivesse expandindo, porém tudo dentro dele, 
inclusive nós mesmos, estaria encolhendo. Essa idéia foi mais 
tarde introduzida por Hoyle14 que alega que tal modelo não 
pode ser distinguido daquele do universo em expansão. O 
encolhimento pode ser entendido se as massas de todas as 
partículas elementares aumentam, enquanto a carga elétrica 
se mantém constante. Na passado, os átomos seriam mais 
fortementeligadas ao seus núcleos, fazendo com que a radia­
ção emitida fosse deslocada para o vermelho. Arp15, por um 
caminho similar, propôs que a massa das partículas elemen­
tares aumentaria com o tempo, acelerando a taxa de tempo 
atômico, resultando numa diminuição nodeslocamento para 
o vermelho, devido à idade.
12 Robert Gentry, “A New Redshift Interpretation”, Modem Physics Letters A, 
1997,12, p. 2919.
13 V. S. Troitskii, “Physical Constants and Evolution of the Universe”, 
Astrophysics and Space Science, 19&7,139,pp.389-411.
14 Fred Hoyle, “On the Origin of the Microwave Background”, Astrophysics 
Journal, 1975,196,p. 661
15 Arp, Seeing Red.
84
Cosmologia Moderna
Muitas das explicações alternativas sobre o deslocamento 
para o vermelho são por demais especulativas e, como na 
interpretação do movimento, também têm seus sérios pro­
blemas a superar. Contudo, elas servem para ilustrar que os 
deslocamentos para o vermelho podem ser interpretados 
dentro de uma grande variedade de modelos teóricos, e não 
fornecem suporte isento de ambigüidade para a cosmologia 
do Big Bang.
2. Abundâncias de Elementos
Um modo de testar a cosmologia do Big Bang é através 
de suas predições da abundância relativa dos vários elementos 
do universo. Um Big Bang “quente”, com temperaturas extre­
mamente altas no seu estado denso inicial, geraria em torno 
de 75% de hidrogênio, 25% de hélio-4, e quantidades muito 
menores de deutério, hélio-3, lítio-7, e berilo. Elementos mais 
pesados são considerados como produzidos em reações 
nucleares estelares subseqüentes, que poderiam alterar as 
abundâncias dos elementos mais leves.
Medições observacionais mostram que de fato o hidrogê­
nio corresponde aproximadamente a três quartos da massa 
total, e o hélio a um quarto, com apenas traços de elementos 
mais pesados.
Contudo, as precisas predições de núcleo-síntese do Big 
Bang dependem fortemente da relação fóton / bárion (bárions 
são prótons e nêutrons que formam o volume da matéria 
comum) e da densidade de bárions, nenhum dos quais é co­
nhecido com precisão. Na prática, então, estes são parâmetros 
ajustáveis os quais são determinados através da combinação 
das predições teóricas com as abundâncias observadas para um 
ou dois elementos.
A dificuldade está em subtrair das densidades observadas 
os efeitos da produção estelar de elementos, de modo a poder 
determinar a abundância inicial. O deutério é frágil, facilmente
85
Deus e Cosmos
destrutível nas estrelas, e não produtível nas estrelas. Assim, 
sua abundância presentemente observada pode ser significati­
vamente menor do que a original. Idealmente, seria desejável 
medir as abundâncias de gases de baixa densidade em fases 
bem iniciais (isto é, com alto deslocamento para o vermelho) 
antes que fossem contaminados por fragmentos estelares. 
Recentemente Burles16 mediu a abundância de deutério em 
nuvens de hidrogênio de alto deslocamento para o vermelho 
(z>3) que supostamente correspondem ao gás primevo. 
Disso ele calculou a densidade primeva do bário, e daí a abun­
dância predita do hélio-4 e lítio-7. Ele observou que para o 
hélio-4 os valores são razoavelmente próximos das determi­
nações observacionais, porém não para os outros elementos, 
enquanto que para o lítio-7 os valores preditos eram o dobro 
dos observados nas estrelas velhas. Assim, o modelo não 
explica todas as abundâncias de elementos leves. Além disso, 
a densidade do bárion determinada por núcleo-síntese do 
Big Bang é muito menor que a densidade da matéria como 
determinada por considerações dinâmicas, tais como a 
rotação das galáxias.
Para socorrer a cosmologia do Big Bang, é postulado que 
a maior parte da matéria do universo existe na forma de 
exotérica, matéria não-bariônica, assunto que será abordado 
em seção posterior.
Uma dificuldade posterior é que muitos objetos com 
alto deslocamento para o vermelho, e que por isso deveriam 
refletir condições primevas, apresentam abundâncias anôma­
las. Por exemplo, a medida da abundância de berilo numa 
estrela pobre de metais, e que deveria portanto refletir abun­
dância de matéria primeval, revelou uma abundância de berilo 
mil vezes maior do que a abundância predita pela cosmologia
16 Scott Buries, et al., “Sharpening the Predictions of Big Bang Nucleo­
synthesis”, Physical Review Letters, 1999,82, pp.4176-4179.
86
Cosmologia Moderna
do Big Bang.17 Também, regiões de baixa densidade, de deslo­
camento para o vermelho z=3, têm sido observadas contendo 
concentrações de elementos pesados muito mais elevadas do 
que os valores de concentração preditos pela cosmologia do 
Big Bang.18
Quasars muito distantes (“quasar” é uma abreviatura 
para “quasi-stellar object”, um objeto semelhante a uma 
estrela emitindo grandes quantidades de energia em rádio- 
freqüência) cujo deslocamento para o vermelho pensava-se 
corresponder a uma idade quando o universo tinha menos de 
um bilhão de anos, foram observados contendo mais ferro do 
que o sol. A maior parte do ferro supõe-se vir das supernovas 
nas quais uma estrela do binário explode. Todavia os binários 
necessitam, pelo menos, de um bilhão de anos para evoluir 
àquele estágio.19 Como então poderiam os quasars terem 
adquirido tanto ferro dentro do primeiro bilhão de anos do 
Big Bang?
Em resumo, modelos de Big Bang têm dificuldades para 
acomodar as abundâncias observadas sem recorrer a cenários 
especiais, artificialmente produzidos para explicar o esgota­
mento do litio, fontes locais especiais para o berilo e o ferro, e 
assim por diante.
George Burbidge e Fred Hoyle demonstraram que a sín­
tese do hélio cósmico, a partir do hidrogênio nas estrelas, deve 
ter liberado quase exatamente a mesma quantidade de energia 
quanto aquela contida na radiação de fundo. Eles concluíram 
que o hélio foi produzido pela queima do hidrogênio nas
17 G. Gilmore et al., “First detection of beryllium in a very metal-poor star: 
a test of the standard Big Bang model”, Astrophysical Journal, 1991,378, pp. 
17-21.
18 J. Michael Shull, “Intergalactic Pollution”, Nature 1999,394, pp. 17-18
19 Jeff Hecht, “Astronomers’ Double Whammy Rocks Cosmology”, New 
Scientist, 1994,141,p.l6.
87
Deus e Cosmos
estrelas, e não no estágio inicial do Big Bang.20 Eles também 
apresentaram evidência de que as abundâncias observadas de 
hélio e outros elementos leves foram geradas em processos 
estelares. Num artigo mais recente Burbidge, Hoyle e 
Narlikar21 dão uma breve descrição de sua alternativa 
cosmologia, de estado-quase-estacionário. Lerner22 construiu 
cenários nos quais as abundâncias observadas seriam forma­
das através de núcleo-síntese em ciclos de formação estelar e 
explosão. Embora o deutério e o litio não sejam produzidos 
por estrelas normais, eles poderiam ser criados através da 
interação entre matéria e raios cósmicos.23 Van Flandern tam­
bém afirmou que seu modelo poderia explicar as abundâncias 
observadas considerando um ciclo infinito de formação de 
estrelas e galáxias, enquanto modificadas por processos contí­
nuos, tais como os efeitos de raios cósmicos. De novo, nós 
notamos que explicações alternativas para as abundâncias 
elementares observadas envolvem pelo menos tantos dispara­
tes e apelações especiais quanto a própria cosmologia Big Bang. 
Aqui também a evidência não dá suporte inequívoco a 
nenhuma de tais teorias.
3. As Microondas Cósmicas de Fundo
As radiações de fundo das microondas cósmicas, (CMBR
- Cosmic Microwave Background Radiation), primeiramente
20 “The Origin of Helium and other Light Elements”, Astrophysical Journal, 
1998,509,pp.Ll-L3.
21 G. Burbidge, F. Hoyle and J. V Narlikar, “A Different Approach to 
Cosmology”, Physics Today, 1999,52 (April), pp.38- 44.
22 E. J. Lerner, “Plasma Models of Microwave Background and Primordial 
Elements: An Alternative to the Big Bang”, Laser and Particle Beams, 1988, 
6, pp. 456- 468; “Galactic Model of Element Formation”, IEEE Transactions 
on Plasma Science, 1989,17, pp. 259-263.
23 Tom Van Flandem, Dark Matter, Missing Planetsand New Comets, Berkeley: 
North Atlantic Books, 1993.
88
Cosmologia Moderna
observadas em 1965, supriram evidências adicionais do Big 
Bang. De acordo com a teoria do Big Bang os fótons remanes­
centes do CMBR interagiram com a matéria quando o uni­
verso se resfriou a uma temperatura em torno de 3.000 graus 
Kelvin, cerca de 300.000 anos após a explosão Big Bang. Um 
mapa do CMBR atual é considerado como uma fotografia 
que nos fornece uma idéia do universo naquele tempo. Tal 
radiação resfriou-se aos 3 graus Kelvin que hoje detectamos. 
Isso algumas vezes é referido como o “afterglow” (lampejo sub- 
seqüente) ou o “smoking gun” (o esfumaçar) da explosão Big 
Bang. Sua uniformidade em todas as direções (isotropia) é 
tomada como uma forte evidência da radiação da origem 
primeva.
Na realidade, a radiação não é bem uniforme em todas as 
direções. Há um pequeno afastamento ou desvio da uniformi­
dade, que corresponde a um movimento aparente do sol em 
relação à CMBR de 370 kms. Quando se leva em conta o 
movimento do sol em torno da galáxia, isso resulta num 
movimento do nosso grupo local de galáxias em relação ao 
CMBR de 620 kms.24 Estudos recentes, realizados por Lauer 
e M. Postman,25 indicam que a velocidade de 600 kms se 
aplica a todas as galáxias ao nosso redor, dentro de um raio de 
pelo menos 10% do universo visível. Isso se compara a uma 
variação de velocidade de galáxias dentro de agrupamentos 
locais de geralmente menos de 100 kms.
Tão grande afastamento das galáxias com relação à ra­
diação de fundo é bem contrária à teoria do Big Bang. A 
expansão das galáxias teria que ser muito mais uniforme, 
com pequenas variações locais, mas, no geral, em repouso 
com relação ao CMBR.
24 M. S. Turner and A. Tyson, “Cosmology at the Millenium”, Reviews of 
ModemPhysics, 1999,71,pp. S145-164.
25 T. R. Lauer and M. Postman, “The Motion of the Local Group”, 
Astrophysical Journal, 1994,425,pp.418-438.
89
Deus e Cosmos
Como se explicaria um desvio tão grande, da ordem de 
600 kms? Tem sido conjeturado que essas galáxias são afeta­
das pela atração gravitacional de uma massa gigantesca. No 
entanto, este observado desvio com relação ao fluxo uniforme 
é tão grande que a dimensão deste perturbador teria que ser 
muito gigantesca. Nenhum objeto adequado tem sido identi­
ficado. Strauss26 conduziu simulações computacionais destes 
dados, e chegou à conclusão de que tais fenômenos são 
extremamente improváveis em qualquer dos modelos de 
Big Bang atualmente propostos.
A suposição de homogeneidade é ainda mais erodida 
pela descoberta de Geller e Huchra27 28 de que galáxias são agru­
padas em grandes estruturas tipo muralhas e lacunas, ou vazi­
os, alguns dos quais com diâmetro superior a meio milhão de 
anos-luz (ver Figura 3.3). O astrônomo J. Einasto, discutindo 
resultados de pesquisas mais recentes, comentou:
Aqui, usando uma nova compilação de dados disponíveis sobre 
agrupamentos de galáxias, nós presenciamos a evidência de uma 
malha tridimensional quase regular de ricos supergrupamentos ) 
e vazios de galáxias, com as regiões de alta densidade separadas 
por mais ou menos 120 megaparsecs (em tomo de 400 milhões de 
anos-luz). Se isto reflete a distribuição de toda a matéria (lumi­
nosa e escura), então deve existir algum processo até aqui desco­
nhecido que produza estrutura regular em larga escala.2*
Devemos observar que a radiação de fundo tem sido
26 M. Strauss et al., “Can Standard Cosmological Models Explain the 
Observed Abell Cluster Bulk 'FXo'N'i”, Astrophysical Journal, 1995,444, pp. 
507-519.
27 M. J. Geller and J. E Huchra, “Cosmic Cartographers Find “Great Wall”, 
Science News, 1989,136, p.340.
28 J. Einasto et al., “A 120-Mpc Periodicity in the Three Dimensional 
Distribution of Galaxy Superclusters” Nature, 1997,385,139.
90
Cosmologia Moderna
Figura 3.3: Distribuição das Galáxias Vizinhas
Nossa galáxia situa-se no centro da representação esquemática 
acima que cobre uma distância de 600 milhões de anos luz no 
espaço. Cada ponto representa uma galáxia. Notar os imensos 
espaços vazios.
(Extraido da obra de Michael Zeilik, Conceptual Astronomy, 
New York: John Wiley & Sons Inc., 1992.)
91
Deus e Cosmos
também predita por outras teorias. Partindo de estimativas da 
radiação emitida por estrelas, o astrônomo britânico A. S. 
Eddington29 calculou a temperatura do espaço interestelar como 
sendo de 2 a 3 graus Kelvin, devido ao calor causado pela luz 
das estrelas. Finlay-Freundlich, baseado em sua teoria de luz 
cansada para explicar o deslocamento para o vermelho, prevê 
que a temperatura do espaço intergaláctico deve ser algo entre 
1,9 e 6 graus Kelvin.30
Narlikar observa que inúmeros processos astrofísicos 
poderiam produzir energia na quantidade necessária: o cam­
po magnético galáctico, raios cósmicos, e luz das estrelas.31 
Como foi acima observado, Burbidge e Hoyle apontaram 
que se todo o hélio observado no universo tivesse sido pro­
duzido nas estrelas, então a luz das estrelas gerada neste 
processo teria a mesma densidade de energia da radiação de 
fundo de microondas. Narlikar e outros têm sugerido que a 
presença de grãos de grafite finos e delgados, ou bactérias 
microscó-picas, no espaço interestelar alteraria esta luz, de 
modo tal que seu espectro seria similar à radiação de fundo 
de microondas observada. Tais mecanismos foram usados 
para produzir versões mais atualizadas da cosmologia do esta­
do estacionário, e do modelo de Hoyle para o “universo de 
pequenos Big Bangs” eternos, no qual uma infinita sucessão 
de pequenos Big Bangs interagem com a matéria previamente 
existente para formar amontoados dos quais as estrelas e galá­
xias originariam.32
29 A. S. Eddington, The Internal Constitution of the Stars, Cambridge: The 
University Press, 1926, pp. 371,377.
30 E. Finlay-Freundlich, “Red Shifts in the Spectrum of Celestial Bodies”, 
Philosophy Magazine, 1954,45 pp.303-319.
31 J. V Narlikar, “Did the Universe Originate in a Big Bang?” in S. K. Biswas 
(ed.), Cosmic Perepecwe, Cambridge: The University Press, 1989.
32 F. Hoyle, The Intelligent Universe, New York: Holt Rinehart & Winston, 
1983.
92
Cosmologia Moderna
O modelo cosmológico de S. V M. Clube,33 envolvendo 
núcleos hipercompactos nas galáxias e um frio “vácuo 
material”, supostamente supre uma explicação natural para 
a radiação de fundo de microondas. Como já foi observado, 
as teorias de luz cansada explicam a radiação em termos da 
re-radiação da energia perdida pela luz. Por outro lado, Ellis 
explica a radiação de fundo em termos de gás quente no 
segundo centro do universo. Gentry apela para uma casca ou 
camada de gás hidrogênio quente envolvendo as galáxias do 
universo visível.34
Uma vantagem da explicação do Big Bang é que uma 
simples explicação é dada para o modo como a radiação de 
fundo é observada, variando com o comprimento de onda (ela 
se comporta como uma fonte de calor perfeitamente eficiente, 
denominada “corpo negro”). As outras explicações geral­
mente têm mais dificuldade em explicar esta característica, 
embora na cosmologia estática de Segal (ver p. 80) a forma 
de corpo negro da radiação de fundo emerge naturalmente 
como o estado de equilíbrio dos fótons dispersos.
Problemas Subsequentes com o Big Bang
Em 1980, a despeito de seu sucesso inicial, a cosmologia 
Big Bang já havia encontrado um grande número de 
problemas teóricos. Primeiramente havia o problema da 
formação das galáxias. A uniformidade da radiação de fundo 
implicou que, logo após o Big Bang, a energia estaria bem 
uniformemente distribuída. Mas, como então isso poderia
33 S. V. M. Clube, "The Material Vacuum”, Monthly Notices of the Royal 
Astronomical Society, 1980,193, p.385.
34 Ellis, “Is the Universe Expanding?”; Gentry, “A New Red Shift 
Interpretation.”
93
Deus e Cosmos
resultar nas galáxias e estruturas ainda maiores que hoje 
observamos?
Em seguida, veio o problema do “horizonte”. A radiação 
de fundo é uniforme em todas as direções, implicando que 
regiõesdo espaço agora aparentemente separadas por bilhões 
de anos-luz teriam as mesmas condições físicas. Contudo, 
essas regiões estariam tão separadas umas das outras, que a 
luz, ou qualquer outro tipo de informação, não teria tido 
tempo suficiente para viajar entre elas. Como então poderíam 
compartilhar as mesmas propriedades, tais como tempera­
tura e densidade de energia?
Outro quebra-cabeça foi o problema do “achatamento”. 
No presente, o universo parece ser aproximadamente acha­
tado, sua densidade sendo próxima dos limites entre um 
universo fechado e um universo aberto (ver Figura 3.4). Se a 
densidade fosse apenas um pouco maior do que o valor 
crítico, o universo já teria novamente implodido, desde há 
muito tempo. Por outro lado, se fosse um pouco menor, então 
a dispersão teria sido rápida demais para que as estrelas 
pudessem ter sido formadas. De acordo com Narlikar35, a 
densidade imediatamente após o Big Bang não poderia ter 
diferido do valor crítico por mais que 1 parte em 10 elevado 
à 55a potência (isto é,lseguido de 55 zeros). Como podería 
alguém explicar tão extraordinária coincidência?
1. Inflação
Para resolver esta e outras questões, o conceito de “infla­
ção” foi apresentado por Alan Guth. Este conceito surgiu 
da consideração de certas “principais teorias unificadas”, 
que sugeriam como princípio que, em temperaturas extre­
mamente elevadas, as forças nucleares e eletromagnéticas 
convergem para uma única força. Tais temperaturas teriam
35 Narlikar, “Did the Universe Originate in a Big Bang?”
94
Cosmologia Moderna
Figura 3.4: Tamanho do Universo versus Tempo
Em seguida ao Big Bang, um universo aberto se expan­
diria para sempre; já um universo fechado eventualmente 
entraria em contração que resultaria no Big Crunch ou 
grande implosão, que poderia ser seguida por nova expansão, 
resultando num universo oscilante. Em qualquer dos casos, o 
Big Bang pode ter sido precedido por uma contração prévia.
95
Deus e Cosmos
prevalecido na primeira fração de tempo de segundo (isto é, 
0300000000000000000000000000000000001 de segundo) 
após ocorrido o Big Bang. Naquele exato momento, certas 
regiões do universo entraram num peculiar estado de “falso 
vácuo”, no qual a força da gravidade se tornou repulsiva, ao 
invés de atrativa. Como resultado, essas regiões passaram por 
uma breve mas gigantesca expansão, ou “inflação”, com ve­
locidades de expansão muito maiores que a velocidade da 
luz. Uma tal região, que teve início como uma minúscula 
região, muito menor que um átomo, e que terminou do 
tamanho de uma grande laranja no instante seguinte, suposta­
mente tornou-se aquilo que é o nosso universo. Segundo 
este ponto de vista, nosso universo observável não passa de 
uma pequena bolha num cosmos de muito maior dimensão.
A inflação explicou a formação das galáxias. De acordo 
com a física quântica, qualquer campo energético experi­
menta constantes flutuações de intensidade ao nível sub­
atômico, como ondas na superfície de um lago. A inflação 
faria essas flutuações grandes o bastante para servirem de 
sementes para estrelas e galáxias.
A expansão muito rápida devida à inflação parecia 
ter também resolvido o problema do “horizonte”. Conforme 
inflação, a região de onde emergiu o universo observável 
era tão pequena que as trocas de energia já o teriam feito 
homogêneo.
Em adição, a inflação também resolveu o problema do 
“achatamento”. Assim como o soprar uma bola de praia a 
um tamanho mil vezes maior que seu tamanho normal faria 
com que sua superfície parecesse achatada do ponto de vista 
de um observador próximo a ela, assim também a inflação 
teria achatado nossa região do universo, dando lugar a uma 
densidade muito próxima do valor crítico.
Embora o conceito de inflação tenha sido logo incorpo­
rado como parte integrante da cosmologia do Big Bang,
96
Cosmologia Moderna
dúvidas a respeito de sua viabilidade36 têm aumentado. Uma 
dificuldade primária é que a inflação prediz que a densidade 
matéria-energia do universo está exatamente ao nível crítico, 
enquanto que observações indicam um valor muito abaixo do 
crítico. Outra falha é que não há um mecanismo inflacionário 
próprio, ou único; muitos diferentes cenários inflacionários 
têm sido sugeridos, produzidos para se encaixar ou adaptar a 
dados observacionais que variam. De fato, parece haver tantos 
parâmetros abertos que a inflação pode então explicar qual­
quer conjunto de observações que se apresente. Além disso, a 
inflação depende de uma variedade de entidades hipotéticas 
em física de partículas, como o hipotético campo de Higgs, 
ainda não observadas.
2. Formação de Galáxias
As flutuações iniciais de densidade decorrentes da infla­
ção, e a partir das quais as futuras galáxias teriam sido 
formadas, deveriam ter deixado suas marcas no CMBR 
(Cosmic Microwave Background Radiation - A Cósmica 
Radiação de Microondas). Em 23 de abril de 1992, um tanto 
de excitação foi gerada quando, depois de longas buscas, 
astrônomos americanos anunciaram que haviam detectado 
pequenas variações na CMBR. Isto foi imediatamente inter­
pretado como relíquias de estruturas inchadas ou amontoadas 
que teriam existido logo após o nascimento do universo. Tal 
descoberta foi saudada como decisiva confirmação da teoria 
do Big Bang de origem do universo. Como reportado no dia 
seguinte no International Herald Tribune, o famoso cosmologista 
de Cambridge, Stephen Hawking, exclamou: “Trata-se da
36 See Roger Penrose, “Difficulties With Inflation Cosmology”, Annals of 
the New York Academy of Science, 1989, 571, pp.249-264, e J. Earman and 
J. Mosterin, “A Critical Look at Inflationary Cosmology”, Philosophy of 
Science, 1999,66.
97
Deus e Cosmos
descoberta do século, talvez de todos os tempos”, e George 
Smoot, líder da equipe de pesquisa que fez a descoberta, 
comentou: “É como se estivéssemos olhando para Deus”.
Contudo, a despeito da euforia, dificuldades permane­
ceram. Por um lado, as flutuações observadas eram muito 
menores do que originalmente predito.37 Para que tão 
minúsculas sementes crescessem, até formarem galáxias e as 
gigantescas estruturas de galáxias recentemente descobertas, 
seria requerido muito mais tempo do que o permitido pela 
cosmologia do Big Bang.
Para resolver o problema da formação de galáxias, foi 
postulada a existência de enormes quantidades de matéria 
invisível, que não teriam deixado marcas no CMBR. Se tal 
matéria invisível fosse altamente amontoada e calcada, no uni­
verso primitivo, ela poderia ter constituído centros de forte 
atração gravitacional, sem perturbar a uniformidade do CMBR.
3. Massa Faltante
Havia evidência adicional para falta de massa. A densi­
dade atual do universo, dividida pela densidade crítica 
necessária para fechar o universo, é denominada “Ômega”. A 
massa observável do universo leva a um valor Ômega de apro­
ximadamente 0,01, um por cento da massa necessária para 
fechar o universo. Por outro lado, movimento orbital de alta 
velocidade em torno das galáxias, e dentro dos grupos de 
galáxias (clusters) implicam na existência de matéria “negra” 
ou invisível, correspondente a um valor Ômega de 0,3.38
Inicialmente pensou-se que a matéria negra faltante 
consistia de matéria ordinária na forma de pó, buracos negros,
37 Martin Rees, “Ripples from the Edge of Time”, Guardian Weekly, 3 May 
1992, p. 11.
38 Peter Coles, “The End of the Old Model Universe”, Nature, 1998,393 (25 
de Junho de 1998), p. 741.
98
Cosmologia Moderna
ou cometas escuros, planetas, estrelas e galáxias. Contudo, 
pela cosmologia Big Bang, cálculos de formação de elemen­
tos indicavam que matéria comum, consistindo de bárions 
(basicamente nêutrons e prótons) não pode exceder a 10% da 
densidade crítica. Quantidades maiores de bárion resultaria 
na formação de mais hélio do que o observado. Assim, maté­
ria ordinária leva a um valor Ômega inferior a 0,1. Decorre 
daí que o modelo Big Bang não consegue explicar as abun­
dâncias observadas para os elementos leves ou entãoa maior 
parte da matéria no universo consiste de matéria esotérica, 
isto é, não bariônica. A maioria dos cosmologistas tem optado 
por esta última hipótese.
Mas, que forma poderia a matéria faltante tomar? Um 
importante competidor não bariônico era o neutrino veloz 
(“hot, quente”). Embora tais partículas sejam reconhecidas 
como existentes, elas interagem muito fracamente com a 
matéria normal, fazendo com que a detecção delas seja muito 
difícil. No entanto, modelos neutrino-dominados têm seus 
próprios problemas. O principal deles é que o neutrino veloz 
teria tomado muito tempo para se estabilizar e constituir 
galáxias.39
Assim, os formuladores de teorias têm se concentrado em 
partículas de matéria não bariônica de tipo estranho, de 
movimento lento (“cold, frio”), e escuras (difíceis de obser­
var). Visto que partículas de matéria estável, fria e escura 
jamais foram detectadas, grande número de partículas hipoté­
ticas exotéricas têm sido inventadas. Essas incluem misturas 
exóticas tais como gravitons, fotinos, axions e WIMPS (Weakly 
Interactive Massive Particles). Se tais partículas realmente 
existem, e em proporções necessárias, isso ainda está para 
ocorrer.
39 John Horgan, “Universal Truths”, Scientific American, Oct. 1990, pp. 109- 
117.
99
Deus e Cosmos
Um estudo de agrupamentos de galáxias mostrou que 
matéria bariônica constitui uma fração maior da massa total 
do que é predito pela cosmologia inflacionária.40 Isso é má 
notícia para a cosmologia Big Bang. Outras notícias ruins vêm 
da pesquisa realizada por Ben Moore que mostrou serem os 
modelos de galáxias baseados em matéria-fria-negra funda­
mentalmente incompatíveis com as recentes observações de 
galáxias anãs.41
Tais dificuldades tornam-se ainda maiores quando se con­
sidera a predição da teoria inflacionária de que o valor Ômega 
deve ser exatamente igual a um; é preciso que haja exata­
mente a quantidade certa de matéria para que a atual expan­
são seja eventualmente interrompida. Tal predição exige 
que haja quantidade ainda maior de massa “faltante”.
4. Aceleração
Na medida que o universo se expande, a força gravitacional 
deveria agir como um freio, reduzindo a taxa de expansão. 
Considerando que a imagem ou luz que ora recebemos das 
galáxias distantes corresponde a uma época anterior, a taxa de 
expansão de então, teria que ser maior que a atual. No entan­
to, pesquisas recentes têm mostrado, que a desaceleração da 
expansão do universo é muito menor do que o esperado para
A
um valor Omega próximo de 1, e que a expansão pode até 
mesmo estar acelerando.42 Isso levou à introdução de uma nova 
“constante cosmológica”, denominada “Lambda” que corres­
ponde a uma força repulsiva, necessária para contrabalançar 
a gravidade anteriormente mencionada.
40 S. D. M. White et al., “The Baryon Content of Galaxy Clusters: A Challenge 
to Orthodox Cosmology” Nature 1993,366, p. 429.
41 B. Moore, “Evidence Against Dissipationless Dark Matter from 
Observations of Galaxy Haloes”, Nature, 1994,370, pp. 629-631.
42 Coles, “The End of the Old Model Universe”.
100
Cosmologia Moderna
Nos modelos mais recentes, Lambda age como uma espé­
cie de matéria com propriedades deveras estranhas. Ela 
corresponde a uma densidade de energia uniforme, que 
curva o espaço do mesmo modo que a matéria o faz. Todavia, 
ela também apresenta pressão negativa a qual, diferentemente 
da gravidade, tende a expandir o universo e causar a acelera­
ção cósmica. Essa densidade de energia não é causada por 
matéria ou radiação, e sim por uma propriedade misteriosa 
e hipotética do espaço “vazio”. Posto que Lambda atua como 
matéria, ela causa um acréscimo em Omega. Muitos 
cosmologistas preferem um modelo onde o Omega total é igual 
a 1, precisamente o valor crítico, sendo 0,3 a parcela de contri­
buição devida à matéria e radiação, e os restantes 0,7 devidos 
ao Lambda. Isso faz o espaço achatado, e satisfaz as predições 
de inflação. Infelizmente, a existência de um Lambda de di­
mensão requerida não é explicável em termos dos conceitos 
de física de partículas. Cálculos em física de partículas, da 
energia de vácuo produzida na medida em que o universo se 
esfria, predizem um valor de Lamba em torno de vezes maior 
do que a densidade observada da matéria.43 Nas palavras 
de Steven Weinberg, laureado Prêmio Nobel:
Este deve ser o maior erro de estimativa, em ordem de magni­
tude, em toda a historia da ciência.44
Muitos cosmologistas se preocupam sobre esta gigantesca 
discrepância. John Earman, observando que alguns físicos 
consideram a constante cosmológica como sendo o maior pro­
blema em toda a física, escreve:
Alguns autores, propondo solução para este problema, apelam
43 Coles, “The End of the Old Model Universe”.
44 S. Weinberg, Dreams of a Final Theory, New York: Pantheon, 1992.
101
Deus e Cosmos
para a hipótese de buracos no espaço-tempo. Outros postulam 
um mecanismo envolvendo uma fase de transição em 
supergravidade N=8. Outros preferem considerar o princípio 
antrópico. Ao nosso ver, esses movimentos são sintomas de deses­
pero. 45
Recentemente, num esforço para resolver o problema 
lambda e contornar os problemas criados pela inflação, John 
Barrow46, Albrecht e Magueijo47 postularam ser a velocidade 
da luz muito maior num passado distante. Barrow demonstra 
que isso resolve também os problemas de horizonte e de acha­
tamento do universo. Uma vantagem disso sobre a inflação é 
que ela não requer grandes quantidades de formas de matéria 
gravitacional-repulsiva, hipotéticas e estranhas.
5. Mais Quebra-Cabeças
Mais recentemente os astrônomos observaram um 
segundo tipo de radiação de fundo. Situada na região de 
infravermelho do espectro, essa radiação, segundo a cosmo­
logia Big Bang, deve datar de um período prévio e não visto 
do universo - entre a liberação do CMBR e a formação das 
mais primitivas galáxias conhecidas, que teria ocorrido apro­
ximadamente um bilhão de anos após. George Musser relata 
que essa radiação é 2,3 vezes mais brilhante do que a luz 
visível do universo.48 Ela implica que o universo é cheio de 
enormes quantidades de poeira. Sua fonte de origem ainda 
está por ser identificada, porém é presumida como sendo 
galáxias distantes. Segundo Musser, o inesperadamente
45 Earman and Mosterin, “A Critical Look at Inflationary Cosmology”.
46 J. D. Barrow, “Cosmologies with varying Light-Speed”, Physical Review D, 
1999,59,043515.
47 A. Albrecht and J. Magueijo, “A Time Varying Speed of Light as a Solution 
to Cosmological Problems”, Physical Review D, 1999,59,043516.
48 G. Musser, “Glow in the Dark”, Scientific American, March 1998,278, p.18.
102
Cosmologia Moderna
brilhante pano de fundo sugere que a formação de estrelas 
ocorreu mais rápido e gerou mais energia do que o previsto 
pelos atuais modelos cosmológicos.
Finalmente, há dificuldades no que se refere a objetos 
observados com alto deslocamento para o vermelho. Na 
cosmologia Big Bang, altos deslocamentos para o vermelho 
são considerados como indicando grandes distâncias e perío­
do de formação primitivo. O modelo matéria-fria-escura 
prediz que a maioria das galáxias levam pelo menos vários 
bilhões de anos para se formarem. Isso corresponde a um 
valor de deslocamento para o vermelho entre 4 e 5. Contudo, 
observações recentes de uma bem pequena nesga do céu com 
o telescópio espacial Hubble encontraram 14 galáxias com 
deslocamento para o vermelho entre 5 e 10, e outras cinco 
candidatas com deslocamento para o vermelho superior a 10.49 
Conforme um deslocamento para o vermelho (valor 10), 
galáxias são vistas quando o universo presumivelmente tinha 
apenas 9% de sua dimensão atual, e provavelmente apenas 
algumas centenas de milhões de anos de idade. Formações 
tão rápidas de galáxias e estrelas são difíceis de explicar 
dentro de modelos Big Bang.
Um problema correlacionado refere-se à aparência desses 
supostamente jovens objetos. Eles com freqüência mostram 
surpreendentemente pequenas evidências de “evolução”. Por 
exemplo,a NASA reporta que o telescópio espacial Hubble 
encontrou galáxias elípticas distantes com aparência marca­
damente similar às galáxias de hoje.50 Isso foi considerado 
como um paradoxo: galáxias adultas num universo infante. A 
mesma fonte encontrou também um agrupamento de galáxias
49 G. Schilling, “Galaxies Seen at the Universe's Dawn”, Science, 1999,283, 
p.21.
50 NASA “Hubble Uncovers New Clues to Galaxy Formation”, http:// 
opposite.stsci.edu/pubinfo/background-text/galxpdx.txt, 1994.
103
Deus e Cosmos
com alto valor de deslocamento para o vermelho e cita o astrô­
nomo Duccio Maccheto, da Agência Espacial Européia:
A simples presença deste cluster mostra que estas grandes 
estruturas já existiam há 2 bilhões de anos após o Big Bang. Isto 
é inesperado e contradiz muitas teorias de formação de cluster e 
galáxias.
Para maiores informações sobre dificuldades com a 
cosmologia Big Bang, eu remeto o leitor interessado aos 
artigos de autoria de Arp, Berlinski, La Violette, Lerner e 
Mitchel citados na bibliografia, bem como a outras referên­
cias adicionais ali encontradas.
Premissas Cosmológicas Básicas
A existência de uma ampla variedade de modelos 
cosmológicos indicam que não é uma questão simples cons­
truir um modelo cosmológico a partir de nossas observações 
do universo. Não apenas são as observações explicáveis por 
muitas diferentes vias, mas também são, elas próprias, de 
natureza limitada e incompleta. A criação de um modelo do 
universo físico como um todo, exige que façamos um número 
de suposições básicas freqüentemente difíceis de serem 
verificadas ou validadas.
Quais são os tipos de premissas ou suposições geralmente 
feitas em cosmologia? Elas podem ser de tipo tão amplo como 
aquelas que supõem a validade da física local a âmbito 
universal (incluindo, particularmente, a relatividade geral), 
a premissa de que ocupamos uma posição típica no universo, 
e a de que o universo pode ser representado por um continuum 
espaço-tempo quadrimensional.51 Suposições mais detalhadas
51 Estas premissas são discutidas, por exemplo, porWilliamStoeger, >>>
104
Cosmologia Moderna
podem ser também adicionadas, tais como a interpretação do 
deslocamento para o vermelho das galáxias relacionado com 
movimento ou com a existência de certas singularidades de 
um Big Bang que passou.
No entanto, há duas suposições tão fundamentais à 
maioria dos modelos cosmológicos que, neste ponto, uma 
discussão mais detalhada a seu respeito é justificável.
1. Indução
Consideremos primeiro as várias suposições concernentes 
à uniformidade. É geralmente presumido que o princípio de 
indução é válido, que as leis da física observáveis aqui e agora 
são umversalmente aplicáveis. Mais ainda, é comumente 
aceito como verdadeiro que explicações sobre estruturas 
devem ser dadas em termos dessas leis da física.
Enquanto tais princípios de uniformidade possam 
parecer suficientemente razoáveis, eles não são isentos de 
problemas. A justificação da indução, na filosofia da ciência, 
é um dos problemas ainda a ser resolvido. Como o filósofo 
britânico David Hume indicou em 1739, não há nenhuma forte 
razão para acreditar nele (no princípio de indução). A indução 
não pode ser justificada por observação, desde que o universo 
não observado é, por definição, não observado. A indução não 
pode também ser justificada pela lógica, desde que não há 
razão lógica porque o universo deveria se comportar unifor­
memente. Assim, o universo além de nossa experiência pode 
ser bem diferente daquilo que podemos esperar.
A indução pode ser a mais simples e mais conveniente 
extrapolação. Isso, porém, não garante sua veracidade. Afinal, 
como podemos ter certeza de que teorias simples (ou bonitas,
< < < “Contemporary Cosmology and Implications for the Science-Religion 
Dialogue”, em J. R. Russel, (ed.),Physics, Philosophy, and Theology: A Common 
Quest for Understanding, Vatican City: Vatican Observatory Press, 1988.
105
Deus e Cosmos
ou úteis, etc.) são mais prováveis de serem verdadeiras? Ainda 
estamos frente a frente com a difícil questão de identificar e 
justificar um critério válido para seleção de teorias.
Embora a indução constitua problema também para 
outras ciências, a situação é pior em cosmologia, a qual empe- 
nha-se para descrever e explicar a inteira história do universo 
físico. A maioria das outras ciências são muito mais proxima­
mente ligadas a observações e experimentações. Indo além, 
em cosmologia é preciso assumir não meramente que as leis 
da física localmente observadas se aplicam a todos os lugares e 
sempre, mas também que tais leis permanecem válidas sob 
circunstâncias extremas, tais como temperaturas tremenda­
mente elevadas, e pressões próximas da singularidade do Big 
Bang.
Como já vimos, algumas cosmologias abrandam as 
premissas da indução em certo grau, postulando mudanças de 
constantes físicas, tais como a constante gravitacional ou a 
velocidade da luz. Entretanto, até mesmo aqui é geralmente 
suposto que a relação de dependência no tempo para tais 
constantes é governada por alguma lei superior, tida como 
universalmente aplicável.
Como alternativa mais radical para a indução, muitos 
astrônomos têm mencionado a possibilidade de que o uni­
verso pode ter sido criado instantaneamente num passado 
recente. Esta noção será discutida mais detalhadamente em 
capítulo posterior.
2. O Princípio Cosmológico
Uma segunda suposição comumente feita refere-se a uma 
característica observacional. O universo ao nosso redor parece 
notavelmente “isotrópico”, isto é, ele parece aproximadamente 
o mesmo em todas as direções. Uma explicação óbvia é que 
nós nos encontramos próximo ao centro de um universo 
esféricamente simétrico. Mas tal explicação não agrada os
106
Cosmologia Moderna
cosmologistas modernos. Como Ellis observa:
Em tempos idos, a suposição de que a Tetra era o centro do 
universo, era um conceito tido como certo. Como sabemos, o 
pêndulo oscilou e agora está no extremo oposto; tal conceito 
agora é considerado anátema por todos os homens pensantes... 
Isto é devido à revolução Copérnico-Darwiniana em nosso 
entendimento da natureza humana e nossa posição no universo.
O homem foi destronado da posição exaltada da qual ele uma 
vez fora considerado detentor}2
Considerando as observações cosmológicas atuais, seria 
coerente a suposição de que estamos no centro do universo, e 
que, por exemplo, as galáxias foram distribuídas esférica e 
simetricamente ao nosso redor em camadas de densidade 
crescente na medida em que aumentam suas distâncias em 
relação a nós. Embora modelos matemáticos de tais cosmo­
logias geocêntricas tenham sido ocasionalmente investigados, 
eles não foram levados a sério; de fato, a mais surpreendente 
característica da cosmologia predominante é como essa óbvia 
possibilidade tem sido completamente desacreditada.
Em lugar disso, para explicar a isotropia observada, 
a dota-se o Princípio Cosmológico, postulando que ocupamos no 
universo uma posição típica, ao invés de uma posição espe­
cial. Isso pressupõe que todos os observadores hipotéticos, 
em qualquer lugar do universo, num dado tempo cósmico, 
observariam basicamente as mesmas propriedades caracte­
rísticas do universo. Isso implica que o universo não pode ter 
fronteiras uma vez que um observador próximo à fronteira 
não poderia observar uma distribuição isotrópica das galá­
xias. Decorre daí que o universo é um espaço infinito, ou 
esféricamente curvado.
52 G. E R. Ellis, “Cosmology and Verifiability”, Quarterly Journal of the Royal 
Astronomical Society, 1975,16, pp.250.
107
Deus e Cosmos
Como só podemos observar o universo a partir de uma 
posição - a nossa - não pode haver evidência direta do prin­
cípio cosmológico. Contudo, há um teste indireto. Se o 
princípio cosmológico for sustentável, então o universo 
deverá ser homogêneo através do espaço, devendo, a distri­
buição da matéria, ser basicamente a mesma em todo o 
universo.
Observações, não obstante, indicam que asgaláxias 
distantes não são uniformemente distribuídas no espaço. É 
verdade que isso pode ser esperado, até um certo grau, pois 
que as galáxias mais distantes presumivelmente representam 
uma época mais remota, quando o universo era mais denso e 
as galáxias mais próximas umas das outras. Todavia, mesmo 
fazendo correções para compensar este efeito, a densidade 
das galáxias parece ser função de suas distâncias a nós. A 
primeira vista isso parece refutar o princípio cosmológico. 
Contudo, ele tem sido poupado ou isentado de falsificações 
através de postular que as galáxias evoluem no tempo. 
Conjectura-se que no passado as galáxias não eram mera­
mente mais próximas umas das outras, mas eram também 
mais numerosas do que hoje. A presumida taxa de evolução é 
ajustada de modo a fazer o universo homogêneo. De novo, 
citando Ellis:
A suposição de homogeneidade espacial tem sido inevitavel­
mente feita, e tem levado à conclusão de que a multiplicidade de 
fontes de rádio (galáxias observadas via radiotelescopios) evo­
lui com rapidez extrema. O que acontece, portanto, é que uma 
não provada suposição cosmológica tem sido completamente aceita 
e tem sido usada para obter informações sobre processos 
astrofísicos; informações essas bem pouco esperadas.53
53 G. E R. Ellis, “Cosmology and Verifiability”, Quarterly Journal of the Royal 
Astronomical Society, 1975,16, pp.250.
108
Cosmologia Moderna
Em resumo, o princípio cosmológico é uma crença 
metafísica que tem sido isentada de falsificação, pela intro­
dução de teorias auxiliares aã hoc, tais como a teoria que alega 
a rápida evolução das galáxias.
O princípio cosmológico tem contudo a vantagem de 
fornecer um modelo relativamente simples do ponto de vista 
matemático. Mas, teorias simples não são necessariamente mais 
acuradas do que outras mais complexas. É possível construir 
outros modelos basedos em diferentes suposições. Por exem­
plo, como já observamos, a cosmologia de estado estacionário 
é baseada no princípio cosmológico perfeito, isto é, a suposi­
ção de que o universo é o mesmo não apenas no espaço, mas 
também no tempo. Ou ainda, alguém poderia desconsiderar com­
pletamente o princípio cosmológico e construir um modelo 
que nos colocasse próximo ao centro de um universo simetri­
camente esférico. Várias cosmologias deste tipo têm sido 
construídas. Na verdade, observações recentes indicam que o 
universo é aberto, pondo de lado o conceito de universo fecha­
do, finito e sem fronteiras. O princípio cosmológico implica 
em que um universo aberto é infinito. Como a cosmologia 
inflacionária, por outro lado, afirma um universo finito, 
recentemente um número de modelos Big Bang inflacioná­
rios abandonaram o princípio cosmológico. O cosmologista 
Andrei Linde, por exemplo, no seu modelo de universo 
eterno, auto-reprodutivo, calcula que o universo será não 
homogêneo, com cada observador localizado próximo ao 
centro de um buraco esférico na distribuição de densidade. Os 
observadores estão tão distantes um do outro que cada um 
considera a si mesmo como estando no centro do universo.54
Finalmente, deve ser lembrado que o princípio cosmo­
lógico é baseado na suposta homogeneidade do universo.
54 A. Linde etal., “Do We Live in the Centre of the World?”, Physics Letters 
B, 1995,345, pp. 203-210.
109
Deus e Cosmos
Observações recentes de grandes conjuntos de galáxias e de 
movimentos tipo grande-escala das galáxias (discutido anteri­
ormente neste capítulo) sugerem que o universo pode não ser 
tão homogêneo como geralmente suposto.
O Problema da Verificação
Como já observamos, algumas das mais básicas suposi­
ções em cosmologia são de natureza essencialmente não 
verificável. A verificação pode ser um problema também para 
aspectos mais específicos dos modelos cosmológicos.
Oldershaw distingue entre dois tipos de intestabilidade:
1. Intestabilidade da Primeira Espécie:
uma teoria inerentemente intestável, isto é, aquela que não pode 
gerar predições definidas e testáveis, ou suas predições são 
impossíveis de serem testadas.
2. Intestabilidade da Segunda Espécie:
uma teoria efetwamente intestável, isto é, aquela que apresenta 
vários parâmetros ajustáveis ou é em geral modificável de 
maneira ad hoc.
Muitas das características básicas da cosmologia Big 
Bang, o modelo favorito na atualidade, são inerentemente 
intestáveis. Os eventos mais críticos supostamente ocorreram 
dentro do lapso de tempo de aproximadamente segundos após 
ocorrer a explosão do Big Bang. Contudo, de acordo com 
Oldershaw,55 em princípio não podemos obter informação 
direta sobre o estado do universo anterior ao momento de 
desacoplamento de radiação e matéria, a segundos após o Big 
Bang. Os mais recentes modelos Big Bang inflacionários são
55 R. L. Oldershaw, “The New Physics - Physical or Matematical Science?”, 
American Journal of Physics, 1988,56,pp.1075-1081.
no
Cosmologia Moderna
altamente dependentes da física de partículas, o que im­
plica num envolvimento ainda maior com entidades teóricas 
não verificáveis. Muitas teorias da nova física requerem 
dimensões extras: de 5 a 26 dimensões é típico, sendo 950 
dimensões o último recorde. Não há, todavia, um meio conhe­
cido de se testar empiricamente a existência dessas dimensões 
extras. Uma dificuldade adicional é que as condições do 
universo primitivo (temperaturas e pressões altíssimas) são 
tais que não podem ser reproduzidas em nenhuma outra situ­
ação. Assim, a física de partículas sendo usada, não pode ser 
testada independentemente.
Burbidge comenta: “Mas como não há meio de se testar, 
através da observação direta, as hipóteses inflacionárias, a 
inflação sempre me pareceu uma idéia com base apenas 
metafísica”.56
Há também inúmeros casos envolvendo intestabilidade 
da segunda espécie. A física de partículas tem sido aplicada 
como meio para superar várias limitações observacionais da 
cosmologia Big Bang. Contudo, a maioria dos cenários pro­
postos é decididamente ad hoc. O modelo padrão da física de 
partículas possui mais de vinte parâmetros (tais como massas 
de partículas e intensidades de acoplamento de forças) que 
não podem ser derivadas de modo único, e por isso são livre­
mente ajustáveis. Existe, atualmente, pelo menos meia dúzia 
de teorias “super-cadeias”. Muitos dos problemas da física 
de partículas são “resolvidos” ad hoc, inventando novos con­
ceitos, tais como o “mecanismo Higgs”, renormalização, e 
“cor”.57
O cosmologista J. E. Peebles observou ironicamente:
56 G. Burbidge, “Modern Cosmology: The Harmonious and the Discordant 
Facts”, in B. R. Iyer (ed.) Highlights in Gravitation and Cosmology, Cambridge: 
The University Press, 1988.
57 Ver Oldershaw, “The New Physics.”
Ill
Deus e Cosmos
A grande novidade até agora é que a física de partículas parece 
capaz de suprir condições iniciais para a cosmologia de modo a 
atender aquilo que os astrônomos geralmente acham que dese­
jam, sem forçar indevidamente a teoria dos físicos de partículas. 
Na verdade, eu às vezes tenho o sentimento de estar participando 
de uma sátira, ou espetáculo humorístico: “Você deseja uma pre­
ga na cintura? Nós fazemos a prega para você. Você deseja uma 
partícula maciça e de baixa interação? Nós temos uma prateleira 
cheia...” Isso representa um tanto de atividade a ser alimentada 
pelo mingau ralo de teoria e resultados observacionais negativos, 
sem predições e verificações experimentais do tipo que, de acordo 
com as usuais regras da física, nos levaria a pensar que estamos 
no caminho certo. 58
Também em cosmologia própria, propostas ad hoc são 
abundantes. Por exemplo, pelo menos três compreensíveis 
teorias têm sido construídas para explicar a recente descoberta 
de estruturas de larga escala no universo: cadeias cósmicas 
supercondutoras, formação polarizada de galáxias num uni­
verso WIMP-dominado, e “dupla” inflação. Similarmente, 
várias propostas engenhosas dão a entender que podem expli­
car as vastas quantidades de “massa faltante” no universo.
Sumário
Comoresultado de nossa pesquisa sobre cosmologia mo­
derna, podemos obter um número de importantes conclusões:
1. Deficiências na Cosmologia Big Bang
Primeiramente, a cosmologia Big Bang, mesmo sendo 
distintamente a cosmologia mais popular da atualidade, e mes-
58 E J. E. Peebles, Book Review: Inner Space / Outer Space - The Interface 
between Cosmology and Particle Physics, by E. W. Kolb, Science, 1987, 235, 
p. 372.
112
Cosmologia Moderna
mo sendo muitas vezes apresentada como indubitavelmente 
verdadeira, é cercada por um número de sérias dificuldades 
observacionais e teóricas.
No lado observacional, relembramos tais quebra-cabeças 
observacionais como anômalos deslocamentos para o verme­
lho, a divergência com a lei linear de Hubble, as dificuldades 
de explicar as abundâncias elementares, as grandes estruturas 
de galáxias e outras inomogeneidades, o grande afastamento 
de galáxias com relação ao CMBR, a aceleração aparente das 
galáxias, e galáxias maduras com alto deslocamento para o 
vermelho.
No lado teórico, relembramos a falta de conservação de 
energia, o problema do mecanismo hipotético da inflação, a 
alegada existência de grandes quantidades de matéria estra­
nha e invisível, o problema da constante cosmológica, o 
Lambda, o problema da formação de galáxias e grandes 
estruturas de galáxias, e assim por diante. Várias propostas 
de explicações teóricas são inerentemente inverificáveis.
No presente, não está claro como tudo isto pode ser 
satisfatoriamente resolvido. E mais, ainda não abordamos 
adicionais problemas fundamentais associados com a ale­
gada singularidade Big Bang, assunto a ser discutido no 
próximo capítulo. Em poucas palavras, tanto empírica 
quanto teoricamente, a cosmologia Big Bang carece de coesão 
e plausibilidade.
Isso não significa que a cosmologia Big Bang não pode 
ser resguardada. Em princípio, é sempre possível salvar um 
modelo cosmológico favorito. E sempre possível vislumbrar 
modificações ad hoc ao modelo teórico de modo a conformá-lo 
aos dados observacionais. Assim, por exemplo, a cosmologia 
Big Bang foi poupada, ou isentada de falsificação pela inven­
ção da inflação, que envolveu vários cenários planejados 
baseados num altamente hipotético “campo Higgs”. Predições 
de inflação para um Ômega de valor 1 foram resguardados
113
Deus e Cosmos
pela invenção de gigantescas quantidades de “massa faltante”. 
Quando ficou demonstrado que tal massa faltante não podia 
ser matéria ordinária, uma grande quantidade de partículas 
exotéricas foram inventadas, das quais nenhuma sequer foi 
realmente observada, e assim por diante.
É prudente não nos esquecermos dos epiciclos de 
Ptolomeu, e subseqüentes tentativas em cosmologia medieval 
para explicar melhor as observações, postulando epiciclos 
sobre epiciclos. Dado o número de parâmetros livres em 
física de partículas, e a imaginação fértil dos cosmologistas, 
pode muito bem acontecer que o futuro nos dê um novo 
modelo do Big Bang que supere todas as dificuldades da 
atualidade. Na prática, além de tudo, um modelo cosmológico 
favorito não é descartado, mesmo que correntemente falsifi­
cado por dados, enquanto não é encontrada uma alternativa 
mais aceitável.
2. A Possibilidade de Cosmologias Alternativas
Isto nos leva à segunda conclusão, a possibilidade de 
cosmologias alternativas. Como já vimos, todos os aspectos 
observacionais têm múltiplas interpretações teóricas. Isto tem 
levado a um número de cosmologias alternativas. Muitas 
dessas têm sido mencionadas em nossa prévia explanação 
sobre o deslocamento para o vermelho e a radiação de fundo. 
Muito mais pode ser visto no livro Progress in New Cosmologies 
(O Progresso de Novas Cosmologias) dos autores Arp, Keys 
e Rudnicki, que consta da Bibliografia, bem como outras 
referências ali citadas.
Nossas discussões enfatizaram algumas limitações da 
cosmologia Big Bang apenas por se tratar da cosmologia de 
preferência da maioria. É necessário enfatizar que todas as 
outras cosmologias também têm sérios problemas a superar. 
Por exemplo, a maioria das interpretações alternativas do 
deslocamento para o vermelho são altamente especulativas. E
114
Cosmologia Moderna
a maioria das explicações alternativas para as abundâncias 
elementares observadas e a radiação de fundo parecem en­
volver pelo menos tanto remendo, camuflagem e pedidos 
especiais quanto o faz a cosmologia Big Bang.
No entanto, essas cosmologias não podem simplesmente 
ser rejeitadas como falsas. Aqui, também, não se pode descar­
tar a possibilidade de melhoramentos futuros. De fato, é 
válido considerar que, se as cosmologias alternativas rece­
bessem tanta engenhosidade e financiamento de pesquisas 
como tem sido o caso da cosmologia Big Bang, elas também 
poderiam, do mesmo modo, ser adequadamente modificadas 
para “redimir o fenômeno” (ou salvar as aparências).
Atualmente, não há modelo cosmológico que ofereça uma 
explicação simples, em termos de leis físicas bem estabelecidas, 
de todos os dados observacionais. Com o recente advento do 
Telescópio Espacial Hubble, e outros avanços notáveis na 
área de instrumentação eletrônica e computação, encontramo- 
-nos na fronteira de uma nova era em astronomia. É esperado 
que a próxima década traga uma proliferação de dados novos 
e mais confiáveis a respeito de partes distantes do universo. 
Não há dúvida de que observações futuras devem resolver 
alguns dos problemas atuais, ao mesmo tempo em que trarão 
outros problemas, levando assim ao desenvolvimento de 
novos modelos cosmológicos que diferirão significativamente 
do modelo Big Bang. É, pois, prudente não equiparar qual­
quer modelo cosmológico com a história real do cosmos.
Não obstante, a intrínseca, inevitável e epistêmica lacuna 
que há entre as observações atuais e os hipotéticos modelos 
cosmológicos para explicá-las, assegura-nos que continuará 
havendo uma variedade de modelos cosmológicos.
3. A Necessidade de Pressuposições
Como então haveremos de escolher entre cosmologias 
competitivas? Nossa terceira conclusão é que todo e qualquer
115
Deus e Cosmos
modelo cosmológico necessariamente repousa sobre várias 
suposições, as quais são essencialmente inverificáveis. A 
justificação dessas pressuposições básicas deve vir portanto de 
subjetivas considerações extracientíficas. Como notamos no 
primeiro capítulo, a teorização científica é guiada largamente 
por nossas prévias crenças filosóficas e religiosas. Particular­
mente em cosmologia, onde tentamos explicar literalmente 
tudo, construímos modelos teóricos que sejam consistentes 
com nossas convicções mais básicas.
Torna-se, portanto, de crucial importância que esteja­
mos conscientes das implícitas pressuposições filosóficas 
envolvidas na construção, avaliação e seleção de tais modelos 
cosmológicos.
116
4
Cosmologia e Existência de Deus
Qual seria a implicação da existência do cosmos quanto a 
existência de Deus? Se a cosmologia Big Bang fosse verdadei­
ra, será que isso constituiria uma prova da existência de Deus? 
Várias implicações teológicas têm sido desenvolvidas a partir 
da cosmologia moderna. Entre tais implicações há um núme­
ro de provas para a existência de Deus.
Provas racionais para a existência de Deus remontam pelo 
menos à época de Platão. Essas provas podem ser agrupadas 
em quatro tipos básicos: o argumento ontológico (do grego 
onthos - ser) é baseado na noção de que o próprio conceito de 
um Ser absolutamente perfeito exige que tal Ser exista. O 
argumento moral, afirma que a existência de uma lei moral 
implica na existência de um doador dessa lei moral. O argumen­
to cosmológico (do grego cosmos -mundo) postula que deve haver 
uma causa anterior para explicar a existência do universo. O 
argumento teleológico (do grego telos - desígnio, concepção, 
propósito) defende que o aparente desígnio, ou propósito, na 
natureza aponta para um designador inteligente.
Virtualmente todos os principais filósofos discutiram pelo 
menos algumas dessas provas. Meu principal objetivonão é 
fazer um exame detalhado das sutilezas filosóficas envolvidas, 
e sim focalizar o papel desempenhado pelos fatores cosmo­
lógicos. Assim sendo, considerarei aspectos pertinentes a 
apenas os dois últimos tipos de provas: o argumento cosmo­
lógico, baseado na evidência que aponta para um começo do 
universo, e o argumento teleológico, baseado na evidência que
117
Deus e Cosmos
aponta para a existência de desígnio, ou propósito, dentro do 
universo.
Minha intenção a seguir não é solapar uma crença racio­
nal em Deus, porém advertir contra excessiva confiança, por 
um lado no raciocínio humano, e por outro, na cosmologia 
Big Bang, como base para a apologética cristã. Como espero 
demonstrar, tal confiança pode levar-nos a uma perigosa 
exposição à contra-argumentação concebida para refutar o 
teísmo cristão.
O Argumento Cosmológico
O argumento cosmológico é provavelmente a mais popu­
lar das provas. Ao longo dos anos, muitas diferentes versões 
do mesmo têm sido apresentadas. Geisler e Corduan afirmam 
que apenas o argumento cosmológico oferece esperança de uma 
prova teística; a maior parte da filosofia da religião que eles 
defendem se apoia nesta pressuposta validade.1
Nosso foco estará sobre o argumento cosmológico Kalam 
o qual propõe demonstrar que o universo foi criado num tem­
po finito do passado por um Criador pessoal. O argumento é 
baseado sobre a suposta impossibilidade da infinitude dos 
eventos passados. Muitos dos argumentos contra uma real 
infinitude remontam a Aristóteles, embora o filósofo cristão 
João Philoponus parece ter sido o primeiro a aplicá-los, em 
529 d.C. à uma demonstração da idade finita do universo.1 2 A 
prova para a criação apresentada por Philoponus foi adotada e 
posteriormente desenvolvida, entre os séculos 9 e 10, por filó­
sofos islâmicos da escola Kalam. Daí se tornar conhecido como
1 Norman L. Geisler e Winfried Corduan, Philosophy of Religion, Grand 
Rapids: 2a edição, 1988, p.150.
2 Richard Sorabji, Time, Creation and the Continuum, Ithaca: Cornell 
University Press, 1983,p.l98.
118
Cosmologia e Existência de Deus
o Argumento Cosmológico Kalam.3
Recentemente, o argumento tem sido defendido por vári­
os apologistas cristãos, incluindo William Craig4 e J. P. 
Moreland5. O raciocínio, em resumo, é o seguinte:
(1) O Universo teve um começo.
(2) O começo do universo foi causado.
(3) A causa foi pessoal.
Em resumo, o passado finito do universo implica na sua cria­
ção ex nihilo por um Criador pessoal.
Nossa maior preocupação aqui é com o argumento (1). 
Seria possível provar, sem apelar para a Bíblia, que o universo 
teve um começo? Bom número de argumentos filosóficos e 
científicos tem sido desenvolvido. Vamos examinar os pontos 
fortes e implicações de vários argumentos contrários a um pas­
sado infinito.
Os Argumentos Filosóficos
A suposta impossibilidade de um infinito real é central 
não apenas ao Argumento Cosmológico Kalam, mas também 
ao argumento cosmológico defendido por Geisler e Corduan 
em seu livro Filosofia da Religião, o qual toma uma forma de 
certo modo diferente. Primeiramente examinaremos a ques­
tão sobre se são realmente válidos os argumentos contra o 
infinito real. Depois, considerando que sejam válidos, exami­
naremos várias implicações teológicas.
3 Ver H. A. Davidson, Proofs for Eternity, Creation, and the Existence of God in 
Medieval Islamic and Jewish Philosophy, Oxford: The University Press, 1987, 
p. 117-153.
4 The Kalam Cosmological Argument, London: MacMillan, 1979, and 
“Philosophical and Scientific Pointers to Creation ex Nihilo” Journal of 
the American Scientifi Affiliation, 1980,32, pp. 5-13.
5 The Creation Hypothesis, Downers Grove: Inter Varsity, 1994, pp. 18-23.
119
Deus e Cosmos
1. Seria Impossível o Infinito Real?
A mais comum objeção ao conceito de passado-sem- 
-começo é que, para chegar ao tempo presente, um número 
infinito de anos precisaria ser percorrido. Isso é considerado 
como sendo impossível, pois se começarmos a contar 1,2,3..., 
etc., jamais poderemos atingir o infinito. A série de números 
contados aumentaria para sempre, mas seria sempre finita. 
Desse modo, jamais chegaríamos ao hoje6.
Esse argumento assume a existência de um ano no pas­
sado que é separado do tempo presente por uma infinidade 
de anos. Todavia esse não é o caso para o passado-sem-começo. 
Se enumerássemos os anos passados retroativamente, come­
çando pelo presente, assim, 0, -1, -2...., então o conjunto de 
anos passados corresponderia ao conjunto dos números 
negativos. O conjunto como um todo é certamente infinito, 
mas nunca há dois números negativos específicos que sejam 
infinitamente separados um do outro. Infinitude é uma 
propriedade do conjunto como um todo, não de qualquer 
elemento particular do conjunto.
Além disso, se for verdade que o universo deve ter tido 
um começo a um número finito de anos atrás, que ano seria 
esse? Para qualquer ano finito que alguém possa nomear, sem­
pre pode ser adicionado uma unidade a ele. Assim como não 
há limite para os números negativos, de igual modo, não 
precisa haver limite para o número de anos passados. Craig 
desenvolveu uma variedade de argumentos adicionais contrá­
rios ao infinito real.7 Esses argumentos podem ser agrupados 
em três categorias:
(1) E impossível acrescentar a uma coleção real infinita.
(2) O fato de que todas as coleções infinitas são de igual 
tamanho leva a contradições.
6 Ver, por exemplo, Moreland, The Creation Hypothesis, p.19.
7 “Philosophical and Scientific Pointers”,
120
Cosmologia e Existência de Deus
(3) Uma coleção formada pela adição de um número após 
o outro não pode ser realmente infinita.
Esses argumentos foram cuidadosamente examinados 
por Quentin Smith8, quem os achou falaciosos e concluiu que 
não há objeção filosófica à idéia de passado infinito (embora 
ele creia que haja válidas objeções científicas ao conceito). 
Não apresentarei aqui a análise de Smith, a qual me parece 
correta, porém apenas farei observações quanto a alguns 
pontos principais.
Creio que a confusão surge primariamente do fato de 
que Craig muitas vezes aborda conjuntos infinitos mediante 
critérios que somente se aplicam a conjunto finitos. Conjun­
tos infinitos certamente têm propriedades estranhas. Um dado 
conjunto continua tendo o mesmo tamanho, não importa se 
adicionemos a ele um elemento, ou o dobremos, ou o eleve­
mos ao quadrado. Como estamos acostumados a lidar 
apenas com conjuntos finitos, tais propriedades de conjuntos 
infinitos parecem quase inacreditáveis. Contudo, como foi 
demonstrado por Georg Cantor (1845 -1918), e confirmado por 
modernos matemáticos, a matemática transfmita é logicamente 
consistente. Embora um número de paradoxos possa surgir 
do uso de conjuntos infinitos, tais paradoxos geralmente 
resultam de problemas de auto-referencial.
Craig observa que ele está argumentando apenas contra o 
conceito de infinito real no mundo real e de modo algum 
deseja minar o conceito de infinito definido na matemática 
transfinita Cantoriana. Ali, no entanto, infinito real é apenas 
uma idéia:
O que eu argumento é que, embora o conceito de infinito real 
possa ser frutífero e consistente no campo da matemática, ele não 
pode ser transportado do mundo matemático para o mundo real,
8 “Infinity and thePast”, Philosophy of Science, 1987,54,pp. 63-75.
121
Deus e Cosmos
pois isso resultaria em absurdos contra-intuitivos.9
Ele dá várias ilustrações, sendo uma delas a de uma livra­
ria consistindo de um número infinito de livros. Uma tal 
livraria teria propriedades bem estranhas. Por exemplo, se 
eliminarmos metade dos livros, digamos os de número impar, 
continuaremos ainda a ter tantos livros (infinito) como quan­
do começamos. Entretanto, se emprestarmos os livros que 
ficaram, isto é, os de número par, então não nos restará mais 
nenhum livro na livraria, embora tenhamos retirado o mesmo 
número de livros que antes. Indo mais adiante, afirma Craig, 
se adicionarmos um livro a uma livraria infinitapodemos ver 
que a coleção foi acrescida de um. Não temos o mesmo nú­
mero de livros que antes, como seria o caso de um conjunto 
infinito. Ele conclui que tais exemplos servem para ilustrar 
que o infinito real não pode existir num mundo real.
Será que esse argumento realmente demonstra a impossi­
bilidade de um infinito real num mundo real? Acho que não. 
As operações matemáticas ilustradas acima podem também 
ser feitas, digamos, com os números positivos. Remova os 
ímpares e você ainda terá um conjunto infinito; remova agora 
também os pares, e restará nada. Ou então, tome os números 
pares, que formam um conjunto infinito, e adicione a este 
tantos elementos ímpares quanto queira, e continuaremos 
tendo um conjunto infinito. Se tais operações são permis- 
síveis com números, porque não com livros? Alguém poderia 
contra-argumentar que um caso é puramente uma abstração 
intelectual, enquanto que o outro é uma coleção de itens 
concretos. Contudo, em essência, isso não deve afetar as 
operações matemáticas envolvidas. Dado que se pode estabe­
lecer uma correspondência biunívoca entre o conjunto de 
números inteiros e os livros de uma livraria (ou eventos no
9 Craig, TheKalam Cosmological Argument, p.69.
122
Cosmologia e Existência de Deus
tempo), segue que, de igual modo, uma infinidade real de 
livros (ou eventos) não necessariamente envolve impedimen­
tos lógicos, independente de quão contra-intuitivo possa ser o 
conceito de uma tal livraria infinita.
Teria para nós algum significado o contemplar a ocorrên­
cia de um infinito real no mundo real de nossas experiências? 
Afinal, dentro das limitações de nossas experiências finitas, 
memórias e pensamentos, não podemos distinguir entre o in­
finito e o meramente muito grande. Ainda que pudéssemos 
eliminar metade dos livros numa livraria infinita, o restante 
seria maior que nossa habilidade de contar, e portanto, em todo 
sentido, seria o mesmo do que quando começamos. Visto que 
todas as nossas experiências humanas são finitas, o infinito real 
é necessariamente contra-intuitivo. Mas isso não implica que 
seja impossível.
Considerando que Craig não demonstrou porque a mate­
mática dos conjuntos de objetos concretos difere da matemá­
tica dos conjuntos abstratos, é incoerente da parte dele, banir 
o infinito real de uma, mas não o banir da outra.
2. Deus e o Futuro
Suponhamos, para finalidade de argumentação, que a 
prova contra o infinito real fosse válida. Tal banimento do 
conceito de infinito real teria incómodas conseqüências teo­
lógicas. Consideremos, por exemplo, a questão de eventos 
futuros. A Bíblia, em sua descrição da vida futura, descreve-a 
como uma existência temporária, com o rio puro da água da 
vida, os frutos maduros de mês em mês, onde os santos rei­
narão para sempre (Apocalipse 22:1-5): aparentemente, um 
tempo futuro e eterno. Não seria tal visão do futuro excluída 
pelos argumentos contra o infinito real dos eventos passados, 
os quais implicam que o futuro também deveria ser, de 
igual modo, finito?
Craig argumenta que este não é necessariamente o caso. O
123
Deus e Cosmos
futuro difere do passado em que não é um infinito real com­
pleto; é apenas potencialmente infinito, no sentido de que é 
inexaurível. Um infinito potencial é admissível, segundo Craig.
Um infinito potencial é uma coleção que vai crescendo sem 
limite, mas que é finita a todo tempo... não é verdadeiramente 
infinito - é simplesmente indefinido.10
Eventos passados são reais, pois na realidade ocorreram; 
eventos futuros, afirma Craig, não existem na realidade, pois 
(ainda) não ocorreram. À primeira vista, tal distinção entre 
passado e futuro parece válida o bastante. Contudo, quando 
aplicado ao Deus Onisciente da teologia ortodoxa (e deve-se 
ter em mente que isso é apenas um passo numa alegada prova 
da existência de tal Deus) temos um problema. Afinal, tal 
Deus sabe o futuro tão definitivamente quanto sabe o passado. 
Se o futuro é de fato infinito, então, a um Deus onisciente, ele 
existe como um infinito real definido, e não como um infinito 
potencial indefinido. Para Deus, pareceria que um futuro- 
-sem-fim teria o mesmo status de um passado-sem-começo. 
Ambos implicam a noção de que Deus tem o conhecimento 
de um conjunto infinito de eventos.
Assim, as considerações que levam a um passado finito 
devem, por semelhante modo, aplicar-se ao futuro. Se os 
argumentos de Craig contra o infinito real forem válidos, isso 
implica em que o conhecimento que Deus tem do futuro 
abrange apenas um finito número de eventos. Então, ou o 
futuro é finito, culminando num último evento, ou o conhe­
cimento que Deus tem do futuro é incompleto.
3. Deus e o Passado
Existem dificuldades adicionais. Os argumentos de Craig
10 “Philosophical and Scientific Pointers”, p.6.
124
Cosmologia e Existência de Deus
contra a existência do infinito real são tão suficientemente 
gerais que eles parecem ser aplicáveis não apenas ao universo 
físico, mas também ao próprio Deus. Isso deve ter implica­
ções significativas para o nosso entendimento de Deus, o qual 
é considerado, na teologia ortodoxa, como sendo infinito. Por 
exemplo, o banimento do infinito real formulado por Craig 
implica que o passado de Deus seja igualmente finito. De fato, 
o próprio Craig chega à seguinte conclusão:
Antes da criação, Deus teria que ser imutável. Do contrário 
você obteria uma série infinita de eventos passados na vida de 
Deus, e já vimos que uma tal série é impossível. Assim, Deus 
seria imutável e, por conseguinte, eterno antes da criação.11
Parece que Craig vê Deus como tendo sido “congelado” 
por um tempo infinito antes do primeiro evento. Isso parece 
impor condições bem estritas quanto à natureza de Deus, 
excluindo qualquer sucessão de atos divinos ou pensamentos 
anteriores à criação do presente universo.
É interessante que Craig aplica a proibição de um infini­
to real apenas a eventos, e não à passagem do tempo em si 
mesmo. Ele permite um infinito passado de tempo antes da 
criação do mundo físico. Seria isso coerente? Se uma infinita 
duração de tempo deve ser distinguida de uma unidade 
simples de tempo, então devemos ter a perpétua passagem de 
tempo de uma unidade a outra, dando lugar a um infinito 
número de unidades. Talvez seja raciocinado que, na falta de 
eventos físicos para medir o tempo, não somos confrontados 
com um infinito real. Mas, seguramente, um Deus onisciente 
teria conhecimento de qualquer passagem de tempo. Para 
Deus, pareceria que até mesmo a passagem de uma unidade 
de tempo é algo que “acontece” e portanto deveria ser contado 11
11 “Philosophical and Scien tifie Pointers”, p.12.
125
Deus e Cosmos
como um evento. Se Deus tem existido através de um passado 
infinito de tempo então uma infinidade real de unidades de 
tempo tem passado. Segue-se, então, que o conhecimento de 
Deus de um passado que consiste de eventos finitos embuti­
dos dentro de um tempo infinito tem que incluir o conheci­
mento de um infinito real de unidades de tempo passadas.
Em resumo, o banimento de um infinito real parece 
impor restrições não apenas no passado, como também no 
futuro, em Deus, e no próprio tempo. Embora possa haver 
aspectos do conceito de infinito que nos pareçam incompre­
ensíveis, a mim, particularmente, me parece que, na falta de 
refutação inequívoca do infinito real, a melhor opção é 
atribuir essa deficiência percebida à finitude humana, em 
vez de fazer indevidas restrições a Deus e Seus atributos.
A Singularidade do Big Bang
Para que o argumento cosmológico funcione, sem impor 
indevidas limitações a Deus, é necessário fazer uma distinção 
correta entre o Criador e a criação. A demonstração do passa­
do finito do universo físico é talvez melhor se for baseada no 
domínio físico, ao invés do lógico. Duas linhas principais de 
evidência científica são comumente citadas como prova 
para o começo do universo: a singularidade do Big Bang, e a 
segunda lei da termodinâmica.
Na cosmologia Big Bang o tempo t=0 correspondeao 
estado de densidade infinita. O que aconteceu antes disso? 
Como surgiu tal estado? Ele parece representar uma barreira 
além da qual as leis da física não podem ser aplicadas. Uma 
interpretação comum é a de que o Big Bang marca o começo 
do tempo bem como do universo.
O papa Pio XII, numa famosa declaração em 1951, 
referiu-se à teoria do Big Bang como testificando do começo 
do cosmos, desse modo confirmando a necessidade de um
126
Cosmologia e Existência de Deus
Criador.12 E, neste particular, Pio XII não estava só; muitos 
cristãos concordaram em tomar a singularidade do Big Bang 
como uma prova da existência do Criador. Entre esses citamos 
William Craig e Hugh Ross.13
A implicação teística da singularidade do Big Bang tem 
sido também reconhecida por cientistas que, de modo algum 
são simpáticos ao teísmo. Assim, por exemplo, Hannes Alfven, 
que em 1970 conquistou o prêmio Nobel em Física, escreve 
que “o estado do ponto singular, necessariamente pressu­
põe uma criação divina”.14 Esta, aparentemente, é uma das 
razões pelas quais Alfven rejeita a teoria do Big Bang. 
Similarmente, o proeminente astrônomo Fred Hoyle, muito 
hostil ao cristianismo,15 rejeita a teoria do Big Bang, não 
simplesmente no âmbito científico, e sim porque o conceito 
de um universo eterno seja mais apropriado às suas crenças 
ateístas. McMullin16 observa que os cosmologistas soviéticos 
sempre mostraram forte oposição à teoria do Big Bang, por 
defenderem que a noção de um começo absoluto é 
incompatível com os princípios marxistas-leninistas da 
dialética materialista.
Por outro lado, muitos cosmologistas e teólogos negam 
qualquer vínculo íntimo entre teísmo e a cosmologia Big Bang. 
Isso traz de volta a questão sobre quão realmente evidentes são 
as “evidências” do Big Bang. Será que o Big Bang prova que o
12 Ver Erman McMullin, “How Should Cosmology Relate to Theology” em 
A. R. Peacocke, 'The Sciences and Theology in the Twentieth Century, 
Stocksfield: Oriel Press, 1981,p.3O.
13 Ver Ross, The Creator and the Cosmos, Colorado Springs: Navpress, 1993.
14 “Cosmology, Myth or Science ?” em W. Yourgrau and A. D. Breck (eds.), 
Cosmology, History and Theology, New York: Plenum Press, 1974, pp. 7,12.
15 Ver, por exemplo, a obra de sua autoria Ten Faces of the Universe, San 
Francisco: Freemaan, 1977.
16 “How Should Cosmology Relate to Theology?”, pp.36-37.
127
Deus e Cosmos
universo físico começou num tempo finito no passado? E, em 
caso afirmativo, será que isso tem necessariamente implica­
ções teístas.
1. A Exatidão do Modelo Big Bang
Em nossa discussão anterior sobre a cosmologia Big Bang, 
já verificamos que, a despeito das vantagens observacionais, 
o modelo ainda sofre de várias deficiências observacionais e 
teóricas. Além disso, muitas de suas pressuposições teóricas 
são inerentemente inverificáveis. Também, suas evidências 
observacionais podem ser explicadas por meio de outros 
modelos que não se apoiam no ponto singular. O argumento 
para uma singularidade deve, portanto, demonstrar primeira­
mente a superioridade do modelo Big Bang sobre outros 
modelos concorrentes. Isso envolverá o estabelecimento e 
justificação de um critério específico para seleção de teoria, 
bem como prova de que a cosmologia Big Bang melhor 
satisfaz a tais critérios ou padrões.
Mas, quais seriam esses critérios? Simplicidade e beleza 
são dois padrões geralmente citados. Todavia, raramente se 
discute a questão decorrente sobre o porquê de teorias 
simples e belas serem mais provavelmente verdadeiras. E, 
mesmo que tais padrões fossem aceitáveis, não seria fácil 
definir quais modelos cosmológicos melhor se enquadrariam. 
Apoiadores do Big Bang, tais como Craig e Ross, tendem a 
minimizar os problemas quando tratando-se do Big Bang, e a 
amplificá-los quando tratando-se de teorias concorrentes. De 
fato, eles afirmam que o Big Bang foi provado, e que todos os 
outros modelos estão conseqüentemente fora de discussão. Por 
outro lado, os opositores do Big Bang tendem a fazer o oposto, 
é claro. A abordagem dos modelos cosmológicos é, sem 
dúvida, um exercício muito subjetivo.
Apesar disso, há pouca dúvida de que, no presente, a
128
Cosmologia e Existência de Deus
vasta maioria dos cosmologistas sejam favoráveis ao modelo 
Big Bang. Embora isso não constitua prova da sua veracidade, 
tem levado a opinião pública a aceitá-lo como fato provado. 
Este primeiro passo na direção de uma prova teísta pode então 
ser aceitável à maioria das pessoas.
2. Os Limites do Modelo Big Bang
Não obstante a cosmologia Big Bang possa ser a favorita 
do presente, seus apoiadores não concordam quanto ao que 
teria acontecido logo após a suposta singularidade, na primei­
ra fração de segundo. Neste ponto, tudo torna-se extremamen­
te especulativo. E aqui que a teoria do Big Bang enfrenta um 
número de limites difíceis de superar - se não impossíveis.
a. Provas da Singularidade
Os cosmologistas britânicos Stephen Hawking, George 
Ellis e Roger Penrose desenvolveram certo número de teore­
mas da singularidade que supostamente provam, aplicando a 
relatividade geral sob condições razoavelmente gerais, que o 
presente universo teve sua origem numa singularidade do 
passado. Embora tais teoremas sejam freqüentemente citados 
como provas de uma singularidade do passado, eles são 
baseados em vários de suposições que restringem o poder ou 
extensão dos mesmos. Por exemplo, uma suposição comu- 
mente adotada é a de que o universo é bastante homogêneo, 
sendo a matéria uniformemente distribuída. Hawking e Ellis, 
discutindo seus teoremas da singularidade observam que, 
devido às irregularidades locais, é bem possível que nem todo 
o universo tenha se originado de uma única singularidade:
Alguém poderia sugerir que, anteriormente à fase de expansão 
do presente, houve uma fase de colapso, ou contração. Em tal 
fase, a inomogeneidade cresceu, dando lugar a singularidades
129
Deus e Cosmos
isoladas. A maior parte da matéria evitou as singularidades e re- 
expandiu, dando lugar ao universo presentemente observado.17
Um teorema posterior, bastante similar, proposto por 
Hawking e Penrose, pressupõe a não existência de uma 
constante cosmológica positiva, a qual supostamente age 
como força repulsiva, contrabalançando a gravidade.18 Esta 
condição foi posteriormente contraditada por observações 
mais recentes, que apontaram para a existência de uma gran­
de constante cosmológica positiva. Senovilla, em sua análise 
detalhada das provas da singularidade e das pressuposições 
adotadas em tais provas, concluiu serem vários os possíveis 
modelos cosmológicos baseados na relatividade geral nos quais 
o universo não teria começado com uma singularidade Big 
Bang.19 Assim sendo, as provas da singularidade, mesmo 
dentro dos limites da relatividade geral, não provam a exis­
tência de uma singularidade Big Bang no passado.
b. Física Desconhecida
Um problema subseqüente é que próximo à singulari­
dade a pressão e a temperatura teriam sido tão imensas, que a 
física convencional não seria aplicável. As atuais teorias 
concernentes à matéria não seriam válidas aqui. Várias novas 
teorias de física sobre partículas vêm sendo propostas, porém 
essas são altamente conjecturais e inverificáveis. Antes disso, 
dentro de IO43 segundos após a singularidade, no assim
17 S. W. Hawking e G. F. R. Ellis, “The Cosmic Black-Body Radiation 
and the Existence of Singularities in onrGtAverse", Astrophysical Journal, 
1967,152,p.32.
18 S. W. Hawking e R. Penrose, “The Singularities of Gravitational Collapse 
and Cosmology”, Proc.Royal Society, London A, 1970,314,pp. 529-548.
19 J. M. M. Senovilla, “Singularity Theorems and Their Consequences”, 
General Relativity and Gravitation, 1998,30, pp. 701-848.
130
Cosmologia e Existência de Deus
chamado tempo Planck, a densidade da matéria teria sido tão 
gigantesca que os efeitos quânticos teriam que ser levados em 
conta. Em lugar da relatividade geral dever-se-ia então adotar 
uma teoria de gravidade quânticaapropriada. Infelizmente, 
ninguém até agora foi capaz de desenvolver um modelo funci­
onal de gravidade quântica. Assim sendo, o que acontece 
antes do tempo Planck é pura especulação. É interessante 
notar que o próprio Einstein nunca aceitou a existência da 
alegada singularidade. Pouco antes de sua morte, Einstein fez 
o seguinte comentário:
A atual teoria relativista da gravitação é baseada na separação 
dos conceitos de “campo gravitacional” e “matéria”. Pode ser 
plausível que a teoria seja, por esta razão, inadequada para uma 
condição de alta densidade de matéria. Pode muito bem ser o 
caso que, para uma teoria unificada, não haveria nenhuma 
singularidade... Para grandes densidades de campo e de matéria, 
as equações de campo, e mesmo as variáveis de campo que 
entram em tais equações, não teriam qualquer significado real. 
Ninguém poderia então supor a validade daquelas equações para 
muito altas densidades de campo e matéria e, portanto, não 
poderia concluir que “o começo da expansão” deve significar 
uma singularidade em sentido matemático. Tudo o que devemos 
concluir é que as equações podem não ser continuadas em tais 
regiões. 20
As questões teologicamente significativas surgem além dos 
limites do modelo Big Bang. Ao nos aproximarmos do alega­
do primeiro evento a teoria torna-se mais e mais especulativa, 
com a correspondente rápida perda do consenso científico. 
Certamente, não pode haver rigorosa prova de que a singulari­
dade tenha sido atingida, necessariamente, ou que a presente
20 Albert Einstein, The Meaning of Relativity, 5a edição, Princeton: The 
University Press, 1956.
131
Deus e Cosmos
expansão do universo não tenha sido precedida de uma 
contração.
c. As Escalas do Tempo
A própria definição de tempo e sua medida pode ser tam­
bém um problema. John Barrow mostra que o intervalo de 
tempo de uma singularidade do passado pode ser finito se 
medido em tempo próprio, definido como tempo medido por 
meio de um relógio em queda livre gravitacional, mas 
poderia ser infinito se medido de acordo com alguma outra 
definição de tempo.21 Por exemplo, poderíamos conceber um 
relógio cujo padrão de tempo fosse a variação na curvatura do 
universo. De acordo com Barrow, no tipo mais geral de uni­
verso relativista a singularidade do passado é atingida em um 
tempo próprio finito porém com um infinito número de 
oscilações da curvatura. Então, como determinado pelo 
relógio de curvatura, seria necessário um infinito tempo do 
passado para se atingir a singularidade inicial. Mesmo se 
adotarmos o tempo próprio, ainda assim ficaríamos com um 
infinito número de eventos físicos passados - isto é, as sucessi­
vas mudanças de curvatura - para registrar.
d. Definição de Espaço e Tempo
Ainda há mais uma limitação. De acordo com a mecânica 
quântica é impossível construir relógios que meçam interva­
los de tempo inferiores ao tempo Planck (10'43 segundos), ou 
construir metros que meçam comprimentos menores do que 
o comprimento Planck (10_33cm). Muitos cosmologistas 
afirmam que uma quantidade que não pode ser medida é, 
em princípio, fisicamente sem significado. Assim sendo, os 
conceitos de tempo e espaço não mais se aplicam além do
21 J. D. Barrow, The World Within the World, Oxford: Clarendon Press, 1988, 
p.235.
132
Cosmologia e Existência de Deus
limite Planck. Daí Zhi e Xian defenderem que antes do 
tempo Planck temos um mundo sem tempo e espaço, e que 
tempo e espaço só vieram a existir concomitantemente ao 
tempo Planck.22
Se o tempo deixa de ser algo concreto, como podemos 
perguntar sobre o que aconteceu “antes” do tempo Planck? 
Um teísta poderia responder que limitações de medidas 
aplicáveis ao homem não necessariamente se aplicam a um 
Deus onisciente. Então, não seria sem significado a considera­
ção da existência de tempo e espaço antes do limite Planck.
E mais, mesmo na ausência dos efeitos quantum, os sig­
nificados de tempo e espaço na singularidade podem se tornar 
problemáticos. Já não poderia mais haver menção de espaço 
tridimensional, uma vez que tudo fica condensado a um 
ponto. Além disso, tempo e espaço são geralmente concebidos 
em conexão com matéria e energia. Alguns cosmologistas têm 
postulado que o tempo e o espaço foram originados no mesmo 
evento Big Bang que originou a matéria e a energia.
De acordo com Grunbaum, toda a questão a respeito da 
criação é um pseudo problema, pois na cosmologia Big 
Bang o tempo veio a existir na singularidade, junto com o 
universo.23 Portanto, torna-se sem significado a pergunta 
sobre o que teria acontecido antes do tempo t=0, uma vez que 
não havia tempo. Nós podemos postular a existência do 
tempo antes da singularidade, mas ninguém deveria esperar 
que o modelo Big Bang pudesse responder as questões que 
negam suas pressuposições básicas.
O comentário de Grunbaum é pertinente à prova teísta de 
Craig em vários aspectos. Primeiro, a fim de provar que o
22 Zhi, Fang Li e Xian, Li Shu, Creation of the Universe, Singapore: World 
Scientific, 1989, p. 149.
23 Adolph Grunbaum, “ The Pseudo-Problem of Creation in Physical 
Cosmology”, Philosophy of Science, 1989,56,pp. 373-394.
133
Deus e cosmos
universo foi causado, Craig argumenta que qualquer coisa que 
tenha começado a existir, requer uma causa. Isto se encaixa 
em nossa experiência de que nada passa a existir sem ter sido 
causado. Deus, que sempre existiu, não requer uma causa. 
Contudo, o argumento de Craig assume que houve um tempo 
em que o universo não existia. De acordo com Grunbaum isso 
é inadmissível, pois nunca houve um tempo em que o uni­
verso não existiu. Tempo e universo vieram a existir juntos, 
portanto, o universo existiu em todo o tempo. Então, a regra 
segundo a qual o que quer que tenha começado a existir tem 
que ter sido causado, não se aplica ao universo.
Uma segunda dificuldade existe, no tocante ao argumento 
de Craig de que a causa do universo foi pessoal. Craig afirma 
a existência de um tempo infinito, sem eventos, antes da cria­
ção. Visto que todos os momentos num tal período de tempo 
infinito são iguais, isso requer, ele afirma, um ser pessoal que 
livremente decida criar, num tempo específico qualquer, na 
ausência de quaisquer características que possam distinguir 
um momento de outro. Novamente, de acordo com Grunbaum, 
a existência de um tal período infinito de tempo que antecede 
a criação é incoerente com a cosmologia Big Bang.
Tais observações servem de aviso aos proponentes do 
argumento cosmológico no sentido de que não se apoiem tão 
seguramente na cosmologia Big Bang, com toda a bagagem 
metafísica que a acompanha. Contudo, embora na cosmolo­
gia Big Bang os eventos antecedentes à singularidade sejam 
considerados como carentes de significação científica, isso não 
elimina a necessidade de um Criador. Seus defensores podem 
suprimir a necessidade de um Deus deísta, um Relojoeiro que 
cria o relógio e a seguir o deixa funcionando por si mesmo. 
Todavia, ainda permanece a questão do porquê o universo veio 
a existir, incluindo o tempo, e por que continua a existir. Um 
Criador ainda é necessário para sustentar o cosmos.
134
Cosmologia e Existência de Deus
3. Possibilidades de Ausência de Começo
Nem todos os cosmologistas concordam com a assertiva 
de Grunbaum de que o tempo teve início com o Big Bang. 
Muitos se opõem ao conceito de que o universo tem existido 
por apenas um tempo finito. Lembremo-nos, por exemplo, a 
variedade de modelos cosmológicos estáticos discutidos no 
capítulo anterior. Mesmo dentro da cosmologia Big Bang, não 
é obrigatório que o universo tenha começado numa singula­
ridade. Vários modelos Big Bang têm sido desenvolvidos 
visando evitar um começo no tempo.
a. Universos Oscilantes
A mais primitiva alternativa eterna foi baseada na noção 
de que a expansão Big Bang poderia ter sido precedida por 
uma contração, ou Big Crunch (doravante Big Crunch, isto é, 
grande esmagamento). O Big Crunch teria destruído toda evi­
dência de ciclos prévios, exceção feita, possivelmente,a certos 
parâmetros gerais tais como a energia e entropia.
Um tal universo eterno e oscilante tem sido defendido 
por vários cosmologistas modernos, começando com o astrô­
nomo holandês Willem de Sitter, em 1931. Logo tornou-se 
evidente, entretanto, que tais modelos mostravam sérias limi­
tações. Foi calculado, por exemplo, que cada ciclo produz um 
aumento no tamanho máximo do universo, com o necessário 
aumento do tempo para completar cada ciclo seguinte. Por 
extrapolação, de volta ao passado o ciclo se torna infinita­
mente curto num tempo finito. Também, cada ciclo produz 
mais radiação. Se a radiação se acumula, então a radiação 
observada no presente permite não mais do que uma centena 
de ciclos prévios.24 Um resultado similar é também obtido a 
partir da termodinâmica: se um número infinito de ciclos
24 Quentin Smith, “The Uncaused Beginning of the Universe”, Philosophy 
of Science, 1988,55, pp. 39-57.
135
Deus e Cosmos
prévios se passou, cada um deles com aumento de entropia, 
então o ciclo presente estaria num estado de entropia máxima 
- mas de fato o estado atual é de relativamente baixa entropia. 
Assim, mesmo um universo oscilante, enquanto permitindo 
um futuro infinito, parece apontar na direção de um começo 
em algum tempo finito do passado.
Para fugir do passado finito, o físico John Wheeler suge­
riu que, ao fim de cada fase de contração, todas as constantes 
e leis daquele ciclo desaparecem e o universo é reprocessado, 
adquirindo novas constantes e leis para o próximo ciclo. 
Nenhuma informação é transmitida ao ciclo seguinte. Dessa 
forma, nenhuma inferência a um passado finito pode ser 
feita com base em observações, leis e constantes do presente 
ciclo.
Em resposta, Quentin Smith25 objetou que, embora isso 
possa ser logicamente possível, contudo, como as novas leis e 
constantes não podem ser preditas, é preferível seguir o prin­
cípio de que as leis físicas e constantes estabelecidas para um 
domínio devem, na falta de evidência em contrário, ser apli­
cada a outros domínios. Enquanto possa haver algum mérito 
no critério de Smith, de novo, é algo de expediência filosófica 
ao invés de prova racional.
O cosmologista russo Markov sustenta que o universo se 
transformaria num vácuo quando se aproxima da singula­
ridade. Não haveria então partículas e a entropia seria inde­
finida. Assim, o universo poderia oscilar para sempre, 
começando tudo de novo a cada novo ciclo.26
No entanto, uma dificuldade subseqüente com o uni­
verso oscilante é que isso requer que o universo seja fechado.
25 Quentin Smith, “The Uncaused Beginning of the Universe”, Philosophy 
of Science, 1988,55, pp. 43.
26 M. A. Markov, “Asymptotic Freedom and Entropy in a Perpetually 
Oscilating Universe”, Physics Letters, 1983,94A, pp. 427-429.
136
Cosmologia e Existência de Deus
O universo deve ser suficientemente denso para que, eventu­
almente, a atração gravitacional faça deter a expansão em 
cada ciclo, e seja dado início à contração. Como já notamos 
anteriormente, evidências observacionais do presente favore­
cem o conceito de universo aberto ao invés de fechado. Num 
universo aberto a matéria continuará expandindo para 
sempre.
Um universo aberto permite também uma outra possi­
bilidade para evitar o começo no tempo. George Gamow 
sugere que a singularidade Big Bang foi precedida por uma 
correspondente contração eterna. Segundo o seu ponto de 
vista o universo existe da eternidade, implodindo de um 
estágio de infinita rarefação até que atingiu a singularidade 
Big Bang, estágio em que a densidade chegou a ser imensa­
mente grande. Nesse ponto houve a reversão, chegando ao 
estágio de expansão em que hoje nos encontramos. A proposta 
de Gamow evita as deficiências do modelo de universo 
oscilante, pois não há o problema de radiação acumulada nem 
de entropia.27
Mas uma dificuldade permanece. Como se explica, então, 
o reverso de contração para expansão? Parece natural que um 
universo em contração, uma vez atingido o estado de máxima 
compressão, voltaria a se expandir, ao invés de permanecer na 
singularidade. Considerações baseadas em princípios gerais, 
tais como o de conservação de energia, parecem apontar 
naquela direção. Embora dúvidas tenham sido expressadas por 
Guth e Sher sobre se as condições nas proximidades da singu­
laridade permitiriam a possibilidade de uma reversão,28 tais 
objeções seriam aplicáveis apenas a um universo fechado. Não 
está claro se essas condições seriam aplicáveis a um universo
27 G. Gamow, “Modern Cosmology”, Scientific American, 1954190, pp. 55-63.
28 A. H. Guth e M. Sher, “The Impossibility of a Bouncing Universe”, 
Nature, 1983,302, pp. 505-507.
137
Deus e Cosmos
aberto. Por outro lado, os cosmologistas Israelit e Rosen29 
desenvolveram cenários onde haveria lugar para uma rever­
são. Mas, também aqui, há questões sem respostas definitivas, 
enquanto não for encontrada uma teoria válida para a gravi­
dade quântica.
b. Modelos de Flutuação de Vácuo
Tem sido proposto por vários cosmologistas que o pre­
sente universo emergiu espontaneamente de um vácuo 
preexistente. Tal modelo foi apresentado primeiramente por 
Edward Tryon.30
Este modelo é baseado em mecânica quântica, particular­
mente no princípio da incerteza, a qual estabelece que em um 
tempo qualquer podemos medir acuradamente ou a posição 
ou o movimento de uma pequena partícula, porém não as duas 
coisas ao mesmo tempo. De acordo com este princípio partí­
culas podem ser espontaneamente geradas no vácuo por 
flutuações ocasionais de energia. Quanto menor a energia da 
partícula, tanto mais tempo a partícula pode existir antes de 
desaparecer no vazio. Tryon asseverou que, no universo como 
um todo, a energia positiva da matéria é exatamente cancelada 
pela energia da gravidade, de modo que a energia total do uni­
verso permanece zero. Segundo o princípio da incerteza uma 
partícula de energia zero pode existir para sempre. Portanto, 
de acordo com Tryon, o universo, tendo energia zero, pode 
durar indefinidamente, o que seria um tremendo “almoço 
grátis”.
O cosmologista russo Rozental desenvolveu daí uma 
cosmologia eterna, infinita. O universo é visto como um 
vácuo infinito, fervendo com flutuações de energia. Nosso
29 M. Israelit e N. Rosen, “A Singularity-Free Cosmological Model in Gene­
ral Relativity”, Astrophysical Journal, 1989,342, p.627.
30 “Is the Universe a Vacuum Fluctuation?”, Nature, 1973,246, pp.396-397.
138
Cosmologia e Existência de Deus
universo atual não passa de uma das maiores flutuações a emer­
gir do vácuo; com o tempo, essa grande flutuação também 
voltará a se dissolver no vácuo.31
Na opinião de Linde, em princípio a única predição 
verificável do modelo de flutuação do vácuo é a de que o uni­
verso tem que ser fechado.32 Se o universo tiver sido criado por 
uma flutuação do vácuo, então ele não pode ser infinitamente 
grande, como seria o caso de um universo aberto, pelo menos 
de acordo com as predições dos usuais modelos Big Bang. Isso 
é coerente com o modelo Big Bang inflacionário, porém é 
conflitante com as atuais evidências observacionais, as quais 
indicam que a densidade da matéria no universo é por demais 
pequena para fechá-lo. Assim, a não observável matéria 
faltante, ou energia, tem que ser postulada a fim de compen­
sar pela diferença.
c. Cosmologia Caótica Eterna
Markov e Linde33 apresentaram cenários nos quais o 
nosso atual universo foi criado a partir de um universo “mãe”, 
e assim por diante, a partir da eternidade passada. Tais mode­
los são reconhecidamente muito especulativos, mas assim é 
também com os modelos que procuram explicar o universo 
primitivo. Dado o contexto do Big Bang inflacionário, não 
parece ser indevidamente improvável conjeturar que, se um 
universo pode ser criado por meio de uma flutuação quân­
tica num espaço vazio, universos posteriores poderiam, por
311. L. Rosenthal, Big Bang, Big Bounce, Berlin: Springer Verlag, 1988.
32 A. Linde, “The Universe: Inflation out of Chaos” New Scientist,7 March 
1985,pp. 14-18.
33 Markov, “Some Problems of Modern Theory of Gravitation”, em The Past 
and Future of the Universe, Moskow: Nauka, 1989, pp. 11-23, e Linde, “The 
Self Reproducing Inflationary Universe”, Scientific American, Nov. 1994, 
pp. 48-55.
139
Deus e Cosmos
semelhante modo, ser criados dentro do espaço de um univer­
so preexistente.
Concluímos que, embora a cosmologia Big Bang seja 
freqüentemente interpretada como subentendendo que o uni­
verso físico tenha um passado finito, um exame mais acurado 
revela uma situação deveras ambígua. O argumento para o 
passado finito baseia-se na interpretação particular de uma 
extrapolação dúbia que vai além das leis físicas conhecidas, e 
na exclusão de várias alternativas de universo sem começo que 
não parecem menos plausíveis. Em resumo, mesmo dentro da 
cosmologia Big Bang, não se consegue definitivamente elimi­
nar a possibilidade de um universo eterno. Além disso, nas 
proximidades da singularidade, a definição de tempo é tal que 
- pelo menos dentro da cosmologia Big Bang - não é claro o 
significado da afirmativa que a singularidade foi causada por 
um evento anterior.
A Segunda Lei da Termodinâmica
Em capítulo anterior já descrevemos a segunda lei da 
termodinâmica, a qual afirma que um sistema fechado conti­
nuamente aumenta sua entropia, ou quantidade de desordem. 
Como havíamos notado, sua aplicação ao universo como um 
todo leva à conclusão de que, dentro de algum tempo finito do 
futuro, o universo sofreria a “morte do calor”, quando não mais 
haveria energia disponível para suportar a vida ou realizar 
qualquer trabalho útil. A segunda lei da termodinâmica tam­
bém implica em que ao mundo foi inicialmente dado corda 
(como em um relógio), num estado de baixa entropia. Para os 
teístas isto foi logo interpretado como evidência para a divina 
criação do universo. Alguns teístas - incluindo Zanstra34 e
34 Herman Zanstra, “Is Religion Refuted by Physics or Astronomy?” > > >
140
Cosmologia e Existência de Deus
Craig - apontaram para a segunda lei como sendo um dos mais 
claros indicadores de um divino começo do mundo físico.
Como argumento para o passado finito do universo, isso 
oferece algumas vantagens sobre o argumento baseado na 
singularidade Big Bang. Como pudemos ver em discussões 
anteriores, esse último argumento, além de muito especulativo, 
é muito dependente de modelos. Além disso, a cosmologia 
Big Bang pode muito bem estar em voga no momento, mas 
ser destronada por alguma outra cosmologia que postule o 
passado infinito. A segunda lei, ao contrário, é de natureza tão 
fundamental que poucos duvidariam da sua validade univer­
sal. É largamente reconhecido que a segunda lei da termo­
dinâmica é uma das mais básicas leis de toda a ciência.
Em 1928 Sir Arthur Eddington e Sir James Jeans, os mais 
proeminentes astrônomos ingleses de seu tempo, chegaram à 
conclusão de que o universo veio a ser iniciado (dado corda, 
como em um relógio) no passado, e agora está rumando para o 
fim, pela morte do calor. Quanto a isso ser considerado como 
prova da existência de um Criador, Eddington afirma:
Cientistas e teólogos igualmente devem considerar como algo 
grosseiro a ingênua doutrina teológica a qual (convenientemente 
disfarçada) encontrase presentemente em todos os livros-textos 
de termodinâmica, nominalmente que há alguns milhões de anos 
atrás Deus deu corda no universo material e o deixou à sua pró­
pria sorte desde então. Isso deve ser considerado como a hipótese 
operante da termodinâmica ao invés de sua declaração de fé. 
Tratase de uma daquelas conclusões da qual não vemos manei­
ra lógica de fugir - apenas a de que ela sofre da deficiência de 
ser inacreditável.35
<<<Vistas in Astronomy, 1968,10,pp. 1-21, e “Thermodynamics, Statistical 
Mechanics, and the Universe”, ibid., 23-44.
35 Eddington, The Internal Constitution of the Stars, p. 84.
141
Deus e Cosmos
Contudo, este argumento a favor de um passado finito 
do universo tem seus adversários. Ele tem sido questionado 
em vários pontos. Em primeiro lugar, embora a maioria dos 
cosmologistas contemporâneos creiam na aplicabilidade 
da segunda lei da termodinâmica como um todo, algumas 
dúvidas têm sido expressadas com relação a isso. Por exem­
plo, Drees argumenta que um universo em expansão não 
é realmente fechado, pois a entropia é arrebatada para o 
espaço em expansão pela radiação de fundo. A expansão fun­
ciona como se houvesse um ambiente, mas de fato não há 
nenhum.36
Entretanto, a isso pode-se responder que os modelos Big 
Bang pressupõem o universo como sendo o mesmo em todos 
os lugares, de modo que a quantidade de radiação que sai de 
uma região determinada é igual à que entra (podendo tal 
região ter suas dimensões em expansão, com uma fixada 
relação massa-energia). Para cada região em particular um 
ganho entrópico deve, portanto, ocorrer.
Drees afirma que não existe claro conceito de entropia 
em relação à gravidade. Por conseguinte, torna-se questionável 
a aplicação do conceito de entropia ao universo como um todo. 
De todo jeito, mesmo não sendo muito clara a relação da 
entropia com a gravidade, como na situação de sistemas 
estatísticos não gravitacionais, não há razão para se achar 
que uma lei tão fundamental como o ganho de entropia não 
seja aplicável. Penrose,37 por exemplo, tem argumentado 
que a entropia pode ser razoavelmente aplicada a estruturas 
gravitacionais.
Lerner, também, ao advogar o conceito de um uni­
verso infinito de complexidade sempre crescente, nega a
36 Willem B. Drees, Beyond the Big Bang: Quantum Cosmology and God, 
Th.D. Thesis, Rijksuniversiteit Groningen, The Netherlands, 1989, p.26.
37 Penrose, “Difficulties with Inflationary Cosmology”, 1989.
142
Cosmologia e Existência de Deus
aplicabilidade cósmica da segunda lei. Ele alega que, ao con­
trário do que afirma a segunda lei, o cosmos evolve do caos 
para a ordem:
A física convencional interpreta qualquer mudança como 
sendo necessariamente uma regressão, como uma involução no 
sentido de atingir o equilíbrio. Contudo, quando olhamos para a 
tendência a longo prazo da evolução, a realidade mostra exata­
mente o contrário - o universo adquire mais corda (como num 
relógio), em vez de estar gastando e diminuindo a corda ... O 
universo que observamos simplesmente não está em decadência; 
a generalização da “lei de crescente desordem” ao âmbito do 
cosmos como um todo, não encontra apoio nas observações... Se 
não há tendência na direção da evolução, ou progresso na natu­
reza, então a existência humana em si mesma nada mais é do 
que um acidente sem significado... Num cosmos decadente e eterno 
não há espaço para qualquer coisa que contenha valor para a 
humanidade, não há lugar para consciência, alegria, tristeza, ou 
esperançai
Conseqüentemente, ele afirma que a segunda lei se aplica 
apenas a sistemas que estejam já muito próximos do equilí­
brio, onde as várias partes de cada sistema já estejam quase à 
mesma temperatura, onde haja pouca energia restante. Se, 
contudo, o sistema estiver longe do estado de equilíbrio, com 
significante fluxo de energia através dele, afirma Lerner, ele 
não tenderá regredir ao estado de equilíbrio, mas se afastará 
dele, criando ordem e estrutura no processo.
O mecanismo proposto por Lerner é o crescimento das 
flutuações através da instabilidade. Ele cita como exemplo o 
crescimento de padrões de convecção num recipiente de água 
quente, onde a instabilidade cria ordem “capturando” o fluxo *
38 E. J. Lerner, The Big Bang Never Happened, New York: Times Books, 1991, 
pp. 287-291.
143
Deus e Cosmos
de energia calorífica do forno para a água.
O problema com este exemplo é que um fluxo externo de 
energia, o qual é, em si mesmo, ordenado, é necessário para 
estabelecer o crescimento de ordem na água aquecida. Lerner 
não demonstrou que a ordem total do sistema como um todo 
(água, recipiente, chama) de fato cresceu. Portanto, ele não 
conseguiu demonstrar que o universo como um todo pode 
escaparàs conseqüências da segunda lei.
Como não há, é claro, prova conclusiva num sentido ou 
noutro, uma palavra de precaução deve ser empregada quanto 
a tirarmos conclusões de âmbito universal partindo da segun­
da lei da termodinâmica. Entretanto, se formos pelo princípio 
de que as leis físicas conhecidas devem ser seguidas tanto 
quanto possível, em vez de postularmos novas leis, então a 
evidência presente favorece a aplicabilidade da segunda lei. 
Mesmo assim, pode ser ainda possível evitar-se um começo 
finito ou um futuro de morte do calor. O físico austríaco 
Ludwig Boltzman, no final do século dezenove, sugeriu que o 
estado de ordem atualmente observado pode ser simples­
mente devido a flutuações casuais. Num universo suficiente­
mente grande, mesmo que em estado de equilíbrio térmico, 
movimentos ocasionais ainda poderiam produzir pequenas 
regiões, altamente organizadas, e de baixa entropia. Tais 
regiões, se forem suficientemente grandes e durarem tempo 
suficiente, poderíam oferecer condições propícias ao surgi­
mento de vida.
Seria isso plausível? Cálculos realizados por Zanstra39 
mostram que uma flutuação apreciável de entropia pode 
ocorrer apenas num volume contendo apenas poucas partí­
culas. Contudo, o universo visível como um todo parece estar 
num estado de baixa entropia. Seria razoável considerarmos o 
inteiro universo visível como sendo uma flutuação aleatória?
39 Zanstra, Thermodynamics,-p. 33.
144
Cosmologia e Existência de Deus
Isso implicaria não apenas em que o universo deve ser imen­
samente maior do que a região atualmente observável, mas 
também que a porção não observável do universo, a qual 
estaria presumivelmente num estado caótico de alta entropia, 
teria que ser drasticamente diferente do organizado universo 
observável. Na verdade, isso contraria a usual pressuposição 
da uniformidade.
De novo, chegamos à conclusão de que a evidência 
favorece à idéia de um universo que se desenrola (como um 
relógio que vai usando sua corda), tendo partido de um estado 
inicial de alta organização. Entretanto, tal estado inicial não 
necessariamente teria ocorrido há um certo tempo finito do 
passado. Em princípio, a entropia poderia ter aumentado a 
partir de um valor mínimo num passado infinito. Esse seria o 
caso num modelo cosmológico tal como o de Gamow acima 
descrito, em que o universo seria infinitamente velho, 
alternando entre fases de contração e expansão sucessivas.
Assim, a segunda lei da termodinâmica não é suficiente 
para provar o começo do universo num tempo finito do pas­
sado. Todavia, ela ainda poderia ter algum significado para 
alguém que esteja em busca de evidências de um Criador. 
Pois, se de fato a segunda lei da termodinâmica se aplica ao 
universo como um todo - o que parece plausível - então isto 
significa que o universo vem se desenrolando (usando sua 
corda) constantemente. Entretanto, para isso, é necessário que 
antes o universo tenha sido enrolado, ou dado corda (como 
num relógio). Mas, como foi que isso aconteceu? De onde 
veio o estado de ordem inicial? Tais questões nos levam a 
uma segunda prova para a existência de Deus: o argumento 
do design (projeto).
Sumariando, tanto o argumento filosófico como o 
científico para o começo do universo são falhos. O caso contra 
a existência de um infinito real foi visto ser falacioso. O argu­
mento a partir da suposta singularidade do Big Bang apoia-se
145
Deus e Cosmos
excessivamente em um específico modelo cosmológico e em 
extrapolações especulativas que vão além dos limites de vali­
dade do modelo. Ainda que o caso baseado na termodinâmica 
evite tais limitações, também esse é insuficiente como prova 
definitiva de que o universo teve início a um tempo finito do 
passado.
Com isso, não estamos negando que a evidência cosmo­
lógica para um começo pareça plausível. Mas, plausibilidade 
não é suficiente como prova, e, como já vimos, aqueles que 
desejam negar um começo têm construído modelos alter­
nativos que pressupõem um universo sem começo. E, tais 
modelos sem começo parecem mais críveis aos olhos dos 
que os defendem. Evidências observacionais, por si só, são 
insuficientes para superar a natureza subjetiva da teoriza­
ção científica.
Além disso, nós temos nos restringido a um universo 
operando puramente por meio de causas naturais. Tirando tal 
restrição, então é permitida a possibilidade de um ser sobre­
natural que tem interagido com o universo desde a eterni­
dade, talvez, por exemplo, acrescentando energia útil de 
tempos em tempos. Então só poderíamos ter certeza de que o 
universo teria tido um passado finito se Deus decidisse reve­
lar-nos tal informação. Somente com base em ensinamento 
bíblico podemos concluir que o universo foi de fato criado 
num tempo finito no passado.
O Argumento do Design (Projeto)
Semelhantemente, o argumento do design tem sido 
popular como prova da existência de Deus. Esse argumento 
foi fortemente promovido por William Paley no seu livro, 
Natural Theology (Teologia Natural), publicado no final do 
século dezoito. Ele argumenta que a intrincada organização 
do mundo é uma forte evidência da existência de um Criador
146
Cosmologia e Existência de Deus
inteligente, do mesmo modo como o detalhado mecanismo 
de um relógio é devido à intenção e habilidade do relojoeiro.
A principal questão é se a complexidade observada do 
universo envolve um Criador, ou se tal complexidade poderia 
ser explicada como resultado final de processos puramente 
naturais. Um dos principais exemplos refere-se às espantosas 
características dos sistemas e organismos biológicos. Essa inter­
pretação foi questionada por Charles Darwin em A Origem 
das Espécies (1859), onde ele propôs que a diversidade bioló­
gica observada seria causada simplesmente por mutações 
aleatórias e seleção natural.
Um Universo Finamente Ajustado
Mais recentemente, diversos apologistas têm apoiado o 
argumento do design apelando para os avanços em cosmologia. 
Parece que, a partir de várias considerações cosmológicas, o 
universo é notavelmente ajustado (finamente sincronizado). 
Se as leis físicas e condições iniciais fossem ligeiramente dife­
rentes, então, ao que parece, o universo não poderia manter a 
vida. Muito tem sido escrito sobre o espetacular sincronismo 
e fino ajustamento do universo para suster a vida humana. 
Consideraremos apenas alguns fatores típicos:
1. Entropia
Se a entropia, a quantidade de desordem no universo, está 
sempre crescendo, então o universo tem que ter sido inicial­
mente criado em condição organizada, como discutido na 
seção precedente. De acordo com Paul Davies:
Se o universo não passasse de um simples acidente, a probabi­
lidade de que ele viesse a ter alguma ordem apreciável seria 
absurdamente pequena. Se o Big Bang fosse apenas um evento 
aleatório, então seña esmagadoramente grande a probabilidade
147
Deus e Cosmos
de que o cosmos material emergente estivesse em equilíbrio 
termodinâmico, com entropia máxima, e ordem zero. Mas, como 
claramente não é esse o caso, parece difícil evitar a conclusão de 
que o estado atual do universo foi “escolhido” ou, de algum modo 
selecionado dentre um enorme número de estados disponíveis, 
dos quais todos, exceto uma fração infinitesimal, estariam em 
total desordem. E se um tal estado inicial extremamente impro­
vável foi selecionado, não teria que certamente haver um 
selecionador ou desenhista que o “escolheu”^
2. A Taxa de Expansão
A taxa de expansão do universo parece estar em extremo 
equilíbrio crítico. Se tal taxa de expansão fosse um pouco 
menor, o universo voltaria a implodir em segundos; se fosse 
um pouco maior, a formação de galáxias teria sido impossível. 
De acordo com os cálculos de John Leslie, para que tais desas­
tres pudessem ser evitados a taxa de expansão durante os 
primeiros instantes tiveram que ser finamente ajustadas a 
uma precisão da ordem de uma parte em IO55.
A taxa de expansão pode ser explicada ou levada em conta 
pela inflação, mas tal coisa em si mesma requeruma sintonia 
ou ajuste finíssimo: dois componentes de uma constante 
cosmológica impelida por expansão anulam uma à outra a um 
grau de precisão de uma parte em 1050.
Leslie40 41 estima que, se forças atuantes no universo, como 
por exemplo a gravidade e a força fraca do núcleo atômico, se 
desviassem de seus valores atuais por uma quantidade tão 
ínfima quanto uma parte em 10100, isso já seria suficiente para 
desastrosamente pôr um fim à anulação acima mencionado.
3. Os Elementos
Hidrogênio e carbono são elementos essenciais à vida. Pelo
40 GodandtheNewPhysics, New York: Simón & Schuster, 1983, p. 168.
41 Universes, London: Routledge, 1989, p.3.
148
Cosmologia e Existência de Deus
menos à forma de vida que conhecemos. Se a força fraca do 
núcleo atômico tivesse sido um pouco mais forte do que é, o 
Big Bang teria queimado todo o hidrogênio, tornando-o em 
hélio; se tivesse sido um pouco mais fraca, os nêutrons forma­
dos inicialmente não teriam se decomposto em prótons, e de 
novo, não haveria hidrogênio. Leslie42 observa que, para que o 
carbono pudesse ser criado em quantidade no interior das es­
trelas, a força forte do núcleo atômico não poderia ter variado 
em mais que 1% do seu valor atual, para mais ou para menos.
4. A Vida
Ajustes finíssimos são necessários não apenas nas condi­
ções iniciais e nas forças físicas, mas também na geração de 
complexidade, particularmente na vida. Várias estimativas 
têm sido feitas para a eventualidade do surgimento da vida. 
Barrow e Tipler43 calculam ser a probabilidade de montagem 
de um simples gene da ordem de 10109. A probabilidade de 
formação ao acaso de um genoma humano, da ordem de 
10“i2.oooooo, isto é, uma chance em 1 seguido de doze milhões de 
zeros. A partir de probabilidades tão ínfimas eles concluem 
que a vida, particularmente a vida humana, deve ser extrema­
mente rara no universo. É preciso observar que tais cálculos 
não incluíram outros fatores igualmente improváveis como 
encontrar as condições favoráveis, num planeta favorável, 
adequadamente localizado nas proximidades de uma estrela 
favorável.
Esses são apenas alguns exemplos! Muitos fenômenos 
similares são citados por Barrow, Tipler e Leslie. Parece que 
o universo está precisamente desenhado para ser receptivo 
à vida inteligente.
42 Universes, London: Routledge, 1989, p.4.
43 John D. Barrow e Frank J. Tipler, The Antropic Cosmological Principle, 
Oxford: The University Press, 1986, p. 565.
149
Deus E Cosmos
Muitos cristãos, incluindo John Leslie, Richard Swin- 
burne e Hugh Ross, basearam sua causa para a existência de 
Deus em tais evidências cosmológicas do design. E eles não 
estão sós. Muitos cientistas, que não são cristãos, têm sido 
igualmente impressionados pela espetacular sintonia fina 
do universo. Assim é que, Stephen Hawking, citado por 
Boslough, afirma:
Os fatores contrários à existência de um universo como o nos­
so, emergindo de algo como o Big Bang, são enormes. Eu penso 
que há claras implicações religiosas. 44
Freeman Dyson, de modo semelhante, escreve:
...numerosos acidentes parecem conspirar no sentido de fazer 
que nosso universo seja habitável. ... Quanto mais eu sondo o 
universo, e os detalhes de sua arquitetura, mais evidência eu 
encontro de que o universo de algum modo soube que nós está­
vamos a caminho.45
Paul Davies, igualmente, chega à conclusão:
E muito difícil resistir à impressão de que a presente estrutura 
do nosso universo, aparentemente tão sensível a pequenas alte­
rações em números, foi cuidadosamente pensada. 46
Numa obra posterior Davies comenta que “a impressão 
de um design é esmagadora”.47
44 John Boslough, Stephen Hawking's Universe, New York: William Morrow, 
1985, p. 121.
45 Freeman Dyson, Disturbing the Universe, New York: Harper and Row, 
1979, p.250.
46 God and the New Physics, New York: Simon and Schuster, 1983, p. 189.
47 The Cosmos Blueprint, New York: Simon and Schuster, 1988, p.203.
150
Cosmologia e Existência de Deus
Alternativas ao Conceito de Design
Apesar disso, tais conclusões não são nem de longe 
unânimes. Várias explicações alternativas do aparente ajuste 
fino do universo têm sido propostas, das quais examinaremos 
as seguintes:
1. Teorias de Múltiplos Mundos - tudo é possível numa 
infinidade de universos.
2. Princípios Antrópicos - se o universo tivesse sido 
diferente, não estaríamos aqui para vê-lo.
3. Teorias do Tudo - a teoria do tudo afirmam que apenas 
um mundo é possível, que nosso mundo não é acidental, mas 
necessário.
4. Seleção Natural - nosso universo é o resultado de um 
processo de seleção natural.
1. Teorias de Múltiplos Mundos
Um modo de explicar o aparente design neste notável 
ajuste fino do universo é sugerir uma multiplicidade de 
universos, existindo sucessivamente ou simultaneamente. Se 
houvesse uma quantidade imensamente vasta de universos, 
com propriedades diferentes, então não seria improvável que 
a vida surgisse em alguns desses universos. Nosso universo 
seria então um desses raros universos.
Vários mecanismos para a geração de múltiplos universos 
têm sido propostos.
a. Ciclos Sucessivos de um Universo Oscilante
Se informação é perdida numa singularidade, e se cada 
novo universo tem propriedades diferentes, como sugerido por 
John Wheeler e discutido anteriormente, então uma completa 
sucessão de universos pode ser gerada. Atualmente, contudo, 
com as evidências observacionais a favor de um universo 
aberto, sem ciclos futuros, essa alternativa não é viável.
151
Deus e Cosmos
b. Múltiplos Domínios
Se o universo for imensamente grande, talvez até mesmo 
infinito, então é possível que enormes regiões, efetivamente 
fora de vista umas das outras, apresentem propriedades dife­
rentes.
c. Teoria Quântica dos Mundos Múltiplos
Uma interpretação da mecânica quântica é que, cada vez 
que um observador faz uma medição, ele, juntamente com o 
universo, é dividido em dois! Sempre que uma escolha deve 
ser feita entre as várias possíveis decorrências de um evento 
quântico, o universo se ramifica num conjunto de universos, 
um para cada opção possível. Isso dá lugar a uma infinidade 
de universos paralelos, virtualmente independentes, com 
diferentes propriedades.
d. Flutuações do Vácuo Quântico
Se é possível que nosso universo tenha sido criado do 
nada, por via de uma flutuação do vácuo quântico, como dis­
cutido numa seção anterior, então não há nada que impeça a 
ocorrência desse fenômeno inumeráveis vezes. Talvez mesmo 
um universo “filhote” possa ser gerado nas entranhas do nosso 
próprio universo.
Em qualquer dos esquemas acima, a presença do nosso 
universo, com sua relativa hospitalidade para com a vida, é 
explicada como uma ocorrência casual, um fenômeno raro num 
virtualmente infinito conjunto de universos estéreis em sua 
vasta maioria.
Swinburne argumenta que o ponto de vista de múlti­
plos mundos contraria o método científico normal.48 Nós 
extrapolamos às distantes partes do universo, supondo serem
48 Richard Swinburne, “Argument from the Fine-Tuning of the U niverse”, 
em John Leslie, Physical Cosmology and Philosophy, London, 1990, p. 167.
152
Cosmologia e Existência de Deus
aplicáveis as leis do presente. Toda evidência aponta para 
a constância dessas leis, sendo a observada isotropia do uni­
verso a mais admirável evidência. Podem haver situações 
questionáveis (por exemplo, numa singularidade) onde 
algumas das leis não se apliquem, mas não há nenhuma 
evidência sugerindo que em geral as leis eram diferentes. Em 
todas as regiões do espaço e tempo, que estão espacial e tem­
poralmente relacionadas com a nossa, não temos razão para 
duvidar que as leis físicas e condições limites sejam quantita­
tivamente as mesmas que as nossas; não temos razão para pôr 
em dúvida a aplicação universal do princípio de indução.
Na teoria quântica de mundos múltiplos há uma infini­
dade de universos, nenhum dos quais jamais produz qualquer 
efeito observável sobre o nosso. Swinburne argumenta que 
seria muito mais simples interpretara mecânica quântica 
indeterministicamente como apenas descrevendo probabili­
dades físicas do comportamento dos constituintes reais do 
universo, e postular que as condições limites de fato residem 
numa faixa estreita. De acordo com Swinburne:
E princípio crucial do método científico que entidades não de­
vem ser postuladas além da necessidade... postular mundos múl­
tiplos infinitos com o intuito de salvar uma interpretação preferi­
da de uma fórmula, que não é de modo algum obviamente mais 
simples que as explicações alternativas, e evitar ter que postular 
uma faixa bem estreita de condições limites, parece loucura.49
Ele conclui ser muito mais simples explicar o nosso uni­
verso feito sob medida especificando apenas uma entidade do 
tipo simples: Deus. Nosso mundo produtor de vida é mais 
plausivelmente explicável pela existência de Deus do que
49 Richard Swinburne, “Argument from the Fine-Tuning of the Universe”, 
em John Leslie, Physical Cosmology and Philosophy, London, 1990, p. 171.
153
Deus e Cosmos
através de defender a existência de mundos infinitos e 
invisíveis.
John Leslie, igualmente, tem argumentado que a hipó­
tese Deus é mais simples e mais plausível como uma explica­
ção para o ajuste fino do universo do que essas hipóteses de 
mundos múltiplos. Conforme Leslie,50 essa última hipótese é 
muito artificial e não encontra apoio em nenhuma evidência 
independente, enquanto que existem outras evidências que 
favorecem acreditar em Deus. Também, John Polkinhorne 
argumenta a favor da superioridade da opção teística:
Uma possível explicação de igual respeitabilidade intelectual - 
e que, ao meu ver, é de maior economia e elegância - seria que 
este mundo único é do modo que é porque é a criação pela von­
tade de um Criador que determina que assim deve ser.51
Por outro lado, Drees duvida que simplicidade favoreça 
a idéia de design sobre a de múltiplos mundos. Simplicidade, 
ele afirma, tem a ver com a estrutura de uma teoria, não o 
número de entidades que ela prediz.52
Poderiam ser combinadas as duas alternativas? Ian 
Barbour pensa ser possível uma interpretação teísta para a 
hipótese de mundos múltiplos, e que Deus e acaso não pre­
cisam ser conceitos mutuamente exclusivos. Ele sugere a 
possibilidade de que:
Deus criou muitos universos de modo tal que vida e inteligên­
cia pudessem ocorrer neste universo. Reconhecemos, isso atribui 
ao acaso um papel de importância incomum, e envolve um
50 “Modern Cosmology and the Creation of Life”, em E. McMullin, 
Evolution and Creation, Notre Damme: The University Press, 1985.
51 One World: The Interaction of Science and Theology, Princeton: The 
University Press, 1986, p.80.
52 Drees, Beyond the Big Bang, p. 68.
154
Cosmologia e Existência de Deus
colossal desperdício e ineficiência, se há muitos universos sem 
vida. Mas - alguém poderia argumentar - para Deus não há 
escassez nem de espaço nem de tempo. Assim, eficiência não 
passaria de um critério dúbio.53 54
A isso pode-se responder que certamente um Deus onis­
ciente não necessita do acaso. De fato, para Ele não existe tal 
coisa como o acaso. Ele sabe que condições iniciais gera­
riam um universo favorável. Então, que necessidade para 
Ele criar incontáveis universos simplesmente para gerar o 
nosso?
2. Princípios Antrópicos
Para explicar-se o observável ajuste fino de nosso univer­
so - de modo não teísta - é preciso não apenas uma multi­
plicidade de universos, mas também um efeito de seleção 
observacional. Como é que aconteceu que nós nos achamos 
num universo favorável à vida? Uma resposta óbvia é que, se 
o universo tivesse sido diferente do que ele é, não estaríamos 
aqui para observá-lo. Portanto, as propriedades físicas que 
observamos são o resultado de um efeito de seleção de 
abrangência total. Citando Barrow e Tipler:
Quaisquer propriedades do universo que possam inicialmente 
parecer assombrosamente improváveis, só podem ser vistas em 
suas reais perspectivas depois de levarmos em conta o fato de que 
certas propriedades do universo são pré-requisitos necessários 
para a evolução e existência dos próprios observadores.^
Tal explicação faz uso do princípio antrópico. O princípio 
antrópico é usado em várias formas:
53 Religion in an Age of Science, San Francisco: Harper, 1990,p.l38.
54 The Anthropic Cosmological Principle,]). 2.
155
Deus e Cosmos
a. O Princípio Antrópico Fraco (WAP - Weak Anthropic 
Principie)
Trata-se da mais básica versão do princípio antrópico, e 
refere-se primariamente ao princípio de auto-seleção: o que 
observamos deve ser compatível com a nossa existência. A 
definição dada por Barrow e Tipler é:
Os valores observáveis de todas as constantes físicas... tomam 
valores restringidos pelos requisitos de que existem lugares onde 
formas de vida baseadas no carbono podem evoluir, e pelo requi­
sito de que o universo é velho o bastante para já ter assim feito.ss
Em resumo, nossas observações são tendenciosas, a favor 
de cenários nos quais existimos. Essa é a forma mais fraca do 
princípio antrópico.
b. O Princípio Antrópico Forte (SAP - Strong Anthropic 
Principie)
Este é mais severo, e muito mais especulativo. Barrow e 
Tipler o definem como o conceito de que “o universo tem que 
ter aquelas propriedades que permitem o surgimento da vida 
em seu interior, em algum estágio de sua história”.55 56 Este é 
freqüentemente associado com o ponto de vista de mundos 
múltiplos: de que todas as possibilidades precisam ocorrer, 
inclusive algumas em que surge a vida.
Enquanto a forma fraca (WAP) afirma que o universo deve 
ser tal que a vida/wde ocorrer, a forma forte (SAP) especifica 
que a vida tem que ocorrer. A forma forte (SAP) especifica que 
a vida tem que ocorrer não apenas em nosso universo, mas em 
todos os universos possíveis. Swinburne observa que a forma 
fraca (WAP) é apenas uma verdade trivial: qualquer teoria tem
55 The Anthropic Cosmological Principle, p. 16.
56Ibid., p. 21.
156
Cosmologia e Existência de Deus
que ser compatível com as observações.57 Devemos ter em 
mente que a WAP não é apenas uma explicação casual: não 
podemos dizer que as condições iniciais e leis são conseqüên- 
cias de nossa existência. Ao invés disso, o oposto é o caso. 
Quanto ao SAP, com suas reivindicações de que as leis da natu­
reza tem que ser tais que a vida possa existir, não há evidência 
em que se possam apoiar. De acordo com o conhecimento 
atual, o oposto parece ser verdadeiro. De fato, era muito muito 
mais provável que o universo não produzisse vida.
Heinz Pageis afirma que o princípio antrópico faz 
tempestade em copo d’água, apresentando profundas defici­
ências, e não tendo lugar em cosmologia.58 Ele alega que esse 
princípio é inteiramente ad hoc, não prediz coisa alguma, e é 
imune à falsificação experimental. Teria sido mais produtivo, 
ele diz, buscar explicações em termos de leis da natureza do 
que apontar para um alegado efeito de seleção. A questão se 
resume sobre se as condições iniciais do universo foram arbi­
trárias ou necessárias. Somente no primeiro caso faz sentido 
apelar para um efeito de seleção tal como o princípio antrópico. 
Enquanto não for melhor entendida a origem do universo, é 
prematuro invocar o princípio antrópico. Pageis argumenta 
que o princípio antrópico deprecia a verdadeira ciência; aque­
les que o usam têm de fato desistido da tentativa de encontrar 
uma explicação realmente fundamental para a natureza das 
coisas. Ele observa também que o princípio antrópico está em 
competição direta com o princípio teísta: de que o universo 
parece finamente ajustado para a nossa existência porque foi 
finamente ajustado por Deus para a nossa existência. Sua ava­
liação sobre aqueles que defendem o princípio antrópico é:
É claro que alguns cientistas, crendo que ciência e religião são
57 “Argument from the Fine Tuning of the Universe”, p. 165.
58 “A Cozy Cosmology”, em Leslie, Physical Cosmology and Philosophy, p. 175.
157
Deus e Cosmos
mutuamente exclusivos, acham esta idéia poucoatraente. Ao 
encararem questões que não se encaixam satisfatoriamente 
dentro do âmbito científico, eles são pouco inclinados a buscar 
explicações religiosas; contudo a curiosidade deles não os per­
mite deixar certas questões em aberto. Daí, o princípio antrópico.
E o mais próximo que alguns ateus podem chegar de Deus.
O princípio antrópico fraco pode explicar algumas 
coisas, se combinado com a teoria de múltiplos universos. Mas 
não consegue explicar porque temos exatamente o universo 
que temos, e não um outro, digamos, ligeiramente menos 
isotrópico. Se este universo é como é, com o único propósito 
de criar vida, então seu arranjo podería ter sido muito menos 
preciso.
3. A Teoria do Tudo
Os comentários de Pageis acima citados levantam uma 
terceira possibilidade: a de que os valores aparentemente 
arbitrários das constantes físicas são de fato ditados por uma 
lei mais básica. Pode ser que uma teoria mais fundamental 
mostre que as constantes tenham que ter os valores que têm. 
Em tal caso, coincidências como as listadas acima transfor­
mam-se em necessidades.
Recentemente, esforços foram dirigidos no sentido de 
elaborar uma Teoria Ampla Unificada, que unisse as forças 
nucleares e eletromagnéticas numa única teoria. Muito 
esforço foi também direcionado no sentido de combinar a 
relatividade geral e a mecânica quântica numa teoria unificada 
de gravidade quântica. Uma tal teoria é necessária em situa­
ções onde a densidade matéria-energia é extremamente alta, 
tal como se pensa ter sido a situação ocorrida logo após o Big 
Bang. As últimas teorias, envolvendo “super-cadeias” multi- 
dimensionais tentam fundir todas essas forças numa única 
teoria, A Teoria do Tudo (A Theory of Everything - TOE/
158
Cosmologia e Existência de Deus
Ela é assim chamada, teoria do tudo, porque acredita-se que 
tudo poderia ser logicamente deduzido a partir de tal teoria.
Bem sucedida, a teoria do tudo parece que solaparia o 
argumento do design. Todavia, de acordo com Barbour,59 tal 
teoria seria bem-vinda como parte do design de Deus. Enquan­
to tal teoria possa mostrar que apenas um universo é possível e 
que as características de nosso universo são necessárias, em 
vez de acidentais, ela ainda deixa sem explicação o por quê ou 
o como o universo tornou-se concretizado em mundo real.
Contudo, mesmo a teoria do tudo não explica completa­
mente o ajuste fino do universo. Para tirar conclusões sobre 
situações particulares necessitamos não apenas de leis univer­
sais, mas também de condições de limites apropriados. E 
como Barbour afirma: “Evolução deve ser descrita por meio 
de um relato de fatos históricos, e não apenas através de leis 
que predizem”.60 Assim, seríamos deixados com a questão do 
por quê as condições de limite eram como eram.
Indo além, para que uma teoria do tudo explicasse literal­
mente tudo, incluindo as características não apenas de espé­
cies particulares, mas também de indivíduos particulares, 
isso claramente requer um conhecimento das condições 
de limites de tal nível de detalhe que seria praticamente 
impossível a seres humanos adquirirem.
Stephen Hawking também considerou a possibilidade 
de uma teoria do tudo. Ele conclui que mesmo que uma tal 
teoria pudesse ser encontrada, ela ainda deixaria algumas 
questões não respondidas:
Mesmo que haja possível apenas uma teoria unificada, ela não 
passa de um conjunto de regras e equações. O que é que põe fogo 
nas equações e produz um universo que elas possam descrever?
59 Religion in an Age of Science, p. 139.
60Ibid., p. 139.
159
Deus e Cosmos
A costumeira abordagem científica de construir um modelo ma­
temático não consegue responder às questões do por quê haveria 
um universo para o modelo matemático descrever.61
Mas Hawking é otimista:
No entanto, se descobrirmos uma teoria completa, ela deverá, 
no devido tempo, ser compreensível ... por todos ... Então todos 
seremos... capazes de participar da discussão da questão do por 
quê nós e o universo existimos. Se encontrássemos uma resposta 
para isso, seria o triunfo máximo da razão humana - pois então 
conheceríamos a mente de Deus.62
Hawking superestima o valor de uma teoria do tudo, ao 
mesmo tempo que subestima o conteúdo da mente de Deus.
Resumindo, mesmo que uma teoria do tudo pudesse ser 
estabelecida, a questão do design ainda permanece. Ainda 
seria necessário explicar as condições de limites, a existência 
da teoria do tudo, e a existência do próprio universo. Tudo 
isso, é claro, pressupõe que tudo no universo é o resultado 
de leis físicas normais. Se levarmos em conta as influências 
espirituais e milagres, então o significado ou importância de 
uma teoria do tudo fica ainda mais reduzido.
4. Um Universo por Seleção Natural
O astrônomo americano Edward Harrison propôs que 
o nosso universo foi feito por formas de vida altamente 
inteligentes, vivendo em outro universo, e que o aparente 
ajuste fino de nosso universo teria sido resultado de seleção 
natural.63 Ele defende que, sob condições controladas de
61 S. W. Hawking, A BriefHistoryofTime, New York: Bantam, 1988, p. 174.
62 Ibid.,p. 175.
63 “The Natural Selection of the Universes Containing Intelligent Life”, 
Quarterly Journal of the RoyalAstronomicalSociety, 1995,36, pp. 193-203.
160
Cosmologia e Existência de Deus
laboratório, pode ser viável a criação de um universo a partir 
da formação de um buraco negro (black hole) de pequenas 
dimensões (10 kg) constituído de partículas de alta-energia. 
As constantes físicas do universo descendente seriam pratica­
mente as mesmas do universo matriz.
Seres altamente inteligentes poderiam então criar novos 
universos que pudessem ser receptivos à vida. Somente 
universos contendo seres inteligentes teriam possibilidade 
de se reproduzir.
Harrison pressupõe que, inicialmente, houve um con­
junto de universos, com constantes fundamentais diferentes, 
contendo pelo menos um universo onde vida inteligente ocor­
reu. A partir daí, por reprodução, os universos inteligentes 
dominaram o conjunto. Universos com maior hospitalidade 
à vida são naturalmente selecionados pela sua capacidade de 
reprodução.
O mesmo astrônomo argumenta que a crença num ser 
sobrenatural criador faz cessar a investigação científica, enquan­
to que o princípio antrópico implica numa vasta área de 
refugo de universos estéreis. Sua proposta, por outro lado, 
propõe que a vida em si própria exerce a função ou atividade 
de criar, o que então deixa a esfera religiosa e se torna objeto 
de investigação científica.
É claro, porém, que tal proposta tem um número de pon­
tos fracos.64
Primeiro, o proposto cenário de criação de universos é, 
para dizer o mínimo, altamente especulativo; e baseia-se em 
concepções cosmológicas e físicas de partículas ainda não 
testadas empiricamente. Quanto ao postular um universo 
mãe, sem conexão espacial e causal com o nosso, isto é ineren­
temente inverificável.
64 John Byl, “On the Natural Selection of Universes”, Quarterly Journal of 
the Royal Astronomical Society, 1996,37, pp. 369-371.
161
Deus e Cosmos
Segundo, seleção natural, como explicação de complexi­
dade, geralmente invoca uma evolução na direção de comple­
xidade crescente. Aqui, contudo, a direção é invertida: nosso 
universo é postulado como tendo sido criado por seres superi­
ores, e não inferiores. Usando a analogia de Paley, isso seria 
como se, ao descobrir um relógio, o investigador inferisse não 
a existência do relojoeiro, e sim a de uma sofisticada máquina 
de fazer relógios.
A proposta explica o problema original ao alto custo de 
substituí-lo por um outro de muito maior complexidade. E 
somos ainda deixados com várias questões em aberto, tais como 
“o que” criou o conjunto inicial de universos, em particular 
aquele onde estariam os seres de inteligência superior. Isso nos 
conduz de volta às teorias de mundos múltiplos e princípios 
antrópicos.
Para simplificar, a proposta de que nosso universo foi 
criado por seres inteligentes não é uma explicação viávelpara 
a origem de nosso universo. O cenário de seleção natural é 
inventado, inverificável, e finalmente se reduz meramente a 
uma versão desnecessariamente mais complicada de teísmo 
ou de princípios antrópicos. Parece mais racional pressupor 
nosso universo como o primeiro a conter seres inteligentes 
criados.
Resumindo, as características observadas do universo 
parecem ser muito mais plausivelmente explicadas através do 
design divino do que pela alternativa de teorias de mundos 
múltiplos, princípios antrópicos, teorias do tudo, ou seleção 
natural. Isso, pelo menos, é a minha avaliação pessoal. Infe­
lizmente, contudo, devemos reconhecer que o argumento 
carece de compulsão. Ao julgar teorias científicas, critérios 
como simplicidade e plausibilidade muitas vezes estão no 
olho daquele que observa - um observador cuja avaliação é 
moldada por suas convicções religiosas mais profundas.
162
Cosmologia e Existência de Deus
Design e Evolução
Se de fato o universo teve exatamente os parâmetros 
necessários para evoluir ao presente estado, com toda a sua 
detalhada estrutura e diversas formas de vida, isso poderia ser 
visto como forte evidência a favor da evolução. Afinal, num 
universo criado instantaneamente, em forma madura, 
parâmetros cosmológicos - tais como densidade e taxa de 
expansão - poderiam ter sido muito diferentes. Isso faz pare­
cer que, de um ponto de vista criacionista, o ajuste fino é 
inexplicável, meramente coincidente.
Em resposta, observamos, primeiro, que o ajuste fino 
alegadamente necessário para o surgimento de vida em 
grande parte seria também necessário para suster a vida. A 
vida - pelo menos na forma como conhecemos - depende 
criticamente das singulares propriedades de elementos como 
carbono, hidrogênio, nitrogênio e oxigênio. As propriedades 
necessárias para suster a vida não mais existiriam se, por exem­
plo, as forças nucleares ou eletromagnéticas fossem apenas 
ligeiramente diferentes, ou se a massa relativa de elétrons e 
nêutrons estivesse em proporções ligeiramente diferentes. 
Assim, também, um universo recentemente criado requereria 
um considerável grau de ajuste fino das leis e constantes 
físicas.
Um segundo fator é que muitas das assim chamadas 
coincidências antrópicas são baseadas mais em especulação 
teórica do que em fatos observacionais. Tome, por exemplo, a 
altíssima precisão requerida para a taxa de expansão inicial, 
como anteriormente mencionada. Tal alta precisão certa­
mente não é observada, sendo a presente taxa de expansão 
conhecida a uma precisão melhor que não ultrapassa 10 por 
cento. Pelo contrário, as coincidências antrópicas são pura­
mente inferidas com base em cálculos teóricos. Como tal, o 
ajuste fino hipotético poderia ser visto como uma medida
163
Deus e Cosmos
da implausibilidade da cosmologia do Big Bang, o qual 
somente pode explicar o presente universo apoiando-se em 
uma conjeturada e extremamente improvável taxa de expan­
são do passado.
Conclusões
É chegada a hora de finalizar nossa discussão sobre 
provas quanto a existência de Deus. Há três pontos que eu 
gostaria de frisar:
1. A Limitação das Provas
Como já vimos, embora as várias considerações cosmo­
lógicas possam levar alguém a inferir que o universo físico 
teve um começo num tempo finito do passado, tal conclusão 
não é de modo algum rigorosa. Há incerteza suficiente quan­
to às leis físicas e suas aplicações, o que impede que outras 
possibilidades sejam eliminadas de modo definitivo. A mes­
ma consideração geral se aplica ao argumento do design.
Contudo, embora tais argumentos não sejam compul­
sivos, eles claramente têm sua força de persuasão. De fato, 
vários astrônomos têm tirado implicações teístas a partir da 
cosmologia do Big Bang. Isso tem levado alguns a rejeitar a 
cosmologia do Big Bang, e outros a aceitar uma variedade de 
diferentes concepções de Deus.
Poucos, entretanto, por este meio, parecem ter sido 
convertidos ao cristianismo ortodoxo. Por que seria esse o 
caso? Possivelmente porque o argumento cosmológico em si 
mesmo, aponta para um Causador Principal, um ser eterno 
que dá início ao universo. O argumento teleológico não nos 
leva muito além disso. John Leslie, um defensor do argu­
mento do design, afirma que Deus não precisa absolutamente 
ser uma pessoa, mas meramente um “requisito ético criativa­
mente efetivo para a existência de um (bom) universo, ou
164
Cosmologia e Existência de Deus
universos”.65 Esses deuses, abstrações impessoais como são, 
dificilmente seriam objeto de inspiração ou que requeiram 
nossa adoração. No máximo isso nos leva a um Deus deísta. A 
plausibilidade de providência, revelação sobrenatural e 
milagres precisam ainda ser mostrados. E claro que, entre os 
conceitos de Causador Principal ou Designador (autor do 
design) sugeridos pelos argumentos cosmológico e teleológico 
e o Deus vivo da Bíblia, há uma distância tremenda a ser 
percorrida.
2. Comprometimento com o Big Bang
Argumentar partindo do Big Bang para o Deus da Bíblia 
resulta em outro problema, qual seja, a vinculação com o Big 
Bang que isso necessariamente acarreta. Estabelecer vínculos 
muito restritivos de uma prova teísta com um modelo 
cosmológico particular abre espaço para desastres teológicos, 
caso tal modelo venha a ser destronado. O que é mais impor­
tante, mostraremos em capítulo subseqüente, é que a visão 
bíblica da realidade é bem diferente daquela da cosmologia 
Big Bang. Tais diferenças envolvem não apenas questões de 
origem e escatologia, mas também a presente estrutura do 
universo. Por exemplo, na cosmologia Big Bang não há lugar 
para um Deus transcendente, para causas sobrenaturais, ou 
para uma alma imortal.
Assim, ao se construir um ponto de vista cristão da reali­
dade, a cosmologia Big Bang finalmente terá que ser substi­
tuída por modelos cosmológicos que estejam mais em acordo 
com informações bíblicas. Segue portanto que, argumentações 
de apologistas como Craig e Ross têm pouco valor como meio 
para animar ou dar sustentação a fé dos cristãos. Na realidade, 
ao endossarem a cosmologia do Big Bang eles estão introdu­
zindo uma nova epistemología que dá peso excessivamente
65 Leslie, Universesrf). 186.
165
Deus e Cosmos
alto à teorização especulativa sob a aparência ou pretexto de 
revelação geral.
Isso, inevitavelmente, trará graves implicações à visão 
tradicional de autoridade bíblica e hermenêutica.
Uma vez reconhecido um Deus sobrenatural, o caso para 
uma singularidade Big Bang torna-se fraco, já que outras 
opções plausíveis são agora viáveis. Se Deus pode criar o 
universo inteiro ex nihilo no momento da singularidade, 
alguém podería conjeturar, por exemplo, que Ele formou este 
universo de um universo já existente ou Ele criou o universo 
inteiro ex nihilo num passado mais recente. A questão se torna 
então teológica, e pode ser respondida apenas através daquilo 
que Deus revelou-nos em sua Palavra escrita.
3. O Papel da Revelação Geral
Aqui alguém poderia perguntar: e quanto à revelação 
geral de Deus? Acaso Ele não nos revela verdades, tais como a 
cosmologia Big Bang, através da natureza?
De acordo com Ross, a criação revela não apenas verdades 
essenciais a respeito do caráter de Deus, mas também todos os 
passos necessários para que seja desenvolvido um relaciona­
mento correto com Deus.66 Esses passos são, de modo único e 
incomparável, corroborados pela Bíblia. Como ilustração da 
acessibilidade da informação Ross afirma que Jó, sem o auxí­
lio das Escrituras, discerniu todos os elementos através dos 
quais o homem poderia encontrar vida eterna em Deus.
Se de fato Jó obteve tal conhecimento apenas através de 
observação bruta e raciocínio, é duvidoso. Uma pessoa não 
pode excluir a possibilidade de que esse conhecimento tenha 
sido adquirido por tradição oral (por exemplo, através dos 
patriarcas), ou diretamente de Deus (ver Jó, capítulos 38-41). 
O fato do conhecimento de Jó ter sido questionado por seus
66 Ross, The Fingerprint of God, p. 182.
166Cosmologia e Existência de Deus
amigos mostra que seu conhecimento, se revelado pela 
criação, certamente não foi percebido por outros da mesma 
maneira.
Enquanto a Bíblia afirma que Deus revela verdade 
através da natureza, tal verdade é de natureza limitada, 
concernente à Sua natureza.
“Porque as Suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, 
tanto o Seu eterno poder, como a Sua divindade, se entendem, e 
claramente se vêm pelas coisas que estão criadas, para que eles 
fiquem inescusáveis” (Romanos 1:20).
A revelação de Deus inteiro através de Suas obras é pri­
mariamente uma questão de awío-revelação de Deus. Como 
tal é compreendido, antes de tudo, não através de investigação 
científica, e sim através da fé. Isso fica evidente nos Salmos 
(por exemplo, Salmos 33 e 104), os quais revelam a percepção 
da fé nas obras das mãos de Deus. Os Salmos sobre a natureza 
lidam não com aspectos abstratos da realidade cósmica, mas 
em vez disso, com a realidade pura e simples. Até mesmo o 
homem pré-científico pode discernir a ordem, beleza, vasti­
dão e harmonia da criação.
Deus Se revela através da natureza de modo tal que todo 
homem está ciente do verdadeiro Deus. Este conhecimento 
não depende de prova lógica ou argumentação científica. E 
muito mais direto. O homem, tendo sido feito à imagem de 
Deus, não pode olhar para as coisas da natureza sem imediata­
mente perceber nelas a obra de Deus. Veja a majestade, beleza, 
bondade e ordem ao nosso redor: as estrelas, flores, e assim 
por diante. Não seria óbvio que estas coisas certamente foram 
criadas por um grandioso Deus?
Contudo, apesar da deidade de Deus ser claramente reve­
lada através da natureza, o homem distorce e suprime este 
conhecimento; o homem rejeita a Deus e torna-se fútil em seu
167
Deus e Cosmos
entendimento, sua mente insensível torna-se obscura. Então 
Deus os abandona às suas paixões infames e a um sentimento 
perverso (ver Romanos 1:18,21-32).
Então é somente pela pregação do evangelho e operação 
do Espírito Santo que o homem pode vir ao conhecimento de 
Deus. O homem pós-queda tem necessidade das Escrituras 
para interpretar corretamente a natureza. Assim, embora haja 
uma revelação natural, isso não leva a uma teologia natural: 
sem o guia das Escrituras o homem se perde em fúteis especu­
lações. Para usar a analogia de Calvino, os olhos dos homens 
estão por demais obscurecidos para lerem o livro da natureza 
apropriadamente; nós necessitamos dos óculos das Escri­
turas para expulsar as trevas e dar-nos uma visão clara do 
verdadeiro Deus, corrigindo assim nossas confusas noções de 
Deidade.67
Como observou Stephen Spencer,68 os Salmos sobre a 
natureza (por exemplo, Salmos 8, 19,29,65 e 104) não consti­
tuem base para uma teologia natural. Os Salmos são postos 
no meio do povo de Deus. Neles, a natureza jamais é vista 
como uma revelação independente da Palavra de Deus: a lei 
de Deus jamais é afastada do pensamento do salmista. O que 
vemos aqui é uma teologia sobre a natureza, e não uma teologia 
natural. A revelação natural de Deus é interpretada dentro do 
escopo da Palavra de Deus, e nunca independente dela.
E necessário frisar que o conhecimento revelado através 
da natureza concerne apenas aos atributos de Deus e que este 
conhecimento é adquirido pela nossa experiência direta com 
a natureza, não através de nossos modelos científicos. Não há 
qualquer evidência bíblica que sugira que Deus Se revela
67 João Calvino, Institutes of the Christian Religion (Instituías da Religião 
Cristã), 1559,1. vi. 1.
68 S. R. Spencer, “Is Natural Theology Biblical?”, Grace Theological Journal, 
1988,9, pp. 59-72.
168
Cosmologia e Existência de Deus
através de nossas falíveis teorizações humanas. De fato, a 
Bíblia enfatiza a limitação do conhecimento humano, 
particularmente com respeito a origens (veja, por exemplo, 
Jó, capítulos 38-41; Isaías 41:21-24; Eclesiastes 3:11). A 
cosmologia Big Bang, na medida em que consiste de 
extrapolação teórica que vai além dos dados observados, 
não pode ser considerada como parte da revelação geral 
de Deus. Não se trata de uma verdade revelada. E mera 
especulação, e como tal não pode ser considerada como uma 
evidência válida para Deus. E nem mesmo é necessária: o 
homem já é inescusável.
Em resumo, cosmologia nos fala muito pouco a respeito 
de Deus. Através da estrutura e propriedades do universo 
podemos obter um melhor entendimento a respeito da 
operosidade de Deus, mas não muita coisa a respeito do 
Criador. O escopo da teologia natural - o estudo de Deus 
por meio da natureza e da razão humana, e não da revelação - 
é extremamente limitado.
O que, então, restaria do status apologético dessas provas 
teístas? Embora elas falhem em demonstrar a existência de 
Deus - particularmente o Deus da Bíblia - seu valor principal 
consiste em mostrar que o naturalismo inerente na ciência 
moderna não pode plausivelmente ser mantido indefinida­
mente. Ao final, o naturalismo falha em suprir explicações 
satisfatórias para a abundante riqueza da nossa realidade 
experimental, e dá pouco esclarecimento às questões mais 
profundas sobre origens, propósito e destino. O naturalismo, 
aplicado de forma coerente, mina seu próprio terreno.
169
5
Cosmologia, Vida e Futuro
Até aqui temos nos concentrado primariamente em 
questões envolvendo a estrutura passada e presente do 
cosmos. Contudo, a questão do futuro do universo é também 
de grande interesse para nós. O que teria a cosmologia 
moderna a nos dizer com respeito ao futuro?
Num futuro imediato, uma das esperanças da atual socie­
dade é estabelecer contato com civilizações extraterrestres. 
Portanto, é mister examinar a possibilidade e as implicações 
de um tal evento. Mas, e quanto a um futuro remoto? Poderí­
amos esperar que a vida humana, ou mesmo qualquer forma 
de vida, continue a existir indefinidamente? A maioria dos 
cosmólogos é bem pessimista a respeito disso, porém, como 
veremos, existem uns poucos que vislumbram cenários mais 
otimistas.
Finalmente, de primária importância para nós como 
pessoas individuais, é a questão da nossa própria imortali­
dade. Mesmo supondo que a vida seja para sempre, isso 
representaria conforto limitado para indivíduos que devem 
enfrentar a morte e a extinção. E quanto a ciência, será que 
ela nos oferece alguma esperança de vida após a morte?
A Vida no Universo
Seria a Terra o único berço para a vida no universo? 
Estaria o homem só? Ou será que existe vida extraterres­
tre inteligente (além dos anjos e demónios) em algum outro
170
Cosmologia, Vida e Futuro
lugar do espaço? Muitas pessoas créent que tais criaturas 
existem e que a vida encontra-se espalhada por todo o uni­
verso. Em 1992 a agência espacial americana, NASA, lançou 
um grande projeto denominado SETI (Search for Extra 
Terrestrial Intelligence - Busca de Inteligência Extraterrestre). 
Radiotelescopios ao redor do mundo são usados para sondar 
estrelas distantes em busca de sinais que possam ser de ori­
gem artificial. Até agora o resultado tem sido completamente 
negativo. Apesar disso, é importante examinar o tema de vida 
e inteligência artificial levando em conta as considerações 
teológicas e científicas.
Breve História de ETI (Inteligência Extraterrestre)
Vêm de longa data as especulações sobre a existência de 
vida extraterrestre (ETL - Extra Terrestrial Life) e inteligên­
cia extraterrestre (ETI - Extra Terrestrial Intelligence).1 Essas 
remontam à época do filosofo grego Demócrito (c. 460-370 
a.C.), que acreditava na existência de um infinito número de 
mundos, cada um desses com um planeta central, habitado. 
Ele acreditava também que a lua fosse povoada. Todavia, a 
crença em ETI não era popular nos tempos antigos; nem 
também na idade média, em cuja cosmologia hierárquica finita 
não havia lugar para outros planetas habitados, embora a exis­
tência de legiões de anjos - e demônios - fosse reconhecida.
O grande impulso para ETI veio com o advento da 
revolução copernicana do século 16. Como rebaixamento do 
nosso planeta a apenas um planeta como os outros, deixou de 
haver razão para a crença em sua singularidade de função ou * S.
1 Na exposição a seguir, eu fiz uso do excelente trabalho de pesquisa de
S. J. Dick (Plurality of Worlds, Cambridge University Press, 1981), e F. J. 
Tipler (‘A Brief History of the ETI Concept’, Quarterly Journal of the 
Royal Astronomical Society, 1982,22, pp. 133-145).
171
Deus e Cosmos
composição. Assim, por exemplo, o astrônomo Johannes 
Kepler, entre muitos outros, pensava que o sol, os outros 
planetas, e particularmente a lua, eram povoados.
Pelo final do século dezoito, a crença em ETI já era 
bastante popular na comunidade científica. A demonstração 
de falta de atmosfera lunar havia, naquela época, eliminado a 
possibilidade de inteligência na lua. Mas, isso apenas fez com 
que a crença na existência de ETI fosse transferida para outros 
corpos celestes. O famoso filósofo Immanuel Kant2 deixou- 
-nos um tratado descrevendo com certo grau de detalhes 
algumas formas de vida que, segundo ele, povoavam os pla­
netas do nosso sistema solar. Por longo tempo, o mais forte 
candidato para ETI foi o planeta Marte. O interesse chegou ao 
máximo quando o astrônomo Percival Lowell anunciou que 
ele de fato havia observado a existência de canais em Marte. 
Contudo, tais reivindicações extravagantes foram logo desa­
creditadas pela maioria dos astrônomos profissionais, os quais 
haviam falhado quanto ao discernir os dados observacionais. 
Daí então, a busca por ETI abandonou o sistema solar, em 
favor de estrelas mais próximas. Há expectativa de que, num 
futuro próximo, radiotelescopios mais sensíveis possibilitem 
a detecção de evidências de civilizações celestes avançadas.
A Razão Científica para ETI
Quão forte é a razão científica para ETI? Estimativas 
variam de modo considerável. Durante os últimos poucos 
anos tem havido um entusiasmado debate entre dois grupos 
de cientistas: os que crêem que a existência de ETI já é muito
2 Uma tradução para o inglês da obra de Kant, Allgemeine Naturgeschichte 
und Theorie des Himmels (1975), por Stanley L. Jaki pode ser encontrada 
em W. Yourgrau e A. D. Beck (editores), Cosmology, History and Theology, 
New York: Plenum Press, 1977, pp. 387-403.
172
Cosmologia, Vida e Futuro
ampla, e aqueles que pensam que sua ocorrência é muito 
rara, o ser humano sendo provavelmente único.
Segundo os otimistas, muitas das estrelas têm planetas, 
boa porcentagem desses oferecerá condições adequadas para 
a vida, e a vida de fato se desenvolverá em proporção conside­
rável em muitos de tais planetas habitáveis, e, afinal, muitos 
dos planetas habitados produzirão sociedades inteligentes. 
Mesmo sendo conservador, tomando apenas uma pequena 
fração (digamos 1%) em cada um dos passos desse raciocínio, 
considerando o grande número de estrelas apenas em nossa 
galáxia, estimado em aproximadamente 300 bilhões, ficare­
mos ainda com um potencial de três mil civilizações inteli­
gentes só em nossa galáxia. As chances são de que muitas 
daquelas civilizações serão muito mais avançadas do que a 
nossa.
Os pessimistas, por outro lado, argumentam que todos 
os fatores acima são por demais incertos, que a atribuição 
de valores numéricos a tais fatores não passa de mera adivi­
nhação, e que, na realidade, alguns dos elos na cadeia de 
raciocínio são extremamente improváveis - se não impos­
síveis - baseando-se no conhecimento científico corrente. 
Examinemos, então, alguns dos mais importantes elos na 
cadeia de raciocínio acima.
1. Planetas Habitáveis
Quantas estrelas têm planetas? Ninguém sabe. Planetas 
ao redor de outras estrelas seriam pálidos demais para pode­
rem ser observados diretamente através de um telescópio 
situado na Terra. Portanto, as técnicas para detectarmos a 
presença de tais planetas teria que ser por via indireta. O 
método principal é pela observação e constatação de oscila­
ções no movimento de uma estrela, causadas pela atração 
gravitacional de algum planeta. De tempos em tempos a 
constatação de oscilações tem sido reportada, e a existência
173
Deus e Cosmos
de planetas tem sido deduzida a partir disso. Até recente­
mente, todas as oscilações então constatadas haviam sido 
desconsideradas, por se tratarem de falsos alarmes, ocasiona­
dos por problemas observacionais, mas a situação mudou nos 
últimos anos. Glanz3 reporta que pelo menos nove planetas 
foram descobertos. Embora tais planetas sejam associados com 
estrelas do tipo sol, eles são todos de dimensões gigantescas, 
semelhantes a Júpiter, e orbitando muito mais próximos de 
suas estrelas do que o previsto pelas teorias padrões de forma­
ção de planetas. Eles certamente não poderíam suster formas 
de vida semelhantes às atualmente conhecidas. No entanto, 
tal descoberta torna mais plausível a existência de planetas 
menores, semelhantes à Terra, mas que seriam menos prová­
veis de causar oscilações observáveis em suas respectivas 
estrelas, e por isso permaneceriam invisíveis à nós.
2. Vida por Acaso
De planeta habitável à realidade de formação de vida num 
planeta, o salto seria ainda gigantesco. Até aqui, nenhuma vida 
foi detectada por sondas espaciais enviadas aos planetas de nosso 
sistema solar. Até pouco tempo, era amplamente aceita a idéia 
de que Marte poderia abrigar, se não construtores de canais, 
pelo menos alguma forma mais primitiva de vida. Tal espe­
rança foi posta de lado depois dos testes realizados pela nave 
espacial Viking, que pousou em Marte em 1976, embora 
alguns cientistas ainda tenham como inconclusivos os resul­
tados de tais testes.
Outro meio de busca de ETL é através de exames de 
rochas extraterrestres, visando detectar traços de formas de 
vida primitiva. Rochas lunares trazidas pelos astronautas da 
Apollo não mostraram qualquer evidência de vida. Grande
3 James Glanz, “Worlds Around Other Stars Shake Planet Birth Theory”, 
Science, 1997,276,pp. 1336-1339.
174
Cosmologia, Vida e Futuro
excitação foi gerada em agosto de 1996, quando os cientistas 
da NASA anunciaram haver descoberto o que eles pensavam 
ser evidência de vida em Marte.4 Um meteorito encontrado na 
Antártida, e considerado como sendo originado de Marte, 
continha microscópicos glóbulos de carbonato, semelhantes 
às bactérias encontradas na Terra. Infelizmente, foi mais tarde 
determinado que tais glóbulos podem ser devidos a outras 
causas - causas inanimadas. Mesmo que formas definidas de 
vida tivessem sido encontradas e ainda que pudesse ter sido 
demonstrado que eram de fato originadas do meteorito antes 
desse haver atingido a Terra, o resultado seria inconclusivo. 
Pensava-se que um asteróide chocando-se com a superfície de 
Marte poderia deslocar material para o espaço, e uma parte, 
como o meteorito em questão, poderia atingir a Terra. Mas, se 
vida pode ser transportada de Marte para a Terra por meio do 
impacto de um asteróide, o mesmo mecanismo poderia levar 
vida da Terra para Marte. Assim, a existência de uma fonte de 
vida independente em Marte ainda não estaria provada.
Sob uma perspectiva naturalista evolucionista, quão 
provável seria a evolução de vida a partir de não-vida? A 
presença de muitas moléculas complexas tem sido observada 
no espaço interestelar. Isso inclui água, metano, amónia, 
álcool etílico e metílico, e ácido fórmico. Tem sido constatado 
que ao se expor uma mistura de vapor d’água, metano e 
amónia à luz ultravioleta pode resultar na formação de 
aminoácidos. Traços de aminoácidos têm sido detectados em 
alguns meteoritos. Assim, é provável que os aminoácidos 
sejam razoavelmente numerosos no universo. O difícilé ir 
além desses, e chegar à vida real.
Organismos terrestres consistem de dois tipos de molécu­
las, cuja interação resulta em vida. Primeiro são as proteínas,
4 D. S. MacKay et al., “Search for Past Life in Mars: Possible Relic Biogenic 
Activity in Martian Meteorite ALH84001”, Science, 1996,273, pp.924-930.
175
Deus e Cosmos
das quais os organismos são constituídos.Segundo são os 
ácidos nucléicos, como o DNA, que suprem informação para 
a estrutura do organismo, bem como os meios para passar 
adiante tais informações no processo reprodutivo. Proteínas 
consistem de aminoácidos; DNA consiste de compridas 
cadeias de bases. Ambos são compostos de intrincadíssimas 
combinações de carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, e 
vários outros átomos comuns.
Reconhecida a existência dos requeridos aminoácidos e 
bases, outra coisa bem diferente é, por combinações ao acaso, 
chegar a combinação exata de modo a formar uma célula 
completa. A probabilidade disso acontecer por acaso, é virtu­
almente zero. Fred Hoyle julga tão improvável que a vida na 
Terra tenha sido originada por acaso, que postula ter sido 
originada nas vastas nuvens de gás interestelares.5 A maioria 
dos biólogos evolucionistas considera a hipótese do surgimento 
de vida a partir de não-vida imensamente improvável, e tem 
sido geralmente céticos a respeito da possibilidade de ETI. 
Uma estimativa da probabilidade da ocorrência de vida num 
planeta habitável, nas mais favoráveis condições, é tão imen­
samente pequena quanto 10'32 (isto é, uma chance em cem 
milhões de trilhões).6 Paul Davies estima que a chance de que 
permutações ao acaso de moléculas resultem numa molécula 
de DNA é de 1 em 104000! Isto é, a mesma probabilidade de se 
atirar uma moeda e obter uma seqüência de 130.000 vezes efígie. 
Assim sendo, ele conclui que seriam necessários mais de dez 
bilhões de anos antes que se repetisse nova ocorrência ao acaso 
de mais uma molécula de DNA no universo observável.7
5 F. Hoyle, The Intelligent Universe, New York: Holt, Rinehart and Winston, 
1983.
6M. H. Hart, Extraterrestrials- Where Are They?, New York: Pergamon Press, 
1982, p. 23.
7 Are We Alone: Philosophical Implications of the Discovery of Extraterrestrial 
Life, New York: Basic Books, 1995, p. 28.
176
Cosmologia, Vida e Futuro
3. Formas Superiores de Vida
Um outro gargalo acontece quando partimos de organis­
mos monocelulares para formas de vida mais avançadas. De 
acordo com Crawford, organismos monocelulares surgiram um 
bilhão de anos depois que a Terra foi formada, enquanto fo­
ram necessários mais de três bilhões de anos para a evolução à 
forma de vida animal multicelular.8 Indo adiante, a evolução 
de animais multicelulares a partir de organismos monoce­
lulares teria ocorrido apenas uma vez na história. Ele conclui 
que a evolução de formas complexas de vida é muito mais 
difícil do que o desenvolvimento inicial de vida.
Uma preocupação posterior de Crawford é quanto ao 
surgimento de inteligência. Muitos milhares de espécies, 
supostamente evoluindo ao longo de muitos milhões de anos, 
resultaram em apenas uma espécie suficientemente inteligen­
te para desenvolver tecnologia e cultura. Isso implica em que, 
mesmo dada a existência de vida multicelular, o surgimento 
de inteligência pelo processo de evolução é muito pouco 
provável.
4. Matéria Auto-Organizável
Tais pessimistas estimativas foram questionadas pelos 
otimistas, os quais alegam que a presente compreensão do 
mecanismo de evolução é incompleta. Eles esperam que 
desenvolvimentos posteriores provem sua convicção de que a 
evolução é muito mais provável do que atualmente se crê. 
Afinal, perguntam eles, se vida surgiu aqui, neste planeta 
insignificante, porque não também em outro lugar?
Paul Davies argumenta que a origem da vida não foi um 
milagre, nem um acidente estupendamente improvável, mas 
o inevitável resultado de propriedades de auto-organização da
8 Ian Crawford, “Galactic Civilizations: A Reply”, Astronomy and Geophysics, 
1997,38 (No. 6), p. 19.
177
Deus e Cosmos
matéria.9 Ele considera que ambas, vida e consciência, são 
propriedades fundamentais “emergentes” da natureza, conse- 
qüência natural das leis da física que emerge num sistema 
físico, uma vez atingido um certo nível de complexidade. 
Como tal, ele crê que a vida deve ser abundante através do 
universo.
Infelizmente, Davies não supre nenhum detalhe sobre 
como a complexidade necessária pode ser atingida, quais seri­
am as condições reais para a vida e consciência “emergirem”, 
ou, quais seriam as leis físicas que fariam tal “emergência” ser 
inevitável. Uma deficiência posterior desta posição é que não 
há absolutamente nenhuma evidência científica para apoiá-la. 
Por que tais propriedades de “auto-organização” da matéria 
jamais foram observadas funcionando em nenhum experimen­
to científico entre os muitos que visam sintetizar a vida? Por 
que, na visão evolucionária, a vida na Terra surgiu apenas uma 
vez? As misteriosas “propriedades emergentes” de Davies 
parecem altamente mágicas: estupendos milagres, cada vez 
mais inexplicáveis visto que os tais alegadamente ocorrem 
puramente por si próprios, sem necessidade de intervenção 
divina. Isto é pouco mais que “pensamento positivo”.
5. Onde Estão Eles?
Outro argumento para a escassez de ETI é o fato de nosso 
planeta Terra, aparentemente, não ter sido colonizado por 
extraterrestres (ETs). Se ETI fosse comum em nossa galáxia, 
então pode-se pensar que pelo menos uma dentre as muitas 
civilizações avançadas já teriam explorado e colonizado a 
galáxia por este tempo. Posto que não estamos vendo ETs e 
não há qualquer evidência de que os tais já tenham nos 
visitado (muito poucos astrônomos crêem que OVNIs sejam
9 Are We Alone: Philosophical Implications of the Discovery of Extraterrestrial 
Life, New York: Basic Books, 1995.
178
Cosmologia, Vida e Futuro
visitantes ETs!), então é porque ETI deve ser raro. Os otimis­
tas respondem que talvez essas civilizações não tenham desejo 
de colonizar, ou que talvez estejam mantendo a Terra como 
uma reserva natural - um tipo de zoológico cósmico. Tais 
opções são rejeitadas pelos pessimistas como sendo excessiva­
mente pouco plausíveis.
Motivação para a Crença em ETI
Admitida a falta de evidência científica para ETI, fica 
evidente que a crença em ETI deve se apoiar noutras conside­
rações - considerações mais de ordem filosófica. Frank Tipler, 
que acredita estarmos sós no universo, vê uma similaridade 
muito grande entre crer-se em ETI e crer-se em OVNIs.
De fato, eu suspeito ser a mesma a motivação filosófica de ambos, 
ou seja, a expectativa de que seremos salvos de nós mesmos por 
alguma intervenção interestelar miraculosa.10 11
Ele apoia tal conclusão baseando-se em citações de vários 
importantes defensores de ETI. A declaração feita por Cari 
Sagan é típica:
A tradução de uma mensagem de rádio vinda das profundezas 
do espaço... contém a maior promessa de benefícios tanto práti­
cos quanto filosóficos. Em particular, é possível que entre os 
primeiros conteúdos de tais mensagens possam haver descrições 
detalhadas de como evitar desastres tecnológicos, para uma 
transição de adolescência para maturidade.11
De forma semelhante, A. G. W. Cameron, astrofísico de
10 “ETI Beings do not Exist”, Quarterly Journal of the Royal Astronomical 
Society, 1980,21,p.278.
11 CaASagzn.,Broca'sBrain, New York: Random House, 1979, p. 276.
179
Deus e Cosmos
De forma semelhante, A. G. W. Cameron, astrofísico de Harvard 
escreve:
Se pudermos... comunicar com algumas dessas sociedades (de 
ETs avançados), então poderemos esperar obter enormes enri­
quecimentos em todas as fases de nossa ciência e artes. Talvez 
possamos também receber lições em técnicas de governo mundial 
estável.12
Mais recentemente Paul Davies comenta:
O interesse em SETI entre o público em geral origina-se em 
parte, eu sustento, da necessidade das pessoas encontrarem um 
contexto mais amplo para suas vidas do que a sua existência 
terrena pode suprir. Numa era em que religião convencional 
está em acentuado declínio, a crença em superavançados 
ETs... pode suprir alguma dose de conforto e inspiração... Este 
sentido de busca por religião pode muito bem atingir os próprios 
cientistas, embora a maioria deles seja ateus professos .13
É irônico que o homem, tendo rejeitado a Deus, continua 
buscandoos céus por salvação.
Considerações Teológicas
Os argumentos acima são todos baseados na premissa de 
que o homem, e a vida em geral, tem uma origem evolu­
cionária. Antes de Darwin a maioria dos argumentos para 
ETI eram formulados em termos criacionistas. Qual seria a 
situação do caso ETI se pressupôssemos uma origem cria- 
cionista direta para a vida e inteligência?
12Interstellar Communication, New York: Benjamin, 1963, p.l.
13 Are lifé Alone: Philosophical Implications of the Discoveiy of Extraterrestrial 
Life, New York: Basic Books, 1995.
180
Cosmologia, Vida e Futuro
No século dezessete o recém-inventado telescópio reve­
lou muitas estrelas até então invisíveis. Como elas dificilmente 
poderiam servir de luminares para o homem, seu propósito 
tornou-se objeto de debate. Muitos argumentaram que elas 
funcionavam como Sóis para outros seres inteligentes lá 
colocados por Deus. Além disso, argumentava-se, como dois 
universos são melhores do que um, e como o sábio Criador 
sempre escolhe o melhor, deveria então existir um infinito 
número de mundos habitados. Qualquer coisa menos que 
isso, deveria ser considerado indigno de um Criador infinito.
De passagem notamos que, para os criacionistas que 
crêem que a terra é jovem, a objeção quanto a ETI baseada na 
falta de colonização não é válida, pois nesse caso os ETs não 
teriam tido tempo suficiente para aplicar seu potencial de 
exploração. Por outro lado, as mesmas considerações tornam 
extremamente improvável que, se civilizações similares às 
nossas já existiram, seríamos capazes de vê-las, isso para não 
mencionar a interação com elas, num futuro próximo.
1. Ausência de Evidência Bíblica para ETI
Várias objeções teológicas têm sido levantadas contra a 
crença em ETI. Primeiro, se ETs existem, por que razão não 
são mencionados nas Escrituras? O teólogo luterano Philip 
Melanchthon (1497 - 1560) observou que, depois que Deus 
criou a Terra, o Sol, a Lua e as estrelas do nosso cosmos, Ele 
descansou, e não criou mais nada, muito menos um outro 
cosmos. Melachthon mostrou que em nenhum lugar das 
Escrituras há menção da criação de outro homem ou de outro 
tipo de vida fora da Terra (exceção feita aos anjos, é claro).
A isso, foi contra-argumentado que a narrativa bíblica é 
dirigida ao homem e seu relacionamento com Deus. Outros 
seres poderiam ter sido criados por Deus, de cuja existência 
Ele não julgou necessário informar-nos.
181
Deus e Cosmos
2. ETI e a Encarnação de Cristo
Contudo, a principal objeção teológica para ETI tem sido 
centrada na singularidade da encarnação de Cristo. Isso remon­
ta pelo menos ao tempo de Agostinho (354 - 430). Agostinho 
estava preocupado em refutar um conceito corrente em sua 
época - a visão cíclica da história - a qual afirma que a histó­
ria se repete em ciclos intermináveis. Baseado em textos 
bíblicos tais como “Porque também Cristo padeceu uma vez 
pelos pecados” (7 Pedro 3:18) e “tendo sido Cristo ressuscitado 
dentre os mortos, já não morre... de uma vez morreu para o 
pecado.” (Romanos 6:9,10) ele concluiu emzl Cidade de Deus 
(XII. 14) que o processo histórico da criação, da Queda e da 
redenção só poderiam ocorrer uma vez. Esse argumento foi 
ampliado por Albertus Magnus (1206 -1280) para refutar tam­
bém a idéia de multiplicidade de mundos no espaço, em vez 
de no tempo. Melanchthon, igualmente, em sua rejeição de 
ETI argumentou que Cristo só podia morrer uma vez e que 
seres humanos em outros mundos só podiam ser salvos 
mediante conhecerem a Cristo.
A questão da singularidade do sacrifício de Cristo parece 
não incomodar a maioria dos teólogos liberais da modernidade 
envolvidos na discussão de ETI. A aceitação de uma origem 
evolucionária do homem, e a correspondente rejeição da 
historicidade de Adão e sua Queda, abrem a possibilidade de 
que a história do homem poderia muito bem ser essencial­
mente repetida em outro lugar. Paul Tillich e Dean Inge, por 
exemplo, sugerem que a encarnação de Cristo não é única, pois 
poderia ocorrer também em outros planetas.
O cosmólogo E. A. Milne resolveu o paradoxo entre a 
singularidade de Cristo e a pluralidade de mundos propondo 
que o conhecimento da encarnação na Terra poderia ser trans­
mitido a outros planetas via sinais de rádio.14 A respeito disso,
14Modem Cosmology and the Christian Idea ofGod, Oxford: Clarendon press, 
1952.
182
Cosmologia, Vida e Futuro
ele foi criticado pelo teólogo E. L. Mascall, o qual argumen­
tou que salvação não é dependente do nosso conhecimento 
sobre a encarnação de Cristo. Por outro lado, Mascall duvidou 
que o fato de Cristo ter-Se feito homem seria suficiente para 
fazê-10 Salvador também de outros seres extraterrestres. Ele 
sugeriu que a encarnação poderia ser repetida em outros 
planetas.15
Mais recentemente, John J. Davis16 argumenta que a 
cristo logia de Colossenses 1:15-20 é suficientemente vasta em 
escopo para suprir uma base para redenção dos anjos caídos 
em qualquer lugar do universo, sem necessidade de encar­
nações ou expiações adicionais. Referindo-se à Confissão de 
Fé de Westminster (VIII:5,6), onde os benefícios da redenção 
pela morte de Cristo são ditos não serem limitados por tempo, 
mas se aplicarem aos eleitos de Deus em todas as eras, Davis 
comenta:
Se a expiação pode ser entendida como não limitada no tempo, 
ela pode então ser prontamente entendida como não limitada por 
espaço ou distância. Cristo assumiu na encarnação uma nature­
za humana verdadeira e completa, para que Ele pudesse repre­
sentar o homem como o cabeça do pacto de um povo redimido.
Por extensão, poder-se-ia postular que a natureza humana do 
homo sapiens pode ser designada por Deus para representar a 
natureza de todos os seres corpóreos e sensíveis.
Eu não vejo força nçsse argumento. Uma expiação ilimi­
tada em tempo, aplicável a todos os eleitos descendentes de 
Adão, é bem diferente de uma expiação que se aplica a todos 
os seres inteligentes, não relacionados, através do espaço. É
15 Christian Theology and Natural Science, London, Longmans, 1956.
16 J. J. Davis, “Search for Extraterrestrial Intelligence and the Christian 
Doctrine of Redemption”, Science and Christian Belief, 1997,9 (No. 1), pp. 
21-34.
183
Deus e Cosmos
muito claro nas Escrituras que existe uma conexão necessá­
ria entre o primeiro Adão e o segundo Adão, Cristo. Para que 
o sacrifício de Cristo fosse suficiente era essencial que Cristo 
tivesse uma natureza humana. Conforme diz o Catecismo de 
Heidelberg (1563):
Deus não punirá outra criatura pelo pecado que o homem 
cometeu (Dia do Senhor, 5).
Ele (Cristo) deve ser verdadeiro homem porque a justiça de 
Deus requer que a mesma natureza humana que pecou pague 
pelo pecado (Dia do Senhor, 6).
A principal referência bíblica pertinente é encontrada em 
Hebreus 2:14-17:
E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, 
também Ele participou das mesmas coisas... porque na verdade 
Ele não tomou sobre si a natureza dos anjos, mas tomou a da 
descendência de Abraão. Por isso convinha que em tudo fosse 
semelhante aos irmãos para ser misericordioso e fiel sumo sacer­
dote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo.
Daí segue que, como os ETs, bem como os anjos, não são 
descendência de Adão e portanto não compartilham nem de 
sua natureza nem de seu pecado, o sacrifício de Cristo é de 
nenhum proveito para eles. A singularidade da encarnação de 
Cristo implica na singularidade também do homem como 
única criatura a ser salva deste modo das consequências de 
sua pecaminosidade. E claro, não é daí que podemos deduzir 
a inexistência de ETs, mas podemos excluir sua possível 
redenção através da encarnação de Cristo.
A noção de espécies não redimidas não é sem preceden­
tes. De outra espécie conhecida de seres inteligentes - anjos - 
nós sabemos pela Bíblia que não há redenção para aqueles anjos 
que caíram. Mesmo para os homens que caíram, a redenção é
184
Cosmologia, Vida e Futuro
apenas para os escolhidos de Deus. Por que então deveríamospensar ser necessário que ETs sejam salvos?
Quanto à referência feita por Davis a respeito de Colossenses 
1:15-20, a Bíblia deixa claro que a reconciliação por Cristo de 
todas as coisas a Si mesmo não implica que todas as criaturas 
têm que ser redimidas. Ao invés disso, a passagem refere-se 
à vitória de Cristo sobre satanás, com a resultante purificação 
da criação sob o domínio de Cristo.
3. A Singularidade do Homem
Mesmo se o argumento de Davis fosse válido, isso ainda 
implicaria em que o homem está numa relação especial com 
Deus, pois entre todas as possíveis criaturas, Cristo escolheu 
assumir a natureza humana, específicamente. Isso nos leva a 
um argumento adicional contra ETs - a posição especial do 
homem no universo. De acordo com Gênesis, capítulo 1, só o 
homem foi feito à imagem de Deus, e só o homem foi desig­
nado para ter domínio sobre a criação. Mesmo as estrelas, 
foram criadas primariamente para servir como luz e sinal para 
os homens. Finalmente, ao fim dos tempos, Cristo retorna à 
Terra, a habitação do homem, para julgar vivos e mortos. Os 
homens julgarão os anjos (I Corintios 6:3). A Nova Jerusalém 
desce do céu à terra. Tudo isto reforça o lugar especial do 
homem na criação de Deus.
Então, na extremamente improvável eventualidade de 
que seres inteligentes existam em outros planetas, podemos 
concluir que, com base na narrativa bíblica sobre a salvação, 
ou eles não decaíram da graça ou, se decaíram, para eles não 
há redenção, assim como não há para os anjos caídos.
4. Vida Extraterrestre (ETL - Extra Terrestrial Life)
E quanto à vida extraterrestre primitiva? Os corpos 
celestes criados no quarto dia contêm pelo menos algumas 
características tais como luz, água, elementos terrestres, gases
185
Deus e Cosmos
atmosféricos, idênticas àquelas criadas nos dias precedentes. 
Por que então não conteriam também formas primitivas de 
vida, tal como vegetação, as quais foram criadas no terceiro 
dia? No entanto, deve ser lembrado que o propósito primeiro 
da vegetação da terra é para servir de alimento para formas 
mais avançadas de vida terrestre, tais como o homem e as feras 
da terra (Gênesis 1:29-30). Nenhuma menção é aqui feita sobre 
vegetação que não seja terrestre. Parece que não haveria 
propósito em se criar formas primitivas de vida em qualquer 
outro lugar, a menos que fosse para lá servir a formas supe­
riores de vida. Similarmente, qual seria a função de formas 
mais avançadas de vida, tais como animais, na falta de vida 
inteligente, tal como o homem?
A detecção de ETL certamente geraria menos ques­
tionamentos teológicos do que a detecção de ETL Por outro 
lado, a real detecção de ETL é muito mais difícil. Pelo menos 
nas próximas décadas, a busca por ETL será essencialmente 
limitada ao nosso próprio sistema solar, onde os lugares mais 
prováveis de apresentar ETL já estão eliminados.
Conclusões
Concluindo, nós notamos que não há evidência científica 
que sustente a crença em ETI. Pelo contrário, não tem havido 
sinal de vida de qualquer forma em nenhum dos outros 
planetas. Todas as buscas por ETI têm levado a resultados 
puramente negativos. Buscas por vida interestelar, varrendo 
as estrelas mais próximas na expectativa de detectar sinais de 
rádio, ou ruído indicativo de civilização, têm virtualmente 
eliminado a possibilidade de vida civilizada avançada num 
raio de uma centena de anos-luz. Para cobrir distâncias de tal 
ordem, mesmo um foguete extremamente veloz, digamos que 
com uma velocidade equivalente a um décimo da velocidade 
da luz, levaria mais de mil anos, e diálogos via rádio teriam
186
Cosmologia, Vida e Futuro
espaços de um século entre mensagens. Assim, para todos os 
fins práticos, comunicação com civilizações extraterrestres pode 
ser excluída.
De uma perspectiva evolucionária, as possibilidades da 
ocorrência de vida, particularmente vida inteligente, são tão 
remotas, que a existência de ETI tem que ser considerada ex­
tremamente improvável.
Argumentos criacionistas a respeito de ETI são forte­
mente dependentes de nossos pontos de vista com relação à 
natureza de Deus e Sua relação com o cosmos. Considerações 
teológicas baseadas em revelação bíblica pesam fortemente 
contra a existência de ETI, mas não de modo conclusivo. Num 
universo jovem, é muito improvável que ETI, ainda que exis­
tisse, possa ser detectado num futuro próximo. O caso contra 
formas mais primitivas de vida extraterrestre é muito mais 
fraco. Argumentando contra a existência de ETL temos, em 
primeiro lugar, o fato de tal ocorrência ser completamente 
omitida nas narrativas bíblicas da criação, e em segundo 
lugar, a questão sobre o propósito a que ETL serviria, admi­
tida a não existência de ETI. Mas, de novo, tais considerações 
não excluem ETL definitivamente.
O Futuro da Vida no Universo
O que há pela frente, ou, que futuro espera o universo? 
A maioria dos cosmologistas é razoavelmente otimista com 
respeito ao futuro próximo - isto é, os próximos poucos 
bilhões de anos. Se o homem e a sociedade surgiram pura­
mente por evolução, então, não é irrazoável afirmar estágios 
evolucionários posteriores. De acordo com os padrões 
cosmológicos modernos a presença de humanos se deu bem 
cedo na história do universo, e portanto devemos esperar que 
nossa espécie seja substituída no futuro por formas de vida 
mais avançadas. Uns poucos milhões de anos à frente, e a vida
187
Deus e Cosmos
inteligente estará tão distante do que somos hoje, quanto 
distantes estamos dos macacos.
De acordo com Tipler, isso traz implicações importantes 
para a religião:
A religião tradicional tem que enfrentar a realidade da transi­
tória existência de nossa espécie na história do universo. O 
verdadeiro desafio que a cosmologia moderna apresenta à 
religião tradicional é nossa relativa insignificância no tempo, 
não no espaçoV
Tippler enfatiza que o universo continuará a existir por 
pelo menos mais 5 bilhões de anos.
Quase todos os teólogos cristãos adotam uma perspectiva 
temporal muito mais curta. Isso é um erro tão grande - e tão 
grande quanto o mal-entendimento do lugar da humanidade na 
natureza - quanto crer que o universo foi criado há poucos 
milhares de anos atrás.17 18
Presumivelmente, Tippler crê que o cristianismo não 
mais será aplicável às espécies avançadas do futuro. Conside­
rando isso, devemos salientar que inteligência e tecnologia 
melhoradas muito pouco farão para erradicar a principal defi­
ciência do homem - um coração pecaminoso. A necessidade 
de um Salvador permaneceria. Todavia, Tippler faz a válida 
afirmativa de que o futuro, como descrito pelo universo Big 
Bang está tão incompatível com o do cristianismo tradicional 
quanto a sua descrição das origens.
Enquanto o futuro relativamente próximo possa pare­
cer seguro para a civilização, a longo prazo tal futuro não é
17 “The Omega Point Theory: A Model of an Evolving God”, em Russel 
(ed.), Physics, Philosophy and Theology, 1988, p. 313.
Klbid.,p. 316.
188
Cosmologia, Vida e Futuro
nada róseo. Vários fatores apontam para um destino sombrio, 
não apenas para a civilização, mas também para a vida em si. 
Segundo a teoria Big Bang, se a densidade do universo for 
maior do que o valor crítico, então o universo é finito, sua 
expansão irá diminuir gradualmente, será iniciada a fase de 
contração que terminará num “Big Crunch” (Grande Esma­
gamento, ou Grande Implosão). O universo poderá ainda 
voltar a existir, porém toda a vida teria sido destruída.
Por outro lado, se a densidade cósmica for menor do que 
o valor crítico - e é o que parece ser o caso - então é previsto 
que o universo se expandirá para sempre. Como a energia 
disponível será irrecuperavelmente perdida, a temperatura 
cairá e o universo irá se aproximando da morte do calor (na 
realidade, uma “morte fria”). Também nesse caso, parece que 
a vida eventualmente desapareceria.
Com perspectivas tão sombrias com relação ao destino da 
vida no universo, não é surpreendente que Steven Weinberg 
finalize o seupopular livro The First Three Minutes com estas 
palavras:
Quanto mais o universo se toma compreensível, tanto mais parece 
sem propósito. Mas, se não há conforto nos frutos da pesquisa, há pelo 
menos algum consolo na pesquisa em si... O esforço para entender o 
universo é uma das raríssimas coisas que eleva a vida humana acima 
do nível da farsa, e dá-lhe certa dose do charme da tragédia.19
A maioria dos cosmologistas compartilha desta visão 
pessimista para a possibilidade da sobrevivência da vida a 
longo prazo. Contudo, previsões tão sombrias têm sido ques­
tionadas por uns poucos otimistas que crêem pelo menos na 
possibilidade de que a vida emergirá vitoriosa. Vamos exami­
nar algumas dessas alternativas.
19 The First Three Minutes, New York: Bantam Books, 1979, p. 144.
189
Deus e Cosmos
Vida Futura num Universo Fechado
Entre os cosmologistas Big Bang, Frank Tipler e Freeman 
Dyson são duas exceções que retratam uma perspectiva rósea 
para a vida num futuro remoto. Entretanto, eles divergem 
quanto a suas avaliações sobre se um universo aberto ou fecha­
do seria mais receptivo à vida. Enquanto Dyson favorece um 
universo aberto, Tipler crê que somente um universo fechado 
serviria.20
Tipler define vida em termos de processamento de 
informação. Um ser vivo é qualquer entidade que codifica 
informação, com a informação codificada sendo preservada 
através de seleção natural. Com tal definição, até mesmo com­
putadores, carros, poderiam ser considerados como formas de 
vida.
Tipler afirma que o homem é tão somente um objeto físi­
co que pode ser considerado como um tipo de computador. A 
mente humana - ou alma - é somente um específico progra­
ma de computador rodando num computador chamado 
cérebro. A chegada do homem se deu bem cedo na evolução 
do universo; devemos portanto esperar que eventualmente 
ele seja substituído por formas mais avançadas de vida. O 
próximo passo de vida inteligente pode muito bem ser, bem 
literalmente, máquinas de processamento de informação.
De acordo com Tipler as leis da termodinâmica permi­
tem uma infinita quantidade de processamento de informa­
ção no futuro, desde que haja suficiente energia disponível 
em todos as eras futuras. A energia disponível depende da 
temperatura. Visto que num universo aberto a temperatura 
eventualmente se torna muito baixa para suportar a vida, Tipler 
tende para um universo fechado. Num universo fechado, a 
presente expansão se reverterá em contração, em cujo estágio a
20 ThePhysics oflmmortality, New York: Doubleday, 1994.
190
Cosmologia, Vida e Futuro
temperatura começará novamente a aumentar, aproximándo­
le do infinito na medida em que o instante da singularidade 
se aproxima. Ao se aproximar o Big Crunch (Grande Implosão 
ou Grande Esmagamento), a vida engolfará todo o universo, 
será unificada num imenso computador que terá em si arma­
zenada uma quantidade infinita de informação, e eventual­
mente controlará toda a matéria e fontes de energia. Esse 
evento, que Tipler chama de “Ponto Omega” será a culminação 
da vida. Como o “Ponto Omega” é onisciente, onipresente 
e onipotente, Tipler o considera igual a Deus.
O Big Crunch, que seria atingido num tempo finito, 
selará o fim da vida. Como pode então Tipler resgatar a imor­
talidade para a vida? De acordo com Tipler, o metabolismo da 
vida acelera com o aumento de temperatura, de modo que um 
lapso infinito de tempo subjetivo - o tempo da forma como é 
experienciado por seres vivos - passará antes que a singulari­
dade aconteça.
Embora Tipler argumente que o “Ponto Ômega” neces­
sariamente existe, poucos cosmologistas concordam com ele. 
De fato, o cenário que ele descreve soa mais como ficção cien­
tífica ultra-avançada do que como ciência factual. Uma crítica 
detalhada das idéias de Tipler foi feita por Ellis e Coule.21 
Entre outras coisas, eles são de opinião que a definição de 
vida dada por Tipler é absurdamente simplista, em contraste 
com a incrível complexidade da vida biológica, particularmen­
te os intrincados mecanismos de controle que determinam as 
funções celulares e orgânicas. Eles concluem que não há 
mecanismo físico plausível que permita ocorrer vida nas 
condições extremas descritas por Tipler. Qualquer máquina 
de computação material, para não mencionar os sistemas 
vivos, seria destruído muito antes da implosão final.
21 G. F. R. Ellis e D. H. Coule, “Life at the End of the Universe”, General 
Relativity and Gravitation, 1994,26, pp.713 -739.
191
Deus e Cosmos
Em todo caso, Tipler faz seis previsões testáveis, das quais, 
presentemente, pelo menos duas provaram ser falsas. Tipler 
prediz que o universo é fechado, e que a constante de Hubble 
- a presente taxa de expansão - é no máximo 45 km/seg/mpc 
(mpc significa “megaparsec”, a distância percorrida pela 
luz em 3 milhões de anos-luz). Observações correntes, pelo 
menos como interpretadas pelos astrônomos Big Bang, 
indicam que o universo é aberto e que a constante de Hubble 
está em torno de 70 km/seg/mpc.
Vida Futura num Universo Aberto
Consideremos agora a possibilidade de vida num uni­
verso aberto. Dyson, ao contrário de Tipler, não vê futuro 
para a vida se o universo for finito e fechado. Em tal caso o 
universo eventualmente contrairá, os céus se tornarão cada vez 
mais quentes até que finalmente caiam sobre nós, na medida 
em que nos aproximamos da singularidade espaço-tempo a 
uma infinita temperatura. Nenhuma forma de vida poderia 
sobreviver a tal destino. A vida mal poderia se espalhar pelo 
cosmos, antes que atingisse a extinção.22
Por outro lado, se o universo for aberto e infinito então 
Dyson vê melhores perspectivas. Nesse caso o universo se 
expandirá para sempre, se resfriando mais e mais. A vida 
então teria que enfrentar o processo de congelamento lento 
em vez de fritura rápida. Contudo, segundo Dyson, a vida 
se adapta mais facilmente ao frio do que ao calor.
Dyson, como Tipler, assume que a essência da vida reside 
na organização, e não na substância. A base da vida reside na 
estrutura, no modo como as moléculas são organizadas, contrá­
rio à substância das moléculas em si. Se essa suposição for
22 F. Dyson, Infinite inAll Directions, New York: Harper & Row, 1988, pp. 107- 
115.
192
Cosmologia, Vida e Futuro
verdadeira, então pode-se imaginar vida desvinculada de 
carne e sangue e incorporada em complexas entidades como 
redes de circuitos supercondutores, ou mesmo nas nuvens 
de poeira interestelar.
A complexidade da vida pode ser medida em termos de 
pequenas porções de informação. Para processamento de 
informação, o principal fator não é uma abundante fonte de 
energia, e sim uma boa relação sinal-ruído. Quanto mais 
frio o ambiente, menor é o ruído do pano de fundo, e então 
mais econômica a vida pode ser quanto ao uso de energia. 
Na medida em que o universo se resfria, o ritmo do pulso 
da vida se tornará mais lento, sem nunca parar. Como no 
esquema de Tipler, o homem está destinado à extinção, mas 
a tocha da vida continuará sendo passada a formas de vida 
cada vez mais resistentes.
Uma predição da física de partículas é que toda matéria 
pode ser instável. A teoria prediz que, passados 1033 anos, os 
núcleos de todos os átomos já terão se decomposto em 
positrons, fótons e nêutrons. Isso pode significar um teste 
severo para a vida, mas Dyson confia que, de novo, a vida se 
adaptará às novas circunstâncias. De acordo com Dyson, a 
reserva total de energia contida no sol será suficiente para 
suportar para sempre uma sociedade com uma complexidade 
10 trilhões de vezes maior que a nossa. Esta energia seria 
também suficiente para manter aberto para sempre tantos 
canais de comunicação quantos necessários para manter-nos 
em conversação com cada estrela da parte visível do universo.
Não importa quão remotamente avançarmos no futuro, 
sempre haverá coisas acontecendo: novas informações 
chegando e novos mundos para explorar. Vida e inteligência 
são potencialmente imortais, com os recursos de conheci­
mento e memória constantementecrescendo na medida em 
que a temperatura do universo diminui e as reservas de ener­
gia livre minguam. No entanto, o próprio Dyson é o primeiro
193
Deus e Cosmos
a admitir, tal esquema do futuro é altamente especulativo, mais 
baseado em imaginação altamente fértil e imaginações otimis­
tas do que em conhecimento científico.
Vida Futura em uma Cosmologia do Plasma
Uma outra possibilidade para vida futura tem sido 
apresentada por Eric Lerner, o qual rejeita a cosmologia Big 
Bang.23 Lerner defende uma cosmologia do plasma que 
postula que o universo é infinito tanto em tempo quanto em 
espaço. Segundo ele, as pessimistas conclusões da cosmologia 
convencional são falsas. A termodinâmica não exige que o 
universo se desenrole (como a corda de um relógio). Lerner 
também garante que não precisamos nos preocupar com a 
morte do calor, pois podem haver ordens crescente, ordens de 
complexidade, com crescentes fluxos de energia. A morte do 
calor pode ser adiada indefinidamente na medida em que 
a tecnologia desenvolve máquinas cada vez mais eficientes. 
Isso impedirá que aconteça tanto o fim da vida quanto o 
crescimento da vida.
Lerner crê que há uma forte correlação entre a sociedade 
e a cosmologia. O pessimismo do presente modelo Big Bang 
finito reflete o espírito pessimista da sociedade hodierna. 
Conforme Lerner: “Quando a sociedade se recolhe (bate em 
retirada), quando o progresso é interrompido, racionalidade 
cai em descrédito, e muitos se voltam para o sobrenatural”. 
Ele argumenta que o universo não está sentenciado, que não 
precisamos nos desesperar, que nossas ações do presente 
podem permanentemente mudar o cosmos e ecoarão pelo 
futuro ilimitado, embora não haja esperança para imortali­
dade individual. Um dos principais problemas com este 
modelo está na negação, não apenas da cosmologia Big Bang,
23 The Big Bang Never Happened, New York: Times Books, 1991.
194
Cosmologia, Vida e Futuro
mas também da segunda lei da termodinâmica aplicada ao 
universo como um todo. Outro problema está em postular 
uma hipotética complexidade crescente. Aqui, também, 
temos um esquema muito especulativo do futuro, que tem 
atraído poucos aderentes.
Conclusões
Em resumo, embora uns poucos cenários otimistas 
tenham sido inventados, parece extremamente improvável 
que, num universo naturalista, a vida possa sobreviver inde­
finidamente por um longo tempo. A cosmologia moderna 
oferece pouca esperança para o futuro distante, seja para 
indivíduos, seja para a raça humana, ou mesmo para a sobre­
vivência da vida como tal.
Em tempos recentes certos cristãos têm tentado estabele­
cer uma harmonia entre cosmologia moderna e cristianismo. 
Em vez de ter esses dois em conflito, ou totalmente indepen­
dentes, eles têm tratado ambos como disciplinas separadas, 
que conduzem às mesmas verdades através de indagações 
diferentes. O modelo Big Bang de origens é sempre aclamado 
como o modo de Deus criar. Gênesis está então limitado a nos 
dizer Quem o fez; a cosmologia moderna nos diz como e 
quando. Tem sido também argumentado que origens não são 
de crucial importância, e que o básico do cristianismo ainda 
pode ser aproveitado. Se o Big Bang deve ser visto como o 
modo de Deus criar, deveríamos então considerar o Big Crunch 
(ou o Big Whimper - grande pranto) como o modo de Deus 
pôr um fim no universo? Deve então o Apocalipse comparti­
lhar o mesmo destino hermenêutico de Gênesis? Isso pelo 
menos seria coerente. Contudo, é óbvio que isso deixaria o 
cristianismo com muito pouca substância. A mensagem cen­
tral do cristianismo inclui o retorno de Cristo, o Juízo Final, a 
vida eterna num novo céu e numa nova Terra. E tudo isso deve
195
Deus e Cosmos
acontecer em breve, não daqui a bilhões de anos. O conceito 
bíblico sobre o futuro difere grandemente daquele que nos é 
dado pela cosmologia moderna.
Tais considerações levaram John Polkinghorne, o físico 
que virou teólogo, um aderente convicto da narrativa Big Bang 
para a origem do universo, a rejeitar a escatologia do Big Bang. 
Ele crê que os cristãos podem ter esperança da ressurreição, 
tanto pessoal quanto cósmica, e que a fé deve ser baseada em 
Deus e Sua misericórdia e não na física. Assim, ao final, 
Polkinghorne deposita sua fé no sobrenatural, para além do 
mundo físico. A morte da vida no universo só poderá ser 
evitada por meio de um milagre.24
Ted Peters, outro defensor do Big Bang, chega à mesma 
conclusão:
A esperança escatológica por redenção é uma conclusão extra­
ída da interpretação de símbolos bíblicos. Ela vem estritamente 
de recursos teológicos, e não de evidência científica. A perspecti­
va da morte do calor devido à lei da entropia pode até mesmo ser 
interpretada como uma possível negação de afirmações teológi­
cas. E mister admitir que, ao presente estágio de investigação, há 
muito pouca consonância entre teologia e física com respeito ao 
futuro final do cosmos. 25
Inversamente, a falta de consonância pode ser interpre­
tada como uma negação da cosmologia Big Bang. A insistên­
cia em escatologia bíblica implica que, em algum ponto, os 
cristãos terão que se afastar da cosmologia Big Bang. Mas, se o 
cristianismo deve rejeitar as extrapolações Big Bang com
24 The Faith of a Physicist, Princeton: The University Press, 1994.
25 “The Trinity in and beyond Time”, em J. R. Russel, N. Murphy e C. J. 
Isham (eds.), Quantum Cosmology and the Laws of Nature: Cientific Perspectives 
on Divine Action, Vatican City: Vatican Observatory Publications, 1996.
196
Cosmologia, Vida e Futuro
respeito ao futuro, porque aceitar suas extrapolações quanto 
ao passado? Tais considerações escatológicas devem, no 
mínimo, estimular os cristãos a reavaliar a cosmologia Big 
Bang, e seus compromissos com a mesma.
197
6
Os Estranhos Deuses 
da Cosmologia Moderna
Duas áreas de principal interesse da religião são a nature­
za de Deus e o que isso significa para a vida após a morte. Nos 
capítulos precedentes discutimos as implicações decorrentes 
da cosmologia moderna no que concerne à existência de Deus. 
Lá notamos que, na melhor das hipóteses, a evidência pode 
sugerir um Designer (Autor do design) ou Causador Princi­
pal, um ser deísta muito limitado, se comparado ao Deus da 
Bíblia. Agora examinaremos uma seleção dos deuses que têm 
sido construídos para se encaixar em diversos modelos 
cosmológicos. Até que ponto isso pode ser reconciliado com o 
cristianismo tradicional? Em particular, ocupar-nos-emos em 
comparar os deuses modernos com o Deus da Bíblia e investi­
gar que tipo de esperança eles poderiam oferecer no que tange 
à imortalidade individual.
O Deus Evolutivo da Teologia Natural
A noção de evolução é básica à cosmologia moderna: o 
universo inteiro e seu conteúdo se desenvolveram a partir da 
singularidade inicial. Se Deus for um ser natural, um ser 
inteiramente colocado dentro dos confins do universo físico, 
então, como decorrência, Deus, também, deve ser um ser que 
evolui.
A noção de um Deus que evolui remonta ao filósofo
198
Os Estranhos Deuses da Cosmologia Moderna
idealista alemão Frederich Schelling (1775-1854), que, em 
1810, foi o primeiro a introduzir, em metafísica e teologia, os 
conceitos de um evolucionismo radical. De acordo com 
Schelling, Deus está sujeito a sofrimento e mudança, e só Se 
tornará perfeito num futuro distante, nos estágios finais do 
universo. Deus é identificado com o processo evolutivo, ou, 
pelo menos, com o não-ainda-realizado resultado final de tal 
processo.
Essas idéias revolucionárias foram tomadas e reelaboradas 
pelo filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) em seu livro 
Creative Evolution., publicado em 1907. Ele acreditava que, 
metafi si cántente, tomar-se era mais básico do que ser. Evolu­
ção era considerado como sendo uma força criadora no 
sentido de que esta sempre engendrou alguma coisa inteira­
mente nova, alguma coisa inesperada. A natureza era vista 
como um todo orgânico, fundamentalmente intencional, 
porque é direcionada por uma Força deVida impessoal e não 
física, cujo futuro e propósitos não podem ser conhecidos.1 
Embora Bergson fosse ciente da inevitável morte do calor 
previsto pela termodinâmica, ele sugeriu que a vida pudesse 
ser capaz de assumir uma forma que pudesse postergar inde­
finidamente a morte do calor. Bergson viria exercer grande 
influência em outro francês, o jesuíta Teilhard de Chardin, a 
ser discutido neste capítulo.
Uma década mais tarde, desta vez na Inglaterra, uma nova 
versão do Deus evolutivo foi proposta por Samuel Alexander 
(1859-1938). A entidade fundamental de Alexander era o 
Espaço-Tempo. Ela gera primeiro a matéria, então a vida, e 
depois a mente. Além da mente há ainda, num estágio muito 
superior, a “deidade”. Assim como a mente pode existir num 
ser vivente, a deidade pode existir na mente. Mas a maioria 1
1 Ver análise feita por Barrow e Tipler, TheAntropic Cosmological Principle, 
p. 90. Ao longo desta sessão eu devo muito ao tratamento feito por eles.
199
Deus e Cosmos
das mentes não possui deidade, assim como a maioria dos 
seres viventes não possui mente. O propósito do universo é 
dar lugar à deidade. Seres com deidade finita são deuses finitos. 
Deus inclui o universo inteiro, embora a Sua deidade esteja 
alojada apenas numa porção desse. Segundo Alexander, um 
tal Deus evolutivo não existiu sempre, porém virá a existir 
nalgum tempo futuro.
Deuses Naturais Evolutivos
Em tempos mais recentes a noção de um deus que evolui 
tem sido proposta por autores diversos. Primeiro, vamos 
examinar um número de propostas feitas por cientistas que 
não se simpatizam com o cristianismo. Seus deuses são erigidos 
a partir de considerações puramente não revelacionais. Pode­
mos então chamar os tais de deuses da teologia natural. Esses 
deuses são puramente naturais, alegadamente envolvendo 
apenas causas e efeitos naturais. Mais tarde investigaremos 
várias propostas feitas por teólogos sobre como incorporar 
alguma forma do Deus dos cristãos num cosmos que evolui.
1. O Deus de Paul Davies
Primeiro vamos considerar o deus natural proposto pelo 
físico Paul Davies em seu livro Deus e a Nova Física. Davies 
afirma: “Pode parecer bizarro, mas, na minha opinião, a 
ciência oferece um caminho mais seguro para Deus do que a 
religião”. Ele está convencido de que as evidências científicas 
favorecem a existência de Deus. O que é que convence Davies 
da existência de Deus? Ele cita um número de fatores:
Está claro que não poderia haver qualquer grau de ordem, a 
menos que o universo tivesse sido iniciado com um considerável 
estoque de entropia negativa. Se a desordem total está sempre 
aumentando, pela segunda lei da termodinâmica, então parece
200
Os Estranhos Deuses da Cosmologia Moderna
que o universo obrigatoriamente foi criado em condição ordena­
da. Não seria isso urna forte evidencia a favor de um criador- 
-designer? ...Se o universo fosse mero acidente, a probabilidade 
de que ele viesse a conter algum grau apreciável de ordem é 
ridiculamente pequena.* 2
Ele afirma que há inúmeros mistérios a respeito do 
mundo natural, e que seriam prontamente explicáveis pela 
pressuposição da existência de um Deus natural. Davies é 
muito impressionado com o aparente ajuste fino do universo.
Ele escreve:
<
É difícil resistir à impressão de que tenha sido cuidadosamente 
pensada a presente estrutura do universo, aparentemente tão sen­
sível a alterações mínimas nos números (das constantes físicas 
fundamentais).2
Em particular, ele menciona o quebra-cabeça da origem 
das galáxias e da vida. No entanto, Davies é cuidadoso no sen­
tido de evitar a cilada do “deus das lacunas”. Ele argumenta 
que “Invocar Deus como explicação de ampla cobertura para 
o inexplicado, é dar lugar a eventuais falsificações, e fazer de 
Deus o amigo da ignorância”.4
Embora Davies esteja convencido de que deve existir um 
Deus, ele rejeita o Deus sobrenatural. Ele insiste que mila­
gres, sendo algo repugnante a cientistas, devem ser evitados. 
Um Deus natural, Davies acredita, é mais plausível do que 
um Deus sobrenatural:
A hipótese de que um Deus natural criou a vida, dentro das 
leis da física, pelo menos é reconhecido como algo possível, e
2 God and the New Physics,pp. 166-167.
2 Ibid. p. 189. 4 Ibid. p. 209.
201
Deus e Cosmos
consistente com nosso entendimento científico do mundo físico .5
Davies propõe a seguinte sugestão:
É possível imaginar uma super-mente existindo desde a cria­
ção, abrangendo todos os campos fundamentais da natureza, e 
tomando sobre si mesmo a tarefa de converter um incoerente Big 
Bang no complexo e ordenado que hoje vemos. Tudo isso reali­
zado dentro do domínio das leis da física. Isso não seria um Deus 
que criou tudo por meios sobrenaturais, mas sim uma mente 
universal, diretiva e controladora, permeando o cosmos e ope­
rando as leis da natureza para atingir algum propósito específi­
co... A natureza é o produto de sua própria tecnologia, e o uni­
verso é uma mente - um sistema que se auto observa e auto- 
-organiza.6
Ele sugere que uma tal mente pode “forçar o dado 
quântico”, desse modo controlando tudo que acontece, po­
dendo assim passar despercebido. Esse Deus seria o criador 
de tudo quanto vemos, tendo feito a matéria a partir de ener­
gia preexistente, e tendo preparado as condições necessárias 
para a vida; mas, Ele não seria capaz de criar a partir do nada, 
como requer a doutrina cristã. Na opinião de Davis “este 
conceito de Deus seria suficiente para satisfazer a maioria dos 
crentes”.
Várias questões vêm à mente. Primeiro, como poderia um 
ser puramente natural “forçar o dado quântico” como Davies 
afirma? Invocar tais conceitos, indo além da física conhecida, 
é adotar uma linha de pensamento semelhante à que leva ao 
“deus das lacunas”, coisa que Davies expressamente quer 
evitar. Outra grande deficiência é que Davies se omite de
5 God and the New Physics, pp. 209.
6 Ibid p. 210.
202
Os Estranhos Deuses da Cosmologia Moderna
explicar como surgiu no princípio tal Deus natural. Para 
explicar a aparente ordem do universo Davies invoca um 
“Designer”. Mas, se como Davies argumenta, este designer 
em si próprio é o resultado de forças puramente naturais, sua 
origem carece ainda mais de uma explicação. Davies tenta 
explicar um mistério apelando por outro imensamente maior. 
Como ele se limita a explicações puramente naturais, sua 
solução parece altamente implausível. Somente um criador 
sobrenatural é capaz de realizar a tarefa requerida por 
Davies.
Além disso, o poder do Deus de Davies é muito limitado. 
Controlando apenas os estados quânticos, esse poder continua 
preso às leis físicas. Não pode fazer milagres. Conseqüente- 
mente, não oferece ao homem qualquer esperança de vida 
depois desta. De fato, a mente divina em si, sendo puramente 
natural, não pode ter esperança de escapar à eventual destrui­
ção, seja pela morte do calor, seja pelo Big Crunch.
Em suma, isso não é um Deus que demanda adoração ou 
responde a orações. Portanto, ao contrário da expectativa oti­
mista de Davies, é improvável que um tal “Deus” satisfaça 
muitas necessidades religiosas.
2. O Deus de Freeman Dyson
Outra tentativa de formular um deus natural foi apresen­
tada pelo físico Freeman Dyson em seu livro Infinite in All 
Directions (Infinito em Todas as Direções). Anteriormente, já 
consideramos o ponto de vista otimista de Dyson quanto ao 
futuro. Como o leitor provavelmente se lembrará, Dyson 
defende a idéia da sobrevivência eterna da vida no universo.
Para Dyson, o fato mais impressionante neste universo é 
o poder da mente que dirige nossos corpos. A mente, através 
de evolução biológica, se estabeleceu como força motora em 
nosso cantinho deste universo. A tendência da mente de se 
infiltrar e controlar a matéria é uma tendência da natureza.
203
Deus e Cosmos
Dyson escreve:
A mente é paciente. A mente esperou por três bilhões de anos 
antes de compor seu primeiro quarteto de cordas. E talvez tenha 
que esperar outros três bilhões de anos antes quese espalhe por 
toda a galáxia.1
Quando a mente tiver expandido sua organização a uma 
ordem de magnitude muito além da escala humana, então não 
mais poderemos esperar entender seus pensamentos, assim 
como uma borboleta não pode entender os nossos. Em tal 
estágio, a mente poderá ser chamada “Deus”.
Dyson considera Deus como sendo uma alma-mundo, ou 
um conjunto de almas-mundos. No atual estágio de desenvol­
vimento nós podemos ser considerados como a principal 
inserção de Deus neste planeta. O Deus de Dyson não é nem 
onisciente nem onipresente, mas um que aprende e cresce, 
na medida em que o universo se desenvolve. Como tal, o 
universo não é determinístico, e sim, aberto. O acaso faz parte 
do plano de Deus; o acaso existe porque Deus compartilha 
de nossa ignorância. Dyson considera esse Deus como sendo 
próximo àquele do processo tecnológico, que será discutido 
mais adiante.
O universo, de acordo com Dyson, tem um propósito 
profundo. Ele afirma:
Eu creio que estamos aqui por algum propósito, que tal propó­
sito tem algo a ver com o futuro, e que transcende os limites de 
nosso conhecimento e entendimento... Se você quiser, poderá 
chamá-lo de propósito transcendente de Deus. Se for Deus, é o 
Deus Sociniano, inerente no universo, e crescente em poder 
e conhecimento, na medida em que o universo se desenvolve. 
Nossas mentes não são apenas uma expressão de seu propósito, 
e sim também contribuições ao seu crescimento*
1 Infinite in All Directions, p. 118. 
8 Ibid., p.294.
204
Os Estranhos Deuses da Cosmologia Moderna
A palavra Sociniano, usada por Dyson, refere-se ao teólo­
go radical italiano Lelio Sozzini (Socinus) (1525-1562), o qual 
negou o pecado original, a deidade de Cristo, a trindade, e a 
predestinação.
No que tange à evidência científica de Deus, Dyson 
escreve:
O argumento do design é um argumento teológico, e não cien­
tífico... Eu considero que tal argumento é válido no seguinte 
sentido. O universo mostra evidência da operação da mente em 
três níveis. O primeiro nível é o dos processos físicos elementares 
na mecânica quântica. A matéria, na mecânica quântica, não é 
uma substância inerte, mas um agente ativo, constantemente 
fazendo escolhas entre possíveis alternativas, de acordo com as 
leis da probabilidade... Parece que a mente, como manifesta pela 
capacidade de fazer escolhas, é, até certo ponto, inerente a todo 
elétron. O segundo nível em que detectamos a operação da 
mente é o nível de experiência humana direta. Nossos cérebros 
parecem ser dispositivos para a amplificação do componente 
mental das escolhas quânticas feitas pelas moléculas dentro de 
nossa cabeça. Somos o segundo grande passo no desenvolvi­
mento da mente. E aqui que entra o argumento do design. 
Características peculiares das leis da natureza mostram evidên­
cias de que o universo como um todo é favorável ao crescimento 
da mente... Portanto, é razoável admitir que haja um terceiro 
nível da mente, um componente mental do universo. Se crermos 
neste componente mental e o chamarmos Deus, então podemos 
afirmar que somos pequenas porções do aparato mental de Deus.9
Para conhecermos o propósito final do universo, precisa­
remos ler a mente de Deus. Dyson sugere que o universo é 
construído de acordo com um princípio de máxima diversi­
dade, ao nível mental bem como físico. As leis da natureza e
9 Infinite inAllDirections, p. 297.
205
Deus e Cosmos
as condições iniciais são tais que fazem o universo o mais 
interessante possível. Como resultado, a vida é possível, mas 
não é nada fácil.
A descrição do Deus natural proposta por Dyson é mais 
elaborada que a de Davies, contudo, há muitas similaridades. 
Ambos vêem Deus como uma super-mente evoluída. Ambos 
apontam o argumento do design como evidência para a exis­
tência de um tal Deus. Mas, nenhum deles explica como esta 
super-mente, a qual na realidade se destacará num futuro 
remoto, poderia ter influenciado as condições iniciais e a 
consequente evolução até o ponto em que nos achamos atual­
mente. O design é explicado em termos de um designer o 
qual, por sua vez, é suposto ser o resultado de um processo 
puramente natural. Isso apenas aumenta a complexidade do 
problema do design sem fazer nenhum progresso quanto a 
explicação do mesmo.
Deuses Autocausados
A principal dificuldade quanto ao Deus natural, é expli­
car sua origem. Várias propostas têm sido feitas para remedi­
ar tal deficiência.
1. O Deus de Fred Hoyle
Fred Hoyle, em seu livro The Intelligent Unwerse (O Uni­
verso Inteligente), descreve sua perplexidade com o surgimento 
de vida na terra. Com base na intrincada complexidade da vida, 
ele conclui que a transformação de não-vida em vida como 
algo tão improvável, que ele põe em dúvida o fato de que 
tal transformação já tenha ocorrido na terra. Em vez disso, 
ele postula que a vida, na forma de bactéria, veio do espaço 
sideral à terra.
Em particular Hoyle encontra problema no fato de que a 
vida e outras características da cosmologia parecem operar
206
Os Estranhos Deuses da Cosmologia Moderna
contrariamente à segunda lei da termodinámica. Ao contrario 
de desintegrar e ruir, como outros sistemas físicos, a matéria 
viva se torna mais e mais organizada. Para explicar um tal 
comportamento inusitado, ele recorre a uma idéia por demais 
bizarra: a de que a evolução é guiada por informação vinda do 
futuro] Hoyle crê que os sistemas biológicos estão de algum 
modo funcionando em sentido retrógrado no tempo:
Numa escala cósmica, o efeito de introduzir informação do 
futuro seria ...de ampio alcance. Em vez do universo começar 
com um Big Bang enrolado (dado corda inicial, como num reló­
gio) e que, a partir daí, vai se degenerando, um estado primitivo 
de coisas pode-se auto-enrolar (dar corda) gradualmente, com o 
passar do tempo, tornando-se mais sofisticado, não menos, do 
passado para o futuro. Isso permitiria o acúmulo de informação 
- sem a qual a evolução da vida e do próprio universo, não faz 
sentido lógico.10 11
Além disso, Hoyle crê que a teoría de Darwin está errada: 
variações ocasionais conduzem a lugar nenhum. Para que 
ocorra progresso, informações genéticas têm que vir de fora 
do sistema. E mais:
Já vimos que a vida não pode ter sido originada aqui na terra. 
Não parece que a evolução biológica pode ser explicada de den­
tro de uma teoria de vida estritamente terrena. Genes vindos de 
fora da térra são necessários para dirigir o processo evolutivo... 
Um entendimento próprio da evolução requer que o ambiente, 
ou as variações nas quais ele opera, ou ambos, sejam inteligen­
temente controlados ,n
De onde viria essa fonte misteriosa de informação
10 The Intelligent Universe, p. 214.
11 Ibid.p.242,244.
207
Deus e Cosmos
originada no futuro, a qual controla o processo evolutivo? 
Segundo Hoyle, trata-se de uma inteligência localizada num 
futuro infinitamente distante. Tal inteligência explicaria as 
várias coincidências antrópicas salientadas num capítulo 
anterior. Ela também explica as ocorrências de gênios tais 
como Mozart e Shakespeare.
Hoyle insiste em que tal ser não é um Deus onipotente e 
sobrenatural:
Na teoria cósmica, a inteligência responsável pela criação de 
vida baseada em carbono está firmemente localizada no univer­
so, e é subserviente a ele. E devido o criador da vida baseada em 
carbono não ser onipotente, não há, consequentemente, parado­
xo no fato de que a vida terrestre ê muito aquém do ideal.12
Hoyle não reivindica saber onde este deus estaria locali­
zado, qual seria sua forma física ou o que ele faz. Tal deus 
adquire estatura plena apenas no futuro remoto. Para exercer 
influência sobre o passado e o presente, Hoyle recorre ao inu­
sitado conceito de causação retrógrada (do futuro para o 
passado). A inteligência funciona num sentido reverso no 
tempo, controlando eventos quânticos individuais. Somente 
assim pode efetuar sua própria existência:
A suplantadora inteligência do futuro infinito, a qual engen­
dra o desenvolvimento de inteligência emnosso tempo presente, 
exerce sua controladora influência simplesmente para poder 
existir .B
Hoyle alega que é ilógico que Deus influencie o universo 
sem ser por este afetado, como ele diz ser o caso do Deus dos
12 The Intelligent Universe, p. 236.
12 Ibid.,p. 248.
208
Os Estranhos Deuses da Cosmologia Moderna
cristãos. Tal questão, diz Hoyle, é evitada pelo seu “Deus”, o 
qual somente existe em virtude do apoio recebido do univer­
so. Hoyle se queixa de que a idéia de uma inteligência de “causa 
e efeito normal”, como a que ele proclama, não é muito bem 
recebida no mundo ocidental contemporâneo. Segundo ele, 
isto ocorre porque, em conformidade com a tradição cristã, é 
desejo dos astrônomos ocidentais invocar causas sobrena­
turais vindas de fora do universo.
Deve-se notar que, em seu livro, Hoyle rejeita tanto a 
teoria do Big Bang quanto a do estado estacionário. Pelo con­
trário, ele opta pela teoria de um universo eterno de inúmeros 
little-bangs (pequenos bangs ou pequenas explosões). Assim, 
ele não precisa enfrentar o problema da criação do universo 
inteiro no tempo.
E nós, o que devemos pensar disso? Para explicar o 
aparente design no universo, Hoyle aponta para um Designer. 
Mas para que tal inteligência seja natural, então ela terá que 
ter evoluído e não poderia, em qualquer forma efetiva, ter 
estado presente no tempo próximo do começo. Ainda, as 
grandes coincidências antrópicas que necessitam ser expli­
cadas, tais como a taxa de expansão e os valores das constantes 
físicas, têm que ter sido presumivelmente estabelecidas num 
estágio bem cedo no desenvolvimento do cosmos. Portanto, se 
há um Designer, Ele tem que ter estado arquitetando desde o 
começo, implicando um ser sobrenatural cuja existência é 
anterior à criação do cosmos.
Escarnecendo daqueles que desejam invocar uma causa 
sobrenatural, Hoyle recorre à alternativa duvidosa de causação 
retrógrada. Mas isso nem de longe é “causa e efeito normal”; 
isso não é nada menos que miraculoso. O Deus de Hoyle 
realmente apresenta poderes sobrenaturais, se bem que de 
um tipo limitado. Também no caso do Deus de Hoyle não 
há esperança para uma vida após a morte, nem algo que nos 
inspire amor ou temor.
209
Deus e Cosmos
2.0 Deus de Frank Tipler
Um modelo bem mais ambicioso de um deus evolutivo 
foi desenvolvido por Frank Tipler,14 e exposto em detalhes no 
seu livro ThePhysics oflmmortality (A Física da Imortalidade). 
De acordo com Tipler, a guerra entre a ciência e o cristianismo 
já terminou. A ciência descobriu Deus, portanto a teologia não 
passa de mera ramificação da cosmologia física. Tipler apre-
A
senta sua teoria do Ponto Omega como:
Uma teoria física testável para um Deus onipotente e onis­
ciente que um dia ressuscitará cada um de nós individualmente 
para viver para sempre numa habitação a qual é, em toda sua 
essência, o céu judaico-cristão.15
O leitor deve lembrar-se de nossa discussão sobre Tipler 
no capítulo anterior. Ele pressupõe um universo fechado, onde 
a presente expansão um dia será revertida em contração, 
levando finalmente ao Big Crunch. A vida é definida essenci­
almente como processamento de informação. Na medida em 
que o Big Crunch vai se aproximando, a vida engolfará todo o 
universo. Ela se tornará onipresente, onipotente, onisciente, 
no sentido de que controlará todas as fontes de matéria e ener­
gia, enquanto armazena uma quantidade infinita de informa­
ção. Tipler denomina este evento com a singularidade final - 
“O Ponto Ômega”. Visto que o Ponto Ômega estará além do 
espaço-tempo, então será por isso “transcendente” e, sendo 
equivalente a todos os pontos do espaço-tempo, será também 
“imanente” em todos os pontos do espaço-tempo. Tipler crê
14 “The Omega Point Theory: A Model of an Evolving God”, in Russell, 
Physics, Philosophy and Theology, 1988; “The Omega Point as Eschaton: 
Answers To Pannernberg’s Questions for Scientists”, Zygon, 1989,24, pp. 
217-253; The Physics of Immortality, New York: Doubleday, 1994.
15 The Physics of Immortality, p. 1.
210
Os Estranhos Deuses da Cosmologia Moderna
que, devido à sua elevada inteligência, o Ponto Ômega é como 
uma pessoa. O Ponto Omega “experimentará” o todo da histo­
ria do universo “de urna só vez”, como no conceito teológico 
de eternidade. No modelo de Tipler, Deus e universo são dois 
aspectos da mesma coisa, mas essa teoria não é propriamente 
uma forma de panteísmo.
Embora Tipler atribua “onipotência” a um tal Deus, por­
que Ele controlaria toda energia e matéria, não podemos nos 
esquecer que estaria limitado às leis naturais; e embora fosse 
“onisciente”, seu conhecimento só seria completo quando 
atingisse o Ponto Ômega.
< A
Como podemos ter certeza de que o Ponto Omega real­
mente será atingido? O postulado pelo qual Tipler deduz o 
Deus evolutivo é fundamentalmente de natureza moral. Valor 
é algo conectado à vida. Se valor há de permanecer no uni­
verso, então a vida deve persistir indefinidamente. As leis da 
física devem portanto permitir a existência da vida para 
sempre. A continuada existência da vida implica em evolução 
progressiva sem limite no espaço-tempo: o limite da evolução 
cosmológica e biológica é um ponto além do espaço e tempo, 
o Ponto Ômega. Isso traz de volta à ciência o conceito de pro­
pósito: “Teleología, embora removida da biologia terrestre, 
reaparece quando biologia é combinada com cosmologia”.16
Para assegurar que o Ponto Ômega será atingido, Tipler 
propõe a “Condição Limite Teilhard” para a função onda 
universal. A função onda universal é o conjunto de todas as 
possíveis histórias do universo, e Tipler considera essa função 
como sendo a mesma coisa que o Espírito Santo. A condição 
de Tipler especifica que todas as possíveis histórias do univer­
so convergem para o Ponto Ômega futuro, com a vida vindo a 
existir em pelo menos uma história, e continuando sem cessar 
até o Ponto Ômega. Ele conjectura que tal condição de limite
16 “The Omega Point Theory”, p. 315.
211
Deus e Cosmos
resulta numa função onda universal singular.
Nesse caso, as leis da física e todas as coisas que têm
A
existência física seriam de fato geradas pelo Ponto Omega e 
suas propriedades vivas. Tais propriedades determinariam a 
função onda, e esta por sua vez determinaria tudo o mais. O 
futuro final guiaria todas as condições presentes para si mes­
mo. Em certo sentido o Ponto Omega cria o universo físico, 
porém em outro sentido o Ponto Ômega cria-se a si mesmo. O 
universo de Tipler é portanto completamente determinístico: 
nada inesperado pode acontecer, tudo é fixado pela função onda 
universal.
Deve ser notado que Tipler explícitamente declara que 
não é cristão, e sim, um ateísta - pelo menos até o ponto em 
que sua teoria for confirmada, ponto esse em que ele se torna­
ria um teísta. Ele considera seu modelo alegadamente 
baseado apenas em processos naturais, como um desafio à 
existência do tradicional Deus dos cristãos.
De novo, uma grande falha é que algum tipo de causação 
retrógrada é necessária para que este deus possa criar-se a si 
mesmo. Tudo é predeterminado pela função onda. Mas como 
é que tal função é estabelecida?
Como mostrado no capítulo anterior, as observações do 
presente excluem a possibilidade de um universo fechado, um 
pressuposto do modelo de Tipler. Além disso, como salienta­
do pelo cosmologista George Ellis numa revisão devastado­
ra,17 Tipler ignora o fato de que com a temperatura aumentan­
do indefinidamente, havería a dissociação da matéria em seus 
constituintes fundamentais, impossibilitando armazenamento 
e processamento confiáveis de informação. Ellis comenta:
Não é possível alguém trazer à tona, em breve resumo, todos os 
absurdos deste extraordinário edifício, o qual é o resultado de
17 “Piety in the Sky”, Nature, 1994,371, p. 115.
212
Os Estranhos Deuses da Cosmologia Moderna
imaginação fértil e criativa, não limitada pelas restrições nor­
mais das disciplinas científicas e filosóficas. Tipler não apenas 
baseia sua teoria em pressuposiçõesaltamente improváveis e faz 
afirmativas que não podem, por mais que desdobremos nossa 
imaginação, ser testadas por experimentação ou observação; ele 
tipicamente designa o rótulo de “Deus” a uma construção mate­
mática que, ainda que pudesse ser uma boa descrição das frontei­
ras causais do universo (e provavelmente não é), certamente não 
se refere, em nenhum sentido sério, àquilo a que normalmente a 
palavra “Deus” é referida.
< Em suma, os deuses naturais não são aptos a atraírem a 
muitos seguidores. Sujeitos que são eles às leis naturais (exceto 
no caso de causação retrógrada!), eles não podem realizar mi­
lagres, responder a orações, e têm poucas das características 
geralmente atribuídas ao Deus da Bíblia. Além de tudo, eles 
não poderiam ter existido antes da (presumida) singularidade 
do Big Bang; requerem um longo tempo até que evoluam a 
super-mentes, e suas influências sobre o passado e o presente 
só podem vir a efeito através de artifícios dúbios tais como 
causação retrógrada, o que parece resultar meramente numa 
forma especial e dissimulada de sobrenaturalismo.
O Cristianismo e o Deus Evolutivo
Várias tentativas têm sido feitas no sentido de propor um 
deus evolutivo mais em acordo com o cristianismo. Examina­
remos os pontos de vista de Teilhard de Chardin e da teologia 
de processo, ambos relativamente influentes.
1.0 Deus de Teilhard de Chardin
Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) foi um padre 
jesuíta bem como um paleontologista (um especialista em 
fósseis). Ele esteve bem ocupado em tentar adaptar o cristia­
nismo aos modernos pontos de vista seculares, tentando
213
Deus e Cosmos
demonstrar que o cristianismo é a religião da evolução. En­
quanto em vida, a publicação de seus radicais pontos de vista 
com respeito ao cristianismo evolutivo foi proibida pela 
igreja católica romana, e somente depois de sua morte seu 
trabalho se tornou amplamente conhecido. Sua obra prima 
foi The Phenomenon ofMan (O Fenômeno do Homem)18 e seus 
pontos de vista foram de considerável influência. Por exem­
plo, Frank Tipler identifica um número de facetas em seu 
modelo, muito similares àqueles do modelo de Teilhard de 
Chardin. Daí ter ele referido ao Ponto Omega de Teilhard e as 
condições limites de Teilhard.
Ponderando sobre a misteriosa relação entre a matéria e o 
estar consciente, duas entidades aparentemente bem distintas, 
Teilhard rejeitou a noção comum de que a consciência de 
algum modo se desenvolveu a partir da matéria. Ao contrário, 
Teilhard partiu da hipótese da primazia do psiquismo. Ele 
considerou a autoconsciência como sendo a entidade funda­
mental do universo, estando já presente na matéria desde o 
começo. Todas as coisas materiais, viventes ou não viventes, 
têm seu lado psíquico, o “interior”, e seu lado material, o 
“exterior”.19 O processo evolutivo era visto como tendo uma 
natureza dual: uma crescente complexidade exterior bem como 
um crescente psiquismo interior, ambos culminando no 
homem. O curso futuro da evolução está contido no homem. 
A unidade que vem sendo adquirida através das várias formas 
de arte e ciência é um indicador da convergência da evolução 
no homem e através do homem.
Em última instância, quando a mais alta unificação e 
consciênciosidade possíveis forem adquiridas, um ponto 
central é atingido, denominado Ponto Omega. Esse Ponto 
Ômega, o alvo da criação, é identificado como Cristo. Assim,
18 London: Collins, 1959.
19 The Phenomenon ofMan, p.59.
214
Os Estranhos Deuses da Cosmologia Moderna
Cristo é, considerado como sendo o princípio unificador do 
cosmos, pois nEle tudo é finalmente unificado; o princípio 
energizador do cosmos, pois todo movimento é originado a 
partir do objeto final; e o princípio de conclusão, ou perfeição, 
uma vez que tudo encontra nEle seu completamento ou 
consumação final.
Mas, de forma alguma pode-se ter certeza de tal futuro 
cristocêntrico! O completamento do mundo em Cristo só 
poderia ser obtido com a cooperação do homem. Como o 
homem é livre, estaria portanto dentro de seu alcance fazer o 
projeto falhar.20 Assim, como sumariado por Wildiers,21 nossa 
principal preocupação tem que ser a subseqüente evolução do 
homem no sentido de uma unificação espiritual maior. Há 
um elemento místico em Teilhard, em que ele identifica o 
mundo com Deus, algumas vezes referindo-se a seu ponto de 
vista como sendo “Panteísmo Cristão”. Ele deseja expressar a 
presença de Deus em i odas as coisas, particularmente no pro­
cesso evolutivo. Deus Se fez imerso em Sua própria criação, 
esforçando-Se juntamente com ela para completá-la. A 
encarnação de Deus é coextensiva com a duração do mundo. 
Assim, o amor de Deus e o amor do mundo são combinados 
em um. Através do estudo e trabalho, da ação social e política, 
nós nos unimos com Cristo.22 Em suma, o universo de Teilhard 
é um onde Deus, que manifesta-Se a si mesmo no universo 
físico através da Pessoa de Cristo, evolui.
Pelo ângulo da ciência, Teilhard acreditava que sua teoria 
apresentava algumas dificuldades termodinâmicas. Para ele, 
a evolução de entidades cada vez mais complexas pareciam 
contrariar a segunda lei da termodinâmica, pela qual é pre­
vista uma tendência geral para a desordem, e não para a
20 The Phenomenon of Man, p. 307.
21 The Theologian and His Universe, p. 207.
22 76zJ.,p.21O.
215
Deus e Cosmos
ordem. Além disso, a morte do calor, como prevista pela 
mesma lei, excluiria a futura existência eterna do Ponto Ômega 
Crístico. Eventualmente, até mesmo Cristo sofreria morte 
permanente.
Para superar tais limitações, Teilhard argumentou a favor 
da existência de uma outra forma de energia - a “radial” ou 
psíquica - em adição à usual forma física ou “tangencial” de 
energia. Como todas as formas de matéria contêm alguma 
substância psíquica, energia psíquica radial encontra-se 
presente em toda a matéria. Ela supre uma força vital que 
dirige o processo evolutivo. Sua concentração aumenta na 
medida em que o processo evolutivo se desenvolve, para 
cima, no sentido de atingir maior complexidade.
No homem, a energia radial é a energia de nossos pensa­
mentos. Energia radial e tangencial são de alguma forma 
relacionadas, e passam uma para a outra. Por um lado, “para 
pensar precisamos comer”,23 por outro lado, através do pensa­
mento e da vontade podemos afetar mudanças físicas.
Conforme Teilhard a energia radial se opõe ao efeito 
degenerativo da segunda lei. Desde que isso foi escrito por 
Teilhard, tem sido notado que sua energia radial, psíquica, é 
de fato equivalente a conteúdo de informação, que não pode 
evitar as restrições da segunda lei.24 Assim, como teoria cientí­
fica, este aspecto da visão de Teilhard foi refutado.
Embora o universo de Teilhard seja centrado em Cristo, 
trata-se de um Cristo muito diminuído, altamente dependente 
do esforço do homem e do processo evolutivo. Dificilmente 
seria o Cristo do cristianismo ortodoxo.
2. O Deus da Teologia de Processo
Em anos recentes, o pensamento de processo tem se
23 The Phenomenon of Man, p. 64.
24 Barrow eTipler, 77/e Anthropic Cosmological Principle, 198.
216
Os Estranhos Deuses da Cosmologia Moderna
tornado popular entre os teólogos. Tal movimento tem sua 
origem na obra de Alfred North Whitehead (1861-1947), que, 
de início, esteve bem ativo nos campos da filosofia da ciência 
e matemática. Ele, por sua vez, recebeu grande influência de 
Bergson e Alexander. Em sua obra principal,Process andReality 
(Processo e Realidade) ele desenvolveu um sistema metafísico 
no qual os conceitos de processo e tomar-se ocupavam posição 
central. Desde então, suas idéias passaram a ser desenvolvidas 
por varios teólogos e filósofos, entre os quais se destacam 
Charles Hartshorne e Schubert Ogden.
A teologia de processo rejeita tanto o Deus do teísmo 
clássico, onde Deus é distinto do mundo, quanto ao panteísmo, 
o qual considera Deus e o mundo como sendo iguais. Em vez 
disso, é adotado o conceito denominado “panenteísmo”, que 
significa “todas as coisas em Deus”. Omundo é visto como 
sendo o corpo de Deus. Deus possui também uma mente, mas 
ela é dependente de seu corpo. Criaturas no universo são con­
sideradas células no corpo de Deus.
Whitehead considera Deus como sendo “bipolar”: Ele tem 
a natureza primordial tanto quanto a natureza consequente. Visto 
como primordial, Deus é “a ilimitada realização conceptual 
da absoluta abundância da potencialidade”.25 Nesse estado, 
ele não está consciente. Através desse aspecto Deus é a fonte 
de unidade e ordem no mundo. “Ele é a fascinação pela 
emoção, e o eterno estímulo do desejo.”26 Nesse polo, Deus é 
infinito e imutável.
Mas, há outro lado de Deus. Em Sua natureza conse- 
qüente Deus é consciente, e é “a percepção do mundo real na 
unidade de Sua natureza, e através da transformação de Sua 
sabedoria.”27 Nesse polo Deus é finito, dependente do mun­
do, e em processo. “Deus é o grande companheiro - o amigo
25 Process and Reality, p. 521.
26Ibid., p.522. 27 Ibid., p.524.
217
Deus e Cosmos
sofredor que compreeende.” 28 Deus é tanto o campo 
primordial da ordem, estruturando formas potenciais de 
relacionamento antes que elas aconteçam, como é o campo da 
novidade, apresentando novas possibilidades.
Não apenas Deus (pelo menos em Sua natureza pri­
mordial) mas também o universo, são eternos. Deus criou o 
mundo, não ex nihilo, porém a partir de material preexistente. 
Deus não existe desde antes da criação, e sim com toda a cria­
ção. Nem é único o nosso universo. Com o decorrer do tempo, 
todos os universos logicamente possíveis (“épocas cósmicas”), 
virão à existência, cada um finalmente sendo substituído pelo 
seu sucessor. Nosso universo, inclusive, será eventualmente 
extinto.29
Na teologia de processo Deus é geralmente considerado 
como onisciente com respeito a todos os eventos passados e 
presentes, mas não com relação aos eventos futuros. O futuro é 
indeterminado, e nem mesmo Deus pode conhecê-lo.30 Se o 
futuro fosse fixo, não havería espaço para as ações livres do 
homem. A teologia de processo afirma a ordem, bem como a 
abertura na natureza. O propósito divino é entendido como 
tendo metas imutáveis, porém não um plano eterno detalha­
do; Deus responde diante do imprevisto. O pensamento de 
processo reconhece potencialidades alternativas que podem ou 
não ser concretizadas. O Deus da teologia de processo não 
é onipotente. Ele influencia o mundo, através de avaliar 
potencialidades particulares às quais as criaturas podem res­
ponder, mas isso sem determinar eventos. Deus sempre age 
com e através de outras entidades, em vez de agir sozinho, como 
substituto pelas ações delas. A presença de Deus no universo 
não é, pois, prontamente detectável. A maioria dos teólogos
28 Process and Reality, p. 532.
29 Ibid, p.139,148,171.
30 R. H. Nash, The Concept of God, Grand Rapids: Academe Books, p. 27.
218
Os Estranhos Deuses da Cosmologia Moderna
de processo crêem que a ação de Deus não contradiz a ciência 
e, portanto, Deus não realiza milagres. O poder de Deus sobre 
a natureza é limitado. O poder que Deus exerce é tal que evoca 
amor e inspiração, ao invés de ser uma força unilateral 
controladora. Deus não força, todavia supre poder criativo às 
suas criaturas.
É através do homem que Deus tem as maiores oportuni­
dades de influenciar o mundo. O homem é considerado um 
ser livre co-criador com Deus e de Deus. O homem cria-se a si 
mesmo através das decisões que ele faz. Também, nos níveis 
materiais e biológicos “decisões” são feitas quando uma entre 
muitas possibilidades é realizada. O mundo é uma série de 
decisões, e neste sentido a liberdade forma uma dimensão do 
universo. Não apenas o homem, porém o mundo inteiro, é 
uma realidade autocriativa. Todos os eventos que acontecem 
são mutuamente relacionados. As propriedades fundamentais 
da realidade são criatividade e relatividade, sendo Deus a 
suprema Criatividade e a Relação universal.
A coesão de todas as decisões individuais no mundo é 
devida à influência da suprema criatividade em todos os 
eventos. Isso não anula sua liberdade, mas é uma forma de 
estímulo. Deus é aquele elemento ordenador através do qual 
a criatividade assume um caráter específico, e sem o qual oca­
siões para experiência seriam impossíveis. Deus é o sempre 
presente campo da experiência. Cada ocasião é dependente de 
Deus para sua existência, bem como para a ordem das possibi­
lidades que podem ser realizadas. Diferente da visão de 
Teilhard da culminação da história num Ponto Ômega, a 
teologia de processo visualiza a história como não tendo meta 
final específica. Há somente uma deidade crescente cada vez 
mais, em direção a uma crescente perfeição.
Ronald Nash criticou a teologia de processo em vários 
pontos. De acordo com ele, a maioria dos teólogos de processo 
aplica uma hermenêutica bíblica altamente seletiva, sendo
219
Deus e Cosmos
bem receptivos às Escrituras quando elas concordam com a 
opinião panenteísta, mas ignorando-as quando em sentido 
oposto.31 Além disso, os teólogos de processo freqüentemente 
negam os princípios básicos do cristianismo, tais como a 
deidade de Cristo.32 Schubert Ogden, por exemplo, embora 
referindo-se a Cristo como “o ato decisivo de Deus”, sustenta 
que Cristo é totalmente humano, especial apenas no aspecto 
de que Suas palavras e Seus atos representam o ser de Deus 
num sentido normativo.33 Outros credos cristãos fundamen­
tais, como, por exemplo, a encarnação, a ressurreição do 
corpo, e a expiação são também questionados pelos teólogos 
de processo.
O Deus da teologia de processo deixa a desejar quanto às 
necessárias qualificações do onisciente e onipotente Deus da 
Bíblia. E, como veremos em breve, a teologia de processo não 
oferece esperança aos cristãos no que tange a vida após a mor­
te. Posto que a motivação por trás da teologia de processo foi 
primariamente o desenvolvimento de uma teologia mais em 
linha com o pensamento evolucionário moderno, não é, pois, 
surpreendente que tal abordagem nos deixa com pouco 
conteúdo cristão.
Vida Após a Morte
Uma questão teológica crucial é a que trata da vida após a 
morte. Como cristãos depositamos nossa esperança numa vida 
melhor no porvir. Teria a cosmologia moderna algo a oferecer 
no tocante a esta questão? Já vimos no capítulo precedente
31 The Concept of God.
32 Ver John B. Cobb, Christ in a Pluralistic Age, Philadelphia: Westminster 
Press, 1975, p.74.
33 The Reality of God and Other Essays, New York: Harper and Row, 1966 pp. 
184-186.
220
Os Estranhos Deuses da Cosmologia Moderna
que, se nos apoiarmos puramente em processos naturais, 
o destino da vida no universo parece desolador. Poderia qual­
quer um dos deuses descritos acima remediar tão sinistras 
previsões?
Fred Hoyle crê que a convicção de imortalidade indi­
vidual é um erro. Contudo, ele crê que nossos remotos 
descendentes, através de imensos avanços em tecnologia, 
serão capazes de garantir a imortalidade coletiva da raça 
humana.34 Entretanto, tal coisa é, infelizmente, de pouca 
consolação para o indivíduo, o qual permanece como mero 
mortal.I
Freeman Dyson e Frank Tipler são mais otimistas. Dyson 
especula que a tecnologia futura permitirá a reconstrução de 
cópias de nossos antepassados, se pudermos registrar a sequên­
cia de bases em suas células de DNA. Talvez, também, seja 
possível ler traços de memória nos cérebros de nossos antepas­
sados, e ativá-los novamente. Desse modo, seria possível 
“ressuscitar” ancestrais.35
Se isso de fato irá funcionar, é algo bem duvidoso. Em 
primeiro lugar, seria possível apenas a indivíduos para os 
quais haveria amostras de DNA, e que também tivessem tra­
ços de memória registrados. No entanto, mesmo se registros 
completos de memória fossem possíveis, o que parece muito 
improvável, a tecnologia necessária para realizar tal feito 
estaria num futuro distante, quando nossos pensamentos e 
cérebros já teriam desaparecido desde há muito. Não parece 
que as gerações do passado e do presente seriam beneficiadas 
pelo esquema inteligenteapresentado por Dyson. Em segun­
do lugar, mesmo supondo que tal processo fosse factível, 
seriam reproduzidas apenas cópias de nossos ancestrais, e não 
os ancestrais em si mesmos. Não haveria portanto consciente
34 The Intelligent Universe, p. 226.
35 Infinite inAUDirections, p. 289,
221
Deus e Cosmos
continuidade ou imortalidade do indivíduo.
Um cenário bem semelhante é oferecido por Tipler. Ele 
argumenta que é possível, pelo menos em princípio, que a 
vida futura possa reconstruir uma simulação extremamente 
acurada de nossas vidas passadas. Uma tal simulação de um 
ser vivo, de acordo com Tipler, teria vida, na realidade:
O corpo simulado, poderá ser um tipo amplamente melhorado, 
se comparado com nossos corpos do presente... a um tal corpo 
simulado, melhorado e imortal poderemos chamar de “corpo 
espiritual” ?b
Tais simulações seriam feitas usando os raios de luz do 
passado de nossos ancestrais. Esses raios de luz não são 
perdidos, mas serão interceptados na medida em que nos 
aproximamos da singularidade. Quanto mais próximo da 
singularidade, mais exata será a informação extraída. A partir 
da informação extraída dessa luz nossos ancestrais poderão 
ser reconstruídos. E mesmo que informações suficientes não 
possam ser extraídas do cone de luz do passado, a ressurreição 
ainda poderá ocorrer, pois ainda será possível ressuscitar 
todos os seres humanos cujos DNA possam ser codificados, 
sendo este um número finito.
De novo, isso é muito similar à ressurreição proposta por 
Dyson, exceto que não menciona a reconstrução de memória. 
O mesmo tipo de crítica se aplica. Em particular, mesmo se 
fosse tecnicamente possível, tal esquema produziría uma 
cópia do eu do passado, e não a continuação do meu ser 
consciente.
O sistema de Teilhard, também, oferece pouca esperança 
para aqueles que alimentam alguma expectativa para a vida 
após a morte. Quando um homem morre, seu corpo se *
36 “The Omega Point as Eschaton”, p. 246.
222
Os Estranhos Deuses da Cosmologia Moderna
decompõe, e volta a ser matéria ordinária não viva. Segue 
daí que, a alma humana, sendo vinculada ao corpo, não pode 
sobreviver como uma consciência de ordem superior. O 
máximo que se pode esperar, ao que parece, é um grandioso 
número de centros de consciência elementar, cada um desses 
associado às unidades de matéria do corpo decomposto, e 
sujeitos às leis da estatística. O homem só poderia sobreviver 
coletivamente, não individualmente.37Assim, no íntimo, 
mesmo tendo Teilhard introduzido Cristo em seu esquema, 
trata-de de um Cristo que não nos oferece salvação final.
No tocante ao destino do homem, a maioria dos teólogos 
de processo rejeita a noção de um céu e um inferno reais, ou 
qualquer noção de imortalidade individual. Segundo Ogden,38 
o homem continuará a viver apenas na memória cósmica de 
Deus, e, como tal, não seremos conscientes. Uma posição 
similar é assumida por Charles Hartshorne,39o qual considera 
a noção de céu e inferno fatuais um erro perigoso. Na teologia 
de processo há apenas um tipo de imortalidade objetiva-. 
podemos continuar vivendo após a morte, porém apenas 
através de nossas ações do passado, somente na memória de 
Deus. Não há imortalidade subjetiva, na qual nosso eu 
continua tendo existência consciente.
John Cobb, outro teólogo de processo, discute a questão 
da vida após a morte em seu livro A Christian Natural Theology 
(Uma Teologia Natural Cristã}.40 A maior dificuldade na 
separação entre corpo e alma, afirma Cobb, é onde colocar a 
alma. Não concebemos mais o céu ou o inferno como lugares 
espaciais. Na cosmologia newtoniana, alma ou substâncias 
mentais se encaixavam com tanta dificuldade com o contínuo
37 The Phenomenon of Man, p. 61.
38 “The Meaning of Christian Hope”, Union Seminary Quarterly Review, 
1975,30, pp. 160-163.
39 The Logic of Perfection, LaSalle, Illinois: Open Court, 1962, p. 254.
40 Philadelphia: Westminster Press, 1965, pp.63-70.
223
Deus e Cosmos
espaço-tempo que não parecia coisa estranha postular a exis­
tência de uma outra esfera, o domínio espiritual, aonde a alma 
humana pertenceria. Mas, no cosmos evolucionário, tal 
distinção entre matéria e mente não pode ser mantida. Caso 
mentes emergirem no universo físico, então elas têm que 
pertencer àquele universo. Não parece haver mais um “lugar” 
para a alma após a morte.
Está portanto claro que a questão de origens é intima­
mente relacionada com a questão da vida eterna. Na suposta 
origem evolucionária do homem, uma vez que a alma é fisica­
mente determinada, sua capacidade de sobreviver à morte fica 
enfraquecida. O astrônomo holandês Hermán Zanstra 
argumenta que a rejeição da imortalidade da alma feita por 
Teilhard não deixa lugar para uma verdadeira religião no 
sentido integral. Conforme afirma Zanstra, a questão princi­
pal da religião é se a alma pode se separar do corpo e levar 
uma existência independente do corpo sem perecer. Se todos 
os processos na alma não passarem de diferentes aspectos de 
processos corporais, os quais por sua vez são inteiramente 
governados pelas leis da física, então quando o corpo morre, a 
alma deixa de existir. Se a alma for necessariamente vinculada 
ao corpo, então o passado Big Bang e a futura morte do calor 
(ou Big Crunch) eliminam a possibilidade da existência de 
consciência num passado ou num futuro distantes. Tal ponto 
de vista não deixa lugar para Deus como um Espírito, e é 
essencialmente ateísta. Assim, Zanstra opta por dualismo com 
interação: corpo e alma são entidades separadas, se influenci­
ando mutuamente, mas ainda mantendo certo grau de inde­
pendência. Sua visão sobrenatural do mundo inclui espíritos 
conscientes, onde a consciência já existia antes que o universo 
físico tivesse começado, e continuará a existir quando o 
universo físico for reduzido a pó e cinza.41
41 “Is Religión Refuted by Physics or Astronomy?”, Vistas in Astronomy, 1968, 
10,pp.l-21.
224
Os Estranhos Deuses da Cosmologia Moderna
John Polkinghorne também postula a existência de outro 
domínio, o qual ele chama de mundo “noético”. Em tal mundo 
há entidades mentais, como, por exemplo, verdades matemá­
ticas, as quais não são ancoradas ao domínio material, e 
também entidades espirituais, como anjos. Polkinghorne quer 
fazer justiça à experiência que temos do fato de que “pela 
nossa consciência biologicamente evoluída participamos de 
um mundo de realidade que não veio à existência conosco ou 
mesmo na origem do mundo físico no Big Bang, mas que 
sempre existiu”. Tal mundo “noético” pode não ter fim, 
porém não é um mundo eterno, incriado. Ele não existe para­
lelamente com Deus, ou em igualdade com Deus, mas 
depende de Deus. Deus, propriamente, não faz parte desse 
mundo “noético”; Ele está acima do mundo de Sua criação.42
Conclusões
Em resumo, é evidente que a cosmologia moderna não 
consegue facilmente acomodar dois dos mais essenciais 
ingredientes da verdadeira religião: um Deus sobrenatural e 
a imortalidade subjetiva. Claramente, para preservar estas 
características fundamentais deve existir uma realidade mais 
rica além do espaço físico tridimensional. Deve haver um 
mundo espiritual onde Deus e a alma possam existir. Tal 
mundo transcendente está além do escrutínio de cientistas.
Assim, finalmente, aqueles que desejarem manter o 
básico da verdadeira religião devem reconhecer a inadequação 
ou incoerência do quadro descrito pela cosmologia moderna, 
não apenas no tocante ao futuro, mas também em relação à 
presente estrutura do universo.
42 Science and Creation, London: SPCK, 1988, p.76.
225
7
A Bíblia sobre Cosmologia
O que diz a Bíblia a respeito do assunto de cosmologia? 
Neste capítulo examinaremos o ensinamento bíblico sobre 
Deus e Sua criação, e como um se relaciona com o outro. 
Várias questões específicas relacionadas diretamente à 
cosmologia serão de particular interesse. Finalizaremos com 
uma abordagem da cosmologia Big Bang vista sob o prisma 
das Escrituras.
O Ser e a Natureza de Deus
Primeiro vamos sumariaro ensinamento bíblico a 
respeito do Ser de Deus, particularmente no que concerne 
à Sua criação, Deus não é um conceito abstrato ou um poder 
impessoal, mas um Ser vivo e pessoal que possui natureza e 
caráter definidos.
Deus como Trindade
O Deus bíblico é um Deus triuno. Há somente um Deus, 
porém existem três Pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito 
Santo. As Pessoas da Trindade são às vezes distinguidas por 
Suas diferentes funções. Assim, a criação é frequentemente 
atribuída ao Pai, a redenção ao Filho, e a santificação ao Espí­
rito Santo (ver Efésios 1:3-14). Contudo, existe uma unidade 
fundamental pela qual todos os três participam na atividade 
de qualquer um. Por exemplo, a criação é também dita ser 
obra do Filho {João 1:3) e do Espírito Santo {Isaías 40:12-13).
226
A Biblia sobre Cosmologia
Deus é Espírito
A Bíblia nos diz que “Deus é Espírito” (João 4:24). Isso 
significa, primeiro, que Deus não depende da matéria: “um 
espírito não tem carne nem ossos” (Lucas 24:39). Deus tem 
uma natureza substancial toda própria, e distinta do mundo 
físico. Ele é imaterial. Ele é também invisível aos sentidos 
corporais: “O Deus invisível” (Colossenses 1:15). A idéia de 
espírito inclui também o fato de que Ele é vivo: “O Deus 
vivo” (ÀfízfôMS 11:16) e de que Ele é uma pessoa, um Ser 
autoconsciente e autodeterminante: “Eu sou o que Sou” 
(Êxodo 3:14; ver também Romanos 9:11).
Deus é Infinito
A infinitude de Deus refere-se a ausência de vínculos que 
o prendam: Ele é livre de todas as limitações. Ele de nenhum 
modo é limitado ou confinado ao universo. Deus é absoluta­
mente perfeito, sem defeitos: “sede vós pois perfeitos, como 
perfeito é o vosso Pai que está nos céus” (Àfufôus 5:48). Sua 
grandeza não conhece limites: “Sua grandeza é inescrutável” 
(Salmos 145:3). Deus é também perfeitamente sábio, verda­
deiro, bom, santo e justo.
A infinitude de Deus é, além disso, manifesta em Sua 
eternidade, a qual não é presa ao tempo: “de eternidade a eter­
nidade, tu és Deus” (Salmos 145:3); e Sua imensidão, a qual 
não tem limitação espacial.
Deus é Onipresente
A Bíblia retrata Deus como onipresente. Ele transcende 
todas as limitações espaciais e ainda assim é presente em cada 
ponto do espaço: “Ainda que não está longe de cada um de 
nós; porque nEle vivemos e nos movemos, e existimos” (Atos 
17:27-28). Ou “Esconder-se-ia alguém em esconderijo, de 
modo que eu não o veja?”, diz o Senhor. Porventura não 
encho eu os céus e a terra? (Jeremias 23:24).
227
Deus e Cosmos
Mesmo assim, embora Deus esteja presente em todos os 
lugares, Ele não Se manifesta a Si mesmo em todo lugar da 
mesma maneira. Há numerosas referências bíblicas a Deus 
habitando particularmente num lugar especial: “Num alto e 
santo lugar habito” (Isaías 57:15). Além disso, o lugar de 
particular manifestação de Deus não é fixado no tempo; 
movimento é freqüentemente atribuído a Deus: e o Espírito 
de Deus se movia sobre a face das águas (Gênesis 1:2). “Deus 
passeava no jardim pela viração do dia” (Gênesis 3:8), o Senhor 
vem até Abraão (Gênesis 3:18), o Senhor vai adiante de Israel 
numa coluna de nuvens (Êxodo 13:21), o Senhor desce ao monte 
Sinai (Êxodo 19:20), Moisés vê passar o Senhor (Êxodo, capítu­
lo 33). Na encarnação Cristo desce, do lugar de Deus, ao lugar 
do homem, assumindo a natureza humana; em Sua ascensão o 
corpo humano e ressurreto de Cristo vai do lugar do homem 
para o céu - para um lugar específico - onde Ele agora está à 
direita de Deus (Romanos 8:34).
Deus não é uma abstração fora do tempo e do espaço, e 
sim, em vez disso, é um Deus vivo e pessoal, o qual trans­
cende o universo por Ele criado.
Deus é Onisciente
O conhecimento de Deus é completo e perfeito. “Deus... 
conhece todas as coisas” (ljoão 3:20). Isso inclui todos os even­
tos: “Os olhos do Senhor estão em todo lugar, contemplando 
os maus e os bons.” (Provérbios 15:3). Isso cobre também o 
conteúdo de nossas mentes e corações: “O Senhor conhece os 
pensamentos do homem” (Salmos 94:11); “O Senhor olha para 
o coração” (1 Samuel 16:7); “Porque esquadrinha o Senhor 
todos os corações, e entende todas as imaginações do pensa­
mento” (1 Crônicas 28:9).
O conhecimento de Deus inclui todo o futuro: “Eis que 
as primeiras coisas passaram, e novas coisas eu vos anuncio, e 
antes que venham à luz vo-las faço ouvir” (Isaías 42:9); “Que
228
A Bíblia sobre Cosmologia
anuncio o fim desde o principio, e desde a antigüidade as 
coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho 
será firme, e farei toda a minha vontade” (Isaías 46:10).
Deus é Onipotente
Na Bíblia fica abundantemente declarado que Deus é todo- 
-poderoso: “Tudo o que o Senhor quis, Ele o fez, nos céus e na 
terra” (Salmos 135:6); “A Deus tudo é possível” (Mateus 19:26); 
“O Senhor Deus todo-poderoso reina” (Apocalipse 19:6). Nada 
acontece por acaso: “A sorte se lança no regaço, mas do Senhor 
procede toda a sua disposição” (Provérbios 16:33).
O Senhor é um Deus de ordem, não de confusão (1 
Corintios 14:33). Ele tem estabelecido limites e ordenanças 
para Suas criaturas (Jó 38:41; Jeremias 33:25). Deus, em Seu 
infinito poder e sabedoria decretou que certas regularidades 
sejam mantidas. Ele tem estabelecido uma estrutura de leis 
para Sua criação. E esta atividade regular e sustentadora de 
Deus em Sua criação que torna possível a ciência. No caos não 
pode haver ciência; e somente um universo que obedece a 
padrões regulares pode ser observado, discernido e usado como 
base para previsões.
Contudo, Deus não limita Suas ações a regularidades: 
Ele também realiza milagres. Eles não devem ser vistos 
como intervenção divina num mundo que doutra forma 
seguiria seu próprio curso, pois Deus continuamente sus­
tenta Sua criação. Em vez disso, leis e milagres devem ser 
consideradas como manifestações regulares e irregulares da 
vontade de Deus. O principal propósito dos milagres é 
demonstrar o poder onipotente de Deus: “a ti te foi mostrado, 
para que soubesses que o Senhor é Deus; nenhum outro 
há senão Ele” (Deuteronômio 24:35). Milagres não são realiza­
dos somente por Deus, diretamente, mas também através dos 
profetas (por exemplo, Elias e Eliseu) e os discípulos de 
Cristo; bem como por anjos (João 5:4; Atos 5:19) e espíritos
229
Deus e Cosmos
demoníacos (2 Tessalonicenses 2:9; Apocalipse 16:14).
Assim, em nosso estudo de cosmologia devemos ter em 
mente que o universo físico não é um sistema fechado de pura 
relação física de causa e efeito, mas sim onde também operam 
forças sobrenaturais.
A Doutrina da Criação
A doutrina bíblica da criação é sumariada com aptidão na 
Confissão Belga (1561):
Cremos que o Pai, através do Verbo, isto é, através de Seu 
Filho, criou, do nada, céus e terra e todas as criaturas, quando 
Lhe pareceu bem fazê-lo, e que Ele deu a cada criatura o seu 
próprio ser, aspecto, forma, e a cada uma seu papel e função 
específicos, para servir a Seu Criador. Cremos também que Ele 
continua a sustentar e governar Sua criação de acordo com Sua 
eterna providência e por Seu infinito poder de modo a servir o 
homem, com o fim de que o homem possa servir a seu Deus. Ele 
também criou bons os anjos, para serem Seus mensageiros e para 
servir os eleitos (Artigo 12).
Ressaltamos os seguintes pontos:
Todas as coisas foram criadas por Deus
A Bíblia afirma que Deus é o Criador de todas as coisas 
no céu e na terra: “No princípio criou Deus os céus e a terra” 
(Gênesis 1:1). Embora a criação seja derivada de Deus o Pai, 
ela aconteceu através de Cristo, por Quem “foram criadas to­
das as coisas... nos céus e na terra... visíveis e invisíveis... todas 
as coisas foram criadas por Ele e para Ele, e Ele é antes de 
todas as coisas, e todas as coisas subsistem por Ele” (Colossenses 
1:16-17).
230
A Bíblia sobre Cosmologia
A Criação é um ato livre do Deus transcendente 
Deus é o Deus transcendente. Ele está “acima de todos” e
“sobre todos” (Romanos 9:5), independente de Sua criação, auto- 
-existente e auto-suficiente. Ele é distintode Sua criação. Deus 
não deve ser identificado com o universo físico ou qualquer 
porção dele. Assim o homem é reprovado por “servir mais à 
criatura do que ao Criador” (Romanos 1:25), e é ordenado a 
não adorar nenhuma imagem de escultura (Exodo 20:4). A 
criação deve ser entendida não como um ato necessário, mas 
como um ato livre de Deus, da Sua soberana vontade (ver 
Efésios 1:11, Apocalipse 4:11). Ele não tinha necessidade de 
criar o universo (ver Atos 17:25), porém livremente escolheu 
fazê-lo.
O mundo está sempre em dependência de Deus
Deus não é apenas transcendente, mas também imanente-, 
Ele é “sobre todos e por todos e em todos” (Efésios 4:6). Embo­
ra distinto de Sua criação, Ele está também presente nela. 
“Todas as coisas subsistem por Ele” (Colossenses 1:17) e “...nele 
vivemos, e nos movemos, e existimos” (Atos 17:28).
Deus não é apenas o Criador, o originador do universo, 
Ele também é a causa de sua contínua existência: “susten­
tando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hebreus 1 ;3). 
O universo está em todo o tempo inteiramente dependente do 
poder sustentador de Deus. Sem a contínua Palavra 
sustentadora de Deus o universo instantaneamente deixaria 
de existir.
O Propósito do Universo
Deus fez todas as coisas para serviço do homem, para que 
o homem, por sua vez, pudesse usá-las para servir a Deus. O 
homem é o centro da criação; a ele foi dado domínio sobre ela 
(Gênesis 1:28). Contudo o homem deve exercer tal domínio 
como mordomo, servindo e glorificando a Deus. O propósito
231
Deus e Cosmos
final da obra criadora realizada por Deus é revelar Sua glória: 
“e os criei para minha glória” (Isaías 43:7).
Criação a partir do nada
A formulação explícita de creatio ex nihilo (latim para “cri­
ação a partir do nada”) nasceu bem cedo na Igreja como reação 
à crença de que a matéria sempre existiu. Esse desafio surgiu 
em duas formas: dualismo e panteísmo. Os dualistas sustenta­
vam que Deus criou o universo a partir de material preexistente. 
Haveria portanto duas entidades fundamentais: o mundo e 
Deus. O panteísmo, por sua vez, identificava Deus com o 
mundo, assim negando ao mundo qualquer realidade 
distinta.
Em oposição a tais pontos de vista, o ensinamento cristão 
tradicional é que o universo foi criado a partir do nada; isto é, 
sem o uso de alguma matéria preexistente.
A explícita expressão “criar a partir do nada” não é 
encontrada nas Escrituras, mas é encontrada nos Apócrifos 
(2 Macabeus 7:28). No entanto, tal ensinamento parece ser 
confirmado pela Bíblia. “No princípio criou Deus os céus e a 
terra” (Gênesis 1:1) implica que o universo físico teve um 
começo no tempo, sendo criado por Deus. Outro texto frequen­
temente citado sobre criação ex nihilo é Hebreus, capítulo 11, 
versículo 3: “Pela fé entendemos que os mundos pela Palavra 
de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não 
foi feito do que é aparente.” Também “porque tu criaste todas 
as coisas, e por tua vontade são e foram criadas” (Apocalipse 
4:11). Nada existiria se não fosse pela vontade de Deus. Deus 
simplesmente falou, e as coisas vieram a existir: “Porque fa­
lou, e tudo se fez” (Salmos 33:9).
A doutrina de criatio ex nihilo é mais do que uma simples 
declaração da dependência do universo em Deus para sua exis­
tência: ela enfatiza que o universo, em algum ponto do tempo, 
foi criado a partir do nada.
232
A Bíblia sobre Cosmologia
Criação contínua
Em tempos mais recentes muitos teólogos têm trocado 
creatio ex nihilo por creatio continua (latim para “criação contí­
nua”). Assim, por exemplo, Barbour afirma que criatio ex nihilo, 
particularmente se associada com um começo absoluto, é 
um conceito não bíblico.1 Ele sustenta que a idéia de criação 
“no começo” nasceu de idéias como o pacto e a providência. 
Além disso, enquanto a criação ex nihilo possa se encaixar no 
universo estático da cosmologia medieval, o universo moder­
no é dinâmico e evolui. Está ainda incompleto, e em processo 
de criação. A vinda à existência da vida a partir da matéria é 
vista por Barbour como tão representativa da criação divina 
como a produção primária de matéria a partir do nada. Barbour 
combina criação contínua com providência e minimiza creatio 
ex nihilo. Ted Peters, também, embora defenda criatio ex nihilo, 
em oposição a Barbour, concorda com a importância de criatio 
continua. De acordo com Peters, a obra criativa de Deus ainda 
não está completa: “Nós hoje nos achamos ainda em algum 
ponto dentro dos seis primeiros dias”.1 2
Ora, devemos afirmar, é claro, que Deus sustenta conti­
nuamente o universo. Se assim não fosse, o universo deixaria 
de existir. Mas a Bíblia fala claramente da criação como sendo 
um evento passado. No final do sexto dia, “Viu Deus tudo 
quanto tinha feito, e eis que era muito bom” (Gênesis 1:31). 
Foi após estar completada a criação que a queda do homem 
ocorreu, com a resultante maldição sobre a criação. Noutro 
lugar, igualmente, os seis dias são também referidos como um 
evento passado-. “Em seis dias fez o Senhor o céus e a terra, e 
ao sétimo dia descansou, e restaurou-se” (Êxodo 31:17). 
Assim, criatio continua, com sua noção de que o universo está 
ainda em evolução para cima, carece de apoio bíblico.
1 Ian G. Barbour, Issues in Science and Religión, New York: Harper, 1971, 
p.384.
2 Ted Peters (ed.), Cosmos as Creation, Nashville, Abingdon Press, 1989, p. 96.
233
Deus e Cosmos
A História do Universo
Eventos da Criação
A Bíblia ensina que Deus, em seis dias, criou o cosmos a 
partir do nada. Vamos fazer um breve resumo da obra realiza­
da nos primeiros quatro dias, na medida que se relaciona com 
cosmologia.
PRIMEIRO DIA
“No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem 
forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito 
de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: haja luz.
E houve luz. E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separa­
ção entre a luz e as trevas. E Deus chamou à luz Dia; e as trevas 
chamou Noite. E foi a tarde e a manhã o dia primeiro” (Gênesis 
1:1-5).
“No princípio Deus criou os céus e a terra”. A terra na sua 
origem era escura, sem estrutura, caos, em forma líquida na 
maior parte. Como mencionado por Jordan, nada parecido com 
isso é dito a respeito do céu,3 e o resto da Bíblia indica que o 
céu era estruturado, cheio, e brilhante desde o começo.
A criação da luz foi a primeira das três separações neces­
sárias para mudar o caos em cosmos. Isso marcou o começo da 
sucessão contínua de dias. Note que “dia” aqui é explicitamente 
definido como um período de luz.
O “abismo” ou águas tinham uma “face”, ou superfície, 
implicando que o universo físico inicial consistia de um 
delimitado e finito volume de matéria implantado dentro de 
um espaço maior.
Como o sol e outros corpos celestes não haviam sido 
ainda criados até o quarto dia, alguém poderia perguntar que
3 James B. Jordan, Creation in SixDays: A Defense ofthe Traditional Reading 
ofGenesis, Moscow, Idaho: Canon Press, 1999, p.174.
234
A Bíblia sobre Cosmologia
fonte de luz seria aquela. Não há informação sobre isso. 
Talvez Deus tenha criado fotons de luz diretamente. Douglas 
F. Kelly e Henry Morris sugerem que a fonte de luz anterior à 
criação do sol pode muito bem ter emanado da presença 
teofânica do próprio Deus.4 Numa linha semelhante de 
pensamento, Russell Humphreys sugere que o Espírito de 
Deus, movendo sobre a superfície das águas, Ele próprio, 
tornou-Se uma fonte de luz para a superfície, de modo muito 
semelhante ao que acontecerá no futuro, quando Ele será a 
fonte de luz (Apocalipse 21:23; 22:5).5 Isso dá à superfície 
do abismo um lado brilhante e um lado escuro, com o movi­
mento da fonte de luz trazendo a resultante sucessão de dias 
e noites.
SEGUNDO DIA
“E disse Deus: haja uma expansão no meio das águas, e haja 
separação entre águas e águas. E fez Deus a expansão, e fez 
Deus separação entre as águas que estavam debaixo da expan­
são e as águas que estavam sobre a expansão:e assim foi. E 
chamou Deus a expansão Céus, e foi a tarde e a manhã o dia 
segundo” (Gênesis 1:6-8).
Aqui temos uma segunda separação, desta vez uma sepa­
ração espacial. O firmamento, chamado céus, é criado para 
separar as águas em duas camadas distintas, acima e abaixo 
do firmamento. O firmamento é geralmente tomado como 
incluindo a atmosfera que envolve a terra, bem como as outras 
partes do céu onde se encontram o sol e as estrelas.
Mas, o que fazer com as águas acima do firmamento? 
Este assunto tem sido fonte de muita especulação. Muitos 
comentaristas, inclusive João Calvino, consideram essas águas
4 Kelly, Creation and Change, Tain, Ross-shire: Mentor, 1997, p. 204; Morris, 
The Remarkáble Birth ofPlanetEarth, Minneapolis: Dimension Books, 1972.
5 Starlight and Time, Colorado Springs: Master Books, 1994, p.76.
235
Deus e Cosmos
como sendo simplesmente nuvens na atmosfera. Por outro lado, 
outros, como Bouw6 e Humphreys7, sustentam que, como o 
sol e as estrelas são posteriormente colocados no firmamento, 
as águas acima do firmamento devem estar além das estrelas. 
Ambos os autores descrevem o universo como uma enorme 
esfera, com seu centro em na terra ou próximo a ela, circunda­
da por uma fina camada de água. Sejam quais forem as 
dificuldades que tal camada aquosa apresente para sua 
explicação física, seu posicionamento para além do horizonte 
observacional coloca o problema fora de vista.
Jordán argumenta que as águas acima do firmamento 
estão no próprio céu, além das fronteiras remotas do 
firmamento.8 Ele equipara tais águas com o mar de vidro, 
cristal e gelo que é citado nas visões do céu como em Ezequiel 
e no Apocalipse. Ele vê confirmação para isto no Salmo 104:2- 
4, onde somos informados de que “Ele põe nas águas os viga­
mentos de suas câmaras”. O firmamento separa céus e terra 
pela primeira vez, pondo o céu numa outra dimensão. Essa 
barreira será removida num futuro remoto, quando céus e ter­
ra forem renovados, o mar não mais existir, e a nova Jerusalém 
descer do céu (Apocalipse, capítulo 21).
TERCEIRO DIA
“E disse Deus, ajuntem-se as águas debaixo do céu num lu­
gar; e apareça a porção seca. E assim foi. E chamou Deus a 
porção seca Terra; e ao ajuntamento das águas chamou Mares.
E viu Deus que era bom. E disse Deus: produza a terra erva 
verde, erva que dê semente, árvore frutífera, que dê fruto segun­
do sua espécie, cuja semente esteja sobre a terra. E assim foi” 
(Gênesis 1: 9-13).
6 Gerardus G. Bouw, Geoceniricity, Cleveland: Association for Biblical 
Astronomy, 1992, p. 322.
7 Starlight and Time p.35.
8 Creation in Six Days, p. 180.
236
A Biblia sobre Cosmologia
A matéria criada no primeiro dia parece ter sido uma 
fusão de águas e lama não diferenciadas.9 Humphreys sugere 
que toda a matéria inicial era água, parte da qual foi transfor­
mada por Deus no segundo dia em vários elementos, por 
compactação.10 11 Contudo, o texto de Gênesis não dá nenhuma 
evidência de tal transformação ter acontecido. O terceiro dia 
relaciona a separação de água e terra seca, porém nenhuma 
menção é feita sobre criação de terra. Tanto a água quanto os 
elementos da terra parecem ter sido criados no princípio, no 
primeiro dia.
QUARTO DIA
“E disse Deus: haja luminares na expansão dos céus, para se­
paração entre o dia e a noite; e sejam para sinais e para tempos 
determinados, e para dias e anos. E sejam para luminares na 
expansão dos céus, para alumiar a terra, e assim foi. E fez Deus 
os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia 
e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas. E 
Deus os pôs na expansão dos céus para alumiar a terra, e para 
governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as 
trevas. E viu Deus que era bom” (Gênesis 1:14-19).
Alguns comentadores afirmam que o sol e as estrelas já 
haviam sido criados no primeiro dia, e que o quarto dia ape­
nas descreve a limpeza da atmosfera previamente opaca, de 
modo que o sol e as estrelas tornaram-se visíveis a partir da 
terra pela primeira vez.11 Todavia, como mencionado por Kelly, 
tal interpretação contradiz o texto, que ensina claramente que 
Deus, no quarto dia, criou os corpos celestes que não existiam 
previamente.
9 Kelly, Creation and Change, p.82.
10 Starlight and Time, p. 79.
11 Por exemplo, Hugh Ross, The Genesis Question, Colorado Springs: 
NavPress, 1998, p.44.
237
Deus e Cosmos
Quanto ao propósito desses corpos celestes, sua função 
como luminares, como divisores entre dia e noite, e calcula­
dores de dias, anos e estações, parece muito óbvio: “O sol 
para governar o dia... a lua e as estrelas para governar a noite” 
(Salmos 136:8-9); “Deus designou a lua para as estações” 
(Salmos 104:19).
Que dizer a respeito de suas funções como sinais? Kelly 
considera que sinais incluem a função das estrelas como auxí­
lio à navegação e cartografia. A isso pode-se ainda adicionar 
que “Os céus manifestam a glória de Deus, e o firmamento 
anuncia as obras de suas mãos” (Salmos 19:1). Além disso, são 
também sinais de que o Senhor fará o que prometeu:
‘E isto te será da parte do Senhor como sinal de que o Senhor 
cumprirá esta palavra que falou: eis que farei que a sombra dos 
degraus, que passou com o sol pelos graus do relógio de Acaz 
volte dez graus atrás. Assim recuou o sol dez graus, pelos graus 
que já tinha andado” (Isaías 38:7,8).
Há também sinais celestiais do vindouro dia do Senhor:
“E mostrarei prodígios no céu e na terra, sangue e fogo, e 
colunas de fumo. O sol se converterá em trevas, e a lua em san­
gue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor” (Joel 2: 
30-31).
‘E haverá sinais no sol, e na lua, e nas estrelas” (Lucas 21:25)
“Ora, naqueles dias, depois daquela aflição, o sol se escurecerá 
e a lua não dará a sua luz. E as estrelas cairão do céu, e as forças 
que estão nos céus serão abaladas” (Marcos 13:24-25).
A Queda e suas Conseqüências
Ao fim do sexto dia da criação, “E viu Deus tudo quanto 
tinha feito, e eis que era muito bom” (Gênesis 1:31). No 
entanto, pouco tempo depois o mal entrou no mundo. O 
mal originou-se no céu, com o diabo - “o diabo peca desde o
238
A Bíblia sobre Cosmologia
princípio” {ljoão 3:8) - o qual apareceu na terra em forma de 
serpente {Apocalipse 20:2), e tentou Adão e Eva a pecar {Gênesis, 
capítulo 3). Como resultado da desobediência de Adão o 
pecado entrou no mundo, e se espalhou por todos os homens.
Teria a Queda alguma implicação em cosmologia? A Bí­
blia não deixa claro até que ponto as estrelas foram afetadas 
pela Queda, se é que foram afetadas. Por outro lado, Paulo 
declara que “Sabemos que toda a criação geme e está junta­
mente com dores de parto até agora” {Romanos 8:22), e, no fim 
dos tempos os corpos celestiais serão transformados. Outros- 
sim, embora tenha Deus específicamente amaldiçoado a terra, 
por causa do pecado de Adão, de modo que agora ela produz 
espinhos e cardos {Gênesis 3:17-18), nenhuma menção especí­
fica é feita de qualquer mudança no sol, lua ou estrelas.
Alguns têm pensado que a segunda lei da termodinâmica 
não estava em efeito antes da Queda. Por exemplo, Henry 
Morris escreve:
A validade universal da segunda lei da termodinâmica é 
demonstrada, mas ninguém sabe porque ela é verdadeira... Mas 
a explicação bíblica é que está envolvida na maldição pronun­
ciada por Deus sobre o mundo e seu sistema como um todo, por 
causa do pecado de Adão... Portanto, concluímos que a Bíblia 
ensina que originalmente não havia desordem, não havia deca­
dência nem processo de envelhecimento, não havia sofrimento e, 
acima de tudo, não havia morte no mundo quando a criação foi 
completada. Tudo “era muito bom”.12
É difícil imaginar como seria o universo sem a segunda 
lei da termodinâmica. Por exemplo, significaria então que não 
haveria forças de atrito para desacelerar uma bola lançada ao 
ar? Caso positivo, como então os pássaros poderiam voar? A
12 The TwilightofEvoluíion, Philadelphia: Presbyterian and Reformed, 1963. 
p.37.
239
Deus e Cosmosconcretude das estrelas e galáxias sem dúvida seria muito 
afetada, mas talvez isso seja de pequena importância, uma vez 
que tais coisas foram criadas completas, o que já seria uma 
violação das leis da termodinâmica, e a Queda ocorreu pouco 
tempo depois (questão de dias?).
Contudo, não parece que a Queda tenha trazido uma 
grande descontinuidade na natureza do universo e de suas 
criaturas. As árvores continuaram produzindo frutos, pássa­
ros continuaram voando e se multiplicando, o homem 
continua comendo frutas e conversando, e assim por diante. 
Mesmo depois da Queda, era ainda possível para o homem 
viver para sempre, não tivesse sido a ele negado acesso à 
árvore da vida (Gênesis 3:22-24). Tudo isso sugere que, embora 
a Queda tenha profundamente afetado o bem estar físico (e 
espiritual, é claro) do homem, as leis básicas da física foram 
provavelmente mantidas intactas.
Escatologia
Através da obra de Cristo - Sua encarnação, morte e 
ressurreição - a salvação tornou-se possível ao homem. Deus, 
através de Cristo, reconcilia conSigo mesmo todas as coisas, 
tanto as que estão na terra como as que estão no céu (Colossenses 
1:19-20). Ora, a criação ainda continua gemendo com dores de 
parto, porém eventualmente ela será libertada da escravidão à 
decadência (Romanos 8:19-20). Ao fim desta era Cristo virá 
julgar todos os homens, e determinar o destino eterno de cada 
um (Apocalipse 20:11 -15).
Os últimos dias serão marcados por dramáticos sinais 
celestiais, envolvendo o sol, a lua e as estrelas, como mencio­
nado anteriormente. Depois disso o primeiro céu e a primeira 
terra passarão, e haverá um novo céu e uma nova terra 
(Apocalipse 21:1). “Porque eis que crio céus novos e terra nova; 
e não haverá lembrança das coisas passadas, nem mais se re­
cordarão” (Isaías 65:17). Então a cidade santa, a nova Jerusa-
240
A Bíblia sobre Cosmologia
lém descerá do céu, e Deus habitará nela com Seu povo para 
sempre (Apocalipse 21:2-3).
O apóstolo Pedro tem mais a dizer a respeito da destrui­
ção dos céus:
“Os céus passarão com grande estrondo, e os elementos arden­
do se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão”
(2 Pedro 3:10).
Isso parece se referir primariamente ao céu no sentido 
de atmosfera. Wilbur M. Smith especula que o dissolver dos 
elementos pode se referir à liberação de energia nuclear.13 Ele 
crê que o terceiro céu, a habitação de Deus, não será afetada. O 
velho céu e a velha terra passarão, ou serão transformadas 
porque estão corrompidos pelo efeito do pecado, o que não 
é verdade quanto à habitação de Deus. A terra, e os corpos 
celestes em torno dela não serão aniquilados, mas apenas 
renovadas a uma condição mais gloriosa.14
A Data da Criação
O que nos diz a Bíblia com respeito à idade do mundo? 
Nos tempos mais recentes, esta tem sido uma questão bastante 
contenciosa. Entretanto, não foi sempre assim. Até poucas 
centenas de anos atrás a visão cristã praticamente universal era 
a de que o mundo teria apenas alguns milênios de idade. Era 
amplamente concordado que a Bíblia falava muito claro a esse 
respeito: Gênesis, capítulo 1, fala de uma criação de seis dias, 
com a luz sendo criada no primeiro dia, e objetos celestes no 
quarto dia. As genealogias de Gênesis, capítulos 5 e 11, e outros 
dados bíblicos, situam a criação de Adão no sexto dia em 
mais ou menos 4.000 anos a.C.
13 The Biblical Doctrine of Heaven, Chicago: Moody Press, 1968, p.229.
14 Ibid. p. 235.
241
Deus e Cosmos
Os dias da criação eram geralmente considerados como 
dias comuns, tanto pela Igreja, como pelos Pais da Igreja 
Primitiva, bem como depois, pelos Reformadores. Embora 
textos como 2 Pedro 3:8 (“Um dia para o Senhor é como mil 
anos”) tenham sido usados para fazer conexão entre os dias da 
criação e longos períodos de tempo, isso foi aplicado não 
referindo-se à semana da criação, e sim à história da humani­
dade: muitos pensavam que a totalidade da história seria igual 
a seis mil anos.
Nas palavras de David Young, certamente um que não 
apoia a idéia de uma terra jovem:
A despeito das muitas interpretações de Gênesis, capítulo 1, 
que se apartam do rigidamente literal, não se pode negar que a 
quase universal visão do mundo cristão até o século 18 era de 
que a terra tinha apenas uns poucos mil anos de idade P
Tal consenso foi questionado pelas evidências geológicas 
e astronômicas que eram vistas como exigindo uma idade 
muito maior para a humanidade, a terra e as estrelas. Outras 
interpretações de Gênesis foram então buscadas, que melhor 
harmonizassem com a nova ciência. Primeiramente os dias 
da criação foram reinterpretados como longos períodos de 
tempo. Posteriormente, como mesmo isso foi considerado 
insustentável, tornou-se popular a visão de que os dias da 
criação eram meros artifícios literários para comunicar 
verdades teológicas mais profundas.
Contudo, é digno de se notar que os proponentes da 
posição literária freqüentemente reconheciam que, em ter­
reno puramente exegético, e excluindo a evidência científica, 
a interpretação tradicional é superior. Ramm, Blocher, Van Till 
e Young todos explícitamente declararam que sua rejeição da *
15 Christianity and the Age of the Earth, p.25.
242
A Bíblia sobre Cosmologia
leitura literal de Génesis é primariamente por causa da presu­
mida incompatibilidade com a ciência moderna.16 Assim, por 
exemplo, Howard Van Till afirma que “os dias da história de 
Gênesis, capítulo 1, são claramente dias comuns”,17 embora, 
com base em evidências astronômicas, ele não pode mais 
aceitar a interpretação tradicional de Gênesis.
Hoje em dia, os cálculos do arcebispo James Ussher (1581- 
1656), que localiza a criação em 4004 a.C, são freqüentemente 
escarnecidos. Até mesmo muitos cristãos consideram a crono­
logia bíblica um agudo embaraço.
Todavia, a natureza cronológica - e inteireza - das 
genealogias de Gênesis eram reconhecidas por todos os Pais 
da Igreja Primitiva, bem como pelos Reformadores protes­
tantes. Os teólogos Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino 
e Abraham Kuyper todos explícitamente afirmavam que o 
mundo tinha menos que seis mil anos de idade. Assim foi 
também com cientistas como Johannes Kepler e Isaac Newton.
A função cronológica de Gênesis foi questionada em 1863 
por William Henry Green do Seminário Teológico de 
Princeton.18 Green deixou claro que estava abandonando a 
cronologia bíblica tradicional motivado pelo desejo de 
harmonizar a Bíblia com as conclusões científicas relativas à 
antiguidade do homem. Como conseqüência ele sugere que as 
genealogias de Gênesis têm enormes lacunas, de modo que não 
podemos datar os eventos de Gênesis, capítulos 1-11. Assim,
16 Bernard Ramm, The Christian View of Science andScripture, Grand Rapids: 
Eerdmans, 1954, p. 17; Henri Blocher,/w The Beginning, Downers Grove: 
InterVarsity, 1984, p. 48; Howard Van Till, TheFourthDay, p. 76; Davis Young, 
“Scripture in the hands of geologists”, p.295
17 TheFourthDay p. 91.
18 Um artigo de Green publicado nuBiblotheca Sacra, 1890,47, pp. 285-303, 
faz referência a um artigo anterior datado de 1863. O artigo de 1890 foi 
reimpresso como um apêndice em R. C. Newman e H. J. Eckelmann, Genesis 
OneandtheAgeoftheEarth, Downers Grove: InterVarsity. 1977.
243
Deus e Cosmos
poderíamos evitar um choque com a ciência.
Contudo, quando lemos “E viveu Sete cento e cinco anos 
e gerou a Enos. E viveu Sete depois que gerou a Enos, oitocen­
tos e sete anos; e gerou filhos e filhas” (Gênesis 5:6-7), parece 
claro que temos um vínculo direto de pai para filho. Somando 
assim todos os vínculos, é fácil calcular que 1656 anos se pas­
saram desde a criação de Adão até o dilúvio (Gênesis, capítulo 
5), e mais 222 anos até Tera (Gênesis, capítulo 1). A sugestão 
feita por Green de que o texto pode ser lido como “E viveu 
Sete cento e cinco anos e se tornou um ancestral de Enos. E 
viveu Sete depois que se tornou um ancestral de Enos, oitocen­
tos e sete anos”, parece muito artificial. Outros escritores têm 
concluído

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