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CARDIOLOGIA PRÁTICA www.socesp.org.br Volume 30 • N. 2 • Abril/Junho 2020 Suplemento da Revista da Edição Especial Editores convidados Dirceu Rodrigues Almeida Fernando Bacal Editor Chefe Marcelo Franken Insuficiência Cardíaca Baixe o app SOCESP para visualizar a publicação Portal&App C M Y CM MY CY CMY K Revista SOCESP.pdf 1 26/06/18 13:23 Portal&App C M Y CM MY CY CMY K Revista SOCESP.pdf 1 26/06/18 13:23 Portal&App C M Y CM MY CY CMY K Revista SOCESP.pdf 1 26/06/18 13:23 Portal&App C M Y CM MY CY CMY K Revista SOCESP.pdf 1 26/06/18 13:23 ISSN 0103-8559 - Versão impressa ISSN 2595-4644 - Versão online ISSN 0103-8559 Indexada em: LILACS – Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (www.bireme.br) Latindex – Sistema Regional de Información em Línea para Revistas Científicas de América Latina, El Caribe, España y Portugal (www.latindex.unam.mx) Editor Chefe: Marcelo Franken Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo, SP, Brasil Conselho Editorial Alfredo José Mansur Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil Álvaro Avezum Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia São Paulo, SP, Brasil Amanda G. M. R. Sousa Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia São Paulo, SP, Brasil Angelo Amato V. de Paola Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo - Unifesp São Paulo, SP, Brasil Antonio Augusto Lopes Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP São Paulo, SP, Brasil Antonio Carlos Pereira-Barretto Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP São Paulo, SP, Brasil Antonio de Pádua Mansur Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil Ari Timerman Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, São Paulo, SP, Brasil Benedito Carlos Maciel Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto,SP,Brasil Bráulio Luna Filho Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo/Hospital Brasil, ABC São Paulo, SP, Brasil Bruno Caramelli Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil Carlos Alberto Buchpiguel Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Vinculação Acadêmica) São Paulo, SP, Brasil Carlos Costa Magalhães Cardioclin - Clinica e Emergência Cardiologica São José dos Campos, SP, Brasil. Carlos Eduardo Rochitte Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Me- dicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP/Hospital do Coração, HCOR/ Associação do Sanatório Sírio, São Paulo, SP, Brasil Carlos V. Serrano Jr. Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP São Paulo, SP, Brasil Celso Amodeo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, São Paulo, SP, Brasil Dalmo Antonio R. Moreira Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, São Paulo, SP, Brasil Daniel Born Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP São Paulo, SP, Brasil Dirceu Rodrigues Almeida Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP, São Paulo, SP, Brasil Edson Stefanini Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo -UNIFESP, São Paulo, SP, Brasil Expedito E. Ribeiro Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade deMedicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP São Paulo, SP, Brasil Fabio B. Jatene Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP São Paulo, SP, Brasil Fausto Feres Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia São Paulo, SP, Brasil Felix J. A. Ramires Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil Fernanda Marciano Consolim-Colombo Instituto do Coração / INCOR, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, SP, Brasil Fernando Bacal Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil Fernando Nobre Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo- HCFMUSP, Ribeirão Preto, SP, Brasil Flavio Tarasoutchi Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil Francisco A. Helfenstein Fonseca Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil Francisco Rafael Martins Laurindo Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade deMedicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil Henry Abensur Beneficência Portuguesa de São Paulo - Setor de ensino, São Paulo, SP, Brasil Ibraim Masciarelli F. Pinto Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, São Paulo, SP, Brasil Ieda Biscegli Jatene Hospital do Coração - HCOR São Paulo, SP, Brasil João Fernando Monteiro Ferreira Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil João Manoel Rossi Neto Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, São Paulo, SP, Brasil João Nelson R. Branco Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo -UNIFESP, São Paulo, SP, Brasil Jorge Eduardo Assef Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, São Paulo, SP, Brasil José Carlos Nicolau Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil José Carlos Pachón Mateos Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, Universidade de São Paulo - USP, Hospital do Coração, Hospital Edmundo Vasconcelos, São Paulo, SP, Brasil José Francisco Kerr Saraiva Hospital e Maternidade Celso Pierro, São Paulo, SP, Brasil José Henrique Andrade Vila Hospital de Beneficência Portuguesa, São Paulo, SP, Brasil José L. Andrade Instituto de Radiologia (InRad) - Hospital das Clínicas - Faculdade de Medicina- USP, São Paulo, SP, Brasil José Soares Jr. Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil Katashi Okoshi Faculdade de Medicina de Botucatu, UNESP, Botucatu, SP, Brasil Kleber G. Franchini Departamento de Clínica Médica UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil Leopoldo Soares Piegas Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia São Paulo, SP, Brasil Lilia Nigro Maia Faculdade de Medicina de Rio Preto (FAMERP)/Hospital de Base São José do Rio Preto, SP, Brasil Luiz Aparecido Bortolotto Instituto do Coração / INCOR. São Paulo, SP, Brasil Luiz Mastrocola Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia São Paulo, SP, Brasil Luiz Felipe P. Moreira Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP São Paulo, SP, Brasil Marcelo Jatene Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil Marcelo Chiara Bertolami Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, São Paulo, SP, Brasil Marcelo Luiz Campos Vieira Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil Marcus Vinicius Simões Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP - Brasil Maria Cristina Oliveira Izar Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo -UNIFESP, São Paulo, SP, Brasil Maria Teresa Nogueira Bombig Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo -UNIFESP, São Paulo, SP, Brasil Maria Virgínia Tavares SantanaInstituto Dante Pazzanese de Cardiologia, São Paulo, SP, Brasil Mauricio Ibrahim Scanavacca Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil Max Grinberg Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil Miguel Antonio Moretti Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil Nelson Kasinsky Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo -UNIFESP, São Paulo, SP, Brasil Orlando Campos Filho Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo -UNIFESP, São Paulo, SP, Brasil Otavio Rizzi Coelho Disciplina de Cardiologia do Departamento de Clinica Médica da FCM UNI- CAMP, São Paulo, SP, Brasil Paola Emanuela Poggio Smanio Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia São Paulo, SP, Brasil Paulo Andrade Lotufo Faculdade de Medicina e Centro de Pesquisa Clínica Epidemiológica da USP, São Paulo, SP, Brasil Paulo J. F. Tucci Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo -UNIFESP, São Paulo, SP, Brasil Paulo M. Pêgo Fernandes Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil Pedro Silvio Farsky Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, São Paulo, SP, Brasil Raul Dias Dos Santos Filho Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil Renato Azevedo Jr Hospital Samaritano São Paulo, São Paulo, SP, Brasil Ricardo Ribeiro Dias Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil Romeu Sérgio Meneghelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia/Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo, SP, Brasil Rui Póvoa Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil Ulisses Alexandre Croti Hospital da Criança e Maternidade de São José do Rio Preto (FUNFARME)/ Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP), São José do Rio Preto, SP, Brasil Valdir Ambrosio Moises Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP/ Fleury Medicina e Saúde, São Paulo, SP, Brasil Valter C. Lima Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP, São Paulo, SP, Brasil William Azem Chalela Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-HCFMUSP, São Paulo, SP, Brasil Educação Física e Esporte Tiago Fernandes Universidade de São Paulo. Escola de Educação Física e Esporte. São Paulo, SP, Brasil. Larissa Ferreira dos Santos Instituto do Coração /Incor/Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. Enfermagem Ana Carolina Queiroz Godoy Daniel Hospital Israelita Albert Eistein. São Paulo, SP, Brasil. Rafaela Batista dos Santos Pedrosa Universidade Estadual de Campinas. SP, Brasil Farmacologia Alessandra Santos Menegon Instituto do Coração /Incor/Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. Leiliane Rodrigues Marcatto Instituto do Coração /Incor/Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. Fisioterapia Solange Guizilini Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP. São Paulo, SP, Brasil. Vera Lúcia dos Santos Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. SP, Brasil Nutrição Juliana Tieko Kato Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP. São Paulo, SP, Brasil. João Henrique Motarelli Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP. São Paulo, SP, Brasil. Odontologia Frederico Buhatem Medeiros Hospital Samaritano. São Paulo, SP, Brasil. Paulo Sérgio Silva Santos Faculdade de Odontologia de Bauru- FOB/USP, SP, Brasil Psicologia Rafael Trevizoli Neves Hospital do Coração – HCOR. São Paulo, SP, Brasil. Suzana Garcia Pacheco Avezum Departamento de Psicologia da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil. Serviço Social Elaine Fonseca Amaral da Silva Instituto do Coração /Incor/Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. Elaine Cristina Dalcin Seviero Departamento de Serviço Social da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil. Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo São Paulo – SP, Brasil. V. 1 – 1991 – Substitui Atualização Cardiológica, 1981 – 91 1991, 1: 1 (supl A), 2 (supl A), 3 (supl A) 1992, 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A), 5 (supl A), 6 (supl A) 1993, : 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A), 5 (supl A), 6 (supl A) 1994, : 1 (supl A), 2 (supl A), 3 (supl A), 3 (supl B), 4 (supl A), 5 (supl A), 6 (supl A) 1995, : 1 (supl A), 2 (supl A), 3 (supl B), 4 (supl A), 5 (supl A), 6 (supl A) 1996, : 1 (supl A), 2 (supl A), 3 (supl A), 3 (supl B), 4 (supl A), 5 (supl A), 6 (supl A) 1997, : 1 (supl A), 2 (supl A), 3 (supl A), 3 (supl B), 4 (supl A), 5 (supl A), 6 (supl A) 1998, : 1 (supl A), 2 (supl A), 3 (supl A), 4 (supl A), 4 (supl B), 5 (supl A), 6 (supl A) 1999, : 1 (supl A), 2 (supl A), 3 (supl A), 3 (supl B), 4 (supl A), 5 (supl A), 6 (supl A) 2000, : 1 (supl A), 2 (supl A), 3 (supl A), 3 (supl B), 4 (supl A), 5 (supl A), 6 (supl A) 2001, : 1 (supl A), 2 (supl A), 3 (supl A), 3 (supl B), 4 (supl A), 5 (supl A), 6 (supl A) 2002, : 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A), 5 (supl A), 6 (supl A) 2003, : 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A), 5 (supl A), 6 (supl A) 2004, : 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A), 5 (supl A), 6 (supl A) 2005, : 1 (supl A), 2 (supl A), 3 (supl A), 4 (supl A), 5 (supl A), 5 (supl B), 6 (supl A) 2006, : 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A) 2007, : 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A) 2008, : 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A) 2009, : 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A) 2010, : 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A) 2011, : 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A) 2012, : 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A) 2013, : 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A) 2014, : 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A) 2015, : 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A) 2016, : 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A) 2017, 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A) 2018, 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A) 2019, 1 (supl A), 2 (supl A), 2 (supl B), 3 (supl A), 4 (supl A) 2020, 30 1 (supl A), 2 (supl A), ISSN 0103-8559 CDD16616.105 RSCESP 72594 NLM W1 WG100 CDU 616.1(05) A Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (ISSN impresso: 0103-8559 e ISSN on line: 2595-4644) é Órgão Oficial da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, editada trimestralmente pela Diretoria de Publicações da SOCESP. Avenida Paulista, 2073 – Horsa I, 15° andar Conjunto 1512 – Cerqueira Cesar – São Paulo,SP CEP 01311-940/ Tel: (11) 3181-7429 E–mail: socio@socesp.org.br/ Website: www.socesp.org.br As mudanças de endereço, a solicitação de números atrasados e as cartas ao Editor deverão ser dirigidas à sede da SOCESP. É proibida a reprodução total ou parcial de quaisquer textos constantes desta edição sem autorização formal e expressa de seus editores. Para pedidos de reprints, por favor contate: SOCESP – Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo / Diretoria de Publicações Tel: (11) 3181–7429 / E-mail: socio@socesp.org.br Coordenação editorial,criação, diagramação, revisão e tradução Atha Comunicação e Editora Tel.: 11 5087 9502 – 1atha@uol.com.br DEPARTAMENTOS / Biênio 2020–2021 DIRETORIA DA SOCIEDADE DE CARDIOLOGIA DO ESTADO DE SÃO PAULO/Biênio 2020 - 2021 Presidente João Fernando Monteiro Ferreira Vice-Presidente Renato Azevedo Júnior 1º Secretário Otávio Rizzi Coelho Filho 2º Secretário Álvaro Avezum 1º Tesoureiro Marcos Valério Coimbra de Resende 2º Tesoureiro Rogério Krakauer Diretor de Publicações Marcelo Franken Diretora de Qualidade Assistencial Lilia Nigro Maia Diretor Científico Luciano Ferreira Drager Diretor de Comunicação Ricardo Pavanello Diretor de Relações Institucionais e Governamentais Henry Abensur Diretor de Regionais Jorge Zarur Neto Diretora de Promoção e Pesquisa Maria Cristina de Oliveira Izar Diretor do Centro de Treinamento em Emergências Edson Stefanini Coordenador de Estudos Populacionais Otavio Berwanger Coordenadores do Centro de Memórias Alberto Francisco Piccolotto Naccarato Ronaldo Fernandes Rosa Coordenadores do Projeto Insuficiência Cardíaca Dirceu Rodrigues Almeida Múcio Tavares de Oliveira Junior Coordenadores do Projeto Infarto Luciano Moreira Baracioli Antonio Claudio do Amaral Baruzzi Coordenador dos cursos de Emergencias do AHA Agnaldo Piscopo Coordenadora do Projeto Cardiointensivismo Ludhmila Abrahão Hajjar DEPARTAMENTO EDUCAÇÃO FÍSICA Diretor Executivo Tiago Fernandes Secretária Daniela Regina Agostinho Diretor(a) Científico(a) Carla Giuliano de Sá Pinto Montenegro Larissa Ferreira dos Santos Renato Lopes Pelaquim DEPARTAMENTO ENFERMAGEM Diretora Executiva Eugênia Velludo Veiga Secretária Maria Keiko Asakura Diretor(a) Científico(a) Ana Carolina Queiroz Godoy Daniel Ana Maria Miranda Martins Wilson Rafaela Batista dos Santos Pedrosa DEPARTAMENTO FARMACOLOGIA Diretora Executiva Adriana Castello Costa Girardi Secretária Ana Lúcia Rego Fleury de Camargo Diretor(a) Científico(a) Alessandra Santos Menegon Evandro José Cesarino Leiliane Rodrigues Marcatto DEPARTAMENTO FISIOTERAPIA Diretora Executiva Valéria Papa Secretária Vanessa Marques Ferreira Diretor(a) Científico(a) Eliana Vieira Moderno Solange Guizilini Vera Lúcia dos Santos DEPARTAMENTO NUTRIÇÃO Diretora Executiva Valeria Arruda Machado Secretária Juliana Tieko Kato Diretor(a) Científico(a) Marcia Maria Godoy Gowdak Nagila Raquel Teixeira Damasceno Regina Helena Marques Pereira DEPARTAMENTO ODONTOLOGIA Diretora Executiva Ana Carolina de Andrade Buhatem Medeiros Secretária Lilia Timerman Diretor(a) Científico(a) Frederico Buhatem Medeiros Levy Anderson Cesar Alves Paulo Sérgio Silva Santos DEPARTAMENTO PSICOLOGIA Diretor Executivo Rafael Trevizoli Neves Secretária Mayara Medeiros Nóbrega Diretor(a) Científico(a) Adriana Araújo de Medeiros Sara Alves de Resende Suzana Garcia Pacheco Avezum DEPARTAMENTO SERVIÇO SOCIAL Diretora Executiva Maria Barbosa da Silva Secretária Sandra dos Santos Cruz Assessora Elaine Maria Silva Diretor(a) Científico(a) Elaine Cristina Dalcin Seviero Elaine Fonseca Amaral da Silva O Suplemento da Revista Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo é parte integrante da Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo e publica artigos nas áreas de saúde como enfermagem, fisioterapia, educação física, nutrição, odontologia, psicologia, serviço social, farmácia. Cada edição do Suplemento conterá um ou dois temas centrais, a critério do Diretor de Publicações. A Revista da SOCESP está indexada no LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde) e no Latindex (Sistema Regional de Información en Línea para Revistas Científicas de América Latina, el Caribe, España y Portugal). Os manuscritos enviados deverão estar em padrão PC com arquivos TXT ou DOC. O autor poderá enriquecer o conteúdo de sua publica- ção com o envio de vídeos comentando o artigo, imagens, gráficos animados, podcasts, dentre outros, possibilitando ao leitor uma experiencia mais interativa com todo o con- teúdo da revista. Os conceitos e declarações contidos nos trabalhos são de total responsabilidade dos autores. O Suplemento da Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo segue na íntegra a tendência inter- nacional do estilo Vancouver, disponível (www.icmje.org.br). ORGANIZAÇÃO DO ARQUIVO ELETRÔNICO: O artigo deverá ter até 20 páginas, digitadas em fonte Times New Roman, tamanho 10, espaçamento entre linhas de 1,5, incluindo-se as referências bibliográficas. Poderá incluir até 5 ilustrações (figuras, fotografias, gráficos e/ou tabelas) e conter até 50 referências. Todas as partes do manuscrito devem ser incluídas em um único arquivo. O mesmo deverá ser organizado com a página de rosto, em primeiro lugar, o texto, referências seguidas pelas figuras (com legendas) e ao final, as tabelas (com legendas). PÁGINA DE ROSTO: A página de rosto deve conter: a) o título completo conciso e informativo em português e inglês; b) o nome completo de cada autor (sem abreviações); e a instituição a que pertence cada um deles; c) nome, endereço, telefone e e-mail do autor responsável para correspondência. NORMAS DE PUBLICAÇÃO RESUMO: Os resumos devem ser enviados em português e inglês, não devendo ultrapassar 250 palavras cada. DESCRITORES: Devem conter no mínimo três e no máximo cinco palavras-chaves baseadas nos Descritores de Ciências da Saúde (DeCS) -http://decs.bireme.br. REFERÊNCIAS: Incluir até 50 referências relevantes. Nu- merar as referências de forma consecutiva de acordo com a ordem em que forem mencionadas pela primeira vez no texto, utilizando-se números arábicos sobrescritos. Incluir os seis primeiros autores seguidos de et al. Os títulos de periódicos deverão ser abreviados de acor- do com o Index Medicus. a) Artigos: Autor(es). Título do artigo. Título do Periódico. ano; volume: página inicial - final Ex.: Campbell CJ. The healing of cartilage deffects. Clin Orthop Relat Res. 1969;(64):45-63. b) Livros: Autor(es) ou editor(es). Título do livro. Edição, se não for a primeira. Tradutor(es), se for o caso. Local de publicação: editora; ano. Ex.: Diener HC, Wilkinson M, editors. Drug- induced headache. 2nd ed. New York: Spriger-Verlag; 1996. c) Capítulos de livros: Autor(es) do capítulo. Título do capítulo Editor(es) do livro e demais dados sobre este, conforme o item anterior.Ex.: Chapman MW, Olson SA. Open fractures. In: Rockwood CA, Green DP. Fractures in adults. 4th ed. Philadelphia: Lippincott-Raven; 1996. p.305-52. d) Resumos: Autor(es). Título, seguido de [abstract]. Perió- dico ano; volume (suplemento e seu número, se for o caso): página(s) Ex.: Enzensberger W, Fisher PA. Metronome in Parkinson’s disease [abstract]. Lancet. 1996;34:1337. e) Comunicações pessoais só devem ser mencionadas no texto entre parênteses. f) Tese: Autor, título nível (mestrado, doutorado etc.), cidade: instituição; ano. Ex.: Kaplan SJ.Post-hospital home health care: the elderley’s access and utilization [dissertation]. St. Louis: Washington Univ.; 1995. g) Material eletrônico: Título do documento, endereço na internet, data do acesso. Ex: Morse SS. Factors in the emer- gence of infectious diseases. Emerg Infect Dis. [online] 1995 Jan-Mar [cited 1996 Jun 5];1(1):[24 screens]. Available from: URL: http://www.cdc.gov/ncidod/EID/eid.htm TABELAS: As tabelas devem ser numeradas por ordem de http://www.cdc.gov/ncidod/EID/eid.htm aparecimento no texto com números arábicos. Cada tabela deve ter um título e, se necessário, uma legenda explicati- va. As tabelas deverão ser enviadas através dos arquivos originais (p.e. Excel). FIGURAS (FOTOGRAFIAS E ILUSTRAÇÕES): As figuras devem ser apresentadas e numeradas sequencialmente, em algarismos arábicos, conforme a ordem de apareci- mento no texto. Para evitar problemas que comprometam o padrão da revista, o envio do material deve obedecer aos seguintes parâmetros: todas as figuras, fotografias e ilus- trações devem terqualidade gráfica adequada (300 dpi de resolução) e apresentar título e legenda. Em todos os casos, os arquivos devem ter extensão.tif e/ou jpg. Também são aceitos arquivos com extensão .xls (Excel), .eps, .psd para ilustrações em curva (gráficos, desenhos e esquemas). As figuras incluem todas as ilustrações, tais como fotografias, desenhos, mapas, gráficos, etc, e devem ser numeradas consecutivamente em algarismos arábicos. VÍDEOS: O envio de vídeo é opcional, e irá acompanhar a versão online do artigo. Deve ser encaminhado junto com o artigo em arquivo separado e acompanhado de legenda. Os vídeos devem ser enviados em formato digital MP4. RESUMOS GRÁFICOS (GRAPHICAL ABSTRACT): A informação poderá ser composta de imagem concisa, pictórica e visual das principais conclusões do artigo. Pode ser tanto a figura de conclusão do artigo ou uma figura que é especialmente concebida para este fim, que capta o conteúdo do artigo para os leitores em um único olhar. As figuras incluem todas as ilustrações, tais como fotografias, desenhos, mapas, gráficos, etc, e deve ser identificado com o nome do artigo. O envio de resumo gráfico (graphical abstract) é opcional e deve ser encaminhado em arquivo separado e identifica- do. O arquivo deve ter extensão .tif e/ou jpg. Também são aceitos arquivos com extensão .xls (Excel); .eps; .psd para ilustrações em curva (gráficos, desenhos e esquemas). PODCAST: O envio do podcast é fortemente recomendado. O audio deverá ser captado em local reservado e silencioso poderá ter a duração de 5 a 20 minutos abordando um resumo do conteúdo do manuscrito. LEGENDAS: Digitar as legendas usando espaço duplo, acompanhando as respectivas figuras (gráficos, fotogra- fias e ilustrações). Cada legenda deve ser numerada em algarismos arábicos, correspondendo a cada figura, e na ordem em que foram citadas no trabalho. Abreviaturas e Siglas: Devem ser precedidas do nome completo quando citadas pela primeira vez no texto. No rodapé das figuras e tabelas deve ser discriminado o significado das abrevia- turas, símbolos, outros sinais e informada fonte: local onde a pesquisa foi realizada. Se as ilustrações já tiverem sido publicadas, deverão vir acompanhadas de autorização por escrito do autor ou editor, constando a fonte de referência onde foi publicada. CONFLITO DE INTERESSES: Conforme exigências do Comitê Internacional de Editores de Diários Médicos (ICM- JE), grupo Vancouver e resolução do Conselho Federal de Medicina nº 1595/2000 os autores têm a responsabilidade de reconhecer e declarar conflitos de interesse financeiros e outros (comercial, pessoal, político, etc.) envolvidos no desenvolvimento do trabalho apresentado para publicação. Devem declarar e podem agradecer no manuscrito todo o apoio financeiro ao trabalho, bem como outras ligações para o seu desenvolvimento. CORREÇÃO DE PROVAS GRÁFICAS: Logo que prontas, as provas gráficas em formato eletrônico serão enviadas, por e-mail, para o autor responsável pelo artigo. Os autores deverão devolver, também por e-mail, a prova gráfica com as devidas correções em, no máximo, 48 horas após o seu recebimento. DIREITOS AUTORAIS: Todas as declarações publicadas nos artigos são de inteira responsabilidade dos autores. Entretanto, todo material publicado torna-se propriedade da Revista, que passa a reservar os direitos autorais. Portanto, nenhum material publicado na Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo poderá ser reproduzido sem a permissão por escrito. Todos os autores de artigos submetidos deverão assinar um Termo de Transferência de Direitos Autorais, que entrará em vigor a partir da data de aceite do trabalho. REPRODUÇÃO: Somente a Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo poderá autorizar a reprodução dos artigos nelas contidos. Os casos omissos serão resolvidos pela Diretoria da Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo. Os artigos enviados passarão a ser propriedade da Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo. ENVIO DE ARTIGOS: Os artigos deverão ser enviados para o email revista@socesp.org.br para a Atha Comunicação e Editora a/c Flávia M. S. Pires e/ou Ana Carolina de Assis. Caso ocorra a necessidade de esclarecimentos adi- cionais, favor entrar em contato com a Atha Comunica- ção e Editora - Rua Machado Bittencourt, 190 – 4º andar - CEP: 04044-903 – São Paulo/SP, Brasil Tel: +55 11 5087-9502 / Fax: +55 11 5579 5308. EDUCAÇÃO FÍSICA MIOPATIA MUSCULAR ESQUELÉTICA INDUZIDA PELA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA DE ETIOLOGIA HIPERTENSIVA: PAPEL TERAPÊUTICO DO TREINAMENTO FÍSICO AERÓBIO ............................................................................ 239 HYPERTENSIVE HEART FAILURE-INDUCED SKELETAL MUSCLE MYOPATHY: THERAPEUTIC ROLE OF AEROBIC EXERCISE TRAINING Bruno Rocha de Avila Pelozin, Larissa Ferreira-Santos, Luis Felipe Rodrigues, Edilamar Menezes de Oliveira, Tiago Fernandes http://dx.doi.org/10.29381/0103-8559/20203002239-47 ENFERMAGEM PRÁTICAS NÃO FARMACOLÓGICAS NO MANEJO DA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA ..................................................... 248 NONPHARMACOLOGICAL PRACTICES IN THE MANAGEMENT OF HEART FAILURE Mayara Rocha Siqueira Sudré, Ana Carolina Queiroz Daniel, Graciano Almeida Sudré, Suellen Rodrigues de Oliveira Maier, Eugenia Velludo Veiga http://dx.doi.org/10.29381/0103-8559/20203002248-56 FARMACOLOGIA POTENCIAL USO DE INIBIDORES DE SGLT2 NO TRATAMENTO DE INSUFICIÊNCIA CARDÍACA PARA PACIENTES DIABÉTICOS E NÃO DIABÉTICOS .......................................................................................................... 257 POTENTIAL USE OF SGLT2 INHIBITORS IN THE TREATMENT OF HEART FAILURE FOR PATIENTS WITH OR WITHOUT DIABETES Danúbia Silva dos Santos, Letícia de Barros Sene, Bruno Caramelli, Adriana Castello Costa Girardi http://dx.doi.org/10.29381/0103-8559/20203002257-263 FISIOTERAPIA REABILITAÇÃO CARDIOVASCULAR BASEADA EM EXERCÍCIO FÍSICO NA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA- FASE HOSPITALAR E AMBULATORIAL. .......................................................................................................................... 264 EXERCISE-BASED CARDIOVASCULAR REHABILITATION FOR HEART FAILURE PATIENTS - IN-HOSPITAL AND OUTPATIENT CARE Valéria Papa, Solange Guizilini, Caroline B. Bublitz, Isadora S. Rocco, Camila Bertini, Vivian Bertoni Xavier, Rodrigo Boemio Jaenisch, Eliana Viera Moderno, Vanessa Mendez, Vera Lucia dos Santos Alves, Michel Silva Reis http://dx.doi.org/10.29381/0103-8559/20203002264-72 NUTRIÇÃO OTIMIZAÇÃO DAS ORIENTAÇÕES NUTRICIONAIS AOS PACIENTES COM INSUFICIÊNCIA CARDÍACA APÓS INTERNAÇÃO HOSPITALAR: UMA AÇÃO PARA REDUZIR REHOSPITALIZAÇÃO E COMPLICAÇÕES CLÍNICAS EM IDOSOS ........................ 273 OPTIMIZATION OF NUTRITIONAL GUIDELINES FOR PATIENTS WITH HEART FAILURE AFTER HOSPITALIZATION AS AN ACTION TO REDUCE REHOSPITALIZATION AND CLINICAL COMPLICATIONS IN THE ELDERLY Mariana Volante Gengo http://dx.doi.org/10.29381/0103-8559/20203002273-78 ODONTOLOGIA INTERDISCIPLINARIDADE ENTRE ODONTOLOGIA E CARDIOLOGIA NO SUPORTE AO INDIVÍDUO COM INSUFICIÊNCIA CARDÍACA ........................................................................................................... 279 INTERDISCIPLINARITY BETWEEN DENTISTRY AND CARDIOLOGY IN SUPPORTING INDIVIDUALS WITH HEART FAILURE Raquel D’Aquino Garcia Caminha, Gabriel de Toledo Telles Araújo, Dayanne Simões Ferreira Santos, Patrícia Sanches Kerges Bueno, Frederico Buhatem Medeiros, Edmir José Sia Filho, Paulo Sérgio da Silva Santos http://dx.doi.org/10.29381/0103-8559/20203002279-84 PSICOLOGIA A INSUFICIÊNCIA DO CORAÇÃO E DO AFETO: APRENDENDO A SER CUIDADO ...................................................... 285 HEART FAILURE AND AFFECTION: LEARNING TO BE CARED FOR Valéria Lima Frediani, Adriana Aparecida Fregonese, Sílvia Maria Cury Ismael http://dx.doi.org/10.29381/0103-8559/20203002285-7 SUMÁRIO/CONTENTS ARTIGO DE REVISÃO/REVIEW ARTICLE REVISÃO/REVIEW 239 SUMÁRIO/CONTENTS BrunoRocha de Avila Pelozin1 Larissa Ferreira-Santos2 Luis Felipe Rodrigues2 Edilamar Menezes de Oliveira1 Tiago Fernandes1 1. Universidade de São Paulo (EEFE- USP) Escola de Educação Física e Esporte. Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular do Exercício. São Paulo, SP. Brasil. 2. Universidade de São Paulo (InCor- HCFMUSP). Instituto do Coração, Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina. Unidade de Reabilitação Cardiovascular e Fisiologia do Exercício. São Paulo, SP, Brasil. Correspondência: Tiago Fernandes, Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular do Exercício. Escola de Educação Física e Esporte- Universidade de São Paulo. Av. Prof. Mello Moraes, 65, Butantã, São Paulo/ SP, CEP: 05508-900. São Paulo, SP, Brasil. tifernandes@usp.br MIOPATIA MUSCULAR ESQUELÉTICA INDUZIDA PELA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA DE ETIOLOGIA HIPERTENSIVA: PAPEL TERAPÊUTICO DO TREINAMENTO FÍSICO AERÓBIO HYPERTENSIVE HEART FAILURE-INDUCED SKELETAL MUSCLE MYOPATHY: THERAPEUTIC ROLE OF AEROBIC EXERCISE TRAINING RESUMO A insuficiência cardíaca (IC) é a via final comum da maioria das doenças que acometem o coração. Entre os fatores de risco conhecidos, a hipertensão arterial (HA) é a doença mais frequentemente associada à IC. Caracterizada pela intolerância ao exercício, a IC promove disfunção cardíaca e alterações intrínsecas musculares envolvidas na redução da capacidade física. Várias anormalidades do músculo esquelético têm sido descritas em pacientes e animais com IC, incluindo atrofia, fibrose, mudança na composição dos tipos de fibras, rarefação microvascular e reduzida capacidade de oxidação. Por outro lado, o treinamento físico aeróbio (TFA) vem sendo utilizado como uma importante terapia não farmacológica para a prevenção e o tratamento da IC; em parte, por melhorar a função endotelial e a perfusão coronária, diminuir a resistência vascular periférica e induzir o remodelamento das células musculares cardíacas e esqueléticas, levando ao aumento da captação de oxigênio e resistência à fadiga. Os mecanismos e vias de sinalização intracelular envolvidas nas anormalidades musculares induzidas pela IC não são completamente compreendidos. Os microRNAs têm ganhado papel de destaque por regularem pós-transcricionalmente a expressão de seus genes alvo (mRNAs) e por participarem do desenvolvimento de diversos processos patológicos e fisiológicos, con- tribuindo para a repressão/ativação de genes biologicamente importantes. Esta revisão tem por objetivo elucidar as principais evidências sobre a miopatia muscular esquelética induzida pela IC de etiologia hipertensiva e o potencial papel dos microRNAs nessas alterações periféricas e, ainda, demonstrar os efeitos benéficos do TFA sobre os danos musculares presentes na IC. Descritores: Exercício Físico; Músculo Esquelético; MicroRNAs; Hipertensão; Insuficiência Cardíaca. ABSTRACT Heart failure (HF) is the common final route of most cardiac diseases. Among the known risk factors, arterial hypertension (AH) is the disease most often associated with HF. Characterized by exercise intolerance, HF promotes cardiac dysfunction and intrinsic muscle changes involved in reduced physical capacity. Various skeletal muscle abnormalities have been described in patients and animals with HF, including atrophy, fibrosis, changes in the composition of fiber types, microvascular rarefaction and reduced oxidation capacity. On the other hand, aerobic exercise training (AET) has been used as an important non-pharmacological therapy for the prevention and treatment of HF, partly because it improves endothelial function and coronary perfusion, decreases peripheral resistance and induces remodeling of cardiac and skeletal muscle cells, leading to increased oxygen uptake and resistance to fatigue. The mechanisms and intracellular signaling pathways involved in muscle abnormalities induced by HF are not fully understood. MiRNAs have gained an important role for regulating the post-transcriptional expression of their target genes (mRNAs) and for participating in the development of several pathological and physiological processes, contributing to the repression/activation of biologically important genes. This review aims to elucidate the main evidence on skeletal muscle myopathy induced by HF of hypertensive etiology and the potential role of microRNAs in these peripheral changes, and to demonstrate the beneficial effects of TFA on muscle damage present in HF. Keywords: Exercise, Muscle, Skeletal; MicroRNAs; Hypertension; Heart Failure. http://dx.doi.org/10.29381/0103-8559/20203002239-47Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):239-47 Acesse o Podcast https://socesp.org.br/web-socesp/podcast-socesp/artigos-suplemento-insuficiencia-cardiaca/miopatia-muscular-esqueletica-induzida-pela-insuficiencia-cardiaca-de-etiologia-hipertensiva-papel-terapeutico-do-treinamento-fisico-aerobio/ 240 INTRODUÇÃO Das 56,9 milhões de mortes globais documentadas em 2016, 40,5 milhões (71%) foram decorrentes de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), composta por quatro principais doenças: as doenças cardiovasculares (DCV), cân- ceres, diabetes e doenças pulmonares crônicas. Sendo que as DCV são a principal causa de morte no mundo todo, com um total de 17,9 milhões de óbitos (44% de todas as DCNT).1 Dados epidemiológicos publicados anualmente pela American Heart Association mostram que as DCV são a prin- cipal causa de morte nos Estados Unidos da América (EUA), segundo o último levantamento publicado em janeiro de 2020. E a estimativa é de que 6,2 milhões de norte-americanos ≥20 anos têm insuficiência cardíaca (IC), que é a principal via final das DCV. Projeções mostram que a prevalência de IC irá aumentar em torno de 46% entre 2012 a 2030.2 Dentre os fatores de risco modificáveis para DCV a hi- pertensão arterial (HA) tem grande destaque, pois tem alta prevalência e grande participação na mortalidade cardio- vascular. Dados norte-americanos mostram que nos EUA a HA contribuiu para aproximadamente 395.000 mortes car- diovasculares (45% de todas as mortes cardiovasculares). Dentre outros fatores de risco importantes para a mortalidade cardiovascular podemos citar: sobrepeso/ obesidade, inati- vidade física (sedentarismo), alto colesterol LDL, tabagismo, dieta rica em sal e com alto teor de ácidos graxos trans e baixos níveis de ácidos graxos ômega-3.2 No Brasil o cenário não é muito diferente, a HA é presente em ~36 milhões de indivíduos adultos (32,5%), sendo sua maior prevalência em idosos (60%), assim contribuindo direta ou indiretamente para a mortalidade por DCV (~50%).3 Em relação aos fatores de risco para a IC nas regiões do mundo, a HA é o principal fator de risco associado à IC em todo o globo, porém é mais prevalente na América Latina, no Caribe, na Europa Oriental e na África subsaariana.2 A HA pode ser tanto a causa como o fator de agravamento da patologia.4–6 Considerando a prevalência crescente e a morbimortalidade, a IC representa um grave problema de saúde pública.7,8 A IC é uma síndrome clínica de mau prognóstico ca- racterizada por disfunção cardíaca que envolve múltiplos sistemas e mecanismos neuro-humorais compensatórios sendo acompanhada pela redução da expectativa de vida e caracterizada por sintomas como fadiga, dispneia bem como intolerância a esforços físicos.7 A fadiga é atribuída ao impulso vasoconstritor persistente, à disfunção endotelial e às anormalidades estruturais e funcionais do músculo esquelético, e não à disfunção ventricular per se. Dentre as alterações observadas na musculatura esquelética destacam- -se as alterações no metabolismo energético com predomínio do metabolismo glicolítico, a rarefação microvascular e a perda de massa muscular que pode culminar em caquexia cardíaca; condição que contribui para o mau prognóstico e a mortalidade aumentada.9–12 Embora grandes avanços tenham sido feitos no entendi- mento das DCV, os mecanismos envolvidosnas anormalida- des do músculo esquelético permanecem pouco elucidados. Assim, compreender as vias que resgatam a estrutura e a função do sistema muscular esquelético pode ter implicações clínicas importantes.13 Com as novas descobertas no âmbito da genética nas últimas décadas, várias áreas da comunidade científica têm voltado suas atenções para uma nova classe de reguladores gênicos denominados de microRNAs (miRNAs). Análises realizadas em todo o genoma e sequenciamento de ácidos ribonucleicos (RNA) revelaram que grande parte do genoma humano (~ 98%) não codifica proteínas, mas são transcricionalmente ativas e dão origem a um amplo espectro de RNAs não codificantes (ncRNAs). Nos sistemas cardiovascular e muscular esquelético, os ncRNAs regulam o desenvolvimento, a inflamação, o trofismo, a fibrose e a regeneração.14,15 Além disso, a expressão alterada de ncRNAs pode ser encontrada no sangue de pacientes com diversas patologias e em atletas o que poderia ser usado futuramente como um biomarcador de doença e rendimento físico.14,15 Os miRNAs têm ganhado grande destaque por regularem pós-transcricionalmente a expressão de seus genes alvo (mRNAs).16 Desde 2007, uma série de estudos demonstrou que miRNAs específicos estão envolvidos no desenvolvimento de DCV contribuindo para a repressão/ ativação de genes biologicamente importantes.17 Dessa forma, muitos aspectos do quadro da IC de etiologia hipertensiva no nível molecular ainda são desconhecidos e a elucidação desses processos regulados por miRNAs e identificação de novos alvos de miRNA na patogênese da doença é uma estratégia muito valiosa que pode, eventualmente, levar ao desenvolvimento de novas abordagens para o diagnóstico precoce e/ ou tratamento da doença. O treinamento físico aeróbio (TFA) vem sendo utilizado como uma importante terapia não farmacológica para aliviar os sintomas, melhorar a tolerância ao exercício, à qualidade de vida e reduzir a hospitalização de pacientes com IC.18 A capacidade aeróbica vem sendo utilizada como um grande indicador de morte precoce tanto para indivíduos saudáveis quanto para aqueles com doenças associadas.19 Além disso, ratos artificialmente selecionados para exibir alta capacidade aeróbica intrínseca apresentam maior expectativa de vida (~ 45%) quando comparados com ratos com baixa capaci- dade aeróbica.20 De fato, a prática da atividade física aeróbica reduz a maior incapacidade de mobilidade em idosos21 e está associada à prevenção de um amplo espectro de distúrbios e doenças ao longo da vida adulta, como o câncer, as DCV, as metabólicas e as neurodegenerativas.19 Sabe-se que o TFA melhora a função endotelial e a perfusão coronária, diminui a resistência periférica e induz o remodelamento das células musculares cardíacas e esqueléticas, levando ao aumento da captação de oxigênio, oxidação do substrato e resistência à fadiga na IC.12,22 Estudos recentes relatam que o TFA regula a expressão de miRNAs em diferentes tecidos como o músculo esque- lético e o cardíaco promovendo angiogênese muscular e hipertrofia cardíaca fisiológica,15,23,24 o que sugere que o TFA pode recuperar a homeostase vascular e muscular por meio da ação de miRNAs específicos. Em nosso laboratório, temos demonstrado o importante efeito terapêutico do TFA nas alterações musculares e vasculares desencadeada pela HA durante a progressão da doença.25–28 Dessa forma, o entendimento do papel desses ncRNAs no exercício físico representa, portanto, uma importante ferramenta nas novas descobertas terapêuticas para a IC. Esta revisão tem por objetivo elucidar as principais evidências sobre a miopatia Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):239-47 241 muscular esquelética induzida pela IC de etiologia hiperten- siva e o potencial papel dos microRNAs nestas alterações periféricas, com maior relevância no estudo do TFA. INSUFICIÊNCIA CARDÍACA A IC é uma síndrome clínica de mau prognóstico carac- terizada por disfunção cardíaca associada à intolerância aos esforços, retenção de fluido, redução da longevidade e que atinge mais de 23 milhões de pessoas no mundo, com taxa de sobrevida de cinco anos após o diagnóstico.7 Só nos EUA, a doença atinge cerca de seis milhões de cidadãos, levando a um milhão de hospitalizações e uma a cada nove mortes nos principais estados do país.29 As associações brasileiras, americanas e europeias de cardiologia classifi- cam em suas diretrizes a IC perante sua fração de ejeção. Pacientes diagnosticados com IC podem ter suas frações de ejeção reduzida (ICFEr), apresentando fração ≤40%, ou preservada (ICFEp), ≥50%. Também, é possível encontrar pacientes na zona cinzenta, chamados de intermediários, possuindo suas frações entre 40-50%.6,18 Na associação de diversos fatores de risco e DCV com a IC, a HA é a mais importante causa de ICFEp com 60% a 80% dos casos.4–6 Números maiores são encontrados no estudo de Framingham, em que uma coorte acompanhou 5.143 pacientes mostrando que 91% dos casos de IC eram de pacientes hipertensos,30 chegando a um valor de risco duas vezes maior em homens e três vezes em mulheres de desenvolver IC.5 Porém, a maior incidência ainda é em idosos e mulheres com histórico de HA.6 Sozinha, a HA é reconhecida por aumentar todas as cau- sas de morte independente do fator de risco,5 representando dentre as DCV a com maior número de hospitalizações.4 Atualmente, mesmo com o tratamento medicamentoso, a taxa de doentes continua aumentando. Sua alta prevalência somada à alta incidência de desenvolvimento de IC se torna um caso de preocupação para a saúde pública. Do ponto de vista clínico, a doença cardíaca hipertensiva pode ser dividida em quatro categorias ascendentes, com base no impacto fisiopatológico e clínico da hipertensão no coração:31 Grau I: Disfunção diastólica isolada do ventrículo esquerdo (VE) sem hipertrofia do VE, Grau II: Disfunção diastólica do VE com hipertrofia concêntrica do VE, Grau III: IC clínica (dispneia e edema pulmonar com fração de ejeção preservada) e Grau IV: Cardiomiopatia dilatada com IC e fração de ejeção reduzida. As categorias indicam que a disfunção diastólica é uma complicação muito mais comum da hipertensão crônica do que a disfunção sistólica. Pacientes com ICFEp têm mais hipertrofia do VE, lesões epicárdicas da artéria coronária, rarefação microvascular coronariana e fibrose miocárdica do que os indivíduos controles.31 Já no modelo experimental, os animais espontaneamente hipertensos (SHR) têm sido os mais utilizados para entender a progressão da doença cardiovascular de etiologia hiper- tensiva. Desde o desenvolvimento da cepa de SHR, por Okamoto e Aoki em 1963, o modelo genético de hipertensão é o mais estudado na literatura e a sua importância tem sido creditada à similaridade da sua fisiopatogenia com a hipertensão essencial (primária) em humanos. Os SHR nascem normotensos e começam a desenvolver HA com cinco semanas de vida, já apresentando um nível de pressão considerado como hipertensão espontânea entre a 7a e a 14a semanas, atingindo um platô entre a 20ª e 24a semanas, não havendo influência sexual nesse desenvolvimento.32 A hipertensão do SHR adulto está associada a um au- mento da resistência periférica total, sendo o débito cardíaco normal.33 Com o desenvolvimento da HA, o SHR desenvolve uma progressiva hipertrofia cardíaca.34 O débito cardíaco per- manece em níveis normais com o progresso da hipertensão, até que nos estágios finais a função cardíaca começa a ser comprometida, quando, então, o débito cardíaco começa a reduzir-se em função de uma IC congestiva.35 Desse modo, a função sistólica cardíaca é preservada nesses animais até um ano de idade, mas falha com o passar do tempo. A progressão da doença em SHR parece ser um modelo ideal para mimetizar a IC de etiologia hipertensiva em humanos devido às alterações nos parâmetros cardíacos, hemodinâ- micos e neuro-humorais relevantes durante a transiçãoda hipertrofia compensada para a IC. Outra vantagem é que esse modelo não requer intervenções técnicas e não é acometido pela elevada taxa de mortalidade por cirurgia ou intervenção medicamentosa. Entanto, esse modelo é limitado pela longa duração até o desenvolvimento da IC.36 ALTERAÇÕES MUSCULARES ESQUELÉTI- CAS NA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA A IC causa modificações estruturais e funcionais ao coração ocasionadas pelo aumento hemodinâmico da pós-carga, evoluindo à hipertrofia ventricular. A hipertrofia cardíaca progride para disfunção com perda de função e redução da fração de ejeção e/ou aumento da pressão in- tracardíaca no repouso ou em exercício. Essas alterações são manifestadas principalmente com fadiga e dispneia aos pequenos esforços, o que limita a tolerância ao exercício e prejudica a qualidade de vida dos pacientes.4,6,18 (Figura 1) Essas alterações ocorrem mesmo em pacientes estáveis, que utilizam a terapia medicamentosa, e pode ocorrer nos diferentes estágios de IC, com ou sem fração de ejeção reduzida e nas diversas classes funcionais.37 Na IC, a miopatia esquelética afeta músculos grandes e pequenos envolvidos na postura, locomoção e respiração. Por meio de biopsia muscular e estudos utilizando marca- dores celulares, foi possível encontrar inúmeras modifica- ções musculares esqueléticas nos pacientes com IC o que justificaria a fadiga e a intolerância ao exercício. Algumas dessas alterações são: (1) diminuição da massa muscular; (2) mudança no perfil dos tipos de fibra muscular do tipo I para o tipo II; (3) disfunção mitocondrial; (4) diminuição da circulação periférica acompanhada pela redução da rede microvascular; (5) e redução do VO2 pico. Além disso, alte- rações no acoplamento excitação-contração também está associada à disfunção muscular e à redução da força.12 Em 2016, a diretriz europeia de cardiologia começou a considerar a redução da massa muscular como uma co- morbidade relevante na IC. A redução da massa muscular é representada pela diminuição da área de secção transversa do músculo associada a um desequilíbrio do balanço de síntese/ degradação proteica, evidenciada em pacientes com IC comparado a indivíduos saudáveis.22,38,39 Dessa forma, vem sendo proposto que a atrofia muscular seja um preditor independente de mortalidade em portadores de IC grave em MIOPATIA MUSCULAR ESQUELÉTICA INDUZIDA PELA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA DE ETIOLOGIA HIPERTENSIVA: PAPEL TERAPÊUTICO DO TREINAMENTO FÍSICO AERÓBIO Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):239-47 242 ambos os sexos.40 Além da atrofia muscular, as alterações no acoplamento excitação-contração também contribuem para a fatigabilidade e a fraqueza do músculo esquelético na IC. Em ratos com IC grave, os baixos níveis de Ca2+ sarcoplas- mático no músculo esquelético foram associados a uma reduzida taxa de liberação e recaptação do Ca2+ no retículo sarcoplasmático. Essa resposta é parcialmente explicada pela expressão reduzida de proteínas envolvidas na homeostase intracelular de Ca2+ nos músculos esqueléticos.41 Avaliações morfológicas revelaram que IC induz alteração nos tipos de fibras muscular tanto em humanos quanto em animais. As fibras musculares sofrem mudanças do tipo I, predominantemente oxidativas, para o tipo II, glicolíticas.22,29,39 Essas alterações podem justificar uma fadiga precoce pela utilização de metabolismo mais glicolítico e mais suscetível a fadiga. Observa-se elevação no pH mesmo sem alteração de fluxo, uma característica de células prioritariamente anaeró- bicas. Ainda, a redução do VO2 no decorrer da progressão da doença se traduz na piora da capacidade física desses pacientes e está ligada diretamente a alterações no sistema metabólico e muscular esquelético.29,39,40 Estudos mostram que o músculo esquelético de indiví- duos hipertensos, assim como de SHR, contém uma maior porcentagem de fibras de contração rápida e glicolítica comparados aos seus controles normotensos.42 Segundo Bortolotto et al.,42 em todos os estágios de hipertensão ava- liados (quatro, 16 e 24 semanas), o músculo sóleo de SHR continha uma maior proporção de fibras do tipo II do que o músculo sóleo de ratos normotensos, bem como de fibras híbridas, fibras estas que contêm dois tipos de isoforma de miosina de cadeia pesada (MHC) em uma mesma fibra muscular isolada, com maior proporção de fibras híbridas IIA+IIX. Embora os estudos relatem uma mudança no perfil de fibras musculares esqueléticas na HA, nenhum deles observou alteração na massa muscular em animais hipertensos até 24 semanas de idades.42 Curiosamente, Carvalho et al.,43 determinaram, no mús- culo sóleo, mudanças na expressão das isoformas de MHC, no diâmetro dos tipos de fibras e no índice de atrofia mus- cular durante a transição da hipertrofia ventricular para IC induzida por estenose aórtica. Os animais desenvolveram uma miopatia muscular, caracterizada por diminuição na porcentagem das fibras do tipo I e aumento da frequência das fibras do tipo IIa, na hipertrofia cardíaca (após 18 semanas) e na IC (após 28 semanas). Entretanto, a atrofia das fibras do tipo IIa ocorreu somente durante a transição para a IC. Recentemente, Damatto et al.,44 relataram, pela primeira vez na literatura, mudanças nas isoformas de MHC e atrofia do músculo sóleo na IC de etiologia hipertensiva em SHR. Foi verificado o quadro de IC em SHR com fração de ejeção reduzida por volta dos 18 meses de idade e as alterações musculares foram associadas aos fatores de regulação mio- gênica e expressão de miostatina e folistatina. Utilizando-se marcadores radioativos, foi possível identi- ficar uma maior depleção de fosfocreatina em animais insufi- cientes cardíacos39 e uma redução no número de mitocôndrias e declínio de suas funções.39 A utilização de ácidos graxos é essencial para atividades de maior duração independente da intensidade e uma redução na utilização de ácidos graxos e um maior uso dos estoques de glicogênio e glicose circulante mostram uma predominância do metabolismo glicolítico para obtenção de energia, o que justificaria a produção de produtos que levariam a fadiga precoce. A circulação periférica desses pacientes se encontra prejudicada, devido à redução do fluxo sanguíneo para a periferia. Uma das explicações para tal acontecimento são ativações em maior número do sistema nervoso simpático levando à vasoconstrição periférica, dificultando a chegada do substrato energético e do oxigênio, favorecendo uma anaerobiose precoce.29,38–40 Além disso, uma redução no número de vasos arteriolar e capilar dispostos em paralelo contribui consideravelmente para o aumento da resistência periférica total e redução do fluxo sanguíneo para a perife- ria. Assim, a IC aparece amplamente associada com um desequilíbrio do tônus vasomotor, participando ativamente no aumento da vasoconstrição, o que repercute em um aumento da resistência vascular periférica com a oclusão arteriolar e capilar na microcirculação culminando no quadro de rarefação capilar.10 Em conjunto, todas essas alterações musculares contribuem para o aumento da fatigabilidade muscular e acúmulo de lactato em resposta ao exercício na IC. TREINAMENTO FÍSICO E INSUFICIÊNCIA CARDÍACA Tratar o paciente com IC é um trabalho sensível, depende de interações multiprofissionais para auxílio do uso correto de medicamentos, alimentação e exercícios físicos. Sabe-se que o TFA melhora a qualidade de vida e reduz hospitalização e mortalidade por todas as causas.8,40 Por ser eficiente em reduzir a intolerância ao esforço5 e reverter o quadro de mio- patia esquelética, o TFA é o exercício mais empregado neste Figura 1. Alterações músculo esqueléticas e hemodinâmicas na insuficiência cardíaca. Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):239-47 243 modelo patológico. Dessa forma, o TFA na IC é amplamente recomendado pela diretriz norte americana (American Heart Association), com nível de evidência Classe1A, sendo uma atividade segura e efetiva para melhora dos pacientes.5 Diversas são as evidências sobre os benefícios do TFA na IC, demonstrando que o mesmo é uma importante estratégia não farmacológica coadjuvante no tratamento da IC, não somente por promover importantes adaptações no controle neuro-hormonal29 e na função cardíaca,12 mas também por propiciar diferentes adaptações bioquímicas, estruturais e funcionais na musculatura esquelética10,11,41 melhorando a tolerância aos esforços físicos, a qualidade de vida, dimi- nuindo as hospitalizações e a mortalidade desses pacientes.9 O TFA atua de maneira significativa na redução da perda de massa muscular na IC. Ele promove melhoras significativas na vasodilatação dependente do endotélio45 e aumento da densidade capilar na IC, além de aumentar a densidade mitocondrial, a atividade de enzimas oxidativas, e promover adaptações importantes na regulação da massa muscular na doença.9–11,41 Em animais, observam-se níveis reduzidos de noradrena- lina muscular e estresse oxidativo associados à melhora da capacidade de exercício e restabelecimento da troficidade muscular.11 Essas melhoras são reconhecidas em diversas etiologias da IC, tais como, infarto do miocárdio, transgênicos com hiperatividade simpática e estenose aórtica.10,12 Os be- nefícios do treinamento podem ser visualizados na Figura 2. Apesar desse importante papel do exercício na prevenção e no tratamento das DCV, os mecanismos envolvidos nestas alterações musculares não são totalmente compreendidos. Além disso, muitos aspectos do desenvolvimento da HA na transição para a IC no nível molecular ainda são desconhe- cidos. O advento do perfil transcricional usando microarrays de RNAs mensageiros (mRNA) e RNA-seq (RNA sequencing) tem rendido importantes insights sobre a função dos dife- rentes tecidos, assim como a identificação de marcadores sistêmicos sob diversas condições patológicas. A descoberta de pequenos RNAs, incluindo miRNAs e outros ncRNAs, proporcionou um avanço técnico e científico para a genética em sistemas biológicos. MICRORNAS Os miRNAs são moléculas de ácido ribonucleico (RNA) de fita simples, com um tamanho de aproximadamente 22 nucleotídeos, não codificadores de proteínas, atuando princi- palmente na repressão da tradução de proteínas em plantas e animais. Os miRNAs regulam a atividade de até ~50% do genoma humano46 e foram descritos por participarem de um amplo espectro de doenças humanas.17 Desde sua descoberta em 1993, novos miRNAs tem sido identificados. A versão mais recente do banco de dados miRBase (v22, onde são catalogados todos os miRNAs descobertos) contém 38.589 entradas representando miRNAs precursores em hairpin de 271 organismos. Isso representa um aumento nas sequências de mais de um terço em relação à versão anterior. Esses precursores em hairpin produzem um total de 48.860 diferentes sequências maduras de miRNA. Os genomas de vertebrados contêm milhares de miRNAs, sendo que o genoma humano contém 1.917 precursores em hairpin confirmados e 2.654 sequências maduras.47 Os miRNAs são inicialmente transcritos como miRNAs primários (pri-miRNA) que serão clivados por uma enzima endonuclease do tipo 3 conhecida como drosha, definindo uma das extremidades do miRNA maduro, e formando o miR- NA precursor (pré-miRNA), que será transportado do núcleo para o citoplasma pela Exportina-5. Seguindo o transporte para o citoplasma, os miRNAs são processados por outra Figura 2. Impacto do treinamento físico na insuficiência cardíaca. MIOPATIA MUSCULAR ESQUELÉTICA INDUZIDA PELA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA DE ETIOLOGIA HIPERTENSIVA: PAPEL TERAPÊUTICO DO TREINAMENTO FÍSICO AERÓBIO Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):239-47 244 endonuclease do tipo 3 conhecida como dicer, que cliva a outra extremidade do miRNA, formando uma dupla fita de miRNA. Finalmente, o miRNA é incorporado a um complexo de proteínas RISC (do inglês RNA-induced silence complex), mas apenas uma das fitas da dupla fita de miRNA permanece no complexo para controlar a expressão de genes ao nível pós-transcricional, e portanto, exercer seus efeitos regulató- rios ligando-se à região 3’ não traduzida (3’-UTR) dos RNAs mensageiros (mRNA) alvo.17 Esse mecanismo permite a redução dos níveis proteicos de seus genes alvo, raramente afetando o nível de expressão transcricional.48 A regulação pós-transcricional realizada pelos miRNAs na região 3’-UTR depende do grau de complementaridade com o mRNA alvo, sendo que o pareamento completo com o mRNA alvo acar- reta na degradação do mRNA, enquanto que o pareamento imperfeito com o alvo leva a inibição da tradução proteica. Devido ao fato de miRNAs possuírem sequências pequenas e agirem sem a necessidade de pareamento completo, um único miRNA pode regular muitos mRNA alvos, além de cooperarem no controle de um único mRNA.49 Mudanças modestas em um grupo de miRNAs podem afetar a expressão de vários, ou centenas, de genes com o objetivo de regular uma rede específica de sinalização (por exemplo, síntese proteica e controle do metabolismo celular). O uso de microarray de miRNA e gene complementados por softwares de predição bioinformática para identificar grupos de miRNAs, redes de sinalização relacionados e gene alvo pode nos ajudar no sentido da importância biológica dos miRNAs.50 Dessa forma, o entendimento dos mecanismos regulados por diferentes ncRNAs revelam uma área promis- sora de investigação que podem contribuir futuramente para o entendimento dos processos moleculares induzidos por condições fisiológicas e patológicas. MICRORNAS, MÚSCULO ESQUELÉTICO E TREINAMENTO FÍSICO O desenvolvimento do músculo esquelético é orques- trado por redes evolutivamente conservadas de fatores de transcrição que regulam a expressão de genes envolvidos no crescimento, diferenciação e contratilidade muscular.51 Estudos recentes revelaram que, além de ativar os genes envolvidos na diferenciação e contração muscular, estes fatores de transcrição miogênico ativam a expressão de um conjunto de miRNAs com a função de “ajustar” a saída dessas redes de transcrição, resultando em respostas celu- lares precisas para os sinais de desenvolvimento, fisiologia e patologia. A integração destes pequenos RNAs no programa transcricional muscular expande ainda mais a precisão e a complexidade da regulação de genes nas células musculares, uma vez que miRNAs são capazes de regular vários mRNAs e mRNAs podem ser alvo de muitos miRNAs.51 Os miRNAs-1, -133a e b, -206, -208b e -499 são específicos do músculo, denominados como myomiRs, e tem sido estudados por contribuírem para o desenvolvimento muscular. Curiosamente, estes miRNAs chegam a representar 25% dos miRNAs expres- sos no músculo esquelético; reconhecidos por controlarem o crescimento, a diferenciação e a contratilidade muscular.15,31,52,53 Estudos têm demostrado que a deleção de myomiRs em ca- mundongo teve pouco impacto sobre o fenótipo muscular esque- lético.51,54 Como exemplo, a deleção do miRNA-206, específico do músculo esquelético, não promoveu alteração do fenótipo muscular representado pelo peso do músculo sóleo, morfologia ou distribuição do tipo de fibra; entretanto, a recuperação da desnervação foi retardada no músculo em animais knockout, ou seja, aqueles que não expressam para o miRNA-206.51 Van Rooij et al.,55 identificaram a presença de dois miRNAs codificados pelos genes da MHC. O gene da Mhy7 codifica o miRNA-208b, o qual tem uma sequência seed idêntica ao do miRNA-208a; e difere dele por apenas três nucleotídeos na região 3’. Um terceiro membro dessa família é o miRNA-499, codificado pelo gene Myh7b, uma miosina pouco estudada que compartilha grande homologia com o gene Mhy7. Estes dois miRNAs são bastante expressos em músculos com perfil oxidativo, como o sóleo, por apresentarem fibras do tipo I com predominância de MHC-Iβ. Curiosamente, a deleção do miRNA-208b ou do miR- NA-499 não alteroua expressão de outro miRNA no sóleo, e a análise do tipo de fibra apresentou pouca ou nenhuma diferença no número de fibras musculares do tipo I, em qual- quer um dos animais mutantes em comparação com o tipo selvagem. Porém, com a geração do animal duplo knockout (dKO) para os miRNAs-208b e -499 verificou-se uma perda substancial de fibras musculares do tipo I no sóleo dos dKO. A perda de fibras lentas nos camundongos dKO também foi evidenciada pela redução da expressão proteica e gênica de MHC-Iβ, e um concomitante aumento na expressão de isoformas de miosina rápida tipo IIa e IIx e tipo IIb.55 Por outro lado, a superexpressão do miRNA-499 foi suficiente para induzir uma completa conversão de todas as fibras rápidas (tipo II) no músculo sóleo para um perfil de fibras lentas do tipo I. Notavelmente, quando os animais foram submetidos a um teste de tolerância ao esforço físico em esteira, os que superexpressavam o miRNA-499 correram 50% a mais do que os controles tipo selvagem (que não superexpressavam o miRNA-499), indicando uma maior resistência aeróbia resultante da reprogramação de fibras musculares com indução de predomínio de fibras do tipo I, contração lenta e metabolismo oxidativo. Além disso, os autores investigaram possíveis alvos desses miRNAs relacio- nadas ao controle de MHC-Iβ. Os achados mostram que os fatores de transcrição SOX6 (um membro da família SOX de fatores de transcrição), PURβ (do inglês purine-rich negative regulatory element) e SP3 são alvos dos miRNA-208b e -499 no músculo esquelético, e que animais dKO tem aumento na expressão desses fatores.55 Outros estudos também mostraram que SOX6, PURβ e SP3 inibem a expressão de MHC-Iβ no músculo esquelético implicado na mudança do perfil de fibras musculares.56 mcCarthy et al., 57 observaram que a expressão dos miRNAs-208b e -499 foi reduzida em animais com atrofia muscular em resposta a suspensão dos membros posteriores. Esta desregulação dos miRNAs foi associada com o aumento da expressão de SOX6 e inibição na expressão de MHC-Iβ muscular. A expressão de outros myomiRs também foi reportada em resposta ao exercício. O aumento do miRNA-1 no músculo esquelético de camundongos após três horas de uma única sessão de exercício físico aeróbio foi observado por SAFDAR et al. 58 Este aumento foi associado à redução na expressão do seu alvo histona deacetilase 4 (HDAC4), um repressor transcricional da expressão gênica muscular, assim como Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):239-47 245 pelo aumento dos fatores de regulação miogênica como MyoD, e desse modo, promoveriam o remodelamento da lesão ocasionado pela sessão de treinamento.52,58 Por outro lado, o efeito crônico do exercício levou a uma diminuição na expressão do miRNA-1 associada à hipertrofia muscular em favorecimento à expressão de genes importantes no crescimento muscular, como, c-Met, HGF e IGF-I.59 Além disso, o treinamento resistido com a ingestão de aminoáci- dos também diminuiu a expressão do miRNA-1 em homens jovens.60 O IGF-I é um alvo do miRNA-1, o que pode explicar, em parte, o fenótipo hipertrófico durante as respostas iniciais de sobrecarga advindas do treinamento físico.59 Recentemente, nosso grupo tem investigado os efeitos do TFA sobre as alterações vasculares e musculares es- queléticas induzidas pela IC de etiologia hipertensiva.27,28 Observamos uma redução no VO2 pico acompanhada de atrofia do músculo sóleo em SHR com nove meses de idade e fração de ejeção preservada. A função vascular da artéria femoral foi semelhante em SHR e controles, no entanto, a relação parede / lúmen aumentou na artéria femoral e na arteríola muscular acompanhada de rarefação capilar. Em contraste, o TFA promoveu redução da pressão arterial em animais treinados. Além disso, o TFA corrigiu a redução do VO2 pico, a perda de massa muscular e o remodelamento microvascular nos animais com IC de etiologia hipertensiva em direção aos níveis de controle. O TFA reduziu a expressão de 8 miRNAs (-96, -205, -182, -146b-5p, -140, -328a, -665, -1) e aumentou a expressão de 3 (-499, -208b e -99b) em SHR trei- nados quando comparado com SHR sedentários. (Figura 3) O estudo de bioinformática para análise funcional dos ge- nes-alvo previstos para os 11 miRNAs restaurados pelo TFA demonstrou enriquecimento de diferentes vias de sinalização, incluindo morte celular (valor de p <0,001) e desenvolvimento vascular (valor de p <0,001).27,28 Assim, alvos envolvidos na angiogênese e integridade vascular pela via VEGF (fator de crescimento endotelial vascular) foram prejudicados na IC e corrigidos pelo TFA. Os resultados corroboram a hipótese de que as mudanças estruturais decorrentes da progressão da HA podem ser reguladas por um conjunto de miRNAs e genes alvo; e o TFA participa da restauração do remodelamento vascular e muscular. CONCLUSÃO Considerando que a HA afeta bilhões de pessoas em todo o mundo, sendo a principal patologia associada ao desenvolvimento da IC, e que o TFA promove um papel fundamental como terapia não farmacológica para estes pacientes e que as terapias gênicas com miRNAs podem representar novas estratégias no combate ao desenvolvi- mento e/ ou progressão da IC, se faz necessário aprofundar os estudos para adquirir mais conhecimento sobre quais miRNAs são induzidos pelo TFA e quais estão relacionados à proteção do sistema cardiovascular. Mais importante esses estudos podem orientar os cientistas em futuras terapias gênicas para o tratamento da IC, uma vez que estes pacientes ainda apresentam um prognóstico ruim em longo prazo. Embora sejam diversas as evidências sobre os benefícios do TFA na IC, não somente por promover importantes adaptações na função e estrutura cardíaca, mas também na musculatura, melhorando a tolerância aos esforços físicos, a qualidade de vida e a mortalidade desses pacientes; poucos estudos foram publicados investigan- do o efeito do TFA na expressão de miRNAs no músculo esquelético em DCV. Esclarecer o papel do TFA como um regulador de miRNAs em modelos de atrofia e disfunção metabólica muscular pode trazer novas respostas no que concerne aos mecanismos chave da função, trofismo e regeneração muscular. Desse modo, a identificação de perfis de miRNAs específicos para determinada patologia e em tecido específico abre perspectivas para estudos futuros, utilizando miRNAs como biomarcadores de diagnóstico clínico e como agentes terapêuticos. AGRADECIMENTOS Os pesquisadores foram apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP (2015/22814-5, 2015/17275-8 e 2017/24605-0), USP/PRP- -NAPmiR, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico- CNPq (307591/2009-3 e 15982/2011-6) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior- Programas de Excelência Acadêmica (CAPES- -PROEX: 88887.484856/2020-00). CONFLITOS DE INTERESSE Os autores declaram não possuir conflitos de interesse na realização deste trabalho. Figura 3. Impacto do treinamento físico aeróbio nos miRNAs em animais com IC hipertensiva.27,28 MIOPATIA MUSCULAR ESQUELÉTICA INDUZIDA PELA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA DE ETIOLOGIA HIPERTENSIVA: PAPEL TERAPÊUTICO DO TREINAMENTO FÍSICO AERÓBIO Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):239-47 246 REFERÊNCIAS 1. World Health Organization. NCD mortality and morbidity. WHO [online] 2020 [cited 2020 may 16];1(1): [1 screen]. 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MIOPATIA MUSCULAR ESQUELÉTICA INDUZIDA PELA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA DE ETIOLOGIA HIPERTENSIVA: PAPEL TERAPÊUTICO DO TREINAMENTO FÍSICO AERÓBIO Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):239-47 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=Lenkinski+R&cauthor_id=1555280 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=McCully+KK&cauthor_id=1555280 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=Mullen+JL&cauthor_id=1555280 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=Mullen+JL&cauthor_id=1555280 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=Deng+Z&cauthor_id=20819939 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=Yan+Z&cauthor_id=20819939 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=Xiao+X&cauthor_id=20819939 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=Sutherland+LB&cauthor_id=19922871 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=Qi+X&cauthor_id=19922871 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=Richardson+JA&cauthor_id=19922871 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=Richardson+JA&cauthor_id=19922871 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=Dupont-Versteegden+EE&cauthor_id=19690046 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Hettinga BP%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=19440340 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Tarnopolsky MA%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=19440340 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=Esser+KA&cauthor_id=18827171 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=Rasmussen+BB&cauthor_id=18827171 REVISÃO/REVIEW 248 Mayara Rocha Siqueira Sudré1,2 Ana Carolina Queiroz Daniel1,2 Graciano Almeida Sudré3 Suellen Rodrigues de Oliveira Maier1,2 Eugenia Velludo Veiga2,4,5 1. Universidade de São Paulo. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Programa de Pós-graduação em Enfermagem Fundamental. Ribeirão Preto, SP, Brasil. 2. Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Hipertensão Arterial (GIPHA). Ribeirão Preto, SP, Brasil. 3. Universidade de São Paulo. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Programa de Pós-graduação em Enfermagem em Saúde Pública. Ribeirão Preto, SP, Brasil. 4. Universidade de São Paulo. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem. Ribeirão Preto, SP, Brasil. 5. Departamento de Enfermagem da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo- SOCESP. São Paulo, SP, Brasil. Correspondência Mayara Rocha Siqueira Sudré. Avenida dos Bandeirantes, 3900. Campus Universitário - Bairro Monte Alegre, Ribeirão Preto - SP – Brasil, CEP: 14040-902. maysrocha@usp.br. PRÁTICAS NÃO FARMACOLÓGICAS NO MANEJO DA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA NONPHARMACOLOGICAL PRACTICES IN THE MANAGEMENT OF HEART FAILURE RESUMO A insuficiência cardíaca é uma síndrome clínica grave, crônica e progressiva induzida por anormalidades cardíacas estruturais ou funcionais, responsável por elevado número de hospitalizações, altas taxas de mortalidade, morbidade e redução da qualidade de vida. Seu tratamento envolve o uso de medicamentos e de abordagens não farmacológicas que auxiliam os pacientes a lidarem melhor com a doença. O objetivo deste estudo foi identificar e analisar artigos científicos publicados nos últimos cinco anos sobre as práticas não farmacológicas no manejo da insuficiência cardíaca. Para isso, foi realizada uma revisão narrativa da literatura nas bases de dados EBSCO, CINAHL, Embase, PubMed, Cochrane, Web of Science e LILACS, por meio dos descritores “heart failure”, “nursing care” e “quality of life”. Foram incluídos vinte estudos que abordaram temas relacionados às medidas de educação em saúde com auxílio de tecnologia e aplicativos, prática avançada de enfermagem, psicointervenções, espiritualidade e religiosidade, terapia cognitivo-comportamental e cuidados paliativos específicos para portadores de insuficiência cardíaca. O manejo não farmacológico da insuficiênciacardíaca envolve uma rede multi e interdisciplinar de cuidados, além de diferentes intervenções que visam promover a qualidade de vida desses pacientes. Descritores: Insuficiência Cardíaca; Enfermagem; Qualidade de Vida. ABSTRACT Heart failure is a severe, chronic and progressive clinical syndrome induced by structural or functional cardiac abnormalities responsible for a high number of hospitalizations, high mortality rates, morbidity and reduced quality of life. Its treatment involves medications and non-pharmacological approaches that help patients to cope better with the disease. The aim of this study was to identify and analyze scientific articles published in the last five years on non-pharmacological practices in the management of heart failure. For this, a narrative review of the literature was carried out in the databases EBSCO, CINAHL, Embase, PubMed, Cochrane, Web of Science and LILACS, using the descriptors “heart failure”, “nursing care” and “quality of life.” It included twenty studies that addressed topics related to health edu- cation measures with the aid of technology and applications, advanced nursing practice, psychointerventions, spirituality and religiosity, cognitive behavioral therapy and specific palliative care for patients with heart failure. Non-pharmacological management of heart failure involves a multi and interdisciplinary care network, in addition to different interventions aimed at promoting the quality of life of these patients. Descriptors: Heart Failure; Nursing; Quality of Life. INTRODUÇÃO A insuficiência cardíaca (IC) é uma complexa síndrome clínica, causada por alterações estruturais ou funcionais cardíacas, na qual o coração é incapaz de bombear sangue de forma adequada para atender às necessidades metabó- licas tissulares corporais. Afeta 2% da população de países desenvolvidos e sua prevalência aumenta aproximadamente 1% naqueles com idade entre 55 e 64 anos e até 17% em idosos com idade maior ou igual a 85 anos.1 A IC é a via final de cardiopatias de forma indevida, com alto risco de mortalidade, altas taxas de hospitalização2 e um fardo econômico oneroso aos pacientes, suas famílias e ao sistema de saúde. Mais de 40% dos pacientes portadores de IC morrem dentro de um ano após a primeira hospitalização.3,4 Apesar dos recentes avanços no tratamento da IC, a maioria dos pacientes apresenta sintomas debilitantes a longo prazo,5 tais como falta de ar, dor no peito, fadiga, falta de energia, distúrbios do sono e comprometimento cognitivo.6,7 Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):248-56http://dx.doi.org/10.29381/0103-8559/20203002248-56 Acesse o Podcast mailto:maysrocha@usp.br https://socesp.org.br/web-socesp/podcast-socesp/artigos-suplemento-insuficiencia-cardiaca/praticas-nao-farmacologicas-no-manejo-da-insuficiencia-cardiaca/ 249 PRÁTICAS NÃO FARMACOLÓGICAS NO MANEJO DA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA Além disso, podem ter significativo comprometimento da qualidade de vida (QV) e experimentar sintomas associados à angústia psicológica, ansiedade, depressão, isolamento social e medo da morte.8,9 Uma meta importante do tratamento da IC é preservar ou melhorar a QV, controlar os sintomas associados à doença e promover atividades de vida útil. As medidas não farmacoló- gicas podem favorecer o entendimento do paciente sobre o processo saúde-doença, a adaptação nas atividades da vida diária, a melhora às medidas farmacológicas, assim como o desempenho físico e mental no manejo da IC.10-13 Nesta perspectiva, surgiu a seguinte questão norteadora para este estudo: Quais práticas não farmacológicas vêm sendo realizadas para auxiliar no manejo da IC? Diante do exposto, o objetivo deste estudo foi identificar e analisar artigos científicos publicados nos últimos cinco anos sobre as práticas não farmacológicas no manejo da insuficiência cardíaca. MATERIAL E MÉTODO Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, que possui a finalidade de reunir conhecimentos sobre determinado assunto, além de sintetizar e resumir publicações científicas, proporcionando aos leitores a compreensão atual sobre a temática sob o ponto de vista teórico ou contextual.14 O levantamento dos artigos científicos foi realizado nas bases de dados EBSCO, CINAHL, EMBASE, PUBMED, CO- CHRANE, WEB OF SCIENCE e LILACS, a partir da seguinte questão norteadora: Quais práticas não farmacológicas vêm sendo realizadas para auxiliar no manejo da IC? O acesso às bases de dados ocorreu entre os dias 01 e 04 de maio de 2020. Os descritores “heart failure”, “nursing care” e “quality of life” foram utilizados para o levantamento dos artigos e selecionados de acordo com os Descritores em Ciências da Saúde (DECS) e no Medical Subject Heading (MeSH). Foram incluídos trabalhos publicados entre os anos de 2015 a 2020, disponíveis em bases eletrônicas de aces- so público, com acesso gratuito e na íntegra, nos idiomas português e inglês. Artigos de revisão, teses, dissertações, editoriais, debates e resenhas foram excluídos do estudo. Após aplicados os critérios de exclusão, foram realizadas leituras dos títulos e resumos dos artigos a fim de refiná-los para a composição final da amostra. Foram excluídos os artigos duplicados e aqueles que não se relacionavam à temática. Visando a descrição do processo de busca, utili- zou-se o fluxograma Preferred Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analyses (PRISMA) de forma adaptada neste estudo, para a nortear a seleção dos estudos15. (Figura 1) Posteriormente os vinte artigos selecionados foram lidos na íntegra, analisados quanto ao ano, objetivos, metodologias, resultados e conclusão. Foram organizados em quadros de acordo com a temática principal abordada por categoria e distribuídos segundo título, ano, objetivo e aspectos-chave. RESULTADOS E DISCUSSÃO Buscando responder à pergunta norteadora do presente estudo: quais práticas não farmacológicas vêm sendo reali- zadas para auxiliar no manejo da IC, um total de 20 artigos foram incluídos no estudo e analisados na íntegra. Todos os artigos foram disponibilizados em inglês, 25% foram publicados no ano de 2018 e 2019, 15% no ano de 2017 e 2020, e 10% no ano 2015 e 2016 cada. Dentre os locais de publicação, houve destaque para Ásia e a América do Norte com 40% das publicações cada, seguido do con- tinente Europeu com 15% e o continente Africano com 5% das publicações. Quanto ao método, 83,3% eram ensaios clínicos randomizados, sendo os demais em estudos quase experimentais (16,7%). Após a leitura e análise, os dados foram sintetizados e distribuídos em cinco categorias: 1) Uso da educação em saúde no manejo da IC (conversas terapêuticas, entrevis- tas motivacionais, diálogo entre pacientes e enfermeiros); 2) Educação em saúde com auxílio da tecnologia (Teleenfer- magem, telemonitoramento, telefonemas, SMS, aplicativos educacionais interativos); 3) Gestão do cuidado e as Práticas Avançadas de Enfermagem; 4) Psicointervenções (espiri- tualidade, religiosidade, terapia cognitivo comportamental); 5) Cuidados Paliativos para IC. Categoria 1: Uso da educação em saúde no manejo da IC A partir da descrição dos resultados e categorização proposta no método foram destacados sete estudos para a análise do aspecto educacional no que concerne ao manejo não farmacológico da IC. (Tabela 1) Cada vez mais estudos tem abordado a importância da educação em saúde no manejo de doenças crônicas, o que favorece o autocuidado e as pesquisas demonstram que as orientações realizadas pelos enfermeiros são práticas frequentes para pacientes com IC, tanto no ambiente hospi- talar, desde a internação no momento da admissão até a alta oferecendo orientações ao paciente e familiares, assim como nas visitas domiciliares auxiliando e favorecendo a adesão ao tratamento não farmacológico para IC.16,17 Um ensaio clínico randomizado (ECR) dinamarquês com o objetivo de verificar o efeito das conversas terapêuticasde enfermagem nas questões relacionadas à saúde, QV, autocuidado e depressão em 347 pacientes, mostrou eficácia da terapêutica na melhora da QV, autocuidado e depressão. Todavia, os autores enfatizaram que a intervenção reduziu o número de casos novos de hospitalização por IC.18 Um estudo chinês para avaliar o efeito de uma inter- venção de enfermagem embasada em teorias de mudança comportamental com relação a autoeficácia e autogestão, dividiu 86 pacientes com IC em grupo controle e grupo intervenção, sendo que este último recebeu a educação em saúde com base em teorias de mudança compor- tamental aliada à intervenção de enfermagem rotineira, pautada no conhecimento da doença, autogestão diária, orientações e exercícios físicos. Os resultados mostraram que a educação em saúde baseada em teorias de mu- dança comportamental pôde aliviar os sintomas de IC, melhorar o nível de autoeficácia, capacidade de autoge- renciamento e satisfação do paciente, de modo a refletir a melhora da QV dos pacientes do grupo intervenção após oito semanas.19 Quanto maior índice de conhecimento do paciente sobre a IC melhor será a adesão ao tratamento medicamentoso e o manejo não farmacológico. Deste modo, a baixa literária Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):248-56 250 (conhecimento insuficiente) sobre a doença pode ser relacionada com maior índice de mortalidade e internações hospitalares por descompensação da IC.20 O enfermeiro possui importante papel nesse contexto, pois, por meio de estratégias educativas, pode estabele- cer intervenções adequadas ao tratamento, favorecendo a compreensão da doença, maior adesão terapêutica e autocuidado em relação à IC.17 O principal objetivo da edu- cação em saúde ao paciente com IC é que ele compreenda a importância da adesão ao tratamento e os sinais e sintomas da descompensação.21 Portanto a educação em saúde pode impactar de ma- neira positiva à adesão ao tratamento da IC para pacientes Figura 1. Fluxograma de seleção dos estudos. Ribeirão Preto (SP), Brasil, 2020. com baixo conhecimento, como a utilização de vocabulário adequado aos níveis de conhecimento, comunicação visual e feedback contínuo.22 Categoria 2: Educação e abordagens em saúde com auxílio da tecnologia A educação em saúde realizada por meio de tecnologias foi abordada por seis estudos como uma alternativa no manejo não farmacológico da IC. (Tabela 2). Atividades como telefonemas, mensagens de texto por SMS, telemonitoramento, teleenfermagem, suporte telefônico e uso de aplicativos interativos para acompanhamento de sintomas surgiram como medidas que favoreceram a redução Id en tif ic aç ão Tr ia ge m In cl us ão EBSCO 131 Resultados CINAHL 37 Resultados EMBASE 769 Resultados Duplicatas removidas (N = 206 artigos) Estudo identificados nas bases de dados Resultados encontrados sem filtros (N = 1.459 resultados) Resultados excluídos no precesso de pré-seleção após a aplicação dos critérios de exclusão/leitura de títulos e resumos (N = 1369 artigos) Os resultados não possuíam os critérios de inclusão pré-estabelecidos Artigos excluídos no processo de leitura completa após a aplicação dos critérios de exclusão (N = 70 artigos) Os resultados não possuíam os critérios de inclusão pré-estabelecidos Artigos selecionados para a leitura completa (N = 90 artigos) Artigos selecionados para o estudo (N = 20 artigos) Fonte: Dados da pesquisa. 2020. PUBMED 218 Resultados COCHRANE 398 Resultados WEB OF SCIENCE 109 Resultados LILACS 03 Resultados Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):248-56 251 PRÁTICAS NÃO FARMACOLÓGICAS NO MANEJO DA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA Tabela 1. Distribuição dos artigos que abordaram o uso da educação em saúde no manejo da insuficiência cardíaca, segundo título, autores, ano, objetivo e aspectos-chave, 2020. Categoria 1: uso da educação em saúde no manejo da IC Título, autores e ano Objetivo Aspectos-chave The effect on patient outcomes of a nursing care and follow-up program for patients with heart failure: A randomized controlled trial Sezgin D, Mert H, Ozpelit E, Akdeniz B Ano: 2017 Investigar os efeitos de um programa de assistência educacional de enfermagem sobre fadiga e qualidade de vida em pacientes com insuficiência cardíaca O programa de assistência educacional de enfermagem foi recomendado para aliviar a fadiga e melhorar a qualidade de vida em pacientes com insuficiência cardíaca. Effect of family nursing therapeutic conversations on health-related quality of life, self-care and depression among outpatients with heart failure: A randomized multi- centre trial Ostergaard B, Mahrer-Imhof R, Wagner L, Barington T, Videbæk L, Lauridsen J Ano: 2018 Avaliar os efeitos a curto prazo (três meses) das conversas terapêuticas de enfermagem da família na qualidade de vida relacionada à saúde, autocuidado e depressão em pacientes ambulatoriais com insuficiência cardíaca (IC). Abordar o impacto da IC na família, pode melhorar a auto-eficácia, limitação social e carga de sintomas em pacientes com insuficiência cardíaca. Effect of Health Education Based on Behavioral Change Theories on Self-Efficacy and Self-Management Behaviors in Patients with Chronic Heart Failure Yu H, Zhang P, Wang X, Wang Y, Zhang B Ano: 2019 Explorar o efeito da educação em saúde e do modelo de intervenção de enfermagem baseado em teorias de mudança comportamental sobre comportamentos de autoeficácia e autogestão em pacientes com ICC A educação em saúde baseada em teorias de mudança comportamental pode aliviar os sintomas de ICC e melhorar o nível de autoeficácia, capacidade de autogerenciamento e satisfação do paciente. Motivational interviewing to improve self-care for patients with chronic heart failure: MITI-HF randomized controlled trial Masterson Creber R, Patey M, Lee CS, Kuan A, Jurgens C, Riegel B Ano: 2016 Testar a eficácia de uma entrevista motivacional sob medida intervenção versus cuidados usuais para melhorar os comportamentos de autocuidado da IC, sintomas físicos da IC e qualidade da vida. Os pacientes que receberam a intervenção de entrevista motivacional tiveram significante e clinicamente significativa melhorias na manutenção do autocuidado da IC em mais de 90 dias; Implicações da prática: Esses dados apoiam o uso de uma intervenção de Entrevista motivacional liderada por uma enfermeira para melhorar o autocuidado da IC. Dialogues between nurses, patients with heart failure and their partners during a dyadic psychoeducational intervention: a qualitative study Maria L, Susanna A, Tiny J, Anna S Ano: 2017 Descrever a documentação dos enfermeiros sobre o conteúdo em uma intervenção psicoeducacional inspirada no modelo de Stuifbergen, abordando as necessidades cognitivas, de suporte e comportamentais das díades parceiro-paciente afetadas por IC Os diálogos entre enfermeiros e pacientes com IC descreveram que, durante as sessões, adquiriram maior conhecimento e maior confiança para lidar com a situação da vida e expressaram que precisavam de apoio psicoeducacional durante toda a trajetória da doença. Usefulness of a Nurse-Led Program of Care for Management of Patients with Chronic Heart Failure You J, Wang S, Li J, Luo Y. Ano: 2020 Determinar se um programa de cuidados conduzido por enfermeiros pode melhorar a adesão à medicação, qualidade de vida (QV), as taxas de re- hospitalização e mortalidade por qualquer causa em pacientes com IC Mostrou-se uma abordagem econômica e viável para o manejo de pacientes com IC na China. Application of self-care based on full-course individualized health education in patients with chronic heart failure and its influencing factors Jing S, Zhi-Wei Z, Yue-Xian M, Wei L, Chun-Ying W Ano: 2019 Investigar a aplicação do autocuidado com base em estudos individualizados educação em saúde e seus fatores de influência em pacientes com doençascrônicas insuficiência cardíaca (ICC). A intervenção com base em autocuidado e educação em saúde melhorou o comportamento de autocuidado e a função cardíaca em pacientes com ICC. Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):248-56 252 em dias de internações, consequente diminuição dos custos com os serviços de saúde, melhoria do conhecimento sobre IC, melhoria no comportamento de autocuidado e QV dos portadores de IC.23,24 Os aplicativos de saúde para smartphones estão sendo cada vez mais usados para auxiliar pacientes no autoge- renciamento de doenças crônicas. O uso destes aplicativos tem atraído interesse considerável de pacientes e gestores de saúde como forma de promover um autogerenciamento mais eficaz de doenças crônicas, proporcionando melhores resultados para a saúde.25 O uso de tablets, por exemplo, pode ser capaz de reduzir os dias de internação por complicações de IC, melhorar a QV e a função física relacionada à IC. Já o uso do telemo- nitoramento em domicílio pode proporcionar aumento dos cuidados de saúde e satisfação do cliente durante e após contatos telefônicos realizados por enfermeiros.26 Um número crescente de pacientes com insuficiência cardíaca crônica (ICC) que vive em áreas remotas, longe dos grandes centros, tem exigido o desenvolvimento de sistemas de atendimento eficazes e convenientes. Os modelos de Tabela 2. Distribuição dos artigos que abordaram a educação e as abordagens em saúde com auxílio da tecnologia, segundo título, autores, ano, objetivo e aspectos-chave, 2020. Categoria 2: educação e abordagens em saúde com auxílio da tecnologia Título, autores e ano Objetivo Aspectos-chave Pilot Randomized Controlled Trial to Reduce Readmission for Heart Failure Using Novel Tablet and Nurse Practitioner Education. Breathett K, Maffett S, Foraker RE, Sturdivant R, Moon K, Hasan A et al. Ano: 2018 Avaliar se a adição de uma nova aplicação de educação do profissional de enfermagem por meio do tablet foi superior à educação em enfermagem na redução da readmissão em 30 dias após hospitalização por IC. Houve melhoria na satisfação do paciente com IC em medida de educação em saúde com uso do tablet. A combinação de educação inovadora em tablet e educação individual de enfermeiro pode reduzir as taxas de readmissão hospitalar e melhorar a satisfação e a educação do paciente. Effectiveness of Remote Patient Monitoring After Discharge of Hospitalized Patients With Heart Failure The Better Effectiveness After Transition– Heart Failure (BEATHF) Randomized Clinical Trial Ong MK, Romano PS, Edgington S, Aronow HU, Auerbach AD, Black JT, et al. Ano: 2016 Avaliar a eficácia de uma intervenção de transição de cuidados usando monitoramento de pacientes na redução de readmissões por todas as causas por 180 dias entre uma ampla população de idosos hospitalizados com IC. Entre os pacientes internados por IC, receberam telefonemas de treinamento em saúde e telemonitoramento. O telemonitoramento usou equipamentos eletrônicos que coletavam informações diárias sobre pressão arterial, freqüência cardíaca, sintomas e peso. Treinar telefonemas e telemonitoramento reduziu as readmissões de 180 dias. Nurse-Led Collaborative Management Using Telemonitoring Improves Quality of Life and Prevention of Rehospitalization in Patients with Heart Failure Mizukawa M, Moriyama M, Yamamoto H, Rahman MM, Naka M, Kitagawa T, et al. Ano: 2019 Avaliar se um sistema de telemonitoramento, por meio de gerenciamento colaborativo e comunicação interativa melhora o status psicossocial e impede a reinternação em pacientes com IC em comparação com a educação de autogestão e cuidados habituais. O estudo concluiu que o telemonitoramento, por meio de gerenciamento colaborativo e comunicação interativa tem potencial para melhorar o status psicossocial em pacientes com IC e impedir a reinternação por IC. A Smartphone App for Self- Management of Heart Failure in Older African Americans: Feasibility and Usability Study Sue P, Sara BD, Swann AA, Pearman DP, Hongtu C, Sue Lf, et al. Ano: 2020 Determinar a viabilidade do uso de um aplicativo “mHealth” e explorar os resultados da QV, incluindo manutenção, gerenciamento e confiança de autocuidado , entre pacientes afro- americanos que gerenciam sua condição após a alta com um diagnóstico de IC Um aplicativo “mHealth” para auxiliar no autogerenciamento da IC é viável em pacientes com baixa alfabetização, baixa alfabetização em saúde e experiência limitada em smartphones. Structured Telephone Support Intervention: Improved Heart Failure Outcomes Johansson M, Athilingam P. Ano: 2020 Avaliar os efeitos do suporte telefônico estruturado e SMS no autocuidado, conhecimento, adesão a medicamentos e QV de pacientes com IC. A implementação de STS e SMS serviu como opções viáveis para melhorar o autocuidado, adesão, e QV de pacientes com IC. Effects of a person-centred telephone support on fatigue in people with chronic heart failure: Subgroup analysis of a randomised controlled trial Wallström S, Ali L, Ekman I, Swedberg K, Fors A. Ano: 2019 Avaliar os efeitos do atendimento centrado na pessoa na forma de suporte telefônico estruturado sobre a fadiga auto-relatados em pacientes com ICC O atendimento centrado na pessoa na forma de suporte telefônico estruturado mostrou-se promissor no apoio a pacientes com ICC em sua reabilitação; melhorou a qualidade relacionada à saúde de vida e reduziu eventos adversos. Fonte: dados da pesquisa 2020. Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):248-56 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Breathett%20K%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=29555457 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Maffett%20S%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=29555457 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Foraker%20RE%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=29555457 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Foraker%20RE%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=29555457 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Sturdivant%20R%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=29555457 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Moon%20K%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=29555457 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Hasan%20A%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=29555457 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Ong%20MK%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=26857383 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Romano%20PS%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=26857383 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Edgington%20S%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=26857383 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Edgington%20S%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=26857383 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Aronow%20HU%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=26857383 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Auerbach%20AD%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=26857383 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Black%20JT%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=26857383 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Moriyama%20M%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=31735786 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Yamamoto%20H%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=31735786 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Yamamoto%20H%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=31735786 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Rahman%20MM%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=31735786 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Naka%20M%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=31735786 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Kitagawa%20T%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=31735786 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Kitagawa%20T%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=31735786 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Wallstr%C3%B6m%20S%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=31782661 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Ali%20L%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=31782661 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Ekman%20I%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=31782661https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Swedberg%20K%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=31782661 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Swedberg%20K%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=31782661 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Fors%20A%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=31782661 253 PRÁTICAS NÃO FARMACOLÓGICAS NO MANEJO DA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA telessaúde abarcam esta ideia e são capazes de aproximar o paciente do profissional de saúde por atendimento virtual.27 Em um estudo realizado em Montreal no Canadá, usando um aplicativo denominado “CardioHF”, um dispositivo móvel disponível por meio de uma plataforma de comunicação com inteligência artificial, quantificou pacientes com IC de maneira eficiente e precisa, de acordo com a gravidade dos sintomas, o que melhorou a QV, adesão a medicamentos, autogestão e reduziu hospitalizações por complicações de IC.28 Outro estudo que teve como objetivo identificar aplicativos de IC e avaliar se eles cumpriam os critérios para o auto- cuidado mostrou a deficiência dessa tecnologia no ensino de idosos. Dos 74 aplicativos avaliados, apenas 21 foram listados como sendo específicos para IC e autocuidado.29 No Brasil, intervenções baseadas em tecnologias digitais, como uso de aplicativos, telemonitoramento e atenção básica via ligações telefônicas, têm sido apontadas como estratégias úteis para acompanhar a adesão do paciente ao tratamento e ao autocuidado como uma abordagem de tratamento não farmacológica dentro dos programas multidisciplinares de cuidados aos pacientes com IC.1 Categoria 3: Gestão do Cuidado e as Práticas Avançadas de Enfermagem A gestão do cuidado e as práticas avançadas de enfer- magem foram identificadas em um único estudo conforme a Tabela 3. As práticas avançadas de enfermagem surgem como novas possibilidades ao cuidado de enfermagem prestado ao paciente com IC. A aplicação dessa metodologia requer o desenvolvimento de competências de gestão do cuidado que aperfeiçoem a condução de projetos terapêuticos e assistenciais. Para tal, o enfermeiro deve apresentar habili- dades cognitivas, psicomotoras e atitudinais que possibilitem a autonomia do cuidado, a tomada de decisão e a corres- ponsabilidade com a equipe multiprofissional no processo de avaliação, diagnóstico, prescrição e implementação de ações e planos assistenciais.30 Para o desenvolvimento das práticas avançadas de en- fermagem é necessário a implementação de sete atividades clínicas, que não estão usualmente relacionadas com aquelas já existentes, específicas da prática cotidiana da enfermagem, estas atividades incluem: a autonomia para prescrever (exceto a prescrição de medicamentos ou dispositivos de venda livre), autonomia para solicitar exames médicos e dispositivos, autonomia para realizar diagnóstico ou avaliação avançada na saúde, autonomia para indicar tratamentos médicos e terapias, responsabilidade sobre um conjunto de usuários (caseload), autonomia para referenciar e contrareferenciar usuários com doenças indiferenciadas e/ou condições crônicas estabelecidas. Essas atividades requerem amplo debate no contexto nacional, visto que no Brasil ainda existe a necessidade de amparo jurídico e formativo que viabilize a licença, certificação e registro para que o profissional possa desempenhar essas atividades clínicas.30 Dentre essas atividades, no contexto da IC, torna-se imprescindível que o enfermeiro seja o primeiro ponto de referência e se responsabilize por um conjunto de indivíduos com essa condição.31 Em um estudo realizado em um hospital Tailandês, con- cluiu que os participantes com IC que receberam um progra- ma de cuidados continuados conduzidos por prática avan- çada de enfermagem obtiveram resultados estatisticamente melhores, referente ao estado funcional e a QV, melhoria nos cuidados de maneira geral, redução da sintomatologia. O estudo comprovou também aumento significativamente maior da satisfação do paciente com os cuidados de enfermagem no grupo de intervenção e redução do tempo de hospitali- zação e custos com a internação.32 No manejo da IC requer do enfermeiro, não só a apro- priação dos aspectos biológicos que interferem no cuidado, como: fisiopatologia, mecanismo de ação dos medicamentos e curso natural da doença,31 Requer também o domínio dos aspectos psicossociais que permeiam o contexto dos indivíduos acometidos e suas famílias, além da apropriação dos mecanismos de regulação presentes na rede de atenção à essa condição crônica. A prática avançada de enfermagem deve permear por aquisição de competências relacionadas à prática clínica; formação; pesquisa e desenvolvimento profissional e or- ganizacional.33 Estratégias que reafirmam a necessidade de investimentos para a aquisição das habilidades para o desenvolvimento de ações de enfermagem que visam o manejo de condições complexas, como no caso da IC. Categoria 4: Psicointervenções, espiritualidade e religiosidade, terapia cognitivo comportamental Cinco estudos apontaram as seções de relaxamento muscular, uso de sons da natureza, práticas voltadas para o fortalecimento da espiritualidade e religiosidade assim como o uso da terapia cognitivo comportamental (TCC) como práticas não farmacológicas que auxiliaram na redução dos dias de internação hospitalar, melhora nos sintomas de fadiga, na forma de lidar com a IC, aceitação da condição e promoção da QV. (Tabela 4) Tabela 3. Distribuição do artigo que aborda a gestão do cuidado e as práticas avançadas de enfermagem, segundo título, autores, ano, objetivo e aspectos-chave, 2020. Categoria 3: gestão do cuidado e as práticas avançadas de enfermagem Título, autores e ano Objetivo Aspectos-chave Outcomes of an Advanced Practice Nurse-Led Continuing Care Program in People with Heart Failure Jittawadee R, Porntip M, Supreeda M, Kathleen M, Chukiat V, Srun K Ano: 2019 Comparar os resultados de pessoas com IC que receberam o Programa de Cuidados Continuados, liderado por enfermeiros de prática avançada e aqueles que receberam os cuidados habituais O Programa de Cuidados Continuados Conduzidos por Enfermeiros de Prática Avançada foi promissor para melhorar os resultados de cuidados baseados na população para pessoas com IC. Fonte: dados da pesquisa 2020. Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):248-56 254 Um estudo observacional realizado em regime ambu- latorial demonstrou diminuição do estresse e da incidência de eventos cardiovasculares, melhora na quantidade e qua- lidade dos exercícios, redução da frequência cardíaca, da pressão arterial, do peso, da circunferência abdominal, do número de hospitalizações recorrentes, da incidência de arritmias cardíacas e da mortalidade cardiovascular entre pacientes que receberam terapias alternativas baseadas em meditação e yoga. O estudo concluiu que as terapias não farmacológicas aliadas ao aconselhamento de dieta saudável e gestão do estresse têm papel fundamental na prevenção de complicações da IC.34 Outro estudo randomizado indiano concluiu que a adição de yoga aos cuidados médicos farmacológicos para pacientes com IC melhoraram significativamente a QV dos pacientes. Neste estudo, os pacientes com IC praticaram yoga uma hora por dia, durante 12 semanas.35 Reconhecer o bem-estar espiritual em pacientes com IC pode aliviar o sofrimento e levar a uma QV melhorada, além da redução na utilização de recursos de saúde.36 Atualmente tem-se destacado a importância de incluir os aspectos es- pirituais, religiosos e culturais na vida das pessoas, dentro de uma construção holística de atenção à saúde envolvendo pacientes com doença cardiovascular.37,38 Em um estudo de revisão que buscou examinar a asso- ciação entre a religiosidade e a espiritualidade com a QV em pacientes com doença cardiovascular, verificou associação positiva e significativa, com maior bem-estar espiritual e positivamente relacionado ao bem-estar mental e emocional nos pacientes que tinhammaior frequência aos encontros religiosos. O estudo conclui também que a TCC é um método alternativo não farmacológico de tratamento para depressão em pacientes com IC, tendo em vista que a depressão é uma comorbidade comum apresentada em pacientes com IC.39 Categoria 5: Cuidados paliativos para insuficiência cardíaca Um estudo abordou a importância dos CP no manejo da IC. (Tabela 5). Os CP são cuidados são reservados para pacientes com expectativa de vida de seis meses ou menos podem ser fornecidos a qualquer paciente com uma doença que limita a vida e combina assistência médica, controle da dor e apoio emocional e espiritual. Concentra-se no conforto e Tabela 4. Distribuição dos artigos que abordaram psicointervenções, espiritualidade e religiosidade e terapia cognitivo comportamental, segundo título, autores, ano, objetivo e aspectos-chave, 2020. Categoria 4: psicointervenções, espiritualidade e religiosidade, terapia cognitivo comportamental Título, autores e ano Objetivo Aspectos-chave Effect of a Collaborative Care Intervention vs Usual Care on Health Status of Patients With Chronic Heart Failure: The CASA Randomized Clinical Trial Bekelman DB, Allen LA, McBryde CF, Hattler B, Fairclough DL, Havranek EP, Turvey C, Meek PM. Ano: 2018 Determinar se um sistema de atendimento psicossocial colaborativo de intervenção melhora o estado de saúde específico da IC, depressão e carga de sintomas em pacientes com IC. A intervenção não demonstrou melhora do estado de saúde específico da IC. Application of Transitional Care Model in Patients with Chronic Heart Disease: A Case-Controlled Intervention Study Rafat Rezapour-Nasrabad Ano: 2018 Investigar o efeito de transição de cuidados na qualidade de vida de pacientes com doença cardíaca crônica nas dimensões física, emocional-espiritual e socioeconômicos. Houve melhora nos resultados do paciente com IC e da família, redução dos custos de hospitalização para pacientes com doença cardíaca crônica e constatação da importância dos cuidados nas dimensões física, emocional-espiritual no atendimento domiciliar. Cognitive Behavior Therapy for Depression and Self-Care in Heart Failure Patients: A Randomized Clinical Trial Freedland KE, Carney RM, Rich MW, Steinmeyer BC, Rubin EH. Ano: 2015 Determinar a eficácia de uma intervenção de terapia cognitivo- comportamental integrativa na depressão e no autocuidado da IC. Intervenção de TCC direcionada à depressão e autocuidado para IC é eficaz para a depressão, mas não para o autocuidado da IC ou o funcionamento físico em relação à melhora dos cuidados usuais. Houve redução da ansiedade e fadiga, melhor funcionamento social e melhor QV relacionada à saúde. Spirituality: A Panacea for Patients Coping with Heart Failure Mangolian SP, Nouhi E, Kazemi M, Ahmadi F. Ano: 2017 Explorar o enfrentamento religioso na perspectiva de pacientes com IC. Os resultados deste estudo sugerem que a espiritualidade é um recurso rico para lidar com os problemas e uma melhor compatibilidade em pacientes com IC. Comparison of the Effects of Benson Muscle Relaxation and Nature Sounds on the Fatigue in Patients With Heart Failure: A Randomized Controlled Clinical Trial Seifi L, Najafi GT, Haghani H. Ano: 2018 Comparar os efeitos do relaxamento muscular de Benson e sons da natureza na fadiga em pacientes com IC. O relaxamento muscular e os sons da natureza de Benson contribuíram para a redução da fadiga em pacientes com IC. Dentre as vantagens, esses métodos são baratos e fáceis de administrar, podem ser usadas pelos enfermeiros, juntamente com as intervenções de enfermagem de rotina. Fonte: dados da pesquisa 2020. Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):248-56 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Freedland%20KE%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=26414759 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Carney%20RM%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=26414759 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Rich%20MW%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=26414759 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Rich%20MW%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=26414759 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Steinmeyer%20BC%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=26414759 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Rubin%20EH%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=26414759 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Mangolian%20Shahrbabaki%20P%20PhD%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=28097177 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Nouhi%20E%20PhD%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=28097177 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Kazemi%20M%20PhD%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=28097177 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Kazemi%20M%20PhD%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=28097177 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Seifi%20L%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=29210875 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Najafi%20Ghezeljeh%20T%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=29210875 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Haghani%20H%5BAuthor%5D&cauthor=true&cauthor_uid=29210875 255 PRÁTICAS NÃO FARMACOLÓGICAS NO MANEJO DA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA na QV quando a cura não é mais possível. É um modelo de atendimento centrado no paciente e baseado em cuidados prestados pela equipe multiprofissional. Sua eficácia é com- provada em pacientes com IC, reduzindo a carga de sintomas, principalmente dor e depressão, e melhorando a QV.40,41 Um estudo que procurou avaliar a necessidade de CP em pacientes com ICC avançada, internados em uma enfer- maria cardiológica de um hospital terciário, concluiu que 55% dos pacientes portadores de IC classes III-IV, que possuem limitações moderadas a graves à esforços, teriam indicação de CP para o alívio do sofrimento provocado pela doença.42 Diretrizes internacionais de prática clínica também reco- mendam que os pacientes com IC recebam CP em tempo hábil e de alta qualidade,43 entretanto os CP ainda enfren- tam barreiras na IC devido as características específicas da doença, tais como fadiga, intolerância aos esforços, falta de ar ao deitar, inchaço dos membros inferiores ou abdome.44 CONSIDERAÇÕES FINAIS O manejo da IC envolve uma rede interdisciplinar de cuidados, além da continuidade das terapêuticas farmacoló- gicas e da implementação de estratégias não farmacológicas para a promoção da QV e da manutenção das atividades de vida diária. Dentre as abordagens não farmacológicas, a educação em saúde pode impactar de maneira positiva à adesão ao tratamento da IC e melhorar o nível de autoeficácia e capacidade de autogerenciamento da doença. No processo educativo, as tecnologias em saúde foram abordadas como alternativa promissora no manejo não farmacológico da doença, com destaque para as intervenções associadas Tabela 5. Distribuição do artigo que aborda os cuidados paliativos, segundo título, autores, ano, objetivo e aspectos-chave, 2020. Categoria 5: Cuidados paliativos para ic Título, autores e ano Objetivo Aspectos-chave In patient Palliative Care for Patients with Acute Heart Failure: Outcomes from a Randomized Trial Sidebottom AC, Jorgenson A, Richards H, Kirven J, Sillah A Ano: 2015 Avaliar se CP para pacientes internados com IC esteve associado a melhorias na carga de sintomas, sintomas depressivos, QV ou uso diferencial dos serviços. Um modelo de CP hospitalar para pacientes com IC aguda está associado à melhora em curto prazo da carga de sintomas, QV e sintomas depressivos. Fonte: Dados da pesquisa 2020. ao autocuidado e adesão ao tratamento, acarretando em redução das taxas de readmissão hospitalar. As práticas avançadas de enfermagem surgiram ainda como método, ao desenvolvimento de competências de gestão do cuidado, capazes de otimizar o manejo da IC acarretando em melhorias nos resultados de cuidados. Intervenções não convencionais, tais como psicoterapias e yoga, podem con- tribuir com a prevenção de agravos da doença. Em relação aos cuidados paliativos,sua eficácia é comprovada por meio da redução da carga de sintomas de IC e melhora da QV. Por fim, os resultados do presente estudo mostraram que a literatura científica dispõe de diversas evidências sobre as abordagens não farmacológicas para o manejo da IC entre pacientes adultos e idosos. Tais achados demonstraram que práticas voltadas para a educação em saúde, uso das tecnologias, gestão de enferma- gem, prática avançada de enfermagem, psicointerevenções e cuidados paliativos podem ser estratégias eficazes no manejo da IC. Responderam completamente à pergunta de pesquisa, que por sua vez, poderá contribuir para a melhoria no manejo não farmacológico à IC, melhora da QV, redução dos gastos públicos em saúde, redução das taxas de hospitalização e mortalidade por complicações da IC. CONFLITOS DE INTERESSE Os autores declaram não possuir conflitos de interesse na realização deste trabalho. REFERÊNCIAS 1. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz brasileira de insuficiência cardíaca crônica e aguda. Arq Bras Cardiol. 2018;111(3):436–539. 2. Bauersachs J, König T, van der Meer P, Petrie MC, Hilfiker- Kleiner D, Mbakwem A, et al. 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Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina São Paulo. Instituto do Coração, Hospital das Clínicas. Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular, São Paulo, SP, Brasil. 2. Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina São Paulo. Instituto do Coração, Hospital das Clínicas.Unidade de Medicina Interdisciplinar em Cardiologia. São Paulo, SP, Brasil Correspondência Danúbia Silva dos Santos. Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular, Instituto do Coração, Universidade de São Paulo. Avenida Doutor Enéas de Carvalho Aguiar, 44, 10° andar, Bloco II, Cerqueira César São Paulo, SP, Brasil. 05403-900 danubia_ss@yahoo.com.br POTENCIAL USO DE INIBIDORES DE SGLT2 NO TRATAMENTO DE INSUFICIÊNCIA CARDÍACA PARA PACIENTES DIABÉTICOS E NÃO DIABÉTICOS POTENTIAL USE OF SGLT2 INHIBITORS IN THE TREATMENT OF HEART FAILURE FOR PATIENTS WITH OR WITHOUT DIABETES RESUMO Apesar das terapias estabelecidas atualmente, a insuficiência cardíaca (IC) continua sendo um grande problema de saúde no mundo, com impacto notável em termos de hospitalização e mortalidade. Portanto, novas terapias farmacológicas são necessárias para melhorar o prognóstico de pacientes com IC. Os inibidores de co-transportador de sódio-glicose do tipo 2 (SGLT2), também conhecidos como gliflozinas, representam uma nova classe de fármacos antidiabéticos orais com efeitos benéficos, além do controle glicêmico. Vários estudos de desfechos cardiovasculares (cardiovascular outcome trials - CVOTs) demonstraram que os inibidores de SGLT2 reduzem significativamente a morte cardiovascular e a hospitalização por IC de pacientes portadores de diabetes mellitus do tipo 2. Recentemente, o estudo DAPA-HF (Dapagliflozin and Prevention of Adverse Outcomes in Heart Failure) relatou que os inibidores de SGLT2 também exercem efeitos cardiovasculares benéficos em pacientes não diabéticos. Embora a inibição do SGLT2 possa ter potencial aplicação na IC, os meca- nismos cardioprotetores das glifozinas permanecem desconhecidos. Assim, nesta revisão, nós abordaremos as evidências experimentais e clínicas que apoiam o uso dos inibidores de SGLT2 no tratamento de pacientes com IC, com ou sem diabetes, e discutiremos os potenciais mecanismos dos efeitos cardioprotetores dos inibidores de SGLT2 na IC. Descritores: SGLT2; Insuficiência Cardíaca; Túbulos Renais Coletores. ABSTRACT Despite the currently established therapies, heart failure (HF) continues to be a major global health problem with a notable impact in terms of hospitalization and mortality. Novel pharmacological treatments are therefore needed to improve the prognosis of patients with HF. Sodium-glucose cotransporter 2 (SGLT2) inhibitors, also known as gliflozins, represent a new class of oral antidiabetic drugs with beneficial effects, in addition to glycemic control. Several cardiovascular outcomes trials (CVOTs) have shown that SGLT2 inhibitors significantly reduce cardiovascular death and hospitalization due to HF in patients with type 2 diabetes. Recently, the DAPA-HF trial (Dapagliflozin and Prevention of Adverse Outcomes in Heart Failure) reported that the SGLT2 inhibitors also exert beneficial cardiovascular effects on non-diabetic patients. Although SGLT2 inhibition may have potential applications in HF, the cardioprotective mechanisms of the gliflozins remain unknown. Accordingly, in this review, we will address the experimental and clinical evidence that supports the use of SGLT2 inhibitors in patients with HF, with or without diabetes, and discuss the potential mechanisms of the cardioprotective effects of SGLT2 inhibitors in HF. Keywords: SGLT2; Heart Failure; Kidney Tubules Collecting. INTRODUÇÃO A insuficiência cardíaca (IC) é um problema de saúde pública que cresce rapidamente, afetando mais de 23 milhões de pessoas em todo o mundo.1 Nos Estados Unidos e na Europa, a IC é considerada a principal causa de hospitalização, resultando em mais de 1 milhão de internações anualmente.2 No Brasil, dados registrados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) demonstraram que a IC foi responsável por 2,6% das hospi- talizações e por 6,8% dos óbitos em 2007, comprometendo 3% do total de recursos disponíveis para internações no SUS.3 Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):257-63 http://dx.doi.org/10.29381/0103-8559/20203002257-63 Acesse o Podcast https://socesp.org.br/web-socesp/podcast-socesp/artigos-suplemento-insuficiencia-cardiaca/potencial-uso-de-inibidores-de-sglt2-no-tratamento-de-insuficiencia-cardiaca-para-pacientes-diabeticos-e-nao-diabeticos/ 258 Os principais tipos de IC, classificados de acordo com a fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE), são: IC com fração de ejeção reduzida (ICFEr; FEVE < 40%) e IC com fração de ejeção preservada (ICFEp; FEVE ≥ 50%).1 Em pacientes com ICFEr, em função da comprovada redução de complicações e de mortalidade, as diretrizes recomendam o tratamento com os inibidores do sistema renina angiotensina aldosterona, beta- bloqueadores, inibidores de neprisilina, diuréticos e digitálicos. No entanto, nenhum tratamento foi completamente eficaz para reduzir a morbidade e a mortalidade na ICFEp4 - a formadomi- nante nos pacientes mais idosos, fato preocupante em nossa sociedade em envelhecimento.5 Assim, torna-se imperativa a identificação de novas estratégias terapêuticas para melhorar os sintomas e reduzir a mortalidade e as hospitalizações recorrentes tanto em pacientes com ICFEr como ICFEp. Os inibidores do co-transportador de sódio-glicose do tipo 2 (SGLT2), também conhecido como gliflozinas, repre- sentam uma nova classe de fármacos antidiabéticos orais com efeitos benéficos, além do controle glicêmico.6 Dados obtidos nos estudos de desfechos cardiovasculares (CVOTs, do inglês Cardiovascular Outcomes Trials) com os inibidores de SGLT2 demonstraram redução significativa da mortalidade cardiovascular e da hospitalização por IC em pacientes com diabetes mellitus do tipo 2 (DM2). 7-9 Recentemente, o estudo DAPA-HF (Dapagliflozin and Prevention of Adverse-Outcomes in Heart Failure) relatou que o tratamento com dapagliflozina, quando associado à terapia padrão, reduziu a mortalidade cardiovascular e o risco de progressão da IC em pacientes com ICFEr, independente da presença ou ausência de DM2.10 Nesta revisão, abordaremos as evidências experimentais e clínicas que sustentam a lógica do uso dos inibidores de SGLT2 no tratamento de pacientes com IC, com ou sem diabetes, e discutiremos os potenciais mecanismos dos efeitos cardioprotetores dos inibidores de SGLT2 na IC. A DESCOBERTA DO SGLT2 COMO ALVO PARA O TRATAMENTO DE DM2 As intervenções hipoglicemiantes objetivam normalizar os níveis de glicose no sangue de pacientes portadores de DM2. Desde 1930, trabalhos têm demonstrado que o rim desempenha papel crucial na homeostase de glicose. Em 1989, pesquisadores relataram a presença de dois co-trans- portadores de glicose distintos ao longo da membrana apical das células do túbulo proximal, os SGLT1 e SGLT2.11 O SGLT1 é um transportador de alta afinidade e bai- xa capacidade presente no segmento distal S3 do túbulo proximal. Em contrapartida, o SGLT2, que apresenta baixa afinidade e alta capacidade, está localizado nos segmentos S1 e S2. A glicose reabsorvida pelos SGLTs é então liberada na circulação através dos transportadores de glicose 1 (GLUT-1) e 2 (GLUT-2) na membrana basolateral das células epiteliais que revestem o túbulo proximal (GLUT-1 no segmento S3 e GLUT- 2 nos segmentos S1 e S2). 6,11,12 Diversos estudos têm demonstrado que indivíduos com mutação genética no SGLT1 apresentam má absorção de glicose-galactose, resultando em diarreia osmótica e desidra- tação potencialmente letais, com glicosúria leve ou ausente. Por outro lado, pacientes com glicosúria renal familiar (GRF), condição causada por mutações genéticas no SGLT2, são as- sintomáticos, exceto pela glicosúria moderada e persistente.12 Em virtude desses resultados, foi postulado que o SGLT2 é o principal transportador envolvido na reabsorção de glicose renal. De fato, utilizando modelos de camundongo nocaute para SGLT1 e SGLT2 (Sglt1-/- e Sglt2-/-, também conhecidos como Sl- c5a1-/- e Slc5a2-/-, respectivamente), pesquisadores mostraram que 97% da glicose filtrada é reabsorvida pelo SGLT2 e os 3% restantes são reabsorvidos pelo SGLT1. Entretanto, quando o SGLT2 é totalmente inibido pelo inibidor do SGLT2, o aumento na reabsorção de glicose mediada por SGLT1 explica por que apenas 50-60% da glicose filtrada é excretada.13 Devido à grande importância do SGLT2 na reabsorção de glicose renal, a inibição desse co-transportador passou a ser encarada como uma abordagem terapêutica promissora para o controle glicêmico. Essa abordagem foi respaldada pelo fato de que, em resposta ao diabetes, há aumento da expressão e/ ou atividade do SGLT2 em células renais do túbulo proximal,14 um mecanismo regulatório não adaptativo para manutenção da hiperglicemia. Além disso, pesquisadores demonstram que o nocaute genético do SGLT2 reduz os níveis de glicose no sangue em modelo de camundongos com DM2.15 Em conjunto, essas informações forneceram suporte para a utilização dos inibidores de SGLT2 no tratamento de DM2. Durante o desenvolvimento dos inibidores de SGLT2, ensaios pré-clínicos com ratos diabéticos resistentes à insu- lina demonstraram que a florizina, inibidor de SGLT1/SGLT2, normalizou os perfis de glicose no plasma e a sensibilidade à insulina, fornecendo as primeiras evidências sobre a eficácia inibidores do SGLT. No entanto, seu uso foi dificultado por apresentar meia-vida curta e efeitos colaterais intestinais devido à inibição do SGLT1. A fim de superar essas limitações, novos inibidores seletivos com C-glicosídeos foram desenvolvidos, tais como dapagliflozina, empagliflozina e canagliflozina. Em contraste à florizina (O-glicosídeos), essas moléculas são mais resistentes à ação das β-glucosidases e apresentam meia-vida mais longa. Além disso, esses fármacos apresentam uma maior seletividade do SGLT2 sobre o SGLT1. 6,12 AGENTES HIPOGLICEMIANTES E ESTUDOS DE SEGURANÇA CARDIOVASCULAR As preocupações com o perfil de segurança dos agentes hipoglicemiantes foram evidenciadas após a publicação de um relatório sobre a meta-análise da tiazolidinediona rosiglitazona, que já era comercializada há uma década. Segundo o relatório, o uso da rosiglitazona aumentou o risco de infarto do miocárdio em 43% e o risco de mortes de causa cardiovascular em 64% quando comparado à outros agentes hipoglicemiantes, como a metformina, a insulina e as sulfo- nilureias.16 Assim, em virtude dos questionamentos gerados frente à esses resultados, em dezembro de 2008, o Food and Drug Administration (FDA) emitiu diretrizes determinando que todos os fabricantes que desenvolvem medicamentos para o tratamento de DM2 devem fornecer evidências de que a terapia não aumentará os riscos de eventos cardiovasculares. Essas medidas também foram adotadas pela European Medicines Agency (EMA).17 A Figura 1 mostra uma linha do tempo dos CVOTs concluídos e em andamento dos novos medicamentos hipoglicemiantes, incluindo insulina basal, inibidores da dipeptidil peptidase 4 (DPP4), agonistas do receptor do peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP-1 RA) e os inibidores de SGLT2. Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):257-63 259 2013 2015 2016 2017 2018 2019 2020 EXAMINE Alogliptina n = 5.380 SAVOR-TIMI 53 Saxagliptina n = 16.492 TECOS Sitagliptina n = 14.671 CARMELINA Linagliptina n = 7.003 EMPA-REG OUTCOME Empagliflozina n = 7.020 LEADER Liraglutida n = 9.340 CANVAS Program Canaglifozina n = 10.142 VERTIS Ertugliflozina n = 8.000 SUSTAIN-6 Semaglutida n = 3.297 Inibidores da DPP4 Insulina Inibidores de SGLT2 Agonistas dos receptores de GLP-1 CAROLINA Linagliptina n = 6.072 ELIXA Lixisenatida n = 6.068 FREEDOM-CVO ITCA 650 n = 4.156 DEVOTE Insulina n = 7.637 EXSCEL Exenatide n = 14.752 PIONEER Semaglutida n = 3.176 HARMONY Outcomes Albiglutida n = 9.400 REWIND Semaglutida n = 9.901 CREDENCE Canagliflozina n = 4.464 DAPA-HF Dapagliflozina n = 4.744 DECLARE-TIMI 58 Dapagliflozina n = 17.160 EMPEROR- Preserved Empagliflozina n = 5.982 EMPEROR- Reduced Empagliflozina n = 3.730 2021 DELIVER Dapagliflozina Em recrutamento Dapa-CKD Dapagliflozina n = 4.000 Inicialmente, os estudos que suportam as diretrizes de tratamento se concentraram em avaliar a incidência de even- tos cardiovasculares adversos maiores (MACE, do inglês Major Adverse Cardiovascular Events), como o infarto do miocárdio não-fatal, o acidente vascular cerebral (AVC) e a morte de causa cardiovascular.17 No entanto, haja vista a alta ocorrência, os eventos de IC também passaram a ser avaliados nos CVOTs.18 Embora o efeito cardiovascular da insulina basal ainda não esteja claro, há preocupações em relação ao agravamento da IC em pacientes diabéticos.19,20 Já os estudos SAVOR-TIMI 53 (Saxagliptin and Cardiovascular Outcomes in Patients with Type 2 Diabetes Mellitus),21 EXAMINE (Examination of Cardiovascular Outcomes with Alogliptin Versus Standardof Care in Patients with Type 2 Diabetes Mellitus and Acute Coronary Syndrome),22 TECOS (Trial Evaluating Cardiovascular Outcomes with Sitagliptin)23 e CARMELINA (Cardiovascular and Renal Microvascular Outcome Study With Linagliptin in Patients With Type 2 Diabetes Mellitus)24 demonstraram que os inibidores da DPP4 não apresentaram efeitos cardiovasculares benéficos nos pacientes com DM2 quando comparados ao grupo controle. Além disso, a sa- xagliptina e a alogliptina foram associadas ao aumento do risco de hospitalização por IC.21,22 Em contraste, o estudo LEADER (Liraglutide Effect and Action in Diabetes: Evaluation of Cardiovascular Outcome Results) demonstrou que a administração do GLP-1RA lira- glutida reduziu os eventos cardiovasculares em 13% e não aumentou o risco de hospitalização por IC de pacientes com DM2 e risco cardiovascular aumentado.25 Efeitos favoráveis também foram observados no estudo SUSTAIN-6 (Trial do Evaluate Cardiovascular and Other Long-term Outcomes With Semaglutide in Subjects With Type 2 Diabetes), após adminis- tração do GLP-1RA semaglutida em pacientes com DM2.26 No entanto, a administração da liraglutida em pacientes hospitalizados com IC avançada e FEVE reduzida (~25%) foi associada à efeitos neutros sobre morte cardiovascular e taxas de reinternação em comparação ao placebo.27 Diferente dos estudos descritos acima, os inibidores de SGLT2 são a primeira classe de medicamentos hipoglicemian- tes a mostrar reduções significativas de morte cardiovascular e de hospitalização por IC nos CVOTs.7-9,28,29 O estudo EMPA- -REG OUTCOME (Empagliflozin Cardiovascular Outcome Event Trial in Type 2 Diabetes Mellitus Patients) randomizou 7.020 pacientes com DM2 e doença cardiovascular (~10% com IC estabelecida) a 10 ou 25 mg de empagliflozina versus place- bo. Em comparação com o placebo, os pacientes tratados com empagliflozina apresentaram redução de MACE de três pontos [HR 0,86 (IC 95%, de 0,74-0,99)] e de 35% no risco de hospitalização por IC. Esses resultados foram observados nos três primeiros meses após a randomização e se mantiveram até o final do estudo (duração média de 3,1 anos). Cabe ressaltar que a redução do risco de hospitalização por IC foi semelhante entre os pacientes com ou sem histórico de IC;7 no entanto, a maioria dos pacientes não apresentavam IC no início do estudo, sugerindo que o resultado observado é atribuído ao efeito primário de prevenção da IC. O segundo estudo que demonstrou efeitos cardiovas- culares benéficos dos inibidores de SGLT2 foi o CANVAS Program [CANVAS (Canagliflozin Cardiovascular Assessment Figura 1. CVOTs concluídos e em andamento dos novos medicamentos hipoglicemiantes em pacientes diabéticos ou não diabéticos. DPP4 - dipeptidil peptidase 4; GLP-1 - peptídeo 1 semelhante ao glucagon; SGLT2 - co-transportador de sódio-glicose do tipo 2. Adaptado de Cefalu et al. 2018 (17). POTENCIAL USO DE INIBIDORES DE SGLT2 NO TRATAMENTO DE INSUFICIÊNCIA CARDÍACA PARA PACIENTES DIABÉTICOS E NÃO DIABÉTICOS Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):257-63 260 Study) e CANVAS-R (Canagliflozin Cardiovascular Assessment Study-Renal)]. Nesse estudo, com 10.142 pacientes com DM2 e com alto risco cardiovascular (14,4% com IC estabelecida), o desfecho primário - MACE de três pontos - foi significativa- mente menor no grupo canagliflozina quando comparado ao grupo placebo [HR 0,86 (IC 95%, de 0,75-0,97)]. Além disso, foi observada redução de 33% no risco de hospitalização por IC.30 Semelhante ao EMPA-REG OUTCOME, uma análise post hoc demonstrou que a redução do risco de hospitalização por IC foi estatisticamente consistente entre os pacientes com ou sem histórico de IC. No entanto, vários efeitos adversos devido ao uso da canagliflozina foram observados, incluindo amputação de membros inferiores e fraturas.8 Já o estudo DECLARE-TIMI 58 (Dapagliflozin Effect on Cardiovascular Events - Thrombolysis in Myocardial Infarction 58) avaliou o efeito dapagliflozina em 17.160 pacientes, tor- nando-o o maior CVOT da classe dos inibidores de SGLT2 e com o seguimento mais longo (duração média de 4,2 anos). Os pacientes com DM2 e histórico de doença cardiovas- cular (40,6%) ou múltiplos fatores de risco (59,4%) foram randomizados a 10 mg de dapagliflozina versus placebo. A dapagliflozina atingiu o desfecho primário de segurança de não-inferioridade para o MACE de três pontos e foi associada a redução significativa de 17% do desfecho composto para morte cardiovascular ou hospitalização por IC [HR 0,83 (IC 95%, de 0,73-0,95)]. Esses resultados foram semelhantes nos subgrupos de pacientes com risco para doença cardio- vascular aterosclerótica e de pacientes com ou sem histórico de IC. Além disso, nenhum efeito adverso importante foi mencionado até o momento.9 Consistentes com as observações do EMPA-REG OU- TCOME, CANVAS Program e DECLARE-TIMI 58, o amplo impacto da inibição de SGLT2 nos eventos cardiovasculares também foi avaliado nos estudos multinacionais observacio- nais CVD-REAL 1 e CVD-REAL 2 (Comparative Effectiveness of Cardiovascular Outcomes in New Users of SGLT-2 Inhibitors). Esses estudos coletaram dados de mais de 700 mil pacientes diabéticos de diversos países (CVD-REAL 1: Alemanha, Dinamarca, Noruega, Suécia, Reino Unido e EUA; CVD-REAL 2: Austrália, Canadá, Israel, Japão, Cingapura e Coréia do Sul) e compararam os desfechos da IC entre os pacientes que receberam os inibidores de SGLT2 versus outros agen- tes hipoglicemiantes. As análises demonstraram reduções do risco relativo de 39% e 36% nas hospitalizações por IC associadas ao uso dos inibidores de SGLT2 (nos estudos CVD-REAL 1 e CVD-REAL 2, respectivamente). Reduções dos eventos associados à IC também foram observadas e foram consistentes nos pacientes com e sem IC estabelecida.28,29 Embora os inibidores de SGLT2 tenham sido eficazes na prevenção de eventos de IC em pacientes com DM2, o benefício em relação ao tratamento para IC tem sido o foco de novos estudos. O DAPA-HF foi o primeiro estudo que avaliou os efeitos dos inibidores de SGLT2 quando adicionado à terapia padrão de IC em pacientes com ICFEr (sintomas de classe II - IV da New York Heart Association e FEVE ≤ 40%). Nesse estudo, 4.744 pacientes com (45%) ou sem (55%) um diagnóstico de DM2 foram ramdomizados a 10 mg de dapagliflozina (n = 2.373) ver- sus placebo (n = 2.371), com acompanhamento médio de 1,5 anos. O desfecho primário (morte por causas cardiovasculares ou piora da IC) foi reduzido no grupo dapagliflozina em 26% [HR 0,74 (IC 95%, de 0,65-0,85 )]. Além disso, foram observadas reduções de 18% no risco relativo de morte cardiovascular [HR 0,82 (IC 95%, de 0,69-0,98)] e de 30% no agravamento da IC [HR 0,70 (IC 95%, de 0,59-0,83)]. Com base em análises de subgrupos pré-especificados, os benefícios da dapagliflozina foram consistentes independentemente do status de diabe- tes [presença ou ausência: HR 0,75 (IC 95%, de 0,63-0,90) versus HR 0,73 (IC 95%, de 0,60-0,88)] e da etiologia da IC [isquêmica ou não-isquêmica: HR 0,77 (IC 95%, de 0,65-0,92) versus HR 0,71 (IC 95%, de 0,58-0,87)]. Cabe ressaltar que a frequência de eventos adversos relacionados à depleção de volume, disfunção renal e hipoglicemia não diferiu entre os grupos de tratamento.10 Recentemente, três grandes estudos foram iniciados a fim de investigar a segurança e a eficácia dos inibidores de SGLT2 associadas à terapia padrão para ICFEr e ICFEp. O EMPEROR-REDUCED (EMPagliflozin outcomE tRial in Patients With chrOnic heaRt Failure With Reduced Ejection Fraction) e o EMPEROR-PRESERVED (EMPagliflozin outcomE tRial in Patients With chrOnic heaRt Failure With Preserved Ejection Fraction) randomizaram 9.712 pacientes com ICFEr (n = 3.730) e ICFEp (n = 5.982), respectivamente, a 10 mg de empagliflozina versus placebo (clinicaltrials.gov: NCT030057951; NCT03057977). Já o DELIVER (Dapagliflozin Evaluation to Improve the LIVEs of Patients WithPReserved Ejection Ejection Fraction Heart Failure) está em fase de recru- tamento de pacientes para avaliar o efeito da dapagliflozina na ICFEp (NCT03619213). Uma vez concluídos, esses estudos fornecerão evidências para a utilização dos inibidores de SGLT2 no tratamento da IC estabelecida. POTENCIAIS MECANISMOS DOS EFEITOS DOS INIBIDORES DE SGLT2 NA INSUFI- CIÊNCIA CARDÍACA Durante décadas, foi apoiada a hipótese de que a redução da glicemia estaria associada à melhora dos desfechos car- diovasculares. No entanto, essa abordagem glicocêntrica se mostrou questionável por algumas razões. Primeiro, qualquer efeito benéfico cardioprotetor proveniente do controle glicêmi- co levaria até dez anos para se manifestar; 31 segundo, vários agentes hipoglicemiantes (ex. rosiglitazona, saxagliptina, e aloglipliptina) reduziram os níveis de hemoglobina glicada (HbA1c), porém pioraram os desfechos cardiovasculares.16,21,22 Assim, para explicar o efeito benéfico da inibição do SGLT2 na IC, múltiplos mecanismos foram propostos e estão des- tacados na Figura 2. A precoce (~ 3 meses) redução da mortalidade cardio- vascular e da hospitalização por IC, bem como a diminuição da incidência de infarto do miocárdio e AVC - observadas nos CVOTs dos inibidores de SGLT2, sugerem que o meca- nismo predominante pode estar associado aos seus efeitos hemodinâmicos. De fato, foi descrito que o tratamento com os inibidores de SGLT2 induz diurese osmótica e natriurese, que contribuem para a contração do volume extracelular (refletida no aumento de hematócrito) e redução da pré- -carga. Essas alterações levam à diminuição da pressão de enchimento ventricular, do estiramento das fibras mio- cárdicas e, possivelmente, dos eventos arritimogênicos, de modo a melhorar a função cardíaca e aliviar os sintomas.11,32 Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):257-63 261 A inibição do SGLT2 também está associada à diminuição da pressão arterial sistólica (~4 a 6 mmHg) e diastólica (~1 a 2 mmHg) e, consequentemente, redução da pós-carga cardíaca, aumentando o fluxo sanguíneo coronariano e a contratilidade.11,32 Ademais, foi demonstrado que os inibidores de SGLT2 reduzem a rigidez arterial, diminuindo a pós-carga e aumentando do fluxo sanguíneo do miocárdio.32 Em conjunto, esses efeitos contribuem para melhoria do desempenho cardíaco e, por fim, redução de eventos de IC.11 A contração do volume extracelular também pode au- mentar a atividade sistêmica do sistema renina angiotensina (SRA), que poderia agravar as doenças cardiovasculares devido à ativação dos receptores de angiotensina II do tipo 1 (AT1).33 No entanto, nos estudos EMPA-REG OUTCOME e CANVAS Program, a maioria dos pacientes foi tratada com os inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA) ou bloqueadores dos receptores AT1.7,8 Assim, a hipótese é de que os inibidores de SGLT2 atuam por meio das vias não clássicas do SRA, ativando os receptores de angiotensina II do tipo 2 (AT2) e estimulando a via da angiotensina.1-7 Essas respostas podem levar à vasodilatação e aos efeitos inotrópicos positivos, anti-arrítmicos e anti-inflamatórios,34 que podem contribuir para a melhora da função cardíaca e redução de morte súbita. Recentemente, nós postulamos a hipótese de que o mecanismo pelo qual a inibição do SGLT2 medeia a contra- ção volêmica é devido à redução da reabsorção de sódio no túbulo proximal induzida pela inibição do trocador de sódio-hidrogênio 3 (NHE3).35 Estudo prévio do nosso grupo forneceu a primeira evidência de que o SGLT2 e o NHE3 podem interagir funcional e fisicamente.36 Além disso, nós demonstramos que a expressão e a atividade do NHE3 estão aumentadas em ratos com IC.37 Resultados similares foram observados em modelos experimentais de diabe- tes.38,39 Portanto, acreditamos que a regulação negativa do NHE3 pelos inibidores de SGLT2 pode prevenir a retenção de sal, a expansão do volume extracelular e o aumento da pressão arterial em pacientes com IC, com ou sem DM2, contribuindo para redução da mortalidade cardiovascular e hospitalização por IC. A inibição do SGLT2 também está associada aos efei- tos benéficos no remodelamento cardíaco. No modelo de ratos não diabéticos com ICFEp, a empagliflozina reduziu a massa ventricular esquerda, melhorou a função diastólica e aumentou hematócrito.40 Já no modelo de camundongos com sobrecarga de pressão, a dapagliflozina melhorou a função sistólica e diminuiu a fibrose do miocárdio.41 Recentemente, o estudo EMPA-HEART (Effects of Empagliflozin on Cardiac Structure in Patients with Type 2 Diabetes) demonstrou que a administração de 10 mg empagliflozina por seis meses diminuiu a massa do ventrículo esquerdo de pacientes com DM2 e doença arterial coronariana. É importante ressaltar que a diminuição da massa foi mais acentuada em pacientes com maior grau de hipertrofia cardíaca no início do tratamento.42 Figura 2. Potenciais mecanismos dos inibidores de co-transportador de sódio-glicose do tipo 2 (SGLT2) na insuficiência cardíaca. Ang 1-7 - angiotensina 1-7; AT2 - receptores de angiotensina II do tipo 2; NHE - trocador de sódio-hidrogênio;TP - túbulo proximal; VE - ventrículo esquerdo. POTENCIAL USO DE INIBIDORES DE SGLT2 NO TRATAMENTO DE INSUFICIÊNCIA CARDÍACA PARA PACIENTES DIABÉTICOS E NÃO DIABÉTICOS Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):257-63 ↓ Volume extracelular ↓ Pressão arterial ↓ Rigidez arterial ↑ Ang 1-7 Ativação de AT2 Inibição do NHE3 ↓ reabsorção de sódio no TP ↓ Hipertrofia do VE ↓ Fibrose ↑ Formação de corpos cetônicos ↑ substrato energético Inibição do NHE1 no coração ↓ Sódio e cálcio intracelular ↑Autofagia das células cardíacas e renais 262 Em conjunto, esses dados sugerem que a inibição do SGLT2 pode reverter o remodelamento cardíaco associado à IC. Além dos efeitos descritos acima, alguns pesquisadores postularam a hipótese de que os inibidores de SGLT2 podem favorecer o suprimento energético na IC. A inibição do SGLT2 leva ao aumento de glucagon e à diminuição da concentração de insulina promovendo a produção de corpos cetônicos, que podem atuar como um substrato mais eficiente para a geração de energia.43 Em um estudo prospectivo com 25 pacientes com DM2 e doença cardiovascular, a análise metabolômica revelou que 162 metabólitos foram alterados pela empagliflo- zina. Em particular, os níveis de β-hidroxibutirilcarnitina foram aumentados, demonstrando o papel da empagliflozina na produção de corpos cetônicos.44 Esses achados sugerem que a mudança de substrato metabólico leva a um melhor uso de energia, potencialmente contribuindo para melhorar a eficiência cardíaca, contratilidade e proteção cardiovascular. Todavia, essa hipótese tem sido questionada haja vista que a ação dos inibidores de SGLT2 em promover cetogênese é principalmente uma característica da ação desses fármacos em pacientes com DM2, sendo esse efeito atenuado em pacientes não diabéticos.45 Portanto, outros mecanismos podem estar contribuindo para a redução dos eventos de IC. Um mecanismo emergente é a inibição direta do trocador de sódio-hidrogênio 1 (NHE1) no miocárdio. A atividade do NHE1 é acentuadamente aumentada na IC. Esse aumento leva ao acúmulo de sódio e cálcio no citosol, acarretando lesão miocítica e cardiomiopatia.46,47 Os benefícios da inibição do NHE1, como a redução de lesão, hipertrofia e fibrose cardíaca, diminuição de arritmias ventriculares e melhora da função sistólica e diastólica, foram demonstrados em diversos modelos experimentais.46 Uma vez que o SGLT2 não é expresso no coração, foi proposto que os inibidores de SGLT2 se ligam ao NHE1 através do sítio de ligação ao sódio.47 Recentemente, Baartscheer et al., demonstraram que a empagliflozina, ao inibir o NHE1, reduziu os níveis citoplasmáticos de sódio e cálcio dos cardiomiócitos ventriculares de ratos e coelhos.48 Resultados similares foram observados nos corações de ca-mundongos perfundidos com dapagliflozina e canagliflozina.49 Assim, postula-se que a inibição do NHE1 pode restaurar a homeostase do sódio no miocárdio e contribuir para os efeitos benéficos dos inibidores de SGLT2 na IC. Outro mecanismo proposto recentemente é que os inibidores de SGLT2 estimulam a autofagia - processo de degradação e reciclagem de componentes celulares para manutenção da homeostase. Estudos experimentais indicam que os inibidores de SGLT2 ativam a proteína quinase ativada por adenosina monofosfato (AMPK), a sirtuína 1 (SIRT1) e os fatores induzíveis por hipóxia (HIF-1α e HIF-2α).47 No miocárdio, a ativação desses componentes pode estimular a autofagia, contribuindo para a redução do estresse celular e da ativação do inflamassoma e, consequentemente, melhora da função cardíaca.47 Já no rim, evidências sugerem que a autofagia induzida pela a ativação de AMPK e SIRT1 está, em parte, associada à redução de lesão renal, retardando a progressão da nefropatia diabética.50 Portanto, ao promover a autofagia, os inibidores de SGLT2 potencialmente contribuem para a prevenção do desenvolvimento da IC. CONCLUSÃO Ensaios clínicos recentes demonstraram que os inibidores de SGLT2, além de diminuir a glicemia, reduzem os desfechos de IC em pacientes com DM2, independente da presença de IC basal. O estudo DAPA-HF também mostrou redução significativa de morte cardiovascular e hospitalização por IC de pacientes com ICFEr, com ou sem diabetes. Diversos potenciais mecanismos dos efeitos cardiovasculares benéfi- cos dos inibidores de SGLT2 foram discutidos nesta revisão. Coletivamente, essas informações sugerem fortemente o potencial uso dos inibidores de SGLT2 na prevenção e no tratamento da IC. AGRADECIMENTOS Este trabalho foi financiado pela Fundação de Am- paro à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), nº 2016/22140-7 (A.C.C.G). CONFLITOS DE INTERESSE Os autores declaram não possuir conflitos de interesse na realização deste trabalho. REFERÊNCIAS 1. Rohde LEP, Montera MW, Bocchi EA, Clausell NO, Albuquerque DC, Rassi S, et al. 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Departamento de Ciências do Movimento Humano. São Paulo, SP, Brasil. 3.Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Programas de Pós-graduação em Cardiologia e Interdisciplinar em saúde. São Paulo, SP, Brasil. 4. Faculdade de Ciências Médicas. Santa Casa de São Paulo. São Paulo, SP. Brasil. 5.Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Departamento de Fisioterapia e Reabilitação. PPG em Reabilitação Funcional. Santa Maria, RS, Brasil. 6. Serviço de Reabilitação do Hospital Sírio-Libanês. São Paulo, SP, Brasil. 7. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Departamento de Fisioterapia. Grupo de Pesquisa em Avaliação e Reabilitação cardiorrespiratória(GECARE). Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Correspondência: Valéria Papa. Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Rua Tenente Catão Roxo, 3900, Vila Monte Alegre, Ribeirão Preto, SP. Brasil. valpapa@uol.com.br REABILITAÇÃO CARDIOVASCULAR BASEADA EM EXERCÍCIO FÍSICO NA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA- FASE HOSPITALAR E AMBULATORIAL EXERCISE-BASED CARDIOVASCULAR REHABILITATION FOR HEART FAILURE PATIENTS - IN-HOSPITAL AND OUTPATIENT CARE RESUMO A reabilitação cardiovascular com ênfase nos exercícios físicos tem sido documentada em pacientes com insuficiência cardíaca, demonstrando diminuição da morbimortalidade cardiovascular, bem como redução da taxa de hospitalização e melhora na qualidade de vida. No mundo, o sedentarismo tem forte correlação com o aparecimento de doença cardiovascular e morte súbita. Por outro lado, a prática de exercício físico regular está associada a um melhor estilo de vida, redução da incidência de doenças cardiovasculares, resultando em menor mortalidade. O objetivo do presente estudo foi abordar as diferentes fases da reabilitação cardiovascular baseada em exercício físico, incluindo treinamento da musculatura inspiratória e suas particularidades na insuficiência cardíaca. Descritores: Exercício, Insuficiência Cardíaca, Reabilitação Cardíaca ABSTRACT Cardiovascular rehabilitation with an emphasis on physical exercises has been documented in patients with heart failure, demonstrating a decrease in cardiovascular morbidity and mortality, as well as a reduction in the hospitalization rate and better quality of life. In the world, a sedentary lifestyle has a strong correlation with the appearance of cardiovascular disease and sudden death. On the other hand, the regular practice of physical exercise is associated with a better lifestyle, reducing the incidence of cardiovascular diseases, resulting in lowermortality. The objective of the present study is to address the different phases of cardiovascular rehabilitation based on physical exercise, including inspiratory muscle training and its particularities in heart failure. Keywords: Exercises, Heart Failure, Cardiovascular Rehabilitation INTRODUÇÃO A reabilitação cardiovascular (RCV) com ênfase nos exercícios físicos têm sido consis- tentemente documentada, inclusive em meta-análises de estudos clínicos randomizados e controlados, que demonstram significativas reduções da morbimortalidade cardiovascular e global,1 bem como da taxa de hospitalização,1-3 com expressivo ganho de qualidade de vida,1,3 principalmente em pacientes com insuficiência cardíaca (IC). No mundo, o sedentarismo tem forte correlação com o aparecimento de doença cardiovascular e morte súbita. Por outro lado, a prática de exercício físico regular está associada a um melhor estilo de vida, redução da incidência de doenças cardiovasculares, impactando em menor mortalidade.1,2 Estima-se que o risco de complicações cardíacas, como infarto, parada cardíaca ou morte durante a pratica de exercício físico, seja de um evento por cada 60.000-80.000 horas de exercício, mostrando-se portanto segura.4 Nesse cenário, o exercício físico tem sido considerado o principal componente da RCV. Os programas de RCV são tradicionalmente divididos em três fases temporais: fase I, fase II e fase III.5 A fase I, ou fase intra-hospitalar, são as atividades de reabilitação durante o período de internação na unidade de terapia intensiva e estendendo-se à enfermaria até a alta hospitalar. O direcionamento às fases ambulatoriais da RCV deve ser realizado na alta hospitalar. A fase II inicia com o paciente imediatamente após o período de hospitalização e tem duração média de três meses. A fase III geralmente tem duração de três a seis meses e a fase IV tem duração prolongada, ambas se destinam a programas de exercício físicos Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):264-72http://dx.doi.org/10.29381/0103-8559/20203002264-72 Acesse o Podcast mailto:sguizilini@unifesp.br https://socesp.org.br/web-socesp/podcast-socesp/artigos-suplemento-insuficiencia-cardiaca/reabilitacao-cardiovascular-baseada-em-exercicio-fase-hospitalar-e-ambulatorial/ 265 REABILITAÇÃO CARDIOVASCULAR BASEADA EM EXERCÍCIO FÍSICO NA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA- FASE HOSPITALAR E AMBULATORIAL ambulatorial com supervisão continuada, por profissional especializado (fisioterapeuta e/ou educador físico).5 Atende imediatamente os pacientes liberados da fase II, mas pode ser iniciada em qualquer etapa da evolução da doença, não sendo obrigatoriamente sequência das fases anteriores. Este artigo tem como objetivo abordar as diferentes fases da RCV baseada em exercício físico e suas particularidades em pacientes com insuficiência cardíaca (IC). FASE I / INTRA-HOSPITALAR A fase I, ou fase intra-hospitalar, compreende um pro- grama de intervenção que inclui o exercício físico, e deve ser iniciada imediatamente após o paciente ter sido considerado clinicamente compensado, como decorrência do tratamento clínico e/ou intervencionista.5 Nesta fase objetiva-se: reduzir os efeitos deletérios do repouso no leito, melhorar as condi- ções físicas e psicológicas, orientação quanto a necessidade de mudança de estilo de vida saudável e prática de exercício físico, restaurando capacidade funcional com consequente redução na mortalidade hospitalar. Recente Diretriz Brasileira de Reabilitação Cardiovascular5 propõe-se que a equipe de atendimento deve ser composta por, pelo menos, médico, fisioterapeuta e enfermeiro, capacitados para atuar em RCV. Insuficiência cardíaca: particularidades na prescrição do exercício físico Pacientes com insuficiência cardíaca (IC) apresentam dispneia e fadiga como principais manifestações clínicas da doença, o que gera substancial intolerância ao exercício físico e prejuízos na capacidade funcional. Além do com- prometimento cardiovascular, esta síndrome clínica envolve também os sistemas neuro-hormonal, musculoesquelético e imunológico.6 Diversos fatores estão envolvidos nesta fisio- patologia, dentre eles: hipoperfusão periférica, redistribuição do fluxo sanguíneo, acentuada resposta vasoconstritora, desequilíbrio simpato-vagal, estresse oxidativo, aporte nutri- cional deficitário, estado inflamatório persistente, excessivo recrutamento ventilatório e disfunção muscular periférica.7,8 Apesar de o exercício físico ser amplamente estabelecido e recomendado para pacientes com IC,9 na prática clínica a implementação da reabilitação cardiovascular baseada em exercícios durante a internação hospitalar, torna-se um desafio, principalmente para aqueles pacientes em que o surgimento de dispneia e fadiga muscular precoce se tornam as principais barreiras para a prática do mesmo. Na literatura, sabe-se que o imobilismo prolongado no leito está associado à fraqueza e atrofia muscular, o que afeta em longo prazo a capacidade funcional, qualidade de vida e sobrevivência do indivíduo hospitalizado. O imobilismo pode intensificar os prejuízos a fisiopatologia da IC, potencializando a liberação de marcadores inflamatórios, aumentando a degradação de proteínas (fibras musculares) o que implica em piora do status funcional do paciente. O exercício físico estabelecido precocemente é clinicamente relevante du- rante a hospitalização, neutraliza os efeitos da imobilidade, com melhora do status funcional após alta. Dessa forma esforços devem ser realizados na busca de estratégias que possibilitem que o indivíduo realize o exercício físico ainda na fase hospitalar.10 Evidências atuais demonstram que a RCV baseada em exercícios intra-hospitalar deve ser iniciada 12 a 24 horas em pacientes com doença cardiovascular, desde que o paciente esteja estável do ponto de vista hemodinâmico e elétrico.11 O atraso de uma semana no início do programa de RCV exige um mês adicional de treinamento para alcançar os mesmos resultados.12 Dessa forma, é importante diminuir as barreiras de acesso ao início da mobilização precoce e início seguro da RCV fase I (intra-hospitalar). Segundo as recomendações do American College of Sports Medicine,13 a prescrição de exercício na reabilitação cardiovascular fase I deve ser individualizada, independente do paciente com IC ser clinico ou cirúrgico, devendo ser monitorizado com relação sinais vitais e intolerância ao exercício.14-17 (Tabela 1) O programa de exercício físico supervisionado realizado durante a fase de internação deve ser imediatamente inter- rompido na presença de sinais de intolerância ao exercício, baixo débito cardíaco (cianose, palidez, náuseas), bradicardia, uma queda na pressão arterial sistólica> 15 mmHg, em com- paração à linha de base, um aumento excessivo na pressão arterial sistólica definida como> 200 mmHg, aumento da pressão arterial diastólica durante o exercício> 110 mmHg), dor no peito, fadiga nominal ≥ 6/10 na percepção do esforço percebido de Borg, e / ou sinais eletrocardiográficos de isquemia cardíaca ou arritmias ventriculares.11,16,17 Apesar de fortes evidências para RCV baseada em exer- cício físico em pacientes com IC avançada, a maioria das pesquisas até hoje se concentrou em modelos de reabilitação ambulatorial.1,18 A literatura disponível permanece limitada, pouco foi investigado sobre a RCV baseada em exercício de pacientes hospitalizados na fase aguda. Arena et al.,19 reali- zaram um dos primeiros estudos envolvendo RCV baseado em exercício em pacientes com IC hospitalizado a espera de transplante cardíaco utilizando suporte inotrópico positivo; demonstraram em um estudo de caso que o exercício físico foi seguro e efetivo no pré-operatório de transplante cardíaco. Tabela 1. Prescrição de exercício físico na fase hospitalar do programa de RCV para pacientes com insuficiência cardíaca. Programa de Exercícios : Exercícios globais: caminhada, subir escadas, bicicletaestacionária. Incremento progressivo. Duração: Tempo total: 20 minutos Forma intermitente: 3 a 5 min de exercício e 1 a 2 min de descanso Monitorização: PA, FC, IPE, ECG, SatO2 Frequência: 2 x ao dia Gasto energético 2 Mets inicial/progressivo atingir 3 a 4 Mets IPE/Borg Manter entre 4 e 5 (escala de 0-10) Intensidade moderada (Devido a utilização de betabloqueadores que interferem na FC, recomenda-se que a intensidade seja monitorado usando o IPE) IPE: Índice de percepção de esforço de Borg; Mets: Equivalentes metabólicos; PA: Pressão arterial; FC: Frequência cardíaca; ECG: eletrocardiograma; RCV: Reabilitação cardiovascular; SatO2:Saturação de Oxigênio. Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):264-72 266 Além disso, outro estudo de caso constatou que exercício físi- co foi realizado com segurança em um paciente hospitalizado com IC avançada, em terapia inotrópica contínua, levando a uma melhora clinicamente significante da capacidade funcional e da resposta cardiorrespiratória.20 Forestieri et al.,17 demonstraram em um estudo piloto, que o treinamento físico em bicicleta ergométrica estacionária apresentou resultados positivos na capacidade de exercício e na força muscular inspiratória em pacientes que aguardavam o transplante cardíaco em uso de suporte inotrópico intravenoso. Respostas sistêmicas aos programas de exercício físico na fase hospitalar Os estudos existentes na literatura mostrando os efeitos benéficos de um programa de exercícios precoce por curto período na fase hospitalar como citado anteriormente, gene- raliza os efeitos encontrados nos pacientes sem diferenciar a condição cardíaca basal, ou seja, função de ventrículo esquerdo (VE). Evidências apontam que a disfunção ven- tricular esquerda (DVE) e a capacidade funcional reduzida influenciam as respostas de pacientes submetidos a progra- mas de reabilitação. Polcaro et al.,21 avaliaram 459 pacientes alocados em categorias, fração de ejeção ventricular esquerda (FEVE)>40% e FEVE<40% que foram submetidos após CRM a um programa de reabilitação cardiovascular ambulatorial. Demonstraram que quanto maior a DVE melhor e mais apa- rente são as respostas após um programa de exercícios. Outro estudo prévio,22 na fase ambulatorial objetivando avaliar capacidade funcional máxima, relatou que os pacientes com FEVE preservada melhoram espontaneamente de um a três meses após o evento, enquanto pacientes com função ventri- cular deprimida são mais susceptíveis a respostas favoráveis a programas de reabilitação cardiovascular. Desta forma, a redução da função ventricular não deve ser considerada como risco ou contraindicação absoluta para o início de um programa de exercícios supervisionados, mas sim como uma forte indicação para este tipo de tratamento para evitar a piora do descondicionamento e disfunção muscular. Nesse contexto, em estudo recente Mendes et al.,15 avaliaram as adaptações autonômicas cardíacas em pacientes com FEVE normal e reduzida, após um programa de reabilitação por curto período na fase hospitalar em pacientes submetidos a cirurgia de revascularização miocárdica. Concluíram que após um programa de reabilitação de cinco dias os pacientes com FEVE reduzida experimentaram benefícios mais acentuados comparados aos pacientes com FEVE normal. Avaliação da Capacidade funcional intra-hospitalar A avaliação da capacidade funcional dos pacientes cardiopatas é de extrema importância para determinar a tolerância ao esforço físico, orientar a prescrição de exercício, avaliar a necessidade e a resposta aos determinados tipos de intervenções terapêuticas, por exemplo, um programa de RCV. O padrão-ouro para avaliação da capacidade funcional é o teste cardiopulmonar, considerado um teste máximo, que avalia variáveis metabólicas como o consumo de oxigênio (VO2). Todavia, sua execução depende de equipamentos sofisticados e de equipe especializada, além de ser um teste caro. Na tentativa de contornar essas dificuldades, o teste da caminhada dos seis minutos (TC6’), considerado um teste submáximo, pode ser empregado como estratégia alternativa para avaliação da capacidade funcional, mostrando-se de fácil execução, baixo custo, seguro e bem tolerado pelos pacientes hospitalizados. Atualmente, é amplamente utilizado em pacientes com IC. A principal variável, portanto, obtida no teste é a distancia percorrida no TC6’(DTC6’).23 Alguns estudos comprovam que a DTC6’ apresenta corre- lação moderada com o VO2 pico para avaliar a tolerância aos esforços.24 O TC6’ é um instrumento de avaliação capaz de predizer melhora clínica associada a diferentes intervenções, além de ser associado a desfechos clínicos e prognósticos de morbimortalidade. Em uma revisão sistemática, foi determinado para a população com IC, a mínima diferença clinicamente significante considerada após intervenções é de 45 metros.25 Além disso, diversos estudos demonstraram que uma DTC6’ menor que 300 metros esta associada a forte marcador de mal prognóstico em pacientes com IC, com maiores taxas de hospitalização e mortalidade ao longo do tempo.24 Recente- mente, o STICH Tria l26 demonstrou que indivíduos com IC e disfunção ventricular esquerda no pré-operatório de cirurgia de revascularização do miocárdio que atingiram uma DTC6’ menor que 300 metros evoluíram com maior mortalidade em longo prazo quando comparados àqueles com capacidade funcional preservada. Além disso, Rocco et al.,27 avaliaram a capacidade da cinética do VO2 durante o TC6’ utilizando um dispositivo de espirometria e análise de gases portátil por telemetria, no pré-operatório de cirurgia de revascularização miocárdica incluindo pacientes com DVE. Os autores observa- ram que a avaliação da cinética do VO2 durante o TC6’ foi um preditor de resultados clínicos em curto prazo após a cirurgia de revascularização miocárdica sem circulação extracorpórea. Estes achados da literatura sugerem a avaliação da capacidade de exercício como importante fator na estratificação de risco perioperatório. Estes achados da literatura sugerem que a avaliação da capacidade de exercício como importante fator na estratificação de risco perioperatório. A DTC6’ sofre influência de diferentes fatores, incluindo: idade, altura, peso, sexo, cognição, humor, comorbidades associadas, uso de oxigênio suplementar, nível de incentivo. Dessa forma, foram desenvolvidas equações de referência adaptadas a fatores principalmente antropométricos em diferentes regiões populacionais, o que possibilita comparar o desempenho obtido no teste com o esperado para o individuo nas mesmas condições. O TC6’ isoladamente não é capaz fornecer informações precisas sobre as causas de limitação do exercício. No entanto, estudos têm identificado outras variáveis que possam, de maneira mais sensível, identificar a capacidade de esforço submáximo. O produto do peso pela DTC6’ (D.P) foi inicialmente descrito para pacientes com doença pulmonar e parece apresentar maior associação com variáveis ergoespirométricas.6 Estudo anterior,27 identificou que a cinética do VO2 no TC6’ pode ser predita pelo D.P quando avaliada no pré-operatório de cirurgia de revascularização miocárdica incluindo pacientes com DVE. VMNI pode aumentar a tolerância ao exercício e perfusão tecidual em pacientes com IC hospitalizados? Durante o esforço físico, ocorre recrutamento ventilatório e, portanto o fluxo sanguíneo aumenta para a musculatura respiratória. Uma vez que os pacientes com IC (principalmente com disfunção do ventrículo esquerdo) apresentam baixa Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):264-72 267 REABILITAÇÃO CARDIOVASCULAR BASEADA EM EXERCÍCIO FÍSICO NA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA- FASE HOSPITALAR E AMBULATORIAL possibilidade de incremento de débito cardíaco, acontece a redistribuição do fluxo sanguíneo da musculatura periférica para a musculatura respiratória.8 Com isso, há hipoperfusão periférica e acúmulo de metabólitos,com aparecimento preco- ce da fadiga muscular. Diante deste panorama, estudos apon- tam que o uso da ventilação mecânica não invasiva (VMNI) pode melhorar a tolerância ao exercício durante a prática de exercício físico, e pode ser uma alternativa complementar viável para o indivíduo com IC durante hospitalização.28,29 A VMNI pode auxiliar na melhora da tolerância ao exercício por diferentes vias: 1) por propiciar efeitos hemodinâmicos; 2) por propiciar efeitos respiratórios. Quanto aos efeitos hemodinâmicos, a VMNI tem a capacidade de diminuir a pré-carga cardíaca, diminuir a pós-carga de VE por meio da diminuição da resistência vascular sistêmica e, portan- to, melhorar o desempenho do VE, por meio do aumento da pressão intratorácica que diminui a pressão transmural de VE, diminuindo o raio do coração de acordo com a lei de Laplace e aumentando sua força sistólica.28,30 Khayat et al.,28 em estudo randomizado sugere que a aplicação VMNI com dois níveis pressóricos é superior ao CPAP (um nível pressórico) em melhorar a FEVE em paciente com IC e DVE. A VMNI por melhorar o desempenho cardíaco pode ser capaz de influenciar a perfusão tecidual em pacientes com IC e disfunção ventricular esquerda após cirurgia de revas- cularização miocárdica. Marcondes et al,.31 desmontaram que a aplicação aguda da VMNI (dois níveis pressóricos) melhorou a saturação venosa de oxigênio e diminuiu lactato arterial em indivíduos com disfunção ventricular esquerda no pós-operatório precoce de cirurgia cardíaca. Quanto aos efeitos respiratórios, a VMNI (binível) diminui o esforço inspi- ratório, e evita uma resposta exagerada da ventilação minuto do paciente com IC, e, portanto, ao diminuir o recrutamento ventilatório, possibilita maior aporte de fluxo sanguíneo para a musculatura periférica.8 Estudos atuais demonstram, portanto, que a somatória dos efeitos hemodinâmicos e respiratórios do uso da VMNI em pacientes com IC hospitalizados levam a melhora de desfechos clínicos: redução dos índices de dispneia com melhora da tolerância ao exercício, melhora no desempenho do TC6’, e menor tempo de internação hospitalar.29,32 Dessa forma, a VMNI deve ser considerada uma ferramen- ta coadjuvante nos programas de reabilitação baseada em exercícios durante a fase intra-hospitalar de pacientes com IC, especialmente para aqueles que apresentam dificuldade para realizar exercício por apresentar sinais clínicos de dispneia e fadiga de membros inferiores. Os principais mecanismos envolvidos no aumento da tolerância ao exercício são cau- sados pela diminuição do esforço inspiratório, somados a melhora do inotropismo e da perfusão tecidual.31 Insuficiência cardíaca e eletroestimulação muscular periférica Convencionalmente o exercício aeróbio, em modalidades contínuas ou intervaladas, é considerado o padrão ouro de treinamento para indivíduos com IC. Entretanto, não é raro que pacientes com IC estejam limitados, tanto por dispneia, quando por fadiga de membros inferiores, e por isso ficam incapazes de realizar modalidade de exercício ativo. Portanto, se tornou necessária a busca de novos recursos que não envolvessem esforço muscular. Neste contexto, a eletroes- timulação muscular periférica (EMP) tem sido usada como uma modalidade alternativa de exercício em pacientes com IC.33 Revisões sistemáticas já extensivamente investigaram e demonstram os efeitos benéficos da EMP em pacientes com IC crônica (avançada), na fase ambulatorial, entre eles: melhora na força muscular de membros inferiores, aumento do VO2 e da distância percorrida no TC6 com melhora qua- lidade de vida.34,35 Dentro do contexto intra-hospitalar, os pacientes se en- contram ainda mais frágeis e debilitados pela IC agudizada ou descompensada, a literatura já é capaz de demonstrar os benefícios da EMP.10 Groehs et al.,36 investigaram os efeitos da EMP em pa- cientes com IC ainda instáveis, momento em que o exercício físico seria contra-indicado e observaram que a EMP me- lhorou a atividade neural simpática muscular, a tolerância ao exercício, força muscular e a qualidade de vida. Forestiei et al.,37 demonstraram que a EPM, realizada em musculatura de quadríceps femoral e gastrocnêmio, melhorou a tolerância ao exercício e reduziu a necessidade do uso de suporte inotrópico em pacientes com IC avançada admitidos por descompensação clínica. Contudo a EMP pode ser uma alternativa viável segura de exercício ativo para pacientes com IC, que apresentam intolerância ao exercício físico con- vencional durante a hospitalização. Treinamento muscular inspiratório em pacientes com IC candidatos à CC O ato cirúrgico em pacientes com doenças cardiovas- culares promove o prejuízo do sistema respiratório. Dentre os efeitos deletérios oriundos da cirurgia cardíaca (CC), observa-se a redução dos volumes e capacidades pulmo- nares, a diminuição da complacência pulmonar e da força muscular ventilatória. Dessa forma, estratégias terapêuticas não farmacológicas são utilizadas no período perioperatório de pacientes que realizam CC. Recomenda-se o treinamento muscular inspiratório (TMI) em pacientes submetidos à CC, tanto no período pré-operatório quanto no pós-operatório, devido aos seus benefícios sobre a função ventilatória e a melhora em desfechos clínicos.38-42 TMI no pré-operatório de CC: No pré-operatório de CC, deve-se utilizar, preferencialmente, cargas entre 30% e 60% da pressão inspiratória máxima (PImáx), de 15 a 30 minutos diários e carga ajustada pelo terapeuta semanalmente. O protocolo de TMI, nesta fase, deve ser iniciado pelo menos duas semanas prévias à CC. Dessa forma, estudos demons- traram que o TMI foi capaz de melhorar a capacidade vital forçada (CVF), aumentar o pico de fluxo expiratório (PFE) e a força muscular inspiratória, com consequente redução das complicações pulmonares e do tempo de internação hospitalar.38-41 TMI no pós-operatório de CC: Alguns estudos demonstra- ram que, o TMI no pós-operatório de pacientes submetidos à CC, no período intra-hospitalar, promoveu o aumento da CVF, do PFE e a da força muscular inspiratória. Entretanto, os protocolos utilizados, nesta fase, foram desenvolvidos de forma heterogênea, o que não permite definir, até o momento, um protocolo ideal a ser prescrito para esses pacientes.41,42 Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):264-72 268 FISIOTERAPIA CARDIOVASCULAR AMBULATORIAL PARA PACIENTES COM IC CRÔNICA A fisioterapia cardiovascular na fase ambulatorial para pacientes com insuficiência cardíaca (IC) crônica é conhecida como a fase de recuperação e manutenção.43 A abordagem ambulatorial pode ser dividida em fases II e III e tem por objetivos estabelecer estratégias preventiva e curativa por meio da aplicação de programas de exercícios físicos para melhora da capacidade funcional, autonomia da participação social dos pacientes e melhora da qualidade de vida.44 Essa dicotomia entre fase II e III é baseada nas características clínicas atuais e na limitação funcional dos pacientes, o que em certa medida, pode demandar uma supervisão mais criteriosa para os pacientes fase II. A alta morbimortalidade e persistente intolerância ao esforço físico que ocorre nos pacientes com IC crôni- ca, ainda que tenham terapia farmacológica otimizada, sempre levanta a necessidade de se buscar outras estratégias para o tratamento, como o treinamento físi- co.45 A redução do nível de atividade física secundária a progressão da IC, leva ao descondicionamento físico, que contribui para aumentar ainda mais os sintomas e a intolerância ao esforço, reduzindo a capacidade funcional e produzindo efeitos psicológicos negativos. O treinamento físico produz benefícios já documentados na capacidade funcional máxima e submáxima, na qualidade de vida, na miopatia esquelética periférica e respiratória, no balanço autonômico, no perfil humoral e redução de re-hospitalizações (Diretriz). Revisões sistemáticas sugerem que otreinamento físico é seguro, com efeitos positivos na sobrevida e raros efeitos adversos rela- cionados ao exercício44 com recomendação I - A para pacientes com IC para melhorar capacidade funcional e sintomas e redução do risco de hospitalização.44,45 Avaliação Fisioterapêutica na Fase Ambulatorial Para que um programa de fisioterapia cardiovascular seja bem sucedido e seguro, o fisioterapeuta deve estabe- lecer uma criteriosa e ordenada avaliação multidimensional do paciente que leva em consideração a patologia, fatores de risco, sinais, sintomas, capacidade funcional, exames complementares, estratificação de risco do paciente, estado funcional (nível com o qual o paciente desempenha atividades de vida diária). O Quadro 1 apresenta os domínios que devem ser considerados para avaliação fisioterapêutica. Na sequência, algumas avaliações mais especificas devem ser consideradas para checar o grau da limitação funcional dos pacientes e para servir de subsídio para a prescrição do exercício físico respeitando os princípios da individualidade biológica, especificidade, sobrecarga e regularidade. 1. Avaliação da força muscular inspiratória – pacientes com IC crônica podem apresentar fraqueza e/ou baixa resistência muscular inspiratória. Para avaliação da forca muscular respiratória, os pacientes podem ser submetidos a manovacuometria ou avaliação do índice de força dinâmi- co (S-index) a partir da manobra de Muller. A avaliação da resistência muscular ventilatória pode ser realizada por meio dos protocolos de resistências.47 2. Avaliação da força muscular periférica – a fraqueza mus- cular dos músculos periféricos é comum nos pacientes com IC crônica. Neste sentido, a avaliação dos grandes grupos musculares deve ser considerada, podendo ser realizada por meio do teste de 1 repetição máxima observando as orientações adequadas de aplicação e com monitorização dos sinais vitais. Adicionalmente, a realização do teste de preensão palmar também está indicada, uma vez que já é conhecida a relação dos seus resultados com a fraqueza muscular global.48 Por fim, se for o caso, os pacientes podem ser avaliados em protocolos de força de dinamometria isocinética. Importante destacar que os parâmetros obtidos com a avalição podem ser considerados para a prescrição do treino resistido. Quadro 1. IMC: Índice de massa corpórea; AVD: atividades de vida diária; WHOQOL100: World health organization instrument to evaluate quality of life; WHOQOL-bref: instrumento abreviado do WHOQOL100. Avaliação Fisioterapêutica – Fase Ambulatorial Anamnese -Avaliar o encaminhamento médico, queixa principal, história clínica pregressa e da doença atual, histórico dos sintomas/sinais atuais, presença de doenças coexistentes e associadas, histórico de hospitalização ou cirurgias, problemas ortopédicos, presença de sinais de comprometimento neurológico, hábitos de vida (alimentação, atividade física, tabagismo, etilismo, sono, uso de anticoncepcionais, drogas etc.), presença e nível de estresse e histórico familiar (principalmente de doenças cardiovasculares), exames complementares. Exame físico - Avaliação dos sinais vitais - temperatura corporal, pressão arterial (sistólica, média e diastólica) e frequência cardíaca (em supino, sentado e em pé), regularidade do pulso, frequências e padrão respiratório). - Antropometria - massa corporal, estatura, índice de massa corpórea (IMC), cálculo da composição corporal (massa gorda e magra). - Perimetria: trofismo e edema nos membros - Ausculta: cardíaca e pulmonar - Inspeção e palpação – observar detalhes de locomoção, detalhes de simetrias, trofismo, cor e textura da pele, higiene, presença de hematomas. Flexibilidade - Avaliação estática e dinâmica da amplitude de movimento – goniometria, flexiometro, flexiteste46 Marcha e equilíbrio - Podendo ser avaliada por meio de instrumentos de avaliação do equilíbrio e marcha – Escala de equilíbrio de Berg, teste time up and go Avaliação funcional - Avaliar as habilidades para executar atividades de vida diária (AVD). Qualidade de vida - Avaliar por instrumentos já validados como o SF-36 (Medical Outcome Survey Short Form 36) e o WHOQOL100 e o WHOQOL-bref. Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):264-72 269 REABILITAÇÃO CARDIOVASCULAR BASEADA EM EXERCÍCIO FÍSICO NA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA- FASE HOSPITALAR E AMBULATORIAL 3. Avaliação da capacidade funcional – a avaliação da capa- cidade funcional é fundamental na fisioterapia cardiovascular dos pacientes com IC crônica porque permite conhecer a limitação funcional e correlacioná-la a gravidade da doença e, essencialmente, para a prescrição do exercício aeróbio. Nessa perspectiva, se o fisioterapeuta tiver acesso ao teste cardiopulmonar, os parâmetros que refletem principalmente a capacidade aeróbia (limiar de anaerobiose ou primeiro limiar ventilatório) pode ser reveladores da limitação funcional e úteis para a prescrição de exercício.49 Por outro lado, na ausência do teste, desde que devidamente monitorizado e seguro, o fisioterapeuta pode avaliar a capacidade funcional dos pa- cientes pela aplicação do teste de caminha de seis minutos. Adicionalmente, certo da segurança, outros testes de campo podem ser considerados (teste de degrau, teste de escada...). Prescrição de exercício físico na Fase Ambulatorial da Reabilitação Cardiovascular Não existe uma prescrição de exercício única, a prescrição deve ser individualizada levando em conta a capacidade física, características individuais e preferências. O treina- mento aeróbico contínuo moderado já é bem estabelecido como modalidade de treinamento eficaz e segura, como demonstrado no estudo HF-ACTION, que observou redu- ção moderada dos sintomas, melhora da capacidade de exercício e redução de readmissões hospitalares por IC.44 Uma abordagem baseada no treinamento físico combinado (aeróbico e resistido) mostra efeitos adicionais, com melhora do VO2 pico em comparação com o treinamento aeróbico isolado. Além de ser uma modalidade eficiente, é seguro e bem tolerado em pacientes com IC. (Quadro 2). Pacientes com IC frequentemente apresentam fraqueza da musculatura ventilatória, representada pela redução da força e/ou da resistência, o que promove a redução da capacidade funcional e pior prognóstico (VO2pico).50,51 Dessa forma, adicionalmente ao exercício aeróbio e ao exercício resistido, o treinamento muscular inspiratório (TMI) deve ser incluído no protocolo de RC em pacientes com IC. O TMI é uma modalidade de exercício que promove o aumento da força e da resistência dos músculos ventilató- rios, reduz o a exacerbação do metaborreflexo muscular diafragmático, assim como aumenta a capacidade funcional desses pacientes.52,53 Toda a mudança morfofuncional que pode ser creditada ao TMI tem impacto positivo sobre as características primordiais da fisiopatologia da IC, onde há o acometimento cardíaco, musculoesquelético e pulmonar, em um ciclo vicioso, que interfere na qualidade de vida e nas atividades de vida diária onde a dispneia e fadiga crônica são os sintomas mais citados e limitantes para os pacientes.52,54,55 O TMI pode ser realizado no ambulatório com resistores lineares e sessões de treino sendo supervisionadas pelo fisio- terapeuta com resultados positivos entre seis a 12 semanas de uso da técnica.53 Em ambiente domiciliar os pacientes podem realizar o treino orientados a distância com o apoio da telereabilitação. Sua utilização ainda segue sendo estudada para observação das formas de se prescrever a atividade e realizar o incremento de carga, ou ainda, questões como a frequência de treino semanal e a adesão dos pacientes. Com isso, essa forma de treino, muitas vezes, segue sendo reservada a pacientes estáveis e com um bom entendimento de sua doença, limitações e consciência corporal.56 Quando o TMI é combinado a uma outra atividade indicada para a rotina de reabilitação, tal qual o exercício aeróbio ou combinado, háevidência de maior incremento na força muscular respiratória e na qualidade de vida dos pacientes acompanhados.53,54 A IC é uma doença limitante por si só e pode ainda adicionar níveis de incapacidade em pacientes que tenham caracteri- zada a fragilidade. Nesses casos, a prescrição do TMI pode ser ainda mais relevante já que essa associação de doenças está diretamente relacionada à mortalidade.4 Quadro 2. Prescrição de exercício físico na fase ambulatorial para pacientes com IC crônica. Tipo de exercício Recomendações Aeróbico - 3 a 5 dias por semana; - Com TCEP: zona entre os limiares ventilatórios (geralmente ao redor do limiar anaeróbico); ou 60 a 80% da FC pico ou 50 a 70% da FC reserva do Teste ergométrico; sem teste ou presença de fibrilação atrial, usar IPE de Borg de 11 a 14 na escala original de 6 a 20; - Pode-se começar com poucos minutos, aumentar progressivamente até 30 minutos por dia, tentando chegar a 60 minutos por dia; - Pode-se utilizar ergômetro de braço, bicicletas estacionárias, esteira ergométrica, caminhada ao livre. Resistido - 1 a 2 dias por semana (não consecutivos); - De 40 a 60% de 1 RM, incialmente com % menor e ir subindo gradualmente conforme paciente tolerar; - 1 a 3 séries, 8 a 15 repetições em cada série, 8 a 10 tipos diferentes de exercícios com foco nos grandes grupos musculares; - Escolher equipamentos seguros e confortáveis para cada pacientes, podendo ser halteres, caneleiras, bandas elásticas, máquinas de musculação. Treinamento Muscular inspiratório - Diariamente; - 30% da pressão inspiratória máxima; - 30 minutos de sessão com exercício contínuo ou em séries com repetições que variam de 10 a 30; - A carga deve ser avaliada semanalmente para incremento ou manutenção de em média, 30% da pressão inspiratória máxima para o treino; Flexibilidade - 2 a 3 dias por semana, diariamente é o ideal; - Alongamento até o ponto de estiramento muscular ou leve desconforto; - Manter de 10 a 30 segundos para alongamento estático, 2 a 4 repetições cada exercício; - Alongamentos estáticos e dinâmicos com foco nas principais articulações dos membros e tronco. Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):264-72 270 Cabe destacar que as sessões de fisioterapia cardiovas- cular devem ser monitorizadas pela resposta sistematizada da pressão arterial sistêmica, frequência cardíaca, escala de percepção de esforço (Escalas de Borg), observação dos sinais e sintomas e atenção aos critérios de interrupção.5 O Quadro 2 sintetiza os domínios da prescrição de exercício para pacientes com IC crônica. Treinamento intervalado de alta intensidade Recentemente, tem aumentado a aplicação de exercícios aeróbicos de alta intensidade realizados de modo intervalado (HIIT – high intensity interval training), que alterna períodos mais intensos com momentos de recuperação passiva ou ativa, o que possibilita maior duração total de exercícios na alta intensidade e, consequentemente, pode produzir maior estímulo para adaptações fisiológicas centrais e periféricas. Existem vários protocolos descritos, que podem ser usados dependendo da tolerância e capacidade física do paciente. Em indivíduos selecionados, o HIIT pode ser uma modali- dade a ser considerada com intensidade de treinamento de até 90% da FCR.44 Ellingsen et al.,57 demonstraram que 12 semanas de HIIT não foi superior ao treinamento aeróbico moderado contínuo em relação ao remodelamento reverso do ventrículo esquerdo ou melhora de endpoints secundários na IC crônica com FEVE reduzida. Considerando que a adesão à intensidade de exercício prescrita com base na frequência cardíaca pode ser difícil de alcançar, o treinamento contínuo moderado continua sendo a modalidade de exercício padrão para pacientes com IC crônica. Aplicação da ventilação não invasiva concomitante ao exercício físico O uso da VMNI tem sua eficácia comprovada em diversas situações que cursam com insuficiência respiratória aguda, em especial como conduta de escolha para o manejo de pacientes com edema agudo de pulmão. A pressão positiva diminui o shunt pulmonar através da expansão de alvéolos colapsados, consequentemente melhorando a troca gasosa e a oxigenação dos tecidos. A VMNI também diminui a pressão transmural do ventrículo esquerdo, a pós-carga e consequentemente melhora o débito cardíaco.8,58 Além disso, a aplicação da VMNI com um nível pressórico contínuo melhora a capacidade residual funcional e a complacência pulmonar, gerando um menor trabalho ventilatório, o que pode representar um efeito importante para esses pacientes que apresentam fadiga muscular ventilatória no exercício físico.8,58 Neste contexto, há evidências sólidas da aplicação desse recurso terapêutico para melhora do desempenho e tolerância ao exercício físico de paciente com IC crônica.8,59 O conhecimento da eficácia da aplicação da VMNI como recurso terapêutico coadjuvante na prescrição de exercício físico para pacientes com IC crônica tem especial impor- tância para a área da fisioterapia cardiovascular. Uma vez que esses pacientes apresentam redução na tolerância ao exercício físico pincipalmente por uma alteração na musculatura periférica, alvo da intervenção fisioterapêutica. Neste sentido, desde que criteriosamente avaliado, reco- mendado e monitorizado, os pacientes podem se beneficiar da concomitância da VMNI e exercício físico no processo de reabilitação cardiovascular prescrito pelo fisioterapeuta. Fragilidade do Paciente com IC crônica A fragilidade é comum em idosos com IC crônica, e pode estar presente em mais de 70% dos pacientes com mais de 80 anos de idade.58 Embora exista um consenso incompleto sobre sua definição específica, fragilidade é marcada por excesso de vulnerabilidade a estressores, com capacidade reduzida de manter ou recuperar a ho- meostase após um evento desestabilizador. Manifesta-se por lentidão, fraqueza, percepção de exaustão, níveis mais baixos de atividade e involuntária perda de peso. A fragilidade contribui para piores desfechos clínicos, que podem ser melhorados por programas de manejo da doença. Tradicionalmente, as diretrizes de treinamento para pacientes com IC recomendam exercícios aeróbi- cos de grande massa muscular (caminhada e ciclismo) e o treinamento muscular localizado pode ser um tipo importante de treinamento para melhorar o transporte de O2 na IC, particularmente útil em pacientes gravemente incapacitados com capacidade de reserva mínima.60 Reeves et al.,61 realizou o estudo REHAB-HF que suge- riu a segurança e a eficácia de uma reabilitação física de múltiplos domínios de intervenção para melhorar a função física e reduzir a hospitalização em pacientes idosos e frágeis com descompensação aguda IC com múltiplas comorbidades. Em pessoas com IC combinada com perda muscular significativa, o treinamento deve concentrar-se ini- cialmente no aumento da massa e força muscular aplicando principalmente treinamento de força durante as sessões da primeira semana. Fraqueza muscular esquelética dos membros superiores muitas vezes pode complicar as ta- refas diárias e, portanto, reduzir a qualidade de vida. Uma combinação de treinamento de aeróbio e resistência foi demonstrado que melhora a intolerância submáxima ao exercício e, portanto, aumenta a capacidade de realizar tarefas diárias com esforço submáximo. Tanto a curto como a longo prazo os programas de exercícios podem ser difíceis para pacientes com IC de- vido sintomas como dispneia e fadiga ocorrem mesmo em baixos níveis de atividade física. Isso pode, portanto, limitar a disposição a realizar um programa de treinamento físico. Para esses pacientes, um programa de treinamento resistido com, por exemplo, faixas elásticas, pode ser uma alternativa. Uma banda de resistência é uma faixa elástica com resistência ajustável, que permite ao paciente variar seu comprimento para atingir um valor submáximo de nível de força em vários grupos musculares. Além disso, muitos pacientessão incapazes de participar de um programa de treinamento físico em ambiente hospitalar, por exemplo, devido a problemas econômicos ou de transporte. Nesses pacientes, um programa de treinamento físico domiciliar poderia representar uma alternativa. CONFLITOS DE INTERESSE Os autores declaram não possuir conflitos de interesse na realização deste trabalho. Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):264-72 271 REABILITAÇÃO CARDIOVASCULAR BASEADA EM EXERCÍCIO FÍSICO NA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA- FASE HOSPITALAR E AMBULATORIAL REFERÊNCIAS 1. Taylor RS, Sagar VA, Davies EJ, Briscoe S, Coats AJ, Dalal H, et al. Exercise-based rehabilitation for heart failure. Cochrane Database Syst Rev. 2014;27(4):CD003331. 2. Piotrowicz R, Wolszakiewicz J. 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São Paulo, SP, Brasil. Correspondencia Mariana Volante Gengo. Rua Osires Magalhaes de Almeida, 652 – apto 31 b – Vila Suzana, São Paulo, SP, Brasil. marivg.nutri@gmail.com OTIMIZAÇÃO DAS ORIENTAÇÕES NUTRICIONAIS AOS PACIENTES COM INSUFICIÊNCIA CARDÍACA APÓS INTERNAÇÃO HOSPITALAR: UMA AÇÃO PARA REDUZIR REHOSPITALIZAÇÃO E COMPLICAÇÕES CLÍNICAS EM IDOSOS OPTIMIZATION OF NUTRITIONAL GUIDELINES FOR PATIENTS WITH HEART FAILURE AFTER HOSPITALIZATION AS AN ACTION TO REDUCE REHOSPITALIZATION AND CLINICAL COMPLICATIONS IN THE ELDERLY RESUMO As rehospitalizações em idosos com IC são frequentes e, em até 90 dias, 50% dos pacientes retornam após a alta. Mesmo com os avanços terapêuticos, a taxa de mortalidade é crescente e o prognóstico a longo prazo é ruim, podendo ser agravado a cada nova internação. O objetivo desta revisão narrativa é ressaltar a importância do acompanhamento e das orientações nutricionais após alta hospitalar como ferramenta para prevenção de novas hospitalizações. Desenvolvimento: A IC influencia o estado nutricional dos pacientes devido à interação complexa de sistemas hormonais catabólicos, má absorção, deficiências nutricionais, entre outros fatores, como progressão da doença e disfunção metabólica. De 30% a 45% dos idosos com IC internam-se com risco nutricional, e nesses pacientes é possível constatar que a desnutrição levará a um ciclo vicioso. Os principais fatores para readmissões são falta de adesão farmacológica e não farmacológica, e é imprescindível que idosos desenvolvam o autocuidado por meio de estilo de vida saudável e controle dos fatores de risco cardiovascular. A ingestão de sódio na dieta ainda é um assunto controverso pois está relacionado a baixa aceitação alimentar. Dietas hipercalóricas são indicadas em situações de risco nutricional, e também aos idosos, independentemente do estado nutricional, pois estão relacionadas à menor mortalidade e redução de com- plicações. Na caquexia cardíaca, o suporte nutricional e exercícios físicos são base para tratamento do paciente, e a terapia nutricional deve sempre ser indicada. Conclusão: sempre que possível, deve-se garantir a continuidade do cuidado após a alta hospitalar, prevenindo novas internações e favorecendo melhor qualidade de vida. Descritores: Insuficiência Cardíaca; Caquexia; Alta do Paciente; Dieta Hipossódica. ABSTRACT Rehospitalizations in elderly people with HF are frequent and, within 90 days, 50% of patients return after discharge. Even with therapeutic advances, the mortality rate is increasing and the long-term prognosis is poor, which can be aggravated with each new hospitalization. The purpose of this narrative review is to highlight the importance of monito- ring and nutritional advice after hospital discharge in order to prevent new hospitalizations. Development: HF influences the patients’ nutritional status due to the complex interaction of catabolic hormonal systems, malabsorption, nutritional deficiencies, and other factors, such as disease progression and metabolic dysfunction. Of elderly patients with HF, 30% to 45% are admitted with nutritional risk and, in these patients, it is possible to verify that malnutrition will lead to a vicious cycle. The main factors for readmissions are lack of pharmacological and non-pharmacological adherence, and it is essential that the elderly develop self-care through a healthy lifestyle and control of cardiovascular risk factors. Dietary sodium intake is still a controversial issue as it is related to low food acceptance. Hypercaloric diets are indicated in situations of nutritional risk, and also for the elderly, regardless of their nutritional status, as they are related to lower mortality and reduced complications. In cardiac cachexia, Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):273-8 http://dx.doi.org/10.29381/0103-8559/20203002273-8 Acesse o Podcast mailto:marivg.nutri@gmail.com https://socesp.org.br/web-socesp/podcast-socesp/artigos-suplemento-insuficiencia-cardiaca/otimizacao-das-orientacoes-nutricionais-aos-pacientes-com-insuficiencia-cardiaca-apos-internacao-hospitalar-uma-acao-para-reduzir-rehospitalizacao-e/ 274 INTRODUÇÃO A prevalência de insuficiência cardíaca (IC) varia de 10 a 20% nos idosos em comparação com 1 a 2% na popu- lação geral. Após início do tratamento para IC as taxas de readmissão pós alta hospitalar são elevadas, e mais de 50% dos pacientes idosos são readmitidos dentro de seis meses.1 Conforme os dados publicados do estudo Brazilian Registry of Acute Heart Failure , metade dos pacientes com IC retornam ao hospital em até 90 dias após a alta.2,3 A primeira hospitalização pode ser consequência de um evento agudo por miocardite, doença miocárdica, arritmia, doença valvar, descompensação de um quadro de IC por infecção, não adesão aos tratamentos farmacológico ou não farmacológico, entre outros.4 Mesmo com os avanços terapêutico que impactam na qualidade e expectativa de vida desses pacientes, a taxa de mortalidade é crescente e o prognóstico em longo prazo é ruim, uma vez que metade dos pacientes diagnosticados com IC morrem em até cinco anos após a primeira internação.2,3 De acordo com Ogbemudia e Asekhame, em um estudo retrospectivo realizado em um hospital universitário com 102 pacientes, observou-se que 55,5% das reinternações por IC descompensada poderiam ser evitadas com o seguimento das orientações farmacológicas e não-farmacológicas. Além disso, foi possível concluir que a cada reinternação os idosos apresentam redução da qualidade de vida, aumento da carga de IC e maior risco de mortalidade.1,2 Tendo em vista a complexidade do paciente idoso que interna por descompensação cardíaca, bem como, o risco adicional a cada internação hospitalar, o objetivo desta revisão narrativa é apresentar e discutir tais características inerentes ao paciente com IC, bem como ressaltar importância do acompanhamento e das orientações nutricionais para o pós alta hospitalar como ferramenta adicional para prevenção da rehospitalização. INSUFICIÊNCIA CARDÍACA E DESCOM- PENSAÇÃO CLÍNICA A IC consiste em uma síndrome complexa de caráter sistêmico caracterizado por uma insuficiência do supri- mento sanguíneo para atender necessidades metabólicas na presença de retorno venoso normal, ou realização do suprimento sanguíneo somente com elevadas pressões de enchimento.4-7 As alterações hemodinâmicas comumente encontradas na IC envolvem resposta inadequada do débito cardíaco e elevação das pressões pulmonar e venosa, sendo assim, na maioria das formas de IC a redução do débito cardíaco é responsável pela inapropriada perfusão tecidual. Também existem condições nas quais o débito cardíaco é normal ou até elevado (condições de pós-carga diminuída) que ao nutritional support and physical exercises are the basis for treating the patients, and nutritional therapy should always be indicated. Conclusion: whenever possible, continuity of care after hospital discharge should be guaranteed, preventing new admissions and favoring a better quality of life. Descriptors: Heart Failure; Cachexia; Patient Discharge; Diet, Low Sodium se associar à inadequada demanda metabólica tecidual, caracteriza a IC com débito cardíaco elevado.6-9 Conforme a Heart Failure Society of America muitas vezes os sintomas da IC descompensada podem ser sutis e facil- mente confundidos com demais características do envelhe- cimento por serem muito inespecíficos, e consequentemente retardam o início do tratamento adequado favorecendo o maior risco de complicações e uma maior gravidade.9 Nos casos de descompensação clínica, quando o paciente apresenta sinais e sintomas congestivos e respiratórios, associados a sobrecarga de volume e consequentemente incapacidade para a realização das atividades devida diária, a hospitalização é indispensável para o restabelecimento das funções orgânicas, sendo necessária a internação do paciente em unidades de terapia intensiva para tratamento com drogas vasoativas buscando compensação cardíaca.10 A expectativa de vida de um indivíduo com IC depende de muitos fatores e nem sempre é fácil estabelecer um prog- nóstico. De acordo com a HFSA: 50% dos indivíduos com IC terão uma esperança média de vida de cinco anos e aqueles com IC grave ou avançada, apenas 10 a 20% sobreviverão após um ano da primeira internação. 6-9 ESTADO NUTRICIONAL DO IDOSO COM INSUFICIÊNCIA CARDÍACA A IC influencia o estado nutricional dos pacientes devido interação complexa de sistemas hormonais catabólicos, má absorção, deficiências nutricionais, entre outros fatores como progressão da doença e disfunção metabólica. 11-13 Frequentemente pacientes com IC classe funcional (CF) III e IV, conforme classificação da New York Heart Association (NYHA), apresentam risco de desnutrição, causada princi- palmente pela perda da massa muscular, com consequente prejuízo de morbimortalidade e capacidade funcional. Quando instalada a desnutrição grave, caracterizada como caquexia cardíaca, há piora do prognóstico e redução da sobrevida dos pacientes, independentemente da idade, CF e fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE).7,13 De acordo com Araújo et al. dos 358 pacientes ambulatoriais com IC estu- dados, 38 pacientes (11%) eram caquéticos.13 A caquexia cardíaca é caracterizada por desnutrição proteico-calórica com perda intensa de massa muscular, associada a edema periférico e pode ser diagnosticada quando ocorre perda de peso corporal maior que 5% do peso habitual em um período menor que 12 meses ou IMC <20 kg/m² associado a pelo menos três dos cinco critérios: diminuição da força muscular; fadiga; anorexia; diminuição da massa livre de gordura; e anormalidades bioquímicas como inflamação (aumento de Proteína C reativa ou Interleucina 6) anemia (hemoglobina menor que 12g/dL) ou hipoalbuminemia (albumina sérica menor que 3,2g/dL). Esses sintomas podem surgir muito tardiamente no curso da doença, quando o Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):273-8 275 OTIMIZAÇÃO DAS ORIENTAÇÕES NUTRICIONAIS AOS PACIENTES COM INSUFICIÊNCIA CARDÍACA APÓS INTERNAÇÃO HOSPITALAR: UMA AÇÃO PARA REDUZIR REHOSPITALIZAÇÃO E COMPLICAÇÕES CLÍNICAS EM IDOSOS estado nutricional dos pacientes já está muito comprome- tido, e a terapia nutricional se torna um desafio a mais no tratamento do paciente.11,14,15 A IC em estágios avançados se torna uma doença alta- mente catabólica, onde todos os compartimentos do corpo são afetados, incluindo músculos por perda de proteínas, diminuição da reserva de energia e massa óssea (osteopo- rose), agravando ainda mais a condição dos pacientes. O estado inflamatório caracterizado por altas concentrações plasmáticas de diversas citocinas pró-inflamatórias são seme- lhantes ao observado em pacientes com doenças neoplásicas e autoimunes. Está resposta inflamatória crônica favorece o risco de desnutrição através de um aumento significativo no gasto de energia e uma diminuição no apetite que leva a uma diminuição na ingestão calórica. Algumas medicações, como os betabloqueadores, contribuem significativamente para esse estado hipercatabólico. Pacientes com predominância de congestão visceral, podem ainda apresentar diminuição da absorção de nutrientes causada pelo edema das vilosidades intestinais, afetando principalmente a absorção de proteínas. Em indivíduos com IC avançada, sintomas digestivos pós- -prandiais, como dor abdominal e sensação de plenitude precoce também podem limitar o consumo alimentar.14,15 Em associação ao quadro clínico, é comum o paciente referir “Não saber o que comer” devido as restrições em sua alimentação, redução da palatabilidade dos alimentos e diminuição das opções de escolha, com consequente inges- tão calórica e proteica inadequada, levando ao aumento do risco de desnutrição.14 Parte da restrição alimentar, pode ser advinda das comorbidades associadas à IC, com orientações quanto a necessidade de redução da ingestão de sal e água, alimentos ricos em gorduras animais (para pacientes com hipercolesterolemia ou doença cardíaca coronária), alimentos ricos em potássio (para pacientes com tendência à hiperca- lemia) e/ou ricos em vitamina K (apesar de ser estabelecido na literatura quanto a regularidade do consumo, ainda é orientado por alguns médicos, que evitem o consumo dos alimentos fontes quando usarem varfarina).14,15 Desta forma, diversos pacientes possuem fatores adicionais para a baixa aceitação alimentar e complicações nutricionais. INTERNAÇÃO HOSPITALAR E COMPLI- CAÇÕES NUTRICIONAIS A desnutrição hospitalar se mostra com alta prevalência no atual cenário, tendo diversos fatores que influenciam este quadro tais como: o tempo de internação (em especial ao ultrapassar quinze dias ) e idade uma vez que idosos se mostram mais vulneráveis a deficiências nutricionais e quadros de desnutrição quando comparados com indivíduos de outras faixas etárias.16-19 A avaliação do estado nutricional na admissão se faz importante, uma vez que é estimado pela literatura científica que que 30% a 45% dos pacientes idosos com IC já possuem risco nutricional no momento da admissão. Vale ressaltar que este indivíduo é portador de maior risco para desnutrição e agravo de seu quadro clinico2,3 e, portanto devem ser consi- derados em permanente risco nutricional e necessária maior atenção diante deste quadro necessária.14 A associação entre desnutrição e maior permanência hospitalar, mortalidade e a readmissão antes de 30 dias após a alta hospitalar já é bem descrita, sendo o risco aumentado para complicações não cardíacas, infecções e efeitos deletérios na estrutura e na função do músculo esquelético e menor tolerância ao exercício fruto desta associação.14,20 A não tratativa destes aspectos pode contribuir para uma piora do paciente a curto e a longo prazo.18,21-24 ORIENTAÇÕES DE ALTA E PREVENÇÃO DE REINTERNAÇÕES HOSPITALARES EM IC Pacientes idosos com disfunção cardíaca podem agravar suas comorbidades a cada internação,2 sendo a diminuição da capacidade funcional para realização das atividades diárias e piora significativa da qualidade de vida, os fatores prepon- derantes que elevam o risco de internação e/ou mortalidade.25 Os fatores que contribuem para as novas readmissões são, a falta de adesão à terapêutica proposta (principalmente relacionada aos medicamentos), questões relacionadas a higiene do indivíduo e a terapêutica nutricional. Ainda, obser- va-se que os quadros de pneumonia, infecção do trato urinário e arritmias ou fibrilações atriais 2,10 se mostraram como com- plicações frequentes em pacientes idosos responsáveis pela sua rehospitaliação. No quesito baixa adesão a terapêutica proposta, destaca-se: o isolamento social desencadeado por demência, depressão ou abandono, inadequações familiares, falta de apoio social e condições socioeconômicas.26,27 Além, dá-se destaque a não compreensão das orientações, tida como a principal causa de reinternação em 30 dias.28 É sugerida pela literatura científica a avaliação do risco dos pacientes antes da alta hospitalar para ajudar na identi- ficação precoce de pacientes com alto risco de readmissão, e estabelecer um plano pós-alta hospitalar com objetivo de educação do paciente e/ou cuidador quanto ao tratamento, medicações, cuidados nutricionais, melhora da higiene e exer- cícios físicos, potencial de progressão clínica e a importância do autocuidado diário (peso, uso regular dos medicamentos, monitorização dos sinais e sintomas de descompensação, como piora do cansaço, flutuações de peso e limitação funcional). O acompanhamento é essencial para o sucesso no tratamento, e esclarecimento de dúvidas, entrega de material escrito, intervenções domiciliares ou via contato telefônico (telemonitorização),vacinação contra a gripe, entre outros, confirmam que o seguimento pós-alta pode manter os pacientes estáveis e livre de novas internações.26-29 ORIENTAÇÕES NUTRICIONAIS PRÉ ALTA HOSPITALAR As orientações da alta hospitalar começam quando o paciente já está clinicamente apto a deixar o hospital, mas educar os pacientes necessita de organização, e a falta deste planejamento de alta poderá levar a readmissões e custos mais elevados com a saúde do paciente.30,31 O objetivo das orientações na alta é dar continuidade aos cuidados do paciente no domicílio. Conforme Toledo et al.,30 para sucesso do processo da desospitalização, a equipe deve: reconhecer barreiras do aprendizado e comunicação: visual, auditiva, fala, outras (cultural, religiosa, psicomoto- ra, emocional); identificar a pessoa envolvida no processo educacional, engajando-a (paciente, parente, cuidador ou equipe de home-care); iniciar a orientação durante o período Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):273-8 276 de hospitalização; determinar o melhor método de ensino de acordo com o nível de entendimento do paciente e dos envolvidos: demonstração, audiovisual, verbal, folheto; avaliar o entendimento pelo indivíduo orientado: detectar se o objetivo foi atingido ou não por meio de avaliações simples (confir- mação se houve o entendimento, solicitando que o envolvido explique o que foi orientado) para avaliar a compreensão sobre as instruções de alta e a capacidade de realizar o autocuidado.32,33 Além disso, a garantia da continuidade do cuidado por meio do suporte e gestão dos casos pós-alta (apoio na comunidade, visitas domiciliares, contato telefônico, acompanhamento ambulatorial, comunicação prestador de cuidado), o monitoramento contínuo e remoto dos pacientes transformam o cuidado alinhando profissionais de saúde e tecnologias para o cuidado das pessoas em qualquer lugar e promovendo o autocuidado.30-34 Dentre os cuidados nutricionais após a alta do paciente estão: controle do peso corporal, alimentação equilibrada e recomendações nutricionais específicas aos pacientes com IC sintomáticos, como dieta hipossódica e restrição hídrica.26 As orientações devem ser realizadas de forma individualizada e questões como aceitação alimentar devem ser levadas em consideração,26 assim como tratamento das comorbidades, caso apresentem. Em relação as orientações nutricionais ao paciente portador da IC, as recomendações da ingestão de sódio na dieta de pacientes com IC crônica é ainda um assunto controverso pois não existem estudos relevantes com amplo número de pacientes para embasar recomendações detalhadas.35 Há evidências que o consumo excessivo de sódio e fluidos se associam ao agravamento da hiper volemia, constituindo um fator de descompensação e maior risco de hospitalização em pacientes com IC crônica sintomática. Também é defendido que pacientes gravemente sintomáticos ou em fase avançada, a restrição mais intensa de ingestão de sódio está associada a redução de sintomas congestivos e novas internações.2,36,37 Taylor et al., mostrou em uma meta-análise com sete artigos, envolvendo um total de 6.489 pacientes com IC de diferentes faixas etárias, que a restrição de sódio se mostrou eficaz para os pacientes devido um menor número de mortes, contudo esses benefícios poderiam estar relacionados a redução da pressão e não aos sintomas de IC.38 Estudos feitos com ensaios clínicos de pequeno porte sugerem que a restrição excessiva de sódio (< 5 g de sal por dia) em comparação com dieta com teor normal de sódio (7 g de sal por dia), podem se associar a efeitos deletérios nos pacientes com IC crônica, incluindo exacerbação da ativação neuro-hormonal, maior número de hospitalização e maior mortalidade, bem como dieta com baixo teor de sódio (2g) foi associado à redução de ingestão de proteína, ferro, zinco, selênio, vitamina B12, e aumento da ativação neuro-hormonal, prejudicial para estado nutricional do paciente.6,39 Considerando os achados expostos, a Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda recomenda evitar a ingestão excessiva de sódio (em níveis > 7 g de sal cloreto de sódio por dia) para todos pacientes com IC crônica35 enquanto outros autores recomendam evitar restrições sódicas e adaptar a dieta conforme situação clínica dos pacientes. Concordantemente, todas as recomendações desestimulam o consumo de alimentos industrializados, embutidos, enlatados e salgados para todos os pacientes com IC.6 A restrição hídrica também é um tema bastante controverso, principalmente nos estudos recentes com o tratamento medica- mentoso moderno. Recentemente o assunto foi abordado por Vecchis et al., em uma revisão sistemática com seis estudos, onde foi concluído que a ingesta liberal de fluidos não exerceu efeito desfavorável sobre hospitalizações ou mortalidade nos pacientes com IC.40 Anteriormente, Paterna et al., mostraram redução de hospitalizações em pacientes randomizados para restrição hídrica de 1.000 ml por dia quando comparado à inges- ta de 2.000 ml por dia.39 Com base nas evidências disponíveis, não é possível estabelecermos recomendações específicas e detalhadas sobre o emprego de restrição hídrica em pacientes com IC crônica,35 porém cabe aos profissionais responsáveis pelo cuidado avaliar a ingestão hídrica e a necessidade de restrição conforme sintomas apresentados pelos pacientes.6,35 Em relação ao controle do peso nos pacientes com IC, o objetivo principal é a monitorização e autocuidado, que visa a prevenção das oscilações do peso em decorrência de edema e descompensação. A aferição do peso deve ser realizada regularmente e antes do desjejum, se possível por duas vezes na semana, sendo que ganhos maiores que 1 a 2 kg entre dois e três dias devem ser comunicadas ao médico,40 pois pode ser um indicativo de retenção hídrica. A longo prazo, o acompanhamento do peso poderá também ser uma ferramenta de acompanhamento do estado nutricional. É sabido que o aumento do índice de massa corpórea (IMC) está associado ao aumento do risco para desenvolvimento de doenças cardiovasculares, porém nos pacientes com IC, o IMC elevado está positivamente asso- ciado com a sobrevida, sendo considerado um fator protetor de mortalidade. Esses dados foram comprovados no estudo multicêntrico Digitalis Investigation Group (DIG) em que a mortalidade foi menor em pacientes com maiores valores de IMC,41 teoria conhecida como “Paradoxo da Obesidade”. Alguns autores associam uma maior taxa de mortali- dade aos pacientes com IC que apresentam caquexia (IMC < 20 kg/m2) e nos obesos, com IMC> 35 kg/m2,42,43 sendo essa correlacionada à remodelação cardíaca e queda da função sistólica ventricular esquerda.44 Nos pacientes com IC em estágio avançado (classe funcional III e IV) há relatos de casos sugerindo efeitos be- néficos da perda de peso em obesos mórbidos, e dietas hipocalóricas são defendidas por algumas instituições como a Sociedade Europeia de Cardiologia, aos pacientes com IMC maiores 35kg/m².9,14 Para os pacientes eutróficos, não existem recomendações específicas em termos de calorias e macronutrientes, mas é essencial o estímulo de dietas com qualidade nutricional, driblando restrições alimentares e evitando perdas de peso significativas.9,14,38,45 As dietas hipercalóricas são indicadas não apenas em situações de risco nutricional, mas também é altamente recomendado para pacientes idosos, independente do estado nutricional. O uso de complementos alimentares e/ou alimentos com alto valor nutricional estão relacionados com a diminuição de mortalidade e redução de complicações apresentando efeitos benéficos aos pacientes, inclusive com possibilidades de prevenir futuras internações.45 Todavia, as recomendações da terapia nutricional para esse público dependem da sen- sibilidade dos profissionais responsáveis pelo cuidado, bem como nível de envolvimento com os pacientes.38,44,45 Rev Soc CardiolEstado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):273-8 277 Quando o estado nutricional está comprometido, princi- palmente quando a caquexia cardíaca está instalada, a terapia não farmacológica, como suporte nutricional e exercício físico, é considerada a base para a prevenção e tratamento do paciente com IC. E mesmo que ainda existam muitas dúvidas em relação a reversão da caquexia e recuperação das massas magra e óssea, a terapia nutricional deve ser sempre indicada nesses pacientes.38,45 Não existem recomendações específicas para oferta ca- lórica e proteica na caquexia associada à IC. Heymsfield e Casper recomendaram, em 1989, que a ingestão de 35 kcal/ kg/dia era segura e eficaz no aumento da massa magra nesses pacientes. Nos últimos anos, diversos autores afirmam que devem ser evitados excessos de energia, contradizendo os dados anteriores devido ao aumento do estresse fisiológico, com consequente aumento nas concentrações plasmáticas de catecolaminas, insulina e disfunção hepática. Especificamente o aumento nos níveis de insulina induz a reabsorção renal de sódio e água, podendo descompensar a IC.38 Desta forma, o suporte nutricional deve ser iniciado com pequenas quantidades e aumentado lentamente até atingir o peso corporal desejado, respeitando a tolerância e sintomas do paciente. A oferta proteica recomendada aos idosos com IC são de 1,2 à 1,5g/kg/dia, e exercícios físicos deverão ser estimulado sempre que os pacientes possuírem condições de realiza-los. A suplementação oral calórica e/ou proteica é essencial para o tratamento dos pacientes e deve ser realizada individualmente. Nos casos de impossibilidade de alimentação via oral, a terapia nutricional enteral deverá ser indicada para o suprimento das necessidades nutricionais mínimas, sendo também utilizada de forma complementar nos casos de recusa alimentar e/ou inapetência,45 cujo objetivo de atingir as necessidades calóricas e proteicas adequadas para o bom funcionamento do organismo do paciente, e tentativa de recuperação do estado nutricional.38, 46-50 CONCLUSÃO A IC é uma doença complexa de caráter sistêmico, que está relacionada ao grande prejuízo da morbimortalidade, principalmente em pacientes idosos. Dentre estes, estima-se que 50% retornem ao hospital dentro de seis meses. A cada reinternação é possível verificar piora da qualidade de vida, aumento da carga da IC, piora do estado nutricional e maior risco para mortalidade. A influencia da IC no estado nutricional dos pacientes ocorre devido ao estado catabólico, má absorção dos nu- trientes e deficiências nutricionais. A nutrição é um importante componente para manter a saúde e qualidade de vida dos idosos. A adesão as orientações nutricionais devem ser incentivadas após a alta hospitalar, tanto quanto a terapêutica farmacológica e demais tratamentos não-farmacológicos. Em relação a dietoterapia, devem ser estimulados o consumo controlado de sal e líquidos, e se necessário, de acordo com os sintomas apresentados pelos pacientes, poderão ser realizados ajustes mais precisos sob a quanti- dade de ingestão de determinados nutrientes pelo indivíduo. A quantidade de calorias deve atender as necessidades mínimas para realização das atividades diárias e o consumo de proteínas deve ser suficiente para não desenvolver e/ou prevenir a progressão da diminuição da massa muscular. É necessário ainda, orientar e ou reforçar as orientações para as morbidades associadas, como diabetes, dislipidemias, hipertensão arterial, etc. A todos os pacientes desnutridos, bem como em pa- cientes idosos com agravo do estado nutricional e risco de desenvolver caquexia cardíaca, a suplementação nutricional se faz necessária e deve ser realizada conforme a condição clínica do paciente. A principal ferramenta para o sucesso no tratamento do paciente com IC antes da alta hospitalar, é o fornecimento de orientações multidisciplinares adequadas aos pacientes/ acompanhantes, com explicações sobre a doença e sinto- mas, e esclarecimento de dúvidas, a fim de proporcionar a automonitorização e incentivar o autocuidado. O acompa- nhamento do paciente, incluindo o atendimento nutricional presencial ou a distância é indicado, sempre que possível dada a sua efetividade. CONFLITOS DE INTERESSE Os autores declaram não possuir conflitos de interesse na realização deste trabalho. REFERÊNCIAS 1. 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Universidade de São Paulo. Faculdade de Odontologia de Bauru. Departamento de Cirurgia, Estomatologia, Patologia e Radiologia. Bauru, SP, Brasil 2. Diretor Científico do Departamento de Odontologia da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP). São Paulo, SP, Brasil. 3. Presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP) – Regional de Bauru. Médico Cardiologista (Arritmologia e Estimulação Cardíaca Artificial). São Paulo, SP, Brasil. Correspondência Paulo Sérgio da Silva Santos. Faculdade de Odontologia de Bauru, Universidade de São Paulo, Alameda Otavio Pinheiro Brisolla, número 9-75, Vila Universitária, Bauru- SP, paulosss@fob.usp.br INTERDISCIPLINARIDADE ENTRE ODONTOLOGIA E CARDIOLOGIA NO SUPORTE AO INDIVÍDUO COM INSUFICIÊNCIA CARDÍACA INTERDISCIPLINARITY BETWEEN DENTISTRY AND CARDIOLOGY IN SUPPORTING INDIVIDUALS WITH HEART FAILURE RESUMO Introdução: A insuficiência cardíaca (IC) é uma síndrome clínica caracterizada por alteração ventricular (uni ou bilateral), gerando um comprometimento no organismo decorrente de altera- ções na fisiologia cardiovascular. É de extrema importância a interação entre cirurgião-dentista e cardiologista quanto à gravidade da IC no indivíduo com necessidade de intervenção odon- tológica, minimizando, desta forma, os riscos inerentes a esse grupo de pacientes. Objetivo: Definir, através de uma revisão integrativa, estratégias odontológicas e cardiológicas adequadas para gerenciamento do paciente de acordo com a gravidade da IC. Resultados: Realizou-se busca nas bases de dados PubMed/Medline® e Scopus® por meio dos descritores “Heart failure AND Dental care AND Oral health”, sendo utilizados os critérios de inclusão: artigos que abordassem manejo odontológico em paciente portador de IC, em inglês, disponíveis online e por período ilimitado. Após análise dos 76 artigos encontrados, foram selecionados 11 artigos para este estudo. Conclusão: A capacitação do cirurgião-dentista acerca das particularidades da IC norteará as condutas terapêuticas a serem adotadas nesse perfil de pacientes de forma eficaz e segura. A interação multidisciplinar entre cirurgiões-dentistas e cardiologistas de acordo com a gravidade da IC permitirá a correta estratificação dessas condutas, bem como evitarão complicações e/ou intercorrências durante os procedimentos odontológicos. Descritores: Insuficiência Cardíaca; Assistência Odontológica; Doenças Cardiovasculares. ABSTRACT Introduction: Heart failure (HF) is a clinical syndrome characterized by ventricular alteration (unilateral or bilateral) causing an impairment in the body due to changes in cardiovascular physiology. The interaction between dental surgeons and cardiologists regarding the severity of HF in individuals in need of dental intervention is extremely important, thus minimizing the risks inherent in this group of patients. Objective: To define, through an integrative review, appropriate dental and cardiac strategies for patient management according to the severity of HF. Results: A search was performed in the PubMed/Medline® and Scopus® databases using the descriptors “Heart failure AND Dental care AND Oral health,” using the following inclusion criteria: articles that addressed dental management in a patient with HF, in English, available online and indefinitely. After analyzing the 76 articles found, 11 articles were selected for this study. Conclusion: The training of dental surgeons about the particularities of HF will guide the therapeutic approaches to be adopted in this profile of patients in an effective and safe way. The multidisciplinary interaction between dental surgeons and cardiologists, according to the severity of HF, will allow the correct stratification of these conducts, as well as avoid complications and/or complications during dental procedures. Keywords: Heart Failure; Dental Care; Cardiovascular Diseases. INTRODUÇÃO Classicamente a insuficiência cardíaca (IC) trata-se de uma síndrome clínica com sintomas típicos causados pelo comprometimento uni ou biventricular1,2 sendo o coração incapaz de atender as necessidades fisiológicas dos tecidos ou de desempenhar suas funções em virtude de alterações na fisiologia cardiovascular.2 Na literatura, a IC é encontrada sob três classificações e escores de riscos internacionalmente validados e difundi- dos. A primeira refere-se à fração de ejeção do ventrículo Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):279-84 http://dx.doi.org/10.29381/0103-8559/20203002279-84 Acesse o Podcast https://socesp.org.br/web-socesp/podcast-socesp/artigos-suplemento-insuficiencia-cardiaca/interdisciplinaridade-entre-odontologia-e-cardiologia-no-suporte-ao-individuo-com-insuficiencia-cardiaca/ 280 esquerdo (preservada, intermediária ou reduzida), a segunda à gravidade dos sintomas e por fim, a terceira especifica a IC conforme o seu desenvolvimento e progressão (A, B, C e D). 2-6 No que diz respeito a interface odontologia e cardiologia, os desafios que permeiam a estruturação de uma diretriz clínica relacionada a um tema tão sensível, envolvem desde um planejamento minucioso à seleção e coordenação de uma equipe multiprofissional devidamente capacitada. Os riscos inerentes aos procedimentos odontológicos nesse grupo de pacientes requerem uma atenção mais que espe- cial, uma vez que procedimentos invasivos, associados aos fatores de riscos intrínsecos ao paciente, podem culminar em descompensação da condição clínica cardiológica e, consequentemente, gerar quadro de emergência médica. Sendo assim, pacientes com IC devem ser submetidos a minuciosa avaliação cardiológica e criteriosa anamnese pelo cirurgião-dentista de forma a identificar a gravidade da IC e do “performance status” dos pacientes, e se necessário for, deve-se readequar o uso de medicações de uso contínuo relacionado à condição cardíaca.5,7 A classificação da IC, de acordo com seus fatores de risco, é de suma importância para uma estratificação das terapêuticas odontológicas, uma vez que, distinguem em rela- ção as suas principais etiologias e comorbidades associadas. Atualmente não existe na literatura estudos que abordem a gravidade da IC com adequado manejo odontológico. Desta forma, o objetivo central desta revisão é descrever as estratégias odontológicas e cardiológicas adequadas para gerenciamento do paciente de acordo com a gravidade da IC. MATERIAL E MÉTODOS Através da coleta de dados de artigos selecionados realizou-se uma revisão integrativa que possibilitou a síntese dos resultados obtidos de maneira padronizada e organizada. A seleção dos artigos foi realizada através de pesquisa nas bases de dados: PUBMED/MEDLINE® e SCOPUS® com os descritores: “Heart failure AND Dental care AND Oral health”. De acordo com o MeSH terms o descritor “Heart failure” abrange todos os termos de IC que propusemos a discutir neste artigo, como “cardiac failure, heart decompensation, heart failure right sided, myocardial failure, congestive heart failure, heart failure left-sided”. O descritor “oral health” abrange termos como: “dental clinics, dental health surveys, oral di- agnosis, mouth diseases, mouth rehabilitation”; já o descritor “dental care” engloba os termos: “dental care for aged, dental care for children, dental care for chronically III e dental care of disabled”. Os critérios de inclusão definidos foram: 1) artigos que abordassem manejo odontológico em paciente portador de IC, 2) artigos publicados em inglês, 3) artigos disponíveis online e 4) artigos publicados em período ilimitado. Os cri- térios de exclusão foram: 1) artigos que não abordassem o manejo odontológico em portadores de IC, 2) artigos que abordassem manejo odontológico em doenças cardíacas específicas, 3) artigos não publicadosem inglês, 4) artigos de relato de caso. Para guiar este estudo considerou-se: IC e manejo odontológico. RESULTADOS Foram encontrados 76 artigos nas bases de dados sele- cionadas, sendo 34 artigos na base PUBMED/MEDLINE, 42 artigos na SCOPUS. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão estabelecidos na metodologia, selecionou-se 11 artigos para a amostra final. (Figura 1) Os dados obtidos através da amostra final dos artigos selecionados foram registrados em tabela. (Tabela 1) Figura 1. Fluxograma dos artigos encontrados nas bases de dados PubMed e Scopus. Id en tif ic aç ão Tr ia ge m E le gi bi lid ad e In cl us ão Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):279-84 281 Tabela 1. Manejo odontológico em pacientes portadores de insuficiência cardíaca nos artigos selecionados. Artigo/País População Tipo de estudo Classificação da IC Objetivo Abordagem Conclusão Brown, et al; 2011 (USA)8 Censo de 1996, 1998, 2000, 2002 e 2004 do Health and Retirement Study, com homens com ≥ 50 anos, mulheres < 50 anos Base populacional *NR Variáveis instrumentais para avaliar do atendimento odontológico em eventos de doença CV e incluir um teste de heterogeneidade essencial (diferenciação por sexo) Modelo teórico com uma função de produção em saúde CV e uma função de demanda por atendimento odontológico - O atendimento odontológico está associado a redução de eventos CV de 1/3 das mulheres o que pode ocorrer devido às maneiras que a doença CV se desenvolve e é tratada nas mesmas em relação aos homens. - Pode haver relação entre o atendimento odontológico em homens mais jovens e a redução dos eventos de doenças CV. - Pesquisas sobre atendimento odontológico e sua relação com condições de saúde geral estão produzindo resultados importantes Chang, et al; 2019 (Coreia)9 Banco de dados do NHIS-HEALS de (N=50 milhões) 2003/2004 Coorte NR Investigar associação de indicadores de higiene bucal com FA e risco de IC. IMC - dividindo-se o peso pela altura elevada ao quadrado - e para classificar as doenças utilizou-se a CID 10: Hipertensão (CID I10 e I 11 e prescrição de anti-hipertensivo), diabetes mellitus (CID E10-E14, e a prescrição de hipoglicemiantes), dislipidemia (CID E78 e agentes hipolipemiantes), doença renal (CID N18.1-N18.5 e N18.9), a neoplasias malignas (C00 – D48), doença periodontal (CID K052-K056), FA (CID I48) e IC (CID I50) - A higiene bucal mais cuidadosa foi associada ao menor risco de FA e IC. - A melhor higiene bucal alcançada por escovação frequente e profilaxia dental profissional podem diminuir risco de FA e IC. Findler, et al; 2013 (Israel)10 N=32 com IC do Depto de Medicina Oral do Hospital Universitário Hebraico-Hadassah, Depto de Medicina Oral no Hospital Assuta e uma Clínica Dentária de Medicina Oral particular Estudo observacional retrospectivo NYHA Comparação entre pacientes diagnosticados com IC grave com pacientes que correm risco de IC submetidos a diferentes tratamentos dentários - Procedimentos odontológicos para alívio da dor ou controle de infecção e tratamentos dentários eletivos de acordo com o planejamento dentário regular. - Valores hemodinâmicos foram coletados antes e após tratamento odontológico - O tratamento dentário deve ser realizado após estreita consulta com o cardiologista. - Apenas tratamentos dentários devidamente indicados devem ser realizados - eliminação de infecção, dor e estresse. - Com pré-tratamento medicamentoso adequado, monitorização cardiovascular e apoio médico profissional, não se deve restringir o tratamento odontológico em indivíduos com doenças CV Garbade, et al; 2020 (Alemanha)11 N= 128 - Depto de Cirurgia Cardíaca do Heart Center Leipzig e Depto de Cariologia, Endodontologia e Periodontologia da Universidade de Leipzig Transversal INTERMACS Avaliação dos hábitos dentários, da saúde bucal e da qualidade de vida relacionada à saúde bucal de pacientes com DAVE Avaliação dentária, periodontal e o OHIP G14 - Pacientes com DAVE necessitam mais de tratamento periodontal, comparados ao grupo controle. - A influência da saúde bucal nos parâmetros sistêmicos relacionados a doenças e dispositivos permanece incerta, e são recomendados conceitos interdisciplinares de cuidados especiais para melhorar a saúde bucal em pacientes com DAVE Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):279-84 INTERDISCIPLINARIDADE ENTRE ODONTOLOGIA E CARDIOLOGIA NO SUPORTE AO INDIVÍDUO COM INSUFICIÊNCIA CARDÍACA 282 Artigo/País População Tipo de estudo Classificação da IC Objetivo Abordagem Conclusão Hamasha, et al; 1998 (EUA)12 N= 175 residentes de casas de repouso tratados pela equipe da Unidade Móvel Geriátrica da Faculdade de Odontologia da Universidade de Iowa. Transversal NR Investigar as relações entre condições médicas e saúde bucal, avaliadas pelo edentulismo e falta de dentes Dados odontológicos coletados pela equipe da Unidade Móvel Geriátrica e o histórico de condição médica fornecido pela equipe das casas de repouso, categorizados conforme a 16ª edição do manual Merck - A média de dentes perdidos e edentulismo foi significativamente maior entre os indivíduos que tinham histórico de doença vascular aterosclerótica, IC, cardiopatia isquêmica e doença articular Herman, et al; 2010 (EUA)7 -- Revisão da literatura NYHA Atualização de guia de cuidados odontológicos para pacientes com IC - Desenvolver recomendações para atendimento odontológico de pessoas com IC considerando a incidência, classificações, fisiopatologia e avanços no diagnóstico e tratamento da IC - Elaboração de diretrizes práticas para identificar, avaliar e gerenciar o tratamento odontológico de indivíduos com IC Park, et al; 2019 (Coreia)13 N=247696 (Sem doenças CV graves) Após 10 anos de acompanhamento- maiores danos CV- n=14893 (2,21% IC) Base populacional NR Avaliar o impacto do comportamento de higiene bucal na ocorrência de doença CV estratificada pelo estado de saúde bucal Análise do banco de dados do NHIS-HEALS - A melhora da higiene bucal e visitas regulares ao dentista foi associado a um risco reduzido de eventos CV graves - A prevenção demonstrou atenuar os eventos CV adversos que poderiam estar relacionados a doença periodontal SANZ, et al; 2020 (Espanha)14 -- Guideline NR Elaborar recomendações para equipes médicas e odontológicas, além de pacientes e o público geral Revisão dos trabalhos do workshop organizado conjuntamente pela EFP e pela World Heart Federation Vários estudos relatam associações positivas entre periodontite e IC SCHMALZ, et al; 2020 (Alemanha)15 N=186 (104 pós -TxC, 82 IC) Transversal NYHA Examinar a qualidade de vida relacionada a saúde bucal de pacientes após TxC comparando com pacientes com IC. - Aplicação de questionários: OHIP G14 e SF36 - Exame oral: realizado por 2 dentistas - Pior HRQOL foi observado em pacientes com IC comparados aos pós transplante - Recomendam um programa específico de atendimento odontológico em pacientes com IC e após TxC STEINHAUER, et al; 2005 (EUA)16 -- Guideline Estágio A, B, C e D Fazer com que os profissionais de saúde bucal entendam a doença, os tratamentos e seu impacto na capacidade do paciente de se submeter e responder aos cuidados dentários - A resposta fisiológica ao trauma gerado por procedimento oral bem como a administração de agentes anestésicos pode afetar a função cardíaca, desta forma, dentistas precisam ter conhecimento das doenças CV ZIEBOLZ, et al; 2020 (Alemanha)17 N=88 (14 IC) Coorte prospectivo NR Avaliar se a recomendação padronizada de pacientes com IC (IC, DAVE, Tx) para visitar o dentista leva a melhores condições bucais em um período de 12 meses Anamnese, exame oral, aplicação de questionário padronizado duranteo acompanhamento A simples recomendação de visitar o dentista parece insuficiente para obter condições dentárias e periodontais satisfatórias em pacientes com doenças cardíacas graves - Existe uma lacuna na saúde dental, especialmente no tratamento periodontal e manutenção de pacientes com IC, TxC e DAVE - É recomendado o atendimento interdisciplinar entre cardiologistas e dentistas e a conduta de promoção da saúde oral Legenda: CV=Cardiovasculares, NHIS-HEALS=National Health Insurance Service-National Health Screening Cohort; FA=Fibrilação Atrial; IC=Insuficiência Cardíaca; IMC=Índice de Massa Corporal; CID 10=Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde; NYHA=New York Heart Association; Depto=Departamento; NR= Não relatado; INTERMACS=Interagency Registry for Mechanically Assisted Circulatory Support; DAVE= Dispositivo de assistência ventricular esquerda; EFP=European Federation of Periodontology; OHIP G14=German Oral Health Impact Profile; FC=Frequência Cardíaca; SF-36=Medical Outcomes Short-Form Health Survey; TxC=Transplante cardíaco. *Para definição do performance status foi utilizado o “Helth status”. ** Esta classificação foi utilizada, no entanto, não é mais apropriada e utilizada com frequência em pacientes com IC. Tabela 1. Manejo odontológico em pacientes portadores de insuficiência cardíaca nos artigos selecionados. Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):279-84 283 DISCUSSÃO A IC pode ser classificada de acordo com a sua fração de ejeção, pela gravidade dos sintomas e pelo desenvolvimento e tempo de progressão das doenças. A primeira, refere-se à fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) podendo ser proveniente de anormalidade na função sistólica ou dias- tólica. A FEVE pode ser classificada como fração de ejeção reduzida (ICFEr) quando for < 40%, como intermediária (ICFEi) quando estiver entre 40% a 49% e como preservada (ICFEp) quando for ≥ 50%.2,4 Atualmente 23 de milhões de pessoas no mundo são portadoras de IC, que é considerada uma doença grave, cuja sobrevida após cinco anos de diagnóstico pode ser de apenas 35% e aumenta progressivamente conforme faixa etária. Existe maior incidência de portadores dessa síndrome a partir dos 55-64 anos, até 1% da população, chegando até a 17,4% nos indivíduos com idade superior aos 85 anos.5 No Brasil, fatores socioeconômicos são potencializadores dos processos fisiopatológicos que culminam no desenvolvimento da IC; desde a dificuldade de acesso à assistência médica e a má aderência do paciente ao tratamento, como por exemplo: a terapêutica básica para o controle da hipertensão arterial.2 A classificação de acordo com a gravidade dos sinto- mas descrita pela New York Heart Association (NYHA), é baseada no grau de tolerância ao exercício, onde classe I são aqueles indivíduos assintomáticos, II os que apresentam sintomas leves, III com sintomas em atividades leves e IV com sintomas em repouso.5 A terceira classificação, e não menos importante, foca no desenvolvimento e progressão da doença, na qual A refere o paciente com risco de desenvolver a IC, porém sem a doença ou sintomas presentes, B com a doença presente assintomática, C com doença presente sintomática, respec- tivamente e por fim, D, que corresponde à uma IC refratária ao tratamento clínico, requerendo intervenção médica.6 No que tange a etiologia da IC, uma gama de comorbida- des podem estar atreladas a sua causa, incluindo-se a IC de origem isquêmica, hipertensiva, chagásica, valvar, congênitas, alcoólicas, miocardite, cardiomiopatia, entre outras. A busca pela sua etiologia orienta a conduta e o tratamento específico da doença e consequentemente melhora o prognóstico do paciente. No entanto, essa etiologia difere por regiões e o estudo da prevalência de cada doença por localidade é útil no manejo dos pacientes cardiopatas.2 A ação interdisciplinar entre cirurgiões-dentistas e car- diologistas foi relatada nos artigos revisados, mostrando evidências de que a comunicação interdisciplinar nestas especialidades da área da saúde permite que o indivíduo com doença cardiovascular grave, em especial pacientes com IC, independente da sua classificação e gravidade, receba atendimento adequado e seguro quanto aos riscos cardiovasculares, podendo ser melhor gerenciado e exe- cutado pela odontologia. Dentre as condições que exigem abordagem odontológica mais criteriosa nos indivíduos com IC estão a preconização de alívio da dor de origem bucal e odontogênica, a eliminação de focos de infecção de origem bucal e o controle e redução do estresse durante os atendi- mentos odontológicos.7,8,10,15-17 A doença periodontal é citada como uma das condições bucais associadas a doenças cardiovasculares. Apesar da literatura demonstrar o baixo nível de evidência da relação entre o tratamento da doença periodontal na redução das doenças cardiovasculares,18 nesta revisão encontrou-se a clara preocupação com a associação da doença periodontal e a IC e também com os indivíduos submetidos a transplante de coração. O diagnóstico precoce da doença periodontal, o controle da saúde periodontal e a consequente redução das perdas dentárias decorrentes de periodontite, associados ao bom controle de higiene oral dos indivíduos e frequência de visitas para tratamento odontológico têm se mostrado relevante na prevenção das doenças cardiovasculares e na redução de eventos cardiovasculares graves.11-14,17 A compreensão e sapiência dos cirurgiões-dentistas sobre a IC e as demais doenças cardiovasculares, e o co- nhecimento dos cardiologistas quanto aos procedimentos e medicamentos utilizados pela odontologia, proporcionam maior segurança e eficácia no atendimento aos pacientes cardiopatas e consequentemente melhoram o impacto da saúde bucal na sua qualidade de vida e qualidade de vida global.11,15 Neste cenário o conhecimento interprofissional da resposta fisiológica ao trauma gerado durante um tratamento odontológico relacionado à fobia e ao uso indiscriminado e sem técnicas adequadas de anestesias locais podem eventualmente afetar a função cardíaca, o que exige acuidade no manejo odontológico e cardiológico dos indivíduos com doenças cardiovasculares, em especial a IC.7,10,16,19 CONCLUSÃO O atendimento odontológico de pacientes com alterações cardiovasculares, em especial a IC, é de suma importância para a uma contigua evolução sistêmica dos pacientes, principalmente por meio de tratamentos odontológicos pre- ventivos, com potencial eliminação de focos infecciosos e estratégias de controle e redução do stress. Deve-se ter um gerenciamento de conhecimento e excelente interação entre cirurgiões-dentistas e cardiologistas sobre a gravidade da IC para a correta estratificação das terapêuticas odontológicas, visando evitar complicações e/ou intercorrências durante o procedimento bucal; haja visto que a IC apresenta diferentes etiologias e comorbidades associadas. CONFLITOS DE INTERESSE Os autores declaram não possuir conflitos de interesse na realização deste trabalho. REFERÊNCIAS 1. Mann DL, Zipes DP, Libby P, Bonow RO. Braunwald’s heart disease: a textbook of cardiovascular medicine. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2015. 2. Gualandro DM, Yu PC, Caramelli B, Marques AC, Calderaro D, Fornari LS, et al. 3a Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Arq. Bras Cardiol. 2017;109(3Supl.1):1-104. 3. Writing Group Members, Mozaffarian D, Benjamin EJ, Go AS, Arnett DK, Blaha MJ, et al. 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Rua das Cobéias – nº 68. vfrediani@hcor.com.br A INSUFICIÊNCIA DO CORAÇÃO E DO AFETO: APRENDENDO A SER CUIDADO HEART FAILURE AND AFFECTION: LEARNING TO BE CARED FOR RESUMO Introdução: A insuficiência cardíaca (IC) é uma patologia crônica, irreversível, que requer diversas mudanças comportamentais, envolvendo sofrimento físico e psíquico. A forma como se interpreta o conceito de cuidado e autocuidado interfere diretamente na adesão ao tratamento. Objetivo: Identificar questões psicológicas que podem atuar como facilitadores para desenvolvimento do autocuidado em hospitalização. Método: Estudo de caso realizado através de avaliação e acompanhamento psicológico em hospital privado no estado de São Paulo a paciente internado por quadro de descompensação da IC e dificuldade de adesão ao tratamento. Resultados: Identificou-se que J., gênero masculino, 53 anos, portador de IC, diabetes e doença renal, apresentava história de vida pautada na ausência de cuidado, e o acompanhamento psicológico foi direcionado para a compreensão dessa dinâmica e repercussão na vida adulta. Foi possível estimular melhorias no tratamento, como o início da atividade física e, ao trabalhar o conceito de cuidado, o paciente passou a aceitar a presença de familiares durante internação como mobilização de afeto. Conclusão: O acompanhamento psicológico foi essencial para a compreensão do impacto do adoecimento e fatores emocionais que interferiam na adesão ao tratamento, possibilitando a ressignificação de conceitos e favorecendo o engajamento à promoção do autocuidado e qualidade de vida. Descritores: Insuficiência Cardíaca; Autocuidado; Psicoterapia. ABSTRACT Introduction: Heart failure (HF) is a chronic, irreversible pathology that requires several behavioral changes, involving physical and psychological pain. The way the concept of care and self-care is interpreted directly interferes with treatment adherence. Objective: To identify psychological issues that can act as facilitators for the development of self-care in hospitalization. Method: Case study carried out through psychological assessment and monitoring in a private hospital in the state of São Paulo for a patient hospitalized due to HF decompensation and difficulty adhering to treatment. Results: It was identified that J., male, 53 years old, with HF, diabetes and kidney disease, had a life history based on lack of care, so psychological monitoring was directed towards understanding this dynamics and repercussion in adult life. Treatment improvements were encouraged, such as physical activity and, by working on the concept of care, the patient started to accept the presence of family members during hospitalization as a mobilization of affection. Conclusion: Psychological monitoring was essential for understanding the impact of illness and emotional factors that interfered with adherence to treatment, enabling the redefinition of concepts and favoring engagement to promote self-care and quality of life. Keywords: Heart Failure; Self Care; Psychotherapy. INTRODUÇÃO A Insuficiência Cardíaca Congestiva (ICC) é uma doença crônica que prejudica o bombeamento de sangue oxigenado para o coração e demais órgãos, provocando sinais e sinto- mas específicos. A origem pode ser congênita ou adquirida, e atinge mais de 23 milhões de pessoas a nível mundial, com taxas de sobrevida que podem chegar a apenas 35%, após cinco anos do diagnóstico.1 Os sintomas como dispneia, congestão pulmonar, cansaço e ganho de peso por retenção hídrica, são alguns dos principais indicadores da descompensação cardíaca, e estes geram limitações importantes no cotidiano dos pacientes, que por vezes se cansam aos mínimos esforços, o que gera importante impacto emocional e na qualidade de vida destes sujeitos.¹ O tratamento para a patologia se dá através de medi- cações, cirurgias e mudanças de hábitos, a saber: restrição Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):285-7http://dx.doi.org/10.29381/0103-8559/20203002285-7 Acesse o Podcast https://socesp.org.br/web-socesp/podcast-socesp/artigos-suplemento-insuficiencia-cardiaca/a-insuficiencia-do-coracao-e-do-afeto-aprendendo-a-ser-cuidado/ 286 hídrica, controle de sódio, atividade física e controle de peso diário. As internações podem ser frequentes de acordo com a gravidade do quadro clínico, o que irá interferir na rotina diária do paciente e sua família.2 As limitações físicas que se estabelecem, e o complexo tratamento da cardiopatia, podem gerar sintomas emocionais como ansiedade e/ou depressão, que poderão repercutir na adesão ao tratamento. Fatores emocionais podem contribuir para a piora do quadro clínico e sobrevida destes pacientes, pois afeta diretamente a qualidade de vida do doente.3,4 Diante deste cenário, a avaliação e acompanhamento psicológico se fazem essenciais para compreender como o paciente percebe sua doença, quais estratégias de enfren- tamento utiliza para lidar com a cronicidade da patologia, contribuindo para o cuidado em sua integralidade e estimu- lando o engajamento no tratamento.5 OBJETIVOS Identificar questões de ordem emocional e/ou psicológica que podem atuar como facilitadores para o desenvolvimento do autocuidado em hospitalização e realização de interven- ções a partir do conteúdo obtido. MÉTODO Estudo de caso realizado através de avaliação e acom- panhamento psicológico a paciente portador de insuficiên- cia cardíaca. Solicitada avaliação psicológica pela equipe multidisciplinar para paciente internado por quadro de des- compensação cardíaca devido à dificuldade de adesão ao tratamento não medicamentoso. O acompanhamento psicológico ocorreu por um período de aproximadamente dez dias, durante internação em hospital privado de cardiologia no estado de São Paulo. A teoria analítico-comportamental foi a abordagem psicológica utilizada para a análise, da dinâmica apresentada e intervenções acerca da mesma. RESULTADOS A avaliação psicológica e posterior acompanhamento foram realizados ao paciente J., gênero masculino, separado, 53 anos, portador de IC, diabetes e doença renal crônica não dialítica.em virtude da dificuldade de adesão ao tratamento. Neste período os principais conteúdos trazidos pelo paciente tinham relação com a dificuldade de adesão ao tratamento não medicamentoso e ausência de cuidado ao longo da vida. Estes dois cenários foram essenciais para compreender o que permeava sua relação com a doença e os cuidados necessários para lidar com o processo de adoecimento. A ausência de cuidado teve início nos primeiros anos de vida, quando J. e seus irmãos mais velhos perderam a mãe e passaram a ser criados pela tia materna. Da infância à ado- lescência houve o predomínio de violência física e psicológica envolvendo todos os membros da família, sendo ofertado ao paciente somente o essencial: alimentação e vestimentas básicas. O paciente não conheceu o pai e não teve alguém que ao longo de sua história, pudesse ocupar o modelo de uma figura protetora como se configura a imagem dos pais. Após completar a maior idade, houve um processo de mudança do ambiente interno e externo do paciente que pas- sou a trabalhar na área da saúde ofertando cuidado àqueles que estavam em situação de vulnerabilidade, contudo, nesta fase, apresentava ausência de autocuidado e comportamento autodestrutivo, possivelmente não percebido de maneira consciente, trabalhando por diversos turnos, com sono e alimentação inadequados, além de estresse e tabagismo que culminaram em infarto agudo do miocárdio (IAM). Em internação paciente reconhece não realizar a adesão total ao tratamento quando está em sua residência, não avisa aos familiares quando necessita ser internado, e reflete sobre o quão ameaçador se faz a necessidade de ser cuidado por alguém, uma vez que, em seu reportório nunca foi aprendido o conceito de cuidado. Assim, as intervenções psicológicas se pautaram em reflexões acerca de sentimentos e compor- tamentos consequentes da ausência de cuidado, e as reper- cussões de ser cuidado por uma equipe multiprofissional, sobretudo, de uma forma com a qual sua história pudesse ser ouvida e associada aos seus comportamentos atuais. A partir das intervenções, observou-se o aumento de res- postas de autocuidado, como o início da reabilitação cardíaca durante internação, e o entendimento da importância da ativida- de física para o tratamento, além da aceitação da presença da família como fator protetivo, o que contribuiu como importante recurso de enfrentamento adaptativo diante da hospitalização. DISCUSSÃO É possível analisar que o ambiente no qual J. se desenvol- veu foi extremamente punitivo em sua infância. Neste contexto, a ausência de cuidado em condições de negligência familiar e pobreza podem provocar importantes consequências em fases posteriores do desenvolvimento, sobretudo, na vida adulta, como déficits de autocontrole e de habilidade para lidar com os sentimentos, o que pode levar a diversos com- portamentos autodestrutivos como ausência de autocuidado.6 Durante a internação a psicoterapia foi essencial para auxiliar paciente e equipe a compreenderem a dinâmica psíquica em questão, através de uma abordagem que se baseia nas ciências do comportamento, traduzindo desta forma, como seu repertório de comportamentos aprendidos ou não, repercutiram em suas vivências atuais e como estes poderiam se modificar, além de oferecer um ambiente seguro, isto é, não punitivo e que permitiu respostas mais adaptativas ao contexto do adoecimento.7 A dificuldade de aceitar os cuidados da família, ou mesmo de reconhecer o comportamento da equipe como a oferta de um cuidado, pode trazer prejuízos de adesão ao tratamento. A literatura elucida que os pacientes que apresentam pou- co suporte familiar ou social tendem a apresentar maiores dificuldades para manter comportamentos que promovam o cuidado com a saúde e qualidade de vida.8 Desta forma, ter a presença da família durante a hospitalização e rever demandas emocionais que interferiam nos comportamen- tos atuais foi fundamental para a elaboração de questões relacionadas a ausência do cuidado. CONCLUSÃO A psicoterapia se mostrou importante recurso de enfrenta- mento para o paciente diante de fragilidades observadas em seu repertório de comportamentos apresentados em período de internação, a partir da compreensão das consequências da ausência do cuidado, foi possível aumentar as respostas de Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo - Supl - 2020;30(2):285-7 287 A INSUFICIÊNCIA DO CORAÇÃO E DO AFETO: APRENDENDO A SER CUIDADO autocuidado e de cuidado de pessoas de seu convívio. Além disso, foi possível sensibilizar o paciente para encaminhamento para psicoterapia a fim de dar continuidade ao processo iniciado durante hospitalização, favorecendo a manutenção de compor- tamentos adaptativos ao contexto de adesão ao tratamento. CONFLITOS DE INTERESSE Os autores declaram não possuir conflitos de interesse na realização deste trabalho. REFERÊNCIAS 1. Comitê Coordenador da Diretriz de Insuficiência Cardíaca. Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda. Arq Bras Cardiol. 2018;111(3):436-539. 2. Sobral LM, Alves MA, Barros ALBL, Lopes JL. Anxiety, stress and depression in family members of patients with heart failure. Rev Esc Enferm. USP. [Internet]. 2017;51: e03211. [acesso outubro 2019]; Disponível em: http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0080- 3. Guerra TRB, Venancio ICD, Pinheiro DMM, Mendlowicz, Ca- valcanti ACD, Mesquita ET. Métodos de Rastreamento da Depressão em Pacientes Ambulatoriais com Insuficiência Cardíaca. 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