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A Criança Ferida Como tratar os traumas de infância que refletem na sua vida adulta MARILENE COSTA Copyright © 2021 Marilene Costa Todos os direitos reservados. "Guerreiros são pessoas, tão fortes, tão frágeis. Guerreiros são meninos no fundo do peito. Precisam de um remanso, precisam de um descanso Precisam de um sonho Que os tornem perfeitos. É triste ver esse homem, guerreiro menino Com a carga do seu tempo por sobre seus Ombros Eu vejo que ele berra Eu vejo que ele sangra A dor que traz no peito..." (Gonzaguinha) AGRADECIMENTOS Agradeço a meus pais, pelo amor e dedicação, e por ter ensinado a seus três filhos como serem pessoas do bem. A meus irmãos, por serem as pessoas mais incríveis do mundo! Ao meu primo (praticamente irmão) Harley, por toda força e apoio na criação deste livro e em minha vida. A minha amiga Silvanges, por ter participado do processo de gestação desta obra. A meu amor Júlian, por ter me incentivado a publicá-lo. Ao meu filho de pelos Igor Augustos, por ter me mostrado o que é o amor incondicional. SOBRE A AUTORA A autora, Marilene Costa, é psiquiatra e psicoterapeuta com mais de 30 anos de experiência na área médica, onde iniciou na cirurgia e na medicina de família. Porém, sua paixão pelo estudo da mente humana, sequestrou sua atenção, levando-a para os caminhos da psi, onde se tornou expert em transtornos do humor, ou seja, depressão, ansiedade e transtorno bipolar, bem como em transtorno obsessivo-compulsivo, fobias e traumas que estão a eles intimamente relacionados. Em sua experiência profissional e de vida, observou que a maioria, senão, todos os problemas da humanidade, se resumem à necessidade de ser amado, admirado e aceito pelo outro, e que essa necessidade advém de uma carência profunda, a qual não poderia deixar de ter suas raízes nos primórdios da infância e nas relações da criança com seus cuidadores, em especial sua mãe, supostamente fonte de amor incondicional e nutrição. Ocorre que a própria carência e traumas faz com que o adulto não consiga ser o provedor emocional do qual a criança tanto necessita, gerando traumas e perpetuando o ciclo. Fascinada pelo ser humano e suas inter-relações, a autora, durante seus mais de 25 anos na psiquiatria, dedicou-se ao assunto e estudou a fundo várias teorias, dentre elas a psicanálise, a terapia cognitivo-comportamental e o psicodrama. Enfim, após tantos anos de estudo e trabalho, a autora sente que precisa devolver ao mundo um pouco do conhecimento com o qual foi agraciada. Afinal, o saber é um tesouro que não deve ser mantido em segredo! SUMÁRIO Prefácio do autor Apresentação.............................................11 1. Introdução............................................16 2. O Conceito De Criança Interior.................21 3. A Criança Ferida Que Existe Dentro De Nós......................................................35 4. Transtorno Da Personalidade Borderline....57 5. As Fases Do Desenvolvimento Infantil.......74 6. Como A Criança Ferida Se Manifesta.........95 7. Como Identificar Em Que Fase Sua Criança Interior Foi Ferida................................112 8. Como Resgatar E Tratar A Criança Interior Ferida.................................................131 9. Etapas Do Processo Terapêutico Da Criança Ferida.................................................156 10. Considerações Finais............................164 Outros modelos teóricos do desenvolvimento infantil....................................................170 Referências Bibliográficas PREFÁCIO DO AUTOR Esse livro traz uma característica ímpar: parte dos pontos de vista de dois grandes autores, os quais já escreveram sobre o tema da criança interior ferida: o norte americano Jonh Bradshaw, autor de livros, workshops e seriado de TV na década de 80, o qual divulgou o termo criança ferida, e a brasileira Rosa Cukier, psicóloga, psicodramatista e escritora, autora do livro “Sobrevivência emocional”, onde retrata os traumas emocionais que a criança carrega para sua vida adulta, segundo a visão de Jacob Levi Moreno, pai do Psicodrama. A partir dessas duas abordagens, a autora faz uma fusão entre as ideias de Bradshaw e Moreno mostrando como as teorias desses autores se complementam. A fim de melhor compreender o que é a criança interior e como se dá o trauma que irá repercutir em sua vida adulta, faz um passeio pelas principais teorias do desenvolvimento humano, ilustrando com suas próprias experiências pessoais e prática clínica, tornando o conhecimento algo lúdico e de fácil compreensão. Também interliga as diversas teorias e as utiliza como base para o tratamento psicodramático da criança interior ferida. De forma semelhante, faz uma viagem pelas teorias e técnicas do psicodrama, exemplificando com casos clínicos, a fim de abordar de maneira clara e agradável como se dá a cura da criança interior ferida. Assim, contribui para que as pessoas, por mais leigas que sejam na área da psique, tenham consciência de que existe uma criança ferida dentro delas, e que, possivelmente, é causadora da grande maioria dos conflitos vividos na vida adulta. Mas que esta criança pode se resgatada e tratada através do psicodrama. Além disso, fica também um legado para os estudiosos e terapeutas que, ao pesquisarem sobre o tema, encontrarão neste livro um resumo das teorias e experiências dos grandes teóricos do desenvolvimento humano e estudiosos dos traumas infantis, fusão esta jamais encontrada em outras obras. Foi adicionado um anexo chamado Outros Modelos Teóricos do Desenvolvimento Infantil, o qual a autora dedicou aos profissionais que trabalham especificamente com o desenvolvimento infantil. Por tratar-se de um capítulo mais técnico, sua leitura é dispensável para quem deseja usufruir dos conhecimentos de forma leve e lúdica. Assim, tal capítulo foi deixado no final do livro, em um capítulo à parte, como leitura complementar, apenas para os curiosos das teorias do desenvolvimento. A autora, médica psiquiatra e psicoterapeuta, possui experiência de mais vinte e cinco anos no tratamento de adultos feridos na infância nos mais variados Estados da nossa Federação, e inclusive em países como México, Portugal, e Estados Unidos. ilustra o livro com alguns casos de pacientes atendidos em seu consultório e em atendimentos online (telemedicina), tomando o cuidado de resguardar nomes e características, a fim de preservar a identidade dos pacientes. Através desses casos clínicos, os leitores podem se identificar com os pacientes e vislumbrar um caminho por onde resgatar e cuidar de sua criança ferida, levando-os a procurar ajuda. Portanto, esta obra alcançará tanto o público científico quanto o leigo. Em uma linguagem fácil e acessível, o leitor poderá identificar a fase em que foi ferido e constatar que sua criança ferida pode ser curada, passando assim a ter uma vida mais tranquila e feliz, sem que os problemas vivenciados outrora continuem interferindo e prejudicando o seu dia a dia. APRESENTAÇÃO De origem grega, o termo trauma significa ferida, sendo utilizado na medicina para identificar as consequências de uma violência externa. Freud transpôs o conceito de trauma para o plano psíquico, ressignificando como um choque violento, capaz de romper a barreira protetora do ego, podendo acarretar perturbações duradouras sobre a organização psíquica do indivíduo. O trauma pode se referir a um único acontecimento externo ou a um acúmulo deles. "Consideremos o caso de uma pessoa sujeita a um trauma, sem antes ter estado doente, e talvez, mesmo sem ter qualquer predisposição hereditária. O trauma deve satisfazer a certas condições. Deve ser grave - isto é, ser de uma espécie que envolva a ideia de perigo mortal, de umaameaça à vida. Mas não deve ser grave no sentido de pôr termo à atividade psíquica. De outra forma, não produziria o resultado que esperamos dele." S. Freud Freud formulou a hipótese de que o psiquismo seria estruturado a partir do patrimônio genético, e modelado pela primitiva relação do bebê com seus pais, constituindo-se no que chamou de "experiências infantis". Essas experiências desempenham um papel crucial, tanto na resolução das diferentes etapas de desenvolvimento, quanto na interpretação e elaboração dos traumas. Observamos também que o ser humano, apesar de um ser racional, na maioria das vezes baseia suas escolhas em seu emocional, inclusive suas escolhas profissionais e vitais. Até aqueles que apresentam um excelente funcionamento, desempenhando adequadamente seus papéis profissionais, tomam atitudes baseadas em julgamentos subjetivos quando seu núcleo emocional é ativado. Não é à toa que equipes de marketing no mundo inteiro trabalham apelando para o emocional das pessoas e não para o racional! Quando você vê uma propaganda de carros de luxo, logo aparece um homem ou um casal bem-vestido, com um belo sorriso no rosto, com ares de ser bem-sucedido e feliz. É essa a mensagem a ser transmitida! Não interessa as qualidades do carro, a potência do motor, seus itens de segurança ou de conforto. O consumidor não vai se encantar por essas questões práticas, racionais, e sim pela ideia de sucesso e felicidade, qualidades completamente subjetivas e emocionais. Até mesmo quem busca sucesso, dinheiro e poder, está tentando recuperar a autoestima perdida na infância. Sabemos inclusive que o “Complexo de Superioridade” nada mais é do que um “Complexo de Inferioridade” invertido. Ou seja, o indivíduo, a fim de camuflar seu sentimento de inferioridade, busca representar para o mundo uma imagem de superioridade, força e poder, chegando inclusive à arrogância. Assim, guardamos, no âmago de nosso Ser, fragmentos das experiências por que passamos em cada fase da nossa infância, e mesmo da vida adulta, e que nos fizeram ser quem somos. Mas não são fragmentos no sentido de memória racional, e sim nossas interpretações naqueles momentos dos fatos ocorridos É como se fosse o “print” de uma cena. Mas na imagem você não vê a cena tal qual ela é, e sim a distorção causada pelo prisma emocional da pessoa que a experienciou. As impressões da pessoa com relação ao fato. Por isso, em uma família, cada filho tem uma visão de sua infância diferente do outro. Pois as lembranças estão impregnadas pelas sensações de quem as lembra. É na infância que você constrói sua visão do mundo, do seu papel como ser social, bem como desenvolve suas competências, sua forma de reagir às situações, de resolver os problemas do dia a dia, os imprevistos ou mesmo as catástrofes que podem ocorrer ao longo da vida. A depender de como a criança é educada, bem como sua constituição genética e predisposições, ela irá desenvolver resiliência e capacidade de adaptação, ou rigidez e dificuldade em lidar com os desafios da vida. Enfim, como psiquiatra, psicoterapeuta e psicodramatista, apaixonei-me pelo assunto e decidi trazê-lo ao conhecimento de todos. Este livro passou 12 anos guardado, esperando pelo momento de sua publicação, porém seu tema está a cada dia mais atual, visto que felizmente estamos aos poucos desenvolvendo a capacidade de olhar para dentro de nós mesmos e cuidar de nossas feridas. E é essa a proposta. Gosto de pensar que este livro foi um parto após uma longa e difícil gestação, porém muito desejada. E seu fruto é puro ato de espontaneidade e criatividade! 1. INTRODUÇÃO Freud afirmou que o trauma pode estruturar e organizar o ego, permitindo, através de eventos sucessivos, a repetição, a rememoração e a elaboração, ou bloquear o psiquismo, distorcendo o processo do pensar, levando em alguns casos à desorganização do ego. Ele ainda postulou que a relação primitiva do bebê com sua mãe se estabelece de forma inalterável, sendo o protótipo de todas as relações posteriores, e fundamentando o ego, que se constrói ao longo do desenvolvimento. Diante da ameaça de separação da mãe ou do cuidador, o bebê responde com ansiedade, e, perante sua perda real, com a dor do luto. Como podemos ver, há tempos temos o conhecimento de que traumas sofridos na infância podem gerar respostas não adaptativas na fase adulta, causando dor e sofrimento. No consultório isso fica mais evidente, pois até o paciente que em seu dia a dia se comporta de maneira resolutiva, sendo profissional de sucesso e com relações sociais e familiares bem estabelecidas, relata que em momentos de grande estresse emocional perde o controle sobre seus sentimentos e ações. No divã, ao falar sobre sua infância, mergulha em suas histórias, revivendo as cenas. Seus olhos, seus gestos, sua fala, não poucas vezes ganham uma entonação pueril, evidenciando o processo de regressão a períodos mais remotos de sua vida. O foco deste livro não é rememorar ou culpar/perdoar os adultos que cuidaram de você quando criança, mas, sobretudo, compreender como você interpretou suas experiências, e a que convicções e decisões chegou, como resultado do que vivenciou nas suas relações de dependência infantis. Bom lembrar que seus pais também são fruto do mesmo processo, também vivenciaram traumas na infância, alguns do quais não conseguiram elaborar de forma saudável. E devemos observar que na época deles, as dores da infância eram menos acolhidas ainda, pois não existia toda essa mobilização que vemos hoje em dia como temas contra o trabalho infantil, a prostituição infantil e outros tipos de abuso, até então ignorados em nossa sociedade. Ou seja, seus pais, assim como você, guardam dentro de si uma criança ferida que não foi cuidada a contento, e que sofre e se manifesta em momentos nos quais seus traumas são acionados no fundo do seu subconsciente. Essas atitudes, por serem desencadeadas por fortes emoções ativando lembranças emocionais da infância, surgem de maneira espontânea e reflexa, sem elaborações mentais e muitas vezes sem nenhum nexo com os acontecimentos atuais. Podem ser desencadeadas por palavras, cores, odores, objetos ou qualquer sensação que faça um “link” entre o acontecimento vivenciado e a reminiscência traumática. O objetivo deste livro é que você aprenda a reconhecer sua criança interior, e o que a levou a apresentar seu comportamento atual, compreendendo as distorções e o forte impacto das experiências precoces da infância em sua vida. Só daí poderá surgir a possibilidade de dialogar com essa criança sofrida, entendê-la, ampará-la e modificar algumas concepções que a levaram a tornar-se um adulto com problemas comportamentais e inter-relacionais. Neste livro buscamos mostrar como se dá a formação de nossa criança interior, como ocorrem seus traumas, e como podemos tratá-la para que deixe de nos causar tanto sofrimento. Como diria Moreno, criador do psicodrama, uma terapia baseada na interpretação da vida através de jogos de teatro: “é através dos jogos e brincadeiras da infância que aprendemos a nos relacionar”. E esse relacionar-se pode acontecer de forma saudável e construtiva, ou de forma neurótica e disfuncional. Impressionante constatar o quanto os primeiros seis anos de nossas vidas determinaram o adulto que somos hoje. Ou seja, da infância depende todo nosso sucesso ou fracasso emocional por toda a vida. Mas felizmente temos como mudar essa história! E o segredo está contido neste livro! 2. O CONCEITO DE CRIANÇA INTERIOR Todos temos uma criança dentro nós, que é responsável pela criatividade, espontaneidade e evolução. É a parte de nós que guarda os sentimentos e as lembranças vividas em uma fase de inocência e felicidade. Porém, não guardamos apenas as boas lembranças dessa fase da vida, mas carregamos conosco traumas que podem comprometer toda nossa existência adulta. Segundo Jeremiah Abrams, psicólogo Junguiano autordo livro O Reencontro da Criança Interior, a criança interior “...é tanto um fato em desenvolvimento como uma possibilidade simbólica. É a alma da pessoa, criada dentro de nós através do experimento da vida e é a imagem primordial do Self, o cerne mesmo de nosso individual.” Portanto, no interior de cada pessoa adulta, existe tanto a criança que é portadora dos registros de nossa história pessoal, quanto a criança portadora de nossa energia vital que é a criança eterna, segundo Carl Jung, a que impulsiona para uma vida mais plena rumo à realização das potencialidades próprias, singulares de cada um. Essa criança está oculta em você e precisa continuamente de cuidado e atenção. O conceito de “criança interna” é bastante antigo na literatura e só na década de 80 tornou-se popular nos Estados Unidos. Na mitologia de muitas culturas, essa “parte infantil no adulto” representa a necessidade humana de recapturar a originalidade e a emoção da criança frente ao estresse e a extrema racionalidade do cotidiano. Isso, pois junto com o crescer, vem todos os problemas e responsabilidades da vida adulta. A criança interna feliz é um refúgio onde o adulto se protege e refaz suas energias e sua fé! Na visão chinesa, a força dessa criança provém de nosso Jing ou energia ancestral (Qi pré-celestial). John Bradshaw, em seu famoso livro intitulado Homecoming: Reclaiming and Healing Your Inner Child (Volta ao lar: resgatando e defendendo sua criança interior), fala da criança maravilhosa, e suas qualidades, as quais ele descreve em forma de ideograma com a palavra wonderful (maravilhosa): Wonder: maravilha Optimism: otimismo Naiveté: ingenuidade Dependence: dependência Emotions: emoções Resilience: resiliência Free Play: liberdade para brincar Uniqueness: originalidade Love: amor Segundo o autor, para essa criança maravilhosa, tudo é interessante e estimulante. Ela se maravilha com todos os seus sentidos; experimenta, explora, de um modo otimista, confiando no mundo exterior, o que a torna vulnerável, e a todos encanta e atrai com sua ingenuidade, sua inocência e orientação para o prazer. A criança maravilhosa é obrigatoriamente dependente. Suas emoções, choro, riso, raiva, são espontâneos e têm um valor especial de sobrevivência para o bebê humano, pois despertam nosso cuidado. Para a criança, bem como para o adulto, o choro não é necessariamente prenúncio de um trauma, mas de uma frustração, necessária ao aprendizado e desenvolvimento. O choro das crianças nos remete aos momentos de tristeza da criança ferida que existe dentro nós, fazendo com que intuitivamente busquemos ampará-la e trazer de volta sua alegria, como gostaríamos que algum adulto tivesse feito conosco em nossa tenra infância. Entretando, o choro é necessário como forma de expressão de uma frustração, e lidar com ele de forma madura não é necessariamente suprir a criança do que ela deseja, tampouco obrigá-la a “engolir o choro”, como muitos adultos costumam fazer. O ideal é que a criança possa exprimir seu sentimento de frustração, porém compreender que nem sempre suas vontades serão satisfeitas. Isto pois amadurecer e evoluir implica em saber receber um não de forma adaptativa. A criança tem um senso natural de liberdade, segurança e espontaneidade ao brincar e ao movimentar-se no mundo, o que para ela é uma atividade de puro prazer e encantamento. A criança maravilhosa é um ser único e sente essa unicidade, esse EU SOU. Ou seja, sente-se ligada e unificada dentro de si mesma, e esse sentimento de integração é o verdadeiro significado da perfeição. Nesse sentido toda criança é perfeita! A criança maravilhosa tem resiliência, ou seja, capacidade de reagir aos traumas e voltar ao seu estado normal. Você já observou que quando uma criança está brincando e cai ela rapidamente se levanta e continua a brincar, sem se importar com o machucado? É a capacidade de adaptação e recuperação. Os pais não devem impedir que a criança explore o mundo a seu redor, apenas devem tentar evitar os grandes traumas, e estar presentes com amor incondicional, a fim de cuidar dos ferimentos, quando essa criança se machuca. Mas sem “dramas” ou excesso de mimos, pois ela só começa a desenvolver “manha” quando os pais passam a supervalorizar esses momentos de queda e dor, gerando a interpretação de que o fato foi mais traumático do que realmente ocorreu, e plantando no filho a semente da criança ferida. Portanto, se uma criança cai, ou se ela passa por algum pequeno trauma, apenas observe seu comportamento. Se ela pedir ajuda, acolha-a com amor, porém sem exageros. Assim ela aprenderá a reagir aos fatos da vida com tranquilidade. Do ponto de vista intrapsíquico o mesmo acontece. A criança maravilhosa não valoriza prolongadamente dores e perdas, pois ela tem a capacidade inata de continuar vivendo e se divertindo apesar de tudo isso. Excessão encontra-se nos grandes traumas, como por exemplo o da ausência dos seus cuidadores, o que Freud chamou de “perigo mortal” visto que ela sabe que não sobrevive sozinha. Como você pode perceber, as vivências da criança frente ao mundo são reativas, imediatas e os traumas ordinários são rapidamente superados e esquecidos. Pois essa criança maravilhosa não foca na dor, e sim no maravilhoso mundo novo à sua frente. Porém, ela aos poucos vai aprendendo a enxergar o mundo através dos olhos dos seus pais ou cuidadores. E, através desse prisma, os acontecimentos vão se tornando mais dramáticos. Pois, infelizmente, nós adultos tendemos a focar nos problemas que nos trazem sofrimento e não nas coisas maravilhosas ao nosso entorno, as quais, na maioria das vezes, superariam tais problemas. Esse enfoque no aspecto negativo de nossas vivências, os quais a criança passa a absorver, gera a maioria dos traumas que, de outra forma, seriam facilmente superáveis. É claro que existem grandes traumas, aos quais nem a espontaneidade, nem a ingenuidade, nem a resiliência da criança maravilhosa conseguem torná-la imune. Abusos dos mais variados tipos, por exemplo, ou grandes catástrofes, são de fato experiências que marcam negativamente o âmago da criança. Isto porque, para a criança, a sua única força protetora é o adulto, e qualquer tratamento abusivo que venha dele desconfirma sua fé e certeza de sobrevivência. Porém, a maioria dos traumas vivenciados não são desse porte, e, portanto, seriam mais facilmente superáveis. Atualmente podemos observar uma geração de adolescentes e jovens adultos hipersensíveis e vulneráveis a obstáculos que, para as gerações anteriores, seriam facilmente relevados. Isto porque, infelizmente, o medo de gerar traumas em seus filhos, alardeado por estudiosos da psicologia infantil nas décadas de 50 e 60, e que repercutiu em nosso País na década de 70, fez com que pais, preocupados em defender seus filhos, acabassem por “pecar por excesso” de cuidados, imprimindo no emocional dessas crianças a sensação de que todo evento negativo se constitui em um trauma insuperável. Isso em parte foi ocasionado pelo grande trauma da Segunda Guerra Mundial, que gerou uma leva de soldados e famílias sequelados, com transtornos mentais os mais diversos, e a sensação de que suas vidas foram sacrificadas inutilmente. Tal evento culminou com a geração hippie, com sua utópica reinvindicação de liberdade sem limites e sua ojeriza às guerras. Então, todos esses acontecimentos provêm de um contexto histórico pós-recessão e pós-guerra, e tudo isso é mais um fato a ser superado com as novas teorias do desenvolvimento infantil. Sabemos que precisamos defender nossas crianças, mas precisamos encontrar o “caminho do meio” ou do equilíbrio, como ensina a filosofia oriental. Eric Berne, médico psiquiatra canadense nascido em 1910 e criador da Análise transacional, um tipo de teoria psicológica, já apresentava ao público a noção de criança interna como um ego- criança que surge ao nascer repleto de criatividade e espontaneidade, características primárias do ser humano, as quais o adulto molda pela educação.Segundo Berne, o individuo é capaz de modificar seus sentimentos, pensamentos e escolhas através do autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. Já a gestalterapia, uma teoria existencialista originada em 1951 baseada no “aqui-e-agora” criada por Robert e Mary Golding, discípulos de Berne, busca resgatar a criatividade, originalidade e espontaneidade da criança, através da terapia de redecisão, uma terapia intensiva voltada para grandes grupos, que objetiva o indivíduo a adquirir habilidades para lidar com seus sentimentos. Credita-se uma das utilizações mais recentes da conceituação de criança interior a Alice Miller, psicóloga polonesa pesquisadora da infância, que descreveu em seus trabalhos os maus tratos sofridos pela criança como causadores de prejuízos graves à personalidade adulta. Vale lembrar que na criança interior estão presentes lembranças ruins, mas também lembranças alegres, ambas posteriormente, refletindo em reações pueris, ou seja, as regressões nem sempre são para fatos negativos, uma vez que o adulto pode regredir para momentos ruins ou bons da infância. Por sorte, a criança é um ser resiliente, então, na maioria das vezes, supera os momentos ruins, não transformando-os memórias traumáticas internalizadas (no subconsciente). Mas lembre-se: isso só não é possível quando esses traumas são extremamente impactantes, ou quando o adulto reage exageradamente e a criança assimila aquilo como um alerta de que se trata de algo grave. O que é impactante para você, pode não ser para outra pessoa! Um exemplo claro disso é que enquanto uma pessoa tem medo de galinha por ter presenciado durante infância a mãe matando a ave no intuito de preparar a refeição da família, outra criança, que presenciou a mesma cena, pode tê-la apenas como uma vaga lembrança, não traumática. Portanto, muitos traumas somente se consolidam quando a criança já apresenta uma certa vulnerabilidade. Ou seja, quando o adulto imprimiu nela tal vulnerabilidade, ou quando há predisposição genética a algum transtorno psiquiátrico. Mas acredito que até os transtornos mentais nada mais são que “imprintings” genéticos. Isto porque segundo a epigenética, os traumas podem, ao longo das gerações, causar modificações genéticas que passarão a ser transmitidas para as próximas gerações. Portanto, segundo diversas teorias, todos possuem uma criança interior. Em algumas pessoas, essa criança se manifesta ao longo de toda a vida de forma bem evidente, em especial durante momentos negativamente ou mesmo positivamente críticos da vida, (as chamadas crises vitais) como nascimento ou morte de pessoas próximas, casamento, início ou perda de emprego, aposentadoria, etc. Porém, há pessoas nas quais essa criança interior parece nunca ter existido, nem mesmo quando ainda eram crianças. Geralmente isso ocorre quando a criança se vê em um lar inundado por conflitos e passa a se comportar de maneira precocemente adulta a fim de apoiar os pais Ainda assim, esta “não existência” é só aparente, pois, ao longo do desenvolvimento, a pessoa vai deixando dentro de si rastros dessa criança, correspondente a cada fase de sua vivência. Fico triste quando ouço mães se vangloriando de que seus pequenos filhos são seus confidentes e as apoiam e cuidam delas. Estas mães não percebem que aquela pobre criatura está petrificada com medo de perder a mãe, e com isso, ela própria não sobreviver, posto que a criança, por ser dependente, acredita que não sobreviverá sem seus cuidadores. A criança não é a “pequena mãe ou pai” da qual sua mãe adoecida se vangloria. Ela é só uma criança lutando desesperadamente para sobreviver, e sua única arma é reprimir seu medo a fim de “cuidar e tratar a ferida” de sua cuidadora. Esse é um dos piores traumas que uma criança pode sofrer! Quando essa criança interior sofre traumas profundos, sua psique não conseguirá lidar com esses traumas, a despeito de sua resiliência, e então formar-se-á o cerne da criança ferida. 3. A CRIANÇA FERIDA QUE EXISTE DENTRO DE NÓS Já sabemos que todos guardamos várias crianças em diferentes fases de desenvolvimento, as quais ficam congeladas, gravadas ou registradas (“imprinting”) dentro de nós nos momentos em que vivenciamos fortes emoções, que podem ser boas ou ruins. Quando essas emoções são negativas, geradoras de vergonha, medo, culpa, ou desconfirmadoras, tem-se congelada uma criança interior ferida. Costumo comparar o adulto com uma cebola, formado por camadas, sendo que no caso em questão as camadas mais primitivas (infantis) vão ficando internalizadas. Podemos representá-lo também pela Matrioshka, aquela bonequinha russa que você vai abrindo e encontrando uma bonequinha cada vez menor até que encontra um bebê. Possuímos dentro de nós várias crianças em fases diferentes, registradas em momentos de fortes emoções. Essas crianças vêm à tona quando nos comportamos de forma impulsiva, quando apresentamos comportamentos infantis, quando reagimos a uma situação, não pela nossa percepção atual, mas segundo nossas impressões guardadas no passado. Quando temos reações exageradas (overreacting) ou quando congelamos diante de situações-problema. Nós, seres humanos, somos pautados nas emoções. Vivemos o tempo todo envoltos em momentos ou lembranças que nos deixam consternados, emocionados, felizes ou infelizes. De acordo com diversos teóricos, se as necessidades fundamentais da infância não forem satisfeitas, o indivíduo tende a tornar-se um adulto com uma criança interior ferida. Essa ferida vem à tona quando o adulto ouve uma afirmação específica, a qual ele ouviu na infância, e que lhe deixou impressão profunda. Na terapia, observo que geralmente o paciente manifesta tristeza nos olhos ou mesmo chora, ao se reportar ao período em que foi ferido. Nesse sentido, a frustração do desejo de uma criança ser vista como uma pessoa e ter seu amor aceito, é o maior trauma que uma criança pode experimentar. Ou seja, o acolhimento e a confirmação dos sentimentos da criança, sem desvalorizar nem supervalorizar, mas observando o valor que a própria criança dá àquele sentimento e a duração de sua resposta adaptativa, é o que a criança realmente precisa para crescer saudável e feliz. Segundo Bradshaw, “Nenhum pai em uma família disfuncional pode dar a seus filhos o que ele precisa”. Por exemplo: uma criança cujos pais não conseguem estar presentes em situações nas quais ela necessita de apoio emocional, não validam suas conquistas, não a defendem contra agressões do mundo exterior, pode concluir que o mundo é um lugar muito perigoso, e que ela não deve confiar em pedir ajuda a ninguém, visto que seus próprios pais foram ausentes e incapazes de prestar-lhe socorro nos momentos mais simples, como elogiar um pequeno feito, aos mais complexos, como defendê-la de maus tratos. Não importa por que razão os pais foram ineficientes, se por trabalharem muito a fim de manter o padrão social da família, ou se por serem acometidos por transtornos físicos ou mentais que lhes roubaram a capacidade de serem cuidadores. O fato é quem essa criança pode tornar-se um adulto desconfiado, inseguro ou detentor de um falso senso de autoconfiança e autossuficiência, fazendo com que acredite que ela, e apenas ela, seja capaz de resolver seus próprios problemas. Essa pessoa então, terá enorme dificuldade em confiar nos outros ou pedir ajuda quando necessita. Os traumas trazidos da infância tornam-se evidentes quando os pacientes são convidados a dramatizarem as cenas. Nesse momento, suas dificuldades atuais aparecem geralmente decorrentes da lembrança de um fato ocorrido na primeira infância, mais especificamente por volta dos cinco a sete anos de idade (período do qual a maioria das pessoas já possui memória consciente). Porém, inusitadamente, há pessoas que relatam lembrarem-se de fatos relativos a períodos mais remotos, como 3 ou até 2 anos de idade. Não sabemos se são memórias reais ou geradas por relatos de familiares, mas o poder dessas memórias é igualmentereal na vida da pessoa. São lembranças de uma criança apavorada, geralmente envolta com alguma forma de violência, onde ela nada pôde fazer para cessar o sofrimento, sendo sujeita à força e ao poder do adulto em questão. Exemplo frequentes são as brigas entre os pais. O sentimento é de medo e impotência. Geralmente o adulto, ao relembrar tais situações, treme, se encolhe, abaixa a cabeça, ou chora inconsolável. Ou simplesmente, vê-se uma nuvem cinza em seu olhar... Assim, como podemos ver, diante da submissão forçada, dos sentimentos de raiva e vergonha, da humilhação e inferioridade sofrida na infância, o individuo pode desenvolver alguns mecanismos de defesa. Um deles seria vir a tornar-se um adulto violento, passível de fazer os outros sofrerem o mesmo que ele sofreu, ainda que o faça de forma inconsciente, e com a desculpa de que está preparando seus filhos para o mundo, ou que, sendo tratado assim, tornou-se uma pessoa bem-sucedida. Inconscientemente esses pais desenvolveram o que Anna Freud chama de identificação com o agressor. Fazendo um aparte, o termo foi cunhado por seu contemporâneo Sandor Ferenczi e atualmente é mais conhecido como Síndrome de Estocolmo. Portanto, faz-se necessário dizer que os seres humanos exercem um enorme poder uns sobre os outros, um poder de vida ou morte! Desde que nascemos, somos dependentes do outro. Na primeira fase da vida, o que importa é atender às necessidades físicas (alimentação e higiene) e emocionais da criança, uma vez que esta encontra-se extremamente frágil e dependente do outro para absolutamente tudo. Nesse momento um pai presente cuidador é tudo o que a criança necessita. Vejo muitos pais dizerem que se sacrificam trabalhando de forma extenuante por mais de doze horas ao dia, a fim de prover conforto a seus filhos. Se fossem mais sinceros diriam que deixam seus filhos em segundo plano a fim de prover suas próprias expectativas de conforto. Aquilo que gostariam de possuir em sua infância. Desejo esse gerado por uma sociedade de consumo, voltada para o status material, e que esquece as necessidades primárias do ser humano: amor e cuidado! Isto porque a criança maravilhosa só precisa desse amor e cuidado. Nada mais! Ela não precisa de roupas de grife. Nem de brinquedos da moda. Na verdade, ela nem precisa de brinquedos! A criança maravilhosa é criativa e curiosa, e inventa suas próprias brincadeiras a partir de tudo que está a seu alcance! A primeira etapa da infância é pré-verbal, e tudo o que acontece depende da decodificação verbal e emocional ou leitura sobre o comportamento da mãe ou cuidador. Nessa fase a criança é muito intuitiva e parece adivinhar os sentimentos dos cuidadores. Isso porque sua sobrevivência depende de eles estarem bem a fim de suprir-lhe as necessidades. Sem alguém que possa espelhar nossas necessidades e emoções, não podemos saber quem somos. Por outro lado, a forma como essa pessoa decodifica nossas mensagens acaba constituindo aquilo que somos, e ela o faz de acordo com suas próprias vivências. A primeira pessoa a cuidar da criança exerce uma importante função em seu relacionamento com o mundo, pois esta funciona como uma espécie de ponte relacional entre a criança e o mundo, e ocupa, num primeiro momento, o lugar que o Eu da criança ocupará mais tarde. Daí a importância do papel de cuidador, normalmente exercido a princípio pelos pais, e posteriormente pelas pessoas mais próximas. Infelizmente, vemos muitos pais entregarem esse papel crucial a babás e motoristas, e se deixam no papel extremamente coadjuvante de provedores e administradores. Como já disse anteriormente, uma criança vive muito bem sem brinquedos, mas ela precisa da presença do adulto em quem ela se espelhará para o resto da sua vida! Esse adulto será você ou alguém contratado para tal papel? E lembre-se que esses cuidados são mais vitais na primeira infância, ou seja, até os 6 a 7 anos de idade. Pare e pense! Quem é/foi o cuidador dos seus filhos? Como a criança aprende a enxergar o mundo pelo olhar de seus cuidadores, isso significa que a criança só dará importância às coisas e até mesmo emoções que eles valorizam. Se seus cuidadores são pessoas leves, emocionalmente saudáveis, que sabem enfrentar os obstáculos da vida com bom humor, a criança enxergará com leveza a vida e as situações. Porém se forem preocupados, frustrados, irritados, pessimistas, inseguros, a criança precocemente desenvolverá as mesmas características e se tornará uma criança de difícil convívio social e com enorme sofrimento emocional. A criança é um ser dependente e tem consciência disso. Assim, a autoestima do indivíduo reflete como foram suas primeiras relações, e prevê como serão suas relações com o mundo e com as demais pessoas. Depender dos outros não configura uma situação confortável para nenhuma das partes. Quando ainda é criança, o individuo aceita com tranquilidade essa dependência. No entanto, a medida em que a criança vai amadurecendo, adquirindo noção do mundo que a cerca, vai sentindo necessidade de autossuficiência, e nessa fase é normal ficar incomodada com tal situação. Para entender melhor a necessidade de dependência básica do ser humano Cukier usa a descrição que Bradshaw faz das quatro características naturais da criança, que fazem dela um autêntico ser humano. São elas: 1. Valorabilidade. 2. Vulnerabilidade. 3. Imperfeição. 4. Pensamento radical. Baseado nestas qualidades, deduz que necessidade de dependência básica do ser humano significa poder contar com pais que: 1. façam ela se sentir preciosa, importante e providenciem o que necessita enquanto não for autônoma. 2. dediquem tempo e atenção para poder ajudá- la a definir seus próprios limites e a obter as informações que precisa para lidar com a realidade e com suas próprias necessidades. 3. permitam que a criança expresse seus impulsos agressivos e hostis sem as mesmas se destruírem e sem que os pais destruam a autoestima da criança. E, ao mesmo tempo, também se permitam a expressão de reações agressivas e hostis, respeitando a assimetria intrínseca do vínculo. 4. permitam que a criança seja criança, e, num segundo momento, permitam que ela cresça e ganhe autonomia. 5. sejam pessoas coerentes, consistentes, previsíveis, e que ensinem e ajam da mesma forma. 6. sejam seres falíveis, que admitam seus erros e peçam desculpas. Eu acrescentaria que, após pedirem desculpas, não fiquem relembrando o fato, a fim de não gerarem uma criança manipuladora, que utiliza o sentimento de culpa dos pais a fim de conseguir tudo que deseja. Quando os pais ou cuidadores oferecem à criança esse ambiente acolhedor, cuidador, coerente, leve e sincero, a criança pode crescer de forma saudável e desenvolver suas habilidades emocionais. Porém, quando a criança se encontra em um ambiente desprovido dessas qualidades, ela irá crescer física e socialmente, porém seu desenvolvimento emocional ficará seriamente comprometido, fazendo-a sentir-se ainda mais envergonhada e humilhada, tentando a qualquer preço esconder sua falhas e recuperar sua dignidade e autoestima, seu narcisismo ferido. Quanto ao abuso infantil, outrora ligado quase sempre a abuso sexual, sabemos que recebeu uma ampliação de seu conceito por parte dos estudos de Kreisman (Psiquiatra e escritor norte americano especialista em Transtorno de Personalidade Boderline) e Bradshaw (autor de livros e programas de tv sobre codependência). Então, atualmente existem três tipos de abuso infantil: abuso sexual, abuso físico e abuso emocional. Vale lembrar que o abuso sexual não se configura apenas no fato de um adulto manter relação física com a criança, mas também em algumas formas sutis como: - Intimidar sexualmente: criar situações, onde a criança vê ou ouve coisas que a envergonham. Como por exemplo, quando crianças que por "descuido" dos pais, ouvem ou observam suas relações sexuais, ou quando adultos observam sexualmente os filhos e/ou se desnudam de forma sexual na frente das crianças, ou ainda deixam expostas revistasde cunho sexual. - Cuidados físicos como aplicar enemas, ou mesmo dar banho em crianças mais velhas, podem ser uma forma de abuso sexual disfarçado, mas que a criança, ainda que em uma fase posterior, percebe com estranheza como algo anormal. - Ausência de informação sexual adequada à idade: por exemplo, não falar a uma menina que ela irá menstruar, dizer que a masturbação causa lesões físicas, etc. O abuso físico caracteriza-se quando a criança sofre ou observa qualquer tipo de punição física com alguém da família, como por exemplo, um pai alcoolizado que chega em casa agredindo fisicamente a esposa na presença do filho. Isso para a criança é uma situação mortal. Pesquisas mostram que geralmente pais que agridem fisicamente seus filhos apanharam quando crianças. No entanto, em minha experiência, isso nem sempre se confirma. Em minha experiência clínica, pais que foram fisicamente abusados podem tornar-se condescendentes, não impondo aos filhos os limites necessários à formação de um “Ser Social”, a fim de não infringirem aos filhos o mesmo sofrimento pelo qual passaram na infância. O trauma costuma produzir reações extremas. Ou a pessoa se identifica extremamente com o abusador e age igual, ou repudia ao extremo suas atitudes e procura agir de forma oposta. Em ambos os casos, os resultados são catastróficos! Observo também que alguns pais que sofreram outros tipos de abuso (que não físico) podem tornar-se violentos fisicamente, projetando sua frustração nos filhos. O abuso emocional resulta de uma confusão de fronteiras dentro da família, e há uma reversão da ordem da natureza, quando são as crianças que cuidam de seus pais e não o contrário. Esse tipo de abuso não ocorre apenas em famílias desestruturadas, mas também em muitas das famílias ditas "normais". Muitas vezes, a criança assume o papel de auxiliar ou até cuidador da mãe ou do pai, que pede ajuda por ser ele mesmo frágil e/ou não conseguir se defender de alguma situação abusiva na família. Vale relembrar que a criança assume o papel de cuidador, não porque de fato queira, mas para ajudar os pais, dos quais depende, ou para não perder o amor deles, caso os contrarie. E isso pode causar sequelas na fase adulta, uma vez que a criança não teve suas necessidades infantis satisfeitas ou respeitadas. Essa criança pode, assim, tornar-se um adulto pseudo autossuficiente, visto que aprendeu apenas a cuidar e não ser cuidado quando precisou. Ou pode, por outro lado, assumir o papel de vulnerabilidade outrora exercido pelos pais, perpetuando o ciclo vítima/agressor (ou abusado/abusador). A falta de respeito à hierarquia da relação pais-filho atualmente é considerada também abuso, pois, agindo dessa maneira, os pais não protegem a criança e não a ajudam a se desenvolver. Pais que se sentem culpados por não poderem dar a atenção devida aos filhos por conta do trabalho, ou ainda inseguros quanto a forma adequada de educá-los, geralmente também rompem essa hierarquia e deixam que os filhos tenham total controle sobre eles, cedendo às suas vontades e não impondo limites. Seja qual for a forma de abuso, o fato é que deixa marcas profundas, e o adulto acaba por transmitir os traumas à criança pela qual será responsável mais tarde, perpetuando o ciclo a cada geração. Todavia, existem processos automáticos usados pelo ego, para a criança se autopreservar, toda vez que sofre um grave choque. Segundo Freud, as defesas do psiquismo ajudam a criança a separar o que é seu do que é do outro, além de proteger seu psiquismo de situações consideradas intoleráveis. Assim, alguns dos mecanismos de defesa como a negação, a dissociação a conversão etc., formam um sistema de defesa eficiente. Esse sistema é definido por Donald Woods Winnicot, pediatra e psicanalista inglês, como sistema do “Falso Self”, que está representado pela organização total da atitude social polida e amável, de não demonstrar abertamente seus sentimentos. Durante a terapia, demora muito até o indivíduo aceitar se desfazer do “falso Self” e da fantasia de onipotência, e assumir sua falibilidade. Importante lembrar que assumir sua fragilidade não significa se esconder atrás dela. O terapeuta precisa mostrar ao paciente que ele possui sim armas a fim de lutar e evoluir emocionalmente. E quando essas armas estão “enferrujadas”, ajuda-lo a torná-las mais eficazes. A criança cria uma forma alternativa de ser, uma espécie de máscara, negando ou substituindo as próprias emoções, na tentativa de esconder sua condição de abandono e falta de valor. Com isto, espera ser mais valorizada e aceita pelas pessoas de seu convívio, deixando de lado (camuflados) a vergonha e os defeitos antes sentidos. Segundo Winnicot, na patologia do falso self, há um grande leque de doenças, como as psicoses, os quadros borderline, a depressão e o comportamento suicida. Nas doenças, constatamos os aspectos menos autênticos (mais falsos) da personalidade, inclusive nas neuroses. Por isso muitos estudantes de psicologia ou psiquiatria inicialmente se identificam com todos os transtornos dos livros. Porque os transtornos nada mais são do que a exacerbação de traços normais. Porém, é importante destacar que nem todas as pessoas que apresentam falso self manifestam os transtornos graves mencionados por Winnicott. Nos dias atuais podemos identificar nas redes sociais pessoas com características do falso self, quando estas expõem uma vida perfeita, onde vivem em um mundo fantasioso, cercadas por festas, gente bonita e ostentação. Essas pessoas não postam frases introspectivas, momentos negativos ou de conflitos, mas apenas vendem a imagem de um ser feliz e realizado, ou seja, o que acham que os outros esperam delas. E, pior do que isso, é que muitas dessas pessoas com o tempo passam a acreditar na imagem que criaram. Se formos investigar mais a fundo, muitos desses adultos “perfeitos” possuem uma história na infância de sentimentos de fracasso e rejeição. Quando falo em sentimento, é porque mesmo que o adulto ame e valorize seu filho, se ele não conseguir demonstrar esses sentimentos, a criança pode crescer acreditando não ter sido amada. Cukier destaca como características do falso self sua rigidez, pois assim que este se estrutura, o verdadeiro self passa a ser esquecido, e, com o tempo, a pessoa perde a noção de quem realmente era, além da lembrança de que ela própria criou um personagem para si. E ainda, o falso self possui um sistema de auto- observação e vigilância permanente, já que é necessário ficar atento para que as partes rejeitadas não apareçam e façam ressurgir todo o sentimento de vergonha e inferioridade de antes. Outro transtorno gerado por um grande trauma é o Transtorno da Personalidade Borderline ou Emocionalmente Instável. Você já deve ter observado que existem pessoas que provocam raiva e até medo por seu comportamento instável, explosivo e beligerante. Muitas vezes apresentam acesso de fúria e reclamam das situações em que se encontram. Tal transtorno é tão emblemático como originado pela criança interior ferida que merece um capítulo à parte. 4. TRANSTORNO DA PERSONALIDADE BORDERLINE O Transtorno da Personalidade Borderline (TPB) pode ser caracterizado pela notável instabilidade em muitos, senão em todos os aspectos do funcionamento da pessoa, incluindo nos relacionamentos, autoimagem, afeto e comportamento. O termo borderline, que no português quer dizer fronteiriço ou limítrofe, foi usado pela primeira vez em 1938, por Adolf Stern, para descrever um grupo de pacientes que não era favorecido pela psicanálise clássica e, também, não se enquadrava como neurótico ou psicótico, possuindo características de ambos os transtornos. Atualmente considera-se que, além da predisposição genética, a etiologia desse transtorno está em grandes traumas sofridos na infância, os quais o indivíduo nunca conseguiu processar. Devido a essa estreita correlação com traumas de grande magnitude para a criança, é considerado por algunspesquisadores um tipo de Transtorno do Estresse Pós-traumático, pois ocorre quando a criança é submetida a um trauma violento, uma catástrofe à qual ela não consegue processar emocionalmente, temendo pela própria sobrevivência física ou emocional. Acredito que o outro extremo desse distúrbio seja o Transtorno de Personalidade Anti-social, mais conhecido como sociopatia ou psicopatia. Dentro dessa linha de pensamento, haveria duas reações extremas ao estresse intenso, o qual a criança não consegue processar de maneira saudável, gerando o Transtorno do estresse pós-traumático: 1. Na primeira reação, a criança pode perder sua “pele emocional” e tornar-se extremamente sensível e reativa ao mínimo fator de sofrimento, tornando-se um adulto borderline. 2. Na segunda reação, ela pode desenvolver uma “carapaça emocional” e daí tornar-se completamente insensível, principalmente ao sofrimento alheio, que vem a constituir a estrutura psíquica do sociopata e do psicopata. Então, segundo minha teoria, o psicopata e o borderline, dois transtornos de personalidade tão extremamente diferentes, seriam duas faces de uma mesma moeda. O diagnóstico do TPB não é dos mais fáceis, já que esse distúrbio é compatível com várias outras patologias, chegando a confundir-se com elas Judith Herman, psiquiatra norte americana, a partir de estudos realizados em sobreviventes de vários tipos de traumas, ao qual denominou de “Síndrome Complexa do Estresse Pós- traumático”, ratifica que o diagnóstico de “personalidade borderline” tem causado mais prejuízo do que benefício para o estudo dos distúrbios de personalidade. Isso pois, tal como o termo “histérico”, cuja conotação negativa e pejorativa acabou se tornando um jargão na psiquiatria, a palavra “borderline” passou a significar, nos últimos anos, manipulador e criador de casos. Isso fez com que os pacientes de TPB fossem vistos como pessoas manipuladoras, quando são verdadeiros heróis que sobreviveram a fortes traumas na infância, e cujas atitudes de manipulação são uma busca desesperada de amor, aceitação, e de aliviar sua dor interna. É muito comum no consultório observar que uma adolescente borderline possui uma mãe igualmente borderline, ainda que na maioria das vezes não diagnosticada. É mais uma vez o ciclo abusado/abusador do qual falei anteriormente. Os atos desesperados como as tentativas de suicídio e as crises de agressividade são gritos de socorro de alguém que se sente abandonado e perdido. Quando se encontram em situações-limite, esses pacientes, inconscientemente, tomam atitudes que ameaçam sua dignidade e segurança, tais como: dissociação, intrusão, irritabilidade, impulsividade, fortes mudanças de humor, automutilação, tentativas de suicídio etc. O lema interno do paciente borderline é: “Te odeio, por favor, não me abandone!”. Isto porque o indivíduo sente um imenso vazio interior que não consegue suprir, um sentimento de rejeição e solidão, que o fazem agir de forma dita “manipuladora”, instável e desesperada, sensível aos mínimos sinais do que pensa ser rejeição, agredindo as pessoas que ama a fim de provar sua ideia de que será abandonado. E obviamente tais atitudes acabam por amedrontar e afastar as pessoas, confirmando sua teoria. Quanto á etiologia, o TPB, pode ser causado por fatores constitucionais e fatores socioculturais. Quanto aos fatores constitucionais que levam ao TPB, não há nada consistente na literatura. Podem estar associados á hereditariedade, pois é bastante significativa a presença de pais que sofrem do transtorno no histórico do paciente. Porém não há como determinar se realmente seria uma herança biológica ou psicológica (comportamento aprendido), visto que pais que sofreram grandes traumas na infância e são emocionalmente instáveis podem vir a infringir involuntariamente traumas semelhantes em seus filhos, mormente os primogênitos, época em que esses pais ainda são inexperientes e inseguros na educação infantil. Pais que sofreram grandes traumas na infância e são emocionalmente instáveis costumam infringir involuntariamente traumas semelhantes em seus filhos. A medicação utilizada pelos pacientes boderline no tratamento dos sintomas depressivos, apesar do efeito de alívio, não provoca nenhuma mudança em sua personalidade. As terapias têm resultados erráticos, geralmente com pouca melhora do quadro. E o abandono do tratamento, tanto medicamentoso quanto psicoterapeutico é muito comum. Segundo pesquisas, a TCC (Terapia Cognitiva Comportamental) é a que apresenta melhores resultados. Aos fatores socioculturais, estão relacionados, entre outras coisas, a falta de uma família estruturada e sólida, uma vez que os pais atualmente passam cada vez menos tempo cuidando de suas crianças. Outrora, o pai saía para trabalhar e a mãe ficava em casa cuidando dos filhos. Contudo, as mudanças no comportamento feminino levaram a mãe ao mercado de trabalho, sem a contrapartida da redução da carga horária para ambos os pais, fazendo com que, cada vez mais, o cuidado das crianças fique ao encargo de outras pessoas, frequentemente pouco preparadas para lidar com as demandas emocionais da infância, e trazendo elas mesma suas feridas emocionais. Portanto, esses fatores contribuem para o TPB, que pode levar o indivíduo a agir com agressividade verbal ou até mesmo física contra si e contra as pessoas a sua volta, em determinadas situações. Essa atitude agressiva nada mais é do que autodefesa, pois quando o border se identifica com o agressor, ele tende a antecipar os atos de agressão, disparando contra o mesmo o que ele acredita que certamente sofreria. É a estratégia de atacar/agredir antes de ser atacado. Anna Freud ilustra esse mecanismo de defesa com o seguinte caso: “Um menino de 5 anos, normalmente tímido e inibido, tornou-se completamente agressivo quando pressentiu que a analista ia tocar no assunto de masturbação. Então ele levantou-se e, de punho com uma vara e um canivete que sempre trazia consigo, começou a rugir como leão e atacar a analista. Esta tornara-se uma atitude frequente do menino, que já tentara agredir a mãe e a avó em casa. E também já mexia nas facas da cozinha, acenando em atitude ameaçadora. A análise mostrou que, na verdade, o menino sofria de angústia e, ao pensar que seria obrigado a confessar todas as suas fantasias e atividades sexuais, imaginou que seria punido. Daí ele introjetava uma autodefesa, pois sabia que crianças que faziam tais práticas eram severamente castigadas pelos adultos, que além de gritar, desferiam bofetões ou batiam com uma vara, restando ainda a possibilidade de cortarem alguma parte do corpo (daí o canivete). Portanto, quando o pequeno paciente assumiu o papel de leão feroz e ameaçou a terapeuta com uma vara e um canivete, estava dramatizando, colocando-se no papel do agressor e antecipando a tão temida punição.” Os pacientes acometidos por TPB despertaram-nos a curiosidade científica e a vontade de poder ajudá-los através do estudo mais aprofundado da origem de seus problemas. Entretando, o tratamento desse transtorno é extremamente complexo, exigindo dos profissionais envolvidos uma expertise específica. Nesta patologia, os progressos terapêuticos geralmente são pouco significativos e lentos. Os pacientes geralmente passam por uma infinidade de médicos sem que tenham algum progresso, o que pode deixar a família sem esperança de conseguir uma ajuda concreta. Conquanto a psicóloga norte-americana Marsha Linehan tenha desenvolvido a Terapia Comportamental Dialética, a partir de seu treinamento em Terapia Comportamental e Terapia Cognitivo- Comportamental, sendo por pesquisadores considerado padrão- ouro no tratamento de pessoas com TPB. Ainda assim, a abordagem causa extremo sofrimento ao paciente que acaba por apresentar muita resistência a ele, com altas taxas de abandono do tratamento. É exatamente aqui que podemos observar o diferencial do psicodrama em relação às demais terapias, pois trabalhando com elementos lúdicos, pode-se retornarà infância de forma espontânea, rematrizando os traumas vivenciados, sem que o paciente perceba exatamente pelo que está passando. Desse modo, a pessoa não se dá conta de que através de jogos e brincadeiras está se despindo e interpretando suas dores, traumas e anseios, em direção à cura. Falar de seus traumas causa um sofrimento dilacerante, por isso os pacientes com TPB fogem das demais terapias. Vivenciar esses traumas através do psicodrama torna-se, portanto, uma abordagem mais leve, menos dolorosa, onde o paciente sente-se protegido pelo aspecto lúdico da terapia, com menor taxa de abandono e melhor participação, tornando-se dessa forma curativo. Um caso clínico que ilustra bem o sucesso do psicodrama é o da paciente Lúcia, nome que lhe atribuímos a fim de resguardar sua identidade. Essa paciente possuía traços de personalidade borderline, mas era uma profissional bem-sucedida até vivenciar um forte trauma e ser afastada do seu trabalho, o que desencadeou uma depressão profunda. Veja o caso: Lúcia chega ao consultório, como de forma habitual, apresentando soluços e suspiros involuntários, tremores em todo o corpo, e a expressão corporal encurvada com os braços semiflexionados na frágil aparência de um bichinho assustado ou um bebê desejando retornar ao útero. Conta que seu marido chegou em casa e, vendo sobre a mesa um cartão de crédito ainda bloqueado que havia acabado de chegar no nome dela, esbravejou dizendo que a mesma já estava com a intenção de iniciar novos gastos e que ele não iria permitir. Nesse ponto a paciente começa a chorar convulsivamente e repetir: “Eu jamais faria isso com ele, eu confiava nele, eu sempre dizia que assinaria um cheque em branco pra ele. Como ele foi cruel e ninguém me defendeu!” A terapeuta (T) pediu gentilmente que começasse a caminhar lentamente pela sala e fez uma breve entrevista: T: “O que você está sentindo?” E ela respondeu: “Medo... medo e solidão”. T: ”Consegue identificar em que parte de seu corpo está esse medo?” E ela: “Aqui e aqui”, aponta o peito e a garganta. T: “Que forma tem esse medo? E ela: “Parece uma bola cheia de espinhos me espetando”. T: “Lembra quando foi a primeira vez que sentiu esse medo e solidão?. Essa bola de espinho?” A paciente pára de caminhar, olha ao longe e diz: “Quando meu pai saiu de casa. E quando meu padrasto faleceu. Por que ele me abandonou?” diz referindo-se ao padrasto e começa a chorar se encurvando quase ao chão. T pergunta se quer conversar em pé ou se prefere ficar em uma posição mais confortável. Ela se deita sobre as almofadas quase em posição fetal e continua: “Se ele estivesse vivo ele teria me defendido. “João não teria feito isso comigo”. Nesse momento, a terapeuta coloca a mão em suas costas, transmitindo-lhe apoio e acolhimento, o que aos poucos diminui seu choro. Pergunta se ela quer encenar o momento do seu primeiro conflito com João, seu marido, três anos antes, quando ele bloqueou sua conta no banco, seu acesso à empresa onde ambos trabalhavam como sócios, e passou a deixá-la praticamente restrita à casa, sem dinheiro nem para um táxi. Acena a cabeça que não, mas quer conversar com o padrasto a quem chama de pai. T pede que monte a cena do local em que está com seu “pai” e ela inicia colocando uma almofada em sua frente e pedindo-lhe que relate a longa história do abuso que estava sofrendo por parte do marido. Então T coloca-se no lugar da almofada e, substituindo-a, repete a última frase: “Pai, ele não tinha o direito de fazer isso comigo. Ele não é o João que eu conhecia”. E ela responde no papel de pai: “Filhinha, pode deixar que eu vou falar sério com ele. Isso não vai ficar assim!”. Nesse momento, T repete a cena e no papel do pai abraça a paciente, dando o acolhimento necessário. Em seguida, T pede que monte a cena do local em que o pai se encontra com João. Lúcia escolhe sala de sua casa, João sentado e o pai em pé, em atitude de autoridade. Ao assumir o lugar do pai, conversa pacificamente com João, dizendo que o mesmo não deveria ter feito isso com sua filha. Repete-se a cena, desta vez ela como João e a terapeuta na posição de seu pai. João responde que teve seus motivos para agir assim. Inverte-se novamente a cena e a paciente no lugar do pai responde:” Nada justifica uma atitude dessas”. E retira-se da sala. A paciente é entrevistada no papel de pai e questionada se o mesmo não deveria ser mais agressivo com João, dado todo o mal que o mesmo causou a sua filha. Nesse momento, a paciente sai do papel e responde:”Não. Ele não era agressivo. Ele só conversaria”. Pede-se que volte ao papel de pai e converse com a almofada representando Lúcia. A paciente mostra-se firme ao falar: “Filhinha, seu pai vai estar sempre ao seu lado. Se quiser, pode vir morar conosco. Você não precisa passar por isso se não quiser”. Repete-se a cena, desta vez com a terapeuta no papel de pai. A paciente se emociona, chora aliviada e abraça seu “pai”. Após esse momento de catarse, a terapeuta faz um gesto de entrega e diz: “Toma Lúcia, coloca esse pai dentro de você. Na verdade, ele nunca saiu daí. Ele sempre esteve cuidando de você. Você é que não o estava sentindo. E agora? Você pode senti-lo?” E ela responde: “Sim. Eu sinto meu pai comigo. Na verdade, ele sempre esteve aqui (coloca as mãos no peito). Mas agora eu posso sentir”. A partir desse momento seu rosto passou a irradiar uma luz especial, de alegria e leveza, e abriu um sorriso. Seus ombros se ergueram, seus soluços e suspiros cederam, ela se reaproximou da mãe e das irmãs, começou a sair de casa, caminhar na praia, dirigir e inclusive planejar abrir um restaurante com o apoio financeiro da mãe. João, a princípio resistiu a essas mudanças, mas acabou por respeitar, tornou-se mais carinhoso e maleável, apesar de não a apoiar financeiramente, porém Lúcia aprendeu que não precisava mais contar só com ele. Os pacientes com TPB são geralmente inteligentes e talentosos, porém, devido ao transtorno, muitas vezes não conseguem se desenvolver e apresentam dificuldades em concluir os estudos. Por isso, não costumam trabalhar e, quando o fazem, ocupam funções muito abaixo de suas capacidades. Esses pacientes costumam apresentar crises relacionais, alguns até causam ferimentos em si mesmos e abusam de medicamentos. É o caso da paciente Luísa: Luísa (nome fictício), médica cirurgiã, 35 anos mãe de 3 meninas, etilismo pesado (ingere diariamente cerveja ou qualquer bebida alcoólica até “apagar”). Também faz uso diário de cocaína a fim de se concentrar no trabalho e maconha a fim de dormir. Chegou ao consultório após uma tentativa de suicídio. Relatou que sua vida estava se destruindo, que não conseguia mais pagar as contas, organizar as finanças, nem mesmo ir aos plantões, os quais estava repassando para colegas. Também cancelava com frequência as consultas e cirurgias de sua clínica privada, o que estava afastando os pacientes. Acreditava ainda estar cuidando adequadamente das filhas pois, segundo a mesma, as meninas não percebiam seu estado de consciência alterada pelas drogas, e elas conversavam e brincavam normalmente até, como disse, “apagar”. Na primeira consulta relatou que teria um curso, nos Estados Unidos, de uma semana no mês seguinte e que iria cancelar, apesar de já estar aguardando há mais de um ano ansiosamente, por ser de uma Escola Acadêmica renomada. Pedi que não cancelasse de imediato, pois juntas tentaríamos melhorar seu quadro a tempo. Com a medicação, a dieta e a terapia, em 3 semanas a paciente estava, segundo a mesma, “90% melhor!”. Havia por recomendação tirado “férias” de seus trabalhos, visto que por não ser funcionária não teria direito a licença, e estava se preparando para o tão sonhado curso! Bom lembrar que normalmente casos de tentativa de suicídio são mantidos em observação por algum tempo, mas, nesse, em específico, os motivadores sociais me deram a tranquilidade de que a paciente não faria uma nova tentativa,portanto me senti à vontade para liberá-la, desde que viajasse acompanhada pela genitora. O TPB é o exemplo mais marcante de como as feridas na infância podem prejudicar a vida adulta. Tal transtorno ocorre em 2% da população mundial, sendo 75% mulheres. Um número expressivamente maior de indivíduos sofre traumas de menores proporções e/ou processa melhor esses traumas, o que gera transtornos menos incapacitantes ou mais adaptativos. É importante ter em mente que, somente identificando a origem do trauma, o médico ou terapeuta poderá abordá-lo e tratá-lo adequadamente. 5. AS FASES DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL Os primeiros anos de vida de uma pessoa são marcados por grandes transformações e descobertas. Aos poucos, a criança começa a entender o mundo em que vive e aprende a lidar consigo mesma e com aqueles que a cercam. O psiquiatra infantil Fábio Barbirato descreveu com maestria essas fases do desenvolvimento. Segundo Barbirato, o bebê passa por várias transformações desde seu nascimento. De 1 a 4 meses essas transformações são bastante significativas. Portanto, é importante que os pais saibam perceber os sinais de satisfação e insatisfação, e não devem se preocupar se o bebê passa horas olhando as mãos e observando seus próprios movimentos. Também costuma ficar horas observando e ouvindo os movimentos das pessoas ao seu redor, pois começa a entender que são elas que irão atender às suas necessidades, e a presença dessas pessoas se torna reconfortante. Nessa fase, o choro tem vários significados e é um forte aliado para ter seus desejos satisfeitos. Segundo o autor: “O choro é a primeira forma de comunicação do bebê com o mundo. É o modo mais poderoso e eficaz de conseguir chamar a atenção dos outros, não apenas porque está com fome ou dor. Cada bebê reage de um modo, mas o choro sempre significa alguma necessidade: fome, cólica, estar sujo ou molhado, com roupa desconfortável, sono, frio ou calor e excesso de estímulo são as opções mais prováveis”. Há uma grande necessidade de estabelecimento de contato e de laços emocionais entre o bebê e a figura materna, o que figura como um fenômeno biologicamente determinado. A comunicação afetiva que se estabelece entre mãe e filho é de grande relevância no desenvolvimento infantil, no que diz respeito a aprendizagem. Essa comunicação, no começo da vida, influencia a forma como a criança (e, futuramente, o adolescente e o adulto) se relaciona com as pessoas, tornando-a mais confiante e capaz de ver o mundo com confiança e otimismo, ou, ao contrário, tornando-a insegura e propensa à desconfiança e ao pessimismo. Diante disto, pode-se afirmar que a relação entre mãe e filho terá grande significância no processo do desenvolvimento infantil (personalidade, autoestima, aprendizagem). Na verdade, mesmo crianças que, por algum motivo, perderam suas mães, são capazes de gerar grande empatia em seus cuidadores despertando o que costumamos chamar de “instinto maternal”, o que, do ponto de vista antropológico, continua sendo um belíssimo mecanismo de sobrevivência do bebê, pois consegue despertar até em estranhos o instinto de cuidado e proteção. Tal instinto ocorre até mesmo entre animais de diferentes espécies como entre homo sapiens, canis familiaris, felis catus, chipanzés ou outros animais. O crescimento cerebral é estimulado até os três meses de idade. Para isso são necessários cuidados como: 1. Não deixar de consultar o pediatra. 2. Favorecer contato físico para que o bebê se sinta seguro. 3. Contar histórias para o bebê. 4. Disponibilizar objetos coloridos no quarto da criança (não precisa ser brinquedos). 5. Aprender a decifrar seus gestos, e demonstrar amor e carinho pelo bebê. É aqui que você vai aprender a cuidar de sua criança interior. Sabe aquele momento em que você se sente desconfortável? É porque certamente seu bebê interior está sentindo alguma necessidade básica: fome, sede, atenção... Geralmente não damos importância a esse desconforto. Para cuidar de nossa criança interior, é necessário valorizar os sinais de desconforto e dialogar com nosso bebê, a fim de confortá-lo. No período entre 4 e 7 meses o bebê está aprendendo a combinar as habilidades perceptivas com a capacidade motora. Lá pelos 5 meses ele começa a perceber o mundo em sua volta e seus limites corporais. Também passa a se comunicar através de sorrisos e perceber o princípio da causa e efeito. Para estimular o crescimento cerebral do bebê nesse período, é importante que: 1. Tenha contato fisico para ele sentir-se amado e protegido. 2. A mãe leia historinhas, onde ele a observará e gostará de ser observado. 3. Faça movimentos rítmicos para ele. 4. Deixe-o perto de outros bebês. 5. Dê-lhe jogos de encaixar. Se você tiver uma criança interior ferida nessa fase você deverá amá-la e protegê-la, brincando com ela através de jogos, música, dança, esportes, ajudá-la a fazer amigos... Pois é o que os adultos fazem intuitivamente quando vão a festas e participam de atividades esportivas. Dos 8 meses a 1 ano o bebê já se movimenta sozinho. Começa a engatinhar aos 8 meses, adquirindo habilidade necessária para uma separação física da mãe. Por outro lado, nessa fase, o bebê fica mais angustiado e pode apresentar dificuldades para dormir e falta de apetite, entre outras coisas. Essa angústia explica-se pelo fato dele ainda não estar preparado para uma separação por não ter gravado a imagem da mãe. Daí, sente sua ausência quando esta se afasta. Porém, à medida que o bebê cresce e amadurece, consegue gravar a imagem da mãe, o que lhe garante uma maior estabilidade emocional. Se sua criança foi ferida nessa fase, você apresentará dependência emocional, com dificuldade em superar perdas. Trate-a através da rematrização, ou seja, seu EU adulto precisará cuidar de sua criança interior ferida, mostrando que sempre estará ao seu lado e nunca a abandonará. Mas também a ajude a tornar-se autossuficiente e fazer amigos. Para estimular o crescimento cerebral da criança até os 12 meses, é importante que a mãe desenvolva algumas ações como: 1. Ler todos os dias. 2. Conversarcom ela. 3. Fazer brincadeiras que estimulem a memória e as habilidades motoras finas. 4. Permitir que ela brinque com outras crianças e conheça novos adultos, além dos familiares. De 1 a 2 anos a criança, depois de engatinhar, começa a caminhar e a falar, ganhando cada vez mais independência. É quando passa a conhecer seus próprios limites e a testar o dos pais. Esse momento se repete na adolescência e por isso o modo de tratar sua criança nessas duas fases guarda bastante semelhanças. Nesta fase, a criança é curiosa e está pronta para conhecer muitas coisas do mundo através da exploração do meio que a cerca, da imitação e de muita imaginação. O desenvolvimento cerebral e a coordenação fina dos seus movimentos ocorrem através da estimulação da fala, dos movimentos e das descobertas que a criança faz nessa fase, o que a levará a comportar-se de maneira confiante. Emocionalmente, a criança de 1 a 2 anos apresenta-se bastante desenvolvida, pois já percebe os estados emocionais de quem está próximo a ela, sobretudo os pais, mesmo que não os compreenda. Nessa fase, os pais devem agir de forma mais severa (sem deixar de ser amorosos) para impor limites quando a criança insistir em não obedecer. Porém, jamais fazer uso de violência física ou verbal. Um tom de voz mais firme, ou uma expressão facial, são o suficiente pra criança perceber que é hora de ceder. E, mais do que nunca, é necessário que os pais sejam coerentes em seu comportamento. Quando advertida da forma adequada, a criança reage naturalmente e entende o limite ou a crítica que está sendo imposto, bem como compreende que a crítica é à sua atitude, não à sua pessoa. Porém, se essa advertência vier junto a algum tipo de violência física ou verbal, provavelmente se desencadeará um trauma pois a criança se sentirá envergonhada, desvalorizada, defeituosa e inadequada, e, portanto, seuadulto ficará emocionalmente instável sempre que imaginar-se criticado. Caso sua criança tenha sido ferida nessa fase, converse com ela carinhosamente, fazendo-a entender que a punição é apenas pela sua atitude, mas que ela é perfeita, e apenas está aprendendo novas formas de comportamento. Mas seja firme e coerente. Aos 3 anos de idade a criança já se encontra emocionalmente mais segura e até ajuda os pais a estabelecer limites. É a fase chamada estágio de dependência volitiva, onde as crianças são capazes de controlar suas necessidades. Essa fase de limites é importante e deve ser seguida com firmeza, pois se os pais não o fizerem, a criança poderá se tornrar um adulto com dificuldades de limites. Muitos pais fracassam nessa tarefa por carregarem consigo seus próprios problemas relacionados a limites, quando vivem e revivem a forma como estes lhes foram passados. Nessa fase da vida, elas costumam provocar os adultos, que deverão saber controlar sua agressividade sem ceder às suas birras. Elas agem agressivamente quando são contrariadas, e fazem isso porque ainda não têm o autocontrole do impulso agressivo, cabendo aos pais instruí-las a controlar e soltar tais impulsos na hora adequada. Ou seja, você deve mostrar que compreende que a criança tem o direito de ficar agressiva em determinados momentos, porém nem sempre tal comportamento fará com que consiga obter o desejado. Existem dois comportamentos igualmente destrutivos por parte dos pais: 1. Agredir a criança e puni-la por sua birra, desvalorizando o sentimento dela. 2. Ceder à sua birra, oferecendo a ela o que deseja a fim de acalmá-la. Os pais devem permanecer ao lado da criança, conversar calmamente com ela, mostrar que entendem sua raiva, mas que ela precisa aprender a controlar sua agressividade, pois com essa reação ela não conseguirá o que tanto deseja. Se sua criança foi ferida nessa idade, converse carinhosamente, diga que ela tem o direito de se irritar, mas precisa aprender a se acalmar pois não irá conseguir o que deseja com agressividade. Dos 3 aos 6 anos a criança passa por uma explosão de descobertas! Deixa as fraldas, começa o período pré-escolar, os padrões socioculturais de comportamento se solidificam aos poucos, e o desenvolvimento físico, motor e intelectual tem um grande progresso! A criança já é capaz e ir e vir de acordo com sua vontade, de se expressar usando símbolos e até gostar ou não das pessoas. Essa é a fase dos “por quês”. A criança quer conhecer tudo, descobrir tudo, pois existe muita coisa no mundo a ser descoberta. Essa curiosidade espontânea só é possível porque a criança sente-se bem-vinda, confia no mundo e acredita que todas as suas necessidades serão acolhidas e respeitadas. Ela busca entender quem é, e o que deseja fazer da sua vida. A criança até então era egocêntrica, não egoísta, ou seja, incapaz de entender o mundo segundo o ponto de vista da outra pessoa. Não conseguia ficar no papel do outro. Aqui há pais que irão argumentar: “Mas meu filho de 3 anos sente quando eu estou triste ou com raiva”. Sim, ele percebe suas emoções, mas não consegue se colocar no seu lugar. Quando ele as acolhe é à fim de preservar sua própria necessidade de segurança, amor e conforto. É somente nesta fase dos 3 aos 6 anos que a criança começa a aprender a se colocar no papel do outro, entender a sua dor, e passa a interagir verdadeiramente, no sentido de reciprocidade. Se a criança for ferida nessa fase, ela se tornará tímida e insegura, ou não empática, pois não aprenderá a se colocar no lugar do outro. Mostre à sua criança ferida que ela é amada e tem muito valor. Que ela precisa aprender a reconhecer e cuidar de seus sentimentos. Assim, com o tempo, aprenderá a desenvolver empatia. Como pode-se observar, a fase compreendida entre o nascimento e os seis anos mostra-se de grande importância para a formação da personalidade da criança. Nesse período, todas as experiências serão decisivas e poderão ocasionar sequelas no equilíbrio, coordenação e organização de ideias, caso suas necessidades não sejam supridas adequadamente. E por adequadamente, devemos entender, sem excesso e de maneira coerente. Esta é a principal fase da vida de uma pessoa, pois o que acontece nesse período fica guardado para sempre. E os comportamentos disfuncionais adquiridos se repetem instintivamente para o resto de sua vida, como um disco arranhado. Portanto, se vivenciar boas experiências, boa alimentação, carinho e estimulação sem excessos, com certeza a criança tornar-se-á futuramente um adulto mais ajustado e coerente, preservando e aprendendo a adequar sua criatividade e sua espontaneidade. Quando a criança nasce, ela rompe uma barreira, passando da matriz materna para um universo novo e diferente, o qual Moreno denominou Matriz de Identidade, onde é oferecida à criança uma nova placenta, constituída pelos vínculos com os pais ou cuidadores e pelas pessoas e coisas significativas que a cercam. Assim, Matriz de Identidade é o conjunto de condições psicológicas e sociais no qual a criança é inserida ao nascer, e a partir da qual se desenvolve dos pontos de vista psíquico e social. É a placenta social, onde o recém-nascido implanta-se no grupo social do qual depende para suas necessidades fisiológicas, psicológicas e sociais do mesmo modo que o ovo, o embrião e, posteriormente, o feto se implantam na placenta e dela se nutrem e dependem. A criança já possui um papel antes mesmo de nascer, ou seja, ela já tem um lugar na matriz a que pertence. A partir do nascimento ela receberá toda a herança cultural de sua matriz (grupo familiar), transmitida de forma a prepará-la para ser inserida no meio social. Ao longo de seu desenvolvimento emocional e construção de sua identidade, a criança passa por cinco fases, assim descritas por Moreno: Indiferenciação: é o momento evolutivo em que a criança ainda não se diferencia das pessoas com quem interage e não consegue distinguir o que é dela e o que é do outro. É a busca da identidade. Reconhecimento do eu: aqui a criança está focada em si, nos contornos de seu corpo e no reconhecimento de sua imagem no espelho. Ela passa a se concentrar e explorar o reconhecimento de suas fronteiras ao perceber que seu corpo está separado da mãe, das pessoas, dos objetos. Aqui, o Tu serve apenas como instrumento no processo de reconhecimento do eu. Reconhecimento do tu: nessa fase a criança já consegue diferenciar o outro de si, e passa a explorar o que é diferente do eu, fortalecendo sua identidade. É a fase da exploração do mundo, do diferente, da descoberta de que o outro tem comportamento diferenciado do dela. É quando a criança passa verdadeiramente a diferenciar o Tu. Pré-inversão: é a fase em que a criança começa a experimentar se colocar no lugar do outro, porém não consegue ver outra pessoa em seu lugar. É a fase da imitação, do faz-de-conta, uma espécie de ensaio e preparação para uma futura inversão, quando será possível uma reciprocidade. Nessa fase a criança gosta de imitar, mas detesta ser imitada. Inversão de papéis: essa fase indica o amadurecimento emocional da criança, onde ela não apenas consegue se ver separada do outro como também compreender suas diferenças. Aqui acontece a inversão de papéis, ou seja, o indivíduo joga o papel do outro e o outro joga seu papel, com empatia, possibilitando as condições necessárias para que se realize um verdadeiro encontro, uma experiência produtora de crescimento e fortalecedora do vínculo para as duas partes. Esse conhecimento que a criança vai adquirindo de si própria, diferenciando-se do grupo, vai proporcionar-lhe sua percepção enquanto indivíduo no grupo familiar e mais tarde no social. Portanto, se essas fases não se desenvolverem satisfatoriamente, o indivíduo terá dificuldade em cultivar sua espontaneidade e criatividade no grupo, encontrando empecilhos em sua vivência no mundo. Quando a criança atinge o último estágio na Matriz de Identidade, desenvolve mais dois tipos de papéis: os papéis sociaise os papéis psicodramáticos. O primeiro corresponde à dimensão da interação social, que assume fundamentalmente a função de realidade e forma o eu parcial social. Já o segundo equivale à dimensão da fantasia, e mais individual da vida psíquica, formam o eu parcial psicológico, onde os papéis sociais existem antes do individual no qual são desempenhados. Moreno relacionou as três técnicas básicas do psicodrama com os três estágios da Matriz Identidade. A primeira fase, a da Indiferenciação, está relacionada á técnica do Duplo ou Dublê, pois nos primeiros meses o bebê é incapaz de se fazer comunicar por si só, apresentando dependência total dos ego-auxiliares, no caso a mãe, que serve como mediador, ou duplo, entre ele e o mundo. Em uma cena psicodramática, quando o protagonista não consegue se expressar, o Ego-auxiliar entra na cena e fala por ele, exprimindo seu desejo ou necessidade subconsciente. A fase do Reconhecimento do Eu, corresponde à técnica do Espelho e representa um marco importante no desenvolvimento da criança. É quando ela descobre a própria imagem e é acometida por um misto de estranhamento e êxtase! Na técnica do espelho, primeiramente o protagonista encena uma situação, a qual será posteriormente reproduzida por outra pessoa, enquanto ele assiste no papel de espectador passivo. Nessa técnica, o indivíduo vê sua imagem representada no palco, o que causa um estranhamento inicial, assim como o bebê estranha quando vê sua imagem no espelho. Em seguida vem o encantamento ou êxtase, no qual o indivíduo se reconhece e passa a avaliar seus atos do ponto de vista de um observador. Essa técnica é perfeita e costuma ser utilizada inúmeras vezes em uma sessão, pois ajuda o personagem a se encontrar na cena e enxergá-la de forma objetiva. Assim, muitos insights são obtidos unicamente com o uso dessa técnica fantástica! Finalmente, Moreno relaciona a fase do Reconhecimento do Tu, à Inversão de Papéis, que pode ser feita somente quando a criança for capaz de reconhecer o outro. Nesta técnica, o protagonista encena com outra pessoa, onde eles trocam de papéis, de forma que este sinta como é estar no lugar do outro. A técnica de inversão de papéis é utilizada no psicodrama a fim de que o individuo possa atingir a perspectiva do outro, sendo capaz de captar seu ponto de vista e o dele mesmo, tendo assim atingido uma importante etapa do seu desenvolvimento emocional. Porém, quando tratamos de casos de abuso, é necessário avaliar cuidadosamente a possibilidade de inverter os papéis com o agressor, pois isso poderá reforçar a identificação com o mesmo e solidificar a relação de dependência. Moreno descreve essa técnica em seu poema: "Um Encontro de dois: olhos nos olhos, face a face. E quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos e colocá-los-ei no lugar dos meus; E arrancarei meus olhos para colocá-los no lugar dos teus. Então, ver-te-ei com os teus olhos e tu ver-me-ás com os meus." (Jacob Levy Moreno) 6. COMO A CRIANÇA FERIDA SE MANIFESTA De acordo com Bradshaw, quando uma criança tem seus sentimentos reprimidos, especialmente de dor e raiva, ela tem seu desenvolvimento prejudicado, e cresce com uma criança ferida dentro de si, a qual futuramente irá contaminar seu comportamento quando adulto. Precisamos ver essa colocação dentro de um momento histórico, pós-guerra, onde a sociedade clamava pela não- repressão. Hoje sabemos que uma visão radical sobre o tema causou aos bebês pós-guerra (baby boomers), e se globalizou para todas as próximas gerações no mundo inteiro, até as atuais, um estilo de comportamento destrutivo onde o indivíduo se tornou supersensível as críticas, facilmente traumatizável e hiper-reativo. Vemos essas manifestações de fragilidade pipocarem a todo momento nas redes sociais. Pessoas que se sentem ofendidas por fatos triviais, que levantam bandeiras como se estivessem em guerra com o resto do mundo, que choram por se sentirem rejeitadas de alguma forma quando em muitos casos o observador externo, conquanto fique sensibilizado com tal sofrimento, não consegue identificar um fato real que o tenha desencadeado, pois que está localizado unicamente no interior do indivíduo que sofre. O medo de traumatizar nossos filhos gerou o trauma do trauma! Infelizmente, reproduzimos gerações de pessoas hiper-reativas, atualmente conhecidas como Geração Nutella. Nem a repressão, nem a vitimização. Hoje chegamos ao consenso de que as filosofias orientais estão muito mais à nossa frente quando se trata de comportamento humano. O “Caminho do Meio” é sempre o mais coerente, e, portanto, o mais acertado. Os traumas da infância podem contaminar a vida do adulto quando sua criança interior ferida manifesta-se afetando sua vida com birras, reações exageradas, problemas conjugais, vícios, vergonha tóxica e relacionamentos prejudiciais entre outras manifestações de disfuncionalidade. Uma criança interior outrora negligenciada e ferida consiste na maior fonte da infelicidade humana. Sabemos que algumas formas de comportamentos contaminados são: co-dependência, comportamentos criminosos, transtornos narcisistas, questões de confiança, atuações impulsivas, tanto explosivas quanto implosivas, pensamentos mágicos, distúrbios da intimidade, comportamentos indisciplinados, comportamentos aditivos ou compulsivos, distorções do pensamento, depressão e apatia. Aqui, quando falamos em depressão, nos referimos ao aspecto não genético, mas desencadeada pelo meio ambiente e pelo aprendizado social. Codependência: é uma doença gerada pela perda da identidade. É estar fora de contato com seus próprios sentimentos, necessidades e desejos. E caracterizada pela dependência de um indivíduo. Nele, o codependente não consegue se desvincular ou mesmo estabelecer um relacionamento saudável com uma determinada pessoa, geralmente um dependente químico. Esse comportamento indica que as necessidades pessoais da criança foram negligenciadas e ela não consegue saber quem ela é. Portanto enxerga-se pelos olhos do outro. Dessa forma, as crianças necessitam de um modelo seguro e saudável de emoções (a fim de entender seus próprios sinais internos). Elas também precisam de ajuda para separar seus pensamentos de seus sentimentos. Quando o ambiente familiar é preenchido com violência (emocional, física e/ou sexual), a criança precisa focar somente no mundo exterior, mantendo-se em alerta a fim de sobreviver, o que impede seu desenvolvimento (e prejudica sua sobrevivência) emocional. Ao longo do tempo, ela perde a habilidade de gerar autoestima a partir de dentro (de si). Sem uma vida interna saudável, sua emoção é compartimentalizada ou isolada para tentar encontrar satisfação no mundo exterior. Os codependentes são pessoas cuja baixa autoestima e sentimento de culpa fazem com que vivam em função da pessoa ou situação problemática, tornando esse comportamento obsessivo a razão de suas vidas, sentindo-se úteis e com objetivos somente quando estão envoltos com algum problema. Comportamentos criminosos ou agressivos: quando a criança presencia certas cenas de violência, isso desencadeia sentimentos de medo e impotência. O adulto que vivenciou tais traumas, quando exposto a situações que de alguma forma o remetam às experiências vivenciadas, pode, então, tornar-se tão brutal quanto seu agressor de outrora. Afinal, em seu subconsciente, identificar-se com o agressor evitará que o mesmo o extermine. É o que acontece, por exemplo, com os molestradores de crianças, que muitas das vezes estão reencenando a experiência de abuso sofrida na infância. Porém, nem sempre os abusos são consequências de experiências semelhantes vividas na infância. Pais indulgentes ou submissos podem mimar seus filhos, fazendo com que estes acreditem serem superiores aos outros, desrespeitando a opinião e sentimentos dos demais, tratando-os como objetos. Tal modelo de educação também pode gerar adultos agressivos e abusadores. Transtorno narcisista: a criança precisasaber que é amada e se sentir protegida por seus cuidadores, de forma completa e incondicional. Se essas necessidades narcisísticas não forem atendidas, seu senso de “EU SOU”, será prejudicado. A criança é carente por natureza e não por escolha (visto que ela nasce totalmente vulnerável e dependente do adulto), portanto, sua necessidade de dependência precisa ser atendida. Caso contrário, se tornará um adulto com uma fome insaciável de amor e autoestima, o que desencadeará comportamentos como desapontamentos em suas relações, busca do par perfeito, compulsão por sexo, drogas, compras, jogos etc., bem como necessidade de chamar atenção. Há pessoas que se tornam atletas e atores, ou políticos, com o objetivo de terem suas necessidades narcisísticas satisfeitas, o que Freud define como um mecanismo de defesa do Ego chamado Sublimação. O adulto que sofre esse tipo de transtorno procura dar a seus filhos o amor e admiração que nunca tiveram, mas em troca deseja que os filhos nunca o deixem, sobrecarregando-os de cobranças e causando-lhes profundos danos emocionais, gerando assim outra criança interior ferida. Tive uma paciente, Ana (nome fictício), a qual era uma moça muito bonita, vaidosa e inteligente, porém insegura e dependente emocional dos pais, os quais sempre a mimaram, porém tolheram sua independência, causando-lhe crises depressivas com tentativas de suicídio. A mesma era médica veterinária e com auxílio financeiro dos pais comprou uma clínica franquiada. Com o sucesso da clínica, os pais se incomodaram e passaram a reclamar que a clínica dava muitas despesas, e que a filha, por suas crises depressivas que não raras vezes a deixavam prostrada por um ou dois dias, não daria conta de ser uma empresária de sucesso. Ana viu sua clínica ser fechada e só não afundou em depressão pois à época fazia terapia. A moça possuía uma filha pequena, fruto de um namoro na adolescência. Era sua companheirinha e “confidente”. Ana passou a namorar um rapaz o qual apenas estudava e os pais não consideravam uma ameaça, mas, com suas idéias de independência, os pais proibiram-na de continuar sua terapia e a mesma se recolheu ao convívio familiar. Algum tempo depois eu soube que rapaz foi aprovado em um concurso fantástico e viu-se em uma situação financeira extremamente confortável. Comprou um apartamento de luxo na nova cidade, o qual Ana ajudou a decorar com todo seu bom gosto. Porém, Ana não aceitou seu pedido de casamento, alegando que precisava cuidar dos pais (os quais ainda eram bem jovens e saudáveis, na verdade). Pouco tempo depois, recebi outra informação. Ana havia cometido suicídio! Segundo sua jovem e sofrida filha, agora adolescente, a mãe, enfim, havia conseguido se libertar! Não sei exatamente o que sua filha quis dizer com tal afirmação, mas essa frase me marcou profundamente... Questões de confiança: a criança desenvolve um profundo senso de desconfiança quando seus cuidadores agem com desonestidade, fazendo com que o mundo lhe pareça hostil, imprevisível e perigoso. O adulto com problemas de confiança acredita que precisa ter o controle de tudo para que ninguém o machuque. A primeira tarefa na vida de uma criança é aprender o senso básico de confiança. É preciso aprender que os pais são confiáveis, a fim de poder confiar em si próprio, suas capacidades pessoais, percepções, sensações e desejos, além de poder confiar nas pessoas à sua volta. Quem não se sentiu protegido, dificilmente conseguirá confiar em alguém, pois mantém a convicção de que precisa ser completamente autossuficiente, com dificuldade em pedir ajuda ou até mesmo trabalhar em equipe. Acting Out/Acting In (atuações impulsivas explosivas/ implosivas): a principal força que move a vida do homem é a emoção, que faz com que a pessoa se defenda e tenha suas necessidades atendidas. O medo leva a fugir do perigo e o choro caracteriza um pedido de ajuda e desperta solidariedade. Vivenciando a tristeza, há o processamento das perdas e a liberação da energia para viver o presente. Sem essa capacidade, a pessoa revive continuamente, através de situações conflitivas atuais, seus traumas de infância, vivenciando a dor como se ela estivesse ocorrendo no aqui-agora. No Acting Out, pode haver o reencenamento da reação à violência emocional, física ou sexual em suas relações com outras pessoas, inclusive filhos. A pessoa pode apresentar regressões espontâneas a comportamentos infantis como birras e gritos, rebeldias inapropriadas etc. No Acting In, temos autopunições, como a autocrítica, autossabotagem, e as somatizações (problemas gastointestinais, dores de cabeça, dores musculares etc.). Pensamentos mágicos: as crianças são mágicas, elas acreditam na literalidade das palavras, não são capazes de entender a linguagem figurada. Elas vivem no mundo ilógico e, à medida em que crescem, vão desenvolvendo um raciocínio abstrato. A criança ferida dentro do adulto continua pensando de forma literal. Por exemplo: se eu tiver dinheiro eu estarei bem! um diploma me fará inteligente! se eu lutar muito o mundo me recompensará! se meu amor me deixar eu vou morrer! A criança que cresce com essa ferida torna-se um adulto inseguro e propenso a decepções, porque possui crenças ilógicas e irreais. Qualquer pequena frustração abala sua autoconfiança e/ou confiança no outro e no mundo como um todo. Distúrbios da intimidade: muitos adultos regridem devido ao medo do abandono ou o medo de serem sufocados, daí eles vivem relações destrutivas ou se isolam, ou ainda, na maioria das vezes, oscilam entre os dois extremos. A intimidade requer que a pessoa respeite a individualidade do companheiro, caso contrário, fará do mesmo um objeto, o que o tornará codependente, uma que vez o relacionamento não está ocorrendo embasado em sua parte adulta, e sim em sua criança interior ferida. Em outras palavras, em uma relação madura, a pessoa respeita as características individuais do outro, não tenta impor nem aceita que lhe seja imposto comportamento que não seja seu. Comportamento indisciplinado: a disciplina é o modo de reduzir o sofrimento da vida. Dessa forma, quando o modelo dos pais é falho, a criança torna-se indisciplinada, protela, berra, suborna, é impulsiva, recusa-se a adiar gratificações. Por outro lado, quando agem com muita rigidez, a criança torna-se excessivamente disciplinada, obsessiva, submissa, exageradamente obediente, excessivamente agradável, e perturbada por vergonha e culpa. Os pais devem educar seus filhos com amor e paciência, mostrando o que é o certo, evitando críticas ferinas e punições abusivas. Mas também evitando excesso de mimos e superproteção. Mesmo quando punem, devem mostrar que é o comportamento da criança que foi inadequado, e não a própria criança, dessa forma, mostram aceitação e acolhimento e a criança percebe que, apesar de seu erro, continua sendo amada. Na verdade, a criança precisa entender que ela é um ser especial, mágico, mas que está em processo de aprendizado, e todo aprendizado é feito de erros e acertos. Assim, estaremos gerando adultos que se aceitam, e aceitam os erros, como parte do processo de aprendizado. Comportamento adictivo-compulsivo: a criança que não se sente amada pelos pais torna-se uma criança ferida com necessidades insaciáveis, e irá tentar preencher esse vazio interior com comportamentos adictivos (de compulsão ou repetição). A adicção é uma forma de fugir da dor e do sofrimento através de comportamento autodestrutivo repetitivo ou envolvendo- se em relacionamento abusivo. Alguns tipos de comportamentos adictivo-compulsivos são as compulsões (exemplos: sexo, comida, compras, drogas, álcool, trabalho, atividades físicas, organização, limpeza etc.). São comportamentos ocasionados por alterações do humor como tristeza ou alegria, ou ainda por decepção, com consequências muito prejudiciais à vida. Distorção de pensamento: as crianças são extremistas e costumam confundir seus pensamentos com a realidade. Na teoria comportamental isso é chamadode pensamento tudo ou nada. Ou seja, “se você não me ama então você me odeia”. Ou “se você não quer agora, então você não quer (nunca)”. O adulto com essa distorção de pensamento costuma, por exemplo, sentir-se cobrado e alimentar um complexo de inferioridade, sempre se colocando em desvantagem quando sabe que não pode atender às necessidades de outra pessoa. As crianças confundem seus sentimentos com pensamentos, se elas se sentem culpadas, pensam que são crianças más. No adulto, isso se manifesta através de emoções negativas, aparentemente sem motivos, que surgem quando lembranças ruins do passado vêm à tona, ainda que de forma subconsciente. Depressão/apatia: quando a criança tem seu comportamento reprimido, sendo obrigada a ser uma “criança boazinha”, ela deixa de ser seu verdadeiro EU e passa a representar o que as pessoas esperam dela. Isso pode levar a um baixo grau de depressão crônica, conhecido por Distimia. A adoção do falso self no adulto gera um sentimento de apatia, solidão, inferioridade, confusão emocional. Um caso exemplar é o do João (nome fictício). João chegou ao consultório apresentando olhar sem brilho, pálpebras e comissuras labiais rebaixadas, pele pálida e opaca, fala lentificada, e em seu discurso observou-se ausência de estímulo ou perspectiva de futuro. Na verdade, ele se encontrava apático e perdido. Apesar de ser extremamente inteligente, considerado gênio para os padrões da ciência, ele desde a infância anulara suas intenções de ser jogador de futebol (habilidade que manteve até a época da faculdade) para tornar-se médico e realizar o sonho dos pais. Após casar-se com o grande amor de sua vida, seu comportamento tornou-se mais assertivo, tornou-se mais forte e dedicado, porém os problemas do relacionamento o fizeram desacreditar novamente em si mesmo e ele foi se apagando aos poucos, se anulando e entristecendo. Como a base do seu tratamento seria a psicoterapia, porém, o mesmo estava de mudança para outro país, foram feitas algumas orientações e prescrito medicamento antidepressivo, o qual inicialmente não surtiu o efeito esperado. Após alguns anos tive notícias de João, já divorciado, porém não reconstruiu sua vida. Continuando com o ar apático e sem brilho nos olhos, relatou que não havia se encontrado nas terapias no país em que está residindo. Infelizmente um caso que ficou sem solução e uma vida que permaneceu em sofrimento! Atualmente, com a terapia online, isso não teria acontecido! Essas são, portanto, algumas formas de comportamentos que podem contaminar a vida de um adulto. Assim, você precisa resgatar e curar sua criança ferida, caso contrário ela permanecerá agindo de forma inadequada e prejudicando sua vida. 7. COMO IDENTIFICAR EM QUE FASE SUA CRIANÇA INTERIOR FOI FERIDA Primeiramente, é importante levar em consideração o que foi dito no início deste livro: que somos feitos de camadas emocionais. Portanto, podemos carregar várias crianças feridas em diversas fases da vida. Lembre-se: Se você já iniciou o tratamento de uma criança ferida, NUNCA inicie o tratamento da próxima criança ferida sem antes encerrar o tratamento da criança anterior. Isso poderá aprofundar feridas e revivescer dores sem causar um resultado positivo. Seu objetivo é tratar sua criança ferida e não apenas trazê-la à tona. O entendimento das fases do desenvolvimento infantil e da Matriz de Identidade auxilia a identificar a fase ou as fases em que sua criança interior foi ferida. Porém, a fim de facilitar ainda mais essa identificação, no livro Homecoming: Reclaiming and Healing Your Inner, Bradshaw descreve uma série de questionários que serão traduzidos e reproduzidos neste capítulo, a fim de que você possa, identificando sua criança ferida, resgatá-la e curá-la. Importante lembrar que o tratamento com profissionais especialistas como psicólogo e psiquiatra são importantes e necessários. Porém, uma vez que você inicie este processo de autocura, ele irá continuar se desenvolvendo dentro de você por toda sua vida. Isso porque, neste caso, será seu Eu Adulto que irá se responsabilizar por cuidar de sua Criança Interior Ferida. Levar este processo ao conhecimento do profissional que o acompanha irá enriquecer seu tratamento pois ele poderá orientar você nas diversas fases do processo terapêutico. Questionários Os questionários que você lerá a seguir foram extraídos do livro Homecoming: Reclaiming and Healing Your Inner, em suas versões original e traduzida para o português. Eles irão identificar a fase em que sua Criança Maravilhosa foi ferida em seu narcisismo, e passou a desenvolver traumas e defesas, os quais atualmente refletem em sua vida adulta, prejudicando suas relações pessoais e profissionais, e mesmo sua autoestima. Cada questionário deve ser avaliado individualmente. Bradshaw utilizou o termo “índice de suspeita”, pois cada quesito que você responda “sim” aumenta a probabilidade de você ter sofrido um trauma naquela fase da vida correspondente ao questionário, bem como quanto mais respostas positivas, maior a intensidade do trauma sofrido. “ÍNDICE DE SUSPEITA. Depois de ler cada pergunta, espere e entre em contato com o que está sentindo. Se sentir uma forte energia para o sim, responda sim — para o não, responda não. Se responder sim a qualquer pergunta, pode suspeitar que sua criança interior maravilhosa foi ferida. Há vários graus de ferimento. Você está em algum lugar em uma escala de um a cem. Quanto maior o número de perguntas às quais você sente que deve dizer sim, mais profundo é o ferimento da criança que vive no seu íntimo. (Tirei a ideia do “índice de suspeita” do trabalho pioneiro do falecido Hugh Missildine no seu livro clássico Your Inner Child of the Past. O Dr. Missildine era meu amigo e me encorajou muito para prosseguir neste trabalho).” John Branshaw (1993) (traduzido) 1. Questionário 0 a 9 meses: Bradshaw, John. 1993. p.110 1. Você tem ou teve no passado algum vício ingestivo (comer demais, beber demais ou usar drogas)? Sim...... Não...... 2. Tem dificuldade para confiar na sua habilidade de atender suas necessidades? Acha que precisa encontrar alguém para atendê-las? Sim...... Não...... 3. Acha difícil confiar nas pessoas? Acha que deve estar no controle o tempo todo? Sim...... Não...... 4. Deixa de reconhecer os sinais de necessidades físicas do seu corpo? Por exemplo, come quando não tem fome? Ou nunca percebe que está cansado? Sim...... Não...... 5. Negligência suas necessidades físicas? Ignora a boa nutrição ou não faz exercício suficiente? Procura o médico ou o dentista só em uma emergência? Sim...... Não...... 6. Sente medo de ser abandonado/a? Sente-se ou já se sentiu desesperado/a com o fim de um relacionamento? Sim...... Não...... 7. Já pensou em suicídio por causa do fim de um relacionamento amoroso (seu companheiro/a o/a abandonou, seu marido/sua mulher pediu divórcio)? Sim...... Não...... 8. Sente com frequência que não se encaixa ou não pertence a um lugar? Sente que as pessoas não o/a recebem bem ou que não desejam sua presença? Sim...... Não...... 9. Em situações sociais, tenta ficar invisível para que ninguém note sua presença? Sim...... Não...... 10. Procura ser tão prestativo (até mesmo indispensável) nos seus relacionamentos para que a outra pessoa (amigo/a, amante, esposo/a, filho/a, pais) não possa deixálo/a? Sim...... Não...... 11. O sexo oral é o que domina suas fantasias e o que você mais deseja? Sim...... Não...... 12. Tem grande necessidade de ser tocado/a e abraçado/a? (Isto geralmente se manifesta pela necessidade que você tem de tocar ou abraçar os outros sem saber se eles querem.) Sim...... Não...... 13. Tem uma necessidade constante de ser valorizado/a e de que precisem de você? Sim...... Não...... 14. É quase sempre mordaz e sarcástico com os outros? Sim...... Não...... 15.Isola-se e passa muito tempo sozinho/a? Quase sempre acha que não vale a pena tentar um relacionamento? Sim...... Não...... 16. Você é geralmente crédulo/a? Aceita as opiniões dos outros ou “engole tudo que ouve” sem pensar no assunto? Sim...... Não...... 2. Questionário 9meses a 18 meses: Bradshaw, John. 1993. p.137 1. Você tem dificuldade em saber o que quer? Sim...... Não...... 2. Tem medo de explorar quando chega a um lugar que não conhece? Sim...... Não...... 3. Tem medo de tentar novas experiências? Quando tenta, sente sempre que alguém já as tentou antes? Sim...... Não...... 4. Tem muito medo de ser abandonado/a? Sim...... Não...... 5. Em situações difíceis, você deseja que alguém lhe diga o que fazer? Sim...... Não...... 6. Acha que tem sempre de aceitar as sugestões dos outros? Sim...... Não...... 7. Tem dificuldade em se concentrar na experiência do momento? Por exemplo, quando está de férias, vendo algo maravilhoso, preocupa-se com o que tem a fazer em casa? Sim...... Não...... 8. Está sempre preocupado/a com alguma coisa? Sim...... Não...... 9. Tem dificuldade em ser espontâneo/a? Por exemplo, não tem coragem de cantar de felicidade na frente dos outros? Sim...... Não...... 10. Está sempre em conflito com representantes da autoridade? Sim...... Não...... 11. Geralmente usa palavras relativas a defecar ou urinar — como merda, mijo, etc.? Seu senso de humor se relaciona sempre a piadas de banheiro? Sim...... Não...... 12. É obcecado/a por nádegas? Prefere fantasias sobre sexo anal, ou a prática dessa forma de sexo a qualquer outra? Sim...... Não...... 13. É frequentemente acusado/a de ser mesquinho com dinheiro, amor, nas expressões de emoções ou em demonstrações de afeição? Sim...... Não...... 14. Tem obsessão por limpeza e ordem? Sim...... Não...... 15. Sente a raiva das outras pessoas? De você mesmo? Sim...... Não...... 16. É capaz de qualquer coisa para evitar conflitos? Sim...... Não...... 17. Sente-se culpado/a, quando diz não a outra pessoa? Sim...... Não...... 18. Evita dizer não diretamente, mas quase sempre deixa de fazer o que prometeu, fazendo uso de meios indiretos passivos e manipuladores para justificar ou disfarçar seu erro? Sim...... Não...... 19. Às vezes você “enlouquece” e se descontrola completamente? Sim...... Não...... 20. Critica excessivamente as outras pessoas? Sim...... Não...... 21. Você é amável com as pessoas e depois as critica e fala mal delas quando se afastam? Sim...... Não...... 22. Quando é bem-sucedido em alguma coisa, tem dificuldade em ficar satisfeito e acreditar no que conseguiu? Sim...... Não...... 3. Questionário 3 a 6 anos: Bradshaw, John. 1993. p.155 1. Você tem graves problemas de identidade? (Para ajudar nesta resposta, considere as perguntas seguintes: Quem é você? A resposta vem com facilidade?) Sim...... Não...... 2. Independente das suas preferências sexuais, você sente que é realmente um homem? Uma mulher? Você superdramatiza seu sexo (tenta ser homem “macho” ou mulher “sexy”?) Sim...... Não...... 3. Mesmo quando faz sexo no contexto legítimo sente-se culpado/a? Sim...... Não...... 4. Tem dificuldade em identificar o que está sentindo em um determinado momento? Sim...... Não...... 5. Tem problemas de comunicação com as pessoas com as quais convive? (cônjuge, filhos, patrão, amigos?) Sim...... Não...... 6. Tenta controlar seus sentimentos a maior parte do tempo? Sim...... Não...... 7. Tenta controlar os sentimentos das pessoas com quem convive? Sim...... Não...... 8. Você chora quando fica zangado/a? Sim...... Não...... 9. Esbraveja quando tem medo ou quando é magoado? Sim...... Não...... 10. Sente dificuldade em expressar seus sentimentos? Sim...... Não...... 11. Acha que é responsável pelo comportamento ou pelos sentimentos de outras pessoas? (Por exemplo, acha que pode fazer as pessoas ficarem tristes ou zangadas?) Sim...... Não...... 12. Sente-se culpado/a por coisas que acontecem aos membros da sua família? Sim...... Não...... 13. Acredita que se você agir de um certo modo pode mudar o comportamento de outra pessoa? Sim...... Não...... 14. Acredita que desejar ou sentir alguma coisa pode fazer com que se torne realidade? Sim...... Não...... 15. Você aceita mensagens confusas e comunicações inconsistentes sem pedir explicação? Sim...... Não...... 16. Você age baseado/a em suposições não verificadas, tratando-as como se fossem informação real? Sim...... Não...... 17. Sente-se responsável pelo problema conjugal dos seus pais, ou pelo divórcio? Sim...... Não...... 18. Você procura o sucesso para que seus pais fiquem satisfeitos com eles mesmos? Sim...... Não...... 4. Questionário 6 anos a 13 anos: Bradshaw, John. 1993. p.175 1. Costuma se comparar com outras pessoas e sempre se sente inferior? Sim...... Não...... 2. Gostaria de ter amigos, de ambos os sexos? Sim...... Não...... 3. Costuma sentir-se pouco à vontade em situações sociais? Sim...... Não...... 4. Sente-se pouco à vontade fazendo parte de um grupo? Sim...... Não...... (Sente-se melhor quando está sozinho/a?). Sim...... Não...... 5. Às vezes dizem que você é muito competitivo/a? Sente que precisa ganhar? Sim...... Não...... 6. Frequentemente tem conflitos com seus companheiros de trabalho? Sim...... Não...... 7. E com as pessoas da sua família? Sim...... Não...... 8. Em uma negociação, você (a) cede completamente ou (b) insiste em fazer as coisas ao seu modo? Sim...... Não...... 9. Orgulha-se de ser rígido/a e literal, seguindo a lei ao pé da letra? Sim...... Não...... 10. Você sempre procrastina as coisas? Sim...... Não...... 11. Tem dificuldade em terminar as coisas? Sim...... Não...... 12. Acha que devia saber fazer as coisas sem nenhuma instrução? Sim...... Não...... 13. Tem muito medo de cometer erros? Sim...... Não...... 14. Sente-se extremamente humilhado/a quando é obrigado/a a constatar os próprios erros? Sim...... Não...... 15. Fica zangado com frequência e critica muito as outras pessoas? Sim...... Não...... 16. É deficiente nas aptidões básicas da vida (ler, falar e/ou escrever gramaticalmente, fazer cálculos matemáticos)? Sim...... Não...... 17. Passa muito tempo analisando ou obcecado/a com alguma coisa que disseram a seu respeito? Sim...... Não...... 18. Sente-se feio/a e inferior? Sim...... Não...... 19. Se respondeu sim, tenta disfarçar isso com roupas, coisas, dinheiro ou maquiagem? Sim...... Não...... 20. Costuma mentir para você mesmo/a e para os outros com frequência? Sim...... Não...... 21. Acredita que, por melhor que faça, nunca está fazendo a coisa certa? Sim...... Não...... 5. Questionário 13 a 26 anos: Bradshaw, John. 1993. p.192 1. Você ainda tem problemas com a autoridade paterna ou materna? Sim...... Não...... 2. Continua a experimentar empregos sem encontrar seu lugar certo? Sim...... Não...... 3. Não sabe ao certo quem você é? Sim...... Não...... 4. Está comprometido com algum grupo ou causa? Sim...... Não...... 5. Considera-se desleal? Sim...... Não...... 6. Sente-se superior aos outros porque seu estilo de vida é diferente e não conformista? Sim...... Não...... 7. Alguma vez abraçou alguma fé de sua escolha? Sim...... Não...... 8. Não tem amigos verdadeiros do mesmo sexo? Sim...... Não...... 9. Tem amigos dosexo oposto? Sim...... Não...... 10. Você é um/a sonhador/a, prefere ler livros românticos e ficção científica a fazer alguma coisa em sua vida? Sim...... Não...... 11. Alguém já disse que você precisa crescer? Sim...... Não...... 12. Você é um/a conformista rígido? Sim...... Não...... 13. Alguma vez questionou a religião da sua juventude? Sim...... Não...... 14. Segue rigidamente algum tipo de guru ou herói? Sim...... Não...... 15. Você fala muito sobre as grandes coisas que vai fazer, mas nunca faz realmente? Sim...... Não...... 16. Acredita que ninguém passou por tudo que você tem passado, ou que ninguém pode jamais compreender sua dor única? Sim...... Não...... Bradshaw, John. 1993. p.207 PERDÃO “A recuperação da sua criança interior ferida é um processo de perdão. O perdão nos permite dar como antes. Cura o passado e liberta as energias para o presente. O perdão não é um processo sentimental ou superficial. Fomos realmente feridos e esse sofrimento deve ser validado e legitimizado. Quando reconhecemos o mal que foi feito, retiramos o manto mítico com que envolvíamos nossos pais. Nós os vemos como os seres humanos feridos que realmente são (eram). Vemos que são crianças adultas revivendo suas próprias contaminações.” John Bradshaw (1993) Uma vez que você conseguiu identificar em quais fases sua criança foi ferida, irei agora ensinar algumas técnicas de psicodrama que considero de fácil aplicação e muito eficazes no tratamento dos traumas da infância. Mas antes de seguir em frente, peço que releia com atenção o capítulo “As Fases do Desenvolvimento Infantil”, onde falo sobre as fases da infância de um ponto de vista mais científico, bem como da forma com a qual você deve dialogar com sua criança interior em cada uma das fases, e descrevo as fases do desenvolvimento segundo Moreno, e as técnicas de psicodrama relacionadas a cada fase. Isso também ajudará você a entender e saber se comunicar melhor com sua criança interior ferida. Bradshaw acrescenta a fase dos 13 aos 26 anos como adolescência. Isso porque ele considera uma fase em que a pessoa deseja autonomia, mas, em muitos casos, ainda depende financeiramente dos pais. 8. COMO RESGATAR E TRATAR A CRIANÇA INTERIOR FERIDA O Psicodrama é a forma mais eficaz de tratar a criança interior ferida. Para que você possa entender esse processo, primeiramente explicarei o que é e como funciona esse tipo de terapia. O psicodrama foi criado por Jacob Levy Moreno, médico psiquiatra que também foi o criador do Teatro Espontâneo e do Sociodrama. Nascido na Romênia em 1892 e falecido nos EUA em 1974. Para Moreno, o psicodrama procura, com a colaboração do paciente, transferir a mente “para fora” do indivíduo, e objetivá-la dentro de um universo tangível e controlável. Isso quer dizer que o paciente, enxergando a cena traumática de sua vida e seu comportamento disfuncional decorrente desse trauma, pode ter um olhar objetivo, de observador externo, e, a partir daí, modificar sua forma de interpretar os fatos e sua reação a eles. A partir da observação do comportamento da criança, Moreno formulou a ideia de que o ser humano tem fome de ação física e mental. Essa fome faz com que as crianças aprendam muitas coisas muito antes de começar a falar, vivendo e absorvendo o seu meio intensamente. Moreno atribuía a capacidade que a criança tem de envolvimento alegre com a vida, à espontaneidade (Fator E) e à http://pt.wikipedia.org/wiki/Rom%C3%AAnia criatividade (Fator C), que são os pilares da saúde mental e física. A educação, pelos cuidadores, e posteriormente a imposição da sociedade, gera medo, limitações, e perda da espontaneidade e da criatividade. A perda dos fatores E e C geram o adoecimento. Esse é o problema central da humanidade, uma vez que o ser humano tem que encarar a vida e seus obstáculos ultrapassando barreiras, e isso exige flexibilidade, o oposto da conserva cultural (termo usado quando uma ação espontânea passa a ser repetida com finalidade específica, cristalizando aquela ação como resposta padrão a determinado fato ou momento). Se por um lado as “conservas” são necessárias pois formam o conhecimento (exemplo: papel de médico, advogado, motorista, professor), por outro, nos roubam os dois elementos essenciais à saúde (E e C). O psicodrama é um método que articula teoria e técnicas do teatro, da psicologia e da sociologia. Moreno descreve essa forma de teatro como o Teatro do Êxtase, pois faz com que o indivíduo saia de seu mundo limitado e ultrapasse as fronteiras. As pessoas têm liberdade para atuar como desejarem, deixando aflorar suas fantasias mais íntimas. Nesse momento, por exemplo, os homens podem desempenhar o papel de mulheres, e vice-versa, os jovens podem representar os velhos, e vice-versa, uma pessoa pode ser um avião, ou qualquer tipo de objeto, uma parte do corpo, uma idéia, ou mesmo Deus! Tudo isso ajuda a entender o outro, a vida, a situação, pois como se disse, colocar-se no papel do outro é fundamental para o desenvolvimento emocional. Todos os possíveis personagens e sentimentos são trazidos para o encontro com alguém ou alguma coisa, ou com partes do self, havendo sempre uma relação entre eles. Esse mundo sem limites, em que a pessoa fica liberada do mundo real, é o que Moreno chama de “realidade suplementar”. Através da dramatização, o psicodrama explora os sintomas, os conflitos, os mecanismos de defesa, os acontecimentos marcantes. Ou seja, investiga como a pessoa se sente no “aqui-e-agora”, não só por meio da fala, mas da ação. E nada é mais libertador do que a ação! Contudo, a dramatização é o elemento essencial do psicodrama, e tem como objetivo o resgate da espontaneidade- criatividade, constituindo a primeira lição de espontaneidade. Finalmente, a dramatização é uma forma de fuga da realidade, na qual o contexto psicodramático possibilita reviver o passado, clarear o presente e antecipar o futuro, e observar tudo “de fora”, sem as dores tão intensas e as consequências da vida real. A pessoa que sofreu um trauma na infância desenvolve comportamentos prejudiciais a suas relações intra e interpessoais, devido a papéis disfuncionais cristalizados ao longo do tempo e da repetição. É necessário na terapia desfazer esses comportamentos e substituí-los por outros mais saudáveis. Por isso, no psicodrama, faz-se tanto treinamento de papéis. Como nas faculdades atuais onde existem disciplinas especialmente para o treinamento profissional. Simular diversas vezes uma entrevista de emprego, ou um diálogo com alguém, ajuda a escolher as melhores palavras e formas de se atingir o objetivo, assim como analisar as palavras ou comportamentos contraprodutivos, e avaliar o porquê de suas manifestações. O treinamento de papéis no psicodrama é uma ação onde a ausência de limites reais de tempo e espaço é um recurso fértil para a elaboração de conflitos, para preparar a espontaneidade- criatividade e para corrigir as distorções cognitivas. Afinal, a transformação se dá na própria consciência, já que a consciência se dá no próprio ato! O desempenho de papéis proporciona ao sujeito a oportunidade de libertar as emoções e os sentimentos que estavam aprisionados, impedidos de ser expressos por causa dos papéis sociais cristalizados, rígidos. A espontaneidade, para Moreno, é uma nova resposta a uma velha situação uma ou uma resposta adequada a uma nova situação. A espontaneidade e a criatividade são recursos inatos, fundamentais para o desenvolvimento saudável do homem. A espontaneidade precisa estar vinculada à criatividade, caso contrário, teremos o bobo espontâneo, incapaz de dar respostas adequadas a situações ou o gênio criativo tolhido, enrijecido, incapaz de ser espontâneo. Em ambos os casos não haverá um comportamento construtivo e bem suscedido. Na visão de Moreno, o homem é umser social que, diante de sua fragilidade biológica, precisa pertencer a um grupo para satisfazer suas necessidades básicas, desde que nasce até seus últimos dias de vida. Segundo Rosa Cukier (1998), o drama da criança ferida, que vive dentro de nós, fala de um momento na vida no qual nosso narcisismo foi fragilizado e nosso psiquismo se mobilizou. Então, a Criança Maravilhosa, com toda a sua espontaneidade, criou um “remédio” específico para o mal que nos acometia. O problema é que esse “remédio” foi guardado, feito pedra preciosa, a fim de ser usado cada vez que outra ameaça à nossa autoestima aparecesse pelo caminho”. Entretanto, o medicamento que serviu na infância não surtirá o mesmo efeito no adulto, pois suas experiências de vida já o transformaram e fortaleceram, e mesmo as vivências atuais, por mais que lembrem as da infância, não são as mesmas e precisam ser encaradas de uma nova perspectiva. Como dito, esse comportamento “congelado”, ao contrário da espontaneidade anterior, é um sinal de adoecimento. Segundo Jacob Levi Moreno, adoecemos quando perdemos nossa espontaneidade e nossa criatividade. Portanto, é preciso buscar uma solução para curar essa criança ferida, a qual habita dentro de todos nós. Cukier diz que o psicodrama tem representado, para a sua vida, a melhor assistência técnica para discos rasurados, que jamais obteve em lugar algum. Isso porque o trauma gera comportamento repetitivo que não se adequa à situação atual, como os discos rasurados ficam repetindo o que está impresso no local da ranhura, mesmo aquele segmento da música não se adequando ao contexto, se tornando repetitivo, incômodo e indesejado. Cukier acredita que o psiquismo humano se estrutura em torno de uma economia narcísica, ou seja, desde o dia que nasce até provavelmente a morte, o indivíduo busca determinar quem é realmente e qual é o "valor" que tem para os outros e para si mesmo. Esses critérios de valor se modificam, ou não, com o passar do tempo, mas seremos sempre pessoas em busca de nosso valor. O problema é que tal valor é buscado no outro. No que o outro pensa de nós. Ou no que esperamos que o outro pense de nós, por não confiarmos em nossa própria opinião ou por não acreditarmos realmente possuir tal valor. O psicodrama possui técnicas capazes de desprender você de sua identidade básica, permitindo que veja além do que seus próprios olhos podem ver, ao ocupar o papel do outro, ou ao sair do seu papel e se colocar na posição de observador de sua própria cena. Através do psicodrama, podemos caracterizar e concretizar a criança interna, conversar com ela, trocar de papel etc. A terapia só começa, de fato, quando você identifica sua criança interior, pois a partir desse momento, deixa de transferir a culpa de seus problemas aos outros, inclusive a seus pais, e passa assumir sua responsabilidade pelas próprias dificuldades. Porém, é difícil para o paciente fazer acordo com sua criança interna ferida, uma vez que esta tornou-se teimosa e inflexível, disposta a não ceder enquanto não tiver suas vontades satisfeitas. Mas infelizmente, ninguém pode lhe devolver o passado, que é justamente o que ela mais deseja. Então, você, no papel de adulto, deve fazer acordos com sua criança, ajudando-a a lidar com as frustrações e não agir com uma agressividade ou passividade destrutiva diante de situações que lhe desagradem, buscando soluções práticas e eficazes para suas questões atuais. Esse processo precisa ser compartilhado (sharing) com um ouvinte, o qual pode ser um amigo ou um terapeuta que saiba validar suas necessidades da infância. Mas é importante que esse ouvinte não questione, argumente ou aconselhe, pois seu papel é apenas o de apoiar através da escuta passiva. Então, vamos à ação! Inicialmente, você precisa trazer de volta os sentimentos de sua infância, o que pode ser feito através da observação de uma outra criança ou ainda de uma foto de sua própria infância. Procure sentir os verdadeiros sentimentos da infância, como medo, dor, abandono e raiva, bem como os sentimentos de alegria, fé, encantamento, sem tentar camuflá-los. Faça esse trabalho até conseguir se projetar no passado e se sentir como realmente sendo a criança que outrora você foi. Quando perceber que entrou no papel de sua criança, procure escrever cartas ou gravar áudios falando o que sente, o que pensa, mesmo que seus pensamentos sejam confusos. Aqui é sua criança se manifestando e dependendo da idade pode ser que sua comunicação verbal não seja tão boa, assim como seu entendimento da realidade externa. Não tente seus pensamentos em ordem. Apenas expresse o que sente sem medo de julgamentos e, principalmente, sem autojulgamentos. Concluída essa fase, volte para seu “eu” atual e respire fundo, tome um copo de água. Agora você irá entrar em um outro papel! Pense em alguém que você admira por sua sabedoria e clareza de pensamento. Busque no seu convívio ou mesmo na internet pessoas que você admira e confia. Busque também entre conhecidos, próximos. Junte todas essas qualidades. Agora você reunirá as melhores características dessas pessoas! Feche os olhos e se imagine com mais idade, ou apenas como alguém mais sábio, bondoso, amoroso, capaz de cuidar e apoiar, defender, proteger e nutrir sua criança ferida e curar suas dores. Você se tornará a pessoa que vai cuidar da forma correta, apoiar e amar de maneira incondicional, incentivar, ensinar, acalmar e ajudar sua criança interior a amadurecer sem os traumas que ela atualmente apresenta. Isso no Psicodrama chamamos de rematrização. Pois você irá reconstruir o papel da mãe assertiva à qual sua criança, em alguns momentos cruciais, não teve acesso. Agora, no papel de sábio(a), escreva cartas ou grave áudios de apoio e carinho à sua criança interior e faça com que ela se sinta querida. É importante que o adulto sábio reserve sempre um tempo para meditar e dialogar com sua criança interior. Esse diálogo deve acontecer não só durante a terapia mas por toda a vida, pois por mais que você consiga curar sua criança, ela sempre continuará existindo dentro de você. Já o adulto sábio você irá introjetar, para que ele passe a fazer parte de sua personalidade, pois isso o ajudará não só a lidar com sua criança, como também com outras situações da vida. Lembre-se: esse adulto sábio é você! Com o tempo você irá introjetar toda essa sabedoria e clareza de pensamentos, a fim de guiar sua vida e ajudar sua criança interior ferida sempre que ela se manifestar (pois isso ainda poderá acontecer ao longo de meses ou até anos). O Psicodrama não se limita apenas à compreensão do passado, mas, além disso, integrá-lo ao presente e projetá-lo no futuro. Para tanto, utiliza-se da realidade suplementar, a qual inclui algumas técnicas como: inversão de papéis, onirodrama, jogo de Deus, projeção no futuro, loja mágica, etc. A projeção do futuro é onde o paciente descreve e encena como se imagina no futuro, representando seus desejos e projetos. Através desta técnica é possível fazer um encontro entre o "eu do futuro" e o "eu do presente", e ambos conversarem. Há pessoas cujo “eu do futuro” dá conselhos de como agir ou para mudar seu estilo de vida a fim de atingir um resultado melhor do que se encontra no futuro. Então, agora, você, como uma pessoa sábia, amorosa e cuidadora, irá demonstrar à sua criança interior todo o amor que sente por ela, e o quanto ela é importante e valiosa. Para isso, escreva uma carta para ela ou deixe uma mensagem gravada em áudio. Mas faça isso de forma que ela possa ler ou ouvir quantas vezes quiser de agora em diante. Você poderá gravar ou escrever quantas mensagens você quiser, dizendo tudo que sente de bom e tudo que enxerga de bom em sua criança. Este é apenas um exemplo: Agora respire fundo novamente, tome outro gole de água, pois você irá viajar ao passado, e se tornar sua criança de outrora. Aquela criança linda e perfeita que está sofrendo, confusa e ferida com o mundo a seu redor. No papel dessa criança,leia ou ouça a mensagem do seu adulto. Mas faça isso com calma, com atenção, de coração aberto. Esse adulto é diferente dos outros. Afinal ele conhece você mais do que ninguém e sabe exatamente quais são suas necessidades Além disso, esse adulto é sábio, maduro, bondoso e cuidadoso, e saberá tratar você com o amor, carinho e atenção que você merece e precisa. Após ler ou ouvir a mensagem, escreva algo para essa pessoa tão sábia e amorosa, que está disposta a cuidar de você! Você pode escrever qualquer coisa. Falar de seus medos e desconfianças, falar o que aconteceu que deixou você assim tão triste, até dizer que não confia nele, se for o caso. Você precisa falar a verdade sem medo, pois será através do diálogo que vocês irão se conhecer e formar um vínculo de confiança. Esse vínculo é fundamental para curar você! Eis um exemplo de carta que alguém escreveu: Cada criança tem sua forma de se expressar. Você pode ou não confiar no adulto sábio, e precisa dizer o que pensa e sente, do fundo do coração. Pode ser uma carta ou áudio breve ou curto. Não importa. O que importa é que você manifeste seus sentimentos, dúvidas, medos, desejos e esperanças. Pronto! Agora que você falou tudo que precisava falar, pode ficar tranquilo e sair do papel de criança. Volte ao aqui-agora, volte a ser a pessoa que você é no momento atual, respire fundo, e se prepare para assumir o papel do seu adulto sábio e amoroso. Mas não se preocupe, Tal processo de troca de mensagens será longo e poderá demorar vários dias. Tire um momento do seu dia para isso. Marque um encontro entre sua criança e seu adulto sábio. De preferência, deixe um momento diariamente pré- reservado para que eles saibam o quanto você está envolvido e empenhado em seu processo de cura! Haverá trocas de mensagens até que sua criança se sinta querida, protegida, amada e aceita. Ela deverá ter a certeza de que seu cuidador sempre a defenderá e nunca a abandonará. É muito importante que a criança ouça repetidamente palavras de incentivo, conforto e segurança. É importante também que a criança aprenda que ela pode expressar seus sentimentos como raiva, angústia vergonha, vulnerabilidade e tristeza, pois o sábio idoso será capaz de acalentá-la e enxugar suas lágrimas sem recriminá-la. Quando a pessoa tem sua criança ferida até os 9 meses, não há lembranças dessa fase, porém muito pode ser descoberto através de relatos de seus familiares. Nos estágios de exploração (9 a 18 meses) e de separação (18 meses a 3 anos), a pessoa já pode possuir algumas recordações, e é necessário perguntar quem fazia parte de seu núcleo familiar, quem o disciplinava, se havia irmãos mais velhos ou mais novos, quem estava presente quando ela precisava, e se sentia nessa pessoa acolhimento e proteção. Nesse estágio, é importante também que a criança saiba que não há nada de errado em depender de alguém e que ela não precisa ter vergonha de expressar seus sentimentos. Na fase da identificação sexual (dos 3 aos 6 anos de idade), surgem muitos questionamentos. Famílias disfuncionais costumam reprimir demasiadamente a criança, fazendo-a pensar que seus questionamentos são inapropriados, gerando o que Bradshaw denomina vergonha tóxica, que se configura como um sentimento patológico de vergonha gerado por uma autocrítica exacerbada. Outros fatores que podem causar vergonha tóxica são: brincadeiras sexuais na infância, incesto físico ou emocional, modelo pobre de intimidade, excesso de informações e atribuição de sentimento de culpa. Nessa fase também é fundamental que o idoso manifeste seu apoio a criança interior ferida através de cartas. Exemplo: Na fase dos 6 anos a puberdade, é onde se desenvolvem as capacidades pessoais. A força do ego se encontra na competência, e esta é adquirida através do estudo e do conhecimento. Os relacionamentos se tornam de extrema importância e, como para desenvolvê-lo é necessário saber lidar com a interdepedência e cooperação, pessoas com problemas de intimidade terão dificuldade nessa fase, o que resultará em sentimento de inferioridade e inadequação. Esta é a fase em que a criança se encontra mais suscetível ao abuso emocional. Um exemplo clássico do abuso ocorrido frequentemente nessa idade é o bullying. Sendo envergonhada publicamente por adultos ou por outras crianças na escola, na rua, na igreja ou na sua própria casa, ela irá sentir-se inútil, inferior e inadequada. Quando a criança pertence a uma família disfuncional, dificilmente suas necessidades de afeto e segurança serão supridas. Através de terapia familiar, os aspectos disfuncionais poderão ser trabalhados para que essa família possa realmente dar o suporte do qual a criança necessita. Porém, algumas vezes, esse trabalho com a família não é possível, e nesses casos, é aconselhável manter uma distância segura e procurar uma “família substituta” para lhe fornecer o devido apoio, que pode ser um grupo de apoio, amigos, terapeuta, etc. Tais casos são raros, mas existem, como crianças que foram abusadas sexualmente por ambos os pais, e ao tornarem-se adultas não conseguem refazer o vínculo afetivo e de confiança. Como você pode perceber, o tratamento de sua criança exige que esteja disposto a se submeter a um trabalho contínuo a fim de tratá-la. Não é difícil, mas demanda tempo, carinho e dedicação. Só inicie quando você realmente estiver disposto a levar o processo até o fim. Sua criança não pode sentir-se abandonada ou não amada de novo! Lembre-se dos passos: 1. Identificar sua criança interior ferida e em qual ou quais fases ela sofreu o trauma. Para isso procure se lembrar, pergunte a familiares e responda aos questionários das fases. O conhecimento das fases do desenvolvimento infantil é de extrema importância para identificar essas fases. 2. Resgatar essa criança. Lembrando que se for em várias fases você precisa tratar uma criança de cada vez. Aqui, o capítulo que fala das fases do desenvolvimento infantil também será extremamente útil, dessa vez para que seu adulto sábio possa entender como agir diante da criança, qual a melhor abordagem e o que ela sente, a fim de que o resultado seja mais satisfatório. 3. Tratar sua criança interior ferida. A troca de mensagens, o uso de jogos, música, dança, brincadeiras, tudo que for lúdico, irá estimular o tratamento. Lembre-se que você está lidando com uma criança, mas mesmo adultos adoram jogos e diversão. Afinal, e através deles que liberamos nossa criatividade e espontaneidade, e restabelecemos nossa saúde! Ao final do tratamento, todo mundo consegue progresso na cura da criança ferida, sendo que o progresso dependerá do momento terapêutico em que você se encontra no processo de cicatrização. Pois cada indivíduo possui suas próprias necessidades e seu ritmo de cura, além do que algumas pessoas já fizeram bastante progresso através de terapia, enquanto outras necessitam começar o trabalho “do zero”, desde a construção dos seus alicerces. Independente da fase em que a pessoa se encontra, todo processo terapêutico é formado por etapas, as quais deverão ser colocadas em prática até que o processo seja concluído. O mais importante é que, se você colocar em prática o que aprendeu nesse livro, irá, enfim, curar sua criança interior ferida, possibilitando uma vida tranquila e emocionalmente saudável! 9. ETAPAS DO PROCESSO TERAPÊUTICO DA CRIANÇA FERIDA A partir da identificação das etapas do psicodrama, das teorias do desenvolvimento infantil, bem como do modelo psicodramático fundido ao modelo proposto por Bradshaw, bem como minha experiência clínica, criei um quadro resumido para que você siga facilmente seu trajeto de cura emocional. Veja: Aquecimento inespecífico: Ocorre através de músicas, contato visual e táctil, podendo-se utilizar aromas, além de exercícios respiratórios (por exemplo exercícios de Yoga) e alongamentos, tocar em objetos ou saborear algo que lembre a infância, entre outros estímulos sensoriais. Você pode acender velas, ligar um aromatizador,tomar um banho morno ou frio relaxante, enfim, buscar formas de sentir-se confortável e relaxado a fim de iniciar essa vivência. Gaste o tempo necessário para atingir esse estado de relaxamento pois cada etapa é de extrema importância. Aquecimento específico da criança interior: 1. Reler o questionário relativo às fases em que se encontra a criança interior ferida. (Você poderá consultar os questionários no capítulo Como Identificar Em Que Fase Sua Criança Interior Foi Ferida). Após identificar a/as fase/s em que sua criança foi ferida, seu trabalho irá se iniciar pela fase mais antiga, onde sua criança era mais novinha. 2. Sensibilização através de músicas, alimentos, jogos e brincadeiras da sua infância, bem como imagens (fotografias ou vídeos), a fim de despertar suas memórias. Ou ainda observando alguma criança que se encontre nessa idade. Demore o tempo que for necessário até conseguir acordar sua criança interior, fazendo com que ela possa se manifestar plenamente. Você perceberá que isso aconteceu, quando as memórias de sua infância se tornarem muito vívidas e carregadas de emoção. Aquecimento específico do adulto sábio: 1. Utilizar o processo descrito onde você lembra de pessoas que você admira pelo seu alto valor de serenidade, cuidado para com o próximo, capacidade de amar e acolher, coerência, sabedoria; e fazer uma fusão dessas pessoas, criando para si um alter-ego que seria seu adulto mais sábio, cuidador e amoroso do futuro. 2. Esse alter-ego deverá se apresentar a você, dizendo quem é, como ele pensa, quais seus valores, o que ele faz e como pretende cuidar de sua criança interior. Você precisa ter a certeza de que esse adulto poderá defender e cuidar de sua criança. Essa personalidade calma, sábia, cuidadora e amorosa precisa estar solidamente construída antes que você inicie a dramatização em si. Dramatização Primeira fase: 1. Trazer, através da projeção de futuro, e fusão de personagens, como já descrito, seu adulto talvez mais idoso, e com certeza sábio e bondoso, capaz de acolher, amar, cuidar, defender e educar sua criança ferida, 2. Converse com ele e explique a situação sobre sua criança ferida, e deixe que a partir de agora ele cuide, resgate e cure as feridas dessa infância, pois ele será o pai amoroso dela. 3. Durante o diálogo, trabalhe sempre com a inversão de papéis: coloque uma almofada em sua frente, para que ela represente o adulto sábio, e fale com ele. Após falar tudo que deseja, inverta os papéis, troque de lado, e coloque a almofada, agora representando você, enquanto você assume o papel do sábio que irá conversar sobre o que pensa e sente, e o que pretende fazer com respeito à sua criança interior. 4. No papel de sábio, escreva cartas ou grave áudios de carinho e apoio incondicional a essa criança, conquistando sua confiança, a fim de apoiá-la e auxiliar em sua cura. Esse sábio adulto é seu eu, e conhece sua criança ferida mais do que ninguém. Então, ninguém melhor que ele para saber exatamente o que sua criança precisa ouvir a fim de voltar a sentir-se bem. 5. Deixe que ele fale com ela a vontade, até que ela se sinta completamente acolhida. Segunda fase: 1. Trazer, através da regressão à sua infância, a criança interior ferida, conversar com ela, e explicar que agora ela terá um adulto cuidador e amoroso que está preparado e deseja cuidar dela com todo amor que ela merece, pois ela é maravilhosa e merece esse cuidado; 2. Permita que ela fale com você, lhe faça perguntas, através da inversão de papéis. Terceira fase: 1. Quando ela entender e aceitar, deixe que ela se comunique com o idoso através de cartas ou áudios (mesmo que na idade em questão a criança não soubesse escrever, isso torna-se possível através da realidade suplementar). 2. Você deve permitir-se trocar os papéis sucessivamente, a fim de possibilitar a comunicação frente-a-frente entre os três personagens até que o idoso consiga conquistar a confiança de sua criança ferida. 3. O idoso deverá validar os sentimentos da criança, apoiá-la, defendê-la através do trabalho psicodramático de cenas traumáticas que deverão ser trazidas ao palco e reencenadas quantas vezes for necessário até que a criança consiga sentir-se adequadamente nutrida, rematrizando assim os papéis originais cuidador-criança. Lembre-se que se você preferir, poderá solicitar a ajuda de seu terapeuta em algumas fases desse processo. Uma observação é que, no trabalho com diretor e egos auxiliares, (caso você decida fazer esse trabalho acompanhado por um psicoterapeuta psicodramatista), pode-se usar as técnicas do espelho, a fim de que o paciente reconheça seu idoso bem como sua criança interior, e do duplo, a fim de auxiliar a criança a comunicar seus medos e necessidades, quando ela estiver encontrando dificuldade em fazê-lo. Porém esse trabalho com egos auxiliares não é necessário para o bom desenvolvimento desta autoterapia. 4. fechar cada cena com o idoso abraçando e reafirmando à criança seu apoio, amor e proteção incondicionais. Você deverá introjetar aos poucos o papel do idoso para que o mesmo possa ser invocado sempre que sua criança ferida vier a manifestar-se. Não se esqueça de que sua criança passou muitos anos ferida. Ela demandará tempo até sentir-se completamente curada. Os resultados iniciais serão maravilhosos, mas só irão se consolidar com o tempo. 5. Repita o processo da troca de cartas quantas vezes for necessário, até que sua criança interior esteja completamente curada. 4) Compartilhar – retornar ao papel atual, e conversar com algum amigo íntimo ou com seu terapeuta, recebendo seu acolhimento. É importante, nesse momento, que essa pessoa não manifeste opinião ou critique, mas apenas compartilhe suas próprias experiências, para que você se sinta acolhido e compreendido, visto que acabou de reviver seu drama e estará muito sensibilizado. Existe uma tênue, porém muito importante diferença entre o Psicodrama de Moreno, as técnicas de Bradshaw, e a que desenvolvi. Enquanto Moreno utiliza atores que fazem as trocas de papéis, Bradshaw utiliza apenas um grupo de indivíduos durante a encenação, visto que ele trabalha com workshops e não tem a intensão de ser terapeuta. Já em nosso trabalho, propomos que você trabalhe individualmente, em busca de sua cura emocional, sendo que a única segunda pessoa aparece na fase do compartilhar, no papel de acolhimento e escuta passiva, no máximo dividindo com você a história dela própria, empaticamente. Conquanto seja mais fácil contracenar com vários atores do que sozinho, no trabalho em grupo corre-se o rísco de você projetar suas expectativas, relacionadas ao seu cuidador, no indivíduo que o está representando. Isso acarretaria a formação de um vínculo de dependência que não poderia sustentar-se após o término da terapia, o que incorreria no risco de novo trauma. Por outro lado, na proposta que estou trazendo, você aprenderá a cuidar de si próprio, sem o risco de desenvolver uma projeção e uma dependência patológica por outra pessoa. Bem. Agora que você já possui todas as armas para defender sua criança interior, bem como já possui em mãos o arsenal terapêutico para sua cura, poderá enfim libertar-se de todo o sofrimento imposto ao longo dos anos pelos comportamentos impulsivos e disfuncionais gerados por essas feridas. Mãos à obra! 10. CONSIDERAÇÕES FINAIS Como vimos, este livro trata sobre a criança interior ferida, e o psicodrama como processo de cura. Porém, há aqui uma nova abordagem, onde o psicodrama é utilizado pelo próprio paciente em um processo de autocura. Isso é extraordinário pois permite a todos, independente de suas condições financeiras ou possibilidade de acesso a um processo terapêutico, a chance de curar suas feridas da infância. E claro que, como terapeuta, conheço o valor do profissional, e sei que ele é insubstituível. Mas esse processo é mais uma opção, e como dito, desde que levado a sério, traz resultados maravilhosos na cura de sua criança interior.Dentre todos os autores citados, destacam-se Moreno, Barbirato, Cukier e Bradshaw, que tiveram bastante relevância no estudo da criança ferida, ressaltando a forma como as feridas podem comprometer a vida quando adulto, e o tratamento para a cura dessa criança. Cukier seguiu fielmente os estudos e ideias do pai do psicodrama, Jacob Moreno. Já Bradshaw não mencionou as técnicas criadas pelo médico romeno, embora não tenha ficado longe dos métodos utilizados por ele na recuperação e tratamento da criança ferida. Rosa Cukier considera o psicodrama a melhor terapia para restaurar discos arranhados. Segundo a autora, através das técnicas do psicodrama, o indivíduo pode ver além dos próprios olhos e se colocar no lugar do outro. Porém, para a técnica funcionar, é necessário que o paciente identifique sua criança interior e assuma as responsabilidades de seus problemas, deixando, por fim, de culpar os outros. Dessa forma, para tentar entender que as feridas causadas na infância podem ocorrer durante o desenvolvimento da criança, descrevemos as fases e suas principais características baseado nos conhecimentos de autores como Piaget e Barbirato, entre outros. Isso nos possibilitou identificar as fases em que as crianças ficam mais vulneráveis a determinadas feridas emocionais. O indivíduo guarda outros Eus infantis, que são produtos de momentos negativos ou positivos, porém emocionalmente intensos, que permanecem imutáveis enquanto se desenvolve e amadurece durante sua vida adulta. Portanto, para que se tenha um adulto confiante e emocionalmente estável, é importante que este nunca deixe sua criança interior de lado. Contudo, idealmente, esta deve ser uma criança interior feliz, que tenha conseguido lidar com os problemas sem transformá- los em traumas, a fim de que se desenvolva um adulto com um Eu mais maduro e responsável. Diante do fato, os pais devem ficar atentos ao desenvolvimento da criança, pois nessa etapa da vida podem ocorrer traumas e frustrações, os quais causam feridas que possivelmente afetarão sua vida quando adulto. Na verdade, os pais devem proteger a amar a criança durante todo seu desenvolvimento, passando-lhe a segurança necessária para a fim de que ela se torne um adulto autoconfiante, ao mesmo tempo em que devem educar, disciplinar e mostrar limites, para que a criança aprenda a viver em sociedade. Ou seja, os pais devem ler este e outros livros que falem sobre a educação infantil e os traumas da infância, a fim de aprender a curar sua criança interior e conseguir educar seus filhos, sem causar-hes traumas profundos. Nunca é demais lembrar que causar traumas quer dizer gerar uma criança interior ferida. Porém, toda criança é naturalmente resiliente e sabe lidar muito bem com os traumas comuns, portanto os pais não devem sentir-se culpados quando estes ocorrem. E mesmo quando o pai que não teve a oportunidade de curar-se acaba por infringir a seus filhos algum trauma intenso, deverá pedir desculpas e procurar corrigir seu erro, visto que todos somos seres humanos passíveis de errar, e, ao invés de sentimento de culpa, devemos primeiramente nos perdoar, para em seguida nos corrigir e evoluir com nossas falhas. Afinal, nossa grande missão é evoluir sempre, buscando a cada dia desenvolver novas habilidades como seres humanos. Sendo assim, é notável que este livro não só poderá ajudar você a curar sua criança interior ferida, como também evitar repetir os mesmos erros pelos quais sofreu, em relação à educação de seus filhos. Assim, é possível atingir o reconhecimento do drama infantil, que deverá ser visto como algo concreto e clínico e ser finalmente aceito e respeitado. A partir daí, todo o processo de recuperação será facilitado, tornando-o capaz de lidar com as feridas de sua criança interior, e buscar novas formas de superar seus traumas e conviver consigo mesmo e com os outros. Pesquisar sobre a criança ferida e todos os problemas que esta pode trazer na vida adulta foi bastante significativo. A partir daí, foi possível detectar o quanto somos vulneráveis e o quanto precisamos e dependemos de cuidados na idade mais tenra de nossa vida: a infância. Espero estar deixando um legado para os pesquisadores, estudiosos e terapeutas, no intuito de contribuir para o tratamento eficaz dos traumas emocionais gerados na infância, os quais sempre repercutem de forma dramática e negativa por toda a vida adulta do indivíduo. Mas, principalmente, espero poder ajudar você a não só curar sua criança ferida, como também evitar ou tratar a criança ferida em seus filhos. Como na Fábula “O jovem e as estrelas do mar”: “Numa praia tranquila, junto a uma colônia de pescadores, morava um escritor. Todas as manhãs, ele passeava pela praia, olhando as ondas. Assim ele se inspirava e, à tarde, ficava em casa, escrevendo. Um dia, caminhando pela areia, ele observou um vulto que parecia dançar. Chegou mais perto e viu que era um jovem pegando, na areia, as estrelas-do-mar, uma por uma e jogando-as depois de volta ao oceano. – E aí? – disse-lhe o jovem num sorriso, sem parar o que fazia. – Por que você está fazendo isso? – perguntou o escritor, curioso. – Não vê que a maré baixou e o Sol está brilhando forte? Se estas estrelas ficarem aqui na areia vão secar ao sol e morrer! O escritor até que achou bonita e louvável a intenção do garoto, mas deu um sorriso cético e comentou: – Só que existem milhares de quilômetros de praias por este mundo afora, meu caro. Centenas de milhares de estrelas-do-mar devem estar espalhadas por todas essas praias, trazidas pelas ondas. Você aqui, jogando umas poucas de volta ao oceano, que diferença faz? -Para esta, eu fiz diferença. – diz enquanto joga mais uma estrela ao mar. Naquela tarde, o escritor não conseguiu escrever. De noite, mal conseguiu dormir. De manhãzinha, foi para a praia. O jovem pegava as primeiras ondas do dia com sua prancha. Quando saiu do mar e foi para a areia, encontrou o escritor. Juntos, com o Sol ainda manso e começando a subir, começaram a jogar estrelas-do- mar de volta ao oceano”. É “É necessário acreditar que estamos fazendo a diferença para alguém. Se todo mundo fizer a sua parte, teremos um mundo com mais harmonia e paz.” OUTROS MODELOS TEÓRICOS DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL Sobre o desenvolvimento cognitivo da criança, Jean Piaget demonstrou que esta, de acordo com a maturação, apresenta estágios de desenvolvimentos que têm características perceptivas para cada faixa etária. 1º. estágio sensório-motor: 0 aos 2 anos de idade. 2º. estágio pré-operatório: 2 aos 7 anos de idade. 3º. estágio de operações concretas: 7 aos 12 anos de idade. 4º. estágio de operações formais: a partir dos 12 anos de idade. No estágio sensório-motor, que inicia desde o nascimento até os dois anos de idade, a criança realiza movimentos direcionados a obter os fins desejados. Sua percepção está primeiramente ligada às sensações motoras, e somente num segundo momento liga-se ao pensamento visual. Nessa fase, todo o conhecimento da criança é construído por meio da manipulação de objetos, que para ela irão adquirir significados de acordo com os fins obtidos por esses objetos, e pelo constante domínio sobre o ambiente que a cerca. Inicialmente, seu pensamento é concreto e imediatista. Só reconhece a existência dos objetos (inclusive cuidadores) quando estão dentro de seu campo visual. Aos poucos, vai introjetando em sua mente os objetos, até o ponto de perceber e sentir sua falta. É no final desse período que a criança começa a adquirir a consciência da existência de objetos que não estão presentes no seu campo de visão. Mais ou menos a partir dos dois anos de idade até sete anos, no estágio de desenvolvimento infantil nomeado por Piaget como pré-operatório, dá início a transição dos movimentos sinestésicos (movimentos relacionados a sensação: visão, audição, olfato, tato e paladar), para atividades simbólicas e de linguagem. Aexpressão infantil, nessa fase, esta relacionada à evolução da criança a um estágio que em há desenvolvimento do seu pensamento enquanto linguagem oral e visual. Entre dois e quatro anos, as crianças têm capacidade de elaborar suas ações (mesmo que não sejam visualmente identificadas pelos adultos) usando símbolos plásticos como rabiscos. A psicologia aponta esse fato em decorrência do desenvolvimento da linguagem oral que ganha maiores proporções, mas não significa um amadurecimento simultâneo da simbologia infantil. É bastante comum a criança apresentar um bom desenvolvimento na fala, no entanto, suas atividades simbólicas não aceleram na mesma medida. Como a linguagem é um fator de desenvolvimento mental, o pensamento tende a acelerar, gradativamente, e acaba influenciando a atividade perceptiva. Porém, nem sempre o fato de a criança apresentar um bom desempenho na linguagem implica que ela saiba identificar o simbolismo por trás daquilo que fala. Exemplo próprio da autora: recordo-me perfeitamente de quando tinha por volta de três a quatro anos de idade, e ouvia uma canção que dizia “você vai aturar os meus grilos, você vai ser a mãe dos meus filhos, até a morte chegar...”. Então, imaginava que estava sendo cantada para um grilo, dizendo para uma grila que ela ia ter que aturar os grilinhos deles. Vemos diariamente, nos Reality Shows, crianças muito pequenas cantando ou declamando textos complexos ou mensagens religiosas de sabedoria, ou ainda canções de conteúdo adulto ou até sexual. Podemos até achar fofinho aquele comportamento de miniadulto, mas será que acreditamos que essas crianças realmente sabem o que estão falando? Essa é a fase do aprendizado da linguagem simbólica por imitação. Entre quatro e sete anos a criança ainda está no estágio pré-operatório, apresenta maturação mais completa, desenvolvendo novas habilidades, realizando atividades que exijam mais coordenação motora fina. Quanto à percepção visual, a criança continua concebendo as coisas apenas sob sua perspectiva, envolvendo os aspectos que mais chamam sua atenção de acordo com suas experiências (situações e objetos). Nessa fase, há uma transformação no pensamento infantil, intensificando a atividade criadora através do jogo simbólico, ou seja, a criança cria a partir de suas fantasias e as utiliza como referência para explicar a própria realidade. É possível notar que a maturação proporciona à criança atingir um nível mais elevado de relações, nomeando suas atividades em relação aos seus significados simbólicos. Um exemplo: uma amiga me contou um dia que quando era criança e morava no Interior, fazia dos armadores de rede (que em sua região chamam de “escapa”) suas bonecas, com as quais brincava o dia todo. Por volta dos sete anos ocorre o estágio de operações concretas, que marca uma modificação decisiva no desenvolvimento mental. Nessa fase observa-se o aparecimento de novas formas de organizações, garantindo um equilíbrio mais estável. É quando ocorre o aparecimento de operações racionais, a afetividade e os sentimentos morais. E ainda ocorre os progressos da conduta, da socialização e do pensamento. Em alguns países, nessa fase da vida a criança já é considerada capaz de responder por seus atos criminosos. Finalmente vem o estágio das operações formais, que acontece por volta dos 12 anos em diante. Nessa fase da vida a criança já está se tornando um adolescente, e a relação corpo, mente e sociedade passa por mudanças significativas. Essas mudanças exigem que a criança mostre a capacidade de estabelecer relações mais complexas entre os objetos físicos e sociais (já tem discernimento), além de tomar decisões a respeito de si mesma, dos outros e do mundo (ssjulgamento crítico). Nessa época, ocorre o desenvolvimento das operações de raciocínio abstrato, onde a criança se liberta inteiramente do objeto, passando inclusive a representá-lo, lidando agora com o conteúdo, em vez da forma, situando o real em um conjunto de transformações. É a fase da subjetividade, onde uma coisa pode ter vários significados. A partir dos 12 anos, os traços de personalidade e papeis sociais já estão mais definidos e o indivíduo passa a assumir paulatinamente responsabilidades sociais. Porém, no Brasil, até os 18 anos, essa responsabilização praticamente inexiste do ponto de vista legal. Jacob Levi Moreno também estudou as fases do desenvolvimento humano. Segundo Moreno, na pré-escola a criança vai se socializar, adquirir noção de tempo, espaço e direção, desenvolver a linguagem e o pensamento lógico, vai aprender músicas e fazer artes, tudo isso de uma forma lúdica e saudável. É importante incentivar a criança em suas tarefas, elogiando e falando bem da escola, a fim de que ela não veja esse momento como algo estranho e difícil, pois certamente, nos primeiros dias de aula, ela ficará ansiosa. Segundo Moreno, devemos respeitar suas capacidades e possibilidades, pois até os 4 anos a criança não tem desenvolvimento para determinados aprendizados. Porém, quando completa 5 anos, torna-se mais dona de si mesma. Aos 6 anos, o mundo da criança não se limita apenas à família. Ela passa a desejar a companhia de outras crianças. Na atualidade, pode-se observar que as crianças já procuram uma socialização precocemente, porem é nesta fase que se torna mais evidente e possível identificar a existência de crianças mais sociáveis e outras mais retraídas. Até os 6 anos, a criança passa por etapas importantes para seu desenvolvimento físico e emocional. É importante que ela não pule nenhuma dessas etapas, pois isso poderá afetar o futuro desempenho em suas relações pessoais. Estas relações, na visão de Moreno, são natas, pois logo ao nascer a criança é inserida num conjunto de relações interpessoais (mãe, pai, irmãos, avós, tios etc.), chamado de Matriz de Identidade. O Ser Humano é um Ser social, porque nasce em sociedade e necessita do outro para sobreviver. Já Bradshaw, apesar de não se tratar de um cientista do comportamento humano, considera o desenvolvimento infantil constituído por seis etapas: 1. Primeira, etapa de 0 a 9 meses – caracterizada por uma ligação simbiótica entre a criança e sua mãe. É a fase em que a criança pensa “eu sou você” (o que Moreno denomina de Indiferenciação). Neste período dá-se o desenvolvimento da confiança básica versus a desconfiança, o que em uma infância saudável gera uma autoconfiança, esperança e crença em seu poder interior. 2. Segunda, etapa dos 9 aos 18 meses – caracterizada por uma ligação oposicional da criança em relação aos demais. É a fase de individualização, em que a criança pensa “eu sou eu e você é você” ou o que acreditamos ser mais apropriado, diferencia o “Eu” do “Não Eu”. É considerado o período exploratório. (em um comparativo com a teoria moreniana, seria talvez a fase do Reconhecimento do Eu). 3. Terceira etapa, dos 18 meses aos 3 anos – é o estágio de separação. Nessa fase o ego desenvolve a força de vontade, ou seja, a criança tem o poder de reagir aos estímulos externos. No que diz respeito ao relacionamento, dá-se o nascimento psicológico, onde a criança aprende tanto a depender quanto contrariar, conforme suas necessidades. A princípio, ela deseja tudo o que sente que é bom e prazeroso, porém os pais intervêm e impõem limites. Ela precisa aprender que pode ficar com raiva, e ainda assim seus pais continuarão ao seu lado (não a abandonarão), e precisa atender que, mesmo quando eles não satisfazem sua vontade, eles ainda a amam. Ainda fazendo um paralelo com a teoria de Moreno, esta fase seria a do Reconhecimento do Tu). 4. Quarta etapa, dos 3 aos 6 anos – é a fase escolar, onde a criança descobre sua identidade sexual, identificando-se com seu pai ou sua mãe. Nessa fase, há o desenvolvimento da polaridade iniciativa versus culpa, e a criança torna-se mais objetiva, desenvolvendo sua imaginação e seus sentimentos. Ela se torna mais independente nos relacionamentos. Através de brincadeiras, as crianças testam a realidade, e aprendema separá-la da fantasia. (Aqui ainda encontramos paralelo com o que Moreno chama de Pré-inversão). A tarefa dos pais é ser um modelo de relacionamento saudável. Nessa fase, o filho deve aprender com o pai o comportamento masculino e com a mãe como desenvolver um relacionamento íntimo saudável com o sexo feminino. A filha, vice-versa. Acredito que a criança que não encontra uma referência segura no cuidador do seu sexo, ou a criança que se identifique com um modelo agressor do sexo oposto, identifica-se com o cuidador mais forte e atuante, podendo gerar meninos com forma de pensar e agir semelhantes à sua cuidadora e meninas com atitudes e pensamentos espelhados em seu cuidador. Talvez alguns modelos de homossexualidade (mais especificamente os homens com comportamento feminino e as mulheres com comportamento masculino) possam nascer dessa identificação com o cuidador do sexo oposto. 5. Quinta etapa, dos 6 aos 13 anos – nessa fase, a criança já tem noção de utilidade, e pode tanto sentir-se útil quanto inútil. Também aprende os conceitos de autoridade e relatividade, podendo vir a considerar-se superior, igual ou inferior a determinadas pessoas. A principal força do ego é a competência e ela tem o poder do conhecimento e aprendizagem. Em seus relacionamentos, baseia suas escolhas na interdependência e cooperação. Aqui a criança deixa seu sistema familiar de lado e entra em um novo estágio de socialização, passando a treinar outros papéis. Moreno denominaria de Inversão de Papéis, em que a criança começa a idealizar, abstrair e questionar os fatos, passando a realmente colocar-se no lugar do outro, não só fisicamente, mas também emocionalmente, fazendo a verdadeira troca de papéis. 6. Sexta etapa, da adolescência aos 26 anos – o adolescente pensa “eu sou único”. Nesta fase do desenvolvimento temos a polarização entre a identidade e inversão de papéis. A maior característica do adolescente é a fidelidade, e sua força consiste no poder de reconstrução, onde ele busca tornar-se independente de sua família. Nesse momento seu senso de “eu sou” precisa ser reafirmado de duas maneiras: através de um relacionamento amoroso significativo, e através do sucesso profissional, ou seja, amor e trabalho, definidos por Freud como os dois pilares da identidade do adulto. Aqui também é o momento dos pais se mostrarem firmes, amorosos, coerentes, e imporem limites sem colocar em risco a autoestima e necessidade de desenvolver a autossuficiência do jovem. É, pois um momento bem delicado para a educação emocional. Os pais devem lembrar que, por mais independente que esse jovem seja, enquanto não adquirir autossuficiência e continuar de alguma forma morando com ou sendo sustentado por seus pais, deve aos mesmos, algum tipo de obediência, desde que baseada em responsabilidade e respeito mútuo. Assim, após traçar um paralelo entre as teorias de Moreno e Bradshaw sobre o desenvolvimento infantil, passaremos a outro importante teórico do desenvolvimento, Erik Erickson (médico psiquiatra judeu nascido na Alemanha em 1902). Erickson classifica o desenvolvimento psicossocial em oito estágios, que vão da infância à fase idosa. São eles: 1. Confiança x desconfiança (até um ano de idade) – nesse estágio, a criança é totalmente dependente de seus cuidadores, necessitando se sentir segura e amada, a fim de desenvolver confiança nas pessoas e no mundo. Porém, essa dependência poderá desencadear um ritualismo e sentimento de idolatria. 2. Autonomia x vergonha e dúvida (segundo e terceiro ano) – a criança desenvolve gradativamente autonomia sobre suas necessidades e higiene pessoal, com o controle das funções fisiológicas, desenvolvendo confiança e liberdade para experimentar o mundo sem medo de errar. Porém, caso seja repreendida ou ridicularizada, poderá desenvolver a vergonha e a dúvida, regredindo ao estágio anterior de dependência. 3. Iniciativa x culpa (quarto e quinto ano) – fase em que a criança passa a perceber as diferenças entre homem e mulher, e tem início a curiosidade sexual e intelectual, que, se for reprimida, vai gerar culpa e inibir sua curiosidade e capacidade de explorar o mundo. 4. Construtividade x inferioridade (do 6º ao 11º ano) – é um período de socialização, onde na época de Erickon a criança começava a freqüentar a escola. Porém, se apresentar dificuldade de interação e sofrer críticas do grupo (bullying), ela poderá desenvolver sentimento de inferiodade, ao invés de sentir-se construtiva. Pensamos que, atualmente, apesar da criança iniciar seu estudo por volta dos dois anos, é somente em torno dos cinco anos que ela passa a observar as diferenças, identificando, por exemplo, o alto/baixo, gordo/magro, pobre/rico e etc. É nesse período que começam a se formar os “grupinhos” e os comportamentos segregantes como o bullyung. Os pais precisam ensinar seus filhos a respeitarem as diferenças. 5. Identidade x confusão de papéis (do 10º ao 18º ano) – nessa fase o jovem está em busca de sua identidade nas relações com os amigos e com o sexo oposto, e de uma formação profissional. Poderá desenvolver um sentimento positivo de identidade ou negativo, com perda de referência, sentindo-se vazio, isolado, ansioso e deslocado no mundo adulto. É muito delicada a questão da identidade de gênero, racial, religiosa, entre outras, pois o jovem ainda está se definindo e pode se tornar mais confuso ainda. Mas costuma ser a fase das experimentações e de riqueza de aprendizado. Esse jovem precisa sentir amado incondicionalmente. Deve-se permitir ao jovem experimentar, sem necessitar fixar-se a uma escolha. Que será aceito e respeitado, independente de suas escolha, e que essas escolhas não precisam ser definitivas, que ele tem o direito de mudar de ideia sem ser considerado indeciso ou inseguro. 6. Intimidade x isolamento (adulto jovem) – fase das relações mais intimas, profundas e duradouras. Caso haja decepção poderá isolar-se e desacreditar no valor dos relacionamentos. É preciso apoiar sem criticar, tanto os relacionamentos quanto o término deles. Deve-se auxiliar o jovem a enxergar os relacionamentos com objetividade e racionalidade, sem abrir mão do seu romantismo. 7. Produtividade x estagnação (meia idade) – a fase que está voltada à busca do conforto e segurança, mas também a realizações sociais. Nessa fase, o adulto está mais propenso a transmitir valores e ensinamentos. Caso não consiga se realizar, poderá desenvolver o autoritarismo. 8. Integridade x esperança (idoso) – fase do balanço da vida, onde o indivíduo colherá os frutos de sua existência. Caso tenha vivido sem grandes arrependimentos e erros”, poderá gozar de uma velhice tranqüila e reconfortante. Do contrário, poderá passar seus últimos anos de vida amargurado e com sensação de fracasso. Bom trabalhar nessa fase a valorização do aprendizado, das pequenas vitórias e conquistas, e de que a pessoa ainda pode realizar muitas coisas, inclusive transmitir seus aprendizados, que se deram através de erros e acertos, e que os erros foram, também, uma forma de aprendizado. Portanto, mais do que em qualquer fase, pode ser um período muito produtivo, a menos que seu estado de saúde física ou mental não permita. Assim, de acordo com os autores supracitados, é dessa forma que se dá o desenvolvimento do indivíduo, desde o seu nascimento até a fase adulta. O reconhecimento dessas fases da vida, portanto, pode ser bastante relevante, quando se tenta identificar em que momento de seu desenvolvimento a criança sofreu os traumas que lhe causam problemas na vida adulta. Ainda dentro do conceito de fases do desenvolvimento infantil, devemos ressaltar a importância da matriz de identidade, que é a placenta social onde o recém-nascido se insere. É formada pelos pais ou cuidadores, irmãos, tios, primos e pessoas que o cercam. A interação do recém-nascido com essa matriz será responsável pela base emocional que vai gerar sua própria identidade. Daí a importância da matriz de identidade para o desenvolvimento psicossocial do individuo.REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRAMS, Jeremiah (org.). O reencontro da criança interior. São Paulo: Cultrix, 1999. BARBIRATO, Fábio; DIAS, Gabriela. A mente do seu filho: como estimular as crianças a identificar os distúrbios psicológicos na infância. Rio de Janeiro: Agir, 2009. BRADSHAW, J. Homecoming: Reclaiming and Healing Your Inner Child. New York: Bantam Books, 1992. BRADSHAW, John. Healing the shame that binds you. Flórida, Health Comunications,1988. CUKIER, Rosa. Sobrevivência emocional: as dores da infância revividas no drama adulto. 4. ed. São Paulo: Ágora, 1998. FOX, Jonathan. O essencial de Moreno: textos sobre psicodrama, terapia de grupo e espontaneidade. São Paulo: Ágora, 2002. 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Rio de Janeiro: Zahar, 1982. “O medo de traumatizar nossos filhos gerou o trauma do trauma! Infelizmente, causou aos bebês pós-guerra (baby boomers), e se globalizou para todas as próximas gerações no mundo inteiro, pessoas hiper-reativas, atualmente conhecidas como Geração Nutella!” PREFÁCIO DO AUTOR APRESENTAÇÃO 1 . inTRODUÇÃO 2 . O CONCEITO DE CRIANÇA INTERIOR 3 . A CRIANÇA FERIDA QUE EXISTE DENTRO DE NÓS 4 . TRANSTORNO DA PERSONALIDADE BORDERLINE 5 . AS FASES DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL 6 . COMO A CRIANÇA FERIDA SE MANIFESTA 7 . COMO IDENTIFICAR EM QUE FASE SUA CRIANÇA INTERIOR FOI FERIDA 8 . COMO RESGATAR E TRATAR A CRIANÇA INTERIOR FERIDA 9 . ETAPAS DO PROCESSO TERAPÊUTICO DA CRIANÇA FERIDA 10 . CONSIDERAÇÕES FINAIS OUTROS MODELOS TEÓRICOS DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS