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A Crianca Ferida_ Como tratar o - Marilene Costa

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A Criança Ferida
Como tratar os traumas de infância que
refletem na sua vida adulta
 
MARILENE COSTA
Copyright © 2021 Marilene Costa
Todos os direitos reservados.
 
 
 
"Guerreiros são pessoas, tão fortes, tão frágeis.
Guerreiros são meninos no fundo do peito.
Precisam de um remanso, precisam de um descanso
Precisam de um sonho 
Que os tornem perfeitos.
É triste ver esse homem, guerreiro menino
Com a carga do seu tempo por sobre seus 
Ombros
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que traz no peito..." 
 (Gonzaguinha)
 
 
 
 
AGRADECIMENTOS
 
Agradeço a meus pais, pelo amor e dedicação, e por ter ensinado a
seus três filhos como serem pessoas do bem.
A meus irmãos, por serem as pessoas mais incríveis do mundo!
Ao meu primo (praticamente irmão) Harley, por toda força e apoio na
criação deste livro e em minha vida.
A minha amiga Silvanges, por ter participado do processo de
gestação desta obra.
A meu amor Júlian, por ter me incentivado a publicá-lo.
Ao meu filho de pelos Igor Augustos, por ter me mostrado o que é o
amor incondicional.
 
 
 
 
 
SOBRE A AUTORA
 
 
A autora, Marilene Costa, é psiquiatra e psicoterapeuta com mais de
30 anos de experiência na área médica, onde iniciou na cirurgia e
na medicina de família.
Porém, sua paixão pelo estudo da mente humana, sequestrou sua
atenção, levando-a para os caminhos da psi, onde se tornou expert
em transtornos do humor, ou seja, depressão, ansiedade e
transtorno bipolar, bem como em transtorno obsessivo-compulsivo,
fobias e traumas que estão a eles intimamente relacionados.
Em sua experiência profissional e de vida, observou que a maioria,
senão, todos os problemas da humanidade, se resumem à
necessidade de ser amado, admirado e aceito pelo outro, e que
essa necessidade advém de uma carência profunda, a qual não
poderia deixar de ter suas raízes nos primórdios da infância e nas
relações da criança com seus cuidadores, em especial sua mãe,
supostamente fonte de amor incondicional e nutrição.
Ocorre que a própria carência e traumas faz com que o adulto não
consiga ser o provedor emocional do qual a criança tanto necessita,
gerando traumas e perpetuando o ciclo.
Fascinada pelo ser humano e suas inter-relações, a autora, durante
seus mais de 25 anos na psiquiatria, dedicou-se ao assunto e
estudou a fundo várias teorias, dentre elas a psicanálise, a terapia
cognitivo-comportamental e o psicodrama.
Enfim, após tantos anos de estudo e trabalho, a autora sente que
precisa devolver ao mundo um pouco do conhecimento com o qual
foi agraciada. Afinal, o saber é um tesouro que não deve ser
mantido em segredo!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO
 
Prefácio do autor
Apresentação.............................................11
1. Introdução............................................16
2. O Conceito De Criança Interior.................21
3. A Criança Ferida Que Existe Dentro De
Nós......................................................35
4. Transtorno Da Personalidade Borderline....57
5. As Fases Do Desenvolvimento Infantil.......74
6. Como A Criança Ferida Se Manifesta.........95
7. Como Identificar Em Que Fase Sua Criança Interior Foi
Ferida................................112
8. Como Resgatar E Tratar A Criança Interior
Ferida.................................................131
9. Etapas Do Processo Terapêutico Da Criança
Ferida.................................................156
10. Considerações Finais............................164
Outros modelos teóricos do desenvolvimento
infantil....................................................170
Referências Bibliográficas
 
 
 
 
 
 
 
 
 
PREFÁCIO DO AUTOR
 
 
Esse livro traz uma característica ímpar: parte dos
pontos de vista de dois grandes autores, os quais já escreveram
sobre o tema da criança interior ferida: o norte americano Jonh
Bradshaw, autor de livros, workshops e seriado de TV na década de
80, o qual divulgou o termo criança ferida, e a brasileira Rosa
Cukier, psicóloga, psicodramatista e escritora, autora do livro
“Sobrevivência emocional”, onde retrata os traumas emocionais que
a criança carrega para sua vida adulta, segundo a visão de Jacob
Levi Moreno, pai do Psicodrama.
A partir dessas duas abordagens, a autora faz uma fusão
entre as ideias de Bradshaw e Moreno mostrando como as teorias
desses autores se complementam.
A fim de melhor compreender o que é a criança interior e
como se dá o trauma que irá repercutir em sua vida adulta, faz um
passeio pelas principais teorias do desenvolvimento humano,
ilustrando com suas próprias experiências pessoais e prática clínica,
tornando o conhecimento algo lúdico e de fácil compreensão.
Também interliga as diversas teorias e as utiliza como
base para o tratamento psicodramático da criança interior ferida.
De forma semelhante, faz uma viagem pelas teorias e
técnicas do psicodrama, exemplificando com casos clínicos, a fim de
abordar de maneira clara e agradável como se dá a cura da criança
interior ferida. 
Assim, contribui para que as pessoas, por mais leigas
que sejam na área da psique, tenham consciência de que existe
uma criança ferida dentro delas, e que, possivelmente, é causadora
da grande maioria dos conflitos vividos na vida adulta.
Mas que esta criança pode se resgatada e tratada
através do psicodrama.
Além disso, fica também um legado para os estudiosos e
terapeutas que, ao pesquisarem sobre o tema, encontrarão neste
livro um resumo das teorias e experiências dos grandes teóricos do
desenvolvimento humano e estudiosos dos traumas infantis, fusão
esta jamais encontrada em outras obras.
Foi adicionado um anexo chamado Outros Modelos
Teóricos do Desenvolvimento Infantil, o qual a autora dedicou aos
profissionais que trabalham especificamente com o desenvolvimento
infantil.
Por tratar-se de um capítulo mais técnico, sua leitura é
dispensável para quem deseja usufruir dos conhecimentos de forma
leve e lúdica.
Assim, tal capítulo foi deixado no final do livro, em um
capítulo à parte, como leitura complementar, apenas para os
curiosos das teorias do desenvolvimento.
A autora, médica psiquiatra e psicoterapeuta, possui
experiência de mais vinte e cinco anos no tratamento de adultos
feridos na infância nos mais variados Estados da nossa Federação,
e inclusive em países como México, Portugal, e Estados Unidos.
ilustra o livro com alguns casos de pacientes atendidos
em seu consultório e em atendimentos online (telemedicina),
tomando o cuidado de resguardar nomes e características, a fim de
preservar a identidade dos pacientes.
Através desses casos clínicos, os leitores podem se
identificar com os pacientes e vislumbrar um caminho por onde
resgatar e cuidar de sua criança ferida, levando-os a procurar ajuda.
Portanto, esta obra alcançará tanto o público científico
quanto o leigo. Em uma linguagem fácil e acessível, o leitor poderá
identificar a fase em que foi ferido e constatar que sua criança ferida
pode ser curada, passando assim a ter uma vida mais tranquila e
feliz, sem que os problemas vivenciados outrora continuem
interferindo e prejudicando o seu dia a dia.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
APRESENTAÇÃO
 
 
De origem grega, o termo trauma significa ferida, sendo
utilizado na medicina para identificar as consequências de uma
violência externa.
Freud transpôs o conceito de trauma para o plano
psíquico, ressignificando como um choque violento, capaz de
romper a barreira protetora do ego, podendo acarretar perturbações
duradouras sobre a organização psíquica do indivíduo.
O trauma pode se referir a um único acontecimento
externo ou a um acúmulo deles. 
"Consideremos o caso de uma pessoa sujeita a um trauma, sem
antes ter estado doente, e talvez, mesmo sem ter qualquer
predisposição hereditária. O trauma deve satisfazer a certas
condições. Deve ser grave - isto é, ser de uma espécie que
envolva a ideia de perigo mortal, de umaameaça à vida. Mas
não deve ser grave no sentido de pôr termo à atividade psíquica.
De outra forma, não produziria o resultado que esperamos dele."
S. Freud
Freud formulou a hipótese de que o psiquismo seria
estruturado a partir do patrimônio genético, e modelado pela
primitiva relação do bebê com seus pais, constituindo-se no que
chamou de "experiências infantis".
Essas experiências desempenham um papel crucial,
tanto na resolução das diferentes etapas de desenvolvimento,
quanto na interpretação e elaboração dos traumas.
Observamos também que o ser humano, apesar de um
ser racional, na maioria das vezes baseia suas escolhas em seu
emocional, inclusive suas escolhas profissionais e vitais. 
Até aqueles que apresentam um excelente
funcionamento, desempenhando adequadamente seus papéis
profissionais, tomam atitudes baseadas em julgamentos subjetivos
quando seu núcleo emocional é ativado.
Não é à toa que equipes de marketing no mundo inteiro
trabalham apelando para o emocional das pessoas e não para o
racional!
Quando você vê uma propaganda de carros de luxo, logo
aparece um homem ou um casal bem-vestido, com um belo sorriso
no rosto, com ares de ser bem-sucedido e feliz.
É essa a mensagem a ser transmitida! Não interessa as
qualidades do carro, a potência do motor, seus itens de segurança
ou de conforto. O consumidor não vai se encantar por essas
questões práticas, racionais, e sim pela ideia de sucesso e
felicidade, qualidades completamente subjetivas e emocionais.
Até mesmo quem busca sucesso, dinheiro e poder, está
tentando recuperar a autoestima perdida na infância. Sabemos
inclusive que o “Complexo de Superioridade” nada mais é do que
um “Complexo de Inferioridade” invertido.
Ou seja, o indivíduo, a fim de camuflar seu sentimento de
inferioridade, busca representar para o mundo uma imagem de
superioridade, força e poder, chegando inclusive à arrogância.
Assim, guardamos, no âmago de nosso Ser, fragmentos
das experiências por que passamos em cada fase da nossa
infância, e mesmo da vida adulta, e que nos fizeram ser quem
somos.
Mas não são fragmentos no sentido de memória racional,
e sim nossas interpretações naqueles momentos dos fatos ocorridos
É como se fosse o “print” de uma cena. Mas na imagem
você não vê a cena tal qual ela é, e sim a distorção causada pelo
prisma emocional da pessoa que a experienciou. As impressões da
pessoa com relação ao fato.
Por isso, em uma família, cada filho tem uma visão de
sua infância diferente do outro. Pois as lembranças estão
impregnadas pelas sensações de quem as lembra.
 É na infância que você constrói sua visão do mundo, do
seu papel como ser social, bem como desenvolve suas
competências, sua forma de reagir às situações, de resolver os
problemas do dia a dia, os imprevistos ou mesmo as catástrofes que
podem ocorrer ao longo da vida.
A depender de como a criança é educada, bem como sua
constituição genética e predisposições, ela irá desenvolver
resiliência e capacidade de adaptação, ou rigidez e dificuldade em
lidar com os desafios da vida.
Enfim, como psiquiatra, psicoterapeuta e psicodramatista,
apaixonei-me pelo assunto e decidi trazê-lo ao conhecimento de
todos.
Este livro passou 12 anos guardado, esperando pelo
momento de sua publicação, porém seu tema está a cada dia mais
atual, visto que felizmente estamos aos poucos desenvolvendo a
capacidade de olhar para dentro de nós mesmos e cuidar de nossas
feridas. E é essa a proposta.
Gosto de pensar que este livro foi um parto após uma
longa e difícil gestação, porém muito desejada. E seu fruto é puro
ato de espontaneidade e criatividade!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
1. INTRODUÇÃO
 
 
 
 
 
 
Freud afirmou que o trauma pode estruturar e organizar o
ego, permitindo, através de eventos sucessivos, a repetição, a
rememoração e a elaboração, ou bloquear o psiquismo, distorcendo
o processo do pensar, levando em alguns casos à desorganização
do ego.
Ele ainda postulou que a relação primitiva do bebê com
sua mãe se estabelece de forma inalterável, sendo o protótipo de
todas as relações posteriores, e fundamentando o ego, que se
constrói ao longo do desenvolvimento.
Diante da ameaça de separação da mãe ou do cuidador,
o bebê responde com ansiedade, e, perante sua perda real, com a
dor do luto. 
Como podemos ver, há tempos temos o conhecimento de
que traumas sofridos na infância podem gerar respostas não
adaptativas na fase adulta, causando dor e sofrimento. 
No consultório isso fica mais evidente, pois até o paciente
que em seu dia a dia se comporta de maneira resolutiva, sendo
profissional de sucesso e com relações sociais e familiares bem
estabelecidas, relata que em momentos de grande estresse
emocional perde o controle sobre seus sentimentos e ações.
No divã, ao falar sobre sua infância, mergulha em suas
histórias, revivendo as cenas. Seus olhos, seus gestos, sua fala,
não poucas vezes ganham uma entonação pueril, evidenciando o
processo de regressão a períodos mais remotos de sua vida. 
O foco deste livro não é rememorar ou culpar/perdoar os
adultos que cuidaram de você quando criança, mas, sobretudo,
compreender como você interpretou suas experiências, e a que
convicções e decisões chegou, como resultado do que vivenciou
nas suas relações de dependência infantis.
Bom lembrar que seus pais também são fruto do mesmo
processo, também vivenciaram traumas na infância, alguns do quais
não conseguiram elaborar de forma saudável.
E devemos observar que na época deles, as dores da
infância eram menos acolhidas ainda, pois não existia toda essa
mobilização que vemos hoje em dia como temas contra o trabalho
infantil, a prostituição infantil e outros tipos de abuso, até então
ignorados em nossa sociedade.
Ou seja, seus pais, assim como você, guardam dentro de
si uma criança ferida que não foi cuidada a contento, e que sofre e
se manifesta em momentos nos quais seus traumas são acionados
no fundo do seu subconsciente.
Essas atitudes, por serem desencadeadas por fortes
emoções ativando lembranças emocionais da infância, surgem de
maneira espontânea e reflexa, sem elaborações mentais e muitas
vezes sem nenhum nexo com os acontecimentos atuais.
Podem ser desencadeadas por palavras, cores, odores,
objetos ou qualquer sensação que faça um “link” entre o
acontecimento vivenciado e a reminiscência traumática.
O objetivo deste livro é que você aprenda a reconhecer
sua criança interior, e o que a levou a apresentar seu
comportamento atual, compreendendo as distorções e o forte
impacto das experiências precoces da infância em sua vida.
Só daí poderá surgir a possibilidade de dialogar com essa
criança sofrida, entendê-la, ampará-la e modificar algumas
concepções que a levaram a tornar-se um adulto com problemas
comportamentais e inter-relacionais. 
Neste livro buscamos mostrar como se dá a formação de
nossa criança interior, como ocorrem seus traumas, e como
podemos tratá-la para que deixe de nos causar tanto sofrimento.
Como diria Moreno, criador do psicodrama, uma terapia
baseada na interpretação da vida através de jogos de teatro: “é
através dos jogos e brincadeiras da infância que aprendemos a nos
relacionar”.
E esse relacionar-se pode acontecer de forma saudável e
construtiva, ou de forma neurótica e disfuncional.
Impressionante constatar o quanto os primeiros seis anos
de nossas vidas determinaram o adulto que somos hoje. Ou seja, da
infância depende todo nosso sucesso ou fracasso emocional por
toda a vida.
Mas felizmente temos como mudar
essa história! E o segredo está
contido neste livro!
 
 
 
 
 
 
2. O CONCEITO DE CRIANÇA INTERIOR
 
 
 
 
 
Todos temos uma criança dentro nós, que é responsável
pela criatividade, espontaneidade e evolução. É a parte de nós que
guarda os sentimentos e as lembranças vividas em uma fase de
inocência e felicidade.
Porém, não guardamos apenas as boas lembranças
dessa fase da vida, mas carregamos conosco traumas que podem
comprometer toda nossa existência adulta. 
Segundo Jeremiah Abrams, psicólogo Junguiano autordo
livro O Reencontro da Criança Interior, a criança interior “...é tanto
um fato em desenvolvimento como uma possibilidade simbólica. É a
alma da pessoa, criada dentro de nós através do experimento da
vida e é a imagem primordial do Self, o cerne mesmo de nosso
individual.”
Portanto, no interior de cada pessoa adulta, existe tanto a
criança que é portadora dos registros de nossa história pessoal,
quanto a criança portadora de nossa energia vital que é a criança
eterna, segundo Carl Jung, a que impulsiona para uma vida mais
plena rumo à realização das potencialidades próprias, singulares de
cada um.
Essa criança está oculta em você e
precisa continuamente de cuidado e
atenção.
O conceito de “criança interna” é bastante antigo na
literatura e só na década de 80 tornou-se popular nos Estados
Unidos.
Na mitologia de muitas culturas, essa “parte infantil no
adulto” representa a necessidade humana de recapturar a
originalidade e a emoção da criança frente ao estresse e a extrema
racionalidade do cotidiano.
Isso, pois junto com o crescer, vem todos os problemas e
responsabilidades da vida adulta.
A criança interna feliz é um refúgio onde o adulto se
protege e refaz suas energias e sua fé!
Na visão chinesa, a força dessa criança provém de nosso
Jing ou energia ancestral (Qi pré-celestial).
John Bradshaw, em seu famoso livro intitulado
Homecoming: Reclaiming and Healing Your Inner Child (Volta ao
lar: resgatando e defendendo sua criança interior), fala da criança
maravilhosa, e suas qualidades, as quais ele descreve em forma de
ideograma com a palavra wonderful (maravilhosa):
Wonder: maravilha
Optimism: otimismo
Naiveté: ingenuidade
Dependence: dependência
Emotions: emoções
Resilience: resiliência
Free Play: liberdade para brincar
Uniqueness: originalidade
Love: amor
Segundo o autor, para essa criança maravilhosa, tudo é
interessante e estimulante.
Ela se maravilha com todos os seus sentidos;
experimenta, explora, de um modo otimista, confiando no mundo
exterior, o que a torna vulnerável, e a todos encanta e atrai com sua
ingenuidade, sua inocência e orientação para o prazer.
 A criança maravilhosa é obrigatoriamente dependente.
Suas emoções, choro, riso, raiva, são espontâneos e têm um valor
especial de sobrevivência para o bebê humano, pois despertam
nosso cuidado.
Para a criança, bem como para o adulto, o choro não é
necessariamente prenúncio de um trauma, mas de uma frustração,
necessária ao aprendizado e desenvolvimento.
O choro das crianças nos remete aos momentos de
tristeza da criança ferida que existe dentro nós, fazendo com que
intuitivamente busquemos ampará-la e trazer de volta sua alegria,
como gostaríamos que algum adulto tivesse feito conosco em nossa
tenra infância.
Entretando, o choro é necessário como forma de
expressão de uma frustração, e lidar com ele de forma madura não
é necessariamente suprir a criança do que ela deseja, tampouco
obrigá-la a “engolir o choro”, como muitos adultos costumam fazer.
O ideal é que a criança possa exprimir seu sentimento de
frustração, porém compreender que nem sempre suas vontades
serão satisfeitas. Isto pois amadurecer e evoluir implica em saber
receber um não de forma adaptativa.
A criança tem um senso natural de liberdade, segurança
e espontaneidade ao brincar e ao movimentar-se no mundo, o que
para ela é uma atividade de puro prazer e encantamento. 
A criança maravilhosa é um ser único e sente essa
unicidade, esse EU SOU. Ou seja, sente-se ligada e unificada
dentro de si mesma, e esse sentimento de integração é o verdadeiro
significado da perfeição. Nesse sentido toda criança é perfeita!
 
A criança maravilhosa tem resiliência,
ou seja, capacidade de reagir aos
traumas e voltar ao seu estado
normal.
Você já observou que quando uma criança está brincando
e cai ela rapidamente se levanta e continua a brincar, sem se
importar com o machucado? É a capacidade de adaptação e
recuperação.
Os pais não devem impedir que a criança explore o
mundo a seu redor, apenas devem tentar evitar os grandes traumas,
e estar presentes com amor incondicional, a fim de cuidar dos
ferimentos, quando essa criança se machuca.
Mas sem “dramas” ou excesso de mimos, pois ela só
começa a desenvolver “manha” quando os pais passam a
supervalorizar esses momentos de queda e dor, gerando a
interpretação de que o fato foi mais traumático do que realmente
ocorreu, e plantando no filho a semente da criança ferida. 
Portanto, se uma criança cai, ou se ela passa por algum
pequeno trauma, apenas observe seu comportamento. Se ela pedir
ajuda, acolha-a com amor, porém sem exageros. Assim ela
aprenderá a reagir aos fatos da vida com tranquilidade.
Do ponto de vista intrapsíquico o mesmo acontece. A
criança maravilhosa não valoriza prolongadamente dores e perdas,
pois ela tem a capacidade inata de continuar vivendo e se divertindo
apesar de tudo isso.
Excessão encontra-se nos grandes traumas, como por
exemplo o da ausência dos seus cuidadores, o que Freud chamou
de “perigo mortal” visto que ela sabe que não sobrevive sozinha.
Como você pode perceber, as
vivências da criança frente ao mundo
são reativas, imediatas e os traumas
ordinários são rapidamente
superados e esquecidos.
Pois essa criança maravilhosa não foca na dor, e sim no
maravilhoso mundo novo à sua frente.
Porém, ela aos poucos vai aprendendo a enxergar o
mundo através dos olhos dos seus pais ou cuidadores. E, através
desse prisma, os acontecimentos vão se tornando mais dramáticos.
Pois, infelizmente, nós adultos tendemos a focar nos
problemas que nos trazem sofrimento e não nas coisas
maravilhosas ao nosso entorno, as quais, na maioria das vezes,
superariam tais problemas.
Esse enfoque no aspecto negativo de nossas vivências,
os quais a criança passa a absorver, gera a maioria dos traumas
que, de outra forma, seriam facilmente superáveis.
É claro que existem grandes traumas, aos quais nem a
espontaneidade, nem a ingenuidade, nem a resiliência da criança
maravilhosa conseguem torná-la imune.
Abusos dos mais variados tipos, por exemplo, ou grandes
catástrofes, são de fato experiências que marcam negativamente o
âmago da criança.
Isto porque, para a criança, a sua única força protetora é
o adulto, e qualquer tratamento abusivo que venha dele desconfirma
sua fé e certeza de sobrevivência.
Porém, a maioria dos traumas vivenciados não são desse
porte, e, portanto, seriam mais facilmente superáveis.
Atualmente podemos observar uma geração de
adolescentes e jovens adultos hipersensíveis e vulneráveis a
obstáculos que, para as gerações anteriores, seriam facilmente
relevados.
Isto porque, infelizmente, o medo de gerar traumas em
seus filhos, alardeado por estudiosos da psicologia infantil nas
décadas de 50 e 60, e que repercutiu em nosso País na década de
70, fez com que pais, preocupados em defender seus filhos,
acabassem por “pecar por excesso” de cuidados, imprimindo no
emocional dessas crianças a sensação de que todo evento negativo
se constitui em um trauma insuperável.
Isso em parte foi ocasionado pelo grande trauma da
Segunda Guerra Mundial, que gerou uma leva de soldados e
famílias sequelados, com transtornos mentais os mais diversos, e a
sensação de que suas vidas foram sacrificadas inutilmente.
Tal evento culminou com a geração hippie, com sua
utópica reinvindicação de liberdade sem limites e sua ojeriza às
guerras.
Então, todos esses acontecimentos provêm de um
contexto histórico pós-recessão e pós-guerra, e tudo isso é mais um
fato a ser superado com as novas teorias do desenvolvimento
infantil.
Sabemos que precisamos defender
nossas crianças, mas precisamos
encontrar o “caminho do meio” ou do
equilíbrio, como ensina a filosofia
oriental.
Eric Berne, médico psiquiatra canadense nascido em
1910 e criador da Análise transacional, um tipo de teoria psicológica,
já apresentava ao público a noção de criança interna como um ego-
criança que surge ao nascer repleto de criatividade e
espontaneidade, características primárias do ser humano, as quais
o adulto molda pela educação.Segundo Berne, o individuo é capaz de modificar seus
sentimentos, pensamentos e escolhas através do autoconhecimento
e desenvolvimento pessoal.
Já a gestalterapia, uma teoria existencialista originada em
1951 baseada no “aqui-e-agora” criada por Robert e Mary Golding,
discípulos de Berne, busca resgatar a criatividade, originalidade e
espontaneidade da criança, através da terapia de redecisão, uma
terapia intensiva voltada para grandes grupos, que objetiva o
indivíduo a adquirir habilidades para lidar com seus sentimentos.
Credita-se uma das utilizações mais recentes da
conceituação de criança interior a Alice Miller, psicóloga polonesa
pesquisadora da infância, que descreveu em seus trabalhos os
maus tratos sofridos pela criança como causadores de prejuízos
graves à personalidade adulta.
Vale lembrar que na criança interior estão presentes
lembranças ruins, mas também lembranças alegres, ambas
posteriormente, refletindo em reações pueris, ou seja, as regressões
nem sempre são para fatos negativos, uma vez que o adulto pode
regredir para momentos ruins ou bons da infância.
Por sorte, a criança é um ser resiliente, então, na maioria
das vezes, supera os momentos ruins, não transformando-os
memórias traumáticas internalizadas (no subconsciente).
Mas lembre-se: isso só não é possível quando esses
traumas são extremamente impactantes, ou quando o adulto reage
exageradamente e a criança assimila aquilo como um alerta de que
se trata de algo grave.
O que é impactante para você, pode
não ser para outra pessoa!
Um exemplo claro disso é que enquanto uma pessoa tem
medo de galinha por ter presenciado durante infância a mãe
matando a ave no intuito de preparar a refeição da família, outra
criança, que presenciou a mesma cena, pode tê-la apenas como
uma vaga lembrança, não traumática.
Portanto, muitos traumas somente se consolidam quando
a criança já apresenta uma certa vulnerabilidade. Ou seja, quando o
adulto imprimiu nela tal vulnerabilidade, ou quando há predisposição
genética a algum transtorno psiquiátrico.
Mas acredito que até os transtornos mentais nada mais
são que “imprintings” genéticos.
Isto porque segundo a epigenética, os traumas podem,
ao longo das gerações, causar modificações genéticas que
passarão a ser transmitidas para as próximas gerações.
Portanto, segundo diversas teorias, todos possuem uma
criança interior. Em algumas pessoas, essa criança se manifesta ao
longo de toda a vida de forma bem evidente, em especial durante
momentos negativamente ou mesmo positivamente críticos da vida,
(as chamadas crises vitais) como nascimento ou morte de pessoas
próximas, casamento, início ou perda de emprego, aposentadoria,
etc.
Porém, há pessoas nas quais essa criança interior parece
nunca ter existido, nem mesmo quando ainda eram crianças.
Geralmente isso ocorre quando a criança se vê em um lar
inundado por conflitos e passa a se comportar de maneira
precocemente adulta a fim de apoiar os pais
Ainda assim, esta “não existência” é só aparente, pois, ao
longo do desenvolvimento, a pessoa vai deixando dentro de si
rastros dessa criança, correspondente a cada fase de sua vivência.
Fico triste quando ouço mães se vangloriando de que
seus pequenos filhos são seus confidentes e as apoiam e cuidam
delas.
Estas mães não percebem que aquela pobre criatura está
petrificada com medo de perder a mãe, e com isso, ela própria não
sobreviver, posto que a criança, por ser dependente, acredita que
não sobreviverá sem seus cuidadores.
A criança não é a “pequena mãe ou
pai” da qual sua mãe adoecida se
vangloria. Ela é só uma criança
lutando desesperadamente para
sobreviver, e sua única arma é
reprimir seu medo a fim de “cuidar e
tratar a ferida” de sua cuidadora.
Esse é um dos piores traumas que
uma criança pode sofrer!
Quando essa criança interior sofre traumas profundos,
sua psique não conseguirá lidar com esses traumas, a despeito de
sua resiliência, e então formar-se-á o cerne da criança ferida.
 
 
 
 
 
 
3. A CRIANÇA FERIDA QUE EXISTE DENTRO DE
NÓS
 
 
 
 
 
Já sabemos que todos guardamos várias crianças em
diferentes fases de desenvolvimento, as quais ficam congeladas,
gravadas ou registradas (“imprinting”) dentro de nós nos momentos
em que vivenciamos fortes emoções, que podem ser boas ou ruins.
Quando essas emoções são negativas, geradoras de
vergonha, medo, culpa, ou desconfirmadoras, tem-se congelada
uma criança interior ferida. 
Costumo comparar o adulto com uma cebola, formado
por camadas, sendo que no caso em questão as camadas mais
primitivas (infantis) vão ficando internalizadas. 
Podemos representá-lo também pela Matrioshka, aquela
bonequinha russa que você vai abrindo e encontrando uma
bonequinha cada vez menor até que encontra um bebê.
Possuímos dentro de nós várias crianças em fases
diferentes, registradas em momentos de fortes emoções.
Essas crianças vêm à tona quando nos comportamos de
forma impulsiva, quando apresentamos comportamentos infantis,
quando reagimos a uma situação, não pela nossa percepção atual,
mas segundo nossas impressões guardadas no passado. Quando
temos reações exageradas (overreacting) ou quando congelamos
diante de situações-problema.
Nós, seres humanos, somos pautados nas emoções.
Vivemos o tempo todo envoltos em momentos ou lembranças que
nos deixam consternados, emocionados, felizes ou infelizes. 
De acordo com diversos teóricos, se as necessidades
fundamentais da infância não forem satisfeitas, o indivíduo tende a
tornar-se um adulto com uma criança interior ferida.
Essa ferida vem à tona quando o adulto ouve uma
afirmação específica, a qual ele ouviu na infância, e que lhe deixou
impressão profunda.
Na terapia, observo que geralmente o paciente manifesta
tristeza nos olhos ou mesmo chora, ao se reportar ao período em
que foi ferido.
Nesse sentido, a frustração do desejo de uma criança ser
vista como uma pessoa e ter seu amor aceito, é o maior trauma que
uma criança pode experimentar.
Ou seja, o acolhimento e a confirmação dos sentimentos
da criança, sem desvalorizar nem supervalorizar, mas observando o
valor que a própria criança dá àquele sentimento e a duração de sua
resposta adaptativa, é o que a criança realmente precisa para
crescer saudável e feliz.
Segundo Bradshaw, “Nenhum pai em
uma família disfuncional pode dar a
seus filhos o que ele precisa”.
Por exemplo: uma criança cujos pais não conseguem
estar presentes em situações nas quais ela necessita de apoio
emocional, não validam suas conquistas, não a defendem contra
agressões do mundo exterior, pode concluir que o mundo é um lugar
muito perigoso, e que ela não deve confiar em pedir ajuda a
ninguém, visto que seus próprios pais foram ausentes e incapazes
de prestar-lhe socorro nos momentos mais simples, como elogiar
um pequeno feito, aos mais complexos, como defendê-la de maus
tratos.
Não importa por que razão os pais foram ineficientes, se
por trabalharem muito a fim de manter o padrão social da família, ou
se por serem acometidos por transtornos físicos ou mentais que
lhes roubaram a capacidade de serem cuidadores.
O fato é quem essa criança pode tornar-se um adulto
desconfiado, inseguro ou detentor de um falso senso de
autoconfiança e autossuficiência, fazendo com que acredite que ela,
e apenas ela, seja capaz de resolver seus próprios problemas.
Essa pessoa então, terá enorme dificuldade em confiar
nos outros ou pedir ajuda quando necessita.
Os traumas trazidos da infância tornam-se evidentes
quando os pacientes são convidados a dramatizarem as cenas.
Nesse momento, suas dificuldades atuais aparecem
geralmente decorrentes da lembrança de um fato ocorrido na
primeira infância, mais especificamente por volta dos cinco a sete
anos de idade (período do qual a maioria das pessoas já possui
memória consciente).
Porém, inusitadamente, há pessoas que relatam
lembrarem-se de fatos relativos a períodos mais remotos, como 3 ou
até 2 anos de idade. Não sabemos se são memórias reais ou
geradas por relatos de familiares, mas o poder dessas memórias é
igualmentereal na vida da pessoa.
São lembranças de uma criança apavorada, geralmente
envolta com alguma forma de violência, onde ela nada pôde fazer
para cessar o sofrimento, sendo sujeita à força e ao poder do adulto
em questão. Exemplo frequentes são as brigas entre os pais.
O sentimento é de medo e impotência. Geralmente o
adulto, ao relembrar tais situações, treme, se encolhe, abaixa a
cabeça, ou chora inconsolável. Ou simplesmente, vê-se uma nuvem
cinza em seu olhar...
Assim, como podemos ver, diante da submissão forçada,
dos sentimentos de raiva e vergonha, da humilhação e inferioridade
sofrida na infância, o individuo pode desenvolver alguns
mecanismos de defesa.
Um deles seria vir a tornar-se um adulto violento, passível
de fazer os outros sofrerem o mesmo que ele sofreu, ainda que o
faça de forma inconsciente, e com a desculpa de que está
preparando seus filhos para o mundo, ou que, sendo tratado assim,
tornou-se uma pessoa bem-sucedida.
Inconscientemente esses pais desenvolveram o que
Anna Freud chama de identificação com o agressor.
Fazendo um aparte, o termo foi cunhado por seu
contemporâneo Sandor Ferenczi e atualmente é mais conhecido
como Síndrome de Estocolmo.
Portanto, faz-se necessário dizer que os seres humanos
exercem um enorme poder uns sobre os outros, um poder de vida
ou morte!
Desde que nascemos, somos dependentes do outro. Na
primeira fase da vida, o que importa é atender às necessidades
físicas (alimentação e higiene) e emocionais da criança, uma vez
que esta encontra-se extremamente frágil e dependente do outro
para absolutamente tudo. Nesse momento um pai presente cuidador
é tudo o que a criança necessita.
Vejo muitos pais dizerem que se sacrificam trabalhando
de forma extenuante por mais de doze horas ao dia, a fim de prover
conforto a seus filhos.
Se fossem mais sinceros diriam que deixam seus filhos
em segundo plano a fim de prover suas próprias expectativas de
conforto. Aquilo que gostariam de possuir em sua infância. Desejo
esse gerado por uma sociedade de consumo, voltada para o status
material, e que esquece as necessidades primárias do ser humano:
amor e cuidado!
Isto porque a criança maravilhosa só precisa desse amor
e cuidado. Nada mais! Ela não precisa de roupas de grife. Nem de
brinquedos da moda. Na verdade, ela nem precisa de brinquedos!
A criança maravilhosa é criativa e
curiosa, e inventa suas próprias
brincadeiras a partir de tudo que está
a seu alcance!
A primeira etapa da infância é pré-verbal, e tudo o que
acontece depende da decodificação verbal e emocional ou leitura
sobre o comportamento da mãe ou cuidador.
Nessa fase a criança é muito intuitiva e parece adivinhar
os sentimentos dos cuidadores. Isso porque sua sobrevivência
depende de eles estarem bem a fim de suprir-lhe as necessidades.
Sem alguém que possa espelhar nossas necessidades e
emoções, não podemos saber quem somos.
Por outro lado, a forma como essa pessoa decodifica
nossas mensagens acaba constituindo aquilo que somos, e ela o faz
de acordo com suas próprias vivências.
A primeira pessoa a cuidar da criança exerce uma
importante função em seu relacionamento com o mundo, pois esta
funciona como uma espécie de ponte relacional entre a criança e o
mundo, e ocupa, num primeiro momento, o lugar que o Eu da
criança ocupará mais tarde.
Daí a importância do papel de cuidador, normalmente
exercido a princípio pelos pais, e posteriormente pelas pessoas
mais próximas.
Infelizmente, vemos muitos pais entregarem esse papel
crucial a babás e motoristas, e se deixam no papel extremamente
coadjuvante de provedores e administradores.
Como já disse anteriormente, uma criança vive muito bem
sem brinquedos, mas ela precisa da presença do adulto em quem
ela se espelhará para o resto da sua vida! Esse adulto será você ou
alguém contratado para tal papel?
E lembre-se que esses cuidados são mais vitais na
primeira infância, ou seja, até os 6 a 7 anos de idade.
Pare e pense!
Quem é/foi o cuidador dos seus
filhos?
Como a criança aprende a enxergar o mundo pelo olhar
de seus cuidadores, isso significa que a criança só dará importância
às coisas e até mesmo emoções que eles valorizam.
Se seus cuidadores são pessoas leves, emocionalmente
saudáveis, que sabem enfrentar os obstáculos da vida com bom
humor, a criança enxergará com leveza a vida e as situações.
Porém se forem preocupados, frustrados, irritados,
pessimistas, inseguros, a criança precocemente desenvolverá as
mesmas características e se tornará uma criança de difícil convívio
social e com enorme sofrimento emocional.
A criança é um ser dependente e tem consciência disso.
Assim, a autoestima do indivíduo reflete como foram suas primeiras
relações, e prevê como serão suas relações com o mundo e com as
demais pessoas.
Depender dos outros não configura uma situação
confortável para nenhuma das partes. Quando ainda é criança, o
individuo aceita com tranquilidade essa dependência.
No entanto, a medida em que a criança vai
amadurecendo, adquirindo noção do mundo que a cerca, vai
sentindo necessidade de autossuficiência, e nessa fase é normal
ficar incomodada com tal situação.
Para entender melhor a necessidade de dependência
básica do ser humano Cukier usa a descrição que Bradshaw faz das
quatro características naturais da criança, que fazem dela um
autêntico ser humano.
São elas:
1. Valorabilidade.
2. Vulnerabilidade.
3. Imperfeição.
4. Pensamento radical.
Baseado nestas qualidades, deduz que necessidade de
dependência básica do ser humano significa poder contar com pais
que:
1. façam ela se sentir preciosa, importante e
providenciem o que necessita enquanto não
for autônoma.
2. dediquem tempo e atenção para poder ajudá-
la a definir seus próprios limites e a obter as
informações que precisa para lidar com a
realidade e com suas próprias necessidades.
3. permitam que a criança expresse seus
impulsos agressivos e hostis sem as mesmas
se destruírem e sem que os pais destruam a
autoestima da criança. E, ao mesmo tempo,
também se permitam a expressão de reações
agressivas e hostis, respeitando a assimetria
intrínseca do vínculo.
4. permitam que a criança seja criança, e, num
segundo momento, permitam que ela cresça e
ganhe autonomia.
5. sejam pessoas coerentes, consistentes,
previsíveis, e que ensinem e ajam da mesma
forma.
6. sejam seres falíveis, que admitam seus erros
e peçam desculpas.
Eu acrescentaria que, após pedirem
desculpas, não fiquem relembrando o
fato, a fim de não gerarem uma
criança manipuladora, que utiliza o
sentimento de culpa dos pais a fim de
conseguir tudo que deseja.
Quando os pais ou cuidadores oferecem à criança esse
ambiente acolhedor, cuidador, coerente, leve e sincero, a criança
pode crescer de forma saudável e desenvolver suas habilidades
emocionais.
Porém, quando a criança se encontra em um ambiente
desprovido dessas qualidades, ela irá crescer física e socialmente,
porém seu desenvolvimento emocional ficará seriamente
comprometido, fazendo-a sentir-se ainda mais envergonhada e
humilhada, tentando a qualquer preço esconder sua falhas e
recuperar sua dignidade e autoestima, seu narcisismo ferido.
Quanto ao abuso infantil, outrora ligado quase sempre a
abuso sexual, sabemos que recebeu uma ampliação de seu
conceito por parte dos estudos de Kreisman (Psiquiatra e escritor
norte americano especialista em Transtorno de Personalidade
Boderline) e Bradshaw (autor de livros e programas de tv sobre
codependência).
Então, atualmente existem três tipos de abuso infantil:
abuso sexual, abuso físico e abuso emocional.
Vale lembrar que o abuso sexual não se configura apenas
no fato de um adulto manter relação física com a criança, mas
também em algumas formas sutis como: 
- Intimidar sexualmente: criar situações, onde a criança
vê ou ouve coisas que a envergonham. Como por exemplo, quando
crianças que por "descuido" dos pais, ouvem ou observam suas
relações sexuais, ou quando adultos observam sexualmente os
filhos e/ou se desnudam de forma sexual na frente das crianças, ou
ainda deixam expostas revistasde cunho sexual.
- Cuidados físicos como aplicar enemas, ou mesmo dar
banho em crianças mais velhas, podem ser uma forma de abuso
sexual disfarçado, mas que a criança, ainda que em uma fase
posterior, percebe com estranheza como algo anormal. 
- Ausência de informação sexual adequada à idade:
por exemplo, não falar a uma menina que ela irá menstruar, dizer
que a masturbação causa lesões físicas, etc. 
 O abuso físico caracteriza-se quando a criança sofre ou
observa qualquer tipo de punição física com alguém da família,
como por exemplo, um pai alcoolizado que chega em casa
agredindo fisicamente a esposa na presença do filho. Isso para a
criança é uma situação mortal.
Pesquisas mostram que geralmente pais que agridem
fisicamente seus filhos apanharam quando crianças.
No entanto, em minha experiência, isso nem sempre se
confirma.
Em minha experiência clínica, pais que foram fisicamente
abusados podem tornar-se condescendentes, não impondo aos
filhos os limites necessários à formação de um “Ser Social”, a fim de
não infringirem aos filhos o mesmo sofrimento pelo qual passaram
na infância.
O trauma costuma produzir reações
extremas. Ou a pessoa se identifica
extremamente com o abusador e age
igual, ou repudia ao extremo suas
atitudes e procura agir de forma
oposta. Em ambos os casos, os
resultados são catastróficos!
Observo também que alguns pais que sofreram outros
tipos de abuso (que não físico) podem tornar-se violentos
fisicamente, projetando sua frustração nos filhos.
O abuso emocional resulta de uma confusão de fronteiras
dentro da família, e há uma reversão da ordem da natureza, quando
são as crianças que cuidam de seus pais e não o contrário.
Esse tipo de abuso não ocorre apenas em famílias
desestruturadas, mas também em muitas das famílias ditas
"normais".
Muitas vezes, a criança assume o papel de auxiliar ou até
cuidador da mãe ou do pai, que pede ajuda por ser ele mesmo frágil
e/ou não conseguir se defender de alguma situação abusiva na
família.
Vale relembrar que a criança assume o papel de cuidador,
não porque de fato queira, mas para ajudar os pais, dos quais
depende, ou para não perder o amor deles, caso os contrarie.
E isso pode causar sequelas na fase adulta, uma vez que
a criança não teve suas necessidades infantis satisfeitas ou
respeitadas.
Essa criança pode, assim, tornar-se um adulto pseudo
autossuficiente, visto que aprendeu apenas a cuidar e não ser
cuidado quando precisou.
Ou pode, por outro lado, assumir o papel de
vulnerabilidade outrora exercido pelos pais, perpetuando o ciclo
vítima/agressor (ou abusado/abusador).
A falta de respeito à hierarquia da
relação pais-filho atualmente é
considerada também abuso, pois,
agindo dessa maneira, os pais não
protegem a criança e não a ajudam a
se desenvolver.
Pais que se sentem culpados por não poderem dar a
atenção devida aos filhos por conta do trabalho, ou ainda inseguros
quanto a forma adequada de educá-los, geralmente também
rompem essa hierarquia e deixam que os filhos tenham total
controle sobre eles, cedendo às suas vontades e não impondo
limites.
Seja qual for a forma de abuso, o fato é que deixa marcas
profundas, e o adulto acaba por transmitir os traumas à criança pela
qual será responsável mais tarde, perpetuando o ciclo a cada
geração.
Todavia, existem processos automáticos usados pelo
ego, para a criança se autopreservar, toda vez que sofre um grave
choque.
Segundo Freud, as defesas do psiquismo ajudam a
criança a separar o que é seu do que é do outro, além de proteger
seu psiquismo de situações consideradas intoleráveis.
Assim, alguns dos mecanismos de defesa como a
negação, a dissociação a conversão etc., formam um sistema de
defesa eficiente.
Esse sistema é definido por Donald Woods Winnicot,
pediatra e psicanalista inglês, como sistema do “Falso Self”, que
está representado pela organização total da atitude social polida e
amável, de não demonstrar abertamente seus sentimentos.
Durante a terapia, demora muito até o indivíduo aceitar se
desfazer do “falso Self” e da fantasia de onipotência, e assumir sua
falibilidade.
Importante lembrar que assumir sua fragilidade não
significa se esconder atrás dela. O terapeuta precisa mostrar ao
paciente que ele possui sim armas a fim de lutar e evoluir
emocionalmente. E quando essas armas estão “enferrujadas”,
ajuda-lo a torná-las mais eficazes.
A criança cria uma forma alternativa
de ser, uma espécie de máscara,
negando ou substituindo as próprias
emoções, na tentativa de esconder
sua condição de abandono e falta de
valor.
Com isto, espera ser mais valorizada e aceita pelas
pessoas de seu convívio, deixando de lado (camuflados) a vergonha
e os defeitos antes sentidos.
Segundo Winnicot, na patologia do falso self, há um
grande leque de doenças, como as psicoses, os quadros borderline,
a depressão e o comportamento suicida.
Nas doenças, constatamos os aspectos menos autênticos
(mais falsos) da personalidade, inclusive nas neuroses.
Por isso muitos estudantes de psicologia ou psiquiatria
inicialmente se identificam com todos os transtornos dos livros.
Porque os transtornos nada mais são do que a exacerbação de
traços normais.
Porém, é importante destacar que nem todas as pessoas
que apresentam falso self manifestam os transtornos graves
mencionados por Winnicott.
Nos dias atuais podemos identificar nas redes sociais
pessoas com características do falso self, quando estas expõem
uma vida perfeita, onde vivem em um mundo fantasioso, cercadas
por festas, gente bonita e ostentação.
Essas pessoas não postam frases introspectivas,
momentos negativos ou de conflitos, mas apenas vendem a imagem
de um ser feliz e realizado, ou seja, o que acham que os outros
esperam delas.
E, pior do que isso, é que muitas dessas pessoas com o
tempo passam a acreditar na imagem que criaram.
Se formos investigar mais a fundo, muitos desses adultos
“perfeitos” possuem uma história na infância de sentimentos de
fracasso e rejeição.
Quando falo em sentimento, é porque mesmo que o
adulto ame e valorize seu filho, se ele não conseguir demonstrar
esses sentimentos, a criança pode crescer acreditando não ter sido
amada.
Cukier destaca como características do falso self sua
rigidez, pois assim que este se estrutura, o verdadeiro self passa a
ser esquecido, e, com o tempo, a pessoa perde a noção de quem
realmente era, além da lembrança de que ela própria criou um
personagem para si.
E ainda, o falso self possui um sistema de auto-
observação e vigilância permanente, já que é necessário ficar atento
para que as partes rejeitadas não apareçam e façam ressurgir todo
o sentimento de vergonha e inferioridade de antes. 
Outro transtorno gerado por um grande trauma é o
Transtorno da Personalidade Borderline ou Emocionalmente
Instável.
Você já deve ter observado que existem pessoas que
provocam raiva e até medo por seu comportamento instável,
explosivo e beligerante.
Muitas vezes apresentam acesso de fúria e reclamam
das situações em que se encontram.
Tal transtorno é tão emblemático como originado pela
criança interior ferida que merece um capítulo à parte.
 
 
 
 
 
 
4. TRANSTORNO DA PERSONALIDADE
BORDERLINE
 
 
 
 
 
O Transtorno da Personalidade Borderline (TPB) pode ser
caracterizado pela notável instabilidade em muitos, senão em todos
os aspectos do funcionamento da pessoa, incluindo nos
relacionamentos, autoimagem, afeto e comportamento.
O termo borderline, que no português quer dizer
fronteiriço ou limítrofe, foi usado pela primeira vez em 1938, por
Adolf Stern, para descrever um grupo de pacientes que não era
favorecido pela psicanálise clássica e, também, não se enquadrava
como neurótico ou psicótico, possuindo características de ambos os
transtornos.
Atualmente considera-se que, além da predisposição
genética, a etiologia desse transtorno está em grandes traumas
sofridos na infância, os quais o indivíduo nunca conseguiu
processar.
Devido a essa estreita correlação com traumas de grande
magnitude para a criança, é considerado por algunspesquisadores
um tipo de Transtorno do Estresse Pós-traumático, pois ocorre
quando a criança é submetida a um trauma violento, uma catástrofe
à qual ela não consegue processar emocionalmente, temendo pela
própria sobrevivência física ou emocional.
Acredito que o outro extremo desse distúrbio seja o
Transtorno de Personalidade Anti-social, mais conhecido como
sociopatia ou psicopatia.
Dentro dessa linha de pensamento, haveria duas reações
extremas ao estresse intenso, o qual a criança não consegue
processar de maneira saudável, gerando o Transtorno do estresse
pós-traumático:
1. Na primeira reação, a criança pode perder
sua “pele emocional” e tornar-se
extremamente sensível e reativa ao mínimo
fator de sofrimento, tornando-se um adulto
borderline.
2. Na segunda reação, ela pode desenvolver
uma “carapaça emocional” e daí tornar-se
completamente insensível, principalmente ao
sofrimento alheio, que vem a constituir a
estrutura psíquica do sociopata e do
psicopata.
 Então, segundo minha teoria, o psicopata e o borderline,
dois transtornos de personalidade tão extremamente diferentes,
seriam duas faces de uma mesma moeda.
O diagnóstico do TPB não é dos mais fáceis, já que esse
distúrbio é compatível com várias outras patologias, chegando a
confundir-se com elas 
Judith Herman, psiquiatra norte americana, a partir de
estudos realizados em sobreviventes de vários tipos de traumas, ao
qual denominou de “Síndrome Complexa do Estresse Pós-
traumático”, ratifica que o diagnóstico de “personalidade borderline”
tem causado mais prejuízo do que benefício para o estudo dos
distúrbios de personalidade.
Isso pois, tal como o termo “histérico”, cuja conotação
negativa e pejorativa acabou se tornando um jargão na psiquiatria, a
palavra “borderline” passou a significar, nos últimos anos,
manipulador e criador de casos.
Isso fez com que os pacientes de TPB fossem vistos
como pessoas manipuladoras, quando são verdadeiros heróis que
sobreviveram a fortes traumas na infância, e cujas atitudes de
manipulação são uma busca desesperada de amor, aceitação, e de
aliviar sua dor interna.
É muito comum no consultório
observar que uma adolescente
borderline possui uma mãe
igualmente borderline, ainda que na
maioria das vezes não diagnosticada.
É mais uma vez o ciclo abusado/abusador do qual falei
anteriormente.
Os atos desesperados como as tentativas de suicídio e
as crises de agressividade são gritos de socorro de alguém que se
sente abandonado e perdido.
Quando se encontram em situações-limite, esses
pacientes, inconscientemente, tomam atitudes que ameaçam sua
dignidade e segurança, tais como: dissociação, intrusão,
irritabilidade, impulsividade, fortes mudanças de humor,
automutilação, tentativas de suicídio etc. 
O lema interno do paciente borderline
é: “Te odeio, por favor, não me
abandone!”.
Isto porque o indivíduo sente um imenso vazio interior
que não consegue suprir, um sentimento de rejeição e solidão, que
o fazem agir de forma dita “manipuladora”, instável e desesperada,
sensível aos mínimos sinais do que pensa ser rejeição, agredindo
as pessoas que ama a fim de provar sua ideia de que será
abandonado. E obviamente tais atitudes acabam por amedrontar e
afastar as pessoas, confirmando sua teoria.
Quanto á etiologia, o TPB, pode ser causado por fatores
constitucionais e fatores socioculturais.
Quanto aos fatores constitucionais que levam ao TPB,
não há nada consistente na literatura.
Podem estar associados á hereditariedade, pois é
bastante significativa a presença de pais que sofrem do transtorno
no histórico do paciente.
Porém não há como determinar se realmente seria uma
herança biológica ou psicológica (comportamento aprendido), visto
que pais que sofreram grandes traumas na infância e são
emocionalmente instáveis podem vir a infringir involuntariamente
traumas semelhantes em seus filhos, mormente os primogênitos,
época em que esses pais ainda são inexperientes e inseguros na
educação infantil. 
Pais que sofreram grandes traumas
na infância e são emocionalmente
instáveis costumam infringir
involuntariamente traumas
semelhantes em seus filhos.
A medicação utilizada pelos pacientes boderline no
tratamento dos sintomas depressivos, apesar do efeito de alívio, não
provoca nenhuma mudança em sua personalidade. 
As terapias têm resultados erráticos, geralmente com
pouca melhora do quadro. E o abandono do tratamento, tanto
medicamentoso quanto psicoterapeutico é muito comum.
Segundo pesquisas, a TCC (Terapia Cognitiva
Comportamental) é a que apresenta melhores resultados.
Aos fatores socioculturais, estão relacionados, entre
outras coisas, a falta de uma família estruturada e sólida, uma vez
que os pais atualmente passam cada vez menos tempo cuidando de
suas crianças.
Outrora, o pai saía para trabalhar e a mãe ficava em casa
cuidando dos filhos.
Contudo, as mudanças no comportamento feminino
levaram a mãe ao mercado de trabalho, sem a contrapartida da
redução da carga horária para ambos os pais, fazendo com que,
cada vez mais, o cuidado das crianças fique ao encargo de outras
pessoas, frequentemente pouco preparadas para lidar com as
demandas emocionais da infância, e trazendo elas mesma suas
feridas emocionais.
Portanto, esses fatores contribuem para o TPB, que pode
levar o indivíduo a agir com agressividade verbal ou até mesmo
física contra si e contra as pessoas a sua volta, em determinadas
situações.
Essa atitude agressiva nada mais é do que autodefesa,
pois quando o border se identifica com o agressor, ele tende a
antecipar os atos de agressão, disparando contra o mesmo o que
ele acredita que certamente sofreria. É a estratégia de
atacar/agredir antes de ser atacado.
Anna Freud ilustra esse mecanismo de defesa com o
seguinte caso:
“Um menino de 5 anos, normalmente tímido e inibido, tornou-se
completamente agressivo quando pressentiu que a analista ia
tocar no assunto de masturbação. Então ele levantou-se e, de
punho com uma vara e um canivete que sempre trazia consigo,
começou a rugir como leão e atacar a analista. Esta tornara-se
uma atitude frequente do menino, que já tentara agredir a mãe e
a avó em casa. E também já mexia nas facas da cozinha,
acenando em atitude ameaçadora. A análise mostrou que, na
verdade, o menino sofria de angústia e, ao pensar que seria
obrigado a confessar todas as suas fantasias e atividades
sexuais, imaginou que seria punido. Daí ele introjetava uma
autodefesa, pois sabia que crianças que faziam tais práticas
eram severamente castigadas pelos adultos, que além de gritar,
desferiam bofetões ou batiam com uma vara, restando ainda a
possibilidade de cortarem alguma parte do corpo (daí o
canivete). Portanto, quando o pequeno paciente assumiu o papel
de leão feroz e ameaçou a terapeuta com uma vara e um
canivete, estava dramatizando, colocando-se no papel do
agressor e antecipando a tão temida punição.”
 Os pacientes acometidos por TPB despertaram-nos a
curiosidade científica e a vontade de poder ajudá-los através do
estudo mais aprofundado da origem de seus problemas.
Entretando, o tratamento desse transtorno é
extremamente complexo, exigindo dos profissionais envolvidos uma
expertise específica.
Nesta patologia, os progressos terapêuticos geralmente
são pouco significativos e lentos. Os pacientes geralmente passam
por uma infinidade de médicos sem que tenham algum progresso, o
que pode deixar a família sem esperança de conseguir uma ajuda
concreta.
Conquanto a psicóloga norte-americana Marsha Linehan
tenha desenvolvido a Terapia Comportamental Dialética, a partir de
seu treinamento em Terapia Comportamental e Terapia Cognitivo-
Comportamental, sendo por pesquisadores considerado padrão-
ouro no tratamento de pessoas com TPB. Ainda assim, a
abordagem causa extremo sofrimento ao paciente que acaba por
apresentar muita resistência a ele, com altas taxas de abandono do
tratamento.
É exatamente aqui que podemos observar o diferencial
do psicodrama em relação às demais terapias, pois trabalhando
com elementos lúdicos, pode-se retornarà infância de forma
espontânea, rematrizando os traumas vivenciados, sem que o
paciente perceba exatamente pelo que está passando.
Desse modo, a pessoa não se dá conta de que através
de jogos e brincadeiras está se despindo e interpretando suas
dores, traumas e anseios, em direção à cura.
Falar de seus traumas causa um sofrimento dilacerante,
por isso os pacientes com TPB fogem das demais terapias.
Vivenciar esses traumas através do psicodrama torna-se,
portanto, uma abordagem mais leve, menos dolorosa, onde o
paciente sente-se protegido pelo aspecto lúdico da terapia, com
menor taxa de abandono e melhor participação, tornando-se dessa
forma curativo.
Um caso clínico que ilustra bem o sucesso do psicodrama
é o da paciente Lúcia, nome que lhe atribuímos a fim de resguardar
sua identidade. Essa paciente possuía traços de personalidade
borderline, mas era uma profissional bem-sucedida até vivenciar um
forte trauma e ser afastada do seu trabalho, o que desencadeou
uma depressão profunda. Veja o caso: 
Lúcia chega ao consultório, como de forma
habitual, apresentando soluços e suspiros involuntários, tremores
em todo o corpo, e a expressão corporal encurvada com os
braços semiflexionados na frágil aparência de um bichinho
assustado ou um bebê desejando retornar ao útero. Conta que
seu marido chegou em casa e, vendo sobre a mesa um cartão
de crédito ainda bloqueado que havia acabado de chegar no
nome dela, esbravejou dizendo que a mesma já estava com a
intenção de iniciar novos gastos e que ele não iria permitir.
Nesse ponto a paciente começa a chorar convulsivamente e
repetir: “Eu jamais faria isso com ele, eu confiava nele, eu
sempre dizia que assinaria um cheque em branco pra ele. Como
ele foi cruel e ninguém me defendeu!” A terapeuta (T) pediu
gentilmente que começasse a caminhar lentamente pela sala e
fez uma breve entrevista: T: “O que você está sentindo?” E ela
respondeu: “Medo... medo e solidão”. T: ”Consegue identificar em
que parte de seu corpo está esse medo?” E ela: “Aqui e aqui”,
aponta o peito e a garganta. T: “Que forma tem esse medo? E
ela: “Parece uma bola cheia de espinhos me espetando”. T:
“Lembra quando foi a primeira vez que sentiu esse medo e
solidão?. Essa bola de espinho?” A paciente pára de caminhar,
olha ao longe e diz: “Quando meu pai saiu de casa. E quando
meu padrasto faleceu. Por que ele me abandonou?” diz
referindo-se ao padrasto e começa a chorar se encurvando
quase ao chão. T pergunta se quer conversar em pé ou se
prefere ficar em uma posição mais confortável. Ela se deita sobre
as almofadas quase em posição fetal e continua: “Se ele
estivesse vivo ele teria me defendido. “João não teria feito isso
comigo”. Nesse momento, a terapeuta coloca a mão em suas
costas, transmitindo-lhe apoio e acolhimento, o que aos poucos
diminui seu choro. Pergunta se ela quer encenar o momento do
seu primeiro conflito com João, seu marido, três anos antes,
quando ele bloqueou sua conta no banco, seu acesso à empresa
onde ambos trabalhavam como sócios, e passou a deixá-la
praticamente restrita à casa, sem dinheiro nem para um táxi.
Acena a cabeça que não, mas quer conversar com o padrasto a
quem chama de pai. T pede que monte a cena do local em que
está com seu “pai” e ela inicia colocando uma almofada em sua
frente e pedindo-lhe que relate a longa história do abuso que
estava sofrendo por parte do marido. Então T coloca-se no lugar
da almofada e, substituindo-a, repete a última frase: “Pai, ele não
tinha o direito de fazer isso comigo. Ele não é o João que eu
conhecia”. E ela responde no papel de pai: “Filhinha, pode deixar
que eu vou falar sério com ele. Isso não vai ficar assim!”. Nesse
momento, T repete a cena e no papel do pai abraça a paciente,
dando o acolhimento necessário. Em seguida, T pede que monte
a cena do local em que o pai se encontra com João. Lúcia
escolhe sala de sua casa, João sentado e o pai em pé, em
atitude de autoridade. Ao assumir o lugar do pai, conversa
pacificamente com João, dizendo que o mesmo não deveria ter
feito isso com sua filha. Repete-se a cena, desta vez ela como
João e a terapeuta na posição de seu pai. João responde que
teve seus motivos para agir assim. Inverte-se novamente a cena
e a paciente no lugar do pai responde:” Nada justifica uma
atitude dessas”. E retira-se da sala. A paciente é entrevistada no
papel de pai e questionada se o mesmo não deveria ser mais
agressivo com João, dado todo o mal que o mesmo causou a
sua filha. Nesse momento, a paciente sai do papel e
responde:”Não. Ele não era agressivo. Ele só conversaria”.
Pede-se que volte ao papel de pai e converse com a almofada
representando Lúcia. A paciente mostra-se firme ao falar:
“Filhinha, seu pai vai estar sempre ao seu lado. Se quiser, pode
vir morar conosco. Você não precisa passar por isso se não
quiser”. Repete-se a cena, desta vez com a terapeuta no papel
de pai. A paciente se emociona, chora aliviada e abraça seu
“pai”. Após esse momento de catarse, a terapeuta faz um gesto
de entrega e diz: “Toma Lúcia, coloca esse pai dentro de você.
Na verdade, ele nunca saiu daí. Ele sempre esteve cuidando de
você. Você é que não o estava sentindo. E agora? Você pode
senti-lo?” E ela responde: “Sim. Eu sinto meu pai comigo. Na
verdade, ele sempre esteve aqui (coloca as mãos no peito). Mas
agora eu posso sentir”. A partir desse momento seu rosto passou
a irradiar uma luz especial, de alegria e leveza, e abriu um
sorriso. Seus ombros se ergueram, seus soluços e suspiros
cederam, ela se reaproximou da mãe e das irmãs, começou a
sair de casa, caminhar na praia, dirigir e inclusive planejar abrir
um restaurante com o apoio financeiro da mãe. João, a princípio
resistiu a essas mudanças, mas acabou por respeitar, tornou-se
mais carinhoso e maleável, apesar de não a apoiar
financeiramente, porém Lúcia aprendeu que não precisava mais
contar só com ele.
Os pacientes com TPB são geralmente inteligentes e
talentosos, porém, devido ao transtorno, muitas vezes não
conseguem se desenvolver e apresentam dificuldades em concluir
os estudos.
Por isso, não costumam trabalhar e, quando o fazem,
ocupam funções muito abaixo de suas capacidades. Esses
pacientes costumam apresentar crises relacionais, alguns até
causam ferimentos em si mesmos e abusam de medicamentos.
É o caso da paciente Luísa:
Luísa (nome fictício), médica cirurgiã, 35 anos mãe de 3
meninas, etilismo pesado (ingere diariamente cerveja ou
qualquer bebida alcoólica até “apagar”). Também faz uso diário
de cocaína a fim de se concentrar no trabalho e maconha a fim
de dormir. Chegou ao consultório após uma tentativa de suicídio.
Relatou que sua vida estava se destruindo, que não conseguia
mais pagar as contas, organizar as finanças, nem mesmo ir aos
plantões, os quais estava repassando para colegas. Também
cancelava com frequência as consultas e cirurgias de sua clínica
privada, o que estava afastando os pacientes. Acreditava ainda
estar cuidando adequadamente das filhas pois, segundo a
mesma, as meninas não percebiam seu estado de consciência
alterada pelas drogas, e elas conversavam e brincavam
normalmente até, como disse, “apagar”. Na primeira consulta
relatou que teria um curso, nos Estados Unidos, de uma semana
no mês seguinte e que iria cancelar, apesar de já estar
aguardando há mais de um ano ansiosamente, por ser de uma
Escola Acadêmica renomada. Pedi que não cancelasse de
imediato, pois juntas tentaríamos melhorar seu quadro a tempo.
Com a medicação, a dieta e a terapia, em 3 semanas a paciente
estava, segundo a mesma, “90% melhor!”. Havia por
recomendação tirado “férias” de seus trabalhos, visto que por
não ser funcionária não teria direito a licença, e estava se
preparando para o tão sonhado curso!
Bom lembrar que normalmente casos de tentativa de
suicídio são mantidos em observação por algum tempo, mas, nesse,
em específico, os motivadores sociais me deram a tranquilidade de
que a paciente não faria uma nova tentativa,portanto me senti à
vontade para liberá-la, desde que viajasse acompanhada pela
genitora.
O TPB é o exemplo mais marcante de como as feridas na
infância podem prejudicar a vida adulta. Tal transtorno ocorre em 2%
da população mundial, sendo 75% mulheres.
Um número expressivamente maior de indivíduos sofre
traumas de menores proporções e/ou processa melhor esses
traumas, o que gera transtornos menos incapacitantes ou mais
adaptativos.
É importante ter em mente que, somente identificando a
origem do trauma, o médico ou terapeuta poderá abordá-lo e tratá-lo
adequadamente.
 
 
 
 
 
 
5. AS FASES DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL
 
 
 
 
 
Os primeiros anos de vida de uma pessoa são marcados
por grandes transformações e descobertas. Aos poucos, a criança
começa a entender o mundo em que vive e aprende a lidar consigo
mesma e com aqueles que a cercam.
O psiquiatra infantil Fábio Barbirato descreveu com
maestria essas fases do desenvolvimento.
Segundo Barbirato, o bebê passa por várias
transformações desde seu nascimento. De 1 a 4 meses essas
transformações são bastante significativas. Portanto, é importante
que os pais saibam perceber os sinais de satisfação e insatisfação,
e não devem se preocupar se o bebê passa horas olhando as mãos
e observando seus próprios movimentos.
Também costuma ficar horas observando e ouvindo os
movimentos das pessoas ao seu redor, pois começa a entender que
são elas que irão atender às suas necessidades, e a presença
dessas pessoas se torna reconfortante.
Nessa fase, o choro tem vários significados e é um forte
aliado para ter seus desejos satisfeitos. Segundo o autor:
“O choro é a primeira forma de comunicação do bebê com o
mundo. É o modo mais poderoso e eficaz de conseguir chamar a
atenção dos outros, não apenas porque está com fome ou dor.
Cada bebê reage de um modo, mas o choro sempre significa
alguma necessidade: fome, cólica, estar sujo ou molhado, com
roupa desconfortável, sono, frio ou calor e excesso de estímulo
são as opções mais prováveis”.
Há uma grande necessidade de estabelecimento de
contato e de laços emocionais entre o bebê e a figura materna, o
que figura como um fenômeno biologicamente determinado.
A comunicação afetiva que se estabelece entre mãe e
filho é de grande relevância no desenvolvimento infantil, no que diz
respeito a aprendizagem.
Essa comunicação, no começo da vida, influencia a forma
como a criança (e, futuramente, o adolescente e o adulto) se
relaciona com as pessoas, tornando-a mais confiante e capaz de ver
o mundo com confiança e otimismo, ou, ao contrário, tornando-a
insegura e propensa à desconfiança e ao pessimismo.
Diante disto, pode-se afirmar que a relação entre mãe e
filho terá grande significância no processo do desenvolvimento
infantil (personalidade, autoestima, aprendizagem). 
Na verdade, mesmo crianças que, por algum motivo,
perderam suas mães, são capazes de gerar grande empatia em
seus cuidadores despertando o que costumamos chamar de
“instinto maternal”, o que, do ponto de vista antropológico, continua
sendo um belíssimo mecanismo de sobrevivência do bebê, pois
consegue despertar até em estranhos o instinto de cuidado e
proteção. Tal instinto ocorre até mesmo entre animais de diferentes
espécies como entre homo sapiens, canis familiaris, felis catus,
chipanzés ou outros animais.
O crescimento cerebral é estimulado até os três meses
de idade. Para isso são necessários cuidados como:
1. Não deixar de consultar o pediatra.
2. Favorecer contato físico para que o bebê se
sinta seguro.
3. Contar histórias para o bebê.
4. Disponibilizar objetos coloridos no quarto da
criança (não precisa ser brinquedos).
5. Aprender a decifrar seus gestos, e
demonstrar amor e carinho pelo bebê.
É aqui que você vai aprender a cuidar de sua criança
interior. Sabe aquele momento em que você se sente
desconfortável? É porque certamente seu bebê interior está
sentindo alguma necessidade básica: fome, sede, atenção...
Geralmente não damos importância a esse desconforto.
Para cuidar de nossa criança interior,
é necessário valorizar os sinais de
desconforto e dialogar com nosso
bebê, a fim de confortá-lo.
No período entre 4 e 7 meses o bebê está aprendendo a
combinar as habilidades perceptivas com a capacidade motora.
Lá pelos 5 meses ele começa a perceber o mundo em
sua volta e seus limites corporais. Também passa a se comunicar
através de sorrisos e perceber o princípio da causa e efeito.
Para estimular o crescimento cerebral do bebê nesse
período, é importante que:
1. Tenha contato fisico para ele sentir-se amado
e protegido.
2. A mãe leia historinhas, onde ele a observará
e gostará de ser observado.
3. Faça movimentos rítmicos para ele.
4. Deixe-o perto de outros bebês.
5. Dê-lhe jogos de encaixar.
Se você tiver uma criança interior
ferida nessa fase você deverá amá-la
e protegê-la, brincando com ela
através de jogos, música, dança,
esportes, ajudá-la a fazer amigos...
Pois é o que os adultos fazem intuitivamente quando vão
a festas e participam de atividades esportivas.
Dos 8 meses a 1 ano o bebê já se movimenta sozinho.
Começa a engatinhar aos 8 meses, adquirindo habilidade
necessária para uma separação física da mãe.
Por outro lado, nessa fase, o bebê fica mais angustiado e
pode apresentar dificuldades para dormir e falta de apetite, entre
outras coisas.
Essa angústia explica-se pelo fato dele ainda não estar
preparado para uma separação por não ter gravado a imagem da
mãe. Daí, sente sua ausência quando esta se afasta.
Porém, à medida que o bebê cresce e amadurece,
consegue gravar a imagem da mãe, o que lhe garante uma maior
estabilidade emocional. 
Se sua criança foi ferida nessa fase,
você apresentará dependência
emocional, com dificuldade em
superar perdas. Trate-a através da
rematrização, ou seja, seu EU adulto
precisará cuidar de sua criança
interior ferida, mostrando que sempre
estará ao seu lado e nunca a
abandonará. Mas também a ajude a
tornar-se autossuficiente e fazer
amigos.
Para estimular o crescimento cerebral da criança até os
12 meses, é importante que a mãe desenvolva algumas ações
como:
1. Ler todos os dias.
2. Conversarcom ela.
3. Fazer brincadeiras que estimulem a memória
e as habilidades motoras finas.
4. Permitir que ela brinque com outras crianças
e conheça novos adultos, além dos
familiares.
De 1 a 2 anos a criança, depois de engatinhar, começa a
caminhar e a falar, ganhando cada vez mais independência.
É quando passa a conhecer seus próprios limites e a
testar o dos pais. Esse momento se repete na adolescência e por
isso o modo de tratar sua criança nessas duas fases guarda
bastante semelhanças.
Nesta fase, a criança é curiosa e está pronta para
conhecer muitas coisas do mundo através da exploração do meio
que a cerca, da imitação e de muita imaginação.
O desenvolvimento cerebral e a coordenação fina dos
seus movimentos ocorrem através da estimulação da fala, dos
movimentos e das descobertas que a criança faz nessa fase, o que
a levará a comportar-se de maneira confiante.
Emocionalmente, a criança de 1 a 2 anos apresenta-se
bastante desenvolvida, pois já percebe os estados emocionais de
quem está próximo a ela, sobretudo os pais, mesmo que não os
compreenda.
Nessa fase, os pais devem agir de forma mais severa (sem deixar
de ser amorosos) para impor limites quando a criança insistir em
não obedecer. Porém, jamais fazer uso de violência física ou verbal.
Um tom de voz mais firme, ou uma expressão facial, são o suficiente
pra criança perceber que é hora de ceder. E, mais do que nunca, é
necessário que os pais sejam coerentes em seu comportamento.
Quando advertida da forma adequada, a criança reage
naturalmente e entende o limite ou a crítica que está sendo imposto,
bem como compreende que a crítica é à sua atitude, não à sua
pessoa.
Porém, se essa advertência vier junto a algum tipo de
violência física ou verbal, provavelmente se desencadeará um
trauma pois a criança se sentirá envergonhada, desvalorizada,
defeituosa e inadequada, e, portanto, seuadulto ficará
emocionalmente instável sempre que imaginar-se criticado.
Caso sua criança tenha sido ferida
nessa fase, converse com ela
carinhosamente, fazendo-a entender
que a punição é apenas pela sua
atitude, mas que ela é perfeita, e
apenas está aprendendo novas
formas de comportamento. Mas seja
firme e coerente.
Aos 3 anos de idade a criança já se encontra
emocionalmente mais segura e até ajuda os pais a estabelecer
limites.
É a fase chamada estágio de dependência volitiva, onde
as crianças são capazes de controlar suas necessidades.
Essa fase de limites é importante e deve ser seguida com
firmeza, pois se os pais não o fizerem, a criança poderá se tornrar
um adulto com dificuldades de limites.
Muitos pais fracassam nessa tarefa por carregarem
consigo seus próprios problemas relacionados a limites, quando
vivem e revivem a forma como estes lhes foram passados.
Nessa fase da vida, elas costumam provocar os adultos,
que deverão saber controlar sua agressividade sem ceder às suas
birras.
Elas agem agressivamente quando são contrariadas, e
fazem isso porque ainda não têm o autocontrole do impulso
agressivo, cabendo aos pais instruí-las a controlar e soltar tais
impulsos na hora adequada.
Ou seja, você deve mostrar que compreende que a
criança tem o direito de ficar agressiva em determinados momentos,
porém nem sempre tal comportamento fará com que consiga obter o
desejado.
Existem dois comportamentos igualmente destrutivos por
parte dos pais:
1. Agredir a criança e puni-la por sua birra,
desvalorizando o sentimento dela.
2. Ceder à sua birra, oferecendo a ela o que deseja a
fim de acalmá-la.
Os pais devem permanecer ao lado da criança, conversar
calmamente com ela, mostrar que entendem sua raiva, mas que ela
precisa aprender a controlar sua agressividade, pois com essa
reação ela não conseguirá o que tanto deseja.
Se sua criança foi ferida nessa idade,
converse carinhosamente, diga que
ela tem o direito de se irritar, mas
precisa aprender a se acalmar pois
não irá conseguir o que deseja com
agressividade.
Dos 3 aos 6 anos a criança passa por uma explosão de
descobertas!
Deixa as fraldas, começa o período pré-escolar, os
padrões socioculturais de comportamento se solidificam aos poucos,
e o desenvolvimento físico, motor e intelectual tem um grande
progresso!
A criança já é capaz e ir e vir de acordo com sua vontade,
de se expressar usando símbolos e até gostar ou não das pessoas.
Essa é a fase dos “por quês”. A criança quer conhecer
tudo, descobrir tudo, pois existe muita coisa no mundo a ser
descoberta.
Essa curiosidade espontânea só é possível porque a
criança sente-se bem-vinda, confia no mundo e acredita que todas
as suas necessidades serão acolhidas e respeitadas.
Ela busca entender quem é, e o que deseja fazer da sua
vida. A criança até então era egocêntrica, não egoísta, ou seja,
incapaz de entender o mundo segundo o ponto de vista da outra
pessoa. Não conseguia ficar no papel do outro.
Aqui há pais que irão argumentar: “Mas meu filho de 3
anos sente quando eu estou triste ou com raiva”. Sim, ele percebe
suas emoções, mas não consegue se colocar no seu lugar. Quando
ele as acolhe é à fim de preservar sua própria necessidade de
segurança, amor e conforto.
É somente nesta fase dos 3 aos 6 anos que a criança
começa a aprender a se colocar no papel do outro, entender a sua
dor, e passa a interagir verdadeiramente, no sentido de
reciprocidade.
Se a criança for ferida nessa fase, ela se tornará tímida e
insegura, ou não empática, pois não aprenderá a se colocar no lugar
do outro.
Mostre à sua criança ferida que ela é
amada e tem muito valor. Que ela
precisa aprender a reconhecer e
cuidar de seus sentimentos. Assim,
com o tempo, aprenderá a
desenvolver empatia.
Como pode-se observar, a fase compreendida entre o
nascimento e os seis anos mostra-se de grande importância para a
formação da personalidade da criança.
Nesse período, todas as experiências serão decisivas e
poderão ocasionar sequelas no equilíbrio, coordenação e
organização de ideias, caso suas necessidades não sejam supridas
adequadamente.
E por adequadamente, devemos entender, sem excesso
e de maneira coerente.
Esta é a principal fase da vida de uma pessoa, pois o que
acontece nesse período fica guardado para sempre. E os
comportamentos disfuncionais adquiridos se repetem
instintivamente para o resto de sua vida, como um disco arranhado.
Portanto, se vivenciar boas experiências, boa
alimentação, carinho e estimulação sem excessos, com certeza a
criança tornar-se-á futuramente um adulto mais ajustado e coerente,
preservando e aprendendo a adequar sua criatividade e sua
espontaneidade. 
Quando a criança nasce, ela rompe uma barreira,
passando da matriz materna para um universo novo e diferente, o
qual Moreno denominou Matriz de Identidade, onde é oferecida à
criança uma nova placenta, constituída pelos vínculos com os pais
ou cuidadores e pelas pessoas e coisas significativas que a cercam.
Assim, Matriz de Identidade é o conjunto de condições
psicológicas e sociais no qual a criança é inserida ao nascer, e a
partir da qual se desenvolve dos pontos de vista psíquico e social.
É a placenta social, onde o recém-nascido implanta-se no
grupo social do qual depende para suas necessidades fisiológicas,
psicológicas e sociais do mesmo modo que o ovo, o embrião e,
posteriormente, o feto se implantam na placenta e dela se nutrem e
dependem.
A criança já possui um papel antes mesmo de nascer, ou
seja, ela já tem um lugar na matriz a que pertence. A partir do
nascimento ela receberá toda a herança cultural de sua matriz
(grupo familiar), transmitida de forma a prepará-la para ser inserida
no meio social.
Ao longo de seu desenvolvimento emocional e
construção de sua identidade, a criança passa por cinco fases,
assim descritas por Moreno:
Indiferenciação: é o momento evolutivo em que a
criança ainda não se diferencia das pessoas com quem interage e
não consegue distinguir o que é dela e o que é do outro. É a busca
da identidade.
Reconhecimento do eu: aqui a criança está focada em
si, nos contornos de seu corpo e no reconhecimento de sua imagem
no espelho. Ela passa a se concentrar e explorar o reconhecimento
de suas fronteiras ao perceber que seu corpo está separado da
mãe, das pessoas, dos objetos. Aqui, o Tu serve apenas como
instrumento no processo de reconhecimento do eu.
Reconhecimento do tu: nessa fase a criança já
consegue diferenciar o outro de si, e passa a explorar o que é
diferente do eu, fortalecendo sua identidade. É a fase da exploração
do mundo, do diferente, da descoberta de que o outro tem
comportamento diferenciado do dela. É quando a criança passa
verdadeiramente a diferenciar o Tu.
Pré-inversão: é a fase em que a criança começa a
experimentar se colocar no lugar do outro, porém não consegue ver
outra pessoa em seu lugar. É a fase da imitação, do faz-de-conta,
uma espécie de ensaio e preparação para uma futura inversão,
quando será possível uma reciprocidade. Nessa fase a criança
gosta de imitar, mas detesta ser imitada.
Inversão de papéis: essa fase indica o amadurecimento
emocional da criança, onde ela não apenas consegue se ver
separada do outro como também compreender suas diferenças.
Aqui acontece a inversão de papéis, ou seja, o indivíduo joga o
papel do outro e o outro joga seu papel, com empatia, possibilitando
as condições necessárias para que se realize um verdadeiro
encontro, uma experiência produtora de crescimento e fortalecedora
do vínculo para as duas partes.
Esse conhecimento que a criança vai adquirindo de si
própria, diferenciando-se do grupo, vai proporcionar-lhe sua
percepção enquanto indivíduo no grupo familiar e mais tarde no
social.
Portanto, se essas fases não se desenvolverem
satisfatoriamente, o indivíduo terá dificuldade em cultivar sua
espontaneidade e criatividade no grupo, encontrando empecilhos
em sua vivência no mundo. 
Quando a criança atinge o último estágio na Matriz de
Identidade, desenvolve mais dois tipos de papéis: os papéis sociaise os papéis psicodramáticos.
O primeiro corresponde à dimensão da interação social,
que assume fundamentalmente a função de realidade e forma o eu
parcial social.
Já o segundo equivale à dimensão da fantasia, e mais
individual da vida psíquica, formam o eu parcial psicológico, onde os
papéis sociais existem antes do individual no qual são
desempenhados.
Moreno relacionou as três técnicas
básicas do psicodrama com os três
estágios da Matriz Identidade.
A primeira fase, a da Indiferenciação, está relacionada á
técnica do Duplo ou Dublê, pois nos primeiros meses o bebê é
incapaz de se fazer comunicar por si só, apresentando dependência
total dos ego-auxiliares, no caso a mãe, que serve como mediador,
ou duplo, entre ele e o mundo. 
Em uma cena psicodramática, quando o protagonista não
consegue se expressar, o Ego-auxiliar entra na cena e fala por ele,
exprimindo seu desejo ou necessidade subconsciente.
A fase do Reconhecimento do Eu, corresponde à
técnica do Espelho e representa um marco importante no
desenvolvimento da criança.
É quando ela descobre a própria imagem e é acometida
por um misto de estranhamento e êxtase!
Na técnica do espelho, primeiramente o protagonista
encena uma situação, a qual será posteriormente reproduzida por
outra pessoa, enquanto ele assiste no papel de espectador passivo.
Nessa técnica, o indivíduo vê sua imagem representada
no palco, o que causa um estranhamento inicial, assim como o bebê
estranha quando vê sua imagem no espelho. Em seguida vem o
encantamento ou êxtase, no qual o indivíduo se reconhece e passa
a avaliar seus atos do ponto de vista de um observador.
Essa técnica é perfeita e costuma ser utilizada inúmeras
vezes em uma sessão, pois ajuda o personagem a se encontrar na
cena e enxergá-la de forma objetiva. Assim, muitos insights são
obtidos unicamente com o uso dessa técnica fantástica!
Finalmente, Moreno relaciona a fase do
Reconhecimento do Tu, à Inversão de Papéis, que pode ser feita
somente quando a criança for capaz de reconhecer o outro.
Nesta técnica, o protagonista encena com outra pessoa,
onde eles trocam de papéis, de forma que este sinta como é estar
no lugar do outro.
A técnica de inversão de papéis é utilizada no psicodrama
a fim de que o individuo possa atingir a perspectiva do outro, sendo
capaz de captar seu ponto de vista e o dele mesmo, tendo assim
atingido uma importante etapa do seu desenvolvimento emocional.
Porém, quando tratamos de casos de abuso, é
necessário avaliar cuidadosamente a possibilidade de inverter os
papéis com o agressor, pois isso poderá reforçar a identificação com
o mesmo e solidificar a relação de dependência.
Moreno descreve essa técnica em seu poema:
"Um Encontro de dois: olhos nos olhos, face a face. E quando
estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos e colocá-los-ei no lugar
dos meus; E arrancarei meus olhos para colocá-los no lugar dos
teus. Então, ver-te-ei com os teus olhos e tu ver-me-ás com os
meus." 
(Jacob Levy Moreno)
 
 
 
 
 
 
6. COMO A CRIANÇA FERIDA SE MANIFESTA
 
 
 
 
 
De acordo com Bradshaw, quando uma criança tem seus
sentimentos reprimidos, especialmente de dor e raiva, ela tem seu
desenvolvimento prejudicado, e cresce com uma criança ferida
dentro de si, a qual futuramente irá contaminar seu comportamento
quando adulto. 
Precisamos ver essa colocação dentro de um momento
histórico, pós-guerra, onde a sociedade clamava pela não-
repressão.
Hoje sabemos que uma visão radical sobre o tema
causou aos bebês pós-guerra (baby boomers), e se globalizou para
todas as próximas gerações no mundo inteiro, até as atuais, um
estilo de comportamento destrutivo onde o indivíduo se tornou
supersensível as críticas, facilmente traumatizável e hiper-reativo.
Vemos essas manifestações de fragilidade pipocarem a todo
momento nas redes sociais.
Pessoas que se sentem ofendidas por fatos triviais, que
levantam bandeiras como se estivessem em guerra com o resto do
mundo, que choram por se sentirem rejeitadas de alguma forma
quando em muitos casos o observador externo, conquanto fique
sensibilizado com tal sofrimento, não consegue identificar um fato
real que o tenha desencadeado, pois que está localizado
unicamente no interior do indivíduo que sofre.
O medo de traumatizar nossos filhos
gerou o trauma do trauma!
Infelizmente, reproduzimos gerações
de pessoas hiper-reativas, atualmente
conhecidas como Geração Nutella.
Nem a repressão, nem a vitimização. Hoje chegamos ao
consenso de que as filosofias orientais estão muito mais à nossa
frente quando se trata de comportamento humano. O “Caminho do
Meio” é sempre o mais coerente, e, portanto, o mais acertado.
Os traumas da infância podem contaminar a vida do
adulto quando sua criança interior ferida manifesta-se afetando sua
vida com birras, reações exageradas, problemas conjugais, vícios,
vergonha tóxica e relacionamentos prejudiciais entre outras
manifestações de disfuncionalidade.
Uma criança interior outrora negligenciada e ferida
consiste na maior fonte da infelicidade humana.
Sabemos que algumas formas de comportamentos
contaminados são: co-dependência, comportamentos criminosos,
transtornos narcisistas, questões de confiança, atuações impulsivas,
tanto explosivas quanto implosivas, pensamentos mágicos,
distúrbios da intimidade, comportamentos indisciplinados,
comportamentos aditivos ou compulsivos, distorções do
pensamento, depressão e apatia.
Aqui, quando falamos em depressão, nos referimos ao
aspecto não genético, mas desencadeada pelo meio ambiente e
pelo aprendizado social.
Codependência: é uma doença gerada pela perda da identidade. É
estar fora de contato com seus próprios sentimentos, necessidades
e desejos. E caracterizada pela dependência de um indivíduo. Nele,
o codependente não consegue se desvincular ou mesmo
estabelecer um relacionamento saudável com uma determinada
pessoa, geralmente um dependente químico.
 
Esse comportamento indica que as necessidades
pessoais da criança foram negligenciadas e ela não consegue saber
quem ela é. Portanto enxerga-se pelos olhos do outro.
Dessa forma, as crianças necessitam de um modelo
seguro e saudável de emoções (a fim de entender seus próprios
sinais internos).
Elas também precisam de ajuda para separar seus
pensamentos de seus sentimentos.
Quando o ambiente familiar é preenchido com violência
(emocional, física e/ou sexual), a criança precisa focar somente no
mundo exterior, mantendo-se em alerta a fim de sobreviver, o que
impede seu desenvolvimento (e prejudica sua sobrevivência)
emocional.
Ao longo do tempo, ela perde a habilidade de gerar
autoestima a partir de dentro (de si).
Sem uma vida interna saudável, sua emoção é
compartimentalizada ou isolada para tentar encontrar satisfação no
mundo exterior.
Os codependentes são pessoas cuja baixa autoestima e
sentimento de culpa fazem com que vivam em função da pessoa ou
situação problemática, tornando esse comportamento obsessivo a
razão de suas vidas, sentindo-se úteis e com objetivos somente
quando estão envoltos com algum problema. 
Comportamentos criminosos ou agressivos: quando a
criança presencia certas cenas de violência, isso desencadeia
sentimentos de medo e impotência. O adulto que vivenciou tais
traumas, quando exposto a situações que de alguma forma o
remetam às experiências vivenciadas, pode, então, tornar-se tão
brutal quanto seu agressor de outrora. Afinal, em seu
subconsciente, identificar-se com o agressor evitará que o mesmo o
extermine.
É o que acontece, por exemplo, com os molestradores de
crianças, que muitas das vezes estão reencenando a experiência de
abuso sofrida na infância.
Porém, nem sempre os abusos são consequências de
experiências semelhantes vividas na infância.
Pais indulgentes ou submissos
podem mimar seus filhos, fazendo
com que estes acreditem serem
superiores aos outros,
desrespeitando a opinião e
sentimentos dos demais, tratando-os
como objetos.
Tal modelo de educação também pode gerar adultos
agressivos e abusadores.
Transtorno narcisista: a criança precisasaber que é
amada e se sentir protegida por seus cuidadores, de forma completa
e incondicional. Se essas necessidades narcisísticas não forem
atendidas, seu senso de “EU SOU”, será prejudicado.
A criança é carente por natureza e não por escolha (visto
que ela nasce totalmente vulnerável e dependente do adulto),
portanto, sua necessidade de dependência precisa ser atendida.
Caso contrário, se tornará um adulto com uma fome
insaciável de amor e autoestima, o que desencadeará
comportamentos como desapontamentos em suas relações, busca
do par perfeito, compulsão por sexo, drogas, compras, jogos etc.,
bem como necessidade de chamar atenção.
Há pessoas que se tornam atletas e atores, ou políticos,
com o objetivo de terem suas necessidades narcisísticas satisfeitas,
o que Freud define como um mecanismo de defesa do Ego
chamado Sublimação.
O adulto que sofre esse tipo de transtorno procura dar a
seus filhos o amor e admiração que nunca tiveram, mas em troca
deseja que os filhos nunca o deixem, sobrecarregando-os de
cobranças e causando-lhes profundos danos emocionais, gerando
assim outra criança interior ferida.
Tive uma paciente, Ana (nome fictício), a qual era uma moça
muito bonita, vaidosa e inteligente, porém insegura e dependente
emocional dos pais, os quais sempre a mimaram, porém
tolheram sua independência, causando-lhe crises depressivas
com tentativas de suicídio. A mesma era médica veterinária e
com auxílio financeiro dos pais comprou uma clínica franquiada.
Com o sucesso da clínica, os pais se incomodaram e passaram
a reclamar que a clínica dava muitas despesas, e que a filha, por
suas crises depressivas que não raras vezes a deixavam
prostrada por um ou dois dias, não daria conta de ser uma
empresária de sucesso. Ana viu sua clínica ser fechada e só não
afundou em depressão pois à época fazia terapia. A moça
possuía uma filha pequena, fruto de um namoro na adolescência.
Era sua companheirinha e “confidente”. Ana passou a namorar
um rapaz o qual apenas estudava e os pais não consideravam
uma ameaça, mas, com suas idéias de independência, os pais
proibiram-na de continuar sua terapia e a mesma se recolheu ao
convívio familiar. Algum tempo depois eu soube que rapaz foi
aprovado em um concurso fantástico e viu-se em uma situação
financeira extremamente confortável. Comprou um apartamento
de luxo na nova cidade, o qual Ana ajudou a decorar com todo
seu bom gosto. Porém, Ana não aceitou seu pedido de
casamento, alegando que precisava cuidar dos pais (os quais
ainda eram bem jovens e saudáveis, na verdade). Pouco tempo
depois, recebi outra informação. Ana havia cometido suicídio!
Segundo sua jovem e sofrida filha, agora adolescente, a mãe,
enfim, havia conseguido se libertar! Não sei exatamente o que
sua filha quis dizer com tal afirmação, mas essa frase me marcou
profundamente...
 Questões de confiança: a criança desenvolve um
profundo senso de desconfiança quando seus cuidadores agem
com desonestidade, fazendo com que o mundo lhe pareça hostil,
imprevisível e perigoso.
O adulto com problemas de confiança acredita que
precisa ter o controle de tudo para que ninguém o machuque.
A primeira tarefa na vida de uma criança é aprender o
senso básico de confiança.
É preciso aprender que os pais são confiáveis, a fim de
poder confiar em si próprio, suas capacidades pessoais,
percepções, sensações e desejos, além de poder confiar nas
pessoas à sua volta.
Quem não se sentiu protegido, dificilmente conseguirá
confiar em alguém, pois mantém a convicção de que precisa ser
completamente autossuficiente, com dificuldade em pedir ajuda ou
até mesmo trabalhar em equipe.
 Acting Out/Acting In (atuações impulsivas
explosivas/ implosivas): a principal força que move a vida do
homem é a emoção, que faz com que a pessoa se defenda e tenha
suas necessidades atendidas.
O medo leva a fugir do perigo e o choro caracteriza um
pedido de ajuda e desperta solidariedade.
Vivenciando a tristeza, há o processamento das perdas e
a liberação da energia para viver o presente.
Sem essa capacidade, a pessoa revive continuamente,
através de situações conflitivas atuais, seus traumas de infância,
vivenciando a dor como se ela estivesse ocorrendo no aqui-agora.
No Acting Out, pode haver o reencenamento da reação
à violência emocional, física ou sexual em suas relações com outras
pessoas, inclusive filhos. A pessoa pode apresentar regressões
espontâneas a comportamentos infantis como birras e gritos,
rebeldias inapropriadas etc.
No Acting In, temos autopunições, como a autocrítica,
autossabotagem, e as somatizações (problemas gastointestinais,
dores de cabeça, dores musculares etc.).
 Pensamentos mágicos: as crianças são mágicas, elas
acreditam na literalidade das palavras, não são capazes de
entender a linguagem figurada.
Elas vivem no mundo ilógico e, à medida em que
crescem, vão desenvolvendo um raciocínio abstrato.
A criança ferida dentro do adulto continua pensando de
forma literal. Por exemplo: se eu tiver dinheiro eu estarei bem! um
diploma me fará inteligente! se eu lutar muito o mundo me
recompensará! se meu amor me deixar eu vou morrer!
A criança que cresce com essa ferida torna-se um adulto
inseguro e propenso a decepções, porque possui crenças ilógicas e
irreais. Qualquer pequena frustração abala sua autoconfiança e/ou
confiança no outro e no mundo como um todo.
Distúrbios da intimidade: muitos adultos regridem
devido ao medo do abandono ou o medo de serem sufocados, daí
eles vivem relações destrutivas ou se isolam, ou ainda, na maioria
das vezes, oscilam entre os dois extremos.
A intimidade requer que a pessoa respeite a
individualidade do companheiro, caso contrário, fará do mesmo um
objeto, o que o tornará codependente, uma que vez o
relacionamento não está ocorrendo embasado em sua parte adulta,
e sim em sua criança interior ferida.
Em outras palavras, em uma relação madura, a pessoa
respeita as características individuais do outro, não tenta impor nem
aceita que lhe seja imposto comportamento que não seja seu.
Comportamento indisciplinado: a disciplina é o modo
de reduzir o sofrimento da vida.
Dessa forma, quando o modelo dos pais é falho, a
criança torna-se indisciplinada, protela, berra, suborna, é impulsiva,
recusa-se a adiar gratificações.
Por outro lado, quando agem com muita rigidez, a criança
torna-se excessivamente disciplinada, obsessiva, submissa,
exageradamente obediente, excessivamente agradável, e
perturbada por vergonha e culpa.
Os pais devem educar seus filhos com amor e paciência,
mostrando o que é o certo, evitando críticas ferinas e punições
abusivas. Mas também evitando excesso de mimos e
superproteção.
Mesmo quando punem, devem mostrar que é o
comportamento da criança que foi inadequado, e não a própria
criança, dessa forma, mostram aceitação e acolhimento e a criança
percebe que, apesar de seu erro, continua sendo amada.
Na verdade, a criança precisa
entender que ela é um ser especial,
mágico, mas que está em processo
de aprendizado, e todo aprendizado é
feito de erros e acertos. Assim,
estaremos gerando adultos que se
aceitam, e aceitam os erros, como
parte do processo de aprendizado.
Comportamento adictivo-compulsivo: a criança que
não se sente amada pelos pais torna-se uma criança ferida com
necessidades insaciáveis, e irá tentar preencher esse vazio interior
com comportamentos adictivos (de compulsão ou repetição).
A adicção é uma forma de fugir da dor e do sofrimento
através de comportamento autodestrutivo repetitivo ou envolvendo-
se em relacionamento abusivo.
Alguns tipos de comportamentos adictivo-compulsivos
são as compulsões (exemplos: sexo, comida, compras, drogas,
álcool, trabalho, atividades físicas, organização, limpeza etc.). São
comportamentos ocasionados por alterações do humor como
tristeza ou alegria, ou ainda por decepção, com consequências
muito prejudiciais à vida. 
Distorção de pensamento: as crianças são extremistas
e costumam confundir seus pensamentos com a realidade.
Na teoria comportamental isso é chamadode
pensamento tudo ou nada. Ou seja, “se você não me ama então
você me odeia”. Ou “se você não quer agora, então você não quer
(nunca)”.
O adulto com essa distorção de pensamento costuma,
por exemplo, sentir-se cobrado e alimentar um complexo de
inferioridade, sempre se colocando em desvantagem quando sabe
que não pode atender às necessidades de outra pessoa.
As crianças confundem seus
sentimentos com pensamentos, se
elas se sentem culpadas, pensam que
são crianças más.
No adulto, isso se manifesta através de emoções
negativas, aparentemente sem motivos, que surgem quando
lembranças ruins do passado vêm à tona, ainda que de forma
subconsciente.
Depressão/apatia: quando a criança tem seu
comportamento reprimido, sendo obrigada a ser uma “criança
boazinha”, ela deixa de ser seu verdadeiro EU e passa a
representar o que as pessoas esperam dela.
Isso pode levar a um baixo grau de depressão crônica,
conhecido por Distimia.
A adoção do falso self no adulto gera um sentimento de
apatia, solidão, inferioridade, confusão emocional.
Um caso exemplar é o do João (nome fictício). João chegou ao
consultório apresentando olhar sem brilho, pálpebras e
comissuras labiais rebaixadas, pele pálida e opaca, fala
lentificada, e em seu discurso observou-se ausência de estímulo
ou perspectiva de futuro. Na verdade, ele se encontrava apático
e perdido. Apesar de ser extremamente inteligente, considerado
gênio para os padrões da ciência, ele desde a infância anulara
suas intenções de ser jogador de futebol (habilidade que
manteve até a época da faculdade) para tornar-se médico e
realizar o sonho dos pais. Após casar-se com o grande amor de
sua vida, seu comportamento tornou-se mais assertivo, tornou-se
mais forte e dedicado, porém os problemas do relacionamento o
fizeram desacreditar novamente em si mesmo e ele foi se
apagando aos poucos, se anulando e entristecendo. Como a
base do seu tratamento seria a psicoterapia, porém, o mesmo
estava de mudança para outro país, foram feitas algumas
orientações e prescrito medicamento antidepressivo, o qual
inicialmente não surtiu o efeito esperado. Após alguns anos tive
notícias de João, já divorciado, porém não reconstruiu sua vida.
Continuando com o ar apático e sem brilho nos olhos, relatou
que não havia se encontrado nas terapias no país em que está
residindo. Infelizmente um caso que ficou sem solução e uma
vida que permaneceu em sofrimento! Atualmente, com a terapia
online, isso não teria acontecido!
Essas são, portanto, algumas formas de comportamentos
que podem contaminar a vida de um adulto.
Assim, você precisa resgatar e curar sua criança ferida,
caso contrário ela permanecerá agindo de forma inadequada e
prejudicando sua vida.
 
 
 
 
 
 
7. COMO IDENTIFICAR EM QUE FASE SUA
CRIANÇA INTERIOR FOI FERIDA
 
 
 
 
 
Primeiramente, é importante levar em consideração o que
foi dito no início deste livro: que somos feitos de camadas
emocionais.
Portanto, podemos carregar várias crianças feridas em
diversas fases da vida.
Lembre-se: Se você já iniciou o tratamento de uma
criança ferida, NUNCA inicie o tratamento da próxima criança ferida
sem antes encerrar o tratamento da criança anterior.
Isso poderá aprofundar feridas e revivescer dores sem
causar um resultado positivo.
Seu objetivo é tratar sua criança ferida e não apenas
trazê-la à tona.
O entendimento das fases do desenvolvimento infantil e
da Matriz de Identidade auxilia a identificar a fase ou as fases em
que sua criança interior foi ferida.
Porém, a fim de facilitar ainda mais essa identificação, no
livro Homecoming: Reclaiming and Healing Your Inner, Bradshaw
descreve uma série de questionários que serão traduzidos e
reproduzidos neste capítulo, a fim de que você possa, identificando
sua criança ferida, resgatá-la e curá-la.
Importante lembrar que o tratamento com profissionais
especialistas como psicólogo e psiquiatra são importantes e
necessários. Porém, uma vez que você inicie este processo de
autocura, ele irá continuar se desenvolvendo dentro de você por
toda sua vida. Isso porque, neste caso, será seu Eu Adulto que irá
se responsabilizar por cuidar de sua Criança Interior Ferida.
Levar este processo ao conhecimento do profissional que
o acompanha irá enriquecer seu tratamento pois ele poderá orientar
você nas diversas fases do processo terapêutico.
Questionários
Os questionários que você lerá a seguir foram extraídos
do livro Homecoming: Reclaiming and Healing Your Inner, em suas
versões original e traduzida para o português. Eles irão identificar a
fase em que sua Criança Maravilhosa foi ferida em seu narcisismo,
e passou a desenvolver traumas e defesas, os quais atualmente
refletem em sua vida adulta, prejudicando suas relações pessoais e
profissionais, e mesmo sua autoestima.
Cada questionário deve ser avaliado individualmente.
Bradshaw utilizou o termo “índice de suspeita”, pois cada quesito
que você responda “sim” aumenta a probabilidade de você ter
sofrido um trauma naquela fase da vida correspondente ao
questionário, bem como quanto mais respostas positivas, maior a
intensidade do trauma sofrido.
“ÍNDICE DE SUSPEITA. Depois de ler cada
pergunta, espere e entre em contato com o que está sentindo.
Se sentir uma forte energia para o sim, responda sim — para o
não, responda não. Se responder sim a qualquer pergunta, pode
suspeitar que sua criança interior maravilhosa foi ferida. Há
vários graus de ferimento. Você está em algum lugar em uma
escala de um a cem. Quanto maior o número de perguntas às
quais você sente que deve dizer sim, mais profundo é o
ferimento da criança que vive no seu íntimo. (Tirei a ideia do
“índice de suspeita” do trabalho pioneiro do falecido Hugh
Missildine no seu livro clássico Your Inner Child of the Past. O Dr.
Missildine era meu amigo e me encorajou muito para prosseguir
neste trabalho).”
John Branshaw (1993)
(traduzido)
 
1. Questionário 0 a 9 meses:
Bradshaw, John. 1993.
p.110
1. Você tem ou teve no passado algum vício ingestivo (comer
demais, beber demais ou usar drogas)?
Sim...... Não......
2. Tem dificuldade para confiar na sua habilidade de atender
suas necessidades? Acha que precisa encontrar alguém
para atendê-las?
Sim...... Não......
3. Acha difícil confiar nas pessoas? Acha que deve estar no
controle o tempo todo?
Sim...... Não......
4. Deixa de reconhecer os sinais de necessidades físicas do
seu corpo? Por exemplo, come quando não tem fome? Ou
nunca percebe que está cansado?
Sim...... Não......
5. Negligência suas necessidades físicas? Ignora a boa
nutrição ou não faz exercício suficiente? Procura o médico
ou o dentista só em uma emergência?
Sim...... Não......
6. Sente medo de ser abandonado/a? Sente-se ou já se
sentiu desesperado/a com o fim de um relacionamento?
Sim...... Não......
7. Já pensou em suicídio por causa do fim de um
relacionamento amoroso (seu companheiro/a o/a
abandonou, seu marido/sua mulher pediu divórcio)?
Sim...... Não......
8. Sente com frequência que não se encaixa ou não pertence
a um lugar? Sente que as pessoas não o/a recebem bem
ou que não desejam sua presença?
Sim...... Não......
9. Em situações sociais, tenta ficar invisível para que ninguém
note sua presença?
Sim...... Não......
10. Procura ser tão prestativo (até mesmo
indispensável) nos seus relacionamentos para que a outra
pessoa (amigo/a, amante, esposo/a, filho/a, pais) não
possa deixálo/a?
Sim...... Não......
11. O sexo oral é o que domina suas fantasias e o que
você mais deseja?
Sim...... Não......
12. Tem grande necessidade de ser tocado/a e
abraçado/a? (Isto geralmente se manifesta pela
necessidade que você tem de tocar ou abraçar os outros
sem saber se eles querem.)
Sim...... Não......
13. Tem uma necessidade constante de ser
valorizado/a e de que precisem de você?
Sim...... Não......
14. É quase sempre mordaz e sarcástico com os
outros?
Sim...... Não......
15.Isola-se e passa muito tempo sozinho/a? Quase
sempre acha que não vale a pena tentar um
relacionamento?
Sim...... Não......
16. Você é geralmente crédulo/a? Aceita as opiniões
dos outros ou “engole tudo que ouve” sem pensar no
assunto?
Sim...... Não......
 
2. Questionário 9meses a 18 meses:
Bradshaw, John. 1993.
p.137
1. Você tem dificuldade em saber o que quer?
Sim...... Não......
2. Tem medo de explorar quando chega a um lugar que não
conhece?
Sim...... Não......
3. Tem medo de tentar novas experiências? Quando tenta,
sente sempre que alguém já as tentou antes?
Sim...... Não......
4. Tem muito medo de ser abandonado/a?
Sim...... Não......
5. Em situações difíceis, você deseja que alguém lhe diga o
que fazer?
Sim...... Não......
6. Acha que tem sempre de aceitar as sugestões dos outros?
Sim...... Não......
7. Tem dificuldade em se concentrar na experiência do
momento? Por exemplo, quando está de férias, vendo algo
maravilhoso, preocupa-se com o que tem a fazer em casa?
Sim...... Não......
8. Está sempre preocupado/a com alguma coisa?
Sim...... Não......
9. Tem dificuldade em ser espontâneo/a? Por exemplo, não
tem coragem de cantar de felicidade na frente dos outros?
Sim...... Não......
10. Está sempre em conflito com representantes da
autoridade?
Sim...... Não......
11. Geralmente usa palavras relativas a defecar ou
urinar — como merda, mijo, etc.? Seu senso de humor se
relaciona sempre a piadas de banheiro?
Sim...... Não......
12. É obcecado/a por nádegas? Prefere fantasias sobre
sexo anal, ou a prática dessa forma de sexo a qualquer
outra?
Sim...... Não......
13. É frequentemente acusado/a de ser mesquinho
com dinheiro, amor, nas expressões de emoções ou em
demonstrações de afeição?
Sim...... Não......
14. Tem obsessão por limpeza e ordem?
Sim...... Não......
15. Sente a raiva das outras pessoas? De você
mesmo?
Sim...... Não......
16. É capaz de qualquer coisa para evitar conflitos?
Sim...... Não......
17. Sente-se culpado/a, quando diz não a outra
pessoa?
Sim...... Não......
18. Evita dizer não diretamente, mas quase sempre
deixa de fazer o que prometeu, fazendo uso de meios
indiretos passivos e manipuladores para justificar ou
disfarçar seu erro?
Sim...... Não......
19. Às vezes você “enlouquece” e se descontrola
completamente?
Sim...... Não......
20. Critica excessivamente as outras pessoas? Sim......
Não......
21. Você é amável com as pessoas e depois as critica
e fala mal delas quando se afastam?
Sim...... Não......
22. Quando é bem-sucedido em alguma coisa, tem
dificuldade em ficar satisfeito e acreditar no que conseguiu?
Sim...... Não......
 
3. Questionário 3 a 6 anos:
Bradshaw, John. 1993.
p.155
1. Você tem graves problemas de identidade? (Para ajudar
nesta resposta, considere as perguntas seguintes: Quem é
você? A resposta vem com facilidade?)
Sim...... Não......
2. Independente das suas preferências sexuais, você sente
que é realmente um homem? Uma mulher? Você
superdramatiza seu sexo (tenta ser homem “macho” ou
mulher “sexy”?)
Sim...... Não......
3. Mesmo quando faz sexo no contexto legítimo sente-se
culpado/a?
Sim...... Não......
4. Tem dificuldade em identificar o que está sentindo em um
determinado momento?
Sim...... Não......
5. Tem problemas de comunicação com as pessoas com as
quais convive? (cônjuge, filhos, patrão, amigos?)
Sim...... Não......
6. Tenta controlar seus sentimentos a maior parte do tempo?
Sim...... Não......
7. Tenta controlar os sentimentos das pessoas com quem
convive?
Sim...... Não......
8. Você chora quando fica zangado/a?
Sim...... Não......
9. Esbraveja quando tem medo ou quando é magoado?
Sim...... Não......
10. Sente dificuldade em expressar seus sentimentos?
Sim...... Não......
11. Acha que é responsável pelo comportamento ou
pelos sentimentos de outras pessoas? (Por exemplo, acha
que pode fazer as pessoas ficarem tristes ou zangadas?)
Sim...... Não......
12. Sente-se culpado/a por coisas que acontecem aos
membros da sua família?
Sim...... Não......
13. Acredita que se você agir de um certo modo pode
mudar o comportamento de outra pessoa?
Sim...... Não......
14. Acredita que desejar ou sentir alguma coisa pode
fazer com que se torne realidade?
Sim...... Não......
15. Você aceita mensagens confusas e comunicações
inconsistentes sem pedir explicação?
Sim...... Não......
16. Você age baseado/a em suposições não
verificadas, tratando-as como se fossem informação real?
Sim...... Não......
17. Sente-se responsável pelo problema conjugal dos
seus pais, ou pelo divórcio?
Sim...... Não......
18. Você procura o sucesso para que seus pais fiquem
satisfeitos com eles mesmos?
Sim...... Não......
 
4. Questionário 6 anos a 13 anos:
Bradshaw, John.
1993. p.175
1. Costuma se comparar com outras pessoas e sempre se
sente inferior?
Sim...... Não......
2. Gostaria de ter amigos, de ambos os sexos?
Sim...... Não......
3. Costuma sentir-se pouco à vontade em situações sociais?
Sim...... Não......
4. Sente-se pouco à vontade fazendo parte de um grupo?
Sim...... Não...... (Sente-se melhor quando está
sozinho/a?).
Sim...... Não......
5. Às vezes dizem que você é muito competitivo/a? Sente que
precisa ganhar?
Sim...... Não......
6. Frequentemente tem conflitos com seus companheiros de
trabalho?
Sim...... Não......
7. E com as pessoas da sua família?
Sim...... Não......
8. Em uma negociação, você (a) cede completamente ou (b)
insiste em fazer as coisas ao seu modo?
Sim...... Não......
9. Orgulha-se de ser rígido/a e literal, seguindo a lei ao pé da
letra?
Sim...... Não......
10. Você sempre procrastina as coisas?
Sim...... Não......
11. Tem dificuldade em terminar as coisas?
Sim...... Não......
12. Acha que devia saber fazer as coisas sem
nenhuma instrução?
Sim...... Não......
13. Tem muito medo de cometer erros?
Sim...... Não......
14. Sente-se extremamente humilhado/a quando é
obrigado/a a constatar os próprios erros?
Sim...... Não......
15. Fica zangado com frequência e critica muito as
outras pessoas?
Sim...... Não......
16. É deficiente nas aptidões básicas da vida (ler, falar
e/ou escrever gramaticalmente, fazer cálculos
matemáticos)?
Sim...... Não......
17. Passa muito tempo analisando ou obcecado/a com
alguma coisa que disseram a seu respeito?
Sim...... Não......
18. Sente-se feio/a e inferior?
Sim...... Não......
19. Se respondeu sim, tenta disfarçar isso com roupas,
coisas, dinheiro ou maquiagem?
Sim...... Não......
20. Costuma mentir para você mesmo/a e para os
outros com frequência?
Sim...... Não......
21. Acredita que, por melhor que faça, nunca está
fazendo a coisa certa?
Sim...... Não......
 
 
5. Questionário 13 a 26 anos:
Bradshaw, John.
1993. p.192
1. Você ainda tem problemas com a autoridade paterna ou
materna?
Sim...... Não......
2. Continua a experimentar empregos sem encontrar seu
lugar certo?
Sim...... Não......
3. Não sabe ao certo quem você é?
Sim...... Não......
4. Está comprometido com algum grupo ou causa?
Sim...... Não......
5. Considera-se desleal?
Sim...... Não......
6. Sente-se superior aos outros porque seu estilo de vida é
diferente e não conformista?
Sim...... Não......
7. Alguma vez abraçou alguma fé de sua escolha?
Sim...... Não......
8. Não tem amigos verdadeiros do mesmo sexo?
Sim...... Não......
9. Tem amigos dosexo oposto?
Sim...... Não......
10. Você é um/a sonhador/a, prefere ler livros
românticos e ficção científica a fazer alguma coisa em sua
vida?
Sim...... Não......
11. Alguém já disse que você precisa crescer?
Sim...... Não......
12. Você é um/a conformista rígido?
Sim...... Não......
13. Alguma vez questionou a religião da sua
juventude?
Sim...... Não......
14. Segue rigidamente algum tipo de guru ou herói?
Sim...... Não......
15. Você fala muito sobre as grandes coisas que vai
fazer, mas nunca faz realmente?
Sim...... Não......
16. Acredita que ninguém passou por tudo que você
tem passado, ou que ninguém pode jamais compreender
sua dor única?
Sim...... Não......
 
 
Bradshaw, John. 1993. p.207
PERDÃO
“A recuperação da sua criança interior ferida é um processo de
perdão. O perdão nos permite dar como antes. Cura o passado e
liberta as energias para o presente. O perdão não é um processo
sentimental ou superficial. Fomos realmente feridos e esse
sofrimento deve ser validado e legitimizado. Quando
reconhecemos o mal que foi feito, retiramos o manto mítico com
que envolvíamos nossos pais. Nós os vemos como os seres
humanos feridos que realmente são (eram). Vemos que são
crianças adultas revivendo suas próprias contaminações.”
John Bradshaw (1993)
Uma vez que você conseguiu identificar em quais fases
sua criança foi ferida, irei agora ensinar algumas técnicas de
psicodrama que considero de fácil aplicação e muito eficazes no
tratamento dos traumas da infância.
Mas antes de seguir em frente, peço que releia com
atenção o capítulo “As Fases do Desenvolvimento Infantil”, onde
falo sobre as fases da infância de um ponto de vista mais científico,
bem como da forma com a qual você deve dialogar com sua criança
interior em cada uma das fases, e descrevo as fases do
desenvolvimento segundo Moreno, e as técnicas de psicodrama
relacionadas a cada fase. Isso também ajudará você a entender e
saber se comunicar melhor com sua criança interior ferida.
Bradshaw acrescenta a fase dos 13 aos 26 anos como
adolescência. Isso porque ele considera uma fase em que a pessoa
deseja autonomia, mas, em muitos casos, ainda depende
financeiramente dos pais.
 
 
 
 
 
 
 
 
8. COMO RESGATAR E TRATAR A CRIANÇA
INTERIOR FERIDA
 
 
 
 
 
O Psicodrama é a forma mais eficaz de tratar a criança
interior ferida.
Para que você possa entender esse processo,
primeiramente explicarei o que é e como funciona esse tipo de
terapia.
O psicodrama foi criado por Jacob Levy Moreno, médico
psiquiatra que também foi o criador do Teatro Espontâneo e do
Sociodrama. Nascido na Romênia em 1892 e falecido nos EUA em
1974.
Para Moreno, o psicodrama procura, com a colaboração
do paciente, transferir a mente “para fora” do indivíduo, e objetivá-la
dentro de um universo tangível e controlável.
Isso quer dizer que o paciente, enxergando a cena
traumática de sua vida e seu comportamento disfuncional
decorrente desse trauma, pode ter um olhar objetivo, de observador
externo, e, a partir daí, modificar sua forma de interpretar os fatos e
sua reação a eles.
A partir da observação do comportamento da criança,
Moreno formulou a ideia de que o ser humano tem fome de ação
física e mental.
Essa fome faz com que as crianças aprendam muitas
coisas muito antes de começar a falar, vivendo e absorvendo o seu
meio intensamente.
Moreno atribuía a capacidade que a criança tem de
envolvimento alegre com a vida, à espontaneidade (Fator E) e à
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rom%C3%AAnia
criatividade (Fator C), que são os pilares da saúde mental e física.
A educação, pelos cuidadores, e
posteriormente a imposição da
sociedade, gera medo, limitações, e
perda da espontaneidade e da
criatividade. A perda dos fatores E e
C geram o adoecimento.
Esse é o problema central da humanidade, uma vez que
o ser humano tem que encarar a vida e seus obstáculos
ultrapassando barreiras, e isso exige flexibilidade, o oposto da
conserva cultural (termo usado quando uma ação espontânea passa
a ser repetida com finalidade específica, cristalizando aquela ação
como resposta padrão a determinado fato ou momento).
Se por um lado as “conservas” são necessárias pois
formam o conhecimento (exemplo: papel de médico, advogado,
motorista, professor), por outro, nos roubam os dois elementos
essenciais à saúde (E e C).
O psicodrama é um método que articula teoria e técnicas
do teatro, da psicologia e da sociologia.
Moreno descreve essa forma de teatro como o Teatro do
Êxtase, pois faz com que o indivíduo saia de seu mundo limitado e
ultrapasse as fronteiras. 
As pessoas têm liberdade para atuar como desejarem,
deixando aflorar suas fantasias mais íntimas.
Nesse momento, por exemplo, os homens podem
desempenhar o papel de mulheres, e vice-versa, os jovens podem
representar os velhos, e vice-versa, uma pessoa pode ser um avião,
ou qualquer tipo de objeto, uma parte do corpo, uma idéia, ou
mesmo Deus!
Tudo isso ajuda a entender o outro, a vida, a situação,
pois como se disse, colocar-se no papel do outro é fundamental
para o desenvolvimento emocional.
Todos os possíveis personagens e sentimentos são
trazidos para o encontro com alguém ou alguma coisa, ou com
partes do self, havendo sempre uma relação entre eles.
Esse mundo sem limites, em que a pessoa fica liberada
do mundo real, é o que Moreno chama de “realidade suplementar”. 
Através da dramatização, o psicodrama explora os
sintomas, os conflitos, os mecanismos de defesa, os
acontecimentos marcantes. Ou seja, investiga como a pessoa se
sente no “aqui-e-agora”, não só por meio da fala, mas da ação. E
nada é mais libertador do que a ação!
Contudo, a dramatização é o elemento essencial do
psicodrama, e tem como objetivo o resgate da espontaneidade-
criatividade, constituindo a primeira lição de espontaneidade.
Finalmente, a dramatização é uma forma de fuga da
realidade, na qual o contexto psicodramático possibilita reviver o
passado, clarear o presente e antecipar o futuro, e observar tudo “de
fora”, sem as dores tão intensas e as consequências da vida real.
A pessoa que sofreu um trauma na infância desenvolve
comportamentos prejudiciais a suas relações intra e interpessoais,
devido a papéis disfuncionais cristalizados ao longo do tempo e da
repetição.
É necessário na terapia desfazer esses comportamentos
e substituí-los por outros mais saudáveis. Por isso, no psicodrama,
faz-se tanto treinamento de papéis. Como nas faculdades atuais
onde existem disciplinas especialmente para o treinamento
profissional.
Simular diversas vezes uma entrevista de emprego, ou
um diálogo com alguém, ajuda a escolher as melhores palavras e
formas de se atingir o objetivo, assim como analisar as palavras ou
comportamentos contraprodutivos, e avaliar o porquê de suas
manifestações.
O treinamento de papéis no psicodrama é uma ação onde
a ausência de limites reais de tempo e espaço é um recurso fértil
para a elaboração de conflitos, para preparar a espontaneidade-
criatividade e para corrigir as distorções cognitivas.
Afinal, a transformação se dá na própria consciência, já
que a consciência se dá no próprio ato!
O desempenho de papéis proporciona ao sujeito a
oportunidade de libertar as emoções e os sentimentos que estavam
aprisionados, impedidos de ser expressos por causa dos papéis
sociais cristalizados, rígidos. 
A espontaneidade, para Moreno, é uma nova resposta a
uma velha situação uma ou uma resposta adequada a uma nova
situação.
A espontaneidade e a criatividade são recursos inatos,
fundamentais para o desenvolvimento saudável do homem.
A espontaneidade precisa estar vinculada à criatividade,
caso contrário, teremos o bobo espontâneo, incapaz de dar
respostas adequadas a situações ou o gênio criativo tolhido,
enrijecido, incapaz de ser espontâneo. Em ambos os casos não
haverá um comportamento construtivo e bem suscedido.
Na visão de Moreno, o homem é umser social que,
diante de sua fragilidade biológica, precisa pertencer a um grupo
para satisfazer suas necessidades básicas, desde que nasce até
seus últimos dias de vida.
Segundo Rosa Cukier (1998), o drama da criança ferida,
que vive dentro de nós, fala de um momento na vida no qual nosso
narcisismo foi fragilizado e nosso psiquismo se mobilizou.
Então, a Criança Maravilhosa, com toda a sua
espontaneidade, criou um “remédio” específico para o mal que nos
acometia.
O problema é que esse “remédio” foi guardado, feito
pedra preciosa, a fim de ser usado cada vez que outra ameaça à
nossa autoestima aparecesse pelo caminho”. 
Entretanto, o medicamento que serviu na infância não
surtirá o mesmo efeito no adulto, pois suas experiências de vida já o
transformaram e fortaleceram, e mesmo as vivências atuais, por
mais que lembrem as da infância, não são as mesmas e precisam
ser encaradas de uma nova perspectiva.
Como dito, esse comportamento “congelado”, ao
contrário da espontaneidade anterior, é um sinal de adoecimento.
Segundo Jacob Levi Moreno,
adoecemos quando perdemos nossa
espontaneidade e nossa criatividade.
Portanto, é preciso buscar uma solução para curar essa
criança ferida, a qual habita dentro de todos nós.
Cukier diz que o psicodrama tem representado, para a
sua vida, a melhor assistência técnica para discos rasurados, que
jamais obteve em lugar algum.
Isso porque o trauma gera comportamento repetitivo que
não se adequa à situação atual, como os discos rasurados ficam
repetindo o que está impresso no local da ranhura, mesmo aquele
segmento da música não se adequando ao contexto, se tornando
repetitivo, incômodo e indesejado.
Cukier acredita que o psiquismo humano se estrutura em
torno de uma economia narcísica, ou seja, desde o dia que nasce
até provavelmente a morte, o indivíduo busca determinar quem é
realmente e qual é o "valor" que tem para os outros e para si
mesmo.
Esses critérios de valor se modificam, ou não, com o
passar do tempo, mas seremos sempre pessoas em busca de
nosso valor.
O problema é que tal valor é buscado no outro. No que o
outro pensa de nós. Ou no que esperamos que o outro pense de
nós, por não confiarmos em nossa própria opinião ou por não
acreditarmos realmente possuir tal valor.
O psicodrama possui técnicas capazes de desprender
você de sua identidade básica, permitindo que veja além do que
seus próprios olhos podem ver, ao ocupar o papel do outro, ou ao
sair do seu papel e se colocar na posição de observador de sua
própria cena.
Através do psicodrama, podemos caracterizar e
concretizar a criança interna, conversar com ela, trocar de papel etc.
A terapia só começa, de fato, quando
você identifica sua criança interior,
pois a partir desse momento, deixa de
transferir a culpa de seus problemas
aos outros, inclusive a seus pais, e
passa assumir sua responsabilidade
pelas próprias dificuldades.
Porém, é difícil para o paciente fazer acordo com sua
criança interna ferida, uma vez que esta tornou-se teimosa e
inflexível, disposta a não ceder enquanto não tiver suas vontades
satisfeitas.
Mas infelizmente, ninguém pode lhe devolver o passado,
que é justamente o que ela mais deseja.
Então, você, no papel de adulto, deve fazer acordos com
sua criança, ajudando-a a lidar com as frustrações e não agir com
uma agressividade ou passividade destrutiva diante de situações
que lhe desagradem, buscando soluções práticas e eficazes para
suas questões atuais.
Esse processo precisa ser compartilhado (sharing) com
um ouvinte, o qual pode ser um amigo ou um terapeuta que saiba
validar suas necessidades da infância. Mas é importante que esse
ouvinte não questione, argumente ou aconselhe, pois seu papel é
apenas o de apoiar através da escuta passiva.
Então, vamos à
ação!
Inicialmente, você precisa trazer de volta os sentimentos
de sua infância, o que pode ser feito através da observação de uma
outra criança ou ainda de uma foto de sua própria infância.
Procure sentir os verdadeiros sentimentos da infância,
como medo, dor, abandono e raiva, bem como os sentimentos de
alegria, fé, encantamento, sem tentar camuflá-los.
Faça esse trabalho até conseguir se projetar no passado
e se sentir como realmente sendo a criança que outrora você foi.
Quando perceber que entrou no papel de sua criança,
procure escrever cartas ou gravar áudios falando o que sente, o que
pensa, mesmo que seus pensamentos sejam confusos. Aqui é sua
criança se manifestando e dependendo da idade pode ser que sua
comunicação verbal não seja tão boa, assim como seu
entendimento da realidade externa.
Não tente seus pensamentos em ordem. Apenas
expresse o que sente sem medo de julgamentos e, principalmente,
sem autojulgamentos.
Concluída essa fase, volte para seu
“eu” atual e respire fundo, tome um
copo de água. Agora você irá entrar
em um outro papel!
Pense em alguém que você admira por sua sabedoria e
clareza de pensamento. Busque no seu convívio ou mesmo na
internet pessoas que você admira e confia. Busque também entre
conhecidos, próximos. Junte todas essas qualidades. Agora você
reunirá as melhores características dessas pessoas!
Feche os olhos e se imagine com mais idade, ou apenas
como alguém mais sábio, bondoso, amoroso, capaz de cuidar e
apoiar, defender, proteger e nutrir sua criança ferida e curar suas
dores.
Você se tornará a pessoa que vai cuidar da forma correta,
apoiar e amar de maneira incondicional, incentivar, ensinar, acalmar
e ajudar sua criança interior a amadurecer sem os traumas que ela
atualmente apresenta.
Isso no Psicodrama chamamos de rematrização. Pois
você irá reconstruir o papel da mãe assertiva à qual sua criança, em
alguns momentos cruciais, não teve acesso.
Agora, no papel de sábio(a), escreva cartas ou grave
áudios de apoio e carinho à sua criança interior e faça com que ela
se sinta querida. É importante que o adulto sábio reserve sempre
um tempo para meditar e dialogar com sua criança interior. Esse
diálogo deve acontecer não só durante a terapia mas por toda a
vida, pois por mais que você consiga curar sua criança, ela sempre
continuará existindo dentro de você. Já o adulto sábio você irá
introjetar, para que ele passe a fazer parte de sua personalidade,
pois isso o ajudará não só a lidar com sua criança, como também
com outras situações da vida.
Lembre-se: esse adulto sábio é você!
Com o tempo você irá introjetar toda
essa sabedoria e clareza de
pensamentos, a fim de guiar sua vida
e ajudar sua criança interior ferida
sempre que ela se manifestar (pois
isso ainda poderá acontecer ao longo
de meses ou até anos).
O Psicodrama não se limita apenas à compreensão do
passado, mas, além disso, integrá-lo ao presente e projetá-lo no
futuro.
Para tanto, utiliza-se da realidade suplementar, a qual
inclui algumas técnicas como: inversão de papéis, onirodrama, jogo
de Deus, projeção no futuro, loja mágica, etc.
A projeção do futuro é onde o paciente descreve e
encena como se imagina no futuro, representando seus desejos e
projetos.
Através desta técnica é possível fazer um encontro entre
o "eu do futuro" e o "eu do presente", e ambos conversarem. Há
pessoas cujo “eu do futuro” dá conselhos de como agir ou para
mudar seu estilo de vida a fim de atingir um resultado melhor do que
se encontra no futuro.
Então, agora, você, como uma pessoa sábia, amorosa e
cuidadora, irá demonstrar à sua criança interior todo o amor que
sente por ela, e o quanto ela é importante e valiosa. Para isso,
escreva uma carta para ela ou deixe uma mensagem gravada em
áudio.
Mas faça isso de forma que ela possa ler ou ouvir
quantas vezes quiser de agora em diante.
Você poderá gravar ou escrever quantas mensagens
você quiser, dizendo tudo que sente de bom e tudo que enxerga de
bom em sua criança.
Este é apenas um exemplo:
 Agora respire fundo novamente, tome outro gole de água,
pois você irá viajar ao passado, e se tornar sua criança de outrora.
Aquela criança linda e perfeita que está sofrendo, confusa e ferida
com o mundo a seu redor.
No papel dessa criança,leia ou ouça a mensagem do seu
adulto. Mas faça isso com calma, com atenção, de coração aberto.
Esse adulto é diferente dos outros. Afinal ele conhece
você mais do que ninguém e sabe exatamente quais são suas
necessidades
Além disso, esse adulto é sábio, maduro, bondoso e
cuidadoso, e saberá tratar você com o amor, carinho e atenção que
você merece e precisa.
Após ler ou ouvir a mensagem, escreva algo para essa
pessoa tão sábia e amorosa, que está disposta a cuidar de você!
Você pode escrever qualquer coisa. Falar de seus medos
e desconfianças, falar o que aconteceu que deixou você assim tão
triste, até dizer que não confia nele, se for o caso.
Você precisa falar a verdade sem medo, pois será através
do diálogo que vocês irão se conhecer e formar um vínculo de
confiança.
Esse vínculo é fundamental para curar você!
Eis um exemplo de carta que alguém escreveu:
Cada criança tem sua forma de se expressar. Você pode
ou não confiar no adulto sábio, e precisa dizer o que pensa e sente,
do fundo do coração. Pode ser uma carta ou áudio breve ou curto.
Não importa. O que importa é que você manifeste seus sentimentos,
dúvidas, medos, desejos e esperanças.
Pronto! Agora que você falou tudo que precisava falar,
pode ficar tranquilo e sair do papel de criança.
Volte ao aqui-agora, volte a ser a pessoa que você é no
momento atual, respire fundo, e se prepare para assumir o papel do
seu adulto sábio e amoroso.
Mas não se preocupe, Tal processo de troca de
mensagens será longo e poderá demorar vários dias. Tire um
momento do seu dia para isso.
Marque um encontro entre sua criança e seu adulto
sábio.
De preferência, deixe um momento diariamente pré-
reservado para que eles saibam o quanto você está envolvido e
empenhado em seu processo de cura!
Haverá trocas de mensagens até que sua criança se sinta
querida, protegida, amada e aceita. Ela deverá ter a certeza de que
seu cuidador sempre a defenderá e nunca a abandonará.
É muito importante que a criança ouça repetidamente
palavras de incentivo, conforto e segurança. É importante também
que a criança aprenda que ela pode expressar seus sentimentos
como raiva, angústia vergonha, vulnerabilidade e tristeza, pois o
sábio idoso será capaz de acalentá-la e enxugar suas lágrimas sem
recriminá-la.
Quando a pessoa tem sua criança ferida até os 9 meses,
não há lembranças dessa fase, porém muito pode ser descoberto
através de relatos de seus familiares.
Nos estágios de exploração (9 a 18 meses) e de
separação (18 meses a 3 anos), a pessoa já pode possuir algumas
recordações, e é necessário perguntar quem fazia parte de seu
núcleo familiar, quem o disciplinava, se havia irmãos mais velhos ou
mais novos, quem estava presente quando ela precisava, e se
sentia nessa pessoa acolhimento e proteção.
Nesse estágio, é importante também que a criança saiba
que não há nada de errado em depender de alguém e que ela não
precisa ter vergonha de expressar seus sentimentos.
Na fase da identificação sexual (dos 3 aos 6 anos de
idade), surgem muitos questionamentos. Famílias disfuncionais
costumam reprimir demasiadamente a criança, fazendo-a pensar
que seus questionamentos são inapropriados, gerando o que
Bradshaw denomina vergonha tóxica, que se configura como um
sentimento patológico de vergonha gerado por uma autocrítica
exacerbada. 
Outros fatores que podem causar vergonha tóxica são:
brincadeiras sexuais na infância, incesto físico ou emocional,
modelo pobre de intimidade, excesso de informações e atribuição de
sentimento de culpa.
Nessa fase também é fundamental que o idoso manifeste
seu apoio a criança interior ferida através de cartas. Exemplo:
Na fase dos 6 anos a puberdade, é onde se desenvolvem
as capacidades pessoais. A força do ego se encontra na
competência, e esta é adquirida através do estudo e do
conhecimento.
Os relacionamentos se tornam de extrema importância e,
como para desenvolvê-lo é necessário saber lidar com a
interdepedência e cooperação, pessoas com problemas de
intimidade terão dificuldade nessa fase, o que resultará em
sentimento de inferioridade e inadequação.
Esta é a fase em que a criança se encontra mais
suscetível ao abuso emocional. Um exemplo clássico do abuso
ocorrido frequentemente nessa idade é o bullying. Sendo
envergonhada publicamente por adultos ou por outras crianças na
escola, na rua, na igreja ou na sua própria casa, ela irá sentir-se
inútil, inferior e inadequada.
Quando a criança pertence a uma
família disfuncional, dificilmente suas
necessidades de afeto e segurança
serão supridas.
Através de terapia familiar, os aspectos disfuncionais
poderão ser trabalhados para que essa família possa realmente dar
o suporte do qual a criança necessita.
Porém, algumas vezes, esse trabalho com a família não é
possível, e nesses casos, é aconselhável manter uma distância
segura e procurar uma “família substituta” para lhe fornecer o devido
apoio, que pode ser um grupo de apoio, amigos, terapeuta, etc.
Tais casos são raros, mas existem, como crianças que
foram abusadas sexualmente por ambos os pais, e ao tornarem-se
adultas não conseguem refazer o vínculo afetivo e de confiança.
Como você pode perceber, o tratamento de sua criança
exige que esteja disposto a se submeter a um trabalho contínuo a
fim de tratá-la.
Não é difícil, mas demanda tempo, carinho e dedicação.
Só inicie quando você realmente estiver disposto a levar o processo
até o fim. Sua criança não pode sentir-se abandonada ou não
amada de novo!
Lembre-se dos passos:
1. Identificar sua criança interior ferida e em qual ou quais
fases ela sofreu o trauma. Para isso procure se lembrar,
pergunte a familiares e responda aos questionários das
fases. O conhecimento das fases do desenvolvimento
infantil é de extrema importância para identificar essas
fases.
2. Resgatar essa criança. Lembrando que se for em várias
fases você precisa tratar uma criança de cada vez. Aqui, o
capítulo que fala das fases do desenvolvimento infantil
também será extremamente útil, dessa vez para que seu
adulto sábio possa entender como agir diante da criança,
qual a melhor abordagem e o que ela sente, a fim de que o
resultado seja mais satisfatório.
3. Tratar sua criança interior ferida. A troca de mensagens,
o uso de jogos, música, dança, brincadeiras, tudo que for
lúdico, irá estimular o tratamento. Lembre-se que você está
lidando com uma criança, mas mesmo adultos adoram
jogos e diversão. Afinal, e através deles que liberamos
nossa criatividade e espontaneidade, e restabelecemos
nossa saúde!
Ao final do tratamento, todo mundo consegue progresso
na cura da criança ferida, sendo que o progresso dependerá do
momento terapêutico em que você se encontra no processo de
cicatrização.
Pois cada indivíduo possui suas próprias necessidades e
seu ritmo de cura, além do que algumas pessoas já fizeram
bastante progresso através de terapia, enquanto outras necessitam
começar o trabalho “do zero”, desde a construção dos seus
alicerces.
Independente da fase em que a pessoa se encontra, todo
processo terapêutico é formado por etapas, as quais deverão ser
colocadas em prática até que o processo seja concluído.
O mais importante é que, se você colocar em prática o
que aprendeu nesse livro, irá, enfim, curar sua criança interior ferida,
possibilitando uma vida tranquila e emocionalmente saudável!
 
 
 
 
 
 
9. ETAPAS DO PROCESSO TERAPÊUTICO DA
CRIANÇA FERIDA
 
 
 
 
 
A partir da identificação das etapas do psicodrama, das
teorias do desenvolvimento infantil, bem como do modelo
psicodramático fundido ao modelo proposto por Bradshaw, bem
como minha experiência clínica, criei um quadro resumido para que
você siga facilmente seu trajeto de cura emocional. Veja:
Aquecimento inespecífico:
Ocorre através de músicas, contato visual e táctil,
podendo-se utilizar aromas, além de exercícios respiratórios (por
exemplo exercícios de Yoga) e alongamentos, tocar em objetos ou
saborear algo que lembre a infância, entre outros estímulos
sensoriais.
Você pode acender velas, ligar um aromatizador,tomar
um banho morno ou frio relaxante, enfim, buscar formas de sentir-se
confortável e relaxado a fim de iniciar essa vivência. Gaste o tempo
necessário para atingir esse estado de relaxamento pois cada etapa
é de extrema importância.
Aquecimento específico da criança interior: 
1. Reler o questionário relativo às fases em que se encontra a
criança interior ferida. (Você poderá consultar os
questionários no capítulo Como Identificar Em Que Fase
Sua Criança Interior Foi Ferida). Após identificar a/as fase/s
em que sua criança foi ferida, seu trabalho irá se iniciar
pela fase mais antiga, onde sua criança era mais novinha.
2. Sensibilização através de músicas, alimentos, jogos e
brincadeiras da sua infância, bem como imagens
(fotografias ou vídeos), a fim de despertar suas memórias.
Ou ainda observando alguma criança que se encontre
nessa idade.
Demore o tempo que for necessário até conseguir
acordar sua criança interior, fazendo com que ela possa se
manifestar plenamente.
Você perceberá que isso aconteceu, quando as memórias
de sua infância se tornarem muito vívidas e carregadas de emoção.
Aquecimento específico do adulto sábio: 
1. Utilizar o processo descrito onde você lembra de pessoas
que você admira pelo seu alto valor de serenidade, cuidado
para com o próximo, capacidade de amar e acolher,
coerência, sabedoria; e fazer uma fusão dessas pessoas,
criando para si um alter-ego que seria seu adulto mais
sábio, cuidador e amoroso do futuro.
2. Esse alter-ego deverá se apresentar a você, dizendo quem
é, como ele pensa, quais seus valores, o que ele faz e
como pretende cuidar de sua criança interior.
Você precisa ter a certeza de que esse adulto poderá defender e
cuidar de sua criança. Essa personalidade calma, sábia, cuidadora e amorosa
precisa estar solidamente construída antes que você inicie a dramatização em si.
Dramatização
Primeira fase:
1. Trazer, através da projeção de futuro, e fusão de
personagens, como já descrito, seu adulto talvez mais
idoso, e com certeza sábio e bondoso, capaz de acolher,
amar, cuidar, defender e educar sua criança ferida,
2. Converse com ele e explique a situação sobre sua criança
ferida, e deixe que a partir de agora ele cuide, resgate e
cure as feridas dessa infância, pois ele será o pai amoroso
dela.
3. Durante o diálogo, trabalhe sempre com a inversão de
papéis: coloque uma almofada em sua frente, para que ela
represente o adulto sábio, e fale com ele. Após falar tudo
que deseja, inverta os papéis, troque de lado, e coloque a
almofada, agora representando você, enquanto você
assume o papel do sábio que irá conversar sobre o que
pensa e sente, e o que pretende fazer com respeito à sua
criança interior.
4. No papel de sábio, escreva cartas ou grave áudios de
carinho e apoio incondicional a essa criança, conquistando
sua confiança, a fim de apoiá-la e auxiliar em sua cura.
Esse sábio adulto é seu eu, e conhece sua criança ferida
mais do que ninguém. Então, ninguém melhor que ele para
saber exatamente o que sua criança precisa ouvir a fim de
voltar a sentir-se bem.
5. Deixe que ele fale com ela a vontade, até que ela se sinta
completamente acolhida.
Segunda fase:
1. Trazer, através da regressão à sua infância, a criança
interior ferida, conversar com ela, e explicar que agora ela
terá um adulto cuidador e amoroso que está preparado e
deseja cuidar dela com todo amor que ela merece, pois ela
é maravilhosa e merece esse cuidado;
2. Permita que ela fale com você, lhe faça perguntas, através
da inversão de papéis.
Terceira fase:
1. Quando ela entender e aceitar, deixe que ela se comunique
com o idoso através de cartas ou áudios (mesmo que na
idade em questão a criança não soubesse escrever, isso
torna-se possível através da realidade suplementar).
2. Você deve permitir-se trocar os papéis sucessivamente, a
fim de possibilitar a comunicação frente-a-frente entre os
três personagens até que o idoso consiga conquistar a
confiança de sua criança ferida.
3. O idoso deverá validar os sentimentos da criança, apoiá-la,
defendê-la através do trabalho psicodramático de cenas
traumáticas que deverão ser trazidas ao palco e
reencenadas quantas vezes for necessário até que a
criança consiga sentir-se adequadamente nutrida,
rematrizando assim os papéis originais cuidador-criança.
Lembre-se que se você preferir, poderá solicitar a ajuda
de seu terapeuta em algumas fases desse processo.
Uma observação é que, no trabalho com diretor e egos
auxiliares, (caso você decida fazer esse trabalho acompanhado por
um psicoterapeuta psicodramatista), pode-se usar as técnicas do
espelho, a fim de que o paciente reconheça seu idoso bem como
sua criança interior, e do duplo, a fim de auxiliar a criança a
comunicar seus medos e necessidades, quando ela estiver
encontrando dificuldade em fazê-lo.
Porém esse trabalho com egos auxiliares não é
necessário para o bom desenvolvimento desta autoterapia.
4. fechar cada cena com o idoso abraçando e reafirmando à
criança seu apoio, amor e proteção incondicionais. Você
deverá introjetar aos poucos o papel do idoso para que o
mesmo possa ser invocado sempre que sua criança ferida
vier a manifestar-se.
Não se esqueça de que sua criança passou muitos anos
ferida. Ela demandará tempo até sentir-se completamente curada.
Os resultados iniciais serão maravilhosos, mas só irão se consolidar
com o tempo.
5. Repita o processo da troca de cartas quantas vezes for
necessário, até que sua criança interior esteja
completamente curada.
4) Compartilhar – retornar ao papel atual, e conversar
com algum amigo íntimo ou com seu terapeuta, recebendo seu
acolhimento.
É importante, nesse momento, que essa pessoa não
manifeste opinião ou critique, mas apenas compartilhe suas próprias
experiências, para que você se sinta acolhido e compreendido, visto
que acabou de reviver seu drama e estará muito sensibilizado.
Existe uma tênue, porém muito importante diferença entre
o Psicodrama de Moreno, as técnicas de Bradshaw, e a que
desenvolvi.
Enquanto Moreno utiliza atores que fazem as trocas de
papéis, Bradshaw utiliza apenas um grupo de indivíduos durante a
encenação, visto que ele trabalha com workshops e não tem a
intensão de ser terapeuta.
Já em nosso trabalho, propomos que você trabalhe
individualmente, em busca de sua cura emocional, sendo que a
única segunda pessoa aparece na fase do compartilhar, no papel de
acolhimento e escuta passiva, no máximo dividindo com você a
história dela própria, empaticamente.
Conquanto seja mais fácil contracenar com vários atores
do que sozinho, no trabalho em grupo corre-se o rísco de você
projetar suas expectativas, relacionadas ao seu cuidador, no
indivíduo que o está representando. Isso acarretaria a formação de
um vínculo de dependência que não poderia sustentar-se após o
término da terapia, o que incorreria no risco de novo trauma.
Por outro lado, na proposta que estou trazendo, você
aprenderá a cuidar de si próprio, sem o risco de desenvolver uma
projeção e uma dependência patológica por outra pessoa.
Bem. Agora que você já possui todas as armas para
defender sua criança interior, bem como já possui em mãos o
arsenal terapêutico para sua cura, poderá enfim libertar-se de todo o
sofrimento imposto ao longo dos anos pelos comportamentos
impulsivos e disfuncionais gerados por essas feridas.
Mãos à obra!
 
 
 
 
 
 
10. CONSIDERAÇÕES FINAIS
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Como vimos, este livro trata sobre a criança interior
ferida, e o psicodrama como processo de cura. 
Porém, há aqui uma nova abordagem, onde o
psicodrama é utilizado pelo próprio paciente em um processo de
autocura.
Isso é extraordinário pois permite a todos, independente
de suas condições financeiras ou possibilidade de acesso a um
processo terapêutico, a chance de curar suas feridas da infância.
E claro que, como terapeuta, conheço o valor do
profissional, e sei que ele é insubstituível. Mas esse processo é
mais uma opção, e como dito, desde que levado a sério, traz
resultados maravilhosos na cura de sua criança interior.Dentre todos os autores citados, destacam-se Moreno,
Barbirato, Cukier e Bradshaw, que tiveram bastante relevância no
estudo da criança ferida, ressaltando a forma como as feridas
podem comprometer a vida quando adulto, e o tratamento para a
cura dessa criança.
Cukier seguiu fielmente os estudos e ideias do pai do
psicodrama, Jacob Moreno. Já Bradshaw não mencionou as
técnicas criadas pelo médico romeno, embora não tenha ficado
longe dos métodos utilizados por ele na recuperação e tratamento
da criança ferida.
Rosa Cukier considera o psicodrama a melhor terapia
para restaurar discos arranhados. Segundo a autora, através das
técnicas do psicodrama, o indivíduo pode ver além dos próprios
olhos e se colocar no lugar do outro.
Porém, para a técnica funcionar, é necessário que o
paciente identifique sua criança interior e assuma as
responsabilidades de seus problemas, deixando, por fim, de culpar
os outros.
Dessa forma, para tentar entender que as feridas
causadas na infância podem ocorrer durante o desenvolvimento da
criança, descrevemos as fases e suas principais características
baseado nos conhecimentos de autores como Piaget e Barbirato,
entre outros.
Isso nos possibilitou identificar as fases em que as
crianças ficam mais vulneráveis a determinadas feridas emocionais.
O indivíduo guarda outros Eus
infantis, que são produtos de
momentos negativos ou positivos,
porém emocionalmente intensos,
que permanecem imutáveis
enquanto se desenvolve e
amadurece durante sua vida adulta.
Portanto, para que se tenha um adulto confiante e
emocionalmente estável, é importante que este nunca deixe sua
criança interior de lado.
Contudo, idealmente, esta deve ser uma criança interior
feliz, que tenha conseguido lidar com os problemas sem transformá-
los em traumas, a fim de que se desenvolva um adulto com um Eu
mais maduro e responsável. 
Diante do fato, os pais devem ficar atentos ao
desenvolvimento da criança, pois nessa etapa da vida podem
ocorrer traumas e frustrações, os quais causam feridas que
possivelmente afetarão sua vida quando adulto.
Na verdade, os pais devem proteger a amar a criança
durante todo seu desenvolvimento, passando-lhe a segurança
necessária para a fim de que ela se torne um adulto autoconfiante,
ao mesmo tempo em que devem educar, disciplinar e mostrar
limites, para que a criança aprenda a viver em sociedade.
Ou seja, os pais devem ler este e outros livros que falem
sobre a educação infantil e os traumas da infância, a fim de
aprender a curar sua criança interior e conseguir educar seus filhos,
sem causar-hes traumas profundos.
Nunca é demais lembrar que causar traumas quer dizer
gerar uma criança interior ferida. Porém, toda criança é
naturalmente resiliente e sabe lidar muito bem com os traumas
comuns, portanto os pais não devem sentir-se culpados quando
estes ocorrem.
E mesmo quando o pai que não teve a oportunidade de
curar-se acaba por infringir a seus filhos algum trauma intenso,
deverá pedir desculpas e procurar corrigir seu erro, visto que todos
somos seres humanos passíveis de errar, e, ao invés de sentimento
de culpa, devemos primeiramente nos perdoar, para em seguida nos
corrigir e evoluir com nossas falhas.
Afinal, nossa grande missão é evoluir sempre, buscando
a cada dia desenvolver novas habilidades como seres humanos.
Sendo assim, é notável que este livro não só poderá
ajudar você a curar sua criança interior ferida, como também evitar
repetir os mesmos erros pelos quais sofreu, em relação à educação
de seus filhos.
Assim, é possível atingir o reconhecimento do drama
infantil, que deverá ser visto como algo concreto e clínico e ser
finalmente aceito e respeitado.
A partir daí, todo o processo de recuperação será
facilitado, tornando-o capaz de lidar com as feridas de sua criança
interior, e buscar novas formas de superar seus traumas e conviver
consigo mesmo e com os outros. 
Pesquisar sobre a criança ferida e todos os problemas
que esta pode trazer na vida adulta foi bastante significativo.
A partir daí, foi possível detectar o quanto somos
vulneráveis e o quanto precisamos e dependemos de cuidados na
idade mais tenra de nossa vida: a infância.
Espero estar deixando um legado para os pesquisadores,
estudiosos e terapeutas, no intuito de contribuir para o tratamento
eficaz dos traumas emocionais gerados na infância, os quais
sempre repercutem de forma dramática e negativa por toda a vida
adulta do indivíduo.
Mas, principalmente, espero poder ajudar você a não só
curar sua criança ferida, como também evitar ou tratar a criança
ferida em seus filhos.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Como na Fábula “O jovem e as estrelas do mar”:
 
“Numa praia tranquila, junto a uma colônia de pescadores, morava um escritor.
Todas as manhãs, ele passeava pela praia, olhando as ondas. Assim ele se inspirava e, à tarde, ficava em
casa, escrevendo.
Um dia, caminhando pela areia, ele observou um vulto que parecia dançar. Chegou mais perto e viu que era
um jovem pegando, na areia, as estrelas-do-mar, uma por uma e jogando-as depois de volta ao oceano.
– E aí? – disse-lhe o jovem num sorriso, sem parar o que fazia.
– Por que você está fazendo isso? – perguntou o escritor, curioso.
– Não vê que a maré baixou e o Sol está brilhando forte? Se estas estrelas ficarem aqui na areia vão secar
ao sol e morrer!
O escritor até que achou bonita e louvável a intenção do garoto, mas deu um sorriso cético e comentou:
– Só que existem milhares de quilômetros de praias por este mundo afora, meu caro. Centenas de milhares
de estrelas-do-mar devem estar espalhadas por todas essas praias, trazidas pelas ondas. Você aqui, jogando
umas poucas de volta ao oceano, que diferença faz?
-Para esta, eu fiz diferença. – diz enquanto joga mais uma estrela ao mar.
Naquela tarde, o escritor não conseguiu escrever. De noite, mal conseguiu dormir. De manhãzinha, foi para a
praia.
O jovem pegava as primeiras ondas do dia com sua prancha. Quando saiu do mar e foi para a areia,
encontrou o escritor. Juntos, com o Sol ainda manso e começando a subir, começaram a jogar estrelas-do-
mar de volta ao oceano”.
 
É
“É necessário acreditar que estamos fazendo a diferença para alguém. Se todo mundo fizer a sua
parte, teremos um mundo com mais harmonia e paz.”
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
OUTROS MODELOS TEÓRICOS DO
DESENVOLVIMENTO INFANTIL
 
 
 
 
 
Sobre o desenvolvimento cognitivo da criança, Jean
Piaget demonstrou que esta, de acordo com a maturação, apresenta
estágios de desenvolvimentos que têm características perceptivas
para cada faixa etária.
1º. estágio sensório-motor: 0 aos 2 anos de idade.
2º. estágio pré-operatório: 2 aos 7 anos de idade.
3º. estágio de operações concretas: 7 aos 12 anos de idade.
4º. estágio de operações formais: a partir dos 12 anos de
idade.
No estágio sensório-motor, que inicia desde o nascimento
até os dois anos de idade, a criança realiza movimentos
direcionados a obter os fins desejados.
Sua percepção está primeiramente ligada às sensações
motoras, e somente num segundo momento liga-se ao pensamento
visual.
Nessa fase, todo o conhecimento da criança é construído
por meio da manipulação de objetos, que para ela irão adquirir
significados de acordo com os fins obtidos por esses objetos, e pelo
constante domínio sobre o ambiente que a cerca.
Inicialmente, seu pensamento é concreto e imediatista. Só
reconhece a existência dos objetos (inclusive cuidadores) quando
estão dentro de seu campo visual.
Aos poucos, vai introjetando em sua mente os objetos, até
o ponto de perceber e sentir sua falta.
É no final desse período que a criança começa a adquirir
a consciência da existência de objetos que não estão presentes no
seu campo de visão. 
Mais ou menos a partir dos dois anos de idade até sete
anos, no estágio de desenvolvimento infantil nomeado por Piaget
como pré-operatório, dá início a transição dos movimentos
sinestésicos (movimentos relacionados a sensação: visão, audição,
olfato, tato e paladar), para atividades simbólicas e de linguagem.
Aexpressão infantil, nessa fase, esta relacionada à
evolução da criança a um estágio que em há desenvolvimento do
seu pensamento enquanto linguagem oral e visual. 
Entre dois e quatro anos, as crianças têm capacidade de
elaborar suas ações (mesmo que não sejam visualmente
identificadas pelos adultos) usando símbolos plásticos como
rabiscos.
A psicologia aponta esse fato em decorrência do
desenvolvimento da linguagem oral que ganha maiores proporções,
mas não significa um amadurecimento simultâneo da simbologia
infantil.
 É bastante comum a criança apresentar um bom
desenvolvimento na fala, no entanto, suas atividades simbólicas não
aceleram na mesma medida.
Como a linguagem é um fator de desenvolvimento mental,
o pensamento tende a acelerar, gradativamente, e acaba
influenciando a atividade perceptiva. 
Porém, nem sempre o fato de a criança apresentar um
bom desempenho na linguagem implica que ela saiba identificar o
simbolismo por trás daquilo que fala.
Exemplo próprio da autora: recordo-me
perfeitamente de quando tinha por volta de três a quatro anos
de idade, e ouvia uma canção que dizia “você vai aturar os
meus grilos, você vai ser a mãe dos meus filhos, até a morte
chegar...”. Então, imaginava que estava sendo cantada para
um grilo, dizendo para uma grila que ela ia ter que aturar os
grilinhos deles.
Vemos diariamente, nos Reality Shows, crianças muito
pequenas cantando ou declamando textos complexos ou
mensagens religiosas de sabedoria, ou ainda canções de conteúdo
adulto ou até sexual. Podemos até achar fofinho aquele
comportamento de miniadulto, mas será que acreditamos que essas
crianças realmente sabem o que estão falando?
Essa é a fase do aprendizado da linguagem simbólica por
imitação.
Entre quatro e sete anos a criança ainda está no estágio
pré-operatório, apresenta maturação mais completa, desenvolvendo
novas habilidades, realizando atividades que exijam mais
coordenação motora fina.
Quanto à percepção visual, a criança continua
concebendo as coisas apenas sob sua perspectiva, envolvendo os
aspectos que mais chamam sua atenção de acordo com suas
experiências (situações e objetos).
Nessa fase, há uma transformação no pensamento
infantil, intensificando a atividade criadora através do jogo simbólico,
ou seja, a criança cria a partir de suas fantasias e as utiliza como
referência para explicar a própria realidade.
É possível notar que a maturação proporciona à criança
atingir um nível mais elevado de relações, nomeando suas
atividades em relação aos seus significados simbólicos.
Um exemplo: uma amiga me contou um dia que quando era criança e morava no Interior, fazia dos
armadores de rede (que em sua região chamam de “escapa”) suas bonecas, com as quais brincava o dia
todo.
Por volta dos sete anos ocorre o estágio de operações
concretas, que marca uma modificação decisiva no desenvolvimento
mental.
Nessa fase observa-se o aparecimento de novas formas
de organizações, garantindo um equilíbrio mais estável. É quando
ocorre o aparecimento de operações racionais, a afetividade e os
sentimentos morais.
E ainda ocorre os progressos da conduta, da socialização
e do pensamento.
Em alguns países, nessa fase da vida a criança já é
considerada capaz de responder por seus atos criminosos.
Finalmente vem o estágio das operações formais, que
acontece por volta dos 12 anos em diante.
Nessa fase da vida a criança já está se tornando um
adolescente, e a relação corpo, mente e sociedade passa por
mudanças significativas.
Essas mudanças exigem que a criança mostre a
capacidade de estabelecer relações mais complexas entre os
objetos físicos e sociais (já tem discernimento), além de tomar
decisões a respeito de si mesma, dos outros e do mundo
(ssjulgamento crítico). 
Nessa época, ocorre o desenvolvimento das operações
de raciocínio abstrato, onde a criança se liberta inteiramente do
objeto, passando inclusive a representá-lo, lidando agora com o
conteúdo, em vez da forma, situando o real em um conjunto de
transformações.
É a fase da subjetividade, onde uma coisa pode ter vários
significados.
A partir dos 12 anos, os traços de personalidade e papeis
sociais já estão mais definidos e o indivíduo passa a assumir
paulatinamente responsabilidades sociais.
Porém, no Brasil, até os 18 anos, essa responsabilização
praticamente inexiste do ponto de vista legal.
Jacob Levi Moreno também estudou as fases do
desenvolvimento humano.
Segundo Moreno, na pré-escola a criança vai se
socializar, adquirir noção de tempo, espaço e direção, desenvolver a
linguagem e o pensamento lógico, vai aprender músicas e fazer
artes, tudo isso de uma forma lúdica e saudável.
É importante incentivar a criança em suas tarefas,
elogiando e falando bem da escola, a fim de que ela não veja esse
momento como algo estranho e difícil, pois certamente, nos
primeiros dias de aula, ela ficará ansiosa.
Segundo Moreno, devemos respeitar suas capacidades e
possibilidades, pois até os 4 anos a criança não tem
desenvolvimento para determinados aprendizados. Porém, quando
completa 5 anos, torna-se mais dona de si mesma.
Aos 6 anos, o mundo da criança não se limita apenas à
família. Ela passa a desejar a companhia de outras crianças.
Na atualidade, pode-se observar que as crianças já
procuram uma socialização precocemente, porem é nesta fase que
se torna mais evidente e possível identificar a existência de crianças
mais sociáveis e outras mais retraídas. 
Até os 6 anos, a criança passa por etapas importantes
para seu desenvolvimento físico e emocional.
É importante que ela não pule nenhuma dessas etapas,
pois isso poderá afetar o futuro desempenho em suas relações
pessoais.
Estas relações, na visão de Moreno, são natas, pois logo
ao nascer a criança é inserida num conjunto de relações
interpessoais (mãe, pai, irmãos, avós, tios etc.), chamado de Matriz
de Identidade.
O Ser Humano é um Ser social, porque nasce em
sociedade e necessita do outro para sobreviver.
Já Bradshaw, apesar de não se tratar de um cientista do
comportamento humano, considera o desenvolvimento infantil
constituído por seis etapas: 
1. Primeira, etapa de 0 a 9 meses – caracterizada por uma
ligação simbiótica entre a criança e sua mãe. É a fase em que a
criança pensa “eu sou você” (o que Moreno denomina de
Indiferenciação). Neste período dá-se o desenvolvimento da
confiança básica versus a desconfiança, o que em uma infância
saudável gera uma autoconfiança, esperança e crença em seu
poder interior. 
2. Segunda, etapa dos 9 aos 18 meses – caracterizada por uma
ligação oposicional da criança em relação aos demais. É a fase
de individualização, em que a criança pensa “eu sou eu e você
é você” ou o que acreditamos ser mais apropriado, diferencia o
“Eu” do “Não Eu”. É considerado o período exploratório. (em um
comparativo com a teoria moreniana, seria talvez a fase do
Reconhecimento do Eu). 
3. Terceira etapa, dos 18 meses aos 3 anos – é o estágio de
separação. Nessa fase o ego desenvolve a força de vontade,
ou seja, a criança tem o poder de reagir aos estímulos externos.
No que diz respeito ao relacionamento, dá-se o nascimento
psicológico, onde a criança aprende tanto a depender quanto
contrariar, conforme suas necessidades. A princípio, ela deseja
tudo o que sente que é bom e prazeroso, porém os pais
intervêm e impõem limites. Ela precisa aprender que pode ficar
com raiva, e ainda assim seus pais continuarão ao seu lado
(não a abandonarão), e precisa atender que, mesmo quando
eles não satisfazem sua vontade, eles ainda a amam. Ainda
fazendo um paralelo com a teoria de Moreno, esta fase seria a
do Reconhecimento do Tu).
4. Quarta etapa, dos 3 aos 6 anos – é a fase escolar, onde a
criança descobre sua identidade sexual, identificando-se com
seu pai ou sua mãe. Nessa fase, há o desenvolvimento da
polaridade iniciativa versus culpa, e a criança torna-se mais
objetiva, desenvolvendo sua imaginação e seus sentimentos.
Ela se torna mais independente nos relacionamentos. Através
de brincadeiras, as crianças testam a realidade, e aprendema
separá-la da fantasia. (Aqui ainda encontramos paralelo com o
que Moreno chama de Pré-inversão). A tarefa dos pais é ser
um modelo de relacionamento saudável. Nessa fase, o filho
deve aprender com o pai o comportamento masculino e com a
mãe como desenvolver um relacionamento íntimo saudável
com o sexo feminino. A filha, vice-versa. Acredito que a criança
que não encontra uma referência segura no cuidador do seu
sexo, ou a criança que se identifique com um modelo agressor
do sexo oposto, identifica-se com o cuidador mais forte e
atuante, podendo gerar meninos com forma de pensar e agir
semelhantes à sua cuidadora e meninas com atitudes e
pensamentos espelhados em seu cuidador. Talvez alguns
modelos de homossexualidade (mais especificamente os
homens com comportamento feminino e as mulheres com
comportamento masculino) possam nascer dessa identificação
com o cuidador do sexo oposto.
5. Quinta etapa, dos 6 aos 13 anos – nessa fase, a criança já
tem noção de utilidade, e pode tanto sentir-se útil quanto inútil.
Também aprende os conceitos de autoridade e relatividade,
podendo vir a considerar-se superior, igual ou inferior a
determinadas pessoas. A principal força do ego é a
competência e ela tem o poder do conhecimento e
aprendizagem. Em seus relacionamentos, baseia suas escolhas
na interdependência e cooperação. Aqui a criança deixa seu
sistema familiar de lado e entra em um novo estágio de
socialização, passando a treinar outros papéis. Moreno
denominaria de Inversão de Papéis, em que a criança começa
a idealizar, abstrair e questionar os fatos, passando a realmente
colocar-se no lugar do outro, não só fisicamente, mas também
emocionalmente, fazendo a verdadeira troca de papéis. 
6. Sexta etapa, da adolescência aos 26 anos – o adolescente
pensa “eu sou único”. Nesta fase do desenvolvimento temos a
polarização entre a identidade e inversão de papéis. A maior
característica do adolescente é a fidelidade, e sua força
consiste no poder de reconstrução, onde ele busca tornar-se
independente de sua família. Nesse momento seu senso de “eu
sou” precisa ser reafirmado de duas maneiras: através de um
relacionamento amoroso significativo, e através do sucesso
profissional, ou seja, amor e trabalho, definidos por Freud como
os dois pilares da identidade do adulto. Aqui também é o
momento dos pais se mostrarem firmes, amorosos, coerentes,
e imporem limites sem colocar em risco a autoestima e
necessidade de desenvolver a autossuficiência do jovem. É,
pois um momento bem delicado para a educação emocional.
Os pais devem lembrar que, por mais independente que esse
jovem seja, enquanto não adquirir autossuficiência e continuar
de alguma forma morando com ou sendo sustentado por seus
pais, deve aos mesmos, algum tipo de obediência, desde que
baseada em responsabilidade e respeito mútuo.
Assim, após traçar um paralelo entre as teorias de
Moreno e Bradshaw sobre o desenvolvimento infantil, passaremos a
outro importante teórico do desenvolvimento, Erik Erickson (médico
psiquiatra judeu nascido na Alemanha em 1902).
Erickson classifica o desenvolvimento psicossocial em
oito estágios, que vão da infância à fase idosa. São eles: 
1. Confiança x desconfiança (até um ano de idade) – nesse
estágio, a criança é totalmente dependente de seus cuidadores,
necessitando se sentir segura e amada, a fim de desenvolver
confiança nas pessoas e no mundo. Porém, essa dependência
poderá desencadear um ritualismo e sentimento de idolatria.
2. Autonomia x vergonha e dúvida (segundo e terceiro ano) –
a criança desenvolve gradativamente autonomia sobre suas
necessidades e higiene pessoal, com o controle das funções
fisiológicas, desenvolvendo confiança e liberdade para
experimentar o mundo sem medo de errar. Porém, caso seja
repreendida ou ridicularizada, poderá desenvolver a vergonha e
a dúvida, regredindo ao estágio anterior de dependência.
3. Iniciativa x culpa (quarto e quinto ano) – fase em que a
criança passa a perceber as diferenças entre homem e mulher,
e tem início a curiosidade sexual e intelectual, que, se for
reprimida, vai gerar culpa e inibir sua curiosidade e capacidade
de explorar o mundo.
4. Construtividade x inferioridade (do 6º ao 11º ano) – é um
período de socialização, onde na época de Erickon a criança
começava a freqüentar a escola. Porém, se apresentar
dificuldade de interação e sofrer críticas do grupo (bullying), ela
poderá desenvolver sentimento de inferiodade, ao invés de
sentir-se construtiva. Pensamos que, atualmente, apesar da
criança iniciar seu estudo por volta dos dois anos, é somente
em torno dos cinco anos que ela passa a observar as
diferenças, identificando, por exemplo, o alto/baixo,
gordo/magro, pobre/rico e etc. É nesse período que começam a
se formar os “grupinhos” e os comportamentos segregantes
como o bullyung. Os pais precisam ensinar seus filhos a
respeitarem as diferenças.
5. Identidade x confusão de papéis (do 10º ao 18º ano) – nessa
fase o jovem está em busca de sua identidade nas relações
com os amigos e com o sexo oposto, e de uma formação
profissional. Poderá desenvolver um sentimento positivo de
identidade ou negativo, com perda de referência, sentindo-se
vazio, isolado, ansioso e deslocado no mundo adulto. É muito
delicada a questão da identidade de gênero, racial, religiosa,
entre outras, pois o jovem ainda está se definindo e pode se
tornar mais confuso ainda. Mas costuma ser a fase das
experimentações e de riqueza de aprendizado. Esse jovem
precisa sentir amado incondicionalmente. Deve-se permitir ao
jovem experimentar, sem necessitar fixar-se a uma escolha.
Que será aceito e respeitado, independente de suas escolha, e
que essas escolhas não precisam ser definitivas, que ele tem o
direito de mudar de ideia sem ser considerado indeciso ou
inseguro.
6. Intimidade x isolamento (adulto jovem) – fase das relações
mais intimas, profundas e duradouras. Caso haja decepção
poderá isolar-se e desacreditar no valor dos relacionamentos. É
preciso apoiar sem criticar, tanto os relacionamentos quanto o
término deles. Deve-se auxiliar o jovem a enxergar os
relacionamentos com objetividade e racionalidade, sem abrir
mão do seu romantismo.
7. Produtividade x estagnação (meia idade) – a fase que está
voltada à busca do conforto e segurança, mas também a
realizações sociais. Nessa fase, o adulto está mais propenso a
transmitir valores e ensinamentos. Caso não consiga se
realizar, poderá desenvolver o autoritarismo.
8. Integridade x esperança (idoso) – fase do balanço da vida,
onde o indivíduo colherá os frutos de sua existência. Caso
tenha vivido sem grandes arrependimentos e erros”, poderá
gozar de uma velhice tranqüila e reconfortante. Do contrário,
poderá passar seus últimos anos de vida amargurado e com
sensação de fracasso. Bom trabalhar nessa fase a valorização
do aprendizado, das pequenas vitórias e conquistas, e de que a
pessoa ainda pode realizar muitas coisas, inclusive transmitir
seus aprendizados, que se deram através de erros e acertos, e
que os erros foram, também, uma forma de aprendizado.
Portanto, mais do que em qualquer fase, pode ser um período
muito produtivo, a menos que seu estado de saúde física ou
mental não permita.
Assim, de acordo com os autores supracitados, é dessa
forma que se dá o desenvolvimento do indivíduo, desde o seu
nascimento até a fase adulta.
O reconhecimento dessas fases da vida, portanto, pode
ser bastante relevante, quando se tenta identificar em que momento
de seu desenvolvimento a criança sofreu os traumas que lhe
causam problemas na vida adulta. 
Ainda dentro do conceito de fases do desenvolvimento
infantil, devemos ressaltar a importância da matriz de identidade,
que é a placenta social onde o recém-nascido se insere.
É formada pelos pais ou cuidadores, irmãos, tios, primos
e pessoas que o cercam. A interação do recém-nascido com essa
matriz será responsável pela base emocional que vai gerar sua
própria identidade.
Daí a importância da matriz de identidade para o
desenvolvimento psicossocial do individuo.REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
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1975. p. 109-166.
WINNICOTT, D. W. A criança e seu mundo. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“O medo de traumatizar nossos filhos gerou o trauma do
trauma! Infelizmente, causou aos bebês pós-guerra (baby
boomers), e se globalizou para todas as próximas gerações no
mundo inteiro, pessoas hiper-reativas, atualmente conhecidas
como Geração Nutella!”
 
 
 
 
 
	PREFÁCIO DO AUTOR
	APRESENTAÇÃO
	1 . inTRODUÇÃO
	2 . O CONCEITO DE CRIANÇA INTERIOR
	3 . A CRIANÇA FERIDA QUE EXISTE DENTRO DE NÓS
	4 . TRANSTORNO DA PERSONALIDADE BORDERLINE
	5 . AS FASES DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL
	6 . COMO A CRIANÇA FERIDA SE MANIFESTA
	7 . COMO IDENTIFICAR EM QUE FASE SUA CRIANÇA INTERIOR FOI FERIDA
	8 . COMO RESGATAR E TRATAR A CRIANÇA INTERIOR FERIDA
	9 . ETAPAS DO PROCESSO TERAPÊUTICO DA CRIANÇA FERIDA
	10 . CONSIDERAÇÕES FINAIS
	OUTROS MODELOS TEÓRICOS DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL
	REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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